ANARQUISMO E OUTROS ENSAIOS
Emma Goldman
Com Esboço Biográfico de Hippolyte Havel
CONTEÚDO
Esboço Biográfico
Prefácio
Anarquismo: O que Realmente Defende
Minorias Versus Maiorias
A Psicologia da Violência Política
Prisões: Um Crime e Fracasso Social
Patriotismo: Uma Ameaça à Liberdade
Francisco Ferrer e a Escola Moderna
A Hipocrisia do Puritanismo
O Tráfico de Mulheres
O Sufrágio Feminino
A Tragédia da Emancipação da Mulher
Casamento e Amor
O Drama: Um Poderoso Disseminador do Pensamento Radical
EMMA GOLDMAN
O propagandismo não é, como alguns supõem, um "ofício", porque ninguém seguiria um "ofício" no qual se pode trabalhar com a diligência de um escravo e morrer com a reputação de um mendigo. Os motivos de qualquer pessoa para seguir tal profissão devem ser diferentes daqueles de um ofício, mais profundos que o orgulho e mais fortes que o interesse. GEORGE JACOB HOLYOAKE.
Entre os homens e mulheres proeminentes na vida pública da América, há poucos cujos nomes são mencionados tão frequentemente quanto o de Emma Goldman. No entanto, a verdadeira Emma Goldman é quase totalmente desconhecida. A imprensa sensacionalista cercou seu nome com tantas deturpações e calúnias que pareceria quase um milagre que, apesar desta teia de difamações, a verdade rompesse e uma melhor apreciação desta idealista tão difamada começasse a se manifestar. Há pouco consolo no fato de que quase todo representante de uma nova ideia teve de lutar e sofrer sob dificuldades semelhantes. Será de alguma utilidade que um ex-presidente de uma república preste homenagem em Osawatomie à memória de John Brown? Ou que o presidente de outra república participe da inauguração de uma estátua em honra de Pierre Proudhon, e apresente sua vida à nação francesa como um modelo digno de entusiasmada emulação? De que serve tudo isso quando, ao mesmo tempo, os John Browns e Proudhons VIVOS estão sendo crucificados? A honra e a glória de uma Mary Wollstonecraft ou de uma Louise Michel não são engrandecidas pelos Pais da Cidade de Londres ou Paris ao nomearem uma rua em homenagem a elas — a geração viva deveria preocupar-se em fazer justiça às Mary Wollstonecrafts e Louise Michels VIVAS. A posteridade atribui a homens como Wendell Phillips e Lloyd Garrison o devido nicho de honra no templo da emancipação humana; mas é dever de seus contemporâneos dar-lhes o devido reconhecimento e apreciação enquanto vivem.
O caminho do propagandista da justiça social é coberto de espinhos. Os poderes das trevas e da injustiça exercem todo o seu poder para que um raio de sol não entre em sua vida sombria. Não, mesmo seus camaradas na luta — na verdade, muitas vezes seus amigos mais íntimos — demonstram pouca compreensão pela personalidade do pioneiro. A inveja, crescendo por vezes até ao ódio, a vaidade e o ciúme obstruem o seu caminho e enchem o seu coração de tristeza. É necessária uma vontade inflexível e um entusiasmo tremendo para não perder, sob tais condições, toda a fé na Causa. O representante de uma ideia revolucionária encontra-se entre dois fogos: por um lado, a perseguição dos poderes existentes que o responsabilizam por todos os atos resultantes das condições sociais; e, por outro, a falta de compreensão por parte dos seus próprios seguidores, que muitas vezes julgam toda a sua atividade a partir de um ponto de vista estreito. Assim, acontece que o agitador permanece bastante sozinho no meio da multidão que o rodeia. Mesmo os seus amigos mais íntimos raramente compreendem quão solitário e abandonado ele se sente. Essa é a tragédia da pessoa proeminente aos olhos do público.
A névoa em que o nome de Emma Goldman esteve envolvido por tanto tempo está gradualmente começando a se dissipar. Sua energia na promoção de uma ideia tão impopular como o Anarquismo, sua profunda seriedade, sua coragem e habilidades encontram crescente compreensão e admiração.
A dívida que o crescimento intelectual americano deve aos exilados revolucionários nunca foi totalmente apreciada. A semente disseminada por eles, embora tão pouco compreendida na época, trouxe uma colheita rica. Eles sempre mantiveram bem alto o estandarte da liberdade, impregnando assim a vitalidade social da Nação. Mas muito poucos conseguiram preservar a sua educação e cultura europeias enquanto, ao mesmo tempo, se assimilavam à vida americana. É difícil para o homem comum formar uma concepção adequada de quanta força, energia e perseverança são necessárias para absorver a língua, os hábitos e os costumes desconhecidos de um novo país, sem a perda da própria personalidade.
Emma Goldman é uma das poucas que, ao preservar completamente a sua individualidade, tornou-se um fator importante na atmosfera social e intelectual da América. A vida que ela leva é rica em cores, cheia de mudanças e variedade. Ela subiu às alturas mais elevadas e também provou as amargas borras da vida.
Emma Goldman nasceu de pais judeus no dia 27 de junho de 1869, na província russa de Kovno. Certamente esses pais jamais sonharam que posição única sua filha ocuparia um dia. Como todos os pais conservadores, eles também estavam plenamente convencidos de que sua filha se casaria com um cidadão respeitável, lhe daria filhos e completaria seus anos destinados cercada por um bando de netos, uma mulher boa e religiosa. Como a maioria dos pais, eles não tinham ideia de que tipo de espírito estranho e apaixonado tomaria conta da alma de sua filha e a levaria às alturas que separam gerações em luta eterna. Eles viviam em uma terra e em uma época em que o antagonismo entre pais e filhos estava destinado a encontrar sua expressão mais aguda, uma hostilidade irreconciliável. Nesta tremenda luta entre pais e filhos — e especialmente entre pais e filhas — não houve compromisso, nenhuma rendição fraca, nenhuma trégua. O espírito de liberdade, de progresso — um idealismo que não conhecia considerações e não reconhecia obstáculos — expulsou a geração jovem da casa dos pais e para longe da lareira do lar. Assim como este mesmo espírito uma vez expulsou o criador revolucionário de descontentamento, Jesus, e o alienou de suas tradições nativas.
Que papel a raça judaica — apesar de todas as calúnias antissemitas, a raça do idealismo transcendental — desempenhou na luta do Velho e do Novo, provavelmente nunca será apreciado com total imparcialidade e clareza. Só agora estamos começando a perceber a dívida tremenda que devemos aos idealistas judeus no campo da ciência, da arte e da literatura. Mas ainda se sabe muito pouco sobre a parte importante que os filhos e filhas de Israel desempenharam no movimento revolucionário e, especialmente, no dos tempos modernos.
Os primeiros anos de sua infância, Emma Goldman passou em um pequeno lugar idílico na província germano-russa da Curlândia, onde seu pai era responsável pela diligência do governo. Naquela época, a Curlândia era totalmente alemã; mesmo a burocracia russa daquela província báltica era recrutada principalmente de JUNKERS alemães. Contos de fadas e histórias alemãs, ricas nos feitos milagrosos dos cavaleiros heroicos da Curlândia, teceram seu feitiço sobre a mente jovem. Mas o belo idílio teve curta duração. Logo, a alma da criança em crescimento foi obscurecida pelas sombras escuras da vida. Já na sua tenra juventude, as sementes da rebelião e do ódio implacável à opressão seriam plantadas no coração de Emma Goldman. Cedo ela aprendeu a conhecer a beleza do Estado: viu seu pai assediado pelos CHINOVNIKs cristãos e duplamente perseguido como pequeno funcionário e judeu odiado. A brutalidade do recrutamento forçado sempre esteve diante de seus olhos: ela viu os jovens, muitas vezes o único sustento de uma grande família, brutalmente arrastados para os quartéis para levar a vida miserável de um soldado. Ela ouviu o choro das pobres mulheres camponesas e testemunhou as cenas vergonhosas da venalidade oficial que livrava os ricos do serviço militar às custas dos pobres. Ela ficou indignada com o tratamento terrível a que as servas eram submetidas: maltratadas e exploradas por suas BARINYAs, elas caíam nas ternas mercês dos oficiais do regimento, que as consideravam sua presa sexual natural. As garotas, engravidadas por cavalheiros respeitáveis e expulsas por suas patroas, frequentemente encontravam refúgio na casa da família Goldman. E a menina, com o coração palpitando de compaixão, subtraía moedas da gaveta dos pais para pressionar clandestinamente o dinheiro nas mãos das mulheres infelizes. Assim, a característica mais marcante de Emma Goldman, sua simpatia pelos oprimidos, já se manifestava nestes primeiros anos.
Aos sete anos de idade, a pequena Emma foi enviada por seus pais para sua avó em Konigsberg, a cidade de Emanuel Kant, na Prússia Oriental. Exceto por interrupções ocasionais, ela permaneceu lá até seu 13º aniversário. Os primeiros anos nestes arredores não pertencem exatamente às suas lembranças mais felizes. A avó, de fato, era muito amável, mas as numerosas tias da casa estavam preocupadas mais com o espírito da razão prática do que da pura, e o imperativo categórico era aplicado com demasiada frequência. A situação mudou quando seus pais migraram para Konigsberg, e a pequena Emma foi aliviada de seu papel de Cinderela. Ela agora frequentava regularmente a escola pública e também desfrutava das vantagens da instrução particular, costumeira na vida da classe média; aulas de francês e música desempenhavam um papel importante no currículo. A futura intérprete de Ibsen e Shaw era então uma pequena Gretchen alemã, sentindo-se em casa na atmosfera alemã. Suas predileções especiais na literatura eram os romances sentimentais de Marlitt; ela era uma grande admiradora da boa Rainha Luísa, a quem o mau Napoleão Bonaparte tratava com tão marcada falta de cavalheirismo. Qual poderia ter sido seu futuro desenvolvimento se tivesse permanecido neste meio? O destino — ou seria a necessidade econômica? — quis de outra forma. Seus pais decidiram se estabelecer em São Petersburgo, a capital do Todo-Poderoso Czar, e lá iniciar um negócio. Foi aqui que uma grande mudança ocorreu na vida da jovem sonhadora.
Foi um período agitado — o ano de 1882 — em que Emma Goldman, então com 13 anos, chegou a São Petersburgo. Uma luta de vida ou morte entre a autocracia e os intelectuais russos varreu o país. Alexandre II havia caído no ano anterior. Sophia Perovskaia, Zheliabov, Grinevitzky, Rissakov, Kibalchitch, Michailov, os heroicos executores da sentença de morte sobre o tirano, haviam entrado então no Walhalla da imortalidade. Jessie Helfman, a única regicida cuja vida o governo relutantemente poupou devido à gravidez, seguiu os inumeráveis mártires russos para as etapas da Sibéria. Foi o período mais heroico na grande batalha da emancipação, uma batalha pela liberdade como o mundo nunca havia testemunhado antes. Os nomes dos mártires niilistas estavam em todos os lábios, e milhares estavam entusiasmados para seguir seu exemplo. Toda a INTELLIGENZIA da Rússia estava preenchida com o espírito ILEGAL: sentimentos revolucionários penetravam em cada casa, da mansão à choupana, impregnando os militares, os CHINOVNIKs, trabalhadores fabris e camponeses. A atmosfera perfurava as próprias casamatas do palácio real. Novas ideias germinavam na juventude. A diferença de sexo foi esquecida. Ombro a ombro lutavam os homens e as mulheres. A mulher russa! Quem fará justiça ou retratará adequadamente seu heroísmo e autossacrifício, sua lealdade e devoção? Santa, Turguêniev a chama em seu grande poema em prosa, NO LIMIAR.
Era inevitável que a jovem sonhadora de Konigsberg fosse arrastada para o turbilhão. Permanecer fora do círculo de ideias livres significava uma vida de vegetação, de morte. Não se deve estranhar a idade juvenil. Jovens entusiastas não eram então — e, felizmente, não são agora — um fenômeno raro na Rússia. O estudo da língua russa logo colocou a jovem Emma Goldman em contato com estudantes revolucionários e novas ideias. O lugar de Marlitt foi ocupado por Nekrassov e Tchernishevsky. A antiga admiradora da boa Rainha Luísa tornou-se uma entusiasta brilhante da liberdade, resolvendo, como milhares de outros, dedicar sua vida à emancipação do povo.
A luta de gerações agora ocorria na família Goldman. Os pais não conseguiam compreender que interesse sua filha poderia encontrar nas novas ideias, que eles próprios consideravam utopias fantásticas. Eles se esforçaram para persuadir a jovem a abandonar essas quimeras, e a repetição diária de disputas angustiantes foi o resultado. Apenas em um membro da família a jovem idealista encontrou compreensão — em sua irmã mais velha, Helene, com quem ela mais tarde emigrou para a América, e cujo amor e simpatia nunca a falharam. Mesmo nas horas mais sombrias de perseguição posterior, Emma Goldman sempre encontrou um porto de refúgio na casa desta irmã leal.
Emma Goldman finalmente resolveu conquistar sua independência. Ela viu centenas de homens e mulheres sacrificando carreiras brilhantes para ir V NAROD, ao povo. Ela seguiu o exemplo deles. Tornou-se operária fabril; a princípio empregada como fabricante de espartilhos, e mais tarde na confecção de luvas. Ela tinha agora 17 anos e orgulhava-se de ganhar seu próprio sustento. Se tivesse permanecido na Rússia, provavelmente teria, mais cedo ou mais tarde, compartilhado o destino de milhares enterrados nas neves da Sibéria. Mas um novo capítulo de vida estava para começar para ela. A irmã Helene decidiu emigrar para a América, onde outra irmã já havia feito sua casa. Emma convenceu Helene a permitir que ela a acompanhasse, e juntas partiram para a América, cheias da esperança alegre de uma grande e livre terra, a gloriosa República.
América! Que palavra mágica. O desejo dos escravizados, a terra prometida dos oprimidos, o objetivo de todo anseio por progresso. Aqui os ideais do homem haviam encontrado seu cumprimento: nenhum Czar, nenhum cossaco, nenhum CHINOVNIK. A República! Glorioso sinônimo de igualdade, liberdade, fraternidade.
Assim pensavam as duas garotas enquanto viajavam, no ano de 1886, de Nova York para Rochester. Logo, cedo demais, a desilusão as aguardava. A concepção ideal da América foi perfurada já em Castle Garden, e logo estourou como uma bolha de sabão. Aqui Emma Goldman testemunhou cenas que a lembravam das terríveis cenas de sua infância na Curlândia. A brutalidade e a humilhação a que os futuros cidadãos da grande República eram submetidos a bordo do navio repetiram-se em Castle Garden pelos funcionários da democracia de uma forma mais selvagem e agravante. E que amarga decepção se seguiu quando a jovem idealista começou a se familiarizar com as condições na nova terra! Em vez de um Czar, ela encontrou dezenas deles; o cossaco foi substituído pelo policial com o cassetete pesado, e em vez do CHINOVNIK russo, havia o capataz da fábrica, muito mais desumano.
Emma Goldman logo obteve trabalho no estabelecimento de roupas da Garson Co. Os salários chegavam a dois dólares e meio por semana. Naquela época, as fábricas não eram dotadas de força motriz, e as pobres costureiras tinham de mover as rodas com os pés, desde o início da manhã até tarde da noite. Era um trabalho terrivelmente exaustivo, sem um raio de luz, a labuta do longo dia passada em completo silêncio — o costume russo de conversa amigável durante o trabalho não era permitido no país livre. Mas a exploração das garotas não era apenas econômica; as pobres assalariadas eram vistas por seus capatazes e patrões como mercadorias sexuais. Se uma garota se ressentisse das investidas de seus "superiores", ela logo se encontraria na rua como um elemento indesejável na fábrica. Nunca faltavam vítimas dispostas: a oferta sempre excedia a demanda.
As condições horríveis eram tornadas ainda mais insuportáveis pela terrível melancolia da vida na pequena cidade americana. O espírito puritano suprime a menor manifestação de alegria; um tédio mortal obscurece a alma; nenhuma inspiração intelectual, nenhuma troca de pensamento entre espíritos afins é possível. Emma Goldman quase sufocou nesta atmosfera. Ela, acima de todos os outros, ansiava por arredores ideais, por amizade e compreensão, pela companhia de mentes afins. Mentalmente, ela ainda vivia na Rússia. Desconhecendo a língua e a vida do país, ela habitava mais o passado do que o presente. Foi neste período que ela conheceu um jovem que falava russo. Com grande alegria, a amizade foi cultivada. Finalmente, uma pessoa com quem ela podia conversar, alguém que poderia ajudá-la a superar o tédio da existência estreita. A amizade gradualmente amadureceu e culminou no casamento.
Emma Goldman também teve de percorrer o caminho doloroso da vida conjugal; ela também teve de aprender pela experiência amarga que os estatutos legais significam dependência e autoanulação, especialmente para a mulher. O casamento não foi uma libertação do tédio puritano da vida americana; de fato, foi antes agravado pela perda da autopropriedade. Os caracteres dos jovens divergiam demais. Uma separação logo se seguiu, e Emma Goldman foi para New Haven, Conn. Lá ela encontrou emprego em uma fábrica, e seu marido desapareceu de seu horizonte. Duas décadas mais tarde, ela estava destinada a ser inesperadamente lembrada dele pelas autoridades federais.
Os revolucionários que atuavam no movimento russo dos anos 80 conheciam pouco as ideias sociais que então agitavam a Europa Ocidental e a América. Sua única atividade consistia em educar o povo, seu objetivo final a destruição da autocracia. Socialismo e Anarquismo eram termos dificilmente conhecidos até mesmo pelo nome. Emma Goldman, também, era totalmente desconhecedora do significado desses ideais.
Ela chegou à América, como quatro anos antes à Rússia, em um período de grande inquietação social e política. Os trabalhadores estavam em revolta contra as terríveis condições de trabalho; o movimento de oito horas dos Cavaleiros do Trabalho estava em seu auge, e por todo o país ecoava o estrondo de conflitos sangrentos entre grevistas e polícia. A luta culminou na grande greve contra a Harvester Company de Chicago, o massacre dos grevistas e o assassinato judicial dos líderes trabalhistas, que se seguiu à histórica explosão da bomba de Haymarket. Os anarquistas suportaram o teste de martírio do batismo de sangue. Os apologistas do capitalismo buscam em vão justificar o assassinato de Parsons, Spies, Lingg, Fischer e Engel. Desde a publicação das razões do Governador Altgeld para a libertação dos três anarquistas de Haymarket encarcerados, não resta dúvida de que um quíntuplo assassinato legal foi cometido em Chicago, em 1887.
Muito poucos compreenderam o significado do martírio de Chicago; menos ainda as classes dominantes. Pela destruição de vários líderes trabalhistas, pensaram em conter a maré de uma ideia inspiradora mundial. Deixaram de considerar que do sangue dos mártires cresce a nova semente, e que a injustiça terrível ganhará novos convertidos para a Causa.
As duas representantes mais proeminentes da ideia anarquista na América, Voltairine de Cleyre e Emma Goldman — uma nativa americana, a outra russa — converteram-se, como inúmeras outras, às ideias do Anarquismo pelo assassinato judicial. Duas mulheres que não se conheciam antes, e que tinham recebido uma educação amplamente diferente, foram através daquele assassinato unidas em uma ideia.
Como a maioria dos homens e mulheres trabalhadores da América, Emma Goldman acompanhou o julgamento de Chicago com grande ansiedade e excitação. Ela, também, não podia acreditar que os líderes do proletariado seriam mortos. O 11 de novembro de 1887 ensinou-lhe o contrário. Ela percebeu que nenhuma misericórdia poderia ser esperada da classe dominante, que entre o czarismo da Rússia e a plutocracia da América não havia diferença, exceto no nome. Todo o seu ser rebelou-se contra o crime, e ela fez a si mesma um voto solene de se juntar às fileiras do proletariado revolucionário e dedicar toda a sua energia e força à sua emancipação da escravidão assalariada. Com o entusiasmo brilhante tão característico de sua natureza, ela começou agora a se familiarizar com a literatura do Socialismo e do Anarquismo. Ela compareceu a reuniões públicas e tornou-se amiga de trabalhadores inclinados ao socialismo e ao anarquismo. Johanna Greie, a conhecida conferencista alemã, foi a primeira oradora socialista ouvida por Emma Goldman. Em New Haven, Conn., onde estava empregada em uma fábrica de espartilhos, ela conheceu anarquistas que participavam ativamente do movimento. Aqui ela leu o FREIHEIT, editado por John Most. A tragédia de Haymarket desenvolveu suas tendências anarquistas inerentes: a leitura do FREIHEIT tornou-a uma anarquista consciente. Subsequentemente, ela aprenderia que a ideia do Anarquismo encontrou sua expressão mais elevada através dos melhores intelectos da América: teoricamente por Josiah Warren, Stephen Pearl Andrews, Lysander Spooner; filosoficamente por Emerson, Thoreau e Walt Whitman.
Adoentada pelo esforço excessivo do trabalho fabril, Emma Goldman retornou a Rochester, onde permaneceu até agosto de 1889, época em que se mudou para Nova York, o cenário da fase mais importante de sua vida. Ela tinha agora vinte anos. Traços pálidos de sofrimento, olhos grandes e cheios de compaixão, cumprimentam-nos em seu retrato daquela época. Seu cabelo é, como de costume entre as estudantes russas, usado curto, dando livre curso à testa forte.
É a época heroica do anarquismo militante. A passos largos, o movimento cresceu em todos os países. Apesar da mais severa perseguição governamental, novos convertidos engrossam as fileiras. A propaganda é quase exclusivamente de caráter secreto. As medidas repressivas do governo levam os discípulos da nova filosofia a métodos conspiratórios. Milhares de vítimas caem nas mãos das autoridades e definham em prisões. Mas nada pode deter a crescente onda de entusiasmo, de autossacrifício e de devoção à Causa. Os esforços de professores como Peter Kropotkin, Louise Michel, Elisée Reclus e outros inspiram os devotos com energia cada vez maior.
A ruptura é iminente com os socialistas, que sacrificaram a ideia de liberdade e abraçaram o Estado e a política. A luta é amarga, as facções, irreconciliáveis. Essa luta não é apenas entre anarquistas e socialistas; ela também encontra seu eco dentro dos grupos anarquistas. Diferenças teóricas e controvérsias pessoais levam à discórdia e a inimizades acrimoniosas. A legislação antissocialista da Alemanha e da Áustria havia levado milhares de socialistas e anarquistas a atravessar os mares em busca de refúgio na América. John Most, tendo perdido seu assento no Reichstag, finalmente teve de fugir de sua terra natal e foi para Londres. Lá, tendo avançado rumo ao anarquismo, retirou-se inteiramente do Partido Social-Democrata. Mais tarde, vindo para a América, continuou a publicação do FREIHEIT em Nova York e desenvolveu grande atividade entre os trabalhadores alemães.
Quando Emma Goldman chegou a Nova York em 1889, encontrou pouca dificuldade para se associar a anarquistas ativos. As reuniões anarquistas eram quase diárias. O primeiro palestrante que ela ouviu na plataforma anarquista foi o Dr. A. Solotaroff. De grande importância para seu desenvolvimento futuro foi sua amizade com John Most, que exercia uma influência tremenda sobre os elementos mais jovens. Sua eloquência apaixonada, sua energia incansável e a perseguição que ele sofrera pela Causa, tudo se combinava para entusiasmar os camaradas. Foi também nesse período que ela conheceu Alexander Berkman, cuja amizade desempenhou um papel importante ao longo de toda a sua vida. Seus talentos como oradora não podiam permanecer por muito tempo na obscuridade. O fogo do entusiasmo arrastou-a para a tribuna pública. Encorajada por seus amigos, ela começou a participar como oradora alemã e iídiche em reuniões anarquistas. Logo se seguiu uma breve turnê de agitação que a levou até Cleveland. Com toda a força e seriedade de sua alma, ela se lançou agora na propaganda das ideias anarquistas. O período apaixonado de sua vida havia começado. Trabalhando constantemente em sweat shops, a ardente jovem oradora era, ao mesmo tempo, muito ativa como agitadora e participava de várias lutas trabalhistas, notadamente na grande greve dos fabricantes de capas, em 1889, liderada pelo professor Garsyde e Joseph Barondess.
