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A Room with a View

by E. M. (Edward Morgan) Forster · in Portuguese

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Um Quartos Com Vista

De E. M. Forster

ÍNDICE

Parte Um. Capítulo I. O Bertolini Capítulo II. Em Santa Croce Sem Baedeker Capítulo III. Música, Violetas e a Letra "S" Capítulo IV. Quarto Capítulo Capítulo V. Possibilidades de um Passeio Agradável Capítulo VI. O Reverendo Arthur Beebe, o Reverendo Cuthbert Eager, o Sr. Emerson, o Sr. George Emerson, Miss Eleanor Lavish, Miss Charlotte Bartlett e Miss Lucy Honeychurch Saem em Carruagens Para Ver uma Vista; os Italianos os Conduzem Capítulo VII. Eles Regressam

Parte Dois. Capítulo VIII. Medieval Capítulo IX. Lucy Como Obra de Arte Capítulo X. Cecil Como Um Humorista Capítulo XI. No Apartamento Bem Mobiliado da Sra. Vyse Capítulo XII. Décimo Segundo Capítulo Capítulo XIII. Como a Caldeira de Miss Bartlett Foi Tão Aborrecível Capítulo XIV. Como Lucy Encarou Corajosamente a Situação Exterior Capítulo XV. O Desastre Interior Capítulo XVI. Mentindo Para George Capítulo XVII. Mentindo Para Cecil Capítulo XVIII. Mentindo Para o Sr. Beebe, a Sra. Honeychurch, Freddy e os Criados Capítulo XIX. Mentindo Para o Sr. Emerson Capítulo XX. O Fim da Idade Média

PARTE UM

Capítulo I O Bertolini

"A Signora não tinha o direito de fazê-lo", disse Miss Bartlett, "nenhum direito. Prometeu-nos quartos virados a sul com vista, próximos um do outro, e em vez disso eis-nos quartos virados a norte, a dar para um pátio, e muito afastados. Ai, Lucy!"

"E com sotaque de londrino, além disso!", disse Lucy, que ficara ainda mais amargurada pelo inesperado sotaque da Signora. "Podia muito bem ser Londres." Olhou para as duas fileiras de ingleses sentados à mesa; para a fileira de garrafas brancas de água e garrafas vermelhas de vinho que corria entre os ingleses; para os retratos da falecida Rainha e do falecido Poeta Laureado que pendiam atrás dos ingleses, emoldurados com peso; para o aviso da igreja inglesa (Rev. Cuthbert Eager, M. A. Oxon.), que era a única outra decoração da parede. "Charlotte, não sentes também que podíamos estar em Londres? Quase não consigo acreditar que toda a espécie de outras coisas está mesmo ali fora. Suponho que é estarmos tão cansados."

"Esta carne decerto já serviu para sopa", disse Miss Bartlett, deposando o garfo.

"Quero tanto ver o Arno. Os quartos que a Signora nos prometeu na carta teriam vista sobre o Arno. A Signora não tinha o direito de fazê-lo. Ai, é uma vergonha!"

"Qualquer recanto me serve", continuou Miss Bartlett; "mas parece mesmo cruel que tu não possas ter uma vista."

Lucy sentiu que tinha sido egoísta. "Charlotte, não me mimes: claro que tu também deves ter vista sobre o Arno. Foi o que quis dizer. O primeiro quarto livre na frente—" "Tu é que o tens de ter", disse Miss Bartlett, parte cujas despesas de viagem eram pagas pela mãe de Lucy—uma generosidade à qual ela fazia frequentes alusões delicadas.

"Não, não. Tu é que o tens de ter."

"Insisto. A tua mãe nunca me perdoaria, Lucy."

"Nunca me perdoaria a mim."

As vozes das senhoras tornaram-se animadas e—se a triste verdade se pode confessar—um tanto queixosas. Estavam cansadas e, sob a aparência de desinteresse, discutiam. Alguns vizinhos trocaram olhares, e um deles—uma daquelas pessoas mal-educadas que se encontram por aí fora—inclinou-se para a frente sobre a mesa e intrometeu-se efectivamente na discussão. Disse:

"Eu tenho vista, tenho vista."

Miss Bartlett sobressaltou-se. Geralmente numa pensão as pessoas observavam-se durante um dia ou dois antes de falar, e muitas vezes só descobriam que elas prestavam depois de elas já terem partido. Soube que o intruso era mal-educado, ainda antes de pousar o olhar nele. Era um homem velho, de constituição pesada, com um rosto claro e rapado e olhos grandes. Havia algo de infantil nesses olhos, embora não fosse a infância da senilidade. Exactamente o que era, Miss Bartlett não se demorou a considerar, pois o seu olhar passou para a roupa dele. Esta não a atraiu. Provavelmente ele tentava travar conhecimento com elas antes de elas se integrarem no grupo. Por isso assumiu um ar estonteado quando ele lhe falou, e depois disse: "Vista? Ah, uma vista! Que deliciosa, uma vista!"

"Este é o meu filho", disse o velho; "chama-se George. Ele também tem vista."

"Ah", disse Miss Bartlett, reprimindo Lucy, que estava prestes a falar.

"O que eu quero dizer", continuou ele, "é que podem ficar com os nossos quartos, e nós ficamos com os vossos. Trocamos."

A melhor classe de turistas ficou escandalizada com isto e compadeceu as recém-chegadas. Miss Bartlett, em resposta, abriu o menos possível a boca e disse: "Muito obrigada, de facto; isso está fora de questão."

"Porquê?", disse o velho, com ambos os punhos pousados na mesa.

"Porque está completamente fora de questão, obrigada."

"Veja, nós não queremos aceitar—" começou Lucy. A prima reprimiu-a de novo.

"Mas porquê?", insistiu ele. "As mulheres gostam de olhar para uma vista; os homens não." E bateu com os punhos como uma criança travessa, e voltou-se para o filho, dizendo: "George, convence-as!"

"É tão óbvio que elas devem ficar com os quartos", disse o filho. "Não há mais nada a dizer."

Não olhou para as senhoras enquanto falava, mas a sua voz era perplexa e pesarosa. Lucy também estava perplexa; mas viu que estavam metidas no que se designa por "uma verdadeira cena", e teve a estranha sensação de que sempre que estes turistas mal-educados falavam, o conflito alargava-se e aprofundava-se até deixar de tratar de quartos e vistas, e passava a tratar de—bem, de algo inteiramente diferente, cuja existência ela não tinha percebido antes. Agora o velho atacava Miss Bartlett quase com violência: Porque não havia ela de mudar? Que objecção possível tinha ela? Desocupariam os quartos dentro de meia hora.

Miss Bartlett, embora versada nas subtilezas da conversação, era impotente perante a brutalidade. Era impossível repelir alguém tão grosseiro. O rosto avermelhou-se-lhe de desagrado. Olhou em volta como quem diz: "São todos assim?" E duas senhorinhas idosas, sentadas mais acima na mesa, com xailes pendurados nas costas das cadeiras, olharam de volta, indicando claramente: "Não somos; somos distintas."

"Come o seu jantar, querida", disse ela a Lucy, e voltou a brincar com a carne que antes censurara.

Lucy resmungou que aquelas pessoas em frente pareciam muito estranhas.

"Coma o seu jantar, querida. Esta pensão é um fracasso. Amanhã mudaremos."

Mal anunciara esta decisão terrível, eis que a revoga. As cortinas ao fundo da sala separaram-se, e revelaram um clérigo, corpulento mas atractivo, que se apressou a tomar o seu lugar à mesa, pedindo alegremente desculpa pelo atraso. Lucy, que ainda não aprendera a ter modos, levantou-se de imediato, exclamando: "Oh, oh! Mas é o Sr. Beebe! Oh, que maravilhoso! Oh, Charlotte, temos de ficar, por mais maus que sejam os quartos. Oh!"

Miss Bartlett disse, com mais comedimento:

"Como está, Sr. Beebe? Suponho que já se esqueceu de nós: Miss Bartlett e Miss Honeychurch, que estavam em Tunbridge Wells quando o senhor ajudou o Vigário de S. Pedro naquela Páscoa tão fria."

O clérigo, que tinha ar de quem está em férias, não se lembrava das senhoras com a mesma nitidez com que elas se lembravam dele. Mas aproximou-se com agrado suficiente e aceitou a cadeira para que Lucy o convidava.

"Que gosto vê-lo", disse a rapariga, que estava num estado de fome espiritual, e teria ficado contente de ver o criado se a prima lho permitisse. "Imagine só como o mundo é pequeno. E a Summer Street torna tudo ainda mais engraçado."

"Miss Honeychurch mora na paróquia de Summer Street", disse Miss Bartlett, preenchendo a lacuna, "e por acaso contou-me no correr da conversa que o senhor acabou de aceitar o benefício—"

"Sim, recebi notícias da mãe na semana passada. Ela não sabia que eu a conhecia em Tunbridge Wells; mas eu respondi logo, e disse: 'O Sr. Beebe é—"

"Muito bem", disse o clérigo. "Mudo-me para a Reitoria de Summer Street em Junho. Tenho sorte de ter sido nomeado para uma vizinhança tão encantadora."

"Oh, que contente fico! O nome da nossa casa é Windy Corner." O Sr. Beebe fez uma reverência.

"Moramos lá a mãe e eu geralmente, e o meu irmão, embora nem sempre consigamos trazê-lo para c— A igreja é um bocado longe, quero dizer."

"Lucy, querida, deixe o Sr. Beebe comer o jantar."

"Estou a comê-lo, obrigado, e a deliciar-me."

Ele preferia falar com Lucy, de quem se lembrava da maneira de tocar, do que com Miss Bartlett, que provavelmente se lembrava dos seus sermões. Perguntou à rapariga se conhecia bem Florença, e foi informado com alguma minúcia que ela nunca lá estivera antes. É delicioso aconselhar um recém-chegado, e ele foi o primeiro a agir. "Não descurem os arredores", concluiu o conselho. "Na primeira tarde agradável, subam de carro até Fiesole, e dêem a volta por Settignano, ou algo desse género."

"Não!", bradou uma voz do topo da mesa. "Sr. Beebe, está errado. Na primeira tarde agradável as suas senhoras têm de ir a Prato."

"Essa senhora parece tão inteligente", sussurrou Miss Bartlett à prima. "Temos sorte."

E, com efeito, um perfeito torrente de informação desabou sobre elas. As pessoas diziam-lhes o que ver, quando ver, como parar os eléctricos, como livrar-se dos pedintes, quanto pagar por um mata-borrão em pergaminho, quanto aquele lugar viria a crescer-lhes no coração. A Pensione Bertolini decidira, quase com entusiasmo, que elas serviam. Para onde quer que olhassem, senhoras gentis sorriam e lhes gritavam. E acima de tudo elevava-se a voz da senhora inteligente, gritando: "Prato! Têm de ir a Prato. Aquele lugar é squalid de uma maneira demasiado doce para se descrever. Adoro-o; regozijo-me sacudindo as amarras do decoro, como bem sabem."

O jovem chamado George lançou um olhar à senhora inteligente, e depois voltou taciturno para o prato. Era óbvio que ele e o pai não serviam. Lucy, em meio do seu êxito, teve tempo para desejar que servissem. Não lhe dava prazer acrescido que alguém ficasse de fora; e quando se levantou para ir, virou-se e fez aos dois excluídos uma pequena reverência nervosa.

O pai não viu; o filho correspondeu, não com outra reverência, mas erguendo as sobrancelhas e sorrindo; parecia sorrir por cima de algo.

Ela apressou-se atrás da prima, que já tinha desaparecido por entre as cortinas—cortinas que nos esbofeteavam o rosto, e pareciam pesadas com mais do que simples tecido. Para lá delas estava a Signora, pouco fiável, a cumprimentar os hóspedes com reverências, e apoiada pelo 'Enery, seu filhinho, e pela Victorier, sua filha. Fazia uma cena curiosa, esta tentativa do londrino para transmitir a graça e a cordialidade do Sul. E ainda mais curiosa era a sala de estar, que tentava rivalizar com o conforto sólido de uma pensão de Bloomsbury. Será que isto era mesmo Itália?

Miss Bartlett já estava sentada numa poltrona bem estofada, que tinha a cor e os contornos de um tomate. Falava com o Sr. Beebe, e enquanto falava, a sua cabeça longa e estreita movia-se para trás e para a frente, lenta e regularmente, como se estivesse a demolir algum obstáculo invisível. "Estamos-lhe profundamente gratas", dizia ela. "A primeira noite significa tanto. Quando o senhor chegou estávamos a passar por um particulièrement mauvais quart d'heure."

Ele manifestou o seu pesar.

"Por acaso sabe o nome de um homem velho que se sentou em frente de nós ao jantar?"

"Emerson."

"É amigo seu?"

"Temos relações amigáveis—como é costume nas pensões."

"Então não direi mais."

Ele pressionou-a muito levemente, e ela disse mais.

"Eu sou, por assim dizer", concluiu ela, "o chaperon da minha jovem prima, Lucy, e seria uma coisa grave se eu a colocasse sob obrigação para com pessoas de quem nada sabemos. A maneira dele foi algo infeliz. Espero ter agido pelo melhor."

"O senhor agiu com toda a naturalidade", disse ele. Pareceu pensativo, e após alguns instantes acrescentou: "Mesmo assim, não creio que resultasse grande mal de aceitar."

"Mal nenhum, claro. Mas não podíamos ficar sob obrigação."

"Ele é um homem algo peculiar." De novo hesitou, e depois disse com suavidade: "Creio que ele não tiraria proveito da vossa aceitação, nem esperaria que lhe mostrassem gratidão. Ele tem o mérito—se é que é mérito—de dizer exactamente o que pensa. Tem quartos a que não liga importância, e pensa que vós lhes ligaríeis. Não lhe passou pela cabeça colocar-vos sob obrigação mais do que ser polido. É tão difícil—pelo menos, eu acho difícil—compreender as pessoas que dizem a verdade."

Lucy ficou satisfeita, e disse: "Eu tinha esperança de que ele fosse simpático; tenho sempre tanta esperança de que as pessoas sejam simpáticas."

"Penso que é; simpático e maçador. Discordo dele em quase todos os pontos de alguma importância, e por isso, espero—posso dizer que espero—a senhora também discordará. Mas ele é um tipo de pessoa com quem se discorda antes de se lamentar. Quando chegou aqui, naturalmente desagradou às pessoas. Não tem tacto e não tem maneiras— não quero dizer com isto que tenha maneiras más—e não guarda as suas opiniões para si. Quase nos queixámos dele à nossa deprimentemente Signora, mas ainda bem que pensámos duas vezes."

"Devo concluir", disse Miss Bartlett, "que ele é Socialista?"

O Sr. Beebe aceitou a palavra conveniente, não sem um leve tremer dos lábios.

"E presume-se que tenha educado o filho para também ser Socialista?"

"Mal conheço George, pois ele ainda não aprendeu a falar. Parece uma criatura simpática, e acho que tem inteligência. Claro que tem todas as manias do pai, e é bem possível que ele também seja Socialista."

"Oh, tira-me um peso", disse Miss Bartlett. "Então acha que eu devia ter aceite a oferta deles? Acha que fui mesquinha e desconfiada?"

"De modo algum", respondeu ele; "nunca sugeri tal coisa."

"Mas não devia ao menos pedir desculpa pela minha aparente grosseria?"

Ele respondeu, com alguma irritação, que seria perfeitamente desnecessário, e levantou-se para ir à sala de fumo.

"Fui maçadora?", disse Miss Bartlett, mal ele desaparecera. "Porque é que não falaste, Lucy? Ele prefere gente nova, de certeza. Espero bem não ter monopolizado o homem. Esperava que o tivesses só para ti toda a noite, e durante todo o jantar."

"É simpático", exclamou Lucy. "Exactamente como me lembrava. Parece ver o bom de toda a gente. Ninguém o tomaria por um clérigo."

"Minha cara Lúcia—"

"Tu sabes o que quero dizer. E sabes como os clérigos geralmente riem; o Sr. Beebe ri como uma pessoa qualquer."

"Rapariga engraçada! Como me fazes lembrar a tua mãe. Quererá saber se aprova o Sr. Beebe?"

"Tenho a certeza de que aprovará; e o Freddy também."

"Acho que toda a gente em Windy Corner aprovará; é o mundo da moda. Estou habituada a Tunbridge Wells, onde estamos todos irremediavelmente atrasados."

"Sim", disse Lucy com desalento.

Havia um véu de desaprovação no ar, mas não conseguia determinar se a desaprovação se dirigia a ela própria, ao Sr. Beebe, ao mundo da moda de Windy Corner, ou ao mundo estreito de Tunbridge Wells. Tentou localizá-la, mas, como era habitual, errou. Miss Bartlett negou categoricamente estar a desaprovar quem quer que fosse, e acrescentou "Receio que estejas a achar-me uma companheira muito deprimente."

E a rapariga pensou de novo: "Devo ter sido egoísta ou indelicada; tenho de ter mais cuidado. É tão terrível para a Charlotte ser pobre."

Felizmente, uma das senhoras idosas, que há algum tempo sorria com grande benevolência, aproximou-se agora e perguntou se lhe seria permitido sentar-se onde o Sr. Beebe estivera. Obtida a permissão, começou a tagarelar gentilmente sobre Itália, o salto que fora para lá virem, o sucesso gratificante desse salto, a melhoria da irmã, a necessidade de fechar as janelas dos quartos à noite, e de esvaziar bem as garrafas de água de manhã. Manejava os assuntos com agrado, e estes eram, talvez, mais dignos de atenção do que a elevada disputa sobre Guelfos e Gibelinos que decorria tempestuosamente na outra ponta da sala. Foi uma verdadeira catástrofe, não um mero episódio, aquela noite dela em Veneza, quando encontrara no quarto de dormir algo que é pior do que uma pulga, embora melhor do que outra coisa.

"Mas aqui estão tão seguras como em Inglaterra. A Signora Bertolini é tão inglesa."

"Mas os nossos quartos cheiram", disse a pobre Lucy. "Receamos ir para a cama."

"Ah, então dão para o pátio." Suspiriu. "Se ao menos o Sr. Emerson fosse mais diplomático! Tivemos tanta pena de si ao jantar."

"Acho que ele pretendia ser amável."

"Sem dúvida que pretendia", disse Miss Bartlett.

"O Sr. Beebe acabou de me ralhar pela minha natureza desconfiada. É claro que me continha por causa da minha prima."

"Claro", disse a senhora idosa; e murmuraram que não se podia ser demasiado cuidadoso com uma jovem.

Lucy tentou parecer recatada, mas não conseguiu deixar de se sentir uma grande parva. Ninguém era cuidadoso com ela em casa; ou, pelo menos, ela nunca reparara nisso.

"Quanto ao velho Sr. Emerson—mal sei. Não, ele não é diplomático; mas já reparou que há pessoas que fazem coisas da maior indelicadeza, e contudo ao mesmo tempo—belas?"

"Belas?", disse Miss Bartlett, intrigada com a palavra. "A beleza e a delicadeza não serão o mesmo?"

"Era o que se pensaria", disse a outra, atrapalhada. "Mas as coisas são tão difíceis, penso eu por vezes."

Não prosseguiu no assunto, pois o Sr. Beebe reapareceu, com ar extremamente agradável.

"Miss Bartlett", exclamou ele, "está tudo resolvido quanto aos quartos. Que bom. O Sr. Emerson falava nisso na sala de fumo, e como eu sabia o que sabia, encorajei-o a renovar a oferta. Deixou-me vir perguntar- lhes. Ficaria muito satisfeito."

"Oh, Charlotte", exclamou Lucy para a prima, "agora temos mesmo de ficar com os quartos. O velho é tão simpático e amável quanto é possível ser."

Miss Bartlett ficou calada.

"Receio", disse o Sr. Beebe, após uma pausa, "ter sido intrometido. Devo pedir desculpa pela minha interferência."

Gravemente contrariado, virou-se para sair. Só então Miss Bartlett respondeu: "Os meus desejos, minha querida Lucy, são insignificantes em comparação com os teus. Seria mesmo cruel se eu te impedisse de fazer o que te agrada em Florença, quando estou aqui apenas por generosidade tua. Se quiseres que eu expulse estes cavalheiros dos quartos deles, fá-lo-ei. Quer então, Sr. Beebe, ter a bondade de dizer ao Sr. Emerson que aceito a sua amável oferta, e depois conduzi-lo a mim, para que eu lhe possa agradecer pessoalmente?"

Ergueu a voz enquanto falava; ouviu-se por toda a sala de estar, e silenciou os Guelfos e os Gibelinos. O clérigo, amaldiçoando intimamente o sexo feminino, fez uma reverência e partiu com a sua mensagem.

"Lembra-te, Lucy, só eu estou implicada nisto. Não quero que a aceitação venha de ti. Concede-me isso, ao menos."

O Sr. Beebe voltou, dizendo algo nervosamente:

"O Sr. Emerson está ocupado, mas aqui está o filho em vez dele."

O jovem fitou de alto as três senhoras, que se sentiram sentadas no chão, tão baixas eram as suas cadeiras.

"O meu pai", disse ele, "está no banho, por isso não lhe podem agradecer pessoalmente. Mas qualquer mensagem que lhe dêem transmitirei-lhe logo que saia."

Miss Bartlett não estava à altura do banho. Todas as suas finas amabilidades saíram tortas. O jovem Sr. Emerson alcançou um triunfo notável, para deleite do Sr. Beebe e para deleite secreto de Lucy.

"Pobre rapaz!", disse Miss Bartlett, mal ele saíra.

"Como ele está zangado com o pai por causa dos quartos! Faz tudo para se manter polido."

"Daqui a meia hora ou pouco mais os quartos estarão prontos", disse o Sr. Beebe. Depois, olhando com algum pensar para as duas primas, retirou-se para os seus aposentos, para actualizar o seu diário filosófico.

—Ah, meu Deus! — murmurou a velha senhorinha, e estremeceu como se todos os ventos do céu tivessem entrado naAparelha. — Os cavalheiros por vezes não se apercebem… — A sua voz foi-se apagando, mas Miss Bartlett pareceu compreender, e desenvolveu-se uma conversa na qual cavalheiros que não se apercebem verdadeiramente desempenhavam um papel principal. Lucy, que também não se apercebia, refugiou-se na literatura. Pegando no Baedeker’s Handbook to Northern Italy, decorou as datas mais importantes da História de Florença. Pois estava determinada a divertir-se no dia seguinte. Assim a meia-hora foi passando proveitosamente, e por fim Miss Bartlett levantou-se com um suspiro e disse:

— Creio que já se pode tentar. Não, Lucy, não te mexas. Eu vou superintender a mudança.

— Como fazes tudo tu — disse Lucy.

— Naturalmente, querida. É assunto meu.

— Mas eu gostaria de te ajudar.

— Não, querida.

A energia de Charlotte! E o seu altruísmo! Fora assim toda a vida, mas realmente, nesta viagem a Itália, estava a superar-se. Assim Lucy sentia, ou se esforçava por sentir. E contudo — havia nela um espírito rebelde que perguntava se a aceitação não poderia ter sido menos delicada e mais bela. Em todo o caso, entrou no seu próprio quarto sem qualquer sentimento de alegria.

— Quero explicar — disse Miss Bartlett — por que foi que tomei o quarto maior. Naturalmente, claro, tê-lo-ia cedido para ti; mas acontece que eu sei que pertence ao rapaz, e tinha a certeza de que a tua mãe não gostaria disso.

Lucy ficou perplexa.

— Se tens de aceitar um favor, é mais adequado que fiques em obrigação para com o pai dele do que para com ele. Sou uma mulher do mundo, no meu pequeno modo, e sei onde estas coisas levam. Contudo, o Sr. Beebe é uma espécie de garantia de que eles não vão abusar da situação.

— A mãe não se importaria, tenho a certeza — disse Lucy, mas teve de novo o sentido de questões maiores e insuspeitadas.

Miss Bartlett limitou-se a suspirar, e envolveu-a num abraço protector ao desejar-lhe boa noite. Isso deu a Lucy a sensação de uma névoa, e quando chegou ao seu quarto abriu a janela e respirou o ar limpo da noite, pensando no velho bondoso que lhe permitira ver as luzes a dançar no Arno e os ciprestes de San Miniato, e as colinas dos Apeninos, negras contra a lua que subia.

Miss Bartlett, no seu quarto, fechou os postigos e trancou a porta, e depois fez um reconhecimento do apartamento para ver onde levavam os armários, e se havia algum oubliette ou entradas secretas. Foi então que viu, pregado acima do lavatório, um papel no qual se via garrapateado um enorme ponto de interrogação. Nada mais.

— O que significa isto? — pensou ela, e examinou-o cuidadosamente à luz de uma vela. Sem sentido ao princípio, tornou-se gradualmente ameaçador, ofensivo, carregado de mau agouro. Foi tomada de um impulso para o destruir, mas por sorte lembrou-se de que não tinha esse direito, já que deveria ser propriedade do jovem Sr. Emerson. Então despregou-o cuidadosamente, e colocou-o entre duas folhas de mata-borrão para o manter limpo para ele. Depois completou a sua inspecção do quarto, suspirou profundamente conforme o seu hábito, e foi para a cama.

Capítulo II Em Santa Croce Sem Baedeker

Era agradável despertar em Florença, abrir os olhos para um quarto claro e despojado, com um soalho de tijoleira vermelha que parece limpa embora não esteja; com um tecto pintado onde grifos cor-de-rosa e amorinhos azuis folgam numa floresta de violinos e fagotes amarelos. Era agradável também abrir de par em par as janelas, esmagando os dedos em fechos desconhecidos, debruçar-se para o sol com colinas e árvores e igrejas de mármore em frente, e bem em baixo o Arno, a murmurar contra o paredão da estrada.

Sobre o rio, homens trabalhavam com pás e peneiros na praia arenosa, e no rio havia um barco, também diligentemente empregado em algum fim misterioso. Um eléctrico eléctrico passou a correr sob a janela. Ninguém ia dentro, excepto um turista; mas as plataformas transbordavam de italianos, que preferiam ir de pé. As crianças tentavam pendurar-se atrás, e o revisor, sem maldade, cuspia-lhes para a cara para as obrigar a largar. Depois apareceram soldados — homens bem-parecidos e de baixa estatura — levando cada um uma mochila coberta de pêlo sarnento, e um capote que fora talhado para algum soldado maior. Ao lado deles caminhavam oficiais, com ar tolo e feroz, e à frente marchavam rapazinhos, dando mortais ao compasso da banda. O eléctrico enredou-se nas suas fileiras, e avançou com dificuldade, como uma lagarta num enxame de formigas. Um dos rapazinhos caiu, e alguns bois brancos saíram de um arco. Na verdade, se não fosse pelo bom conselho de um velho que vendia colchetes, a rua talvez nunca tivesse ficado desimpedida.

Por entre trivialidades como estas pode passar-se desperdiçada muitas uma hora valiosa, e o viajante que foi a Itália estudar os valores tácteis de Giotto, ou a corrupção do Papado, pode voltar lembrando-se apenas do céu azul e dos homens e mulheres que vivem sob ele. Assim foi conveniente que Miss Bartlett batesse à porta e entrasse, e tendo comentado o facto de Lucy ter deixado a porta destrancada, e de se ter debruçado da janela antes de estar completamente vestida, apressasse-a a vestir-se, ou o melhor do dia ter-se-ia perdido. Quando Lucy ficou pronta, a sua prima já tomara o pequeno-almoço, e ouvia a senhora inteligente entre as migalhas.

Seguiu-se então uma conversa em moldes já familiares. Miss Bartlett estava, afinal, um nadinha cansada, e achava que seria melhor passarem a manhã a instalar-se; a menos que Lucy quisesse muito sair? Lucy até gostaria de sair, pois era o seu primeiro dia em Florença, mas, claro, podia ir sozinha. Miss Bartlett não podia permitir tal coisa. Claro que acompanharia Lucy a toda a parte. Oh, certamente não; Lucy ficaria com a prima. Oh, não! isso nunca.

Neste ponto a senhora inteligente interrompeu.

— Se é a Sra. Grundy que vos preocupa, asseguro-vos que podeis negligenciar essa boa pessoa. Sendo inglesa, Miss Honeychurch estará perfeitamente segura. Os italianos compreendem. Uma grande amiga minha, a Contessa Baroncelli, tem duas filhas, e quando não pode mandar uma criada com elas à escola, deixa-as ir com chapéus de marinheiro. Toda a gente as toma por inglesas, vedes, especialmente se o cabelo está bem puxado para trás.

Miss Bartlett não se deixou convencer pela segurança das filhas da Contessa Baroncelli. Estava determinada a levar Lucy ela própria, pois a sua cabeça não estava assim tão mal. A senhora inteligente disse então que ia passar uma longa manhã em Santa Croce, e que se Lucy quisesse ir também, ficaria encantada.

— Levo-a por um caminho traseiro sujinho, Miss Honeychurch, e se me trouxer sorte, teremos uma aventura.

Lucy disse que era muito amável, e abriu logo o Baedeker para ver onde ficava Santa Croce.

— Tsc, tsc! Miss Lucy! Espero em breve emancipar-vos do Baedeker. Ele mal toca a superfície das coisas. Quanto à verdadeira Itália — ele nem sequer a sonha. A verdadeira Itália só se encontra por observação paciente.

Isto soou muito interessante, e Lucy apressou o pequeno-almoço, e partiu com a sua nova amiga com excelente disposição. A Itália chegava finalmente. A Signora Cockney e as suas obras tinham desaparecido como um mau sonho.

Miss Lavish — pois esse era o nome da senhora inteligente — virou à direita ao longo do ensolarado Lung' Arno. Como estava agradavelmente quente! Mas um vento pelas ruas laterais cortava como uma faca, não cortava? Ponte alle Grazie — particularmente interessante, mencionado por Dante. San Miniato — bonito e interessante também; o crucifixo que beijou um assassino — Miss Honeychurch havia de lembrar-se da história. Os homens no rio estavam a pescar. (Falso; mas, afinal, também o é a maior parte da informação.) Depois Miss Lavish lançou-se sob o arco dos bois brancos, e parou, e exclamou:

— Um cheiro! um verdadeiro cheiro florentino! Cada cidade, deixai que vos ensine, tem o seu próprio cheiro.

— É um cheiro muito agradável? — disse Lucy, que herdara da mãe uma aversão à sujidade.

— Não se vem a Itália para coisas agradáveis — foi a réplica —; vem-se pela vida. Buon giorno! Buon giorno! — curvando-se para a direita e para a esquerda. — Olhai aquele carro do vinho tão adorável! Como o condutor nos olha, dear, simples alma!

Assim Miss Lavish prosseguiu pelas ruas da cidade de Florença, baixa, irrequieta e brincalhona como um gatinho, embora sem a graça de um gatinho. Era um regalo para a rapariga estar com alguém tão inteligente e tão animado; e uma capa militar azul, como a que usa um oficial italiano, só aumentou a sensação de festa.

— Buon giorno! Aceitai a palavra de uma velha, Miss Lucy: nunca vos arrependereis de um pouco de cortesia para com os vossos inferiores. Essa é a verdadeira democracia. Embora eu seja também uma verdadeira Radical. Ora, aí estais chocada.

— De modo nenhum! — exclamou Lucy. — Nós também somos Radicais, até ao tutano. O meu pai votou sempre em Mr. Gladstone, até ele ter ficado tão terrível acerca da Irlanda.

— Vejo, vejo. E agora passastes para o lado do inimigo.

— Oh, por favor…! Se o meu pai fosse vivo, tenho a certeza de que voltaria a votar Radical agora que a Irlanda está resolvida. E na verdade, o vidro da nossa porta da frente foi partido nas últimas eleições, e o Freddy tem a certeza de que foram os Tories; mas a mãe diz que disparate, um vagabundo.

— Vergonhoso! Uma zona industrial, suponho?

— Não — nas colinas de Surrey. Acerca de cinco milhas de Dorking, com vista sobre o Weald.

Miss Lavish pareceu interessada, e abrandou o seu trote.

— Que zona tão deliciosa; conheço-a bem. Está cheia das pessoas mais agradáveis. Conheceis Sir Harry Otway — um Radical como nunca houve outro?

— Muito bem, mesmo.

— E a velha Mrs. Butterworth, a filantropa?

— Ora essa, aluga-nos um campo! Que engraçado!

Miss Lavish olhou para a estreita fita de céu, e murmurou: — Ah, tendes propriedade em Surrey?

— Quase nenhuma — disse Lucy, com medo de parecer presunçosa. — Apenas trinta acres — só o jardim, todo em descida, e alguns campos.

Miss Lavish não se mostrou desgostosa, e disse que era exactamente o tamanho da propriedade da tia dela em Suffolk. A Itália recuou. Tentaram lembrar-se do apelido de Lady Louisa qualquer-coisa, que alugara uma casa perto da Summer Street no outro ano, mas ela não gostara, o que era estranho. E justamente quando Miss Lavish tinha apanhado o nome, calou-se e exclamou:

— Deus nos valha! Deus nos valha e nos salve! Perdemos o caminho.

Certamente pareciam ter levado muito tempo a chegar a Santa Croce, a torre da qual fora claramente visível da janela do desembarque. Mas Miss Lavish dissera tantas vezes que conhecia a sua Florença de cor, que Lucy a seguira sem receios.

— Perdidas! Perdidas! Minha cara Miss Lucy, durante as nossas diatribes políticas demos uma volta errada. Como esses horríveis Conservadores se riam de nós! O que havemos de fazer? Duas mulheres sozinhas numa cidade desconhecida. Ora, a isto é que eu chamo uma aventura.

Lucy, que queria ver Santa Croce, sugeriu, como solução possível, que perguntassem o caminho.

— Oh, mas isso é palavra de cobarde! E não, não, não haveis de olhar para o vosso Baedeker. Dai-mo; não vos deixarei levá-lo. Iremos simplesmente à deriva.

Assim foram à deriva por uma série daquelas ruas acinzentadas e castanhas, nem espaçosas nem pitorescas, das quais o bairro oriental da cidade abunda. Lucy perdeu em breve o interesse pelo descontentamento de Lady Louisa, e ficou descontente ela própria. Por um momento ravissante a Itália apareceu. Encontrou-se na Piazza dell'Annunziata e viu no barro terracota vivo aqueles bebés divinos que nenhuma reprodução barata consegue jamais banalizar. Ali estavam, com os seus membros luzidios a rebentar dos vestidos da caridade, e os seus braços fortes e brancos estendidos contra círculos de céu. Lucy pensou que nunca tinha visto coisa mais bela; mas Miss Lavish, com um grito de alarme, arrastou-a para diante, declarando que estavam fora do seu caminho em pelo menos uma milha.

A hora aproximava-se em que o pequeno-almoço continental começa, ou antes, deixa de fazer efeito, e as senhoras compraram pasta quente de castanha numa lojinha, porque parecia tão típica. Sabia em parte ao papel em que vinha embrulhada, em parte a óleo de cabelo, em parte ao grande desconhecido. Mas deu-lhes forças para irem à deriva até outra Piazza, grande e poeirenta, no outro lado da qual se erguia uma fachada a preto e branco de uma fealdade transcendente. Miss Lavish falou-lhe dramaticamente. Era Santa Croce. A aventura terminara.

— Esperai um minuto; deixai passar aquelas duas pessoas, ou terei de lhes falar. Detesto a convivência convencional. Que nojo! Também eles vão entrar na igreja. Ah, o inglês no estrangeiro!

— Estivemos em frente deles ao jantar ontem à noite. Cederam-nos os quartos. Foram tão amáveis.

— Olhai para as suas figuras! — riu Miss Lavish. — Atravessam a minha Itália como um par de vacas. É muito maldoso da minha parte, mas gostava de marcar um exame em Dover, e devolver todos os turistas que não o passassem.

— Que nos perguntaria?

Miss Lavish pousou a mão de modo agradável no braço de Lucy, como para sugerir que ela, em todo o caso, teria nota máxima. Neste estado de exaltação chegaram aos degraus da grande igreja, e estavam prestes a entrar quando Miss Lavish parou, deu um guincho, ergueu os braços e gritou:

— Ali vai a minha caixa de cores locais! Tenho de lhe dizer uma palavra!

E num instante já ia através da Piazza, a capa militar a adejar no vento; nem abrandou até alcançar um velho de suíças brancas, e lhe dar uma pinça brincalhona no braço.

Lucy esperou quase dez minutos. Depois começou a cansar-se. Os pedintes atormentavam-na, o pó soprava-lhe para os olhos, e lembrou-se de que uma jovem não deve demorar-se em lugares públicos. Desceu lentamente para a Piazza com a intenção de se juntar a Miss Lavish, que era realmente quase demasiado original. Mas nesse momento Miss Lavish e a sua caixa de cores locais puseram-se também em movimento, e desapareceram por uma rua lateral, ambos gesticulando largamente. Lágrimas de indignação vieram aos olhos de Lucy, em parte porque Miss Lavish a abandonara, em parte porque lhe levara o Baedeker. Como havia de encontrar o caminho de casa? Como havia de orientar-se em Santa Croce? A sua primeira manhã estava estragada, e talvez nunca mais voltasse a Florença. Há poucos minutos estivera cheia de bom ânimo, falando como uma mulher culta, e persuadindo-se meio a si mesma de que era cheia de originalidade. Agora entrava na igreja deprimida e humilhada, nem sequer capaz de se lembrar se fora construída pelos Franciscanos ou pelos Dominicanos. Claro que devia ser um edifício maravilhoso. Mas como se parecia com um celeiro! E como estava frio! Claro que continha frescos de Giotto, na presença de cujos valores tácteis ela seria capaz de sentir o que era apropriado. Mas quem lhe diria quais eram? Passeou desdenhosamente, sem vontade de se entusiasmar com monumentos de autoria ou data incertas. Não havia ali ninguém sequer para lhe dizer qual, de entre todas as lajes sepulcrais que pavimentavam a nave e os transeptos, era a verdadeiramente bela, a que Mr. Ruskin mais elogiára.

Então o charme pernicioso da Itália actuou nela, e, em vez de adquirir informação, começou a ser feliz. Decifrou os avisos italianos — os avisos que proibiam as pessoas de introduzir cães na igreja — o aviso que suplicava às pessoas, no interesse da saúde e por respeito ao sagrado edifício em que se encontravam, que não cuspissem. Observou os turistas; os narizes tão vermelhos como os Baedekers, tão frio estava em Santa Croce. Viu o destino horrível que se abatera sobre três papistas — dois meninos e uma menina — que começaram a carreira encharcando-se uns aos outros com Água Benta, e depois seguiram para o memorial de Maquiavel, gotejando mas sagrados. Avançando para ele muito lentamente e a distâncias imensas, tocaram a pedra com os dedos, com os lenços, com as cabeças, e depois recuaram. Que poderia significar aquilo? Fizeram-no outra vez e outra. Então Lucy percebeu que tinham confundido Maquiavel com qualquer santo, esperando adquirir virtude. O castigo seguiu-se rapidamente. O menino mais pequeno tropeçou numa das lajes sepulcrais tão admiradas por Mr. Ruskin, e enredou os pés nos traços de um bispo jacente. Protestante como era, Lucy precipitou-se para diante. Chegou tarde demais. Ele caiu pesadamente sobre os dedos virados para cima do prelado.

— Bispo detestável! — exclamou a voz do velho Sr. Emerson, que também se precipitara para diante. — Duro em vida, duro na morte. Vai para o sol, rapazinho, e beija a mão ao sol, pois é para aí que deves estar. Bispo intolerável!

A criança gritou freneticamente com aquelas palavras, e com aquelas pessoas terríveis que a levantaram, a sacudiram o pó, lhe massajaram os maus-tratos e disseram para não ser supersticiosa.

— Olhai para ele — disse o Sr. Emerson a Lucy. — Eis o resultado: um bebé magoado, com frio e assustado! Mas que mais se pode esperar de uma igreja?

As pernas da criança tinham ficado como cera derretida. Cada vez que o velho Sr. Emerson e Lucy o punham de pé, caía com um urro. Por sorte, uma senhora italiana, que devia estar a rezar, veio em socorro. Por alguma virtude misteriosa, que só as mães possuem, enrijeceu a espinha do rapazinho e deu força aos joelhos dele. Ele ficou de pé. Ainda a gaguejar de agitação, afastou-se a andar.

— Sois uma mulher habilidosa — disse o Sr. Emerson. — Fizestes mais do que todas as relíquias do mundo. Não sou da vossa crença, mas creio naqueles que tornam os seus semelhantes felizes. Não há sistema do universo —

Ele fez pausa à procura de uma frase.

— Niente — disse a senhora italiana, e voltou às suas orações.

— Não tenho a certeza de que ela compreenda inglês — sugeriu Lucy.

No seu estado de brandura, já não desprezava os Emerson. Estava determinada a ser amável com eles, bela antes que delicada, e, se possível, a apagar a civilidade de Miss Bartlett com alguma referência graciosa aos amáveis quartos.

— Aquela mulher compreende tudo — foi a resposta do Sr. Emerson. — Mas que estais vós a fazer aqui? Estais a ver a igreja? Já acabastes a igreja?

— Não — exclamou Lucy, lembrando-se do seu queixume. — Vim para aqui com Miss Lavish, que havia de explicar tudo; e mesmo junto à porta — é demais! — ela simplesmente fugiu, e depois de esperar bastante tempo, tive de entrar sozinha.

— Porque não havíeis de o fazer? — disse o Sr. Emerson.

— Sim, porque não havíeis de vir sozinha? — disse o filho, dirigindo-se à jovem pela primeira vez.

— Mas Miss Lavish levou-me até o Baedeker.

— Baedeker? — disse o Sr. Emerson. — Folgo que vos preocupe isso. Vale a pena preocupar-se, a perda de um Baedeker. Isso vale a pena.

Lucy ficou perplexa. Sentiu de novo a presença de alguma ideia nova, e não tinha a certeza para onde a levaria.

— Se não tendes Baedeker — disse o filho —, é melhor juntares-vos a nós. Seria isto para onde a ideia levaria? Refugiou-se na sua dignidade.

— Muito obrigada, mas não posso pensar nisso. Espero que não suponhais que vim para me juntar a vós. Realmente vim para ajudar com a criança, e para vos agradecer por tão gentilmente nos terdes cedido os vossos quartos ontem à noite. Espero que não vos tenhais dado grande incómodo.

— Minha cara — disse o velho com suavidade —, creio que estais a repetir o que ouviste a pessoas mais velhas. Estás a fingir que és susceptível; mas não és realmente. Deixa de ser tão maçadora, e diz-me antes que parte da igreja queres ver. Levar-te lá será um verdadeiro prazer.

Ora, isto era abominavelmente impertinente, e ela deveria estar furiosa. Mas por vezes é tão difícil perder a paciência como é difícil, noutras ocasiões, mantê-la. Lucy não conseguia zangar-se. O sr. Emerson era um homem velho, e seguramente uma rapariga podia agradar-lhe. Por outro lado, o filho era um homem jovem, e ela sentia que uma rapariga deveria estar ofendida com ele, ou pelo menos estar ofendida diante dele. Foi para ele que ela olhou antes de responder.

— Não sou susceptível, espero. O que quero ver são os Giottos, se tiverdes a bondade de me dizer quais são.

O filho acenou com a cabeça. Com um ar de sombria satisfação, guiou-a até à Capela Peruzzi. Havia nele qualquer coisa de professor. Ela sentiu-se como uma criança na escola que respondera correctamente a uma pergunta.

A capela já estava cheia de uma congregação atenta, e dela se ergueu a voz de um conferencista, explicando-lhes como deviam venerar Giotto, não através de avaliações hábeis, mas segundo os critérios do espírito.

— Lembrai-vos — dizia ele —, dos factos acerca desta igreja de Santa Croce; como foi construída pela fé, no pleno fervor do medievalismo, antes que qualquer sombra do Renascimento tivesse aparecido. Observai como Giotto nestes frescos — agora, infelizmente, estragados pelas restaurações — está livre das armadilhas da anatomia e da perspectiva. Poderá haver algo mais majestoso, mais patético, mais belo, mais verdadeiro? Como pouco, sentimos nós, valem o saber e a habilidade técnica contra um homem que verdadeiramente sente!

— Não! — exclamou o sr. Emerson, em voz muito alta demais para uma igreja. — Não vos lembreis de coisa nenhuma dessas! Construída pela fé, de facto! Isso quer dizer simplesmente que os operários não foram pagos como devia ser. E quanto aos frescos, eu não vejo verdade nenhuma neles. Olhai para aquele homem gordo de azul! Deve pesar tanto como eu, e está a subir para o céu como um balão de ar.

Referia-se ao fresco da «Ascensão de São João». Lá dentro, a voz do conferencista vacilou, como bem poderia. A audiência agitou-se inquieta, e Lucy também. Ela tinha a certeza de que não deveria estar na companhia daqueles homens; mas eles haviam lançado sobre ela um sortilégio. Eram tão sérios e tão estranhos que ela não conseguia lembrar-se de como se devia comportar.

— Então, isto aconteceu ou não aconteceu? Sim ou não?

George respondeu:

— Aconteceu assim, se é que aconteceu. Eu antes subiria ao céu por minha própria vontade do que ser empurrado por querubins; e, se lá chegasse, gostaria que os meus amigos se debruçassem dele, exactamente como fazem aqui.

— Tu nunca subirás — disse o pai. — Tu e eu, meu caro filho, jazeremos em paz na terra que nos gerou, e os nossos nomes desaparecerão, com tanta certeza como a nossa obra sobreviverá.

— Algumas pessoas só conseguem ver o túmulo vazio, e não o santo, qualquer que ele seja, que sobe. Aconteceu assim mesmo, se é que aconteceu.

— Com licença — disse uma voz glacial. — A capela é um tanto pequena para dois grupos. Deixaremos de vos incomodar.

O conferencista era um clérigo, e a sua audiência devia ser também o seu rebanho, pois tinham nas mãos tanto livros de orações como guias. Saíram da capela em silêncio. Entre eles estavam as duas senhorinhas idosas da Pensione Bertolini — Miss Teresa e Miss Catherine Alan.

— Esperai! — gritou o sr. Emerson. — Há lugar de sobra para todos nós. Esperai!

A procissão desapareceu sem uma palavra.

Pouco depois, podia ouvir-se o conferencista na capela seguinte, descrevendo a vida de São Francisco.

— George, creio que aquele clérigo é o cura de Brixton.

George foi à capela seguinte e voltou, dizendo:

— Talvez seja. Não me lembro.

— Então é melhor eu ir falar-lhe e lembrar-lhe quem eu sou. É o tal sr. Eager. Porque foi ele embora? Falámos alto demais? Que aborrecimento. Vou lá dizer que lamentamos. Não devia ir? Talvez ele volte.

— Ele não voltará — disse George.

Mas o sr. Emerson, contrito e infeliz, apressou-se a ir pedir desculpas ao Rev. Cuthbert Eager. Lucy, aparentemente absorta numa luneta, pôde ouvir de novo a conferência interrompida, a voz ansiosa e agressiva do velho, as respostas secas e ofendidas do seu oponente. O filho, que tomava cada pequeno contratempo como se fosse uma tragédia, também escutava.

— O meu pai produz esse efeito em quase toda a gente — informou-a ele. — Ele tenta ser amável.

— Espero que todos tentemos — disse ela, sorrindo com nervosismo.

— Porque pensamos que isso melhora o nosso carácter. Mas ele é amável com as pessoas porque as ama; e elas acabam por lhe ler o coração, e ficam ofendidas, ou assustadas.

— Como são tolas! — disse Lucy, embora no íntimo os compreendesse; — Parece-me que um acto de bondade feito com tato—

— Tato!

Ele atirou a cabeça para trás com desprezo. Aparentemente, ela dera a resposta errada. Ela observou a criatura singular a caminhar de um lado para o outro da capela. Para um jovem, o seu rosto era áspero, e — até que as sombras caíssem sobre ele — duro. Envolvido em sombras, despontava em ternura. Ela viu-o mais uma vez em Roma, no tecto da Capela Sistina, carregando um fardo de bolotas. Saudável e musculado, transmitia-lhe contudo a sensação de acinzentado, de tragédia que só poderia encontrar solução na noite. A sensação passou depressa; não era próprio dela ter acolhido algo tão subtil. Nascido do silêncio e de uma emoção desconhecida, passou quando o sr. Emerson regressou, e ela pôde reentrar no mundo da conversa rápida, que era o único que lhe era familiar.

— Levaram-te com um fora? — perguntou-lhe o filho, tranquilo.

— Mas nós estragámos o prazer a não sei quantas pessoas. Não vão voltar.

— «...cheio de simpatia inata...prontidão para perceber o bem nos outros...visão da fraternidade humana...» Fragmentos da conferência sobre São Francisco chegaram flutuando por cima da parede divisória.

— Não deixemos que tu também percas o teu — continuou ele para Lucy. — Já olhaste para aqueles santos?

— Sim — disse Lucy. — São lindos. Sabeis qual é a lápide que Ruskin louva?

Ele não sabia, e sugeriu que tentassem adivinhá-la. George, para grande alívio dela, recusou-se a mexer-se, e ela e o velho vaguearam, não sem agrado, por Santa Croce, que, embora se assemelhe a um celeiro, guardou dentro das suas paredes muitas coisas belas. Havia também mendigos a evitar e guias a esquivar por entre os pilares, e uma velha com o seu cão, e aqui e ali um padre que, com modéstia, se abria caminho por entre os grupos de turistas para a sua missa. Mas o sr. Emerson só estava meio interessado. Observava o conferencista, cujo êxito ele acreditava ter comprometido, e depois observava, ansioso, o filho.

— Porque irá ele olhar para aquele fresco? — disse, inquieto. — Eu não vi nada nele.

— Eu gosto de Giotto — respondeu ela. — É tão extraordinário aquilo que dizem acerca dos seus valores tácteis. Embora eu goste mais de coisas como os meninos da Della Robbia.

— E fazes bem. Um bebé vale por uma dúzia de santos. E o meu bebé vale por todo o Paraíso, e, tanto quanto posso ver, ele vive no Inferno.

Lucy sentiu de novo que aquilo não estava certo.

— No Inferno — repetiu ele. — Ele é infeliz.

