UM ROMANCE DE BILLY-GOAT HILL
Por Alice Hegan Rice
Autora de Mrs. Wiggs of the Cabbage Patch, Lovey Mary, Sandy, Etc.
Com Ilustrações de George Weight
LISTA DE ILUSTRAÇÕES
“O senhor acredita no amor, Doutor?”
O Coronel recuou sobre os joelhos e lançou um olhar fulminante a Morley
Houve um estampido agudo, um gemido abafado, e então uma queda pesada
Ela segurou-o contra a chama e observou-o reduzir-se a cinzas na lareira
Maria começou a chorar e esqueceu-se de sacudir o Pensionista
A Sra. Sequin fez uma pausa com a mão no corrimão
“Foi uma grande injustiça que lhe fiz, Don; pode perdoar-me?”
“Diga-me depressa! Como sabe sobre o tiroteio?”
CAPÍTULO I
Era primavera no Kentucky, uma primavera sulista, alegre e irresponsável, que irrompe impetuosamente pelas estradas e caminhos, alheia a possíveis geadas e impossíveis colheitas. Um encanto de um verde terno e novo envolvia o mundo, e o ar estava doce com o odor das coisas jovens e em crescimento. O rio castanho, riscado de verde onde as correntes mais frescas dos riachos desaguavam, circundava a base de uma longa colina que dominava a paisagem em todas as direções.
Apesar do fato de ferrovias impertinentes estarem começando a rastejar ao redor de seus pés, e dos detritos da cidade adjacente estarem sendo gradualmente depositados em sua base, ela, no entanto, erguia seus ombros de granito orgulhosa e desafiadoramente contra o céu.
Desde os primeiros dias em que a colina e as ricas terras agrícolas ao redor foram concedidas ao velho pioneiro William Carsey, uma geração de Carseys após a outra viveu na imponente mansão antiga que agora permanecia como a última fortaleza contra a invasão da cidade. Cornijas arqueadas e paredes descoloridas não haviam dissipado a atmosfera de contentamento que envolvia o lugar, um efeito realçado pela ampla varanda frontal que corria em linha reta por toda a sua fachada, como um sorriso largo e complacente. Algumas casas antigas, como velhos galantes, carregam um ar inconfundível de prosperidade passada, de casos passados. O romance arrastou suas vestes perto delas e a fragrância permanece.
Thornwood, surrado e negligenciado, ainda podia se dar ao luxo de cochilar ao sol e sorrir sobre o passado. Lembrava-se da época em que sua hospitalidade era a vanglória da região, quando seus estábulos abrigavam a melhor linhagem de cavalos do Estado; quando sua defumadora, agora gemendo sob uma pilha de madeira, abrigava paletas de porco, lados de toucinho e longas fileiras de suculentos presuntos curados no açúcar; quando o porão aquartelava batalhões de garrafas cobertas de teias de aranha que permaneciam em sentido nas prateleiras baixas. Era uma casa madura em experiência e suave em memórias, uma casa sábia, antiga e sofisticada, que tivera seus dias, desfrutara deles e agora, sem ambições e sem lutas, acomodara-se a uma velhice pacífica.
Nesta tarde de domingo em particular, o Coronel Bob Carsey, o terceiro de seu nome, sentava-se na varanda em uma cadeira de balanço de mogno gasta pelo tempo, preparando para si um mint julep. Era um cavalheiro corpulento e idoso e, tal como a cadeira de balanço, estava gasto pelo tempo e possuía um tom levemente acaju. Seus traços, tendo há muito desistido da luta contra a carne invasora, eram agora apenas leves depressões e saliências suaves, com exceção dos olhos, que ainda brilhavam desafiadoramente, como luzes cintilantes no fim de um corredor. Atravessado a seus pés, com o focinho sobre as patas, jazia um cachorro, e ao seu redor estava espalhada uma profusão de apetrechos de pesca.
O Coronel, esmagando cuidadosamente a hortelã entre seus dedos grossos, mexeu-a com o açúcar no fundo de seu copo alto; então, descansando a mistura no braço largo da cadeira de balanço e sem virar a cabeça, elevou a voz em um comando estentórico:
“Jimpson!”
Nenhuma resposta. Ele virou a cabeça ligeiramente para a esquerda, na direção geral das cabanas dos negros cujos telhados podiam ser vistos através das árvores, e enviou outra convocação que ecoou pelos arbustos:
“Jimpson!”
Novamente ele esperou, e novamente não houve resposta. O Coronel suspirou resignado e, espalhando um grande lenço com bordas sobre seus traços obliterados, juntou as mãos gordas com alguma dificuldade em torno de sua cintura ampla e dormiu. Quando acordou, começou exatamente de onde tinha parado, apenas desta vez virando a cabeça ligeiramente para a direita e enviando seu comando em direção à ala da cozinha.
Uma porta bateu em algum lugar à distância e, logo, um arrastar de pés foi ouvido no corredor, e um pequeno e alerta negro idoso apresentou-se ao seu senhor com um ar de alegre conciliação.
O Coronel não virou a cabeça; ele olhou com um ar de grande mágoa para o topo das acácias, segurando seu copo enquanto este descansava no braço da cadeira de balanço.
“Jimpson”, começou ele, depois que o culpado sofreu seu silêncio por alguns minutos.
“Ora, Cunnel”, começou Jimpson nervosamente. Ele evidentemente havia ensaiado esta cena no passado.
“Apenas responda às minhas perguntas”, insistiu o Coronel. “Esta é a minha casa?”
“Yas, senhor, mas Carline, ela...”
“E você é meu negro?”, persistiu o Coronel lamentavelmente.
“Yas, senhor; mas veja bem, Carline...”
“E não tenho eu, há vinte anos”, persistiu o Coronel, “tomado um mint julep às duas e meia nas tardes de domingo?”
“Yas, senhor, eu estava vindo...”
“Então você não considera um pedido desarrazoado que um cavalheiro peça ao seu próprio negro, em sua própria casa, para lhe trazer um pequeno pedaço de gelo?” O senso de mágoa do Coronel estava se tornando tão avassalador que o infrator poderia ter sido esmagado pelo remorso se uma risada não tivesse feito ambos olharem para cima.
Parada na porta estava uma jovem em um traje de montaria curto e um pequeno chapéu de feltro vermelho que estava preso descuidadamente ao seu cabelo brilhante e despenteado. Seus olhos eram escuros e redondos como os de uma criança, e dançavam de objeto em objeto como se estivessem ansiosos por não perder nenhuma das coisas boas que o mundo tinha a oferecer. A alegria de viver e a juventude radiante pareciam brilhar em seu rosto e figura.
“Qual é o problema, Squire Daddy?”, perguntou ela, fazendo uma pausa no limiar. “Zangado de novo?” A cabeça do Coronel contraiu-se em sua direção, mas ele a manteve rígida.
“Bem, por favor, não mate o Tio Jimpson até que ele encontre minhas luvas. Não sei onde as tirei.”
“Yas ’m, Miss Lady”, Jimpson saudou a diversão. “Vou encontrá-las assim que pegar o gelo do seu Paw.”
“Oh, o Papai vai esperar, não vai, Dad? Estou com pressa.”
Por um momento, Jimpson e o Coronel se entreolharam, então o olhar do Coronel mudou.
“Vou buscar o gelo para o senhor no meu caminho de volta”, sussurrou Jimpson de forma tranquilizadora. “Imagino que aquela menina esteja com pressa.”
A jovem em questão não demonstrou nenhuma aparência de pressa enquanto se empoleirava no braço da cadeira de seu pai e estendia o cadarço de uma bota para que ele amarrasse.
“Vai pescar, Dad?”, perguntou ela.
“Vou”, disse o Coronel, lutando para fazer um laço de duas voltas. “Noah Wicker e eu vamos descer abaixo da barragem do moinho. Quer vir junto?”
“Não posso. Vou cavalgar.”
“Isso é bom. Com quem?”
“Com Don Morley.”
O sorriso que retornara ao rosto do Coronel durante esta conversa contraiu-se subitamente, deixando sua boca como um pequeno botão redondo de desaprovação.
“O que diabos ele está fazendo aqui, afinal; por que ele não volta para a cidade, de onde ele veio?”
“Don?”, Miss Lady fingiu arrumar os poucos fios de cabelo que adornavam a testa dele. “Ora, ele está ficando na casa dos Wickers enquanto procura uma fazenda. Aqui está um fio de cabelo grisalho, Dad! Eu o arrancaria, mas há dois a mais do outro lado agora do que deste.”
“Comprando uma fazenda, é?”, o Coronel tornou-se de um tom acaju mais profundo. “Bem, este lugar não está à venda. Acho que ele poderia encontrar algo melhor para fazer com seu tempo do que ficar rondando por aqui. Há duas semanas não consigo sentar nesta varanda por cinco minutos sem tê-lo sob meus pés! Qual é o sentido de ele vir tão seguido?”
Miss Lady pegou-o pelas orelhas e virou seu rosto irado para o seu próprio.
“Ele vem me ver!”, anunciou ela, enfatizando cada palavra com um aceno. “Ele gosta de cavalos, de cachorros e de mim, e eu gosto de cavalos, de cachorros e dele. Mas eu também gosto do senhor, Dad.”
O Coronel recusou-se a ser seduzido por tais lisonjas.
“Falarei com ele quando ele chegar. Ele não precisa pensar que, só porque é um sujeito da cidade, pode levar uma filha minha correndo por todo o campo em uma tarde de domingo!”
“Ora, Dad, isso é absurdo! O senhor mesmo não me leva quase todo domingo? E eu não vou com Noah e os rapazes Brooks sempre que gosto?”
“Bem, você não pode ir hoje.”
“Mas este é o último dia de Donald. Ele volta para a cidade hoje à noite e pode ir para o exterior na próxima semana para ficar por muito, muito tempo.”
O Coronel baixou o punho sobre os joelhos: “Não dou a mínima para onde ele vai. É de você que estamos falando. Você tem que me prometer não ir com ele esta tarde.”
“Mas por quê?”
“Porque”, argumentou o Coronel fracamente, “porque é domingo.”
Miss Lady sentou-se por um momento olhando fixamente para frente e houve uma contração em seus lábios que poderia ter passado por uma imitação cômica dos de seu pai, se não tivesse se suavizado em um sorriso.
“E se eu não prometer?”, disse ela.
A mão livre do Coronel agarrou o braço da cadeira, e ele parecia ter toda a intenção do mundo de ser firme.
“Veja, se é errado eu cavalgar no domingo”, continuou Miss Lady, “é errado o senhor ir pescar. Que tal ambos nos reformarmos e ficarmos em casa?”
Os olhos do Coronel voaram involuntariamente para sua estimada tralha, pronta para a ação no degrau superior, então voltaram com um estalo para o topo de uma acácia.
Miss Lady apertou seu braço e riu: “Claro que o senhor não quer ficar em casa nesta tarde gloriosa, e nem eu! Agora, está decidido. Lá vem Noah; vou buscar o seu almoço.”
Não foi, de forma alguma, a primeira vez que a filha da casa dos Carsey marcou um ponto em uma disputa com seu pai. Sua sujeição começara naquela manhã, há quase vinte anos, quando ela fora colocada em seus braços, um embrulho de desamparo sem mãe, sem sequer um nome próprio para começar a vida.
Aquela questão de um nome o desconcertara. Ele consultara todos os vizinhos, considerara todas as possibilidades no final do dicionário e até recorrera às lápides no cemitério antigo, mas o medo persistente de que, nos dias que viriam, ela pudesse não gostar de sua escolha, impediu-o de uma decisão final. Enquanto isso, ela era “A Pequena Dama”, depois “Lady”, e finalmente, através dos negros, tornou-se “Miss Lady”. Então, o Coronel cedeu fracamente na questão, decidindo esperar até que ela tivesse idade suficiente para nomear a si mesma. Quando esse momento chegou, ela teimosamente recusou-se a trocar seu apelido por um verdadeiro. Um esforço sem entusiasmo foi feito para atrelá-la a “Elizabeth”, mas ela recusou-se categoricamente a responder ao apelido.
Ela e Noah Wicker, o filho de um fazendeiro vizinho, correram soltos pela grande propriedade, e era Miss Lady quem invariavelmente chegava primeiro ao topo do pessegueiro, ou ousava entrar mais longe no riacho. Durante todos os dias de verão, suas pequenas pernas nuas corriam ao lado das pernas castanhas e mais robustas de Noah. Ela podia manejar uma vara de pescar tão bem quanto seu pai, podia cavalgar, dirigir e atirar, e estava em termos de amizade fácil com cada vizinho que passava pela crista de Billy-goat Hill.
A questão da educação fora a primeira ruptura séria nessa existência idílica. Depois de brincar pela escola rural, ela teve várias governantas jovens e bonitas, todas as quais sucumbiram aos encantos dos rapazes rurais vizinhos e abandonaram sua jovem pupila para começar seus próprios lares. Então veio o sábio conselho de fora e, depois de muitas lágrimas, ela foi enviada para um internato na cidade.
As professoras mais velhas da Miss Gibbs’ Select School for Young Ladies ainda lembram de suas provações durante o único ano em que Miss Lady esteve matriculada. Ela era bonita, sim, e inteligente, e adorável, oh, sim! E, neste ponto, geralmente seguiam-se várias histórias de sua generosidade e bondade impulsiva; “mas”, a conclusão sempre dizia, “uma criaturinha tão estranha e selvagem, tão intolerante às convenções, no vestir, na educação, na religião. Completamente impossível em um seminário para moças”.
Após um período de aprisionamento, Miss Lady escapou de volta para o mundo ao ar livre e implorou ao seu devotado “Dad” que a deixasse crescer na ignorância, protestando apaixonadamente que não queria rolinhos na cabeça, saltos nos sapatos e barbatanas na cintura. Que ela não se importava se X mais Y igualava Z ou não, e que ir à igreja e dizer a mesma coisa uma dúzia de vezes afastava todas as ideias de religião de sua cabeça. Ela estudaria em casa, declarou, qualquer coisa, tudo o que ele sugerisse, desde que pudesse fazê-lo à sua maneira, ao ar livre.
Então, o Coronel, profundamente perplexo, obteve para ela os livros didáticos necessários, e ela mergulhou em seu método original de autoeducação. Ela geralmente travava suas batalhas matemáticas perto do rio, usando um graveto na areia para seus cálculos; a história ela estudava na forquilha de um velho olmo, declamando os episódios mais dramáticos em voz alta, para a edificação dos pardais.
Nos longos meses de inverno, seu refúgio favorito era uma pequena sala inutilizada sobre o corredor frontal, tradicionalmente conhecida como a biblioteca. Sua única desculpa possível para o nome era sua única peça de mobiliário, uma escrivaninha surrada contendo uma pequena coleção de volumes mofados que faziam jus ao gosto de algum Carsey há muito falecido.
Miss Lady descobrira a biblioteca em seus dias de bonecas de papel, e impiedosamente recortara pequenas damas de chapéu com saias com babados de revistas que datavam do primeiro ano de publicação. Mais tarde, ela descobrira que algumas das damas tinham piadas nas costas, ou melhor, pedaços de piadas, o restante das quais ela procurava nas revistas antigas. Foi um passo fácil das revistas para os livros, e com o tempo ela os conhecia todos, desde a pequena cópia gasta de Horácio no canto superior esquerdo até o gordo Dom Quixote no canto inferior direito.
Nesta pequena sala negligenciada, com seus festões de teias de aranha, seu cheiro de mofo e seu senso de coisas e pessoas antigas e esquecidas, ela se escondia com um bolso cheio de maçãs, para estudar e ler por horas.
O Coronel fizera sua parte, e ela estava determinada a fazer a dela; por três anos ela persistiu firmemente, devorando as coisas que conseguia entender e alegremente pulando as que não conseguia, extraindo enquanto isso uma vasta quantidade de prazer de cada dia que passava. Pois a coisa que diferenciava Miss Lady do resto de seus semelhantes era que ela estava geralmente feliz. Ela gostava de levantar de manhã e de ir para a cama à noite, uma peculiaridade por si só suficientemente grande para individualizá-la. Ela cumprimentava cada nova experiência com entusiasmo e conseguia extrair a maior cota possível de felicidade da menor e mais insignificante ocasião.
Enquanto ela ia cantando pelo corredor, o Coronel tentava franzir a testa sobre seus óculos, mas era apenas parcialmente bem-sucedido. Ela era uma visão satisfatória demais com seu cabelo brilhante, seus olhos e sua figura ágil e flexível, cujo movimento todo denotava aquela liberdade rápida e inconsciente de corpo peculiar às crianças e àqueles favorecidos pelos deuses, que nunca envelhecem.
O jovem alto e desajeitado que chegara a este ponto à varanda seguiu o olhar do Coronel e, então, sem falar, sentou-se nos degraus e juntou as mãos em torno dos joelhos. O jeito desajeitado de Noah Wicker, por mais evidente que fosse aos outros, era evidentemente uma questão de pouca importância para ele. Ele aparentemente aceitara a companhia de braços e pernas incontroláveis sem questionamentos e sem constrangimento. Seu cabelo louro e curto subia direto de uma testa alta e larga, e crescia em mechas quadradas na frente de suas orelhas. Seus olhos, pequenos e firmes, examinavam o mundo com profunda indiferença.
Quando Miss Lady desapareceu, o Coronel virou-se para ele subitamente:
“O que há sobre esse jovem rico na sua casa? Quem é ele, afinal?”
“Morley?”, Noah cruzou as pernas deliberadamente. “Ora, ele é cunhado do Sr. Sequin.”
“Não Basil Sequin, o presidente do Banco do Povo! Você não me diga!” O Coronel fez uma pausa por um momento para digerir este fato, então continuou: “Determinado a cultivar, ouvi dizer; quer que seu pai procure um lugar.”
Como isso não estava na forma de uma pergunta, Noah conservou suas energias.
“Não deve valer um centavo, garanto”, continuou o Coronel, com um olho vigilante em Noah para negação ou confirmação, mas Noah foi evasivo. “Quando um sujeito chega aos vinte e três anos e não consegue encontrar nada melhor para fazer do que correr pelo campo gastando seu dinheiro e brincando com as garotas, há um parafuso solto em algum lugar. O que ele sabe sobre pecuária?”
“Diz que tem lido sobre o assunto.”
“Bobagens!”, rugiu o Coronel. “Você não pode aprender a cultivar em um livro! O que ele sabe sobre cavalos?”
“Oh! Ele entende de cavalos, tudo bem”, Noah sorriu ambiguamente. “Você e eu não poderíamos ensiná-lo nada sobre cavalos.”
“Ele sabe atirar?”
“Não acerta a porta de um celeiro.”
O Coronel soltou um suspiro profundo, drenou as últimas gotas de seu copo e, então, inclinou-se para frente, confidencialmente:
“Noah Wicker, você gosta daquele jovem?”
“Gostar dele?”, Noah olhou para cima, surpreso. “Ora, todo mundo gosta de Don Morley.”
“Eu não”, disse o Coronel ferozmente. “Lá vem ele agora. Gostaria que você desse uma olhada nisso!”
Um jovem impetuoso em traje de montaria impecável, montado em um alazão de cauda cortada, saltou temerariamente uma cerca onde não havia portão e veio galopando pelo trecho favorito de grama azul do Coronel.
“Muito desculpe por ter cortado caminho, Coronel!”, chamou ele em tons que demonstravam pouca contrição. “Descuidei-me como de costume e me perdi nos juncos. Espero não ter feito a Miss Lady esperar?”
O Coronel levantou-se e estendeu uma mão de boas-vindas. Um verdadeiro habitante do Kentucky pode cometer um assassinato e ainda ser um cavalheiro, mas falhar na hospitalidade é perder até seu próprio autorrespeito.
“Minha filha, Sr. Morley, estará aqui em breve”, anunciou ele com grande formalidade.
“E como vai, Mike?”, continuou o jovem Morley, curvando-se para acariciar o cachorro; “não tive a intenção de ignorar você, meu velho, pela minha palavra, não tive.”
O cachorro, uma fera peluda, com olhos pequenos e lamentosos olhando de sob uma franja de pelos eriçados, expressou seu apreço por esta atenção com toda a emoção que um toco de cauda permitiria.
“Está um dia magnífico!”, continuou o visitante com entusiasmo, limpando os pulsos e a testa e jogando o cabelo para trás. “Se eu não fosse para a cidade hoje à noite, pediria ao senhor para me levar para pescar, Coronel. Olá! Que tipo de molinete é esse?”
Ora, o artigo que atraíra a atenção acontecia de ser uma invenção do Coronel, algo em que ele vinha trabalhando há muito tempo, então ele não pôde resistir a explicar suas qualidades únicas.
“Bem, serei enforcado!”, disse Morley, virando-o de um lado para o outro com admiração. “Se isso não é a coisa mais inteligente que já vi. Este pequeno parafuso regula a folga, não é? Sua mente jurídica entende disso, Wick?”
“Foi um grande trabalho fazer isso encaixar”, disse o Coronel, lisonjeado apesar de si mesmo. “Levou-me a maior parte de uma semana para decifrar aquele ponto.”
“Uma semana!”, exclamou Morley. “Teria me levado meses! Oh! lá está ela!”, e, pelo olhar muito ardente que saltou em seu rosto e a presteza com que ele se levantou, poderia ter sido duvidado se sua mente estava totalmente na questão em discussão.
Miss Lady cumprimentou-o com uma franqueza quase masculina, mas houve um rubor inconfundível sob o bronzeado suave de sua bochecha que não escapou ao olho vigilante do Coronel.
“Aqui está, Dad! aqui está, Noah!”, disse ela, jogando um pequeno pacote para cada um; “sanduíches e ovos cozidos para dois.”
“Colocou o sal nos ovos?”, perguntou o Coronel, tendo tido experiência com seus almoços.
“Acredito que sim. Abra o seu e veja, Noah. Diga, papai querido!” ela mergulhou sobre ele por trás, passando um braço ao redor de seu pescoço enquanto ele se ajoelhava na varanda para recolher seus anzóis e linhas, “você vai me deixar montar no Prince, só desta vez, não vai?”
O Coronel ofegou, em parte por estrangulamento e em parte por espanto.
“Prince!” exclamou ele. “Bem, creio que não! Aquele potro mal está domado para a sela. Ele derrubou Jimpson na semana passada.”
“Bem, eu não sou Jimpson. Por favor, papai, só desta vez.”
“Se esse é o bichinho de que Wick estava me falando”, disse Morley, “certamente não vamos deixar você subir nele.”
O Coronel recuou sobre os joelhos onde estava ajoelhado na varanda e encarou Morley.
“A quem você se refere com esse ‘vamos’?”
“Ao partido conservador do qual eu, por uma vez, sou membro. Por tudo o que ouço dizer daquele potro, nenhuma garota conseguiria dominá-lo.”
“Você está absolutamente enganado, senhor! Ensinei minha filha a montar a cavalo antes de ensiná-la a andar. Dominá-lo? É claro que ela pode dominá-lo! Jimpson!” rugiu ele ao concluir, “coloque a sela de lado no Prince!”
CAPÍTULO II
A estrada de Cane Run estendia-se reta à frente, ora branca sob a luz plena do sol, ora salpicada de pequenas sombras dançantes dos galhos entrelaçados acima, recém-vestidos com sua roupagem de verde. Violetas brancas e roxas espreitavam dos cantos da cerca, e acima, os pássaros faziam alvoroço nos galhos.
Dois jovens, corados e sorridentes, puxaram as rédeas e olharam um para o outro. Nos olhos de cada um havia um desafio.
“Vou apostar uma corrida com você até o moinho!” gritou Miss Lady, puxando sua rédea. “Não comece até que eu dê a ordem. Agora, vá!”
Dispararam através dos campos sorridentes e iluminados pelo sol, impetuosos e jovens demais, e gloriosamente livres, para desperdiçar um pensamento naquela roda inexorável da vida, sobre a qual, mais cedo ou mais tarde, os mais irresponsáveis devem quebrar suas asas. Seguiram adiante, pescoço a pescoço, o galope transformando-se em corrida. Passaram pelo ferreiro, pelo velho moinho que deveria ter sido o objetivo, pela longa ponte coberta, sobre a colina e de volta à estrada plana onde ainda seguiam lado a lado.
E perto deles, com a cabeça erguida e a crina ao vento, vinha outro corcel, livre, irresponsável, sem rédeas, invisível. Era o Romance, galopando em seu rastro; o Romance, cujas batidas de casco faziam seus pulsos dançarem em uníssono, cujo sopro em suas faces os fazia rir de alegria diante do vento.
Estavam quase chegando à cidade agora, tendo alcançado aquele subúrbio desleixado que dera seu nome plebeu à outrora aristocrática vizinhança. Nuvens de poeira giravam em seu rastro, e pedras voavam para a direita e para a esquerda sob os cascos dos cavalos; homens em carroças puxavam suas parelhas para o lado da estrada para deixar o par louco passar; cães disparavam de portas escuras, latindo furiosamente.
De repente, assim que se aproximaram do entroncamento ferroviário, o apito agudo de uma locomotiva fez Prince empinar no ar. Donald ergueu-se nos estribos e fez um movimento frenético para agarrar a cabeça do cavalo, mas, mesmo ao errar, ouviu o sinal estridente de um trem que se aproximava e viu os portões imediatamente à frente deles descendo. Instantaneamente, lançou-se para fora da sela e saltou para a cabeça de Prince. O cavalo, quase sob o nariz da locomotiva, empinou freneticamente, desviou-se e então parou trêmulo, enquanto Miss Lady habilmente soltava sua saia do pomo da sela e saltava para o chão.
Em um segundo, Don estava ao lado dela.
“Você se machucou?” gritou ele, segurando o braço dela com a mão livre e olhando ansiosamente para o rosto dela.
“Nem um pouco. Quem ganhou?” perguntou ela com um pequeno suspiro na voz.
“Meu Deus! Você foi corajosa! Se alguma coisa tivesse acontecido com você!” a mão dele apertou-se no pulso dela, e ele prendeu a respiração bruscamente.
O trem de carga da tarde passou pesadamente, e eles ficaram próximos um do outro com o sopro quente da locomotiva em seus rostos. O cabelo dela balançou sobre o rosto dele e ele podia sentir o corpo dela tremendo contra seu ombro. Nenhum dos dois parecia estar ciente do fato de que ele ainda segurava a mão dela e que os cavalos estavam puxando suas respectivas rédeas.
À medida que o trem passava estrondosamente e os portões subiam, Miss Lady virou-se rapidamente e começou a prender o cabelo solto.
“Por um triz, senhorita”, comentou um homem ruivo com uma bandeira, apressando-se em cruzar os trilhos e juntando-se a uma velha vendedora de maçãs e dois meninos pequenos que constituíam uma plateia interessada.
“Eu vi vocês vindo e teria deixado passar, só que estou substituindo neste trabalho e não estava a fim de correr riscos extras.”
“Aqui, garoto!” gritou Donald, “segure meu cavalo. A cilha quebrou; vou ter que fazer outro furo na correia.”
A palavra “garoto”, sendo um termo genérico, foi prontamente apropriada por cada um dos jovens como se referindo a si mesmo, e seguiu-se uma luta feroz na qual o maior saiu vitorioso.
“Skeeter é o tal”, anunciou o bandeirinha, um árbitro auto-nomeado. “Saia da frente aí, Chick, e dê ao cavalheiro uma chance de ver o que ele está fazendo.”
Chick, um garoto de cabeça grande e corpo pequeno, emitiu um som gutural ininteligível na garganta e permaneceu onde estava, evidentemente considerando de suma importância que ele visse o que o cavalheiro estava fazendo.
Foi com alguma dificuldade que o novo furo na correia foi feito e, para prender a fivela com mais firmeza, Don deu vários golpes secos com o cabo de seu chicote de montaria. No último, o botão de prata voou do cabo e rolou para o acostamento.
Num instante, os meninos foram atrás dele, o mais velho tendo abandonado seu posto sem remorso quando uma questão de espólio estava envolvida. Eles se agarraram na poeira da estrada, muito antes de alcançarem o prêmio, e com braços e pernas entrelaçados rolaram em direção a ele.
Chick estava por baixo quando chegaram, mas ele afrouxou o aperto na garganta de Skeeter e lançou uma mão pequena e suja que se fechou sobre o tesouro. Num instante, Skeeter agarrou o punho cerrado e estava forçando-o a abrir, quando uma terceira pessoa entrou na briga.
“O pequeno pegou!” gritou Miss Lady indignada; “ele pegou primeiro! Dê a ele agora mesmo!”
“Que eu seja condenado se eu der!” gritou Skeeter, levado à fúria pelo combate.
“Que eu seja condenada se você não der”, disse Miss Lady, igualmente determinada.
A escaramuça foi feroz, mas curta, e quando Don chegou até eles, Miss Lady havia devolvido os despojos ao legítimo vencedor e estava ajudando o inimigo derrotado a limpar a poeira de seus olhos.
“Bem, parceiro”, disse Donald a Chick, “o que você tem a dizer à jovem por ter ficado do seu lado?”
“Ele não tem nada a dizer”, disse Skeeter com agilidade. “Ele é mudo. Ninguém além de mim consegue entendê-lo. Ele diz obrigado, madame.”
Como Chick não emitiu som algum, era evidente que Skeeter dependia da telepatia.
“Ele é um bebê de lata de lixo”, continuou Skeeter, ansioso por transmitir informações; “ele não tem família de verdade, e já foi ao Tribunal de Menores duas vezes; uma por pegar carona em trens de carga e outra por nós dois quebrarmos janelas.”
Todos os olhos se voltaram para o herói, que imediatamente se concentrou no cabo do chicote. Ele era pequeno, excessivamente magro e excessivamente sujo. As coisas mais notáveis nele eram seus olhos grandes e melancólicos, e seu sorriso largo que mostrava onde seus dentes estavam por nascer. Sobre seu peito estreito, um casaco esfarrapado e sem cotoveleiras era mantido junto por um único botão, enquanto um par de pernas nuas e finas terminava, respectivamente, em um sapato preto alto e um bronzeado de corte baixo, ambos bem ventilados nos calcanhares.
“Eu não acredito que ele seja muito mau”, sorriu Miss Lady, pegando o queixo dele com a mão e virando seu rosto para o dela. “Você é, Chick?”
Ele fez um som gutural estranho na garganta, mas, como seu intérprete oficial estava naquele momento absorto nos cavalos, não pôde se fazer entender.
“Deve ser terrível para um menino não poder fazer perguntas!” continuou ela, olhando para ele, e então, vendo algo em seu rosto que outras pessoas não notavam, ela subitamente o puxou para si e lhe deu um pequeno aperto materno.
A cavalgada de volta foi um tanto lenta, pois o acidente, por mais leve que fosse, havia deixado os cavaleiros sóbrios e havia, além disso, um assunto em discussão que exigia considerável e sincera exortação de um lado e muita evasão provocante do outro.
“Tudo depende de você”, dizia Donald, enquanto subiam a última colina. “Cropsie Decker parte para a costa amanhã, mas o navio não zarpa por dez dias. Devo ir ou ficar?”
“Mas você estava tão furioso com isso duas semanas atrás que mal conseguia esperar para partir.”
“Muitas coisas podem acontecer em duas semanas. Devo ficar?”
“O que sua família pensa disso?”
“Minha família? Oh, você quer dizer minha irmã. Ela não tem o hábito de perder o sono por causa dos meus assuntos. Ela provavelmente diria para eu ir. Estou um tanto impopular com ela agora, porque não aprovo este caso entre minha sobrinha Margery e Fred Dillingham. Imagino que ela ficaria bastante aliviada em me tirar do caminho. De fato, todos dizem para eu ir, exceto o Doutor Queerington. Ele é nosso primo, costumava ser meu professor de inglês na universidade. Ele sempre nutriu a ilusão de que eu sei escrever. Quer que eu me estabeleça em algum lugar no campo e leve isso a sério.”
“Você não quer dizer John Jay Queerington, o autor?” Miss Lady disse ansiosamente. “Ele é realmente seu primo? Papai foi aluno do pai dele e me contou tanto sobre ele que, sem nunca tê-lo visto, eu poderia escrever um livro sobre o assunto.”
“Um grande homem à sua maneira, uma autoridade em sabe Deus quantos assuntos, e ainda assim mal ganha dinheiro suficiente para cuidar de seus filhos.”
“Mas pense nos livros que ele está dando ao mundo! Ele disse ao papai que estava em seu décimo terceiro volume!”
“Sim, ele nada a maior parte do tempo em um mar de declinações, conjugações e sintaxes, em grego, latim e inglês.”
“Eu acho ele magnífico!” gritou Miss Lady, tentando manter Prince apenas no passo. “Adoro pessoas que fazem grandes coisas e que significam algo.”
“Tudo o que suponho ser um reflexo sobre um pobre diabo que não faz coisas e não significa nada?”
“Eu nunca disse isso.”
“Veja bem”, disse Donald com capricho, “por duas semanas você tem me convencido a não fazer coisas. Quando penso em todas as coisas que prometi a você, sinto meu cabelo ficando branco. Depois de ter me polido nos ‘nãos’, você não vai começar com os ‘sins’, vai?”
“Com certeza vou. O Doutor Queerington realmente acha que você poderia ser um escritor?”
“Ele tem me perseguido com isso desde que eu era um jovem. Estou sempre rabiscando alguma coisa, mas não dá em nada. Além disso”, acrescentou ele com um sorriso, “vou ser fazendeiro.”
Miss Lady jogou a cabeça para trás e riu:
“Ele quer ser fazendeiro E com os fazendeiros ficar A semente de feno na testa E um ancinho na mão.”
“Oh! Don Morley, em um minuto é o Oriente, no próximo é literatura e, no outro, uma fazenda; você não sabe o que quer!”
“Sim, eu sei, sim”, ele pegou a rédea dela e aproximou os cavalos. “Sei perfeitamente o que quero, e você também sabe. Eu não te disse quatro vezes por dia durante duas semanas?”
Ela olhou para o horizonte distante, onde uma massa de nuvens formidáveis estava se formando:
“Oh, todos nós achamos que queremos coisas em um dia e esquecemos delas no próximo. A vida é feita de desejos que parecem grandes e vitais em um minuto, e pequenos e absurdos no próximo. Acho que, no final, recebemos o que é melhor para nós.”
“Até agora não!” disse Don ferozmente. “Recebi o que havia de pior para mim e fiz o pior uso disso.”
Eles haviam entrado na alameda agora e estavam levando os cavalos até o estribo onde Jimpson esperava para pegá-los.
“Não guarde minha égua”, ordenou Donald. “Tenho que voltar para a cidade hoje à noite. Há chuva naquelas nuvens; eu deveria estar partindo agora mesmo.”
Mas sua pressa evidentemente não era imperativa, pois ele seguiu Miss Lady pelos caminhos estreitos e sinuosos, entre um emaranhado de arbustos e vinhas, até o antigo jardim de flores. A espireia estava apenas começando a exibir suas longas e emplumadas plumas brancas, e os lilases balançavam, brancos e roxos, na brisa.
“Aqui está a primeira rosa silvestre!” gritou Miss Lady, correndo para um canto do antigo muro de pedra; “a ideia de que ela se atreva a aparecer tão cedo!”
Ele pegou a frágil florzinha e sorriu para ela, meio intrigado: “É engraçado”, disse ele sem jeito, “você me dar isso. Sabe, foi no que você me fez pensar, a primeira vez que te vi — em uma rosa silvestre. Não foi, Mike?”
Mike, que estivera sonhando a tarde toda na varanda, levantara-se relutantemente enquanto passavam e os seguira. Ele tinha um andar lento e torto, e sua língua pendia do lado da boca. Era evidentemente um sacrifício para ele acompanhá-los, mas o dever era o dever.
“Você é um cão anjo! Venha aqui para sua dona!” ordenou Miss Lady, enquanto ela e Donald se acomodavam na velha rede de ripas de barril, que balançava sob os lilases desde que o Coronel era um menino.
Mas Mike passou por ela e, depois de se aninhar junto a Don com uma grande demonstração de intimidade, deitou-se aos pés dele.
“Estou feliz que alguém me ame”, disse Donald.
“É das suas botas de montaria que Mike gosta. Ele nunca teve a chance de provar graxa de sapato bronzeada antes!”
“Por que você gosta de mim?”
“Eu? Quem disse que eu gosto?”
“Você não gosta?”
“Oh, sim, eu também gosto de botas bronzeadas. Por que você não me disse que meu cabelo caiu de novo?”
“Porque você é tão bonita com ele assim, Miss Lady...”
“Agora, Don, se você começar de novo, vou entrar direto em casa. O que você quis dizer ao dizer que recebeu o que havia de pior para você e que fez o pior uso disso?”
“Oh, o jeito como fui criado. Veja, minha irmã me pegou quando eu era um bebê, e acho que fui um incômodo terrível para ela. Ela gostava de viajar e continuou assim por um bom tempo, mesmo depois que Margery nasceu. Cresci em hotéis, em navios e trens, indo para a escola onde quer que estivéssemos hospedados por tempo suficiente; às vezes na França, às vezes na Suíça, às vezes na América. Lembro-me de um Natal em que eu tinha cerca de seis anos, estávamos em um hotel em Paris. Minha babá me colocou na cama cedo para que ela pudesse sair com seu namorado, e me disse que não existia Papai Noel, para que eu não ficasse acordado esperando por ele. Odeio aquela mulher até hoje! Consigo me lembrar do quarto grande e solitário, das cortinas vermelhas, do lustre de cristal e do jeito que chorei porque não havia Papai Noel e porque eu não tinha um namorado!”
“Pobre garotinho! Era de uma mãe que você precisava.”
“Talvez. Minha irmã foi boa para mim. Mas ela não me compreendia; nunca compreendeu. Ela sempre me deu demais de tudo, inclusive conselhos.”
“Mas desde que você cresceu, você teve muito tempo para... para... tomar as rédeas da própria vida.”
“Bem, eu tomei por um tempo. Consegui passar pela universidade, depois fui trabalhar nas oficinas e me diverti muito por cinco meses, mas foi uma confusão sem fim! Minha irmã sentiu que, depois de tudo o que ela fez por mim, eu não deveria ir contra seus desejos, e acho que ela tinha razão. Depois fui para o banco e estava começando a entender como as coisas funcionavam, quando ela teve um colapso nervoso e foi mandada para o Egito durante o inverno. Meu cunhado não pôde levá-la, então ele me mandou.”
“Mas você ficou mais tempo do que ela.”
“Sim, fiquei brincando pela Riviera por um tempo.”
“E você está em casa há quanto tempo?”
“Três meses. Honestamente, eu pretendia me dedicar a algo imediatamente, mas Cropsie Decker recebeu essa oferta para ir ao Oriente para o Herald-Post e me pediu para ir junto. Eu estava empolgado com isso até... até que vim para cá.”
Ambos ficaram em silêncio por um tempo, observando uma aranha que explorava o cadarço da bota de Don.
“Tudo parece tão sem sentido agora. O que eu quero é uma casa minha, um lar, quero dizer. Nunca tive muito desse tipo de coisa... não tenho certeza de que sabia o que era um lar até ver Thornwood.”
“Não é querido?” perguntou Miss Lady com um olhar amoroso por cima do ombro para a velha casa recortada contra o céu. “Eu poderia beijar cada tijolo dela, eu a amo tanto.”
“Eu gostaria de não ter que voltar para a cidade hoje à noite!” explodiu Donald inconsequentemente. “Eu gostaria de nunca ter que voltar para ela!”
“Por quê?”
“Oh, por muitos motivos. Sou um sujeito diferente aqui no campo, com coisas para fazer, e o tipo certo de coisas para pensar, e... e você! Entende”, ele sorriu sem olhar para cima, “não sou muito bom na cidade.”
“Como assim?” perguntou Miss Lady, com uma franqueza desconcertante.
Donald encolheu seus ombros largos: “Oh! Não sei. Eu me meto em confusões antes que perceba. Essa viagem ao Oriente, agora; parecia ótima quando disse que iria. Cropsie é um cara legal, o melhor sujeito do mundo para se fazer uma travessura dessas, mas...”
Miss Lady lançou um olhar para o rosto bonito, juvenil e irresponsável ao seu lado.
“Não vá, Don!” ela sussurrou impulsivamente; “fique aqui e compre sua fazenda!”
“Você está falando sério!” exigiu ele, segurando as mãos dela. “Você quer que eu fique?”
O sangue subiu às bochechas dela, mas ela não retirou as mãos. Em seus olhos ávidos e luminosos, surgiu a resposta que estivera guardada a tarde toda.
“Se eu ficar”, insistiu ele calorosamente, “se eu me estabelecer, me comportar e me sair bem, você vai me prometer...”
“Jimpson!” trovejou uma voz familiar vinda da estrada. “Aquele negro preguiçoso e imprestável, por que ele não vem me ajudar com essas coisas? Jimpson!”
“Vou chamá-lo, papai!” gritou Miss Lady, saltando da rede.
“Mas espere!” suplicou Donald, “só um minuto. Tenho que vencer essa tempestade até a cidade e dizer a Decker que a viagem foi cancelada. Mas estarei de volta pela manhã! Talvez para o café da manhã. Oh, minha querida, estou tão feliz! Diga que você me ama! Diga!”
O velho Mike mexeu-se em seu sono e então abriu um olho. Era evidentemente hora de ele tomar alguma atitude. Quando dois jovens estão muito próximos, com mãos dadas e olhos brilhando de amor na fragrância suave de um jardim antigo, até mesmo um cão que faz o papel de acompanhante sabe que é hora de interferir! Com grande presença de espírito, ele descobriu um esquilo imaginário na cerca, bem ao lado deles, e começou a latir tão furiosamente que Miss Lady olhou ao redor e riu. Por um segundo, ela ficou parada, a cabeça jogada para trás, um olhar provocante, meio tímido, meio ousado no rosto, então ela depositou um beijo rápido na mão que segurava a dela e, sem dizer uma palavra, saiu voando, com as bochechas coradas, pelo caminho ladeado de lilases.
CAPÍTULO III
Donald Morley cavalgou de volta para a cidade através da tempestade que se aproximava, naquele estado particular de êxtase que os mortais só têm permissão de desfrutar uma vez na vida. Não que se apaixonar fosse uma sensação nova; pelo contrário, uma experiência variada o tornara agradavelmente familiar com todos os sintomas. Mas isso, assegurou a si mesmo com veemente paixão, era algo total e absolutamente diferente. Entre agora e aquela manhã em que cavalgara ociosamente até a propriedade de Wicker em busca de uma fazenda, havia um mar tão vasto quanto o Destino!
Lá no campo ele se deparara inesperadamente com seu destino e, com ímpeto característico, o perseguira e o alcançara. Outras garotas poderiam ter agitado seu coração, mas coubera a uma pequena pagã selvagem dos bosques agitar sua alma. Ele expusera a ela os lugares mais secretos de seu ser, confessara seus pecados e recebera a absolvição. Daquele momento em diante, as frivolidades da juventude ficavam para trás, e a ambição pousava em sua fronte. Ele cancelaria a viagem ao Oriente, compraria uma fazenda e se dedicaria ao trabalho como se não tivesse um centavo no mundo. Uma vez que o Coronel fosse levado a reconhecer seu valor, os portões do Paraíso estariam abertos!
Ele pensou na casa que construiria para ela, e nas flores que a cercariam, nos cavalos e cães que teriam e, talvez... A lembrança do rosto dela enquanto abraçava Chick na estrada passou por ele como um lampejo, e ele endireitou os ombros subitamente e sorriu quase trêmulo. Sim, ele seria digno dela, de agora em diante a vida não deveria conter privilégio maior!
Passava das sete horas quando ele chegou ao entroncamento, e pesados rumores de trovão podiam ser ouvidos no oeste.
“Esta rua vai até a avenida?”, perguntou ele a um homem, apontando com seu chicote sem castão.
A figura esguia abordada removeu seu peso do poste telegráfico que o sustentava e caminhou lentamente para a frente. Ao fazê-lo, Donald reconheceu o árbitro ruivo daquela tarde.
“Não, senhor, Capitão”, disse ele, “não vai. Isto aqui é a Bean Alley. Estes políticos da cidade têm seu próprio jeito de administrar as ruas; eles pegam um lápis, sabe, e traçam uma linha ao longo da propriedade dos sujeitos que podem pagar pelas ruas. O resto de nós fica nas poças de lama.” O homem evidentemente encontrava certa dificuldade em se expressar sem a assistência de palavrões. Havia lacunas deixadas entre as palavras, que ele supria mentalmente com lábios comprimidos e o erguer das sobrancelhas peludas, o que servia como um substituto eficaz. Sua conversa, se impressa, se pareceria com aqueles exercícios gramaticais, com os quais se lutava na tenra juventude, nos quais “um----cachorro----atacou um----menino com um----porrete.”
Mas sua eloquência reprimida foi perdida para seu ouvinte, pois Donald ficara absorto em um cartaz teatral, que representava uma jovem moça sobrenaturalmente esbelta, equilibrada em uma garrafa de champanhe, examinando timidamente um mundo admirado através dos dedos estendidos de uma pequena mão enluvada de preto. Era “La Florine”, cujos encantos ele ouvira serem contados inúmeras vezes pelo Sr. Cropsie Decker.
Naquela noite, o cartaz anunciava, “La Florine” apresentaria, pela primeira vez em qualquer cidade americana, sua incomparável dança, “A Serpente do Nilo”.
Don consultou seu relógio e fez um cálculo relâmpago sobre o tempo em que poderia fazer uma refeição e chegar ao Gayety, antes de se lembrar de que era um homem reformado. Então, severamente, retirou seu olhar da dama que espreitava através de seus dedos na penumbra e trouxe-o de volta à pessoa ruiva, que continuara sua conversa com ininterrupta volubilidade.
“... e ela diz para mim”, ele concluía, “‘Sr. Flathers’, ela diz, ‘é um privilégio ajudar gente como o senhor. Um homem que esteve na sarjeta inúmeras vezes, e suportou os horrores terríveis do delirium tremens quatro vezes e ainda consegue sentir os estímulos do cristianismo em seu peito.’”
Donald olhou para ele e riu. Ali estava, evidentemente, um companheiro de pecado.
“Então você se endireitou, não é? Como é que se sente?”
O Sr. Flathers lançou um olhar de lado para cima, como se estivesse avaliando o belo jovem montado a cavalo.
“Muitíssimo deprimente”, confessou, “com uma sede que vem se acumulando por semanas e semanas, e uma esposa doente, e uma criança adotada que não diz uma palavra há sete anos. Mas estou me apoiando no Senhor. Ele proverá.”
“Oh, você vai se dar bem!”, disse Don, sentindo-se incomumente leniente para com seus semelhantes. “Aqui está um dólar, se isso ajudar você um pouco.”
“Ajudará”, disse o Sr. Flathers de forma tranquilizadora; “sem dúvida ajudará. Tenho muito pelo que agradecer, sei disso. Por exemplo, nunca fui um parente pobre! Isso é mais do que muitos homens podem dizer! O fato é que não há nenhum em toda a minha linhagem familiar que tenha algo a mais do que eu!”
A chuva que ameaçava começou então para valer, e Donald partiu em direção à cidade a um trote firme, mas antes de percorrer dois quarteirões a chuva caía em lençóis pela rua, e ele foi obrigado a desmontar e buscar abrigo na entrada de um edifício isolado que ficava no final do terreno baldio. Era uma porta dupla com as partes superiores em vidro colorido, nas quais estava audaciosamente escrito:
O CANT-PASS-IT SALOON.
Em uma das janelas, um cartaz informava aos famintos residentes de Billy-goat Hill que sua sede talvez não fosse saciada até depois das doze horas da noite de domingo.
Enquanto Donald estava parado na entrada, um automóvel fez a curva e parou, as luzes dos faróis brilhando na rua molhada e lançando tudo o que estava fora de seu raio de alcance em uma escuridão súbita.
Um homem saiu da máquina e correu para buscar abrigo. Ele estava tossindo e mantinha o colarinho bem próximo à garganta.
“Ora, olá, Dillingham”, disse Morley, reconhecendo-o. “Como veio parar aqui?”
“Passeando”, disse Dillingham com uma torção nos lábios. “Tentei pegar um atalho e fiquei ilhado. O que você está fazendo aqui?”
“Estive no campo por algumas semanas. Fui pego pela chuva. O que houve? Você está doente?”
Dillingham estava encostado na ombreira da porta, tremendo. Ele era um jovem baixo, pálido e de aparência delicada, com bolsas que se explicavam por si mesmas sob seus olhos um tanto proeminentes.
“Gelado até os ossos”, ele gaguejou. “Preciso conseguir algo para me aquecer. Isso é um salão?”
“Sim, mas está fechado. Só abrirá à meia-noite.”
O Sr. Dillingham fez uma condenação abrangente a uma administração municipal que tolerasse tal procedimento, então colocou sua inteligência para trabalhar a fim de evadir a lei.
“De quem é este boteco, afinal?”, perguntou ele, olhando para cima. “Do Sheeley? Ora, é claro. Já vim aqui para lutas de boxe. Ele mora por aqui. Ugh! mas estou com frio. Serei um cadáver na mesma hora na próxima semana se não contiver esse calafrio. Vamos procurá-lo e conseguir uma bebida.”
Donald hesitou em revelar a notícia de sua reforma a alguém que já estava em condição debilitada. Ele assegurou a si mesmo que recusaria quando chegasse a hora. Enquanto isso, não surgiu nenhuma razão para se recusar a ajudar seu amigo na busca por um salva-vidas.
“Sheeley costumava morar em um daqueles barracos ali. Está diminuindo um pouco, suponho que devêssemos ir até lá?”, propôs Dillingham, sacudindo a água de seu boné.
“Esteve na casa hoje?”, perguntou Donald enquanto eles chapinhavam pela lama.
“Acabei de vir de lá. A verdade é que Margery e eu nos acertamos finalmente. Algum parabéns?”
“Certamente”, disse Donald, estendendo uma mão molhada, mas franzindo a testa para a escuridão. “Você contou à minha irmã?”
“Sra. Sequin?” Dillingham sorriu com divertimento superior. “Acho que ela não precisou ser avisada. Imagino que ela tenha pensado nisso antes de nós. Meio interessada em mim, sabe, desde o início.”
Donald prendeu a respiração, mas não disse nada. Se não fosse verdade, como ele teria gostado de socar a cara de Dill!
“Você parte para o Oriente esta semana, suponho”, continuou Dillingham. “Sorte a sua! Decker me pediu para ir junto. Se não fosse pelo avô paterno, eu teria ido num instante, mas ele impôs sua vontade. Quando você zarpa?”
“Desisti da viagem. Vou comprar uma fazenda perto dos Wickers e começar a trabalhar.”
Dillingham assobiou incrédulo:
“Sim, estou vendo você fazer isso! Você está contando em ganhar o Derby, suponho?”
“Não, não vou inscrever meu cavalo.”
“O quê! Por que Lickety-Split poderia ganhar aquela corrida caminhando. Toda a galera diz que você tem tudo para ganhar. Aqui, este é o barraco; pelo menos é onde ele costumava morar.”
Uma luz brilhante emanava da janela sem cortinas de uma pequena casa, revelando um grupo familiar lá dentro. Uma mulher gorda e sorridente com bobes no cabelo, com um bebê nos braços, e seis crianças em vários estágios de limpeza de sábado, pendiam das palavras de um homem que se sentava em uma grande poltrona de balanço de pelúcia e lia de um livro de figuras altamente colorido. No chefe da família, Dillingham reconheceu Richard Sheeley, ex-pugilista e atual proprietário do Cant-Pass-It.
“Ora, se não é o Sr. Dillingham!”, exclamou Sheeley, escancarando a porta em resposta à batida deles. “Encharcado, não está? Algo para te aquecer? Com certeza. Entre e espere até que eu calce meus sapatos e encontre um guarda-chuva e eu irei com vocês. Não guardo uma gota aqui”, acrescentou ele em um sussurro, atrás de uma mão tão grande que ele evidentemente a considerava à prova de som. “A patroa não aceita, por causa das crianças, sabe?”
“É ele, mamãe, aquele sobre o qual eu estava te contando”, Richard Sheeley, Jr. — chamado de “Skeeter” — puxou a manga da mãe, balançando a cabeça para Donald, que estava fazendo carinho na menor e mais tímida das filhas da casa.
“Ela não é tão mansa quanto parece!”, dizia a Sra. Sheeley, enquanto tentava tirar a criança de trás de suas saias. “Ela tem o temperamento do papai junto com sua esperteza. Nenhum dos dois tem um pingo de juízo quando ficam bravos. Nunca vi uma criança com tal temperamento, viu, papai?”
Mas Sheeley não a ouviu; ele estava ocupado fazendo as honras a alguém que ele evidentemente considerava um convidado de honra.
“Sente-se aqui, Sr. Dillingham, deixe-me tirar o livro da cadeira. Eu estava lendo para a patroa e as crianças um livro que Skeeter trouxe da escola dominical, tudo sobre Daniel e a cova dos leões. Uma bela história essa, Sr. Dillingham. Um dos artigos sobre animais mais interessantes com que já me deparei.”
Quando estavam prontos para ir, a Sra. Sheeley seguiu-os ansiosamente até a porta.
“É uma noite terrível de tempestade, papai; você não vai ficar, vai?”
“Não muito. Voltarei para terminar a história. Até mais, crianças!” Ele desceu os degraus de madeira, entre seus dois companheiros bem arrumados, olhando para trás de vez em quando para a porta brilhante e aberta, onde a mulher gorda e sorridente permanecia cercada por meia dúzia de crianças de cabelos claros.
Assim que chegaram ao salão, a tempestade, que evidentemente apenas fizera uma pausa para respirar, irrompeu com toda a sua fúria. O trovão rolou mais perto e flashes de relâmpagos perfuraram a escuridão.
“Aqui! A porta lateral!”, gritou Sheeley.
“Espere até eu riscar um fósforo. Vou pegar o guarda-chuva. Subam direto, se não se importam. Quero que vejam as melhorias que venho fazendo. Não há salão deste lado dos limites da cidade que tenha o equipamento para lutas de boxe que o meu tem.”
“Arrume um uísque enquanto isso”, lembrou Dillingham bruscamente; “e digo, você não pode fazer um fogo em algum lugar? Estou batendo os dentes como um idiota.”
“Com certeza posso. Há um fogão lá em cima, e uma ou duas garrafas de licor extra fino. Apenas subam.”
No meio da escada mal iluminada, eles pararam. Acima do vento e da chuva, um som curioso viera de baixo, como se alguém tivesse tropeçado em algo.
“Quem está aí?”, Sheeley exigiu bruscamente, debruçando-se sobre o corrimão e espiando para a escuridão.
Nenhuma resposta veio, mas uma rajada de vento soprou de algum lugar, balançando o bico de gás.
“Ah! é uma janela que foi deixada aberta”, disse Sheeley. “Aquele garçom idiota! Vou apenas descer e fechá-la.”
A fechadura provou ser teimosa, e foi com alguma dificuldade que ele a forçou para o lugar. Enquanto isso, os dois jovens tinham acendido o gás na grande sala superior e estavam inspecionando o palco elevado onde os boxeadores costumavam se envolver subrepticiamente na nobre arte da autodefesa.
“Toma o seu puro, acredito, Sr. Dillingham?”, disse Sheeley, juntando-se a eles; “e seu amigo cavalheiro?”
“Nada para mim”, disse Morley com firmeza desnecessária. “Vou apenas esperar um segundo até que a tempestade passe, depois vou para a cidade.”
“Pratica boxe hoje em dia, Dick?”, perguntou Dillingham, servindo-se de uma segunda dose de uísque, enquanto pairava sobre o fogo recém-aceso.
“Oh! Eu coloco as luvas ocasionalmente para satisfazer meus amigos. Meu forte hoje em dia é faro; tem mais dinheiro nisso.”
Donald, parado na janela, olhando para a noite selvagem, tamborilava impacientemente no vidro.
“Depressa, Dill”, disse ele. “Não quero deixar minha égua parada por tanto tempo na chuva.”
“Que se dane sua égua”, disse Dillingham; “apenas espere dez minutos até eu me descongelar, e irei com você.”
Donald já tinha esperado dez minutos por Dill antes, mas nunca com o atual senso de responsabilidade, nascido de sua nova ligação com a família. Ele sabia que sua única chance de levá-lo para casa era agradá-lo.
Como o vento assobiava pela janela! Ele se perguntou o que Miss Lady estaria fazendo? Estaria ela sentada à mesa na aconchegante sala de estar em Thornwood, com a luz da lâmpada em seu cabelo? Estaria ela ao cravo, cantando para o Coronel? Estaria ela parada, como ele estava, na janela, espiando a noite selvagem, pensando — e ansiando —?
“O que acha de um joguinho de pôquer?”, perguntou Sheeley, deslizando levemente um baralho de cartas pelo comprimento do braço e invertendo-as com uma destreza que falava de longa familiaridade.
“Ótima ideia!”, exclamou Dillingham expansivamente. “Passe aquela garrafa, vai? O que é isso, Morley? Não tem tempo? O que diabos há com você esta noite?”
Donald retrucou, com grande dignidade, que nada estava errado com ele, exceto que ele queria voltar para a cidade.
“Melhor não começar com esse temporal todo”, insistiu Sheeley, enquanto um estrondo de trovão sacudia as janelas. “Vai passar logo.”
“Sabe o que farei!”, disse Dillingham, colocando um braço afetuosamente sobre o ombro de Donald e falando um pouco instável. “Se você jogar algumas partidas, irei para casa com você — você deveria estar disposto a fazer isso por um sujeito que será seu tio. Quer dizer, seu sobrinho.”
“E você vai no minuto em que a chuva parar?”
“Sim, se você jogar conosco.”
Donald ficou irresoluto, observando os dedos finos e instáveis de Dillingham embaralharem as cartas. Ele precisava levá-lo para casa de alguma forma, por causa de Margery. Dill nunca sabia quando parar, ele estava pronto para a noite inteira, a menos que alguém interviesse.
Sheeley encontrou seu olhar e assentiu significativamente.
“Tudo bem!”, disse Donald, sentando-se na cadeira vazia. “Apenas duas partidas, lembre-se! Sem uísque, obrigado. Qual é a aposta?”
CAPÍTULO IV
Quando Miss Lady defendeu a causa dos oprimidos naquela tarde, ela sem saber estragou um criminoso em formação. Chick Flathers, com a avançada idade de onze anos, ficara tão impressionado com a injustiça das condições sociais que se dedicara a uma vida de crime. Ele já havia alcançado duas aparições no Tribunal de Menores e dois dias no Lar de Detenção. Ele estava agora totalmente decidido a ser um ladrão.