Um ano depois, Emma Goldman foi delegada a uma conferência anarquista em Nova York. Foi eleita para o Comitê Executivo, mas depois se retirou devido a diferenças de opinião sobre questões táticas. As ideias dos anarquistas de língua alemã naquela época ainda não haviam se esclarecido. Alguns ainda acreditavam em métodos parlamentares, sendo a grande maioria adepta de um forte centralismo. Essas diferenças de opinião em relação às táticas levaram, em 1891, a uma ruptura com John Most. Emma Goldman, Alexander Berkman e outros camaradas juntaram-se ao grupo AUTONOMY, no qual Joseph Peukert, Otto Rinke e Claus Timmermann desempenhavam um papel ativo. As amargas controvérsias que se seguiram a essa secessão terminaram apenas com a morte de Most, em 1906.
Uma grande fonte de inspiração para Emma Goldman foram os revolucionários russos que estavam associados ao grupo ZNAMYA. Goldenberg, Solotaroff, Zametkin, Miller, Cahan, o poeta Edelstadt, Ivan von Schewitsch, marido de Helene von Racowitza e editor do VOLKSZEITUNG, e numerosos outros exilados russos, alguns dos quais ainda vivem, eram membros desse grupo. Foi também nessa época que Emma Goldman conheceu Robert Reitzel, o Heine alemão-americano, que exerceu uma grande influência em seu desenvolvimento. Através dele, ela conheceu os melhores escritores da literatura moderna, e a amizade assim iniciada durou até a morte de Reitzel, em 1898.
O movimento operário da América não havia sido afogado no massacre de Chicago; o assassinato dos anarquistas não conseguiu trazer paz ao capitalista ávido por lucro. A luta pela jornada de oito horas continuou. Em 1892, eclodiu a grande greve em Pittsburg. A luta de Homestead, a derrota dos Pinkertons, o surgimento da milícia, a repressão aos grevistas e o triunfo completo da reação são assuntos de história comparativamente recente. Abalado até as profundezas pelos terríveis eventos no teatro de guerra, Alexander Berkman resolveu sacrificar sua vida pela Causa e, assim, dar uma lição prática aos escravos assalariados da América sobre a solidariedade anarquista ativa com o trabalho. Seu ataque a Frick, o Gessler de Pittsburg, falhou, e o jovem de vinte e dois anos foi condenado a uma morte em vida de vinte e dois anos na penitenciária. A burguesia, que durante décadas havia exaltado e elogiado o tiranicídio, agora estava cheia de uma raiva terrível. A imprensa capitalista organizou uma campanha sistemática de calúnia e deturpação contra os anarquistas. A polícia esforçou-se ao máximo para envolver Emma Goldman no ato de Alexander Berkman. A temida agitadora deveria ser silenciada por todos os meios. Foi apenas devido à circunstância de sua presença em Nova York que ela escapou das garras da lei. Foi uma circunstância semelhante que, nove anos mais tarde, durante o incidente McKinley, foi fundamental para preservar sua liberdade. É quase inacreditável com que quantidade de estupidez, baixeza e vileza os jornalistas do período tentaram sobrecarregar os anarquistas. É preciso ler os arquivos dos jornais para compreender a enormidade da incriminação e da calúnia. Seria difícil retratar a agonia de alma que Emma Goldman experimentou naqueles dias. As perseguições da imprensa capitalista deveriam ser suportadas por uma anarquista com relativa equanimidade; mas os ataques vindos de dentro das próprias fileiras eram muito mais dolorosos e insuportáveis. O ato de Berkman foi severamente criticado por Most e alguns de seus seguidores entre os anarquistas alemães e judeus. Seguiram-se amargas acusações e recriminações em reuniões públicas e encontros privados. Perseguida por todos os lados, tanto por defender Berkman e seu ato quanto por causa de sua atividade revolucionária, Emma Goldman foi assediada a ponto de não conseguir abrigo. Orgulhosa demais para buscar segurança na negação de sua identidade, ela escolheu passar as noites nos parques públicos em vez de expor seus amigos ao perigo ou à vexação por suas visitas. O cálice já amargo encheu-se até transbordar com a tentativa de suicídio de um jovem camarada que compartilhara moradia com Emma Goldman, Alexander Berkman e um amigo artista comum.
Muitas mudanças ocorreram desde então. Alexander Berkman sobreviveu ao Inferno da Pensilvânia e está de volta às fileiras dos anarquistas militantes, com seu espírito inabalado, sua alma cheia de entusiasmo pelos ideais de sua juventude. O camarada artista está agora entre os ilustradores bem conhecidos de Nova York. O candidato ao suicídio deixou a América logo após sua infeliz tentativa de morrer e foi subsequentemente preso e condenado a oito anos de trabalhos forçados por contrabandear literatura anarquista para a Alemanha. Ele, também, suportou os terrores da vida na prisão e retornou ao movimento revolucionário, conquistando desde então a bem merecida reputação de um talentoso escritor na Alemanha.
Para evitar o acampamento indefinido nos parques, Emma Goldman foi finalmente forçada a mudar-se para uma casa na Third Street, ocupada exclusivamente por prostitutas. Lá, entre os párias de nossa boa sociedade cristã, ela podia pelo menos alugar um pedaço de quarto e encontrar descanso e trabalho em sua máquina de costura. As mulheres da rua mostraram mais refinamento de sentimento e simpatia sincera do que os padres da Igreja. Mas a resistência humana havia sido exaurida por sofrimento e privação excessivos. Houve um colapso físico completo, e a renomada agitadora foi levada para a "República Boêmia" — um grande prédio de cortiço que derivava seu eufônico apelido do fato de que seus ocupantes eram, em sua maioria, anarquistas boêmios. Aqui, Emma Goldman encontrou amigos prontos para ajudá-la. Justus Schwab, um dos melhores representantes do período revolucionário alemão daquela época, e o Dr. Solotaroff foram incansáveis nos cuidados com a paciente. Aqui, também, ela conheceu Edward Brady, a nova amizade amadurecendo posteriormente em uma estreita intimidade. Brady fora um participante ativo no movimento revolucionário da Áustria e, na época de seu conhecimento com Emma Goldman, havia sido recentemente libertado de uma prisão austríaca após um encarceramento de dez anos.
Os médicos diagnosticaram a doença como tuberculose, e a paciente foi aconselhada a deixar Nova York. Ela foi para Rochester, na esperança de que o círculo familiar ajudasse a restaurar sua saúde. Seus pais haviam emigrado vários anos antes para a América, estabelecendo-se naquela cidade. Entre os principais traços da raça judaica está o forte apego entre os membros da família e, especialmente, entre pais e filhos. Embora seus pais conservadores não pudessem simpatizar com as aspirações idealistas de Emma Goldman e não aprovassem seu modo de vida, eles receberam sua filha doente de braços abertos. O descanso e o cuidado desfrutados no lar parental, e a presença animadora da amada irmã Helene, mostraram-se tão benéficos que, em pouco tempo, ela estava suficientemente recuperada para retomar sua atividade energética.
Não há descanso na vida de Emma Goldman. Esforço incessante e luta contínua em direção ao objetivo concebido são os elementos essenciais de sua natureza. Tempo precioso demais já havia sido desperdiçado. Era imperativo retomar seus trabalhos imediatamente. O país estava em meio a uma crise, e milhares de desempregados lotavam as ruas dos grandes centros industriais. Com frio e fome, eles vagavam pelo país na vã procura por trabalho e pão. Os anarquistas desenvolveram uma propaganda vigorosa entre os desempregados e os grevistas. Uma manifestação monstruosa de fabricantes de capas em greve e de desempregados ocorreu na Union Square, em Nova York. Emma Goldman foi uma das palestrantes convidadas. Ela proferiu um discurso apaixonado, retratando em palavras ardentes a miséria da vida do escravo assalariado, e citou a famosa máxima do Cardeal Manning: "A necessidade não conhece lei, e o homem faminto tem um direito natural a uma parte do pão de seu vizinho". Ela concluiu sua exortação com as palavras: "Peçam trabalho. Se não lhes derem trabalho, peçam pão. Se não lhes derem trabalho ou pão, então tomem o pão".
No dia seguinte, ela partiu para a Filadélfia, onde deveria discursar em uma reunião pública. A imprensa capitalista novamente soou o alarme. Se os socialistas e anarquistas tivessem permissão para continuar agitando, havia o perigo iminente de que os trabalhadores logo aprendessem a entender a maneira como são roubados da alegria e da felicidade da vida. Tal possibilidade deveria ser evitada a qualquer custo. O chefe de polícia de Nova York, Byrnes, obteve um mandado judicial para a prisão de Emma Goldman. Ela foi detida pelas autoridades da Filadélfia e encarcerada por vários dias na prisão de Moyamensing, aguardando os papéis de extradição que Byrnes confiou ao detetive Jacobs. Este homem, Jacobs (que Emma Goldman reencontrou vários anos depois sob circunstâncias muito desagradáveis), propôs a ela, enquanto ela era levada prisioneira para Nova York, que traísse a causa dos trabalhadores. Em nome de seu superior, o chefe Byrnes, ele ofereceu recompensa lucrativa. Como os homens são estúpidos às vezes! Que pobreza de observação psicológica imaginar a possibilidade de traição por parte de uma jovem idealista russa, que havia sacrificado voluntariamente todas as considerações pessoais para ajudar na emancipação do trabalho.
Em outubro de 1893, Emma Goldman foi julgada nos tribunais criminais de Nova York sob a acusação de incitação a motim. O júri "inteligente" ignorou o testemunho das doze testemunhas de defesa em favor da evidência dada por um único homem — o detetive Jacobs. Ela foi considerada culpada e sentenciada a cumprir um ano na penitenciária de Blackwell's Island. Desde a fundação da República, ela foi a primeira mulher — excluindo a Sra. Surratt — a ser presa por um delito político. A sociedade respeitável havia muito tempo marcado nela a Letra Escarlate.
Emma Goldman passou seu tempo na penitenciária na qualidade de enfermeira no hospital da prisão. Aqui ela encontrou oportunidade de lançar alguns raios de bondade nas vidas sombrias das infelizes cujas irmãs de rua não desdenharam, dois anos antes, de compartilhar com ela a mesma casa. Ela também encontrou na prisão oportunidade de estudar inglês e sua literatura, e de familiarizar-se com os grandes escritores americanos. Em Bret Harte, Mark Twain, Walt Whitman, Thoreau e Emerson, ela encontrou grandes tesouros.
Ela deixou Blackwell's Island no mês de agosto de 1894, uma mulher de vinte e cinco anos, desenvolvida e amadurecida, e intelectualmente transformada. De volta à arena, mais rica em experiência, purificada pelo sofrimento. Ela não se sentia mais abandonada e sozinha. Muitas mãos foram estendidas para recebê-la. Havia na época numerosos oásis intelectuais em Nova York. O bar de Justus Schwab, no número cinquenta da First Street, era o centro onde se reuniam anarquistas, literatos e boêmios. Entre outros, ela também conheceu nessa época vários anarquistas americanos e formou a amizade de Voltairine de Cleyre, Wm. C. Owen, Srta. Van Etton e Dyer D. Lum, ex-editor do ALARM e executor dos últimos desejos dos mártires de Chicago. Em John Swinton, o nobre velho lutador pela liberdade, ela encontrou um de seus amigos mais leais. Outros centros intelectuais existiam: SOLIDARITY, publicado por John Edelman; LIBERTY, pelo anarquista individualista Benjamin R. Tucker; THE REBEL, por Harry Kelly; DER STURMVOGEL, uma publicação anarquista alemã, editada por Claus Timmermann; DER ARME TEUFEL, cujo gênio presidente era o inimitável Robert Reitzel. Através de Arthur Brisbane, agora tenente-chefe de William Randolph Hearst, ela conheceu os escritos de Fourier. Brisbane, então, ainda não estava submerso no pântano da corrupção política. Ele enviou a Emma Goldman uma carta amável para Blackwell's Island, juntamente com a biografia de seu pai, o entusiasmado discípulo americano de Fourier.
Emma Goldman tornou-se, após sua libertação da penitenciária, um fator na vida pública de Nova York. Ela era apreciada nos círculos radicais por sua devoção, seu idealismo e seriedade. Várias pessoas buscavam sua amizade, e algumas tentaram persuadi-la a ajudar na promoção de suas causas particulares. Assim, o reverendo Parkhurst, durante a investigação Lexow, fez o possível para induzi-la a se juntar ao Comitê de Vigilância para lutar contra o Tammany Hall. Maria Louise, a alma de um centro social, agiu como intermediária de Parkhurst. É quase desnecessário mencionar qual resposta esta última recebeu de Emma Goldman. Incidentemente, Maria Louise tornou-se posteriormente uma Mahatma. Durante a campanha da prata livre, o ex-Burgess McLuckie, uma das personalidades mais genuínas na greve de Homestead, visitou Nova York em um esforço para entusiasmar os radicais locais pela prata livre. Ele também tentou interessar Emma Goldman, mas com não mais sucesso do que a Mahatma Maria Louise da fama de Parkhurst-Lexow.
Em 1894, a luta dos anarquistas na França atingiu sua expressão mais alta. O terror branco por parte dos arrivistas republicanos foi respondido pelo terror vermelho de nossos camaradas franceses. Com febril ansiedade, os anarquistas de todo o mundo acompanhavam essa luta social. A propaganda pelo ato encontrou seu eco ressonante em quase todos os países. Para melhor se familiarizar com as condições do velho mundo, Emma Goldman partiu para a Europa no ano de 1895. Após uma turnê de palestras na Inglaterra e na Escócia, ela foi para Viena, onde ingressou no ALLGEMEINE KRANKENHAUS para se preparar como parteira e enfermeira, e onde, ao mesmo tempo, estudou as condições sociais. Ela também encontrou oportunidade para se familiarizar com a literatura mais nova da Europa: Hauptmann, Nietzsche, Ibsen, Zola, Thomas Hardy e outros artistas rebeldes eram lidos com grande entusiasmo.
No outono de 1896, ela retornou a Nova York via Zurique e Paris. O projeto da libertação de Alexander Berkman estava em pauta. A bárbara sentença de vinte e dois anos havia despertado tremenda indignação entre os elementos radicais. Sabia-se que o Conselho de Perdão da Pensilvânia buscaria o conselho de Carnegie e Frick no caso de Alexander Berkman. Foi, portanto, sugerido que esses Sultões da Pensilvânia fossem abordados — não com o intuito de obter sua graça, mas com o pedido de que não tentassem influenciar o Conselho. Ernest Crosby ofereceu-se para ver Carnegie, sob a condição de que Alexander Berkman repudiasse seu ato. Isso, no entanto, estava absolutamente fora de questão. Ele nunca seria culpado de tal abjuração de sua própria personalidade e autorrespeito. Esses esforços levaram a relações amigáveis entre Emma Goldman e o círculo de Ernest Crosby, Bolton Hall e Leonard Abbott. No ano de 1897, ela empreendeu sua primeira grande turnê de palestras, que se estendeu até a Califórnia. Essa turnê popularizou seu nome como a representante dos oprimidos, sua eloquência ecoando de costa a costa. Na Califórnia, Emma Goldman tornou-se amiga dos membros da família Isaak e aprendeu a apreciar seus esforços pela Causa. Sob obstáculos tremendos, os Isaak publicaram primeiro o FIREBRAND e, após sua supressão pelo Departamento Postal, o FREE SOCIETY. Foi também durante essa turnê que Emma Goldman conheceu aquele grande velho rebelde da liberdade sexual, Moses Harman.
Durante a guerra hispano-americana, o espírito de chauvinismo estava em sua maré mais alta. Para conter essa situação perigosa e, ao mesmo tempo, arrecadar fundos para os revolucionários cubanos, Emma Goldman afiliou-se aos camaradas latinos, entre outros Gori, Esteve, Palaviccini, Merlino, Petruccini e Ferrara. No ano de 1899, seguiu-se outra turnê prolongada de agitação, terminando na Costa do Pacífico. Prisões e acusações repetidas, embora sem maus resultados finais, marcaram cada turnê de propaganda.
Em novembro do mesmo ano, a incansável agitadora partiu para uma segunda turnê de palestras na Inglaterra e na Escócia, encerrando sua jornada com o primeiro Congresso Anarquista Internacional em Paris. Era a época da Guerra dos Bôeres, e novamente o ufanismo estava no auge, como dois anos antes celebrara suas orgias durante a guerra hispano-americana. Várias reuniões, tanto na Inglaterra quanto na Escócia, foram perturbadas e dispersadas por multidões patrióticas. Emma Goldman encontrou nessa ocasião a oportunidade de reencontrar vários camaradas ingleses e personalidades interessantes como Tom Mann e as irmãs Rossetti, as talentosas filhas de Dante Gabriel Rossetti, então editoras da revista anarquista THE TORCH. Uma das esperanças de toda a sua vida encontrou aqui seu cumprimento: ela entrou em contato próximo e amigável com Peter Kropotkin, Enrico Malatesta, Nicholas Tchaikovsky, W. Tcherkessov e Louise Michel. Velhos guerreiros na causa da humanidade, cujos feitos entusiasmaram milhares de seguidores em todo o mundo, e cujas vidas e trabalhos inspiraram outros milhares com nobre idealismo e autossacrifício. Velhos guerreiros, eles, contudo, sempre jovens com a coragem dos dias anteriores, inabaláveis em espírito e cheios da firme esperança do triunfo final da Anarquia.
O abismo no movimento operário revolucionário, que resultou da ruptura da INTERNACIONAL, não podia mais ser transposto. Duas filosofias sociais estavam engajadas em combate amargo. O Congresso Internacional em 1889, em Paris; em 1892, em Zurique; e em 1896, em Londres, produziu diferenças irreconciliáveis. A maioria dos social-democratas, abjurando seu passado libertário e tornando-se políticos, conseguiu excluir os delegados revolucionários e anarquistas. Estes últimos decidiram, a partir de então, realizar congressos separados. Seu primeiro congresso deveria ocorrer em 1900, em Paris. O renegado socialista Millerand, que havia subido ao Ministério do Interior, desempenhou aqui um papel de Judas. O congresso dos revolucionários foi suprimido, e os delegados dispersos dois dias antes da abertura agendada. Mas Millerand não tinha objeções contra o Congresso Social-Democrata, que foi posteriormente aberto com todas as trombetas da arte publicitária.
No entanto, o renegado não alcançou seu objetivo. Vários delegados conseguiram realizar uma conferência secreta na casa de um camarada fora de Paris, onde vários pontos de teoria e tática foram discutidos. Emma Goldman participou consideravelmente desses procedimentos e, naquela ocasião, entrou em contato com numerosos representantes do movimento anarquista da Europa.
Devido à supressão do congresso, os delegados corriam o risco de serem expulsos da França. Nessa época também chegaram as más notícias da América a respeito de outra tentativa fracassada de libertar Alexander Berkman, provando ser um grande choque para Emma Goldman. Em novembro de 1900, ela retornou à América para se dedicar à sua profissão de enfermeira, ao mesmo tempo que participava ativamente da propaganda americana. Entre outras atividades, ela organizou reuniões monstruosas de protesto contra os terríveis ultrajes do governo espanhol, perpetrados sobre os prisioneiros políticos torturados em Montjuich.
Em sua vocação como enfermeira, Emma Goldman desfrutou de muitas oportunidades de encontrar os mais incomuns e peculiares personagens. Poucos teriam identificado a "notória anarquista" na pequena mulher loira, vestida simplesmente com o uniforme de enfermeira. Pouco depois de seu retorno da Europa, ela conheceu uma paciente chamada Sra. Stander, uma viciada em morfina que sofria agonias excruciantes. Ela necessitava de atenção cuidadosa para poder supervisionar um negócio muito importante que conduzia — o da Sra. Warren. Na Third Street, perto da Third Avenue, situava-se sua residência particular e, perto dela, conectada por uma entrada separada, ficava seu local de trabalho. Certa noite, a enfermeira, ao entrar no quarto de sua paciente, deu de cara subitamente com um visitante masculino, de pescoço grosso e aparência brutal. O homem não era outro senão o Sr. Jacobs, o detetive que, sete anos antes, levara Emma Goldman como prisioneira de Filadélfia e que tentara persuadi-la, a caminho de Nova Iorque, a trair a causa dos trabalhadores. Seria difícil descrever a expressão de perplexidade no rosto do homem ao enfrentar tão inesperadamente Emma Goldman, a enfermeira de sua amante. O bruto transformou-se subitamente em um cavalheiro, esforçando-se para desculpar seu comportamento vergonhoso na ocasião anterior. Jacobs era o "protetor" da Sra. Stander e intermediário entre a casa e a polícia. Vários anos depois, como membro da equipe de detetives do promotor público Jerome, ele cometeu perjúrio, foi condenado e enviado para Sing Sing por um ano. Ele provavelmente está agora empregado por alguma agência de detetives particulares, um desejável pilar da sociedade respeitável.
Em 1901, Peter Kropotkin foi convidado pelo Lowell Institute de Massachusetts para proferir uma série de palestras sobre literatura russa. Foi sua segunda turnê americana e, naturalmente, os camaradas estavam ansiosos por usar sua presença em benefício do movimento. Emma Goldman entrou em correspondência com Kropotkin e conseguiu obter seu consentimento para organizar uma série de palestras para ele. Ela também dedicou suas energias a organizar as turnês de outros anarquistas bem conhecidos, principalmente as de Charles W. Mowbray e John Turner. Da mesma forma, ela sempre participou de todas as atividades do movimento, sempre pronta a dar seu tempo, habilidade e energia à Causa.
No dia seis de setembro de 1901, o presidente McKinley foi baleado por Leon Czolgosz em Buffalo. Imediatamente, uma campanha de perseguição sem precedentes foi posta em movimento contra Emma Goldman, como a anarquista mais conhecida do país. Embora não houvesse absolutamente nenhum fundamento para a acusação, ela, juntamente com outros anarquistas proeminentes, foi presa em Chicago, mantida em confinamento por várias semanas e submetida ao mais severo interrogatório. Nunca antes na história do país havia ocorrido uma caçada humana tão terrível contra uma pessoa na vida pública. Mas os esforços da polícia e da imprensa para conectar Emma Goldman a Czolgosz revelaram-se inúteis. Contudo, o episódio a deixou ferida no coração. O sofrimento físico, a humilhação e a brutalidade nas mãos da polícia ela podia suportar. A depressão da alma era muito pior. Ela sentia-se oprimida pela constatação da estupidez, falta de compreensão e vileza que caracterizaram os eventos daqueles dias terríveis. A atitude de incompreensão por parte da maioria de seus próprios camaradas em relação a Czolgosz quase a levou ao desespero. Comovida até o âmago de sua alma, ela publicou um artigo sobre Czolgosz no qual tentava explicar o ato em seus aspectos sociais e individuais. Como uma vez antes, após o ato de Berkman, ela agora também era incapaz de encontrar alojamento; como um verdadeiro animal selvagem, ela era expulsa de um lugar para outro. Esta terrível perseguição e, especialmente, a atitude de seus camaradas tornaram impossível para ela continuar a propaganda. A dor do corpo e da alma precisava primeiro sarar. Durante 1901-1903, ela não retomou a tribuna. Como "Srta. Smith", ela levou uma vida tranquila, exercendo sua profissão e dedicando seu lazer ao estudo da literatura e, particularmente, ao drama moderno, que ela considera um dos maiores disseminadores de ideias radicais e sentimentos esclarecidos.
No entanto, uma coisa a perseguição a Emma Goldman realizou. Seu nome foi trazido perante o público com maior frequência e ênfase do que nunca, o assédio malicioso à tão difamada agitadora despertando forte simpatia em muitos círculos. Pessoas de várias esferas da vida começaram a se interessar por sua luta e suas ideias. Uma melhor compreensão e apreciação começavam agora a se manifestar.
A chegada à América do anarquista inglês, John Turner, induziu Emma Goldman a deixar sua aposentadoria. Novamente ela se lançou em suas atividades públicas, organizando um movimento enérgico para a defesa de Turner, a quem as autoridades de Imigração condenaram à deportação por causa da lei de exclusão de anarquistas, aprovada após a morte de McKinley.