— Oh, céus! — disse Lucy.

— Como pode ele ser infeliz se é forte e está vivo? Que mais se lhe pode dar? E pensai como foi educado — livre de toda a superstição e ignorância que levam os homens a odiarem-se uns aos outros em nome de Deus. Com uma educação como a dele, eu pensava que ele havia de crescer feliz.

Ela não era teóloga, mas sentiu que ali estava um velho muito tolo, bem como um velho muito ímpio. Sentiu também que a sua mãe talvez não gostasse de a ver falar com aquele género de pessoa, e que Charlotte se oporia com a maior veemência.

— O que havemos de fazer dele? — perguntou ele. — Ele vem passar as férias a Itália, e comporta-se — assim; como a criança que devia estar a brincar e que se magoou contra a lápide. Eh? Que disseste?

Lucy não fizera qualquer sugestão. De repente, ele disse:

— Agora não sejas tola a este respeito. Não te peço que te apaixones pelo meu rapaz, mas acho que poderias ao menos tentar compreendê-lo. Estás mais perto da idade dele, e, se te deixares ir, tenho a certeza de que és sensata. Podias ajudar-me. Ele conheceu tão poucas mulheres, e tu tens tempo. Ficas aqui umas semanas, suponho? Mas deixa-te ir. Tu tens tendência para te enredares, se posso julgar pelo que se passou ontem à noite. Deixa-te ir. Tira das profundezas esses pensamentos que não compreendes, e estende-os à luz do sol para conheceres o seu significado. Ao compreenderes o George, poderás aprender a compreender-te a ti mesma. Será bom para ambos.

Lucy não encontrou resposta para este extraordinário discurso.

— Eu só sei qual é o mal que o aflige; não porquê.

— E qual é? — perguntou Lucy, temerosa, esperando qualquer relato angustiante.

— O velho problema; as coisas não encaixam.

— Que coisas?

— As coisas do universo. É bem verdade. Não encaixam.

— Oh, sr. Emerson, que quereis vós dizer?

Na sua voz normal, de tal modo que ela quase não se apercebeu de que estava a citar poesia, ele disse:

— «De longe, da tarde e da manhã, E daquele céu de doze ventos, O estofo da vida para me tecer Soprou para aqui: eis-me aqui»

Eu e o George sabemos isto, mas porque o aflige a ele? Sabemos que vimos dos ventos, e que a eles havemos de voltar; que toda a vida é talvez um nó, um enredo, uma nódoa na lisa eternidade. Mas porque ha-de isso tornar-nos infelizes? Antes amemo-nos uns aos outros, e trabalhemos e regozijemo-nos. Eu não creio nesta tristeza do mundo.

Miss Honeychurch assentiu.

— Então fazei com que o meu filho pense como nós. Fazei-o perceber que, ao lado do eterno Porquê, há um Sim — um Sim transitório, se quiserdes, mas um Sim.

De repente, ela riu; seguramente era preciso rir. Um jovem melancólico porque o universo não encaixa, porque a vida é um enredo ou um vento, ou um Sim, ou qualquer coisa!

— Lamento muito — exclamou ela. — Ides pensar que sou insensível, mas — mas — Então tornou-se maternal. — Oh, mas o vosso filho precisa de ocupação. Não tem algum passatempo em especial? Ora, eu própria tenho preocupações, mas geralmente consigo esquecê-las ao piano; e a filatelia fez muito bem ao meu irmão. Talvez a Itália o aborreça; devieis tentar os Alpes ou os Lagos.

O rosto do velho ensombreceu-se, e ele tocou-a de leve com a mão. Isto não a alarmou; ela pensou que o seu conselho o impressionara e que ele estava a agradecê-la. De facto, ele já não a alarmava de modo nenhum; ela via-o como uma criatura afectuosa, mas bastante tola. Os seus sentimentos estavam tão dilatados espiritualmente como uma hora antes haviam estado esteticamente, antes de perder o Baedeker. O pobre George, que agora avançava para eles por cima das lápides, parecia-lhe ao mesmo tempo digno de pena e absurdo. Aproximou-se, o rosto na sombra. Disse:

— Miss Bartlett.

— Oh, meu Deus! — disse Lucy, desmoronando-se de súbito e vendo de novo toda a vida sob uma nova perspectiva. — Onde? Onde?

— Na nave.

— Estou a ver. Aquelas mexeriqueiras das pequenas Miss Alans devem ter— Ela travou-se.

— Pobre rapariga! — explodiu o sr. Emerson. — Pobre rapariga!

Ela não podia deixar isto passar, pois era exactamente o que ela própria estava a sentir.

— Pobre rapariga? Não percebo aonde visa essa observação. Eu acho-me uma rapariga muito afortunada, asseguro-vos. Sou perfeitamente feliz, e estou a passar um esplêndido momento. Suplico-vos que não percais tempo a lamentar-me. Já há tristeza que chegue no mundo, não é verdade?, sem que se ande a inventá-la. Adeus. Muito vos agradeço a ambos por todas as vossas amabilidades. Ah, sim! Aí vem a minha prima. Uma manhã maravilhosa! Santa Croce é uma igreja extraordinária.

Juntou-se à prima.

Capítulo III Música, Violetas e a Letra «S»

Aconteceu que Lucy, que achava a vida quotidiana um tanto caótica, penetrava num mundo mais sólido quando abria o piano. Deixava então de ser deferente ou condescendente; deixava de ser rebelde ou escrava. O reino da música não é o reino deste mundo; aceita aqueles a quem a criação, o intelecto e a cultura igualmente rejeitaram. A pessoa comum começa a tocar, e ergue-se até ao empíreo sem esforço, enquanto nós olhamos para cima, maravilhados como terá escapado de nós, e pensando como poderíamos adorá-lo e amá-lo, se ele traduzisse as suas visões em palavras humanas, e as suas experiências em acções humanas. Talvez não possa; certamente não o faz, ou fá-lo muitíssimo raramente. Lucy nunca o fizera.

Ela não era uma executante deslumbrante; as suas passagens não se pareciam de todo com fios de pérolas, e não acertava mais notas certas do que convinha a alguém da sua idade e condição. Também não era a jovem apaixonada, que interpreta de forma tão trágica numa tarde de verão com a janela aberta. Havia paixão, sim, mas não se deixava facilmente rotular; deslizava entre o amor e o ódio e o ciúme, e todo o mobiliário do estilo pictórico. E era trágica apenas no sentido em que era grande, pois gostava de tocar do lado da Vitória. Vitória de quê e sobre quê — isso é mais do que as palavras da vida quotidiana nos podem dizer. Mas que algumas sonatas de Beethoven são escritas de forma trágica, ninguém pode contestar; contudo, podem triunfar ou desesperar conforme o intérprete decide, e Lucy decidira que haviam de triunfar.

Uma tarde muito chuvosa na Bertolini permitiu-lhe fazer aquilo de que realmente gostava, e, depois do almoço, abriu o pequeno piano com o seu pano. Algumas pessoas ficaram por ali a elogiá-la, mas, vendo que ela não respondia, dispersaram-se para os quartos a redigir os seus diários ou a dormir. Ela não reparou no sr. Emerson à procura do filho, nem em Miss Bartlett à procura de Miss Lavish, nem em Miss Lavish à procura da sua cigarreira. Como qualquer verdadeiro intérprete, estava inebriada pela simples sensação das notas: eram dedos a acariciarem-na a ela própria; e era pelo tacto, e não apenas pelo som, que alcançava o seu desejo.

O sr. Beebe, sentado sem ser notado junto à janela, reflectia sobre este elemento ilógico em Miss Honeychurch, e lembrou-se da ocasião, em Tunbridge Wells, em que o descobrira. Foi num daqueles espectáculos em que as classes superiores entretêm as inferiores. As cadeiras estavam cheias com uma audiência respeitosa, e as senhoras e senhores da paróquia, sob os auspícios do seu vigário, cantavam, ou recitavam, ou imitavam o abrir de uma rolha de champanhe. Entre os números prometidos constava «Miss Honeychurch. Piano. Beethoven», e o sr. Beebe perguntava-se se seria a Adelaida, ou a marcha das Ruínas de Atenas, quando a sua compostura foi perturbada pelos primeiros compassos da Opus 111. Esteve em suspense ao longo de toda a introdução, pois só quando o andamento se acelera é que se sabe o que o intérprete pretende. Com o rugido do tema inicial percebeu que as coisas corriam de modo extraordinário; nos acordes que anunciam a conclusão, ouviu as marteladas da vitória. Alegrou-se por ela tocar apenas o primeiro andamento, pois não teria conseguido prestar atenção aos meandros intricados dos compassos de nove-dezasseis. A assistência bateu palmas, não menos respeitosa. Foi o sr. Beebe que começou a bater com os pés; era tudo o que se podia fazer.

— Quem é ela? — perguntou ao vigário depois.

— Prima de uma paroquiana minha. Não considero muito feliz a escolha do trecho. Beethoven é, em geral, tão simples e directo no seu apelo, que é pura perversidade escolher uma coisa como aquela, que, a ser alguma coisa, perturba.

— Apresentai-me.

— Ela ficará encantada. Ela e Miss Bartlett não se cansam de elogiar o vosso sermão.

— O meu sermão? — exclamou o sr. Beebe. — Porque haveria ela de o ouvir?

Quando lhe foi apresentado, percebeu porquê, pois Miss Honeychurch, afastada do seu banco de piano, era apenas uma jovem com uma quantidade de cabelo escuro e um rosto muito bonito, pálido e ainda por desabrochar. Gostava de ir a concertos, gostava de estar com a prima, gostava de café gelado e de suspiros. Não duvidou de que também gostava do sermão dele. Mas, antes de deixar Tunbridge Wells, fez uma observação ao vigário, que repetiu agora a Lucy, quando ela fechou o pequeno piano e se moveu sonhadoramente na sua direcção:

— Se Miss Honeychurch algum dia viver como toca, será muito emocionante, tanto para nós como para ela.

Lucy reentrou de imediato na vida quotidiana.

— Oh, que coisa engraçada! Alguém disse exactamente o mesmo à minha mãe, e ela respondeu que esperava que eu nunca vivesse um duo.

— A sra. Honeychurch não gosta de música?

— Não se importa. Mas não gosta que alguém se entusiasme com coisa nenhuma; acha que eu sou parva por causa disso. Ela acha — não consigo perceber. Uma vez, sabem, eu disse que gostava mais do meu próprio tocara do que de qualquer outro. Ela nunca mo perdoou. Claro que eu não queria dizer que tocava bem; só queria dizer—

— Claro — disse ele, wondering porque se dava ao trabalho de explicar.

— A música — disse Lucy, como se tentasse alguma generalização. Não conseguiu concluí-la, e olhou, distraída, para a Itália sob a chuva. Toda a vida do Sul estava desorganizada, e a mais elegante nação da Europa transformara-se em informes fardos de roupa.

A rua e o rio eram de um amarelo sujo, a ponte de um cinzento sujo, e as colinas de um púrpura sujo. Algures, nas suas dobras, iam ocultas Miss Lavish e Miss Bartlett, que haviam escolhido aquela tarde para visitar a Torre del Gallo.

— E a música? — disse o sr. Beebe.

— A pobre Charlotte vai ficar encharcada — foi a resposta de Lucy.

A expedição era típica de Miss Bartlett, que regressaria fria, cansada, esfomeada e angélica, com uma saia arruinada, um Baedeker empapado e uma tosse irritante na garganta. Noutro dia, quando o mundo inteiro cantava e o ar entrava na boca como vinho, ela recusar- se-ia a sair da sala, dizendo que era uma velha, e não era companhia à altura de uma rapariga vigorosa.

— Miss Lavish desencaminhou a vossa prima. Ela espera encontrar a verdadeira Itália na chuva, creio eu.

— Miss Lavish é tão original — murmurou Lucy. Era uma observação feita de cor, a maior proeza da Pensione Bertolini em matéria de definições. Miss Lavish era tão original. O sr. Beebe tinha as suas dúvidas, mas ter-lhes-iam sido tomadas como estreiteza clerical. Por isso, e por outras razões, calou-se.

— É verdade — continuou Lucy em tom reverente —, que Miss Lavish está a escrever um livro?

— Dizem que sim.

— Sobre quê?

— Será um romance — respondeu o sr. Beebe —, que trata da Itália moderna. Permitam-me que vos remeta, para uma descrição, a Miss Catharine Alan, que usa as palavras melhor do que qualquer pessoa que eu conheça.

— Quem me dera que Miss Lavish ma contasse a mim própria. Começámos tão amigas. Mas acho que ela não devia ter fugido com o Baedeker naquela manhã, em Santa Croce. Charlotte ficou muito aborrecida por me encontrar praticamente sozinha, e por isso não pude deixar de ficar um pouco aborrecida com Miss Lavish.

— As duas senhoras, pelo menos, fizeram as pazes.

Ele estava interessado naquela amizade repentina entre mulheres tão aparentemente diferentes como Miss Bartlett e Miss Lavish. Estavam sempre na companhia uma da outra, com Lucy a可怜的 треть. Miss Lavish ele acreditava compreender, mas Miss Bartlett poderia revelar profundidades insuspeitas de estranheza, embora talvez não de significado. Estaria a Itália a desviá-la do caminho de chaperon primário, que ele lhe atribuíra em Tunbridge Wells? Toda a sua vida gostara de estudar senhoras solteironas; eram a sua especialidade, e a sua profissão proporcionara-lhe abundantes oportunidades para esse trabalho. Raparigas como Lucy eram encantadoras de se ver, mas o sr. Beebe, por razões bastante profundas, tinha uma atitude algo fria para com o outro sexo, e preferia interessar-se a ficar enfeitiçado.

Lucy, pela terceira vez, disse que a pobre Charlotte ficaria encharcada. O Arno subia em cheia, arrastando os vestígios dos pequenos carros na margem. Mas a sudoeste aparecera uma bruma amarelada e baça, que podia significar melhoria do tempo, se é que não significava o contrário. Ela abriu a janela para inspeccionar, e uma rajada fria entrou no quarto, arrancando um queixume a Miss Catharine Alan, que entrou no mesmo instante pela porta.

—Ah, querida Miss Honeychurch, vai apanhar um resfriado! E o Sr. Beebe também aqui. Quem diria que isto é Itália? Lá está a minha irmã a aquecer a botija de água quente; nada de conforto, nem provisões como deve ser.

Deslizou para junto deles e sentou-se, consciente de si mesma como sempre quando entrava num quarto que continha um homem, ou um homem e uma mulher.

—Eu ouvia a sua linda música, Miss Honeychurch, mesmo estando no meu quarto com a porta fechada. Portas fechadas; sim, é o mais necessário. Ninguém tem a menor noção de privacidade neste país. E uma pessoa contagia a outra.

Lucy respondeu adequadamente. O Sr. Beebe não pôde contar às senhoras da sua aventura em Módena, onde a criada de quarto lhe entrou no banho aos gritos, exclamando alegremente: «Fa niente, sono vecchia.» Contentou-se em dizer: «Estou inteiramente de acordo consigo, Miss Alan. Os italianos são um povo extremamente desagradável. Espreitam para toda a parte, vêem tudo, e sabem o que nós queremos antes de nós próprios o sabermos. Estamos à sua mercê. Leem-nos os pensamentos, antecipam-nos os desejos. Desde o cocheiro até— até ao Giotto, viram-nos do avesso, e eu ressinto-me disso. No entanto, no fundo do coração eles são— que superfície! Não têm a menor noção da vida intelectual. Quanta razão tem a Signora Bertolini, que me exclamou há dias: 'Ho, Mr. Beebe, se soubesse o que eu sofro com a edjucaishion das crianças. Hi won’t 'ave o meu pequeno Victorier ensinando por um hignorant Italian que não sabe explicar nothink!'»

Miss Alan não acompanhou, mas percebeu que estava a ser escarnecida de modo agradável. A irmã ficou um pouco desiludida com o Sr. Beebe, pois esperava mais de um clérigo de cabeça calva e que usava um par de suíças ruivas. Na verdade, quem haveria de supor que a tolerância, a simpatia e o sentido de humor habitaria aquele corpo militante?

No meio do seu contentamento continuou a deslizar, e por fim a causa veio a lume. Da cadeira debaixo de si tirou um cigarreiro de metal de arma, no qual estavam polvilhadas em turquesa as iniciais «E. L.»

—Isso pertence à Lavish — disse o clérigo. — Boa pessoa, a Lavish, mas eu preferia que ela se pusesse a cachimbo.

—Oh, Sr. Beebe — disse Miss Alan, dividida entre reverência e riso. — Na verdade, embora seja terrível ela fumar, não é bem tão terrível como o senhor supõe. Ela foi dar com isso, praticamente por desespero, depois de a obra da sua vida ter sido arrastada por um desmoronamento. Seguramente isso torna-a mais desculpável.

—Que obra era essa? — perguntou Lucy.

O Sr. Beebe recostou-se complacente, e Miss Alan começou assim: — Era um romance— e receio, pelo que consegui perceber, um romance nada bem-comportado. É tão triste quando pessoas que têm capacidades as desperdiçam, e devo dizer que quase sempre o fazem. Seja como for, ela deixou-o quase terminado na Gruta do Calvário no Hotel Capuccini, em Amalfi, enquanto ia buscar um pouco de tinta. Ela disse: «Pode dar-me um pouco de tinta, por favor?» Mas o senhor sabe como os italianos são, e entretanto a Gruta desabou com um estrondo sobre a praia, e o mais triste de tudo é que ela não consegue lembrar-se do que escreveu. A pobrezinha ficou muito doente depois disso, e assim se deixou tentar pelo cigarro. É um grande segredo, mas tenho o gosto de dizer que ela está a escrever outro romance. Ela contou à Teresa e à Miss Pole há dias que já tinha toda a cor local — este romance é sobre a Itália moderna; o outro era histórico — mas que não podia começar enquanto não tivesse uma ideia. Primeiro tentou Perúgia para se inspirar, depois veio para cá — isto a nenhum título pode transpirar. E sempre tão alegre no meio de tudo! Não posso deixar de pensar que há algo de admirável em toda a gente, mesmo quando não a aprovamos.

Miss Alan estava constantemente a ser caridosa contra o seu melhor juízo. Um pathos delicado perfumava as suas observações desligadas, dando-lhes uma beleza inesperada, tal como nos bosques outonais em decomposição por vezes sobem odores que lembram a primavera. Ela sentiu que tinha feito quase demasiadas concessões, e pediu pressurosamente desculpa pela sua tolerância.

—Mesmo assim, ela é um pouco demasiado— custa-me dizer pouco feminil, mas portou-se de modo esquisitíssimo quando os Emerson chegaram.

O Sr. Beebe sorriu quando Miss Alan se lançou numa anedota que ele sabia que ela seria incapaz de terminar na presença de um cavalheiro.

—Não sei, Miss Honeychurch, se notou que Miss Pole, a senhora de tanto cabelo amarelo, bebe limonada. Aquele velho Sr. Emerson, que diz as coisas de um modo tão estranho—

A mandíbula caiu-lhe. Calou-se. O Sr. Beebe, cujos recursos sociais eram inesgotáveis, saiu para encomendar chá, e ela continuou para Lucy num sussurro apressado:

—Estômago. Ele preveniu Miss Pole da acidez do estômago dele, chamou-lhe assim — e talvez tivesse boa intenção. Devo dizer que me deixei levar e ri; foi tão repentino. Como a Teresa muito bem disse, não era caso para rir. Mas o ponto é que Miss Lavish ficou positivamente atraída pelo facto de ele ter mencionado S., e disse que gostava de falar sem rodeios, e de encontrar diferentes graus de pensamento. Ela pensou que eram viajantes de comércio — «caixeiros- viajantes» foi a palavra que usou — e durante todo o jantar tentou provar que a Inglaterra, a nossa grande e amada pátria, se assenta apenas no comércio. A Teresa ficou muito aborrecida, e levantou-se da mesa antes da sobremesa, dizendo ao levantar-se: «Ali está, Miss Lavish, alguém que melhor do que eu a pode refutar», e apontou para aquele belo retrato de Lord Tennyson. Então Miss Lavish disse: «Tut! Os vitorianos da primeira fase.» Imaginem! «Tut! Os vitorianos da primeira fase.» A minha irmã tinha saído, e eu senti-me obrigada a falar. Disse: «Miss Lavish, eu sou uma vitoriana da primeira fase; pelo menos, isto é, não admitirei um sopro de censura contra a nossa querida Rainha.» Foi horrível falar assim. Lembrei-lhe como a Rainha tinha ido à Irlanda quando não queria ir, e devo dizer que ela ficou pasmada, e não respondeu. Mas, infelizmente, o Sr. Emerson apanhou esta parte, e exclamou com a sua voz profunda: «Muito bem, muito bem! Honro a mulher pela sua visita à Irlanda.» A mulher! Eu conto tão mal as coisas; mas a senhora vê que trapalhada já estávamos metidos, tudo porque se tinha mencionado o S. em primeiro lugar. Mas não foi tudo. Depois do jantar Miss Lavish veio realmente ter comigo e disse: «Miss Alan, vou para a sala de fumo falar com aqueles dois homens simpáticos. Venha também.» Escusado será dizer que recusei um convite tão impróprio, e ela teve a impertinência de me dizer que alargaria as minhas ideias, e disse que tinha quatro irmãos, todos homens formados em Universidade, excepto um que está no exército, e que sempre faziam ponto de honra em falar com viajantes comerciais.

—Deixe-me acabar a história — disse o Sr. Beebe, que tinha regressado.

—Miss Lavish tentou Miss Pole, eu mesma, toda a gente, e por fim disse: «Vou sozinha.» Foi. Ao fim de cinco minutos voltou imperceptivelmente com uma tabela de baeta verde, e pôs-se a fazer paciência.

—Que aconteceu então? — gritou Lucy.

—Ninguém sabe. Ninguém jamais saberá. Miss Lavish nunca terá coragem de contar, e o Sr. Emerson não acha que valha a pena contar.

—Sr. Beebe — o velho Sr. Emerson, é ele simpático ou não? Quero tanto saber.

O Sr. Beebe riu e sugeriu que ela própria resolvesse a questão.

—Não; mas é tão difícil. Às vezes é tão tolo, e então não me importo com ele. Miss Alan, o que acha? É simpático?

A velhinha abanou a cabeça, e soltou um suspiro de desaprovação. O Sr. Beebe, a quem a conversa divertia, instigou-a dizendo:

—Considero que está obrigada a classificá-lo como simpático, Miss Alan, depois daquela história das violetas.

—Violetas? Oh, meu Deus! Quem lhe contou a história das violetas? Como é que as coisas andam? Uma pensão é um péssimo lugar para fofoqueiros. Não, não consigo esquecer como eles se portaram na conferência do Sr. Eager em Santa Croce. Oh, pobre Miss Honeychurch! Foi mesmo demais. Não, mudei completamente de ideias. Não gosto dos Emerson. Não são simpáticos.

O Sr. Beebe sorriu com indiferença. Ele tinha feito um discreto esforço para introduzir os Emerson na sociedade Bertolini, e o esforço falhara. Era quase a única pessoa que continuava amigável para com eles. Miss Lavish, que representava o intelecto, era declaradamente hostil, e agora as Miss Alan, que personificavam a boa criação, seguiam-na. Miss Bartlett, ressentida por uma obrigação, malmente seria civilizada. O caso de Lucy era diferente. Ela dera-lhe um relato vago das suas aventuras em Santa Croce, e ele depreendeu que os dois homens tinham feito uma tentativa estranha e talvez concertada de a anexar, de lhe mostrar o mundo do seu estranho ponto de vista, de a interessar pelas suas mágoas e alegrias privadas. Isso era impertinente; ele não queria que a causa deles fosse defendida por uma jovem: preferia que fracassasse. Afinal, não sabia nada acerca deles, e alegrias de pensão, mágoas de pensão, são coisas frágeis; ao passo que Lucy seria sua paroquiana.

Lucy, com um olho no tempo, acabou por dizer que achava os Emerson simpáticos; não que tivesse nada com eles agora. Até os lugares deles no jantar tinham sido mudados.

—Mas eles não estão sempre a interceptá-la para sair consigo, querida? — disse a velhinha com curiosidade.

—Só uma vez. A Charlotte não gostou, e disse qualquer coisa — com toda a delicadeza, claro.

—Muito certo da parte dela. Não compreendem os nossos costumes. Têm de encontrar o seu nível.

O Sr. Beebe sentiu que eles tinham ficado por baixo. Tinham desistido da sua tentativa — se é que era uma tentativa — de conquistar a sociedade, e agora o pai estava quase tão silencioso como o filho. Ele pensava se não haveria de organizar um dia agradável para aquela gente antes de partirem — qualquer excursão, talvez, com Lucy bem chaperonada para ser simpática com eles. Era um dos principais prazeres do Sr. Beebe proporcionar às pessoas recordações felizes.

A tarde caía enquanto tagarelavam; o ar tornava-se mais límpido; as cores das árvores e dos outeiros purificavam-se, e o Arno perdia a sua consistência lodosa e começava a cintilar. Havia alguns rasgos de azul-esverdeado entre as nuvens, algumas manchas de luz aquosa sobre a terra, e então a fachada gotejante de San Miniato resplandeceu brilhantemente ao sol poente.

—Tarde demais para sair — disse Miss Alan com voz de alívio. — Todas as galerias estão fechadas.

—Eu creio que vou sair — disse Lucy. — Quero dar a volta à cidade no eléctrico circular — na plataforma do condutor.

Os dois companheiros mostraram-se graves. O Sr. Beebe, que se sentia responsável por ela na ausência de Miss Bartlett, aventurou-se a dizer:

—Bem me queria eu. Infelizmente tenho cartas para escrever. Se realmente quer sair sozinha, não lhe seria melhor ir a pé?

—Italianos, querida, sabe-se lá — disse Miss Alan.

—Talvez eu encontre alguém que me leia até ao fundo da alma!

Mas eles continuaram a mostrar desagrado, e ela fez ao Sr. Beebe a concessão de dizer que apenas iria dar um pequeno passeio, e que se manteria na rua frequentada pelos turistas.

—Ela não devia mesmo sair de todo — disse o Sr. Beebe, enquanto a viam da janela — e ela sabe-o. Atribuo a culpa a demasiado Beethoven.

Capítulo IV Quarto Capítulo

O Sr. Beebe tinha razão. Lucy nunca tão claramente conhecia os seus desejos como depois da música. Não apreciara verdadeiramente a graça do clérigo, nem os piadosos gorjeios de Miss Alan. A conversação era fastidiosa; queria algo grandioso, e acreditava que lhe viria na plataforma varrida pelo vento de um eléctrico. Isso não o podia tentar. Era pouco próprio de uma senhora. Porquê? Por que seriam a maioria das grandes coisas pouco próprias de uma senhora? Charlotte uma vez lhe explicara porquê. Não era que as senhoras fossem inferiores aos homens; era que eram diferentes. A sua missão era inspirar os outros para a realização, e não realizar elas próprias. Indirectamente, por meio de tacto e de um nome sem mancha, uma senhora podia muito accomplish. Mas se ela própria se lançasse na luta, seria primeiro censurada, depois desprezada, e finalmente ignorada. Tinham-se escrito poemas para ilustrar este ponto.

Há muito que é imortal nesta senhora medieval. Os dragões foram-se, e foram-se também os cavaleiros, mas ela ainda se demora entre nós. Reinou em muitos castelos do início da era vitoriana, e foi Rainha de muita canção do início da era vitoriana. É doce protegê-la nos intervalos dos negócios, doce prestar-lhe homenagem quando ela nos cozinhou bem o jantar. Mas ai! a criatura degenera. No seu coração também estão a brotar estranhos desejos. Ela também se enamora dos ventos fortes, e de vastos panoramas, e de extensões verdes do mar. Tem notado o reino deste mundo, como ele é pleno de riqueza, e beleza, e guerra — uma crosta radiante, construída em torno dos fogos centrais, girando para os céus que se afastam. Os homens, declarando que ela os inspira a isso, movem-se alegremente sobre a superfície, tendo os mais deleitosos encontros com outros homens, felizes, não porque sejam masculinos, mas porque estão vivos. Antes que o espectáculo acabe, ela gostaria de largar o augusto título de Mulher Eterna, e ir para lá como o seu eu transitório.

Lucy não representa a senhora medieval, que era antes um ideal para o qual ela era convidada a erguer os olhos quando se sentia séria. Nem tem qualquer sistema de revolta. Aqui e além uma restrição irritava-a particularmente, e ela transgredia-a, e talvez se arrependesse de o ter feito. Nesta tarde estava particularmente inquieta. Teria mesmo gosto em fazer algo que desagradasse aos seus benfeitores. Como não lhe era permitido ir no eléctrico, foi à loja de Alinari.

Lá comprou uma fotografia do «Nascimento de Vénus», de Botticelli. Vénus, por ser uma lástima, estragava o quadro, de resto tão encantador, e Miss Bartlett convencera-a a passar sem ele. (Uma lástima na arte, claro, significava o nu.) A ela juntou a «Tempestade», de Giorgione, o «Idolino», alguns dos frescos da Sistina e o Apoxyomenos. Sentiu-se um pouco mais calma então, e comprou a «Coroação», de Fra Angelico, a «Ascensão de S. João», de Giotto, uns meninos de Della Robbia, e umas Madonnas de Guido Reni. Pois o seu gosto era eclético, e ela estendia aprovação acrítica a todo o nome conhecido.

Mas, embora tivesse gasto quase sete liras, os portais da liberdade pareciam ainda por abrir. Estava consciente do seu descontentamento; era-lhe novo estar consciente dele. «O mundo», pensou, «é decerto cheio de coisas belas, se eu conseguisse dar com elas.» Não era surpreendente que a Sra. Honeychurch desaprovasse a música, declarando que esta sempre deixava a filha mal-humorada, imprática e melindrosa.

«Nunca me acontece nada», reflectiu, ao entrar na Piazza Signoria e olhar com indiferença para as suas maravilhas, agora já bastante familiares. A grande praça estava na sombra; o sol tinha chegado tarde demais para a fustigar. Neptuno era já insubstancial no crepúsculo, meio deus, meio fantasma, e a sua fonte respingava sonhadoramente para os homens e sátiros que folgavam juntos à sua margem. A Loggia mostrava-se como o triplo portal de uma gruta, em cujas profundezas muitas uma divindade, sombria, mas imortal, olhava para as chegadas e partidas do género humano. Era a hora da irrealidade — a hora, isto é, em que as coisas não familiares são reais. Uma pessoa mais velha, a tal hora e em tal lugar, poderia pensar que lhe acontecia o suficiente, e dar-se por satisfeita. Lucy desejava mais.

Fixou os olhos com melancolia na torre do palácio, que se erguia da escuridão inferior como um pilar de ouro áspero. Já não parecia uma torre, já não parecia suportada pela terra, mas um tesouro intangível que pulsava no céu tranquilo. O seu brilho hipnotizou-a, continuando ainda a dançar diante dos seus olhos quando ela os baixonou para o chão e se pôs a caminho de casa.

Então algo aconteceu.

Dois italianos junto à Loggia tinham estado a altercar por causa de uma dívida. «Cinque lire!», tinham gritado, «cinque lire!» Trocavam golpes um no outro, e um deles foi levemente atingido no peito. Ele franziu o sobrolho; inclinou-se para Lucy com um ar de interesse, como se tivesse uma mensagem importante para ela. Abriu os lábios para a entregar, e um fio de vermelho saiu por entre eles e escorreu pelo queixo por barbear.

Foi tudo. Uma multidão ergueu-se da penumbra. Escondeu-lhe aquele homem extraordinário, e arrastou-o até à fonte. O Sr. George Emerson estava por acaso a poucos passos de distância, olhando para ela através do sítio onde o homem estivera. Que extraordinário! Através de qualquer coisa. Mesmo no instante em que ela o avistou ele tornou-se vago; o próprio palácio tornou-se vago, oscilou sobre ela, caiu sobre ela de leve, lentamente, sem ruído, e o céu caiu com ele.

Ela pensou: «Oh, que é que eu fiz?»

«Oh, que é que eu fiz?» — murmurou, e abriu os olhos.

George Emerson continuava a olhar para ela, mas já não através de nada. Ela queixara-se de tédio, e eis que um homem fora apunhalado, e outro a segurava nos seus braços.

Estavam sentados em alguns degraus da Arcada dos Uffizi. Ele devia tê-la carregado. Ele ergueu-se quando ela falou, e começou a sacudir os joelhos. Ela repetiu:

«Oh, que é que eu fiz?»

—Desmaiou.

—Eu— eu peço imensa desculpa.

—Como se sente agora?

—Perfeitamente bem — absolutamente bem. — E começou a acenar com a cabeça e a sorrir.

—Então vamos para casa. Não vale a pena ficarmos.

Ele estendeu-lhe a mão para a ajudar a levantar-se. Ela fingiu não vê-la. Os gritos da fonte — nunca tinham cessado — ressoavam vaziamente. O mundo inteiro parecia pálido e esvaziado do seu significado original.

—Que imensa amabilidade a sua! Eu poderia ter-me magoado a cair. Mas agora estou bem. Posso ir sozinha, obrigada.

A mão dele continuava estendida.

—Oh, as minhas fotografias! — exclamou de repente.

—Que fotografias?

—Comprei umas fotografias no Alinari. Devo tê-las deixado cair lá na praça. — Olhou para ele com prudência. — Acrescentaria à sua amabilidade ir buscá-las?

Ele acrescentou à sua amabilidade. Mal ele virou as costas, Lucy ergueu-se com a corrida de uma maníaca e escapou pela arcada na direcção do Arno.

—Miss Honeychurch!

Ela parou com a mão sobre o coração.

—Fique sentada; a senhora não está em condições de ir sozinha para casa.

—Sim, estou, muito obrigada.

—Não, não está. Se pudesse, iria abertamente.

—Mas eu preferia—

—Então não lhe vou buscar as fotografias.

—Eu preferia ficar sozinha.

Ele disse com autoridade: —O homem está morto — o homem está provavelmente morto; sente-se até estar restabelecida. — Ela estava aturdida, e obedeceu-lhe. — E não se mexa até eu voltar.

Ao longe ela viu criaturas com capuzes negros, como as que surgem em sonhos. A torre do palácio perdera o reflexo do sol poente, e juntara-se à terra. Como haveria ela de falar com o Sr. Emerson quando ele regressasse da praça sombria? De novo o pensamento ocorreu-lhe, «Oh, que é que eu fiz?» — o pensamento de que ela, tanto como o homem moribundo, tinha atravessado alguma fronteira espiritual.

Ele regressou, e ela falou do assassínio. Curiosamente, foi um tema fácil. Falou do carácter italiano; tornou-se quase loquaz sobre o incidente que a tinha feito desmaiar cinco minutos antes. Sendo forte fisicamente, venceu depressa o horror do sangue. Levantou-se sem a assistência dele, e embora asas lhe parecessem adejar dentro de si, caminhou com firmeza suficiente na direcção do Arno. Ali um cocheiro lhes fez sinal; recusaram-no.

—E o assassino tentou beijá-lo, diz a senhora — que estranhos que são os italianos! — e entregou-se à polícia! O Sr. Beebe estava a dizer que os italianos sabem tudo, mas eu acho-os antes infantis. Quando a minha prima e eu estámos ontem no Pitti — Que foi aquilo?

Ele atirara qualquer coisa para a corrente.

—Que é que o senhor atirou?

—Coisas que eu não queria — disse ele zangado.

—Sr. Emerson!

—Então?

—Onde estão as fotografias?

Ele ficou em silêncio.

—Acredito que foram as minhas fotografias que o senhor atirou fora.

—Eu não sabia o que fazer com elas — exclamou ele, e a sua voz era a de um rapaz ansioso. O coração dela aqueceu-se para ele pela primeira vez. —Estavam cobertas de sangue. Aqui estou! Ainda bem que lhe contei; e durante todo o tempo em que estávamos a conversar eu andava a pensar no que havia de fazer com elas. — Apontou para jusante. —Já lá vão. — O rio rodopiou por baixo da ponte. —Eu estimava-as tanto, e a gente é tão tola, parecia-me melhor que seguissem para o mar — não sei; talvez só quisesse dizer que me metiam medo. — Depois o rapaz confundiu-se com o homem. —Porque aconteceu uma coisa tremenda; tenho de lhe fazer frente sem me atrapalhar. Não é exactamente que um homem tenha morrido.

Alguma coisa avisou Lucy de que devia detê-lo.

—Aconteceu — repetiu ele — e eu pretendo descobrir o que foi.

—Sr. Emerson...

Ele voltou-se para ela, carrancudo, como se ela o tivesse perturbado em alguma busca abstracta.

—Quero fazer-lhe uma pergunta antes de entrarmos.

Estavam perto da pensão. Ela parou e encostou os cotovelos ao parapeito do cais. Ele fez o mesmo. Há por vezes uma magia na identidade de posição; é uma das coisas que nos sugeriram o eterno companheirismo. Ela moveu os cotovelos antes de dizer:

—Portei-me de modo ridículo.

Ele seguia os seus próprios pensamentos.

—Nunca na vida me envergonhei tanto de mim própria; não consigo imaginar o que se apoderou de mim.

—Eu quase desmaiei também — disse ele; mas ela sentiu que a sua atitude o repeliu.

—Pois, devo-lhe mil desculpas.

—Oh, não tem importância.

—E — este é o ponto verdadeiramente importante — o senhor sabe como as pessoas são parvas a mexericar — as senhoras em especial, receio bem — o senhor compreende o que quero dizer?

—Receio não compreender.

—Quero dizer, não iria falar disto a ninguém, do meu comportamento tolo?

—Do seu comportamento? Oh, sim, não tem importância — não tem importância.

—Muito obrigada. E — não se importaria...

Ela não conseguiu levar o pedido mais adiante. O rio corria sob eles, quase negro na noite que avançava. Ele atirara as fotografias dela para o rio, e depois contara-lhe o motivo. Ocorreu-lhe que era inútil procurar cavalheirismo num homem como ele. Ele não lhe faria mal com fofocas ociosas; era de confiança, inteligente, e até bondoso; podia até ter uma elevada opinião dela. Mas faltava-lhe cavalheirismo; os seus pensamentos, como o seu comportamento, não seriam modificados por reverência. Era inútil dizer-lhe: «E não se importaria...» e esperar que ele completasse a frase por si próprio, desviando os olhos da sua nudez como o cavaleiro naquele belo quadro. Tinha estado nos braços dele, e ele lembrava-se, exactamente como se lembrava do sangue nas fotografias que ela tinha comprado na loja dos Alinari. Não era exactamente que um homem tivesse morrido; acontecera qualquer coisa aos vivos: tinham chegado a uma situação em que o carácter se revela, e em que a infância entra pelos caminhos ramificados da Juventude.

—Bem, muito obrigada — repetiu ela — Como estes acidentes acontecem depressa, e depois a gente volta à antiga vida!

—Eu não.

A ansiedade levou-a a interrogá-lo.

A resposta dele era intrigante: —Provavelmente hei-de querer viver.

—Mas porquê, Sr. Emerson? O que quer dizer?

—Hei-de querer viver, digo eu.

Encostando os cotovelos ao parapeito, ela contemplou o Rio Arno, cujo rugido lhe sugeria aos ouvidos uma melodia inesperada.

Capítulo V Possibilidades de um Agradável Passeio

Era um dito de família que «nunca se sabia para que lado Charlotte Bartlett viraria». Ela mostrou-se perfeitamente agradável e sensata acerca da aventura de Lucy, achou adequado o relato abreviado que dela lhe fizeram, e rendeu o devido tributo à cortesia do Sr. George Emerson. Ela e Miss Lavish tinham tido também a sua aventura. Tinham sido detidas no Dazio quando voltavam, e os jovens funcionários de lá, que pareciam insolentes e ociosos, tinham tentado revistar-lhes as retículas à procura de provisões. Podia ter sido muito desagradável. Felizmente Miss Lavish estava à altura de qualquer um.

Para o bem ou para o mal, Lucy ficou sozinha a enfrentar o seu problema. Nenhum dos seus amigos a tinha visto, nem na Praça, nem mais tarde, junto ao cais. O Sr. Beebe, na verdade, reparando nos olhares assustados dela à hora do jantar, repetira para consigo a observação «Demais Beethoven». Mas limitou-se a supor que ela estava disposta para uma aventura, não que já a tivesse encontrado. Esta solidão oprimia-a; estava habituada a ter os seus pensamentos confirmados pelos outros ou, pelo menos, contraditos; era demasiado terrível não saber se estava a pensar certo ou errado.

Ao pequeno-almoço, na manhã seguinte, tomou uma decisão enérgica. Havia dois planos entre os quais tinha de escolher. O Sr. Beebe ia subir a pé até à Torre del Gallo com os Emerson e algumas senhoras americanas. Queriam Miss Bartlett e Miss Honeychurch juntar-se ao grupo? Charlotte recusou por si; tinha lá estado sob chuva na tarde anterior. Mas achava a ideia excelente para Lucy, que detestava fazer compras, trocar dinheiro, ir buscar cartas e outros aborrecimentos — tudo o que Miss Bartlett tinha de cumprir naquela manhã e podia cumprir facilmente sozinha.

—Não, Charlotte! — exclamou a rapariga, com calor genuíno. —É muito gentil da parte do Sr. Beebe, mas é claro que vou consigo. Prefiro muitíssimo.

—Muito bem, querida — disse Miss Bartlett, com um leve rubor de prazer que provocou um rubor profundo de vergonha nas faces de Lucy. Como se portava abominavelmente para com Charlotte, agora como sempre! Mas agora havia de mudar. Toda a manhã ia ser verdadeiramente simpática para ela.

Enfiou o braço no da prima, e partiram ao longo do Lung'Arno. O rio era um leão naquela manhã, em força, voz e cor. Miss Bartlett insistiu em debruçar-se do parapeito para o ver. Depois fez o seu comentário habitual, que era: «Como eu gostaria que o Freddy e a tua mãe também pudessem ver isto!»

Lucy mexeu-se, inquieta; era maçador da parte de Charlotte ter parado exactamente onde parou.

—Olha, Lúcia! Ah, estás à espera do grupo da Torre del Gallo. Temi que te arrependesses da tua escolha.

Por muito séria que a escolha tivesse sido, Lucy não se arrependeu. O dia anterior fora uma confusão — estranha e esquisita, daquele género de coisas que não se consegue pôr facilmente no papel — mas tinha o sentimento de que Charlotte e as suas compras eram preferíveis a George Emerson e ao cume da Torre del Gallo. Como não conseguia desembaraçar o novelo, devia ter o cuidado de não voltar a enredar-se nele. Podia protestar sinceramente contra as insinuações de Miss Bartlett.

Mas, embora tivesse evitado o principal actor, a paisagem infelizmente permanecia. Charlotte, com a complacência do destino, levou-a do rio à Piazza Signoria. Ela não teria acreditado que pedras, uma Loggia, uma fonte, uma torre de palácio pudessem ter tanta significação. Por um momento compreendeu a natureza dos fantasmas.

O local exacto do crime não estava ocupado por um fantasma, mas por Miss Lavish, que tinha na mão o jornal da manhã. Saudou-as com vivacidade. A terrível catástrofe do dia anterior dera-lhe uma ideia que ela achava que poderia servir para um livro.

—Oh, deixe-me felicitá-la! — disse Miss Bartlett. —Depois do seu desespero de ontem! Que sorte!

—Ah! Miss Honeychurch, venha cá que estou com sorte. Agora, tem de me contar absolutamente tudo o que viu desde o princípio. — Lucy picou o chão com a sombrinha.

—Mas talvez preferisse não...

—Perdoe — se pudesse passar sem isso, acho que preferia não.

As senhoras mais velhas trocaram olhares, não de desaprovação; é conveniente que uma rapariga sinta profundamente.

—Sou eu que peço desculpa — disse Miss Lavish. —Nós, os escribas literários, somos criaturas sem vergonha. Creio que não há segredo do coração humano em que não nos metêssemos a mexer.

Marchou com desembaraço até à fonte e de volta, e fez alguns cálculos de realismo. Depois disse que estivera na Praça desde as oito horas a juntar material. Bastante parte era inadequada, mas claro que havia sempre que adaptar. Os dois homens tinham discutido por uma nota de cinco francos. Pela nota de cinco francos ela substituiria uma jovem senhora, o que elevaria o tom da tragédia e, ao mesmo tempo, forneceria um excelente enredo.

—Qual é o nome da heroína? — perguntou Miss Bartlett.

—Leonora — disse Miss Lavish; o seu próprio nome era Eleanor.

—Espero bem que seja simpática.

Essa condição não seria omitida.

—E qual é o enredo?

Amor, homicídio, rapto, vingança, era o enredo. Mas tudo lhe veio enquanto a fonte respingava para os sátiros ao sol da manhã.

—Espero que me perdoe por maçar assim — concluiu Miss Lavish. —É tão tentador falar com pessoas realmente compreensivas. Claro que isto é apenas o esqueleto. Haverá muita cor local, descrições de Florença e arredores, e também vou introduzir algumas personagens humorísticas. E deixe-me prevenir toda a gente com lealdade: tenciono ser impiedosa para com o turista britânico.

—Oh, mulher malvada! — exclamou Miss Bartlett. —Estou certa de que está a pensar nos Emerson.

Miss Lavish deu um sorriso maquiavélico.

—Confesso que em Itália as minhas simpatias não vão para os meus compatriotas. São os italianos negligenciados que me atraem, e cujas vidas vou retratar na medida do possível. Pois repito e insisto, e sempre sustentei com muita veemência, que uma tragédia como a de ontem não é menos trágica por ter acontecido numa vida humilde.

Houve um silêncio adequado quando Miss Lavish terminou. Depois as primas desejaram êxito aos seus trabalhos e afastaram-se lentamente através da praça.

—Ela é a minha ideia de uma mulher verdadeiramente inteligente — disse Miss Bartlett. —Aquela última observação impressionou-me como particularmente verdadeira. Deve ser um romance patético.

Lucy concordou. Por agora o seu grande objectivo era não vir a ser nele incluída. As suas percepções naquela manhã eram curiosamente aguçadas, e acreditava que Miss Lavish a estava a experimentar como ingénua.

—Ela é emancipada, mas apenas no melhor sentido da palavra — continuou Miss Bartlett lentamente. —Só os superficiais se chocariam com ela. Tivemos ontem uma longa conversa. Ela acredita na justiça, na verdade e no interesse humano. Também me disse que tem uma elevada opinião do destino da mulher — Sr. Eager! Ora essa, que óptimo! Que surpresa agradável!

—Ah, não para mim — disse o capelão com bonomia — pois há já bastante pouco tempo que vos observo a si e a Miss Honeychurch.

—Estávamos a conversar com Miss Lavish.

A testa dele franziu-se.

—Pois vi. Estavam mesmo? Andate via! sono occupato! — Esta última observação foi dirigida a um vendedor de fotografias panorâmicas que se aproximava com um sorriso cortês. —Estou prestes a aventurar uma sugestão. Estariam dispostas, a senhora e Miss Honeychurch, a acompanhar-me num passeio de carro qualquer dia desta semana — um passeio pelas colinas? Poderíamos subir por Fiesole e voltar por Settignano. Há um ponto nessa estrada onde poderíamos apear e fazer uma hora de passeio pela encosta. A vista daí sobre Florença é lindíssima — muito melhor do que a vista batida de Fiesole. É a vista que Alessio Baldovinetti gosta de introduzir nos seus quadros. Aquele homem tinha um sentimento decidido pela paisagem. Decididamente. Mas quem a olha hoje? Ah, o mundo é demais para nós.

Miss Bartlett nunca ouvira falar de Alessio Baldovinetti, mas sabia que o Sr. Eager não era um capelão vulgar. Era membro da colónia residente que fizera de Florença a sua casa. Conhecia as pessoas que nunca andavam por aí com Baedekers, que tinham aprendido a fazer a sesta depois do almoço, que faziam passeios de carro de que os turistas das pensões nunca tinham ouvido falar, e viam, por influência privada, galerias que lhes eram fechadas. Vivendo em delicado isolamento, uns em andares mobilhados, outros em vilas renascentistas na encosta de Fiesole, liam, escreviam, estudavam e trocavam ideias, atingindo assim aquele conhecimento íntimo, ou antes percepção, de Florença que é negado a todos quantam levam nos bolsos os cupões da Cook.

Por isso um convite do capelão era coisa de que se orgulhar. Entre as duas secções do seu rebanho, ele era muitas vezes o único elo, e era seu declarado costume seleccionar aquelas das suas ovelhas migratórias que lhe pareciam dignas, e dar-lhes algumas horas nos pastos dos permanentes. Chá numa vila renascentista? Nada fora ainda dito a esse respeito. Mas se tal viesse a acontecer — como Lucy havia de gostar!

Alguns dias antes, e Lucy teria sentido o mesmo. Mas as alegrias da vida estavam a reagrupar-se. Um passeio pelas colinas com o Sr. Eager e Miss Bartlett — mesmo que culminasse numa festa de chá residencial — já não era a maior delas. Ecoou com certa tibieza os êxtases de Charlotte. Só quando soube que o Sr. Beebe também vinha é que os seus agradecimentos se tornaram mais sinceros.

—Seremos então um grupo de quatro — disse o capelão. —Nestes dias de labor e tumulto, têm-se grandes necessidades do campo e da sua mensagem de pureza. Andate via! andate presto, presto! Ah, a cidade! Por mais bela que seja, é a cidade.

Concordaram.

—Disseram-me que esta mesma praça foi ontem testemunha da mais sórdida das tragédias. Para quem ama a Florença de Dante e de Savonarola, há qualquer coisa de sinistro nessa profanação — sinistro e humilhante.

—Humilhante de facto — disse Miss Bartlett. —Miss Honeychurch aconteceu estar de passagem quando sucedeu. Mal consegue falar nisso. — Lançou a Lucy um olhar de orgulho.

—E como veio ter connosco? — perguntou o capelão com ar paternal.

O recente liberalismo de Miss Bartlett esvaziou-se perante a pergunta. —Não a culpe, por favor, Sr. Eager. A culpa é minha: deixei-a sem chaperon.

