VIAGEM AO CENTRO DA TERRA
Por Júlio Verne
[Nota do Redator: Viagem ao Centro da Terra é o número V002 na numeração de Taves e Michaluk das obras de Júlio Verne. Publicada pela primeira vez na Inglaterra por Griffith e Farran, 1871, esta edição não é uma tradução, mas uma reescrita completa do romance, com partes acrescentadas e omitidas, e nomes alterados. A versão mais reimpressa, é inserida no Projeto Gutenberg apenas para fins de referência. Uma tradução melhor é _A Journey into the Interior of the Earth_ traduzida pelo Rev. F. A. Malleson, também disponível no Projeto Gutenberg.]
ÍNDICE
CAPÍTULO 1 MEU TIO FAZ UMA GRANDE DESCOBERTA
CAPÍTULO 2 O PERGAMINHO MISTERIOSO
CAPÍTULO 3 UMA DESCOBERTA ESPANTOSA
CAPÍTULO 4 COMEÇAMOS A VIAGEM
CAPÍTULO 5 PRIMEIRAS LIÇÕES DE ESCALADA
CAPÍTULO 6 NOSSA VIAGEM PARA A ISLÂNDIA
CAPÍTULO 7 CONVERSA E DESCOBERTA
CAPÍTULO 8 O CAÇADOR DE PLUMAGEM DE EIDER — PARTIDA AFINAL
CAPÍTULO 9 NOSSA PARTIDA — ENCONTRAMOS AVENTURAS NO CAMINHO
CAPÍTULO 10 VIAJANDO NA ISLÂNDIA
CAPÍTULO 11 CHEGAMOS AO MONTE SNEFFELS — O "REYKIR"
CAPÍTULO 12 A ASCENSÃO AO MONTE SNEFFELS
CAPÍTULO 13 A SOMBRA DE SCARTARIS
CAPÍTULO 14 A VIAGEM REAL COMEÇA
CAPÍTULO 15 CONTINUAMOS NOSSA DESCIDA
CAPÍTULO 16 O TÚNEL LESTE
CAPÍTULO 17 CADA VEZ MAIS FUNDO — A MINA DE CARVÃO
CAPÍTULO 18 O CAMINHO ERRADO!
CAPÍTULO 19 A GALERIA OESTE — UMA NOVA ROTA
CAPÍTULO 20 ÁGUA, ONDE ESTÁ ELA? UMA AMARGA DESILUSÃO
CAPÍTULO 21 SOB O OCEANO
CAPÍTULO 22 DOMINGO NO SUBSOLO
CAPÍTULO 23 SOZINHO
CAPÍTULO 24 PERDIDO!
CAPÍTULO 25 A GALERIA DOS SUSSURROS
CAPÍTULO 26 UMA RÁPIDA RECUPERAÇÃO
CAPÍTULO 27 O MAR CENTRAL
CAPÍTULO 28 LANÇANDO A BALSA
CAPÍTULO 29 NAS ÁGUAS — UMA VIAGEM DE BALSA
CAPÍTULO 30 TERRÍVEL COMBATE SAURIANO
CAPÍTULO 31 O MONSTRO MARINHO
CAPÍTULO 32 A BATALHA DOS ELEMENTOS
CAPÍTULO 33 NOSSA ROTA INVERTIDA
CAPÍTULO 34 UMA VIAGEM DE DESCOBERTA
CAPÍTULO 35 DESCOBERTA APÓS DESCOBERTA
CAPÍTULO 36 O QUE É ISSO?
CAPÍTULO 37 O ADAGA MISTERIOSA
CAPÍTULO 38 SEM SAÍDA — EXPLODINDO A ROCHA
CAPÍTULO 39 A EXPLOSÃO E SEUS RESULTADOS
CAPÍTULO 40 O MACACO GIGANTE
CAPÍTULO 41 FOME
CAPÍTULO 42 O POÇO VULCÂNICO
CAPÍTULO 43 LUZ DO DIA AFINAL
CAPÍTULO 44 A VIAGEM TERMINOU
CAPÍTULO 1
MEU TIO FAZ UMA GRANDE DESCOBERTA
Olhando para trás, para tudo o que me aconteceu desde aquele dia memorável, mal consigo acreditar na realidade das minhas aventuras. Foram, na verdade, tão maravilhosas que, mesmo agora, sinto-me confuso quando penso nelas.
Meu tio era alemão, tendo casado com a irmã da minha mãe, uma inglesa. Sendo muito afeiçoado ao seu sobrinho órfão de pai, convidou-me para estudar sob sua tutela em sua casa na pátria-mãe. Este lar ficava numa grande cidade, e meu tio era professor de filosofia, química, geologia, mineralogia e muitas outras "ologias".
Certo dia, depois de passar algumas horas no laboratório — estando meu tio ausente naquele momento —, senti subitamente a necessidade de renovar os tecidos — isto é, estava com fome e estava prestes a despertar nossa velha cozinheira francesa, quando meu tio, o Professor Von Hardwigg, abriu subitamente a porta da rua e veio subindo as escadas a correr.
Ora, o Professor Hardwigg, meu digno tio, não é de modo algum um mau homem; é, contudo, colérico e original. Aguentá-lo significa obedecer; e mal os seus passos pesados soaram dentro da nossa habitação conjunta, ele gritou para que eu fosse atendê-lo.
— Harry — Harry — Harry —
Apressei-me a obedecer, mas antes que pudesse chegar ao seu quarto, subindo três degraus de cada vez, ele já batia o pé direito no patamar.
— Harry! — gritou ele, num tom frenético, — estás a subir?
Ora, para dizer a verdade, naquele momento eu estava muito mais interessado na questão do que constituiria o nosso jantar do que em qualquer problema de ciência; para mim, a sopa era mais interessante que a soda, uma omeleta mais tentadora que a aritmética, e uma alcachofra de valor dez vezes maior que qualquer quantidade de amianto.
Mas o meu tio não era um homem a quem se pudesse deixar à espera; então, adiando todas as questões menores, apresentei-me diante dele.
Ele era um homem muito erudito. Ora, a maioria das pessoas nesta categoria fornece-se de informações, tal como os mascates fazem com mercadorias, para o benefício dos outros, e acumula estoques a fim de os difundir para o bem da sociedade em geral. Não assim o meu excelente tio, Professor Hardwigg; ele estudava, consumia o óleo da lamparina pela noite dentro, debruçava-se sobre tomos pesados e digeria enormes quartos e fólios a fim de guardar o conhecimento adquirido para si mesmo.
Havia uma razão, e pode ser considerada uma boa razão, pela qual o meu tio se opunha a exibir a sua erudição mais do que o estritamente necessário: ele gaguejava; e, quando tentava explicar os fenómenos dos céus, era propenso a falhar e a aludir de forma tão vaga ao sol, à lua e às estrelas que poucos eram capazes de compreender o seu significado. Para dizer a pura verdade, quando a palavra certa não vinha, era geralmente substituída por um adjetivo muito forte.
Em relação às ciências, existem muitos nomes quase impronunciáveis — nomes muito semelhantes aos das aldeias galesas; e como o meu tio gostava muito de os usar, o seu hábito de gaguejar não melhorava com isso. De fato, havia períodos no seu discurso em que ele acabava por desistir e engolir o seu desconcerto — num copo de água.
Como eu disse, o meu tio, Professor Hardwigg, era um homem muito erudito; e acrescento agora, um parente muito bondoso. Eu estava ligado a ele pelos laços duplos do afeto e do interesse. Interessava-me profundamente por tudo o que ele fazia e esperava um dia ser quase tão erudito quanto ele. Era raro eu faltar às suas aulas. Tal como ele, preferia a mineralogia a todas as outras ciências. A minha ansiedade era ganhar um verdadeiro conhecimento da terra. A geologia e a mineralogia eram para nós os únicos objetos de vida e, em relação a estes estudos, quebrámos com os nossos martelos muitos bons exemplares de pedra, giz ou metal.
Varas de aço, pedras-ímã, tubos de vidro e garrafas de vários ácidos estavam mais frequentemente diante de nós do que as nossas refeições. O meu tio Hardwigg chegou a classificar seiscentos espécimes geológicos diferentes pelo seu peso, dureza, fusibilidade, som, sabor e cheiro.
Ele correspondia-se com todos os grandes, eruditos e homens de ciência da época. Eu estava, portanto, em constante comunicação com, pelo menos, as cartas de Sir Humphry Davy, do Capitão Franklin e de outros grandes homens.
Mas antes de expor o assunto sobre o qual o meu tio desejava conferenciar comigo, devo dizer uma palavra sobre a sua aparência pessoal. Ai! Os meus leitores verão um retrato muito diferente dele num futuro próximo, depois de ele ter passado pelas terríveis aventuras que ainda serão relatadas.
O meu tio tinha cinquenta anos; alto, magro e fibroso. Óculos grandes escondiam, até certo ponto, os seus olhos vastos, redondos e arregalados, enquanto o seu nariz era irreverentemente comparado a uma lima fina. Tanto se assemelhava a esse artigo útil que se dizia, na sua presença, que uma bússola tinha feito um desvio N (Nasal) considerável.
Dizendo a verdade, no entanto, o único artigo realmente atraído pelo nariz do meu tio era o tabaco.
Outra peculiaridade sua era que ele dava sempre um passo de um metro de cada vez, cerrava os punhos como se fosse bater-lhe e, quando num dos seus humores peculiares, era muito longe de ser um companheiro agradável.
É ainda necessário observar que ele vivia numa casa muito agradável, naquela rua muito agradável, a Konigstrasse em Hamburgo. Embora situada no centro de uma cidade, tinha um aspeto perfeitamente rural — metade madeira, metade tijolos, com empenas antigas — uma das poucas casas antigas poupadas pelo grande incêndio de 1842.
Quando digo uma casa agradável, quero dizer uma casa bela — antiga, trôpega e não exatamente confortável segundo as noções inglesas: uma casa um pouco fora da perpendicular e inclinada a cair no canal vizinho; exatamente a casa para um artista errante retratar; tanto mais que mal se conseguia vê-la devido à hera e a uma magnífica árvore antiga que crescia sobre a porta.
O meu tio era rico; a sua casa era propriedade sua, e ele tinha um rendimento privado considerável. Segundo a minha ideia, a melhor parte dos seus bens era a sua afilhada, Gretchen. E a velha cozinheira, a jovem senhora, o Professor e eu éramos os únicos habitantes.
Eu amava a mineralogia, amava a geologia. Para mim, não havia nada como as pedras — e se o meu tio tivesse estado um pouco menos furioso, teríamos sido a mais feliz das famílias. Para provar a impaciência do excelente Hardwigg, declaro solenemente que, quando as flores nos vasos da sala de estar começavam a crescer, ele levantava-se todos os dias às quatro da manhã para fazê-las crescer mais depressa puxando as folhas!
Tendo descrito o meu tio, vou agora dar conta da nossa entrevista.
Ele recebeu-me no seu escritório; um museu perfeito, contendo todas as curiosidades naturais que se possa imaginar — predominando, contudo, os minerais. Todos me eram familiares, tendo sido catalogados pela minha própria mão. O meu tio, aparentemente alheio ao facto de me ter convocado à sua presença, estava absorto num livro. Ele gostava particularmente de primeiras edições, exemplares de grandes dimensões e obras únicas.
— Maravilhoso! — exclamou ele, batendo na testa. — Maravilhoso — maravilhoso!
Era um daqueles volumes de folhas amarelas raramente encontrados nas bancas, e para mim parecia possuir pouco valor. O meu tio, porém, estava em êxtase.
Admirava a sua encadernação, a clareza dos seus caracteres, a facilidade com que se abria na sua mão, e repetia em voz alta, meia dúzia de vezes, que era muito, muito antigo.
Para a minha imaginação, ele estava a fazer um grande alarido por nada, mas não era da minha competência dizer isso. Pelo contrário, professei um interesse considerável no assunto e perguntei-lhe do que se tratava.
— É o Heims-Kringla de Snorre Tarleson — disse ele —, o célebre autor islandês do século XII — é um relato verdadeiro e correto dos príncipes noruegueses que reinaram na Islândia.
A minha pergunta seguinte relacionava-se com a língua em que estava escrito. Esperava, pelo menos, que estivesse traduzido para alemão. O meu tio ficou indignado com o próprio pensamento e declarou que não daria um centavo por uma tradução. O seu prazer era ter encontrado a obra original na língua islandesa, que ele declarou ser um dos idiomas mais magníficos e, contudo, simples do mundo — embora, ao mesmo tempo, as suas combinações gramaticais fossem as mais variadas conhecidas pelos estudiosos.
— Tão fácil quanto o alemão? — foi a minha observação insidiosa.
O meu tio encolheu os ombros.
— As letras, pelo menos — disse eu — são bastante difíceis de compreender.
— É um manuscrito rúnico, a língua da população original da Islândia, inventada pelo próprio Odin — gritou o meu tio, zangado com a minha ignorância.
Eu estava prestes a aventurar-me numa piada deslocada sobre o assunto, quando um pequeno pedaço de pergaminho caiu das folhas. Tal como um homem faminto que agarra um pedaço de pão, o Professor apoderou-se dele. Tinha cerca de cinco polegadas por três e estava rabiscado da forma mais extraordinária.
As linhas aqui apresentadas são um fac-símile exato do que estava escrito no venerável pedaço de pergaminho — e têm uma importância maravilhosa, pois induziram o meu tio a empreender a série de aventuras mais maravilhosa que já coube a seres humanos.
O meu tio olhou atentamente para o documento durante alguns momentos e depois declarou que era rúnico. As letras eram semelhantes às do livro, mas o que significariam elas? Era exatamente isto que eu queria saber.
Como eu tinha a forte convicção de que o alfabeto e o dialeto rúnicos eram simplesmente uma invenção para mistificar a pobre natureza humana, fiquei encantado ao descobrir que o meu tio sabia tanto sobre o assunto quanto eu — o que era nada. De qualquer modo, o movimento trêmulo dos seus dedos fez-me pensar isso.
— E, contudo — murmurou para si mesmo —, é islandês antigo, tenho a certeza disso.
E o meu tio deveria saber, pois ele era um dicionário poliglota perfeito em si mesmo. Ele não fingia, como certo sábio erudito, falar as duas mil línguas e quatro mil idiomas usados em diferentes partes do globo, mas conhecia todos os mais importantes.
É uma questão de grande dúvida para mim agora, a que medidas violentas a impetuosidade do meu tio o poderia ter levado, se o relógio não tivesse batido as duas e a nossa velha cozinheira francesa não tivesse chamado para nos avisar que o jantar estava na mesa.
— Que se lixe o jantar! — gritou o meu tio.
Mas como eu estava com fome, saí para a sala de jantar, onde assumi o meu lugar habitual. Por educação, esperei três minutos, mas nem sinal do meu tio, o Professor. Fiquei surpreendido. Ele não costumava ser tão cego para o prazer de um bom jantar. Era o auge do luxo alemão — sopa de salsa, uma omeleta de presunto com guarnições de azedas, um vitelo cozido com ameixas, fruta deliciosa e Moselle espumante. Por causa de debruçar-se sobre este velho pedaço de pergaminho bolorento, o meu tio absteve-se de partilhar a nossa refeição. Para satisfazer a minha consciência, comi por ambos.
A velha cozinheira e governanta estava quase fora de si. Depois de ter tido tanto trabalho, descobrir que o seu patrão não aparecia para o jantar foi para ela uma triste desilusão — que, à medida que observava ocasionalmente o estrago que eu estava a fazer nos víveres, tornou-se também um alarme. E se o meu tio viesse à mesa afinal?
De repente, exatamente quando eu tinha consumido a última maçã e bebido o último copo de vinho, uma voz terrível foi ouvida a pouca distância. Era o meu tio a rugir para que eu fosse ter com ele. Fiz quase um salto — tão alto, tão feroz era o seu tom.
CAPÍTULO 2
O PERGAMINHO MISTERIOSO
— Declaro — gritou o meu tio, batendo na mesa ferozmente com o punho —, declaro-te que é rúnico — e contém algum segredo maravilhoso, que tenho de descobrir, a qualquer preço.
Eu estava prestes a responder quando ele me interrompeu.
— Senta-te — disse ele, bastante ferozmente —, e escreve sob o meu ditado.
Obedeci.
— Vou substituir — disse ele — uma letra do nosso alfabeto pela do rúnico: veremos então o que isso produz. Agora, começa e não cometas erros.
O ditado começou com o seguinte resultado incompreensível:
mm.rnlls esruel seecJde sgtssmf unteief niedrke kt,samn atrateS Saodrrn emtnaeI nuaect rrilSa Atvaar .nscrc ieaabs ccdrmi eeutul frantu dt,iac oseibo KediiY
Dando-me mal tempo para terminar, o meu tio arrancou o documento das minhas mãos e examinou-o com a mais profunda e arrebatada atenção.
— Gostaria de saber o que significa — disse ele, após um longo período.
Eu certamente não lhe podia dizer, nem ele esperava que eu dissesse — a sua conversa sendo uniformemente respondida por ele mesmo.
— Declaro que me faz lembrar um criptograma — gritou ele —, a menos que, de fato, as letras tenham sido escritas sem qualquer significado real; e, contudo, porquê ter tanto trabalho? Quem sabe se não estarei à beira de alguma grande descoberta?
A minha opinião sincera era que aquilo era tudo lixo! Mas esta opinião guardei cuidadosamente para mim, pois a cólera do meu tio não era agradável de suportar. Durante todo este tempo, ele comparava o livro com o pergaminho.
— O volume manuscrito e o documento menor foram escritos por mãos diferentes — disse ele —, o criptograma é de data muito posterior ao livro; há uma prova indubitável da correção da minha suposição. [Uma prova irrefutável, considerei eu.] A primeira letra é um M duplo, que só foi acrescentado à língua islandesa no século XII — isto torna o pergaminho duzentos anos posterior ao volume.
As circunstâncias pareciam muito prováveis e muito lógicas, mas era tudo suposição para mim.
— Para mim, parece provável que esta frase tenha sido escrita por algum dono do livro. Agora, quem era o dono, é a próxima questão importante. Talvez, por muita sorte, possa estar escrito em algum lugar no volume.
Com estas palavras, o Professor Hardwigg tirou os óculos e, pegando numa lupa poderosa, examinou o livro cuidadosamente.
Na folha de rosto havia o que parecia ser uma mancha de tinta, mas que, ao exame, provou ser uma linha de escrita quase apagada pelo tempo. Era isto o que ele procurava; e, após um tempo considerável, decifrou estas letras:
— Arne Saknussemm! — gritou ele num tom alegre e triunfante —, esse não é apenas um nome islandês, mas de um professor erudito do século XVI, um célebre alquimista.
Curvei-me como sinal de respeito.
— Estes alquimistas — continuou ele —, Avicena, Bacon, Lully, Paracelso, eram os verdadeiros, os únicos homens eruditos da época. Fizeram descobertas surpreendentes. Não poderá este Saknussemm, sobrinho meu, ter escondido neste pedaço de pergaminho alguma invenção espantosa? Acredito que o criptograma tenha um significado profundo — que devo descobrir.
O meu tio andou pela sala num estado de excitação quase impossível de descrever.
— Pode ser, senhor — observei timidamente —, mas porquê escondê-lo da posteridade, se for uma descoberta útil e digna?
— Porquê — como hei de saber? Galileu não fez segredo das suas descobertas em relação a Saturno? Mas veremos. Até descobrir o significado desta frase, não comerei nem dormirei.
— Meu caro tio... — comecei.
— Nem tu também — acrescentou ele.
Foi sorte eu ter tomado uma dose dupla naquele dia.
— Em primeiro lugar — continuou ele —, deve haver uma pista para o significado. Se pudéssemos encontrar isso, o resto seria fácil o suficiente.
Comecei a refletir seriamente. A perspetiva de ficar sem comida e sem sono não era promissora, por isso determinei fazer o meu melhor para resolver o mistério. O meu tio, entretanto, continuou com o seu monólogo.
— A maneira de o descobrir é fácil o suficiente. Neste documento existem cento e trinta e duas letras, dando setenta e nove consoantes para cinquenta e três vogais. Esta é aproximadamente a proporção encontrada na maioria das línguas do sul, sendo os idiomas do norte muito mais ricos em consoantes. Podemos prever com confiança, portanto, que temos de lidar com um dialeto do sul.
Nada poderia ser mais lógico.
— Agora — disse o Professor Hardwigg —, rastrear a língua específica.
— Como diz Shakespeare, "essa é a questão" — foi a minha resposta bastante satírica.
— Este homem Saknussemm — continuou ele — era um homem muito erudito: agora, como ele não escreveu na língua do seu local de nascimento, provavelmente, como a maioria dos homens eruditos do século XVI, escreveu em latim. Se, contudo, eu estiver errado neste palpite, devemos tentar o espanhol, o francês, o italiano, o grego e até o hebreu. A minha própria opinião, contudo, é decididamente a favor do latim.
Esta proposição assustou-me. O latim era o meu estudo favorito, e parecia sacrilégio acreditar que este galimatias pertencesse ao país de Virgílio.
— Latim bárbaro, com toda a probabilidade — continuou o meu tio —, mas ainda assim latim.
— Muito provavelmente — respondi, para não o contradizer.
— Vejamos o assunto — continuou o meu tio; — aqui vês que temos uma série de cento e trinta e duas letras, aparentemente lançadas ao acaso sobre o papel, sem método ou organização. Há palavras que são compostas inteiramente de consoantes, tais como <i>mm.rnlls</i>, outras que são quase todas vogais, a quinta, por exemplo, que é <i>unteief</i>, e uma das últimas <i>oseibo</i>. Esta parece uma combinação extraordinária. Provavelmente descobriremos que a frase está organizada de acordo com algum plano matemático. Sem dúvida, uma certa frase foi escrita e depois baralhada — algum plano para o qual alguma figura é a pista. Agora, Harry, para mostrar a tua inteligência inglesa — qual é essa figura?
Não lhe pude dar qualquer pista. Os meus pensamentos estavam, de fato, muito longe. Enquanto ele falava, eu tinha avistado o retrato da minha prima Gretchen e perguntava-me quando ela voltaria.
Estávamos noivos e amávamo-nos muito sinceramente. Mas o meu tio, que nunca pensava sequer em tais assuntos mundanos, não sabia nada disto. Sem notar a minha abstração, o Professor começou a ler o intrigante criptograma de todas as formas, de acordo com alguma teoria sua. De repente, despertando a minha atenção errante, ele ditou-me uma tentativa preciosa.
Entreguei-lha suavemente. Dizia o seguinte:
<i>mmessunkaSenrA.icefdoK.segnittamurtn ecertserrette,rotaivsadua,ednecsedsadne lacartniiilrJsiratracSarbmutabiledmek meretarcsilucoYsleffenSnI.</i>
Mal consegui evitar rir, enquanto o meu tio, pelo contrário, entrou numa paixão avassaladora, bateu na mesa com o punho, saiu disparado da sala, saiu de casa e, depois, pondo-se a correr, perdeu-se de vista.
CAPÍTULO 3
UMA DESCOBERTA ESPANTOSA
"Qual é o problema?", gritou a cozinheira, entrando na sala; "quando é que o patrão vai jantar?"
"Nunca."
"E a ceia?"
"Não sei. Ele diz que não comerá mais, e eu também não. O meu tio determinou jejuar e fazer-me jejuar até que ele decifre esta inscrição abominável", respondi.
"Vais morrer à fome", disse ela.
Eu era muito da mesma opinião, mas, não querendo dizê-lo, mandei-a embora e comecei algum do meu trabalho habitual de classificação. Mas, por mais que tentasse, nada podia impedir-me de pensar alternadamente no estúpido manuscrito e na bela Gretchen.
Várias vezes pensei em sair, mas o meu tio ter-se-ia zangado com a minha ausência. Ao fim de uma hora, a minha tarefa designada estava concluída. Como passar o tempo? Comecei por acender o meu cachimbo. Como todos os outros estudantes, eu deleitava-me com tabaco; e, sentando-me na grande poltrona, comecei a pensar.
Onde estaria o meu tio? Podia facilmente imaginá-lo a percorrer a toda a velocidade alguma estrada solitária, gesticulando, falando sozinho, cortando o ar com a sua bengala e ainda a pensar no absurdo pedaço de hieróglifos. Será que ele encontraria alguma pista? Será que voltaria para casa com melhor humor? Enquanto estes pensamentos passavam pelo meu cérebro, peguei mecanicamente no execrável enigma e tentei todas as formas imagináveis de agrupar as letras. Juntei-as de duas em duas, de três em três, de quatro em quatro e de cinco em cinco – em vão. Nada de inteligível saiu, exceto que a décima quarta, décima quinta e décima sexta formavam <i>ice</i> em inglês; a octogésima quarta, octogésima quinta e octogésima sexta, a palavra <i>sir</i>; depois, finalmente, pareceu-me encontrar as palavras latinas <i>rota, mutabile, ira, nec, atra</i>.
"Há! Parece haver alguma verdade na ideia do meu tio", pensei.
Depois, novamente, pareceu-me encontrar a palavra <i>luco</i>, que significa bosque sagrado. Depois, na terceira linha, pareceu-me distinguir <i>labiled</i>, uma palavra hebraica perfeita, e, no final, as sílabas mere, are, mer, que eram francesas.
Era o suficiente para levar alguém à loucura. Quatro idiomas diferentes nesta frase absurda. Que ligação poderia haver entre gelo, senhor, raiva, cruel, bosque sagrado, mutável, mãe, são e mar? A primeira e a última poderiam, numa frase relacionada com a Islândia, significar mar de gelo. Mas o que dizer do resto desta criptografia monstruosa?
Eu estava, de facto, a lutar contra uma dificuldade intransponível; o meu cérebro estava quase a arder; os meus olhos estavam esforçados de tanto olhar para o pergaminho; toda a absurda coleção de letras parecia dançar diante da minha visão num sem-número de pequenos grupos negros. A minha mente estava possuída por uma alucinação temporária – eu estava a sufocar. Precisava de ar. Mecanicamente, abanei-me com o documento, do qual via agora o verso e depois a frente.
Imaginem a minha surpresa quando, ao olhar para o verso do enfadonho enigma, a tinta tendo passado para o outro lado, distingui claramente palavras latinas e, entre outras, craterem e terrestre.
Eu tinha descoberto o segredo!
Aconteceu como um relâmpago. Tinha encontrado a pista. Tudo o que era preciso fazer para compreender o documento era lê-lo ao contrário. Todas as ideias engenhosas do Professor concretizaram-se; ele ditou-mo corretamente; por um mero acaso, descobri o que ele tanto desejava.
O meu deleite, a minha emoção podem ser imaginados; os meus olhos estavam deslumbrados e eu tremia tanto que, a princípio, não conseguia perceber nada. Um olhar, contudo, dir-me-ia tudo o que desejava saber.
"Deixa-me ler", disse para comigo mesmo, depois de respirar fundo.
Estendi-o diante de mim sobre a mesa, passei o dedo por cada letra, soletrei-o; na minha excitação, li-o em voz alta.
Que horror e estupefação se apoderaram da minha alma. Eu era como um homem que tinha recebido um golpe fatal. Seria possível que eu lesse realmente o terrível segredo, e que ele tivesse sido realmente realizado! Um homem tinha ousado fazer – o quê?
Nenhum ser vivo jamais o saberia.
"Nunca!", gritei, saltando. "Nunca o meu tio tomará conhecimento do terrível segredo. Ele seria perfeitamente capaz de empreender a terrível viagem. Nada o deteria, nada o impediria. Pior, obrigar-me-ia a acompanhá-lo, e estaríamos perdidos para sempre. Mas não; tal tolice e loucura não podem ser permitidas."
Eu estava quase fora de mim com raiva e fúria.
"O meu digno tio já está quase louco", exclamei em voz alta. "Isto acabaria com ele. Por algum acidente, ele pode fazer a descoberta; caso em que, estamos ambos perdidos. Pereça o terrível segredo – que as chamas o enterrem para sempre no esquecimento."
Agarrei no livro e no pergaminho, e estava prestes a atirá-los ao fogo, quando a porta se abriu e o meu tio entrou.
Mal tive tempo de pousar os miseráveis documentos antes que o meu tio estivesse ao meu lado. Ele estava profundamente absorto. Os seus pensamentos estavam evidentemente voltados para o terrível pergaminho. Alguma nova combinação tinha provavelmente ocorrido-lhe enquanto fazia a sua caminhada.
Sentou-se na sua poltrona e, com uma caneta, começou a fazer um cálculo algébrico. Observei-o com olhos ansiosos. A minha pele arrepiou-se à medida que se tornava provável que ele descobrisse o segredo.
As suas combinações, eu sabia agora, eram inúteis, tendo eu descoberto a única pista. Durante três horas mortais, ele continuou sem dizer uma palavra, sem levantar a cabeça, riscando, reescrevendo, calculando vezes sem conta. Eu sabia que, a seu tempo, ele chegaria à frase correta. As letras de todos os alfabetos têm apenas um certo número de combinações. Mas, então, poderiam passar anos até que ele chegasse à solução correta.
Ainda assim, o tempo passava; a noite chegou, os sons nas ruas cessaram – e o meu tio continuava, sem sequer responder à nossa digna cozinheira quando ela nos chamava para a ceia.
Não me atrevi a deixá-lo, por isso acenei-lhe para que se fosse embora e, por fim, adormeci no sofá.
Quando acordei, o meu tio ainda estava a trabalhar. Os seus olhos vermelhos, o seu semblante pálido, o seu cabelo desgrenhado, as suas mãos febris, as suas faces ruborizadas de forma héctica, mostravam quão terrível tinha sido a sua luta com o impossível e que fadiga assustadora ele tinha sofrido durante aquela longa noite sem dormir. Fazia-me sentir mal olhar para ele. Embora fosse um tanto severo comigo, eu amava-o, e o meu coração doía-lhe com os seus sofrimentos. Ele estava tão dominado por uma ideia que nem sequer conseguia enfurecer-se! Todas as suas energias estavam focadas num ponto. E eu sabia que, ao dizer uma pequena palavra, todo este sofrimento cessaria. Eu não a podia dizer.
O meu coração, no entanto, inclinava-se para ele. Por que, então, permanecia em silêncio? No interesse do próprio tio.
"Nada me fará falar", murmurei. "Ele quererá seguir os passos do outro! Conheço-o bem. A sua imaginação é um vulcão perfeito, e para fazer descobertas no interesse da geologia, ele sacrificaria a sua vida. Portanto, ficarei calado e guardarei estritamente o segredo que descobri. Revelá-lo seria suicida. Ele não só correria, ele próprio, para a destruição, como me arrastaria com ele."
Cruzei os braços, olhei para outro lado e fumei – decidido a nunca falar.
Quando a nossa cozinheira queria ir ao mercado, ou a qualquer outro recado, encontrava a porta da frente trancada e a chave levada. Teria sido feito propositadamente ou não? Certamente o Professor Hardwigg não pretendia que a velha senhora e eu nos tornássemos mártires da sua vontade obstinada. Estávamos destinados a morrer à fome? Uma recordação assustadora veio-me à mente. Uma vez tínhamos nos alimentado de restos e sobras durante uma semana enquanto ele organizava algumas curiosidades. Dava-me cãibras só de pensar nisso!
Eu queria o meu pequeno-almoço e não via maneira de o obter. Ainda assim, a minha resolução mantinha-se firme. Morreria de fome antes de ceder. Mas a cozinheira começou a chamar-me seriamente à atenção. O que havia a fazer? Ela não podia sair; e eu não me atrevia.
O meu tio continuava a contar e a escrever; a sua imaginação parecia tê-lo transportado para os céus. Ele nem pensava em comer nem em beber. Desta forma, chegou o meio-dia. Eu estava com fome e não havia nada em casa. A cozinheira tinha comido o último pedaço de pão. Isto não podia continuar. Continuou, contudo, até às duas, quando as minhas sensações eram terríveis. Afinal, comecei a achar o documento muito absurdo. Talvez pudesse ser apenas uma farsa gigantesca. Além disso, algum meio seria certamente encontrado para impedir o meu tio de tentar qualquer expedição tão absurda. Por outro lado, se ele tentasse algo tão quixotesco, eu não seria obrigado a acompanhá-lo. Outra linha de raciocínio decidiu-me parcialmente. Muito provavelmente ele faria a descoberta por si próprio, quando eu teria sofrido a fome por nada. Sob a influência da fome, este raciocínio parecia admirável. Decidi contar tudo.
A questão agora era como fazê-lo. Eu ainda estava a matutar no pensamento, quando ele se levantou e pôs o chapéu.
O quê? Sair e trancar-nos dentro? Nunca!
"Tio", comecei.
Ele nem pareceu ouvir-me.
"Professor Hardwigg", gritei.
"O quê", retorquiu ele, "falaste?"
"E a chave?"
"Que chave – a chave da porta?"
"Não – destes hieróglifos horríveis?"
Ele olhou para mim por baixo dos óculos e sobressaltou-se com a expressão estranha do meu rosto. Correndo, agarrou-me pelo braço e examinou atentamente o meu semblante. O seu próprio olhar era uma interrogação.
Eu simplesmente acenei com a cabeça.
Com um encolher de ombros incrédulo, ele virou-se sobre os calcanhares. Indubitavelmente, ele pensou que eu tinha enlouquecido.
"Fiz uma descoberta muito importante."
Os seus olhos brilharam de excitação. A sua mão foi levantada numa atitude ameaçadora. Por um momento, nenhum de nós falou. É difícil dizer qual dos dois estava mais excitado.
"Não quererás dizer que tens alguma ideia do significado do rabisco?"
"Tenho", foi a minha resposta desesperada. "Olha para a frase tal como ditada por ti."
"Bem, mas não significa nada", foi a resposta zangada.
"Nada se leres da esquerda para a direita, mas repara, se da direita para a esquerda..."
"Ao contrário!", gritou o meu tio, em espanto selvagem. "Oh, astuto Saknussemm; e eu a ser um tal estúpido!"
Ele agarrou no documento, fitou-o com um olhar lívido e leu-o em voz alta como eu tinha feito.
Dizia o seguinte:
<i>In Sneffels Yoculis craterem kem delibat umbra Scartaris Julii intra calendas descende, audas viator, et terrestre centrum attinges. Kod feci. Arne Saknussemm</i>
O que, sendo traduzido do latim macarrónico, diz o seguinte:
Desce à cratera de Yocul de Sneffels, que a sombra de Scartaris acaricia, antes das calendas de julho, audaz viajante, e alcançarás o centro da terra. Eu fi-lo.
ARNE SAKNUSSEMM
O meu tio saltou um metro do chão de alegria. Parecia radiante e bem-parecido. Corria pela sala, selvagem de deleite e satisfação. Derrubou mesas e cadeiras. Atirou os seus livros, até que, finalmente, exausto, caiu na sua poltrona.
"Que horas são?", perguntou ele.
"Cerca das três."
"O meu jantar não parece ter-me feito muito bem", observou ele. "Dá-me algo para comer. Podemos então partir imediatamente. Prepara a minha mala de viagem."
"Para quê?"
"E a tua também", continuou ele. "Partimos imediatamente."
O meu horror pode ser concebido. Resolvi, contudo, não mostrar medo. Razões científicas eram as únicas prováveis de influenciar o meu tio. Ora, havia muitas contra esta terrível viagem. A própria ideia de descer ao centro da terra era simplesmente absurda. Decidi, portanto, argumentar o ponto depois do jantar.
A raiva do meu tio dirigia-se agora à cozinheira por não ter o jantar pronto. A minha explicação, contudo, satisfez-o e, tendo obtido a chave, ela logo conseguiu arranjar o suficiente para satisfazer os nossos vorazes apetites.
Durante a refeição, o meu tio estava mais para o bem-disposto do que outra coisa. Ele fez algumas daquelas piadas peculiares que pertencem exclusivamente aos doutos. Assim que a sobremesa terminou, porém, ele chamou-me ao seu escritório. Sentámo-nos, cada um, numa cadeira em lados opostos da mesa.
"Henry", disse ele, com uma voz suave e persuasiva; "sempre te considerei engenhoso, e prestaste-me um serviço que nunca será esquecido. Sem ti, esta grande, esta maravilhosa descoberta nunca teria sido feita. É meu dever, portanto, insistir que partilhes a glória."
"Ele está bem-humorado", pensei eu; "logo lhe darei a conhecer a minha opinião sobre a glória."
"Em primeiro lugar", continuou ele, "deves manter todo o assunto como um segredo profundo. Não há raça de homens mais invejosa do que a dos descobridores científicos. Muitos iniciariam a mesma viagem. Seja como for, seremos os primeiros no terreno."
"Duvido que tenhas muitos concorrentes", foi a minha resposta.
"Um homem de verdadeiros conhecimentos científicos ficaria encantado com a oportunidade. Encontraríamos um verdadeiro fluxo de peregrinos nos vestígios de Arne Saknussemm, se este documento fosse tornado público."
"Mas, meu caro senhor, não será este papel muito provavelmente uma farsa?", insisti.
"O livro no qual o encontrámos é prova suficiente da sua autenticidade", respondeu ele.
"Admito plenamente que o célebre Professor escreveu as linhas, mas apenas, creio, como uma espécie de mistificação", foi a minha resposta.
Mal as palavras saíram da minha boca, arrependi-me de tê-las dito. O meu tio olhou para mim com um olhar sombrio e carregado, e comecei a ficar alarmado com os resultados da nossa conversa. O seu estado de espírito mudou, contudo, rapidamente, e um sorriso substituiu o franzir de sobrancelhas.
"Veremos", observou ele, com ênfase decisiva.
"Mas vê, o que é tudo isto sobre Yocul, e Sneffels, e este Scartaris? Nunca ouvi nada sobre eles."
"O ponto exato a que queria chegar. Recebi recentemente do meu amigo Augustus Peterman, de Leipzig, um mapa. Tira o terceiro atlas da segunda prateleira, série Z, placa 4."
Levantei-me, fui até à prateleira e, pouco depois, voltei com o volume indicado.
"Este", disse o meu tio, "é um dos melhores mapas da Islândia. Creio que resolverá todas as tuas dúvidas, dificuldades e objeções."
Com uma esperança sombria de que acontecesse o contrário, debrucei-me sobre o mapa.
CAPÍTULO 4
INICIAMOS A VIAGEM
"Vês, toda a ilha é composta por vulcões", disse o Professor, "e repara cuidadosamente que todos ostentam o nome de Yocul. A palavra é islandesa e significa glaciar. Na maioria das montanhas elevadas daquela região, as erupções vulcânicas saem de cavernas geladas. Daí o nome aplicado a cada vulcão nesta extraordinária ilha."
"Mas o que significa esta palavra Sneffels?"
A esta pergunta, não esperava nenhuma resposta racional. Enganei-me.
"Segue o meu dedo até à costa ocidental da Islândia; aí vês Reykjavik, a sua capital. Segue a direção de um dos seus inúmeros fiordes ou braços de mar, e o que vês abaixo do sexagésimo quinto grau de latitude?"
"Uma península – muito semelhante a um osso da coxa em forma."
"E no centro dela –?"
"Uma montanha."
"Bem, isso é Sneffels."
Eu não tinha nada a dizer.
"Isso é Sneffels – uma montanha com cerca de cinco mil pés de altura, uma das mais notáveis de toda a ilha, e certamente destinada a ser a mais célebre do mundo, pois através da sua cratera chegaremos ao centro da terra."
"Impossível!", gritei, sobressaltado e chocado com o pensamento.
"Por que impossível?", disse o Professor Hardwigg nos seus tons mais severos.
"Porque a sua cratera está obstruída por lava, por rochas ardentes – por perigos infinitos."
"Mas se estiver extinta?"
"Isso faria a diferença."
"Claro que faria. Existem cerca de trezentos vulcões em toda a superfície do globo – mas a maior parte está extinta. Destes, Sneffels é um. Nenhuma erupção ocorreu desde 1219 – de facto, deixou de ser um vulcão de todo."
Depois disto, que mais poderia eu dizer? Sim – pensei noutra objeção.
"Mas o que é tudo isto sobre Scartaris e as calendas de julho –?"
O meu tio refletiu profundamente. Pouco depois, deu a conhecer o resultado das suas reflexões num tom sentencioso. "O que te parece obscuro, para mim é luz. Esta própria frase mostra quão minucioso Saknussemm é nas suas indicações. A montanha Sneffels tem muitas crateras. Ele tem o cuidado, portanto, de apontar a exata que é o caminho para o Interior da Terra. Ele faz-nos saber, para este fim, que, perto do final do mês de junho, a sombra do Monte Scartaris cai sobre a cratera. Não pode haver dúvidas sobre o assunto."
O meu tio tinha uma resposta para tudo.
"Aceito todas as tuas explicações", disse eu, "e Saknussemm tem razão. Ele encontrou a entrada para as entranhas da terra, indicou-a corretamente, mas que ele ou qualquer outra pessoa tenha alguma vez seguido a descoberta é loucura supor."
"Por que, jovem?"
"Todo o ensino científico, teórico e prático, mostra que é impossível."
"Não me importo nada com teorias", retorquiu o meu tio.
"Mas não é bem conhecido que o calor aumenta um grau por cada setenta pés que se desce na terra? O que dá uma bela ideia do calor central. Todos os materiais que compõem o globo estão em estado de incandescência; até o ouro, a platina e as rochas mais duras estão em estado de fusão. O que seria de nós?"
"Não te alarmes com o calor, meu rapaz."
"Como assim?"
"Nem tu nem ninguém sabe nada sobre o verdadeiro estado do interior da terra. Todas as experiências modernas tendem a explodir as teorias mais antigas. Se tal calor existisse, a crosta superior da terra seria estilhaçada em átomos, e o mundo teria chegado ao fim."
Seguiu-se uma discussão longa, erudita e não desinteressante, que terminou desta forma:
"Não acredito nos perigos e dificuldades que tu, Henry, pareces multiplicar; e a única maneira de aprender é, como Arne Saknussemm, ir e ver."
"Bem", gritei, vencido finalmente, "vamos lá ver. Embora como possamos fazer isso no escuro seja outro mistério."
"Não temas nada. Superaremos estas e muitas outras dificuldades. Além disso, à medida que nos aproximarmos do centro, espero encontrar o interior luminoso –"
"Nada é impossível."
"E agora que chegámos a um entendimento completo, nem uma palavra a qualquer alma viva. O nosso sucesso depende de segredo e rapidez."
Assim terminou a nossa memorável conferência, que provocou uma febre perfeita em mim. Deixando o meu tio, saí como se estivesse possuído. Chegando às margens do Elba, comecei a pensar. Seria tudo o que ouvira realmente e verdadeiramente possível? Estaria o meu tio no seu juízo perfeito, e poderia o interior da terra ser alcançado? Seria eu vítima de um louco, ou seria ele um descobridor de raro valor e grandeza de conceção?
Até certo ponto, eu estava ansioso por partir. Tinha medo que o meu entusiasmo arrefecesse. Decidi fazer as malas imediatamente. Ao fim de uma hora, contudo, a caminho de casa, descobri que os meus sentimentos tinham mudado muito.
"Estou perdido", gritei; "'é um pesadelo – devo ter sonhado com isso."
Neste momento, encontrei-me cara a cara com Gretchen, a quem abracei calorosamente.
"Então vieste encontrar-me", disse ela; "que bom da tua parte. Mas qual é o problema?"
Bem, não valia a pena adoçar a pílula, contei-lhe tudo. Ela ouviu com espanto e, durante alguns minutos, não conseguiu falar.
"Bem?", disse eu finalmente, com alguma ansiedade.
"Que viagem magnífica. Se eu fosse um homem! Uma viagem digna do sobrinho do Professor Hardwigg. Consideraria uma honra acompanhá-lo."
"Minha querida Gretchen, pensei que serias a primeira a gritar contra este empreendimento louco."
"Não; pelo contrário, orgulho-me disso. É magnífico, esplêndido – uma ideia digna do meu pai. Henry Lawson, invejo-te."
Isto foi, por assim dizer, conclusivo. O golpe final de tudo.
Quando entrámos em casa, encontrámos o meu tio rodeado de trabalhadores e carregadores, que estavam a fazer as malas. Ele estava a puxar e a tocar uma campainha.
"Onde estiveste a perder o teu tempo? A tua mala de viagem não está feita – os meus papéis não estão em ordem – o precioso alfaiate não trouxe as minhas roupas, nem as minhas polainas – a chave da minha mala de tapete desapareceu!"
Olhei para ele estupefacto. E ele continuava a puxar a campainha.
"Vamos mesmo, então?", disse eu.
"Sim – claro, e ainda vais dar um passeio, rapaz infeliz!"
— E quando partimos?
— Depois de amanhã, ao romper do dia.
Não ouvi mais nada; disparei para o meu pequeno quarto e tranquei-me lá dentro. Já não havia dúvidas. O meu tio tinha trabalhado arduamente durante toda a tarde. O jardim estava cheio de cordas, escadas de corda, tochas, cabaças, grampos de ferro, pés-de-cabra, alpenstocks e picaretas — o suficiente para carregar dez homens.
Passei uma noite terrível. Fui chamado cedo no dia seguinte para saber que a resolução do meu tio era inalterada e irrevogável. Também descobri que a minha prima e noiva estava tão entusiasmada com o assunto quanto o seu pai.
No dia seguinte, às cinco da manhã, a carruagem de correio estava à porta. Gretchen e a velha cozinheira receberam as chaves da casa; e, mal parando para dizer adeus a quem quer que fosse, iniciámos a nossa aventurosa jornada ao centro da terra.
CAPÍTULO 5
Primeiras Lições de Escalada
Em Altona, um subúrbio de Hamburgo, fica a Estação Principal da linha férrea de Kiel, que nos levaria às margens do Belt. Vinte minutos após a nossa partida, já estávamos em Holstein, e a nossa carruagem entrou na estação. A nossa bagagem pesada foi retirada, pesada, etiquetada e colocada num enorme furgão. Comprámos então os nossos bilhetes e, exatamente às sete horas, estávamos sentados um em frente ao outro numa carruagem de primeira classe.
O meu tio não disse nada. Estava demasiado ocupado a examinar os seus papéis, entre os quais, é claro, estava o famoso pergaminho, e algumas cartas de recomendação do cônsul dinamarquês que deveriam preparar o caminho para uma apresentação ao Governador da Islândia. O meu único divertimento era olhar pela janela. Mas, como atravessávamos um país plano, ainda que fértil, esta ocupação era ligeiramente monótona. Em três horas chegámos a Kiel, e a nossa bagagem foi imediatamente transferida para o vapor.
Tínhamos agora um dia pela frente, um atraso de cerca de dez horas. Fato que deixou o meu tio numa fúria tremenda. Não tínhamos nada para fazer a não ser passear pela bonita cidade e pela baía. Acabámos, porém, por embarcar e, às dez e meia, navegávamos pelo Grande Belt. Era uma noite escura, com uma brisa forte e um mar agitado, não se vendo nada a não ser os ocasionais fogos na costa, com aqui e ali um farol. Às sete da manhã, deixámos Korsor, uma pequena cidade na parte ocidental de Seeland.
Aqui apanhámos outro comboio, que em três horas nos levou à capital, Copenhaga, onde, sem quase tirar tempo para comer, o meu tio saiu apressado para entregar uma das suas cartas de apresentação. Era dirigida ao diretor do Museu de Antiguidades, que, tendo sido informado de que éramos turistas a caminho da Islândia, fez tudo o que pôde para nos ajudar. Uma esperança miserável sustentava-me agora. Talvez não houvesse navio algum com destino a partes tão distantes.
Ai! Uma pequena escuna dinamarquesa, a *Valkyrie*, deveria zarpar no dia dois de junho para Reykjavik. O capitão, M. Bjarne, estava a bordo e ficou algo surpreendido com a energia e cordialidade com que o seu futuro passageiro lhe apertou a mão. Para ele, uma viagem à Islândia era apenas algo natural. O meu tio, por outro lado, considerava o acontecimento de uma importância sublime. O honesto marinheiro aproveitou o entusiasmo do Professor para duplicar a tarifa.
— Na terça-feira de manhã, às sete horas, esteja a bordo — disse M. Bjarne, entregando-nos os recibos.
— Excelente! Capital! Glorioso! — comentou o meu tio enquanto nos sentávamos para um pequeno-almoço tardio; — refresca-te, meu rapaz, e daremos uma corrida pela cidade.
Terminada a refeição, fomos ao Kongens-Nye-Torw; ao magnífico palácio do rei; à bela ponte sobre o canal perto do Museu; ao imenso cenotáfio de Thorwaldsen com os seus horríveis grupos navais; ao castelo de Rosenberg; e a todas as outras atrações do lugar — nenhuma das quais o meu tio sequer viu, tão absorto estava nos seus triunfos antecipados.
Mas uma coisa chamou-lhe a atenção, e foi um certo campanário singular situado na Ilha de Amak, que é o bairro sudeste da cidade de Copenhaga. O meu tio ordenou-me imediatamente que voltasse os meus passos para aquele lado e, consequentemente, entrámos no barco a vapor que faz o serviço no canal, chegando muito rapidamente ao célebre cais do estaleiro.
Primeiro, atravessámos algumas ruas estreitas, onde encontrámos numerosos grupos de galeotes, com calças de cores variadas, cinzentas e amarelas, trabalhando sob as ordens e as bengalas de capatazes severos, e finalmente chegámos à Vor-Frelser's-Kirk.
Esta igreja não apresentava nada de notável em si; de facto, o digno Professor só tinha sido atraído por ela devido a uma circunstância: o facto de o seu campanário, bastante elevado, partir de uma plataforma circular, a partir da qual existia uma escadaria exterior que contornava até ao próprio cume.
— Vamos subir — disse o meu tio.
— Mas eu nunca consegui subir torres de igrejas — exclamei —, sofro de tonturas.
— Essa é a própria razão pela qual deves subir. Quero curar-te de um mau hábito.
— Mas, meu bom senhor...
— Digo-te para vires. De que serve desperdiçar tanto tempo valioso?
Era impossível contestar as ordens ditatoriais do meu tio. Cedi com um gemido. Mediante o pagamento de uma taxa, um sacristão deu-nos a chave. Ele, por sua vez, não era adepto da subida. O meu tio mostrou-me imediatamente o caminho, subindo os degraus como um miúdo. Segui o melhor que pude, embora, assim que estive fora da torre, a minha cabeça começou a andar à roda. Não havia nada de águia em mim. A terra bastava-me, e nenhum desejo ambicioso de voar entrou jamais na minha mente. Ainda assim, as coisas não correram mal até ter subido 150 degraus e estar perto da plataforma, quando comecei a sentir a lufada de ar frio. Mal conseguia manter-me de pé quando, agarrando-me aos parapeitos, olhei para cima. O parapeito era suficientemente frágil, mas nada comparado com aqueles que ladeavam a terrível escadaria em caracol que, de onde eu estava, parecia subir até aos céus.
— Então, Henry.
— Não consigo! — gritei, em tons de desespero.
— És, afinal, um cobarde, senhor? — disse o meu tio num tom impiedoso. — Sobe, digo eu!
A isto não havia resposta possível. E, contudo, o ar gélido atuou violentamente no meu sistema nervoso; o céu, a terra, tudo parecia girar, enquanto o campanário oscilava como um navio. As minhas pernas cederam como as de um bêbado. Rastejei sobre as mãos e os joelhos; puxei-me para cima lentamente, rastejando como uma serpente. A certa altura, fechei os olhos e deixei-me arrastar para cima.
— Olha à tua volta — disse o meu tio com uma voz severa —, Deus sabe que abismos profundos poderás ter de contemplar. Isto é um excelente treino.
Lentamente, e tremendo a todo o momento com o frio, abri os olhos. O que vi então? O meu primeiro olhar foi para cima, para as nuvens frias e algodonosas que, por uma espécie de ilusão de ótica, pareciam estar paradas, enquanto o campanário, o cata-vento e nós os dois éramos transportados velozmente. Longe, de um lado, podia ver-se a planície relvada, enquanto do outro jazia o mar banhado por uma luz translúcida. O Sund, ou Sound, como lhe chamamos, podia ser descoberto para lá da ponta de Elsinore, apinhado de velas brancas que, àquela distância, pareciam asas de gaivotas; enquanto a leste se podia distinguir a costa longínqua da Suécia. O conjunto parecia um panorama mágico.
Mas, fraco e atordoado como estava, não havia remédio. Tinha de me levantar e ficar de pé. Apesar dos meus protestos, a minha primeira lição durou cerca de uma hora. Quando, quase duas horas depois, cheguei ao seio da mãe terra, estava como um velho reumático dobrado em dois de dor.
— Chega por hoje — disse o meu tio, esfregando as mãos —, recomeçaremos amanhã.
Não havia remédio. As minhas lições duraram cinco dias e, ao fim desse período, subi alegremente e descobri que era capaz de olhar para as profundezas lá em baixo sem sequer pestanejar, e com algum grau de prazer.
CAPÍTULO 6
A Nossa Viagem para a Islândia
A hora da partida chegou finalmente. Na noite anterior, o digno Sr. Thompson trouxe-nos as cartas de apresentação mais cordiais para o Barão Trampe, Governador da Islândia, para M. Pictursson, coadjutor do bispo, e para M. Finsen, presidente da câmara da cidade de Reykjavik. Em troca, o meu tio quase lhe esmagou as mãos, tão calorosamente que as sacudiu.
No dia dois do mês, às duas da manhã, a nossa preciosa carga de bagagem foi levada a bordo do bom navio *Valkyrie*. Seguimos atrás e fomos muito educadamente apresentados pelo capitão a uma pequena cabine com dois beliches, nem muito bem ventilados nem muito confortáveis. Mas, pela causa da ciência, espera-se que os homens sofram.
— Bem, e temos vento favorável? — gritou o meu tio, nos seus tons mais melífluos.
— Um vento excelente! — respondeu o Capitão Bjarne; — deixaremos o Sound, seguindo livres com todas as velas içadas.
Poucos minutos depois, a escuna partiu com o vento, sob todo o pano que podia carregar, e entrou no canal. Uma hora mais tarde, a capital da Dinamarca parecia afundar-se nas ondas, e não estávamos a grande distância da costa de Elsinore. O meu tio estava encantado; quanto a mim, melancólico e insatisfeito, parecia quase esperar um vislumbre do fantasma de Hamlet.
— Sublime louco — pensava eu —, tu sem dúvida aprovarias os nossos procedimentos. Talvez até nos seguisses até ao centro da terra, para lá resolveres as tuas eternas dúvidas.
Mas nenhum fantasma ou qualquer outra coisa apareceu sobre as antigas muralhas. O facto é que o castelo é muito posterior ao tempo do heróico príncipe da Dinamarca. É agora a residência do guardião do Estreito do Sound, e através desse Sound passam todos os anos mais de quinze mil navios de todas as nações.
O castelo de Kronborg desapareceu rapidamente na atmosfera sombria, assim como a torre de Helsinborg, que levanta a sua cabeça no Banco Sueco. E aqui a escuna começou a sentir a sério as brisas do Kattegat. A *Valkyrie* era suficientemente veloz, mas com todos os barcos à vela existe a mesma incerteza. A sua carga era carvão, mobiliário, cerâmica, roupas de lã e um carregamento de cereais. Como de costume, a tripulação era pequena, cinco dinamarqueses a fazer todo o trabalho.
— Quanto tempo durará a viagem? — perguntou o meu tio.
— Bem, julgo que cerca de dez dias — respondeu o capitão —, a menos, claro, que encontremos alguns vendavais de nordeste perto das Ilhas Faroé.
— De qualquer modo, não haverá um atraso muito considerável — gritou o impaciente Professor.
— Não, Sr. Hardwigg — disse o capitão —, não há medo disso. De qualquer modo, chegaremos lá um dia destes.
Ao cair da noite, a escuna contornou o Cabo Skagen, a parte mais a norte da Dinamarca, atravessou o Skagerrak durante a noite — contornou a ponta extrema da Noruega através do estreito do Cabo Lindesnes, e chegou então aos Mares do Norte. Dois dias depois, não estávamos longe da costa da Escócia, algures perto do que os marinheiros dinamarqueses chamam Peterhead, e então a *Valkyrie* seguiu diretamente para as Ilhas Faroé, entre as Órcades e as Shetland. O nosso navio sentia agora toda a força das ondas do oceano e, com a mudança de vento, chegámos com grande dificuldade às Ilhas Faroé. No oitavo dia, o capitão avistou Myganness, a mais ocidental das ilhas, e a partir desse momento seguiu diretamente para Portland, um cabo nas margens meridionais da singular ilha para a qual estávamos destinados.
A viagem não ofereceu qualquer incidente digno de registo. Aguentei-a muito bem, mas o meu tio, para seu grande incómodo e até vergonha, ficou notavelmente enjoado! Este *mal de mer* perturbou-o tanto mais quanto o impediu de questionar o Capitão Bjarne sobre o assunto de Sneffels, sobre os meios de comunicação e as facilidades de transporte. Todas estas explicações teve de as adiar para o período da sua chegada. O seu tempo, entretanto, era passado deitado na cama a gemer e a pensar ansiosamente na esperada conclusão da viagem. Não o compadeci.
No décimo primeiro dia, avistámos o Cabo Portland, sobre o qual se erguia o Monte Myrdals Yokul, que, estando o tempo limpo, distinguimos muito facilmente. O cabo em si não é mais do que um enorme monte de granito, nu e solitário, a enfrentar as ondas do Atlântico. A *Valkyrie* manteve-se ao largo da costa, navegando para oeste. Por todos os lados podiam ver-se cardumes inteiros de baleias e tubarões. Após algumas horas, avistámos uma rocha solitária no oceano, formando uma abóbada poderosa, através da qual as ondas espumantes se precipitavam com fúria intensa. Os ilhéus de Westman pareciam saltar do oceano, estando tão baixos na água que mal se viam até estarmos mesmo em cima deles. A partir desse momento, a escuna foi conduzida para oeste para contornar o Cabo Reykjanes, a ponta ocidental da Islândia.
O meu tio, para seu grande desgosto, não conseguiu sequer rastejar até ao convés, tal era o estado do mar, e perdeu assim a primeira vista da Terra Prometida. Quarenta e oito horas depois, após uma tempestade que nos levou para longe, para o mar alto, sob mastros nus, avistámos a terra mais uma vez e fomos abordados por um piloto que, após três horas de navegação perigosa, trouxe a escuna em segurança até à ancoragem na baía de Faxa, perante Reykjavik.
O meu tio saiu da sua cabine pálido, macilento, magro, mas cheio de entusiasmo, os olhos dilatados de prazer e satisfação. Quase toda a população da cidade estava de pé para nos ver desembarcar. O facto é que quase ninguém esperava outra coisa senão mercadorias pelo navio periódico.
O Professor Hardwigg tinha pressa em deixar a sua prisão, ou melhor, como ele lhe chamava, o seu hospital; mas antes de tentar fazê-lo, agarrou na minha mão, levou-me para o convés de ré da escuna, segurou o meu braço com a sua mão esquerda e apontou para o interior com a direita, sobre a parte norte da baía, onde se erguia uma alta montanha de dois picos — um cone duplo coberto de neve eterna.
— Eis — sussurrou ele com uma voz reverente —, eis o Monte Sneffels!
Depois, sem mais comentários, levou o dedo aos lábios, franziu o sobrolho sombriamente e desceu para o pequeno barco que nos aguardava. Segui-o e, em poucos minutos, estávamos sobre o solo da misteriosa Islândia!
