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A farewell to arms

by Ernest Hemingway · in Portuguese

LIVROS DE ERNEST HEMINGWAY

ADEUS ÀS ARMAS HOMENS SEM MULHERES O SOL TAMBÉM SE LEVANTA AS TORRENTES DA PRIMAVERA IN OUR TIME

ADEUS ÀS ARMAS

ADEUS ÀS ARMAS

De ERNEST HEMINGWAY

NOVA IORQUE CHARLES SCRIBNER’S SONS 1929

COPYRIGHT, 1929, POR CHARLES SCRIBNER’S SONS

Impresso nos Estados Unidos da América

A G. A. PFEIFFER

LIVRO 1

CAPÍTULO I

No fim do verão daquele ano, vivíamos numa casa numa aldeia que dava para o rio e para a planície, até às montanhas. No leito do rio havia seixos e penedos, secos e brancos ao sol, e a água era transparente, corria veloz e era azul nos canais. Tropas passavam pela casa e desciam a estrada, e o pó que levantavam cobria as folhas das árvores de uma camada de pó. Os troncos das árvores também estavam poeirentos e as folhas caíram cedo naquele ano, e nós víamos as tropas a marchar pela estrada, o pó a subir e as folhas, agitadas pela brisa, a cair, e os soldados a marchar e, depois, a estrada nua e branca, exceto pelas folhas.

A planície era rica em colheitas; havia muitos pomares de árvores de fruto e, para lá da planície, as montanhas eram castanhas e nuas. Havia combates nas montanhas e, à noite, podíamos ver os clarões da artilharia. Na escuridão, parecia trovoada de verão, mas as noites eram frescas e não havia a sensação de que uma tempestade se aproximava.

Por vezes, na escuridão, ouvíamos as tropas a marchar debaixo da janela e canhões a passar, puxados por tratores a motor. Havia muito tráfego à noite e muitas mulas nas estradas, com caixas de munições de cada lado das cangalhas, e camiões militares cinzentos que transportavam homens, e outros camiões com cargas cobertas por lona que se moviam mais devagar no trânsito. Havia também grandes canhões que passavam de dia, puxados por tratores, com os longos canos cobertos por ramos verdes e ramos verdes de folhagem, e videiras colocadas sobre os tratores. Para norte, podíamos olhar através de um vale e ver uma floresta de castanheiros e, atrás dela, outra montanha deste lado do rio. Também houve combates por essa montanha, mas não foram bem-sucedidos e, no outono, quando as chuvas vieram, todas as folhas caíram dos castanheiros e os ramos ficaram nus e os troncos pretos com a chuva. As vinhas estavam ralas e também de ramos nus, e toda a paisagem húmida e castanha e morta com o outono. Havia nevoeiros sobre o rio e nuvens na montanha, e os camiões salpicavam lama na estrada, e as tropas estavam enlameadas e molhadas nas suas capas; as espingardas estavam molhadas e, debaixo das capas, as duas cartucheiras de pele à frente dos cintos, caixas de pele cinzenta pesadas com os carregadores de clips de cartuchos finos e compridos de 6,5 mm, abaulavam para a frente debaixo das capas, de modo que os homens, ao passar na estrada, marchavam como se estivessem grávidos de seis meses.

Havia pequenos automóveis cinzentos que passavam a grande velocidade; normalmente, havia um oficial no banco com o condutor e mais oficiais no banco de trás. Salpicavam ainda mais lama do que os camiões e, se um dos oficiais no banco de trás fosse muito pequeno e estivesse sentado entre dois generais, ele próprio tão pequeno que não se conseguia ver o seu rosto, mas apenas o topo do seu quepe e as costas estreitas, e se o carro fosse especialmente depressa, era provavelmente o Rei. Ele vivia em Udine e saía por este caminho quase todos os dias para ver como as coisas estavam a correr, e as coisas corriam muito mal.

No início do inverno veio a chuva permanente e, com a chuva, veio o cólera. Mas foi controlado e, no fim, apenas sete mil morreram disso no exército.

CAPÍTULO II

No ano seguinte houve muitas vitórias. A montanha que ficava para lá do vale e a encosta onde crescia a floresta de castanheiros foram capturadas, e houve vitórias para lá da planície, no planalto a sul, e atravessámos o rio em agosto e vivíamos numa casa em Gorizia que tinha uma fonte e muitas árvores frondosas e sombrias num jardim murado, e uma glicínia roxa na fachada da casa. Agora, o combate travava-se nas montanhas seguintes, para lá, e não ficava a um quilómetro de distância. A cidade era muito agradável e a nossa casa era muito boa. O rio corria atrás de nós e a cidade tinha sido capturada muito gloriosamente, mas as montanhas para lá dela não podiam ser tomadas, e eu ficava muito contente por os austríacos parecerem querer voltar à cidade algum dia, se a guerra acabasse, pois não a bombardeavam para a destruir, apenas um pouco, de uma forma militar. As pessoas continuavam a viver nela e havia hospitais, cafés e artilharia nas ruas laterais, e duas casas de tolerância, uma para as tropas e outra para os oficiais; e, com o fim do verão, as noites frescas, o combate nas montanhas para lá da cidade, o ferro marcado pelos projéteis da ponte ferroviária, o túnel destruído junto ao rio onde tinham ocorrido combates, as árvores à volta da praça e a longa avenida de árvores que levava à praça; tudo isto, com a presença de raparigas na cidade, o Rei a passar no seu automóvel, vendo agora por vezes o seu rosto e o corpinho de pescoço comprido e a barba cinzenta como uma barbicha de bode; tudo isto, com os interiores súbitos de casas que tinham perdido uma parede devido aos bombardeamentos, com gesso e entulho nos seus jardins e por vezes na rua, e o desenrolar de tudo a correr bem no Carso, fez com que o outono fosse muito diferente do último outono, quando estávamos no campo. A guerra também tinha mudado.

A floresta de carvalhos na montanha para lá da cidade tinha desaparecido. A floresta estivera verde no verão, quando tínhamos chegado à cidade, mas agora restavam os tocos e os troncos quebrados e o solo revolvido, e um dia, no fim do outono, quando eu estava onde tinha sido a floresta de carvalhos, vi uma nuvem a vir sobre a montanha. Veio muito depressa e o sol tornou-se de um amarelo baço e, depois, tudo ficou cinzento e o céu ficou coberto e a nuvem continuou a descer a montanha e, de repente, estávamos dentro dela e era neve. A neve caía inclinada com o vento, o solo nu estava coberto, os tocos das árvores projetavam-se, havia neve nos canhões e havia caminhos na neve que levavam às latrinas atrás das trincheiras.

Mais tarde, lá em baixo, na cidade, vi a neve a cair, olhando pela janela da casa de tolerância, a casa para oficiais, onde estava sentado com um amigo e dois copos, a beber uma garrafa de Asti, e, ao olhar para a neve a cair lenta e pesadamente, soubemos que tinha acabado tudo para aquele ano. Rio acima, as montanhas não tinham sido tomadas; nenhuma das montanhas para lá do rio tinha sido tomada. Isso ficava tudo para o próximo ano. O meu amigo viu o padre da nossa messe a passar na rua, a caminhar com cuidado na lama, e bateu na janela para atrair a sua atenção. O padre olhou para cima. Viu-nos e sorriu. O meu amigo fez sinal para que entrasse. O padre abanou a cabeça e seguiu o seu caminho. Nessa noite, na messe, depois do prato de esparguete, que todos comiam muito depressa e seriamente, levantando o esparguete no garfo até os fios soltos ficarem pendurados, e depois baixando-o para a boca, ou então usando um movimento contínuo e sugando para dentro da boca, servindo-nos de vinho do garrafão de litro coberto de erva; balançava num suporte de metal e puxava-se o gargalo do garrafão para baixo com o dedo indicador e o vinho, tinto claro, tânico e delicioso, vertia-se para o copo segurado com a mesma mão; depois deste prato, o capitão começou a implicar com o padre.

O padre era jovem e corava facilmente e usava um uniforme como o resto de nós, mas com uma cruz de veludo vermelho escuro acima do bolso esquerdo da túnica cinzenta. O capitão falava italiano macarrónico para meu duvidoso benefício, para que eu pudesse entender perfeitamente, para que nada se perdesse.

“Padre hoje com raparigas”, disse o capitão, olhando para o padre e para mim. O padre sorriu, corou e abanou a cabeça. Este capitão provocava-o frequentemente.

“Não é verdade?”, perguntou o capitão. “Hoje vi o padre com raparigas.”

“Não”, disse o padre. Os outros oficiais divertiam-se com a provocação.

“Padre não com raparigas”, continuou o capitão. “Padre nunca com raparigas”, explicou-me ele. Pegou no meu copo e encheu-o, olhando para os meus olhos a todo o tempo, mas sem perder de vista o padre.

“Padre todas as noites cinco contra um.” Todos na mesa riram-se. “Percebes? Padre todas as noites cinco contra um.” Fez um gesto e riu-se ruidosamente. O padre aceitou aquilo como uma piada.

“O Papa quer que os austríacos ganhem a guerra”, disse o major. “Ele adora Franz Joseph. É de lá que vem o dinheiro. Eu sou ateu.”

“Alguma vez leste o ‘Porco Negro’?”, perguntou o tenente. “Vou arranjar-te um exemplar. Foi isso que abalou a minha fé.”

“É um livro imundo e vil”, disse o padre. “Tu não gostas realmente dele.”

“É muito valioso”, disse o tenente. “Fala-te sobre esses padres. Vais gostar”, disse-me ele. Sorri para o padre e ele sorriu de volta através da luz das velas. “Não o leias”, disse ele.

“Vou arranjar-mo para ti”, disse o tenente.

“Todos os homens que pensam são ateus”, disse o major. “Eu não acredito nos Maçons, contudo.”

“Eu acredito nos Maçons”, disse o tenente. “É uma organização nobre.” Alguém entrou e, quando a porta se abriu, pude ver a neve a cair.

“Já não haverá mais ofensivas agora que a neve chegou”, disse eu.

“Certamente que não”, disse o major. “Devias ir de licença. Devias ir a Roma, Nápoles, Sicília——”

“Ele devia visitar Amalfi”, disse o tenente. “Vou escrever-te cartões para a minha família em Amalfi. Eles vão adorar-te como a um filho.”

“Ele devia ir a Palermo.”

“Ele devia ir a Capri.”

“Gostaria que visses Abruzzo e visitasses a minha família em Capracotta”, disse o padre.

“Ouve-o falar sobre o Abruzzo. Há lá mais neve do que aqui. Ele não quer ver camponeses. Deixa-o ir a centros de cultura e civilização.”

“Ele devia ter raparigas bonitas. Vou dar-te as moradas de locais em Nápoles. Belas raparigas jovens — acompanhadas pelas suas mães. Ha! Ha! Ha!” O capitão abriu a mão, com o polegar para cima e os dedos espalmados, como quando se fazem sombras chinesas. Havia uma sombra da sua mão na parede. Falou de novo em italiano macarrónico. “Tu vais embora assim”, apontou para o polegar, “e voltas assim”, tocou no dedo mindinho. Todos se riram.

“Olha”, disse o capitão. Espalmou a mão de novo. Mais uma vez a luz da vela projetava as suas sombras na parede. Começou com o polegar erguido e nomeou por ordem o polegar e os quatro dedos: “soto-tenente (o polegar), tenente (primeiro dedo), capitano (dedo seguinte), maggiore (a seguir ao dedo mindinho), e tenente-colonello (o dedo mindinho). Vais embora soto-tenente! Voltas soto-colonello!” Todos se riram. O capitão estava a ter um grande sucesso com os jogos de dedos. Olhou para o padre e gritou: “Todas as noites padre cinco contra um!” Todos se riram de novo.

“Tens de ir de licença imediatamente”, disse o major.

“Gostaria de ir contigo e mostrar-te coisas”, disse o tenente.

“Quando voltares traz um fonógrafo.”

“Traz bons discos de ópera.”

“Traz o Caruso.”

“Não tragas o Caruso. Ele ruge.”

“Não gostarias de conseguir rugir como ele?”

“Ele ruge. Eu digo que ele ruge!”

“Gostaria que fosses a Abruzzo”, disse o padre. Os outros gritavam. “Há boa caça. Gostarias das pessoas e, embora esteja frio, é claro e seco. Poderias ficar com a minha família. O meu pai é um caçador famoso.”

“Vamos”, disse o capitão. “Vamos ao bordel antes que feche.”

“Boa noite”, disse eu ao padre.

“Boa noite”, disse ele.

CAPÍTULO III

Quando voltei à frente, continuávamos a viver naquela cidade. Havia muito mais canhões na zona circundante e a primavera tinha chegado. Os campos estavam verdes e havia pequenos rebentos verdes nas vinhas, as árvores ao longo da estrada tinham folhas pequenas e uma brisa vinha do mar. Vi a cidade com a colina e o velho castelo por cima, numa taça entre as colinas, com as montanhas para lá, montanhas castanhas com um pouco de verde nas suas encostas. Na cidade havia mais canhões, havia alguns hospitais novos, encontravas britânicos e por vezes mulheres, na rua, e mais algumas casas tinham sido atingidas por fogo de artilharia. Estava quente e parecia primavera, e caminhei pelo caminho de árvores, aquecido pelo sol na parede, e descobri que ainda vivíamos na mesma casa e que tudo parecia igual a quando a tinha deixado. A porta estava aberta, havia um soldado sentado num banco lá fora ao sol, uma ambulância esperava junto à porta lateral e, dentro da porta, à medida que entrava, havia o cheiro a chão de mármore e a hospital. Estava tudo como eu tinha deixado, exceto que agora era primavera. Espreitei pela porta da sala grande e vi o major sentado à sua secretária, com a janela aberta e a luz do sol a entrar na sala. Ele não me viu e eu não sabia se devia entrar e apresentar-me ou subir primeiro e lavar-me. Decidi subir.

O quarto que partilhava com o tenente Rinaldi dava para o pátio. A janela estava aberta, a minha cama estava feita com cobertores e as minhas coisas estavam penduradas na parede, a máscara de gás numa lata retangular, o capacete de aço no mesmo gancho. Ao fundo da cama estava o meu baú plano, e as minhas botas de inverno, o couro brilhante com graxa, estavam sobre o baú. A minha espingarda de precisão austríaca, com o seu cano octogonal azulado e a bela coronha de nogueira escura, ajustada à face, tipo schutzen, estava pendurada sobre as duas camas. A mira telescópica que se adaptava a ela estava, lembrei-me, trancada no baú. O tenente, Rinaldi, estava adormecido na outra cama. Acordou quando me ouviu no quarto e sentou-se.

“Ciaou!”, disse ele. “Que tal te divertiste?”

“Magnífico.”

Apertámos as mãos e ele passou o braço pelo meu pescoço e beijou-me.

“Oughf”, disse eu.

“Estás sujo”, disse ele. “Devias lavar-te. Onde foste e o que fizeste? Conta-me tudo imediatamente.”

“Fui a todo o lado. Milão, Florença, Roma, Nápoles, Villa San Giovanni, Messina, Taormina——”

“Falas como um horário de comboios. Tiveste algumas aventuras belas?”

“Sim.”

“Onde?”

“Milano, Firenze, Roma, Napoli——”

“Isso chega. Conta-me realmente qual foi a melhor.”

“Em Milano.”

“Foi porque foi a primeira. Onde a conheceste? No Cova? Onde foste? Como te sentiste? Conta-me tudo imediatamente. Ficaste toda a noite?”

“Sim.”

“Isso não é nada. Aqui agora temos raparigas bonitas. Raparigas novas que nunca tinham estado na frente antes.”

“Maravilhoso.”

“Não acreditas em mim? Vamos agora, esta tarde, ver. E na cidade temos belas inglesas. Estou agora apaixonado pela Miss Barkley. Vou levar-te a visitar. Provavelmente vou casar-me com a Miss Barkley.”

“Tenho de me lavar e apresentar-me. Ninguém trabalha agora?”

“Desde que tu foste embora, não temos nada a não ser frieiras, geladuras, icterícia, gonorreia, ferimentos auto-infligidos, pneumonia e cancros duros e moles. Todas as semanas alguém é ferido por fragmentos de rocha. Há alguns feridos a sério. Para a semana a guerra recomeça. Talvez recomece. Dizem que sim. Achas que faria bem em casar com a Miss Barkley — depois da guerra, é claro?”

“Absolutamente”, disse eu, e enchi a bacia com água.

“À noite contar-me-ás tudo”, disse Rinaldi. “Agora tenho de voltar a dormir para estar fresco e bonito para a Miss Barkley.”

Tirei a túnica e a camisa e lavei-me na água fria da bacia. Enquanto me esfregava com uma toalha, olhei à volta do quarto e pela janela, e para Rinaldi, deitado com os olhos fechados na cama. Ele era apresentável, tinha a minha idade e vinha de Amalfi. Adorava ser cirurgião e éramos grandes amigos. Enquanto olhava para ele, abriu os olhos.

“Tens dinheiro?”

“Sim.”

“Empresta-me cinquenta liras.”

Sequei as mãos e tirei a carteira do interior da minha túnica pendurada na parede. Rinaldi pegou na nota, dobrou-a sem se levantar da cama e meteu-a no bolso das calças. Sorriu: “Tenho de causar na Miss Barkley a impressão de um homem com riqueza suficiente. Tu és o meu grande e bom amigo e protetor financeiro.”

“Vai-te lixar”, disse eu.

Naquela noite, na messe, sentei-me ao lado do padre e ele ficou desiludido e subitamente magoado por eu não ter ido a Abruzzo. Ele tinha escrito ao pai que eu ia e eles tinham feito preparativos. Eu próprio senti-me tão mal como ele e não conseguia entender porque não tinha ido. Era o que eu queria ter feito e tentei explicar como uma coisa tinha levado à outra e, finalmente, ele viu e entendeu que eu tinha realmente querido ir e ficou quase tudo bem. Tinha bebido muito vinho e, depois, café e Strega, e expliquei, com o vinho a falar, como não fazíamos as coisas que queríamos fazer; nunca fazíamos tais coisas.

Nós os dois falávamos enquanto os outros discutiam. Eu tinha querido ir a Abruzzo. Não tinha ido a lugar nenhum onde as estradas estivessem geladas e duras como ferro, onde houvesse um frio claro e seco e a neve fosse seca e poeirenta, e pegadas de lebre na neve, e os camponeses tirassem os chapéus e te chamassem de Senhor, e houvesse boa caça. Não tinha ido a lugar nenhum desses, mas sim para o fumo dos cafés e noites em que o quarto girava e precisavas de olhar para a parede para aquilo parar, noites na cama, bêbado, quando sabias que era só aquilo que havia, e a estranha excitação de acordar e não saber quem estava contigo, e o mundo todo irreal na escuridão e tão excitante que tinhas de recomeçar de novo sem saber e sem te importares na noite, certo de que aquilo era tudo e tudo e tudo, e sem te importares. De repente, importar-se muito e dormir para acordar com aquilo, por vezes de manhã, e tudo o que lá estivera ido e tudo afiado e duro e claro, e por vezes uma disputa sobre o custo. Por vezes ainda agradável e carinhoso e quente, e pequeno-almoço e almoço. Por vezes toda a amabilidade desaparecida e satisfeito por sair para a rua, mas sempre outro dia a começar e depois outra noite. Tentei falar sobre a noite e a diferença entre a noite e o dia, e como a noite era melhor, a menos que o dia fosse muito limpo e frio, e não consegui dizê-lo; como não consigo dizê-lo agora. Mas se já o tiveste, sabes. Ele não o tinha tido, mas entendeu que eu tinha realmente querido ir a Abruzzo, mas não tinha ido, e continuávamos amigos, com muitos gostos em comum, mas com a diferença entre nós. Ele tinha sabido sempre o que eu não sabia e o que, quando o aprendia, era sempre capaz de esquecer. Mas eu não sabia disso então, embora o tenha aprendido mais tarde. Entretanto, estávamos todos na messe, a refeição tinha terminado e a discussão continuava. Nós os dois parámos de falar e o capitão gritou: “Padre não feliz. Padre não feliz sem raparigas.”

“Estou feliz”, disse o padre.

“Padre não feliz. Padre quer que os austríacos ganhem a guerra”, disse o capitão. Os outros ouviam. O padre abanou a cabeça.

“Não”, disse ele.

“O padre quer que nós nunca ataquemos. Não quer que nunca ataquemos?”

“Não. Se há uma guerra, suponho que tenhamos de atacar.”

“Temos de atacar. Devemos atacar!”

O padre assentiu.

“Deixa-o em paz”, disse o major. “Ele está bem.”

“Ele não pode fazer nada quanto a isso, de qualquer maneira”, disse o capitão. Todos nos levantámos e deixámos a mesa.

CAPÍTULO IV

A bateria no jardim ao lado acordou-me de manhã e vi o sol a entrar pela janela e saí da cama. Fui até à janela e olhei para fora. Os caminhos de gravilha estavam húmidos e a relva estava molhada com o orvalho. A bateria disparou duas vezes e o ar veio de cada vez como um golpe e abanou a janela e fez a frente do meu pijama tremeluzir. Não conseguia ver as armas, mas estavam evidentemente a disparar diretamente por cima de nós. Era um incómodo tê-las ali, mas era um conforto que não fossem maiores. Enquanto olhava para o jardim, ouvi um camião a arrancar na estrada. Vesti-me, desci, tomei um café na cozinha e fui até à garagem.

Dez carros estavam alinhados lado a lado sob o longo telheiro. Eram ambulâncias pesadas no topo, de nariz rombo, pintadas de cinzento e construídas como carrinhas de mudanças. Os mecânicos estavam a trabalhar numa delas no pátio. Outras três estavam nas montanhas, em postos de curativos.

“Alguma vez bombardeiam essa bateria?” perguntei a um dos mecânicos.

“Não, Signor Tenente. Está protegida pela pequena colina.”

“Como vai tudo?”

“Nada mal. Esta máquina não presta, mas as outras marcham.” Ele parou de trabalhar e sorriu. “Estava de licença?”

“Sim.”

Ele limpou as mãos no macacão e sorriu. “Divertiu-se?” Os outros também sorriram.

“Muito bem”, disse eu. “O que é que esta máquina tem?”

“Não presta. Uma coisa atrás da outra.”

“O que é que se passa agora?”

“Segmentos novos.”

Deixei-os a trabalhar, o carro a parecer desgraçado e vazio com o motor aberto e peças espalhadas na bancada de trabalho, e entrei sob o telheiro e olhei para cada um dos carros. Estavam moderadamente limpos, alguns lavados recentemente, os outros poeirentos. Olhei atentamente para os pneus, à procura de cortes ou hematomas de pedra. Tudo parecia em boas condições. Evidentemente, não fazia diferença se eu estava lá para tratar das coisas ou não. Eu tinha imaginado que o estado dos carros, se as coisas eram ou não obtíveis, o bom funcionamento do negócio de remover feridos e doentes dos postos de curativos, transportá-los das montanhas para a estação de triagem e depois distribuí-los pelos hospitais nomeados nos seus papéis, dependia em grande medida de mim. Evidentemente, não importava se eu estava lá ou não.

“Houve algum problema em arranjar peças?” perguntei ao sargento mecânico.

“Não, Signor Tenente.”

“Onde está o parque de gasolina agora?”

“No mesmo sítio.”

“Bom”, disse eu, e voltei para a casa e bebi outra chávena de café na mesa da messe. O café era de um cinzento pálido e doce com leite condensado. Lá fora da janela, era uma manhã de primavera adorável. Havia aquele início de uma sensação de secura no nariz que significava que o dia estaria quente mais tarde. Nesse dia, visitei os postos nas montanhas e voltei à cidade ao fim da tarde.

Parecia que tudo corria melhor enquanto eu estava fora. A ofensiva ia começar outra vez, ouvi dizer. A divisão para a qual trabalhávamos ia atacar num local acima do rio e o major disse-me que eu trataria dos postos durante o ataque. O ataque atravessaria o rio acima do desfiladeiro estreito e espalhar-se-ia pela encosta. Os postos para os carros teriam de ficar o mais perto possível do rio e manter-se cobertos. Seriam, claro, escolhidos pela infantaria, mas nós é que tínhamos de resolver a questão. Era uma daquelas coisas que nos dava uma falsa sensação de ser soldado.

Eu estava muito poeirento e sujo e subi para o meu quarto para me lavar. Rinaldi estava sentado na cama com um exemplar da gramática inglesa de Hugo. Estava vestido, calçava as suas botas pretas e o seu cabelo brilhava.

“Esplêndido”, disse ele quando me viu. “Virás comigo para ver a Miss Barkley.”

“Não.”

“Sim. Por favor, vem e causa-me uma boa impressão nela.”

“Está bem. Espera até eu me limpar.”

“Lava-te e vem como estás.”

Lavei-me, penteei o cabelo e partimos.

“Espera um minuto”, disse Rinaldi. “Talvez devêssemos beber um copo.” Ele abriu o seu baú e tirou uma garrafa.

“Strega não”, disse eu.

“Não. Grappa.”

“Está bem.”

Ele serviu dois copos e nós brindámos, primeiro com os dedos estendidos. A grappa era muito forte.

“Outro?”

“Está bem”, disse eu. Bebemos a segunda grappa, Rinaldi guardou a garrafa e descemos as escadas. Estava calor a atravessar a cidade, mas o sol estava a começar a pôr-se e era muito agradável. O hospital britânico era uma grande vivenda construída por alemães antes da guerra. A Miss Barkley estava no jardim. Outra enfermeira estava com ela. Vimos os seus uniformes brancos através das árvores e caminhámos na direção delas. Rinaldi saudou. Eu também saudei, mas com mais moderação.

“Como está?” disse a Miss Barkley. “Não é italiano, pois não?”

“Oh, não.”

Rinaldi estava a falar com a outra enfermeira. Estavam a rir-se.

“Que coisa estranha — estar no exército italiano.”

“Não é bem o exército. É apenas a ambulância.”

“Mas é muito estranho. Por que o fez?”

“Não sei”, disse eu. “Nem sempre há uma explicação para tudo.”

“Oh, não há? Fui educada a pensar que havia.”

“Isso é muito simpático.”

“Temos de continuar a falar desta maneira?”

“Não”, disse eu.

“Isso é um alívio. Não é?”

“O que é a bengala?” perguntei. A Miss Barkley era bastante alta. Usava o que me parecia ser um uniforme de enfermeira, era loira e tinha uma pele bronzeada e olhos cinzentos. Achei-a muito bonita. Ela trazia uma bengala fina de vime, como um chicote de montar de brinquedo, encadernada em couro.

“Pertencia a um rapaz que foi morto no ano passado.”

“Lamento imenso.”

“Ele era um rapaz muito simpático. Ele ia casar-se comigo e foi morto em Somme.”

“Foi um espetáculo horrível.”

“Estiveste lá?”

“Não.”

“Ouvi falar disso”, disse ela. “Não há realmente nenhuma guerra desse tipo aqui em baixo. Enviaram-me a pequena bengala. A mãe dele enviou-ma. Devolveram-na com as coisas dele.”

“Estavam noivos há muito tempo?”

“Oito anos. Crescemos juntos.”

“E porque não casaram?”

“Não sei”, disse ela. “Fui tola por não o ter feito. Podia ter-lhe dado isso, de qualquer forma. Mas pensei que seria mau para ele.”

“Compreendo.”

“Já alguma vez amou alguém?”

“Não”, disse eu.

Sentámo-nos num banco e eu olhei para ela.

“Tens um cabelo bonito”, disse eu.

“Gostas dele?”

“Muito.”

“Eu ia cortá-lo todo quando ele morreu.”

“Não.”

“Queria fazer algo por ele. Vês, eu não me importava com a outra coisa e ele podia ter tido tudo. Ele podia ter tido tudo o que quisesse se eu soubesse. Eu tê-lo-ia casado ou qualquer coisa. Agora sei tudo sobre isso. Mas, naquela altura, ele queria ir para a guerra e eu não sabia.”

Não disse nada.

“Eu não sabia de nada naquela altura. Pensei que seria pior para ele. Pensei que talvez ele não aguentasse e depois, claro, ele foi morto e esse foi o fim.”

“Não sei.”

“Oh, sim”, disse ela. “Esse é o fim.”

Olhámos para Rinaldi a conversar com a outra enfermeira.

“Qual é o nome dela?”

“Ferguson. Helen Ferguson. O teu amigo é médico, não é?”

“Sim. Ele é muito bom.”

“Isso é esplêndido. Raramente se encontra alguém bom tão perto da frente. Isto é perto da frente, não é?”

“Bastante.”

“É uma frente estúpida”, disse ela. “Mas é muito bonita. Eles vão ter uma ofensiva?”

“Sim.”

“Então teremos de trabalhar. Agora não há trabalho.”

“Há muito tempo que és enfermeira?”

“Desde o fim de quinze. Comecei quando ele começou. Lembro-me de ter uma ideia parva de que ele podia vir para o hospital onde eu estava. Com um corte de sabre, suponho, e uma ligadura à volta da cabeça. Ou um tiro no ombro. Algo pitoresco.”

“Esta é a frente pitoresca”, disse eu.

“Sim”, disse ela. “As pessoas não conseguem perceber como é a França. Se percebessem, isto não podia continuar tudo. Ele não teve um corte de sabre. Explodiram com ele todo em bocados.”

Não disse nada.

“Achas que isto vai continuar sempre?”

“Não.”

“O que é que o vai parar?”

“Vai estalar nalgum lado.”

“Nós vamos estalar. Vamos estalar em França. Eles não podem continuar a fazer coisas como a Somme e não estalar.”

“Eles não vão estalar aqui”, disse eu.

“Achas que não?”

“Não. Eles portaram-se muito bem no verão passado.”

“Eles podem estalar”, disse ela. “Qualquer um pode estalar.”

“Os alemães também.”

“Não”, disse ela. “Penso que não.”

Fomos na direção de Rinaldi e da Miss Ferguson.

“Ama a Itália?” perguntou Rinaldi à Miss Ferguson em inglês.

“Bastante bem.”

“Não compreendo”, Rinaldi abanou a cabeça.

“Abbastanza bene”, traduzi eu. Ele abanou a cabeça.

“Isso não é bom. Ama a Inglaterra?”

“Não demasiado bem. Sou escocesa, sabe.”

Rinaldi olhou para mim de forma inexpressiva.

“Ela é escocesa, por isso ama mais a Escócia do que a Inglaterra”, disse eu em italiano.

“Mas a Escócia é Inglaterra.”

Traduzi isto para a Miss Ferguson.

“Pas encore”, disse a Miss Ferguson.

“Não é realmente?”

“Nunca. Nós não gostamos dos ingleses.”

“Não gostam dos ingleses? Não gostam da Miss Barkley?”

“Oh, isso é diferente. Não deve levar tudo tão à letra.”

Passado algum tempo, dissemos boa-noite e partimos. A caminhar para casa, Rinaldi disse: “A Miss Barkley prefere-te a mim. Isso é muito claro. Mas a pequena escocesa é muito simpática.”

“Muito”, disse eu. Eu não a tinha notado. “Gostas dela?”

“Não”, disse Rinaldi.

CAPÍTULO V

Na tarde seguinte, fui visitar a Miss Barkley novamente. Ela não estava no jardim e dirigi-me à porta lateral da vivenda onde as ambulâncias chegavam. Lá dentro, vi a enfermeira-chefe, que disse que a Miss Barkley estava de serviço — “há uma guerra, sabe.”

Eu disse que sabia.

“É o americano no exército italiano?” perguntou ela.

“Sim, senhora.”

“Como é que isso aconteceu? Por que não se juntou a nós?”

“Não sei”, disse eu. “Podia juntar-me agora?”

“Receio que não agora. Diga-me. Por que se juntou aos italianos?”

“Eu estava em Itália”, disse eu, “e falava italiano.”

“Oh”, disse ela. “Estou a aprendê-lo. É uma língua bonita.”

“Alguém disse que se devia conseguir aprender em duas semanas.”

“Oh, não o vou aprender em duas semanas. Estudo-o há meses. Pode vir vê-la depois das sete horas, se desejar. Ela estará livre então. Mas não traga muitos italianos.”

“Nem pela língua bonita?”

“Não. Nem pelos uniformes bonitos.”

“Boa noite”, disse eu.

“A rivederci, Tenente.”

“A rivederla.” Saudei e saí. Era impossível saudar estrangeiros como um italiano, sem embaraço. A saudação italiana nunca parecia feita para exportação.

O dia tinha estado quente. Eu tinha subido o rio até à cabeça de ponte em Plava. Foi lá que a ofensiva ia começar. Tinha sido impossível avançar do outro lado no ano anterior porque só havia uma estrada que descia da passagem para a ponte de pontões e estava sob fogo de metralhadora e artilharia durante quase uma milha. Também não era suficientemente larga para transportar todo o transporte para uma ofensiva e os austríacos podiam fazer um matadouro daquilo. Mas os italianos tinham atravessado e espalhado um pouco do outro lado para segurar cerca de uma milha e meia no lado austríaco do rio. Era um local desagradável e os austríacos não deviam ter deixado que eles o segurassem. Suponho que foi tolerância mútua, porque os austríacos ainda mantinham uma cabeça de ponte mais abaixo no rio. As trincheiras austríacas ficavam acima, na encosta, a poucos metros das linhas italianas. Tinha havido uma pequena cidade, mas estava toda em escombros. Havia o que restava de uma estação ferroviária e uma ponte permanente destruída que não podia ser reparada e usada porque estava à vista de todos.

Segui pela estrada estreita em direção ao rio, deixei o carro no posto de curativos debaixo da colina, atravessei a ponte de pontões, que estava protegida por um ombro da montanha, e passei pelas trincheiras na cidade destruída e ao longo da borda da encosta. Estava toda a gente nos abrigos. Havia prateleiras de foguetes à espera de serem disparados para pedir ajuda à artilharia ou para sinalizar se os fios do telefone fossem cortados. Estava calmo, quente e sujo. Olhei através do arame para as linhas austríacas. Não estava ninguém à vista. Bebi um copo com um capitão que eu conhecia num dos abrigos e voltei a atravessar a ponte.

Uma estrada larga e nova estava a ser terminada, que passaria por cima da montanha e desceria em ziguezague até à ponte. Quando esta estrada estivesse acabada, a ofensiva começaria. Ela descia através da floresta em curvas fechadas. O sistema era trazer tudo pela nova estrada e levar os camiões vazios, carroças e ambulâncias carregadas e todo o tráfego de regresso pela antiga estrada estreita. O posto de curativos ficava no lado austríaco do rio, sob a borda da colina, e os maqueiros traziam os feridos de volta através da ponte de pontões. Seria o mesmo quando a ofensiva começasse. Pelo que pude perceber, a última milha ou mais da nova estrada, onde começava a nivelar, poderia ser bombardeada continuamente pelos austríacos. Parecia que podia ser um desastre. Mas encontrei um local onde os carros ficariam abrigados depois de terem passado aquele último pedaço com aspeto mau e podiam esperar pelos feridos que eram trazidos através da ponte de pontões. Gostaria de ter conduzido pela nova estrada, mas ainda não estava acabada. Parecia larga e bem feita, com uma boa inclinação e as curvas pareciam muito impressionantes onde se podiam ver através de aberturas na floresta na encosta da montanha. Os carros estariam bem com os seus bons travões de metal contra metal e, de qualquer modo, a descer, não estariam carregados. Conduzi de volta pela estrada estreita.

Dois carabineiros retiveram o carro. Uma granada tinha caído e, enquanto esperávamos, outras três caíram na estrada. Eram setenta e setes e vinham com um ruído de ar sibilante, uma explosão dura e brilhante e um clarão, e depois fumo cinzento que soprava através da estrada. Os carabineiros fizeram sinal para seguirmos. Passando onde as granadas tinham caído, evitei os pequenos buracos e senti o cheiro do alto explosivo e o cheiro a argila e pedra detonadas e sílex recentemente estilhaçado. Conduzi de volta a Gorizia e à nossa vivenda e, como disse, fui visitar a Miss Barkley, que estava de serviço.

Ao jantar, comi muito depressa e parti para a vivenda onde os britânicos tinham o seu hospital. Era realmente muito grande e bonita e havia árvores belas nos terrenos. A Miss Barkley estava sentada num banco no jardim. A Miss Ferguson estava com ela. Pareciam contentes por me ver e, passado pouco tempo, a Miss Ferguson desculpou-se e foi-se embora.

“Vou deixar-vos os dois”, disse ela. “Vocês dão-se muito bem sem mim.”

“Não vás, Helen”, disse a Miss Barkley.

“Preferia mesmo. Tenho de escrever umas cartas.”

“Boa-noite”, disse eu.

“Boa-noite, Sr. Henry.”

“Não escrevas nada que incomode o censor.”

“Não te preocupes. Só escrevo sobre o lugar bonito onde vivemos e quão corajosos são os italianos.”

“Dessa forma serás condecorada.”

“Isso será bom. Boa-noite, Catherine.”

“Vejo-te daqui a pouco”, disse a Miss Barkley. A Miss Ferguson afastou-se na escuridão.

“Ela é simpática”, disse eu.

“Oh, sim, ela é muito simpática. Ela é enfermeira.”

“Tu não és enfermeira?”

“Oh, não. Sou qualquer coisa chamada V. A. D. Trabalhamos muito, mas ninguém confia em nós.”

“Por que não?”

“Eles não confiam em nós quando não se passa nada. Quando há trabalho a sério, confiam em nós.”

“Qual é a diferença?”

“Uma enfermeira é como um médico. Leva muito tempo a sê-lo. Uma V. A. D. é um atalho.”

“Compreendo.”

“Os italianos não queriam mulheres tão perto da frente. Por isso, estamos todas sob um comportamento muito especial. Não saímos.”

“Mas eu posso vir aqui.”

“Oh, sim. Não estamos enclausuradas.”

“Vamos esquecer a guerra.”

“É muito difícil. Não há sítio para a esquecer.”

“Vamos esquecê-la, de qualquer maneira.”

“Está bem.”

Olhámos um para o outro no escuro. Achei-a muito bonita e peguei-lhe na mão. Ela deixou que eu a pegasse e eu segurei-a e coloquei o meu braço debaixo do braço dela.

“Não”, disse ela. Mantive o meu braço onde estava.

“Por que não?”

“Não.”

“Sim”, disse eu. “Por favor.” Inclinei-me para a frente no escuro para a beijar e houve um clarão agudo e picante. Ela tinha-me dado uma bofetada forte na cara. A mão dela tinha atingido o meu nariz e olhos, e as lágrimas vieram-me aos olhos por reflexo.

“Lamento imenso”, disse ela. Senti que tinha uma certa vantagem.

“Tiveste toda a razão.”

“Lamento terrivelmente”, disse ela. “Simplesmente não suportava o aspeto de 'folga da enfermeira' nisto. Não quis magoar-te. Magoei-te, não foi?”

Ela estava a olhar para mim no escuro. Eu estava zangado e, no entanto, certo, vendo tudo à frente como os movimentos num jogo de xadrez.

“Fizeste exatamente o correto”, disse eu. “Não me importo nada.”

“Pobre homem.”

“Vês, tenho levado uma vida um pouco engraçada. E nunca falo inglês. E depois tu és tão bonita.” Olhei para ela.

“Não precisas de dizer um monte de disparates. Eu disse que lamentava. Nós damo-nos bem.”

“Sim”, disse eu. “E afastámo-nos da guerra.”

Ela riu-se. Foi a primeira vez que a ouvi rir. Observei o rosto dela.

“Tu és doce”, disse ela.

“Não, não sou.”

“Sim. Tu és querido. Ficaria contente por te beijar se não te importares.”

Olhei nos olhos dela e coloquei o meu braço à volta dela como tinha feito antes e beijei-a. Beijei-a com força e segurei-a apertada e tentei abrir-lhe os lábios; eles estavam fechados com força. Eu ainda estava zangado e, enquanto a segurava, de repente ela estremeceu. Segurei-a contra mim e podia sentir o seu coração a bater e os seus lábios abriram-se e a sua cabeça recuou contra a minha mão e depois ela estava a chorar no meu ombro.

“Oh, querido”, disse ela. “Serás bom para mim, não serás?”

Que se lixe, pensei eu. Acariciei o cabelo dela e dei palmadinhas no ombro dela. Ela estava a chorar.

“Serás, não serás?” Ela olhou para mim. “Porque vamos ter uma vida estranha.”

Passado algum tempo, acompanhei-a até à porta da vivenda e ela entrou e eu caminhei para casa. De volta à vivenda, subi para o quarto. Rinaldi estava deitado na cama. Ele olhou para mim.

“Então, fazes progressos com a Miss Barkley?”

“Somos amigos.”

“Tens esse ar agradável de um cão com cio.”

Eu não percebi a palavra.

“De um quê?”

Ele explicou.

“Tu”, disse eu, “tens esse ar agradável de um cão que—”

“Para com isso”, disse ele. “Daqui a pouco diríamos coisas insultuosas.” Ele riu-se.

“Boa-noite”, disse eu.

“Boa-noite, cachorrinho.”

Derrubei a vela dele com a almofada e meti-me na cama no escuro.

Rinaldi apanhou a vela, acendeu-a e continuou a ler.

Fiquei fora dois dias nos postos. Quando cheguei a casa era demasiado tarde e não vi a Miss Barkley até à noite seguinte. Ela não estava no jardim e tive de esperar no escritório do hospital até que ela descesse. Havia muitos bustos de mármore em colunas de madeira pintada ao longo das paredes da sala que usavam como escritório. O corredor também, para onde o escritório dava, estava forrado com eles. Tinham aquela qualidade completa do mármore de parecerem todos iguais. A escultura sempre me parecera um negócio aborrecido — ainda assim, os bronzes pareciam algo. Mas os bustos de mármore pareciam todos um cemitério. Havia um cemitério bom, contudo — aquele em Pisa. Génova era o lugar para ver os maus mármores. Esta fora a villa de um alemão muito rico e os bustos deviam ter-lhe custado uma fortuna. Perguntei-me quem os teria feito e quanto teria recebido. Tentei perceber se eram membros da família ou o quê; mas eram todos uniformemente clássicos. Não se podia dizer nada sobre eles.

Sentei-me numa cadeira e segurei o meu quepe. Suponha-se que usássemos capacetes de aço mesmo em Gorizia, mas eram desconfortáveis e demasiado sangrentamente teatrais numa cidade onde os habitantes civis não tinham sido evacuados. Eu usava um quando íamos para os postos e carregava uma máscara de gás inglesa. Estávamos apenas a começar a receber algumas. Eram uma máscara a sério. Além disso, éramos obrigados a usar uma pistola automática; mesmo os médicos e os oficiais sanitários. Senti-a contra as costas da cadeira. Estávamos sujeitos a detenção se não a usássemos à vista. Rinaldi carregava um coldre atolado de papel higiénico. Eu usava um verdadeiro e sentia-me como um pistoleiro até praticar o disparo. Era uma Astra calibre 7.65 com um cano curto e dava um coice tão brusco quando se disparava que não havia hipótese de acertar em nada. Pratiquei com ela, apontando abaixo do alvo e tentando dominar o solavanco do ridículo cano curto até conseguir acertar a menos de um metro de onde apontava a vinte passos, e então o ridículo de andar com uma pistola invadiu-me e depressa me esqueci dela e carreguei-a aos balanços contra o fundo das costas sem sentimento algum, exceto uma vaga espécie de vergonha quando encontrava pessoas que falavam inglês. Sentei-me agora na cadeira e um ordenança de qualquer tipo olhou-me com desaprovação de trás de uma secretária, enquanto eu olhava para o chão de mármore, para as colunas com os bustos de mármore e para os frescos na parede, e esperava pela Miss Barkley. Os frescos não eram maus. Quaisquer frescos eram bons quando começavam a descascar e a cair às lascas.

Vi Catherine Barkley a vir pelo corredor e levantei-me. Não parecia alta a caminhar na minha direção, mas parecia muito encantadora.

“Boa noite, Sr. Henry”, disse ela.

“Como está?”, disse eu. O ordenança estava a ouvir atrás da secretária.

“Devemos sentar-nos aqui ou ir lá fora ao jardim?”

“Vamos lá fora. Está muito mais fresco.”

Caminhei atrás dela para o jardim, com o ordenança a olhar para nós. Quando estávamos no caminho de gravilha, ela disse: “Onde é que tens estado?”

“Estive fora, num posto.”

“Não podias ter-me enviado um bilhete?”

“Não”, disse eu. “Não muito bem. Pensei que estaria de volta.”

“Devias ter-me avisado, querido.”

Saímos do caminho, caminhando sob as árvores. Peguei nas suas mãos, depois parei e beijei-a.

“Não há nenhum lugar para onde possamos ir?”

“Não”, disse ela. “Temos apenas de caminhar aqui. Estiveste fora muito tempo.”

“Este é o terceiro dia. Mas agora estou de volta.”

Ela olhou para mim: “E tu amas-me?”

“Sim.”

“Disseste que me amavas, não disseste?”

“Sim”, menti. “Eu amo-te.” Não o tinha dito antes.

“E chamas-me Catherine?”

“Catherine.” Caminhámos um pouco e parámos debaixo de uma árvore.

“Diz: ‘Voltei para a Catherine durante a noite’.”

“Voltei para a Catherine durante a noite.”

“Oh, querido, voltaste mesmo, não voltaste?”

“Sim.”

“Eu amo-te tanto e tem sido horrível. Tu não vais embora?”

“Não. Voltarei sempre.”

“Oh, amo-te tanto. Por favor, põe a tua mão ali outra vez.”

“Ela não esteve longe.” Virei-a de modo a poder ver-lhe o rosto quando a beijei e vi que ela tinha os olhos fechados. Beijei-lhe os dois olhos fechados. Pensei que ela provavelmente estava um pouco louca. Não havia mal se estivesse. Não me importava com o que me estava a meter. Era melhor do que ir todas as noites à casa para oficiais, onde as raparigas trepavam por cima de ti e punham o teu quepe ao contrário como sinal de afeição entre as suas idas aos andares de cima com outros oficiais. Eu sabia que não amava Catherine Barkley nem tinha qualquer ideia de a amar. Isto era um jogo, como bridge, em que se diziam coisas em vez de jogar cartas. Como no bridge, tinhas de fingir que estavas a jogar a dinheiro ou a jogar por algum risco. Ninguém tinha mencionado quais eram os riscos. Para mim, estava tudo bem.

“Gostava que houvesse algum lugar para onde pudéssemos ir”, disse eu. Estava a sentir a dificuldade masculina de fazer amor muito tempo de pé.

“Não há nenhum lugar”, disse ela. Ela voltou de onde quer que estivesse.

“Podíamos sentar-nos ali só por um bocadinho.”

Sentámo-nos no banco de pedra lisa e eu segurei a mão de Catherine Barkley. Ela não me deixou pôr o braço à volta dela.

“Estás muito cansado?”, perguntou ela.

“Não.”

Ela olhou para a relva.

“Este é um jogo podre que jogamos, não é?”

“Que jogo?”

“Não sejas aborrecido.”

“Não sou, de propósito.”

“És um bom rapaz”, disse ela. “E jogas tão bem quanto sabes. Mas é um jogo podre.”

“Sabes sempre o que as pessoas pensam?”

“Nem sempre. Mas contigo sei. Não tens de fingir que me amas. Isso acabou-se por esta noite. Há alguma coisa sobre a qual gostasses de falar?”

“Mas eu amo-te.”

“Por favor, não mintamos quando não temos de o fazer. Tive um pequeno espetáculo muito bom e agora estou bem. Vês que não estou louca e que não perdi o juízo. É só um pouco, às vezes.”

Apertei-lhe a mão: “Querida Catherine.”

“Soa muito estranho agora — Catherine. Não o pronuncias de forma muito parecida. Mas és muito simpático. És um rapaz muito bom.”

“Foi o que o padre disse.”

“Sim, és muito bom. E virás ver-me?”

“Claro.”

“E não tens de dizer que me amas. Isso acabou-se por agora.” Ela levantou-se e estendeu a mão. “Boa noite.”

Eu queria beijá-la.

“Não”, disse ela. “Estou terrivelmente cansada.”

“Beija-me, no entanto”, disse eu.

“Estou terrivelmente cansada, querido.”

“Beija-me.”

“Queres muito?”

“Sim.”

Beijámo-nos e ela soltou-se subitamente. “Não. Boa noite, por favor, querido.” Caminhámos até à porta e vi-a entrar e seguir pelo corredor. Gostava de a ver mover-se. Ela continuou corredor abaixo. Eu continuei para casa. Era uma noite quente e havia muito movimento lá em cima nas montanhas. Observei os clarões em San Gabriele.

Parei em frente à Villa Rossa. As persianas estavam fechadas, mas ainda se passava algo lá dentro. Alguém estava a cantar. Continuei para casa. Rinaldi entrou enquanto eu me despia.

“Ah, ha!”, disse ele. “Não corre tão bem. O bebé está confuso.”

“Onde estiveste?”

“Na Villa Rossa. Foi muito edificante, bebé. Cantámos todos. Onde estiveste?”

“A visitar os britânicos.”

“Graças a Deus que não me envolvi com os britânicos.”

CAPÍTULO VII

Voltei na tarde seguinte do nosso primeiro posto na montanha e parei o carro no smistimento, onde os feridos e doentes eram separados pelos seus papéis e os papéis marcados para os diferentes hospitais. Eu tinha estado a conduzir e sentei-me no carro enquanto o motorista levava os papéis para dentro. Era um dia quente e o céu estava muito brilhante e azul e a estrada era branca e poeirenta. Sentei-me no banco alto do Fiat e não pensei em nada. Um regimento passou na estrada e vi-os passar. Os homens estavam quentes e a suar. Alguns usavam os seus capacetes de aço, mas a maioria trazia-os pendurados nas mochilas. A maioria dos capacetes era demasiado grande e chegava quase até às orelhas dos homens que os usavam. Os oficiais usavam todos capacetes; capacetes mais ajustados. Era metade da brigata Basilicata. Identifiquei-os pela sua marca de colarinho às riscas vermelhas e brancas. Havia retardatários a passar muito tempo depois de o regimento ter passado — homens que não conseguiam acompanhar os seus pelotões. Estavam suados, poeirentos e cansados. Alguns pareciam bastante mal. Um soldado apareceu depois do último dos retardatários. Caminhava com um coxear. Parou e sentou-se à beira da estrada. Desci e aproximei-me.

“Qual é o problema?”

Ele olhou para mim, depois levantou-se.

“Vou continuar.”

“Qual é a dificuldade?”

“—— a guerra.”

“O que é que tens na perna?”

“Não é a perna. Tenho uma hérnia.”

“Porque é que não vais com o transporte?”, perguntei. “Porque é que não vais para o hospital?”

“Eles não me deixam. O tenente disse que eu desloquei a braguilha de propósito.”

“Deixa-me sentir.”

“Está toda fora.”

“De que lado é?”

“Aqui.”

Senti-a.

“Tosse”, disse eu.

“Tenho medo que a torne maior. Está duas vezes maior do que estava esta manhã.”

“Senta-te”, disse eu. “Assim que eu entregar os papéis destes feridos, levar-te-ei pela estrada e deixar-te-ei com os teus oficiais médicos.”

“Ele vai dizer que o fiz de propósito.”

“Eles não podem fazer nada”, disse eu. “Não é uma ferida. Já a tiveste antes, não foi?”

“Mas perdi a braguilha.”

“Eles vão mandar-te para um hospital.”

“Não posso ficar aqui, Tenente?”

“Não, não tenho papéis para ti.”

O motorista saiu pela porta com os papéis para os feridos no carro.

“Quatro para o 105. Dois para o 132”, disse ele. Eram hospitais para lá do rio.

“Tu conduzes”, disse eu. Ajudei o soldado com a hérnia a subir para o banco connosco.

“Fala inglês?”, perguntou ele.

“Claro.”

“Como é que gosta desta guerra maldita?”

“Podre.”

“Eu digo que é podre. Jesus Cristo, digo que é podre.”

“Esteve nos Estados Unidos?”

“Claro. Em Pittsburg. Eu sabia que o senhor era americano.”

“Não falo italiano suficientemente bem?”

“Eu sabia que o senhor era um americano, sim.”

“Outro americano”, disse o motorista em italiano, olhando para o homem da hérnia.

“Escute, tenente. Tem mesmo de me levar para aquele regimento?”

“Sim.”

“Porque o capitão médico sabia que eu tinha esta hérnia. Deitei fora a maldita braguilha para que ela piorasse e eu não tivesse de ir para a linha outra vez.”

“Percebo.”

“Não me podia levar para outro lugar qualquer?”

“Se fosse mais perto da frente, podia levar-te a um primeiro posto médico. Mas aqui atrás tens de ter papéis.”

“Se eu voltar, eles vão obrigar-me a ser operado e depois vão meter-me na linha a tempo inteiro.”

Pensei sobre o assunto.

“O senhor não gostaria de ir para a linha a tempo inteiro, pois não?”, perguntou ele.

“Não.”

“Jesus Cristo, não é esta uma guerra maldita?”

“Escuta”, disse eu. “Tu sais e cais à beira da estrada e dás uma pancada na cabeça e eu apanho-te no nosso caminho de volta e levo-te para um hospital. Vamos parar aqui à beira da estrada, Aldo.” Parámos na berma da estrada. Ajudei-o a descer.

“Estarei mesmo aqui, tenente”, disse ele.

“Até logo”, disse eu. Seguimos caminho e passámos o regimento cerca de uma milha à frente, depois atravessámos o rio, turvo com a água da neve e a correr depressa através das estacas da ponte, para seguir pela estrada através da planície e entregar os feridos nos dois hospitais. Eu conduzi no regresso e fui depressa com o carro vazio para encontrar o homem de Pittsburg. Primeiro passámos o regimento, mais quente e mais lento do que nunca: depois os retardatários. Depois vimos uma ambulância de cavalos parada à beira da estrada. Dois homens estavam a levantar o homem da hérnia para o pôr lá dentro. Tinham voltado para ele. Ele abanou a cabeça para mim. O seu capacete estava fora e a sua testa estava a sangrar abaixo da linha do cabelo. O nariz estava esfolado e havia pó na mancha sangrenta e pó no seu cabelo.

“Veja a pancada, tenente!”, gritou ele. “Não há nada a fazer. Eles voltaram para me apanhar.”

Quando cheguei à villa eram cinco horas e fui onde lavávamos os carros, para tomar um duche. Depois fiz o meu relatório no meu quarto, sentado de calças e camisola interior em frente à janela aberta. Dentro de dois dias a ofensiva ia começar e eu ia com os carros para Plava. Fazia muito tempo desde que tinha escrito para os Estados Unidos e sabia que devia escrever, mas tinha deixado passar tanto tempo que era quase impossível escrever agora. Não havia nada sobre o que escrever. Enviei um par de postais do exército Zona di Guerra, riscando tudo menos: estou bem. Isso deveria tratá-los. Aqueles postais seriam muito bons na América; estranhos e misteriosos. Esta era uma zona de guerra estranha e misteriosa, mas supunha que fosse bastante bem gerida e sombria comparada com outras guerras com os austríacos. O exército austríaco foi criado para dar vitórias a Napoleão; qualquer Napoleão. Gostava que tivéssemos um Napoleão, mas em vez disso tínhamos Il Generale Cadorna, gordo e próspero, e Vittorio Emmanuele, o homem minúsculo com o pescoço longo e fino e a barba de bode. Lá na direita tinham o Duque de Aosta. Talvez fosse demasiado bonito para ser um grande general, mas parecia um homem. Muitos deles teriam gostado que ele fosse rei. Ele parecia um rei. Era tio do Rei e comandava o terceiro exército. Nós estávamos no segundo exército. Havia algumas baterias britânicas com o terceiro exército. Tinha conhecido dois artilheiros desse grupo, em Milão. Eram muito simpáticos e tivemos uma grande noite. Eram grandes e tímidos e embaraçados e muito apreciativos juntos de qualquer coisa que acontecesse. Gostava de estar com os britânicos. Teria sido muito mais simples. Ainda assim, provavelmente teria sido morto. Não neste negócio das ambulâncias. Sim, mesmo no negócio das ambulâncias. Os motoristas de ambulância britânicos eram mortos por vezes. Bem, eu sabia que não seria morto. Não nesta guerra. Não tinha nada a ver comigo. Não me parecia, a mim próprio, mais perigoso do que a guerra nos filmes. Gostava, por Deus, que isto acabasse, contudo. Talvez terminasse este verão. Talvez os austríacos se partissem. Eles tinham-se partido sempre noutras guerras. O que é que se passava com esta guerra? Toda a gente dizia que os franceses estavam acabados. Rinaldi disse que os franceses se tinham amotinado e que as tropas marchavam sobre Paris. Perguntei-lhe o que tinha acontecido e ele disse: “Oh, eles pararam-nos.” Eu queria ir para a Áustria sem guerra. Queria ir para a Floresta Negra. Queria ir para as Montanhas Hartz. Onde ficavam as Montanhas Hartz, afinal? Eles estavam a lutar nos Cárpatos. Eu não queria ir para lá de qualquer maneira. Podia ser bom, contudo. Podia ir para Espanha se não houvesse guerra. O sol estava a pôr-se e o dia estava a arrefecer. Depois do jantar ia ver a Catherine Barkley. Gostava que ela estivesse aqui agora. Gostava de estar em Milão com ela. Gostava de comer no Cova e depois caminhar pela Via Manzoni na noite quente e atravessar e virar ao longo do canal e ir para o hotel com a Catherine Barkley. Talvez ela quisesse. Talvez ela fingisse que eu era o seu rapaz que foi morto e entraríamos pela porta da frente e o porteiro tiraria o chapéu e eu pararia na secretária do concierge e pediria a chave e ela ficaria de pé junto ao elevador e depois entraríamos no elevador e ele subiria muito lentamente, fazendo clique em todos os andares, e depois o nosso andar, e o rapaz abriria a porta e ficaria lá e ela sairia e eu sairia e caminharíamos pelo corredor e eu meteria a chave na porta e abri-la-ia e entraríamos e depois tiraria o telefone do gancho e pedir-lhes-ia que mandassem uma garrafa de capri bianca num balde de prata cheio de gelo e ouvir-se-ia o gelo contra o balde a vir pelo corredor e o rapaz bateria e eu diria deixe-a fora da porta, por favor. Porque não usaríamos roupa nenhuma porque estava tão quente e a janela aberta e as andorinhas a voar sobre os telhados das casas e quando estivesse escuro depois disso e fosses à janela, morcegos muito pequenos a caçar sobre as casas e a baixar sobre as árvores e beberíamos o capri e a porta trancada e aquele calor e apenas um lençol e a noite inteira e ambos amar-nos-íamos a noite toda na noite quente em Milão. Era assim que deveria ser. Comeria rapidamente e iria ver a Catherine Barkley.

Falavam demasiado no refeitório e eu bebia vinho porque esta noite não éramos todos irmãos a menos que eu bebesse um pouco e falasse com o padre sobre o Arcebispo Ireland que era, ao que parece, um homem nobre e com cuja injustiça, as injustiças que ele tinha recebido e nas quais eu participava como americano, e das quais nunca tinha ouvido falar, fingi familiaridade. Teria sido indelicado não saber nada delas quando tinha ouvido uma explicação tão esplêndida das suas causas que eram, afinal, ao que parecia, mal-entendidos. Pensei que ele tinha um nome bonito e vinha do Minnesota o que fazia um nome adorável: Ireland do Minnesota, Ireland do Wisconsin, Ireland do Michigan. O que o tornava bonito era que soava como Island. Não, não era isso. Havia mais do que isso. Sim, padre. Isso é verdade, padre. Talvez, padre. Não, padre. Bem, talvez sim, padre. O senhor sabe mais sobre isso do que eu, padre. O padre era bom, mas aborrecido. Os oficiais não eram bons, mas aborrecidos. O Rei era bom, mas aborrecido. O vinho era mau, mas não aborrecido. Tirava o esmalte dos teus dentes e deixava-o no céu da boca.

“E o padre foi fechado”, disse Rocca, “porque encontraram as obrigações de três por cento na sua pessoa. Foi em França, claro. Aqui eles nunca o teriam detido. Ele negou todo o conhecimento das obrigações de cinco por cento. Isto aconteceu em Béziers. Eu estava lá e, lendo sobre isso no jornal, fui à prisão e pedi para ver o padre. Era bastante evidente que ele tinha roubado as obrigações.”

“Não acredito numa palavra disto”, disse Rinaldi.

“Como queiras”, disse Rocca. “Mas estou a contá-la para o nosso padre aqui. É muito informativa. Ele é um padre; ele apreciá-la-á.”

O padre sorriu. “Continua”, disse ele. “Estou a ouvir.”

“Claro que algumas das obrigações não foram contabilizadas, mas o padre tinha todas as obrigações de três por cento e várias obrigações locais, esqueço-me exatamente do que eram. Por isso fui à prisão, agora este é o ponto da história, e fiquei fora da sua cela e disse, como se fosse confessar-me: ‘Abençoai-me, padre, porque pecaste’.”

Houve uma grande gargalhada de todos.