—Portanto estava aqui sozinha, Miss Honeychurch? — A voz dele sugeria repreensão compreensiva, mas indicava ao mesmo tempo que alguns detalhes angustiantes não seriam mal acolhidos. O seu rosto moreno e bonito inclinou-se com tristeza para ela, à espera da resposta.

—Na prática.

—Um nosso conhecido da pensão teve a gentileza de a acompanhar a casa — disse Miss Bartlett, ocultando com habilidade o sexo do salvador.

—Para ele também deve ter sido uma experiência terrível. Confio que nenhuma de vós estivesse de tal modo — que não tenha sido nas vossas imediações?

De entre as muitas coisas que Lucy estava a notar naquele dia, a menos notável não era esta: a forma repugnante com que pessoas respeitáveis mordiscam à procura de sangue. George Emerson tinha mantido o assunto estranhamente puro.

—Ele morreu junto à fonte, creio eu — foi a resposta dela.

—E a senhora e a sua amiga...

—Estavam na Loggia.

—Isso deve tê-las poupado a muito. Naturalmente não viu as ilustrações vergonhosas que a imprensa de escândalo — Este homem é um incómodo público; sabe perfeitamente que sou residente, e no entanto continua a importunar-me para eu comprar as suas vistas vulgares.

Certamente o vendedor de fotografias estava de conluio com Lucy — na eterna aliança da Itália com a juventude. De repente estendera o seu álbum diante de Miss Bartlett e do Sr. Eager, prendendo-lhes as mãos juntas por uma longa fita lustrosa de igrejas, quadros e vistas.

—Isto é demais! — exclamou o capelão, golpeando com petulância um dos anjos de Fra Angelico. Ela rasgou. Um grito agudo subiu do vendedor. O álbum, ao que parecia, era mais valioso do que se teria suposto.

—De boa vontade eu compraria... — começou Miss Bartlett.

—Ignore-o — disse o Sr. Eager secamente, e afastaram-se todos rapidamente da praça.

Mas um italiano nunca pode ser ignorado, menos ainda quando tem uma queixa. A misteriosa perseguição do Sr. Eager tornou-se implacável; o ar ressoou com as suas ameaças e lamentações. Apelou para Lucy; não intercederia ela? Era pobre — sustentava uma família — o imposto sobre o pão. Esperou, tagarelou, foi recompensado, ficou insatisfeito, não os deixou enquanto não lhes varreu da mente todo o pensamento, fosse ele agradável ou desagradável.

Compras foi o tema que se seguiu. Sob a orientação do capelão seleccionaram muitos presentes e lembranças feios — caixinhas para retratos floridas que pareciam feitas de pastelaria dourada; outras caixinhas mais severas, que se sustinham em cavaletes, e eram esculpidas em carvalho; um mata-borrões de pergaminho; um Dante do mesmo material; broches de mosaico baratos, que as criadas, no Natal seguinte, nunca distinguiriam de verdadeiros; alfinetes, potes, pires heráldicos, fotografias artísticas castanhas; Eros e Psique em alabastro; São Pedro a condizer — tudo o que teria custado menos em Londres.

Esta manhã bem-sucedida não deixou impressões agradáveis em Lucy. Tivera um pouco de medo, tanto de Miss Lavish como do Sr. Eager, sem saber porquê. E, como lhe metiam medo, tinha, estranhamente, deixado de os respeitar. Duvidou que Miss Lavish fosse uma grande artista. Duvidou que o Sr. Eager estivesse tão cheio de espiritualidade e cultura como levara a supor. Eram submetidos a qualquer novo teste, e revelavam-se em falta. Quanto a Charlotte — quanto a Charlotte era exactamente a mesma. Poderia ser possível ser simpática para com ela; era impossível amá-la.

—Filho de um trabalhador; sei-o por certo, como facto. Ele próprio um mecânico qualquer quando novo; depois dedicou-se a escrever para a imprensa socialista. Cruzei-me com ele em Brixton.

Falavam dos Emerson.

—Como as pessoas sobem nestes dias! — suspirou Miss Bartlett, afagando um modelo da Torre Inclinada de Pisa.

—Em geral — respondeu o Sr. Eager —, só temos simpatia pelo seu êxito. O desejo de educação e de ascensão social — nessas coisas há qualquer coisa de não inteiramente vil. Há alguns operários que se gostaria muito de ver aqui em Florença — por pouco que eles dela tirassem.

—Ele é jornalista agora? — perguntou Miss Bartlett.

—Não é; fez um casamento vantajoso.

Proferiu esta observação com voz cheia de sentido, e terminou com um suspiro.

—Oh, então tem esposa.

—Morta, Miss Bartlett, morta. Pergunto-me — sim, pergunto-me como ele tem a impudência de me olhar de frente, de ousar reclamar de mim conhecimento. Ele era da minha paróquia de Londres há muito tempo. Outro dia, em Santa Croce, quando estava com Miss Honeychurch, eu snubei-o. Que se precavenha de não levar mais do que um snobe.

—Quê? — exclamou Lucy, corando.

—Exposição! — sibilou o Sr. Eager.

Ele tentou mudar de assunto; mas, ao marcar um ponto dramático, interessara a sua audiência mais do que tencionara. Miss Bartlett transbordava de curiosidade muito natural. Lucy, embora desejasse nunca mais voltar a ver os Emerson, não estava disposta a condená-los por uma única palavra.

—Quer dizer — perguntou ela — que é um homem sem religião? Isso já sabemos.

—Lucy, querida — disse Miss Bartlett, repreendendo com suavidade a perspicácia da prima.

—Ficaria surpreendido se soubesse tudo. O rapaz — uma criança inocente na altura — excluo-o. Deus sabe o que a sua educação e as suas qualidades herdadas terão feito dele.

—Talvez — disse Miss Bartlett — seja algo que mais valha não ouvir.

—Para falar com franqueza — disse o Sr. Eager —, é. Não direi mais. — Pela primeira vez, os pensamentos rebeldes de Lucy irromperam em palavras — pela primeira vez na sua vida.

—O senhor disse muito pouco.

—Era minha intenção dizer muito pouco — foi a resposta glacial dele.

Ele fitou com indignação a rapariga, que lhe defrontou com igual indignação. Ela virou-se para ele do balcão da loja; o peito arfava rapidamente. Ele reparou-lhe na testa, e na força repentina dos lábios. Era intolerável que ela duvidasse dele.

—Homicídio, se quer saber — gritou ele, furioso. —Aquele homem assassinou a esposa!

—Como? — retorquiu ela.

—Para todos os efeitos e propósitos, ele assassinou-a. Naquele dia em Santa Croce — disseram alguma coisa contra mim?

—Nem uma palavra, Sr. Eager — nem uma única palavra.

—Oh, pensei que estivessem a difamar-me junto de si. Mas suponho que é apenas o encanto pessoal deles que vos leva a defendê-los.

—Não estou a defendê-los — disse Lucy, perdendo a coragem e recaindo nos antigos métodos caóticos. —Não são nada para mim.

—Como pôde pensar que ela os estava a defender? — disse Miss Bartlett, muito desconcertada com a cena desagradável. O lojista estava possivelmente a ouvir.

—Ela vai achá-lo difícil. Pois aquele homem assassinou a esposa diante dos olhos de Deus.

A adição de Deus foi notável. Mas o capelão estava realmente a tentar qualificar um dito precipitado. Seguiu-se um silêncio que poderia ter sido impressionante, mas foi apenas embaraçoso. Depois Miss Bartlett comprou apressadamente a Torre Inclinada e tomou a dianteira para a rua.

—Preciso de ir — disse ele, fechando os olhos e tirando o relógio.

Miss Bartlett agradeceu-lhe a amabilidade e falou com entusiasmo do próximo passeio de carruagem.

—Passeio? Oh, o nosso passeio vai mesmo realizar-se?

Lucy foi chamada à atenção e, após algum esforço, a complacência do sr. Eager foi restaurada.

—Que se lixe o passeio! — exclamou a rapariga, mal ele partiu. —É exactamente o passeio que tínhamos combinado com o sr. Beebe, sem espalhafato nenhum. Porque haveria ele de nos convidar daquela maneira absurda? Mais nos valia convidá-lo a ele. Cada qual paga por si.

Miss Bartlett, que tencionava lamentar-se dos Emerson, foi lançada por esta observação em pensamentos inesperados.

—Se assim é, querida — se o passeio que nós e o sr. Beebe vamos fazer com o sr. Eager é realmente o mesmo que o passeio que vamos fazer com o sr. Beebe, então prevejo uma triste alhada.

—Como?

—Porque o sr. Beebe convidou também Eleanor Lavish.

—Isso quer dizer mais uma carruagem.

—Pior ainda. O sr. Eager não gosta de Eleanor. Ela própria sabe. É preciso dizer a verdade: ela é demasiado inconvencional para ele.

Estavam agora na sala dos jornais no banco inglês. Lucy estava junto da mesa central, indiferente ao Punch e ao Graphic, tentando responder — ou, ao menos, formular — as perguntas que lhe tumultuavam o cérebro. O mundo bem conhecido tinha-se desfeito, e dela emergira Florença, uma cidade mágica onde as pessoas pensavam e faziam as coisas mais extraordinárias. Assassinato, acusações de assassínio, uma senhora agarrada a um homem e grosseira com outro — seriam estes os incidentes diários das suas ruas? Haveria mais naquela beleza franca do que o olho via — o poder, talvez, de despertar paixões, boas e más, e de levá-las velozmente ao cumprimento?

Feliz Charlotte, que, embora muito perturbada com coisas que não importavam, parecia alheia às que importavam; que sabia conjecturar com admirável delicadeza «onde as coisas poderiam levar», mas aparentemente perdia de vista a meta à medida que se aproximava dela. Agora estava encolhida no canto a tentar extrair uma nota circular de uma espécie de saco de linho com fecho que trazia ao pescoço em recatado esconderijo. Tinham-lhe dito que aquela era a única maneira segura de transportar dinheiro em Itália; só podia ser aberto entre as paredes do banco inglês. Enquanto procurava, murmurava: «Se foi o sr. Beebe que se esqueceu de avisar o sr. Eager, ou o sr. Eager que se esqueceu quando nos avisou, ou se decidiram deixar a Eleanor de fora completamente — o que dificilmente poderiam fazer — mas, em qualquer caso, temos de estar preparadas. Eles querem-na a ela; eu só sou convidada por questão de aparências. Tu irás com os dois cavalheiros, e eu e a Eleanor seguiremos atrás. Uma carruagem a um cavalo chegar-nos-ia. Mas como é difícil!»

—É de facto — respondeu a rapariga, com uma gravidade que soou solidária.

—O que pensas disto? — perguntou Miss Bartlett, corada do esforço e abotoando o vestido.

—Não sei o que penso, nem o que quero.

—Oh, querida Lucy! Espero bem que Florença não te esteja a aborrecer. Diz a palavra e, como sabes, amanhã levo-te até ao fim do mundo.

—Obrigada, Charlotte — disse Lucy, e meditou sobre a oferta.

Havia cartas para ela no balcão — uma do irmão, cheia de atletismo e biologia; uma da mãe, deliciosa como só as cartas da mãe sabiam ser. Nela tinha lido a respeito dos açafrões que tinham sido comprados amarelos e estavam a nascer cor de pulga, da nova criada de sala que regara os fetos com essência de limonada, das casas geminadas que estavam a arruinar a Summer Street e a partir o coração de Sir Harry Otway. Recordou a vida livre e agradável do seu lar, onde lhe era permitido fazer tudo e onde nada lhe acontecia jamais. A estrada por entre os pinhais, a sala de estar impecável, a vista sobre o Sussex Weald — tudo flutuava diante dela nítido e luminoso, mas patético como os quadros numa galeria à qual, após longa experiência, um viajante regressa.

—E as notícias? — perguntou Miss Bartlett.

—A sra. Vyse e o filho foram para Roma — disse Lucy, dando a notícia que menos lhe interessava. —Conheces os Vyses?

—Oh, não de há tanto tempo. Nunca nos pode fartar da adorada Piazza Signoria.

—São pessoas simpáticas, os Vyses. Tão inteligentes — exactamente a minha ideia do que é verdadeiramente inteligente. Não tens vontade de estar em Roma?

—Morro por isso!

A Piazza Signoria é demasiado pedregosa para ser brilhante. Não tem relva, nem flores, nem frescos, nem paredes brilhantes de mármore, nem aconchegantes manchas de tijolo avermelhado. Por um estranho acaso — a menos que creiamos num génio tutelar dos lugares — as estátuas que suavizam a sua severidade sugerem não a inocência da infância, nem o glorioso deslumbramento da juventude, mas as conscientes realizações da maturidade. Perseu e Judite, Hércules e Thusnelda, fizeram ou sofreram qualquer coisa, e, embora sejam imortais, a imortalidade lhes chegou depois da experiência, não antes. Aqui, não apenas na solidão da Natureza, poderia um herói encontrar uma deusa, ou uma heroína um deus.

—Charlotte! — gritou a rapariga de repente. —Tenho uma ideia. E se fossemos amanhã a Roma — directamente ao hotel dos Vyses? É que eu sei o que quero. Estou farta de Florença. Não, tu é que disseste que ias até ao fim do mundo! Vai! Vai!

Miss Bartlett, com igual vivacidade, respondeu:

—Oh, pessoa tão divertida! Por favor, o que seria do teu passeio pelas colinas?

Atravessaram juntas a beleza austera da praça, rindo da impraticável sugestão.

Capítulo VI

O reverendo Arthur Beebe, o reverendo Cuthbert Eager, o sr. Emerson, o sr. George Emerson, Miss Eleanor Lavish, Miss Charlotte Bartlett e Miss Lucy Honeychurch saem de carruagem para ver uma vista; os italianos conduzem-nos.

Foi Faetonte quem os levou a Fiesole nesse dia memorável, um jovem todo irresponsabilidade e fogo, urgindo impetuosamente os cavalos do seu patrone pela colina pedregosa. O sr. Beebe reconheceu-o de imediato. Nem a Idade da Fé nem a Idade da Dúvida o haviam tocado; era Faetonte na Toscana a conduzir um cabriolé. E foi Perséfone a quem ele pediu licença para recolher pelo caminho, dizendo que era sua irmã — Perséfone, alta e esbelta e pálida, que regressava com a Primavera à cabana da mãe e ainda protegia os olhos da luz desacostumada. A ela o sr. Eager objetou, dizendo que ali estava o fio da meada, e que era preciso defender-se da impostura. Mas as senhoras intercederam, e, uma vez esclarecido que era um favor imenso, foi permitido à deusa subir ao lado do deus.

Faetonte logo passou a rédea esquerda por cima da cabeça dela, podendo assim conduzir com o braço à volta da sua cintura. Ela não se importou. O sr. Eager, que ia de costas para os cavalos, nada viu da indecorosa cena e prosseguiu a sua conversa com Lucy. Os outros dois ocupantes da carruagem eram o velho sr. Emerson e Miss Lavish. Pois uma coisa terrível acontecera: o sr. Beebe, sem consultar o sr. Eager, duplicara o tamanho do grupo. E embora Miss Bartlett e Miss Lavish tivessem planeado toda a manhã a disposição dos lugares, no momento crítico em que as carruagens apareceram perderam a cabeça, e Miss Lavish entrou com Lucy, enquanto Miss Bartlett, com George Emerson e o sr. Beebe, seguia atrás na outra.

Era duro para o pobre capelão ver a sua partie carrée assim transformada. O chá numa vila renascentista, caso alguma vez o tivesse meditado, tornava-se agora impossível. Lucy e Miss Bartlett tinham um certo aprumo, e o sr. Beebe, embora pouco de fiar, era um homem de recursos. Mas uma escritora ordinária e um jornalista que assassinara a esposa à vista de Deus — não deveriam entrar em vila alguma por sua apresentação.

Lucy, elegantemente vestida de branco, sentava-se erecta e nervosa no meio daqueles ingredientes explosivos, atenta ao sr. Eager, repressiva com Miss Lavish, vigilante quanto ao velho sr. Emerson, que felizmente ainda dormia, graças a um almoço pesado e à atmosfera sonolenta da Primavera. Considerava a expedição como obra do Destino. Sem ela, teria evitado George Emerson com êxito. Este, de modo aberto, dera a entender que desejava continuar a intimidade começada. Ela recusara, não porque ele lhe desagradasse, mas porque não sabia o que acontecera e suspeitava que ele sabia. E isso assustava-a.

Pois o verdadeiro acontecimento — fosse o que fosse — tivera lugar, não na Loggia, mas junto ao rio. Comportar-se descontroladamente à vista da morte é desculpável. Mas discuti-lo depois, passar da discussão ao silêncio, e do silêncio à simpatia — isso é um erro não de uma emoção perturbada, mas de todo o edifício. Havia realmente algo de censurável (pensava ela) na contemplação conjunta da corrente sombria, no impulso comum que os levara para a casa sem trocar um olhar ou uma palavra. Este sentimento de culpa fora de início ligeiro. Quase se juntara ao grupo que ia à Torre del Gallo. Mas cada vez que evitava George, tornava-se mais imperioso que o voltasse a evitar. E agora a ironia celeste, operando através da prima e de dois clérigos, não lhe permitia deixar Florença sem fazer esta expedição com ele pelas colinas.

Entretanto o sr. Eager entretinha-a em conversa cortês; o seu pequeno arrufo passara.

—Então, Miss Honeychurch, viaja? Como estudante de arte?

—Oh, meu Deus, não — oh, não!

—Talvez como estudante da natureza humana — interveio Miss Lavish — como eu própria?

—Oh, não. Estou aqui como turista.

—Ah, de facto — disse o sr. Eager. —É mesmo? Se não levar a mal, nós, os residentes, às vezes temos alguma pena de vocês, pobres turistas — empurrados de um lado para o outro como um molho de mercadorias, de Veneza para Florença, de Florença para Roma, vivendo amontoados em pensões ou hotéis, totalmente inconscientes de tudo o que está fora do Baedeker, a sua única ansiedade «despachar» isto ou aquilo e seguir para outro sítio. O resultado é que confundem cidades, rios, palácios numa confusão indistinguível. Conhece a rapariga americana do Punch que diz: «Ó papá, o que foi que nós vimos em Roma?» E o pai responde: «Bem, acho que Roma foi o sítio onde vimos o cão amarelo.» Eis viajar para vocês. Ha! ha! ha!

—Concordo plenamente — disse Miss Lavish, que por várias vezes tentara interromper o seu espírito mordaz. —A estreiteza e superficialidade do turista anglo-saxónico é nada menos que uma ameaça.

—Muito bem. Ora, a colónia inglesa em Florença, Miss Honeychurch — e é de considerável dimensão, embora, claro, nem todos igualmente: alguns estão aqui por negócios, por exemplo. Mas a maior parte são estudantes. Lady Helen Laverstock está neste momento ocupada com Fra Angelico. Menciono-lhe o nome porque vamos a passar pela sua vila à esquerda. Não, só se vê se se levantar — não, não se levante; vai cair. Ela é muito orgulhosa daquela sebe densa. Dentro, perfeita solitude. Podia-se ter recuado seiscentos anos. Alguns críticos acreditam que o seu jardim foi a cena do Decameron, o que lhe dá um interesse adicional, não dá?

—Sem dúvida! — exclamou Miss Lavish. —Diga-me, onde situam eles a cena desse maravilhoso sétimo dia?

Mas o sr. Eager continuou a dizer a Miss Honeychurch que à direita vivia um certo sr. Alguém de Sobrenome, um americano do melhor tipo — tão raro! — e que os outros Alguéns ficavam mais abaixo na colina. «Decerto conhece as monografias dele na colecção «Mediæval Byways»? Está a trabalhar sobre Gemisto Pleto. Às vezes, quando tomo chá nos seus belos jardins, oiço, por cima do muro, o eléctrico a chiar pela nova estrada com as suas cargas de turistas quentes, poeirentos e incultos que vão 'despachar' Fiesole numa hora para poderem dizer que lá estiveram, e penso — penso — penso como pouco pensam no que lhes fica tão perto.»

Durante este discurso, as duas figuras da bolee estavam a brincar uma com a outra de forma vergonhosa. Lucy teve um espasmo de inveja. Mesmo que quisessem portar-se mal, era agradável para eles poderem fazê-lo. Eram provavelmente as únicas pessoas que gozavam a expedição. A carruagem subia com solavancos atrozes pela Piazza de Fiesole e entrava na estrada de Settignano.

—Piano! piano! — disse o sr. Eager, ondulando elegantemente a mão por cima da cabeça.

—Va bene, signore, va bene, va bene — cantou o cocheiro, e açulou de novo os cavalos.

Agora o sr. Eager e Miss Lavish começaram a discutir um contra o outro a respeito de Alessio Baldovinetti. Teria ele sido uma causa do Renascimento, ou uma das suas manifestações? A outra carruagem ficou para trás. À medida que o andamento subia para o galope, a grande forma adormecida do sr. Emerson era atirada contra o capelão com a regularidade de uma máquina.

—Piano! piano! — disse ele, com um olhar martirizado para Lucy.

Um solavanco extra fê-lo voltar-se furioso no assento. Faetonte, que há algum tempo vinha tentando beijar Perséfone, acabara de conseguir.

Sobreveio uma pequena cena que, como Miss Bartlett disse depois, foi das mais desagradáveis. Os cavalos foram parados, aos amantes foi ordenado que se desenlaçassem, o rapaz devia perder o seu pourboire, a rapariga devia apear-se imediatamente.

—Ela é minha irmã — disse ele, voltando-se para eles com olhos piedosos.

O sr. Eager deu-se ao trabalho de lhe dizer que era um mentiroso.

Faetonte baixou a cabeça, não pela substância da acusação, mas pelo seu tom. Neste ponto o sr. Emerson, que o choque da paragem acordara, declarou que os amantes não deviam em caso algum ser separados, e deu-lhes palmadinhas nas costas para significar a sua aprovação. E Miss Lavish, embora relutante em aliar-se a ele, sentiu-se obrigada a apoiar a causa do boemianismo.

—Decerto os deixaria — exclamou ela. —Mas aposto que receberei escasso apoio. Sempre voei contra as convenções toda a minha vida. É isto a que eu chamo uma aventura.

—Não nos podemos submeter — disse o sr. Eager. —Eu sabia que ele estava a tentar. Trata-nos como se fôssemos uma excursão da Cook.

—Certamente que não! — disse Miss Lavish, visivelmente arrefecendo no seu ardor.

A outra carruagem parara atrás, e o sensato sr. Beebe gritou que, depois deste aviso, o casal portar-se-ia decerto como deve ser.

—Deixem-nos — pediu o sr. Emerson ao capelão, de quem não tinha o mínimo receio. —Encontramos a felicidade com tanta frequência que a havemos de enxotar da bolee só porque ela ali se sentou? Ser conduzido por amantes — um rei nos invejaria, e se os separarmos é mais parecido com um sacrilégio do que qualquer coisa que eu conheça.

Aqui ouviu-se a voz de Miss Bartlett a dizer que uma multidão começara a juntar-se.

O sr. Eager, que sofria de uma língua excessivamente fluente mais do que de uma vontade resoluta, estava determinado a fazer-se ouvir. Dirigiu-se de novo ao cocheiro. Italiano na boca de italianos é uma torrente de voz grave, com cataratas e pedras inesperadas que a preservam da monotonia. Na boca do sr. Eager não se parecia com nada mais do que com uma fonte sibilante e ácida que jorrava cada vez mais alto, e mais rápido, e mais estridente, até ser de repente desligada com um clique.

—Signorina! — disse o homem a Lucy, quando a exibição cessou. Porque se dirigiria ele a Lucy?

—Signorina! — repetiu Perséfone no seu glorioso contralto. Apontou para a outra carruagem. Porquê?

Por um instante as duas raparigas olharam uma para a outra. Depois Perséfone apeou-se da bolee.

—Vitória finalmente! — disse o sr. Eager, batendo as mãos uma na outra quando as carruagens arrancaram de novo.

—Não é vitória — disse o sr. Emerson. —É derrota. Separámos duas pessoas que eram felizes.

O sr. Eager fechou os olhos. Era obrigado a sentar-se ao lado do sr. Emerson, mas não lhe falaria. O velho, refrescado pelo sono, retomou o assunto com ardor. Ordenou a Lucy que concordasse com ele; gritou por apoio ao filho.

—Tentámos comprar o que não se compra com dinheiro. Ele comprometeu-se a conduzir-nos, e está a fazê-lo. Não temos direitos sobre a alma dele.

Miss Lavish franziu o sobrolho. É duro quando uma pessoa que classificámos como tipicamente britânica fala fora do seu papel.

—Ele não nos conduzia bem — disse ela. —Sacudia-nos.

—Isso nego-o. Era tão repousante como dormir. Ah! Agora está a sacudir-nos. Admira-o? Ele queria atirar-nos fora, e com toda a razão está justificado. E, se eu fosse supersticioso, teria medo também da rapariga. Não convém magoar os jovens. Já ouviram falar de Lorenzo de Medici?

Miss Lavish enrijeceu.

—Certamente que sim. Refere-se a Lorenzo il Magnifico, ou a Lorenzo, duque de Urbino, ou a Lorenzo cognominado Lorenzino por causa da sua estatura diminuta?

—Quem sabe. Possivelmente ele sabe, pois refiro-me a Lorenzo, o poeta. Escreveu um verso — ouvi-o ontem — que diz assim: «Não façais guerra à Primavera.»

O sr. Eager não resistiu à oportunidade de erudição.

—Non fate guerra al Maggio — murmurou. —«Não façais guerra a Maio» daria um sentido exacto.

—O ponto é que lhe fizemos guerra. Olhem. — Apontou para o Val d'Arno, visível muito abaixo deles, por entre as árvores em botão. —Cinquenta milhas de Primavera, e subimos para as admirar. Supõem que há alguma diferença entre a Primavera na natureza e a Primavera no homem? Mas lá vamos nós, elogiando uma e condenando a outra como imprópria, envergonhados por as mesmas leis operarem eternamente em ambas.

Ninguém o encorajou a falar. Pouco depois o sr. Eager deu sinal para as carruagens pararem e arregimentou o grupo para o seu passeio pelo monte. Um vale em anfiteatro, cheio de socalcos e oliveiras enevoadas, jazia agora entre eles e as alturas de Fiesole, e a estrada, continuando a sua curva, estava prestes a lançar-se sobre um promontório que avançava na planície. Fora esse promontório, inculto, húmido, coberto de arbustos e árvores esparsas, que prendera a fantasia de Alessio Baldovinetti quase quinhentos anos antes. Subira a ele, aquele mestre diligente e algo obscuro, talvez com olho nos negócios, talvez pelo prazer de subir. De pé ali, vira aquela vista do Val d'Arno e da distante Florença que depois introduziria, sem grande êxito, na sua obra. Mas exactamente onde estivera? Era essa a questão que o sr. Eager esperava agora resolver. E Miss Lavish, cuja natureza era atraída por tudo o que era problemático, tornara-se igualmente entusiasta.

Mas não é fácil levar na cabeça os quadros de Alessio Baldovinetti, mesmo que nos tenhamos lembrado de os ver antes de partir. E a neblina no vale aumentava a dificuldade da busca.

O grupo saltitou de tufo a tufo de relva, a sua ansiedade de se manterem juntos apenas igualada pelo desejo de ir em direcções diferentes. Por fim dividiram-se em grupos. Lucy agarrou-se a Miss Bartlett e a Miss Lavish; os Emerson voltaram a manter laboriosa conversa com os cocheiros; enquanto os dois clérigos, que se esperava terem assuntos em comum, ficaram um para o outro.

As duas senhoras mais velhas depressa arrancaram a máscara. No sussurro audível que era agora tão familiar a Lucy começaram a discutir, não Alessio Baldovinetti, mas o passeio. Miss Bartlett perguntara ao sr. George Emerson qual era a sua profissão, e ele respondera «o caminho-de-ferro». Estava muito arrependida de lhe ter perguntado. Não fazia a mínima ideia de que seria uma resposta tão terrível, ou não lho teria perguntado. O sr. Beebe desviara a conversa com tanta habilidade, e ela esperava que o rapaz não ficasse muito magoado com a pergunta.

—O caminho-de-ferro! — arfou Miss Lavish. —Oh, mas vou morrer! Claro que era o caminho-de-ferro! — Não conseguia controlar o riso. —Ele é a imagem de um carregador — de um carregador do South-Eastern.

—Eleanor, sossegada — beliscando a sua vivaz companheira. —Psiu! Vão ouvir — os Emerson —

—Não consigo parar. Deixem-me seguir o meu caminho perverso. Um carregador —

—Eleanor!

—Tenho a certeza de que não há problema — interveio Lucy. —Os Emerson não ouvem, e não se importariam mesmo que ouvissem.

Miss Lavish não pareceu satisfeita com isto.

—Miss Honeychurch a escutar! — disse ela, um tanto zangada. —Pouf! Wouf! Sua menina travessa! Vá embora!

—Oh, Lucy, devias estar com o Mr. Eager, tenho a certeza.

—Não os encontro agora, e também não tenho vontade de os procurar.

—O Mr. Eager vai ficar ofendido. Esta festa é tua.

—Por favor, prefiro ficar aqui contigo.

—Não, concordo — disse Miss Lavish. —É como um banquete escolar; os rapazes separaram-se das raparigas. Miss Lucy, tem de ir. Desejamos tratar de assuntos elevados, impróprios para os vossos ouvidos.

A rapariga mostrou-se teimosa. À medida que o seu tempo em Florença se aproximava do fim, só se sentia à vontade entre aqueles que lhe eram indiferentes. Tal era Miss Lavish, e tal era, por enquanto, Charlotte. Desejava não ter chamado a atenção; ambas estavam aborrecidas com o seu comentário e pareciam decididas a ver-se livres dela.

—Como uma pessoa se cansa — disse Miss Bartlett. —Oh, quem me dera que o Freddy e a tua mãe pudessem estar aqui.

O altruísmo em Miss Bartlett tinha usurpado por completo as funções do entusiasmo. Lucy também não olhava para a vista. Não havia de disfrutar de coisa alguma até estar a salvo em Roma.

—Então sente-se — disse Miss Lavish. —Reparem na minha previdência.

Com muitos sorrisos, tirou dois daqueles quadrados de oleado que protegem a estrutura do viajante da erva húmida ou dos degraus frios de mármore. Sentou-se num; quem haveria de sentar-se no outro?

—Lucy; sem a menor hesitação, Lucy. O chão serve para mim. Na verdade, há anos que não tenho reumatismo. Se sentir que está para vir, levanto-me. Imaginem os sentimentos da vossa mãe se eu vos deixasse sentar na humidade com o vosso linho branco. — Sentou-se pesadamente onde o chão parecia particularmente húmido. —Pronto, aqui estamos, todas instaladas deliciadamente. Mesmo que o meu vestido seja mais fino, não se notará tanto, por ser castanho. Senta-te, querida; és demasiado altruísta; não te impões o suficiente. — Limpou a garganta. —Agora não vos assusteis; isto não é uma constipação. É a mais pequenina das tosses, e já a tenho há três dias. Não tem nada a ver com o facto de estar aqui sentada.

Havia apenas uma maneira de resolver a situação. Ao fim de cinco minutos, Lucy partiu em busca do Mr. Beebe e do Mr. Eager, vencida pelo quadrado de oleado.

Dirigiu-se aos cocheiros, que estavam estendidos nas carruagens, perfumando as almofadas com charutos. O facínora, um jovem magro torrado pelo sol, ergueu-se para a saudar com a cortesia de um anfitrião e a segurança de um parente.

—Dove? — disse Lucy, após muito pensar ansiosamente.

O rosto dele iluminou-se. Claro que sabia onde. Nem sequer era longe. O braço dele descreveu três quartos do horizonte. Era evidente que sabia onde era. Levou as pontas dos dedos à testa e depois estendeu-as para ela, como se destilasse um extrato visível de saber.

Era necessário mais. Qual era o italiano para «clérigo»?

—Dove buoni uomini? — disse por fim.

Bom? Escassamente o adjetivo para aquelas criaturas nobres! Ele mostrou-lhe o charuto.

—Uno — piu — piccolo — foi a sua observação seguinte, dando a entender «Ter-lhe-á sido dado o charuto pelo Mr. Beebe, o mais pequeno dos dois homens bons?»

Acertara, como de costume. Ele amarrou o cavalo a uma árvore, deu-lhe um pontapé para que se mantivesse quieto, limpou a poeira da carruagem, arranjou o cabelo, remodelou o chapéu, animou o bigode, e em pouco menos de um quarto de minuto estava pronto para a conduzir. Os italianos nascem sabendo o caminho. Parece que a terra inteira se estende diante deles, não como um mapa, mas como um tabuleiro de xadrez, onde contemplam continuamente não só as casas que mudam, mas também as peças. Qualquer um encontra lugares, mas encontrar pessoas é um dom de Deus.

Ele parou apenas uma vez, para lhe colher umas grandes violetas azuis. Ela agradeceu-lhe com verdadeiro prazer. Na companhia daquele homem comum, o mundo era belo e direto. Pela primeira vez sentiu a influência da Primavera. O braço dele traçou o horizonte com graça; as violetas, como outras coisas, existiam ali em grande abundância; «gostaria de as ver?»

—Ma buoni uomini.

Ele fez uma reverência. Certamente. Homens bons primeiro, violetas depois. Avançaram a bom ritmo pela mata rasteira, que se adensava cada vez mais. Aproximavam-se da orla do promontório, e a vista ia-se-lhes revelando gradualmente, mas a rede castanha dos arbustos a fragmentava em countless pedaços. Ele ocupava-se do seu charuto e de afastar os ramos flexíveis. Ela rejubilava com a sua fuga da monotonia. Nem um passo, nem um ramo, lhe era indiferente.

—Que é aquilo?

Havia uma voz no bosque, ao longe, atrás deles. A voz do Mr. Eager? Ele encolheu os ombros. A ignorância de um italiano é por vezes mais notável do que o seu conhecimento. Não conseguira fazer-lhe compreender que talvez tivessem perdido os clérigos. A vista estava enfim a formar-se; ela já distinguia o rio, a planície dourada, outras colinas.

—Eccolo! — exclamou ele.

No mesmo instante, o chão cedeu, e com um grito ela caiu para fora do bosque. Luz e beleza envolveram-na. Caíra sobre uma pequena clareza a descoberto, coberta de violetas de uma extremidade à outra.

—Coragem! — gritou o seu companheiro, agora parado cerca de dois metros acima. —Coragem e amor.

Ela não respondeu. Dos seus pés, o terreno descia em declive acentuado para a vista, e as violetas corriam para baixo em regatos e torrentes e cataratas, irrigando a encosta com azul, remoinhando em torno dos troncos das árvores, acumulando-se em poças nos hollows, cobrindo a relva com manchas de espuma azul. Mas nunca mais estiveram em tão grande profusão; aquela clareza era a nascente, a fonte primordial donde a beleza brotava para regar a terra.

De pé, na sua beira, como um nadador que se prepara, estava o homem bom. Mas não era o homem bom que ela esperava, e ele estava sozinho.

George virara-se ao som da sua chegada. Por um instante contemplou-a, como alguém que caíra do céu. Viu alegria radiosa no rosto dela, viu as flores baterem contra o vestido dela em ondas azuis. Os arbustos acima deles fecharam-se. Ele deu um passo rápido em frente e beijou-a.

Antes que ela pudesse falar, quase antes que pudesse sentir, uma voz chamou:

—Lucy! Lucy! Lucy!

O silêncio da vida fora interrompido por Miss Bartlett, que se erguia castanha contra a vista.

Capítulo VII Regressam

Durante toda a tarde, um jogo complicado estivera a subir e a descer a encosta. O que era e exatamente como os jogadores se tinham posicionado, Lucy tarde o descobriu. O Mr. Eager encontrara-os com um olhar inquisitivo. Charlotte afastara-o com muita tagarelice. Mr. Emerson, à procura do filho, fora informado de onde encontrá-lo. O Mr. Beebe, que trazia o aspeto acalorado de um neutro, fora incumbido de reunir as facções para o regresso a casa. Havia uma sensação generalizada de quem tateia e se sente desnorteado. Pan estivera entre eles — não o grande deus Pan, que há dois mil anos foi sepultado, mas o pequeno deus Pan, que preside aos contratempos sociais e aos piqueniques falhados. O Mr. Beebe perdera toda a gente, e consumira em solidão o cesto do chá que trouxera como surpresa agradável. Miss Lavish perdera Miss Bartlett. Lucy perdera o Mr. Eager. Mr. Emerson perdera George. Miss Bartlett perdera um quadrado de oleado. Phaethon perdera o jogo.

Este último facto era inegável. Subiu para a boleia, a tremer, com a gola erguida, profetizando a rápida chegada de mau tempo.

—Vamos já — disse-lhes. —O signorino irá a pé.

—O caminho todo? Levará horas — disse o Mr. Beebe.

—Aparentemente. Disse-lhe que era imprudente. — Não queria encarar ninguém; talvez a derrota fosse particularmente mortificante para ele. Ele sozinho jogara com habilidade, usando todo o seu instinto, enquanto os outros haviam usado fragmentos da sua inteligência. Só ele intuíra o que as coisas eram, e o que desejaria que fossem. Só ele interpretara a mensagem que Lucy recebera cinco dias antes dos lábios de um homem moribundo. Perséfone, que passa metade da vida no túmulo — ela também a poderia interpretar. Não assim estes ingleses. Adquirem o conhecimento lentamente, e talvez tarde demais.

Os pensamentos de um cocheiro de aluguer, por mais justos que sejam, raramente afetam a vida de quem o emprega. Era o mais competente dos adversários de Miss Bartlett, mas infinitamente o menos perigoso. De volta à cidade, ele e a sua perspicácia e o seu saber não mais haviam de perturbar senhoras inglesas. Claro que era muito desagradável; ela vira a sua cabeça negra nos arbustos; ele poderia fazer disso uma história de taberna. Mas, afinal, o que temos nós a ver com tabernas? A verdadeira ameaça pertence à sala de visitas. Era de gente de sala de visitas que Miss Bartlett pensava enquanto descia em direção ao sol que esmorecia. Lucy sentava-se ao lado dela; o Mr. Eager sentava-se em frente, tentando encontrar-lhe os olhos; vagamente desconfiado. Falavam de Alessio Baldovinetti.

A chuva e a escuridão vieram juntas. As duas senhoras encolheram-se juntas sob uma sombrinha inadequada. Houve um relâmpago, e Miss Lavish, que era nervosa, gritou da carruagem da frente. No relâmpago seguinte, Lucy gritou também. O Mr. Eager dirigiu-se-lhe em tom profissional:

—Coragem, Miss Honeychurch, coragem e fé. Se me é permitido dizê-lo, há algo quase blasfemo neste horror dos elementos. Havemos de supor seriamente que todas estas nuvens, toda esta imensa descarga elétrica, são simplesmente chamadas à existência para nos extinguir a vós ou a mim?

—Não — claro —

—Mesmo do ponto de vista científico, as hipóteses contra o facto de sermos atingidos são enormes. As facas de aço, os únicos objetos que poderiam atrair a corrente, estão na outra carruagem. E, em qualquer caso, estamos infinitamente mais seguros do que se fôssemos a pé. Coragem — coragem e fé.

Debaixo da coberta, Lucy sentiu a pressão benévola da mão da sua prima. Por vezes a nossa necessidade de um gesto solidário é tão grande que não nos importa o que ele significa exatamente nem quanto possamos ter de pagar por ele depois. Miss Bartlett, com este oportuno exercício dos seus músculos, ganhou mais do que obteria em horas de pregação ou de interrogatório.

Renewed it when the two carriages stopped, half into Florence.

—Temos de enfrentar isso —disse Miss Bartlett, sem gostar de confessar que já tinha despedido a dona da pensão.

—Ela vai fazer-nos pagar a pensão de uma semana inteira.

—Suponho que sim. Contudo, estaremos muito mais confortáveis no hotel dos Vyse. Não é que ali se sirva o chá da tarde de graça?

—Sim, mas eles pagam o vinho à parte. Depois desta observação, ficou imóvel e em silêncio. Aos seus olhos cansados, Charlotte pulsava e inchava como uma figura espectral num sonho.

Começaram a separar a roupa para fazer as malas, pois não havia tempo a perder, se queriam apanhar o comboio para Roma. Lucy, quando repreendida, começou a mover-se de um lado para o outro entre os quartos, mais consciente dos incómodos de fazer as malas à luz de uma vela do que de um mal mais subtil. Charlotte, que era prática sem ter talento, ajoelhou ao lado de um baú vazio, tentando em vão forrar o fundo com livros de espessuras e tamanhos diferentes. Deu dois ou três suspiros, porque a postura curvada lhe doía nas costas, e, apesar de toda a sua diplomacia, sentia que estava a envelhecer. A jovem ouviu-a ao entrar no quarto, e foi tomada por um daqueles impulsos emocionais a que nunca conseguia atribuir uma causa. Apenas sentiu que a vela arderia melhor, que fazer as malas seria mais fácil, que o mundo seria mais feliz, se ela pudesse dar e receber algum amor humano. O impulso já lhe tinha surgido antes, mas nunca tão forte. Ajoelhou-se ao lado da prima e envolveu-a nos braços.

Miss Bartlett correspondeu ao abraço com ternura e calor. Mas não era uma mulher estúpida, e sabia perfeitamente que Lucy não a amava, mas precisava que ela a amasse. Pois foi em tons sinistros que disse, depois de uma longa pausa:

—Querida Lucy, como me poderás tu alguma vez perdoar?

Lucy ficou logo de sobreaviso, sabendo por amarga experiência o que significava perdoar Miss Bartlett. A sua emoção afrouxou, atenuou um pouco o abraço e disse:

—Charlotte querida, o que queres dizer? Como se eu tivesse alguma coisa para perdoar!

—Tens muito, e eu também tenho muitíssimo a perdoar-me a mim mesma. Sei bem como te irrito a cada passo.

—Mas não—

Miss Bartlett assumiu o seu papel favorito, o de mártir prematuramente envelhecida.

—Ah, mas sim! Sinto que a nossa viagem juntas não é de todo o sucesso que eu esperara. Eu poderia ter previsto que não resultaria. Tu precisas de alguém mais novo, mais forte e mais em sintonia contigo. Eu sou demasiado desinteressante e antiquada — só sirvo para fazer e desfazer as tuas malas.

—Por favor—

—A minha única consolação era saber que encontraste pessoas mais do teu agrado, e que muitas vezes me podias deixar em casa. Eu tinha as minhas pobres ideias sobre o que uma senhora deve fazer, mas espero não tas ter imposto mais do que era necessário. Pelo menos, quanto a estes quartos, fizeste sempre como quiseste.

—Não deves dizer essas coisas —disse Lucy suavemente.

Ela ainda se agarrava à ideia de que ela e Charlotte se amavam, de coração e alma. Continuou a fazer as malas em silêncio.

—Fui um fracasso —disse Miss Bartlett, enquanto lutava com as correias do baú de Lucy em vez de fechar o seu próprio. —Fracassei em fazer-te feliz; fracassei no meu dever para com a tua mãe. Ela tem sido tão generosa comigo; nunca mais lhe poderei aparecer depois desta desgraça.

—Mas a mãe vai compreender. Isto não é culpa tua, esta complicação, e também não é uma desgraça.

—É culpa minha, é uma desgraça. Ela nunca me perdoará, e com razão. Por exemplo, que direito tinha eu de tornar-me amiga de Miss Lavish?

—Todo o direito.

—Quando eu estava cá por tua causa? Se te aborreci, é igualmente verdade que te negligenciei. A tua mãe verá isto tão claramente como eu, quando lho contares.

Lucy, por um cobarde desejo de melhorar a situação, disse:

—Para que precisa a mãe saber?

—Mas tu contas-lhe tudo, não contas?

—Suponho que sim, geralmente.

—Eu não ouso quebrar a tua confiança. Há algo de sagrado nela. A menos que sintas que é uma coisa que não lhe poderias contar.

A jovem não se deixaria rebaixar até esse ponto.

—Naturalmente, eu ter-lhe-ia contado. Mas, no caso de ela te culpar de alguma forma, prometo que não o farei, estou muito disposta a não fazê-lo. Nunca falarei disto nem a ela nem a ninguém.

A sua promessa trouxe a longa entrevista para um fim súbito. Miss Bartlett deu-lhe dois piparotes nas faces, desejou-lhe boa-noite e mandou-a para o seu quarto.

Por um momento, a questão original ficou em segundo plano. George parecia ter-se portado como um patife do princípio ao fim; talvez fosse essa a opinião que se haveria de formar eventualmente. No momento presente, ela não o absolvia nem o condenava; não emitia julgamento. No instante em que estava prestes a julgá-lo, a voz da prima interveio, e, desde então, fora Miss Bartlett quem dominara; Miss Bartlett que, ainda agora, se podia ouvir a suspirar para dentro de uma fenda da parede divisória; Miss Bartlett, que na verdade nunca fora flexível nem humilde nem incoerente. Ela trabalhara como uma grande artista; durante um tempo — aliás, durante anos — fora insignificante, mas no fim apresentou-se à jovem o quadro completo de um mundo sombrio e sem amor, onde os jovens correm para a destruição até aprenderem melhor — um mundo envergonhado de precauções e barreiras que talvez afastem o mal, mas que não parecem trazer o bem, a julgar por aqueles que mais delas usaram.

Lucy sofria do mais grievo erro que este mundo descobriu até agora: fora tirada vantagem diplomática da sua sinceridade, da sua fome de simpatia e de amor. Um erro destes não se esquece facilmente. Nunca mais se expôs sem a devida ponderação e precaução contra uma repulsa. E um erro destes pode reagir desastrosamente sobre a alma.

Tocou a campainha da porta, e ela correu para as portadas. Antes de lá chegar, hesitou, voltou-se e soprou a vela. Assim foi que, embora ela visse alguém de pé, em baixo, na chuva, ele, embora olhasse para cima, não a viu.

Para chegar ao seu quarto, ele tinha de passar pelo dela. Ela ainda estava vestida. Ocorreu-lhe que poderia esgueirar-se para o corredor e dizer-lhe apenas que partiria antes de ele se levantar, e que o seu extraordinário convívio tinha terminado.

Se ela teria ousado fazê-lo, nunca se chegou a provar. No momento crítico, Miss Bartlett abriu a sua própria porta, e a sua voz disse:

—Queria trocar uma palavra consigo na sala, Mr. Emerson, por favor.

Pouco depois, os passos deles regressaram, e Miss Bartlett disse: «Boa-noite, Mr. Emerson.»

A respiração dele, pesada e cansada, foi a única resposta; a chaperon tinha cumprido o seu dever.

Lucy gritou em voz alta: «Não é verdade. Não pode ser tudo verdade. Não quero ficar baralhada. Quero envelhecer depressa.»

Miss Bartlett bateu na parede.

—Vai para a cama imediatamente, querida. Precisas de todo o descanso que puderes ter.

De manhã, partiram para Roma.

PARTE SEGUNDA

Capítulo VIII Medieval

As cortinas da sala em Windy Corner tinham sido puxadas até se encontrarem, porque a carpete era nova e merecia ser protegida do sol de Agosto. Eram cortinas pesadas, que desciam quase até ao chão, e a luz que por elas se filtrava era suave e variada. Um poeta — nenhum estava presente — poderia ter citado, «A vida como uma cúpula de vidro multicolor», ou comparado as cortinas a comportas, baixadas contra as marés intoleráveis do céu. Fora, vertia-se um mar de resplendor; dentro, a glória, embora visível, era atenuada até à capacidade do homem.

Duas pessoas agradáveis estavam sentadas na sala. Uma — um rapaz de dezanove anos — estudava um pequeno manual de anatomia, espreitando de vez em quando um osso que jazia sobre o piano. De tempos em tempos, sobressaltava-se na cadeira e bufava e gemia, pois o dia estava quente e os caracteres eram pequenos, e o corpo humano é feito de modo assustador; e a mãe dele, que escrevia uma carta, lia-lhe continuamente em voz alta o que tinha escrito. E sem cessar levantava-se do assento e abria as cortinas para que um fio de luz caisse sobre a carpete, fazendo então a observação de que eles ainda lá estavam.

—Onde é que eles não estão? —disse o rapaz, que era Freddy, o irmão de Lucy. —Garanto-te que já estou farto disto.

—Pelo amor de Deus, sai então da minha sala! —exclamou Mrs. Honeychurch, que esperava curar os filhos da gíria por a tomar à letra.

Freddy não se mexeu nem respondeu.

—Creio que as coisas estão a chegar a um ponto crítico —observou ela, desejando bastante obter a opinião do filho sobre a situação, se conseguisse sem súplica excessiva.

—Já era tempo.

—Ainda bem que o Cecil está a pedir-lhe outra vez.

—É a terceira tentativa dele, não é?

—Freddy, tenho mesmo de dizer que a maneira como falas é pouco amável.

—Não tive a intenção de ser pouco amável. —Depois acrescentou: —Mas acho que a Lucy podia ter resolvido isto na Itália. Não sei como é que as raparigas tratam destas coisas, mas ela não deve ter dito «Não» como deve ser antes, ou então não teria de o dizer outra vez agora. Com este caso todo — não sei explicar — fico mesmo incomodado.

—A sério, querido? Que interessante!

—Sinto — deixa lá.

Voltou ao trabalho.

—Ouve só o que escrevi para Mrs. Vyse. Comecei: «Cara Mrs. Vyse.»

—Sim, mãe, já me disseste. Uma carta muito boa.

—Escrevi: «Cara Mrs. Vyse, o Cecil acabou de pedir o meu consentimento a este respeito, e ficarei encantada, se a Lucy o desejar. Mas—» —Deixou de ler—, fiquei até um tanto divertida por o Cecil me pedir o consentimento. Ele sempre puxou para o inconvencional, com pais nenhum, e por aí adiante. Quando chega à hora da verdade, não consegue passar sem mim.

—Nem sem mim.

—Sem ti?

Freddy acenou com a cabeça.

—O que queres dizer?

—Ele pediu-me o meu consentimento também.

Ela exclamou: «Que coisa tão estranha da parte dele!»