Certamente havia circunstâncias atenuantes para Chick. Era inquestionavelmente uma desvantagem ter aberto os olhos pela primeira vez em uma lata de lixo, e na lata de lixo do Sr. Flathers, para ser mais preciso. A transferência em um carro de polícia para uma incubadora no Hospital da Cidade fora o próximo movimento, portanto, de volta ao Sr. Flathers que, na medida em que era sua lata de lixo, sentiu-se chamado pela Providência a adotar o enjeitado.
O próximo infortúnio que lhe aconteceu foi ser derrubado da janela de cabeça, durante um dos momentos de distração de Maria Flathers. Isso aparentemente não afetou sua cabeça, mas, com o tempo, afetou seriamente sua fala. O fato de que ele tinha tanto a dizer, sem ser capaz de dizê-lo, resultou em uma corrente represada que às vezes transbordava em temperamento e maldade. Ele falava muito, mas ninguém era capaz, ou se dava ao trabalho de tentar, de entendê-lo. Isto é, não até que Skeeter Sheeley lhe desse seu apelido e se tornasse seu intérprete oficial.
A amizade deles datava de um dia memorável em que Skeeter ouvira pela primeira vez sobre o incidente da incubadora e prontamente abordara o enjeitado dos Flathers como “Chicken”. O insulto fora instantaneamente ressentido em uma batalha tão feroz e sangrenta que os detalhes se tornaram históricos nos anais de Billy-goat Hill. Chick, embora de peso mais leve e músculos fracos, estava armado com justa indignação. Ele não observava regras, mas lutava com braços, pernas, dentes e unhas. As probabilidades estavam contra ele, no entanto, e ele teve que ser ajudado a sair do campo, um herói vencido.
A partir daquele momento, por uma daquelas leis misteriosas que governam o mundo dos meninos, os dois tornaram-se companheiros inseparáveis, travando guerra aberta contra todas as vizinhanças adjacentes, engajando-se em expedições predatórias na sua própria e, quando o interesse pela vida diminuía, lutando um contra o outro.
Skeeter interpretava tudo o que Chick dizia, interpretava livremente e com imaginação, e Chick aparentemente considerava-se obrigado pela honra a aceitar a interpretação e defendê-la, não importando o quão longe ela estivesse de expressar seu significado.
Onze anos de maldade tinham sido assim atravessados com arrogância quando Chick, súbita e inesperadamente, apaixonou-se. Foi quando a bela jovem na passagem de nível se curvou sobre ele como um anjo socorredor, que ele fora forçado a mudar sua classificação da raça humana. Até então, ela era dividida em adultos e crianças; de agora em diante, era dividida em homens e mulheres!
Durante toda aquela tarde de domingo, ele andou como em um sonho. Ele não conseguia superar o fato de que ela ficara do seu lado, que ela colocara o braço ao redor dele e sorrira para ele. Uma ou duas vezes, quando ninguém estava olhando, ele colocou sua mão muito suja na bochecha e sentiu o lugar onde os dedos dela tinham repousado.
Mas essa nova e terna emoção não teve permissão para interferir no projeto especial que Chick tinha em mente. Era um projeto tão colossal em sua natureza que nem mesmo Skeeter deveria ser admitido no segredo. Por seis semanas, Chick fora vítima de um sistema de jogo, e naquela noite ele iria se vingar.
Na hora do jantar, Skeeter reconheceu uma convenção da civilização e recolheu-se ao seio de sua família, mas Chick, não sendo responsável perante ninguém e não reconhecendo convenções, roubou algumas maçãs de uma carroça que passava e recolheu-se ao lixão para esperar pelo escuro.
Ele não teve que esperar muito, pois grandes nuvens negras estavam cobrindo o céu, e ele não conseguia mais ver as casas no final do beco. Guardando cuidadosamente os caroços de maçã no bolso para futuras trocas, ele percorreu o caminho sobre as latas de metal e detritos até chegar ao entroncamento. Ali ele hesitou. Foi ali que ele e Skeeter tinham lutado pelo chicote. Foi ali que a jovem viera em seu socorro e dissera que não acreditava que ele fosse tão mau assim. Caramba! mas ela era uma jovem bonita, e sua mão era tão macia, e sua voz...
Chick enfiou as mãos nos bolsos e puxou o boné sobre os olhos. Aquele não era um jeito de um sujeito se sentir quando tinha um trabalho a fazer! Com olhos atentos aos transeuntes, ele deslizou por uma abertura na cerca e entrou no pátio de manobras. Quando emergiu, cambaleou sob o peso de um pé de cabra que tentava em vão esconder sob sua jaqueta esfarrapada.
Bem na intersecção da Bean Alley com o pátio de manobras, onde o crepúsculo se acumulava densamente nos cantos, ele parou novamente. Ele estava observando sua chance de atravessar o vasto terreno baldio, sem ser detectado. Duas vezes ele começou, e duas vezes ele recuou e se achatou contra a parede enquanto alguém passava.
Se, para o observador casual, Chick não passava de um menino sujo, esfarrapado, de tamanho e nutrição abaixo do normal, e um tanto assustado, para si mesmo, pelo menos, ele era um destemido fora da lei, prestes a se vingar de um erro cometido.
O trovão murmurou ameaçadoramente, e uma gota de chuva caiu em seu rosto enquanto ele contornava o terreno baldio e chegava ao grande e escuro salão no cruzamento. Contornando a parede lateral, ele rastejou para os fundos e tateou em busca da janela aberta que descobrira mais cedo naquele dia. Era uma janela baixa e de fácil acesso, e ele não perdeu tempo ao subir por ela.
A passagem estava na mais completa escuridão, mas ele tateou o caminho ao longo da parede até chegar a uma porta. Ali, tateou em busca da maçaneta e abriu-a. Um poste de iluminação lá fora lançava uma luz fraca e vacilante para dentro do cômodo, revelando o longo balcão com suas instalações brilhantes. Chick pousou seu pé-de-cabra e, trêmulo, tirou o casaco. De acordo com os filmes de criminosos, esse era o primeiro passo. Então, ele agarrou resolutamente sua arma e, com o coração aos pulos, aproximou-se de seu inimigo.
Parecia um inimigo muito inocente enquanto permanecia ali na meia-luz, anunciando em letras impressas em sua face que sete em cada dez pessoas que colocassem uma moeda na fenda recebiam um prêmio em dinheiro. Mas Chick sabia que aquilo mentia! Não teria ela devorado suas moedas semana após semana? Não teria ele trabalhado por ela, lutado por ela e sangrado por ela, acreditando piamente que o prêmio seria seu? E ali estava ela, empanturrada com suas preciosas moedas, misteriosa e fascinante ainda, mas traiçoeira até a medula!
Em um lampejo de ira, Chick desferiu-lhe um golpe sonoro com o pé-de-cabra, depois agachou-se em terror pelo que pudesse acontecer. Não houve som algum além do açoite da chuva contra as janelas e o estrondo pesado do trovão lá fora. Mais uma vez Chick agarrou sua arma pesada e começou o ataque para valer. Golpe após golpe, tão rápido quanto seus braços pequenos podiam balançar o pé-de-cabra. De repente, uma mola pareceu quebrar, e de dentro jorrou um fluxo de dinheiro que rolou ao redor de seus pés e seguiu para os cantos mais distantes do cômodo.
Chick agachou-se no chão, dominado por seus esforços e pelo sucesso de seu empreendimento. A riqueza estava ao seu alcance, mais riqueza do que ele jamais sonhara! Não ouro e prata ininteligíveis, mas queridas e familiares moedas, cujo poder de compra ele conhecia. Mas nenhum pensamento de apropriação cruzou sua mente enquanto ele se ajoelhava ali, tateando a pilha reluzente. Ele estava cuidadosamente contando sua parte legítima, as onze moedas que a máquina caça-níqueis lhe roubara, e sua hesitação vinha do fato de que ele tentava selecionar as mais brilhantes!
Tendo obtido o que viera buscar, ele mais uma vez colocou o pé-de-cabra sobre o ombro e saiu para a passagem escura. Ali, ele parou em terror! Algo estava fungando e sibilando lá fora, algo que soava como se pudesse ser o Diabo!
No credo de Chick, havia apenas uma afirmação. Ele acreditava absolutamente no Diabo. Ele sabia, sem sombra de dúvida, que ele era vermelho, de pés fendidos e que sua cauda terminava em um espigão duro e afiado, como o picador de gelo da Mammy Flathers. Ele também sabia que, quando ele respirava, era em gemidos e sibilos, tais como os que ele estava ouvindo naquele momento. O cabelo de Chick teria se arrepiado na cabeça, ele queria que isso acontecesse, mas não era comprido o suficiente.
Por um momento ele ficou sem fôlego, então soltou um suspiro de alívio. Não era nada além de um automóvel, afinal! Ele caminhou na ponta dos pés até uma janela e espiou para fora. As lâmpadas da máquina lançavam luzes longas pela rua molhada e brilhante, mas nada mais era visível.
Depois de muito tempo, ele ouviu vozes na porta lateral. Alguém estava entrando no salão! Ele podia ouvir a maçaneta girando e uma chave na fechadura. Ele começou a voltar para o salão, então, lembrando-se de um pequeno armário sob os degraus onde ele e Skeeter costumavam brincar, tateou ao longo da parede. Lá estava! E bem a tempo de ele tropeçar para dentro e puxar a porta, deixando uma fresta suficiente para respirar, caso seu fôlego voltasse um dia.
A porta lateral foi aberta de um solavanco, e o crepitar de um fósforo foi seguido pela luz fraca de um bico de gás no fim da passagem.
“Aqui, vou levar o guarda-chuva!” disse uma voz que ele temia perdendo apenas para a do Diabo. Era Sheeley; ele iria entrar no salão e descobrir os destroços da máquina caça-níqueis! Chick estava começando a sentir as algemas em seus pulsos quando percebeu passos subindo os degraus acima. Por que eles estavam subindo as escadas? Seria uma luta de boxe? Esquecendo sua posição precária, ele se inclinou para ouvir, derrubando uma caixa na prateleira ao lado dele.
“Quem está aí?” veio nos tons mais ferozes de Sheeley vindo da escadaria acima, e Chick encolheu-se de volta na escuridão com os dentes batendo. Então, ele o ouviu dizer algo sobre a janela, e seguiu o som de seus passos pesados descendo as escadas e subindo novamente.
Agora era sua chance de escapar enquanto eles estavam lá em cima. Com a maior cautela, ele empurrou a porta do armário e, de mãos e joelhos, começou sua jornada perigosa até a janela. Foi naquele momento que ele decidiu positivamente que não seria um ladrão. Um encanador corria menos riscos e ganhava mais dinheiro. Uma vez na janela, ele foi incapaz de mover a tranca. Em pé no parapeito, choramingando de medo, ele lutou freneticamente com ela, machucando os dedos e rasgando as unhas, mas não conseguiu movê-la. Então ele tentou a porta, mas Sheeley, evidentemente, a trancara e levara a chave.
Um clarão cegante de relâmpago fez com que ele corresse de volta para seu esconderijo, onde se afundou no chão, tremendo e encolhendo-se. Mais perto e mais perto rugia o trovão, e o vento parecia tão ansioso para entrar na casa quanto ele estava ansioso para sair dela. Gradualmente, seus braços e pernas pararam de sacudir, sua cabeça relaxou contra uma caixa vazia, ele encostou a mão na bochecha que fora acariciada e esqueceu seus problemas no sono.
Quando acordou, ouviu vozes altas lá em cima. A princípio, supôs que estava em casa e que a voz era apenas o Sr. Flathers desfrutando de uma de suas recaídas periódicas. Mas a voz de Dick Sheeley o trouxe de volta; Dick estava bravo com alguém, e quando Dick ficava bravo, ele lutava. Não havia um garoto em Billy-goat Hill que não tivesse enfrentado a morte para ver o ex-pugilista em uma briga. Era uma distinção que colocava alguém de um salto nas primeiras fileiras da aristocracia juvenil.
Chick saiu rastejando de seu esconderijo e ouviu. As vozes ficaram mais altas e mais excitadas. Atraído como por um ímã, ele subiu as escadas passo a passo. No topo havia um recuo no corredor, um canto onde ele poderia se esconder, invisível da porta aberta logo adiante. Lá ele se deitou de bruços e deslizou para a frente até que seu olho estivesse alinhado com a fresta da porta entreaberta.
Três homens estavam sentados ao redor de uma mesa de cartas, dois deles de costas para ele; e Dick de frente para eles, com o maxilar travado e os dentes à mostra. Todos os três falavam ao mesmo tempo, e Dick era o mais excitado dos três.
“Você não tinha ás de espadas nenhum para mostrar! Você o descartou. Você sabe que descartou, seu... trapaceiro!” Ele se levantara e balançava o punho na cara do jovem magro.
“É mentira, seu cão comum!” gritou o outro selvagemente, mas antes que as palavras estivessem bem fora de sua boca, o poderoso braço direito de Sheeley disparou sobre a mesa e atingiu seu rosto.
“Sheeley! Pelo amor de Deus, você não vê que Dillingham está bêbado?” protestou o outro jovem, que Chick reconheceu como seu amigo da tarde.
“Bêbado ou não, ele não pode me chamar de mentiroso!” gritou Sheeley, e no instante seguinte Chick, com o coração batendo loucamente entre ele e o chão, estava em seu elemento. Era uma luta! Uma de verdade, na qual o herói de Billy-goat Hill se mantinha contra dois oponentes.
Os copos e as garrafas de uísque foram os primeiros, o álcool pingando da mesa para o chão; então uma cadeira foi derrubada e um vidro de janela estilhaçou-se no chão lá embaixo.
O jovem magro não teve senso para parar; repetidas vezes ele lançou seus insultos ao enfurecido Sheeley, lutando impacientemente contra os esforços de seu companheiro que tentava separá-los. De repente, Chick viu-o recuar, enquanto os outros se agarravam, e tatear o bolso traseiro. Ele o viu se estabilizar contra o batente da porta, a menos de um metro de distância, e levantar uma pistola. Houve um disparo seco, um gemido abafado, depois uma queda pesada.
O homem com a pistola atirou-a pela janela quebrada, depois cambaleou até a mesa, onde se afundou com a cabeça sobre os braços.
O que acontecera no canto, Chick não podia dizer, mas em poucos minutos seu jovem apareceu rapidamente em seu campo de visão e sacudiu a figura inerte que jazia sobre a mesa.
“Levante-se, Dill! Pelo amor de Deus! Você está bêbado demais para dar a partida na sua máquina? Assim que eu conseguir estancar esse sangue, preciso ir atrás de um médico.”
Os olhos atordoados do homem bêbado olharam para ele em terror impotente!
“Eu não posso ficar aqui!”
“Você tem que ficar aqui! Não consegue ver que não está em condições de dirigir uma máquina? Anime-se, seu idiota; temos que fazer alguma coisa e fazer rápido. Desça e tente dar a partida. Aqui está a chave da porta! Estarei aí assim que conseguir estancar o sangue!”
O homem na mesa cambaleou até a porta, passou pelo corredor, tão perto de Chick que quase pisou nele, depois desceu balançando as escadas, equilibrando-se pela parede e pelo corrimão. Chick ouviu a porta lateral bater e o motor da máquina, depois percebeu que ela estava fazendo a curva.
O jovem no quarto correu freneticamente até a janela e inclinou-se para fora, depois disse algo selvagem em voz baixa e mergulhou na passagem, descendo os degraus de cabeça. Chick ouviu a porta lateral bater de novo e, um momento depois, o galope de um cavalo.
Então tudo ficou quieto, exceto pelo bater ruidoso de seu coração que ameaçava romper suas limitações. Através da fresta, ele viu a mesa com seus copos quebrados e o uísque pingando, pingando no chão; ele viu as cadeiras derrubadas e o bico de gás tremeluzindo com o vento que vinha da janela quebrada.
A coisa que ele não podia ver era o que jazia no canto, a carcaça amontoada e manchada de sangue de algo por quem uma mulher gorda e sorridente e seis crianças de cabelos claros esperavam do outro lado do terreno baldio. Chick rastejou até o topo das escadas e, ao alcançar o degrau superior, sua mão tocou um objeto duro. Ele o pegou e segurou contra a luz, e ao fazê-lo, a alegria que muitas vezes floresce à beira da tragédia foi sua por um momento. Era o chicote de montaria cujo cabo ele herdara naquela tarde!
Degraus abaixo, pela porta e para fora, na noite encharcada de chuva, ele disparou; através do terreno baldio, pelo pátio de manobras e descendo a escuridão estreita e nauseante de Bean Alley. Sobre uma cerca caindo aos pedaços e subindo por uma varanda dilapidada, ele escalou como um gato, até chegar ao pequeno sótão na mansão de dois cômodos dos Flathers, a que chamava de lar.
Ali, o criminoso endurecido, o violador de leis e de máquinas caça-níqueis, o aspirante a ladrão, jogou-se sobre um colchão velho e, com dois punhos sujos nos olhos, soluçou seu coração para as vigas acima.
Não era arrependimento por seus pecados, nem terror pelo segredo que estava trancado atrás de seus lábios inarticulados, embora ambos tivessem uma parte. Era porque uma bela jovem ficara do seu lado, colocara os braços ao redor dele e se recusara a acreditar que ele era tão mau quanto Skeeter Sheeley dizia que ele era.
CAPÍTULO V
Durante o restante da semana, a tempestade, que dera início a todos os problemas, continuou a pairar ameaçadoramente, irrompendo dia após dia em chuvas ferozes e petulantes. Lá em Thornwood, o aspecto era dos mais sombrios; o terreno baixo na frente da casa estava submerso por quase quatrocentos metros, árvores, moles e enlameadas, permaneciam desconsoladas em um lago desconhecido, a ponte abaixo da represa fora levada, e os cavalos que iam ao riacho beber água eram constantemente apanhados pela correnteza e precisavam ser resgatados por cordas. No jardim de flores, pequenas flores de cara suja jaziam na lama, vinhas arrastavam-se pelos caminhos, todo o perfume e a cor pareciam ter sido drenados de tudo por aquelas chuvas contínuas e constantes.
Dentro da casa, não era muito mais alegre. O corredor da frente, com sua escadaria íngreme e estreita e o revestimento de chão de oleado com paisagens altamente ornamentadas, estava em um crepúsculo perpétuo. Um brilho ocasional da marcenaria branca ou da moldura dourada de um quadro lutava em vão para dissipar a penumbra. O salão, à direita do corredor, era sepulcral, com suas frestas de janela vedadas com papel e as venezianas firmemente fechadas. É verdade que a sala de estar, do outro lado do corredor, fazia o melhor para parecer alegre, mas até mesmo aquele lugar confortável com seu teto baixo e móveis de mogno batidos, seus armários altos flanqueando a ampla lareira de pedra e sua bagunça amigável de necessidades do dia a dia, não estava à altura da ocasião.
Uma tarde, quando o Coronel voltou do galinheiro, onde ele e o Tio Jimpson haviam se constituído como uma equipe de salvamento, ele surpreendeu a Senhorita Lady sentada na penumbra no chão, diante da lareira vazia, com vestígios suspeitos de lágrimas no rosto.
“Acenda uma luz”, resmungou o Coronel; “você não deve ficar sentada no escuro assim, sabe. Onde está meu cachimbo?”
Ela saltou e encontrou o artigo perdido e, com uma grande demonstração de alegria, acendeu a lâmpada e segurou o fósforo para ele acender seu cachimbo.
“Qual é o problema?” perguntou o Coronel; “está meio trêmula, não está?”
“Eu? Olhe para mim!” Ela segurou o fósforo bem reto e bem firme, então, quando ele oscilou, apagou-o e deixou-o cair dentro da manga dele. “Tem algumas correspondências ali na mesa para você, papai querido. Noah trouxe da cidade em sua charrete.”
Ela disse isso de forma muito descuidada, e até enumerou o conteúdo enquanto o entregava a ele:
“Dois circulares, uma carta do vendedor de sementes, o Confederate Veteran e os jornais.”
“Nada para você?”
“Nada.”
Sob o olhar dele, os olhos da Senhorita Lady baixaram, e ela virou-se abruptamente para a janela, enquanto o Coronel, de boca aberta, cachimbo na mão, observava-a.
Ele nunca tinha visto sua menina assim em toda a vida! Que direito tinha seu lábio de tremer no meio de uma frase, ou seus olhos de se encherem de lágrimas repentinas, fazendo-a dar as costas ao seu adorado papai e ocupar-se com a cortina da janela?
É claro que é perturbador ter um amigo, que você vê diariamente há algumas semanas, meter-se em problemas como o jovem Donald Morley se meteu. Fazia até o Coronel se sentir mal, ele não negava. Mas que direito tinha a gatinha de levar tudo tão a peito? Por que ela era chamada a defender a causa desse jovem estranho com tanto ardor, a ressentir-se de cada insinuação e a sustentar, apaixonadamente, que ele seria capaz de explicar tudo? Morley não explicara. Três dias haviam se arrastado e nada se ouvira dele. Provavelmente nada seria ouvido dele! O Coronel queria sentir-se vitorioso, mas não sentia! Em vez disso, lançava olhares ansiosos e compreensivos para a nuca de sua filha e, subrepticiamente, limpava seu nariz pequeno e arrebitado no canto de seu lenço de borda vermelha.
Ele teve vontade de desistir de sua viagem para a Virgínia! É verdade que ele esperava há meses celebrar o Dia dos Fundadores na antiga faculdade. Se não fosse para ver todos os velhos rapazes, ele ficaria em casa. Pelo amor de Deus! A garotinha vinha primeiro; ele ficaria em casa de qualquer jeito!
“Aquelas luvas”, ele disparou para dar a notícia; “as finas que eu disse para você consertar. Bem, você não precisa consertá-las.”
“Eu não consertei”, disse a Senhorita Lady, “mas vou fazer isso agora.”
“Não precisa se incomodar. Não vou precisar delas. O fato é que eu não vou.”
“Sim, você vai”, disse a Senhorita Lady, acrescentando inconsequentemente: “Por que não?”
“Precisam de mim aqui em casa. Estradas levadas, tudo fora do lugar. Decidi ficar em casa.” A Senhorita Lady virou-se da janela, onde estivera traçando as gotas de chuva no vidro, e correu para ele, estabelecendo-se em seu colo, na medida em que alguém consegue se estabelecer em uma superfície tão perpendicular.
“Você não vai fazer nada desse tipo. O Tio Jimpson vai levar você até a cidade para pegar o primeiro trem pela manhã.”
“Eu não vou”, insistiu o Coronel, balançando a cabeça obstinadamente.
“Sim, você vai. Onde está sua mala de viagem?”
“Na prateleira de cima do armário. Mas eu não vou.” Ele disse isso com firmeza, mas no instante seguinte perguntou: “Jimpson passou meu terno cinza?”
“Oh! Papai Esquire, sinto muito por ter esquecido de dizer a ele! Vou dizer agora.”
“Tarde demais!” o Coronel suspirou resignado; “não adianta mais falar sobre isso.”
“Sim, adianta! Seu entusiasmo apenas ficou úmido como todo o resto. Vou dizer ao Tio Jimpson para fazer um pequeno fogo para nos animar, então todos trabalharemos para deixá-lo pronto.”
Parecia ser um alívio para ela se movimentar e colocar as coisas em marcha. Em pouco tempo, ela tinha um fogo alegre na lareira e as cortinas fechadas contra o crepúsculo sombrio lá fora.
O Coronel sentou-se no meio da sala, observando o Tio Jimpson e a Tia Caroline recolherem seu guarda-roupa espalhado, mantendo um olho vigilante enquanto isso na Senhorita Lady. Ele simplesmente não pretendia deixá-la infeliz! Era absurdo! Totalmente fora de questão! Sua menina chorando pelos cantos onde ele não podia vê-la? A ideia de tal coisa! Se ela precisava chorar, o que havia de errado com seu ombro?
“O senhor só tem quatro lenços na lavagem, Coronel”, anunciou a Tia Caroline, de joelhos ao lado de uma grande cesta de vime. “Não parece que é o suficiente para um cavalheiro branco sair em uma viagem.”
“Jimpson”, o Coronel olhou para cima com reprovação, “você ouviu isso? Você realmente deixou que eu ficasse com apenas quatro lenços.”
“E meias”, continuou Caroline, aproveitando a oportunidade de enfatizar as deficiências de sua cara-metade, “cerca de dezessete, todas sem par. Quase nenhuma da mesma cor.”
“A Senhorita Lady, ela tem acumulado para cerzi-las”, explicou Jimpson, feliz em transferir a responsabilidade. “Ela disse que vai tirar um dia de folga qualquer dia desses e consertar tudo na casa.”
O Coronel olhou ao redor: “Onde está a Senhorita Lady?”
“Lá no corredor, lendo o jornal da tarde. Nunca vi aquela criança prestar tanta atenção no jornal. Sim, senhor, vou chamá-la.”
“Alguma notícia mais recente sobre o tiroteio?” perguntou o Coronel casualmente, quando ela retornou.
“Sim, o Sr. Dillingham foi indiciado e autuado perante o tribunal. O caso foi adiado para primeiro de junho.”
“E Sheeley? Como está a condição dele?”
“O jornal diz que ele perderá o olho, mas que provavelmente se recuperará.”
“E... e nada foi ouvido sobre Morley?”
“Ainda não.”
Após o jantar, quando todos os preparativos para a viagem foram concluídos e a presença alegre do Tio Jimpson e da Tia Caroline removida, o Coronel e a Senhorita Lady sentaram-se diante do fogo moribundo e tentaram conversar. Lá fora, galhos molhados varriam as janelas e rajadas repentinas de chuva batiam contra os vidros.
“Trinta anos desde que vi alguns dos velhos rapazes”, disse o Coronel, tentando se animar para sua próxima viagem. “Vou sentir falta do velho Professor Queerington, mas John Jay estará lá. Estamos planejando voltar para casa juntos. Homem bom, ele é, homem bom!”
“Quem? Oh, sim, Doutor Queerington.”
“Apenas um garotinho quando eu morava na casa de seu pai. Ele não deve ter muito mais de quarenta anos agora. O homem mais inteligente que a antiga faculdade já formou! E tão bom quanto inteligente. Talvez um pouco de estudo demais nos livros e não tanto senso comum, mas não há muitas cabeças feitas para carregar os dois. Ele é sólido, porém, sólido até o âmago, e isso é dizer muito hoje em dia. Qual é o problema? Com sono?”
— Não, só inquietação. Diga, papai, o que você acha que farão com o Sr. Dillingham, se ele for condenado?
— Crime de penitenciária, ouvi dizer. Mas Noah diz que eles vão livrá-lo. O velho General Dillingham tem muito dinheiro e amigos na corte. Ele cuidará de seu neto.
— Mas se ele for inocentado — começou a Srta. Lady —, isso joga a culpa para...
— Ora, veja só — interrompeu o Coronel —, pare de preocupar essa sua cabecinha com esse julgamento. Vá até lá e toque para mim um par daquelas boas músicas antigas, e então nós dois iremos para a cama.
A voz suave e sem treinamento da Srta. Lady começou bravamente o suficiente. Ela descreveu com sentimento os encantos de Annie Laurie, e estava na metade de Robin Adair antes que vacilasse, recomeçasse, tropeçasse de novo, e então parasse de forma ignominiosa.
— Ora! Ora! — disse o Coronel, agitado, saindo de sua cadeira em um tempo incrivelmente curto para um cavalheiro tão corpulento. — Isso não serve, sabe; isso não está certo!
— É aquela música velha e boba! — disse a Srta. Lady, amuadamente. — Ela sempre mexe com meus sentimentos.
— Mas não deveria fazer você chorar assim. Vamos, conte-me.
— Não há nada para contar... isto é...
— Bem, não importa então. Apenas chore até passar. Isso mesmo. Não se importe comigo. Apenas o seu velho papai. E com muita agitação, carinho e promessas tolas de que ele era seu papai, ele a levou para o sofá. Sentada no chão com os braços sobre os joelhos dele, ela chorou com o abandono de uma criança, enquanto os dedos curtos e grossos dele acariciavam ternamente seu cabelo brilhante. Por fim, quando a tempestade diminuiu e ela conseguiu olhar para cima, ele segurou o rosto dela entre as mãos.
— Fale logo, gatinha! — exigiu ele. — O que está incomodando você? O caso de Don Morley?
Ela beijou a mão dele que estava mais próxima.
— Imaginei. Você... você passou a gostar bastante dele, hein?
Ela assentiu entre os soluços.
— Mais do que de quase todo mundo? — ele perguntou com ciúmes, mas sem vacilar.
— Exceto de você, papai. — Foi um sussurro fraco, mas foi reconfortante.
— E quanto a ele? — continuou o Coronel.
Outra explosão de lágrimas, depois um esforço resoluto de autocontrole.
— Ele pretendia fazer o que é certo. Eu sei que pretendia! Ele prometeu parar de beber e jogar e começar a trabalhar.
— Ele fez um bom começo! — O Coronel bateu as cinzas de seu cachimbo. — E depois que ele se envolveu na briga, por que raios ele fugiu? Por que não ficou para enfrentar tudo? Qualquer tolo saberia que, se Dillingham for inocentado, toda a suspeita recairia sobre ele.
— Mas, papai, ainda não ouvimos o lado dele. Se eu pudesse apenas ter notícias dele, ou vê-lo.
— Vê-lo! — ele explodiu. — Em nome do diabo, por que você quer vê-lo? De jeito nenhum! Não enquanto Bob Carsey tiver chumbo sobrando em sua arma! Você acha que há alguma chance de ele ficar rondando por aqui enquanto eu estiver fora? Isso resolve! Não vou me mexer um centímetro. Diga a Jimpson! Diga a Caroline! Desfaçam minhas malas.
— Mas, papai, espere! Ele provavelmente já está na costa a esta altura. Além disso, ele não escreveu nem mandou recado algum. Como sabemos que... que ele quer voltar?
— Ele vai tentar, com certeza. Eu vi como as coisas estavam indo. Eu vi como ele olhava para você. O jovem cão insolente!
— Papai! Por favor, não! Você não o conhece. Ele explicará tudo quando escrever, eu sei que ele vai!
— Mas ele não escreverá! Ele não terá coragem. A ideia de ele sair direto de perto da minha menina e se envolver em uma confusão como esta! Você tem que me prometer nunca mais falar com aquele jovem patife!
— Mas se ele se explicar?
— Por que ele ainda não o fez? Porque ele não pode. Além disso, eu não quero que ele faça. Nós terminamos com ele de agora em diante. Prometa-me nunca mais ter nada a ver com ele.
Ela hesitou, e o Coronel começou a jogar as coisas de sua mala com grande agitação.
— Por favor, Papai Squire! — Ela segurou as mãos dele e olhou para ele, e algo em seus olhos suplicantes e lábios trêmulos lembrava tanto outro rosto que ele amara, que ele desmoronou completamente e teve que recorrer a um de seus quatro lenços limpos que ainda estavam na mala.
Ele era um velho tolo, declarou entre violentas assoadas de nariz e pigarros. Estava apenas fazendo o que achava ser seu dever. Não pretendia fazê-la infeliz. Não tinha senso suficiente para criar uma menina. Tinha tentado, no entanto! Sempre tentaria. Só que ela não devia ser infeliz; ele não suportaria isso. Matá-lo-ia se ela ousasse ser infeliz!
E a Srta. Lady, com os braços em volta do pescoço dele, dando batidinhas inúteis nos olhos lacrimejantes dele com seu pequeno lenço molhado, declarou apaixonadamente que prometia a ele qualquer coisa debaixo do sol, que ela ia ser feliz, que ela estava feliz!
— Ainda não — disse o Coronel, limpando muito a testa; — mas você será! Vamos resolver isso. Assim que eu voltar, tratarei do assunto. Investigarei até o fundo. Daremos a Morley todas as chances de se redimir. Mas até lá, você não o verá se puder evitar, ou lerá suas cartas, se ele escrever? Você não se importa de me prometer ao menos isso, importa?
— Eu prometo, papai.
Oh! as promessas feitas por um dia, e mantidas através dos anos, por quantas vidas entrelaçadas elas têm que responder!
A Srta. Lady colocou as coisas do Coronel de volta em sua mala e se inclinou para beijá-lo de boa noite.
— Tem certeza de que não se importa que eu vá? — perguntou ele, estudando o rosto dela. — Voltarei na noite de sábado.
— Tudo bem. Adeus, não estarei acordada de manhã quando você partir. Divirta-se, querido papai, e... e não se preocupe comigo.
Ele acendeu a vela para ela e a carregou até os degraus, onde a beijou novamente.
— Minha garotinha — sussurrou ele.
A casa ficou silenciosa. Lá no patamar, o relógio alto marcou as horas até a meia-noite; o fogo morreu em brasas; da varanda lá fora veio o gotejar, gotejar, gotejar da calha. Ainda assim, o Coronel sentou-se em sua cadeira de assento bipartido, seus olhos pequenos como luzes de vigia na penumbra, ouvindo o mais leve som de inquietação vindo do quarto acima.
CAPÍTULO VI
A luz súbita da publicidade que caíra sobre o salão Cant-Pass-It enviou um brilho sobre toda aquela região de Billy-goat Hill. Todos tinham algo sobre o que falar, e todos falavam, exceto Chick.
Phineas Flathers nomeou-se quartel-general de informações e dedicou-se exclusivamente a discutir o assunto. Myrtella, sua irmã gêmea, que por quinze anos presidiu inúmeros fogões por toda a cidade, quase perdeu seu novo emprego devido ao seu interesse no caso.
O único assunto sobre o qual Myrtella Flathers se considerava uma conhecedora era assassinato. Em diversos terceiros andares dos fundos, ela acompanhara por anos as baixas atuais com interesse ardente. Realismo, romance, intriga, aventura, ela encontrava tudo isso nesses relatos sombrios de crimes diários.
Myrtella e Phineas Flathers foram lançados no mar da vida em tenra idade para afundar ou nadar como bem entendessem. Myrtella sobrevivera combatendo as ondas, enquanto Phineas adotou o expediente menos árduo de flutuar.
Para ele, o trabalho parecia uma ação totalmente artificial e anormal, autoimposta e desnecessária. O palco da vida apresentava tantas oportunidades para ele exercer sua habilidade histriônica que a ideia de se acomodar a uma rotina de trabalho parecia um desperdício de talento. Com discernimento de longo alcance, ele percebera cedo que um papel direto não era para ele.
Ao procurar um campo que prometesse a maior oportunidade para seu talento, ele descobriu a Igreja Immanuel na cidade. Ali, a filantropia ardia com tal entusiasmo zeloso que a colheita não era suficiente para os trabalhadores. Phineas viu sua chance e a agarrou. Ele se tornou um Filho Pródigo.
A partir daquele momento, sua única vocação era frequentar a igreja. Três vezes por semana, independentemente da inclemência do tempo, ele desenrolava suas pernas longas dos degraus da cadeira no Cant-Pass-It, alisava cuidadosamente seu cabelo ruivo e seguia para um banco da frente na Igreja Immanuel. Em intervalos calculados com precisão, ele caía em pecado e era resgatado, passando de períodos de grave desvio para períodos de grande fervor religioso. Enquanto isso, ele seguia as Escrituras literalmente e não pensava no amanhã. Sua confiança na Providência e no Auxílio às Senhoras tornou-se, com o tempo, absoluta.
Nem o autorrespeito de Phineas Flathers sofreu minimamente com esse modo de vida. Em nenhum sentido ele se considerava um ocupante. Ele não fazia, três vezes por semana, uma apresentação magistral de "nossos pobres necessitados", "nosso irmão em infortúnio"? Ele não oferecia livremente sua família para que cada nova sociedade da igreja cortasse seus dentes do siso nela? Maria, sua esposa, não tinha trabalhado exaustivamente através de tratados ininteligíveis, e Chick, seu filho adotivo, feito penitência na Escola Dominical, tantas vezes quanto três domingos seguidos? Considerando todas as coisas, Phineas sentia que a igreja recebia muito pelo seu dinheiro.
Myrtella Flathers, seguindo outro método, lutara por quinze anos contra cada obstáculo que cruzava seu caminho. Ela deixara em seu rastro tradições de culinária inigualável e limpeza sem paralelo, juntamente com um exército vencido de patroas, empregadas domésticas, lavadeiras e mordomos. Ela pertencia à ordem das Cozinheiras Militantes, e há muito conquistara suas esporas.
Entre as coisas que Myrtella, em sua condenação abrangente da vida em geral, reprovava, nenhuma se destacava mais do que seu irmão e sua família. Mas o laço de sangue, mais forte que gostos ou desgostos, favores ou preconceitos, trazia-a de volta a ele repetidamente, para compartilhar com ele seus bens e criticar sua conduta.
Nesta tarde em particular, ela partira para Billy-goat Hill para ouvir sobre o tiroteio e dar a notícia à família de que conseguira um novo emprego. Isso acontecia com tal regularidade que não teria merecido atenção, não fosse pelo fato surpreendente de que Myrtella estava satisfeita. Em seus quinze anos de serviços rebeldes, ela nunca antes chegara perto de um lugar que desse satisfação. É certo que houve casos sombrios e que não devem ser lembrados em que ela mesma falhou em dar satisfação, mas geralmente era o lugar, "o novo lugar", com seu código variável de deveres e proibições, que fazia Myrtella passar muitos de seus dias no Escritório de Inteligência, ou em bondes, ou caminhando pelas ruas em busca daquele sempre ilusório "bom lar".
Ela começara sua peregrinação com um estado de espírito razoavelmente equilibrado, mas antes que ela estivesse bem encaminhada, o vento a deixara furiosa. Era uma brisa de março brincalhona que ficara para trás e agora vagava por maio, decidida a causar travessuras.
Myrtella virou contra ele, como um veleiro, todo equipado e com todas as velas içadas, uma pessoa angular e pesada com uma expressão beligerante estranhamente em desacordo com os movimentos embaraçados, quase tímidos, de suas mãos e pés. Mechas curtas de cabelo preto liso chicoteavam seu rosto, suas saias, sopradas fortemente contra seus joelhos, estufavam ao vento, enquanto seu chapéu de aba larga capturava toda a força da rajada, como um verdadeiro gávia.
Quando ela deu três viradas para atravessar o terreno baldio e estava pronta para mudar de direção na esquina, houve um solavanco de balão, que fez as velas baterem contra o mastro e a deixou em tal agitação de indignação que ela não viu um barbante que estendia seu comprimento insidioso, a cinco centímetros acima da calçada, da cerca ao meio-fio.
Após sua queda, em vez de morrer de apoplexia, como poderia ser esperado pela sua fisionomia, Myrtella levantou-se da calçada e, espiando por uma fresta na cerca, sorriu. Era uma expressão tão estranha aos seus traços que eles mal sabiam como gerenciá-la.
— Eu vejo você, Chick! — disse ela com uma voz que se esforçava para ser gentil; — por que você não sai aqui fora e fala comigo?
Chick e Skeeter, reconhecendo uma protuberância significativa na bolsa de barbante que ela carregava, saíram correndo, o primeiro esquivando-se habilmente de seu braço estendido de boas-vindas.
— Ele diz — interpôs o sempre pronto Skeeter, enquanto seu companheiro fazia ruídos estranhos na garganta —, que ele nunca soube que era você. Ele nunca pretendeu fazer você tropeçar. Honestamente! Você não está brava, está?
— Não, não estou brava. — Myrtella ainda sorria enquanto limpava a poeira de sua saia. — Aqui está uma laranja que trouxe para você, Chick. Você não tem estado doente, tem?
— Não! Ele não tem estado doente, mas tomou aquele banho que você pediu a ele, e onde está o níquel dele?
Myrtella ficou parada e observou os meninos até que a mercearia da esquina os engoliu, junto com seu novo níquel; então ela suspirou e virou para Bean Alley.
Não havia ruas ali, e uma pedra ou lata ocasional eram as únicas ilhas em um mar de lama. O chalé dos Flathers, consistindo em dois quartos e meio sótão, apoiava seu peso contra o chalé vizinho, com algo da confiança cega que Phineas Flathers depositava na Igreja. Do outro lado, ele comandava uma visão ininterrupta do Lixão, que era o pano de fundo para toda a vida social juvenil daquela seção de Billy-goat Hill.
Ali, navios eram lançados em poças de lama, jardins de flores eram tentados em latas, e guerras ferozes eram travadas entre gangues rivais; ali, aspirantes a mães brincavam com bonecas de pau e pano, e aspirantes ao circo realizavam proezas acrobáticas no único pedaço de cerca que não tinha caído. E toda essa atividade acontecia quase sob as rodas das carroças de lixo que passavam de um lado para o outro o dia todo. Myrtella, escolhendo seu caminho através da lama, estava apenas virando a esquina da casa dos Flathers quando seus olhos caíram sobre uma vidraça quebrada recheada com uma saia de lã que ela dera a Maria para transformar em calças para Chick. Ela prontamente a arrancou com uma força que trouxe o vidro junto, e quando chegou à porta dos fundos, sua mandíbula estava cerrada e suas sobrancelhas franzidas.
Considerando o fato de que o quarto dos fundos era uma combinação de cozinha, lavanderia, sala de jantar, despensa, depósito de carvão e porão, os olhares com que Myrtella varreu o recinto e seu único ocupante poderiam ter sido um pouco menos severos. Era um olhar no qual sua aversão individual à sujeira combinava com sua desaprovação racial de "parentes por afinidade".
No único espaço do quarto que não estava ocupado, Maria Flathers curvava-se sobre um tanque de lavar, persuadindo fracamente peças de roupa pretas a se tornarem cinzentas. Isso era tudo o que ela pedia delas. Ela não era ambiciosa. A ambição, como tudo o mais, fora encharcada dela há muito tempo por aquelas espumas quentes e fumegantes que a envolviam na maior parte de suas horas de vigília, e a deixavam física, mental e moralmente mole. Seu único instinto forte era a maternidade; mas cinco pequenos Flathers, abrindo olhos fracos para seu ambiente futuro, tinham ficado tão desencorajados que os fecharam prontamente de novo. Era como se eles realmente não pudessem suportar a perspectiva da vida naquele lar com o Sr. e a Sra. Flathers como pais!
Apenas Chick sobreviveu, o bebê da lata de cinzas, que na verdade não era deles, mas que, tendo começado a vida no quintal deles, continuou como tudo o mais continuava quando uma vez estabelecido na casa dos Flathers, pela simples razão de que ninguém nunca se dava ao trabalho de mudar a desordem existente das coisas.
À medida que Myrtella navegava furiosamente para o porto e atracava no degrau da porta, Maria olhou para cima com um suspiro:
— Céus! Myrtella, você me deu um susto. Esqueci que esta era sua tarde de folga. Pensei mesmo que você fosse o cobrador de aluguel de Sheeley.
— De Sheeley? — repetiu Myrtella, sua curiosidade superando seu temperamento, enquanto ela removia um sapato velho e uma peneira de farinha da cadeira mais próxima e sentava-se.
— Sim, ele é nosso proprietário, mas ele consegue outro homem para cobrar. Acho que você ouviu sobre ele ter levado um tiro?
— Li cada palavra que foi impressa. Ele vai morrer?
— Ele não. Não há nada de errado com ele, exceto que seu olho foi arrancado. Meu tio, lá em casa, teve os dois olhos... Você, Chick! — isso para uma presença invisível que se manifestava apenas através de uma chuva de seixos que seguia o rastro de um gato em fuga. — Vá até o salão, Chick, e diga ao seu papai que ele terá que vir para casa. Sua tia 'Tella está aqui.
— Não parece que ele cresce um centímetro por ano — disse Myrtella pensativa, observando-o partir.
— Aquela Sra. Ivy esteve atrás de mim de novo para enviá-lo para o Lar de Viúvas e Órfãos. Ela diz que pode conseguir uma vaga para ele, e eles o ensinarão a ler e escrever.
— Bem, ele não vai! Acho que, enquanto eu estiver pagando as contas do mercado, tenho o direito de dizer quem vai comer a comida! O que é isso que você está escondendo?
Maria, que tentara remover algo subrepticiamente da mesa, parecia apologética.
— É um daqueles moldes de gesso, aposto — Myrtella continuou. — Eu deveria saber que você conseguiria o par do outro, e não há um centímetro quadrado de espaço na casa para colocá-lo! O que você deu por ele?
A Sra. Flathers retirou seu avental e espanou ternamente as feições fortemente coloridas de uma indígena, cujas penas na cabeça repousavam sobre seu braço. Então ela o colocou em um canto do fogão, onde sua dignidade imponente produziu uma impressão momentânea até mesmo na obstinada Myrtella.
— Quanto? — ela exigiu sem piedade.
— Um quarto de entrada e dez centavos por semana. — Maria suspirou. — Não seria problema nenhum se não fosse pelo Phineas gastando tanto com passagem para ir à igreja e aquele cobrador de aluguel de pernas tortas e desprezível, que vem esgueirando-se por aqui toda semana, agindo como se as pessoas pobres apenas mantivessem dinheiro espalhado em potes esperando por alguém como ele!
O ódio de Maria pelo cobrador de aluguel era a única emoção que parecia ter restado em seu peito murcho. Impedir que ele recebesse, evitá-lo, antecipar sua chegada e estar fora de casa constituíam o principal objetivo de sua existência.
Uma batida no portão anunciou a chegada do chefe da família, que foi prontamente seguida pelas notas de um hino assobiado alegremente em rag-time.
Phineas Flathers, após meses de abstinência, chegara àquele período em que sentia que não apenas sua constituição, mas sua profissão, se beneficiariam de uma queda temporária em desgraça. A solicitude por seu bem-estar moral estava começando a diminuir na Igreja; sua frequência regular, sua aparente absorção no sermão e sua execução emocional dos hinos, tudo contribuía para elevá-lo da classe de convertidos interessantes à mortal mediocridade dos membros regulares. Apenas naquela tarde ele decidira reavivar o interesse em seu caso a qualquer custo. Ele acabara de pagar rodadas para outros, como gostaria que outros fizessem por ele no Cant-Pass-It, quando foi chamado para casa para ver sua irmã.
Ele agora se apresentava em seu próprio batente da porta, uma mão de cada lado da ombreira, e curvou-se profundamente:
— Srta. Flathers! Prazer em conhecê-la! Vejo que você ainda continua favorecendo a si mesma na aparência. Perdeu seu emprego, suponho?
— Isso mesmo, seja insultante! — Myrtella explodiu arrogantemente; — jogue na minha cara que sou difícil de agradar e que não estou disposta a me contentar com qualquer emprego que apareça.
— Ora, eu não diria que estava jogando na sua cara, exatamente — começou Phineas, ansioso para apaziguar.
— O que significa que sou uma mentirosa? — Myrtella preparou-se para a ação.
— Oh, vamos lá — insistiu Phineas; — nenhum mal foi pretendido. Vá em frente e nos diga por que você saiu.
— Quem disse que eu saí? Colocando palavras na minha boca que nunca pensei em proferir! Eu não saí, e mais, não vou sair. Consegui um bom emprego.
Phineas assobiou uma nota de surpresa irritantemente atenuada: — A senhora para quem você está trabalhando deve ser surda-muda.
— Ela é. O mesmo que você será um dia. Ela está morta há três anos.
O triunfo com que ela fez esse anúncio impôs um silêncio momentâneo a Phineas e permitiu que ela continuasse:
"É um cavalheiro viúvo com três filhos para quem estou cozinhando, e não pus os olhos em nenhum deles, exceto na hora das refeições, desde que me contrataram. Queerington é o sobrenome deles, moram na College Street, bem na esquina da Igreja Immanuel. Ele é professor ou algo assim, um daqueles homens devoradores de livros, cuja cabeça nunca presta atenção ao que o resto do corpo está fazendo. 'Tome conta', disse ele, 'de tudo, faça os pedidos e a comida, e não me incomode com nada'."
"Mas ele te incomoda?", interveio Phineas astutamente; "esse é o verdadeiro ponto."
"Eu não estava justamente lhe dizendo que não? Ele viajou para a Virgínia; chega hoje à noite. Tenho a casa inteira na palma da minha mão, do porão ao sótão. A senhorita Connie, a mais velha, é tão volúvel quanto um pombo e com a cabeça tão cheia de rapazes que não presta atenção em mais nada vivo. Depois tem a senhorita Hattie, a segunda, bem naquela idade maldosa dos treze anos, mas tão ocupada bicando a irmã que não lhe sobra tempo para mim..."
"Pensei que tivesse dito que eram três filhos", interveio Maria suavemente.
"Eu disse. Você não achou que eu menti, achou? Sempre pronta para arrebatar as palavras de alguém antes que saiam da boca! O terceiro é um menino, Bertie, como o chamam, doente e mirrado, mas um rapazinho muito bom. Para onde o Chick foi?"
"Ele está sentado lá fora na soleira da porta. Você ouviu sobre o nosso tiroteio?"
"Maria estava tentando me contar, mas não pareceu ter nada de claro para dizer. Quem você acha que fez isso?"
Phineas Flathers, equilibrando-se nas pernas traseiras da cadeira, com os polegares nas aberturas do colete, não estava nem um pouco relutante em lançar-se a uma narrativa completa do caso, embelezando-a com muitos floreios à medida que avançava. No seio da família, ele estava livre daquelas amarras de contenção que embaraçavam sua fala quando em sociedade mais formal. A quantidade de profanidade que ele conseguia dispor no curso de uma conversa comum era pouco menos que espantosa. Sendo esta mais do que uma conversa comum e estando ele com o humor ameno, exigia um vocabulário extra. Ele expôs graficamente os fatos do caso, depois deu rédea solta à sua imaginação ao explicá-los. Ele interpretou todo o caso como um choque entre capital e trabalho, um conflito entre o aristocrata mimado e o homem comum. O tiroteio foi o resultado de um plano profundo: Dillingham e Morley haviam se encontrado por combinação, movidos por um motivo que ele não deixou claro, para matar Sheeley, um honesto homem trabalhador. Não teria aquele a cavalo, que dizem ser o Sr. Morley, parado-o no cruzamento, na própria tarde do tiroteio, e engajado-o em uma conversa? Phineas garantiu aos ouvintes que tremia até agora ao pensar no perigo em que estivera!
"Eu já o tinha visto antes daquele dia andando com uma moça bonita, que quase quebrou o pescoço debaixo de uma locomotiva, mas desta vez ele estava sozinho, sentado lá no seu cavalo, tão orgulhoso quanto um rei e me provocando sobre os ricos não permitirem que nós, das classes trabalhadoras pobres, tivéssemos ruas aqui fora. Suspeitei de algo bem ali; disse para mim mesmo: 'ele tem um rosto bonito, mas sua mente é um poço de corrupção'. E quando ouvi que ele tinha atirado no Sheeley... Ora, o que diabos há com você, Chick?"
Durante essa narrativa, Chick estivera sentado na porta, os joelhos puxados até o queixo, ouvindo atentamente, mas neste momento ele exclamou em uma torrente de sons de protesto.
"É o tiroteio, ficou na cabeça dele", explicou Maria, enrolando seu cabelo longo e fino em um nó ainda mais apertado na parte de trás da cabeça. "Ele reage assim toda vez que nos ouve falar sobre isso, e ninguém consegue entender uma palavra do que ele está dizendo. Por dois ou três dias eu mal consegui fazê-lo comer nada."
"Se a sua comida não estiver melhor do que costumava ser, não me surpreende", disse Myrtella. "Quão grave foi o tiro no Sheeley, Phineas?"
"Oh, ele ficará de cama por mais um mês. Dizem que a retina do seu olho foi rachada bem no meio. Mas isso não é o que preocupa Sheeley. Ele está vivendo com estilo no hospital, todas as suas contas pagas e a alta sociedade cuidando dele. Ouvi dizer que ele nem vai processar. Eles o arranjaram direitinho; além disso, ele não quer ter aquela turma jovem e ousada em cima da sua casa. Ele está contando em recomeçar aquelas lutas de boxe assim que a polícia parar de notar ele. Diga, mana, você não teria por acaso uma moeda de vinte e cinco centavos aí com você, teria?"
A persuasão peculiar da voz de Phineas, quando ele lançava essas sugestões financeiras, era muito insidiosa. De alguma forma sutil, ele fazia o favor parecer todo do lado do receptor; ele dava ao doador, por assim dizer, uma chance de adquirir mérito.
Mas Myrtella vestia a armadura da experiência. "Não, não tenho!", disse ela, segurando com mais firmeza sua bolsa. "Estou pagando o merceeiro agora e comprando roupas para o Chick. De que adianta? Mal cubro a pele dele e você vai e vende as roupas do corpo dele. Quando você vai arranjar um emprego?"
"Bem, pode-se dizer que já tenho um agora. Pelo menos estou seguindo as Escrituras e carregando os fardos uns dos outros. Jires, o sinaleiro, lá na junção, está de cama com reumatismo e não quer que o chefe saiba disso. Ele fica em sua guarita e me contrata para ir lá fora sinalizar os trens como ele me manda."
"Quantos trens por dia?"
"Dois subindo, três descendo e um par de cargueiros."
"Devia achar que você morreria de tanto esforço. Quanto você recebe?"
"Oh, não é tanto. Mas eu não sou um homem ambicioso. Qual é a utilidade de eu me escravizar e entesourar quando não tenho um filho para deixar? Se Claude tivesse vivido, ou McKinley, eu poderia ter tido algo pelo que trabalhar."
"Você quer dizer que teria tido algo para trabalhar para você. O Senhor certamente fez um bom trabalho quando mudou de ideia sobre deixar essas crianças viverem."
"Eles estão comendo cebolas ao lado para o jantar", disse Maria fracamente, como forma de desviar de uma velha discussão. "Não consegui tirar isso da cabeça a tarde toda."
Chick, que tinha sido enviado à mercearia para ver que horas eram, voltou levantando cinco dedos.
"Caramba, preciso me mandar!", disse Phineas. "O trem de passageiros da Virgínia está previsto para as cinco e dezesseis. Não chegará aqui antes de quinze para as seis, mas estou sempre lá no minuto. É isso que Jires me paga, por ser regular e confiável. Basta eu pegar um hábito regular e um relógio não é nada perto de mim. Ora, se eu chegasse atrasado à igreja, eles parariam o serviço!"
"Bem, não pegue o hábito regular de vir rondar os Queeringtons!", foi o comentário final de Myrtella enquanto ele se levantava instavelmente. "Quando eu tiver algo a dizer para você, virei aqui."
"Isso mesmo!", assentiu Phineas cordialmente; "você simplesmente sinta-se em casa. Minha casa é sua casa. Maria lhe dirá que eu disse a ela apenas ontem à noite, eu disse: 'Maria, você não precisa se sentir tão mal por pedir o aluguel para Myrtella este mês, porque esta casa também é dela. Não há uma tábua nela que eu não dividiria com ela, ela sabe disso'. Você conte a ela tudo o que eu disse, Maria, não esconda nada. Adeus!", e com um olhar afetuoso e um aceno de mão, Phineas partiu.
Ora, se ele tivesse seguido o caminho estreito e reto, indicado pelas pedras e latas vazias, que levava à junção, em vez da estrada larga indicada pela calçada de tábuas que levava ao Cant-Pass-It, a tragédia que pairava sobre Billy-goat Hill poderia ter sido evitada.
Mas ele tinha deixado o bar no meio de uma acalorada controvérsia com dois italianos sobre a supremacia da América sobre todas as outras nações. O fato de seu país nunca ter se orgulhado dele de forma alguma o impedia de ser muito orgulhoso de seu país. Até que a disputa terminasse adequadamente, ele sentia que a honra da nação estava em jogo.
Seu fervor patriótico era tão alto que, quando chegou ao cruzamento, o trem de passageiros já estava à vista. Jires, desamparado e aterrorizado em seu posto, gritava distraidamente direções de sua pequena guarita de sentinela.
"Flathers! Há uma inundação lá embaixo na estrada! Temos que parar o trem de passageiros. Tire a bandeira vermelha! Rápido, homem! Esteja pronto para sinalizar ao maquinista. Três vezes cruzado! A bandeira vermelha, seu tolo! A BANDEIRA VERMELHA! Oh, meu Deus!"
Pois Phineas Flathers, para quem todas as bandeiras agora pareciam vermelhas, brancas e azuis, estava parado no cruzamento, alegremente acenando uma bandeira branca, enquanto o maquinista com a mão no acelerador liberava os freios e enviava seu trem trovejando pela ladeira abaixo em direção à destruição.
* * * * *
Enquanto isso, Myrtella, tendo terminado sua visita em um grand finale de pirotecnia, no qual exibiu Phineas à sua esposa em vários retratos realistas flamejantes, partiu. Não era a primeira vez que ela enfrentava a alternativa de pagar o aluguel ou ver seu único parente despejado na rua, nem era a primeira vez que, depois de dizer inúmeras verdades a Maria, ela as seguia com o aluguel.
Por todo o caminho para casa, ela discutia o assunto audivelmente consigo mesma, e ainda resmungava sombriamente quando chegou à casa dos Queerington. Tão absorta estava ela em suas próprias mágoas que não notou que a porta da frente estava aberta e figuras corriam pelo corredor.
Ao entrar pela porta lateral, uma jovem de rosto pálido, com o cabelo escovado para trás em uma longa trança, passou correndo pela despensa.
"O que aconteceu, senhorita Hattie?"
A menina se equilibrou no corrimão. "É o papai!", disse ela com os dentes batendo. "Houve um acidente terrível logo abaixo da junção. Eles nem conseguem trazê-lo para casa. Eles estão levando-o para um lugar ali, de um coronel Carsey. O coronel Carsey foi morto. Ele estava sentado bem ao lado do papai. Oh! Myrtella, estou com tanto medo de que o papai morra!"
Myrtella, parada impotente diante da menina aterrorizada, não encontrou palavras de consolo. De fato, ela parecia ainda mais formidável e eriçada do que o habitual.
"Bem, ele ainda não está morto", disse ela secamente, "e, de qualquer forma, não há razão para que você não deva jantar. Problemas sempre pesam muito em um estômago vazio."
CAPÍTULO VII
O acidente fatal que o patriotismo equivocado de Phineas Flathers precipitou mudou o curso de muitas vidas, mas para ninguém trouxe consequências de maior alcance do que para a filha do velho Bob Carsey.
A senhorita Lady nunca conseguia recordar claramente aqueles primeiros dias após a morte de seu pai. Pareciam-lhe um pesadelo confuso de médicos e enfermeiras estranhos, de um homem estranho pairando entre a vida e a morte na cama do quarto de hóspedes, de pessoas estranhas indo e vindo, ou sentadas em grupos silenciosos nas rígidas cadeiras de crina no corredor, esperando por notícias. Dois fatos apenas permaneceram fixos no caos rodopiante de irrealidades; seu pai estava morto, e nenhuma carta viera de Donald Morley.