“E o que é que ele disse?”, perguntou o padre. Rocca ignorou isto e continuou a explicar-me a piada. “Percebes o ponto, não percebes?” Parecia ser uma piada muito engraçada se a entendêssemos corretamente. Serviram-me mais vinho e contei a história do soldado raso inglês que foi posto debaixo do chuveiro. Depois, o major contou a história dos onze checoslovacos e do cabo húngaro. Depois de mais algum vinho, contei a história do jóquei que encontrou a moeda. O major disse que havia uma história italiana parecida com essa, sobre a duquesa que não conseguia dormir à noite. A esta altura, o padre saiu e contei a história do caixeiro-viajante que chegou às cinco da manhã a Marselha quando o mistral soprava. O major disse ter ouvido um relatório de que eu sabia beber. Neguei. Ele disse que era verdade e, pelo cadáver de Baco, testaríamos se era verdade ou não. Não Baco, disse eu. Não Baco. Sim, Baco, disse ele. Eu deveria beber copo por copo e taça por taça com Bassi, Filippo Vincenza. Bassi disse que não, que esse não era um teste porque ele já tinha bebido o dobro do que eu. Eu disse que aquilo era uma mentira infame e, Baco ou não Baco, Filippo Vincenza Bassi ou Bassi Filippo Vicenza nunca tinha tocado numa gota a noite toda e qual era o nome dele, afinal? Ele perguntou se o meu nome era Frederico Enrico ou Enrico Federico? Eu disse que vencesse o melhor, Baco excluído, e o major começou-nos com vinho tinto em canecas. A meio do vinho, já não queria mais. Lembrei-me de onde ia.

“Bassi vence”, disse eu. “Ele é melhor homem do que eu. Tenho de ir.”

“Realmente vence”, disse Rinaldi. “Ele tem um encontro. Sei tudo sobre isso.”

“Tenho de ir.”

“Noutra noite”, disse Bassi. “Noutra noite, quando te sentires mais forte.” Ele deu-me uma palmada no ombro. Havia velas acesas na mesa. Todos os oficiais estavam muito felizes. “Boa noite, senhores”, disse eu.

Rinaldi saiu comigo. Ficámos parados lá fora, à porta, no caminho, e ele disse: “É melhor não subires para lá bêbado.”

“Não estou bêbado, Rinin. A sério.”

“É melhor mastigares um pouco de café.”

“Disparate.”

“Vou arranjar um pouco, querido. Vai andando de um lado para o outro.” Ele voltou com um punhado de grãos de café torrados. “Mastiga isso, querido, e que Deus esteja contigo.”

“Baco”, disse eu.

“Vou acompanhar-te a descer.”

“Estou perfeitamente bem.”

Caminhámos juntos pela cidade e eu mastiguei o café. No portão da entrada que subia até à villa britânica, Rinaldi desejou-me boa noite.

“Boa noite”, disse eu. “Porque não entras?”

Ele abanou a cabeça. “Não”, disse ele, “gosto dos prazeres mais simples.”

“Obrigado pelos grãos de café.”

“Não tens de quê, querido. Não tens de quê.”

Comecei a descer o caminho. Os contornos dos ciprestes que o ladeavam eram nítidos e claros. Olhei para trás e vi Rinaldi a observar-me e acenei-lhe.

Sentei-me no salão de receção da villa, à espera que Catherine Barkley descesse. Alguém vinha pelo corredor. Levantei-me, mas não era Catherine. Era a Miss Ferguson.

“Olá”, disse ela. “Catherine pediu-me para lhe dizer que lamenta não poder vê-lo esta noite.”

“Lamento imenso. Espero que ela não esteja doente.”

“Ela não está muito bem.”

“Pode dizer-lhe o quanto lamento?”

“Sim, direi.”

“Acha que valeria a pena tentar vê-la amanhã?”

“Sim, acho.”

“Muito obrigado”, disse eu. “Boa noite.”

Saí pela porta e, de repente, senti-me solitário e vazio. Tinha tratado o encontro com Catherine muito levianamente, tinha ficado algo bêbado e quase me tinha esquecido de vir, mas, quando não a pude ver, ali estava eu a sentir-me solitário e oco.

CAPÍTULO VIII

Na tarde seguinte, ouvimos dizer que haveria um ataque rio acima naquela noite e que levaríamos quatro carros para lá. Ninguém sabia nada sobre isso, embora todos falassem com grande positividade e conhecimento estratégico. Eu ia no primeiro carro e, ao passarmos pela entrada do hospital britânico, disse ao motorista para parar. Os outros carros encostaram. Saí e disse ao motorista para continuar e que, se não os tivéssemos alcançado no entroncamento da estrada para Cormons, para esperar lá. Subi apressadamente o caminho e, dentro do salão de receção, perguntei pela Miss Barkley.

“Ela está de serviço.”

“Poderia vê-la por um momento?”

Enviaram um ordenança para verificar e ela voltou com ele.

“Parei para perguntar se estava melhor. Disseram-me que estava de serviço, por isso pedi para a ver.”

“Estou bastante bem”, disse ela, “acho que o calor me derrubou ontem.”

“Tenho de ir.”

“Vou sair um minuto.”

“E estás bem?”, perguntei lá fora.

“Sim, querido. Vens esta noite?”

“Não. Parto agora para uma operação lá em cima, perto de Plava.”

“Uma operação?”

“Não creio que seja nada.”

“E vais voltar?”

“Amanhã.”

Ela estava a desapertar algo do pescoço. Pôs-mo na mão. “É um Santo António”, disse ela. “E vem amanhã à noite.”

“Não és católica, pois não?”

“Não. Mas dizem que um Santo António é muito útil.”

“Vou cuidar dele por ti. Adeus.”

“Não”, disse ela, “não é adeus.”

“Está bem.”

“Sê um bom rapaz e tem cuidado. Não, não me podes beijar aqui. Não podes.”

“Está bem.”

Olhei para trás e vi-a de pé nos degraus. Ela acenou e eu beijei a minha mão e estendi-a. Ela acenou de novo e, depois, já estava fora do caminho, a subir para o banco da ambulância, e começámos a andar. O Santo António estava numa pequena cápsula de metal branco. Abri a cápsula e despejei-o na minha mão.

“Santo António?”, perguntou o motorista.

“Sim.”

“Eu tenho um.” A sua mão direita deixou o volante e abriu um botão da túnica, puxando-o debaixo da camisa.

“Vês?”

Coloquei o meu Santo António de volta na cápsula, juntei a corrente fina de ouro e pus tudo no bolso do peito.

“Não o usas?”

“Não.”

“É melhor usá-lo. É para isso que serve.”

“Está bem”, disse eu. Desapertei o fecho da corrente de ouro e coloquei-a ao pescoço, fechando-a. O santo ficou pendurado por fora do uniforme e eu desapertei a gola da túnica, desabotoei o colarinho da camisa e deixei-o cair para dentro, sob a camisa. Senti-o na sua caixa de metal contra o peito enquanto conduzíamos. Depois, esqueci-me dele. Depois de ter sido ferido, nunca mais o encontrei. Alguém provavelmente ficou com ele num dos postos de socorro.

Conduzimos depressa quando passámos a ponte e, em breve, vimos o pó dos outros carros à frente, na estrada. A estrada curvava e vimos os três carros a parecerem bastante pequenos, o pó a subir das rodas e a dispersar-se através das árvores. Alcançámo-los, passámo-los e virámos para uma estrada que subia para as colinas. Conduzir em comboio não é desagradável se fores o primeiro carro, e acomodei-me no banco e observei a paisagem. Estávamos nas colinas do lado próximo do rio e, à medida que a estrada subia, viam-se as altas montanhas a norte, ainda com neve nos cumes. Olhei para trás e vi os três carros a subir, espaçados pelo intervalo do seu pó. Passámos por uma longa coluna de mulas carregadas, com os condutores a caminhar ao lado das mulas, usando fez vermelhos. Eram bersaglieri.

Para lá da coluna de mulas, a estrada estava vazia e subimos pelas colinas, descendo depois pela encosta de uma longa colina para um vale fluvial. Havia árvores ao longo de ambos os lados da estrada e, através da linha de árvores à direita, vi o rio, com água límpida, rápida e pouco profunda. O rio estava baixo e havia extensões de areia e seixos com um canal estreito de água e, por vezes, a água espalhava-se como um brilho sobre o leito pedregoso. Perto da margem, vi poços profundos, a água azul como o céu. Vi pontes de pedra em arco sobre o rio, onde caminhos se desviavam da estrada, e passámos por quintas de pedra com pereiras em forma de candelabro contra as suas paredes a sul, e muros de pedra baixos nos campos. A estrada subiu o vale por um longo caminho e depois virámos e começámos a subir para as colinas novamente. A estrada subia íngreme, indo e voltando através de bosques de castanheiros para finalmente se nivelar ao longo de uma crista. Podia olhar para baixo, através dos bosques, e ver, muito abaixo, com o sol a incidir sobre ela, a linha do rio que separava os dois exércitos. Seguimos pela nova e rude estrada militar que seguia o cume da crista e olhei para norte, para as duas cordilheiras de montanhas, verdes e escuras até à linha da neve e, depois, brancas e encantadoras ao sol. Então, à medida que a estrada subia ao longo da crista, vi uma terceira cordilheira de montanhas, montanhas nevadas mais altas, que pareciam brancas como giz e sulcadas, com planos estranhos, e depois havia montanhas muito longe, para lá de todas estas, que mal se conseguia dizer se se viam mesmo. Aquelas eram todas as montanhas dos austríacos e nós não tínhamos nada parecido. À frente, havia uma curva arredondada na estrada para a direita e, olhando para baixo, podia ver a estrada a descer através das árvores. Havia tropas nesta estrada, camiões motorizados e mulas com canhões de montanha e, enquanto descíamos, mantendo-nos do lado, podia ver o rio muito lá em baixo, a linha de dormentes e carris a correr ao longo dele, a velha ponte onde o caminho de ferro atravessava para o outro lado e, do outro lado, sob uma colina para lá do rio, as casas destruídas da pequena cidade que devia ser tomada.

Estava quase escuro quando descemos e virámos para a estrada principal que corria ao lado do rio.

CAPÍTULO IX

A estrada estava lotada e havia telas de hastes de milho e esteiras de palha em ambos os lados, e esteiras por cima, de modo que parecia a entrada de um circo ou de uma aldeia nativa. Conduzimos lentamente neste túnel coberto de esteiras e saímos para um espaço aberto e vazio onde tinha sido a estação ferroviária. A estrada aqui ficava abaixo do nível da margem do rio e, ao longo de todo o lado da estrada rebaixada, havia buracos cavados na margem com infantaria dentro deles. O sol estava a pôr-se e, olhando para cima ao longo da margem enquanto conduzíamos, vi os balões de observação austríacos acima das colinas do outro lado, escuros contra o pôr do sol. Estacionámos os carros depois de uma fábrica de tijolos. Os fornos e alguns buracos profundos tinham sido equipados como postos de socorro. Havia três médicos que eu conhecia. Falei com o major e soube que, quando começasse e os nossos carros estivessem carregados, conduziríamo-los de volta pela estrada protegida e subiríamos para a estrada principal ao longo da crista, onde haveria um posto e outros carros para os despachar. Ele esperava que a estrada não ficasse bloqueada. Era uma operação de estrada única. A estrada estava protegida porque estava à vista dos austríacos do outro lado do rio. Aqui, na fábrica de tijolos, estávamos abrigados do fogo de espingarda ou de metralhadora pela margem do rio. Havia uma ponte destruída sobre o rio. Iam montar outra ponte quando o bombardeamento começasse e algumas tropas atravessariam nas zonas pouco profundas, mais acima, na curva do rio. O major era um homem pequeno com bigodes revirados para cima. Tinha estado na guerra na Líbia e usava duas faixas de ferido. Disse que, se a coisa corresse bem, garantiria que eu fosse condecorado. Disse que esperava que corresse bem, mas que ele era demasiado bondoso. Perguntei-lhe se havia um abrigo grande onde os motoristas pudessem ficar e ele enviou um soldado para me mostrar. Fui com ele e encontrei o abrigo, que era muito bom. Os motoristas ficaram satisfeitos com ele e deixei-os lá. O major pediu-me para beber um copo com ele e dois outros oficiais. Bebemos rum e foi muito amigável. Lá fora estava a escurecer. Perguntei a que horas seria o ataque e disseram que assim que escurecesse. Voltei para junto dos motoristas. Eles estavam sentados no abrigo a falar e, quando entrei, calaram-se. Dei a cada um um maço de cigarros, Macedonias, cigarros pouco compactados que deixavam cair o tabaco e precisavam que as pontas fossem torcidas antes de se fumarem. Manera acendeu o seu isqueiro e passou-o aos outros. O isqueiro tinha a forma de um radiador de Fiat. Contei-lhes o que tinha ouvido.

“Porque é que não vimos o posto quando descemos?”, perguntou Passini.

“Ficava logo a seguir ao local onde virámos.”

“Essa estrada vai ser uma porcaria”, disse Manera.

“Vão bombardear-nos até ao inferno.”

“Provavelmente.”

“E quanto à comida, tenente? Não teremos hipótese de comer depois de isto começar.”

“Vou ver agora”, disse eu.

“Quer que fiquemos aqui ou podemos dar uma volta?”

“Mais vale ficarem aqui.”

Voltei ao abrigo do major e ele disse que a cozinha de campanha viria e que os motoristas poderiam ir buscar o seu guisado. Ele emprestar-lhes-ia pratos de rancho se eles não tivessem. Disse que achava que eles os tinham. Voltei e disse aos motoristas que os levaria lá assim que a comida chegasse. Manera disse que esperava que chegasse antes de o bombardeamento começar. Eles ficaram em silêncio até eu sair. Eram todos mecânicos e odiavam a guerra.

Saí para ver os carros e ver o que se passava e depois voltei e sentei-me no abrigo com os quatro motoristas. Sentámo-nos no chão, com as costas contra a parede, e fumámos. Lá fora, estava quase escuro. A terra do abrigo era quente e seca e deixei os ombros recuarem contra a parede, sentado sobre a base das costas, e relaxei.

“Quem vai para o ataque?”, perguntou Gavuzzi.

“Bersaglieri.”

“Todos bersaglieri?”

“Penso que sim.”

“Não há tropas suficientes aqui para um ataque a sério.”

“É provavelmente para desviar a atenção de onde será o ataque real.”

“Os homens que atacam sabem disso?”

“Não creio.”

“Claro que não sabem”, disse Manera. “Não atacariam se soubessem.”

“Sim, atacariam”, disse Passini. “Os bersaglieri são tolos.”

“São corajosos e têm boa disciplina”, disse eu.

“Têm um peito largo por medida, e são saudáveis. Mas continuam a ser tolos.”

“Os granatieri são altos”, disse Manera. Isto era uma piada. Todos se riram.

“Estava lá, tenente, quando eles não quiseram atacar e fuzilaram um em cada dez?”

“Não.”

“É verdade. Alinharam-nos depois e levaram um em cada dez. Os carabinieri fuzilaram-nos.”

“Carabinieri”, disse Passini e cuspiu no chão. “Mas aqueles granadeiros; todos com mais de um metro e oitenta. Não quiseram atacar.”

“Se toda a gente não quisesse atacar, a guerra teria acabado”, disse Manera.

“Não foi assim com os granatieri. Eles tiveram medo. Os oficiais vinham todos de famílias tão boas.”

“Alguns dos oficiais foram sozinhos.”

“Um sargento fuzilou dois oficiais que não queriam sair.”

“Algumas tropas saíram.”

“Aqueles que saíram não foram alinhados quando levaram os décimos homens.”

“Um dos que foram fuzilados pelos carabinieri é da minha terra”, disse Passini. “Era um rapaz grande, esperto e alto para estar nos granatieri. Sempre em Roma. Sempre com as raparigas. Sempre com os carabinieri.” Ele riu-se. “Agora têm uma guarda à porta da casa dele com uma baioneta e ninguém pode ir ver a mãe, o pai e as irmãs, e o pai perde os direitos civis e não pode sequer votar. Estão todos sem lei que os proteja. Qualquer um pode tirar-lhes a propriedade.”

“Se não fosse por isso acontecer às famílias deles, ninguém iria ao ataque.”

“Sim. Os Alpini iriam. Estes soldados de V.E. iriam. Alguns bersaglieri.”

“Os bersaglieri também correram. Agora tentam esquecê-lo.”

“Não nos devia deixar falar assim, tenente. Evviva l’esercito”, disse Passini sarcasticamente.

“Sei como falam”, disse eu. “Mas, desde que conduzam os carros e se comportem...”

“—e não falem de modo a que outros oficiais possam ouvir”, completou Manera.

“Acredito que devíamos acabar com a guerra”, disse eu. “Não terminaria se um lado parasse de lutar. Só seria pior se parássemos de lutar.”

“Não podia ser pior”, disse Passini respeitosamente. “Não há nada pior do que a guerra.”

“A derrota é pior.”

“Não acredito nisso”, disse Passini, ainda respeitosamente. “O que é a derrota? Vais para casa.”

“Eles vêm atrás de ti. Levam a tua casa. Levam as tuas irmãs.”

“Não acredito nisso”, disse Passini. “Eles não podem fazer isso a toda a gente. Que toda a gente defenda a sua casa. Que mantenham as suas irmãs em casa.”

“Eles enforcam-te. Vêm e obrigam-te a ser soldado outra vez. Não na autoambulância, na infantaria.”

“Não podem enforcar toda a gente.”

“Uma nação estrangeira não te pode obrigar a ser soldado”, disse Manera. “Na primeira batalha, todos vocês correm.”

“Como os checos.”

“Acho que não sabem nada sobre ser conquistado e, por isso, pensam que não é mau.”

“Tenente”, disse Passini. “Nós entendemos que nos deixa falar. Ouça. Não há nada tão mau como a guerra. Nós, na autoambulância, não conseguimos sequer perceber o quão mau é. Quando as pessoas percebem o quão mau é, não podem fazer nada para a parar, porque ficam loucas. Há algumas pessoas que nunca percebem. Há pessoas que têm medo dos seus oficiais. É com elas que se faz a guerra.”

“Sei que é má, mas temos de a acabar.”

“Não acaba. Não há fim para uma guerra.”

“Sim, há.”

Passini abanou a cabeça.

“A guerra não se ganha com a vitória. E se tomarmos San Gabriele? E se tomarmos o Carso e Monfalcone e Trieste? Onde estamos então? Viu hoje todas as montanhas lá longe? Acha que poderíamos tomar todas essas também? Só se os austríacos pararem de lutar. Um lado tem de parar de lutar. Porque não paramos de lutar? Se eles descerem para Itália, hão de cansar-se e ir embora. Eles têm o seu próprio país. Mas não, em vez disso, há uma guerra.”

“És um orador.”

“Nós pensamos. Nós lemos. Não somos camponeses. Somos mecânicos. Mas até os camponeses sabem mais do que acreditar numa guerra. Toda a gente odeia esta guerra.”

“Há uma classe que controla um país que é estúpida e não percebe nada e nunca poderá perceber. É por isso que temos esta guerra.”

“Além disso, ganham dinheiro com ela.”

“A maioria deles não ganha”, disse Passini. “São demasiado estúpidos. Fazem-no por nada. Por estupidez.”

“Temos de nos calar”, disse Manera. “Falamos demasiado, até para o Tenente.”

“Ele gosta”, disse Passini. “Nós vamos convertê-lo.”

“Mas agora vamos calar-nos”, disse Manera.

“Já comemos, Tenente?”, perguntou Gavuzzi.

“Vou ver”, disse eu. Gordini levantou-se e saiu comigo.

“Há alguma coisa que eu possa fazer, Tenente? Posso ajudar de alguma forma?” Ele era o mais sossegado dos quatro. “Vem comigo se quiseres”, disse eu, “e veremos.”

Estava escuro lá fora e a luz comprida dos holofotes movia-se sobre as montanhas. Havia grandes holofotes naquela frente montados em camiões, que se cruzavam por vezes nas estradas à noite, perto da retaguarda das linhas, o camião parado um pouco fora da estrada, um oficial a dirigir a luz e a equipa assustada. Atravessámos o estaleiro de tijolos e parámos no posto de socorro principal. Havia um pequeno abrigo de ramos verdes lá fora, sobre a entrada, e no escuro o vento da noite fazia farfalhar as folhas secas pelo sol. Lá dentro havia uma luz. O major estava ao telefone, sentado numa caixa. Um dos capitães médicos disse que o ataque tinha sido adiantado uma hora. Ofereceu-me um copo de conhaque. Olhei para as mesas de tábuas, os instrumentos a brilhar na luz, as bacias e as garrafas tapadas. Gordini estava atrás de mim. O major levantou-se do telefone.

“Começa agora”, disse ele. “Foi adiado outra vez.”

Olhei para fora, estava escuro e os holofotes austríacos moviam-se nas montanhas atrás de nós. Estava calmo por um momento ainda, depois, de todas as armas atrás de nós, começou o bombardeamento.

“Savoia”, disse o major.

“Quanto à sopa, major”, disse eu. Ele não me ouviu. Repeti.

“Não chegou.”

Um grande projétil veio e rebentou lá fora no estaleiro de tijolos. Outro rebentou e, no ruído, podia ouvir-se o ruído mais pequeno dos tijolos e da terra a chover.

“O que há para comer?”

“Temos um pouco de pasta asciutta”, disse o major.

“Comerei o que me puder dar.”

O major falou com um ordenança que desapareceu de vista lá atrás e voltou com uma bacia de metal com macarrão cozido frio. Entreguei-a a Gordini.

“Tem algum queijo?”

O major falou de má vontade ao ordenança, que mergulhou de volta no buraco e saiu com um quarto de um queijo branco.

“Muito obrigado”, disse eu.

“É melhor não sair.”

Lá fora, algo foi pousado junto à entrada. Um dos dois homens que o tinham transportado espreitou.

“Tragam-no para dentro”, disse o major. “Que se passa convosco? Querem que saiamos para o ir buscar?”

Os dois maqueiros pegaram no homem pelos braços e pelas pernas e trouxeram-no para dentro.

“Cortem a túnica”, disse o major.

Segurava uma pinça com uma gaze na ponta. Os dois capitães tiraram os casacos. “Saiam daqui”, disse o major aos dois maqueiros.

“Vamos”, disse eu a Gordini.

“É melhor esperar que o bombardeamento acabe”, disse o major por cima do ombro.

“Eles querem comer”, disse eu.

“Como queira.”

Lá fora, corremos através do estaleiro de tijolos. Um projétil rebentou curto, perto da margem do rio. Depois houve um que não ouvimos vir até ao súbito silvo. Ambos nos estendemos no chão e, com o clarão e o impacto do rebentamento e o cheiro, ouvimos o assobio dos estilhaços e o matraquear dos tijolos a cair. Gordini levantou-se e correu para o abrigo. Fui atrás dele, segurando o queijo, a sua superfície lisa coberta de pó de tijolo. Dentro do abrigo estavam os três condutores sentados contra a parede, a fumar.

“Aqui têm, patriotas”, disse eu.

“Como estão os carros?”, perguntou Manera.

“Tudo bem.”

“Assustaram-no, Tenente?”

“Podes apostar que sim”, disse eu.

Tirei a faca, abri-a, limpei a lâmina e raspei a superfície suja do exterior do queijo. Gavuzzi entregou-me a bacia de macarrão.

“Comece a comer, Tenente.”

“Não”, disse eu. “Ponham-na no chão. Vamos todos comer.”

“Não há garfos.”

“Que se lixe”, disse eu em inglês.

Cortei o queijo em pedaços e coloquei-os sobre o macarrão.

“Sentem-se para comer”, disse eu. Eles sentaram-se e esperaram. Meti o polegar e os dedos no macarrão e levantei. Uma massa soltou-se.

“Levante bem alto, Tenente.”

Levantei-o até à extensão do braço e os fios soltaram-se. Baixei-o para a boca, suguei e cortei as pontas, mastiguei, depois dei uma dentada no queijo, mastiguei e depois um gole de vinho. Sabia a metal enferrujado. Devolvi o cantil a Passini.

“Está podre”, disse ele. “Está lá dentro há demasiado tempo. Tinha-o no carro.”

Comiam todos, mantendo os queixos próximos sobre a bacia, inclinando as cabeças para trás, sugando as pontas. Dei outra dentada e um pouco de queijo e um enxagúe de vinho. Algo aterrou lá fora que abalou a terra.

“Quatrocentos e vinte ou minenwerfer”, disse Gavuzzi.

“Não há quatrocentos e vinte nas montanhas”, disse eu.

“Têm grandes canhões Skoda. Já vi os buracos.”

“Trezentos e cinco.”

Continuámos a comer. Ouviu-se uma tosse, um ruído como uma locomotiva a arrancar e depois uma explosão que abalou a terra de novo.

“Este não é um abrigo profundo”, disse Passini.

“Aquilo foi um morteiro de trincheira grande.”

“Sim, senhor.”

Comi o resto do meu pedaço de queijo e dei um gole de vinho. Através do outro ruído ouvi uma tosse, depois veio o chuh-chuh-chuh-chuh — depois houve um clarão, como quando a porta de um alto-forno é aberta, e um rugido que começou branco e tornou-se vermelho e continuou e continuou num vento impetuoso. Tentei respirar, mas o fôlego não vinha e senti-me precipitar corporalmente para fora de mim mesmo, e para fora e para fora e para fora, e todo o tempo corporalmente no vento. Saí rapidamente, todo eu, e soube que estava morto e que tinha sido um erro pensar que se morre simplesmente. Depois flutuei e, em vez de seguir em frente, senti-me deslizar para trás. Respirei e estava de volta. O chão estava revolvido e à frente da minha cabeça havia uma trave de madeira estilhaçada. No solavanco da minha cabeça ouvi alguém a chorar. Pensei que alguém estava a gritar. Tentei mover-me, mas não conseguia. Ouvi as metralhadoras e as espingardas a disparar do outro lado do rio e ao longo de todo o rio. Houve um grande chapinhar e vi os rastos luminosos subir e rebentar e flutuar brancos e foguetes a subir e ouvi as bombas, tudo isto num momento, e depois ouvi perto de mim alguém a dizer “Mama Mia! Oh, mama Mia!” Puxei e contorci-me e soltei as pernas finalmente e virei-me e toquei-lhe. Era Passini e, quando lhe toquei, ele gritou. As suas pernas estavam viradas para mim e vi no escuro e na luz que ambas estavam esmagadas acima do joelho. Uma perna tinha desaparecido e a outra estava presa por tendões e parte das calças e o coto tremia e espasmava como se não estivesse ligado. Mordeu o braço e gemeu, “Oh mama mia, mama mia”, depois, “Dio te salve, Maria. Dio te salve, Maria. Oh Jesus mata-me Cristo mata-me mama mia mama mia oh puríssima e adorável Maria mata-me. Pára. Pára. Pára. Oh Jesus adorável Maria pára. Oh oh oh oh”, depois engasgando-se, “Mama mama mia”. Depois ficou quieto, a morder o braço, o coto da perna a tremer.

“Porta feriti!”, gritei, fazendo uma concha com as mãos. “Porta Feriti!” Tentei chegar mais perto de Passini para tentar pôr um torniquete nas pernas, mas não me conseguia mover. Tentei de novo e as minhas pernas moveram-se um pouco. Consegui puxar-me para trás com os braços e os cotovelos. Passini estava quieto agora. Sentei-me ao lado dele, desabotoei a minha túnica e tentei rasgar a bainha da camisa. Não rasgava e mordi a ponta do tecido para começar. Depois lembrei-me das suas perneiras. Eu usava meias de lã, mas Passini usava perneiras. Todos os condutores usavam perneiras, mas Passini só tinha uma perna. Desenrolei a perneira e, enquanto o fazia, vi que não era preciso tentar fazer um torniquete porque ele já estava morto. Certifiquei-me de que estava morto. Havia outros três para localizar. Sentei-me direito e, ao fazê-lo, algo dentro da minha cabeça moveu-se como os pesos nos olhos de uma boneca e atingiu-me por dentro, atrás dos globos oculares. As minhas pernas pareciam quentes e húmidas e os meus sapatos estavam húmidos e quentes por dentro. Soube que tinha sido atingido e inclinei-me e pus a mão no joelho. O meu joelho não estava lá. A minha mão entrou e o meu joelho estava caído sobre a tíbia. Limpei a mão na camisa e outra luz flutuante desceu muito lentamente e olhei para a minha perna e tive muito medo. Oh, Deus, disse eu, tira-me daqui. Sabia, contudo, que tinha havido outros três. Eram quatro condutores. Passini estava morto. Restavam três. Alguém agarrou-me debaixo dos braços e alguém levantou as minhas pernas.

“Há outros três”, disse eu. “Um está morto.”

“É o Manera. Fomos buscar uma maca, mas não havia nenhuma. Como está, Tenente?”

“Onde estão o Gordini e o Gavuzzi?”

“O Gordini está no posto a ser ligado. O Gavuzzi tem as suas pernas. Agarre-se ao meu pescoço, Tenente. Está gravemente ferido?”

“Na perna. Como está o Gordini?”

“Está bem. Foi um grande projétil de morteiro.”

“O Passini morreu.”

“Sim. Ele morreu.”

Um projétil caiu perto e ambos se atiraram ao chão e deixaram-me cair. “Desculpe, Tenente”, disse Manera. “Agarre-se ao meu pescoço.”

“Se me deixarem cair outra vez.”

“Foi porque estávamos com medo.”

“Estão feridos?”

“Estamos ambos um pouco feridos.”

“O Gordini consegue conduzir?”

“Não me parece.”

Deixaram-me cair mais uma vez antes de chegarmos ao posto.

“Seus filhos da mãe”, disse eu.

“Peço desculpa, Tenente”, disse Manera. “Não o voltaremos a deixar cair.”

Lá fora, no posto, muitos de nós jazíamos no chão no escuro. Levavam os feridos para dentro e traziam-nos para fora. Podia ver a luz sair do posto de socorro quando a cortina abria e traziam alguém para dentro ou para fora. Os mortos estavam de um lado. Os médicos trabalhavam com as mangas arregaçadas até aos ombros e estavam vermelhos como talhantes. Não havia macas suficientes. Alguns feridos faziam ruído, mas a maioria estava quieta. O vento soprava as folhas na latada sobre a porta do posto de socorro e a noite estava a ficar fria. Os maqueiros entravam a todo o momento, pousavam as macas, descarregavam-nas e iam-se embora. Assim que cheguei ao posto de socorro, Manera trouxe um sargento médico e ele pôs ligaduras nas minhas pernas. Disse que havia tanta terra empurrada para dentro da ferida que não tinha havido muita hemorragia. Levar-me-iam assim que possível. Ele voltou lá para dentro. O Gordini não podia conduzir, disse Manera. O ombro estava esmagado e a cabeça ferida. Ele não se sentia mal, mas agora o ombro tinha endurecido. Estava sentado ao lado de uma das paredes de tijolo. Manera e Gavuzzi partiram cada um com uma carga de feridos. Conseguiam conduzir bem. Os britânicos tinham vindo com três ambulâncias e tinham dois homens em cada ambulância. Um dos seus condutores veio ter comigo, trazido por Gordini, que parecia muito pálido e doente. O britânico inclinou-se.

“Está gravemente ferido?”, perguntou. Era um homem alto e usava óculos de armação de metal.

“Nas pernas.”

“Não é grave, espero. Quer um cigarro?”

“Obrigado.”

“Disseram-me que perdeu dois condutores.”

“Sim. Um morto e o rapaz que o trouxe.”

“Que azar terrível. Gostaria que levássemos os carros?”

“Era o que eu queria pedir-lhe.”

“Cuidaremos muito bem deles e devolvê-los-emos à Villa. 206, não é?”

“Sim.”

“É um sítio encantador. Já o vi por aí. Dizem-me que é americano.”

“Sim.”

“Sou inglês.”

“Não!”

“Sim, inglês. Pensava que era italiano? Havia alguns italianos com uma das nossas unidades.”

“Seria ótimo se pudesse levar os carros”, disse eu.

“Teremos o maior cuidado com eles”, ele endireitou-se. “Este seu rapaz estava muito ansioso por que eu o visse.” Ele deu uma palmada no ombro de Gordini. Gordini estremeceu e sorriu. O inglês começou a falar um italiano fluente e perfeito. “Agora está tudo arranjado. Já vi o seu Tenente. Vamos tratar dos dois carros. Não se preocupe agora.” Ele interrompeu-se: “Tenho de fazer alguma coisa para o tirar daqui. Vou falar com os tipos da medicina. Levamo-lo connosco.”

Caminhou até ao posto de socorro, pisando cuidadosamente entre os feridos. Vi o cobertor abrir-se, a luz saiu e ele entrou.

“Ele vai tratar de si, Tenente”, disse Gordini.

“Como estás, Franco?”

“Estou bem.” Ele sentou-se ao meu lado. Momentos depois, o cobertor à frente do posto de socorro abriu-se e dois maqueiros saíram, seguidos pelo inglês alto. Ele trouxe-os até mim.

“Aqui está o Tenente americano”, disse ele em italiano.

“Preferia esperar”, disse eu. “Há feridos muito piores do que eu. Estou bem.”

“Vamos, vamos”, disse ele. “Não se arme em herói.” Depois em italiano: “Levantem-no com muito cuidado pelas pernas. As pernas dele estão muito doloridas. Ele é o filho legítimo do Presidente Wilson.” Levantaram-me e levaram-me para a sala de curativos. Lá dentro operavam em todas as mesas. O pequeno major olhou para nós furioso. Reconheceu-me e acenou com uma pinça.

“Ça va bien?”

“Ça va.”

“Trouxe-o para dentro”, disse o inglês alto em italiano. “O único filho do Embaixador americano. Pode ficar aqui até estarem prontos para o levar. Depois levá-lo-ei na minha primeira carga.” Ele inclinou-se sobre mim. “Vou procurar o ajudante deles para tratar dos seus papéis e tudo será muito mais rápido.” Ele curvou-se para passar pela porta e saiu. O major estava a desengatar a pinça agora, deixando-a cair numa bacia. Segui as suas mãos com os olhos. Agora estava a fazer a ligadura. Depois os maqueiros tiraram o homem da mesa.

“Vou tratar do Tenente americano”, disse um dos capitães. Levantaram-me para a mesa. Era dura e escorregadia. Havia muitos cheiros fortes, cheiros químicos e o cheiro doce do sangue. Tiraram-me as calças e o capitão médico começou a ditar ao sargento-ajudante enquanto trabalhava: “Múltiplas feridas superficiais da coxa esquerda e direita e joelho esquerdo e direito e pé direito. Feridas profundas do joelho e pé direitos. Lacerações do couro cabeludo (ele sondou — Dói? — Cristo, sim!) com possível fratura do crânio. Ocorrido em serviço. É isso que evita que seja levado a conselho de guerra por ferimentos autoinfligidos”, disse ele. “Quer um gole de conhaque? Como é que se meteu nisto, afinal? O que é que estava a tentar fazer? Cometer suicídio? Antitetânica, por favor, e marque uma cruz em ambas as pernas. Obrigado. Vou limpar isto um pouco, lavar e fazer um penso. O seu sangue coagula maravilhosamente.”

O ajudante, levantando os olhos do papel: “O que causou as feridas?”

O capitão médico: “O que o atingiu?”

Eu, com os olhos fechados: “Um projétil de morteiro de trincheira.”

O capitão, fazendo coisas que doíam intensamente e cortando tecido: “Tem a certeza?”

Eu — tentando ficar quieto e sentindo o estômago revirar quando a carne era cortada: “Penso que sim.”

Capitão médico (interessado em algo que estava a encontrar): “Estilhaços de projétil de morteiro de trincheira inimigo. Agora vou sondar parte disto se quiser, mas não é necessário. Vou pintar tudo isto e — Isto arde? Ótimo, isso não é nada comparado com o que vai sentir mais tarde. A dor ainda não começou. Tragam-lhe um copo de conhaque. O choque amortece a dor; mas está tudo bem, não tem nada com que se preocupar se não infetar e raramente infeta agora. Como está a sua cabeça?”

“Grande Cristo!”, disse eu.

“É melhor não beber muito conhaque então. Se tiver uma fratura, não quer inflamação. Como se sente?”

O suor corria por todo o meu corpo.

“Grande Cristo!”, disse eu.

“Acho que tem uma fratura, sem dúvida. Vou ligá-lo e não balance a cabeça.” Ele fez a ligadura, as suas mãos moviam-se muito depressa e a ligadura ficava esticada e firme. “Tudo bem, boa sorte e Vive la France.”

“Ele é americano”, disse um dos outros capitães.

“Pensei que tivesse dito que era francês. Ele fala francês”, disse o capitão. “Já o conhecia. Sempre pensei que fosse francês.” Ele bebeu meio copo de conhaque. “Tragam algo sério. Arranjem mais dessa antitetânica.” O capitão acenou-me. Levantaram-me e a aba do cobertor passou-me pelo rosto enquanto saíamos. Lá fora, o sargento-ajudante ajoelhou-se ao meu lado onde eu jazia. “Nome?”, perguntou suavemente. “Nome do meio? Primeiro nome? Patente? Onde nasceu? Qual a classe? Qual o corpo?”, e por aí adiante. “Lamento a sua cabeça, Tenente. Espero que se sinta melhor. Estou a enviá-lo agora com a ambulância inglesa.”

“Estou bem”, disse eu. “Muito obrigado.” A dor de que o major tinha falado tinha começado e tudo o que estava a acontecer era sem interesse ou relação. Depois de algum tempo, a ambulância inglesa chegou e puseram-me numa maca e levantaram a maca até ao nível da ambulância e empurraram-na. Havia outra maca ao lado com um homem nela cujo nariz eu conseguia ver, com aspeto de cera, por entre as ligaduras. Respirava muito pesadamente. Havia macas a ser levantadas e deslizadas para as correias acima. O condutor inglês alto veio ao redor e espreitou. “Vou conduzir muito suavemente”, disse ele. “Espero que fique confortável.” Senti o motor arrancar, senti-o subir para o banco da frente, senti o travão soltar-se e a embraiagem entrar, depois arrancámos. Fiquei quieto e deixei a dor seguir o seu curso.

À medida que a ambulância subia a estrada, era lenta no trânsito, por vezes parava, por vezes fazia marcha-atrás numa curva, depois, finalmente, subiu bastante depressa. Senti algo a pingar. A princípio pingava lenta e regularmente, depois começou a cair em fios. Gritei pelo condutor. Ele parou o carro e espreitou pelo buraco atrás do seu banco.

“O que é?”

“O homem na maca por cima de mim tem uma hemorragia.”

“Não estamos longe do topo. Não conseguiria tirar a maca sozinho.” Ele arrancou com o carro. O fio continuou. No escuro, não conseguia ver de onde vinha a partir da lona por cima. Tentei mover-me para o lado para que não caísse sobre mim. Onde tinha escorrido por baixo da minha camisa estava quente e pegajoso. Eu estava com frio e a minha perna doía de modo a dar-me náuseas. Passado algum tempo, o fio da maca de cima diminuiu e começou a pingar de novo e ouvi e senti a lona acima mover-se à medida que o homem na maca se ajeitava mais confortavelmente.

“Como está ele?”, perguntou o inglês lá de trás. “Estamos quase a chegar ao topo.”

“Ele morreu, acho eu”, disse eu.

Os pingos caíam muito lentamente, como caem de um pingente de gelo depois de o sol se pôr. Estava frio no carro durante a noite à medida que a estrada subia. No posto, no topo, tiraram a maca e puseram outra e seguimos em frente.

Na enfermaria do hospital de campanha, disseram-me que um visitante viria ver-me à tarde. Estava um dia quente e havia muitas moscas no quarto. O meu enfermeiro cortara papel em tiras e atara-as a uma vara para fazer um espanador que afastava as moscas. Observei-as a pousar no teto. Quando ele parou de abanar e adormeceu, elas desceram e eu espantei-as e, por fim, cobri a cara com as mãos e adormeci também. Estava muito calor e, quando acordei, as minhas pernas davam comichão. Acordei o enfermeiro e ele deitou água mineral nas ligaduras. Isso deixou a cama húmida e fresca. Aqueles de nós que estavam acordados conversavam de um lado para o outro da enfermaria. A tarde era um período calmo. De manhã, vinham a cada cama, um a um, três enfermeiros e um médico, levantavam-nos da cama e levavam-nos para a sala de curativos, para que as camas pudessem ser feitas enquanto tratavam dos nossos ferimentos. Não era uma viagem agradável até à sala de curativos e eu não sabia, até mais tarde, que as camas podiam ser feitas com os homens nelas. O meu enfermeiro tinha acabado de deitar a água e a cama estava fresca e maravilhosa, e eu estava a dizer-lhe onde coçar as solas dos meus pés por causa da comichão, quando um dos médicos trouxe o Rinaldi. Ele entrou muito depressa, inclinou-se sobre a cama e beijou-me. Vi que usava luvas.

“Como estás, bebé? Como te sentes? Trouxe-te isto...” Era uma garrafa de conhaque. O enfermeiro trouxe uma cadeira e ele sentou-se, “e boas notícias. Vais ser condecorado. Eles querem dar-te a medaglia d’argento, mas talvez só consigam a de bronze.”

“Porquê?”

“Porque estás gravemente ferido. Dizem que, se conseguires provar que fizeste algum ato heroico, podes ganhar a de prata. Caso contrário, será a de bronze. Conta-me exatamente o que aconteceu. Fizeste algum ato heroico?”

“Não,” disse eu. “Fui pelos ares enquanto comíamos queijo.”

“Sê sério. Deves ter feito algo heroico, antes ou depois. Lembra-te bem.”

“Não fiz.”

“Não carregaste ninguém às costas? O Gordini diz que carregaste várias pessoas às costas, mas o major médico do primeiro posto declara que é impossível. Ele tem de assinar a proposta para o louvor.”

“Não carreguei ninguém. Não conseguia mexer-me.”

“Isso não importa,” disse Rinaldi.

Ele tirou as luvas.

“Acho que podemos arranjar-te a de prata. Não te recusaste a ser socorrido antes dos outros?”

“Não muito firmemente.”

“Isso não importa. Olha como estás ferido. Olha para a tua conduta valorosa ao pedires sempre para ir para a primeira linha. Além disso, a operação foi um sucesso.”

“Atravessaram o rio bem?”

“Enormemente. Fizeram quase mil prisioneiros. Está no boletim. Não viste?”

“Não.”

“Vou trazer-to. É um golpe de mão bem-sucedido.”

“Como está tudo?”

“Esplêndido. Estamos todos esplêndidos. Toda a gente está orgulhosa de ti. Conta-me exatamente como aconteceu. Estou convencido de que vais ganhar a de prata. Vá lá, conta-me. Conta-me tudo sobre isso.” Ele fez uma pausa e pensou. “Talvez ganhes também uma medalha inglesa. Estava lá um inglês. Vou vê-lo e perguntar se ele te recomenda. Ele deve conseguir fazer alguma coisa. Sofres muito? Bebe um pouco. Enfermeiro, vai buscar um saca-rolhas. Oh, devias ver o que fiz na remoção de três metros de intestino delgado, e está melhor do que nunca. É um caso para a The Lancet. Fazes-me uma tradução e eu envio-a para a The Lancet. Cada dia estou melhor. Pobrezinho, como te sentes? Onde está esse maldito saca-rolhas? És tão corajoso e calmo que me esqueço de que estás a sofrer.” Ele bateu com as luvas na beira da cama.

“Aqui está o saca-rolhas, Signor Tenente,” disse o enfermeiro.

“Abre a garrafa. Traz um copo. Bebe isso, bebé. Como está a tua pobre cabeça? Vi os teus papéis. Não tens nenhuma fratura. Aquele major do primeiro posto era um talhante. Eu tratar-te-ia e nunca te magoaria. Nunca magoo ninguém. Aprendo a fazê-lo. Todos os dias aprendo a fazer as coisas com mais suavidade e melhor. Tens de me desculpar por falar tanto, bebé. Sinto-me muito comovido por te ver gravemente ferido. Pronto, bebe isso. É bom. Custou quinze liras. Tem de ser bom. Cinco estrelas. Depois de sair daqui, vou ver esse inglês e ele arranjar-te-á uma medalha inglesa.”

“Eles não as dão assim.”

“És tão modesto. Vou enviar o oficial de ligação. Ele sabe lidar com os ingleses.”

“Viste a Miss Barkley?”

“Vou trazê-la aqui. Vou agora e trazê-la aqui.”

“Não vás,” disse eu. “Conta-me sobre Gorizia. Como estão as raparigas?”

“Não há raparigas. Há duas semanas que não as mudam. Já não vou lá. É uma vergonha. Não são raparigas; são velhas camaradas de guerra.”

“Não vais de todo?”

“Vou só para ver se há alguma novidade. Passo por lá. Perguntam todas por ti. É uma vergonha que fiquem tanto tempo a ponto de se tornarem amigas.”

“Talvez as raparigas já não queiram ir para a frente.”

“Claro que querem. Têm raparigas que chegue. É apenas má administração. Estão a guardá-las para o prazer dos que se escondem nas trincheiras, na retaguarda.”

“Pobre Rinaldi,” disse eu. “Sozinho na guerra, sem raparigas novas.”

Rinaldi serviu-se de outro copo de conhaque.

“Não creio que te faça mal, bebé. Bebe.”

Bebi o conhaque e senti-o aquecer-me por todo o caminho até lá abaixo. Rinaldi serviu outro copo. Estava mais calmo agora. Ergueu o copo. “Às tuas feridas valorosas. À medalha de prata. Diz-me, bebé, quando estás aqui deitado o tempo todo neste calor, não ficas excitado?”

“Às vezes.”

“Não consigo imaginar estar deitado assim. Eu ficaria louco.”

“Tu és louco.”

“Gostava que tivesses voltado. Ninguém para chegar à noite vindo de aventuras. Ninguém para gozar. Ninguém para me emprestar dinheiro. Sem irmão de sangue e companheiro de quarto. Por que te deixaste ferir?”

“Podes gozar com o padre.”

“Aquele padre. Não sou eu que gozo com ele. É o capitão. Eu gosto dele. Se é preciso ter um padre, que seja esse. Ele vem visitar-te. Está a fazer grandes preparativos.”

“Eu gosto dele.”

“Oh, eu sabia. Às vezes penso que tu e ele são um pouco assim. Sabes.”

“Não, não és.”

“Sim, às vezes sou. Um pouco assim, como o número do primeiro regimento da Brigata Ancona.”

“Oh, vai para o diabo.”

Ele levantou-se e pôs as luvas.

“Oh, adoro provocar-te, bebé. Com o teu padre e a tua rapariga inglesa, e, no fundo, és exatamente como eu.”

“Não, não sou.”

“Sim, somos. Tu és, na verdade, um italiano. Tudo fogo e fumo e nada por dentro. Só finges ser americano. Somos irmãos e amamo-nos.”

“Comporta-te bem enquanto estiver fora,” disse eu.

“Vou enviar a Miss Barkley. Estás melhor com ela do que comigo. És mais puro e mais doce.”

“Oh, vai para o diabo.”

“Vou enviá-la. A tua adorável deusa fresca. Deusa inglesa. Meu Deus, o que faria um homem com uma mulher daquelas, a não ser adorá-la? Para que serve uma inglesa?”

“Tu és um dago ignorante e de boca suja.”

“Um quê?”

“Um wop ignorante.”

“Wop. Tu és um... wop de cara gelada.”

“Tu és ignorante. Estúpido.” Vi que aquela palavra o picou e continuei. “Mal informado. Inexperiente, estúpido por inexperiência.”

“A sério? Vou contar-te algo sobre as tuas boas mulheres. As tuas deusas. Só há uma diferença entre ter uma rapariga que sempre foi boa e uma mulher. Com uma rapariga é doloroso. É só o que sei.” Ele bateu na cama com a luva. “E nunca sabes se a rapariga vai realmente gostar.”

“Não te zangues.”

“Não estou zangado. Só te digo, bebé, para teu próprio bem. Para te poupar problemas.”

“É essa a única diferença?”

“Sim. Mas milhões de tolos como tu não o sabem.”

“Foste doce ao dizer-me.”

“Não vamos discutir, bebé. Amo-te demasiado. Mas não sejas tolo.”

“Não. Serei sábio como tu.”

“Não te zangues, bebé. Ri. Bebe um pouco. Tenho de ir, a sério.”

“És um bom rapaz.”

“Vês? No fundo somos iguais. Somos irmãos de guerra. Beija-me para dizer adeus.”

“Tu és meloso.”

“Não. Sou apenas mais afetuoso.”

Senti o hálito dele vir na minha direção. “Adeus. Venho visitar-te novamente em breve.” O hálito dele afastou-se. “Não te beijo se não quiseres. Vou enviar a tua rapariga inglesa. Adeus, bebé. O conhaque está debaixo da cama. Melhora depressa.”

Ele tinha ido embora.

CAPÍTULO XI

Estava a escurecer quando o padre veio. Tinham trazido a sopa e, depois, levado as tigelas, e eu estava deitado, a olhar para as filas de camas e pela janela para a copa da árvore que se movia um pouco na brisa da tarde. A brisa entrava pela janela e estava mais fresco com a noite. As moscas estavam agora no teto e nas lâmpadas elétricas que pendiam de fios. As luzes só eram acesas quando alguém era trazido à noite ou quando algo estava a ser feito. Fazia-me sentir muito novo que a escuridão viesse depois do crepúsculo e depois permanecesse. Era como ser posto na cama depois de uma ceia cedo. O enfermeiro passou entre as camas e parou. Alguém estava com ele. Era o padre. Ele estava ali parado, pequeno, de rosto moreno e embaraçado.

“Como vai?” perguntou ele. Pousou alguns pacotes junto à cama, no chão.

“Tudo bem, padre.”

Ele sentou-se na cadeira que tinha sido trazida para o Rinaldi e olhou pela janela, embaraçado. Reparei que o seu rosto parecia muito cansado.

“Só posso ficar um minuto,” disse ele. “É tarde.”

“Não é tarde. Como está a messe?”

Ele sorriu. “Continuo a ser uma grande piada,” ele parecia cansado também. “Graças a Deus que estão todos bem.”

“Fico tão contente por estarem todos bem,” disse ele. “Espero que não sofra.” Ele parecia muito cansado e eu não estava habituado a vê-lo cansado.

“Já não.”

“Sinto a sua falta na messe.”

“Gostaria de lá estar. Sempre gostei das nossas conversas.”

“Trouxe-lhe algumas coisinhas,” disse ele. Pegou nos pacotes. “Isto é rede mosquiteira. Isto é uma garrafa de vermute. Gosta de vermute? Estes são jornais ingleses.”

“Por favor, abra-os.”

Ele ficou contente e desfez os embrulhos. Segurei a rede mosquiteira nas mãos. O vermute, ele ergueu-o para eu ver e depois colocou-o no chão ao lado da cama. Ergui um dos exemplares da pilha de jornais ingleses. Podia ler as manchetes virando-o de modo a que a meia-luz da janela incidisse sobre ele. Era o News of the World.

“Os outros são ilustrados,” disse ele.

“Será uma grande felicidade lê-los. Onde os arranjou?”

“Mandei vir de Mestre. Terei mais.”

“Foi muito bom ter vindo, padre. Bebe um copo de vermute?”

“Obrigado. Fique com ele. É para si.”

“Não, beba um copo.”

“Está bem. Então trarei mais.”

O enfermeiro trouxe os copos e abriu a garrafa. Partiu a rolha e a ponta teve de ser empurrada para dentro da garrafa. Pude ver que o padre ficou desapontado, mas disse: “Não faz mal. Não tem importância.”

“À sua saúde, padre.”

“À sua melhor saúde.”

Depois, ele segurou o copo na mão e olhámo-nos um ao outro. Às vezes conversávamos e éramos bons amigos, mas esta noite era difícil.

“O que se passa, padre? Parece muito cansado.”

“Estou cansado, mas não tenho o direito de o estar.”

“É o calor.”

“Não. É apenas a Primavera. Sinto-me muito em baixo.”

“Tem o nojo da guerra.”

“Não. Mas odeio a guerra.”

“Eu não a aprecio,” disse eu. Ele abanou a cabeça e olhou pela janela.

“O senhor não se importa. Não a vê. Tem de me perdoar. Sei que está ferido.”

“Isso é um acidente.”

“Ainda assim, mesmo ferido, o senhor não a vê. Eu percebo. Eu próprio não a vejo, mas sinto-a um pouco.”

“Quando fui ferido, falávamos sobre isso. Passini falava.”

O padre pousou o copo. Ele estava a pensar noutra coisa.

“Eu conheço-os porque sou como eles são,” disse ele.

“O senhor é diferente, no entanto.”

“Mas, na verdade, sou como eles são.”

“Os oficiais não veem nada.”

“Alguns veem. Alguns são muito delicados e sentem-se pior do que qualquer um de nós.”

“Eles são, em sua maioria, diferentes.”

“Não é a educação ou o dinheiro. É outra coisa. Mesmo que tivessem educação ou dinheiro, homens como o Passini não desejariam ser oficiais. Eu não seria um oficial.”

“O senhor tem a patente de oficial. Eu sou oficial.”

“Não sou, na verdade. O senhor nem sequer é italiano. É um estrangeiro. Mas está mais próximo dos oficiais do que dos homens.”

“Qual é a diferença?”

“Não consigo dizê-lo facilmente. Há pessoas que fariam a guerra. Neste país, há muitos assim. Há outras pessoas que não fariam a guerra.”

“Mas os primeiros obrigam-nos a fazê-la.”

“Sim.”

“E eu ajudo-os.”

“O senhor é um estrangeiro. É um patriota.”

“E os que não fariam a guerra? Podem impedi-la?”

“Não sei.”

Ele olhou novamente pela janela. Observei o seu rosto.

“Alguma vez foram capazes de a impedir?”

“Não estão organizados para impedir as coisas e, quando se organizam, os seus líderes vendem-nos.”

“Então não há esperança?”

“Nunca é desesperado. Mas, às vezes, não consigo ter esperança. Tento sempre ter esperança, mas, às vezes, não consigo.”

“Talvez a guerra acabe.”

“Espero que sim.”

“O que fará então?”

“Se for possível, voltarei aos Abruzzi.”

O seu rosto moreno estava subitamente muito feliz.

“O senhor ama os Abruzzi!”

“Sim, amo-os muito.”

“Devia ir para lá, então.”

“Seria demasiado feliz. Se pudesse viver lá, amar a Deus e servi-Lo.”

“E ser respeitado,” disse eu.

“Sim, e ser respeitado. Por que não?”

“Não há razão para não o ser. O senhor deve ser respeitado.”

“Isso não importa. Mas lá, no meu país, entende-se que um homem pode amar a Deus. Não é uma piada suja.”

“Eu entendo.”

Ele olhou para mim e sorriu.

“O senhor entende, mas não ama a Deus.”

“Não.”

“Não O ama de todo?” perguntou ele.

“Às vezes tenho medo d’Ele durante a noite.”

“Deveria amá-Lo.”

“Eu não amo muito.”

“Sim,” disse ele. “O senhor ama. O que me conta sobre as noites. Isso não é amor. Isso é apenas paixão e luxúria. Quando se ama, deseja-se fazer coisas por. Deseja-se sacrificar por. Deseja-se servir.”

“Eu não amo.”

“Há de amar. Sei que há de amar. Então será feliz.”

“Eu sou feliz. Sempre fui feliz.”

“É outra coisa. O senhor não pode saber sobre isso a menos que o tenha.”

“Bem,” disse eu. “Se algum dia o tiver, eu conto-lhe.”

“Fico demasiado tempo e falo demasiado.” Ele estava preocupado por estar realmente a fazê-lo.

“Não. Não vá. E o amor pelas mulheres? Se eu amasse realmente alguma mulher, seria assim?”

“Não sei sobre isso. Nunca amei nenhuma mulher.”

“E a sua mãe?”

“Sim, devo ter amado a minha mãe.”

“Sempre amou a Deus?”

“Desde que era um rapazinho.”

“Bem,” disse eu. Não sabia o que dizer. “O senhor é um bom rapaz,” disse eu.

“Sou um rapaz,” disse ele. “Mas o senhor chama-me padre.”

“Isso é cortesia.”

Ele sorriu.

“Tenho de ir, a sério,” disse ele. “Não precisa de mim para nada?” perguntou ele, esperançoso.

“Não. Só para conversar.”

“Levarei as suas saudações à messe.”

“Obrigado pelos muitos presentes maravilhosos.”

“Não é nada.”

“Venha ver-me de novo.”

“Sim. Adeus,” ele deu um toque na minha mão.

“Até logo,” disse eu em dialeto.

“Ciaou,” repetiu ele.

Estava escuro no quarto e o enfermeiro, que se sentara ao fundo da cama, levantou-se e saiu com ele. Gostava muito dele e esperava que ele conseguisse voltar aos Abruzzi algum dia. Ele tinha uma vida miserável na messe e era impecável quanto a isso, mas pensava em como ele seria no seu próprio país. Em Capracotta, tinha-me ele contado, havia trutas no riacho abaixo da cidade. Era proibido tocar flauta à noite. Quando os jovens faziam serenatas, apenas a flauta era proibida. Porquê, tinha eu perguntado. Porque era mau para as raparigas ouvir a flauta à noite. Os camponeses chamavam-lhe todos “Don” e, quando o encontravam, tiravam os chapéus. O pai dele caçava todos os dias e parava para comer nas casas dos camponeses. Eram sempre honrados. Para um estrangeiro caçar, tinha de apresentar um certificado de que nunca tinha sido preso. Havia ursos no Gran Sasso d’Italia, mas era longe. Aquila era uma cidade bonita. Era fresco no verão, à noite, e a primavera nos Abruzzi era a mais bela de Itália. Mas o que era maravilhoso era o outono, ir caçar pelos bosques de castanheiros. Os pássaros eram todos bons porque se alimentavam de uvas e nunca se levava almoço, porque os camponeses sentiam-se sempre honrados se o senhor comesse com eles nas suas casas. Depois de algum tempo, adormeci.

CAPÍTULO XII

O quarto era comprido, com janelas do lado direito e uma porta no fundo que dava para a sala de curativos. A fila de camas em que a minha estava dava para as janelas e outra fila, debaixo das janelas, dava para a parede. Se o senhor se deitasse sobre o lado esquerdo, podia ver a porta da sala de curativos. Havia outra porta no fundo por onde as pessoas entravam, por vezes. Se alguém estivesse a morrer, punham um biombo à volta da cama para que não se pudesse vê-los morrer, mas apenas os sapatos e as polainas dos médicos e enfermeiros apareciam por baixo da parte inferior do biombo e, por vezes, no fim, ouvia-se um sussurro. Depois, o padre saía de trás do biombo e, depois, os enfermeiros voltavam para trás do biombo para sair de novo, carregando o que estava morto com um cobertor sobre ele pelo corredor entre as camas e alguém dobrava o biombo e levava-o embora.

Naquela manhã, o major responsável pela enfermaria perguntou-me se eu sentia que poderia viajar no dia seguinte. Disse que sim. Ele disse que então enviar-me-iam de manhã cedo. Disse que eu estaria melhor se fizesse a viagem agora antes que ficasse muito calor.

Quando nos levantavam da cama para nos levar para a sala de curativos, podíamos olhar pela janela e ver as campas novas no jardim. Um soldado sentava-se fora da porta que dava para o jardim, fazendo cruzes e pintando nelas os nomes, a patente e o regimento dos homens que estavam enterrados no jardim. Ele também fazia recados para a enfermaria e, no seu tempo livre, fez-me um isqueiro com um cartucho vazio de espingarda austríaca. Os médicos eram muito simpáticos e pareciam muito competentes. Estavam ansiosos por enviar-me para Milão, onde havia melhores instalações de raio-X e onde, depois da operação, eu poderia fazer mecanoterapia. Eu queria ir para Milão também. Eles queriam tirar-nos a todos e levar-nos para o mais longe possível porque todas as camas eram precisas para a ofensiva, quando esta começasse.

Na noite anterior à minha partida do hospital de campanha, Rinaldi veio ver-me com o major da nossa messe. Disseram-me que eu iria para um hospital americano em Milão que acabara de ser instalado. Algumas unidades de ambulâncias americanas iriam ser enviadas e este hospital trataria delas e de quaisquer outros americanos ao serviço em Itália. Havia muitos na Cruz Vermelha. Os Estados Unidos tinham declarado guerra à Alemanha, mas não à Áustria.