Mal estávamos em terra, surgiu diante de nós um homem de excelente aspeto, vestindo o traje de oficial militar. Era, no entanto, apenas um funcionário civil, um magistrado, o governador da ilha — o Barão Trampe. O Professor sabia com quem tinha de lidar. Entregou-lhe, portanto, as cartas de Copenhaga, e seguiu-se uma breve conversa em dinamarquês, da qual eu era, naturalmente, estranho, e por uma razão muito boa, pois não conhecia a língua em que conversavam. Ouvi dizer depois, contudo, que o Barão Trampe se colocou inteiramente à disposição do Professor Hardwigg.
O meu tio foi recebido muito graciosamente por M. Finsen, o presidente da câmara, que, no que dizia respeito a traje, era tão militar quanto o governador, mas também, pelo caráter e ocupação, tão pacífico quanto ele. Quanto ao seu coadjutor, M. Pictursson, estava ausente numa visita episcopal à parte norte da diocese. Fomos, portanto, forçados a adiar o prazer de sermos apresentados a ele. A sua ausência foi, contudo, mais do que compensada pela presença de M. Fridriksson, professor de ciências naturais no colégio de Reykjavik, um homem de capacidade inestimável. Este modesto erudito não falava outras línguas senão islandês e latim. Quando, portanto, se dirigiu a mim na língua de Horácio, entendemo-nos imediatamente. Ele era, de facto, a única pessoa que eu compreendia totalmente durante todo o período da minha estadia nesta ilha ignorante.
De três divisões que a sua casa possuía, duas foram postas ao nosso serviço e, em poucas horas, estávamos instalados com toda a nossa bagagem, cuja quantidade surpreendeu bastante os simples habitantes de Reykjavik.
— Agora, Harry — disse o meu tio, esfregando as mãos —, tudo corre bem, a pior dificuldade já passou.
— Como a pior dificuldade já passou? — exclamei, num novo espanto.
— Sem dúvida. Aqui estamos nós na Islândia. Nada mais resta senão descer às entranhas da terra.
— Bem, senhor, até certo ponto tem razão. Só temos de descer — mas, no que me diz respeito, essa não é a questão. Quero saber como havemos de subir novamente.
— Essa é a menor parte do negócio e não me preocupa de forma alguma. Entretanto, não há uma hora a perder. Vou visitar a biblioteca pública. É muito provável que encontre lá alguns manuscritos da autoria de Saknussemm. Terei todo o prazer em consultá-los.
— Entretanto — respondi —, vou dar um passeio pela cidade. Não fará o mesmo?
— Não sinto interesse pelo assunto — disse o meu tio. — O que para mim é curioso nesta ilha não é o que está acima da superfície, mas o que está abaixo.
Inclinei-me em sinal de resposta, pus o chapéu e a capa de pele e saí.
Não era fácil perder-se nas duas ruas de Reykjavik; não precisei, portanto, de perguntar o caminho. A cidade situa-se numa planície plana e pantanosa, entre duas colinas. Um vasto campo de lava contorna-a de um lado, descendo em terraços em direção ao mar. Do outro lado encontra-se a grande baía de Faxa, limitada a norte pelo enorme glaciar de Sneffels, e na qual baía a *Valkyrie* era então o único navio ancorado. Geralmente, encontravam-se ali um ou dois navios de guerra ingleses ou franceses para vigiar e proteger a pesca ao largo. Estavam agora, contudo, ausentes em serviço.
A mais longa das ruas de Reykjavik corre paralela à costa. Nesta rua, os comerciantes e mercadores vivem em cabanas de madeira feitas com vigas, pintadas de vermelho — meras cabanas de troncos, como se encontram nas regiões selvagens da América. A outra rua, situada mais a oeste, dirige-se para um pequeno lago, entre as residências do bispo e outras personalidades não ligadas ao comércio.
Em pouco tempo vi tudo o que queria destas vias cansativas e lúgubres. Aqui e ali havia uma tira de relvado desbotado, como um pedaço de tapete de lã velho e gasto; e de vez em quando um pedacinho de horta, onde cresciam batatas, couves e alfaces, quase diminutas o suficiente para sugerir a ideia de Liliput.
No centro da nova rua comercial, encontrei o cemitério público, cercado por um muro de terra. Embora não fosse muito grande, não parecia que viria a ser preenchido durante séculos. Daqui fui até à casa do Governador — uma mera cabana em comparação com a Mansão de Hamburgo —, mas um palácio ao lado das outras casas islandesas. Entre o pequeno lago e a cidade ficava a igreja, construída num estilo protestante simples e composta por pedras calcinadas, expelidas pela ação vulcânica. Não tenho a menor dúvida de que, com ventos fortes, as suas telhas vermelhas eram arrancadas, para grande incómodo do pastor e da congregação. Numa eleição ali perto ficava a escola nacional, na qual se ensinava hebraico, inglês, francês e dinamarquês.
Em três horas o meu passeio estava concluído. A impressão geral na minha mente era de tristeza. Sem árvores, sem vegetação, por assim dizer — por todos os lados picos vulcânicos — as cabanas de relva e terra — mais parecidas com telhados do que com casas. Graças ao calor destas residências, a erva cresce no telhado, erva essa que é cuidadosamente cortada para feno. Vi poucos habitantes durante a minha excursão, mas encontrei uma multidão na praia, a secar, salgar e carregar bacalhau, o principal artigo de exportação. Os homens pareciam robustos mas pesados; de cabelo claro como os alemães, mas de semblante pensativo — exilados num degrau mais alto na escada da humanidade do que os esquimós, mas, pensei, muito mais infelizes, uma vez que, com perceções superiores, são forçados a viver dentro dos limites do Círculo Polar.
Às vezes, davam largas a uma risada convulsiva, mas por nada deste mundo sorriam. O seu traje consiste num capote grosseiro de lã preta, conhecido nos países escandinavos como "vadmel", um chapéu de abas largas, calças de sarja vermelha e um pedaço de couro atado com cordões para fazer de sapato — uma espécie grosseira de mocassim. As mulheres, embora de aspeto triste e lúgubre, tinham feições bastante agradáveis, ainda que sem grande expressão. Usam um corpete e uma saia de vadmel sombrio. Quando solteiras, usam uma pequena touca de malha castanha sobre uma coroa de cabelos entrançados; mas, quando casadas, cobrem a cabeça com um lenço colorido, sobre o qual atam um lenço branco.
CAPÍTULO 7
Conversa e Descoberta
Quando regressei, o jantar estava pronto. Esta refeição foi devorada pelo meu digno parente com avidez e voracidade. A sua dieta a bordo do navio tinha transformado o seu interior num verdadeiro abismo. O repasto, que era mais dinamarquês do que islandês, não era nada de especial em si, mas a hospitalidade excessiva do nosso anfitrião fez com que o apreciássemos duplamente.
A conversa recaiu sobre assuntos científicos e o Sr. Fridriksson perguntou ao meu tio o que pensava da biblioteca pública.
"Biblioteca, senhor?", exclamou o meu tio; "parece-me uma coleção de volumes ímpares inúteis e uma quantidade miserável de prateleiras vazias."
"O quê!", exclamou o Sr. Fridriksson; "mas se temos oito mil volumes de obras raríssimas e valiosas — algumas na língua escandinava, além de todas as novas publicações de Copenhaga."
"Oito mil volumes, meu caro senhor... mas onde estão eles?", exclamou o meu tio.
"Espalhados pelo país, Professor Hardwigg. Somos muito estudiosos, meu caro senhor, embora vivamos na Islândia. Cada agricultor, cada trabalhador, cada pescador sabe ler e escrever — e achamos que os livros, em vez de ficarem fechados em armários, longe da vista dos estudantes, devem ser distribuídos o mais amplamente possível. Os livros da nossa biblioteca passam, portanto, de mão em mão, sem regressarem às prateleiras da biblioteca, talvez durante anos."
"Então, quando os estrangeiros vos visitam, não têm nada para ver?"
"Bem, senhor, os estrangeiros têm as suas próprias bibliotecas e a nossa primeira preocupação é que as nossas classes mais humildes sejam altamente instruídas. Felizmente, o amor pelo estudo é inato no povo islandês. Em 1816, fundámos uma Sociedade Literária e um Instituto de Mecânica; muitos estudiosos estrangeiros de renome são membros honorários; publicamos livros destinados a educar o nosso povo, e estes livros prestaram serviços valiosos ao nosso país. Permita-me ter a honra, Professor Hardwigg, de o inscrever como membro honorário?"
O meu tio, que já pertencia a quase todas as instituições literárias e científicas da Europa, cedeu imediatamente aos amáveis desejos do bom Sr. Fridriksson.
"E agora", disse ele, após muitas expressões de gratidão e boa vontade, "se me disser que livros esperava encontrar, talvez eu possa ser-lhe de alguma ajuda."
Observei o meu tio atentamente. Durante um ou dois minutos, hesitou, como se não quisesse falar; falar abertamente seria, talvez, desvendar os seus projetos. No entanto, após alguma reflexão, decidiu-se.
"Bem, Sr. Fridriksson", disse ele de uma forma descontraída e despreocupada, "eu desejava saber se, entre outras obras valiosas, possui alguma do erudito Arne Saknussemm."
"Arne Saknussemm!", exclamou o Professor de Reykjavik; "fala de um dos estudiosos mais distintos do século XVI, do grande naturalista, do grande alquimista, do grande viajante."
"Exatamente."
"Um dos homens mais distintos ligados à ciência e à literatura islandesas."
"Como diz, senhor..."
"Um homem ilustre acima de todos."
"Sim, senhor, tudo isto é verdade, mas as suas obras?"
"Não temos nenhuma delas."
"Nem na Islândia?"
"Não existem na Islândia nem em parte alguma", respondeu o outro, tristemente.
"Por que razão?"
"Porque Arne Saknussemm foi perseguido por heresia e, em 1573, as suas obras foram publicamente queimadas em Copenhaga, pelas mãos do carrasco comum."
"Muito bem! Excelente!", murmurou o meu tio, para grande espanto do digno islandês.
"Disse, senhor..."
"Sim, sim, tudo está claro, vejo o elo na corrente; tudo se explica, e agora compreendo por que razão Arne Saknussemm, afastado da corte, forçado a esconder as suas magníficas descobertas, foi obrigado a ocultar sob o véu de uma criptografia incompreensível, o segredo..."
"Que segredo?"
"Um segredo... que", gaguejou o meu tio.
"Descobriu algum manuscrito maravilhoso?", exclamou o Sr. Fridriksson.
"Não! Não, deixei-me levar pelo meu entusiasmo. Apenas uma suposição."
"Muito bem, senhor. Mas, na verdade, mudando de assunto, espero que não deixe a nossa ilha sem examinar as suas riquezas mineralógicas."
"Bem, o facto é que cheguei um pouco tarde. Tantos homens doutos já estiveram aqui antes de mim."
"Sim, sim, mas ainda há muito a fazer", exclamou o Sr. Fridriksson.
"Acha que sim?", disse o meu tio, com os olhos a brilhar de uma satisfação oculta.
"Sim, não faz ideia de quantas montanhas, glaciares e vulcões desconhecidos permanecem por estudar. Sem sair de onde estamos sentados, posso mostrar-lhe um. Ali, no limite do horizonte, vê o Sneffels."
"Oh, sim, o Sneffels", disse o meu tio.
"Um dos vulcões mais curiosos que existem, cujo cratera raramente foi visitada."
"Extinto?"
"Extinto há uns quinhentos anos", foi a resposta pronta.
"Bem", disse o meu tio, que cravou as unhas na própria carne e apertou os joelhos com força para evitar saltar de alegria. "Tenho muita vontade de começar os meus estudos com um exame das mistérios geológicos deste Monte Seffel... Feisel... como lhe chama?"
"Sneffels, meu caro senhor."
Esta parte da conversa decorreu em latim e, por isso, compreendi tudo o que foi dito. Mal conseguia manter a compostura ao ver o meu tio a esconder tão astuciosamente o seu deleite e satisfação. Devo confessar que as suas caretas artificiais, feitas para ocultar a sua felicidade, faziam-no parecer um novo Mefistófeles.
"Sim, sim", continuou ele, "a sua proposta deleita-me. Esforçar-me-ei por subir ao cume do Sneffels e, se possível, descerei à sua cratera."
"Lamento muito", continuou o Sr. Fridriksson, "que a minha ocupação me impeça totalmente de o acompanhar. Teria sido aprazível e proveitoso se pudesse dispensar o tempo."
"Não, não, mil vezes não", exclamou o meu tio. "Não desejo perturbar a serenidade de ninguém. Agradeço-lhe, contudo, de todo o coração. A presença de alguém tão culto como o senhor seria, sem dúvida, muito útil, mas os deveres do seu cargo e profissão estão acima de tudo."
Na inocência do seu coração simples, o nosso anfitrião não percebeu a ironia destas observações.
"Aprovo inteiramente o seu projeto", continuou o islandês após mais alguns comentários. "É uma boa ideia começar por examinar este vulcão. Fará uma colheita de observações curiosas. Em primeiro lugar, como tenciona chegar ao Sneffels?"
"Por mar. Vou atravessar a baía. Naturalmente, é a rota mais rápida."
"Naturalmente. Mas ainda assim não pode ser feito."
"Porquê?"
"Não temos um barco disponível em toda a cidade de Reykjavik", respondeu o outro.
"O que se há de fazer?"
"Tem de ir por terra, ao longo da costa. É mais longo, mas muito mais interessante."
"Então preciso de um guia."
"Naturalmente; e eu tenho o homem certo para si."
"Alguém em quem possa confiar."
"Sim, um habitante da península onde se situa o Sneffels. É um homem muito astuto e digno, de quem irá gostar. Fala dinamarquês como um dinamarquês."
"Quando posso vê-lo... hoje?"
"Não, amanhã; ele não estará aqui antes disso."
"Que seja amanhã", respondeu o meu tio, com um profundo suspiro.
A conversa terminou com cumprimentos de ambas as partes. Durante o jantar, o meu tio tinha aprendido muito sobre a história de Arne Saknussemm e as razões do seu documento misterioso e hieroglífico. Ficou também a saber que o seu anfitrião não o acompanharia na sua expedição aventureira e que, no dia seguinte, teríamos um guia.
CAPÍTULO 8
O CAÇADOR DE PLUMAGEM DE EIDER — FINALMENTE A PARTIR
Nessa noite, dei um breve passeio na margem perto de Reykjavik, após o que regressei para um sono precoce na minha cama de tábuas grosseiras, onde dormi o sono dos justos. Quando acordei, ouvi o meu tio a falar alto na sala ao lado. Levantei-me apressadamente e juntei-me a ele. Ele estava a falar em dinamarquês com um homem de estatura elevada e compleição perfeitamente hercúlea. Este homem parecia possuir uma força muito grande. Os seus olhos, que sobressaíam um pouco de uma cabeça muito grande, cujo rosto era simples e ingénuo, pareciam muito vivos e inteligentes. Cabelos muito compridos, que até em Inglaterra seriam considerados excessivamente ruivos, caíam sobre os seus ombros atléticos. Este nativo da Islândia era de aspeto ágil e flexível, embora mal movesse os braços, sendo, de facto, um daqueles homens que desprezam o hábito de gesticular, comum aos povos do sul.
Tudo na maneira de ser deste homem revelava um temperamento calmo e fleumático. Não havia nada de indolente nele, mas o seu aspeto denotava tranquilidade. Era um daqueles que nunca pareciam esperar nada de ninguém, que gostavam de trabalhar quando achavam adequado e cuja filosofia nada podia espantar ou perturbar.
Comecei a compreender o seu caráter, simplesmente pela forma como escutava a verborreia selvagem e apaixonada do meu digno tio. Enquanto o excelente Professor dizia frase atrás de frase, ele permanecia de braços cruzados, totalmente imóvel, indiferente a todos os gestos do meu tio. Quando queria dizer "não", movia a cabeça da esquerda para a direita; quando concordava, assentia tão ligeiramente que mal se podia ver a ondulação da sua cabeça. Esta economia de movimento era levada ao ponto da avareza.
A julgar pelo seu aspeto, teria demorado muito tempo até suspeitar que ele era o que era: um caçador formidável. Certamente, a sua maneira de ser não seria propícia a assustar a caça. Como, então, conseguia chegar à sua presa?
A minha surpresa foi ligeiramente atenuada quando soube que esta personagem tranquila e solene era apenas um caçador de patos-eider, cujo penugem é, afinal, a maior fonte de riqueza dos islandeses.
Nos primeiros dias de verão, a fêmea do eider, uma espécie de pato muito bonito, constrói o seu ninho entre as rochas dos fiordes — o nome dado a todos os golfos estreitos nos países escandinavos — com os quais toda a parte da ilha está recortada. Assim que o pato-eider faz o ninho, forra o interior com a penugem mais macia do seu peito. Depois vem o caçador ou comerciante, que retira o ninho; a pobre fêmea desolada começa a sua tarefa de novo, e isto continua enquanto houver penugem de eider para encontrar.
Quando já não consegue encontrar mais, o macho põe-se a trabalhar para ver o que pode fazer. Como, porém, a sua penugem não é tão macia e, por conseguinte, não tem valor comercial, o caçador não se dá ao trabalho de roubar o forro do ninho. O ninho é, assim, terminado, os ovos são postos, os filhotes nascem e, no ano seguinte, a colheita de penugem de eider é novamente recolhida.
Ora, como o pato-eider nunca escolhe rochas íngremes ou vertentes para construir o seu ninho, mas sim falésias baixas e inclinadas perto do mar, o caçador islandês pode realizar as suas operações comerciais sem grande dificuldade. Ele é como um agricultor que não precisa de arar, semear ou gradar, apenas de recolher a sua colheita.
Este homem grave, sentencioso, silencioso, tão fleumático como um inglês num palco francês, chamava-se Hans Bjelke. Tinha-nos procurado por recomendação do Sr. Fridriksson. Era, de facto, o nosso futuro guia. Ocorreu-me que, se tivesse procurado pelo mundo inteiro, não teria encontrado uma contradição maior para o meu tio impulsivo.
Eles, contudo, entenderam-se facilmente. Nenhum deles pensava em dinheiro; um estava pronto a aceitar tudo o que lhe era oferecido, o outro pronto a oferecer tudo o que lhe era pedido. Pode, portanto, facilmente conceber-se que chegaram rapidamente a um entendimento.
Ora, o entendimento era que ele nos levaria à aldeia de Stapi, situada na vertente sul da península de Sneffels, mesmo ao pé do vulcão. Hans, o guia, disse-nos que a distância era de cerca de vinte e duas milhas, uma viagem que o meu tio supunha que levaria cerca de dois dias.
Mas quando o meu tio percebeu que se tratava de milhas dinamarquesas, de oito mil jardas cada, foi obrigado a ser mais moderado nas suas ideias e, considerando as estradas horríveis que tínhamos de seguir, a prever oito ou dez dias para a viagem.
Foram preparados quatro cavalos para nós, dois para carregar a bagagem e dois para suportar o peso importante de mim e do meu tio. Hans declarou que nada o faria subir para o dorso de qualquer animal. Ele conhecia cada polegada daquela parte da costa e prometeu levar-nos pelo caminho mais curto.
O seu compromisso com o meu tio não terminaria de forma alguma com a nossa chegada a Stapi; ele deveria permanecer ao seu serviço durante todo o tempo necessário para a conclusão das suas investigações científicas, pelo salário fixo de três rix-dólares por semana, o que perfazia exatamente catorze xelins e dois pence, menos um farthing, em moeda inglesa. Uma estipulação, contudo, foi feita pelo guia: o dinheiro devia ser-lhe pago todos os sábados à noite, caso contrário, o seu compromisso estaria terminado.
O dia da nossa partida foi fixado. O meu tio quis entregar ao caçador de penugem de eider um adiantamento, mas ele recusou com uma palavra enfática:
"Efter."
Que, traduzido do islandês para um inglês simples, significa "Depois".
Terminado o tratado, o nosso digno guia retirou-se sem dizer mais uma palavra.
"Um homem esplêndido", disse o meu tio; "apenas ele mal suspeita do papel maravilhoso que está prestes a desempenhar na história do mundo."
"Quer dizer então", exclamei com espanto, "que ele nos deve acompanhar?"
"Ao interior da terra, sim", respondeu o meu tio. "Por que não?"
Ainda faltavam quarenta e oito horas para a nossa partida final. Para meu grande desgosto, todo o nosso tempo foi ocupado com os preparativos para a viagem. Toda a nossa diligência e capacidade foram dedicadas a embalar cada objeto da forma mais vantajosa — os instrumentos de um lado, as armas do outro, as ferramentas aqui e as provisões ali. Havia, de facto, quatro grupos distintos.
Os instrumentos eram, naturalmente, do melhor fabrico:
1. Um termómetro centígrado de Eigel, que contava até 150 graus, o que, para mim, não parecia nem metade do suficiente — nem demasiado. Demasiado quente a meio, se o grau de calor tivesse de subir tanto — caso em que seríamos certamente cozinhados — e não o suficiente se quiséssemos verificar a temperatura exata de fontes ou de metal em estado de fusão.
2. Um manómetro acionado por ar comprimido, um instrumento usado para verificar a pressão atmosférica superior ao nível do oceano. Talvez um barómetro comum não tivesse servido tão bem, sendo provável que a pressão atmosférica aumentasse na proporção em que descêssemos abaixo da superfície da terra.
3. Um cronómetro de primeira classe feito por Boissonnas, de Genebra, acertado pelo meridiano de Hamburgo, a partir do qual os alemães calculam, tal como os ingleses fazem a partir de Greenwich e os franceses a partir de Paris.
4. Duas bússolas, uma para orientação horizontal, a outra para verificar a inclinação.
5. Um óculo noturno.
6. Duas bobinas de Ruhmkorff que, por meio de uma corrente elétrica, nos garantiriam um meio excelente, fácil de transportar e seguro de obter luz.
7. Uma pilha voltaica, baseada no princípio mais recente.[1]
[1] Termómetro (<i>thermos</i> e <i>metron</i>, medida); um instrumento para medir a temperatura do ar. — Manómetro (<i>manos</i> e <i>metron</i>, medida); um instrumento para mostrar a densidade ou raridade dos gases. — Cronómetro (<i>chronos</i>, tempo, e <i>metros</i>, medida), um medidor de tempo, ou relógio superior. — Bobina de Ruhmkorff, um instrumento para produzir correntes de eletricidade induzida de grande intensidade. Consiste numa bobina de fio de cobre, isolada por estar coberta com seda, rodeada por outra bobina de fio fino, também isolada, na qual é induzida uma corrente momentânea quando uma corrente passa através da bobina interior a partir de uma pilha voltaica. Quando o aparelho está em funcionamento, o gás torna-se luminoso e produz uma luz branca e contínua. A bateria e o fio são transportados num saco de couro que o viajante prende por uma correia aos ombros. A lanterna fica à frente e permite ao viajante noturno ver na mais profunda obscuridade. Pode aventurar-se sem medo de explosão no meio dos gases mais inflamáveis, e a lanterna arderá debaixo das águas mais profundas. H. D. Ruhmkorff, um hábil e erudito químico, descobriu a bobina de indução. Em 1864, ganhou o prémio francês quinquenal de 2.000 libras por esta engenhosa aplicação da eletricidade. — Pilha voltaica, assim chamada devido a Volta, o seu criador, é um aparelho que consiste numa série de placas de metal dispostas em pares e submetidas à ação de soluções salinas para produzir correntes de eletricidade.
As nossas armas consistiam em duas espingardas, com dois revólveres de seis tiros. Por que razão estas armas foram fornecidas, era-me impossível dizer. Tinha todas as razões para acreditar que não tínhamos nem feras nem nativos selvagens a temer. O meu tio, por outro lado, era tão dedicado ao seu arsenal como à sua coleção de instrumentos e, acima de tudo, era muito cuidadoso com a sua provisão de algodão fulminante ou pólvora de algodão, garantido para se manter em qualquer clima, e cuja força expansiva se sabia ser superior à da pólvora comum.
As nossas ferramentas consistiam em duas picaretas, dois pés-de-cabra, uma escada de seda, três bastões alpinos com pontas de ferro, um machado, um martelo, uma dúzia de cunhas, alguns pedaços de ferro pontiagudos e uma quantidade de corda forte. Pode imaginar que tudo isto formava uma carga considerável, especialmente quando menciono que a própria escada tinha trezentos pés de comprimento!
Depois veio a importante questão das provisões. O cesto não era muito grande, mas bastante satisfatório, pois sabia que, em essência concentrada de carne e biscoitos, havia o suficiente para durar seis meses. O único líquido fornecido pelo meu tio era Schiedam. De água, nem uma gota. Tínhamos, contudo, uma ampla provisão de cabaças e o meu tio contava encontrar água, e o suficiente para as encher, assim que começássemos a nossa viagem descendente. As minhas observações sobre a temperatura, a qualidade e até a possibilidade de não encontrar nenhuma, permaneceram totalmente sem efeito.
Para completar a lista exata do nosso equipamento de viagem — para orientação de futuros viajantes — acrescente que levávamos uma caixa de medicamentos e cirurgia com todo o aparelho necessário para feridas, fraturas e golpes; ligaduras, tesouras, lancetas — de facto, uma coleção perfeita de instrumentos de aspeto horrível; vários frascos contendo amoníaco, álcool, éter, água de Goulard, vinagre aromático; de facto, todos os medicamentos possíveis e impossíveis — finalmente, todos os materiais para trabalhar a bobina de Ruhmkorff!
O meu tio também teve o cuidado de fazer uma boa provisão de tabaco, vários frascos de pólvora muito fina, caixas de isqueiro, além de um cinto largo cheio de notas e ouro. Botas boas, tornadas estanques, encontravam-se em número de seis na caixa de ferramentas.
"Meu rapaz, com tal vestuário, com tais botas e tal equipamento geral", dizia o meu tio, num estado de deleite arrebatador, "podemos esperar viajar longe."
Levou um dia inteiro a pôr todas estas questões em ordem. À noite, jantámos com o Barão Trampe, na companhia do Presidente da Câmara de Reykjavik e do Doutor Hyaltalin, o grande médico da Islândia. O Sr. Fridriksson não esteve presente e lamentei depois saber que ele e o governador não concordavam em alguns assuntos ligados à administração da ilha. Infelizmente, a consequência foi que não compreendi uma palavra do que foi dito ao jantar — uma espécie de receção semioficial. Uma coisa posso dizer, o meu tio nunca parou de falar.
No dia seguinte, o nosso trabalho chegou ao fim. O nosso digno anfitrião deleitou o meu tio, o Professor Hardwigg, ao oferecer-lhe um bom mapa da Islândia, um documento preciosíssimo para um mineralogista.
A nossa última noite foi passada numa longa conversa com o Sr. Fridriksson, de quem gostei muito — tanto mais que nunca esperei voltar a vê-lo a ele ou a qualquer outra pessoa. Depois desta forma agradável de passar uma hora ou mais, tentei dormir. Em vão; com exceção de algumas sestas, a minha noite foi miserável.
Às cinco horas da manhã, fui despertado da única meia hora de sono verdadeiro da noite pelo relinchar ruidoso dos cavalos debaixo da minha janela. Vesti-me apressadamente e desci à rua. Hans estava ocupado a dar o toque final à nossa bagagem, o que fez de uma forma silenciosa e calma que ganhou a minha admiração, e, ainda assim, fê-lo de maneira admirável. O meu tio desperdiçou muito fôlego a dar-lhe instruções, mas o digno Hans não prestou a menor atenção às suas palavras.
Às seis horas, todos os nossos preparativos estavam concluídos e o Sr. Fridriksson apertou-nos a mão cordialmente. O meu tio agradeceu-lhe calorosamente, em língua islandesa, pela sua amável hospitalidade, falando verdadeiramente do fundo do coração.
Quanto a mim, reuni algumas das minhas melhores frases em latim e prestei-lhe os maiores elogios que pude. Cumprido este dever fraternal e amigável, partimos e montámos os nossos cavalos.
Assim que estivemos prontos, o Sr. Fridriksson aproximou-se e, a título de despedida, chamou-me com as palavras de Virgílio — palavras que pareciam ter sido feitas para nós, viajantes a caminho de um destino incerto:
"Et quacunque viam dederit fortuna sequamur."
("E qualquer que seja o caminho que a fortuna nos der, sigamo-lo!")
CAPÍTULO 9
A NOSSA PARTIDA — ENCONTRAMOS AVENTURAS PELO CAMINHO
O tempo estava nublado, mas estável, quando iniciámos a nossa aventurosa e perigosa viagem. Não tínhamos de temer nem o calor fatigante nem a chuva torrencial. Era, de facto, um verdadeiro tempo de turista.
Como não havia nada de que eu gostasse mais do que exercício a cavalo, o prazer de cavalgar por um país desconhecido tornou a parte inicial do nosso empreendimento particularmente agradável para mim.
Comecei a desfrutar do deleite estimulante de viajar, uma vida de desejo, gratificação e liberdade. A verdade é que o meu ânimo subiu tão rapidamente que comecei a ficar indiferente ao que antes me parecia ser uma viagem terrível.
"Afinal", disse para comigo, "o que arrisco? Simplesmente fazer uma viagem através de um país curioso, escalar uma montanha notável e, na pior das hipóteses, descer à cratera de um vulcão extinto."
Não havia dúvida de que era apenas isso que o terrível Saknussemm tinha feito. Quanto à existência de uma galeria, ou de passagens subterrâneas que conduzissem ao interior da terra, a ideia era simplesmente absurda, a alucinação de uma imaginação doentia. Tudo o que me for pedido, farei, portanto, alegremente, e não criarei dificuldades.
Foi pouco antes de deixarmos Reykjavik que tomei esta decisão.
Hans, o nosso extraordinário guia, ia à frente, caminhando com um passo firme, rápido e invariável. Os nossos dois cavalos com a bagagem seguiam por vontade própria, sem precisarem de chicote ou esporas. O meu tio e eu vínhamos atrás, mantendo uma postura muito tolerável sobre os nossos pequenos mas vigorosos animais.
A Islândia é uma das maiores ilhas da Europa. Contém trinta mil milhas quadradas de superfície e tem cerca de setenta mil habitantes. Os geógrafos dividiram-na em quatro partes, e tínhamos de atravessar o quarto sudoeste, que na língua vernácula se chama Sudvestr Fjordungr.
Hans, ao partir de Reykjavik, tinha seguido a linha do mar. Seguimos o nosso caminho através de prados pobres e esparsos, que faziam um esforço desesperado todos os anos para exibir um pouco de verde. Raramente conseguem um bom tom de amarelo.
Os cumes acidentados das colinas rochosas eram fracamente visíveis no limite do horizonte, através dos nevoeiros; de vez em quando, alguns flocos pesados de neve mostravam-se conspícuos na luz da manhã, enquanto certas rochas elevadas e pontiagudas perdiam-se primeiro nas nuvens baixas e cinzentas, com os seus cumes claramente visíveis por cima, como recifes irregulares a erguerem-se de um mar agitado.
De vez em quando, um esporão de rocha descia pelo solo árido, deixando-nos pouco espaço para passar. Os nossos cavalos, no entanto, pareciam não só bem familiarizados com o país, como, por uma espécie de instinto, sabiam qual era o melhor caminho. O meu tio nem sequer teve a satisfação de incitar o seu corcel com o chicote, a espora ou a voz. Era totalmente inútil mostrar quaisquer sinais de impaciência. Não pude deixar de sorrir ao vê-lo parecer tão grande no seu pequeno cavalo; as suas pernas compridas tocando de vez em quando o chão faziam-no parecer um centauro de seis patas.
"Bom animal, bom animal", gritava ele. "Garanto-vos que começo a pensar que nenhum animal é mais inteligente do que um cavalo islandês. Neve, tempestade, estradas impraticáveis, rochas, icebergs — nada o detém. Ele é corajoso; é sóbrio; é seguro; nunca dá um passo em falso; nunca desliza ou escorrega do seu caminho. Atrevo-me a dizer que, se for preciso atravessar algum rio ou algum fiorde — e não tenho dúvidas de que haverá muitos —, vê-lo-á entrar na água sem hesitação, como um animal anfíbio, e chegar ao lado oposto em segurança. Não devemos, contudo, tentar apressá-lo; devemos deixar que ele siga o seu próprio caminho, e encarrego-me de dizer que, entre nós, faremos as nossas dez léguas por dia."
"Poderemos fazê-lo", foi a minha resposta, "mas e quanto ao nosso digno guia?"
"Não tenho a menor preocupação com ele: esse tipo de gente segue em frente sem sequer saber o que está a fazer. Olhe para o Hans. Ele move-se tão pouco que é impossível que fique fatigado. Além disso, se ele se queixasse de cansaço, poderia tomar emprestado o meu cavalo. Eu teria um ataque violento de cãibras se não fizesse algum tipo de exercício. Os meus braços estão bem — mas as minhas pernas estão a ficar um pouco rígidas."
Durante todo este tempo, avançávamos a um ritmo acelerado. O país a que tínhamos chegado era já quase um deserto. Aqui e ali podiam ver-se quintas isoladas, algum bur solitário ou casa islandesa, construída de madeira, terra, fragmentos de lava — parecendo mendigos na estrada da vida. Estas choças miseráveis e desgraçadas despertavam em nós tanta piedade que nos sentíamos quase dispostos a deixar esmolas em cada porta. Neste país não há estradas, os caminhos são quase desconhecidos e a vegetação, pobre como era, tão lentamente quanto atingia a perfeição, obliterava rapidamente todos os vestígios dos poucos viajantes que passavam de um lugar para outro.
No entanto, esta divisão da província, situada a apenas algumas milhas da capital, é considerada uma das mais bem cultivadas e mais densamente povoadas de toda a Islândia. Qual será, então, o estado das partes menos conhecidas e mais distantes da ilha? Depois de termos viajado uma milha dinamarquesa inteira, não encontrámos nem um agricultor à porta da sua cabana, nem sequer um pastor errante com o seu rebanho selvagem e indómito.
Apenas se viam ocasionalmente algumas vacas e ovelhas tresmalhadas. O que esperar, então, quando chegarmos às regiões elevadas — aos distritos rompidos e tornados ásperos por erupções vulcânicas e comoções subterrâneas?
Hávamos de aprender isso a seu tempo. Vi, no entanto, ao consultar o mapa, que evitávamos uma boa parte deste país acidentado ao seguir as margens sinuosas e desoladas do mar. Na realidade, o grande movimento vulcânico da ilha, e todos os fenómenos que o acompanham, estão concentrados no interior da ilha; ali, camadas horizontais ou estratos de rochas, empilhados uns sobre os outros, erupções de origem basáltica e correntes de lava deram a este país uma espécie de reputação sobrenatural.
Pouco esperava eu, contudo, o espetáculo que nos aguardava quando chegámos à península de Sneffels, onde aglomerados de ruínas da natureza formam uma espécie de caos terrível.
Cerca de duas horas ou mais depois de termos deixado a cidade de Reykjavik, chegámos à pequena cidade chamada Aoalkirkja, ou a igreja principal. Consiste simplesmente em algumas casas — não o que na Inglaterra ou na Alemanha chamaríamos uma aldeia.
Hans parou aqui meia hora. Partilhou o nosso frugal pequeno-almoço, respondeu a "Sim" e "Não" às perguntas do meu tio sobre a natureza da estrada e, finalmente, quando questionado sobre onde iríamos passar a noite, foi tão lacónico como de costume.
"Gardar!", foi a sua resposta de uma só palavra.
Aproveitei a oportunidade para consultar o mapa, para ver onde se encontrava Gardar. Depois de olhar atentamente, encontrei uma pequena cidade com esse nome nas margens do Hvalfjord, a cerca de quatro milhas de Reykjavik. Apontei isto ao meu tio, que fez uma careta muito enérgica.
"Apenas quatro milhas de vinte e duas? Mas isto é apenas um pequeno passeio."
Ele estava prestes a fazer uma observação enérgica ao guia, mas Hans, sem prestar a menor atenção, passou à frente dos cavalos e caminhou adiante com a mesma fleuma imperturbável que sempre exibira.
Três horas mais tarde, ainda viajando sobre aquelas pradarias aparentemente intermináveis e arenosas, fomos obrigados a contornar o Kollafjord, um caminho mais fácil e curto do que atravessar os golfos. Pouco depois, entrámos num lugar de jurisdição comunal chamado Ejulberg, cujo relógio teria então batido as doze, se alguma igreja islandesa tivesse sido rica o suficiente para possuir um artigo tão valioso e útil. Estes edifícios sagrados são, contudo, muito parecidos com estas pessoas, que passam sem relógios — e nunca sentem a sua falta.
Aqui, permitiu-se que os cavalos descansassem e se refrescassem; depois, seguindo uma estreita faixa de costa entre rochas altas e o mar, levaram-nos sem mais paragens até à Aoalkirkja de Brantar e, após mais uma milha, até Saurboer Annexia, uma capela de auxílio, situada na margem sul do Hvalfjord.
Eram quatro horas da tarde e tínhamos viajado quatro milhas dinamarquesas, cerca de vinte milhas inglesas.
O fiorde tinha neste local cerca de meia milha de largura. As ondas arrebatadoras e quebradas vinham rolar contra as rochas pontiagudas; o golfo estava rodeado por paredes rochosas — uma falésia imponente, com três mil pés de altura, notável pelos seus estratos castanhos, separados aqui e ali por leitos de tufo de uma tonalidade avermelhada. Ora, qualquer que fosse a inteligência dos nossos cavalos, eu não tinha a menor confiança neles como meio de atravessar um braço de mar tempestuoso. Cavalgar sobre água salgada no dorso de um pequeno cavalo parecia-me absurdo.
"Se eles são realmente inteligentes", disse para comigo, "certamente não tentarão. De qualquer modo, confiarei mais na minha própria inteligência do que na deles."
Mas o meu tio não estava com disposição para esperar. Cravou os calcanhares nos flancos do seu corcel e dirigiu-se à costa. O seu cavalo foi até à própria borda da água, farejou a onda que se aproximava e recuou.
O meu tio, que era, diga-se a verdade, tão obstinado quanto a besta que montava, insistiu em que ele fizesse o avanço desejado. Esta tentativa foi seguida por uma nova recusa da parte do cavalo, que abanou calmamente a cabeça. Esta demonstração de rebeldia foi seguida por uma chuva de palavras e uma aplicação vigorosa de chicote; também seguida por coices da parte do cavalo, que atirou a cabeça e os calcanhares para cima e tentou lançar o seu cavaleiro. Finalmente, o robusto pequeno pónei, abrindo as pernas numa atitude rígida e ridícula, saiu debaixo das pernas do Professor e deixou-o de pé, com cada pé numa pedra separada, como o Colosso de Rodes.
"Animal miserável!", gritou o meu tio, subitamente transformado num pedestre — e tão zangado e envergonhado como um oficial de cavalaria apeado no campo de batalha.
"Farja", disse o guia, dando-lhe uma palmadinha familiar no ombro.
"O quê, um barco de ferry?"
"Der", respondeu Hans, apontando para onde estava o barco em questão — "ali".
"Bem", exclamei, bastante encantado com a informação; "assim é."
"Porque não disse isso antes", gritou o meu tio; "porque não partimos imediatamente?"
"Tidvatten", disse o guia.
"O que é que ele diz?", perguntei, consideravelmente intrigado com o atraso e o diálogo.
"Ele diz maré", respondeu o meu tio, traduzindo a palavra dinamarquesa para minha informação.
"Claro, compreendo — temos de esperar que a maré sirva."
"For bida?", perguntou o meu tio.
"Ja", respondeu Hans.
O meu tio franziu o sobrolho, bateu com os pés e depois seguiu os cavalos até onde estava o barco.
Compreendi perfeitamente e apreciei a necessidade de esperar, antes de atravessar o fiorde, por aquele momento em que o mar, no seu ponto mais alto, se encontra num estado de maré morta. Como nem o fluxo nem o refluxo se podem sentir então, o barco de ferry não corria o risco de ser arrastado para o alto mar ou atirado contra a costa rochosa.
O momento favorável não chegou antes das seis horas da tarde. Então, o meu tio, eu próprio, o guia, dois barqueiros e os quatro cavalos entrámos num barco de fundo chato bastante desajeitado. Habituado como estava aos barcos a vapor do Elba, achei os remos longos dos barqueiros meios bastante medíocres de locomoção. Demorámos mais de uma hora a atravessar o fiorde; mas, finalmente, a passagem foi concluída sem acidentes.
Meia hora depois, chegámos a Gardar.
CAPÍTULO 10
VIAJAR NA ISLÂNDIA
Deveria ter sido noite, pensar-se-ia, mesmo no sexagésimo quinto paralelo de latitude; mas, ainda assim, a iluminação noturna não me surpreendeu. Pois na Islândia, durante os meses de junho e julho, o sol nunca se põe.
A temperatura, contudo, era muito mais baixa do que eu esperava. Estava com frio, mas nem isso me afetava tanto como uma fome voraz. Foi, portanto, muito bem-vinda a cabana que nos abriu hospitaleiramente as suas portas.
Era apenas a casa de um camponês, mas, em matéria de hospitalidade, era digna de ser o palácio de um rei. Quando descemos à porta, o dono da casa adiantou-se, estendeu a mão e, sem mais cerimónias, fez sinal para que o seguíssemos.
Seguimo-lo, pois acompanhá-lo era impossível. Uma passagem longa, estreita e sombria conduzia ao interior desta habitação, feita de vigas desbastadas grosseiramente pelo machado. Esta passagem dava entrada para todas as divisões. Os aposentos eram quatro — a cozinha, a oficina, onde se realizava a tecelagem, o quarto de dormir geral da família e a melhor divisão, para a qual os estranhos eram especialmente convidados. O meu tio, cuja estatura elevada não tinha sido tida em conta quando a casa foi construída, conseguiu bater com a cabeça nas vigas do telhado.
Fomos introduzidos no nosso aposento, uma espécie de grande sala com um chão de terra batida e iluminada por uma janela, cujos vidros eram feitos de uma espécie de pergaminho das entranhas de ovelhas — muito longe de serem transparentes.
A roupa de cama era composta por feno seco atirado para duas caixas compridas de madeira vermelha, ornamentadas com frases pintadas em islandês. Eu realmente não fazia ideia de que seríamos tão bem acomodados. Havia uma objeção à casa, e essa era o odor muito forte a peixe seco, a carne macerada e a leite azedo, que as três fragrâncias combinadas não agradavam nada aos meus nervos olfativos.
Assim que nos livrámos do nosso pesado traje de viagem, ouviu-se a voz do nosso anfitrião a chamar-nos para a cozinha, a única divisão em que os islandeses fazem qualquer lume, não importa o frio que esteja.
O meu tio, nada relutante, apressou-se a obedecer a este convite hospitaleiro e amigável. Eu segui-o.
A chaminé da cozinha foi feita segundo um modelo antigo. Uma grande pedra, colocada no meio da sala, era a lareira; em cima, no telhado, havia um buraco para o fumo passar. Este aposento era cozinha, sala de estar e sala de jantar, tudo num só.
À nossa entrada, o nosso digno anfitrião, como se não nos tivesse visto antes, avançou cerimoniosamente, proferiu uma palavra que significa "seja feliz" e depois beijou-nos a ambos na face.
A sua mulher seguiu-se, pronunciou a mesma palavra, com a mesma cerimónia; depois, o marido e a mulher, colocando as mãos direitas sobre os corações, fizeram uma vénia profunda.
Esta excelente mulher islandesa era mãe de dezanove filhos, que, pequenos e grandes, rebolavam, gatinhavam e caminhavam no meio de nuvens de fumo que subiam da lareira angular no meio da sala. De vez em quando, podia ver uma cabeça branca e fresca, e uma expressão de semblante ligeiramente melancólica, a espreitar-me através do vapor.
Tanto o meu tio como eu, contudo, fomos muito amigáveis com todo o grupo e, antes de nos apercebermos, havia três ou quatro daqueles pequenos aos nossos ombros, outros tantos nas nossas caixas e o resto pendurado nas nossas pernas. Aqueles que sabiam falar continuavam a gritar *saellvertu* em todas as tonalidades possíveis e impossíveis. Aqueles que não falavam faziam ainda mais barulho.
Este concerto foi interrompido pelo anúncio da ceia. Neste momento, o nosso digno guia, o caçador de patos-eider, entrou depois de cuidar da alimentação e de alojar os cavalos — o que consistia em deixá-los soltos para pastar no verde atarracado das pradarias islandesas. Havia pouco para eles comerem, além de musgo e alguma erva muito seca e pouco nutritiva; no dia seguinte, estavam prontos antes da porta, algum tempo antes de nós.
"Bem-vindos", disse Hans.
Depois, tranquilamente, com o ar de um autómato, sem mais expressão num beijo do que noutro, abraçou o anfitrião, a anfitriã e os seus dezanove filhos.
Concluída esta cerimónia para satisfação de todas as partes, sentámo-nos todos à mesa, ou seja, vinte e quatro, um pouco apertados. Aqueles que estavam melhor tinham apenas dois juvenis aos joelhos.
Assim que a inevitável sopa foi colocada na mesa, no entanto, a taciturnidade natural, comum até aos bebés islandeses, prevaleceu sobre tudo o resto. O nosso anfitrião encheu os nossos pratos com uma porção de sopa de líquen, de musgo da Islândia, de sabor de forma alguma desagradável, um enorme pedaço de peixe a flutuar em manteiga azeda. Depois disso, veio algum *skyr*, uma espécie de coalhada com soro, servida com biscoitos e sumo de bagas de zimbro. Para beber, tínhamos *blanda*, leite desnatado com água. Estava com fome, tanta fome, que, como sobremesa, acabei com uma tigela de papa de aveia espessa.
Assim que a refeição terminou, as crianças desapareceram, enquanto os adultos se sentaram à volta da lareira, onde havia turfa, urze, estrume de vaca e espinhas de peixe secas. Assim que todos estavam suficientemente quentes, ocorreu uma dispersão geral, retirando-se todos para os seus respetivos leitos. A nossa anfitriã ofereceu-se para tirar as nossas meias e calças, de acordo com o costume do país, mas como declinámos graciosamente ser tão honrados, deixou-nos entregues à nossa cama de forragem seca.
No dia seguinte, às cinco da manhã, despedimo-nos destes camponeses hospitaleiros. O meu tio teve grande dificuldade em fazê-los aceitar uma remuneração suficiente e adequada.
Hans deu então o sinal de partida.
Mal tínhamos percorrido cem jardas de Gardar, o caráter do país mudou. O solo começou a ser pantanoso e lamacento, e menos favorável ao progresso. À direita, a cordilheira de montanhas prolongava-se indefinidamente como um grande sistema de fortificações naturais, do qual contornámos a encosta. Encontrámos numerosos ribeiros e riachos que era necessário atravessar a vau, e isso sem molhar a nossa bagagem. À medida que avançávamos, a aparência deserta aumentava, e ainda assim, de vez em quando, podíamos ver sombras humanas a passar à distância. Quando uma curva repentina do caminho nos colocou ao alcance fácil de um destes espectros, senti um impulso súbito de repulsa à vista de uma cabeça inchada, com pele brilhante, totalmente sem cabelo, e cujas feridas repulsivas e revoltantes podiam ser vistas através dos seus trapos. Os infelizes desgraçados nunca se adiantavam para pedir esmola; pelo contrário, fugiam; não tão rapidamente, contudo, que Hans não fosse capaz de os saudar com o universal *saellvertu*.
"Spetelsk", disse ele.
"Um leproso", explicou o meu tio.
O próprio som de tal palavra causava um sentimento de repulsa. A terrível aflição conhecida como lepra, que quase desapareceu perante os efeitos da ciência moderna, é comum na Islândia. Não é contagiosa, mas hereditária, pelo que o casamento é estritamente proibido a estas infelizes criaturas.
Estes pobres leprosos não tendiam a animar a nossa viagem, cujo cenário era inexprimivelmente triste e solitário. Os derradeiros tufos de vegetação rasteira pareciam morrer aos nossos pés. Nem uma árvore se avistava, exceto alguns salgueiros raquíticos, quase do tamanho de arbustos de amora silvestre. De vez em quando, observávamos um falcão a pairar no ar cinzento e enevoado, empreendendo o seu voo em direção a regiões mais quentes e soalheiras. Não pude evitar sentir uma melancolia a apoderar-se de mim. Suspirei pela minha própria terra natal e desejei estar de volta com Gretchen.
Fomos compelidos a atravessar vários pequenos fiordes e, por fim, chegámos a um verdadeiro golfo. A maré estava no seu auge, pelo que conseguimos passar de imediato e alcançar a aldeia de Alftanes, cerca de uma milha mais adiante.
Nessa noite, depois de vadear o Alfa e o Heta, dois rios ricos em trutas e lúcios, fomos obrigados a passar a noite numa casa deserta, digna de ser assombrada por todas as fadas da mitologia escandinava. O Rei do Frio ali se instalara e fez-nos sentir a sua presença durante toda a noite.
O dia seguinte foi notável pela ausência de quaisquer incidentes particulares. Sempre o mesmo solo húmido e pantanoso; a mesma uniformidade lúgubre; o mesmo aspeto triste e monótono da paisagem. À noite, tendo cumprido metade da nossa jornada projetada, dormimos no anexo de Krosolbt.
Durante uma milha inteira, não tivemos sob os pés nada além de lava. Esta disposição do solo é chamada *hraun*: a lava esfarelada à superfície era, em alguns casos, semelhante a cabos de navio estendidos horizontalmente, noutros, enrolada em montes; um imenso campo de lava provinha das montanhas vizinhas, todos vulcões extintos, cujos vestígios mostravam o que outrora tinham sido. Aqui e ali, podiam distinguir-se os vapores de nascentes de água quente.
Não havia tempo, contudo, para fazermos mais do que uma observação superficial destes fenómenos. Tínhamos de avançar com a maior rapidez possível. Em breve, o solo macio e pantanoso apareceu novamente sob os pés dos nossos cavalos, enquanto a cada cem metros encontrávamos um ou mais pequenos lagos. A nossa viagem seguia agora na direção oeste; tínhamos, de facto, contornado a grande baía de Faxa, e os dois cumes brancos de Sneffels erguiam-se até às nuvens a uma distância de menos de cinco milhas.
Os cavalos avançavam agora rapidamente. Os acidentes e as dificuldades do solo já não os detinham. Confesso que o cansaço começou a afetar-me severamente; mas o meu tio estava tão firme e duro como no primeiro dia. Não pude deixar de admirar tanto o excelente Professor quanto o digno guia; pois pareciam considerar esta expedição acidentada como um simples passeio!
No sábado, 20 de junho, às seis horas da tarde, chegámos a Budir, uma pequena cidade pitorescamente situada na margem do oceano; e aqui o guia pediu o seu dinheiro. O meu tio pagou-lhe imediatamente. Foi então a família do próprio Hans, isto é, os seus tios e primos-direitos, que nos ofereceu hospitalidade. Fomos excecionalmente bem recebidos e, sem abusar demasiado da bondade daquelas pessoas dignas, teria gostado muito de descansar com eles após as fadigas da viagem. Mas o meu tio, que não precisava de descanso, não tinha ideia de algo semelhante; e, apesar de o dia seguinte ser domingo, fui compelido a montar o meu corcel mais uma vez.
O solo era novamente afetado pela vizinhança das montanhas, cujo granito espreitava do solo como as copas de um velho carvalho. Estávamos a contornar a enorme base do poderoso vulcão. O meu tio nunca tirava os olhos dele; não conseguia evitar gesticular e olhar para ele com uma espécie de desafio sombrio, como se dissesse: "Esse é o gigante que decidi conquistar."
Após quatro horas de viagem constante, os cavalos pararam por si mesmos diante da porta da reitoria de Stapi.
CAPÍTULO 11
CHEGAMOS AO MONTE SNEFFELS – O "REYKIR"
Stapi é uma povoação que consiste em trinta cabanas, construídas sobre uma grande planície de lava, exposta aos raios do sol refletidos pelo vulcão. Estende as suas humildes habitações ao longo do fim de um pequeno fiorde, rodeado por uma parede basáltica da natureza mais singular.
O basalto é uma rocha castanha de origem ígnea. Assume formas regulares que espantam pela sua aparência singular. Aqui encontrámos a Natureza a proceder geometricamente e a trabalhar de uma forma bastante humana, como se tivesse empregado o fio de prumo, o compasso e a régua. Se noutros lugares produz grandiosos efeitos artísticos ao empilhar massas enormes sem ordem ou ligação — se noutros lugares vemos cones truncados, pirâmides imperfeitas, com uma estranha sucessão de linhas; aqui, como se quisesse dar uma lição de regularidade e precedendo os arquitetos das eras primitivas, erigiu uma ordem severa de arquitetura, que nem os esplendores da Babilónia nem as maravilhas da Grécia jamais superaram.
Eu ouvira frequentemente falar da Calçada dos Gigantes na Irlanda e da Gruta de Fingal numa das Hébridas, mas o grande espetáculo de uma verdadeira formação basáltica nunca tinha passado perante os meus olhos.
Esta, em Stapi, deu-nos uma ideia de uma em toda a sua beleza e graça maravilhosas.
A parede do fiorde, tal como quase toda a península, consistia numa série de colunas verticais, com cerca de trinta pés de altura. Estes pilares de pedra eretos, das mais finas proporções, sustentavam um arquivolta de colunas horizontais que formava uma espécie de teto semiabobadado sobre o mar. A certos intervalos, e abaixo desta bacia natural, o olho era agradado e surpreendido pela visão de aberturas ovais através das quais as ondas exteriores entravam trovejando em salvas de espuma. Alguns bancos de basalto, arrancados das suas fixações pela fúria das ondas, jaziam espalhados pelo solo como as ruínas de um templo antigo — ruínas eternamente jovens, sobre as quais as tempestades das eras varriam sem produzir qualquer efeito percetível!
Esta foi a última etapa da nossa jornada. Hans tinha-nos conduzido com fidelidade e inteligência, e comecei a sentir-me um pouco mais confortável quando refleti que ele nos acompanharia ainda mais longe no nosso caminho.
Quando parámos diante da casa do Reitor, uma cabana pequena e incómoda, nem mais bonita nem mais confortável do que as dos seus vizinhos, vi um homem no ato de ferrar um cavalo, um martelo na mão e um avental de couro atado à cintura.
"Sê feliz", disse o caçador de penugem de eider, usando a sua saudação nacional na sua própria língua.
"God dag — bom dia!", respondeu o primeiro, num dinamarquês excelente.
"Kyrkoherde", gritou Hans, voltando-se e apresentando-o ao meu tio.
"O Reitor", repetiu o digno Professor; "parece, meu caro Harry, que este homem digno é o Reitor e não se importa de fazer o seu próprio trabalho."
Enquanto estas palavras eram ditas, o guia deu a entender ao Kyrkoherde qual era o verdadeiro estado da questão. O bom homem, cessando a sua ocupação, deu um grito, ao qual uma mulher alta, quase uma gigante, saiu da cabana. Ela tinha pelo menos seis pés de altura, o que naquela região é algo considerável.
A minha primeira impressão foi de horror. Pensei que ela tinha vindo para nos dar o beijo islandês. Eu, contudo, não tinha nada a temer, pois ela nem sequer mostrou muita inclinação para nos receber na sua casa.
O quarto destinado aos estranhos pareceu-me ser de longe o pior da reitoria; era estreito, sujo e ofensivo. Não havia, contudo, escolha sobre o assunto. O Reitor não tinha noção de praticar a habitual hospitalidade cordial e antiga. Longe disso. Antes do dia terminar, descobri que tínhamos de lidar com um ferreiro, um pescador, um caçador, um carpinteiro, tudo menos um clérigo. Deve dizer-se a seu favor que o apanhámos num dia de semana; provavelmente parecia mais vantajoso ao domingo.
Estes pobres padres recebem do governo dinamarquês um salário ridiculamente inadequado e recolhem um quarto do dízimo da sua paróquia — não mais do que sessenta marcos correntes, ou cerca de 3 libras e 10 xelins esterlinos. Daí a necessidade de trabalhar para viver. Em verdade, logo descobrimos que o nosso anfitrião não contava a civilidade entre as virtudes cardeais.
O meu tio logo se apercebeu do tipo de homem com quem tinha de lidar. Em vez de um estudioso digno e erudito, encontrou um camponês obtuso e mal-educado. Resolveu, portanto, iniciar a sua grande expedição o mais depressa possível. Não se preocupava com o cansaço e resolveu passar alguns dias nas montanhas.
Os preparativos para a nossa partida foram feitos logo no dia seguinte à nossa chegada a Stapi; Hans contratou três islandeses para ocuparem o lugar dos cavalos — que já não podiam transportar a nossa bagagem. Contudo, quando estes dignos ilhéus chegassem ao fundo da cratera, teriam de voltar e deixar-nos entregues a nós próprios. Este ponto foi estabelecido antes de concordarem em partir.
Nesta ocasião, o meu tio confiou parcialmente em Hans, o caçador de patos-eider, e deu-lhe a entender que era sua intenção continuar a sua exploração do vulcão até aos últimos limites possíveis.
Hans ouviu calmamente e depois acenou com a cabeça. Ir para ali, ou para qualquer outro lugar, enterrar-se nas entranhas da terra ou viajar sobre os seus cumes, era tudo o mesmo para ele! Quanto a mim, divertido e ocupado pelos incidentes da viagem, tinha começado a esquecer o futuro inevitável; mas agora estava mais uma vez destinado a realizar o estado real dos assuntos. O que fazer? Fugir? Mas se eu realmente tivesse tido a intenção de abandonar o Professor Hardwigg à sua sorte, deveria ter sido em Hamburgo e não no sopé do Sneffels.
Uma ideia, acima de todas as outras, começou a preocupar-me: uma ideia muito terrível e calculada para abalar os nervos de um homem ainda menos sensível do que eu.
"Consideremos o assunto", disse para comigo; "vamos subir o monte Sneffels. Muito bem. Vamos fazer uma visita ao próprio fundo da cratera. Bom, ainda assim. Outros fizeram-no e não pereceram por esse caminho."
"Isso, contudo, não é a totalidade do assunto a ser considerado. Se um caminho se apresenta realmente para descer às escuras e subterrâneas entranhas da Mãe Terra, se este três vezes infeliz Saknussemm disse realmente a verdade, seremos certamente perdidos no meio do labirinto de galerias subterrâneas do vulcão. Ora, não temos provas de que o Sneffels esteja realmente extinto. Que prova temos de que uma erupção não está prestes a ocorrer? Porque o monstro dormiu profundamente desde 1219, segue-se que ele nunca acordará?"
"Se ele acordar, o que será de nós?"
Estas eram perguntas sobre as quais valia a pena pensar, e nelas refleti longa e profundamente. Não podia deitar-me em busca de sono sem sonhar com erupções. Quanto mais pensava, mais me opunha a ser reduzido ao estado de escória e cinzas.
Não podia aguentar mais; então decidi, por fim, submeter todo o caso ao meu tio, da forma mais astuta possível e sob a forma de alguma hipótese totalmente irreconciliável.
Procurei-o. Expus-lhe os meus medos e depois recuei para o deixar passar a sua paixão à vontade.
"Tenho pensado sobre o assunto", disse ele, no tom mais calmo do mundo.
O que queria ele dizer? Estaria finalmente prestes a ouvir a voz da razão? Pensava ele em suspender os seus projetos? Era quase felicidade demais para ser verdade.
Contudo, não fiz qualquer observação. Na verdade, estava apenas demasiado ansioso para não o interromper e permiti-lhe refletir à vontade. Após alguns momentos, ele falou.