Quando Paul Orleneff e Mme. Nazimova chegaram a Nova Iorque para familiarizar o público americano com a arte dramática russa, Emma Goldman tornou-se a gerente do empreendimento. Com muita paciência e perseverança, ela conseguiu arrecadar os fundos necessários para apresentar os artistas russos aos espectadores de teatro de Nova Iorque e Chicago. Embora financeiramente não tenha sido um sucesso, o empreendimento provou ser de grande valor artístico. Como gerente do teatro russo, Emma Goldman desfrutou de algumas experiências únicas. O Sr. Orleneff só podia conversar em russo, e a "Srta. Smith" foi forçada a atuar como sua intérprete em várias funções sociais. A maioria das damas aristocráticas da Fifth Avenue não tinha a menor ideia de que a amável gerente que discutia tão divertidamente filosofia, drama e literatura em seus chás das cinco era a "notória" Emma Goldman. Se esta última escrevesse um dia sua autobiografia, ela sem dúvida teria muitos anedotas interessantes para relatar em conexão com essas experiências.
A publicação anarquista semanal, FREE SOCIETY, editada pela família Isaak, foi forçada a suspender atividades em consequência da fúria nacional que varreu o país após a morte de McKinley. Para preencher a lacuna, Emma Goldman, em cooperação com Max Baginski e outros camaradas, decidiu publicar uma revista mensal dedicada à promoção de ideias anarquistas na vida e na literatura. A primeira edição de MOTHER EARTH apareceu no mês de março de 1906, as despesas iniciais do periódico sendo parcialmente cobertas pelos lucros de um benefício teatral dado por Orleneff, Mme. Nazimova e sua companhia, em favor da revista anarquista. Sob dificuldades e obstáculos tremendos, a incansável propagandista conseguiu continuar MOTHER EARTH ininterruptamente desde 1906 — um feito raramente igualado nos anais das publicações radicais.
Em maio de 1906, Alexander Berkman finalmente deixou o inferno da Pensilvânia, onde passara os melhores catorze anos de sua vida. Ninguém acreditava na possibilidade de sua sobrevivência. Sua libertação encerrou um pesadelo de catorze anos para Emma Goldman, e um capítulo importante de sua carreira foi assim concluído.
Em nenhum lugar o nascimento da revolução russa despertou resposta tão vital e ativa quanto entre os russos que viviam na América. Os heróis do movimento revolucionário na Rússia, Tchaikovsky, Mme. Breshkovskaia, Gershuni e outros visitaram estas costas para despertar as simpatias do povo americano em relação à luta pela liberdade e para arrecadar ajuda para sua continuidade e apoio. O sucesso desses esforços deveu-se em considerável medida aos esforços, eloquência e talento para a organização por parte de Emma Goldman. Esta oportunidade permitiu-lhe prestar serviços valiosos à luta pela liberdade em sua terra natal. Não é geralmente sabido que são os anarquistas os principais responsáveis por garantir o sucesso, moral e financeiro, da maioria dos empreendimentos radicais. O anarquista é indiferente à apreciação reconhecida; as necessidades da Causa absorvem todo o seu interesse, e a elas dedica sua energia e capacidades. No entanto, pode-se mencionar que algumas pessoas, de resto decentes, embora sempre ansiosas pelo apoio e cooperação anarquistas, estão sempre dispostas a monopolizar todo o crédito pelo trabalho realizado. Durante as últimas décadas, foram principalmente os anarquistas que organizaram todos os grandes esforços revolucionários e ajudaram em cada luta pela liberdade. Mas por medo de chocar a multidão respeitável, que encara os anarquistas como apóstolos de Satanás, e por causa de sua posição social na sociedade burguesa, os pretensos radicais ignoram a atividade dos anarquistas.
Em 1907, Emma Goldman participou como delegada do segundo Congresso Anarquista, em Amsterdã. Ela foi intensamente ativa em todos os seus procedimentos e apoiou a organização da INTERNATIONALE anarquista. Juntamente com o outro delegado americano, Max Baginski, ela apresentou ao congresso um relatório exaustivo das condições americanas, encerrando com as seguintes observações características:
"A acusação de que o anarquismo é destrutivo, em vez de construtivo, e que, portanto, o anarquismo se opõe à organização, é uma das muitas falsidades espalhadas pelos nossos oponentes. Eles confundem nossas instituições sociais atuais com organização; portanto, não conseguem entender como podemos nos opor às primeiras e, ainda assim, favorecer a última. O fato, porém, é que as duas não são idênticas.
"O Estado é comumente considerado a forma mais elevada de organização. Mas é ele, na realidade, uma verdadeira organização? Não seria, antes, uma instituição arbitrária, astuciosamente imposta às massas?
"A indústria, também, é chamada de organização; contudo, nada está mais longe da verdade. A indústria é a pirataria incessante dos ricos contra os pobres.
"Pedem-nos para acreditar que o Exército é uma organização, mas uma investigação detalhada mostrará que não é nada mais do que um instrumento cruel de força cega.
"A Escola Pública! As faculdades e outras instituições de ensino, não são elas modelos de organização, oferecendo ao povo ótimas oportunidades de instrução? Longe disso. A escola, mais do que qualquer outra instituição, é um verdadeiro quartel, onde a mente humana é treinada e manipulada para a submissão a vários espectros sociais e morais, e assim preparada para continuar nosso sistema de exploração e opressão.
"A organização, como NÓS a entendemos, no entanto, é uma coisa diferente. Ela se baseia, primariamente, na liberdade. É um agrupamento natural e voluntário de energias para obter resultados benéficos à humanidade.
"É a harmonia do crescimento orgânico que produz variedade de cor e forma, o todo completo que admiramos na flor. Analogamente, a atividade organizada de seres humanos livres, imbuídos do espírito de solidariedade, resultará na perfeição da harmonia social, que chamamos de anarquismo. De fato, o anarquismo sozinho torna possível a organização não autoritária de interesses comuns, uma vez que abole o antagonismo existente entre indivíduos e classes.
"Sob as condições atuais, o antagonismo dos interesses econômicos e sociais resulta em uma guerra implacável entre as unidades sociais e cria um obstáculo intransponível no caminho de uma comunidade cooperativa.
"Existe uma noção equivocada de que a organização não promove a liberdade individual; que, pelo contrário, significa a decadência da individualidade. Na realidade, porém, a verdadeira função da organização é auxiliar o desenvolvimento e o crescimento da personalidade.
"Assim como as células animais, por cooperação mútua, expressam seus poderes latentes na formação do organismo completo, assim o indivíduo, por esforço cooperativo com outros indivíduos, atinge sua forma mais elevada de desenvolvimento.
"Uma organização, no verdadeiro sentido, não pode resultar da combinação de meros nadas. Ela deve ser composta de individualidades autoconscientes e inteligentes. De fato, o total das possibilidades e atividades de uma organização é representado na expressão de energias individuais.
"Segue-se, portanto, logicamente, que quanto maior o número de personalidades fortes e autoconscientes em uma organização, menor o perigo de estagnação e mais intenso seu elemento vital.
"O anarquismo afirma a possibilidade de uma organização sem disciplina, medo ou punição, e sem a pressão da pobreza: um novo organismo social que porá fim à terrível luta pelos meios de existência — a luta selvagem que mina as qualidades mais refinadas no homem e amplia cada vez mais o abismo social. Em suma, o anarquismo esforça-se por uma organização social que estabeleça o bem-estar para todos.
"O germe de tal organização pode ser encontrado naquela forma de sindicalismo que acabou com a centralização, a burocracia e a disciplina, e que favorece a ação independente e direta por parte de seus membros."
O progresso muito considerável das ideias anarquistas na América pode ser melhor avaliado pelo sucesso notável das três extensas turnês de palestras de Emma Goldman desde o Congresso de Amsterdã de 1907. Cada turnê estendeu-se por novos territórios, incluindo localidades onde o anarquismo nunca antes havia sido ouvido. Mas o aspecto mais gratificante de seus esforços incansáveis é a venda tremenda de literatura anarquista, cujo efeito propagandístico não pode ser estimado. Foi durante uma dessas turnês que um incidente notável aconteceu, demonstrando de forma impressionante as potencialidades inspiradoras da ideia anarquista. Em São Francisco, em 1908, a palestra de Emma Goldman atraiu um soldado do Exército dos Estados Unidos, William Buwalda. Por ousar comparecer a uma reunião anarquista, a livre República submeteu Buwalda a uma corte marcial e o aprisionou por um ano. Graças ao poder regenerador da nova filosofia, o governo perdeu um soldado, mas a causa da liberdade ganhou um homem.
Uma propagandista da importância de Emma Goldman é necessariamente um espinho agudo para a reação. Ela é vista como um perigo para a existência contínua da usurpação autoritária. Não é de admirar, então, que o inimigo recorra a todos e quaisquer meios para torná-la impossível. Uma tentativa sistemática de suprimir suas atividades foi organizada há um ano pela força policial unida do país. Mas, como todas as tentativas anteriores semelhantes, ela falhou de maneira brilhante. Protestos enérgicos por parte do elemento intelectual da América conseguiram derrubar a conspiração covarde contra a liberdade de expressão. Outra tentativa de tornar Emma Goldman impossível foi ensaiada pelas autoridades federais em Washington. A fim de privá-la dos direitos de cidadania, o governo revogou os documentos de cidadania de seu marido, com quem ela se casara na tenra idade de dezoito anos e cujo paradeiro, se ele estiver vivo, não pôde ser determinado nas últimas duas décadas. O grande governo dos gloriosos Estados Unidos não hesitou em rebaixar-se aos métodos mais desprezíveis para realizar esse feito. Mas como sua cidadania nunca provou ser útil a Emma Goldman, ela pode suportar a perda com o coração leve.
Existem personalidades que possuem uma individualidade tão poderosa que, por sua própria força, exercem a influência mais potente sobre os melhores representantes de seu tempo. Michael Bakunin era uma dessas personalidades. Não fosse por ele, Richard Wagner nunca teria escrito DIE KUNST UND DIE REVOLUTION. Emma Goldman é uma personalidade semelhante. Ela é um fator forte na vida sociopolítica da América. Em virtude de sua eloquência, energia e mentalidade brilhante, ela molda as mentes e corações de milhares de seus ouvintes.
Profunda simpatia e compaixão pela humanidade sofredora, e uma honestidade inexorável consigo mesma, são os traços principais de Emma Goldman. Nenhuma pessoa, seja amigo ou inimigo, ousará controlar seu objetivo ou ditar seu modo de vida. Ela pereceria antes de sacrificar suas convicções, ou o direito de autopropriedade da alma e do corpo. A respeitabilidade poderia facilmente perdoar o ensino do anarquismo teórico; mas Emma Goldman não apenas prega a nova filosofia; ela também insiste em vivê-la — e esse é o crime supremo e imperdoável. Se ela, como tantos radicais, considerasse seu ideal apenas como um ornamento intelectual; se ela fizesse concessões à sociedade existente e se comprometesse com velhos preconceitos — então até as visões mais radicais poderiam ser perdoadas nela. Mas o fato de ela levar seu radicalismo a sério; o fato de ele ter permeado seu sangue e medula a ponto de ela não apenas ensinar, mas também praticar suas convicções — isso choca até a radical Sra. Grundy. Emma Goldman vive sua própria vida; ela se associa com publicanos — daí a indignação dos fariseus e saduceus.
Não é mera coincidência que escritores tão divergentes como Pietro Gori e William Marion Reedy encontrem traços semelhantes em sua caracterização de Emma Goldman. Em uma contribuição para LA QUESTIONE SOCIALE, Pietro Gori a chama de "uma força moral, uma mulher que, com a visão de uma sibila, profetiza a vinda de um novo reino para os oprimidos; uma mulher que, com lógica e profunda seriedade, analisa os males da sociedade e retrata, com toque de artista, o amanhecer da humanidade, fundado na igualdade, fraternidade e liberdade".
William Reedy vê em Emma Goldman a "filha do sonho, seu evangelho uma visão que é a visão de todo homem e mulher verdadeiramente grandes que já viveram".
Covardes que temem as consequências de seus atos cunharam a palavra anarquismo filosófico. Emma Goldman é sincera demais, desafiadora demais, para buscar segurança atrás de tais desculpas mesquinhas. Ela é uma anarquista, pura e simples. Ela representa a ideia do anarquismo conforme formulada por Josiah Warren, Proudhon, Bakunin, Kropotkin, Tolstoi. No entanto, ela também entende as causas psicológicas que levam um Caserio, um Vaillant, um Bresci, um Berkman ou um Czolgosz a cometer atos de violência. Para o soldado na luta social, é uma questão de honra entrar em conflito com os poderes das trevas e da tirania, e Emma Goldman orgulha-se de contar entre seus melhores amigos e camaradas homens e mulheres que carregam as feridas e cicatrizes recebidas em batalha.
Nas palavras de Voltairine de Cleyre, caracterizando Emma Goldman após o encarceramento desta última em 1893: O espírito que anima Emma Goldman é o único que libertará o escravo de sua escravidão, o tirano de sua tirania — o espírito que está disposto a ousar e sofrer.
HIPPOLYTE HAVEL.
Nova Iorque, dezembro de 1910.
PREFÁCIO
Há uns vinte e um anos, ouvi o primeiro grande orador anarquista — o inimitável John Most. Parecia-me então, e por muitos anos depois, que a palavra falada, lançada entre as massas com tamanha eloquência maravilhosa, tamanho entusiasmo e fogo, jamais poderia ser apagada da mente e da alma humanas. Como poderia qualquer um de todas as multidões que afluíam às reuniões de Most escapar à sua voz profética! Certamente, bastava-lhes ouvi-lo para abandonar suas velhas crenças e ver a verdade e a beleza do anarquismo!
Meu único grande desejo então era ser capaz de falar com a língua de John Most — para que eu, também, pudesse assim alcançar as massas. Oh, pela ingenuidade do entusiasmo da Juventude! É o tempo em que a coisa mais difícil parece apenas uma brincadeira de criança. É o único período da vida que vale a pena. Ai! Este período é de curta duração. Como a Primavera, o período STURM UND DRANG do propagandista traz crescimento, frágil e delicado, para ser amadurecido ou morto de acordo com seus poderes de resistência contra mil vicissitudes.
Minha grande fé no fazedor de milagres, a palavra falada, já não existe. Percebi sua inadequação para despertar o pensamento, ou mesmo a emoção. Gradualmente, e com não pouca luta contra essa percepção, passei a ver que a propaganda oral é, na melhor das hipóteses, apenas um meio de tirar as pessoas de sua letargia: ela não deixa nenhuma impressão duradoura. O próprio fato de que a maioria das pessoas só comparece a reuniões se incitada por sensações de jornal, ou porque esperam ser divertidas, é prova de que não têm realmente nenhum impulso interno para aprender.
É totalmente diferente com o modo escrito de expressão humana. Ninguém, a menos que esteja intensamente interessado em ideias progressistas, se incomodará com livros sérios. Isso me leva a outra descoberta feita após muitos anos de atividade pública. É esta: apesar de todas as alegações de educação, o aluno aceitará apenas o que sua mente deseja. Já esta verdade é reconhecida pela maioria dos educadores modernos em relação à mente imatura. Penso que é igualmente verdadeira em relação ao adulto. Anarquistas ou revolucionários não podem ser fabricados, assim como músicos. Tudo o que se pode fazer é plantar as sementes do pensamento. Se algo vital se desenvolver, depende em grande parte da fertilidade do solo humano, embora a qualidade da semente intelectual não deva ser negligenciada.
Nas reuniões, o público é distraído por mil coisas não essenciais. O orador, por mais eloquente que seja, não pode escapar da inquietação da multidão, com o resultado inevitável de que ele não conseguirá criar raízes. Com toda a probabilidade, ele não fará nem justiça a si mesmo.
A relação entre o escritor e o leitor é mais íntima. É verdade, os livros são apenas o que queremos que sejam; ou melhor, o que lemos neles. O fato de podermos fazer isso demonstra a importância da expressão escrita em relação à oral. É esta certeza que me induziu a reunir em um volume minhas ideias sobre vários tópicos de importância individual e social. Elas representam as lutas mentais e da alma de vinte e um anos — as conclusões derivadas após muitas mudanças e revisões internas.
Não sou otimista o suficiente para esperar que meus leitores sejam tão numerosos quanto aqueles que me ouviram. Mas prefiro alcançar os poucos que realmente desejam aprender, em vez dos muitos que vêm para se divertir.
Quanto ao livro, ele deve falar por si mesmo. Observações explicativas apenas diminuem as ideias expostas. No entanto, desejo antecipar duas objeções que sem dúvida serão levantadas. Uma refere-se ao ensaio sobre ANARQUISMO; a outra, sobre MINORIAS VERSUS MAIORIAS.
"Por que você não diz como as coisas serão operadas sob o Anarquismo?" é uma pergunta que tive de enfrentar milhares de vezes. Porque acredito que o Anarquismo não pode, de forma consistente, impor um programa ou método rígido ao futuro. As coisas contra as quais cada nova geração tem de lutar, e que ela menos consegue superar, são os fardos do passado, que nos prendem a todos como em uma rede. O Anarquismo, ao menos como eu o entendo, deixa a posteridade livre para desenvolver seus próprios sistemas particulares, em harmonia com suas necessidades. Nossa imaginação mais vívida não pode prever as potencialidades de uma raça liberta de restrições externas. Como, então, alguém pode assumir a tarefa de traçar uma linha de conduta para aqueles que virão? Nós, que pagamos caro por cada sopro de ar puro e fresco, devemos nos precaver contra a tendência de algemar o futuro. Se tivermos sucesso em limpar o solo dos detritos do passado e do presente, deixaremos à posteridade a maior e mais segura herança de todas as eras.
A tendência mais desanimadora comum entre os leitores é arrancar uma frase de uma obra como critério das ideias ou da personalidade do escritor. Friedrich Nietzsche, por exemplo, é denunciado como um odiador dos fracos porque acreditava no UEBERMENSCH. Não ocorre aos intérpretes superficiais daquela mente gigante que essa visão do UEBERMENSCH também exigia um estado de sociedade que não desse origem a uma raça de fracos e escravos.
É a mesma atitude estreita que vê em Max Stirner nada além do apóstolo da teoria "cada um por si, e o diabo que leve o último". Que o individualismo de Stirner contém as maiores possibilidades sociais é completamente ignorado. No entanto, é verdade que, se a sociedade algum dia se tornar livre, será através de indivíduos libertados, cujos esforços livres fazem a sociedade.
Esses exemplos me levam à objeção que será levantada a MINORIAS VERSUS MAIORIAS. Sem dúvida, serei excomungada como inimiga do povo, porque repudio a massa como fator criativo. Prefiro isso a ser culpada das platitudes demagógicas tão comumente em voga como isca para o povo. Percebo a doença das massas oprimidas e deserdadas muito bem, mas recuso-me a prescrever os habituais paliativos ridículos que não permitem ao paciente nem morrer nem se recuperar. Não se pode ser extremado demais ao lidar com males sociais; além disso, o extremo é geralmente o que é verdadeiro. Minha falta de fé na maioria é ditada por minha fé nas potencialidades do indivíduo. Somente quando este último se torna livre para escolher seus associados para um propósito comum, podemos esperar ordem e harmonia deste mundo de caos e desigualdade.
Quanto ao resto, meu livro deve falar por si mesmo.
Emma Goldman
ANARQUISMO: O QUE ELE REALMENTE REPRESENTA
ANARQUIA.
Sempre difamada, amaldiçoada, nunca compreendida, Tu és o terror horripilante de nossa era. "Destroço de toda ordem", grita a multidão, "Tu és, e da guerra e da fúria sem fim do assassinato." Oh, deixa-os gritar. Àqueles que nunca se esforçaram Para encontrar a verdade que jaz atrás de uma palavra, A esses o significado correto da palavra não foi dado. Eles continuarão cegos entre os cegos. Mas tu, ó palavra, tão clara, tão forte, tão pura, Tu dizes tudo o que tomei como meta. Eu te entrego ao futuro! Teu, seguro, Quando cada um ao menos para si mesmo despertar. Vem sob o sol? No frisson da tempestade? Não sei dizer — mas a terra te verá! Eu sou uma Anarquista! Portanto, eu não quero Governar, e também governada eu não serei! JOHN HENRY MACKAY.
A história do crescimento e do desenvolvimento humano é, ao mesmo tempo, a história da terrível luta de cada nova ideia que anuncia a aproximação de um amanhecer mais brilhante. Em seu apego tenaz à tradição, o Antigo nunca hesitou em fazer uso dos meios mais vis e cruéis para impedir o advento do Novo, sob qualquer forma ou período em que este último tenha se afirmado. Tampouco precisamos refazer nossos passos em direção ao passado distante para perceber a enormidade da oposição, das dificuldades e das privações colocadas no caminho de toda ideia progressista. O cavalete, o parafuso de polegar e o chicote ainda estão conosco; assim como o uniforme do condenado e a ira social, todos conspirando contra o espírito que marcha serenamente.
O Anarquismo não poderia esperar escapar do destino de todas as outras ideias de inovação. De fato, como o inovador mais revolucionário e intransigente, o Anarquismo deve necessariamente encontrar a ignorância e o veneno combinados do mundo que ele visa reconstruir.
Lidar, ainda que remotamente, com tudo o que está sendo dito e feito contra o Anarquismo exigiria a escrita de um volume inteiro. Portanto, enfrentarei apenas duas das principais objeções. Ao fazê-lo, tentarei elucidar o que o Anarquismo realmente representa.
O fenômeno estranho da oposição ao Anarquismo é que ele traz à luz a relação entre a chamada inteligência e a ignorância. E, no entanto, isso não é tão estranho assim quando consideramos a relatividade de todas as coisas. A massa ignorante tem a seu favor o fato de não fingir ter conhecimento ou tolerância. Agindo, como sempre faz, por mero impulso, suas razões são como as de uma criança. "Por quê?" "Porque sim." No entanto, a oposição dos incultos ao Anarquismo merece a mesma consideração que a do homem inteligente.
Quais são, então, as objeções? Primeiro, o Anarquismo é impraticável, embora seja um belo ideal. Segundo, o Anarquismo representa violência e destruição, portanto, deve ser repudiado como vil e perigoso. Tanto o homem inteligente quanto a massa ignorante julgam não a partir de um conhecimento profundo do assunto, mas ou por ouvir dizer ou por falsa interpretação.
Um esquema prático, diz Oscar Wilde, é ou aquele que já existe, ou um esquema que poderia ser realizado sob as condições existentes; mas são exatamente as condições existentes que se contestam, e qualquer esquema que pudesse aceitar essas condições é errado e tolo. O verdadeiro critério do prático, portanto, não é se este pode manter intacto o errado ou o tolo; é antes se o esquema tem vitalidade suficiente para deixar as águas estagnadas do velho e construir, bem como sustentar, uma nova vida. À luz dessa concepção, o Anarquismo é, de fato, prático. Mais do que qualquer outra ideia, ele está ajudando a eliminar o errado e o tolo; mais do que qualquer outra ideia, ele está construindo e sustentando uma nova vida.
As emoções do homem ignorante são continuamente mantidas no auge pelas histórias mais arrepiantes sobre o Anarquismo. Não há nada ultrajante demais para ser empregado contra essa filosofia e seus expoentes. Portanto, o Anarquismo representa para os que não pensam o que o proverbial homem mau representa para a criança — um monstro negro empenhado em engolir tudo; em suma, destruição e violência.
Destruição e violência! Como o homem comum saberia que o elemento mais violento da sociedade é a ignorância; que seu poder de destruição é a própria coisa que o Anarquismo está combatendo? Tampouco ele sabe que o Anarquismo, cujas raízes são, por assim dizer, parte das forças da natureza, destrói não o tecido saudável, mas os crescimentos parasitários que se alimentam da essência vital da sociedade. É meramente limpar o solo de ervas daninhas e artemísia, para que ele possa, eventualmente, dar frutos saudáveis.
Alguém disse que é necessário menos esforço mental para condenar do que para pensar. A indolência mental generalizada, tão prevalente na sociedade, prova que isso é verdade demais. Em vez de ir ao fundo de qualquer ideia, de examinar sua origem e significado, a maioria das pessoas irá ou condená-la completamente, ou confiar em alguma definição superficial ou preconceituosa de aspectos não essenciais.
O Anarquismo exorta o homem a pensar, a investigar, a analisar cada proposição; mas para que a capacidade cerebral do leitor médio não seja muito taxada, eu também começarei com uma definição e, então, elaborarei sobre esta última.
ANARQUISMO:—A filosofia de uma nova ordem social baseada na liberdade irrestrita por leis feitas pelo homem; a teoria de que todas as formas de governo repousam sobre a violência, e são, portanto, erradas e prejudiciais, bem como desnecessárias.