Cada dia, quando o correio chegava, ela despertava de sua apatia e, com dedos trêmulos, separava as cartas, revendo-as repetidas vezes, e nunca encontrando a que buscava. Gradualmente, sob a mágoa pungente por seu pai, surgiu a dor surda e persistente de uma primeira desilusão. A crença e a lealdade com que ela começara a defender Donald começaram a enfraquecer diante de seu silêncio. Em sua dificuldade, ela estivera pronta para correr até ele, para socorrer e perdoar, mas ele não a chamara. Agora, em sua grande necessidade, ela o chamava, e ele não vinha. A suspeita começou a seguir os passos da dúvida.
Não teria ele admitido sua instabilidade? Seu pai não a vira desde o início? Seu desejo de se estabelecer no campo seria apenas um dos caprichos dos quais sua vida parecia feita? Talvez ela mesma tivesse sido apenas um capricho passageiro, algo desejado pelo momento, mas logo esquecido. Ao final de uma semana, seu orgulho tomou as armas. Qualquer razão que ele pudesse oferecer agora viria tarde demais.
O mergulho repentino de uma infância irresponsável nesta região misteriosa de luto e dúvida, onde se deve trilhar o caminho espinhoso sozinha, a aterrorizava e a desconcertava. Ela fez todas as últimas coisas tristes e inúteis que se pode fazer pelos mortos; depois, quando tudo acabou, fugiu da confusão em Thornwood e buscou o silêncio dos bosques. Aqui, explosões ferozes de luto rebelde eram seguidas por horas de apatia, quando ela caminhava por quilômetros, vendo e não ouvindo nada, mas impulsionada por um desejo insistente de estar em movimento.
Foi ao final de uma dessas caminhadas que Noah Wicker a encontrou tarde da noite, na grama à beira do rio, soluçando seu coração no lugar onde o Coronel costumava pescar.
As palavras de conforto de Noah eram tão escassas quanto suas outras palavras, então ele sentou-se em um tronco próximo e esperou silenciosamente até que ela estivesse pronta para ir para casa. No estrado, onde a deixou, ele entregou-lhe uma carta.
"Eu a peguei na estação hoje ao meio-dia", disse ele. "Pensei em vir mais cedo, mas não sabia se você queria me ver."
Ela não o ouviu, a carta tinha chegado! Seus dedos vibraram ao toque dela, e o sangue quente subiu ao seu coração. Sem outro pensamento para Noah, ela correu pelo caminho até a casa, onde se trancou na sala de estar. Fósforo após fósforo faiscava e se apagava em seus dedos nervosos, antes que a lâmpada fosse acesa.
Ele tinha escrito! Ele se importava! Ele estava vindo! Repetidas vezes ela sussurrava as palavras para si mesma. Então ela olhou para o carimbo postal no envelope pesado, e seu coração afundou. São Francisco! Afinal, ele não estava voltando!
Seu dedo ansioso estava no selo, quando seus olhos caíram sobre um cachimbo de madeira que jazia na mesa ao lado de uma bolsa de tabaco meio cheia. Em um instante, ela pareceu ver uma mão marrom e grossa alcançando-o, o rápido estalo do fósforo, o clarão de luz em um rosto velho e castigado pelo tempo, depois um suspiro profundo de contentamento enquanto o Coronel se recostava e estendia sua outra mão para sua garotinha.
E sua última promessa a ele tinha sido a de não fazer nada até que o nome de Donald fosse limpo. Ela poderia cumprir sua promessa agora, mas poderia depois de ter lido a carta de Donald? Se o simples toque dela em sua mão implorava por ele, o que fariam as palavras vivas?
Ela olhou sem esperança ao redor da sala alegre e simples, cada centímetro da qual lhe falava de seu pai e de seu amor por ela. Na moldura branca da porta estavam anotados os orgulhosos registros que ele fizera de sua altura em cada aniversário sucessivo. Nas paredes havia fotos dela que ele guardava, desde quando ela era um bebê de olhos redondos até os dias de hoje. No armário havia uma caixa verde contendo seus primeiros sapatos, seus vestidinhos, sua primeira carta, seus cachinhos de bebê.
Sobre o cravo estava um retrato do próprio Coronel, pintado antes de ela nascer. Representava um esportista jovem e arrojado, cercado por sua matilha de cães. Vinte anos atrás, este caçador galante tinha abandonado a caça, com muitas outras alegrias, para cuidar de suas necessidades de bebê, para compartilhar suas alegrias e tristezas, e ser pai, mãe, companheiro de brincadeiras, tudo em um.
Ela apertou a carta de Donald Morley com força e fechou os olhos. Nunca em sua curta vida ela quis fazer algo tão desesperadamente quanto quis ler aquela carta, e ainda assim a leitura dela significaria quebrar uma promessa a alguém para quem ela nunca mais poderia prometer nada. Seu amor recém-despertado e seu senso de justiça imploravam ardentemente por Donald, mas a sala vazia e seu coração vazio, e um senso apaixonado de lealdade aos mortos, falavam silenciosamente por seu pai.
Afinal, nada poderia justificar aqueles longos dias de silêncio, aquela falha de Donald em vir a ela em seu problema. O julgamento de seu pai provavelmente estava certo afinal, e era melhor que ela pusesse um fim ao assunto de uma vez por todas.
Soluçando como uma criança, ela beijou a carta repetidas vezes e, ajoelhando-se perto do fogo, manteve-a na chama e observou-a queimar até virar cinzas na lareira.
Depois disso, uma semana triste seguiu-se a outra, com a mesma invasão de estranhos, os mesmos relatórios variados do quarto do doente. Gradualmente, no entanto, os relatórios tornaram-se mais favoráveis, a tensão diminuiu, os visitantes tornaram-se menos frequentes e Thornwood começou a voltar ao seu estado normal.
Devido à natureza do ferimento do Doutor Queerington e ao choque severo que ele sofrera, não foi considerado melhor movê-lo para a cidade até que estivesse mais forte. A casa de campo tranquila era um excelente lugar para a convalescença, e sob a direção de sua enfermeira treinada ele poderia ser autorizado a ler e escrever, livre do incômodo que certamente o afligiria quando voltasse para casa.
Este arranjo foi acordado apaticamente pela senhorita Lady, que não tinha planos para o futuro e temia outro ajuste. Ela estava singularmente só no mundo, e atordoada demais no momento para saber qual deveria ser seu próximo passo. A única coisa de que ela tinha certeza era que nunca deixaria Thornwood.
Em um dos primeiros dias em que o Doutor Queerington pôde sentar-se, ela foi vê-lo. Sua primeira impressão no quarto escurecido foi o aperto bondoso de uma mão e uma voz baixa maravilhosa que falava palavras de conforto. Então, gradualmente, ela viu o rosto magro e excessivamente sério de um homem de meia-idade, com olhos pequenos um tanto próximos demais, uma testa larga e intelectual, e uma boca firme e bem formada que parecia estranha aos sorrisos.
A partir desse momento, ela encontrou em seu quarto um refúgio. Ele tinha sido o objeto desconhecido de sua admiração desde que ela era criança, ele era o amigo de seu pai, o último a estar com ele antes de sua morte, e ele conversava com ela por horas sobre os grandes mistérios da vida e da morte. Ele era a única pessoa com quem ela conversava que nunca parecia estar em dúvida.
Não era a primeira vez que o Doutor provava ser uma presença consoladora em tempos de aflição. Onde outros conjecturavam ou evadiam, ele afirmava corajosamente. O universo, para ele, era um livro aberto, do qual ele gostava de ler em voz alta.
Certa manhã, seis semanas após o acidente, a senhorita Lady entrou em seu quarto com um punhado de flores e encontrou-o apoiado na cama, seus livros ao seu redor e um bilhete na mão.
"Tenho uma comunicação da minha prima, a Sra. Sequin", disse ele com a formalidade educada que lhe era habitual. "Parece que ela vai me honrar com uma visita."
"Sra. Sequin?" A senhorita Lady virou-se tão repentinamente que derrubou o vaso no qual ela estava arranjando as flores. "Agora veja o que eu fiz! Vou consertar, senhorita Wuster; não se incomode."
Aparentemente, exigiu pouco autocontrole para a enfermeira treinada evitar se incomodar. Ela estava sentada com os calcanhares firmemente enganchados sob o travessão de uma cadeira de encosto reto, fazendo crochê com abandono apaixonado. Encher bolsas de água quente, medir temperaturas, alimentar pacientes, eram meras interrupções à sua verdadeira vocação de converter carretéis de linha de linho em metros de renda de linho.
"Ela declara sua intenção de vir me ver", continuou o Doutor, "mas não consigo decifrar seus hieróglifos o suficiente para descobrir o horário. Talvez você possa me ajudar."
"Isso é um D?", perguntou a senhorita Lady, olhando por cima de seu ombro.
"Julgo que sim; uma adaptação do caractere grego. Por que a arte da caligrafia deveria ser considerada obsoleta, estou sem saber..."
"Oh, ela diz que virá hoje", interrompeu a senhorita Lady, "no trem das onze. Devo ir lá embaixo dizer ao tio Jimpson para estar na estação e pedir à tia Caroline para colocar mais um prato para o jantar."
"Então, o que você vai fazer, minha querida?"
"Eu ia ao cemitério."
“Absolutamente nada. Nem uma palavra. É um mistério total. Algumas pessoas dizem que ele partiu para o Oeste, outras que se alistou em um navio, mas eu prefiro acreditar que ele está apenas se escondendo até que a poeira baixe. É tão irritante! Seria muito mais fácil se ele simplesmente aparecesse e se deixasse levar por um advogado sensato. Mas, como você diz, ele sempre foi tão impulsivo. Pobre Donald, ele nunca teve o senso de conveniência que a vida exige.”
A senhorita Lady, que ouvira a conversa da soleira da porta, sentiu uma pontada de deslealdade ao ouvir o Doutor concordar com um aceno de cabeça. Ela sabia que o Doutor não conhecia Donald como ela; ele não sabia como, sob aquela camada de imprudência e irreflexão, residia uma lealdade que não conhecia limites, e um idealismo que, embora muitas vezes equivocado, era sempre sincero.
“Você está muito pensativa, minha cara”, disse o Doutor, cujos olhos penetrantes pareciam ler os pensamentos da jovem. “A ausência de Donald pesa em sua mente?”
“Não, Doutor”, ela respondeu, com a voz um pouco mais firme do que pretendia. “Estou apenas pensando no que a senhora Sequin disse sobre o julgamento. Parece tão injusto que, enquanto Lee Dillingham está livre, Donald tenha que viver como um fugitivo, tudo por causa de um segredo que ele não quis revelar.”
“A vida, minha querida, raramente distribui justiça com a precisão de uma balança de farmácia”, observou o Doutor. “Muitas vezes, a verdade é sacrificada no altar do interesse próprio e da conveniência social. É uma lição que todos aprendemos com o tempo, embora alguns de nós a aprendam com mais dor do que outros.”
A senhora Sequin, sentindo que a conversa estava se tornando excessivamente filosófica para o seu gosto, interrompeu com um movimento brusco de seu leque. “Bem, basta de falar sobre assuntos tão deprimentes! Eu vim aqui para garantir que meu querido primo seja bem cuidado. Espero que a enfermeira seja eficiente. Tive a impressão de que ela é um pouco... informal.”
“A senhorita Wuster é extremamente dedicada”, defendeu o Doutor com um sorriso paciente. “Embora, talvez, não possua a sutileza que você, Katherine, sempre demonstrou em seus ambientes sociais.”
“Sutileza é uma necessidade, não um luxo”, respondeu a senhora Sequin, ajustando a gola de seu traje com um ar de importância. “Mas, enfim, falemos de algo mais agradável. Soube que a propriedade dos Carsey está em um estado de decadência lamentável. É uma pena, uma família tão antiga e tradicional. O que se pretende fazer com todo este espaço?”
A senhorita Lady, sentindo-se repentinamente exausta, retirou-se silenciosamente, deixando os dois parentes entregues às suas considerações sobre o destino das terras e das famílias. Ao descer as escadas, encontrou a senhorita Ferney Foster, que subia com uma expressão de urgência.
“Oh, senhorita Lady! Terminei os picles e voltei correndo. Aquele forro ainda precisa ser ajustado?”
“Não, senhorita Ferney”, disse ela, com um sorriso fraco. “A senhora Sequin já cuidou disso. Pode ir descansar, eu mesma me encarregarei do resto.”
Enquanto a costureira descia, a senhorita Lady caminhou até a varanda dos fundos, onde o sol da tarde filtrava-se através das árvores antigas. O nome de Donald, mencionado tão levianamente na sala acima, ecoava em seus ouvidos. Indiciado. Fugitivo. E ela, ali, presa a uma casa que se desfazia, em meio a sombras e memórias, sem saber se o futuro guardava algo além da repetição melancólica do passado.
Lá fora, tio Jimpson apareceu, carregando um cesto de lenha, e ao ver a jovem na varanda, parou um instante, tirando o chapéu.
“Tudo bem, senhorita Lady? Aquela senhora lá em cima, ela é... bem, ela é muito elegante, não é?”
“Sim, Jimpson. Ela é muito elegante.”
“Pois é”, disse ele, com um brilho nostálgico nos olhos. “Faz tempo que não tínhamos tanta elegância em Thornwood. Faz a gente lembrar de como as coisas eram. Mas a senhorita não se preocupe, eu e a Carline, nós ainda sabemos cuidar da casa como deve ser.”
Ela sorriu para o velho servo, sentindo uma gratidão genuína por aquela lealdade que, ao contrário da justiça do tribunal ou da conveniência social, nunca falhava. “Eu sei, Jimpson. Eu sei.”
“Não, na verdade, e espero que não por enquanto. Escrevi imediatamente após o tiroteio para todos os lugares que me ocorreram para onde ele pudesse ter ido, e implorei-lhe, se tivesse um pingo de gratidão por mim ou afeição por Margery, que se mantivesse afastado e nem sequer deixasse que soubessem do seu paradeiro até que este assunto deplorável tivesse passado. Quase sempre consigo apelar ao Don com base na gratidão. Devo dizer, em seu favor, que, como o resto dos homens Morley, ele vive as suas aventuras de juventude como um cavalheiro. Lembra-se do tio Curtis? Diziam no clube que ele era um bebedor terrível e, no entanto, nenhuma mulher da sua família o viu alguma vez embriagado. Depois, olhe para o avô Morley!” A Sra. Sequin estava montada num dos seus passatempos favoritos. Possuía uma vasta e variada coleção de esqueletos familiares, alguns de rara antiguidade, que ela se deliciava em exibir. Podia relatar os detalhes das infelizes alianças matrimoniais de ambos os lados da família durante gerações, e era ainda mais infalível no que toca às datas de nascimento do que a Bíblia da família. Se um parente, por acaso, se confundisse um pouco e admitisse ter trinta e nove anos no próximo junho em vez de no passado, a Sra. Sequin saltava sobre o erro como um gato sobre um rato. Podia provar-lhe imediatamente que ele tinha nascido na primavera em que o tio Lem Miller morreu, e que esse foi o mesmo ano em que a avó Weller casou pela segunda vez, portanto, ele tinha feito trinta e nove anos no passado junho.
“Donald deveria regressar imediatamente”, declarou o Doutor Queerington, quando ela fez uma pausa para recuperar o fôlego; “se ele é culpado, deve aceitar a sua punição; se é inocente, como acredito, deve ser justificado.”
“Bem, não o conseguimos encontrar”, disse a Sra. Sequin com uma resignada alegria. “Ele está provavelmente no Oriente com Cropsie Decker. Que cama magnífica esta! Acha que a poderia comprar? As pessoas do campo quase sempre preferem mobiliário novo.”
O esboço de um sorriso pairou sobre os lábios finos do Doutor: “As posses de Thornwood, imagino, não estão à venda.”
“Suponho que a extraordinária jovem que encontrei no corredor da frente seja a Srta. Carsey? Que espécie de rapariga é ela, afinal?”
“A Srta. Lady?” O Doutor ajeitou a almofada. “Uma rapariga extremamente simpática, creio eu. Extremamente compreensiva e atenta a todas as minhas necessidades, e recetiva a um grau notável. Tem lido para mim diariamente, e descubro uma mente bastante incomum, indisciplinada, é claro, mas original e interessante.”
“Mas que maneiras espantosas a criança tem! Cumprimentou-me de braços nus e pediu-me para lhe ajustar um vestido quando nunca me tinha visto na vida. Mas ela é certamente bonita! Não vejo uma criatura tão bonita há anos.”
“De facto!” disse o Doutor, ajustando os seus óculos. “Não tinha reparado, especialmente. Um rosto fino e franco, com olhos escuros... sim, creio que reparei que ela tinha olhos castanhos de uma clareza invulgar; lembro-me de ter reparado nisso.”
“O que ela vai fazer? Quem vai ficar com ela?” perguntou a Sra. Sequin. “Imagine uma rapariga como aquela enterrada aqui no campo! Vestida adequadamente, e um pouco mais contida, causaria sensação. Eu não me importaria nada de a convidar para passar uns dias comigo algum dia. Sabe que adoro os jovens, e a pobre Margery, como todas as outras debutantes do ano passado, está simplesmente acabada. Não tem uma faísca de entusiasmo por nada. Espero que não se tenha esquecido do facto de que a sua Constance deveria entrar na sociedade este inverno?”
“Minha cara Katherine”, disse o Doutor com um ar de paciência forçada, “não parece perceber que o meu tempo e a minha mente estão ocupados com coisas muito maiores do que a sociedade. Espero, no próximo ano, completar o quinto e último volume da minha 'História da Influência Normanda na Literatura e Língua Inglesas'. Se pude dedicar aos meus filhos pouco do meu tempo e atenção, é apenas devido ao meu desejo de lhes deixar algo de muito maior valor — um nome que confio que figurará entre os dos mais importantes académicos ingleses do meu tempo.”
A Sra. Sequin acalmou a sua irritação estudando as suas unhas bem polidas. “Claro, isso será uma vantagem para eles. Mas o que diabo se tornará deles entretanto? O céu sabe no que a Hattie se transformará se não for controlada. Ela recusa-se a usar guarnições na roupa de baixo agora, e usa sapatos de rapaz. Quanto à Constance! Desisti completamente de a compreender. Ela está simplesmente a viver desenfreada, sem fazer quaisquer ligações sociais. O que eles precisam realmente, primo John, é de uma mãe.”
“Devo tentar cuidar mais deles”, disse o Doutor, um pouco impotente. “Viu-os recentemente?”
“Passei por lá esta manhã. Estavam todos bem, suponho; a Connie estava na casa dos Ivy como de costume, e a Hattie na escola. Que criatura selvagem é a sua nova cozinheira, Myrtella. Acredito que ela é uma anarquista! Abriu a porta apenas uma fresta, e quando lhe perguntei como estavam as jovens, ela disse que tinha a certeza de que não sabia, que não lhes tinha perguntado.”
“E o Bertie, viu o Bertie?”
“Sim, ele estava com ela. Tinha um pedaço de massa suja nas mãos que ele disse que ia ser um bolo. Devo dizer que ela parece ser boa para o Bertie, mas eu não toleraria a sua impertinência por um momento.”
“Myrtella carrega virtudes ocultas”, disse o Doutor. “Ela é uma excelente cozinheira e uma boa gestora. Os seus únicos defeitos, aparentemente, são defeitos de temperamento.”
“Dos quais o Céu me defenda! O que é aquele ruído? Parece que alguém está a pontapear a porta.”
“Por favor, abra!” chamou uma voz de fora, e enquanto a Sra. Sequin obedecia, a Srta. Lady entrou, carregando um grande tabuleiro de almoço alegremente decorado com flores do jardim.
“'Benditos sejam esses festins coroados com simples fartura',” citou o Doutor. “Vê como eles me estragam, Katherine?”
“Não acredito que ele possa ser estragado, acredita, Sra. Sequin?” perguntou a Srta. Lady, enquanto arrumava os ovos dele. “Há mais alguma coisa, Doutor?”
“Não fuja”, disse a Sra. Sequin, seguindo os movimentos dela com franca admiração. “Venha aqui e sente-se, quero falar consigo. Descobri o local ideal para a minha nova casa e quero pedir-lhe a sua opinião. Sabe a crista oeste desta colina com vista para o rio; pertencia ao seu pai?”
“Tudo aquilo costumava ser nosso, muito antes de ser chamado Colina do Bode.”
“O nome é um obstáculo”, disse o Doutor. “Poderia modificá-lo, Katherine, chamando à sua futura mansão 'Alturas de Angorá'.”
“Exatamente a coisa certa”, disse a Sra. Sequin, ansiosa por agarrar qualquer sugestão que emanasse do intelecto de Queerington. “Mas a quem pertence o terreno?”
“Pertence ao Sr. Wicker, agora.”
“Wicker?” repetiu a Sra. Sequin. “Onde já ouvi esse nome? Ora, primo John, não foi esse o homem com quem o Don ficou, quando andava à procura de uma quinta? Como nos rimos daquela ideia absurda dele de ser agricultor!”
“Eu não me ri disso”, disse o Doutor. “Eu encorajei-o. Pareceu-me a ideia mais excelente!”
“Mas não contou com a inconstância do Don. Claro que ele é um rapaz adorável, mas teve tantos passatempos quantas namoradas.”
“Contei com o seu caráter, que ainda pode criar raízes no solo apropriado”, disse o Doutor com dignidade; depois, voltando-se para a Srta. Lady, que se levantara e estava junto à cama, com as mãos fortemente cerradas e os olhos fixos nos dele, explicou: “Estamos a falar do irmão mais novo da Sra. Sequin; estava a falar-lhe dele esta manhã. Ora, criança!” Pois a Srta. Lady tinha subitamente escondido o rosto nas mãos e corrido para a porta.
“É o choque da morte do pai”, explicou a Sra. Sequin, que se orgulhava de adivinhar motivos. “Eu fiquei assim durante semanas quando o meu último cão foi atropelado. A coisa mais casual perturbava-me. Perdi dois jogos de cartas numa tarde porque alguém mencionou simplesmente uma carroça de gelo.”
Os dedos longos e finos do Doutor tamborilaram distraidamente na colcha. Pouco depois, interrompeu de forma bastante irrelevante o fluxo constante de conversa da Sra. Sequin: “Eu disse castanho-avermelhado, Katherine, são mais para o avelã, diria eu, um avelã profundo com um fogo considerável.”
CAPÍTULO X
Os longos meses de verão arrastaram o seu comprimento para a Srta. Lady, meses de mágoa e rebeldia, de solidão e lágrimas. Depois chegou um dia em que, sem razão aparente, as sombras se dissiparam. Ela caminhava pelas planícies do rio, com Mike nos calcanhares, quando mais uma vez ouviu o mundo a cantar, e antes que se apercebesse, uma canção de resposta brotou dos seus lábios.
O tio Jimpson, a lavrar ali perto, olhou para cima e sorriu:
“É isso mesmo, Querida; soa como nos velhos tempos ouvi-la cantar de novo. Estava aqui apenas a pensar no quão bem me sentiria se o Coronel pudesse vir a pisar forte e dar-me um dos seus palavrões de antes da guerra por ser preguiçoso.”
“Oh, tio Jimpson, se ele pudesse! Parece tão longo desde que nos deixou. Acabei de ir à casa da Srta. Ferney, mas ela não estava lá. Quero que ela venha e fique comigo até saber o que vou fazer. Esperam levar o Doutor para casa amanhã.”
“Sim, a Carline estava a dizer-me. Parece-me que ele já está bem o suficiente para ir há algum tempo.” O tio Jimpson coçou a cabeça sabiamente.
“Não sei o que será de nós”, disse a Srta. Lady, torcendo tristemente as orelhas de Mike. “Dizem que, a menos que eu venda o resto de Thornwood, não teremos dinheiro suficiente para viver. Mas não venderei mais um acre. Prefiro ensinar na escola.”
O tio Jimpson ficou escandalizado: “Ora, Srta. Lady, criança, não meta essas ideias na cabeça. Essas são ideias de solteirona, a senhorita ainda não é uma solteirona! Porque não se casa, e arranja uma carruagem, e eu conduzo e a Carline cozinha e toma conta das crianças.”
“Nunca me vou casar, tio Jimpson”, declarou a Srta. Lady, com a garantia apaixonada da juventude. “E nunca vou deixar Thornwood. Se vir a Srta. Ferney a descer a estrada, peça-lhe para parar um minuto. Vamos, Mike, já estamos atrasados.”
E estavam atrasados, cinco minutos, pelo relógio de mostrador aberto que jazia na mão do Doutor enquanto entravam no jardim. Ele estava sentado na sua cadeira de rodas com os seus livros e manuscritos numa mesa ao seu lado, e levantou um rosto expectante em direção ao portão quando ela entrou.
Foi estranho o que dois meses em Thornwood tinham feito pelo Doutor. Ele tinha sido trazido para lá inconsciente, um professor sério de meia-idade, que tinha seguido a mesma rotina durante vinte anos. O mesmo ambiente, as mesmas pessoas, a mesma rotina diária monótona tinham-no deixado tão enferrujado e desbotado como os livros didáticos com que vivia. Nada menos do que uma colisão o poderia ter sacudido da sua rotina, e a colisão tinha chegado.
A mudança súbita do realismo sombrio de uma plataforma de palestras, com o seu quadro negro desolado e giz a chiar, para o romance de um antigo jardim de flores onde as flores flertavam umas com as outras através dos canteiros, e os pássaros faziam amor em cada ramo, era suficiente para refrescar o espírito até de um John Jay Queerington. A sua consciência cósmica, que habitualmente trabalhava horas extras, esforçando-se por resolver problemas que a Natureza tinha abandonado, parecia estar a dormir. O seu rosto fino e sério relaxou um pouco da sua austeridade e, à medida que os dias passavam, ele lia menos e observava mais.
As suas observações, pouco depois, resultaram numa descoberta; ele, que estava tão cansado da espécie cultivada e de estufa de feminilidade, tinha encontrado, por puro acaso, uma flor silvestre rara e não classificada, que despertou a sua curiosidade e cativou o seu interesse. Durante dois meses, ele dependeu quase inteiramente da sua jovem anfitriã para companhia, e o facto de a grande caixa de livros que ele tinha encomendado da cidade permanecer fechada, era prova de que o Doutor não tinha estado aborrecido.
Durante as horas em que não estava ocupado a verificar estatísticas e a acrescentar referências àquelas volumosas e ainda acumuladas notas para o quinto volume da sua grande obra, dedicava-se a organizar e arranjar os restos de factos e fantasias que encontrava armazenados no cérebro da Srta. Lady. Em circunstâncias normais, ele teria dispensado uma aluna para quem a clareza e a precisão eram estranhas, e cuja atenção divagava com cada borboleta que passava. Na sala de aula, ele não só exigia, como praticava ordem e sistema. Ele chegava às suas conclusões através de uma série de ações mentais tão metódicas como chegava à sua secretária todas as manhãs, vinte e nove minutos antes das nove. Mas estas não eram circunstâncias normais.
A impetuosa jovem que o ouvia com tal admiração e respeito arrebatados, quando o ouvia, não tinha qualquer método ou sistema. Ela simplesmente esperava pela dica, pelo lampejo que revelava a visão, depois saltava alegre e destemidamente para a sua conclusão.
O facto que o espantava não era que ela frequentemente chegasse antes dele, mas que ela chegasse a algum lado!
Quanto à própria Srta. Lady, ela estava a encontrar no interesse e na companhia do Doutor um consolo bem-vindo na sua solidão. O poço do conhecimento dele parecia-lhe insondável, e ela nunca se cansava de ficar suspensa à beira e olhar para baixo, vendo muitas vezes estrelas na escuridão que nunca via durante o dia.
Quando esta última lição terminou, o Doutor fechou o livro relutantemente:
“Dei-lhe apenas o esboço mais rudimentar para trabalhos futuros”, disse ele. “O resto depende de si. Já decidiu o que vai fazer?”
“Não, farei o que o senhor me disser, Doutor. Só espero que não seja ensinar na escola — o simples pensamento de ensinar faz-me encolher.”
“Não está totalmente fora do alcance da possibilidade que venha a casar”, disse o Doutor, traçando paralelogramos no braço da cadeira. “Tais coisas acontecem, sabe.”
A Srta. Lady, sentada com os cotovelos na mesa e o queixo nas palmas das mãos, lançou-lhe um olhar estranho e interrogativo.
“O senhor acredita no amor, Doutor?”
“Ora, claro, sua rapariga tola, em todas as suas manifestações, filial, paternal, conjugal. Certamente que acredito.”
“Mas refiro-me àquele outro tipo, o tipo que cria um pequeno céu para um homem e uma mulher aqui na terra, que responde a todos os seus anseios, de modo que nada mais importa, desde que se tenham um ao outro. Leio sobre isso em romances e poesia, mas não o vejo. As pessoas casadas que conheço tratam-se umas às outras com tanta naturalidade como tratam as suas mãos e pés. Não é isso que o amor significa para mim.”
O Doutor sorriu com condescendência. “Espere até ter passado a idade sentimental antes de dar o seu veredito! A maioria das jovens imagina que, porque o amor não chega, equipado com armadura completa num corcel branco como a neve, não é amor. A senhorita, provavelmente, como o resto, leu demasiados romances românticos. Quando conhecer melhor a vida, perceberá que a igualdade moral e a afinidade intelectual prometem uma união muito mais segura do que um violento apego romântico.”
Ela olhou para ele tão seriamente como se ele fosse a fonte de toda a sabedoria.
“Quanto tempo dura habitualmente?” perguntou ela.
“Dura?” repetiu ele.
“A idade sentimental. Suponho que uma rapariga deva passar por ela aos vinte anos. Mas eu nunca faço as coisas a tempo. Nem sequer sabia que era sentimental até o senhor mo dizer. Aprendi muitas coisas desde que o senhor chegou.”
“Houve algumas coisas que não precisou de aprender”, disse o Doutor calmamente. “Bondade e simpatia, e uma compreensão rara. Olharei sempre para trás com prazer para estas semanas tranquilas passadas sob o teto do seu pai. Deram-me a única oportunidade que tive em anos para escrever sem interrupções a História que será a obra da minha vida. Devo confessar que temo o meu regresso a casa. O barulho e a confusão, a invasão constante da minha privacidade, as exigências sobre o meu tempo, assustam-me. Muito poucos percebem a magnitude do meu trabalho, e a necessidade que ele me impõe de me isolar. A senhorita tem sido singularmente compreensiva e útil nesse aspeto.”
“Mas pense no que a sua presença aqui significou para mim! O senhor entrou na minha vida exatamente quando tudo o resto parecia desaparecer. O senhor explicou-me as coisas e deu-me algo para fazer. Não pode começar a saber como me ajudou.”
“Apenas tentei dirigir e sugerir”, disse o Doutor; “em suma, ocupar o lugar...”
“De um pai”, completou a Srta. Lady entusiasticamente.
O Doutor bateu com o pé impacientemente. Afinal, o pai dela era um homem muito mais velho do que ele: a distância, naquele momento, entre os quarenta e os sessenta parecia infinitamente maior do que a entre os quarenta e os vinte.
“Sabe”, continuou a Srta. Lady, inconscientemente, “o senhor ocupou o lugar do Papá de tantas maneiras que tenho dependido do senhor para tudo. Deixa-me terrivelmente solitária quando penso na sua partida. Aqui em baixo, o senhor pertenceu apenas à Srta. Wuster e a mim, e assim que voltar para a cidade, será novamente o famoso Doutor Queerington e pertencerá a toda a gente. Não me atreverei a escrever-lhe por medo de soletrar uma palavra errada.”
“Na verdade, esperarei por uma carta semanal reportando o progresso dos seus estudos, e virei vê-la de tempos a tempos e ajudá-la com os seus planos para o futuro.”
“Sim, mas não será a mesma coisa. Estaremos sentados na sala de estar, e o senhor será uma visita, e eu terei medo do senhor. Tenho sempre medo do senhor no minuto em que o perco de vista.”
“Que disparate! Nunca critico nada a não ser a sua pronúncia, e um exagero ocasional na afirmação. Se pareci severo...”
“Não pareceu! O senhor foi um anjo! Quando penso em todo o tempo que tirou da sua escrita para me ajudar, envergonho-me por o ter deixado fazer isso.”
“Não deve pensar”, disse o Doutor lentamente, “que tenho sido totalmente desinteressado. Encontrei-a singularmente útil para mim. Penso que posso dizer que a senhorita me estimula e me refresca mais do que qualquer pessoa que conheço.”
“Eu? Oh! Doutor! Essa é a coisa mais simpática que já me disseram.”
Ele não estava preparado para o rosto radiante de gratidão que se elevou para o seu, nem para a proximidade dos seus olhos brilhantes que não lhe deram mais motivos para duvidar da sua cor exata.
“Sim”, disse ele com um ligeiro embaraço, “a sua mente interessa-me imensamente. Não é complexa, nem subtil, mas notavelmente intuitiva. A senhorita tem imaginação e humor, e uma grande recetividade.”
A Srta. Lady usava aquele olhar absorto que as pessoas habitualmente têm quando as suas características estão a ser submetidas a vivissecção; ela não poderia estar mais fascinada se estivesse a ver o seu rosto pela primeira vez num espelho.
“Este pequeno volume agora”, continuou o Doutor, apanhando um tratado elementar sobre evolução; “estou particularmente ansioso por ver que efeito terá numa mente fresca e não sofisticada. Faça anotações à medida que lê, e discuti-lo-emos quando tiver terminado.”
“E não se esqueça de me enviar o exemplar da Sra. Browning?”
“Não, raramente me esqueço. Mas talvez não o envie. A ciência é melhor para si agora do que a poesia. Que flor é essa que está a cuidar tão cuidadosamente?”
Os olhos da Srta. Lady baixaram-se, e a cor saltou para o seu rosto.
“Isto? Apenas uma rosa silvestre que encontrei ali junto ao muro. Pensei que tinham parado de florescer há semanas.”
O Doutor pegou nela na mão e examinou-a minuciosamente: “É a Rosa Blanda”, disse ele, “cinco sépalas fendidas que terminam num tubo. Plínio diz-nos que, nos tempos antigos, os guerreiros usavam as pétalas desta rosa para guarnecer as suas carnes mais requintadas. Quem é aquela pessoa pitoresca que vem a atravessar o passadiço?”
“É a Srta. Ferney. Que incómodo, no nosso último dia! Mas esqueci-me, pedi-lhe para vir. Se ela ficar muito tempo, diga uma pequena mentira, sim, e diga que precisa de mim para alguma coisa?”
“Não será uma mentira”, disse o Doutor calmamente, “eu preciso de si.”
A Srta. Lady encontrou a sua visitante no alpendre da frente e aliviou-a do frasco que ela carregava.
“São picles”, disse a Srta. Ferney, uma mulher pequena e murcha cujo rosto pequeno e mordiscador sugeria o de um esquilo. “Pensei que, tendo visitas, poderia precisar deles. Não sei, no entanto. As pessoas da cidade podem ser demasiado aristocráticas para comer picles do campo.”
“A ideia, Srta. Ferney! Não os vende na cidade o tempo todo?”
“Sim, sob etiquetas. As pessoas da cidade dão importância a etiquetas. Quando eu era criança, não me deixavam comer coisas que tivessem etiqueta. Ouvi dizer que ele vai embora?”
“Quem?”
“O seu Doutor. Não vejo como o suportou durante tanto tempo.”
“Oh! Não conhece o Doutor Queerington! Tem sido um grande privilégio tê-lo aqui. É um homem muito distinto, Srta. Ferney, e tão amável e bom!”
“Bom ou mau, para mim são todos iguais. Preferia ter uma mosca debaixo do meu mosquiteiro do que um homem a zumbir pela minha casa. Quando é que ele vai?”
“Amanhã. Será demasiado cedo para a menina vir?”
“Não, estou pronta para vir. A mana Lizzie há de querer experimentar algumas daquelas receitas modernas e estragar um ou dois alqueires de pepinos, mas eu disse que vinha e virei. O que é isto que o Jimpson me diz sobre a menina fazer os exames para a escola do condado?”
A Srta. Lady suspirou: “Talvez tenha de dar aulas; não sei.”
“Venda mais um pouco de terra. Não precisa de quarenta hectares.”
“Já vendemos demais! A seguir será a casa. Estou determinada a manter Thornwood mesmo que o telhado me caia em cima da cabeça!”
“Sei como se sente”, disse a Srta. Ferney, cujos sentimentos pendiam para o setor imobiliário. “Tenho poupado cada moeda que ganho há quase vinte anos para recomprar a nossa propriedade. De tudo o que ouvimos na primavera passada, a mana Lizzie dava como certo que a menina se ia casar.”
“Bem, não vou.”
“Ainda bem. As pessoas são bastante ingénuas para acreditar em cada pretendente que uma rapariga tem até aos trinta anos. Depois disso, não acreditam em nenhum. A minha mana foi induzida em erro pelo que lhe disseram lá nos Wickers.”
“O que lhe disseram?” perguntou a Srta. Lady, guiando uma trepadeira rebelde pela latada.
“Oh, falaram-lhe daquele jovem da cidade com quem a menina andava a passear por todo o lado na primavera passada. A Sra. Wicker disse que ele não tinha outro pensamento na cabeça senão a menina. Que a deixou exausta de tanto falar sobre a menina, como se ela não a tivesse ajudado a criar a biberão!”
A Srta. Lady continuou a achar a trepadeira cativante, mas arranjou tempo para dizer por cima do ombro:
“Diga à sua irmã e à Sra. Wicker que esse jovem foi para a China.”
“Bem, ninguém poderia desejar que ele fosse para mais longe! Espero que ele fique por lá. A menina é uma rapariga demasiado boa para se casar. O que é que as mulheres querem casar, afinal? Olhe para mim! Quarenta anos solteira e nem um minuto sequer passado a desejar ser casada! Regozijo-me com a minha independência, regozijo-me com a minha liberdade.”
À Srta. Ferney foi permitido regozijar-se sem ser incomodada, pois a Srta. Lady, apoiada no corrimão do alpendre, tinha aparentemente esquecido a sua existência.
“A menina tome a decisão de aceitar esse emprego na escola e leve uma vida útil e independente. Conheço uma professora no Condado de Shelby que tem a mesma escola há quinze anos, desde que era uma rapariga gordinha e bonita, e agora está magra como eu e cinzenta como um rato. Manteve o mesmo cargo e tem-se dado bem todos estes anos.”
A Srta. Lady virou-se subitamente e abriu os braços:
“Se não se calar neste momento, Srta. Ferney, fujo para o circo! Preferia mil vezes ficar na ponta dos pés, com saias fofas e cheias de lantejoulas, a saltar através de um arco do que ensinar na escola!”
A Srta. Ferney pareceu escandalizada: “A menina não parece estar muito bem”, disse ela, como que para desculpar tamanha leviandade. “Até acredito que esteja com febre. Vou direta para casa preparar-lhe um tónico.”
A Srta. Lady sentou-se durante algum tempo nos degraus com os olhos postos no rio distante. Encosta acima, as copas das árvores ondulavam na brisa e, lá em baixo, no vale, o riacho sinuoso dançava nos baixios ou demorava-se em poças acastanhadas para sussurrar segredos aos ramos baixos. O mundo parecia-lhe não só muito belo, mas muito solitário, e o voto de celibato eterno, feito ao Tio Jimpson, avultava grande e terrível na presença da Srta. Ferney.
“Oh, aqui está a menina”, disse a enfermeira, dando a volta à casa; “o Doutor tem-se recusado a deitar-se até que a menina venha ao jardim. Diz que precisa de si para alguma coisa. Livrai-me dos convalescentes!”
A Srta. Lady riu-se e correu pelo caminho até ao jardim, onde o Doutor a saudou com o seu sorriso mais raro. O resto da manhã passaram-na a debruçar-se sobre manuscritos, a organizar notas e a fazer correções, ela feliz por ter uma pequena parte que fosse na sua grande obra, e ele a descobrir que o entusiasmo e o interesse dela eram um condimento bem-vindo para aguçar o seu apetite enfraquecido pela tarefa. Entretanto, uma pequena rosa desalinhada definhava ignorada por baixo do manuscrito de “A História da Influência Normanda na Língua e Literatura Inglesas”.
CAPÍTULO XI
Durante trezentos e sessenta e cinco dias, Myrtella Flathers reinou sem contestação na casa dos Queerington. O estado de semi-invalidez do Doutor, após o seu regresso de Thornwood, fez recair toda a responsabilidade sobre ela e, embora ela lhe permitisse usar a coroa, era ela quem empunhava o cetro. Nunca a casa estivera em tão imaculada ordem, nem os jovens Queeringtons tinham aparecido com roupas tão apresentáveis, e nunca a porta da frente tinha sido batida tão insistentemente na cara de convidados indesejados.
Pois a árvore genealógica dos Queerington estava aflita com demasiados ramos. Havia pequenos ramos secos de primas donzelas, troncos nodosos e raquíticos de tios e tias meio ausentes, rebentos vigorosos e exigentes de sobrinhos e sobrinhas, todos os quais tinham até então imposto o seu peso ao escasso rendimento do Doutor e à sua hospitalidade demasiado generosa.
Myrtella opunha-se às investidas que estes invasores faziam ao tempo e às forças dele, e também se opunha ao trabalho extra que a presença deles lhe acarretava. Em suma, ela sentia que a árvore genealógica precisava de ser podada e pôs-se seriamente ao trabalho. Através de uma falta de cortesia persistente, conseguiu cortar um parente após outro, até que ganhou para o Doutor uma privacidade até então inimaginável.
“Não há uma hora do dia em que eu não esteja a travar alguém!” anunciou ela triunfantemente um dia à cozinheira do lado. “Quando eu cheguei aqui, dir-se-ia que era uma estação de comboios, gente a entrar e a sair com sacos; campainhas a tocar e malas a serem arrastadas pelas carpetes. Sujidade do sótão ao rés-do-chão; a Srta. Hattie com as anáguas penduradas abaixo do vestido; e todos os filhos dos vizinhos a correr para dentro e para fora, e a tirarem mesmo o colchão da cama do Bertie para deslizarem escadas abaixo!”
“Em nome de São Patrício!” solidarizou-se Norah, a visitante; “e o pai deles sem fazer nada quanto a isso?”
“Quem disse que ele não fazia?” disparou Myrtella instantaneamente. “A seguir vais insinuar que eu estava a falar do Doutor pelas costas. Estás a tentar que eu perca o meu lugar, é isso que estás a fazer.”
“Eu não! Ainda nem há uma semana estava a gabar-te, a dizer que cozinheira fina e simpática tu eras, e como era grandioso e limpo aqui.”
“Claro”, disse Myrtella com altivez, “posso não trabalhar para uma senhora que é tão inteligente que nem conheceria a sua própria cozinha se a encontrasse a caminhar pela rua. Posso não trabalhar numa casa onde fecham as persianas e acendem candeeiros vermelhos de dia para não mostrar a sujidade debaixo do sofá. Não temos duas criadas e não temos o suficiente para as alimentar, mas estou satisfeita. Pelo menos por enquanto. Chegará o dia em que não terei de estar ao serviço de ninguém. Estou a pôr de lado todas as semanas, e o tempo não está longe em que estarei sentada à cabeceira da minha própria mesa de pensão, e será ‘Srta. Flathers’, se faz favor! Tu, Bertie!” isto para um menino de aspeto frágil no quintal. “Sai daí da relva agora mesmo! A preparar-te para apanhar um crupe e ter-me a mim acordada contigo toda a noite, como estive na semana passada.”
“Pois eu bem podia encontrar um sítio pior do que o da Sra. Ivy”, continuou Norah. “Um pouco de lisonja, e flores frescas todos os dias em frente da fotografia dela, e as coisas certas para o Sr. Gerald, é tudo o que ela quer. O último sítio onde trabalhei — o da Sra. Sequin, azar o dela!... Era uma festa ou um jantar entre mim e o meu descanso todas as noites da semana! Não queria saber daquela gente toda, tirando o Sr. Don Morley, um jovem cavalheiro tão fino como nunca houve!”
“Aquele que disparou sobre o Dick Sheeley e fugiu?”
“Aquele a quem o culparam”, disse Norah com ênfase indignada. “Foi aquele imprestável do Sr. Lee Dillingham que o fez, e a Sra. Sequin a mover céus e terra para casar a Srta. Margery com ele. Eu vi como eles tentavam impedir o Sr. Don de vir a casa e ouvir as histórias que eles estavam a contar. Ele vale mais que o grupo todo atado num nó; um cavalheiro por dentro e por fora, e a mão no bolso sempre que o servias. Não será alguém a chamar-te pelas escadas das traseiras?”
“Deixa que chamem”, disse Myrtella, para quem estas comparações de lugares passados estavam repletas de interesse. “É só a Srta. Hattie; se ela tiver algo que valha a pena dizer, pode descer e dizê-lo.”
Evidentemente que valia a pena dizer, pois, um momento depois, uma rapariga magra e de traços afiados de catorze anos enfiou a cabeça pela porta.
“Myrtella, disse-te que queria aquele vestido branco arranjado. Vou vesti-lo esta tarde.”
“É demasiado cedo para usar roupa de verão”, anunciou Myrtella, continuando a passar a ferro. “Não preguei os botões de propósito, para não o poderes usar.”
“Pois eu vou usá-lo! Vou direta para o andar de cima e prendo-o com alfinetes.”
Quando a porta bateu, Myrtella virou uma cara radiante para Norah:
“Não está com a bainha feita!” disse ela com satisfação.
Norah encolheu os ombros:
“Seria um dia frio aquele em que alguém me fizesse cozinhar, tratar de crianças e costurar para uma família de quatro, por cinco dólares por semana!”
Myrtella lançou-lhe um olhar fulminante através da tábua de engomar:
“Quem disse que alguém me estava a obrigar? Recebo para fazer a cozinha e as limpezas nesta casa, e se me apetecer meter-me e mandar nisto tudo um bocado, o problema é meu. Graças a Deus, tenho educação suficiente para tratar disso! Quanto café vieste aqui pedir emprestado?”
“Uma chávena chega, até de manhã. Trarei de volta antes do pequeno-almoço.”
“Põe-no neste frasco quando trouxeres. Mantenho o que pagas de volta separado do nosso, para que o possa emprestar de novo. Não estamos habituados a chicória.”
Norah tossiu de forma desdenhosa por trás da mão:
“Bem, podias ser mais compreensiva com uma senhora tão ocupada como a Sra. Ivy. Ela não consegue concentrar-se em coisas ordinárias.”
“Para de a deixar sentar-se em conselhos de clubes, e reuniões de comités, e a tentar regular a nação, e ela talvez se lembrasse de encomendar os mantimentos. Em que é que ela está a trabalhar agora?”
“Um mendigo. Estava a ler-lhe as Escrituras quando vim embora, e ele ali sentado, muito lastimoso, a contar-lhe como perdera tudo o que tinha na inundação. Um homem de conversa religiosa, se é que alguma vez ouvi um.”
“Ruivo?” perguntou Myrtella, detendo um ferro quente no ar.
“Era.”
“Quando ela acabar com ele, envia-o para cá”, Myrtella pousou o ferro na tábua com um estrondo. “Se há uma pessoa no mundo por quem eu estou à espera, é um ruivo vítima de inundação.”
Norah, a caminho da saída, encontrou outro visitante e voltou para o anunciar:
“Vê só o que o Bertie trouxe para aqui! O miúdo mais maluco e sujo! Faz-me lembrar um ovo em cima de um par de palitos!”
Myrtella, espreitando por cima do ombro, desceu rapidamente os degraus.
“É o Chick!” gritou ela, sorrindo para ele. “Há quanto tempo estás aqui, Chick?”
“E quem é o Chick?” perguntou Norah, imediatamente curiosa. “Parece que tens muita consideração por ele! O que é que o miúdo tem? Porque é que ele está a apontar para a nossa casa? Não tem língua na boca?”
“Tem, embora não tão comprida como a de algumas pessoas. Chick! Bertie! Venham cá para dentro!” e, sem cerimónias, Myrtella arrastou-os para a cozinha e bateu com a porta na cara de Norah.
Uma vez dentro do seu reduto, ela primeiro abraçou o Chick, depois arrastou-o à força para o lavatório e submeteu-o a uma esfregadela vigorosa. Ambas as ações aparentemente entediaram-no profundamente, pois ele virou os olhos embaciados pelo sabão, com inveja, para o rapaz mais pequeno que saltitava em transportes de alegria.
“Vamos patinar no passeio!” Bertie gritava excitado. “Tu podes levar um patim e eu levo o outro, e veremos quem ganha.”
“Não vão fazer nada do género!” declarou o Destino junto da torneira. “Não vou deixar que andem a correr e a ficar quentes e a constipar-se. Além disso, tu não és suficientemente grande para acompanhar o Chick!” Depois, vendo a desilusão que o seu ultimato causara, acrescentou: “se não fosses tu a colar tudo, ainda era capaz de te fazer um bocado de rebuçado.”
“Oh, 'Tella! Vais fazer? Rebuçado de melaço? Pergunta-lhe se ele gosta de rebuçados de melaço.”
Vigorosos acenos de afirmação da vítima envolta em vapor.
Myrtella tinha começado com a simples ambição de lavar a cara ao Chick, mas a linha de demarcação revelara-se problemática. Quer ela a definisse rigidamente, quer tentasse efeitos artísticos em claro-escuro, o resultado era igualmente insatisfatório. Myrtella era tudo menos superficial; antes de terminar com o Chick, ele estava de pé com os pés dentro de um balde, tão limpo, molhado e despido como um peixe.
Tudo isto consumiu tempo e ambos os rapazes estavam a ficar impacientes, quando um ruído peculiar vindo de fora atraiu a sua atenção. Apenas para o Chick o som parecia ser familiar, pois ele riu-se, abanou a cabeça e apontou para o quintal.
“Parece soluços!” disse o Bertie, com a cabeça inclinada.
A boca de Myrtella fechou-se como uma ratoeira. “Eu dou-lhe soluços!” murmurou ela misteriosamente e, deixando as crianças a vigiar o rebuçado, foi para o alpendre e fechou a porta atrás de si.
Bertie, nos seus calções curtos, com os pés recolhidos numa cadeira, observava o Chick com um interesse absorto enquanto ele vestia as suas calças rotas e sujas. Um par de suspensórios roxos, que outrora tinham pertencido ao Sr. Flathers, excitava a sua admiração especial.
“Diz-me, Chick, tens um sócio?”
Chick acenou que sim.
“Não podias ser sócio comigo também, podias?”
Um abanar de cabeça violento.
“Não pensei que pudesses com dois tipos ao mesmo tempo.” Bertie contemplou o rebuçado a ferver pensativamente. “Eu podia arranjar muitos sócios se não estivesse sempre doente. Se alguma vez não tiveres o que tens agora, podias levar-me, Chick?”
Chick examinou-o criticamente, pô-lo de pé e mediu as alturas e até lhe apalpou o braço para ver o músculo. Depois, fez um comentário que, embora carecesse de clareza, era, contudo, conclusivo.
“Mas eu vou crescer”, insistiu Bertie.
“E eu tenho uma caixa de música, uma pistola de água e algumas berlindes...”
A isto, Chick produziu prontamente um punhado de berlindes do seu próprio bolso e indicou, com muitos sussurros e silvos, que estava envolvido num comércio a grosso e a retalho nessa área, e aberto a negociações.
Bertie fez uma viagem apressada até ao quarto das crianças e voltou com um saco azul arrumado, de onde despejou tesouros de ágata e cristal.
Chick perdeu todo o interesse no rebuçado. A sua reputação profissional estava em jogo. Jamais poderia encarar o bando de Billy-goat Hill se falhasse em depenar este cordeiro que a Providência tão claramente colocara no seu caminho.
Entretanto, Myrtella exercia a sua prerrogativa de irmã mais velha nos degraus das traseiras, concedendo ao seu irmão o que ela modestamente chamava de uma parte do que lhe ia na alma.
Pois Phineas, num dos seus deslizes periódicos, tinha deslizado demasiado longe. A sua ambição de se destacar como regenerado tinha-o levado dos pastos tranquiais do rebanho Immanuel para o campo de batalha mais estimulante do Exército de Salvação. Atraído pela perspetiva de contar as suas experiências numa esquina de rua ao som de um acordeão, abandonara o refúgio seguro da Ajuda às Senhoras e procurara novos mundos para conquistar.
A experiência não fora um sucesso. Estava agora, ao fim de um ano, a ir de porta em porta, esfarrapado e desgrenhado, a desempenhar o pequeno e desinteressante papel de vítima de inundação. Mas o espírito de Phineas pairava alegremente acima das suas circunstâncias. Ele até encorajava Myrtella na sua tirada contra ele, estimulando-a a novos esforços, como os monges de outrora cortejavam a flagelação.
“É isso mesmo, mana!” incitava ele, “deita tudo para fora do teu sistema. Eu digo à senhora da casa ao lado, eu digo, o que eu preciso é de um raspanete da minha boa irmã. Ela vai dar-me um sermão, digo eu, depois vai meter-se e ajudar-me. É o jeito dela, digo eu, não há pessoa mais generosa neste globo terrestre. Pensei que talvez ela se sentisse comovida a seguir o teu exemplo, mas não foi. Deu-me uma linha de conversa de escola dominical durante mais de uma hora, depois não me deu nada senão esta Bíblia, e eu um homem esfomeado! Já comi um pouco de tudo na minha vida, mas tenho medo de arriscar a minha digestão com Deuteronómios e Salmos!”
“Bem, não precisas de vir pedir por aqui e trazer lama”, anunciou Myrtella com firmeza. “Acabei contigo! Tiveste a mesma oportunidade de te orientar que eu. Nunca pedi favores a ninguém; fui trabalhar e lutei. Mais, não vou parar até me tornar proprietária de uma pensão. E o que serás tu? Um parasita preguiçoso, bêbado e imprestável.”
Phineas, brincando com o chapéu, cheirou subitamente o ar e sorriu.
“Rebuçado de melaço!” exclamou alegremente. “Não conseguia perceber o que me estava a fazer sentir tão bem. Diz-me, mana, deves ter adivinhado que eu vinha.”
Myrtella estava de pé, numa desaprovação rígida, no degrau de cima e examinou o seu familiar mais próximo com tal desprezo gelado que ele decidiu mudar de tática.
“Honestamente, mana, não vim pedir nada. O que eu vim mesmo foi contar-te sobre a nossa sorte grande.”
Este movimento foi tão hábil que apanhou Myrtella desprevenida e suscitou uma ténue demonstração de curiosidade. “Só soubemos na semana passada”, continuou Phineas misteriosamente, “e não mencionámos a ninguém até termos uma sala de visitas equipada e um sinal pintado.”
“Para quê?”
“Para sessões espíritas! Tem andado por aqui, pela Colina, um doutor italiano, que se autodenomina Professor King, e no minuto em que põe os olhos na Maria Flathers, viu logo que ela era uma médium. Deu-lhe quatro lições por um dólar, e ela começou a ouvir pancadas e campainhas a tocar na quinta sessão. Ontem à noite começou a mover a mobília.”
“Ela devia estar em transe!” exclamou Myrtella. “Conheço a Maria há uns catorze anos e nunca ouvi dizer que ela movesse a mobília. Ela consegue ter mais trabalho a esfregar à volta da perna de uma mesa do que qualquer outra pessoa que eu conheça.”
Mas, apesar do seu escárnio, Myrtella estava impressionada. Durante muitos anos, tinha considerado uma visita a um espírita ou a um clarividente uma das suas dissipações mais loucas e extravagantes. A possibilidade de ter uma médium na família era um luxo que não podia ser facilmente descartado.
“Onde é que arranjaste o dinheiro para as lições?” exigiu ela subitamente.
Phineas hesitou e perdeu.
“Gastaste o do Chick! Ele está esfarrapado como um espantalho. Parece que não recebe comida suficiente para empurrar as costelas para fora. Se eu te apanhar a gastar o dinheiro que lhe dou em espíritos, vivos ou mortos, nunca mais te dou um cêntimo!”
“Agora, mana, espera! Não me deixaste acabar. Estou a pensar em gerir um negócio de funerária, em conjunto com as sessões. Podíamos manter o controlo dos clientes e criar um bom negócio. Tudo o que precisamos na terra é de um pouco de capital, e seríamos um casal autossuficiente dentro de uma semana.”
Tão convincentes foram os argumentos de Phineas que, no final, Myrtella consentiu em agir como *deus ex machina* para o novo empreendimento psíquico, sob a condição de que o Chick fosse devidamente vestido, alimentado e levado a ir à escola.
Este acordo tendo sido alcançado, Myrtella esticou o braço para a sua vassoura e começou um ataque tão vigoroso aos degraus que Flathers foi forçado a concluir que a sua presença poderia ser alegremente dispensada. Ele recompôs-se, deu uma palmada no chapéu para o lado da cabeça, meteu a Bíblia debaixo do braço e fez uma vénia rasgada.
“Passai bem, meu verdadeiro amor. Trazei o dinheiro no sábado à noite, e Maria dará corda aos espíritos e deixá-los-á manifestar-se por vós, sem qualquer custo. Lamento não poder esperar que esse doce de melaço fique pronto. Poderíeis enviar-me um pouco com o Chick. Adieu!”
Myrtella ficou de pé, vassoura na mão, a observar a figura de membros desengonçados a afastar-se, num andar arrastado, pelo passeio e pelo portão das traseiras. Ele assobiava alegremente a doxologia, e o seu rosto ostentava a expressão arrebatada de alguém cujos pensamentos não estão nas coisas terrenas. Ela suspirou e abanou a cabeça.
“A campainha da porta da frente está a tocar”, chamou Bertie, “a do telefone também, e o Pai saiu e diz que podes limpar o gabinete dele. Lá está a campainha outra vez.”
“Imagino que seja o Sr. Gooch a convidar-se para jantar. Não o vou deixar entrar. Dá-me esse prato para verter o doce.”
“Olha, 'Telia, o que o Chick trocou comigo!”
Myrtella lançou um olhar de soslaio à palma estendida de Bertie e prontamente anulou o negócio.
“Não tens vergonha de ti próprio, Chick Flathers! Trocar as belas berlindes de um rapazinho por essas berlindes comuns? É batota, é isso que é, é roubar! Não tens vergonha?”
Chick sentiu vergonha e teve a decência de o demonstrar. O seu arrependimento provavelmente não se teria manifestado, a não ser por exposição, mas, perante o olhar acusador de Myrtella e o olhar surpreendido e magoado de Bertie, a sua consciência endurecida foi picada e o seu lábio começou a tremer.