—Porquê? —perguntou o filho e herdeiro. —Porque não havia de me pedir consentimento a mim?

—O que sabes tu sobre a Lucy, ou sobre raparigas, ou sobre qualquer coisa? Que é que disseste, afinal?

—Disse ao Cecil: «Leva-a ou deixa-a; não é negócio meu!»

—Que resposta tão útil! —Mas a resposta dela, embora formulada de modo mais normal, tinha sido no mesmo sentido.

—O problema é este —começou Freddy.

Depois pegou de novo no trabalho, envergonhado demais para dizer qual era o problema. Mrs. Honeychurch voltou à janela.

—Freddy, tens de vir. Eles ainda lá estão!

—Não percebo porque havemos de ficar a espreitar assim.

—A espreitar assim! Não posso olhar para fora da minha própria janela?

Mas ela voltou para a escrivaninha, observando, ao passar pelo filho: «Ainda na página 322?» Freddy resmungou e virou duas folhas. Por um breve espaço ficaram calados. Perto dali, para além das cortinas, o murmúrio suave de uma longa conversa nunca cessara.

—O problema é este: meti os pés pelas mãos com o Cecil de uma maneira pavorosa. —Engoliu em seco, nervoso. —Não contente com o «consentimento», que dei — isto é, disse «não me importa» —, pois não contente com isso, ele quis saber se eu não estava maluco de contente. Pôs a coisa praticamente nestes termos: não seria uma coisa esplêndida para a Lucy e para Windy Corner em geral se ele casasse com ela? E queria uma resposta — disse que lhe daria força.

—Espero que tenhas dado uma resposta ponderada, querido.

—Respondi «Não» —disse o rapaz, cerrando os dentes. —Pronto! Põe-te em alvoroço! Não posso evitá-lo — tive de dizê-lo. Tive de dizer não. Ele nunca devia ter perguntado.

—Criança ridícula! —exclamou a mãe. —Achas-te tão santo e tão verdadeiro, mas no fundo isso é só um orgulho abominável. Julgas que um homem como o Cecil daria a mínima importância a alguma coisa que tu digas? Espero que ele te tenha dado uns estalos. Como te atreveste a dizer que não?

—Ah, deixa-me em paz, mãe! Tive de dizer não quando não podia dizer sim. Tentei rir como se não tivesse dito aquilo a sério, e, como o Cecil também riu e se foi embora, talvez fique tudo bem. Mas sinto que me meti numa alhada. Ah, deixa-me em paz, sim, e deixa um homem trabalhar um bocado.

—Não —disse Mrs. Honeychurch, com o ar de quem já ponderou o assunto—, não me calarei. Tu sabes tudo o que se passou entre eles em Roma; sabes porque é que ele está cá em baixo, e no entanto insultas o rapaz de propósito, e tentas expulsá-lo da minha casa.

—De modo nenhum! —suplicou ele. —Apenas deixei escapar que não gosto dele. Não o odeio, mas não gosto dele. O que me apoquenta é que ele vai contar à Lucy.

Olhou para as cortinas com ar sombrio.

—Bom, eu gosto dele —disse Mrs. Honeychurch. —Conheço a mãe dele; é bom, é inteligente, é rico, tem boas ligações — ah, não precisas de pontapear o piano! Tem boas ligações — repito, se quiseres: tem boas ligações. —Fez uma pausa, como quem ensaia o seu elogio, mas o rosto permaneceu insatisfeito. Acrescentou: —E tem modos belíssimos.

—Eu gostava dele até agora mesmo. Suponho que é tê-lo aqui a estragar a primeira semana da Lucy em casa; e também tem a ver com qualquer coisa que o Mr. Beebe disse, sem saber.

—Mr. Beebe? —disse a mãe, tentando disfarçar o interesse. —Não vejo como é que Mr. Beebe entra aqui.

—Conheces o modo engraçado que o Mr. Beebe tem, em que nunca se sabe bem o que ele quer dizer. Ele disse: «O Mr. Vyse é um solteiro ideal.» Eu fui muito esperto, perguntei-lhe o que queria dizer. Ele disse: «Ah, ele é como eu — melhor sozinho.» Não consegui que ele dissesse mais nada, mas fiquei a pensar. Desde que o Cecil veio atrás da Lucy, ele não tem estado tão agradável, pelo menos — não consigo explicar.

—Tu nunca consegues, querido. Mas eu consigo. Tens ciúmes do Cecil porque ele pode impedir a Lucy de te tricotar gravatas de seda.

A explicação pareceu plausível, e Freddy tentou aceitá-la. Mas no fundo do seu cérebro espreitava uma desconfiança vaga. Cecil elogiava-o um bocado de mais por ser desportista. Seria por isso? Cecil obrigava-o a falar à sua própria maneira. Isso cansava-o. Seria por isso? E Cecil era o tipo de sujeito que nunca usaria o boné de outro. Sem ter consciência da sua própria profundidade, Freddy deteve-se. Devia estar com ciúmes, ou não desgostaria de um homem por razões tão tolas.

—Serve isto? —chamou a mãe. —«Cara Mrs. Vyse, — O Cecil acaba de pedir o meu consentimento a este respeito, e ficarei encantada se a Lucy o desejar.» —Depois acrescentei no alto, «e já disse isso à Lucy.» Tenho de passar a carta a limpo — «e já disse isso à Lucy. Mas a Lucy parece muito indecisa, e nestes tempos os jovens têm de decidir por si próprios.» Disse isto porque não queria que Mrs. Vyse nos achasse antiquados. Ela adora palestras e cultivar o espírito, e durante todo esse tempo há uma camada grossa de cotão debaixo das camas, e as dedadas sujas da criada onde se acende a luz eléctrica. Ela mantém aquele apartamento de forma abominável—

—Supõe que a Lucy casa com o Cecil; vivia num apartamento, ou no campo?

—Não me interrompas com disparate. Onde é que eu ia? Ah, sim — «Os jovens têm de decidir por si próprios. Sei que a Lucy gosta do seu filho, porque ela conta-me tudo, e escreveu-me de Roma quando ele lhe pediu pela primeira vez.» Não, vou riscar este último bocado — parece condescendente. Fico em «porque ela conta-me tudo.» Ou devo riscá-lo também?

—Risca também —disse Freddy.

Mrs. Honeychurch deixou ficar.

—Então o conjunto fica: «Cara Mrs. Vyse, — O Cecil acaba de pedir o meu consentimento a este respeito, e ficarei encantada se a Lucy o desejar, e já disse isso à Lucy. Mas a Lucy parece muito indecisa, e nestes tempos os jovens têm de decidir por si próprios. Sei que a Lucy gosta do seu filho, porque ela conta-me tudo. Mas eu não sei—»

—Atenção! —gritou Freddy.

As cortinas abriram-se.

O primeiro gesto de Cecil foi de irritação. Não suportava o costume que os Honeychurch tinham de ficar sentados no escuro para poupar a mobília. Por instinto, deu um puxão nas cortinas e fê-las correr pelos varões. A luz entrou. Revelou-se um terraço, como o que pertence a muitas vivendas com árvores de cada lado, e nele um pequeno banco rústico, e dois canteiros de flores. Mas estava transfigurado pela vista para lá dele, pois Windy Corner fora construída sobre a serra que domina o Weald de Sussex. Lucy, que estava no pequeno banco, parecia à beira de um tapete mágico verde que pairava no ar acima do mundo trémulo.

Cecil entrou.

Aparecendo tão tarde na história, Cecil tem de ser desde logo descrito. Era medieval. Como uma estátua gótica. Alto e requintado, com ombros que pareciam aprumados a esquadro por um esforço de vontade, e uma cabeça erguida um pouco acima do nível habitual da visão, assemelhava-se a um daqueles santos fastidiosos que guardam os portais de uma catedral francesa. Bem educado, bem-dotado, e sem deficiência física, permanecia nas garras de um certo diabo que o mundo moderno conhece como auto-consciência, e que o medieval, de visão mais turva, adorava como ascetismo. Uma estátua gótica implica celibato, do mesmo modo que uma estátua grega implica fruição, e talvez fosse isto o que Mr. Beebe queria dizer. E Freddy, que ignorava a história e a arte, talvez quisesse dizer o mesmo quando não conseguia imaginar Cecil a usar o boné de outro.

Mrs. Honeychurch deixou a carta sobre a escrivaninha e dirigiu-se para o jovem conhecido.

—Ah, Cecil! —exclamou ela—, ah, Cecil, conta-me lá!

—I promessi sposi —disse ele.

Fitaram-no com ansiedade.

—Ela aceitou-me —disse ele, e o som da coisa em inglês fê-lo corar e sorrir de prazer, e parecer mais humano.

—Que bom —disse Mrs. Honeychurch, enquanto Freddy lhe estendia uma mão amarela de produtos químicos. Desejaram saber também eles italiano, pois as nossas frases de aprovação e de assombro estão tão ligadas a pequenas ocasiões que tememo-las usar nas grandes. Somos obrigados a tornar-nos vagamente poéticos, ou a refugiar-nos em reminiscências bíblicas.

—Bem-vindo como um de casa! —disse Mrs. Honeychurch, agitando a mão na direcção da mobília. —Este é de facto um dia jubiloso! Estou certa de que tornarás a nossa querida Lucy feliz.

—Espero que sim —respondeu o rapaz, erguendo os olhos para o tecto.

—Nós, mães —fingiu Mrs. Honeychurch, percebendo então que estava afectada, sentimental, bombástica — todas as coisas que mais detestava. Porque não poderia ela ser Freddy, que ali estava hirto no meio da sala, com um ar muito zangado e quase bonito?

—Ó Lucy! —chamou Cecil, porque a conversa parecia estagnar.

Lucy levantou-se do banco. Atravessou o relvado e sorriu para eles lá de dentro, como se fosse pedir-lhes que jogassem ténis. Depois viu a cara do irmão. Os lábios entreabriram-se, e ela tomou-o nos braços. Ele disse: «Vai com calma!»

—Nem um beijo para mim? —perguntou a mãe.

Lucy beijou-a também.

—Levavas o teu irmão e a Mrs. Honeychurch para o jardim e contavas tudo à Mrs. Honeychurch? —sugeriu Cecil. —E eu ficava aqui a contar à minha mãe.

—Vamos com a Lucy? —disse Freddy, como quem recebe ordens.

—Sim, vão com a Lucy.

Passaram para a luz do sol. Cecil viu-os atravessar o terraço e descerem de vista pelos degraus. Desceriam — conhecia-lhes os caminhos — passando pelo mato, e pelo campo de ténis e pelo canteiro das dálias, até chegarem à horta, e ali, na presença das batatas e das ervilhas, o grande acontecimento seria discutido.

Sorriu com indulgência, acendeu um cigarro e passou em revista os acontecimentos que tinham conduzido a uma conclusão tão feliz.

Ele conhecia Lucy há vários anos, mas apenas como uma rapariga vulgar que por acaso tinha jeito para a música. Ainda se lembrava da sua depressão naquela tarde em Roma, quando ela e a terrível prima lhe caíram em cima sem aviso e exigiram que as levasse a São Pedro. Naquele dia, ela parecera uma turista típica—estridente, grosseira e enrijecida pelas viagens. Mas a Itália operou nela algum prodígio. Deu-lhe luz, e—o que ele prezava mais—deu-lhe sombra. Logo ele detectou nela uma maravilhosa reserva. Era como uma mulher de Leonardo da Vinci, que amamos não tanto por si mesma como pelas coisas que ela não nos diz. As coisas seguramente não são desta vida; nenhuma mulher de Leonardo poderia ter algo tão vulgar como uma «história». Ela desenvolveu-se maravilhosamente, dia após dia.

Assim aconteceu que da cortesia condescendente ele passara lentamente, se não para a paixão, ao menos para uma profunda inquietação. Já em Roma lhe sugerira que poderiam ser feitos um para o outro. Tocara-o profundamente que ela não se tivesse afastado bruscamente diante da sugestão. A recusa fora clara e gentil; depois dela—como se dizia na expressão horrível—ela ficara exatamente para com ele como dantes. Três meses depois, na orla da Itália, entre os Alpes cobertos de flores, pedira-lhe outra vez em linguagem crua e tradicional. Ela lembrou-lhe uma Leonardo mais do que nunca; as feições queimadas pelo sol eram sombreadas por rochas fantásticas; perante as palavras dele, voltara-se e ficara entre ele e a luz, com planícies imensas atrás de si. Ele acompanhou-a a casa sem vergonha, sentindo-se de modo nenhum como um pretendente rejeitado. As coisas que realmente importavam não tinham sido abaladas.

E agora ele lhe pedira mais uma vez, e, clara e gentil como sempre, ela aceitara-o, não dando razões tímidas para a sua demora, mas dizendo simplesmente que o amava e que faria o possível para o tornar feliz. A mãe dele também ficaria satisfeita; ela aconselhara o passo; ele tinha de lhe escrever um relato longo.

Olhando para a mão, caso algum dos produtos químicos de Freddy lhe tivesse ficado na pele, ele dirigiu-se à escrivaninha. Ali viu «Cara Mrs. Vyse», seguido de muitos raspanetes. Recuou sem ler mais nada e, após uma pequena hesitação, sentou-se noutro lado e garrapochou um bilhame no joelho.

Depois acendeu outro cigarro, que não pareceu tão divino como o primeiro, e pensou no que se poderia fazer para tornar a sala de estar de Windy Corner mais distinta. Com aquela vista panorâmica devia ser uma sala de sucesso, mas via-se nela o rasto de Tottenham Court Road; quase conseguia visualizar as camionetas de entrega dos senhores Shoolbred e dos senhores Maple chegando à porta e descarregando esta cadeira, aquelas estantes envernizadas, aquela escrivaninha. A escrivaninha recordou-lhe a carta de Mrs. Honeychurch. Não queria ler essa carta—as suas tentações nunca seguiam por aí; mas preocupava-se com ela nem por isso menos. Era culpa dele que ela estivesse a falar dele com a mãe dele; ele quisera o apoio dela na sua terceira tentativa para conquistar Lucy; queria sentir que outros, não importava quem, concordavam com ele, e por isso pedira a aprovação delas. Mrs. Honeychurch fora civil, mas obtusa no essencial, e quanto a Freddy—«Ele é apenas um rapaz», reflectiu. «Eu represento tudo aquilo que ele despreza. Porque haveria ele de me querer como cunhado?»

Os Honeychurch eram uma família estimada, mas ele começava a perceber que Lucy era de outra argila; e talvez—não o formulou de modo muito definido—fosse preciso introduzi-la em círculos mais congeniais o mais depressa possível.

—Mr. Beebe! — disse a empregada, e o novo reitor de Summer Street foi introduzido; ele iniciara logo relações amigáveis, graças aos elogios que Lucy lhe fizera nas suas cartas de Florença.

Cecil saudou-o de modo algo crítico.

—Venho para o chá, Mr. Vyse. Julga que o consigo obter?

—Digo que sim. Comida é a coisa que aqui se consegue—Não se sente nessa cadeira; o jovem Honeychurch deixou lá um osso.

—Pfui!

—Eu sei — disse Cecil. — Eu sei. Não consigo perceber porque é que Mrs. Honeychurch o permite.

Pois Cecil considerava o osso e a mobília dos Maple separadamente; não percebia que, em conjunto, eles acendiam a sala com a vida que ele desejava.

—Venho para o chá e para mexericos. Isto não é uma novidade?

—Novidade? Não o compreendo — disse Cecil. — Novidade?

Mr. Beebe, cujas novidades eram de natureza muito diferente, tagarelou em frente.

—Encontrei Sir Harry Otway quando subia; tenho todas as razões para esperar ser o primeiro da fila. Ele comprou Cissie e Albert ao Mr. Flack!

—Comprou mesmo? — disse Cecil, tentando recompor-se. Em que erro grotesco caíra! Seria provável que um clérigo e um cavalheiro se referissem ao seu noivado de maneira tão leviana? Mas a sua rigidez manteve-se e, embora lhe perguntasse quem seriam Cissie e Albert, continuava a achar Mr. Beebe um pouco parvenu.

—Pergunta imperdoável! Parar uma semana em Windy Corner e não conhecer Cissie e Albert, as vivendas geminadas que foram construídas em frente da igreja! Vou pôr Mrs. Honeychurch atrás de si.

—Sou chocantemente estúpido em assuntos locais — disse o jovem, com indolência. —Nem sequer consigo lembrar a diferença entre uma Junta de Paróquia e uma Junta do Governo Local. Talvez não haja diferença, ou talvez esses não sejam os nomes certos. Só vou ao campo para ver os meus amigos e apreciar a paisagem. É muito descuidado da minha parte. Itália e Londres são os únicos sítios onde não me sinto a existir por tolerância.

Mr. Beebe, desgostoso com esta pesada recepção de Cissie e Albert, determinou mudar de assunto.

—Deixe ver, Mr. Vyse—esqueço-me—qual é a sua profissão?

—Não tenho profissão — disse Cecil. — É mais um exemplo da minha decadência. A minha atitude—bastante indefensável—é que, enquanto não incomodar ninguém, tenho o direito de fazer o que quiser. Sei que devia estar a tirar dinheiro às pessoas, ou a dedicar-me a coisas de que não me importa absolutamente nada, mas, de alguma forma, não consegui começar.

—É muito afortunado — disse Mr. Beebe. — É uma oportunidade maravilhosa, a posse do ócio.

A sua voz era algo paroquial, mas ele não via bem como responder com naturalidade. Sentia, como todos os que têm ocupação regular devem sentir, que os outros também a deviam ter.

—Lamento que aprove. Não ouso enfrentar a pessoa saudável—por exemplo, Freddy Honeychurch.

—Oh, o Freddy é um bom rapaz, não é?

—Admirável. O tipo que fez a Inglaterra ser o que é.

Cecil ficou surpreso consigo mesmo. Porque, neste dia de todos os outros, estava ele tão desesperadamente contrariado? Tentou endireitar-se perguntando efusivamente pela mãe de Mr. Beebe, uma senhora idosa pela qual não tinha particular estima. Depois lisonjeou o clérigo, elogiou a sua largueza de vistas, a sua atitude esclarecida face à filosofia e à ciência.

—Onde estão os outros? — disse Mr. Beebe por fim. — Insisto em extrair o chá antes do serviço da tarde.

—Suponho que a Anne nunca lhes disse que estava aqui. Nesta casa fica-se tão condicionado para as criadas no dia em que se chega. O defeito da Anne é pedir desculpa quando ouve perfeitamente, e dar coices nos pés das cadeiras com os pés. Os defeitos da Mary—esqueço-me dos defeitos da Mary, mas são muito graves. Vamos ao jardim?

—Eu sei os defeitos da Mary. Ela deixa os apanhadores de pó nas escadas.

—O defeito de Euphemia é que ela não consegue, simplesmente não consegue, picar a banha de carneiro suficientemente miúda.

Riram-se ambos, e as coisas começaram a correr melhor.

—Os defeitos de Freddy— — continuou Cecil.

—Ah, ele tem demasiados. Ninguém a não ser a mãe dele consegue lembrar-se dos defeitos de Freddy. Tente os defeitos de Miss Honeychurch; não são inumeráveis.

—Ela não tem nenhum — disse o jovem, com seriedade grave.

—Concordo inteiramente. De momento não tem nenhum.

—De momento?

—Não sou cínico. Estou apenas a pensar na minha teoria favorita acerca de Miss Honeychurch. Parece razoável que ela toque tão maravilhosamente e viva tão tranquilamente? Suspeito que um dia ela será maravilhosa nas duas coisas. Os compartimentos estanques nela romper-se-ão, e a música e a vida misturar-se-ão. Então teremos nela o heroicamente bom, o heroicamente mau—talvez demasiado heróico para ser bom ou mau.

Cecil achou o companheiro interessante.

—E de momento acha que ela não é maravilhosa no que toca à vida?

—Bem, devo dizer que só a vi em Tunbridge Wells, onde ela não era maravilhosa, e em Florença. Desde que vim para Summer Street, ela tem estado ausente. Viu-a, não viu, em Roma e nos Alpes? Ah, esqueci-me; claro, conhecia-a antes. Não, ela também não era maravilhosa em Florença, mas eu continuava à espera que viesse a ser.

—De que modo?

A conversa tornara-se agradável para ambos, e passeavam para cima e para baixo no terraço.

—Eu poderia dizer-lhe tão facilmente que melodia ela tocará a seguir. Havia simplesmente a sensação de que ela encontrara asas, e pretendia usá-las. Posso mostrar-lhe uma bela imagem no meu diário italiano: Miss Honeychurch como uma pipa, Miss Bartlett a segurar o fio. Imagem número dois: o fio parte-se.

O esboço estava no seu diário, mas fora feito depois, quando ele via as coisas artisticamente. Na altura, ele próprio dera puxões furtivos ao fio.

—Mas o fio nunca se partiu?

—Não. Talvez não visse Miss Honeychurch subir, mas decerto teria ouvido Miss Bartlett cair.

—Partiu-se agora — disse o jovem em tons baixos e vibrantes.

Imediatamente deu conta de que, de todas as formas convencidas, ridículas e desprezíveis de anunciar um noivado, aquela era a pior. Amaldiçoou o seu amor pela metáfora; teria ele sugerido que era uma estrela e que Lucy subia para o alcançar?

—Partiu-se? O que quer dizer?

—Quis dizer — disse Cecil, rigidamente — que ela vai casar comigo.

O clérigo teve consciência de alguma amarga desilusão que não conseguia manter fora da voz.

—Lamento; tenho de pedir desculpa. Não fazia ideia de que era íntimo dela, ou nunca teria falado desta maneira tão frívola e superficial. Mr. Vyse, devia ter-me parado. — E pelo jardim viu Lucy em pessoa; sim, estava desiludido.

Cecil, que naturalmente preferia felicitações a desculpas, descaiu os cantos da boca. Era esta a recepção que a sua acção obteria do mundo? Naturalmente, ele desprezava o mundo no seu conjunto; todo o homem pensante o deve fazer; é quase uma prova de refinamento. Mas era sensível às partículas sucessivas dele que ia encontrando.

De vez em quando, conseguia ser bastante cru.

—Lamento tê-lo chocado — disse ele, secamente. — Receio que a escolha de Lucy não mereça a sua aprovação.

—Não é isso. Mas devia ter-me parado. Conheço Miss Honeychurch apenas um pouco, segundo o tempo. Talvez não devesse ter falado dela tão livremente com quem quer que fosse; certamente não consigo.

—Tem consciência de ter dito algo indiscreto?

Mr. Beebe recompôs-se. Na verdade, Mr. Vyse tinha a arte de nos colocar nas posições mais fastidiosas. Foi levado a usar as prerrogativas da sua profissão.

—Não, não disse nada de indiscreto. Previ em Florença que a sua infância tranquila e sem incidentes devia terminar, e terminou. Percebi, de modo confuso, que ela poderia dar algum passo momentous. Ela deu-o. Ela aprendeu—permitirá que fale com franqueza, já que comecei com franqueza—aprendeu o que é amar: a maior lição, dir-lhe-ão algumas pessoas, que a nossa vida terrena nos oferece. — Era agora tempo de ele acenar com o chapéu ao trio que se aproximava. Não deixou de o fazer. — Ela aprendeu através de si — e, se a sua voz ainda era clerical, era agora também sincera; — deixe que seja seu cuidado que esse conhecimento lhe seja proveitoso.

—Grazie tante! — disse Cecil, que não gostava de párocos.

—Já soube? — gritou Mrs. Honeychurch, enquanto subia a custo pelo jardim inclinado. — Oh, Mr. Beebe, já soube da novidade?

Freddy, agora cheio de jovialidade, assobiou a marcha nupcial. A juventude raramente critica o facto consumado.

—Com efeito, soube! — exclamou. Olhou para Lucy. Na presença dela, não conseguia fazer de pároco por mais tempo—de modo algum sem pedir desculpa. — Mrs. Honeychurch, vou fazer o que se supõe que faço sempre, mas geralmente sou demasiado tímido. Quero invocar toda a espécie de bênçãos sobre eles, graves e alegres, grandes e pequenas. Quero que tenham durante toda a vida a máxima bondade e a máxima felicidade como marido e mulher, como pai e mãe. E agora quero o meu chá.

—Só o pediu mesmo em cima da hora — retorquiu a senhora. — Como se atreve a ser sério em Windy Corner?

Ele adaptou o tom ao dela. Não houve mais beneficência pesada, mais tentativas de dignificar a situação com poesia ou com as Escrituras. Nenhum deles ousou ou pôde voltar a ser sério.

Um noivado é coisa tão poderosa que, mais cedo ou mais tarde, reduz todos os que dele falam a este estado de alegre reverência. Longe dele, na solidão dos seus quartos, Mr. Beebe, e até Freddy, poderiam voltar a ser críticos. Mas na sua presença e na presença uns dos outros, estavam sinceramente hilariantes. Tem um poder estranho, pois compele não só os lábios, mas o próprio coração. O principal paralelo com que comparar uma coisa grande a outra—é o poder que sobre nós exerce um templo de alguma crença alheia. De fora, ridicularizamo-lo ou opomo-nos-lhe, ou, quando muito, ficamos sentimentais. Dentro, embora os santos e os deuses não sejam nossos, tornamo-nos verdadeiros crentes, no caso de estar presente algum verdadeiro crente.

Assim foi que, depois das hesitações e dúvidas da tarde, se recompuseram e acomodaram para uma festa de chá muito agradável. Se eram hipócritas, não o sabiam, e a sua hipocrisia tinha toda a possibilidade de se fixar e se tornar verdadeira. Anne, pousando cada prato como se fosse uma prenda de casamento, estimulava-os enormemente. Não podiam ficar atrás daquele sorriso que ela lhes dera antes de dar um pontapé na porta da sala de estar. Mr. Beebe chilreou. Freddy estava no auge do seu espírito, referindo-se a Cecil como o «Fiasco» — trocadilho familiar honrado com fiance. Mrs. Honeychurch, divertida e corpulenta, prometia bem como sogra. Quanto a Lucy e Cecil, para quem o templo fora edificado, também eles se juntaram ao ritual alegre, mas esperaram, como fiéis devotos devem, pela revelação de algum santuário mais sagrado de alegria.

Capítulo IX Lucy Como Obra de Arte

Alguns dias depois de o noivado ter sido anunciado, Mrs. Honeychurch fez com que Lucy e o seu Fiasco comparecessem a uma pequena festa de jardim na vizinhança, pois naturalmente queria mostrar às pessoas que a filha estava a casar com um homem apresentável.

Cecil era mais do que apresentável; parecia distinto, e era muito agradável ver a sua figura esbelta a manter o passo com Lucy, e o seu rosto comprido e louro a responder quando Lucy lhe falava. As pessoas felicitavam Mrs. Honeychurch, o que é, creio eu, um erro social, mas isso agradou-lhe, e ela apresentou Cecil de modo algo indiscriminado a algumas senhoras abafadiças.

Ao chá, ocorreu uma desgraça: uma chávena de café entornou-se sobre a seda estampada de Lucy, e, embora Lucy fingisse indiferença, a mãe não fingiu nada semelhante e arrastou-a para dentro para mandar tratar do vestido por uma criada solidária. Estiveram ausentes algum tempo, e Cecil ficou com as senhoras abafadiças. Quando elas regressaram, ele já não estava tão agradável como estivera.

—Vai a muitas coisas deste género? — perguntou, quando seguiam para casa de carro.

—Oh, de vez em quando — disse Lucy, que até se tinha divertido um tanto.

—É típico da sociedade do campo?

—Suponho que sim. Mãe, não seria?

—Muita sociedade — disse Mrs. Honeychurch, que tentava lembrar a forma de um dos vestidos.

Vendo que os pensamentos dela estavam noutro lado, Cecil inclinou-se para Lucy e disse:

—A mim pareceu-me perfeitamente apavorante, desastroso, portentoso.

—Lamento muito que o tenham deixado a seco.

—Não é isso, mas as felicitações. É tão revoltante, a maneira como um noivado é considerado propriedade pública—uma espécie de baldio onde qualquer estranho pode disparar o seu sentimento vulgar. Todas aquelas velhas a sorrir com ares esquisitos!

—É preciso passar por isso, suponho. Da próxima vez não nos notarão tanto.

—Mas o meu ponto é que toda a atitude delas está errada. Um noivado—palavra horrível para começar—é um assunto privado, e deve ser tratado como tal.

Todavia as velhas que sorriam com ares esquisitos, por muito erradas individualmente, estavam racialmente correctas. O espírito das gerações sorrira através delas, regozijando-se com o noivado de Cecil e Lucy porque prometia a continuidade da vida na terra. Para Cecil e Lucy prometia algo bem diferente—amor pessoal. Daí a irritação de Cecil e a crença de Lucy de que a irritação dele era justa.

—Que maçada! — disse ela. — Não podia ter escapado para o ténis?

—Não jogo ténis—pelo menos em público. A vizinhança é privada do romance de eu ser atlético. O romance que tenho é o do Inglese Italianato.

—Inglese Italianato?

—È un diavolo incarnato! Conhece o provérbio?

Ela não conhecia. Nem lhe parecia aplicável a um jovem que passara um Inverno tranquilo em Roma com a mãe. Mas Cecil, desde o noivado, tomara para si o hábito de afectar uma malícia cosmopolita de que estava muito longe.

—Bem — disse ele —, não posso evitá-lo se elas me desagradam. Existem certas barreiras irremovíveis entre mim e elas, e tenho de as aceitar.

—Todos temos as nossas limitações, suponho — disse a prudente Lucy.

—Às vezes elas são-nos impostas, porém — disse Cecil, que viu, pela observação dela, que ela não compreendia bem a sua posição.

—Como?

—Faz diferença, não faz, cercarmo-nos plenamente por nossa vontade, ou sermos cercados pelas barreiras dos outros?

Ela pensou um momento, e concordou que fazia diferença.

—Diferença? — exclamou Mrs. Honeychurch, subitamente alerta. — Não vejo diferença alguma. Cercas são cercas, sobretudo quando estão no mesmo sítio.

—Falávamos de motivos — disse Cecil, a quem a interrupção irritou.

—Meu caro Cecil, olhe aqui. — Ela abriu os joelhos e pousou o estojo dos cartões no colo. — Isto sou eu. Aquilo é Windy Corner. O resto do padrão são as outras pessoas. Os motivos são todos muito bonitos, mas a cerca fica aqui.

—Não falávamos de cercas verdadeiras — disse Lucy, a rir.

—Ah, percebo, querida—poesia.

Recostou-se placidamente. Cecil perguntou a si mesmo porque teria Lucy achado graça.

—Digo-lhe quem não tem «cercas», como lhe chama — disse ela —, e esse é Mr. Beebe.

—Um pároco sem cerca queria dizer um pároco indefeso.

Lucy era lenta a acompanhar o que as pessoas diziam, mas rápida o suficiente para detectar o que queriam dizer. Perdeu o epigrama de Cecil, mas agarrou o sentimento que o inspirara.

—Não gosta do Mr. Beebe? — perguntou, pensativa.

—Nunca disse tal coisa! — exclamou ele. — Considero-o muito acima da média. Apenas neguei— — E ele desfilou de novo sobre o assunto das cercas, e foi brilhante.

—Agora, um clérigo que eu odeio mesmo — disse ela, querendo dizer algo simpático —, um clérigo que tem cercas, e das mais terríveis, é Mr. Eager, o capelão inglês em Florença. Ele era verdadeiramente insincero—não apenas com modos infelizes. Era um snob, e tão presumido, e dizia coisas tão cruéis.

—Que tipo de coisas?

—Havia um velho no Bertolini, de quem ele disse que tinha assassinado a mulher.

—Talvez tivesse.

—Não!

—Porque «não»?

—Ele era um velho tão simpático, tenho a certeza.

Cecil riu-se da sua incongruência feminina.

—Bem, tentei decifrar a coisa. Mr. Eager nunca chegava ao ponto. Ele prefere que fique vago—disse que o velho tinha «praticamente» assassinado a esposa—que a tinha assassinado à vista de Deus.

—Psiu, querida! — disse Mrs. Honeychurch, distraidamente.

—Mas não é intolerável que uma pessoa a quem nos mandam imitar ande por aí a espalhar calúnias? Foi, creio eu, principalmente por causa dele que o velho foi afastado. As pessoas fingiam que ele era vulgar, mas ele certamente não era.

—Pobre velho! Qual era o nome dele?

—Harris — disse Lucy, com à-vontade.

—Vamos esperar que a Mrs. Harris dali não fosse pessoa dessas — disse a mãe.

Cecil acenou com a cabeça, intelligentemente.

—Não é Mr. Eager um pároco do tipo culto? — perguntou.

—Não sei. Odeio-o. Ouvi-o pregar uma palestra sobre Giotto. Odeio-o. Nada consegue esconder uma natureza mesquinha. Odeio-o.

—Meu Deus do céu, menina! — disse Mrs. Honeychurch. —Vais arrebatar-me a cabeça! Que coisa é essa que merece gritar? Proíbo-te a ti e a Cecil de odiar mais clérigos.

Ele sorriu. Havia de facto qualquer coisa bastante incongruente naquele desabafo moral de Lucy a respeito de Mr. Eager. Era como se alguém visse o Leonardo no tecto da Sistina. Desejava ele dar-lhe a entender que não era ali que estava a sua vocação; que o poder e o encanto de uma mulher residem no mistério, não em bravatas musculosas. Mas talvez a bravata seja sinal de vitalidade: estraga a criatura bela, mas mostra que está viva. Após um momento, contemplou o rosto afogueado dela e os gestos excitados com certa aprovação. Absteve-se de reprimir as fontes da juventude.

A Natureza — o mais simples dos temas, pensou ele — estendia-se à volta deles. Elogiou os pinhais, os vastos tapetes de fetos, as folhas carmesim que salpicavam os arbustos de amoras, a beleza utilitária da estrada real. O mundo ao ar livre não lhe era muito familiar, e de quando em quando enganava-se numa questão de facto. A boca de Mrs. Honeychurch estremeceu quando ele falou da verdura perene do larício.

—Considero-me uma pessoa de sorte — concluiu ele. —Quando estou em Londres, sinto que nunca poderia viver fora dali. Quando estou no campo, sinto o mesmo a respeito do campo. Em última análise, creio de verdade que os pássaros, as árvores e o céu são as coisas mais maravilhosas da vida, e que as pessoas que vivem entre elas devem ser as melhores. É certo que em nove em cada dez casos elas parecem não dar por nada. O fidalgo rural e o trabalhador rural são, cada um a seu modo, os companheiros mais deprimentes. Contudo, podem ter uma simpatia tácita com as operações da Natureza que nos é negada a nós, os da cidade. Não sente isso, Mrs. Honeychurch?

Mrs. Honeychurch sobressaltou-se e sorriu. Não estivera a atender. Cecil, que vinha um tanto esmagado no banco da frente da vitória, sentiu-se irritado e determinou não voltar a dizer nada de interessante.

Também Lucy não estivera a atender. Tinha a testa franzida e continuava a parecer furiosamente zangada — o resultado, concluiu ele, de ginástica moral excessiva. Era triste vê-la assim cega às belezas de um bosque em Agosto.

—«Desce, ó donzela, do alto da montanha» — citou, tocando-lhe no joelho com o seu.

Ela corou de novo e disse: —Que alto?

—«Desce, ó donzela, do alto da montanha, Que prazer vive no alto (cantava o pastor). No alto e no esplendor das colinas?» Sigamos o conselho de Mrs. Honeychurch e não odiemos mais clérigos. Que sítio é este?

—Summer Street, claro — disse Lucy, e sacudiu-se.

Os bosques tinham-se aberto para deixar espaço a um prado triangular em declive. Pequenas casas agradáveis ladeavam-no em dois lados, e o terceiro lado, o de cima, era ocupado por uma nova igreja de pedra, dispendiosamente simples, com uma encantadora torre de ripas. A casa de Mr. Beebe ficava perto da igreja. Em altura, mal excedia as casinhas. Havia por ali grandes mansões, mas estavam escondidas entre as árvores. A cena sugeria mais um Alpes suíço do que o santuário e centro de um mundo de lazer, e era estragada apenas por duas vilas horríveis — as vilas que tinham competido com o noivado de Cecil, por terem sido adquiridas por Sir Harry Otway exactamente na tarde em que Lucy fora adquirida por Cecil.

«Cissie» era o nome de uma dessas vilas, «Albert» o da outra. Estes nomes não só estavam inscritos em letras góticas sombreadas nos portões do jardim, como apareciam uma segunda vez nas entradas, onde seguiam a curva semicircular do arco de entrada em maiúsculas de bloco. «Albert» estava habitada. O seu jardim atormentado brilhava com gerânios e lobélias e conchas polidas. As suas janelas pequenas estavam castamente envoltas em renda de Nottingham. «Cissie» estava para arrendar. Três tabuletas de agências de Dorking pendiam preguiçosamente na sua vedação e anunciavam o nada surpreendente facto. Os seus caminhos já estavam juncados de ervas; o seu lenço de mão de relva estava amarelo com dentes-de-leão.

—O sítio está arruinado! — disseram as senhoras maquinalmente. —Summer Street nunca mais será a mesma.

Quando a carruagem passava, a porta de «Cissie» abriu-se, e um cavalheiro saiu dela.

—Pare! — gritou Mrs. Honeychurch, tocando no cocheiro com a sombrinha. —Aqui está Sir Harry. Agora saberemos. Sir Harry, mande arrancar essas coisas imediatamente!

Sir Harry Otway — que é escusado descrever — aproximou-se da carruagem e disse:

—Mrs. Honeychurch, tencionava fazê-lo. Não posso, realmente não posso pôr na rua Miss Flack.

—Não tenho eu sempre razão? Ela devia ter saído antes de o contrato estar assinado. Ainda vive isenta de renda, como vivia em tempo do sobrinho dela?

—Mas que posso eu fazer? — Baixou a voz. —Uma velha senhora, tão vulgar, e quase acamada.

—Ponha-a na rua — disse Cecil, com valentia.

Sir Harry suspirou, e olhou melancolicamente para as vilas. Tinha sido plenamente avisado das intenções de Mr. Flack, e poderia ter comprado o terreno antes de a construção começar: mas era apático e dilatório. Conhecia Summer Street há tantos anos que não conseguia imaginar que fosse estragada. Só quando Mrs. Flack lançou a primeira pedra, e a aparição de tijolo vermelho e creme começou a erguer-se, é que deu o alarme. Foi falar com Mr. Flack, o construtor local — homem muito razoável e respeitador — que concordou que as telhas teriam feito um telhado mais artístico, mas assinalou que as ardósias eram mais baratas. Aventurou-se, contudo, a discordar a respeito das colunas coríntias que haviam de agarrar-se como sanguessugas aos caixilhos das janelas salientes, dizendo que, quanto a ele, gostava de aliviar a fachada com um pouco de decoração. Sir Harry insinuou que uma coluna, sendo possível, devia ser estrutural além de decorativa.

Mr. Flack respondeu que todas as colunas já tinham sido encomendadas, acrescentando: «e todos os capitéis diferentes — um com dragões na folhagem, outro a aproximar-se do estilo jónico, outro com as iniciais da Mrs. Flack — todos diferentes.» Pois ele tinha lido o seu Ruskin. Construía as suas vilas conforme o seu desejo; e só depois de ter encaixado uma tia inamovível numa delas é que Sir Harry comprou.

Esta transacção fútil e improdutiva encheu o cavaleiro de tristeza enquanto se apoiava na carruagem de Mrs. Honeychurch. Tinha falhado nos seus deveres para com a redondeza, e a redondeza ria-se dele também. Tinha gasto dinheiro, e, contudo, Summer Street estava estragada como dantes. Tudo o que podia fazer agora era encontrar um inquilino desejável para «Cissie» — alguém verdadeiramente desejável.

—O aluguer é absurdamente baixo — contou-lhes —, e talvez eu seja um senhorio fácil. Mas tem um tamanho tão desajeitado. É grande demais para a classe campesina e pequeno demais para alguém minimamente como nós.

Cecil andava a hesitar se devia desprezar as vilas ou desprezar Sir Harry por as desprezar. O segundo impulso parecia o mais fecundo.

—Devia encontrar um inquilino de imediato — disse maliciosamente. —Seria um paraíso perfeito para um empregado de banco.

—Exactamente! — disse Sir Harry, excitado. —É exactamente isso que temo, Mr. Vyse. Atrairá o tipo errado de pessoas. O serviço de comboios melhorou — melhoria fatal, na minha opinião. E o que são cinco milhas de uma estação nestes dias de bicicletas?

—Era um empregado bastante enérgico — disse Lucy.

Cecil, que tinha a sua boa quota de travessura medieval, respondeu que a compleição das classes média baixa estava a melhorar a um ritmo absolutamente apavorante. Ela viu que ele estava a gozar com o seu inocente vizinho, e sacudiu-se para o travar.

—Sir Harry! — exclamou. —Tenho uma ideia. Que lhe pareceriam solteironas?

—Minha querida Lucy, seria esplêndido. Conhece algumas dessas?

—Sim; conheci-as no estrangeiro.

—Senhoras de boa linhagem? — perguntou tentativamente.

—Sim, de verdade, e neste momento sem casa. Recebi notícias delas na semana passada — Miss Teresa e Miss Catharine Alan. Não estou mesmo a brincar. São exactamente as pessoas certas. Mr. Beebe também as conhece. Posso dizer-lhes que lhe escrevam?

—Pode, com certeza! — exclamou ele. —Eis-nos com a dificuldade resolvida já. Como é delicioso! Instalações extra — diga-lhes que terão instalações extra, por favor, pois eu não terei comissões de agências. Oh, as agências! A gente apavorante que me têm mandado! Uma senhora, a quem escrevi — uma carta cheia de tacto, sabem — pedindo-lhe que me explicasse a sua posição social, respondeu que pagaria o aluguer adiantado. Como se alguém se importasse com isso! E várias referências que fui verificar eram muito pouco satisfatórias — pessoas vigaristas, ou não respeitáveis. E oh, a falsidade! Tenho visto muita coisa do lado negro nesta última semana. A falsidade das pessoas mais prometedoras. Minha querida Lucy, a falsidade!

Ela acenou com a cabeça.

—O meu conselho — interveio Mrs. Honeychurch — é que não tenhais nada a ver com a Lucy e com as solteironas dela em decadência. Conheço o tipo. Deus me livre de pessoas que viram melhores dias, e trazem consigo heranças de família que fazem a casa cheirar a mofo. É uma coisa triste, mas eu preferia de longe arrendar a alguém que está a subir na vida do que a alguém que já desceu.

—Creio que a acompanho — disse Sir Harry; —mas é, como diz, uma coisa muito triste.

—As Misses Alan não são dessas! — exclamou Lucy.

—São, sim — disse Cecil. —Não as conheci, mas diria que seriam um acrescentamento altamente impróprio à vizinhança.

—Não lhe dê ouvidos, Sir Harry — ele é maçador.

—Sou eu que sou maçador — respondeu ele. —Não devia vir com as minhas chatices ter com gente nova. Mas, na verdade, estou tão preocupado, e Lady Otway só sabe dizer que eu não posso ser demasiado cuidadoso, o que é perfeitamente verdade, mas não ajuda realmente.

—Então posso escrever às minhas Misses Alan?

—Faça o favor!

Mas o seu olhar vacilou quando Mrs. Honeychurch exclamou:

—Cuidado! É certo que têm canários. Sir Harry, cuidado com os canários: eles cuspinam a semente para fora das grades das gaiolas e depois vêm os ratos. Cuidado com as mulheres, em geral. Arrende só a um homem.

—Na verdade... — murmurou ele galantemente, embora visse a sabedoria do reparo dela.

—Os homens não fofocam em chávenas de chá. Se se embriagam, acabou-se — deitam-se comodamente e dormem a bebedeira. Se são vulgares, de alguma forma guardam isso para si. Não se espalha tanto. Dai-me um homem — claro, contanto que seja limpo.

Sir Harry corou. Nem ele nem Cecil apreciaram estes elogios abertos ao seu sexo. Mesmo a exclusão dos sujos não lhes deixou grande distinção. Ele sugeriu que Mrs. Honeychurch, se tinha tempo, descesse da carruagem e inspeccionasse «Cissie» por si própria. Ela ficou deliciada. A natureza destinara-a a ser pobre e a viver numa casa assim. Os arranjos domésticos atraíam-na sempre, sobretudo quando eram em pequena escala.

Cecil puxou Lucy para trás enquanto ela seguia a mãe.

—Mrs. Honeychurch — disse ele —, e se nós dois fôssemos a pé para casa e a deixássemos?

—Certamente! — foi a resposta cordial.

Sir Harry também pareceu quase demasiado satisfeito por se ver livre deles. Sorriu-lhes com ar entendido, disse: «Ah! jovens, jovens!» e apressou-se depois a abrir a casa.

—Vulgar sem remédio! — exclamou Cecil, quase antes de estarem fora do alcance da voz.

—Oh, Cecil!

—Não posso evitar. Seria errado não detestar aquele homem.

—Ele não é inteligente, mas realmente é simpático.

—Não, Lucy, ele representa tudo o que há de mau na vida do campo. Em Londres manteria o seu lugar. Pertenceria a um clube sem cérebro, e a mulher dele ofereceria jantares sem cérebro. Mas aqui faz de deus pequeno com a sua gentileza, e o seu patrocínio, e a sua estética postiça, e toda a gente — mesmo a tua mãe — é lograda.

—Tudo o que dizes é bem verdade — disse Lucy, embora se sentisse desanimada. —Pergunto-me se — se importa realmente tanto.

—Importa absolutamente. Sir Harry é a essência dessa festa de jardim. Oh, Deus, como estou zangado! Como espero que ele arranje algum inquilino vulgar para aquela vila — alguma mulher tão verdadeiramente vulgar que ele dê conta disso. Gente de linhagem! Eca! com a sua careca e o queixo fugidio! Mas esqueçamo-lo.

Lucy ficou mais do que contente por fazê-lo. Se Cecil detestava Sir Harry Otway e Mr. Beebe, que garantia havia de que as pessoas que realmente importavam para ela escapassem? Por exemplo, Freddy. Freddy não era nem inteligente, nem sutil, nem bonito, e que coisa impediria Cecil de dizer, a qualquer momento: «Seria errado não detestar Freddy»? E que responderia ela? Não foi mais longe do que Freddy, mas ele deu-lhe ansiedade que chegue. Só podia assegurar a si mesma que Cecil conhecia Freddy há algum tempo, e que sempre tinham dado-se bem, excepto talvez nos últimos dias, o que fora um acaso, talvez.

—Por onde vamos? — perguntou-lhe.

A Natureza — o mais simples dos temas, pensou ela — estava à volta deles. Summer Street ficava entranhada nos bosques, e ela parara onde um caminho de peões divergia da estrada principal.

—Há dois caminhos?

—Talvez a estrada seja mais sensata, visto estarmos bem arranjadinhos.

—Prefiro ir pelo bosque — disse Cecil, com aquela irritação contida que ela lhe notara toda a tarde. —Porque é, Lucy, que dizes sempre a estrada? Sabes que nunca, nem uma vez, estiveste comigo nos campos ou no bosque desde que estamos noivos?

—Não estive? Então o bosque — disse Lucy, assustada com a estranheza dele, mas bastante segura de que ele mais tarde explicaria; não era seu hábito deixá-la na dúvida quanto ao seu significado.

Ela tomou a dianteira para dentro dos pinheiros murmurantes, e, como era de esperar, ele explicou antes de terem dado uma dúzia de passos.

—Tinha eu a ideia — ouso dizer que erradamente — de que te sentes mais à vontade comigo numa sala.

—Numa sala? — repetiu ela, sem saber o que pensar.

—Sim. Ou, quando muito, num jardim, ou numa estrada. Nunca no verdadeiro campo como este.

—Oh, Cecil, que queres tu dizer com isso? Nunca senti nada desse género. Falas como se eu fosse uma espécie de poetisa.

—Sei lá se não és. Eu associo-te a uma vista — um certo tipo de vista. Porque não me havias de associar a uma sala?

Ela reflectiu um momento, e depois disse, a rir:

—Sabes que tens razão? É mesmo. Devo ser poetisa afinal. Quando penso em ti é sempre como numa sala. Que engraçado!

Para surpresa dela, ele pareceu aborrecido.

—Numa sala de estar, por favor? Sem vista?

—Sim, sem vista, parece-me. Porque não?

—Preferia — disse ele, com queixume — que me associasses ao ar livre.

Ela disse de novo: —Oh, Cecil, que queres tu dizer com isso?

Como não surgiu explicação, ela sacudiu o assunto como demasiado difícil para uma rapariga, e levou-o mais para dentro do bosque, parando aqui e ali perante alguma combinação particularmente bela ou conhecida das árvores. Conhecia o bosque entre Summer Street e Windy Corner desde que podia andar sozinha; ali brincara a perder Freddy, quando Freddy era um bebé de cara roxa; e, embora tivesse estado em Itália, não perdera nada do seu encanto.

Pouco depois chegaram a uma pequena clareira entre os pinheiros — outro pequeno alp verde, solitário desta vez, e tendo no seu seio um charco pouco profundo.

Ela exclamou: —O Lago Sagrado!

—Porque lhe chamas isso?

—Não me lembro porquê. Suponho que vem de algum livro. Agora é só uma poça, mas vês aquela corrente que passa por ele? Pois é, depois das chuvas fortes cai muita água, e não consegue ir-se embora logo, e o charco torna-se bem grande e bonito. Então o Freddy costumava banhar-se ali. Ele gosta muito dele.

—E tu?

Ele queria dizer: «Gostas dele?» Mas ela respondeu, sonhadora: —Também eu me banhei ali, até me descobrirem. Depois houve uma cena.

Noutra altura ele poderia ter ficado chocado, pois tinha profundidades de puritanismo dentro de si. Mas agora? Com o seu culto momentâneo do ar puro, ficou deliciado com a simplicidade admirável dela. Olhou para ela enquanto ela estava à borda do charco. Ela vinha bem arranjadinha, como ela dizia, e lembrava-lhe qualquer flor brilhante que não tem folhas próprias, mas floresce de súbito num mundo de verde.

—Quem te descobriu?

—Charlotte — murmurou. —Estava a passar uns tempos connosco. Charlotte — Charlotte.