A nova ordem social repousa, é claro, na base materialista da vida; mas embora todos os anarquistas concordem que o principal mal hoje é econômico, eles sustentam que a solução desse mal só pode ser trazida à tona através da consideração de CADA FASE da vida — a individual, assim como a coletiva; as fases internas, assim como as externas.
Uma leitura minuciosa da história do desenvolvimento humano revelará dois elementos em amargo conflito um com o outro; elementos que apenas agora estão começando a ser compreendidos, não como estranhos um ao outro, mas como estreitamente relacionados e verdadeiramente harmoniosos, se apenas colocados no ambiente adequado: os instintos individuais e sociais. O indivíduo e a sociedade travaram uma batalha implacável e sangrenta por eras, cada um lutando pela supremacia, porque cada um estava cego para o valor e a importância do outro. Os instintos individuais e sociais — um, um fator potentíssimo para o esforço individual, para o crescimento, aspiração, autorrealização; o outro, um fator igualmente potente para a ajuda mútua e o bem-estar social.
A explicação da tempestade que ruge dentro do indivíduo, e entre ele e seus arredores, não é difícil de encontrar. O homem primitivo, incapaz de entender seu ser, muito menos a unidade de toda a vida, sentia-se absolutamente dependente de forças cegas e ocultas, sempre prontas para zombar e provocar. Dessa atitude cresceram os conceitos religiosos do homem como um mero grão de poeira dependente de poderes superiores no alto, que só podem ser apaziguados pela rendição completa. Todas as sagas primitivas repousam sobre essa ideia, que continua a ser o LEIT-MOTIF dos contos bíblicos que tratam da relação do homem com Deus, com o Estado, com a sociedade. Repetidas vezes o mesmo motivo, O HOMEM NÃO É NADA, OS PODERES SÃO TUDO. Assim, Jeová só suportaria o homem sob a condição de rendição completa. O homem pode ter todas as glórias da terra, mas não deve tornar-se consciente de si mesmo. O Estado, a sociedade e as leis morais cantam o mesmo refrão: O homem pode ter todas as glórias da terra, mas não deve tornar-se consciente de si mesmo.
O Anarquismo é a única filosofia que traz ao homem a consciência de si mesmo; que sustenta que Deus, o Estado e a sociedade não existem, que suas promessas são nulas e sem efeito, uma vez que só podem ser cumpridas através da subordinação do homem. O Anarquismo é, portanto, o professor da unidade da vida; não meramente na natureza, mas no homem. Não há conflito entre os instintos individuais e os sociais, tanto quanto não há entre o coração e os pulmões: um, o receptáculo de uma preciosa essência vital; o outro, o repositório do elemento que mantém a essência pura e forte. O indivíduo é o coração da sociedade, conservando a essência da vida social; a sociedade é o pulmão que está distribuindo o elemento para manter a essência da vida — isto é, o indivíduo — pura e forte.
"A única coisa de valor no mundo", diz Emerson, "é a alma ativa; isto todo homem contém dentro de si. A alma ativa vê a verdade absoluta, profere a verdade e cria." Em outras palavras, o instinto individual é a coisa de valor no mundo. É a verdadeira alma que vê e cria a verdade viva, da qual deve vir uma verdade ainda maior, a alma social renascida.
O Anarquismo é o grande libertador do homem dos fantasmas que o mantiveram cativo; é o árbitro e pacificador das duas forças para a harmonia individual e social. Para realizar essa unidade, o Anarquismo declarou guerra às influências perniciosas que até agora impediram a mistura harmoniosa dos instintos individuais e sociais, do indivíduo e da sociedade.
A Religião, o domínio da mente humana; a Propriedade, o domínio das necessidades humanas; e o Governo, o domínio da conduta humana, representam a fortaleza da escravidão do homem e todos os horrores que ela acarreta. Religião! Como ela domina a mente do homem, como ela humilha e degrada sua alma. Deus é tudo, o homem não é nada, diz a religião. Mas, a partir desse nada, Deus criou um reino tão despótico, tão tirânico, tão cruel, tão terrivelmente exigente que nada além de melancolia, lágrimas e sangue governou o mundo desde que os deuses começaram. O Anarquismo desperta o homem para a rebelião contra esse monstro negro. Quebre suas algemas mentais, diz o Anarquismo ao homem, pois só quando você pensar e julgar por si mesmo você se livrará do domínio das trevas, o maior obstáculo a todo progresso.
Propriedade, o domínio das necessidades do homem, a negação do direito de satisfazer suas necessidades. Houve um tempo em que a propriedade reivindicava um direito divino, quando ela vinha ao homem com o mesmo refrão, assim como a religião: "Sacrifique! Abnegue! Submeta-se!" O espírito do Anarquismo elevou o homem de sua posição prostrada. Ele agora está ereto, com o rosto voltado para a luz. Ele aprendeu a ver a natureza insaciável, devoradora e devastadora da propriedade, e ele está se preparando para matar o monstro.
"Propriedade é roubo", disse o grande anarquista francês, Proudhon. Sim, mas sem risco e perigo para o ladrão. Monopolizando os esforços acumulados do homem, a propriedade roubou dele seu direito de nascimento e o transformou em um indigente e um pária. A propriedade não tem sequer a desculpa gasta pelo tempo de que o homem não cria o suficiente para satisfazer todas as necessidades. O estudante de economia do nível básico sabe que a produtividade do trabalho nas últimas décadas supera em muito a demanda normal cem vezes. Mas o que são demandas normais para uma instituição anormal? A única demanda que a propriedade reconhece é seu próprio apetite glutão por maior riqueza, porque riqueza significa poder; o poder de subjugar, de esmagar, de explorar, o poder de escravizar, de ultrajar, de degradar. A América é particularmente orgulhosa de seu grande poder, sua enorme riqueza nacional. Pobre América, de que adianta toda a sua riqueza, se os indivíduos que compõem a nação são miseravelmente pobres? Se eles vivem na miséria, na imundície, no crime, com a esperança e a alegria perdidas, um exército sem lar, sem solo, de presas humanas.
É geralmente admitido que, a menos que os retornos de qualquer empreendimento comercial excedam o custo, a falência é inevitável. Mas aqueles envolvidos no negócio de produzir riqueza ainda não aprenderam nem mesmo essa simples lição. A cada ano, o custo da produção em vida humana está crescendo (50.000 mortos, 100.000 feridos na América no ano passado); os retornos às massas, que ajudam a criar riqueza, estão ficando cada vez menores. No entanto, a América continua cega para a inevitável falência de nosso negócio de produção. Tampouco este é o único crime deste último. Ainda mais fatal é o crime de transformar o produtor em uma mera partícula de uma máquina, com menos vontade e decisão do que seu mestre de aço e ferro. O homem está sendo roubado não apenas dos produtos de seu trabalho, mas do poder de livre iniciativa, da originalidade e do interesse ou desejo pelas coisas que ele está fazendo.
A riqueza real consiste em coisas de utilidade e beleza, em coisas que ajudam a criar corpos fortes e bonitos e arredores inspiradores para se viver. Mas se o homem está condenado a enrolar algodão em torno de um carretel, ou cavar carvão, ou construir estradas por trinta anos de sua vida, não pode haver conversa sobre riqueza. O que ele dá ao mundo são apenas coisas cinzentas e horríveis, refletindo uma existência monótona e horrível — fraca demais para viver, covarde demais para morrer. Estranhamente, há pessoas que exaltam esse método entorpecente de produção centralizada como a conquista mais orgulhosa de nossa era. Elas falham completamente em perceber que, se continuarmos na subserviência à máquina, nossa escravidão será mais completa do que foi nossa servidão ao Rei. Elas não querem saber que a centralização é o dobre de finados não apenas da liberdade, mas também da saúde e da beleza, da arte e da ciência, sendo todas essas impossíveis em uma atmosfera mecânica, semelhante a um relógio.
O Anarquismo não pode deixar de repudiar tal método de produção: seu objetivo é a expressão mais livre possível de todos os poderes latentes do indivíduo. Oscar Wilde define uma personalidade perfeita como "aquela que se desenvolve sob condições perfeitas, que não é ferida, mutilada ou em perigo". Uma personalidade perfeita, então, só é possível em um estado de sociedade onde o homem é livre para escolher o modo de trabalho, as condições de trabalho e a liberdade para trabalhar. Alguém para quem a fabricação de uma mesa, a construção de uma casa ou o cultivo da terra é o que a pintura é para o artista e a descoberta para o cientista — o resultado de inspiração, de desejo intenso e profundo interesse no trabalho como uma força criativa. Sendo esse o ideal do Anarquismo, seus arranjos econômicos devem consistir em associações voluntárias de produção e distribuição, desenvolvendo-se gradualmente para o comunismo livre, como o melhor meio de produzir com o mínimo desperdício de energia humana. O Anarquismo, no entanto, também reconhece o direito do indivíduo, ou de números de indivíduos, de organizar a qualquer momento outras formas de trabalho, em harmonia com seus gostos e desejos.
Tal exibição livre de energia humana sendo possível apenas sob completa liberdade individual e social, o Anarquismo direciona suas forças contra o terceiro e maior inimigo de toda igualdade social; a saber, o Estado, a autoridade organizada ou a lei estatutária — o domínio da conduta humana.
Assim como a religião algemou a mente humana, e como a propriedade, ou o monopólio das coisas, subjugou e sufocou as necessidades do homem, assim o Estado escravizou seu espírito, ditando cada fase da conduta. "Todo governo em essência", diz Emerson, "é tirania." Não importa se é governo por direito divino ou governo da maioria. Em todos os casos, seu objetivo é a subordinação absoluta do indivíduo.
Referindo-se ao governo americano, o maior anarquista americano, David Thoreau, disse: "Governo, o que é senão uma tradição, embora recente, tentando transmitir-se intacta à posteridade, mas a cada instância perdendo sua integridade; ele não tem a vitalidade e a força de um único homem vivo. A lei nunca tornou o homem um pouco mais justo; e, por meio de seu respeito por ela, até mesmo os bem-intencionados tornam-se diariamente agentes da injustiça."
De fato, a tônica do governo é a injustiça. Com a arrogância e a autossuficiência do Rei que não podia errar, os governos ordenam, julgam, condenam e punem as ofensas mais insignificantes, enquanto se mantêm através da maior de todas as ofensas, a aniquilação da liberdade individual. Assim, Ouida está certa quando sustenta que "o Estado visa apenas incutir em seu público aquelas qualidades pelas quais suas demandas são obedecidas, e seu tesouro é preenchido. Sua realização mais alta é a redução da humanidade a um relógio. Em sua atmosfera, todas aquelas liberdades mais finas e delicadas, que exigem tratamento e expansão espaçosa, inevitavelmente secam e perecem. O Estado exige uma máquina de pagar impostos na qual não há falha, um tesouro no qual nunca há déficit e um público, monótono, obediente, incolor, sem espírito, movendo-se humildemente como um rebanho de ovelhas ao longo de uma estrada reta entre dois muros."
No entanto, até mesmo um rebanho de ovelhas resistiria à chicana do Estado, se não fosse pelos métodos corruptores, tirânicos e opressivos que ele emprega para servir aos seus propósitos. Portanto, Bakunin repudia o Estado como sinônimo da rendição da liberdade do indivíduo ou de pequenas minorias — a destruição do relacionamento social, o cerceamento, ou até mesmo a negação completa da própria vida, para seu próprio engrandecimento. O Estado é o altar da liberdade política e, como o altar religioso, ele é mantido com o propósito de sacrifício humano.
De fato, quase não há pensador moderno que não concorde que o governo, a autoridade organizada ou o Estado é necessário APENAS para manter ou proteger a propriedade e o monopólio. Ele provou ser eficiente apenas nessa função.
Até George Bernard Shaw, que espera o milagroso do Estado sob o fabianismo, admite, no entanto, que "ele é, atualmente, uma enorme máquina para o roubo e a escravização dos pobres pela força bruta". Sendo esse o caso, é difícil ver por que o inteligente prefaciador deseja sustentar o Estado depois que a pobreza tiver deixado de existir.
Infelizmente, ainda há um número de pessoas que persistem na crença fatal de que o governo repousa sobre leis naturais, que ele mantém a ordem social e a harmonia, que ele diminui o crime e que ele impede o homem preguiçoso de espoliar seus semelhantes. Examinarei, portanto, essas alegações.
Uma lei natural é aquele fator no homem que se afirma livre e espontaneamente sem qualquer força externa, em harmonia com as exigências da natureza. Por exemplo, a demanda por nutrição, por gratificação sexual, por luz, ar e exercício, é uma lei natural. Mas sua expressão não precisa da maquinaria do governo, não precisa do cassetete, da arma, da algema ou da prisão. Obedecer a tais leis, se é que podemos chamar de obediência, requer apenas espontaneidade e livre oportunidade. Que os governos não se mantêm através de tais fatores harmoniosos é provado pela terrível gama de violência, força e coerção que todos os governos usam para viver. Portanto, Blackstone está correto quando diz: "As leis humanas são inválidas, porque são contrárias às leis da natureza".
A menos que seja a ordem de Varsóvia após o massacre de milhares de pessoas, é difícil atribuir aos governos qualquer capacidade de ordem ou harmonia social. A ordem derivada através da submissão e mantida pelo terror não é uma grande garantia de segurança; no entanto, essa é a única "ordem" que os governos jamais mantiveram. A verdadeira harmonia social cresce naturalmente da solidariedade de interesses. Em uma sociedade onde aqueles que sempre trabalham nunca têm nada, enquanto aqueles que nunca trabalham desfrutam de tudo, a solidariedade de interesses é inexistente; portanto, a harmonia social não passa de um mito. A única maneira pela qual a autoridade organizada enfrenta essa grave situação é estendendo privilégios ainda maiores àqueles que já monopolizaram a terra, e escravizando ainda mais as massas deserdadas. Assim, todo o arsenal do governo — leis, polícia, soldados, tribunais, legislaturas, prisões — está arduamente empenhado em "harmonizar" os elementos mais antagônicos da sociedade.
A desculpa mais absurda para a autoridade e a lei é que elas servem para diminuir o crime. Além do fato de que o Estado é ele próprio o maior criminoso, quebrando toda lei escrita e natural, roubando na forma de impostos, matando na forma de guerra e pena capital, ele chegou a um impasse absoluto no enfrentamento do crime. Ele falhou totalmente em destruir ou mesmo minimizar o horrível flagelo de sua própria criação.
O crime nada mais é do que energia mal direcionada. Enquanto toda instituição de hoje, econômica, política, social e moral, conspirar para direcionar mal a energia humana para canais errados; enquanto a maioria das pessoas estiver fora de lugar fazendo as coisas que odeia fazer, vivendo uma vida que detesta viver, o crime será inevitável, e todas as leis nos estatutos só podem aumentar, mas nunca eliminar, o crime. O que a sociedade, como existe hoje, sabe sobre o processo de desespero, a pobreza, os horrores, a luta terrível que a alma humana deve passar em seu caminho para o crime e a degradação? Quem, conhecendo esse processo terrível, pode deixar de ver a verdade nestas palavras de Peter Kropotkin:
"Aqueles que equilibrarem os benefícios assim atribuídos à lei e ao castigo e o efeito degradante deste último sobre a humanidade; aqueles que estimarem a torrente de depravação despejada na sociedade humana pelo informante, favorecido até mesmo pelo Juiz, e pago com dinheiro sonante pelos governos, sob o pretexto de ajudar a desmascarar o crime; aqueles que entrarem dentro das paredes da prisão e lá virem o que os seres humanos se tornam quando privados de liberdade, quando submetidos aos cuidados de guardas brutais, a palavras grosseiras e cruéis, a mil humilhações pungentes e penetrantes, concordarão conosco que todo o aparato de prisão e castigo é uma abominação que deveria ser levada ao fim."
A influência dissuasora da lei sobre o homem preguiçoso é absurda demais para merecer consideração. Se a sociedade fosse apenas aliviada do desperdício e da despesa de manter uma classe preguiçosa, e da despesa igualmente grande da parafernália de proteção que essa classe preguiçosa exige, as mesas sociais conteriam abundância para todos, incluindo até mesmo o indivíduo preguiçoso ocasional. Além disso, é bom considerar que a preguiça resulta de privilégios especiais ou de anormalidades físicas e mentais. Nosso atual sistema insano de produção fomenta ambos, e o fenômeno mais espantoso é que as pessoas queiram trabalhar agora. O anarquismo visa despir o trabalho de seu aspecto entorpecente e maçante, de sua tristeza e compulsão. Visa tornar o trabalho um instrumento de alegria, de força, de cor, de real harmonia, para que o tipo de homem mais pobre encontre no trabalho tanto recreação quanto esperança.
Para alcançar tal arranjo de vida, o governo, com suas medidas injustas, arbitrárias e repressivas, deve ser eliminado. Na melhor das hipóteses, ele apenas impôs um único modo de vida a todos, sem levar em conta as variações e necessidades individuais e sociais. Ao destruir o governo e as leis estatutárias, o anarquismo propõe resgatar o autorrespeito e a independência do indivíduo de toda restrição e invasão pela autoridade. Somente na liberdade pode o homem crescer até sua estatura plena. Somente na liberdade ele aprenderá a pensar e se mover, e dará o que há de melhor nele. Somente na liberdade ele perceberá a verdadeira força dos laços sociais que unem os homens e que são a verdadeira base de uma vida social normal.
Mas e quanto à natureza humana? Pode ela ser mudada? E se não, ela perdurará sob o anarquismo?
Pobre natureza humana, que crimes horríveis foram cometidos em teu nome! Todo tolo, do rei ao policial, do clérigo de cabeça chata ao diletante da ciência sem visão, presume falar autoritariamente sobre a natureza humana. Quanto maior o charlatão mental, mais definida sua insistência na perversidade e nas fraquezas da natureza humana. No entanto, como alguém pode falar sobre isso hoje, com cada alma em uma prisão, com cada coração acorrentado, ferido e mutilado?
John Burroughs declarou que o estudo experimental de animais em cativeiro é absolutamente inútil. Seu caráter, seus hábitos, seus apetites sofrem uma transformação completa quando arrancados de seu solo no campo e na floresta. Com a natureza humana engaiolada em um espaço estreito, açoitada diariamente até a submissão, como podemos falar de suas potencialidades?
Liberdade, expansão, oportunidade e, acima de tudo, paz e repouso, sozinhos podem nos ensinar os verdadeiros fatores dominantes da natureza humana e todas as suas possibilidades maravilhosas.
O anarquismo, então, defende realmente a libertação da mente humana do domínio da religião; a libertação do corpo humano do domínio da propriedade; a libertação das algemas e restrições do governo. O anarquismo defende uma ordem social baseada no livre agrupamento de indivíduos com o propósito de produzir riqueza social real; uma ordem que garantirá a todo ser humano livre acesso à terra e pleno desfrute das necessidades da vida, de acordo com desejos, gostos e inclinações individuais.
Isso não é uma fantasia selvagem ou uma aberração da mente. É a conclusão a que chegaram multidões de homens e mulheres intelectuais em todo o mundo; uma conclusão resultante da observação atenta e estudiosa das tendências da sociedade moderna: liberdade individual e igualdade econômica, as forças gêmeas para o nascimento do que é fino e verdadeiro no homem.
Quanto aos métodos. O anarquismo não é, como alguns podem supor, uma teoria do futuro a ser realizada através de inspiração divina. É uma força viva nos assuntos de nossa vida, criando constantemente novas condições. Os métodos do anarquismo, portanto, não compreendem um programa inflexível a ser executado sob todas as circunstâncias. Os métodos devem crescer a partir das necessidades econômicas de cada lugar e clima, e dos requisitos intelectuais e temperamentais do indivíduo. O caráter sereno e calmo de um Tolstói desejará métodos diferentes para a reconstrução social do que a personalidade intensa e transbordante de um Michael Bakunin ou de um Peter Kropotkin. Da mesma forma, deve ser evidente que as necessidades econômicas e políticas da Rússia ditarão medidas mais drásticas do que a Inglaterra ou a América. O anarquismo não defende o exercício militar e a uniformidade; ele defende, no entanto, o espírito de revolta, sob qualquer forma, contra tudo o que impede o crescimento humano. Todos os anarquistas concordam nisso, assim como concordam em sua oposição à maquinaria política como um meio de promover a grande mudança social.
"Todo voto", diz Thoreau, "é uma espécie de jogo, como damas ou gamão, uma brincadeira com o certo e o errado; sua obrigação nunca excede a da conveniência. Mesmo votar pela coisa certa não é fazer nada por ela. Um homem sábio não deixará o direito à mercê do acaso, nem desejará que ele prevaleça através do poder da maioria." Um exame atento da maquinaria da política e de suas conquistas confirmará a lógica de Thoreau.
O que mostra a história do parlamentarismo? Nada além de fracasso e derrota, nem mesmo uma única reforma para melhorar o estresse econômico e social do povo. Leis foram aprovadas e decretos feitos para a melhoria e proteção do trabalho. Assim, foi provado apenas no ano passado que Illinois, com as leis mais rígidas para proteção das minas, teve os maiores desastres mineiros. Em Estados onde prevalecem as leis de trabalho infantil, a exploração infantil está em seu auge, e embora conosco os trabalhadores desfrutem de plenas oportunidades políticas, o capitalismo atingiu o zênite mais descarado.
Mesmo se os trabalhadores pudessem ter seus próprios representantes, pelos quais nossos bons políticos socialistas clamam, que chances há para sua honestidade e boa fé? Basta ter em mente o processo da política para perceber que seu caminho de boas intenções está cheio de armadilhas: manobras de bastidores, intrigas, bajulação, mentiras, trapaças; de fato, chicanas de toda descrição, pelas quais o aspirante político pode alcançar o sucesso. Somado a isso está uma completa desmoralização do caráter e da convicção, até que nada reste que faria alguém esperar qualquer coisa de tal destroço humano. Vez após vez, o povo foi tolo o suficiente para confiar, acreditar e apoiar com seu último centavo os políticos aspirantes, apenas para se ver traído e enganado.
Pode-se alegar que homens de integridade não se tornariam corruptos no moinho de trituração política. Talvez não; mas tais homens seriam absolutamente impotentes para exercer a menor influência em favor do trabalho, como de fato foi demonstrado em numerosos casos. O Estado é o mestre econômico de seus servos. Homens bons, se é que existem, ou permaneceriam fiéis à sua fé política e perderiam seu apoio econômico, ou se apegariam ao seu mestre econômico e seriam totalmente incapazes de fazer o menor bem. A arena política não deixa alternativa, deve-se ser um idiota ou um patife.
A superstição política ainda exerce domínio sobre os corações e mentes das massas, mas os verdadeiros amantes da liberdade não terão mais nada a ver com ela. Em vez disso, eles acreditam com Stirner que o homem tem tanta liberdade quanto está disposto a tomar. O anarquismo, portanto, defende a ação direta, o desafio aberto e a resistência a todas as leis e restrições, econômicas, sociais e morais. Mas o desafio e a resistência são ilegais. Nisso reside a salvação do homem. Tudo o que é ilegal necessita de integridade, autoconfiança e coragem. Em suma, exige espíritos livres e independentes, "homens que sejam homens, e que tenham uma espinha dorsal pela qual você não possa passar a mão".
O sufrágio universal deve a sua existência à ação direta. Se não fosse pelo espírito de rebelião, de desafio por parte dos pais revolucionários americanos, sua posteridade ainda vestiria a casaca do Rei. Se não fosse pela ação direta de um John Brown e seus camaradas, a América ainda negociaria com a carne do homem negro. É verdade que o comércio de carne branca ainda continua; mas isso, também, terá que ser abolido pela ação direta. O sindicalismo, a arena econômica do gladiador moderno, deve sua existência à ação direta. Foi apenas recentemente que a lei e o governo tentaram esmagar o movimento sindical e condenaram os expoentes do direito do homem de se organizar à prisão como conspiradores. Se tivessem buscado afirmar sua causa através de súplicas, pedidos e compromissos, o sindicalismo seria hoje uma quantidade negligenciável. Na França, na Espanha, na Itália, na Rússia, e até mesmo na Inglaterra (observe a crescente rebelião dos sindicatos trabalhistas ingleses), a ação direta, revolucionária e econômica tornou-se uma força tão forte na batalha pela liberdade industrial a ponto de fazer o mundo perceber a tremenda importância do poder do trabalho. A Greve Geral, a suprema expressão da consciência econômica dos trabalhadores, era ridicularizada na América há pouco tempo. Hoje, toda grande greve, para vencer, deve perceber a importância do protesto geral solidário.