Com um gesto feroz de proteção, Myrtella puxou-o para si:
“Não, Chick! Não chores! Não era minha intenção ralhar contigo. Tu não tiveste uma oportunidade como os outros rapazes. Nunca tiveste brinquedos, nunca tiveste nada. Foste uma pobre criança abandonada desde que nasceste. Oh! Deus, sou uma mulher perversa! Não sou digna de viver na terra!”
Este espantoso desabafo deixou os dois rapazes tão atordoados que ficaram a olhar para ela com um espanto de olhos abertos. Por momentos, ela balançou-se para a frente e para trás com o avental sobre a cabeça, depois secou selvaticamente os olhos e, ordenando-lhes que a seguissem, subiu as escadas das traseiras com a vassoura e a pá do lixo.
O gabinete do Doutor Queerington ficava no topo da casa, onde, ao fechar as portas e janelas e ao tapar os ouvidos com algodão, ele conseguia isolar-se daquele mundo material ao qual preferia permanecer um estranho. A sala estava cheia, do chão ao teto, com livros, e era uma das cruzes da vida de Myrtella que, por trás das fileiras visíveis de volumes, estivessem outras fileiras, formando uma espécie de biblioteca submersa fora do alcance do seu pano e do seu espanador.
Em nenhuma divisão da casa ela sentia a sua importância de forma mais plena do que neste santuário interior. Ela tinha calculado com precisão matemática a posição exata de cada utensílio da secretária do Doutor; conhecia a divindade que cercava um manuscrito e a natureza inviolável dos marcadores de livros.
Quando Bertie começou a mexer no tinteiro, ela saltou sobre ele.
“Não se atrevam a tocar em nada, nenhum de vocês! Quando o Doutor me disse para tomar conta das suas coisas, eu aceitei. Nunca houve uma palavra de queixa desde que vim para aqui, e não vou ter uma a esta altura do campeonato. Lá está o Doutor a subir os degraus; acabarei aqui mais tarde. Afasta-te daí, Chick!”
Mas Chick tinha feito uma descoberta. Na secretária do Doutor, sorrindo de dentro de uma moldura de porcelana, ele tinha encontrado a sua divindade! Era a bela jovem que, certa vez, tomara o seu partido numa luta com Skeeter Sheeley por causa de um cabo de chicote; era a jovem que lhe sorria sempre quando passava a cavalo por Billy-goat Hill; era ela quem mudara a sua ambição de vida de grande furto para canalização! Alheio ao aviso, ele agarrou na fotografia e, ao fazê-lo, ela escorregou-lhe dos dedos e a moldura estilhaçou-se no chão.
O Doutor Queerington, à porta, compreendeu a situação num relance. Olhou rapidamente do rosto horrorizado de Myrtella para a figura encolhida da estranha criança, depois sorriu tranquilizadoramente.
“Não houve qualquer dano grave”, disse ele com uma voz calma e agradável; “a moldura pode ser facilmente substituída, e quanto à fotografia...” ele hesitou e sorriu de novo, depois puxou a mão de Bertie para a sua; “Myrtella, já não terei necessidade de uma fotografia daquela jovem. Ela consentiu em vir ela própria e tomar conta de todos nós.”
Myrtella ficou como que petrificada; a sua figura maciça, com o espanador erguido, silhuetava-se contra a luz, como uma estátua da deusa da guerra. Por fim, encontrou voz:
“Tomar conta?” arquejou ela. “Quer dizer que ela vem para ser a Sra. Squeerington?”
“Exatamente.”
“Bem, apresento a minha demissão”, anunciou Myrtella com toda a dignidade de uma majestade ofendida e, empurrando Chick à sua frente, bateu com a porta perante o estupefacto Doutor e desceu as escadas altivamente.
CAPÍTULO XII
“Uma noiva que não vê o seu dever, deve ser obrigada a vê-lo”, declarou a Sra. Sequin à Sra. Ivy da sua maneira mais impressionante. “Algo é naturalmente esperado da esposa de John Jay Queerington. Disse-lhe expressamente que sexta-feira era o seu dia, até telefonei para a lembrar, e já são quatro horas, e as pessoas a começar a chegar, e ela a jogar ténis!”
Esperavam na penumbra da sala de estar dos Queerington, aquela sala de estar simples, rígida e de solteirona, que tinha surgido completamente mobilada da mente de um decorador há cerca de duas décadas e que nunca tinha pestanejado desde então. Era uma divisão com a qual ninguém nunca se tinha permitido liberdades. Hattie tinha comentado uma vez, com irritação, que o seu pai teria movido um dente da mandíbula inferior para a superior antes de mover um ornamento ou quadro da sala de estar para o segundo andar.
A Sra. Ivy, a senhora a quem se dirigia, sorriu com tolerância. Era uma das características mais irritantes da Sra. Ivy o facto de ela ser sempre tolerante com os incómodos dos outros. Era loira e rechonchuda, vestia uma toga modificada e tinha um sorriso cristalizado.
“Ah! Sra. Sequin”, murmurou ela, “a nossa pequena noiva é uma filha da Natureza. Doçura e luz! Não devemos esperar demasiado dela no início. O meu Gerald diz que ela é como uma pequena cascata selvagem a dançar ao sol, sem ser represada por convenções. O Gerald formula as coisas de forma tão perfeita.”
“Bem, já tive o suficiente de tentar gerir uma cascata!” disse a Sra. Sequin, severa. “O primo John pediu-me para a orientar, e devo dizer que a estou a achar difícil. Perfeitamente doce e bem-disposta, sabe, mas ela segue o seu próprio caminho. Decidiu que gosta mais dos amigos da Connie do que dos do Doutor, que o seu cabelo não se sente bem arranjado da forma que deveria estar, que não vai usar vestidos feitos por modistas elegantes porque são desconfortáveis. Ela disse-me mesmo que gostava de estar uns minutos fora de moda!”
“Mas não terá ela razão?” murmurou a Sra. Ivy. “Deus deu-lhe um corpo gracioso e simétrico, não deveria ela vesti-lo com túnicas esvoaçantes que não confinam ou...”
“Pelo amor de Deus, Sra. Ivy, não se atreva a começar com ela a reforma do vestuário! A sua única oportunidade para o sucesso social é a sua beleza. Ela simplesmente aterroriza-me a forma como diz logo a primeira coisa que lhe vem à cabeça. Levarei meses a ensinar-lhe a primeira lição em sociedade, que a coisa mais imodesta do mundo é a verdade nua e crua.”
“O que espero despertar na querida rapariga”, disse a Sra. Ivy com um sorriso superior, “é um sentido de responsabilidade para com o seu próximo. Já propus o seu nome para a Liga Anti-Tabaco e a Srta. Snell, a nossa secretária correspondente da Sociedade de Missões Estrangeiras, prometeu encontrar-se comigo aqui às cinco. São estas almas jovens e ardentes que devem empunhar a bandeira da reforma quando ela cair das mãos de nós veteranos.”
“Bem”, disse a Sra. Sequin, virando um perfil bonito e entediado para a sua companheira, “nunca ultrapassarei o absurdo do casamento!”
“Ah!” disse a Sra. Ivy, pousando uma mão branca e gorda no braço da Sra. Sequin, “forças cósmicas juntaram-nos! Aquilo que procuramos está a procurar-nos. Ela era jovem, inexperiente, à deriva no mundo; ele estava doente, sozinho e com três filhos sem mãe. Ela disse-me que, durante o ano passado, as cartas do Doutor foram tudo o que a sustentou.”
“Claro que foram! As cartas do primo John sustentam toda a gente. Especialmente se não tiver ouvido as suas conferências. É claro que ele se repete.”
“Quanto à sua juventude”, continuou a Sra. Ivy. “E se ela for apenas um botão de rosa por enquanto? Ela vai desabrochar; nós ajudá-la-emos a desabrochar, eu e tu, não vamos?”
Entretanto, a noiva tinha entrado pela entrada lateral e apressava-se freneticamente na sala de cima a trocar um traje de ténis por um novo vestido de casa.
Connie Queerington estava a ajudar, mas a ajuda de Connie era geralmente um estorvo. Ela era uma jovem loira extremamente loquaz, com olhos azuis que não gostavam de nada mais do que do seu próprio reflexo.
“Nunca o vou conseguir abotoar se não estiveres quieta”, dizia ela. “Cada vez que te ris, ele abre-se todo.”
“Quinze — amor, trinta — amor, quarenta — amor, jogo!” ensaiava a Srta. Lady, praticando um serviço recém-adquirido com um golpe vigoroso da sua raquete. “Podia jogar o dia todo e a noite toda! Achas que algum dia vou conseguir ser uma boa jogadora?”
“Claro, se não ficares tão excitada e bateres nas bolas antes de elas ressaltarem. Gerald Ivy diz que o teu jogo por cima da cabeça é ótimo. Ele é louco por ti, de qualquer forma. Daria os meus dois dedinhos para que ele olhasse para mim como olhou para ti hoje.”
“Tonta!” riu-se a Srta. Lady. “Lá vai o botão do meu sapato. Achas que alguém vai reparar se eu prender a tira com um alfinete?”
“Ninguém, exceto a Myrtella. Senta-te em cima do pé se ela aparecer. Se não te apressares, a prima Katherine vai ter um esgotamento nervoso.”
“Não percebo porque é que tens de tratar o dia de receção como o dia do juízo final”, queixou-se a Srta. Lady. “Quem mais está lá em baixo?”
“Só a Sra. Ivy agora. Foi ela que te segurou a mão e te chamou raio de sol. A mãe do Gerald, sabes. A Hat não a pode suportar; diz que ela é uma gata manhosa. É claro que o Sr. Gooch virá para o jantar.”
“Quem?”
“O Sr. Gooch.”
“Um amigo do Doutor?”
“Não, de facto. Ele não é amigo de ninguém. Ele entedia-nos a todos até à extinção.”
“Bem, porque é que ele vem?”
“Não sei. Ele vem sempre às sextas-feiras. Entrou aqui uma vez para se abrigar da chuva e a mãe pediu-lhe para ficar para o chá. Isso foi há dez anos e ele tem voltado quase todas as sextas-feiras desde então.”
“Vocês têm visitas destas a toda a hora?” perguntou a Srta. Lady, algo ofegante.
“Isto não é nada!” exclamou Connie dramaticamente. “Antes de a Myrtella vir, nunca soube o que era dormir na minha própria cama e tinha de comer as pernas das galinhas até me sentir como uma centopeia. Pronto! Estás bem; vamos. Não te esqueças de falar ao Pai sobre a festa!”
A Srta. Lady estava casada há duas semanas, mas ainda andava a girar loucamente num vórtice de novas experiências que a excitavam e desconcertavam. Durante um longo e solitário inverno, ela tinha lutado com os seus problemas na pequena escola rural, confiando implicitamente na amizade e orientação do Doutor Queerington. As suas cartas semanais, redigidas em parágrafos de perfeição técnica, pareciam-lhe oráculos de sabedoria e beleza. Então, a coisa espantosa e inacreditável tinha acontecido! Ele, o grande Doutor Queerington, amigo do seu pai, seu amigo, o homem a quem ela respeitava mais do que a qualquer outra pessoa no mundo, tinha escolhido ela, uma rapariga jovem e inexperiente, para ser sua esposa!
Para alguém que tinha a certeza de que tinha terminado com as ilusões para sempre e que se lisonjeava por a idade sentimental ter ficado para trás, a honra de uma vida inteira de companhia com um homem como o Doutor Queerington era quase avassaladora. Ela queria apaixonadamente ser útil no mundo, fazer com que a sua vida contasse para alguma coisa. A oportunidade de ser útil ao Doutor, de o ajudar a completar o grande trabalho que o absorvia, de cuidar das suas necessidades físicas e de trazer alegria à sua vida, assumiu o caráter de um privilégio sagrado.
Se dúvidas inquietantes e vagos anseios insatisfeitos a possuíam por vezes, ela atribuía-os àquele querido, mas irreal, glamour do romance que o Doutor lhe ensinara que se deve esperar que desempenhe um papel durante algum tempo no amanhecer da juventude, mas que desaparece ao meio-dia da maturidade. E assim, não sendo versada na ciência da autoanálise, ela colocou corajosamente a sua mão na do Doutor e prometeu obedecer, com uma franca sensação de alívio pela responsabilidade transferida.
A nova vida em que entrou revelou-se diferente em todos os aspetos do que ela tinha esperado. O tempo do Doutor, programado ao minuto, não admitia interrupções, por muito prestáveis que fossem as dela. De facto, ele parecia considerá-la um luxo acarinhado que não tinha tempo para desfrutar. Os filhos aceitaram-na de acordo com as suas respetivas naturezas: Connie como uma camarada, Hattie como uma arqui-inimiga e Bertie como um ídolo.
Hattie tinha catorze anos e tinha resolvido todos os problemas do universo. Ela defendia firmemente Aristóteles e rejeitava desdenhosamente Platão do mundo da filosofia. Ela desaprovava rapazes, a sociedade, os segundos casamentos, e tinha quatro amigas desesperadamente íntimas, todas as quais iam ser escritoras. De acordo com as suas observações, ela era a única pessoa no universo, excetuando o seu pai, que aderia à verdade. Daí que a sua missão na vida fosse lutar, sozinha, contra as imprecisões das outras pessoas.
A Srta. Lady encontrou refúgio nos comentários cáusticos de Hattie na devoção imediata de Bertie. Ele tinha conquistado o seu coração na noite da sua chegada, quando adormeceu no seu colo com uma última recomendação de que ela “devia ficar com eles sempre, até que Deus a mandasse chamar”.
Quaisquer ideias que a Srta. Lady tivesse acalentado de tomar conta dos assuntos domésticos foram prontamente desencorajadas por Myrtella, que tinha graciosamente consentido em dar à nova patroa um mês de experiência, ameaçando que, à primeira interferência, a abandonaria à sua sorte.
O seu primeiro encontro foi auspicioso. Myrtella, ao regressar da sua tarde de folga, tinha ouvido uma comoção selvagem no quarto das crianças e apressou-se a investigar. A apresentação de Bertie foi ofegante:
“É a nova mãe, 'Tella, e o Chick está aqui, e estamos a brincar aos ursos, e partimos as molas da cama, e ela sabe montes e montes de histórias, e conhece o Chick!”
Myrtella, que se tinha preparado para um combate mortal, não estava preparada para uma adversária que se sentava no meio da cama do quarto, rindo-se por trás de uma cabeleira emaranhada de cabelo castanho brilhante.
“Oh! Esta é a Myrtella, não é?” perguntou o urso, sacudindo a sua juba e sorrindo com uma franqueza cativante. “O Bertie diz que és tia do Chick, e o Chick é um velho amigo meu, não é engraçado?”
“Onde é que tu conheceste o Chick?” exigiu Myrtella com suspeita imediata.
“Nós vivemos os dois em Billy-goat Hill. Acenamos sempre um ao outro quando passo, não é verdade, Chick?”
Chick, que estava parcialmente debaixo da cama, ainda no seu papel de caçador intrépido, reconheceu o facto com tal torrente de incoerência entusiástica que Myrtella interrompeu severamente:
“Sai daí agora mesmo. De qualquer forma, já está na tua hora de ir para casa. A primeira coisa que sei é que me vou queixar por te teres andado aqui a rondar tanto. E olha para as tuas mãos, Bertie Queerington! Vais ser posto na banheira imediatamente, é isso que vais receber!”
“Eu dou-lhe banho”, disse a Srta. Lady ansiosamente.
“Não”, disse Myrtella firmemente, “ninguém pode lidar com ele senão eu.”
Mas, apesar da ferocidade do aspeto de Myrtella, havia um brilho suavizado no seu olhar que mostrava que a nova patroa tinha começado por dar satisfação.
Os primeiros dias após a sua chegada, a Srta. Lady passou-os na penumbra da sala de estar a receber visitas. Todos os parentes do Doutor, tendo sobrevivido aos seus espasmos de indignação sobre o seu casamento, uniram-se numa determinação imediata de treinar a sua jovem esposa no caminho por onde ela deveria andar. Conselhos tão variados quanto profusos foram-lhe despejados. No início, ela divertia-se; depois, ficou inexprimivelmente entediada; por fim, estava desesperada. Ela não estava habituada a estar fechada o dia todo, não estava habituada a passar o seu tempo com senhoras idosas que falavam de obrigações morais, exigências sociais e consciências cívicas. Os deveres da sua vida de casada, que tinham prometido responsabilidades tão interessantes e oportunidades maravilhosas para ajudar o Doutor no seu grande trabalho, pareciam estar a encolher-se na tarefa monótona de manter-se a si própria e aos filhos fora do seu caminho, preservando um silêncio de túmulo na casa e entretendo uma ronda interminável de visitas.
Até isto teria sido suportável se o Doutor pudesse ter arranjado tempo do seu trabalho absorvente de alma para ouvir, ao fim do dia, com ternura divertida, todas as suas pequenas experiências, se ele tivesse discutido com ela a melhor forma de lidar com as crianças, rido com ela sobre as suas lutas com Myrtella e encorajado aquelas palavras afetuosas e carícias que eram tão parte da sua natureza.
Se ele pudesse ter feito isto, a Srta. Lady teria rapidamente encontrado satisfação em prodigalizar-lhe o seu afeto. Era da sua índole ser apaixonadamente afeiçoada àqueles que a rodeavam, e ela não era alguém para ficar parada numa prisão mental ou emocional.
Mas o Doutor estava a lutar durante o mês mais desgastante do ano na universidade. O início de um novo período, o ajuste das turmas, a inscrição de novos alunos, tudo representava um pesado desgaste na sua constituição debilitada. Ele não estava em condições, à noite, de dar mais nada, nem mesmo a uma jovem e devotada noiva que estava bastante disposta a abdicar de qualquer outro prazer para queimar incenso no santuário da sua aprendizagem.
As saudades de casa que a perseguiam desde o dia em que tinha virado as costas a Thornwood tê-la-iam envolvido completamente se não fosse pela Connie. Connie era apenas um ano mais nova do que ela e era totalmente reprovada pelos parentes da família. Gozava da reputação de ser frívola e vaidosa, e totalmente desprovida de reverência pelos seus mais velhos.
Os amigos e divertimentos de Connie revelaram-se a linha de menor resistência ao longo da qual a Srta. Lady correu para a liberdade. O campo de ténis serviu como um alegre substituto para a monotonia cinzenta da nova casa, e a companhia livre e descontraída dos amigos de Connie, um alívio feliz das femininas idosas que a invadiam.
O Doutor ainda era o eixo majestoso em torno do qual os seus pensamentos giravam, mas o círculo estava a tornar-se cada vez mais largo. A diferença de idades entre eles, que no início, para a sua inexperiência, parecia uma consideração tão trivial, revelou-se mais séria com o passar do tempo.
Ela estava ávida por viver, ansiosa por prazer, plástica, suscetível. Cada nova experiência era para ela uma época, enquanto para o Doutor, cujos hábitos e opiniões estavam fixados para a eternidade, era geralmente apenas uma nova interrupção ao seu trabalho.
Não era que ele deixasse de a apreciar. A luz que surgia nos seus olhos sérios sempre que ela estava perto, a cortesia e doçura inabaláveis com que ele lhe falava, a liberdade absoluta que ele lhe permitia e o apelo lisonjeiro que ele fazia ao seu intelecto, acalmavam quaisquer dúvidas que pudessem ter surgido na sua mente.
Sobre os seus próprios sentimentos, ela não se atrevia a parar para pensar. A vida era tudo tão estranho, tão diferente do que ela tinha esperado. Os lampejos de dúvida e perplexidade que surgiam nas pausas entre as festividades planeadas de perto por Connie, ela atribuía a saudades de casa.
Era tarde quando a sua última visita partiu, e enquanto ela subia levemente para o gabinete do Doutor, apercebeu-se com uma pequena sensação de desapontamento que não o via desde o pequeno-almoço. Mesmo agora, ela hesitou à porta, com medo de interromper algum voo da musa. Mas, ao espreitar, encontrou a sua poltrona grande puxada para a janela e o topo de uma cabeça a aparecer por cima do encosto. Avançando cautelosamente na ponta dos pés, ela cobriu-lhe os olhos com as mãos e deixou um beijo na sua testa voltada para cima.
O Doutor não se mexeu. O livro que segurava caiu sobre o seu peito, mas ele não o apanhou. A sua respiração, porém, soava-lhe estranhamente pausada e pesada aos ouvidos dela.
— Doutor? — chamou ela, com uma nota de súbito alarme na voz, puxando-lhe as mãos. — Doutor!
Ele não respondeu. O seu rosto, pálido e impassível, parecia ter-se endurecido numa máscara de mármore. Pela primeira vez, a Miss Lady compreendeu o que significava o silêncio daquela casa e o peso daquela rotina ininterrupta que ele seguia com tanta fidelidade. Ela correu para o corredor e gritou por Myrtella, a sua voz ecoando agudamente pelas paredes que, até àquele momento, tinham sido o refúgio seguro de uma existência tão ordenada.
A comoção que se seguiu foi uma névoa de rostos alarmados, de sussurros apressados e do tilintar de frascos contra colheres. A Miss Lady, posta de parte pela autoridade de médicos que chegaram precipitadamente, ficou sentada num canto do corredor, com as mãos cruzadas no colo, observando a porta fechada com um olhar vazio. Ninguém lhe dizia nada; ninguém parecia lembrar-se de que ela existia, para além de ser a jovem esposa que, na sua ignorância, não tinha compreendido que o Doutor, à semelhança do seu relógio, podia deixar de dar horas de um momento para o outro.
Quando, horas mais tarde, a porta se abriu e um dos médicos saiu, a sua expressão era de uma gravidade que dispensa palavras. A Miss Lady levantou-se, mas antes que pudesse formular a pergunta que lhe morria na garganta, ele pousou-lhe uma mão no ombro.
— O seu marido sofreu um colapso, minha cara. O esforço intelectual foi demasiado. Ele precisa de repouso absoluto, de silêncio e de total ausência de preocupações.
Ela assentiu, sentindo-se estranhamente como uma intrusa. O mundo que ela tentara conquistar, aquele reino de livros e de horários, parecia estar a fechar-se sobre si, deixando-a do lado de fora.
— Posso vê-lo? — perguntou, a voz quase num sussurro.
— Por breves momentos. E, por favor, não o deixe falar.
Ela entrou na sala. O Doutor estava deitado na sua poltrona, os olhos fechados, a tez cinzenta contra o veludo escuro. Ela ajoelhou-se ao lado dele, sentindo-se subitamente muito pequena e muito só. O "Senhor do Castelo" estava fragilizado, e ela, a sua aprendiz, não sabia como governar aquele domínio que ele lhe tinha confiado.
Naquela noite, a casa de Queerington ficou em silêncio. As luzes foram apagadas cedo, e até os risos de Connie e das suas amigas foram abafados pela sombra que se estendia sobre a família. A Miss Lady, na solidão do seu quarto, lembrou-se da promessa de fazer do seu lugar uma fortaleza. Mas, enquanto olhava para as estrelas, sentiu apenas o frio de uma incerteza que não sabia como dominar. O Doutor estava doente, a casa estava em suspenso e o seu coração, ainda marcado pelo eco de um nome que pensara ter esquecido, sentia-se perigosamente livre.
No dia seguinte, a rotina foi substituída por um novo protocolo, ditado por enfermeiros e pela autoridade silenciosa do medo. A Miss Lady, que se propusera a ser o sol daquela casa, descobriu que o brilho que trazia consigo parecia ofender a penumbra da convalescença do marido. Ela tentou ajudar, tentou assumir as rédeas, mas cada tentativa era recebida com um olhar de reprovação, fosse por parte da Sra. Sequin, que aparecia para dar ordens, ou pela própria Myrtella, que, no seu zelo, não precisava de ninguém para manter o funcionamento da cozinha.
— Ele não precisa de mim — pensou ela, observando o Doutor através da fresta da porta. — Ele precisa apenas de silêncio.
E o silêncio, naquela casa, tornou-se o seu maior inimigo. Passava horas a fio na biblioteca, rodeada pelos livros que ele tanto amava, tentando ler, tentando sentir-se parte daquele mundo. Mas as palavras, antes plenas de significado, pareciam agora distantes. A sua mente, por mais que ela se esforçasse, voltava a Singapore, ao hospital, à febre, à imagem de um homem que, tal como ela, estava prisioneiro de um destino que não escolhera.
Um dia, enquanto estava sentada na varanda, viu o Sr. Gooch aproximar-se. Ele caminhava com o seu passo firme e determinado, o rosto ainda mais severo do que o habitual.
— Como está o Doutor? — perguntou ele, sem qualquer preâmbulo.
— Continua na mesma, Sr. Gooch. Os médicos dizem que é uma questão de tempo.
O homem olhou para ela, avaliando-a com os seus olhos pequenos e penetrantes.
— O Doutor é um homem de hábitos. A interrupção desta rotina está a matá-lo mais do que a própria doença. Precisamos de trazer de volta a normalidade, Miss Lady.
— Mas como, se ele mal consegue abrir os olhos?
— Mantendo o gabinete tal como ele o deixou. Mantendo o jogo de pinochle, mesmo que ele não possa jogar. A sugestão da ordem, a presença dos livros, o som das cartas... isso é o que ele entende por vida.
A Miss Lady olhou para ele, atónita.
— Quer que eu jogue consigo?
— Alguém tem de manter o lugar. Alguém tem de garantir que, quando ele despertar, encontre o mundo exatamente onde o deixou. É esse o seu dever, não é?
Ela hesitou. O dever parecia-lhe agora um fardo muito mais pesado do que quando chegara a Queerington, cheia de ideais e de vontade de transformar a vida daquela família. Mas, perante a insistência do Sr. Gooch, ela apenas pôde concordar.
Naquela sexta-feira, o silêncio do estudo foi quebrado pelo som rítmico das cartas a serem baralhadas. O Sr. Gooch, compenetrado, dispôs os seus trunfos com a mesma solenidade de sempre. A Miss Lady, sentada na poltrona do marido, tentava manter o passo, mas os seus pensamentos fugiam constantemente para o homem doente na sala ao lado e para o outro, longe, no Oriente.
— A sua vez — lembrou-lhe o Sr. Gooch.
Ela jogou, sem ver as cartas, sentindo-se, pela primeira vez, como uma peça num jogo que não compreendia e que, no fundo, temia. O Doutor, na sua cama, teria ouvido o som do pinochle? Teria encontrado conforto naquelas regras que o prendiam ao mundo? Ou estaria ele, também, a sonhar com uma liberdade que nenhum relógio, por muito bem regulado que fosse, poderia alguma vez medir?
Foi assim que a Sra. Sequin partiu para casa dos Bartrum de muito mau humor, deixando as duas moças a conversar no boudoir cor-de-rosa, com a enfermeira banida para as divisões inferiores.
— Não queres um pouco de ar fresco? — perguntou a Srta. Lady, quando já não suportava mais o calor.
— Podes abrir a porta — disse Margery —, nunca deixamos a janela aberta por causa das correntes de ar.
— Mas eu posso agasalhar-te e colocar o biombo. Pronto! Não te podes constipar com tudo isso vestido. É o tipo de dia que me faz querer estar em cima de um cavalo, a galopar pelos bosques com o vento na cara.
Margery observou o movimento rápido da Srta. Lady enquanto esta abria todas as janelas por trás das cortinas com folhos, deixando entrar uma corrente de ar fresco e revigorante.
— Como és jovem! — disse ela. — Anos e anos mais jovem do que me sinto. Não consigo acreditar que sejas casada e tenhas três enteados.
— Nem eu — disse a Srta. Lady. — Esqueço-me sempre disso. Não gostarias de te sentar durante algum tempo?
— Oh! Não posso. Tenho de estar perfeitamente imóvel.
— Quem disse?
— Toda a gente que sofre de esgotamento nervoso. Os médicos dizem que os meus nervos não passam de fios a vibrar. Suponho que exagerei no inverno passado, mas, claro, não podia desistir a meio da minha primeira temporada.
— Não acredito que te fizesse qualquer mal sentares-te. Se eu arranjar aquela cadeira de baloiço grande, queres tentar?
— Mas não me sento há seis semanas. Quando tento na cama, sinto umas sensações de formigueiro.
— Isso é porque tens as pernas esticadas. Vamos tentar na cadeira, com elas pendentes.
— Vou tentar, mas sei que não vou aguentar. Pronto! Muito obrigada! Não dirias que, há um ano, eu era tão forte como tu! Ora, entre outubro e março, fui a mais de cento e cinquenta eventos sociais, além dos teatros e da ópera.
— Bons céus! — exclamou a Srta. Lady, horrorizada.
— Claro, por volta do Ano Novo, comecei a vacilar, mas a mamã obrigou-me a fazer massagens e eletricidade e manteve-me a funcionar até à Quaresma. Depois disso, colapsei até ao verão. Fomos então para White Sulphur, onde os Dillingham têm uma casa de campo; eu tinha de me deitar todas as tardes, mas conseguia sempre estar de pé para os bailes.
A enfermeira, entrando com uma caixa de flores comprida, parou, surpreendida ao ver a sua paciente sentada, e depois retirou-se discretamente, na ponta dos pés.
— Alguém te enviou flores! — exclamou a Srta. Lady, entusiasmada. — Que bom! Queres que abra a caixa?
— Como quiseres. Provavelmente são do Lee. Ele envia-as agora em vez de vir.
— Mas pode haver um bilhete — disse a Srta. Lady, procurando entre o papel de seda.
Margery abanou a cabeça, cansada; a pequena animação que lhe tinha corado o rosto desvaneceu-se, deixando-o pálido e apático.
— Suponho que aches que esta é uma forma estranha de uma rapariga noiva falar — disse ela pouco depois, com um sobressalto nervoso na voz. — A verdade é que o Lee e eu discutimos por causa do meu tio, Donald Morley. Nunca o perdoarei pela forma como tratou o Don; nunca!
— Perdoarás, se o amas — disse a Srta. Lady.
— Mas não tenho a certeza de que o ame! — irrompeu Margery. — Não devia dizer isto! Não voltarei a dizê-lo, mas morrerei se não falar com alguém. A mamã não quer ouvir uma palavra. Ela diz que são nervos. Mas a verdade é que, Srta. Lady, nunca tive a certeza; é isso que me está a deixar doente!
— Já lhe disseste?
— Sim, e ele ri-se de mim. Pode ter razão, podem todos ter razão. Quando eu ficar boa, talvez me ria de mim mesma. Mas, agora, parece tão terrível que os preparativos continuem enquanto eu estou aqui deitada, noite após noite, a combater as dúvidas, a tentar convencer-me, a tentar ter a certeza. Como é que se sabe quando se está apaixonado? Como sabes?
A mão da Srta. Lady, que acariciava suavemente os dedos finos e brancos da rapariga, parou; os seus olhos procuraram a janela aberta e ela respirou fundo.
— Saber? — repetiu, como se fosse para si mesma. — Como sabes quando tens frio, quando tens fome, quando estás cansada, quando te sentes só? Como sabes que queres ar quando estás a sufocar? Tudo em ti te diz, o teu coração, a tua mente, o teu corpo, a tua alma. Não podes deixar de saber!
— Mas e se eu não me sentir assim? E se, um dia, sentir por outra pessoa? Oh! Srta. Lady, diz-me o que fazer! Toda a gente me está a apressar, a dizer-me para não me preocupar, para não ter medo. Mas tu não és como os outros, tu consideras algo mais do que as vantagens externas a obter. Diz-me, o que farias no meu lugar?
— Esperaria pelo verdadeiro — exclamou a Srta. Lady, virando-se para ela quase ferozmente —, esperaria, nem que fosse para sempre! Eles não têm o direito de te persuadir. Ou amas ou não amas, e nenhum poder na terra pode mudar isso. Podes rir-te do sentimento e fingir que não acreditas nele, podes dizer a ti mesma mil vezes que estás a fazer o que é sensato. Podes cegar-te completamente para a verdade durante algum tempo. Mas, um dia, terás de compreender que a única coisa real na vida é o amor, e que não tens poder para o fazer viver ou morrer.
Depois disso, ficaram muito tempo em silêncio, até que a Srta. Lady se levantou abruptamente e, arranjando uma desculpa, partiu apressadamente. Estava assustada com o que tinha dito, com o que tinha pensado. Estava aterrorizada com aquele eu estranho e novo, que falava de uma experiência estranha e nova, e que desprezava todas as suas opiniões cuidadosamente adquiridas. Só quando chegou a casa, depois de uma caminhada rápida pelo ar fresco, é que a agitação no seu cérebro acalmou.
Na mesa do corredor, ao lado de um exemplar gasto de Shelley, estavam as luvas do Doutor e o seu chapéu cinzento macio. Ela pegou nas luvas impulsivamente e encostou-as à face.
— Querido, querido Doutor! — sussurrou ela quase ferozmente. — Tão bom, e gentil, e... e maravilhoso!
De repente, deu-se conta de que alguém a observava furtivamente pela fresta da porta da sala de jantar.
— Myrtella! — gritou ela. — És tu?
— Sim, se faz favor — veio em sotaque estranho e humilde. — Gostaria de falar consigo.
Era tão contrário ao curso normal dos acontecimentos humanos que Myrtella assumisse a humildade, que a Srta. Lady olhou para ela com espanto.
— Não posso dizer — começou Myrtella, ainda meio escondida atrás da porta —, que goste da forma como as coisas são geridas nesta casa. Estou a pensar em despedir-me.
— Mas, Myrtella! — exclamou a Srta. Lady, consternada. — Receio que o trabalho seja demasiado pesado. Podíamos arranjar...
— Não precisa de terminar, Sra. Squeerington, ia dizer uma criada de casa. Se pensa que vou partilhar o meu quarto com qualquer saloia holandesa ou irlandesa, tenho de dizer que está muito enganada! Além disso, não estou a dar satisfação? Não estou a fazer o trabalho como gosta?
— Claro que sim, mas pensei que tu...
— Estivesse a ficar velha, suponho, e que não pudesse fazer tanto trabalho como costumava. Pareço fraca, não pareço?
A Srta. Lady olhou para a figura maciça com braços robustos em riste e sorriu.
— Bem, qual é o problema então? — perguntou ela gentilmente. — Porque queres ir embora?
Os olhos de Myrtella desviaram-se enquanto ela limpava qualquer pó imaginário da porta:
— Não estou habituada a trabalhar para uma senhora que não toma as rédeas. Não parece natural, e dá azo a que as pessoas falem.
— Mas pensei que querias ter controlo total e gerir as coisas exatamente como tens feito no passado.
— Bem, não parece bem que a senhora não me dê ordens, nem que ralhe com o homem das compras, nem que se imponha a ninguém. Se as pessoas não soubessem, pensariam que a senhora não está habituada a ser uma senhora!
A Srta. Lady mordeu o lábio para não rir. — Ficarei muito contente por gerir a casa, só não sei muito sobre isso. A tia Caroline e o tio Jimpson faziam tudo em casa, e tu fizeste tudo aqui.
— Bem, não vou continuar a fazer — disse Myrtella firmemente. — Se quiser começar e aprender, eu ensino-a. Mas não vou ficar, exceto sob uma condição: tem de tomar as rédeas de tudo! Tem de trancar as coisas e dar-me o que eu preciso. Tem de encomendar todas as refeições e dizer-me o que quer que seja feito todas as manhãs. Não vou permitir que as pessoas me atirem à cara que trabalho para uma senhora que não distingue uma frigideira de um tacho!
— Tens razão, Myrtella — disse a Srta. Lady, com o rosto subitamente grave. — Não me admira que tenhas vergonha de mim. Talvez um bom trabalho árduo limpe as teias de aranha do meu cérebro. Quando devo assumir o controlo das coisas, amanhã?
— Como quiser — disse Myrtella humildemente; depois, com um súbito brilho, — embora pareça que podia ser de confiança por mais um dia para terminar a limpeza geral e ir atrás do homem das cinzas por não esvaziar os barris.
— Sexta-feira, então?
— Sexta-feira — disse Myrtella como alguém que assinava a sua própria sentença de morte, e a jovem patroa, olhando distraidamente pela janela, mal adivinhava que uma poderosa usurpadora estava a abdicar voluntariamente de um trono para que a legítima proprietária pudesse assumir o seu lugar.
CAPÍTULO XIV
As lâmpadas vermelhas estavam todas acesas na pequena sala da Sra. Ivy, e a mesa de chá desarrumada e a confusão geral da sala sobrelotada davam provas de que um dos seus frequentes “atendimentos” tinha chegado ao fim.
Poder-se-ia inferir que a anfitriã também tinha chegado ao fim, a julgar pelos seus olhos fechados e mãos entrelaçadas, e pelo esforço com que inalava o fôlego e a violência com que o exalava. A criada, ao arrumar as coisas do chá, observava-a com apreensão.
— Desculpe, senhora, mas quer o saco de água quente? — perguntou ela quando já não suportava mais a tensão.
A Sra. Ivy abriu um olho relutante e condescendeu em recordar o seu espírito ao mundo material.
— Norah, como pudeste? — perguntou ela queixosa. — Não te implorei que nunca interrompesses a minha meditação?
— Sim, senhora, mas isto, pode dizer-se, foi pior do que o habitual. A irmã gémea da minha mãe morreu de asma.
— Nunca me fales quando me vires a entrar no silêncio. Estava a negar a fadiga; agora vou ter de começar tudo de novo!
Era evidentemente difícil para a Sra. Ivy tranquilizar novamente o seu espírito. Os seus olhos vagueavam carinhosamente pela sala, repousando primeiro num objeto querido e depois noutro. Fotografias autografadas alinhavam as paredes, volumes autografados espalhavam-se pelas mesas. Acima da sua cabeça, dois pequenos turíbulos de bronze enviavam grinaldas de incenso a serpentear em torno de um vasto testemunho, reconhecendo o seu serviço valente em nome da cruzada antitabaco. Ladeando isto, havia emblemas de diversas formas e tamanhos, representando sociedades a que ela pertencia. No armário à sua esquerda, estavam ainda mais tesouros perturbadores, como o primeiro par de sapatos de Gerald e o martelo que a última presidente da Irmandade Federada tinha usado antes de, como a Sra. Ivy gostava de dizer, “ter sido chamada a apresentar a sua demissão pelo Conselho da Morte”.
Antes que o erro da fadiga tivesse sido completamente apagado do seu estado mental, os seus olhos caíram sobre um panfleto e ela ficou imediatamente absorvida pelo seu conteúdo. Estabelecia a necessidade de um Abrigo para Animais Inválidos e, quando chegou à segunda página, já estava a redigir uma moção para ser apresentada ao seu clube no dia seguinte. A Sra. Ivy era muito viciada em moções; de facto, era uma das suas missões na vida propor continuamente que as coisas fossem diferentes do que eram, sem de forma alguma fornecer a força motriz para as mudar.
Enquanto assim ocupada, foi interrompida por um visitante atrasado. Era um jovem baixo, robusto, com um queixo quadrado e proeminente e um brilho nos olhos.
— Sr. Decker! — exclamou a Sra. Ivy, nadando em direção a ele. — Depois de todos estes meses naquelas terras orientais maravilhosas! Quase consigo sentir o cheiro a sândalo em si!
— É droga — disse Decker, com uma risada fácil. — Droga chinesa. Já mandei limpar estas roupas duas vezes e não consigo livrar-me disso. Tive-as vestidas uma noite num antro de ópio em Hankow. É engraçado como esse cheiro fica connosco.
— Um antro de ópio? — repetiu a Sra. Ivy, levantando uma mão em protesto. — E não está a ser feito nenhum esforço para erradicar tais iniquidades na China? Não poderia uma ação concertada por parte dos clubes de mulheres em todos os países cristãos criar um sentimento público contra eles?
Decker mordeu o lábio ao baixar-se para apanhar o folheto que ela tinha deixado cair.
— O Gerald está aqui, suponho?
— Claro! Que falta de consideração da minha parte não explicar que insisto sempre para que o querido rapaz descanse entre as quatro e as cinco. Ele herdou pulmões delicados do pai e um temperamento emocional e artístico de mim. Além disso, ambos os seus avós maternos tinham problemas cardíacos.
— Continua a martelar na sua música, suponho? — perguntou Decker, inspecionando minuciosamente a fotografia de uma mulher de aspeto humilde que parecia totalmente incapaz de corresponder à assinatura ousada e agressiva com que se assinava.
— Querida Srta. Snell — explicou a Sra. Ivy —, secretária correspondente da A.T.L.A. Se tivesse vindo mais cedo, podia tê-la conhecido. O que perguntava? Oh, sim! Sobre a música do Gerald. Ora, não se pode imaginar o Gerald sem música, tanto quanto não se pode pensar num pássaro sem asas. Ele morreria simplesmente sem um piano. Quando estamos no estrangeiro, alugamos um, mesmo que estejamos num lugar apenas dez dias. O papá dele não consegue compreender isto, mas o Sr. Ivy não é musical, pobre querido; ele realmente não distingue uma fuga de uma fantasia.
— Nem eu — disse Decker. — Os Queerington ainda moram na casa ao lado?
— Sim. Sabe que o nosso amado Doutor casou-se novamente.
— O quê! O bom e velho Silogismo Queerington! Não quer dizer isso! Gostava de saber se ele sabe o nome próprio dela? Ele deu-me aulas durante quatro anos na Universidade e nunca conseguiu lembrar-se do meu.
— Oh! Aqui está o meu rapaz! Sentes-te melhor, querido? — A Sra. Ivy virou olhos expectantes para a porta, onde um jovem magro e de constituição desleixada estava a entrar. Tinha o andar curvado que indica ambições relaxadas, bem como músculos relaxados, e as suas mãos estavam profundamente enfiadas nos bolsos, como se estivessem à vontade ali.
— Olá, Decker, fico contente por te ver — disse ele languidamente. — Gostava que mexesses no fogo, Mater querida; está um frio horrível aqui.
— Eu trato disso — disse Decker secamente.
Gerald Ivy deixou-se cair graciosamente no sofá e ficou absorto a examinar as unhas. Era um jovem bastante bonito, embora anémico, com o ar geral de quem pesou o mundo e o achou insuficiente. Os seus olhos, grandes, castanhos e expressivos, percorriam a sala inquietamente. Eram olhos talentosos, capazes de expressar mais emoções num momento do que Gerald sentira numa vida inteira.
Enquanto folheava ociosamente uma revista, perguntou a Decker há quanto tempo estava de volta à América.
— Há uns dois meses, mas só estou na cidade há duas semanas. Lamento saber que não te sentes bem.
— Oh! Sou uma ruína — disse Gerald; — uma ruína romântica e degradada. Algo correu mal no sótão hoje. A minha cara está inchada, Mater?
A Sra. Ivy inclinou-se sobre ele com solicitude imediata.
— Acredito que esteja inchada, querido; exatamente aqui. Olha, Sr. Decker, não parece um pouco mais cheia do que o outro lado?
O olho de Cropsie Decker, não treinado por anos de solicitude materna, não conseguiu distinguir qualquer diferença.
— Não importa — disse Gerald sombriamente; — se não for isto, é outra coisa. Quais são as novidades, Decker?
— As únicas novidades para mim são esta conversa idiota que tem circulado sobre o Don Morley. É sobre isso que vim falar contigo. O que diz o Dillingham sobre isso?
— Oh, conheces o Dill; ele esquiva-se. Tudo isso foi esquecido aqui há meses; o assunto está tão extinto como o dodó.
— Bem, não estará extinto por muito tempo! Enviei um cabo ao Don para voltar para casa, e aposto que ele vai agitar as coisas. Não há nada que o prenda agora que a Margery Sequin terminou o noivado.
— Tão triste! — murmurou a Sra. Ivy. — Espero que o jovem Sr. Dillingham não faça nada de desesperado. Pensar na sua taça de felicidade a ser arrancada dos seus lábios...
Os dois jovens olharam um para o outro e riram-se.
— Não te preocupes com o Dill, Mater. Ele tem mais do que uma taça a que recorrer. É o velho Sr. Sequin que pode fazer algo de desesperado. Ouvi dizer que fizeram um escândalo sem fim, mas a Margery mantém-se firme.
— Dizem na rua — disse Decker —, que o Sr. Sequin tem contado com o dinheiro dos Dillingham para reforçar o banco. Ele tem andado a exagerar bastante nos últimos dois anos.
— Não se vive só de pão — citou a Sra. Ivy; — os nossos amigos têm vivido a vida material, esqueceram-se de que não passam de mordomos, e como mordomos serão responsabilizados pela forma como usam a sua riqueza. A Sra. Sequin não faz absolutamente nenhum esforço para promover o progresso do mundo. Recusou desde o início juntar-se à A.T.L.A. e nem sequer é membro do Clube das Mulheres.
— Bem, espero que o Sr. Sequin não tenha estado a brincar com o dinheiro do Don Morley — disse Decker, retomando o assunto do qual a Sra. Ivy se tinha desviado. — O Donald sempre lhe deixou tudo, e não sabe mais sobre os seus investimentos do que eu. Tudo o que lhe interessa é gastar o seu rendimento, e isso mantém-no ocupado.
Nesse momento, Norah apareceu com chá fresco e bolos, abrindo caminho com alguma dificuldade através do labirinto de lâmpadas vermelhas, mesas pequenas, apoios para os pés e pedestais coroados de mármore que enchiam a sala.
— Ah! — exclamou a Sra. Ivy, — aqui estão alguns dos bolinhos, Gerald, que tu adoras. Vais provar um, não vais? Temos o maior trabalho a tentar o apetite dele, Sr. Decker. Ele só consegue comer o que gosta. Sempre defendi perante o pai dele que havia alguma causa física para o seu desejo por doces. Nunca lhos recusei quando ele era criança. Mas, desde que nasceu, ele nunca viveu realmente de comida, viveu de música.
Gerald, no momento em que se deliciava com o seu segundo bolo, provou que não dependia apenas do poder sustentador da música.
— E agora, desculpa-me, querido Sr. Decker? — perguntou a Sra. Ivy, reunindo as suas saias cor de alfazema. — Sou uma mulher muito, muito ocupada, e a minha secretária reclama muito do meu tempo. Virá ver-nos novamente, não virá? Os amigos do Gerald, sabe, são os meus amigos. Adeus. E, com um aperto de mão terno e um olhar demorado, ela partiu.
Gerald esperou até que a porta estivesse fechada, depois produziu cigarros que ofereceu a Decker.
— O último passatempo da Mater é o tabaco — sorriu ele indulgentemente. — Ela vai aboli-lo do universo. Lembras-te de como o Doutor Queerington costumava discursar sobre o assunto na universidade?
— A propósito, a tua mãe diz-me que ele casou-se de novo. Não sei porquê, mas isso diverte-me. Ela era viúva?
Gerald, com os cotovelos nos braços da cadeira e segurando a chávena de chá com ambas as mãos logo abaixo do nível dos olhos, pareceu subitamente sombrio.
— Não — disse ele. — Gostaria que, por favor, ela o fosse!
— O que se passa com o Velho Silogismo? Sempre achei que ele era um tipo bastante bom.
— Não estou a pensar nele! — disse Gerald impacientemente. — Estou a pensar na rapariga. Ela não pode ser muito mais velha do que eu e é a coisa mais requintada que já viste. A sua tez é absolutamente luminosa. Ela devia ser pintada por Besnard ou La Touche, ou algum desses franceses que se especializam em luz. Ela irradia positivamente!
— Como é que ela se casou com o Doutor?
— Céus, quem sabe! Ele capturou-a algures no bosque. Não creio que ela tivesse visto um homem antes. Por Júpiter! Tens de a ver jogar ténis e ouvi-la rir. Ela é uma maravilha absoluta, tão livre e descontraída como qualquer um dos rapazes, mas reta como um fuso. Não se importa nada com dinheiro, nem com roupas, nem com a sociedade. Alguma vez ouviste falar de uma rapariga realmente bonita que fosse assim?
— Espero que o Doutor Queerington goste tanto dela como tu.
— Céus, meu caro! Todos gostam dela; é impossível não gostar. Mas ninguém a compreende. Sabes, eles olham para ela como uma criança; não fazem a mínima ideia do que ela está a passar.
— E tu achas que fazes?
— Eu sei. Ela está a tentar ajustar-se e não consegue. Está a descobrir o seu erro e a lutar corajosamente para o esconder. Quando chegou, interessou-se por tudo. Nunca tinha jogado ténis ou golfe, e divertia-se mais a aprender do que qualquer pessoa que já vi. Depois, de repente, parou. Algum parente seco e desidratado disse ao Doutor que não ficava bem à sua esposa andar por aí com os jovens, e isso resolveu a questão. Ela desistiu como um anjo, e não é do tipo que gosta de desistir. Agora, os seus dias são dedicados aos afazeres domésticos pesados, e as suas noites a melhorar a mente no escritório abafado e antiquado do Doutor.
— Conversar com o Doutor — confessou Decker — sempre me afetou como olhar para as Cataratas do Niágara; grandioso, imponente e inspirador, mas um pouco já basta. Como é que ela está a aguentar?
— Cada dia mais magra, mais pálida e mais bonita. Ela é uma rapariga do campo, sabes, habituada a cavalos e a exercício ao ar livre. Deve ter sentido uma saudade terrível, mas é corajosa até à medula. Foi terrivelmente difícil para ela fingir no início. Isso é porque ela é tão honesta. Mas teve de aprender. Nenhuma mulher, boa ou má, consegue passar pela vida sem aprender a fingir, só que para as boas é mais difícil. Que barulho dos diabos é aquele na rua?
Eles levantaram-se e foram até à janela, com Gerald a espreitar por cima do ombro do seu companheiro mais baixo.
Uma mula cinzenta e decrépita, atrelada a uma carroça pesada, tinha parado no meio da rua, e um grupo de negros agitados tentava em vão convencê-la a seguir caminho. Com uma orelha em riste e as patas dianteiras firmemente plantadas, o animal decrépito fazia silenciosamente a sua declaração de independência, recebendo os golpes que choviam no seu dorso com o estoicismo obstinado de quem decidiu morrer antes de se render.
— Por Júpiter, se aqueles tipos não estão a preparar-se para fazer uma fogueira debaixo dele! — exclamou Decker. — Eles preferem brincar com uma mula empacada do que comer melancia! Vamos lá fora ver o espetáculo.
Quando Decker chegou ao alpendre, tendo deixado Gerald no espelho do corredor a examinar o rosto com extrema solicitude, uma nova figura tinha surgido na cena. Era uma rapariga vestida de branco, parada no jardim dos Queerington, e, ao olhar, ele viu-a de repente disparar pelo portão e entrar na rua como se tivesse sido disparada de um canhão.
— Parem de puxar a cabeça dele assim! — exigiu ela. — Não se atrevam a bater-lhe outra vez. Afastem esse fogo!
Os negros recuaram, algo espantados, e o carroceiro suspendeu o chicote no ar.
— Vou mostrar-vos como fazê-lo andar — continuou ela; — ponham lama na boca dele. Sim, lama, um grande pedaço de lama. Pronto, isso serve; façam uma bola e ponham lá dentro. Sim, conseguem! Oh, céus! Dêem-me isso!
Ela agarrou o maxilar inferior da mula com o polegar e o indicador e, com um movimento ágil, conseguiu colocar a substância indesejada entre os dentes do animal.
A mula demonstrou surpresa, depois curiosidade. As suas patas dianteiras relaxaram, o seu olhar perdeu o fogo e, quando uma pressão suave caiu sobre o cabresto, ela estava demasiado absorta na nova sensação para resistir.
— Bravo, Miss Lady! — chamou Gerald, aproximando-se calmamente para a encontrar. — Eu disse-te que eras irresistível. O que lhe sussurraste ao ouvido?
— Muitas coisas! — disse ela, aceitando o seu lenço imaculado para limpar a lama das mãos, — mas, claro, a lama ajudou. O Tio Jimpson ensinou-me esse truque. Ele diz que uma mula só tem espaço na cabeça para um pensamento de cada vez, e tudo o que tens de fazer é trocar o pensamento de resistência por outro qualquer e ele anda.
— Espero que nunca tenhas de pôr lama na minha boca — disse Gerald, olhando para ela sem tentar esconder a sua admiração. — Não podes vir visitar a minha mãe por um bocado? Ela adoraria servir-te uma chávena de chá.
— Não gosto de chá à tarde; estraga-me o jantar.
— Bem, então, vem visitar-me. Há um amigo meu que quero que conheças. Tenho-lhe falado de ti.
— Não posso. Estou a fazer desenhos para o Bertie. Ele vai ficar desapontado.
— Eu também. O Decker também.
— Decker? — Miss Lady lançou-lhe um olhar rápido. — Não te refiras ao Cropsie Decker?
— Pois é; o correspondente especial do Herald-Post. É incentivo suficiente?
Miss Lady olhou para ele de uma forma algo estranha. — Eu vou — disse ela após um momento de hesitação.
Eles não voltaram para a sala de estar, mas sim para a sala de música, uma divisão ampla no lado oposto do corredor que a Sra. Ivy, uma crente convicta no efeito psicológico das cores, tinha decorado em azul para induzir um estado de espírito contemplativo nos ocupantes. Sobre a lareira e as mesas encontrava-se a mesma coleção diversificada de bibelôs que caracterizava a sala de estar. Várias fotografias de Gerald adornavam as paredes, sendo a mais imponente aquela que o apresentava sentado ao piano, com a sua mãe de pé ao seu lado, com uma expressão de êxtase no seu perfil elevado.
Miss Lady esvoaçava de objeto em objeto, fazendo perguntas sem esperar pelas respostas, vendo tudo, comentando tudo, enquanto os dois jovens estavam lado a lado sobre o tapete da lareira a observá-la. Ela era como um beija-flor com medo de pousar.
— Por favor, Sra. Queerington — pediu Gerald, finalmente. — Sabes que não te interessas por essas máquinas fotográficas antigas. Eu mostro-tas noutra altura. Quero que fales com o Decker. Senta-te aqui nesta poltrona grande e eu sentar-me-ei aos teus pés, onde pertenço, e o Cropsie senta-se onde quiser e conta-nos as suas aventuras.
— Mas onde está a tua mãe? Não disseste que ela estava a servir o chá?
— Ela descerá daqui a pouco. Agora, conta-nos uma história, Decker. Um homem não pode andar pelo Oriente durante um ano sem que lhe aconteça algo emocionante.
— Receio não ter uma natureza propensa a experiências — disse Decker, sorrindo. — Deviam ter aqui o Morley. Ele é o tipo que foi comigo, Sra. Queerington. Aposto que ele ganha a qualquer um em termos de aventuras. Lembras-te daquele grande incêndio no ano passado em Tóquio? O Don foi o primeiro a chegar lá, a fazer o papel de nobre herói, a arrastar mulheres e crianças e a combater galhardamente as chamas, enquanto eu ficava de cama no Hotel Imperial a combater mosquitos! Ele esteve numa colisão no mar, ao largo da costa da Coreia, envolveu-se numa revolta chinesa em Nanquim e foi preso como espião enquanto tirava fotografias às fortificações em Miyajima. Se eu tivesse metade da sorte dele, seria o homem mais bem pago do sindicato.
— Não sei se invejo particularmente a sorte dele no incidente que aconteceu aqui pouco antes de ele partir — disse Gerald, acendendo um cigarro novo.
— Não foi nada que o desabonasse — disse Decker, acalorado. — Ele foi testemunha quando aquele idiota do Dillingham se envolveu num tiroteio, e deixou a cidade porque não queria testemunhar contra o homem com quem a sua sobrinha ia casar. Ele não considerou as consequências, nunca considera. Quando o encontrei em São Francisco, era uma incógnita se ele voltaria para casa ou se continuaria a viagem.
— Ele não sabia que tinha sido indiciado? — perguntou Gerald.
— Certamente que não. Nenhum de nós sabia até eu chegar a casa e encontrar as pessoas a falar do "Pobre Donald Morley", agindo como se ele fosse um fugitivo da justiça. Chegaram duas ou três cartas da Sra. Sequin, mas ela estava tão ocupada a insistir para que o Don ficasse longe que não teve tempo para escrever mais nada. Recebemos um jornal antigo da terra, algures em Java, com um relato do julgamento. Foi a primeira indicação que o Don teve de que o Dillingham o estava a trair. Mesmo assim, mal podia acreditar; não há nada nele que consiga compreender um homem como Lee Dillingham.
— Mas ele estava com ele... naquela noite na taberna — aventurou-se Miss Lady, sentando-se muito direita e ouvindo com muita atenção.
Gerald sorriu de forma cética. — Ele entrou para fugir da chuva, minha cara senhora; foi isso que ele escreveu para casa, creio eu; e não tocou numa única bebida. Um esforço considerável para a imaginação, à luz dos acontecimentos posteriores.
— Ouve lá, Ivy — disse Decker, levantando-se e posicionando-se perante o fogo com o maxilar quadrado projetado para a frente e o brilho desaparecido do seu olhar. — Eu conheço esta história do princípio ao fim, e ambos conhecemos o Don Morley. Ele é tão cheio de defeitos como um porco-espinho é de picos, mas não é mentiroso nem cobarde. Se ele diz que estava sóbrio naquela noite, apostaria a minha vida que estava.
Houve uma pausa desconfortável durante a qual Gerald sentiu ternamente o seu rosto afetado e Decker fulminou o candelabro com o olhar.
— Ele deveria ter ficado para se explicar — disse Miss Lady, sem se atrever a levantar o olhar; — o primeiro dever de um homem é para consigo próprio e... e para com aqueles que se importam com ele.
— Esse foi o problema — disse Decker, lentamente. — Parece que a única pessoa com quem o Don se importava mais não quis ouvir uma explicação. Ele escreveu-lhe todos os pormenores e pediu-lhe que o telegrafasse a dizer se ele devia ir ou ficar. Quando o encontrei em São Francisco, ele estava à espera desse telegrama há três dias e quase perdeu o juízo. Levei-o para o vapor quase à força. Ficámos dez dias em Honolulu, e ele ficou com a ideia de que uma carta estaria à sua espera em Yokohama e que ele apanharia o vapor seguinte para casa. Durante toda a travessia, ouvi falar daquela rapariga desde a hora em que o chinês trazia o nosso café de manhã até voltarmos para baixo à noite. Ele quase que rezava por ela; cortou com tudo o que era álcool; até se recusou a jogar uma partida amigável de póquer. Ora, eu caminhei tanto pelos conveses ao som dos encantos daquela rapariga que poderia escrever um livro sobre ela.
— Qual é o nome dela? — perguntou Gerald, muito interessado.