"Tenho pensado sobre o assunto", recomeçou. "Desde que estamos em Stapi, a minha mente tem estado quase exclusivamente ocupada com a grave questão que me foi submetida por ti — pois nada seria mais imprudente e mais inconsistente do que agir com imprudência."
"Concordo plenamente consigo, meu caro tio", foi a minha resposta algo esperançosa.
"Passaram seiscentos anos desde que o Sneffels falou, mas, embora agora reduzido a um estado de silêncio absoluto, ele pode falar de novo. Novas erupções vulcânicas são sempre precedidas por fenómenos perfeitamente bem conhecidos. Examinei de perto os habitantes desta região; estudei cuidadosamente o solo e peço-lhe que entenda, meu caro Harry, que não haverá erupção por agora."
Ao ouvir as suas afirmações positivas, fiquei estupefacto e não pude dizer nada.
"Vejo que duvidas da minha palavra", disse o meu tio; "segue-me."
Obedeci mecanicamente.
Deixando a reitoria, o Professor tomou um caminho através de uma abertura na rocha basáltica, que conduzia para longe do mar. Em breve estávamos em campo aberto, se pudéssemos dar tal nome a um lugar todo coberto de depósitos vulcânicos. Toda a terra parecia esmagada sob o peso de pedras enormes — de traquito, de basalto, de granito, de lava e de todas as outras substâncias vulcânicas.
Podia ver muitos jatos de vapor elevando-se no ar. Estes vapores brancos, chamados na língua islandesa "reykir", provêm de nascentes de água quente e indicam pela sua violência a atividade vulcânica do solo. Ora, a visão destes parecia justificar a minha apreensão. Fiquei, portanto, tanto mais surpreendido e mortificado quando o meu tio se dirigiu a mim desta forma.
"Vês todo este fumo, Harry, meu rapaz?"
"Sim, senhor."
"Bem, enquanto os vires assim, não tens nada a temer do vulcão."
"Como pode ser isso?"
"Tem o cuidado de te lembrares disto", continuou o Professor. "Na aproximação de uma erupção, estes jatos de vapor redobram a sua atividade — para desaparecerem completamente durante o período da erupção vulcânica; pois os fluidos elásticos, já não tendo a tensão necessária, procuram refúgio no interior da cratera, em vez de escaparem pelas fissuras da terra. Se, então, o vapor permanece no seu estado normal ou habitual, se a sua energia não aumenta, e se adicionares a isto a observação de que o vento não é substituído por uma forte pressão atmosférica e uma calma absoluta, podes ter a certeza de que não há receio de qualquer erupção imediata."
"Mas..."
"Basta, meu rapaz. Quando a ciência emitiu o seu decreto, resta apenas ouvir e obedecer."
Regressei à casa bastante abatido e desapontado. O meu tio tinha-me derrotado completamente com os seus argumentos científicos. No entanto, ainda tinha uma esperança, e era a de que, uma vez chegados ao fundo da cratera, seria impossível, na falta de uma galeria ou túnel, descer mais profundamente; e isto, apesar de todos os sábios Saknussemms do mundo.
Passei a noite seguinte inteira com um pesadelo no peito! E, após misérias e torturas inauditas, encontrei-me nas profundezas da terra, de onde fui subitamente lançado para o espaço planetário, sob a forma de uma rocha eruptiva!
No dia seguinte, 23 de junho, Hans aguardava-nos calmamente fora da reitoria com os seus três companheiros carregados de provisões, ferramentas e instrumentos. Dois bastões com ponta de ferro, duas espingardas e dois grandes sacos de caça foram reservados para o meu tio e para mim. Hans, que era um homem que nunca esquecia nem as mais minuciosas precauções, tinha adicionado à nossa bagagem uma grande pele cheia de água, como complemento aos nossos cantis. Isto assegurava-nos água por oito dias.
Eram nove horas da manhã quando estávamos completamente prontos. O reitor e a sua enorme mulher ou serva, nunca soube qual, estavam à porta para nos ver partir. Pareciam estar prestes a infligir-nos o habitual beijo final dos islandeses. Para nosso supremo espanto, o seu adeus tomou a forma de uma conta formidável, na qual contaram até o uso da casa pastoral, verdadeiramente e na realidade o lugar mais abominável e sujo em que alguma vez estive. O digno casal enganou-nos e roubou-nos como um estalajadeiro suíço, e fez-nos sentir, pela soma que tivemos de pagar, os esplendores da sua hospitalidade.
O meu tio, contudo, pagou sem regatear. Um homem que tinha decidido empreender uma viagem ao Interior da Terra não é o homem para pechinchar por uns míserosrix-dólares.
Resolvido este assunto importante, Hans deu o sinal de partida e, alguns momentos depois, tínhamos deixado Stapi.
CAPÍTULO 12
A ASCENSÃO DO MONTE SNEFFELS
O enorme vulcão que foi a primeira etapa da nossa ousada experiência tem mais de cinco mil pés de altura. Sneffels é o ponto final de uma longa cadeia de montanhas vulcânicas, de um caráter diferente do sistema da própria ilha. Uma das suas peculiaridades são os seus dois enormes cumes pontiagudos. De onde partimos, era impossível distinguir os contornos reais do pico contra o campo cinzento do céu. Tudo o que podíamos distinguir era uma vasta cúpula de branco, que caía para baixo a partir da cabeça do gigante.
O início do grande empreendimento encheu-me de reverência. Agora que tínhamos realmente começado, comecei a acreditar na realidade da empreitada!
O nosso grupo formava uma verdadeira procissão. Caminhávamos em fila indiana, precedidos por Hans, o imperturbável caçador de patos-eider. Ele conduzia-nos calmamente por caminhos estreitos onde duas pessoas não poderiam, de forma alguma, caminhar lado a lado. A conversação era totalmente impossível. Tínhamos tanto mais oportunidade para refletir e admirar a grandiosidade terrível da cena em redor.
Para além da extraordinária parede basáltica do fiorde de Stapi, encontrámo-nos a abrir caminho através de turfa fibrosa, sobre a qual crescia uma vegetação escassa de erva, o resíduo da antiga vegetação da península pantanosa. A vasta massa deste combustível, cujo campo ainda está totalmente inexplorado, seria suficiente para aquecer a Islândia durante um século inteiro. Este poderoso turfeiral, medido a partir do fundo de certas ravinas, tem muitas vezes não menos de setenta pés de profundidade e apresenta ao olho a vista de sucessivas camadas de detritos rochosos pretos e queimados, separados por finas faixas de arenito poroso.
A grandiosidade do espetáculo era indubitável, assim como o seu ar árido e deserto.
Como verdadeiro sobrinho do grande Professor Hardwigg, e apesar da minha preocupação e medos lúgubres do que estava para vir, observei com grande interesse a vasta coleção de curiosidades mineralógicas espalhadas diante de mim neste vasto museu de história natural. Olhando para trás, para os meus estudos recentes, repassei em pensamento toda a história geológica da Islândia.
Esta ilha extraordinária e curiosa deve ter feito a sua aparição fora do grande mundo das águas numa data comparativamente recente. Tal como as ilhas de coral do Pacífico, pode, pelo que sabemos, estar ainda a subir por graus lentos e impercetíveis.
Se este for realmente o caso, a sua origem pode ser atribuída a apenas uma causa — a da ação contínua dos fogos subterrâneos.
Este foi um pensamento feliz.
Se assim fosse, se isto fosse verdade, abaixo as teorias de Sir Humphry Davy; abaixo a autoridade do pergaminho de Arne Saknussemm; as maravilhosas pretensões à descoberta por parte do meu tio — e à nossa viagem!
Tudo deve terminar em fumo.
Encantado com a ideia, comecei a olhar mais cuidadosamente à minha volta. Um estudo sério do solo era necessário para negar ou confirmar a minha hipótese. Absorvi cada item do que via e comecei a compreender a sucessão de fenómenos que tinham precedido a sua formação.
A Islândia, estando absolutamente sem solo sedimentar, é composta exclusivamente de tufo vulcânico; isto é, de uma aglomeração de pedras e de rochas de textura porosa. Muito antes da existência de vulcões, era composta por um corpo sólido de rocha basáltica massiva, levantada corporal e lentamente para fora do mar pela ação da força centrífuga em trabalho na terra.
Os fogos internos, contudo, ainda não tinham rebentado os seus limites e inundado a crosta exterior da Mãe Terra com lava quente e furiosa.
Os meus leitores devem desculpar esta breve e algo pedante aula de geologia. Mas é necessária para a compreensão completa do que se segue.
Num período mais tardio da história do mundo, uma enorme e poderosa fissura deve, raciocinando por analogia, ter sido escavada diagonalmente de sudoeste para nordeste da ilha, através da qual fluiu gradualmente a crosta vulcânica. O grande e maravilhoso fenómeno ocorreu então sem violência — o derrame foi enorme, e a matéria em fusão fervilhante, ejetada das entranhas da terra, espalhou-se lenta e pacificamente sob a forma de vastas planícies niveladas, ou o que é chamado de mamelões ou montes.
Foi nesta época que apareceram as rochas chamadas feldspatos, sienitos e pórfiros.
Mas, como consequência natural deste transbordo, a profundidade da ilha aumentou. Pode facilmente acreditar-se na enorme quantidade de fluidos elásticos que se acumularam no seu centro, quando, finalmente, este não ofereceu mais aberturas, após o processo de arrefecimento da crosta ter ocorrido.
Por fim, chegou um momento em que, apesar da enorme espessura e peso da crosta superior, as forças mecânicas dos gases combustíveis abaixo tornaram-se tão grandes que efetivamente elevaram o dorso pesado e abriram para si próprios poços enormes e gigantescos. Daí os vulcões que surgiram subitamente através da crosta superior, e depois as crateras, que irromperam no cume destas novas criações.
Ver-se-á que os primeiros fenómenos em conexão com a formação da ilha foram simplesmente eruptivos; a estes, contudo, sucederam-se em breve os fenómenos vulcânicos.
Através das aberturas recém-formadas, escapou a maravilhosa massa de pedras basálticas com a qual a planície que atravessávamos estava coberta. Caminhávamos sobre rochas pesadas de cor cinzento-escura, que, ao arrefecer, tinham sido moldadas em prismas de seis lados. Na "distância atrás", podíamos ver uma série de cones achatados, que outrora foram outras tantas bocas a vomitar fogo.
Após a erupção basáltica ter sido apaziguada e posta em repouso, o vulcão, cuja força aumentou com a das crateras extintas, deu livre passagem ao derrame ígneo de lava, e à massa de cinzas e pedra-pomes, agora espalhada pelas encostas da montanha, como cabelos despenteados sobre os ombros de uma Bacante.
Aqui, em poucas palavras, eu tinha toda a história dos fenómenos a partir dos quais a Islândia surgiu. Todos têm origem na ação feroz dos fogos interiores, e acreditar que a massa central não permanecia num estado de fogo líquido, em brasa, era simples e puramente loucura.
Sendo isto satisfatoriamente provado (Q.E.D.), que insensata loucura pretender penetrar no interior da poderosa terra!
Esta palestra mental, proferida a mim mesmo enquanto seguia viagem, fez-me bem. Fiquei totalmente tranquilizado quanto ao destino da nossa empresa; e, portanto, fui, como um soldado valente a subir uma bateria eriçada, ao assalto do velho Sneffels.
À medida que avançávamos, a estrada tornava-se a cada momento mais difícil. O solo estava quebrado e perigoso. As rochas partiam-se e cediam sob os nossos pés, e tínhamos de ser escrupulosamente cuidadosos para evitar quedas perigosas e constantes.
Hans avançava tão calmamente como se estivesse a caminhar sobre a planície de Salisbury; por vezes, desaparecia atrás de enormes blocos de pedra, e perdíamo-lo momentaneamente de vista. Havia um pequeno período de ansiedade e depois ouvia-se um assobio agudo, apenas para nos dizer onde o procurar.
Ocasionalmente, ocorria-lhe parar para apanhar pedaços de rocha e, silenciosamente, empilhá-los em pequenos montes, para que não perdêssemos o nosso caminho no regresso.
Ele não fazia ideia da jornada que estávamos prestes a empreender.
De qualquer modo, a precaução era boa; embora quão totalmente inútil e desnecessária — mas não devo antecipar-me.
Três horas de terrível fadiga, caminhando incessantemente, apenas nos tinham levado ao sopé da grande montanha. Isto dará uma noção do que ainda tínhamos de enfrentar.
Subitamente, contudo, Hans ordenou uma paragem — isto é, fez sinais nesse sentido — e um tipo sumário de pequeno-almoço foi disposto sobre a lava diante de nós. O meu tio, que agora era simplesmente o Professor Hardwigg, estava tão ansioso por avançar, que engoliu a comida como um palhaço ganancioso. Esta paragem para refresco foi também uma paragem para repouso. O Professor foi, portanto, obrigado a esperar pelo bom prazer do seu imperturbável guia, que não deu o sinal de partida durante uma boa hora.
Os três islandeses, que eram tão taciturnos como o seu camarada, não disseram uma palavra; mas continuaram a comer e a beber muito silenciosamente e sobriamente.
Desta, a nossa primeira etapa real, começámos a subir as encostas do vulcão Sneffels. A sua magnífica touca de neve, como começámos a chamar-lhe, por uma ilusão de ótica muito comum nas montanhas, parecia-me estar próxima; e, contudo, quantas longas e cansativas horas deveriam decorrer antes de alcançarmos o seu cume. Que fadiga inaudita teríamos de suportar!
As pedras na encosta da montanha, não mantidas unidas por qualquer cimento de solo, não presas por quaisquer raízes ou ervas rastejantes, cediam continuamente sob os nossos pés, e precipitavam-se para baixo para as planícies, como uma série de pequenas avalanches.
Em certos locais, as encostas desta montanha estupenda formavam um ângulo tão íngreme que era impossível subir, e fomos forçados a contornar estes obstáculos da melhor maneira que pudemos.
Aqueles que compreendem a escalada alpina entenderão as nossas dificuldades. Muitas vezes fomos obrigados a ajudar-nos mutuamente por meio dos nossos bastões de escalada.
Devo dizer isto a favor do meu tio, que ele se manteve o mais próximo possível de mim. Nunca me perdeu de vista e, em muitas ocasiões, o seu braço forneceu-me um apoio firme e sólido. Ele era forte, ágil e aparentemente insensível à fadiga. Outra grande vantagem nele era que possuía o sentimento inato de equilíbrio — pois nunca escorregou nem falhou nos seus passos. Os islandeses, embora pesadamente carregados, subiam com a agilidade dos montanheiros.
Olhando para cima, de vez em quando, para a altura do grande vulcão de Sneffels, parecia-me totalmente impossível chegar ao cume por aquele lado; pelo menos, se o ângulo de inclinação não mudasse rapidamente.
Felizmente, após uma hora de fadigas inauditas, e de exercícios ginásticos que teriam sido cansativos para um acrobata, chegámos a um vasto campo de gelo, que rodeava inteiramente a base do cone do vulcão. Os nativos chamavam-lhe toalha de mesa, provavelmente pela mesma razão que os habitantes do Cabo da Boa Esperança chamam à sua montanha Montanha da Mesa, e às suas águas, Baía da Mesa.
Aqui, para nossa surpresa mútua, encontrámos uma verdadeira escadaria de pedra, que ajudou maravilhosamente a nossa subida. Esta singular escadaria era, como tudo o resto, vulcânica. Tinha sido formada por uma daquelas torrentes de pedras lançadas pelas erupções, e cujo nome islandês é stina. Se esta singular torrente não tivesse sido travada na sua descida pela forma peculiar dos flancos da montanha, teria varrido tudo para o mar e teria formado novas ilhas.
Tal como era, serviu-nos admiravelmente. O caráter abrupto das encostas aumentou momentaneamente, mas estes notáveis degraus de pedra, um pouco menos difíceis do que os das pirâmides egípcias, eram o único meio natural simples pelo qual nos foi possível prosseguir.
Cerca das sete da tarde desse dia, após termos subido dois mil desses degraus ásperos, encontrámo-nos a observar uma espécie de esporão ou projeção da montanha — um tipo de contraforte sobre o qual a cratera em forma de cone, propriamente dita, se apoiava.
O oceano jazia abaixo de nós a uma profundidade de mais de três mil e duzentos pés — um espetáculo grandioso e poderoso. Tínhamos alcançado a região das neves eternas.
O frio era agudo, penetrante e intenso. O vento soprava com extraordinária violência. Eu estava totalmente exausto.
O meu digno tio, o Professor, viu claramente que as minhas pernas recusavam mais serviço e que, de facto, eu estava totalmente esgotado. Apesar da sua impaciência quente e febril, decidiu, com um suspiro, fazer uma paragem. Chamou o caçador de patos-eider para o seu lado. Esse digno, contudo, abanou a cabeça.
"Ofvanfor", foi a sua única resposta falada.
"Parece", diz o meu tio com um olhar desolado, "que temos de subir mais."
Ele então virou-se para Hans e pediu-lhe que desse alguma razão para esta resposta decisiva.
"Mistour", respondeu o guia.
"Ja, mistour — sim, o mistour", gritou um dos guias islandeses num tom aterrorizado.
Foi a primeira vez que ele falou.
"O que significa esta palavra misteriosa?", indaguei ansiosamente.
"Olha", disse o meu tio.
Olhei para a planície abaixo e vi um vasto, um prodigioso volume de pedra-pomes pulverizada, de areia, de poeira, subindo aos céus sob a forma de uma poderosa tromba de água. Aselhava-se ao fenómeno temível de caráter semelhante conhecido pelos viajantes no deserto do grande Sahara.
O vento estava a empurrá-lo diretamente para aquele lado do Sneffels onde estávamos empoleirados. Este véu opaco, erguendo-se entre nós e o sol, projetava uma sombra profunda nos flancos da montanha. Se esta tromba de areia rebentasse sobre nós, seríamos todos infalivelmente destruídos, esmagados nos seus abraços terríveis. Este fenómeno extraordinário, muito comum quando o vento agita as geleiras e varre as planícies áridas, é, na língua islandesa, chamado de "mistour".
"Hastigt, hastigt!", gritou o nosso guia.
Agora, eu certamente não sabia nada de dinamarquês, mas compreendi perfeitamente que os seus gestos pretendiam apressar-nos.
O guia virou-se rapidamente numa direção que nos levaria para a parte de trás da cratera, sempre subindo ligeiramente.
Seguimos rapidamente, apesar da nossa fadiga excessiva.
Um quarto de hora depois, Hans pausou para nos permitir olhar para trás. O poderoso redemoinho de areia estava a espalhar-se pela encosta da montanha até ao ponto onde nos tínhamos proposto parar. Enormes pedras eram apanhadas, lançadas ao ar e atiradas para todo o lado como durante uma erupção. Estávamos felizmente um pouco fora da direção do vento e, portanto, fora do alcance do perigo. Não fosse a precaução e o conhecimento do nosso guia, os nossos corpos deslocados, os nossos membros esmagados e partidos, teriam sido lançados ao vento, como poeira de algum meteoro desconhecido.
Hans, contudo, não achou prudente passar a noite na encosta nua do cone. Continuámos, portanto, a nossa jornada numa direção em ziguezague. Os mil e quinhentos pés que restavam cumprir levaram-nos pelo menos cinco horas. As voltas e reviravoltas, os becos sem saída, as marchas e mais marchas, transformaram aquela distância insignificante em pelo menos três léguas. Nunca senti tanta miséria, fadiga e exaustão na minha vida. Estava pronto a desmaiar de fome e frio. O ar rarefeito, ao mesmo tempo, afetava dolorosamente os meus pulmões.
Finalmente, quando me julgava nos meus últimos instantes, cerca das onze da noite, estando nessa região bastante escuro, alcançámos o cume do Monte Sneffels! Foi num estado de espírito terrível que, apesar da minha fadiga, antes de descer à cratera que nos abrigaria durante a noite, parei para contemplar o sol nascer à meia-noite, no próprio dia da sua declinação mais baixa, e desfrutei do espetáculo dos seus raios pálidos e fantasmagóricos lançados sobre a ilha que jazia a dormir aos nossos pés!
Já não me admirava que as pessoas viajassem desde a Inglaterra até à Noruega para contemplar este espetáculo mágico e maravilhoso.
CAPÍTULO 13
A SOMBRA DE SCARTARIS
A nossa ceia foi comida com facilidade e rapidez, após o que cada um fez o melhor que pôde por si próprio dentro da cavidade da cratera. A cama era dura, o abrigo insatisfatório, a situação dolorosa — deitados ao relento, a cinco mil pés acima do nível do mar!
No entanto, raramente me aconteceu dormir tão bem como naquela noite em particular. Nem sequer sonhei. Tanto pelos efeitos do que o meu tio chamava de "fadiga saudável".
No dia seguinte, quando acordámos sob os raios de um sol brilhante e glorioso, estávamos quase congelados pelo ar cortante. Deixei o meu leito de granito e juntei-me ao grupo para desfrutar de uma visão do magnífico espetáculo que se desenvolvia, como um panorama, aos nossos pés.
Estava sobre o cume elevado do pico sul do Monte Sneffels. De lá, pude obter uma visão da maior parte da ilha. A ilusão de ótica, comum a todas as grandes alturas, elevava as margens da ilha, enquanto as porções centrais pareciam deprimidas. Não era de modo algum um voo de imaginação demasiado grande acreditar que uma imagem gigante estava estendida diante de mim. Podia ver os vales profundos que se cruzavam em todas as direções. Podia ver precipícios que pareciam lados de poços, lagos que pareciam transformados em tanques, tanques que pareciam poças e rios que eram transformados em pequenos ribeiros. À minha direita, havia geleiras sobre geleiras e picos multiplicados, coroados com leves nuvens de fumo.
A ondulação deste número infinito de montanhas, cujos cumes nevados os faziam parecer cobertos por espuma, recordou à minha memória a superfície de um oceano fustigado pela tempestade. Se olhasse para oeste, o oceano jazia diante de mim em toda a sua majestosa grandeza, uma continuação, por assim dizer, daqueles cumes de colinas espumantes.
Onde a terra terminava e o mar começava, era impossível para o olho distinguir.
Senti logo aquela sensação estranha e misteriosa que é despertada na mente quando se olha do cimo de colinas elevadas, e agora era capaz de o fazer sem qualquer sentimento de nervosismo, tendo-me felizmente endurecido para esse tipo de contemplação sublime.
Esqueci totalmente quem era e onde estava. Fiquei inebriado com uma sensação de sublimidade elevada, sem pensar nos abismos nos quais a minha ousadia estava prestes a mergulhar-me. Fui, contudo, trazido de volta às realidades da vida pela chegada do Professor e de Hans, que se juntaram a mim no cume elevado do pico.
O meu tio, virando-se na direção oeste, apontou-me uma leve nuvem de vapor, uma espécie de névoa, com um contorno ténue de terra elevando-se das águas.
"Gronelândia!", disse ele.
"Gronelândia?", gritei eu em resposta.
"Sim", continuou o meu tio, que, sempre que explicava qualquer coisa, falava como se estivesse numa cadeira de professor; "não estamos a mais de trinta e cinco léguas de distância dessa terra maravilhosa. Quando ocorre o grande degelo anual do gelo, os ursos brancos vêm à Islândia, trazidos pelas massas flutuantes de gelo do norte. Isto, contudo, é uma questão de pouca importância. Estamos agora no cume do grande, do transcendente Sneffels, e aqui estão os seus dois picos, norte e sul. Hans dir-lhe-á o nome pelo qual o povo da Islândia chama aquele em que estamos."
O meu tio virou-se para o imperturbável guia, que assentiu e falou como de costume — uma palavra.
"Scartaris."
O meu tio olhou para mim com um olhar orgulhoso e triunfante.
"Uma cratera", disse ele, "ouves?"
Eu ouvia, mas era totalmente incapaz de responder.
A cratera do Monte Sneffels representava um cone invertido, com um orifício escancarado aparentemente com meia milha de largura; a profundidade de pés indefinidos. Imagine como este buraco deve ter sido quando cheio de chama, trovão e relâmpago. O fundo da cavidade em forma de funil tinha cerca de quinhentos pés de circunferência, pelo que se vê que a inclinação do cume para o fundo era muito gradual, e éramos, portanto, claramente capazes de lá chegar sem muita fadiga ou dificuldade. Involuntariamente, comparei esta cratera a um canhão enorme e carregado; e a comparação aterrorizou-me completamente.
"Descer ao interior de um canhão", pensei comigo mesmo, "quando talvez esteja carregado e dispare ao menor choque, é o ato de um louco."
Mas já não havia qualquer oportunidade para eu hesitar. Hans, com um ar perfeitamente calmo e indiferente, assumiu o seu posto habitual à frente do pequeno bando aventureiro. Segui sem pronunciar uma sílaba.
Sentia-me como o cordeiro levado ao matadouro.
Para tornar a descida menos difícil, Hans seguiu o seu caminho pelo interior do cone de uma forma algo em ziguezague, fazendo, como dizem os marinheiros, longas trajetórias para leste, seguidas por outras igualmente longas para oeste. Era necessário caminhar pelo meio de rochas eruptivas, algumas das quais, abaladas no seu equilíbrio, iam rolando com estrondo trovejante para o fundo do abismo. Estas quedas contínuas despertavam ecos de singular poder e efeito.
Muitas partes do cone consistiam em geleiras inferiores. Hans, sempre que encontrava um destes obstáculos, avançava com uma grande demonstração de precaução, sondando o solo com o seu longo bastão de ferro a fim de descobrir fissuras e camadas de neve profunda e macia. Em muitos locais duvidosos ou perigosos, tornou-se necessário estarmos ligados por uma corda comprida, para que, caso algum de nós tivesse o azar de escorregar, fosse suportado pelos seus companheiros. Este elo de ligação era sem dúvida uma precaução prudente, mas de modo algum isenta de perigo.
Contudo, e apesar de todas as múltiplas dificuldades da descida, ao longo de encostas com as quais o nosso guia não estava de todo familiarizado, fizemos um progresso considerável sem acidentes. Um dos nossos grandes fardos de corda escorregou de um dos carregadores islandeses e correu por um atalho até ao fundo do abismo.
Ao meio-dia estávamos no fim da nossa jornada. Olhei para cima e vi apenas o orifício superior do cone, que servia como uma moldura circular para uma porção muito pequena do céu — uma porção que me pareceu singularmente bela. Será que voltaria a contemplar aquele céu adorável e ensolarado!
A única exceção a esta paisagem extraordinária era o Pico de Scartaris, que parecia perdido no grande vazio dos céus.
O fundo da cratera era composto por três poços separados, através dos quais, durante os períodos de erupção, quando o Sneffels estava em ação, o grande forno central enviava a sua lava ardente e vapores venenosos. Cada uma destas chaminés ou poços abria-se de boca escancarada no nosso caminho. Mantive-me o mais longe possível deles, não me aventurando sequer a lançar o mais ténue olhar para baixo.
Quanto ao Professor, após um exame rápido da sua disposição e características, ele ficou sem fôlego e ofegante. Corria de um para o outro como um rapazinho encantado, gesticulando descontroladamente e proferindo frases incompreensíveis e desconexas em todo o tipo de línguas.
Hans, o guia, e os seus companheiros mais humildes sentaram-se sobre alguns montes de lava e olharam silenciosamente. Consideravam claramente o meu tio um lunático; e — aguardavam o resultado.
Subitamente, o Professor soltou um grito selvagem e sobrenatural. A princípio, imaginei que ele tinha perdido o equilíbrio e estava a cair de cabeça num dos abismos escancarados. Nada disso. Vi-o, com os braços estendidos até à sua maior extensão, as pernas afastadas, de pé, ereto, diante de um enorme pedestal, alto o suficiente e preto o suficiente para suportar uma estátua gigantesca de Plutão. A sua atitude e semblante eram os de um homem totalmente estupefacto. Mas a sua estupefação foi rapidamente substituída pela mais selvagem alegria.
"Harry! Harry! vem aqui!", gritou ele; "apressa-te — maravilhoso — maravilhoso!"
Incapaz de compreender o que ele queria dizer, virei-me para obedecer às suas ordens. Nem Hans nem os outros islandeses deram um passo.
"Olha!", disse o Professor, com algo da maneira do general francês, apontando as pirâmides ao seu exército.
E partilhando plenamente a sua estupefação, se não a sua alegria, li no lado oriental do enorme bloco de pedra, os mesmos caracteres, meio corroídos pela ação do tempo, o nome, para mim mil vezes maldito —
"Arne Saknussemm!", gritou o meu tio, "agora, incrédulo, começas a ter fé?"
Era totalmente impossível para mim responder uma única palavra. Voltei para o meu monte de lava, num estado de silêncio e temor. A prova era irrefutável, avassaladora!
Em poucos momentos, contudo, os meus pensamentos estavam longe, de volta ao meu lar alemão, com Gretchen e a velha cozinheira. O que não teria dado por um dos sorrisos da minha prima, por uma das omeletes da antiga doméstica e pela minha própria cama de penas!
Não sei quanto tempo permaneci neste estado. Tudo o que posso dizer é que, quando finalmente levantei a cabeça de entre as mãos, restavam no fundo da cratera apenas eu, o meu tio e Hans. Os carregadores islandeses tinham sido dispensados e estavam agora a descer as encostas exteriores do Monte Sneffels, a caminho de Stapi. Como desejei ardentemente estar com eles!
Hans dormia tranquilamente ao pé de uma rocha, num tipo de rego de lava, onde tinha feito uma cama improvisada. O meu tio caminhava pelo fundo da cratera como uma fera numa jaula. Eu não tinha desejo, nem força, para me mover da minha posição reclinada. Seguindo o exemplo do guia, entreguei-me a uma espécie de sonolência penosa, durante a qual me parecia ouvir e sentir constantes agitações e estremecimentos na montanha.
Desta forma, passámos a nossa primeira noite no interior de uma cratera.
Na manhã seguinte, um céu cinzento, nublado e pesado pairava como um sudário fúnebre sobre o cume do cone vulcânico. Não o notei tanto pela obscuridade que reinava à nossa volta, mas pela fúria que devorava o meu tio.
Compreendi perfeitamente a razão e, novamente, um vislumbre de esperança fez o meu coração saltar de alegria. Explicarei brevemente a causa.
Das três aberturas que bocejavam sob os nossos passos, apenas uma poderia ter sido seguida pelo aventureiro Saknussemm. De acordo com as palavras do erudito islandês, ela só podia ser reconhecida por aquele detalhe particular mencionado no criptograma: que a sombra de Scartaris caía sobre ela, tocando a sua boca precisamente nos últimos dias do mês de junho.
Tínhamos, de facto, de considerar o pico pontiagudo como o estilete de um imenso relógio de sol, cuja sombra apontava num dia determinado, como o dedo inexorável do destino, para o abismo que conduzia ao interior da terra.
Ora, como acontece frequentemente nestas regiões, se o sol não conseguisse romper as nuvens, não haveria sombra. Consequentemente, não haveria hipótese de descobrir a abertura certa. Já tínhamos chegado ao dia 25 de junho. Se os céus bondosos permanecessem densamente nublados por mais seis dias, teríamos de adiar a nossa viagem de descoberta por mais um ano, altura em que, certamente, haveria uma pessoa a menos no grupo. Eu já estava farto daquela empresa louca e monstruosa.
Seria absolutamente impossível descrever a fúria impotente do Professor Hardwigg. O dia passou e nem o mais ténue contorno de uma sombra pôde ser visto no fundo da cratera. Hans, o guia, nunca se moveu do seu lugar. Devia estar curioso para saber o que estávamos a fazer, se é que podia acreditar que estávamos a fazer alguma coisa. Quanto ao meu tio, nunca me dirigiu uma palavra. Estava a alimentar a sua ira para a manter viva! Os olhos fixos na atmosfera negra e enevoada, a sua tez horrível de paixão reprimida. Nunca os seus olhos pareceram tão ferozes, o seu nariz tão aquilino, a sua boca tão dura e firme.
No dia 26, nenhuma mudança para melhor. Uma mistura de chuva e neve caiu durante todo o dia. Hans construiu muito tranquilamente uma cabana de lava para si, na qual se retirou como Diógenes no seu tonel. Senti um prazer malicioso ao observar as mil pequenas cascatas que corriam pelo lado do cone, levando consigo, por vezes, um fluxo de pedras para o "vasto abismo" abaixo.
O meu tio estava quase frenético: de facto, era o suficiente para deixar zangado até um homem paciente. Tinha chegado, até certo ponto, ao objetivo dos seus desejos, e ainda assim corria o risco de naufragar no porto.
Mas se os céus e os elementos são capazes de nos causar muita dor e tristeza, há dois lados numa medalha. E estava reservada para o Professor Hardwigg uma surpresa brilhante e súbita que o compensaria por todos os seus sofrimentos.
No dia seguinte, o céu continuava nublado, mas no domingo, dia 28, o antepenúltimo dia do mês, com uma mudança súbita de vento e uma lua nova, houve uma mudança de tempo. O sol derramou os seus raios brilhantes até ao fundo da cratera.
Cada colina, cada rocha, cada pedra, cada aspereza do solo tinha a sua parte da efulgência luminosa, e a sua sombra caía pesadamente sobre o solo. Entre outros, para o seu deleite insano, a sombra de Scartaris estava marcada e clara, e movia-se lentamente com o início radiante do dia.
O meu tio movia-se com ela num estado de êxtase mental.
Às doze horas em ponto, quando o sol atingiu a sua altitude máxima para o dia, a sombra caiu sobre a borda do poço central!
— É aqui — arquejou o Professor num agonia de alegria — é aqui... encontrámo-lo. Em frente, meus amigos, para o Interior da Terra.
Olhei curiosamente para Hans para ver que resposta ele daria a este anúncio terrível.
— Forut — disse o guia tranquilamente.
— É em frente — respondeu o meu tio, que estava agora no sétimo céu de alegria.
Quando estivemos prontos, os nossos relógios marcavam treze minutos passados da uma!
CAPÍTULO 14
A VERDADEIRA VIAGEM COMEÇA
A nossa verdadeira viagem tinha agora começado. Até então, a nossa coragem e determinação tinham superado todas as dificuldades. Estávamos cansados por vezes; e isso era tudo. Agora estávamos prestes a enfrentar perigos desconhecidos e terríveis.
Eu ainda não me tinha aventurado a lançar um olhar para o horrível abismo no qual, em poucos minutos mais, estaria prestes a mergulhar. O momento fatal, contudo, tinha finalmente chegado. Ainda tinha a opção de recusar ou aceitar uma parte nesta empresa tola e audaciosa. Mas envergonhava-me de mostrar mais medo do que o caçador de patos-eider. Hans parecia aceitar as dificuldades da viagem tão tranquilamente, com tal calma indiferença, com tal perfeita imprudência perante todo o perigo, que eu cheguei a corar por parecer menos homem do que ele!
Se estivesse sozinho com o meu tio, certamente me teria sentado e discutido o ponto por completo; mas, na presença do guia, calei-me. Dei um momento ao pensamento da minha encantadora prima e depois avancei para a boca do poço central.
Media cerca de trinta metros de diâmetro, o que dava cerca de noventa de circunferência. Inclinei-me sobre uma rocha que se encontrava na sua borda e olhei para baixo. O cabelo ergueu-se-me na cabeça, os dentes castanhetaram, os membros tremeram. Pareci perder completamente o centro de gravidade, enquanto a cabeça girava, como a de um homem ébrio. Não há nada mais poderoso do que esta atração em direção a um abismo. Estava prestes a cair de cabeça no poço escancarado quando fui puxado para trás por uma mão firme e poderosa. Era a de Hans. Eu não tinha tido aulas suficientes na Frelser’s-Kirk de Copenhaga na arte de olhar para baixo de eminências elevadas sem pestanejar!
No entanto, por poucos que fossem os minutos durante os quais contemplei este tremendo e até maravilhoso poço, tive um vislumbre suficiente dele para ter alguma ideia da sua conformação física. As suas paredes, que eram quase tão perpendiculares como as de um poço, apresentavam numerosas projeções que, sem dúvida, ajudariam a nossa descida.
Era uma espécie de escadaria selvagem e feroz, sem corrimão ou vedação. Uma corda presa acima, perto da superfície, certamente suportaria o nosso peso e permitir-nos-ia chegar ao fundo, mas como, quando chegássemos à sua profundidade máxima, a iríamos soltar lá em cima? Esta era, pensava eu, uma questão de alguma importância.
O meu tio, contudo, era um daqueles homens que estão quase sempre preparados com expedientes. Ele encontrou um método muito simples de obviar a esta dificuldade. Desenrolou uma corda com a espessura do meu polegar e com pelo menos cento e vinte metros de comprimento. Deixou que cerca de metade descesse pelo poço e prendesse com um nó sobre um grande bloco de lava que estava na borda do precipício. Feito isto, lançou a segunda metade atrás da primeira.
Cada um de nós podia agora descer segurando as duas cordas numa mão. Quando estivéssemos a cerca de sessenta metros abaixo, tudo o que o explorador tinha a fazer era soltar uma extremidade e puxar pela outra, e a corda cairia aos seus pés. Para descer mais, tudo o que era necessário era continuar a mesma operação.
Esta era uma proposta excelente e, sem dúvida, correta. Descer parecia-me fácil o suficiente; era o subir que ocupava agora os meus pensamentos.
— Agora — disse o meu tio, assim que completou esta importante preparação — tratemos da bagagem. Deve ser dividida em três volumes separados, e cada um de nós deve carregar um às costas. Refiro-me aos artigos mais importantes e frágeis.
O meu digno e engenhoso tio não parecia considerar que nós entrávamos na denominação.
— Hans — continuou ele — ficará encarregado das ferramentas e de algumas provisões; tu, Harry, deves tomar posse de outro terço das provisões e das armas. Eu carregar-me-ei com o resto dos comestíveis e com os instrumentos mais delicados.
— Mas — exclamei — as nossas roupas, esta massa de corda e escadas... quem se encarregará de as levar para baixo?
— Elas descerão por si mesmas.
— E como assim? — perguntei.
— Verás.
O meu tio não gostava de meias medidas, nem gostava de nada que cheirasse a hesitação. Dando as suas ordens a Hans, fez com que todos os artigos não frágeis fossem reunidos num fardo; e o pacote, firme e solidamente atado, foi simplesmente atirado para o lado do abismo.
Ouvi o gemido do ar subitamente deslocado e o ruído das pedras a cair. O meu tio, inclinando-se sobre o abismo, seguiu a descida da sua bagagem com um ar perfeitamente satisfeito e não se levantou até que esta tivesse desaparecido completamente de vista.
— Então agora — gritou ele — é a nossa vez.
Pergunto de boa fé a qualquer homem de bom senso: seria possível ouvir este grito enérgico sem estremecer?
O Professor prendeu a sua caixa de instrumentos às costas. Hans encarregou-se das ferramentas, eu das armas. A descida começou então na seguinte ordem: Hans ia primeiro, o meu tio seguia-o e eu ia por último. O nosso progresso foi feito num silêncio profundo — um silêncio apenas perturbado pela queda de pedaços de rocha que, partindo-se das paredes recortadas, caíam com um rugido para as profundezas abaixo.
Deixei-me deslizar, por assim dizer, segurando-me freneticamente na corda dupla com uma mão e, com a outra, mantendo-me afastado das rochas com a ajuda da minha vara ferrada. Uma ideia estava o tempo todo gravada no meu cérebro. Receava que o suporte superior falhasse. A corda parecia-me demasiado frágil para suportar o peso de três pessoas como nós, com a nossa bagagem. Fiz o menor uso possível dela, confiando na minha própria agilidade e fazendo milagres em termos de proezas de destreza e força nas prateleiras projetadas e esporões de lava que os meus pés pareciam agarrar tão fortemente como as minhas mãos.
O guia ia à frente, já disse, e quando um dos apoios escorregadios e frágeis se partia sob os seus pés, ele recorria à sua forma monossilábica habitual de falar.
— Gif akt...
— Atenção... cuidado — repetia o meu tio.
Em cerca de meia hora chegámos a uma espécie de pequeno terraço formado por um fragmento de rocha que se projetava a alguma distância das paredes do poço.
Hans começou agora a puxar a corda por um lado apenas, o outro subindo tão silenciosamente quanto o primeiro descia. Caiu finalmente, trazendo consigo uma chuva de pequenas pedras, lava e poeira, um tipo desagradável de chuva ou granizo.
Enquanto estávamos sentados neste banco extraordinário, aventurei-me mais uma vez a olhar para baixo. Com um suspiro, descobri que o fundo era ainda totalmente invisível. Estaríamos, então, a ir diretamente para o interior da terra?
O desempenho com a corda recomeçou e, um quarto de hora depois, tínhamos chegado à profundidade de mais sessenta metros.
Tenho muitas dúvidas de que o geólogo mais determinado tivesse, durante aquela descida, estudado a natureza das diferentes camadas da terra à sua volta. Eu não me preocupei muito com o assunto; se estávamos entre o carbono combustível, os Silurianos ou o solo primitivo, nem sabia nem queria saber.
Não era o caso do Professor inveterado. Deve ter tomado notas durante toda a descida, pois, numa das nossas paragens, começou uma breve palestra.
— Quanto mais avançamos — disse ele — maior é a minha confiança no resultado. A disposição destes estratos vulcânicos confirma absolutamente as teorias de Sir Humphry Davy. Estamos ainda dentro da região do solo primordial, o solo no qual ocorreu a operação química dos metais que se inflamam ao entrar em contacto com o ar e a água. Rejeito desde já a velha e agora para sempre explodida teoria de um fogo central. Seja como for, em breve saberemos a verdade.
Tal era a conclusão eterna a que ele chegava. Eu, contudo, estava muito longe de estar com disposição para discutir o assunto. Tinha outras coisas em que pensar. O meu silêncio foi tomado por consentimento; e continuámos a descer.
Ao fim de três horas, estávamos, aparentemente, tão longe quanto sempre do fundo do poço. Quando olhava para cima, contudo, podia ver que o orifício superior diminuía de tamanho a cada minuto. As paredes do poço aproximavam-se cada vez mais; estávamos a aproximar-nos das regiões da noite eterna!
E ainda continuávamos a descer!
Finalmente, notei que, quando pedaços de pedra se soltavam das paredes deste estupendo precipício, eram engolidos com menos ruído do que antes. O som final era ouvido mais depressa. Estávamos a aproximar-nos do fundo do abismo!
Como tinha sido muito cuidadoso a manter a conta de todas as mudanças de corda que ocorriam, era capaz de dizer exatamente qual era a profundidade a que tínhamos chegado, bem como o tempo que tinha demorado.
Tínhamos mudado a corda vinte e oito vezes, cada operação levando um quarto de hora, o que ao todo perfazia sete horas. A isto tinham de ser adicionadas vinte e oito pausas; ao todo, dez horas e meia. Começámos à uma, por isso eram agora cerca de onze horas da noite.
Não é preciso grande conhecimento de aritmética para saber que vinte e oito vezes sessenta metros perfaz mil seiscentos e oitenta metros ao todo (mais de uma milha inglesa).
Enquanto fazia este cálculo mental, uma voz quebrou o silêncio. Era a voz de Hans.
— Halt! — gritou ele.
Travei-me muito subitamente, mesmo no momento em que estava prestes a pontapear o meu tio na cabeça.
— Chegámos ao fim da nossa jornada — disse o digno Professor num tom satisfeito.
— O quê, ao interior da terra? — disse eu, deslizando para o seu lado.
— Não, seu estúpido! Mas chegámos ao fundo do poço.
— E suponho que não há mais progresso a fazer? — exclamei eu esperançoso.
— Oh, sim, consigo ver vagamente uma espécie de túnel, que vira obliquamente para a direita. Seja como for, temos de ver isso amanhã. Vamos cear agora e procurar o sono como melhor pudermos.
Achei que estava na hora, mas não fiz observações sobre esse ponto. Estava lançado num rumo desesperado e tudo o que tinha a fazer era seguir em frente, esperançoso e confiante.
Nem agora estava ainda totalmente escuro, a luz filtrando-se de uma forma extraordinária.
Abrimos o saco de provisões, comemos uma ceia frugal e cada um fez o seu melhor para encontrar uma cama no meio da pilha de pedras, sujidade e lava que se tinha acumulado durante séculos no fundo do poço.
Aconteceu-me apalpar a pilha de cordas, escadas e roupas que tínhamos atirado para baixo; e sobre elas estendi-me. Depois de um dia de trabalho como aquele, a minha cama áspera parecia macia como penugem!
Por um momento, fiquei num tipo de transe agradável.
Passados alguns minutos, abri os olhos e olhei para cima. Ao fazê-lo, distingui um pequeno ponto brilhante, na extremidade deste longo telescópio gigantesco.
Era uma estrela sem raios cintilantes. De acordo com o meu cálculo, devia ser Beta na constelação da Ursa Menor.
Depois deste pequeno momento de recreação astronómica, mergulhei num sono profundo.
CAPÍTULO 15
CONTINUAMOS A NOSSA DESCIDA
Às oito horas da manhã seguinte, uma ténue espécie de alvorada despertou-nos. Os mil e um prismas da lava coletaram a luz à medida que ela passava e trouxeram-na até nós como uma chuva de faíscas.
Conseguíamos ver facilmente os objetos à nossa volta.
— Bem, Harry, meu rapaz — gritou o Professor encantado, esfregando as mãos uma na outra — que dizes agora? Alguma vez passaste uma noite mais tranquila na nossa casa na Königstrasse? Sem sons ensurdecedores de rodas de carroças, sem gritos de vendedores, sem linguagem obscena de barqueiros ou marinheiros!
— Bem, Tio, estamos mesmo no fundo deste poço — mas, para mim, há algo de terrível nesta calma.
— Porquê — disse o Professor calorosamente — dir-se-ia que já começas a ter medo. Como te vais safar daqui a pouco? Sabes que, até agora, não penetrámos um centímetro nas entranhas da terra?
— O que quer dizer, senhor? — foi a minha resposta confusa e espantada.
— Quero dizer que só chegámos ao solo da própria ilha. Este longo tubo vertical, que termina no fundo da cratera de Sneffels, cessa aqui, exatamente ao nível do mar.
— Tem a certeza, senhor?
— Muita certeza. Consulta o barómetro.
Era bem verdade que o mercúrio, depois de subir gradualmente no instrumento enquanto a nossa descida decorria, tinha parado precisamente nos vinte e nove graus.
— Percebes — disse o Professor — que até agora só tivemos de suportar a pressão do ar. Estou curioso para substituir o barómetro pelo manómetro.
O barómetro, de facto, estava prestes a tornar-se inútil — assim que o peso do ar fosse maior do que o calculado acima do nível do oceano.
— Mas — disse eu — não é muito de temer que esta pressão sempre crescente possa, no final, tornar-se muito dolorosa e inconveniente?
— Não — disse ele. — Desceremos muito lentamente e os nossos pulmões habituar-se-ão gradualmente a respirar ar comprimido. É bem sabido que os aeronautas subiram tão alto a ponto de ficarem quase sem ar — porque, então, não nos havemos de habituar a respirar quando tivermos, digamos, um pouco de excesso dele? Por mim, tenho a certeza de que o preferirei. Não percamos um momento. Onde está o pacote que nos precedeu na descida?
Apontei sorrindo para o meu tio. Hans não o tinha visto e acreditava que estivesse preso algures acima de nós: "Huppe", como ele dizia.
— Agora — disse o meu tio — vamos tomar o pequeno-almoço, e comer como pessoas que têm um longo dia de trabalho pela frente.
Biscoitos e carne seca, lavados por alguns goles de água aromatizada com Schiedam, foram o material da nossa refeição luxuosa.
Assim que terminou, o meu tio tirou do bolso um bloco de notas destinado a ser preenchido com memorandos das nossas viagens. Já tinha colocado os seus instrumentos em ordem, e isto foi o que ele escreveu:
Segunda-feira, 29 de junho
Cronómetro, 8h 17m da manhã.
Barómetro, 29,6 polegadas.
Termómetro, 6 graus [43 graus Fahrenheit].
Direção, E.S.E.
Esta última observação referia-se à galeria obscura e foi-nos indicada pela bússola.
— Agora, Harry — gritou o Professor, num tom de voz entusiasta — estamos verdadeiramente prestes a dar o nosso primeiro passo no Interior da Terra; nunca antes visitado pelo homem desde a primeira criação do mundo. Podes considerar, portanto, que neste preciso momento as nossas viagens começam realmente.
Ao meu tio fazer esta observação, tomou com uma mão o aparelho de bobine de Ruhmkorff, que pendia do seu pescoço, e com a outra pôs a corrente elétrica em comunicação com o filamento da lanterna. E uma luz brilhante iluminou de imediato aquele túnel escuro e sombrio!
O efeito foi mágico!
Hans, que transportava o segundo aparelho, também o pôs a funcionar. Esta engenhosa aplicação da eletricidade para fins práticos permitiu-nos avançar à luz de um dia artificial, mesmo em meio ao fluxo dos gases mais inflamáveis e combustíveis.
"Em frente!" gritou o meu tio. Cada um tomou a sua carga. Hans seguiu à frente, o meu tio atrás, e eu, indo em terceiro, entrámos na galeria sombria!
Justo quando estávamos prestes a submergir nesta passagem lúgubre, levantei a cabeça e, através do poço tubular, vi aquele céu da Islândia que eu nunca mais voltaria a ver!
Seria aquele o último céu que eu veria?
O fluxo de lava que correu das entranhas da terra em 1219 tinha aberto uma passagem através do túnel. Revestiu todo o interior com a sua camada espessa e brilhante. A luz elétrica aumentou grandemente o brilho do efeito.
A grande dificuldade da nossa viagem começava agora. Como evitaríamos escorregar pelo plano fortemente inclinado? Felizmente, algumas fendas, abrasões do solo e outras irregularidades serviam de degraus; e descemos lentamente, permitindo que a nossa bagagem pesada deslizasse à frente, na extremidade de uma longa corda.
Mas o que servia de degraus sob os nossos pés tornava-se, noutros locais, estalactites. A lava, muito porosa em certos pontos, assumia a forma de pequenas bolhas redondas. Cristais de quartzo opaco, adornados com gotas límpidas de vidro natural suspensas no teto como lustres, pareciam incendiar-se à medida que passávamos por baixo deles. Poder-se-ia imaginar que os génios do romance estavam a iluminar os seus palácios subterrâneos para receber os filhos dos homens.
"Magnífico, glorioso!" exclamei num momento de entusiasmo involuntário. "Que espetáculo, Tio! Não admira estes tons variegados de lava, que percorrem toda uma série de cores, desde o castanho-avermelhado ao amarelo-pálido — pelos graus mais insensíveis? E estes cristais, parecem globos luminosos."
"Estás a começar a ver os encantos das viagens, Mestre Harry", gritou o meu tio. "Espera um pouco, até avançarmos mais. O que descobrimos até agora não é nada — para a frente, meu rapaz, para a frente!"
Teria sido uma expressão muito mais correta e apropriada se ele tivesse dito "vamos deslizar", pois descíamos um plano inclinado com perfeita facilidade. A bússola indicava que nos movíamos numa direção sudeste. O fluxo de lava nunca tinha virado para a direita ou para a esquerda. Tinha a inflexibilidade de uma linha reta.
No entanto, para minha surpresa, não encontrámos qualquer aumento percetível de calor. Isto provou que as teorias de Humphry Davy estavam fundadas na verdade, e mais de uma vez dei por mim a examinar o termómetro em silêncio e espanto.
Duas horas após a nossa partida, marcava apenas cinquenta e quatro graus Fahrenheit. Tinha todas as razões para acreditar, a partir disto, que a nossa descida era muito mais horizontal do que vertical. Quanto a descobrir a profundidade exata que tínhamos atingido, nada poderia ser mais fácil. O Professor, à medida que avançava, media os ângulos de desvio e inclinação; mas guardava o resultado das suas observações para si próprio.
Por volta das oito horas da noite, o meu tio deu o sinal de paragem. Hans sentou-se no chão. As lâmpadas foram penduradas em fissuras na rocha de lava. Estávamos agora numa grande caverna onde o ar não faltava. Pelo contrário, abundava. Qual poderia ser a causa disto — a que agitação atmosférica se poderia atribuir esta corrente de ar? Mas esta era uma questão que eu não desejava discutir naquele momento. O cansaço e a fome tornavam-me incapaz de raciocinar. Uma marcha incessante de sete horas não se tinha mantido sem grande exaustão. Eu estava real e verdadeiramente esgotado; e fiquei bastante encantado por ouvir a palavra Parar.
Hans dispôs algumas provisões sobre um bloco de lava, e cada um de nós ceou com grande apetite. Uma coisa, porém, causou-nos grande inquietação — a nossa reserva de água estava já quase esgotada. O meu tio tinha plena confiança em encontrar recursos subterrâneos, mas até então tínhamos falhado completamente em fazê-lo. Não pude deixar de chamar a atenção do meu tio para o facto.
"E estás surpreendido com esta ausência total de nascentes?" disse ele.
"Sem dúvida — estou muito inquieto quanto a isso. Certamente não temos água suficiente para durar cinco dias."
"Fica tranquilo quanto a esse assunto", continuou o meu tio. "Garanto-te que encontraremos muita água — na verdade, muito mais do que precisaremos."
"Mas quando?"
"Quando atravessarmos esta crosta de lava. Como podes esperar que as nascentes forcem o seu caminho através destas paredes de pedra sólida?"
"Mas o que prova que esta massa concreta de lava não se estende até ao centro da terra? Não creio que tenhamos feito muito em termos verticais até agora."
"O que te mete isso na cabeça, meu rapaz?" perguntou o meu tio suavemente.
"Bem, parece-me que se tivéssemos descido muito abaixo do nível do mar — encontraríamos um calor um pouco superior ao que temos sentido."
"Segundo o teu sistema", disse o meu tio; "mas o que diz o termómetro?"
"Mal chega aos quinze graus Reaumur, o que é apenas um aumento de nove desde a nossa partida."
"Bem, e a que conclusão te leva isso?" inquiriu o Professor.
"A dedução que tiro disto é muito simples. De acordo com as observações mais exatas, o aumento da temperatura do interior da terra é de um grau a cada cem pés. Mas certas causas locais podem modificar consideravelmente este valor. Assim, em Yakoust, na Sibéria, notou-se que o calor aumenta um grau a cada trinta e seis pés. A diferença depende evidentemente da condutibilidade de certas rochas. Nas proximidades de um vulcão extinto, notou-se que a elevação da temperatura era apenas de um grau a cada vinte e cinco pés. Façamos, então, este cálculo — que é o mais favorável — e calculemos."
"Calcula, meu rapaz."
"Nada mais fácil", disse eu, puxando o meu bloco de notas e lápis. "Nove vezes cento e vinte e cinco pés perfazem uma profundidade de mil cento e vinte e cinco pés."
"Arquimedes não poderia ter falado de forma mais geométrica."
"Bem?"
"Bem, de acordo com as minhas observações, estamos pelo menos a dez mil pés abaixo do nível do mar."
"Será possível?"
"Ou o meu cálculo está correto, ou não há verdade nos números."
Os cálculos do Professor estavam perfeitamente corretos. Estávamos já seis mil pés mais fundo nas entranhas da terra do que qualquer outra pessoa tinha estado antes. A profundidade mais baixa conhecida a que o homem tinha penetrado até então era nas minas de Kitzbuhel, no Tirol, e nas de Wurttemberg.
A temperatura, que deveria ter sido de oitenta e um, era neste local de apenas quinze. Isto era um assunto para séria consideração.
CAPÍTULO 16
O TÚNEL ORIENTAL
O dia seguinte foi terça-feira, 30 de junho — e às seis horas da manhã retomámos a nossa viagem.
Continuámos a seguir a galeria de lava, um perfeito caminho natural, tão fácil de descer como alguns daqueles planos inclinados que, em casas alemãs muito antigas, servem de escadarias. Isto continuou até aos dezassete minutos depois do meio-dia, o instante preciso em que nos reunimos a Hans, que, tendo ido um pouco à frente, tinha parado subitamente.
"Finalmente", gritou o meu tio, "chegámos ao fim do poço."
Olhei maravilhado à minha volta. Estávamos no centro de quatro caminhos cruzados — túneis sombrios e estreitos. Surgiu agora a questão de qual seria sensato tomar; e isto, por si só, não era pequena dificuldade.
O meu tio, que não queria parecer ter qualquer hesitação sobre o assunto perante mim ou o guia, decidiu-se de imediato. Apontou calmamente para o túnel oriental; e, sem demora, entrámos nas suas lúgubres reentrâncias.
Além disso, se ele tivesse sentido qualquer hesitação, esta poderia ter sido prolongada indefinidamente, pois não havia qualquer indicação pela qual determinar uma escolha. Era absolutamente necessário confiar no acaso e na boa sorte!
A descida desta galeria obscura e estreita foi muito gradual e sinuosa. Por vezes, olhávamos através de uma sucessão de arcos, cujo curso se assemelhava muito às naves de uma catedral gótica. Os grandes escultores e construtores artísticos da Idade Média poderiam ter completado aqui os seus estudos com vantagem. Muitas ideias mais belas e sugestivas de beleza arquitetónica teriam sido descobertas por eles. Após passar por esta fase do caminho cavernoso, chegámos subitamente, cerca de uma milha mais adiante, a um sistema quadrado de arco, adotado pelos primeiros romanos, projetando-se da rocha sólida e sustentando o peso do teto.
De repente, deparávamo-nos com uma série de túneis subterrâneos baixos que pareciam tocas de castores, ou trabalho de raposas — através dos quais, pelos seus caminhos estreitos e sinuosos, tivemos literalmente de rastejar!
O calor continuava a um grau bastante suportável. Com um estremecimento involuntário, refleti sobre o que devia ter sido o calor quando o vulcão de Sneffels vertia o seu fumo, chamas e fluxos de lava a ferver — tudo o que deve ter subido pela estrada que seguíamos agora. Eu podia imaginar os torrentes de pedra quente e fervilhante a disparar, borbulhando com acompanhamentos de fumo, vapor e fedor sulfuroso!
"Só de pensar nas consequências", ponderei, "se o velho vulcão voltasse a entrar em atividade."
Não comuniquei estas reflexões um tanto desagradáveis ao meu tio. Ele não só não as teria compreendido, como teria ficado intensamente desgostoso. A sua única ideia era seguir em frente. Ele caminhava, deslizava, trepava por pilhas de fragmentos, rolava por montes de lava partida, com uma seriedade e convicção que era impossível não admirar.
Às seis horas da noite, após uma viagem muito cansativa, mas não tão extenuante como a anterior, tínhamos feito seis milhas em direção ao sul, mas não tínhamos descido mais do que uma milha.
O meu tio, como de costume, deu o sinal de paragem. Comemos a nossa refeição num silêncio pensativo e depois recolhemo-nos para dormir.
Os nossos arranjos para a noite eram muito primitivos e simples. Uma manta de viagem, na qual cada um se enrolava, era toda a nossa cama. Não tínhamos necessidade de temer o frio ou quaisquer visitas desagradáveis. Os viajantes que se enterram nos desertos e profundezas do deserto africano, que procuram lucro e prazer nas florestas do Novo Mundo, são forçados a revezar-se na vigia durante as horas de sono; mas nesta região da terra, a solidão absoluta e a segurança completa reinavam supremas.
Não tínhamos nada a temer, nem de selvagens nem de animais selvagens.