A ação direta, tendo se mostrado eficaz nas linhas econômicas, é igualmente potente no ambiente do indivíduo. Lá, cem forças invadem seu ser, e apenas a resistência persistente a elas o libertará finalmente. A ação direta contra a autoridade na oficina, a ação direta contra a autoridade da lei, a ação direta contra a autoridade invasora e intrometida de nosso código moral, é o método lógico e consistente do anarquismo.
Isso não levará a uma revolução? De fato, levará. Nenhuma mudança social real jamais ocorreu sem uma revolução. As pessoas ou não estão familiarizadas com sua história, ou ainda não aprenderam que a revolução não passa de pensamento transformado em ação.
O anarquismo, o grande fermento do pensamento, está hoje permeando cada fase do esforço humano. A ciência, a arte, a literatura, o teatro, o esforço pela melhoria econômica, de fato toda oposição individual e social à desordem existente das coisas, é iluminada pela luz espiritual do anarquismo. É a filosofia da soberania do indivíduo. É a teoria da harmonia social. É a grande, crescente e viva verdade que está reconstruindo o mundo e que inaugurará o Amanhecer.
MINORIAS VERSUS MAIORIAS
Se eu tivesse que fazer um resumo da tendência de nossos tempos, eu diria: Quantidade. A multidão, o espírito de massa, domina em toda parte, destruindo a qualidade. Toda a nossa vida — produção, política e educação — repousa sobre a quantidade, sobre números. O trabalhador que antes se orgulhava da minuciosidade e da qualidade de seu trabalho foi substituído por autômatos sem cérebro e incompetentes, que produzem enormes quantidades de coisas, sem valor para si mesmos e, geralmente, prejudiciais ao resto da humanidade. Assim, a quantidade, em vez de aumentar o conforto e a paz da vida, apenas aumentou o fardo do homem.
Na política, nada além da quantidade conta. Em proporção ao seu aumento, no entanto, princípios, ideais, justiça e retidão são completamente submersos pelo conjunto de números. Na luta pela supremacia, os vários partidos políticos superam uns aos outros em trapaças, enganos, astúcia e maquinações obscuras, confiantes de que aquele que obtém sucesso certamente será aclamado pela maioria como o vencedor. Esse é o único deus: o Sucesso. Quanto a que custo, que custo terrível para o caráter, não é de momento. Não precisamos ir longe em busca de provas para verificar esse triste fato.
Nunca antes a corrupção, a podridão completa de nosso governo esteve tão completamente exposta; nunca antes o povo americano foi confrontado com a natureza de Judas daquele corpo político, que reivindicou por anos estar absolutamente acima de qualquer censura, como o pilar de nossas instituições, o verdadeiro protetor dos direitos e liberdades do povo.
No entanto, quando os crimes daquele partido se tornaram tão descarados que até os cegos podiam vê-los, bastou convocar seus lacaios, e sua supremacia estava assegurada. Assim, as próprias vítimas, enganadas, traídas, ultrajadas cem vezes, decidiram, não contra, mas a favor do vencedor. Atordoados, os poucos perguntaram: como poderia a maioria trair as tradições da liberdade americana? Onde estava seu julgamento, sua capacidade de raciocínio? É exatamente isso, a maioria não pode raciocinar; ela não tem julgamento. Faltando-lhe totalmente originalidade e coragem moral, a maioria sempre colocou seu destino nas mãos de outros. Incapaz de suportar responsabilidades, ela seguiu seus líderes até a destruição. O Dr. Stockman estava certo: "Os inimigos mais perigosos da verdade e da justiça em nosso meio são as maiorias compactas, a maldita maioria compacta". Sem ambição ou iniciativa, a massa compacta não odeia nada tanto quanto a inovação. Ela sempre se opôs, condenou e perseguiu o inovador, o pioneiro de uma nova verdade.
O slogan frequentemente repetido de nosso tempo é, entre todos os políticos, incluindo os socialistas, que a nossa é uma era de individualismo, da minoria. Apenas aqueles que não sondam abaixo da superfície podem ser levados a nutrir essa visão. Os poucos não acumularam a riqueza do mundo? Eles não são os mestres, os reis absolutos da situação? Seu sucesso, no entanto, deve-se não ao individualismo, mas à inércia, à covardia, à submissão total da massa. Esta última quer apenas ser dominada, ser liderada, ser coagida. Quanto ao individualismo, em nenhum momento da história humana ele teve menos chance de expressão, menos oportunidade de se afirmar de uma maneira normal e saudável.
O educador individual imbuído de honestidade de propósito, o artista ou escritor de ideias originais, o cientista ou explorador independente, os pioneiros intransigentes das mudanças sociais são empurrados diariamente para o muro por homens cujo aprendizado e capacidade criativa se tornaram decrépitos com a idade.
Educadores do tipo de Ferrer não são tolerados em lugar nenhum, enquanto os nutricionistas de comida pré-digerida, a la Professores Eliot e Butler, são os perpetuadores bem-sucedidos de uma era de nulidades, de autômatos. No mundo literário e dramático, os Humphrey Wards e Clyde Fitches são os ídolos da massa, enquanto poucos conhecem ou apreciam a beleza e o gênio de um Emerson, Thoreau, Whitman; um Ibsen, um Hauptmann, um Butler Yeats ou um Stephen Phillips. Eles são como estrelas solitárias, muito além do horizonte da multidão.
Editores, gerentes teatrais e críticos não perguntam pela qualidade inerente à arte criativa, mas se ela terá uma boa venda, se atenderá ao paladar do povo? Ai de mim, este paladar é como um lixão; ele saboreia tudo o que não precisa de mastigação mental. Como resultado, o medíocre, o ordinário, o lugar-comum representa a principal produção literária.
Preciso dizer que na arte somos confrontados com os mesmos fatos tristes? Basta inspecionar nossos parques e vias públicas para perceber a hediondez e a vulgaridade da manufatura artística. Certamente, nada além de um gosto de maioria toleraria tal ultraje à arte. Falsa na concepção e bárbara na execução, a estatuária que infesta as cidades americanas tem tanta relação com a verdadeira arte quanto um totem com um Michelangelo. No entanto, essa é a única arte que tem sucesso. O verdadeiro gênio artístico, que não atenderá a noções aceitas, que exerce originalidade e se esforça para ser fiel à vida, leva uma existência obscura e miserável. Seu trabalho pode algum dia se tornar a moda da turba, mas não até que o sangue de seu coração tenha se esgotado; não até que o desbravador tenha deixado de existir, e uma multidão de uma turba sem ideais e sem visão tenha matado o patrimônio do mestre.
Diz-se que o artista de hoje não pode criar porque, como Prometeu, ele está acorrentado à rocha da necessidade econômica. Isso, no entanto, é verdade para a arte em todas as épocas. Michelangelo dependia de seu santo padroeiro, não menos que o escultor ou pintor de hoje, exceto que os conhecedores de arte daqueles dias estavam muito longe da multidão enlouquecida. Eles se sentiam honrados por terem permissão para adorar no santuário do mestre.
O protetor da arte do nosso tempo conhece apenas um critério, um valor: o dólar. Ele não se preocupa com a qualidade de qualquer grande obra, mas com a quantidade de dólares que sua compra implica. Assim, o financista em LES AFFAIRES SONT LES AFFAIRES de Mirbeau aponta para algum arranjo borrado em cores, dizendo: "Veja quão grande é; custou 50.000 francos". Assim como nossos novos-ricos. Os números fabulosos pagos por suas grandes descobertas de arte devem compensar a pobreza de seu gosto.
O pecado mais imperdoável na sociedade é a independência de pensamento. Que isso deva ser tão terrivelmente aparente em um país cujo símbolo é a democracia, é muito significativo do tremendo poder da maioria.
Wendell Phillips disse há cinquenta anos: "Em nosso país de igualdade democrática absoluta, a opinião pública não é apenas onipotente, é onipresente. Não há refúgio contra sua tirania, não há como esconder-se de seu alcance, e o resultado é que, se você pegar a velha lanterna grega e andar por aí para buscar entre cem, não encontrará um único americano que não tenha, ou que não imagine pelo menos que tem, algo a ganhar ou a perder em sua ambição, sua vida social ou seus negócios, por causa da boa opinião e dos votos daqueles que o cercam. E a consequência é que, em vez de sermos uma massa de indivíduos, cada um declarando destemidamente sua própria convicção, como nação comparada a outras nações, somos uma massa de covardes. Mais do que qualquer outro povo, temos medo uns dos outros." Evidentemente, não avançamos muito da condição que confrontou Wendell Phillips.
Hoje, como então, a opinião pública é a tirana onipresente; hoje, como então, a maioria representa uma massa de covardes, disposta a aceitar aquele que reflete sua própria pobreza de alma e espírito. Isso explica a ascensão sem precedentes de um homem como Roosevelt. Ele encarna o próprio elemento mais vil da psicologia da turba. Político, ele sabe que a maioria pouco se importa com ideais ou integridade. O que ela deseja é exibição. Pouco importa se é uma exposição de cães, uma luta de boxe, o linchamento de um "negro", a caçada a algum pequeno infrator, a exposição matrimonial de uma herdeira ou as proezas acrobáticas de um ex-presidente. Quanto mais hediondas as contorções mentais, maior o deleite e os bravos da massa. Assim, pobre em ideais e vulgar de alma, Roosevelt continua a ser o homem do momento.
Por outro lado, homens que se elevam muito acima de tais pigmeus políticos, homens de refinamento, de cultura, de habilidade, são ridicularizados até o silêncio como efeminados. É absurdo alegar que a nossa é a era do individualismo. A nossa é meramente uma repetição mais pungente do fenômeno de toda a história: todo esforço pelo progresso, pelo esclarecimento, pela ciência, pela liberdade religiosa, política e econômica, emana da minoria, e não da massa. Hoje, como sempre, os poucos são incompreendidos, perseguidos, presos, torturados e mortos.
O princípio de fraternidade exposto pelo agitador de Nazaré preservou o germe da vida, da verdade e da justiça, enquanto foi a luz guia dos poucos. No momento em que a maioria se apoderou dele, esse grande princípio tornou-se um shibboleth e prenúncio de sangue e fogo, espalhando sofrimento e desastre. O ataque à onipotência de Roma foi como um nascer do sol em meio à escuridão da noite, apenas enquanto foi feito pelas figuras colossais de um Huss, um Calvino ou um Lutero. Contudo, quando a massa se juntou à procissão contra o monstro católico, ela não foi menos cruel, não menos sanguinária que seu inimigo. Ai dos hereges, da minoria, que não se curvasse aos seus ditames. Após infinito zelo, resistência e sacrifício, a mente humana está finalmente livre do fantasma religioso; a minoria seguiu em busca de novas conquistas, e a maioria está ficando para trás, prejudicada pela verdade que se tornou falsa com a idade.
Politicamente, a raça humana ainda estaria na mais absoluta escravidão, não fossem os John Balls, os Wat Tylers, os Tells, os inumeráveis gigantes individuais que lutaram polegada a polegada contra o poder de reis e tiranos. Não fosse pelos pioneiros individuais, o mundo nunca teria sido abalado até suas raízes por aquela tremenda onda, a Revolução Francesa. Grandes eventos são geralmente precedidos por coisas aparentemente pequenas. Assim, a eloquência e o fogo de Camille Desmoulins foram como a trombeta diante de Jericó, arrasando até o chão aquele emblema de tortura, de abuso, de horror, a Bastilha.
Sempre, em todos os períodos, os poucos foram os portadores da bandeira de uma grande ideia, de um esforço libertador. Não assim a massa, cujo peso de chumbo não a deixa mover-se. A verdade disso é comprovada na Rússia com maior força do que em qualquer outro lugar. Milhares de vidas já foram consumidas por aquele regime sangrento, contudo o monstro no trono não está apaziguado. Como tal coisa é possível quando ideias, cultura, literatura, quando as mais profundas e finas emoções gemem sob o jugo de ferro? A maioria, essa massa compacta, imóvel, sonolenta, o camponês russo, após um século de luta, de sacrifício, de miséria incalculável, ainda acredita que a corda que estrangula "o homem das mãos brancas"[1] traz sorte.
Na luta americana pela liberdade, a maioria não foi menos um tropeço. Até o dia de hoje, as ideias de Jefferson, de Patrick Henry, de Thomas Paine, são negadas e vendidas por sua posteridade. A massa não quer nenhuma delas. A grandeza e a coragem adoradas em Lincoln foram esquecidas nos homens que criaram o pano de fundo para o panorama daquela época. Os verdadeiros santos padroeiros dos homens negros foram representados naquele punhado de lutadores em Boston, Lloyd Garrison, Wendell Phillips, Thoreau, Margaret Fuller e Theodore Parker, cuja grande coragem e firmeza culminaram naquele gigante sombrio, John Brown. Seu zelo incansável, sua eloquência e perseverança minaram a fortaleza dos senhores do Sul. Lincoln e seus asseclas seguiram apenas quando a abolição se tornou uma questão prática, reconhecida como tal por todos.
Cerca de cinquenta anos atrás, uma ideia semelhante a um meteoro fez sua aparição no horizonte social do mundo, uma ideia tão abrangente, tão revolucionária, tão inclusiva a ponto de espalhar terror nos corações dos tiranos em toda parte. Por outro lado, essa ideia foi um prenúncio de alegria, de ânimo, de esperança para os milhões. Os pioneiros conheciam as dificuldades em seu caminho, conheciam a oposição, a perseguição, as privações que os encontrariam, mas, orgulhosos e sem medo, iniciaram sua marcha avante, sempre avante. Agora essa ideia tornou-se um slogan popular. Quase todos são socialistas hoje: o homem rico, bem como sua pobre vítima; os defensores da lei e da autoridade, bem como seus infelizes culpados; o livre-pensador, bem como o perpetuador de falsidades religiosas; a dama da moda, bem como a operária. Por que não? Agora que a verdade de cinquenta anos atrás tornou-se uma mentira, agora que foi despojada de toda a sua imaginação juvenil, e foi roubada de seu vigor, de sua força, de seu ideal revolucionário — por que não? Agora que não é mais uma bela visão, mas um "esquema prático e viável", baseado na vontade da maioria, por que não? Com a mesma astúcia e esperteza política, a massa é mimada, bajulada, enganada diariamente. Seu louvor é cantado em muitas tonalidades: a pobre maioria, a ultrajada, a abusada, a maioria gigante, se ao menos ela nos seguisse.
Quem não ouviu essa ladainha antes? Quem não conhece esse refrão invariável de todos os políticos? Que a massa sangra, que ela está sendo roubada e explorada, eu sei tão bem quanto nossos caçadores de votos. Mas insisto que não o punhado de parasitas, mas a própria massa é responsável por esse estado de coisas horrível. Ela se apega aos seus mestres, ama o chicote e é a primeira a gritar "Crucificai!" no momento em que uma voz de protesto é levantada contra a sacralidade da autoridade capitalista ou de qualquer outra instituição decadente. No entanto, por quanto tempo a autoridade e a propriedade privada existiriam, se não fosse pela disposição da massa em se tornar soldados, policiais, carcereiros e carrascos. Os demagogos socialistas sabem disso tão bem quanto eu, mas mantêm o mito das virtudes da maioria, porque seu próprio esquema de vida significa a perpetuação do poder. E como este último poderia ser adquirido sem números? Sim, o poder, a autoridade, a coerção e a dependência repousam sobre a massa, mas nunca a liberdade, nunca o desabrochar livre do indivíduo, nunca o nascimento de uma sociedade livre.
Não é porque não sinto pelos oprimidos, pelos deserdados da terra; não é porque não conheço a vergonha, o horror, a indignidade das vidas que o povo leva, que repudio a maioria como uma força criativa para o bem. Oh, não, não! Mas porque sei tão bem que, como massa compacta, ela nunca defendeu a justiça ou a igualdade. Ela suprimiu a voz humana, subjugou o espírito humano, acorrentou o corpo humano. Como massa, seu objetivo sempre foi tornar a vida uniforme, cinzenta e monótona como o deserto. Como massa, ela será sempre a aniquiladora da individualidade, da livre iniciativa, da originalidade. Acredito, portanto, com Emerson, que "as massas são cruas, coxas, perniciosas em suas exigências e influência, e não precisam ser bajuladas, mas educadas. Não desejo conceder-lhes nada, mas sim treiná-las, dividi-las e quebrá-las, e extrair indivíduos delas. Massas! A calamidade são as massas. Não desejo massa alguma, mas apenas homens honestos, apenas mulheres adoráveis, doces e realizadas."
Em outras palavras, a verdade viva e vital do bem-estar social e econômico tornar-se-á uma realidade apenas através do zelo, da coragem, da determinação incompromissada das minorias inteligentes, e não através da massa.
[1] Os intelectuais.
A PSICOLOGIA DA VIOLÊNCIA POLÍTICA
Analisar a psicologia da violência política não é apenas extremamente difícil, mas também muito perigoso. Se tais atos são tratados com compreensão, é-se imediatamente acusado de elogiá-los. Se, por outro lado, expressa-se simpatia humana pelo ATTENTATER,[1] arrisca-se ser considerado um possível cúmplice. No entanto, é apenas a inteligência e a simpatia que podem nos aproximar da fonte do sofrimento humano e nos ensinar o caminho final para sair dele.
O homem primitivo, ignorante das forças naturais, temia sua aproximação, escondendo-se dos perigos que elas ameaçavam. À medida que o homem aprendeu a compreender os fenômenos da Natureza, percebeu que, embora estes possam destruir a vida e causar grande perda, eles também trazem alívio. Para o estudioso sério, deve ser evidente que as forças acumuladas em nossa vida social e econômica, culminando em um ato político de violência, são semelhantes aos terrores da atmosfera, manifestados em tempestade e relâmpago.
Para apreciar profundamente a verdade desta visão, é preciso sentir intensamente a indignidade de nossos erros sociais; o próprio ser de alguém deve pulsar com a dor, a tristeza, o desespero que milhões de pessoas são obrigadas a suportar diariamente. De fato, a menos que tenhamos nos tornado parte da humanidade, não podemos nem vagamente compreender a justa indignação que se acumula em uma alma humana, a paixão ardente e crescente que torna a tempestade inevitável.
A massa ignorante olha para o homem que faz um protesto violento contra nossas iniquidades sociais e econômicas como para uma fera selvagem, um monstro cruel e sem coração, cuja alegria é destruir a vida e banhar-se em sangue; ou, na melhor das hipóteses, como para um lunático irresponsável. No entanto, nada está mais longe da verdade. Na verdade, aqueles que estudaram o caráter e a personalidade desses homens, ou que entraram em contato próximo com eles, concordam que é sua hipersensibilidade ao erro e à injustiça que os cerca que os obriga a pagar o tributo de nossos crimes sociais. Os escritores e poetas mais notáveis, ao discutir a psicologia dos infratores políticos, prestaram-lhes a maior homenagem. Poderia alguém supor que esses homens tivessem aconselhado a violência, ou mesmo aprovado os atos? Certamente não. A deles era a atitude do estudioso social, do homem que sabe que, por trás de cada ato violento, existe uma causa vital.
Bjornstjerne Bjornson, na segunda parte de ALÉM DO PODER HUMANO, enfatiza o fato de que é entre os anarquistas que devemos buscar os mártires modernos que pagam por sua fé com seu sangue, e que saúdam a morte com um sorriso, porque acreditam, tão verdadeiramente quanto Cristo, que seu martírio redimirá a humanidade.
Francois Coppee, o romancista francês, expressa-se assim sobre a psicologia do ATTENTATER:
"A leitura dos detalhes da execução de Vaillant deixou-me pensativo. Imaginei-o expandindo o peito sob as cordas, marchando com passo firme, enrijecendo sua vontade, concentrando toda a sua energia e, com os olhos fixos na lâmina, lançando finalmente à sociedade seu grito de maldição. E, apesar de mim, outro espetáculo surgiu subitamente diante da minha mente. Vi um grupo de homens e mulheres pressionando-se uns contra os outros no meio da arena oblonga do circo, sob o olhar de milhares de olhos, enquanto de todos os degraus do imenso anfiteatro subia o terrível grito, AD LEONES! e, abaixo, as jaulas abertas das feras selvagens.
"Eu não acreditava que a execução ocorreria. Em primeiro lugar, nenhuma vítima tinha sido atingida com a morte, e há muito era costume não punir um crime abortado com o último grau de severidade. Então, esse crime, por mais terrível que fosse na intenção, era desinteressado, nascido de uma ideia abstrata. O passado do homem, sua infância abandonada, sua vida de privações, também pleiteavam a seu favor. Na imprensa independente, vozes generosas foram levantadas em seu nome, muito altas e eloquentes. 'Uma corrente de opinião puramente literária', disseram alguns, com não pouco escárnio. É, AO CONTRÁRIO, UMA HONRA PARA OS HOMENS DE ARTE E PENSAMENTO TEREM EXPRESSADO MAIS UMA VEZ SEU DESGOSTO PELO PATÍBULO."
Novamente Zola, em GERMINAL e PARIS, descreve a ternura e a bondade, a profunda simpatia pelo sofrimento humano, desses homens que fecham o capítulo de suas vidas com uma explosão violenta contra nosso sistema.
Por último, mas não menos importante, o homem que provavelmente melhor do que qualquer outro compreende a psicologia do ATTENTATER é M. Hamon, o autor da brilhante obra, UNE PSYCHOLOGIE DU MILITAIRE PROFESSIONEL, que chegou a estas conclusões sugestivas:
"O método positivo, confirmado pelo método racional, permite-nos estabelecer um tipo ideal de anarquista, cuja mentalidade é o agregado de características psíquicas comuns. Todo anarquista participa suficientemente desse tipo ideal para tornar possível diferenciá-lo de outros homens. O anarquista típico, então, pode ser definido como segue: Um homem perceptível pelo espírito de revolta sob uma ou mais de suas formas — oposição, investigação, crítica, inovação — dotado de um forte amor pela liberdade, egoísta ou individualista, e possuído de grande curiosidade, um desejo aguçado de saber. Esses traços são suplementados por um amor ardente pelos outros, uma sensibilidade moral altamente desenvolvida, um sentimento profundo de justiça e imbuído de zelo missionário."
Às características acima, diz Alvin F. Sanborn, devem ser adicionadas estas qualidades genuínas: um raro amor pelos animais, uma doçura surpreendente em todas as relações ordinárias da vida, sobriedade excepcional de comportamento, frugalidade e regularidade, austeridade mesmo, de vida, e coragem sem paralelo.[2]
"Existe um truísmo que o homem comum parece sempre esquecer, quando está abusando dos anarquistas, ou de qualquer partido que seja sua BETE NOIRE no momento, como a causa de algum ultraje recém-perpetrado. Este fato indiscutível é que ultrajes homicidas têm sido, desde tempos imemoriais, a resposta de classes desesperadas e instigadas, e de indivíduos desesperados e instigados, a erros de seus semelhantes que eles sentiam serem intoleráveis. Tais atos são o recuo violento da violência, seja ela agressiva ou repressiva; são a última luta desesperada da natureza humana ultrajada e exasperada por espaço para respirar e vida. E sua causa não reside em nenhuma convicção especial, mas nas profundezas da própria natureza humana. Todo o curso da história, política e social, está semeado com evidências deste fato. Para não ir mais longe, tomemos os três exemplos mais notórios de partidos políticos instigados à violência durante os últimos cinquenta anos: os mazzinianos na Itália, os fenianos na Irlanda e os terroristas na Rússia. Eram essas pessoas anarquistas? Não. Será que as três mantinham as mesmas opiniões políticas? Não. Os mazzinianos eram republicanos, os fenianos separatistas políticos, os russos social-democratas ou constitucionalistas. Mas todos foram levados por circunstâncias desesperadas a essa terrível forma de revolta. E quando passamos de partidos para indivíduos que agiram da mesma maneira, ficamos horrorizados com o número de seres humanos instigados e levados pelo puro desespero a condutas obviamente violentamente opostas aos seus instintos sociais.
"Agora que o anarquismo tornou-se uma força viva na sociedade, tais feitos foram cometidos às vezes por anarquistas, bem como por outros. Pois nenhuma nova fé, mesmo a mais essencialmente pacífica e humana que a mente do homem já aceitou, deixou de trazer à terra, em sua primeira vinda, não a paz, mas uma espada; não por causa de qualquer coisa violenta ou antissocial na própria doutrina; simplesmente por causa da fermentação que qualquer ideia nova e criativa excita nas mentes dos homens, quer a aceitem ou a rejeitem. E uma concepção de anarquismo que, por um lado, ameaça todos os interesses constituídos e, por outro, oferece uma visão de uma vida livre e nobre a ser conquistada através de uma luta contra os erros existentes, certamente despertará a oposição mais feroz e colocará toda a força repressiva do mal antigo em contato violento com o tumultuoso surto de uma nova esperança.
