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A Study in Scarlet

by Arthur Conan Doyle · in Portuguese

UM ESTUDO EM VERMELHO

Por A. Conan Doyle

ÍNDICE

UM ESTUDO EM VERMELHO.

PARTE I. CAPÍTULO I. O SR. SHERLOCK HOLMES. CAPÍTULO II. A CIÊNCIA DA DEDUÇÃO. CAPÍTULO III. O MISTÉRIO DE LAURISTON GARDENS. CAPÍTULO IV. O QUE JOHN RANCE TINHA A DIZER. CAPÍTULO V. NOSSO ANÚNCIO TRAZ UM VISITANTE. CAPÍTULO VI. TOBIAS GREGSON MOSTRA DO QUE É CAPAZ. CAPÍTULO VII. LUZ NAS TREVAS.

PARTE II. A TERRA DOS SANTOS CAPÍTULO I. NA GRANDE PLANÍCIE ALCALINA. CAPÍTULO II. A FLOR DE UTAH. CAPÍTULO III. JOHN FERRIER CONVERSA COM O PROFETA. CAPÍTULO IV. UMA FUGA PELA VIDA. CAPÍTULO V. OS ANJOS VINGADORES. CAPÍTULO VI. UMA CONTINUAÇÃO DAS REMINISCÊNCIAS DE JOHN WATSON, M.D. CAPÍTULO VII. A CONCLUSÃO.

UM ESTUDO EM VERMELHO.

PARTE I.

(Sendo uma reimpressão das Reminiscências de JOHN H. WATSON, M.D., ex-membro do Departamento Médico do Exército.)

CAPÍTULO I. O SR. SHERLOCK HOLMES.

No ano de 1878, obtive meu diploma de Doutor em Medicina pela Universidade de Londres e segui para Netley, a fim de cumprir o curso prescrito para cirurgiões no exército. Tendo concluído meus estudos ali, fui devidamente designado para o Quinto Regimento de Fuzileiros de Northumberland como cirurgião assistente. O regimento estava estacionado na Índia na época e, antes que eu pudesse juntar-me a ele, a segunda guerra afegã havia eclodido. Ao desembarcar em Bombaim, soube que meu corpo de exército havia avançado pelos desfiladeiros e já estava embrenhado no território inimigo. Segui, contudo, com muitos outros oficiais que se encontravam na mesma situação que eu, e consegui chegar a Candaar em segurança, onde encontrei meu regimento e assumi imediatamente minhas novas funções.

A campanha trouxe honras e promoções para muitos, mas, para mim, não reservou nada além de infortúnio e desastre. Fui removido de minha brigada e designado para os Berkshire, com os quais servi na fatídica batalha de Maiwand. Ali, fui atingido no ombro por uma bala de Jezail, que estilhaçou o osso e roçou a artéria subclávia. Eu teria caído nas mãos dos Ghazis assassinos, não fosse pela devoção e coragem demonstradas por Murray, meu ordenança, que me lançou sobre um cavalo de carga e conseguiu levar-me em segurança até as linhas britânicas.

Exausto de dor e enfraquecido pelas prolongadas privações que sofrera, fui removido, com um grande comboio de feridos, para o hospital de base em Peshawar. Ali, recuperei-me e já havia melhorado o suficiente para caminhar pelas alas e até mesmo tomar um pouco de sol na varanda, quando fui abatido pela febre tifoide, essa maldição de nossas possessões indianas. Durante meses, perdi as esperanças de sobreviver e, quando finalmente recuperei a consciência e entrei em convalescença, estava tão fraco e emaciado que uma junta médica determinou que não se deveria perder um dia sequer para enviar-me de volta à Inglaterra. Fui despachado, consequentemente, no navio de transporte de tropas "Orontes" e desembarquei um mês depois no cais de Portsmouth, com minha saúde irremediavelmente arruinada, mas com permissão de um governo paternal para passar os nove meses seguintes tentando melhorá-la.

Eu não tinha parentes nem conhecidos na Inglaterra e, portanto, estava tão livre quanto o ar — ou tão livre quanto uma renda de onze xelins e seis pence por dia permite que um homem seja. Nessas circunstâncias, naturalmente gravitei em direção a Londres, aquela grande fossa para a qual todos os ociosos e vadios do Império são irresistivelmente drenados. Ali, permaneci por algum tempo em um hotel particular no Strand, levando uma existência desconfortável e sem sentido, gastando o pouco dinheiro que tinha de forma consideravelmente mais livre do que deveria. O estado das minhas finanças tornou-se tão alarmante que logo percebi que deveria deixar a metrópole e viver no campo, ou fazer uma mudança completa em meu estilo de vida. Escolhendo a segunda alternativa, comecei por decidir deixar o hotel e procurar aposento em algum domicílio menos pretensioso e menos dispendioso.

No exato dia em que cheguei a essa conclusão, estava no Criterion Bar quando alguém tocou no meu ombro; ao virar-me, reconheci o jovem Stamford, que fora interno sob minha supervisão no Barts. A visão de um rosto amigo na grande vastidão de Londres é, de fato, algo agradável para um homem solitário. Antigamente, Stamford nunca fora um amigo íntimo, mas agora saudei-o com entusiasmo e ele, por sua vez, pareceu encantado ao ver-me. Na exuberância de minha alegria, convidei-o para almoçar comigo no Holborn e partimos juntos em um hansom.

— O que tem feito da vida, Watson? — perguntou ele com espanto indisfarçável, enquanto percorríamos as ruas lotadas de Londres. — Você está magro como um caniço e bronzeado como uma noz.

Dei-lhe um breve esboço das minhas aventuras e mal havia concluído quando chegamos ao nosso destino.

— Pobre diabo! — disse ele com compaixão, após ouvir meus infortúnios. — O que você pretende fazer agora?

— Procurar hospedagem — respondi. — Tentando resolver o problema de saber se é possível conseguir quartos confortáveis a um preço razoável.

— Isso é estranho — observou meu companheiro; — você é o segundo homem hoje que usa essa expressão comigo.

— E quem foi o primeiro? — perguntei.

— Um sujeito que trabalha no laboratório de química lá no hospital. Ele estava lamentando-se esta manhã por não conseguir alguém para dividir umas salas agradáveis que encontrou, e que pesavam demais em sua bolsa.

— Por Júpiter! — exclamei. — Se ele realmente quer alguém para dividir o aluguel e as despesas, sou o homem certo para ele. Prefiro ter um parceiro a ficar sozinho.

O jovem Stamford olhou para mim de maneira estranha por cima de sua taça de vinho. — Você ainda não conhece Sherlock Holmes — disse ele; — talvez não goste dele como companheiro constante.

— Ora, o que há contra ele?

— Oh, não disse que havia algo contra ele. Ele é um pouco peculiar em suas ideias — um entusiasta em alguns ramos da ciência. Até onde sei, é um sujeito bastante decente.

— Um estudante de medicina, suponho? — disse eu.

— Não — não faço ideia do que ele pretende seguir. Acredito que ele domine bem a anatomia e é um químico de primeira classe; mas, até onde sei, nunca frequentou aulas sistemáticas de medicina. Seus estudos são muito assistemáticos e excêntricos, mas ele acumulou uma grande quantidade de conhecimentos incomuns que surpreenderiam seus professores.

— Você nunca perguntou o que ele pretende ser? — perguntei.

— Não; ele não é um homem fácil de se abrir, embora possa ser bastante comunicativo quando a vontade lhe toma.

— Eu gostaria de conhecê-lo — disse. — Se é para me hospedar com alguém, prefiro um homem de hábitos estudiosos e silenciosos. Ainda não tenho forças para suportar muito barulho ou agitação. Tive o suficiente de ambos no Afeganistão para o resto da minha existência natural. Como poderia encontrar esse seu amigo?

— Ele certamente estará no laboratório — respondeu meu companheiro. — Ou ele evita o lugar por semanas, ou trabalha lá de manhã até a noite. Se você quiser, podemos ir até lá depois do almoço.

— Certamente — respondi, e a conversa desviou-se para outros assuntos.

Enquanto seguíamos para o hospital após deixar o Holborn, Stamford deu-me mais alguns detalhes sobre o cavalheiro que eu pretendia ter como companheiro de quarto.

— Não me culpe se não se entender com ele — disse ele; — não sei mais nada sobre ele além do que aprendi encontrando-o ocasionalmente no laboratório. Você propôs esse arranjo, portanto não me considere responsável.

— Se não nos entendermos, será fácil separar os caminhos — respondi. — Parece-me, Stamford — acrescentei, olhando fixamente para meu companheiro —, que você tem algum motivo para lavar as mãos a respeito disso. O temperamento desse sujeito é tão formidável, ou o que é? Não tente disfarçar.

— Não é fácil expressar o inexprimível — respondeu ele com uma risada. — Holmes é um pouco científico demais para o meu gosto — aproxima-se da frieza. Eu poderia imaginá-lo dando a um amigo uma pequena pitada do mais recente alcaloide vegetal, não por malevolência, entende, mas simplesmente por um espírito de investigação, para ter uma ideia precisa dos efeitos. Para lhe fazer justiça, creio que ele mesmo tomaria a substância com a mesma prontidão. Ele parece ter uma paixão por conhecimento definitivo e exato.

— Muito certo também.

— Sim, mas pode ser levado ao excesso. Quando chega ao ponto de espancar os cadáveres nas salas de anatomia com um bastão, isso certamente toma uma forma bastante bizarra.

— Espancar os cadáveres!

— Sim, para verificar até que ponto as manchas de contusão podem ser produzidas após a morte. Eu o vi fazendo isso com meus próprios olhos.

— E, no entanto, você diz que ele não é um estudante de medicina?

— Não. Deus sabe quais são os objetivos de seus estudos. Mas aqui estamos, e você deve formar suas próprias impressões sobre ele. — Enquanto falava, dobramos em uma viela estreita e passamos por uma pequena porta lateral que dava para uma ala do grande hospital. Era terreno familiar para mim e não precisei de guia enquanto subíamos a lúgubre escadaria de pedra e percorríamos o longo corredor com sua vista de parede caiada e portas de cor parda. Perto do final, uma passagem em arco baixo ramificava-se e levava ao laboratório de química.

Era uma câmara alta, forrada e atulhada com incontáveis frascos. Mesas largas e baixas estavam espalhadas pelo local, eriçadas de retortas, tubos de ensaio e pequenas lâmpadas de Bunsen, com suas chamas azuis oscilantes. Havia apenas um estudante na sala, inclinado sobre uma mesa distante, absorto em seu trabalho. Ao som de nossos passos, ele olhou para trás e saltou para os pés com um grito de prazer. — Eu encontrei! Eu encontrei! — gritou para meu companheiro, correndo em nossa direção com um tubo de ensaio na mão. — Encontrei um reagente que é precipitado pela hemoglobina, e por nada mais. — Se tivesse descoberto uma mina de ouro, maior deleite não poderia ter brilhado em suas feições.

— Dr. Watson, Sr. Sherlock Holmes — disse Stamford, apresentando-nos.

— Como vai? — disse ele cordialmente, apertando minha mão com uma força que eu dificilmente teria creditado a ele. — Você esteve no Afeganistão, percebo.

— Como diabos você soube disso? — perguntei, estupefato.

— Não importa — disse ele, rindo para si mesmo. — A questão agora é sobre a hemoglobina. Sem dúvida você vê o significado desta minha descoberta?

— É interessante, quimicamente, sem dúvida — respondi —, mas praticamente...

— Ora, homem, é a descoberta médico-legal mais prática em anos. Você não vê que isso nos dá um teste infalível para manchas de sangue? Venha aqui agora! — Ele agarrou-me pela manga do casaco em seu entusiasmo e arrastou-me para a mesa na qual estivera trabalhando. — Vamos conseguir um pouco de sangue fresco — disse ele, cravando uma agulha longa no dedo e retirando a gota de sangue resultante com uma pipeta química. — Agora, adiciono essa pequena quantidade de sangue a um litro de água. Você percebe que a mistura resultante tem a aparência de água pura. A proporção de sangue não pode ser mais do que uma em um milhão. Não tenho dúvidas, contudo, de que seremos capazes de obter a reação característica. — Enquanto falava, jogou no recipiente alguns cristais brancos e, em seguida, adicionou algumas gotas de um fluido transparente. Em um instante, o conteúdo assumiu uma cor de mogno fosco e um pó acastanhado precipitou-se para o fundo do frasco de vidro.

— Ha! ha! — exclamou ele, batendo palmas e parecendo tão encantado quanto uma criança com um brinquedo novo. — O que acha disso?

— Parece ser um teste muito delicado — comentei.

— Belo! belo! O antigo teste de Guaiaco era muito desajeitado e incerto. Assim como o exame microscópico para glóbulos sanguíneos. Este último é inútil se as manchas tiverem algumas horas de idade. Ora, este parece agir bem, esteja o sangue velho ou novo. Se este teste tivesse sido inventado, haveria centenas de homens caminhando sobre a terra que há muito teriam pago a pena por seus crimes.

— De fato! — murmurei.

— Casos criminais dependem continuamente desse único ponto. Um homem é suspeito de um crime meses talvez após ter sido cometido. Suas roupas de cama ou vestimentas são examinadas e manchas acastanhadas são descobertas nelas. São manchas de sangue, ou de lama, ou de ferrugem, ou manchas de frutas, ou o que são? Essa é uma questão que intrigou muitos especialistas, e por quê? Porque não havia teste confiável. Agora temos o teste de Sherlock Holmes e não haverá mais qualquer dificuldade.

Seus olhos brilhavam enquanto falava; ele colocou a mão sobre o coração e fez uma reverência, como se para uma multidão aplaudindo evocada por sua imaginação.

— Você está de parabéns — observei, consideravelmente surpreso com seu entusiasmo.

— Houve o caso de Von Bischoff em Frankfurt no ano passado. Ele certamente teria sido enforcado se este teste existisse. Depois houve Mason de Bradford, e o notório Muller, e Lefevre de Montpellier, e Samson de Nova Orleans. Eu poderia citar vinte casos em que teria sido decisivo.

— Você parece ser um calendário ambulante do crime — disse Stamford com uma risada. — Você poderia começar um jornal nessas linhas. Chame-o de "Notícias Policiais do Passado".

— Poderia tornar-se uma leitura muito interessante, também — observou Sherlock Holmes, colando um pequeno pedaço de esparadrapo sobre a picada em seu dedo. — Tenho que ser cuidadoso — continuou, voltando-se para mim com um sorriso —, pois lido bastante com venenos. — Ele estendeu a mão enquanto falava e notei que estava toda manchada com pedaços semelhantes de esparadrapo e descolorida por ácidos fortes.

— Viemos aqui a negócios — disse Stamford, sentando-se em um banco alto de três pernas e empurrando outro na minha direção com o pé. — Meu amigo aqui quer alugar aposentos e, como você estava reclamando que não conseguia ninguém para dividir as despesas, pensei que seria melhor juntar vocês dois.

Sherlock Holmes pareceu encantado com a ideia de compartilhar seus quartos comigo. — Estou de olho em um apartamento na Baker Street — disse ele —, que nos serviria como uma luva. Você não se importa com o cheiro de tabaco forte, espero?

— Eu sempre fumo tabaco de navio — respondi.

— Isso é bom o suficiente. Geralmente tenho produtos químicos por perto e ocasionalmente faço experimentos. Isso o incomodaria?

— De modo algum.

— Deixe-me ver — quais são minhas outras falhas? Fico deprimido às vezes e não abro a boca por dias a fio. Você não deve pensar que sou carrancudo quando faço isso. Apenas deixe-me em paz e logo estarei bem. O que você tem a confessar agora? É bom que dois sujeitos saibam o pior um do outro antes de começarem a viver juntos.

Ri-me desse interrogatório. — Tenho um buldogue — disse eu —, e oponho-me a brigas porque meus nervos estão abalados, e levanto-me a todas as horas impróprias, e sou extremamente preguiçoso. Tenho outro conjunto de vícios quando estou bem, mas esses são os principais no momento.

— Você inclui tocar violino em sua categoria de brigas? — perguntou ele, ansiosamente.

— Depende do músico — respondi. — Um violino bem tocado é um deleite para os deuses — um mal tocado...

— Oh, tudo bem — exclamou ele, com uma risada alegre. — Acho que podemos considerar a coisa como decidida — isto é, se os quartos forem do seu agrado.

— Quando vamos vê-los?

— Passe aqui amanhã ao meio-dia e iremos juntos resolver tudo — respondeu ele.

— Tudo bem — meio-dia em ponto — disse eu, apertando sua mão.

Deixamo-lo trabalhando entre seus produtos químicos e caminhamos juntos em direção ao meu hotel.

— A propósito — perguntei de repente, parando e voltando-me para Stamford —, como diabos ele sabia que eu tinha vindo do Afeganistão?

Meu companheiro sorriu um sorriso enigmático. — Essa é apenas a pequena peculiaridade dele — disse ele. — Muitas pessoas quiseram saber como ele descobre as coisas.

— Oh! um mistério, é? — exclamei, esfregando as mãos. — Isso é muito picante. Estou muito grato a você por nos ter reunido. "O estudo adequado da humanidade é o homem", você sabe.

— Você deve estudá-lo, então — disse Stamford, enquanto se despedia. — Você o achará um problema difícil, no entanto. Aposto que ele aprende mais sobre você do que você sobre ele. Adeus.

— Adeus — respondi, e caminhei até meu hotel, consideravelmente interessado em meu novo conhecido.

CAPÍTULO II. A CIÊNCIA DA DEDUÇÃO.

Encontramo-nos no dia seguinte, como ele havia arranjado, e inspecionamos os quartos no nº 221B, Baker Street, dos quais ele havia falado em nosso encontro. Consistiam em um par de quartos de dormir confortáveis e uma única sala de estar grande e arejada, alegremente mobiliada e iluminada por duas janelas largas. Tão desejáveis em todos os aspectos eram os aposentos, e tão moderados pareciam os termos quando divididos entre nós, que o negócio foi concluído no ato e entramos imediatamente na posse. Naquela mesma noite, transferi minhas coisas do hotel e, na manhã seguinte, Sherlock Holmes seguiu-me com várias caixas e malas. Por um dia ou dois, estivemos ocupados desfazendo as malas e dispondo nossos pertences da melhor maneira. Feito isso, começamos gradualmente a nos acomodar e a nos adaptar aos nossos novos arredores.

Holmes certamente não era um homem difícil de conviver. Ele era silencioso em seus modos e seus hábitos eram regulares. Era raro ele estar acordado depois das dez da noite, e invariavelmente tomava café da manhã e saía antes que eu me levantasse pela manhã. Às vezes, passava o dia no laboratório de química, às vezes nas salas de anatomia e, ocasionalmente, em longas caminhadas que pareciam levá-lo às partes mais baixas da cidade. Nada poderia superar sua energia quando o ímpeto de trabalho o possuía; mas, de tempos em tempos, uma reação o dominava e, por dias a fio, ele ficava deitado no sofá da sala de estar, mal proferindo uma palavra ou movendo um músculo de manhã até a noite. Nessas ocasiões, notei uma expressão tão sonhadora e vaga em seus olhos que eu poderia tê-lo suspeitado de ser viciado no uso de algum narcótico, se a temperança e a limpeza de toda a sua vida não proibissem tal noção.

Com o passar das semanas, meu interesse por ele e minha curiosidade sobre seus objetivos na vida aprofundaram-se e aumentaram gradualmente. Sua própria pessoa e aparência eram tais que chamavam a atenção do observador mais casual. Em altura, ele tinha pouco mais de um metro e oitenta, e era excessivamente magro, o que o fazia parecer consideravelmente mais alto. Seus olhos eram aguçados e penetrantes, exceto durante aqueles intervalos de torpor aos quais aludi; e seu nariz fino, semelhante ao de um falcão, dava a toda a sua expressão um ar de alerta e decisão. Seu queixo, também, tinha a proeminência e a quadratura que marcam o homem de determinação. Suas mãos estavam invariavelmente manchadas de tinta e produtos químicos, mas possuía uma extraordinária delicadeza de toque, como observei frequentemente quando o via manipular seus frágeis instrumentos filosóficos.

O leitor pode me considerar um curioso sem esperança quando confesso o quanto esse homem estimulava minha curiosidade e quantas vezes tentei romper a reticência que ele mostrava em tudo o que dizia respeito a si mesmo. Antes de julgar, contudo, lembre-se de quão sem objetivo era minha vida e quão pouco havia para ocupar minha atenção. Minha saúde proibia-me de arriscar sair a menos que o tempo estivesse excepcionalmente ameno, e eu não tinha amigos que pudessem me visitar e quebrar a monotonia da minha existência diária. Nessas circunstâncias, saudei avidamente o pequeno mistério que pairava ao redor do meu companheiro e passei grande parte do meu tempo tentando desvendá-lo.

Ele não estudava medicina. Ele próprio, em resposta a uma pergunta, confirmara a opinião de Stamford sobre esse ponto. Tampouco parecia ter seguido qualquer curso de leitura que pudesse habilitá-lo a um diploma em ciências ou a qualquer outro portal reconhecido que lhe desse entrada no mundo erudito. No entanto, seu zelo por certos estudos era notável e, dentro de limites excêntricos, seu conhecimento era tão extraordinariamente amplo e minucioso que suas observações me deixaram genuinamente pasmo. Certamente, nenhum homem trabalharia tão arduamente ou obteria informações tão precisas a menos que tivesse algum objetivo definido em vista. Leitores dispersos raramente se destacam pela exatidão de seu saber. Ninguém sobrecarrega a mente com pequenas questões, a menos que tenha uma razão muito boa para fazê-lo.

Sua ignorância era tão notável quanto seu conhecimento. Da literatura, filosofia e política contemporâneas, ele parecia não saber quase nada. Ao citar Thomas Carlyle, ele perguntou da maneira mais ingênua quem ele poderia ser e o que ele havia feito. Minha surpresa atingiu o ápice, contudo, quando descobri incidentalmente que ele ignorava a Teoria Copernicana e a composição do Sistema Solar. Que qualquer ser humano civilizado neste século dezenove não estivesse ciente de que a terra girava em torno do sol parecia-me um fato tão extraordinário que eu mal podia acreditar.

“Você parece estar espantado”, disse ele, sorrindo diante da minha expressão de surpresa. “Agora que já sei, farei o possível para esquecê-lo.”

“Para esquecê-lo!”

“Veja bem”, explicou ele, “considero que o cérebro de um homem é originalmente como um pequeno sótão vazio, e você deve estocá-lo com a mobília que escolher. O tolo aceita todo tipo de tralha que encontra pela frente, de modo que o conhecimento que poderia ser-lhe útil acaba sendo espremido para fora ou, na melhor das hipóteses, misturado com muitas outras coisas, dificultando o acesso a ele. Ora, o artífice habilidoso é muito cuidadoso quanto ao que leva para seu sótão cerebral. Ele não terá nada além das ferramentas que possam ajudá-lo em seu trabalho, mas destas ele possui uma vasta variedade, e todas na mais perfeita ordem. É um erro pensar que aquele pequeno cômodo tem paredes elásticas e pode distender-se até certo ponto. Pode acreditar, chega um momento em que, para cada adição de conhecimento, você esquece algo que sabia anteriormente. É de suma importância, portanto, não ter fatos inúteis expulsando os úteis.”

“Mas o Sistema Solar!” protestei.

“Que diabo isso me importa?” interrompeu ele impacientemente; “você diz que giramos em torno do sol. Se girássemos em torno da lua, não faria a menor diferença para mim ou para o meu trabalho.”

Eu estava prestes a perguntar-lhe que trabalho seria esse, mas algo em seu comportamento mostrou-me que a pergunta seria indesejada. Refleti, contudo, sobre nossa curta conversa e tentei tirar minhas deduções dela. Ele disse que não adquiriria conhecimento que não estivesse relacionado ao seu objetivo. Portanto, todo o conhecimento que ele possuía era aquele que lhe seria útil. Enumerei em minha mente todos os vários pontos sobre os quais ele me mostrara ser excepcionalmente bem informado. Cheguei a pegar um lápis e anotá-los. Não pude deixar de sorrir ao ver o documento quando o completei. Ele dizia o seguinte:

SHERLOCK HOLMES — seus limites.

1. Conhecimento de Literatura. — Nulo. 2. Filosofia. — Nulo. 3. Astronomia. — Nulo. 4. Política. — Fraco. 5. Botânica. — Variável. Bem versado em beladona, ópio e venenos em geral. Não sabe nada sobre jardinagem prática. 6. Geologia. — Prática, mas limitada. Distingue num relance diferentes tipos de solo. Após caminhadas, mostrou-me respingos em suas calças e, pela cor e consistência, disse-me em que parte de Londres ele os adquirira. 7. Química. — Profundo. 8. Anatomia. — Preciso, mas assistemático. 9. Literatura Sensacionalista. — Imenso. Ele parece conhecer cada detalhe de cada horror perpetrado no século. 10. Toca violino bem. 11. É um especialista em luta de bastão, boxe e esgrima. 12. Tem um bom conhecimento prático das leis britânicas.

Quando cheguei a esse ponto em minha lista, atirei-a ao fogo em desespero. “Se só posso descobrir o que o sujeito pretende reconciliando todas essas habilidades e descobrindo uma profissão que precise de todas elas”, disse a mim mesmo, “mais vale desistir da tentativa de uma vez.”

Vejo que aludi acima às suas habilidades com o violino. Eram muito notáveis, mas tão excêntricas quanto todas as suas outras realizações. Que ele podia tocar peças, e peças difíceis, eu sabia bem, pois, a meu pedido, ele tocou para mim alguns dos Lieder de Mendelssohn e outros favoritos. Quando deixado a sós, no entanto, raramente produzia qualquer música ou tentava qualquer melodia reconhecida. Recostado em sua poltrona à noite, ele fechava os olhos e dedilhava descuidadamente o violino que estava atravessado sobre seus joelhos. Às vezes os acordes eram sonoros e melancólicos. Ocasionalmente eram fantásticos e alegres. Claramente, refletiam os pensamentos que o possuíam, mas se a música ajudava esses pensamentos, ou se tocar era simplesmente o resultado de um capricho ou fantasia, era mais do que eu podia determinar. Eu poderia ter me rebelado contra esses solos exasperantes se não fosse pelo fato de que ele geralmente os encerrava tocando, em rápida sucessão, toda uma série das minhas melodias favoritas, como uma leve compensação pela prova à minha paciência.

Durante a primeira semana ou mais, não tivemos visitantes, e eu começara a pensar que meu companheiro era um homem tão desprovido de amigos quanto eu próprio. Logo, contudo, descobri que ele tinha muitos conhecidos, e nas mais diferentes classes da sociedade. Havia um sujeito pequeno, de rosto amarelado, cara de rato e olhos escuros, que me foi apresentado como Sr. Lestrade, e que vinha três ou quatro vezes em uma única semana. Certa manhã, uma jovem moça apareceu, vestida da moda, e ficou por meia hora ou mais. A mesma tarde trouxe um visitante grisalho e maltrapilho, parecendo um mascate judeu, que me pareceu muito agitado e que era seguido de perto por uma mulher idosa de aparência desleixada. Em outra ocasião, um cavalheiro idoso de cabelos brancos teve uma entrevista com meu companheiro; e em outra, um carregador ferroviário em seu uniforme de veludo cotelê. Quando qualquer um desses indivíduos indefiníveis aparecia, Sherlock Holmes costumava pedir o uso da sala de estar, e eu me retirava para o meu quarto. Ele sempre me pedia desculpas por causar-me esse inconveniente. “Tenho de usar este cômodo como local de trabalho”, dizia ele, “e essas pessoas são meus clientes.” Novamente tive a oportunidade de lhe fazer uma pergunta direta, e novamente minha delicadeza impediu-me de forçar outro homem a confiar em mim. Imaginei na época que ele tinha algum motivo forte para não aludir ao assunto, mas ele logo dissipou a ideia ao abordar o tema por conta própria.

Foi no dia 4 de março, como tenho bons motivos para lembrar, que me levantei um pouco mais cedo do que o habitual e descobri que Sherlock Holmes ainda não terminara seu café da manhã. A senhoria acostumara-se tanto com meus hábitos tardios que meu lugar não fora posto nem meu café preparado. Com a petulância irracional da humanidade, toquei a campainha e dei uma intimação curta de que estava pronto. Então, peguei uma revista da mesa e tentei passar o tempo com ela, enquanto meu companheiro mastigava silenciosamente sua torrada. Um dos artigos tinha uma marca de lápis no título, e eu naturalmente comecei a passar os olhos por ele.

Seu título um tanto ambicioso era “O Livro da Vida”, e tentava mostrar quanto um homem observador poderia aprender por um exame preciso e sistemático de tudo o que cruzasse seu caminho. Pareceu-me uma mistura notável de astúcia e absurdo. O raciocínio era cerrado e intenso, mas as deduções pareceram-me exageradas e forçadas. O escritor alegava, por uma expressão momentânea, um espasmo de um músculo ou um olhar, sondar os pensamentos mais íntimos de um homem. O engano, segundo ele, era uma impossibilidade no caso de alguém treinado na observação e na análise. Suas conclusões eram tão infalíveis quanto proposições de Euclides. Tão surpreendentes pareceriam seus resultados para os não iniciados que, até aprenderem os processos pelos quais ele chegara a eles, poderiam muito bem considerá-lo um necromante.

“De uma gota d’água”, dizia o escritor, “um lógico poderia inferir a possibilidade de um Atlântico ou de um Niágara sem ter visto ou ouvido falar de um ou de outro. Assim, toda a vida é uma grande corrente, cuja natureza é conhecida sempre que nos é mostrado um único elo dela. Como todas as outras artes, a Ciência da Dedução e da Análise é aquela que só pode ser adquirida por longo e paciente estudo, nem a vida é longa o suficiente para permitir que qualquer mortal atinja a maior perfeição possível nela. Antes de passar para os aspectos morais e mentais da questão que apresentam as maiores dificuldades, que o pesquisador comece dominando problemas mais elementares. Que ele, ao encontrar um semelhante, aprenda num relance a distinguir a história do homem e o ofício ou profissão a que pertence. Por mais pueril que tal exercício possa parecer, ele aguça as faculdades de observação e ensina onde procurar e o que procurar. Pelas unhas de um homem, pela manga de seu casaco, por sua bota, pelos joelhos de sua calça, pelos calos de seu dedo indicador e polegar, por sua expressão, por seus punhos de camisa — por cada uma dessas coisas, a profissão de um homem é claramente revelada. Que tudo unido possa falhar em esclarecer o pesquisador competente em qualquer caso é quase inconcebível.”

“Que besteira inefável!” exclamei, batendo a revista na mesa, “nunca li tal absurdo em minha vida.”

“O que é?” perguntou Sherlock Holmes.

“Ora, este artigo”, disse eu, apontando-o com minha colher de ovo enquanto me sentava para o café da manhã. “Vejo que você o leu, já que o marcou. Não nego que seja escrito com esperteza. Irrita-me, contudo. É evidentemente a teoria de algum preguiçoso de poltrona que desenvolve todos esses pequenos paradoxos elegantes no isolamento de seu próprio escritório. Não é prático. Gostaria de vê-lo jogado em uma carruagem de terceira classe no Metrô e solicitado a indicar as profissões de todos os seus companheiros de viagem. Eu apostaria mil contra um contra ele.”

“Você perderia seu dinheiro”, observou Sherlock Holmes calmamente. “Quanto ao artigo, fui eu quem o escrevi.”

“Você!”

“Sim, tenho vocação tanto para a observação quanto para a dedução. As teorias que expressei ali, e que lhe parecem tão quiméricas, são na verdade extremamente práticas — tão práticas que dependo delas para o meu sustento.”