Os italianos tinham a certeza de que a América também declararia guerra à Áustria e estavam muito entusiasmados com a chegada de americanos, até mesmo da Cruz Vermelha. Perguntaram-me se eu achava que o Presidente Wilson declararia guerra à Áustria e eu disse que era apenas uma questão de dias. Não sabia o que tínhamos contra a Áustria, mas parecia lógico que lhes declarássemos guerra se o tínhamos feito à Alemanha. Perguntaram-me se declararíamos guerra à Turquia. Disse que isso era duvidoso. A Turquia, disse eu, era a nossa ave nacional, mas a piada traduziu-se tão mal e eles ficaram tão perplexos e desconfiados que disse que sim, provavelmente declararíamos guerra à Turquia. E à Bulgária? Tínhamos bebido vários copos de brandy e eu disse que sim, por Deus, à Bulgária também e ao Japão. Mas, disseram eles, o Japão é um aliado da Inglaterra. Não se pode confiar nos malditos ingleses. Os japoneses querem o Havai, disse eu. Onde fica o Havai? Fica no Oceano Pacífico. Porque é que os japoneses o querem? Eles não o querem realmente, disse eu. Isso é tudo conversa. Os japoneses são um povo pequeno e maravilhoso, apreciador de dança e vinhos leves. Como os franceses, disse o major. Vamos tirar Nice e Saboia aos franceses. Vamos ficar com a Córsega e toda a linha costeira do Adriático, disse Rinaldi. A Itália regressará aos esplendores de Roma, disse o major. Não gosto de Roma, disse eu. É quente e cheia de pulgas. Não gostas de Roma? Sim, adoro Roma. Roma é a mãe das nações. Nunca me esquecerei de Rómulo a ser amamentado pelo Tibre. O quê? Nada. Vamos todos para Roma. Vamos para Roma esta noite e nunca mais voltemos. Roma é uma cidade bela, disse o major. A mãe e o pai das nações, disse eu. Roma é feminino, disse Rinaldi. Não pode ser o pai. Quem é o pai, então, o Espírito Santo? Não blasfemes. Não estava a blasfemar, estava a pedir informações. Estás bêbado, meu querido. Quem me embebedou? Fui eu que te embebedei, disse o major. Embebedei-te porque gosto de ti e porque a América está na guerra. Até ao cabo, disse eu. Vais embora de manhã, meu querido, disse Rinaldi. Para Roma, disse eu. Não, para Milão. Para Milão, disse o major, para o Crystal Palace, para o Cova, para o Campari’s, para o Biffi’s, para a galeria. Que rapaz sortudo. Para o Gran Italia, disse eu, onde pedirei dinheiro emprestado ao George. Para o Scala, disse Rinaldi. Irás ao Scala. Todas as noites, disse eu. Não poderás pagar todas as noites, disse o major.

Os bilhetes são muito caros. Farei uma letra de câmbio à vista sobre o meu avô, disse eu. Uma o quê? Uma letra de câmbio à vista. Ele tem de pagar ou eu vou para a cadeia. O Sr. Cunningham, no banco, trata disso. Vivo de letras de câmbio à vista. Pode um avô meter na cadeia um neto patriota que está a morrer para que a Itália viva? Viva o Garibaldi americano, disse Rinaldi. Vivam as letras de câmbio à vista, disse eu. Devemos estar calados, disse o major. Já nos pediram muitas vezes para estarmos calados. Vais mesmo amanhã, Federico? Ele vai para o hospital americano, digo-te eu, disse Rinaldi. Para as enfermeiras bonitas. Não as enfermeiras com barbas do hospital de campanha. Sim, sim, disse o major, sei que ele vai para o hospital americano. Não me importo com as barbas delas, disse eu. Se algum homem quer deixar crescer uma barba, que a deixe. Porque não deixa crescer uma barba, Signor Maggiore? Não caberia numa máscara de gás. Caberia, sim. Tudo cabe numa máscara de gás. Eu já vomitei para dentro de uma máscara de gás. Não sejas tão ruidoso, meu querido, disse Rinaldi. Todos sabemos que estiveste na frente. Oh, meu querido, que farei eu enquanto estiveres fora? Temos de ir, disse o major. Isto está a tornar-se sentimental. Ouve, tenho uma surpresa para ti. A tua inglesa. Sabes? A inglesa que vais ver todas as noites ao hospital delas? Ela também vai para Milão. Vai com outra para estar no hospital americano. Ainda não tinham enfermeiras da América. Falei hoje com a responsável do seu riparto. Têm demasiadas mulheres aqui na frente. Vão mandar algumas para trás. O que achas disso, meu querido? Muito bem. Sim? Vais viver numa cidade grande e ter a tua inglesa lá para te mimar. Porque é que eu não sou ferido? Talvez sejas, disse eu. Temos de ir, disse o major. Bebemos e fazemos barulho e perturbamos o Federico. Não vão. Sim, temos de ir. Adeus. Boa sorte. Muitas felicidades. Ciaou. Ciaou. Ciaou. Volta depressa, meu querido. Rinaldi beijou-me. Cheiras a lisol. Adeus, meu querido. Adeus. Muitas felicidades. O major deu-me palmadinhas no ombro. Saíram em bicos de pés. Descobri que estava bastante bêbado, mas adormeci.

No dia seguinte, de manhã, partimos para Milão e chegámos quarenta e oito horas depois. Foi uma viagem má. Ficámos parados num desvio durante muito tempo antes de Mestre e crianças vinham espreitar. Consegui que um rapazinho fosse buscar uma garrafa de conhaque, mas ele voltou e disse que só conseguia arranjar grappa. Disse-lhe para a trazer e, quando veio, dei-lhe o troco; o homem ao meu lado e eu embebedámo-nos e dormimos até depois de Vicenza, onde acordei e vomitei muito no chão. Não importava, porque o homem daquele lado já tinha vomitado muito no chão várias vezes antes. Depois, pensei que não aguentaria a sede e, nas estações de manobras fora de Verona, chamei um soldado que andava de um lado para o outro ao lado do comboio e ele arranjou-me um pouco de água. Acordei o Georgetti, o outro rapaz que estava bêbado, e ofereci-lhe um pouco de água. Ele disse para a despejar sobre o seu ombro e voltou a dormir. O soldado não quis aceitar a moeda que lhe ofereci e trouxe-me uma laranja polposa. Chupei-a, cuspi o bagaço e observei o soldado a passar de um lado para o outro junto a um vagão de mercadorias lá fora e, passado algum tempo, o comboio deu um solavanco e arrancou.

LIVRO II

CAPÍTULO XIII

Chegámos a Milão de manhã cedo e descarregaram-nos no pátio de mercadorias. Uma ambulância levou-me para o hospital americano. Viajando na ambulância numa maca, não conseguia dizer por que parte da cidade estávamos a passar, mas quando descarregaram a maca vi um mercado e uma loja de vinhos aberta com uma rapariga a varrer. Estavam a regar a rua e cheirava a manhã cedo. Puseram a maca no chão e entraram. O porteiro saiu com eles. Tinha bigodes cinzentos, usava um boné de porteiro e estava de mangas de camisa. A maca não passava no elevador e eles discutiram se seria melhor tirar-me da maca e subir no elevador ou levar a maca pelas escadas. Ouvi-os a discutir. Decidiram pelo elevador. Levantaram-me da maca. “Com cuidado”, disse eu. “Levem-me suavemente.”

No elevador estávamos apertados e, como as minhas pernas estavam dobradas, a dor era muito forte. “Estiquem as pernas”, disse eu.

“Não podemos, Signor Tenente. Não há espaço.” O homem que disse isto tinha o braço à minha volta e o meu braço estava à volta do pescoço dele. O seu hálito vinha contra a minha cara, metálico, com cheiro a alho e vinho tinto.

“Sejam gentis”, disse o outro homem.

“Filho da puta quem não for gentil!”

“Sejam gentis, digo eu”, repetiu o homem que segurava os meus pés.

Vi as portas do elevador fecharem-se, a grade fechada e o botão do quarto andar premido pelo porteiro. O porteiro parecia preocupado. O elevador subiu lentamente.

“Pesa?”, perguntei ao homem com o cheiro a alho.

“Nada”, disse ele. O seu rosto estava a suar e ele gemia. O elevador subiu de forma constante e parou. O homem que segurava os pés abriu a porta e saiu. Estávamos num balcão. Havia várias portas com puxadores de latão. O homem que carregava os pés tocou numa campainha. Ouvimo-la dentro das portas. Ninguém veio. Depois, o porteiro subiu as escadas.

“Onde é que eles estão?”, perguntaram os maqueiros.

“Não sei”, disse o porteiro. “Eles dormem lá em baixo.”

“Traga alguém.”

O porteiro tocou a campainha, depois bateu à porta, depois abriu-a e entrou. Quando voltou, trazia uma mulher idosa de óculos. Tinha o cabelo solto, a cair, e usava o uniforme de enfermeira.

“Não consigo compreender”, disse ela. “Não consigo compreender italiano.”

“Sei falar inglês”, disse eu. “Eles querem pôr-me em algum lado.”

“Nenhum dos quartos está pronto. Não está previsto nenhum paciente.” Ela ajeitou o cabelo e olhou para mim com o seu olhar míope.

“Mostre-lhes qualquer quarto onde me possam pôr.”

“Não sei”, disse ela. “Não está previsto nenhum paciente. Não podia pô-lo num quarto qualquer.”

“Qualquer quarto serve”, disse eu. Depois, para o porteiro em italiano: “Arranje um quarto vazio.”

“Estão todos vazios”, disse o porteiro. “O senhor é o primeiro paciente.” Ele segurou o boné na mão e olhou para a enfermeira idosa.

“Pelo amor de Deus, leve-me para um quarto qualquer.” A dor tinha continuado, sempre com as pernas dobradas, e eu podia senti-la a entrar e a sair do osso. O porteiro entrou pela porta, seguido pela mulher de cabelos cinzentos, e depois veio a correr. “Siga-me”, disse ele. Levaram-me por um longo corredor até um quarto com as persianas fechadas. Cheirava a mobília nova. Havia uma cama e um grande guarda-roupa com um espelho. Deitaram-me na cama.

“Não posso pôr lençóis”, disse a mulher. “Os lençóis estão trancados.”

Não lhe respondi. “Há dinheiro no meu bolso”, disse eu ao porteiro. “No bolso abotoado.” O porteiro tirou o dinheiro. Os dois maqueiros estavam ao lado da cama a segurar os bonés. “Dê-lhes cinco liras a cada um e cinco liras para si. Os meus papéis estão no outro bolso. Pode entregá-los à enfermeira.”

Os maqueiros saudaram e agradeceram. “Adeus”, disse eu. “E muito obrigado.” Eles saudaram novamente e saíram.

“Esses papéis”, disse eu à enfermeira, “descrevem o meu caso e o tratamento já ministrado.”

A mulher pegou neles e olhou através dos óculos. Eram três papéis e estavam dobrados. “Não sei o que fazer”, disse ela. “Não sei ler italiano. Não posso fazer nada sem as ordens do médico.” Começou a chorar e meteu os papéis no bolso do avental. “É americano?”, perguntou ela, a chorar.

“Sim. Por favor, ponha os papéis na mesa ao lado da cama.”

Estava escuro e fresco no quarto. Enquanto estava deitado na cama, podia ver o grande espelho do outro lado do quarto, mas não conseguia ver o que ele refletia. O porteiro estava ao lado da cama. Tinha um rosto simpático e era muito amável.

“Pode ir”, disse-lhe eu. “A senhora também pode ir”, disse à enfermeira. “Qual é o seu nome?”

“Mrs. Walker.”

“Pode ir, Mrs. Walker. Acho que vou dormir.”

Estava sozinho no quarto. Estava fresco e não cheirava a hospital. O colchão era firme e confortável e fiquei deitado sem me mexer, quase sem respirar, feliz por sentir a dor diminuir. Passado algum tempo, quis um pouco de água e encontrei a campainha num cordel junto à cama e toquei, mas ninguém veio. Adormeci.

Quando acordei, olhei em volta. Entrava luz solar pelas persianas. Vi o grande armário, as paredes nuas e duas cadeiras. As minhas pernas, com as ligaduras sujas, estavam esticadas na cama. Tive o cuidado de não as mover. Estava com sede, estendi a mão para a campainha e carreguei no botão. Ouvi a porta abrir-se e olhei; era uma enfermeira. Parecia jovem e bonita.

“Bom dia”, disse eu.

“Bom dia”, disse ela, aproximando-se da cama. “Não conseguimos encontrar o médico. Ele foi para o Lago Como. Ninguém sabia que vinha um paciente. O que é que tem, afinal?”

“Estou ferido. Nas pernas e nos pés, e a cabeça também está ferida.”

“Qual é o seu nome?”

“Henry. Frederic Henry.”

“Vou lavá-lo. Mas não podemos fazer nada às ligaduras até o médico chegar.”

“A Miss Barkley está aqui?”

“Não. Não há ninguém com esse nome aqui.”

“Quem era a mulher que chorou quando eu cheguei?”

A enfermeira riu-se. “Essa é a Mrs. Walker. Ela estava no turno da noite e tinha estado a dormir. Não estava à espera de ninguém.”

Enquanto falávamos, ela despia-me e, quando fiquei despido, exceto pelas ligaduras, lavou-me, muito suavemente e com cuidado. A lavagem foi muito agradável. Tinha uma ligadura na cabeça, mas ela lavou toda a volta.

“Onde foi ferido?”

“No Isonzo, a norte de Plava.”

“Onde fica isso?”

“A norte de Gorizia.”

Percebi que nenhum daqueles lugares significava nada para ela.

“Sente muitas dores?”

“Não. Já não muitas.”

Ela pôs-me um termómetro na boca.

“Os italianos põem-no debaixo do braço”, disse eu.

“Não fale.”

Quando ela tirou o termómetro, leu-o e depois agitou-o.

“Qual é a temperatura?”

“Não deve saber isso.”

“Diga-me qual é.”

“Está quase normal.”

“Nunca tenho febre. As minhas pernas também estão cheias de ferro velho.”

“O que quer dizer?”

“Estão cheias de fragmentos de granadas, parafusos velhos e molas de cama e coisas do género.”

Ela abanou a cabeça e sorriu.

“Se tivesse corpos estranhos nas pernas, isso provocaria uma inflamação e teria febre.”

“Muito bem”, disse eu. “Veremos o que sai.”

Ela saiu do quarto e voltou com a enfermeira idosa da manhã. Juntas, fizeram a cama comigo lá dentro. Isso era novo para mim e um procedimento admirável.

“Quem é que manda aqui?”

“Miss Van Campen.”

“Quantas enfermeiras há?”

“Apenas nós as duas.”

“Não virão mais?”

“Algumas estão a caminho.”

“Quando é que chegam?”

“Não sei. Faz muitas perguntas para um rapaz doente.”

“Não estou doente”, disse eu, “estou ferido.”

Tinham acabado de fazer a cama e eu estava deitado com um lençol limpo e macio por baixo e outro por cima. Mrs. Walker saiu e voltou com um casaco de pijama. Vestiram-mo e senti-me muito limpo e bem vestido.

“São muito simpáticas para mim”, disse eu. A enfermeira, chamada Miss Gage, riu-se. “Podia dar-me um copo de água?”, perguntei.

“Com certeza. Depois pode tomar o pequeno-almoço.”

“Não quero pequeno-almoço. Podem abrir as persianas, por favor?”

A luz tinha estado fraca no quarto e, quando as persianas foram abertas, era luz solar brilhante; olhei para um balcão e, além, vi os telhados de telha das casas e as chaminés. Olhei para os telhados de telha e vi nuvens brancas e o céu muito azul.

“Não sabe quando é que as outras enfermeiras chegam?”

“Porquê? Não cuidamos bem de si?”

“São muito simpáticas.”

“Gostaria de usar o arrastadeira?”

“Posso tentar.”

Ajudaram-me e seguraram-me, mas não valeu de nada. Depois, fiquei deitado a olhar pelas portas abertas para o balcão.

“Quando é que o médico vem?”

“Quando ele voltar. Tentámos telefonar-lhe para o Lago Como.”

“Não há outros médicos?”

“Ele é o médico do hospital.”

Miss Gage trouxe um jarro de água e um copo. Bebi três copos e depois deixaram-me; fiquei a olhar pela janela durante algum tempo e voltei a dormir. Comi um pouco ao almoço e, à tarde, Miss Van Campen, a supervisora, veio ver-me. Ela não gostou de mim e eu não gostei dela. Era pequena, ordeiramente desconfiada e demasiado boa para o seu cargo. Fez muitas perguntas e parecia pensar que era um pouco vergonhoso eu estar com os italianos.

“Posso beber vinho às refeições?”, perguntei-lhe.

“Só se o médico o receitar.”

“Não posso bebê-lo até ele chegar?”

“Absolutamente não.”

“Planeiam que ele venha finalmente?”

“Telefonámos-lhe para o Lago Como.”

Ela saiu e Miss Gage voltou.

“Porque foi mal-educado com a Miss Van Campen?”, perguntou ela, depois de ter feito algo por mim com muita destreza.

“Não foi a minha intenção. Mas ela foi arrogante.”

“Ela disse que o senhor foi arrogante e mal-educado.”

“Não fui. Mas qual é a ideia de um hospital sem médico?”

“Ele está a caminho. Telefonaram-lhe para o Lago Como.”

“O que é que ele faz lá? Nada?”

“Não. Ele tem uma clínica lá.”

“Porque não arranjam outro médico?”

“Xiu. Xiu. Seja um bom rapaz e ele virá.”

Mandei chamar o porteiro e, quando ele veio, disse-lhe em italiano para me trazer uma garrafa de Cinzano da loja de vinhos, um fiasco de chianti e os jornais da tarde. Ele foi embora e trouxe-os embrulhados em papel de jornal; desembrulhou-os e, quando lho pedi, tirou as rolhas e pôs o vinho e o vermute debaixo da cama. Deixaram-me sozinho e fiquei na cama a ler os jornais durante algum tempo, as notícias da frente, a lista de oficiais mortos com as suas condecorações, e depois estendi a mão, trouxe a garrafa de Cinzano e segurei-a direita sobre o meu estômago, o vidro fresco contra o meu estômago, e dei pequenos goles, fazendo marcas no meu estômago por segurar a garrafa ali entre os goles, e vi a noite cair lá fora sobre os telhados da cidade. As andorinhas circulavam e eu observava-as, assim como as aves de rapina a voar sobre os telhados, enquanto bebia o Cinzano. Miss Gage trouxe um copo com um pouco de gemada. Baixei a garrafa de vermute para o outro lado da cama quando ela entrou.

“A Miss Van Campen mandou pôr xerez nisto”, disse ela. “Não deve ser mal-educado para com ela. Ela não é jovem e este hospital é uma grande responsabilidade para ela. A Mrs. Walker é demasiado velha e não lhe serve de nada.”

“Ela é uma mulher esplêndida”, disse eu. “Agradeça-lhe muito.”

“Vou trazer-lhe o jantar imediatamente.”

“Está bem”, disse eu. “Não tenho fome.”

Quando ela trouxe o tabuleiro e o pôs na mesa da cama, agradeci-lhe e comi um pouco do jantar. Depois, estava escuro lá fora e eu conseguia ver os feixes dos holofotes a moverem-se no céu. Observei durante algum tempo e depois adormeci. Dormi profundamente, exceto uma vez em que acordei a suar e assustado, e depois voltei a dormir, tentando manter-me fora do meu sonho. Acordei definitivamente muito antes de amanhecer, ouvi os galos a cantar e fiquei acordado até começar a clarear. Estava cansado e, assim que amanheceu realmente, voltei a dormir.

CAPÍTULO XIV

Estava sol brilhante no quarto quando acordei. Pensei que estava de volta à frente e estiquei-me na cama. As minhas pernas doíam e olhei para elas, ainda com as ligaduras sujas, e, ao vê-las, soube onde estava. Estendi a mão para o cordel da campainha e carreguei no botão. Ouvi-o a zumbir pelo corredor e depois alguém a vir com solas de borracha pelo corredor. Era a Miss Gage e ela parecia um pouco mais velha à luz do sol brilhante e não tão bonita.

“Bom dia”, disse ela. “Passou bem a noite?”

“Sim. Muito obrigado”, disse eu. “Pode arranjar-me um barbeiro?”

“Vim vê-lo e o senhor estava a dormir com isto na cama consigo.”

Ela abriu a porta do guarda-roupa e ergueu a garrafa de vermute. Estava quase vazia. “Eu pus a outra garrafa que estava debaixo da cama aí dentro também”, disse ela. “Porque não me pediu um copo?”

“Pensei que talvez não me deixasse beber.”

“Eu teria bebido um pouco consigo.”

“És uma rapariga excelente.”

“Não lhe faz bem beber sozinho”, disse ela. “Não deve fazê-lo.”

“Está bem.”

“A sua amiga Miss Barkley veio”, disse ela.

“A sério?”

“Sim. Não gosto dela.”

“Irá gostar. Ela é terrivelmente simpática.”

Ela abanou a cabeça. “Tenho a certeza de que ela é uma boa pessoa. Pode mover-se só um pouco para este lado? Assim está bem. Vou limpá-lo para o pequeno-almoço.” Lavou-me com um pano, sabão e água morna. “Levante o ombro”, disse ela. “Assim está bem.”

“Posso ter o barbeiro antes do pequeno-almoço?”

“Vou mandar o porteiro buscá-lo.” Ela saiu e voltou. “Ele foi buscá-lo”, disse ela, e mergulhou o pano que segurava na bacia de água.

O barbeiro veio com o porteiro. Era um homem de uns cinquenta anos, com um bigode revirado. A Miss Gage acabou comigo e saiu, e o barbeiro ensaboou-me o rosto e fez-me a barba. Era muito solene e absteve-se de falar.

“O que se passa? Não sabe nenhuma novidade?”, perguntei.

“Que novidades?”

“Quaisquer novidades. O que aconteceu na cidade?”

“É tempo de guerra”, disse ele. “Os ouvidos do inimigo estão em toda a parte.”

Olhei para ele. “Por favor, mantenha o rosto imóvel”, disse ele, e continuou a fazer a barba. “Não direi nada.”

“O que é que se passa consigo?”, perguntei.

“Sou italiano. Não me comunicarei com o inimigo.”

Deixei passar. Se ele era louco, quanto mais depressa eu me livrasse da navalha, melhor. Uma vez tentei observá-lo bem. “Cuidado”, disse ele. “A navalha está afiada.”

Paguei-lhe quando terminou e dei-lhe meia lira de gorjeta. Ele devolveu as moedas.

“Não quero. Não estou na frente. Mas sou italiano.”

“Vá-se embora daqui.”

“Com a sua licença”, disse ele, e embrulhou as navalhas num jornal. Saiu, deixando as cinco moedas de cobre sobre a mesa ao lado da cama. Toquei a campainha. A Miss Gage entrou. “Pode pedir ao porteiro para vir, por favor?”

“Está bem.”

O porteiro entrou. Estava a tentar não se rir.

“Aquele barbeiro é louco?”

“Não, signorino. Ele enganou-se. Ele não entende muito bem e pensou que eu disse que o senhor era um oficial austríaco.”

“Ah”, disse eu.

“Ho ho ho”, riu-se o porteiro. “Ele foi engraçado. Um movimento da sua parte, disse ele, e ele teria...” ele passou o dedo indicador pela garganta.

“Ho ho ho”, ele tentou não se rir. “Quando lhe digo que o senhor não era austríaco. Ho ho ho.”

“Ho ho ho”, disse eu amargamente. “Que engraçado se ele me cortasse a garganta. Ho ho ho.”

“Não, signorino. Não, não. Ele estava tão assustado com um austríaco. Ho ho ho.”

“Ho ho ho”, disse eu. “Saia daqui.”

Ele saiu e ouvi-o rir-se no corredor. Ouvi alguém a vir pelo corredor. Olhei para a porta. Era Catherine Barkley.

Ela entrou no quarto e veio até à cama.

“Olá, querido”, disse ela. Parecia fresca, jovem e muito bonita. Pensei que nunca tinha visto ninguém tão bonito.

“Olá”, disse eu. Quando a vi, estava apaixonado por ela. Tudo virou-se dentro de mim. Ela olhou para a porta, viu que não estava ninguém, depois sentou-se na beira da cama, inclinou-se e beijou-me. Puxei-a para baixo, beijei-a e senti o coração dela a bater.

“Sua querida”, disse eu. “Não foste maravilhosa por teres vindo?”

“Não foi muito difícil. Pode ser difícil ficar.”

“Tens de ficar”, disse eu. “Oh, és maravilhosa.” Eu estava louco por ela. Não conseguia acreditar que ela estava realmente ali e apertei-a contra mim.

“Não deves”, disse ela. “Não estás suficientemente bem.”

“Sim, estou. Vamos.”

“Não. Não tens forças suficientes.”

“Sim, tenho. Sim. Por favor.”

“Tu amas-me mesmo?”

“Amo-te mesmo. Estou louco por ti. Vamos, por favor.”

“Sente os nossos corações a bater.”

“Não quero saber dos nossos corações. Quero-te a ti. Estou simplesmente louco por ti.”

“Tu amas-me mesmo?”

“Não continues a dizer isso. Vamos. Por favor. Por favor, Catherine.”

“Está bem, mas só por um minuto.”

“Está bem”, disse eu. “Fecha a porta.”

“Não podes. Não devias.”

“Vamos. Não fales. Por favor, vem.”

Catherine sentou-se numa cadeira ao lado da cama. A porta estava aberta para o corredor. A loucura tinha passado e eu sentia-me melhor do que alguma vez me sentira.

Ela perguntou: “Agora acreditas que te amo?”

“Oh, és adorável”, disse eu. “Tens de ficar. Eles não te podem mandar embora. Estou loucamente apaixonado por ti.”

“Vamos ter de ser terrivelmente cuidadosos. Aquilo foi apenas loucura. Não podemos fazer isso.”

“Podemos à noite.”

“Vamos ter de ser terrivelmente cuidadosos. Vais ter de ser cuidadoso à frente de outras pessoas.”

“Serei.”

“Vais ter de o ser. És um querido. Tu amas-me, não amas?”

“Não voltes a dizer isso. Não sabes o que isso me faz.”

“Serei cuidadosa, então. Não quero fazer-te mais nada. Tenho de ir agora, querido, a sério.”

“Volta logo.”

“Voltarei quando puder.”

“Adeus.”

“Adeus, querido.”

Ela saiu. Deus sabe que eu não queria apaixonar-me por ela. Não queria apaixonar-me por ninguém. Mas Deus sabe que me apaixonei, e deitei-me na cama no quarto do hospital em Milão, e todo o tipo de coisas passaram-me pela cabeça, mas sentia-me maravilhoso e, finalmente, a Miss Gage entrou.

“O médico está a chegar”, disse ela. “Telefonou do Lago Como.”

“Quando é que ele chega?”

“Estará aqui esta tarde.”

CAPÍTULO XV

Nada aconteceu até à tarde. O médico era um homem pequeno, magro e silencioso que parecia perturbado pela guerra. Retirou várias pequenas lascas de aço das minhas coxas com um desgosto delicado e refinado. Usou um anestésico local chamado algo como “neve”, que congelava o tecido e evitava a dor até que a sonda, o bisturi ou o fórceps chegassem abaixo da porção congelada. A área anestesiada era claramente definida pelo paciente e, após algum tempo, a fragilidade delicada do médico esgotou-se e ele disse que seria melhor fazer um raio-X. Sondar era insatisfatório, disse ele.

O raio-X foi feito no Ospedale Maggiore e o médico que o realizou era excitável, eficiente e alegre. Combinou-se, levantando os ombros, que o paciente visse pessoalmente alguns dos corpos estranhos maiores através da máquina. As chapas seriam enviadas. O médico pediu-me que escrevesse no seu bloco de notas o meu nome, regimento e algum sentimento. Declarou que os corpos estranhos eram feios, desagradáveis, brutais. Os austríacos eram uns filhos da mãe. Quantos tinha eu matado? Não tinha matado nenhum, mas estava ansioso por agradar — e disse que tinha matado muitos. A Miss Gage estava comigo e o médico passou o braço por ela e disse que ela era mais bonita do que Cleópatra. Ela entendia isso? Cleópatra, a antiga rainha do Egito. Sim, por Deus, ela era. Voltámos ao pequeno hospital na ambulância e, passado algum tempo e muitas movimentações, estava lá em cima e na cama novamente. As chapas chegaram nessa tarde; o médico tinha dito por Deus que as teria nessa tarde e teve. Catherine Barkley mostrou-mas. Estavam em envelopes vermelhos e ela tirou-as dos envelopes, ergueu-as contra a luz e ambas olhámos.

“Essa é a tua perna direita”, disse ela, depois colocou a chapa de volta no envelope. “Esta é a esquerda.”

“Guarda-as”, disse eu, “e vem até à cama.”

“Não posso”, disse ela. “Trouxe-as só por um segundo para te mostrar.”

Ela saiu e eu fiquei lá deitado. Era uma tarde quente e eu estava farto de estar deitado na cama. Mandei o porteiro buscar os jornais, todos os jornais que pudesse conseguir.

Antes de ele voltar, três médicos entraram no quarto. Reparei que os médicos que falham na prática da medicina têm tendência a procurar a companhia uns dos outros e ajuda em consulta. Um médico que não consegue retirar o seu apêndice corretamente recomendar-lhe-á um médico que não conseguirá remover as suas amígdalas com sucesso. Estes eram três desses médicos.

“Este é o jovem”, disse o médico interno com as mãos delicadas.

“Como está?”, disse o médico alto e magro com barba. O terceiro médico, que trazia as chapas de raio-X nos seus envelopes vermelhos, não disse nada.

“Remover os curativos?”, perguntou o médico barbudo.

“Certamente. Remova os curativos, por favor, enfermeira”, disse o médico interno à Miss Gage. A Miss Gage removeu os curativos. Olhei para as pernas. No hospital de campanha, tinham o aspeto de carne picada não muito fresca. Agora estavam com crostas, o joelho estava inchado e descolorado e a barriga da perna afundada, mas não havia pus.

“Muito limpo”, disse o médico interno. “Muito limpo e bom.”

“Hum”, disse o médico com barba. O terceiro médico olhou por cima do ombro do médico interno.

“Por favor, mova o joelho”, disse o médico barbudo.

“Não consigo.”

“Testar a articulação?”, questionou o médico barbudo. Tinha uma lista ao lado das três estrelas na manga. Isso significava que era um primeiro capitão.

“Certamente”, disse o médico interno. Dois deles agarraram a minha perna direita com muito cuidado e dobraram-na.

“Isso dói”, disse eu.

“Sim. Sim. Um pouco mais, doutor.”

“Já chega. É até aí que vai”, disse eu.

“Articulação parcial”, disse o primeiro capitão. Endireitou-se. “Posso ver as chapas novamente, por favor, doutor?” O terceiro médico entregou-lhe uma das chapas. “Não. A perna esquerda, por favor.”

“Essa é a perna esquerda, doutor.”

“Tem razão. Estava a olhar de um ângulo diferente.” Ele devolveu a chapa. A outra chapa examinou-a durante algum tempo. “Vê, doutor?”, apontou para um dos corpos estranhos que parecia esférico e claro contra a luz. Examinaram a chapa durante algum tempo.

“Só uma coisa posso dizer”, disse o primeiro capitão com barba. “É uma questão de tempo. Três meses, seis meses provavelmente.”

“Certamente o líquido sinovial deve reformar-se.”

“Certamente. É uma questão de tempo. Não poderia conscientemente abrir um joelho como aquele antes que o projétil estivesse encistado.”

“Concordo consigo, doutor.”

“Seis meses para quê?”, perguntei.

“Seis meses para o projétil encistar antes que o joelho possa ser aberto com segurança.”

“Não acredito nisso”, disse eu.

“Quer manter o seu joelho, jovem?”

“Não”, disse eu.

“O quê?”

“Quero que o cortem”, disse eu, “para poder usar um gancho.”

“O que quer dizer? Um gancho?”

“Ele está a brincar”, disse o médico interno. Deu palmadinhas no meu ombro muito delicadamente. “Ele quer manter o joelho. Este é um jovem muito corajoso. Ele foi proposto para a medalha de prata de valor.”

“Todas as minhas felicitações”, disse o primeiro capitão. Apertou-me a mão. “Só posso dizer que, para estar do lado seguro, deveria esperar pelo menos seis meses antes de abrir um joelho desses. É bem-vindo, claro, a uma segunda opinião.”

“Muito obrigado”, disse eu. “Valorizo a sua opinião.”

O primeiro capitão olhou para o relógio.

“Temos de ir”, disse ele. “Todos os meus melhores votos.”

“Todos os meus melhores votos e muito obrigado”, disse eu. Apertei a mão ao terceiro médico, “Capitano Varini — Tenente Enry”, e os três saíram do quarto.

“Miss Gage”, chamei. Ela entrou. “Por favor, peça ao médico interno para voltar um minuto.”

Ele entrou segurando o boné e ficou junto à cama. “Desejava ver-me?”

“Sim. Não posso esperar seis meses para ser operado. Meu Deus, doutor, alguma vez ficou na cama seis meses?”

“Não estará na cama o tempo todo. Primeiro deve expor as feridas ao sol. Depois pode usar muletas.”

“Durante seis meses e depois ter uma operação?”

“Esse é o caminho seguro. Os corpos estranhos devem poder encistar e o líquido sinovial reformar-se-á. Depois será seguro abrir o joelho.”

“Acha mesmo que vou ter de esperar tanto tempo?”

“Esse é o caminho seguro.”

“Quem é aquele primeiro capitão?”

“É um cirurgião muito excelente de Milão.”

“Ele é um primeiro capitão, não é?”

“Sim, mas é um cirurgião excelente.”

“Não quero que a minha perna seja tratada por um primeiro capitão. Se ele fosse bom, seria feito major. Eu sei o que é um primeiro capitão, doutor.”

“Ele é um cirurgião excelente e eu preferiria ter o julgamento dele do que qualquer cirurgião que conheça.”

“Outro cirurgião poderia vê-la?”

“Certamente, se desejar. Mas eu aceitaria a opinião do Dr. Varella.”

“Pode pedir a outro cirurgião para vir vê-la?”

“Pedirei ao Valentini para vir.”

“Quem é ele?”

“É um cirurgião do Ospedale Maggiore.”

“Bom. Agradeço muito. Compreenda, doutor, eu não poderia ficar na cama seis meses.”

“Não estaria na cama. Primeiro faria uma cura de sol. Depois poderia fazer exercício ligeiro. Depois, quando estivesse encistado, operaríamos.”

“Mas não posso esperar seis meses.”

O médico espalhou os seus dedos delicados sobre o boné que segurava e sorriu. “Está com tanta pressa para voltar à frente?”

“Por que não?”

“É muito bonito”, disse ele. “É um jovem nobre.” Ele inclinou-se e beijou-me muito delicadamente na testa. “Mandarei chamar o Valentini. Não se preocupe e não se excite. Seja um bom rapaz.”

“Quer beber alguma coisa?”, perguntei.

“Não, obrigado. Nunca bebo álcool.”

“Beba só um.” Toquei para o porteiro trazer copos.

“Não. Não, obrigado. Estão à minha espera.”

“Adeus”, disse eu.

“Adeus.”

Duas horas depois, o Dr. Valentini entrou no quarto. Estava com muita pressa e as pontas do seu bigode estavam direitas para cima. Era um major, o seu rosto estava bronzeado e ele ria-se o tempo todo.

“Como fizeste isso, essa coisa podre?”, perguntou ele. “Deixa-me ver as chapas. Sim. Sim. É isso. Pareces saudável como um bode. Quem é a rapariga bonita? É a tua rapariga? Pensei que sim. Não é uma guerra sangrenta? Como é que isso se sente? És um bom rapaz. Vou deixar-te melhor do que novo. Isso dói? Podes apostar que dói. Como eles adoram magoar-te, estes médicos. O que fizeram por ti até agora? Essa rapariga não sabe falar italiano? Ela devia aprender. Que rapariga adorável. Eu podia ensiná-la. Eu próprio serei paciente aqui. Não, mas farei todo o teu trabalho de maternidade de graça. Ela entende isso? Ela vai dar-te um bom rapaz. Um bom loiro como ela é. Isso é bom. Isso está bem. Que rapariga adorável. Pergunta-lhe se ela janta comigo. Não, não a vou tirar de ti. Obrigado. Muito obrigado, menina. É tudo.”

“É tudo o que quero saber.” Ele deu-me palmadinhas no ombro. “Deixa os curativos de lado.”

“Vai beber alguma coisa, Dr. Valentini?”

“Uma bebida? Certamente. Beberei dez bebidas. Onde estão?”

“No guarda-roupa. A Miss Barkley vai buscar a garrafa.”

“Cheery oh. Cheery oh para si, menina. Que rapariga adorável. Trar-lhe-ei um conhaque melhor do que esse.” Ele limpou o bigode.

“Quando acha que pode ser operado?”

“Amanhã de manhã. Não antes. O teu estômago deve ser esvaziado. Deves ser lavado. Falarei com a senhora mais velha lá em baixo e deixarei instruções. Adeus. Vejo-te amanhã. Trar-te-ei um conhaque melhor do que esse. Estás muito confortável aqui. Adeus. Até amanhã. Dorme bem. Vejo-te cedo.” Ele acenou da porta, os seus bigodes ficaram direitos para cima, o seu rosto castanho estava a sorrir. Havia uma estrela numa caixa na sua manga porque ele era um major.

CAPÍTULO XVI

Naquela noite, um morcego voou para o quarto através da porta aberta que dava para a varanda e através da qual observávamos a noite sobre os telhados da cidade. Estava escuro no nosso quarto, exceto pela pequena luz da noite sobre a cidade, e o morcego não estava assustado, mas caçava no quarto como se estivesse lá fora. Ficámos deitados a observá-lo e não creio que ele nos tenha visto, porque estávamos muito imóveis. Depois de ele sair, vimos um holofote acender-se e observámos o feixe mover-se pelo céu e depois apagar-se, e estava escuro novamente. Uma brisa entrou durante a noite e ouvimos os homens da bateria antiaérea no telhado ao lado a conversar. Estava fresco e eles estavam a vestir as capas. Preocupei-me durante a noite com a possibilidade de alguém subir, mas Catherine disse que estavam todos a dormir. Uma vez durante a noite adormecemos e, quando acordei, ela não estava lá, mas ouvi-a a vir pelo corredor e a porta abriu-se e ela voltou para a cama e disse que estava tudo bem, tinha ido lá abaixo e estavam todos a dormir. Ela tinha estado fora da porta da Miss Van Campen e ouviu-a a respirar enquanto dormia. Ela trouxe bolachas e comemo-las e bebemos um pouco de vermute. Estávamos com muita fome, mas ela disse que tudo isso teria de ser retirado de mim de manhã. Adormeci novamente de manhã, quando estava claro, e quando acordei descobri que ela tinha ido novamente. Ela entrou parecendo fresca e adorável e sentou-se na cama e o sol nasceu enquanto eu tinha o termómetro na boca e cheirámos o orvalho nos telhados e depois o café dos homens na bateria no telhado ao lado.

“Gostava que pudéssemos ir dar um passeio”, disse Catherine. “Eu levava-te se tivéssemos uma cadeira.”

“Como é que eu entraria na cadeira?”

“Nós faríamos isso.”

“Podíamos ir ao parque e tomar o pequeno-almoço ao ar livre.” Olhei pela porta aberta.

“O que vamos fazer na realidade”, disse ela, “é preparar-te para o teu amigo Dr. Valentini.”

“Achei que ele era fantástico.”

“Não gostei tanto dele como tu. Mas imagino que ele seja muito bom.”

“Volta para a cama, Catherine. Por favor”, disse eu.

“Não posso. Não tivemos uma noite adorável?”

“E podes ficar de serviço à noite hoje?”

“Provavelmente ficarei. Mas não vais querer-me.”

“Sim, vou.”

“Não, não vais. Nunca foste operado. Não sabes como vais ficar.”

“Ficarei bem.”

“Vais ficar doente e eu não serei nada para ti.”

“Volta então agora.”

“Não”, disse ela. “Tenho de fazer o registo, querido, e preparar-te.”

“Tu não me amas realmente, ou voltarias outra vez.”

“És um rapaz tão tolo.” Ela beijou-me. “Isso serve para o registo. A tua temperatura está sempre normal. Tens uma temperatura tão adorável.”

“Tu tens tudo adorável.”

“Oh não. Tu tens a temperatura adorável. Estou terrivelmente orgulhosa da tua temperatura.”

“Talvez todos os nossos filhos tenham boas temperaturas.”

“Os nossos filhos provavelmente terão temperaturas horríveis.”

“O que tens de fazer para me preparar para o Valentini?”

“Não muito. Mas bastante desagradável.”

“Gostava que não tivesses de o fazer.”

“Eu não quero. Não quero que mais ninguém te toque. Sou tola. Fico furiosa se te tocam.”

“Até a Ferguson?”

“Especialmente a Ferguson e a Gage e a outra, como é o nome dela?”

“Walker?”

“É isso. Elas têm enfermeiras a mais aqui agora. Tem de haver mais pacientes ou eles mandam-nos embora. Elas têm quatro enfermeiras agora.”

“Talvez venham alguns. Eles precisam de tantas enfermeiras. É um hospital bastante grande.”

“Espero que alguns venham. O que faria eu se eles me mandassem embora? Eles fá-lo-ão, a menos que haja mais pacientes.”

“Eu também iria.”

“Não sejas tolo. Não podes ir ainda. Mas melhora rapidamente, querido, e iremos para algum lugar.”

“E depois?”

“Talvez a guerra acabe. Não pode durar para sempre.”

“Vou melhorar”, disse eu. “O Valentini vai arranjar-me.”

“Ele deveria com esses bigodes. E, querido, quando estiveres a ser anestesiado, pensa noutra coisa — não em nós. Porque as pessoas tornam-se muito faladoras sob o efeito de um anestésico.”

“Em que devo pensar?”

“Em qualquer coisa. Em qualquer coisa menos em nós. Pensa na tua gente. Ou até noutra rapariga qualquer.”

“Não.”

“Então reza. Isso deve causar uma impressão esplêndida.”

“Talvez eu não fale.”

“É verdade. Muitas vezes as pessoas não falam.”

“Eu não vou falar.”

“Não te gabes, querido. Por favor, não te gabes. És tão doce e não precisas de te gabar.”

“Não direi uma palavra.”

“Agora estás a gabar-te, querido. Sabes que não precisas de te gabar. Começa apenas as tuas orações ou poesia ou algo do género quando te disserem para respirar fundo. Serás adorável assim e eu ficarei tão orgulhosa de ti. De qualquer modo, estou muito orgulhosa de ti. Tens uma temperatura tão adorável e dormes como um rapazinho com o braço à volta da almofada e pensas que sou eu. Ou será outra rapariga? Alguma bela rapariga italiana?”

“És tu.”

“Claro que sou eu. Oh, eu amo-te tanto e o Valentini vai fazer-te uma perna excelente. Ainda bem que não tenho de ver isso.”

“E estarás de serviço noturno esta noite.”

“Sim. Mas não te importará.”

“Espera e verás.”

“Pronto, querido. Agora estás todo limpo por dentro e por fora. Diz-me. Quantas pessoas amaste alguma vez?”

“Ninguém.”

“Nem a mim sequer?”

“Sim, a ti.”

“Quantas outras, realmente?”

“Nenhuma.”

“Com quantas — como é que se diz? — estiveste?”

“Nenhuma.”

“Estás a mentir-me.”

“Sim.”

“Está tudo bem. Continua a mentir-me. É isso que eu quero que faças. Eram bonitas?”

“Nunca estive com ninguém.”

“Está bem. Eram muito atraentes?”

“Não sei nada sobre isso.”

“És apenas meu. Isso é verdade e nunca pertences a mais ninguém. Mas não me importa se pertenceste. Não tenho medo delas. Mas não me fales sobre elas. Quando um homem está com uma rapariga, quando é que ela diz quanto custa?”

“Não sei.”

“Claro que não. Ela diz que o ama? Diz-me isso. Quero saber isso.”

“Sim. Se ele quiser que ela o diga.”

“Ele diz que a ama? Diz-me, por favor. É importante.”

“Ele diz se quiser.”

“Mas tu nunca disseste? A sério?”

“Não.”

“Não, a sério. Diz-me a verdade?”

“Não”, menti.

“Tu não dirias”, disse ela. “Eu sabia que não dirias. Oh, eu amo-te, querido.”

Lá fora o sol estava alto sobre os telhados e eu conseguia ver as pontas da catedral com a luz do sol nelas. Eu estava limpo por dentro e por fora e à espera do médico.

“E é só isso?” perguntou Catherine. “Ela diz exatamente o que ele quer que ela diga?”

“Nem sempre.”

“Mas eu direi. Direi exatamente o que desejas e farei o que desejas e então nunca desejarás outras raparigas, pois não?” Ela olhou para mim muito feliz. “Farei o que queres e direi o que queres e então serei um grande sucesso, não serei?”

“Sim.”

“O que gostarias que eu fizesse agora que estás pronto?”

“Vem para a cama outra vez.”

“Está bem. Eu vou.”

“Oh, querida, querida, querida”, disse eu.

“Estás a ver”, disse ela. “Eu faço tudo o que queres.”

“És tão adorável.”

“Receio não ser muito boa nisso ainda.”

“Tu és adorável.”

“Eu quero o que tu queres. Já não existe um eu. Apenas o que tu queres.”

“Tu és doce.”

“Eu sou boa. Não sou boa? Tu não queres outras raparigas, pois não?”

“Não.”

“Estás a ver? Eu sou boa. Faço o que queres.”

CAPÍTULO XVII

Quando acordei depois da operação, não tinha ido embora. Não se vai embora. Eles apenas te sufocam. Não é como morrer, é apenas um sufoco químico para que não sintas nada, e depois podes muito bem ter estado bêbado, exceto que quando vomitas não sai nada a não ser bílis e não te sentes melhor depois. Vi sacos de areia ao fundo da cama. Estavam em tubos que saíam do gesso. Passado algum tempo, vi a Miss Gage e ela disse: “Como está agora?”

“Melhor”, disse eu.

“Ele fez um trabalho maravilhoso no teu joelho.”

“Quanto tempo demorou?”

“Duas horas e meia.”

“Disse alguma coisa parva?”

“Nem uma coisa. Não fales. Fica apenas quieto.”

Eu estava enjoado e a Catherine tinha razão. Não fazia qualquer diferença quem estava de serviço noturno.

Havia três outros pacientes no hospital agora, um rapaz magro da Cruz Vermelha, da Geórgia, com malária, um rapaz simpático, também magro, de Nova Iorque, com malária e icterícia, e um rapaz excelente que tinha tentado desaparafusar a espoleta de um projétil de estilhaços e alto explosivo para servir de recordação. Tratava-se de um projétil de estilhaços usado pelos austríacos nas montanhas, com uma ponta que se soltava após a explosão e explodia ao contacto.

Catherine Barkley era muito apreciada pelas enfermeiras porque ela fazia serviço noturno indefinidamente. Ela tinha bastante trabalho com as pessoas com malária; o rapaz que tinha desaparafusado a ponta era nosso amigo e nunca tocava à campainha durante a noite, a menos que fosse necessário, mas entre os tempos de trabalho estávamos juntos. Eu amava-a muito e ela amava-me. Eu dormia durante o dia e escrevíamos notas durante o dia quando estávamos acordados e enviávamo-las pela Ferguson. A Ferguson era uma rapariga excelente. Nunca soube nada sobre ela, exceto que tinha um irmão na 52.ª Divisão e um irmão na Mesopotâmia, e ela era muito boa para a Catherine Barkley.

“Vais vir ao nosso casamento, Fergy?” perguntei-lhe uma vez.

“Vocês nunca se vão casar.”

“Vamos.”

“Não, não vão.”

“Por que não?”

“Vocês vão brigar antes de se casarem.”

“Nós nunca brigamos.”

“Ainda têm tempo.”

“Nós não brigamos.”

“Então vão morrer. Brigar ou morrer. É isso que as pessoas fazem. Não se casam.”

Estendi a mão para a dela. “Não me pegues”, disse ela. “Não estou a chorar. Talvez vocês os dois fiquem bem. Mas tem cuidado para não a meteres em sarilhos. Se a meteres em sarilhos, eu mato-te.”

“Eu não a vou meter em sarilhos.”

“Bem, então tem cuidado. Espero que fiquem bem. Divertam-se.”

“Nós divertimo-nos bastante.”

“Então não briguem e não a metas em sarilhos.”

“Não vou.”

“Tem cuidado. Não a quero com nenhum desses bebés da guerra.”

“És uma rapariga excelente, Fergy.”

“Não sou. Não tentes adular-me. Como está a tua perna?”

“Bem.”

“Como está a tua cabeça?” Ela tocou no topo com os dedos. Estava sensível como um pé que tinha adormecido. “Nunca me incomodou.”

“Uma pancada dessas podia deixar-te louco. Nunca te incomoda?”

“Não.”

“És um jovem sortudo. Já tens a carta feita? Vou descer.”

“Está aqui”, disse eu.

“Devias pedir-lhe para não fazer serviço noturno durante algum tempo. Ela está a ficar muito cansada.”

“Está bem. Eu pedirei.”

“Eu quero fazê-lo, mas ela não me deixa. As outras ficam contentes por ela o fazer. Podias dar-lhe um pequeno descanso.”

“Está bem.”

“A Miss Van Campen falou sobre tu dormires todas as manhãs.”

“Era de esperar.”

“Seria melhor se a deixasses ficar fora das noites durante algum tempo.”

“Eu quero que ela o faça.”

“Não queres. Mas se a obrigasses, eu respeitar-te-ia por isso.”

“Eu vou obrigá-la.”

“Não acredito.” Ela pegou na nota e saiu. Tocar à campainha e, pouco depois, a Miss Gage entrou.

“O que se passa?”

“Só queria falar contigo. Não achas que a Miss Barkley devia deixar o serviço noturno durante algum tempo? Ela parece terrivelmente cansada. Por que é que ela continua lá há tanto tempo?”

A Miss Gage olhou para mim.

“Sou tua amiga”, disse ela. “Não precisas de falar comigo assim.”

“O que queres dizer?”

“Não sejas parvo. Era só isso que querias?”

“Queres um vermute?”

“Está bem. Depois tenho de ir.” Ela tirou a garrafa do armário e trouxe um copo.

“Fica tu com o copo”, disse eu. “Eu bebo da garrafa.”

“À tua saúde”, disse a Miss Gage.

“O que é que a Van Campen disse sobre eu dormir até tarde de manhã?”

“Ela apenas resmungou sobre isso. Ela chama-te o nosso paciente privilegiado.”

“Que se lixe ela.”

“Ela não é má”, disse a Miss Gage. “É apenas velha e rabugenta. Ela nunca gostou de ti.”

“Não.”

“Bem, eu gosto. E sou tua amiga. Não te esqueças disso.”

“Tu és terrivelmente simpática.”

“Não. Eu sei quem tu achas simpática. Mas sou tua amiga. Como está a tua perna?”

“Bem.”

“Vou trazer um pouco de água mineral fria para deitar sobre ela. Deve fazer comichão debaixo do gesso. Está calor lá fora.”

“Tu és terrivelmente simpática.”

“Faz muita comichão?”

“Não. Está bem.”

“Vou arranjar melhor esses sacos de areia.” Ela inclinou-se. “Sou tua amiga.”

“Eu sei que és.”

“Não, não sabes. Mas um dia saberás.”

Catherine Barkley tirou três noites de folga do serviço noturno e depois voltou. Foi como se nos encontrássemos de novo depois de cada um de nós ter estado fora numa longa viagem.

CAPÍTULO XVIII

Passámos um tempo adorável naquele verão. Quando podia sair, andávamos de carruagem no parque. Lembro-me da carruagem, do cavalo a ir devagar e, à frente, as costas do cocheiro com a sua cartola envernizada, e Catherine Barkley sentada ao meu lado. Se deixássemos as nossas mãos tocar-se, apenas o lado da minha mão tocando na dela, ficávamos excitados. Depois, quando consegui andar de muletas, íamos jantar ao Biffi’s ou ao Gran Italia e sentávamo-nos nas mesas lá fora, no chão da galeria. Os empregados entravam e saíam, havia pessoas a passar e velas com abajures nas toalhas das mesas e, depois de decidirmos que gostávamos mais do Gran Italia, o George, o chefe de sala, reservava-nos uma mesa. Ele era um excelente empregado e deixávamo-lo pedir a refeição enquanto olhávamos para as pessoas, para a grande galeria ao crepúsculo e um para o outro. Bebíamos capri branco seco gelado num balde; embora tenhamos provado muitos outros vinhos, fresa, barbera e os vinhos brancos doces. Eles não tinham empregado de vinhos por causa da guerra e o George sorria envergonhado quando eu perguntava por vinhos como o fresa.

“Se imaginar um país que faz um vinho porque sabe a morangos”, dizia ele.

“Porque não deveria?”, perguntava a Catherine. “Soa esplêndido.”

“Experimente-o, senhora”, dizia o George, “se quiser. Mas deixe-me trazer uma garrafinha de margaux para o Tenente.”

“Eu também experimento, George.”

“Senhor, não lho posso recomendar. Nem sequer sabe a morangos.”

“Pode saber”, dizia a Catherine. “Seria maravilhoso se soubesse.”

“Eu trago”, dizia o George, “e quando a senhora estiver satisfeita, eu levo-o embora.”

Não era grande vinho. Como ele dizia, nem sequer sabia a morangos. Voltámos para o capri. Certa noite, faltava-me dinheiro e o George emprestou-me cem liras. “Está tudo bem, Tenente”, dizia ele. “Eu sei como é. Sei como um homem fica sem dinheiro. Se o senhor ou a senhora precisarem de dinheiro, eu tenho sempre dinheiro.”

Depois do jantar caminhávamos pela galeria, passávamos pelos outros restaurantes e pelas lojas com as suas grades de aço baixadas, e parávamos no pequeno local onde vendiam sanduíches; sanduíches de fiambre e alface e sanduíches de anchova feitas de pãezinhos castanhos vidrados muito pequenos e apenas do tamanho de um dedo. Eram para comer durante a noite quando tínhamos fome. Depois, entrávamos numa carruagem aberta fora da galeria, em frente à catedral, e íamos para o hospital. À porta do hospital, o porteiro saía para ajudar com as muletas. Eu pagava ao cocheiro e depois subíamos no elevador. A Catherine saía no piso inferior, onde viviam as enfermeiras, e eu subia e percorria o corredor de muletas até ao meu quarto; por vezes despia-me e ia para a cama e por vezes sentava-me na varanda com a perna apoiada noutra cadeira e observava as andorinhas sobre os telhados e esperava pela Catherine. Quando ela subia, era como se ela tivesse estado fora numa longa viagem e eu percorria o corredor com ela nas muletas e carregava as bacias e esperava fora das portas, ou entrava com ela; dependendo se eram nossas amigas ou não, e quando ela tinha feito tudo o que havia para fazer, sentávamo-nos na varanda fora do meu quarto. Depois eu ia para a cama e quando estavam todas a dormir e ela tinha a certeza de que não a chamariam, ela entrava. Adorava desmanchar-lhe o cabelo e ela sentava-se na cama e ficava muito quieta, exceto que, de repente, ela baixava-se para me beijar enquanto eu o fazia, e eu tirava os ganchos e punha-os no lençol e ele ficava solto e eu observava-a enquanto ela ficava muito quieta e depois tirava os últimos dois ganchos e tudo caía e ela baixava a cabeça e nós ficávamos ambos dentro dele, e era a sensação de estar dentro de uma tenda ou atrás de uma queda de água.

Ela tinha um cabelo maravilhosamente bonito e eu deitava-me às vezes a vê-la a enrolá-lo na luz que vinha da porta aberta e ele brilhava mesmo na noite como a água brilha por vezes pouco antes de ser verdadeiramente dia. Ela tinha um rosto e um corpo adoráveis e uma pele suave e adorável também. Ficávamos deitados juntos e eu tocava-lhe nas bochechas e na testa e debaixo dos olhos e no queixo e na garganta com as pontas dos dedos e dizia: “Suave como teclas de piano”, e ela acariciava o meu queixo com o dedo e dizia: “Suave como lixa e muito duro para teclas de piano.”

“Está áspero?”

“Não, querido. Estava apenas a brincar contigo.”

Era adorável durante as noites e se apenas pudéssemos tocar um no outro éramos felizes. Além de todos os grandes momentos, tínhamos muitas pequenas maneiras de fazer amor e tentávamos colocar pensamentos na cabeça um do outro enquanto estávamos em quartos diferentes. Parecia resultar por vezes, mas isso era provavelmente porque pensávamos na mesma coisa de qualquer maneira.

Dissemos um ao outro que estávamos casados no primeiro dia em que ela tinha vindo ao hospital e contávamos os meses desde o dia do nosso casamento. Eu queria estar realmente casado, mas a Catherine dizia que se estivéssemos eles mandá-la-iam embora e, se apenas começássemos as formalidades, eles observá-la-iam e separar-nos-iam. Teríamos de nos casar sob a lei italiana e as formalidades eram terríveis. Eu queria que nos casássemos realmente porque me preocupava ter um filho se pensasse nisso, mas fingíamos para nós próprios que estávamos casados e não nos preocupávamos muito e suponho que gostava de não estar casado, na verdade. Sei que uma noite falámos sobre isso e a Catherine disse: “Mas, querido, eles mandar-me-iam embora.”

“Talvez não mandassem.”

“Mandariam. Eles mandar-me-iam para casa e depois estaríamos separados até depois da guerra.”

“Eu viria de licença.”

“Não conseguirias ir até à Escócia e voltar numa licença. Além disso, não te deixarei. Para que serviria casar agora? Nós estamos realmente casados. Não poderia estar mais casada.”

“Eu só queria por tua causa.”

“Não existe nenhum eu. Eu sou tu. Não inventes um eu separado.”

“Pensava que as raparigas queriam sempre casar.”

“Querem. Mas, querido, eu estou casada. Estou casada contigo. Não faço de boa esposa?”

“És uma esposa adorável.”

“Vês, querido, tive uma experiência de esperar para casar.”

“Não quero ouvir falar disso.”

“Sabes que não amo ninguém senão a ti. Não te deves importar que outra pessoa me tenha amado.”

“Importo-me.”

“Não deves ter ciúmes de alguém que está morto quando tens tudo.”

“Não, mas não quero ouvir falar disso.”

“Pobre querido. E sei que já estiveste com todo o tipo de raparigas e isso não importa para mim.”

“Não nos poderíamos casar em privado de alguma forma? Então se algo me acontecesse ou se tivesses um filho.”

“Não há maneira de casar exceto pela igreja ou pelo estado. Nós estamos casados em privado. Vês, querido, significaria tudo para mim se eu tivesse alguma religião. Mas não tenho nenhuma religião.”

“Tu deste-me o Santo António.”

“Isso foi por sorte. Alguém deu-mo.”

“Então nada te preocupa?”

“Apenas ser mandada para longe de ti. Tu és a minha religião. Tu és tudo o que tenho.”

“Está bem. Mas casarei contigo no dia em que disseres.”

“Não fales como se tivesses de fazer de mim uma mulher honesta, querido. Eu sou uma mulher muito honesta. Não podes ter vergonha de algo se apenas te sentes feliz e orgulhoso disso. Não estás feliz?”

“Mas nunca me deixarás por outra pessoa.”

“Não, querido. Nunca te deixarei por outra pessoa. Suponho que todo o tipo de coisas terríveis nos vão acontecer. Mas não tens de te preocupar com isso.”

“Não me preocupo. Mas amo-te tanto e tu amaste outra pessoa antes.”

“E o que aconteceu a ele?”

“Ele morreu.”

“Sim, e se ele não tivesse morrido eu não te teria conhecido. Não sou infiel, querido. Tenho muitos defeitos, mas sou muito fiel. Vais ficar farto de mim, tal a minha fidelidade.”

“Vou ter de voltar para a frente de combate muito em breve.”

“Não pensaremos nisso até ires. Vês que estou feliz, querido, e passamos um tempo adorável. Não estou feliz há muito tempo e quando te conheci talvez estivesse quase louca. Talvez estivesse louca. Mas agora estamos felizes e amamo-nos. Vamos apenas ser felizes, por favor. Tu estás feliz, não estás? Há alguma coisa que eu faça que não gostes? Posso fazer alguma coisa para te agradar? Gostarias que eu desmanchasse o cabelo? Queres brincar?”

“Sim, e vem para a cama.”

“Está bem. Vou ver os pacientes primeiro.”

CAPÍTULO XIX

[O texto desta seção foi fornecido pelo utilizador como um exemplo de tradução prévia já realizada e, conforme as instruções, não deve ser repetido.]

O verão passou assim. Não me recordo muito dos dias, exceto que eram quentes e que havia muitas vitórias nos jornais. Eu estava muito saudável e as minhas pernas sararam rapidamente, de modo que não passou muito tempo desde que usei muletas pela primeira vez até que as dispensei e comecei a andar com uma bengala. Então, comecei os tratamentos no Ospedale Maggiore para dobrar os joelhos, tratamentos mecânicos, cozedura numa caixa de espelhos com raios violeta, massagens e banhos. Ia para lá à tarde e, depois, parava no café para beber um copo e ler os jornais. Não vagueava pela cidade; queria era ir para casa, para o hospital, vindo do café. Tudo o que queria era ver a Catherine. O resto do tempo, contentava-me em matá-lo. Na maior parte, dormia de manhã e, às vezes, à tarde, ia às corridas e, mais tarde, aos tratamentos de mecanoterapia. Por vezes, passava pelo Anglo-American Club e sentava-me numa cadeira funda com almofadas de couro em frente à janela a ler as revistas. Não nos deixavam sair juntos quando eu já não usava muletas, porque era indecoroso que uma enfermeira fosse vista sem acompanhante com um paciente que não parecia precisar de assistência, por isso não passávamos muito tempo juntos durante a tarde. Embora, por vezes, pudéssemos sair para jantar se a Ferguson fosse connosco. A Miss Van Campen tinha aceitado o facto de sermos grandes amigos porque conseguia extrair uma grande quantidade de trabalho da Catherine. Achava que a Catherine vinha de gente muito boa e isso, finalmente, predispôs-a a favor dela. A Miss Van Campen admirava muito a família e ela própria vinha de uma excelente família. O hospital também estava bastante ocupado, e isso mantinha-a ocupada. Era um verão quente e eu conhecia muitas pessoas em Milão, mas estava sempre ansioso por voltar para casa, para o hospital, assim que a tarde terminava. Na frente, eles avançavam no Carso, tinham tomado o Kuk em frente a Plava e estavam a tomar o planalto de Bainsizza. A frente ocidental não parecia estar muito bem. Dava a ideia de que a guerra ia durar muito tempo. Estávamos na guerra agora, mas pensei que levaria um ano até que se conseguisse levar uma grande quantidade de tropas e treiná-las para o combate. O próximo ano seria um mau ano, ou talvez um bom ano. Os italianos estavam a gastar uma quantidade terrível de homens. Não via como aquilo pudesse continuar. Mesmo que tomassem toda a Bainsizza e o Monte San Gabriele, havia muitas montanhas para além daquilo para os austríacos. Eu tinha-as visto. Todas as montanhas mais altas ficavam mais além. No Carso, eles avançavam, mas havia pântanos e lodaçais perto do mar. Napoleão teria derrotado os austríacos nas planícies. Ele nunca os teria combatido nas montanhas. Tê-los-ia deixado descer e tê-los-ia derrotado à volta de Verona. Ainda assim, ninguém estava a derrotar ninguém na frente ocidental. Talvez as guerras já não se ganhassem. Talvez durassem para sempre. Talvez fosse outra Guerra dos Cem Anos. Voltei a colocar o jornal no suporte e saí do clube. Desci as escadas cuidadosamente e subi a Via Manzoni. Junto ao Gran Hotel, encontrei o velho Meyers e a sua mulher a sair de uma carruagem. Vinham das corridas. Ela era uma mulher de busto grande, vestida de cetim preto. Ele era baixo e velho, com um bigode branco, e andava com os pés chatos, apoiado numa bengala.