— Céus, não sei! Ela era uma ninfa do bosque, uma dríade, uma joia, uma flor; eu poderia continuar indefinidamente. Ele tinha uma nova para ela todos os dias. Quando chegámos ao Japão, ele não conseguiu esperar que o vapor atracasse, foi para terra no barco do piloto e dirigiu-se diretamente para a Cook's. Não havia nada lá. Era assim em todos os portos onde parámos. Cada vez ele elevava as suas esperanças à temperatura febril, e cada vez ficava desapontado. Nunca vi tamanha perseverança e crença. Ele arranjava desculpa atrás de desculpa para ela. Estava orgulhoso demais para escrever de novo, e ficava cada vez mais magro e com mais saudades de casa. Lembras-te daquela colisão de que falei? Bem, ele envolveu-se nela por esperar por um vapor em Nagasaki na esperança de receber uma carta antes de deixar o Japão.
— O que aconteceu a seguir? — perguntou Gerald; — outro planeta nadou no seu campo de visão?
— Dificilmente. O desastre aconteceu pouco antes de eu o deixar, há uns dois meses. Estávamos no Raffles Hotel, em Singapura, a tomar chá com umas raparigas francesas do vapor. O nosso comissário apareceu e deu ao Don uma carta que reconheci ser da Sra. Sequin. Ele leu a primeira folha, depois olhou para cima de forma selvagem e perguntou se nos importaríamos de o desculpar, pois tinha algo de que queria tratar antes de o vapor partir. Às cinco horas, ele ainda não tinha aparecido e eu tive de apressar as nossas malas para terra e começar a procurá-lo. Ele andava muito debilitado há uns meses e, quando o deixaram, eu sabia que algo de grave tinha acontecido. Encontrei-o tarde naquela noite no hospital estrangeiro, fora de si com uma febre. Parece que a carta lhe dizia que a sua rapariga ia casar-se e, quase fora de si, ele tinha entrado num riquexó e andado durante horas ao sol tropical, a tentar encarar o facto. Claro que, no estado debilitado em que estava, isso acabou com ele, e quando ele voltou ao Raffles, já não sabia quem era nem onde estava. Fiquei com ele até que o Herald-Post me mandou chamar para casa. Talvez penses que não odiei deixar aquele velho amigo naquele país esquecido por Deus, deitado de costas, a olhar para o teto, com todas as suas ilusões desfeitas.
— Ele quis vir contigo? — perguntou Gerald.
— Ele não queria nada. Ele tinha querido uma coisa durante tanto tempo que já não lhe restava mais desejo nenhum. Tentei convencê-lo a deixar-me reservar passagem para ele no vapor seguinte de regresso a casa. Mas ele disse que duvidava que alguma vez voltasse, que assim que pudesse viajar continuaria a volta ao mundo e que não fazia grande diferença onde aterrasse.
— Um pequeno romance bastante trágico — disse Gerald. — Que quantidade de maldade vocês, mulheres, têm de responder, Sra. Q.!
Mas Miss Lady não o ouviu, ela continuava inclinada para a frente, absorvida pela narrativa de Decker.
— Se ele vier para casa, em resposta ao seu telegrama, quando poderá chegar aqui? — perguntou ela.
— Não antes do Natal, diria eu.
— Se eu fosse o Lee Dillingham, iria para o Sul passar o inverno — disse Gerald, indo ao piano e tocando alguns acordes aleatórios.
Depois de Cropsie Decker partir, Miss Lady sentou-se muito quieta na poltrona grande, enquanto Gerald tocava para ela. Ainda bem que apenas o gentil busto de Liszt olhava para o seu rosto tenso e branco e mãos entrelaçadas.
Durante mais de dois meses, ela tinha lutado contra um espectro, nunca se atrevendo a levantar os olhos para ele, mas lutando cegamente, apaixonadamente, incessantemente. Tinha negado a sua existência, refutado cada memória, enchido a sua vida até à borda com outros interesses, outros afetos, e ali, de repente, tinha-o encontrado face a face, e já não era horrível, mas uma visão bela e radiante, algo a ser enterrado no seu âmago, algo sagrado e solene, que não devia ser olhado ou meditado, mas que já não podia ser negado.
Os acordes tempestuosos e insistentes da "Appassionata" preenchiam a sala, surgindo através de cada fibra dela, elevando-a e humilhando-a alternadamente. Como poderia ela controlar-se enquanto Gerald tocava daquela maneira? Ela estava a afundar-se num grande mar de emoção e a música varria-a como um vendaval poderoso, excluindo tudo no mundo, exceto Donald Morley. Ele não a tinha falhado, fora ela que o tinha falhado a ele. Ele estava a voltar para casa, e era tarde demais. Ela teria de o enfrentar face a face, de ver tudo o que ele tinha sofrido nos seus olhos e não dizer uma palavra. Certamente ela poderia dar-lhe esta única hora, apenas enquanto a música durasse; dá-la a ele e a si própria pela vida inteira juntos que tinham perdido.
Ela não soube quando a música parou, não soube quando Gerald voltou para o banco aos seus pés. Ele estava ali, evidentemente, há algum tempo, quando ela se apercebeu do seu cotovelo no braço da sua poltrona e da sua cabeça enterrada nele.
— Gerald! — disse ela, sobressaltando-se; — o que se passa?
— Tudo. É esse o teu problema?
— O que queres dizer?
— Quero dizer que estás infeliz — disse ele, segurando-lhe a mão.
Ela saltou para os pés e acendeu as luzes elétricas.
— Pareço estar infeliz? — exigiu ela, lançando-lhe o seu velho sorriso brilhante. — Foi a música, e o crepúsculo, e a forma como tocaste. Essa sonata nunca deveria ser tocada senão numa sala cheia com todas as luzes acesas.
— Não foi a música — insistiu Gerald; — sabes que não foi. Algo te está a preocupar, e algo me está a preocupar. Posso dizer-te o que se passa comigo, Miss Lady?
Ele olhava para ela muito atentamente através da mesa, e Miss Lady, pela primeira vez, reconheceu os sinais de perigo nos seus olhos.
— Deixa-me adivinhar! — gritou ela, com a sua inteligência a vir em seu auxílio. — Acho que sei. Pensei nisso quando entrei. São papeiras!
A mão de Gerald foi instintivamente ao rosto, e os seus olhos procuraram o espelho. Miss Lady, ao aplicar a Gerald Ivy o remédio do Tio Jimpson para uma mula empacada, tinha evitado um desastre.
CAPÍTULO XV
O tempo era uma abstração à qual os habitantes do Beco Bean prestavam pouca atenção. A divisão arbitrária da vida de alguém em semanas, dias e horas parecia, no geral, inútil. Havia apenas um dia para os homens, e esse era o dia do pagamento, e um para as mulheres, e esse era o dia da renda. Quanto às crianças, todos os dias eram delas, exatamente como deveria ser em cada canto do mundo.
Nesta tarde de outono em particular, mesmo em frente à casa de Phineas Flathers, decorria um jogo animado. Era um jogo conhecido no Beco Bean como "Sockabout", e tinha a ver com bonés ou chapéus batidos colocados em fila, e com uma pequena bola de borracha que era atirada para dentro deles a uma certa distância. Como muitas outras diversões aparentemente simples, o Sockabout tinha as suas complexidades. De facto, as regras permitiam tantas interpretações que um árbitro era indispensável.
Em circunstâncias normais, Chick Flathers teria desprezado um papel tão passivo como o de árbitro, mas hoje estava limitado. Em primeiro lugar, não tinha nenhum boné para contribuir para a fila no chão e, em segundo, estava carregado com um embrulho muito grande e inquieto, que dava provas de marcado descontentamento no momento em que ele deixava de o sacudir violentamente nos joelhos.
No meio de uma altercação invulgarmente feroz, em que quatro rapazes disputavam o mesmo boné, a voz de Skeeter Sheeley elevou-se acima do clamor.
— É a nossa vez! O árbitro diz que sim, não dizes, Chick? Ah, disseste sim! Eu consigo entender-te melhor do que tu te entendes a ti próprio. Claro que é nossa. Pára de me empurrar, Gussie McGlory, dou-te um estalo na cara num instante! Cuidado, Chick! Cuidado com o miúdo!
O residente mais jovem do Beco Bean foi provavelmente salvo de uma morte prematura pelo aparecimento oportuno de duas senhoras na extremidade da rua.
Chick, reconhecendo a mais jovem, começou alegremente a correr para a encontrar, mas ao ver a sua companheira parou de repente. Durante dois anos, tinha considerado aquela senhora rechonchuda, sorridente e idosa como o seu arqui-inimigo. Ela andava atrás dele. Queria metê-lo em algo que soava como "O Lar Terrível dos Salgueiros". Uma vez quase o tinha apanhado, mas a Tia 'Tella interpôs-se. Ele não tinha medo do oficial de absentismo escolar, nem do polícia, embora eles também andassem geralmente atrás dele, mas tinha pesadelos horríveis em que se via a ser arrastado para o cativeiro por esta senhora afável, vestida de roxo, que sorria sempre.
No momento em que procurava um esconderijo suficientemente grande para acomodar a si próprio e ao seu encargo, foi chamado para casa. Uma comoção considerável era aparente na cozinha apinhada e o Sr. Flathers movia-se com uma rapidez invulgar para ele.
— Tira os sapatos e as meias, Chick, e vira o casaco do avesso. Anda, eu seguro o bebé; a tua mãe está a amamentar o outro. Empurra essa lata de cerveja para debaixo do fogão e esconde aquele relógio de cuco.
Chick seguiu as instruções com o ar de quem compreendia a situação. Não era a primeira vez que se preparava à pressa para visitas.
— Estão a parar nos Jireses — informou o Sr. Flathers da janela. — Anda, pega neste miúdo e senta-te ali no degrau da porta. Não te atrevas a mexer-te até que elas te vejam e falem contigo.
Chick retomou sua posição no degrau da porta com o coração pesado. A linha de batalha havia sido empurrada para o sul, e ele estava completamente fora da linha de fogo.
Seus pés e pernas descalços estavam gelados no ar cortante de novembro, e ele havia sacudido o bebê até sentir que não restavam mais sacudidas dentro de si. Era, além disso, um negócio aterrorizante sentar-se ali e aguardar calmamente o seu destino.
— São eles! — anunciou Skeeter Sheeley, correndo pelo beco. — Eles deram umas laranjas para o Sr. Jires. Se eles te derem uma, você vai me dar a metade?
Chick estava infeliz demais para responder. As grades de uma instituição pareciam estar se fechando sobre ele.
Sra. Ivy, segurando suas saias bem altas e escolhendo seu caminho com cautela ao redor das poças congeladas, foi a primeira a alcançá-lo.
— Ah! Aqui está nosso bom amiguinho Rick, ou Dick, é isso? E esta é a doce irmãzinha que Deus lhe enviou.
— Não é não — disse Skeeter; — aquilo ali é um menino, e não é parente dele. O pai dele está na cadeia, e a mãe dele está presa por noventa dias, e ele está apenas de favor na casa dele.
— O caso que foi reportado para o Lar — disse a Sra. Ivy, virando-se com um aceno significativo para sua acompanhante que acabara de chegar.
À palavra "lar", Chick estremeceu. Era a palavra mais terrível da língua inglesa para ele.
— O que há com o seu polegar, amiguinho? — perguntou Miss Lady, vendo seu olhar assustado. — Venha aqui, Skeeter, e me diga o que ele diz.
Ela aliviou Chick da pessoa jovem cujos pais não estavam em condições de atender às suas necessidades, e sentou-se no degrau da porta entre os dois meninos, ouvindo com atenção lisonjeira uma descrição detalhada das feridas e cicatrizes de cada herói e como elas haviam sido recebidas.
Sra. Ivy, enquanto isso, uma verdadeira aranha no meio de uma teia de instituições, planejava cautelosamente capturar cada mosca desamparada e pobre que aparecia em seu caminho. Para ela, a teia não era feita para a mosca, mas a mosca para a teia; fornecer moscas era sua principal ocupação.
Em pé, logo dentro da porta da cozinha, com as saias ainda cuidadosamente reunidas ao redor, ela observava seus arredores com simpatia lúgubre.
— O fato é — dizia Phineas enquanto segurava seu casaco pelo colarinho, em uma tentativa fingida de esconder a falta de uma camisa —, que não temos prosperado desde que a senhora esteve aqui por último. Parece a mão do Senhor...
— Ah, Sr. Flathers — repreendeu a Sra. Ivy, com um dedo nos lábios —, nunca se esqueça de que a quem Ele ama, Ele castiga.
— Eu não esqueço, Sra. Ivy, eu não esqueço. Mantenho isso em mente. Se não fosse por isso, Sra. Ivy, declaro que não sei o que faria. Agora, a senhora vir hoje foi uma resposta a uma oração! Eu apenas pedi que, de alguma forma, algo fosse provido antes que o homem do aluguel voltasse às seis horas. Eu não disse na minha oração de que jeito, eu só disse um jeito, que um jeito fosse provido. E quando vi a senhora e a jovem virando no beco, disse para Maria: "nunca mais tente abalar minha fé, as nuvens foram dissipadas!"
Sra. Ivy, que era muito mais dada a distribuir moral do que dinheiro, mudou de posição.
— Sr. Flathers — disse ela, olhando para ele com o que considerava ser um olhar perspicaz —, o senhor bebe alguma vez?
Assegurando-se de que Chick havia colocado a lata completamente fora de vista, Phineas olhou para ela com reprovação:
— Eu? Ora, Sra. Ivy, pensei que todos soubessem que desde que entrei para a Igreja... é claro que não nego que houve um tempo em que conheci o gosto do licor. Não há como negar isso, e, além disso, a confissão é boa para mim, humilha meu espírito, Sra. Ivy, impede-me de ser um publicano.
— E tabaco? — indagou a Sra. Ivy. — Licor e tabaco andam de mãos dadas, são males gêmeos. O senhor é viciado no uso de tabaco?
— Eu não! — disse Phineas, veraz pela primeira vez. — Não sujo meus lábios com um charuto há mais de vinte anos, e a senhora não conseguiria me fazer mascar nem se me desse clorofórmio. Se o licor é a bebida, o tabaco é o alimento do diabo, como eu vejo. Sra. Ivy sorriu para ele, enquanto abria a bolsa de prata em seu cinto. — Vou relatar seu caso em nossa próxima reunião — disse ela com entusiasmo. — Vou citar suas próprias palavras. E agora vou colocar este pequeno distintivo no senhor, este pequeno distintivo branco que diz ao mundo que o senhor pertence à Liga Anti-Tabaco. O senhor tem a honra de usar o que poucos dos nossos maiores estadistas podem usar! O senhor provou que um humilde trabalhador pode liderar o caminho para a Reforma.
Miss Lady apareceu neste momento com o Pensionista, que, como a maioria dos indivíduos de sua classe, queixava-se continuamente da quantidade e da qualidade de sua comida.
— A senhora nos encontra em má situação, Mis' Squeerington — disse Phineas, oferecendo-lhe uma cadeira sem assento com o ar de um mártir cristão. — Se minha irmã Myrtella soubesse metade do que estamos passando, ela não continuaria a endurecer o coração contra nós.
— O coração de Myrtella está bem — disse Miss Lady alegremente; — ela cuida de Chick, não cuida?
— Cuida, senhora, de certo modo. Mas há despesas pesadas para um homem pobre com uma família. Sra. Flathers, agora, não tem podido fazer uma sessão espírita desde antes do bebê vir. Ela fez uma sessão de transe ontem, mas diz que não sabe o que deu nela, sente-se tão fraca!
— Há quanto tempo ela está cuidando desse outro bebê? — perguntou Miss Lady.
— Quase desde que o nosso veio. O Tribunal de Menores estava procurando alguém para cuidar dele até que a mãe dele saísse do hospital da cadeia. Eu disse para Maria: "Aqui está uma chance de fazer um bom ato cristão e ganhar um dinheiro honesto. Vamos pegá-lo e tratá-lo como se fosse nosso, eu disse, e o Senhor não nos esquecerá, eu disse!"
O Pensionista, aproveitando essa garantia de hospitalidade, iniciou uma exigência tão peremptória por comida que Miss Lady foi forçada a andar pelo cômodo com ele.
— Onde está a Sra. Flathers? — perguntou ela em desespero. — Não podemos dar-lhe uma mamadeira ou algo assim?
Maria, mais flácida e inanimada do que o habitual, saiu do interior escuro do cômodo adjacente, carregando um fardo ainda mais flácido e inanimado que trocou com Miss Lady pelo dela, e retirou-se silenciosamente para o cômodo interno, onde foi seguida pela Sra. Ivy.
— E este aqui é o nosso! — exclamou Phineas, curvando-se com entusiasmo repentino sobre a criança nos braços de Miss Lady, e levantando ternamente o xale do rosto enrugado e das minúsculas mãos semelhantes a garras. — Esta aqui é Loreny. Não sobrou nem uma das outras que tenha vivido mais de duas semanas, e esta aqui já vai para quatro. Parece que vamos ficar com ela, não é?
Miss Lady não conseguiu encontrar resposta. Os lábios brancos e os círculos azuis ao redor dos olhos pequenos e encovados denunciavam a mesma falta de disposição para arriscar a vida sob tais circunstâncias que fora demonstrada por todos os outros pequenos Flathers.
— Claro que ela não é como aquele outro bebê — continuou Phineas com genuína seriedade —, mas então ele é um menino, e come mais. Ela vai ficar gordinha e bonita, não vai, Loreny?
Ele colocou seu polegar marrom e grosso na mãozinha que se fechou ao redor dele e agarrou-o, e sentou-se observando-a, alheio à sua visitante.
— Ela não parece o que se chamaria de forte — continuou ele, ansioso —, mas a senhora não diria que ela está doente, diria?
— Receio que diria — disse Miss Lady gravemente; — ela parece muito doente para mim.
— Parece? Então é melhor eu buscar o médico — Phineas levantou-se apressado, depois sentou-se novamente. — Mas ele nunca fez nada de bom pelos outros. Maria sempre sustentou que foi ele quem os matou. Não há nada que possamos fazer? A senhora não sabe de alguma coisa?
— Sim, acho que sei, só que talvez você não esteja disposto a fazer.
— Tente-me. Farei qualquer coisa que a senhora disser, senhorita. Se o Senhor apenas a poupar...
— Não é o Senhor que a está levando — gritou Miss Lady impacientemente —, é você que a está enviando, Sr. Flathers. Não consegue ver que está matando seu bebê?
Ele olhou para ela em horror espantado.
— Sim, você está! — continuou Miss Lady ferozmente —, você está vendendo a comida dela para outro bebê; você está deixando a mãe dela trabalhar tanto que ela mal consegue nutrir a si mesma. Olhe para a Sra. Flathers! Qualquer um pode ver que, se ela tivesse comida melhor e menos o que fazer, ela seria uma pessoa diferente.
— Oh, Maria era muito bonita um dia — disse Phineas um tanto ressentido —, mas quando um homem se casa com uma daquelas loiras pequenas e esguias, ele nunca sabe o que está recebendo. Elas meio que murcham sobre você e ficam desbotadas e fibrosas.
— Sim, mas pense no que ela recebeu — disse Miss Lady, decidida a levar a questão adiante. — Myrtella diz que você era um jovem forte e bonito, que poderia ter feito quase qualquer coisa, e olhe para você agora! Um vagabundo acabado, sentado pelos salões de bebida, falando de religião enquanto seu bebê morre de fome. Não me admira que Myrtella tenha vergonha de você, eu tenho vergonha de você, e se esta pobre menina viver para crescer, ela também terá vergonha de você!
— Não, não — gritou Phineas aos prantos, com a cabeça entre as mãos —, ela não será assim... se o Senhor... quero dizer, se ela viver, serei um homem melhor, Mis' Squeerington, de verdade. Ninguém nunca saberá no mundo o quanto eu quero ter filhos meus. É por isso que adotei Chick... essa é uma das razões pelas quais peguei este novo. Parecia que, como meu bebê se foi...
— Vamos tentar mantê-la — disse Miss Lady com um ímpeto de simpatia. — Farei tudo o que puder, mas você deve ajudar, Sr. Flathers. Você está disposto a fazer a sua parte, não está?
Suas emoções, acostumadas a responder a estímulos falsos, sendo agora apeladas pelo único sentimento genuíno nele, ameaçavam tornar-se descontroladas.
— Pronto, pronto! — disse Miss Lady —, se você realmente quer salvá-la, acho que há um jeito.
— Não um Orfanato? — perguntou Phineas, levantando um olho da saia do bebê onde sua cabeça estivera enterrada.
— Não, um lar limpo só para ela. Não há razão para você não trabalhar, Sr. Flathers, e sustentar sua família decentemente. Vou levar Chick para casa comigo. Myrtella ficará feliz em tê-lo para uma pequena visita. Sra. Ivy vai enviar o outro bebê para o Lar dos Expostos. Então você só terá que cuidar da Sra. Flathers e do bebê; você certamente pode fazer isso, pode não pode?
— Sim, senhora, eu posso fazer isso. Claro que qualquer homem pode fazer isso. Mas faz tanto tempo que não tenho um emprego fixo, a senhora poderia me ajudar a encontrar algo para começar?
— Eu conseguirei algo para você fazer, se você apenas se mantiver nisso. Talvez a Sra. Sequin possa lhe dar trabalho na casa nova dela. Ela deu ao nosso velho homem de cor, Tio Jimpson, um lugar.
— Desde que não seja trabalho de jardim, nem carregar carvão, nem nada que traga reumatismo.
— Você tem reumatismo?
— Não, senhora, Graças a Deus! Escapei até agora sendo cuidadoso. A senhora sabe o que significa, Mis' Squeerington, quando um homem com uma família fica de cama com reumatismo. Tem o Jires, agora...
— Sim, e o Sr. Jires faz mais pela família dele deitado de costas do que você faz pela sua, de pé e andando por aí! Você não está me enganando nem um pouco, Sr. Flathers, e não adianta tentar enganar a si mesmo. Ou você pretende seriamente trabalhar ou não. Qual é?
O forte impulso de Phineas Flathers era fugir da cena. Ele viu sua liberdade desaparecendo diante da perspectiva terrível apresentada por esta jovem bonita que podia ser tão compreensiva em um momento e tão severa no outro. Mas os dedinhos em forma de garra de Loreny o mantinham preso. Ele olhou para seu polegar aprisionado e sorriu ternamente. Então ele encarou Miss Lady diretamente pela primeira vez.
— A senhora me ajuda a conseguir um emprego, senhorita, e eu prometo cuidar deste bebê aqui.
— O que você precisa — veio o murmúrio da voz da Sra. Ivy do cômodo ao lado, onde ela estava se despedindo de Maria Flathers —, é de mais beleza em sua casa, algo para elevá-la e inspirá-la. Vou lhe enviar uma de nossas galerias de arte itinerantes, você pode ficar com os quadros por uma semana inteira, tempo suficiente para aprender os títulos e os nomes dos pintores. Pense no que significará elevar seus olhos cansados para uma bela e serena Madonna! E você não poderia ter mais cor em sua casa? Achamos a cor tão estimulante. Gerânios escarlates, por exemplo. Você não gostaria de alguns gerânios escarlates?
— Não sei onde os colocaríamos — disse Maria cansada, mudando o peso do Pensionista para o outro braço. Então seu rosto endureceu de repente, e ela girou para a cozinha.
— Flathers — disse ela —, é ele vindo contornar a casa agora. Ele disse que voltaria antes das seis, e que não aceitaria nenhuma gracinha. O que você vai fazer, Flathers?
Antes que Miss Lady e a Sra. Ivy pudessem sair, o caminho foi bloqueado por um homem corpulento, musculoso e caolho que colocou uma mão em cada lado do batente da porta e desnecessariamente anunciou que ali estava ele. Esforços frenéticos por parte de Phineas para sinalizar ao recém-chegado, através de piscadelas e gestos, que a presença de convidadas impediria que ele falasse de negócios, foram inúteis.
— As senhoras terão que me desculpar — disse o intruso alegremente —, mas não posso brincar com esse pessoal por mais tempo. É pagar, ou cair fora, desta vez e sem erro.
Maria começou a chorar e esqueceu de sacudir o Pensionista, e o Pensionista, que insistia em ser sacudido a cada instante em que não estava dormindo ou comendo, começou a chorar também. Ao que Loreny, que havia sido colocada sobre a mesa da cozinha, ouviu o barulho e sentiu-se compelida a adicionar sua voz ao coro.
A essa altura, Chick e seus colegas, sentindo a emoção de longe, haviam seguido seu rastro e agora se apresentavam, ofegantes e interessados, para aguardar os acontecimentos. "Despejo" não era uma novidade particular no Beco Bean, mas a presença de convidadas adicionava um aspecto pitoresco.
— Se o senhor puder esperar mais uma semana — disse Phineas com alguma tentativa de dignidade —, estarei em condições de acertar as contas até hoje. Estou esperando conseguir um emprego...
Nisso, o homem do aluguel jogou a cabeça para trás e riu, e os jovens atrás dele riram, e até o Pensionista parou de chorar um momento para ver o que havia acontecido.
— Mas ele realmente vai — insistiu Miss Lady, vindo em auxílio de Phineas. — Ele vai trabalhar no início da semana. Certamente o senhor pode esperar mais uma semana.
— Eu posso, senhorita! — disse o homem na porta, galantemente. — Venho esperando uma semana a mais pelo Flathers há mais de dois meses. Não há absolutamente nenhuma utilidade em discutir o assunto mais. É pagar, ou cair fora, hoje.
— Bem, se isso não é o limite! — disse Phineas, com o ar de alguém que já havia atingido o limite muitas vezes antes, mas nunca um limite tão sem limites quanto este.
— Mas se pagarmos o aluguel deste mês por ele, o senhor não pode deixar que ele pague o aluguel atrasado mais tarde? — argumentou Miss Lady, tentando confortar Maria que ameaçava tornar-se histérica.
— Quando você conhecer o Flathers há tanto tempo quanto eu, não vai falar sobre ele pagar.
— Mas o senhor não pode despejá-los assim, com aquele bebezinho e nenhum lugar para ir!
— Há a Organização de Caridade, e o Asilo — sugeriu a Sra. Ivy, enxugando os olhos por simpatia.
— Eu odiaria levá-los a isso — disse o homem obstinadamente —, mas tenho minha própria família para considerar, e não sou o que já fui, desde que perdi meu olho.
— Pobre homem — suspirou a Sra. Ivy; — que sorte ter sido o esquerdo! Como aconteceu?
— Levou um tiro — disse o homem, nada relutante em entrar em detalhes. — Em uma briga entre um par de jovens riquinhos que estavam rondando meu local. Levou um tiro a sangue frio quando eu não estava olhando.
— Mas, meu bom homem, o senhor não processou? — perguntou a Sra. Ivy. — Sabe que temos uma Sociedade de Assistência Jurídica para casos exatamente como o seu.
— Sim, senhora, mas um dos jovens cavalheiros fugiu do país, partiu para partes estrangeiras, foi para o mato, como se poderia dizer.
— Mas ele não foi quem deu o tiro, foi? — perguntou Miss Lady, um ponto brilhante repentino em cada bochecha, e a determinação firme em seu olho que fora a ruína de Flathers.
— Nunca fui capaz de dizer qual deles fez isso — disse o homem, vacilando sob o seu olhar firme.
— Talvez tenha valido a pena para o senhor não dizer?
O homem lançou um olhar rápido de suspeita para ela, então seu olho voltou para Phineas.
— Claro, não quero empurrá-lo para o Asilo dos Pobres, e se ele espera conseguir trabalho...
— Eu espero, Dick — disse Phineas fervorosamente. — Segunda-feira de manhã coloco minhas costas na roda em algum lugar.
— Bem, se as senhoras assumirem este mês — disse o homem, evidentemente ansioso para ir embora —, esperarei mais uma semana pelo aluguel atrasado.
Miss Lady estava preocupada e silenciosa no caminho para casa. O mundo às vezes parecia desesperadamente sórdido, e a natureza humana uma proposta desconcertante.
Em seu portão, Sra. Ivy parou de repente: — Sabe de uma coisa — disse ela —, acabou de me ocorrer! Eu não ficaria nem um pouco surpresa se aquele homem caolho horrível fosse exatamente aquele que o Sr. Morley baleou!
CAPÍTULO XVI
Noite de Natal na Colina Billy-goat, e luzes cintilantes, começando com velas colocadas em garrafas nas casas mais humildes do Beco Bean, pontilhavam a encosta aqui e ali, até que todas pareciam convergir para um ponto brilhante no cume, onde uma verdadeira auréola de luz pendia acima do topo da colina.
Pois Angora Heights estava fazendo uma festa de inauguração, e nunca desde que o velho Bob Carsey trouxe sua jovem noiva do Alabama, tinham sido conhecidos tais preparativos para uma função social. Todas as carruagens da vizinhança haviam sido postas em serviço, e meia dúzia de automóveis haviam sido enviados da cidade para transportar os convidados da estação até a casa.
Dentro da mansão, tudo era magnificamente novo. Salas de época, executadas com precisão conscienciosa, abriam-se umas para as outras através de portas em arco. Espelhos maciços dourados acentuavam os amplos espaços do saguão e repetiam as luzes de inúmeros candelabros. Se uma memória perdida ou uma velha associação tivesse, por acaso, se infiltrado no baile de Natal, não teria encontrado nenhum objeto familiar no qual se demorar. A atmosfera era tão formal e impessoal quanto a de um museu.
No meio da sala de estar, como um general dando as últimas ordens antes de uma batalha, estava a Sra. Sequin, sua figura ampla envolta em uma armadura de lantejoulas pretas brilhantes, e seu penteado elaboradamente bufante superado por um capacete incipiente de joias flamejantes.
— Puxe essas cortinas um pouco para trás — comandou ela —, e abaixe aquela janela do topo. Jimpson foi à estação buscar os Queeringtons?
— Sim, senhora, meia hora atrás — respondeu a empregada.
— No momento em que ele retornar, diga-lhe que ele deve pegar a carroça pequena e voltar à estação às dez horas. O fornecedor acabou de telefonar dizendo que está enviando os sorvetes extras no último trem, mas que não pode enviar outro garçom. Jenkins, saindo do jeito que saiu, arruinou tudo. Suponho que seja tarde demais para conseguir alguém agora; o carro especial chega aqui às nove. Que barulho é esse? Parece alguém cantando na sala de jantar.
— É o novo homem da fornalha, senhora, que a Sra. Queerington enviou. Parece que ele não consegue ficar quieto.
— Eu o farei ficar quieto! — disse a Sra. Sequin, que estava tão perto da irritação quanto um traje completo permitiria.
Phineas Flathers, tendo reabastecido o fogo, estava fazendo uma pausa por um momento para se admirar no espelho holandês acima da lareira quando a Sra. Sequin o surpreendeu perguntando peremptoriamente se ele era o homem novo.
— Sou — disse Phineas com deferência pronunciada —, o homem novo e um homem novo. Regenerado, nascido de novo, senhora, o espírito do mal tendo partido de mim.
Sra. Sequin arfou. — Qual é o seu nome?
— Flathers, senhora.
— Terrível! Chamarei você de Benson.
— Benson será. Homens melhores que eu mudaram seus nomes. Havia Saul, agora, Saul de Tarso...
— Desligue as correntes de ar na fornalha e não suba as escadas em hipótese alguma. Mas não... espere um momento. O olhar aguçado da Sra. Sequin percorreu-o da cabeça aos pés. — Você já teve alguma experiência servindo?
Phineas, cuja única pretensão a servir era a de que “eles também servem, aqueles que apenas permanecem de pé e esperam”, baixou os olhos.
— Apenas na comunhão, minha senhora, e na coleta. Mas não me considero acima de dar uma mãozinha, minha senhora. A senhora faria o mesmo por mim. Eu estava justamente dizendo à senhora na cozinha que qualquer pessoa teria sorte de trabalhar para alguém com um rosto tão generoso quanto o seu.
— Limpe-se, coloque o paletó de Jenkins e, se outro garçom for absolutamente necessário, eles podem recorrer a você — ordenou a Sra. Sequin apressadamente, chamando então a criada: — A Srta. Margery já desceu?
— Ela está na biblioteca, minha senhora.
Margery, pálida e apática, afastou-se da janela quando a mãe entrou.
— Eu estava justamente vigiando a chegada da Srta. Lady — disse ela; — será bastante divertido ver ela e Connie em sua primeira grande festa.
— Espero que ela não use aquele vestido infantil com que se casou. Tudo bem para Connie ostentar musselina branca e fitas azuis, mas a esposa do primo John deveria usar algo que a fizesse parecer mais velha. Ora, com aquele vestido curto e o jeito que ela usa o cabelo, ela parece uma colegial!
— Ela parece muito bonita.
— É claro que sim, mas de que serve isso? Aqui, ao fim de quatro meses, ela praticamente não fez progresso algum. Não que não tenha tido todas as oportunidades! As pessoas estavam bem dispostas a aceitá-la, mas ela simplesmente não permitiu. O que se pode esperar de uma pessoa que diz que bridge e vestidos estruturados lhe causam dor nas costas? Ela não tem uma ideia na cabeça além do Doutor, das crianças e de um monte de indigentes. Devo dizer que estou terrivelmente decepcionada com ela. Mas, enfim, já deveria estar acostumada a decepções a esta altura. Como ela será quando for de meia-idade?
— Ela nunca será de meia-idade — Margery sorriu; — ela continuará sendo jovem e fazendo com que as pessoas ao seu redor se sintam jovens. Papai diz que ela é a única pessoa que ele conhece que o faz esquecer a própria idade. A propósito, onde está o papai?
— Atrasado na cidade, como de costume. Ele provavelmente virá de carro quando a noite estiver pela metade e estará cansado demais para ser educado. Nunca o vi tão perturbado. É claro que é por causa do seu noivado desfeito. Ele diz que talvez tenhamos que fechar a casa, agora que nos instalamos nela, e ir para o exterior para reduzir as despesas, mas é claro que isso é ridículo! Isso me lembra, os Horton enviaram suas escusas?
— Ela enviou — disse Margery distraidamente.
— Oh, céus, isso significa que ele virá! Ele é tão horrivelmente exigente, certamente fará comentários sobre eu ter colocado uma galeria italiana em um salão Luís XVI. Parece que, com todo o tempo e dinheiro que gastamos neste lugar... Não é a carruagem?
— Sim, estou ouvindo a Srta. Lady rindo.
Quando a porta da frente se abriu, duas figuras agasalhadas entraram apressadamente no saguão, trazendo uma lufada de juventude e alegria junto com o ar frio da noite.
— Espero que sejamos os primeiros convidados — gritou a Srta. Lady, sacudindo um cachecol da cabeça —, porque tivemos um acidente. Nós duas caímos. Connie escorregou no degrau e eu me sentei em cima dela. Houve um rasgo terrível e não sabemos de quem é! Estou com medo de tirar meu casaco!
— Mas onde está o Doutor? — gritou a Sra. Sequin em desalento.
— O papai adoraria ter vindo — começou Connie de forma ágil, mas a Srta. Lady interrompeu: — Não acho que ele realmente quisesse vir, Sra. Sequin. Ele disse que seria muito mais feliz em seu escritório, jogando pinocle, do que sentado aqui fora em uma cadeira dourada de encosto reto comendo sorvete. Talvez a senhora ache que eu não deveria ter vindo sem ele?
— Tolice! — exclamou a Sra. Sequin. — Fico perfeitamente exasperada quando o primo John age assim. Havia pelo menos meia dúzia de pessoas que prometi apresentar a ele. Se ele não tinha consideração por mim, deveria ter por você. Ele a tem mantido em casa demais. Ele esquece que você é vinte anos mais jovem que ele; ele espera que você aja como se tivesse quarenta.
— Não, ele não espera — protestou a Srta. Lady lealmente; — o Doutor nunca espera de ninguém algo que não seja correto. Ele insistiu para que eu viesse, não é, Connie?
Mas Connie estava absorta em um babado longo que pendia frouxamente em torno de seus pés.
— Olhe! — ela gritou tragicamente; — está rasgado bem na frente. O que devo fazer?
— Os vestidos da Margery seriam todos longos demais para você — disse a Sra. Sequin, observando o rasgo através de seu lornhion —, talvez Marie possa dar um jeito nisso.
— Não vou usar isso tudo remendado! — gritou Connie à beira das lágrimas; — vou para casa primeiro...
— Não, você não vai — disse a Srta. Lady; — esta é sua primeira festa de adultos e você conta com ela há semanas. Você vai trocar de vestido comigo. Não me importo nem um pouco em ficar com ele um pouco arregaçado e, além disso, ninguém vai notar minha presença.
— Isso é perfeitamente absurdo! — exclamou a Sra. Sequin indignada; — você deve se lembrar de quem é e que todos estão notando você. Por que você não pode usar um dos vestidos da Margery e deixar que Connie fique com o seu?
— Tudo bem, usarei o que você disser. Não se atreva a chorar, Connie! Nunca a perdoarei se você deixar seu nariz vermelho. Ouça! Os músicos estão afinando! Pode me conceder a primeira valsa, madame? — e, agarrando a Sra. Sequin por suas mãos rechonchudas enluvadas, ela dançou com aquela pessoa augusta pelo longo corredor.
— Deixe-me ir, criança ridícula — riu a Sra. Sequin, apressando-a escada acima; — os automóveis estão subindo a colina agora. Faça com que ela fique o mais bonita possível, Marie, e depressa!
À distância, as luzes brilhantes e móveis dos automóveis e as mais fracas das carruagens podiam ser vistas se aproximando e, muito em breve, sob o clarão das luzes da varanda, figuras apressadas em peles, cetins farfalhantes e veludos macios eram conduzidas formalmente ao grande salão de recepção.
A Sra. Sequin, montada em seus saltos sociais mais altos, estava com Margery na alcova, tão cuidadosamente planejada para outra ocasião. Um baile, sem dúvida, era um substituto pobre para um casamento, mas a Sra. Sequin não era alguém para desperdiçar suas energias em vão arrependimento. O baile seria um sucesso; os salões já estavam se enchendo rapidamente com as pessoas que a Sra. Sequin mais desejava ver. A velha Sra. Marchmont havia se levantado de uma cama de enfermo para vir da cidade e expor seus ossos antigos em honra à ocasião. A Sra. Bartrum havia tomado posse do canto mais favorável na biblioteca e lá mantinha uma corte alegre; os jovens formavam grupos de um cômodo para outro; todos riam, conversavam e exclamavam sobre os encantos da nova casa. De fato, a complacência da anfitriã sobre sua conquista só era superada pela curiosidade dos convidados, que confirmavam com seus próprios olhos os rumores desenfreados que circulavam sobre a extravagância dos Sequin.
O Sr. Horton, o arquiteto local que não fora considerado de renome suficiente para fazer os planos da casa, vagava de cômodo em cômodo em um silencioso tour de inspeção. Os temores da Sra. Sequin quanto ao seu julgamento não eram sem causa, pois o Sr. Horton era um daqueles críticos cujos conselhos sempre ignoramos, mas cuja aprovação ardentemente desejamos. Ele era uma pessoa elegante e imaculada, com uma barba curta e pontiaguda e olhos críticos e estreitos que pareciam estar sempre tirando medidas. Passando da sala de jantar holandesa, com seus azulejos azuis e estanho antigo, ele parou na entrada do salão onde a dança já havia começado. Seu olhar, captando tudo, desde o canelado dourado dos painéis até as cabeças de bronze nas linhas verticais das lareiras de mármore, repousou por fim sobre um objeto que evidentemente dava ao seu gosto crítico total satisfação.
Uma jovem parara perto dele e observava ansiosamente os dançarinos. Ela apresentava uma harmonia em verde e ouro, desde seu cabelo brilhante preso em um coque frouxo na nuca, até seus pequenos sapatos dourados que marcavam o ritmo da música. O vestido colante de verde-pálido que caía em linhas soltas de seus ombros estava velado em renda de tom profundo, revelando seu pescoço redondo e branco e seus braços longos e bem feitos, nus do ombro às pontas dos dedos. Horton sorriu inconscientemente enquanto observava seu rosto ávido e responsivo, e sentia a vitalidade contida em cada movimento de seu corpo esguio.
— Quem é ela? — perguntou ele a Cropsie Decker, que estava por perto.
— Quem é quem?
— Aquela coisa jovem e radiante de verde. Ela não pertence a um salão de baile, pertence a uma floresta com folhas de hera no cabelo. Por Júpiter, veja as linhas dela e a liberdade de seus movimentos. Não vejo braços assim há anos!
Cropsie seguiu seu olhar: — Oh, aquela é a nova Sra. Queerington... a esposa de John Jay, sabe.
— Mas refiro-me à jovem que está passando pela porta ali, com o cabelo maravilhoso e o perfil?
— Essa é a Sra. Queerington. Ela não é um deslumbre? Todos estão falando dela esta noite. Eu a apresentarei, se quiser.
Horton seguiu-o ao redor da borda externa dos dançarinos, ainda confiante de que Cropsie cometera um erro. Mas quando foi devidamente apresentado, não houve mais margem para dúvidas.
— Espero não estar atrasado demais para reivindicar uma dança — disse ele. — Sempre faço questão de dançar apenas uma vez durante a noite, e com a mulher mais bonita do salão. Espero que a senhora não vá deixar esses jovens tubarões me excluírem da minha dança?
A Srta. Lady levantou para ele um par de olhos cintilantes e excitados. Desde o momento em que aparecera, meio timidamente em suas penas emprestadas, e se refugiara sob a asa experiente da Sra. Sequin, ela fora a sensação da noite. Habilmente levada de um grupo para outro, ela deixara entusiasmo em seu rastro. Ela estava, evidentemente, aproveitando ao máximo a novidade de receber homenagem de um cortesão de casaca preta após outro, e de ouvir coisas encantadoras sobre si mesma. O único inconveniente aparente para seu prazer era quando ela era forçada a dizer, como fez agora:
— Muito obrigada, mas não estou dançando.
— Não está dançando? — repetiu o Sr. Horton, não indiferente à brancura de seus ombros contra o mármore escuro de um pedestal próximo — Por que não?
— O Doutor e eu deixamos de dançar.
— Oh, então ele não permite que a senhora dance?
— Permitir-me? — ela arqueou as sobrancelhas niveladas, sorrindo. — Ele simplesmente não gosta disso.
— E a senhora também não gosta?
— Oh, sim, eu gosto, gosto demais. É por isso que não estou dançando.
— Mas a senhora está dançando. Está dançando desde que entrou. Eu a observei. Não poderia estar dançando comigo, em vez de dançar sozinha?
Ela riu e balançou a cabeça, mas seu pé continuou a bater o compasso, e seus olhos seguiram os casais que passavam balançando.
— Qual é a objeção do Doutor? — insistiu o Sr. Horton.
— Ele acha que é indigno para mulheres casadas dançar, e acho que eu também acho, só que... — a Srta. Lady suspirou — veja, continuo esquecendo que sou uma mulher casada!
— Você certamente faz com que outras pessoas queiram esquecer isso — então seus olhos baixaram diante da candura infantil do olhar dela. — Vamos lá, Sra. Queerington, a senhora não está levando o matrimônio um pouco a sério demais?
— Talvez esteja, mas sou nova nisso, sabe, e tenho muito o que aprender.
— Nunca lhe ocorreu que o Doutor talvez tenha algo a aprender?
— Não — disse ela alegremente — ele sabe tudo. Às vezes gostaria que ele não soubesse. Eu ficaria orgulhosa se pudesse ensiná-lo pelo menos isso! — e ela mediu a quantidade na ponta de seu dedo mindinho.
— Talvez ele não seja um aluno tão bom quanto você. Você deveria levá-lo para ver 'Harnessing a Husband', no Ardmore esta semana.
— Uma peça? Eu adoraria ir ao teatro apenas uma vez.
— Nunca foi? Que extraordinário! Venha com a Sra. Horton e comigo na sexta-feira à noite e deixe-nos compartilhar sua primeira emoção.
— Posso? — a Srta. Lady começou ansiosamente, depois se corrigindo — Receio que o Doutor não se importe muito com o palco moderno. Ele costumava gostar de ver os grandes atores, mas diz que as peças que apresentam agora o entediam terrivelmente. Não poderíamos vir visitá-los algum dia?
— Como quiser — disse o Sr. Horton, dando de ombros —, mas espero que perceba que está estragando esse seu marido erudito. Em vez de se adaptar a ele, faça-o adaptar-se a você. Vamos lá, não está na hora de você se reformar? Por que não começar terminando esta dança comigo?
Ela ainda riu e balançou a cabeça. — Não é que eu não queira! Eu preferiria dançar a fazer qualquer outra coisa no mundo... exceto cavalgar.
— Eu poderia ter imaginado que a senhora era uma amazona. Cavalga muito?
— Agora não.
— O Doutor não gosta disso, suponho?
Ela lançou um olhar inquisitivo para ele, depois desviou os olhos:
— Não — disse ela — ele não gosta.
Cropsie Decker, que estivera rondando sua proximidade, aproximou-se e reivindicou o próximo número.
— Há um canto excelente no conservatório onde podemos nos sentar durante esta valsa. A senhora não se importará se eu a levar, Sr. Horton?
— Não, se ela levar a peito algumas das coisas sensatas que tenho lhe dito — disse Horton, olhando para ela através de seus olhos estreitos e puxando seu pequeno bigode claro. — Au revoir, Madame Beaux Yeux!
A Srta. Lady não se moveu do lugar onde ele a deixou. Lá fora, sob as palmeiras no saguão, a orquestra começava uma das valsas mais perturbadoras de Strauss; seus dedos marcavam o tempo. De repente, ela estendeu a mão para Cropsie.
— Não aguento mais um minuto! Tenho que dançar uma vez, nem que nunca mais dance!
Todos os olhos no salão de baile seguiram a figura esguia, enquanto ela girava para dentro e para fora no meio da multidão. A Srta. Lady dançava com a graça e o abandono de uma criança. Ela se entregara completamente à alegria do momento. Ela estava se deixando levar pela primeira vez desde seu casamento, seguindo o impulso alegre de seu coração e dançando como uma bacante poderia ter dançado sozinha em uma noite de luar em alguma clareira da floresta.
Quando finalmente a música parou, Cropsie a conduziu para o conservatório.
— Aqui, venha por trás desta palmeira, rápido! Todos virão atrás de você para a próxima dança. Gerald Ivy está circulando por aí procurando por você, e o Sr. Horton também. Sente-se ali na janela e se refresque!
Ela afundou rindo e sem fôlego no peitoril da janela. Toda a euforia da dança estava em seus olhos, seus lábios estavam entreabertos, suas bochechas coradas e uma mecha de cabelo solta caía sobre seu ombro.
Foi neste momento que rodas soaram na entrada abaixo, fazendo com que ela se inclinasse preguiçosamente para ver quem estava chegando. Uma carroça parou na entrada lateral e um homem desceu. A voz do Tio Jimpson foi ouvida fazendo uma pergunta, depois veio a voz do outro homem, em resposta rápida e incisiva.
A Srta. Lady, sentada imóvel, olhando para baixo, virou-se subitamente da janela. A cor havia deixado seu rosto e sua mão tremia visivelmente contra a cortina.
— O que houve? — gritou Cropsie; — você está doente? Dançou por tempo demais?
— Não é nada, estou bem. Isto é, ficarei...
— Não posso lhe trazer água, ou um sorvete, ou chamar a Sra. Sequin?
— Não, não, por favor! Não é nada. Vou escapar para o vestiário até me sentir melhor. Posso passar por aqui pelas escadas laterais.
— Espere, vou com você. Você está tão branca como se tivesse visto um fantasma!
Mas antes que ele pudesse se juntar a ela, ela desaparecera para regiões misteriosas onde ele não se atrevia a segui-la.
CAPÍTULO XVII
Durante o curso daquela noite de Natal, houve um membro da casa dos Sequin que não conseguiu se entusiasmar com o espírito natalino e cuja depressão aumentou constantemente à medida que a noite avançava. A grande ocasião com a qual o Tio Jimpson sonhara toda a sua vida finalmente surgira e, em vez de ter permissão para crescer com ela e provar seu direito indiscutível ao posto de mordomo, ele fora designado para dirigir de um lado para o outro até a estação por aquela mesma estrada monótona de Cane Run, que ele e o Velho John ajudaram a desgastar nos últimos vinte e cinco anos!
É certo que uma carroça de depósito arrumada e um jovem alazão fogoso haviam substituído a carroça antiga e o pangaré apostólico, mas estes ficaram muito aquém dos sonhos do Tio Jimpson. Uma carruagem de quatro cavalos naquele momento não o teria compensado pelo fato de que um foguista complacente e ruivo, um “lixo branco pobre” chegado ontem, estava tendo permissão para passar a bandeja que, por todos os direitos de precedência, pertencia a ele.
Esperando impacientemente na estação pelo trem que deveria trazer os sorvetes indescritíveis que ele perseguira a noite toda, ele finalmente teve a satisfação de ver o pequeno motor sair da escuridão e chegar a uma parada ofegante.
Tão absortos estavam o condutor, o freio e o Tio Jimpson em depositar com segurança os congeladores na plataforma, que ninguém notou um passageiro que descera. De fato, só quando o Tio Jimpson ouviu o nome da Sra. Sequin é que ele parou em seu trabalho e olhou para cima.
O estranho era um homem jovem e bem constituído, vestindo um sobretudo longo e felpudo e um boné de corte estrangeiro que despertou a inveja imediata do freio. A bolsa e a mala que ele carregava estavam cobertas de etiquetas estrangeiras, e ele tinha o ar de uma pessoa que é subitamente deixada em um lugar estranho e não sabe muito bem o que fazer consigo mesma.
— O senhor diz que quer ir até a casa da Sra. Sequin esta noite? — Tio Jimpson examinou as malas com desconfiança. — Desculpe-me, senhor, mas o senhor não está vendendo nada, está?
A risada que recebeu isso foi tão espontânea que o Tio Jimpson apressou-se a pedir desculpas: — Eu nunca pensei que o senhor estivesse, só que não estávamos esperando nenhuma companhia ferroviária, e achei que o senhor não parecia estar vindo para a festa.
— Que festa? — perguntou o homem, seu olhar de diversão dando lugar a um de desalento.
— A festa de todos nós. Estamos tendo um baile e uma inauguração de casa. O senhor deve estar vindo de muito longe para não ter ouvido falar disso!
— Quer dizer que os Sequin estão dando uma festa, esta noite?
— Sim, senhor.
— Mas eles não estão me esperando? Eles não receberam meu telegrama?
— Eu não sei, senhor. Eles nunca me disseram nada.
O estranho ficou com os pés afastados, relógio na mão e uma expressão severa na única parte de seu rosto visível entre seu boné e seu colarinho levantado.
— A que horas é o próximo trem de volta para a cidade?
— Não há nenhum, exceto o especial, que foi contratado para levar os convidados de volta para a cidade. Isso vai por volta das duas horas.
— Vou esperar por ele — disse o estranho, jogando sua mala contra a porta da sala de espera e começando a caminhar inquieto de um lado para o outro na plataforma coberta de neve.
Mas isso não condizia com as ideias de hospitalidade do Tio Jimpson.
— Eles nunca souberam que o senhor estava vindo — argumentou ele. — Eu só sei que não sabiam. Mas isso não os impedirá de ficarem muito felizes em vê-lo. É melhor subir, Chefe, e deixe-me levá-lo até lá.
— Não, evidentemente há mais espaço para mim na cidade!
— Espaço! Ora, senhor, poderíamos cuidar de todos os Presidentes dos Estados Unidos ao mesmo tempo! Além disso, não parece certo deixá-lo aí batendo o pé no frio por três ou quatro horas sozinho. O senhor ficaria muito solitário.
— Estou acostumado a ficar sozinho. Não tenho sido outra coisa há um ano.
— Mas isso aqui é diferente — insistiu o velho negro, coçando a cabeça; — isso aqui é noite de Natal. Não é natural que as pessoas não se juntem, riam, sejam felizes e esqueçam suas brigas, seus problemas e se divirtam. O senhor sabe que não será feliz batendo o pé aqui no escuro sozinho; o senhor sabe que não é maneira de passar o Natal, Chefe!
O estranho continuou a encarar a escuridão por um momento, então riu, aquela mesma risada súbita, contagiante e juvenil que recebera a sugestão do Tio Jimpson de que ele era um agente.
— Você tem razão! — exclamou ele; — não é hora de nutrir rancor. Talvez eles não tenham recebido o telegrama. Vou arriscar. Existe uma porta lateral por onde você poderia me colocar?
“Sim, senhor! Temos quatro portas laterais, além da dos fundos. Não há nada que não tenhamos. O senhor entra direto na carroça e eu coloco as malas. Não é o jeito que eu gostaria de levar o senhor até a mansão, montado num freezer de sorvete com neve na cara, mas vou levá-lo até lá!”
Tio Jimpson, certo de ter uma plateia por pelo menos vinte minutos, esqueceu seus problemas e preparou-se para aproveitar ao máximo a oportunidade.
Estava muito frio e os cascos do cavalo batiam forte no chão congelado. Além do círculo trêmulo de luz da lanterna oscilante, tudo era escuro e misterioso.
“Com certeza estou contente que esses freezers chegaram”, disse Tio Jimpson, ajeitando a manta sobre as pernas; “eu certamente odiaria voltar sem eles. O Coronel costumava dizer que era para isso que os negros nasciam, para buscar o que você mandava eles buscarem.”
“Quem é o Coronel?” perguntou o estranho com um rápido olhar de reconhecimento para o velho negro.
“Coronel Bob Carsey. Meu antigo senhor. Ele morreu agora, e a Sra. Sequin me pegou emprestado por um tempo.”
“Quando ele morreu?”
“Faz um ano em maio passado.”
O homem de quepe estrangeiro puxou-o mais para baixo sobre os olhos e retomou sua observação da estrada.
“Toda esta colina costumava pertencer a nós”, continuou Tio Jimpson; “muito antes de os Sequin terem nascido. Imagino que o senhor já ouviu falar de Thornwood?”
“Sim. Quem mora lá agora?”
“Ninguém. Quando o Coronel morreu, minha jovem senhorita não tinha ninguém para cuidar dela, nem dinheiro para manter o lugar, nem nada, exceto eu e Carline. Não restou nada para ela fazer a não ser se casar.”
Seguiu-se uma longa pausa durante a qual o viajante observou a sombra distorcida do cavalo em trote enquanto ele seguia aos trancos pela estrada.
“Claro”, o velho negro soltou de repente, “o Doutor Queerington é um cavalheiro muito inteligente, e ele cuida dela como se fosse uma de suas próprias filhas. E ela está se acostumando ao arreio, mas está sendo difícil para ela. Não é natural atrelar uma potra jovem a um cavalo de carruagem velho e esperar que ela mantenha o passo. Ela meio que segura o passo o tempo todo, meio com medo de se soltar e fazer o que costumava fazer.”
Eles estavam atravessando a ponte coberta agora e o barulho das rodas nas tábuas soltas tornava a conversa difícil.
“O senhor já sentiu saudades de casa, Chefe?” perguntou Tio Jimpson de forma desconexa.
“Bastante”, disse o estranho enfaticamente. “Eu nasci com saudades de casa.”
“Bem, é isso que aflige minha jovem senhorita e é isso que acontece comigo, com Carline e Mike. Nenhum de nós está acostumado a viver na casa dos outros e se misturar com as famílias dos outros. Claro que é muito bom ser rico e se exibir, mas é solitário. Antes de ficar tão frio, eu e Carline íamos para casa quase todas as noites e sentávamos nos alojamentos, ouvindo os sapos e os grilos, e eu dizia: 'Carline, você não se lembra da vez que a senhorita caiu de cara no barril de sorgo? E a vez que ela embebedou as galinhas com gemada?' Nunca houve ninguém no mundo como aquela criança, pronta para toda travessura que pudesse ser inventada, mas tão doce e cativante que o Coronel nunca soube como puni-la.”
O estranho tirou um cachimbo de espuma do mar, começou a riscar um fósforo, evidentemente esqueceu sua intenção e olhou distraidamente para a frente, na escuridão.
“Isto é Thornwood!” disse Tio Jimpson ansiosamente, apontando com seu chicote para uma longa avenida de árvores; “o senhor não pode ver a casa porque não há luzes nas janelas. O pai do Coronel plantou essas árvores no mesmo ano em que comprou Carline. Deus, eu certamente era apaixonado por aquela mulata! Mas eu não sabia nada sobre cortejar. Carline era mais qualificada, no entanto, e ela me fez pedir à Velha Senhora se eu poderia tê-la como minha esposa. Não precisávamos de Bíblia, nem pregador, nem tais tolices naqueles dias. Mas quando a Velha Senhora concordou, nós apenas nos vestimos bem, caminhamos pelo lugar e contamos a todos os negros que estávamos casados. Umph, umph! Mas como eu estava orgulhoso naquele dia! Eu vestia um par de calças novinho em folha que custou duzentos e sessenta e quatro dólares em dinheiro confederado! Quando o Sr. Abe Lincum libertou a nós, negros, eles nos fizeram casar tudo de novo com um pregador e uma Bíblia, mas eu nunca vi diferença nenhuma.”
“A Sra... Sra. Queerington volta alguma vez a Thornwood?” perguntou o estranho, tropeçando no nome como se fosse muito difícil para ele dizer.
“Sim, senhor, ela vem, assim como eu e Carline, e perambula pela casa e pelo jardim, e senta na velha rede de barril, pensando consigo mesma.”
“E Mike... o que aconteceu com ele?”
Tio Jimpson olhou para ele surpreso, “Como o senhor sabe sobre Mike, senhor?”
“Você não falou dele há pouco; ele não era o cachorro?”
“Sim, senhor. Ele é nosso cachorro. Ele está ficando com a senhorita Ferney Foster, que mora depois do ferreiro, do outro lado da estrada principal. Ele não gosta disso mais do que nós; ele também está com saudades de casa.”
Eles chegaram a um portão branco pretensioso, e Tio Jimpson, lembrado de seus deveres, endireitou-se da sua postura desleixada, curvou o cotovelo e fez a curva como se estivesse dirigindo uma carruagem de luxo. Por entre as árvores despidas acima deles, brilhavam as proporções magníficas de Angora Heights, com seu pretensioso conjunto de estábulos, garagem e alojamentos de criados nos fundos.
“Pelos deuses!” exclamou o estranho em voz baixa; “isso é tudo?”
“Não, senhor!” Tio Jimpson negou enfaticamente; “se fosse de dia, o senhor poderia ver as Muralhas e a Esplanada. Ali é a Lagoa. Não é nada além do nosso velho lago onde costumávamos pegar sapos-boi, mas a Sra. Sequin me disse para chamar de Lagoa. O senhor vê aquelas esculturas acima da porta? Aquela figura subindo a escadaria egípcia é John Dark. O senhor nunca ouviu falar de John Dark? Ela era uma mulher que lutou em uma batalha uma vez.”