“E como?” perguntei involuntariamente.

“Bem, tenho uma profissão própria. Suponho ser o único no mundo. Sou um detetive consultor, se é que você pode entender o que é isso. Aqui em Londres, temos muitos detetives do Governo e muitos particulares. Quando esses sujeitos falham, eles vêm até mim, e eu consigo colocá-los no caminho certo. Eles expõem todas as evidências diante de mim, e geralmente sou capaz, com a ajuda do meu conhecimento da história do crime, de orientá-los. Há uma forte semelhança familiar nos delitos e, se você tem todos os detalhes de mil deles na ponta dos dedos, é estranho se não conseguir desvendar o milésimo primeiro. Lestrade é um detetive bem conhecido. Ele se meteu em uma confusão recentemente por causa de um caso de falsificação, e foi isso que o trouxe aqui.”

“E essas outras pessoas?”

“São, em sua maioria, enviadas por agências de investigação particulares. São todas pessoas que estão em apuros por causa de algo e querem um pouco de esclarecimento. Eu ouço suas histórias, eles ouvem meus comentários, e então embolso meus honorários.”

“Mas quer dizer que”, falei, “sem sair do seu quarto, você pode desatar algum nó com o qual outros homens não conseguem fazer nada, embora tenham visto cada detalhe por si mesmos?”

“Exatamente. Tenho uma espécie de intuição para isso. De vez em quando, surge um caso um pouco mais complexo. Então, tenho de me apressar e ver as coisas com meus próprios olhos. Veja bem, possuo muitos conhecimentos especiais que aplico ao problema e que facilitam as coisas maravilhosamente. Aquelas regras de dedução expostas naquele artigo que despertou seu desprezo são inestimáveis para mim no trabalho prático. Observar, para mim, é uma segunda natureza. Você pareceu surpreso quando lhe disse, em nosso primeiro encontro, que você viera do Afeganistão.”

“Você foi avisado, sem dúvida.”

“Nada disso. Eu sabia que você viera do Afeganistão. Por um longo hábito, o trem de pensamentos correu tão velozmente pela minha mente que cheguei à conclusão sem estar consciente dos passos intermediários. Havia tais passos, no entanto. O trem de raciocínio correu: ‘Aqui está um cavalheiro do tipo médico, mas com o ar de um militar. Claramente um médico do exército, então. Ele acabou de vir dos trópicos, pois seu rosto está escuro, e essa não é a tonalidade natural de sua pele, pois seus pulsos são claros. Ele passou por privações e doenças, como seu rosto abatido diz claramente. Seu braço esquerdo foi ferido. Ele o mantém de maneira rígida e antinatural. Onde, nos trópicos, um médico do exército inglês poderia ter visto muitas privações e ter seu braço ferido? Claramente no Afeganistão.’ Todo o trem de pensamentos não ocupou um segundo. Então comentei que você viera do Afeganistão, e você ficou espantado.”

“É simples o bastante quando você explica”, disse eu, sorrindo. “Você me lembra o Dupin de Edgar Allan Poe. Eu não fazia ideia de que tais indivíduos existissem fora das histórias.”

Sherlock Holmes levantou-se e acendeu seu cachimbo. “Sem dúvida você pensa que está me elogiando ao me comparar a Dupin”, observou. “Ora, na minha opinião, Dupin era um sujeito muito inferior. Aquele truque dele de interromper os pensamentos de seus amigos com uma observação a propósito após um quarto de hora de silêncio é realmente muito vistoso e superficial. Ele tinha algum gênio analítico, sem dúvida; mas não era, de forma alguma, tal fenômeno como Poe parecia imaginar.”

“Você leu as obras de Gaboriau?” perguntei. “Lecoq corresponde à sua ideia de um detetive?”

Sherlock Holmes fungou sardonicamente. “Lecoq era um trapalhão miserável”, disse ele, com uma voz irritada; “ele tinha apenas uma coisa a recomendá-lo, que era sua energia. Aquele livro me deixou positivamente doente. A questão era como identificar um prisioneiro desconhecido. Eu poderia ter feito isso em vinte e quatro horas. Lecoq levou seis meses ou mais. Poderia servir de livro didático para detetives para ensinar-lhes o que evitar.”

Senti-me um tanto indignado ao ver dois personagens que eu admirava tratados nesse estilo desdenhoso. Caminhei até a janela e fiquei olhando para a rua movimentada. “Este sujeito pode ser muito inteligente”, disse a mim mesmo, “mas é certamente muito convencido.”

“Não há crimes e não há criminosos nos dias de hoje”, disse ele, rabugento. “Qual é a utilidade de ter cérebro em nossa profissão? Sei bem que tenho em mim o necessário para tornar meu nome famoso. Nenhum homem vive ou jamais viveu que tenha trazido a mesma quantidade de estudo e talento natural para a detecção de crimes que eu. E qual é o resultado? Não há crime para detectar, ou, no máximo, alguma vilania desajeitada com um motivo tão transparente que até um oficial da Scotland Yard consegue enxergar através dele.”

Eu ainda estava irritado com seu estilo de conversa presunçoso. Achei melhor mudar de assunto.

“Eu me pergunto o que aquele sujeito está procurando?” perguntei, apontando para um indivíduo robusto, vestido de forma simples, que caminhava lentamente pelo outro lado da rua, olhando ansiosamente para os números. Ele tinha um grande envelope azul na mão e era evidentemente o portador de uma mensagem.

“Você quer dizer o sargento reformado dos Fuzileiros Navais”, disse Sherlock Holmes.

“Gabação e arrogância!” pensei comigo mesmo. “Ele sabe que não posso verificar seu palpite.”

O pensamento mal passara pela minha mente quando o homem que estávamos observando avistou o número em nossa porta e correu rapidamente pela rua. Ouvimos uma batida forte, uma voz grave lá embaixo e passos pesados subindo a escada.

“Para o Sr. Sherlock Holmes”, disse ele, entrando na sala e entregando a carta ao meu amigo.

Aqui estava uma oportunidade de tirar a arrogância dele. Ele pouco pensava nisso quando deu aquele tiro no escuro. “Posso perguntar, meu rapaz”, disse eu, com a voz mais suave possível, “qual pode ser sua profissão?”

“Comissário, senhor”, disse ele, bruscamente. “Uniforme para conserto.”

“E você era?” perguntei, com um olhar ligeiramente malicioso para meu companheiro.

“Um sargento, senhor, da Infantaria Ligeira da Marinha Real, senhor. Nenhuma resposta? Certo, senhor.”

Ele bateu os calcanhares, ergueu a mão em continência e se foi.

CAPÍTULO III. O MISTÉRIO DE LAURISTON GARDENS

Confesso que fiquei consideravelmente assustado com esta nova prova da natureza prática das teorias do meu companheiro. Meu respeito por seus poderes de análise aumentou maravilhosamente. Ainda permanecia alguma suspeita latente em minha mente, no entanto, de que tudo aquilo fora um episódio pré-arranjado, destinado a me deslumbrar, embora que objetivo terreno ele pudesse ter em me enganar estava além da minha compreensão. Quando olhei para ele, ele terminara de ler o bilhete, e seus olhos assumiram a expressão vaga e sem brilho que demonstrava abstração mental.

“Como diabos você deduziu aquilo?” perguntei.

“Deduzi o quê?” disse ele, petulante.

“Ora, que ele era um sargento reformado dos Fuzileiros Navais.”

“Não tenho tempo para frivolidades”, respondeu ele, bruscamente; então, com um sorriso: “Desculpe minha grosseria. Você quebrou o fio dos meus pensamentos; mas talvez seja melhor assim. Então você realmente não conseguiu ver que aquele homem era um sargento dos Fuzileiros Navais?”

“Não, na verdade não.”

“Era mais fácil saber do que explicar por que eu sabia. Se lhe pedissem para provar que dois e dois são quatro, você poderia encontrar alguma dificuldade, e ainda assim tem certeza do fato. Mesmo do outro lado da rua, pude ver uma grande âncora azul tatuada no dorso da mão do sujeito. Aquilo cheirava a mar. Ele tinha um porte militar, no entanto, e costeletas regulamentares. Ali temos o fuzileiro. Ele era um homem com certa dose de autoimportância e um certo ar de comando. Você deve ter observado a maneira como ele mantinha a cabeça e balançava a bengala. Um homem firme, respeitável e de meia-idade, também, à primeira vista — todos fatos que me levaram a acreditar que ele fora um sargento.”

“Maravilhoso!” exclamei.

“Comum”, disse Holmes, embora eu achasse, pela sua expressão, que ele estava satisfeito com minha evidente surpresa e admiração. “Eu disse agora pouco que não havia criminosos. Parece que estou enganado — veja isto!” Ele me jogou o bilhete que o comissário trouxera.

“Ora”, exclamei, ao passar os olhos por ele, “isto é terrível!”

“Parece ser um pouco fora do comum”, observou ele, calmamente. “Você se importaria de lê-lo para mim em voz alta?”

Esta é a carta que li para ele —

“MEU CARO SR. SHERLOCK HOLMES, —

“Houve um caso grave durante a noite no número 3, Lauriston Gardens, perto da Brixton Road. Nosso homem de ronda viu uma luz lá por volta das duas da manhã e, como a casa estava vazia, suspeitou que algo estivesse errado. Ele encontrou a porta aberta e, na sala da frente, que está desprovida de móveis, descobriu o corpo de um cavalheiro, bem vestido, com cartões no bolso que traziam o nome de ‘Enoch J. Drebber, Cleveland, Ohio, E.U.A.’ Não houve roubo, nem há qualquer indício de como o homem encontrou a morte. Há marcas de sangue na sala, mas não há ferimento em seu corpo. Estamos perdidos quanto a como ele entrou na casa vazia; de fato, todo o caso é um enigma. Se puder vir à casa a qualquer momento antes do meio-dia, encontrar-me-á lá. Deixei tudo em statu quo até ouvir de você. Se não puder vir, darei detalhes mais completos e consideraria uma grande gentileza se me favorecesse com sua opinião.

Atenciosamente, “TOBIAS GREGSON.”

“Gregson é o mais esperto dos homens da Scotland Yard”, meu amigo comentou; “ele e Lestrade são o que há de melhor em uma má safra. Ambos são rápidos e enérgicos, mas convencionais — chocantemente convencionais. Eles também não se bicam. São tão ciumentos quanto um par de belezas profissionais. Haverá alguma diversão neste caso se ambos forem postos na trilha.”

Fiquei espantado com a maneira calma com que ele continuou a falar. “Certamente não há um momento a perder”, exclamei, “devo ir chamar um táxi para você?”

“Não tenho certeza se irei. Sou o diabo mais incuravelmente preguiçoso que já calçou sapatos — isto é, quando o acesso me dá, pois posso ser bastante ágil às vezes.”

“Ora, é justamente a chance que você tanto desejava.”

“Meu caro companheiro, o que isso importa para mim? Supondo que eu desvende toda a questão, pode ter certeza de que Gregson, Lestrade e Cia. embolsarão todo o crédito. Isso é o que acontece por ser uma figura não oficial.”

“Mas ele implora pela sua ajuda.”

“Sim. Ele sabe que sou seu superior e admite isso para mim; mas ele cortaria a própria língua antes de confessar a qualquer terceira pessoa. No entanto, podemos muito bem ir dar uma olhada. Resolverei isso por minha própria conta. Talvez eu possa rir deles, se não conseguir nada além disso. Vamos!”

Ele vestiu o sobretudo e apressou-se de uma maneira que mostrava que um acesso de energia havia substituído o apático.

“Pegue seu chapéu”, disse ele.

“Você quer que eu vá?”

“Sim, se você não tiver nada melhor para fazer.” Um minuto depois, estávamos ambos em um hansom, dirigindo furiosamente para a Brixton Road.

Era uma manhã nublada e enevoada, e um véu cor de areia pendia sobre os telhados, parecendo o reflexo das ruas lamacentas abaixo. Meu companheiro estava de ótimo humor e falava sobre violinos de Cremona, e a diferença entre um Stradivarius e um Amati. Quanto a mim, fiquei em silêncio, pois o tempo sombrio e o negócio melancólico em que estávamos envolvidos deprimiam meu espírito.

“Você não parece dar muita importância ao assunto em mãos”, disse eu finalmente, interrompendo a dissertação musical de Holmes.

“Sem dados ainda”, respondeu ele. “É um erro capital teorizar antes de ter todas as evidências. Isso distorce o julgamento.”

“Você terá seus dados em breve”, comentei, apontando com o dedo; “esta é a Brixton Road, e aquela é a casa, se não me engano muito.”

“Assim é. Pare, cocheiro, pare!” Estávamos ainda a cerca de cem metros de distância, mas ele insistiu para descermos, e terminamos nossa jornada a pé.

O número 3, Lauriston Gardens, tinha um aspecto agourento e ameaçador. Era uma das quatro casas que ficavam um pouco afastadas da rua, duas sendo ocupadas e duas vazias. Estas últimas olhavam com três fileiras de janelas melancólicas e vagas, que eram vazias e tristes, exceto pelo fato de que aqui e ali um cartão de “Aluga-se” havia se desenvolvido como uma catarata sobre os vidros embaçados. Um pequeno jardim salpicado por uma erupção dispersa de plantas doentes separava cada uma dessas casas da rua, e era atravessado por um caminho estreito, de cor amarelada, composto aparentemente por uma mistura de argila e cascalho. Todo o lugar estava muito enlameado por causa da chuva que caíra durante a noite. O jardim era delimitado por um muro de tijolos de um metro de altura com uma borda de grades de madeira no topo, e contra esse muro estava encostado um policial vigoroso, cercado por um pequeno grupo de vadios que esticavam o pescoço e forçavam os olhos na vã esperança de captar algum vislumbre dos procedimentos lá dentro.

Eu havia imaginado que Sherlock Holmes correria imediatamente para dentro da casa e mergulharia no estudo do mistério. Nada parecia estar mais longe de sua intenção. Com um ar de nonchalance que, dadas as circunstâncias, me pareceu beirar a afetação, ele passeava pela calçada e olhava vagamente para o chão, para o céu, para as casas opostas e para a linha de grades. Tendo terminado seu escrutínio, ele seguiu lentamente pelo caminho, ou melhor, pela borda de grama que ladeava o caminho, mantendo os olhos cravados no chão. Por duas vezes ele parou, e uma vez eu o vi sorrir e ouvi-o soltar uma exclamação de satisfação. Havia muitas marcas de pegadas no solo argiloso e úmido, mas como a polícia havia entrado e saído por ali, eu não conseguia ver como meu companheiro poderia esperar aprender algo com isso. Ainda assim, eu tivera evidências tão extraordinárias da rapidez de suas faculdades perceptivas que não tive dúvidas de que ele poderia ver muito do que estava oculto para mim.

À porta da casa, fomos recebidos por um homem alto, de rosto pálido e cabelos cor de linho, com um caderno na mão, que correu e apertou a mão de meu companheiro com efusão. “É realmente gentil da sua parte vir”, disse ele, “deixei tudo intocado.”

“Exceto aquilo!” respondeu meu amigo, apontando para o caminho. “Se uma manada de búfalos tivesse passado por ali, não poderia haver maior bagunça. Sem dúvida, no entanto, você tirou suas próprias conclusões, Gregson, antes de permitir isso.”

“Tive tanto o que fazer dentro da casa”, disse o detetive evasivamente. “Meu colega, Sr. Lestrade, está aqui. Eu confiei nele para cuidar disso.”

Holmes olhou para mim e ergueu as sobrancelhas de forma sardônica. “Com dois homens como você e Lestrade no local, não restará muito para um terceiro descobrir”, disse ele.

Gregson esfregou as mãos de forma autossatisfeita. “Acho que fizemos tudo o que podia ser feito”, respondeu ele; “é um caso estranho, no entanto, e eu conhecia seu gosto por essas coisas.”

“Você não veio aqui de táxi?” perguntou Sherlock Holmes.

“Não, senhor.”

“Nem Lestrade?”

“Não, senhor.”

“Então vamos ver o quarto.” Com esse comentário inconsequente, ele entrou na casa, seguido por Gregson, cujas feições expressavam seu espanto.

Um corredor curto, de tábuas nuas e poeirentas, levava à cozinha e aos escritórios. Duas portas abriam-se para a esquerda e para a direita. Uma delas estava obviamente fechada há muitas semanas. A outra pertencia à sala de jantar, que era o aposento onde ocorrera o misterioso caso. Holmes entrou, e eu o segui com aquele sentimento contido no coração que a presença da morte inspira.

Era uma sala quadrada grande, parecendo ainda maior pela ausência de qualquer mobília. Um papel de parede vulgar e chamativo adornava as paredes, mas estava manchado em alguns lugares com mofo, e aqui e ali grandes tiras haviam se soltado e pendiam, expondo o gesso amarelo por baixo. Em frente à porta havia uma lareira vistosa, encimada por uma prateleira de imitação de mármore branco. Em um canto desta estava preso o toco de uma vela de cera vermelha. A janela solitária estava tão suja que a luz era nebulosa e incerta, dando um tom cinza opaco a tudo, o que era intensificado pela espessa camada de poeira que cobria todo o aposento.

Observei todos esses detalhes depois. No momento, minha atenção estava centrada na única figura sombria e imóvel que jazia estendida nas tábuas, com olhos vazios e sem visão olhando fixamente para o teto descolorido. Era a de um homem de cerca de quarenta e três ou quarenta e quatro anos, de estatura média, ombros largos, com cabelos pretos crespos e encaracolados, e uma barba curta e rala. Ele estava vestido com um casaco e colete de tecido pesado, calças de cor clara, e colarinho e punhos imaculados. Uma cartola, bem escovada e arrumada, estava colocada no chão ao lado dele. Suas mãos estavam cerradas e seus braços estendidos, enquanto suas pernas estavam entrelaçadas como se sua luta final tivesse sido penosa. Em seu rosto rígido havia uma expressão de horror e, como me pareceu, de ódio, tal como nunca vi em feições humanas. Essa contorção maligna e terrível, combinada com a testa baixa, nariz chato e mandíbula prognata, dava ao homem morto uma aparência singularmente simiesca e parecida com a de um macaco, que era intensificada por sua postura contorcida e antinatural. Já vi a morte de muitas formas, mas nunca me pareceu em um aspecto mais assustador do que naquele aposento escuro e imundo, que dava para uma das principais artérias da Londres suburbana.

Lestrade, magro e com aparência de furão como sempre, estava parado perto da porta e cumprimentou meu companheiro e a mim.

“Este caso vai causar alvoroço, senhor”, observou ele. “Supera tudo o que já vi, e não sou nenhum frango.”

“Não há pistas?” disse Gregson.

“Nenhuma mesmo”, acrescentou Lestrade.

Sherlock Holmes aproximou-se do corpo e, ajoelhando-se, examinou-o atentamente. “Você tem certeza de que não há ferimento?” perguntou ele, apontando para inúmeras gotas e respingos de sangue que estavam por toda parte.

“Com certeza!” gritaram ambos os detetives.

“Então, é claro, esse sangue pertence a um segundo indivíduo — presumivelmente o assassino, se um assassinato foi cometido. Lembra-me das circunstâncias que acompanharam a morte de Van Jansen, em Utrecht, no ano de 34. Você se lembra do caso, Gregson?”

“Não, senhor.”

“Leia sobre ele — você realmente deveria. Não há nada de novo sob o sol. Tudo já foi feito antes.”

Enquanto falava, seus dedos ágeis voavam aqui, ali e em toda parte, tateando, pressionando, desabotoando, examinando, enquanto seus olhos exibiam a mesma expressão distante que já mencionei. Tão rapidamente foi feito o exame, que mal se teria adivinhado a minúcia com que foi conduzido. Finalmente, ele cheirou os lábios do homem morto e, em seguida, olhou para as solas de suas botas de couro envernizado.

“Ele não foi movido de jeito nenhum?” perguntou ele.

“Não mais do que o necessário para os propósitos do nosso exame.”

“Você pode levá-lo para o necrotério agora”, disse ele. “Não há mais nada a aprender.”

Gregson tinha uma maca e quatro homens à mão. Ao seu chamado, eles entraram no quarto, e o estranho foi levantado e carregado. Quando o ergueram, um anel tilintou e rolou pelo chão. Lestrade apanhou-o e olhou para ele com olhos perplexos.

“Houve uma mulher aqui”, gritou ele. “É uma aliança de casamento de mulher.”

Ele a estendeu, enquanto falava, na palma da mão. Todos nos reunimos em torno dele e olhamos para ela. Não havia dúvida de que aquele círculo de ouro simples já havia adornado o dedo de uma noiva.

“Isso complica as coisas”, disse Gregson. “Deus sabe, elas já eram complicadas o suficiente antes.”

“Você tem certeza de que não as simplifica?” observou Holmes. “Não há nada a aprender olhando para isso. O que você encontrou nos bolsos dele?”

“Temos tudo aqui”, disse Gregson, apontando para uma pilha de objetos em um dos degraus inferiores da escada. “Um relógio de ouro, nº 97163, de Barraud, de Londres. Corrente de ouro Albert, muito pesada e sólida. Anel de ouro, com símbolo maçônico. Alfinete de ouro — cabeça de buldogue, com rubis como olhos. Porta-cartões de couro russo, com cartões de Enoch J. Drebber de Cleveland, correspondentes ao E. J. D. nas roupas. Nenhuma carteira, mas dinheiro solto no valor de sete libras e treze xelins. Edição de bolso do Decamerão de Boccaccio, com o nome de Joseph Stangerson na folha de rosto. Duas cartas — uma endereçada a E. J. Drebber e uma a Joseph Stangerson.”

“Em que endereço?”

“American Exchange, Strand — para ser deixado até ser retirado. Ambas são da Guion Steamship Company e referem-se à partida de seus navios de Liverpool. Está claro que este infeliz homem estava prestes a retornar a Nova York.”

“Você fez alguma investigação sobre esse homem, Stangerson?”

“Fiz imediatamente, senhor”, disse Gregson. “Mandei anúncios para todos os jornais, e um dos meus homens foi ao American Exchange, mas ele ainda não voltou.”

“Você enviou para Cleveland?”

“Telegramamos esta manhã.”

“Como você redigiu suas perguntas?”

“Simplesmente detalhamos as circunstâncias e dissemos que ficaríamos felizes com qualquer informação que pudesse nos ajudar.”

“Você não pediu detalhes sobre nenhum ponto que lhe parecesse crucial?”

“Perguntei sobre Stangerson.”

“Nada mais? Não há nenhuma circunstância da qual todo este caso parece depender? Você não vai telegrafar novamente?”

“Já disse tudo o que tinha a dizer”, disse Gregson, com uma voz ofendida.

Sherlock Holmes riu para si mesmo e parecia estar prestes a fazer algum comentário, quando Lestrade, que estivera na sala da frente enquanto mantínhamos essa conversa no saguão, reapareceu em cena, esfregando as mãos de maneira pomposa e autossatisfeita.

“Sr. Gregson”, disse ele, “acabei de fazer uma descoberta da maior importância, e que teria passado despercebida se eu não tivesse feito um exame cuidadoso das paredes.”

Os olhos do pequeno homem brilharam enquanto ele falava, e ele estava evidentemente em um estado de exultação contida por ter marcado um ponto contra seu colega.

“Venha aqui”, disse ele, apressando-se de volta para o quarto, cuja atmosfera parecia mais clara desde a remoção de seu ocupante horripilante. “Agora, fique aí!”

Ele riscou um fósforo em sua bota e segurou-o contra a parede.

“Olhe para isso!” disse ele, triunfante.

Notei que o papel havia caído em partes. Neste canto específico da sala, um grande pedaço havia descascado, deixando um quadrado amarelo de gesso grosso. Através desse espaço vazio, estava rabiscada em letras cor de sangue uma única palavra —

RACHE.

“O que você acha disso?” gritou o detetive, com o ar de um showman exibindo seu espetáculo. “Isso foi ignorado porque estava no canto mais escuro do quarto, e ninguém pensou em olhar ali. O assassino escreveu com seu próprio sangue. Veja esta mancha onde escorreu pela parede! Isso descarta a ideia de suicídio de qualquer maneira. Por que aquele canto foi escolhido para escrever? Eu lhe direi. Veja aquela vela na prateleira. Estava acesa na época, e se estivesse acesa, este canto seria a parte mais brilhante, e não a mais escura, da parede.”

“E o que isso significa agora que você encontrou?” perguntou Gregson com uma voz depreciativa.

“Significa? Ora, significa que o autor ia colocar o nome feminino Rachel, mas foi interrompido antes que ele ou ela tivesse tempo de terminar. Marque minhas palavras, quando este caso for esclarecido, você descobrirá que uma mulher chamada Rachel tem algo a ver com isso. Tudo bem você rir, Sr. Sherlock Holmes. Você pode ser muito esperto e inteligente, mas o cão velho é o melhor, no final das contas.”

“Eu realmente peço perdão!” disse meu companheiro, que havia irritado o temperamento do pequeno homem ao explodir em uma risada. “Você certamente tem o crédito de ser o primeiro de nós a descobrir isso e, como você diz, traz todas as marcas de ter sido escrito pelo outro participante do mistério da noite passada. Ainda não tive tempo de examinar este quarto, mas com sua permissão farei isso agora.”

Enquanto falava, ele tirou uma fita métrica e uma grande lupa redonda do bolso. Com esses dois implementos, ele trotava silenciosamente pelo quarto, às vezes parando, ocasionalmente ajoelhando-se e, uma vez, deitando-se de bruços. Tão absorto estava com sua ocupação que parecia ter esquecido nossa presença, pois falava sozinho em voz baixa o tempo todo, mantendo um fogo contínuo de exclamações, gemidos, assobios e pequenos gritos sugestivos de encorajamento e esperança. Enquanto eu o observava, fui irresistivelmente lembrado de um cão de caça de raça pura e bem treinado enquanto ele corre para frente e para trás pelo mato, ganindo em sua avidez, até que encontra o rastro perdido. Por vinte minutos ou mais ele continuou suas pesquisas, medindo com o máximo cuidado a distância entre marcas que eram inteiramente invisíveis para mim, e ocasionalmente aplicando sua fita nas paredes de uma maneira igualmente incompreensível. Em um lugar, ele juntou muito cuidadosamente uma pequena pilha de poeira cinzenta do chão e a guardou em um envelope. Finalmente, ele examinou com sua lente a palavra na parede, percorrendo cada letra dela com a mais minuciosa exatidão. Feito isso, ele pareceu estar satisfeito, pois guardou sua fita e sua lente no bolso.

“Dizem que o gênio é uma capacidade infinita de se esforçar”, observou ele com um sorriso. “É uma definição muito ruim, mas aplica-se ao trabalho de detetive.”

Gregson e Lestrade observaram as manobras de seu companheiro amador com considerável curiosidade e algum desprezo. Eles evidentemente não conseguiram apreciar o fato, que eu começara a perceber, de que as menores ações de Sherlock Holmes eram todas direcionadas para algum fim definido e prático.

“O que você acha disso, senhor?” ambos perguntaram.

“Seria roubar o crédito do caso se eu presumisse ajudá-los”, observou meu amigo. “Vocês estão indo tão bem agora que seria uma pena se alguém interferisse.” Havia um mundo de sarcasmo em sua voz enquanto ele falava. “Se vocês me avisarem como vão suas investigações”, continuou ele, “ficarei feliz em dar qualquer ajuda que puder. Enquanto isso, gostaria de falar com o policial que encontrou o corpo. Podem me dar seu nome e endereço?”

Lestrade olhou para seu caderno. “John Rance”, disse ele. “Ele está fora de serviço agora. Você o encontrará no número 46, Audley Court, Kennington Park Gate.”

Holmes anotou o endereço.

“Vamos, Doutor”, disse ele; “vamos procurá-lo. Vou lhe dizer uma coisa que pode ajudá-lo no caso”, continuou, virando-se para os dois detetives. “Houve um assassinato, e o assassino era um homem. Ele tinha mais de um metro e oitenta de altura, estava no auge da vida, tinha pés pequenos para sua altura, usava botas grosseiras de bico quadrado e fumava um charuto Trichinopoly. Ele veio aqui com sua vítima em um táxi de quatro rodas, que era puxado por um cavalo com três ferraduras velhas e uma nova na pata dianteira direita. Com toda a probabilidade, o assassino tinha um rosto corado, e as unhas da mão direita eram notavelmente longas. Estas são apenas algumas indicações, mas podem ajudá-los.”

Lestrade e Gregson entreolharam-se com um sorriso incrédulo.

“Se este homem foi assassinado, como foi feito?” perguntou o primeiro.

“Veneno”, disse Sherlock Holmes bruscamente, e saiu apressado. “Mais uma coisa, Lestrade”, ele acrescentou, virando-se à porta: “‘Rache’ é alemão para ‘vingança’; então não percam seu tempo procurando pela Srta. Rachel.”

Com esse tiro de partida, ele se afastou, deixando os dois rivais de boca aberta atrás dele.

CAPÍTULO IV. O QUE JOHN RANCE TINHA A DIZER.

Era uma hora quando deixamos o número 3, Lauriston Gardens. Sherlock Holmes conduziu-me ao telégrafo mais próximo, de onde enviou um longo telegrama. Em seguida, chamou um táxi e ordenou ao cocheiro que nos levasse ao endereço fornecido por Lestrade.

“Não há nada como uma evidência em primeira mão”, observou ele; “na verdade, minha mente já está completamente decidida quanto ao caso, mas, ainda assim, podemos muito bem aprender tudo o que houver para ser aprendido.”

“Você me espanta, Holmes”, disse eu. “Certamente você não está tão certo quanto finge estar de todos esses detalhes que você apresentou.”

“Não há margem para erro”, respondeu ele. “A primeira coisa que observei ao chegar lá foi que um táxi havia deixado dois sulcos com suas rodas perto do meio-fio. Ora, até ontem à noite, não tínhamos chuva há uma semana, de modo que aquelas rodas que deixaram uma impressão tão profunda devem ter estado lá durante a noite. Havia também as marcas dos cascos do cavalo, cujo contorno de um deles era muito mais nítido do que o dos outros três, mostrando que aquela era uma ferradura nova. Como o táxi esteve lá depois que a chuva começou, e não esteve lá em nenhum momento durante a manhã — tenho a palavra de Gregson sobre isso — segue-se que ele deve ter estado lá durante a noite e, portanto, que trouxe aqueles dois indivíduos até a casa.”

“Isso parece simples o bastante”, disse eu; “mas e quanto à altura do outro homem?”

“Ora, a altura de um homem, em nove de cada dez casos, pode ser deduzida pelo comprimento de seu passo. É um cálculo simples o bastante, embora não haja utilidade em entediá-lo com números. Eu tinha o passo desse sujeito tanto no barro do lado de fora quanto na poeira do lado de dentro. Então, eu tinha uma maneira de conferir meu cálculo. Quando um homem escreve em uma parede, seu instinto o leva a escrever na altura dos seus próprios olhos. Ora, aquela escrita estava a pouco mais de um metro e oitenta do chão. Foi brincadeira de criança.”

“E a idade dele?” perguntei.

“Bem, se um homem consegue dar um passo de um metro e quarenta sem o menor esforço, ele não pode estar exatamente no outono da vida. Essa era a largura de uma poça na calçada do jardim pela qual ele evidentemente atravessou. Botas de verniz deram a volta, e o homem de sapatos de ponta quadrada saltou por cima. Não há mistério algum nisso. Estou simplesmente aplicando à vida comum alguns daqueles preceitos de observação e dedução que defendi naquele artigo. Há mais alguma coisa que o confunda?”

“As unhas e o Trichinopoly”, sugeri.