“Como vai? Como vai?” Ela apertou-me a mão. “Olá”, disse Meyers.

“Como foram as corridas?”

“Ótimas. Foram simplesmente adoráveis. Tive três vencedores.”

“Como se saiu?”, perguntei ao Meyers.

“Bem. Tive um vencedor.”

“Nunca sei como ele se sai”, disse a Sra. Meyers. “Ele nunca me conta.”

“Eu saio-me bem”, disse Meyers. Estava a ser cordial. “Devia vir connosco.” Enquanto falava, dava-se a impressão de que ele não estava a olhar para nós ou que nos confundia com outra pessoa.

“Eu irei”, disse eu.

“Vou ao hospital ver-te”, disse a Sra. Meyers. “Tenho algumas coisas para os meus rapazes. Vocês são todos meus rapazes. São, certamente, os meus queridos rapazes.”

“Eles ficarão contentes por vê-la.”

“Esses queridos rapazes. Tu também. Tu és um dos meus rapazes.”

“Tenho de voltar”, disse eu.

“Dá os meus cumprimentos a todos esses queridos rapazes. Tenho muitas coisas para trazer. Tenho um pouco de bom Marsala e bolos.”

“Adeus”, disse eu. “Eles ficarão imensamente contentes por vê-la.”

“Adeus”, disse Meyers. “Passa pela galeria. Sabes onde é a minha mesa. Estamos todos lá todas as tardes.” Continuei a subir a rua. Queria comprar algo no Cova para levar à Catherine. Lá dentro, no Cova, comprei uma caixa de chocolates e, enquanto a rapariga a embrulhava, dirigi-me ao bar. Estavam lá uns ingleses e alguns aviadores. Tomei um martini sozinho, paguei, peguei na caixa de chocolates no balcão exterior e continuei o meu caminho em direção ao hospital. Lá fora, no pequeno bar acima da rua da Scala, estavam algumas pessoas que eu conhecia, um vice-cônsul, dois tipos que estudavam canto e Ettore Moretti, um italiano de São Francisco que estava no exército italiano. Bebi um copo com eles. Um dos cantores chamava-se Ralph Simmons e cantava com o nome de Enrico DelCredo. Nunca soube quão bem ele conseguia cantar, mas estava sempre prestes a acontecer algo muito grande. Era gordo e parecia gasto em redor do nariz e da boca, como se tivesse febre dos fenos. Tinha voltado de cantar em Piacenza. Tinha cantado Tosca e tinha sido maravilhoso.

“Claro que nunca me ouviste cantar”, disse ele.

“Quando vais cantar aqui?”

“Estarei na Scala no outono.”

“Aposto que te atiram com os bancos”, disse Ettore. “Ouviste como lhe atiraram com os bancos em Modena?”

“É uma mentira dos diabos.”

“Atiraram-lhe com os bancos”, disse Ettore. “Eu estava lá. Atirei seis bancos eu mesmo.”

“Tu és apenas um *wop* de Frisco.”

“Ele não sabe pronunciar italiano”, disse Ettore. “Onde quer que ele vá, atiram-lhe com os bancos.”

“Piacenza é a casa mais difícil para se cantar no norte da Itália”, disse o outro tenor. “Acredita, aquela é uma casa difícil para se cantar.” O nome deste tenor era Edgar Saunders e cantava com o nome de Edouardo Giovanni.

“Gostava de lá estar para os ver atirar-te com os bancos”, disse Ettore. “Tu não sabes cantar italiano.”

“Ele é um maluco”, disse Edgar Saunders. “Tudo o que ele sabe dizer é atirar bancos.”

“É só o que eles sabem fazer quando vocês os dois cantam”, disse Ettore. “Depois, quando forem para a América, vão falar dos vossos triunfos na Scala. Não vos deixariam passar da primeira nota na Scala.”

“Vou cantar na Scala”, disse Simmons. “Vou cantar Tosca em outubro.”

“Nós vamos, não vamos, Mac?”, disse Ettore ao vice-cônsul. “Vão precisar de alguém para os proteger.”

“Talvez o exército americano esteja lá para os proteger”, disse o vice-cônsul. “Queres outro copo, Simmons? Queres um copo, Saunders?”

“Está bem”, disse Saunders.

“Ouvi dizer que vais receber a medalha de prata”, disse Ettore para mim. “Que tipo de citação vais receber?”

“Não sei. Não sei se a vou receber.”

“Vais recebê-la. Oh rapaz, as raparigas no Cova vão achar que és fantástico então. Vão pensar todas que mataste duzentos austríacos ou que capturaste uma trincheira inteira sozinho. Acredita em mim, eu tenho de trabalhar para as minhas condecorações.”

“Quantas tens, Ettore?”, perguntou o vice-cônsul.

“Ele tem tudo”, disse Simmons. “Ele é o rapaz por quem eles estão a gerir a guerra.”

“Tenho a de bronze duas vezes e três medalhas de prata”, disse Ettore. “Mas os documentos de apenas uma é que foram processados.”

“O que se passa com as outras?”, perguntou Simmons.

“A ação não foi bem-sucedida”, disse Ettore. “Quando a ação não é bem-sucedida, eles retêm todas as medalhas.”

“Quantas vezes foste ferido, Ettore?”

“Três vezes gravemente. Tenho três divisas de ferido. Vês?” Ele puxou a manga. As divisas eram linhas prateadas paralelas sobre um fundo preto, cosidas no tecido da manga a cerca de vinte centímetros abaixo do ombro.

“Tu também tens uma”, disse Ettore para mim. “Acredita em mim, são ótimas de ter. Preferia tê-las do que medalhas. Acredita em mim, rapaz, quando tens três, tens qualquer coisa. Só recebes uma por um ferimento que te coloca três meses no hospital.”

“Onde foste ferido, Ettore?”, perguntou o vice-cônsul.

Ettore puxou a manga. “Aqui”, mostrou a cicatriz vermelha, profunda e lisa. “Aqui na perna. Não te posso mostrar isso porque estou de polainas; e no pé. Tenho osso morto no pé que cheira mal agora mesmo. Todas as manhãs tiro pedacinhos novos e cheira mal o tempo todo.”

“O que te atingiu?”, perguntou Simmons.

“Uma granada de mão. Daquelas tipo esmagador de batatas. Simplesmente arrancou-me o lado todo do pé. Conheces esses esmagadores de batatas?” Ele virou-se para mim.

“Claro.”

“Vi o filho da puta a atirá-la”, disse Ettore. “Derrubou-me e pensei que estava morto, sem dúvida, mas esses malditos esmagadores de batatas não têm nada dentro. Disparei sobre o filho da puta com a minha espingarda. Levo sempre uma espingarda para que não saibam que sou oficial.”

“Como é que ele estava?”, perguntou Simmons.

“Aquela era a única que ele tinha”, disse Ettore. “Não sei por que a atirou. Acho que ele sempre quis atirar uma. Provavelmente nunca viu combate a sério. Disparei sobre o filho da puta, sem dúvida.”

“Como é que ele estava quando disparaste sobre ele?”, perguntou Simmons.

“Diabo, como é que eu hei de saber?”, disse Ettore. “Disparei-lhe na barriga. Tive medo de falhar se lhe disparasse na cabeça.”

“Há quanto tempo és oficial, Ettore?”, perguntei.

“Dois anos. Vou ser capitão. Há quanto tempo és tenente?”

“Há quase três anos.”

“Não podes ser capitão porque não sabes bem o suficiente a língua italiana”, disse Ettore. “Podes falar, mas não sabes ler nem escrever bem o suficiente. Tens de ter instrução para ser capitão. Porque não vais para o exército americano?”

“Talvez vá.”

“Oxalá eu pudesse. Oh, rapaz, quanto é que ganha um capitão, Mac?”

“Não sei exatamente. Cerca de duzentos e cinquenta dólares, creio eu.”

“Jesus Cristo, o que eu faria com duzentos e cinquenta dólares. É melhor entrares rapidamente para o exército americano, Fred. Vê se não me consegues meter lá.”

“Está bem.”

“Sei comandar uma companhia em italiano. Aprendia em inglês facilmente.”

“Serias um general”, disse Simmons.

“Não, não sei o suficiente para ser general. Um general tem de saber um diabo de uma quantidade de coisas. Vocês pensam que a guerra não é nada. Não têm massa cinzenta suficiente para ser cabo de segunda classe.”

“Graças a Deus que não tenho de o ser”, disse Simmons.

“Talvez o sejas se eles apanharem todos esses cobardes. Oh, rapaz, gostava de vos ter aos dois no meu pelotão. Ao Mac também. Fazia de ti o meu ordenança, Mac.”

“És um grande rapaz, Ettore”, disse Mac. “Mas temo que sejas um militarista.”

“Serei coronel antes que a guerra acabe”, disse Ettore.

“Se eles não te matarem.”

“Eles não me vão matar.” Ele tocou nas estrelas do seu colarinho com o polegar e o indicador. “Viste-me fazer isso? Tocamos sempre nas nossas estrelas se alguém mencionar a morte.”

“Vamos, Sim”, disse Saunders, levantando-se.

“Está bem.”

“Adeus”, disse eu. “Também tenho de ir.” Eram quinze para as seis no relógio dentro do bar. “*Ciaou*, Ettore.”

“*Ciaou*, Fred”, disse Ettore. “É muito bom que vais receber a medalha de prata.”

“Não sei se a vou receber.”

“Vais recebê-la, sem dúvida, Fred. Ouvi dizer que vais recebê-la, sem dúvida.”

“Bem, adeus”, disse eu. “Mantém-te longe de problemas, Ettore.”

“Não te preocupes comigo. Não bebo e não ando por aí. Não sou um beberrão nem um caçador de prostitutas. Sei o que é bom para mim.”

“Adeus”, disse eu. “Estou contente por ires ser promovido a capitão.”

“Não tenho de esperar para ser promovido. Vou ser capitão por mérito de guerra. Sabes. Três estrelas com as espadas cruzadas e a coroa por cima. Esse sou eu.”

“Boa sorte.”

“Boa sorte. Quando voltas para a frente?”

“Muito em breve.”

“Bem, vemo-nos por aí.”

“Adeus.”

“Adeus. Não aceites moedas falsas.”

Caminhei por uma rua secundária que levava a um atalho para o hospital. Ettore tinha vinte e três anos. Tinha sido criado por um tio em São Francisco e estava a visitar o pai e a mãe em Turim quando a guerra foi declarada. Tinha uma irmã, que tinha sido enviada para a América com ele na mesma altura para viver com o tio, que se licenciaria na escola normal este ano. Era um herói legítimo que aborrecia toda a gente que encontrava. A Catherine não o suportava.

“Nós também temos heróis”, dizia ela. “Mas, normalmente, querido, são muito mais silenciosos.”

“Eu não me importo com ele.”

“Eu não me importaria se ele não fosse tão convencido e não me aborrecesse, e aborrecesse, e aborrecesse.”

“Ele aborrece-me.”

“És doce por o dizeres, querido. Mas não precisas. Podes imaginá-lo na frente e sabes que ele é útil, mas ele é tão o tipo de rapaz de quem não gosto.”

“Eu sei.”

“És terrivelmente doce por saberes, e tento gostar dele, mas ele é um rapaz terrível, terrível, na verdade.”

“Ele disse esta tarde que ia ser capitão.”

“Estou contente”, disse Catherine. “Isso deve agradar-lhe.”

“Não gostarias que eu tivesse um posto mais elevado?”

“Não, querido. Só quero que tenhas posto suficiente para sermos admitidos nos melhores restaurantes.”

“É exatamente esse o posto que tenho.”

“Tens um posto esplêndido. Não quero que tenhas mais posto nenhum. Pode subir-te à cabeça. Oh, querido, estou terrivelmente contente por não seres convencido. Ter-me-ia casado contigo mesmo que fosses convencido, mas é muito repousante ter um marido que não é convencido.”

Estávamos a conversar suavemente na varanda. A lua devia nascer, mas havia uma névoa sobre a cidade e ela não apareceu e, passado pouco tempo, começou a chuviscar e entrámos. Lá fora, a névoa transformou-se em chuva e, pouco depois, chovia com força e ouvíamo-la a tamborilar no telhado. Levantei-me e fiquei à porta para ver se a chuva entrava, mas não entrava, por isso deixei a porta aberta.

“Quem mais viste?”, perguntou a Catherine.

“O Sr. e a Sra. Meyers.”

“São um lote estranho.”

“Supõe-se que ele tenha estado na penitenciária em casa. Deixaram-no sair para morrer.”

“E viveu feliz em Milão para sempre.”

“Não sei quão feliz.”

“Feliz o suficiente depois da prisão, suponho.”

“Ela vai trazer algumas coisas para aqui.”

“Ela traz coisas esplêndidas. Eras o querido rapaz dela?”

“Um deles.”

“Vocês são todos os seus queridos rapazes”, disse Catherine. “Ela prefere os queridos rapazes. Ouve a chuva.”

“Está a chover com força.”

“E amar-me-ás sempre, não é?”

“Sim.”

“E a chuva não fará diferença?”

“Não.”

“Isso é bom. Porque tenho medo da chuva.”

“Porquê?”, eu estava com sono. Lá fora, a chuva caía incessantemente.

“Não sei, querido. Sempre tive medo da chuva.”

“Eu gosto dela.”

“Gosto de caminhar nela. Mas é muito má para o amor.”

“Amar-te-ei sempre.”

“Amar-te-ei na chuva e na neve e no granizo e — que mais há?”

“Não sei. Acho que estou com sono.”

“Vai dormir, querido, e amar-te-ei aconteça o que acontecer.”

“Não tens medo da chuva a sério, pois não?”

“Não quando estou contigo.”

“Porque tens medo dela?”

“Não sei.”

“Diz-me.”

“Não me forces.”

“Diz-me.”

“Não.”

“Diz-me.”

“Está bem. Tenho medo da chuva porque, por vezes, vejo-me morta nela.”

“Não.”

“E, por vezes, vejo-te morto nela.”

“Isso é mais provável.”

“Não, não é, querido. Porque eu posso manter-te a salvo. Sei que posso. Mas ninguém pode ajudar-se a si próprio.”

“Por favor, para com isso. Não quero que fiques escocesa e louca esta noite. Não estaremos juntos por muito mais tempo.”

“Não, mas sou escocesa e louca. Mas vou parar. É tudo um disparate.”

“Sim, é tudo um disparate.”

“É tudo um disparate. É apenas um disparate. Não tenho medo da chuva. Não tenho medo da chuva. Oh, oh, Deus, quem me dera não ter.” Ela estava a chorar. Confortei-a e ela parou de chorar. Mas, lá fora, continuava a chover.

CAPÍTULO XX

Um dia, à tarde, fomos às corridas. A Ferguson também foi e o Crowell Rodgers, o rapaz que tinha sido ferido nos olhos pela explosão da ponta de um obus. As raparigas vestiram-se para ir depois do almoço, enquanto o Crowell e eu nos sentávamos na cama no quarto dele a ler as atuações passadas dos cavalos e as previsões no jornal de corridas. A cabeça do Crowell estava ligada e ele não se interessava muito por estas corridas, mas lia constantemente o jornal de corridas e seguia o registo de todos os cavalos para ter algo que fazer. Dizia que os cavalos eram um lote terrível, mas eram todos os cavalos que tínhamos. O velho Meyers gostava dele e dava-lhe dicas. Meyers ganhava em quase todas as corridas, mas não gostava de dar dicas porque isso fazia baixar os prémios. As corridas eram muito viciadas. Homens que tinham sido banidos das pistas em todo o lado estavam a correr em Itália. A informação do Meyers era boa, mas eu detestava perguntar-lhe porque, por vezes, ele não respondia e, podia-se sempre ver que o magoava dizer-te, mas ele sentia-se obrigado a dizer-nos por alguma razão e detestava menos dizê-lo ao Crowell. Os olhos do Crowell tinham sido feridos, um estava gravemente ferido, e o Meyers tinha problemas com os seus olhos e, por isso, gostava do Crowell. Meyers nunca dizia à mulher em que cavalos jogava e ela ganhava ou perdia, principalmente perdia, e falava o tempo todo.

Nós os quatro fomos de carruagem aberta para San Siro. Estava um dia adorável e conduzimos através do parque e ao longo da linha do elétrico e para fora da cidade onde a estrada era poeirenta. Havia moradias com vedações de ferro e grandes jardins cobertos de vegetação e valas com água a correr e hortas verdes com pó nas folhas. Podíamos olhar através da planície e ver quintas e as ricas herdades verdes com os seus canais de rega e as montanhas a norte. Havia muitas carruagens a entrar no hipódromo e os homens no portão deixaram-nos entrar sem convites porque estávamos de uniforme. Deixámos a carruagem, comprámos programas e atravessámos o recinto e, depois, a relva macia e espessa do percurso até ao *paddock*. As bancadas eram antigas e feitas de madeira e as cabines de apostas ficavam debaixo das bancadas e numa fila perto dos estábulos. Havia uma multidão de soldados ao longo da vedação no recinto. O *paddock* estava bastante cheio de pessoas e eles passeavam os cavalos num anel sob as árvores atrás da bancada. Vimos pessoas que conhecíamos e arranjámos cadeiras para a Ferguson e para a Catherine e observámos os cavalos.

Eles davam a volta, um atrás do outro, de cabeça baixa, com os cavalariços a guiá-los. Um cavalo, de um preto arroxeado, que Crowell jurava ter sido tingido com aquela cor. Observámo-lo e parecia possível. Só tinha saído pouco antes de tocar a campainha para selar. Procurámo-lo no programa pelo número que o cavalariço trazia no braço e estava listado como um cavalo castrado preto chamado Japalac. A corrida era para cavalos que nunca tinham ganho uma prova que valesse mil liras ou mais. Catherine estava certa de que a sua cor tinha sido alterada. Ferguson disse que não conseguia distinguir. Eu achei que ele tinha um aspeto suspeito. Concordámos todos que devíamos apostar nele e juntámos cem liras. As folhas de cotações mostravam que pagaria trinta e cinco para um. Crowell foi lá e comprou os bilhetes enquanto observávamos os jóqueis a cavalgar mais uma vez e depois a sair por baixo das árvores para a pista e a galopar lentamente até à curva onde seria a partida.

Subimos à tribuna para ver a corrida. Naquela altura não havia barreira elástica em San Siro e o starter alinhou todos os cavalos, eles pareciam muito pequenos lá longe na pista, e depois mandou-os partir com um estalo do seu chicote comprido. Passaram por nós com o cavalo preto bem à frente e, na curva, ele estava a afastar-se dos outros. Observei-os do lado oposto com os binóculos e vi o jóquei a lutar para o segurar, mas ele não o conseguiu conter e, quando fizeram a curva e entraram na reta, o cavalo preto estava quinze corpos à frente dos outros. Ele seguiu em frente e contornou a curva após a meta.

“Não é maravilhoso?”, disse Catherine. “Vamos ter mais de três mil liras. Ele deve ser um cavalo esplêndido.”

“Espero que a cor dele não desbote”, disse Crowell, “antes de pagarem.”

“Ele era realmente um cavalo adorável”, disse Catherine. “Pergunto-me se o Sr. Meyers apostou nele.”

“Apostou no vencedor?”, chamei por Meyers. Ele acenou com a cabeça.

“Eu não”, disse a Sra. Meyers. “Em quem apostaram vocês, crianças?”

“Japalac.”

“A sério? Ele está trinta e cinco para um!”

“Gostámos da cor dele.”

“Eu não. Achei que ele parecia decadente. Disseram-me para não apostar nele.”

“Ele não vai pagar muito”, disse Meyers.

“Está marcado como trinta e cinco para um nas cotações”, disse eu.

“Ele não vai pagar muito. À última da hora”, disse Meyers, “puseram muito dinheiro nele.”

“Quem?”

“Kempton e os rapazes. Vão ver. Não vai pagar dois para um.”

“Então não vamos receber três mil liras”, disse Catherine. “Não gosto destas corridas viciadas!”

“Vamos receber duzentas liras.”

“Isso não é nada. Isso não nos serve de nada. Achei que íamos receber três mil.”

“É viciado e repugnante”, disse Ferguson.

“Claro”, disse Catherine, “se não fosse viciado, nunca teríamos apostado nele. Mas eu teria gostado das três mil liras.”

“Vamos lá abaixo beber um copo e ver quanto pagam”, disse Crowell. Fomos até onde afixavam os números e a campainha tocou para pagar e puseram 18,50 depois de Japalac para vencer. Isso significava que ele pagou menos do que o dinheiro investido numa aposta de dez liras.

Fomos ao bar debaixo da tribuna e tomámos um uísque com soda cada um. Encontrámos um par de italianos que conhecíamos e McAdams, o vice-cônsul, e eles vieram connosco quando nos juntámos às raparigas. Os italianos eram cheios de boas maneiras e McAdams falou com a Catherine enquanto nós descíamos para apostar de novo. O Sr. Meyers estava parado perto do totalizador.

“Pergunta-lhe em quem apostou”, disse eu a Crowell.

“Em que cavalo apostou, Sr. Meyers?”, perguntou Crowell. Meyers tirou o seu programa e apontou para o número cinco com o lápis.

“Importa-se que apostemos nele também?”, perguntou Crowell.

“Força. Força. Mas não digam à minha mulher que fui eu que vos dei a dica.”

“Quer beber alguma coisa?”, perguntei.

“Não, obrigado. Nunca bebo.”

Apostámos cem liras no número cinco para vencer e cem para ficar nos lugares e depois bebemos outro uísque com soda cada um. Eu estava a sentir-me muito bem e encontrámos mais um par de italianos, que beberam um copo connosco cada um, e voltámos para junto das raparigas. Estes italianos também eram muito educados e trocaram gentilezas com os dois que tínhamos angariado antes. Dentro de pouco tempo, ninguém conseguia sentar-se. Dei os bilhetes à Catherine.

“Que cavalo é?”

“Não sei. A escolha do Sr. Meyers.”

“Nem sequer sabes o nome?”

“Não. Podes encontrá-lo no programa. Acho que é o número cinco.”

“Tens uma fé comovente”, disse ela. O número cinco venceu, mas não pagou nada. O Sr. Meyers estava zangado.

“Têm de apostar duzentas liras para ganhar vinte”, disse ele. “Doze liras por cada dez. Não vale a pena. A minha mulher perdeu vinte liras.”

“Vou lá abaixo contigo”, disse Catherine para mim. Os italianos levantaram-se todos. Descemos e fomos para o *paddock*.

“Gostas disto?”, perguntou Catherine.

“Sim. Acho que sim.”

“Está bem, suponho”, disse ela. “Mas, querido, não suporto ver tanta gente.”

“Não vemos muitos.”

“Não. Mas aqueles Meyers e o homem do banco com a sua mulher e filhas...”

“Ele desconta as minhas letras de câmbio”, disse eu.

“Sim, mas outra pessoa descontaria se ele não o fizesse. Aqueles últimos quatro rapazes eram horríveis.”

“Podemos ficar aqui fora e ver a corrida da vedação.”

“Isso será adorável. E, querido, vamos apostar num cavalo de que nunca ouvimos falar e em que o Sr. Meyers não vá apostar.”

“Está bem.”

Apostámos num cavalo chamado Light For Me que terminou em quarto num grupo de cinco. Encostámo-nos à vedação e observámos os cavalos a passar, com os cascos a bater surdamente ao passarem por nós, e vimos as montanhas ao longe e Milão para lá das árvores e dos campos.

“Sinto-me muito mais limpa”, disse Catherine. Os cavalos estavam a voltar, através do portão, molhados e a suar, com os jóqueis a acalmá-los e a cavalgar para desmontar debaixo das árvores.

“Não gostarias de beber algo? Podíamos beber um aqui fora e ver os cavalos.”

“Vou buscá-los”, disse eu.

“O rapaz traz”, disse Catherine. Ela levantou a mão e o rapaz veio do bar Pagoda ao lado das cavalariças. Sentámo-nos a uma mesa redonda de ferro.

“Não gostas mais quando estamos sozinhos?”

“Sim”, disse eu.

“Senti-me muito sozinha quando estavam todos lá.”

“É magnífico aqui”, disse eu.

“Sim. É realmente um hipódromo bonito.”

“É agradável.”

“Não deixes que eu estrague a tua diversão, querido. Vou voltar para dentro sempre que quiseres.”

“Não”, disse eu. “Vamos ficar aqui e beber o nosso copo. Depois descemos e ficamos junto ao fosso de água para o *steeplechase*.”

“Tu és terrivelmente bom para mim”, disse ela.

Depois de termos estado sozinhos algum tempo, ficámos contentes por ver os outros de novo. Divertimo-nos.

CAPÍTULO XXI

Em setembro chegaram as primeiras noites frescas, depois os dias tornaram-se frescos e as folhas das árvores no parque começaram a mudar de cor e soubemos que o verão tinha acabado. Os combates na frente iam muito mal e não conseguiam tomar San Gabriele. Os combates no planalto de Bainsizza tinham terminado e, a meio do mês, os combates por San Gabriele também estavam quase no fim. Não conseguiam tomá-lo. Ettore tinha voltado para a frente. Os cavalos tinham ido para Roma e não havia mais corridas. Crowell também tinha ido para Roma, para ser enviado de volta para a América. Houve motins duas vezes na cidade contra a guerra e motins graves em Turim. Um major britânico no clube disse-me que os italianos tinham perdido cento e cinquenta mil homens no planalto de Bainsizza e em San Gabriele. Disse que tinham perdido quarenta mil no Carso além disso. Bebemos um copo e ele falou. Disse que os combates tinham acabado por aquele ano por ali e que os italianos tinham dado um passo maior do que a perna. Disse que a ofensiva na Flandres estava a correr mal. Se matassem homens como faziam naquele outono, os Aliados estariam acabados dentro de um ano. Disse que estávamos todos acabados, mas que estávamos bem enquanto não o soubéssemos. Estávamos todos acabados. A questão era não o reconhecer. O último país a perceber que estava acabado ganharia a guerra. Bebemos outro copo. Estava eu no estado-maior de alguém? Não. Ele estava. Era tudo treta. Estávamos sozinhos no clube, sentados num dos grandes sofás de couro. As suas botas eram de couro mate suavemente polido. Eram botas bonitas. Ele disse que era tudo treta. Eles pensavam apenas em divisões e mão-de-obra. Disputavam todos por causa de divisões e só as matavam quando as conseguiam. Estavam todos acabados. Os alemães ganhavam as vitórias. Pelo amor de Deus, eles eram soldados. O velho Hun era um soldado. Mas eles também estavam acabados. Estávamos todos acabados. Perguntei sobre a Rússia. Ele disse que já estavam acabados. Em breve veria que eles estavam acabados. Então os austríacos também estavam acabados. Se conseguissem algumas divisões dos Hun, conseguiriam fazê-lo. Achava ele que eles iam atacar naquele outono? Claro que iam. Os italianos estavam acabados. Toda a gente sabia que estavam acabados. O velho Hun desceria através do Trentino e cortaria a ferrovia em Vicenza e então onde estariam os italianos? Tentaram isso em dezasseis, disse eu. Não com alemães. Sim, disse eu. Mas provavelmente não fariam isso, disse ele. Era demasiado simples. Tentariam algo complicado e seriam brilhantemente acabados. Tenho de ir, disse eu. Tenho de voltar ao hospital. “Adeus”, disse ele. Depois, alegremente, “Toda a sorte do mundo!”. Havia um grande contraste entre o seu pessimismo mundial e a sua alegria pessoal.

Parei numa barbearia, fiz a barba e fui para casa, para o hospital. A minha perna estava tão boa quanto poderia ficar por muito tempo. Tinha ido à consulta três dias antes. Ainda havia alguns tratamentos a fazer antes de terminar o meu curso no Ospedale Maggiore e caminhei pela rua lateral praticando não coxear. Um velho estava a cortar silhuetas debaixo de uma arcada. Parei para o observar. Duas raparigas estavam a posar e ele cortou as silhuetas delas juntas, recortando muito rapidamente e olhando para elas, com a cabeça inclinada. As raparigas estavam a rir-se. Ele mostrou-me as silhuetas antes de as colar num papel branco e entregá-las às raparigas.

“São lindas”, disse ele. “E o senhor, Tenente?”

As raparigas foram-se embora a olhar para as suas silhuetas e a rir. Eram raparigas bonitas. Uma delas trabalhava na loja de vinhos em frente ao hospital.

“Está bem”, disse eu.

“Tire o quepe.”

“Não. Com ele posto.”

“Não ficará tão bonito”, disse o velho. “Mas”, animou-se, “será mais militar.”

Ele recortou o papel preto, depois separou as duas espessuras, colou os perfis num cartão e entregou-mo.

“Quanto é?”

“Não se preocupe.” Ele acenou com a mão. “Fiz só para o senhor.”

“Por favor.” Tirei umas moedas de cobre. “Por prazer.”

“Não. Fiz por prazer. Dê-as à sua rapariga.”

“Muitos agradecimentos até nos vermos.”

“Até te ver.”

Fui para o hospital. Havia algumas cartas, uma oficial, e outras. Iria ter três semanas de licença de convalescença e depois regressar à frente. Li-a cuidadosamente. Bem, era isto. A licença de convalescença começava a quatro de outubro, quando o meu curso terminasse. Três semanas eram vinte e um dias. Isso dava vinte e cinco de outubro. Disse-lhes que não estaria presente e fui ao restaurante um pouco mais acima na rua do hospital jantar e li as minhas cartas e o Corriere Della Sera à mesa. Havia uma carta do meu avô, contendo notícias da família, encorajamento patriótico, um cheque de duzentos dólares e alguns recortes; uma carta aborrecida do padre da nossa messe, uma carta de um homem que eu conhecia que estava a voar com os franceses e que se tinha metido com um bando de malucos e estava a contar sobre isso, e um bilhete do Rinaldi a perguntar-me quanto tempo ia ficar escondido em Milão e quais eram as novidades? Ele queria que lhe trouxesse discos de fonógrafo e anexou uma lista. Bebi uma pequena garrafa de chianti com a refeição, tomei um café depois com um copo de conhaque, acabei o jornal, pus as cartas no bolso, deixei o jornal na mesa com a gorjeta e saí. No meu quarto no hospital, despi-me, vesti pijama e um robe, baixei as cortinas da porta que dava para a varanda e, sentado na cama, li jornais de Boston de uma pilha que a Sra. Meyers tinha deixado para os seus rapazes no hospital. Os Chicago White Sox estavam a ganhar o campeonato da Liga Americana e os New York Giants lideravam a Liga Nacional. Babe Ruth era um lançador que jogava então pelo Boston. Os jornais eram aborrecidos, as notícias eram locais e antigas, e as notícias da guerra eram todas velhas. As notícias americanas eram todas sobre campos de treino. Fiquei contente por não estar num campo de treino. As notícias de basebol eram tudo o que eu conseguia ler e não tinha o menor interesse nelas. Vários jornais juntos tornavam impossível ler com interesse. Não era muito atual, mas li um pouco. Perguntei-me se a América entrasse realmente na guerra, se fechariam as ligas principais. Provavelmente não fechariam. Ainda havia corridas em Milão e a guerra não podia ser muito pior. Tinham parado as corridas em França. Era de lá que vinha o nosso cavalo Japalac. Catherine não estava de serviço até às nove horas. Ouvi-a a passar pelo corredor quando começou o turno e uma vez vi-a passar no corredor. Ela foi a vários outros quartos e finalmente entrou no meu.

“Estou atrasada, querido”, disse ela. “Havia muito para fazer. Como estás?”

Contei-lhe sobre os meus jornais e a licença.

“Isso é adorável”, disse ela. “Onde queres ir?”

“A lado nenhum. Quero ficar aqui.”

“Isso é estúpido. Escolhes um lugar para ir e eu também vou.”

“Como vais conseguir?”

“Não sei. Mas conseguirei.”

“Tu és bastante maravilhosa.”

“Não, não sou. Mas a vida não é difícil de gerir quando não se tem nada a perder.”

“O que queres dizer?”

“Nada. Estava apenas a pensar como os obstáculos pareciam pequenos, os que outrora eram tão grandes.”

“Devia pensar que pode ser difícil de gerir.”

“Não, não será, querido. Se for necessário, simplesmente vou-me embora. Mas não chegaremos a esse ponto.”

“Para onde deveríamos ir?”

“Não me interessa. Para onde quiseres. Para qualquer lugar onde não conheçamos ninguém.”

“Não te interessa para onde vamos?”

“Não. Gostarei de qualquer lugar.”

Ela parecia perturbada e tensa.

“O que se passa, Catherine?”

“Nada. Não se passa nada.”

“Sim, passa-se.”

“Não, nada. Realmente nada.”

“Eu sei que se passa. Diz-me, querida. Podes dizer-me.”

“Não é nada.”

“Diz-me.”

“Não quero. Tenho medo de te tornar infeliz ou preocupar-te.”

“Não, não vou ficar.”

“Tens a certeza? Não me preocupa, mas tenho medo de te preocupar.”

“Não preocupará se não te preocupa.”

“Não quero dizer.”

“Diz.”

“Tenho de dizer?”

“Sim.”

“Vou ter um bebé, querido. Está quase com três meses. Não estás preocupado, pois não? Por favor, por favor não estejas. Não te podes preocupar.”

“Está bem.”

“Está tudo bem?”

“Claro.”

“Fiz tudo. Tomei tudo, mas não fez qualquer diferença.”

“Não estou preocupado.”

“Não pude evitar, querido, e não me tenho preocupado com isso. Não te deves preocupar ou sentir mal.”

“Só me preocupo contigo.”

“É isso. É com isso que não te deves preocupar. As pessoas têm bebés a toda a hora. Toda a gente tem bebés. É uma coisa natural.”

“Tu és bastante maravilhosa.”

“Não, não sou. Mas não te deves importar, querido. Vou tentar não te causar problemas. Sei que causei problemas agora. Mas não tenho sido uma boa rapariga até agora? Nunca soubeste, pois não?”

“Não.”

“Será tudo assim. Simplesmente não te deves preocupar. Vejo que estás preocupado. Para com isso. Para imediatamente. Não gostarias de beber um copo, querido? Sei que um copo te faz sentir sempre animado.”

“Não. Sinto-me animado. E tu és bastante maravilhosa.”

“Não, não sou. Mas vou arranjar tudo para estarmos juntos se escolheres um lugar para irmos. Deve ser adorável em outubro. Vamos divertir-nos, querido, e vou escrever-te todos os dias enquanto estiveres na frente.”

“Onde estarás?”

“Não sei ainda. Mas num lugar esplêndido. Cuidarei de tudo isso.”

Ficámos em silêncio durante algum tempo e não falámos. Catherine estava sentada na cama e eu olhava para ela, mas não nos tocámos. Estávamos distantes como quando alguém entra num quarto e as pessoas se sentem embaraçadas. Ela estendeu a mão e pegou na minha.

“Não estás zangado, pois não, querido?”

“Não.”

“E não te sentes preso?”

“Talvez um pouco. Mas não por ti.”

“Não me referia a mim. Não sejas estúpido. Referia-me a estar preso de todo.”

“Sentes-te sempre preso biologicamente.”

Ela foi-se embora para muito longe sem se mexer ou retirar a mão.

“‘Sempre’ não é uma palavra bonita.”

“Desculpa.”

“Está tudo bem. Mas vês, eu nunca tive um bebé e nunca amei ninguém. E tentei ser como querias e depois falas em ‘sempre’.”

“Podia cortar a minha língua”, ofereci.

“Oh, querido!”, ela voltou de onde quer que estivesse. “Não te deves importar comigo.” Estávamos ambos juntos de novo e o embaraço desapareceu. “Nós somos realmente a mesma pessoa e não nos devemos desentender de propósito.”

“Não nos vamos desentender.”

“Mas as pessoas desentendem-se. Elas amam-se e desentendem-se de propósito e lutam e depois, de repente, já não são a mesma pessoa.”

“Nós não vamos lutar.”

“Não devemos. Porque só somos nós dois e no mundo existe todo o resto. Se alguma coisa se colocar entre nós, estamos perdidos e depois eles apanham-nos.”

“Eles não nos apanham”, disse eu. “Porque tu és demasiado corajosa. Nada acontece aos corajosos.”

“Eles morrem, claro.”

“Mas só uma vez.”

“Não sei. Quem disse isso?”

“O cobarde morre mil mortes, o corajoso apenas uma?”

“Claro. Quem disse isso?”

“Não sei.”

“Provavelmente era um cobarde”, disse ela. “Sabia muito sobre cobardes, mas nada sobre os corajosos. O corajoso morre talvez duas mil mortes se for inteligente. Ele simplesmente não as menciona.”

“Não sei. É difícil ver dentro da cabeça do corajoso.”

“Sim. É assim que eles se mantêm assim.”

“Tu és uma autoridade.”

“Tens razão, querido. Isso foi merecido.”

“Tu és corajosa.”

“Não”, disse ela. “Mas gostaria de ser.”

“Eu não sou”, disse eu, “sei onde estou. Estive fora tempo suficiente para saber. Sou como um jogador de basebol que bate duzentos e trinta e sabe que não é melhor.”

“O que é um jogador de basebol que bate duzentos e trinta? É terrivelmente impressionante.”

“Não é. Significa um batedor medíocre no basebol.”

“Mas ainda assim um batedor”, estimulou-me ela.

“Acho que somos ambos convencidos”, disse eu. “Mas tu és corajosa.”

“Não. Mas espero ser.”

“Somos ambos corajosos”, disse eu. “E sou muito corajoso quando bebo um copo.”

“Somos pessoas esplêndidas”, disse Catherine. Ela foi até ao armário e trouxe-me o conhaque e um copo. “Bebe um copo, querido”, disse ela. “Tens sido terrivelmente bom.”

“Não quero realmente um.”

“Bebe um.”

“Está bem.” Enchi um terço do copo de água com conhaque e bebi-o de uma vez.

“Isso foi muito grande”, disse ela. “Sei que o conhaque é para heróis. Mas não devias exagerar.”

“Onde vamos viver depois da guerra?”

“Provavelmente num lar de idosos”, disse ela. “Durante três anos esperei infantilmente que a guerra acabasse no Natal. Mas agora espero até ao momento em que o nosso filho seja um capitão-de-fragata.”

“Talvez ele seja um general.”

“Se for uma guerra de cem anos, ele terá tempo para experimentar os dois serviços.”

“Não queres beber nada?”

“Não. Isso deixa-te sempre feliz, querido, e a mim só me deixa tonta.”

“Nunca bebeste conhaque?”

“Não, querido. Sou uma esposa muito antiquada.”

Estiquei-me para o chão para apanhar a garrafa e servi outro copo.

— É melhor ir dar uma vista de olhos aos seus compatriotas — disse Catherine. — Talvez leia os jornais até eu voltar.

— Tem de ir?

— Agora ou mais tarde.

— Está bem. Agora.

— Voltarei mais tarde.

— Terei acabado de ler os jornais — disse eu.

CAPÍTULO XXII

Ficou frio naquela noite e no dia seguinte chovia. Ao regressar do Ospedale Maggiore, chovia muito forte e eu estava molhado quando cheguei. Lá em cima, no meu quarto, a chuva caía pesadamente lá fora na varanda, e o vento soprava-a contra as portas de vidro. Mudei de roupa e bebi um pouco de conhaque, mas o conhaque não tinha bom sabor. Senti-me mal durante a noite e, de manhã, depois do pequeno-almoço, estava enjoado.

— Não há dúvida quanto a isso — disse o cirurgião residente. — Olhe para o branco dos olhos dele, menina.

A Miss Gage olhou. Fizeram-me olhar para um espelho. O branco dos olhos estava amarelo e era icterícia. Estive doente com isso durante duas semanas. Por essa razão, não passámos a licença de convalescença juntos. Tínhamos planeado ir a Pallanza, no Lago Maggiore. É agradável lá no outono, quando as folhas mudam de cor. Há passeios que se podem fazer e pode pescar-se truta à linha no lago. Teria sido melhor do que Stresa, porque há menos gente em Pallanza. Stresa é tão fácil de alcançar a partir de Milão que há sempre pessoas conhecidas. Há uma aldeia simpática em Pallanza e pode remar-se até às ilhas onde vivem os pescadores, e há um restaurante na maior das ilhas. Mas não fomos.

Um dia, enquanto eu estava na cama com icterícia, a Miss Van Campen entrou no quarto, abriu a porta do guarda-fatos e viu as garrafas vazias lá dentro. Eu tinha enviado uma carga delas para baixo com o porteiro e creio que ela deve tê-las visto a sair e subiu para encontrar mais algumas. Eram maioritariamente garrafas de vermute, garrafas de marsala, garrafas de Capri, garrafões de chianti vazios e algumas garrafas de conhaque. O porteiro tinha levado as garrafas grandes, aquelas que continham vermute, e os garrafões de chianti revestidos a palha, e deixara as garrafas de conhaque para o fim. Foram as garrafas de conhaque e uma garrafa com a forma de urso, que continha kümmel, que a Miss Van Campen encontrou. A garrafa em forma de urso enfureceu-a particularmente. Ela ergueu-a; o urso estava sentado sobre as ancas com as patas levantadas; havia uma rolha na sua cabeça de vidro e alguns cristais pegajosos no fundo. Eu ri-me.

— Era kümmel — disse eu. — O melhor kümmel vem nessas garrafas em forma de urso. Vem da Rússia.

— Essas são todas garrafas de conhaque, não são? — perguntou a Miss Van Campen.

— Não consigo vê-las todas — disse eu. — Mas provavelmente são.

— Há quanto tempo isto acontece?

— Comprei-as e trouxe-as eu mesmo — disse eu. — Tenho tido oficiais italianos a visitar-me frequentemente e guardei conhaque para lhes oferecer.

— Não tem andado a bebê-lo você mesmo? — perguntou ela.

— Também o bebi.

— Conhaque — disse ela. — Onze garrafas vazias de conhaque e esse líquido de urso.

— Kümmel.

— Mandarei chamar alguém para as levar. São essas todas as garrafas vazias que tem?

— Por enquanto.

— E eu a ter pena de si por ter icterícia. Piedade é algo que é desperdiçado consigo.

— Obrigado.

— Suponho que não se possa censurá-lo por não querer voltar para a frente. Mas eu pensaria que tentaria algo mais inteligente do que provocar icterícia com alcoolismo.

— Com quê?

— Com alcoolismo. Ouviu-me dizer isso. — Eu não disse nada. — A menos que encontre outra coisa, temo que terá de voltar para a frente quando acabar a sua icterícia. Não acredito que uma icterícia autoinduzida lhe dê direito a uma licença de convalescença.

— Não acredita?

— Não acredito.

— Alguma vez teve icterícia, Miss Van Campen?

— Não, mas vi muitos casos dela.

— Reparou como os pacientes a desfrutavam?

— Suponho que seja melhor do que a frente.

— Miss Van Campen — disse eu —, alguma vez conheceu um homem que tentou incapacitar-se pontapeando-se no escroto?

A Miss Van Campen ignorou a pergunta propriamente dita. Tinha de a ignorar ou sair do quarto. Ela não estava pronta para sair porque há muito tempo que não gostava de mim e estava agora a tirar proveito disso.

— Conheci muitos homens que escaparam da frente através de ferimentos autoinfligidos.

— Essa não era a pergunta. Também vi ferimentos autoinfligidos. Perguntei-lhe se alguma vez conheceu um homem que tentou incapacitar-se pontapeando-se no escroto. Porque essa é a sensação mais próxima da icterícia e é uma sensação que creio que poucas mulheres alguma vez experimentaram. Foi por isso que lhe perguntei se alguma vez tinha tido icterícia, Miss Van Campen, porque... — A Miss Van Campen saiu do quarto. Mais tarde, a Miss Gage entrou.

— O que disse à Van Campen? Ela estava furiosa.

— Estávamos a comparar sensações. Ia sugerir que ela nunca tinha passado por um parto...

— É um tolo — disse Gage. — Ela quer a sua cabeça.

— Ela já tem a minha cabeça — disse eu. — Fez-me perder a licença e pode tentar que eu seja levado a conselho de guerra. Ela é suficientemente maldosa.

— Ela nunca gostou de si — disse Gage. — Do que se trata?

— Ela diz que bebi até apanhar icterícia para não voltar para a frente.

— Pff — disse Gage. — Eu juro que nunca bebeu. Toda a gente jurará que nunca bebeu.

— Ela encontrou as garrafas.

— Disse-lhe cem vezes para se livrar dessas garrafas. Onde estão agora?

— No guarda-fatos.

— Tem uma mala?

— Não. Ponha-as nessa mochila.

A Miss Gage arrumou as garrafas na mochila. — Vou dá-las ao porteiro — disse ela. Começou a caminhar para a porta.

— Só um minuto — disse a Miss Van Campen. — Eu fico com essas garrafas. — Ela trazia o porteiro consigo. — Carregue-as, por favor — disse ela. — Quero mostrá-las ao médico quando fizer o meu relatório.

Ela desceu o corredor. O porteiro carregava o saco. Ele sabia o que estava lá dentro.

Nada aconteceu, exceto que perdi a minha licença.

CAPÍTULO XXIII

Na noite em que deveria regressar à frente, enviei o porteiro para me reservar um lugar no comboio quando este chegasse de Turim. O comboio devia partir à meia-noite. Era formado em Turim e chegava a Milão por volta das dez e meia da noite, ficando na estação até à hora de partida. Era preciso estar lá quando chegasse para conseguir um lugar. O porteiro levou um amigo, um metralhador de licença que trabalhava numa alfaiataria, e tinha a certeza de que, entre os dois, conseguiriam segurar um lugar. Dei-lhes dinheiro para as plataformas e pedi-lhes que levassem a minha bagagem. Havia uma mochila grande e dois sacos de tiracolo.

Despedi-me no hospital por volta das cinco horas e saí. O porteiro tinha a minha bagagem na sua guarita e eu disse-lhe que estaria na estação pouco antes da meia-noite. A sua mulher chamou-me "Signorino" e chorou. Enxugou os olhos, apertou-me a mão e voltou a chorar. Dei-lhe umas palmadinhas nas costas e ela chorou mais uma vez. Ela tinha feito os meus remendos e era uma mulher muito baixa, atarracada e de rosto alegre com cabelos brancos. Quando ela chorava, todo o seu rosto desmoronava. Fui até à esquina onde havia uma loja de vinhos e esperei lá dentro, olhando pela janela. Estava escuro lá fora, frio e enevoado. Paguei o meu café e grappa e observei as pessoas a passar na luz da janela. Vi a Catherine e bati no vidro. Ela olhou, viu-me e sorriu, e eu saí para encontrá-la. Ela usava uma capa azul-escura e um chapéu de feltro macio. Caminhámos juntos, ao longo do passeio, passando pelas lojas de vinhos, depois atravessámos a praça do mercado e subimos a rua, passando pelo arco até à praça da catedral. Havia carris de elétrico e, para lá deles, a catedral. Estava branca e húmida na neblina. Atravessámos os carris do elétrico. À nossa esquerda ficavam as lojas, com as montras iluminadas, e a entrada da galeria. Havia nevoeiro na praça e, quando nos aproximámos da fachada da catedral, ela era muito grande e a pedra estava húmida.

— Gostaria de entrar?

— Não — disse Catherine. Continuámos a caminhar. Havia um soldado parado com a sua namorada na sombra de um dos contrafortes de pedra à nossa frente e passámos por eles. Eles estavam encostados à pedra e ele tinha colocado a sua capa em volta dela.

— Eles são como nós — disse eu.

— Ninguém é como nós — disse Catherine. Ela não o disse de forma feliz.

— Gostava que eles tivessem algum lugar para onde ir.

— Talvez não lhes servisse de nada.

— Não sei. Toda a gente devia ter algum lugar para onde ir.

— Eles têm a catedral — disse Catherine. Já tínhamos passado por ela. Atravessámos a extremidade da praça e olhámos para trás, para a catedral. Estava bonita na neblina. Estávamos parados em frente à loja de artigos de couro. Havia botas de montar, uma mochila e botas de esqui na montra. Cada artigo estava exposto separadamente; a mochila no centro, as botas de montar de um lado e as botas de esqui do outro. O couro era escuro e oleado, liso como uma sela usada. A luz elétrica criava brilhos sobre o couro oleado mate.

— Um dia vamos esquiar.

— Daqui a dois meses haverá esqui em Mürren — disse Catherine.

— Vamos lá.

— Está bem — disse ela. Continuámos a passar por outras montras e virámos por uma rua lateral.

— Nunca vim por este caminho.

— Este é o caminho que faço para o hospital — disse eu. Era uma rua estreita e mantivemo-nos do lado direito. Havia muitas pessoas a passar no nevoeiro. Havia lojas e todas as montras estavam iluminadas. Olhámos para dentro de uma montra com uma pilha de queijos. Parei em frente a uma loja de armeiro.

— Entre um minuto. Tenho de comprar uma arma.

— Que tipo de arma?

— Uma pistola. — Entrámos e eu desabotoei o meu cinto e coloquei-o com o coldre vazio no balcão. Duas mulheres estavam atrás do balcão. As mulheres trouxeram várias pistolas.

— Tem de caber nisto — disse eu, abrindo o coldre. Era um coldre de couro cinzento que eu tinha comprado em segunda mão para usar na cidade.

— Têm pistolas boas? — perguntou Catherine.

— São todas mais ou menos iguais. Posso experimentar esta? — perguntei à mulher.

— Não tenho lugar para disparar agora — disse ela. — Mas é muito boa. Não se enganará com ela.

Engatilhei-a e puxei o mecanismo. A mola era um pouco forte, mas funcionava suavemente. Mirei e voltei a engatilhar.

— É usada — disse a mulher. — Pertencia a um oficial que era um excelente atirador.

— Vendeu-lha?

— Sim.

— Como a obteve de volta?

— Do seu ordenança.

— Talvez tenha a minha — disse eu. — Quanto custa esta?

— Cinquenta liras. É muito barata.

— Está bem. Quero dois carregadores extra e uma caixa de cartuchos.

Ela trouxe-os debaixo do balcão.

— Precisa de uma espada? — perguntou ela. — Tenho algumas espadas usadas muito baratas.

— Vou para a frente — disse eu.

— Ah, sim, então não precisará de uma espada — disse ela.

Paguei os cartuchos e a pistola, enchi o carregador e coloquei-o no lugar, pus a pistola no meu coldre vazio, enchi os carregadores extra com cartuchos e coloquei-os nas ranhuras de couro no coldre, e depois apertei o cinto. A pistola parecia pesada no cinto. Ainda assim, pensei, era melhor ter uma pistola de regulamento. Podia-se sempre arranjar munições.

— Agora estamos totalmente armados — disse eu. — Essa era a única coisa que me tinha lembrado de fazer. Alguém ficou com a minha outra arma quando fui para o hospital.

— Espero que seja uma boa pistola — disse Catherine.

— Precisava de mais alguma coisa? — perguntou a mulher.

— Creio que não.

— A pistola tem um fiel — disse ela.

— Reparei. — A mulher queria vender mais alguma coisa.

— Não precisa de um apito?

— Creio que não.

A mulher despediu-se e saímos para o passeio. Catherine olhou para a montra. A mulher olhou para fora e fez-nos uma vénia.

— Para que servem aqueles espelhinhos incrustados em madeira?

— São para atrair pássaros. Eles giram-nos no campo e as cotovias veem-nos e saem, e os italianos disparam sobre elas.

— Eles são um povo engenhoso — disse Catherine. — Você não dispara sobre cotovias, pois não, querido, na América?

— Não especialmente.

Atravessámos a rua e começámos a subir pelo outro lado.

— Sinto-me melhor agora — disse Catherine. — Senti-me terrível quando começámos.

— Sentimo-nos sempre bem quando estamos juntos.

— Estaremos sempre juntos.

— Sim, exceto que vou embora à meia-noite.

— Não penses nisso, querido.

Caminhámos pela rua. O nevoeiro tornava as luzes amarelas.

— Não estás cansada? — perguntou Catherine.

— E tu?

— Estou bem. É divertido caminhar.

— Mas não vamos fazê-lo durante muito tempo.

— Não.

Virámos por uma rua lateral onde não havia luzes e caminhámos na estrada. Parei e beijei a Catherine. Enquanto a beijava, senti a sua mão no meu ombro. Ela tinha puxado a minha capa para envolver-se, de modo a cobrir-nos aos dois. Estávamos parados na rua contra uma parede alta.

— Vamos a algum lado — disse eu.

— Ótimo — disse Catherine. Caminhámos ao longo da rua até ela desembocar numa via mais larga, ao lado de um canal. Do outro lado havia uma parede de tijolo e edifícios. À frente, rua abaixo, vi um elétrico atravessar uma ponte.

— Podemos apanhar um táxi na ponte — disse eu. Ficámos na ponte, no nevoeiro, à espera de uma carruagem. Vários elétricos passaram, cheios de gente a regressar a casa. Depois apareceu uma carruagem, mas trazia alguém dentro. O nevoeiro estava a transformar-se em chuva.

— Podíamos caminhar ou apanhar um elétrico — disse Catherine.

— Já vem um aí — disse eu. — Eles passam por aqui.

— Lá vem um — disse ela.

O cocheiro parou o cavalo e baixou o sinal metálico do seu taxímetro. A capota da carruagem estava levantada e havia gotas de água no casaco do cocheiro. O seu chapéu envernizado brilhava com a humidade. Sentámo-nos juntos no banco e a capota da carruagem tornou o ambiente escuro.

— Onde lhe disseste para ir?

— Para a estação. Há um hotel em frente à estação para onde podemos ir.

— Podemos ir assim como estamos? Sem bagagem?

— Sim — disse eu.

Foi uma longa viagem até à estação, por ruas laterais, à chuva.

— Não vamos jantar? — perguntou Catherine. — Tenho medo de ficar com fome.

— Jantaremos no nosso quarto.

— Não tenho nada para vestir. Nem sequer tenho uma camisa de noite.

— Compramos uma — disse eu e chamei o cocheiro.

— Vá até à Via Manzoni e suba por lá. — Ele assentiu e virou à esquerda na esquina seguinte. Na rua larga, Catherine procurou uma loja.

— Ali está um sítio — disse ela. Parei o cocheiro e Catherine saiu, atravessou o passeio e entrou. Sentei-me na carruagem e esperei por ela. Estava a chover e eu conseguia sentir o cheiro da rua molhada e do cavalo a libertar vapor na chuva. Ela voltou com um pacote, entrou e continuámos a viagem.

— Fui muito extravagante, querido — disse ela —, mas é uma bela camisa de noite.

No hotel, pedi à Catherine para esperar na carruagem enquanto eu entrava para falar com o gerente. Havia muitos quartos. Depois fui ter com a carruagem, paguei ao cocheiro e Catherine e eu entrámos juntos. O rapazinho de botões levou o pacote. O gerente guiou-nos para o elevador. Havia muito veludo vermelho e latão. O gerente subiu no elevador connosco.

— Monsieur e Madame desejam jantar no quarto?

— Sim. Pode mandar subir o menu? — disse eu.

— Desejam algo especial para o jantar? Alguma caça ou um soufflé?

O elevador passou por três andares com um clique a cada um, depois clicou e parou.

— Que tipo de caça tem?

— Podia arranjar um faisão, ou uma galinhola.

— Uma galinhola — disse eu. Caminhámos pelo corredor. A alcatifa estava gasta. Havia muitas portas. O gerente parou, destrancou uma porta e abriu-a.

— Aqui tem. Um quarto adorável.

O rapazinho de botões pôs o pacote na mesa, no centro do quarto. O gerente abriu as cortinas.

— Está nevoeiro lá fora — disse ele. O quarto estava decorado com veludo vermelho. Havia muitos espelhos, duas cadeiras e uma cama grande com uma colcha de cetim. Uma porta dava para a casa de banho.

— Vou mandar subir o menu — disse o gerente. Fez uma vénia e saiu.

Fui até à janela e olhei para fora, depois puxei um cordão que fechou as cortinas grossas de veludo. Catherine estava sentada na cama, a olhar para o candelabro de cristal. Tinha tirado o chapéu e o cabelo brilhava sob a luz. Viu-se num dos espelhos e levou as mãos ao cabelo. Vi-a em três outros espelhos. Ela não parecia feliz. Deixou a sua capa cair na cama.

— O que se passa, querida?

— Nunca me senti como uma prostituta antes — disse ela. Fui até à janela, puxei a cortina e olhei para fora. Não pensava que fosse ser assim.

— Tu não és uma prostituta.

— Eu sei, querido. Mas não é agradável sentirmo-nos como uma. — A sua voz era seca e monótona.

— Este era o melhor hotel que podíamos arranjar — disse eu. Olhei pela janela. Do outro lado da praça estavam as luzes da estação. Havia carruagens a passar na rua e vi as árvores no parque. As luzes do hotel brilhavam no pavimento molhado. Oh, raio, pensei, temos de discutir agora?

— Vem aqui, por favor — disse Catherine. A monotonia desapareceu da sua voz. — Vem aqui, por favor. Já sou uma menina boa outra vez. — Olhei para a cama. Ela estava a sorrir.

Fui até lá, sentei-me na cama ao lado dela e beijei-a.

— És a minha menina boa.

— Sou certamente tua — disse ela.

Depois de termos comido, sentímo-nos bem, e depois, sentímo-nos muito felizes e, em pouco tempo, o quarto parecia a nossa própria casa. O meu quarto no hospital tinha sido a nossa casa e este quarto era a nossa casa também, da mesma forma.

Catherine usou a minha túnica sobre os ombros enquanto comíamos. Estávamos com muita fome e a refeição estava boa e bebemos uma garrafa de Capri e uma garrafa de St. Estephe. Eu bebi a maior parte, mas a Catherine bebeu um pouco e isso fez com que se sentisse esplêndida. Para o jantar, tivemos galinhola com batatas soufflé e puré de castanhas, uma salada e zabaione para a sobremesa.

— É um belo quarto — disse Catherine. — É um quarto adorável. Devíamos ter ficado aqui todo o tempo que estivemos em Milão.

— É um quarto engraçado. Mas é agradável.

— O vício é uma coisa maravilhosa — disse Catherine. — As pessoas que se dedicam a ele parecem ter bom gosto. O veludo vermelho é realmente fino. É exatamente o que convém. E os espelhos são muito atraentes.

— És uma rapariga adorável.

— Não sei como seria acordar num quarto destes de manhã. Mas é realmente um quarto esplêndido. — Servi mais um copo de St. Estephe.

— Gostava que pudéssemos fazer algo realmente pecaminoso — disse Catherine. — Tudo o que fazemos parece tão inocente e simples. Não consigo acreditar que fazemos algo de errado.

— És uma rapariga fantástica.

— Sinto-me apenas com fome. Fico terrivelmente com fome.

— És uma rapariga simples e fina — disse eu.

— Sou uma rapariga simples. Ninguém nunca o compreendeu exceto tu.

— Uma vez, quando te conheci, passei uma tarde a pensar em como iríamos juntos ao Hotel Cavour e como seria.

— Isso foi terrivelmente atrevido da tua parte. Este não é o Cavour, pois não?

— Não. Eles não nos teriam deixado entrar lá.

“Eles hão de aceitar-nos a dada altura. Mas é aí que diferimos, querido. Nunca pensei em nada.”

“Nunca pensaste mesmo?”

“Um pouco”, disse ela.

“Oh, és uma rapariga adorável.”

Servi outro copo de vinho.

“Sou uma rapariga muito simples”, disse Catherine.

“Ao princípio não me pareceu. Pensei que fosses uma rapariga louca.”

“Fui um pouco louca. Mas não era louca de forma nenhuma complicada. Não te confundi, pois não, querido?”

“O vinho é uma coisa grandiosa”, disse eu. “Faz-nos esquecer tudo o que é mau.”

“É adorável”, disse Catherine. “Mas causou uma gota terrível ao meu pai.”

“Tens pai?”

“Sim”, disse Catherine. “Ele tem gota. Nunca terás de o conhecer. Não tens pai?”

“Não”, disse eu. “Um padrasto.”

“Vou gostar dele?”