Após um doce repouso noturno, acordámos frescos e prontos para a ação. Não havendo nada que nos detivesse, iniciámos a nossa viagem. Continuámos a escavar através do túnel de lava como antes. Era impossível entender por que solo estávamos a passar. O túnel, aliás, em vez de descer às entranhas da terra, tornou-se absolutamente horizontal.
Cheguei mesmo a pensar, após algum exame, que estávamos efetivamente a subir. Por volta das dez horas do dia, este estado de coisas tornou-se tão claro que, achando a mudança muito cansativa, fui obrigado a abrandar o meu passo e finalmente parar.
"Bem", disse o Professor rapidamente, "o que se passa?"
"O facto é que estou terrivelmente cansado", foi a minha resposta sincera.
"O quê", gritou o meu tio, "cansado após uma caminhada de três horas, e por um caminho tão fácil?"
"Fácil, suponho, mas muito cansativo."
"Mas como pode ser, quando tudo o que temos de fazer é descer."
"Peço desculpa, senhor. Há algum tempo que noto que estamos a subir."
"A subir", gritou o meu tio, encolhendo os ombros, "como pode ser?"
"Não há dúvida quanto a isso. Durante a última meia hora as inclinações têm sido ascendentes — e se continuarmos desta forma muito mais tempo, encontrar-nos-emos de volta à Islândia."
O meu tio abanou a cabeça com o ar de um homem que não quer ser convencido. Tentei continuar a conversa. Ele não me respondeu, mas deu mais uma vez o sinal de partida. O seu silêncio, pensei, era apenas causado por um mau humor concentrado.
Seja como for, tomei novamente a minha carga e segui corajosa e resolutamente Hans, que agora estava à frente do meu tio. Não gostava de ser derrotado ou mesmo deixado para trás. Estava naturalmente ansioso por não perder de vista os meus companheiros. A própria ideia de ser deixado para trás, perdido naquele labirinto terrível, fazia-me tremer como se tivesse malária.
Além disso, se o caminho ascendente era mais árduo e doloroso para trepar, eu tinha uma fonte de consolo e deleite secretos. Estava, aparentemente, a levar-nos de volta à superfície da terra. Isso, por si só, era esperançoso. Cada passo que dava confirmava-me na minha crença, e eu já começava a construir castelos no ar em relação ao meu casamento com a minha linda primazinha.
Por volta das doze horas houve uma grande e súbita mudança no aspeto das paredes rochosas da galeria. Notei-o primeiro pela diminuição dos raios de luz que refletiam o brilho da lâmpada. De revestida com lava brilhante e resplandecente, tornou-se rocha viva. As paredes eram encostas inclinadas, que por vezes se tornavam bastante verticais.
Estávamos agora no que os professores de geologia chamam de estado de transição, no período das pedras silurianas, assim chamado porque este espécime de formação primitiva é muito comum em Inglaterra, nos condados anteriormente habitados pela nação celta conhecida como Silures.
"Consigo ver claramente agora", exclamei; "o sedimento das águas que outrora cobriram toda a terra formou, durante o segundo período da sua existência, estes xistos e estas rochas calcárias. Estamos a dar as costas às rochas de granito, e somos como pessoas de Hamburgo que iriam para Lubeck passando por Hannover."
Poderia ter guardado as minhas observações para mim. O meu entusiasmo geológico levou a melhor, contudo, sobre o meu julgamento mais frio, e o Professor Hardwigg ouviu as minhas observações.
"O que se passa agora?" disse ele, num tom de grande gravidade.
"Bem", exclamei, "não vê estas diferentes camadas de rochas calcárias e a primeira indicação de estratos de xisto?"
"Bem; e depois?"
"Chegámos àquele período da existência do mundo em que as primeiras plantas e os primeiros animais fizeram a sua aparição."
"Tu achas?"
"Sim, veja; examine e julgue por si mesmo."
Convenci o Professor, com alguma dificuldade, a lançar a luz da sua lâmpada sobre as paredes da longa galeria sinuosa. Esperei que alguma exclamação irrompesse dos seus lábios. Enganei-me redondamente. O digno Professor não disse uma única palavra.
Era impossível dizer se ele me compreendia ou não. Talvez fosse possível que, no seu orgulho — o meu tio e um sábio professor — ele não gostasse de admitir que estava errado ao ter escolhido o túnel oriental, ou estaria ele determinado a qualquer preço a ir até ao fim do mesmo? Era bastante evidente que tínhamos deixado a região de lava e que a estrada pela qual íamos não nos podia levar de volta à grande cratera do Monte Sneffels.
À medida que avançávamos, não pude deixar de ruminar sobre toda a questão, e perguntei a mim mesmo se não estava a dar demasiada importância a estas súbitas e peculiares modificações da crosta terrestre.
Afinal, era muito provável que eu estivesse enganado — e estava dentro do alcance da probabilidade e possibilidade que não estivéssemos a fazer o nosso caminho através dos estratos de rochas que eu acreditava reconhecer, empilhados sobre a camada inferior da formação granítica.
"De qualquer forma, se estiver certo", pensei para mim mesmo, "devo certamente encontrar alguns vestígios de plantas primitivas, e será absolutamente necessário ceder a tal evidência indubitável. Vamos fazer uma boa busca."
Não perdi, portanto, qualquer oportunidade de procurar, e não tinha avançado mais do que cerca de cem jardas quando a evidência que procurava surgiu da forma mais incontestável perante os meus olhos. Era bastante natural que eu esperasse encontrar estes sinais, pois durante o período siluriano os mares continham não menos do que mil e quinhentas espécies animais e vegetais diferentes. Os meus pés, tão habituados ao solo de lava duro e árido, encontraram-se subitamente a pisar uma espécie de pó macio, os restos de plantas e conchas.
Nas próprias paredes, podia distinguir claramente o contorno, tão nítido como uma fotografia, dos fucos e dos licopódios. O digno e excelente Professor Hardwigg não podia, naturalmente, cometer qualquer erro sobre o assunto; mas creio que ele fechou deliberadamente os olhos e continuou o seu caminho com um passo firme e inalterável.
Comecei a pensar que ele estava a levar a sua obstinação demasiado longe. Já não conseguia agir com prudência ou compostura. Abaixei-me de repente e apanhei uma concha quase perfeita, que tinha, sem dúvida, pertencido a algum animal muito semelhante a alguns da atualidade. Tendo assegurado o prémio, segui no encalço do meu tio.
"Vê isto?" disse eu.
"Bem", disse o Professor, com a maior tranquilidade imperturbável, "é a concha de um animal crustáceo da ordem extinta dos trilobites; nada mais, asseguro-te."
"Mas", exclamei, muito perturbado com a sua frieza, "não tira qualquer conclusão disso?"
"Bem, se me é permitido perguntar, que conclusão tiras tu disso?"
"Bem, eu pensei..."
"Eu sei, meu rapaz, o que dirias, e tens razão, perfeita e incontestavelmente razão. Abandonámos finalmente a crosta de lava e a estrada pela qual a lava ascendeu. É bastante possível que eu me tenha enganado, mas serei incapaz de descobrir o meu erro até chegar ao fim desta galeria."
"Tem toda a razão no que diz respeito a isso", respondi, "e eu aprovaria altamente a sua decisão, se não tivéssemos de temer o maior de todos os perigos."
"E qual é?"
"Falta de água."
"Bem, meu caro Henry, não há nada a fazer. Temos de nos pôr a rações."
E ele seguiu em frente.
CAPÍTULO 17
CADA VEZ MAIS FUNDO — A MINA DE CARVÃO
Na verdade, fomos forçados a pôr-nos a rações. A nossa provisão duraria certamente não mais do que três dias. Descobri isto à hora da ceia. A pior parte da questão era que, no que é chamado de rochas de transição, era pouco provável que encontrássemos água!
Eu tinha lido sobre os horrores da sede, e sabia que onde estávamos, uma breve prova dos seus sofrimentos acabaria com as nossas aventuras — e as nossas vidas! Mas era totalmente inútil discutir o assunto com o meu tio. Ele teria respondido com algum axioma de Platão.
Durante todo o dia seguinte, prosseguimos a nossa viagem através desta galeria interminável, arco após arco, túnel após túnel. Viajámos sem trocar uma palavra. Tínhamos ficado tão mudos e reticentes como Hans, o nosso guia.
A estrada já não tinha uma tendência ascendente; pelo menos, se a tinha, não era muito claramente visível. Por vezes, não havia dúvida de que descíamos. Mas esta inclinação mal se distinguia, e de forma alguma tranquilizava o Professor, porque o caráter dos estratos não era de forma alguma modificado, e o caráter de transição das rochas tornava-se cada vez mais marcado.
Era um espetáculo glorioso ver como a luz elétrica realçava as faíscas nas paredes das rochas calcárias e o antigo grés vermelho. Poder-se-ia ter imaginado em um daqueles cortes profundos em Devonshire, que deram o seu nome a este tipo de solo. Alguns espécimes magníficos de mármore projetavam-se das paredes da galeria: alguns de um cinzento-ágata com veios brancos de caráter variegado, outros de uma cor amarela manchada, com veios vermelhos; mais adiante podiam ver-se amostras de cor nas quais se encontravam costuras de tom cereja em todos os seus matizes mais brilhantes.
A maior parte desses mármores estava marcada com as marcas de animais primitivos. Desde a noite anterior, a natureza e a criação tinham feito um progresso considerável. Em vez dos trilobitas rudimentares, percebi os restos de uma ordem mais perfeita. Entre outros, o peixe no qual o olho de um geólogo foi capaz de descobrir a primeira forma do réptil.
Os mares devonianos eram habitados por um vasto número de animais desta espécie, que foram depositados aos milhares nas rochas de nova formação.
Era bastante evidente para mim que estávamos subindo a escala da vida animal, da qual o homem forma o cume. Meu excelente tio, o Professor, parecia não notar esses avisos. Ele estava determinado a prosseguir a qualquer custo.
Ele devia estar à espera de uma destas duas coisas: ou que um poço vertical estivesse prestes a abrir-se sob os seus pés, permitindo-lhe assim continuar a sua descida, ou que algum obstáculo intransponível nos obrigasse a parar e a voltar pelo caminho que tínhamos percorrido durante tanto tempo. Mas a noite chegou novamente e, para meu horror, nenhuma das esperanças estava destinada a realizar-se!
Na sexta-feira, após uma noite em que comecei a sentir a agonia corrosiva da sede e em que, consequentemente, o apetite diminuiu, o nosso pequeno grupo levantou-se e mais uma vez seguiu as voltas e reviravoltas, as subidas e descidas, desta interminável galeria. Todos estavam silenciosos e sombrios. Eu podia ver que até o meu tio se aventurara longe demais.
Após cerca de dez horas de progresso adicional — um progresso monótono e enfadonho ao último grau — notei que a reverberação e o reflexo das nossas lâmpadas nas paredes do túnel tinham diminuído singularmente. O mármore, o xisto, as rochas calcárias, o arenito vermelho, tinham desaparecido, deixando em seus lugares uma parede escura e lúgubre, sombria e sem brilho. Quando chegamos a uma parte notavelmente estreita do túnel, apoiei a minha mão esquerda contra a rocha.
Quando retirei a mão e por acaso olhei para ela, estava completamente preta. Tínhamos chegado aos estratos de carvão da Terra Central.
"Uma mina de carvão!", exclamei.
"Uma mina de carvão sem mineiros", respondeu o meu tio, um pouco severamente.
"Como podemos saber?"
"Eu posso saber", respondeu o meu tio, num tom agudo e doutoral. "Tenho a absoluta certeza de que esta galeria através de camadas sucessivas de carvão não foi cortada pela mão do homem. Mas se é obra da natureza ou não, pouco nos importa. Chegou a hora da nossa refeição noturna; vamos cear."
Hans, o guia, ocupou-se em preparar a comida. Eu tinha chegado ao ponto em que já não conseguia comer. Tudo com que me importava eram as poucas gotas de água que me cabiam. É inútil registrar o que sofri. A cabaça do guia, nem metade cheia, era tudo o que restava para nós três!
Tendo terminado a sua refeição, os meus dois companheiros deitaram-se sobre os seus tapetes e encontraram no sono um remédio para a sua fadiga e sofrimento. Quanto a mim, não conseguia dormir; fiquei contando as horas até o amanhecer.
Na manhã seguinte, sábado, às seis horas, partimos novamente. Vinte minutos depois, deparamo-nos subitamente com uma vasta escavação. Pela sua enorme extensão, vi imediatamente que a mão do homem não poderia ter nada a ver com aquela mina de carvão; a abóbada acima teria desabado; tal como estava, era mantida unida apenas por algum milagre da natureza.
Esta poderosa caverna natural tinha cerca de trinta metros de largura por cerca de quarenta e cinco de altura. A terra tinha sido evidentemente separada por algum violento abalo subterrâneo. A massa, cedendo a algum prodigioso levantamento da natureza, partira-se em dois, deixando a vasta brecha na qual nós, habitantes da terra, tínhamos penetrado pela primeira vez.
Toda a singular história do período carbonífero estava escrita naquelas paredes escuras e lúgubres. Um geólogo teria sido capaz de seguir facilmente as diferentes fases da sua formação. As camadas de carvão eram separadas por estratos de arenito, uma argila compacta que parecia estar esmagada pelo peso de cima.
Naquele período do mundo que precedeu a época secundária, a terra estava coberta por uma camada de vegetação enorme e rica, devido à dupla ação do calor tropical e da umidade perpétua. Uma vasta nuvem atmosférica de vapor envolvia a terra por todos os lados, impedindo que os raios do sol a alcançassem.
Daí a conclusão de que estes calores intensos não provinham desta nova fonte de caloria.
Talvez até o astro-rei não estivesse pronto para o seu trabalho brilhante: iluminar um universo. Os climas ainda não existiam, e um calor nivelado permeava toda a superfície do globo — o mesmo calor existindo no Polo Norte e no equador.
De onde viria ele? Do interior da terra?
Apesar de todas as teorias eruditas do Professor Hardwigg, um fogo feroz e veemente certamente ardia dentro das entranhas do grande esferoide. A sua ação era sentida até na crosta mais superficial da terra; as plantas então existentes, privadas dos raios vivificantes do sol, não tinham nem brotos, nem flores, nem odor, mas as suas raízes extraíam uma vida forte e vigorosa da terra ardente dos primeiros tempos.
Havia poucas árvores, por assim dizer — apenas plantas herbáceas, imensos relvados, silvas, musgos, famílias raras que, no entanto, naqueles dias eram contadas aos milhares.
É inteiramente a esta vegetação exuberante que o carvão deve a sua origem. A crosta do vasto globo ainda cedia sob a influência da massa fervente e em ebulição que trabalhava eternamente por baixo. Daí surgiram numerosas fissuras e contínuos desabamentos da terra superior. A densa massa de plantas, estando debaixo das águas, formou-se rapidamente em vastas aglomerações.
Depois veio a ação da química natural; nas profundezas do oceano, a massa vegetal tornou-se primeiro turfa e depois, graças à influência dos gases e da fermentação subterrânea, passou pelo processo completo de mineralização.
Desta forma, nos primeiros tempos, formaram-se aquelas vastas e prodigiosas camadas de carvão que um consumo cada vez maior deve esgotar completamente em cerca de três séculos mais, se as pessoas não encontrarem alguma luz mais econômica que o gás e alguma força motriz mais barata que o vapor.
Todas estas reflexões, as memórias dos meus estudos escolares, vieram à minha mente enquanto eu contemplava estas poderosas acumulações de carvão, cujas riquezas, no entanto, dificilmente serão utilizadas. A exploração destas minas só poderia ser realizada a um custo que nunca daria lucro.
O assunto, contudo, mal merece consideração quando o carvão está espalhado por toda a superfície do globo, a poucos metros da crosta superior. Ao olhar para estes estratos intocados, portanto, eu sabia que eles permaneceriam enquanto o mundo durasse.
Enquanto continuávamos a nossa jornada, fui o único a esquecer a extensão da estrada, entregando-me totalmente a estas considerações geológicas. A temperatura continuava muito semelhante à que sentíamos enquanto viajávamos por entre a lava e os xistos. Por outro lado, o meu olfato foi muito afetado por um odor muito forte. Imediatamente soube que a galeria estava cheia até transbordar daquele gás perigoso que os mineiros chamam de grisu, cuja explosão causou acidentes tão terríveis e medonhos, fazendo centenas de viúvas e órfãos em uma única hora.
Felizmente, fomos capazes de iluminar o nosso progresso por meio do aparelho de Ruhmkorff. Se tivéssemos sido tão imprudentes e insensatos a ponto de explorar esta galeria com tocha na mão, uma terrível explosão teria posto fim às nossas viagens, simplesmente porque não restariam viajantes.
A nossa excursão através desta maravilhosa mina de carvão, nas entranhas da terra, durou até a noite. O meu tio mal conseguia esconder a sua impaciência e insatisfação pelo fato de a estrada continuar a avançar numa direção horizontal.
A escuridão, densa e opaca a alguns metros à frente e atrás, tornava impossível distinguir qual era o comprimento da galeria. Quanto a mim, comecei a acreditar que era simplesmente interminável e que continuaria da mesma forma durante meses.
De repente, às seis horas, encontramo-nos em frente a uma parede. À direita, à esquerda, acima, abaixo, não havia passagem em lugar algum. Tínhamos chegado a um local onde as rochas diziam, em tons inconfundíveis: Proibida a Passagem.
Fiquei estupefato. O guia simplesmente cruzou os braços. O meu tio ficou em silêncio.
"Bem, bem, tanto melhor", exclamou o meu tio, finalmente, "agora sei onde estamos. Definitivamente, não estamos na estrada seguida por Saknussemm. Tudo o que temos a fazer é voltar. Vamos ter uma boa noite de descanso e, antes que se passem três dias, prometo-vos que teremos recuperado o ponto onde as galerias se dividiam."
"Sim, podemos, se as nossas forças durarem tanto", exclamei com uma voz lamentável.
"E por que não?"
"Amanhã, entre nós três, não haverá uma gota de água. Acabou."
"E a sua coragem com ela", disse o meu tio, falando num tom severo.
O que eu poderia dizer? Virei-me de lado e, por pura exaustão, caí num sono profundo, perturbado por sonhos com água! E acordei sem renovar as forças.
Eu teria trocado uma mina de diamantes por um copo de água pura de nascente!
CAPÍTULO 18
O CAMINHO ERRADO!
No dia seguinte, a nossa partida ocorreu a uma hora muito cedo. Não havia tempo para o menor atraso. Segundo os meus cálculos, teríamos cinco dias de trabalho árduo para voltar ao local onde as galerias se dividiam.
Nunca poderei descrever todos os sofrimentos que suportamos no nosso regresso. O meu tio suportou-os como um homem que estava errado — isto é, com uma raiva contida e suprimida; Hans, com toda a resignação do seu caráter pacífico; e eu... confesso que não fiz nada além de reclamar e desesperar. Não tinha ânimo para aquela má sorte.
Mas havia um consolo. A derrota logo no início provavelmente arruinaria toda a viagem!
Como eu esperava desde o início, o nosso abastecimento de água esgotou-se completamente no nosso primeiro dia de marcha. A nossa provisão de líquidos reduziu-se ao nosso suprimento de Schiedam; mas este horrível — digo mesmo — este licor infernal queimava a garganta, e eu nem sequer suportava vê-lo. Achei a temperatura sufocante. Estava paralisado de fadiga. Mais de uma vez estive prestes a cair insensível no chão. Todo o grupo parou então, e o digno islandês e o meu excelente tio fizeram o que puderam para me consolar e confortar. Podia ver claramente, porém, que o meu tio estava lutando dolorosamente contra as fadigas extremas da nossa jornada e a terrível tortura gerada pela ausência de água.
Finalmente chegou um momento em que deixei de me lembrar de qualquer coisa — quando tudo era um sonho horrível, hediondo e fantástico!
Por fim, na terça-feira, o sétimo dia do mês de julho, depois de rastejarmos de mãos e joelhos durante muitas horas, mais mortos do que vivos, chegamos ao ponto de junção entre as galerias. Deitei-me como um tronco, uma massa inerte de carne humana sobre o solo árido de lava. Eram dez da manhã.
Hans e o meu tio, encostados à parede, tentavam mastigar alguns pedaços de biscoito, enquanto gemidos e suspiros profundos escapavam dos meus lábios secos e inchados. Depois, caí numa espécie de letargia profunda.
Logo senti o meu tio aproximar-se e levantar-me ternamente nos seus braços.
"Pobre rapaz", ouvi-o dizer num tom de profunda comiseração.
Fiquei profundamente tocado por estas palavras, não estando de forma alguma acostumado a sinais de fraqueza feminina no Professor. Agarrei as suas mãos trêmulas com as minhas e apertei-as suavemente. Ele permitiu que eu o fizesse sem resistência, olhando para mim com bondade o tempo todo. Os seus olhos estavam úmidos de lágrimas.
Vi-o então pegar na cabaça que trazia ao lado. Para minha surpresa, ou melhor, para o meu espanto, ele colocou-a nos meus lábios.
"Beba, meu rapaz", disse ele.
Seria possível que os meus ouvidos não me tivessem enganado? Estaria o meu tio louco? Olhei para ele com, tenho certeza, uma expressão bastante idiota. Não podia acreditar. Temia demais a contrariedade da desilusão.
"Beba", disse ele novamente.
Teria ouvido bem? Antes, porém, que eu pudesse fazer a pergunta pela segunda vez, um gole de água refrescou os meus lábios e garganta ressecados — um gole, mas acredito que ele me trouxe de volta à vida.
Agradeci ao meu tio juntando as mãos. O meu coração estava cheio demais para falar.
"Sim", disse ele, "um gole de água, o último — ouve-me, meu rapaz — o último! Guardei-o no fundo da minha garrafa como a menina dos meus olhos. Vinte vezes, cem vezes, resisti ao terrível desejo de bebê-lo. Mas... não... não, Harry, guardei-o para você."
"Meu querido tio", exclamei, e as grandes lágrimas rolaram pelas minhas faces quentes e febris.
"Sim, meu pobre rapaz, eu sabia que quando chegasses a este lugar, esta encruzilhada na terra, cairias quase morto, e guardei a minha última gota de água para te restaurar."
"Obrigado", gritei; "obrigado do fundo do meu coração."
Por mais que a minha sede não tivesse sido realmente saciada, eu tinha, contudo, recuperado parcialmente as minhas forças. Os músculos contraídos da minha garganta relaxaram, e a inflamação dos meus lábios diminuiu um pouco. Em todo o caso, consegui falar.
"Bem", disse eu, "não pode haver dúvida agora sobre o que temos de fazer. A água faltou-nos completamente; a nossa viagem, portanto, chegou ao fim. Vamos voltar."
Enquanto eu falava assim, o meu tio evitava evidentemente o meu rosto: mantinha a cabeça baixa; os seus olhos estavam voltados para todas as direções possíveis, exceto a certa.
"Sim", continuei, ficando excitado com as minhas próprias palavras, "temos de voltar a Sneffels. Que o céu nos dê forças para nos permitir ver novamente a luz do dia. Quem dera que estivéssemos agora no cume da cratera."
"Voltar", disse o meu tio, falando para si mesmo, "e tem de ser assim?"
"Voltar... sim, e sem perder um único momento", exclamei veementemente.
Por alguns momentos houve silêncio sob aquela abóbada escura e lúgubre.
"Então, meu caro Harry", disse o Professor num tom de voz muito singular, "essas poucas gotas de água não foram suficientes para restaurar a sua energia e coragem."
"Coragem!", gritei.
"Vejo que está tão abatido quanto antes — e ainda se entrega ao desânimo e ao desespero."
Do que era feito aquele homem, afinal, e que outros projetos estariam entrando no seu cérebro fértil e audacioso!
"O senhor não está desanimado, senhor?"
"O quê! Desistir exatamente quando estamos à beira do sucesso?", exclamou ele. "Nunca, nunca se dirá que o Professor Hardwigg recuou."
"Então temos de nos resignar a perecer", gritei com um suspiro de impotência.
"Não, Harry, meu rapaz, certamente não. Vá, deixe-me, estou muito longe de desejar a sua morte. Leve o Hans consigo. *Eu seguirei sozinho.*"
"O senhor pede que nós o deixemos?"
"Deixem-me, eu digo. Assumi esta perigosa e arriscada aventura. Levá-la-ei até o fim... ou nunca voltarei à superfície da Mãe Terra. Vá, Harry... mais uma vez lhe digo: vá!"
O meu tio, enquanto falava, estava terrivelmente excitado. A sua voz, que antes fora terna, quase feminina, tornou-se áspera e ameaçadora. Ele parecia estar lutando com uma energia desesperada contra o impossível. Eu não queria abandoná-lo no fundo daquele abismo, enquanto, por outro lado, o instinto de preservação dizia-me para fugir.
Entretanto, o nosso guia observava com profunda calma e indiferença. Ele parecia ser uma parte desinteressada, e ainda assim sabia perfeitamente o que se passava entre nós. Os nossos gestos indicavam suficientemente os diferentes caminhos que cada um desejava seguir — e que cada um tentava influenciar o outro a tomar. Mas Hans parecia não se interessar minimamente pelo que era realmente uma questão de vida ou morte para todos nós, e esperava, pronto para obedecer ao sinal que dissesse para subir ou para retomar a sua jornada desesperada para o interior da terra.
Como eu desejava, com todo o meu coração e alma, poder fazê-lo entender as minhas palavras. As minhas representações, os meus suspiros e gemidos, os acentos sinceros com que eu deveria ter falado teriam convencido aquela natureza fria e dura. Aqueles perigos e riscos terríveis, dos quais o guia estóico não tinha ideia, eu tê-los-ia apontado — eu tê-lo-ia, por assim dizer, feito ver e sentir. Entre nós, poderíamos ter convencido o obstinado Professor. Se o pior tivesse acontecido, poderíamos tê-lo forçado a regressar ao cume de Sneffels.
Aproximei-me silenciosamente de Hans. Agarrei a sua mão na minha. Ele não moveu um músculo. Indiquei-lhe o caminho para o topo da cratera. Ele permaneceu imóvel. A minha forma ofegante, o meu semblante abatido, deviam ter indicado a extensão dos meus sofrimentos. O islandês balançou suavemente a cabeça e apontou para o meu tio.
"Mestre", disse ele.
A palavra é islandesa assim como inglesa.
"O mestre!", gritei, fora de mim de fúria. "Louco! Não... digo-lhe que ele não é o mestre das nossas vidas; temos de fugir! Temos de arrastá-lo conosco! Ouve-me? Entende-me, digo eu?"
Já expliquei que segurava Hans pelo braço. Tentei fazê-lo levantar-se do seu assento. Lutei com ele e tentei forçá-lo a afastar-se. O meu tio interpôs-se então.
"Meu bom Henry, tenha calma", disse ele. "Você não obterá nada do meu devotado seguidor; portanto, ouça o que tenho a dizer."
Cruzei os braços, tão bem quanto pude, e olhei o meu tio diretamente nos olhos.
"Esta terrível falta de água", disse ele, "é o único obstáculo ao sucesso do meu projeto. Em toda a galeria, feita de lava, xisto e carvão, é verdade que não encontramos uma única molécula líquida. É bastante possível que tenhamos mais sorte no túnel ocidental."
A minha única resposta foi balançar a cabeça com um ar de profunda incredulidade.
"Ouça-me até o fim", disse o Professor no seu conhecido tom de conferência. "Enquanto você jazia ali sem vida ou movimento, empreendi uma viagem de reconhecimento à conformação desta outra galeria. Descobri que ela desce diretamente para as entranhas da terra e, em poucas horas, nos levará à antiga formação granítica. Nela, sem dúvida, encontraremos inúmeras nascentes. A natureza da rocha torna isto uma certeza matemática, e o instinto concorda com a lógica ao dizer que assim é. Agora, esta é a proposta séria que tenho para lhe fazer. Quando Cristóvão Colombo pediu aos seus homens três dias para descobrir a terra prometida, os seus homens, doentes, aterrorizados e sem esperança, deram-lhe três dias — e o Novo Mundo foi descoberto. Agora eu, o Cristóvão Colombo desta região subterrânea, só lhe peço mais um dia. Se, quando esse tempo expirar, eu não tiver encontrado a água que procuramos, juro-lhe que abandonarei o meu poderoso empreendimento e voltarei à superfície da terra."
Apesar da minha irritação e desespero, eu sabia quanto custava ao meu tio fazer esta proposta e manter uma linguagem tão conciliatória. Dadas as circunstâncias, o que poderia eu fazer senão ceder?
"Bem", gritei, "que seja como deseja, e que o céu recompense a sua energia sobre-humana. Mas como, a menos que descubramos água, as nossas horas estão contadas, não percamos tempo, vamos em frente."
CAPÍTULO 19
A GALERIA OCIDENTAL — UMA NOVA ROTA
A nossa descida foi então retomada por meio da segunda galeria. Hans assumiu o seu posto à frente, como de costume. Não tínhamos percorrido mais de cem metros quando o Professor examinou cuidadosamente as paredes.
"Esta é a formação primitiva — estamos no caminho certo — adiante está a nossa esperança!"
Quando a terra inteira arrefeceu nas primeiras horas da manhã do mundo, a diminuição do volume do globo produziu um estado de deslocação na sua crosta superior, seguido de rupturas, fendas e fissuras. A passagem era uma fissura deste género, através da qual, eras atrás, tinha fluído o granito eruptivo. As mil voltas e reviravoltas formavam um labirinto inextricável através do solo antigo.
À medida que descíamos, sucessões de camadas que compunham o solo primitivo surgiam com a maior fidelidade de detalhes. A ciência geológica considera este solo primitivo como a base da crosta mineral, e reconheceu que é composto por três estratos ou camadas diferentes, todos eles repousando sobre a rocha imutável conhecida como granito.
Nenhum mineralogista se viu jamais colocado numa posição tão maravilhosa para estudar a natureza em toda a sua beleza real e nua. A sonda, uma mera máquina, não poderia trazer à superfície da terra os objetos de valor para o estudo da sua estrutura interna, que estávamos prestes a ver com os nossos próprios olhos e a tocar com as nossas próprias mãos.
Lembrem-se de que escrevo isto depois da viagem.
Através do veio das rochas, colorido por belos tons esverdeados, serpenteavam fios metálicos de cobre, de manganês, com vestígios de platina e ouro. Eu não podia deixar de contemplar estas riquezas enterradas nas entranhas da Mãe Terra, das quais nenhum homem desfrutaria até ao fim dos tempos! Estes tesouros — grandiosos e inesgotáveis — foram enterrados na manhã da história da terra, a profundidades tão terríveis que nenhum pé-de-cabra ou picareta os arrancará jamais do seu túmulo!
A luz da nossa bobina de Ruhmkorff, multiplicada por dez pela miríade de massas prismáticas de rocha, enviava os seus jatos de fogo em todas as direções, e eu podia imaginar-me a viajar através de um enorme diamante oco, cujos raios produziam miríades de efeitos extraordinários.
Perto das seis horas, este festival de luz começou sensível e visivelmente a diminuir e, em breve, quase cessou. As paredes da galeria assumiram um tom cristalizado, com um matiz sombrio; a mica branca começou a misturar-se mais livremente com o feldspato e o quartzo, para formar o que se pode chamar a verdadeira rocha — a pedra que é dura acima de tudo, que suporta, sem ser esmagada, os quatro andares do solo da terra.
Estávamos cercados por uma imensa prisão de granito!
Eram agora oito horas e ainda não havia sinal de água. Os sofrimentos que suportei foram horríveis. O meu tio mantinha-se agora à frente da nossa pequena coluna. Nada o podia induzir a parar. Eu, entretanto, tinha apenas um pensamento real. O meu ouvido estava atentamente à escuta para captar o som de uma nascente. Mas nenhum som agradável de água a cair chegou ao meu ouvido atento.
Mas, finalmente, chegou o momento em que os meus membros recusaram carregar-me por mais tempo. Lutei heroicamente contra as terríveis torturas que suportava, porque não queria obrigar o meu tio a parar. Para ele, eu sabia, este seria o último golpe fatal.
De repente, senti um desfalecimento mortal apoderar-se de mim. Os meus olhos já não podiam ver; os meus joelhos tremiam. Dei um grito de desespero — e caí!
"Socorro, socorro, estou a morrer!"
O meu tio virou-se e lentamente refez os seus passos. Olhou para mim com os braços cruzados e, depois, deixou escapar uma frase, em acentos cavos, dos seus lábios:
"Tudo acabou."
A última coisa que vi foi um rosto terrivelmente distorcido de dor e tristeza; e depois os meus olhos fecharam-se.
Quando os abri novamente, vi os meus companheiros deitados perto de mim, imóveis, envoltos nos seus enormes cobertores de viagem. Estariam a dormir ou mortos? Para mim, o sono estava totalmente fora de questão. O meu desmaio terminado, eu estava desperto como uma cotovia. Sofria demasiado para que o sono visitasse as minhas pálpebras — tanto mais que me julgava doente até à morte — a morrer. As últimas palavras ditas pelo meu tio pareciam zumbir nos meus ouvidos — tudo acabou! E era provável que ele tivesse razão. No estado de prostração a que eu estava reduzido, era loucura pensar em ver novamente a luz do dia.
Acima, havia quilómetros e quilómetros de crosta terrestre. Ao pensar nisso, podia imaginar todo o peso a repousar sobre os meus ombros. Estava esmagado, aniquilado! e exauri-me em tentativas vãs de me virar na minha cama de granito.
Horas e horas passaram. Um silêncio profundo e terrível reinava à nossa volta — um silêncio de túmulo. Nada se podia fazer ouvir através destas paredes gigantescas de granito. O próprio pensamento era estupendo.
De repente, apesar da minha apatia, apesar do tipo de calma mortal em que fui lançado, algo me despertou. Era um ruído ligeiro, mas peculiar. Enquanto observava atentamente, notei que o túnel estava a ficar escuro. Então, olhando através da luz ténue que restava, julguei ver o islandês a partir, com a lanterna na mão.
Porque teria ele agido assim? Será que Hans, o guia, pretendia abandonar-nos? O meu tio estava a dormir profundamente — ou morto. Tentei gritar e acordá-lo. A minha voz, saindo debilmente dos meus lábios secos e febris, não encontrou eco naquele lugar terrível. A minha garganta estava seca, a minha língua colava-se ao céu da boca. A obscuridade tinha-se tornado intensa e, finalmente, até o som ténue dos passos do guia perdeu-se na distância vazia. A minha alma parecia cheia de angústia, e a morte parecia bem-vinda, desde que chegasse depressa.
"Hans está a deixar-nos", gritei. "Hans — Hans, se és um homem, volta."
Estas palavras foram ditas para mim mesmo. Não podiam ser ouvidas em voz alta. No entanto, após os primeiros momentos de terror passarem, senti vergonha das minhas suspeitas contra um homem que, até então, se tinha comportado de forma tão admirável. Nada na sua conduta ou caráter justificava suspeitas. Além disso, uma reflexão momentânea tranquilizou-me. A sua partida não podia ser uma fuga. Em vez de subir a galeria, ele ia mais fundo para o abismo. Se tivesse algum mau desígnio, o seu caminho teria sido para cima.
Este raciocínio acalmou-me um pouco e comecei a ter esperança!
O bom, pacífico e imperturbável Hans certamente não se teria levantado do seu sono sem algum motivo sério e grave. Estaria ele empenhado numa viagem de descoberta? Durante o silêncio profundo e calmo da noite, teria ele finalmente ouvido aquele doce murmúrio que nos preocupava tanto a todos?
CAPÍTULO 20
ÁGUA, ONDE ESTÁ ELA? UMA AMARGA DESILUSÃO
Durante uma longa, longa e cansativa hora, passaram pelo meu cérebro delirante todo o tipo de razões sobre o que poderia ter despertado o nosso silencioso e fiel guia. As ideias mais absurdas e ridículas passaram pela minha cabeça, cada uma mais impossível do que a outra. Acredito que estava meio ou totalmente louco.
Subitamente, contudo, surgiu, como que das profundezas da terra, uma voz de conforto. Era o som de passos! Hans estava a regressar.
Pouco depois, a luz incerta começou a brilhar nas paredes da passagem, e então surgiu bem lá no fundo do túnel inclinado. Finalmente, o próprio Hans apareceu.
Aproximou-se do meu tio, colocou a mão no seu ombro e acordou-o gentilmente. O meu tio, assim que viu quem era, levantou-se instantaneamente.
"Bem!", exclamou o Professor.
"Vatten", disse o caçador.
Eu não sabia uma única palavra da língua dinamarquesa e, no entanto, por uma espécie de instinto misterioso, compreendi o que o guia tinha dito.
"Água, água!", gritei, num tom selvagem e frenético, batendo palmas e gesticulando como um louco.
"Água!", murmurou o meu tio, numa voz de profunda emoção e gratidão. "Hvar?" ("Onde?")
"Nedat." ("Abaixo.")
"Onde? Abaixo!" Compreendi cada palavra. Tinha agarrado o caçador pelas mãos e agitei-as calorosamente, enquanto ele observava com perfeita calma.
Os preparativos para a nossa partida não demoraram muito e logo estávamos a fazer uma descida rápida para o túnel.
Uma hora depois, tínhamos avançado mil metros e descido seiscentos metros.
Nesse momento, ouvi um som costumeiro e bem conhecido a percorrer o chão da rocha granítica — uma espécie de rugido surdo e sombrio, como o de uma cascata distante.
Durante a primeira meia hora do nosso avanço, não encontrando a nascente descoberta, os meus sentimentos de intenso sofrimento pareciam regressar. Mais uma vez, comecei a perder toda a esperança. O meu tio, contudo, observando o quanto eu estava novamente desanimado, retomou a conversa.
"Hans tinha razão", exclamou ele entusiasticamente; "aquele é o rugido surdo de uma torrente."
"Uma torrente", gritei, encantado por ouvir as palavras bem-vindas.
"Não há a menor dúvida quanto a isso", respondeu ele, "um rio subterrâneo está a correr ao nosso lado."
Não respondi, mas apressei-me, mais uma vez animado pela esperança. Comecei a nem sentir a fadiga profunda que, até então, me dominara. O próprio som desta gloriosa água a murmurar já me refrescava. Podíamos ouvi-lo aumentar de volume a cada momento. A torrente, que durante muito tempo se pôde ouvir a correr sobre as nossas cabeças, corria agora distintamente ao longo da parede esquerda, rugindo, correndo, borrifando e ainda caindo.
Várias vezes passei a mão pela rocha, esperando encontrar algum vestígio de humidade — da mais ligeira infiltração. Infelizmente, em vão.
Mais uma meia hora passou no mesmo trabalho cansativo. Avançámos novamente.
Tornou-se agora evidente que o caçador, durante a sua ausência, não tinha conseguido levar as suas pesquisas mais longe. Guiado por um instinto peculiar aos habitantes das regiões montanhosas e aos que procuram água, ele "cheirou" a nascente viva através da rocha. Ainda assim, não tinha visto o precioso líquido. Não tinha saciado a sua própria sede, nem nos trouxe uma gota na sua cabaça.
Além disso, logo fizemos a desastrosa descoberta de que, se o nosso progresso continuasse, em breve nos afastaríamos da torrente, cujo som diminuía gradualmente. Voltámos para trás. Hans parou no local exato onde o som da torrente parecia mais próximo.
Eu já não conseguia suportar o suspense e o sofrimento, e sentei-me contra a parede, por trás da qual podia ouvir a água a ferver e a efervescer a menos de sessenta centímetros. Mas uma parede sólida de granito ainda nos separava dela!
Hans olhou atentamente para mim e, estranhamente, por uma vez, julguei ver um sorriso no seu rosto imperturbável.
Ele levantou-se da pedra em que estava sentado e pegou na lanterna. Não pude deixar de me levantar e segui-lo. Ele moveu-se lentamente ao longo da parede de granito firme e sólida. Observei-o com uma mistura de curiosidade e ânsia. Pouco depois, parou e encostou o ouvido à pedra seca, movendo-se lentamente e escutando com o máximo cuidado e atenção. Compreendi imediatamente que ele procurava o ponto exato onde o rugido da torrente se ouvia mais claramente. Este ponto, ele encontrou-o em breve na parede lateral do lado esquerdo, cerca de um metro acima do nível do chão do túnel.
Eu estava num estado de intensa agitação. Quase não me atrevia a acreditar no que o caçador de patos-eider ia fazer. Era, contudo, impossível, num momento seguinte, não compreender e aplaudir, e até sufocá-lo nos meus abraços, quando o vi levantar o pesado pé-de-cabra e começar um ataque à própria rocha.
"Salvos!", gritei.
"Sim", gritou o meu tio, ainda mais agitado e encantado do que eu; "Hans tem toda a razão. Oh, o homem digno e excelente! Nunca nos teríamos lembrado de tal ideia."
E ninguém mais, creio eu, o teria feito. Tal processo, por mais simples que parecesse, não nos teria certamente passado pela cabeça. Nada poderia ser mais perigoso do que começar a trabalhar com picaretas naquela parte específica do globo. Supondo que, enquanto ele trabalhava, ocorresse um desmoronamento, e supondo que a torrente, uma vez ganho um centímetro, quisesse ganhar um metro e viesse jorrar fisicamente através da rocha partida!
Nenhum destes perigos era quimérico. Eram apenas demasiado reais. Mas, naquele momento, nenhum medo de queda do teto, ou mesmo de inundação, era capaz de nos deter. A nossa sede era tão intensa que, para a saciar, teríamos cavado abaixo do leito do velho Oceano.
Hans pôs-se calmamente ao trabalho — um trabalho que nem o meu tio nem eu teríamos empreendido a nenhum preço. A nossa impaciência era tão grande que, se tivéssemos começado com picareta e pé-de-cabra, a rocha ter-se-ia partido rapidamente em cem fragmentos. O guia, pelo contrário, calmo, pronto, moderado, desgastava a rocha dura com pequenos golpes firmes do seu instrumento, sem tentar fazer um buraco maior do que cerca de quinze centímetros. Enquanto estava ali, ouvi, ou julguei ouvir, o rugido da torrente a aumentar momentaneamente de volume e, por vezes, quase senti a sensação agradável da água nos meus lábios secos.
Ao fim do que pareceu uma eternidade, Hans tinha feito um buraco que permitia ao seu pé-de-cabra entrar sessenta centímetros na rocha sólida. Ele tinha estado a trabalhar exatamente uma hora. Pareceu uma dúzia. Eu estava a ficar louco de impaciência. O meu tio começou a pensar em usar medidas mais violentas. Tive a maior dificuldade em contê-lo. Ele tinha, de facto, acabado de agarrar no seu pé-de-cabra quando se ouviu um assobio alto e bem-vindo. Então, um fluxo, ou melhor, um jato de água irrompeu através da parede e saiu com tanta força que atingiu o lado oposto!
Hans, o guia, que foi quase derrubado pelo choque, mal conseguiu conter um grito de dor e sofrimento. Compreendi o que ele queria dizer quando, ao mergulhar as mãos no jato cintilante, eu próprio dei um grito selvagem e frenético. A água estava escaldante!
"A ferver", gritei, na amarga desilusão.
"Bem, não importa", disse o meu tio, "em breve arrefecerá."
O túnel começou a encher-se de nuvens de vapor, enquanto um pequeno riacho corria para o interior da terra. Em pouco tempo, tínhamos água suficientemente fresca para beber. Engolimo-la em enormes goles.
Oh! Que deleite exaltado — que luxo rico e incomparável! O que era esta água, de onde vinha ela? Para nós, o que era isso? O facto simples era — era água; e, embora ainda com um toque de calor, trazia de volta ao coração aquela vida que, sem ela, certamente se teria desvanecido. Bebi avidamente, quase sem a saborear.
Quando, contudo, quase saciei a minha sede voraz, fiz uma descoberta.
"Ora, é água ferruginosa!"
"Um excelente estomacal", respondeu o meu tio, "e altamente mineralizada. Eis uma viagem que vale vinte idas a Spa."
"É muito boa", respondi.
"Eu acho que sim. Água encontrada a dez quilómetros de profundidade. Tem um sabor peculiar a tinta que não é de modo algum desagradável. O Hans pode congratular-se por ter feito uma descoberta rara. O que dizes, sobrinho, de acordo com o costume habitual dos viajantes, de dar ao riacho o nome dele?"
"Bom", disse eu. E o nome de "Hansbach" ("Riacho do Hans") foi imediatamente acordado.
Hans não ficou nem um pouco mais orgulhoso depois de ouvir a nossa determinação do que antes. Depois de ter tomado uma porção muito pequena do refresco bem-vindo, sentou-se num canto com a sua habitual gravidade imperturbável.
"Agora", disse eu, "não vale a pena deixar esta água correr em vão."
"Para que serve", respondeu o meu tio, "a fonte de onde nasce este rio é inesgotável."
"Não importa", continuei, "vamos encher o nosso odre e as cabaças e, depois, tentar tapar a abertura."
O meu conselho, após alguma hesitação, foi seguido ou tentou ser seguido. Hans apanhou todos os pedaços partidos de granito que tinha removido e, usando alguma estopa que por acaso tinha consigo, tentou tapar a fissura que tinha feito na parede. Tudo o que conseguiu foi escaldar as mãos. A pressão era demasiado grande e todas as nossas tentativas foram fracassos totais.
"É evidente", observei, "que a superfície superior destas nascentes está situada a uma altura muito grande acima — como podemos razoavelmente inferir pela grande pressão do jato."
"Isso não é de modo algum duvidoso", respondeu o meu tio, "se esta coluna de água tiver cerca de dez mil metros de altura, a pressão atmosférica deve ser algo enorme. Mas uma nova ideia acabou de me ocorrer."
"E qual é?"
"Porque ter tanto trabalho para fechar esta abertura?"
"Porque..."
Hesitei e gaguejei, não tendo qualquer razão real.
"Quando os nossos cantis estiverem vazios, não temos a certeza de que seremos capazes de os encher", observou o meu tio.
"Acho que isso é muito provável."
"Bem, então, deixemos esta água correr. Ela irá, naturalmente, seguir o nosso rasto e servir-nos de guia e refresco."
"Acho a ideia boa", gritei em resposta, "e com este riacho como companheiro, não há mais nenhuma razão para não termos sucesso no nosso projeto maravilhoso."
"Ah, meu rapaz", disse o Professor, rindo, "afinal, estás a ceder."
"Mais do que isso, agora estou confiante no sucesso final."
"Um momento, meu sobrinho. Comecemos por tirar algumas horas de descanso."
Tinha-me esquecido completamente de que era noite. O cronómetro, contudo, informou-me do facto. Em breve, estávamos suficientemente recuperados e refrescados, e tínhamos adormecido profundamente.
CAPÍTULO 21
SOB O OCEANO
No dia seguinte, tínhamos quase esquecido os nossos sofrimentos passados. A primeira sensação que experimentei foi a surpresa por não ter sede, e perguntei-me, na verdade, pela razão. O riacho, que corria em ondulações aos meus pés, foi a resposta satisfatória.
Tomámos o pequeno-almoço com bom apetite e depois bebemos até saciar da excelente água. Senti-me um homem novo, pronto para ir a qualquer lugar onde o meu tio escolhesse levar-me. Comecei a pensar. Porque não haveria um homem tão seriamente convencido como o meu tio de ter sucesso, com um guia tão excelente como o digno Hans e um sobrinho tão dedicado como eu? Estas foram as ideias brilhantes que agora invadiram o meu cérebro. Se a proposta tivesse sido feita agora de voltar ao cume do Mount Sneffels, tê-la-ia recusado de uma forma muito indignada.
Mas felizmente não se tratava de subir. Estávamos prestes a descer mais para o interior da terra.
"Vamos mover-nos", gritei, despertando os ecos do velho mundo.
Retomámos a nossa marcha na quinta-feira às oito horas da manhã. O grande túnel de granito, à medida que fazia voltas sinuosas, apresentava de vez em quando curvas acentuadas e, de facto, toda a aparência de um labirinto. A sua direção, contudo, era em geral para sudoeste. O meu tio fez várias pausas para consultar a sua bússola.
A galeria começou agora a inclinar-se para baixo numa direção horizontal, com cerca de cinco centímetros de descida em cada duzentos metros. O riacho murmurante corria silenciosamente aos nossos pés. Não pude deixar de compará-lo a um espírito familiar, guiando-nos através da terra, e molhei os dedos na sua água tépida, que cantava como uma náiade à medida que progredíamos. O meu bom humor começou a assumir um carácter mitológico.
Quanto ao meu tio, começou a queixar-se do caráter horizontal da estrada. O seu percurso, achou ele, começava a prolongar-se indefinidamente, em vez de "deslizar pelo raio celestial", de acordo com a sua expressão.
Mas não tínhamos escolha; e enquanto a nossa estrada nos conduzisse em direção ao centro — por menos progresso que fizéssemos, não havia razão para nos queixarmos.
Além disso, de vez em quando as inclinações eram muito maiores, a náiade cantava mais alto e começávamos a descer a sério.
Até agora, contudo, não sentia qualquer sensação dolorosa. Não tinha superado a excitação da descoberta de água.
Nesse dia e no seguinte, fizemos uma quantidade considerável de viagem horizontal e, relativamente, muito pouca viagem vertical.
Na sexta-feira à noite, dez de julho, de acordo com os nossos cálculos, deveríamos estar a trinta léguas a sudeste de Reykjavik e a cerca de duas léguas e meia de profundidade. Recebemos agora uma surpresa bastante alarmante.
Sob os nossos pés abriu-se um poço horrível. O meu tio ficou tão encantado que bateu palmas — ao ver quão íngreme e acentuada era a descida.
"Ah, ah!", gritou ele, num deleite arrebatador; "isto levar-nos-á muito longe. Olha para as saliências da rocha. Hah!", exclamou, "é uma escadaria assustadora!"
Hans, contudo, que durante todas as nossas tribulações nunca tinha largado as cordas, encarregou-se de as dispor de modo a evitar quaisquer acidentes. A nossa descida começou então. Não me atrevo a chamar-lhe uma descida perigosa, pois já estava demasiado familiarizado com aquele género de trabalho para o encarar como algo que não fosse uma tarefa muito comum.
Este poço era uma espécie de abertura estreita no granito maciço, do tipo conhecido como fissura. A contração do andaime terrestre, quando arrefeceu subitamente, tinha sido evidentemente a causa. Se alguma vez serviu em tempos idos como uma espécie de funil através do qual passavam as massas eruptivas vomitadas pelo Sneffels, eu não sabia explicar como é que não tinha deixado qualquer marca. Estávamos, de facto, a descer em espiral, algo semelhante àquelas escadas em caracol usadas nas casas modernas.
Sentíamo-nos obrigados, de quinze em quinze minutos ou algo que o valha, a sentar-nos para descansar as pernas. As nossas barrigas das pernas doíam. Sentávamo-nos então em alguma rocha saliente com as pernas a balançar e conversávamos enquanto comíamos um bocado — bebendo ainda do riacho de água corrente agradavelmente morna que não nos tinha abandonado.
É escusado dizer que, nesta fissura de forma curiosa, o Hansbach se tinha tornado numa cascata em detrimento do seu caudal. Era, contudo, ainda suficiente, e mais do que isso, para as nossas necessidades. Além disso, sabíamos que, assim que o declive deixasse de ser tão abrupto, o riacho retomaria o seu curso pacífico. Naquele momento, ele fazia-me lembrar o meu tio, a sua impaciência e fúria, enquanto, quando corria de forma mais pacífica, imaginava a placidez do guia islandês.
Durante a totalidade de dois dias, seis e sete de julho, seguimos a extraordinária escada em espiral da fissura, penetrando duas léguas mais fundo na crosta da terra, o que nos colocou a cinco léguas abaixo do nível do mar. No dia oito, contudo, às doze horas do dia, a fissura assumiu subitamente um declive muito mais suave, ainda seguindo na direção sudeste.
A estrada tornou-se agora comparativamente fácil e, ao mesmo tempo, terrivelmente monótona. Teria sido difícil que as coisas tivessem acontecido de outra forma. A nossa peculiar viagem não tinha hipótese de ser diversificada por paisagens e cenários. Seja como for, essa era a minha ideia.
Por fim, na quarta-feira, dia quinze, estávamos na verdade a sete léguas (vinte e uma milhas) abaixo da superfície da terra e a cinquenta léguas de distância da montanha de Sneffels. Embora, para dizer a verdade, estivéssemos muito cansados, a nossa saúde tinha resistido a todos os sofrimentos e encontrava-se num estado mais satisfatório. A caixa de medicamentos do viajante nem sequer tinha sido aberta.
O meu tio tinha o cuidado de anotar, a cada hora, as indicações da bússola, do manómetro e do termómetro, todas as quais ele publicou mais tarde no seu elaborado relato filosófico e científico da nossa notável viagem. Ele pôde, portanto, dar uma relação exata da situação. Quando, por isso, me informou de que estávamos a cinquenta léguas de distância do nosso ponto de partida na direção horizontal, não consegui suprimir uma exclamação sonora.
"O que se passa agora?", gritou o meu tio.
"Nada de muito importante, apenas uma ideia que me entrou na cabeça", foi a minha resposta.
"Bem, diz lá, meu rapaz."
"É a minha opinião que, se os seus cálculos estiverem corretos, já não estamos sob a Islândia."
"Achas que não?"
"Podemos descobrir isso muito facilmente", respondi, tirando um mapa e um compasso.
"Vê", disse eu, após uma medição cuidadosa, "que não estou enganado. Estamos muito para além do Cabo Portland; e essas cinquenta léguas para sudeste levar-nos-ão para o mar aberto."
"Sob o mar aberto", gritou o meu tio, esfregando as mãos com um ar encantado.
"Sim", exclamei, "sem dúvida que o velho Oceano corre sobre as nossas cabeças!"
"Bem, meu caro rapaz, o que pode ser mais natural! Não sabes que, nas redondezas de Newcastle, existem minas de carvão que foram exploradas muito para lá do mar?"
Ora, o meu digno tio, o Professor, sem dúvida que encarava esta descoberta como um facto muito simples, mas, para mim, a ideia não era de todo agradável. E, no entanto, quando se começava a pensar seriamente no assunto, que importava se as planícies e montanhas da Islândia estavam suspensas sobre as nossas devotas cabeças, ou as poderosas vagas do Oceano Atlântico? Toda a questão baseava-se na solidez do teto de granito acima de nós. Contudo, rapidamente me habituei à ideia, pois a passagem, ora plana, ora a descer, e ainda sempre para sudeste, continuava a ir cada vez mais fundo nos abismos profundos da Mãe Terra.
Três dias depois, no décimo oitavo dia de julho, num sábado, alcançámos uma espécie de vasta gruta. O meu tio pagou aqui a Hans os seus rix-dólares habituais, e ficou decidido que o dia seguinte seria um dia de descanso.
CAPÍTULO 22
DOMINGO DEBAIXO DA TERRA
Acordei na manhã de domingo sem qualquer sentido de pressa ou azáfama inerente a uma partida imediata. Embora o dia a ser dedicado ao repouso e à reflexão fosse passado sob circunstâncias tão estranhas e num lugar tão maravilhoso, a ideia era agradável. Além disso, todos começávamos a habituar-nos a este género de existência. Eu tinha quase deixado de pensar no sol, na lua, nas estrelas, nas árvores, casas e cidades; na verdade, em quaisquer necessidades terrestres. Na nossa posição peculiar, estávamos muito acima de tais reflexões.
A gruta era um salão vasto e magnífico. Ao longo do seu solo granítico, o riacho fluía de forma plácida e agradável. Tanta era a distância que o separava agora da sua fonte ígnea que a sua água estava apenas morna e podia ser bebida sem demora ou dificuldade.
Após um pequeno-almoço frugal, o Professor decidiu dedicar algumas horas a colocar as suas notas e cálculos em ordem.
"Em primeiro lugar", disse ele, "tenho muitos a verificar e provar, para que possamos saber a nossa posição exata. Desejo ser capaz, no nosso regresso às regiões superiores, de fazer um mapa da nossa viagem, uma espécie de secção vertical do globo, que será, por assim dizer, o perfil da expedição."
"Isso seria, de facto, um trabalho curioso, Tio; mas poderá fazer as suas observações com qualquer espécie de certeza e precisão?"
"Posso. Nunca em ocasião alguma falhei em anotar com grande cuidado os ângulos e declives. Tenho a certeza de não ter cometido qualquer erro. Pega na bússola e examina para onde ela aponta."
Olhei para o instrumento com cuidado.
"Este, um quarto para sudeste."
"Muito bem", retomou o Professor, anotando a observação e realizando alguns cálculos rápidos. "Concluo que viajámos duzentas e cinquenta milhas desde o ponto da nossa partida."
"Então as poderosas ondas do Atlântico estão a rolar sobre as nossas cabeças?"
"Certamente."
"E neste preciso momento é possível que tempestades ferozes estejam a rugir lá em cima, e que homens e navios estejam a lutar contra os ventos furiosos logo acima das nossas cabeças?"
"Está perfeitamente dentro do campo da possibilidade", replicou o meu tio, sorrindo.
"E que baleias estão a brincar em cardumes, açoitando o fundo do mar, o teto da nossa prisão adamantina?"
"Fica perfeitamente descansado quanto a esse ponto; não há perigo de elas romperem. Mas voltemos aos nossos cálculos. Estamos a sudeste, a duzentas e cinquenta milhas da base do Sneffels, e, de acordo com as minhas notas anteriores, penso que descemos dezasseis léguas numa direção descendente."
"Dezasseis léguas — cinquenta milhas!", exclamei.
"Tenho a certeza disso."
"Mas esse é o limite extremo permitido pela ciência para a espessura da crosta terrestre", respondi, referindo-me aos meus estudos geológicos.
"Não contesto essa afirmação", foi a sua resposta tranquila.
"E nesta fase da nossa viagem, de acordo com todas as leis conhecidas sobre o aumento do calor, deveria haver aqui uma temperatura de *quinze mil graus de Reaumur*."
"Deveria haver — tu dizes, meu rapaz."
"Caso em que este granito não existiria, mas estaria num estado de fusão."
"Mas tu percebes, meu rapaz, que não é assim, e que os factos, como de costume, são coisas muito teimosas, sobrepondo-se a todas as teorias."
"Sinto-me forçado a ceder à evidência dos meus sentidos, mas estou, contudo, muito surpreendido."
"Que calor indica realmente o termómetro?", continuou o filósofo.
"Vinte e sete vírgula seis."
"De modo que a ciência está errada por mil quatrocentos e setenta e quatro graus e quatro décimas. De acordo com o que se demonstra que o aumento proporcional na temperatura é um erro ultrapassado. Humphry Davy brilha aqui em toda a sua glória. Ele tem razão, e eu agi sabiamente ao acreditar nele. Tens alguma resposta a dar a esta afirmação?"
Se eu tivesse escolhido falar, poderia ter dito muito. De modo algum admitia a teoria de Humphry Davy — continuava a defender a teoria do aumento proporcional do calor, embora não o sentisse.
Eu estava muito mais disposto a admitir que esta chaminé de um vulcão extinto estava coberta por lava de um género refratário ao calor — na verdade, um mau condutor — que não permitia que o grande aumento de temperatura se infiltrasse através das suas paredes. O jato de água quente sustentava a minha visão sobre o assunto.
Mas, sem entrar numa discussão longa e inútil, ou procurar novos argumentos para contradizer o meu tio, contentei-me em aceitar os factos como eram.
"Bem, senhor, dou como garantido que todos os seus cálculos estão corretos, mas permita-me extrair deles uma conclusão rigorosa e definitiva."