"Sob condições miseráveis de vida, qualquer visão da possibilidade de coisas melhores torna a miséria presente mais intolerável, e estimula aqueles que sofrem às lutas mais enérgicas para melhorar sua sorte, e se essas lutas resultam apenas imediatamente em miséria mais aguda, o resultado é puro desespero. Em nossa sociedade atual, por exemplo, um trabalhador assalariado explorado, que vislumbra o que o trabalho e a vida poderiam e deveriam ser, acha a rotina trabalhosa e a miséria de sua existência quase intoleráveis; e mesmo quando ele tem a resolução e a coragem de continuar trabalhando firmemente no seu melhor, e esperando até que novas ideias tenham permeado a sociedade de modo a preparar o caminho para tempos melhores, o simples fato de ter tais ideias e tentar espalhá-las coloca-o em dificuldades com seus empregadores. Quantos milhares de socialistas, e acima de tudo anarquistas, perderam o trabalho e até a chance de trabalho, unicamente por causa de suas opiniões. Apenas o artesão especialmente talentoso, se for um propagandista zeloso, pode esperar manter o emprego permanente. E o que acontece a um homem com seu cérebro funcionando ativamente com uma fermentação de novas ideias, com uma visão diante de seus olhos de uma nova esperança amanhecendo para homens que trabalham e agonizam, com o conhecimento de que seu sofrimento e o de seus companheiros na miséria não é causado pela crueldade do destino, mas pela injustiça de outros seres humanos — o que acontece a tal homem quando ele vê aqueles que lhe são caros passando fome, quando ele mesmo está faminto? Algumas naturezas em tal situação, e essas de forma alguma as menos sociais ou as menos sensíveis, tornar-se-ão violentas, e sentirão até que sua violência é social e não antissocial, que ao atacar quando e como podem, estão atacando, não por si mesmos, mas pela natureza humana, ultrajada e despojada em suas pessoas e nas de seus companheiros sofredores. E devemos nós, que não estamos nesta situação horrível, ficar de lado e condenar friamente essas vítimas piedosas das Fúrias e dos Destinos? Devemos censurar como malfeitores esses seres humanos que agem com heroica autodevoção, sacrificando suas vidas em protesto, onde naturezas menos sociais e menos enérgicas se deitariam e se arrastariam em submissão abjeta à injustiça e ao erro? Devemos nos juntar ao clamor ignorante e brutal que estigmatiza tais homens como monstros de maldade, correndo gratuitamente em uma sociedade harmoniosa e inocentemente pacífica? Não! Odiamos o assassinato com um ódio que pode parecer absurdamente exagerado para os apologistas dos massacres de Matabele, para os coniventes insensíveis em enforcamentos e bombardeios, mas recusamo-nos, em tais casos de homicídio, ou tentativa de homicídio, como aqueles de que estamos tratando, a ser culpados da injustiça cruel de lançar toda a responsabilidade do ato sobre o perpetrador imediato. A culpa desses homicídios recai sobre cada homem e mulher que, intencionalmente ou por fria indiferença, ajuda a manter condições sociais que levam seres humanos ao desespero. O homem que lança toda a sua vida na tentativa, ao custo de sua própria vida, de protestar contra os erros de seus semelhantes, é um santo comparado aos defensores ativos e passivos da crueldade e da injustiça, mesmo que seu protesto destrua outras vidas além da sua. Que aquele que está sem pecado na sociedade atire a primeira pedra contra tal pessoa."[3]
Que todo ato de violência política seja hoje em dia atribuído aos anarquistas não é nada surpreendente. No entanto, é um fato conhecido por quase todos que estão familiarizados com o movimento anarquista que um grande número de atos, pelos quais os anarquistas tiveram que sofrer, originaram-se da imprensa capitalista ou foram instigados, se não diretamente perpetrados, pela polícia.
Durante vários anos, atos de violência foram cometidos na Espanha, pelos quais os anarquistas foram responsabilizados, perseguidos como feras e lançados na prisão. Mais tarde, revelou-se que os perpetradores desses atos não eram anarquistas, mas membros do departamento de polícia. O escândalo tornou-se tão disseminado que os jornais espanhóis conservadores exigiram a apreensão e punição do líder da gangue, Juan Rull, que foi subsequentemente condenado à morte e executado. As provas sensacionais, trazidas à luz durante o julgamento, forçaram o Inspetor de Polícia Momento a exonerar completamente os anarquistas de qualquer conexão com os atos cometidos durante um longo período. Isso resultou na demissão de vários funcionários da polícia, entre eles o Inspetor Tressols, que, em vingança, revelou o fato de que, por trás da gangue de atiradores de bombas da polícia, estavam outros de posição muito mais elevada, que lhes forneciam fundos e os protegiam.
Este é um dos muitos exemplos marcantes de como as conspirações anarquistas são fabricadas.
Que a polícia americana pode perjurar-se com a mesma facilidade, que eles são tão implacáveis, tão brutais e astutos quanto seus colegas europeus, tem sido provado em mais de uma ocasião. Precisamos apenas recordar a tragédia de onze de novembro de 1887, conhecida como o Motim de Haymarket.
Ninguém que esteja minimamente familiarizado com o caso pode possivelmente duvidar de que os anarquistas, judicialmente assassinados em Chicago, morreram como vítimas de uma imprensa mentirosa e sanguinária e de uma cruel conspiração policial. Não disse o próprio Juiz Gary: "Não porque vocês causaram a bomba de Haymarket, mas porque vocês são anarquistas, é que estão sendo julgados."
A análise imparcial e minuciosa do Governador Altgeld sobre essa mancha no brasão americano verificou a franqueza brutal do Juiz Gary. Foi isso que induziu Altgeld a perdoar os três anarquistas, ganhando assim a estima duradoura de todo homem e mulher que ama a liberdade no mundo.
Quando abordamos a tragédia de seis de setembro de 1901, somos confrontados por um dos exemplos mais marcantes de quão pouco as teorias sociais são responsáveis por um ato de violência política. "Leon Czolgosz, um anarquista, incitado a cometer o ato por Emma Goldman." Com certeza, ela não teria incitado a violência mesmo antes de seu nascimento, e não continuará a fazê-lo além da morte? Tudo é possível com os anarquistas.
Hoje, inclusive, nove anos após a tragédia, depois de ter sido provado cem vezes que Emma Goldman não teve nada a ver com o evento, que não existe evidência alguma para indicar que Czolgosz alguma vez se autodenominou anarquista, somos confrontados com a mesma mentira, fabricada pela polícia e perpetuada pela imprensa. Nenhuma alma viva jamais ouviu Czolgosz fazer essa declaração, nem há uma única palavra escrita para provar que o rapaz tenha alguma vez sussurrado tal acusação. Nada além de ignorância e histeria insana, que nunca foram capazes de resolver o mais simples problema de causa e efeito.
O Presidente de uma República livre morto! Que outra coisa pode ser a causa, exceto que o ATENTADOR deveria estar insano, ou que ele foi incitado ao ato.
Uma República livre! Como um mito se mantém, como ele continuará a enganar, a ludibriar e a cegar até os relativamente inteligentes para suas monstruosas absurdidades. Uma República livre! E, no entanto, em pouco mais de trinta anos, um pequeno bando de parasitas roubou com sucesso o povo americano e pisoteou os princípios fundamentais, estabelecidos pelos pais deste país, garantindo a todo homem, mulher e criança "vida, liberdade e a busca da felicidade". Por trinta anos eles têm aumentado sua riqueza e poder às custas da vasta massa de trabalhadores, ampliando assim o exército dos desempregados, a porção faminta, sem teto e sem amigos da humanidade, que vaga pelo país de leste a oeste, de norte a sul, em uma busca vã por trabalho. Por muitos anos o lar foi deixado aos cuidados dos pequenos, enquanto os pais exaurem sua vida e força por uma mera ninharia. Por trinta anos os robustos filhos da América foram sacrificados no campo de batalha da guerra industrial, e as filhas ultrajadas em ambientes fabris corruptos. Por longos e cansativos anos, este processo de minar a saúde, o vigor e o orgulho da nação, sem muito protesto dos deserdados e oprimidos, tem continuado. Enlouquecidos pelo sucesso e pela vitória, os poderes financeiros desta "nossa terra livre" tornaram-se cada vez mais audaciosos em seus esforços cruéis e insensíveis para competir com as podres e decadentes tiranias europeias pela supremacia do poder.
Em vão a imprensa mentirosa repudiou Leon Czolgosz como um estrangeiro. O rapaz era um produto de nosso próprio solo americano livre, que o ninaram para dormir com,
Meu país, és de ti, Doce terra da liberdade.
Quem pode dizer quantas vezes esta criança americana se gloriava na celebração do Quatro de Julho, ou do Dia da Decoração, quando ele honrava fielmente os mortos da Nação? Quem sabe se ele, também, não estava disposto a "lutar por seu país e morrer por sua liberdade", até que amanheceu nele que aqueles a quem ele pertencia não têm país, porque foram roubados de tudo o que produziram; até que ele percebeu que a liberdade e a independência de seus sonhos juvenis eram apenas uma farsa. Pobre Leon Czolgosz, seu crime consistiu em uma consciência social sensível demais. Diferente de seus irmãos americanos sem ideais e sem cérebro, seus ideais pairavam acima do estômago e da conta bancária. Não é de admirar que você tenha impressionado o único ser humano entre toda a multidão enfurecida em seu julgamento — uma mulher jornalista — como um visionário, totalmente alheio aos seus arredores. Seus olhos grandes e sonhadores devem ter contemplado um novo e glorioso amanhecer.
Agora, para um exemplo recente de conspirações anarquistas fabricadas pela polícia. Naquela cidade manchada de sangue, Chicago, a vida do Chefe de Polícia Shippy foi tentada por um jovem chamado Averbuch. Imediatamente o grito foi enviado aos quatro cantos do mundo de que Averbuch era um anarquista, e que os anarquistas eram responsáveis pelo ato. Todos que eram minimamente conhecidos por entreter ideias anarquistas foram vigiados de perto, várias pessoas presas, a biblioteca de um grupo anarquista confiscada e todas as reuniões tornadas impossíveis. Nem é preciso dizer que, como em várias ocasiões anteriores, eu tive que ser responsabilizada pelo ato. Evidentemente, a polícia americana me atribui poderes ocultos. Eu não conhecia Averbuch; de fato, nunca tinha ouvido seu nome antes, e a única maneira pela qual eu poderia ter possivelmente "conspirado" com ele era em meu corpo astral. Mas, então, a polícia não se preocupa com lógica ou justiça. O que eles buscam é um alvo, para mascarar sua absoluta ignorância da causa, da psicologia de um ato político. Averbuch era um anarquista? Não há prova positiva disso. Ele estava há apenas três meses no país, não conhecia a língua e, tanto quanto pude averiguar, era totalmente desconhecido para os anarquistas de Chicago.
O que levou ao seu ato? Averbuch, como a maioria dos jovens imigrantes russos, sem dúvida acreditava na mítica liberdade da América. Ele recebeu seu primeiro batismo pelo cassetete do policial durante a brutal dispersão da parada dos desempregados. Ele experimentou ainda a igualdade e oportunidade americanas nos vãos esforços para encontrar um mestre econômico. Em suma, uma estadia de três meses na terra gloriosa o colocou cara a cara com o fato de que os deserdados estão na mesma posição em todo o mundo. Em sua terra natal, ele provavelmente aprendeu que a necessidade não conhece lei — não havia diferença entre um policial russo e um americano.
A questão para o estudante social inteligente não é se os atos de Czolgosz ou Averbuch foram práticos, assim como não é se a tempestade é prática. A coisa que inevitavelmente se imprimirá no homem e na mulher que pensam e sentem é que a visão do espancamento brutal de vítimas inocentes em uma chamada República livre, e a luta econômica degradante e destruidora de almas, fornecem a faísca que acende a força dinâmica nas almas sobrecarregadas e ultrajadas de homens como Czolgosz ou Averbuch. Nenhuma quantidade de perseguição, de caça, de repressão, pode deter este fenômeno social.
Mas, pergunta-se frequentemente, os anarquistas reconhecidos não cometeram atos de violência? Certamente cometeram, sempre, contudo, dispostos a assumir a responsabilidade. Minha alegação é que eles foram impelidos, não pelos ensinamentos do anarquismo, mas pela tremenda pressão das condições, tornando a vida insuportável para suas naturezas sensíveis. Obviamente, o anarquismo, ou qualquer outra teoria social, fazendo do homem uma unidade social consciente, agirá como um fermento para a rebelião. Isso não é uma mera afirmação, mas um fato verificado por toda a experiência. Um exame atento das circunstâncias que influenciam esta questão esclarecerá ainda mais minha posição.
Consideremos alguns dos atos anarquistas mais importantes nas últimas duas décadas. Por mais estranho que possa parecer, um dos atos mais significativos de violência política ocorreu aqui na América, em conexão com a greve de Homestead de 1892.
Durante aquele tempo memorável, a Carnegie Steel Company organizou uma conspiração para esmagar a Amalgamated Association of Iron and Steel Workers. Henry Clay Frick, então Presidente da Empresa, foi incumbido dessa tarefa democrática. Ele não perdeu tempo em executar a política de quebrar o Sindicato, a política que ele havia praticado com tanto sucesso durante seu reinado de terror nas regiões de carvão. Secretamente, e enquanto as negociações de paz eram propositadamente prolongadas, Frick supervisionou os preparativos militares, a fortificação das Homestead Steel Works, a ereção de uma cerca alta de tábuas, coberta com arame farpado e provida de brechas para atiradores de elite. E então, na calada da noite, ele tentou contrabandear seu exército de capangas da Pinkerton para Homestead, ato que precipitou a terrível carnificina dos trabalhadores siderúrgicos. Não satisfeito com a morte de onze vítimas, mortas na escaramuça da Pinkerton, Henry Clay Frick, bom cristão e livre americano, imediatamente começou a caçada às esposas e órfãos desamparados, ordenando que saíssem das miseráveis casas da Empresa.
O país inteiro estava agitado com esses ultrajes desumanos. Centenas de vozes foram levantadas em protesto, pedindo a Frick que desistisse, que não fosse longe demais. Sim, centenas de pessoas protestaram — como alguém se opõe a moscas irritantes. Apenas um houve que respondeu ativamente ao ultraje em Homestead — Alexander Berkman. Sim, ele era um anarquista. Ele se gloriava nesse fato, porque era a única força que tornava o conflito entre seu anseio espiritual e o mundo exterior minimamente suportável. Contudo, não o anarquismo, como tal, mas o massacre brutal dos onze trabalhadores siderúrgicos foi o impulso para o ato de Alexander Berkman, sua tentativa contra a vida de Henry Clay Frick.
O registro dos atos europeus de violência política oferece numerosos e marcantes exemplos da influência do ambiente sobre seres humanos sensíveis.
O discurso de tribunal de Vaillant, que, em 1894, explodiu uma bomba na Câmara dos Deputados de Paris, atinge a verdadeira tônica da psicologia de tais atos:
"Senhores, em alguns minutos vocês vão desferir seu golpe, mas ao receber seu veredito terei pelo menos a satisfação de ter ferido a sociedade existente, essa sociedade maldita na qual se pode ver um único homem gastando, inutilmente, o suficiente para alimentar milhares de famílias; uma sociedade infame que permite que alguns indivíduos monopolizem toda a riqueza social, enquanto há centenas de milhares de infelizes que não têm nem mesmo o pão que não é negado aos cães, e enquanto famílias inteiras estão se suicidando por falta das necessidades da vida.
"Ah, senhores, se as classes governantes pudessem descer entre os infelizes! Mas não, preferem permanecer surdas aos seus apelos. Parece que uma fatalidade os impele, como a realeza do século XVIII, para o precipício que os engolirá, pois ai daqueles que permanecem surdos aos gritos dos famintos, ai daqueles que, acreditando-se de essência superior, assumem o direito de explorar aqueles abaixo deles! Chega um momento em que o povo já não raciocina; eles se erguem como um furacão e passam como uma torrente. Então vemos cabeças sangrentas empaladas em lanças.
"Entre os explorados, senhores, há duas classes de indivíduos: Aqueles de uma classe, não percebendo o que são e o que poderiam ser, levam a vida como ela vem, acreditam que nasceram para ser escravos e se contentam com o pouco que lhes é dado em troca de seu trabalho. Mas há outros, pelo contrário, que pensam, que estudam e que, olhando ao seu redor, descobrem iniquidades sociais. É culpa deles se veem claramente e sofrem ao ver outros sofrerem? Então eles se lançam na luta e se tornam os portadores das reivindicações populares.
"Senhores, sou um desses últimos. Onde quer que eu tenha ido, vi infelizes curvados sob o jugo do capital. Em toda parte vi as mesmas feridas fazendo correr lágrimas de sangue, mesmo nas partes mais remotas dos distritos habitados da América do Sul, onde eu tinha o direito de acreditar que aquele que estava cansado das dores da civilização poderia descansar à sombra das palmeiras e ali estudar a natureza. Bem, ali mesmo, mais do que em qualquer outro lugar, vi o capital chegar, como um vampiro, para sugar a última gota de sangue dos infelizes párias.
"Então voltei para a França, onde estava reservado para mim ver minha família sofrer atrozmente. Esta foi a última gota no cálice da minha tristeza. Cansado de levar esta vida de sofrimento e covardia, levei esta bomba àqueles que são os principais responsáveis pelos sofrimentos sociais.
"Sou censurado pelas feridas daqueles que foram atingidos pelos meus projéteis. Permitam-me apontar de passagem que, se os burgueses não tivessem massacrado ou causado massacres durante a Revolução, é provável que ainda estivessem sob o jugo da nobreza. Por outro lado, somem os mortos e feridos em Tonquim, Madagascar, Daomé, adicionando a isso os milhares, sim, milhões de infelizes que morrem nas fábricas, nas minas e onde quer que o poder esmagador do capital seja sentido. Adicionem também aqueles que morrem de fome, e tudo isso com o assentimento de nossos Deputados. Ao lado de tudo isso, de quão pouco peso são as censuras agora lançadas contra mim!
"É verdade que um não apaga o outro; mas, afinal, não estamos agindo na defensiva quando respondemos aos golpes que recebemos de cima? Sei muito bem que me dirão que eu deveria ter me limitado ao discurso para a reivindicação das demandas do povo. Mas o que vocês esperam! É preciso uma voz alta para fazer os surdos ouvirem. Por muito tempo eles responderam às nossas vozes com prisão, a corda, rajadas de rifle. Não se enganem; a explosão da minha bomba não é apenas o grito do rebelde Vaillant, mas o grito de uma classe inteira que reivindica seus direitos, e que em breve somará atos às palavras. Pois, tenham certeza disso, em vão eles aprovarão leis. As ideias dos pensadores não pararão; assim como, no século passado, todas as forças governamentais não puderam impedir os Diderots e os Voltaires de espalhar ideias emancipadoras entre o povo, assim todas as forças governamentais existentes não impedirão os Reclus, os Darwins, os Spencers, os Ibsens, os Mirbeaus, de espalhar as ideias de justiça e liberdade que aniquilarão os preconceitos que mantêm a massa na ignorância. E essas ideias, acolhidas pelos infelizes, florescerão em atos de revolta como fizeram em mim, até o dia em que o desaparecimento da autoridade permita a todos os homens se organizarem livremente conforme sua escolha, quando poderemos cada um desfrutar do produto de seu trabalho, e quando essas doenças morais chamadas preconceitos desaparecerem, permitindo aos seres humanos viver em harmonia, não tendo outro desejo senão estudar as ciências e amar seus semelhantes.
"Concluo, senhores, dizendo que uma sociedade na qual se vê tais desigualdades sociais como vemos ao nosso redor, na qual vemos todos os dias suicídios causados pela pobreza, a prostituição surgindo em cada esquina — uma sociedade cujos principais monumentos são quartéis e prisões — tal sociedade deve ser transformada o mais rápido possível, sob pena de ser eliminada, e isso rapidamente, da raça humana. Salve aquele que trabalha, por qualquer meio que seja, para esta transformação! Foi esta ideia que me guiou em meu duelo com a autoridade, mas como neste duelo eu apenas feri meu adversário, agora é a sua vez de me atingir.
"Agora, senhores, para mim pouco importa que penalidade vocês possam infligir, pois, olhando para esta assembleia com os olhos da razão, não posso deixar de sorrir ao vê-los, átomos perdidos na matéria, e raciocinando apenas porque possuem um prolongamento da medula espinhal, assumirem o direito de julgar um de seus semelhantes.
"Ah! senhores, quão pequena coisa é sua assembleia e seu veredito na história da humanidade; e a história humana, por sua vez, é igualmente uma coisa muito pequena no turbilhão que a leva através da imensidão, e que está destinada a desaparecer, ou pelo menos a ser transformada, para começar novamente a mesma história e os mesmos fatos, um jogo verdadeiramente perpétuo de forças cósmicas renovando e transferindo-se para sempre."
Alguém dirá que Vaillant era um homem ignorante, vicioso, ou um lunático? Não era sua mente singularmente clara, analítica? Não é de admirar que as melhores forças intelectuais da França tenham falado em seu nome, e assinado a petição ao Presidente Carnot, pedindo-lhe que comutasse a sentença de morte de Vaillant.
Carnot não ouvia nenhuma súplica; ele insistiu em mais do que uma libra de carne, ele queria a vida de Vaillant, e então — o inevitável aconteceu: o Presidente Carnot foi morto. No cabo do estilete usado pelo ATENTADOR estava gravado, significativamente,
VAILLANT!
Santa Caserio era um anarquista. Ele poderia ter escapado, salvado a si mesmo; mas ele permaneceu, ele enfrentou as consequências.
Suas razões para o ato são apresentadas de maneira tão simples, digna e infantil que somos lembrados da tocante homenagem prestada a Caserio por sua professora da pequena escola da aldeia, Ada Negri, a poeta italiana, que falou dele como uma planta doce e tenra, de textura fina e sensível demais para suportar a tensão cruel do mundo.
"Senhores do Júri! Não pretendo fazer uma defesa, mas apenas uma explicação do meu feito.
"Desde minha juventude comecei a aprender que a sociedade atual está mal organizada, tão mal que todos os dias muitos homens miseráveis cometem suicídio, deixando mulheres e crianças na mais terrível aflição. Trabalhadores, aos milhares, procuram por trabalho e não conseguem encontrá-lo. Famílias pobres imploram por comida e tremem de frio; sofrem a maior miséria; os pequenos pedem comida às suas mães miseráveis, e as mães não podem dar-lhes, porque não têm nada. As poucas coisas que o lar continha já foram vendidas ou penhoradas. Tudo o que podem fazer é pedir esmolas; frequentemente são presos como vagabundos.
"Saí do meu lugar natal porque frequentemente era levado às lágrimas ao ver meninas de oito ou dez anos obrigadas a trabalhar quinze horas por dia pela parca paga de vinte cêntimos. Jovens mulheres de dezoito ou vinte anos também trabalham quinze horas diariamente, por uma zombaria de remuneração. E isso acontece não apenas aos meus compatriotas, mas a todos os trabalhadores, que suam o dia todo por uma crosta de pão, enquanto seu trabalho produz riqueza em abundância. Os trabalhadores são obrigados a viver sob as condições mais miseráveis, e sua alimentação consiste em um pouco de pão, algumas colheres de arroz e água; então, quando têm trinta ou quarenta anos, estão exaustos e vão morrer nos hospitais. Além disso, em consequência da má alimentação e do excesso de trabalho, essas criaturas infelizes são, aos centenas, devoradas pela pelagra — uma doença que, em meu país, ataca, como dizem os médicos, aqueles que são mal alimentados e levam uma vida de labuta e privação.
"Observei que há uma grande quantidade de pessoas que passam fome, e muitas crianças que sofrem, enquanto pão e roupas abundam nas cidades. Vi muitas e grandes lojas cheias de roupas e tecidos de lã, e também vi armazéns cheios de trigo e milho, adequados para aqueles que estão em necessidade. E, por outro lado, vi milhares de pessoas que não trabalham, que nada produzem e vivem do trabalho alheio; que gastam todos os dias milhares de francos para sua diversão; que corrompem as filhas dos trabalhadores; que possuem habitações de quarenta ou cinquenta quartos; vinte ou trinta cavalos, muitos criados; em suma, todos os prazeres da vida.