“Não terás de o conhecer.”

“Damo-nos tão bem”, disse Catherine. “Já não me interesso por mais nada. Sou tão muito feliz casada contigo.”

O empregado de mesa veio e levou as coisas. Depois de algum tempo, ficámos muito quietos e podíamos ouvir a chuva. Lá em baixo, na rua, um automóvel buzinou.

“‘Mas às minhas costas ouço sempre O carro alado do Tempo a apressar-se perto,’”

disse eu.

“Conheço esse poema”, disse Catherine. “É do Marvell. Mas é sobre uma rapariga que não queria viver com um homem.”

A minha cabeça parecia muito clara e fria e eu queria falar de factos.

“Onde vais ter o bebé?”

“Não sei. O melhor lugar que conseguir encontrar.”

“Como vais arranjar isso?”

“Da melhor maneira que puder. Não te preocupes, querido. Podemos ter vários bebés antes que a guerra acabe.”

“Está quase na hora de ir.”

“Eu sei. Podes fazer com que seja a hora, se quiseres.”

“Não.”

“Então não te preocupes, querido. Estavas bem até agora e agora estás preocupado.”

“Não vou estar. Com que frequência vais escrever?”

“Todos os dias. Eles leem as tuas cartas?”

“Não sabem ler inglês o suficiente para fazer mal algum.”

“Vou torná-las muito confusas”, disse Catherine.

“Mas não demasiado confusas.”

“Vou apenas torná-las um pouco confusas.”

“Receio que tenhamos de começar a ir.”

“Está bem, querido.”

“Detesto deixar a nossa casa fina.”

“Eu também.”

“Mas temos de ir.”

“Está bem. Mas nunca nos instalamos muito tempo no nosso lar.”

“Havemos de o fazer.”

“Hei de ter um lar fino para ti quando voltares.”

“Talvez volte logo de imediato.”

“Talvez sejas ferido apenas um pouco no pé.”

“Ou no lóbulo da orelha.”

“Não, quero as tuas orelhas como elas são.”

“E não os meus pés?”

“Os teus pés já foram atingidos.”

“Temos de ir, querido. A sério.”

“Está bem. Tu vais primeiro.”

CAPÍTULO XXIV

Descemos as escadas a pé em vez de apanhar o elevador. A alcatifa das escadas estava gasta. Eu tinha pago o jantar quando ele subiu e o empregado, que o tinha trazido, estava sentado numa cadeira perto da porta. Ele saltou e fez uma vénia e eu fui com ele para a sala lateral e paguei a conta do quarto. O gerente lembrava-se de mim como um amigo e recusou o pagamento adiantado, mas, quando se retirou, lembrou-se de ter o empregado postado à porta para que eu não saísse sem pagar. Suponho que isso tivesse acontecido; mesmo com os seus amigos. Tínhamos tantos amigos numa guerra.

Pedi ao empregado que nos arranjasse uma carruagem e ele pegou na encomenda da Catherine que eu carregava e saiu com um guarda-chuva. Lá fora, através da janela, vimo-lo atravessar a rua à chuva. Ficámos na sala lateral a olhar pela janela.

“Como te sentes, Cat?”

“Com sono.”

“Sinto-me vazio e com fome.”

“Tens alguma coisa para comer?”

“Sim, na minha mochila.”

Vi a carruagem a chegar. Parou, com a cabeça do cavalo pendida à chuva, e o empregado saiu, abriu o guarda-chuva e veio em direção ao hotel. Encontrámo-lo à porta e caminhámos sob o guarda-chuva pelo passeio molhado até à carruagem junto ao lancil. A água corria na sarjeta.

“Aí está a sua encomenda no banco”, disse o empregado. Ficou com o guarda-chuva até estarmos dentro e eu lhe ter dado a gorjeta.

“Muito obrigado. Boa viagem”, disse ele. O cocheiro levantou as rédeas e o cavalo começou a andar. O empregado afastou-se sob o guarda-chuva e foi em direção ao hotel. Seguimos rua abaixo e virámos à esquerda, depois contornámos para a direita em frente à estação. Havia dois carabineiros de pé sob a luz, fora da chuva. A luz brilhava nos seus chapéus. A chuva era clara e transparente contra a luz da estação. Um porteiro saiu de debaixo do abrigo da estação, com os ombros erguidos contra a chuva.

“Não”, disse eu. “Obrigado. Não preciso de ti.”

Ele voltou para debaixo do abrigo do arco. Virei-me para a Catherine. O rosto dela estava na sombra da capota da carruagem.

“Mais vale dizermos adeus.”

“Não posso entrar?”

“Não.”

“Adeus, Cat.”

“Vais dizer-lhe o hospital?”

“Sim.”

Disse ao cocheiro a morada para onde conduzir. Ele assentiu.

“Adeus”, disse eu. “Cuida bem de ti e da pequena Catherine.”

“Adeus, querido.”

“Adeus”, disse eu. Saí para a chuva e a carruagem começou a andar. Catherine inclinou-se para fora e vi o rosto dela na luz. Sorriu e acenou. A carruagem subiu a rua, Catherine apontou para o interior do arco. Olhei, só estavam lá os dois carabineiros e o arco. Percebi que ela queria que eu entrasse para fugir à chuva. Entrei, fiquei de pé e vi a carruagem virar a esquina. Depois comecei a atravessar a estação e a descer a rampa para o comboio.

O porteiro estava na plataforma à minha espera. Segui-o para dentro do comboio, passando a custo por entre as pessoas e ao longo do corredor e entrando por uma porta onde o metralhador estava sentado no canto de um compartimento cheio. A minha mochila e os sacos estavam acima da cabeça dele, no suporte de bagagem. Havia muitos homens de pé no corredor e todos os homens no compartimento olharam para nós quando entrámos. Não havia lugares suficientes no comboio e todos eram hostis. O metralhador levantou-se para eu me sentar. Alguém me tocou no ombro. Olhei à volta. Era um capitão de artilharia muito alto e magro com uma cicatriz vermelha ao longo do maxilar. Tinha olhado através do vidro no corredor e depois entrado.

“O que diz?” perguntei. Tinha-me virado e estava de frente para ele. Era mais alto do que eu e o seu rosto estava muito magro sob a sombra da pala do boné e a cicatriz era recente e brilhante. Todos no compartimento olhavam para mim.

“Não pode fazer isso”, disse ele. “Não pode ter um soldado a guardar-lhe um lugar.”

“Já o fiz.”

Ele engoliu em seco e vi o seu pomo de Adão subir e depois descer. O metralhador estava de pé em frente ao lugar. Outros homens olhavam através do vidro. Ninguém no compartimento disse nada.

“Não tem o direito de fazer isso. Eu estava aqui duas horas antes de o senhor chegar.”

“O que quer?”

“O lugar.”

“Eu também.”

Observei o seu rosto e consegui sentir o compartimento inteiro contra mim. Não os culpava. Ele tinha razão. Mas eu queria o lugar. Ainda assim, ninguém disse nada.

Oh, inferno, pensei eu.

“Sente-se, Signor Capitano”, disse eu. O metralhador afastou-se e o capitão alto sentou-se. Olhou para mim. O seu rosto parecia magoado. Mas ele tinha o lugar. “Vai buscar as minhas coisas”, disse eu ao metralhador. Saímos para o corredor. O comboio estava cheio e eu sabia que não havia hipótese de um lugar. Dei dez liras ao porteiro e ao metralhador a cada um. Eles desceram o corredor e saíram na plataforma a espreitar pelas janelas, mas não havia lugares.

“Talvez alguns saiam em Brescia”, disse o porteiro.

“Mais vão entrar em Brescia”, disse o metralhador. Despedi-me deles e apertámos as mãos e eles foram-se embora. Ambos sentiam-se mal. Dentro do comboio, estávamos todos de pé no corredor quando o comboio arrancou. Observei as luzes da estação e as manobras à medida que saíamos. Continuava a chover e logo as janelas estavam molhadas e não se conseguia ver para fora. Mais tarde dormi no chão do corredor; primeiro pus a minha carteira com o meu dinheiro e documentos dentro da camisa e das calças, de modo a ficar dentro da perna dos calções. Dormi a noite toda, acordando em Brescia e Verona quando entravam mais homens no comboio, mas voltando a dormir de imediato. Tinha a cabeça sobre um dos sacos e os braços à volta do outro e podia sentir a mochila e todos podiam passar por cima de mim se não me pisassem. Havia homens a dormir no chão por todo o corredor. Outros estavam de pé a agarrar-se às barras da janela ou encostados às portas. Aquele comboio estava sempre cheio.

LIVRO III

CAPÍTULO XXV

Agora, no outono, as árvores estavam todas despidas e as estradas lamacentas. Fui de Udine para Gorizia num camião. Passámos por outros camiões na estrada e olhei para a paisagem. As amoreiras estavam despidas e os campos castanhos. Havia folhas mortas húmidas na estrada vindas das filas de árvores nuas e os homens trabalhavam na estrada, compactando pedra nos sulcos a partir de pilhas de pedra britada ao lado da estrada entre as árvores. Vimos a cidade com uma névoa sobre ela que cortava as montanhas. Atravessámos o rio e vi que estava com o caudal alto. Tinha estado a chover nas montanhas. Entrámos na cidade passando pelas fábricas e depois pelas casas e vivendas e vi que muitas outras casas tinham sido atingidas. Numa rua estreita passámos por uma ambulância da Cruz Vermelha Britânica. O condutor usava um boné e o seu rosto era magro e muito bronzeado. Não o conhecia. Desci do camião na grande praça em frente à casa do Major da Cidade, o condutor entregou-me a mochila e eu coloquei-a e pendurei os dois sacos e caminhei até à nossa vivenda. Não parecia um regresso a casa.

Caminhei pela entrada de gravilha húmida olhando para a vivenda através das árvores. As janelas estavam todas fechadas mas a porta estava aberta. Entrei e encontrei o major sentado a uma mesa na sala despida com mapas e folhas de papel dactilografadas na parede.

“Olá”, disse ele. “Como estás?” Parecia mais velho e mais seco.

“Estou bem”, disse eu. “Como vai tudo?”

“Acabou tudo”, disse ele. “Tira o equipamento e senta-te.” Coloquei a minha mochila e os dois sacos no chão e o boné sobre a mochila. Trouxe a outra cadeira da parede e sentei-me junto à secretária.

“Foi um mau verão”, disse o major. “Estás forte agora?”

“Sim.”

“Chegaste a receber as condecorações?”

“Sim. Recebi-as bem. Muito obrigado.”

“Deixa-me vê-las.”

Abri a minha capa para que ele pudesse ver as duas fitas.

“Recebeste as caixas com as medalhas?”

“Não. Apenas os documentos.”

“As caixas virão mais tarde. Isso leva mais tempo.”

“O que quer que eu faça?”

“Os carros estão todos fora. Há seis lá em cima no norte, em Caporetto. Conheces Caporetto?”

“Sim”, disse eu. Lembrava-me dela como uma pequena cidade branca com um campanário num vale. Era uma cidadezinha limpa e havia uma fonte fina na praça.

“Eles estão a trabalhar a partir de lá. Há muitos doentes agora. Os combates acabaram.”

“Onde estão os outros?”

“Há dois lá em cima nas montanhas e quatro ainda em Bainsizza. As outras duas secções de ambulâncias estão no Carso com o terceiro exército.”

“O que deseja que eu faça?”

“Podes ir assumir os quatro carros em Bainsizza, se quiseres. O Gino tem estado lá em cima há muito tempo. Ainda não viste aquilo lá em cima, pois não?”

“Não.”

“Foi muito mau. Perdemos três carros.”

“Ouvi falar disso.”

“Sim, o Rinaldi escreveu-te.”

“Onde está o Rinaldi?”

“Ele está aqui no hospital. Teve um verão e um outono daqueles.”

“Acredito.”

“Tem sido mau”, disse o major. “Não podias acreditar quão mau tem sido. Muitas vezes pensei que tiveste sorte em ser atingido quando foste.”

“Eu sei que tive.”

“O próximo ano será pior”, disse o major. “Talvez eles ataquem agora. Dizem que vão atacar, mas não consigo acreditar. É demasiado tarde. Viste o rio?”

“Sim. Já está alto.”

“Não acredito que ataquem agora que as chuvas começaram. Teremos a neve em breve. E os teus compatriotas? Haverá outros americanos além de ti?”

“Estão a treinar um exército de dez milhões.”

“Espero que recebamos alguns deles. Mas os franceses vão acaparar todos. Nunca receberemos nenhuns aqui em baixo. Está bem. Fica aqui esta noite e vai amanhã com o carro pequeno e manda o Gino de volta. Enviarei alguém contigo que conheça a estrada. O Gino dir-te-á tudo. Eles ainda estão a bombardear um pouco, mas acabou tudo. Vais querer ver Bainsizza.”

“Estou contente por vê-la. Estou contente por estar de volta convosco novamente, Signor Maggiore.”

Ele sorriu. “És muito gentil ao dizer isso. Estou muito cansado desta guerra. Se estivesse longe, não creio que voltaria.”

“É assim tão mau?”

“Sim. É assim tão mau e pior. Vai limpar-te e encontra o teu amigo Rinaldi.”

Saí e levei as minhas malas escada acima. O Rinaldi não estava no quarto, mas as suas coisas estavam lá e sentei-me na cama, desenrolei as minhas polainas e tirei o sapato do pé direito. Depois deitei-me na cama. Estava cansado e o meu pé direito doía. Parecia parvo estar deitado na cama com um sapato fora, por isso sentei-me, desatei o outro sapato e deixei-o cair no chão, depois deitei-me novamente na manta. O quarto estava abafado com a janela fechada, mas eu estava demasiado cansado para me levantar e abri-la. Vi que as minhas coisas estavam todas num canto do quarto. Lá fora estava a escurecer. Deitei-me na cama e pensei na Catherine e esperei pelo Rinaldi. Ia tentar não pensar na Catherine, exceto à noite antes de ir dormir. Mas agora estava cansado e não havia nada para fazer, por isso deitei-me e pensei nela. Estava a pensar nela quando o Rinaldi entrou. Parecia exatamente o mesmo. Talvez estivesse um pouco mais magro.

“Bem, bebé”, disse ele. Sentei-me na cama. Ele aproximou-se, sentou-se e pôs o braço à volta de mim. “Bom e velho bebé.” Ele deu-me uma palmada nas costas e eu segurei os dois braços dele.

“Velho bebé”, disse ele. “Deixa-me ver o teu joelho.”

“Vou ter de tirar as calças.”

“Tira as calças, bebé. Somos todos amigos aqui. Quero ver que tipo de trabalho fizeram.” Levantei-me, tirei as calças e puxei a joelheira. O Rinaldi sentou-se no chão e dobrou o joelho suavemente para a frente e para trás. Passou o dedo ao longo da cicatriz; juntou os polegares sobre a rótula e balançou o joelho suavemente com os dedos.

“É essa toda a articulação que tens?”

“Sim.”

“É um crime mandarem-te de volta. Deviam conseguir articulação completa.”

“Está muito melhor do que estava. Estava rígido como uma tábua.”

O Rinaldi dobrou-o mais. Observei as suas mãos. Ele tinha mãos de cirurgião finas. Olhei para o topo da sua cabeça, o seu cabelo brilhante e penteado suavemente. Ele dobrou o joelho demasiado.

“Ai!” disse eu.

“Devias ter mais tratamento com as máquinas”, disse o Rinaldi.

“Está melhor do que estava.”

“Vejo isso, bebé. Isto é algo sobre o qual sei mais do que tu.” Ele levantou-se e sentou-se na cama. “O joelho em si é um bom trabalho.” Tinha acabado com o joelho. “Conta-me tudo sobre tudo.”

“Não há nada para contar”, disse eu. “Levei uma vida calma.”

“Agires como um homem casado”, disse ele. “O que é que tens?”

“Nada”, disse eu. “O que é que tens tu?”

“Esta guerra está a matar-me”, disse o Rinaldi, “estou muito deprimido com ela.” Cruzou as mãos sobre o joelho.

“Oh”, disse eu.

“O que é que tens? Nem sequer posso ter impulsos humanos?”

“Não. Vejo que te tens divertido imenso. Conta-me.”

“Durante todo o verão e todo o outono operei. Trabalho o tempo todo. Faço o trabalho de todos. Todos os difíceis deixam-nos para mim. Por Deus, bebé, estou a tornar-me um cirurgião adorável.”

“Isso soa melhor.”

“Nunca penso. Não, por Deus, não penso; opero.”

“É isso mesmo.”

“Mas agora, bebé, acabou tudo. Não opero agora e sinto-me como o inferno. Esta é uma guerra terrível, bebé. Acredita em mim quando digo isto. Agora anima-me. Trouxeste os discos da fonógrafa?”

“Sim.”

Estavam embrulhados em papel numa caixa de cartão na minha mochila. Estava demasiado cansado para os tirar.

“Não te sentes bem, bebé?”

“Sinto-me como o inferno.”

“Esta guerra é terrível”, disse o Rinaldi. “Vamos. Ambos vamos ficar bêbados e ficar alegres. Depois vamos arrastar as cinzas. Depois sentimo-nos bem.”

“Tive icterícia”, disse eu, “e não posso ficar bêbado.”

“Oh, bebé, como voltaste para mim. Voltas sério e com um fígado. Digo-te, esta guerra é uma coisa má. Por que é que a fizemos, afinal?”

“Vamos beber um copo. Não quero ficar bêbado, mas vamos beber um copo.”

O Rinaldi atravessou o quarto até ao lavatório e trouxe dois copos e uma garrafa de conhaque.

“É conhaque austríaco”, disse ele. “Sete estrelas. Foi tudo o que capturaram em San Gabriele.”

“Estiveste lá em cima?”

“Não. Não estive em lado nenhum. Estive aqui o tempo todo a operar. Olha, bebé, este é o teu velho copo de lavar os dentes. Guardei-o o tempo todo para me lembrar de ti.”

“Para te lembrar de lavar os dentes.”

“Não. Eu também tenho o meu. Guardei isto para me lembrar de ti a tentar lavar o Villa Rossa dos teus dentes de manhã, a jurar e a comer aspirinas e a amaldiçoar prostitutas. Sempre que vejo aquele copo penso em ti a tentar limpar a tua consciência com uma escova de dentes.” Ele aproximou-se da cama. “Beija-me uma vez e diz-me que não és sério.”

“Nunca te beijo. És um macaco.”

“Eu sei, tu és o bom rapaz anglo-saxónico. Eu sei. Tu és o rapaz do remorso, eu sei. Esperarei até ver o anglo-saxão a lavar a prostituição com uma escova de dentes.”

“Põe um pouco de conhaque no copo.”

Tocámos os copos e bebemos. O Rinaldi riu-se de mim.

“Vou embebedar-te e tirar-te o fígado e pôr-te um bom fígado italiano e fazer de ti um homem outra vez.”

Segurei o copo para mais conhaque. Estava escuro lá fora agora. Segurando o copo de conhaque, fui abrir a janela. A chuva tinha parado de cair. Estava mais frio lá fora e havia uma névoa nas árvores.

“Não deites o conhaque pela janela”, disse o Rinaldi. “Se não o consegues beber, dá-mo.”

“Vai-te lixar”, disse eu. Fiquei contente por ver o Rinaldi novamente. Ele tinha passado dois anos a provocar-me e eu sempre gostei disso. Entendíamo-nos muito bem.

“Estás casado?” perguntou ele da cama. Eu estava de pé contra a parede junto à janela.

“Ainda não.”

“Estás apaixonado?”

“Sim.”

“Com aquela rapariga inglesa?”

“Sim.”

“Pobre bebé. Ela é boa para ti?”

“Claro.”

“Quero dizer, ela é boa para ti praticamente falando?”

“Cala-te.”

“Vou calar-me. Verás que sou um homem de extrema delicadeza. Ela——?”

“Rinin”, disse eu. “Por favor, cala-te. Se queres ser meu amigo, cala-te.”

“Não quero ser teu amigo, bebé. Eu sou teu amigo.”

“Então cala-te.”

“Está bem.”

Fui até a cama e sentei-me ao lado de Rinaldi. Ele segurava o copo e olhava para o chão.

“Vês como é, Rinin?”

“Oh, sim. Durante toda a minha vida encontro assuntos sagrados. Mas muito poucos contigo. Suponho que tu também devas ter os teus.” Ele olhou para o chão.

“Não tens nenhum?”

“Não.”

“Nenhum?”

“Não.”

“Posso dizer isto sobre a tua mãe e aquilo sobre a tua irmã?”

“E aquilo sobre a tua irmã”, disse Rinaldi prontamente. Nós rimos ambos.

“O velho super-homem”, disse eu.

“Talvez esteja com ciúmes”, disse Rinaldi.

“Não, não estás.”

“Não quero dizer nesse sentido. Quero dizer outra coisa. Tens amigos casados?”

“Sim”, disse eu.

“Eu não tenho”, disse Rinaldi. “Não se eles se amam.”

“Por que não?”

“Eles não gostam de mim.”

“Por que não?”

“Eu sou a serpente. Eu sou a serpente da razão.”

“Estás a confundir as coisas. A maçã é que era a razão.”

“Não, era a serpente.” Ele estava mais animado.

“Tu és melhor quando não pensas tão profundamente”, disse eu.

“Eu amo-te, bebé”, disse ele. “Tu furas-me quando me torno um grande pensador italiano. Mas sei muitas coisas que não posso dizer. Sei mais do que tu.”

“Sim. Sabes.”

“Mas tu vais divertir-te mais. Mesmo com remorsos, vais divertir-te mais.”

“Não penso assim.”

“Oh, sim. Isso é verdade. Já só sou feliz quando estou a trabalhar.” Ele olhou novamente para o chão.

“Vais superar isso.”

“Não. Só gosto de duas outras coisas; uma é má para o meu trabalho e a outra acaba em meia hora ou quinze minutos. Às vezes menos.”

“Às vezes muito menos.”

“Talvez eu tenha melhorado, bebé. Tu não sabes. Mas só existem as duas coisas e o meu trabalho.”

“Vais arranjar outras coisas.”

“Não. Nunca arranjamos nada. Nascemos com tudo o que temos e nunca aprendemos. Nunca recebemos nada de novo. Todos começamos completos. Devias estar contente por não seres latino.”

“Não existe tal coisa como um latino. Isso é pensamento ‘latino’. Tu és tão orgulhoso dos teus defeitos.” Rinaldi olhou para cima e riu.

“Vamos parar, bebé. Estou cansado de pensar tanto.” Ele parecia cansado quando entrou. “Está quase na hora de comer. Estou contente por teres voltado. És o meu melhor amigo e o meu irmão de guerra.”

“Quando é que os irmãos de guerra comem?”, perguntei.

“Imediatamente. Vamos beber mais uma vez pelo teu fígado.”

“Como São Paulo.”

“Estás impreciso. Isso era vinho e o estômago. Toma um pouco de vinho por causa do teu estômago.”

“O que quer que tenhas na garrafa”, disse eu. “Seja por que motivo for que menciones.”

“À tua rapariga”, disse Rinaldi. Ele estendeu o copo.

“Está bem.”

“Nunca direi uma coisa suja sobre ela.”

“Não te esforces demasiado.”

Ele bebeu o conhaque de um trago. “Sou puro”, disse ele. “Sou como tu, bebé. Também vou arranjar uma rapariga inglesa. Na verdade, conheci a tua rapariga primeiro, mas ela era um pouco alta para mim. Uma rapariga alta para uma irmã”, citou ele.

“Tens uma mente adorável e pura”, disse eu.

“Não tenho? É por isso que me chamam Rinaldo Purissimo.”

“Rinaldo Sporchissimo.”

“Vamos, bebé, vamos lá abaixo comer enquanto a minha mente ainda está pura.”

Lavei-me, penteei o cabelo e descemos as escadas. Rinaldi estava um pouco bêbado. Na sala onde comíamos, a refeição não estava bem pronta.

“Vou buscar a garrafa”, disse Rinaldi. Ele subiu as escadas. Sentei-me à mesa e ele voltou com a garrafa e serviu-nos meio copo de conhaque a cada um.

“Demasiado”, disse eu, segurando o copo e olhando contra a lâmpada da mesa.

“Não para um estômago vazio. É uma coisa maravilhosa. Queima o estômago completamente. Nada é pior para ti.”

“Está bem.”

“Autodestruição dia após dia”, disse Rinaldi. “Arruína o estômago e faz a mão tremer. Exatamente o que é preciso para um cirurgião.”

“Recomendas?”

“Calorosamente. Não uso outra. Bebe, bebé, e prepara-te para ficar doente.”

Bebi metade do copo. No corredor, pude ouvir o enfermeiro a chamar. “Sopa! A sopa está pronta!”

O major entrou, acenou-nos e sentou-se. Ele parecia muito pequeno à mesa.

“É só isto que somos?”, perguntou ele. O enfermeiro pôs a tigela de sopa e ele serviu um prato cheio.

“Somos todos”, disse Rinaldi. “A menos que o padre venha. Se ele soubesse que Federico estava aqui, já estaria aqui.”

“Onde está ele?”, perguntei.

“Está no 307”, disse o major. Ele estava ocupado com a sua sopa. Limpou a boca, limpando cuidadosamente o seu bigode grisalho virado para cima. “Penso que ele virá. Liguei-lhes e deixei recado para lhe dizerem que estavas aqui.”

“Sinto falta do ruído do refeitório”, disse eu.

“Sim, está silencioso”, disse o major.

“Eu farei barulho”, disse Rinaldi.

“Bebe um pouco de vinho, Enrico”, disse o major. Ele encheu o meu copo. O esparguete chegou e ficámos todos ocupados. Estávamos a acabar o esparguete quando o padre entrou. Ele estava igual a sempre, pequeno, moreno e com aspeto compacto. Levantei-me e apertámos as mãos. Ele colocou a mão no meu ombro.

“Vim assim que soube”, disse ele.

“Senta-te”, disse o major. “Estás atrasado.”

“Boa noite, padre”, disse Rinaldi, usando a palavra inglesa. Eles tinham pegado nisso por causa do capitão que provocava o padre, que falava um pouco de inglês. “Boa noite, Rinaldo”, disse o padre. O enfermeiro trouxe-lhe sopa, mas ele disse que começaria pelo esparguete.

“Como estás?”, perguntou-me ele.

“Bem”, disse eu. “Como têm corrido as coisas?”

“Bebe um pouco de vinho, padre”, disse Rinaldi. “Toma um pouco de vinho por causa do teu estômago. Isso é São Paulo, sabes.”

“Sim, eu sei”, disse o padre educadamente. Rinaldi encheu-lhe o copo.

“Esse São Paulo”, disse Rinaldi. “Ele é o que causa todos os problemas.” O padre olhou para mim e sorriu. Percebi que as provocações já não o atingiam.

“Esse São Paulo”, disse Rinaldi. “Ele era um boémio e um mulherengo e depois, quando já não estava quente, disse que não prestava. Quando acabou, criou as regras para nós que ainda estamos quentes. Não é verdade, Federico?”

O major sorriu. Estávamos a comer ensopado de carne agora.

“Nunca discuto um Santo depois de escurecer”, disse eu. O padre levantou os olhos do ensopado e sorriu para mim.

“Aí está ele, do lado do padre”, disse Rinaldi. “Onde estão todos os bons velhos provocadores de padres? Onde está Cavalcanti? Onde está Brundi? Onde está Cesare? Tenho de provocar este padre sozinho, sem apoio?”

“Ele é um bom padre”, disse o major.

“Ele é um bom padre”, disse Rinaldi. “Mas ainda assim, um padre. Tento fazer o refeitório como nos velhos tempos. Quero fazer Federico feliz. Para o inferno contigo, padre!”

Vi o major olhar para ele e notar que estava bêbado. O seu rosto fino estava branco. A linha do seu cabelo era muito preta contra o branco da sua testa.

“Está tudo bem, Rinaldo”, disse o padre. “Está tudo bem.”

“Para o inferno contigo”, disse Rinaldi. “Para o inferno com toda esta maldita história.” Ele encostou-se na cadeira.

“Ele tem estado sob tensão e está cansado”, disse o major para mim. Ele terminou a carne e limpou o molho com um pedaço de pão.

“Não quero saber”, disse Rinaldi para a mesa. “Para o inferno com toda a história.” Ele olhou desafiadoramente à volta da mesa, com os olhos baços, o rosto pálido.

“Está bem”, disse eu. “Para o inferno com toda a maldita história.”

“Não, não”, disse Rinaldi. “Tu não podes fazê-lo. Tu não podes fazê-lo. Digo-te que não podes. Estás seco e vazio e não há mais nada. Não há mais nada, digo-te. Nem uma maldita coisa. Eu sei, quando paro de trabalhar.”

O padre abanou a cabeça. O enfermeiro retirou o prato do ensopado.

“Porque é que estás a comer carne?”, Rinaldi virou-se para o padre. “Não sabes que é sexta-feira?”

“É quinta-feira”, disse o padre.

“É mentira. É sexta-feira. Estás a comer o corpo do nosso Senhor. É carne de Deus. Eu sei. É austríaco morto. É isso que estás a comer.”

“A carne branca é de oficiais”, disse eu, completando a velha piada.

Rinaldi riu. Encheu o seu copo.

“Não ligues a mim”, disse ele. “Estou apenas um pouco louco.”

“Devias tirar uma licença”, disse o padre.

O major abanou a cabeça para ele. Rinaldi olhou para o padre.

“Acham que eu devia tirar uma licença?”

O major abanou a cabeça para o padre. Rinaldi olhava para o padre.

“Como quiseres”, disse o padre. “Não se não quiseres.”

“Para o inferno contigo”, disse Rinaldi. “Tentam livrar-se de mim. Todas as noites tentam livrar-se de mim. Luto contra eles. E se eu tiver isso? Toda a gente tem. O mundo inteiro tem. Primeiro”, continuou ele, assumindo o tom de um conferencista, “é uma pequena borbulha. Depois notamos uma erupção entre os ombros. Depois não notamos nada. Depositamos a nossa fé no mercúrio.”

“Ou no salvarsan”, interrompeu o major calmamente.

“Um produto mercurial”, disse Rinaldi. Ele agia de forma muito eufórica agora. “Sei de algo que vale por dois desses. Bom velho padre”, disse ele. “Tu nunca terás isso. O bebé vai tê-lo. É um acidente de trabalho. É um simples acidente de trabalho.”

O enfermeiro trouxe a sobremesa e o café. A sobremesa era uma espécie de pudim de pão preto com um molho espesso. A lâmpada estava a fumegar; o fumo preto subindo pela chaminé.

“Traz duas velas e retira a lâmpada”, disse o major. O enfermeiro trouxe duas velas acesas, cada uma num pires, e retirou a lâmpada, apagando-a. Rinaldi estava quieto agora. Parecia estar bem. Conversámos e, depois do café, saímos todos para o corredor.

“Queres falar com o padre. Tenho de ir à cidade”, disse Rinaldi. “Boa noite, padre.”

“Boa noite, Rinaldo”, disse o padre.

“Vemo-nos, Fredi”, disse Rinaldi.

“Sim”, disse eu. “Vem cedo.” Ele fez uma careta e saiu pela porta. O major estava connosco. “Ele está muito cansado e sobrecarregado”, disse ele. “Ele acha também que tem sífilis. Não acredito, mas pode ter. Ele está a tratar-se disso. Boa noite. Irás partir antes do amanhecer, Enrico?”

“Sim.”

“Adeus então”, disse ele. “Boa sorte. Peduzzi acordar-te-á e irá contigo.”

“Adeus, Signor Maggiore.”

“Adeus. Falam de uma ofensiva austríaca, mas não acredito. Espero que não. Mas, de qualquer forma, não será aqui. Gino contar-te-á tudo. O telefone funciona bem agora.”

“Ligarei regularmente.”

“Por favor, fá-lo. Boa noite. Não deixes Rinaldi beber tanto conhaque.”

“Tentarei não deixar.”

“Boa noite, padre.”

“Boa noite, Signor Maggiore.”

Ele afastou-se para o seu escritório.

CAPÍTULO XXVI

Fui até à porta e olhei para fora. Tinha parado de chover, mas havia nevoeiro.

“Devemos subir?”, perguntei ao padre.

“Só posso ficar um pouco.”

“Sobe.”

Subimos as escadas e entrámos no meu quarto. Deitei-me na cama de Rinaldi. O padre sentou-se no meu catre que o enfermeiro tinha montado. Estava escuro no quarto.

“Bem”, disse ele, “como estás realmente?”

“Estou bem. Estou cansado esta noite.”

“Eu também estou cansado, mas sem motivo.”

“O que dizes da guerra?”

“Penso que acabará em breve. Não sei porquê, mas sinto isso.”

“Como sentes isso?”

“Sabes como é o teu major? Gentil? Muitas pessoas são assim agora.”

“Eu sinto-me assim também”, disse eu.

“Tem sido um verão terrível”, disse o padre. Ele estava mais seguro de si mesmo agora do que quando eu tinha partido. “Não podes acreditar como tem sido. Exceto que estiveste lá e sabes como pode ser. Muitas pessoas perceberam a guerra este verão. Oficiais que eu pensava que nunca a poderiam perceber, percebem-na agora.”

“O que vai acontecer?” Acariciei o cobertor com a mão.

“Não sei, mas não penso que possa continuar por muito mais tempo.”

“O que vai acontecer?”

“Eles vão parar de lutar.”

“Quem?”

“Ambos os lados.”

“Espero que sim”, disse eu.

“Não acreditas?”

“Não acredito que ambos os lados parem de lutar ao mesmo tempo.”

“Suponho que não. É muito para esperar. Mas quando vejo as mudanças nos homens, não penso que possa continuar.”

“Quem venceu a luta este verão?”

“Ninguém.”

“Os austríacos venceram”, disse eu. “Impediram-nos de tomar San Gabriele. Venceram. Eles não vão parar de lutar.”

“Se eles se sentirem como nós nos sentimos, talvez parem. Eles passaram pela mesma coisa.”

“Ninguém parou quando estava a vencer.”

“Tu desencorajas-me.”

“Só posso dizer o que penso.”

“Então pensas que vai continuar e continuar? Nunca acontecerá nada?”

“Não sei. Só penso que os austríacos não pararão quando tiverem alcançado uma vitória. É na derrota que nos tornamos cristãos.”

“Os austríacos são cristãos — exceto os bósnios.”

“Não me refiro a cristãos tecnicamente. Refiro-me a como o nosso Senhor.”

Ele não disse nada.

“Estamos todos mais gentis agora porque fomos derrotados. Como teria sido o nosso Senhor se Pedro o tivesse resgatado no Jardim?”

“Ele teria sido exatamente o mesmo.”

“Não penso assim”, disse eu.

“Tu desencorajas-me”, disse ele. “Eu acredito e rezo para que algo aconteça. Senti isso muito perto.”

“Algo pode acontecer”, disse eu. “Mas acontecerá apenas connosco. Se eles sentissem como nós, estaria tudo bem. Mas eles venceram-nos. Eles sentem de outra maneira.”

“Muitos dos soldados sempre sentiram assim. Não é porque foram derrotados.”

“Eles foram derrotados desde o início. Foram derrotados quando os tiraram das suas quintas e os puseram no exército. É por isso que o camponês tem sabedoria, porque ele é derrotado desde o início. Põe-no no poder e vê quão sábio ele é.”

Ele não disse nada. Estava a pensar.

“Agora estou eu próprio deprimido”, disse eu. “É por isso que nunca penso nestas coisas. Nunca penso e, no entanto, quando começo a falar, digo as coisas que encontrei na minha mente sem pensar.”

“Eu tinha esperança de algo.”

“Derrota?”

“Não. Algo mais.”

“Não há nada mais. Exceto a vitória. Pode ser pior.”

“Tive esperança durante muito tempo na vitória.”

“Eu também.”

“Agora já não sei.”

“Tem de ser uma ou outra.”

“Já não acredito na vitória.”

“Eu também não. Mas não acredito na derrota. Embora possa ser melhor.”

“Em que acreditas?”

“No sono”, disse eu. Ele levantou-se.

“Lamento muito ter ficado tanto tempo. Mas gosto tanto de falar contigo.”

“É muito bom falar de novo. Disse aquilo sobre dormir, sem querer dizer nada.”

Levantámo-nos e apertámos as mãos no escuro.

“Durmo no 307 agora”, disse ele.

“Saio para o posto cedo amanhã.”

“Vemo-nos quando voltares.”

“Daremos uma caminhada e falaremos.” Caminhei com ele até à porta.

“Não desças”, disse ele. “É muito bom que tenhas voltado. Embora não tão bom para ti.” Ele colocou a mão no meu ombro.

“Está tudo bem para mim”, disse eu. “Boa noite.”

“Boa noite. Ciaou!”

“Ciaou!”, disse eu. Estava mortalmente sonolento.

CAPÍTULO XXVII

Acordei quando Rinaldi entrou, mas ele não falou e eu voltei a adormecer. De manhã, já estava vestido e saí antes que clareasse. Rinaldi não acordou quando parti.

Eu não tinha visto o Bainsizza antes e era estranho subir a encosta onde os austríacos tinham estado, para além do local no rio onde tinha sido ferido. Havia uma estrada nova e íngreme e muitos camiões. Mais à frente, a estrada nivelava-se e vi bosques e colinas íngremes no nevoeiro. Havia bosques que tinham sido tomados rapidamente e não destruídos. Depois, para lá de onde a estrada não estava protegida pelas colinas, era tapada por esteiras nas laterais e por cima. A estrada terminava numa aldeia destruída. As linhas de frente estavam mais além. Havia muita artilharia por perto. As casas estavam muito destruídas, mas as coisas estavam muito bem organizadas e havia sinais por todo o lado. Encontrámos Gino e ele arranjou-nos café e, mais tarde, fui com ele e conheci várias pessoas e vi os postos. Gino disse que os carros britânicos estavam a trabalhar mais abaixo no Bainsizza, em Ravne. Ele tinha uma grande admiração pelos britânicos. Ainda havia uma certa quantidade de bombardeamentos, disse ele, mas não muitos feridos. Haveria muitos doentes agora que as chuvas tinham começado. Supunha-se que os austríacos iam atacar, mas ele não acreditava nisso. Nós também devíamos atacar, mas não tinham trazido tropas novas, por isso ele achava que isso também estava fora de questão. A comida era escassa e ele ficaria contente por fazer uma refeição completa em Gorizia. Que tipo de ceia eu tinha tido? Contei-lhe e ele disse que isso seria maravilhoso. Ele estava especialmente impressionado com o dolce. Não o descrevi em detalhe, apenas disse que era um dolce, e penso que ele acreditou que era algo mais elaborado do que um pudim de pão.

Sabia para onde ele ia? Disse que não, mas que alguns dos outros carros estavam em Caporetto. Ele esperava ir por ali. Era um sítio bonito e ele gostava das subidas de alta montanha para lá. Ele era um rapaz simpático e todos pareciam gostar dele. Ele disse que onde tinha sido o verdadeiro inferno fora em San Gabriele e no ataque para lá de Lom que tinha corrido mal. Disse que os austríacos tinham uma grande quantidade de artilharia nos bosques ao longo da crista de Ternova, acima e para lá de nós, e bombardeavam as estradas mal à noite. Havia uma bateria de canhões navais que lhe tinha dado nos nervos. Eu reconhecê-los-ia devido à sua trajetória plana. Ouvias o disparo e depois o estrépito começava quase instantaneamente. Eles disparavam geralmente dois canhões ao mesmo tempo, um logo a seguir ao outro, e os fragmentos da explosão eram enormes. Ele mostrou-me um, um pedaço de metal suavemente irregular com mais de trinta centímetros. Parecia metal de babbitt.

“Não suponho que sejam tão eficazes”, disse Gino. “Mas assustam-me. Parecem todos como se viessem diretamente para ti. Há o estrondo, depois instantaneamente o estrépito e a explosão. Qual é a utilidade de não ser ferido se eles te assustam até à morte?”

Ele disse que havia croatas nas linhas opostas a nós agora e alguns magiares. As nossas tropas ainda estavam nas posições de ataque. Não havia arame farpado digno de nota e nenhum lugar para onde recuar se houvesse um ataque austríaco. Havia boas posições de defesa ao longo das montanhas baixas que subiam do planalto, mas nada tinha sido feito para as organizar para a defesa. O que é que eu achava do Bainsizza?

Eu esperava que fosse mais plano, mais como um planalto. Não tinha percebido que era tão irregular.

“Alto piano”, disse Gino, “mas sem piano.”

Voltámos para a cave da casa onde ele vivia. Disse que achava que uma crista que se nivelasse no topo e tivesse um pouco de profundidade seria mais fácil e mais prática de manter do que uma sucessão de pequenas montanhas. Não era mais difícil atacar montanha acima do que em terreno plano, argumentei. “Isso depende das montanhas”, disse ele. “Olha para San Gabriele.”

“Sim”, disse eu, “mas onde tiveram problemas foi no topo, onde era plano. Subiram até ao topo facilmente o suficiente.”

“Não tão facilmente”, disse ele.

“Sim”, disse eu, “mas aquele foi um caso especial porque, de qualquer modo, era mais uma fortaleza do que uma montanha. Os austríacos andavam a fortificá-la há anos.” Referia-me, taticamente falando, a uma guerra onde houvesse algum movimento; uma sucessão de montanhas não era nada para manter como linha, porque era demasiado fácil flanqueá-las. Devia-se ter a maior mobilidade possível, e uma montanha não é muito móvel. Além disso, as pessoas disparam sempre por cima do alvo quando estão a descer. Se o flanco fosse contornado, os melhores homens ficariam retidos nas montanhas mais altas. Eu não acreditava numa guerra nas montanhas. Tinha pensado muito nisso, disse eu. Apanhava-se uma montanha e eles apanhavam outra, mas quando algo começava realmente, toda a gente tinha de descer das montanhas.

O que é que ia fazer se tivesse uma fronteira de montanhas? perguntou ele.

Ainda não tinha pensado nisso, disse eu, e ambos rimos. “Mas”, disse eu, “antigamente os austríacos eram sempre derrotados no quadrilátero à volta de Verona. Deixavam-nos descer para a planície e derrotavam-nos lá.”

“Sim”, disse Gino. “Mas aqueles eram franceses, e consegue-se resolver problemas militares claramente quando se está a lutar no país de outra pessoa.”

“Sim”, concordei, “quando é o teu próprio país não o podes usar tão cientificamente.”

“Os russos fizeram-no, para apanhar Napoleão.”

“Sim, mas eles tinham muito país. Se tentasses recuar para apanhar Napoleão em Itália, dar-te-ias por findo em Brindisi.”

“Um sítio terrível”, disse Gino. “Já lá estiveste?”

“Não para ficar.”

“Eu sou patriota”, disse Gino. “Mas não consigo amar Brindisi ou Taranto.”

“Amas a Bainsizza?” perguntei.

“O solo é sagrado”, disse ele. “Mas gostava que produzisse mais batatas. Sabes, quando cá chegámos encontrámos campos de batatas que os austríacos tinham plantado.”

“A comida tem sido realmente escassa?”

“Eu próprio nunca tive o suficiente para comer, mas sou um grande comedor e não passei fome. A rancho é medíocre. Os regimentos na linha da frente recebem comida bastante boa, mas os que estão na retaguarda não recebem tanto. Há algo de errado em algum lado. Devia haver comida em abundância.”

“Os cães de fila estão a vendê-la noutro lado.”

“Sim, dão aos batalhões da linha da frente o máximo que podem, mas os que estão atrás têm muita falta. Comeram todas as batatas dos austríacos e as castanhas do bosque. Deviam alimentá-los melhor. Somos grandes comedores. Tenho a certeza de que há comida em abundância. É muito mau para os soldados terem falta de comida. Já notaste a diferença que isso faz na forma como pensas?”

“Sim”, disse eu. “Não ganha uma guerra, mas pode perdê-la.”

“Não falaremos de perder. Já se fala que chegue sobre perder. O que foi feito este verão não pode ter sido em vão.”

Não disse nada. Sentia-me sempre embaraçado com as palavras sagrado, glorioso e sacrifício, e com a expressão em vão. Tínhamos ouvi-las, por vezes de pé à chuva, quase fora do alcance dos ouvidos, de modo que só as palavras gritadas chegavam, e tínhamos lido, em proclamações que eram coladas pelos cartazes sobre outras proclamações, durante muito tempo, e eu não tinha visto nada de sagrado, e as coisas que eram gloriosas não tinham glória, e os sacrifícios eram como os matadouros de Chicago se não se fizesse nada com a carne a não ser enterrá-la. Havia muitas palavras que não se suportava ouvir e, finalmente, só os nomes dos lugares tinham dignidade. Certos números eram da mesma forma, e certas datas, e estes, com os nomes dos lugares, eram tudo o que se podia dizer para que significassem alguma coisa. Palavras abstratas como glória, honra, coragem ou santificado eram obscenas ao lado dos nomes concretos das aldeias, dos números das estradas, dos nomes dos rios, dos números dos regimentos e das datas. Gino era um patriota, por isso dizia coisas que nos separavam por vezes, mas também era um bom rapaz e eu compreendia o facto de ele ser patriota. Ele nasceu um. Partiu com Peduzzi no carro para voltar a Gorizia.

Houve tempestade todo aquele dia. O vento empurrava a chuva e por todo o lado havia água estagnada e lama. O reboco das casas destruídas estava cinzento e húmido. Tarde, à tarde, a chuva parou e do posto número dois vi o país de outono, nu e molhado, com nuvens sobre o cume das colinas e a cobertura de palha sobre as estradas molhada e a pingar. O sol saiu uma vez antes de se pôr e brilhou sobre o bosque nu para lá da crista. Havia muitas armas austríacas no bosque naquela crista, mas apenas algumas dispararam. Observei os súbitos sopros redondos de fumo de estilhaços no céu acima de uma quinta destruída perto de onde ficava a linha; sopros suaves com um clarão branco-amarelado no centro. Via-se o clarão, ouvia-se o estalido, depois via-se a bola de fumo distorcer-se e diluir-se ao vento. Havia muitas bolas de ferro de estilhaços nos escombros das casas e na estrada ao lado da casa destruída onde ficava o posto, mas não bombardearam perto do posto naquela tarde. Carregámos dois carros e descemos a estrada que estava protegida com esteiras molhadas, e o resto do sol passava pelas aberturas entre as tiras de esteira. Antes de estarmos na estrada limpa atrás da colina, o sol já se tinha posto. Continuámos pela estrada limpa e, ao virar uma esquina para campo aberto e entrar no túnel quadrado arqueado de esteiras, a chuva recomeçou.

O vento levantou-se durante a noite e, às três da manhã, com a chuva a cair em lençóis, houve um bombardeamento e os croatas atravessaram os prados da montanha e passaram por manchas de bosque e entraram na linha da frente. Lutaram no escuro à chuva e um contra-ataque de homens assustados da segunda linha expulsou-os. Houve muito bombardeamento e muitos foguetes à chuva e tiroteio de metralhadoras e espingardas ao longo de toda a linha. Não voltaram a vir e ficou mais calmo, e entre as rajadas de vento e chuva podíamos ouvir o som de um grande bombardeamento longe para norte.

Os feridos estavam a chegar ao posto, alguns eram transportados em macas, alguns a pé e outros eram trazidos às costas de homens que vinham através do campo. Estavam encharcados até aos ossos e todos estavam assustados. Enchemos dois carros com os feridos das macas à medida que subiam da cave do posto e, quando fechei a porta do segundo carro e a prendi, senti a chuva no meu rosto transformar-se em neve. Os flocos caíam pesados e rápidos na chuva.

Quando o dia amanheceu, a tempestade ainda soprava, mas a neve tinha parado. Tinha derretido à medida que caía no solo molhado e agora estava a chover outra vez. Houve outro ataque logo após o amanhecer, mas não teve sucesso. Esperámos por um ataque todo o dia, mas só veio quando o sol se estava a pôr. O bombardeamento começou a sul, abaixo da longa crista arborizada onde as armas austríacas estavam concentradas. Esperámos por um bombardeamento, mas não veio. Estava a escurecer. As armas disparavam do campo atrás da aldeia e as granadas, ao afastar-se, tinham um som reconfortante.

Soubemos que o ataque a sul não tinha tido sucesso. Eles não atacaram naquela noite, mas soubemos que tinham rompido para norte. Durante a noite veio a ordem de que nos preparássemos para recuar. O capitão no posto disse-me isto. Tinha a informação da Brigada. Pouco tempo depois ele veio do telefone e disse que era uma mentira. A Brigada tinha recebido ordens de que a linha de Bainsizza deveria ser mantida, acontecesse o que acontecesse. Perguntei sobre a rutura e ele disse que tinha ouvido na Brigada que os austríacos tinham rompido o vigésimo sétimo corpo de exército lá para cima, junto a Caporetto. Tinha havido uma grande batalha no norte durante todo o dia.

“Se aqueles bastardos os deixam passar, estamos lixados”, disse ele.

“São os alemães que estão a atacar”, disse um dos oficiais médicos. A palavra alemães era algo de que se ter medo. Não queríamos ter nada a ver com os alemães.

“São quinze divisões de alemães”, disse o oficial médico. “Romperam e seremos cercados.”

“Na Brigada, dizem que esta linha deve ser mantida. Dizem que não romperam muito e que manteremos uma linha através das montanhas de Monte Maggiore.”

“Onde é que eles ouvem isto?”

“Da Divisão.”

“A ordem de que devíamos recuar veio da Divisão.”

“Trabalhamos sob o Corpo de Exército”, disse eu. “Mas aqui trabalho sob as tuas ordens. Naturalmente, quando me disseres para ir, eu irei. Mas clarifica as ordens.”

“As ordens são para ficarmos aqui. Tu evacuas os feridos daqui para a estação de triagem.”

“Por vezes também evacuamos da estação de triagem para os hospitais de campanha”, disse eu. “Diz-me, nunca vi um recuo — se houver um recuo, como são evacuados todos os feridos?”

“Não são. Levam tantos quantos podem e deixam o resto.”

“O que levarei nos carros?”

“Equipamento hospitalar.”

“Está bem”, disse eu.

Na noite seguinte começou o recuo. Soubemos que alemães e austríacos tinham rompido no norte e estavam a descer os vales das montanhas em direção a Cividale e Udine. O recuo foi ordenado, húmido e taciturno. Durante a noite, indo lentamente ao longo das estradas apinhadas, passámos por tropas a marchar debaixo de chuva, armas, cavalos a puxar carroças, mulas, camiões, tudo a afastar-se da frente. Não houve mais desordem do que num avanço.

Naquela noite ajudámos a esvaziar os hospitais de campanha que tinham sido montados nas aldeias menos arruinadas do planalto, levando os feridos para Plava, no leito do rio: e no dia seguinte transportámos durante todo o dia à chuva para evacuar os hospitais e a estação de triagem em Plava. Choveu continuamente e o exército de Bainsizza moveu-se para baixo do planalto à chuva de outubro e através do rio, onde as grandes vitórias tinham começado na primavera daquele ano. Chegámos a Gorizia a meio do dia seguinte. A chuva tinha parado e a cidade estava quase vazia. Quando subíamos a rua, estavam a carregar as raparigas do bordel dos soldados para um camião. Eram sete raparigas e tinham os chapéus e casacos postos e carregavam pequenas malas. Duas delas choravam. Das outras, uma sorriu para nós, deitou a língua de fora e agitou-a para cima e para baixo. Tinha lábios grossos e cheios e olhos negros.

Parei o carro, fui lá e falei com a governanta. As raparigas da casa dos oficiais tinham saído cedo naquela manhã, disse ela. Onde iam? Para Conegliano, disse ela. O camião arrancou. A rapariga dos lábios grossos voltou a deitar-nos a língua. A governanta acenou. As duas raparigas continuaram a chorar. As outras olhavam interessadas para a cidade. Voltei para o carro.

“Devíamos ir com elas”, disse Bonello. “Essa seria uma boa viagem.”

“Nós teremos uma boa viagem”, disse eu.

“Teremos uma viagem do caraças.”

“É isso que quero dizer”, disse eu. Subimos a entrada da villa.

“Gostava de estar lá quando alguns daqueles tipos duros subirem e tentarem apanhá-las.”

“Acham que vão?”

“Claro. Toda a gente no Segundo Exército conhece aquela governanta.”

Estávamos fora da villa.

“Chamam-lhe a Madre Superiora”, disse Bonello. “As raparigas são novas, mas toda a gente a conhece. Devem tê-las trazido mesmo antes do recuo.”

“Vão passar um bom bocado.”

“E como vão. Gostava de lhes dar uma trinca à pala. De qualquer modo, cobram demasiado naquela casa. O governo engana-nos.”

“Tira o carro e pede aos mecânicos para o verem”, disse eu. “Muda o óleo e verifica o diferencial. Enche-o e depois dorme um pouco.”

“Sim, Signor Tenente.”

A villa estava vazia. Rinaldi tinha ido com o hospital. O major tinha ido levar o pessoal do hospital no carro do estado-maior. Havia um bilhete na janela para eu carregar os carros com o material empilhado no corredor e seguir para Pordenone. Os mecânicos já tinham ido. Fui para as traseiras, para a garagem. Os outros dois carros entraram enquanto lá estava e os seus condutores desceram. Estava a começar a chover outra vez.

“Estou tão —— com sono que adormeci três vezes a vir daqui de Plava”, disse Piani. “O que vamos fazer, Tenente?”

“Vamos mudar o óleo, lubrificá-los, enchê-los, depois levá-los para a frente e carregar a tralha que deixaram.”

“Depois partimos?”

“Não, vamos dormir três horas.”

“Cristo, que bom que é dormir”, disse Bonello. “Não conseguia manter-me acordado a conduzir.”

“Como está o teu carro, Aymo?” perguntei.

“Está bem.”

“Arranja-me uma farda de mecânico e ajudo-te com o óleo.”

“Não faça isso, Tenente”, disse Aymo. “Não é nada. Vá arrumar as suas coisas.”

“As minhas coisas já estão todas arrumadas”, disse eu. “Vou levar a tralha que deixaram para nós. Tragam os carros assim que estiverem prontos.”

Trouxeram os carros para a frente da villa e carregámo-los com o equipamento hospitalar que estava empilhado no corredor. Quando estava tudo dentro, os três carros ficaram em fila ao longo da entrada, debaixo das árvores, à chuva. Entrámos.

“Façam lume na cozinha e sequem as vossas coisas”, disse eu.

“Não me importa a roupa seca”, disse Piani. “Quero dormir.”

“Vou dormir na cama do major”, disse Bonello. “Vou dormir onde o velho ressona.”

“Não me importa onde durmo”, disse Piani.

“Há duas camas aqui dentro.” Abri a porta.

“Nunca soube o que estava naquele quarto”, disse Bonello.

“Aquele era o quarto da velha cara-de-peixe”, disse Piani.

“Vocês os dois durmam aí”, disse eu. “Eu acordo-vos.”

“Os austríacos acordar-nos-ão se dormir demasiado tempo, Tenente”, disse Bonello.

“Não vou dormir demais”, disse eu. “Onde está o Aymo?”

“Ele foi para a cozinha.”

“Vão dormir”, disse eu.

“Vou dormir”, disse Piani. “Estive a dormir sentado todo o dia. O topo da minha cabeça não parava de cair sobre os olhos.”

“Tira as botas”, disse Bonello. “Essa é a cama da velha cara-de-peixe.”

“A cara-de-peixe não é nada para mim.” Piani deitou-se na cama, com as botas enlameadas esticadas, a cabeça sobre o braço. Fui para a cozinha. Aymo tinha lume no fogão e um jarro de água ao lume.

“Pensei em começar um pouco de pasta asciutta”, disse ele. “Teremos fome quando acordarmos.”

“Não tens sono, Bartolomeo?”

“Não muito sono. Quando a água ferver, deixo-a. O fogo vai baixar.”

“É melhor dormires um pouco”, disse eu. “Podemos comer queijo e carne de lata.”

“Isto é melhor”, disse ele. “Algo quente será bom para aqueles dois anarquistas. Vá dormir, Tenente.”

“Há uma cama no quarto do major.”

“Dorme lá.”

“Não, vou para o meu antigo quarto. Queres uma bebida, Bartolomeo?”

“Quando partirmos, Tenente. Agora não me faria bem.”

“Se acordares daqui a três horas e eu não te tiver chamado, acorda-me, queres?”

“Não tenho relógio, Tenente.”

“Há um relógio na parede no quarto do major.”

“Está bem.”

Saí então pela sala de jantar e pelo corredor e subi as escadas de mármore até ao quarto onde tinha vivido com Rinaldi. Lá fora chovia. Fui à janela e olhei. Estava a escurecer e vi os três carros parados em fila debaixo das árvores. As árvores pingavam à chuva. Estava frio e as gotas pendiam dos ramos. Voltei para a cama de Rinaldi e deitei-me e deixei que o sono me levasse.

Comemos na cozinha antes de partirmos. Aymo tinha uma bacia de esparguete com cebolas e carne de lata picada. Sentámo-nos à volta da mesa e bebemos duas garrafas do vinho que tinha sido deixado na cave da villa. Estava escuro lá fora e continuava a chover. Piani sentou-se à mesa com muito sono.

“Gosto mais de um recuo do que de um avanço”, disse Bonello. “Num recuo bebemos barbera.”

“Bebemo-lo agora. Amanhã talvez bebamos água da chuva”, disse Aymo.

“Amanhã estaremos em Udine. Bebemos champanhe. É onde vivem os cobardes. Acorda, Piani! Bebemos champanhe amanhã em Udine!”

“Estou acordado”, disse Piani. Encheu o prato com o esparguete e a carne. “Não encontraste molho de tomate, Barto?”

“Não havia nenhum”, disse Aymo.

“Bebemos champanhe em Udine”, disse Bonello. Encheu o copo com o barbera tinto claro.

“Talvez bebamos —— antes de Udine”, disse Piani.

“Comeste o suficiente, Tenente?” perguntou Aymo.

“Tenho que chegue. Passa-me a garrafa, Bartolomeo.”

“Tenho uma garrafa para cada um para levar nos carros”, disse Aymo.

“Dormiste alguma coisa?”

“Não preciso de dormir muito. Dormi um pouco.”

“Amanhã dormiremos na cama do rei”, disse Bonello. Estava a sentir-se muito bem.

“Amanhã talvez durmamos no ——”, disse Piani.

“Dormirei com a rainha”, disse Bonello. Olhou para ver como eu levava a piada.

“Dormirás com a ——”, disse Piani com sono.

“Isso é traição, Tenente”, disse Bonello. “Isso não é traição?”

“Cala-te”, disse eu. “Ficas demasiado engraçado com um pouco de vinho.” Lá fora chovia forte. Olhei para o meu relógio. Eram nove e meia.

“Está na hora de andar”, disse eu e levantei-me.

“Com quem vai seguir, Tenente?” perguntou Bonello.

“Com o Aymo. Depois vens tu. Depois o Piani. Vamos sair pela estrada para Cormons.”

“Tenho medo de adormecer”, disse Piani.

“Está bem. Vou contigo. Depois o Bonello. Depois o Aymo.”

“É a melhor maneira”, disse Piani. “Porque estou com muito sono.”

“Eu conduzo e tu dormes um bocado.”

“Não. Posso conduzir desde que saiba que alguém me acorda se eu adormecer.”

“Eu acordo-te. Apaga as luzes, Barto.”

“Mais vale deixá-las”, disse Bonello. “Já não temos mais uso para este lugar.”

“Tenho um baú pequeno no meu quarto”, disse eu. “Ajudas-me a levá-lo para baixo, Piani?”

“Nós levamo-lo”, disse Piani. “Vamos, Aldo.” Ele foi para o corredor com Bonello. Ouvi-os subir as escadas.

“Este era um bom lugar”, disse Bartolomeo Aymo. Ele pôs duas garrafas de vinho e meio queijo no seu bornal. “Não haverá outro lugar como este. Para onde vão recuar, Tenente?”

“Para lá do Tagliamento, dizem. O hospital e o setor ficarão em Pordenone.”

“Esta é uma cidade melhor do que Pordenone.”

“Não conheço Pordenone”, disse eu. “Apenas passei por lá.”

“Não é grande coisa”, disse Aymo.

Nós nos pusemos a caminho. Deixamos a casa de fazenda e seguimos pela estrada de terra. Aymo caminhava comigo. As duas moças seguiam atrás de nós, andando rente à sebe. A estrada era lamacenta e íamos caminhando com dificuldade. Bonello e Piani seguiam logo atrás, com seus caminhões. Era uma estrada estreita, ladeada por sebes altas, e seguia em direção ao sul, tentando contornar a zona de congestionamento.

“Tenente,” disse Aymo, “acho que aquelas moças estão com medo de nós.”

“Elas têm motivos,” respondi. “Estamos em retirada. Ninguém sabe o que vai acontecer.”

“Eu não lhes fiz nada,” disse Aymo. “Eu só queria ser gentil.”

“Eu sei, Aymo. Mas elas não entendem o nosso idioma, e tudo isso aqui é uma loucura.”

Caminhamos em silêncio por um longo trecho. O sol tentava romper as nuvens, mas o dia continuava cinzento e úmido. De vez em quando, ouvíamos o som abafado de artilharia ao longe. Era um som constante, um trovão que nunca cessava. As moças pararam e olharam para trás, observando os caminhões.

“Elas estão exaustas,” disse Aymo. Ele parou e chamou por elas, gesticulando para que subissem na traseira de um dos caminhões. Elas hesitaram, mas acabaram subindo.