“A escrita na parede foi feita com o dedo indicador de um homem mergulhado em sangue. Minha lente me permitiu observar que o reboco estava levemente arranhado ao fazê-lo, o que não teria ocorrido se a unha do homem estivesse aparada. Recolhi algumas cinzas espalhadas pelo chão. Eram de cor escura e escamosas — o tipo de cinza que só é produzida por um Trichinopoly. Fiz um estudo especial sobre cinzas de charuto — na verdade, escrevi uma monografia sobre o assunto. Gabo-me de poder distinguir à primeira vista a cinza de qualquer marca conhecida, seja de charuto ou de tabaco. É exatamente em detalhes como esses que o detetive habilidoso se diferencia do tipo Gregson e Lestrade.”

“E o rosto rubicundo?” perguntei.

“Ah, esse foi um palpite mais ousado, embora eu não tenha dúvidas de que estava certo. Você não deve me pedir isso no estágio atual do caso.”

Passei a mão pela testa. “Minha cabeça está girando”, comentei; “quanto mais se pensa nisso, mais misterioso se torna. Como esses dois homens — se é que eram dois homens — entraram em uma casa vazia? O que aconteceu com o cocheiro que os levou? Como um homem poderia obrigar outro a tomar veneno? De onde veio o sangue? Qual era o objetivo do assassino, já que o roubo não teve parte nisso? Como o anel da mulher foi parar lá? Acima de tudo, por que o segundo homem escreveria a palavra alemã RACHE antes de fugir? Confesso que não vejo nenhuma maneira possível de reconciliar todos esses fatos.”

Meu companheiro sorriu com aprovação.

“Você resume as dificuldades da situação de forma sucinta e correta”, disse ele. “Há muito que ainda permanece obscuro, embora eu já tenha me decidido sobre os fatos principais. Quanto à descoberta do pobre Lestrade, foi simplesmente uma pista falsa destinada a colocar a polícia no caminho errado, sugerindo socialismo e sociedades secretas. Não foi feito por um alemão. O A, se você notou, foi impresso de uma maneira um tanto alemã. Ora, um alemão verdadeiro invariavelmente imprime em caracteres latinos, de modo que podemos dizer com segurança que isso não foi escrito por um, mas por um imitador desajeitado que exagerou em seu papel. Foi simplesmente um truque para desviar a investigação para um caminho errado. Não vou lhe contar muito mais sobre o caso, Doutor. Você sabe que um mágico não recebe crédito depois que explica seu truque, e se eu lhe mostrar demais o meu método de trabalho, você chegará à conclusão de que sou um indivíduo muito comum, afinal.”

“Nunca farei isso”, respondi; “você elevou a detecção a um nível tão próximo de uma ciência exata quanto jamais será possível neste mundo.”

Meu companheiro corou de prazer com as minhas palavras e com a maneira sincera com que as proferi. Eu já havia observado que ele era tão sensível a elogios quanto ao seu talento quanto qualquer garota poderia ser quanto à sua beleza.

“Vou lhe contar outra coisa”, disse ele. “O homem de verniz e o de sapatos de ponta quadrada vieram no mesmo táxi, e caminharam pelo caminho de entrada juntos, o mais amigavelmente possível — braço com braço, com toda a probabilidade. Quando entraram, andaram de um lado para o outro na sala — ou melhor, o de verniz ficou parado enquanto o de sapatos de ponta quadrada andava de um lado para o outro. Eu pude ler tudo isso na poeira; e pude ler que, à medida que ele andava, tornava-se cada vez mais agitado. Isso é demonstrado pelo aumento do comprimento de seus passos. Ele estava falando o tempo todo e, sem dúvida, entrando em fúria. Então a tragédia ocorreu. Contei-lhe tudo o que eu mesmo sei, pois o resto é mera suposição e conjectura. Temos uma boa base de trabalho, no entanto, para começar. Precisamos nos apressar, pois quero ir ao concerto de Halle para ouvir Norman Neruda esta tarde.”

Esta conversa ocorreu enquanto nosso táxi percorria uma longa sucessão de ruas sombrias e vias secundárias lúgubres. Na mais sombria e lúgubre delas, nosso cocheiro parou subitamente. “É ali o Audley Court”, disse ele, apontando para uma fenda estreita na linha de tijolos de cor morta. “Vocês me encontrarão aqui quando voltarem.”

Audley Court não era um local atraente. A passagem estreita nos levou a um quadrilátero pavimentado com lajes e ladeado por moradias sórdidas. Abrimos caminho entre grupos de crianças sujas e através de varais de roupa desbotada, até chegarmos ao número 46, cuja porta era decorada com uma pequena placa de latão na qual o nome Rance estava gravado. Ao perguntar, descobrimos que o policial estava na cama, e fomos conduzidos a uma pequena sala da frente para aguardar sua vinda.

Ele apareceu logo depois, parecendo um pouco irritado por ter sido perturbado em seu sono. “Fiz meu relatório na delegacia”, disse ele.

Holmes tirou uma meia-soberana do bolso e brincou com ela pensativamente. “Pensamos que gostaríamos de ouvir tudo de seus próprios lábios”, disse ele.

“Ficarei muito feliz em lhe contar tudo o que puder”, respondeu o policial com os olhos fixos no pequeno disco dourado.

“Apenas nos conte tudo do seu próprio jeito, como aconteceu.”

Rance sentou-se no sofá de crina e franziu a testa como se estivesse determinado a não omitir nada em sua narrativa.

“Vou contar desde o começo”, disse ele. “Meu turno é das dez da noite às seis da manhã. Às onze houve uma briga no ‘White Hart’; mas fora isso, tudo estava bem calmo na ronda. À uma hora começou a chover, e encontrei Harry Murcher — aquele que faz a ronda de Holland Grove — e ficamos juntos na esquina da Henrietta Street conversando. Logo depois — talvez umas duas horas ou um pouco mais — pensei em dar uma olhada e ver se tudo estava bem em Brixton Road. Estava muito sujo e solitário. Não encontrei uma alma pelo caminho, embora um táxi ou outro tenha passado por mim. Eu estava passeando, pensando comigo mesmo como um cálice de gim quente seria excepcionalmente útil, quando, de repente, o brilho de uma luz chamou minha atenção na janela daquela mesma casa. Ora, eu sabia que aquelas duas casas em Lauriston Gardens estavam vazias por causa do dono, que não quer saber dos encanamentos, embora o último inquilino que morou em uma delas tenha morrido de febre tifoide. Fiquei, portanto, muito surpreso ao ver uma luz na janela e suspeitei que algo estivesse errado. Quando cheguei à porta...”

“Você parou e depois caminhou de volta até o portão do jardim”, interrompeu meu companheiro. “Por que você fez isso?”

Rance deu um salto violento e encarou Sherlock Holmes com o maior espanto estampado em suas feições.

“Ora, isso é verdade, senhor”, disse ele; “embora como você saiba disso, só o Céu sabe. Veja bem, quando cheguei à porta, estava tão silencioso e tão solitário que pensei que não me faria mal ter alguém comigo. Não tenho medo de nada deste lado da sepultura; mas pensei que talvez fosse o homem que morreu de tifoide inspecionando os encanamentos que o mataram. O pensamento me deu um certo choque, e caminhei de volta ao portão para ver se conseguia avistar a lanterna de Murcher, mas não havia sinal dele nem de mais ninguém.”

“Não havia ninguém na rua?”

“Nem uma alma viva, senhor, nem sequer um cachorro. Então me recompus, voltei e empurrei a porta. Tudo estava quieto lá dentro, então entrei na sala onde a luz estava acesa. Havia uma vela tremeluzindo no parapeito da lareira — uma de cera vermelha — e à sua luz vi...”

“Sim, eu sei tudo o que você viu. Você caminhou pela sala várias vezes, ajoelhou-se ao lado do corpo, depois atravessou e tentou a porta da cozinha, e então...”

John Rance saltou de seus pés com um rosto assustado e suspeita nos olhos. “Onde você estava escondido para ver tudo isso?”, gritou. “Parece-me que você sabe muito mais do que deveria.”

Holmes riu e jogou seu cartão sobre a mesa para o policial. “Não vá me prender pelo assassinato”, disse ele. “Sou um dos cães de caça e não o lobo; o Sr. Gregson ou o Sr. Lestrade responderão por isso. Continue, porém. O que você fez depois?”

Rance retomou seu lugar, sem, no entanto, perder sua expressão de mistério. “Voltei ao portão e soei meu apito. Isso trouxe Murcher e mais dois ao local.”

“A rua estava vazia então?”

“Bem, estava, no que diz respeito a qualquer pessoa que pudesse ser de alguma utilidade.”

“O que você quer dizer?”

As feições do policial se abriram em um sorriso. “Já vi muitos sujeitos bêbados em meu tempo”, disse ele, “mas nunca ninguém tão bêbado quanto aquele sujeito. Ele estava no portão quando saí, encostado nas grades e cantando a plenos pulmões sobre o Estandarte da Moda da Columbine, ou alguma coisa assim. Ele não conseguia ficar em pé, muito menos ajudar.”

“Que tipo de homem era ele?”, perguntou Sherlock Holmes.

John Rance pareceu um pouco irritado com essa digressão. “Ele era um tipo de homem incomumente bêbado”, disse ele. “Ele teria acabado na delegacia se não estivéssemos tão ocupados.”

“O rosto dele — as roupas dele — você não notou?”, Holmes interrompeu impacientemente.

“Eu acho que notei, já que tive que escorá-lo — eu e Murcher juntos. Ele era um sujeito alto, com um rosto vermelho, a parte inferior abafada...”

“Isso basta”, gritou Holmes. “O que aconteceu com ele?”

“Tivemos o suficiente para fazer sem cuidar dele”, disse o policial, em tom de queixa. “Aposto que ele encontrou o caminho de casa sem problemas.”

“Como ele estava vestido?”

“Um sobretudo marrom.”

“Ele tinha um chicote na mão?”

“Um chicote — não.”

“Ele deve ter deixado para trás”, murmurou meu companheiro. “Você não chegou a ver ou ouvir um táxi depois disso?”

“Não.”

“Aqui está uma meia-soberana para você”, disse meu companheiro, levantando-se e pegando seu chapéu. “Receio, Rance, que você nunca subirá na corporação. Essa sua cabeça deveria servir para uso, assim como para ornamento. Você poderia ter ganhado suas divisas de sargento ontem à noite. O homem que você segurou em suas mãos é o homem que detém a pista deste mistério, e a quem estamos procurando. Não adianta discutir sobre isso agora; eu lhe digo que é assim. Vamos, Doutor.”

Partimos juntos em busca do táxi, deixando nosso informante incrédulo, mas obviamente desconfortável.

“O tolo desastrado”, disse Holmes, amargamente, enquanto voltávamos para nossos aposentos. “Pensar que ele teve uma sorte tão incomparável e não tirou proveito disso.”

“Ainda estou um pouco no escuro. É verdade que a descrição desse homem coincide com sua ideia do segundo indivíduo neste mistério. Mas por que ele voltaria à casa depois de sair? Esse não é o modo de agir dos criminosos.”

“O anel, homem, o anel: foi por isso que ele voltou. Se não tivermos outra maneira de pegá-lo, sempre podemos usar o anel como isca. Eu o pegarei, Doutor — aposto dois contra um que o pegarei. Devo agradecer a você por tudo isso. Eu poderia não ter ido se não fosse por você, e assim teria perdido o melhor estudo que já encontrei: um estudo em escarlate, eh? Por que não deveríamos usar um pouco de jargão artístico? Há o fio escarlate do assassinato correndo através do novelo incolor da vida, e nosso dever é desenredá-lo, isolá-lo e expor cada centímetro dele. E agora, vamos almoçar e depois para Norman Neruda. O ataque e a arcada dela são esplêndidos. Qual é aquela pequena peça de Chopin que ela toca tão magnificamente: Tra-la-la-lira-lira-lay.”

Recostado no táxi, este detetive amador cantava como uma cotovia enquanto eu meditava sobre a multiplicidade da mente humana.

CAPÍTULO V. NOSSO ANÚNCIO TRAZ UM VISITANTE.

Os esforços da nossa manhã tinham sido demais para minha saúde frágil, e eu estava exausto à tarde. Após a partida de Holmes para o concerto, deitei-me no sofá e tentei dormir algumas horas. Foi uma tentativa inútil. Minha mente estava muito excitada com tudo o que ocorrera, e as mais estranhas fantasias e suposições se aglomeravam nela. Toda vez que fechava os olhos, via diante de mim a fisionomia distorcida, semelhante a um babuíno, do homem assassinado. Tão sinistra foi a impressão que aquele rosto causou em mim que achei difícil sentir qualquer coisa além de gratidão por aquele que havia removido seu dono do mundo. Se algum dia feições humanas indicaram vício do tipo mais maligno, certamente foram as de Enoch J. Drebber, de Cleveland. Ainda assim, reconheci que a justiça deveria ser feita, e que a depravação da vítima não era um perdão aos olhos da lei.

Quanto mais pensava nisso, mais extraordinária parecia a hipótese do meu companheiro de que o homem fora envenenado. Lembrei-me de como ele cheirara seus lábios, e não tive dúvidas de que ele detectara algo que dera origem à ideia. Então, novamente, se não foi veneno, o que causou a morte do homem, já que não havia nem ferimento nem marcas de estrangulamento? Mas, por outro lado, de quem era o sangue que jazia tão espesso no chão? Não havia sinais de luta, nem a vítima tinha qualquer arma com a qual pudesse ter ferido um antagonista. Enquanto todas essas questões estivessem sem solução, senti que o sono não seria uma tarefa fácil, nem para Holmes nem para mim. Seu jeito calmo e autoconfiante convenceu-me de que ele já havia formado uma teoria que explicava todos os fatos, embora qual fosse, eu não poderia conjecturar por um instante sequer.

Ele retornou muito tarde — tão tarde que soube que o concerto não poderia tê-lo retido o tempo todo. O jantar estava na mesa antes que ele aparecesse.

“Foi magnífico”, disse ele, ao tomar seu assento. “Você se lembra do que Darwin diz sobre a música? Ele afirma que o poder de produzi-la e apreciá-la existia entre a raça humana muito antes de o poder da fala ser alcançado. Talvez seja por isso que somos tão sutilmente influenciados por ela. Há memórias vagas em nossas almas daqueles séculos nebulosos em que o mundo estava em sua infância.”

“Essa é uma ideia bastante ampla”, comentei.

“As ideias de alguém devem ser tão amplas quanto a Natureza se quiserem interpretar a Natureza”, respondeu ele. “Qual é o problema? Você não parece muito bem. Esse caso de Brixton Road o perturbou.”

“Para dizer a verdade, perturbou”, disse eu. “Eu deveria estar mais calejado após minhas experiências no Afeganistão. Vi meus próprios camaradas serem cortados em pedaços em Maiwand sem perder a coragem.”

“Posso entender. Há um mistério sobre isso que estimula a imaginação; onde não há imaginação, não há horror. Você viu o jornal da tarde?”

“Não.”

“Ele traz um relato razoavelmente bom do caso. Não menciona o fato de que, quando o homem foi levantado, uma aliança de casamento de mulher caiu no chão. É melhor que não mencione.”

“Por quê?”

“Veja este anúncio”, respondeu ele. “Enviei um para cada jornal esta manhã, imediatamente após o caso.”

Ele jogou o jornal para mim e lancei um olhar sobre o local indicado. Era o primeiro anúncio na coluna de “Achados”. “Em Brixton Road, esta manhã”, dizia, “uma aliança de casamento de ouro simples, encontrada na estrada entre a taverna ‘White Hart’ e Holland Grove. Procurar o Dr. Watson, 221B, Baker Street, entre oito e nove desta noite.”

“Desculpe-me por usar seu nome”, disse ele. “Se eu usasse o meu, alguns desses cabeças-duras o reconheceriam e quereriam se intrometer no assunto.”

“Está tudo bem”, respondi. “Mas supondo que alguém apareça, eu não tenho anel nenhum.”

“Oh, sim, você tem”, disse ele, entregando-me um. “Este servirá perfeitamente. É quase um fac-símile.”

“E quem você espera que responda a este anúncio?”

“Ora, o homem do sobretudo marrom — nosso amigo rubicundo de sapatos de ponta quadrada. Se ele não vier pessoalmente, enviará um cúmplice.”

“Ele não consideraria isso perigoso demais?”

“De jeito nenhum. Se minha visão do caso estiver correta, e tenho todos os motivos para acreditar que está, este homem preferiria arriscar qualquer coisa a perder o anel. De acordo com minha noção, ele o deixou cair enquanto se curvava sobre o corpo de Drebber e não deu falta dele na hora. Depois de sair da casa, descobriu sua perda e correu de volta, mas encontrou a polícia já no local, devido à sua própria tolice em deixar a vela acesa. Ele teve que fingir estar bêbado para dissipar as suspeitas que poderiam ter sido despertadas por sua aparição no portão. Agora, coloque-se no lugar daquele homem. Ao pensar sobre o assunto, deve ter ocorrido a ele que era possível ter perdido o anel na estrada depois de sair da casa. O que ele faria, então? Ele procuraria avidamente pelos jornais da tarde na esperança de vê-lo entre os artigos encontrados. Seus olhos, é claro, cairiam sobre isso. Ele ficaria radiante. Por que ele temeria uma armadilha? Não haveria motivo, aos seus olhos, para que a descoberta do anel fosse relacionada ao assassinato. Ele virá. Ele virá. Você o verá dentro de uma hora.”

“E então?”, perguntei.

“Oh, você pode deixar comigo para lidar com ele então. Você tem alguma arma?”

“Tenho meu velho revólver de serviço e algumas balas.”

“É melhor você limpá-lo e carregá-lo. Ele será um homem desesperado e, embora eu vá pegá-lo de surpresa, é bom estar pronto para qualquer coisa.”

Fui ao meu quarto e segui o seu conselho. Quando voltei com a pistola, a mesa já tinha sido limpa, e Holmes estava ocupado em sua ocupação favorita: tocar seu violino.

“A trama se complica”, disse ele enquanto eu entrava; “Acabei de receber uma resposta ao meu telegrama americano. Minha visão do caso é a correta.”

“E qual é?” perguntei ansioso.

“Meu violino ficaria melhor com cordas novas”, observou ele. “Coloque sua pistola no bolso. Quando o sujeito chegar, fale com ele de maneira comum. Deixe o resto comigo. Não o assuste olhando para ele fixamente demais.”

“São oito horas agora”, disse eu, olhando para o meu relógio.

“Sim. Ele provavelmente estará aqui em alguns minutos. Abra a porta ligeiramente. Isso basta. Agora coloque a chave do lado de dentro. Obrigado! Este é um livro antigo e estranho que peguei em uma banca ontem — ‘De Jure inter Gentes’ — publicado em latim em Liège, nos Países Baixos, em 1642. A cabeça de Charles ainda estava firme sobre os ombros quando este pequeno volume de lombada marrom foi impresso.”

“Quem é o impressor?”

“Philippe de Croy, seja lá quem ele tenha sido. Na folha de rosto, em tinta muito desbotada, está escrito ‘Ex libris Guliolmi Whyte’. Pergunto-me quem foi William Whyte. Algum advogado pragmático do século XVII, suponho. Sua caligrafia tem um toque jurídico. Lá vem o nosso homem, creio eu.”

Enquanto ele falava, ouviu-se um toque agudo na campainha. Sherlock Holmes levantou-se suavemente e moveu sua cadeira na direção da porta. Ouvimos a criada passar pelo corredor e o clique agudo da trava quando ela a abriu.

“O Dr. Watson mora aqui?” perguntou uma voz clara, mas um tanto áspera. Não pudemos ouvir a resposta da criada, mas a porta se fechou e alguém começou a subir as escadas. Os passos eram incertos e arrastados. Um olhar de surpresa passou pelo rosto do meu companheiro enquanto ele ouvia. O som veio lentamente pelo corredor e houve uma batida fraca na porta.

“Entre”, gritei.

Ao meu chamado, em vez do homem violento que esperávamos, uma mulher muito velha e enrugada entrou mancando no apartamento. Ela parecia ofuscada pelo brilho repentino da luz e, após fazer uma reverência, ficou piscando para nós com seus olhos remelentos, tateando o bolso com dedos nervosos e trêmulos. Lancei um olhar ao meu companheiro, e seu rosto assumiu uma expressão tão desconsolada que foi tudo o que pude fazer para não rir.

A velha bruxa tirou um jornal da tarde e apontou para o nosso anúncio. “Foi isto que me trouxe, bons senhores”, disse ela, fazendo outra reverência; “uma aliança de casamento de ouro na Brixton Road. Pertence à minha filha Sally, que se casou há apenas doze meses, e o marido dela é comissário de bordo em um navio da Union, e o que ele diria se chegasse em casa e a encontrasse sem o anel é mais do que posso imaginar, sendo ele já irritadiço nos melhores dias, mas ainda mais quando bebe. Se lhes agrada, ela foi ao circo ontem à noite junto com——”

“É esse o anel dela?” perguntei.

“Graças a Deus!” exclamou a velha; “Sally será uma mulher feliz esta noite. Esse é o anel.”

“E qual seria o seu endereço?” indaguei, pegando um lápis.

“Duncan Street, 13, Houndsditch. Um caminho cansativo daqui.”

“A Brixton Road não fica entre nenhum circo e Houndsditch”, disse Sherlock Holmes bruscamente.

A velha virou-se e olhou atentamente para ele com seus pequenos olhos de bordas vermelhas. “O cavalheiro me pediu o meu endereço”, disse ela. “Sally mora em um quarto alugado em Mayfield Place, 3, Peckham.”

“E o seu nome é——?”

“Meu nome é Sawyer — o dela é Dennis, com quem Tom Dennis se casou — e um rapaz esperto e limpo, também, enquanto está no mar, e nenhum comissário na companhia é mais respeitado; mas quando está em terra, entre as mulheres e as tavernas——”

“Aqui está o seu anel, Sra. Sawyer”, interrompi, em obediência a um sinal do meu companheiro; “ele claramente pertence à sua filha, e fico feliz em poder devolvê-lo à legítima proprietária.”

Com muitos murmúrios de bênçãos e protestos de gratidão, a velha bruxa guardou-o no bolso e saiu arrastando os pés escada abaixo. Sherlock Holmes saltou de sua cadeira no momento em que ela se foi e correu para o seu quarto. Ele retornou em poucos segundos envolto em um casaco ulster e um lenço no pescoço. “Vou segui-la”, disse ele, apressado; “ela deve ser uma cúmplice e me levará até ele. Espere por mim acordado.” A porta do corredor mal tinha batido atrás da nossa visitante antes que Holmes descesse a escada. Olhando pela janela, pude vê-la caminhando fracamente pelo outro lado, enquanto seu perseguidor a seguia a certa distância. “Ou toda a teoria dele está incorreta”, pensei comigo mesmo, “ou ele será levado agora ao âmago do mistério.” Não houve necessidade de ele me pedir para esperar, pois senti que o sono seria impossível até que eu ouvisse o resultado de sua aventura.

Estava quase chegando às nove quando ele partiu. Não tinha ideia de quanto tempo ele poderia levar, mas sentei-me estoicamente, tragando meu cachimbo e passando os olhos pelas páginas de “Vie de Bohème”, de Henri Murger. Dez horas se passaram, e ouvi os passos da criada enquanto ela subia para dormir. Onze horas, e o passo mais solene da senhoria passou pela minha porta, a caminho do mesmo destino. Estava quase chegando à meia-noite quando ouvi o som agudo de sua chave na fechadura. No instante em que ele entrou, vi pelo seu rosto que não tinha sido bem-sucedido. Diversão e desgosto pareciam lutar pelo domínio, até que o primeiro subitamente venceu, e ele explodiu em uma risada franca.

“Eu não gostaria que o pessoal da Scotland Yard soubesse disso por nada neste mundo”, exclamou ele, jogando-se em sua cadeira; “eu os provoquei tanto que eles nunca me deixariam ouvir o fim da história. Posso me dar ao luxo de rir, porque sei que, a longo prazo, estarei quites com eles.”

“O que aconteceu, então?” perguntei.

“Oh, não me importo de contar uma história contra mim mesmo. Aquela criatura tinha ido um pouco longe quando começou a mancar e a mostrar todos os sinais de estar com os pés machucados. Logo, ela parou e chamou um táxi de quatro rodas que passava. Consegui ficar perto o suficiente para ouvir o endereço, mas não precisaria ter ficado tão ansioso, pois ela gritou alto o bastante para ser ouvido do outro lado da rua: ‘Leve-me para Duncan Street, 13, Houndsditch’, ela gritou. Isto começa a parecer genuíno, pensei, e, tendo-a visto entrar em segurança, acomodei-me atrás. Essa é uma arte na qual todo detetive deveria ser especialista. Bem, lá fomos nós, sacolejando, e não paramos até chegarmos à rua em questão. Saltei antes de chegarmos à porta e caminhei pela rua de forma descontraída e lenta. Vi o táxi parar. O cocheiro desceu e vi que ele abriu a porta e ficou ali, esperando. No entanto, nada saiu. Quando cheguei até ele, ele estava tateando freneticamente no táxi vazio e soltando a mais fina e variada coleção de palavrões que já ouvi. Não havia sinal ou rastro de sua passageira, e temo que levará algum tempo até que ele receba a corrida. Ao perguntar no número 13, descobrimos que a casa pertencia a um respeitável papeleiro chamado Keswick, e que ninguém com o nome de Sawyer ou Dennis jamais tinha sido ouvido por lá.”

“Você não quer dizer”, exclinei, espantado, “que aquela velha trêmula e frágil foi capaz de sair do táxi enquanto ele estava em movimento, sem que nem você nem o cocheiro a vissem?”

“Ao diabo com a velha!” disse Sherlock Holmes, bruscamente. “Nós é que fomos os velhos por sermos tão enganados. Deve ter sido um jovem, e um jovem ativo, além de ser um ator incomparável. O disfarce era inimitável. Ele viu que estava sendo seguido, sem dúvida, e usou esse meio para me despistar. Isso mostra que o homem que estamos procurando não é tão solitário quanto eu imaginava, mas tem amigos que estão dispostos a arriscar algo por ele. Agora, doutor, você parece exausto. Aceite meu conselho e vá dormir.”

Eu certamente estava me sentindo muito cansado, então obedeci à sua recomendação. Deixei Holmes sentado diante da lareira em brasa e, durante grande parte da noite, ouvi os lamentos baixos e melancólicos de seu violino, e soube que ele ainda estava ponderando sobre o estranho problema que se propusera a desvendar.

CAPÍTULO VI. TOBIAS GREGSON MOSTRA DO QUE É CAPAZ.

Os jornais no dia seguinte estavam cheios do “Mistério de Brixton”, como o chamaram. Cada um trazia um longo relato do caso, e alguns tinham editoriais sobre ele também. Havia algumas informações neles que eram novas para mim. Ainda guardo em meu álbum de recortes inúmeros recortes e extratos referentes ao caso. Aqui está uma condensação de alguns deles:—

O Daily Telegraph observou que, na história do crime, raramente houve uma tragédia que apresentasse características tão estranhas. O nome alemão da vítima, a ausência de qualquer outro motivo e a inscrição sinistra na parede, tudo apontava para a sua perpetração por refugiados políticos e revolucionários. Os socialistas tinham muitos ramos na América, e o falecido, sem dúvida, infringira suas leis não escritas e fora caçado por eles. Após aludir levianamente à Vehmgericht, à aqua tofana, aos Carbonari, à Marquesa de Brinvilliers, à teoria darwiniana, aos princípios de Malthus e aos assassinatos de Ratcliff Highway, o artigo concluía admoestando o Governo e defendendo uma vigilância mais rigorosa sobre os estrangeiros na Inglaterra.

O Standard comentou sobre o fato de que ultrajes sem lei desse tipo geralmente ocorriam sob uma Administração Liberal. Eles surgiam do desassossego das mentes das massas e do consequente enfraquecimento de toda autoridade. O falecido era um cavalheiro americano que residia há algumas semanas na Metrópole. Ele estava hospedado na pensão da Madame Charpentier, em Torquay Terrace, Camberwell. Ele estava acompanhado em suas viagens por seu secretário particular, o Sr. Joseph Stangerson. Os dois se despediram de sua senhoria na terça-feira, dia 4, e partiram para a Estação Euston com a intenção declarada de pegar o expresso de Liverpool. Eles foram vistos juntos depois na plataforma. Nada mais se sabe sobre eles até que o corpo do Sr. Drebber foi, como registrado, descoberto em uma casa vazia na Brixton Road, a muitos quilômetros de Euston. Como ele chegou lá, ou como encontrou seu destino, são questões que ainda estão envoltas em mistério. Nada se sabe sobre o paradeiro de Stangerson. Estamos contentes em saber que o Sr. Lestrade e o Sr. Gregson, da Scotland Yard, estão ambos trabalhando no caso, e espera-se confiantemente que esses oficiais bem conhecidos lancem luz rapidamente sobre o assunto.

O Daily News observou que não havia dúvida de que o crime era político. O despotismo e o ódio ao Liberalismo que animavam os Governos Continentais tiveram o efeito de levar às nossas costas um número de homens que poderiam ter se tornado excelentes cidadãos se não fossem amargurados pela lembrança de tudo pelo que passaram. Entre esses homens, havia um código de honra rígido, cuja infração era punida com a morte. Todos os esforços deveriam ser feitos para encontrar o secretário, Stangerson, e para descobrir alguns detalhes sobre os hábitos do falecido. Um grande passo foi dado com a descoberta do endereço da casa onde ele estava hospedado — um resultado que se deve inteiramente à perspicácia e energia do Sr. Gregson, da Scotland Yard.

Sherlock Holmes e eu lemos esses avisos juntos no café da manhã, e eles pareceram lhe proporcionar uma diversão considerável.

“Eu lhe disse que, aconteça o que acontecer, Lestrade e Gregson certamente iriam pontuar.”

“Isso depende de como as coisas terminarem.”

“Oh, meu caro, isso não importa nem um pouco. Se o homem for capturado, será por causa dos esforços deles; se ele escapar, será apesar dos esforços deles. É cara eu ganho, coroa você perde. O que quer que façam, eles terão seguidores. ‘Un sot trouve toujours un plus sot qui l’admire.’”

“O que diabos é isso?” exclamei, pois, naquele momento, ouviu-se o som de muitos passos no corredor e na escada, acompanhado por expressões audíveis de desgosto por parte da nossa senhoria.

“É a divisão de Baker Street da força policial de detetives”, disse meu companheiro, gravemente; e, enquanto ele falava, meia dúzia dos árabes de rua mais sujos e esfarrapados que já vi correram para dentro da sala.

“‘Tenção!” gritou Holmes, em um tom agudo, e os seis pequenos canalhas sujos ficaram em fila como estatuetas de má reputação. “No futuro, vocês enviarão apenas Wiggins para relatar, e o resto de vocês deve esperar na rua. Vocês encontraram?”

“Não, senhor, não encontramos”, disse um dos rapazes.

“Eu mal esperava que encontrassem. Vocês devem continuar até encontrarem. Aqui está o pagamento de vocês.” Ele entregou a cada um deles um xelim.

“Agora, sumam daqui e voltem com um relatório melhor na próxima vez.”

Ele acenou com a mão, e eles correram escada abaixo como ratos, e ouvimos suas vozes estridentes no momento seguinte na rua.

“Consegue-se mais trabalho de um desses pequenos pedintes do que de uma dúzia da força policial”, observou Holmes. “A mera visão de uma pessoa com aparência oficial sela os lábios dos homens. Esses jovens, no entanto, vão a todos os lugares e ouvem tudo. Eles são afiados como agulhas, também; tudo de que precisam é organização.”