“Dê a volta para o lado ali, fora do caminho dos carros”, orientou o estranho, que parecia muito mais preocupado em fazer uma entrada silenciosa na mansão do que em estudar suas características arquitetônicas. “Aqui está algo para colocar na ponta da sua meia de Natal, e outro para Carline. Depressa!”
Ele saltou levemente sobre a roda e virou-se para pegar sua mala. Ao fazer isso, a luz da janela do jardim de inverno acima caiu em cheio em seu rosto voltado para cima.
“Pelo Senhor!” gritou Tio Jimpson, um largo sorriso dividindo seu rosto quase em dois. “Eu poderia ter imaginado que o único cavalheiro no mundo que dava gorjeta assim era o Sr. Don Morley!”
CAPÍTULO XVIII
É realmente uma coisa muito difícil desprezar o Natal. Você pode relegá-lo à classe dos incômodos, virar as costas para o Papai Noel e considerar toda a instituição um tédio gigantesco, mas antes que o dia termine, ele geralmente leva a melhor sobre você, como fez com Donald Morley, chegando sem ser anunciado e sem ser bem-vindo à porta lateral da mansão Sequin.
Ele tinha levado a melhor sobre ele no ano anterior, quando ele se levantou na alvorada cinzenta de um dia na Índia e estoicamente seguiu seu caminho até as margens do Ganges. Ele se proclamou acima dos hinos védicos dos brâmanes renascidos, em pé com água pelos joelhos no rio sagrado; perseguiu seus passos entre os faquires sujos de cinzas e vacas cobertas de joias; até mesmo assombrou o ghat de cremação, onde ele permaneceu parado observando corpos humanos queimando em suas piras.
Dezoito meses de perambulação o deixaram enjoado do casual; dos conhecidos de navio formados em um porto e abandonados no próximo; das vistas desconhecidas e línguas incompreensíveis e da horda de rostos amarelos alienígenas. Ele estava cansado até a morte da liberdade dos altos mares e ansiava fervorosamente por uma âncora forte e um porto tranquilo.
Quando a epístola explosiva de Cropsie Decker chegou, contando-lhe sobre seu indiciamento, sobre o noivado rompido de Margery, sobre a traição de Lee Dillingham, seu primeiro pensamento não foi sobre suas injustiças, mas sobre o fato de que elas exigiriam que ele voltasse para casa.
Ele não parou para perceber que voltar para casa significava apenas uma coisa para ele. Ele até tentou persuadir a si mesmo de que ver Miss Lady no papel de uma esposa feliz e complacente o curaria de seu desejo insaciável por ela. Desde o momento em que ouviu falar de seu casamento, ele lutou desesperadamente para tirá-la de sua mente, usando todos os meios, menos um, para alcançar seu objetivo. Através de todo o seu ressentimento e amargura de coração, ele nunca retornou à sua antiga vida. Aquelas promessas feitas a ela no ardor total de sua paixão juvenil, ele as manteve com a lealdade desesperada com que se guarda as roupas dos mortos.
Agora que ele fora indiciado por um crime do qual era totalmente inocente, seu primeiro desejo era saber se ela ainda acreditava nele. Certamente, havia fortes razões para que ela não acreditasse: sua própria confissão de suas falhas; a infeliz complicação no caso Dillingham; seu subsequente desaparecimento. Era natural que ela tivesse sido levada a ver a tolice de depositar sua fé em uma proposta tão instável quanto ele mesmo. Seu primeiro protesto agonizante contra o casamento dela dera lugar a uma aceitação estoica do fato. Ele estava pagando o preço que muitos homens pagaram pelas tolices de sua juventude, e estava pronto para pagar sem protestar, se ao menos ela pudesse ser levada a entender a verdade.
Tudo o que havia de melhor nele exigia justiça dela, a justiça pela qual ele implorou naquela longa carta enviada de São Francisco. Voltar para casa para ele significava não apenas um julgamento por júri e um veredito de culpado ou inocente. Significava muito mais. Ele saberia pelos próprios lábios dela se ela alguma vez recebera sua carta, e se ela acreditava nele ou não. Na decisão dela repousava sua fé na natureza humana e em Deus.
A decisão repentina de retornar à América foi tomada uma noite em Porto Said, onde ele acabara de se juntar a uma expedição exploratória com destino ao Vale dos Reis. Ele cancelou seu compromisso, pegou passagem em um pequeno navio a vapor russo que ia para Alexandria e, impaciente demais para esperar por um transatlântico daquele porto, embarcou em um cargueiro para Nápoles. A passagem pelo Atlântico foi tempestuosa, e ele desembarcou em Nova York com dois dias de atraso, sem tempo para avisar a família de sua chegada.
E agora, depois de dezoito meses de exílio em terras estrangeiras, ele estava realmente em casa novamente! Isto é, se esta morada resplandecente e desconhecida, cheia de música, luzes e criados estranhos, pudesse ser chamada de lar. No entanto, era a aproximação mais próxima de um lar que ele podia reivindicar, e o fato de que o bezerro gordo não fora morto para ele, e que a lei esperava por ele na esquina, não impediu seu pulso de acelerar e seus lábios de sorrir enquanto ele subia os degraus laterais dois de cada vez e entrava no saguão dos fundos.
Um homem ruivo e oficioso estava parado na porta da despensa com um guardanapo sobre o braço, emitindo ordens peremptórias e regulando os garçons que entravam e saíam. “Você é o mordomo?” perguntou Donald.
“Ainda não”, disse o homem, piscando um olho e assumindo um ar confidencial; “posso ver que ela está atrás de mim, no entanto. Ela percebeu meu estilo no minuto em que me viu manusear uma bandeja de copos. 'Flathers', diz ela, 'mantenha as coisas se movendo aí na despensa e fique de olho em John'. John é o mordomo. Ele é um homem que bebe, Deus seja louvado, e estou de olho no emprego dele. Você é um chofer?”
“Não”, disse Donald bom humoradamente. “Sou um irmão pródigo. Onde eu te vi antes?”
“Não sei dizer. Se uma pessoa me vê uma vez, nunca mais me esquece. É meu brilho dourado. Vamos, rapazes! Depressa! Depressa com esses bolos aí. Tirem esses freezers extras das embalagens. Andem logo.”
“Leve este cartão para a Sra. Sequin”, disse Donald, “e pergunte se ela pode dedicar um momento para ver um visitante na entrada dos fundos.”
Phineas olhou com desconfiança do cartão para o estranho, então decidiu que não questionaria o assunto.
Um momento depois, a Sra. Sequin, com seus trajes brilhantes reunidos ao redor dela e uma expressão de grande perturbação em suas feições, fez seu caminho de salto alto pela despensa.
“Donald! Meu querido menino!” ela exclamou efusivamente, apresentando a bochecha com a cautela de quem espera que o beijo seja leve. “O que raios você está fazendo aqui? Não tínhamos ideia de que você estava na América. Como você está magro! Fiquei em uma agonia perfeita por sua causa. Não esses copos de champanhe, John; os maiores. Aquele mordomo cansativo! Ele está embriagado o dia todo. Agora, o que há com você, Donald? É terrivelmente imprudente da sua parte estar aqui; você sabe, é claro, sobre... sobre o indiciamento?”
“É por isso que estou aqui. Mas como está todo mundo? Como estão o irmão Basil e a pequena Margery? Onde está minha égua de sela?”
“Vou te contar tudo amanhã, Don. Você deve querer ir para o seu quarto agora. Flathers, leve as malas deste cavalheiro para o quarto de hóspedes Leste... não, esse está ocupado. Você não se importará de subir mais um lance de escadas, só por esta noite, querido?”
“Oh, me acomode em qualquer lugar, contanto que haja um banheiro por perto.”
“Todos os quartos têm banheiros”, disse a Sra. Sequin distraidamente, com os olhos no mordomo confuso que tentava abrir uma garrafa com uma chave de fenda, “Deixe Flathers... quero dizer Benson... fazer isso, John, e você leve estas malas. Sinto muito por não poder subir com você, Don, mas o cotilhão está apenas começando e tenho que cuidar das lembrancinhas.”
“Tudo bem, não se preocupe comigo, vou vestir umas roupas decentes e volto em pouco tempo.”
A Sra. Sequin parou com a mão no corrimão, então ela se inclinou solicitamente:
“Eu não me daria ao trabalho de me vestir e descer novamente, Don. É tarde e você deve estar morto de cansaço. Vá para a cama. Eu entenderei.”
Donald, parado alguns degraus acima dela, lançou um olhar questionador para ela, então ele, também, entendeu.
“Oh, tudo bem”, disse ele, mordendo o lábio; “acho que não vou descer. Você poderia mandar Marge subir, depois que as pessoas saírem, só para dizer 'Olá'.”
“Claro, nós duas subiremos. Nada poderia segurá-la se ela soubesse que você estava aqui. Mas é melhor que ninguém saiba. Tive o cuidado de não mencionar seu nome na frente dos criados. Você pode ter uma visitinha agradável conosco e ir embora novamente sem que ninguém saiba de nada. É tão adorável que você chegou a tempo para o Natal! Boa noite.” Ela subiu dois degraus e apresentou sua outra bochecha para um beijo.
O delinquente John, enquanto isso, estava realizando proezas acrobáticas com as malas, confundindo-as tanto com suas próprias pernas e os degraus da escada que Donald as arrancou de suas mãos e, obtendo uma direção vaga sobre o quarto que deveria ocupar, subiu para encontrá-lo sozinho.
Ele sentiu um pouco da rebeldia e do ressentimento calorosos que experimentara em outra noite de Natal, há muito tempo, quando a babá francesa vesga o colocou na cama às cinco horas e o deixou sozinho no grande hotel em Paris. Então ele chorou até dormir porque não havia Papai Noel e porque ele não tinha uma namorada. Mas as consolações dos seis anos são negadas aos vinte e cinco.
No segundo andar, ele seguiu as instruções e virou à direita. Os vestiários estavam desertos, as criadas tendo tomado seus lugares nos degraus para espiar os dançarinos lá embaixo. Ele, também, parou e olhou para a multidão que girava alegremente. Ali estava seu antigo mundo familiar, os rapazes com quem ele cursou a faculdade, as garotas com quem ele flertou, a própria música com a qual ele dançou, inúmeras vezes. E ele estava tão fora de tudo isso quanto se tivesse morrido da febre naquele antigo e cinzento hospital em Cingapura? Ah, se ao menos ele tivesse morrido!
Ele virou abruptamente e começou a subir o segundo lance de escadas, e, ao fazê-lo, algo se levantou precipitadamente dos degraus e passou por ele.
Ele olhou para cima e, ao fazê-lo, o caos irrompeu dentro dele. Lá no topo, na luz suave do corredor superior, assustada, incerta, desprevenida, estava Miss Lady, não a garota bonita e estabanada de seus sonhos, mas uma mulher linda e melancólica com lábios trêmulos e olhos assustados, que estendeu as mãos para ele em uma recepção involuntária.
Ele perdeu a cabeça completamente. Todo o sangue em seu corpo correu para sua garganta. Algo cantou através de cada fibra dele.
“Miss Lady!” ele gritou, segurando as mãos que ela estendia nas suas, então, quando ela se afastou de seu olhar ardente demais, ele se lembrou. “Peço perdão, é claro, agora é a Sra. Queerington.”
“Não para você, Don. Quando você chegou? Você está bem de novo? Ninguém sabia que você estava vindo? Os outros te viram?”
Ela despejou suas perguntas ansiosamente, como se temesse outra pausa. Ela estava fazendo um esforço desesperado para parecer à vontade, mas sua ansiedade a traiu. Ela repetiu que não tinha ideia de que ele estava na América e refugiou-se em uma garantia geral de que todos ficariam muito felizes em tê-lo de volta em casa.
Donald, magro e bronzeado, permaneceu em silêncio, observando-a atentamente. Seus olhos profundos eram mais claros e firmes do que antigamente, mas não eram mais os olhos de um menino. Ele era como um marinheiro cujo navio naufragou. Ele não tinha nada pior a temer e nada a esperar. Ele simplesmente desejava ver a rocha na qual seu barco da vida se despedaçara.
Miss Lady continuou a fazer perguntas, mas ela evidentemente nem sempre prestava atenção nas respostas, já que fez algumas delas duas vezes. Não foi até que o problema de Donald fosse tocado que seu humor se estabilizou e ela perdeu sua autoconsciência.
“É claro que você deve enfrentar o julgamento”, disse ela, e sua voz soou com a velha segurança; “você deve lutar contra toda a questão de uma vez por todas e provar sua inocência.”
“Oh, o Tribunal provará isso perfeitamente, mas o que importa? Se as pessoas estavam dispostas a me condenar sem ouvir, a acreditar que eu tinha arrancado o olho de um homem e depois fugido para escapar da punição... Bah! É revoltante.”
“Mas nem todo mundo acredita nisso. O Doutor não acredita, nem Margery, nem Cropsie Decker, nem eu. Centenas de seus amigos estão prontos para ficar ao seu lado. Não ouça o que mais ninguém diz, mas fique e lute.”
Ele olhou para cima de repente. “Você recebeu aquela carta que escrevi antes de zarpar de 'Frisco?”
Ele não pretendia deixar escapar assim, a pergunta que o torturava há tanto tempo, mas a simpatia e a amizade dela o deixaram nervoso.
Inclinando-se para frente com toda a sua alma nos olhos, ele observou a cor subir constantemente de sua garganta para suas bochechas, depois para sua testa. Ele a ouviu soltar um suspiro agudo e trêmulo como alguém que caminha sobre um precipício, então ela o encarou firmemente.
“Sim, Donald”, disse ela, encontrando seu olhar sem vacilar, “eu recebi.”
Ele baixou a cabeça sobre a mão onde ela descansava no corrimão, e eles ficaram por um momento em silêncio, exceto pelos sons da música que vinha lá debaixo. Então ele endireitou os ombros.
“Isso é tudo. Eu precisava ter certeza, sabe. E você não acreditou em mim?”
Através de seu rosto tremeluziu o desejo de falar e a necessidade de silêncio.
“Eu acredito em você, Don”, disse ela sinceramente. “Eu acredito em você com todo o meu coração e alma. E vamos ser seus amigos; você vai nos deixar, o Doutor e eu?”
Ele pegou a mão que ela ofereceu, mas não disse nada, e depois que ela se foi, ele entrou em seu quarto e, jogando-se sobre a cama, enterrou o rosto nos travesseiros.
O ano novo começou de forma pouco auspiciosa na casa dos Queerington. Em primeiro lugar, Bertie acordou com catapora e foi banido para o berçário. Depois, o Doutor seguiu seu costume anual de revisar seus assuntos comerciais, com o resultado habitual de constatar que suas contas estavam consideravelmente superadas. Este fato foi solenemente comunicado a cada membro da família, por sua vez, juntamente com admoestações a respeito do futuro. Na hora do almoço, Hattie tinha sido enviada para o seu quarto por sugerir impertinentemente que seu pai gastava mais em seus livros do que ela em suas roupas, e Connie estava amuando por causa de uma mesada reduzida.
“Claro”, explicou o Doutor a Miss Lady enquanto afundava exausto em sua cadeira de inválido, que fora posta em serviço novamente durante as últimas semanas, “não tenho dúvidas de que Basil Sequin possa arranjar as coisas para mim. Ele sempre arranjou no passado, mas parece muito pressionado ultimamente, muito atormentado. Mal me sinto à vontade para abordá-lo tão cedo novamente para um empréstimo.”
“Não poderíamos alugar uma casa menor e receber menos visitas?” sugeriu Miss Lady.
O Doutor balançou a cabeça. “Seria muito difícil para mim me adaptar a novos arredores. As condições aqui para o meu trabalho são razoavelmente satisfatórias. O piano dos Ivy, certamente, é um incômodo constante, mas ao usar algodão nos ouvidos eu evito esse transtorno. É particularmente lamentável que esta complicação sobre dinheiro surja justamente no ponto mais crítico do meu trabalho. A menos que Basil Sequin possa fazer algum arranjo, ficarei seriamente embaraçado.”
“Direi o que podemos fazer”, exclamou Miss Lady alegremente, como se não estivesse tentando criar coragem para fazer a oferta há uma semana. “Podemos vender outro pedaço de Thornwood. Desde que os Sequin construíram lá, muitas pessoas perguntaram sobre o terreno.”
“Não”, disse o Doutor, as linhas de preocupação aprofundando-se em seu rosto fino e grave. “Resta pouco agora além da casa e da fazenda. Seu sentimento em relação ao lugar é tal que não posso permitir o sacrifício. O assunto sem dúvida se resolverá por si mesmo. Darei aulas particulares na universidade e talvez organize um curso extra de palestras. As exigências dos últimos dois anos foram excepcionais.”
“Mas você já está se matando de trabalhar”, protestou Miss Lady. “O Doutor Wyeth disse na semana passada que você não aguentaria a pressão. O resto de nós deveria fazer algo; nós precisamos fazer algo!”
“Você está fazendo algo, minha querida. Você está me aliviando de inúmeros fardos em relação à casa e às crianças. Você está sendo de grande auxílio para mim em meu trabalho, não apenas com suas leituras em voz alta, mas pela simpatia e compreensão infalíveis que você me dedica. Qualquer sucesso que coroe o trabalho da minha vida será, em certa medida, devido a você.”
Ela estava sentada em um banco aos pés dele, e olhou para cima com olhos estranhos e mudos. Seu corpo frágil e sua ambição crescente, sua vida sem amor que não sabia o que perdia, despertaram nela uma piedade quase maternal. Um ressentimento feroz surgiu dentro dela contra si mesma, por não amá-lo como ela sabia que um marido deveria ser amado. Se ele ao menos a tivesse conquistado com o coração em vez de com a cabeça!
A campainha tocou e Miss Lady olhou para cima apreensiva.
“Era a mulher dos picles”, anunciou Myrtella, entrando um momento depois vinda do corredor. “Eu a despachei.”
“Não a Srta. Ferney!” exclamou Miss Lady, levantando-se e correndo para chamá-la.
A Srta. Ferney Foster foi persuadida com muita dificuldade a voltar e sentar-se na beirada de uma cadeira no corredor. No Ano Novo, no passado, ela sempre fazia uma visita formal a Thornwood e presenteava o Coronel com uma amostra de seus melhores produtos. O Coronel, por sua vez, invariavelmente mandava buscar no porão uma das garrafas mais empoeiradas da prateleira oscilante e a concedia a ela com grande galanteria. A indignação de ter sido recusada na casa da filha do Coronel era quase mais do que ela podia suportar.
“Agora, conte-me sobre todos lá em casa”, exigiu Miss Lady ansiosamente. “Comece do sopé da colina e suba direto.”
“Não sei de muitas novidades”, disse a Srta. Ferney, puxando os dedos de suas luvas de algodão. “Estive costurando na casa dos Sequin a semana toda.”
“Misericórdia! Como estamos ficando grandiosos!”
“Apenas fazendo bainhas em toalhas de mesa e guardanapos. Não posso dizer que acho muita coisa da casa nova deles. É meio mesquinha.”
“Ora, Srta. Ferney! É a maior casa em que já estive!”
“Não estou falando do tamanho. Estou falando dos arranjos. Não há um único tapete que caiba no chão por dois pés, e o papel de parede está remendado em todos os quartos, menos em um. Quanto à sala de jantar! Bem, eu não teria acreditado se não tivesse visto com meus próprios olhos! Eles não têm um quadro, ou um centro de mesa, ou uma cortina, ou um bando de qualquer tipo. Suponho que não deveria contar isso deles, mas no dia em que estive lá, eles nem tinham toalha de mesa!”
Miss Lady riu apesar de si mesma, e Bertie a ouviu e saiu da cama para chamar do alto da escada que, se estivessem contando piadas, por favor, subissem.
“Você conhece aquele jovem que costumava ficar na casa dos Wicker?” perguntou a Srta. Ferney no caminho para cima. “Bem, ele é irmão da Sra. Sequin. Ele está dando a eles um trabalho considerável.”
“Como assim?”
“Eles querem que ele vá embora para algum lugar, e ele não quer ir. A empregada me disse que ele e a irmã estavam discutindo feio, e que a Srta. Margery ficou do lado dele.”
“Ele vai ficar?” Miss Lady hesitou e seus dedos agarraram o corrimão.
“Não sei. Acho que se ele ficar bravo o suficiente, ele vai fugir para a China como fez antes. Não é alguém chamando você?”
Era Connie que tinha corrido para dizer que um jovem estava na porta da frente e que parecia uma lápide com um topete loiro.
“Noah Wicker!” exclamou Miss Lady. “Esqueci que disse a ele que tentaria colocá-lo no escritório de advocacia do Sr. Gooch no início do ano. Não era a cara dele chegar no primeiro dia? Vá lá embaixo, Connie, seja uma querida, e entretenha-o até que eu chegue. Estarei aí diretamente.”
Mas “diretamente” provou ser um termo elástico, pois depois que a Srta. Ferney partiu, e quatro pessoas diferentes foram asseguradas ao telefone de que todos os convites estavam sendo recusados devido à indisposição do Doutor, Miss Lady encontrou Hattie ainda amuando em seu quarto e passou meia hora restaurando a paz naquele peito perturbado.
Enquanto isso, Myrtella subiu para anunciar com euforia que um cano de água havia estourado no porão. Poucas coisas despertavam tanta alegria em Myrtella quanto o estouro de um cano de água. Era um ato de insubordinação por parte do cano, com o qual ela simpatizava profundamente.
“E é a noite do jantar do Sr. Gooch, e se aquele homem na sala de estar ficar também, o sorvete não dará para todos”, declarou ela, com satisfação evidente na tragédia cumulativa.
Quando os nós foram desatados, Miss Lady tinha esquecido tudo sobre Noah Wicker, e foi apenas quando Connie entrou declarando indignada que não falaria com aquele sujeito estúpido por mais um minuto, que ela se lembrou.
“Sua pobre criança querida!” ela exclamou, dando-lhe um aperto arrependido. “Sinto muito. Hattie, você se importaria de descer e entretê-lo por um segundo, até que eu troque de vestido?”
“Eu me importaria”, disse Hattie firmemente.
Claro que Noah ficou para o jantar, e Miss Lady considerou um ato da Providência que ele e o Sr. Gooch tivessem sido assim imediatamente colocados juntos.
Mas quando o Sr. Gooch chegou, ele estava preocupado com assuntos muito mais importantes. Ele trouxe a notícia estarrecedora de que Donald Morley tinha voltado para casa e, contra o conselho de sua família e de seus advogados, decidiu enfrentar o julgamento pelo tiro em Dick Sheeley!
“É perfeitamente absurdo!” explodiu o Sr. Gooch, “se colocar voluntariamente nas garras da lei em um caso complicado como este! Ele poderia ter vivido em outro lugar por alguns anos. Mesmo que seja inocente, a evidência está toda contra ele. Argumentei com ele por dois dias. A irmã dele me diz que trabalhou nele por uma semana. Ele não escuta ninguém.”
“Muito certo”, disse o Doutor enfaticamente. “O estabelecimento de seu bom nome deve ser sua consideração primordial. ‘O tesouro mais puro que os tempos mortais oferecem é uma reputação imaculada.’ Estou mais gratificado do que posso dizer que Donald esteja tomando este caminho. Ele está justificando minha crença persistente em sua integridade. Uma vez inocentado por um júri, o fantasma daquele caso infeliz será, confio, enterrado para sempre.”
“Não é tão certo que ele será inocentado”, disse o Sr. Gooch, tomando seu assento habitual à mesa, com um olhar solícito para a porta por onde Myrtella apareceria com a sopa. “Farei o meu melhor por ele, mas tenho minhas dúvidas.”
“Você diz que ele está aqui há uma semana?” perguntou o Doutor. “Estranho que ele não tenha vindo nos ver. Ele sempre gostou das crianças e professava uma certa consideração, acredito, por mim. Quero que ele conheça a Sra. Queerington.”
Houve uma pausa, durante a qual Noah Wicker lançou um olhar surpreso para a anfitriã.
“Eu conheço o Sr. Morley”, disse ela firmemente, enquanto a cor subia às suas bochechas. “Eu o conhecia quando ele estava com Noah na fazenda.”
“De fato”, disse o Doutor. “Devo ter esquecido que você mencionou isso. Receio, Sr. Wicker, que o tenhamos negligenciado esta noite em nossa preocupação com os problemas de Donald. Mas é um assunto no qual você está sem dúvida igualmente interessado?”
Noah começou a responder, mas percebendo que a companhia estava olhando para ele, esqueceu o que ia dizer e inclinou a cabeça.
Neste momento, a coisa que Miss Lady mais temia aconteceu. Donald Morley foi anunciado por Myrtella em tons cujos acentos implicavam que nada poderia agora evitar que o sorvete acabasse.
“Bem, bem!” exclamou o Doutor, levantando-se e cumprimentando-o com a mão estendida, “uma recepção calorosa em casa. Você conhece todos aqui, acredito? Até a Sra. Queerington me diz que já o conheceu. E esta é Hattie. Tenho certeza de que você não estava preparado para vê-la tão alta.”
Donald, retendo a mão de Hattie, completou a rodada de saudações.
“Onde estão Connie e Bert?”
“Connie está se vestindo para uma festa, e o pobre Bert está lutando com a catapora”, Miss Lady conseguiu dizer enquanto se ocupava com as xícaras de café.
“E agora conte-nos sobre você”, disse o Doutor, puxando uma cadeira para Donald ao lado da sua. “Você perdoará minhas almofadas, mas ainda sou um tanto inválido, e a pequena dama na ponta da mesa insiste em me mimar. Você sabia, é claro, do meu acidente, há uns dois anos?”
“Não até que cheguei em casa”, disse Donald sem olhar para cima. “Espero que tenha melhorado?”
“Oh, não, nunca ficarei bem. Os médicos me garantiram isso desde o início, mas também disseram que com cuidado e conservação adequada das minhas energias eu provavelmente viveria até uma idade avançada. Suponho que você nunca tenha tido que resistir à tentação de trabalhar demais, Donald?”
Donald sorriu e franziu a testa.
“Ele tem muito trabalho pela frente agora!” rosnou o Sr. Gooch, cuja mente, temporariamente desviada pela salada, corria agora de volta ao julgamento.
“Trabalho por uma causa admirável”, disse o Doutor. “O Sr. Gooch acaba de nos contar de sua decisão, Donald, e não posso expressar minha gratificação com seu curso de ação.”
“Obrigado, Doutor! Esse é o primeiro incentivo que recebo. Minha família parece achar que sou um lunático, e até meu advogado, aqui, está aceitando o caso sob protesto.”
“O valor de um bom nome”, começou o Doutor, então lembrando-se de que ele tinha se expressado longamente sobre esse assunto no início da noite, ele interrompeu perguntando se Donald tinha escrito algo durante sua ausência.
“Oh! sim, estou sempre rabiscando. Não chega a nada, no entanto.”
“Sim, chega sim!” declarou Hattie, para quem o primo Don sempre fora um herói. “O Sr. Decker disse a Gerald Ivy que você fez todas as melhores coisas nos artigos que ele enviou para o sindicato.”
“Eu suspeitava disso!” disse o Doutor. “Achei que reconheci seu ponto de vista bem-humorado naquele primeiro artigo sobre a China. Comentei com minha esposa na época que você tinha visualizado a cena, para o leitor, exatamente como você a vira.”
“Mas eu não vi!” disse Donald. “Escrevi aquela história um mês antes de chegarmos à China. Decker teve a ideia de escrever todos os artigos enquanto atravessávamos o Pacífico, para que não precisássemos nos preocupar com eles depois de desembarcarmos. Costumávamos subir no convés e produzi-los como bolinhos quentes. Isso é tudo bobagem sobre eu fazer as melhores partes. Ora, Decker é um prodígio! Ele está reduzindo a coisa a uma ciência; ele nem precisa de uma caneta ou um lápis; apenas muitos guias de viagem, um pacote de alfinetes e um par de tesouras. Literatura de colo, ele chama. Ele passou a maior parte do tempo cortando minhas efusões para as medidas.”
“Isso é porque você mimou sua imaginação. É uma droga no mercado jornalístico, mas é inestimável em outros lugares. Por que não tentar algo para as revistas? Escolha um tema agradável e dê rédea solta à sua fantasia. Será interessante ver o que resulta disso.”
A entrada de Connie interrompeu a conversa. Ela não tinha negligenciado nenhum detalhe de seu traje, e o resultado era uma confecção rosa e branca pronta para a conquista.
“Achamos que você nunca viria nos ver, primo Don”, disse ela, fazendo beicinho e dando uma olhadela para Noah Wicker. “Você está em casa há uma semana inteira!”
“Céus, Connie! Não esperava encontrá-la tão crescida. Há quanto tempo você saiu?”
“Eu nunca entrei”, disse ela, soltando a mão e sorrindo conscientemente. “Você não vai à festa dos Bartrum esta noite?”
“Não, não estou com disposição para festas ultimamente.”
“Mas eu nunca tive a chance de dançar com você desde que você me ensinou a valsa.”
“Horrível privação! Você ainda sabe fazer o *cake walk* que te ensinei?”
“Sim, e a Miss Lady também! Não é engraçado? Ela diz que é a que os negros dançam nos piqueniques lá em Thornwood! Vamos, Miss Lady; vamos mostrar a eles!”
“Constance, Constance!” repreendeu o Doutor suavemente, enquanto a garota agarrava as mãos de Miss Lady e tentava puxá-la para cima. “Você vê, Donald, as crianças esquecem que a Sra. Queerington é qualquer coisa menos uma companheira de brincadeiras, e às vezes--” ele se levantou e colocou a mão no ombro dela, “às vezes ela esquece também.”
Donald empurrou sua cadeira abruptamente.
“Acho que vou à festa, Connie, afinal. Vou subir ao quarto de Decker no hotel e trocar minha roupa. Você vai me reservar uma valsa ou duas?”
“Todas elas, se você quiser! Vai ser a dança mais alegre da temporada, todos dizem isso. Mude de ideia, Miss Lady, e venha! Não vejo como você pode hesitar quando se lembra do tempo que teve na casa dos Sequin! Gerald virá me buscar; podemos ir todos juntos.”
Miss Lady precisava apenas da faísca do entusiasmo de Connie para iniciar todos os fogos proibidos nela. Seus olhos voaram para o rosto do Doutor.
Ele sorriu ao captar seu olhar ansioso. “Vá com eles, minha querida, se quiser. É um instinto bastante natural, acredito, celebrar a primeira noite do Ano Novo.”
“Mas você, você me levará? Só desta vez, Doutor?”
“Não, não. Meus dias de festa acabaram. Donald aqui tomará meu lugar, não é, Donald?”
Mas Miss Lady não lhe deu chance de responder. Aquele clamor louco e insistente dentro dela por alegria, por vida, por amor, não podia ser confiado por um momento. Ela estava com medo de si mesma!
“Vou ficar em casa”, disse ela, com uma tentativa corajosa de alegria, consciente dos olhos críticos de Donald sobre ela. “Faremos um torneio de *pinochle*, e Noah e eu derrotaremos o time da casa em seu próprio território. Não vamos, Noah?”
Mas Noah não a ouviu; ele estava absorto observando Connie, que estava na ponta dos pés, prendendo uma flor na lapela de Don Morley.
CAPÍTULO XX
Durante o mês seguinte, pouco mais se falou além do julgamento de Donald Morley. A verdade do assunto sofria uma fratura exposta cada vez que o tema era discutido. Em alguns círculos, afirmava-se com confiança que o fugitivo da justiça tinha sido capturado no momento em que desembarcou na América, e que só lhe foi permitida a liberdade sob uma fiança pesada. Outros sustentavam que uma consciência pesada o tinha levado à confissão.
Enquanto isso, seus amigos estavam exasperados com sua tolice em reviver o velho escândalo, ou quixotescamente entusiasmados com sua demanda por justiça. A Sra. Sequin opôs-se amargamente à sua ação até descobrir que os Bartrum, o Doutor Queerington e outros amigos influentes o apoiavam; então, decidiu suspender seu julgamento até que o julgamento terminasse. Claro, se ele ia ser um herói, ela queria ser sua irmã amorosa, mas se ele fosse condenado, ela não teria mais nada a ver com ele. Ele tinha ido diretamente contra seu conselho ao voltar para casa, e ela observou com uma certeza sinistra que “ele veria”.
Donald lançou-se ao trabalho à sua frente com determinação sombria. Ele passava horas diariamente no escritório abafado do Sr. Gooch revisando a transcrição do depoimento no julgamento de Dillingham; ele fez várias visitas a Billy-goat Hill, recordando cada detalhe do tiroteio. Na primeira visita, ele procurou Sheeley, confiante em ser capaz de refrescar sua memória quanto à sua parte na briga, mas, para seu desânimo, descobriu que Sheeley já tinha sido convocado ao escritório do promotor público. Em todas as direções que ele se voltava, ele encontrava o polvo da lei.
O Sr. Gooch lhe deu pouco incentivo. Ele bufava, resmungava e contestava cada sugestão. Seu cliente parecia-lhe um rapaz imprudente que tinha saído bem de uma situação feia e não tinha juízo suficiente para ficar longe. Tão fortemente ele sentia isso que sentiu o dever de expressá-lo longamente, em todas as ocasiões possíveis.
Donald sentava-se diante dele com os braços cruzados e os maxilares cerrados, esperando impacientemente que essas diatribes cessassem. Ele o tinha contratado porque era o advogado da família e porque era amigo do Doutor Queerington. Ao final da primeira semana, ele percebeu que tinha cometido um erro e confiou o fato a Noah Wicker.
Noah, tendo trabalhado com sucesso no curso de direito da universidade, ocupava agora, pelos esforços persistentes de Miss Lady, um canto escuro do escritório externo do Sr. Gooch. Ali, com os pés presos sob o degrau de um banco e os dedos agarrando seu topete, ele lutava obstinadamente com os casos que ouvia no tribunal, resolvendo laboriosamente pontos obscuros com a ajuda do Estatuto e do Código.
Donald logo adquiriu o hábito de discutir seu julgamento iminente com ele, nos momentos em que o Sr. Gooch estava ausente. Ele achava o ponto de vista calmo e impessoal de Noah um alívio após a atitude cética e desaprovadora do advogado mais velho.
Durante esses dias, Donald passava o mínimo de tempo possível em Angora Heights. Os esqueletos da família, que sempre espreitaram nos armários dos Sequin, pareciam deleitar-se em suas novas e espaçosas dependências. É um fato melancólico que, quanto mais armários se adquire, mais esqueletos há para ocupá-los!
A existência da Sra. Sequin, se inquieta na cidade, era triplamente no campo. Entre pegar trens e receber e despedir convidados, contratar e demitir criados, e angustiar-se com o não essencial, ela vivia no vórtice de um redemoinho que perturbava tudo em seu rastro.
Entre ela e Margery o abismo estava aumentando. Tendo declarado sua independência, a garota foi mais longe e entrou em uma turma de treinamento no jardim de infância, um ato que causou uma ruptura que ameaçava ser séria, até que o chefe da família, pela primeira vez, afirmou sua autoridade e inesperadamente ficou do lado de sua filha.
Basil Sequin, durante aqueles dias, tinha pouco tempo a dedicar aos assuntos de família. Levantava-se às seis horas, bebia três xícaras de café preto, devorava os jornais e estava a caminho do escritório antes mesmo que seu jardineiro se levantasse da cama. Antes e depois do horário bancário, ele tinha reuniões de comitês e compromissos especiais, abocanhando alguns minutos para almoçar no restaurante mais próximo.
Donald tivera apenas uma oportunidade de conversar com ele desde o seu retorno, e foi numa noite em que foi chamado ao seu escritório particular. Encontrou-o caminhando inquieto de um lado para o outro da sala, com as mãos profundamente enfiadas nos bolsos.
“Soube que decidiu enfrentar o julgamento?”, perguntou o Sr. Sequin abruptamente.
“Sim, eu precisava esclarecer o assunto. É tudo tão idiota, eu ser indiciado! Não prevejo qualquer problema.”
“Nunca se sabe”, disse o Sr. Sequin, “mas não o chamei para discutir o julgamento. É sobre negócios que quero falar. Sabe quanto em ações você possui no People's Bank?”
“Não, não posso dizer que saiba exatamente.”
“Bem, é hora de descobrir. O que acharia de assumir o controle de seus próprios negócios a partir de agora?”
Donald olhou para ele com uma surpresa indisfarçável. Até então, a única vez que questões financeiras haviam sido discutidas entre eles era quando ele se tornava culpado de alguma extravagância extra. Essa mudança repentina de tática por parte de seu cunhado era desconcertante.
“Ora, eu não gostaria nada disso, a menos que fosse para aliviá-lo”, disse ele.
“Não é isso. Um incômodo a mais ou a menos não importa. A questão é que quero que você aja por si mesmo. O resultado deste julgamento não é de forma alguma certo; você pode precisar de uma quantia considerável de dinheiro vivo antes de terminar com isso. Por que não vende suas ações do banco e faz alguns investimentos mais rentáveis por conta própria?”
“Ora, eu pensei que as ações do banco...”, começou Donald, mas o Sr. Sequin virou-se para ele impacientemente.
“Quer o meu conselho ou não?”
“É claro que quero.”
“Muito bem. Escute-me. Quase cada dólar que você tem está aplicado no People's Bank. Vá amanhã de manhã a um corretor, Gilson é o melhor, diga-lhe que precisa de uma grande soma de dinheiro imediatamente. Para obtê-la, você está disposto a sacrificar cada ação que possui do People's. Diga-lhe para não colocá-las no mercado, mas para vendê-las em pequenos lotes a pessoas diferentes, e para não se apegar ao preço. Faça-o entender que isso tem a ver com o seu julgamento, e avise-o particularmente para não me deixar saber da transação.”
“Mas eu não entendo”, disse Donald, observando com olhos perturbados a figura curvada que continuava a caminhar de um lado para o outro na sala como um animal em uma jaula.
“Não me ofereci para explicar. Ofereci-me para aconselhar”, rosnou o Sr. Sequin. “Existem complicações que não poderiam ser esclarecidas para você em um mês! Pedirei que não mencione este assunto novamente para mim ou para qualquer outra pessoa. Tenho muitos papéis para analisar agora, então darei boa noite.”
Donald levantou-se de onde estava sentado à mesa.
“É claro que você sabe o que é melhor”, disse ele, hesitante. “E sei que não tenho o direito de transferir minhas responsabilidades para você. A propósito, não posso ajudá-lo com parte desse material? Você parece acabado para esta noite.”
“Acabado?” O Sr. Sequin sorriu ironicamente e passou os dedos pelos seus raros cabelos grisalhos. “Ora, Don, eu trocaria de lugar com qualquer cadáver esta noite, apenas pela chance de me deitar em um canto sossegado e parar de pensar! Não, não há nada que você possa fazer. Não há nada que ninguém possa fazer. Boa noite; feche a porta ao sair e deixe um aviso lá embaixo para, caso eu seja chamado ao telefone, dizerem que não estou aqui.”
Considerando todas as coisas, não é de se estranhar que Donald passasse o mínimo de tempo possível em Angora Heights. O tempo em que não estava ocupado com seu julgamento pesava-lhe muito. Desconfiado de seus amigos, sensível a críticas e temendo a humilhante provação que estava por vir, ele passou um dos meses mais miseráveis de sua vida. Tentou escrever, mas a imaginação fugia diante do brilho da realidade. O único lugar onde encontrava paz temporária era sob o teto da casa de aparência sombria na College Street.
Desde o início, o Dr. Queerington defendera sua causa e insistira em sua hospitalidade. É verdade que a hospitalidade do Doutor geralmente começava e terminava com suas boas-vindas, após o que ele se retirava para o escritório, deixando seu hóspede aos cuidados da família.
Nessas ocasiões, a Srta. Lady invariavelmente ia com ele. De fato, Donald nunca a vira sozinha desde a noite de sua chegada, e o próprio fato de ela raramente permanecer no andar de baixo durante as noites tornava sua consciência mais leve ao permanecer nas imediações dela.
A Sra. Ivy foi a primeira a comentar sobre suas visitas frequentes. Ela confidenciou à Sra. Sequin que temia que ele estivesse se interessando por Connie Queerington, e que alguém deveria dizer a ele que Connie estivera apaixonada pelo querido Gerald por anos e anos. Um observador imparcial poderia ter expressado uma opinião menos confiante em relação ao objeto das afeições da Srta. Connie.
Noah Wicker, por exemplo, embora não fosse exatamente um observador imparcial, chegara a uma conclusão bem diferente.
“Observe o modo como ela olha para o Don”, disse ele sombriamente à Srta. Lady em uma ocasião.
A Srta. Lady riu, “Oh! Connie é como a Última Duquesa, ela gosta de tudo o que vê, e seus olhares vão a toda parte.”
“Sim, mas isto é diferente. Ela já lhe disse alguma coisa sobre ele?”
“Ora, sim, Connie fala comigo sobre todos os rapazes.”
“Ela fala sobre mim?” Os olhos de Noah eram tão saudosos quanto os de um cão.
Por um segundo, a Srta. Lady hesitou, então transigiu com a verdade e disse, “sim”. Ela não acrescentou que Connie era particularmente loquaz sobre o assunto do cabelo dele, o rangido de suas botas e seu aparente gênio para a ubiquidade.
“Sabe o que eu faria se fosse você, Noah?”, disse ela. “Eu mandaria fazer um terno novo.”
“Ora, estes são novos!”
“Sim, eu sei, mas não servem bem. E arranje sapatos que não rangam, e... e você não se importará que eu lhe diga, Noah? Topetes saíram de moda há seis anos.”
Noah balançou a cabeça melancolicamente. “Não são minhas roupas. Não são roupas que fazem o Don Morley. A propósito, vocês dois não são mais amigos?”
A Srta. Lady enfrentou a pergunta sem vacilar. “Sim, somos amigos. Ele vai vencer?”
“Com a Srta. Connie?”
“Não, seu bobo. No julgamento dele.”
“Eu não sei.”
“O que acontecerá se ele perder?”
“O caso será apelado.”
“E se ele perder no Tribunal de Apelações?”
“Cabe ao Gooch garantir que ele não perca. Eu só queria estar tão certo de algumas outras coisas como estou da inocência de Donald Morley!”
Uma tarde, poucos dias antes do julgamento, Donald, após oscilar entre o hotel e seu clube e achar cada um igualmente intolerável, pulou no bonde e foi até a casa dos Queerington. Era um dia frio e cru, com uma névoa fina preenchendo o ar, e até a formalidade maçante do salão cinzento parecia um alívio da melancolia do lado de fora.
A Srta. Lady levantou-se do piano quando ele entrou, mas Connie puxou-a de volta:
“Você não vai sair correndo e nos deixar, não é, Primo Don? Ela estava prestes a tocar para o Sr. Wicker cantar. Sabia que ele sabe cantar?”
“Oh, sim. Wick é o Rouxinol Original. Você se lembra das nossas serenatas na Cane Run Road, Wick?”
“Sim”, disse Noah, carrancudo.
“Esqueci que você e o Sr. Wicker se conheciam”, disse Connie curiosa. “Ora, a Cane Run Road passa por Thornwood, não é?”
“Sim”, disse Don calmamente, agarrando a conversa e empurrando-a para fora das águas rasas. “Vá em frente, Wick, e cante alguma coisa; nós vamos entrar no coro.”
Mas, quando chegou a hora do coro, Donald havia se esquecido de sua promessa. Ele estava recostado em um canto do sofá, com a mão sombreando os olhos, observando a Srta. Lady e imaginando que truque do destino a levara a se casar com John Jay Queerington. Não havia homem no mundo cujo valor moral ele admirasse mais, mas a Srta. Lady parecia tão deslocada na vida dele quanto um beija-flor rápido e trêmulo em um museu de história natural. Ele notou as sombras tênues ao redor dos olhos dela e a curva saudosa de seus lábios. Se ele pudesse apenas libertá-la! Um desejo louco tomou conta dele de vê-la mais uma vez alegremente em voo, com toda a sua antiga vivacidade e ousadia. E, no entanto, ela havia caminhado de olhos abertos para dentro de sua gaiola, e ele ainda tinha que ver o mais ínfimo bater de asas dela contra as grades.
Naquela primeira noite de seu retorno, certamente ele lera boas-vindas nos olhos dela! Mas nunca, desde então, por palavra ou gesto, teve motivos para pensar que ela se lembrava. Ela era graciosa e esquiva, e falava com ele como falava com Decker e Gerald Ivy, só que ela olhava para eles quando falava, e nunca olhava para ele.
No entanto, ela se importara! Bastava recordar a revelação fulgurante dos olhos dela naquela noite no jardim para saber que, por um momento transcendente, pelo menos, ela era sua. Foi o olhar que sustentou sua fé nela durante todos aqueles meses cansativos de silêncio, fazendo-o apegar-se à crença, até ouvir a verdade dos lábios dela, de que ela não recebera sua carta. Foi a lembrança daquele olhar e do que ele prometera que o invadiu agora enquanto a observava.
Todo o impulso imprudente de sua juventude, os longos anos de falta de restrições, surgiram sobre ele, incitando-o a despertar nela alguma resposta à sua demanda feroz e insistente. Ela deveria se lembrar do modo como ele a amara, ela deveria saber o modo como ele a amava agora. Se restava algum coração nela, ela deveria responder de alguma forma à sua necessidade imperativa.
Mas os olhos dela mantiveram-se firmes no teclado, e seus dedos seguiram as notas sem vacilar. Se ele pudesse ter sabido como as lágrimas queimavam sob seus cílios e quão frios estavam seus dedos sobre as teclas; se ele pudesse ter adivinhado como ela estava sentada ali sob seu olhar fixo, com músculos tensos e nervos trêmulos, calculando os minutos que deviam transcorrer antes que os intermináveis versos de Noah terminassem e ela pudesse escapar, ele poderia ter tido compaixão dela.
“Cante, Primo Don!”, exigiu Connie; “você está deixando tudo para o Sr. Wicker e para mim, enquanto fica sentado aí parecendo exatamente como se tivesse perdido seu último amigo.”
“Não, apenas minhas ilusões, Connie.”
“Onde você as perdeu?”
“Em Cingapura. Todas, menos uma. Eu me apeguei a ela por todo o caminho ao redor do mundo, apenas para perdê-la na noite de Natal quando cheguei em casa. Você não sente pena de mim?”
“Nem um pouco”, disse Connie com petulância. “Eu não poderia sentir pena de alguém tão bonito quanto você... poderia, Sr. Wicker? Para onde foi a Srta. Lady?”
“Ela disse que ia se deitar, que sua cabeça doía”, disse Noah.
“Eu sei qual é o problema”, disse Connie; “ela tenta evitar que vejamos, mas ela está totalmente arrasada com a venda de Thornwood.”
“Thornwood!”, gritou Donald; “ela não a vendeu?”
“Não, mas foi colocada à venda. Ela morreria na fogueira pelo papai. Ele nem sabe disso.”
“Mas certamente há outra maneira.” Connie encolheu os ombros. “Tenho certeza de que não sei. Hattie desistiu da música e do francês, e colocamos Bertie na escola pública, e eu não tive mais do que um vestido de festa neste inverno. Mas uma garota não precisa depender de roupas para se divertir, precisa, Sr. Wicker?”
Naquela noite, Donald ficou acordado até tarde, remoendo as coisas em sua mente. Assim que o julgamento terminasse, ele deveria ir embora, para onde não pudesse ver a Srta. Lady ou ouvir falar dela. Ele deveria mergulhar em algum negócio que ocupasse seu tempo e atenção. Mas, antes de partir, deveria fazer um investimento, e fazê-lo imediatamente. Para isso, seguiria o conselho de Basil Sequin e ofereceria suas ações do banco para venda pela manhã.
CAPÍTULO XXI
Havia ansiedade na casa cinzenta da College Street. O segundo dia do julgamento de Donald Morley chegara e nenhuma decisão fora alcançada. Cada toque do telefone, cada abertura da porta da frente trazia uma correria de pés pelo corredor e uma demanda ansiosa para saber se havia alguma notícia.
“Nunca vou terminar minhas lições!”, exclamou Hattie, irritada, recolhendo seus pertences espalhados após uma dessas correrias até a porta. “Eu queria, pelos céus, que um dos meus dedos fosse um lápis!”
“Por que você não deseja que sua língua fosse um, Hat? Então você não precisaria apontá-la”, sugeriu Connie.
“Aposto que a Srta. Lady pegou meu lápis”, continuou Hattie, ignorando o comentário de Connie. “Ela nunca teve um par de tesouras, ou um lápis, ou um abotoador de sapatos desde que chegou aqui. E olhe aquelas cartas no console! Ela nunca pensará em enviá-las.”
“O que elas estão fazendo com bordas pretas?”
“Ela comprou um lote de papel outro dia, de todas as cores e tamanhos, tentando ser econômica. Ela usa os de luto para pagar as contas.”
“Sim, e eu terei que ficar colocando pequenas cartas de amor cor-de-rosa em grandes envelopes azuis o inverno todo. Diga, Hat, você acha que estaria tudo bem se eu ligasse para o Sr. Wicker para perguntar como vai o julgamento?”
“É claro que não. Ouviremos assim que houver algo para ouvir. Eu gostaria que você parasse de falar e me deixasse estudar.”
Connie absteve-se heroicamente de falar por cinco minutos, então anunciou:
“Sabe, eu não acredito que a Srta. Lady goste dele!”
“De quem? Do Sr. Wicker?”
“Não, sua boba... do Don.”
“Quando foi que você parou de dizer Primo Don, por favor?”
“Oh, eras atrás. Ela está sempre tão quieta quando ele vem, e sobe as escadas na primeira oportunidade que tem. Acho que ela mudou muito desde que chegou pela primeira vez, não acha?”
“Bem, acho que você também mudaria se tivesse se casado com um homem doente com três filhos, pobre como Jó, e uma cozinheira tão rabugenta quanto a Myrtella.”
“Mas ela tem a Myrtella comendo na mão dela. Imagine eu me casando com um homem tão velho quanto o papai!”
“Se eu tivesse que me casar, preferiria me casar com o papai do que com qualquer outra pessoa. Mas eu nunca vi o homem ainda com quem eu estaria disposta a me casar.”
“Oh, eu já! Conheço dez agora mesmo com quem eu me casaria em um minuto.”
“Connie Queerington! Quem são os outros além de Gerald e do Primo Don?”
“Adivinhe.”
“Noah Wicker?”
Connie riu. “O Sr. Wicker não é tão mau quanto era. Ele deve ter tomado clorofórmio e cortado aquele topete. Don diz que ele é terrivelmente inteligente.”
“Qualquer um poderia ser inteligente se levasse um dia inteiro para compor cada discurso. Vou lhe dizer qual é o problema com a Srta. Lady; ela está preocupada até adoecer com o papai. Ela lhe contou o que o Dr. Wyeth disse a ela?”
“Que o papai teria que desistir de suas aulas e ir para algum lugar longe? Mas é claro que ele não pode fazer isso.”
“Mas ele pode! A Srta. Lady alugou Thornwood do homem que a comprou, e todos nós vamos para lá nesta primavera.”
“Céus! Isso significa sapos e grilos e bacuraus, e um tempo solitário para mim.”
“Mas pense no papai!”, disse Hattie com seu ar mais virtuoso. “Se estiver perfeitamente silencioso, talvez ele possa terminar seu livro.”
“Não, ele não terminará”, disse Connie, irritada. “Ele pode terminar a si mesmo, mas nunca terminará aquele livro; ele continua pensando em mais coisas para dizer, exatamente como o Sr. Melcher faz quando reza. Se não fosse por aquele livro estúpido, ele poderia ficar bom. Foi o telefone?”
Provou ser a campainha da porta lateral, que foi tocada por uma velha que perdera o marido e os dentes da frente, e estava envolvida na ocupação precária de vender cadarços de sapatos. Ela era uma das numerosas protegidas que começaram a visitar a Srta. Lady logo após o café da manhã e continuaram suas visitas durante todo o dia, para exasperação de Myrtella Flathers, que passava seu tempo arquitetando meios de livrar o corredor dos fundos desses empecilhos.
Neste caso, a estratégia não foi necessária, pois foi-lhe ordenado que mandasse a mulher embora. Tal procedimento incomum despertou sua curiosidade e ela retornou à sala de jantar para espiar através da porta sua jovem patroa, que estava sentada imóvel desde o café da manhã com os cotovelos sobre a mesa e as mãos entrelaçadas sob o queixo. Era evidente que algo estava errado, e Myrtella ficou tão preocupada que finalmente decidiu agir. A panaceia que ela aplicava a todas as enfermidades, morais ou físicas, era um contrairritante.
“Mis' Squeerington!”, arriscou ela finalmente. “Espero que a senhora não tenha esquecido que é sábado de manhã e a senhora deveria dar um sermão no homem da mercearia. Ele é uma figura, é isso que ele é, mandando-nos as costelas da Sra. Ivy e o fígado da Sra. Logan. Não é uma maneira decente de tratar uma cliente antiga, e ele deveria ser avisado disso. Nunca houve um homem da mercearia que nasceu neste mundo que não tivesse que levar um sermão! Eles esperam por isso, eles procuram por isso, e quando não recebem, eles sentem falta.”
“Eu não sei dar 'sermões' nas pessoas, Myrtella; não sei como”, disse a Srta. Lady, apática.
“Eu lhe ensino. A senhora já aprendeu muito mais do que qualquer um teria suposto quando chegou aqui pela primeira vez. Mas há uma coisa que a senhora ainda não aprendeu. Quando uma dama começa a sorrir ao telefone e dizer ao açougueiro que não conhece um corte de outro, mas que confiará nele para lhe enviar um bom pedaço, pode contar que ela receberá uma cartilagem. Elogios e sorrisos podem conseguir algumas coisas, mas é preciso bronca e resposta atravessada para conseguir um bom bife!”
“Acho que mandarei você à mercearia hoje, Myrtella... pode... pode chover.”
“Não vai chover antes do meio-dia”, disse Myrtella autoritariamente, em um tom que indicava sua intenção de impedi-lo imediatamente se ele mostrasse qualquer intenção de fazê-lo. “Vai lhe fazer bem sair e caminhar um pouco.”
A Srta. Lady balançou a cabeça.
“Bem, então é melhor a senhora me deixar mandar o Bertie para cá, ele está fazendo um barulho terrível no berçário e o pai dele logo virá atrás dele.”
Bertie foi induzido a abandonar uma vida de aventura na cabeceira de sua cama pela sugestão de que a Srta. Lady tinha algo para lhe contar na sala de jantar. Ele veio correndo pelo corredor gritando, “Extras”, no topo de seus pulmões.
“Bertie, querido! Por favor, não faça isso”, gritou a Srta. Lady, despertada de sua apatia. “Lembre-se de que é sábado e o papai está em casa.”
“Eu queria que ele não estivesse”, disse Bertie. “Eu odeio uma casa de ponta de pés! Quando posso vender extras?”
“Quando chegarmos a Thornwood. Você e eu brincaremos por todas as colinas, e eu vou ensiná-lo a ser um verdadeiro menino do campo.”
“E o Chick pode estar lá também?”
“Sim, e talvez naquela época o Chick já tenha ido ao hospital e possa falar como os outros meninos.”
Bertie estava em pé sobre o encosto da cadeira dela a esta altura, aparentemente tentando estrangulá-la.
“E podemos deslizar pela casa de gelo como você costumava fazer? E o Tio Jimpson chamará os bichinhos da terra como ele fazia quando você era uma garotinha?”
“Escute!”, gritou a Srta. Lady, levantando-se de repente. “O que é isso?”
Do extremo da rua veio o som: “Extra! Aqui está o seu Extra! Tudo sobre...”
“É apenas o jornaleiro que eu estava imitando”, disse Bertie. “Qual é o problema? O que a faz tremer tanto, Srta. Lady?”
Myrtella enfiou a cabeça pela porta. “Lá vem aquela Sra. Ivy correndo pelo quintal. Ela é boa para uma hora.”
Mas a Sra. Ivy não parecia estar boa para nada quando a Srta. Lady a alcançou. Ela estava meio reclinada em um sofá de crina de cavalo no saguão da frente, com um frasco de sais aromáticos no nariz e um jornal na mão.
“Oh, minha querida!”, ela conseguiu ofegar. “Um choque tão terrível! Tão totalmente inesperado!”
“Você quer dizer Don?” Os lábios da Srta. Lady mal se moveram ao fazer a pergunta.
“Não, o banco! Eu estava sozinha em casa quando ouvi os meninos chamando as edições extras... Ah! Meu pobre coração fraco!”
“Conhaque?”, sugeriu a Srta. Lady, ansiosa.
A Sra. Ivy ergueu olhos débeis, porém protestantes: “Jamais! O Anjo da Morte nunca me encontrará com o odor de bebida em meus lábios. Você poderia mandar buscar um pouco de nitroglicerina?”
Quando a Sra. Ivy foi reanimada, Connie e Hattie haviam se juntado ao grupo no saguão, e esta última lia em voz alta, em tons de assombro, o relato da falência do People's Bank. A idade e a reputação da instituição e o destaque de Basil Sequin como financista local conferiam ao assunto uma gravidade significativa.
“E pensar que eu deveria estar envolvida!”, lamentou a Sra. Ivy. “Sou tesoureira da Junta da W. A. há apenas seis semanas e este foi o meu primeiro investimento! Disseram-me para usar meu critério, e fiz o melhor que pude! Justamente na última quinta-feira, fui ver o Sr. Gilson, o corretor, sabe, sobre investir o dinheiro que estamos arrecadando para construir a Casa Paroquial. Ele disse que eu tinha chegado no momento certo, pois ele acabara de conseguir algumas ações do People's Bank, ‘de primeira linha’, foi como ele chamou, e lembro-me exatamente do que disse a ele; eu disse: ‘Sr. Gilson, eu simplesmente deixo que a Providência me guie, e ela me guiou até a sua porta!’ e eu as comprei!”, soluçou a Sra. Ivy; “quarenta ações!”
“Suponho que o Papai tenha perdido muito”, disse Hattie, sentada nos degraus, com os olhos arregalados e ansiosa.
“E todos os Sequin, e Don”, acrescentou Connie.
“Diz aqui que todos os acionistas e a maioria dos depositantes correm o risco de perder muito”, disse a Srta. Lady, examinando o jornal; “Devo avisar o Doutor imediatamente.”