"Continua, meu rapaz — diz o que tens a dizer", gritou o meu tio com bom humor.
"No lugar onde estamos agora, sob a latitude da Islândia, a profundidade terrestre é de cerca de mil quinhentas e oitenta e três léguas."
"Mil quinhentas e oitenta e três e um quarto."
"Bem, suponhamos que dizemos mil e seiscentas em números redondos. Ora, de uma viagem de mil e seiscentas léguas, completámos dezasseis."
"Como dizes, e então?"
"À custa de uma viagem diagonal de nada menos que oitenta e cinco léguas."
"Exatamente."
"Andámos vinte dias nisto."
"Exatamente vinte dias."
"Ora, dezasseis é a centésima parte da nossa expedição planeada. Se continuarmos desta forma, levaremos dois mil dias, isto é, cerca de cinco anos e meio, a descer."
O Professor cruzou os braços, ouviu, mas não falou.
"Sem contar que, se uma descida vertical de dezasseis léguas nos custa oitenta e cinco horizontais, teremos de percorrer cerca de oito mil léguas para sudeste, e devemos, portanto, sair algures na circunferência muito antes de podermos esperar chegar ao centro."
"Aborrecidos os teus cálculos", gritou o meu tio numa das suas fúrias antigas. "Em que base é que eles se apoiam? Como sabes que esta passagem não nos leva diretamente ao fim que pretendemos? Além disso, tenho a meu favor, felizmente, um precedente. O que eu me comprometi a fazer, outro fê-lo, e tendo ele sido bem-sucedido, porque não haveria eu de ser igualmente bem-sucedido?"
"Espero, de facto, que seja, mas ainda assim, suponho que me seja permitido..."
"É-te permitido calar a boca", gritou o Professor Hardwigg, "quando falas de forma tão irracional."
Vi logo que o velho Professor doutoral ainda estava vivo no meu tio — e, temendo despertar as suas paixões coléricas, abandonei o assunto desagradável.
"Agora, então", explicou ele, "consulta o manómetro. O que indica isso?"
"Uma quantidade considerável de pressão."
"Muito bem. Vês, então, que ao descer lentamente, e ao habituarmo-nos gradualmente à densidade desta atmosfera inferior, não sofreremos."
"Bem, suponho que não, exceto talvez uma certa quantidade de dor nos ouvidos", foi a minha resposta bastante sombria.
"Isso, meu caro rapaz, não é nada, e livrar-te-ás facilmente dessa fonte de desconforto pondo o ar exterior em comunicação com o ar contido nos teus pulmões."
"Perfeitamente", disse eu, pois tinha decidido não contradizer de modo algum o meu tio. "Imaginaria quase que sentiria uma certa satisfação em mergulhar nesta atmosfera densa. Tomou nota de como o som se propaga maravilhosamente?"
"Claro que tomei. Não pode haver dúvida de que uma viagem ao interior da terra seria uma excelente cura para a surdez."
"Mas então, Tio", arrisquei observar suavemente, "esta densidade continuará a aumentar."
"Sim — de acordo com uma lei que, contudo, mal está definida. É verdade que a intensidade do peso diminuirá precisamente na proporção da profundidade a que formos. Sabes muito bem que é à superfície da terra que a sua ação é sentida mais poderosamente, enquanto, pelo contrário, no próprio centro da terra os corpos deixam de ter qualquer peso."
"Sei que é esse o caso, mas à medida que progredirmos, a atmosfera não assumirá finalmente a densidade da água?"
"Eu sei-o; quando colocada sob a pressão de setecentas e dez atmosferas", gritou o meu tio com uma gravidade imperturbável.
"E quando estivermos ainda mais abaixo?", perguntei com natural ansiedade.
"Bem, mais abaixo, a densidade tornar-se-á ainda maior."
"Então, como seremos capazes de abrir caminho através deste nevoeiro atmosférico?"
"Bem, meu digno sobrinho, temos de nos lastrar enchendo os bolsos com pedras", disse o Professor Hardwigg.
"Pela minha fé, Tio, tem resposta para tudo", foi a minha única resposta.
Comecei a sentir que era imprudente da minha parte ir mais longe no vasto campo das hipóteses, pois certamente teria reavivado alguma dificuldade, ou melhor, impossibilidade, que enfureceria o Professor.
Era evidente, no entanto, que o ar, sob uma pressão que poderia ser multiplicada por milhares de atmosferas, acabaria por se tornar perfeitamente sólido, e que então, admitindo que os nossos corpos resistissem à pressão, teríamos de parar, apesar de todos os raciocínios do mundo. Os factos superam todos os argumentos.
Mas achei melhor não insistir neste argumento. O meu tio teria simplesmente citado o exemplo de Saknussemm. Supondo que a viagem do sábio islandês tivesse realmente acontecido — havia uma resposta simples a dar:
No século dezasseis, nem o barómetro nem o manómetro tinham sido inventados — como poderia, então, Saknussemm ter sido capaz de descobrir quando chegava realmente ao centro da terra?
Esta objeção irrefutável e erudita, contudo, guardei para mim e, recompondo a minha coragem, aguardei o curso dos acontecimentos — pouco ciente de quão aventureiros ainda seriam os incidentes da nossa notável viagem.
O resto deste dia de lazer e repouso foi passado em cálculos e conversas. Fiz questão de concordar com o Professor em tudo; mas invejei a indiferença perfeita de Hans, que, sem se preocupar com a causa e o efeito, seguia cegamente para onde o destino escolhia conduzi-lo.
CAPÍTULO 23
SOZINHO
Deve ser confessado, em toda a verdade, que as coisas tinham corrido bem até agora, e eu teria agido de mau gosto se me tivesse queixado. Se o verdadeiro meio das nossas dificuldades não aumentasse, estava dentro do campo da possibilidade que pudéssemos finalmente chegar ao fim da nossa viagem. Então que glória seria a nossa! Comecei, no ardor recém-desperto da minha alma, a falar entusiasticamente com o Professor. Bem, estaria eu a falar a sério? Todo o estado em que existíamos era um mistério — e era impossível saber se eu estava ou não a falar com sinceridade.
Durante vários dias após a nossa memorável paragem, os declives tornaram-se mais rápidos — alguns eram mesmo de um caráter assustador — quase verticais, de modo que estávamos sempre a descer para a massa sólida interior. Durante alguns dias, descemos na verdade uma légua e meia, até duas léguas, em direção ao centro da terra. As descidas eram suficientemente perigosas e, enquanto estávamos envolvidos nelas, aprendemos plenamente a apreciar a maravilhosa calma do nosso guia, Hans. Sem ele, estaríamos totalmente perdidos. O grave e impassível islandês dedicou-se a nós com o mais incompreensível sang-froid e facilidade; e, graças a ele, muitos passos perigosos foram ultrapassados onde, se não fosse ele, teríamos ficado inevitavelmente presos.
O seu silêncio aumentava a cada dia. Penso que começámos a ser influenciados por este traço peculiar no seu caráter. É certo que os objetos inanimados pelos quais se está rodeado têm uma ação direta sobre o cérebro. Deve ser que um homem que se encerra entre quatro paredes deve perder a faculdade de associar ideias e palavras. Quantas pessoas condenadas aos horrores do confinamento solitário enlouqueceram — simplesmente porque as faculdades de pensamento permaneceram dormentes!
Durante as duas semanas que se seguiram à nossa última conversa interessante, não ocorreu nada digno de ser especialmente registado.
Enquanto escrevia estas memórias, forcei a minha memória em vão por um incidente de viagem durante este período em particular.
Mas o próximo evento a ser relatado é, de facto, terrível. A própria memória, ainda hoje, faz a minha alma estremecer e o meu sangue gelar.
Era no dia sete de agosto. As nossas constantes e sucessivas descidas tinham-nos levado trinta léguas para o interior da terra, isto é, havia acima de nós trinta léguas, quase cem milhas, de rochas, oceanos, continentes e cidades, para não falar de habitantes vivos. Estávamos na direção sudeste, a cerca de duzentas léguas da Islândia.
Nesse dia memorável, o túnel tinha começado a assumir um curso quase horizontal.
Eu estava, nesta ocasião, a caminhar à frente. O meu tio estava encarregado de uma das bobinas de Ruhmkorff, eu possuía a outra. Através da sua luz, estava ocupado a examinar as diferentes camadas de granito. Estava completamente absorvido pelo meu trabalho.
Parando subitamente e voltando-me, descobri que estava sozinho!
"Bem", pensei para comigo, "caminhei certamente depressa demais — ou então Hans e o meu tio pararam para descansar. A melhor coisa que posso fazer é voltar atrás e encontrá-los. Felizmente, há muito pouca subida para me cansar."
Refiz, portanto, os meus passos e, enquanto o fazia, caminhei durante pelo menos um quarto de hora. Bastante inquieto, pausei e olhei avidamente à volta. Nem uma alma viva. Chamei em voz alta. Sem resposta. A minha voz perdeu-se no meio da miríade de ecos cavernosos que despertou!
Comecei, pela primeira vez, a sentir-me seriamente inquieto. Um frio arrepiante percorreu todo o meu corpo, e um suor, frio e terrível, irrompeu na minha pele.
"Tenho de manter a calma", disse eu, falando alto, como os rapazes assobiando para afastar o medo. "Não pode haver dúvida de que encontrarei os meus companheiros. Não pode haver duas estradas. É certo que eu estava consideravelmente à frente; tudo o que tenho de fazer é voltar atrás."
Tendo tomado esta determinação, subi o túnel durante pelo menos meia hora, incapaz de decidir se alguma vez tinha visto certos marcos antes. De vez em quando, parava para descobrir se algum apelo sonoro era feito para mim, sabendo bem que, naquela atmosfera densa e intensificada, o ouviria a uma grande distância. Mas não. O silêncio mais extraordinário reinava nesta imensa galeria. Apenas os ecos dos meus próprios passos podiam ser ouvidos.
Por fim, parei. Quase não conseguia acreditar no facto do meu isolamento. Estava perfeitamente disposto a pensar que tinha cometido um erro, mas não que estava perdido. Se tivesse cometido um erro, poderia encontrar o meu caminho; se perdido — estremeci ao pensar nisso.
"Vamos, vamos", disse eu para comigo, "uma vez que só há uma estrada, e eles devem vir por ela, encontrar-nos-emos finalmente. Tudo o que tenho de fazer é continuar a subir. Talvez, contudo, não me vendo, e esquecendo-se de que eu estava à frente, eles tenham voltado atrás em minha busca. Ainda assim, mesmo neste caso, se me apressar, alcançá-los-ei. Não pode haver dúvida sobre o assunto."
Mas, à medida que proferia estas últimas palavras em voz alta, teria ficado perfeitamente claro para qualquer ouvinte — se houvesse algum — que eu não estava de modo algum convencido do facto. Além disso, para associar estas ideias simples e reuni-las sob a forma de raciocínio, era necessário algum tempo. Não conseguia de repente levar o meu cérebro a pensar.
"Nós desceremos; pois o rio Hansbach corre para as entranhas da Terra. Portanto, a correnteza é o nosso guia."
"Mas, se eu não a encontrar mais, que devo fazer?"
"Procura uma galeria que seja mais íngreme, onde possas encontrar o leito do curso de água."
"Mas será que podes calcular a que distância estás de mim?"
"Não, Harry. Mas podemos fazer um novo cálculo. Deixa-me ver... estamos parados. Tu estás em movimento. O tempo que a voz leva a chegar até ti diminuirá à medida que nos aproximarmos."
"Muito bem, meu tio. Mas diz-me, que horas são?"
"São dez horas."
"Muito bem. Começarei a minha marcha. A partir de agora, falaremos a cada quarto de hora. Estás de acordo?"
"Sim, Harry. Um quarto de hora."
"Até breve!"
"Até breve!"
Estas palavras foram as últimas que ouvi. O silêncio voltou a reinar na galeria, mas um silêncio agora cheio de esperança.
A minha primeira intenção foi a de subir, mas, após refletir, compreendi que o meu tio tinha razão. O rio seguia para baixo; para o encontrar, eu também devia descer.
Levantei-me, embora sentisse as pernas trêmulas pela fraqueza e pelo jejum. Apoiei-me no meu cajado e comecei a descer, guiando-me pela inclinação do solo. A descida era íngreme, mas, animado pela esperança, movia-me com uma agilidade que me surpreendia.
Passaram-se quinze minutos. O meu coração batia com violência à medida que a hora se aproximava. Pousei o ouvido na parede e esperei.
"Harry!" ouvi a voz do meu tio. "Vamos falar."
"Aqui estou!" respondi imediatamente.
"Qual é o intervalo?"
"Cerca de trinta segundos."
"Boa! A distância diminui. Continua o teu caminho."
"Sim, continuarei."
Caminhei durante mais um quarto de hora. O terreno tornava-se cada vez mais inclinado. O ar parecia mais denso, quase irrespirável, mas a ideia de reencontrar os meus companheiros dava-me forças sobre-humanas.
Às dez e meia, ouvi novamente o meu nome. O intervalo tinha baixado para vinte segundos. Eu estava a aproximar-me!
"Tio! Tio!" gritei, com a voz embargada pela emoção. "Estamos perto!"
"Sim, Harry! Posso ouvir-te claramente!"
"Ouve-me bem: não pares! Continua a descer!"
"Estou a fazê-lo!"
E assim, durante horas, descemos as entranhas do abismo. A cada quarto de hora, as nossas vozes tornavam-se mais nítidas, mais próximas. Finalmente, por volta das onze horas, o som da voz do meu tio tornou-se tão claro que parecia vir do outro lado de uma parede fina.
"Harry!" gritou ele.
"Tio!"
"Espera! Não te movas! Onde estás?"
"Estou contra a parede de granito!"
"Eu também!"
Houve um momento de silêncio absoluto. De repente, através da espessura da rocha, ouvi a voz do Professor, potente e clara:
"Harry, meu rapaz, tu estás aqui? Responde-me!"
"Sim! Estou aqui!"
"Tenta encontrar o ponto onde a parede é menos espessa. Bate com o teu cajado!"
Comecei a percorrer a parede, batendo com força. De repente, num ponto preciso, o som pareceu-me diferente. A rocha era mais fina, talvez houvesse apenas alguns centímetros entre nós.
"Encontrei!" gritei.
"Eu também!" respondeu o meu tio.
No mesmo instante, um choque violento abalou a parede. O granito, sob o golpe de uma picareta, cedeu. Eu vi, através de uma fenda, a luz de uma lâmpada. O meu tio estava ali, a poucos palmos de distância. Com um esforço desesperado, empurrei a pedra que bloqueava a abertura. Ela desmoronou-se, e eu caí, exausto e sem sentidos, nos braços do meu tio.
"Temos de descer, e eu dir-lhe-ei porquê. Alcançou um vasto espaço aberto, uma espécie de encruzilhada nua, a partir da qual galerias divergem em todas as direções. Aquela em que se encontra agora deve necessariamente conduzi-lo a este ponto, pois parece que todas estas poderosas fissuras, estas fraturas do interior do globo, irradiam da vasta caverna que ocupamos neste momento. Anime-se, pois, tenha coragem e continue o seu caminho. Caminhe se puder, se não, arraste-se — deslize, se nada mais for possível. A encosta deve ser bastante íngreme — e encontrará braços fortes para o receber no fim da sua jornada. Ponha-se a caminho, meu bom rapaz."
Estas palavras serviram para despertar algum tipo de coragem no meu espírito abatido.
"Adeus por agora, bom tio, estou prestes a partir. Assim que eu começar, as nossas vozes deixarão de se misturar. Adeus, pois, até nos voltarmos a ver."
..........
"Adeus, Harry — até que possamos dizer Bem-vindo." Estas foram as últimas palavras que chegaram aos meus ouvidos ansiosos antes de eu iniciar a minha jornada cansativa e quase desesperadora.
Esta maravilhosa e surpreendente conversa que ocorreu através da vasta massa do labirinto da Terra, estas palavras trocadas, estando os oradores a cerca de oito quilómetros de distância — terminou com expressões esperançosas e agradáveis. Fiz mais uma prece ao Céu, enviei palavras de agradecimento — acreditando no meu íntimo que Ele me tinha conduzido ao único lugar onde as vozes dos meus amigos podiam chegar aos meus ouvidos.
Este mistério acústico aparentemente espantoso explica-se facilmente por leis naturais simples; resultava da condutibilidade da rocha. Existem muitos casos desta singular propagação do som que não são percetíveis nas suas posições menos mediatas. Na galeria interior da Catedral de São Paulo, e entre as curiosas cavernas na Sicília, estes fenómenos são observáveis. O mais maravilhoso de todos é conhecido como a Orelha de Dionísio.
Estas memórias do passado, das minhas leituras e estudos iniciais, vieram frescas aos meus pensamentos. Além disso, comecei a raciocinar que, se o meu tio e eu podíamos comunicar a uma distância tão grande, nenhum obstáculo sério poderia existir entre nós. Tudo o que eu tinha de fazer era seguir a direção de onde o som me tinha chegado; e, logicamente falando, eu deveria alcançá-lo se as minhas forças não falhassem.
Levantei-me, consequentemente, sobre os meus pés. Descobri depressa, contudo, que não conseguia caminhar; que tinha de me arrastar. A encosta, como esperava, era muito íngreme; mas deixei-me escorregar.
Logo a rapidez da descida começou a assumir proporções assustadoras; e ameaçava uma queda pavorosa. Agarrei-me às laterais; aferrei-me a saliências de rochas; lancei-me para trás. Tudo em vão. A minha fraqueza era tão grande que não podia fazer nada para me salvar.
Subitamente, a terra falhou-me.
Fui primeiro lançado num vazio escuro e sombrio. Depois, bati contra as asperezas salientes de uma galeria vertical, um poço perfeito. A minha cabeça embateu contra uma rocha pontiaguda, e perdi toda a consciência da existência. No que me dizia respeito, a morte tinha-me reclamado para si.
CAPÍTULO 26
UMA RECUPERAÇÃO RÁPIDA
Quando regressei à consciência da existência, encontrei-me rodeado por uma espécie de semiobscuridade, deitado sobre algumas cobertas espessas e macias. O meu tio estava a vigiar — os seus olhos fixos atentamente no meu rosto, uma expressão grave na face, uma lágrima no olho. Ao primeiro suspiro que lutou para sair do meu peito, ele agarrou a minha mão. Quando viu os meus olhos abrirem-se e fixarem-se nos seus, soltou um grito alto de alegria. "Ele vive! Ele vive!"
"Sim, meu bom tio", sussurrei.
"Meu querido rapaz", continuou o severo Professor, abraçando-me contra o peito, "estás salvo!"
Fiquei profunda e sinceramente comovido pelo tom em que estas palavras foram proferidas, e ainda mais pelo cuidado carinhoso que as acompanhava. O Professor, contudo, era um daqueles homens que precisam de ser severamente postos à prova para demonstrarem qualquer afeto ou emoção gentil. Neste momento, o nosso amigo Hans, o guia, juntou-se a nós. Viu a minha mão na do meu tio, e arrisco-me a dizer que, taciturno como era, os seus olhos brilharam com viva satisfação.
"God dag", disse ele.
"Bom dia, Hans, bom dia", respondi, no tom mais caloroso que pude assumir, "e agora, Tio, que estamos juntos, diga-me onde estamos. Perdi toda a ideia da nossa posição, tal como de tudo o resto."
"Amanhã, Harry, amanhã", respondeu ele. "Hoje estás demasiado fraco. A tua cabeça está rodeada de ligaduras e cataplasmas que não devem ser tocados. Dorme, rapaz, dorme, e amanhã saberás tudo o que precisas."
"Mas", exclamei, "deixe-me saber que horas são — que dia é?"
"São agora onze horas da noite, e este é, mais uma vez, domingo. É hoje o nono dia do mês de agosto. E proíbo-te terminantemente de fazeres mais perguntas até ao décimo do mesmo."
Eu estava, se a verdade fosse dita, muito fraco, de facto, e os meus olhos fecharam-se logo involuntariamente. Eu precisava mesmo de uma boa noite de descanso, e adormeci refletindo no último momento que a minha perigosa aventura no interior da Terra, na escuridão total, tinha durado quatro dias!
Na manhã do dia seguinte, ao acordar, comecei a olhar em redor. O meu lugar de dormir, feito com toda a nossa roupa de cama de viagem, era numa gruta encantadora, adornada com estalagmites magníficas, cintilando em todas as cores do arco-íris, o chão de areia macia e prateada.
Prevalecia uma obscuridade ténue. Nenhuma tocha, nenhuma lâmpada estava acesa, e ainda assim certos raios de luz inexplicáveis penetravam do exterior e abriam caminho através da abertura da bela gruta.
Ouvi, além disso, um murmúrio vago e indefinido, como o refluxo de ondas sobre uma praia, e por vezes acreditava verdadeiramente que podia ouvir o suspiro do vento.
Comecei a acreditar que, em vez de estar acordado, devia estar a sonhar. Certamente o meu cérebro não tinha sido afetado pela minha queda, e tudo o que ocorreu durante as últimas vinte e quatro horas não eram visões febris de loucura? E, contudo, após alguma reflexão, um teste às minhas faculdades, cheguei à conclusão de que não podia estar enganado. Olhos e ouvidos não podiam, certamente, enganar-me ambos.
"É um raio da bendita luz do dia", disse para comigo, "que penetrou através de alguma fissura poderosa nas rochas. Mas qual é o significado deste murmúrio de ondas, deste lamento inconfundível das vagas de um mar salgado? Consigo ouvir, também, bastante claramente, o assobio do vento. Mas poderei estar totalmente enganado? Se o meu tio, durante a minha doença, me tiver apenas levado de volta para a superfície da Terra! Terá ele, por minha causa, desistido da sua maravilhosa expedição, ou terá ela chegado ao fim de alguma forma estranha?"
Eu quebrava a cabeça com estas e outras questões, quando o Professor se juntou a mim.
"Bom dia, Harry", exclamou ele num tom alegre. "Imagino que estejas perfeitamente bem."
"Estou muito melhor", respondi, sentando-me realmente na minha cama.
"Eu sabia que esse seria o resultado, pois dormiste profunda e tranquilamente. Hans e eu revezámo-nos para vigiar, e a cada hora vimos sinais visíveis de melhoria."
"Deve ter razão, Tio", foi a minha resposta, "pois sinto que poderia fazer justiça a qualquer refeição que pusesse diante de mim."
"Comerás, meu rapaz, comerás. A febre deixou-te. O nosso excelente amigo Hans esfregou as tuas feridas e contusões com não sei que pomada, da qual só os islandeses possuem o segredo. E curaram as tuas nódoas negras da maneira mais maravilhosa. Ah, ele é um homem sábio, o Mestre Hans."
Enquanto falava, o meu tio colocava diante de mim vários artigos de comida, os quais, apesar das suas injunções urgentes, devorei prontamente. Assim que a primeira fúria da fome foi apaziguada, sobrecarreguei-o com perguntas, às quais ele agora já não hesitava em dar respostas.
Fiquei então a saber, pela primeira vez, que a minha queda providencial me tinha levado ao fundo de uma galeria quase perpendicular. À medida que descia, no meio de uma verdadeira chuva de pedras, das quais a menor, ao cair sobre mim, me teria esmagado até à morte, eles concluíram que eu tinha trazido comigo uma rocha inteira deslocada. Viajando, por assim dizer, neste terrível carro, fui atirado de cabeça para os braços do meu tio. E neles caí, insensível e coberto de sangue.
"É de facto um milagre", foi a observação final do Professor, "que não tenhas morrido mil vezes. Mas tenhamos cuidado para nunca nos separarmos; pois, certamente, arriscar-nos-íamos a nunca mais nos encontrarmos."
"Tenhamos cuidado para nunca mais nos separarmos."
Estas palavras caíram com uma espécie de calafrio sobre o meu coração. A jornada, então, não tinha terminado. Olhei para o meu tio com surpresa e espanto. O meu tio, após um instante de exame ao meu rosto, disse: "Que se passa, Harry?"
"Quero fazer-lhe uma pergunta muito séria. O senhor diz que estou bem de saúde?"
"Certamente que estás."
"E todos os meus membros estão sãos e capazes de novos esforços?" perguntei.
"Sem dúvida alguma."
"Mas e quanto à minha cabeça?" foi a minha pergunta ansiosa seguinte.
"Bem, a tua cabeça, exceto que tens uma ou duas contusões, está exatamente onde deveria estar — sobre os teus ombros", disse o meu tio, rindo.
"Bem, a minha própria opinião é que a minha cabeça não está exatamente bem. De facto, considero-me ligeiramente delirante."
"O que te faz pensar isso?"
"Explicarei por que imagino ter perdido o juízo", exclamei. "Não regressámos nós à superfície da Mãe Terra?"
"Certamente que não."
"Então, verdadeiramente, devo estar louco, pois não vejo eu a luz do dia? não ouço eu o assobio do vento? e não consigo eu distinguir o marulhar de um grande mar?"
"E é só isso que te deixa inquieto?" disse o meu tio, com um sorriso.
"Pode explicar?"
"Não farei qualquer tentativa de explicar; pois todo o assunto é totalmente inexplicável. Mas verás e julgarás por ti mesmo. Descobrirás então que a ciência geológica está ainda na sua infância — e que estamos destinados a esclarecer o mundo."
"Avancemos, então", exclamei ansiosamente, já não conseguindo conter a minha curiosidade.
"Espera um momento, meu caro Harry", respondeu ele; "tens de tomar precauções após a tua doença antes de ires para o ar livre."
"O ar livre?"
"Sim, meu rapaz. Tenho de te avisar que o vento é bastante violento — e não desejo que te exponhas sem as precauções necessárias."
"Mas garanto-lhe que estou perfeitamente recuperado da minha doença."
"Tem um pouco de paciência, meu rapaz. Uma recaída seria inconveniente para todas as partes. Não temos tempo a perder — pois a nossa próxima viagem marítima pode ser de longa duração."
"Viagem marítima?" exclamei, mais perplexo do que nunca.
"Sim. Deves descansar mais um dia, e estaremos prontos para embarcar amanhã", respondeu o meu tio, com um sorriso peculiar.
"Embarcar!" As palavras espantaram-me totalmente.
Embarcar — o quê e como? Teríamos encontrado um rio, um lago, teríamos descoberto algum mar interior? Estaria uma embarcação ancorada em alguma parte do interior da Terra?
A minha curiosidade atingiu o seu grau mais elevado. O meu tio fez tentativas vãs para me conter. Quando finalmente, contudo, descobriu que a minha impaciência febril faria mais mal do que bem — e que a satisfação dos meus desejos poderia apenas restaurar-me a um estado de espírito calmo — ele cedeu.
Vesti-me rapidamente — e então, tomando a precaução, para agradar ao meu tio, de me envolver numa das cobertas, corri para fora da gruta.
CAPÍTULO 27
O MAR CENTRAL
A princípio, não vi absolutamente nada. Os meus olhos, totalmente desabituados à refulgência da luz, não podiam suportar o brilho súbito; e fui obrigado a fechá-los. Quando pude reabri-los, fiquei parado, muito mais estupefacto do que surpreendido. Nem todos os efeitos mais selvagens da imaginação poderiam ter conjurado tal cenário! "O mar... o mar", exclamei.
"Sim", respondeu o meu tio, num tom de orgulho perdoável; "o Mar Central. Nenhum futuro navegador negará o facto de eu o ter descoberto; e, por conseguinte, de adquirir o direito de lhe dar um nome."
Era bem verdade. Uma vasta e ilimitada extensão de água, o fim de um lago, se não de um oceano, estendia-se diante de nós, até se perder na distância. A margem, que era muito recortada, consistia numa areia dourada, bela e macia, misturada com pequenas conchas, o lar há muito abandonado de algumas das criaturas de uma era passada. As ondas quebravam incessantemente — e com um murmúrio peculiarmente sonoro, que se encontra em localidades subterrâneas. Um leve floco espumoso erguia-se à medida que o vento soprava ao longo das águas translúcidas; e muitas salpicadelas de espuma eram sopradas para o meu rosto. A poderosa superestrutura de rocha que se erguia acima a uma altura inconcebível deixava apenas uma abertura estreita — mas onde estávamos, havia uma grande margem de praia. Por todos os lados havia cabos, promontórios e enormes penhascos, parcialmente desgastados pelo eterno quebrar das ondas, através de incontáveis eras! E, à medida que olhava de um lado para o outro, as rochas poderosas desvaneciam-se como uma película de nuvem lanosa.
Era, na realidade, um oceano, com todas as características habituais de um mar interior, só que horrivelmente selvagem — tão rígido, frio e brutal.
Uma coisa assustou-me e deixou-me muito intrigado. Como era possível que eu pudesse contemplar aquele vasto lençol de água em vez de estar mergulhado na escuridão total? A vasta paisagem diante de mim estava iluminada como se fosse dia. Mas faltava o brilho deslumbrante, a esplêndida irradiação do Sol; a pálida e fria iluminação da Lua; o brilho das estrelas. O poder iluminante nesta região subterrânea, pelo seu caráter trémulo e vacilante, pela sua brancura clara e seca, pela elevação muito ligeira da sua temperatura, pela sua grande superioridade em relação à da Lua, era evidentemente elétrico; algo na natureza da aurora boreal, apenas com a diferença de que os seus fenómenos eram constantes e capazes de iluminar toda a caverna oceânica.
A abóbada tremenda sobre as nossas cabeças, o céu, por assim dizer, parecia ser composto por um conglomerado de vapores nebulosos, em movimento constante. Eu teria inicialmente suposto que, sob tal pressão atmosférica como a que deve existir naquele lugar, a evaporação da água não poderia realmente ocorrer, e ainda assim, pela ação de alguma lei física que me escapou à memória, havia nuvens pesadas e densas a rolar ao longo daquela abóbada poderosa, ocultando parcialmente o teto. Correntes elétricas produziam um jogo surpreendente de luz e sombra à distância, especialmente em torno das nuvens mais pesadas. Sombras profundas eram projetadas por baixo e, então, subitamente, entre duas nuvens, surgia um raio de beleza invulgar e intensidade notável. E, contudo, não era como o Sol, pois não emitia calor.
O efeito era triste e dolorosamente melancólico. Em vez de um nobre firmamento azul, cravejado de estrelas, havia acima de mim um teto pesado de granito, que parecia esmagar-me.
Olhando em redor, comecei a pensar na teoria do capitão inglês que comparava a Terra a uma vasta esfera oca, no interior da qual o ar é mantido num estado luminoso por meio da pressão atmosférica, enquanto dois astros, Plutão e Proserpina, circulavam ali nas suas órbitas misteriosas. Afinal de contas, suponhamos que o velho tinha razão!
Em verdade, estávamos aprisionados — ligados, por assim dizer, numa vasta escavação. A sua largura era impossível de determinar; a margem, de ambos os lados, alargava-se rapidamente até se perder de vista; enquanto o seu comprimento era igualmente incerto. Uma névoa no horizonte distante delimitava a nossa visão. Quanto à sua altura, podíamos ver que devia ter muitos quilómetros até ao teto. Olhando para cima, era impossível descobrir onde o teto estupendo começava. A mais baixa das nuvens devia estar a flutuar a uma altitude de dois mil metros, uma altura superior à dos vapores terrestres, circunstância que se devia sem dúvida à densidade extrema do ar.
Uso a palavra "caverna" para dar uma ideia do lugar. Não consigo descrever a sua grandeza terrível; a linguagem humana falha ao transmitir uma ideia da sua sublimidade selvagem. Se este vácuo singular tinha ou não sido causado pelo arrefecimento repentino da Terra quando esta se encontrava num estado de fusão, eu não saberia dizer. Tinha lido sobre cavernas mais maravilhosas e gigantescas — mas nenhuma, de forma alguma, como esta.
A grande gruta de Guachara, na Colômbia, visitada pelo erudito Humboldt; a vasta e parcialmente explorada Mammoth Cave, no Kentucky — o que eram estes buracos na terra comparados com aquele em que eu estava, em silêncio admirado! com as suas nuvens vaporosas, a sua luz elétrica e o poderoso oceano a adormecer no seu seio! A imaginação, não a descrição, pode apenas dar uma ideia do esplendor e da vastidão da caverna.
Contemplei estas maravilhas em silêncio profundo. As palavras eram totalmente escassas para indicar as sensações de espanto que experimentei. Parecia-me, enquanto estava de pé sobre aquela margem misteriosa, que eu era algum habitante errante de um planeta distante, presente pela primeira vez no espetáculo de alguns fenómenos terrestres pertencentes a outra existência. Dar corpo e existência a tais novas sensações teria exigido a cunhagem de novas palavras — e aqui o meu cérebro débil encontrou-se totalmente em falta. Eu observava, eu pensava, eu refletia, eu admirava, num estado de estupefação não totalmente desprovido de medo!
O espetáculo inesperado restaurou alguma cor às minhas faces pálidas. Parecia que eu estava realmente a melhorar sob a influência desta novidade. Além disso, a vivacidade da atmosfera densa reanimava o meu corpo ao encher os meus pulmões com um oxigénio pouco habitual.
Será facilmente concebido que, após um aprisionamento de quarenta e sete dias num túnel escuro e miserável, foi com infinito deleite que respirei este ar salino. Era como a influência genial e revigorante das ondas do mar salgado.
O meu tio já tinha superado a primeira surpresa.
Com o poeta latino Horácio, a sua ideia era que —
Não admirar é toda a arte que conheço,
Para fazer o homem feliz e mantê-lo assim.
"Bem", disse ele, depois de me dar tempo para apreciar plenamente as maravilhas deste mar subterrâneo, "sentes-te com forças para caminhar de um lado para o outro?"
"Certamente", foi a minha resposta pronta, "nada me daria maior prazer."
"Bem, então, meu rapaz", disse ele, "apoia-te no meu braço, e passearemos ao longo da praia."
Aceitei a sua oferta com entusiasmo, e começámos a caminhar ao longo das margens deste lago extraordinário. À nossa esquerda, havia rochas abruptas, empilhadas umas sobre as outras — uma estupenda pilha titânica; pelos seus lados saltavam inúmeras cascatas que, por fim, tornando-se riachos límpidos e murmurantes, se perdiam nas águas do lago. Vapores leves, que se erguiam aqui e ali, e flutuavam em nuvens lanosas de rocha para rocha, indicavam fontes termais, que também despejavam a sua superfluidade no vasto reservatório aos nossos pés.
Entre eles, reconheci o nosso velho e fiel riacho, o Hansbach, que, perdido naquele bacia selvagem, parecia estar a correr desde a criação do mundo.
"Sentiremos a falta do nosso excelente amigo", comentei, com um suspiro profundo.
"Bah!" disse o meu tio com irritação, "que importa? Aquele ou outro, é tudo a mesma coisa."
Achei a observação ingrata e senti-me quase inclinado a dizê-lo; mas contive-me.
Neste momento, a minha atenção foi atraída por um espetáculo inesperado. Depois de termos percorrido cerca de quinhentos metros, contornámos subitamente um promontório íngreme e encontrámo-nos perto de uma floresta elevada! Consistia em troncos retos com copas tufadas, em forma de guarda-sóis. O ar parecia não ter efeito sobre estas árvores — que, apesar de uma brisa tolerável, permaneciam tão imóveis e silenciosas como se tivessem sido petrificadas.
Apressei-me a avançar. Não conseguia encontrar nome para estas formações singulares. Pertenceriam elas às duas mil e mais árvores conhecidas — ou estaríamos nós a descobrir um novo tipo de vegetação? De modo algum. Quando finalmente chegámos à floresta e ficámos debaixo das árvores, a minha surpresa deu lugar à admiração.
Na verdade, eu estava simplesmente na presença de um produto muito comum da terra, de proporções singulares e gigantescas. O meu tio, sem hesitar, chamou-os pelos seus verdadeiros nomes.
"É apenas", disse ele, da forma mais descontraída, "uma floresta de cogumelos."
Num exame atento, descobri que ele não se enganara. Julgai o desenvolvimento alcançado por este produto dos solos húmidos e quentes. Eu tinha ouvido dizer que o Lycoperdon giganteum atinge nove pés de circunferência, mas ali encontravam-se cogumelos brancos, com quase quarenta pés de altura e com topos de dimensões iguais. Cresciam aos milhares, sem conta — a luz não conseguia abrir caminho através da sua massa sólida e, debaixo deles, reinava uma escuridão lúgubre e mística.
Ainda assim, desejei seguir em frente. O frio nas sombras desta floresta singular era intenso. Durante quase uma hora, vagueámos por esta escuridão visível. Por fim, abandonei o local e regressei uma vez mais às margens do lago, à luz e ao calor relativo.
Mas a espantosa vegetação da terra subterrânea não se limitava a cogumelos gigantescos. Novas maravilhas esperavam-nos a cada passo. Não tínhamos percorrido muitas centenas de jardas quando encontrámos um poderoso grupo de outras árvores de folhas descoloridas — as humildes árvores comuns da Mãe Terra, mas de um tamanho exorbitante e fenomenal: licopódios de cem pés de altura; fetos com flores tão altos como pinheiros; gramíneas gigantescas!
"Assombroso, magnífico, esplêndido!", exclamou o meu tio; "aqui temos diante de nós toda a flora do segundo período do mundo, o de transição. Contempla as humildes plantas dos nossos jardins, que nas primeiras eras do mundo foram árvores poderosas. Olha em teu redor, meu caro Harry. Nenhum botânico jamais contemplou tal espetáculo!"
O entusiasmo do meu tio, sempre um pouco mais do que o necessário, era agora desculpável.
"Tens razão, tio", comentei. "A Providência parece ter planeado a preservação, nesta vasta e misteriosa estufa, de plantas antediluvianas, para provar a sagacidade dos homens eruditos ao representá-las tão maravilhosamente no papel."
"Bem dito, meu rapaz — muito bem dito; é, de facto, uma estufa imensa. Mas estarias também dentro dos limites da razão e do bom senso se acrescentasses que é também um vasto jardim zoológico."
Olhei em redor com certa ansiedade. Se os animais fossem tão exagerados como as plantas, o assunto seria certamente sério.
"Um jardim zoológico?"
"Sem dúvida. Olha para o pó que pisamos — contempla os ossos com que todo o solo da beira-mar está coberto..."
"Ossos", respondi, "sim, certamente, os ossos de animais antediluvianos."
Curvei-me enquanto falava e apanhei um ou dois restos singulares, relíquias de uma era passada. Era fácil dar um nome a estes ossos gigantescos, em alguns casos tão grandes como troncos de árvores.
"Aqui está, claramente, o maxilar inferior de um mastodonte", exclamei, quase tão calorosa e entusiasticamente como o meu tio; "aqui estão os molares do Dinotherium; aqui está um osso da perna que pertenceu ao Megatherium. Tens razão, tio, é de facto um jardim zoológico; pois os animais poderosos a quem estes ossos outrora pertenceram viveram e morreram nas margens deste mar subterrâneo, sob a sombra destas plantas. Olha, ali estão esqueletos inteiros — e, contudo..."
"E, contudo, sobrinho?", disse o meu tio, notando que eu parara subitamente.
"Não compreendo a presença de tais bestas em cavernas de granito, por mais vastas e prodigiosas que sejam", foi a minha resposta.
"Por que não?", disse o meu tio, com muito da sua habitual impaciência profissional.
"Porque é bem sabido que a vida animal só existiu na terra durante o período secundário, quando o solo sedimentar foi formado pelos aluviões e, assim, substituiu as rochas quentes e ardentes da era primitiva."
"Ouvi-te com atenção e paciência, Harry, e tenho uma resposta simples e clara para as tuas objeções: e essa resposta é que este mesmo solo é um solo sedimentar."
"Como pode ser, a tão enorme profundidade da superfície da terra?"
"O facto pode ser explicado de forma simples e geológica. Numa certa época, a terra consistia apenas numa crosta elástica, sujeita a movimentos alternados de subida e descida em virtude da lei da atração. É muito provável que muitos deslizamentos de terra tenham ocorrido naqueles dias e que grandes porções de solo sedimentar tenham sido lançadas em abismos imensos e poderosos."
"Muito possível", comentei secamente. "Mas, tio, se estes animais antediluvianos viveram outrora nestas regiões subterrâneas, o que há de mais provável do que um destes monstros estar, neste momento, escondido atrás de uma daquelas rochas imponentes."
Enquanto falava, olhei atentamente em redor, examinando com cuidado cada ponto do horizonte; mas nada de vivo parecia existir nestas margens desertas.
Sentia-me agora um tanto fatigado e disse-o ao meu tio. A caminhada e a excitação eram demasiado para mim no meu estado de fraqueza. Sentei-me, portanto, na ponta de um promontório, ao pé do qual as ondas quebravam em rolos incessantes. Olhei em redor para uma baía formada por saliências de vastas rochas graníticas. Na extremidade, havia um pequeno porto protegido por enormes pirâmides de pedras. Um brigue e três ou quatro escunas poderiam ter ali permanecido com total facilidade. Parecia tão natural que, a cada minuto, a minha imaginação levava-me a esperar um navio a sair a todo o pano e a dirigir-se para o mar alto sob a influência de uma brisa quente do sul.
Mas a ilusão fantástica nunca durava mais de um minuto. Éramos as únicas criaturas vivas neste mundo subterrâneo!
Durante certos períodos, havia uma cessação total do vento, quando um silêncio mais profundo, mais terrível do que o silêncio do deserto, caía sobre estas rochas solitárias e áridas — e parecia pairar como um peso de chumbo sobre as águas deste oceano singular. Procurei, em meio à terrível quietude, penetrar através do nevoeiro distante, rasgar o véu que escondia a misteriosa distância. Que palavras não ditas foram murmuradas pelos meus lábios trémulos — que perguntas eu desejava fazer e não fiz! Onde terminava este mar — para onde conduzia? Seríamos algum dia capazes de examinar as suas margens distantes?
Mas o meu tio não tinha dúvidas sobre o assunto. Estava convencido de que o nosso empreendimento seria, no fim, bem-sucedido. Pela minha parte, encontrava-me num estado de dolorosa indecisão — desejava embarcar na viagem e ter sucesso, e ainda assim temia o resultado.
Depois de termos passado uma hora ou mais em contemplação silenciosa do maravilhoso espetáculo, levantámo-nos e descemos em direção à margem, a caminho da gruta, que não lamentei alcançar. Após uma ligeira refeição, procurei refúgio no sono e, finalmente, depois de muitas e cansativas lutas, o sono apoderou-se dos meus olhos exaustos.
CAPÍTULO 28
O LANÇAMENTO DA JANGADA
Na manhã do dia seguinte, para minha grande surpresa, acordei completamente recuperado. Achei que um banho seria delicioso após a minha longa doença e sofrimento. Por isso, pouco depois de me levantar, fui e mergulhei nas águas deste novo Mediterrâneo. O banho era fresco, revigorante e tonificante.
Regressei para o pequeno-almoço com um apetite excelente. Hans, o nosso digno guia, compreendia perfeitamente como cozinhar os alimentos que conseguíamos arranjar; ele tinha à disposição tanto fogo como água, pelo que conseguia variar ligeiramente a cansativa monotonia da nossa refeição habitual.
A nossa refeição matinal foi como um excelente pequeno-almoço inglês, com café para terminar. E nunca esta deliciosa bebida fora tão bem-vinda e refrescante.
O meu tio teve consideração suficiente pelo meu estado de saúde para não me interromper no usufruto da refeição, mas ficou evidentemente encantado quando terminei.
"Agora então", disse ele, "vem comigo. É o auge da maré e estou ansioso por estudar os seus fenómenos curiosos."
"O quê!", exclamei, levantando-me de espanto, "disseste a maré, tio?"
"Certamente que disse."
"Não queres dizer", respondi, num tom de respeitosa dúvida, "que a influência do sol e da lua se faz sentir aqui em baixo?"
"E por que não, por favor? Não são todos os corpos influenciados pela lei da atração universal? Porque haveria este vasto mar subterrâneo de estar isento da lei geral, a regra do universo? Além disso, não há nada como aquilo que é provado e demonstrado. Apesar da grande pressão atmosférica aqui em baixo, notarás que este mar interior sobe e desce com tanta regularidade como o próprio Atlântico."
Enquanto o meu tio falava, chegámos à margem arenosa e vimos e ouvimos as ondas a quebrar monotonamente na praia. Estavam, evidentemente, a subir.
"Isto é verdadeiramente a preia-mar", exclamei, olhando para a água aos meus pés.
"Sim, meu excelente sobrinho", respondeu o meu tio, esfregando as mãos com o gosto de um filósofo, "e podes ver por estas várias riscas de espuma que a maré sobe pelo menos dez ou doze pés."
"É, de facto, maravilhoso."
"De modo algum", respondeu ele; "pelo contrário, é perfeitamente natural."
"Pode parecer assim aos teus olhos, meu caro tio", foi a minha resposta, "mas todos os fenómenos deste lugar parecem-me participar do maravilhoso. É quase impossível acreditar naquilo que vejo. Quem, nos seus sonhos mais selvagens, poderia ter imaginado que, sob a crosta da nossa terra, poderia existir um oceano real, com marés de vazante e enchente, com as suas mudanças de ventos e até mesmo as suas tempestades! Eu, pelo menos, teria ridicularizado a sugestão."
"Mas, Harry, meu rapaz, por que não?", perguntou o meu tio, com um sorriso de piedade; "existe alguma razão física que se oponha a isso?"
"Bem, se abandonarmos a grande teoria do calor central da terra, certamente não posso oferecer razões pelas quais algo deva ser considerado impossível."
"Então admitirás", acrescentou ele, "que o sistema de Sir Humphry Davy é totalmente justificado pelo que vimos?"
"Admito que sim — e, uma vez concedido esse ponto, certamente não vejo razão para duvidar da existência de mares e outras maravilhas, até mesmo países, no interior do globo."
"É assim — mas, claro, estes países variados estão desabitados?"
"Bem, admito que é mais provável que não: ainda assim, não vejo porque é que este mar não poderia ter dado abrigo a algumas espécies de peixes desconhecidos."
"Até agora não descobrimos nenhum, e as probabilidades são contrárias a que alguma vez o façamos", observou o Professor.
Eu estava a perder o meu ceticismo na presença destas maravilhas.
"Bem, estou determinado a resolver a questão. Tenho a intenção de tentar a minha sorte com a minha linha e anzol."
"Certamente; faz a experiência", disse o meu tio, satisfeito com o meu entusiasmo. "Enquanto cá estamos, será certamente apropriado descobrir todos os segredos desta região extraordinária."
"Mas, afinal de contas, onde estamos agora?", perguntei; "durante todo este tempo, esqueci-me completamente de te fazer uma pergunta que, sem dúvida, os teus instrumentos filosóficos há muito responderam."
"Bem", respondeu o Professor, "examinando a situação de apenas um ponto de vista, estamos agora a trezentas e cinquenta léguas da Islândia."
"Tanto assim?", foi a minha exclamação.
"Revi o assunto várias vezes e tenho a certeza de não ter cometido um erro de quinhentas jardas", respondeu o meu tio positivamente.
"E quanto à direção — continuamos a ir para sudeste?"
"Sim, com uma declinação ocidental de dezanove graus e quarenta e dois minutos, tal como lá em cima. Quanto à inclinação, descobri um facto muito curioso."
"Qual poderá ser, tio? A tua informação interessa-me."
"Ora, que a agulha, em vez de se inclinar para o polo como faz na terra, no hemisfério norte, tem uma tendência para cima."
"Isto prova", exclamei, "que o grande ponto de atração magnética se encontra algures entre a superfície da terra e o local que conseguimos alcançar."
"Exatamente, meu sobrinho observador", exclamou o meu tio, exaltado e encantado, "e é muito provável que, se conseguirmos chegar perto das regiões polares — algures perto do septuagésimo terceiro grau de latitude, onde Sir James Ross descobriu o polo magnético, veremos a agulha apontar diretamente para cima. Descobrimos, portanto, por analogia, que este grande centro de atração não está situado a uma profundidade muito grande."
"Bem", disse eu, um tanto surpreendido, "esta descoberta vai espantar os filósofos experimentais. Nunca foi suspeitada."
"A ciência, grande, poderosa e, no fim, infalível", respondeu o meu tio dogmaticamente, "a ciência caiu em muitos erros — erros que foram afortunados e úteis, antes pelo contrário, pois foram os degraus para a verdade."
Após mais alguma discussão, voltei-me para outro assunto.
"Tens alguma ideia da profundidade que alcançámos?"
"Estamos agora", continuou o Professor, "exatamente a trinta e cinco léguas — acima de cem milhas — interior adentro da terra."
"Então", disse eu, após medir a distância no mapa, "estamos agora debaixo das Terras Altas escocesas e temos sobre as nossas cabeças as elevadas colinas Grampian."
"Tens toda a razão", disse o Professor, rindo-se; "soa muito alarmante, sendo o peso pesado — mas a abóbada que suporta esta vasta massa de terra e rocha é sólida e segura; o poderoso Arquiteto do Universo construiu-a com materiais sólidos. O homem, mesmo nos seus voos mais altos de imaginação vívida e poética, nunca pensou em tais coisas! O que são os arcos mais finos das nossas pontes, o que são os tetos abobadados das nossas catedrais, comparados com aquela imensa cúpula acima de nós, e debaixo da qual flutua um oceano com as suas tempestades, calmas e marés!"
"Admiro tudo tanto como tu, tio, e não tenho medo de que o nosso céu de granito caia sobre as nossas cabeças. Mas agora que discutimos questões de ciência e descoberta, quais são as tuas intenções futuras? Não pensas em voltar à superfície da nossa bela terra?"
Isto foi dito mais como uma sondagem do que com qualquer esperança de sucesso.
"Voltar, sobrinho", exclamou o meu tio num tom de alarme, "não estarás certamente a pensar em algo tão absurdo ou cobarde. Não, a minha intenção é avançar e continuar a nossa viagem. Temos sido, até agora, singularmente afortunados e, doravante, espero que o sejamos ainda mais."
"Mas", disse eu, "como vamos atravessar aquela planície líquida?"
"Não é minha intenção saltar para dentro dela de cabeça, ou sequer atravessá-la a nado, como Leandro pelo Helesponto. Mas, como os oceanos são, afinal de contas, apenas grandes lagos, na medida em que estão rodeados por terra, segue-se que este mar central está circunscrito por contornos de granito."
"Sem dúvida", foi a minha resposta natural.
"Bem, então, não achas que, uma vez que cheguemos ao outro extremo, encontraremos algum meio de continuar a nossa viagem?"
"Provavelmente, mas que extensão atribuis a este oceano interno?"
"Bem, eu imaginaria que se estendesse por cerca de quarenta ou cinquenta léguas — mais ou menos."
"Mas, mesmo supondo que esta aproximação seja correta — que então?", perguntei.
"Meu caro rapaz, não temos tempo para mais discussões. Embarcaremos amanhã."
Olhei em redor com surpresa e incredulidade. Não conseguia ver nada que tivesse a forma de barco ou embarcação.
"O quê!", exclamei, "estamos prestes a lançar-nos num mar desconhecido; e onde, se me permites perguntar, está o navio para nos levar?"
"Bem, meu caro rapaz, não será exatamente o que tu chamarias de navio. Por agora, temos de nos contentar com uma jangada boa e sólida."
"Uma jangada", exclamei, incrédulo, "mas aqui em baixo uma jangada é tão impossível de construir como um navio — e sinto-me incapaz de imaginar..."
"Meu caro Harry — se ouvisses em vez de falares tanto, ouvirias", disse o meu tio, tornando-se um pouco impaciente.
"Eu deveria ouvir?"
"Sim — certas batidas com o martelo, que o Hans está agora a usar para fazer a jangada. Ele trabalha há muitas horas."
"A fazer uma jangada?"
"Sim."
"Mas onde encontrou ele árvores adequadas para tal construção?"
"Ele encontrou as árvores todas prontas para a mão dele. Vem, e verás o nosso excelente guia a trabalhar."
Cada vez mais espantado com o que ouvia e via, segui o meu tio como alguém num sonho.
Após uma caminhada de cerca de um quarto de hora, vi Hans a trabalhar do outro lado do promontório que formava o nosso porto natural. Mais alguns minutos e estava ao lado dele. Para minha grande surpresa, na margem arenosa jazia uma jangada meio acabada. Era feita de vigas de uma madeira muito peculiar, e um grande número de membros, juntas, ramos e pedaços jaziam por perto, suficientes para ter construído uma frota de navios e barcos.
Voltei-me para o meu tio, silencioso de espanto e reverência.
"De onde veio toda esta madeira?", exclamei; "que madeira é esta?"
"Bem, há madeira de pinheiro, abeto e palmeiras das regiões do norte, mineralizadas pela ação do mar", respondeu ele, sentenciosamente.
"Será possível?"
"Sim", disse o erudito Professor, "aquilo que vês chama-se madeira fóssil."
"Mas então", exclamei, após refletir por um momento, "como os lenhitos, deve ser tão dura e pesada como o ferro e, portanto, certamente não flutuará."
"Por vezes é esse o caso. Muitas destas madeiras tornaram-se verdadeiros antracitos, mas outras, como aquelas que vês diante de ti, sofreram apenas uma fase de transformação fóssil. Mas não há prova como a demonstração", acrescentou o meu tio, apanhando um ou dois destes preciosos destroços e lançando-os ao mar.
O pedaço de madeira, após ter desaparecido por um momento, veio à superfície e flutuou com a oscilação produzida pelo vento e pela maré.
"Estás convencido?", disse o meu tio, com um sorriso de autossatisfação.
"Estou convencido", exclamei, "de que aquilo que vejo é incrível."
O facto era que a minha viagem ao interior da terra estava a mudar rapidamente todas as noções preconcebidas e, dia após dia, a preparar-me para o maravilhoso.
Não me teria surpreendido se tivesse visto uma frota de canoas nativas a flutuar sobre aquele mar silencioso.
Na noite seguinte, graças à indústria e habilidade de Hans, a jangada estava acabada. Tinha cerca de dez pés de comprimento e cinco de largura. As vigas, unidas com cordas resistentes, eram sólidas e firmes e, uma vez lançada pelos nossos esforços unidos, a embarcação improvisada flutuou tranquilamente sobre as águas daquilo que o Professor bem chamara de Mar Central.
CAPÍTULO 29
NAS ÁGUAS — UMA VIAGEM DE JANGADA
Na manhã de treze de agosto, levantámo-nos cedo. Não havia tempo a perder. Tínhamos agora de inaugurar um novo tipo de locomoção, que teria a vantagem de ser rápida e não fatigante.
Um mastro, feito de dois pedaços de madeira presos um ao outro para dar resistência adicional, uma verga feita de outro, a vela um lençol de linho da nossa cama. Felizmente não nos faltava cordame, e tudo, no teste, pareceu sólido e navegável.
Às seis horas da manhã, quando o ávido e entusiasta Professor deu o sinal para embarcar, os víveres, a bagagem, todos os nossos instrumentos, as nossas armas e um bom abastecimento de água doce, que tínhamos recolhido de fontes nas rochas, foram colocados na jangada.
Hans tinha, com considerável engenho, inventado um leme, que lhe permitia guiar o aparelho flutuante com facilidade. Ele assumiu o comando, como era natural. O digno homem era tão bom marinheiro como era guia e caçador de patos. Soltei então o cabo que nos prendia à margem, a vela foi trazida ao vento e afastámo-nos rapidamente.
A nossa viagem marítima tinha finalmente começado; e, mais uma vez, dirigíamo-nos a regiões distantes e desconhecidas.
Assim que estávamos prestes a deixar o pequeno porto onde a jangada fora construída, o meu tio, que era muito forte na nomenclatura geográfica, quis dar-lhe um nome e, entre outros, sugeriu o meu.
"Bem", disse eu, "antes de decidires, tenho outro a propor."
"Bem; diz lá."
"Gostaria de lhe chamar Gretchen. Porto Gretchen soará muito bem no nosso mapa futuro."
"Bem então, Porto Gretchen será", disse o Professor.
E foi assim que a memória da minha querida rapariga ficou ligada à nossa aventureira e memorável expedição.
Quando deixámos a costa, o vento soprava de norte e de leste. Seguíamos diretamente à mercê do vento a uma velocidade muito maior do que se poderia esperar de uma jangada. As densas camadas da atmosfera àquela profundidade tinham um grande poder de propulsão e agiam sobre a vela com considerável força.
Ao fim de uma hora, o meu tio, que vinha a fazer observações cuidadosas, pôde avaliar a rapidez com que nos movíamos. Era muito superior a qualquer coisa vista no mundo superior.
"Se", disse ele, "continuarmos a avançar à nossa velocidade atual, teremos percorrido pelo menos trinta léguas em vinte e quatro horas. Com uma simples jangada, esta é uma velocidade quase inacreditável."
Fiquei certamente surpreendido e, sem responder, fui para a parte da frente da jangada. Já a costa norte se desvanecia no limite do horizonte. As duas margens pareciam separar-se cada vez mais, deixando um espaço amplo e aberto para a nossa partida. Diante de mim, nada via senão o vasto e aparentemente ilimitado mar — sobre o qual flutuávamos — os únicos objetos vivos à vista.
Nuvens enormes e escuras projetavam as suas sombras cinzentas lá em baixo — sombras que pareciam esmagar aquela água incolor e sombria com o seu peso. Nunca vi nada que sugerisse tanto a melancolia e as regiões das trevas profundas. Raios prateados de luz elétrica, refletidos aqui e ali em alguns pequenos pontos da água, faziam surgir centelhas luminosas no longo rastro da nossa barca desajeitada. Em pouco tempo, perdemos a terra de vista; nem um vestígio se podia ver, nem qualquer indicação de para onde íamos. Parecíamos tão imóveis e quietos, sem qualquer ponto distante em que fixar os olhos, que, não fosse a luz fosfórica no rastro da jangada, teria imaginado que estávamos parados.
Mas eu sabia que avançávamos a uma velocidade muito rápida.
Por volta das doze horas do dia, vastas coleções de algas foram descobertas a rodear-nos de todos os lados. Eu tinha consciência do extraordinário poder vegetativo destas plantas, que se sabe rastejarem pelo fundo do grande oceano e deterem o avanço de grandes navios. Mas nunca se viram algas tão gigantescas e maravilhosas como as do Mar Central. Podia muito bem imaginar como, vistas à distância, a agitar-se e a ondular no cimo das vagas, as longas linhas de algas tenham sido tomadas por seres vivos e, assim, tenham sido fontes férteis da crença em serpentes marinhas.
A nossa jangada passou por grandes espécimes de fucus ou sargaço, com três a quatro mil pés de comprimento, imensos, incrivelmente longos, parecendo serpentes que se estendiam muito para lá do nosso horizonte. Diverti-me imenso a contemplar os seus intermináveis comprimentos variegados, semelhantes a fitas. Hora após hora passou sem chegarmos ao fim destas ervas flutuantes. Se o meu espanto aumentava, a minha paciência estava quase esgotada.
Que força natural poderia possivelmente ter produzido plantas tão anormais e extraordinárias? Qual teria sido o aspeto do globo, durante os primeiros séculos da sua formação, quando, sob a ação combinada do calor e da humidade, o reino vegetal ocupava a sua vasta superfície com a exclusão de tudo o resto?
Estas eram considerações de interesse interminável para o geólogo e para o filósofo.
Durante todo este tempo, continuávamos a nossa viagem; e, finalmente, a noite chegou; mas, como eu tinha observado na véspera, o estado luminoso da atmosfera não diminuía em nada. Seja qual fosse a causa, era um fenómeno cuja duração podíamos calcular com certeza.