Continuamos a marchar. A estrada começou a descer em direção a um vale. Eu olhei para o meu relógio. Já passava das duas da tarde. Eu sentia uma estranha calma, como se o que tivesse acontecido com os sargentos fosse algo distante, uma necessidade que já não tinha peso sobre mim.

“Você acha que chegaremos a Udine antes do anoitecer?” perguntou Aymo.

“Se essa estrada for direta, talvez. Mas não conte com isso. O exército está em toda parte, e as pontes podem estar bloqueadas.”

Mais adiante, a estrada se alargava. Vimos um grupo de soldados parados perto de uma vala. Eles pareciam perdidos, sem armas, apenas sentados na lama. Não nos olharam quando passamos. Eram apenas homens exaustos, esperando por algo que não viria.

“Eles desistiram,” disse Aymo, olhando para os homens.

“Não podemos culpá-los,” respondi. “A retirada é uma coisa terrível.”

Passamos por uma vila pequena. As casas estavam com as portas abertas, abandonadas às pressas. Algumas janelas estavam quebradas. Não havia ninguém nas ruas, apenas alguns animais soltos. Os caminhões avançavam lentamente, rangendo na lama.

“Tenente,” disse Aymo, de repente, “ouça.”

Paramos. O som dos aviões estava de volta. Vinha do norte, um zumbido constante que crescia rapidamente. Pude ver as silhuetas no céu cinzento, voando baixo. Eles não estavam indo para a estrada principal desta vez. Eles estavam vindo em nossa direção.

“Corram!” gritei para as moças. “Saiam dos caminhões!”

Os caminhões pararam. Piani e Bonello saltaram e correram em direção às sebes. As moças pularam da carroceria e correram campo adentro. Aymo e eu corremos para o lado oposto, jogando-nos numa vala funda junto a uma fileira de árvores. O zumbido se tornou um rugido ensurdecedor. As bombas caíram em algum lugar atrás de nós, sacudindo o chão e espalhando terra e detritos pelo ar. O barulho era como se o mundo estivesse se partindo ao meio. Então, o silêncio retornou, cortado apenas pelo som dos motores que se afastavam.

Levantei-me, sacudindo a lama das minhas roupas. A estrada estava coberta de poeira e fumaça.

“Aymo?” chamei.

Não houve resposta. Ele estava caído na vala, imóvel. Aproximei-me e vi que ele fora atingido. Não havia nada que eu pudesse fazer. Ele estava morto.

Olhei para a estrada. O caminhão de Bonello estava virado, uma das rodas ainda girando no ar. As moças estavam longe, no meio do campo, paradas, olhando para nós. Eu estava sozinho na estrada com o corpo de Aymo. O céu começava a escurecer novamente, e a chuva fina recomeçou a cair, lavando a lama e o sangue. A retirada continuava, mas, para nós, o caminho tinha acabado ali.

— Vamos colocar o casaco e a capa dele por baixo — eu disse. Bonello foi buscá-los. Cortei arbustos e Aymo e Piani cavaram à frente e entre as rodas. Cortei a capa, depois rasguei-a em duas e coloquei-a sob a roda na lama, depois empilhei arbustos para as rodas se agarrarem. Estávamos prontos para começar e Aymo subiu para o banco e ligou o carro. As rodas giraram e empurramos e empurramos. Mas não adiantou nada.

— Está f—— — eu disse. — Há alguma coisa que queiram no carro, Barto?

Aymo subiu com Bonello, carregando o queijo e duas garrafas de vinho e a sua capa. Bonello, sentado atrás do volante, examinava os bolsos do casaco do sargento.

— É melhor atirar o casaco fora — eu disse. — E quanto às virgens do Barto?

— Elas podem entrar atrás — disse Piani. — Não creio que vamos longe.

Abri a porta traseira da ambulância.

— Vamos — eu disse. — Entrem. As duas raparigas subiram e sentaram-se no canto. Pareciam não ter reparado nos tiros. Olhei de volta para a estrada. O sargento jazia na sua roupa interior suja de mangas compridas. Subi com Piani e arrancámos. Íamos tentar atravessar o campo. Quando a estrada entrou no campo, desci e caminhei à frente. Se conseguíssemos atravessar, havia uma estrada do outro lado. Não conseguimos atravessar. Estava demasiado mole e lamacento para os carros. Quando ficaram finalmente e completamente presos, com as rodas enterradas até aos cubos, deixámo-los no campo e partimos a pé para Udine.

Quando chegámos à estrada que levava de volta à autoestrada principal, apontei-a às duas raparigas.

— Vão por ali — eu disse. — Vão encontrar pessoas. Elas olharam para mim. Tirei a minha carteira e dei a cada uma uma nota de dez liras. — Vão por ali — disse eu, apontando. — Amigos! Família!

Elas não entenderam, mas seguraram o dinheiro com força e começaram a descer a estrada. Olharam para trás como se tivessem medo de que eu lhes tirasse o dinheiro. Observei-as descer a estrada, com os xailes bem apertados, olhando para trás, apreensivas, para nós. Os três motoristas riam-se.

— Quanto me dá para ir nessa direção, Tenente? — perguntou Bonello.

— Elas estão mais seguras no meio de um grupo de pessoas do que sozinhas, se os apanharem — eu disse.

— Dê-me duzentas liras e caminharei a direito em direção à Áustria — disse Bonello.

— Eles tiravam-to — disse Piani.

— Talvez a guerra acabe — disse Aymo. Estávamos a subir a estrada o mais depressa que podíamos. O sol tentava espreitar. Ao lado da estrada havia amoreiras. Através das árvores, podia ver os nossos dois grandes furgões de mudança presos no campo. Piani também olhou para trás.

— Vão ter de construir uma estrada para os tirar — disse ele.

— Quem me dera, por Cristo, que tivéssemos bicicletas — disse Bonello.

— Andam de bicicleta na América? — perguntou Aymo.

— Costumavam andar.

— Aqui é uma grande coisa — disse Aymo. — Uma bicicleta é uma coisa esplêndida.

— Quem me dera, por Cristo, que tivéssemos bicicletas — disse Bonello. — Não sou caminhante.

— Isso é tiroteio? — perguntei. Pensei ter ouvido tiros ao longe.

— Não sei — disse Aymo. Ele escutou.

— Acho que sim — eu disse.

— A primeira coisa que veremos será a cavalaria — disse Piani.

— Não creio que tenham cavalaria.

— Espero, por Cristo, que não — disse Bonello. — Não quero ser espetado por uma lança por qualquer cavalaria de m——.

— O senhor disparou mesmo contra aquele sargento, Tenente — disse Piani. Caminhávamos depressa.

— Eu matei-o — disse Bonello. — Nunca matei ninguém nesta guerra e, durante toda a minha vida, quis matar um sargento.

— Matou-o sentado, sem dúvida — disse Piani. — Ele não estava a voar muito depressa quando o matou.

— Não importa. É uma coisa de que me poderei sempre lembrar. Matei aquele f—— de um sargento.

— O que dirá na confissão? — perguntou Aymo.

— Direi: 'Abençoai-me, padre, matei um sargento.' — Todos se riram.

— Ele é um anarquista — disse Piani. — Não vai à igreja.

— Piani também é um anarquista — disse Bonello.

— São realmente anarquistas? — perguntei.

— Não, Tenente. Somos socialistas. Vimos de Imola.

— Nunca lá esteve?

— Não.

— Por Cristo, é um lugar excelente, Tenente. Venha lá depois da guerra e mostrar-lhe-emos uma coisa ou outra.

— São todos socialistas?

— Toda a gente.

— É uma cidade excelente?

— Maravilhosa. Nunca viu uma cidade assim.

— Como se tornaram socialistas?

— Somos todos socialistas. Toda a gente é socialista. Sempre fomos socialistas.

— Venha, Tenente. Também faremos de si um socialista.

À frente, a estrada virava para a esquerda e havia uma pequena colina e, para lá de um muro de pedra, um pomar de macieiras. À medida que a estrada subia, pararam de falar. Caminhámos juntos, todos a andar depressa contra o tempo.

CAPÍTULO XXX

Mais tarde, estávamos numa estrada que levava a um rio. Havia uma longa fila de camiões e carroças abandonados na estrada que levava à ponte. Não se via ninguém. O rio estava cheio e a ponte tinha sido explodida ao centro; o arco de pedra tinha caído no rio e a água castanha passava por cima dele. Seguimos pela margem à procura de um lugar para atravessar. Lá à frente, sabia que havia uma ponte ferroviária e pensei que talvez pudéssemos atravessar por lá. O caminho estava húmido e lamacento. Não vimos quaisquer tropas; apenas camiões e mantimentos abandonados. Ao longo da margem do rio não havia nada nem ninguém, apenas arbustos húmidos e terreno lamacento. Fomos até à margem e finalmente vimos a ponte ferroviária.

— Que ponte bonita — disse Aymo. Era uma ponte de ferro longa e simples que atravessava o que era geralmente um leito de rio seco.

— É melhor despacharmo-nos a atravessar antes que a explodam — eu disse.

— Não há ninguém para a explodir — disse Piani. — Foram todos embora.

— Provavelmente está minada — disse Bonello. — Atravesse primeiro, Tenente.

— Ouçam o anarquista — disse Aymo. — Façam-no ir primeiro.

— Eu vou — eu disse. — Não estará minada para explodir com um só homem.

— Estão a ver — disse Piani. — Isto é inteligência. Porque não tens inteligência, anarquista?

— Se eu tivesse inteligência não estaria aqui — disse Bonello.

— Isso foi muito bom, Tenente — disse Aymo.

— Isso foi muito bom — eu disse. Estávamos agora perto da ponte. O céu tinha voltado a nublar e chovia um pouco. A ponte parecia longa e sólida. Trepámos o aterro.

— Venham um de cada vez — eu disse e comecei a atravessar a ponte. Observei as travessas e os carris à procura de fios de armadilha ou sinais de explosivos, mas não vi nada. Lá em baixo, nas aberturas entre as travessas, o rio corria turvo e rápido. À frente, através da paisagem húmida, podia ver Udine à chuva. Do outro lado da ponte, olhei para trás. Logo acima no rio havia outra ponte. Enquanto observava, um automóvel amarelo, cor de lama, atravessou-a. Os lados da ponte eram altos e a carroçaria do carro, uma vez lá, ficou fora de vista. Mas vi as cabeças do condutor, do homem sentado ao lado dele e dos dois homens no banco de trás. Todos usavam capacetes alemães. Depois, o carro passou a ponte e desapareceu atrás das árvores e dos veículos abandonados na estrada. Acenei ao Aymo, que estava a atravessar, e aos outros para virem. Desci e agachei-me junto ao aterro ferroviário. Aymo desceu comigo.

— Viste o carro? — perguntei.

— Não. Estávamos a olhar para si.

— Um carro de comando alemão atravessou a ponte superior.

— Um carro de comando?

— Sim.

— Santa Maria.

Os outros vieram e todos nos agachámos na lama atrás do aterro, olhando através dos carris para a ponte, a linha de árvores, a vala e a estrada.

— Acha então que estamos cercados, Tenente?

— Não sei. Tudo o que sei é que um carro de comando alemão passou por aquela estrada.

— Não se sente estranho, Tenente? Não tem sensações estranhas na cabeça?

— Não sejas engraçado, Bonello.

— Que tal uma bebida? — perguntou Piani. — Se estamos cercados, mais vale bebermos um pouco. Ele desengatou o cantil e destapou-o.

— Olhem! Olhem! — disse Aymo, apontando para a estrada. Ao longo do topo da ponte de pedra podíamos ver capacetes alemães a moverem-se. Estavam inclinados para a frente e moviam-se suavemente, quase sobrenaturalmente, ao longo dela. Quando saíram da ponte, vimo-los. Eram tropas de bicicleta. Vi o rosto dos dois primeiros. Eram corados e de aspeto saudável. Os seus capacetes desciam muito sobre as testas e os lados do rosto. As suas carabinas estavam presas ao quadro das bicicletas. Bombas de mão pendiam pelo cabo dos seus cintos. Os seus capacetes e uniformes cinzentos estavam húmidos e pedalavam com facilidade, olhando para a frente e para os dois lados. Eram dois — depois quatro em linha, depois dois, depois quase uma dúzia; depois outra dúzia — depois um sozinho. Não falavam, mas não os teríamos ouvido por causa do ruído do rio. Desapareceram estrada acima.

— Santa Maria — disse Aymo.

— Eram alemães — disse Piani. — Aqueles não eram austríacos.

— Porque não há cá ninguém para os parar? — eu disse. — Porque não explodiram a ponte? Porque não há metralhadoras ao longo deste aterro?

— Diga-nos o senhor, Tenente — disse Bonello.

Eu estava muito irritado.

— A coisa toda é uma loucura. Lá em baixo explodem uma ponte pequena. Aqui deixam uma ponte na estrada principal. Onde está toda a gente? Não tentam sequer pará-los?

— Diga-nos o senhor, Tenente — disse Bonello. Calei-me. Não era da minha conta; tudo o que tinha de fazer era chegar a Pordenone com três ambulâncias. Tinha falhado nisso. Tudo o que tinha de fazer agora era chegar a Pordenone. Provavelmente nem conseguiria chegar a Udine. Raios, é claro que conseguiria. O que havia a fazer era manter a calma e não ser baleado ou capturado.

— Não tinhas um cantil aberto? — perguntei a Piani. Ele entregou-mo. Dei um longo gole. — Mais vale começarmos — eu disse. — Mas não há pressa. Querem comer alguma coisa?

— Este não é lugar para ficar — disse Bonello.

— Tudo bem. Vamos começar.

— Devemos manter-nos deste lado — fora de vista?

— Estaremos melhor lá em cima. Eles podem vir por esta ponte também. Não os queremos em cima de nós antes de os vermos.

Caminhámos ao longo da linha férrea. Em ambos os lados estendia-se a planície húmida. À frente, através da planície, erguia-se a colina de Udine. Os telhados desciam a partir do castelo na colina. Podíamos ver o campanário e a torre do relógio. Havia muitas amoreiras nos campos. À frente, vi um local onde os carris tinham sido arrancados. As travessas também tinham sido desenterradas e atiradas para baixo do aterro.

— Abaixo! Abaixo! — disse Aymo. Deitámo-nos ao lado do aterro. Havia outro grupo de ciclistas a passar na estrada. Olhei por cima da berma e vi-os passar.

— Viram-nos, mas seguiram — disse Aymo.

— Vamos ser mortos lá em cima, Tenente — disse Bonello.

— Eles não nos querem — eu disse. — Estão atrás de outra coisa. Corremos mais perigo se nos apanharem de repente.

— Preferia caminhar aqui fora de vista — disse Bonello.

— Tudo bem. Vamos caminhar ao longo dos carris.

— Acha que conseguimos passar? — perguntou Aymo.

— Claro. Ainda não são muitos. Passaremos no escuro.

— O que é que aquele carro de comando estava a fazer?

— Deus sabe — eu disse. Continuámos pelos carris. Bonello cansou-se de caminhar na lama do aterro e subiu com o resto de nós. A ferrovia afastava-se agora da autoestrada para sul e não podíamos ver o que passava na estrada. Uma ponte curta sobre um canal estava explodida, mas atravessámo-la pelo que restava do vão. Ouvimos tiros à nossa frente.

Chegámos à ferrovia para lá do canal. Ela seguia a direito em direção à cidade através dos campos baixos. Podíamos ver a linha da outra ferrovia à nossa frente. Para norte ficava a estrada principal onde tínhamos visto os ciclistas; para sul havia uma pequena estrada secundária que atravessava os campos com árvores densas de cada lado. Pensei que era melhor cortar para sul e contornar a cidade por esse lado, atravessando o campo em direção a Campoformio e à estrada principal para Tagliamento. Poderíamos evitar a linha principal da retirada mantendo-nos pelas estradas secundárias para lá de Udine. Eu sabia que havia muitas estradas secundárias através da planície. Comecei a descer o aterro.

— Vamos — eu disse. Íamos dirigir-nos para a estrada secundária e seguir para sul da cidade. Começámos todos a descer o aterro. Um tiro foi disparado contra nós a partir da estrada secundária. A bala entrou na lama do aterro.

— Voltem para trás — gritei. Comecei a subir o aterro, escorregando na lama. Os motoristas estavam à minha frente. Subi o aterro o mais depressa que pude. Mais dois tiros vieram dos arbustos densos e Aymo, enquanto atravessava os carris, cambaleou, tropeçou e caiu de cara no chão. Puxámo-lo para baixo do outro lado e virámo-lo. — A cabeça dele devia estar para cima — eu disse. Piani moveu-o. Ele jazia na lama na encosta do aterro, com os pés a apontar para baixo, respirando sangue de forma irregular. Nós os três agachámo-nos sobre ele à chuva. Ele tinha sido atingido na parte inferior da nuca e a bala tinha subido e saído debaixo do olho direito. Morreu enquanto eu tapava os dois buracos. Piani pousou-lhe a cabeça, limpou-lhe o rosto com um pedaço de ligadura de emergência e depois deixou-o estar.

— Os f—— — disse ele.

— Não eram alemães — eu disse. — Não pode haver alemães ali.

— Italianos — disse Piani, usando a palavra como um insulto — Italiani! Bonello não disse nada. Estava sentado ao lado de Aymo, sem olhar para ele. Piani apanhou o quepe de Aymo, onde tinha rolado aterro abaixo, e colocou-o sobre o seu rosto. Tirou o seu cantil.

— Quer beber? — Piani entregou o cantil a Bonello.

— Não — disse Bonello. Ele virou-se para mim. — Isso podia ter-nos acontecido a qualquer altura na linha férrea.

— Não — eu disse. — Foi porque começámos a atravessar o campo.

Bonello abanou a cabeça. — O Aymo está morto — disse ele. — Quem é o próximo a morrer, Tenente? Para onde vamos agora?

— Foram italianos que dispararam — eu disse. — Não eram alemães.

— Suponho que se fossem alemães nos teriam matado a todos — disse Bonello.

— Corremos mais perigo com os italianos do que com os alemães — eu disse. — A retaguarda tem medo de tudo. Os alemães sabem o que procuram.

— O senhor raciocina bem, Tenente — disse Bonello.

— Para onde vamos agora? — perguntou Piani.

— É melhor escondermo-nos num sítio qualquer até escurecer. Se conseguíssemos ir para sul, estaríamos bem.

— Eles teriam de nos matar a todos para provar que estavam certos da primeira vez — disse Bonello. — Não vou pô-los à prova.

— Vamos encontrar um lugar para nos escondermos o mais perto de Udine que conseguirmos e depois atravessar quando estiver escuro.

— Vamos então — disse Bonello. Descemos pelo lado norte do aterro. Olhei para trás. Aymo jazia na lama com o ângulo do aterro. Ele era bastante pequeno e os seus braços estavam junto ao corpo, as pernas enroladas em bandas e as botas lamacentas juntas, o quepe sobre o rosto. Parecia muito morto. Estava a chover. Gostava dele tanto como de qualquer pessoa que alguma vez conheci. Tinha os documentos dele no meu bolso e escreveria à sua família. À frente, através dos campos, havia uma casa de campo. Havia árvores à volta e os edifícios agrícolas estavam construídos contra a casa. Havia uma varanda ao longo do segundo andar sustentada por colunas.

— É melhor mantermos alguma distância — eu disse. — Vou na frente. Comecei a caminhar em direção à casa de campo. Havia um caminho através do campo.

Ao atravessar o campo, não sabia se alguém dispararia sobre nós a partir das árvores perto da casa de campo ou da própria casa. Caminhei em direção a ela, vendo-a com muita clareza. A varanda do segundo andar fundia-se com o celeiro e havia feno a sair por entre as colunas. O pátio era de blocos de pedra e todas as árvores pingavam com a chuva. Havia uma grande carroça de duas rodas vazia, com as varas apontadas para o alto à chuva. Cheguei ao pátio, atravessei-o e fiquei sob o abrigo da varanda. A porta da casa estava aberta e entrei. Bonello e Piani entraram depois de mim. Estava escuro lá dentro. Voltei para a cozinha. Havia cinzas de uma fogueira na grande lareira aberta. As panelas pendiam sobre as cinzas, mas estavam vazias. Olhei em volta, mas não consegui encontrar nada para comer.

— Devíamos esconder-nos no celeiro — eu disse. — Achas que conseguias encontrar algo para comer, Piani, e trazer aqui para cima?

— Vou procurar — disse Piani.

— Eu também vou procurar — disse Bonello.

— Tudo bem — eu disse. — Vou subir e dar uma olhada no celeiro. Encontrei uma escada de pedra que subia do estábulo lá embaixo. O estábulo cheirava a seco e agradável na chuva. O gado tinha ido embora, provavelmente levado quando partiram. O celeiro estava meio cheio de feno. Havia duas janelas no telhado, uma estava bloqueada com tábuas, a outra era uma claraboia estreita no lado norte. Havia uma calha para que o feno pudesse ser jogado para o gado. Vigas cruzavam a abertura sobre o piso principal, onde as carroças de feno entravam quando o feno era transportado para ser descarregado. Ouvi a chuva no telhado e senti o cheiro do feno e, quando desci, o cheiro limpo de esterco seco no estábulo. Poderíamos arrancar uma tábua e olhar pela janela sul para o pátio. A outra janela dava para o campo em direção ao norte. Poderíamos sair por qualquer uma das janelas para o telhado e descer, ou descer pela calha de feno se as escadas não fossem práticas. Era um celeiro grande e poderíamos nos esconder no feno se ouvíssemos alguém. Parecia um bom lugar. Eu tinha certeza de que poderíamos ter atravessado para o sul se eles não tivessem atirado em nós. Era impossível que houvesse alemães lá. Eles estavam vindo do norte e pela estrada de Cividale. Eles não poderiam ter vindo do sul. Os italianos eram ainda mais perigosos. Estavam assustados e atirando em tudo que viam. Na noite passada, na retirada, tínhamos ouvido dizer que havia muitos alemães com uniformes italianos misturados à retirada no norte. Eu não acreditei. Essa era uma daquelas coisas que você sempre ouve na guerra. Era uma das coisas que o inimigo sempre fazia com você. Você não conhecia ninguém que tivesse passado para o lado deles com uniforme alemão para confundi-los. Talvez eles fizessem, mas parecia difícil. Eu não acreditava que os alemães fizessem isso. Eu não acreditava que eles precisassem. Não havia necessidade de confundir nossa retirada. O tamanho do exército e a escassez de estradas faziam isso. Ninguém dava ordens, muito menos os alemães. Ainda assim, eles atirariam em nós por causa dos alemães. Eles atiraram em Aymo. O feno cheirava bem e estar deitado em um celeiro no feno apagava todos os anos que se passaram. Tínhamos nos deitado no feno, conversado e atirado em pardais com uma espingarda de pressão quando eles pousavam no triângulo cortado no alto da parede do celeiro. O celeiro não existia mais e, em um ano, cortaram o bosque de cicutas e só havia tocos, copas de árvores secas, galhos e epilóbios onde ficava o bosque. Não se podia voltar atrás. Se você não seguisse em frente, o que acontecia? Você nunca voltava a Milão. E se você voltasse a Milão, o que acontecia? Ouvi os tiros ao norte em direção a Udine. Podia ouvir tiros de metralhadora. Não havia bombardeio. Isso era alguma coisa. Eles devem ter conseguido algumas tropas ao longo da estrada. Olhei para baixo na penumbra do celeiro de feno e vi Piani parado no piso de descarga. Ele tinha uma linguiça comprida, um pote de algo e duas garrafas de vinho debaixo do braço.

— Suba — eu disse. — Tem a escada. Então percebi que deveria ajudá-lo com as coisas e desci. Eu estava com a cabeça confusa por ter ficado deitado no feno. Eu tinha quase adormecido.

— Onde está Bonello? — perguntei.

— Vou te contar — disse Piani. Subimos a escada. No feno, colocamos as coisas no chão. Piani tirou sua faca com o saca-rolhas e abriu a rolha de uma garrafa de vinho.

— Eles colocaram lacre nela — disse ele. — Deve ser bom. — Ele sorriu.

— Onde está Bonello? — perguntei.

Piani olhou para mim.

— Ele foi embora, Tenente — disse ele. — Ele queria ser prisioneiro.

Eu não disse nada.

— Ele estava com medo de que fôssemos mortos.

Segurei a garrafa de vinho e não disse nada.

— Sabe, nós não acreditamos na guerra, Tenente.

— Por que você não foi? — perguntei.

— Eu não queria deixar você.

— Para onde ele foi?

— Eu não sei, Tenente. Ele foi embora.

— Tudo bem — eu disse. — Você corta a linguiça?

Piani olhou para mim na penumbra.

— Eu cortei enquanto estávamos conversando — disse ele. Sentamo-nos no feno, comemos a linguiça e bebemos o vinho. Deve ter sido um vinho que guardaram para um casamento. Estava tão velho que estava perdendo a cor.

— Olhe por esta janela, Luigi — eu disse. — Eu vou olhar pela outra.

Cada um de nós estava bebendo de uma das garrafas e eu levei a minha comigo, fui até lá, deitei-me de bruços no feno e olhei pela janela estreita para a paisagem molhada. Não sei o que esperava ver, mas não vi nada além dos campos, das amoreiras nuas e da chuva caindo. Bebi o vinho e ele não me fez sentir bem. Eles o guardaram por muito tempo e ele havia se estragado, perdendo sua qualidade e cor. Observei escurecer lá fora; a escuridão chegou muito rapidamente. Seria uma noite negra com a chuva. Quando escureceu, não adiantava mais olhar, então fui até Piani. Ele estava deitado dormindo e não o acordei, mas sentei-me ao lado dele por um tempo. Ele era um homem grande e dormia pesadamente. Depois de um tempo, eu o acordei e começamos a caminhar.

Aquela foi uma noite muito estranha. Não sei o que eu esperava, talvez a morte, tiros no escuro e correr, mas nada aconteceu. Esperamos, deitados além da vala ao longo da estrada principal enquanto um batalhão alemão passava; então, quando eles foram embora, atravessamos a estrada e continuamos para o norte. Ficamos muito perto dos alemães duas vezes na chuva, mas eles não nos viram. Passamos pela cidade ao norte sem ver nenhum italiano, então, depois de um tempo, chegamos aos canais principais da retirada e caminhamos a noite toda em direção ao Tagliamento. Eu não tinha percebido o quanto a retirada era gigantesca. O país inteiro estava se movendo, assim como o exército. Caminhamos a noite toda, fazendo um tempo melhor que o dos veículos. Minha perna doía e eu estava cansado, mas mantivemos um bom ritmo. Parecia tão tolo Bonello ter decidido ser feito prisioneiro. Não havia perigo. Tínhamos atravessado dois exércitos sem incidentes. Se Aymo não tivesse sido morto, nunca teria parecido haver qualquer perigo. Ninguém nos incomodou quando estávamos bem à vista ao longo da ferrovia. A morte veio de repente e sem motivo. Perguntei-me onde estaria Bonello.

— Como você se sente, Tenente? — perguntou Piani. Estávamos caminhando ao longo da lateral de uma estrada lotada de veículos e tropas.

— Bem.

— Estou cansado dessa caminhada.

— Bem, tudo o que temos que fazer agora é caminhar. Não precisamos nos preocupar.

— Bonello foi um tolo.

— Ele foi um tolo, com certeza.

— O que você vai fazer sobre ele, Tenente?

— Não sei.

— Você não pode apenas registrá-lo como prisioneiro?

— Não sei.

— Veja, se a guerra continuasse, eles causariam muitos problemas para a família dele.

— A guerra não vai continuar — disse um soldado. — Estamos indo para casa. A guerra acabou.

— Todo mundo está indo para casa.

— Estamos todos indo para casa.

— Vamos, Tenente — disse Piani. Ele queria passar por eles.

— Tenente? Quem é um Tenente? A basso gli ufficiali! Abaixo os oficiais!

Piani pegou-me pelo braço. — É melhor eu chamar você pelo seu nome — disse ele. — Eles podem tentar causar problemas. Eles atiraram em alguns oficiais. — Passamos por eles.

— Não vou fazer um relatório que cause problemas para a família dele. — Continuei nossa conversa.

— Se a guerra acabou, não faz diferença — disse Piani. — Mas não acredito que tenha acabado. É bom demais para ter acabado.

— Saberemos muito em breve — eu disse.

— Não acredito que acabou. Eles todos acham que acabou, mas eu não acredito.

— Viva la Pace! — gritou um soldado. — Estamos indo para casa!

— Seria ótimo se fôssemos todos para casa — disse Piani. — Você não gostaria de ir para casa?

— Sim.

— Nunca iremos. Não acho que tenha acabado.

— Andiamo a casa! — gritou um soldado.

— Eles jogam fora seus rifles — disse Piani. — Eles os tiram e os soltam enquanto marcham. Então eles gritam.

— Eles deveriam ficar com seus rifles.

— Eles acham que, se jogarem fora seus rifles, não poderão obrigá-los a lutar.

No escuro e na chuva, abrindo caminho ao lado da estrada, pude ver que muitos dos soldados ainda tinham seus rifles. Eles sobressaíam acima das capas.

— De que brigada vocês são? — gritou um oficial.

— Brigata di Pace — gritou alguém. — Brigada da Paz! — O oficial não disse nada.

— O que ele diz? O que o oficial diz?

— Abaixo o oficial. Viva la Pace!

— Vamos — disse Piani. Passamos por duas ambulâncias britânicas, abandonadas no bloqueio de veículos.

— Elas são de Gorizia — disse Piani. — Conheço os carros.

— Eles foram mais longe do que nós.

— Eles começaram mais cedo.

— Pergunto-me onde estão os motoristas.

— Lá na frente, provavelmente.

— Os alemães pararam fora de Udine — eu disse. — Esse pessoal todo vai atravessar o rio.

— Sim — disse Piani. — É por isso que acho que a guerra vai continuar.

— Os alemães poderiam continuar — eu disse. — Pergunto-me por que não continuam.

— Não sei. Não sei nada sobre esse tipo de guerra.

— Eles devem estar esperando seu transporte, suponho.

— Não sei — disse Piani. Sozinho, ele era muito mais gentil. Quando estava com os outros, ele falava de um jeito muito rude.

— Você é casado, Luigi?

— Você sabe que sou casado.

— É por isso que você não queria ser prisioneiro?

— Esse é um dos motivos. Você é casado, Tenente?

— Não.

— Nem Bonello.

— Você não pode saber nada sobre um homem por ele ser casado. Mas acho que um homem casado gostaria de voltar para sua esposa — eu disse. Eu ficaria feliz em conversar sobre esposas.

— Sim.

— Como estão seus pés?

— Eles estão bastante doloridos.

Antes do amanhecer, chegamos à margem do Tagliamento e seguimos ao longo do rio inundado até a ponte onde todo o tráfego estava passando.

— Eles deveriam ser capazes de resistir neste rio — disse Piani. No escuro, a enchente parecia alta. A água redemoinhava e era larga. A ponte de madeira tinha quase um quilômetro e duzentos metros de extensão, e o rio, que geralmente corria em canais estreitos no largo leito pedregoso bem abaixo da ponte, estava rente às tábuas de madeira. Seguimos pela margem e depois abrimos caminho para a multidão que atravessava a ponte. Atravessando lentamente na chuva a poucos metros acima da enchente, pressionado na multidão, com a caixa de um reparo de artilharia logo à frente, olhei para o lado e observei o rio. Agora que não podíamos seguir nosso próprio ritmo, senti-me muito cansado. Não havia euforia em atravessar a ponte. Perguntei-me como seria se um avião a bombardeasse durante o dia.

— Piani — eu disse.

— Aqui estou, Tenente. — Ele estava um pouco à frente no engarrafamento. Ninguém falava. Todos estavam tentando atravessar o mais rápido que podiam: pensando apenas nisso. Estávamos quase atravessando. Na extremidade distante da ponte, havia oficiais e carabinieri parados em ambos os lados, piscando lanternas. Vi-os silhuetados contra a linha do horizonte. Quando nos aproximamos deles, vi um dos oficiais apontar para um homem na coluna. Um carabiniere entrou atrás dele e saiu segurando o homem pelo braço. Ele o tirou da estrada. Ficamos quase em frente a eles. Os oficiais examinavam todos na coluna, às vezes falando uns com os outros, indo para a frente para jogar a luz no rosto de alguém. Eles levaram outra pessoa logo antes de chegarmos em frente. Vi o homem. Era um tenente-coronel. Vi as estrelas na caixa em sua manga quando jogaram a luz sobre ele. Seu cabelo era grisalho e ele era baixo e gordo. O carabiniere puxou-o para trás da linha de oficiais. Quando passamos em frente, vi um ou dois deles olharem para mim. Então um apontou para mim e falou com um carabiniere. Vi o carabiniere começar a vir na minha direção, atravessar a borda da coluna em minha direção, então senti ele me pegar pelo colarinho.

— Qual é o seu problema? — eu disse e bati no rosto dele. Vi o rosto dele sob o chapéu, bigodes virados para cima e sangue escorrendo pela bochecha. Outro mergulhou em nossa direção.

— Qual é o seu problema? — eu disse. Ele não respondeu. Ele estava esperando uma chance de me agarrar. Coloquei meu braço atrás de mim para soltar minha pistola.

— Você não sabe que não pode tocar em um oficial?

O outro me agarrou por trás e puxou meu braço para cima de modo que ele torceu na articulação. Virei-me com ele e o outro me agarrou pelo pescoço. Chutei suas canelas e coloquei meu joelho esquerdo na virilha dele.

— Atirem nele se ele resistir — ouvi alguém dizer.

— O que significa isso? — tentei gritar, mas minha voz não estava muito alta. Eles me tinham na lateral da estrada agora.

— Atirem nele se ele resistir — disse um oficial. — Levem-no para trás.

— Quem é você?

— Você vai descobrir.

— Quem é você?

— Polícia de batalha — disse outro oficial.

— Por que vocês não me pedem para passar em vez de fazer um desses aviões me agarrar?

Eles não responderam. Eles não precisavam responder. Eles eram a polícia de batalha.

— Levem-no para trás com os outros — disse o primeiro oficial. — Veja só. Ele fala italiano com sotaque.

— Você também, seu —— — eu disse.

— Levem-no para trás com os outros — disse o primeiro oficial. Levaram-me para trás da linha de oficiais, abaixo da estrada, em direção a um grupo de pessoas em um campo à margem do rio. Enquanto caminhávamos em direção a eles, tiros foram disparados. Vi clarões dos rifles e ouvi os disparos. Chegamos ao grupo. Havia quatro oficiais parados juntos, com um homem à frente deles com um carabiniere de cada lado. Um grupo de homens estava parado, vigiado pelos carabinieri. Quatro outros carabinieri estavam perto dos oficiais que interrogavam, apoiados em suas carabinas. Eram carabinieri de chapéus largos. Os dois que me seguravam me empurraram para o grupo que esperava para ser interrogado. Olhei para o homem que os oficiais estavam interrogando. Era o tenente-coronel gordo, baixo e de cabelos grisalhos que eles tinham tirado da coluna. Os interrogadores tinham toda a eficiência, frieza e autocontrole de italianos que estão atirando e não estão sendo alvejados.

— Sua brigada?

Ele disse a eles.

— Regimento?

Ele disse a eles.

— Por que você não está com seu regimento?

Ele disse a eles.

— Você não sabe que um oficial deve estar com suas tropas?

Ele sabia.

Foi só isso. Outro oficial falou.

— É você e outros como você que deixaram os bárbaros entrarem no solo sagrado da pátria.

— Peço perdão — disse o tenente-coronel.

— É por causa de traição como a sua que perdemos os frutos da vitória.

— Você já esteve em uma retirada? — perguntou o tenente-coronel.

— A Itália nunca deveria recuar.

Ficamos ali na chuva e ouvimos aquilo. Estávamos de frente para os oficiais e o prisioneiro estava parado na frente e um pouco para o lado de nós.

— Se vocês vão me atirar — disse o tenente-coronel —, por favor, atirem em mim imediatamente sem mais perguntas. O interrogatório é estúpido. — Ele fez o sinal da cruz. Os oficiais falaram entre si. Um escreveu algo em um bloco de papel.

— Abandonou suas tropas, ordenado que seja fuzilado — disse ele.

Dois carabinieri levaram o tenente-coronel para a margem do rio. Ele caminhou na chuva, um homem velho sem seu chapéu, um carabiniere de cada lado. Não vi quando atiraram nele, mas ouvi os disparos. Eles estavam interrogando outra pessoa. Este oficial também foi separado de suas tropas. Não lhe foi permitido dar explicações. Ele chorou quando leram a sentença do bloco de papel, e eles já estavam interrogando outro quando atiraram nele. Eles faziam questão de se concentrar em interrogar o próximo homem enquanto o homem que tinha sido interrogado antes estava sendo fuzilado. Dessa forma, obviamente não havia nada que pudessem fazer a respeito. Eu não sabia se deveria esperar para ser interrogado ou fugir agora. Eu era obviamente um alemão com uniforme italiano. Vi como suas mentes funcionavam; se é que tinham mentes e se é que funcionavam. Eles eram todos jovens e estavam salvando seu país. O segundo exército estava sendo reformado além do Tagliamento. Eles estavam executando oficiais de patente de major para cima que estavam separados de suas tropas. Eles também estavam lidando sumariamente com agitadores alemães com uniforme italiano. Eles usavam capacetes de aço. Apenas dois de nós tínhamos capacetes de aço. Alguns dos carabinieri tinham. Os outros carabinieri usavam o chapéu largo. Aviões, nós os chamávamos. Ficamos na chuva e fomos levados um de cada vez para sermos interrogados e fuzilados. Até agora, eles tinham fuzilado todos que interrogaram. Os interrogadores tinham aquele belo desapego e devoção à justiça severa de homens que lidam com a morte sem estar em nenhum perigo. Eles estavam interrogando um coronel de um regimento de linha. Mais três oficiais tinham acabado de ser colocados conosco.

— Onde estava o regimento dele?

Olhei para os carabinieri. Eles estavam olhando para os recém-chegados. Os outros estavam olhando para o coronel. Abaixei-me, empurrei entre dois homens e corri para o rio, com a cabeça baixa. Tropecei na borda e entrei com um mergulho. A água estava muito fria e fiquei submerso o máximo que pude. Podia sentir a corrente me girar e fiquei submerso até achar que nunca conseguiria subir. No minuto em que subi, respirei e desci novamente. Era fácil ficar submerso com tantas roupas e minhas botas. Quando subi pela segunda vez, vi um pedaço de madeira à minha frente, alcancei-o e segurei com uma mão. Mantive minha cabeça atrás dele e nem sequer olhei por cima. Eu não queria ver a margem. Houve tiros quando corri e tiros quando subi pela primeira vez. Ouvi-os quando estava quase acima da água. Não havia tiros agora. O pedaço de madeira balançava na corrente e eu o segurei com uma mão. Olhei para a margem. Parecia estar passando muito rápido. Havia muita madeira na correnteza. A água estava muito fria. Passamos pelo matagal de uma ilha acima da água. Segurei a madeira com ambas as mãos e deixei que ela me levasse. A margem estava fora de vista agora.

CAPÍTULO XXXI

Você não sabe quanto tempo fica em um rio quando a correnteza se move rapidamente. Parece muito tempo e pode ser muito curto. A água estava fria e em enchente, e muitas coisas passavam que tinham sido arrastadas das margens quando o rio subiu. Tive sorte de ter um pedaço de madeira pesado para me segurar, e deitei-me na água gelada com o queixo no pedaço de madeira, segurando o mais facilmente que podia com ambas as mãos. Eu estava com medo de cãibras e esperava que nos movêssemos em direção à margem. Descemos o rio em uma longa curva. Estava começando a clarear o suficiente para que eu pudesse ver os arbustos ao longo da margem. Havia uma ilha de matagal à frente e a correnteza se movia em direção à costa. Pensei se deveria tirar minhas botas e roupas e tentar nadar até a margem, mas decidi não o fazer. Eu nunca tinha pensado em nada, exceto que chegaria à margem de alguma forma, e estaria em uma má posição se desembarcasse descalço. Eu tinha que chegar a Mestre de alguma forma.

“Você pode me conseguir roupas civis? Um terno, um chapéu, sapatos?”

“É claro. O que é o seu tamanho? Quarenta e dois?”

“Acho que sim. É muito pedir?”

“Não, não. Vou pedir ao meu alfaiate. Ele é um homem muito complacente. Ele faz as minhas roupas de palco. Ele não fará perguntas. Ele vai adorar fazer roupas para um oficial que está fugindo. Ele é um socialista ardente.”

“Isso será um problema?”

“Não, ele é um socialista de salão. Ele é muito rico. Ele vai adorar.”

“Você tem algum dinheiro, Sim?”

“Sim, tenho bastante. Você precisa?”

“Eu tenho algum, mas não muito.”

“Não se preocupe com isso. Eu cuido de tudo. Onde você vai ficar?”

“Eu não sei. Talvez em um hotel pequeno.”

“Não, você não pode ir a um hotel. Eles pedem documentos. Você tem documentos?”

“Não.”

“Bem, eu vou arrumar isso. Eu tenho um amigo que tem uma casa no lago. Você pode ficar lá. Você gosta de Stresa?”

“Eu conheço Stresa.”

“Bem, você pode ficar lá. Você pode ir até lá de trem. É um lugar muito bom.”

“Você é um bom amigo, Sim.”

“Não seja sentimental. É um prazer. Você me faz sentir como se estivéssemos em um romance. Eu sempre quis estar em um romance.”

“Você está em um, Sim. Mas é um romance ruim.”

“Bem, é melhor que a vida em Milão. A vida em Milão é muito chata agora. Tudo é proibido. Exceto cantar.”

“Você vai me ajudar com as roupas?”

“Sim. Vou ligar para o alfaiate agora. Ele virá aqui e tirará suas medidas. Ou melhor, vou dar a ele as minhas medidas. Você é mais ou menos do meu tamanho.”

“Você é muito bondoso, Sim.”

“Não, não sou. Estou entediado. Este é o momento mais interessante que tive em meses.”

Ele se levantou da cama e colocou um roupão. Ele parecia muito magro e pálido.

“Você quer um café?”

“Não, obrigado.”

“Você deve estar com fome. Vou pedir para trazerem algo.”

“Não, não se incomode. Eu tenho que ir.”

“Onde você vai?”

“Vou ver se consigo algumas informações.”

“Muito bem. Volte aqui ao meio-dia. O alfaiate virá e teremos roupas.”

“Obrigado, Sim. Eu voltarei.”

Saí e caminhei pelas ruas de Milão. A cidade parecia a mesma, mas eu não era. Senti-me um estranho, um fugitivo. As pessoas passavam apressadas, sem notar minha presença. Eu era apenas mais um homem na multidão. Mas eu sabia que, por baixo daquela aparência comum, eu carregava o peso de uma guerra que deixei para trás. E eu sabia que, de alguma forma, eu encontraria Catherine. Eu tinha que encontrá-la. Era a única coisa que importava agora. A guerra tinha acabado para mim. Eu estava sozinho, mas não estava perdido. Eu estava em movimento. E, no fim, é isso que importa. Continuar em movimento.

“Não é lugar para isso. Não compre roupas. Eu lhe darei todas as roupas que quiser. Vou vesti-lo de modo que seja um grande sucesso. Entre naquele vestiário. Há um armário. Pegue o que quiser. Meu caro, você não precisa comprar roupas.”

“Prefiro comprá-las, Sim.”

“Meu caro, é mais fácil para mim deixar que você as leve do que sair para comprá-las. Você tem passaporte? Não chegará longe sem um passaporte.”

“Sim. Ainda tenho meu passaporte.”

“Então vista-se, meu caro, e parta para a velha Helvetia.”

“Não é tão simples. Tenho que subir até Stresa primeiro.”

“Ideal, meu caro. Você simplesmente rema um barco até o outro lado. Se eu não estivesse tentando cantar, iria com você. Ainda irei.”

“Você poderia aprender a cantar tirolês.”

“Meu caro, ainda vou aprender a cantar tirolês. Embora eu realmente saiba cantar. Essa é a parte estranha.”

“Aposto que você sabe cantar.”

Ele recostou-se na cama, fumando um cigarro.

“Não aposte muito. Mas eu sei cantar, sim. É uma droga de engraçado, mas sei. Gosto de cantar. Escute.” Ele rugiu um trecho de “Africana”, o pescoço inchando, as veias saltadas. “Eu sei cantar”, disse ele. “Quer gostem ou não.” Olhei pela janela. “Vou descer e dispensar meu táxi.”

“Volte, meu caro, e tomaremos o café da manhã.” Ele saiu da cama, ficou ereto, respirou fundo e começou a fazer exercícios de alongamento. Desci e paguei o táxi.

CAPÍTULO XXXIV

Em roupas civis, sentia-me um mascarado. Eu estava de uniforme há muito tempo e sentia falta da sensação de ser contido pelas roupas. As calças pareciam muito largas. Comprei uma passagem em Milão para Stresa. Também comprei um chapéu novo. Não podia usar o chapéu de Sim, mas as roupas dele estavam ótimas. Cheiravam a tabaco e, enquanto eu me sentava no compartimento e olhava pela janela, o chapéu novo parecia muito novo e as roupas, muito velhas. Eu mesmo me sentia tão triste quanto a úmida paisagem da Lombardia que via através da janela. Havia alguns aviadores no compartimento que não me estimavam muito. Evitavam olhar para mim e eram muito desdenhosos com um civil da minha idade. Não me senti insultado. Antigamente, eu os teria insultado e começado uma briga. Eles desceram em Gallarate e fiquei feliz por estar sozinho. Eu tinha o jornal, mas não o li porque não queria ler sobre a guerra. Eu ia esquecer a guerra. Eu tinha feito uma paz separada. Senti-me terrivelmente solitário e fiquei contente quando o trem chegou a Stresa.

Na estação, eu esperava ver os carregadores dos hotéis, mas não havia ninguém. A temporada terminara há muito tempo e ninguém veio encontrar o trem. Desci do trem com minha mala — era a mala de Sim, muito leve para carregar, pois estava vazia, exceto por duas camisas — e fiquei sob a cobertura da estação na chuva enquanto o trem seguia viagem. Encontrei um homem na estação e perguntei se ele sabia quais hotéis estavam abertos. O Grand-Hôtel & des Isles Borromées estava aberto, assim como vários hotéis pequenos que permaneciam abertos o ano todo. Saí na chuva em direção ao Isles Borromées carregando minha mala. Vi uma carruagem descendo a rua e sinalizei para o cocheiro. Era melhor chegar de carruagem. Fomos até a entrada da carruagem do grande hotel, o concierge saiu com um guarda-chuva e foi muito educado.

Peguei um bom quarto. Era muito grande, iluminado e dava para o lago. As nuvens estavam baixas sobre o lago, mas ficaria lindo com a luz do sol. Eu estava esperando minha esposa, disse eu. Havia uma cama de casal grande, um letto matrimoniale com uma colcha de cetim. O hotel era muito luxuoso. Desci pelos longos corredores, pelas largas escadarias, através das salas até o bar. Eu conhecia o barman; sentei-me em um banco alto e comi amêndoas salgadas e batatas fritas. O martini parecia frio e limpo.

“O que você está fazendo aqui em borghese?” perguntou o barman depois de ter preparado um segundo martini.

“Estou de licença. Licença médica.”

“Não há ninguém aqui. Não sei por que mantêm o hotel aberto.”

“Você tem pescado?”

“Peguei alguns exemplares lindos. Pescando com linha nesta época do ano, você pega uns exemplares lindos.”

“Você chegou a receber o tabaco que enviei?”

“Sim. Você não recebeu meu cartão?”

Ri. Eu não tinha conseguido o tabaco. Era fumo de cachimbo americano o que ele queria, mas meus parentes tinham parado de enviar, ou estava sendo retido. De qualquer modo, nunca chegou.

“Vou conseguir um pouco em algum lugar”, disse eu. “Diga-me, você viu duas inglesas na cidade? Elas chegaram aqui anteontem.”

“Elas não estão no hotel.”

“Elas são enfermeiras.”

“Vi duas enfermeiras. Espere um minuto, vou descobrir onde elas estão.”

“Uma delas é minha esposa”, disse eu. “Vim aqui para encontrá-la.”

“A outra é minha esposa.”

“Não estou brincando.”

“Perdoe minha piada estúpida”, disse ele. “Eu não entendi.” Ele se afastou e ficou fora por um bom tempo. Comi azeitonas, amêndoas salgadas e batatas fritas e observei-me com roupas civis no espelho atrás do bar. O barman voltou. “Elas estão no hotelzinho perto da estação”, disse ele.

“Que tal alguns sanduíches?”

“Vou pedir alguns. Você entende que não há nada aqui, agora que não há pessoas.”

“Não há realmente ninguém?”

“Sim. Há algumas pessoas.”

Os sanduíches chegaram e comi três e tomei mais alguns martinis. Eu nunca tinha provado nada tão frio e limpo. Eles me faziam sentir civilizado. Eu tinha tomado vinho tinto demais, comido pão, queijo, café ruim e grappa. Sentei-me no banco alto diante do agradável mogno, do latão e dos espelhos, e não pensei em nada. O barman me fez alguma pergunta.

“Não fale sobre a guerra”, disse eu. A guerra estava muito longe. Talvez não houvesse guerra nenhuma. Não havia guerra aqui. Então percebi que, para mim, tinha acabado. Mas não tive a sensação de que tinha acabado de verdade. Tive a sensação de um menino que pensa no que está acontecendo a uma certa hora na escola da qual ele fugiu.

Catherine e Helen Ferguson estavam jantando quando cheguei ao hotel delas. De pé no corredor, vi-as à mesa. O rosto de Catherine estava virado para o lado oposto ao meu, e vi a linha de seu cabelo, sua bochecha e seu lindo pescoço e ombros. Ferguson estava falando. Ela parou quando entrei.

“Meu Deus”, disse ela.

“Olá”, eu disse.

“Ora, é você!” disse Catherine. Seu rosto se iluminou. Ela parecia feliz demais para acreditar. Eu a beijei. Catherine corou e eu me sentei à mesa.

“Você está uma bela confusão”, disse Ferguson. “O que está fazendo aqui? Já comeu?”

“Não.” A moça que servia a refeição entrou e pedi que trouxesse um prato para mim. Catherine olhava para mim o tempo todo, com os olhos felizes.

“O que está fazendo à paisana?” perguntou Ferguson.

“Estou no Gabinete.”

“Você está em alguma enrascada.”

“Anime-se, Fergy. Anime-se só um pouco.”

“Não me animo ao vê-lo. Sei da enrascada em que você meteu esta moça. Você não é uma visão alegre para mim.”

Catherine sorriu para mim e tocou-me com o pé debaixo da mesa.

“Ninguém me meteu em enrascada nenhuma, Fergy. Eu mesma me meto nas minhas enrascadas.”

“Não suporto esse homem”, disse Ferguson. “Ele não fez nada além de arruinar você com seus truques sorrateiros de italiano. Os americanos são piores que os italianos.”

“Os escoceses são um povo tão moral”, disse Catherine.

“Não quero dizer isso. Refiro-me à sua sorrateirice italiana.”

“Sou sorrateiro, Fergy?”

“Você é. Você é pior que sorrateiro. Você é como uma cobra. Uma cobra com um uniforme italiano: com uma capa em volta do pescoço.”

“Não estou usando uniforme italiano agora.”

“Isso é apenas outro exemplo da sua sorrateirice. Vocês tiveram um caso de amor o verão inteiro e você deixou esta moça grávida e agora suponho que você vai fugir sorrateiramente.”

Sorri para Catherine e ela sorriu para mim.

“Nós dois vamos fugir sorrateiramente”, disse ela.

“Vocês são dois da mesma laia”, disse Ferguson. “Estou envergonhada de você, Catherine Barkley. Você não tem vergonha nem honra e é tão sorrateira quanto ele.”

“Não faça isso, Fergy”, disse Catherine, dando tapinhas na mão dela. “Não me denuncie. Você sabe que gostamos uma da outra.”

“Tire a mão”, disse Ferguson. O rosto dela estava vermelho. “Se você tivesse alguma vergonha, seria diferente. Mas você está sabe Deus há quantos meses grávida e acha que é uma piada e fica toda sorrisos porque seu sedutor voltou. Você não tem vergonha nem sentimentos.” Ela começou a chorar. Catherine foi até ela e colocou o braço em volta dela. Enquanto ela consolava Ferguson, eu não conseguia ver nenhuma mudança em sua silhueta.

“Eu não me importo”, soluçou Ferguson. “Acho isso terrível.”

“Pronto, pronto, Fergy”, Catherine a consolou. “Vou ter vergonha. Não chore, Fergy. Não chore, velha Fergy.”

“Não estou chorando”, soluçou Ferguson. “Não estou chorando. Exceto pela coisa horrível em que você se meteu.” Ela olhou para mim. “Eu odeio você”, disse ela. “Ela não pode me fazer não odiar você. Seu americano italiano sujo e sorrateiro.” Seus olhos e nariz estavam vermelhos de tanto chorar.

Catherine sorriu para mim.

“Não sorria para ele com o braço em volta de mim.”

“Você é irracional, Fergy.”

“Eu sei disso”, soluçou Ferguson. “Vocês não devem se importar comigo, nenhum dos dois. Estou tão perturbada. Não sou razoável. Eu sei disso. Quero que ambos sejam felizes.”

“Nós somos felizes”, disse Catherine. “Você é uma Fergy doce.”

Ferguson chorou de novo. “Não quero que vocês sejam felizes desse jeito. Por que não se casam? Você não tem outra esposa, tem?”

“Não”, eu disse. Catherine riu.

“Não há nada para rir”, disse Ferguson. “Muitos deles têm outras esposas.”

“Nós vamos nos casar, Fergy”, disse Catherine, “se isso lhe agradar.”

“Não para me agradar. Você deveria querer se casar.”

“Temos estado muito ocupados.”

“Sim. Eu sei. Ocupados fazendo bebês.” Pensei que ela fosse chorar de novo, mas, em vez disso, ela ficou amarga. “Suponho que você vá sair com ele agora à noite?”

“Sim”, disse Catherine. “Se ele me quiser.”

“E quanto a mim?”

“Você tem medo de ficar aqui sozinha?”

“Sim, tenho.”

“Então ficarei com você.”

“Não, vá com ele. Vá com ele agora mesmo. Estou farta de ver vocês dois.”

“É melhor terminarmos o jantar.”

“Não. Vão embora agora mesmo.”

“Fergy, seja razoável.”

“Eu disse para saírem agora mesmo. Vão embora, vocês dois.”

“Vamos embora então”, eu disse. Eu estava farto da Fergy.

“Você quer mesmo ir. Você vê, você quer me deixar até para jantar sozinha. Sempre quis conhecer os lagos italianos e é assim que acontece. Oh, oh”, ela soluçou, então olhou para Catherine e engasgou.

“Ficaremos até depois do jantar”, disse Catherine. “E não vou deixá-la sozinha se você quiser que eu fique. Não vou deixá-la sozinha, Fergy.”

“Não. Não. Quero que vocês vão. Quero que vocês vão.” Ela enxugou os olhos. “Sou tão irracional. Por favor, não se importem comigo.”

A moça que servia a refeição tinha ficado perturbada com todo aquele choro. Agora, ao trazer o próximo prato, parecia aliviada que as coisas estivessem melhores.

Naquela noite no hotel, em nosso quarto com o longo corredor vazio lá fora e nossos sapatos diante da porta, um tapete grosso no chão do quarto, lá fora das janelas a chuva caindo e no quarto a luz agradável e alegre, então a luz apagada e a excitação com os lençóis macios e a cama confortável, sentindo que tínhamos chegado em casa, não nos sentindo mais sozinhos, acordando à noite para encontrar o outro ali, e não tendo ido embora; todas as outras coisas eram irreais. Dormíamos quando estávamos cansados e, se acordávamos, o outro também acordava, para que ninguém ficasse sozinho. Muitas vezes um homem deseja ficar sozinho e uma moça também deseja ficar sozinha, e se eles se amam, sentem ciúmes disso um no outro, mas posso dizer honestamente que nunca sentimos isso. Podíamos nos sentir sozinhos quando estávamos juntos, sozinhos contra os outros. Só aconteceu comigo assim uma vez. Estive sozinho enquanto estava com muitas moças e essa é a maneira como você pode se sentir mais solitário. Mas nunca estivemos solitários e nunca tivemos medo quando estávamos juntos. Sei que a noite não é a mesma que o dia: que todas as coisas são diferentes, que as coisas da noite não podem ser explicadas durante o dia, porque então não existem, e a noite pode ser um momento terrível para pessoas solitárias assim que sua solidão começa. Mas, com Catherine, quase não havia diferença na noite, exceto que era um momento ainda melhor. Se as pessoas trazem tanta coragem a este mundo, o mundo tem que matá-las para quebrá-las, então, é claro, ele as mata. O mundo quebra a todos e depois disso muitos são fortes nos lugares quebrados. Mas aqueles que não querem quebrar, ele mata. Ele mata os muito bons, os muito gentis e os muito corajosos imparcialmente. Se você não é nada disso, pode ter certeza de que ele também o matará, mas não haverá pressa especial.

Lembro-me de acordar de manhã. Catherine estava dormindo e a luz do sol entrava pela janela. A chuva tinha parado e eu saí da cama e atravessei o chão até a janela. Lá embaixo estavam os jardins, nus agora, mas belamente regulares, os caminhos de cascalho, as árvores, o muro de pedra à beira do lago e o lago sob a luz do sol com as montanhas além. Fiquei na janela olhando para fora e, quando me virei, vi que Catherine estava acordada e me observando.

“Como você está, querido?” disse ela. “Não é um dia adorável?”

“Como você se sente?”

“Sinto-me muito bem. Tivemos uma noite adorável.”

“Você quer o café da manhã?”

Ela queria o café da manhã. Eu também, e tomamos na cama, a luz do sol de novembro entrando pela janela e a bandeja do café da manhã sobre o meu colo.

“Você não quer o jornal? Você sempre queria o jornal no hospital.”

“Não”, eu disse. “Não quero o jornal agora.”

“Foi tão ruim que você nem quer ler sobre isso?”

“Não quero ler sobre isso.”

“Eu gostaria de ter estado com você para que eu soubesse disso também.”

“Vou lhe contar sobre isso se eu conseguir colocar tudo em ordem na minha cabeça.”

“Mas eles não vão prendê-lo se o pegarem sem uniforme?”

“Provavelmente vão me fuzilar.”

“Então não ficaremos aqui. Vamos sair do país.”

“Eu tinha pensado algo assim.”

“Vamos sair. Querido, você não deveria correr riscos tolos. Diga-me, como você veio de Mestre para Milão?”

“Vim de trem. Eu estava de uniforme naquela época.”

“Você não estava em perigo naquela época?”

“Não muito. Eu tinha uma velha ordem de movimento. Acertei as datas nela em Mestre.”

“Querido, você está sujeito a ser preso aqui a qualquer momento. Eu não vou permitir. É uma tolice fazer algo assim. Onde estaríamos se eles o levassem?”

“Não vamos pensar nisso. Estou cansado de pensar nisso.”

“O que você faria se eles viessem prendê-lo?”

“Atiraria neles.”

“Você vê como você é tolo, não vou deixar você sair do hotel até partirmos daqui.”

“Para onde vamos?”

“Por favor, não seja assim, querido. Iremos para onde você disser. Mas, por favor, encontre algum lugar para ir agora mesmo.”

“A Suíça fica logo ali no lago, podemos ir para lá.”

“Isso será adorável.”

Estava ficando nublado lá fora e o lago escurecia.

“Gostaria que não tivéssemos que viver sempre como criminosos”, disse eu.

“Querido, não seja assim. Você não vive como um criminoso há muito tempo. E nunca viveremos como criminosos. Vamos nos divertir muito.”

“Sinto-me como um criminoso. Desertei do exército.”

“Querido, por favor, seja sensato. Não é desertar do exército. É apenas o exército italiano.”

Ri. “Você é uma moça fina. Vamos voltar para a cama. Sinto-me bem na cama.”

Pouco tempo depois, Catherine disse: “Você não se sente como um criminoso, sente?”

“Não”, eu disse. “Não quando estou com você.”

“Você é um menino tão tolo”, disse ela. “Mas eu cuidarei de você. Não é esplêndido, querido, que eu não tenha enjoos matinais?”

“É grandioso.”

“Você não aprecia a esposa maravilhosa que tem. Mas não me importo. Vou levá-lo para algum lugar onde eles não possam prendê-lo e então nos divertiremos muito.”

“Vamos para lá agora mesmo.”

“Vamos, querido. Irei a qualquer lugar, a qualquer hora que você desejar.”

“Não vamos pensar em nada.”

“Tudo bem.”

CAPÍTULO XXXV

Catherine foi ao longo do lago até o hotelzinho para ver Ferguson, e eu me sentei no bar e li os jornais. Havia poltronas confortáveis de couro no bar e sentei-me em uma delas e li até o barman chegar. O exército não tinha resistido no Tagliamento. Eles estavam recuando para o Piave. Lembrei-me do Piave. A ferrovia o atravessava perto de San Dona, subindo para o front. Era profundo e lento ali e bem estreito. Lá embaixo havia pântanos com mosquitos e canais. Havia algumas vilas adoráveis. Uma vez, antes da guerra, indo para Cortina D’Ampezzo, eu tinha percorrido o rio por várias horas nas colinas. Lá em cima parecia um riacho de trutas, fluindo rapidamente com trechos rasos e poços sob a sombra das rochas. A estrada desviava dele em Cadore. Perguntei-me como o exército que estava lá em cima desceria. O barman entrou.