—Pobre rapariga!

Ela sorriu gravemente. Um certo plano, do qual até então ele recuara, apareceu agora como prático.

—Lucy!

—Sim, creio que devemos ir andando — foi a resposta dela.

—Lucy, quero pedir-te uma coisa que nunca te pedi antes.

Ao notar a nota séria na voz dele, ela adiantou-se franca e amavelmente para ele.

—O quê, Cecil?

—Até agora nunca — nem sequer naquele dia no relvado quando concordaste em casar comigo...

Ele tornou-se inseguro de si e continuava a olhar em volta para ver se eram observados. A coragem abandonara-o.

—Sim?

—Até hoje nunca te beijei.

Ela ficou tão escarlate como se ele tivesse dito a coisa mais indelicada.

—Não — de facto nunca — gaguejou ela.

—Então pergunto-te — posso agora?

—Claro que podes, Cecil. P podias dantes. Não te posso saltar para cima, sabes?

Naquele momento supremo, ele não tinha consciência de nada senão absurdos. A resposta dela era inadequada. Ela deu um erguer tão prático ao seu véu. Enquanto ele se aproximava dela, encontrou tempo para desejar poder recuar. Quando a tocou, o seu pince-nez de ouro deslocou-se e ficou esmagado entre os dois.

Tal foi o abraço. Ele considerou, com verdade, que fora um fracasso. A paixão deve crer-se irresistível. Deve esquecer a civilidade e a atenção e todas as outras maldições de uma natureza refinada. Acima de tudo, nunca deve pedir licença onde há direito de passagem. Porque não podia ele fazer como qualquer trabalhador ou qualquer operário — ou mesmo como qualquer rapaz atrás do balcão teria feito? Ele refez mentalmente a cena. Lucy estava de pé, como uma flor, junto à água; ele correu para ela e tomou-a nos braços; ela repreendeu-o, permitiu-lhe, e venerou-o para sempre depois pela sua virilidade. Pois ele acreditava que as mulheres veneram os homens pela sua virilidade.

Deixaram o charco em silêncio, após esta única saudação. Ele esperou que ela fizesse algum reparo que lhe mostrasse os pensamentos mais íntimos. Por fim ela falou, e com gravidade conveniente.

—Emerson era o nome, não Harris.

—Que nome?

—O do velho.

—Que velho?

—Aquele velho de quem te falei. Aquele de quem Mr. Eager foi tão cruel.

Ele não podia saber que esta era a conversa mais íntima que alguma vez tinham tido.

Capítulo X Cecil como humorista

A sociedade da qual Cecil propunha resgatar Lucy talvez não fosse um assunto muito esplêndido, todavia era mais esplêndida do que os seus antecedentes lhe davam direito. O pai dela, um próspero solicitor local, tinha construído Windy Corner como especulação na época em que o distrito se estava a abrir, e, apaixonando-se pela sua própria criação, acabara por ir viver para lá. Pouco depois do casamento, a atmosfera social começou a alterar-se. Outras casas foram construídas na borda daquela encosta meridional íngreme, e outras ainda entre os pinheiros atrás, e para o norte sobre a barreira de greda das colinas. A maioria destas casas era maior do que Windy Corner, e estava cheia de gente que vinha, não do distrito, mas de Londres, e que tomava os Honeychurch pelos restos de uma aristocracia indígena. Ele estava inclinado a assustar-se, mas a esposa aceitou a situação sem orgulho nem humildade. «Não consigo perceber o que as pessoas andam a fazer», dizia ela, «mas é extremamente favorável para as crianças.» Visitava toda a gente; as visitas eram-lhe devolvidas com entusiasmo, e quando a gente descobriu que ela não era exactamente do seu meio, passou a gostar dela, e pareceu não importar. Quando Mr. Honeychurch morreu, teve ele a satisfação — que poucos solicitors honestos desprezam — de deixar a família enraizada na melhor sociedade que se podia obter.

O melhor que se podia obter. Certamente muitos dos imigrantes eram bastante limitados, e Lucy percebeu-o com mais vivacidade desde o regresso de Itália. Até então, aceitara os ideais deles sem questionar — a sua amena abastança, a sua religião inofensiva, o seu horror aos sacos de papel, às cascas de laranja e aos vidros partidos. Radical convicta, aprendeu a falar com pavor dos Subúrbios. A vida, na medida em que se dava ao trabalho de a conceber, era um círculo de pessoas ricas e agradáveis, com interesses idênticos e inimigos idênticos. Nesse círculo, pensava-se, casava-se e morria-se. Fora dele havia a pobreza e a vulgaridade a tentar entrar sem cessar, tal como o nevoeiro de Londres tenta entrar nos pinhais, derramando-se pelas clareiras nos montes do norte. Mas, em Itália, onde qualquer um pode aquecer-se na igualdade, como ao sol, essa conceção de vida esvaiu-se. Os seus sentidos expandiram-se; sentiu que não havia ninguém a quem não pudesse vir a gostar, que as barreiras sociais eram, sem dúvida, inamovíveis, mas não particularmente altas. Salta-se por cima delas assim como se salta para o olival de um camponês nos Apeninos, e ele regozija-se com a visita. Regressou com olhos novos.

O mesmo aconteceu com Cecil; mas a Itália aguçara Cecil não para a tolerância, mas para a irritação. Via que a sociedade local era estreita, mas, em vez de dizer «Importa isso sequer?», rebelava-se e tentava substituir-lhe a sociedade que ele chamava ampla. Não compreendia que Lucy consagrara o seu ambiente através das mil pequenas gentilezas que criam com o tempo uma ternura, e que, embora os seus olhos vissem as falhas, o seu coração recusava desprezá-lo por inteiro. Nem percebia um ponto mais importante — que, se ela era grande de mais para aquela sociedade, era grande de mais para qualquer sociedade, e atingira o estádio em que só o convívio pessoal a satisfaria. Era uma rebelde, mas não do género que ele entendia — uma rebelde que desejava, não um quarto maior onde habitar, mas a igualdade ao lado do homem que amava. Pois Itália oferecia-lhe o mais precioso de todos os haveres — a sua própria alma.

Jogava o bumble-puppy com Minnie Beebe, sobrinha do reitor, de treze anos — jogo antigo e honorabilíssimo, que consiste em atirar bolas de ténis bem alto para o ar, de modo que caiam por cima da rede e saltem desmedidamente; algumas acertam em Mrs. Honeychurch; outras perdem-se. A frase é confusa, mas ilustra melhor o estado de espírito de Lucy, pois tentava ao mesmo tempo falar com Mr. Beebe.

— Ah, foi uma chatice tão grande — primeiro ele, depois eles — ninguém a saber o que queria, e toda a gente tão maçadora.

— Mas eles vêm mesmo, agora — disse Mr. Beebe. — Escrevi há dias a Miss Teresa — ela andava a perguntar-se quantas vezes passava o talhante, e a minha resposta de uma vez por mês deve tê-la impressionado favoravelmente. Vêm. Recebi notícias deles esta manhã.

— Vou odiar essas Miss Alans! — exclamou Mrs. Honeychurch. — Só porque são velhas e tolas, espera-se que eu diga «Que doce!» Odeio os seus «ses», os seus «mas» e os seus «e». E a pobre Lucy — bem feito — reduzida a uma sombra.

Mr. Beebe observava a sombra que saltava e gritava pelo campo de ténis. Cecil estava ausente — não se jogava bumble-puppy na presença dele.

— Bem, se eles vêm — Não, Minnie, não é Saturno. Saturno era uma bola de ténis com a pele parcialmente descosida. Em movimento, o seu orbe era cercado por um anel. — Se eles vêm, Sir Harry deixá-los-á mudar-se antes do dia vinte e nove, e riscará a cláusula sobre caiar os tectos, porque os enervava, e substituirá pela outra do uso normal. — Isso não conta. Eu disse-te que não era Saturno.

— Saturno serve para o bumble-puppy — gritou Freddy, juntando-se a eles. — Minnie, não lhe ligues.

— Saturno não salta.

— Salta o suficiente.

— Não, não salta.

— Pois; salta melhor que o Beautiful White Devil.

— Cala-te, querido — disse Mrs. Honeychurch.

— Mas olha para a Lucy — queixar-se de Saturno, e com o Beautiful White Devil na mão, pronta a dispara-lo. Isso mesmo, Minnie, ataca-a — acerta-lhe nas canelas com a raquete — acerta-lhe nas canelas!

Lucy caiu, o Beautiful White Devil escapou-lhe da mão.

Mr. Beebe apanhou-o e disse: — O nome desta bola é Vittoria Corombona, por favor. Mas a correcção passou despercebida.

Freddy possuía em alto grau o poder de exasperar rapariguinhas até à fúria, e em meio minuto transformara Minnie de criança bem-educada num deserto ululante. Lá em cima, na casa, Cecil ouviu-os e, embora cheio de notícias interessantes, não desceu para as transmitir, com medo de se magoar. Não era cobarde e suportava a dor necessária tão bem como qualquer homem. Mas odiava a violência física dos jovens. E tinham razão! Com efeito, acabou num grito.

— Quem dera que as Miss Alans pudessem ver isto — observou Mr. Beebe, justamente quando Lucy, que consolava a Minnie magoada, foi por sua vez levantada do chão pelo irmão.

— Quem são as Miss Alans? — arquejou Freddy.

— Tomaram a Cissie Villa.

— Não era esse o nome —

Aqui o pé escorregou-lhe, e caíram todos muito placidamente sobre a relva. Passa um intervalo.

— Não era o nome de quê? — perguntou Lucy, com a cabeça do irmão no regaço.

— Alan não era o nome das pessoas que Sir Harry deixou entrar.

— Disparates, Freddy! Não sabes nada do assunto.

— Disparates tu é que dizes! Vi-o há um minuto. Ele disse-me: «Ahem! Honeychurch» — Freddy era um imitador medíocre — «ahem! ahem! Consegui finalmente uns inquilinos realmente dee-sejáveis-rebel.» Eu disse «Boa, ó velho!», dei-lhe uma palmada nas costas.

— Exactamente. As Miss Alans?

— Nem por sombras. Mais parecia Anderson.

— Oh, meu Deus, não vai haver mais uma trapalhada! — exclamou Mrs. Honeychurch. — Repara, Lucy, não tenho sempre razão? Eu disse que não me metessem com a Cissie Villa. Tenho sempre razão. Fico até inquieta de ter razão tantas vezes.

— É só mais uma trapalhada do Freddy. O Freddy nem sabe o nome das pessoas que finge terem tomado a casa em vez delas.

— Sei, sim. Tenho-o cá. Emerson.

— Que nome?

— Emerson. Aposto o que quiseres.

— Que cata-vento é o Sir Harry — disse Lucy em tom quedo. — Quem me dera nunca me ter dado ao trabalho.

Depois deitou-se de costas e fitou o céu sem nuvens. Mr. Beebe, cuja opinião a respeito dela subia a cada dia, segredou à sobrinha que era esse o modo correcto de proceder quando alguma coisinha corria mal.

Entretanto, o nome dos novos inquilinos desviara Mrs. Honeychurch da contemplação das suas próprias capacidades.

— Emerson, Freddy? Sabes que Emersons são?

— Não sei se são Emersons quaisquer — retorquiu Freddy, que era democrata. Como a irmã e como a maior parte dos jovens, era naturalmente atraído pela ideia de igualdade, e o facto inegável de existirem diferentes espécies de Emersons irritava-o profundamente.

— Confio que sejam o tipo certo de pessoas. Pronto, Lucy — estava ela já sentada outra vez — vejo-te a olhar de cima e a pensar que a tua mãe é uma snob. Mas há um tipo certo e um tipo errado, e é pose fingir que não há.

— Emerson é um nome bastante comum — observou Lucy.

Olhava de soslaio. Sentada num promontório, podia ver os promontórios cobertos de pinheiros a descerem uns para lá dos outros até ao Weald. Quanto mais se descia no jardim, mais gloriosa era esta vista lateral.

— Eu ia apenas observar, Freddy, que esperava não fossem parentes daquele Emerson filósofo, um homem insuportável. Por favor, isso satisfaz-te?

— Oh, sim — resmungou ele. — E tu também ficarás satisfeita, porque são amigos do Cecil; portanto — ironia requintada — tu e as outras famílias da terra podereis visitá-los em perfeita segurança.

— Cecil? — exclamou Lucy.

— Não sejas grosseiro, querido — disse placidamente a mãe. — Lucy, não grites. É um mau hábito novo que estás a adquirir.

— Mas será que o Cecil —

— Amigos do Cecil — repetiu ele — «e portanto realmente dee-sejáveis-rebel. Ahem! Honeychurch, acabei de lhes mandar um telegrama.»

Ela levantou-se da relva.

Era duro para Lucy. Mr. Beebe compadecia-a muito. Enquanto ela acreditara que a descompostura sobre as Miss Alans vinha de Sir Harry Otway, suportara-a como uma boa rapariga. Tinha toda a razão para «gritar», ao saber que vinha em parte do seu noivo. Mr. Vyse era um implicante — coisa pior que um implicante: deleitava-se com a maldade de contrariar as pessoas. O clérigo, sabendo-o, olhou para Miss Honeychurch com mais que a sua bondade habitual.

Quando ela exclamou «Mas os Emersons do Cecil — não podem ser os mesmos — há aquilo —», ele não considerou a exclamação estranha, mas viu nela uma oportunidade de desviar a conversa enquanto ela recuperava a compostura. Desviou-a assim:

— Os Emersons que estavam em Florença, queres tu dizer? Não, não me parece que venha a verificar-se serem eles. É provavelmente um grande salto deles até aos amigos do Mr. Vyse. Oh, Mrs. Honeychurch, que gente tão estranha! A gente mais esquisita! Por nossa parte, gostámos deles, não foi? — apelou a Lucy. — Houve uma cena tremenda por causa de uns violetas. Colheram violetas e encheram todos os vasos do quarto dessas mesmas Miss Alans que falharam em vir para a Cissie Villa. Pobres senhoras! Tão chocadas e tão contentes. Era uma das grandes histórias da Miss Catharine. «A minha querida irmã adora flores», começava. Encontraram o quarto inteiro uma massa de azul — vasos e jarras — e a história acaba com «Tão pouco cavalheiresco e, no entanto, tão belo.» É tudo muito difícil. Sim, eu associo sempre esses Emersons de Florença aos violetas.

— O fiasco enganou-te desta vez — observou Freddy, sem notar que a irmã estava muito vermelha. Ela não conseguia recompor-se. Mr. Beebe notou-o e continuou a desviar a conversa.

— Estes Emersons em particular eram um pai e um filho — o filho um rapazão, se não um bom rapaz; não tolo, presumo, mas muito imaturo — pessimismo, e tal. A nossa especial alegria era o pai — um sentimental tão querido, e as pessoas garantiam que ele tinha assassinado a mulher.

No seu estado normal, Mr. Beebe nunca teria repetido semelhante mexerico, mas tentava abrigar Lucy no seu pequeno transtorno. Repetiu qualquer disparate que lhe veio à cabeça.

— Assassinado a mulher? — disse Mrs. Honeychurch. — Lucy, não nos abandones — continua a jogar o bumble-puppy. A sério, a Pension Bertolini deve ter sido o sítio mais estranho. É o segundo assassino que me consta ter estado lá. O que fazia a Charlotte para impedir? A propósito, temos mesmo de convidar a Charlotte aqui um dia destes.

Mr. Beebe não conseguia lembrar-se de um segundo assassino. Sugeriu que a anfitriã estava enganada. Ao sinal de oposição, ela aquentou-se. Tinha a certeza absoluta de que houvera um segundo turista de quem se contara a mesma história. O nome escapava-lhe. Qual era o nome? Oh, qual era o nome? Apertou os joelhos à procura do nome. Algo no Thackeray. Bateu na testa matronal.

Lucy perguntou ao irmão se Cecil estava em casa.

— Oh, não vás! — gritou ele, e tentou agarrá-la pelos tornozelos.

— Tenho de ir — disse ela com gravidade. — Não sejas parvo. Exageras sempre quando jogas.

Quando ela os deixou, o grito da mãe — «Harris!» — fez estremecer o ar tranquilo e recordou-lhe que ela tinha mentido e nunca corrigira a mentira. Uma mentira tão absurda, e no entanto transtornara-lhe os nervos e levara-a a associar estes Emersons, amigos de Cecil, a um par de turistas sem identidade. Até então, a verdade viera-lhe naturalmente. Via que, de futuro, teria de estar mais vigilante e ser — absolutamente sincera? Pois, ao menos, não devia mentir. Apressou-se pelo jardim, ainda corada de vergonha. Uma palavra de Cecil haveria de a acalmar, tinha a certeza.

— Cecil!

— Eh! — chamou ele, debruçando-se da janela da sala de fumo. Parecia de excelente humor. — Estava à espera que viesses. Ouvi-vos a fazer algazarra toda, mas há melhor divertimento aqui em cima. Eu, até eu, conquistei uma grande vitória para a Musa Cómica. George Meredith tem razão — a causa da Comédia e a causa da Verdade são na verdade a mesma; e eu, até eu, arranjei inquilinos para a atribulada Cissie Villa. Não fiques zangada! Não fiques zangada! Quando souberes tudo, perdoas-me.

Parecia muito atraente com o rosto iluminado, e dissipou de imediato os seus ridículos presságios.

— Já sei — disse ela. — O Freddy contou-nos. Cecil travesso! Suponho que tenho de te perdoar. Pensa em todo o trabalho que tive por nada! Certamente as Miss Alans são um pouco maçadoras, e eu preferia ter amigos simpáticos teus. Mas não se deve implicar tanto.

— Amigos meus? — riu ele. — Mas, Lucy, o melhor da graça ainda vem! Anda cá. — Mas ela ficou onde estava. — Sabes onde encontrei estes inquilinos desejáveis? Na National Gallery, quando fui ver a minha mãe na semana passada.

— Que sítio tão estranho para conhecer gente! — disse ela, nervosa. — Não percebo bem.

— Na Sala Umbria. Estranhos absolutos. Estavam a admirar Luca Signorelli — muito estupidamente, claro. Contudo, pusemo-nos a conversar e eles reconfortaram-me nada pouco. Tinham estado em Itália.

— Mas, Cecil — prosseguiu ela com hilaridade.

— No decurso da conversa, disseram que queriam um cottage no campo — o pai para lá viver, o filho para descer aos fins-de-semana. Pensei: «Que oportunidade de marcar pontos ao Sir Harry!» — e fiquei-me com o endereço e uma referência em Londres, verifiquei que não eram verdadeiros canalhas — foi divertidíssimo — e escrevi-lhe, inventando —

— Cecil! Não, não é justo. É bem possível que eu os tenha conhecido antes —

Ele abafou-lhe a voz.

— Perfeitamente justo. Tudo o que pune um snob é justo. Aquele velho vai fazer um bem imenso à vizinhança. Sir Harry é nojento demais com os seus «damas decaídas de linhagem». Eu pretendia dar-lhe uma lição qualquer dia. Não, Lucy, as classes devem misturar-se, e dentro de pouco concordarás comigo. Devia haver casamentos mistos — toda a espécie de coisas. Acredito na democracia —

— Não acreditas, não — cortou ela. — Não sabes o que a palavra significa.

Ele fitou-a, e sentiu de novo que ela falhara em ser Leonardesca. — Não, não acreditas!

A cara dela era anti-artística — a de uma megera rabugenta.

— Não é justo, Cecil. Culpo-te — culpo-te muito a sério. Não tinhas negócio nenhum a desfazer o meu trabalho com as Miss Alans e a fazer-me parecer ridícula. Tu chamas-lhe marcar pontos ao Sir Harry, mas percebes que é tudo à minha custa? Considero-o a mais desleal das tuas acções.

Deixou-o.

— Mau feitio! — pensou ele, erguendo as sobrancelhas.

Não, era pior do que mau feitio — era snobismo. Enquanto Lucy julgou que os amigos espertos dele estavam a suplantar as Miss Alans, não se importara. Ele compreendeu que estes novos inquilinos podiam ter valor pedagógico. Toleraria o pai e puxaria pelo filho, que era silencioso. No interesse da Musa Cómica e da Verdade, levá-los-ia a Windy Corner.

Capítulo XI No Apartamento Bem Mobilado de Mrs. Vyse

A Musa Cómica, embora capaz de zelar pelos seus próprios interesses, não desdenhou o auxílio de Mr. Vyse. A ideia dele de levar os Emersons para Windy Corner pareceu-lhe decididamente boa, e ela conduziu as negociações sem qualquer percalço. Sir Harry Otway assinou o contrato, conheceu Mr. Emerson, que ficou devidamente desiludido. As Miss Alans ficaram devidamente ofendidas e escreveram uma carta digna a Lucy, a quem consideravam responsável pelo fracasso. Mr. Beebe planeou momentos agradáveis para os recém-chegados e disse a Mrs. Honeychurch que Freddy os devia visitar logo que chegassem. Na verdade, tão generoso era o equipamento da Musa que ela permitiu a Mr. Harris, jamais criminoso muito robusto, que baixasse a cabeça, fosse esquecido e morresse.

Lucy — para descer do céu luminoso à terra, onde há sombras porque há montes — Lucy, a princípio, mergulhou no desespero, mas, após alguma reflexão, assentou que nada disso tinha a mínima importância. Agora que estava noiva, os Emersons dificilmente a insultariam, e eram bem-vindos à vizinhança. E Cecil era bem-vindo a trazer quem quer que fosse à vizinhança. Logo, Cecil era bem-vindo a trazer os Emersons à vizinhança. Mas, como digo, isto exigiu alguma reflexão, e — tão ilógicas são as raparigas — o acontecimento continuou a ser um tanto maior e um tanto mais terrível do que devia. Ela ficou contente por lhe calhar agora uma visita a Mrs. Vyse; os inquilinos mudaram-se para a Cissie Villa enquanto ela estava segura no apartamento londrino.

— Cecil — Cecil, querido — murmurou ela na noite em que chegou, e enroscou-se nos braços dele.

Cecil, também ele, tornou-se demonstrativo. Viu que o fogo necessário se acendera em Lucy. Enfim, ela ansiava por atenção, como uma mulher deve, e olhava para ele porque ele era um homem.

— Então amas-me, coisinha? — murmurou ele.

— Oh, Cecil, amo, amo! Não sei o que faria sem ti.

Passaram-se alguns dias. Depois, ela recebeu uma carta de Miss Bartlett. Entre as duas primas estabelecera-se uma frieza, e não correspondiam desde que se separaram em Agosto. A frieza datava daquilo que Charlotte chamaria «a fuga para Roma», e em Roma aumentara extraordinariamente. Pois a companheira que é apenas antipática no mundo medieval torna-se exasperante no clássico. Charlotte, generosa no Fórum, teria tentado um temperamento mais doce do que o de Lucy, e uma vez, nas Termas de Caracala, tinham duvidado poder prosseguir a viagem juntas. Lucy dissera que se juntaria aos Vyses — Mrs. Vyse era conhecida da mãe, pelo que não havia impropriedade no plano — e Miss Bartlett respondera que já estava bem habituada a ser abandonada de repente. Em fim, nada aconteceu; mas a frieza permaneceu e, para Lucy, aumentou até quando abriu a carta e leu o que se segue. Tinha sido reenviada de Windy Corner.

«TUNBRIDGE WELLS, Setembro.

«Minha querida Lucia,

«Tenho finalmente notícias tuas! Miss Lavish andou de bicicleta pela tua zona, mas não tinha a certeza se uma visita seria bem-vinda. Ao furar o pneu perto da Summer Street, e enquanto lho consertavam sentada muito desolada naquele cemitério tão bonito, viu, com espanto, uma porta abrir-se em frente e o Emerson mais novo sair. Ele disse que o pai acabara de tomar a casa. Disse que não sabia que tu vivias na vizinhança (?). Nunca sugeriu oferecer a Eleanor uma chávena de chá. Querida Lucy, estou muito preocupada, e aconselho-te a contar tudo a fundo sobre o comportamento dele passado à tua mãe, ao Freddy e ao Mr. Vyse, que lhe proibirá a entrada em casa, etc. Foi uma grande infelicidade, e atrevo-me a dizer que já lhes contaste. Mr. Vyse é tão susceptível. Lembro-me de como eu lhe irritava os nerves em Roma. Lamento muito tudo isto, e não ficaria tranquila se não te avisasse.

«Acredita, «tua ansiosa e amorosa prima, CHARLOTTE.»

Lucy ficou muito aborrecida e respondeu assim:

«BEAUCHAMP MANSIONS, S.W.

«Querida Charlotte,

«Muito obrigada pelo teu aviso. Quando Mr. Emerson se esqueceu a si mesmo na montanha, obrigaste-me a prometer-te que não contaria à mãe, porque dizias que ela te culparia por não estares sempre comigo. Cumpri essa promessa, e não te é possível contar-lhe agora. Tenho dito, tanto a ela como a Cecil, que conheci os Emersons em Florença e que são pessoas respeitáveis — o que de facto penso — e a razão de ele não ter oferecido chá a Miss Lavish foi provavelmente porque não tinha chá nenhum. Ela devia ter tentado na Reitoria. Não posso armar um escândalo nesta fase. Tu vês bem que seria absurdo. Se os Emersons soubessem que me queixei deles, julgar-se-iam importantes, o que é exactamente o que não são. Gosto do pai velho e aguardo com expectativa revê-lo. Quanto ao filho, lamento por ele quando nos encontrarmos, mais do que por mim. São conhecidos do Cecil, que está muito bem e falou de ti há dias. Esperamos casar em Janeiro.

«Miss Lavish não te pode ter contado muito sobre mim, pois não estou em Windy Corner, mas aqui. Por favor, não ponhas «Pessoal» outra vez no sobrescrito. Ninguém abre as minhas cartas.

«Tua afectuosa, L. M. HONEYCHURCH.»

A dissimulação tem esta desvantagem: perdemos o sentido da proporção; não sabemos dizer se o nosso segredo é importante ou não. Estariam Lucy e a prima fechados com uma coisa grande que destruiria a vida de Cecil caso ele a descobrisse, ou com uma coisinha de que ele riria? Miss Bartlett sugeria a primeira hipótese. Talvez tivesse razão. Agora tinha-se tornado uma coisa grande. Deixada a si mesma, Lucy ter-se-ia contado à mãe e ao noivo com ingénua franqueza, e teria permanecido uma coisinha de nada. «Emerson, não Harris»; não era mais do que isso, há poucas semanas. Tentou contar a Cecil ainda agora, enquanto ambos riam acerca de uma bela senhora que lhe ferira o coração na escola. Mas o corpo dela portou-se de maneira tão ridícula que ela parou.

Ela e o seu segredo permaneceram mais dez dias na Metrópole deserta, visitando os cenários que viriam a conhecer tão bem mais tarde. Não lhe fazia mal nenhum, pensava Cecil, aprender a estrutura da sociedade, enquanto a própria sociedade andava ausente nos campos de golfe ou nos charnecos. O tempo estava fresco, e não lhe fazia mal nenhum. Apesar da estação, Mrs. Vyse conseguiu arranjar, a custo, um jantar composto inteiramente por netos de pessoas famosas. A comida era fraca, mas a conversa tinha um cansado engenho que impressionou a rapariga. Toda a gente parecia estar cansada de tudo. Lançava-se em entusiasmos só para cair com elegância, e erguer-se de novo em meio de risos solidários. Nesta atmosfera, a Pensione Bertolini e Windy Corner pareciam igualmente grosseiros, e Lucy percebeu que a sua carreira londrina a iria afastar um pouco de tudo quanto tinha amado no passado.

Os netos pediram-lhe que tocasse piano.

Ela tocou Schumann. «Agora um pouco de Beethoven», pediu Cecil, quando a beleza queixosa da música se extinguiu. Ela abanou a cabeça e tocou Schumann outra vez. A melodia ergueu-se, improdutivamente mágica. Quebrou; foi retomada partida, não marchando uma só vez do berço à sepultura. A tristeza do incompleto — a tristeza que tantas vezes é a Vida, mas nunca devia ser a Arte — latejou nas suas frases dispersas, e fez tremer os nervos dos ouvintes. Não fora assim que ela tocara no pequeno piano coberto de pano no Bertolini, e «Demasiado Schumann» não fora o comentário que Mr. Beebe fizera para si próprio quando ela regressou.

Quando os convidados se tinham ido e Lucy se tinha ido deitar, Mrs. Vyse percorreu a sala de estar de um lado para o outro, discutindo a sua pequena festa com o filho. Mrs. Vyse era uma mulher amável, mas a sua personalidade, como tantas outras, tinha sido submersa por Londres, pois é preciso uma cabeça forte para viver entre muita gente. O orbe demasiado vasto do seu destino esmagara-a; e vira demasiadas estações, demasiadas cidades, demasiados homens, para as suas capacidades, e até com Cecil era mecânica, e comportava-se como se ele não fosse um filho, mas, por assim dizer, uma multidão filial.

«Faz de Lucy uma de nós», dizia, olhando em volta com inteligência no fim de cada frase, e mantendo os lábios afastados até voltar a falar. «A Lucy está a tornar-se maravilhosa — maravilhosa.»

«A música dela sempre foi maravilhosa.»

«Sim, mas está a purgar-se da macula Honeychurch, excelentes Honeychurchs que são, mas sabes o que quero dizer. Já não está sempre a citar criados, ou a perguntar a uma pessoa como se faz o pudim.»

«A Itália é que fez isso.»

«Talvez», murmurou ela, pensando no museu que representava a Itália para si. «É bem possível. Cecil, vê de casares com ela em Janeiro. Ela já é uma de nós.»

«Mas a música dela!» exclamou ele. «O estilo dela! Como se aguentou em Schumann quando eu, qual idiota, queria Beethoven. Schumann era o indicado para esta noite. Schumann era o que estava certo. Sabes, mãe, hei-de mandar educar os nossos filhos exatamente como a Lucy. Criá-los entre gente honesta do campo para terem frescura, mandá-los à Itália para terem subtileza, e depois — só depois — deixá-los vir para Londres. Não acredito nestas educações londrinas...» Calou-se, lembrando-se de que ele próprio tivera uma, e concluiu: «Em todo o caso, não para as mulheres.»

«Faz dela uma de nós», repetiu Mrs. Vyse, e marchou para a cama.

Enquanto adormecia, um grito — o grito do pesadelo — soou do quarto de Lucy. Lucy podia tocar a campainha para chamar a criada se quisesse, mas Mrs. Vyse achou caridoso ir ela própria. Encontrou a rapariga sentada muito direita com a mão na face.

«Perdoe, Mrs. Vyse — são estes sonhos.»

«Pesadelos?»

«Apenas sonhos.»

A senhora mais velha sorriu e beijou-a, dizendo com muita clareza: «Devias ter ouvido o que falámos de ti, querida. Ele admira-te mais do que nunca. Sonha com isso.»

Lucy devolveu o beijo, continuando a cobrir uma face com a mão. Mrs. Vyse afastou-se para a cama. Cecil, a quem o grito não acordara, ressonava. A escuridão envolveu o apartamento.

Capítulo XII

Numa tarde de sábado, alegre e brilhante após chuvas abundantes, morava nela o espírito da juventude, embora a estação já fosse o outono. Tudo o que era gracioso triunfava. Quando os automóveis passavam pela Summer Street levantavam apenas um pouco de pó, e o seu cheiro era logo disperso pelo vento e substituído pelo aroma dos vidoiros molhados ou dos pinheiros. Mr. Beebe, com vagar para os mimos da vida, encostou-se ao portão da reitoria. Freddy encostava-se ao lado dele, fumando um cachimbo pendurado.

«Supõe que vamos incomodar um bocado aquela gente nova em frente.»

«Hã.»

«Podem entreter-te.»

Freddy, a quem os seus semelhantes nunca entretinham, sugeriu que a gente nova talvez se estivesse a sentir um bocadinho ocupada, e por aí fora, visto que tinham acabado de mudar-se.

«Fui eu quem sugeriu que fossemos incomodá-los», disse Mr. Beebe. «Vale a pena.» Destravando o portão, passeou pelo relvado triangular até à Cissie Villa. «Olá!» gritou, bradando para dentro da porta aberta, através da qual se via muita sordidez.

Uma voz grave respondeu: «Olá!»

«Trouxe alguém para vos ver.»

«Desço num minuto.»

O corredor estava bloqueado por um guarda-roupa, que os carregadores não tinham conseguido subir pelas escadas. Mr. Beebe contornou-o com dificuldade. A própria sala de estar estava atravancada de livros.

«Será esta gente grandes leitores?» sussurrou Freddy. «São desse género?»

«Acho que sabem ler — uma aptidão rara. O que têm? Byron. Exatamente. A Shropshire Lad. Nunca ouvi falar. The Way of All Flesh. Nunca ouvi falar. Gibbon. Olá! o caro George lê alemão. Hm — hm — Schopenhauer, Nietzsche, e por aí adiante. Bem, suponho que a tua geração sabe o que faz, Honeychurch.»

«Mr. Beebe, olhe para aquilo», disse Freddy em tons de reverente espanto.

Na cornija do guarda-roupa, a mão de um amador tinha pintado esta inscrição: «Desconfiai de todas as empresas que exigem roupas novas.»

«Eu sei. Não é divertido? Eu gosto. Tenho a certeza que foi o velhote.»

«Que esquisitice dele!»

«Certamente concordas?»

Mas Freddy era filho da mãe e sentia que não se deve continuar a estragar a mobília.

«Quadros!» continuou o pároco, escalando pelo quarto. «Giotto — devem tê-lo arranjado em Florença, tenho a certeza.»

«O mesmo que o da Lucy.»

«Ah, a propósito, Miss Honeychurch gostou de Londres?»

«Regressou ontem.»

«Suponho que se divertiu.»

«Sim, muito», disse Freddy, pegando num livro. «Ela e o Cecil estão mais chegados do que nunca.»

«Isso é bom de ouvir.»

«Quem me dera não ser tão parvo, Mr. Beebe.»

Mr. Beebe ignorou a observação.

«A Lucy costumava ser quase tão estúpida como eu, mas agora vai ser muito diferente, acha a mãe. Vai ler de tudo.»

«Tu também.»

«Só livros de medicina. Livros de que não se pode falar depois. O Cecil está a ensinar italiano à Lucy, e diz que o jeito dela a tocar é maravilhoso. Há lá toda a espécie de coisas que nós nunca tínhamos notado. O Cecil diz...»

«Que diabo estão essas pessoas a fazer lá em cima? Emerson — achamos que voltaremos noutra altura.»

George desceu as escadas a correr e empurrou-os para dentro da sala sem falar.

«Deixa-me apresentar Mr. Honeychurch, um vizinho.»

Então Freddy disparou um dos raios da juventude. Talvez fosse tímido, talvez fosse amigo, ou talvez lhe parecesse que a cara de George precisava de ser lavada. De qualquer modo, saudou-o com: «Como está? Venha tomar banho.»

«Ah, está bem», disse George, impassível.

Mr. Beebe estava profundamente divertido.

«"Como está? como está? Venha tomar banho"», riu ele. «É a melhor abertura de conversa que alguma vez ouvi. Mas receio que só resulte entre homens. Consegues imaginar uma senhora apresentada a outra senhora por uma terceira abrindo as hostilidades com "Como está? Venha tomar banho"? E ainda hás-de dizer-me que os sexos são iguais.»

«Eu digo-lhe que hão-de ser», disse Mr. Emerson, que descera lentamente as escadas. «Boa tarde, Mr. Beebe. Digo-lhe que hão-de ser camaradas, e George pensa o mesmo.»

«Havemos de elevar as senhoras ao nosso nível?» inquiriu o pároco.

«O Jardim do Éden», prosseguiu Mr. Emerson, continuando a descer, «que o senhor coloca no passado, está ainda por vir. Entraremos nele quando deixarmos de desprezar os nossos corpos.»

Mr. Beebe recusou ter colocado o Jardim do Éden em parte alguma.

«Nisto — não noutras coisas — nós homens estamos mais avançados. Desprezamos menos o corpo do que as mulheres. Mas só quando formos camaradas entraremos no jardim.»

«Eh, então esse banho?» murmurou Freddy, apavorado com a massa de filosofia que se aproximava dele.

«Acreditei uma vez no regresso à Natureza. Mas como podemos regressar à Natureza quando nunca estivemos com ela? Hoje, acredito que temos de descobrir a Natureza. Após muitas conquistas atingiremos a simplicidade. É a nossa herança.»

«Deixa-me apresentar Mr. Honeychurch, cuja irmã se há-de lembrar em Florença.»

«Como está? Muito gosto em vê-lo, e em saber que leva o George a tomar banho. Muito gosto em saber que a sua irmã vai casar. O casamento é um dever. Tenho a certeza de que será feliz, pois também nós conhecemos Mr. Vyse. Ele tem sido muito amável. Encontrou-nos por acaso na National Gallery, e tratou de tudo respeitante a esta casa encantadora. Embora espero não ter desagradado Sir Harry Otway. Tenho conhecido tão poucos proprietários liberais, e estava ansioso por comparar a sua atitude em relação às leis da caça com a atitude conservadora. Ah, este vento! Fazem bem em banhar-se. O seu país é glorioso, Honeychurch!»

«Pouco!» resmungou Freddy. «Eu tenho — isto é, tenho de — ter o prazer de lhes fazer uma visita mais tarde, diz a minha mãe, espero.»

«Fazer uma visita, meu rapaz? Quem nos ensinou essa lengalenga de sala de visitas? Vai visitar a tua avó! Ouve o vento entre os pinheiros! O seu país é glorioso.»

Mr. Beebe veio em socorro.

«Mr. Emerson, ele virá visitar, eu visitarei; o senhor ou o seu filho devolver-nos-ão as visitas antes de dez dias. Confio em que se tenha dado conta do prazo dos dez dias. Não conta que eu o tenha ajudado ontem com a vista das escadas. Não conta que eles vão tomar banho esta tarde.»

«Sim, vão tomar banho, George. Porque é que te demoras a falar? Traze-os para o chá. Traz leite, bolos, mel. A mudança te fará bem. George tem trabalhado muito no escritório. Não consigo acreditar que ele esteja bem.»

George curvou a cabeça, poeirenta e sombria, exalando o cheiro peculiar de quem andou a mexer em mobília.

«Queres mesmo este banho?» perguntou-lhe Freddy. «É só um charco, sabe. Suponho que estás habituado a coisa melhor.»

«Sim — já disse que sim.»

Mr. Beebe sentiu-se obrigado a auxiliar o jovem amigo, e tomou a dianteira para fora da casa e em direção aos pinhais. Como era glorioso! Por um breve momento, a voz do velho Mr. Emerson perseguiu-os dispensando bons augúrios e filosofia. Cessou, e só ouviam o vento limpo a soprar a fetos e as árvores. Mr. Beebe, que sabia estar calado, mas que não suportava o silêncio, foi compelido a tagarelar, dado que a expedição se desenhava como um fracasso, e nenhum dos companheiros queria dizer palavra. Falou de Florença. George ouvia com gravidade, concordando ou discordando com gestos ligeiros mas resolutos que eram tão inexplicáveis como os movimentos das copas das árvores sobre as suas cabeças.

«E que coincidência encontrar Mr. Vyse! Tinham ideia de que iam encontrar aqui toda a Pensione Bertolini?»

«Não. Miss Lavish disse-me.»

«Quando era jovem, tencionei sempre escrever uma "História das Coincidências".»

Nenhum entusiasmo.

«Embora, na verdade, as coincidências sejam muito mais raras do que supomos. Por exemplo, não é puramente por coincidência que está aqui agora, quando se pensa bem.»

Para seu alívio, George começou a falar.

«É sim. Pensei bem. É o Destino. Tudo é Destino. Somos lançados juntos pelo Destino, separados pelo Destino — lançados juntos, separados. Os doze ventos sopram-nos — nada resolvemos —»

«O senhor não pensou nada», atalhou o pároco. «Deixe-me dar-lhe um conselho útil, Emerson: não atribua nada ao Destino. Não diga "Eu não fiz isto", porque fez, nove em dez vezes. Agora vou interrogá-lo. Onde é que nos conheceu, à Miss Honeychurch e a mim?»

«Itália.»

«E onde conheceu Mr. Vyse, que vai casar com Miss Honeychurch?»

«National Gallery.»

«A ver arte italiana. Está visto, e ainda fala de coincidência e Destino. O senhor procura naturalmente coisas italianas, e nós e os nossos amigos também. Isso restringe imensamente o campo, e tornamos a encontrar-nos nele.»

«É Destino que eu esteja aqui», persistiu George. «Mas chame-lhe Itália, se isso o faz menos infeliz.»

Mr. Beebe escapou de tão pesado tratamento do assunto. Mas era infinitamente tolerante com os jovens, e não tinha vontade de calar George.

«E assim, por isto e por outras razões, a minha "História das Coincidências" ainda está por escrever.»

Silêncio.

Desejando rematar o episódio, acrescentou: «Estamos todos tão contentes por terem vindo.»

Silêncio.

«Aqui estamos!» gritou Freddy.

«Oh, óptimo!» exclamou Mr. Beebe, limpando a testa.

«Ali dentro está o charco. Quem me dera que fosse maior», acrescentou apologeticamente.

Desceram por um talude escorregadio de agulhas de pinheiro. Ali jazia o charco, encaixado no seu pequeno alpestre de verdor — apenas um charco, mas suficientemente grande para conter um corpo humano, e puro bastante para refletir o céu. Por causa das chuvas, as águas tinham inundado o relvado circundante, que se mostrava como um belíssimo caminho de esmeralda, convidando estes pés para a piscina central.

«É distintamente bem-sucedido, como charcos se medem», disse Mr. Beebe. «Não são necessárias desculpas pelo charco.»

George sentou-se onde o chão estava seco, e com ar lúgubre desapertou as botas.

«Não são esplêndidas aquelas massas de epilóbio? Eu adoro epilóbio em semente. Como se chama esta planta aromática?»

Ninguém sabia, nem parecia importar-se.

«Estas mudanças abruptas de vegetação — este pequeno trecho esponjoso de plantas aquáticas, e de cada lado dele todos os crescimentos são tenazes ou quebradiços — urze, fetos, tojos, pinheiros. Muito encantador, muito encantador.»

«Mr. Beebe, não vai tomar banho?» chamou Freddy, enquanto se despia.

Mr. Beebe achou que não.

«A água é maravilhosa!» gritou Freddy, saltando para dentro.

«Água é água», murmurou George. Molhando primeiro o cabelo — sinal seguro de apatia — seguiu Freddy para o divino, tão indiferente como se fosse uma estátua e o charco um balde de água de sabão. Era preciso usar os músculos. Era preciso manter-se limpo. Mr. Beebe observava-os, e observava as sementes do epilóbio dançarem em coro sobre as suas cabeças.

«Apooshoo, apooshoo, apooshoo», fazia Freddy, nadando duas braçadas em cada direção, e logo enredando-se em caniços ou lama.

«Vale a pena?» perguntou o outro, miguelangelesco na margem inundada.

A margem cedeu, e ele caiu na piscina antes de ter pesado bem a pergunta.

«Hee-poof — engoli um girino, Mr. Beebe, a água é maravilhosa, a água é simplesmente deliciosa.»

«A água não é tão má», disse George, reaparecendo do seu mergulho, e cuspindo para o sol.

«A água é maravilhosa. Mr. Beebe, vamos.»

«Apooshoo, kouf.»

Mr. Beebe, que estava quente, e que sempre aquiescia quando possível, olhou em volta. Não conseguia detetar paroquianos a não ser os pinheiros, erguendo-se abruptamente de todos os lados, e gesticulando uns para os outros contra o azul. Como era glorioso! O mundo dos automóveis e dos deanes rurais recuava de maneira inimitável. Água, céu, sempre-verdes, um vento — estas coisas nem mesmo as estações conseguem tocar, e por certo jazem para além da intrusão do homem?

«Mais vale lavar-me também»; e logo as suas vestes fizeram um terceiro pequeno monte no relvado, e ele também afirmou a maravilha da água.

Era água vulgar, nem havia muita dela, e, como disse Freddy, fazia lembrar nadar numa salada. Os três senhores rodavam na piscina com água pelo peito, à moda das ninfas do Götterdämmerung. Mas, quer porque as chuvas tinham dado uma frescura, quer porque o sol derramava um calor gloriosíssimo, quer porque dois dos senhores eram jovens de anos e o terceiro jovem de espírito — por qualquer razão sobreveio-lhes uma mudança, e esqueceram Itália e Botânica e Destino. Começaram a brincar. Mr. Beebe e Freddy salpicaram-se um ao outro. Com uma certa deferência, salpicaram George. Ele ficou quieto: temeram tê-lo ofendido. Então todas as forças da juventude irromperam. Ele sorriu, atirou-se a eles, salpicou-os, mergulhou-os, deu-lhes pontapés, enlameou-os, e expulsou-os da piscina.

«Então uma corrida à volta dele», gritou Freddy, e correram ao sol, e George cortou caminho e sujou as canelas, e teve de se banhar pela segunda vez. Depois Mr. Beebe consentiu em correr — uma visão memorável.

Corriam para secar, banhavam-se para arrefecer, brincavam aos Índios nos epilóbios e nos fetos, banhavam-se para se limpar. E todo o tempo três pequenos fardos jaziam discretos no relvado, proclamando:

«Não. Nós somos o que importa. Sem nós nenhuma empresa começará. A nós se voltará toda a carne no fim.»

«Uma tentativa! Uma tentativa!» berrou Freddy, arrebatando o fardo de George e colocando-o junto a uma trave de baliza imaginária.

«Regras de futebol», retorquiu George, dispersando o fardo de Freddy com um pontapé.

«Golo!»

«Golo!»

«Passa!»

«Cuidado com o meu relógio!» gritou Mr. Beebe.

As roupas voaram em todas as direções.

«Cuidado com o meu chapéu! Não, já chega, Freddy. Vista-te agora. Não, digo eu!»

Mas os dois jovens estavam delirantes. Away they twinkled into the trees, Freddy com um colete clerical debaixo do braço, George com um chapéu de abas largas no cabelo a pingar.

«Basta!» gritou Mr. Beebe, lembrando-se de que, afinal, estava na sua própria paróquia. Então a voz mudou como se cada pinheiro fosse um Deão Rural. «Eh! Devagar! Estou a ver gente a vir, rapazes!»

Gritos, e círculos alargando-se sobre a terra mosqueada.

«Eh! eh! Senhoras!»

Nem George nem Freddy eram verdadeiramente refinados. Ainda assim, não ouviram o último aviso de Mr. Beebe, ou teriam evitado Mrs. Honeychurch, Cecil e Lucy, que desciam a caminho de fazer uma visita à velha Mrs. Butterworth. Freddy deixou cair o colete aos pés deles, e lançou-se para uns fetos. George uivou-lhes para a cara, virou-se e escapou pelo caminho em direção ao charco, ainda coberto com o chapéu de Mr. Beebe.

«Santo Deus!» gritou Mrs. Honeychurch. «Quem eram aqueles desgraçados? Ah, queridas, não olhem! E o pobre Mr. Beebe, também! Que aconteceu?»

«Vinde por aqui imediatamente», comandou Cecil, que sempre sentia que tinha de conduzir senhoras, embora não soubesse para onde, e protegê-las, embora não soubesse de quê. Conduziu-as agora para os fetos onde Freddy estava sentado, escondido.

«Ah, pobre Mr. Beebe! Era o colete dele que ficou no caminho? Cecil, o colete do Mr. Beebe —»

Não é connosco, disse Cecil, olhando de relance para Lucy, que era toda ela sombrinha e visivelmente «embirrada».

«Acho que Mr. Beebe saltou outra vez para o charco.»

«Por aqui, por favor, Mrs. Honeychurch, por aqui.»

Seguiram-no pelo talude, tentando a expressão tensa e descontraída que convém a senhoras em tais ocasiões.

«Bem, eu não tenho culpa», disse uma voz mesmo à frente, e Freddy ergueu uma cara sardenta e um par de ombros cor de neve de entre as frondes. «Não se pode pisar-me, pois não?»

«Meu Deus, querido; então és tu! Que gestão tão miserável! Porque não tomar um banho confortável em casa, com água quente e fria?»

«Olha aqui, mãe, um gajo tem de se lavar, e um gajo tem de se secar, e se outro gajo —»

«Querido, sem dúvida tens razão como de costume, mas não estás em posição de discutir. Vem, Lucy.» Voltaram-se. «Ah, olhem — não olhem! Ah, pobre Mr. Beebe! Que azar outra vez —»

Porque o Sr. Beebe estava justamente a sair do charco, sobre cujas águas flutuavam peças de roupa de natureza íntima; enquanto George, o George cansado do mundo, gritava para Freddy que tinha apanhado um peixe.

«E eu engoli um», respondeu o dos fetos. «Engoli um girino. Mexe-se-me na barriga. Vou morrer — seu bruto, Emerson, pisou em cima das minhas calças.»

«Calma, meus filhos», disse Mrs. Honeychurch, que achava impossível continuar escandalizada. «E tenham o cuidado de se enxugar bem primeiro. Estas constipações todas vêm de não nos enxugarmos a sério.»

«Mãe, anda daí», disse Lucy. «Oh, pelo amor de Deus, anda daí.»

«Olá!» gritou George, de modo que as senhoras tornaram a parar.

Ele considerava-se já vestido. Descalço, com o peito nu, radioso e atraente contra o bosque sombrio, chamou:

«Olá, Miss Honeychurch! Olá!»

«Faz uma reverência, Lucy; é melhor fazeres reverência. Quem é que é? Eu faço uma reverência.»

Miss Honeychurch fez uma reverência.

Nessa tarde e durante toda a noite a água foi-se escoando. Na manhã seguinte, o poço tinha encolhido para o seu tamanho antigo e perdido o seu esplendor. Fora um chamamento ao sangue e à vontade descontraída, uma bênção de passagem cuja influência não passou, uma santidade, um encantamento, um cálice momentâneo para a juventude.