"Eu acreditava em Deus; mas quando vi tão grande desigualdade entre os homens, reconheci que não foi Deus quem criou o homem, mas o homem quem criou Deus. E descobri que aqueles que querem que sua propriedade seja respeitada têm interesse em pregar a existência do paraíso e do inferno, e em manter o povo na ignorância.
"Não faz muito tempo, Vaillant lançou uma bomba na Câmara dos Deputados, para protestar contra o atual sistema da sociedade. Não matou ninguém, apenas feriu algumas pessoas; ainda assim, a justiça burguesa condenou-o à morte. E, não satisfeita com a condenação do culpado, começaram a perseguir os anarquistas e a prender não apenas aqueles que conheciam Vaillant, mas até mesmo aqueles que tinham meramente estado presentes em qualquer palestra anarquista.
"O governo não pensou em suas esposas e filhos. Não considerou que os homens mantidos na prisão não eram os únicos que sofriam, e que seus pequeninos choravam por pão. A justiça burguesa não se preocupou com esses inocentes, que ainda não sabem o que é a sociedade. Não é culpa deles que seus pais estejam na prisão; eles apenas querem comer.
"O governo continuou a revistar casas particulares, abrir correspondência privada, proibir palestras e reuniões, e a praticar as mais infames opressões contra nós. Mesmo agora, centenas de anarquistas são presos por terem escrito um artigo em um jornal, ou por terem expressado uma opinião em público.
"Senhores do Júri, vocês são representantes da sociedade burguesa. Se querem minha cabeça, tomem-na; mas não acreditem que, ao fazê-lo, deterão a propaganda anarquista. Tenham cuidado, pois os homens colhem o que plantam."
Durante uma procissão religiosa em 1896, em Barcelona, uma bomba foi lançada. Imediatamente, trezentos homens e mulheres foram presos. Alguns eram anarquistas, mas a maioria eram sindicalistas e socialistas. Foram jogados naquela terrível bastilha, Montjuich, e submetidos às mais horríveis torturas. Depois que vários foram mortos ou enlouqueceram, seus casos foram assumidos pela imprensa liberal da Europa, resultando na libertação de alguns sobreviventes.
O homem primariamente responsável por esse renascimento da Inquisição foi Cánovas del Castillo, Primeiro-Ministro da Espanha. Foi ele quem ordenou a tortura das vítimas, sua carne queimada, seus ossos esmagados, suas línguas cortadas. Praticado na arte da brutalidade durante seu regime em Cuba, Cánovas permaneceu absolutamente surdo aos apelos e protestos da desperta consciência civilizada.
Em 1897, Cánovas del Castillo foi morto a tiros por um jovem italiano, Angiolillo. Este último era editor em sua terra natal, e suas declarações ousadas logo atraíram a atenção das autoridades. A perseguição começou, e Angiolillo fugiu da Itália para a Espanha, de lá para a França e Bélgica, finalmente estabelecendo-se na Inglaterra. Enquanto estava lá, encontrou emprego como compositor e imediatamente tornou-se amigo de todos os seus colegas. Um destes descreveu Angiolillo da seguinte forma: "Sua aparência sugeria o jornalista mais do que o discípulo de Gutenberg. Suas mãos delicadas, aliás, traíam o fato de que ele não tinha crescido na 'caixa'. Com seu rosto bonito e franco, seu cabelo escuro e macio, sua expressão alerta, ele parecia o próprio tipo do vivaz sulista. Angiolillo falava italiano, espanhol e francês, mas não inglês; o pouco francês que eu sabia não era suficiente para manter uma conversa prolongada. Contudo, Angiolillo logo começou a adquirir o idioma inglês; aprendeu rapidamente, de forma lúdica, e não demorou muito até se tornar muito popular entre seus colegas compositores. Sua maneira distinta e, contudo, modesta, e sua consideração para com seus colegas, conquistaram os corações de todos os rapazes."
Angiolillo logo se familiarizou com os relatos detalhados na imprensa. Leu sobre a grande onda de simpatia humana pelas vítimas indefesas em Montjuich. Na Trafalgar Square, ele viu com seus próprios olhos os resultados daquelas atrocidades, quando os poucos espanhóis que escaparam das garras de Castillo vieram buscar asilo na Inglaterra. Lá, na grande reunião, esses homens abriram suas camisas e mostraram as horríveis cicatrizes da carne queimada. Angiolillo viu, e o efeito superou mil teorias; o ímpeto estava além de palavras, além de argumentos, além de si mesmo, inclusive.
O Sr. Antonio Cánovas del Castillo, Primeiro-Ministro da Espanha, hospedava-se em Santa Águeda. Como de costume em tais casos, todos os estranhos eram mantidos longe de sua exaltada presença. Uma exceção foi feita, no entanto, no caso de um italiano de aparência distinta e elegantemente vestido — o representante, entendeu-se, de um importante jornal. O distinto cavalheiro era Angiolillo.
O Sr. Cánovas, prestes a sair de sua casa, pisou na varanda. De repente, Angiolillo confrontou-o. Um tiro soou, e Cánovas era um cadáver.
A esposa do Primeiro-Ministro correu para a cena. "Assassino! Assassino!", ela gritou, apontando para Angiolillo. Este último curvou-se. "Perdão, Madame", disse ele, "eu a respeito como uma dama, mas lamento que a senhora fosse a esposa daquele homem."
Calmamente, Angiolillo enfrentou a morte. A morte em sua forma mais terrível — para o homem cuja alma era como a de uma criança.
Ele foi garroteado. Seu corpo jazia, beijado pelo sol, até que o dia se escondesse no crepúsculo. E as pessoas vieram e, apontando o dedo do terror e do medo, disseram: "Ali — o criminoso — o cruel assassino."
Como é estúpida, como é cruel a ignorância! Ela compreende mal sempre, condena sempre.
Um paralelo notável com o caso de Angiolillo pode ser encontrado no ato de Gaetano Bresci, cujo ATTENTAT contra o Rei Umberto tornou uma cidade americana famosa.
Bresci veio para este país, esta terra de oportunidades, onde basta tentar para alcançar um sucesso dourado. Sim, ele também tentaria ter sucesso. Ele trabalharia arduamente e fielmente. O trabalho não tinha terrores para ele, se apenas o ajudasse a alcançar a independência, a dignidade, o respeito próprio.
Assim, cheio de esperança e entusiasmo, ele se estabeleceu em Paterson, Nova Jersey, e lá encontrou um emprego lucrativo por seis dólares por semana em uma das fábricas têxteis da cidade. Seis dólares inteiros por semana eram, sem dúvida, uma fortuna para a Itália, mas não o suficiente para respirar no novo país. Ele amava seu pequeno lar. Ele era um bom marido e pai devotado à sua BAMBINA, Bianca, a quem ele adorava. Ele trabalhou e trabalhou por vários anos. Ele realmente conseguiu economizar cem dólares de seus seis dólares por semana.
Bresci tinha um ideal. Tolice, eu sei, para um trabalhador ter um ideal — o jornal anarquista publicado em Paterson, LA QUESTIONE SOCIALE.
Toda semana, embora cansado do trabalho, ele ajudava a montar o jornal. Até horas tardias ele ajudava, e quando o pequeno pioneiro tinha esgotado todos os recursos e seus camaradas estavam em desespero, Bresci trazia alegria e esperança, cem dólares, as economias de toda uma vida. Isso manteria o jornal à tona.
Em sua terra natal, as pessoas estavam passando fome. As colheitas tinham sido fracas, e os camponeses viram-se face a face com a fome. Eles apelaram ao seu bom Rei Umberto; ele os ajudaria. E ele o fez. As esposas dos camponeses que tinham ido ao palácio do Rei ergueram, em silêncio mudo, seus filhos emaciados. Certamente isso o comoveria. E então os soldados dispararam e mataram aqueles pobres tolos.
Bresci, trabalhando na fábrica têxtil em Paterson, leu sobre o horrível massacre. Seu olho mental contemplou as mulheres indefesas e os infantes inocentes de sua terra natal, massacrados bem diante do bom Rei. Sua alma recuou em horror. À noite, ele ouvia os gemidos dos feridos. Alguns poderiam ter sido seus camaradas, sua própria carne. Por que, por que esses assassinatos vis?
A pequena reunião do grupo anarquista italiano em Paterson terminou quase em uma briga. Bresci exigira seus cem dólares. Seus camaradas imploraram, suplicaram-lhe que lhes desse uma trégua. O jornal afundaria se eles lhe devolvessem o empréstimo. Mas Bresci insistiu em sua devolução.
Como é cruel e estúpida a ignorância. Bresci conseguiu o dinheiro, mas perdeu a boa vontade, a confiança de seus camaradas. Eles não queriam mais nada com alguém cuja ganância era maior que seus ideais.
No dia vinte e nove de julho de 1900, o Rei Umberto foi baleado em Monza. O jovem tecelão italiano de Paterson, Gaetano Bresci, tinha tirado a vida do bom Rei.
Paterson foi colocada sob vigilância policial, todos conhecidos como anarquistas caçados e perseguidos, e o ato de Bresci atribuído aos ensinamentos do Anarquismo. Como se os ensinamentos do Anarquismo em sua forma mais extrema pudessem igualar a força daquelas mulheres e crianças mortas, que tinham peregrinado ao Rei em busca de ajuda. Como se qualquer palavra falada, por mais eloquente que fosse, pudesse queimar uma alma humana com tamanho calor branco quanto o sangue vital escorrendo gota a gota daquelas formas agonizantes. O homem comum raramente é movido por palavras ou atos; e aqueles cuja afinidade social é a maior força viva não precisam de apelo para responder — tal como o aço ao ímã — às injustiças e horrores da sociedade.
Se uma teoria social é um fator forte induzindo atos de violência política, como devemos explicar os recentes surtos violentos na Índia, onde o Anarquismo mal tinha nascido? Mais do que qualquer outra filosofia antiga, os ensinamentos hindus exaltaram a resistência passiva, o deixar a vida fluir, o Nirvana, como o mais alto ideal espiritual. Contudo, a agitação social na Índia cresce diariamente, e apenas recentemente resultou em um ato de violência política, o assassinato de Sir Curzon Wyllie pelo hindu Madar Sol Dhingra.
Se tal fenômeno pode ocorrer em um país social e individualmente permeado por séculos com o espírito de passividade, pode-se questionar o tremendo efeito revolucionário sobre o caráter humano exercido por grandes iniquidades sociais? Pode-se duvidar da lógica, da justiça destas palavras:
"Repressão, tirania e punição indiscriminada de homens inocentes têm sido as palavras de ordem do governo da dominação estrangeira na Índia desde que começamos o boicote comercial aos produtos ingleses. As qualidades de tigre dos britânicos estão muito em evidência agora na Índia. Eles pensam que, pela força da espada, manterão a Índia sob controle! É essa arrogância que trouxe a bomba, e quanto mais eles tiranizam um povo indefeso e desarmado, mais o terrorismo crescerá. Podemos desaprovar o terrorismo como estranho e alheio à nossa cultura, mas é inevitável enquanto essa tirania continuar, pois não são os terroristas que devem ser culpados, mas os tiranos que são responsáveis por isso. É o único recurso para um povo indefeso e desarmado quando levado ao limite do desespero. Nunca é criminoso da parte deles. O crime reside com o tirano."[4]
Até mesmo cientistas conservadores estão começando a perceber que a hereditariedade não é o único fator que molda o caráter humano. Clima, alimentação, ocupação; não, cor, luz e som devem ser considerados no estudo da psicologia humana.
Se isso for verdade, quanto mais correta é a alegação de que grandes abusos sociais influenciarão e devem influenciar mentes e temperamentos diferentes de maneira diferente. E quão absolutamente falaciosa é a noção estereotipada de que os ensinamentos do Anarquismo, ou certos expoentes desses ensinamentos, são responsáveis pelos atos de violência política.
O Anarquismo, mais do que qualquer outra teoria social, valoriza a vida humana acima das coisas. Todos os anarquistas concordam com Tolstói nesta verdade fundamental: se a produção de qualquer mercadoria necessita do sacrifício da vida humana, a sociedade deveria passar sem essa mercadoria, mas não pode passar sem essa vida. Isso, no entanto, de modo algum indica que o Anarquismo ensina a submissão. Como poderia, quando sabe que todo sofrimento, toda miséria, todos os males resultam do mal da submissão?
Algum ancestral americano não disse, muitos anos atrás, que a resistência à tirania é obediência a Deus? E ele nem sequer era anarquista. Eu diria que a resistência à tirania é o mais alto ideal do homem. Enquanto a tirania existir, em qualquer forma, a aspiração mais profunda do homem deve resistir a ela tão inevitavelmente quanto o homem deve respirar.
Comparados com a violência em larga escala do capital e do governo, os atos políticos de violência são apenas uma gota no oceano. Que tão poucos resistam é a prova mais forte de quão terrível deve ser o conflito entre suas almas e as iniquidades sociais insuportáveis.
Tensos, como uma corda de violino, eles choram e gemem pela vida, tão implacável, tão cruel, tão terrivelmente inumana. Em um momento de desespero, a corda quebra. Ouvidos desafinados não ouvem nada além de desarmonia. Mas aqueles que sentem o grito agonizante entendem sua harmonia; ouvem nele a realização do momento mais imperativo da natureza humana.
Tal é a psicologia da violência política.
[1] Um revolucionário cometendo um ato de violência política.
[2] PARIS AND THE SOCIAL REVOLUTION.
[3] De um panfleto publicado pelo Freedom Group de Londres.
[4] THE FREE HINDUSTAN.
PRISÕES: UM CRIME SOCIAL E UM FRACASSO
Em 1849, Fiódor Dostoiévski escreveu na parede de sua cela de prisão a seguinte história de O PADRE E O DIABO:
"'Olá, seu padre gorducho!', disse o diabo ao padre. 'O que o levou a mentir tanto para aquelas pessoas pobres e enganadas? Que torturas do inferno você descreveu? Você não sabe que elas já estão sofrendo as torturas do inferno em suas vidas terrenas? Você não sabe que você e as autoridades do Estado são meus representantes na terra? É você quem os faz sofrer as dores do inferno com as quais os ameaça. Você não sabe disso? Bem, então, venha comigo!'
"O diabo agarrou o padre pelo colarinho, levantou-o bem alto no ar e levou-o a uma fábrica, a uma fundição de ferro. Ele viu os trabalhadores lá correndo e apressando-se de um lado para o outro, e labutando no calor abrasador. Muito em breve, o ar espesso e pesado e o calor tornam-se demais para o padre. Com lágrimas nos olhos, ele implora ao diabo: 'Deixe-me ir! Deixe-me sair deste inferno!'
"'Oh, meu caro amigo, devo mostrar-lhe muitos outros lugares.' O diabo agarra-o novamente e arrasta-o para uma fazenda. Lá ele vê trabalhadores debulhando o grão. A poeira e o calor são insuportáveis. O capataz carrega um chicote e bate impiedosamente em qualquer um que caia no chão vencido pelo trabalho duro ou pela fome.
"Em seguida, o padre é levado para as cabanas onde esses mesmos trabalhadores vivem com suas famílias — buracos sujos, frios, enfumaçados e malcheirosos. O diabo sorri. Ele aponta para a pobreza e as dificuldades que têm seu lar aqui.
"'Bem, isso não é o bastante?', ele pergunta. E parece como se até mesmo ele, o diabo, tivesse pena das pessoas. O piedoso servo de Deus mal pode suportar. Com as mãos erguidas, ele implora: 'Deixe-me ir embora daqui. Sim, sim! Este é o inferno na terra!'
"'Bem, então, você vê. E você ainda lhes promete outro inferno. Você os atormenta, tortura-os até a morte mentalmente quando eles já estão quase mortos fisicamente! Vamos! Vou mostrar-lhe mais um inferno — mais um, o pior de todos.'
"Ele o levou a uma prisão e mostrou-lhe um calabouço, com seu ar fétido e as muitas formas humanas, despojadas de toda saúde e energia, deitadas no chão, cobertas de vermes que devoravam seus corpos pobres, nus e emaciados.
"'Tire suas roupas de seda', disse o diabo ao padre, 'coloque em seus tornozelos correntes pesadas como as que esses infelizes usam; deite-se no chão frio e imundo — e então fale para eles sobre um inferno que ainda os espera!'
"'Não, não!', respondeu o padre, 'não consigo pensar em nada mais terrível do que isso. Eu lhe imploro, deixe-me ir embora daqui!'
"'Sim, este é o inferno. Não pode haver inferno pior do que este. Você não sabia? Você não sabia que esses homens e mulheres que você está assustando com a imagem de um inferno depois da morte — você não sabia que eles estão no inferno bem aqui, antes de morrerem?'"
Isso foi escrito há cinquenta anos na Rússia sombria, na parede de uma das prisões mais horríveis. No entanto, quem pode negar que o mesmo se aplica com igual força aos tempos atuais, até mesmo às prisões americanas?
Com todas as nossas reformas alardeadas, nossas grandes mudanças sociais e nossas descobertas de longo alcance, seres humanos continuam a ser enviados para os piores infernos, onde são ultrajados, degradados e torturados, para que a sociedade possa ser "protegida" dos fantasmas de sua própria criação.
Prisão, uma proteção social? Que mente monstruosa concebeu tal ideia? Tão bem dizer que a saúde pode ser promovida por um contágio generalizado.
Após dezoito meses de horror em uma prisão inglesa, Oscar Wilde deu ao mundo sua grande obra-prima, A BALADA DO CÁRCERE DE READING:
Os atos mais vis, como ervas daninhas venenosas, Florescem bem no ar da prisão; É apenas o que há de bom no Homem Que definha e murcha ali. A angústia pálida guarda o portão pesado, E o carcereiro é o Desespero.
A sociedade continua perpetuando esse ar venenoso, não percebendo que dele nada pode vir senão os resultados mais venenosos.
Estamos gastando atualmente 3.500.000 dólares por dia, 1.000.095.000 dólares por ano, para manter instituições prisionais, e isso em um país democrático — uma soma quase tão grande quanto a produção combinada de trigo, avaliada em 750.000.000 dólares, e a produção de carvão, avaliada em 350.000.000 dólares. O Professor Bushnell de Washington, D.C., estima o custo das prisões em 6.000.000.000 dólares anualmente, e o Dr. G. Frank Lydston, um eminente escritor americano sobre o crime, fornece 5.000.000.000 dólares anualmente como um valor razoável. Tal despesa inaudita com o propósito de manter vastos exércitos de seres humanos enjaulados como bestas selvagens![1]
Contudo, os crimes estão em aumento. Assim, aprendemos que na América existem hoje quatro vezes e meia mais crimes por milhão de habitantes do que havia há vinte anos.
O aspecto mais horrível é que nosso crime nacional é o assassinato, não o roubo, a apropriação indébita ou o estupro, como no Sul. Londres é cinco vezes maior que Chicago, contudo, há cento e dezoito assassinatos anualmente nesta última cidade, enquanto apenas vinte em Londres. Nem Chicago é a cidade líder em crime, já que é apenas a sétima na lista, que é encabeçada por quatro cidades do Sul, além de São Francisco e Los Angeles. Em vista de tal condição terrível de coisas, parece ridículo tagarelar sobre a proteção que a sociedade deriva de suas prisões.
A mente média é lenta em apreender uma verdade, mas quando a instituição mais centralizada e organizada de forma completa, mantida a uma despesa nacional excessiva, provou ser um fracasso social completo, os mais obtusos devem começar a questionar seu direito de existir. O tempo passou em que podemos nos contentar com nosso tecido social meramente porque ele é "ordenado por direito divino", ou pela majestade da lei.
As investigações prisionais, a agitação e a educação generalizadas durante os últimos anos são prova conclusiva de que os homens estão aprendendo a cavar fundo até o próprio fundo da sociedade, até as causas da terrível discrepância entre a vida social e individual.
Por que, então, as prisões são um crime social e um fracasso? Para responder a essa questão vital, cabe-nos buscar a natureza e a causa dos crimes, os métodos empregados para lidar com eles e os efeitos que esses métodos produzem em livrar a sociedade da maldição e do horror dos crimes.
Primeiro, quanto à NATUREZA do crime:
Havelock Ellis divide o crime em quatro fases: a política, a passional, a insana e a ocasional. Ele diz que o criminoso político é a vítima de uma tentativa de um governo mais ou menos despótico de preservar sua própria estabilidade. Ele não é necessariamente culpado de uma ofensa antissocial; ele simplesmente tenta derrubar uma certa ordem política que pode ela própria ser antissocial. Essa verdade é reconhecida em todo o mundo, exceto na América, onde a noção tola ainda prevalece de que em uma Democracia não há lugar para criminosos políticos. No entanto, John Brown foi um criminoso político; assim como foram os anarquistas de Chicago; assim é cada grevista. Consequentemente, diz Havelock Ellis, o criminoso político de nosso tempo ou lugar pode ser o herói, mártir, santo de outra era. Lombroso chama o criminoso político de o verdadeiro precursor do movimento progressista da humanidade.
"O criminoso por paixão é geralmente um homem de nascimento íntegro e vida honesta, que, sob a pressão de algum grande erro imerecido, fez justiça pelas próprias mãos."[2]
O Sr. Hugh C. Weir, em THE MENACE OF THE POLICE, cita o caso de Jim Flaherty, um criminoso por paixão que, em vez de ser salvo pela sociedade, foi transformado em um bêbado e reincidente, resultando em uma família arruinada e mergulhada na pobreza.
Um tipo mais patético é Archie, a vítima no romance de Brand Whitlock, THE TURN OF THE BALANCE, a maior denúncia americana do crime em formação. Archie, ainda mais do que Flaherty, foi levado ao crime e à morte pela cruel desumanidade do seu meio e pela implacável perseguição da maquinaria da lei. Archie e Flaherty não passam de tipos entre muitos milhares, demonstrando como os aspectos legais do crime, e os métodos para lidar com ele, ajudam a criar a doença que está minando toda a nossa vida social.
"O criminoso insano realmente não pode ser considerado mais criminoso do que uma criança, uma vez que ele está mentalmente na mesma condição que um infante ou um animal."[3]
A lei já reconhece isso, mas apenas em casos raros de natureza muito flagrante, ou quando a riqueza do culpado permite o luxo da insanidade criminal. Tornou-se bastante elegante ser vítima de paranoia. Mas, de modo geral, a "soberania da justiça" continua a punir os criminosos insanos com toda a severidade de seu poder. Assim, o Sr. Ellis cita as estatísticas do Dr. Richter, mostrando que, na Alemanha, cento e seis loucos, de um total de cento e quarenta e quatro criminosos insanos, foram condenados a penas severas.
O criminoso ocasional "representa, de longe, a maior classe da nossa população carcerária, sendo, portanto, a maior ameaça ao bem-estar social". Qual é a causa que obriga um vasto exército da família humana a recorrer ao crime, a preferir a vida hedionda dentro das paredes da prisão à vida lá fora? Certamente, essa causa deve ser um mestre de ferro, que não deixa a suas vítimas nenhuma via de escape, pois o ser humano mais depravado ama a liberdade.
Essa força terrível é condicionada pelo nosso cruel arranjo social e econômico. Não pretendo negar os fatores biológicos, fisiológicos ou psicológicos na criação do crime; mas dificilmente existe um criminologista avançado que não admita que as influências sociais e econômicas são os germes mais implacáveis, os mais venenosos do crime. Mesmo admitindo que existam tendências criminosas inatas, não é menos verdade que essas tendências encontram farta nutrição no nosso ambiente social.
Existe uma relação estreita, diz Havelock Ellis, entre crimes contra a pessoa e o preço do álcool, entre crimes contra a propriedade e o preço do trigo. Ele cita Quetelet e Lacassagne; o primeiro vê a sociedade como a preparadora do crime, e os criminosos como instrumentos que os executam. O último constata que "o ambiente social é o meio de cultura da criminalidade; que o criminoso é o micróbio, um elemento que só se torna importante quando encontra o meio que o faz fermentar; TODA SOCIEDADE TEM OS CRIMINOSOS QUE MERECE."[4]
O período industrial mais "próspero" torna impossível para o trabalhador ganhar o suficiente para manter a saúde e o vigor. E como a prosperidade é, na melhor das hipóteses, uma condição imaginária, milhares de pessoas são constantemente adicionadas à horda dos desempregados. De leste a oeste, de sul a norte, este vasto exército perambula em busca de trabalho ou comida, e tudo o que encontram é o asilo ou as favelas. Aqueles que ainda conservam uma centelha de amor-próprio preferem o desafio aberto, preferem o crime à posição emaciada e degradada da pobreza.