“É nesse caso de Brixton que você está empregando eles?” perguntei.

“Sim; há um ponto que desejo verificar. É apenas uma questão de tempo. Olá! Vamos ouvir algumas notícias agora com força total! Aqui está Gregson vindo pela estrada com a beatitude escrita em cada traço de seu rosto. Destinado a nós, eu sei. Sim, ele está parando. Lá está ele!”

Houve um toque violento na campainha e, em poucos segundos, o detetive de cabelos claros subiu as escadas, três degraus de cada vez, e irrompeu em nossa sala de estar.

“Meu caro amigo”, exclamou ele, apertando a mão inerte de Holmes, “parabenize-me! Deixei a coisa toda clara como a luz do dia.”

Uma sombra de ansiedade pareceu-me cruzar o rosto expressivo do meu companheiro.

“Você quer dizer que está na pista certa?” perguntou ele.

“A pista certa! Ora, senhor, temos o homem sob chave e ferrolho.”

“E o nome dele é?”

“Arthur Charpentier, subtenente da marinha de Sua Majestade”, exclamou Gregson, pomposamente, esfregando suas mãos gordas e estufando o peito.

Sherlock Holmes deu um suspiro de alívio e relaxou em um sorriso.

“Sente-se e experimente um destes charutos”, disse ele. “Estamos ansiosos para saber como você conseguiu. Quer um pouco de uísque com água?”

“Não me importo se aceitar”, respondeu o detetive. “Os esforços tremendos pelos quais passei durante o último dia ou dois me deixaram exausto. Não tanto esforço físico, entende, mas a tensão mental. Você apreciará isso, Sr. Sherlock Holmes, pois ambos somos trabalhadores cerebrais.”

“Você me dá muita honra”, disse Holmes, gravemente. “Vamos ouvir como você chegou a este resultado tão gratificante.”

O detetive sentou-se na poltrona e tragou complacentemente seu charuto. Então, subitamente, deu um tapa na coxa em um paroxismo de diversão.

“A graça de tudo isso”, exclamou ele, “é que aquele tolo do Lestrade, que se acha tão esperto, seguiu a pista errada completamente. Ele está atrás do secretário Stangerson, que não teve mais nada a ver com o crime do que uma criança por nascer. Não tenho dúvidas de que ele o tenha capturado a esta altura.”

A ideia divertiu Gregson tanto que ele riu até engasgar.

“E como você conseguiu a pista?”

“Ah, vou contar tudo sobre isso. É claro, Doutor Watson, que isto é estritamente entre nós. A primeira dificuldade com a qual tivemos que lidar foi a descoberta dos antecedentes deste americano. Algumas pessoas teriam esperado até que seus anúncios fossem respondidos, ou até que as partes se apresentassem e oferecessem informações voluntariamente. Esse não é o modo de trabalhar de Tobias Gregson. Você se lembra do chapéu ao lado do homem morto?”

“Sim”, disse Holmes; “de John Underwood and Sons, 129, Camberwell Road.”

Gregson pareceu bastante desapontado.

“Eu não tinha ideia de que você tinha notado isso”, disse ele. “Você esteve lá?”

“Não.”

“Há!” exclamou Gregson, com uma voz aliviada; “você nunca deve negligenciar uma chance, por menor que pareça.”

“Para uma grande mente, nada é pequeno”, observou Holmes, sentenciosamente.

“Bem, fui até Underwood e perguntei se ele tinha vendido um chapéu daquele tamanho e descrição. Ele olhou seus livros e encontrou na hora. Ele tinha enviado o chapéu para um Sr. Drebber, residente no Estabelecimento de Pensão de Charpentier, Torquay Terrace. Assim, cheguei ao endereço dele.”

“Esperto — muito esperto!” murmurou Sherlock Holmes.

“A seguir, visitei a Madame Charpentier”, continuou o detetive. “Encontrei-a muito pálida e angustiada. A filha dela também estava na sala — uma moça extraordinariamente bonita, por sinal; ela parecia com os olhos vermelhos e seus lábios tremiam enquanto eu falava com ela. Isso não escapou à minha atenção. Comecei a desconfiar de algo. Você conhece a sensação, Sr. Sherlock Holmes, quando se chega à pista certa — uma espécie de arrepio nos nervos. ‘Você ouviu falar da morte misteriosa do seu falecido hóspede, o Sr. Enoch J. Drebber, de Cleveland?’, perguntei.

“A mãe acenou com a cabeça. Ela não parecia capaz de dizer uma palavra. A filha caiu em prantos. Senti mais do que nunca que essas pessoas sabiam algo sobre o assunto.

“‘A que horas o Sr. Drebber saiu da sua casa para o trem?’, perguntei.

“‘Às oito horas’, disse ela, engolindo em seco para conter sua agitação. ‘O secretário dele, Sr. Stangerson, disse que havia dois trens — um às 9h15 e outro às 11h. Ele ia pegar o primeiro.’

“‘E foi a última vez que você o viu?’

“Uma mudança terrível ocorreu no rosto da mulher quando fiz a pergunta. Seus traços ficaram perfeitamente lívidos. Levaram alguns segundos para que ela pudesse soltar a única palavra ‘Sim’ — e quando ela veio, foi em um tom rouco e não natural.

“Houve silêncio por um momento, e então a filha falou com uma voz calma e clara.

“‘Nada de bom pode vir da falsidade, mãe’, disse ela. ‘Vamos ser francos com este cavalheiro. Nós vimos o Sr. Drebber novamente.’

“‘Deus a perdoe!’, gritou a Madame Charpentier, levantando as mãos e recuando para sua cadeira. ‘Você assassinou seu irmão.’

“‘Arthur preferiria que falássemos a verdade’, a moça respondeu firmemente.

“‘É melhor você me contar tudo sobre isso agora’, eu disse. ‘Meias-confidências são piores do que nenhuma. Além disso, você não sabe o quanto sabemos sobre isso.’

“‘Que caia sobre a sua cabeça, Alice!’, gritou a mãe dela; e então, virando-se para mim: ‘Vou contar tudo, senhor. Não imagine que minha agitação em nome do meu filho surja de qualquer medo de que ele tenha tido participação neste assunto terrível. Ele é totalmente inocente. Meu medo, porém, é que, aos seus olhos e aos olhos dos outros, ele possa parecer comprometido. Isso, no entanto, é certamente impossível. Seu alto caráter, sua profissão, seus antecedentes, tudo isso o proibiria.’

“‘O melhor caminho é abrir o jogo sobre os fatos’, respondi. ‘Confie em mim, se seu filho é inocente, ele não sofrerá nenhum mal.’

“‘Talvez, Alice, seja melhor você nos deixar a sós’, disse ela, e sua filha se retirou. ‘Agora, senhor’, ela continuou, ‘eu não tinha intenção de lhe contar tudo isso, mas, já que minha pobre filha revelou, não tenho alternativa. Tendo decidido falar, contarei tudo sem omitir nenhum detalhe.’

“‘É o seu curso mais sensato’, disse eu.”

“O Sr. Drebber esteve conosco por quase três semanas. Ele e seu secretário, o Sr. Stangerson, vinham viajando pelo Continente. Notei uma etiqueta de ‘Copenhague’ em cada um de seus baús, mostrando que aquele fora o último lugar onde haviam parado. Stangerson era um homem calado e reservado, mas seu patrão, sinto dizer, era bem diferente. Tinha hábitos grosseiros e maneiras brutais. Na própria noite de sua chegada, ele se excedeu na bebida e, na verdade, depois do meio-dia, dificilmente se podia dizer que estivesse sóbrio. Suas maneiras com as criadas eram repugnantemente atrevidas e familiares. O pior de tudo foi que ele logo adotou a mesma atitude em relação à minha filha, Alice, e falou com ela mais de uma vez de uma maneira que, felizmente, ela é inocente demais para compreender. Em uma ocasião, ele chegou a agarrá-la pelos braços e abraçá-la — um ultraje que fez com que seu próprio secretário o repreendesse por sua conduta indigna.”

“‘Mas por que a senhora suportou tudo isso?’, perguntei. ‘Imagino que a senhora possa se livrar de seus hóspedes quando quiser.’”

A Sra. Charpentier corou com a minha pergunta pertinente. “‘Oxalá eu o tivesse notificado no mesmo dia em que ele chegou’, disse ela. ‘Mas era uma tentação dolorosa. Eles pagavam uma libra por dia cada um — quatorze libras por semana, e esta é a baixa temporada. Sou viúva, e meu filho na Marinha tem me custado muito. Doía-me perder o dinheiro. Agi para o melhor. No entanto, desta última vez foi demais, e eu lhe dei aviso de despejo por causa disso. Foi esse o motivo de sua partida.’”

“‘Bem?’”

“‘Meu coração ficou leve quando o vi partir. Meu filho está de licença agora, mas não lhe contei nada disso, pois seu temperamento é violento e ele é apaixonado pela irmã. Quando fechei a porta atrás deles, pareceu que um fardo fora tirado da minha mente. Ai de mim, em menos de uma hora ouviu-se uma campainha e soube que o Sr. Drebber havia retornado. Ele estava muito agitado e, evidentemente, alterado pela bebida. Forçou a entrada no quarto onde eu estava sentada com minha filha e fez algum comentário incoerente sobre ter perdido o trem. Depois, virou-se para Alice e, bem na minha frente, propôs que ela fugisse com ele. “Você é maior de idade”, disse ele, “e não há lei que a impeça. Tenho dinheiro suficiente e de sobra. Não dê ouvidos à velha aqui, venha comigo agora mesmo. Você viverá como uma princesa.” A pobre Alice ficou tão assustada que se encolheu, mas ele a segurou pelo pulso e tentou puxá-la em direção à porta. Gritei e, naquele momento, meu filho Arthur entrou no quarto. O que aconteceu depois, eu não sei. Ouvi xingamentos e sons confusos de uma briga. Eu estava aterrorizada demais para levantar a cabeça. Quando olhei, vi Arthur parado na porta, rindo, com uma bengala na mão. “Não creio que aquele sujeito vá nos incomodar de novo”, disse ele. “Vou atrás dele e ver o que ele faz de si mesmo.” Com essas palavras, ele pegou o chapéu e saiu pela rua. Na manhã seguinte, soubemos da morte misteriosa do Sr. Drebber.’”

“Este depoimento saiu dos lábios da Sra. Charpentier com muitos suspiros e pausas. Às vezes, ela falava tão baixo que eu mal conseguia entender as palavras. Tomei notas em taquigrafia de tudo o que ela disse, no entanto, para que não houvesse possibilidade de erro.”

“É bem empolgante”, disse Sherlock Holmes, com um bocejo. “O que aconteceu depois?”

“Quando a Sra. Charpentier fez uma pausa”, continuou o detetive, “vi que todo o caso dependia de um ponto. Fixando-a com o olhar de uma maneira que sempre achei eficaz com as mulheres, perguntei-lhe a que horas o filho retornara.”

“‘Não sei’, ela respondeu.”

“‘Não sabe?’”

“‘Não; ele tem uma chave e entrou por conta própria.’”

“‘Depois que a senhora foi deitar?’”

“‘Sim.’”

“‘A que horas a senhora foi deitar?’”

“‘Por volta das onze.’”

“‘Então seu filho ficou fora pelo menos duas horas?’”

“‘Sim.’”

“‘Possivelmente quatro ou cinco?’”

“‘Sim.’”

“‘O que ele estava fazendo durante esse tempo?’”

“‘Eu não sei’, respondeu ela, ficando pálida até os lábios.”

“Naturalmente, depois disso não havia mais nada a fazer. Descobri onde o Tenente Charpentier estava, levei dois oficiais comigo e o prendi. Quando toquei em seu ombro e o avisei para vir calmamente conosco, ele respondeu com toda a naturalidade: ‘Suponho que estejam me prendendo por envolvimento na morte daquele canalha Drebber’, disse ele. Nós não tínhamos dito nada a ele sobre o assunto, de modo que sua alusão a isso teve um aspecto muito suspeito.”

“Muito”, disse Holmes.

“Ele ainda carregava a bengala pesada que a mãe descreveu que ele levava quando seguiu Drebber. Era um porrete robusto de carvalho.”

“Qual é a sua teoria, então?”

“Bem, minha teoria é que ele seguiu Drebber até a Brixton Road. Lá, surgiu uma nova altercação entre eles, durante a qual Drebber recebeu um golpe da bengala, talvez na boca do estômago, que o matou sem deixar marcas. A noite estava tão chuvosa que não havia ninguém por perto, então Charpentier arrastou o corpo de sua vítima para a casa vazia. Quanto à vela, ao sangue, à escrita na parede e ao anel, podem ser apenas truques para despistar a polícia.”

“Muito bem!”, disse Holmes em tom encorajador. “Realmente, Gregson, você está progredindo. Ainda faremos algo de você.”

“Lisonjeio-me de ter conduzido o caso com bastante destreza”, respondeu o detetive, orgulhoso. “O jovem prestou um depoimento voluntário, no qual disse que, após seguir Drebber por algum tempo, este o percebeu e pegou um táxi para se afastar dele. A caminho de casa, encontrou um antigo companheiro de navio e deu uma longa caminhada com ele. Ao ser perguntado onde esse antigo companheiro morava, não foi capaz de dar nenhuma resposta satisfatória. Acho que todo o caso se encaixa excepcionalmente bem. O que me diverte é pensar em Lestrade, que começou pela pista errada. Receio que ele não consiga tirar muito proveito disso. Ora, por Júpiter, aqui está o próprio homem!”

Era, de fato, Lestrade, que subira as escadas enquanto conversávamos e que agora entrava na sala. A segurança e a vivacidade que geralmente marcavam seu comportamento e vestimenta, porém, estavam ausentes. Seu rosto estava perturbado e preocupado, enquanto suas roupas estavam desalinhadas e desleixadas. Ele evidentemente viera com a intenção de consultar Sherlock Holmes, pois, ao perceber seu colega, pareceu embaraçado e incomodado. Ele ficou no centro da sala, mexendo nervosamente no chapéu e incerto sobre o que fazer. “Este é um caso extremamente extraordinário”, disse ele finalmente — “um caso incompreensível.”

“Ah, você acha isso, Sr. Lestrade!”, exclamou Gregson, triunfante. “Pensei que você chegaria a essa conclusão. Conseguiu encontrar o secretário, o Sr. Joseph Stangerson?”

“O secretário, Sr. Joseph Stangerson”, disse Lestrade gravemente, “foi assassinado no Halliday’s Private Hotel por volta das seis horas desta manhã.”

CAPÍTULO VII. LUZ NA ESCURIDÃO.

A notícia com que Lestrade nos cumprimentou foi tão momentosa e inesperada que nós três ficamos completamente atônitos. Gregson saltou da cadeira e derrubou o restante de seu uísque com água. Olhei em silêncio para Sherlock Holmes, cujos lábios estavam cerrados e as sobrancelhas franzidas sobre os olhos.

“Stangerson também!”, murmurou ele. “A trama se complica.”

“Já estava bastante complicada antes”, resmungou Lestrade, pegando uma cadeira. “Parece que caí em uma espécie de conselho de guerra.”

“Você... você tem certeza desta informação?”, gaguejou Gregson.

“Acabei de vir do quarto dele”, disse Lestrade. “Fui o primeiro a descobrir o que aconteceu.”

“Estávamos ouvindo o ponto de vista de Gregson sobre o assunto”, observou Holmes. “Você se importaria de nos contar o que viu e fez?”

“Não tenho objeções”, respondeu Lestrade, sentando-se. “Confesso livremente que era da opinião de que Stangerson estava envolvido na morte de Drebber. Este novo desenvolvimento me mostrou que eu estava completamente enganado. Cheio dessa ideia, decidi descobrir o que havia acontecido com o secretário. Eles tinham sido vistos juntos na estação Euston por volta das oito e meia da noite do dia três. Às duas da manhã, Drebber fora encontrado na Brixton Road. A questão que me confrontava era descobrir como Stangerson tinha se ocupado entre as 8h30 e a hora do crime, e o que tinha acontecido com ele depois. Telegrafei para Liverpool, dando uma descrição do homem e avisando-os para vigiarem os navios americanos. Então, pus-me a visitar todos os hotéis e pensões nas proximidades de Euston. Veja, argumentei que, se Drebber e seu companheiro tivessem se separado, o curso natural para este último seria hospedar-se em algum lugar próximo durante a noite e, então, ficar rondando a estação novamente na manhã seguinte.”

“Eles provavelmente teriam combinado algum local de encontro com antecedência”, comentou Holmes.

“Assim foi. Passei toda a noite de ontem fazendo perguntas, totalmente em vão. Esta manhã, comecei bem cedo e, às oito horas, cheguei ao Halliday’s Private Hotel, na Little George Street. Ao perguntar se um Sr. Stangerson estava morando lá, responderam-me imediatamente que sim.”

“‘Sem dúvida o senhor é o cavalheiro que ele esperava’, disseram. ‘Ele está esperando um cavalheiro há dois dias.’”

“‘Onde ele está agora?’, perguntei.”

“‘Ele está lá em cima, na cama. Pediu para ser chamado às nove.’”

“‘Vou subir e vê-lo imediatamente’, eu disse.”

“Pareceu-me que minha aparição repentina poderia abalar seus nervos e levá-lo a dizer algo imprudente. O funcionário do hotel se ofereceu para me mostrar o quarto: ficava no segundo andar, e havia um pequeno corredor que levava até ele. O funcionário apontou a porta para mim e estava prestes a descer novamente quando vi algo que me deixou enjoado, apesar dos meus vinte anos de experiência. Debaixo da porta, escorria uma pequena fita vermelha de sangue, que serpenteou pelo corredor e formou uma pequena poça ao longo do rodapé do outro lado. Dei um grito, que trouxe o funcionário de volta. Ele quase desmaiou quando viu. A porta estava trancada por dentro, mas forçamos com os ombros e a arrombamos. A janela do quarto estava aberta e, ao lado dela, todo encolhido, jazia o corpo de um homem em sua camisola. Ele estava morto, e há algum tempo, pois seus membros estavam rígidos e frios. Quando o viramos, o funcionário o reconheceu imediatamente como sendo o mesmo cavalheiro que havia alugado o quarto sob o nome de Joseph Stangerson. A causa da morte foi uma facada profunda no lado esquerdo, que deve ter perfurado o coração. E agora vem a parte mais estranha do caso. O que você supõe que estava acima do homem assassinado?”

Senti um arrepio na espinha e um pressentimento de horror iminente, mesmo antes de Sherlock Holmes responder.

“A palavra RACHE, escrita em letras de sangue”, disse ele.

“Foi isso”, disse Lestrade, com uma voz cheia de admiração; e ficamos todos em silêncio por um tempo.

Havia algo tão metódico e incompreensível nos atos desse assassino desconhecido que dava uma nova macabra aos seus crimes. Meus nervos, que eram bastante estáveis no campo de batalha, formigaram ao pensar nisso.

“O homem foi visto”, continuou Lestrade. “Um entregador de leite, passando a caminho da leiteria, caminhou pela viela que leva das cocheiras atrás do hotel. Ele notou que uma escada, que geralmente ficava ali, estava encostada em uma das janelas do segundo andar, que estava bem aberta. Depois de passar, ele olhou para trás e viu um homem descer a escada. Ele desceu de forma tão silenciosa e aberta que o rapaz imaginou que fosse algum carpinteiro ou marceneiro trabalhando no hotel. Ele não prestou atenção especial nele, além de pensar consigo mesmo que era cedo para ele estar trabalhando. Ele tem a impressão de que o homem era alto, tinha um rosto avermelhado e estava vestido com um casaco longo e acastanhado. Ele deve ter ficado no quarto algum tempo após o assassinato, pois encontramos água manchada de sangue na bacia, onde ele havia lavado as mãos, e marcas nos lençóis onde ele deliberadamente limpou sua faca.”

Olhei para Holmes ao ouvir a descrição do assassino, que coincidia exatamente com a sua própria. Não havia, contudo, nenhum traço de exultação ou satisfação em seu rosto.

“Você não encontrou nada no quarto que pudesse fornecer uma pista sobre o assassino?”, perguntou ele.

“Nada. Stangerson tinha a carteira de Drebber no bolso, mas parece que isso era habitual, já que ele fazia todos os pagamentos. Havia oitenta e poucas libras nela, mas nada foi levado. Quaisquer que sejam os motivos desses crimes extraordinários, o roubo certamente não é um deles. Não havia papéis ou memorandos no bolso do homem assassinado, exceto um único telegrama, datado de Cleveland há cerca de um mês, contendo as palavras: ‘J. H. está na Europa.’ Não havia nome assinado nesta mensagem.”

“E não havia mais nada?”, Holmes perguntou.

“Nada de importância. O romance do homem, com o qual ele tinha se embalado para dormir, estava sobre a cama, e seu cachimbo estava em uma cadeira ao lado dele. Havia um copo de água sobre a mesa e, no peitoril da janela, uma pequena caixa de pomada contendo um par de pílulas.”

Sherlock Holmes saltou de sua cadeira com uma exclamação de deleite.

“O último elo”, gritou ele, exultante. “Meu caso está completo.”

Os dois detetives olharam para ele com espanto.

“Tenho agora em minhas mãos”, disse meu companheiro, com confiança, “todos os fios que formaram tal emaranhado. Há, naturalmente, detalhes a serem preenchidos, mas estou tão certo de todos os fatos principais, desde o momento em que Drebber se separou de Stangerson na estação até a descoberta do corpo deste último, como se os tivesse visto com meus próprios olhos. Vou dar-lhes uma prova do meu conhecimento. Poderiam me entregar aquelas pílulas?”

“Eu as tenho”, disse Lestrade, produzindo uma pequena caixa branca; “Peguei-as, a carteira e o telegrama, com a intenção de colocá-los em um lugar seguro na Delegacia de Polícia. Foi por um mero acaso que peguei essas pílulas, pois devo dizer que não atribuo nenhuma importância a elas.”

“Dê-as aqui”, disse Holmes. “Agora, Doutor”, voltando-se para mim, “são essas pílulas comuns?”

Certamente não eram. Tinham uma cor cinza-perolada, eram pequenas, redondas e quase transparentes contra a luz. “Pela leveza e transparência, imagino que sejam solúveis em água”, comentei.

“Precisamente”, respondeu Holmes. “Agora, você se importaria de descer e buscar aquele pobre diabinho de terrier que tem estado tão mal ultimamente, e que a senhoria queria que você aliviasse de seu sofrimento ontem?”

Desci e carreguei o cão para cima em meus braços. Sua respiração ofegante e seu olhar vítreo mostravam que não estava longe do fim. De fato, seu focinho branco como a neve proclamava que ele já havia excedido o termo habitual da existência canina. Coloquei-o sobre uma almofada no tapete.

“Vou cortar uma dessas pílulas em duas”, disse Holmes, e, sacando seu canivete, acompanhou a ação com a palavra. “Uma metade devolvemos à caixa para fins futuros. A outra metade colocarei neste copo de vinho, no qual há uma colher de chá de água. Você percebe que nosso amigo, o Doutor, tem razão, e que ela se dissolve prontamente.”

“Isso pode ser muito interessante”, disse Lestrade, no tom ofendido de quem suspeita estar sendo ridicularizado, “não consigo ver, no entanto, o que isso tem a ver com a morte do Sr. Joseph Stangerson.”

“Paciência, meu amigo, paciência! Você descobrirá a tempo que tem tudo a ver com isso. Acrescentarei agora um pouco de leite para tornar a mistura palatável e, ao apresentá-la ao cão, veremos que ele a lambe prontamente.”

Enquanto falava, ele despejou o conteúdo do copo de vinho em um pires e o colocou na frente do terrier, que rapidamente o lambeu até secar. O comportamento sério de Sherlock Holmes nos convencera tanto que ficamos todos em silêncio, observando o animal atentamente e esperando algum efeito surpreendente. Nenhum, contudo, apareceu. O cão continuou deitado sobre a almofada, respirando de forma ofegante, mas aparentemente nem melhor nem pior por causa da poção.

Holmes tirara o relógio e, à medida que minuto após minuto passava sem resultado, uma expressão de extremo desgosto e decepção apareceu em suas feições. Ele roeu o lábio, tamborilou os dedos na mesa e mostrou todos os outros sintomas de impaciência aguda. Tão grande era sua emoção que senti uma tristeza sincera por ele, enquanto os dois detetives sorriam com escárnio, nem um pouco desgostosos com esse revés que ele havia encontrado.

“Não pode ser coincidência”, gritou ele, finalmente saltando da cadeira e andando freneticamente de um lado para o outro da sala; “é impossível que seja uma mera coincidência. As mesmas pílulas que suspeitei no caso de Drebber são encontradas após a morte de Stangerson. E, no entanto, são inertes. O que pode significar? Certamente toda a minha cadeia de raciocínio não pode ter sido falsa. É impossível! E, no entanto, este pobre cão não está nem pior. Ah, entendi! Entendi!” Com um verdadeiro grito de deleite, ele correu para a caixa, cortou a outra pílula em duas, dissolveu-a, adicionou leite e apresentou-a ao terrier. A língua da infeliz criatura mal parecia ter sido umedecida por ela antes que desse um tremor convulsivo em todos os membros e ficasse tão rígida e sem vida como se tivesse sido atingida por um raio.

Sherlock Holmes respirou fundo e enxugou o suor da testa. “Eu deveria ter mais fé”, disse ele; “já deveria saber a esta altura que, quando um fato parece oposto a uma longa série de deduções, ele invariavelmente prova ser capaz de suportar alguma outra interpretação. Das duas pílulas naquela caixa, uma era do veneno mais mortal e a outra era inteiramente inofensiva. Eu deveria ter sabido disso antes mesmo de ver a caixa.”

Esta última declaração pareceu-me tão surpreendente que mal podia acreditar que ele estivesse em seu juízo perfeito. Havia o cão morto, no entanto, para provar que sua conjectura estava correta. Parecia-me que as névoas em minha própria mente estavam gradualmente se dissipando, e comecei a ter uma percepção vaga e indistinta da verdade.

“Tudo isso parece estranho para vocês”, continuou Holmes, “porque falharam no início da investigação em compreender a importância da única pista real que lhes foi apresentada. Tive a sorte de me agarrar a ela, e tudo o que ocorreu desde então serviu para confirmar minha suposição original e, de fato, foi a sequência lógica dela. Portanto, as coisas que os deixaram perplexos e tornaram o caso mais obscuro serviram para me esclarecer e fortalecer minhas conclusões. É um erro confundir estranheza com mistério. O crime mais comum é muitas vezes o mais misterioso porque não apresenta características novas ou especiais das quais se possam tirar deduções. Este assassinato teria sido infinitamente mais difícil de desvendar se o corpo da vítima tivesse sido simplesmente encontrado caído na estrada, sem nenhum daqueles acompanhamentos extravagantes e sensacionais que o tornaram notável. Esses detalhes estranhos, longe de tornar o caso mais difícil, na verdade tiveram o efeito de torná-lo menos.”

O Sr. Gregson, que ouvira este discurso com considerável impaciência, não pôde conter-se por mais tempo. "Olhe aqui, Sr. Sherlock Holmes", disse ele, "estamos todos prontos a reconhecer que o senhor é um homem esperto e que tem os seus próprios métodos de trabalho. Mas queremos algo mais do que mera teoria e pregação agora. É um caso de apanhar o homem. Eu apresentei o meu caso, e parece que estava errado. O jovem Charpentier não poderia estar envolvido neste segundo caso. Lestrade foi atrás do seu homem, Stangerson, e parece que ele também estava errado. O senhor lançou pistas aqui e ali, e parece saber mais do que nós, mas chegou o momento em que sentimos que temos o direito de lhe perguntar diretamente quanto sabe sobre o assunto. Pode nomear o homem que o fez?"

"Não posso deixar de sentir que o Gregson tem razão, senhor", observou Lestrade. "Ambos tentámos, e ambos falhámos. O senhor comentou mais de uma vez, desde que estou na sala, que tinha todas as provas de que precisava. Certamente não as reterá por mais tempo."

"Qualquer atraso na detenção do assassino", observei, "poderia dar-lhe tempo para perpetrar alguma nova atrocidade."

Assim pressionado por todos nós, Holmes mostrou sinais de hesitação. Continuou a andar de um lado para o outro na sala com a cabeça baixa sobre o peito e as sobrancelhas franzidas, como era seu hábito quando perdido em pensamentos.

"Não haverá mais assassinatos", disse ele por fim, parando abruptamente e virando-se para nós. "Podem pôr essa consideração fora de questão. Perguntaram-me se sei o nome do assassino. Sei. O mero conhecimento do seu nome é, contudo, uma pequena coisa comparada com o poder de deitar-lhe as mãos. Espero fazê-lo muito em breve. Tenho boas esperanças de conseguir através dos meus próprios arranjos; mas é uma coisa que requer um manuseamento delicado, pois temos um homem astuto e desesperado com quem lidar, que é apoiado, como tive ocasião de provar, por outro tão inteligente quanto ele. Enquanto este homem não tiver ideia de que alguém possa ter uma pista, há alguma hipótese de o apanhar; mas se ele tivesse a menor suspeita, mudaria de nome e desapareceria num instante entre os quatro milhões de habitantes desta grande cidade. Sem querer ferir os sentimentos de nenhum de vós, sou forçado a dizer que considero estes homens mais do que à altura da força policial, e é por isso que não pedi a vossa assistência. Se eu falhar, assumirei, naturalmente, toda a culpa devida a esta omissão; mas para isso estou preparado. De momento, estou pronto a prometer que, no instante em que puder comunicar convosco sem pôr em perigo as minhas próprias combinações, fá-lo-ei."

Gregson e Lestrade pareciam estar longe de ficar satisfeitos com esta garantia, ou com a alusão depreciativa à polícia de investigação. O primeiro tinha ficado corado até às raízes do seu cabelo cor de linho, enquanto os olhos miúdos do outro brilhavam de curiosidade e ressentimento. Nenhum deles teve tempo de falar, contudo, antes de haver uma batida na porta, e o porta-voz dos árabes de rua, o jovem Wiggins, introduziu a sua pessoa insignificante e desagradável.

"Por favor, senhor", disse ele, tocando na testa, "tenho a carruagem cá em baixo."

"Bom rapaz", disse Holmes, afavelmente. "Porque não introduzem este modelo na Scotland Yard?" continuou ele, tirando um par de algemas de aço de uma gaveta. "Vejam como a mola funciona bem. Prendem num instante."

"O modelo antigo é suficientemente bom", observou Lestrade, "se ao menos conseguirmos encontrar o homem para lhas pôr."

"Muito bem, muito bem", disse Holmes, sorrindo. "O cocheiro pode ajudar-me com as minhas malas. Peça-lhe apenas para subir, Wiggins."

Fiquei surpreendido por ver o meu companheiro a falar como se estivesse prestes a partir numa viagem, uma vez que não me tinha dito nada sobre isso. Havia uma pequena mala no quarto, e ele puxou-a e começou a apertar as correias. Estava ocupado nisso quando o cocheiro entrou no quarto.

"Dê-me só uma ajuda com esta fivela, cocheiro", disse ele, ajoelhado sobre a sua tarefa, sem nunca virar a cabeça.

O indivíduo avançou com um ar algo taciturno e desafiante, e baixou as mãos para ajudar. Nesse instante, ouviu-se um estalido seco, o tilintar de metal, e Sherlock Holmes saltou novamente para os pés.

"Cavalheiros", exclamou ele, com os olhos a brilhar, "deixem-me apresentar-vos o Sr. Jefferson Hope, o assassino de Enoch Drebber e de Joseph Stangerson."