Capítulo XIII Como a caldeira de Miss Bartlett foi tão fastidiosa

Quantas vezes não teria Lucy ensaiado esta reverência, este encontro! Mas sempre os ensaiara dentro de casa, e com determinados adornos, que decerto temos o direito de supor. Quem poderia prever que ela e George se encontrariam na derrota de uma civilização, no meio de um exército de casacos, colarinhos e botas que jaziam feridos sobre a terra ensolarada? Ela imaginara um jovem Mr. Emerson, que poderia ser tímido ou mórbido ou indiferente ou furtivamente insolente. Estava preparada para todas estas hipóteses. Mas jamais imaginara um que fosse feliz e a saudasse com o grito da estrela da manhã.

Dentro de casa, tomando chá com a velha Mrs. Butterworth, reflectiu que é impossível prever o futuro com qualquer grau de precisão, que é impossível ensaiar a vida. Uma falha no cenário, uma cara na plateia, uma irrupção da plateia no palco, e todos os nossos gestos cuidadosamente planejados deixam de significar alguma coisa, ou significam demais. «Vou fazer uma reverência», pensara ela. «Não lhe dou a mão. Isso será exactamente o que se deve fazer.» Fizera a reverência — mas a quem? A deuses, a heróis, aos disparates de raparigas de colégio! Fizera uma reverência por cima do lixo que atravanca o mundo.

Assim corriam os seus pensamentos, enquanto as suas faculdades estavam ocupadas com Cecil. Era mais uma daquelas horrorosas visitas de noivado. Mrs. Butterworth queria vê-lo, e ele não queria ser visto. Não queria ouvir falar de hortênsias, por que mudam de cor à beira-mar. Não queria aderir à C. O. S. Quando estava zangado era sempre elaborado, e dava respostas longas e engenhosas onde bastaria um «Sim» ou um «Não». Lucy acalmou-o e remendou a conversa de uma maneira que prometia bem para a paz do casamento deles. Ninguém é perfeito, e seguramente é mais sensato descobrir as imperfeições antes do matrimónio. Miss Bartlett, de facto, ainda que não por palavras, ensinara a rapariga que esta nossa vida nada contém de satisfatório. Lucy, embora desgostasse da mestra, considerava o ensinamento profundo, e aplicava-o ao seu amado.

«Lucy», disse a mãe, quando chegaram a casa, «acontece alguma coisa a Cecil?»

A pergunta era ominosa; até então Mrs. Honeychurch tinha-se comportado com caridade e comedimento.

«Não, não me parece, mãe; Cecil está óptimo.»

«Talvez esteja cansado.»

Lucy transigiu: talvez Cecil estivesse um bocadinho cansado.

«Porque de outra forma» — tirou os alfinetes do chapéu com crescente mau humor — «porque de outra forma não consigo explicá-lo.»

«Eu acho que Mrs. Butterworth é bastante maçadora, se é isso que queres dizer.»

«O Cecil disse-te para pensares assim. Eras devoted a ela quando eras criança, e nada descreve a bondade que ela te mostrou durante a febre tifóide. Não — é a mesma coisa em toda a parte.»

«Deixa-me só guardar o teu chapéu, posso?»

«Certamente ele poderia responder-lhe com educação durante meia hora?»

«Cecil tem um padrão muito elevado para as pessoas», gaguejou Lucy, vendo complicações no horizonte. «Faz parte dos ideais dele — é realmente isso que faz com que ele às vezes pareça—»

«Oh, disparates! Se ideais elevados tornam um rapaz mal-educado, quanto mais cedo ele se livrar deles, melhor», disse Mrs. Honeychurch, entregando-lhe o chapéu.

«Oh, mãe! Eu já te vi zangada com Mrs. Butterworth!»

«Não dessa maneira. Houve alturas em que eu lhe podia torcer o pescoço. Mas não dessa maneira. Não. É a mesma coisa com Cecil.»

«Já agora — nunca te disse. Recebi uma carta de Charlotte enquanto estive em Londres.»

Esta tentativa de desviar a conversa era demasiado pueril, e Mrs. Honeychurch resentiu-se.

«Desde que Cecil voltou de Londres, nada parece agradar-lhe. Sempre que eu falo, ele estremece; — vejo-o, Lucy; é inútil contradizer-me. Sem dúvida eu não sou artística nem literária nem intelectual nem musical, mas não tenho culpa da mobília da sala; foi o teu pai que a comprou e temos de nos conformar com ela, queira Cecil ter a bondade de se lembrar.»

«E— eu vejo o que queres dizer, e certamente Cecil não devia. Mas ele não tenciona ser indelicado — ele uma vez explicou — são as coisas que o perturbam — é facilmente perturbado por coisas feias — não é indelicado com as pessoas.»

«É uma coisa ou uma pessoa quando Freddy canta?»

«Não se pode esperar que uma pessoa verdadeiramente musical goste das canções cómicas como nós.»

«Então porque é que ele não saiu da sala? Porque ficou a remexer-se e a troçar e a estragar o prazer a toda a gente?»

«Não devemos ser injustos para com as pessoas», gaguejou Lucy. Algo a tinha debilitado, e a defesa de Cecil, que ela dominara tão perfeitamente em Londres, não lhe saía em forma eficaz. As duas civilizações tinham chocado — Cecil insinuou que talvez tivessem — e ela ficava ofuscada e desnorteada, como se a radiação que jaz por trás de toda a civilização lhe tivesse cegado os olhos. Bom gosto e mau gosto eram apenas palavras de ordem, vestimentas de corte diferente; e a própria música se dissolvia num murmúrio por entre os pinheiros, onde a canção já não se distingue da canção cómica.

Permaneceu em grande embaraço, enquanto Mrs. Honeychurch mudava de vestido para o jantar; e de vez em quando dizia uma palavra, e só piorava as coisas. Não havia como esconder o facto: Cecil pretendera ser arrogante, e conseguira-o. E Lucy — sem saber porquê — desejou que a complicação pudesse ter surgido em qualquer outra altura.

«Vai vestir-te, querida; vais atrasar-te.»

«Está bem, mãe—»

«Não digas «está bem» e fiques aí parada. Anda.»

Ela obedeceu, mas ficou a vaguejar desconsoladamente junto à janela do patamar. Dava para norte, por isso havia pouca vista, e nenhuma vista do céu. Agora, como no Inverno, os pinheiros pendiam perto dos seus olhos. Associava-se a janela do patamar à depressão. Nenhum problema definido a ameaçava, mas suspirou para consigo: «Oh, meu Deus, que hei-de fazer, que hei-de fazer?» Parecia-lhe que toda a gente se estava a portar muito mal. E não devia ter mencionado a carta de Miss Bartlett. Tinha de ser mais cuidadosa; a mãe era bastante curiosa, e podia ter perguntado de que tratava. Oh, meu Deus, que havia de fazer? — e então Freddy subiu saltando as escadas, e juntou-se às fileiras dos mal-educados.

«Ouve lá, aquelas pessoas são formidáveis.»

«Meu querido bebé, que tão maçador que tu foste! Não tens nada que levá-los a banhar-se no Lago Sagrado; é um sítio demasiado público. Para ti era óptimo, mas era extremamente embaraçoso para os outros. Tem mais cuidado. Esqueces-te que este lugar está a ficar meio suburbano.»

«Ouve, há alguma coisa para daqui a uma semana?»

«Que eu saiba, não.»

«Então eu quero convidar os Emersons para o ténis de domingo.»

«Oh, Freddy, eu não faria isso, não faria isso com esta trapalhada toda.»

«O que é que tem o campo? Eles não se importam com um solavanco ou dois, e eu já encomendei bolas novas.»

«O que eu queria dizer é que é melhor não. A sério que quero dizer isso.»

Ele agarrou-a pelos cotovelos e dançou-a humoristicamente para cima e para baixo no corredor. Ela fingiu não se importar, mas podia ter gritado de raiva. Cecil olhou para eles enquanto prosseguia para o seu toucador, e eles atrapalharam Mary com a ninhada de botijas de água quente. Então Mrs. Honeychurch abriu a porta e disse: «Lucy, que barulho é esse que tu estás a fazer! Tenho uma coisa para te dizer. Disseste que tinhas recebido uma carta de Charlotte?» e Freddy fugiu.

«Sim. A sério que não posso parar. Também me tenho de vestir.»

«Como está a Charlotte?»

«Bem.»

«Lucy!»

A infeliz rapariga voltou atrás.

«Tens o mau hábito de fugires pelo meio das frases dos outros. A Charlotte mencionou a caldeira dela?»

«A quê?»

«Não te lembras de que a caldeira dela tinha de ser tirada em Outubro, e o depósito do banho limpo, e uma série de chatices tremendas?»

«Não me posso lembrar de todas as worries da Charlotte», disse Lucy com amargura. «Já terei que chegue das minhas, agora que tu não estás satisfeita com Cecil.»

Mrs. Honeychurch poderia ter explodido. Não explodiu. Disse: «Vem cá, velha amiga — obrigada por me guardares o chapéu — dá-me um beijo.» E, embora nada seja perfeito, Lucy sentiu por um momento que a mãe e Windy Corner e o Weald ao sol poente eram perfeitos.

Assim a aspereza saiu da vida. Geralmente saía em Windy Corner. No último momento, quando a máquina social ficava irremediavelmente encravada, um membro ou outro da família deitava-lhe uma gota de óleo. Cecil desprezava os métodos deles — talvez com razão. Em todo o caso, não eram os dele.

O jantar era às sete e meia. Freddy tagarelou a graça, e puxaram as pesadas cadeiras e começaram a comer. Por felicidade, os homens tinham fome. Nada de extraordinário aconteceu até à sobremesa. Então Freddy disse:

«Lucy, como é o Emerson?»

«Eu vi-o em Florença», disse Lucy, esperando que isto passasse por resposta.

«Ele é do tipo inteligente, ou é um tipo decente?»

«Pergunta ao Cecil; foi o Cecil que o trouxe aqui.»

«Ele é do tipo inteligente, como eu», disse Cecil.

Freddy olhou para ele com dúvida.

«De que tão bem os conheceste no Bertolini?» perguntou Mrs. Honeychurch.

«Oh, muito de passagem. Quer dizer, a Charlotte ainda os conhecia menos do que eu.»

«Oh, isso faz-me lembrar — nunca me disseste o que a Charlotte dizia na carta dela.»

«Uma coisa e outra», disse Lucy, wondering se conseguiria passar a refeição sem uma mentira. «Entre outras coisas, que uma amiga terrível dela tinha passado de bicicleta pela Summer Street, wondered se ela queria subir para nos ver, e misericordiosamente não veio.»

«Lucy, eu acho a maneira como falas muito pouco gentil.»

«Ela era romancista», disse Lucy astutamente. A observação foi feliz, pois nada irritava tanto Mrs. Honeychurch como literatura nas mãos de mulheres. Ela abandonava qualquer assunto para declamar contra aquelas mulheres que (em vez de tratarem das suas casas e dos seus filhos) buscam notoriedade pela imprensa. A sua atitude era: «Se hão-de escrever livros, que sejam escritos por homens»; e ela desenvolveu-a extensamente, enquanto Cecil bocejava e Freddy jogava às pedrinhas da ameixa ao «Este ano, no próximo, agora, nunca», e Lucy astutamente atiçava as chamas da ira da mãe. Mas pouco depois o incêndio morreu, e os fantasmas começaram a juntar-se na escuridão. Havia fantasmas a mais. O fantasma original — aquele toque de lábios na sua face — certamente fora exorcizado há muito; nada podia significar para ela que um homem a tivesse beijado uma vez numa montanha. Mas ele gerara uma família espectral — Mr. Harris, a carta de Miss Bartlett, as memórias de Mr. Beebe sobre violetas — e um ou outro destes estava destinado a assombrá-la diante dos próprios olhos de Cecil. Foi Miss Bartlett que voltou agora, e com uma nitidez apavorante.

«Estive a pensar, Lucy, naquela carta da Charlotte. Como está ela?»

«Eu rasguei aquilo.»

«Ela não dizia como estava? Como soa? Animada?»

«Oh, sim, suponho que sim — não — não muito animada, suponho.»

«Então, podes ter a certeza, é a caldeira. Sei por experiência como a água rói o espírito. Preferia qualquer outra coisa — mesmo uma desgraça com a carne.»

Cecil pôs a mão sobre os olhos.

«Eu também», afirmou Freddy, apoiando a mãe — apoiando o espírito da observação mais do que a substância.

«E estive a pensar», acrescentou ela um tanto nervosa, «certamente que podíamos arranjar lugar para a Charlotte cá na próxima semana, e dar-lhe umas boas férias enquanto os canalizadores em Tunbridge Wells acabam. Não vejo a pobre Charlotte há tanto tempo.»

Era mais do que os seus nervos podiam aguentar. E não podia protestar com violência depois da bondade da mãe lá em cima.

«Mãe, não!» suplicou. «É impossível. Não podemos ter a Charlotte para cima das outras coisas; já estamos apertadíssimos. O Freddy tem um amigo a vir na terça, está o Cecil, e tu prometeste ficar com a Minnie Beebe por causa do medo da difteria. Simplesmente não é possível.»

« Disparates! É possível.»

«Se a Minnie dormir na banheira. De outra forma, não.»

«A Minnie pode dormir contigo.»

«Não a quero.»

«Então, se és tão egoísta, o Mr. Floyd que partilhe o quarto com o Freddy.»

«Miss Bartlett, Miss Bartlett, Miss Bartlett», gemeu Cecil, pondo outra vez a mão sobre os olhos.

«É impossível», repetiu Lucy. «Não quero criar dificuldades, mas realmente não é justo para as criadas encher a casa assim.»

Ai!

«A verdade, querida, é que não gostas da Charlotte.»

«Não, não gosto. E o Cecil também não. Ela estraga-nos os nervos. Tu não a vês ultimamente, e não percebes como ela pode ser maçadora, embora tão boa. Por isso, mãe, não nos aborrecas este último Verão; mas mima-nos não a convidando para vir.»

«Muito bem, muito bem!» disse Cecil.

Mrs. Honeychurch, com mais gravidade do que o habitual, e com mais sentimento do que habitualmente se permitia, respondeu: «Isso não é muito gentil da vossa parte. Vocês têm-se um ao outro e todos estes bosques para passear, tão cheios de coisas belas; e a pobre Charlotte só tem a água cortada e canalizadores. Vocês são novos, meus filhos, e por mais聪明的 que os jovens sejam, e por mais livros que leiam, nunca adivinharão o que se sente ao envelhecer.»

Cecil desfez o pão em migalhas.

«Devo dizer que a Prima Charlotte foi muito gentil comigo naquele ano em que lá passei de bicicleta», interveio Freddy. «Ela agradeceu-me tanto por ter ido que me senti um parvo, e não se poupou a esforços para me cozer um ovo como deve ser para o meu chá.»

«Eu sei, querido. Ela é gentil com toda a gente, e no entanto a Lucy põe esta dificuldade quando tentamos dar-lhe alguma pequena compensação.»

Mas Lucy endureceu o coração. Não havia vantagem em ser gentil para Miss Bartlett. Ela própria já tentara vezes de mais e demasiado recentemente. Podia-se acumular tesouro no céu com a tentativa, mas não se enriquecia nem Miss Bartlett nem mais ninguém na terra. Foi reduzida a dizer: «Não posso, mãe. Não gosto da Charlotte. Admito que é horrível da minha parte.»

«Pelo que tu própria contas, disseste-lhe o mesmo.»

«Bem, ela saiu de Florença tão estupidamente. Ela atrapalhou-se—»

Os fantasmas estavam a voltar; enchiam a Itália, estavam mesmo a usurpar os lugares que ela conhecera em criança. O Lago Sagrado nunca mais seria o mesmo, e, no domingo de hoje a oito dias, alguma coisa havia de acontecer até a Windy Corner. Como haveria ela de lutar contra os fantasmas? Por um momento o mundo visível esvaneceu-se, e só as memórias e as emoções pareceram reais.

«Suponho que Miss Bartlett tem de vir, já que coze ovos tão bem», disse Cecil, que estava de humor bastante mais alegre, graças à excelente cozinha.

«Eu não queria dizer que o ovo estava bem cozido», corrigiu Freddy, «porque no fundo ela esqueceu-se de o tirar, e na verdade eu não gosto de ovos. Só quis dizer como ela pareceu tão simpática.»

Cecil franziu o sobrolho outra vez. Oh, estes Honeychurch! Ovos, caldeiras, hortênsias, criadas — de tais coisas eram feitas as suas vidas. «Posso eu e a Lucy levantar-nos das cadeiras?» perguntou, com uma insolência mal disfarçada. «Não queremos sobremesa nenhuma.»

Capítulo XIV Como Lucy Encarou Corajosamente a Situação Exterior

Claro que Miss Bartlett aceitou. E, naturalmente, também se sentiu certa de que ia ser uma chatice, e pediu que lhe dessem um quarto de reserva inferior — qualquer coisa sem vista, qualquer coisa. Lembranças a Lucy. E, naturalmente, George Emerson podia vir jogar ténis no domingo de hoje a oito dias.

Lucy enfrentou a situação com coragem, embora, como a maioria de nós, só enfrentasse a situação que a cercava. Nunca olhou para dentro. Se por vezes estranhas imagens subiam das profundezas, atribuía-as aos nervos. Quando Cecil trouxe os Emersons para Summer Street, isso tinha-lhe perturbado os nervos. Charlotte viria dar brilho a tolices passadas, e isso poderia perturbar-lhe os nervos. Ela tinha os nervos à flor da pele à noite. Quando falava com George — encontraram-se de novo quase imediatamente na Reitoria — a voz dele comover-a profundamente, e ela desejou permanecer perto dele. Que horror se realmente desejasse permanecer perto dele! Claro, o desejo era culpa dos nervos, que gostam de nos pregar tão perversos truques. Em tempos ela sofrera de «coisas que vinham do nada e significavam ela não sabia quê». Agora Cecil lhe explicara a psicologia numa tarde chuvosa, e todas as inquietações da juventude num mundo desconhecido podiam ser postas de parte.

É óbvio para o leitor concluir: «Ela ama o jovem Emerson.» Uma leitora no lugar de Lucy não acharia óbvio. A vida é fácil de crónica, mas desnorteante de praticar, e acolhemos os «nervos» ou qualquer outra senha que disfarce o nosso desejo pessoal. Ela amava Cecil; George punha-a nervosa; irá o leitor explicar-lhe que as frases deveriam ter sido trocadas?

Mas a situação exterior — ela vai enfrentá-la com coragem.

O encontro na Reitoria tinha corrido suficientemente bem. De pé entre Mr. Beebe e Cecil, fizera algumas alusões moderadas à Itália, e George respondera. Ela estava ansiosa por mostrar que não era tímida, e ficou contente por ele também não parecer tímido.

«Um bom rapaz», disse Mr. Beebe depois. «Haverá de gastar as suas rudezas com o tempo. Eu desconfio um tanto dos jovens que entram na vida com elegância.»

Lucy disse: «Parece estar com melhor disposição. Ri mais.»

«Sim», respondeu o clérigo. «Está a despertar.»

Foi tudo. Mas, à medida que a semana avançava, mais algumas das suas defesas caíram, e ela acarinhou uma imagem que tinha beleza física. Apesar das instruções mais claras, Miss Bartlett conseguiu atrapalhar a sua chegada. Era esperada na estação do South-Eastern em Dorking, onde Mrs. Honeychurch foi de carro buscá-la. Apareceu na estação de Londres e Brighton, e teve de alugar um carro até cima. Não estava ninguém em casa excepto Freddy e o amigo dele, que tiveram de interromper o ténis e entreterem-na durante uma hora inteira. Cecil e Lucy apareceram às quatro horas, e estes, com a pequena Minnie Beebe, formaram um sexteto algo lugubre no relvado superior para o chá.

«Nunca me perdoarei», disse Miss Bartlett, que não parava de se levantar do lugar, e tinha de ser rogada pela companhia reunida a ficar sentada. «Estraguei tudo. Irromper assim por gente nova! Mas insisto em pagar o meu carro até cima. Concedam-me pelo menos isso.»

«Os nossos visitantes nunca fazem coisas tão terríveis», disse Lucy, enquanto o irmão, na memória de quem o ovo cozido já se tornara inconsistente, exclamou em tons irritados: «Exactamente o que tenho estado a tentar convencer a Prima Charlotte, Lucy, durante a última meia hora.»

«Eu não me sinto uma visitante vulgar», disse Miss Bartlett, e olhou para a luva esfiadapada.

«Muito bem, se realmente preferes. Cinco xelins, e eu dei um xelim ao motorista.»

Miss Bartlett olhou para a bolsa. Só sovereigns e pennies. Podia alguém dar-lhe troco? Freddy tinha meio quid e o amigo tinha quatro meias-coroas. Miss Bartlett aceitou o dinheiro deles e depois disse: «Mas a quem é que eu dou o sovereign?»

«Vamos deixar tudo para quando a mãe voltar», sugeriu Lucy.

«Não, querida; a tua mãe pode dar um passeio bastante longo agora que não está atrapalhada comigo. Todos temos as nossas pequenas manias, e a minha é pagar as contas prontamente.»

Aqui o amigo de Freddy, Mr. Floyd, fez a única observação dele que vale a pena citar: ofereceu-se para fazer à sorte com o Freddy pelo quid de Miss Bartlett. Uma solução pareceu estar à vista, e até Cecil, que estivera ostensivamente a beber o seu chá a olhar para a vista, sentiu a atracção eterna do Acaso, e virou-se.

Mas isto também não resultou.

«Por favor — por favor — sei que sou uma péssima estraga-prazeres, mas isso tornar-me-ia miserável. Praticamente estaria a roubar quem perdesse.»

—O Freddy deve-me quinze xelins — interrompeu Cecil. — Por isso ficará tudo certo se der a libra a mim.

—Quinze xelins? — disse Miss Bartlett, dubitativa. — Como assim, Mr. Vyse?

—Porque, não vê, o Freddy pagou-lhe o cabriolé. Dê-me a libra e evitaremos este deplorável jogo de azar.

Miss Bartlett, que era fraca em contas, ficou confusa e entregou o soberano, entre os gargalhadas abafadas dos outros rapazes. Por um momento Cecil foi feliz. Estava a brincar com disparates entre os seus pares. Depois olhou para Lucy, no rosto de quem pequenas ansiedades tinham estragado os sorrisos. Em Janeiro resgataria o seu Leonardo desta estonteante tagarelice.

—Mas eu não percebo isso! — exclamou Minnie Beebe, que seguira atentamente a iníqua transacção. — Não percebo por que Mr. Vyse há-de ficar com o quid.

—Por causa dos quinze xelins e dos cinco — disseram eles solenemente. — Quinze xelins e cinco xelins fazem uma libra, vê lá.

—Mas eu não percebo—

Tentaram abafá-la com bolo.

—Não, obrigada. Já chega. Não percebo porquê— Freddy, não me empurres. Miss Honeychurch, o seu irmão está a magoar-me. Ai! E os dez xelins do Mr. Floyd? Ai! Não, não percebo e nunca hei-de perceber por que Miss-qual-é-o-nome não há-de pagar essa nota ao cocheeiro.

—Tinha-me esquecido do cocheeiro — disse Miss Bartlett, corando. — Obrigada, querida, por me lembrares. Foi um xelim, não foi? Alguém me pode dar troco para meia coroa?

—Eu vou buscá-lo — disse a jovem anfitriã, levantando-se com decisão.

—Cecil, dá-me essa soberano. Não, dá-me cá essa soberano. Vou pedir à Euphemia para trocá-lo, e recomeçamos tudo de novo do princípio.

—Lucy — Lucy — que maçada que eu sou! — protestou Miss Bartlett, e seguiu-a pelo relvado. Lucy seguiu à frente, fingindo hilaridade. Quando ficaram fora do alcance da voz, Miss Bartlett interrompeu as suas lamentações e disse, muito expeditamente: — Já lhe contaste a história dele?

—Não, não contei — respondeu Lucy, e logo se poderia ter mordido a língua por ter percebido tão depressa o que a prima queria dizer. — Deixe ver — troco para uma libra.

Escondeu-se na cozinha. As mudanças súbitas de Miss Bartlett eram demasiado inquietantes. Às vezes parecia que ela planeava cada palavra que dizia ou que fazia dizer; como se toda aquela preocupação com cabriolés e troco tivesse sido um ardil para surpreender a alma.

—Não, não contei a Cecil nem a ninguém — observou, quando voltou. — Prometi-lhe que não contaria. Aqui está o seu dinheiro — tudo em xelins, excepto duas meias coroas. Quer contar? Pode resolver agora a sua dívida como deve ser.

Miss Bartlett estava na sala, a olhar para a fotografia de São João a ascender, que fora emoldurada.

—Que horror! — murmurou. — Que mais do que horror, se Mr. Vyse viesse a sabê-lo por outra fonte!

—Oh, não, Charlotte — disse a rapariga, entrando na batalha. — O George Emerson é perfeitamente correcto, e que outra fonte existe?

Miss Bartlett reflectiu. —Por exemplo, o cocheeiro. Vi-o a espreitar através dos arbustos para si, lembrem-se que ele tinha uma violeta entre os dentes.

Lucy estremeceu um pouco. —Se não tivermos cuidado, vamos deixar que esta história tola nos afecte os nervos. Como é que um cocheeiro florentino poderia chegar a Cecil?

—Temos de pensar em todas as possibilidades.

—Oh, está tudo bem.

—Ou talvez o velho Mr. Emerson saiba. De facto, é certo que sabe.

—Não me importa que saiba. Fiquei-lhe grata pela sua carta, mas mesmo que a notícia se espalhe, creio poder confiar em Cecil para rir disso.

—Para o contradizer?

—Não, para rir disso. Mas sabia no coração que não podia confiar nele, pois ele desejava-a intacta.

—Muito bem, querida, você é que sabe. Talvez os homens sejam diferentes do que eram quando eu era nova. As senhoras são certamente diferentes.

—Oh, Charlotte! — atacou-a ludicamente. —Criatura querida e ansiosa. Que querias tu que eu fizesse? Primeiro dizes «Não contes»; e depois dizes «Conta». O que é, afinal? Rápido!

Miss Bartlett suspirou: —Não estou à sua altura em conversação, minha querida. Corro quando penso como interferi em Florença, sendo você tão capaz de cuidar de si, e em todos os sentidos muito mais inteligente do que eu. Nunca me perdoará.

—Vamos então sair. Se não formos, partem toda a loiça.

Pois o ar ressoava com os gritos de Minnie, que estava a ser escalpada com uma colher de chá.

—Querida, um momento — poderemos não ter outra oportunidade para conversar. Já viste o rapaz?

—Sim, já vi.

—O que aconteceu?

—Encontrámo-nos na Reitoria.

—Que posição está ele a tomar?

—Nenhuma posição. Falou sobre Itália, como qualquer outra pessoa. Está tudo realmente bem. Que vantagem tiraria ele de ser um grosseiro, para falar cruamente? Quem me dera consegui-la ver as coisas como eu. Ele não vai ser incomodativo, Charlotte.

—Uma vez grosseiro, grosseiro para sempre. É a minha pobre opinião.

Lucy fez uma pausa. —Cecil disse um dia — e achei tão profundo — que há duas espécies de grosseiros: o consciente e o subconsciente. Fez nova pausa, para ser justa com a profundidade de Cecil. Pela janela viu Cecil em pessoa, folheando as páginas de um romance. Era um volume novo da biblioteca Smith. A mãe devia ter voltado da estação.

—Uma vez grosseiro, grosseiro para sempre — cantou Miss Bartlett.

—O que eu quero dizer com subconsciente é que o Emerson perdeu a cabeça. Caí no meio daquelas violetas, e ele ficou tolo e surpreendido. Não creio que devamos culpá-lo muito. Faz tanta diferença quando se vê uma pessoa com coisas belas atrás de si, inesperadamente. Faz mesmo; faz uma diferença enorme, e ele perdeu a cabeça: não me admira nem coisa que se pareça, nem um palinho. O Freddy gosta bastante dele e convidou-o para cá no domingo, portanto pode julgá-lo por si mesma. Ele melhorou; já nem sempre parece estar a ponto de rebentar em lágrimas. É escriturário no escritório do Director-Geral de uma das grandes companhias de caminhos-de-ferro — não é porteiro! — e desce até ao pai aos fins-de-semana. O papá tinha que ver com jornalismo, mas está reumático e reformou-se. Pronto! Agora, vamos ao jardim. —Pegou no braço da sua hóspede. —Suponhamos que não falamos mais deste negócio italiano. Queremos que tenha uma estadia agradável e repousante em Windy Corner, sem preocupações.

Lucy achou o discurso bastante bom. O leitor talvez tenha detectado uma lamentável falha nele. Se Miss Bartlett detectou a falha, não se pode dizer, pois é impossível penetrar na mente das pessoas idosas. Poderia ter falado mais, mas foram interrompidas pela entrada da anfitriã. Deram-se explicações, e no meio delas Lucy escapou, com as imagens a latejar um pouco mais vivamente no cérebro.

Capítulo XV O Desastre Interior

O domingo a seguir à chegada de Miss Bartlett foi um dia glorioso, como a maior parte dos dias daquele ano. No Weald, o outono aproximava-se, quebrando a monotonia verde do verão, tocando os parques com o brilho cinzento da bruma, as faias com castanho, os carvalhos com ouro. Nos cumes, batalhões de pinheiros negros testemunhavam a mudança, eles próprios imutáveis. Qualquer um dos campos era coberto por um céu sem nuvens, e em qualquer deles soava o tinido dos sinos da igreja.

O jardim de Windy Corners estava deserto, excepto por um livro vermelho que se estendia ao sol sobre o caminho de cascalho. Da casa vinham sons incoerentes, como de mulheres a prepararem-se para o culto. —Os homens dizem que não vão — «Bem, não os culpo» — Minnie diz: «Será que ela tem mesmo de ir?» — «Diz-lhe que não haja disparates» — «Anne! Mary! Aperta-me atrás!» — «Queridíssima Lucia, posso abusar de si para me dar um alfinete?» É que Miss Bartlett tinha anunciado que ela, em todo o caso, era a favor da igreja.

O sol subiu mais alto na sua jornada, guiado, não por Faetonte, mas por Apolo, competente, inabalável, divino. Os seus raios caíam sobre as senhoras sempre que elas avançavam para as janelas dos quartos; sobre Mr. Beebe, lá em Summer Street, enquanto sorria para uma carta de Miss Catharine Alan; sobre George Emerson a limpar as botas do pai; e, por fim, para completar o catálogo de coisas memoráveis, sobre o livro vermelho mencionado antes. As senhoras movem-se, Mr. Beebe move-se, George move-se, e o movimento pode gerar sombra. Mas este livro jaz imóvel, para ser acariciado toda a manhã pelo sol e para erguer ligeiramente as suas capas, como se agradecesse a carícia.

Momentos depois Lucy sai pela janela da sala. O seu novo vestido cor de cereja fora um fracasso e fá-la parecer vistosa e pálida. Na garganta traz um broche de granada, no dedo um anel com rubis — uma aliança de noivado. Os seus olhos estão voltados para o Weald. Franze um pouco a testa — não de raiva, mas como um menino corajoso a franzir a testa quando tenta não chorar. Em toda aquela extensão nenhum olho humano a observa, e pode franzir a testa sem repreensão e medir os espaços que ainda sobrevivem entre Apolo e as colinas do poente.

—Lucy! Lucy! Que livro é esse? Quem tirou um livro da estante e o deixou aí a estragar-se?

—É só o livro da biblioteca que o Cecil estava a ler.

—Mas apanha-o, e não fiques aí parada como um flamingo.

Lucy apanhou o livro e olhou para o título com indiferença: *Under a Loggia*. Já não lia romances por si, dedicando todo o tempo livre a literatura séria na esperança de alcançar Cecil. Era assustador o pouco que sabia, e mesmo quando pensava saber uma coisa, como os pintores italianos, descobria que já se tinha esquecido. Só nessa manhã tinha confundido Francesco Francia com Piero della Francesca, e Cecil dissera: «O quê! Já te estás a esquecer da tua Itália?» E isto também tinha posto ansiedade nos seus olhos quando saudou a querida vista e o querido jardim em primeiro plano, e acima deles, quase inconcebível noutro lugar, o querido sol.

—Lucy, tens um xelim para a Minnie e outro para ti?

Apressou-se a entrar junto da mãe, que estava rapidamente a armar-se com a confusão de domingo.

—É uma colecta especial — não me lembro para quê. Peço-vos, nada de tilintar vulgarmente moedas no prato com meios-pennies; vê que a Minnie tenha um xelim bonito e brilhante. Onde está a criança? Minnie! Esse livro está todo deformado. (Santo Deus, que aspecto tão vulgar tu tens!) Põe-no debaixo do Atlas para ficar direito. Minnie!

—Oh, Mrs. Honeychurch— — veio das regiões superiores.

—Minnie, não te atrases. Aí vem o cavalo — era sempre o cavalo, nunca a carruagem. Onde está a Charlotte? Sobe e apressa-a. Porque demora tanto? Ela não tinha nada para fazer. Nunca traz nada senão blusas. Pobre Charlotte — como eu detesto blusas! Minnie!

O paganismo é contagioso — mais contagioso que a difteria ou a piedade — e a sobrinha do Reitor foi levada à igreja a protestar. Como de costume, não via porquê. Porque não havia de ficar ao sol com os rapazes? Os rapazes, que entretanto tinham aparecido, zombavam dela com palavras pouco generosas. Mrs. Honeychurch defendeu a ortodoxia, e no meio da confusão Miss Bartlett, vestida no auge da moda, veio passeando escada abaixo.

—Querida Marian, lamento muito, mas não tenho troco — nada excepto soberanos e meias coroas. Poderia alguém dar-me—

—Sim, com certeza. Salta para dentro. Meu Deus, que aspecto tão elegante! Que vestido tão lindo! Envergonha-nos a todas.

—Se não vestir agora as minhas melhoresROUPAS e andrajos, quando hei-de vesti-los? — disse Miss Bartlett com acento de censura. Subiu para a vitória e colocou-se de costas para o cavalo. O ruído necessário fez-se ouvir, e depois partiram.

—Adeus! Portem-se bem! — gritou Cecil.

Lucy mordeu o lábio, pois o tom era trocista. Sobre o assunto da «igreja e assim» tinham tido uma conversa pouco satisfatória. Ele dissera que as pessoas devem rever-se a si próprias, e ela não queria rever-se; não sabia que isso se fizesse. Cecil respeitava a ortodoxia honesta, mas partia sempre do princípio que a honestidade é resultado de uma crise espiritual; não conseguia imaginá-la como um direito natural, que pode crescer para o céu como as flores. Tudo o que ele dissera sobre o assunto lhe causara dor, embora ele transpirasse tolerância por todos os poros; de qualquer modo, os Emerson eram diferentes.

Viu os Emerson depois da igreja. Havia uma fila de carruagens pela estrada abaixo, e o veículo dos Honeychurch ficou por acaso em frente da Cissie Villa. Para poupar tempo, atravessaram o relvado a pé e encontraram pai e filho a fumar no jardim.

—Apresenta-me — disse a mãe. —A não ser que o rapaz considere que já me conhece.

Provavelmente conhecia; mas Lucy ignorou o Lago Sagrado e apresentou-os formalmente. O velho Mr. Emerson reclamou-a com grande calor e disse como se alegrava de que ela fosse casar. Ela disse que sim, também se alegrava; e depois, como Miss Bartlett e Minnie ficaram para trás com Mr. Beebe, desviou a conversa para um tema menos perturbador e perguntou-lhe como tinha gostado da casa nova.

—Muito — respondeu ele, mas havia uma nota de ressentimento na voz; ela nunca o tinha visto ofendido antes. Acrescentou: —Verificámos, porém, que as Miss Alans estavam para vir e que as pusemos fora. As mulheres ligam a coisas destas. Estou muito aborrecido com isso.

—Creio que houve algum mal-entendido — disse Mrs. Honeychurch, incomodada.

—O nosso senhorio foi informado de que seríamos um tipo diferente de pessoa — disse George, que parecia disposto a levar o assunto mais longe. —Ele pensou que seríamos artísticos. Está desiludido.

—E eu pergunto-me se devíamos escrever às Miss Alans a oferecer-nos para ceder-lhes a casa. Que acha? —dirigiu-se a Lucy.

—Oh, fiquem agora que já vieram — disse Lucy, levemente. Tinha de evitar censurar Cecil. Pois era em torno de Cecil que o pequeno episódio girava, embora o nome dele nunca fosse pronunciado.

—É o que o George diz. Ele diz que as Miss Alans que se arranjem. Mesmo assim, parece tão indelicado.

—Só há uma certa quantidade de bondade no mundo — disse George, observando o sol a piscar nos painéis das carruagens que passavam.

—Pois é! — exclamou Mrs. Honeychurch. —É exactamente o que eu digo. Para que toda esta tagarelice sobre duas Miss Alans?

—Há uma certa quantidade de bondade, tal como há uma certa quantidade de luz — continuou ele em tons medidos. —Lançamos uma sombra sobre qualquer coisa onde quer que estejamos, e não vale a pena mudar de lugar para lugar para salvar as coisas; porque a sombra segue-nos sempre. Escolha um lugar onde não cause dano — sim, escolha um lugar onde não cause muito dano, e fique nele com toda a força, de frente para o sol.

—Oh, Mr. Emerson, vejo que é inteligente!

—Hein?

—Vejo que vai ser inteligente. Espero que não tenha portado assim com o poor Freddy.

Os olhos de George riram-se, e Lucy suspeitou que ele e a mãe iam dar-se muito bem.

—Não, não me portei — disse ele. —Foi ele que se portou assim comigo. É a filosofia dele. Só que ele começa a vida com ela; e eu primeiro tentei o Ponto de Interrogação.

—Que quer dizer? Não, não importa o que quer dizer. Não explique. Ele conta ir vê-lo esta tarde. Joga ténis? Importa-se que se jogue ténis ao domingo?

—George importar-se com ténis ao domingo! George, depois da sua educação, distinguir entre domingo—

—Muito bem, o George não se importa com ténis ao domingo. Eu também não. Está combinado. Mr. Emerson, se pudesse vir com o seu filho, ficávamos muito contentes.

Ele agradeceu, mas o passeio parecia-lhe um pouco longe; só podia andar devagar nestes dias.

Ela voltou-se para George: —E então ele quer ceder a casa às Miss Alans.

—Eu sei — disse George, e passou o braço à volta do pescoço do pai. A bondade que Mr. Beebe e Lucy sempre souberam existir nele veio ao de repente, como o sol a tocar uma vasta paisagem — um toque do sol da manhã? Ela lembrou-se de que, em todas as suas perversidades, ele nunca falara contra o afecto.

Miss Bartlett aproximou-se.

—Conhece a nossa prima, Miss Bartlett — disse Mrs. Honeychurch, amavelmente. —Esteve com ela com a minha filha em Florença.

—Sim, de facto! — disse o velho, e fez menção de sair do jardim para ir ao encontro da senhora. Miss Bartlett subiu prontamente para a vitória. Assim entrincheirada, lançou uma reverência formal. Era outra vez a pensão Bertolini, a mesa de jantar com os decanters de água e vinho. Era a velha, velha batalha do quarto com a vista.

George não correspondeu à reverência. Como qualquer rapaz, corou e ficou envergonhado; sabia que a acompanhante se lembrava. Disse: «Eu — eu aparecerei para o ténis, se conseguir», e entrou para a casa. Talvez tudo o que ele fizesse tivesse agradado a Lucy, mas a sua falta de jeito tocou-lhe o coração directamente; afinal, os homens não eram deuses, mas tão humanos e tão desajeitados como as raparigas; mesmo os homens podiam sofrer de desejos inexplicados, e precisavam de ajuda. Para alguém da sua educação, e do seu destino, a fraqueza dos homens era uma verdade desconhecida, mas ela tinha-o pressentido em Florença, quando George atirou com as suas fotografias para o rio Arno.

—George, não vás — gritou o pai, que achava uma grande prenda para as pessoas se o filho lhes quisesse falar. —O George tem estado tão bem disposto hoje, e tenho a certeza de que acabará por vir esta tarde.

Lucy apanhou o olhar da prima. Alguma coisa no seu apelo mudo fê-la atrever-se. —Sim — disse, levantando a voz —, espero bem que sim. —Depois foi para a carruagem e murmurou: —O velho não foi informado; sabia que estava tudo bem. Mrs. Honeychurch seguiu-a, e partiram.

Era satisfatório que Mr. Emerson não tivesse sido informado da escapadela de Florença; mesmo assim, o ânimo de Lucy não deveria ter saltado como se tivesse avistado as muralhas do céu. Satisfatório; mas decerto ela o saudou com uma alegria desproporcionada. Durante todo o trajecto, as patas dos cavalos cantaram-lhe uma melodia: «Ele não contou, ele não contou.» O cérebro dela expandiu a melodia: «Ele não contou ao pai — a quem conta todas as coisas. Não foi uma proeza. Não se riu de mim depois de eu ir embora.» Levou a mão à face. «Ele não me ama. Não. Como seria terrível se me amasse! Mas ele não contou. Não contará.»

Desejava gritar as palavras: «Está tudo bem. É um segredo entre nós dois para sempre. Cecil nunca saberá.» Até ficou contente por Miss Bartlett a ter feito prometer segredo, naquela última tarde escura em Florença, quando tinham estado de joelhos a fazer as malas dele. O segredo, grande ou pequeno, estava guardado.

Apenas três ingleses sabiam do caso no mundo inteiro. Assim ela interpretou a sua alegria. Saudou Cecil com um brilho invulgar, porque se sentia tão segura. Quando ele a ajudou a sair da carruagem, disse:

—Os Emerson foram tão simpáticos. O George Emerson melhorou imenso.

—Como estão os meus protegidos? — perguntou Cecil, que não tinha verdadeiro interesse neles, e há muito esquecera a resolução de os trazer a Windy Corner para fins educativos.

—Protegidos! — exclamou ela com algum calor. Pois a única relação que Cecil concebia era a feudal: a de protector e protegido. Não tinha vislumbre da camaradagem pela qual a alma da rapariga ansiava.

—Verá por si mesma como estão os seus protegidos. O George Emerson vem esta tarde. É um homem muito interessante para conversar. Só não— —Ia quase a dizer: «Não o protejas.» —Mas o sino tocava para o almoço e, como acontecia muitas vezes, Cecil não prestara grande atenção às suas palavras. O charme, e não a argumentação, deveria ser o seu forte.

O almoço foi uma refeição alegre. Geralmente Lucy ficava deprimida às refeições. Alguém tinha de ser consolado — Cecil, ou Miss Bartlett, ou um Ser invisível ao olho mortal — um Ser que lhe sussurrava à alma: «Isto não durará, esta alegria. Em Janeiro terá de ir a Londres entreter os netos de homens célebres.» Mas naquele dia sentia que recebera uma garantia. A mãe estaria sempre ali sentada, o irmão ali. O sol, embora se tivesse movido um pouco desde a manhã, jamais ficaria escondido atrás das colinas do poente. Depois do almoço pediram-lhe que tocasse. Tinha visto a Armide de Gluck nesse ano, e tocou de memória a música do jardim encantado — a música a que Renaud se aproxima, sob a luz de uma aurora eterna, a música que nunca cresce, nunca decresce, mas ondulando para sempre como os mares sem marés da terra das fadas. Tal música não é para piano, e a sua audiência começou a ficar inquieta, e Cecil, partilhando o descontentamento, exclamou: «Agora toca-nos o outro jardim — o do Parsifal.»

Fechou o instrumento.

—Nada muito cumpridor — disse a voz da mãe.

Temendo ter ofendido Cecil, virou-se rapidamente. Era George. Tinha entrado sem a interromper.

—Oh, eu não fazia ideia! — exclamou ela, ficando muito vermelha; e depois, sem uma palavra de saudação, tornou a abrir o piano. Cecil teria o Parsifal, e tudo o mais que ele quisesse.

—A nossa intérprete mudou de ideias — disse Miss Bartlett, talvez insinuando que ela tocará a música para o senhor Emerson. Lucy não sabia o que fazer nem sequer o que queria fazer. Tocou alguns compassos da Canção das Donzelas das Flores muito mal e depois parou.

—Eu voto pelo ténis — disse Freddy, desgostoso com o espectáculo aos bocados.

—Sim, eu também. — Uma vez mais ela fechou o piano desventurado. —Voto que vocês joguem um quatro de homens.

—Está bem.

—Eu não, obrigado — disse Cecil. —Não vou estragar o set. Nunca se apercebia de que pode ser um acto de bondade, num mau jogador, fazer de quarto.

—Oh, vai lá, Cecil. Eu sou mau, o Floyd é péssimo, e atrever-me-ia a dizer que o Emerson também é.

George corrigiu-o: —Eu não sou mau.

Olhou-se de nariz empinado para isto. —Então com certeza não jogo — disse Cecil, enquanto Miss Bartlett, sob a impressão de que estava a snobar George, acrescentou: —Estou de acordo consigo, Sr. Vyse. Faz muito melhor em não jogar. Muito melhor não.

Minnie, avançando atrevidamente onde Cecil temia pisar, anunciou que jogaria. —Falhei todas as bolas de qualquer maneira, por isso que importa? — Mas o domingo interveio e estampou-se pesadamente sobre a amável sugestão.

—Então terá de ser a Lucy — disse Mrs. Honeychurch; —tens de recorrer à Lucy. Não há outra saída. Lucy, vai mudar de vestido.

O Sabbath de Lucy era geralmente desta natureza anfíbia. Guardava-o sem hipocrisia de manhã, e quebrava-o sem relutância à tarde. Enquanto mudava de vestido, perguntou-se se Cecil estaria a troçar dela; na verdade, tinha de se revisar a si mesma e resolver tudo antes de casar com ele.

Mr. Floyd era o seu parceiro. Gostava de música, mas como o ténis parecia melhor! Como era melhor correr por aí em roupas confortáveis do que sentar-se ao piano e sentir-se apertada sob os braços. Mais uma vez a música lhe pareceu ocupação de criança. George serviu, e surpreendeu-a com a sua ansiedade de vencer. Lembrou-se de como ele suspirara entre os túmulos de Santa Croce porque as coisas não encaixavam; de como, depois da morte daquele obscuro italiano, ele se debruçara sobre o parapeito junto ao Arno e lhe dissera: «Hei-de querer viver, digo-lhe eu.» Queria viver agora, vencer no ténis, manter-se de pé com toda a sua valia ao sol — o sol que começara a declinar e que lhe feria os olhos; e ele venceu.

Ah, como o Weald parecia belo! As colinas sobressaíam acima do seu resplendor, como Fiesole se ergue acima da Planície Toscana, e os South Downs, se alguém quisesse, eram as montanhas de Carrara. Poderia estar a esquecer a sua Itália, mas notava mais coisas na sua Inglaterra. Podia-se jogar um novo jogo com a vista, e tentar encontrar nos seus inúmeros recessos alguma cidade ou aldeia que servisse para Florença. Ah, como o Weald parecia belo!

Mas agora Cecil a reclamava. Dava o caso de estar num humor lúcido e crítico, e não queria simpatizar com a exaltação. Tinha sido bastante maçador durante todo o ténis, porque o romance que lia era tão mau que era obrigado a lê-lo em voz alta aos outros. Passeava pelas redondezas do campo e exclamava: «Ouve lá, Lucy. Três infinitivos partidos.»

—Horrível! — disse Lucy, e falhou a jogada. Quando terminaram o set, ele continuou a ler; havia uma cena de assassinato, e realmente todos tinham de a ouvir. Freddy e Mr. Floyd foram obrigados a procurar uma bola perdida nos loureiros, mas os outros dois aquiesceram.

—A cena passa-se em Florença.

—Que divertido, Cecil! Lê lá. Anda, Mr. Emerson, senta-te depois de toda a tua energia. —Ela tinha «perdoado» George, como ela dizia, e fazia questão de ser simpática com ele.

Ele saltou a rede e sentou-se aos pés dela perguntando: —E tu — estás cansada?

—Claro que não!

—Importas-te de ter perdido?

Ia responder «Não», quando lhe ocorreu que se importava, por isso respondeu: «Sim.» Acrescentou alegremente: «Mas não vejo que sejas tão esplêndido jogador. A luz estava atrás de ti, e era nos meus olhos.»

—Eu nunca disse que era.

—Pois disseste!

—Tu não estavas atenta.

—Disseste — oh, não te ponhas com exactidões nesta casa. Todos nós exageramos, e zangamo-nos muito com quem não exagera.

—«A cena passa-se em Florença» — repetiu Cecil, com uma nota ascendente.

Lucy voltou a si.

—«Pôr-do-sol. Leonora ia a correr—»

Lucy interrompeu. —Leonora? É Leonora a heroína? De quem é o livro?

—Joseph Emery Prank. «Pôr-do-sol. Leonora atravessando a correr a praça. Rogava aos santos que não chegasse tarde demais. Pôr-do-sol — o pôr-do-sol de Itália. Sob a Loggia de Orcagna — a Loggia de' Lanzi, como por vezes lhe chamamos agora—»

Lucy rebentou a rir. —«Joseph Emery Prank» nem mais! Pois é Miss Lavish! É o romance de Miss Lavish, e ela está a publicá-lo com o nome de outra pessoa.

—Quem é Miss Lavish?

—Oh, uma pessoa dreadful — Mr. Emerson, lembra-se de Miss Lavish?

Excitada com a sua agradável tarde, bateu palmas.

George ergueu os olhos. —Claro que me lembro. Vi-a no dia em que cheguei a Summer Street. Foi ela quem me disse que tu vivias aqui.

—Não ficastes contente? — Queria dizer «por ter visto Miss Lavish», mas quando ele se inclinou para a relva sem responder, ocorreu-lhe que podia querer dizer outra coisa. Observou-lhe a cabeça, que quase descansava contra o seu joelho, e pensou que as orelhas estavam a enrubescer. —Não é de admirar que o romance seja mau — acrescentou. —Nunca gostei de Miss Lavish. Mas suponho que se deve lê-lo como se a tivéssemos encontrado.

—Todos os livros modernos são maus — disse Cecil, incomodado com a sua distração, e descarregou o incómodo na literatura. —Toda a gente escreve por dinheiro nestes tempos.

—Oh, Cecil—!