“O Conde Greffi estava perguntando por você”, disse ele.

“Quem?”

“O Conde Greffi. Você se lembra do velho que estava aqui quando você esteve aqui antes.”

“Ele está aqui?”

“Sim, ele está aqui com sua sobrinha. Eu disse a ele que você estava aqui. Ele quer que você jogue bilhar.”

“Onde ele está?”

“Ele está dando uma caminhada.”

“Como ele está?”

“Ele está mais jovem do que nunca. Ele bebeu três coquetéis de champanhe ontem à noite antes do jantar.”

“Como está o jogo de bilhar dele?”

“Bom. Ele me venceu. Quando eu disse a ele que você estava aqui, ele ficou muito satisfeito. Não há ninguém aqui para ele jogar.”

O Conde Greffi tinha noventa e quatro anos. Ele tinha sido contemporâneo de Metternich e era um velho de cabelos e bigode brancos e maneiras belíssimas. Ele tinha servido no serviço diplomático tanto da Áustria quanto da Itália, e suas festas de aniversário eram o grande evento social de Milão. Ele estava vivendo para completar cem anos e jogava uma partida de bilhar fluentemente suave que contrastava com sua própria fragilidade de noventa e quatro anos. Eu o tinha conhecido quando estive em Stresa uma vez antes, fora da temporada, e enquanto jogávamos bilhar, bebíamos champanhe. Achei que era um costume esplêndido, e ele me dava quinze pontos em cem e me vencia.

“Por que você não me disse que ele estava aqui?”

“Eu esqueci.”

“Quem mais está aqui?”

“Ninguém que você conheça. Há apenas seis pessoas ao todo.”

“O que você está fazendo agora?”

“Nada.”

“Venha pescar.”

“Eu poderia ir por uma hora.”

“Vamos. Traga a linha de pesca.”

O barman vestiu um casaco e saímos. Descemos, pegamos um barco e eu remei enquanto o barman sentava na popa e soltava a linha com uma isca giratória e um chumbo pesado na ponta para pescar trutas do lago. Remamos ao longo da margem, o barman segurando a linha na mão e dando puxões ocasionais para a frente. Stresa parecia muito deserta a partir do lago. Havia as longas filas de árvores nuas, os grandes hotéis e as vilas fechadas. Remei até Isola Bella e passei perto dos muros, onde a água se tornava profunda bruscamente, e você via a parede de rocha inclinando-se para baixo na água clara, e então para cima e ao longo até a ilha do pescador. O sol estava sob uma nuvem e a água estava escura, lisa e muito fria. Não tivemos nenhum pique, embora víssemos alguns círculos na água causados por peixes subindo.

Remei em direção à ilha do pescador, onde havia barcos puxados para fora e homens consertando redes.

— Devemos tomar um drinque?

— Tudo bem.

Aproximei o barco do cais de pedra e o barman puxou a corda, enrolando-a no fundo do barco e prendendo a isca artificial na borda da amurada. Saí e amarrei o barco. Entramos em um pequeno café, sentamo-nos a uma mesa de madeira nua e pedimos vermute.

— Está cansado de remar?

— Não.

— Eu remo na volta — disse ele.

— Gosto de remar.

— Talvez se você segurar a linha, a sorte mude.

— Tudo bem.

— Diga-me como vai a guerra.

— Péssima.

— Eu não preciso ir. Sou velho demais, como o Conde Greffi.

— Talvez você ainda tenha que ir.

— No ano que vem eles chamarão a minha classe. Mas eu não vou.

— O que você vai fazer?

— Sair do país. Eu não iria para a guerra. Estive na guerra uma vez, na Abissínia. Nem pensar. Por que você vai?

— Não sei. Fui um tolo.

— Quer outro vermute?

— Tudo bem.

O barman remou de volta. Pescamos à linha pelo lago, além de Stresa, e depois descemos não muito longe da margem. Segurei a linha esticada e senti a leve pulsação da isca giratória enquanto olhava para a água escura de novembro do lago e para a margem deserta. O barman remava com remadas longas e, no impulso para a frente do barco, a linha latejava. Uma vez tive um pique: a linha endureceu de repente e puxou para trás; puxei e senti o peso vivo da truta, e então a linha latejou novamente. Eu o tinha perdido.

— Parecia grande?

— Bem grande.

— Uma vez, quando eu estava pescando sozinho, segurei a linha entre os dentes e um peixe fisgou e quase arrancou minha boca.

— O melhor jeito é mantê-la sobre a perna — eu disse. — Assim você sente e não perde os dentes.

Coloquei a mão na água. Estava muito fria. Estávamos quase em frente ao hotel agora.

— Tenho que entrar — disse o barman —, para estar lá às onze horas. L’heure du cocktail.

— Tudo bem.

Puxei a linha e a enrolei em um pedaço de pau com entalhes nas pontas. O barman colocou o barco em uma pequena rampa no muro de pedra e o trancou com uma corrente e um cadeado.

— Sempre que quiser — disse ele —, eu lhe darei a chave.

— Obrigado.

Subimos para o hotel e entramos no bar. Eu não queria outro drinque tão cedo pela manhã, então subi para o nosso quarto. A camareira tinha acabado de arrumar o quarto e Catherine ainda não tinha voltado. Deitei-me na cama e tentei não pensar.

Quando Catherine voltou, estava tudo bem novamente. Ferguson estava lá embaixo, disse ela. Ela viria almoçar.

— Eu sabia que você não se importaria — disse Catherine.

— Não — eu disse.

— Qual é o problema, querido?

— Não sei.

— Eu sei. Você não tem nada para fazer. Você só tem a mim e eu saio.

— É verdade.

— Sinto muito, querido. Sei que deve ser uma sensação terrível não ter nada de repente.

— Minha vida costumava ser cheia de tudo — eu disse. — Agora, se você não está comigo, não tenho nada no mundo.

— Mas eu estarei com você. Só saí por duas horas. Não há nada que você possa fazer?

— Fui pescar com o barman.

— Não foi divertido?

— Foi.

— Não pense em mim quando eu não estiver aqui.

— Era assim que eu fazia no front. Mas havia algo para fazer então.

— Otelo com sua ocupação perdida — ela brincou.

— Otelo era um negro — eu disse. — Além disso, não estou com ciúmes. Estou apenas tão apaixonado por você que não existe mais nada.

— Você vai ser um bom garoto e ser legal com a Ferguson?

— Sempre sou legal com a Ferguson, a menos que ela me amaldiçoe.

— Seja legal com ela. Pense no quanto temos e ela não tem nada.

— Não acho que ela queira o que nós temos.

— Você não sabe muito, querido, para um garoto tão sábio.

— Serei legal com ela.

— Sei que será. Você é tão doce.

— Ela não vai ficar depois, vai?

— Não. Vou me livrar dela.

— E então viremos para cá.

— Claro. O que você acha que eu quero fazer?

Descemos para almoçar com Ferguson. Ela ficou muito impressionada com o hotel e com o esplendor da sala de jantar. Tivemos um bom almoço com algumas garrafas de Capri branco. O Conde Greffi entrou na sala de jantar e fez uma reverência para nós. Sua sobrinha, que parecia um pouco com minha avó, estava com ele. Contei a Catherine e Ferguson sobre ele e Ferguson ficou muito impressionada. O hotel era muito grande, grandioso e vazio, mas a comida era boa, o vinho era muito agradável e, no final, o vinho nos fez sentir muito bem. Catherine não precisava se sentir melhor. Ela estava muito feliz. Ferguson ficou bem animada. Eu mesmo me senti muito bem. Depois do almoço, Ferguson voltou para o hotel dela. Ela disse que ia descansar um pouco depois do almoço.

Já no final da tarde, alguém bateu em nossa porta.

— Quem é?

— O Conde Greffi deseja saber se você jogaria bilhar com ele.

Olhei para o meu relógio; eu o tinha tirado e ele estava sob o travesseiro.

— Você tem que ir, querido? — Catherine sussurrou.

— Acho melhor. — O relógio marcava quatro e quinze. Em voz alta, eu disse: — Diga ao Conde Greffi que estarei na sala de bilhar às cinco horas.

Às cinco menos quinze, beijei Catherine em despedida e fui ao banheiro me vestir. Dando um nó na gravata e olhando-me no espelho, senti-me estranho com aquelas roupas civis. Devo me lembrar de comprar mais camisas e meias.

— Você vai ficar fora por muito tempo? — Catherine perguntou. Ela parecia adorável na cama. — Você me passaria a escova?

Observei-a escovando o cabelo, mantendo a cabeça de modo que todo o peso do cabelo ficasse de um lado só. Estava escuro lá fora e a luz sobre a cabeceira da cama brilhava em seu cabelo, em seu pescoço e em seus ombros. Fui até lá, beijei-a e segurei sua mão com a escova, e sua cabeça recaiu sobre o travesseiro. Beijei seu pescoço e seus ombros. Senti-me fraco de tanto amá-la.

— Não quero ir embora.

— Não quero que você vá.

— Então não vou.

— Sim. Vá. É só por um pouco de tempo e depois você voltará.

— Jantaremos aqui em cima.

— Depressa e volte logo.

Encontrei o Conde Greffi na sala de bilhar. Ele estava praticando tacadas, parecendo muito frágil sob a luz que caía sobre a mesa de bilhar. Em uma mesa de cartas, um pouco além da luz, havia um balde de gelo de prata com os gargalos e as rolhas de duas garrafas de champanhe aparecendo acima do gelo. O Conde Greffi endireitou-se quando fui em direção à mesa e caminhou até mim. Ele estendeu a mão: — É um grande prazer que você esteja aqui. Foi muito gentil da sua parte vir jogar comigo.

— Foi muito gentil da sua parte me convidar.

— Você está bem? Disseram-me que você foi ferido no Isonzo. Espero que esteja bem novamente.

— Estou muito bem. Você tem passado bem?

— Ah, eu sempre estou bem. Mas estou ficando velho. Detecto sinais de idade agora.

— Não consigo acreditar.

— Sim. Quer saber um? É mais fácil para mim falar italiano. Eu me disciplino, mas percebo que, quando estou cansado, é muito mais fácil falar italiano. Então sei que devo estar ficando velho.

— Poderíamos falar italiano. Também estou um pouco cansado.

— Ah, mas quando você estiver cansado, será mais fácil para você falar inglês.

— Americano.

— Sim. Americano. Por favor, fale americano. É uma língua deliciosa.

— Quase nunca vejo americanos.

— Você deve sentir falta deles. A gente sente falta dos compatriotas e, especialmente, das compatriotas. Eu conheço essa experiência. Devemos jogar ou você está cansado demais?

— Não estou realmente cansado. Disse isso por brincadeira. Que vantagem você vai me dar?

— Você tem jogado muito?

— Nem um pouco.

— Você joga muito bem. Dez pontos em cem?

— Você me lisonjeia.

— Quinze?

— Seria ótimo, mas você vai me vencer.

— Devemos jogar por uma aposta? Você sempre quis jogar por uma aposta.

— Acho melhor.

— Tudo bem. Vou lhe dar dezoito pontos e jogaremos por um franco o ponto.

Ele jogou uma bela partida de bilhar e, com a vantagem, eu estava apenas quatro pontos à frente aos cinquenta. O Conde Greffi apertou um botão na parede para chamar o barman.

— Abra uma garrafa, por favor — disse ele. Então, para mim: — Tomaremos um pequeno estimulante. — O vinho estava gelado, muito seco e bom.

— Devemos falar italiano? Você se importaria muito? É minha grande fraqueza agora.

Continuamos jogando, bebendo o vinho entre as tacadas, falando em italiano, mas falando pouco, concentrados no jogo. O Conde Greffi fez seu centésimo ponto e, com a vantagem, eu estava apenas em noventa e quatro. Ele sorriu e deu um tapinha em meu ombro.

— Agora vamos beber a outra garrafa e você vai me contar sobre a guerra. — Ele esperou que eu me sentasse.

— Sobre qualquer outra coisa — eu disse.

— Você não quer falar sobre isso? Certo. O que você tem lido?

— Nada — eu disse. — Receio ser muito tedioso.

— Não. Mas você deveria ler.

— O que há de escrito em tempo de guerra?

— Existe "Le Feu", de um francês, Barbusse. Existe "Mr. Britling Sees Through It".

— Não, ele não vê.

— O quê?

— Ele não vê através disso. Esses livros estavam no hospital.

— Então você tem lido?

— Sim, mas nada que preste.

— Achei "Mr. Britling" um estudo muito bom da alma da classe média inglesa.

— Não entendo nada sobre alma.

— Pobre rapaz. Nenhum de nós entende sobre a alma. Você é croyant?

— À noite.

O Conde Greffi sorriu e girou a taça com os dedos. — Eu esperava tornar-me mais devoto à medida que envelhecesse, mas, de alguma forma, não me tornei — disse ele. — É uma grande pena.

— Você gostaria de viver após a morte? — perguntei, e instantaneamente me senti um tolo por mencionar a morte. Mas ele não se importou com a palavra.

— Dependeria da vida. Esta vida é muito agradável. Eu gostaria de viver para sempre — ele sorriu. — Eu quase vivi.

Estávamos sentados nas profundas poltronas de couro, o champanhe no balde de gelo e nossas taças na mesa entre nós.

— Se você viver até ser tão velho quanto eu, achará muitas coisas estranhas.

— Você nunca parece velho.

— É o corpo que é velho. Às vezes tenho medo de quebrar um dedo, como se quebra um giz. E o espírito não é mais velho e não muito mais sábio.

— Você é sábio.

— Não, essa é a grande falácia: a sabedoria dos velhos. Eles não se tornam sábios. Eles se tornam cuidadosos.

— Talvez isso seja sabedoria.

— É uma sabedoria muito pouco atraente. O que você mais valoriza?

— Alguém que amo.

— Comigo é o mesmo. Isso não é sabedoria. Você valoriza a vida?

— Sim.

— Eu também. Porque é tudo o que tenho. E dar festas de aniversário — ele riu. — Você provavelmente é mais sábio do que eu. Você não dá festas de aniversário.

Nós dois bebemos o vinho.

— O que você acha da guerra, realmente? — perguntei.

— Acho que é estúpida.

— Quem vai ganhá-la?

— A Itália.

— Por quê?

— Eles são uma nação mais jovem.

— Nações mais jovens sempre ganham guerras?

— Elas tendem a ganhar por um tempo.

— Então o que acontece?

— Elas se tornam nações mais velhas.

— Você disse que não era sábio.

— Caro rapaz, isso não é sabedoria. Isso é cinismo.

— Parece muito sábio para mim.

— Não é particularmente. Eu poderia citar exemplos do lado oposto. Mas não é ruim. Terminamos o champanhe?

— Quase.

— Devemos beber um pouco mais? Depois preciso me vestir.

— Talvez seja melhor não agora.

— Tem certeza de que não quer mais?

— Sim. — Ele se levantou.

— Espero que você seja muito afortunado, muito feliz e muito, muito saudável.

— Obrigado. E espero que você viva para sempre.

— Obrigado. Eu vivi. E se você algum dia se tornar devoto, reze por mim, caso eu esteja morto. Estou pedindo a vários de meus amigos que façam isso. Eu esperava me tornar devoto, mas não aconteceu. — Achei que ele sorriu tristemente, mas não pude dizer. Ele era tão velho e seu rosto era tão enrugado, que um sorriso usava tantas linhas que todas as gradações se perdiam.

— Eu poderia me tornar muito devoto — eu disse. — De qualquer forma, rezarei por você.

— Eu sempre esperei me tornar devoto. Toda a minha família morreu muito devota. Mas, de alguma forma, isso não vem.

— É cedo demais.

— Talvez seja tarde demais. Talvez eu tenha superado meu sentimento religioso.

— O meu só vem à noite.

— Então você também está apaixonado. Não se esqueça de que esse é um sentimento religioso.

— Você acredita nisso?

— Claro. — Ele deu um passo em direção à mesa. — Você foi muito gentil em jogar.

— Foi um grande prazer.

— Vamos subir juntos.

CAPÍTULO XXXVI

Naquela noite houve uma tempestade e acordei ao ouvir a chuva batendo nas vidraças. Ela estava entrando pela janela aberta. Alguém tinha batido na porta. Fui até a porta muito suavemente, para não perturbar Catherine, e a abri. O barman estava lá. Ele usava seu sobretudo e carregava seu chapéu molhado.

— Posso falar com você, Tenente?

— Qual é o problema?

— É um assunto muito sério.

Olhei em volta. O quarto estava escuro. Vi a água no chão vindo da janela. — Entre — disse eu. Levei-o pelo braço para dentro do banheiro; tranquei a porta e acendi a luz. Sentei-me na borda da banheira.

— Qual é o problema, Emilio? Você está em apuros?

— Não. Você está, Tenente.

— Sim?

— Eles vão prendê-lo de manhã.

— Sim?

— Vim lhe contar. Eu estava na cidade e os ouvi conversando em um café.

— Entendo.

Ele ficou parado ali, seu casaco molhado, segurando seu chapéu encharcado e não disse nada.

— Por que eles vão me prender?

— Por algo sobre a guerra.

— Você sabe o quê?

— Não. Mas sei que eles sabem que você esteve aqui antes como oficial e agora você está aqui sem uniforme. Depois desta retirada, eles prendem todo mundo.

Pensei por um minuto.

— A que horas eles vêm me prender?

— Pela manhã. Não sei o horário.

— O que você sugere que eu faça?

Ele colocou o chapéu na pia. Estava muito molhado e pingava no chão.

— Se você não tem nada a temer, uma prisão não é nada. Mas é sempre ruim ser preso, especialmente agora.

— Não quero ser preso.

— Então vá para a Suíça.

— Como?

— No meu barco.

— Há uma tempestade — eu disse.

— A tempestade acabou. O mar está agitado, mas você ficará bem.

— Quando devemos ir?

— Agora mesmo. Eles podem vir prendê-lo cedo pela manhã.

— E as nossas malas?

— Faça as malas. Vista sua dama. Eu cuidarei delas.

— Onde você estará?

— Esperarei aqui. Não quero que ninguém me veja lá fora no corredor.

Abri a porta, fechei-a e entrei no quarto. Catherine estava acordada.

— O que foi, querido?

— Está tudo bem, Cat — eu disse. — Você gostaria de se vestir agora mesmo e ir de barco para a Suíça?

— E você?

— Não — eu disse. — Gostaria de voltar para a cama.

— Sobre o que é?

— O barman diz que eles vão me prender de manhã.

— O barman é louco?

— Não.

— Então, por favor, apresse-se, querido, e vista-se para que possamos começar. — Ela se sentou na beira da cama. Ela ainda estava com sono. — Aquele é o barman no banheiro?

— É.

— Então não vou me lavar. Por favor, olhe para o outro lado, querido, e estarei vestida em apenas um minuto.

Vi suas costas brancas enquanto ela tirava a camisola e então olhei para o outro lado porque ela queria que eu olhasse. Ela estava começando a ficar um pouco grande por causa da criança e não queria que eu a visse. Vesti-me ouvindo a chuva nas janelas. Não tinha muito o que colocar na minha mala.

— Tem bastante espaço na minha mala, Cat, se precisar de alguma.

— Já estou quase pronta — ela disse. — Querido, sou terrivelmente estúpida, mas por que o barman está no banheiro?

— Shhh — ele está esperando para levar nossas malas lá para baixo.

— Ele é muito gentil.

— Ele é um velho amigo — eu disse. — Eu quase lhe enviei um pouco de tabaco para cachimbo uma vez.

Olhei pela janela aberta para a noite escura. Não conseguia ver o lago, apenas a escuridão e a chuva, mas o vento estava mais calmo.

— Estou pronta, querido — Catherine disse.

— Tudo bem. — Fui até a porta do banheiro. — Aqui estão as malas, Emilio — eu disse. O barman pegou as duas malas.

— Você é muito gentil em nos ajudar — Catherine disse.

— Isso não é nada, senhora — disse o barman. — Fico feliz em ajudá-los, desde que eu mesmo não entre em apuros. Escute — ele disse para mim. — Vou levá-las pelas escadas dos empregados e até o barco. Você apenas saia como se fosse dar uma caminhada.

— É uma noite adorável para uma caminhada — Catherine disse.

— É uma noite ruim, com certeza.

— Fico feliz por ter um guarda-chuva — Catherine disse.

Caminhamos pelo corredor e descemos as escadas largas e densamente acarpetadas. No pé da escada, junto à porta, o porteiro estava sentado atrás de sua mesa.

Ele pareceu surpreso ao nos ver.

— O senhor não vai sair, vai? — ele disse.

— Sim — eu disse. — Vamos ver a tempestade ao longo do lago.

— O senhor não tem um guarda-chuva, senhor?

— Não — eu disse. — Este casaco repele a água.

Ele olhou para ele com dúvida. — Vou buscar um guarda-chuva para o senhor — disse ele. Ele saiu e voltou com um guarda-chuva grande. — É um pouco grande, senhor — ele disse. Dei-lhe uma nota de dez liras. — Oh, o senhor é muito bom, senhor. Muito obrigado — ele disse. Ele segurou a porta aberta e saímos na chuva. Ele sorriu para Catherine e ela sorriu para ele. — Não fiquem fora na tempestade — ele disse. — Vocês vão se molhar, senhor e senhora. — Ele era apenas o segundo porteiro, e seu inglês ainda era literalmente traduzido.

— Voltaremos — eu disse. Caminhamos pelo caminho sob o guarda-chuva gigante e atravessamos os jardins escuros e molhados até a estrada e cruzamos a estrada para o caminho treliçado ao longo do lago. O vento soprava da terra agora. Era um vento frio e úmido de novembro e eu sabia que estava nevando nas montanhas. Passamos pelos barcos acorrentados nos vãos ao longo do cais até onde deveria estar o barco do barman. A água estava escura contra a pedra. O barman saiu de trás da fileira de árvores.

— As malas estão no barco — disse ele.

— Quero lhe pagar pelo barco — eu disse.

— Quanto dinheiro você tem?

— Não muito.

— Você me envia o dinheiro mais tarde. Tudo bem.

— Quanto?

— O que você quiser.

— Diga-me quanto.

— Se você conseguir passar, envie-me quinhentos francos. Você não se importará com isso se conseguir passar.

— Tudo bem.

— Aqui estão sanduíches. — Ele me entregou um pacote. — Tudo o que havia no bar. Está tudo aqui. Esta é uma garrafa de conhaque e uma garrafa de vinho. — Coloquei-as na minha mala. — Deixe-me pagar por elas.

— Tudo bem, me dê cinquenta liras.

Entreguei-as a ele. — O conhaque é bom — disse ele. — Você não precisa ter medo de dar para sua dama. É melhor ela entrar no barco. — Ele segurou o barco, que subia e descia contra o muro de pedra, e ajudei Catherine a entrar. Ela sentou-se na popa e puxou sua capa para perto de si.

— Você sabe para onde ir?

— Pelo lago acima.

— Sabe a distância?

— Além de Luino.

— Além de Luino, Cannero, Cannobio, Tranzano. Vocês não estão na Suíça até chegarem a Brissago. Vocês têm que passar pelo Monte Tamara.

— Que horas são? — Catherine perguntou.

— São apenas onze horas — eu disse.

— Se vocês remarem o tempo todo, deveriam chegar lá por volta das sete horas da manhã.

— É tão longe assim?

— São trinta e cinco quilômetros.

— Como devemos ir? Com esta chuva precisamos de uma bússola.

— Não. Reme até Isola Bella. Depois, do outro lado de Isola Madre, vá com o vento. O vento o levará a Pallanza. Você verá as luzes. Então suba a margem.

— Talvez o vento mude.

— Não — disse ele. — Este vento soprará assim por três dias. Ele vem direto do Mattarone. Há uma lata para tirar a água.

— Deixe-me pagar-lhe algo pelo barco agora.

— Não, prefiro arriscar. Se vocês conseguirem passar, pague-me tudo o que puder.

— Tudo bem.

— Não creio que se afoguem.

— Isso é bom.

— Vá com o vento pelo lago acima.

— Tudo bem. Entrei no barco.

— Você deixou o dinheiro para o hotel?

— Sim. Em um envelope no quarto.

— Tudo bem. Boa sorte, Tenente.

— Boa sorte. Agradecemos muito.

— Vocês não me agradecerão se se afogarem.

— O que ele diz? — Catherine perguntou.

— Ele diz boa sorte.

— Boa sorte — disse Catherine. — Muito obrigada.

— Estão prontos?

— Sim.

Ele se abaixou e nos empurrou. Cavei a água com os remos, depois acenei com uma mão. O barman acenou de volta, com desdém. Vi as luzes do hotel e remei para fora, remando diretamente para longe até que elas desaparecessem de vista. Havia um mar bastante agitado, mas estávamos indo com o vento.

CAPÍTULO XXXVII

Remei na escuridão, mantendo o vento no rosto. A chuva havia parado e vinha apenas ocasionalmente em rajadas. Estava muito escuro e o vento era frio. Eu podia ver Catherine na popa, mas não conseguia ver a água onde as pás dos remos mergulhavam. Os remos eram longos e não havia couro para evitar que escorregassem. Eu puxava, levantava, inclinava-me para frente, encontrava a água, mergulhava e puxava, remando o mais suavemente que podia. Não embandeirava os remos porque o vento estava a nosso favor. Eu sabia que minhas mãos criariam bolhas e queria adiar isso o máximo que pudesse. O barco era leve e remava facilmente. Puxei-o pela água escura. Não conseguia enxergar e esperava que logo chegássemos em frente a Pallanza.

Nunca vimos Pallanza. O vento soprava lago acima e passamos pelo ponto que esconde Pallanza na escuridão sem nunca ver as luzes. Quando finalmente vimos algumas luzes muito mais acima no lago e perto da margem, era Intra. Mas por muito tempo não vimos luzes, nem vimos a margem, mas remamos firmemente na escuridão, deslizando com as ondas. Às vezes eu errava a água com os remos no escuro quando uma onda levantava o barco. Estava bastante agitado; mas continuei remando, até que de repente estávamos perto da margem, contra uma ponta de rocha que se erguia ao nosso lado; as ondas batiam contra ela, subindo alto, depois recuando. Puxei com força o remo direito e fiz força para trás com o outro, e saímos novamente para o lago; a ponta ficou fora de vista e continuamos subindo o lago.

— Estamos atravessando o lago — eu disse a Catherine.

— Não íamos ver Pallanza?

— Perdemos a passagem.

— Como você está, querida?

— Estou bem.

— Eu poderia assumir os remos por um tempo.

— Não, estou bem.

— Pobre Ferguson — disse Catherine. — De manhã ela virá ao hotel e descobrirá que fomos embora.

— Não estou preocupado tanto com isso — eu disse — quanto em entrar na parte suíça do lago antes que amanheça e os guardas da alfândega nos vejam.

— É muito longe?

— São trinta e tantos quilômetros daqui.

Remei a noite toda. Finalmente minhas mãos estavam tão doloridas que eu mal conseguia fechá-las sobre os remos. Quase fomos esmagados contra a margem várias vezes. Mantive-me bem perto da costa porque tinha medo de me perder no lago e perder tempo. Às vezes estávamos tão perto que podíamos ver uma fileira de árvores e a estrada ao longo da margem com as montanhas atrás. A chuva parou e o vento empurrou as nuvens de modo que a lua brilhou; olhando para trás, pude ver a longa ponta escura de Castagnola e o lago com cristas brancas e, além, a lua sobre as altas montanhas nevadas. Então as nuvens cobriram a lua novamente e as montanhas e o lago desapareceram, mas estava muito mais claro do que antes e podíamos ver a margem. Eu podia vê-la com clareza demais e remei para fora, onde eles não veriam o barco se houvesse guardas alfandegários ao longo da estrada de Pallanza. Quando a lua apareceu novamente, pudemos ver vilas brancas na margem, nas encostas da montanha, e a estrada branca onde ela aparecia entre as árvores. O tempo todo eu estava remando.

O lago alargou-se e, do outro lado, na margem ao pé das montanhas, vimos algumas luzes que deveriam ser Luino. Vi uma abertura em forma de cunha entre as montanhas na outra margem e pensei que deveria ser Luino. Se fosse, estávamos fazendo um bom tempo. Recolhi os remos e me encostei no assento. Eu estava muito, muito cansado de remar. Meus braços, ombros e costas doíam e minhas mãos estavam doloridas.

— Eu poderia segurar o guarda-chuva — disse Catherine. — Poderíamos velejar com ele com o vento.

— Você sabe dirigir?

— Acho que sim.

— Você pega este remo e segura sob o braço, perto da lateral do barco, e dirige, e eu seguro o guarda-chuva. Voltei para a popa e mostrei a ela como segurar o remo. Peguei o guarda-chuva grande que o porteiro me dera, sentei-me de frente para a proa e o abri. Ele abriu com um estalo. Segurei-o pelos dois lados, sentado a cavalo sobre o cabo enganchado no assento. O vento estava cheio nele e senti o barco ser sugado para frente enquanto eu segurava o mais forte que podia pelas duas bordas. Puxava com força. O barco estava se movendo rápido.

— Estamos indo maravilhosamente — disse Catherine. Tudo o que eu podia ver eram as varetas do guarda-chuva. O guarda-chuva tensionava e puxava, e eu nos senti avançando com ele. Apoiei os pés e segurei-o, então, de repente, ele dobrou; senti uma vareta quebrar na minha testa, tentei agarrar a parte superior que dobrava com o vento e a coisa toda dobrou e virou do avesso, e eu estava a cavalo sobre o cabo de um guarda-chuva rasgado e virado do avesso, onde antes segurava uma vela cheia de vento. Desenganchei o cabo do assento, coloquei o guarda-chuva na proa e voltei para Catherine para pegar o remo. Ela estava rindo. Ela pegou minha mão e continuou rindo.

— O que houve? — Peguei o remo.

— Você parecia tão engraçado segurando aquela coisa.

— Suponho que sim.

— Não fique zangado, querido. Foi terrivelmente engraçado. Você parecia ter uns seis metros de largura e ser muito carinhoso segurando o guarda-chuva pelas bordas... — ela engasgou.

— Vou remar.

— Descanse e beba alguma coisa. É uma noite grandiosa e percorremos um longo caminho.

— Preciso manter o barco fora da depressão das ondas.

— Vou pegar uma bebida para você. Depois descanse um pouco, querido.

Mantive os remos levantados e velejamos com eles. Catherine estava abrindo a bolsa. Ela me entregou a garrafa de conhaque. Tirei a rolha com meu canivete e tomei um longo gole. Estava suave e quente, e o calor percorreu todo o meu corpo, e senti-me aquecido e alegre. — É um conhaque adorável — eu disse. A lua estava encoberta novamente, mas eu podia ver a margem. Parecia haver outra ponta estendendo-se muito à frente no lago.

— Você está aquecida o suficiente, Cat?

— Estou esplêndida. Estou um pouco rígida.

— Tire essa água e você pode colocar os pés para baixo.

Então remei e escutei os toletes e o mergulho e o raspar da lata de tirar água sob o assento da popa.

— Você me daria o recipiente? — eu disse. — Quero beber um pouco.

— Está terrivelmente sujo.

— Tudo bem. Vou enxaguá-lo.

Ouvi Catherine enxaguando-o pela borda. Então ela me entregou, mergulhado e cheio de água. Eu estava com sede depois do conhaque e a água estava gelada, tão fria que fez meus dentes doerem. Olhei para a margem. Estávamos mais perto da longa ponta. Havia luzes na baía à frente.

— Obrigado — eu disse e devolvi o balde de lata.

— De nada — disse Catherine. — Tem muito mais se você quiser.

— Você não quer comer alguma coisa?

— Não. Estarei com fome daqui a pouco. Vamos guardar para depois.

— Tudo bem.

O que parecia ser uma ponta à frente era um promontório longo e alto. Fui mais para o meio do lago para passar por ele. O lago estava muito mais estreito agora. A lua apareceu novamente e a guardia di Finanza poderia ter visto nosso barco preto na água se estivessem vigiando.

— Como você está, Cat? — perguntei.

— Estou bem. Onde estamos?

— Não acho que tenhamos mais de uns oito quilômetros.

— É um longo caminho para remar, meu doce pobre. Você não está morto?

— Não. Estou bem. Minhas mãos estão doloridas, só isso.

Continuamos subindo o lago. Houve uma quebra nas montanhas na margem direita, um nivelamento com uma linha costeira baixa que eu pensei que deveria ser Cannobio. Fiquei bem longe porque era a partir de agora que corríamos o maior perigo de encontrar os guardas. Havia uma montanha alta de cume arredondado na outra margem, um pouco à frente. Eu estava cansado. Não era uma grande distância para remar, mas quando se está fora de forma, tinha sido um longo caminho. Eu sabia que tinha que passar aquela montanha e subir o lago pelo menos mais cinco milhas antes de estarmos em águas suíças. A lua estava quase se pondo agora, mas antes que se pusesse, o céu nublou-se novamente e ficou muito escuro. Fiquei bem longe no lago, remando um pouco, depois descansando e segurando os remos de modo que o vento atingisse as pás.

— Deixe-me remar um pouco — disse Catherine.

— Não acho que deva.

— Bobagem. Seria bom para mim. Impediria que eu ficasse muito rígida.

— Não acho que deva, Cat.

— Bobagem. Remar com moderação é muito bom para a mulher grávida.

— Tudo bem, você rema um pouco moderadamente. Eu vou para trás, depois você vem. Segure-se nas duas bordas quando subir.

Sentei-me na popa com meu casaco e a gola virada para cima e observei Catherine remar. Ela remava muito bem, mas os remos eram longos demais e a incomodavam. Abri a bolsa e comi alguns sanduíches e tomei um gole do conhaque. Fez com que tudo ficasse muito melhor e tomei outro gole.

— Diga-me quando estiver cansada — eu disse. Então, um pouco depois: — cuidado para o remo não te acertar na barriga.

— Se acertasse — disse Catherine entre as remadas — a vida poderia ser muito mais simples.

Tomei outro gole do conhaque.

— Como você está indo?

— Tudo bem.

— Diga-me quando quiser parar.

— Tudo bem.

Tomei outro gole do conhaque, depois segurei as duas bordas do barco e movi-me para frente.

— Não. Estou indo maravilhosamente.

— Volte para a popa. Tive um descanso grandioso.

Por um tempo, com o conhaque, remei fácil e firmemente. Depois comecei a errar as remadas e logo estava apenas cortando a água novamente com um gosto marrom e ralo de bílis por ter remado forte demais depois do conhaque.

— Me dê um pouco de água, quer? — eu disse.

— Isso é fácil — disse Catherine.

Antes do amanhecer começou a garoar. O vento havia diminuído ou estávamos protegidos pelas montanhas que delimitavam a curva que o lago fizera. Quando soube que o dia estava clareando, acomodei-me e remei forte. Eu não sabia onde estávamos e queria chegar à parte suíça do lago. Quando começou a clarear, estávamos bem perto da margem. Eu podia ver a costa rochosa e as árvores.

— O que é aquilo? — disse Catherine. Descansei nos remos e escutei. Era um barco a motor chugando no lago. Puxei para perto da margem e fiquei quieto. O barulho aproximou-se; então vimos o barco a motor na chuva, um pouco atrás de nós. Havia quatro guardia di finanza na popa, seus chapéus alpini puxados para baixo, as golas das capas viradas para cima e suas carabinas a tiracolo nas costas. Todos pareciam sonolentos tão cedo pela manhã. Eu podia ver o amarelo em seus chapéus e as marcas amarelas nas golas de suas capas. O barco a motor seguiu chugando e desapareceu na chuva.

Remei para dentro do lago. Se estávamos tão perto da fronteira, eu não queria ser chamado por uma sentinela ao longo da estrada. Fiquei onde podia apenas ver a margem e remei por três quartos de hora na chuva. Ouvimos um barco a motor mais uma vez, mas fiquei quieto até que o barulho do motor desapareceu através do lago.

— Acho que estamos na Suíça, Cat — eu disse.

— Sério?

— Não há como saber até vermos as tropas suíças.

— Ou a marinha suíça.

— A marinha suíça não é brincadeira para nós. Aquele último barco a motor que ouvimos provavelmente era a marinha suíça.

— Se estamos na Suíça, vamos tomar um grande café da manhã. Eles têm pães maravilhosos, manteiga e geleia na Suíça.

Já estava claro e uma chuva fina estava caindo. O vento ainda soprava lá fora, lago acima, e podíamos ver os topos das ondas brancas indo para longe de nós e lago acima. Eu tinha certeza de que estávamos na Suíça agora. Havia muitas casas entre as árvores, longe da margem, e um pouco acima ficava uma vila com casas de pedra, algumas vilas nas colinas e uma igreja. Eu vinha olhando a estrada que margeava o lago em busca de guardas, mas não vi nenhum. A estrada chegou bem perto do lago agora e vi um soldado saindo de um café na estrada. Ele usava um uniforme cinza-esverdeado e um capacete como o dos alemães. Ele tinha um rosto de aparência saudável e um pequeno bigode de escova de dentes. Ele olhou para nós.

— Acene para ele — eu disse a Catherine. Ela acenou e o soldado sorriu constrangido e deu um aceno de mão. Aliviei o ritmo das remadas. Estávamos passando pela orla da vila.

— Devemos estar bem dentro da fronteira — eu disse.

— Queremos ter certeza, querido. Não queremos que nos mandem de volta na fronteira.

— A fronteira fica muito atrás. Acho que esta é a cidade da alfândega. Tenho quase certeza de que é Brissago.

— Não haverá italianos lá? Sempre há os dois lados em uma cidade alfandegária.

— Não em tempo de guerra. Não acho que eles deixem os italianos cruzarem a fronteira.

Era uma cidadezinha bonita. Havia muitos barcos de pesca ao longo do cais e redes estavam estendidas em suportes. Estava caindo uma chuva fina de novembro, mas parecia alegre e limpa, mesmo com a chuva.

— Devemos desembarcar então e tomar café da manhã?

— Tudo bem.

Puxei com força o remo esquerdo e me aproximei, depois endireitei quando estávamos perto do cais e coloquei o barco ao lado. Recolhi os remos, segurei um anel de ferro, pisei na pedra molhada e estava na Suíça. Amarrei o barco e estendi a mão para Catherine.

— Suba, Cat. É uma sensação grandiosa.

— E as malas?

— Deixe-as no barco.

Catherine subiu e estávamos na Suíça juntos.

— Que país adorável — ela disse.

— Não é grandioso?

— Vamos tomar café da manhã!

— Não é um país grandioso? Adoro a sensação dele sob meus sapatos.

— Estou tão rígida que não consigo sentir muito bem. Mas parece um país esplêndido. Querido, você percebe que estamos aqui e fora daquele lugar sangrento?

— Percebo. Percebo mesmo. Nunca percebi nada antes.

— Olhe as casas. Não é uma praça bonita? Ali tem um lugar onde podemos tomar café da manhã.

— A chuva não é fina? Eles nunca tiveram uma chuva como esta na Itália. É uma chuva alegre.

— E estamos aqui, querido! Você percebe que estamos aqui?

Entramos no café e sentamo-nos a uma mesa de madeira limpa. Estávamos tontos de emoção. Uma mulher esplêndida de aparência limpa com um avental veio e perguntou o que queríamos.

— Pães, geleia e café — disse Catherine.

— Sinto muito, não temos pães em tempo de guerra.

— Pão, então.

— Posso fazer torradas para vocês.

— Tudo bem.

— Quero ovos fritos também.

— Quantos ovos para o senhor?

— Três.

— Pegue quatro, querido.

— Quatro ovos.

A mulher saiu. Beijei Catherine e segurei sua mão com muita força. Olhamos um para o outro e para o café.

— Querido, querido, não é adorável?

— É grandioso — eu disse.

— Não me importo que não tenha pães — disse Catherine. — Pensei neles a noite toda. Mas não me importo. Não me importo nem um pouco.

— Suponho que logo eles nos prenderão.

— Não importa, querido. Primeiro vamos tomar café da manhã. Você não vai se importar em ser preso depois do café da manhã. E então não há nada que possam fazer conosco. Somos cidadãos britânicos e americanos em boa posição.

— Você tem um passaporte, não tem?

— Claro. Oh, não vamos falar sobre isso. Vamos ser felizes.

— Eu não poderia ser mais feliz — eu disse. Um gato gordo e cinzento, com uma cauda que se levantava como uma pluma, atravessou o chão até nossa mesa e curvou-se contra minha perna para ronronar cada vez que se esfregava. Abaixei-me e acariciei-o. Catherine sorriu para mim muito feliz. — Aí vem o café — ela disse.

Eles nos prenderam depois do café da manhã. Demos uma voltinha pela vila e depois fomos ao cais buscar nossas malas. Um soldado estava de guarda sobre o barco.

— Este barco é de vocês?

— Sim.

— De onde vocês vêm?

— Pelo lago acima.

— Então tenho que pedir que venham comigo.

— E quanto às malas?

— Podem carregar as malas.

Carreguei as malas, Catherine caminhou ao meu lado e o soldado caminhou atrás de nós até a antiga alfândega. Na alfândega, um tenente, muito magro e militar, nos questionou.

— Qual é a sua nacionalidade?

— Americana e britânica.

— Deixem-me ver seus passaportes.

Entreguei-lhe o meu e Catherine pegou o dela na bolsa.

Ele examinou-os por um longo tempo.

— Por que vocês entram na Suíça desta maneira, em um barco?

— Sou um esportista — eu disse. — O remo é meu grande esporte. Sempre remo quando tenho chance.

— Por que vocês vêm aqui?

— Para o esporte de inverno. Somos turistas e queremos praticar o esporte de inverno.

— Este não é um lugar para esporte de inverno.

— Nós sabemos. Queremos ir para onde eles praticam o esporte de inverno.

— O que vocês têm feito na Itália?

— Tenho estudado arquitetura. Minha prima tem estudado arte.

— Por que vocês saíram de lá?

— Queremos praticar o esporte de inverno. Com a guerra acontecendo, não se pode estudar arquitetura.

— Por favor, fiquem onde estão — disse o tenente. Ele voltou para dentro do prédio com nossos passaportes.

— Você é esplêndido, querido — disse Catherine. — Continue na mesma linha. Você quer praticar o esporte de inverno.

— Você sabe alguma coisa sobre arte?

— Rubens — disse Catherine.

— Grande e gordo — eu disse.

— Ticiano — disse Catherine.

— De cabelos cor de Ticiano — eu disse. — E Mantegna?

— Não faça perguntas difíceis — disse Catherine. — Eu o conheço, porém — muito amargo.

— Muito amargo — eu disse. — Cheio de buracos de pregos.

— Você vê, serei uma ótima esposa — disse Catherine. — Serei capaz de falar de arte com seus clientes.

— Lá vem ele — eu disse. O tenente magro percorreu o comprimento da alfândega, segurando nossos passaportes.

— Terei que mandá-los para Locarno — ele disse. — Vocês podem conseguir uma carruagem e um soldado irá com vocês.

— Tudo bem — eu disse. — E o barco?

— O barco está confiscado. O que vocês têm nessas malas?

Ele revistou todas as duas malas e segurou a garrafa de um quarto de conhaque. — Você gostaria de tomar um gole comigo? — perguntei.

— Não, obrigado. — Ele endireitou-se. — Quanto dinheiro vocês têm?

— Vinte e cinco mil liras.

Ele ficou favoravelmente impressionado. — Quanto sua prima tem?

Catherine tinha pouco mais de mil e duzentas liras. O tenente ficou satisfeito. Sua atitude para conosco tornou-se menos arrogante.

— Se vocês vão praticar esportes de inverno — disse ele —, Wengen é o lugar. Meu pai tem um hotel muito bom em Wengen. Fica aberto o tempo todo.

— Isso é esplêndido — eu disse. — Poderia me dar o nome?

— Vou escrever em um cartão. — Ele me entregou o cartão muito educadamente.

— O soldado os levará até Locarno. Ele ficará com seus passaportes. Lamento isso, mas é necessário. Tenho boas esperanças de que eles lhes darão um visto ou uma autorização policial em Locarno.

Ele entregou os dois passaportes ao soldado e, carregando as malas, começamos a caminhar em direção à vila para pedir uma carruagem. — Ei — chamou o tenente para o soldado. Ele lhe disse algo em um dialeto alemão. O soldado prendeu o rifle nas costas e pegou as malas.

— É um grande país — eu disse a Catherine.

— É tão prático.

— Muito obrigado — eu disse ao tenente. Ele acenou com a mão.

— À disposição! — disse ele. Seguimos nosso guarda até a vila.

Fomos de carruagem até Locarno, com o soldado sentado no banco da frente com o cocheiro. Em Locarno, não nos demos mal. Eles nos interrogaram, mas foram educados porque tínhamos passaportes e dinheiro. Não creio que tenham acreditado em uma única palavra da história, e achei aquilo uma tolice, mas era como um tribunal. Você não queria algo razoável; você queria algo técnico e então se prendia a isso sem explicações. Mas tínhamos passaportes e gastaríamos o dinheiro. Então, nos deram vistos provisórios. A qualquer momento, esse visto poderia ser retirado. Teríamos de nos apresentar à polícia onde quer que fôssemos.

Poderíamos ir aonde quiséssemos? Sim. Onde queríamos ir?

— Onde você quer ir, Cat?

— Montreux.

— É um lugar muito agradável — disse o oficial. — Acho que vocês vão gostar de lá.

— Aqui em Locarno é um lugar muito agradável — disse outro oficial. — Tenho certeza de que vocês gostariam muito daqui de Locarno. Locarno é um lugar muito atraente.

— Gostaríamos de algum lugar onde haja esportes de inverno.

— Não há esportes de inverno em Montreux.

— Peço perdão — disse o outro oficial. — Eu venho de Montreux. Com certeza há esportes de inverno na ferrovia Montreux Oberland Bernois. Seria falso da sua parte negar isso.

— Não nego. Apenas disse que não há esportes de inverno em Montreux.

— Questiono isso — disse o outro oficial. — Questiono essa afirmação.

— Mantenho essa afirmação.

— Questiono essa afirmação. Eu mesmo já andei de luge nas ruas de Montreux. Já fiz isso não uma, mas várias vezes. Luge é certamente um esporte de inverno.

O outro oficial virou-se para mim.

— O luge é a sua ideia de esporte de inverno, senhor? Garanto-lhe que o senhor ficaria muito confortável aqui em Locarno. Achariam o clima saudável, achariam os arredores atraentes. Vocês gostariam muito daqui.

— O cavalheiro expressou o desejo de ir a Montreux.

— O que é luge? — perguntei.

— Estão vendo? Ele nunca nem ouviu falar em luge!

Isso significou muito para o segundo oficial. Ele ficou satisfeito com aquilo.

— Luge — disse o primeiro oficial — é tobogã.

— Peço licença para discordar — o outro oficial balançou a cabeça. — Devo discordar novamente. O tobogã é muito diferente do luge. O tobogã é construído no Canadá com ripas planas. O luge é um trenó comum com patins. A precisão significa algo.

— Não poderíamos andar de tobogã? — perguntei.

— É claro que poderiam andar de tobogã — disse o primeiro oficial. — Poderiam andar muito bem de tobogã. Excelentes tobogãs canadenses são vendidos em Montreux. A Ochs Brothers vende tobogãs. Eles importam seus próprios tobogãs.

O segundo oficial virou-se. — O tobogã — disse ele — requer uma pista especial. Vocês não poderiam andar de tobogã nas ruas de Montreux. Onde vocês estão parando aqui?

— Não sabemos — eu disse. — Acabamos de chegar de Brissago. A carruagem está lá fora.

— Vocês não cometem erro algum indo para Montreux — disse o primeiro oficial. — Vocês acharão o clima delicioso e belo. Não terão de ir longe para praticar esportes de inverno.

— Se vocês realmente querem esportes de inverno — disse o segundo oficial —, devem ir para Engadina ou para Mürren. Devo protestar contra o conselho de que vocês vão para Montreux para esportes de inverno.

— Em Les Avants, acima de Montreux, há excelentes esportes de inverno de todo tipo. — O defensor de Montreux lançou um olhar fulminante ao colega.

— Cavalheiros — eu disse —, receio que tenhamos de ir. Minha prima está muito cansada. Iremos provisoriamente para Montreux.

— Eu os parabenizo — o primeiro oficial apertou minha mão.

— Acredito que vocês se arrependerão de deixar Locarno — disse o segundo oficial. — De qualquer modo, vocês se apresentarão à polícia em Montreux.

— Não haverá qualquer problema com a polícia — o primeiro oficial me garantiu. — Vocês acharão todos os habitantes extremamente corteses e amigáveis.

— Muito obrigado aos dois — eu disse. — Agradecemos muito pelo conselho.

— Adeus — disse Catherine. — Muito obrigada aos dois.

Eles nos acompanharam até a porta com reverências, o defensor de Locarno um pouco friamente. Descemos os degraus e entramos na carruagem.

— Meu Deus, querido — disse Catherine. — Não poderíamos ter escapado antes? — Dei ao cocheiro o nome de um hotel que um dos oficiais havia recomendado. Ele pegou as rédeas.

— Você se esqueceu do exército — disse Catherine. O soldado estava parado perto da carruagem. Dei-lhe uma nota de dez liras. — Ainda não tenho dinheiro suíço — eu disse. Ele me agradeceu, bateu continência e foi embora. A carruagem começou a andar e fomos para o hotel.

— Como você escolheu Montreux? — perguntei a Catherine. — Você realmente quer ir para lá?

— Foi o primeiro lugar que me veio à mente — disse ela. — Não é um lugar ruim. Podemos encontrar algum lugar lá no alto das montanhas.

— Você está com sono?

— Estou dormindo agora mesmo.

— Vamos dormir bem. Pobre Cat, você teve uma longa e má noite.

— Eu me diverti muito — disse Catherine. — Especialmente quando você velejou com o guarda-chuva.

— Consegue acreditar que estamos na Suíça?

— Não, tenho medo de acordar e não ser verdade.

— Eu também.

— É verdade, não é, querido? Não estou apenas descendo para a stazione em Milão para me despedir de você.

— Espero que não.

— Não diga isso. Isso me assusta. Talvez seja para lá que estamos indo.

— Estou tão grogue que não sei — eu disse.

— Deixe-me ver suas mãos.

Eu as estendi. Ambas estavam em carne viva e com bolhas.

— Não há buraco no meu lado — eu disse.

— Não seja sacrílego.

Senti-me muito cansado e com a cabeça confusa. A euforia havia passado. A carruagem seguia pela rua.

— Pobres mãos — disse Catherine.

— Não toque nelas — eu disse. — Por Deus, não sei onde estamos. Para onde estamos indo, cocheiro? — O cocheiro parou o cavalo.

— Para o Hotel Metropole. Não é para lá que querem ir?

— Sim — eu disse. — Está tudo bem, Cat.

— Está tudo bem, querido. Não fique perturbado. Vamos dormir bem e você não se sentirá grogue amanhã.

— Eu fico bem grogue — eu disse. — Hoje parece uma ópera cômica. Talvez eu esteja com fome.

— Você está apenas cansado, querido. Você ficará bem. — A carruagem parou diante do hotel. Alguém saiu para pegar nossas malas.

— Sinto-me bem — eu disse. Estávamos na calçada, entrando no hotel.

— Sei que você ficará bem. Você está apenas cansado. Você está acordado há muito tempo.

— De qualquer modo, chegamos.

— Sim, nós realmente chegamos.

Seguimos o rapaz com as malas para dentro do hotel.

LIVRO V

CAPÍTULO XXXVIII

Naquele outono, a neve veio muito tarde. Morávamos em uma casa de madeira marrom entre os pinheiros, na encosta da montanha, e à noite havia geada, de modo que havia uma fina camada de gelo sobre a água nos dois jarros da cômoda pela manhã. A sra. Guttingen entrava no quarto cedo, pela manhã, para fechar as janelas e acendia o fogo no alto fogão de porcelana. A madeira de pinho estalava e soltava faíscas, e então o fogo rugia no fogão, e, na segunda vez em que a sra. Guttingen entrava no quarto, trazia grandes pedaços de lenha para o fogo e um jarro de água quente. Quando o quarto estava aquecido, ela trazia o café da manhã. Sentados na cama, tomando o café da manhã, podíamos ver o lago e as montanhas do outro lado do lago, no lado francês. Havia neve nos picos das montanhas e o lago tinha uma cor de azul-aço acinzentado.

Lá fora, em frente ao chalé, uma estrada subia a montanha. Os sulcos e cumes das rodas estavam duros como ferro por causa da geada, e a estrada subia continuamente pela floresta, contornando a montanha até onde havia prados, celeiros e cabanas nos prados, à beira da floresta, olhando para o vale. O vale era profundo e havia um riacho no fundo que corria para o lago, e, quando o vento soprava pelo vale, podia-se ouvir o riacho nas pedras.

Às vezes, saíamos da estrada e pegávamos uma trilha pela floresta de pinheiros. O chão da floresta era macio para caminhar; a geada não o endurecia como fazia com a estrada. Mas não nos importávamos com a dureza da estrada porque tínhamos pregos nas solas e nos saltos de nossas botas, e os pregos dos saltos mordiam os sulcos congelados, e, com botas pregadas, era bom caminhar na estrada e revigorante. Mas era adorável caminhar nos bosques.

Em frente à casa onde morávamos, a montanha descia abruptamente até a pequena planície ao longo do lago, e sentávamo-nos na varanda da casa sob o sol e víamos o ziguezague da estrada pela encosta da montanha e os vinhedos em terraços na encosta da montanha mais baixa, as videiras todas mortas agora para o inverno e os campos divididos por muros de pedra, e abaixo dos vinhedos, as casas da cidade na estreita planície ao longo da margem do lago. Havia uma ilha com duas árvores no lago, e as árvores pareciam as velas duplas de um barco de pesca. As montanhas eram íngremes e agudas do outro lado do lago, e lá embaixo, no final do lago, ficava a planície do vale do Rhone, plana entre as duas cadeias de montanhas; e, subindo o vale, onde as montanhas o cortavam, ficava o Dent du Midi. Era uma montanha alta e nevada que dominava o vale, mas ficava tão longe que não fazia sombra.

Quando o sol brilhava, almoçávamos na varanda, mas no restante do tempo comíamos no andar de cima, em um pequeno cômodo com paredes de madeira simples e um grande fogão no canto. Comprávamos livros e revistas na cidade e um exemplar de “Hoyle” e aprendemos muitos jogos de cartas para duas pessoas. O pequeno cômodo com o fogão era nossa sala de estar. Havia duas poltronas confortáveis e uma mesa para livros e revistas, e jogávamos cartas na mesa de jantar quando ela estava limpa. O sr. e a sra. Guttingen moravam no andar de baixo, e às vezes, à noite, ouvíamo-los conversando, e eles também eram muito felizes juntos. Ele tinha sido maître, e ela trabalhara como camareira no mesmo hotel, e haviam economizado dinheiro para comprar aquele lugar. Tinham um filho que estudava para ser maître. Ele estava em um hotel em Zurique. No andar de baixo, havia uma sala onde vendiam vinho e cerveja, e às vezes, à noite, ouvíamos carroças pararem do lado de fora na estrada e homens subirem os degraus para entrar na sala e beber vinho.

Havia uma caixa de madeira no corredor, fora da sala de estar, e eu mantinha o fogo aceso com ela. Mas não ficávamos acordados até muito tarde. Íamos para a cama no escuro, no grande quarto, e, quando eu estava despido, abria as janelas e via a noite, as estrelas frias e os pinheiros abaixo da janela, e então entrava na cama o mais rápido que podia. Era adorável estar na cama com o ar tão frio e límpido e a noite lá fora da janela. Dormíamos bem, e se eu acordasse durante a noite, sabia que era por apenas uma causa, e eu movia a pena do colchão, bem suavemente, para que Catherine não fosse acordada, e então voltava a dormir novamente, aquecido e com a nova leveza das cobertas finas. A guerra parecia tão distante quanto os jogos de futebol da universidade de outra pessoa. Mas eu sabia pelos jornais que eles ainda estavam lutando nas montanhas porque a neve não caía.

Às vezes, descíamos a montanha até Montreux. Havia um caminho que descia a montanha, mas era íngreme, então, geralmente, pegávamos a estrada e descíamos pela estrada larga e dura entre os campos e, depois, lá embaixo, entre os muros de pedra dos vinhedos, e descíamos entre as casas das aldeias ao longo do caminho. Havia três aldeias; Chernex, Fontanivent e a outra, esqueci o nome. Então, ao longo da estrada, passávamos por um antigo château de pedra, de construção quadrada, em uma saliência na encosta da montanha com os campos de vinhas em terraços, cada videira amarrada a uma estaca para sustentá-la, as videiras secas e marrons e a terra pronta para a neve, e o lago lá embaixo, plano e cinzento como aço. A estrada descia uma longa ladeira abaixo do château e então virava à direita e descia muito abruptamente, pavimentada com paralelepípedos, até Montreux.

Não conhecíamos ninguém em Montreux. Caminhávamos ao longo do lago e víamos os cisnes e as muitas gaivotas e andorinhas-do-mar que voavam quando nos aproximávamos e gritavam enquanto olhavam para a água. Lá no lago, havia bandos de mergulhões, pequenos e escuros, deixando rastros na água enquanto nadavam. Na cidade, caminhávamos pela rua principal e olhávamos as vitrines das lojas. Havia muitos hotéis grandes que estavam fechados, mas a maioria das lojas estava aberta e as pessoas ficavam muito felizes em nos ver. Havia um bom cabeleireiro onde Catherine ia fazer o cabelo. A mulher que o administrava era muito alegre e a única pessoa que conhecíamos em Montreux. Enquanto Catherine estava lá, eu ia a uma cervejaria e bebia cerveja escura de Munique e lia os jornais. Lia o Corriere Della Sera e os jornais ingleses e americanos de Paris. Todos os anúncios eram riscados, supostamente para evitar a comunicação com o inimigo por esse meio. Os jornais eram uma leitura ruim. Tudo estava indo muito mal em toda parte. Sentava-me no canto, com uma caneca pesada de cerveja escura e um pacote aberto de pretzels de papel vitrificado, e comia os pretzels pelo sabor salgado e pelo modo como faziam a cerveja ficar mais saborosa, e lia sobre desastres. Pensei que Catherine passaria por lá, mas ela não veio, então pendurei os jornais de volta no suporte, paguei pela cerveja e subi a rua para procurá-la. O dia estava frio, escuro e invernal, e a pedra das casas parecia fria. Catherine ainda estava na loja do cabeleireiro. A mulher estava ondulando seu cabelo. Sentei-me na pequena cabine e observei. Era excitante observar, e Catherine sorria e falava comigo, e minha voz ficava um pouco embargada de tanto entusiasmo. As pinças faziam um som de clique agradável, e eu podia ver Catherine em três espelhos, e era agradável e quente na cabine. Então a mulher arrumou o cabelo de Catherine, e Catherine olhou no espelho e mudou um pouco, tirando e colocando grampos; depois levantou-se. — Sinto muito por ter demorado tanto.

— Monsieur estava muito interessado. Não é verdade, monsieur? — a mulher sorriu.

— Sim — eu disse.

Saímos e subimos a rua. Estava frio e invernal, e o vento soprava. — Oh, querido, eu te amo tanto — eu disse.

— Não estamos nos divertindo? — disse Catherine. — Olhe. Vamos a algum lugar tomar cerveja em vez de chá. É muito bom para a jovem Catherine. Mantém-na pequena.

— Jovem Catherine — eu disse. — Aquela preguiçosa.

— Ela tem sido muito boazinha — disse Catherine. — Ela não dá quase nenhum trabalho. O médico diz que a cerveja será boa para mim e a manterá pequena.

— Se você a mantiver pequena o suficiente e ela for um menino, talvez ele possa ser um jóquei.

— Suponho que, se realmente tivermos esta criança, deveríamos nos casar — disse Catherine. Estávamos na cervejaria, na mesa do canto. Estava começando a escurecer lá fora. Ainda era cedo, mas o dia estava escuro e o crepúsculo chegava cedo.

— Vamos nos casar agora — eu disse.

— Não — disse Catherine. — É muito embaraçoso agora. Eu apareço demais. Não vou me apresentar diante de ninguém e me casar nesse estado.

— Gostaria que tivéssemos nos casado.

— Suponho que teria sido melhor. Mas quando poderíamos, querido?

— Não sei.

— Sei de uma coisa. Não vou me casar neste esplêndido estado matronal.

— Você não está matronal.

— Oh, sim, estou, querido. A cabeleireira me perguntou se este era o nosso primeiro. Menti e disse que não, que tínhamos dois meninos e duas meninas.

— Quando nos casaremos?

— A qualquer momento depois que eu estiver magra novamente. Queremos um casamento esplêndido, com todos pensando que casal jovem e bonito.

— E você não está preocupada?

— Querido, por que eu deveria estar preocupada? A única vez que me senti mal foi quando me senti como uma prostituta em Milão, e isso durou apenas sete minutos; e, além disso, era a mobília do quarto. Não sou uma boa esposa para você?

— Você é uma esposa adorável.

— Então não seja tão técnico, querido. Vou me casar com você assim que estiver magra novamente.

— Tudo bem.

— Você acha que devo beber outra cerveja? O médico disse que eu era um pouco estreita nos quadris, e é melhor manter a jovem Catherine pequena.