Assim que terminámos o nosso jantar e nos entregámos a um pouco de conversa especulativa, estendi-me ao pé do mastro e, pouco depois, adormeci.
Hans permanecia imóvel ao leme, deixando a jangada subir e descer sobre as ondas. Sendo o vento de popa e a vela quadrada, tudo o que ele tinha de fazer era manter o remo no centro.
Desde a nossa partida do recém-batizado Porto Gretchen, o meu digno tio tinha-me instruído a manter um diário de bordo regular da nossa navegação diária, com instruções para anotar até os pormenores mais minuciosos, cada fenómeno interessante e curioso, a direção do vento, a nossa velocidade de navegação, a distância percorrida; numa palavra, cada incidente da nossa extraordinária viagem.
Do nosso diário de bordo, portanto, conto a história da nossa viagem no Mar Central.
Sexta-feira, 14 de agosto. Uma brisa constante de noroeste. Jangada a progredir com extrema rapidez e a seguir perfeitamente a direito. Costa ainda vagamente visível a cerca de trinta léguas a sotavento. Nada de visível para lá do horizonte à frente. A extraordinária intensidade da luz não aumenta nem diminui. É singularmente estacionária. O tempo notavelmente bom; isto é, as nuvens subiram muito alto, são leves e felpudas, e rodeadas por uma atmosfera semelhante a prata em fusão.
Termómetro, +32 graus centígrados.
Por volta do meio-dia, o nosso guia Hans, tendo preparado e iscado um anzol, lançou a sua linha nas águas subterrâneas. O isco que usou foi um pequeno pedaço de carne, com o qual escondeu o anzol. Ansioso como estava, fui condenado a uma longa desilusão. Estariam estas águas providas de peixe ou não? Essa era a questão importante. Não — foi a minha resposta decidida. Então, sentiu-se um puxão súbito e bastante forte. Hans puxou-o calmamente e, com ele, um peixe, que lutava violentamente para escapar.
"Um peixe!" gritou o meu tio.
"É um esturjão!" gritei eu, "certamente um pequeno esturjão."
O Professor examinou o peixe cuidadosamente, notando todas as características; e não coincidiu com a minha opinião. O peixe tinha a cabeça chata, o corpo redondo e as extremidades inferiores cobertas de escamas ósseas; a boca não tinha dentes e as barbatanas peitorais, que eram altamente desenvolvidas, brotavam diretamente do corpo, que, propriamente dito, não tinha cauda. O animal pertencia certamente à ordem em que os naturalistas classificam o esturjão, mas diferia desse peixe em muitos pormenores essenciais.
O meu tio, afinal, não estava enganado. Após um exame longo e paciente, disse:
"Este peixe, meu caro rapaz, pertence a uma família que está extinta há eras e da qual nunca se encontrou qualquer vestígio na terra, exceto restos fósseis nos estratos devonianos."
"Não quer dizer", exclamei, "que capturámos um espécime vivo de um peixe pertencente à estirpe primitiva que existia antes do dilúvio?"
"Capturámos", disse o Professor, que durante todo este tempo continuava as suas observações, "e podes ver por um exame cuidadoso que estes peixes fósseis não têm identidade com as espécies existentes. Ter, portanto, na mão um espécime vivo da ordem é suficiente para tornar um naturalista feliz para toda a vida."
"Mas", exclamei, "a que família pertence?"
"À ordem dos Ganoides — uma ordem de peixes com escamas angulares, cobertas de esmalte brilhante — formando uma da família dos Cefalaspídeos, do género..."
"Bem, senhor", comentei, ao notar que o meu tio hesitava em concluir.
"Ao género Pterychtis — sim, tenho a certeza. Ainda assim, embora esteja confiante na correção da minha suposição, este peixe oferece à nossa observação uma peculiaridade notável, nunca antes conhecida em nenhum outro peixe a não ser nos que são nativos de águas subterrâneas, poços, lagos, grutas e charcos ocultos semelhantes."
"E qual poderá ser?"
"É cego."
"Cego!" exclamei, muito surpreendido.
"Não só cego", continuou o Professor, "mas absolutamente sem órgãos de visão."
Examinei agora a nossa descoberta por mim próprio. Era singular, de facto, mas era realmente um facto. Isto, contudo, poderia ser um caso isolado, sugeri. O anzol foi iscado novamente e lançado mais uma vez à água. Este oceano subterrâneo devia estar razoavelmente bem abastecido de peixe, pois em duas horas apanhámos um grande número de Pterychtis, bem como outros peixes pertencentes a outra família supostamente extinta — os Dipterídeos (um género de peixe, provido de apenas duas barbatanas, donde o nome), embora o meu tio não o pudesse classificar exatamente. Todos, sem exceção, no entanto, eram cegos. Esta captura inesperada permitiu-nos renovar o nosso stock de provisões de uma forma muito satisfatória.
Estávamos agora convencidos de que este mar subterrâneo continha apenas peixes conhecidos por nós como espécimes fósseis — e peixes e répteis eram tanto mais perfeitos quanto mais remota era a sua origem.
Começámos a ter esperança de encontrar alguns daqueles saurianos que a ciência conseguiu reconstruir a partir de pedaços de osso ou cartilagem.
Peguei no telescópio e examinei cuidadosamente o horizonte — percorri todo o mar; estava total e completamente deserto. Sem dúvida, ainda estávamos demasiado perto da costa.
Após um exame do oceano, olhei para cima, em direção ao estranho e misterioso céu. Porque não haveria uma das aves reconstruídas pelo imortal Cuvier de bater as suas estupendas asas no alto, nos estratos baços do ar subterrâneo? Encontraria, naturalmente, alimento suficiente nos peixes do mar. Fiquei a olhar durante algum tempo para o vazio acima. Estava tão silencioso e deserto como as margens que tínhamos deixado pouco antes.
No entanto, embora eu não pudesse ver nem descobrir nada, a minha imaginação levou-me a hipóteses selvagens. Estava num tipo de sonho acordado. Pensei ver à superfície da água aquelas enormes tartarugas antediluvianas tão grandes como ilhas flutuantes. Sobre aquelas margens baças e sombrias passava uma fila espetral dos mamíferos dos primeiros tempos, o grande Liptotherium encontrado na cavidade cavernosa das colinas brasileiras, o Mesicotherium, um nativo das regiões glaciares da Sibéria.
Mais adiante, o Lophrodon paquiderme, aquele tapir gigantesco, que se escondia atrás das rochas, pronto para lutar pela sua presa com o Anoplotherium, um animal singular que participava da natureza do rinoceronte, do cavalo, do hipopótamo e do camelo.
Lá estava o Mastodonte gigante, torcendo e revirando a sua horrível tromba, com a qual reduzia a pó as rochas da margem, enquanto o Megatherium — com as costas arqueadas como um gato furioso, as suas enormes garras estendidas, cavava a terra à procura de alimento, ao mesmo tempo que despertava os ecos sonoros de todo o local com o seu rugido terrível.
Mais acima ainda, o primeiro macaco alguma vez visto à face do globo subia, saltitando e brincando pelas colinas de granito. Ainda mais longe, corria o Pterodáctilo, com a mão alada, planando ou melhor, navegando através do ar denso e comprimido como um enorme morcego.
Acima de tudo, perto do céu granítico de chumbo, havia aves imensas, mais poderosas do que o casuar e a avestruz, que abriam as suas poderosas asas e agitavam-se contra a enorme abóbada de pedra do mar interior.
Pensei, tal foi o efeito da minha imaginação, que via toda esta tribo de criaturas antediluvianas. Transportei-me para eras remotas, muito antes de o homem existir — quando, de facto, a terra estava num estado demasiado imperfeito para ele viver nela.
O meu sonho foi de incontáveis eras antes da existência do homem. Os mamíferos desapareceram primeiro, depois as aves poderosas, depois os répteis do período secundário, pouco depois os peixes, os crustáceos, os moluscos e, finalmente, os vertebrados. Os zoófitos do período de transição, por sua vez, afundaram-se na aniquilação.
Todo o panorama da vida do mundo antes do período histórico parecia nascer de novo, e o meu era o único coração humano que batia neste mundo despovoado! Não havia mais estações; não havia mais climas; o calor natural do mundo aumentava incessantemente e neutralizava o do grande Sol radiante.
A vegetação era exagerada de uma maneira extraordinária. Passava como uma sombra no meio de matagais tão altos como as árvores gigantes da Califórnia, e pisava o solo húmido e recendente, impregnado de uma vegetação variada e exuberante.
Apoiava-me contra os enormes troncos colunares de árvores gigantes, para as quais as do Canadá eram como fetos. Eras inteiras passaram, centenas e centenas de anos foram concentrados num único dia.
Depois, desenrolou-se diante de mim, como um panorama, a grande e maravilhosa série de transformações terrestres. As plantas desapareceram; as rochas graníticas perderam todo o vestígio de solidez; o estado líquido foi subitamente substituído pelo que existira antes. Isto foi causado pelo calor intenso a atuar sobre a matéria orgânica da terra. As águas fluíam sobre toda a superfície do globo; ferviam; eram volatilizadas ou transformadas em vapor; uma espécie de nuvem de vapor envolvia toda a terra, tornando-se o próprio globo, finalmente, nada mais do que uma enorme esfera de gás, indescritível em cor, entre o calor branco e o vermelho, tão grande e tão brilhante como o sol.
No próprio centro desta massa prodigiosa, catorze mil vezes maior do que o nosso globo, eu era rodopiado no espaço e trazido para uma estreita conjunção com os planetas. O meu corpo foi subtilizado, ou melhor, tornou-se volátil e misturou-se, num estado de vapor atómico, com as prodigiosas nuvens, que se precipitavam como um poderoso cometa no espaço infinito!
Que sonho extraordinário! Onde me levaria ele finalmente? A minha mão febril começou a escrever os pormenores maravilhosos — pormenores mais semelhantes às imaginações de um lunático do que a qualquer coisa sóbria e real. Tinha, durante este período de alucinação, esquecido tudo — o Professor, o guia e a jangada em que flutuávamos. A minha mente estava num estado de semi-oblivio.
"O que se passa, Harry?" disse o meu tio subitamente.
Os meus olhos, que estavam bem abertos como os de um sonâmbulo, estavam fixos nele, mas eu não o via, nem conseguia distinguir claramente nada à minha volta.
"Cuidado, meu rapaz", gritou novamente o meu tio, "vais cair ao mar."
Ao proferir estas palavras, senti-me agarrado do outro lado pela mão firme do nosso devotado guia. Não fosse a presença de espírito de Hans, teria infalivelmente caído nas ondas e morrido afogado.
"Enlouqueceste?" gritou o meu tio, abanando-me do outro lado.
"O que... o que se passa?" disse eu finalmente, voltando a mim.
"Estás doente, Henry?" continuou o Professor num tom ansioso.
"Não... não; mas tive um sonho extraordinário. No entanto, passou. Agora parece estar tudo bem", acrescentei, olhando à minha volta com olhos estranhamente perplexos.
"Está bem", disse o meu tio; "uma brisa bonita, um mar esplêndido. Estamos a seguir a um ritmo rápido e, se não me falham os cálculos, veremos terra em breve. Não ficarei nada triste por trocar os limites estreitos da nossa jangada pela misteriosa praia do oceano subterrâneo."
Ao proferir estas palavras, levantei-me e examinei cuidadosamente o horizonte. Mas a linha de água confundia-se ainda com as nuvens baixas que pairavam no alto e, à distância, pareciam tocar o limite da água.
CAPÍTULO 30
TERRÍVEL COMBATE DE SAURIANOS
Sábado, 15 de agosto. O mar mantém a sua monotonia uniforme. O mesmo tom de chumbo, o mesmo brilho eterno vindo de cima. Nenhum sinal de terra à vista. O horizonte parece recuar diante de nós, cada vez mais à medida que avançamos.
A minha cabeça, ainda baça e pesada devido aos efeitos do meu sonho extraordinário, que ainda não consigo banir da minha mente.
O Professor, que não sonhou, encontra-se, contudo, num dos seus humores morosos e inexplicáveis. Passa o tempo a examinar o horizonte, em todos os pontos da bússola. O seu telescópio é elevado a cada momento aos seus olhos e, quando não encontra nada que dê qualquer pista sobre a nossa localização, assume uma atitude napoleónica e caminha ansiosamente.
Notei que o meu tio, o Professor, tinha uma forte tendência para retomar o seu velho caráter impaciente, e não pude deixar de registar esta circunstância desagradável no meu diário. Vi claramente que tinha sido necessária toda a influência do meu perigo e sofrimento para extrair dele uma centelha de sentimento humano. Agora que eu estava completamente recuperado, a sua natureza original tinha conquistado e obtido o domínio.
E, afinal, de que tinha ele para estar zangado e aborrecido, agora mais do que em qualquer outra altura? Não estava a viagem a realizar-se nas circunstâncias mais favoráveis? Não estava a jangada a progredir com a mais maravilhosa rapidez?
O que se passaria, então? Após um ou dois pigarros preliminares, decidi perguntar.
"Pareces inquieto, tio", disse eu, quando, pela centésima vez, ele pousou o telescópio e caminhou de um lado para o outro, murmurando para si mesmo.
"Não, não estou inquieto", respondeu ele num tom seco e áspero, "de forma alguma."
"Talvez devesse ter dito impaciente", respondi, suavizando a força da minha observação.
"Bastante para me deixar assim, creio eu."
"E, no entanto, avançamos a uma velocidade raramente atingida por uma jangada", observei.
"O que importa isso?" gritou o meu tio. "Não estou irritado com a velocidade a que vamos, mas estou aborrecido por achar o mar muito mais vasto do que esperava."
Lembrei-me então de que o Professor, antes da nossa partida, tinha estimado o comprimento deste oceano subterrâneo, no máximo, em cerca de trinta léguas. Agora tínhamos percorrido pelo menos o triplo dessa distância sem descobrir qualquer vestígio da costa distante. Comecei a compreender a zanga do meu tio.
"Não estamos a descer", exclamou subitamente o Professor. "Não estamos a progredir com as nossas grandes descobertas. Tudo isto é uma perda total de tempo. Afinal, não vim de casa para fazer um passeio de prazer. Esta viagem numa jangada sobre um lago aborrece-me e cansa-me."
Chamava a esta viagem aventurosa um passeio de prazer, e a este grande mar interior um lago!
"Mas", argumentei eu, "se seguimos a rota indicada pelo grande Saknussemm, não podemos estar muito enganados."
"'Essa é a questão', como diria o grande, o imortal Shakespeare. Estamos a seguir a rota indicada por esse sábio maravilhoso? Alguma vez Saknussemm encontrou este grande lençol de água? Se encontrou, atravessou-o? Começo a recear que o riacho que adotámos como guia nos tenha levado pelo caminho errado."
"De qualquer forma, nunca poderemos arrepender-nos de ter vindo até aqui. Vale a pena a viagem inteira ter desfrutado deste espetáculo magnífico — é qualquer coisa ter visto."
"Não me interessa ver, nem espetáculos magníficos. Desci ao interior da terra com um objetivo, e esse objetivo pretendo alcançá-lo. Não me venhas falar de admirar a paisagem, ou qualquer outro lixo sentimental."
Depois disto, achei melhor calar a boca e deixar o Professor morder os lábios até sangrarem, sem mais comentários.
Às seis horas da tarde, o nosso guia pragmático, Hans, pediu o seu salário semanal e, recebendo os seus três rix-dólares, guardou-os cuidadosamente no bolso. Estava perfeitamente contente e satisfeito.
Domingo, 16 de agosto. Nada de novo a registar. O mesmo tempo de antes. O vento tem uma ligeira tendência para refrescar, com sinais de uma tempestade a aproximar-se. Quando acordei, a minha primeira observação foi em relação à intensidade da luz. Continuo a recear, dia após dia, que o extraordinário fenómeno elétrico fique primeiro obscurecido e depois se apague totalmente, deixando-nos na escuridão total. Nada, contudo, do género acontece. A sombra da jangada, do seu mastro e velas, distingue-se claramente na superfície da água.
Este mar maravilhoso é, afinal, infinito na sua extensão. Deve ser tão largo como o Mediterrâneo — ou talvez até como o grande Oceano Atlântico. Porque, afinal, não deveria ser assim?
O meu tio, em mais de uma ocasião, tentou sondagens em águas profundas. Amarrou a cruz de uma das nossas barras de ferro mais pesadas à extremidade de uma corda, que deixou desenrolar até à extensão de duzentas braças. Tivemos a maior dificuldade em içar o nosso novo tipo de prumo.
Quando a barra de ferro foi finalmente arrastada para bordo, Hans chamou a minha atenção para algumas marcas singulares na sua superfície. O pedaço de ferro parecia ter sido esmagado entre duas substâncias muito duras.
Olhei para o nosso digno guia com um olhar interrogativo.
"Tander", disse ele.
Claro que não conseguia compreender. Virei-me para o meu tio, absorto em reflexões sombrias. Tinha pouca vontade de o perturbar do seu devaneio. Virei-me, por conseguinte, mais uma vez para o nosso digno islandês.
Hans abriu muito calma e significativamente a boca uma ou duas vezes, como se estivesse a morder, e desta forma fez-me compreender o seu significado.
"Dentes!", exclamei eu, estupefacto, enquanto examinava a barra de ferro com mais atenção.
Sim. Não pode haver dúvidas sobre o assunto. As marcas na barra de ferro são marcas de dentes! Que mandíbulas deve possuir o dono de tais molares! Teremos, então, encontrado um monstro de espécie desconhecida, que ainda existe nas vastas extensões de águas — um monstro mais voraz do que um tubarão, mais terrível e volumoso do que a baleia? Sou incapaz de desviar os olhos da barra de ferro, na verdade, meio esmagada!
Estará, então, o meu sonho prestes a tornar-se realidade — uma realidade terrível e medonha?
Durante todo o dia, os meus pensamentos debruçaram-se sobre estas especulações, e a minha imaginação mal recuperou um grau de calma e capacidade de reflexão senão depois de um sono de muitas horas.
Este dia, como os outros domingos, observámo-lo como um dia de descanso e meditação piedosa.
Segunda-feira, 17 de agosto. Tenho tentado compreender de memória os instintos particulares daqueles animais antediluvianos do período secundário, que, sucedendo aos moluscos, aos crustáceos e aos peixes, precederam o aparecimento da raça dos mamíferos. A geração de répteis reinava então suprema sobre a terra. Estes monstros hediondos governavam tudo nos mares do período secundário, que formaram os estratos dos quais as montanhas do Jura são compostas. A natureza dotara-os de uma organização perfeita. Que estrutura gigantesca era a deles; que força vasta e prodigiosa possuíam!
Os sáurios existentes, que incluem todos os répteis como lagartos, crocodilos e aligátores, mesmo os maiores e mais temíveis da sua classe, não passam de débeis imitações dos seus poderosos antepassados, os animais de eras longínquas. Se houve gigantes nos tempos antigos, houve também animais gigantescos.
Estremeci ao desenvolver na minha mente a ideia e a recordação destes monstros terríveis. Nenhum olho humano os viu em carne e osso. Eles passeavam pela face da terra milhares de eras antes de o homem existir, e os seus ossos fósseis, descobertos no calcário, permitiram-nos reconstruí-los anatomicamente e, assim, ter uma ideia vaga da sua formação colossal.
Recordo-me de ter visto uma vez no grande Museu de Hamburgo o esqueleto de um destes maravilhosos sáurios. Media nada menos que trinta pés do nariz à cauda. Serei eu, então, um habitante da terra dos dias de hoje, destinado a encontrar-me face a face com um representante desta família antediluviana? Mal posso acreditar que seja possível; mal posso acreditar que seja verdade. E, contudo, estas marcas de dentes poderosos na barra de ferro! Poderá haver dúvida, pela sua forma, de que a dentada é a de um crocodilo?
Os meus olhos fitam, selvagens e com terror, o mar subterrâneo. A cada momento, espero que um destes monstros surja das suas vastas profundezas cavernosas.
Imagino que o digno Professor partilha, em certa medida, das minhas noções, se não dos meus medos, pois, após um exame atento da alavanca, lançou os olhos rapidamente sobre o oceano imenso e misterioso.
"O que lhe terá dado para deixar a terra", pensei eu, "como se a profundidade desta água tivesse alguma importância para nós. Sem dúvida, ele perturbou algum monstro terrível na sua casa aquática, e talvez paguemos caro pela nossa temeridade."
Ansioso por estar preparado para o pior, examinei as nossas armas e vi que estavam em condições de uso. O meu tio olhou para mim e acenou com a cabeça, aprovando. Ele também notou o que temos a temer.
Já a elevação das águas na superfície indica que algo se move lá em baixo. O perigo aproxima-se. Vem cada vez mais perto. Convém que estejamos atentos.
Terça-feira, 18 de agosto. Chegou finalmente a noite, a hora em que o desejo de dormir tornava as nossas pálpebras pesadas. Noite não há, propriamente dita, neste lugar, tal como não há no verão nas regiões árcticas. Hans, contudo, permanece imóvel ao leme. Quando ele consegue um momento de descanso, realmente não sei dizer. Aproveito a sua vigilância para repousar um pouco.
Mas, duas horas depois, fui acordado de um sono profundo por um choque terrível. A jangada parecia ter batido num rochedo submerso. Foi levantada para fora da água por um poder maravilhoso e misterioso e, depois, lançou-se a vinte braças de distância.
"Eh, o que é isto?", gritou o meu tio, saltando. "Estamos naufragados ou o quê?"
Hans levantou a mão e apontou para onde, a cerca de duzentos metros de distância, uma grande massa negra subia e descia.
Olhei com pavor. Os meus piores medos concretizaram-se.
"É um monstro colossal!", gritei, juntando as mãos.
"Sim", gritou o agitado Professor, "e ali está um enorme lagarto marinho de tamanho e forma terríveis."
"E mais à frente, contempla um crocodilo prodigioso. Olha para as suas mandíbulas hediondas e para aquela fila de dentes monstruosos. Ah! ele foi-se."
"Uma baleia! uma baleia!", gritou o Professor, "consigo ver as suas barbatanas enormes. Vê, vê como ela expele ar e água!"
Duas colunas líquidas subiram a uma altura vasta acima do nível do mar, no qual caíram com um estrondo terrível, despertando os ecos daquele lugar medonho. Ficámos imóveis — surpreendidos, estupefactos, aterrorizados com a visão deste grupo de monstros marinhos temíveis, mais hediondos na realidade do que no meu sonho. Eram de dimensões sobrenaturais; o mais pequeno de todo o grupo poderia facilmente ter esmagado a nossa jangada e a nós próprios com uma única dentada.
Hans, agarrando o leme que lhe tinha escapado da mão, vira-o a barlavento para escapar de tal vizinhança perigosa; mas não o faz senão para descobrir que está a fugir de Cila para Caríbdis. A sotavento está uma tartaruga com cerca de quarenta pés de largura, e uma serpente quase tão comprida, com uma cabeça enorme e hedionda espreitando fora das águas.
Olhemos para onde olharmos, é-nos impossível fugir. Os répteis temíveis avançaram sobre nós; voltaram-se e contorceram-se à volta da jangada com uma rapidez terrível. Formaram à volta da nossa humilde embarcação uma série de círculos concêntricos. Peguei na minha carabina, desesperado. Mas que efeito pode uma bala de carabina produzir sobre as escamas blindadas com que os corpos destes monstros horríveis estão cobertos?
Permanecemos imóveis e mudos de puro horror. Eles avançam sobre nós, mais e mais perto. O nosso destino parece certo, medonho e terrível. De um lado, o poderoso crocodilo; do outro, a grande serpente marinha. O resto da horda temível de prodígios marinhos mergulhou debaixo das ondas salgadas e desapareceu!
Estou prestes a disparar a todo o custo e experimentar o efeito de um tiro. Hans, o guia, contudo, interferiu com um sinal para me deter. Os dois monstros hediondos e vorazes passaram a cinquenta braças da jangada e, depois, lançaram-se um contra o outro — a sua fúria e raiva impedindo-os de nos ver.
O combate começou. Distinguimos claramente cada ação dos dois monstros hediondos.
Mas, para a minha imaginação excitada, os outros animais pareciam estar prestes a participar na luta feroz e mortal — o monstro, a baleia, o lagarto e a tartaruga. Vi-os claramente a cada momento. Apontei-os ao islandês. Mas ele apenas abanou a cabeça.
"Tva", disse ele.
"O quê — diz apenas dois. Certamente ele está enganado", exclamei num tom de espanto.
"Ele tem muita razão", respondeu o meu tio, fria e filosoficamente, examinando o duelo terrível com o seu telescópio e falando como se estivesse numa sala de aula.
"Como pode ser?"
"Sim, é assim. O primeiro destes monstros hediondos tem o focinho de uma toninha, a cabeça de um lagarto, os dentes de um crocodilo; e foi isto que nos enganou. É o mais terrível de todos os répteis antediluvianos, o mundialmente famoso Ictiossauro ou grande lagarto-peixe."
"E o outro?"
"O outro é uma serpente monstruosa, escondida debaixo da carapaça dura e abobadada da tartaruga, o terrível inimigo do seu rival medonho, o Plesiossauro, ou crocodilo marinho."
Hans tinha toda a razão. Apenas os dois monstros perturbavam a superfície do mar!
Finalmente, olhos mortais contemplaram dois répteis do grande oceano primitivo! Vejo os olhos vermelhos e flamejantes do Ictiossauro, cada um tão grande ou maior que a cabeça de um homem. A natureza, na sua infinita sabedoria, dotou este maravilhoso animal marinho com um aparelho ótico de extrema potência, capaz de resistir à pressão das pesadas camadas de água que rolavam sobre ele nas profundezas do oceano, onde habitualmente se alimentava. Foi, por alguns autores, chamado com verdade a baleia da raça dos sáurios, pois é tão grande e rápido nos seus movimentos como o nosso rei dos mares. Este mede não menos de cem pés de comprimento, e posso formar uma ideia da sua circunferência quando o vejo levantar a sua cauda prodigiosa fora das águas. A sua mandíbula é de tamanho e força terríveis e, de acordo com os naturalistas mais bem informados, não contém menos de cento e oitenta e dois dentes.
O outro era o poderoso Plesiossauro, uma serpente com um tronco cilíndrico, com uma cauda curta e atarracada, com barbatanas como uma fileira de remos numa galera romana.
Todo o seu corpo coberto por uma carapaça ou concha, e o seu pescoço, tão flexível como o de um cisne, erguia-se mais de trinta pés acima das ondas, uma torre de carne viva!
Estes animais atacavam-se um ao outro com uma fúria inconcebível. Tal combate nunca fora visto antes por olhos mortais, e para nós que o vimos, parecia mais a criação fantasmagórica de um sonho do que qualquer outra coisa. Levantavam montanhas de água, que espirravam sobre a jangada, já lançada de um lado para o outro pelas ondas. Vinte vezes parecíamos prestes a ser virados e atirados de cabeça para as ondas. Sibilos hediondos pareciam abalar o teto de granito sombrio daquela caverna imensa — sibilos que traziam terror aos nossos corações. Os combatentes terríveis mantinham-se num abraço apertado. Eu não conseguia distinguir um do outro. Contudo, o combate não podia durar para sempre; e ai de nós, fosse qual fosse o vencedor.
Uma hora, duas horas, três horas passaram, sem qualquer resultado decisivo. A luta continuou com a mesma tenacidade mortal, mas sem resultado aparente. Os oponentes mortais aproximavam-se agora, agora afastavam-se da jangada. Uma ou duas vezes pensámos que estavam prestes a deixar-nos por completo, mas, em vez disso, aproximavam-se cada vez mais.
Encolhêmo-nos na jangada, prontos para disparar sobre eles a qualquer momento, por muito escassa que fosse a perspetiva de os ferir ou aterrorizar. Ainda assim, estávamos determinados a não perecer sem lutar.
De repente, o Ictiossauro e o Plesiossauro desapareceram debaixo das ondas, deixando atrás de si um remoinho no meio do mar. Quase fomos sugados pelo fluxo da água!
Passaram vários minutos antes que algo voltasse a ser visto. Teria este combate maravilhoso terminado nas profundezas do oceano? Teria o último ato deste drama terrível de ocorrer sem espectadores?
Era-nos impossível dizer.
De repente, não muito longe de nós, uma massa enorme surge fora das águas — a cabeça do grande Plesiossauro. O monstro terrível está agora ferido de morte. Não consigo ver nada agora do seu corpo enorme. Tudo o que se distinguia era o seu pescoço semelhante ao de uma serpente, que ele torcia e enrolava em todas as agonias da morte. Agora, atingia as águas com ele como se tivesse sido um chicote gigantesco, e depois contorcia-se como um verme cortado em dois. A água era projetada a grande distância em todas as direções. Uma grande parte dela varreu a nossa jangada e quase nos cegou. Mas logo o fim da besta aproximou-se mais e mais; os seus movimentos abrandaram visivelmente; as suas contorções quase cessaram; e, finalmente, o corpo da serpente poderosa jazia como uma massa inerte e morta na superfície das águas agora calmas e plácidas.
Quanto ao Ictiossauro, terá ele descido para a sua caverna imensa debaixo do mar para descansar, ou reaparecerá para nos destruir?
Esta pergunta permaneceu sem resposta. E tivemos um momento de alívio.
CAPÍTULO 31
O MONSTRO MARINHO
Quarta-feira, 19 de agosto. Felizmente, o vento, que por enquanto sopra com alguma violência, permitiu-nos escapar do local da luta incomparável e extraordinária. Hans, com a sua calma imperturbável habitual, permaneceu ao leme. O meu tio, que por um curto período tinha sido retirado dos seus devaneios absorventes pelos novos incidentes desta luta marítima, caiu de novo, aparentemente, num estudo profundo. Os seus olhos estavam fixos impacientemente no oceano vasto.
A nossa viagem tornou-se agora monótona e uniforme. Tão aborrecida como se tornou, não tenho desejo de a ver quebrada por qualquer repetição dos perigos e aventuras de ontem.
Quinta-feira, 20 de agosto. O vento é agora N. N. E. e sopra de forma muito irregular. Mudou para rajadas caprichosas. A temperatura é extremamente alta. Estamos agora a progredir à velocidade média de cerca de dez milhas e meia por hora.
Por volta das doze horas, um som distante como de trovão chegou aos nossos ouvidos. Tomo nota do facto sem sequer me aventurar a dar uma sugestão quanto à sua causa. Era um rugido contínuo como o de um mar a cair sobre rochas imensas.
"Longe, à distância", disse o Professor dogmaticamente, "há alguma rocha ou alguma ilha contra a qual o mar, açoitado até à fúria pelo vento, se quebra violentamente."
Hans, sem dizer uma palavra, trepou ao topo do mastro, mas não conseguiu distinguir nada. O oceano estava nivelado em todas as direções até onde a vista alcançava.
Três horas passaram sem qualquer sinal que indicasse o que poderia estar à nossa frente. O som começou a assumir o de uma catarata imensa.
Expressei a minha opinião sobre este ponto fortemente ao meu tio. Ele apenas abanou a cabeça. Eu, contudo, estou fortemente impressionado pela convicção de que não estou errado. Estaremos a avançar em direção a alguma catarata imensa que nos lançará no abismo? Provavelmente, este modo de descer ao abismo pode ser agradável para o Professor, porque seria algo semelhante à descida vertical que ele tanto deseja fazer. Eu mantenho uma opinião muito diferente.
Seja qual for a verdade, é certo que não a muitas léguas de distância deve haver algum fenómeno muito extraordinário, pois, à medida que avançamos, o rugido torna-se algo imenso e estupendo. Será na água ou no ar?
Lanço olhares apressados para o alto, para os vapores suspensos, e procuro penetrar as suas profundezas imensas. Mas a abóbada acima está tranquila. As nuvens, que estão agora elevadas ao próprio cume, parecem totalmente imóveis e paradas, e completamente perdidas na irradiação da luz elétrica. É necessário, portanto, procurar a causa deste fenómeno noutro lugar.
Examino o horizonte, agora perfeitamente calmo, puro e livre de qualquer névoa. O seu aspeto permanece inalterado. Mas se este ruído terrível provém de uma catarata — se, por assim dizer em bom português, este vasto oceano interior é precipitado para uma bacia inferior — se estes rugidos tremendos são
atividade, e a sua crescente rapidez dar-me-ia alguma ideia da extensão do perigo com que estamos ameaçados. Consulto a corrente. Simplesmente não existe: tal coisa não existe. Uma garrafa vazia lançada à água fica a sotavento sem movimento.
Por volta das quatro horas, Hans levanta-se, trepa pelo mastro e chega ao topo. Desta posição elevada, os seus olhares são lançados à volta. Abrangem uma vasta circunferência do oceano. Finalmente, os seus olhos permanecem fixos. O seu rosto não expressa espanto, mas os seus olhos dilatam-se ligeiramente.
"Ele viu algo, finalmente", gritou o meu tio.
"Penso que sim", respondi.
Hans desceu, ficou ao nosso lado e apontou com a mão direita para sul.
"Der nere", disse ele.
"Ali", respondeu o meu tio.
E agarrando o seu telescópio, olhou para ele com grande atenção durante cerca de um minuto, o que para mim pareceu uma eternidade. Eu não sabia o que pensar ou esperar.
"Sim, sim", gritou ele num tom de considerável surpresa, "ali está."
"O quê?", perguntei.
"Um jato de água tremendo que se eleva das ondas."
"Algum outro monstro marinho", gritei, já alarmado.
"Talvez."
"Então vamos governar mais para oeste, pois sabemos o que esperar dos animais antediluvianos", foi a minha resposta ansiosa.
"Avante", disse o meu tio.
Virei-me para Hans. Hans estava ao leme, governando com a sua calma imperturbável habitual.
Contudo, se, da distância que nos separava desta criatura, uma distância que deve ser estimada em não menos de uma dúzia de léguas, se conseguia ver a coluna de água a ser expelida do orifício respiratório do grande animal, as suas dimensões devem ser algo sobrenatural. Fugir é, portanto, o curso a ser sugerido pela prudência comum. Mas não viemos a esta parte do mundo para ser prudentes. Tal é a determinação do meu tio.
Continuámos, por conseguinte, a avançar. Quanto mais nos aproximamos, mais alto é o jato de água. Que monstro pode encher-se de volumes tão grandes de água e depois expelir incessantemente em jatos tão altos?
Às oito horas da noite, contando como acima do solo, onde há dia e noite, não estamos a mais de duas léguas da besta imensa. O seu corpo longo, negro, enorme e montanhoso jaz no topo da água como uma ilha. Mas, então, diz-se que marinheiros desembarcaram em baleias adormecidas, confundindo-as com terra. É ilusão ou é medo? O seu comprimento não pode ser menos de mil braças. O que é, então, este monstro cetáceo em que nenhum Cuvier jamais pensou?
Está perfeitamente imóvel e apresenta a aparência de dormir. O mar parece incapaz de o elevar; são antes as ondas que se quebram na sua estrutura enorme e gigantesca. O jato de água, elevando-se a uma altura de quinhentos pés, quebra-se em espuma com um rugido surdo e sombrio.
Avançamos, como lunáticos sem sentido, em direção a esta massa imensa.
Confesso honestamente que estava abjetamente assustado. Declarei que não iria mais longe. Ameacei, no meu terror, cortar a escota da vela. Ataquei o Professor com considerável acrimónia, chamando-lhe imprudente, louco, não sei quê. Ele não respondeu.
De repente, o imperturbável Hans apontou mais uma vez o seu dedo para o objeto ameaçador:
"Holme!"
"Uma ilha!", gritou o meu tio.
"Uma ilha?", respondi, encolhendo os ombros perante esta pobre tentativa de engano.
"Claro que é", gritou o meu tio, soltando uma gargalhada alta e alegre.
"Mas o jato de água?"
"Geyser", disse Hans.
"Sim, claro — um geyser", respondeu o meu tio, ainda a rir, "um geyser como aqueles comuns na Islândia. Jatos como este são as grandes maravilhas do país."
A princípio, não quis admitir que tinha sido tão grosseiramente enganado. O que poderia ser mais ridículo do que ter tomado uma ilha por um monstro marinho? Mas, por muito que alguém se debata, tem de se render à evidência, e fiquei finalmente convencido do meu erro. Não passava, afinal, de um fenómeno natural.
À medida que nos aproximávamos, as dimensões do feixe líquido de águas tornaram-se verdadeiramente grandiosas e estupendas. A ilha tinha, à distância, apresentado a aparência de uma baleia enorme, cuja cabeça se erguia bem acima das águas. O geyser, uma palavra que os islandeses pronunciam geysir e que significa fúria, erguia-se majestosamente do seu cume. Detonações surdas são ouvidas de tempos a tempos, e o jato enorme, tomado por assim dizer de súbita fúria, sacode o seu penacho de vapor e salta para a primeira camada das nuvens. Está sozinho. Nem jatos de vapor nem fontes termais o rodeiam, e todo o poder vulcânico daquela região está concentrado numa coluna sublime. Os raios de luz elétrica misturam-se com este feixe deslumbrante, cada gota, ao cair, assumindo as cores prismáticas do arco-íris.
"Vamos para terra", disse o Professor, após alguns minutos de silêncio.
É necessário, contudo, tomar grandes precauções, a fim de evitar o peso das águas que caem, o que faria a jangada afundar-se num instante. Hans, contudo, governa admiravelmente e leva-nos para a outra extremidade da ilha.
Eu fui o primeiro a saltar sobre a rocha. O meu tio seguiu-me, enquanto o caçador de patos-eider permanecia imóvel, como um homem acima de quaisquer fontes infantis de espanto. Caminhávamos agora sobre granito misturado com arenito silicioso; o solo tremia sob os nossos pés como as paredes de caldeiras nas quais o vapor sobreaquecido é confinado à força. Está a arder. Em breve avistámos a pequena bacia central de onde brotava o géiser. Mergulhei um termómetro na água que corria a borbulhar do centro, e marcou uma temperatura de cento e sessenta e três graus!
Esta água, portanto, vinha de algum lugar onde o calor era intenso. Isto estava singularmente em contradição com as teorias do Professor Hardwigg. Não pude deixar de lhe dizer a minha opinião sobre o assunto.
"Bem", disse ele bruscamente, "e o que é que isto prova contra a minha doutrina?"
"Nada", respondi secamente, vendo que estava a bater com a cabeça numa conclusão antecipada.
Contudo, sou forçado a confessar que, até agora, temos sido notavelmente afortunados, e que esta viagem está a ser realizada em condições de temperatura muito favoráveis; mas parece evidente, aliás, certo, que chegaremos mais cedo ou mais tarde a uma daquelas regiões onde o calor central atingirá os seus limites máximos, e ultrapassará de longe todas as gradações possíveis dos termómetros.
Visões do Hades dos antigos, que se acreditava estar no centro da terra, flutuavam pela minha imaginação.
Veremos, contudo, o que veremos. Essa é a frase favorita do Professor agora. Tendo batizado a ilha vulcânica com o nome do seu sobrinho, o líder da expedição virou-se e deu o sinal para o embarque.
Permaneço imóvel, contudo, durante alguns minutos, a contemplar o magnífico géiser. Em breve pude perceber que a tendência ascendente da água era irregular; agora diminuía de intensidade, e depois, subitamente, recuperava novo vigor, o que atribuí à variação da pressão dos vapores acumulados no seu reservatório.
Por fim, partimos, contornando cuidadosamente as rochas salientes, e bastante perigosas, do lado sul. Hans tinha aproveitado esta breve paragem para reparar a jangada.
Antes de partirmos definitivamente da ilha, contudo, fiz algumas observações para calcular a distância que tínhamos percorrido, e registei-as no meu diário. Desde que deixámos Port Gretchen, tínhamos percorrido duzentas e setenta léguas — mais de oitocentas milhas — neste grande mar interior; estávamos, portanto, a seiscentas e vinte léguas da Islândia, e exatamente sob a Inglaterra.
CAPÍTULO 32
A BATALHA DOS ELEMENTOS
Sexta-feira, 21 de agosto. Esta manhã, o magnífico géiser tinha desaparecido por completo. O vento tinha refrescado, e deixávamos rapidamente as imediações da Ilha de Henry. Até o som rugidor da poderosa coluna se perdeu para o ouvido.
O tempo, se, dadas as circunstâncias, podemos usar tal expressão, está prestes a mudar muito subitamente. A atmosfera está a ser gradualmente carregada de vapores, que trazem consigo a eletricidade formada pela constante evaporação das águas salinas; as nuvens estão lenta mas visivelmente a cair em direção ao mar, e a assumir uma textura de azeitona escura; os raios elétricos mal conseguem atravessar a cortina opaca que caiu como um pano de fundo perante este teatro maravilhoso, no palco do qual um outro drama terrível está prestes a ser encenado. Desta vez não é uma luta de animais; é a temível batalha dos elementos.
Sinto que sou muito peculiarmente influenciado, como todas as criaturas na terra quando um dilúvio está prestes a ocorrer.
Os cúmulos, um tipo de nuvem perfeitamente oval, amontoados a sul, apresentavam uma aparência mais terrível e sinistra, com o aspeto impiedoso frequentemente visto antes de uma tempestade. O ar é extremamente pesado; o mar está comparativamente calmo.
À distância, as nuvens assumiram a aparência de enormes novelos de algodão, ou melhor, vagens, empilhadas umas sobre as outras em pitoresca confusão. Aos poucos, parecem inchar, romper-se, e ganhar em número o que perdem em grandeza; a sua densidade é tão grande que são incapazes de se elevar do horizonte; mas, sob a influência das correntes de ar superiores, são gradualmente fragmentadas, tornam-se muito mais escuras, e apresentam então a aparência de uma única camada de caráter formidável; de vez em quando uma nuvem mais clara, ainda iluminada por cima, ressalta sobre este tapete cinzento, e perde-se na massa opaca.
Não pode haver dúvida de que toda a atmosfera está saturada de fluido elétrico; eu próprio estou totalmente impregnado; os meus cabelos ficam literalmente em pé como se estivessem sob a influência de uma bateria galvânica. Se um dos meus companheiros se aventurasse a tocar-me, creio que receberia um choque bastante violento e desagradável.
Por volta das dez horas da manhã, os sintomas da tempestade tornaram-se mais profundos e decisivos; o vento pareceu suavizar como se tomasse fôlego para um ataque renovado; o vasto manto fúnebre acima de nós parecia um enorme saco — como a caverna de Éolo, na qual a tempestade recolhia as suas forças para o ataque.
Tentei tudo o que pude para não acreditar nos sinais ameaçadores do céu, e, no entanto, não pude evitar dizer, como que involuntariamente:
"Creio que vamos ter mau tempo."
O Professor não me deu resposta. Estava num humor horrível, detestável, ao ver o oceano estender-se interminavelmente diante dos seus olhos. Ao ouvir as minhas palavras, simplesmente encolheu os ombros.
"Teremos uma tempestade tremenda", disse eu novamente, apontando para o horizonte. "Estas nuvens estão a baixar cada vez mais sobre o mar, como se para o esmagar."
Um grande silêncio prevaleceu. O vento cessou totalmente. A natureza assumiu uma calma morta, e deixou de respirar. No mastro, onde notei uma espécie de ligeiro fogo-fátuo, a vela pendia em dobras largas e pesadas. A jangada está imóvel no meio de um mar escuro e pesado — sem ondulação, sem movimento. Está tão parada como vidro. Mas, como não estamos a progredir, que utilidade tem manter a vela, que pode ser a causa da nossa perdição se a tempestade nos atingir subitamente sem aviso.
"Vamos baixar a vela", disse eu, "é apenas um ato de prudência comum."
"Não... não", gritou o meu tio, num tom exasperado, "cem vezes, não. Que o vento nos atinja e faça o seu pior, que a tempestade nos leve para onde quiser — apenas deixem-me ver o brilho de alguma costa — de algumas falésias rochosas, mesmo que despedacem a nossa jangada em mil pedaços. Não! Mantenham a vela — não importa o que aconteça."
Estas palavras mal tinham sido proferidas quando o horizonte sul sofreu uma mudança súbita e violenta. Os vapores longamente acumulados resolveram-se em água, e o ar necessário para preencher o vazio produzido tornou-se uma tempestade selvagem e furiosa.
Veio dos cantos mais distantes da poderosa caverna. Enfureceu-se de todos os pontos da bússola. Rugia; gritava; guinchava com alegria como de demónios à solta. A escuridão aumentou e tornou-se, de facto, escuridão visível.
A jangada subia e descia com a tempestade, e saltava sobre as ondas. O meu tio foi lançado de cabeça contra o convés. Com grande dificuldade, arrastei-me até ele. Ele segurava-se com toda a força à extremidade de um cabo, e parecia contemplar com prazer e deleite o espetáculo dos elementos acorrentados.
Hans nunca moveu um músculo. O seu longo cabelo, levado aqui e ali pela tempestade e espalhado selvaticamente sobre o seu rosto imóvel, dava-lhe uma aparência extraordinária — pois cada fio de cabelo estava iluminado por pequenos ramos cintilantes.
O seu semblante apresenta a aparência extraordinária de um homem antediluviano, um verdadeiro contemporâneo do Megatherium.
Ainda assim, o mastro aguenta-se contra a tempestade. A vela estende-se e enche-se como uma bolha de sabão prestes a rebentar. A jangada avança a um ritmo impossível de estimar, mas ainda menos velozmente do que a massa de água deslocada sob ela, cuja rapidez pode ser vista pelas linhas que voam para a direita e para a esquerda na esteira.
"A vela, a vela!" gritei, fazendo um megafone com as mãos, e tentando então baixá-la.
"Deixa-a estar!" disse o meu tio, mais exasperado do que nunca.
"Nej", disse Hans, abanando suavemente a cabeça.
Contudo, a chuva formava uma catarata rugidora perante este horizonte que procurávamos, e para o qual corríamos como loucos.
Mas antes que este deserto de águas nos alcançasse, o poderoso véu de nuvens foi rasgado em dois; o mar começou a espumar selvaticamente; e a eletricidade, produzida por alguma vasta e extraordinária ação química na camada superior de nuvens, entrou em jogo. Aos terríveis trovões somam-se relâmpagos deslumbrantes, como nunca tinha visto. Os relâmpagos cruzavam-se, atirados de todos os lados; enquanto o trovão vinha a ribombar como um eco. A massa de vapor torna-se incandescente; as pedras de granizo que atingem o metal das nossas botas e das nossas armas são realmente luminosas; as ondas, ao subirem, parecem monstros devoradores de fogo, sob os quais ferve um fogo intenso, as suas cristas coroadas por pentes de chama.
Os meus olhos estão deslumbrados, cegados pela intensidade da luz, os meus ouvidos ensurdecidos pelo rugido terrível dos elementos. Sou obrigado a agarrar-me ao mastro, que se dobra como um junco sob a violência da tempestade, a qual nenhuma das vistas anteriormente pelos marinheiros se assemelhava.
* * * * *
Aqui as minhas notas de viagem tornam-se muito incompletas, soltas e vagas. Apenas consegui distinguir uma ou duas observações fugitivas, anotadas de uma forma meramente mecânica. Mas até a sua brevidade, até a sua obscuridade, mostram as emoções que me dominaram.
* * * * *
Domingo, 23 de agosto. Onde é que fomos parar? Em que região estamos a vaguear? Ainda somos transportados com uma rapidez inconcebível.
A noite foi terrível, algo que não se pode descrever. A tempestade não mostra sinais de cessar. Existimos no meio de um alarido que não tem nome. As detonações como de artilharia são incessantes. Os nossos ouvidos sangram literalmente. Somos incapazes de trocar uma palavra, ou de nos ouvir falar.
O relâmpago nunca deixa de brilhar por um único instante. Consigo ver os ziguezagues após um dardo rápido atingir o teto arqueado desta, a mais poderosa das poderosas abóbadas. Se esta cedesse e caísse sobre nós! Outros relâmpagos mergulham os seus traços bifurcados em todas as direções, e assumem a forma de globos de fogo, que explodem como bombas sobre uma cidade cercada. O choque e o rugido geral não parecem aumentar; já foram muito além do que o ouvido humano pode apreciar. Se todos os depósitos de pólvora do mundo explodissem ao mesmo tempo, seria impossível ouvirmos um ruído pior.
Há uma constante emissão de luz das nuvens de tempestade; a matéria elétrica é incessantemente libertada; evidentemente os princípios gasosos do ar estão em desordem; inúmeras colunas de água erguem-se como trombas de água, e caem de volta sobre a superfície do oceano em espuma.
Para onde vamos? O meu tio ainda jaz estendido sobre a jangada, sem falar — sem tomar nota do tempo.
O calor aumenta. Olho para o termómetro, para minha surpresa indica — O valor exato está aqui apagado no meu manuscrito.
Segunda-feira, 24 de agosto. Esta tempestade terrível nunca terminará. Por que não deveria este estado da atmosfera, tão denso e sombrio, uma vez modificado, permanecer definitivo?
Estamos totalmente destroçados e perturbados pela fadiga. Hans permanece exatamente como sempre. A jangada segue invariavelmente para sudeste. Já percorremos duzentas léguas desde a ilha recém-descoberta.
Por volta das doze horas, a tempestade tornou-se pior do que nunca. Somos obrigados agora a prender cada pedaço de carga firmemente ao convés da jangada, ou tudo seria levado. Prendemo-nos a nós mesmos também, cada homem atando o outro. As ondas passam sobre nós, de modo que várias vezes estamos realmente debaixo de água.
Estivemos sob a penosa necessidade de nos abstermos de falar durante três dias e três noites. Abríamos a boca, movíamos os lábios, mas nenhum som saía. Mesmo quando colocávamos as bocas junto aos ouvidos um do outro, era o mesmo.
O vento levava a voz.
O meu tio conseguiu uma vez colocar a sua cabeça perto da minha, após várias tentativas quase vãs. Pareceu aos meus sentidos quase exaustos que ele articulava alguma palavra. Tive a noção, mais por intuição do que por outra coisa, de que ele me disse: "Estamos perdidos."
Tirei o meu caderno, do qual, nas circunstâncias mais desesperadas, nunca me separava, e escrevi algumas palavras tão legivelmente quanto pude:
"Recolham a vela."
Com um profundo suspiro, ele acenou com a cabeça e concordou.
Mal a sua cabeça teve tempo de cair de volta na posição de onde a tinha momentaneamente levantado, quando um disco ou bola de fogo apareceu na própria borda da jangada — a nossa devota, a nossa condenada embarcação. O mastro e a vela foram levados por inteiro, e vejo-os serem varridos para uma altura prodigiosa como um papagaio de papel.
Estávamos congelados, literalmente a tremer de terror. A bola de fogo, metade branca, metade de cor azulada, do tamanho de uma bomba de dez polegadas, movia-se, girando com rapidez prodigiosa a sotavento da tempestade. Corria aqui, acolá, e em toda a parte, trepava por um dos bordos da jangada, saltava para cima do saco de provisões, e depois finalmente descia levemente, caía como uma bola de futebol e aterrava no nosso barril de pólvora.
Situação horrível. Uma explosão, claro, era agora inevitável.
Pela misericórdia do céu, não foi assim.
O disco deslumbrante moveu-se para um lado, aproximou-se de Hans, que olhava para ele com singular fixidez; depois aproximou-se do meu tio, que se lançou de joelhos para o evitar; veio na minha direção, enquanto eu estava de pé, pálido e a estremecer sob a luz e o calor deslumbrantes; girou à volta dos meus pés, que tentei retirar.
Um odor de gás nitroso encheu todo o ar; penetrou na garganta, nos pulmões. Senti-me prestes a sufocar.
Por que não consigo retirar os meus pés? Estarão rebitados ao pavimento da jangada?
Não.
A queda do globo elétrico transformou todo o ferro a bordo em ímanes — os instrumentos, as ferramentas, as armas tilintam em conjunto com um ruído horrível e medonho; os pregos das minhas botas pesadas aderem estreitamente à placa de ferro incrustada na madeira. Não consigo retirar o pé.
É a velha história da montanha de diamante.
Por fim, por um esforço violento e quase sobre-humano, arranco-o, mesmo quando a bola, que ainda executa os seus movimentos giratórios, está prestes a passar à volta dele e arrastar-me com ela — se...
Oh, que luz intensa e estupenda! O globo de fogo rebenta — estamos envolvidos em cascatas de fogo vivo, que inundam o espaço em redor com matéria luminosa.
Depois tudo se apagou e a escuridão caiu mais uma vez sobre as profundezas! Tive apenas tempo de ver o meu tio mais uma vez lançado aparentemente inconsciente sobre o pavimento da jangada, Hans ao leme, "a cuspir fogo" sob a influência da eletricidade que parecia tê-lo atravessado.
Para onde vamos, pergunto eu? E o eco responde, Para onde?
.............
Terça-feira, 25 de agosto. Acabo de sair de um longo desmaio. A terrível e hedionda tempestade ainda continua; o relâmpago aumentou em vivacidade, e derrama a sua ira ardente como uma ninhada de serpentes à solta na atmosfera.
Ainda estamos sobre o mar? Sim, e a ser transportados com uma velocidade incrível.
Passámos sob a Inglaterra, sob o Canal, sob a França, provavelmente sob toda a extensão da Europa.
* * * * *
Outro clamor terrível à distância. Desta vez é certo que o mar está a quebrar sobre as rochas a pouca distância. Depois...
..............
..............
CAPÍTULO 33
A NOSSA ROTA INVERTIDA
Aqui termina o que chamo "O meu Diário" da nossa viagem a bordo da jangada, diário esse que foi felizmente salvo do naufrágio. Continuo com a minha narrativa como fiz antes de começar as minhas notas diárias.
O que aconteceu quando o terrível choque ocorreu, quando a jangada foi lançada sobre a costa rochosa, seria impossível para mim dizer agora. Senti-me precipitado violentamente nas ondas em ebulição, e se escapei de uma morte certa e cruel, foi inteiramente devido à determinação do fiel Hans, que, agarrando-me pelo braço, me salvou do abismo escancarado.
O corajoso islandês carregou-me então nos seus braços poderosos, para longe do alcance das ondas, e deitou-me sobre uma extensão de areia a arder, onde me encontrei algum tempo depois na companhia do meu tio, o Professor.
Depois, ele regressou silenciosamente em direção às rochas fatais, contra as quais as ondas furiosas batiam, a fim de salvar quaisquer destroços do naufrágio. Este homem era sempre prático e pensativo. Eu não conseguia dizer uma palavra; estava completamente dominado pela emoção; todo o meu corpo estava partido e moído pela fadiga; demorou horas até que eu estivesse minimamente em mim.
Entretanto, caiu um dilúvio terrível de chuva, ensopando-nos até aos ossos. A sua própria violência, contudo, proclamava o fim iminente da tempestade. Algumas rochas salientes forneceram-nos uma ligeira proteção contra as torrentes.
Sob este abrigo, Hans preparou alguma comida, que, contudo, fui incapaz de tocar; e, exaustos pelos três cansativos dias e noites de vigília, caímos num sono profundo e penoso. Os meus sonhos foram terríveis, mas, finalmente, a natureza exausta afirmou a sua supremacia, e adormeci.
No dia seguinte, quando acordei, a mudança foi mágica. O tempo estava magnífico. O ar e o mar, como que por consentimento mútuo, tinham recuperado a sua serenidade. Todos os vestígios da tempestade, até os mais ténues, tinham desaparecido. Fui saudado ao acordar pelos primeiros tons alegres que tinha ouvido do Professor em muitos dias. A sua alegria, de facto, era algo de terrível.
"Bem, meu rapaz", gritou ele, esfregando as mãos, "dormiste bem?"
Não se poderia supor que estivéssemos na velha casa da Konigstrasse; que eu tinha acabado de descer tranquilamente para o meu pequeno-almoço; e que o meu casamento com Gretchen ia realizar-se naquele mesmo dia? A calma do meu tio era exasperante.
Infelizmente, considerando como a tempestade nos tinha empurrado numa direção este, tínhamos passado sob toda a Alemanha, sob a cidade de Hamburgo onde tinha sido tão feliz, sob a própria rua que continha tudo o que eu amava e com que me importava no mundo.
Era um facto positivo que eu estava apenas separado dela por uma distância de quarenta léguas. Mas estas quarenta léguas eram de granito duro e impenetrável!
Todas estas tristes e miseráveis reflexões passaram pela minha mente, antes que eu tentasse responder à pergunta do meu tio.
"Ora, o que se passa?" gritou ele. "Não consegues dizer se dormiste bem ou não?"
"Dormi muito bem", foi a minha resposta, "mas todos os ossos do meu corpo doem. Suponho que isso não levará a nada."
"Nada de nada, meu rapaz. É apenas o resultado da fadiga dos últimos dias — é só isso."
"Tu pareces — se me é permitido dizer — estar muito alegre esta manhã", disse eu.
"Encantado, meu querido rapaz, encantado. Nunca fui tão feliz na minha vida. Chegámos finalmente ao porto desejado."
"O fim da nossa expedição?" gritei eu, num tom de considerável surpresa.
"Não; mas aos confins desse mar que comecei a temer que nunca terminasse, mas que desse a volta ao mundo inteiro. Agora retomaremos tranquilamente a nossa viagem por terra, e tentaremos mais uma vez mergulhar no centro da terra."
"Meu querido tio", comecei eu, de uma forma hesitante, "permita-me que lhe faça uma pergunta."
"Certamente, Harry; uma dúzia, se achares apropriado."
"Uma será suficiente. Como vamos fazer para regressar?" perguntei.
"Como vamos fazer para regressar? Que pergunta para se fazer. Ainda não chegámos ao fim da nossa viagem."
"Eu sei disso. Tudo o que quero saber é como propõe que gerimos a viagem de regresso?"
"Da maneira mais simples do mundo", disse o imperturbável Professor. "Assim que chegarmos ao centro exato desta esfera, ou encontraremos uma nova estrada pela qual ascender à superfície, ou simplesmente daremos meia-volta e regressaremos pelo caminho por onde viemos. Tenho todas as razões para acreditar que, enquanto viajamos para a frente, o caminho não se fechará atrás de nós."
"Então, uma das primeiras questões a tratar será a reparação da jangada", foi a minha resposta bastante melancólica.
"Naturalmente. Devemos cuidar disso acima de tudo", continuou o Professor.
"Depois, surge a questão importantíssima das provisões", insisti. "Teremos algo remotamente parecido com o suficiente para nos permitir realizar projetos tão grandiosos, tão espantosos, como os que contempla levar a cabo?"
"Examinei a questão e a minha resposta é afirmativa. Hans é um sujeito muito inteligente e tenho razões para acreditar que salvou a maior parte da carga. Mas a melhor forma de satisfazer os seus escrúpulos é vir e julgar por si mesmo."
Dizendo isto, ele guiou-me para fora do tipo de gruta aberta em que nos tínhamos abrigado. Eu quase começara a ter esperança naquilo que deveria ter antes temido, e isto era a impossibilidade de tal naufrágio deixar sequer os mais pequenos sinais do que transportara como carga. Estava, contudo, redondamente enganado.
Assim que cheguei às margens deste mar interior, encontrei Hans de pé, grave, no meio de um grande número de objetos dispostos em perfeita ordem. O meu tio torceu as mãos com uma gratidão profunda e silenciosa. O seu coração estava demasiado cheio para falar.
Este homem, cuja devoção sobre-humana aos seus empregadores nunca vi superada, nem sequer igualada, tinha trabalhado arduamente durante todo o tempo em que dormimos e, com risco da própria vida, conseguiu salvar os artigos mais preciosos da nossa carga.