Ela subiu os degraus rapidamente e bateu, sem fôlego, à porta do escritório dele. Foi somente na segunda batida que ela recebeu permissão para entrar.
O Doutor estava sentado à sua mesa com um longo roupão cinza, com um cobertor sobre os joelhos: ao redor dele estavam dispostas várias cadeiras de espaldar reto, nas quais centenas de páginas de manuscritos escritos à mão estavam espalhadas. Ao seu lado, sobre um suporte, havia um dicionário imenso, do qual ele levantou um par de olhos absortos e preocupados.
“Doutor!”, a Srta. Lady irrompeu impetuosamente, “o Banco faliu... o jornal diz...”
“Por favor!”, o Doutor ergueu uma mão suplicante; “não me conte agora. A notícia pode esperar e estou em um estágio crítico do meu resumo. O trabalho de hoje é importante, muito importante. Por gentileza, feche a porta.”
A Srta. Lady ficou no saguão lá fora e encarou o papel de parede de cor opaca. Uma raiva feroz cresceu nela, não contra o Doutor, mas contra aquele trabalho vampírico que estava sugando toda a vitalidade, a simpatia e a compreensão dele. Ela estava ansiosa para carregar os fardos dele; estava disposta a lutar as batalhas dele; mas era difícil tomar o partido dele sozinha contra si mesma. Ela queria amor, afeição e simpatia, e queria um ombro masculino para chorar quando o caminho se tornasse difícil demais. Mas o ombro inclinado e acadêmico do Doutor não oferecia lugar de descanso para uma cabeça cansada do mundo.
“Mis' Squeerington!”, chamou Myrtella do andar de baixo. “O homem da mercearia não tinha beterrabas, e as batatas novas estão duras como pedras, e se eu fosse você, iria até o Smithers só para contrariá-lo por um tempo. E esqueci de dizer que aquele tal de Sr. Wicker ligou para você há uma hora, e disse que o caso foi perdido. Não sei o que ele quis dizer. Espero que ele não o tenha perdido por aqui. A próxima coisa que vou ouvir é que vão dizer que fui eu quem pegou!”
CAPÍTULO XXII
É uma lei deprimente da vida que as preocupações invariavelmente cacem em matilhas. Se fosse apenas uma questão de um pequeno incômodo estridente latindo em seus calcanhares, você poderia afugentá-lo com uma risada; mas quando uma horda faminta entra em seu rastro com a determinação sombria de acuá-lo, é uma história bem diferente.
Donald Morley, caminhando pelo terraço em Angora Heights em uma certa noite escura de março, sentiu o hálito da matilha perseguidora bem perto de si. O fracasso em vencer o seu caso fora um golpe sério não apenas para o seu orgulho, mas para sua fé no próximo. Ele entrara no julgamento com a confiança assegurada de um homem inocente que ainda é jovem o suficiente para depender absolutamente da justiça da lei. Apesar do conjunto de evidências prejudiciais apresentadas pelo promotor público, e o egoísmo presunçoso do Sr. Gooch, que o tornava impopular entre o juiz e o júri, a vitória de Donald estava quase garantida, quando o rumor da falência do People's Bank varreu a sala do tribunal. Na onda instantânea de suspeita que surgiu contra Basil Sequin, a causa de Donald foi perdida. Metade dos homens no júri estava direta ou indiretamente envolvida. O caso foi sumariamente encerrado e a questão menor engolida pela maior.
Humilhado e mortificado como Donald estava com sua própria posição, ele estava igualmente preocupado com o banco. Os jornais estavam cheios de insinuações perturbadoras; as pessoas evitavam falar disso em sua presença; a desconfiança e a suspeita espreitavam pelos cantos.
Donald parou no final do terraço e olhou para a pilha escura e maciça de alvenaria acima dele. Em cada gárgula sarcástica e cornija esculpida, ele lia a ruína de algum lar humilde.
Ao primeiro sinal de problema iminente, a Sra. Sequin levara Margery e fugira para a Europa, deixando o Sr. Sequin lutando, de costas para a parede, para enfrentar as dificuldades nas quais a extravagância dela o mergulhara. “Não tenho medo por Basil”, ela garantiu aos seus amigos ao partir. “Ele vai resolver as coisas. É claro que falarão dele, pessoas inteligentes sempre são alvo de comentários, e os diretores têm sido um tanto desagradáveis. Mas ele ainda controlará a situação, você verá.”
E a confiança da Sra. Sequin estava se justificando. Basil Sequin estava controlando a situação. Ele emergira da ruína com suas finanças menos afetadas do que sua reputação.
Cada vez que Donald se virava no final do longo terraço, seus olhos buscavam involuntariamente uma luz que brilhava lá embaixo, através dos troncos nus das árvores. Era a luz de Thornwood que, mais uma vez, lançava seus feixes familiares através da Cane Run Road e pela suave encosta de Billy-goat Hill. Ele descansou os braços no parapeito e ficou olhando para a noite. Havia uma suavidade no ar, um cheiro de terra revirada, um sussurro tênue entre as copas das árvores recém-brotadas que sugeria coisas prestes a serem reveladas.
De repente, houve um estranho esvoaçar no ar acima dele, um frisson trêmulo e expectante. Olhando para cima, ele viu um bando de pássaros, girando e circulando acima dele, preparando-se para pousar. Noite após noite eles viajaram, sobre florestas e através de rios escuros, batendo bravamente suas asas frágeis contra a ventania, um propósito impelindo-os, direto como uma flecha através do ar silencioso — o desejo de encontrar seus antigos refúgios sob o abrigo amigável da Colina, e lá manter seus encontros amorosos no lugar chamado lar.
A garganta de Donald contraiu-se bruscamente. Nunca naqueles dias tumultuados no Japão, nem naqueles desesperados em Cingapura, ele quis a Srta. Lady como a queria agora. Não era sua juventude ou sua beleza em que ele estava pensando; era o aperto firme e confiante da mão dela, a coragem inabalável dos seus olhos, as palavras dela: “Eu acredito em você, Don, com todo o meu coração e alma.” Ele era como um homem faminto que precisa de pão, mesmo que pertença a outro. Antes que percebesse, ele estava descendo a trilha em direção à estrada.
Connie seria sua desculpa, embora ele estivesse um tanto atormentado pela consciência a respeito de Connie ultimamente. Ela desenvolvera um gosto por explorar aquela terra sedutora do Flerte, onde as linhas de fronteira nunca foram definidas e perigos escondidos espreitam além dos limites. Como um aventureiro velho e experiente, ele sentia que já a tinha acompanhado longe demais.
Ao chegar ao grande portão colonial de Thornwood, ele encontrou alguém descendo de uma charrete.
“Olá, Wick!”, disse ele. “Espere, eu abro para você. Achei que você estivesse ficando na cidade!” Noah removeu um par de luvas cor de bronze inequivocamente novas e abriu o portão para si mesmo.
“Estou ficando na cidade”, disse ele de forma distante. “Você vai entrar aí?”
“Sim, acho que vou passar um pouco, a menos que você tenha um compromisso?”
A pausa de Noah foi ainda mais longa do que o habitual. “Não”, ele arrastou as palavras pouco depois. “Não posso dizer que tenho. Você vai subir?”
Donald não conseguiu conter um sorriso ao subir ao lado dele e notar a imponência de sua vestimenta.
“Você está ficando muito elegante ultimamente, velho companheiro. Quem é a moça?”
“Você sabe quem é.”
“Você certamente não quer dizer Connie Queerington! Ora, Wick, você deve ir devagar e não brincar com essa moça. A primeira coisa que você sabe, ela estará apaixonada por você.”
O lábio de Noah enrijeceu. “Se você a deixasse em paz, talvez ela pudesse.”
“O que eu estou fazendo?”
“A mesma coisa que você sempre fez. Sair com uma moça tempo suficiente apenas para estragá-la para qualquer outro, depois ir embora e esquecer tudo sobre ela.”
Donald olhou com espanto para o rosto irritado ao seu lado.
“O que diabos você quer dizer com isso, Wick?”
“O que eu digo. Acho que não faz tanto tempo assim que ambos nos esquecemos de outro exemplo.”
“Olha aqui, Wick”, disse Donald, sua raiva aumentando, “é melhor você parar com isso. Você não sabe do que está falando.”
“Eu sei que você arruinou minhas chances uma vez e não vai arruiná-las de novo. Você tem que deixar a Srta. Connie em paz. Você tem que me prometer...”
“Não prometo nada a você.”
Eles chegaram ao bloco de montaria e Donald desceu da charrete e, sem esperar por seu companheiro, subiu a calçada em direção à casa. A paz do lugar antigo envolveu-o como as dobras de uma vestimenta quente. Ele esqueceu Noah e os problemas que o perseguiam; esqueceu tudo, exceto que Thornwood, com todas as suas memórias e tradições, era por enquanto dele, mantida em sagrada confiança até aquele momento em que ele pudesse devolvê-la àquela que a amava mais.
“Ora, é o Primo Don!”, gritou Connie, que ouvira as rodas e viera investigar. “Nunca fiquei tão feliz em ver alguém na minha vida. Achei que fosse o Sr. Wicker!”
“Anime-se! Ele está prendendo o cavalo no bloco agora.”
“Que cansativo! Achei que o tínhamos deixado na cidade ontem. Não acredito que você esteja nem um pouco feliz em nos ter como vizinhos. Por que você não veio ontem à noite? Faz quatro dias que não vejo você!”
“Você não perdeu nada, Connie. Eu estive por baixo.”
“Todo mundo esteve! É estúpido demais para palavras. Desde o julgamento e a falência do banco, não consegui tirar um sorriso de ninguém! Espero que a Tartaruga não esteja rabugenta.”
“Quem é a Tartaruga?”
“O Sr. Wicker. Hat o chama assim, porque ele nunca solta nada até que troveje. Você não vai entrar na sala de visitas?”
“Não, vou dar campo livre ao Wick esta noite. Quero ver seu Pai para tratar de negócios.”
“Isso soa interessante!”, disse Connie audaciosamente. “Você poderia ter falado comigo primeiro!”
O Doutor estava se preparando para subir e ir dormir quando Donald entrou na sala de estar, mas ele pousou o castiçal e o cumprimentou calorosamente.
“Uma fênix renascendo de suas cinzas!”, disse ele. “Fico feliz em ver que você sobreviveu às provações dos últimos dez dias. É muito gentil da sua parte vir até aqui, em meio aos seus problemas, para nos dar as boas-vindas às nossas novas acomodações. Você não vai nos deixar, meu caro?”, isso para a Srta. Lady, que se levantara com a entrada de Donald.
“Eu ia buscar o seu caldo de carne.”
“Oh, certamente. Não consigo começar a lhe dizer, Donald, o quanto lamento a decisão no seu caso. Como isso aconteceu?”
Donald, cujos olhos famintos devoravam cada detalhe familiar da sala aconchegante iluminada pelo fogo, deu de ombros. “Onze jurados eram pela absolvição, fui informado, e o décimo segundo, um sujeito chamado Jock Hibben, convenceu-os.”
“Jock Hibben? Conheço o homem. Um socialista radical que tem nos causado alguns problemas na universidade. Um grande orador, acredito, mas um fanático. Você apresentou um pedido de novo julgamento?”
“Foi recusado.”
“De fato! E você vai recorrer, é claro?”
“Sim.”
“A decisão certamente será revertida”, o Doutor garantiu-lhe, “e o segundo julgamento será a seu favor. Nunca duvidei do resultado final. O que é esse ruído de arranhado?”
A Srta. Lady, que estava entrando, parou para ouvir, então subitamente colocou a xícara que carregava sobre a mesa e abriu a porta.
Um cachorro longo, peludo e desalinhado, com olhos pequenos e tristes e um toco de rabo, atirou-se sobre ela e começou, arrebatadamente, a lamber suas mãos.
“É o Mike”, ela gritou alegremente, sentando-se no chão e reunindo seu visitante enlameado em seus braços. “Eu sabia que ele descobriria que estávamos em casa. Oh! Seu cachorro abençoado, abençoado!”
Mike, incapaz de conter seus transportes, fez uma turnê louca pela sala, derrubando a pilha de manuscritos que o Doutor havia arrumado cuidadosamente em um suporte ao lado dele. Em sua segunda volta, ele descobriu o visitante, que ele cheirou com crescente excitação.
Donald levantou o dedo indicador e bateu no joelho. Em um instante, Mike lembrou-se. Levantando as patas dianteiras e deixando a cabeça cair sobre elas, ele respondeu ao chamado para a oração.
Dois pares de olhos encontraram-se involuntariamente, e os donos sorriram.
“Ponha-o para fora, minha querida”, insistiu o Doutor, que se abaixara para recolher as folhas espalhadas do seu manuscrito. “Este é o último volume da minha série, Donald. Você se lembra que eu estava coletando dados para ele quando você estava na universidade. Eu esperava publicá-lo nesta primavera, mas terá que ser adiado agora.”
Donald estremeceu. “Por causa da falência do banco, suponho?”
“Bem, sim. Basil aconselha uma redução de todas as despesas por enquanto. No entanto, pode ser tão bom quanto publicá-lo no outono. Isso me dará mais três meses na revisão.”
“Espero que você não tenha sido seriamente envolvido, Doutor?”
“Não, não, imagino que não”, disse o Doutor vagamente enquanto fazia uma correção marginal em uma das folhas. “Basil e eu estivemos tão ocupados que mal tivemos chance de discutir o assunto. Ele disse que eu poderia possivelmente perder algo, mas que ele protegeria meus interesses. Confio que você não seja um dos perdedores?”
“Não”, disse Donald, sucintamente, “não perdi nada.” Então, após uma pausa durante a qual ele encarou o chão, ele olhou para cima. “Doutor, quero consultá-lo sobre algo. Seus padrões de certo e errado me parecem um pouco mais seguros do que os da maioria das pessoas. Estou com problemas e quero seu conselho.”
Ele olhava para o Doutor enquanto falava, mas estava agudamente consciente da figura esguia que estava de costas para eles diante da lareira aberta.
“Veja bem”, disse ele, mergulhando no assunto, “uma semana antes de o banco falir, descobri que poderia precisar de muito dinheiro vivo antes que o julgamento terminasse. Então, vendi todas as minhas ações do People's Bank.”
“Isso foi uma sorte.”
“Mas, Doutor! Você não vê? No momento em que vendi as ações, elas não valiam o papel em que foram impressas!”
“Mas você era ignorante disso.”
“Claro; mas isso altera o fato de que recebi dinheiro por ações que não valiam nada?”
O Doutor esfregou as mãos pensativamente. Pela primeira vez, ele não estava preparado para dar uma resposta imediata a uma questão sobre um problema moral.
“No calor do momento, eu o aconselharia a reembolsar o dinheiro, mas não sei se tal conselho é sensato. O fato é que nem você nem eu estamos suficientemente versados em assuntos financeiros para saber o que é costumeiro em tais casos. O que o seu cunhado aconselha?”
“Não tive nenhuma conversa com ele desde que o banco faliu. Ele fica na cidade quase todas as noites, e você pode imaginar como são os dias dele.”
“Bem, eu colocaria o assunto diante dele, explicaria meus escrúpulos e então agiria inquestionavelmente conforme seu conselho. Tem sido minha regra na vida, quando meu próprio critério não bastava, consultar a autoridade disponível mais alta sobre aquele dado assunto e cumpri-lo. Basil Sequin, apesar desta infeliz falência, é sem dúvida o nosso financista mais capaz. Só posso pedir que você faça como eu fiz; deixe tudo inteiramente com ele.”
“Eu não deixaria!”, gritou a Srta. Lady, virando-se com um retorno da sua antiga maneira infantil e impetuosa; “Eu não deixaria para ninguém. Eu recompraria as ações, cada uma delas. Eu não guardaria dinheiro pelo qual não dei nada! Você deveria ver a Srta. Ferney Foster! Ela comprou ações do banco apenas na semana passada; deu todo o dinheiro que ganhara com seus picles durante dez anos, e quando descobriu que o banco falira, ela perdeu a razão. Estive lá hoje e ela não me reconheceu.”
“Quem lhe vendeu as ações?”
“Um corretor chamado Gilson.”
“Eram as minhas ações”, exclamou Donald. “Claro que ela tem que ser reembolsada! E todos os outros também. Vou recomprar cada ação, mesmo que me custe o meu último dólar!”
“Vai custar tudo o que você tem?” A Srta. Lady examinou o rosto dele ansiosamente.
“Sim, e mais. Fiz um investimento com parte do dinheiro antes de saber que o banco estava em apuros; depois, há a lei de dupla responsabilidade. Não importaria tanto se não fosse pelo julgamento.”
“Sua irmã, é claro, estará pronta para ajudar você. Ou será que ela, também, perdeu?”
“Não”, disse Donald, seus lábios se apertando, “ela não perdeu. Ela não tem ações no banco há um ano. Mas não recorrerei a ela.”
“Porque ela se opôs ao seu curso tão violentamente? Oh, eu entendo. Um ponto de honra com o qual concordo plenamente com você. Mas você não vai afundar, Donald. Nós cuidaremos disso. Não sou um homem rico, como você sabe. Houve momentos recentemente em que o futuro parecia muito sombrio. Mas esta pequena dama nos guiou para águas mais calmas. Se você, no decorrer dos próximos meses, precisar de uma quantia razoável, fico feliz em dizer que estaremos em condições de acomodá-lo.”
Donald apertou a mão dele. “Não recorrerei a você, Doutor. Mas, assim que eu terminar este maldito julgamento, tentarei justificar sua fé em mim.”
O relógio alto no saguão deu um chiado preliminar, depois soluçou nove vezes violentamente. O Doutor arrumou cuidadosamente seus volumosos papéis em uma pasta marrom gasta e levantou-se com um esforço.
“Você me desculpará agora se eu lhe desejar boa noite? Meu médico tornou-se um tanto arbitrário na regulação dos meus horários. Mantenha sua coragem, meu rapaz; aquela coragem que ‘desdenha curvar-se a meios vis para um fim sórdido’. Admiro o caminho que você tomou, admiro você. Boa noite a ambos.”
Eles observaram-no partir, com sua figura alta e curvada, e seus olhos finos e sérios que viam a vida apenas através do meio entorpecente dos livros. Então, olharam um para o outro.
“Vou chamar a Connie”, disse a Srta. Lady, movendo-se para a porta.
“Só um minuto, por favor.”
Ela voltou relutante e ficou de pé com as mãos cruzadas no encosto de uma cadeira, respirando rapidamente.
“Você se lembra”, perguntou Donald, parado na frente dela e falando com uma voz baixa e tensa, “da última vez que estivemos nesta sala, e das promessas que fiz a você? Bem, eu as cumpri. Lutei como um diabo... Você não sabe o que isso significa, você não pode saber. Mas eu as cumpri. Agora quero lhe dizer que tenho que quebrar o ritmo. Você tem razão sobre o dinheiro das ações do banco. Não é meu. Vou devolvê-lo amanhã. Mas mais dinheiro tem que vir de algum lugar para continuar com o julgamento. Só consigo pensar em uma chance. Tenho que inscrever Lickety Split para o Derby.”
“Não, você não tem! Existem outras maneiras. Você deve ir trabalhar.”
“Trabalhar!” ele explodiu ferozmente. “Não tenho tentado conseguir um emprego desde que voltei para casa? Quem quer se associar a mim até que este caso maldito seja decidido? Tenho tentado escrever, mas as minhas coisas voltam mais rápido do que eu consigo enviá-las. Para que sirvo? Uma partida de bilhar, cento e vinte quilômetros por hora em um automóvel, uma farra com qualquer ocioso que apareça no clube. Bah! Estou farto de ter pessoas me tratando com condescendência porque não estou no jogo, porque nunca ganhei um centavo, exceto jogando, em toda a minha vida!”
“Mas isso tudo ficou para trás, Don! Você tem o resto da sua vida para viver de forma diferente. Quando o caso for decidido...”
“Sim, e suponha que corra contra mim? Já aconteceu antes, pode acontecer de novo. Falar em justiça e verdade! Não consegui encontrá-las. Já tive o bastante dessa coisa gloriosa chamada vida; estou pronto para desistir.”
“Você não pode desistir, Don!” Ela disse isso suavemente, com a luz da lareira ruborizando seu rosto ansioso e solícito. “Você não supõe que todos nós queremos desistir às vezes? Só precisamos recuperar o fôlego, retomar nossa coragem e lutar. Eu mesma estou em apuros, esta noite, Don. Você vai me ajudar?”
Os olhos dele voaram para os dela enquanto ele se ajoelhava parcialmente na cadeira diante dela.
“Eu vendi Thornwood”, continuou ela, com os lábios trêmulos. “Mal consigo falar sobre isso, ainda agora. Sinto-me como uma traidora do papai, de todos os Carsey que já viveram aqui, de mim mesma! Você sabe o que este lugar significa para mim. Acredito que morreria se visse mais alguém vivendo aqui! Não sei quem comprou, não quero saber. Tudo o que sei é que tenho estado perfeitamente infeliz a cada hora desde que assinei o papel, até agora pouco, quando o Doutor ofereceu lhe emprestar o dinheiro. Oh! Don, se eu pensasse que vender Thornwood significava que poderíamos ajudar a limpar seu nome, nunca haveria outro instante de arrependimento! Você vai nos deixar ajudá-lo?”
Ele ergueu a mão como se para evitar um golpe: “Não”, disse ele asperamente. “Não posso aceitar sua ajuda. Não posso nem aceitar sua amizade, ou a do Doutor. Você não vê que estou passando pelo inferno? Você não sabe que eu amo você?”
A cor deixou seu rosto, e seus olhos vacilaram por um momento, depois se firmaram.
“Você nunca deve dizer isso de novo, Don! Você deve tentar não pensar nisso. Vou perdoá-lo porque quero que me perdoe por algo. Você sabe da carta que me enviou de São Francisco? Eu a queimei, sem abrir, exatamente onde você está parado agora. Foi uma coisa covarde de se fazer, embora eu achasse que você estava errado. Se eu soubesse a verdade, nunca teria ficado em silêncio todos esses meses. Foi um grande erro que cometi com você, Don; você pode me perdoar?”
Ele estudou o rosto dela, como se quisesse, pela pura intensidade, sondar aqueles olhos luminosos que diziam tudo e nada. Por fim, sua cabeça caiu.
“Fui um tolo por pensar que você se importava”, disse ele, com a voz embargada; “eu sabia que não era bom o suficiente para você. Eu sabia desde o início, mas tentei. Devo continuar tentando por sua causa?”
“Não, Don, não por minha causa. Pela sua própria, e pela causa da garota que você um dia fará sua esposa. Mas quero que você se lembre de que me sentirei responsável pelo que acontecer com você. Se você desistir da luta e voltar para a velha vida, saberei que foi porque falhei com você; se você tiver sucesso, como acredito que terá, serei sempre feliz em saber que tive uma pequena participação nisso. Diremos boa noite?”
Ele tomou a mão que ela lhe ofereceu e seguiu-se um daqueles silêncios que, uma vez ocorridos entre um homem e uma mulher, são lembrados acima de todas as palavras ditas, um silêncio no qual todas as barreiras caem e a alma fala à alma. Era como uma grande harmonia vibrando com coisas belas não ditas.
Ele a deixou parada sob a luz da lareira, com os olhos brilhando estranhamente em seu rosto, de resto, passivo. Ele fechou a porta resolutamente diante da luz e do calor da sala acolhedora e alegre, e, ao sair para a estrada, dirigiu seus passos, miserável, em direção à grandeza vazia da mansão cujo telhado com torres e frontões rompia a linha do horizonte no topo da Colina.
CAPÍTULO XXIII
Em dois dos mais sombrios e sujos quartinhos nas mais sujas e sombrias das ruazinhas que balançam nas extremidades soltas do pátio do tribunal, o Sr. Gooch tinha seu escritório. Era um lugar pequeno e escuro que não sugeria nada mais do que uma cesta de papéis transbordando. Papéis espalhavam-se pela mesa e saíam de cada repartição da velha escrivaninha; papéis jaziam em pilhas ao longo das estantes de livros e estufavam de envelopes gordos sobre a prateleira da lareira. Acima, abaixo e por toda parte jazia a poeira imperturbada de meses.
No canto, reduzido a um crepúsculo perpétuo pela proximidade do muro da cadeia adjacente, Noah Wicker sentava-se em seu banco alto e, com a ajuda de uma luz oscilante solitária, extraía pedaços de saber jurídico das minas de sabedoria ao seu redor. Para alguém que não via Noah desde seus primeiros dias de advocacia, ele apresentava uma aparência desconhecida. Seus pés, ainda enganchados desajeitadamente sob o travessão do banco, estavam calçados com sapatos de couro envernizado de um estilo tão pronunciado que o deixavam levemente com os pés voltados para dentro. Suas roupas eram do corte mais aprovado, e suas meias refletiam o tom de sua gravata.
Apenas seu cabelo lembrava o jovem do interior que surgira da faculdade de direito pouco tempo antes, com roupas compradas prontas e botas que rangiam. Uma mecha frontal que foi assiduamente incentivada a ficar em pé por muitos anos não está inclinada a se abaixar ao primeiro capricho de seu dono. Atingiu uma idade de independência e tende a insistir em seus direitos.
Noah, sozinho no escritório em um dia de primavera, tirou furtivamente de sua mesa um pequeno objeto, que segurou na palma de sua mão larga e estudou minuciosamente. Quando os raios da elétrica oscilante aconteciam de atingi-lo, ele enviava pontos de luz dançando no teto encardido. Pois Noah estava ficando ansioso com seu topete e não conseguia evitar examiná-lo em intervalos frequentes. Todos os expedientes foram utilizados, da cirurgia ao sabão, mas a mecha loira e rala o desafiava. Parecia a última barreira que se erguia entre ele e a vida cosmopolita.
Um passo leve nas escadas enviou o espelho para dentro da mesa e trouxe um olhar de concentração absorvida à sua testa expansiva.
“O Sr. Gooch está aqui?” perguntou Connie Queerington, enfiando um chapéu com plumas em seu campo de visão.
Noah desvencilhou-se do banco e veio à frente ansiosamente, mas parou quando percebeu que ela não estava sozinha.
“Entre, Gerald”, disse ela hospitaleiramente. “Você conhece o Sr. Wicker, não é? De qualquer forma, ele conhece você. Falei montes de coisas sobre você para ele, não falei, Sr. Wicker?”
Noah curvou-se gravemente e, após trazer cadeiras, retirou-se para sua mesa, em um estado de calma exterior e fúria interior.
Gerald Ivy espanou delicadamente a cadeira com seu lenço e sentou-se, apoiando um tornozelo envolto em seda sobre o joelho, para não expor mais de suas roupas do que o necessário à sujeira da morada do Sr. Gooch.
“Que incômodo ele não estar aqui!” disse Connie. “Eu poderia deixar o recado do papai, mas avisei para Hat me encontrar aqui. A que horas você tem que ir, Gerald?”
“Quatro horas”, disse Gerald, então, olhando para o relógio, “são apenas três e meia agora.”
“O relógio está atrasado”, anunciou Noah inesperadamente de seu canto.
Gerald removeu vagarosamente suas luvas. “O que importa meia hora quando posso passá-la com você? Eu estava indo encontrar a Mater na cadeia, onde ela tem pregado botões de rosa em seios arrependidos. Vamos, conte-me tudo sobre você!” Ele se inclinou para frente com os cotovelos nos joelhos e as mãos juntas, baixando a voz para um tom confidencial e trazendo toda a bateria de seus olhares para brincar sobre ela.
“Por que eu deveria?” perguntou Connie maliciosamente. “Você não chegou perto de mim desde que fui para o campo.”
“Qual era o objetivo? Você não poderia esperar que eu competisse com um herói que está fazendo um espetáculo tão grande quanto Morley. Entregando-se por um ato que diz que não cometeu, devolvendo dinheiro quando não precisa, indo trabalhar como repórter iniciante quando viveu como um lorde a vida toda! Não vejo como os empresários teatrais o ignoraram! Ele é do tipo de que são feitos os ídolos das matinês. Ele virou a cabeça de metade das garotas da cidade!”
“Ele virou a minha, sem dúvida”, disse Connie com complacência. “Sou louca por ele. E ele não está fazendo todas essas coisas para causar efeito também. Ele não é desse tipo. Não é, Sr. Wicker?”
Noah, assim subitamente apelado, foi forçado a responder honestamente que ele não era. Mas o fez com um solavanco de protesto do cotovelo, que enviou um tinteiro voando para o chão.
Gerald aproveitou o desastre para levar Connie até a janela.
“É terrivelmente solitário sem você”, sussurrou ele. “Quando você volta para casa?”
“Só Deus sabe!” disse Connie, colocando as mãos atrás de si para proteção. “Agora que outra pessoa alugou a casa da College Street e a Srta. Lady vendeu Thornwood, não sei o que será de nós.”
“Você não sente um pouquinho a minha falta?” perguntou Gerald, brincando com a bolsa de prata em seu pulso.
“Claro que sinto, bobo. Meu chapéu está reto? Eu gostaria de ter um espelho.”
Noah, ajoelhado no chão, limpando a tinta, estendeu a mão em direção à mesa e então parou.
“Eu serei seu espelho!” disse Gerald, apresentando seus olhos de uma maneira que apenas uma pessoa muito míope poderia ter aproveitado.
“O relógio da Prefeitura está batendo quatro horas”, disse Noah gravemente.
Mas o desejo de Noah de ter Connie só para si não seria gratificado. Assim que Gerald se foi, Hattie chegou, muito magra e angular, carregando uma pilha prodigiosa de livros escolares.
“Qual era o sentido de eu te encontrar aqui?” ela exigiu de Connie, não perdendo tempo com amenidades. “Você me fez perder o trem das quatro e dois e sair do meu caminho. O que você queria comigo?”
“Eu queria usar seu talão de passagens, querida”, disse Connie docemente. “Quanto tempo você acha que vai levar, Sr. Wicker, até o Sr. Gooch chegar?”
“A qualquer momento agora”, disse Noah, alisando o cabelo com um dedo sujo de tinta. “Eu... eu acho que o relógio está um pouco adiantado.” Então, enquanto Connie ria, ele puxou a parte superior de sua mesa e desapareceu atrás dela.
“Lugar abafado e velho!” disse Connie, vagando pela sala. “Se o Sr. Gooch não fosse tão mesquinho, ele teria mandado limpar.”
“Eu não chamaria de mesquinho um homem que doou uma biblioteca para a faculdade de direito”, objetou Hattie.
“Sim, e ele passou o resto da vida economizando cada centavo para se reembolsar por isso. Ele comeu cinquenta e dois jantares por ano em nossa casa durante dez anos, isso são quinhentos e vinte jantares, e ele nunca nos pagou nem um sundae de chocolate!”
“Não acho que seja mesquinho ser econômico”, disse Hattie com seu ar mais superior.
Noah, que estava de frente para a porta aberta, de repente começou a fazer gestos estranhos e apelos violentos por silêncio, mas as garotas estavam em uma discussão antiga e não o viram.
“Além disso”, Connie dizia conclusivamente, “ele trapaceia no baralho; você sabe que ele trapaceia.”
“Apenas no paciência. Não vejo razão para que ele não trapaceie sozinho se quiser. Ele é gente boa, mesmo que seja estranho, e acho que você deveria ter vergonha de falar dele do jeito que fala!”
“Como vai, Harriet?” disse o Sr. Gooch secamente, entrando pela sala externa e não olhando para Connie. “Um recado de seu pai?”
Connie deslizou o bilhete para a mão de Hattie e refugiou-se com Noah atrás da parte superior da mesa.
“Ele ouviu?” sussurrou ela histericamente. Então, sem esperar por uma resposta, ela saltou sobre um objeto na mesa. “Isso é um espelho?”
Noah produziu-o envergonhado.
“Segure para mim”, ordenou ela. “Não tão longe. Assim!”
Estar ali atrás da mesa segurando seu pequeno espelho para ela passar pó no nariz parecia para Noah a apoteose do romance.
“Muito?” perguntou ela, inclinando o rosto para inspeção. “E meu chapéu está certo? Quero estar o melhor possível, porque você sabe, posso encontrar Donald Morley na escadaria.”
Ela evidentemente não ficou desapontada, pois Noah, parado na janela esperando capturar o último tremular de sua pluma enquanto ela passava pela rua, teve que esperar cinco minutos agonizantes, ao final dos quais Don falou com ele da porta.
“Olá, Wick. O Sr. Gooch está aqui?”
“Ele estava há um minuto.”
“Ele vai voltar?”
“Não sei, certamente.”
Noah deu as respostas em um tom que desencorajava mais conversas, e Donald, após um olhar agudo para ele, encolheu os ombros e pegou um livro. Ele não teve que esperar muito antes que o Sr. Gooch retornasse.
“Estive telefonando pela cidade toda à sua procura”, disse o advogado irritado. “É verdade este boato de que você comprou de volta suas ações do banco?”
“É. Era a única coisa honesta que eu podia fazer.”
“De jeito nenhum”, reclamou o Sr. Gooch, que se tornava apaixonadamente apegado à opinião contrária no momento em que constatava a sua. “Foi um curso muito quixotesco, muito imprudente de se tomar. Suponho que você saiba da responsabilidade dupla?”
“Sim, eu sei”, disparou Donald impacientemente.
“Você é singularmente afortunado, Sr. Morley, por ser capaz de se entregar a esses caprichos magnânimos. Seus recursos, presumo...”
“Meus recursos consistem em um pedaço de terra e um par de cavalos de corrida. É praticamente tudo o que resta.”
“O terreno?” O Sr. Gooch parecia encorajado. “Propriedade urbana?”
“Não, é uma fazenda.”
“Onde?”
“Na Cane Run Road.”
A cabeça de Noah apareceu acima da mesa pela primeira vez durante a conversa e ele parecia surpreso, como se tivesse feito uma descoberta.
“Adjacente à propriedade de sua irmã, imagino?” continuou o Sr. Gooch. “Isso é bom, muito bom. Isso deveria resultar em...?”
“Não está à venda”, disse Donald bruscamente.
O Sr. Gooch, que havia emergido até a borda de sua concha, prontamente entrou novamente.
“Veja, Sr. Gooch”, disse Donald, inclinando-se para frente e falando seriamente, “quando você assumiu este caso, eu não precisava pensar no lado financeiro. Eu queria colocar o assunto em ordem e não me importava a mínima com quanto custaria. Desde então, as coisas mudaram. Acho justo dizer-lhe que, depois de vender meus cavalos e acertar as coisas, não sobrará mais do que mil dólares. Isso cobrirá seus honorários?”
O Sr. Gooch ficou visivelmente ofendido. “Não é meu costume, senhor, nomear uma quantia antecipadamente. Há muito trabalho neste caso, de natureza muito irritante. Poderíamos tentar ficar abaixo da quantia estipulada e, em uma emergência, é claro que você poderia vender o terreno.”
“Não”, disse Donald, “eu não vou vendê-lo. E preciso saber hoje quais serão seus termos. Conseguir trabalho no Herald-Post como correspondente temporário na Capital. Vou para lá amanhã e provavelmente ficarei até que meu caso seja chamado. Gostaria de ter sua resposta definitiva imediatamente.”
“Bem, eu não queria o caso no início”, disse o Sr. Gooch. “É o tipo de coisa de que não gosto. Talvez eu consiga terminá-lo por mil dólares, mas não sei se gostaria de me comprometer.”
“Muito bem”, disse Donald, levantando-se com ânimo. “Isso significa que terei que arranjar outro advogado.”
“Você estará cometendo um erro”, disse o Sr. Gooch, torcendo seus pequenos traços em um nó rígido e observando Donald de perto. “É um grande risco mudar de advogado no meio de um caso. Há muito em jogo. Você não deveria recuar em uma questão de dinheiro em um momento crítico como este.”
“Meu Deus, homem! Não estou recuando em uma questão de dinheiro! Eu daria tudo o que tinha se fosse um milhão. Você supõe que eu teria aceitado um emprego em Frankfort por dez dólares por semana se tivesse algum dinheiro?”
“Mas você ainda detém propriedade!”
“Detenho, Sr. Gooch, e por razões que você nunca entenderia, continuarei detendo. Bom dia.”
“Espere um minuto!” Noah Wicker desdobrou-se em seções e pôs-se de pé.
“Suponha que você me deixe assumir seu caso.”
Donald e o Sr. Gooch olharam para ele com igual espanto.
“Não tive muita experiência”, continuou Noah lenta e gravemente. “Eu nem sabia que um advogado respeitável poderia abandonar um caso no meio quando um cliente perde seu dinheiro. Tenho muito a aprender. Mas conheço este caso de ponta a ponta e conheço você, Don Morley. Se não puder absolvê-lo com ou sem dinheiro, é melhor eu desistir da advocacia aqui e agora. Você acha que estaria disposto a confiar em mim?”
Donald hesitou por um momento, olhando do rosto honesto e simples de Noah para o rosto debochado do Sr. Gooch, então tomou uma decisão.
“Fechado, Wick! E os honorários...”
Noah estendeu a mão, cuja largura da palma já foi comentada.
“Que os honorários se danem”, disse ele arrastado.
CAPÍTULO XXIV
Donald Morley empacotou seus poucos pertences e partiu em sua pequena missão para o Herald-Post com uma determinação digna de uma causa maior. A remuneração era menor do que ele costumava pagar ao seu cavalariço, mas a incapacidade de conseguir uma posição, juntamente com uma conta bancária esgotada, tinham temperado seu espírito, e ele estava pronto para agarrar qualquer coisa que lhe desse uma chance de justificar a crença de seus amigos.
Quando chegou pela primeira vez à cidadezinha sonolenta onde o estado realizava seus negócios, alugou dois quartos no hotel. Mais tarde mudou-se para uma pensão e, ao final da terceira semana, estava em um quarto pequeno e vazio em um prédio comercial, comendo seus cafés da manhã na estação, seus almoços em um restaurante e seus jantares no hotel. Pois, em sua determinação de se ajustar ao mundo, ele conseguiu se desfazer de quase tudo o que tinha, exceto mil dólares que depositara secretamente na conta de Noah.
No início, a pobreza era uma novidade um tanto divertida; servia para manter sua mente longe daqueles terrores perseguidores que preenchiam seu horizonte. Pela primeira vez na vida, ele estava economizando com um propósito. Mas fazer com que a despesa habitual de um dia se estenda por uma semana exige previsão e julgamento, qualidades que Donald não possuía. Ele contava em aumentar a pequena quantia recebida do Herald-Post escrevendo artigos de destaque para outros jornais, mas seus esforços tiveram pouco sucesso. Em vão, ele organizou seu artigo seguindo o plano exato estabelecido por Cropsie Decker. Ele recortou, colou e fixou, pesquisou estatísticas, verificou declarações e impiedosamente eliminou cada pequeno capricho errante que ousava intrudir na companhia solene dos fatos. Mas seus esforços, quando terminados, tinham a mesma relação com os de Cropsie que uma pilha de tijolos tem com uma casa.
Apenas uma vez ele deixou de lado Cropsie e sua literatura de colo e seguiu seu próprio impulso. Foi após sua primeira visita aos Queeringtons, quando o Doutor o aconselhou a escolher um tema agradável e deixar sua fantasia correr solta. Uma palavra de encorajamento era tudo de que ele precisava para começar uma série de contos que queimavam por serem expressos desde que ele deixara a Índia. Eram as aventuras relatadas a ele por seu criado muçulmano, Khalil Samad, que se sentava sobre os calcanhares muitas noites antes do fogo do jovem sahib e tecia histórias de variedade maravilhosa. Donald só precisava fechar os olhos para ver o rosto perspicaz e sutil encimado por seu enorme turbante branco e ouvir a torrente de inglês pitoresco e quebrado que fluía dos lábios de um dos poucos muçulmanos na Índia que podia xingar os vários nativos em seu próprio vernáculo desde o Passo Khyber até Trichinopoli.
Mas a história das aventuras de Khalil, tendo sido lançada em águas desconhecidas, ainda não havia dado notícias, e Donald retornou pacientemente aos seus artigos, forçando-se a ater à realidade e sentindo o tédio que apenas uma pessoa com imaginação criativa pode sentir diante da verdade nua e crua.
Seu único consolo naqueles dias era o fato de que Miss Lady não teria que abrir mão de Thornwood. Por meio de um agente, ele arrendara o lugar aos Queeringtons pelos dois anos seguintes por uma quantia absurdamente baixa, e o pensamento dela em meio ao seu amado ambiente ajudava muito a reconciliá-lo com a escassez do seu próprio.
Seu quarto pequeno e sombrio ostentava apenas uma cama de ferro e um lavatório; o restante do espaço no chão era ocupado principalmente por seu imponente baú de viagem com ferragens de latão, coberto por etiquetas estrangeiras. Na prateleira empoeirada sobre o lavatório havia uma coleção incongruente de artigos de toucador de prata com monogramas; ao longo da parede corria um dado de sapatos, enquanto do cano de gás pendia um pesado molho de gravatas. O principal inconveniente de ser pobre, Donald decidira, era não saber o que fazer com as próprias coisas.
Não eram apenas suas coisas, contudo, que ele achava difícil de organizar. Por um determinado número de horas por dia, um homem pode se obrigar à tarefa de sentar-se a uma pequena mesa de pinho, cobrindo blocos amarelos com palavras que provavelmente nunca seriam lidas, mas, após um período longo demais, a natureza tende a rebelar-se. Nessas horas, Donald enfurecia-se como um leão enjaulado. Sua mente voava involuntariamente para a possibilidade de que aquele confinamento fosse apenas um prelúdio daquele que o aguardava, caso a reaudição não fosse concedida. Desde o início, ele se recusara a considerar a possibilidade de uma condenação; ele era inocente, ele seria absolvido. Mas, à medida que os dias se arrastavam, uma sombra começou a seguir seus passos e a sentar-se ao pé de sua cama à noite, sorrindo para ele através das barras de ferro.
Se houvesse um amigo a quem ele pudesse recorrer durante aqueles dias, ele poderia ter sido poupado de algumas das horas de angústia que suportou, mas seu orgulho fora ferido profundamente, e ele evitava ver qualquer pessoa que o conhecesse ou à sua família. Cropsie Decker poderia tê-lo ajudado, mas Cropsie estava no México. Para Noah Wicker, ele deixara de ser um indivíduo; tornara-se um cliente, um primeiro cliente, e as personalidades submergiam em abstrações. O único lugar onde ele poderia ter encontrado simpatia e compreensão era em Thornwood, cuja porta hospitaleira ele havia fechado resolutamente com a própria mão. Se ele pensava que as profundezas da solidão haviam sido sondadas lá no Oriente, agora ele aprendia que é apenas em seu próprio país, entre seu próprio povo, que o prumo toca o fundo.
No dia anterior ao da apresentação do caso, Noah veio da cidade, e mais uma vez eles repassaram cada detalhe cansativo e familiar. Quando a noite chegou, Donald estava em um estado de abatimento profundo. Meia dúzia de noites sem dormir e a devolução de vários artigos não ajudaram a clarear a situação, e quando Noah aceitou um convite do Juiz para jantar com ele, Donald sentiu que fora abandonado à sua própria sorte.
O crepúsculo se aproximava, o tipo que não tem começo nem fim, um crepúsculo úmido, cinzento e saturante que sufoca a alma em uma névoa de tristeza e relaxa todas as fibras morais. Donald foi até sua pequena janela e olhou para fora. A rua abaixo estava deserta, exceto por um ou outro carruagem surrada, espirrando lama a caminho da estação. Em longos intervalos, um guarda-chuva passava, e uma vez uma manada de gado passou pesadamente, conduzida por um rapaz montado em uma mula. Donald puxou a cortina selvagemente e acendeu o único bico de gás.
Em uma revista que ele apanhou, havia um artigo gráfico sobre o trabalho infantil nas minas, com fotos de crianças esfarrapadas e emaciadas que passavam a vida no subsolo, respirando ar viciado e tornando-se atrofiadas no corpo e na alma. Ele jogou o livro longe e apoiou a cabeça sobre os braços. A vida parecia uma máquina grande e inexorável, anulando a aspiração humana, o esforço humano. Qual era o sentido de lutar contra ela? Qual era o sentido de acreditar em uma ordem divina, em tal caos infernal?
Incapaz de suportar sua própria companhia por mais tempo, ele pegou seu chapéu e partiu para o hotel. Ele estava em um estado de espírito imprudente e desesperado, pronto para buscar diversão onde a encontrasse, e, como é comum em tais casos, a diversão veio ao seu encontro.
O pequeno escritório do hotel estava em um espasmo de atividade; sinos tocavam, portas batiam e hóspedes chegavam. O grupo de ociosos que geralmente se sentava de frente para a lareira, criticando os procedimentos diários da legislatura, agora estava em um semicírculo de costas para ela, observando os recém-chegados.
“É uma companhia teatral”, explicou um dos membros volúveis da multidão a Donald; “o grupo mais animado que tivemos em meses. Aquela é a estrela conversando com o sujeito de terno xadrez. Uma vencedora, não é?”
O objeto deste comentário, tendo acabado de contar uma história que arrancou uma rodada de risadas, virou-se despreocupadamente e varreu a sala com um olhar brilhante e experiente. O holofote passou pelo porteiro e pelos mensageiros, pelo recepcionista obsequioso no balcão, pelo semicírculo de admiradores na lareira e fez uma pausa audaciosa quando alcançou Donald Morley.
Ele estava acendendo um cigarro naquele momento e apresentava uma aparência de colossal indiferença a todas as estrelas, terrestres e celestiais. Mas, quando jogou o palito de fósforo na lareira aberta, ele caminhou nonchalant até o balcão e olhou para o registro.
Lá estava a assinatura elegante, a tinta ainda úmida no floreio:
“La Florine.”
Era a antiga paixão de Cropsie Decker, “A Serpente do Nilo”, a quem ele vira pela última vez equilibrada na rolha de uma garrafa de champanhe em um cartaz em Billy-goat Hill! Sem olhar para cima, ele percebeu que os mesmos olhos travessos que haviam espiado através dos dedos enluvados de preto no cartaz, estavam observando-o agora com o maior interesse. Eles o seguiram pela sala, riram dele sobre o ombro do homem de terno xadrez, lançaram um desafio a seus pés e o desafiaram a pegá-lo.
Donald observou-a com fascínio crescente. Era bom apenas estar perto de algo tão descuidado, alegre e irresponsável. Ele também, outrora, equilibrou-se na ponta dos pés na borda perigosa das coisas e riu com desafio na cara do Destino. Por que ele não deveria fazê-lo novamente? Um homem prestes a ser enforcado recebe um último bom jantar; por que ele não deveria se permitir mais um bom momento antes que o dado fosse lançado no dia seguinte?
Bastaria apresentar seu cartão e mencionar Cropsie Decker, e o resto seria fácil. Ele tinha dinheiro suficiente para pagar um ingresso de teatro e uma ceia aconchegante depois. Mas e as flores?
Ele enfiou a mão ansiosamente no bolso em uma missão de investigação. Ao fazê-lo, seus dedos encontraram um objeto pequeno e duro que ele retirou e olhou com curiosidade. Era o fruto seco de uma rosa silvestre, que fora transferido de bolso em bolso desde o dia em que ousara florescer antes da hora, em uma fresta do muro de pedra que cercava o jardim em Thornwood. O toque daquilo trouxe de volta uma velha rede de barril sob os lilases, e os olhos brilhantes de uma garota, elevados aos seus com um olhar de confiança inocente.
Sem outro olhar para “A Serpente do Nilo”, ele levantou a gola do casaco, puxou o chapéu sobre os olhos e mergulhou na rua úmida e sombria. Por horas ele caminhou, sem saber nem se importar para onde ia. Ele estava travando a luta mais difícil que um homem é chamado a travar, a luta contra si mesmo, sem recompensa à vista.
Quando voltou ao seu quarto, exausto e desalinhado às nove horas, encontrou duas cartas sob sua porta. Uma, um envelope com bordas pretas endereçado na letra familiar de Connie, ele enfiou no bolso, sorrindo apesar de si mesmo ao lembrar da papelaria barata de Miss Lady. A outra, um envelope longo e volumoso, ostentando o selo de uma revista bem conhecida, fez com que ele se sentasse mole sobre seu baú de viagem e olhasse para ele miseravelmente.
Sua estimada história voltara finalmente! A possibilidade de ser aceita fora a única esperança à qual ele se apegara durante muitas horas desesperadas. Nela, ele pela primeira vez ousara dizer as coisas que sentia, aventurar-se corajosamente na terra do romance que até então contornara cautelosamente. Dezenas de outros contos semelhantes fervilhavam em seu cérebro, apenas esperando para saber o destino daquele. E ele voltara! Era o melhor que ele tinha a oferecer, e seu melhor não era bom o suficiente! Ele olhou para a folha surrada e gasta, e para o anexo dobrado que sem dúvida expunha os arrependimentos presunçosos do editor; então, com um gesto impaciente, ele jogou o envelope e seu conteúdo na cesta de papéis, amaldiçoando a si mesmo e sua vaidade por pensar que poderia escrever, e os editores e sua vaidade por pensarem que poderiam julgar.
O anexo dobrado, enquanto isso, que estivera dentro do manuscrito, decidiu refutar a total depravação das coisas inanimadas e, em vez de cair com a face para baixo, caiu com a face para cima no topo da pilha. Foi assim que Donald Morley, carregando desesperadamente em seus aposentos limitados, viu de repente uma palavra que o fez agarrar a folha de papel e correr para a luz.
O editor, ao que parecia, lera a história com prazer genuíno. Khalil Samad era uma criação inteiramente nova, apresentada com uma originalidade e um humor absolutamente deliciosos. O único defeito da história era sua brevidade. Claro, a revista a aceitaria como estava, mas a opinião da redação era que, se o autor tivesse material para outras histórias de natureza semelhante, seria uma pena ele não elaborá-lo em um livro. Um romance com Khalil Samad como herói, se escrito com o mesmo charme desta primeira história, seria um sucesso indubitável. Esta era apenas uma sugestão, claro, e poderia não se alinhar aos outros planos literários do Sr. Morley. Em todo caso, o editor parabenizou-o pela originalidade de sua história e esperava publicá-la de uma forma ou de outra.
Donald leu a nota duas vezes antes de dominar seu conteúdo, então deu um suspiro prodigioso. Outras histórias de natureza semelhante? Ora, ele conhecia dezenas delas! Khalil Samad fora seu único companheiro por dois meses, e a ocupação principal de Khalil fora falar de si mesmo e de suas escapadas. Donald conhecia os principais incidentes de sua carreira dramática desde o tempo em que fora roubado por um bandido bengali e vendido para o matrimônio aos dez anos de idade, até o dia em que fizera um salamaleque de despedida chorosa do cais em Bombaim.
Sim, certamente, a escrita do romance se alinhava aos planos literários do Sr. Morley. Mas e quanto aos seus outros planos? Ele se conteve subitamente. Como ele poderia saber o que vinte e quatro horas poderiam trazer? E se, por algum erro terrível, ele não recebesse uma nova audiência? Mas Noah Wicker estava confiante. Ele descobrira um ponto no julgamento anterior que era tecnicamente inadmissível. Uma testemunha fora autorizada a fazer uma declaração apesar da objeção do Sr. Gooch, e Noah tivera sucesso em encontrar uma decisão anterior que o fazia acreditar que uma reversão era praticamente certa.
De alguma forma, desde que sua história fora aceita, Donald achou muito mais fácil compartilhar a confiança de Noah. Ondas de coragem renovada o invadiram. Talvez, afinal, ele fosse capaz de fazer algo que valesse a pena no mundo! Ele trabalharia como um troiano, ele começaria esta noite.
Ele pegou caneta e papel, mas o desejo de compartilhar suas boas notícias o levou a escrever cartas em vez de ficção. Ele queria contar a Miss Lady, ele queria contar ao Doutor. Ele queria paralisar Cropsie Decker! Então pensou em Noah e, enfiando a nota do editor no bolso, saiu apressado descendo os degraus e atravessando para o hotel.
Noah fora para a cama, mas foi retirado sem cerimônia.
“Leia isso!” gritou Don, enfiando a mão no bolso e puxando um envelope.
“Não está aberto”, disse Noah, bocejando; então, reconhecendo a letra de Connie Queerington, ele despertou subitamente.
“Droga! Esse é o errado”, disse Donald, mergulhando para pegar a outra nota. “Aqui está! Contemple um autor promissor, Wick! Escrevi algumas coisas que dizem valer a pena. Eles querem mais!”
Noah leu a nota, depois a devolveu calmamente.
“É encorajador, parabéns”, observou ele laconicamente.
O rosto de Donald nublou-se, depois clareou, e ele deu um passo à frente impulsivamente:
“Veja bem, Wick”, disse ele, “você acha que estou invadindo seu território. Não estou. Essa é a primeira carta que recebo de Connie em semanas. Não lhe escrevi uma linha desde que saí de casa, mas ela gosta de me manter na coleira. Ela apenas brinca com Ivy e comigo para manter a prática. Não ligue para nenhum de nós dois. Siga em frente e vença.”
“Ah, estou seguindo em frente, tudo bem”, disse Noah obstinadamente, “mas não parece que tenho muitas chances com o resto de vocês.”
“Bobagem, homem! Pense na sua cabeça! O Senhor o dotou com mais cérebros do que a maioria de nós termina a vida. O Juiz disse esta manhã que você conhece mais a lei comum do que qualquer jovem advogado que ele possa imaginar.”
“Sim, mas o conhecimento da lei comum não ganhará este processo. Ela nunca olhará para mim, Donald, exceto como um último recurso. Ela me acha um caipira pesado e desajeitado, e acho que ela está certa.”
Ele pairava ali em seu pijama azul dois tamanhos menor, com o cabelo em pé e suas mãos grandes agarrando o encosto da cadeira. “Eu não conheço o jogo”, continuou ele, impotente. “Vocês, rapazes, levam a melhor enquanto eu decido o que jogar. Ela é demais para mim. Vocês todos são demais para mim, mas não vou jogar a toalha, não ainda.”
Donald levantou-se do pé da cama onde estivera sentado e segurou Noah pelos ombros.
“Você trabalhou como um cão no meu caso, velho amigo. Que tal me deixar cuidar do seu?”
“Como assim?”
“Você diz que não conhece as regras do jogo. Eu as conheço de trás para frente e de cabeça para baixo. Deixe-me jogar esta mão por você com Connie Queerington, e você tem tudo para vencer.”
“Mas... mas você?”
“Pelos céus, homem! Você acha que se significasse algo para mim eu teria esquecido de ler a carta dela todo esse tempo? Não, eu acabei com esse tipo de coisa.” Ele virou a cabeça abruptamente e seu rosto escureceu. “Nunca houve senão uma corrida para mim que valesse a pena correr, e eu fui deixado na largada.”
“Talvez a Srta. Connie...”
“Goste de mim? É claro que gosta. E eu gosto dela tremendamente. É assim que vou ajudá-lo. Deixe comigo, Wick. Deixe-me escrever todas as cartas que eu quiser para ela. Deixe-me contar sobre o sucesso que você está fazendo aqui, sobre como o Juiz está se afeiçoando a você e o Governador o convidando para jantar. Em suma, deixe-me dramatizar você, Wick; vou escrever-lhe uma peça em cinco atos com você como herói. Tudo o que você precisa fazer é aliviar o ritmo das suas cartas e manter-se fora da vista dela por um mês ou mais. Diga a ela que, contanto que você não possa ser nada mais para ela, você será um bom amigo. Connie odeia quando um homem é um amigo! Ela quer que ele seja um conhecido ou um amante. Você saiu da primeira classe, e ela nunca o deixará em paz até que o traga de volta para a terceira.”
Noah esfregou a testa massiva e confusa. “É complicado demais para mim”, disse ele; “acho que terei que aceitar seus serviços.”
Naquela noite, Donald trabalhou até as primeiras horas da manhã, delineando ansiosamente os capítulos de seu novo livro. Estava tão absorvido que, apenas quando endireitou as costas cansadas e começou a se preparar para dormir, lembrou-se de que ainda não lera a carta de Connie.
Era um rabisco borrado e incoerente.
“Querido primo Don”, leu ele, “não vejo como vou conseguir escrever, pois meus olhos estão quase saindo de tanto chorar, mas Miss Lady simplesmente não consegue fazer tudo, e alguém tem que contar aos parentes. Hattie deveria me ajudar, mas ela acha que tem que escrever para suas amigas íntimas primeiro, e ela tem cerca de uma dúzia. Você sabe como ela é odiosa.
“Bem, ele piorou na semana passada, o papai, quero dizer. Não posso entrar em detalhes, pois já contei para tantas pessoas agora que estou quase louca, e toda vez que repasso tudo, quase morro de tanto chorar. Ele não reconheceu nenhum de nós a noite toda ou esta manhã, exceto uma vez que chamou por Miss Lady e acariciou sua bochecha. No final, ele pareceu ficar mais forte e abriu os olhos e pediu seu manuscrito. Foi a coisa mais triste que você já viu no final, vê-lo tentando virar as páginas, com seus olhos pobres olhando para a parede, sem reconhecer nenhum de nós. Você verá sobre o funeral no jornal da manhã. Não vejo como vamos conseguir passar por isso.
“Sua prima amorosa,
“CONSTANCE QUEERINGTON.
“P. S. Por favor, diga ao Sr. Wicker... eu preferiria morrer a escrever outra carta.”
CAPÍTULO XXV
O verão que se seguiu à falência do People's Bank foi um daqueles verões intransigentes que chegam em maio e partem apenas com a última folha em outubro. O rio, diminuindo para um fluxo fraco, cambaleava entre margens distantes, e o campo jazia ressecado e ofegante sob um sol implacável.
Na cidade, Noah Wicker trabalhava laboriosamente em seu primeiro caso, que recebera uma nova audiência, marcada para seis de novembro. No Capitólio, Donald Morley sentava-se dia após dia, sem casaco, sem colarinho, nos confins tórridos de seu pequeno quarto, cobrindo furiosamente resmas de papel com uma caligrafia compacta. Em Thornwood, Miss Lady, que fora deixada no comando de um navio que afundava, lutava heroicamente para levá-lo ao porto.
Um dia, no início de julho, Myrtella Flathers sentou-se logo atrás da tela da porta da cozinha de verão, armada com um mata-moscas e um semblante de tristeza iminente. Ela estava evidentemente ensaiando um discurso, pois seus lábios moviam-se em curvas de escárnio, e seus cabelos pretos eriçados eram jogados em desafio. Mike, aventurando-se a sair de um canto sombreado e vislumbrando seu rosto, pensou que os comentários inaudíveis eram dirigidos a ele e retirou-se com pálpebras culpadas e cauda baixa para a lenha.