—É assim. Não vos infligirei mais Joseph Emery Prank.

Cecil, naquela tarde, parecia uma pardal chilreiro. As oscilações da sua voz eram notórias, mas não a afectavam. Ela tinha vivido entre melodia e movimento, e os seus nervos recusavam responder ao clangor do dele. Deixando-o ficar incomodado, fitou de novo a cabeça negra. Não queria afagá-la, mas via-se a querer afagá-la; a sensação era estranha.

—Que lhe parece esta nossa vista, Mr. Emerson?

—Eu nunca noto grande diferença nas vistas.

—Que quer dizer?

—Porque são todas iguais. Porque tudo o que nelas importa é a distância e o ar.

—H'm! — fez Cecil, incerto se a observação era notável ou não.

—O meu pai — ergueu ele os olhos para ela (e estava um pouco corado) — diz que só há uma vista perfeita — a vista do céu mesmo por cima das nossas cabeças, e que todas estas vistas na terra não passam de cópias mal amanhadas dela.

—Suponho que o seu pai tem andado a ler Dante — disse Cecil, folheando o romance, que era a única coisa que lhe permitia conduzir a conversa.

—Ele disse-nos outro dia que as vistas são realmente multidões — multidões de árvores e casas e colinas — e têm de se parecer umas com as outras, como as multidões humanas — e que o poder que têm sobre nós é por vezes sobrenatural, pela mesma razão.

Os lábios de Lucy entreabriram-se.

—Porque uma multidão é mais do que as pessoas que a compõem. Algo lhe é acrescentado — ninguém sabe como — tal como algo foi acrescentado a estas colinas.

Apontou com a raquete para os South Downs.

—Que ideia esplêndida! — murmurou ela. —Hei-de gostar de ouvir o seu pai falar outra vez. Lamento tanto que ele não esteja tão bem.

—Não, ele não está bem.

—Há uma descrição absurda de uma vista neste livro — disse Cecil. —E também que os homens se dividem em duas classes — os que esquecem as vistas e os que se lembram delas, mesmo em quartos pequenos.

—Mr. Emerson, tem irmãos ou irmãs?

—Nenhum. Porquê?

—Falou em «nós.»

—A minha mãe, era o que queria dizer.

Cecil fechou o romance com um estalo.

—Oh, Cecil — que susto me pregaste!

—Não vos infligirei mais Joseph Emery Prank.

—Eu mal me lembro de todos nós três a irmos para o campo um dia e a vermos até Hindhead. É a primeira coisa de que me lembro.

Cecil levantou-se; o homem era mal-educado — não tinha posto o casaco depois do ténis — não servia. Teria passeado dali fora se Lucy não o tivesse detido.

—Cecil, lê lá aquela coisa da vista.

—Não enquanto o Mr. Emerson aqui estiver para nos entreter.

—Não — lê lá. Acho que nada é mais engraçado do que ouvir coisas tolas lidas em voz alta. Se o Mr. Emerson nos achar frívolas, que vá.

Isto pareceu subtil a Cecil, e agradou-lhe. Colocava o visitante na posição de um presumido. Algo apaziguado, tornou a sentar-se.

—Mr. Emerson, vá procurar bolas de ténis. — Abriu o livro. Cecil haveria de ter a sua leitura e tudo o mais que ele quisesse. Mas a sua atenção vagueou para a mãe de George, que — segundo Mr. Eager — fora assassinada à vista de Deus e — segundo o filho — vira até Hindhead.

—Hei-de ir mesmo? — perguntou George.

—Não, claro que não a sério — respondeu ela.

—Capítulo dois — disse Cecil, bocejando. —Encontre-me o capítulo dois, se não for incómodo.

O capítulo dois foi encontrado, e ela relanceou os olhos pelas suas primeiras frases.

Pensou que enlouquecera.

—Aqui — dá-me o livro.

Ouviu a sua própria voz a dizer: «Não vale a pena ler — é demasiado tolo para se ler — nunca vi coisa tão absurda — nem devia ser permitido ser impresso.»

Ele tirou-lhe o livro.

—«Leonora» — leu ele — «sentada pensativa e sozinha. Diante dela estendia-se o rico campestre da Toscana, salpicado de muitas aldeias sorridentes. A estação era a primavera.»

Miss Lavish soubera, de alguma forma, e imprimira o passado em prosa amarrotada, para Cecil ler e para George ouvir.

—«Uma bruma dourada» — leu ele. Leu: «Ao longe as torres de Florença, enquanto o banco onde ela se sentava se tapetava de violetas. Imprevisto, Antonio aproximou-se por trás dela—»

Para que Cecil não lhe visse o rosto, virou-se para George e viu o rosto dele.

Ele leu: «Dos seus lábios não saiu nenhuma protestação palavrosa como as que usam os amantes formais. Não tinha eloquência, nem padecia da falta dela. Simplesmente envolveu-a nos seus braços varonis.»

—Esta não é a passagem que eu queria — informou-os ele — há outra muito mais engraçada, mais adiante. Passou as folhas.

—Íamos para o chá? — disse Lucy, cuja voz permanecera firme.

Ela tomou a dianteira em direcção ao jardim, Cecil a segui-la, George por último. Pensou que um desastre fora evitado. Mas quando entraram no arvoredo, ele surgiu. O livro, como se não tivesse feito mal suficiente, fora esquecido, e Cecil teve de voltar para o ir buscar; e George, que amava apaixonadamente, teve de ir chocar contra ela no caminho estreito.

—Não— — ela arquejou, e, pela segunda vez, foi beijada por ele.

Como se nada mais fosse possível, ele recuou; Cecil juntou-se-lhe; atingiram o relvado superior sozinhos.

Capítulo XVI Mentir a George

Mas Lucy evoluíra desde a primavera. Isto é, estava agora mais capaz de sufocar as emoções que as convenções e o mundo desaprovam. Embora o perigo fosse maior, não se deixou abalar por soluços profundos. Disse a Cecil: «Não vou para o chá — diz à mãe — tenho de escrever umas cartas», e subiu ao seu quarto. Depois, preparou-se para a acção. O amor sentido e correspondido, o amor que os nossos corpos exigem e os nossos corações transfiguraram, o amor que é a coisa mais real que alguma vez encontraremos, reaparecia agora como o inimigo do mundo, e ela tinha de o sufocar.

Mandou chamar Miss Bartlett.

O combate não era entre o amor e o dever. Talvez nunca exista tal combate. Era entre o real e o fingido, e o primeiro objectivo de Lucy era derrotar-se a si mesma. Enquanto o cérebro se toldava, enquanto a memória das vistas esmorecia e as palavras do livro morriam, ela regressou ao seu velho shibboleth dos nervos. «Venceu o seu colapso.» Manipulando a verdade, esqueceu que a verdade jamais existira. Lembrando-se de que estava noiva de Cecil, obrigou-se a recordações confusas de George; ele não era nada para ela; nunca fora nada; tinha-se portado abominavelmente; ela nunca o encorajara. A armadura da falsidade é subtilmente forjada a partir da escuridão, e esconde um homem não só dos outros, mas da sua própria alma. Em poucos momentos, Lucy estava apetrechada para a batalha.

—Aconteceu uma coisa terrível demais — começou, assim que a prima chegou. —Sabes alguma coisa sobre o romance de Miss Lavish?

Miss Bartlett pareceu surpreendida, e disse que não tinha lido o livro, nem sabia que fora publicado; Eleanor era uma mulher reservada no fundo.

—Há uma cena nele. O herói e a heroína fazem amor. Sabes alguma coisa disso?

—Querida—?

—Sabes alguma coisa disso, por favor? — repetiu ela. —Estão numa encosta, e Florença está ao longe.

—Minha boa Lúcia, estou completamente perdida. Não sei nada disso seja o que for.

—Há violetas. Não posso acreditar que seja coincidência. Charlotte, Charlotte, como pudeste ter-lhe contado? Pensei antes de falar; tens de ter sido tu.

—Contado o quê? — perguntou ela, com crescente agitação.

—Sobre aquela tarde dreadful em Fevereiro.

Miss Bartlett ficou genuinamente comovida. —Oh, Lucy, minha querida — ela não pôs isso no livro dela?

Lucy acenou com a cabeça.

—Não de modo que se pudesse reconhecer. Sim.

—Então nunca — nunca — nunca mais Eleanor Lavish será minha amiga.

—Então contaste mesmo?

—Contei por acaso — quando fui tomar chá com ela em Roma — no decurso da conversa—

—Mas Charlotte — e a promessa que me fizeste quando estávamos a fazer as malas? Porque contaste a Miss Lavish, quando nem sequer me deixaste contar à mãe?

—Nunca perdoarei Eleanor. Traiu a minha confiança.

—Mas porque lhe contaste, afinal? Isto é uma coisa da maior gravidade.

Porque conta alguém seja o que for? A pergunta é eterna, e não era de admirar que Miss Bartlett apenas suspirasse tenuemente em resposta. Fezera mal — admitia-o, só esperava não ter feito mal; contara a Eleanor na mais estrita confiança.

Lucy bateu com o pé de irritação.

—Cecil veio ler-me a passagem em voz alta, a mim e ao Mr. Emerson; perturbou o Mr. Emerson e ele insultou-me outra vez. Pelas costas de Cecil. Ugh! Será possível que os homens sejam tão brutos? Pelas costas de Cecil, enquanto subíamos o jardim.

Miss Bartlett rebentou em auto-acusações e lamentações.

—O que há a fazer agora? Podes dizer-me?

—Oh, Lucy — nunca me perdoarei, nunca até ao meu último dia. Imagina se as tuas perspectivas—

—Eu sei — disse Lucy, estremecendo com a palavra. —Agora percebo porque é que querias que eu contasse a Cecil, e o que querias dizer com «alguma outra fonte.» Sabias que tinhas contado a Miss Lavish, e que ela não era de confiança.

Foi a vez de Miss Bartlett estremecer. «Todavia», disse a rapariga, desprezando a falta de rectidão da prima, «o que está feito está feito. Puseste-me numa posição das mais incómodas. Como é que saio disto?»

Miss Bartlett não conseguia pensar. Os dias da sua energia tinham passado. Era uma visita, não um chaperon, e uma visita desacreditada por cima. Ficou de pé com as mãos juntas enquanto a rapariga se trabalhava em fúria.

—Ele — aquele homem — tem de levar um tal correctivo que não esqueça. E quem lha vai dar? Não posso contar à mãe agora — por tua causa. Nem a Cecil, Charlotte — por tua causa. Estou bloqueada de todo. Acho que enlouqueço. Não tenho ninguém que me ajude. Foi por isso que te mandei chamar. O que é preciso é um homem com um chicote.

Miss Bartlett concordou: era preciso um homem com um chicote.

—Sim — mas não vale a pena concordar. O que há a fazer? Nós, mulheres, continuamos a lamuriar. O que faz uma rapariga quando se depara com um canalha?

—Sempre disse que ele era um canalha, querida. Dá-me esse crédito, ao menos. Desde o primeiro momento — quando ele disse que o pai estava a tomar banho.

—Oh, deixa-te de créditos e de quem tem razão ou não! Ambas nós baralhámos isto. George Emerson ainda está lá em baixo no jardim, e há-de ficar impune, ou não? Quero saber.

Miss Bartlett estava absolutamente desamparada. A sua própria exposição desorientara-a, e os pensamentos chocavam dolorosamente no seu cérebro. Dirigiu-se debilmente para a janela, e tentou detectar os flannels brancos do canalha entre os loureiros.

—Estavas bem pronta no Bertolini quando me arrastaste para Roma. Não lhe podes falar outra vez agora?

—De bom grado moveria o céu e a terra—

—Quero algo mais concreto — disse Lucy com desprezo. —Vais falar-lhe? É o mínimo que podes fazer, certamente, considerando que tudo aconteceu porque faltaste à tua palavra.

—Nunca mais Eleanor Lavish será minha amiga.

Realmente, Charlotte estava a superar-se a si própria.

—Sim ou não, por favor; sim ou não.

—É o género de coisa que só um cavalheiro pode resolver. George Emerson vinha a subir o jardim com uma bola de ténis na mão.

—Muito bem — disse Lucy, com um gesto furioso. —Ninguém me quer ajudar. Falarei com ele eu mesma. — E imediatamente compreendeu que era isso que a prima sempre intentara.

—Olá, Emerson! — gritou Freddy de baixo. —Encontraste a bola perdida? Bom homem! Queres chá? — E houve uma irrupção da casa para a terraza.

—Oh, Lucy, mas isso é corajoso da tua parte! Admiro-te—

Tinham-se juntado em torno de George, que chamava, sentia ela, por cima do lixo, dos pensamentos desalinhados, dos anseios furtivos que começavam a atravancar-lhe a alma. A sua ira esmaeceu à vista dele. Ah! Os Emerson eram pessoas finas à sua maneira. Teve de subjugar um ímpeto no sangue antes de dizer:

—O Freddy levou-o para a sala de jantar. Os outros vão pelo jardim abaixo. Anda. Vamos despachar isto depressa. Anda. Quero-te na sala, claro.

—Lucy, importas-te de o fazer?

—Como podes fazer uma pergunta tão ridícula?

—Pobre Lucy— — Estendeu a mão. —Parece que só trago desgraça por onde passo. — Lucy acenou com a cabeça. Lembrou-se da última noite delas em Florença — a mala, a vela, a sombra do chapéu de Miss Bartlett na porta. Não ia ser apanhada pelo pathos uma segunda vez. Esquivando-se à carícia da prima, tomou a dianteira escada abaixo.

—Prova o doce — estava Freddy a dizer. —O doce é óptimo.

George, parecendo grande e desalinhado, andava de um lado para o outro na sala de jantar. Ao entrar ela, parou, e disse:

—Não — não quero nada para comer.

—Vai para os outros — disse Lucy; —Charlotte e eu trataremos do Mr. Emerson. Onde está a mãe?

—Começou a escrever a correspondência de domingo. Está na sala de estar.

—Está bem. Vai-te embora.

Ele afastou-se a cantar.

Lucy sentou-se à mesa. Miss Bartlett, que estava absolutamente assustada, pegou num livro e fingiu ler.

She refused to be drawn into a long speech. She just said: “I can’t have it here, Mr. Emerson. I cannot even talk to you. Go out of this house, and never come into it again as long as I live here—” flushing as she spoke and pointing to the door. “I hate a scene. Please go.”

“What—”

“No discussion.”

“But I can’t—”

She shook her head. “Go, please. I do not want to call Mr. Vyse.”

“You don’t mean,” he said, absolutely ignoring Miss Bartlett—“you don’t mean that you are going to marry that man?”

The question was unexpected.

She shrugged her shoulders, as if his vulgarity wearied her. “You are simply ridiculous,” she said quietly.

Then his words rose gravely above hers: “You cannot live with Vyse. He’s only fit for an acquaintance. He is for society and cultivated talk. He should know no one intimately, least of all a woman.”

It was a new light on Cecil’s character.

“Have you ever talked to Vyse without feeling tired?”

“I can scarcely discuss—”

“No, but have you ever? He is the sort who are all right so long as they keep to things—books, pictures—but kill when they come to people. That is why I will speak out through all this confusion even now. It is shocking enough to lose you in any case, but generally a man must deny himself joy, and I would have held back if your Cecil had been a different person. I would never have let myself go. But I saw him first in the National Gallery, when he winced because my father mispronounced the names of great painters. Then he brings us here, and we find it is to play some silly trick on a kind neighbour. That is the man all over—playing tricks on people, on the most sacred form of life that he can find. Next, I meet you together, and find him protecting and teaching you and your mother to be shocked, when it was for you to decide whether you were shocked or not. Cecil all over again. He dares not let a woman decide. He is the type that has held Europe back for a thousand years. Every moment of his life he is forming you, telling you what is charming or amusing or ladylike, telling you what a man thinks womanly; and you, you of all women, listen to his voice instead of to your own. So it was at the Rectory, when I met you both again; so it has been the whole of this afternoon. Therefore—not ‘therefore I kissed you,’ because the book made me do that, and I wish to goodness I had more self-control. I am not ashamed. I do not apologize. But it has frightened you, and you may not have noticed that I love you. Or would you have told me to go, and dealt with a tremendous thing so lightly? But therefore—therefore I resolved to fight him.”

Lucy thought of a very good remark.

“You say Mr. Vyse wants me to listen to him, Mr. Emerson. Pardon me for suggesting that you have caught the habit.”

And he took the shoddy reproof and touched it into immortality. He said:

“Yes, I have,” and sank down as if suddenly weary. “I am the same kind of brute at bottom. This desire to govern a woman—it lies very deep, and men and women must fight it together before they shall enter the garden. But I do love you surely in a better way than he does.” He reflected. “Yes—really in a better way. I want you to have your own thoughts even when I hold you in my arms.” He stretched them towards her. “Lucy, be quick—there is no time for us to talk now—come to me as you came in the spring, and afterwards I will be gentle and explain. I have cared for you since that man died. I cannot live without you. ‘No good,’ I thought; ‘she is marrying someone else’; but I meet you again when all the world is glorious water and sun. As you came through the wood I saw that nothing else mattered. I called. I wanted to live and have my chance of joy.”

“And Mr. Vyse?” said Lucy, who kept commendably calm. “Does he not matter? That I love Cecil and shall be his wife shortly? A detail of no importance, I suppose?”

But he stretched his arms over the table towards her.

“May I ask what you intend to gain by this exhibition?”

He said: “It is our last chance. I shall do all that I can.” And as if he had done all else, he turned to Miss Bartlett, who sat like some portent against the skies of evening. “You would not stop us this second time if you understood,” he said. “I have been into the dark, and I am going back into it, unless you will try to understand.”

Her long, narrow head moved backwards and forwards, as though demolishing some invisible obstacle. She did not answer.

“It is being young,” he said quietly, picking up his racket from the floor and preparing to go. “It is being certain that Lucy cares for me really. It is that love and youth matter intellectually.”

In silence the two women watched him. His last remark, they knew, was nonsense, but was he going after it or not? Would not he, the cad, the charlatan, attempt a more dramatic finish? No. He was apparently content. He left them, carefully closing the front door; and when they looked through the hall window, they saw him go up the drive and begin to climb the slopes of withered fern behind the house. Their tongues were loosened, and they burst into stealthy rejoicings.

“Oh, Lucia—come back here—oh, what an awful man!”

Lucy had no reaction—at least, not yet. “Well, he amuses me,” she said. “Either I am mad, or else he is, and I am inclined to think it is the latter. One more fuss gone through with you, Charlotte. Many thanks. I think, though, that this is the last. My admirer will hardly trouble me again.”

And Miss Bartlett, too, essayed the roguish:

“Well, it isn’t everyone who could boast of such a conquest, dearest, is it? Oh, one ought not to laugh, really. It might have been very serious. But you were so sensible and brave—so unlike the girls of my day.”

“Let’s go down to them.”

But, once in the open air, she paused. Some emotion—pity, terror, love, but the emotion was strong—seized her, and she was aware of autumn. Summer was ending, and the evening brought her odours of decay, the more pathetic because they were reminiscent of spring. That something or other mattered intellectually? A leaf, violently agitated, danced past her, while other leaves lay motionless. That the earth was hastening to re-enter darkness, and the shadows of those trees over Windy Corner?

“Hullo, Lucy! There’s still light enough for another set, if you two’ll hurry.”

“Mr. Emerson has had to go.”

“What a nuisance! That spoils the four. I say, Cecil, do play, do, there’s a good chap. It’s Floyd’s last day. Do play tennis with us, just this once.”

Cecil’s voice came: “My dear Freddy, I am no athlete. As you well remarked this very morning, ‘There are some chaps who are no good for anything but books’; I plead guilty to being such a chap, and will not inflict myself on you.”

The scales fell from Lucy’s eyes. How had she endured Cecil for a moment? He was absolutely intolerable, and that same evening she broke off her engagement.

Chapter XVII Lying to Cecil

He was bewildered. He had nothing to say. He was not even angry, but stood, with a glass of whisky between his hands, trying to think what had led her to such a conclusion.

She had chosen the moment before bed, when, in accordance with their bourgeois habit, she always dispensed drinks to the men. Freddy and Mr. Floyd were sure to retire with their glasses, while Cecil invariably lingered, sipping at his while she locked up the sideboard.

“I am very sorry about it,” she said; “I have carefully thought things over. We are too different. I must ask you to release me, and try to forget that there ever was such a foolish girl.”

It was a suitable speech, but she was more angry than sorry, and her voice showed it.

“Different—how—how—”

“I haven’t had a really good education, for one thing,” she continued, still on her knees by the sideboard. “My Italian trip came too late, and I am forgetting all that I learnt there. I shall never be able to talk to your friends, or behave as a wife of yours should.”

“I don’t understand you. You aren’t like yourself. You’re tired, Lucy.”

“Tired!” she retorted, kindling at once. “That is exactly like you. You always think women don’t mean what they say.”

“Well, you sound tired, as if something has worried you.”

“What if I do? It doesn’t prevent me from realizing the truth. I can’t marry you, and you will thank me for saying so some day.”

“You had that bad headache yesterday—All right”—for she had exclaimed indignantly: “I see it’s much more than headaches. But give me a moment’s time.” He closed his eyes. “You must excuse me if I say stupid things, but my brain has gone to pieces. Part of it lives three minutes back, when I was sure that you loved me, and the other part—I find it difficult—I am likely to say the wrong thing.”

It struck her that he was not behaving so badly, and her irritation increased. She again desired a struggle, not a discussion. To bring on the crisis, she said:

“There are days when one sees clearly, and this is one of them. Things must come to a breaking-point some time, and it happens to be to-day. If you want to know, quite a little thing decided me to speak to you—when you wouldn’t play tennis with Freddy.”

“I never do play tennis,” said Cecil, painfully bewildered; “I never could play. I don’t understand a word you say.”

“You can play well enough to make up a four. I thought it abominably selfish of you.”

“No, I can’t—well, never mind the tennis. Why couldn’t you—couldn’t you have warned me if you felt anything wrong? You talked of our wedding at lunch—at least, you let me talk.”

“I knew you wouldn’t understand,” said Lucy quite crossly. “I might have known there would be these dreadful explanations. Of course, it isn’t the tennis—that was only the last straw to all I have been feeling for weeks. Surely it was better not to speak until I felt certain.” She developed this position. “Often before I have wondered if I was fitted to be your wife—for instance, in London; and are you fitted to be my husband? I don’t think so. You don’t like Freddy, nor my mother. There was always a lot against our engagement, Cecil, but all our relations seemed pleased, and we met so often, and it was no good mentioning it until—well, until all things came to a point. They have to-day. I see clearly. I must speak. That is all.”

“I cannot think you were right,” said Cecil gently. “I cannot tell why, but though all that you say sounds true, I feel that you are not treating me fairly. It is all too horrible.”

“What’s the good of a scene?”

“No good. But surely I have a right to hear a little more.”

He put down his glass and opened the window. From where she knelt, jingling her keys, she could see a slit of darkness, and, peering into it, as if it would tell him that “little more,” his long, thoughtful face.

“Don’t open the window; and you’d better draw the curtain, too; Freddy or anyone might be outside.” He obeyed. “I really think we had better go to bed, if you don’t mind. I shall only say things that will make me unhappy afterwards. As you say it is all too horrible, and it is no good talking.”

But to Cecil, now that he was about to lose her, she seemed each moment more desirable. He looked at her, instead of through her, for the first time since they were engaged. From a Leonardo she had become a living woman, with mysteries and forces of her own, with qualities that even eluded art. His brain recovered from the shock, and, in a burst of genuine devotion, he cried: “But I love you, and I did think you loved me!”

“I did not,” she said. “I thought I did at first. I am sorry, and ought to have refused you this last time, too.”

He began to walk up and down the room, and she grew more and more vexed at his dignified behaviour. She had counted on his being petty. It would have made things easier for her. By a cruel irony she was drawing out all that was finest in his disposition.

“You don’t love me, evidently. I dare say you are right not to. But it would hurt a little less if I knew why.”

“Because”—a phrase came to her, and she accepted it—“you are the sort who can’t know anyone intimately.”

A horrified look came into his eyes.

“I don’t mean exactly that. But you will question me, though I beg you not to, and I must say something. It is that, more or less. When we were only acquaintances, you let me be myself, but now you are always protecting me.” Her voice swelled. “I won’t be protected. I will choose for myself what is ladylike and right. To shield me is an insult. Can’t I be trusted to face the truth but I must get it second-hand through you? A woman’s place! You despise my mother—I know you do—because she is conventional and worries over puddings; but, oh goodness!”—she rose to her feet—“conventional, Cecil, you are that, for you may understand beautiful things, but you don’t know how to use them; and you wrap yourself up in art and books and music, and would try to wrap up me. I won’t be stifled, not by the most glorious music, for people are more glorious, and you hide them from me. That is why I break off my engagement. You were all right as long as you kept to things, but when you came to people—” She stopped.

There was a pause. Then Cecil said with great emotion:

“It is true.”

“True on the whole,” she corrected, full of some vague shame.

“True, every word. It is a revelation. It is—I.”

“Anyhow, those are my reasons for not being your wife.”

He repeated: “‘The sort who can know no one intimately.’ It is true. I fell to pieces the very first day we were engaged. I behaved like a cad to Beebe and to your brother. You are even greater than I thought.” She withdrew a step. “I am not going to worry you. You are far too good to me. I shall never forget your insight; and, dear, I only blame you for this: you might have warned me in the early stages, before you felt you wouldn’t marry me, and so have given me a chance to improve. I have never known you till this evening. I have just used you as a peg for my silly notions of what a woman should be. But this evening you are a different person: new thoughts—even a new voice—”

“What do you mean by a new voice?” she asked, seized with uncontrollable anger.

“I mean that a new person seems speaking through you,” said he.

Then she lost her balance. She cried: “If you think I am in love with someone else, you are very much mistaken.”

“Of course I don’t think that. You are not that kind, Lucy.”

“Oh, yes, you do think it. It is your old idea, the idea that has kept Europe back—I mean the idea that women are always thinking of men. If a girl breaks off her engagement, everyone says: ‘Oh, she had someone else in her mind; she hopes to get someone else.’ It is disgusting, brutal! As if a girl can’t break it off for the sake of freedom.”

He answered reverently: “I may have said that in the past. I shall never say it again. You have taught me better.”

She began to redden, and pretended to examine the windows again.

“Of course, there is no question of ‘someone else’ in this, no ‘jilting’ or any such nauseous stupidity. I beg your pardon most humbly if my words suggested that there was. I only meant that there was a force in you that I hadn’t known of up till now.”

“All right, Cecil, that will do. Don’t apologize to me. It was my mistake.”

“It is a question between ideals, yours and mine—pure abstract ideals, and yours are the nobler. I was bound up in the old vicious notions, and all the time you were splendid and new.” His voice broke. “I must actually thank you for what you have done—for showing me what I really am. Solemnly, I thank you for showing me a true woman. Will you shake hands?”

“Of course I will,” said Lucy, twisting up her other hand in the curtains. “Good night, Cecil. Good-bye. That is all right. I am sorry about it. Thank you very much for your gentleness.”

“Shall I light your candle?”

They went into the hall.

“Thank you. Good night again. God bless you, Lucy!”

“Good-bye, Cecil.”

She watched him steal up the stairs, while the shadows from three banisters passed over her face like the beat of wings. On the landing he paused, strong in his renunciation, and gave her a look of memorable beauty. For all his culture, Cecil was an ascetic at heart, and nothing in his love became him like the leaving of it.

She could never marry. In the tumult of her soul, that stood firm. Cecil believed in her; she must some day believe in herself. She must be one of the women whom she had praised so eloquently, who care for liberty and not for men; she must forget that George loved her, that George had been thinking through her and gained her this honourable release, that George had gone away into—what was it?—the darkness.

She put out the lamp.

It did not do to think, nor, for the matter of that, to feel. She gave up trying to understand herself, and joined the vast armies of the benighted, who follow neither the heart nor the brain, and march to their destiny by catchwords. The armies are full of pleasant and pious folk. But they have yielded to the only enemy that matters—the enemy within. They have sinned against passion and truth, and vain will be their striving after virtue. As the years pass, they are censured. Their pleasantry and their piety show cracks, their wit becomes cynicism, their unselfishness hypocrisy; they feel and produce discomfort wherever they go. They have sinned against Eros and against Pallas Athene, and not by any heavenly intervention, but by the ordinary course of nature, those allied deities will be avenged.

Lucy entered this army when she pretended to George that she did not love him, and pretended to Cecil that she loved no one. The night received her, as it had received Miss Bartlett thirty years before.

Chapter XVIII Lying to Mr. Beebe, Mrs. Honeychurch, Freddy, and the Servants

Windy Corner lay, not on the summit of the ridge, but a few hundred feet down the southern slope, at the springing of one of the great buttresses that supported the hill. On either side of it was a shallow ravine, filled with ferns and pine-trees, and down the ravine on the left ran the highway into the Weald.

Sempre que o Sr. Beebe atravessava a crista e avistava aquelas nobres disposições da terra, e, equilibrado no meio delas, Windy Corner, ele ria. A situação era tão gloriosa, a casa tão vulgar, para não dizer impertinente. O falecido Sr. Honeychurch apreciara o cubo, porque lhe dava mais acomodação pelo seu dinheiro, e a única adição feita por sua viúva fora uma pequena torre, em forma de chifre de rinoceronte, onde ela podia sentar-se em tempo chuvoso e ver as carroças subindo e descendo a estrada. Tão impertinente—e ainda assim a casa "ficava", pois era o lar de pessoas que amavam sinceramente o que as cercava. Outras casas na vizinhança tinham sido construídas por arquitetos caros, sobre outras os seus habitantes tinham-se agitado solícitamente, contudo todas estas sugeriam o acidental, o temporário; enquanto Windy Corner parecia tão inevitável como uma feiura da própria criação da Natureza. Podia-se rir da casa, mas nunca se estremecia. O Sr. Beebe ia de bicicleta por ali aquela tarde de segunda-feira com uma novidade. Tinha sabido pelas Miss Alans. Estas admiráveis senhoras, uma vez que não podiam ir a Cissie Villa, tinham mudado os seus planos. Iam em vez disso para a Grécia.

"Uma vez que Florença fez tão bem à minha pobre irmã", escreveu Miss Catharine, "não vemos por que não havemos de tentar Atenas este inverno. Certamente, Atenas é um salto, e o médico mandou-lhe pão digestivo especial; mas, afinal, podemos levá-lo connosco, e é só meter-se primeiro num vapor e depois num comboio. Mas haverá uma Igreja Inglesa?" E a carta prosseguia: "Não espero que vamos mais longe do que Atenas, mas se souber de uma pensão realmente confortável em Constantinopla, ficaríamos tão gratas."

Lucy iria gostar desta carta, e o sorriso com que o Sr. Beebe saudou Windy Corner era em parte por causa dela. Ela veria a piada, e parte da sua beleza, pois ela devia ver alguma beleza. Embora fosse desesperada para quadros, e embora se vestisse tão desigualmente—oh, aquele vestido cor de cereja ontem na igreja!—ela devia ver alguma beleza na vida, ou não poderia tocar piano como tocava. Ele tinha uma teoria de que os músicos são incrivelmente complexos, e sabem muito menos do que outros artistas o que querem e o que são; que se intrigam a si próprios tanto como aos amigos; que a sua psicologia é um desenvolvimento moderno, e ainda não foi compreendida. Esta teoria, se ele a conhecesse, tinha possivelmente acabado de ser ilustrada por factos. Ignorando os acontecimentos de ontem, ele ia apenas até lá para tomar chá, ver a sua sobrinha, e observar se Miss Honeychurch via algo de belo no desejo de duas senhoras idosas de visitar Atenas.

Uma carruagem estava parada diante de Windy Corner, e justamente quando ele avistou a casa ela arrancou, subiu apressadamente pela entrada, e parou bruscamente quando atingiu a estrada principal. Portanto devia ser o cavalo, que esperava sempre que as pessoas subissem a colina a pé no caso de o cansarem. A porta abriu-se obedientemente, e dois homens saíram, que o Sr. Beebe reconheceu como Cecil e Freddy. Eram um par estranho para ir passear de carro; mas ele viu uma mala ao lado das pernas do cocheiro. Cecil, que usava uma cartola, devia ir-se embora, enquanto Freddy (uma boina)—ia levá-lo à estação. Caminharam rapidamente, tomando os atalhos, e atingiram o cume enquanto a carruagem seguia ainda as curvas da estrada.

Apertaram a mão ao clérigo, mas não falaram.

"Então vai ausentar-se por um instante, Sr. Vyse?" perguntou ele.

Cecil disse "Sim", enquanto Freddy se afastava.

"Eu vinha mostrar-lhe esta carta deliciosa dessas amigas de Miss Honeychurch." Citou de memória. "Não é maravilhoso? Não é romântico? Muito certamente elas hão de ir a Constantinopla. Caem num laço que não pode falhar. Acabarão por dar a volta ao mundo."

Cecil ouviu com civilidade, e disse que estava certo de que Lucy se divertiria e se interessaria.

"Não é caprichoso o Romance! Nunca o noto em vocês, jovens; vocês não fazem senão jogar ténis, e dizem que o romance morreu, enquanto as Miss Alans lutam com todas as armas da propriedade contra a terrível coisa. 'Uma pensão realmente confortável em Constantinopla!' Chamam-lhe assim por decência, mas no fundo dos seus corações querem uma pensão com janelas mágicas abrindo-se sobre a espuma de mares perigosos na terra das fadas, desolada! Nenhuma vista ordinária contentará as Miss Alans. Elas querem a Pensão Keats."

"Lamento muito interromper, Sr. Beebe", disse Freddy, "mas o senhor tem fósforos?"

"Eu tenho", disse Cecil, e não escapou à atenção do Sr. Beebe que ele falara ao rapaz com mais gentileza.

"O senhor nunca conheceu estas Miss Alans, pois não, Sr. Vyse?"

"Nunca."

"Então não vê a maravilha desta visita à Grécia. Eu nunca fui à Grécia, e não tenciono ir, e não posso imaginar nenhum dos meus amigos a ir. É absolutamente grande de mais para o nosso pequeno lote. Não acha? A Itália é já quase o máximo do que conseguimos. A Itália é heróica, mas a Grécia é divina ou diabólica—não sei bem qual, e em qualquer caso absolutamente fora do nosso foco suburbano. Está bem, Freddy—não estou a ser esperto, palavra de honra que não—a ideia tirei-a de outro tipo; e dê-me os fósforos quando acabar de os usar." Acendeu um cigarro, e continuou a falar aos dois jovens. "Eu dizia, se as nossas pobres vidinhas de londrinos têm de ter um fundo, que seja italiano. Já é grande de sobra, em boa consciência. Para mim, o tecto da Capela Sistina. Ali o contraste é já o máximo que consigo conceber. Mas o Parténon, não; o friso de Fídias, a nenhum preço; e aí vem a vitória."

"O senhor tem toda a razão", disse Cecil. "A Grécia não é para o nosso pequeno lote"; e entrou. Freddy seguiu-o, acenando com a cabeça ao clérigo, em quem confiava que não estivesse a gozar com ele, realmente. E antes de terem percorrido uma dúzia de metros saltou, e veio a correr para trás para buscar a caixa de fósforos de Vyse, que não tinha sido devolvida. Quando a pegou, disse: "Ainda bem que o senhor só falou de livros. Cecil está muito ferido. A Lucy não vai casar com ele. Se tivesse continuado a falar dela, como falou delas, ele talvez tivesse desmoronado."

"Mas quando—"

"Tarde, na noite passada. Tenho de ir."

"Talvez eles não me queiram lá em baixo."

"Não—vá. Adeus."

"Graças a Deus!" exclamou o Sr. Beebe para si próprio, e bateu com a mão no selim da bicicleta em sinal de aprovação. "Foi a única coisa tola que ela fez. Oh, que livramento glorioso!" E, após breve reflexão, desceu a encosta até Windy Corner, leve de coração. A casa estava de novo como devia estar—cortada para sempre do mundo pretensioso de Cecil.

Encontraria Miss Minnie no jardim.

Na sala de estar Lucy dedilhava uma Sonata de Mozart. Ele hesitou um momento, mas desceu ao jardim como pedido. Ali encontrou uma companhia pesarosa. Era um dia de ventania, e o vento tinha arrancado e partido as dálias. A Sra. Honeychurch, com ar zangado, estava a amarrá-las, enquanto Miss Bartlett, inadequadamente vestida, a atrapalhava com ofertas de ajuda. A pouca distância estavam Minnie e a "criança-do-jardim", uma pequena aquisição, cada uma segurando uma extremidade de um longo pedaço de fio de embalsar.

"Oh, como está, Sr. Beebe? Meu Deus, que desastre tudo isto! Olhe para os meus pompons escarlates, e o vento a agitar as suas saias, e o chão tão duro que nenhum tutor se aguenta, e depois a carruagem ter de sair, quando eu contava ter aqui o Powell, que—para ser justo—amarra dálias como deve ser."

Evidentemente a Sra. Honeychurch estava desfeita.

"Como está?" disse Miss Bartlett, com um olhar significativo, como transmitindo que mais do que dálias tinham sido cortadas pelos vendavais outonais.

"Aqui, Lennie, o fio", gritou a Sra. Honeychurch. A criança-do-jardim, que não sabia o que era fio, ficou pregada ao caminho de horror. Minnie escapuliu-se para o tio e sussurrou que toda a gente estava muito antipática naquele dia, e que não era culpa dela se os fios de embalsar das dálias rasgavam pelo comprimento em vez de através.

"Vamos dar um passeio", disse-lhe ele. "Já os preocupaste tanto quanto eles aguentam. Sra. Honeychurch, só passei por aqui sem objectivo. Levo-a a tomar chá à Taberna Beehive, se me permite."

"Oh, têm de ir? Sim, vão.—A tesoura não, obrigada, Charlotte, quando já tenho as duas mãos ocupadas—tenho a certeza absoluta de que o cacto cor-de-laranja vai abaixo antes de eu lá chegar."

O Sr. Beebe, que era exímio em aliviar situações, convidou Miss Bartlett a acompanhá-los a esta festa moderada.

"Sim, Charlotte, não te quero—vai; não há nada que interesse cá dentro ou lá fora."

Miss Bartlett disse que o seu dever estava no canteiro das dálias, mas depois de ter exasperado toda a gente, excepto Minnie, com uma recusa, voltou-se e exasperou Minnie com uma aceitação. Enquanto subiam pelo jardim, o cacto cor-de-laranja caiu, e a última visão do Sr. Beebe foi a da criança-do-jardim abraçando-o como um amante, a sua cabeça escura enterrada numa abundância de flores.

"É terrível, esta devastação entre as flores", observou ele.

"É sempre terrível quando a promessa de meses é destruída num momento", enunciou Miss Bartlett.

"Talvez devêssemos mandar Miss Honeychurch para baixo, para junto da mãe. Ou virá connosco?"

"Acho que é melhor deixar Lucy para si mesma, e para os seus próprios afazeres."

"Estão zangadas com Miss Honeychurch porque ela chegou tarde ao pequeno-almoço", sussurrou Minnie, "e o Floyd foi-se embora, e o Sr. Vyse foi-se embora, e o Freddy não quer brincar comigo. Em suma, tio Arthur, a casa não é nada do que era ontem."

"Não sejas pedante", disse o tio Arthur. "Vai calçar as botas."

Ele entrou na sala de estar, onde Lucy continuava a perseguir atentamente as Sonatas de Mozart. Ela parou quando ele entrou.

"Como está? Miss Bartlett e Minnie vêm comigo tomar chá à Beehive. Vens também?"

"Acho que não, obrigada."

"Não, eu também não supunha que te apetecesse muito."

Lucy voltou-se para o piano e atacou alguns acordes.

"Que delicadas que são aquelas Sonatas!" disse o Sr. Beebe, embora no fundo do coração as achasse coisinhas tolas.

Lucy passou para Schumann.

"Miss Honeychurch!"

"Sim."

"Encontrei-os no monte. O seu irmão contou-me."

"Oh, contou?" Soou aborrecida. O Sr. Beebe sentiu-se magoado, pois tinha pensado que ela gostaria que ele soubesse.

"Não preciso dizer que não vai mais longe."

"Mãe, Charlotte, Cecil, Freddy, o senhor", disse Lucy, tocando uma nota por cada pessoa que sabia, e tocando depois uma sexta nota.

"Com sua licença, fico muito contente, e tenho a certeza de que fez a coisa certa."

"Era o que esperava que os outros pensassem, mas não parece que pensem."

"Eu pude ver que Miss Bartlett achou imprudente."

"A mãe também. A mãe está muito aborrecida."

"Lamento muito por isso", disse o Sr. Beebe com sentimento.

A Sra. Honeychurch, que odiava todas as mudanças, estava de facto aborrecida, mas não tanto quanto a filha fingia, e só por um instante. Era realmente um estratagema de Lucy para justificar o seu desânimo—estratagema de que ela própria não estava consciente, pois marchava nos exércitos das trevas.

"E o Freddy está aborrecido."

"Todavia, o Freddy nunca se entendeu muito com o Vyse, pois não? Deduzi que ele desagradava o noivado, e sentia que isso o pudesse afastar de si."

"Os rapazes são tão estranhos."

Podia ouvir-se Minnie a discutir com Miss Bartlett através do chão. O chá na Beehive aparentemente envolvia uma mudança completa de roupa. O Sr. Beebe viu que Lucy—muito justamente—não desejava discutir a sua acção, pelo que, depois de uma expressão sincera de simpatia, disse: "Recebi uma carta absurda de Miss Alan. Foi isso que realmente me trouxe. Pensei que vos pudesse divertir todas."

"Que maravilha!" disse Lucy, numa voz apagada.

Para ter alguma coisa que fazer, começou a ler-lhe a carta. Após poucas palavras, os olhos dela ficaram alerta, e logo ela interrompeu-o com "Vão para o estrangeiro? Quando partem?"

"Na próxima semana, pelo que percebi."

"O Freddy disse se ia voltar directamente de carro?"

"Não, não disse."

"Porque espero bem que ele não vá mexericar."

Então ela queria de facto falar do seu noivado desfeito. Sempre complacente, ele guardou a carta. Mas ela, imediatamente, exclamou em voz alta: "Oh, conte-me mais sobre as Miss Alans! Que absolutamente esplêndido da parte delas irem para o estrangeiro!"

"Quero que partam de Veneza, e vão num vapor de carga pela costa da Ilíria!"

Ela riu com vontade. "Oh, adorável! Quem me dera que me levassem."

"A Itália encheu-a com a febre das viagens? Talvez George Emerson tenha razão. Ele diz que 'Itália é apenas um eufemismo para Destino'."

"Oh, não Itália, mas Constantinopla. Sempre desejei ir a Constantinopla. Constantinopla é praticamente Ásia, não é?"

O Sr. Beebe lembrou-lhe que Constantinopla continuava improvável, e que as Miss Alans só miravam Atenas, "com Delfos, talvez, se as estradas estiverem seguras." Mas isto não fez diferença ao seu entusiasmo. Ela sempre desejara ir à Grécia ainda mais, ao que parecia. Ele viu, para sua surpresa, que ela era aparentemente séria.

"Não tinha percebido que as Miss Alans e tu ainda fossem tão amigas, depois de Cissie Villa."

"Oh, isso é nada; asseguro-te que Cissie Villa não é nada para mim; daria qualquer coisa para ir com elas."

"A sua mãe prescindiria de si tão cedo outra vez? Mal está em casa há três meses."

"Ela tem de prescindir de mim!" gritou Lucy, com crescente excitação. "Eu tenho simplesmente de ir embora. Tenho de." Passou os dedos histéricamente pelo cabelo. "Não vê que tenho de ir embora? Não percebi na altura—e claro que quero ver Constantinopla tão particularmente."

"Quer dizer que, uma vez que rompeu o noivado, sente—"

"Sim, sim. Sabia que o senhor havia de compreender."

O Sr. Beebe não compreendia bem. Por que não podia Miss Honeychurch repousar no seio da sua família? Cecil tinha evidentemente envergado pela linha da dignidade, e não a ia incomodar. Então ocorreu-lhe que a própria família lhe poderia estar a incomodar. Sugeriu-lhe isto, e ela aceitou a sugestão com avidez.

"Sim, claro; ir para Constantinopla até se acostumarem à ideia e tudo ter acalmado."

"Temo que tenha sido uma chatice", disse ele com brandura.

"Não, de todo. Cecil foi muito gentil, de facto; só—é melhor contar-lhe toda a verdade, já que o senhor soube um pouco—é que ele é tão dominador. Descobri que ele não me deixava seguir o meu próprio caminho. Queria melhorar-me em coisas em que eu não posso ser melhorada. Cecil não deixa uma mulher decidir por si mesma—de facto, ele não se atreve. Que disparate o que eu digo! Mas é esse género de coisas."

"É o que eu deduzi da minha própria observação do Sr. Vyse; é o que deduzo de tudo quanto conheci de si. Simpatizo e concordo profundamente. Concordo tanto que tem de me deixar fazer uma pequena crítica: vale a pena precipitar-se para a Grécia?"

"Mas eu tenho de ir para algum lado!" exclamou ela. "Preocupei-me a manhã toda, e aqui vem mesmo a coisa certa." Bateu com os punhos cerrados nos joelhos, e repetiu: "Tenho de! E o tempo que terei com a mãe, e todo o dinheiro que ela gastou comigo na primavera passada. Todos vocês pensam demasiado bem de mim. Quem me dera não fossem tão gentis." Neste momento entrou Miss Bartlett, e o seu nervosismo aumentou. "Tenho de me afastar, muitíssimo longe. Tenho de saber o meu próprio pensamento e para onde quero ir."

"Venham, vamos, chá, chá, chá", disse o Sr. Beebe, e empurrou os seus convivas para a porta da frente. Empurrou-os tão depressa que se esqueceu do chapéu. Quando voltou para o buscar ouviu, para seu alívio e surpresa, o dedilhar de uma Sonata de Mozart.

"Está a tocar outra vez", disse a Miss Bartlett.

"A Lucy pode sempre tocar", foi a resposta azeda.

"Agradece-se muito que ela tenha tal recurso. Está evidentemente muito preocupada, como, claro, deve estar. Eu sei tudo. O casamento estava tão perto que deve ter sido uma luta difícil antes de se poder armar de coragem para falar."

Miss Bartlett deu uma espécie de contorção, e ele preparou-se para uma discussão. Nunca tinha sondado Miss Bartlett. Como ele próprio dissera em Florença, "ela podia ainda revelar profundidades de estranheza, se não de sentido." Mas ela era tão antipática que devia ser de confiança. Presumiu isso, e não hesitou em discutir Lucy com ela. Minnie estava felizmente a colher fetos.

Ela abriu a discussão com: "Era muito melhor deixarmos o assunto morrer."

"Quem sabe."

"É da maior importância que não haja mexericos na Summer Street. Seria a morte haver mexericos sobre a rejeição do Sr. Vyse no presente momento."

O Sr. Beebe ergueu as sobrancelhas. Morte é uma palavra forte—decerto demasiado forte. Não havia questão de tragédia. Disse: "Claro que Miss Honeychurch tornará o facto público à sua maneira, e quando escolher. O Freddy só me disse porque sabia que ela não se importaria."

"Sei", disse Miss Bartlett com civilidade. "Ainda assim o Freddy não devia ter contado nem ao senhor. Não se pode ser demasiado cuidadoso."

"Muito bem."

"Imploro segredo absoluto. Uma palavra de acaso a um amigo tagarela, e—"

"Exactamente." Estava habituado a estas velhas solteironas nervosas e à importância exagerada que elas atribuem às palavras. Um reitor vive numa teia de pequenos segredos, e confidências e avisos, e quanto mais sábio é menos os levará a sério. Mudará de assunto, como fez o Sr. Beebe, dizendo alegremente: "Teve notícias de alguma gente dos Bertolini ultimamente? Creio que mantém contacto com Miss Lavish. É curioso como nós, daquela pensão, que parecíamos uma colecção tão fortuita, nos temos vindo a enlaçar nas vidas uns dos outros. Dois, três, quatro, seis de nós—não, oito; tinha-me esquecido dos Emerson—temos mantido mais ou menos contacto. Devíamos de facto dar uma recomendação à Signora."

E, como Miss Bartlett não favorecia o plano, subiram o monte em silêncio que só era quebrado pelo reitor nomeando algum feto. No cimo pararam. O céu tornara-se mais agreste desde que ali estivera uma hora antes, dando à terra uma grandeza trágica que é rara em Surrey. Nuvens cinzentas carregavam através de tecidos de branco, que se estendiam, se esfarrapavam e se rasgavam lentamente, até que através das suas camadas finais reluziu uma sugestão do azul que desaparecia. O Verão estava a recuar. O vento rugia, as árvores gemiam, e todavia o ruído parecia insuficiente para aquelas operações vastas no céu. O tempo estava a romper, rompendo, rompido, e é um sentido do adequado mais do que do sobrenatural que dota tais crises das salvas de artilharia angélica. Os olhos do Sr. Beebe pousaram em Windy Corner, onde Lucy se sentava, a estudar Mozart. Nenhum sorriso lhe veio aos lábios, e, mudando de novo de assunto, disse: "Não vai chover, mas vamos ter escuridão, por isso apressemo-nos. A escuridão de ontem à noite era pavorosa."

Chegaram à Taberna Beehive por volta das cinco horas. Aquela amável hospedaria possui uma varanda, onde os jovens e os imprudentes adoram sentar-se, enquanto os hóspedes de idade mais madura procuram uma agradável sala com areia, e tomam o chá comodamente a uma mesa. O Sr. Beebe viu que Miss Bartlett teria frio se ficasse fora, e que Minnie se aborreceria se ficasse dentro, pelo que propôs uma divisão de forças. Passariam à criança a sua comida pela janela. Assim ficou incidentalmente habilitado a discutir a sorte de Lucy.

—Tenho pensado, Miss Bartlett — disse ele — e, a menos que tenha alguma objeção, gostaria de reabrir aquela conversa. Ela fez uma reverência.