Tudo aconteceu num momento — tão rapidamente que não tive tempo de o compreender. Tenho uma recordação vívida desse instante, da expressão triunfante de Holmes e do timbre da sua voz, do rosto atordoado e selvagem do cocheiro, enquanto olhava fixamente para as algemas brilhantes, que tinham aparecido como por magia nos seus pulsos. Durante um ou dois segundos podíamos ter sido um grupo de estátuas. Depois, com um rugido inarticulado de fúria, o prisioneiro libertou-se do aperto de Holmes e atirou-se através da janela. A estrutura de madeira e o vidro cederam perante ele; mas antes que conseguisse atravessá-la completamente, Gregson, Lestrade e Holmes saltaram sobre ele como cães de caça. Foi arrastado de volta para o quarto, e então começou um conflito terrível. Tão poderoso e tão feroz era ele, que os quatro fomos sacudidos vezes sem conta. Parecia ter a força convulsiva de um homem num ataque epilético. O seu rosto e mãos ficaram terrivelmente retalhados pela passagem através do vidro, mas a perda de sangue não teve qualquer efeito em diminuir a sua resistência. Não foi até Lestrade conseguir meter a mão dentro do seu lenço de pescoço e quase o estrangular que o fizemos compreender que as suas lutas eram inúteis; e mesmo assim não sentimos segurança até termos atado os seus pés, bem como as suas mãos. Feito isto, levantámo-nos, sem fôlego e ofegantes.

"Temos a carruagem dele", disse Sherlock Holmes. "Servirá para o levar à Scotland Yard. E agora, cavalheiros", continuou ele, com um sorriso agradável, "chegámos ao fim do nosso pequeno mistério. São muito bem-vindos a colocar-me quaisquer perguntas que desejem agora, e não há perigo de eu me recusar a respondê-las."

PARTE II. O País dos Santos.

CAPÍTULO I. NA GRANDE PLANÍCIE DE ALCALI.

Na porção central do grande continente norte-americano estende-se um deserto árido e repulsivo, que durante muitos longos anos serviu de barreira contra o avanço da civilização. Da Sierra Nevada ao Nebraska, e do rio Yellowstone no norte ao Colorado no sul, é uma região de desolação e silêncio. Nem a Natureza está sempre com o mesmo humor ao longo deste distrito sombrio. Compreende montanhas elevadas e cobertas de neve, e vales escuros e lúgubres. Há rios de fluxo rápido que correm através de desfiladeiros irregulares; e há planícies enormes, que no inverno são brancas com a neve, e no verão são cinzentas com o pó salino de alcali. Todas preservam, contudo, as características comuns de esterilidade, inospitalidade e miséria.

Não há habitantes nesta terra de desespero. Um bando de Pawnees ou de Blackfeet pode ocasionalmente atravessá-la para chegar a outros campos de caça, mas os mais resistentes dos guerreiros ficam contentes por perder de vista aquelas planícies assustadoras e por se encontrarem mais uma vez nas suas pradarias. O coiote esgueira-se entre o matagal, o abutre bate pesadamente as asas através do ar, e o desajeitado urso pardo caminha com dificuldade através das ravinas escuras e recolhe o sustento que pode entre as rochas. Estes são os únicos habitantes do deserto.

Em todo o mundo não pode haver vista mais sombria do que a da encosta norte da Sierra Blanco. Até onde a vista alcança, estende-se a grande planície plana, toda coberta de manchas de alcali e intersectada por tufos dos arbustos anões de chaparral. No limite extremo do horizonte jaz uma longa cadeia de picos montanhosos, com os seus cumes escarpados salpicados de neve. Nesta grande extensão de país não há sinal de vida, nem de nada que pertença à vida. Não há pássaro no céu azul-aço, nenhum movimento na terra cinzenta e baça — acima de tudo, há um silêncio absoluto. Ouça-se como se quiser, não há sombra de um som em todo aquele poderoso deserto; nada senão silêncio — silêncio completo e que abate o coração.

Tem-se dito que não há nada que pertença à vida na larga planície. Isso dificilmente é verdade. Olhando para baixo a partir da Sierra Blanco, vê-se um caminho traçado através do deserto, que serpenteia e se perde na distância extrema. Está sulcado por rodas e pisado pelos pés de muitos aventureiros. Aqui e ali encontram-se espalhados objetos brancos que brilham ao sol e se destacam contra o depósito baço de alcali. Aproximai-vos e examinai-os! São ossos: alguns grandes e grosseiros, outros mais pequenos e delicados. Os primeiros pertenceram a bois, e os segundos a homens. Por mil e quinhentas milhas pode-se traçar esta rota de caravana macabra através destes restos espalhados daqueles que tinham tombado pelo caminho.

Olhando para baixo sobre esta mesma cena, encontrava-se, no dia quatro de maio de mil oitocentos e quarenta e sete, um viajante solitário. A sua aparência era tal que poderia ter sido o próprio génio ou demónio da região. Um observador teria achado difícil dizer se ele estava mais perto dos quarenta ou dos sessenta anos. O seu rosto era magro e abatido, e a pele castanha, semelhante a pergaminho, estava esticada sobre os ossos salientes; o seu longo cabelo e barba castanhos estavam todos salpicados e riscados de branco; os seus olhos estavam encovados na cabeça e ardiam com um brilho não natural; enquanto a mão que agarrava a sua espingarda dificilmente tinha mais carne do que a de um esqueleto. Enquanto estava de pé, apoiava-se na sua arma para se sustentar, e ainda assim a sua figura alta e a estrutura maciça dos seus ossos sugeriam uma constituição vigorosa e rija. O seu rosto cadavérico, no entanto, e as suas roupas, que pendiam tão largas sobre os seus membros murchos, proclamavam o que era que lhe dava aquela aparência senil e decrépita. O homem estava a morrer — a morrer de fome e de sede.

Tinha caminhado penosamente pelo desfiladeiro e chegado a esta pequena elevação, na vã esperança de ver alguns sinais de água. Agora, a grande planície de sal estendia-se diante dos seus olhos, e a distante cintura de montanhas selvagens, sem qualquer sinal de planta ou árvore que pudesse indicar a presença de humidade. Em toda aquela vasta paisagem não havia um vislumbre de esperança. Para norte, para leste e para oeste, ele olhou com olhos selvagens e questionadores, e então percebeu que as suas errâncias tinham chegado ao fim, e que ali, naquele rochedo estéril, estava prestes a morrer. "Por que não aqui, tão bem como numa cama de penas, daqui a vinte anos", murmurou ele, ao sentar-se sob o abrigo de um penedo.

Antes de se sentar, tinha depositado no chão a sua espingarda inútil, e também um grande embrulho atado num xaile cinzento, que tinha carregado pendurado sobre o ombro direito. Parecia ser um pouco pesado demais para as suas forças, pois ao baixá-lo, caiu ao chão com alguma violência. Instantaneamente irrompeu do embrulho cinzento um pequeno grito de lamento, e dele sobressaiu um pequeno rosto assustado, com olhos castanhos muito vivos e dois pequenos punhos sarapintados e com covinhas.

"Magoaste-me!" disse uma voz infantil com ar de reprovação.

"Magoaram-te, pois", respondeu o homem com penitência, "eu não tive intenção de o fazer." Enquanto falava, desenrolou o xaile cinzento e extraiu uma linda menina de cerca de cinco anos de idade, cujos sapatos delicados e o vestido rosa elegante com o seu pequeno avental de linho denunciavam o cuidado de uma mãe. A criança estava pálida e abatida, mas os seus braços e pernas saudáveis mostravam que tinha sofrido menos do que o seu companheiro.

"Como está agora?" respondeu ele ansiosamente, pois ela ainda estava a esfregar os caracóis dourados e emaranhados que cobriam a parte de trás da sua cabeça.

"Dá um beijinho para passar", disse ela, com perfeita gravidade, mostrando-lhe a parte ferida. "Era o que a mamã costumava fazer. Onde está a mamã?"

"A mamã foi-se. Acho que a verás antes de muito tempo."

"Foi-se, hein!" disse a menina. "Engraçado, ela não disse adeus; ela quase sempre dizia se ia só ali à casa da tia tomar chá, e agora ela não está há três dias. Diz, está um calor terrível, não está? Não há água, nem nada para comer?"

"Não, não há nada, querida. Terás apenas de ser paciente por um bocado, e depois ficarás bem. Põe a tua cabeça contra mim assim, e depois sentir-te-ás melhor. Não é fácil falar quando os lábios estão como couro, mas acho que é melhor deixar-te saber como estão as coisas. O que tens aí?"

"Coisas bonitas! coisas finas!" exclamou a menina entusiasticamente, segurando dois fragmentos brilhantes de mica. "Quando voltarmos para casa, dou-os ao irmão Bob."

"Verás coisas mais bonitas do que essas em breve", disse o homem com confiança. "Espera só um pouco. Eu ia dizer-te, no entanto — lembras-te de quando deixámos o rio?"

"Oh, sim."

"Bem, achávamos que iríamos encontrar outro rio em breve, vês? Mas houve algo errado; bússolas, ou mapa, ou algo, e ele não apareceu. A água acabou. Apenas uma gotinha para ti e para... e para..."

"E não te pudeste lavar", interrompeu a sua companheira gravemente, olhando para o seu rosto sujo.

"Não, nem beber. E o Sr. Bender, ele foi o primeiro a ir, e depois o Índio Pete, e depois a Sra. McGregor, e depois o Johnny Hones, e depois, querida, a tua mãe."

"Então a mamã também é uma morta", gritou a menina, escondendo o rosto no avental e soluçando amargamente.

"Sim, todos foram menos tu e eu. Depois pensei que havia alguma hipótese de água nesta direção, por isso pus-te aos ombros e caminhámos juntos. Não parece que tenhamos melhorado as coisas. Há uma hipótese muito pequena para nós agora!"

"Queres dizer que nós também vamos morrer?" perguntou a criança, contendo os seus soluços e levantando o seu rosto manchado pelas lágrimas.

"Acho que é mais ou menos isso."

"Porque não disseste antes?" disse ela, rindo alegremente. "Deste-me um susto daqueles. Ora, claro, agora enquanto morrermos estaremos com a mamã novamente."

"Sim, estarás, querida."

"E tu também. Vou dizer-lhe como foste terrivelmente bom. Aposto que ela nos encontra à porta do Céu com um jarro grande de água, e muitas panquecas de trigo sarraceno, quentes e torradas dos dois lados, como o Bob e eu gostávamos. Quanto tempo demorará até lá?"

"Não sei — não muito tempo." Os olhos do homem estavam fixos no horizonte norte. Na abóbada azul do céu tinham aparecido três pequenas pintas que aumentavam de tamanho a cada momento, tão rapidamente se aproximavam. Resolveram-se rapidamente em três grandes pássaros castanhos, que circularam sobre as cabeças dos dois errantes, e depois pousaram sobre algumas rochas que os observavam. Eram abutres, os abutres do oeste, cuja vinda é o precursor da morte.

"Galinhas e galos", gritou a menina alegremente, apontando para as suas formas de mau agoiro e batendo palmas para os fazer levantar. "Diz, foi Deus que fez este país?"

"Claro que Ele o fez", disse o seu companheiro, um tanto sobressaltado com esta pergunta inesperada.

"Ele fez o país lá em Illinois, e fez o Missouri", continuou a menina. "Acho que outra pessoa fez o país nestas partes. Não está nada tão bem feito. Esqueceram-se da água e das árvores."

"O que acharias de oferecer uma oração?" perguntou o homem timidamente.

"Ainda não é noite", respondeu ela.

"Não importa. Não é bem regular, mas Ele não se importará com isso, podes apostar. Diz aquelas que costumavas dizer todas as noites na carroça quando estávamos nas Planícies."

"Porque não dizes tu algumas?" perguntou a criança, com olhos maravilhados.

"Eu não me lembro delas", respondeu ele. "Não disse nenhuma desde que tinha metade da altura daquela arma. Acho que nunca é tarde. Tu dizes as palavras, e eu fico aqui e entro nos refrões."

"Então terás de te ajoelhar, e eu também", disse ela, estendendo o xaile para esse propósito. "Tens de pôr as tuas mãos assim. Faz-te sentir bem."

Era uma visão estranha, se houvesse algo além dos abutres para a ver. Lado a lado no estreito xaile ajoelhavam-se os dois errantes, a pequena criança tagarela e o imprudente e endurecido aventureiro. O seu rosto rechonchudo e o seu rosto abatido e anguloso estavam ambos voltados para o céu sem nuvens em sincera súplica àquele ser temível com quem estavam face a face, enquanto as duas vozes — uma fina e clara, a outra profunda e áspera — uniam-se na súplica por misericórdia e perdão. A oração terminada, retomaram o seu lugar na sombra do penedo até que a criança adormeceu, aconchegada no peito largo do seu protetor. Ele vigiou o seu sono durante algum tempo, mas a Natureza provou ser demasiado forte para ele. Durante três dias e três noites não se tinha permitido nem descanso nem repouso. Lentamente as pálpebras caíram sobre os olhos cansados, e a cabeça afundou-se mais e mais sobre o peito, até que a barba grisalha do homem se misturou com os caracóis dourados da sua companheira, e ambos dormiram o mesmo sono profundo e sem sonhos.

Se o errante tivesse permanecido acordado por mais meia hora, uma visão estranha ter-lhe-ia encontrado os olhos. Muito longe, no limite extremo da planície de alcali, erguia-se uma pequena nuvem de pó, muito leve a princípio, e dificilmente distinguível das brumas da distância, mas crescendo gradualmente mais alta e mais larga até formar uma nuvem sólida e bem definida. Esta nuvem continuou a aumentar de tamanho até se tornar evidente que só poderia ser levantada por uma grande multidão de criaturas em movimento. Em locais mais férteis, o observador teria chegado à conclusão de que um daqueles grandes rebanhos de bisontes que pastam na pradaria se aproximava dele. Isto era obviamente impossível nestes desertos áridos. À medida que o turbilhão de pó se aproximava do rochedo solitário sobre o qual os dois náufragos repousavam, as coberturas de lona das carroças e as figuras de cavaleiros armados começaram a aparecer através da bruma, e a aparição revelou-se como sendo uma grande caravana na sua viagem para o Oeste. Mas que caravana! Quando a cabeça da mesma chegou à base das montanhas, a retaguarda ainda não era visível no horizonte. Através da enorme planície estendia-se a linha dispersa, carroças e carroças, homens a cavalo e homens a pé. Inúmeras mulheres que cambaleavam sob fardos, e crianças que davam passos ao lado das carroças ou espreitavam debaixo das coberturas brancas. Este não era evidentemente um grupo comum de imigrantes, mas sim algum povo nómada que tinha sido forçado, devido à pressão das circunstâncias, a procurar para si um novo país. Ergueu-se através do ar claro um barulho confuso e um estrondo desta grande massa de humanidade, com o ranger das rodas e o relinchar dos cavalos. Tão alto quanto era, não foi suficiente para despertar os dois viajantes cansados acima deles.

À cabeça da coluna montava uma vintena ou mais de homens graves, de rosto de ferro, vestidos com trajes caseiros sombrios e armados com espingardas. Ao chegarem à base do rochedo, pararam e realizaram um curto conselho entre si.

"Os poços ficam à direita, meus irmãos", disse um, um homem de lábios duros, rosto barbeado e cabelo grisalho.

"À direita da Sierra Blanco — assim chegaremos ao Rio Grande", disse outro.

"Não temais pela água", gritou um terceiro. "Aquele que a pôde extrair das rochas não abandonará agora o Seu próprio povo escolhido."

"Ámen! Ámen!" respondeu todo o grupo.

Estavam prestes a retomar a viagem quando um dos mais jovens e de olhar mais aguçado soltou uma exclamação e apontou para o rochedo escarpado acima deles. Do seu cume tremeluzia uma pequena tira de cor-de-rosa, que se destacava firme e brilhante contra as rochas cinzentas por trás. À vista disso, houve um puxar geral de rédeas dos cavalos e um desembainhar de armas, enquanto novos cavaleiros galopavam para reforçar a vanguarda. A palavra “Peles-vermelhas” estava em todos os lábios.

“Não pode haver um grande número de Índios aqui”, disse o homem idoso que parecia estar no comando. “Passámos pelos Pawnees e não há outras tribos até atravessarmos as grandes montanhas.”

“Devo seguir em frente e verificar, Irmão Stangerson?”, perguntou um dos membros do bando.

“E eu”, “e eu”, gritaram uma dúzia de vozes.

“Deixem os vossos cavalos abaixo e aguardar-vos-emos aqui”, respondeu o Ancião. Num instante, os jovens tinham desmontado, prendido os cavalos e subiam a encosta íngreme que conduzia ao objeto que despertara a sua curiosidade. Avançaram rápida e silenciosamente, com a confiança e a destreza de batedores experientes. Os observadores da planície abaixo podiam vê-los passar de rocha em rocha até que as suas silhuetas se destacaram contra a linha do horizonte. O jovem que dera o alarme primeiro liderava-os. De repente, os seus seguidores viram-no erguer as mãos, como se estivesse dominado pelo espanto, e, ao juntarem-se a ele, foram afetados da mesma maneira pela visão que encontrou os seus olhos.

No pequeno planalto que coroava a colina árida, erguia-se um único rochedo gigante, e contra este rochedo jazia um homem alto, de barba comprida e traços duros, mas de uma magreza excessiva. O seu rosto plácido e a respiração regular mostravam que estava profundamente adormecido. Ao lado dele jazia uma criança pequena, com os seus braços redondos e brancos a circundar o pescoço castanho e nervoso dele, e a sua cabeça de cabelos dourados a descansar sobre o peito da túnica de veludo. Os seus lábios rosados estavam entreabertos, revelando a linha regular de dentes brancos como a neve, e um sorriso brincalhão brincava nos seus traços infantis. As suas pernas pequenas, gordinhas e brancas, que terminavam em meias brancas e sapatos elegantes com fivelas brilhantes, ofereciam um estranho contraste com os membros longos e enrugados do seu companheiro. Na saliência de rocha acima deste par estranho, estavam três abutres solenes, que, à vista dos recém-chegados, soltaram gritos roucos de desapontamento e bateram as asas, afastando-se taciturnos.

Os gritos das aves imundas acordaram os dois adormecidos, que olharam à sua volta, atordoados. O homem cambaleou até se pôr de pé e olhou para a planície que estivera tão desolada quando o sono o alcançara, e que agora era atravessada por aquele enorme corpo de homens e animais. O seu rosto assumiu uma expressão de incredulidade enquanto olhava, e passou a mão ossuda pelos olhos. “Isto é o que chamam de delírio, suponho”, murmurou ele. A criança estava ao seu lado, segurando a bainha do seu casaco, e não disse nada, mas olhou em redor com o olhar interrogativo e maravilhado da infância.

O grupo de resgate foi rapidamente capaz de convencer os dois náufragos de que a sua presença não era uma ilusão. Um deles pegou na menina e içou-a para o seu ombro, enquanto dois outros apoiavam o seu companheiro macilento e ajudavam-no em direção às carroças.

“O meu nome é John Ferrier”, explicou o errante; “eu e aquela pequenina somos tudo o que resta de vinte e uma pessoas. O resto morreu tudo de sede e fome lá longe no sul.”

“Ela é sua filha?”, perguntou alguém.

“Suponho que agora seja”, gritou o outro, desafiadoramente; “ela é minha porque a salvei. Ninguém a tirará de mim. Ela será Lucy Ferrier a partir deste dia. Mas quem são vocês?”, continuou, olhando com curiosidade para os seus robustos salvadores queimados pelo sol; “parece haver uma quantidade imensa de vocês.”

“Perto de dez mil”, disse um dos jovens; “somos os filhos perseguidos de Deus — os escolhidos do Anjo Merona.”

“Nunca ouvi falar dele”, disse o errante. “Parece ter escolhido um bom grupo de vocês.”

“Não brinque com o que é sagrado”, disse o outro severamente. “Somos daqueles que acreditam naquelas escrituras sagradas, traçadas em letras egípcias sobre placas de ouro batido, que foram entregues ao santo Joseph Smith em Palmyra. Viemos de Nauvoo, no Estado de Illinois, onde fundámos o nosso templo. Viemos procurar refúgio do homem violento e dos ímpios, ainda que seja no coração do deserto.”

O nome de Nauvoo trouxe, evidentemente, recordações a John Ferrier. “Compreendo”, disse ele, “vocês são os Mórmons.”

“Somos os Mórmons”, responderam os seus companheiros a uma só voz.

“E para onde vão?”

“Não sabemos. A mão de Deus guia-nos sob a pessoa do nosso Profeta. Tem de comparecer perante ele. Ele dirá o que deve ser feito convosco.”

Tinham chegado à base da colina a essa altura e estavam rodeados por multidões de peregrinos — mulheres de rosto pálido e aspeto humilde, crianças fortes e risonhas, e homens ansiosos de olhar sério. Muitos foram os gritos de espanto e comiseração que surgiram deles quando perceberam a juventude de um dos estranhos e a miséria do outro. A sua escolta não parou, contudo, mas avançou, seguida por uma grande multidão de Mórmons, até chegarem a uma carroça, que se destacava pelo seu grande tamanho e pela ostentação e elegância da sua aparência. Seis cavalos estavam atrelados a ela, enquanto as outras eram providas de dois, ou, no máximo, quatro cada. Ao lado do condutor estava sentado um homem que não podia ter mais de trinta anos de idade, mas cuja cabeça maciça e expressão resoluta o marcavam como um líder. Ele lia um volume de lombada castanha, mas, à medida que a multidão se aproximava, deixou-o de lado e ouviu atentamente o relato do episódio. Depois, voltou-se para os dois náufragos.

“Se vos levarmos connosco”, disse ele, em palavras solenes, “só pode ser como crentes no nosso próprio credo. Não teremos lobos no nosso redil. É preferível que os vossos ossos se branqueiem neste deserto do que venham a revelar-se aquela pequena mancha de podridão que, com o tempo, corrompe todo o fruto. Virão connosco nestes termos?”

“Suponho que irei convosco sob quaisquer termos”, disse Ferrier, com tal ênfase que os graves Anciãos não conseguiram conter um sorriso. Apenas o líder manteve a sua expressão severa e impressionante.

“Leve-o, Irmão Stangerson”, disse ele, “dê-lhe comida e bebida, e à criança também. Que seja também a sua tarefa ensinar-lhe o nosso santo credo. Demorámo-nos demasiado. Avante! Em frente, em frente para Sião!”

“Em frente, em frente para Sião!”, gritou a multidão de Mórmons, e as palavras propagaram-se pela longa caravana, passando de boca em boca até se extinguirem num murmúrio surdo na distância longínqua. Com um estalar de chicotes e um ranger de rodas, as grandes carroças puseram-se em movimento, e logo toda a caravana serpenteava ao longo do caminho mais uma vez. O Ancião, a cujos cuidados os dois desamparados tinham sido confiados, levou-os para a sua carroça, onde uma refeição já os aguardava.

“Ficarão aqui”, disse ele. “Dentro de poucos dias terão recuperado das vossas fadigas. Entretanto, lembrem-se de que agora e para sempre fazem parte da nossa religião. Brigham Young disse-o, e ele falou com a voz de Joseph Smith, que é a voz de Deus.”

CAPÍTULO II. A FLOR DE UTAH.

Este não é o lugar para comemorar as provações e privações suportadas pelos Mórmons imigrantes antes de chegarem ao seu refúgio final. Das margens do Mississippi às encostas ocidentais das Montanhas Rochosas, lutaram com uma constância quase sem paralelo na história. O homem selvagem e a besta selvagem, a fome, a sede, a fadiga e a doença — todos os impedimentos que a Natureza pudesse colocar no seu caminho foram superados com tenacidade anglo-saxónica. Contudo, a longa viagem e os terrores acumulados abalaram os corações dos mais valentes entre eles. Não houve um que não se ajoelhasse em oração sincera quando viu o vasto vale de Utah banhado pela luz do sol sob eles, e soube pelos lábios do seu líder que aquela era a terra prometida, e que estes acres virgens seriam deles para todo o sempre.

Young provou rapidamente ser um administrador habilidoso, bem como um chefe resoluto. Foram desenhados mapas e preparados gráficos, nos quais a futura cidade foi esboçada. À volta, as quintas foram divididas e distribuídas em proporção à posição de cada indivíduo. O comerciante foi colocado no seu comércio e o artesão na sua profissão. Na cidade, ruas e praças surgiram como por magia. No campo, houve drenagens e vedações, plantações e limpezas, até que o verão seguinte viu todo o país dourado com a colheita de trigo. Tudo prosperou no estranho povoado. Acima de tudo, o grande templo que tinham erguido no centro da cidade crescia cada vez mais alto e maior. Desde o primeiro rubor do amanhecer até ao fecho do crepúsculo, o ruído do martelo e o raspar da serra nunca estiveram ausentes do monumento que os imigrantes ergueram Àquele que os guiara em segurança através de muitos perigos.

Os dois náufragos, John Ferrier e a menina que partilhara a sua sorte e fora adotada como sua filha, acompanharam os Mórmons até ao fim da sua grande peregrinação. A pequena Lucy Ferrier foi transportada confortavelmente na carroça do Ancião Stangerson, um retiro que partilhava com as três esposas do Mórmon e com o seu filho, um rapaz obstinado e atrevido de doze anos. Tendo recuperado, com a elasticidade da infância, do choque causado pela morte da sua mãe, tornou-se rapidamente a favorita das mulheres e reconciliou-se com esta nova vida no seu lar móvel coberto de lona. Entretanto, Ferrier, tendo recuperado das suas privações, distinguiu-se como um guia útil e um caçador infatigável. Tão rapidamente ganhou a estima dos seus novos companheiros que, quando chegaram ao fim das suas errâncias, foi unanimemente acordado que lhe seria fornecida uma parcela de terra tão grande e tão fértil como qualquer uma dos colonos, com exceção do próprio Young, e de Stangerson, Kemball, Johnston e Drebber, que eram os quatro principais Anciãos.

Na quinta assim adquirida, John Ferrier construiu para si uma casa de troncos substancial, que recebeu tantas adições nos anos seguintes que cresceu para uma villa espaçosa. Era um homem de mentalidade prática, perspicaz nos seus negócios e habilidoso com as mãos. A sua constituição de ferro permitia-lhe trabalhar de manhã e à noite para melhorar e cultivar as suas terras. Daí resultou que a sua quinta e tudo o que lhe pertencia prosperaram imensamente. Em três anos, estava em melhor situação do que os seus vizinhos; em seis, era abastado; em nove, rico; e, em doze, não havia meia dúzia de homens em toda a Salt Lake City que se pudessem comparar a ele. Do grande mar interior às distantes Montanhas Wahsatch, não havia nome mais conhecido do que o de John Ferrier.

Havia uma maneira, e apenas uma, pela qual ele ofendia a suscetibilidade dos seus correligionários. Nenhum argumento ou persuasão o conseguia induzir a estabelecer um agregado feminino à maneira dos seus companheiros. Ele nunca dava razões para esta recusa persistente, mas contentava-se em aderir resoluta e inflexivelmente à sua determinação. Havia alguns que o acusavam de morosidade na sua religião adotiva, e outros que a atribuíam à ganância de riqueza e à relutância em incorrer em despesas. Outros, ainda, falavam de um caso amoroso antigo, e de uma rapariga de cabelos louros que definhara nas margens do Atlântico. Qualquer que fosse a razão, Ferrier permaneceu estritamente celibatário. Em todos os outros aspetos, ele conformava-se à religião do novo povoado e ganhou a fama de ser um homem ortodoxo e de conduta reta.

Lucy Ferrier cresceu dentro da casa de troncos e ajudou o seu pai adotivo em todos os seus empreendimentos. O ar puro das montanhas e o odor balsâmico dos pinheiros substituíram a ama e a mãe da jovem. À medida que o ano sucedia ao ano, ela crescia mais alta e mais forte, as suas faces mais rosadas e o seu passo mais elástico. Muitos viajantes na estrada principal que passava pela quinta de Ferrier sentiam pensamentos há muito esquecidos reviverem nas suas mentes enquanto a observavam, a sua figura esguia de rapariga saltitando pelos trigais, ou quando a encontravam montada no mustang do seu pai, conduzindo-o com toda a facilidade e graça de uma verdadeira filha do Oeste. Assim, o botão floresceu numa flor, e o ano que viu o seu pai como o mais rico dos agricultores deixou-a como o exemplo mais belo da juventude americana que se podia encontrar em toda a encosta do Pacífico.

Não foi, contudo, o pai quem descobriu primeiro que a criança se tinha tornado mulher. Raramente o é em tais casos. Essa mudança misteriosa é demasiado subtil e demasiado gradual para ser medida por datas. Menos ainda o sabe a própria donzela, até que o tom de uma voz ou o toque de uma mão faz o seu coração pulsar dentro dela, e ela descobre, com uma mistura de orgulho e medo, que uma natureza nova e maior despertou dentro de si. Poucos são aqueles que não conseguem recordar esse dia e lembrar-se do pequeno incidente que anunciou o alvorecer de uma nova vida. No caso de Lucy Ferrier, a ocasião era suficientemente séria por si só, para além da sua influência futura no seu destino e no de muitos outros.

Era uma manhã quente de junho, e os Santos dos Últimos Dias estavam tão ocupados como as abelhas cuja colmeia escolheram como emblema. Nos campos e nas ruas elevava-se o mesmo zumbido de indústria humana. Pelas estradas poeirentas defilavam longas correntes de mulas pesadamente carregadas, todas dirigindo-se para oeste, pois a febre do ouro irrompera na Califórnia, e a Rota Terrestre passava pela Cidade dos Eleitos. Ali estavam também manadas de ovelhas e bois vindos dos pastos periféricos, e comboios de imigrantes cansados, homens e cavalos igualmente exaustos da sua interminável jornada. Por entre toda esta mistura heterogénea, traçando o seu caminho com a habilidade de uma cavaleira consumada, galopava Lucy Ferrier, o seu rosto belo corado pelo exercício e os seus longos cabelos castanhos flutuando para trás. Ela tinha uma incumbência do seu pai na Cidade e corria para dentro como já fizera muitas vezes antes, com toda a intrepidez da juventude, pensando apenas na sua tarefa e em como ela deveria ser cumprida. Os aventureiros, sujos de viagem, olhavam para ela com espanto, e até os Índios impassíveis, que viajavam com as suas peles, relaxavam o seu estoicismo habitual enquanto se maravilhavam com a beleza da donzela de rosto pálido.

Ela tinha chegado aos arredores da cidade quando encontrou a estrada bloqueada por uma grande manada de gado, conduzida por meia dúzia de pastores de aspeto selvagem vindos das planícies. Na sua impaciência, tentou ultrapassar este obstáculo empurrando o seu cavalo para o que parecia ser uma abertura. Mal tinha entrado nela, contudo, quando as bestas se fecharam atrás dela, e ela viu-se completamente imersa no fluxo móvel de bois de olhos ferozes e chifres longos. Acostumada como estava a lidar com gado, não se alarmou com a sua situação, mas aproveitou cada oportunidade para instigar o seu cavalo na esperança de abrir caminho através da cavalhada. Infelizmente, os chifres de uma das criaturas, quer por acidente ou desígnio, entraram em contacto violento com o flanco do mustang e levaram-no à loucura. Num instante, ele empinou-se sobre as patas traseiras com um bufo de raiva, e saltou e lançou-se de uma forma que teria derrubado qualquer pessoa, exceto a cavaleira mais habilidosa. A situação estava cheia de perigo. Cada mergulho do cavalo excitado levava-o contra os chifres novamente, e incitava-o a uma nova loucura. Era tudo o que a rapariga podia fazer para se manter na sela, mas um deslize significaria uma morte terrível sob os cascos dos animais desajeitados e aterrorizados. Não acostumada a emergências repentinas, a sua cabeça começou a girar, e o seu aperto nas rédeas a relaxar. Sufocada pela nuvem crescente de poeira e pelo vapor das criaturas em luta, ela poderia ter abandonado os seus esforços em desespero, não fosse por uma voz bondosa ao seu lado que lhe assegurou assistência. No mesmo momento, uma mão castanha e nervosa agarrou o cavalo assustado pelo freio e, forçando o caminho através da manada, levou-a rapidamente para os arredores.