As reflexões amargas de Myrtella foram interrompidas pelo aparecimento de Miss Lady na varanda coberta de trepadeiras. Ela parecia absurdamente jovem em suas vestes de viúva, apesar do fato de sua cor ter desaparecido e seus olhos começarem a parecer grandes demais para seu rosto.
“Elas vieram para ficar uma semana!” anunciou ela, sentando-se exausta no degrau mais alto e lançando um olhar desesperado para as persianas fechadas do quarto de hóspedes acima. “E é sexta-feira, e o Sr. Gooch virá aqui para o jantar. Você vê como vamos conseguir aguentar?”
“Eu não vou!” declarou Myrtella, esmagando uma mosca até a eternidade com precisão mortal. “Estou farta e cansada de visitas. Não houve um dia nos três meses desde que o Doutor morreu em que não tivemos seus parentes em nossas mãos. É incrível como metade do mundo sente vontade de vagar todo verão e fica atormentando aqueles que ficam em casa. Quanto a essas velhas solteironas que vieram hoje, se tivessem olhos na cara, veriam que a senhora está completamente exausta. Eu não as teria convidado para ficar.”
“Mas eu tive que convidar. Elas são primas do Doutor. Disseram que vinham vê-lo todo verão há anos, e não querem perder o contato com as crianças.”
“Hum! As crianças não se importariam de não vê-las! A senhorita Hattie foi mandada para a cama uma vez por responder à altura daquela magra que quer pratos especiais e toda a água fervida. Aposto que ela vai pedir para a senhora trocar o colchão dela.”
“Já pediu. Foi isso que vim lhe contar, e ela quer o jantar uma hora mais cedo que o nosso. Mas não é isso que está me preocupando, Myrtella, tenho algo muito mais sério que a prima Emily para me preocupar.”
“A senhora não é exceção”, disse Myrtella, um tanto defensiva. “Problema é quase a única coisa que os ricos não têm monopólio. Eu já tive a minha cota; é um milagre que ainda me reste um fio de cabelo preto na cabeça!”
“O seu irmão perdeu o bom emprego dele?” perguntou a senhorita Lady.
“Phineas? Não, senhora. Ele está no Iselin's desde que saiu da casa da senhora Sequin, e, pelo que ele conta, é ele quem manda em todo o estabelecimento. Devo dizer que ele está se saindo melhor do que nunca, mas está cheio de frescuras como uma caixinha de música, e aquela tal de Maria, me tratando com condescendência como se eu não estivesse pagando o aluguel dela todos esses anos. Mas eu posso me virar sem eles. É o pequeno Chick que me preocupa.”
“O que há com o Chick?”
“O que há com ele?” Myrtella virou-se para ela ferozmente. “Tudo há com ele. Que chance ele tem no mundo? Catado de uma lata de lixo, vivendo na sujeira e na ignorância, bebendo a cerveja que vaza dos barris nos vagões de carga, andando pelos bares e ficando cada dia mais raquítico, mais estúpido e mais digno de pena. Meu Deus! Não é motivo suficiente?”
A simpatia rápida e ansiosa da senhorita Lady estampou-se em seu rosto.
“Precisamos fazer algo pelo Chick. O doutor Wyeth acredita que pode curá-lo se conseguirmos interná-lo no Hospital Infantil. Por que não podemos...” ela se conteve e ficou olhando para as colinas do outro lado do rio.
“Myrtella, preciso lhe contar uma coisa”, começou ela novamente, desesperada, “tentei lhe contar o dia todo, mas não sabia como. Você tem sido tão boa conosco, durante toda a doença do Doutor, e antes também. Mas receio que, depois deste mês, teremos que dispensá-la.”
Myrtella vinha ameaçando pedir demissão há um mês, mas, com esse anúncio, ela parecia ter sido vítima de uma eletrocussão mal-sucedida.
“É uma questão de dinheiro”, continuou a senhorita Lady apressada. “Veja, nós simplesmente não temos nada. Mantive o registro de cada centavo que entra e sai, exatamente como o senhor Gooch me disse para fazer; mas não fecha. Teremos apenas que continuar cortando as despesas até que feche.”
“E a senhora vai começar por mim”, disse Myrtella furiosa, “e trazer alguma negra ordinária que levará mais para casa em uma cesta do que o meu salário somaria!”
“Não, Myrtella; vamos tentar fazer o serviço nós mesmas.”
“A senhora quer dizer que vocês vão! E a senhorita Connie vai se arrumar toda e sair por aí na cidade atrás de pretendentes, e a senhorita Hattie vai ficar sentada por aí com o nariz enfiado em um livro, e a senhora vai continuar trabalhando, se escravizando e se matando de trabalhar por elas, e por aquela tribo de parentes aproveitadores delas. Onde está o dinheiro que a senhora conseguiu por esta fazenda?”
“Foi para pagar as dívidas e realizar os desejos do Doutor.”
“Sobre imprimir todos aqueles livros que ele escreveu de novo, e lançá-los com o mesmo tipo de capa?”
“Sim.”
“Quantos foram, ao todo?”
“Vinte.”
Myrtella comprimiu os lábios e, com dificuldade, conteve-se de fazer comentários. Por mais que o testamento do Doutor tivesse sido discutido em público, nenhuma crítica a ele era tolerada na presença da senhorita Lady.
“Quanto à sua partida”, disse ela, mudando de assunto enquanto Myrtella descarregava sua ira nas moscas, “você sabe que queria ir embora há meses. Foi apenas a sua bondade que a fez vir para cá conosco depois de ter economizado dinheiro suficiente para abrir sua pensão. Não temos lhe pago o suficiente, eu sei disso, e... e não temos o suficiente nem para continuar como estamos.”
Myrtella girou na porta, o rosto arroxeado de raiva:
“Se a senhora acha que eu vou embora e deixo vocês crianças nesta casa grande, fazendo a própria comida e deixando todo mundo passar por cima de vocês, a senhora está muito enganada! A senhorita Hattie teria indigestão em uma semana, e o Bertie pegaria crupe, e a senhora teria toda e qualquer Queerington que pudesse comprar uma passagem de trem vindo e se instalando aqui!”
“Mas o que podemos fazer, Myrtella? Eu lhe digo que o dinheiro está acabando!”
“Fazer? Eu direi o que podemos fazer. Podemos hospedar pessoas! Podemos encher os quartos com gente que paga pelo que come, e não haverá espaço para os aproveitadores gratuitos. A senhora arruma os hóspedes e eu cuido deles.”
“Ora, a senhora Ivy e Gerald queriam vir desse jeito, mas eu ri deles. Além disso, não sei quanto ao Gerald...”
“Por causa da senhorita Connie?” perguntou Myrtella, que tinha estado encarregada da família tempo demais para não conhecer seus segredos. “Deixe-o vir. Ele é um daqueles homens que são como essência de baunilha — se você pega demais uma vez, nunca mais quer!”
“E talvez o senhor Gooch viesse.”
“Bem, seria um pouco difícil para ele pagar por qualquer coisa que sempre conseguiu de graça. Mas peça à senhorita Hattie para convidá-lo. Ele faria isso por ela mais rápido do que por qualquer outra pessoa.”
O projeto, sob a hábil liderança de Myrtella, desenvolveu-se imediatamente. O senhor Gooch e os Ivy aproveitaram alegremente a oportunidade de fugir da cidade sufocante para a sombra fresca de Thornwood. Dois ex-alunos do Doutor, que faziam um curso de verão na universidade, também perguntaram se poderiam ter um quarto e, ao final de uma semana, os hóspedes pagantes estavam instalados e a família relegada a qualquer recanto ou canto que fosse grande o suficiente para acomodar uma cama.
Um problema foi inesperadamente resolvido pelo aparecimento do tio Jimpson, que anunciou que “tinha voltado para casa para ficar”. A distinção de sair diariamente em grandeza solitária para exercitar os cavalos dos Sequin tinha perdido o encanto para ele, e a perspectiva de levar os hóspedes dos Queerington de volta à estação e renovar sua intimidade com o velho John e o Mike provara ser irresistível.
A tia Caroline morrera no início da primavera, e o tio Jimpson achou até a companhia de Myrtella um alívio após sua solidão forçada. Ele ouvia com olhos arregalados e queixo caído os relatos dela sobre os últimos assassinatos e obedecia a qualquer ordem dela com uma vivacidade que teria espantado o velho Coronel.
“Estamos ajudando a senhorita Lady a começar”, ele dizia orgulhosamente repetidas vezes, “e então talvez ela se case mais um pouco.”
“Casar!” Myrtella explodia, “sim, ela deveria se casar com outro viúvo com três filhos e mil parentes. Além disso, com quem ela vai se casar?”
“Não há problema quanto a isso”, dizia o tio Jimpson sabiamente; “é só deixar ela dar uma espiadinha pelas persianas uma vez, e a senhora verá o que vai acontecer.”
“Bem, ela não vai espiar”, disse Myrtella firmemente. “Ela não tem um pensamento na cabeça a não ser educar a senhorita Hattie e o Bertie, manter a senhorita Connie na linha e cumprir aquele testamento tolo do Doutor.”
“Só espere”, insistia o tio Jimpson sorrindo, “aquela menina não pode evitar atrair pretendentes mais do que uma flor pode evitar as abelhas. E é o zangão real que está vindo desta vez, com certeza!”
CAPÍTULO XXVI
“Onde está a Connie? Onde está a Hat?” gritou a senhorita Lady ofegante, fazendo seu cavalo coberto de espuma parar em frente à varanda onde a senhora Ivy estava sentada ao crepúsculo. “Don Morley escreveu um livro e ele será publicado este mês!”
“Um livro!” ecoou a senhora Ivy incrédula, então,
“Ah, minha querida, desça desse animal cruel; não tive um momento de paz desde que o senhor Wicker o enviou!”
A senhorita Lady desceu ao chão e ficou com o braço em volta do pescoço de Prince, rindo. A emoção de sua longa cavalgada, a primeira em quase dois anos, ainda percorria seu corpo, e a notícia recém-recebida fazia seu coração dançar de alegria. A felicidade, apesar de seus esforços para não esperar por ela, começava a brilhar através das águas turbulentas, uma luz tênue e vacilante ainda, mas atraindo-a com um fascínio irresistível. Era algo para se guiar em tempos de estresse e tempestade, algo para se voltar trêmula, nas horas solitárias da noite, quando os músculos sobrecarregados se recusavam a relaxar e seu cérebro cansado doía com a piedade e a tristeza do mundo.
Durante sua longa cavalgada desta tarde, ela se atrevera pela primeira vez a dar rédea solta aos pensamentos que até então haviam sido mantidos sob controle. Certamente a vida era mais do que o negócio monótono, triste e sem amor do verão passado! Com todos os seus problemas e perplexidades, era, no entanto, uma coisa misteriosa e fascinante. Ela não aprovava, nem confiava inteiramente nela, mas estava incorrigivelmente apaixonada por ela — e estaria até o fim.
“Suponho que saiba que o jantar já acabou”, disse a senhora Ivy, com uma repreensão velada. “Não houve cartas para mim?”
“Oh, querida, que estúpida fui. Esqueci de verificar o resto da correspondência. Aqui está.”
A senhora Ivy separou seu próprio pacote de aparência oficial e, em seguida, examinou de perto os dois envelopes restantes.
“Como eu suspeitava”, disse ela com um levantamento significativo de sobrancelhas; “dois para Constance, com a mesma caligrafia e ambos com carimbo postal da Capital.”
“Mas o que tem isso, senhora Ivy?”
“Minha querida”, sussurrou a senhora Ivy, “não vê que são do senhor Morley?”
“Sim; mas eu também tenho um dele; ele está nos contando sobre seu livro.”
A senhora Ivy sorriu com uma superioridade triste, “Ah, minha querida, você não é uma chaperona muito sofisticada. Hesitei em falar com você antes, mas realmente acho que a atenção deste jovem para com Constance deveria ser interrompida. Não é justo com o pobre Gerald. Você sabe como ela sempre adorou meu filho, desde que usava aventais, e não me importo de confessar a você que a encorajei. É claro que o temperamento artístico de Gerald o tornou suscetível a muitas formas de beleza, mas ele tem sido realmente muito dedicado ultimamente. Simplesmente não suporto a ideia daquele senhor Morley interferindo no florescimento de seu amor de infância.”
“Mas senhora Ivy, ele... ele é primo dela; ele a vê como uma criança.”
“Ela é apenas um ano mais nova que você, minha querida, e muito mais vivida. Mantive meus olhos abertos e vi muitas coisas. Ela está ficando bem reservada e nem sempre é gentil com Gerald. O senhor Morley está por trás de tudo isso, você verá.”
“Não acho que haja perigo”, disse a senhorita Lady examinando criticamente a ponta do nariz de Prince.
“Ah, minha querida menina, você esteve ocupada demais nos últimos seis meses para notar. Pergunte ao senhor Wicker; ele falou com Gerald sobre isso na primavera passada. Pergunte ao próprio Gerald, ele está terrivelmente infeliz. E agora você a está ajudando a se preparar para ir à Capital visitar, e ele certamente a verá todos os dias. Devo dizer que acho de péssimo gosto ele cortejar qualquer garota nessas circunstâncias.”
Num instante, a senhorita Lady virou-se com olhos brilhantes:
“Os amigos de Donald sabem que ele não fez nada de que deva se envergonhar! Não acredito que ele pense na Connie da maneira que você quer dizer, mas, se ele pensa, ela tem todos os motivos para se orgulhar disso!”
E sem esperar por uma resposta, ela puxou as rédeas sobre o braço e marchou indignada para o estábulo.
A senhora Ivy suspirou, depois virou-se para se juntar ao senhor Gooch, que acabara de sair na varanda.
“Já lhe ocorreu”, disse ela como se enunciasse uma verdade até então não proferida, “como a juventude é relutante em aprender com a idade? Esta querida viúva que o bom Doutor deixou sob nossos cuidados está cometendo alguns erros graves.”
“Acho que ela se sai muito bem”, disse o senhor Gooch, acomodando-se confortavelmente; “a carne nem sempre é boa, mas as aves e os vegetais são ex-excelentes.”
O senhor Gooch falou com um calor incomum. A culinária de Myrtella, juntamente com a cortesia da senhorita Lady e a rígida propriedade que Hattie assumira sobre ele, estavam operando um milagre. Mesmo agora, enquanto sons de música e risadas vinham da sala de estar, ele parou para ouvir. Ele ficou surpreso ao descobrir que “Molly Darlings”, “Nellie Grays” e outras garotas musicais que ele deixara para trás ainda assombravam os corredores escuros de sua mente argumentativa e lhe proporcionavam pequenos arrepios de prazer.
“Ah”, ronronou a senhora Ivy, continuando a conversa. “Longe de mim criticá-la. É contra meus princípios ter uma atitude crítica em relação a qualquer pessoa. Além disso, eu adoro a querida menina. Considero-a um presente precioso para um mundo agradecido. Mas você deve reconhecer, senhor Gooch, que, com toda a sua doçura, ela nem sempre se deixa guiar.”
“Pelo amor de Deus, não”, disse o senhor Gooch irritado.
“Ela olha você diretamente nos olhos e sorri, enquanto você a está aconselhando, e então vai direto embora e faz o que bem entende. Essa questão do testamento do Doutor, por exemplo. Gastei dois dias discutindo com ela sobre a futilidade de publicar duas dúzias de volumes que ninguém jamais lerá.”
“Mas esse foi o pedido dele em seu leito de morte, senhor Gooch. Apenas alguém que amou e perdeu pode conhecer a natureza dessa obrigação.” O senhor Gooch fungou impacientemente. A felicidade conjugal era um assunto que o irritava em cada fibra.
“Então as caridades dela”, continuou ele de forma ríspida; “ela não tem dinheiro para jogar fora, mas toda família em Billy-goat Hill vem até ela quando se mete em problemas.”
“Sim, e ela não hesita em sentar naqueles casebres terríveis e pegar aqueles bebês imundos em seus braços. Isso me deixou terrivelmente nervosa desde que viemos para cá. Gerald é tão sensível a germes.”
“O que é essa última tolice sobre um jardim de infância?”
“Ora, ela realmente conseguiu que a senhora Bartrum, a senhora Horton e algumas daquelas outras mulheres da sociedade alugassem o salão acima da mercearia onde costumava ser o bar Cant-Pass-It. Eles vão abrir um jardim de infância e Margery Sequin está voltando da Europa para assumir a direção. Receio que o projeto esteja construído sobre a areia. Não há um membro de igreja no conselho!”
“Bem, eles não precisam vir a mim para uma contribuição”, disse o senhor Gooch. “Não acredito em jardins de infância.”
Enquanto essa conversa ocorria, uma conversa bem diferente estava em andamento na varanda lateral do andar de cima, que tinha sido convertida em um quarto de verão para a senhorita Lady e Bertie.
“Você acha”, Bert estava dizendo sonolento, “que Deus me daria uma trombeta em vez de uma harpa quando eu chegar ao céu, se eu pedisse a Ele?”
“Eu sei que Ele dará, Bert. Tire o seu outro sapato.”
“Por que Ele não deu ao Chick algo para dizer?”
“Ele deu, mas a garganta do Chick não deixa as palavras passarem. Saia das suas roupas agora, ande logo, Buddikin!”
Mas os pés de Bert estavam firmemente plantados, e seus olhos sonolentos fixos em reflexões filosóficas:
“Se Ele tinha todos os tipos de gargantas, não vejo por que Ele não deu ao Chick uma boa.”
Isso exigia esclarecimento, e a senhorita Lady tentou tornar o assunto claro enquanto tirava o menino de suas roupas.
“Você não vai me contar uma história?”
“Não esta noite, Bert. Estou tão cansada; todas as histórias acabaram.”
Bert rastejou para sua cama em silêncio e ficou observando as sombras na árvore grande lá fora.
“Eu queria que o primo Don estivesse aqui”, ele suspirou. “Ele nunca fica sem histórias. Quando ele vai voltar?”
“Não sei, querido. Feche os olhos agora e vá dormir.”
Ele fechou os olhos obedientemente, mas continuou a conversa sonolentamente,
“Ele sabe tudo sobre baleias e tigres, e navios grandes e elefantes. Ele... já... deu... a... volta... ao... mundo...”
Mas o homem dos sonhos tinha conquistado, e a senhorita Lady, tendo colocado um roupão e soltado o cabelo, caminhou na ponta dos pés até a extremidade da varanda e, sentada no parapeito, olhou fixamente para a escuridão que se acumulava. Por meia hora, os encantos tênues do crepúsculo estiveram presentes, transformando colinas e vales e unindo céu e terra em uma atmosfera terna e evasiva de sonhos. Mas seu rosto branco e absorto, e suas mãos tensas travadas ao redor dos joelhos, mostravam que ela não estava preocupada com a beleza da noite.
As palavras da senhora Ivy tinham acendido uma fogueira, à luz da qual eventos recentes saltaram à vista. Connie tinha sido reservada, não apenas sobre suas cartas, mas também sobre seus compromissos. Ela estava ficando cada dia mais indiferente a Gerald Ivy e desenvolvendo um gosto pela leitura que fora a causa de muitas suposições e provocações por parte da família.
Duas vezes durante o verão Donald viera a Thornwood e, em ambas as ocasiões, a senhorita Lady fora tomada por um medo irracional, não apenas dele, mas de si mesma. Ela o recebera sob a chaperonagem deprimente do senhor Gooch e da senhora Ivy, e lembrava-se agora de como Connie tomara posse dele em ambas as ocasiões. Mas mesmo que os afetos transitórios de Connie estivessem temporariamente ocupados, certamente Donald não a estava encorajando!
Um assobio baixo vindo do caminho lá embaixo a fez olhar para baixo. Era Connie, e ela estava andando com muita cautela, como se tentasse escapar de alguém.
“Senhorita Lady!” ela chamou suavemente. “A senhora não vai descer de novo?”
“Não, vou para a cama.”
“Não vá ainda. Estou subindo. Quero lhe contar uma coisa.”
Um momento depois, Connie abriu a porta e fechou-a cuidadosamente atrás de si.
“O Bertie está dormindo?”
“Sim.”
“Acabou tudo!” ela anunciou tragicamente. “Gerald e eu tivemos uma briga horrível, e ele jura que nunca viverá para ver outro amanhecer.”
“Claro que não viverá, duvido que ele tenha visto algum. Qual é o problema dele?”
“Tudo! Ele quer que eu me sente aos pés dele a cada hora do dia e o adore, e como posso adorar um homem que tem medo de um besouro, não sabe dirigir e dorme com um guarda-chuva sobre a cabeça para bloquear a luz? Simplesmente não suporto mais ele nem por um minuto!”
“Mas, Connie, você era tão louca por ele, você não ouvia uma palavra contra ele.”
“Eu sei. Fui uma pequena idiota perfeita.” Connie estava soluçando agora no ombro da senhorita Lady. “A primeira vez que o vi, ele tinha acabado de chegar da Europa. Ele estava tocando em um concerto. Todos diziam que ele era um gênio, e seus olhos eram tão maravilhosos, e eu nunca tinha visto ninguém como ele. Quanto mais ele me desprezava, mais louca por ele eu ficava. Só quando o primo Don voltou é que o vi como ele realmente é.”
A senhorita Lady acariciou os ombros trêmulos, mas não disse nada.
“E no exato minuto”, Connie continuou tempestuosamente, “em que comecei a sentir diferente, Gerald começou a gostar de mim. Ele se colocou em um estado terrível e não quer que eu saia de sua vista nem por um minuto. Sinto como se estivesse vivendo de chocolates há três meses!”
“Connie!” A senhorita Lady pegou o rosto manchado de lágrimas entre as mãos. “Estou feliz que não seja o Gerald. Estou feliz do fundo do meu coração, mas você tem certeza de que não é outra pessoa?”
Os olhos azuis de Connie, nunca muito firmes, desviaram-se inquietos, e a senhorita Lady continuou seriamente:
“Você tem certeza absoluta de que não está fazendo exatamente o que fez antes, ficando apaixonada e se fazendo infeliz por alguém que não se importa com você?”
“Mas ele se importa!” explodiu Connie indignada; “ele se importa comigo mais do que com qualquer pessoa no mundo!”
“Como você sabe?”
“Ele me disse! Pronto... eu não deveria ter contado! Jurei que não contaria até depois do julgamento. Mas a senhora não vai contar para ninguém, senhorita Lady? Promete que nem vai me pedir para lhe contar mais nada?”
A senhorita Lady olhou para ela de forma estranha.
“Eu sei que todo mundo vai desaprovar”, Connie continuou imprudentemente, “e dizer coisas horríveis sobre ele. Mas não me importo, contanto que a senhora me apoie. E a senhora vai, não vai?”
Duas vezes a senhorita Lady tentou falar antes que as palavras viessem, então:
“Sim”, sussurrou ela quase sem fôlego, “sim, prometo apoiá-la... e apoiá-lo.”
Depois que Connie partiu, ela voltou ao seu assento no corrimão e contemplou a noite que se aproximava. Pela primeira vez na vida, aquela imensidão sombria a aterrorizou. Os faróis pelos quais ela se guiara não estavam mais visíveis. O grande e solitário mar da vida estendia-se ao seu redor, e ela perdera o rumo.
“Papai!” ela sussurrou em terror, “Papai, ajude-me!”
Mas apenas o grito fraco de um bacurau no vale lá embaixo respondeu ao seu chamado. Um tremor a tomou e, tateando o caminho até a cama onde Bertie dormia, ela se enfiou ao lado dele, abraçando o corpinho macio e quente com força, e contendo os soluços para não acordá-lo. Muito tempo depois que o bacurau cessou seu lamento, ela permaneceu ali, encarando a escuridão, à espera do amanhecer.
CAPÍTULO XXVII
O sol de outono lutava palidamente através das janelas do Hospital Infantil e enviava um raio de luz sobre a cama alta e estreita onde Chick Flathers estava deitado, observando com desconfiança os procedimentos das enfermeiras. Ele não tinha certeza se fizera a coisa certa ao vir. Por dois dias, fora obrigado a ficar na cama e, naquela manhã, sofrera seu terceiro banho e fora privado do café da manhã. O fato de estar ali era meramente uma concessão à amizade. A sra. Queerington o convencera. Ele não teria vindo pelo Outro, aquele gordo que sorria e falava sobre o Terrível Lar dos Salgueiros. Nem mesmo teria vindo pela tia 'Telia, mas a sra. Queerington era diferente; ela compreendia os rapazes. Ela dissera que os médicos consertariam sua garganta para que ele pudesse gritar mais alto do que qualquer menino na Colina do Bode! Todos os gritos reprimidos de doze anos vacilavam em seus lábios só de pensar nisso! “Chick, aqui está uma laranja e alguns biscoitos que trouxe para você.” Foi a tia 'Telia quem se sentou ao lado da cama e pegou sua mão. “Se você ficar bom, a tia 'Telia vai te levar ao circo, ou à beira-mar, ou a algum lugar.”
A beira-mar não representava uma ideia concreta, então Chick preferiu se concentrar no circo, mas nem mesmo essa perspectiva atraente conseguia prender sua atenção enquanto tantas coisas perturbadoras aconteciam ao seu redor. Uma enfermeira sentira seu pulso, outra colocara um tubo de vidro em sua boca, e agora uma terceira trazia uma caminha curiosa sobre rodas.
Ele se virou inquieto do rosto ansioso e de sobrancelhas negras curvado sobre ele para a porta por onde a sra. Queerington estava entrando. Mas ele sabia por experiência que levaria algum tempo até que ela chegasse até ele. Todos aqueles outros doentes queriam que ela conversasse com eles, as enfermeiras a deteriam, e o jovem médico residente reivindicaria uma flor para sua lapela. Chick odiava todos eles indistintamente. Pareceu uma hora até que seu rosto brilhante e reconfortante se curvasse sobre ele, e ele a ouviu dizer:
“Não vai demorar agora, Chicky Boy. O Dr. Wyeth estará aqui logo, e eles vão te dar um passeio nesta carrocinha engraçada. Imagino o que o Skeeter Sheeley esteja fazendo a esta altura? Indo para a escola, suponho.”
Isso distraiu Chick maravilhosamente. O pensamento de Skeeter ter que passar a manhã na sala de aula tornava seu próprio fardo menos difícil.
“O número Dezessete está preparado para a operação?” ele ouviu alguém perguntar, e no mesmo momento os dedos da tia 'Telia se fecharam nos dele como um torno.
Então o grande médico, que o trouxera ali, apareceu ao pé de sua cama.
“Ah, sra. Queerington!” ele dizia, “só de ver a senhora, esses jovens deveriam se animar. Mas a senhora continua mais pálida do que eu gostaria de ver. Exagerando de novo?”
Ela balançou a cabeça. “Estou bem, mas como vai seu paciente?”
O médico acariciou o queixo e pareceu interessado no teto. “Algumas complicações bastante graves. Muito anêmico. Muito pouco com o que trabalhar. Possivelmente uma chance equilibrada. No entanto...” ele encolheu os ombros largos. “Ele tem alguém por perto?”
“Não, exceto por esta tia adotiva que o sustenta. Myrtella!”
Mas Myrtella virara as costas ao ver o médico e se recusou a olhar para cima.
Chick, observando atentamente os dois interlocutores ao pé da cama e tentando inutilmente entender o que diziam sobre ele, sentiu-se aliviado quando o Dr. Wyeth entregou um livro à Srta. Lady e disse casualmente:
“Veja que eu, como todos os outros, caí vítima de 'Khalil Samad'. Entendo que já está na décima edição. O jovem Morley tem uma carreira pela frente, se ele superar este julgamento. A senhora sabe quando está marcado?”
“Seis de novembro.”
“Tão cedo assim? Bem, não conheço o rapaz, mas espero que ele seja inocentado. Quero que ele escreva mais alguns livros para eu ler. Sinto muito que Kinner esteja encarregado da acusação. Ele prefere condenar um homem inocente do que um culpado. Muito bem, meu rapaz, acho que estamos prontos.”
“Não tente se levantar!” advertiu a enfermeira para Chick; “Eu vou carregá-lo.”
Mas Chick desprezou a ajuda. Ele não tinha, apenas na semana passada, enfrentado valentemente o centro em um jogo de futebol americano entre os Busters do Beco do Feijão e os Vadios do Barco-Barraca, e, coberto de lama, sangue e glória, sido carregado para fora do campo? Eles não precisavam pensar que, porque ele era pequeno, magro e não conseguia falar, ele era um bebê! Ele se colocou na maca com rodas, mas se recusou a deitar.
“Deixe-o sentar então,” disse a sra. Queerington. “Ele gosta de ver para onde está indo, não é, Chick? Lá vai o nosso automóvel! Honk! Honk!”
A enfermeira o levou através dos corredores altos e sombrios, enquanto Myrtella arrastava os pés de um lado, agarrando-se à sua mão e enxugando os olhos. A Srta. Lady flutuava do outro lado, contando-lhe sobre a nova bola de futebol que estaria em sua cama quando ele acordasse.
Então eles pararam, e Myrtella se curvou sobre ele violentamente. “Chick!” ela gritou, com o rosto subitamente contorcido, “olhe para mim só mais uma vez! Diga que me perdoa, Chicky! Oh, se eles te matarem...!”
A maca foi empurrada apressadamente para o elevador e a porta se fechou para todos, menos para Chick, a enfermeira e o maqueiro.
Foi mais ou menos nessa hora que Chick decidiu deitar-se. Para onde o estavam levando? O que iam fazer com ele? O que a tia 'Tella queria dizer com aquelas palavras estranhas? Para onde a sra. Queerington tinha ido? Com um repentino terror trêmulo, ele olhou para a enfermeira e soltou sons interrogativos roucos.
“Chegamos!” ela exclamou suavemente, enquanto o elevador parava. “E aqui está o Dr. Wyeth esperando por nós.”
“Bem, meu pequeno,” disse a grande figura de branco, pegando uma mãozinha fria na sua grande e forte, “vamos colocá-lo para dormir e, quando você acordar, tudo terá acabado. Você é bem corajoso, não é?”
Chick, tentando muito não deixar que seus joelhos tremessem contra o lençol, assentiu enfaticamente.
“Eu imaginava,” mentiu o médico alegremente, olhando para os olhos aterrorizados. “Eu quase sempre consigo dizer quando um rapaz é feito da matéria certa. Você não usa dentadura, usa?”
O sorriso súbito e sem dentes de Chick revelou a futilidade daquela pergunta.
“Isso é bom. Sem perigo de você engoli-la. Agora, suponha que você coloque este funil sobre a boca e respire fundo. Isso mesmo! Outra vez! Isso mesmo, mais uma vez!”
Chick sentiu um ar quente e doce invadir sua garganta e começou a engasgar. Mas a voz do médico continuava a dizer insistentemente: “Mais uma vez!” “Mais uma vez, meu rapaz!” E o médico achava que ele era corajoso.
Ele fechou os olhos e tentou não ter medo, mas coisas terríveis estavam acontecendo! Sua pele estava deixando seu corpo; e ele estava subindo no ar; luzes dançavam diante de seus olhos e ele estava subitamente com uma pressa terrível por algo. Ele nunca estivera com tanta pressa antes! Ele estava deixando médicos e enfermeiras lá embaixo, podia ouvir suas vozes ficando mais fracas a cada momento. Então, de repente, as luzes começaram a dançar novamente, a pressa voltou, e todo o fôlego estava sendo espremido para fora dele. Não, ele não conseguia mais ser corajoso! Ele devia lutar! Selvagemente, cegamente, silenciosamente, ele lutou contra aquela coisa horrível e desconhecida que o dominava. Então, após um último esforço agonizante, ele afundou impotente no abismo do sono.
Enquanto isso, no andar abaixo, sentadas nos degraus frios e nus ao lado da porta do elevador, duas mulheres de rosto pálido esperavam ansiosamente. Tudo estava silencioso no corredor alto e estreito, exceto pelos passos das enfermeiras que passavam e pelo grito agudo ocasional de dor ou gemido de cansaço de algum paciente sofredor.
“É ele!” gritou Myrtella histericamente quando um desses gritos a alcançou.
“Não, não. Ele está em sono profundo a esta altura. Ele não saberá de nada até que tudo acabe.” Então, quando outro grito fez Myrtella se levantar, a Srta. Lady acrescentou: “Por favor, Myrtella, não fique tão assustada. Esses gritos vêm do andar de baixo.”
Myrtella afastou a mão dela impacientemente. “Há quanto tempo eles foram? Por que você não me disse que eles iam ficar com ele por horas e horas?”
“Faz apenas vinte minutos. Sei como você está ansiosa, mas precisa tentar se acalmar. Se não se acalmar, eles não vão deixar você entrar no quarto quando o trouxerem.”
“Não vão me deixar entrar no quarto!” O rosto de Myrtella ardeu de raiva. “Eu gostaria de ver eles me impedirem! Quem tem mais direito? O médico? A enfermeira? Você? Nenhum de vocês tem o direito que eu tenho sobre ele. Não sou eu a mãe dele?”
A Srta. Lady olhou para ela com espanto e recuou instintivamente da mulher desesperada e desafiadora.
“É isso mesmo!” gritou Myrtella, quase fora de si. “Tire sua mão do meu braço, afaste-se de mim como se eu fosse uma leprosa! Diga a todos, diga à polícia que eu joguei meu bebê na lata de lixo e o abandonei! Não faz diferença agora, nada faz diferença além do Chick. Oh, meu Deus! Há quanto tempo eles estão lá?”
“Eles voltarão muito em breve, Myrtella. Não rasgue seu lenço desse jeito. Aqui, pegue o meu.”
Mas os olhos de Myrtella estavam cheios demais de terror para lágrimas; ela sentou-se com as mãos entrelaçadas nos joelhos, balançando-se para frente e para trás.
“Eu nunca contei a ninguém,” ela continuou desvairada; “durante todos esses anos eu mantive isso engarrafado na minha alma até que ela a consumiu por completo. Eu nunca fiz isso com o Chick! Ele não era o Chick naquela época. Ele era apenas algo que pertencia a um demônio. Então ele cresceu e virou o Chick, e todo o meu ódio se transformou em amor, e agora Deus está se vingando, eu sabia que Ele faria! Ele não o deixaria viver agora, só para me castigar!”
“Myrtella!” A voz da Srta. Lady ordenou indignada. “Não se atreva a dizer tais coisas! Quem sabe se neste exato momento Deus não está devolvendo o Chick a você? Talvez Ele esteja usando este caminho para lhe mostrar que a perdoa. Ore a Ele, Myrtella! Peça a Ele para fazer o que for melhor para o Chick, seja o que for.”
A cabeça de Myrtella estava caída sobre os joelhos, e suas mãos ásperas e calejadas pelo trabalho agarravam as mãos delgadas da Srta. Lady.
De repente, ambas se sobressaltaram. O elevador desceu rangendo e parou ao lado delas. Houve um arrastar de pés e a maca foi levada, com uma pequena forma coberta por um lençol branco jazendo imóvel sobre ela.
“Está tudo acabado,” disse o Dr. Wyeth, seguindo-os rapidamente. “Ele travou uma luta bastante dura ao tomar o anestésico, mas nós o vencemos no final. As condições eram menos graves do que eu previa. Com cuidado e uma boa enfermeira, ele deve se recuperar muito bem agora. Olá! Aqui está outra paciente!”
Pois Myrtella, encarando-o através de seus óculos de aros de aço, caíra como um tronco atravessada no corredor e jazia inconsciente, com seu chapéu torto esmagado sob uma orelha.
“Afrouxem o colarinho dela,” ordenou o Dr. Wyeth, “e tragam-me água com gelo. Pronto! Ela vai recuperar os sentidos em um minuto.”
Ele se ajoelhou ao lado dela com a mão no pulso dela, olhando-a com curiosidade. Então ele se virou para a Srta. Lady:
“É curioso como os rostos voltam para a gente. Eu atendi esta mulher doze anos atrás, quando era interno na ala de maternidade do Hospital da Cidade.”
CAPÍTULO XXVIII
À medida que o seis de novembro se aproximava, os amigos de Donald Morley, pela primeira vez, ficaram seriamente apreensivos quanto ao resultado de seu julgamento final. O fato de ele ter contratado um advogado desconhecido e inexperiente para enfrentar o formidável Kinner foi visto como sua suprema tolice. O caso, que sempre despertara considerável interesse local devido à proeminência das famílias envolvidas, agora se tornava uma questão de muito maior significado, tratando-se, como tratava, do autor de “Khalil Samad”, o livro mais comentado do momento.
A Srta. Lady, agora sozinha em Thornwood, exceto por Bertie e Myrtella, lutava através dos dias como melhor podia. Desde a confissão de Connie, ela pouco a tinha visto, pois, após uma série de visitas na região de Blue Grass, aquela jovem inquieta estivera com amigos na cidade, e ainda estava lá quando a data marcada para o julgamento chegou.
Até aquele momento, a Srta. Lady vencera a luta diária que travava com seu próprio coração. Repetidas vezes, Donald tentara vê-la, mas, sob um pretexto ou outro, ela o evitara. Ela estava perplexa, confusa e irremediavelmente infeliz, e perguntava-se repetidamente por que sua felicidade deveria ser sacrificada pela de uma borboleta superficial e irresponsável. Por Donald, ela não guardava culpa; ele tinha se deixado levar por esse caso com Connie quando sua necessidade era maior, e agora que sua honra estava envolvida, assim como a dela, não podia haver retrocesso.
Mas quando o segundo dia do julgamento amanheceu e ela desceu, após uma noite sem dormir, para ler as notícias desanimadoras sobre o andamento do dia anterior, ela percebeu que algo mais forte do que ela mesma estava tomando conta de si. Em vão, ela tentou cumprir suas tarefas habituais. Cada átomo de seu ser estava lá no tribunal, ao lado de Donald Morley, enfrentando o julgamento com ele. Duas vezes ela jogou o casaco e o chapéu sobre o corpo, apenas para tirá-los novamente e ficar na janela, observando impacientemente a tempestade.
Pois o longo verão finalmente chegara ao fim. Após dias de sol radiante de outubro, quando o inverno parecia, como a vida após a morte, vago e distante, um vento veio soprando do norte, despindo as árvores em uma única noite e deixando-as surpresas com sua nudez repentina. Então a neve úmida veio e, não contente em atacar árvores e arbustos, teve que assaltar a própria casa, invadindo janelas e portas, sitiando cada recanto, apenas para terminar se dissolvendo em riachos gelados que corriam ruidosamente pelas sarjetas.
À medida que a manhã avançava, a Srta. Lady tornava-se cada vez mais inquieta. E se o absurdo acontecesse e, pela segunda vez, doze homens honestos declarassem um homem inocente culpado? Poderia Connie enfrentar a ignomínia do veredito? Seu coração volúvel e inconstante se manteria firme diante de tal teste? Suponha que, mais uma vez, a pessoa de quem Donald Morley dependia falhasse com ele em uma hora suprema?
Pela terceira vez, a Srta. Lady jogou seus agasalhos sobre si. Ela não suportava mais o suspense; ela precisava ir até ele, caso ele precisasse dela.
“Pelo amor de Deus!” exclamou o tio Jimpson quando sua intenção foi declarada a ele. “Eu não sei o que o velho John vai pensar de nós, levando-o para a estação em um dia como este! Além disso, o trem do meio-dia já passou.”
“Então teremos que ir de carruagem até a cidade. Atrele o cavalo o mais rápido que puder!”
“Mas, Srta. Lady, minha querida, a senhora esquece da neve úmida! O velho John escorregaria pela estrada como uma mosca em uma careca.”
“Não importa! Eu vou. Rápido!”
Myrtella, que estava moldando um homem de massa sob a supervisão pessoal de Bert, olhou para cima com indignação:
“A senhora não pensa que vai sair nesta tempestade sem almoçar, pensa?”
“Não consigo comer nada, não estou com fome.”
“Foi o que a senhora disse no café da manhã. Não tenho um pingo de paciência com pessoas que ficam doentes na cama e se tornam um incômodo para todos, só pelo prazer de andar se arrastando na lama em um dia como este. Vou preparar uma torrada e um ovo para a senhora, enquanto ele atrela o cavalo.”
“Continue com a história, 'Telia,” exigiu Bertie, colocando cuidadosamente um nariz no homem de massa.
“Bem,” retomou Myrtella, do fogão, lançando um olhar ansioso para a Srta. Lady, que estava à janela batendo impacientemente no vidro, “todo mundo estava se perguntando quais seriam suas primeiras palavras, e o Dr. Wyeth disse: 'Não o importune para falar, deixe que venha naturalmente.' Um dia, eu e a enfermeira, aquela metida que eu estava contando a você, estávamos nos preparando para borrifar a garganta dele, e ele olhou tão curioso para todos os tubinhos de borracha e apetrechos que ela disse: 'Você vai saber muito quando sair daqui, Chick.' E o que você acha que ele respondeu, tão esperto e claro como se estivesse falando a vida toda?”
“O quê?” exigiu Bertie, tão sem fôlego como se não tivesse ouvido a história uma dúzia de vezes.
“'Ora', disse Chick, 'eu já sabia muito quando cheguei!'” O orgulho de Myrtella por essa primeira articulação de sua cria era tão grande que a deixou alheia ao fato de que a torrada estava queimando.
“Quando você poderá trazer o Chick para casa?” perguntou a Srta. Lady, engolindo o chá quente com um olhar atento à porta do estábulo.
“Assim que o médico parar de mexer na garganta dele todo dia. Ele tem se saído muito bem desde que o levei de volta para o Phineas. A Maria está ficando muito apegada a ele, agora que tem que entregá-lo. Diz que sempre soube que ele era esperto, mas nunca sonhou com as coisas que ele tinha guardado na cabeça.”
“Não me esqueci da sua casa,” disse a Srta. Lady distraidamente. “O Dr. Wyeth conhece um lugar agradável na Chestnut Street e diz que você pode ganhar a vida alugando os quartos para as vendedoras das lojas. Não é justo que eu mantenha você aqui fora por mais tempo.”
“Bem, eu não vou até a primavera.” Myrtella sacudiu as panelas com veemência desnecessária. “Eu e o Chick vamos ficar bem aqui até que a gente deixe a senhora estabelecida. Agora que o Sr. Gooch entrou em uma fase de gastos e está mandando a Srta. Hattie para a faculdade, acho que ela está resolvida por um tempo. Provavelmente a Srta. Connie vai se casar com algum sujeito metido a esperto e imprestável, então ela estará resolvida. Mas o que vai ser da senhora e do Bertie?”
A Srta. Lady inclinou-se impulsivamente sobre as costas da criança enquanto ele estava ajoelhado em uma cadeira ao lado da mesa e beijou o pedacinho de pescoço que aparecia entre o colarinho e os cachos: “Bert e eu?” ela repetiu com um pequeno nó na voz; “bem, teremos que cuidar um do outro, não teremos, Bert?”
CAPÍTULO XXIX
A família Flathers estava desfrutando de uma festa de aniversário. A mesa, posta no quarto para que Chick pudesse participar, estava decorada em uma extremidade por um lindo bolo rosa, com uma única vela, e na outra pela própria Loreny, de olhos azuis e bochechas gordinhas, que engatinhava triunfante entre os pratos, dedicando atenção igual ao açucareiro e à jarra de melaço, parando apenas para emitir gritos extasiados quando uma cabeça ruiva e áspera aparecia acima da borda da mesa.
Na cama, apoiado em travesseiros e com a garganta enfaixada, Chick executava uma melodia animada com faca e garfo em seu prato, enquanto Maria Flathers se dedicava à tarefa de impedir que Loreny May colocasse seu pé de sapatinho azul na manteiga.
Lá fora, a neve batia nas janelas e na parte superior vermelha da carroça do Sr. Iseling, esperando no portão. Ela assobiava e chacoalhava pelo Beco do Feijão e transformava os fios do telégrafo em cabos de gelo. Mas a família Flathers, desfrutando do luxo incomum de uma lareira aberta e animada pela hilaridade da ocasião, estava alegremente alheia à tempestade até que uma batida seca na porta trouxe o urso ruivo debaixo da mesa para atender ao chamado.
“Bem, se não é a sra. Queerington!” exclamou Phineas Flathers efusivamente. “Sair nesta tempestade toda! Mas não estou surpreso. Eu não disse a você, Maria, que sabia que ela traria um presente de aniversário para o bebê? Venha para perto do fogo, senhora. Maria, pegue uma cadeira de balanço para ela.”
— Não, não! — exclamou Miss Lady, ofegante. — Não posso ficar. Preciso ir à cidade. Meu cavalo quebrou na ponte, e estou a caminho da Estação para ver se consigo pegar o próximo trem quando ele parar para abastecer. Quero que o senhor vá até lá e me ajude a embarcar.
— O próximo trem não para. É um expresso. O trem local só chega daqui a uma hora e meia. A senhora não está em condições de seguir viagem ainda, madame, de jeito nenhum. Nunca vi a senhora assim, tão acabada! Maria, você não pode preparar uma xícara de café ou algo assim para ela?
Miss Lady balançou a cabeça e apoiou-se cansada na lareira.
— Ficarei bem. O senhor tem certeza sobre os trens?
— Certo como os impostos. A senhora vai ter que esperar, e nós vamos aproveitar uma visitinha sua. Imagino que esteja surpresa de me ver em casa a esta hora?
— Eu não tinha pensado nisso.
— Bem, veja bem, é aniversário dela, e nem tornados poderiam me impedir de trazer um bolo para ela. Não é a coisa mais linda que seus dois olhos já viram? Diga "Dá-dá", Loreny... pare de falar com ela, Chick. Vamos, Loreny, diga "Dá-dá" para a moça bonita!
— Ele é tão bobo por ela — disse Maria Flathers, tentando esconder seu próprio orgulho. — Ele não deixa eu colocar nela nada além de vestidos brancos e sapatos azuis, e faz horas extras para pagar por eles. Myrtella diz que não há tolos como os velhos.
— Tudo bem — disse Phineas; — ela terá mais a dizer quando eu der a Loreny um anel de diamante no próximo aniversário. Iseling vai me dar um aumento em breve. Ele praticamente disse isso. Ele sabe que sirvo para tudo, desde chefiar um grande trabalho até dirigir uma carroça; e olhe só para a clientela que atraio! Ora, sra. Squeerington, aquelas senhoras da Sociedade Auxiliar da Igreja Immanuel me seguem fielmente, e a sra. Ivy e as Anti-Tabagistas... Puxa, eu poderia começar por conta própria amanhã.
— É uma hora! — advertiu Maria, ansiosa para apressar seu mestre em seu caminho para que ela pudesse colher algumas migalhas de conversa.
— Uma hora! Santo Deus! Preciso me apressar, se quiser ouvir o resto do julgamento.
— O julgamento? — repetiu Miss Lady, instantaneamente alerta; — o senhor estava no tribunal esta manhã?
— Sim, madame, eu estava. Todo mundo estava. Sala do tribunal lotada até as portas. Eu disse a Iseling esta manhã, eu disse: "Farei a entrega do meio-dia, tudo bem, mas o resto do dia é meu. Não é só por causa da minha antiga ligação com a família Sequin", disse eu; "é porque o Sr. Don Morley é um amigo meu pessoal. Ele é branco e é honesto", disse eu, "e o jovem cavalheiro mais generoso para quem já fiz um favor. Se for uma questão de apoiá-lo no problema, ou perder meu emprego", disse eu, "então tchau para o emprego!"
— Mas quando o senhor saiu — insistiu Miss Lady —, o que eles estavam fazendo? Como as pessoas se sentiam a respeito?
— Muito instáveis, madame. Eles não têm um pingo de boa prova a favor dele, e o suficiente contra ele para afundar um navio. O filho do velho Wicker está lutando com unhas e dentes, mas ele está enfrentando Kinner, e Kinner seria capaz de condenar o próprio São Pedro!
— Mas eles não conseguem extrair a verdade de Sheeley? Não podem forçá-lo a dizer o que aconteceu?
Phineas deu de ombros com desprezo: — Sheeley perdeu a memória quando perdeu o olho. Um foi arrancado com chumbo, e o outro com prata. Diz agora que nem estava na briga.
— É mentira! Ele estava! — Chick levantara-se de seu travesseiro e estava inclinado para frente, agitado.
— O que você quer dizer, Chick? Como você sabe?
— Ele estava na briga! — gritou ele, com a voz rouca. — Foi entre ele e o bêbado. Sheeley pegou ele roubando no jogo com um ás, e ele chamou Sheeley de mentiroso, e eles brigaram pelo chão todo. O grande não estava no meio! Ele ficava tentando impedi-los, entrando no meio com seu chicote.
— Mas como você sabe tudo isso, Chick? — gritou Miss Lady, quase ferozmente; — o garoto Sheeley lhe contou?
— Skeeter? Francamente, ele não sabe de nada, exceto o que o pai dele contou.
— Mas quem lhe contou?
Chick fechou os lábios e balançou a cabeça: — Ele vai soltar o policial em cima de mim.
— Quem?
— O pai do Skeeter. Por ter quebrado a máquina de caça-níqueis. Mas eu nunca peguei nada do dinheiro dele, sra. Squeerington; era meu! — Seus lábios começaram a tremer.
— O policial não vai pegar você, Chick — disse Miss Lady, agora de joelhos ao lado dele, coaxando cada declaração e tentando conter sua própria excitação. — Diga-me, rápido! Como você sabe sobre o tiroteio?
— Porque — disse Chick, com medo —, eu... eu vi!
— Bem, se isso não é o cúmulo! — disse Phineas, enquanto Maria pegava Loreny, sob a impressão de que Chick perdera o juízo e poderia se tornar perigoso.
— Eu fiquei trancado no bar — continuou Chick, evidentemente dividido entre o desejo de ser um herói e o medo das consequências —, e era noite, e eu fui dormir.
— Sim, sim! — pressionou Miss Lady; — continue.
— Então eles entraram e começaram a briga e eu rastejei para o andar de cima e deitei de bruços e espiei pela fresta. E Sheeley e o bêbado começaram a lutar como eu lhe disse. E então, enquanto o grande estava tentando fazer Sheeley parar, o bêbado veio até a porta, bem onde eu estava deitado, e ele se apoiou contra a parede e disparou contra Sheeley com uma pistola.
— Você reconheceria o Grande novamente? Oh, Chick, tente lembrar como ele era!
Chick balançou a cabeça: — Não, não me lembro da aparência de nenhum deles. Mas a senhora sabe qual deles ele era; ele me deu o botão de prata do seu chicote.
Miss Lady saltou para os pés: — Precisamos levá-lo ao tribunal, Sr. Flathers. Rápido! Ajude-me com as roupas dele. Vou colocar os sapatos e as meias dele.
— Mas o trem... — começou Phineas.
— Não podemos esperar por ele! — gritou Miss Lady. — O senhor deve nos levar na carroça. — Em poucos minutos, surpreendentemente, Chick, confuso, mas interessado, estava totalmente vestido. — Dê-me os cobertores da cama e ajude-me a embrulhá-lo — disse Miss Lady. — Pronto! O senhor o carrega e eu seguro o guarda-chuva. Mantenha a boca fechada, Chick; não ouse abri-la até que eu lhe diga.
O confuso Chick, encerrado como uma múmia, foi levado às pressas para a carroça e depositado entre dois congeladores de sorvete, enquanto Miss Lady se ajoelhava ao lado dele, tentando protegê-lo do vento. Assim que Phineas estava saindo, houve um chamado da cabana.
Pela primeira e única vez em sua vida, Maria Flathers colidira com uma ideia. Em vão, ela reverteu seus motores mentais e tentou recuar, mas a colisão foi frontal, e ela e a ideia estavam firmemente soldadas.
— Aqui está o cabo do chicote! — ela gritou desvairada, enquanto o vento pegava suas saias e as torcia ao redor dela. — Eu estava usando como dedal. E aqui está o chicote em si... Leve-os! Leve-os como testemunha!
Mais uma vez, a carroça de capota vermelha partiu, desta vez para valer. Através da lama e da neve derretida de Bean Alley, passando pelo lixão, atravessando o Common, a pequena égua robusta correu furiosamente.
— Não respire pela boca, Chick! — implorou Miss Lady. — E não tenha medo. Tudo o que você tem a fazer é contar o que viu. Não esconda nada, conte exatamente como contou para mim.
— Sobre a máquina de caça-níqueis? — perguntou uma voz ansiosa de dentro dos cobertores.
— Sobre tudo. Ninguém vai machucar você, nem culpá-lo. Você não está pegando um resfriado, está? Aqui, coloque minhas luvas, e você não deve falar, nem mais uma palavra.
Por um tempo interminável, eles chapinharam pela lama da estrada antes de chegarem às calçadas da cidade. Olhando para fora da carroça, podiam ver as águas amarelas largas do rio com suas barcaças de carvão pretas e longas, e o contorno indistinto de Billy-goat Hill, tornando-se mais tênue à distância.
— Mais rápido, Sr. Flathers, dirija mais rápido! — implorou Miss Lady.
Phineas, de boa vontade, aplicou o chicote no flanco da pequena égua, e eles correram, atravessando a via movimentada para uma rua larga de armazéns, onde seguiram a linha do bonde direto pelo centro sombrio da cidade. Durante todo o tempo, o granizo batia na capota vermelha da carroça e chacoalhava sob os cascos do cavalo, e Miss Lady sentava-se abraçada a Chick, contando os momentos que passavam.
Por fim, o tribunal escuro surgiu à frente deles, e Phineas, fazendo uma curva por pouco, correu para a praça aberta.
— O caso Morley já foi para o júri? — ele se pendurou para fora da carroça para gritar a um homem que descia os largos degraus.
— Ainda não.
Miss Lady já estava freneticamente puxando os cobertores do submerso Chick.
— Espere o Sr. Flathers carregá-lo — gritou ela, saltando para o chão e olhando para ele ansiosamente. — Lembre-se de que você vai contar tudo a eles. Você está ajudando a salvar o Sr. Morley, e está fazendo isso por mim.
Os olhos da criança pálida e de pernas finas, parada na parte de trás da carroça, piscaram além do tribunal em direção às janelas gradeadas da cadeia adjacente. De repente, suas pernas começaram a tremer mais forte do que haviam tremido no hospital, e seus lábios tremeram de forma ameaçadora.
— Chick! — gritou Miss Lady, desesperada. — Você não vai me decepcionar... você vai ficar do meu lado, não vai?
Por um momento, ele fechou os olhos com muita força, depois transferiu o pequeno pedaço de tabaco que fora seu único consolo na última hora, de sua bochecha direita para a esquerda.
— Com certeza! — disse ele resolutamente.
CAPÍTULO XXX
— Um! Dois! Três! Quatro!
O grande relógio que marcara tantos momentos ansiosos para tantos observadores ansiosos, lançou seu anúncio sobre a sala de tribunal lotada. O último testemunho fora dado, Chick contara sua história, produzira suas provas e identificara Morley; o promotor público despedaçara sua história e confundira a jovem testemunha irremediavelmente; o advogado de defesa levantara-se agora para fazer seu discurso final ao júri. O suspense pairava espesso como uma névoa sobre a sala de tribunal.
Miss Lady, sentada entre o Sr. Gooch e Connie, empurrou impacientemente seu curto véu preto. As horas pelas quais ela lutara desde a meia-noite pareciam nada comparadas a essa eternidade de espera. Desde que entrara na sala, ela não olhara para Donald nem uma vez. Ela não ousava abrir nem uma pequena comporta no dique que represava o mar de seu amor. Mas em cada fibra de seu ser, ela o sentia sentado ali sob suspeita, seu futuro nas mãos de doze homens que tinham o poder de fazê-lo sofrer a pena de um crime que ele não cometera. Era injusto, cruel, infame! Ondas sucessivas de indignação a invadiram. Ela lutaria por ele contra todos eles. Ela se levantaria e contaria o que sabia da história, e sua razão para permanecer no exterior.
— Ele não é magnífico? — sussurrou Connie, apertando seu braço; — ele esteve perfeitamente calmo e quieto assim o tempo todo, e ainda assim, pense no que isso significa para ele! Olhe para os olhos dele!
Miss Lady não conseguia olhar, o aperto em sua garganta estava se fechando e um rugido surdo soava em seus ouvidos.
— Mas se ele perder, Connie? Se ele perder, o que acontece?
— Ele não vai perder. Ele vai ganhar. Você deveria tê-lo ouvido esta manhã. Ele foi perfeitamente magnífico! Até o Sr. Gooch disse que ele o fez lembrar de Lincoln. Ouça-o agora!
Miss Lady seguiu o olhar adorador de Connie até que ele descansou no rosto severo e sincero de Noah Wicker, então a verdade a atingiu.
Por um momento, uma cegueira a dominou, depois ela saltou para os pés e ergueu o rosto para Don. Ele estivera esperando por aquele olhar desde que ela entrara na sala do tribunal, e quando ele veio, ele estava pronto para ele.
Enquanto Noah Wicker se sentava em meio a um trovão de aplausos, e o júri, após uma breve orientação do juiz, preparava-se para se retirar, uma figura esguia de vestido preto abriu caminho impetuosamente pela multidão. Ela contornou os assentos traseiros e correu freneticamente para onde o réu estava sentado.
— A senhora é membro da família do Sr. Morley? — perguntou o vice-xerife.
— Não — disse Miss Lady, afastando-o —, mas serei.
CAPÍTULO XXXI
Naquela noite, o Sr. Gooch foi para casa com os Ivys, a quem, como agora estava à deriva, pretendia adotar. Por um longo tempo, ficaram sentados perto do fogo discutindo os eventos emocionantes do dia.
— Eu mal podia acreditar nos meus olhos — murmurou a sra. Ivy —, quando no veredito, "Inocente", vi ela jogar os braços ao redor do pescoço dele!
— Por que surpresa? — retrucou o advogado. — As mulheres não nascem tolas?
— Mas a coisa toda é tão indelicada, tão sem coração! Uma jovem viúva que deveria estar de luto ao lado do túmulo do marido, e um jovem impetuoso que acaba de escapar da penitenciária. O sofrimento não lhes ensinou nada?
Gerald, sentado em um pufe diante do fogo com as mãos entrelaçadas em volta dos joelhos, olhou para cima com olhos brilhantes:
— Vocês não entendem, Mater! Tudo isso foi o preço que eles pagaram um pelo outro. Um grande amor como o deles custa caro. Deve-se pagar por ele com sofrimento. Júpiter, valeu a pena! Aquele olhar que eles trocaram, ali no final...
— Mas o querido, querido Doutor — interrompeu a sra. Ivy —, enterrado há apenas sete meses!
— Seis meses e três semanas — corrigiu o Sr. Gooch, irritado.
FIM