—Nada sobre o passado. Sei pouco e interesso-me ainda menos; tenho a certeza absoluta de que tudo corre a favor da sua prima. Ela agiu com elevação e acerto, e é próprio da sua modéstia gentil dizer que a julgamos demasiado bem. Mas o futuro. Sériamente, que pensa deste plano grego? — Tirou novamente a carta. — Não sei se ouviu por acaso, mas ela quer juntar-se às Miss Alan nessa sua louca aventura. Tudo isto—não sei explicar—está mal.

Miss Bartlett leu a carta em silêncio, pousou-a, pareceu hesitar, e depois leu-a de novo.

—Confesso que não lhe vejo o alcance.

Para grande espanto dele, ela respondeu:

—Aí não posso concordar consigo. Diviso nele a salvação de Lucy.

—A sério. Ora, porquê?

—Ela queria deixar Windy Corner.

—Sei—mas parece tão estranho, tão contrário à sua maneira de ser, tão—ia dizer—egoísta.

—É natural, certamente—depois de cenas tão penosas—que ela deseje uma mudança.

Aqui estava, ao que parecia, um daqueles pontos que o intelecto masculino não alcança. O Sr. Beebe exclamou:

—Pois é o que ela própria diz, e visto que outra senhora concorda, devo confessar que estou parcialmente convencido. Talvez ela precise de uma mudança. Não tenho irmãs nem—e não entendo estas coisas. Mas por que precisa de ir tão longe como a Grécia?

—Bem pode perguntar isso — respondeu Miss Bartlett, que estava visivelmente interessada e quase abandonara o seu tom evasivo. — Porquê a Grécia? (O que é, Minnie querida—compota?) Por que não Tunbridge Wells? Oh, Sr. Beebe! Tive uma entrevista longa e muito insatisfatória com a querida Lucy esta manhã. Não consigo ajudá-la. Não direi mais nada. Talvez já tenha dito demais. Não me compete falar. Queria que ela passasse seis meses comigo em Tunbridge Wells, e ela recusou.

O Sr. Beebe espetou uma migalha com a faca.

—Mas os meus sentimentos não têm importância nenhuma. Sei perfeitamente que eu lhe exaspero os nervos. A nossa excursão foi um fracasso. Ela queria deixar Florença, e quando chegámos a Roma já não queria estar em Roma, e durante todo o tempo senti que estava a gastar o dinheiro da mãe dela—.

—Fiquemo-nos porém pelo futuro — interrompeu o Sr. Beebe. — Quero o seu conselho.

—Muito bem — disse Charlotte, com uma secura sufocada que era nova para ele, embora familiar a Lucy. — Eu, por mim, ajudá-la-ei a ir para a Grécia. E o senhor?

O Sr. Beebe considerou.

—É absolutamente necessário — continuou ela, baixando a viseira e sussurrando através dela com uma paixão, uma intensidade, que o surpreendeu. — Eu sei—eu sei. — A escuridão ia adensando-se, e ele sentiu que esta estranha mulher realmente sabia. — Ela não pode ficar aqui nem mais um instante, e nós devemos manter-nos calados até ela partir. Confio que os criados não sabem de nada. Depois—mas talvez já tenha dito demais. Só que Lucy e eu somos impotentes contra a Sra. Honeychurch sozinha. Se nos ajudar, podemos consegui-lo. Caso contrário—

—Caso contrário—?

—Caso contrário — repetiu ela, como se a palavra encerrasse um fim último.

—Sim, ajudá-la-ei — disse o pastor, firmando o maxilar. — Venha, vamos voltar agora e resolver tudo de uma vez.

Miss Bartlett rebentou em floridos agradecimentos. A tabuleta da taberna—uma colmeia ornada uniformemente de abelhas—rangeu ao vento lá fora enquanto ela lhe agradecia. O Sr. Beebe não compreendia bem a situação; mas, por outro lado, não desejava compreendê-la, nem saltar para a conclusão de «outro homem» que teria atraído uma mente mais grosseira. Apenas sentia que Miss Bartlett tinha conhecimento de alguma vaga influência da qual a jovem desejava ser libertada, e que bem poderia estar revestida de forma carnal. A própria imprecisão dela o impeliu para a andante cavalaria. A sua crença no celibato, tão reticente, tão cuidadosamente dissimulada sob a tolerância e a cultura, veio agora à superfície e expandiu-se como uma flor delicada. «Quem casa, faz bem; quem se abstém, faz melhor.» Assim rezava a sua crença, e ele nunca soube de um noivado desfeito sem uma leve sensação de prazer. No caso de Lucy, a sensação intensificava-se pelo despeito que votava a Cecil; e estava disposto a ir mais longe—a pô-la fora de perigo até que ela pudesse confirmar a sua resolução de virgindade. O sentimento era muito subtil e inteiramente indogmático, e ele nunca o transmitiu a nenhuma das outras personagens deste enredo. Contudo, existia, e é ele o único que explica a sua acção subsequente, e a sua influência sobre a acção dos outros. O pacto que ele fez com Miss Bartlett na taberna destinava-se a ajudar não apenas Lucy, mas também a religião.

Apressaram-se para casa através de um mundo de negro e cinzento. Ele falou de assuntos indiferentes: a necessidade que os Emerson tinham de uma governanta; criados; criados italianos; romances sobre Itália; romances com intenção; poderia a literatura influenciar a vida? Windy Corner rebrilhava. No jardim, a Sra. Honeychurch, agora ajudada por Freddy, ainda lutava com a vida das suas flores.

—Já escurece demais — disse ela, desalentada. — Isto é pagar o preço de protelar. Podíamos ter previsto que o tempo ia mudar; e agora Lucy quer ir para a Grécia. Não sei para onde vai o mundo.

—Sra. Honeychurch — disse ele —, para a Grécia ela tem de ir. Suba à casa e vamos tratar do assunto. Em primeiro lugar, importa-se que ela rompa com Vyse?

—Sr. Beebe, estou agradecida—simplesmente agradecida.

—Eu também — disse Freddy.

—Óptimo. Agora subamos à casa.

Conferenciaram na sala de jantar durante meia hora.

Lucy jamais teria levado o plano grego avante sozinha. Era caro e dramático—qualidades que a mãe abominava. Também Charlotte não teria conseguido. As honras do dia pertenceram ao Sr. Beebe. Pela sua habilidade e bom senso, e pela sua influência de pastor—pois um pastor que não fosse tolo exercia grande influência sobre a Sra. Honeychurch—, vergou-a ao intento deles. «Não vejo por que é que a Grécia é necessária», disse ela; «mas como vocês veem, suponho que está tudo bem. Deve ser algo que eu não consigo perceber. Lucy! Vamos contar-lhe. Lucy!»

—Está a tocar piano — disse o Sr. Beebe. Abriu a porta e ouviu a letra de uma canção:

«Não fixes o olhar no encanto da beleza.»

—Não sabia que Miss Honeychurch também cantasse.

«Fica tranquila quando os reis se armam, Não proves quando o copo de vinho brilha—»

—É uma canção que o Cecil lhe deu. Que esquisitas que são as raparigas!

—O quê? — chamou Lucy, parando de súbito.

—Está tudo bem, querida — disse a Sra. Honeychurch com carinho. Foi para a sala, e o Sr. Beebe ouviu-a beijar Lucy e dizer: «Perdoa eu ter sido tão azeda com a Grécia, mas caiu em cima das dálias.»

Uma voz um tanto dura disse: «Obrigada, mãe; isso não tem a mínima importância.»

—E tu tens razão também—a Grécia correrá bem; podes ir, se as Miss Alan te quiserem.

—Oh, esplêndido! Oh, obrigada!

O Sr. Beebe seguiu-a. Lucy continuava ao piano com as mãos sobre as teclas. Estava contente, mas ele esperara maior contentamento. A mãe debruçava-se sobre ela. Freddy, a quem ela estivera a cantar, reclinava-se no chão com a cabeça encostada à dela e um cachimbo apagado entre os lábios. Estranhamente, o grupo era belo. O Sr. Beebe, que amava a arte do passado, foi remetido a um tema favorito, a Santa Conversazione, em que pessoas que se estimam aparecem pintadas a conversar juntas sobre coisas nobres—um tema nem sensual nem sensacional, e por isso ignorado pela arte de hoje. Por que haveria Lucy de querer casar ou viajar, tendo em casa tais amigos?

«Não proves quando o copo de vinho brilha, Não fales quando o povo escuta»,

continuou ela.

—Aqui está o Sr. Beebe.

—O Sr. Beebe conhece os meus modos grosseiros.

—É uma canção bonita e sensata — disse ele. — Continue.

—Não é muito boa — disse ela, apática. — Esqueço-me porquê—harmonia ou coisa assim.

—Suspeitava que fosse pouco douta. É tão bela.

—A melodia é aceitável — disse Freddy —, mas a letra é podre. Por que atirar a toalha?

—Que disparate tão estúpido! — disse a irmã. A Santa Conversazione desfez-se. Afinal, não havia motivo para que Lucy falasse da Grécia nem lhe agradecesse por ter persuadido a mãe, e por isso ele despediu-se.

Freddy acendeu-lhe o farol da bicicleta na entrada, e com a sua habitual felicidade de expressão disse: «Este dia valeu por dia e meio.»

«Tapa o ouvido contra o cantor—»

—Espere um momento; ela está a acabar.

«Do ouro vermelho afasta o dedo; Coração ocioso, mão ociosa, olhar ocioso, Vive fácil e morre tranquilo.»

—Adoro um tempo assim — disse Freddy.

O Sr. Beebe avançou para dentro dele.

Os dois factos principais eram claros. Ela portara-se esplendidamente, e ele ajudá-la-ia. Não podia esperar dominar os detalhes de uma mudança tão grande na vida de uma rapariga. Se aqui ou ali ficava descontente ou perplexo, tinha de conformar-se; ela estava a escolher a melhor parte.

«Coração ocioso, mão ociosa, olhar ocioso—»

Talvez a canção afirmasse «a melhor parte» com demasiada força. Meio lhe parecia que o acompanhamento ascendente—que ele não perdia no fragor da borrasca—concordava na verdade com Freddy, e criticava brandamente as palavras que adornava:

«Coração ocioso, mão ociosa, olhar ocioso, Vive fácil e morre tranquilo.»

Contudo, pela quarta vez Windy Corner jazia sob ele, em baixo—agora como um farol nas marés rugidoras da escuridão.

Capítulo XIX Mentira ao Sr. Emerson

As Miss Alan foram encontradas no seu querido hotel de temperança perto de Bloomsbury—um estabelecimento asseado e sem ar, muito frequentado pela Inglaterra provinciana. Alojaram-se ali sempre antes de atravessar os grandes mares, e durante uma semana ou duas afofavam-se inquieta em torno de roupas, guias, quadrados de mackintosh, pão digestivo e outros necessários continentais. Que há lojas no estrangeiro, mesmo em Atenas, nunca lhes ocorreu, pois encaravam a viagem como uma espécie de guerra, só empreendida por quem tenha sido plenamente armado nos Haymarket Stores. Miss Honeychurch, confiavam, trataria de se equipar devidamente. A quinina já se obtinha em comprimidos; o sabão de papel era uma grande ajuda para refrescar o rosto no comboio. Lucy prometeu, um pouco deprimida.

—Mas, claro, tu sabes tudo dessas coisas, e tens o Sr. Vyse para te ajudar. Um cavalheiro é tão útil.»

A Sra. Honeychurch, que subira a Londres com a filha, começou a tamborilar nervosamente no estojo dos cartões.

—Achamos tão bonito da parte do Sr. Vyse ceder-te — continuou Miss Catharine. — Não é todos os jovens que seriam tão desprendidos. Mas talvez ele vá ter contigo mais tarde.

—Ou o trabalho dele prende-o em Londres? — disse Miss Teresa, a mais aguda e menos benigna das duas irmãs.

—De qualquer modo, havemos de vê-lo quando ele te for despedir. Eu anseio por vê-lo.

—Ninguém há de despedir-se de Lucy — interpôs a Sra. Honeychurch. — Ela não gosta disso.

—Não, eu odeio as despedidas — disse Lucy.

—A sério? Que esquisito! Eu pensaria que neste caso—

—Oh, Sra. Honeychurch, não vai sair? É um tão grande prazer tê-la conhecido!

Saíram-se a custo, e Lucy disse com alívio: «Tudo resolvido. Safámo-nos bem desta vez.»

Mas a mãe ficou incomodada. «Dir-me-iam, querida, que sou insensível. Mas não vejo porque não contaste às tuas amigas o que se passou com o Cecil e arranjaste tudo. Esteve lá todo o tempo a ser preciso estarmos a fingir, quase a mentir, e ainda por cima a sermos lidas, atrevo-me a dizer, o que é muito desagradável.»

Lucy tinha muito a responder. Descreveu o carácter das Miss Alan: eram tão mexeriqueiras, e se lhes dissesse, a notícia espalhar-se-ia num instante.

—Mas por que não se havia de espalhar num instante?

—Porque combinei com o Cecil não tornar público até eu deixar a Inglaterra. Hei-de contar-lhes então. É muito mais agradável. Como a chuva está forte! Entremos aqui.

—«Aqui» era o Museu Britânico. A Sra. Honeychurch recusou. Se tinham de abrigar-se, que fosse numa loja. Lucy sentiu desprezo, pois seguia a via de se interessar pela escultura grega, e já tinha pedido emprestado um dicionário mitológico ao Sr. Beebe para decorar os nomes das deusas e dos deuses.

—Oh, bem, então seja loja. Vamos à Mudie. Vou comprar um guia.

—Sabes, Lucy, tu, a Charlotte e o Sr. Beebe estão sempre a dizer-me que sou tão estúpida, e portanto suponho que sou, mas nunca hei-de perceber este trabalho de encubrir. Livraste-te do Cecil—muito bem, e estou agradecida por ele ter ido embora, embora tenha ficado zangada um instante. Mas por que não anunciá-lo? Porquê este amuo e pisar de ovos?

—É só por poucos dias.

—Mas porquê sequer?

Lucy calou-se. Ia-se afastando da mãe. Seria bem fácil dizer: «Porque George Emerson anda a importunar-me, e se souber que rompi com Cecil pode recomeçar»—bem fácil, e tinha a vantagem acessória de ser verdade. Mas não o conseguia dizer. Desgostava-se de confissões, pois podiam conduzir ao conhecimento de si própria e àquele rei dos terrores—a Luz. Desde aquela última noite em Florença que considerava imprudente revelar a sua alma.

Também a Sra. Honeychurch se calou. Pensava: «A minha filha não me responde; preferiria estar com aquelas velhas curiosas do que com o Freddy e comigo. Qualquer trapo, qualquer farrapo, qualquer resto serve aparentemente, desde que possa deixar o seu lar.» E como no seu caso os pensamentos nunca ficavam muito tempo por dizer, desabafou: «Estás farta de Windy Corner.»

Era perfeitamente verdade. Lucy esperara regressar a Windy Corner quando escapasse de Cecil, mas descobriu que o seu lar já não existia. Poderia existir para Freddy, que ainda vivia e pensava direito, mas não para quem tivesse deliberadamente deformado o cérebro. Não reconhecia que o cérebro lhe estivesse deformado, pois o próprio cérebro teria de ajudar nesse reconhecimento, e ela estava a desarranjar os próprios instrumentos da vida. Apenas sentia: «Não amo George; rompei o noivado porque não amava George; tenho de ir para a Grécia porque não amo George; é mais importante consultar os deuses no dicionário do que ajudar a minha mãe; toda a gente se está a portar muito mal.» Apenas se sentia irritada e queixosa, e ansiosa por fazer o que não se esperava que fizesse, e com esse espírito prosseguiu a conversa.

—Oh, mãe, que disparate que dizes! Claro que não estou farta de Windy Corner.

—Então porque não dizer logo, em vez de ficares meia hora a pensar?

Ela riu levemente: «Meio minuto seria mais certo.»

—Talvez quisesses afastar-te de casa de vez?

—Psiu, mãe! As pessoas hão-de ouvir-te — pois tinham entrado na Mudie. Comprou um Baedeker, e depois continuou: —Claro que quero viver em casa; mas já que falamos nisso, também posso dizer que de futuro hei-de querer estar fora mais do que estive. Estás a ver, entro na minha herança no próximo ano.

Vieram lágrimas aos olhos da mãe.

Levada por um desnorteamento sem nome, pelo que nas pessoas de mais idade se chama «excentricidade», Lucy resolveu tornar este ponto claro. «Tenho visto tão pouco do mundo—senti-me tão fora do que se passa em Itália. Tenho visto tão pouco da vida; uma pessoa devia vir a Londres mais vezes—não com um bilhete barato como hoje, mas para ficar. Podia mesmo partilhar um apartamento por uns tempos com outra rapariga.»

—E meter-me com máquinas de escrever e chaves da porta — explodiu a Sra. Honeychurch. — E agitar e gritar, e ser arrastada aos pontapés pela polícia. E chamar-lhe Missão—quando ninguém te quer! E chamar-lhe Dever—quando significa que não suportas o teu próprio lar! E chamar-lhe Trabalho—quando milhares de homens passam fome com a concorrência como está! E depois, para te preparares, arranjar duas velhotas trôpegas e partir com elas para o estrangeiro.

—Quero mais independência — disse Lucy, tolamente; sabia que queria qualquer coisa, e independência é um grito útil; podemos sempre dizer que não a temos. Tentou lembrar-se das suas emoções em Florença: essas tinham sido sinceras e apaixonadas, e sugeriam beleza, mais do que saias curtas e chaves de porta. Mas independência era certamente o seu mote.

—Muito bem. Leva a tua independência e vai-te. Corre para cima e para baixo e à volta do mundo, e volta magra como um palito com a comida péssima. Despreza a casa que o teu pai construiu e o jardim que ele plantou, e a nossa querida vista—e depois partilha um apartamento com outra rapariga.

Lucy apertou os lábios e disse: «Talvez tenha falado com precipitação.»

—Oh, Deus! — rebateu a mãe. — Como me lembras a Charlotte Bartlett!

—Charlotte? — rebateu Lucy por sua vez, traspassada enfim por uma dor viva.

—Cada vez mais.

—Não sei o que queres dizer, mãe; a Charlotte e eu não nos parecemos nem um pouco.

—Pois eu vejo a parecença. A mesma eterna preocupação, o mesmo desdizer das palavras. Tu e a Charlotte a tentar dividir duas maçãs entre três pessoas ontem à noite pareciam irmãs.

—Que disparate! E se tanto desgostas a Charlotte, é pena teres pedido-lhe para ficar. Avisei-te a respeito dela; roguei-te, supliquei-te que não, mas claro que não se deu ouvidos.

—Lá estás tu.

—Perdão?

—Outra vez a Charlotte, minha querida; é isso; as palavras dela mesmo.

Lucy cerrou os dentes. «O que digo é que não devias ter convidado a Charlotte para ficar. Quem me dera que ficasses pelo assunto.» E a conversa morreu numa altercação.

Ela e a mãe fizeram compras em silêncio, falaram pouco no comboio, pouco de novo na carruagem que as esperava na estação de Dorking. Chovera o dia todo e, enquanto subiam pelos profundos trilhos de Surrey, aguaceiros caíam das faias pendentes e tamborilavam na capota. Lucy queixou-se de que a capota abafava. Debruçando-se, olhou para o crepúsculo húmido, e viu a luz da carruagem passar como um projector sobre lama e folhas, sem revelar nada de belo. «A confusão quando a Charlotte entrar vai ser abominável», notou. Pois tinham de apanhar Miss Bartlett em Summer Street, onde fora deixada quando a carruagem desceu, para fazer uma visita à velha mãe do Sr. Beebe. «Vamos ter de ir três de cada lado, porque pinga das árvores, e contudo não está a chover. Oh, um pouco de ar!» Então pôs-se a escutar as patas do cavalo—«Ele não contou—ele não contou.» A melodia era esbatida pelo caminho mole. «Não podemos baixar a capota?» exigiu ela, e a mãe, com súbita ternura, disse: «Muito bem, velha senhora, pára o cavalo.» E o cavalo foi parado, e Lucy e Powell lutaram com a capota, e atiraram água para o pescoço da Sra. Honeychurch. Mas agora que a capota estava descida, ela viu de facto algo que lhe teria escapado—não havia luzes nas janelas da Cissie Villa, e junto ao portão do jardim julgou ver um cadeado.

—Powell, essa casa está outra vez para arrendar? — gritou.

—Sim, menina — respondeu ele.

—Foram-se?

—É longe demais da cidade para o jovem cavalheiro, e o reumatismo do pai agravou-se, de modo que ele não pode ficar sozinho, por isso andam a tentar alugá-la mobilada — foi a resposta.

—Foram-se, então?

—Sim, menina, foram-se.

Lucy recostou-se. A carruagem parou à porta da Reitoria. Ela saiu para chamar Miss Bartlett. Assim, os Emerson tinham-se ido, e toda esta complicação por causa da Grécia fora desnecessária. Desperdício! Aquela palavra parecia resumir toda a vida. Planos desperdiçados, dinheiro desperdiçado, amor desperdiçado, e ela magoara a mãe. Seria possível que tivesse baralhado tudo? Bem possível. Outros tinham-no feito. Quando a criada abriu a porta, não conseguiu falar, e fitou estupidamente o vestíbulo.

Miss Bartlett adiantou-se logo, e depois de um longo preâmbulo pediu um grande favor: poderia ir à igreja? O Sr. Beebe e a mãe dele já tinham saído, mas ela recusara-se a partir antes de obter o pleno consentimento da anfitriã, pois isso significaria manter o cavalo à espera mais uns bons dez minutos.

—Certamente — disse a anfitriã, fatigada. — Esquecia-me de que era sexta-feira. Vamos todos. Powell pode ir dar uma volta até às cavalariças.

—Lucy, minha querida—

—Eu não vou à igreja, obrigada.

Um suspiro, e partiram. A igreja era invisível, mas lá no alto, na escuridão, à esquerda, havia um vestígio de cor. Era uma vidraça, pela qual se filtrava uma luz tênue, e quando a porta se abriu Lucy ouviu a voz do Sr. Beebe percorrendo a liturgia para uma minúscula congregação. Até a igreja deles, construída com tanta arte na encosta do monte, com o seu lindo transepto elevado e a sua torre de ripas prateadas — até a igreja deles perdera o encanto; e a coisa de que nunca se falava — a religião — desbotava como todas as outras coisas.

Ela seguiu a criada até o Reitoria.

Objectar-se-ia em sentar-se no escritório do Sr. Beebe? Só havia aquela lareira.

Não objectaria.

Já havia alguém lá, pois Lucy ouviu as palavras: «Uma senhora para esperar, senhor.»

O velho Sr. Emerson estava sentado junto ao fogo, com o pé sobre um escabelo para a gota.

— Oh, Miss Honeychurch, que a senhora tenha vindo! — tremeu ele; e Lucy notou nele uma alteração desde o domingo passado.

Nenhuma palavra lhe vinha aos lábios. George ela havia enfrentado, e poderia voltar a enfrentar, mas esquecera como tratar o pai dele.

— Miss Honeychurch, querida, estamos tão desolados! George está tão desolado! Ele julgou ter o direito de tentar. Não posso culpar o meu rapaz, e no entanto queria que ele me tivesse dito primeiro. Não devia ter tentado. Eu não sabia de nada.

Se ao menos ela se pudesse lembrar de como proceder!

Ele ergueu a mão. — Mas não deve censurá-lo.

Lucy virou-lhe as costas e começou a olhar para os livros do Sr. Beebe.

— Ensinei-o — tremeu ele — a confiar no amor. Eu disse: «Quando o amor vem, essa é a realidade.» Eu disse: «A paixão não cega. Não. A paixão é sanidade, e a mulher que amas é a única pessoa que alguma vez compreenderás verdadeiramente.» — Suspirou: — É verdade, eternamente verdade, embora o meu dia tenha passado e embora haja o resultado. Pobre rapaz! Está tão desolado! Ele disse que sabia que era loucura quando a senhora trouxe a sua prima; que, fosse o que fosse que sentisse, não era a sério. Ainda assim — a voz dele ganhou força; falou alto para ter a certeza: — Miss Honeychurch, lembra-se da Itália?

Lucy escolheu um livro — um volume de comentários do Antigo Testamento. Segurando-o diante dos olhos, disse: — Não tenho desejo de discutir a Itália nem qualquer assunto relacionado com o seu filho.

— Mas lembra-se?

— Ele portou-se mal desde o princípio.

— Só me disseram que ele a amava no domingo passado. Nunca soube ajuizar comportamentos. Eu — eu — suponho que se tenha portado mal.

Sentindo-se um pouco mais firme, pousou o livro e virou-se para ele. O rosto dele estava pendente e inchado, mas os olhos, embora profundamente encovados, brilhavam com a coragem de uma criança.

— Ora, ele portou-se de modo abominável — disse ela. — Ainda bem que está arrependido. Sabe o que ele fez?

— Não «abominável» — foi a suave correcção. — Apenas tentou quando não devia tentar. Tem tudo o que deseja, Miss Honeychurch: vai casar com o homem que ama. Não saia da vida do George dizendo que ele é abominável.

— Não, claro — disse Lucy, envergonhada com a referência a Cecil. — «Abominável» é forte de mais. Lamento tê-lo dito a respeito do seu filho. Creio que vou à igreja, afinal. A minha mãe e a minha prima já foram. Não chegarei tão atrasada —

— Sobretudo porque ele se afundou — disse ele, em voz baixa.

— Como disse?

— Afundou-se naturalmente. — Bateu as palmas uma na outra em silêncio; a cabeça caiu-lhe sobre o peito.

— Não compreendo.

— Como a mãe dele se afundou.

— Mas Sr. Emerson — Sr. Emerson — de que está a falar?

— Quando eu não quis que George fosse baptizado — disse ele.

Lucy ficou aterrorizada.

— E ela concordou que o baptismo não era nada, mas ele apanhou aquela febre aos doze anos e ela mudou de ideias. Pensou que era um juízo. — Estremeceu. — Oh, horrível, quando já tínhamos desistido dessas coisas e nos tínhamos separado dos pais dela. Oh, horrível — o pior de tudo — pior do que a morte, quando se fez uma clareirinha no deserto, se plantou o nosso jardinzinho, se deixou entrar a nossa luz do sol, e depois as ervas daninhas tornam a insinuar-se! Um juízo! E o nosso rapaz teve tifoide porque nenhum clérigo lhe tinha deitado água em cima na igreja! É possível, Miss Honeychurch? Voltaremos a escorregar para as trevas para sempre?

— Não sei — disse Lucy, ofegante. — Não percebo este género de coisas. Não fui feita para perceber.

— Mas o Sr. Eager — ele veio quando eu estava fora, e agiu conforme os seus princípios. Não o culpo nem culpo ninguém... mas quando George sarou, ela já estava doente. Ele fez com que ela pensasse no pecado, e ela afundou-se a pensar nisso.

Foi assim que o Sr. Emerson assassinou a esposa à vista de Deus.

— Oh, que horror! — disse Lucy, esquecendo por fim os seus próprios assuntos.

— Ele não foi baptizado — disse o velho. — Eu mantive-me firme. — E fitou, com olhos inabaláveis, as filas de livros, como se — a que preço! — tivesse ganho uma vitória sobre eles. — O meu rapaz voltará à terra intacto.

Ela perguntou se o Sr. Emerson jovem estava doente.

— Oh — no domingo passado. — Voltou ao presente. — George, no domingo passado — não, não doente: apenas se afundou. Ele nunca está doente. Mas é filho da mãe. Os olhos eram os dele, e ela tinha aquela testa que eu acho tão bela, e ele não achará que vale a pena viver. Era sempre por um triz. Ele viverá; mas não achará que vale a pena viver. Nunca achará nada que valha a pena. Lembra-se daquela igreja em Florença?

Lucy lembrava-se, e de como sugerira que George colecionasse selos.

— Depois de a senhora ter deixado Florença — horrível. Depois alugámos a casa aqui, e ele foi tomar banho com o seu irmão, e melhorou. Viu-o a banhar-se?

— Lamento muito, mas é inútil discutir este assunto. Lamento-o profundamente.

— Depois houve uma coisa acerca de um romance. Não percebi nada; tive de ouvir tanta coisa, e ele tinha relutância em contar-me; acha-me velho demais. Ah, bem, é preciso ter fracassos. George vem amanhã, e leva-me para os quartos dele em Londres. Não suporta estar por aqui, e eu tenho de estar onde ele estiver.

— Sr. Emerson — exclamou a rapariga — não saiam, ao menos, não por minha causa. Vou para a Grécia. Não deixem a vossa casa confortável.

Era a primeira vez que a voz dela se mostrava gentil, e ele sorriu. — Como toda a gente é boa! E olhe que o Sr. Beebe dá-me alojamento — veio esta manhã e soube que eu ia sair! Aqui estou tão bem, com uma lareira.

— Sim, mas não voltarão para Londres. É absurdo.

— Tenho de estar com George; tenho de fazer com que ele deseje viver, e aqui ele não consegue. Ele diz que a ideia de a ver e de ouvir falar de si — não o estou a justificar: só estou a dizer o que aconteceu.

— Oh, Sr. Emerson — ela pegou-lhe na mão — não faça isso. Já causei aborrecimento suficiente ao mundo. Não posso consentir que saiam da vossa casa, quando gostam dela, e que talvez percam dinheiro com isso — tudo por minha causa. Têm de ficar! Vou mesmo para a Grécia.

— Até à Grécia?

O modo dela alterou-se.

— Até à Grécia?

— Então têm de ficar. Sei que não falará deste assunto. Posso confiar em ambos.

— Certamente que pode. Ou os temos nas nossas vidas, ou o deixamos para a vida que escolheu.

— Eu não queria —

— Suponho que o Sr. Vyse está muito zangado com George? Não, foi errado da parte do George ter tentado. Levámos as nossas convicções longe demais. Imagino que mereçamos tristeza.

Ela olhou de novo para os livros — negros, castanhos, e aquele azul teológico acre. Rodeavam os visitantes por todos os lados; estavam empilhados nas mesas, comprimiam-se contra o próprio tecto. Para Lucy, que não conseguia ver que o Sr. Emerson era profundamente religioso, e diferia do Sr. Beebe sobretudo pelo reconhecimento da paixão — parecia horrível que o velho se fosse refugiar num santuário daqueles, quando estava infeliz, e ficasse dependente da generosidade de um clérigo.

Mais certo do que nunca de que ela estava cansada, ofereceu-lhe a cadeira.

— Não, por favor, fique sentado. Creio que vou sentar-me na carruagem.

— Miss Honeychurch, a senhora parece mesmo cansada.

— Nada — disse Lucy, com os lábios trémulos.

— Mas está, e há em si um ar do George. E que estava a dizer acerca de ir para o estrangeiro?

Ela ficou em silêncio.

— Grécia — e ela viu que ele estava a ponderar a palavra — Grécia; mas a senhora ia casar este ano, pensei eu.

— Não era até Janeiro — disse Lucy, juntando as mãos. Diria uma mentira verdadeira, quando chegasse a altura?

— Suponho que o Sr. Vyse vai com a senhora. Espero — não é por o George ter falado que ambos vão?

— Não.

— Espero que goze a Grécia com o Sr. Vyse.

— Obrigada.

Nesse momento o Sr. Beebe regressou da igreja. A batina estava coberta de chuva. — Está tudo bem — disse ele, com bondade. — Contei convosco os dois para se fazerem companhia um ao outro. Está a chover outra vez. Toda a congregação, que se compõe da sua prima, da sua mãe e da minha mãe, espera na igreja, até a carruagem a ir buscar. O Powell foi dar uma volta?

— Creio que sim; vou ver.

— Não — claro, vou ver eu. Como estão as Miss Alan?

— Muito bem, obrigada.

— Contou ao Sr. Emerson acerca da Grécia?

— Contei — contei.

— Não acha muito corajoso da parte dela, Sr. Emerson, empreender as duas Miss Alan? Ora, Miss Honeychurch, volte — mantenha-se quente. Acho que três é um número tão corajoso para viajar. — E ele apressou-se para as cavalariças.

— Ele não vai — disse ela, com voz rouca. — Cometi um deslize. O Sr. Vyse fica de facto em Inglaterra.

Por qualquer razão, era impossível enganar aquele velho. A George, a Cecil, ela teria mentido de novo; mas ele parecia tão próximo do fim das coisas, tão digno na sua aproximação do abismo, do qual dava um relato, e os livros que o cercavam davam outro, tão meigo para com os ásperos caminhos que percorrera, que a verdadeira cavalaria — não a gasta cavalaria do sexo, mas a verdadeira cavalaria que todos os jovens podem mostrar a todos os velhos — despertou nela, e, a qualquer custo, contou-lhe que Cecil não era o seu companheiro de viagem para a Grécia. E falou com tanta seriedade que o risco se tornou certeza, e ele, erguendo os olhos, disse: — Vai deixá-lo? Vai deixar o homem que ama?

— Eu — eu tive de o fazer.

— Porquê, Miss Honeychurch, porquê?

O terror assaltou-a, e mentiu de novo. Fez o longo e convincente discurso que fizera ao Sr. Beebe, e tencionava fazer ao mundo quando anunciasse que o seu noivado já não existia. Ele ouviu-a em silêncio, e depois disse: — Minha querida, estou preocupado consigo. Parece-me — sonhadoramente; ela não se alarmou — que está numa atrapalhação.

Ela sacudiu a cabeça.

— Acredite na palavra de um velho: não há nada pior do que uma atrapalhação em todo o mundo. É fácil enfrentar a Morte e o Destino, e as coisas que parecem tão terríveis. É das minhas atrapalhações que olho para trás com horror — das coisas que poderia ter evitado. Podemos pouco ajudar uns aos outros. Eu costumava pensar que podia ensinar aos jovens a totalidade da vida, mas agora sei melhor, e todo o meu ensino ao George se resume a isto: acautele-se das atrapalhações. Lembra-se naquela igreja, quando fingiu estar aborrecida comigo e não estava? Lembra-se antes, quando recusou o quarto com vista? Eram atrapalhações — pequenas, mas sinistras — e temo que esteja numa agora. — Ela ficou em silêncio. — Não confie em mim, Miss Honeychurch. Embora a vida seja muito gloriosa, é difícil. — Ela continuava em silêncio. — «A vida», escreveu um amigo meu, «é uma execução pública de violino, na qual se tem de aprender o instrumento à medida que se avança.» Acho que ele se exprime bem. O homem tem de ir aprendendo o uso das suas funções à medida que avança — especialmente a função do Amor. — Depois rompeu, exaltado: — É isso; é o que quero dizer. Ama o George! — E, depois do seu longo preâmbulo, as três palavras irromperam contra Lucy como vagas do mar alto.

— Como se atreve! — arquejou Lucy, com o rugido das águas nos ouvidos. — Oh, tão próprio de um homem! — Quero dizer, supor que uma mulher está sempre a pensar num homem.

— Mas está.

Ela convocou a repulsa física.

— Está chocada, mas pretendo chocá-la. É a única esperança às vezes. Não a posso alcançar de outro modo. Tem de casar, ou a sua vida será desperdiçada. Avançou demasiado para recuar. Não tenho tempo para as ternuras, e a camaradagem, e a poesia, e as coisas que realmente importam, e para as quais se casa. Sei que, com George, as encontrará, e que o ama. Então seja a esposa dele. Ele já faz parte de si. Embora fuja para a Grécia, e nunca mais o veja, ou esqueça até o nome dele, George trabalhará nos seus pensamentos até morrer. Não é possível amar e separar-se. Desejará que fosse. Pode transmudar o amor, ignorá-lo, baralhá-lo, mas nunca o poderá arrancar de si. Sei por experiência que os poetas têm razão: o amor é eterno.

Lucy começou a chorar de raiva, e embora a raiva se dissipasse logo, as lágrimas ficaram.

— Só queria que os poetas dissessem também isto: o amor é do corpo; não o corpo, mas do corpo. Ah! a miséria que se pouparia se o confessássemos! Ah! um pouco de franqueza para libertar a alma! A sua alma, querida Lucy! Odeio agora a palavra, por causa de toda a bazófia com que a superstição a envolveu. Mas temos almas. Não sei como vieram nem para onde vão, mas temos-las, e vejo-a a arruinar a sua. Não o posso suportar. É de novo a escuridão a insinuar-se; é o inferno. — Depois refreou-se. — Que disparate tenho dito — quão abstracto e distante! E fi-la chorar! Querida menina, perdoe a minha prosa; case com o meu rapaz. Quando penso no que a vida é, e quão raramente o amor é correspondido por amor — Case com ele; é um dos momentos para os quais o mundo foi feito.

Ela não o conseguia compreender; as palavras eram, de facto, distantes. No entanto, enquanto ele falava, a escuridão foi-se dissipando, véu após véu, e ela viu até ao fundo da sua alma.

— Então, Lucy —

— Assustou-me — gemeu ela. — Cecil — o Sr. Beebe — o bilhete já está comprado — tudo. — Caiu a soluçar na cadeira. — Estou presa na confusão. Tenho de sofrer e envelhecer longe dele. Não posso partir a totalidade da vida por causa dele. Confiaram em mim.

Uma carruagem parou à porta da frente.

— Dê o meu amor ao George — uma única vez. Diga-lhe «confusão». — Depois compôs o véu, enquanto as lágrimas lhe escorriam pelo rosto, por dentro.

— Lucy —

— Não — estão no vestíbulo — oh, por favor, não, Sr. Emerson — confiam em mim —

— Mas por que haviam de confiar, se os enganou?

O Sr. Beebe abriu a porta, dizendo: — Aqui está a minha mãe.

— Não é digna da confiança deles.

— Como? — disse o Sr. Beebe, secamente.

— Estava a dizer, por que haviam de confiar nela, se ela os enganou?

— Um minuto, mãe. — Ele entrou e fechou a porta.

— Não o sigo, Sr. Emerson. Refere-se a quem? Confiar em quem?

— Quero dizer que ela lhe fingiu que não amava o George. Amaram-se o tempo todo.

O Sr. Beebe fitou a rapariga que soluçava. Ele estava muito calado, e o seu rosto pálido, com as suíças coradas, pareceu de repente desumano. Como uma longa coluna negra, ficou de pé aguardando a resposta dela.

— Nunca casarei com ele — tremeu Lucy.

Uma expressão de desprezo assomou-lhe, e ele disse: — Por que não?

— Sr. Beebe — enganei-o — enganei-me a mim mesma —

— Oh, disparates, Miss Honeychurch!

— Não são disparates! — disse o velho, exaltado. — É a parte das pessoas que o senhor não compreende.

O Sr. Beebe pousou a mão no ombro do velho, afavelmente.

— Lucy! Lucy! — chamavam vozes da carruagem.

— Sr. Beebe, podia ajudar-me?

Ele olhou, espantado, para o pedido, e disse em voz baixa e severa: — Estou mais pesaroso do que possa exprimir. É lamentável, lamentável — inacreditável.

— Que tem o rapaz? — exaltou-se o outro de novo.

— Nada, Sr. Emerson, excepto que deixou de me interessar. Case com o George, Miss Honeychurch. Ele fará muito bem.

Saiu e deixou-os. Ouviram-no a guiar a mãe escada acima.

— Lucy! — chamaram as vozes.

Ela voltou-se para o Sr. Emerson, desesperada. Mas o rosto dele reanimou-a. Era o rosto de um santo que compreendia.

— Agora está tudo escuro. Agora a Beleza e a Paixão parecem nunca ter existido. Eu sei. Mas lembre-se das montanhas sobre Florença e da vista. Ah, querida, se eu fosse o George, e lhe desse um beijo, isso fá-la-ia corajosa. Tem de entrar fria numa batalha que precisa de calor, sair para a confusão que você mesma fez; e a sua mãe e todos os seus amigos a desprezarão, oh, minha querida, e com razão, se é alguma vez certo desprezar. George continua na escuridão, toda a luta e a miséria sem uma palavra dele. Estou justificado? — Aos seus próprios olhos vieram lágrimas. — Sim, porque lutamos por mais do que Amor ou Prazer; há a Verdade. A Verdade conta, a Verdade conta.

— Beija-me — disse a rapariga. — Beija-me. Vou tentar.

Ele deu-lhe a sensação de divindades reconciliadas, o sentimento de que, ao ganhar o homem que amava, ganharia algo para o mundo inteiro. Ao longo da sordidez da viagem de regresso — falou de imediato — a saudação dele permaneceu. Ele roubara ao corpo a sua mancha, ao mundo as suas picadas; mostrara-lhe a santidade do desejo directo. «Nunca compreendi bem exactamente», diria ela nos anos seguintes, «como ele conseguiu fortalecê-la. Foi como se lhe tivesse mostrado a totalidade de tudo de uma só vez.»

Capítulo XX O Fim da Idade Média

As Miss Alan foram de facto para a Grécia, mas foram sozinhas. Elas sós, desta pequena companhia, dobrarão Maleia e sulcarão as águas do golfo Sarónico. Elas sós visitarão Atenas e Delfos, e qualquer dos santuários do canto intelectual — o da Acrópole, cercado de mares azuis; o sob o Parnaso, onde as águias constroem os seus ninhos e o auriga de bronze conduz, intrépido, para o infinito. Trémulas, ansiosas, carregadas de muito pão digestivo, prosseguiram até Constantinopla, deram a volta ao mundo. O resto de nós terá de contentar-se com um objectivo justo, mas menos árduo. Italiam petimus: regressamos à Pensão Bertolini.

George disse que era o antigo quarto dele.

— Não, não é — disse Lucy —; porque é o quarto que eu tive, e eu tive o quarto do seu pai. Esqueço-me porquê; a Charlotte fez com que eu, por alguma razão.

Ele ajoelhou no chão de ladrilhos e enterrou o rosto no regaço dela.

— George, seu bébé, levante-se.

— Por que não hei-de ser um bébé? — murmurou George.

Incapaz de responder a esta pergunta, ela pousou a meia dele, que tentava cerzir, e olhou pela janela. Era a noite e, de novo, a primavera.

— Oh, maldita Charlotte — disse ela, pensativa. — De que serão feitas tais pessoas?

— Da mesma matéria de que são feitos os párocos.

— Disparates!

— Muito bem. São disparates.

— Agora levante-se do chão frio, ou vai começar com reumatismo a seguir, e pare de rir e de ser tão tolo.

— Por que não hei-de rir? — perguntou ele, prendendo-a com os cotovelos e avançando o rosto para o dela. — Que há para chorar? Beija-me aqui. — Indicou o sítio onde um beijo seria bem-vindo.

Era um rapaz, afinal de contas. Quando se chegou ao ponto, foi ela quem se lembrou do passado, ela em cuja alma o ferro penetrara, ela que sabia de quem fora aquele quarto no ano anterior. Tornou-o-lhe estranhamente querido que ele por vezes se enganasse.

— Cartas? — perguntou ele.

— Apenas um bilhete do Freddy.

— Agora beija-me aqui; depois aqui.

Então, de novo ameaçado pelo reumatismo, passeou até à janela, abriu-a (como fazem os ingleses) e debruçou-se. Eis o parapeito, eis o rio, eis à esquerda os primeiros contornos das colinas. O cocheiro, que logo o saudou com um silvo de serpente, bem poderia ser aquele Faetonte que pusera em movimento aquela felicidade doze meses atrás. Uma paixão de gratidão — todos os sentimentos crescem até se tornarem paixões no Sul — tomou conta do marido, e ele abençoou as pessoas e as coisas que tanto se tinham dado por um jovem parvo. Ele ajudara-se a si próprio, é certo, mas que estupidamente!

Todas as lutas que importavam tinham sido travadas por outros — pela Itália, pelo pai dele, pela esposa.

— Lucy, vem ver os ciprestes; e a igreja, seja qual for o nome, ainda se vê.

— San Miniato. Vou acabar a tua meia.

— Signorino, domani faremo uno giro — gritou o cocheiro, com uma segurança cativante.

George disse-lhe que estava enganado; não tinham dinheiro para gastar em passeios de carro.

E as pessoas que não tinham pretendido ajudá-los — as senhoras Lavish, os Cecil, as senhoritas Bartlett! Sempre propenso a exagerar o poder do Destino, George foi contando as forças que o tinham arrastado para aquela paz.

— Há alguma coisa de bom na carta do Freddy?

— Ainda não.

O contentamento dele era absoluto, mas o dela trazia amargura: os Honeychurch não lhes tinham perdoado; estavam desgostosos com a hipocrisia passada dela; ela alienara Windy Corner, talvez para sempre.

— Que diz ele?

— Parvo de um rapaz! Julga que está a ser digno. Sabia que nós havíamos de partir na primavera — sabe-o há seis meses — que, se a mãe não desse o consentimento, havíamos de resolver a coisa por nossa conta. Tiveram aviso suficiente, e agora ele chama-lhe uma fuga. Rapaz ridículo —

— Signorino, domani faremo uno giro —

— Mas tudo acabará por se compor. Ele tem de nos reconstruir a ambos de novo desde o princípio. Quem me dera, porém, que o Cecil não se tivesse tornado tão cínico a respeito das mulheres. Ele está, pela segunda vez, completamente mudado. Por que haverá homens com teorias sobre mulheres? Eu não tenho nenhuma sobre os homens. Quem me dera também que o Mr. Beebe —

— Tens toda a razão em desejá-lo.

— Ele nunca nos perdoará — quero dizer, nunca mais se interessará por nós. Quem me dera que ele não tivesse tanta influência em Windy Corner. Quem me dera que ele não tivesse — Mas se agimos com verdade, as pessoas que verdadeiramente nos amam hão de voltar a nós, mais cedo ou mais tarde.

— Talvez. — Depois, mais docemente: — Pois eu agi com verdade — a única coisa que fiz — e tu voltaste para mim. De modo que talvez sejas tu quem sabe. — Voltou para dentro do quarto. — Tolices com essa meia. — Pegou nela e levou-a à janela, para que também ela visse toda a vista. Ajoelharam-se, invisíveis da estrada, esperavam eles, e começaram a murmurar os nomes um do outro. Ah! valera a pena; era a grande alegria que haviam esperado, e inumeráveis pequenas alegrias de que jamais haviam sonhado. Calaram-se.

— Signorino, domani faremo —

— Oh, que maçada aquele homem!

Mas Lucy lembrou-se do vendedor de fotografias e disse: — Não, não sejas mal-educado para ele. — Depois, com um prender de respiração, murmurou: — O Mr. Eager e a Charlotte, a horrível Charlotte gelada. Como ela seria cruel para um homem como aquele!

— Olha as luzes a passar sobre a ponte.

— Mas este quarto faz-me lembrar a Charlotte. Que horror envelhecer como a Charlotte! Pensar que naquela noite na reitoria ela não tenha ouvido dizer que o teu pai estava em casa. Pois teria impedido que eu entrasse, e ele era a única pessoa viva capaz de me fazer ver as coisas com sensatez. Tu não poderias. Quando estou muito feliz — beijou-o — lembro-me de como tudo depende de tão pouco. Se a Charlotte tivesse sabido, teria impedido que eu entrasse, e eu teria ido para a estúpida Grécia, e ter-me-ia tornado outra para sempre.

— Mas ela soube — disse George —; ela viu o meu pai, certamente. Ele disse-o.

— Oh, não, ela não o viu. Estava no andar de cima com a velha Mrs. Beebe, não te lembras?, e depois foi diretamente para a igreja. Ela disse-o.

George voltou a ser obstinado. — O meu pai — disse ele — viu-a, e eu prefiro a palavra dele. Estava a dormitar junto à lareira do escritório, abriu os olhos, e lá estava Miss Bartlett. Uns minutos antes de tu entrares. Voltava-se para sair quando ele acordou. Não lhe falou.

Depois falaram de outras coisas — a conversa desulta daqueles que lutaram para se alcançar e cujo prémio é repousar tranquilamente nos braços um do outro. Muito tardou até voltarem a Miss Bartlett, mas quando o fizeram o comportamento dela pareceu-lhes mais interessante. George, que detestava qualquer obscuridade, disse: — É claro que ela sabia. Então, por que arriscou o encontro? Sabia que ele estava lá, e mesmo assim foi à igreja.

Tentaram reconstituir o caso.

Enquanto falavam, uma solução incrível veio ao espírito de Lucy. Rejeitou-a e disse: — Tão próprio da Charlotte desatar o seu próprio trabalho com uma atrapalhação fraca no último momento. — Mas algo na noite que morria, no rugido do rio, no próprio abraço os avisava de que as palavras dela ficavam aquém da vida, e George murmurou: — Ou terá ela querido isso?

— Quisesse o quê?

— Signorino, domani faremo uno giro —

Lucy debruçou-se e disse com doçura: — Lascia, prego, lascia. Siamo sposati.

— Scusi tanto, signora — respondeu ele em tons igualmente doces, e chicoteou o cavalo.

— Buona sera — e grazie.

— Niente.

O cocheiro afastou-se a cantar.

— Quisesse o quê, George?

Ele murmurou: — Será isto? É isto possível? Vou propor-te um prodígio. Que a tua prima sempre tivesse esperado. Que desde o primeiro instante em que nos encontrámos, lá no fundo, ela tivesse esperado que acabássemos assim — claro, muitíssimo no fundo. Que à superfície lutou contra nós, e contudo esperou. Não consigo explicá-la de outra maneira. Consegues tu? Vê como ela me conservou vivo em ti todo o verão; como te não deu paz; como mês após mês se foi tornando mais excêntrica e menos segura de si. A nossa imagem perseguia-a — ou não teria podido descrever-nos como descreveu à amiga. Há detalhes — aquilo ardia. Li o livro depois. Ela não está gelada, Lucy, não está ressequida por dentro. Separou-nos duas vezes, mas naquela tarde na reitoria recebeu mais uma oportunidade de nos fazer felizes. Jamais poderemos tornar-nos amigos dela nem agradecer-lhe. Mas creio bem que, lá no fundo do coração dela, bem abaixo de todas as palavras e condutas, ela está contente.

— É impossível — murmurou Lucy, e depois, lembrando-se das experiências do próprio coração, disse: — Não — é apenas possível.

A juventude envolvia-os; o canto de Faetonte anunciava paixão correspondida, amor alcançado. Mas tinham consciência de um amor mais misterioso do que este. O canto extinguiu-se; ouviram o rio, levando para o Mediterrâneo as neves do inverno.

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