— O que mais ele disse? — eu estava preocupado.

— Nada. Tenho uma pressão arterial maravilhosa, querido. Ele admirou muito minha pressão arterial.

— O que ele disse sobre você ser muito estreita nos quadris?

— Nada. Nada mesmo. Ele disse que eu não deveria esquiar.

— Com toda razão.

— Ele disse que era tarde demais para começar se eu nunca tivesse feito isso antes. Ele disse que eu poderia esquiar se não caísse.

— Ele é apenas um brincalhão de bom coração.

— Na verdade, ele foi muito gentil. Vamos chamá-lo quando o bebê nascer.

— Você perguntou a ele se deveria se casar?

— Não. Eu disse a ele que éramos casados há quatro anos. Veja, querido, se eu me casar com você, serei americana, e sempre que nos casarmos sob a lei americana, a criança é legítima.

— Onde você descobriu isso?

— No New York World Almanac, na biblioteca.

— Você é uma moça incrível.

— Ficarei muito feliz em ser americana, e iremos para a América, não iremos, querido? Quero ver as Cataratas do Niágara.

— Você é uma moça maravilhosa.

— Há outra coisa que quero ver, mas não consigo me lembrar.

— Os matadouros?

— Não. Não consigo me lembrar.

— O edifício Woolworth?

— Não.

— O Grand Canyon?

— Não. Mas eu gostaria de ver isso.

— O que era?

— Golden Gate! É isso que eu quero ver. Onde fica a Golden Gate?

— São Francisco.

— Então vamos para lá. Quero ver São Francisco, de qualquer modo.

— Tudo bem. Nós iremos para lá.

— Agora vamos subir a montanha. Devemos? Podemos pegar o M.O.B.?

— Tem um trem pouco depois das cinco.

— Vamos pegar esse.

— Tudo bem. Vou beber mais uma cerveja antes.

Quando saímos para subir a rua e escalar os degraus até a estação, estava muito frio. Um vento frio descia pelo vale do Ródano. Havia luzes nas vitrines das lojas e subimos a íngreme escadaria de pedra até a rua de cima, depois subimos outra escadaria até a estação. O trem elétrico estava lá à espera, com todas as luzes acesas. Havia um mostrador que indicava quando ele partia. Os ponteiros do relógio apontavam para dez minutos depois das cinco. Olhei para o relógio da estação. Eram cinco minutos depois. Quando subimos a bordo, vi o maquinista e o condutor saindo da loja de vinhos da estação. Sentamo-nos e abrimos a janela. O trem era aquecido eletricamente e abafado, mas ar fresco e frio entrava pela janela.

— Você está cansada, Cat? — perguntei.

— Não. Sinto-me esplêndida.

— A viagem não é longa.

— Gosto da viagem — disse ela. — Não se preocupe comigo, querido. Sinto-me bem.

A neve só veio três dias antes do Natal. Acordamos certa manhã e estava nevando. Ficamos na cama com o fogo rugindo na estufa e observamos a neve cair. A Sra. Guttingen levou as bandejas do café da manhã e colocou mais lenha na estufa. Era uma grande nevasca. Ela disse que tinha começado por volta da meia-noite. Fui até a janela e olhei para fora, mas não conseguia enxergar do outro lado da estrada. Estava ventando e nevando violentamente. Voltei para a cama e ficamos deitados conversando.

— Eu gostaria de saber esquiar — disse Catherine. — É uma droga não saber esquiar.

— Vamos conseguir um trenó e descer a estrada. Isso não é pior para você do que andar de carro.

— Não será agitado?

— Veremos.

— Espero que não seja muito agitado.

— Depois de um tempo, vamos dar uma caminhada na neve.

— Antes do almoço — disse Catherine —, para termos um bom apetite.

— Estou sempre com fome.

— Eu também.

Saímos na neve, mas ela estava tão amontoada que não conseguimos andar muito. Fui à frente e fiz uma trilha até a estação, mas quando chegamos lá já tínhamos ido longe o suficiente. A neve soprava tanto que mal conseguíamos enxergar, então entramos na pequena estalagem perto da estação, limpamo-nos um ao outro com uma vassoura, sentamo-nos em um banco e tomamos vermutes.

— É uma grande tempestade — disse a garçonete.

— Sim.

— A neve está muito atrasada este ano.

— Sim.

— Posso comer uma barra de chocolate? — perguntou Catherine. — Ou está muito perto do almoço? Estou sempre com fome.

— Vá em frente e coma uma — eu disse.

— Vou pegar uma com avelãs — disse Catherine.

— Elas são muito boas — disse a moça —, são as minhas preferidas.

— Vou querer outro vermute — eu disse.

Quando saímos para voltar pela estrada, nossa trilha estava coberta pela neve. Havia apenas leves marcas onde os buracos tinham sido. A neve soprava em nossos rostos, de modo que mal podíamos enxergar. Nós nos limpamos e entramos para almoçar. O Sr. Guttingen serviu o almoço.

— Amanhã haverá esqui — disse ele. — O senhor esquia, Sr. Henry?

— Não. Mas quero aprender.

— O senhor aprenderá muito facilmente. Meu filho estará aqui no Natal e ele o ensinará.

— Isso é ótimo. Quando ele chega?

— Amanhã à noite.

Quando estávamos sentados perto da estufa na pequena sala após o almoço, olhando pela janela a neve cair, Catherine disse: — Você não gostaria de fazer uma viagem a algum lugar sozinho, querido, e ficar com homens e esquiar?

— Não. Por que eu deveria?

— Acho que às vezes você gostaria de ver outras pessoas além de mim.

— Você quer ver outras pessoas?

— Não.

— Eu também não.

— Eu sei. Mas você é diferente. Estou tendo um filho e isso me faz sentir satisfeita em não fazer nada. Sei que agora estou muito estúpida e falo demais, e acho que você deveria sair para não se cansar de mim.

— Você quer que eu vá embora?

— Não. Quero que você fique.

— É isso que eu farei.

— Venha aqui — disse ela. — Quero sentir o galo na sua cabeça. É um galo grande. — Ela passou o dedo sobre ele. — Querido, você gostaria de deixar crescer uma barba?

— Você gostaria que eu deixasse?

— Poderia ser divertido. Eu gostaria de ver você de barba.

— Tudo bem. Vou deixar crescer. Vou começar agora, neste minuto. É uma boa ideia. Isso vai me dar algo para fazer.

— Você está preocupado porque não tem nada para fazer?

— Não. Eu gosto. Tenho uma vida ótima. Você não tem?

— Tenho uma vida adorável. Mas eu estava com medo, porque agora estou grande, de que talvez eu fosse uma chatice para você.

— Oh, Cat. Você não sabe o quanto sou louco por você.

— Deste jeito?

— Exatamente do jeito que você é. Eu me divirto muito. Não temos uma vida boa?

— Eu tenho, mas pensei que talvez você estivesse inquieto.

— Não. Às vezes penso sobre o front e sobre as pessoas que conheço, mas não me preocupo. Não penso muito em nada.

— Sobre quem você se pergunta?

— Sobre Rinaldi, o padre e muitas pessoas que conheço. Mas não penso muito nelas. Não quero pensar sobre a guerra. Já acabei com isso.

— Em que você está pensando agora?

— Em nada.

— Sim, você estava. Me conte.

— Eu estava imaginando se Rinaldi estava com sífilis.

— Era só isso?

— Sim.

— Ele está com sífilis?

— Não sei.

— Fico feliz que você não esteja. Você já teve algo assim?

— Tive gonorreia.

— Não quero saber disso. Foi muito doloroso, querido?

— Muito.

— Eu gostaria de ter tido.

— Não, você não gostaria.

— Eu gostaria. Queria ter tido para ser como você. Queria ter ficado com todas as suas garotas para poder zombar delas para você.

— Essa é uma bela imagem.

— Não é uma bela imagem você ter tido gonorreia.

— Eu sei. Olhe a neve agora.

— Prefiro olhar para você. Querido, por que você não deixa seu cabelo crescer?

— Como crescer?

— Apenas deixá-lo um pouco mais comprido.

— Ele já está comprido o suficiente agora.

— Não, deixe crescer um pouco mais e eu poderia cortar o meu, e ficaríamos exatamente iguais, apenas um de nós loiro e o outro moreno.

— Eu não deixaria você cortar o seu.

— Seria divertido. Estou cansada dele. É um incômodo terrível na cama à noite.

— Eu gosto dele.

— Você não gostaria dele curto?

— Talvez. Gosto dele do jeito que está.

— Poderia ficar bonito curto. Então nós dois seríamos iguais. Oh, querido, eu quero você tanto que quero ser você também.

— Você é. Somos a mesma pessoa.

— Eu sei. À noite nós somos.

— As noites são grandiosas.

— Quero que sejamos todos misturados. Não quero que você vá embora. Eu só disse aquilo. Vá se quiser. Mas volte depressa. Ora, querido, eu não vivo de jeito nenhum quando não estou com você.

— Nunca irei embora — eu disse. — Não presto para nada quando você não está por perto. Não tenho mais vida nenhuma.

— Quero que você tenha uma vida. Quero que você tenha uma vida ótima. Mas nós a teremos juntos, não teremos?

— E agora, você quer que eu pare de deixar a barba crescer ou que eu continue?

— Continue. Deixe crescer. Será emocionante. Talvez esteja pronta para o Ano Novo.

— Agora, quer jogar xadrez?

— Prefiro brincar com você.

— Não. Vamos jogar xadrez.

— E depois vamos brincar?

— Sim.

— Tudo bem.

Peguei o tabuleiro de xadrez e arrumei as peças. Ainda nevava muito lá fora.

Certa vez, à noite, acordei e soube que Catherine também estava acordada. A lua brilhava na janela e projetava sombras na cama através das grades das vidraças.

— Você está acordada, querida?

— Sim. Você não consegue dormir?

— Acabei de acordar pensando em como eu estava quase louco quando a conheci. Você se lembra?

— Você estava apenas um pouco louco.

— Nunca mais fui assim. Estou ótimo agora. Você diz "ótimo" de um jeito tão doce. Diga "ótimo".

— Ótimo.

— Oh, você é doce. E eu não estou louco agora. Estou apenas muito, muito, muito feliz.

— Volte a dormir — eu disse.

— Tudo bem. Vamos dormir exatamente no mesmo momento.

— Tudo bem.

Mas não conseguimos. Fiquei acordado por um bom tempo pensando nas coisas e observando Catherine dormir, o luar em seu rosto. Então, eu também adormeci.

CAPÍTULO XXXIX

Em meados de janeiro, eu estava de barba e o inverno tinha se estabelecido em dias claros e frios e noites difíceis e frias. Podíamos caminhar pelas estradas novamente. A neve estava compactada, dura e lisa, pelos trenós de feno, trenós de madeira e pelos troncos que eram arrastados montanha abaixo. A neve cobria todo o campo, descendo quase até Montreux. As montanhas do outro lado do lago estavam todas brancas e a planície do vale do Ródano estava coberta. Fazíamos longas caminhadas do outro lado da montanha até Bains de l’Alliaz. Catherine usava botas com tachas e uma capa, e carregava um bastão com uma ponta de aço afiada. Ela não parecia grande com a capa, e não caminhávamos muito rápido, mas parávamos e sentávamos em troncos à beira da estrada para descansar quando ela estava cansada.

Havia uma estalagem entre as árvores em Bains de l’Alliaz onde os lenhadores paravam para beber, e sentávamos lá dentro, aquecidos pela estufa, e bebíamos vinho tinto quente com especiarias e limão. Eles chamavam de glühwein, e era uma coisa boa para aquecer e para celebrar. A estalagem era escura e enfumaçada por dentro, e depois, quando você saía, o ar frio entrava bruscamente em seus pulmões e adormecia a ponta do nariz enquanto você inalava. Olhávamos para trás, para a estalagem com a luz vindo das janelas, e para os cavalos dos lenhadores batendo os cascos e sacudindo as cabeças lá fora para se manterem aquecidos. Havia geada nos pelos de seus focinhos e sua respiração formava plumas de geada no ar. Subindo a estrada em direção a casa, a estrada estava lisa e escorregadia por um tempo, e o gelo alaranjado por causa dos cavalos, até que a trilha do transporte de madeira desviava. Então a estrada era de neve limpa e compactada e passava pela floresta, e duas vezes, voltando para casa à noite, vimos raposas.

Era uma região linda e cada vez que saíamos era divertido.

— Você tem uma barba esplêndida agora — disse Catherine. — Parece exatamente com a dos lenhadores. Você viu o homem com os pequenos brincos de ouro?

— Ele é um caçador de camurças — eu disse. — Eles os usam porque dizem que os faz ouvir melhor.

— Sério? Não acredito. Acho que eles os usam para mostrar que são caçadores de camurças. Existem camurças por aqui?

— Sim, além da Dent de Jaman.

— Foi divertido ver a raposa.

— Quando ela dorme, enrola aquele rabo em volta de si para se manter aquecida.

— Deve ser uma sensação adorável.

— Sempre quis ter um rabo como aquele. Não seria divertido se tivéssemos caudas como a de uma raposa?

— Seria muito difícil se vestir.

— Mandaríamos fazer roupas, ou viveríamos em um país onde isso não faria diferença.

— Vivemos em um país onde nada faz diferença. Não é ótimo como nunca vemos ninguém? Você não quer ver pessoas, quer, querido?

— Não.

— Devemos sentar aqui só um minuto? Estou um pouco cansada.

Sentamo-nos próximos um do outro nos troncos. À frente, a estrada descia pela floresta.

— Ela não vai ficar entre nós, vai? A pirralhinha.

— Não. Não deixaremos.

— Como estamos de dinheiro?

— Temos bastante. Eles honraram a última letra de câmbio à vista.

— Sua família não vai tentar entrar em contato com você agora que sabem que você está na Suíça?

— Provavelmente. Vou escrever algo para eles.

— Você não escreveu para eles?

— Não. Apenas a letra de câmbio.

— Graças a Deus não sou sua família.

— Vou enviar-lhes um telegrama.

— Você não se importa com eles?

— Eu me importava, mas brigávamos tanto que isso se desgastou.

— Acho que eu gostaria deles. Provavelmente gostaria muito deles.

— Não vamos falar sobre eles ou vou começar a me preocupar. Depois de um tempo, disse: — Vamos continuar se você estiver descansada.

— Estou descansada.

Continuamos descendo a estrada. Já estava escuro e a neve rangia sob nossas botas. A noite estava seca, fria e muito clara.

— Eu amo sua barba — disse Catherine. — É um grande sucesso. Parece tão rígida e feroz, e é muito macia e um grande prazer.

— Você gosta mais dela do que sem?

— Acho que sim. Sabe, querido, não vou cortar meu cabelo agora até depois que a pequena Catherine nascer. Pareço grande e matrona demais agora. Mas depois que ela nascer e eu estiver magra novamente, vou cortá-lo e então serei uma garota nova e diferente para você. Iremos juntos cortá-lo, ou eu irei sozinha e virei surpreendê-lo.

Eu não disse nada.

— Você não vai dizer que não posso, vai?

— Não. Acho que seria emocionante.

— Oh, você é tão doce. E talvez eu fique linda, querido, e fique tão magra e excitante para você, e você se apaixonará por mim novamente.

— Droga — eu disse —, eu já amo você o suficiente agora. O que você quer fazer? Me arruinar?

— Sim. Quero arruinar você.

— Ótimo — eu disse —, isso é o que eu também quero.

CAPÍTULO XL

Nós tínhamos uma vida ótima. Vivemos os meses de janeiro e fevereiro e o inverno foi muito bom e éramos muito felizes. Houve curtos degelos quando o vento soprava quente e a neve amolecia e o ar parecia primavera, mas sempre o frio claro e duro voltava e o inverno retornava. Em março veio a primeira interrupção no inverno. À noite começou a chover. Choveu durante toda a manhã e transformou a neve em lama e tornou a encosta da montanha sombria. Havia nuvens sobre o lago e sobre o vale. Estava chovendo bem alto na montanha. Catherine usava galochas pesadas e eu usava as botas de borracha do Sr. Guttingen, e caminhamos até a estação debaixo de um guarda-chuva, através da lama e da água corrente que estava lavando o gelo das estradas, para parar no pub antes do almoço para um vermute. Lá fora, podíamos ouvir a chuva.

— Você acha que deveríamos nos mudar para a cidade?

— O que você acha? — perguntou Catherine.

— Se o inverno acabou e a chuva continuar, não será divertido aqui em cima. Quanto tempo falta para a pequena Catherine?

— Cerca de um mês. Talvez um pouco mais.

— Poderíamos descer e ficar em Montreux.

— Por que não vamos para Lausanne? É onde fica o hospital.

— Tudo bem. Mas pensei que talvez fosse uma cidade grande demais.

— Podemos ficar tão sozinhos em uma cidade maior, e Lausanne pode ser legal.

— Quando devemos ir?

— Não me importo. Quando você quiser, querido. Não quero sair daqui se você não quiser.

— Vamos ver como fica o tempo.

Choveu por três dias. A neve já tinha desaparecido na encosta da montanha abaixo da estação. A estrada era uma torrente de água de neve lamacenta. Estava úmido e lamacento demais para sair. Na manhã do terceiro dia de chuva, decidimos descer para a cidade.

— Tudo bem, Sr. Henry — disse Guttingen. — O senhor não precisa me dar aviso prévio. Não pensei que o senhor ia querer ficar agora que o mau tempo chegou.

— De qualquer forma, temos que ficar perto do hospital por causa de Madame — eu disse.

— Entendo — disse ele. — O senhor voltará algum dia para ficar, com a pequena?

— Sim, se você tiver espaço.

— Na primavera, quando estiver agradável, o senhor poderá vir e aproveitar. Poderíamos colocar a pequena e a enfermeira no quarto grande que está fechado agora, e o senhor e Madame poderiam ter o mesmo quarto com vista para o lago.

— Escreverei sobre a vinda — eu disse. Fizemos as malas e partimos no trem que descia depois do almoço. O Sr. e a Sra. Guttingen desceram até a estação conosco e ele carregou nossa bagagem em um trenó através da lama. Eles ficaram ao lado da estação na chuva, acenando em despedida.

— Eles foram muito doces — disse Catherine.

— Foram ótimos conosco.

Pegamos o trem para Lausanne a partir de Montreux. Olhando pela janela na direção de onde tínhamos morado, não era possível ver as montanhas por causa das nuvens. O trem parou em Vevey, depois seguiu em frente, passando pelo lago de um lado e do outro pelos campos marrons úmidos, os bosques nus e as casas úmidas. Chegamos a Lausanne e fomos para um hotel de médio porte. Ainda estava chovendo enquanto passávamos pelas ruas e entrávamos na entrada de carruagens do hotel. O concierge com chaves de latão nas lapelas, o elevador, os tapetes no chão, as bacias brancas com acessórios brilhantes, a cama de latão e o quarto grande e confortável pareciam um grande luxo depois dos Guttingens. As janelas do quarto davam para um jardim úmido com um muro coberto por uma cerca de ferro. Do outro lado da rua, que era bastante íngreme, havia outro hotel com um muro e jardim semelhantes. Olhei para a chuva caindo na fonte do jardim.

Catherine acendeu todas as luzes e começou a desembalar. Pedi um uísque com soda e deitei na cama e li os jornais que tinha comprado na estação. Era março de 1918, e a ofensiva alemã tinha começado na França. Bebi o uísque com soda e li enquanto Catherine desembalava e se movia pelo quarto.

— Você sabe o que eu preciso comprar, querido — disse ela.

— O quê?

— Roupas de bebê. Não há muitas pessoas que chegam ao meu tempo sem roupas de bebê.

— Você pode comprá-las.

— Eu sei. É o que farei amanhã. Vou descobrir o que é necessário.

— Você deveria saber. Você era enfermeira.

— Mas poucos soldados tinham bebês nos hospitais.

— Eu tive.

Ela me bateu com o travesseiro e derramou o uísque com soda.

— Vou pedir outro para você — disse ela. — Sinto muito por ter derramado.

— Não tinha sobrado muito. Venha para a cama.

— Não. Tenho que tentar fazer este quarto parecer alguma coisa.

— Parecer o quê?

— Parecer nosso lar.

— Pendure as bandeiras dos Aliados.

— Oh, cale a boca.

— Diga de novo.

— Cale a boca.

— Você diz isso com tanta cautela — eu disse. — Como se não quisesse ofender ninguém.

— Não quero.

— Então venha para a cama.

— Tudo bem. — Ela veio e sentou na cama. — Sei que não sou divertida para você, querido. Sou como um grande barril de farinha.

— Não, você não é. Você é linda e doce.

— Sou apenas algo muito desajeitado com quem você se casou.

— Não, você não é. Você está cada vez mais linda.

— Mas voltarei a ser magra, querido.

— Você está magra agora.

— Você esteve bebendo.

— Apenas uísque com soda.

— Tem outro vindo — disse ela. — E então deveríamos pedir o jantar aqui?

— Isso será bom.

— Então não vamos sair, vamos? Vamos apenas ficar aqui hoje à noite.

— E brincar — eu disse.

— Vou beber um pouco de vinho — disse Catherine. — Não vai me fazer mal. Talvez possamos conseguir um pouco do nosso velho capri branco.

— Eu sei que podemos — eu disse. — Eles terão vinhos italianos em um hotel deste tamanho.

O garçom bateu na porta. Ele trouxe o uísque em um copo com gelo e, ao lado do copo em uma bandeja, uma pequena garrafa de soda.

— Obrigado — eu disse. — Coloque ali. Por favor, traga o jantar para dois aqui, e duas garrafas de capri branco seco no gelo.

— O senhor deseja começar o jantar com sopa?

— Você quer sopa, Cat?

— Por favor.

— Traga sopa para um.

— Obrigado, senhor. — Ele saiu e fechou a porta. Voltei aos jornais e à guerra nos jornais, e despejei a soda lentamente sobre o gelo no uísque. Eu teria que dizer a eles para não colocarem gelo no uísque. Que tragam o gelo separadamente. Dessa forma, você poderia saber quanto uísque havia e ele não ficaria subitamente ralo demais por causa da soda. Eu compraria uma garrafa de uísque e pediria que trouxessem gelo e soda. Esse era o jeito sensato. Um bom uísque era muito agradável. Era uma das partes agradáveis da vida.

— No que você está pensando, querido?

— Sobre uísque.

— Sobre como ele é bom.

Catherine fez uma careta. — Está bem — disse ela.

Ficamos naquele hotel por três semanas. Não era ruim; o restaurante geralmente estava vazio e, muitas vezes, jantávamos em nosso quarto à noite. Passeávamos pela cidade, pegávamos o trem de cremalheira até Ouchy e caminhávamos à beira do lago. O tempo ficou bem quente e parecia primavera. Gostaríamos de estar de volta às montanhas, mas o clima de primavera durou apenas alguns dias e, então, a crueza fria do fim do inverno voltou.

Catherine comprou as coisas de que precisava para o bebê, lá em cima na cidade. Eu ia a um ginásio na galeria para lutar boxe como exercício. Geralmente eu ia pela manhã, enquanto Catherine ficava na cama até mais tarde. Nos dias de falsa primavera, era muito bom, depois de boxear e tomar um banho, caminhar pelas ruas sentindo o cheiro da primavera no ar, parar em um café, sentar, observar as pessoas, ler o jornal e tomar um vermute; depois, descer para o hotel e almoçar com Catherine. O professor no ginásio de boxe usava bigodes, era muito preciso e espasmódico, e se desmanchava todo se você começasse a ir para cima dele. Mas era agradável no ginásio. Havia bom ar e luz, e eu me exercitava bastante: pulava corda, lutava boxe com a sombra, fazia exercícios abdominais deitado no chão, num raio de luz solar que entrava pela janela aberta, e ocasionalmente assustava o professor quando fazíamos luvas. No início, eu não conseguia praticar boxe com a sombra diante do espelho estreito e comprido porque parecia muito estranho ver um homem barbudo boxeando. Mas, no fim, achei apenas engraçado. Eu queria tirar a barba assim que comecei a boxear, mas Catherine não queria que eu a tirasse.

Às vezes, Catherine e eu fazíamos passeios pelo campo em uma carruagem. Era bom passear quando os dias estavam agradáveis, e encontramos dois bons lugares para onde podíamos ir comer. Catherine não podia caminhar muito agora, e eu adorava passear pelas estradas rurais com ela. Quando o dia estava bom, passávamos momentos esplêndidos, e nunca tivemos momentos ruins. Sabíamos que o bebê estava muito próximo agora, e isso nos dava a sensação de que algo nos apressava e que não podíamos perder nenhum tempo juntos.

CAPÍTULO XLI

Certa manhã, acordei por volta das três horas ao ouvir Catherine se mexendo na cama.

— Você está bem, Cat?

— Estou tendo algumas dores, querido.

— Regularmente?

— Não, não muito.

— Se você as tiver com alguma regularidade, iremos ao hospital.

Eu estava com muito sono e voltei a dormir. Pouco tempo depois, acordei novamente.

— Talvez seja melhor você chamar o médico — disse Catherine. — Acho que talvez seja agora.

Fui ao telefone e chamei o médico. — Com que frequência as dores estão vindo? — ele perguntou.

— Com que frequência elas estão vindo, Cat?

— Acho que a cada quinze minutos.

— Então você deve ir ao hospital — disse o médico. — Eu me vestirei e irei para lá agora mesmo.

Desliguei e chamei a garagem perto da estação para enviarem um táxi. Ninguém atendeu ao telefone por um longo tempo. Então, finalmente, falei com um homem que prometeu enviar um táxi imediatamente. Catherine estava se vestindo. Sua mala estava toda pronta com as coisas de que precisaria no hospital e as coisas do bebê. Do lado de fora, no corredor, chamei o elevador. Não houve resposta. Desci. Não havia ninguém lá embaixo, exceto o vigia noturno. Eu mesmo trouxe o elevador, coloquei a mala de Catherine nele, ela entrou e descemos. O vigia abriu a porta para nós e ficamos sentados do lado de fora, nas lajes de pedra ao lado da escada que levava à entrada de veículos, esperando pelo táxi. A noite estava clara e as estrelas estavam visíveis. Catherine estava muito agitada.

— Estou tão feliz que começou — disse ela. — Agora, em pouco tempo, tudo terá acabado.

— Você é uma boa menina, corajosa.

— Não estou com medo. Mas queria que o táxi chegasse.

Nós o ouvimos subindo a rua e vimos seus faróis. Ele entrou na entrada de veículos, ajudei Catherine a subir e o motorista colocou a mala na frente.

— Dirija para o hospital — eu disse.

Saímos da entrada e começamos a subir a colina.

No hospital, entramos e carreguei a mala. Havia uma mulher na recepção que anotou o nome, idade, endereço, parentes e religião de Catherine em um livro. Ela disse que não tinha religião, e a mulher traçou uma linha no espaço após essa palavra. Ela deu seu nome como Catherine Henry.

— Vou levá-la ao seu quarto — disse ela. Subimos de elevador. A mulher o parou, saímos e a seguimos por um corredor. Catherine segurava firme meu braço.

— Este é o quarto — disse a mulher. — Por favor, desvista-se e vá para a cama? Aqui está uma camisola para você usar.

— Eu tenho uma camisola — disse Catherine.

— É melhor você usar esta camisola — disse a mulher.

Saí e sentei em uma cadeira no corredor.

— Pode entrar agora — disse a mulher da porta. Catherine estava deitada na cama estreita, vestindo uma camisola simples, de corte quadrado, que parecia ser feita de lençol grosso. Ela sorriu para mim.

— Estou tendo boas dores agora — disse ela. A mulher segurava seu pulso e marcava o tempo das dores com um relógio.

— Essa foi forte — disse Catherine. Eu vi em seu rosto.

— Onde está o médico? — perguntei à mulher.

— Ele está deitado, dormindo. Ele estará aqui quando for necessário.

— Preciso fazer algo pela Madame agora — disse a enfermeira. — O senhor poderia se retirar novamente?

Saí para o corredor. Era um corredor nu, com duas janelas e portas fechadas por todo o corredor. Tinha cheiro de hospital. Sentei na cadeira, olhei para o chão e rezei por Catherine.

— Pode entrar — disse a enfermeira. Entrei.

— Olá, querido — disse Catherine.

— Como está?

— Elas estão vindo com bastante frequência agora. — Seu rosto se contraiu. Então ela sorriu.

— Essa foi de verdade. Você quer colocar a mão nas minhas costas de novo, enfermeira?

— Se ajuda você — disse a enfermeira.

— Vá embora, querido — disse Catherine. — Saia e coma alguma coisa. A enfermeira diz que posso demorar com isso.

— O primeiro parto geralmente é demorado — disse a enfermeira.

— Por favor, saia e coma alguma coisa — disse Catherine. — Estou bem, de verdade.

— Vou ficar mais um pouco — eu disse.

As dores vinham com bastante regularidade, depois diminuíam. Catherine estava muito agitada. Quando as dores eram fortes, ela as chamava de boas. Quando começavam a diminuir, ela ficava desapontada e envergonhada.

— Vá embora, querido — disse ela. — Acho que você só está me deixando constrangida. — Seu rosto se contorceu. — Aí. Essa foi melhor. Quero tanto ser uma boa esposa e ter este filho sem nenhuma tolice. Por favor, vá tomar um café da manhã, querido, e depois volte. Não vou sentir sua falta. A enfermeira é esplêndida comigo.

— Você tem bastante tempo para o café da manhã — disse a enfermeira.

— Vou então. Adeus, querida.

— Adeus — disse Catherine — e tome um bom café da manhã por mim também.

— Onde posso tomar café da manhã? — perguntei à enfermeira.

— Há um café no fim da rua, na praça — disse ela. — Já deve estar aberto.

Lá fora, estava amanhecendo. Caminhei pela rua deserta até o café. Havia uma luz na janela. Entrei e fiquei no balcão de zinco, e um velho me serviu uma taça de vinho branco e um brioche. O brioche era de ontem. Molhei-o no vinho e depois bebi uma xícara de café.

— O que você faz a esta hora? — perguntou o velho.

— Minha esposa está em trabalho de parto no hospital.

— Entendo. Desejo-lhe boa sorte.

— Me dê outra taça de vinho.

Ele serviu da garrafa, derramando um pouco, de modo que parte escorreu pelo zinco. Bebi essa taça, paguei e saí. Lá fora, ao longo da rua, estavam as latas de lixo das casas, esperando pelo coletor. Um cachorro estava farejando uma das latas.

— O que você quer? — perguntei, e olhei dentro da lata para ver se havia algo que eu pudesse tirar para ele; não havia nada no topo, exceto borra de café, poeira e algumas flores mortas.

— Não tem nada, cachorro — eu disse. O cachorro atravessou a rua. Subi as escadas do hospital até o andar em que Catherine estava e fui pelo corredor até o quarto dela. Bati na porta. Não houve resposta. Abri a porta; o quarto estava vazio, exceto pela mala de Catherine em uma cadeira e seu roupão pendurado em um gancho na parede. Saí e fui pelo corredor, procurando por alguém. Encontrei uma enfermeira.

— Onde está a Madame Henry?

— Uma senhora acaba de ir para a sala de parto.

— Onde é?

— Vou lhe mostrar.

Ela me levou até o final do corredor. A porta da sala estava entreaberta. Pude ver Catherine deitada em uma mesa, coberta por um lençol. A enfermeira estava de um lado e o médico estava do outro lado da mesa, ao lado de alguns cilindros. O médico segurava uma máscara de borracha presa a um tubo em uma das mãos.

— Vou lhe dar um avental e você pode entrar — disse a enfermeira. — Entre aqui, por favor.

Ela colocou um avental branco em mim e prendeu-o no pescoço, nas costas, com um alfinete de segurança.

— Agora você pode entrar — disse ela. Entrei na sala.

— Olá, querido — disse Catherine com uma voz tensa. — Não estou progredindo muito.

— O senhor é o Sr. Henry? — perguntou o médico.

— Sim. Como estão as coisas, doutor?

— As coisas estão indo muito bem — disse o médico. — Viemos para cá, onde é fácil administrar gás para as dores.

— Quero agora — disse Catherine. O médico colocou a máscara de borracha sobre seu rosto e girou um botão, e eu observei Catherine respirando profunda e rapidamente. Então ela afastou a máscara. O médico fechou a torneira.

— Aquela não foi muito forte. Tive uma bem forte há pouco. O médico me fez apagar completamente, não foi, doutor? — Sua voz estava estranha. Ela subiu de tom na palavra doutor.

O médico sorriu.

— Quero de novo — disse Catherine. Ela segurou a borracha firme contra o rosto e respirou rápido. Ouvi-a gemer um pouco. Então ela puxou a máscara e sorriu.

— Aquela foi forte — disse ela. — Aquela foi muito forte. Não se preocupe, querido. Vá embora. Vá tomar outro café da manhã.

— Vou ficar — eu disse.

Tínhamos chegado ao hospital por volta das três da manhã. Ao meio-dia, Catherine ainda estava na sala de parto. As dores tinham diminuído novamente. Ela parecia muito cansada e abatida agora, mas ainda estava animada.

— Não estou servindo para nada, querido — disse ela. — Sinto muito. Pensei que conseguiria facilmente. Agora — há uma — ela estendeu a mão para a máscara e a segurou sobre o rosto. O médico moveu o botão e a observou. Em pouco tempo, tinha acabado.

— Não foi grande coisa — disse Catherine. Ela sorriu. — Sou uma boba por causa do gás. É maravilhoso.

— Vamos conseguir um pouco para casa — eu disse.

— Lá vem uma — disse Catherine rapidamente. O médico girou o botão e olhou para o relógio.

— Qual é o intervalo agora? — perguntei.

— Cerca de um minuto.

— O senhor não quer almoçar?

— Vou comer alguma coisa logo mais — disse ele.

— O senhor precisa comer alguma coisa, doutor — disse Catherine. — Sinto muito por demorar tanto. Meu marido não poderia me dar o gás?

— Se você desejar — disse o médico. — Você gira para o número dois.

— Entendi — eu disse. Havia um marcador em um botão que girava com uma alavanca.

— Quero agora — disse Catherine. Ela segurou a máscara firme contra o rosto. Girei o botão para o número dois e, quando Catherine abaixou a máscara, desliguei-o. Foi muito gentil da parte do médico me deixar fazer algo.

— Você fez, querido? — perguntou Catherine. Ela acariciou meu pulso.

— Claro.

— Você é tão amável. — Ela estava um pouco embriagada por causa do gás.

— Vou comer de uma bandeja na sala ao lado — disse o médico. — Pode me chamar a qualquer momento. Enquanto o tempo passava, observei-o comer, depois, após algum tempo, vi que ele estava deitado e fumando um cigarro. Catherine estava ficando muito cansada.

— Você acha que eu algum dia terei esse bebê? — perguntou ela.

— Sim, é claro que terá.

— Tento o máximo que posso. Empurro para baixo, mas ela vai embora. *Lá vem. Dê para mim.*

Às duas horas, saí e almocei. Havia alguns homens no café sentados com café e taças de kirsch ou marc nas mesas. Sentei-me a uma mesa. — Posso comer? — perguntei ao garçom.

— Já passou da hora do almoço.

— Não tem nada para qualquer hora?

— Pode pedir choucroute.

— Me dê choucroute e cerveja.

— Um demi ou uma bock?

— Um demi claro.

O garçom trouxe um prato de chucrute com uma fatia de presunto por cima e uma salsicha enterrada no repolho quente embebido em vinho. Comi e bebi a cerveja. Estava com muita fome. Observei as pessoas nas mesas do café. Em uma mesa, eles jogavam cartas. Dois homens na mesa ao meu lado conversavam e fumavam. O café estava cheio de fumaça. O balcão de zinco, onde tomei café da manhã, tinha três pessoas atrás dele agora; o velho, uma mulher rechonchuda de vestido preto que ficava atrás de um caixa e controlava tudo o que era servido às mesas, e um rapaz de avental. Perguntei-me quantos filhos a mulher tinha e como tinha sido.

Quando terminei o choucroute, voltei ao hospital. A rua estava toda limpa agora. Não havia latas de lixo fora. O dia estava nublado, mas o sol tentava aparecer. Subi de elevador, saí e fui pelo corredor até o quarto de Catherine, onde eu tinha deixado meu avental branco. Coloquei-o e prendi-o nas costas, no pescoço. Olhei no espelho e vi a mim mesmo parecendo um médico falso com barba. Fui pelo corredor até a sala de parto. A porta estava fechada e bati. Ninguém respondeu, então girei a maçaneta e entrei. O médico estava sentado ao lado de Catherine. A enfermeira estava fazendo algo na outra extremidade da sala.

— Aqui está seu marido — disse o médico.

— Oh, querido, tenho o médico mais maravilhoso — disse Catherine com uma voz muito estranha. — Ele tem me contado a história mais maravilhosa e, quando a dor ficou forte demais, ele me fez apagar completamente. Ele é maravilhoso. Você é maravilhoso, doutor.

— Você está embriagada — eu disse.

— Eu sei — disse Catherine. — Mas você não deveria dizer isso. — Então — *Dê para mim. Dê para mim.* — Ela agarrou a máscara e respirou curto e profundo, arquejante, fazendo o respirador clicar. Então ela soltou um longo suspiro e o médico estendeu a mão esquerda e afastou a máscara.

— Aquela foi muito forte — disse Catherine. Sua voz estava muito estranha. — Não vou morrer agora, querido. Já passei da fase em que eu ia morrer. Você não está feliz?

— Não entre nesse lugar de novo.

— Não vou. Mas não tenho medo dele. Eu não vou morrer, querido.

— Você não vai cometer tal tolice — disse o médico. — Você não morreria e deixaria seu marido.

— Oh, não. Eu não vou morrer. Eu não morreria. É uma tolice morrer. Lá vem ela. Dê para mim.

Após algum tempo, o médico disse: — O senhor vai sair, Sr. Henry, por alguns momentos e eu farei um exame.

— Ele quer ver como estou indo — disse Catherine. — Você pode voltar depois, querido, não pode, doutor?

— Sim — disse o médico. — Avisarei quando ele puder voltar.

Saí pela porta e fui pelo corredor até o quarto onde Catherine ficaria depois que o bebê nascesse. Sentei em uma cadeira lá e olhei para o quarto. Eu tinha o jornal no meu casaco, que comprara quando saí para almoçar, e li. Estava começando a escurecer lá fora e acendi a luz para ler. Após algum tempo, parei de ler, apaguei a luz e observei escurecer lá fora. Perguntei-me por que o médico não me chamou. Talvez fosse melhor que eu estivesse longe. Ele provavelmente queria que eu ficasse longe por um tempo. Olhei para o meu relógio. Se ele não me chamasse em dez minutos, eu desceria de qualquer maneira.

Pobre, pobre Cat querida. E esse era o preço que se pagava por dormir juntos. Esse era o fim da armadilha. Era isso que as pessoas ganhavam por se amarem. Graças a Deus pelo gás, de qualquer maneira. Como deve ter sido antes de existirem anestésicos? Uma vez que começava, elas estavam na corredeira. Catherine se divertiu durante o tempo da gravidez. Não foi ruim. Ela quase nunca passou mal. Ela não ficou muito desconfortável até quase o fim. Então, agora eles a pegaram no final. Você nunca se safava de nada. Safar-se, uma ova! Teria sido a mesma coisa se tivéssemos nos casado cinquenta vezes. E se ela morresse? Ela não vai morrer. As pessoas não morrem no parto hoje em dia. Era o que todos os maridos pensavam. Sim, mas e se ela morresse? Ela não vai morrer. Ela está apenas passando por um momento difícil. O trabalho de parto inicial é geralmente demorado. Ela está apenas passando por um momento difícil. Depois, diríamos que foi um momento difícil e Catherine diria que não foi tão ruim assim. Mas e se ela morresse? Ela não pode morrer. Sim, mas e se ela morresse? Ela não pode, eu digo a você. Não seja tolo. É apenas um momento difícil. É apenas a natureza dando-lhe o inferno. É apenas o primeiro parto, que quase sempre é demorado. Sim, mas e se ela morresse? Ela não pode morrer. Por que ela morreria? Que motivo existe para ela morrer? Existe apenas uma criança que precisa nascer, o subproduto de boas noites em Milão. Ela causa problemas e nasce, e então você cuida dela e talvez fique afeiçoado a ela. Mas e se ela morresse? Ela não vai morrer. Mas e se ela morresse? Ela não vai. Ela está bem. Mas e se ela morresse? Ela não pode morrer. Mas e se ela morresse? Ei, que tal isso? E se ela morresse?

O médico entrou no quarto.

— Como vai, doutor?

— Não vai — disse ele.

— O que você quer dizer?

— Apenas isso. Fiz um exame... — Ele detalhou o resultado do exame. — Desde então, esperei para ver. Mas não vai.

— O que o senhor aconselha?

— Há duas coisas. Ou um parto com fórceps alto, que pode lacerar e ser bastante perigoso, além de possivelmente ser ruim para a criança, ou uma cesariana.

— Qual é o perigo de uma cesariana? E se ela morresse!

— Não deve ser maior do que o perigo de um parto normal.

— O senhor mesmo faria?

— Sim. Eu precisaria possivelmente de uma hora para preparar as coisas e reunir as pessoas de que precisaria. Talvez um pouco menos.

— O que você acha?

— Eu aconselharia uma cesariana. Se fosse minha esposa, eu faria uma cesariana.

— Quais são os efeitos posteriores?

— Não há nenhum. Há apenas a cicatriz.

— E a infecção?

— O perigo não é tão grande quanto em um parto com fórceps alto.

— E se o senhor simplesmente continuasse e não fizesse nada?

— O senhor teria que fazer algo eventualmente. A Sra. Henry já está perdendo muita força. Quanto mais cedo operarmos agora, mais seguro será.

— Opere assim que puder — eu disse.

— Vou dar as instruções.

Entrei na sala de parto. A enfermeira estava com Catherine, que estava deitada na mesa, grande sob o lençol, parecendo muito pálida e cansada.

— Você disse a ele que ele podia fazer isso? — ela perguntou.

— Sim.

— Não é magnífico? Agora tudo terminará em uma hora. Estou quase acabando, querido. Estou me despedaçando toda. Por favor, me dê isso. Não funciona. Oh, não funciona!

— Respire fundo.

— Estou respirando. Oh, não funciona mais. Não funciona!

— Pegue outro cilindro — eu disse à enfermeira.

— Este é um cilindro novo.

— Eu sou apenas um tolo, querida — Catherine disse. — Mas não funciona mais. — Ela começou a chorar. — Oh, eu queria tanto ter este bebê e não causar problemas, e agora estou exausta e despedaçada e não funciona. Oh, querido, não funciona de jeito nenhum. Não me importo se morrer, contanto que isso pare. Oh, por favor, querido, por favor, faça parar. *Lá vem. Oh, Oh, Oh!* — Ela respirou com soluços na máscara. — Não funciona. Não funciona. Não funciona. Não se preocupe comigo, querido. Por favor, não chore. Não se preocupe comigo. Estou completamente despedaçada. Você, meu doce coitado. Eu te amo tanto e serei boa novamente. Serei boa desta vez. *Eles não podem me dar alguma coisa?* Se eles pudessem apenas me dar alguma coisa.

— Eu farei funcionar. Vou girar tudo até o fim.

— Dê para mim agora.

Girei o disco até o fim e, enquanto ela respirava forte e profundamente, sua mão relaxou sobre a máscara. Fechei o gás e levantei a máscara. Ela voltou de muito longe.

— Isso foi adorável, querido. Oh, você é tão bom para mim.

— Seja corajosa, porque não posso fazer isso o tempo todo. Pode acabar te matando.

— Não sou mais corajosa, querido. Estou toda quebrada. Eles me quebraram. Sei disso agora.

— Todo mundo é assim.

— Mas é horrível. Eles simplesmente continuam até te quebrar.

— Em uma hora terá acabado.

— Não é adorável? Querido, eu não vou morrer, vou?

— Não. Eu prometo que você não vai.

— Porque não quero morrer e te deixar, mas fico tão cansada disso e sinto que vou morrer.

— Bobagem. Todo mundo sente isso.

— Às vezes eu sei que vou morrer.

— Você não vai. Você não pode.

— Mas e se eu morresse?

— Eu não vou deixar.

— Dê para mim rápido. Dê para mim!

Então, depois: — Eu não vou morrer. Não vou me deixar morrer.

— É claro que não vai.

— Você vai ficar comigo?

— Não para assistir.

— Não, apenas para estar lá.

— Com certeza. Estarei lá o tempo todo.

— Você é tão bom para mim. Pronto, dê para mim. Me dê mais um pouco. *Não está funcionando!*

Girei o disco para três e depois quatro. Eu desejava que o médico voltasse. Eu tinha medo dos números acima de dois.

Finalmente, um novo médico entrou com duas enfermeiras, eles levantaram Catherine para uma maca com rodas e começamos a descer o corredor. A maca percorreu rapidamente o corredor e entrou no elevador, onde todos tiveram que se apertar contra a parede para abrir espaço; depois subimos, uma porta se abriu e saímos do elevador, seguindo pelo corredor sobre rodas de borracha até a sala de cirurgia. Não reconheci o médico com seu gorro e máscara. Havia outro médico e mais enfermeiras.

— Eles têm que me dar alguma coisa — Catherine disse. — *Eles têm que me dar alguma coisa.* Oh, por favor, doutor, me dê o suficiente para fazer algum efeito!

Um dos médicos colocou uma máscara sobre o rosto dela e eu olhei através da porta e vi o pequeno anfiteatro iluminado da sala de cirurgia.

— Você pode entrar pela outra porta e sentar lá em cima — uma enfermeira me disse. Havia bancos atrás de um parapeito que dava vista para a mesa branca e as luzes. Olhei para Catherine. A máscara estava sobre o rosto dela e ela estava quieta agora. Eles empurraram a maca para frente. Virei as costas e caminhei pelo corredor. Duas enfermeiras estavam se apressando em direção à entrada da galeria.

— É uma cesariana — uma disse. — Eles vão fazer uma cesariana.

A outra riu: — Chegamos bem a tempo. Não temos sorte? — Elas entraram pela porta que levava à galeria.

Outra enfermeira passou. Ela também estava com pressa.

— Você vá direto ali. Vá direto — ela disse.

— Vou ficar do lado de fora.

Ela entrou apressada. Eu andava de um lado para o outro no corredor. Eu estava com medo de entrar. Olhei pela janela. Estava escuro, mas, pela luz que vinha da janela, pude ver que estava chovendo. Entrei em uma sala no final do corredor e olhei os rótulos nos frascos dentro de uma vitrine de vidro. Depois saí e fiquei no corredor vazio observando a porta da sala de cirurgia.

Um médico saiu, seguido por uma enfermeira. Ele segurava algo nas mãos que parecia um coelho recém-esfolado e atravessou o corredor apressado com aquilo, entrando por outra porta. Fui até a porta pela qual ele havia entrado e os encontrei na sala fazendo coisas em um recém-nascido. O médico o levantou para eu ver. Ele o segurou pelos calcanhares e deu um tapa nele.

— Ele está bem?

— Ele é magnífico. Vai pesar cinco quilos.

Eu não sentia nada por ele. Ele não parecia ter nada a ver comigo. Não senti nenhum sentimento de paternidade.

— Você não está orgulhoso do seu filho? — a enfermeira perguntou. Eles estavam lavando-o e envolvendo-o em algo. Vi o rostinho escuro e a mão escura, mas não o vi se mexer nem o ouvi chorar. O médico estava fazendo algo com ele novamente. Ele parecia perturbado.

— Não — eu disse. — Ele quase matou a mãe dele.

— Não é culpa do queridinho. Você não queria um menino?

— Não — eu disse. O médico estava ocupado com ele. Ele o segurou pelos pés e deu um tapa. Não esperei para ver. Saí para o corredor. Eu podia entrar agora e ver. Entrei pela porta e segui um pouco pela galeria. As enfermeiras que estavam sentadas no parapeito fizeram sinais para que eu descesse até onde elas estavam. Balancei a cabeça. Eu podia ver o suficiente de onde estava.

Achei que Catherine estivesse morta. Ela parecia morta. Seu rosto estava cinzento, a parte dele que eu conseguia ver. Lá embaixo, sob a luz, o médico estava costurando a grande ferida longa, aberta por fórceps e de bordas espessas. Outro médico, de máscara, administrava a anestesia. Duas enfermeiras mascaradas passavam instrumentos. Parecia um desenho da Inquisição. Enquanto observava, eu sabia que poderia ter assistido a tudo, mas fiquei feliz por não ter visto. Não acho que teria conseguido ver o corte, mas vi a ferida ser fechada em uma crista alta e marcada, com pontos rápidos e habilidosos como os de um sapateiro, e fiquei aliviado. Quando a ferida foi fechada, saí para o corredor e voltei a andar de um lado para o outro. Depois de um tempo, o médico saiu.

— Como ela está?

— Ela está bem. Você viu?

Ele parecia cansado.

— Eu vi você costurando. A incisão parecia muito longa.

— Você achou?

— Sim. Essa cicatriz vai diminuir?

— Ah, sim.

Depois de um tempo, trouxeram a maca com rodas e a levaram muito rapidamente pelo corredor até o elevador. Fui ao lado dela. Catherine gemia. Lá embaixo, colocaram-na na cama em seu quarto. Sentei-me em uma cadeira ao pé da cama. Havia uma enfermeira no quarto. Levantei-me e fiquei ao lado da cama. Estava escuro no quarto. Catherine estendeu a mão. — Olá, querido — ela disse. Sua voz estava muito fraca e cansada.

— Olá, minha doce.

— Que tipo de bebê era?

— Shh — não fale — a enfermeira disse.

— Um menino. Ele é comprido, largo e escuro.

— Ele está bem?

— Sim — eu disse. — Ele está ótimo.

Vi a enfermeira olhar para mim de forma estranha.

— Estou terrivelmente cansada — Catherine disse. — E dói como o inferno. Você está bem, querido?

— Estou bem. Não fale.

— Você foi adorável comigo. Oh, querido, dói terrivelmente. Como ele é?

— Ele parece um coelho esfolado com o rosto enrugado de um velho.

— O senhor precisa sair — a enfermeira disse. — Madame Henry não deve falar.

— Estarei do lado de fora — eu disse.

— Vá comer alguma coisa.

— Não. Estarei do lado de fora. — Beijei Catherine. Ela estava muito cinzenta, fraca e cansada.

— Posso falar com você? — eu disse à enfermeira. Ela saiu comigo para o corredor. Caminhei um pouco pelo corredor.

— O que há com o bebê? — eu perguntei.

— Você não sabia?

— Não.

— Ele não estava vivo.

— Ele estava morto?

— Eles não conseguiram fazê-lo respirar. O cordão estava enrolado no pescoço dele ou algo assim.

— Então ele está morto.

— Sim. É uma pena. Ele era um menino tão grande e bonito. Pensei que você soubesse.

— Não — eu disse. — É melhor você voltar para dentro com a Madame.

Sentei-me na cadeira em frente a uma mesa onde havia relatórios das enfermeiras pendurados em clipes na lateral e olhei pela janela. Não conseguia ver nada além da escuridão e da chuva caindo sobre a luz que vinha da janela. Então era isso. O bebê estava morto. Era por isso que o médico parecia tão cansado. Mas por que eles tinham agido daquela maneira na sala com ele? Provavelmente supunham que ele voltaria a si e começaria a respirar. Eu não tinha religião, mas sabia que ele deveria ter sido batizado. Mas e se ele nunca respirou? Ele não tinha. Ele nunca esteve vivo. Exceto dentro de Catherine. Eu o sentira chutar lá dentro muitas vezes. Mas não o sentira na última semana. Talvez ele estivesse sufocado o tempo todo. Pobre garotinho. Eu desejava que o inferno, eu tivesse sido sufocado assim. Não, eu não desejava. Ainda assim, não haveria toda essa morte pela qual passar. Agora Catherine morreria. Era isso que se fazia. Você morria. Você não sabia do que se tratava. Você nunca tinha tempo para aprender. Eles te jogavam dentro e te diziam as regras e, na primeira vez que te pegavam fora de base, eles te matavam. Ou te matavam gratuitamente como Aymo. Ou te davam sífilis como Rinaldo. Mas eles te matavam no final. Você podia contar com isso. Fique por perto e eles te matariam.

Uma vez, no acampamento, coloquei um tronco sobre a fogueira e ele estava cheio de formigas. À medida que começava a queimar, as formigas saíam em enxame e iam primeiro em direção ao centro, onde estava o fogo; depois voltavam e corriam para a ponta. Quando havia formigas suficientes na ponta, elas caíam no fogo. Algumas conseguiam sair, com seus corpos queimados e achatados, e iam embora sem saber para onde estavam indo. Mas a maioria ia em direção ao fogo e depois voltava para a ponta, aglomerando-se na extremidade fria até finalmente caírem no fogo. Lembro-me de pensar na época que era o fim do mundo e uma excelente chance de ser um messias e tirar o tronco do fogo e jogá-lo onde as formigas pudessem sair para o chão. Mas não fiz nada além de jogar um copo de lata com água no tronco, para que eu pudesse ter o copo vazio para colocar uísque antes de adicionar água a ele. Acho que o copo de água no tronco em chamas apenas cozinhou as formigas no vapor.

Então, agora eu estava sentado no corredor esperando para saber como Catherine estava. A enfermeira não saiu, então, depois de um tempo, fui até a porta, abri-a bem suavemente e olhei para dentro. Não consegui ver a princípio porque havia uma luz forte no corredor e estava escuro no quarto. Então vi a enfermeira sentada perto da cama e a cabeça de Catherine em um travesseiro, ela toda estirada sob o lençol. A enfermeira levou o dedo aos lábios, depois se levantou e veio até a porta.

— Como ela está? — eu perguntei.

— Ela está bem — a enfermeira disse. — O senhor deveria ir jantar e depois voltar se desejar.

Desci o corredor e depois as escadas, saí pela porta do hospital e caminhei pela rua escura, sob a chuva, até o café. Estava bem iluminado por dentro e havia muitas pessoas nas mesas. Não vi um lugar para sentar, e um garçom veio até mim, pegou meu casaco e chapéu molhados e me mostrou um lugar em uma mesa em frente a um homem idoso que estava bebendo cerveja e lendo o jornal da noite. Sentei-me e perguntei ao garçom qual era o *plat du jour*.

— Ensopado de vitela — mas já acabou.

— O que posso comer?

— Presunto com ovos, ovos com queijo ou *choucroute*.

— Comi *choucroute* hoje ao meio-dia — eu disse.

— É verdade — ele disse. — É verdade. Você comeu *choucroute* hoje ao meio-dia. — Ele era um homem de meia-idade, com o topo da cabeça calvo e o cabelo penteado sobre ele. Ele tinha um rosto gentil.

— O que você quer? Presunto com ovos ou ovos com queijo?

— Presunto com ovos — eu disse — e cerveja.

— Uma *demi-blonde*?

— Sim — eu disse.

— Eu me lembrei — ele disse. — Você tomou uma *demi-blonde* hoje ao meio-dia.

Comi o presunto com ovos e bebi a cerveja. O presunto e os ovos estavam em um prato redondo — o presunto embaixo e os ovos em cima. Estava muito quente e, na primeira garfada, tive que tomar um gole de cerveja para refrescar a boca. Eu estava com fome e pedi ao garçom outro prato. Bebi vários copos de cerveja. Eu não estava pensando em nada, apenas lia o jornal do homem à minha frente. Falava sobre o avanço na frente britânica. Quando ele percebeu que eu estava lendo o verso do seu jornal, ele o dobrou. Pensei em pedir um jornal ao garçom, mas não conseguia me concentrar. Estava quente no café e o ar estava ruim. Muitas das pessoas nas mesas se conheciam. Havia vários jogos de cartas acontecendo. Os garçons estavam ocupados levando bebidas do bar para as mesas. Dois homens entraram e não conseguiram encontrar lugar para sentar. Eles ficaram em pé em frente à mesa onde eu estava. Pedi outra cerveja. Eu ainda não estava pronto para sair. Era cedo demais para voltar ao hospital. Tentei não pensar e ficar perfeitamente calmo. Os homens ficaram por perto, mas ninguém estava indo embora, então eles saíram. Bebi outra cerveja. Havia uma boa pilha de pires agora na mesa à minha frente. O homem à minha frente tinha tirado os óculos, guardado-os em um estojo, dobrado o jornal, colocado no bolso e agora estava sentado segurando seu copo de licor e olhando para o salão. De repente, soube que tinha que voltar. Chamei o garçom, paguei a conta, vesti meu casaco, coloquei meu chapéu e saí pela porta. Caminhei na chuva até o hospital.

Lá em cima, encontrei a enfermeira descendo o corredor.

— Acabei de ligar para você no hotel — ela disse. Algo caiu dentro de mim.

— O que há de errado?

— A Sra. Henry teve uma hemorragia.

— Posso entrar?

— Não, ainda não. O médico está com ela.

— É perigoso?

— É muito perigoso. — A enfermeira entrou no quarto e fechou a porta. Sentei-me do lado de fora, no corredor. Tudo tinha desaparecido dentro de mim. Eu não pensava. Eu não conseguia pensar. Eu sabia que ela ia morrer e rezei para que não morresse. Não a deixe morrer. Oh, Deus, por favor, não a deixe morrer. Farei qualquer coisa pelo senhor se não a deixar morrer. Por favor, por favor, por favor, querido Deus, não a deixe morrer. Querido Deus, não a deixe morrer. Por favor, por favor, por favor, não a deixe morrer. Deus, por favor, faça com que ela não morra. Farei qualquer coisa que o senhor disser se não a deixar morrer. O senhor levou o bebê, mas não a deixe morrer. Tudo bem, mas não a deixe morrer. Por favor, por favor, querido Deus, não a deixe morrer.

A enfermeira abriu a porta e fez um sinal com o dedo para que eu viesse. Segui-a para dentro do quarto. Catherine não levantou os olhos quando entrei. Fui até o lado da cama. O médico estava de pé ao lado da cama, do outro lado. Catherine olhou para mim e sorriu. Inclinei-me sobre a cama e comecei a chorar.

— Pobre querido — Catherine disse muito suavemente. Ela parecia cinzenta.

— Você está bem, Cat — eu disse. — Você vai ficar bem.

— Eu vou morrer — ela disse; depois esperou e completou: — Eu odeio isso.

Peguei a mão dela.

— Não me toque — ela disse. Soltei a mão dela. Ela sorriu. — Pobre querido. Você pode me tocar o quanto quiser.

— Você vai ficar bem, Cat. Eu sei que você vai ficar bem.

— Eu pretendia escrever uma carta para você ter caso algo acontecesse, mas não o fiz.

— Você quer que eu chame um padre ou alguém para vir te ver?

— Só você — ela disse. Então, um pouco mais tarde: — Não estou com medo. Eu apenas odeio isso.

— Você não deve falar tanto — o médico disse.

— Tudo bem — Catherine disse.

— Você quer que eu faça alguma coisa, Cat? Posso te trazer algo?

Catherine sorriu: — Não. — Então, um pouco mais tarde: — Você não vai fazer nossas coisas com outra garota, nem dizer as mesmas coisas, vai?

— Nunca.

— Eu quero que você tenha garotas, no entanto.

— Eu não as quero.

— Você está falando demais — o médico disse. — O Sr. Henry precisa sair. Ele pode voltar mais tarde. Você não vai morrer. Você não deve ser boba.

— Tudo bem — Catherine disse. — Eu virei e ficarei com você à noite — ela disse. Era muito difícil para ela falar.

— Por favor, saia do quarto — o médico disse. — Vocês não podem conversar. — Catherine piscou para mim, com o rosto cinzento. — Estarei logo ali fora — eu disse.

— Não se preocupe, querido — Catherine disse. — Não estou nem um pouco com medo. É apenas um truque sujo.

— Você, doce e corajosa.

Esperei do lado de fora, no corredor. Esperei muito tempo. A enfermeira veio até a porta e veio até mim. — Receio que a Sra. Henry esteja muito mal — ela disse. — Temo por ela.

— Ela está morta?

— Não, mas ela está inconsciente.

Parece que ela teve uma hemorragia após a outra. Eles não conseguiram estancá-la. Entrei no quarto e fiquei com Catherine até ela morrer. Ela ficou inconsciente o tempo todo, e não demorou muito para ela morrer.

Do lado de fora do quarto, no corredor, falei com o médico: — Há algo que eu possa fazer esta noite?

— Não. Não há nada a fazer. Posso levá-lo ao seu hotel?

— Não, obrigado. Vou ficar aqui um pouco.

— Sei que não há nada a dizer. Não posso lhe dizer...

— Não — eu disse. — Não há nada a dizer.

— Boa noite — ele disse. — Não posso levá-lo ao seu hotel?

— Não, obrigado.

— Era a única coisa a se fazer — ele disse. — A operação provou...

— Não quero falar sobre isso — eu disse.

— Eu gostaria de levá-lo ao seu hotel.

— Não, obrigado.

Ele desceu o corredor. Fui até a porta do quarto.

— O senhor não pode entrar agora — uma das enfermeiras disse.

— Sim, eu posso — eu disse.

— O senhor não pode entrar ainda.

— Saiam — eu disse. — A outra também.

Mas depois que as tirei, fechei a porta e apaguei a luz, não adiantou de nada. Era como dizer adeus a uma estátua. Depois de um tempo, saí, deixei o hospital e voltei caminhando para o hotel, na chuva.

FIM

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