“Não está ferida, espero, menina”, disse o seu salvador, respeitosamente.

Ela olhou para o seu rosto escuro e feroz, e riu-se atrevidamente. “Estou terrivelmente assustada”, disse ela, ingenuamente; “quem diria que o Poncho ficaria tão assustado com um monte de vacas?”

“Graças a Deus que se manteve no lugar”, disse o outro seriamente. Ele era um jovem alto, de aspeto selvagem, montado num poderoso cavalo ruço e vestido com o traje rude de um caçador, com uma espingarda comprida pendurada sobre os ombros. “Suponho que é a filha de John Ferrier”, observou ele, “vi-a cavalgar da casa dele. Quando o vir, pergunte-lhe se ele se lembra dos Jefferson Hopes de St. Louis. Se ele for o mesmo Ferrier, o meu pai e ele eram bastante chegados.”

“Não seria melhor vir e perguntar a si próprio?”, perguntou ela, recatadamente.

O jovem pareceu agradado com a sugestão, e os seus olhos escuros brilharam de prazer. “Fá-lo-ei”, disse ele, “estivemos nas montanhas durante dois meses e não estamos em condições de fazer visitas. Ele terá de nos aceitar como nos encontrar.”

“Ele tem muito que lhe agradecer, e eu também”, respondeu ela, “ele é terrivelmente afeiçoado a mim. Se aquelas vacas tivessem saltado para cima de mim, ele nunca teria recuperado.”

“Eu também não”, disse o seu companheiro.

“Você! Bem, não vejo que isso fizesse grande diferença para si, de qualquer forma. Você nem sequer é um amigo nosso.”

O rosto escuro do jovem caçador tornou-se tão sombrio com este comentário que Lucy Ferrier riu alto.

“Não, não quis dizer isso”, disse ela; “claro que agora é um amigo. Tem de nos vir visitar. Agora tenho de seguir, ou o meu pai não voltará a confiar-me os seus negócios. Adeus!”

“Adeus”, respondeu ele, levantando o seu sombrero largo e curvando-se sobre a mão pequena dela. Ela fez o seu mustang girar, deu-lhe um golpe com o chicote e partiu disparada pela estrada larga numa nuvem de poeira que se erguia.

O jovem Jefferson Hope seguiu o seu caminho com os seus companheiros, sombrio e taciturno. Ele e eles tinham estado entre as Montanhas Nevada à procura de prata e regressavam a Salt Lake City com a esperança de angariar capital suficiente para trabalhar alguns filões que tinham descoberto. Ele tinha estado tão empenhado quanto qualquer um deles no negócio até que este incidente repentino atraiu os seus pensamentos para outro canal. A visão da rapariga jovem e bela, tão franca e saudável como as brisas da Sierra, tinha agitado o seu coração vulcânico e indomável até às profundezas. Quando ela desapareceu da sua vista, ele percebeu que uma crise tinha chegado à sua vida e que nem as especulações de prata nem quaisquer outras questões poderiam alguma vez ter tal importância para ele como esta nova e absorvente. O amor que tinha brotado no seu coração não era o capricho repentino e mutável de um rapaz, mas sim a paixão selvagem e feroz de um homem de vontade forte e temperamento imperioso. Ele estava habituado a ter sucesso em tudo o que empreendia. Jurou no seu coração que não falharia nisto, se o esforço humano e a perseverança humana o pudessem tornar bem-sucedido.

Ele visitou John Ferrier naquela noite, e muitas vezes mais, até que o seu rosto se tornou familiar na casa da quinta. John, enclausurado no vale e absorvido pelo seu trabalho, tivera poucas oportunidades de saber as notícias do mundo exterior durante os últimos doze anos. Tudo isto Jefferson Hope pôde contar-lhe, e num estilo que interessou tanto a Lucy quanto ao seu pai. Ele fora um pioneiro na Califórnia e podia narrar muitos contos estranhos de fortunas feitas e fortunas perdidas naqueles dias selvagens e felizes. Fora também batedor e caçador, explorador de prata e rancheiro. Onde quer que houvesse aventuras emocionantes a viver, Jefferson Hope estivera lá em busca delas. Em pouco tempo tornou-se um favorito do velho agricultor, que falava eloquentemente das suas virtudes. Em tais ocasiões, Lucy ficava em silêncio, mas a sua face corada e os seus olhos brilhantes e felizes mostravam, demasiado claramente, que o seu jovem coração já não lhe pertencia. O seu honesto pai pode não ter observado estes sintomas, mas eles certamente não passaram despercebidos ao homem que conquistara as suas afeições.

Era uma noite de verão quando ele veio a galope pela estrada e parou junto ao portão. Ela estava à porta e desceu para o encontrar. Ele atirou as rédeas sobre a cerca e caminhou pelo caminho.

— Vou partir, Lucy — disse ele, tomando as suas duas mãos nas suas e olhando ternamente para o rosto dela; — Não te vou pedir que venhas comigo agora, mas estarás pronta para vir quando eu estiver aqui novamente?

— E quando será isso? — perguntou ela, corando e rindo.

— No máximo, um par de meses. Virei buscar-te então, minha querida. Não há ninguém que possa colocar-se entre nós.

— E quanto ao pai? — perguntou ela.

— Ele deu o seu consentimento, desde que consigamos pôr estas minas a funcionar corretamente. Não tenho receio quanto a isso.

— Oh, bem; claro, se tu e o pai organizaram tudo, não há mais nada a dizer — sussurrou ela, com a face contra o peito largo dele.

— Graças a Deus! — disse ele, roucamente, inclinando-se e beijando-a. — Está decidido, então. Quanto mais tempo eu ficar, mais difícil será partir. Estão à minha espera no cânion. Adeus, minha querida — adeus. Daqui a dois meses ver-me-ás.

Ele arrancou-se dela enquanto falava e, atirando-se para cima do seu cavalo, galopou furiosamente, sem nunca olhar para trás, como se temesse que a sua resolução pudesse falhar se desse um único vislumbre do que estava a deixar. Ela ficou junto ao portão, a segui-lo com o olhar até ele desaparecer da sua vista. Depois, caminhou de volta para a casa, a rapariga mais feliz de todo o Utah.

CAPÍTULO III. JOHN FERRIER FALA COM O PROFETA.

Três semanas tinham passado desde que Jefferson Hope e os seus camaradas tinham partido de Salt Lake City. O coração de John Ferrier doía-lhe quando pensava no regresso do jovem e na perda iminente da sua filha adotiva. Contudo, o rosto brilhante e feliz dela reconciliava-o com o acordo mais do que qualquer argumento poderia ter feito. Ele determinara sempre, no fundo do seu coração resoluto, que nada o levaria a permitir que a sua filha casasse com um Mórmon. Ele considerava tal casamento como não sendo casamento algum, mas sim uma vergonha e uma desonra. O que quer que pensasse das doutrinas mórmons, sobre esse ponto ele era inflexível. Tinha, contudo, de selar a sua boca sobre o assunto, pois expressar uma opinião não ortodoxa era um assunto perigoso naqueles dias na Terra dos Santos.

Sim, um assunto perigoso — tão perigoso que mesmo os mais santos só ousavam sussurrar as suas opiniões religiosas com a respiração suspensa, receando que algo que caísse dos seus lábios pudesse ser mal interpretado e atraísse uma rápida retribuição sobre eles. As vítimas da perseguição tinham agora tornado-se perseguidores por sua conta, e perseguidores da descrição mais terrível. Nem a Inquisição de Sevilha, nem o Vehmgericht alemão, nem as Sociedades Secretas da Itália foram alguma vez capazes de pôr em movimento uma maquinaria mais formidável do que aquela que lançou uma sombra sobre o Estado do Utah.

A sua invisibilidade, e o mistério que lhe estava associado, tornavam esta organização duplamente terrível. Parecia ser omnisciente e omnipotente, e contudo não era vista nem ouvida. O homem que resistia à Igreja desaparecia, e ninguém sabia para onde tinha ido ou o que lhe tinha acontecido. A sua esposa e os seus filhos esperavam-no em casa, mas nenhum pai regressou alguma vez para lhes contar como se tinha saído nas mãos dos seus juízes secretos. Uma palavra imprudente ou um ato precipitado eram seguidos de aniquilação, e contudo ninguém sabia qual poderia ser a natureza deste terrível poder que estava suspenso sobre eles. Não admira que os homens andassem com medo e a tremer, e que mesmo no coração do deserto não ousassem sussurrar as dúvidas que os oprimiam.

A princípio, este poder vago e terrível era exercido apenas sobre os recalcitrantes que, tendo abraçado a fé mórmon, desejavam depois pervertê-la ou abandoná-la. Em breve, contudo, tomou uma escala mais vasta. O fornecimento de mulheres adultas estava a escassear, e a poligamia sem uma população feminina de onde recrutar era, de facto, uma doutrina estéril. Rumores estranhos começaram a ser espalhados — rumores de imigrantes assassinados e acampamentos saqueados em regiões onde nunca tinham sido vistos índios. Novas mulheres apareceram nos haréns dos Anciãos — mulheres que definhavam e choravam, e traziam nas suas faces os traços de um horror inextinguível. Viajantes atrasados nas montanhas falavam de bandos de homens armados, mascarados, furtivos e silenciosos, que passavam por eles na escuridão. Estes contos e rumores ganharam substância e forma, e foram corroborados e re-corroborados, até se resolverem num nome definido. Até hoje, nos ranchos solitários do Oeste, o nome do Bando Danita, ou dos Anjos Vingadores, é um nome sinistro e de mau agouro.

Um conhecimento mais completo da organização que produzia resultados tão terríveis serviu para aumentar em vez de diminuir o horror que inspirava nas mentes dos homens. Ninguém sabia quem pertencia a esta sociedade implacável. Os nomes dos participantes nos atos de sangue e violência praticados em nome da religião eram mantidos profundamente secretos. O próprio amigo a quem comunicavas as tuas dúvidas quanto ao Profeta e à sua missão poderia ser um daqueles que sairiam à noite com fogo e espada para exigir uma reparação terrível. Daí que cada homem temesse o seu vizinho, e ninguém falasse das coisas que estavam mais próximas do seu coração.

Certa bela manhã, John Ferrier estava prestes a sair para os seus campos de trigo, quando ouviu o clique do trinco e, olhando através da janela, viu um homem corpulento, de cabelo cor de areia e meia-idade, a subir o caminho. O seu coração saltou-lhe à boca, pois este não era outro senão o próprio grande Brigham Young. Cheio de receio — pois sabia que tal visita não lhe augurava nada de bom — Ferrier correu para a porta para saudar o chefe mórmon. Este, contudo, recebeu as suas saudações friamente e seguiu-o com um rosto severo para a sala de estar.

— Irmão Ferrier — disse ele, tomando assento e observando o agricultor agudamente por baixo das suas pestanas de cor clara, — os verdadeiros crentes têm sido bons amigos para ti. Recolhemo-te quando estavas a morrer de fome no deserto, partilhámos a nossa comida contigo, conduzimo-te em segurança ao Vale Escolhido, demos-te uma boa parte de terra e permitimos-te prosperar sob a nossa proteção. Não é assim?

— É assim — respondeu John Ferrier.

— Em troca de tudo isto, pedimos apenas uma condição: que abraçasses a verdadeira fé e te conformasses em tudo aos seus usos. Isto prometeste fazer, e isto, se a voz comum diz a verdade, tens negligenciado.

— E como a negligenciei? — perguntou Ferrier, estendendo as mãos em protesto. — Não dei eu para o fundo comum? Não compareci eu no Templo? Não...?

— Onde estão as tuas esposas? — perguntou Young, olhando em volta. — Chama-as, para que eu as possa saudar.

— É verdade que não casei — respondeu Ferrier. — Mas as mulheres eram poucas, e havia muitas que tinham melhores direitos do que eu. Não era um homem solitário: tinha a minha filha para atender às minhas necessidades.

— É dessa filha que quero falar-te — disse o líder dos Mórmons. — Ela cresceu para ser a flor do Utah, e encontrou favor nos olhos de muitos que estão no alto da terra.

John Ferrier gemeu interiormente.

— Há histórias sobre ela que eu gostaria de não acreditar — histórias de que ela está selada a algum Gentio. Isto deve ser o mexerico de línguas ociosas. Qual é a décima terceira regra no código do santo Joseph Smith? "Que cada donzela da verdadeira fé case com um dos eleitos; pois se ela casar com um Gentio, comete um pecado grave." Sendo assim, é impossível que tu, que professas o santo credo, permitas que a tua filha o viole.

John Ferrier não deu resposta, mas brincou nervosamente com o seu chicote de montar.

— Sobre este único ponto toda a tua fé será testada — assim foi decidido no Sagrado Conselho dos Quatro. A rapariga é jovem, e não gostaríamos que ela casasse com cabelos brancos, nem a privaríamos de toda a escolha. Nós, Anciãos, temos muitas novilhas[1], mas os nossos filhos também devem ser providenciados. Stangerson tem um filho, e Drebber tem um filho, e qualquer um deles acolheria de bom grado a tua filha na sua casa. Deixa-a escolher entre eles. Eles são jovens, ricos e da verdadeira fé. Que dizes a isso?

[1] Heber C. Kemball, num dos seus sermões, alude às suas cem esposas sob este epíteto carinhoso.

Ferrier permaneceu em silêncio durante algum tempo com as sobrancelhas franzidas.

— Dar-nos-á tempo — disse ele finalmente. — A minha filha é muito jovem — mal tem idade para casar.

— Ela terá um mês para escolher — disse Young, levantando-se do seu assento. — No fim desse tempo, ela dará a sua resposta.

Ele estava a passar pela porta quando se voltou, com a face corada e os olhos a brilhar. — Seria melhor para ti, John Ferrier — trovejou ele, — que tu e ela estivessem agora a jazere esqueletos branqueados na Sierra Blanco, do que colocarem as vossas vontades fracas contra as ordens dos Santos Quatro!

Com um gesto ameaçador da mão, ele afastou-se da porta, e Ferrier ouviu o seu passo pesado a ranger ao longo do caminho de cascalho.

Ele ainda estava sentado com os cotovelos sobre os joelhos, ponderando como deveria abordar o assunto com a sua filha, quando uma mão suave foi colocada sobre a sua e, olhando para cima, viu-a de pé ao seu lado. Um vislumbre do seu rosto pálido e assustado mostrou-lhe que ela tinha ouvido o que tinha passado.

— Não pude evitar — disse ela, em resposta ao olhar dele. — A voz dele soou por toda a casa. Oh, pai, pai, o que vamos fazer?

— Não te assustes — respondeu ele, puxando-a para si e passando a sua mão larga e áspera, de forma carinhosa, pelo cabelo castanho dela. — Vamos resolver isto de uma forma ou de outra. Não sentes que o teu interesse por este rapaz diminui, pois não?

Um soluço e um aperto na mão dele foi a sua única resposta.

— Não; claro que não. Eu não gostaria de te ouvir dizer que diminuía. Ele é um rapaz promissor, e é um cristão, o que é mais do que estes tipos aqui, apesar de todas as suas rezas e pregações. Há um grupo a partir para Nevada amanhã, e eu vou conseguir enviar-lhe uma mensagem a informá-lo do buraco em que estamos. Se eu conheço alguma coisa desse jovem, ele estará de volta aqui com uma velocidade que deixaria os telégrafos para trás.

Lucy riu através das suas lágrimas com a descrição do pai.

— Quando ele vier, aconselhar-nos-á da melhor forma. Mas é por ti que estou assustada, querido. Ouve-se — ouvem-se histórias tão terríveis sobre aqueles que se opõem ao Profeta: algo terrível acontece-lhes sempre.

— Mas ainda não nos opusemos a ele — respondeu o seu pai. — Será altura de nos preocuparmos quando o fizermos. Temos um mês inteiro pela frente; no fim disso, acho que o melhor será pirarmo-nos do Utah.

— Deixar o Utah!

— É exatamente isso.

— Mas a quinta?

— Angariaremos tanto quanto pudermos em dinheiro e deixaremos o resto. Para dizer a verdade, Lucy, não é a primeira vez que penso em fazê-lo. Não me importo de me submeter a qualquer homem, como estes tipos fazem ao seu maldito profeta. Sou um americano nascido livre, e é tudo novo para mim. Acho que sou demasiado velho para aprender. Se ele vier andar a rondar esta quinta, pode acabar por levar com uma carga de chumbo em sentido contrário.

— Mas eles não nos deixarão partir — objetou a sua filha.

— Espera até o Jefferson vir, e logo trataremos disso. Entretanto, não te preocupes, minha querida, e não fiques com os olhos inchados, senão ele vai virar-se contra mim quando te vir. Não há nada a temer, e não há perigo nenhum.

John Ferrier proferiu estas observações consoladoras num tom muito confiante, mas ela não pôde deixar de observar que ele teve um cuidado invulgar a trancar as portas naquela noite, e que limpou e carregou cuidadosamente a velha caçadeira enferrujada que estava pendurada na parede do seu quarto.

CAPÍTULO IV. UMA FUGA PELA VIDA.

Na manhã que se seguiu à sua entrevista com o Profeta Mórmon, John Ferrier foi a Salt Lake City e, tendo encontrado o seu conhecido, que estava de partida para as Montanhas Nevada, confiou-lhe a sua mensagem para Jefferson Hope. Nela, contou ao jovem o perigo iminente que os ameaçava, e como era necessário que ele regressasse. Tendo feito isto, sentiu-se mais aliviado e regressou a casa com o coração mais leve.

À medida que se aproximava da sua quinta, ficou surpreendido ao ver um cavalo preso a cada um dos postes do portão. Ainda mais surpreendido ficou ao entrar e encontrar dois jovens em posse da sua sala de estar. Um, de rosto longo e pálido, estava encostado na cadeira de balanço, com os pés em cima do fogão. O outro, um jovem de pescoço largo e feições grosseiras e inchadas, estava parado em frente à janela com as mãos nos bolsos, assobiando um hino popular. Ambos acenaram a Ferrier quando ele entrou, e o que estava na cadeira de balanço iniciou a conversa.

— Talvez não nos conheça — disse ele. — Este aqui é o filho do Ancião Drebber, e eu sou Joseph Stangerson, que viajou consigo no deserto quando o Senhor estendeu a Sua mão e o recolheu no verdadeiro redil.

— Como Ele fará com todas as nações no seu devido tempo — disse o outro com uma voz anasalada; — Ele mói lentamente, mas extremamente fino.

John Ferrier fez uma vénia fria. Ele já tinha adivinhado quem eram os seus visitantes.

— Viemos — continuou Stangerson, — por conselho dos nossos pais, solicitar a mão da sua filha para qualquer um de nós que pareça bom para si e para ela. Como eu tenho apenas quatro esposas e o Irmão Drebber aqui tem sete, parece-me que a minha reivindicação é a mais forte.

— Não, não, Irmão Stangerson — gritou o outro; — a questão não é quantas esposas temos, mas quantas podemos manter. O meu pai passou agora os seus moinhos para mim, e eu sou o homem mais rico.

— Mas as minhas perspetivas são melhores — disse o outro, calorosamente. — Quando o Senhor remover o meu pai, terei o seu curtume e a sua fábrica de couro. Depois, sou o seu ancião e estou mais alto na Igreja.

— Caberá à donzela decidir — replicou o jovem Drebber, sorrindo para o seu próprio reflexo no vidro. — Deixaremos tudo à decisão dela.

Durante este diálogo, John Ferrier estivera furioso à porta, mal conseguindo manter o seu chicote de montar longe das costas dos seus dois visitantes.

— Ouçam aqui — disse ele finalmente, aproximando-se deles, — quando a minha filha vos chamar, podem vir, mas até lá não quero voltar a ver as vossas caras.

Os dois jovens Mórmons olharam para ele com espanto. Aos olhos deles, esta competição entre eles pela mão da donzela era a maior das honras tanto para ela quanto para o seu pai.

— Há duas saídas da sala — gritou Ferrier; — há a porta e há a janela. Qual preferem usar?

O seu rosto castanho parecia tão selvagem, e as suas mãos descarnadas tão ameaçadoras, que os seus visitantes saltaram para os pés e fizeram uma retirada apressada. O velho agricultor seguiu-os até à porta.

— Avisem-me quando tiverem decidido qual será — disse ele, de forma sardónica.

— Vais pagar por isto! — gritou Stangerson, branco de raiva. — Desafiaste o Profeta e o Conselho dos Quatro. Irás arrepender-te até ao fim dos teus dias.

— A mão do Senhor será pesada sobre ti — gritou o jovem Drebber; — Ele levantar-se-á e golpear-te-á!

— Então eu começo com o golpe — exclamou Ferrier furiosamente, e teria corrido escada acima para ir buscar a sua espingarda se Lucy não o tivesse agarrado pelo braço e contido. Antes que ele pudesse escapar-lhe, o tropel de cascos de cavalos informou-o de que eles estavam fora do seu alcance.

— Os jovens patifes hipócritas! — exclamou ele, limpando o suor da sua testa; — Preferia ver-te na tua sepultura, minha rapariga, do que como esposa de qualquer um deles.

— E eu também, pai — respondeu ela, com espírito; — mas o Jefferson chegará em breve.

— Sim. Não demorará muito até ele vir. Quanto mais cedo, melhor, pois não sabemos qual será o seu próximo movimento.

Era, de facto, altura de alguém capaz de dar conselhos e ajuda vir em auxílio do robusto velho agricultor e da sua filha adotiva. Em toda a história do assentamento, nunca houve tal caso de desobediência flagrante à autoridade dos Anciãos. Se erros menores eram punidos tão severamente, qual seria o destino deste arquirrebelde. Ferrier sabia que a sua riqueza e posição não seriam de utilidade para ele. Outros tão conhecidos e tão ricos quanto ele tinham sido levados antes disto, e os seus bens entregues à Igreja. Ele era um homem corajoso, mas tremia perante os terrores vagos e sombrios que pairavam sobre ele. Qualquer perigo conhecido ele poderia enfrentar com um lábio firme, mas este suspense era enervante. Ele escondeu os seus medos da sua filha, contudo, e fingiu não dar importância a todo o assunto, embora ela, com o olhar agudo do amor, visse claramente que ele estava inquieto.

Ele esperava que receberia alguma mensagem ou protesto de Young quanto à sua conduta, e não se enganou, embora tenha vindo de uma forma inesperada. Ao levantar-se na manhã seguinte, encontrou, para sua surpresa, um pequeno quadrado de papel preso na colcha da sua cama, logo acima do peito. Nele estava impresso, em letras ousadas e desalinhadas:

"Vinte e nove dias te são dados para emenda, e então..."

O travessão era mais inspirador de medo do que qualquer ameaça poderia ter sido. Como este aviso chegou ao seu quarto intrigou John Ferrier profundamente, pois os seus criados dormiam num anexo, e as portas e janelas tinham sido todas fechadas. Ele amarrotou o papel e não disse nada à sua filha, mas o incidente lançou um calafrio no seu coração. Os vinte e nove dias eram evidentemente o saldo do mês que Young tinha prometido. Que força ou coragem poderia valer contra um inimigo armado com tais poderes misteriosos? A mão que prendeu aquele alfinete poderia tê-lo atingido no coração, e ele nunca saberia quem o tinha matado.

Ainda mais abalado ficou na manhã seguinte. Tinham-se sentado para o pequeno-almoço quando Lucy, com um grito de surpresa, apontou para cima. No centro do teto estava rabiscado, com um pau queimado aparentemente, o número 28. Para a sua filha era ininteligível, e ele não a esclareceu. Naquela noite, ele sentou-se com a sua espingarda e manteve guarda. Ele não viu nem ouviu nada, e contudo, de manhã, um grande 27 tinha sido pintado no exterior da sua porta.

Assim, dia após dia se seguiu; e, tão certo como amanhecia, ele constatava que os seus inimigos invisíveis mantinham o seu registo e tinham marcado, em alguma posição conspícua, quantos dias ainda lhe restavam do mês de graça. Por vezes, os números fatais apareciam nas paredes, por vezes nos soalhos, ocasionalmente estavam em pequenos cartazes colados no portão do jardim ou nas grades. Com toda a sua vigilância, John Ferrier não conseguia descobrir de onde procediam aqueles avisos diários. Um horror, quase supersticioso, apoderava-se dele ao vê-los. Tornou-se abatido e inquieto, e os seus olhos tinham o olhar perturbado de uma criatura caçada. Ele tinha apenas uma esperança na vida agora, e era a chegada do jovem caçador de Nevada.

Vinte tinham mudado para quinze e quinze para dez, mas não havia notícias do ausente. Um a um, os números diminuíam, e ainda assim não surgia sinal dele. Sempre que um cavaleiro galopava pela estrada, ou um cocheiro gritava para a sua parelha, o velho agricultor corria para o portão, pensando que a ajuda tinha finalmente chegado. Por fim, quando viu o cinco dar lugar ao quatro e este, por sua vez, ao três, perdeu o ânimo e abandonou qualquer esperança de fuga. Sozinho, e com o seu conhecimento limitado das montanhas que rodeavam o povoado, sabia que estava impotente. As estradas mais frequentadas eram estritamente vigiadas e guardadas, e ninguém podia passar por elas sem uma ordem do Conselho. Por onde quer que se voltasse, parecia não haver como evitar o golpe que pairava sobre ele. Contudo, o velho nunca vacilou na sua resolução de se separar da própria vida antes de consentir no que considerava ser a desonra da sua filha.

Estava sentado sozinho, certa noite, a meditar profundamente sobre os seus problemas e a procurar em vão alguma saída para eles. Aquela manhã tinha mostrado o algarismo 2 na parede da sua casa, e o dia seguinte seria o último do tempo concedido. O que aconteceria então? Todo o tipo de fantasias vagas e terríveis preenchiam a sua imaginação. E a sua filha — o que seria dela depois de ele partir? Não haveria escapatória da teia invisível que estava traçada à volta deles? Ele baixou a cabeça sobre a mesa e soluçou ao pensar na sua própria impotência.

O que era aquilo? No silêncio, ouviu um som leve de arranhão — baixo, mas muito distinto na quietude da noite. Vinha da porta da casa. Ferrier rastejou até ao corredor e escutou atentamente. Houve uma pausa por alguns momentos, e então o som baixo e insidioso repetiu-se. Alguém estava evidentemente a bater muito suavemente num dos painéis da porta. Seria algum assassino da meia-noite que tinha vindo cumprir as ordens homicidas do tribunal secreto? Ou seria algum agente que estava a marcar que o último dia de graça tinha chegado? John Ferrier sentiu que a morte instantânea seria melhor do que o suspense que lhe abalava os nervos e lhe gelava o coração. Saltando para a frente, puxou o ferrolho e escancarou a porta.

Lá fora, tudo estava calmo e silencioso. A noite estava agradável e as estrelas cintilavam intensamente por cima. O pequeno jardim da frente estendia-se diante dos olhos do agricultor, limitado pela cerca e pelo portão, mas nem ali nem na estrada se via qualquer ser humano. Com um suspiro de alívio, Ferrier olhou para a direita e para a esquerda, até que, ao olhar diretamente para os seus próprios pés, viu, com espanto, um homem deitado de bruços no chão, com os braços e as pernas estendidos.

Tão desconcertado ficou com a visão que se encostou à parede, com a mão na garganta, para sufocar a vontade de gritar. O seu primeiro pensamento foi que a figura prostrada era a de algum homem ferido ou moribundo, mas, enquanto o observava, viu-o contorcer-se pelo chão e entrar no corredor com a rapidez e a ausência de ruído de uma serpente. Uma vez dentro de casa, o homem saltou para os seus pés, fechou a porta e revelou ao espantado agricultor a face feroz e a expressão resoluta de Jefferson Hope.

— Bom Deus! — arquejou John Ferrier. — Como me assustou! O que o levou a entrar dessa maneira?

— Dê-me comida — disse o outro, com voz rouca. — Não tive tempo para um bocado ou um gole há quarenta e oito horas. — Atirou-se à carne fria e ao pão que ainda estavam sobre a mesa do jantar do seu anfitrião, e devorou-os vorazmente. — A Lucy aguenta-se bem? — perguntou ele, quando satisfez a sua fome.

— Sim. Ela não sabe do perigo — respondeu o pai.

— Isso é bom. A casa é vigiada de todos os lados. É por isso que rastejei até aqui. Podem ser muito espertos, mas não são espertos o suficiente para apanhar um caçador de Washoe.

John Ferrier sentiu-se um homem diferente agora que percebeu que tinha um aliado dedicado. Agarrou a mão calejada do jovem e apertou-a cordialmente. — É um homem de quem se pode orgulhar — disse ele. — Não são muitos os que viriam partilhar o nosso perigo e as nossas dificuldades.

— Acertou em cheio, parceiro — respondeu o jovem caçador. — Tenho respeito por si, mas se estivesse sozinho neste negócio, pensaria duas vezes antes de enfiar a cabeça neste vespeiro. É a Lucy que me traz aqui, e antes que algum mal lhe aconteça, suponho que haverá um Hope a menos no Utah.

— O que devemos fazer?

— Amanhã é o seu último dia, e a menos que aja esta noite, está perdido. Tenho uma mula e dois cavalos à espera no Desfiladeiro da Águia. Quanto dinheiro tem?

— Dois mil dólares em ouro e cinco em notas.

— Isso chega. Tenho outro tanto para acrescentar. Devemos seguir para Carson City através das montanhas. É melhor acordar a Lucy. É preferível que os criados não durmam na casa.

Enquanto Ferrier estava ausente, a preparar a sua filha para a jornada que se aproximava, Jefferson Hope empacotou todos os comestíveis que conseguiu encontrar num pequeno embrulho e encheu um frasco de barro com água, pois sabia por experiência que os poços da montanha eram poucos e distantes entre si. Mal tinha completado os seus preparativos quando o agricultor regressou com a sua filha, toda vestida e pronta para partir. O cumprimento entre os amantes foi caloroso, mas breve, pois os minutos eram preciosos e havia muito a fazer.

— Devemos começar a nossa partida imediatamente — disse Jefferson Hope, falando com uma voz baixa, mas resoluta, como alguém que compreende a grandeza do perigo, mas que endureceu o coração para o enfrentar. — As entradas da frente e de trás estão vigiadas, mas com cautela podemos escapar pela janela lateral e atravessar os campos. Uma vez na estrada, estamos apenas a duas milhas do Desfiladeiro onde os cavalos estão à espera. Ao romper do dia, deveremos estar a meio caminho das montanhas.

— E se formos detidos? — perguntou Ferrier.

Hope bateu na coronha do revólver que sobressaía da frente da sua túnica. — Se forem demasiados para nós, levaremos dois ou três deles connosco — disse ele com um sorriso sinistro.

As luzes dentro da casa tinham sido todas apagadas e, da janela escurecida, Ferrier espreitou os campos que tinham sido seus e que estava agora prestes a abandonar para sempre. Tinha-se preparado há muito para o sacrifício, no entanto, e o pensamento da honra e felicidade da sua filha pesava mais do que qualquer arrependimento pelas suas fortunas arruinadas. Tudo parecia tão pacífico e feliz, as árvores a sussurrar e a vasta e silenciosa extensão de terras de cultivo, que era difícil compreender que o espírito do assassínio espreitava por tudo aquilo. Contudo, a face pálida e a expressão firme do jovem caçador mostravam que, na sua aproximação à casa, ele tinha visto o suficiente para o satisfazer quanto a esse ponto.