Claro que, dadas as circunstâncias, sofremos necessariamente várias perdas graves. As nossas armas tinham desaparecido por completo. Mas a experiência tinha-nos ensinado a passar sem elas. A provisão de pólvora, contudo, permanecera intacta, depois de ter escapado por pouco de nos fazer explodir a todos em pedaços durante a tempestade.
"Bem", disse o Professor, que estava agora pronto para tirar o melhor partido de tudo, "como não temos espingardas, tudo o que temos de fazer é desistir de qualquer ideia de caça."
"Sim, meu caro senhor, podemos passar sem elas, mas e quanto a todos os nossos instrumentos?"
"Aqui está o manómetro, o mais útil de todos, e que aceito de bom grado em vez dos restantes. Só com ele posso calcular a profundidade à medida que avançamos; apenas por meio dele serei capaz de decidir quando chegámos ao centro da terra. Ha, ha! Mas, não fosse por este pequeno instrumento, poderíamos cometer um erro e correr o risco de sair nos antípodas!"
Tudo isto foi dito entre rajadas de um riso pouco natural.
"Mas a bússola", exclamei, "sem isso, o que podemos fazer?"
"Aqui está ela, sã e salva!" gritou ele, com alegria real, "ah, ah, e aqui temos o cronómetro e os termómetros. Hans, o caçador, é de facto um homem inestimável!"
Era impossível negar este facto. No que dizia respeito aos instrumentos náuticos e outros, nada faltava. Depois, num exame mais aprofundado, encontrei escadas, cordas, picaretas, pés-de-cabra e pás, tudo espalhado pela margem.
Havia, contudo, finalmente, a questão mais importante de todas, que eram as provisões.
"Mas o que havemos de fazer quanto à comida?" perguntei.
"Vamos verificar o departamento de comissariado", respondeu o meu tio gravemente.
As caixas que continham a nossa provisão de comida para a viagem estavam colocadas em fila ao longo da praia e encontravam-se num estado de conservação excelente; o mar respeitara, em todos os casos, o seu conteúdo e, para resumir numa frase, tendo em conta as bolachas, a carne salgada, o Schiedam e o peixe seco, podíamos ainda contar com uma provisão para cerca de quatro meses, se usada com prudência e cautela.
"Quatro meses", gritou o otimista Professor em grande alvoroço. "Então teremos tempo de sobra tanto para ir como para vir, e com o que sobrar comprometo-me a oferecer um grande jantar aos meus colegas do Johanneum."
Suspirei. Já deveria estar habituado ao temperamento do meu tio e, no entanto, este homem espantava-me cada vez mais a cada dia. Era o maior enigma humano que alguma vez conhecera.
"Agora", disse ele, "antes de fazermos qualquer outra coisa, temos de fazer uma reserva de água fresca. A chuva caiu em abundância e encheu as concavidades do granito. Há uma provisão rica de água e não temos receio de sofrer de sede, o que, nas nossas circunstâncias, é da máxima importância. Quanto à jangada, recomendarei ao Hans que a repare o melhor que puder; embora tenha todas as razões para acreditar que não voltaremos a precisar dela."
"Como é isso?" exclamei, mais espantado do que nunca com o estilo de raciocínio do meu tio.
"Tenho uma ideia, meu caro rapaz; não é outra coisa senão este simples facto: não sairemos pela mesma abertura pela qual entrámos."
Comecei a olhar para o meu tio com um vago receio. Uma ideia apoderara-se de mim mais de uma vez; e era a de que ele estava a enlouquecer. E, no entanto, pouco imaginava eu o quão verdadeiras e proféticas as suas palavras estavam destinadas a ser.
"E agora", disse ele, "tendo tratado de todos estes assuntos de detalhe, vamos ao pequeno-almoço."
Segui-o para uma espécie de cabo saliente, depois de ele ter dado as suas últimas instruções ao nosso guia. Nesta posição original, com carne seca, bolacha e uma deliciosa chávena de chá, fizemos uma refeição satisfatória — posso dizer que uma das mais bem-vindas e agradáveis de que me recordo. A exaustão, a atmosfera cortante, o estado de calma depois de tanta agitação, tudo contribuiu para me dar um excelente apetite. De facto, contribuiu muito para produzir um estado de espírito agradável e alegre.
Enquanto o pequeno-almoço decorria, e entre golos de chá quente, perguntei ao meu tio se ele tinha alguma ideia de como nos encontrávamos agora em relação ao mundo acima.
"Quanto a mim", acrescentei, "penso que será bastante difícil de determinar."
"Bem, se fôssemos obrigados a fixar o local exato", disse o meu tio, "poderia ser difícil, uma vez que, durante os três dias daquela terrível tempestade, não pude manter qualquer registo nem da rapidez do nosso ritmo, nem da direção em que a jangada seguia. Ainda assim, tentaremos aproximar-nos da verdade. Acredito que não estaremos muito longe."
"Bem, se bem me lembro", respondi, "a nossa última observação foi feita na ilha do geyser."
"Ilha do Harry, meu rapaz! Ilha do Harry. Não recuses a honra de a teres nomeado; deste o teu nome a uma ilha descoberta por nós, os primeiros seres humanos que a pisaram desde a criação do mundo!"
"Que assim seja, então. Na Ilha do Harry já tínhamos percorrido duzentas e setenta léguas de mar e estávamos, creio eu, a cerca de seiscentas léguas, mais ou menos, da Islândia."
"Bom. Fico contente por ver que te lembras tão bem. Comecemos a partir desse ponto e contemos quatro dias de tempestade, durante os quais a nossa velocidade de viagem deve ter sido muito grande. Diria que a nossa velocidade deve ter sido de cerca de oitenta léguas a cada vinte e quatro horas."
Concordei que este me parecia um cálculo justo. Havia então trezentas léguas a acrescentar ao total geral.
"Sim, e o Mar Central deve estender-se pelo menos seiscentas léguas de um lado ao outro. Sabes, meu rapaz, Harry, que descobrimos um lago interior maior do que o Mediterrâneo?"
"Certamente, e só conhecemos a sua extensão de uma forma. Pode ter centenas de milhas de comprimento."
"Muito provável."
"Então", disse eu, após calcular durante alguns minutos, "se as suas previsões estiverem corretas, estamos neste momento exatamente por baixo do próprio Mediterrâneo."
"Achas?"
"Sim, estou quase certo disso. Não estaremos a novecentas léguas de distância de Reykjavik?"
"Isso é perfeitamente verdade, e foi um belo bocado de caminho que percorremos, meu rapaz. Mas a razão pela qual estaríamos debaixo do Mediterrâneo mais do que debaixo da Turquia ou do Oceano Atlântico só poderá ser conhecida quando tivermos a certeza de não nos termos desviado do nosso rumo; e disso não sabemos nada."
"Não creio que tenhamos sido empurrados muito para fora do nosso rumo; o vento parece-me ter sido sempre mais ou menos o mesmo. A minha opinião é que esta margem deve estar situada a sudeste de Port Gretchen."
"Bom — espero que sim. Será, contudo, fácil decidir a questão tomando os rumos da nossa partida por meio da bússola. Vamos lá e consultaremos essa invenção inestimável."
O Professor caminhou agora ansiosamente na direção da rocha onde o incansável Hans tinha colocado os instrumentos em segurança. O meu tio estava alegre e bem-disposto; esfregava as mãos e assumia todo o tipo de posturas. Aparentemente, era mais uma vez um homem jovem. Desde que o conhecia, nunca tinha sido tão amável e agradável. Segui-o, bastante curioso por saber se tinha cometido algum erro na minha estimativa da nossa posição.
Assim que chegámos à rocha, o meu tio pegou na bússola, colocou-a horizontalmente à sua frente e olhou atentamente para a agulha.
Como ele a tinha abanado inicialmente para lhe dar vivacidade, oscilou consideravelmente e depois, lentamente, assumiu a sua posição correta sob a influência do poder magnético.
O Professor inclinou os olhos curiosamente sobre o espantoso instrumento. Um sobressalto violento mostrou imediatamente a extensão da sua emoção.
Fechou os olhos, esfregou-os e fez uma nova e mais atenta observação.
Depois, virou-se lentamente para mim, com a estupefação estampada no seu rosto.
"O que se passa?" disse eu, começando a ficar alarmado.
Ele não conseguia falar. Estava demasiado sobrecarregado para usar palavras. Apenas apontou para o instrumento.
Examinei-o ansiosamente de acordo com as suas indicações mudas, e um grito alto de surpresa escapou dos meus lábios. A agulha da bússola apontava a norte — na direção que esperávamos ser o sul!
Apontava para a margem em vez de para o mar alto.
Abanei a bússola; examinei-a com um olhar curioso e ansioso. Estava em estado de perfeição. Nenhuma falha explicava de forma alguma o fenómeno. Qualquer que fosse a posição em que forçássemos a agulha, ela regressava invariavelmente ao mesmo ponto inesperado.
Era inútil tentarmos esconder de nós próprios a verdade fatal.
Não podia haver dúvidas, por mais desagradável que fosse o facto, de que, durante a tempestade, houve uma súbita mudança de vento, da qual não tínhamos conseguido tomar qualquer nota, e assim a jangada tinha-nos transportado de volta para as margens que tínhamos deixado, aparentemente para sempre, tantos dias antes!
CAPÍTULO 34
UMA VIAGEM DE DESCOBERTA
Seria totalmente impossível para mim dar qualquer ideia do espanto absoluto que dominou o Professor ao fazer esta descoberta extraordinária. Assombro, incredulidade e fúria misturavam-se de tal forma que me alarmaram.
Durante todo o curso da minha vida nunca tinha visto um homem primeiro tão abatido e depois tão furiosamente indignado.
As fadigas terríveis da nossa viagem marítima, os perigos assustadores que ultrapassámos, tinham todos, todos, sido em vão. Tínhamos de recomeçar tudo de novo.
Em vez de progredirmos, como esperávamos ingenuamente, durante uma viagem de tantos dias, tínhamos recuado. Cada hora da nossa expedição na jangada fora tempo perdido!
Momentos depois, porém, a energia indomável do meu tio superou qualquer outra consideração.
"Portanto", disse ele, entre dentes cerrados, "o destino pregar-me-á estas partidas terríveis. Os próprios elementos conspiram para me sobrecarregar de humilhação. O ar, o fogo e a água combinam os seus esforços unidos para se oporem à minha passagem. Pois bem, eles verão o que a vontade sincera de um homem determinado pode fazer. Não cederei, não recuarei nem um centímetro; e veremos quem triunfará neste grande desafio — o homem ou a natureza."
De pé, ereto sobre uma rocha, irritado e ameaçador, o Professor Hardwigg, como o feroz Ájax, parecia desafiar os destinos. Eu, contudo, tomei a liberdade de intervir e de impor algum tipo de travão a tal entusiasmo insensato.
"Ouça-me, tio", disse eu, num tom de voz firme, mas temperado, "deve haver um limite para a ambição aqui na terra. É totalmente inútil lutar contra o impossível. Por favor, ouça a razão. Estamos totalmente despreparados para uma viagem marítima; é pura loucura pensar em realizar uma jornada de quinhentas léguas num monte miserável de vigas, com uma colcha por vela, um pauzinho ridículo por mastro e uma tempestade com que lidar. Como somos totalmente incapazes de governar a nossa frágil embarcação, tornar-nos-emos apenas o brinquedo da tempestade, e é agir como loucos se, uma segunda vez, corrermos qualquer risco neste perigoso e traiçoeiro Mar Central."
Estas são apenas algumas das razões e argumentos que reuni — razões e argumentos que, para mim, pareciam irrefutáveis. Deixaram-me continuar sem interrupção durante cerca de dez minutos. A explicação para isto descobri-a rapidamente. O Professor nem sequer estava a ouvir e não ouviu uma palavra de toda a minha eloquência.
"Para a jangada!" gritou ele com uma voz rouca, quando fiz uma pausa para obter uma resposta.
Este foi o resultado do meu esforço extenuante para resistir à sua vontade de ferro. Tentei de novo; implorei e supliquei; irritei-me; mas tive de lidar com uma vontade mais determinada do que a minha própria. Parecia sentir-me como as ondas que lutavam e batalhavam contra a enorme massa de granito aos nossos pés, que sorria sombriamente há tantos séculos aos seus esforços inúteis.
Hans, entretanto, sem tomar parte na nossa discussão, tinha estado a reparar a jangada. Ter-se-ia suposto que ele adivinhara instintivamente os projetos ulteriores do meu tio.
Por meio de alguns fragmentos de cordame, tornara a jangada novamente navegável.
Enquanto eu falava, ele tinha içado um novo mastro e vela, esta última já a esvoaçar e a ondular com a brisa.
O digno Professor trocou algumas palavras com o nosso guia imperturbável, que começou imediatamente a colocar a nossa bagagem a bordo e a preparar a nossa partida. A atmosfera estava agora toleravelmente clara e pura, e o vento de nordeste soprava de forma constante e serena. Parecia provável que durasse algum tempo.
O que podia eu, então, fazer? Poderia eu atrever-me a resistir à vontade de ferro de dois homens? Era simplesmente impossível, mesmo que pudesse ter esperado o apoio de Hans. Isto, contudo, estava fora de questão. Parecia-me que o islandês tinha deixado de lado toda a vontade e identidade pessoais. Ele era a própria imagem da abnegação.
Não podia esperar nada de alguém tão fascinado e dedicado ao seu mestre. Tudo o que podia fazer, portanto, era seguir a corrente.
Num estado de resignação estóica e sombria, estava prestes a ocupar o meu lugar habitual na jangada quando o meu tio colocou a mão no meu ombro.
"Não há pressa, meu rapaz", disse ele, "não partiremos até amanhã."
Eu era a própria imagem da resignação à vontade terrível do destino.
"Dadas as circunstâncias", disse ele, "não devo descurar quaisquer precauções. Como o destino me lançou nestas margens, não partirei sem as ter examinado completamente."
Para compreender esta observação, devo explicar que, embora tivéssemos sido empurrados de volta para a margem norte, tínhamos desembarcado num local muito diferente daquele que fora o nosso ponto de partida.
Port Gretchen deveria, calculámos nós, estar muito mais para oeste. Nada, portanto, era mais natural e razoável do que deveríamos reconhecer esta nova margem onde tínhamos desembarcado tão inesperadamente.
"Vamos numa viagem de descoberta", exclamei.
E, deixando Hans na sua importante operação, partimos para a nossa expedição. A distância entre a praia na maré alta e o pé das rochas era considerável. Demoraríamos cerca de meia hora a caminhar de um ponto ao outro.
Enquanto caminhávamos com dificuldade, os nossos pés esmagavam inúmeras conchas de todas as formas e tamanhos — outrora habitação de animais de todos os períodos da criação.
Notei particularmente algumas conchas enormes — carapaças (espécies de tartaruga e cágado) cujo diâmetro excedia quinze pés.
Tinham pertencido, em eras passadas, àqueles gigantescos Gliptodontes do período Pliocénico, dos quais a tartaruga moderna é apenas um espécime minúsculo. Além disso, todo o solo estava coberto por uma vasta quantidade de relíquias pétreas, com a aparência de sílex desgastado pela ação das ondas, e deitadas em camadas sucessivas, umas sobre as outras. Cheguei à conclusão de que, em eras passadas, o mar deve ter coberto todo o distrito. Sobre as rochas espalhadas, agora situadas muito além do seu alcance, as ondas poderosas dos séculos tinham deixado marcas evidentes da sua passagem.
Refletindo, isto pareceu-me explicar parcialmente a existência deste oceano notável, quarenta léguas abaixo da superfície da crosta terrestre. De acordo com a minha nova, e talvez fantasiosa, teoria, esta massa líquida deve perder-se gradualmente nas entranhas profundas da terra. Também não tive dúvidas de que este mar misterioso era alimentado pela infiltração do oceano acima, através de fissuras impercetíveis.
No entanto, era impossível não admitir que estas fissuras devem estar agora quase obstruídas, pois, caso contrário, a caverna, ou melhor, o imenso e estupendo reservatório, ter-se-ia enchido completamente num curto espaço de tempo. Talvez até esta água, tendo de lutar contra os fogos subterrâneos acumulados do interior da terra, se tenha vaporizado parcialmente. Daí a explicação para aquelas nuvens pesadas suspensas sobre as nossas cabeças e a exibição superabundante daquela eletricidade que causava tempestades tão terríveis neste mar profundo e cavernoso.
Esta explicação lúcida dos fenómenos a que tínhamos assistido pareceu-me bastante satisfatória. Por muito grandes e poderosas que as maravilhas da natureza nos pareçam, elas são sempre explicáveis por razões físicas. Tudo está subordinado a alguma grande lei da natureza.
Parecia agora claro que caminhávamos sobre um tipo de solo sedimentar, formado como todos os solos daquele período, tão frequentes na superfície do globo, pela subsidência das águas. O Professor, que estava agora no seu elemento, examinava cuidadosamente cada fissura rochosa. Bastava que encontrasse uma abertura para que se tornasse imediatamente importante para ele examinar a sua profundidade.
Durante uma milha inteira seguimos as sinuosidades do Mar Central, quando subitamente ocorreu uma mudança importante no aspeto do solo. Parecia ter sido rudemente levantado, convulsionado, por assim dizer, por um violento levantamento dos estratos inferiores. Em muitos lugares, cavidades aqui e colinas ali atestavam grandes deslocações noutro período da massa terrestre.
Avançámos com grande dificuldade sobre as massas quebradas de granito misturadas com sílex, quartzo e depósitos aluvionais, quando um grande campo, mais ainda do que um campo, uma planície de ossos, apareceu subitamente diante dos nossos olhos! Parecia um imenso cemitério, onde geração após geração tinha misturado o seu pó mortal.
Túmulos elevados de restos antigos erguiam-se a intervalos. Ondulavam até aos limites do horizonte distante e perdiam-se numa névoa espessa e castanha.
Naquele local, com cerca de três milhas quadradas de extensão, estava acumulada toda a história da vida animal — quase não existia criatura sobre o solo comparativamente moderno do mundo superior e habitado que ali não tivesse existido.
No entanto, éramos atraídos para a frente por uma curiosidade absorvente e impaciente. Os nossos pés esmagavam com um som seco e crepitante os restos daqueles fósseis pré-históricos, pelos quais os museus das grandes cidades se zangam, mesmo quando obtêm apenas pedaços raros e curiosos. Mil naturalistas como Cuvier não teriam bastado para recompor os esqueletos dos seres orgânicos que jaziam nesta magnífica coleção óssea.
Fiquei completamente confundido. O meu tio permaneceu por alguns minutos com os braços erguidos para o alto, em direção à espessa abóbada de granito que nos servia de céu. A boca estava escancarada; os olhos brilhavam selvaticamente por trás dos óculos (que ele felizmente salvara), a cabeça oscilava para cima e para baixo e de um lado para o outro, enquanto toda a sua atitude e semblante exprimiam um espanto sem limites.
Ele estava na presença de uma coleção infindável, maravilhosa e inesgotavelmente rica de monstros antediluvianos, amontoados para a sua própria satisfação pessoal e privada.
Imaginem um entusiasta amante de livros transportado subitamente para o meio da famosa biblioteca de Alexandria, queimada pelo sacrílego Omar, e que algum milagre tivesse restaurado ao seu esplendor original! Tal era, mais ou menos, o estado de espírito em que o Tio Hardwigg se encontrava agora.
Por algum tempo, ele permaneceu assim, literalmente atónito perante a magnitude da sua descoberta.
Mas a excitação foi ainda maior quando, atirando-se freneticamente sobre aquela massa de poeira orgânica, apanhou um crânio nu e dirigiu-se a mim com uma voz trémula:
"Harry, meu rapaz — Harry — isto é uma cabeça humana!"
"Uma cabeça humana, Tio!" disse eu, não menos espantado e estupefacto do que ele.
"Sim, sobrinho. Ah! Sr. Milne-Edwards — ah! Sr. De Quatrefages — por que não estais aqui onde eu estou — eu, o Professor Hardwigg!"
CAPÍTULO 35
DESCOBERTA SOBRE DESCOBERTA
Para compreender plenamente a exclamação feita pelo meu tio e as suas alusões a estes homens ilustres e eruditos, será necessário entrar em certas explicações relativas a uma circunstância da maior importância para a paleontologia, ou a ciência da vida fóssil, que ocorrera pouco tempo antes da nossa partida das regiões superiores da terra.
No dia 28 de março de 1863, alguns trabalhadores sob a direção de M. Boucher de Perthes estavam a trabalhar nas grandes pedreiras de Moulin-Quignon, perto de Abbeville, no departamento de Somme, em França. Enquanto trabalhavam, encontraram inesperadamente um maxilar humano enterrado a quatro metros de profundidade abaixo da superfície do solo. Foi o primeiro fóssil do género que alguma vez foi trazido à luz do dia. Perto desta inesperada relíquia humana, foram encontrados machados de pedra e sílex talhados, coloridos e revestidos pelo tempo com um tom uniforme e brilhante de azinhavre.
A notícia desta extraordinária e inesperada descoberta espalhou-se não apenas por toda a França, mas também pela Inglaterra e Alemanha. Muitos homens eruditos pertencentes a vários organismos científicos, e notavelmente, entre outros, os Srs. Milne-Edwards e De Quatrefages, levaram o assunto muito a peito, demonstraram a incontestável autenticidade do osso em questão e tornaram-se — para usar a expressão então reconhecida na Inglaterra — nos mais ardentes defensores da "questão do maxilar".
Aos eminentes geólogos do Reino Unido que consideravam o facto como certo — os Srs. Falconer, Buck, Carpenter e outros — juntaram-se em breve os eruditos da Alemanha, e entre aqueles de primeira categoria, o mais ávido, o mais entusiasta, era o meu digno tio, o Professor Hardwigg.
A autenticidade de um fóssil humano do período Quaternário parecia então estar incontestavelmente demonstrada, e até admitida pelos mais céticos.
Este sistema ou teoria, chamem-lhe o que quiserem, tinha, é verdade, um adversário feroz em M. Elie de Beaumont. Este homem erudito, que ocupa um lugar tão elevado no mundo científico, sustenta que o solo de Moulin-Quignon não pertence ao dilúvio, mas a um estrato muito menos antigo e, de acordo com Cuvier a este respeito, não admitiria de forma alguma que a espécie humana fosse contemporânea dos animais da época Quaternária. O meu digno tio, o Professor Hardwigg, em concerto com a grande maioria dos geólogos, manteve-se firme, disputou, discutiu e, finalmente, após considerável conversa e escrita, M. Elie de Beaumont foi deixado praticamente sozinho nas suas opiniões.
Estávamos familiarizados com todos os detalhes desta discussão, mas estávamos longe de saber, então, que desde a nossa partida o assunto tinha entrado numa nova fase. Outros maxilares semelhantes, embora pertencentes a indivíduos de tipos variados e naturezas muito diferentes, tinham sido encontrados nas areias móveis e cinzentas de certas grutas em França, na Suíça e na Bélgica; juntamente com braços, utensílios, ferramentas, ossos de crianças, de homens no auge da vida e de anciãos. A existência de homens no período Quaternário tornou-se, portanto, mais positiva a cada dia.
Mas isto estava longe de ser tudo. Novos restos, desenterrados dos depósitos do Plioceno ou Terciário, tinham permitido aos mais clarividentes ou audazes entre os eruditos atribuir um grau de antiguidade ainda maior à raça humana. Estes restos, é verdade, não eram de homens; isto é, não eram ossos de homens, mas objetos que decididamente tinham servido à raça humana: tíbias, fémures de animais fósseis, regularmente escavados e, de facto, esculpidos — apresentando os sinais inconfundíveis do trabalho humano.
Por meio destas maravilhosas e inesperadas descobertas, o homem ascendeu séculos sem fim na escala do tempo; ele, de facto, precedeu o mastodonte; tornou-se contemporâneo do *Elephas meridionalis* — o elefante meridional; adquiriu uma antiguidade de mais de cem mil anos, uma vez que essa é a data dada pelos mais eminentes geólogos ao período Plioceno da terra. Tal era então o estado da ciência paleontológica, e o que sabíamos, além disso, bastava para explicar a nossa atitude perante este grande cemitério das planícies do Oceano Hardwigg.
Será agora fácil compreender o espanto e a alegria misturados do Professor quando, ao avançar cerca de vinte metros, se viu na presença de, posso dizer face a face com, um espécime da raça humana pertencente, de facto, ao período Quaternário!
Era, na verdade, um crânio humano, perfeitamente reconhecível. Teria um solo de natureza muito peculiar, como o do cemitério de St. Michel em Bordéus, preservado-o durante incontáveis eras? Esta foi a pergunta que me fiz, mas para a qual fui totalmente incapaz de responder. Mas aquela cabeça com a pele esticada e pergaminhenta, com os dentes intactos, o cabelo abundante, estava perante os nossos olhos como em vida!
Fiquei mudo, quase paralisado de espanto e temor perante esta terrível aparição de outra era. O meu tio, que em quase todas as ocasiões era um grande falador, permaneceu por um momento completamente atordoado. Estava demasiado cheio de emoção para que a fala fosse possível. Depois de algum tempo, contudo, levantámos o corpo ao qual o crânio pertencia. Colocámo-lo de pé. Parecia, à nossa imaginação exaltada, olhar para nós com os seus terríveis olhos vazios.
Após alguns minutos de silêncio, o homem foi vencido pelo Professor. Os instintos humanos sucumbiram ao orgulho e à exultação científica. O Professor Hardwigg, levado pelo seu entusiasmo, esqueceu todas as circunstâncias da nossa viagem, a posição extraordinária em que nos encontrávamos, a imensa caverna que se estendia muito acima das nossas cabeças. Não há dúvida de que ele pensava estar no Instituto dirigindo-se aos seus alunos atentos, pois adotou o seu estilo mais doutoral, acenou com a mão e começou:
"Cavalheiros, tenho a honra, nesta ocasião auspiciosa, de vos apresentar um homem do período Quaternário do nosso globo. Muitos homens eruditos negaram a sua própria existência, enquanto outras pessoas capazes, talvez de autoridade ainda maior, afirmaram a sua crença na realidade da sua vida. Se os Sés Tomés da paleontologia estivessem presentes, tocá-lo-iam reverentemente com os dedos e acreditariam na sua existência, reconhecendo assim a sua obstinada heresia. Sei que a ciência deve ser cuidadosa em relação a todas as descobertas desta natureza. Não deixei de ouvir falar dos muitos Barnums e outros charlatães que fizeram negócio com tais pretensas descobertas. Ouvi, é claro, falar da descoberta dos joelhos de Ajax, do pretenso achado do corpo de Orestes pelos Espartanos, e do corpo de Asterius, com dez palmos de comprimento, quinze pés — sobre os quais lemos em Pausânias.
"Li tudo o que se relaciona com o esqueleto de Trápani, descoberto no século XIV, e que muitas pessoas escolheram considerar como sendo o de Polifemo, e a história do gigante desenterrado durante o século XVI nos arredores de Palmira. Estais tão bem cientes quanto eu, cavalheiros, da existência da célebre análise feita perto de Lucerna, em 1577, dos grandes ossos que o célebre Doutor Felix Plater declarou pertencerem a um gigante com cerca de seis metros de altura. Devorei todos os tratados de Cassanion, e todas aquelas memórias, panfletos, discursos e réplicas publicados em referência ao esqueleto de Teutobochus, rei dos Cimbros, o invasor da Gália, desenterrado de uma cascalheira em Dauphiné, em 1613. No século XVIII, teria negado, com Peter Campet, a existência dos pré-adamitas de Scheuchzer. Tive nas minhas mãos o escrito chamado Gigans..."
Aqui, o meu tio foi afligido pela enfermidade natural que o impedia de pronunciar palavras difíceis em público. Não era exatamente gaguez, mas uma estranha espécie de hesitação constitucional.
"O escrito chamado Gigans..." repetiu ele.
Contudo, não pôde avançar mais.
"Giganteo..."
Impossível! A palavra infeliz não queria sair. Teria havido grandes risadas no Instituto, se o erro tivesse acontecido lá.
"Gigantosteologia!" exclamou finalmente o Professor Hardwigg entre dois rosnados selvagens.
Tendo superado a nossa dificuldade, e ficando cada vez mais excitado —
"Sim, cavalheiros, estou bem familiarizado com todos estes assuntos, e sei, também, que Cuvier e Blumenbach reconheceram plenamente nestes ossos os restos inegáveis de mamutes do período Quaternário. Mas, depois do que vemos agora, permitir uma dúvida é insultar a investigação científica. Ali está o corpo; podeis vê-lo; podeis tocá-lo. Não é um esqueleto, é um corpo completo e intacto, preservado com um objetivo antropológico."
Não tentei refutar esta singular e espantosa afirmação.
"Se eu pudesse apenas lavar este cadáver numa solução de ácido sulfúrico," continuou o meu tio, "comprometer-me-ia a remover todas as partículas terrosas e estas conchas resplandecentes, que estão incrustadas por todo este corpo. Mas estou sem este precioso meio de dissolução. Contudo, tal como é, este corpo contará a sua própria história."
Aqui o Professor levantou o corpo fóssil e exibiu-o com rara destreza. Nenhum exibicionista profissional teria mostrado mais atividade.
"Como pelo exame vereis," continuou o meu tio, "ele tem apenas cerca de um metro e oitenta de comprimento, o que está muito longe dos pretensos gigantes dos primeiros tempos. Quanto à raça particular a que pertencia, é incontestavelmente caucasiana. É da raça branca, isto é, da nossa própria. O crânio deste ser fóssil é um ovoide perfeito sem qualquer desenvolvimento notável ou proeminente das maçãs do rosto, e sem qualquer projeção do maxilar. Não apresenta qualquer indicação do prognatismo que modifica o ângulo facial.[4] Meçam o ângulo por vós mesmos, e vereis que é exatamente de noventa graus. Mas avançarei ainda mais na estrada da investigação e dedução, e ouso arriscar dizer que esta amostra ou espécime humano pertence à família jafética, que se espalhou pelo mundo desde a Índia até aos limites mais extremos da Europa ocidental. Não há ocasião, cavalheiros, para sorrir com as minhas observações."
[4] O ângulo facial é formado por dois planos — um mais ou menos vertical que está numa linha reta com a testa e os incisivos; o outro, horizontal, que passa pelos órgãos auditivos e o osso nasal inferior. Prognatismo, na linguagem antropológica, significa aquela projeção particular do maxilar que modifica o ângulo facial.
Claro que ninguém sorriu. Mas o excelente Professor estava tão habituado a semblantes radiantes nas suas aulas, que acreditou ver toda a sua audiência a rir durante a prolação da sua erudita dissertação.
"Sim," continuou ele, com renovada animação, "este é um homem fóssil, um contemporâneo dos mastodontes, com cujos ossos todo este anfiteatro está coberto. Mas se sou chamado a explicar como ele veio parar a este lugar, como estes vários estratos pelos quais está coberto caíram nesta vasta cavidade, não posso comprometer-me a dar-vos qualquer explicação. Sem dúvida, se nos transportarmos para a época Quaternária, descobriremos que convulsões grandes e poderosas ocorreram na crosta da terra; a operação de arrefecimento contínuo, pela qual a terra teve de passar, produziu fissuras, derrocadas e abismos, através dos quais uma grande porção da terra fez o seu caminho. Não chego a qualquer conclusão absoluta, mas ali está o homem, rodeado pelas obras das suas mãos, os seus machados e os seus sílex talhados, que pertencem ao período da pedra; e a única suposição racional é que, tal como eu, ele visitou o centro da terra como um turista viajante, um pioneiro da ciência. Seja como for, não pode haver dúvida da sua grande idade, e de ele ser um dos mais antigos da raça dos seres humanos."
O Professor, com estas palavras, terminou a sua oração, e eu irrompi em aplausos altos e "unânimes". Além disso, afinal, o meu tio tinha razão. Homens muito mais eruditos do que o seu sobrinho teriam achado bastante difícil refutar os seus factos e argumentos.
Outra circunstância apresentou-se logo a seguir. Este corpo fossilizado não era o único nesta vasta planície de ossos — o cemitério de um mundo extinto. Outros corpos foram encontrados, à medida que percorríamos a planície poeirenta, e o meu tio pôde escolher os mais maravilhosos destes espécimes para convencer os mais incrédulos.
Na verdade, era um espetáculo surpreendente, os restos sucessivos de gerações e gerações de homens e animais confundidos num vasto cemitério. Mas uma grande questão apresentava-se agora à nossa atenção, e uma que na verdade temíamos contemplar em todas as suas implicações.
Teriam estes seres outrora animados sido enterrados tão profundamente sob o solo por alguma tremenda convulsão da natureza, depois de terem voltado ao pó e às cinzas, ou teriam eles vivido aqui em baixo, neste mundo subterrâneo, sob este céu artificial, nascido, casado e dado em casamento, e morrido finalmente, tal como os habitantes comuns da terra?
Até ao momento presente, monstros marinhos, peixes e animais semelhantes tinham sido vistos vivos!
A questão que nos deixava bastante inquietos era pertinente. Estaria algum destes homens do abismo a vaguear pelas margens desertas deste maravilhoso mar do centro da terra?
Esta era uma pergunta que me deixava muito inquieto e desconfortável. Como, se existissem realmente, nos receberiam a nós, homens de cima?
CAPÍTULO 36
O QUE É AQUILO?
Durante uma longa e cansativa hora, caminhámos sobre este grande leito de ossos. Avançámos independentemente de tudo, atraídos por uma curiosidade ardente. Que outras maravilhas conteria esta grande caverna — que outros tesouros maravilhosos para o homem da ciência? Os meus olhos estavam totalmente preparados para qualquer número de surpresas, a minha imaginação vivia na expectativa de algo novo e maravilhoso.
As margens do grande Oceano Central tinham desaparecido há algum tempo atrás das colinas que estavam espalhadas pelo solo ocupado pela planície de ossos. O imprudente e entusiasta Professor, que não se importava se se perdia ou não, apressou-me. Avançámos silenciosamente, banhados em ondas de fluido elétrico.
Devido a um fenómeno que não posso explicar, e graças à sua extrema difusão, agora completa, a luz iluminava igualmente os lados de cada colina e rocha. O seu assento parecia não estar em lado nenhum, em força nenhuma determinada, e não produzia sombra alguma.
A aparência apresentada era a de um país tropical ao meio-dia no verão — no meio das regiões equatoriais e sob os raios verticais do sol.
Todos os sinais de vapor tinham desaparecido. As rochas, as montanhas distantes, algumas massas confusas de florestas longínquas, assumiam um aspeto estranho e misterioso sob esta distribuição igual do fluido luminoso!
Assemelhámo-nos, até certo ponto, à misteriosa personagem de um dos contos fantásticos de Hoffmann — o homem que perdeu a sua sombra.
Depois de termos caminhado cerca de uma milha e meia mais, chegámos à borda de uma vasta floresta, não, contudo, uma das vastas florestas de cogumelos que tínhamos descoberto perto de Port Gretchen.
Era a gloriosa e selvagem vegetação do período Terciário, em toda a sua soberba magnificência. Palmas gigantescas, de uma espécie agora desconhecida, soberbos palmacites — um género de palmas fósseis da formação do carvão — pinheiros, teixos, ciprestes e coníferas ou árvores que dão cones, tudo ligado por uma massa inextricável e complicada de plantas trepadeiras.
Um belo tapete de musgos e fetos crescia sob as árvores. Riachos agradáveis murmuravam sob ramos umbrosos, pouco dignos deste nome, pois não davam sombra alguma. Sobre as suas margens cresciam pequenos arbustos semelhantes a árvores, tais como se veem nos países quentes do nosso próprio globo habitado.
A única coisa que faltava nestas plantas, nestes arbustos, nestas árvores — era cor! Para sempre privados do calor vivificante do sol, eram insípidos e incoloros. Toda a sombra perdia-se num tom uniforme, de caráter castanho e desbotado. As folhas eram totalmente desprovidas de verdura, e as flores, tão numerosas durante o período Terciário que lhes deu origem, eram sem cor e sem perfume, algo como papel descolorado por longa exposição à atmosfera.
O meu tio aventurou-se sob os bosques gigantescos. Segui-o, embora não sem uma certa quantidade de apreensão. Uma vez que a natureza se tinha mostrado capaz de produzir tais suprimentos vegetais estupendos, por que não poderíamos encontrar mamíferos tão grandes e, portanto, perigosos?
Notei particularmente, nas clareiras deixadas por árvores que tinham caído e sido parcialmente consumidas pelo tempo, muitos arbustos leguminosos (semelhantes a feijões), tais como o ácer e outras árvores comestíveis, caras aos animais ruminantes. Depois, apareciam, confundidas e misturadas, as árvores de terras tão variadas, espécimes da vegetação de todas as partes do globo; estava lá o carvalho perto da palmeira, o eucalipto australiano, uma classe interessante da ordem Myrtaceae — encostado ao alto pinheiro norueguês, o choupo do norte, misturando os seus ramos com os dos kauris da Nova Zelândia. Era o suficiente para deixar louco o mais engenhoso classificador das regiões superiores, e para transtornar todas as suas ideias recebidas sobre botânica.
Subitamente parei bruscamente e contive o meu tio.
A extrema difusão da luz permitia-me ver os objetos mais pequenos nos bosques distantes. Pensei ver — não, vi realmente com os meus próprios olhos — animais imensos, gigantescos, movendo-se sob as árvores poderosas. Sim, eram verdadeiramente animais gigantescos, todo um rebanho de mastodontes, não fósseis, mas vivos, e exatamente como aqueles descobertos em 1801, nas margens pantanosas do grande Ohio, na América do Norte.
Sim, podia ver estes elefantes enormes, cujas trombas arrancavam ramos grandes e moviam-se para dentro e para fora das árvores como uma legião de serpentes. Podia ouvir os sons das poderosas presas a arrancar árvores enormes!
Os ramos estalavam, e massas inteiras de folhas e ramos verdes desciam pelas gargantas espaçosas destes monstros terríveis!
Aquele sonho maravilhoso, quando vi os tempos ante-históricos revificados, quando os períodos Terciário e Quaternário passaram diante de mim, estava agora realizado!
E lá estávamos nós, sozinhos, muito lá no fundo das entranhas da terra, à mercê dos seus habitantes ferozes!
O meu tio parou, cheio de maravilha e espanto.
"Vamos!" disse ele finalmente, quando a sua primeira surpresa passou, "Vamos, meu rapaz, e vamo-los ver mais de perto."
"Não," respondi eu, contendo os seus esforços para me arrastar para a frente, "estamos totalmente sem armas. O que faríamos no meio daquele rebanho de quadrúpedes gigantescos? Vamos embora, Tio, imploro-lhe. Nenhuma criatura humana pode, impunemente, desafiar a fúria feroz destes monstros."
"Nenhuma criatura humana," disse o meu tio, baixando subitamente a voz para um sussurro misterioso, "estás enganado, meu caro Henry. Olha! Olha ali! Parece-me que contemplo um ser humano — um ser como nós — um homem!"
Olhei, encolhendo os ombros, decidido a levar a incredulidade aos seus limites mais extremos. Mas, fosse qual fosse o meu desejo, fui obrigado a ceder ao peso da demonstração ocular.
Sim — a não mais de quatrocentos metros de distância, encostado ao tronco de uma árvore enorme, estava um ser humano — um Proteu destas regiões subterrâneas, um novo filho de Neptuno a guardar este rebanho inumerável de mastodontes.
*Immanis pecoris custos, immanior ipse!*[5]
[5] O guardião do gado gigantesco, ele próprio ainda mais gigantesco!
Sim — já não era um fóssil cujo cadáver havíamos levantado do solo no grande cemitério, mas um gigante capaz de guiar e conduzir estes monstros prodigiosos. A sua altura era superior a doze pés. A sua cabeça, tão grande como a cabeça de um búfalo, perdia-se numa juba de cabelos emaranhados. Era, de facto, uma juba imensa, como aquelas que pertenciam aos elefantes das primeiras eras do mundo.
Na sua mão estava um ramo de árvore, que servia de cajado para este pastor antediluviano.
Permanecemos profundamente imóveis, mudos de surpresa.
Mas podíamos, a qualquer momento, ser vistos por ele. Nada nos restava senão a fuga imediata.
"Vamos, vamos!" gritei, arrastando o meu tio; e, pela primeira vez, ele não ofereceu resistência aos meus desejos.
Um quarto de hora depois, estávamos longe daquele monstro terrível!
Agora que penso no assunto com calma, e que reflito sobre ele imparcialmente; agora que meses, anos, se passaram desde que esta aventura estranha e antinatural nos aconteceu — o que devo pensar, o que devo acreditar?
Não, é absolutamente impossível! Os nossos ouvidos devem ter-nos enganado, e os nossos olhos ludibriado! Não vimos o que acreditávamos ter visto. Nenhum ser humano poderia, de forma alguma, ter existido naquele mundo subterrâneo! Nenhuma geração de homens poderia habitar as cavernas inferiores do globo sem dar conta daqueles que povoavam a superfície, sem comunicação com eles. Era loucura, loucura, loucura! Nada mais!
Estou mais inclinado a admitir a existência de algum animal que se assemelhe na estrutura à raça humana — de algum macaco das primeiras épocas geológicas, como aquele descoberto pelo Sr. Lartet na jazida ossífera de Sansan.
Mas este animal, ou ser, fosse o que fosse, ultrapassava em altura todas as coisas conhecidas pela ciência moderna. Não importa. Por mais improvável que possa ser, poderia ter sido um macaco — mas um homem, um homem vivo, e com ele toda uma geração de animais gigantescos, enterrados nas entranhas da terra — era demasiado monstruoso para se acreditar!
CAPÍTULO 37
O ADAGA MISTERIOSA
Durante este tempo, tínhamos deixado a floresta brilhante e transparente muito atrás de nós. Estávamos mudos de espanto, vencidos por um tipo de sentimento que estava a um passo da apatia. Continuávamos a correr apesar de nós mesmos. Era um pesadelo perfeito, que se assemelhava a uma daquelas sensações horríveis que por vezes encontramos nos nossos sonhos.
Instintivamente, dirigimo-nos para o Mar Central, e não consigo agora dizer que pensamentos selvagens passaram pela minha mente, nem de que loucuras eu poderia ter sido culpado, não fosse uma preocupação muito séria que me trouxe de volta à vida prática.
Embora estivesse ciente de que estávamos a pisar um solo completamente novo para nós, notei, no entanto, de vez em quando, certas agregações de rocha, cuja forma me recordava forçosamente as que estavam perto de Port Gretchen.
Isto confirmava, aliás, as indicações da bússola e o nosso extraordinário e inesperado, bem como involuntário, regresso ao norte deste grande Mar Central. Era tão semelhante ao nosso ponto de partida, que mal podia duvidar da realidade da nossa posição. Riachos e cascatas caíam às centenas sobre as numerosas saliências das rochas.
Cheguei a pensar que conseguia ver o nosso fiel e monótono Hans e a gruta maravilhosa na qual eu tinha voltado à vida após a minha tremenda queda.
Então, à medida que avançávamos ainda mais, a posição das falésias, a aparência de um riacho, o perfil inesperado de uma rocha, lançaram-me novamente num estado de dúvida desconcertante.
Passado algum tempo, expliquei o meu estado de indecisão mental ao meu tio. Ele confessou um sentimento de hesitação semelhante. Estava totalmente incapaz de se decidir no meio deste panorama extraordinário, mas uniforme.
"Não pode haver dúvida," insisti, "de que não desembarcámos exatamente no lugar de onde partimos inicialmente; mas a tempestade trouxe-nos para cima do nosso ponto de partida. Penso, portanto, que se seguirmos a costa, encontraremos mais uma vez Port Gretchen."
"Nesse caso," exclamou o meu tio, "é inútil continuar a nossa exploração. A melhor coisa que podemos fazer é voltar para a jangada. Tens a certeza absoluta, Harry, de que não te enganaste?"
"É difícil," foi a minha resposta, "tomar qualquer decisão, pois todas estas rochas são exatamente iguais. Não há diferença marcada entre elas. Ao mesmo tempo, a impressão que tenho é que reconheço o promontório ao pé do qual o nosso digno Hans construiu a jangada. Estamos, estou quase convencido, perto do pequeno porto: se não for este," acrescentei, examinando cuidadosamente uma enseada que me parecia singularmente familiar.
"Meu caro Harry — se fosse este o caso, encontraríamos vestígios dos nossos próprios passos, alguns sinais da nossa passagem; e realmente não vejo nada que indique que tenhamos passado por aqui."
"Mas eu vejo algo," gritei, num tom de voz impetuoso, enquanto corria para a frente e apanhava ansiosamente algo que brilhava na areia debaixo dos meus pés.
"O que é?" exclamou o Professor, espantado e perplexo.
"Isto," foi a minha resposta.
E entreguei ao meu parente sobressaltado uma adaga enferrujada, de forma singular.
"O que te levou a trazer contigo uma arma tão inútil?" exclamou ele. "Estavas a sobrecarregar-te desnecessariamente."
"Eu trazê-la? É completamente nova para mim. Nunca a vi antes — tens a certeza de que não é da tua coleção?"
"Não que eu saiba," disse o Professor, intrigado. "Não tenho qualquer recordação desse facto. Nunca foi minha propriedade."
"Isto é muito extraordinário," disse eu, refletindo sobre o incidente novo e singular.
"De forma alguma. Há uma explicação muito simples, Harry. Sabe-se que os islandeses mantêm o uso destas armas antiquadas, e esta deve ter pertencido ao Hans, que a deixou cair sem saber."
Abanei a cabeça. Aquela adaga nunca tinha estado na posse do pacífico e taciturno Hans. Conhecia-o a ele e aos seus hábitos demasiado bem.
"Então, o que pode ser — a menos que seja a arma de algum guerreiro antediluviano," continuei, "de algum homem vivo, contemporâneo daquele pastor poderoso de quem acabámos de escapar? Mas não — mistério sobre mistério — esta não é uma arma da época da pedra, nem mesmo do período do bronze. É feita de excelente aço..."
Antes que pudesse terminar a minha frase, o meu tio interrompeu-me antes que eu entrasse em toda uma série de teorias, e falou no seu tom de voz mais frio e decidido.
"Acalma-te, meu caro rapaz, e esforça-te por usar a tua razão. Esta arma, com a qual nos deparámos tão inesperadamente, é uma verdadeira *dague*, uma daquelas usadas pelos cavalheiros nos seus cintos durante o século XVI. O seu uso era dar o *coup de grâce*, o golpe final, ao inimigo que não se rendesse. É claramente de fabrico espanhol. Não pertence nem a ti, nem a mim, nem ao caçador de penugem, nem a nenhum dos seres vivos que possam ainda existir tão maravilhosamente no interior da terra."
"O que queres dizer, Tio?" disse eu, agora perdido numa multidão de conjeturas.
"Observa-a de perto," continuou ele; "estas arestas dentadas nunca foram feitas pela resistência de sangue e osso humanos. A lâmina está coberta com uma camada regular de ferrugem de ferro, que não tem um dia, não tem um ano, não tem um século, mas muito mais..."
O Professor começou a ficar bastante agitado, de acordo com o costume, e estava a deixar-se levar pela sua imaginação fértil. Eu poderia ter dito algo. Ele interrompeu-me.
"Harry," exclamou ele, "estamos agora no limiar de uma grande descoberta. Esta lâmina de adaga que descobriste tão maravilhosamente, depois de ter sido abandonada sobre a areia durante mais de cem, duzentos, até trezentos anos, foi entalhada por alguém que tentava gravar uma inscrição nestas rochas."
"Mas este punhal nunca chegou aqui sozinho," exclamei, "não se poderia ter torcido a si mesmo. Alguém, portanto, deve ter-nos precedido nas margens deste mar extraordinário."
"Sim, um homem."
"Mas que homem terá sido suficientemente desesperado para fazer tal coisa?"
"Um homem que escreveu algures o seu nome com esta própria adaga — um homem que tentou, mais uma vez, indicar o caminho certo para o interior da terra. Vamos olhar à nossa volta, meu rapaz. Não sabes a importância da tua descoberta singular e feliz."
Prodigiosamente interessados, caminhámos ao longo da parede de rocha, examinando as menores fissuras, que poderiam finalmente expandir-se para a tão desejada ravina ou poço.
Chegámos finalmente a um ponto onde a margem se tornava extremamente estreita. O mar quase banhava o pé das rochas, que aqui eram muito elevadas e íngremes. Não havia quase nenhum caminho mais largo do que dois metros em qualquer ponto. Finalmente, debaixo de uma rocha enorme e saliente, descobrimos a entrada de um túnel escuro e sombrio.
Ali, numa placa quadrada de granito, que tinha sido alisada esfregando-a com outra pedra, podíamos ver duas letras misteriosas e muito gastas, as duas iniciais do viajante audaz e extraordinário que nos tinha precedido na nossa jornada aventureira.
"A. S.!" exclamou o meu tio. "Vês, eu tinha razão. Arne Saknussemm, sempre Arne Saknussemm!"
CAPÍTULO 38
SEM SAÍDA — EXPLODINDO A ROCHA
Desde o início da nossa viagem maravilhosa, tinha experimentado muitas surpresas, tinha sofrido muitas ilusões. Pensava que estava endurecido contra todas as surpresas e que já não poderia ver ou ouvir nada que me maravilhasse.
Eu era como um homem que, tendo dado a volta ao mundo, se encontra totalmente blasé e à prova do maravilhoso.
Quando, no entanto, vi estas duas letras, que tinham sido gravadas trezentos anos antes, fiquei fixo numa atitude de surpresa muda.
Não só lá estava a assinatura do alquimista erudito e empreendedor escrita na rocha, como eu segurava na mão o instrumento idêntico com o qual ele a tinha gravado laboriosamente.
Era impossível, sem mostrar um grau de incredulidade pouco digno de um homem são, negar a existência do viajante e a realidade daquela viagem que eu acreditava, desde o início, ter sido um mito — a mistificação de algum cérebro fértil.
Enquanto estas reflexões passavam pela minha mente, o meu tio, o Professor, rendeu-se a um acesso de excitação febril e poética.
"Génio maravilhoso e glorioso, grande Saknussemm," exclamou ele, "não deixaste pedra sobre pedra, nenhum recurso omitido, para mostrar a outros mortais o caminho para o interior do nosso poderoso globo, e os teus semelhantes podem encontrar o rasto deixado pelos teus passos ilustres, trezentos anos atrás, no fundo destas obscuras moradas subterrâneas. Tiveste o cuidado de garantir para os outros a contemplação destas maravilhas da criação. O teu nome gravado em cada etapa importante da tua gloriosa jornada conduz o viajante esperançoso diretamente à grande e poderosa descoberta à qual dedicaste tanta energia e coragem. O viajante audaz, que seguir os teus passos até ao fim, encontrará sem dúvida as tuas iniciais gravadas com a tua própria mão no centro da terra. Eu serei esse viajante audaz — eu, também, assinarei o meu nome no mesmo local, sobre a pedra central de granito desta obra maravilhosa do Criador. Mas, em justiça à tua dedicação, à tua coragem e ao facto de teres sido o primeiro a indicar o caminho, que este cabo, visto por ti nas margens deste mar descoberto por ti, seja chamado, para todo o sempre, Cabo Saknussemm."
Isto foi o que ouvi, e comecei a ficar estimulado ao nível de entusiasmo indicado por aquelas palavras. Uma excitação feroz despertou-me. Esqueci tudo. Os perigos da viagem e os perigos da viagem de regresso já não eram nada!
O que outro homem tinha feito em eras passadas poderia, senti, ser feito novamente; estava determinado a fazê-lo eu mesmo, e agora nada do que o homem tinha realizado me parecia impossível.
"Para a frente — para a frente," gritei num impulso de entusiasmo genuíno e sincero.
Já tinha começado na direção da galeria sombria e tenebrosa quando o Professor me parou; ele, o homem tão imprudente e apressado, ele, o homem tão facilmente estimulado ao mais alto nível de entusiasmo, deteve-me, e pediu-me para ser paciente e mostrar mais calma.
"Vamos voltar para o nosso bom amigo, Hans," disse ele; "traremos então a jangada até este lugar."
Devo dizer que, embora tenha cedido imediatamente ao pedido do meu tio, não foi sem insatisfação, e apressei-me ao longo das rochas daquela costa maravilhosa.
"Sabes, meu caro tio," disse eu, enquanto caminhávamos, "que fomos singularmente ajudados por uma coincidência de circunstâncias, até este preciso momento."
"Portanto, começas a ver, não é, Harry?" disse o Professor com um sorriso.
"Sem dúvida," respondi, "e estranhamente, até a tempestade foi o meio de nos colocar no caminho certo. Bênçãos à tempestade! Trouxe-nos em segurança de volta ao mesmo local de onde o bom tempo nos teria afastado para sempre. Supondo que tivéssemos conseguido chegar às margens meridionais e distantes deste mar extraordinário, o que teria sido de nós? O nome de Saknussemm nunca nos teria aparecido, e neste momento estaríamos naufragados numa costa inóspita, provavelmente sem saída."
"Sim, Harry, meu rapaz, há certamente algo de providencial nesse vaguear à mercê do vento e das ondas em direção ao sul: voltámos exatamente para norte; e o que é ainda melhor, deparamo-nos com esta grande descoberta do Cabo Saknussemm. Quero dizer que é mais do que surpreendente; há algo nisto que está muito além da minha compreensão. A coincidência é inaudita, maravilhosa!"
"Que importa! Não é nosso dever explicar factos, mas tirar o melhor proveito possível deles."
"Sem dúvida, meu rapaz; mas se me permites..." disse o Professor realmente encantado.
"Desculpe-me, senhor, mas vejo exatamente como será; seguiremos a rota do norte; passaremos por baixo das regiões do norte da Europa, por baixo da Suécia, por baixo da Rússia, por baixo da Sibéria, e quem sabe onde — em vez de nos enterrarmos sob as planícies e desertos escaldantes de África, ou por baixo das ondas poderosas do oceano; e isso é tudo, nesta fase da nossa jornada, que me importa saber. Vamos avançar, e o Céu será o nosso guia!"
"Sim, Harry, tens razão, muita razão; tudo é para o melhor. Abandonemos este mar horizontal, que nunca nos poderia ter levado a nada de satisfatório. Vamos descer, descer, e eternamente descer. Sabes, meu caro rapaz, que para chegar ao interior da terra temos apenas cinco mil milhas a percorrer!"
"Bah!" gritei, levado por um impulso de entusiasmo, "a distância quase não vale a pena mencionar. O que interessa é começar."
Os meus discursos selvagens, loucos e incoerentes continuaram até nos reunirmos ao nosso guia paciente e fleumático. Tudo estava, descobrimos, preparado para uma partida imediata. Não havia um único pacote que não estivesse no seu devido lugar. Assumimos todos os nossos postos na jangada, e com a vela içada, Hans recebeu as suas instruções, e guiou a frágil embarcação em direção ao Cabo Saknussemm, como o tínhamos batizado definitivamente.
O vento era muito desfavorável para uma embarcação que não conseguia navegar contra o vento. Foi construída para ir a favor da brisa. Éramos continuamente reduzidos a impelirmo-nos para a frente por meio de varas. Em várias ocasiões, as rochas estendiam-se muito para dentro de águas profundas e éramos forçados a fazer uma longa volta. Finalmente, após três longas e cansativas horas de navegação, isto é, cerca das seis horas da tarde, encontrámos um local onde podíamos desembarcar.
Saltei para terra primeiro. No meu estado atual de excitação e entusiasmo, era sempre o primeiro. O meu tio e o islandês seguiram-me. A viagem do porto até este ponto do mar não me tinha de forma alguma acalmado. Tinha, pelo contrário, produzido o efeito oposto. Cheguei a propor queimar a nossa embarcação, isto é, destruir a nossa jangada, a fim de cortar completamente a nossa retirada. Mas o meu tio opôs-se severamente a este projeto selvagem. Comecei a achá-lo particularmente morno e pouco entusiasta.
"De qualquer modo, meu caro tio," disse eu, "vamos partir sem demora."
"Sim, meu rapaz, estou tão ansioso por fazê-lo como tu. Mas, em primeiro lugar, vamos examinar esta galeria misteriosa, para verificar se precisaremos de preparar e reparar as nossas escadas."
O meu tio começou agora a verificar a eficiência da nossa bobina Ruhmkorff, que sem dúvida seria em breve necessária; a jangada, firmemente presa a uma rocha, foi deixada sozinha. Além disso, a abertura para a nova galeria não estava a vinte passos de distância do local. A nossa pequena tropa, comigo à frente, avançou.
O orifício, que era quase circular, apresentava um diâmetro de cerca de cinco pés; o túnel sombrio estava cortado na rocha viva, e revestido no interior pelo material diferente que outrora tinha passado por ele em estado de fusão. A parte inferior estava quase ao nível da água, pelo que pudemos penetrar no interior sem dificuldade.
Seguimos uma direção quase horizontal; quando, ao fim de cerca de uma dúzia de passos, o nosso avanço foi travado pela interposição de um enorme bloco de rocha de granito.
"Pedra maldita!" gritei furiosamente, ao perceber que estávamos parados pelo que parecia um obstáculo intransponível.
Em vão olhámos para a direita, em vão olhámos para a esquerda; em vão examinámo-la por cima e por baixo. Não existia nenhuma passagem, nenhum sinal de qualquer outro túnel. Experimentei a desilusão mais amarga e dolorosa. Estava tão enfurecido que não queria admitir a realidade de qualquer obstáculo. Ajoelhei-me; olhei por baixo da massa de pedra. Nenhum buraco, nenhum interstício. Olhei então para cima. A mesma barreira de granito! Hans, com a lâmpada, examinou os lados do túnel em todas as direções.
Mas tudo em vão! Era necessário renunciar a toda a esperança de passar.
Tinha-me sentado no chão. O meu tio caminhava irritado e sem esperança de um lado para o outro. Estava evidentemente desesperado.
"Mas," gritei, após alguns momentos de reflexão, "e quanto a Arne Saknussemm?"
"Tens razão," respondeu o meu tio, "ele nunca pode ter sido travado por um pedaço de rocha."
"Não — dez mil vezes não," gritei, com extrema vivacidade. "Este enorme pedaço de rocha, em consequência de alguma concussão singular, ou processo, um daqueles fenómenos magnéticos que tantas vezes abalaram a crosta terrestre, fechou de alguma forma inesperada a passagem. Muitos e muitos anos passaram-se desde o regresso de Saknussemm e a queda deste enorme bloco de granito. Não é bem evidente que esta galeria era antigamente a saída para a lava contida no interior da terra, e que estes materiais eruptivos circulavam então livremente? Olha para estas fissuras recentes no teto de granito; é evidentemente formado por pedaços de pedra enorme, colocados aqui como que pela mão de um gigante, que trabalhou para fazer um arco forte e substancial. Um dia, após um choque invulgarmente forte, a vasta rocha que se interpõe no nosso caminho, e que era sem dúvida a chave de uma espécie de arco, caiu até ao nível do solo e barrou o nosso progresso. Temos razão, portanto, em pensar que este é um obstáculo inesperado, com o qual Saknussemm não se deparou; e se não o derrubarmos de alguma forma, somos indignos de seguir os passos do grande descobridor; e incapazes de encontrar o nosso caminho para o centro da terra!"
Desta forma selvagem dirigi-me ao meu tio. O zelo do Professor, o seu desejo sincero de sucesso, tinham-se tornado parte integrante do meu ser. Esqueci completamente o passado; desprezei totalmente o futuro. Nada existia para mim à superfície deste esferoide em cujo seio estava engolido, sem cidades, sem campo, sem Hamburgo, sem Koenigstrasse, nem mesmo a minha pobre Gretchen, que a esta altura acreditaria que eu estava completamente perdido no interior da terra!
— Bem — gritou o meu tio, arrebatado pelo entusiasmo das minhas palavras —, mãos à obra com picaretas, alavancas, com tudo o que estiver à mão, mas abaixo com estas paredes terríveis.
— É demasiado dura e grande para ser destruída por uma picareta ou alavanca — respondi.
— Então o quê?
— Como disse, é inútil pensar em vencer tal dificuldade com ferramentas comuns.
— Então o quê?
— O que mais poderia ser senão pólvora, uma mina subterrânea? Vamos explodir o obstáculo que se atravessa no nosso caminho.
— Pólvora!
— Sim; tudo o que temos de fazer é livrar-nos deste obstáculo insignificante.
— Ao trabalho, Hans, ao trabalho! — gritou o Professor.
O islandês voltou à jangada e regressou pouco depois com uma enorme alavanca, com a qual começou a cavar um buraco na rocha, que serviria de mina. Não era, de forma alguma, uma tarefa simples. Era necessário, para o nosso propósito, criar uma cavidade suficientemente grande para conter cinquenta libras de algodão-pólvora fulminante, cujo poder expansivo é quatro vezes superior ao da pólvora comum.
Eu tinha-me agora despertado para um estado de entusiasmo quase miraculoso. Enquanto Hans trabalhava, ajudei ativamente o meu tio a preparar um pavio longo, feito de pólvora húmida, cuja massa finalmente fechámos num saco de linho.
— Estamos destinados a passar — gritei, entusiasticamente.
— Estamos destinados a passar — respondeu o Professor, batendo-me nas costas.
À meia-noite, o nosso trabalho de mineiros estava completamente terminado; a carga de algodão fulminante foi introduzida na cavidade e o rastilho, que tínhamos feito com um comprimento considerável, estava pronto.
Uma faísca bastaria agora para incendiar este engenho formidável e reduzir a rocha a átomos!
— Vamos descansar até amanhã.
Era absolutamente necessário resignar-me ao meu destino e consentir em esperar pela explosão durante seis horas penosas!
CAPÍTULO 39
A EXPLOSÃO E OS SEUS RESULTADOS
O dia seguinte, vinte e sete de agosto, foi uma data célebre na nossa maravilhosa viagem subterrânea. Ainda hoje não penso nela sem estremecer de horror. O meu coração bate violentamente à simples memória daquele dia terrível.
Daqui em diante, a nossa razão, o nosso julgamento, a nossa engenhosidade humana, nada têm a ver com o curso dos acontecimentos. Estamos prestes a tornar-nos o brinquedo dos grandes fenómenos da Terra!
Às seis horas estávamos todos de pé e prontos. O momento temido aproximava-se, em que iríamos procurar uma abertura para o interior da Terra por meio de pólvora. Quais seriam as consequências de romper a crosta terrestre?
Pedi que fosse meu dever atear fogo à mina. Via isso como uma honra. Uma vez cumprida a tarefa, poderia juntar-me aos meus companheiros na jangada, que não tinha sido descarregada. Assim que estivéssemos todos prontos, navegaríamos para uma certa distância, a fim de evitar as consequências da explosão, cujos efeitos certamente não se concentrariam no interior da Terra.
Calculámos que o pavio lento arderia durante cerca de dez minutos, mais ou menos, antes de chegar à câmara onde estava confinado o grande corpo de pólvora. Teria, portanto, tempo suficiente para chegar à jangada e afastar-me para uma distância segura.
Preparei-me para executar a tarefa que me tinha imposto — não, devo confessar, sem uma emoção considerável.
Após uma refeição reforçada, o meu tio e o caçador-guia embarcaram na jangada, enquanto eu permanecia sozinho na costa desolada.
Estava equipado com uma lanterna que me permitiria atear fogo ao pavio da máquina infernal.
— Vai, meu rapaz — disse o meu tio —, e que o Céu esteja contigo. Mas volta o mais depressa que puderes. Estarei impaciente.
— Fique descansado quanto a isso — respondi —, não há perigo de eu me atrasar no caminho.
Dito isto, avancei em direção à abertura da galeria sombria. O meu coração batia violentamente. Abri a minha lanterna e agarrei a extremidade do pavio.
O Professor, que observava, segurava o seu cronómetro na mão.
— Estás pronto? — gritou ele.
— Completamente pronto.
— Pois então, fogo!
Apressei-me a aproximar a luz do pavio, que estalou e lançou faíscas, sibilando e cuspindo como uma serpente; depois, correndo o mais depressa que podia, voltei para a costa.
— Embarca, rapaz, e tu, Hans, empurra — gritou o meu tio.
Com uma aplicação vigorosa do seu remo, Hans fez-nos voar sobre a água. A jangada estava a uns bons vinte braças de distância.
Foi um momento de palpitação, de ansiedade profunda. O meu tio, o Professor, nunca tirava os olhos do cronómetro.
— Apenas mais cinco minutos — disse ele em voz baixa —, apenas quatro, apenas três.
O meu pulso batia a cem por minuto. Podia ouvir o meu coração a bater.
— Apenas dois, um! Agora, pois, montanhas de granito, desmoronai-vos perante o poder do homem!
O que aconteceu depois? Quanto ao estrondo terrível da explosão, não creio tê-lo ouvido. Mas a forma das rochas mudou completamente aos meus olhos — pareciam afastar-se como uma cortina. Vi um abismo insondável, sem fundo, que se abria sob as ondas túrgidas. O mar, que parecia ter enlouquecido de repente, tornou-se então uma grande massa montanhosa, sobre cujo topo a jangada se elevou perpendicularmente.
Fomos todos projetados. Em menos de um segundo, a luz deu lugar à obscuridade mais profunda. Depois, senti todo o suporte sólido ceder não sob os meus pés, mas sob a própria jangada. Pensei que ela estava a descer inteira por um poço tremendo. Tentei falar, perguntar ao meu tio. Nada se ouvia senão o rugido das ondas poderosas. Apegámo-nos uns aos outros em silêncio absoluto.
Apesar da escuridão terrível, apesar do ruído, da surpresa, da emoção, compreendi perfeitamente o que tinha acontecido.
Para lá da rocha que tinha sido explodida, existia um abismo poderoso. A explosão tinha causado uma espécie de terramoto naquele solo, partido por fissuras e fendas. O golfo, assim aberto subitamente, estava prestes a engolir o mar interior que, transformado num torrente poderosa, nos arrastava consigo.
Apenas uma ideia me ocupava a mente. Estávamos irremediavelmente perdidos!
Uma hora, duas horas — quanto mais, não posso dizer, passaram-se desta forma. Sentávamo-nos próximos, cotovelo com cotovelo, joelho com joelho! Dávamo-nos as mãos para não sermos projetados da jangada. Éramos submetidos aos choques mais violentos, sempre que a nossa única dependência, uma frágil jangada de madeira, batia contra as paredes rochosas do canal. Felizmente para nós, estas concussões tornavam-se cada vez menos frequentes, o que me fazia supor que a galeria se estava a alargar cada vez mais. Não podia haver dúvida de que tínhamos encontrado o caminho outrora seguido por Saknussemm, mas em vez de descermos de uma forma adequada, tínhamos, pela nossa própria imprudência, arrastado um mar inteiro connosco!
Estas ideias apresentavam-se à minha mente de uma forma muito vaga e obscura. Sentia mais do que raciocinava. Agrupava as minhas ideias apenas confusamente, enquanto girava como um homem a descer uma cascata. A julgar pelo ar que, por assim dizer, me chicoteava o rosto, devíamos estar a correr a uma velocidade de relâmpago.
Tentar acender uma tocha nestas circunstâncias era simplesmente impossível, e os últimos restos da nossa máquina elétrica, da nossa bobina de Ruhmkorff, tinham sido destruídos durante a terrível explosão.
Fiquei, portanto, muito confuso ao ver finalmente uma luz brilhante a brilhar perto de mim. O semblante calmo do guia parecia brilhar sobre mim. O caçador inteligente e paciente tinha conseguido acender a lanterna; e embora, na corrente de ar intensa e completa, a chama tremeluzisse e vacilasse e estivesse quase a apagar-se, serviu para dissipar parcialmente a escuridão terrível.
A galeria na qual tínhamos entrado era muito larga. Eu tinha, portanto, toda a razão nessa parte da minha conjetura. A luz insuficiente não nos permitia ver ambas as paredes ao mesmo tempo. A inclinação das águas, que nos transportava, era muito maior do que a do rio mais rápido da América. Toda a superfície da corrente parecia composta por setas líquidas, lançadas para a frente com extrema violência e poder. Não posso dar uma ideia da impressão que isso me causou.
A jangada, por vezes, era apanhada em certos redemoinhos e avançava, girando sobre si mesma o tempo todo. Como não se virou, nunca serei capaz de compreender. Quando se aproximava das paredes da galeria, eu tinha o cuidado de lançar sobre elas a luz da lanterna, e pude julgar a rapidez do movimento olhando para as massas de rocha salientes, que, assim que eram vistas, tornavam-se de novo invisíveis. Tão rápido era o nosso progresso que os pontos de rocha a uma distância considerável uns dos outros pareciam porções de linhas transversais, que nos encerravam numa espécie de rede, como a de uma linha de fios telegráficos.
Acredito que íamos agora a uma velocidade não inferior a cem milhas por hora.
O meu tio e eu olhávamo-nos com olhos selvagens e ávidos; agarrávamo-nos convulsivamente ao toco do mastro, que, no momento em que a catástrofe ocorreu, se tinha partido. Virávamos as costas o máximo possível ao vento, para não sermos sufocados por uma rapidez de movimento que nada de humano poderia enfrentar e sobreviver.
E ainda assim as longas e monótonas horas passavam. A situação não mudava minimamente, embora uma descoberta que fiz subitamente parecesse complicá-la muito.
Quando recuperámos ligeiramente o nosso equilíbrio, procedi a examinar a nossa carga. Fiz então a descoberta insatisfatória de que a maior parte tinha desaparecido completamente.
Fiquei alarmado e decidi descobrir quais eram os nossos recursos. O meu coração batia com a ideia, mas era absolutamente necessário saber com o que podíamos contar. Com este objetivo, peguei na lanterna e olhei em volta.
De toda a nossa antiga coleção de instrumentos náuticos e filosóficos, restavam apenas o cronómetro e a bússola. As escadas e cordas estavam reduzidas a um pequeno pedaço de corda preso ao toco do mastro. Nem uma picareta, nem uma alavanca, nem um martelo e, pior que tudo, nenhuma comida — nem o suficiente para um dia!
Esta descoberta foi o prelúdio de uma morte certa e horrível.
Sentado sombriamente na jangada, agarrando mecanicamente o toco do mastro, pensei em tudo o que tinha lido sobre o sofrimento da fome.
Lembrei-me de tudo o que a história me tinha ensinado sobre o assunto e estremeci à memória das agonias a suportar.
Enlouquecido com a perspetiva de suportar as misérias da inanição, persuadi-me de que devia estar enganado. Examinei as fendas na jangada; cutuquei entre as juntas e as vigas; examinei todos os buracos e recantos possíveis. O resultado foi — simplesmente nada!
O nosso stock de provisões consistia apenas num pedaço de carne seca e algumas bolachas ensopadas e meio bolorentas.
Olhei à minha volta, assustado e com medo. Não conseguia compreender a verdade terrível. E, contudo, que importância tinha isso em relação a qualquer novo perigo? Supondo que tivéssemos provisões para meses, e até para anos, como poderíamos escapar do abismo terrível para o qual éramos lançados pela torrente irresistível que tínhamos soltado?
Por que nos preocuparíamos com os sofrimentos e torturas a suportar pela fome quando a morte nos encarava de frente sob tantas outras formas mais rápidas e talvez ainda mais horríveis?
Era muito duvidoso, nas circunstâncias em que nos encontrávamos, que tivéssemos tempo para morrer de inanição.
Mas o corpo humano é singularmente constituído.
Não sei como foi; mas, por uma alucinação singular da mente, esqueci o perigo real, sério e imediato a que estávamos expostos, para pensar nas ameaças do futuro, que surgiam diante de nós em todo o seu terror nu. Além disso, no fim de contas, sugeria a Esperança, talvez pudéssemos finalmente escapar à fúria da torrente raivosa e visitar novamente os lampejos da lua, na superfície da nossa bela Mãe Terra.
Como seria feito? Não fazia a menor ideia. Onde iríamos sair? Não importa, desde que saíssemos.
Uma hipótese em mil é sempre uma hipótese, enquanto a morte por fome não nos dava nem o mais leve vislumbre de esperança. Não deixava à imaginação nada senão horror vazio, sem a mais leve hipótese de fuga!
Tive a maior vontade de revelar tudo ao meu tio, de explicar-lhe a posição extraordinária e miserável a que estávamos reduzidos, para que, entre os dois, pudéssemos calcular o espaço exato de tempo que nos restava para viver.
Era, parecia-me, a única coisa a fazer. Mas tive a coragem de calar a boca, de roer as minhas entranhas como o rapaz espartano. Queria deixar-lhe toda a sua calma.
Neste momento, a luz da lanterna baixou lentamente e, finalmente, apagou-se!
O pavio tinha ardido completamente até ao fim. A obscuridade tornou-se absoluta. Já não era possível ver através da escuridão impenetrável! Restava uma tocha, mas era impossível mantê-la acesa. Então, como uma criança, fechei os olhos para não ver a escuridão.
Após um grande lapso de tempo, a rapidez da nossa viagem aumentou. Podia senti-lo pelo ar que corria sobre o meu rosto. A inclinação das águas era excessiva. Comecei a sentir que já não descíamos uma inclinação; estávamos a cair. Sentia-me como alguém num sonho, a descer fisicamente — a cair; a cair; a cair!
Senti que as mãos do meu tio e de Hans agarravam vigorosamente os meus braços.
Subitamente, após um lapso de tempo quase impercetível, senti algo como um choque. A jangada não tinha atingido um corpo duro, mas tinha sido subitamente travada no seu curso. Uma tromba de água, uma coluna líquida de água, caiu sobre nós. Sentia-me a sufocar. Estava a afogar-me.
Ainda assim, a inundação súbita não durou. Em poucos segundos, senti-me novamente capaz de respirar. O meu tio e Hans apertaram os meus braços e a jangada levou-nos aos três.
CAPÍTULO 40
O APE GIGANS
É difícil para mim determinar qual era a hora real, mas suponho, por cálculo posterior, que deveriam ser dez da noite.
Estava num estupor, num meio sonho, durante o qual tive visões de caráter espantoso. Monstros das profundezas estavam lado a lado com o poderoso pastor elefantino. Peixes e animais gigantescos pareciam formar conjunções estranhas.
A jangada deu uma volta repentina, girou, entrou noutro túnel — desta vez iluminado de uma forma singular. O teto era formado por estalactites porosas, através das quais um vapor lunar parecia passar, lançando a sua luz brilhante sobre as nossas figuras magras e acabrunhadas. A luz aumentou à medida que avançávamos, enquanto o teto subia; até que, finalmente, estávamos mais uma vez numa espécie de caverna de água, cuja cúpula elevada desaparecia numa nuvem luminosa!
Uma caverna acidentada de pequena extensão parecia oferecer um lugar de descanso aos nossos corpos cansados.
O meu tio e o guia moviam-se como homens num sonho. Tive medo de os acordar, sabendo do perigo de um despertar tão súbito. Sentei-me ao lado deles para vigiar.
Ao fazê-lo, dei conta de algo que se movia ao longe, que de imediato fascinou os meus olhos. Flutuava, aparentemente, sobre a superfície da água, avançando por meio do que a princípio pareciam pás. Olhei com olhos esbugalhados. Um olhar disse-me que era algo monstruoso.
Mas o quê?
Era o grande "tubarão-crocodilo" dos primeiros escritores sobre geologia. Com o tamanho de uma baleia comum, com mandíbulas horríveis e dois olhos gigantescos, avançava. Os seus olhos fixaram-se em mim com uma severidade terrível. Algum aviso indefinido disse-me que ele me tinha marcado como sua presa.
Tentei levantar-me — escapar, não importa para onde, mas os meus joelhos tremiam debaixo de mim; os meus membros tremiam violentamente; quase perdi os sentidos. E, contudo, o monstro poderoso avançava. O meu tio e o guia não fizeram qualquer esforço para se salvarem.
Com um ruído estranho, como nenhum outro que eu tivesse ouvido, a besta aproximou-se. As suas mandíbulas estavam separadas por pelo menos sete pés, e a sua boca dilatada parecia suficientemente grande para ter engolido um barco cheio de homens.
Estávamos a cerca de dez pés de distância quando descobri que, por muito que o seu corpo se assemelhasse ao de um crocodilo, a sua boca era totalmente a de um tubarão.
A sua natureza dupla tornou-se agora aparente. Para nos apanhar com uma dentada, era necessário que ele se virasse de costas, movimento que necessariamente fazia com que as suas pernas pontapeassem inutilmente no ar.
Ri-me verdadeiramente, mesmo nas próprias mandíbulas da morte!
Mas no minuto seguinte, com um grito selvagem, disparei para o interior da caverna, deixando os meus infelizes companheiros à sua sorte! Esta caverna era profunda e sombria. Após cerca de cem jardas, parei e olhei em volta.
Todo o chão, composto de areia e malaquite, estava coberto de ossos, ossos recentemente roídos de répteis e peixes, com uma mistura de mamíferos. A minha própria alma adoeceu enquanto o meu corpo estremecia de horror. Tinha, verdadeiramente, segundo o velho provérbio, caído da frigideira para o fogo. Alguma besta maior e mais feroz ainda do que o tubarão-crocodilo habitava aquele covil.
O que podia eu fazer? A boca da caverna era guardada por um monstro feroz, o interior era habitado por algo demasiado horrível para contemplar. A fuga era impossível!
Apenas um recurso restava, e esse era encontrar algum pequeno esconderijo onde os temíveis habitantes da caverna não pudessem penetrar. Olhei selvaticamente à volta e descobri finalmente uma fissura na rocha, para a qual corri na esperança de recuperar os meus sentidos dispersos.
Abaixando-me, esperei a tremer como num ataque de febre. Nenhum homem é corajoso na presença de um terramoto, ou de uma caldeira a rebentar, ou de um torpedo a explodir. Não se podia esperar que eu sentisse muita coragem na presença do destino terrível que parecia esperar-me.
Passou uma hora. Ouvi durante todo o tempo um barulho estranho fora da caverna.
Qual seria o destino dos meus infelizes companheiros? Era-me impossível parar para perguntar. A minha própria existência miserável era tudo em que podia pensar.
Subitamente, um gemido, como de cinquenta ursos numa luta, chegou aos meus ouvidos — sibilos, cuspidelas, gemidos, horríveis de ouvir — e então vi —
Nunca, mesmo que eras passassem sobre a minha cabeça, esquecerei a aparição horrível.
Era o Ape Gigans!
Com catorze pés de altura, coberto de pelo áspero, de um castanho enegrecido, o pelo nos braços, desde o ombro até às articulações do cotovelo, apontando para baixo, enquanto o do pulso para o cotovelo apontava para cima, avançava. Os seus braços eram tão longos como o seu corpo, enquanto as suas pernas eram prodigiosas. Tinha dentes grossos, longos e aguçados — como uma serra de mamute.
Batia no peito enquanto vinha, cheirando e farejando, lembrando-me das histórias que líamos na nossa primeira infância sobre gigantes que comiam a carne de homens e de meninos pequenos!
Subitamente parou. O meu coração batia violentamente, pois tinha consciência de que, de uma forma ou de outra, o monstro terrível me tinha farejado e estava a espreitar com os seus olhos horríveis para tentar descobrir o meu paradeiro.
A minha leitura, que por norma é uma bênção, mas que nesta ocasião parecia provar ser momentaneamente uma maldição, dizia-me a verdadeira verdade. Era o Ape Gigans, o gorila antediluviano.
Sim! Este monstro terrível, confinado por boa sorte ao interior da Terra, era o progenitor do monstro horrível de África.
Ele olhou selvaticamente à volta, procurando algo — sem dúvida, eu próprio. Dei-me por perdido. Nenhuma esperança de segurança ou fuga parecia restar.
Neste momento, precisamente quando os meus olhos pareciam fechar-se para a morte, ouviu-se um ruído estranho vindo da entrada da gruta; e, ao virar-me, o gorila reconheceu evidentemente um inimigo mais digno do seu tamanho e força prodigiosos. Era o enorme tubarão-crocodilo, que, talvez depois de ter dado cabo dos meus amigos, vinha em busca de mais presa.
O gorila colocou-se na defensiva e, agarrando um osso com cerca de dois a dois metros e meio de comprimento, um verdadeiro clava, desferiu um golpe mortal na besta hedionda, que se ergueu e caiu com todo o seu peso sobre o seu adversário.
Seguiu-se então um combate terrível, cujos detalhes é impossível descrever. A luta foi horrível e feroz; eu, porém, não esperei para testemunhar o resultado. Considerando-me o objeto da disputa, decidi afastar-me da presença do vencedor. Deslizei do meu esconderijo, cheguei ao chão e, deslizando contra a parede, esforcei-me por alcançar a boca aberta da caverna.
Mas não tinha dado muitos passos quando o clamor medonho cessou, sendo seguido por um resmungar e um gemer que pareciam indicar vitória.
Olhei para trás e vi o enorme macaco, coberto de sangue, vindo atrás de mim com olhos cintilantes, com narinas dilatadas que expeliam duas colunas de vapor quente. Podia sentir o seu hálito quente e fétido no meu pescoço; e com um salto horrível — acordei do meu pesadelo.
Sim — era tudo um sonho. Eu ainda estava na jangada com o meu tio e o guia.
O alívio não foi instantâneo, pois, sob a influência do pesadelo hediondo, os meus sentidos tinham ficado entorpecidos. Depois de algum tempo, porém, os meus sentimentos tranquilizaram-se. A primeira das minhas perceções que regressou com força total foi a da audição. Escutei com ouvidos atentos e aguçados. Tudo estava parado como a morte. Tudo o que compreendia era o silêncio. Ao rugido das águas, que enchera a galeria com reverberações terríveis, sucedeu-se uma paz perfeita.
Passado algum tempo, o meu tio falou, num tom baixo e quase inaudível: "Harry, rapaz, onde estás?"
"Estou aqui", foi a minha resposta fraca.
"Bem, não vês o que aconteceu? Estamos a subir."
"Meu caro tio, o que quer dizer?" foi a minha resposta meio delirante.
"Sim, digo-te que estamos a ascender rapidamente. A nossa viagem descendente está completamente interrompida."
Estendi a mão e, com alguma dificuldade, consegui tocar na parede. A minha mão ficou instantaneamente coberta de sangue. A pele estava arrancada da carne. Estávamos a subir com uma rapidez extraordinária.
"A tocha — a tocha!" gritou o Professor, freneticamente; "tem de ser acesa."
Hans, o guia, depois de muitas tentativas vãs, conseguiu finalmente acendê-la, e a chama, não tendo agora nada que impedisse a sua combustão, lançou uma luz toleravelmente clara. Pudemos formar uma ideia aproximada da verdade.
"É exatamente como eu pensava", disse o meu tio, após um ou dois momentos de atenção silenciosa. "Estamos num poço estreito com cerca de quatro braças quadradas. As águas do grande mar interior, tendo chegado ao fundo do golfo, estão agora a forçar a sua subida pelo poderoso poço. Como consequência natural, estamos a ser lançados sobre o cume das águas."
"Isso eu vejo", foi a minha resposta lúgubre; "mas onde terminará este poço, e a que queda estaremos provavelmente expostos?"
"Disso sou tão ignorante quanto tu. Tudo o que sei é que devemos estar preparados para o pior. Estamos a subir a uma velocidade terrivelmente rápida. Pelo que posso julgar, estamos a ascender à velocidade de duas braças por segundo, cento e vinte braças por minuto, ou melhor, mais de três léguas e meia por hora. A este ritmo, o nosso destino será em breve uma certeza."
"Sem dúvida", foi a minha resposta. "A grande preocupação que tenho agora, contudo, é saber se este poço tem alguma saída. Pode terminar num teto de granito — caso em que seremos sufocados pelo ar comprimido ou esmagados contra o topo. Imagino, já, que o ar está a começar a ficar pesado e condensado. Tenho dificuldade em respirar."
Isto podia ser imaginação, ou podia ser o efeito do nosso movimento rápido, mas senti certamente uma grande opressão no peito.
"Henry", disse o Professor, "acredito que a situação é, até certo ponto, desesperada. Restam, contudo, muitas hipóteses de salvação final, e, na minha própria mente, tenho-as ponderado durante o teu sono pesado, mas agitado. Cheguei a esta conclusão lógica — visto que podemos perecer a qualquer momento, assim também a qualquer momento podemos ser salvos! Precisamos, portanto, de nos preparar para o que quer que possa surgir no grande capítulo dos acidentes."
"Mas o que quer que façamos?" gritei. "Não estamos completamente indefesos?"
"Não! Enquanto há vida, há esperança. De qualquer modo, há uma coisa que podemos fazer — comer, e assim obter forças para enfrentar a vitória ou a morte."
Enquanto falava, olhei para o meu tio com um olhar macilento. Tinha adiado a comunicação fatal o máximo possível. Agora era-me imposta, e tinha de lhe dizer a verdade.
Ainda hesitei.
"Comer", disse eu, num tom de desaprovação como se não houvesse pressa.
"Sim, e imediatamente. Sinto-me como um prisioneiro a morrer de fome", disse ele, esfregando as suas mãos amarelas e trémulas.
E, virando-se para o guia, disse algumas palavras cordiais e animadoras, a julgar pelo seu tom, em dinamarquês. Hans abanou a cabeça de uma forma terrivelmente significativa. Tentei parecer indiferente.
"O quê!" gritou o Professor, "não me vais dizer que todas as nossas provisões se perderam?"
"Sim", foi a minha resposta em voz baixa, enquanto estendia algo na minha mão, "este bocado de carne seca é tudo o que resta para nós três."
O meu tio olhou para mim como se não pudesse compreender totalmente o significado das minhas palavras. O golpe pareceu atordoá-lo pela sua severidade. Deixei-o refletir por alguns momentos.
"Bem", disse eu, após uma curta pausa, "o que pensas agora? Haverá alguma hipótese de escaparmos aos nossos horríveis perigos subterrâneos? Não estaremos condenados a perecer nos grandes abismos do centro da Terra?"
Mas as minhas perguntas pertinentes não trouxeram resposta. O meu tio ou não me ouviu, ou pareceu não o fazer.
E desta forma passou uma hora inteira. Nenhum de nós quis falar. Quanto a mim, comecei a sentir uma fome terrível e devoradora. Os meus companheiros, sem dúvida, sentiam as mesmas torturas horríveis, mas nenhum deles queria tocar no miserável bocado de carne que restava. Estava ali, um último remanescente de todos os nossos grandes preparativos para a viagem louca e insensata!
Olhei para trás, com espanto, para a minha própria tolice. Estava plenamente consciente de que, apesar do seu entusiasmo e do pergaminho de Saknussemm, que nunca deveria ter sido odiado, o meu tio nunca deveria ter iniciado a sua viagem perigosa. Que memórias do passado feliz, que previsões do futuro horrível, enchiam agora o meu cérebro!
CAPÍTULO 41
FOME
A fome, prolongada, é loucura temporária! O cérebro trabalha sem o alimento necessário, e as noções mais fantásticas enchem a mente. Até então, nunca tinha sabido o que a fome realmente significava. Estava prestes a compreendê-lo agora.
E, no entanto, três meses antes, eu poderia contar a minha terrível história de inanição, como a considerava. Quando rapaz, costumava fazer excursões frequentes nas proximidades da casa do Professor.
O meu tio agia sempre por sistema, e acreditava que, além do dia de descanso e culto, devia haver um dia de recreação. Por consequência, eu estava sempre livre para fazer o que queria à quarta-feira.
Ora, como tinha a ideia de combinar o útil com o agradável, o meu passatempo favorito era procurar ninhos de pássaros. Eu tinha uma das melhores coleções de ovos de toda a cidade. Estavam classificados e sob redomas de vidro.
Havia um certo bosque, que, levantando-me de manhã cedo e apanhando o comboio barato, podia alcançar às onze da manhã. Aqui, eu praticava botânica ou geologia à minha vontade. O meu tio ficava sempre contente com espécimes para o seu herbário e pedras para examinar. Quando enchia a minha carteira, procedia à procura de ninhos.
Após cerca de duas horas de trabalho árduo, sentei-me um dia junto a um riacho para comer o meu humilde, mas copioso almoço. Como a lembrança da linguiça condimentada, do pão de trigo e da cerveja me fazia crescer água na boca agora! Teria dado toda a perspetiva de riqueza mundial por tal refeição. Mas à minha história.
Enquanto estava assim sentado, à vontade, olhei para as ruínas de um castelo antigo, a pouca distância. Eram os restos de uma habitação histórica, coberta de hera, e agora em ruínas.
Enquanto olhava, vi duas águias a circular sobre o cume de uma torre alta. Em breve convenci-me de que havia um ninho. Ora, em toda a minha coleção, faltavam-me ovos da águia nativa e da coruja grande.
A minha decisão estava tomada. Alcançaria o cume daquela torre, ou morreria na tentativa. Aproximei-me e examinei as ruínas. A escadaria antiga, anos antes, tinha caído. As paredes exteriores estavam, contudo, intactas. Não havia hipótese por esse caminho, a menos que confiasse unicamente na hera para me apoiar. Isto foi, como depressa descobri, inútil.
Restava a chaminé, que ainda subia até ao topo e que servira outrora para escoar o fumo de todos os andares da torre.
Por esta decidi aventurar-me. Era estreita, rugosa e, portanto, mais facilmente escalável. Tirei o meu casaco e rastejei para dentro da chaminé. Olhando para cima, vi uma pequena abertura clara, proclamando o cume da chaminé.
Subi — subi durante algum tempo usando as mãos e os joelhos, à moda de um limpa-chaminés. Foi um trabalho lento, mas, havendo projeções contínuas, a tarefa era comparativamente fácil. Desta forma, cheguei a meio. A chaminé tornou-se então mais estreita. A atmosfera estava pesada e, finalmente, para acabar com o assunto, fiquei entalado. Não podia subir mais.
Não havia dúvida quanto a isto, e não restava outro recurso senão descer e desistir da minha presa gloriosa em desespero. Rendi-me ao destino e tentei descer. Mas não conseguia mover-me. Algum obstáculo invisível e misterioso interveio e deteve-me. Num instante, todo o horror da minha situação apoderou-se de mim.
Eu era incapaz de me mover para qualquer lado e estava condenado a uma morte terrível e horrível, a da inanição. Na mente de um rapaz, contudo, existe uma quantidade extraordinária de elasticidade e esperança, e comecei a pensar em todo o tipo de planos para escapar ao meu destino sombrio.
Em primeiro lugar, não precisava de comida por agora, tendo feito uma excelente refeição, e por isso foi-me dado tempo para refletir. O meu primeiro pensamento foi tentar remover a argamassa com a mão. Se tivesse uma faca, algo poderia ter sido feito, mas esse instrumento útil tinha-o deixado no bolso do meu casaco.
Depressa descobri que todos os esforços deste tipo eram vãos e inúteis, e que tudo o que podia esperar fazer era contorcer-me para baixo.
Mas embora me sacudisse, lutasse e me esforçasse por virar, foi tudo em vão. Não conseguia mover-me um centímetro, nem para um lado nem para o outro. E o tempo voava rapidamente. O meu acordar cedo contribuiu provavelmente para o facto de me sentir sonolento e ceder gradualmente à sensação de sonolência.
Dormi e acordei na escuridão, vorazmente faminto.
A noite tinha chegado e eu ainda não conseguia mover-me. Estava firmemente preso e não consegui mudar a minha posição um centímetro que fosse. Gemi em voz alta. Nunca, desde os dias da minha infância feliz, quando era um sofrimento passar de refeição a refeição sem comer, tinha realmente sentido fome. A sensação era tão nova quanto dolorosa. Comecei agora a perder o juízo e a gritar e a lamentar-me na minha agonia. Algo apareceu, assustado pelo meu ruído. Era um lagarto inofensivo, mas pareceu-me um réptil repugnante. Fiz novamente as velhas ruínas ressoarem com os meus gritos e, finalmente, exauri-me tanto que desmaiei.
Quanto tempo fiquei num tipo de transe ou sono, não posso dizer, mas quando recuperei a consciência, era dia. Quão mal me sentia, quão a fome ainda me roía, seria difícil dizer. Estava demasiado fraco para gritar agora, demasiado fraco para lutar.
De repente, fui sobressaltado por um rugido.
"Estás aí, Henry?" disse a voz do meu tio; "estás aí, meu rapaz?"
Só consegui responder fracamente, mas também fiz um esforço desesperado para me virar. Alguma argamassa caiu. A isso devo ter sido descoberto. Quando a busca ocorreu, viu-se facilmente que argamassa e pequenos pedaços de pedra tinham caído recentemente de cima. Daí o grito do meu tio.
"Mantém a calma", gritou ele, "se tivermos de deitar abaixo toda a ruína, serás salvo."
Foram palavras deliciosas, mas eu tinha pouca esperança.
Contudo, pouco depois, cerca de um quarto de hora mais tarde, ouvi uma voz acima de mim, numa das lareiras superiores.
"Estás em baixo ou em cima?"
"Em baixo", foi a minha resposta.
Num instante, foi baixado um cesto com leite, uma bolacha e um ovo. O meu tio tinha receio de ser demasiado apressado com a sua provisão de comida. Bebi primeiro o leite, pois a sede tinha quase atenuado a fome. Depois, muito revigorado, comi o meu pão e ovo cozido.
Estavam agora a trabalhar na parede. Podia ouvir uma picareta. Desejando escapar a qualquer perigo daquela arma terrível, fiz um esforço desesperado, e o cinto, que envolvia a minha cintura e que tinha ficado preso numa pedra, cedeu. Estava livre, e só escapei de cair devido a um movimento rápido das minhas mãos e joelhos.
Em mais dez minutos estava nos braços do meu tio, depois de ter estado dois dias e noites naquela prisão horrível. O meu delírio ocasional impediu-me de contar o tempo.
Demorei semanas a recuperar daquela terrível aventura de inanição; e, no entanto, o que era isso comparado com os sofrimentos hediondos que agora suportava?
Depois de sonhar durante algum tempo, e de pensar nisto e noutros assuntos, olhei uma vez mais à minha volta. Continuávamos a subir com uma rapidez terrível. De vez em quando, o ar parecia travar a nossa respiração, como acontece com os aeronautas quando a ascensão do balão é demasiado rápida. Mas se eles sentem um grau de frio proporcional à elevação que atingem na atmosfera, nós experimentámos um efeito contrário. O calor começou a aumentar de uma forma extremamente ameaçadora e excecional. Não sei dizer exatamente a média, mas penso que deve ter atingido cento e vinte e dois graus Fahrenheit.
Qual era o significado desta mudança extraordinária na temperatura? Até onde tínhamos ido, os factos provavam que as teorias de Davy e de Lidenbrock estavam corretas. Até agora, todas as condições peculiares das rochas refratárias, da eletricidade, do magnetismo, tinham modificado as leis gerais da natureza e criado para nós uma temperatura moderada; pois a teoria do fogo central permanecia, aos meus olhos, a única explicável.
Estávamos, então, prestes a chegar a uma posição em que estes fenómenos seriam levados a cabo com todo o seu rigor, e em que o calor reduziria as rochas a um estado de fusão?
Tal era o meu medo, nada antinatural, e não escondi o facto ao meu tio. A minha forma de o fazer podia ser fria e insensível, mas não podia evitá-lo.
"Se não nos afogarmos, ou formos esmagados como panquecas, e se não morrermos de fome, temos a satisfação de saber que seremos queimados vivos."
O meu tio, perante este ataque brusco, simplesmente encolheu os ombros e retomou as suas reflexões — quaisquer que fossem.
Passou-se uma hora e, exceto por um ligeiro aumento na temperatura, nenhum incidente modificou a situação.
O meu tio, finalmente, por iniciativa própria, quebrou o silêncio.
"Bem, Henry, meu rapaz", disse ele, de uma forma alegre, "temos de nos decidir."
"Decidir sobre o quê?" perguntei, com considerável surpresa.
"Bem — sobre alguma coisa. Temos de, a todo o custo, recuperar a nossa força física. Se cometermos o erro fatal de poupar o nosso pequeno resto de comida, poderemos provavelmente prolongar a nossa existência miserável por algumas horas — mas permaneceremos fracos até ao fim."
"Sim", resmunguei, "até ao fim. Isso, contudo, não nos fará esperar muito."
"Bem, apenas que uma hipótese de salvação se apresente — apenas que um momento de ação seja necessário — onde encontraremos os meios de agir se nos deixarmos reduzir à fraqueza física pela inanição?"
"Quando este bocado de carne for devorado, Tio, que esperança nos restará?"
"Nenhuma, meu caro Henry, nenhuma. Mas far-te-á algum bem devorá-la com os olhos? Pareces-me raciocinar como alguém sem vontade ou decisão, como um ser sem energia."
"Então", gritei, exasperado até um grau que dificilmente se pode explicar, "não queres dizer-me — que tu — que tu — não perdeste toda a esperança."
"Certamente que não", respondeu o Professor com uma calma consumada.
"Queres dizer-me, Tio, que vamos sair deste poço subterrâneo monstruoso?"
"Enquanto há vida, há esperança. Peço-te que afirmes, Henry, que enquanto o coração de um homem bater, enquanto a carne de um homem tremer, não permito que um ser dotado de pensamento e vontade se possa deixar desesperar."
Que nervos! O homem colocado numa posição como a que ocupávamos devia ser muito corajoso para falar assim.
"Bem", gritei, "o que pretendes fazer?"
"Comer o que resta da comida que temos nas nossas mãos; engulamos a última migalha. Será, se o céu quiser, a nossa última refeição. Bem, não importa — em vez de sermos esqueletos exaustos, seremos homens."
"Verdade", murmurei num tom desesperado, "vamos saciar-nos."
"Temos de o fazer", respondeu o meu tio, com um suspiro profundo, "chama-lhe o que quiseres."
O meu tio pegou num bocado da carne que restava e em algumas côdeas de bolacha que tinham escapado ao naufrágio. Dividiu tudo em três partes.
Cada um tinha meio quilo de comida para durar enquanto permanecesse no interior da Terra.
Cada um agiu agora de acordo com o seu próprio caráter privado.
O meu tio, o Professor, comeu avidamente, mas evidentemente sem apetite, comendo apenas por algum movimento mecânico. Pus a comida entre os meus lábios e, por mais faminto que estivesse, mastiguei o meu bocado sem prazer e sem satisfação.
Hans, o guia, como se estivesse a caçar penugem de pato-eider, engoliu cada bocado como se fosse um assunto habitual. Ele parecia um homem igualmente preparado para desfrutar da superfluidade ou da necessidade total.
Hans, com toda a probabilidade, não estava mais habituado à fome do que nós, mas a sua natureza islandesa resistente tinha-o preparado para muitos sofrimentos. Desde que recebesse os seus três rix-dólares todos os sábados à noite, estava preparado para qualquer coisa.
O facto era que Hans nunca se preocupava muito com nada, exceto com o seu dinheiro. Tinha-se comprometido a servir um certo homem por tanto por semana e, não importava que males se abatessem sobre o seu patrão ou sobre si mesmo, ele nunca encontrava falhas nem se queixava, desde que o seu salário fosse devidamente pago.
De repente, o meu tio despertou. Tinha visto um sorriso no rosto do nosso guia. Eu não conseguia percebê-lo.
"O que se passa?" disse o meu tio.
"Schiedam", disse o guia, produzindo uma garrafa deste precioso líquido.
Bebemos. O meu tio e eu admitiremos até ao dia da nossa morte que daí derivámos forças para existir até ao último momento amargo. Aquela preciosa garrafa de Hollands estava, na verdade, apenas meio cheia; mas, nas circunstâncias, era néctar.
Levou alguns minutos para mim e para o meu tio formarmos uma opinião decidida sobre o assunto. O digno Professor engoliu cerca de meio litro e não parecia capaz de beber mais.
"Fortrafflig", disse Hans, engolindo quase tudo o que restava.
"Excelente — muito bom", disse o meu tio, com tanto gosto como se tivesse acabado de sair dos degraus do clube em Hamburgo.
Eu tinha começado a sentir como se houvesse um vislumbre de esperança. Agora, todo o pensamento sobre o futuro desapareceu!
"Mas, tio, este lugar não é o Spitzbergen? Ou o Jan Mayen? Ou qualquer ilha do Norte?"
"Não creio", respondeu ele, limpando a testa. "Olha para a vegetação que nos rodeia. Não são líquenes, nem musgos, nem pinheiros anões, mas sim oliveiras!"
"Oliveiras?" exclamarei eu.
"Sim, oliveiras! Observa bem, rapaz. Isso é de uma importância extrema."
De fato, a encosta da montanha estava coberta de árvores, cujos frutos prateados brilhavam sob o sol escaldante. No sopé, estendia-se uma planície plantada com figueiras e vinhas.
"Não estamos no Norte", repeti, estupefacto.
"Não, o sol é demasiado vertical para isso", observou o Professor. "Estamos no Mediterrâneo."
Eu não podia acreditar. Aproximei-me da base da montanha e, alguns minutos depois, cheguei a uma praia de areia fina. Ali, as ondas do mar batiam com uma cadência suave. O grande mar azul, o mar que tínhamos atravessado sob a crosta terrestre, desaguava agora num horizonte infinito.
"Onde estamos?" perguntei.
"Creio que em Itália", respondeu o meu tio.
"Em Itália!" exclamei.
"Sim, estamos na encosta de um vulcão, a julgar pela configuração do solo. E este mar... este é o Mediterrâneo, sem dúvida."
Caminhámos ao longo da costa e, pouco depois, avistámos uma pequena cidade ao longe. A arquitetura era inconfundível, com as suas casas brancas de telhados planos. À medida que nos aproximávamos, ouvimos o som de sinos e o murmúrio de uma língua que reconhecemos imediatamente.
"O que é isto?" perguntei.
"É Stromboli", respondeu o meu tio.
Stromboli! O nome ecoou na minha mente como uma melodia. Tínhamos sido expulsos das entranhas da terra, projetados pelas chaminés de um vulcão nas ilhas Eólias. Hans, o nosso fiel Hans, tinha-nos trazido de volta à luz, à vida e à civilização.
A nossa aparência era tal que, ao chegarmos à pequena cidade de San Vincenzo, fomos tomados por piratas ou náufragos. Mas a hospitalidade italiana não nos faltou. Deram-nos roupas e comida, e, após alguns dias de descanso, pudemos finalmente iniciar o caminho de regresso a Hamburgo.
Nunca esquecerei a expressão de surpresa e, por fim, de reconhecimento, quando o Professor Lidenbrock, com a sua barba emaranhada e a sua indumentária de farrapos, atravessou a soleira da nossa casa na Konigstrasse. A pobre Gretchen, que já nos julgava mortos, caiu nos braços do seu tio.
Quanto a mim, ainda sonho por vezes com as profundezas da terra. Mas, acima de tudo, mantenho a convicção de que o homem nunca deve tentar forçar os segredos da natureza, pois a ciência, embora maravilhosa, tem os seus limites e os seus perigos. A jornada terminou, mas a memória daquela viagem ao centro da Terra permanecerá para sempre gravada na minha alma.
"De forma alguma, meu rapaz. Este não é um dos vulcões do norte, com as suas colinas de granito e a sua coroa de neve."
"Contudo--"
"Olha, olha, meu rapaz", disse o Professor, tão dogmático como de costume.
Logo acima das nossas cabeças, a grande altura, abria-se a cratera de um vulcão de onde escapava, de um quarto de hora para o outro, com uma explosão muito ruidosa, um alto jato de chama misturado com pedra-pomes, cinzas e lava. Eu podia sentir as convulsões da natureza na montanha, que respirava como uma baleia enorme, lançando de tempos a tempos fogo e ar através das suas aberturas imensas.
Embaixo, e flutuando ao longo de uma encosta de angularidade considerável, o fluxo de matéria eruptiva espalhava-se a uma profundidade que não conferia ao vulcão uma altura de trezentas braças.
A sua base desaparecia numa verdadeira floresta de árvores verdes, entre as quais percebi oliveiras, figueiras e vinhas carregadas de uvas ricas.
Certamente, este não era o aspeto comum das regiões árticas. Sobre isso não podia haver a menor dúvida.
Quando o olhar se satisfez com o vislumbre desta extensão verdejante, pousou nas águas de um mar adorável ou de um belo lago, que fazia desta terra encantada uma ilha de não muitas léguas de extensão.
Do lado do sol nascente, via-se um pequeno porto, apinhado de casas, e perto do qual barcos e embarcações de construção peculiar flutuavam sobre ondas azuis.
Além, grupos de ilhas erguiam-se acima da planície líquida, tão numerosas e próximas umas das outras que se assemelhavam a uma vasta colmeia.
Em direção ao sol poente, algumas margens distantes podiam ser discernidas no limite do horizonte. Algumas apresentavam a aparência de montanhas azuis de conformação harmoniosa; sobre outras, muito mais distantes, aparecia um cone prodigiosamente alto, acima do cume do qual pairavam nuvens escuras e pesadas.
Em direção ao norte, uma imensa extensão de água cintilava sob os raios solares, permitindo ocasionalmente ver a extremidade de um mastro ou a convexidade de uma vela enfunada pelo vento.
O caráter inesperado de tal cena acrescentava cem vezes mais às suas belezas maravilhosas.
"Onde poderemos estar?" perguntei, falando com uma voz baixa e solene.
Hans fechou os olhos com um ar de indiferença, e o meu tio observava sem compreender claramente.
"Seja o que for esta montanha", disse ele, por fim, "devo confessar que está bastante quente. As explosões não param, e não creio que valha a pena ter saído do interior de um vulcão para ficar aqui a receber um pedaço enorme de rocha na cabeça. Vamos descer cuidadosamente a montanha e descobrir o verdadeiro estado da questão. Para dizer a verdade, estou a morrer de fome e sede."
Decididamente, o Professor já não era um caráter verdadeiramente reflexivo. Quanto a mim, esquecendo todas as minhas necessidades, ignorando as minhas fadigas e sofrimentos, teria permanecido imóvel ainda por várias horas — mas era necessário seguir os meus companheiros.
A encosta do vulcão era muito íngreme e escorregadia; deslizámos sobre pilhas de cinzas, evitando os fluxos de lava quente que deslizavam como serpentes ardentes. Ainda assim, enquanto avançávamos, falei com extrema volubilidade, pois a minha imaginação estava cheia demais para não explodir em palavras.
"Estamos na Ásia!" exclamei; "estamos na costa da Índia, nas grandes ilhas malaias, no centro da Oceânia. Atravessámos metade do globo para sair exatamente nos antípodas da Europa!"
"Mas a bússola!" exclamou o meu tio; "explica-me isso!"
"Sim — a bússola", disse eu com considerável hesitação. "Admito que é uma dificuldade. Segundo ela, estivemos sempre a ir para norte."
"Então mentiu."
"Hum — dizer que mentiu é uma palavra bastante dura", foi a minha resposta.
"Então estamos no Polo Norte--"
"O Polo — não — bem — bem, eu desisto", foi a minha réplica.
A pura verdade era que não havia explicação possível. Eu não conseguia entender nada daquilo.
E, durante todo o tempo, aproximávamo-nos deste belo verde, a fome e a sede atormentavam-me terrivelmente. Felizmente, após duas longas horas de marcha, um belo campo estendeu-se diante de nós, coberto por oliveiras, romãzeiras e vinhas, que pareciam pertencer a todos e a ninguém. Em todo o caso, no estado de miséria em que tínhamos caído, não estávamos de humor para ponderar muito escrupulosamente.
Que deleite foi pressionar aqueles frutos deliciosos contra os nossos lábios e morder uvas e romãs frescas da vinha.
Não muito longe, perto de alguma erva fresca e musgosa, sob a sombra deliciosa de algumas árvores, descobri uma nascente de água fresca, na qual lavámos voluptuosamente os nossos rostos, mãos e pés.
Enquanto nos entregávamos às delícias dos prazeres recém-encontrados, uma pequena criança apareceu entre duas oliveiras frondosas.
"Ah", gritei, "um habitante deste país feliz."
O pequeno estava mal vestido, fraco e sofredor, e parecia terrivelmente alarmado com a nossa aparência. Seminu, com barbas emaranhadas, desgrenhadas e esfarrapadas, parecíamos supremamente mal-apresentados; e, a menos que o país fosse terra de bandidos, não era provável que alarmássemos os habitantes!
Justo quando o rapaz estava prestes a fugir, Hans correu atrás dele e trouxe-o de volta, apesar dos seus gritos e pontapés.
O meu tio tentou parecer o mais gentil possível e depois falou em alemão.
"Qual é o nome desta montanha, meu amigo?"
A criança não respondeu.
"Bom", disse o meu tio, com um ar de convicção muito positivo, "não estamos na Alemanha."
Ele fez então a mesma pergunta em inglês, língua da qual era um excelente estudioso.
A criança abanou a cabeça e não respondeu. Comecei a ficar consideravelmente intrigado.
"Será ele mudo?" gritou o Professor, que se orgulhava bastante do seu conhecimento poliglota de línguas, e fez a mesma pergunta em francês.
O rapaz apenas o encarou.
"Tenho de tentar forçosamente em italiano", disse o meu tio, encolhendo os ombros.
"Dove noi siamo?"
"Sim, diz-me onde estamos?" acrescentei impaciente e ansioso.
Novamente o rapaz permaneceu em silêncio.
"Meu rapaz, pretendes ou não falar?" gritou o meu tio, que começava a irritar-se. Sacudiu-o e falou outro dialeto da língua italiana.
"Come si noma questa isola?" — "Qual é o nome desta ilha?"
"Stromboli", respondeu o pequeno pastor raquítico, escapando de Hans e desaparecendo nos olivais.
Pensámos pouco nele.
Stromboli! Que efeito na imaginação produziram estas poucas palavras! Estávamos no centro do Mediterrâneo, em meio ao arquipélago oriental de memória mitológica, no antigo Strongylos, onde Éolo mantinha o vento e a tempestade acorrentados. E aquelas montanhas azuis, que se erguiam em direção ao sol nascente, eram as montanhas da Calábria.
E aquele poderoso vulcão que se erguia no horizonte sul era o Etna, o feroz e célebre Etna!
"Stromboli! Stromboli!" repetia para mim mesmo.
O meu tio fazia um acompanhamento regular aos meus gestos e palavras. Cantávamos juntos como um coro antigo.
Ah — que viagem — que viagem maravilhosa e extraordinária! Tínhamos entrado na terra por um vulcão e saído por outro. E este outro estava situado a mais de mil e duzentas léguas de Sneffels, daquele país lúgubre da Islândia lançado nos confins da terra. As mudanças espantosas desta expedição tinham-nos transportado para a mais harmoniosa e bela das terras terrenas. Tínhamos abandonado a região das neves eternas pela do verde infinito, e deixámos sobre as nossas cabeças o nevoeiro cinzento das regiões geladas para regressar ao céu azul da Sicília!
Após uma deliciosa refeição de frutos e água fresca, continuámos a nossa viagem para chegar ao porto de Stromboli. Dizer como tínhamos chegado à ilha dificilmente teria sido prudente. O caráter supersticioso dos italianos teria entrado em ação, e seríamos chamados de demónios vomitados das regiões infernais. Era, portanto, necessário passar por humildes e infortunados viajantes náufragos. Era certamente menos impressionante e romântico, mas era decididamente mais seguro.
À medida que avançávamos, podia ouvir o meu digno tio a resmungar para si mesmo:
"Mas a bússola. A bússola marcava muito certamente o norte. Este é um facto que não consigo explicar de modo algum."
"Bem, o facto é", disse eu, com um ar de desdém, "que não devemos explicar nada. Será muito mais fácil."
"Gostaria de ver um professor da Instituição Johanneum que fosse incapaz de explicar um fenómeno cósmico — seria de facto estranho."
E falando assim, o meu tio, seminu, a bolsa de couro à volta dos rins e os óculos sobre o nariz, tornava-se novamente o terrível Professor de Mineralogia.
Uma hora depois de deixar o olival, chegámos ao porto de San Vicenza, onde Hans exigiu o pagamento da sua décima terceira semana de serviço. O meu tio pagou-lhe, com muitos apertos de mão calorosos.
Naquele momento, se ele não partilhava exatamente a nossa emoção natural, permitiu que os seus sentimentos se soltassem o suficiente para se entregar a uma expressão extraordinária para ele.
Com as pontas de dois dedos, apertou suavemente as nossas mãos e sorriu.
CAPÍTULO 44
A VIAGEM TERMINADA
Esta é a conclusão final de uma narrativa que provavelmente não será acreditada nem mesmo por pessoas que se admiram com nada. Estou, contudo, armado em todos os pontos contra a incredulidade humana.
Fomos gentilmente recebidos pelos pescadores de Stromboli, que nos trataram como viajantes náufragos. Deram-nos roupas e comida. Após uma espera de quarenta e oito horas, a 30 de setembro, uma pequena embarcação levou-nos a Messina, onde alguns dias de deleitoso e completo repouso nos restauraram a nós mesmos.
Na sexta-feira, 4 de outubro, embarcámos no Volturne, um dos pacotes postais das Messageries Impériales da França; e três dias depois desembarcámos em Marselha, não tendo outra preocupação nas nossas mentes a não ser a da nossa preciosa, mas errática, bússola. Esta circunstância inexplicável atormentava-me terrivelmente. A 9 de outubro, ao anoitecer, chegámos a Hamburgo.
Qual foi o espanto de Martha, qual a alegria de Gretchen! Não tentarei defini-lo.
"Agora, Harry, que tu és realmente um herói", disse ela, "não há razão para que me deixes novamente."
Olhei para ela. Ela chorava lágrimas de alegria.
Deixo para ser imaginado se o regresso do Professor Hardwigg causou ou não sensação em Hamburgo. Graças à indiscrição de Martha, a notícia da sua partida para o interior da terra tinha-se espalhado por todo o mundo.
Ninguém queria acreditar — e quando o viram regressar em segurança, acreditaram ainda menos.
Mas a presença de Hans e muitos fragmentos dispersos de informação modificaram gradualmente a opinião pública.
Então o meu tio tornou-se um grande homem e eu, o sobrinho de um grande homem, o que, em todo o caso, é alguma coisa. Hamburgo deu um festival em nossa honra. Realizou-se uma reunião pública da Instituição Johanneum, na qual o Professor contou toda a história das suas aventuras, omitindo apenas os factos relacionados com a bússola.
Nesse mesmo dia, depositou nos arquivos da cidade o documento que tinha encontrado, escrito por Saknussemm, e expressou o seu grande pesar por circunstâncias, mais fortes que a sua vontade, não lhe terem permitido seguir o rasto do viajante islandês até ao centro da terra. Ele foi modesto na sua glória, mas a sua reputação apenas aumentou.
Tanta honra criou necessariamente para ele muitos inimigos invejosos. Naturalmente existiram, e como as suas teorias, apoiadas por certos factos, contradiziam o sistema da ciência sobre a questão do calor central, ele manteve as suas próprias visões tanto com a pena quanto com a palavra contra os sábios de todos os países. Embora eu ainda acredite na teoria do calor central, confesso que certas circunstâncias, até agora muito mal definidas, podem modificar as leis de tais fenómenos naturais.
No momento em que estas questões estavam a ser discutidas com interesse, o meu tio recebeu um rude golpe — um que sentiu muito. Hans, apesar de tudo o que podia dizer em contrário, deixou Hamburgo; o homem a quem devíamos tanto não nos permitiu pagar a nossa profunda dívida de gratidão. Ele foi tomado pela nostalgia; um amor pelo seu lar islandês.
"Farval", disse ele, um dia, e com esta curta palavra de adeus, partiu para Reykjavik, onde chegou em breve em segurança.
Estávamos profundamente ligados ao nosso bravo caçador de patos-eider. A sua ausência nunca fará com que seja esquecido por aqueles cujas vidas ele salvou, e espero, num dia não muito distante, vê-lo novamente.
Para concluir, posso dizer que a nossa viagem ao interior da terra causou uma sensação enorme em todo o mundo civilizado. Foi traduzida e impressa em muitas línguas. Todos os principais jornais publicaram excertos, que foram comentados, discutidos, atacados e apoiados com igual animação por aqueles que acreditavam nos seus episódios e por aqueles que eram totalmente incrédulos.
Maravilhoso! O meu tio desfrutou durante a sua vida de toda a glória que merecia; e foi-lhe até oferecida uma grande soma de dinheiro, pelo Sr. Barnum, para se exibir nos Estados Unidos; enquanto sou informado de forma credível por um viajante que ele pode ser visto em cera no Madame Tussaud's!
Mas uma preocupação roía-lhe a mente, uma preocupação que o tornava muito infeliz. Um facto permanecia inexplicável — o da bússola. Para um homem sábio ser confundido por tal fenómeno inexplicável era muito agravante. Mas o Céu foi misericordioso, e no final o meu tio ficou feliz.
Um dia, enquanto arrumava alguns minerais pertencentes à sua coleção, deparei com a famosa bússola e examinei-a atentamente.
Durante seis meses, tinha permanecido despercebida e intocada.
Olhei para ela com curiosidade, que em breve se tornou surpresa. Dei um grito alto. O Professor, que estava por perto, juntou-se a mim rapidamente.
"O que se passa?" gritou ele.
"A bússola!"
"O que tem?"
"Porque a sua agulha aponta para o sul e não para o norte."
"Meu caro rapaz, deves estar a sonhar."
"Não estou a sonhar. Vê — os polos estão trocados."
"Trocados!"
O meu tio colocou os seus óculos, examinou o instrumento e saltou de alegria, fazendo tremer a casa toda.
Uma luz clara caiu sobre as nossas mentes.
"É isto!" gritou ele, assim que recuperou o uso da fala, "depois de termos passado o Cabo Saknussemm, a agulha desta bússola apontou para o sul em vez de apontar para o norte."
"Evidentemente."
"O nosso erro explica-se agora facilmente. Mas a que fenómeno devemos esta alteração na agulha?"
"Nada mais simples."
"Explica-te, meu rapaz. Estou em espinhos."
"Durante a tempestade, sobre o Mar Central, a bola de fogo que magnetizou o ferro na nossa jangada, virou a nossa bússola de pernas para o ar."
"Ah!" gritou o Professor, com uma gargalhada alta e sonora, "foi um truque daquela eletricidade inexplicável."
A partir dessa hora, o meu tio foi o mais feliz dos homens sábios, e eu o mais feliz dos mortais comuns. Pois a minha linda rapariga de Virland, abdicando da sua posição de pupila, tomou o seu lugar na casa da Konigstrasse na dupla qualidade de sobrinha e esposa.
Dificilmente precisamos de mencionar que o seu tio era o ilustre Professor Hardwigg, membro correspondente de todas as sociedades científicas, geográficas, mineralógicas e geológicas das cinco partes do globo.
Fim da Voyage Extraordinaire