Ferrier carregava o saco de ouro e notas, Jefferson Hope levava as parcas provisões e a água, enquanto Lucy tinha um pequeno fardo contendo algumas das suas posses mais valiosas. Abrindo a janela muito lenta e cuidadosamente, esperaram até que uma nuvem escura tivesse obscurecido um pouco a noite e, então, um a um, passaram para o pequeno jardim. Com a respiração contida e figuras agachadas, atravessaram-no aos tropeções e alcançaram o abrigo da sebe, que contornaram até chegarem à brecha que dava para os campos de milho. Tinham acabado de chegar a este ponto quando o jovem agarrou os seus dois companheiros e arrastou-os para a sombra, onde ficaram em silêncio e a tremer.

Foi uma sorte que o seu treino na pradaria tivesse dado a Jefferson Hope os ouvidos de um lince. Ele e os seus amigos mal se tinham agachado quando o pio melancólico de uma coruja da montanha foi ouvido a poucos metros deles, que foi imediatamente respondido por outro pio a pouca distância. No mesmo momento, uma figura vaga e sombria emergiu da brecha para a qual se dirigiam e soltou novamente o grito de sinalização plangente, ao que um segundo homem apareceu na obscuridade.

— Amanhã à meia-noite — disse o primeiro, que parecia estar na autoridade. — Quando o Whip-poor-Will chamar três vezes.

— Está bem — respondeu o outro. — Devo dizer ao Irmão Drebber?

— Transmite-lhe isso, e dele para os outros. Nove para sete!

— Sete para cinco! — repetiu o outro, e as duas figuras afastaram-se em direções diferentes. As suas palavras finais tinham sido, evidentemente, alguma forma de sinal e contra-senha. No instante em que os seus passos desapareceram na distância, Jefferson Hope saltou para os seus pés e, ajudando os seus companheiros a passar pela brecha, liderou o caminho através dos campos à velocidade máxima, apoiando e quase carregando a rapariga quando a sua força parecia falhar.

— Depressa! Depressa! — arquejava ele de tempos a tempos. — Passámos a linha de sentinelas. Tudo depende da velocidade. Depressa!

Uma vez na estrada principal, fizeram um progresso rápido. Apenas uma vez encontraram alguém e, então, conseguiram deslizar para um campo e assim evitar o reconhecimento. Antes de chegar à cidade, o caçador desviou-se para um caminho estreito e acidentado que levava às montanhas. Dois picos escuros e irregulares erguiam-se acima deles através da escuridão, e o desfiladeiro que passava entre eles era o Canhão da Águia, no qual os cavalos os esperavam. Com um instinto infalível, Jefferson Hope escolheu o seu caminho entre os grandes rochedos e ao longo do leito de um curso de água seco, até chegar ao canto retirado, protegido por rochas, onde os animais fiéis tinham sido atados. A rapariga foi colocada na mula e o velho Ferrier num dos cavalos, com o seu saco de dinheiro, enquanto Jefferson Hope conduzia o outro ao longo do caminho precipitado e perigoso.

Era uma rota desconcertante para qualquer pessoa que não estivesse habituada a enfrentar a Natureza nos seus humores mais selvagens. De um lado, um grande rochedo erguia-se a mil pés ou mais, negro, severo e ameaçador, com longas colunas basálticas na sua superfície irregular como as costelas de algum monstro petrificado. Por outro lado, um caos selvagem de rochedos e detritos tornava todo o avanço impossível. Entre os dois corria a pista irregular, tão estreita em certos lugares que tinham de viajar em fila indiana, e tão acidentada que apenas cavaleiros experientes a poderiam ter percorrido. No entanto, apesar de todos os perigos e dificuldades, os corações dos fugitivos estavam leves, pois cada passo aumentava a distância entre eles e o terrível despotismo do qual estavam a fugir.

Tiveram, contudo, uma prova de que ainda estavam sob a jurisdição dos Santos. Tinham chegado à parte mais selvagem e desolada da passagem quando a rapariga deu um grito de susto e apontou para cima. Numa rocha que dominava a pista, sobressaindo escura e clara contra o céu, estava um sentinela solitário. Ele viu-os assim que eles o perceberam, e o seu desafio militar de "Quem vai lá?" ecoou pelo desfiladeiro silencioso.

— Viajantes para Nevada — disse Jefferson Hope, com a mão sobre a espingarda que pendia da sua sela.

Podiam ver o vigia solitário a mexer na sua arma e a espreitar para baixo, como se estivesse insatisfeito com a resposta deles.

— Com a permissão de quem? — perguntou ele.

— Os Santos Quatro — respondeu Ferrier. As suas experiências mórmones tinham-lhe ensinado que essa era a autoridade mais elevada a que podia recorrer.

— Nove de sete — gritou o sentinela.

— Sete de cinco — respondeu Jefferson Hope prontamente, lembrando-se da contra-senha que tinha ouvido no jardim.

— Passem, e que o Senhor vá convosco — disse a voz lá de cima. Para além do seu posto, o caminho alargou-se e os cavalos conseguiram entrar num trote. Olhando para trás, podiam ver o vigia solitário apoiado na sua arma, e sabiam que tinham passado pelo posto periférico do povo escolhido e que a liberdade estava diante deles.

CAPÍTULO V. OS ANJOS VINGADORES.

Toda a noite o seu curso decorreu através de desfiladeiros intrincados e por caminhos irregulares e cobertos de rochas. Mais de uma vez perderam o caminho, mas o conhecimento íntimo de Hope das montanhas permitiu-lhes retomar a pista mais uma vez. Quando a manhã rompeu, uma cena de beleza maravilhosa, embora selvagem, estendia-se diante deles. Em todas as direções, os grandes picos cobertos de neve cercavam-nos, espreitando por cima dos ombros uns dos outros até ao horizonte distante. Tão íngremes eram as margens rochosas de cada lado deles, que o lariço e o pinheiro pareciam estar suspensos sobre as suas cabeças e precisarem apenas de uma rajada de vento para caírem sobre eles. Nem o medo era inteiramente uma ilusão, pois o vale estéril estava densamente coberto de árvores e rochedos que tinham caído de forma semelhante. Mesmo enquanto passavam, uma grande rocha veio trovejando para baixo com um chocalhar rouco que despertou os ecos nos desfiladeiros silenciosos e assustou os cavalos exaustos, fazendo-os galopar.

À medida que o sol subia lentamente acima do horizonte oriental, os cumes das grandes montanhas iluminavam-se um após o outro, como candeeiros num festival, até ficarem todos avermelhados e brilhantes. O espetáculo magnífico alegrou os corações dos três fugitivos e deu-lhes energia renovada. Junto a uma torrente selvagem que varria um desfiladeiro, fizeram uma paragem e deram de beber aos cavalos, enquanto tomavam um pequeno-almoço apressado. Lucy e o seu pai teriam gostado de descansar mais tempo, mas Jefferson Hope foi inexorável. — Eles já devem estar no nosso encalço a esta hora — disse ele. — Tudo depende da nossa velocidade. Uma vez em segurança em Carson, podemos descansar para o resto das nossas vidas.

Durante todo aquele dia, lutaram através dos desfiladeiros e, ao anoitecer, calcularam que estavam a mais de trinta milhas dos seus inimigos. À noite, escolheram a base de um rochedo saliente, onde as rochas ofereciam alguma proteção contra o vento frio, e ali, amontoados para se aquecerem, desfrutaram de algumas horas de sono. Antes do romper do dia, porém, estavam de pé e a caminho mais uma vez. Não tinham visto sinais de quaisquer perseguidores, e Jefferson Hope começou a pensar que estavam finalmente fora do alcance da terrível organização cuja inimizade tinham incorrido. Ele pouco sabia quão longe aquele aperto de ferro podia alcançar, ou quão cedo estava prestes a fechar-se sobre eles e esmagá-los.

Cerca de metade do segundo dia da sua fuga, o seu parco stock de provisões começou a esgotar-se. Isso deu pouco incómodo ao caçador, contudo, pois havia caça nas montanhas e ele tinha dependido frequentemente antes da sua espingarda para as necessidades da vida. Escolhendo um recanto abrigado, empilhou alguns ramos secos e fez um fogo resplandecente, ao qual os seus companheiros se podiam aquecer, pois estavam agora a quase cinco mil pés acima do nível do mar, e o ar era amargo e cortante. Tendo atado os cavalos e dito adeus a Lucy, atirou a sua espingarda ao ombro e partiu à procura do que o acaso pudesse pôr no seu caminho. Olhando para trás, viu o velho e a jovem rapariga agachados sobre o fogo resplandecente, enquanto os três animais permaneciam imóveis no fundo. Então, as rochas intervenientes esconderam-nos da sua vista.

Caminhou durante um par de milhas através de um desfiladeiro após outro sem sucesso, embora, pelas marcas na casca das árvores e outros indícios, julgasse que havia numerosos ursos nas redondezas. Finalmente, após duas ou três horas de busca infrutífera, pensava em voltar atrás em desespero quando, ao lançar os olhos para cima, viu uma visão que enviou um frémito de prazer pelo seu coração. Na borda de um pináculo saliente, trezentos ou quatrocentos pés acima dele, estava uma criatura que se assemelhava um pouco a uma ovelha na aparência, mas armada com um par de chifres gigantescos. O carneiro-selvagem — pois assim é chamado — estava a agir, provavelmente, como um guardião sobre um rebanho que era invisível para o caçador; mas, felizmente, estava virado na direção oposta e não o tinha percebido. Deitando-se de bruços, apoiou a sua espingarda numa rocha e fez uma pontaria longa e estável antes de puxar o gatilho. O animal saltou para o ar, cambaleou por um momento na borda do precipício e depois caiu estrondosamente no vale abaixo.

A criatura era demasiado pesada para levantar, por isso o caçador contentou-se em cortar uma coxa e parte do flanco. Com este troféu ao ombro, apressou-se a refazer os seus passos, pois a noite já estava a cair. Mal tinha começado, porém, quando percebeu a dificuldade que enfrentava. Na sua ânsia, tinha vagueado muito para além dos desfiladeiros que lhe eram conhecidos, e não era uma questão fácil escolher o caminho que tinha feito. O vale em que se encontrava dividia-se e subdividia-se em muitos desfiladeiros, que eram tão semelhantes entre si que era impossível distinguir um do outro. Seguiu um durante uma milha ou mais até chegar a uma torrente de montanha que tinha a certeza de nunca ter visto antes. Convencido de que tinha tomado o desvio errado, tentou outro, mas com o mesmo resultado. A noite aproximava-se rapidamente e estava quase escuro antes de se encontrar finalmente num desfiladeiro que lhe era familiar. Mesmo assim, não era uma tarefa fácil manter-se no caminho certo, pois a lua ainda não tinha nascido e os altos penhascos de cada lado tornavam a obscuridade mais profunda. Sobrecarregado com o seu fardo e cansado dos seus esforços, tropeçou ao longo do caminho, mantendo o coração animado pela reflexão de que cada passo o aproximava de Lucy e que levava consigo o suficiente para garantir-lhes comida para o resto da sua jornada.

Tinha chegado agora à boca do próprio desfiladeiro onde os tinha deixado. Mesmo na escuridão, podia reconhecer o contorno dos penhascos que o delimitavam. Eles deviam, refletiu, estar à sua espera ansiosamente, pois tinha estado ausente quase cinco horas. Na alegria do seu coração, levou as mãos à boca e fez o vale ecoar com um alto alô como sinal de que estava a chegar. Parou e escutou uma resposta. Nenhuma veio, a não ser o seu próprio grito, que subia pelos desfiladeiros tristes e silenciosos e era levado de volta aos seus ouvidos em inúmeras repetições. Gritou novamente, ainda mais alto do que antes, e novamente nenhum sussurro veio de volta dos amigos que tinha deixado há tão pouco tempo. Um pavor vago e sem nome apoderou-se dele e ele apressou-se freneticamente, deixando cair a preciosa comida na sua agitação.

Quando virou a esquina, avistou o local onde o fogo tinha sido aceso. Ainda havia lá uma pilha brilhante de cinzas de madeira, mas evidentemente não tinha sido cuidada desde a sua partida. O mesmo silêncio morto ainda reinava por todo o lado. Com os seus medos transformados em convicções, apressou-se. Não havia criatura viva perto dos restos do fogo: animais, homem, donzela, todos tinham desaparecido. Era demasiado claro que algum desastre súbito e terrível tinha ocorrido durante a sua ausência — um desastre que os tinha envolvido a todos e que, contudo, não tinha deixado vestígios atrás de si.

Atordoado e chocado por este golpe, Jefferson Hope sentiu a cabeça girar e teve de se apoiar na sua espingarda para não cair. Era, contudo, essencialmente um homem de ação e recuperou rapidamente da sua impotência temporária. Agarrando um pedaço de madeira parcialmente consumido do fogo fumegante, soprou-o até criar uma chama e, com a sua ajuda, procedeu a examinar o pequeno acampamento. O solo estava todo marcado pelas patas dos cavalos, mostrando que um grande grupo de homens montados tinha alcançado os fugitivos, e a direção das suas pegadas provava que tinham depois regressado a Salt Lake City. Teriam levado consigo os seus dois companheiros? Jefferson Hope quase se tinha convencido de que o deviam ter feito, quando o seu olhar caiu sobre um objeto que fez vibrar todos os nervos do seu corpo. Um pouco afastado de um dos lados do acampamento, encontrava-se um monte de terra avermelhada de baixa altura, que certamente não estava ali antes. Não havia como confundi-lo com outra coisa senão uma sepultura recém-aberta. À medida que o jovem caçador se aproximava, percebeu que um pau tinha sido fincado nela, com uma folha de papel presa na sua extremidade bifurcada. A inscrição no papel era breve, mas direta:

JOHN FERRIER, ANTIGAMENTE DE SALT LAKE CITY, Faleceu a 4 de agosto de 1860.

O velho robusto, que ele tinha deixado há tão pouco tempo, tinha partido, então, e este era todo o seu epitáfio. Jefferson Hope olhou desvairadamente em redor para ver se havia uma segunda sepultura, mas não havia sinal de nenhuma. Lucy tinha sido levada de volta pelos seus terríveis perseguidores para cumprir o seu destino original, tornando-se uma das esposas do harém do filho do Ancião. À medida que o jovem rapaz se apercebia da certeza do destino dela, e da sua própria impotência para o evitar, desejou que ele próprio estivesse também a jazer com o velho agricultor no seu último local de descanso silencioso.

Novamente, porém, o seu espírito ativo sacudiu a letargia que nasce do desespero. Se nada mais lhe restava, podia pelo menos dedicar a sua vida à vingança. Com uma paciência e perseverança indomáveis, Jefferson Hope possuía também um poder de vingatividade sustentada, que talvez tivesse aprendido com os índios entre os quais tinha vivido. Enquanto estava de pé junto ao fogo desolado, sentiu que a única coisa que poderia aplacar a sua dor seria uma retribuição total e completa, trazida pela sua própria mão sobre os seus inimigos. A sua vontade forte e energia incansável, determinou ele, seriam dedicadas a esse único fim. Com um rosto sombrio e pálido, refez os seus passos até ao local onde tinha deixado a comida e, tendo atiçado o fogo fumegante, cozinhou o suficiente para durar alguns dias. Fez disso um fardo e, por mais cansado que estivesse, pôs-se a caminho para voltar através das montanhas no encalço dos anjos vingadores.

Durante cinco dias, trabalhou com os pés doridos e exausto através dos desfiladeiros que já tinha atravessado a cavalo. À noite, atirava-se para o meio das rochas e roubava algumas horas de sono; mas antes do amanhecer estava sempre bem a caminho. No sexto dia, chegou ao Eagle Cañon, de onde tinham começado a sua fuga malfadada. De lá, podia olhar para baixo, para o lar dos santos. Gastado e exausto, apoiou-se na sua espingarda e sacudiu o seu punho ossudo ferozmente contra a cidade silenciosa e espalhada abaixo dele. Ao olhar para ela, observou que havia bandeiras em algumas das ruas principais e outros sinais de festividade. Ainda especulava sobre o que isto poderia significar quando ouviu o tropel de cascos de cavalo e viu um homem montado a cavalgar na sua direção. À medida que se aproximava, reconheceu-o como um Mórmon chamado Cowper, a quem tinha prestado serviços em diferentes ocasiões. Abordou-o, portanto, quando este chegou perto dele, com o objetivo de descobrir qual tinha sido o destino de Lucy Ferrier.

— Eu sou Jefferson Hope — disse ele. — Lembras-te de mim.

O Mórmon olhou para ele com um espanto mal disfarçado — na verdade, era difícil reconhecer neste vagabundo esfarrapado e desleixado, com o rosto pálido e cadavérico e olhos ferozes e selvagens, o jovem caçador elegante de outros tempos. Tendo, contudo, finalmente, ficado satisfeito quanto à sua identidade, a surpresa do homem mudou para consternação.

— Estás louco por vires aqui — gritou ele. — Vale tanto como a minha própria vida ser visto a falar contigo. Existe um mandado contra ti dos Quatro Sagrados por teres ajudado os Ferriers a fugir.

— Não temo nem a eles nem ao seu mandado — disse Hope, seriamente. — Deves saber alguma coisa sobre este assunto, Cowper. Conjuro-te por tudo o que te é caro que respondas a algumas perguntas. Sempre fomos amigos. Pelo amor de Deus, não te recuses a responder-me.

— O que é? — perguntou o Mórmon inquieto. — Sê rápido. As próprias rochas têm ouvidos e as árvores têm olhos.

— O que aconteceu a Lucy Ferrier?

— Ela casou ontem com o jovem Drebber. Aguenta-te, homem, aguenta-te, não te resta vida nenhuma.

— Não te preocupes comigo — disse Hope fracamente. Estava pálido até aos lábios e tinha-se afundado na pedra contra a qual se apoiava. — Casada, dizes?

— Casada ontem — é para isso que servem aquelas bandeiras na Endowment House. Houve algumas palavras entre o jovem Drebber e o jovem Stangerson sobre quem a haveria de ter. Ambos tinham estado no grupo que os seguiu, e Stangerson tinha alvejado o pai dela, o que parecia dar-lhe a melhor pretensão; mas quando discutiram isso em conselho, o grupo de Drebber era mais forte, por isso o Profeta entregou-lha. Ninguém a terá por muito tempo, no entanto, pois vi a morte no rosto dela ontem. Ela parece mais um fantasma do que uma mulher. Vais-te embora, então?

— Sim, vou-me embora — disse Jefferson Hope, que se tinha levantado do seu assento. O seu rosto poderia ter sido esculpido em mármore, tão dura e fixa era a sua expressão, enquanto os seus olhos brilhavam com uma luz funesta.

— Para onde vais?

— Não interessa — respondeu ele; e, atirando a sua arma para o ombro, caminhou a grandes passos pelo desfiladeiro e afastou-se para o coração das montanhas, para os esconderijos das feras selvagens. Entre todas elas, não havia nenhuma tão feroz e tão perigosa como ele próprio.

A predição do Mórmon foi cumprida demasiado bem. Quer tenha sido a morte terrível do seu pai ou os efeitos do casamento odioso no qual tinha sido forçada, a pobre Lucy nunca mais ergueu a cabeça, mas definhou e morreu dentro de um mês. O seu marido estúpido, que tinha casado com ela principalmente por causa da propriedade de John Ferrier, não demonstrou grande pesar pela sua perda; mas as suas outras esposas lamentaram-na e velaram-na na noite anterior ao funeral, como é o costume Mórmon. Estavam agrupadas em torno do esquife nas primeiras horas da manhã quando, para seu medo e espanto inomináveis, a porta foi aberta de rompante e um homem de aspeto selvagem e curtido pelo tempo, em vestes esfarrapadas, entrou a passos largos na sala. Sem um olhar ou uma palavra para as mulheres encolhidas, caminhou até à figura branca e silenciosa que outrora continha a alma pura de Lucy Ferrier. Debruçando-se sobre ela, pressionou os seus lábios reverentemente contra a sua testa fria e, então, arrebatando a sua mão, tirou a aliança de casamento do seu dedo. "Ela não será enterrada com isso", gritou ele com um rosnado feroz, e antes que um alarme pudesse ser dado, saltou escadas abaixo e desapareceu. Tão estranho e tão breve foi o episódio, que as observadoras poderiam ter achado difícil acreditar nele ou persuadir outras pessoas, não fosse o facto inegável de que o círculo de ouro que a marcava como tendo sido uma noiva tinha desaparecido.

Durante alguns meses, Jefferson Hope permaneceu entre as montanhas, levando uma vida estranha e selvagem, e alimentando no seu coração o desejo feroz de vingança que o possuía. Contavam-se histórias na Cidade sobre a figura misteriosa que era vista a rondar pelos subúrbios e que assombrava os desfiladeiros solitários da montanha. Uma vez, uma bala assobiou através da janela de Stangerson e achatou-se na parede a menos de trinta centímetros dele. Noutra ocasião, enquanto Drebber passava por baixo de uma falésia, um grande rochedo caiu sobre ele, e ele só escapou a uma morte terrível atirando-se de cara para o chão. Os dois jovens Mórmones não tardaram a descobrir a razão destas tentativas contra as suas vidas e lideraram expedições repetidas às montanhas na esperança de capturar ou matar o seu inimigo, mas sempre sem sucesso. Depois, adotaram a precaução de nunca sair sozinhos ou após o anoitecer, e de terem as suas casas guardadas. Passado algum tempo, conseguiram relaxar estas medidas, pois nada mais se ouviu ou viu do seu oponente, e esperaram que o tempo tivesse arrefecido a sua vingatividade.

Longe de o fazer, o tempo, se é que alguma coisa, aumentou-a. A mente do caçador era de uma natureza dura e inflexível, e a ideia predominante de vingança tinha tomado posse dela de forma tão completa que não havia espaço para qualquer outra emoção. Ele era, contudo, acima de tudo, prático. Logo percebeu que nem mesmo a sua constituição de ferro poderia aguentar a tensão incessante a que a estava a sujeitar. A exposição e a falta de comida saudável estavam a consumi-lo. Se morresse como um cão entre as montanhas, o que seria então da sua vingança? E, no entanto, tal morte estava destinada a alcançá-lo se ele persistisse. Sentiu que isso era jogar o jogo do seu inimigo, por isso, relutantemente, regressou às antigas minas de Nevada, para lá recuperar a sua saúde e acumular dinheiro suficiente para lhe permitir perseguir o seu objetivo sem privações.

A sua intenção tinha sido estar ausente um ano no máximo, mas uma combinação de circunstâncias imprevistas impediu-o de deixar as minas durante quase cinco. No final desse tempo, contudo, a sua memória dos seus erros e o seu desejo de vingança eram tão aguçados como naquela noite memorável em que tinha estado junto à sepultura de John Ferrier. Disfarçado e sob um nome assumido, regressou a Salt Lake City, indiferente ao que aconteceria à sua própria vida, desde que obtivesse o que sabia ser justiça. Lá encontrou más notícias à sua espera. Tinha havido um cisma entre o Povo Escolhido alguns meses antes, tendo alguns dos membros mais jovens da Igreja rebelado-se contra a autoridade dos Anciãos, e o resultado tinha sido a secessão de um certo número de descontentes, que tinham deixado o Utah e se tornado Gentios. Entre estes tinham estado Drebber e Stangerson; e ninguém sabia para onde tinham ido. O rumor dizia que Drebber tinha conseguido converter uma grande parte da sua propriedade em dinheiro e que tinha partido como um homem rico, enquanto o seu companheiro, Stangerson, era comparativamente pobre. Não havia qualquer pista, no entanto, sobre o seu paradeiro.

Muitos homens, por mais vingativos que fossem, teriam abandonado todo o pensamento de vingança perante tal dificuldade, mas Jefferson Hope nunca vacilou um momento. Com a pequena competência que possuía, aumentada por tal emprego que pudesse encontrar, viajou de cidade em cidade pelos Estados Unidos em busca dos seus inimigos. Ano após ano passou, o seu cabelo negro tornou-se grisalho, mas ainda assim ele vagueou, um cão de caça humano, com a sua mente totalmente voltada para o único objetivo ao qual tinha dedicado a sua vida. Finalmente, a sua perseverança foi recompensada. Foi apenas um vislumbre de um rosto numa janela, mas esse único vislumbre disse-lhe que Cleveland, no Ohio, possuía os homens que ele perseguia. Regressou aos seus alojamentos miseráveis com o seu plano de vingança todo arranjado. Aconteceu, porém, que Drebber, olhando da sua janela, tinha reconhecido o vagabundo na rua e tinha lido assassínio nos seus olhos. Apressou-se perante um juiz de paz, acompanhado por Stangerson, que se tinha tornado o seu secretário privado, e representou-lhe que estavam em perigo de vida devido ao ciúme e ao ódio de um antigo rival. Nessa noite, Jefferson Hope foi detido e, não conseguindo encontrar fiadores, foi detido por algumas semanas. Quando finalmente foi libertado, foi apenas para descobrir que a casa de Drebber estava deserta e que ele e o seu secretário tinham partido para a Europa.

Novamente o vingador tinha sido frustrado, e novamente o seu ódio concentrado instou-o a continuar a perseguição. Faltavam fundos, contudo, e durante algum tempo teve de voltar ao trabalho, poupando cada dólar para a sua viagem iminente. Finalmente, tendo recolhido o suficiente para manter a vida nele, partiu para a Europa e seguiu os seus inimigos de cidade em cidade, trabalhando em qualquer função servil, mas nunca alcançando os fugitivos. Quando chegou a São Petersburgo, eles tinham partido para Paris; e quando os seguiu até lá, soube que tinham acabado de partir para Copenhaga. Na capital dinamarquesa, ele estava novamente alguns dias atrasado, pois eles tinham viajado para Londres, onde finalmente conseguiu encontrá-los. Quanto ao que aconteceu lá, não podemos fazer melhor do que citar o próprio relato do velho caçador, conforme devidamente registado no Diário do Dr. Watson, para o qual já temos tais obrigações.

CAPÍTULO VI. UMA CONTINUAÇÃO DAS REMINISCÊNCIAS DE JOHN WATSON, M.D.

A resistência furiosa do nosso prisioneiro não indicava aparentemente qualquer ferocidade na sua disposição para connosco, pois ao ver-se impotente, sorriu de uma forma afável e expressou as suas esperanças de que não tivesse magoado nenhum de nós na refrega. — Acho que me vão levar para a esquadra da polícia — comentou ele para Sherlock Holmes. — O meu táxi está à porta. Se me desapertarem as pernas, irei a pé até ele. Já não sou tão leve de levantar como costumava ser.

Gregson e Lestrade trocaram olhares como se pensassem que esta proposta era bastante ousada; mas Holmes aceitou imediatamente a palavra do prisioneiro e desapertou a toalha que tínhamos atado à volta dos seus tornozelos. Ele levantou-se e esticou as pernas, como para se certificar de que estavam livres mais uma vez. Lembro-me de ter pensado comigo mesmo, ao observá-lo, que raramente tinha visto um homem de constituição mais poderosa; e o seu rosto escuro e queimado do sol ostentava uma expressão de determinação e energia que era tão formidável como a sua força pessoal.

— Se houver um lugar vago para chefe da polícia, julgo que é o homem para ele — disse ele, olhando com admiração mal disfarçada para o meu colega de alojamento. — A maneira como se manteve no meu rasto foi uma lição.

— É melhor vir comigo — disse Holmes aos dois detetives.

— Eu posso conduzi-los — disse Lestrade.

— Bom! E Gregson pode vir lá dentro comigo. O senhor também, Doutor, mostrou interesse no caso e pode muito bem ficar connosco.

Assenti alegremente e descemos todos juntos. O nosso prisioneiro não fez qualquer tentativa de fuga, mas entrou calmamente no táxi que tinha sido seu, e nós seguimo-lo. Lestrade montou na boleia, fustigou o cavalo e levou-nos em muito pouco tempo ao nosso destino. Fomos conduzidos a uma pequena câmara onde um inspetor da polícia anotou o nome do nosso prisioneiro e os nomes dos homens por cujo homicídio tinha sido acusado. O funcionário era um homem de rosto pálido e sem emoções, que cumpria os seus deveres de uma forma monótona e mecânica. — O prisioneiro será levado perante os magistrados no decorrer da semana — disse ele; — entretanto, Sr. Jefferson Hope, tem algo que deseje dizer? Devo avisá-lo de que as suas palavras serão anotadas e podem ser usadas contra si.

— Tenho muito para dizer — disse o nosso prisioneiro lentamente. — Quero contar-lhes tudo, cavalheiros.

— Não seria melhor reservar isso para o seu julgamento? — perguntou o inspetor.

— Talvez nunca seja julgado — respondeu ele. — Não precisam de parecer sobressaltados. Não é suicídio que estou a considerar. É médico? — Ele virou os seus olhos ferozes e escuros para mim enquanto fazia esta última pergunta.

— Sim, sou — respondi.

— Então ponha a sua mão aqui — disse ele, com um sorriso, gesticulando com os pulsos algemados em direção ao seu peito.

Fi-lo; e tornei-me imediatamente consciente de uma pulsação e agitação extraordinárias que estavam a ocorrer no interior. As paredes do seu peito pareciam vibrar e tremer como faria um edifício frágil por dentro quando algum motor potente estava em funcionamento. No silêncio da sala, pude ouvir um zumbido e um ruído surdo que procediam da mesma fonte.

— Ora — exclamei —, o senhor tem um aneurisma da aorta!

— É como lhe chamam — disse ele, placidamente. — Fui a um médico na semana passada sobre isso, e ele disse-me que é inevitável que rebente antes de passarem muitos dias. Tem vindo a piorar durante anos. Ganhei-o devido à sobre-exposição e à subnutrição nas Montanhas de Salt Lake. Já fiz o meu trabalho agora e não me importa quão cedo parta, mas gostaria de deixar algum relato do assunto atrás de mim. Não quero ser lembrado como um comum assassino.

O inspetor e os dois detetives tiveram uma discussão apressada sobre a conveniência de permitir que ele contasse a sua história.

— Considera, Doutor, que existe perigo imediato? — perguntou o primeiro.

— Com certeza que existe — respondi.

— Nesse caso, é claramente o nosso dever, no interesse da justiça, tomar o seu depoimento — disse o inspetor. — Tem liberdade, senhor, para dar a sua versão, a qual aviso novamente que será anotada.

— Vou sentar-me, se me dão licença — disse o prisioneiro, acompanhando a ação com a palavra. — Este meu aneurisma faz-me cansar facilmente, e a luta que tivemos há meia hora não melhorou as coisas. Estou à beira da sepultura e não é provável que lhe minta. Cada palavra que digo é a verdade absoluta, e como a usa é uma questão de nenhuma importância para mim.

Com estas palavras, Jefferson Hope recostou-se na sua cadeira e começou o seguinte relato notável. Falou de uma forma calma e metódica, como se os acontecimentos que narrava fossem bastante comuns. Posso garantir a precisão do relato abaixo, pois tive acesso ao caderno de Lestrade, no qual as palavras do prisioneiro foram anotadas exatamente como foram proferidas.

— Não importa muito para si por que odiava estes homens — disse ele; — basta que fossem culpados da morte de dois seres humanos — um pai e uma filha — e que, portanto, tinham perdido as suas próprias vidas. Após o lapso de tempo que passou desde o seu crime, era-me impossível assegurar uma condenação contra eles em qualquer tribunal. Eu sabia da sua culpa, contudo, e determinei que eu deveria ser juiz, júri e carrasco, tudo num só. Teria feito o mesmo, se tiver alguma masculinidade em si, se tivesse estado no meu lugar.

— Aquela rapariga de que falei deveria ter casado comigo há vinte anos. Foi forçada a casar com esse mesmo Drebber e partiu o coração por causa disso. Tirei a aliança de casamento do seu dedo morto e jurei que os seus olhos moribundos repousariam sobre esse mesmo anel, e que os seus últimos pensamentos seriam sobre o crime pelo qual ele foi punido. Trouxe-o comigo e segui-o a ele e ao seu cúmplice por dois continentes até os apanhar. Pensaram em cansar-me, mas não o conseguiram. Se morrer amanhã, como é bastante provável, morro sabendo que o meu trabalho neste mundo está feito, e bem feito. Eles pereceram, e pela minha mão. Não resta nada para eu esperar ou desejar.

“Eles eram ricos e eu era pobre, de modo que não era tarefa fácil para mim segui-los. Quando cheguei a Londres, o meu bolso estava quase vazio e descobri que tinha de me dedicar a algo para ganhar a vida. Conduzir e montar a cavalo são tão naturais para mim como andar, por isso candidatei-me a um escritório de aluguer de carruagens e logo arranjei emprego. Eu devia entregar uma certa quantia por semana ao proprietário, e tudo o que sobrasse disso poderia ficar para mim. Raramente sobrava muito, mas consegui desenrascar-me de alguma forma. A parte mais difícil foi aprender o caminho, pois calculo que, de todos os labirintos que alguma vez foram concebidos, esta cidade é a mais confusa. Tinha um mapa ao meu lado, no entanto, e quando finalmente identifiquei os principais hotéis e estações, comecei a orientar-me bastante bem.

“Passou algum tempo até que descobrisse onde os meus dois cavalheiros viviam; mas perguntei e perguntei até que, por fim, os encontrei. Estavam numa pensão em Camberwell, do outro lado do rio. Assim que os descobri, soube que os tinha à minha mercê. Deixara crescer a barba e não havia hipótese de me reconhecerem. Eu persegui-los-ia e segui-los-ia até ver a minha oportunidade. Estava determinado a que não me escapassem novamente.

“Por pouco que não o faziam, apesar de tudo. Fosse para onde fossem em Londres, eu estava sempre nos seus calcanhares. Por vezes segui-os na minha carruagem, outras vezes a pé, mas a primeira era a melhor, pois assim não podiam fugir de mim. Só de madrugada ou tarde da noite conseguia ganhar algo, pelo que comecei a ficar em atraso com o meu patrão. Não me importava com isso, contudo, desde que pudesse deitar a mão aos homens que queria.

“Eles eram muito astutos, no entanto. Devem ter pensado que havia alguma hipótese de serem seguidos, pois nunca saíam sozinhos e nunca depois de anoitecer. Durante duas semanas conduzi atrás deles todos os dias e nunca uma vez os vi separar-se. O próprio Drebber estava bêbado metade do tempo, mas Stangerson não era homem de ser apanhado desprevenido. Vigiei-os tarde e cedo, mas nunca vi a sombra de uma oportunidade; mas não desanimei, pois algo me dizia que a hora quase tinha chegado. O meu único medo era que esta coisa no meu peito rebentasse um pouco cedo demais e deixasse o meu trabalho por terminar.

“Por fim, numa noite, eu conduzia para cima e para baixo em Torquay Terrace, como se chamava a rua onde estavam hospedados, quando vi uma carruagem parar à porta deles. Pouco depois, alguma bagagem foi trazida para fora e, passado algum tempo, Drebber e Stangerson seguiram-na e partiram. Dei uma chicotada no meu cavalo e mantive-os à vista, sentindo-me muito inquieto, pois temia que eles fossem mudar de casa. Na estação de Euston, eles saíram; deixei um rapaz a segurar o meu cavalo e segui-os até à plataforma. Ouvi-os perguntar pelo comboio de Liverpool, e o guarda responder que um acabara de partir e que não haveria outro durante algumas horas. Stangerson pareceu ficar aborrecido com isso, mas Drebber ficou antes satisfeito do que o contrário. Aproximei-me tanto deles no meio do movimento que consegui ouvir cada palavra que trocaram. Drebber disse que tinha um pequeno negócio pessoal para tratar e que, se o outro o esperasse, logo se voltaria a juntar a ele. O seu companheiro discutiu com ele e lembrou-o de que tinham resolvido manter-se juntos. Drebber respondeu que o assunto era delicado e que tinha de ir sozinho. Não consegui perceber o que Stangerson disse a isso, mas o outro explodiu em pragas e lembrou-o de que ele não era mais do que o seu criado pago, e que não deveria presumir ditar-lhe ordens. Com isto, o secretário desistiu da ideia e apenas negociou com ele que, se perdesse o último comboio, voltaria a juntar-se a ele no Halliday’s Private Hotel; ao que Drebber respondeu que estaria de volta à plataforma antes das onze, e seguiu o seu caminho para fora da estação.

“O momento pelo qual tanto esperara tinha finalmente chegado. Tinha os meus inimigos ao meu alcance. Juntos, podiam proteger-se um ao outro, mas, sozinhos, estavam à minha mercê. Não agi, contudo, com precipitação indevida. Os meus planos já estavam formados. Não há satisfação na vingança a menos que o ofensor tenha tempo de perceber quem é que o atinge e por que motivo a retribuição lhe sobreveio. Tinha os meus planos arranjados para que pudesse ter a oportunidade de fazer com que o homem que me tinha prejudicado compreendesse que o seu antigo pecado o encontrara. Sucedeu que, alguns dias antes, um cavalheiro que andava a ver algumas casas na Brixton Road tinha deixado cair a chave de uma delas na minha carruagem. Foi reclamada nessa mesma noite e devolvida; mas, nesse intervalo, eu tinha tirado um molde dela e mandado construir uma duplicata. Por meio dela, tive acesso a pelo menos um local nesta grande cidade onde podia contar com a ausência de interrupções. Como levar Drebber para aquela casa era o problema difícil que eu tinha agora de resolver.

“Ele caminhou pela estrada e entrou numa ou duas lojas de bebidas, ficando quase meia hora na última delas. Quando saiu, cambaleava ao caminhar e estava, evidentemente, bastante embriagado. Havia uma carruagem de praça bem à minha frente, e ele chamou-a. Segui-a tão de perto que o focinho do meu cavalo ficou a menos de um metro do cocheiro durante todo o caminho. Chacoalhámos pela Waterloo Bridge e por quilómetros de ruas até que, para meu espanto, nos encontrámos de volta ao Terrace onde ele estava hospedado. Não conseguia imaginar qual era a sua intenção ao regressar lá; mas continuei e parei a minha carruagem a uns cem metros da casa. Ele entrou e a sua carruagem partiu. Dê-me um copo de água, se faz favor. A minha boca fica seca de tanto falar.”

Entreguei-lhe o copo e ele bebeu-o de um trago.

“Isso é melhor”, disse ele. “Bem, esperei um quarto de hora ou mais, quando, de repente, ouviu-se um ruído como se houvesse pessoas a lutar dentro da casa. No momento seguinte, a porta foi escancarada e apareceram dois homens, um dos quais era Drebber, e o outro um rapaz jovem que eu nunca tinha visto antes. Este sujeito tinha Drebber pelo colarinho e, quando chegaram ao cimo dos degraus, deu-lhe um empurrão e um pontapé que o enviou para o meio da estrada. ‘Seu cão’, gritou ele, abanando o bastão para ele; ‘vou ensinar-te a insultar uma rapariga honesta!’ Ele estava tão exaltado que penso que teria espancado Drebber com o seu cacete, não fosse o cobarde ter cambaleado pela estrada fora o mais depressa que as pernas lhe permitiram. Correu até à esquina e, então, vendo a minha carruagem, chamou-me e saltou para dentro. ‘Leve-me ao Halliday’s Private Hotel’, disse ele.

“Quando o tive finalmente dentro da minha carruagem, o meu coração saltou de tal alegria que temi que, neste último momento, o meu aneurisma pudesse falhar. Conduzi lentamente, pesando na minha própria mente o que seria melhor fazer. Podia levá-lo para o campo e ali, nalguma estrada deserta, ter a minha última entrevista com ele. Já quase tinha decidido isto quando ele resolveu o problema por mim. A loucura da bebida tinha-o dominado de novo e ordenou-me que parasse à porta de uma taberna. Ele entrou, deixando ordem para que eu o esperasse. Lá permaneceu até à hora de fechar e, quando saiu, estava tão mal que soube que o jogo estava nas minhas mãos.

“Não pensem que eu pretendia matá-lo a sangue-frio. Teria sido apenas justiça rigorosa se o tivesse feito, mas não conseguia levar-me a isso. Eu tinha decidido há muito que ele deveria ter uma hipótese de sobreviver, se escolhesse aproveitá-la. Entre os muitos trabalhos que exerci na América durante a minha vida errante, fui uma vez contínuo e varredor do laboratório no York College. Um dia, o professor dava uma aula sobre venenos e mostrou aos seus alunos um alcaloide, como ele lhe chamou, que tinha extraído de um veneno de flecha sul-americano, e que era tão potente que o menor grão significava morte instantânea. Identifiquei o frasco onde esta preparação era guardada e, quando todos se foram embora, servi-me de um pouco. Eu era um distribuidor bastante bom, por isso trabalhei este alcaloide em pequenas pílulas solúveis, e cada pílula coloquei-a numa caixa com uma pílula semelhante feita sem o veneno. Determinei, na altura, que quando tivesse a minha oportunidade, cada um dos meus cavalheiros tiraria uma destas caixas, enquanto eu comeria a pílula que restasse. Seria tão mortal e bastante menos ruidoso do que disparar através de um lenço. Desde aquele dia, tive sempre as minhas caixas de pílulas comigo, e tinha chegado agora o momento em que as usaria.

“Era mais perto da uma do que das doze, e uma noite selvagem e desolada, a soprar forte e a chover a potes. Por mais lúgubre que estivesse lá fora, eu sentia-me feliz por dentro — tão feliz que poderia ter gritado de pura exultação. Se algum de vós, senhores, alguma vez ansiou por algo e o desejou durante vinte longos anos, para depois, de repente, encontrá-lo ao seu alcance, compreenderia os meus sentimentos. Acendi um charuto e dei umas passas para acalmar os nervos, mas as minhas mãos tremiam e as minhas têmporas latejavam de excitação. Enquanto conduzia, conseguia ver o velho John Ferrier e a doce Lucy a olhar para mim a partir da escuridão e a sorrir-me, tão claramente como vejo todos vós nesta sala. Durante todo o caminho, eles estiveram à minha frente, um de cada lado do cavalo, até que parei junto à casa na Brixton Road.

“Não se via uma alma, nem se ouvia um som, exceto o gotejar da chuva. Quando olhei pela janela, encontrei Drebber todo encolhido num sono de bêbado. Sacudi-o pelo braço. ‘Está na hora de sair’, disse eu.

“‘Está bem, cocheiro’, disse ele.

“Suponho que ele pensou que tínhamos chegado ao hotel que tinha mencionado, pois saiu sem dizer mais nada e seguiu-me pelo jardim. Tive de caminhar ao lado dele para o manter estável, pois ainda estava um pouco instável nas pernas. Quando chegámos à porta, abri-a e conduzi-o para a sala da frente. Dou-vos a minha palavra de que, durante todo o caminho, o pai e a filha caminhavam à nossa frente.

“‘Está um escuro infernal’, disse ele, batendo o pé aqui e ali.

“‘Logo teremos luz’, disse eu, riscando um fósforo e levando-o a uma vela de cera que tinha trazido comigo. ‘Agora, Enoch Drebber’, continuei, voltando-me para ele e segurando a luz junto ao meu próprio rosto, ‘quem sou eu?’

“Ele olhou para mim com olhos baços e embriagados por um momento, e então vi um horror surgir neles e convulsionar todos os seus traços, o que me mostrou que ele me conhecia. Ele cambaleou para trás com o rosto lívido, e vi o suor rebentar-lhe na testa, enquanto os seus dentes batiam na boca. Ao ver isso, encostei as costas à porta e ri-me alto e longamente. Sempre soube que a vingança seria doce, mas nunca tinha esperado o contentamento de alma que agora me possuía.

“‘Seu cão!’, disse eu. ‘Cacei-te desde Salt Lake City até São Petersburgo, e sempre me escapaste. Agora, finalmente, as tuas viagens chegaram ao fim, pois ou tu ou eu não veremos o sol de amanhã nascer.’ Ele encolheu-se ainda mais enquanto eu falava, e pude ver no seu rosto que ele pensava que eu estava louco. E estava, por momentos. As pulsações nas minhas têmporas batiam como marretas, e acredito que teria tido um ataque de qualquer tipo se o sangue não tivesse jorrado do meu nariz e me aliviado.

“‘O que pensas de Lucy Ferrier agora?’, gritei, trancando a porta e abanando a chave à frente da sua cara. ‘O castigo demorou a chegar, mas finalmente alcançou-te.’ Vi os seus lábios cobardes tremerem enquanto falava. Ele teria implorado pela vida, mas sabia bem que era inútil.

“‘Quer assassinar-me?’, gaguejou ele.

“‘Não há assassínio’, respondi. ‘Quem fala em assassinar um cão raivoso? Que misericórdia tiveste tu pela minha pobre querida, quando a arrastaste do seu pai massacrado e a levaste para o teu harém maldito e sem vergonha.’

“‘Não fui eu que matei o pai dela’, gritou ele.

“‘Mas foste tu que partiste o seu coração inocente’, gritei, empurrando a caixa para diante dele. ‘Que o Deus supremo julgue entre nós. Escolhe e come. Há morte numa e vida na outra. Eu tomarei a que tu deixares. Vamos ver se há justiça na terra ou se somos governados pelo acaso.’

“Ele encolheu-se com gritos selvagens e pedidos de misericórdia, mas puxei da minha faca e encostei-lha à garganta até que ele me tivesse obedecido. Depois engoli a outra, e ficámos frente a frente em silêncio durante um minuto ou mais, à espera de ver quem viveria e quem morreria. Alguma vez hei de esquecer o olhar que surgiu no seu rosto quando as primeiras pontadas de aviso lhe disseram que o veneno estava no seu sistema? Ri-me ao vê-lo e segurei a aliança de casamento de Lucy à frente dos seus olhos. Foi apenas por um momento, pois a ação do alcaloide é rápida. Um espasmo de dor contorceu-lhe os traços; ele atirou as mãos para a frente, cambaleou e, depois, com um grito rouco, caiu pesadamente no chão. Virei-o com o pé e coloquei a mão sobre o seu coração. Não havia movimento. Ele estava morto!

“O sangue tinha estado a correr do meu nariz, mas não lhe prestei atenção. Não sei o que me passou pela cabeça para escrever na parede com ele. Talvez fosse alguma ideia maliciosa de colocar a polícia numa pista errada, pois sentia-me leve e alegre. Lembrei-me de um alemão ter sido encontrado em Nova Iorque com a palavra RACHE escrita acima dele, e argumentou-se na altura, nos jornais, que as sociedades secretas deviam tê-lo feito. Adivinhei que o que intrigava os nova-iorquinos intrigaria os londrinos, por isso molhei o dedo no meu próprio sangue e imprimi-o num local conveniente na parede. Depois caminhei até à minha carruagem e descobri que não estava ninguém por perto e que a noite continuava muito selvagem. Tinha conduzido durante alguma distância quando meti a mão no bolso onde costumava guardar o anel de Lucy e descobri que não estava lá. Fiquei paralisado com isto, pois era a única recordação que tinha dela. Pensando que poderia tê-lo deixado cair quando me inclinei sobre o corpo de Drebber, voltei atrás e, deixando a minha carruagem numa rua lateral, dirigi-me corajosamente para a casa — pois estava disposto a arriscar tudo em vez de perder o anel. Quando lá cheguei, fui direto para os braços de um agente da polícia que estava a sair, e só consegui desarmar as suas suspeitas fingindo estar irremediavelmente bêbado.

“Foi assim que Enoch Drebber chegou ao seu fim. Tudo o que tinha de fazer depois era o mesmo para Stangerson, e assim pagar a dívida de John Ferrier. Sabia que ele estava hospedado no Halliday’s Private Hotel e andei por lá todo o dia, mas ele nunca saiu. Imagino que ele suspeitou de algo quando Drebber não apareceu. Ele era astuto, o Stangerson, e sempre de guarda. Se ele pensava que podia manter-me afastado ficando dentro de casa, estava muito enganado. Descobri rapidamente qual era a janela do seu quarto e, de madrugada, aproveitei umas escadas que estavam no beco atrás do hotel e assim entrei no seu quarto, na luz cinzenta do amanhecer. Acordei-o e disse-lhe que chegara a hora em que ele teria de responder pela vida que tinha tirado tanto tempo antes. Descrevi-lhe a morte de Drebber e dei-lhe a mesma escolha das pílulas envenenadas. Em vez de aproveitar a oportunidade de segurança que isso lhe oferecia, ele saltou da cama e voou à minha garganta. Em legítima defesa, esfaqueei-o no coração. Teria sido o mesmo de qualquer maneira, pois a Providência nunca teria permitido que a sua mão culpada escolhesse outra coisa senão o veneno.

“Tenho pouco mais a dizer, e é melhor assim, pois estou praticamente acabado. Continuei a conduzir a carruagem por mais um dia ou dois, tencionando continuar até conseguir poupar o suficiente para me levar de volta à América. Estava parado no pátio quando um miúdo maltrapilho perguntou se havia ali um cocheiro chamado Jefferson Hope, e disse que a sua carruagem era pedida por um cavalheiro no 221B, Baker Street. Fui lá, sem suspeitar de mal, e a coisa seguinte de que me lembro é que este jovem aqui tinha as pulseiras nos meus pulsos, tão bem algemado como alguma vez vi na minha vida. Essa é toda a minha história, senhores. Podem considerar-me um assassino; mas eu sustento que sou tão agente da justiça como vós.”

Tão emocionante tinha sido a narrativa do homem, e a sua maneira de falar era tão impressionante, que nos tínhamos sentado em silêncio e absortos. Até os detetives profissionais, blasés como eram em cada detalhe do crime, pareciam estar vivamente interessados na história do homem. Quando ele terminou, ficámos alguns minutos num silêncio que só foi quebrado pelo riscar do lápis de Lestrade, enquanto ele dava os toques finais ao seu relato em taquigrafia.

“Há apenas um ponto sobre o qual gostaria de um pouco mais de informação”, disse finalmente Sherlock Holmes. “Quem foi o seu cúmplice que veio buscar o anel que anunciei?”

O prisioneiro piscou o olho ao meu amigo de forma jocosa. “Posso contar os meus próprios segredos”, disse ele, “mas não meto outras pessoas em sarilhos. Vi o seu anúncio e pensei que pudesse ser uma armadilha, ou que pudesse ser o anel que eu queria. O meu amigo voluntariou-se para ir ver. Penso que admitirá que ele o fez com esperteza.”

“Não há dúvida disso”, disse Holmes cordialmente.

“Agora, senhores”, observou o Inspetor gravemente, “as formas da lei devem ser cumpridas. Na quinta-feira, o prisioneiro será levado perante os magistrados e a vossa comparência será necessária. Até lá, serei responsável por ele.” Tocou a campainha enquanto falava e Jefferson Hope foi levado por um par de carcereiros, enquanto o meu amigo e eu saímos da esquadra e apanhámos uma carruagem de volta para Baker Street.

CAPÍTULO VII. A CONCLUSÃO.

Tínhamos sido todos avisados para comparecer perante os magistrados na quinta-feira; mas, quando a quinta-feira chegou, não houve necessidade do nosso testemunho. Um Juiz superior tinha tomado o assunto em mãos e Jefferson Hope tinha sido convocado perante um tribunal onde a estrita justiça lhe seria aplicada. Na própria noite após a sua captura, o aneurisma rebentou e ele foi encontrado, de manhã, estendido no chão da cela, com um sorriso plácido no rosto, como se tivesse sido capaz, nos seus momentos de agonia, de olhar para trás para uma vida útil e para um trabalho bem feito.

— Gregson e Lestrade ficarão furiosos com a sua morte — observou Holmes, enquanto conversávamos sobre o assunto na noite seguinte. — Onde estará agora a grande publicidade deles?

— Não vejo que tenham tido grande papel na sua captura — respondi.

— O que você faz neste mundo é uma questão de nenhuma importância — retorquiu o meu companheiro, amargamente. — A questão é o que você consegue fazer as pessoas acreditarem que você fez. Não importa — continuou ele, mais alegremente, após uma pausa. — Eu não teria perdido a investigação por nada. Não houve caso melhor em minha memória. Por mais simples que fosse, houve vários pontos extremamente instrutivos a respeito dele.

— Simples! — exclamei.

— Bem, realmente, dificilmente pode ser descrito de outra forma — disse Sherlock Holmes, sorrindo com a minha surpresa. — A prova da sua simplicidade intrínseca é que, sem qualquer ajuda, salvo algumas deduções muito comuns, fui capaz de pôr as mãos no criminoso em três dias.

— Isso é verdade — disse eu.

— Já lhe expliquei que o que foge ao comum é geralmente um guia, em vez de um obstáculo. Ao resolver um problema desta espécie, o grande trunfo é ser capaz de raciocinar de trás para a frente. Esse é um feito muito útil e muito fácil, mas as pessoas não o praticam muito. Nos assuntos do dia a dia, é mais útil raciocinar para a frente, e assim o outro acaba sendo negligenciado. Há cinquenta pessoas que conseguem raciocinar sinteticamente para uma que consegue raciocinar analiticamente.

— Confesso — disse eu — que não o acompanho bem.

— Eu dificilmente esperaria que o fizesse. Deixe-me ver se consigo tornar mais claro. A maioria das pessoas, se você lhes descrever uma sucessão de eventos, dir-lhe-á qual seria o resultado. Elas conseguem juntar esses eventos nas suas mentes e argumentar a partir deles que algo acontecerá. Há poucas pessoas, contudo, que, se você lhes dissesse um resultado, seriam capazes de deduzir da sua própria consciência interior quais foram os passos que levaram a esse resultado. Este poder é o que quero dizer quando falo em raciocinar de trás para a frente, ou analiticamente.

— Compreendo — disse eu.

— Ora, este foi um caso em que lhe deram o resultado e você teve de encontrar tudo o resto por si mesmo. Agora, deixe-me tentar mostrar-lhe os diferentes passos do meu raciocínio. Para começar pelo princípio. Aproximei-me da casa, como sabe, a pé, e com a mente inteiramente livre de quaisquer impressões. Naturalmente, comecei por examinar a estrada e ali, como já lhe expliquei, vi claramente as marcas de um carro de praça, que, verifiquei por inquérito, deve ter estado lá durante a noite. Certifiquei-me de que era um carro de praça e não uma carruagem particular pela bitola estreita das rodas. O carro de praça comum de Londres é consideravelmente menos largo do que o brougham de um cavalheiro.

— Este foi o primeiro ponto alcançado. Caminhei então lentamente pelo caminho do jardim, que por acaso era composto por um solo argiloso, particularmente adequado para tomar impressões. Sem dúvida, para si, parecia ser apenas uma linha de lama pisada, mas para os meus olhos treinados, cada marca na sua superfície tinha um significado. Não há ramo da ciência detetivesca que seja tão importante e tão negligenciado como a arte de seguir pegadas. Felizmente, sempre dei grande ênfase a isso, e muita prática tornou-o uma segunda natureza para mim. Vi as marcas pesadas de pés dos polícias, mas vi também o rasto dos dois homens que tinham passado primeiro pelo jardim. Foi fácil dizer que eles tinham estado lá antes dos outros, porque em certos lugares as suas marcas tinham sido inteiramente obliteradas pelos outros que vieram por cima delas. Desta forma, o meu segundo elo foi formado, o que me disse que os visitantes noturnos eram dois, um notável pela sua altura (como calculei pelo comprimento do seu passo), e o outro vestido elegantemente, a julgar pela impressão pequena e elegante deixada pelas suas botas.

— Ao entrar na casa, esta última inferência foi confirmada. O meu homem bem calçado estava diante de mim. O alto, então, tinha cometido o homicídio, se homicídio houve. Não havia ferimento no corpo do homem morto, mas a expressão agitada no seu rosto assegurou-me que ele tinha previsto o seu destino antes de este o alcançar. Homens que morrem de doença cardíaca, ou de qualquer causa natural súbita, nunca, em hipótese alguma, exibem agitação nas suas feições. Tendo cheirado os lábios do homem morto, detetei um cheiro ligeiramente azedo e cheguei à conclusão de que lhe tinham forçado a ingestão de veneno. Novamente, argumentei que lhe tinha sido forçado devido ao ódio e ao medo expressos no seu rosto. Pelo método de exclusão, cheguei a este resultado, pois nenhuma outra hipótese satisfaria os factos. Não imagine que foi uma ideia muito inaudita. A administração forçada de veneno não é, de forma alguma, algo novo nos anais criminais. Os casos de Dolsky em Odessa e de Leturier em Montpellier ocorrerão imediatamente a qualquer toxicologista.

— E agora vinha a grande questão quanto ao motivo. O roubo não tinha sido o objetivo do homicídio, pois nada foi levado. Seria política, então, ou seria uma mulher? Essa foi a questão que me confrontou. Inclinei-me desde o início para a segunda suposição. Os assassinos políticos ficam apenas demasiado contentes por fazer o seu trabalho e fugir. Este homicídio, pelo contrário, tinha sido cometido muito deliberadamente, e o perpetrador tinha deixado os seus rastos por toda a sala, mostrando que ele tinha estado lá o tempo todo. Deve ter sido um mal privado, e não político, que exigiu tal vingança metódica. Quando a inscrição foi descoberta na parede, fiquei mais inclinado do que nunca para a minha opinião. A coisa era demasiado evidentemente um disfarce. Quando o anel foi encontrado, contudo, resolveu a questão. Claramente, o assassino tinha-o usado para lembrar a sua vítima de alguma mulher morta ou ausente. Foi neste ponto que perguntei a Gregson se ele tinha perguntado no seu telegrama para Cleveland sobre qualquer ponto particular na carreira anterior do Sr. Drebber. Ele respondeu, como se lembra, negativamente.

— Procedi então a fazer um exame cuidadoso da sala, o que me confirmou na minha opinião quanto à altura do assassino, e forneceu-me os detalhes adicionais quanto ao charuto Trichinopoly e o comprimento das suas unhas. Eu já tinha chegado à conclusão, uma vez que não havia sinais de luta, de que o sangue que cobria o chão tinha jorrado do nariz do assassino na sua excitação. Pude perceber que o rasto de sangue coincidia com o rasto dos seus pés. É raro que qualquer homem, a menos que seja muito sanguíneo, tenha uma hemorragia desta forma devido a emoção, por isso arrisquei a opinião de que o criminoso era provavelmente um homem robusto e de rosto rosado. Os acontecimentos provaram que julguei corretamente.

— Tendo deixado a casa, procedi a fazer o que Gregson tinha negligenciado. Telegrafei ao chefe da polícia em Cleveland, limitando a minha pergunta às circunstâncias ligadas ao casamento de Enoch Drebber. A resposta foi conclusiva. Disse-me que Drebber já tinha solicitado a proteção da lei contra um antigo rival no amor, chamado Jefferson Hope, e que esse mesmo Hope estava atualmente na Europa. Sabia agora que segurava a pista do mistério na minha mão, e tudo o que restava era prender o assassino.

— Eu já tinha determinado na minha própria mente que o homem que tinha entrado na casa com Drebber não era outro senão o homem que tinha conduzido o carro de praça. As marcas na estrada mostraram-me que o cavalo tinha vagueado de uma forma que teria sido impossível se houvesse alguém a controlá-lo. Onde, então, poderia estar o cocheiro, a menos que estivesse dentro da casa? Novamente, é absurdo supor que qualquer homem sensato levaria a cabo um crime deliberado sob os próprios olhos, por assim dizer, de uma terceira pessoa, que certamente o trairia. Por último, supondo que um homem desejasse seguir outro por Londres, que melhor meio poderia adotar do que tornar-se cocheiro. Todas estas considerações levaram-me à conclusão irresistível de que Jefferson Hope podia ser encontrado entre os cocheiros da Metrópole.

— Se ele tinha sido um, não havia razão para acreditar que tinha deixado de o ser. Pelo contrário, do seu ponto de vista, qualquer mudança súbita seria suscetível de atrair atenção para si mesmo. Ele provavelmente, pelo menos por um tempo, continuaria a desempenhar as suas funções. Não havia razão para supor que ele estava a usar um nome falso. Por que mudaria ele de nome num país onde ninguém conhecia o original? Por conseguinte, organizei o meu corpo de detetives "Ratos de Rua" e enviei-os sistematicamente a todos os proprietários de carros de praça em Londres até que farejassem o homem que eu queria. Quão bem eles tiveram sucesso, e quão rapidamente tirei proveito disso, ainda estão frescos na sua memória. O homicídio de Stangerson foi um incidente totalmente inesperado, mas que dificilmente poderia, em qualquer caso, ter sido evitado. Através dele, como sabe, entrei na posse das pílulas, cuja existência eu já tinha pressuposto. Vê, a coisa toda é uma cadeia de sequências lógicas sem uma quebra ou falha.

— É maravilhoso! — exclamei. — Os seus méritos devem ser publicamente reconhecidos. Deveria publicar um relato do caso. Se não o fizer, eu fá-lo-ei por si.

— Pode fazer o que quiser, Doutor — respondeu ele. — Veja aqui! — continuou, entregando-me um jornal. — Olhe para isto!

Era o Echo do dia, e o parágrafo para o qual ele apontava era dedicado ao caso em questão.

— O público — dizia — perdeu um deleite sensacional devido à morte súbita do homem Hope, que era suspeito do homicídio do Sr. Enoch Drebber e do Sr. Joseph Stangerson. Os detalhes do caso provavelmente nunca serão conhecidos agora, embora sejamos informados por boa autoridade que o crime foi o resultado de uma rixa antiga e romântica, na qual o amor e o Mormonismo tiveram um papel. Parece que ambas as vítimas pertenciam, nos seus dias mais jovens, aos Santos dos Últimos Dias, e Hope, o prisioneiro falecido, também provém de Salt Lake City. Se o caso não teve outro efeito, pelo menos, realça da maneira mais impressionante a eficiência da nossa força de polícia detetivesca, e servirá de lição a todos os estrangeiros de que farão bem em resolver as suas rixas em casa, e não as transportar para solo britânico. É um segredo aberto que o crédito desta captura astuta pertence inteiramente aos bem conhecidos funcionários de Scotland Yard, os Srs. Lestrade e Gregson. O homem foi detido, ao que parece, nas salas de um certo Sr. Sherlock Holmes, que ele próprio, como amador, mostrou algum talento na linha detetivesca, e que, com tais instrutores, pode esperar com o tempo atingir algum grau da habilidade deles. Espera-se que um testemunho de algum tipo seja apresentado aos dois oficiais como um reconhecimento adequado dos seus serviços.

— Não lhe disse eu isso quando começámos? — gritou Sherlock Holmes com uma gargalhada. — Esse é o resultado de todo o nosso Um Estudo em Vermelho: conseguir-lhes um testemunho!

— Não importa — respondi —, tenho todos os factos no meu diário, e o público conhecê-los-á. Entretanto, deve contentar-se com a consciência do sucesso, como o avarento romano:

— "Populus me sibilat, at mihi plaudo Ipse domi simul ac nummos contemplor in arca."

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