Edward Carpenter estima que cinco sextos dos crimes sujeitos a indiciamento consistem em alguma violação dos direitos de propriedade; mas esse número é muito baixo. Uma investigação completa provaria que nove em cada dez crimes poderiam ser atribuídos, direta ou indiretamente, às nossas iniquidades econômicas e sociais, ao nosso sistema de exploração e roubo implacáveis. Não há criminoso tão estúpido que não reconheça esse fato terrível, embora talvez não seja capaz de explicá-lo.
Uma coletânea de filosofia criminal, compilada por Havelock Ellis, Lombroso e outros homens eminentes, mostra que o criminoso sente, de forma dolorosa, que é a sociedade que o leva ao crime. Um ladrão milanês disse a Lombroso: "Eu não roubo, apenas tiro dos ricos as suas superfluidades; além disso, os advogados e os comerciantes não roubam?" Um assassino escreveu: "Sabendo que três quartos das virtudes sociais são vícios covardes, pensei que um ataque aberto a um homem rico seria menos ignóbil do que a cautelosa combinação da fraude." Outro escreveu: "Estou preso por roubar meia dúzia de ovos. Ministros que roubam milhões são homenageados. Pobre Itália!" Um condenado instruído disse ao Sr. Davitt: "As leis da sociedade são formuladas com o propósito de garantir a riqueza do mundo ao poder e ao cálculo, privando, assim, a maior parte da humanidade de seus direitos e chances. Por que deveriam me punir por tomar, por meios um tanto semelhantes, daqueles que tomaram mais do que tinham o direito?" O mesmo homem acrescentou: "A religião rouba a alma de sua independência; o patriotismo é o culto estúpido do mundo, para o qual o bem-estar e a paz dos habitantes foram sacrificados por aqueles que lucram com isso, enquanto as leis da terra, ao restringir os desejos naturais, travavam guerra contra o espírito manifesto da lei de nosso ser. Comparado a isso", concluiu, "roubar é uma ocupação honrosa."[5]
Na verdade, há mais verdade nessa filosofia do que em todos os livros de lei e moral da sociedade.
Sendo os fatores econômicos, políticos, morais e físicos os micróbios do crime, como a sociedade enfrenta a situação?
Os métodos para lidar com o crime sem dúvida passaram por várias mudanças, mas principalmente em um sentido teórico. Na prática, a sociedade reteve o motivo primitivo ao lidar com o infrator; isto é, a vingança. Também adotou a ideia teológica; a saber, o castigo; enquanto os métodos legais e "civilizados" consistem na dissuasão ou terror, e na reforma. Veremos agora que todos os quatro modos falharam completamente, e que hoje não estamos mais próximos de uma solução do que na Idade das Trevas.
O impulso natural do homem primitivo de revidar, de vingar um erro, está fora de moda. Em vez disso, o homem civilizado, despido de coragem e audácia, delegou a uma maquinaria organizada o dever de vingar seus erros, na crença tola de que o Estado se justifica ao fazer o que ele mesmo já não tem a virilidade ou a coerência para fazer. A majestade da lei é algo racional; não se rebaixaria a instintos primitivos. Sua missão é de natureza "superior". É verdade, ainda está mergulhada na confusão teológica, que proclama o castigo como um meio de purificação ou a expiação vicária do pecado. Mas, legal e socialmente, o estatuto exerce o castigo, não apenas como uma imposição de dor ao infrator, mas também pelo seu efeito aterrorizante sobre os outros.
Qual é, no entanto, a base real do castigo? A noção de livre-arbítrio, a ideia de que o homem é, em todos os momentos, um agente livre para o bem ou para o mal; se ele escolhe este último, deve ser forçado a pagar o preço. Embora essa teoria tenha sido há muito tempo refutada e jogada no lixo, ela continua a ser aplicada diariamente por toda a maquinaria do governo, transformando-a no mais cruel e brutal atormentador da vida humana. A única razão para sua continuidade é a noção ainda mais cruel de que quanto maior o terror que o castigo espalha, mais certo é o seu efeito preventivo.
A sociedade está usando os métodos mais drásticos para lidar com o infrator social. Por que eles não desencorajam? Embora na América um homem deva ser considerado inocente até que se prove o contrário, os instrumentos da lei, a polícia, levam a cabo um reinado de terror, realizando detenções indiscriminadas, espancando, agredindo, intimidando pessoas, usando o método bárbaro do "terceiro grau", submetendo suas vítimas infelizes ao ar fétido da delegacia e à linguagem ainda mais fétida de seus guardiões. No entanto, os crimes estão se multiplicando rapidamente, e a sociedade está pagando o preço. Por outro lado, é um segredo aberto que, quando o infeliz cidadão recebe a plena "misericórdia" da lei e, por razões de segurança, é escondido no pior dos infernos, seu verdadeiro Calvário começa. Roubado de seus direitos como ser humano, degradado a um mero autômato sem vontade ou sentimento, dependente inteiramente da misericórdia de guardas brutais, ele passa diariamente por um processo de desumanização, comparado ao qual a vingança selvagem era apenas brincadeira de criança.
Não existe uma única instituição penal ou reformatório nos Estados Unidos onde os homens não sejam torturados "para se tornarem bons", por meio do cassetete, do bastão, da camisa de força, da tortura com água, do "beija-flor" (um dispositivo elétrico passado pelo corpo humano), da solitária, da arena e da dieta de inanição. Nessas instituições, sua vontade é quebrada, sua alma degradada, seu espírito subjugado pela monotonia mortal e pela rotina da vida na prisão. Em Ohio, Illinois, Pensilvânia, Missouri e no Sul, esses horrores tornaram-se tão flagrantes a ponto de atingir o mundo exterior, enquanto na maioria das outras prisões os mesmos métodos cristãos ainda prevalecem. Mas as paredes da prisão raramente permitem que os gritos agonizantes das vítimas escapem — as paredes da prisão são espessas, elas abafam o som. A sociedade poderia, com maior imunidade, abolir todas as prisões de uma vez, do que esperar proteção dessas câmaras de horrores do século XX.
Ano após ano, os portões dos infernos prisionais devolvem ao mundo uma tripulação de humanidade emaciada, deformada, sem vontade e naufragada, com a marca de Caim em suas testas, suas esperanças esmagadas, todas as suas inclinações naturais frustradas. Sem nada além de fome e desumanidade para recebê-los, essas vítimas logo voltam a cair no crime como a única possibilidade de existência. Não é nada incomum encontrar homens e mulheres que passaram metade de suas vidas — não, quase toda a sua existência — na prisão. Conheço uma mulher em Blackwell's Island, que entrou e saiu trinta e oito vezes; e, por meio de um amigo, soube que um jovem rapaz de dezessete anos, a quem ele havia cuidado e nutrido na penitenciária de Pittsburg, nunca tinha conhecido o significado da liberdade. Do reformatório à penitenciária, esse havia sido o caminho da vida desse rapaz, até que, com o corpo quebrado, ele morreu como vítima da vingança social. Essas experiências pessoais são corroboradas por dados extensivos que fornecem provas esmagadoras da absoluta futilidade das prisões como meio de dissuasão ou reforma.
Pessoas bem-intencionadas estão agora trabalhando por uma nova orientação na questão prisional — a recuperação, para restaurar mais uma vez ao prisioneiro a possibilidade de se tornar um ser humano. Por mais louvável que isso seja, temo que seja impossível esperar bons resultados ao colocar vinho bom em uma garrafa mofada. Nada menos que uma completa reconstrução da sociedade libertará a humanidade do câncer do crime. Ainda assim, se o gume cego da nossa consciência social fosse afiado, as instituições penais poderiam receber uma nova camada de verniz. Mas o primeiro passo a ser dado é a renovação da consciência social, que está em uma condição bastante dilapidada. Ela precisa tristemente ser despertada para o fato de que o crime é uma questão de grau, que todos temos os rudimentos do crime dentro de nós, mais ou menos, de acordo com nosso ambiente mental, físico e social; e que o criminoso individual é meramente um reflexo das tendências do agregado.
Com a consciência social desperta, o indivíduo comum pode aprender a recusar a "honra" de ser o cão de caça da lei. Ele pode deixar de perseguir, desprezar e desconfiar do infrator social, e dar-lhe a chance de viver e respirar entre seus semelhantes. As instituições são, naturalmente, mais difíceis de alcançar. São frias, impenetráveis e cruéis; ainda assim, com a consciência social aguçada, pode ser possível libertar as vítimas das prisões da brutalidade dos funcionários, guardas e carcereiros. A opinião pública é uma arma poderosa; até mesmo os carcereiros de presas humanas têm medo dela. Eles podem aprender um pouco de humanidade, especialmente se perceberem que seus empregos dependem disso.
Mas o passo mais importante é exigir para o prisioneiro o direito ao trabalho enquanto estiver na prisão, com alguma compensação monetária que lhe permita reservar um pouco para o dia de sua libertação, o início de uma nova vida.
É quase ridículo esperar muito da sociedade atual quando consideramos que os trabalhadores, eles próprios escravos assalariados, se opõem ao trabalho dos condenados. Não entrarei na crueldade dessa objeção, mas apenas considerarei a impraticabilidade dela. Para começar, a oposição levantada até agora pelo trabalho organizado tem sido dirigida contra moinhos de vento. Os prisioneiros sempre trabalharam; apenas o Estado tem sido seu explorador, assim como o empregador individual tem sido o ladrão do trabalho organizado. Os Estados ou colocaram os condenados para trabalhar para o governo, ou arrendaram o trabalho dos condenados a indivíduos privados. Vinte e nove dos Estados seguem o último plano. O governo federal e dezessete Estados o descartaram, assim como as principais nações da Europa, uma vez que isso leva a um sobretrabalho hediondo e ao abuso dos prisioneiros, além de corrupção interminável.
Rhode Island, o Estado dominado por Aldrich, oferece talvez o pior exemplo. Sob um contrato de cinco anos, datado de 7 de julho de 1906, e renovável por mais cinco anos a critério dos contratantes privados, o trabalho dos detentos da Penitenciária de Rhode Island e da Cadeia do Condado de Providence é vendido para a Reliance-Sterling Mfg. Co. à taxa de pouco menos de 25 centavos de dólar por dia por homem. Esta empresa é, na verdade, um gigantesco Trust de Trabalho Prisional, pois também aluga o trabalho dos condenados das penitenciárias de Connecticut, Michigan, Indiana, Nebraska e Dakota do Sul, e dos reformatórios de Nova Jersey, Indiana, Illinois e Wisconsin, onze estabelecimentos ao todo.
A enormidade da corrupção sob o contrato de Rhode Island pode ser estimada pelo fato de que esta mesma empresa paga 62 centavos e meio por dia em Nebraska pelo trabalho do condenado, e que o Tennessee, por exemplo, recebe 1,10 dólar por dia pelo trabalho de um condenado da Gray-Dudley Hardware Co.; o Missouri recebe 70 centavos por dia da Star Overall Mfg. Co.; a Virgínia Ocidental 65 centavos por dia da Kraft Mfg. Co., e Maryland 55 centavos por dia da Oppenheim, Oberndorf & Co., fabricantes de camisas. A própria diferença nos preços aponta para uma corrupção enorme. Por exemplo, a Reliance-Sterling Mfg. Co. fabrica camisas, sendo o custo do trabalho livre não inferior a 1,20 dólar por dúzia, enquanto paga a Rhode Island trinta centavos por dúzia. Além disso, o Estado não cobra deste Trust nenhum aluguel pelo uso de sua enorme fábrica, não cobra nada por energia, aquecimento, luz ou mesmo drenagem, e não exige impostos. Que corrupção!
Estima-se que mais de doze milhões de dólares em camisas e macacões de trabalhadores sejam produzidos anualmente neste país pelo trabalho prisional. É uma indústria feminina, e a primeira reflexão que surge é que uma imensa quantidade de trabalho feminino livre é, assim, deslocada. A segunda consideração é que os condenados do sexo masculino, que deveriam estar aprendendo ofícios que lhes dessem alguma chance de serem autossustentáveis após sua libertação, são mantidos nesse trabalho no qual não podem possivelmente ganhar um dólar. Isso é ainda mais sério quando consideramos que muito desse trabalho é feito em reformatórios, que tão ruidosamente professam estar treinando seus internos para se tornarem cidadãos úteis.
A terceira, e mais importante consideração, é que os enormes lucros assim extorquidos do trabalho dos condenados são um incentivo constante para que os contratantes exijam de suas infelizes vítimas tarefas totalmente além de suas forças, e para que as punam cruelmente quando seu trabalho não atende às demandas excessivas feitas.
Mais uma palavra sobre a condenação dos condenados a tarefas nas quais eles não podem esperar ganhar a vida após a libertação. Indiana, por exemplo, é um Estado que fez um grande alarde sobre estar na vanguarda das melhorias penológicas modernas. No entanto, de acordo com o relatório apresentado em 1908 pela escola de treinamento de seu "reformatório", 135 estavam envolvidos na fabricação de correntes, 207 na de camisas e 255 na fundição — um total de 597 em três ocupações. Mas, neste chamado reformatório, 59 ocupações estavam representadas pelos internos, 39 das quais relacionadas com atividades rurais. Indiana, como outros Estados, professa estar treinando os internos de seu reformatório para ocupações pelas quais serão capazes de ganhar sua vida quando libertados. Ela realmente os coloca para trabalhar fazendo correntes, camisas e vassouras, estas últimas em benefício da Louisville Fancy Grocery Co. A fabricação de vassouras é um comércio amplamente monopolizado pelos cegos, a fabricação de camisas é feita por mulheres, e existe apenas uma fábrica de correntes livre no Estado, e nela um condenado libertado não pode esperar conseguir emprego. A coisa toda é uma farsa cruel.
Se, então, os Estados podem ser instrumentos para roubar suas vítimas indefesas de lucros tão tremendos, não é hora de o trabalho organizado parar com seu uivo ocioso e insistir em uma remuneração decente para o condenado, assim como as organizações trabalhistas reivindicam para si mesmas? Dessa forma, os trabalhadores matariam o germe que faz do prisioneiro um inimigo dos interesses do trabalho. Já disse em outro lugar que milhares de condenados, incompetentes e sem um ofício, sem meios de subsistência, são devolvidos anualmente ao seio social. Esses homens e mulheres precisam viver, pois até mesmo um ex-condenado tem necessidades. A vida na prisão os transformou em seres antissociais, e as portas rigidamente fechadas que os recebem após sua libertação não tendem a diminuir sua amargura. O resultado inevitável é que eles formam um núcleo favorável do qual são recrutados fura-greves, agentes provocadores, detetives e policiais, dispostos a cumprir as ordens do patrão. Assim, o trabalho organizado, por sua oposição tola ao trabalho na prisão, derrota seus próprios objetivos. Ele ajuda a criar vapores venenosos que sufocam toda tentativa de melhoria econômica. Se o trabalhador quer evitar esses efeitos, ele deveria INSISTIR no direito do condenado ao trabalho, deveria encontrá-lo como um irmão, levá-lo para sua organização e, COM SUA AJUDA, VOLTAR-SE CONTRA O SISTEMA QUE ESMAGA A AMBOS.
Por último, mas não menos importante, está a crescente percepção da barbárie e da inadequação da sentença definida. Aqueles que acreditam e visam seriamente uma mudança estão rapidamente chegando à conclusão de que o homem deve ter a oportunidade de se regenerar. E como ele vai fazer isso com dez, quinze ou vinte anos de prisão pela frente? A esperança de liberdade e de oportunidade é o único incentivo para a vida, especialmente a vida do prisioneiro. A sociedade pecou tanto contra ele — deveria, pelo menos, deixar-lhe isso. Não estou muito otimista de que ela o fará, ou de que qualquer mudança real nessa direção possa ocorrer até que as condições que geram tanto o prisioneiro quanto o carcereiro sejam para sempre abolidas.
Da sua boca uma rosa vermelha, vermelha! Do seu coração uma branca! Pois quem pode dizer por que estranho caminho Cristo traz a luz à sua vontade, Visto que o cajado estéril que o peregrino portava Floresceu à vista do grande Papa.
[1] CRIME AND CRIMINALS. W. C. Owen.
[2] THE CRIMINAL, Havelock Ellis.
[3] THE CRIMINAL.
[4] THE CRIMINAL.
[5] THE CRIMINAL.
PATRIOTISMO: UMA AMEAÇA À LIBERDADE
O que é o patriotismo? É o amor pelo lugar de nascimento, o lugar das recordações, esperanças, sonhos e aspirações da infância? É o lugar onde, na ingenuidade infantil, observávamos as nuvens passageiras e nos perguntávamos por que nós também não podíamos correr tão velozmente? O lugar onde contávamos o milhar de estrelas cintilantes, apavorados com o receio de que cada uma fosse "um olho", perfurando as profundezas de nossas pequenas almas? É o lugar onde ouvíamos a música dos pássaros e desejávamos ter asas para voar, como eles, para terras distantes? Ou o lugar onde nos sentávamos no colo da mãe, arrebatados por contos maravilhosos de grandes feitos e conquistas? Em suma, é o amor pelo local, cada centímetro representando queridas e preciosas recordações de uma infância feliz, alegre e brincalhona?
Se isso fosse patriotismo, poucos homens americanos de hoje poderiam ser chamados a ser patriotas, uma vez que o lugar das brincadeiras foi transformado em fábrica, usina e mina, enquanto os sons ensurdecedores das máquinas substituíram a música dos pássaros. Nem podemos mais ouvir os contos de grandes feitos, pois as histórias que nossas mães contam hoje não passam daquelas de tristeza, lágrimas e pesar.
Patriotismo, então, o que é? "O patriotismo, senhor, é o último refúgio dos canalhas", disse o Dr. Johnson. Leo Tolstoy, o maior antipatriota dos nossos tempos, define o patriotismo como o princípio que justificará o treinamento de assassinos em massa; um ofício que exige melhor equipamento para o exercício de matar homens do que para a fabricação de necessidades da vida, como sapatos, roupas e casas; um ofício que garante retornos melhores e maior glória do que a do trabalhador comum.
Gustave Herve, outro grande antipatriota, chama justamente o patriotismo de superstição — uma muito mais prejudicial, brutal e desumana do que a religião. A superstição da religião originou-se da incapacidade do homem em explicar fenômenos naturais. Isto é, quando o homem primitivo ouvia o trovão ou via o relâmpago, ele não conseguia explicar nenhum dos dois e, portanto, concluía que por trás deles deveria haver uma força maior do que ele mesmo. Da mesma forma, ele via uma força sobrenatural na chuva e nas várias outras mudanças na natureza. O patriotismo, por outro lado, é uma superstição artificialmente criada e mantida através de uma rede de mentiras e falsidades; uma superstição que rouba do homem o seu autorrespeito e dignidade, e aumenta a sua arrogância e vaidade.
De fato, a vaidade, a arrogância e o egoísmo são os elementos essenciais do patriotismo. Deixe-me ilustrar. O patriotismo pressupõe que o nosso globo está dividido em pequenos pontos, cada um cercado por um portão de ferro. Aqueles que tiveram a sorte de nascer em um determinado ponto consideram-se melhores, mais nobres, mais grandiosos, mais inteligentes do que os seres vivos que habitam qualquer outro ponto. É, portanto, dever de todos os que vivem naquele ponto escolhido lutar, matar e morrer na tentativa de impor a sua superioridade sobre todos os outros.
Os habitantes dos outros pontos raciocinam da mesma maneira, é claro, com o resultado de que, desde a primeira infância, a mente da criança é envenenada com histórias de gelar o sangue sobre os alemães, os franceses, os italianos, os russos, etc. Quando a criança atinge a idade adulta, ela está completamente saturada com a crença de que foi escolhida pelo próprio Senhor para defender O SEU país contra o ataque ou a invasão de qualquer estrangeiro. É para esse propósito que estamos clamando por um exército e uma marinha maiores, mais navios de guerra e munição. É para esse propósito que a América gastou, em pouco tempo, quatrocentos milhões de dólares. Apenas pense nisso — quatrocentos milhões de dólares retirados do produto do POVO. Pois certamente não são os ricos que contribuem para o patriotismo. Eles são cosmopolitas, sentindo-se perfeitamente em casa em todas as terras. Nós, na América, conhecemos bem a verdade disso. Os nossos ricos americanos não são franceses na França, alemães na Alemanha ou ingleses na Inglaterra? E não esbanjam eles com graça cosmopolita fortunas cunhadas pelas crianças das fábricas americanas e pelos escravos do algodão? Sim, o deles é o patriotismo que tornará possível enviar mensagens de condolências a um déspota como o Tsar russo, quando qualquer infortúnio o atinge, como fez o Presidente Roosevelt em nome do SEU povo, quando Sergius foi punido pelos revolucionários russos.
É um patriotismo que auxiliará o arquiassassino, Diaz, a destruir milhares de vidas no México, ou que até ajudará a prender revolucionários mexicanos em solo americano e mantê-los encarcerados em prisões americanas, sem a menor causa ou razão.
Mas, então, o patriotismo não é para aqueles que representam a riqueza e o poder. É bom o suficiente para o povo. Lembra-nos da sabedoria histórica de Frederico, o Grande, o amigo íntimo de Voltaire, que disse: "A religião é uma fraude, mas deve ser mantida para as massas".
Que o patriotismo é uma instituição bastante dispendiosa, ninguém duvidará após considerar as seguintes estatísticas. O aumento progressivo das despesas com os principais exércitos e marinhas do mundo durante o último quarto de século é um fato de tal gravidade que assusta todo estudante atento de problemas econômicos. Pode ser indicado brevemente dividindo-se o período de 1881 a 1905 em períodos de cinco anos, e notando os desembolsos de várias grandes nações para fins de exército e marinha durante o primeiro e o último desses períodos. Do primeiro ao último dos períodos notados, as despesas da Grã-Bretanha aumentaram de $2.101.848.936 para $4.143.226.885; as da França, de $3.324.500.000 para $3.455.109.900; as da Alemanha, de $725.000.200 para $2.700.375.600; as dos Estados Unidos, de $1.275.500.750 para $2.650.900.450; as da Rússia, de $1.900.975.500 para $5.250.445.100; as da Itália, de $1.600.975.750 para $1.755.500.100; e as do Japão, de $182.900.500 para $700.925.475.
As despesas militares de cada uma das nações mencionadas aumentaram em cada um dos períodos de cinco anos sob revisão. Durante todo o intervalo de 1881 a 1905, o gasto da Grã-Bretanha com seu exército aumentou quatro vezes, o dos Estados Unidos triplicou, o da Rússia dobrou, o da Alemanha aumentou 35 por cento, o da França cerca de 15 por cento e o do Japão quase 500 por cento. Se compararmos as despesas dessas nações com seus exércitos com suas despesas totais durante todos os vinte e cinco anos terminando em 1905, a proporção aumentou da seguinte forma:
Na Grã-Bretanha, de 20 por cento para 37; nos Estados Unidos, de 15 para 23; na França, de 16 para 18; na Itália, de 12 para 15; no Japão, de 12 para 14. Por outro lado, é interessante notar que a proporção na Alemanha diminuiu de cerca de 58 por cento para 25, sendo a diminuição devida ao enorme aumento nas despesas imperiais para outros fins, sendo o fato de que as despesas com o exército para o período de 1901-5 foram maiores do que para qualquer período de cinco anos anterior. As estatísticas mostram que os países em que as despesas com o exército são maiores, em proporção às receitas nacionais totais, são a Grã-Bretanha, os Estados Unidos, o Japão, a França e a Itália, nesta ordem.
A demonstração quanto ao custo das grandes marinhas é igualmente impressionante. Durante os vinte e cinco anos que terminaram em 1905, as despesas navais aumentaram aproximadamente da seguinte forma: Grã-Bretanha, 300 por cento; França, 60 por cento; Alemanha, 600 por cento; Estados Unidos, 525 por cento; Rússia, 300 por cento; Itália, 250 por cento; e Japão, 700 por cento. Com exceção da Grã-Bretanha, os Estados Unidos gastam mais com fins navais do que qualquer outra nação, e essa despesa também representa uma proporção maior dos desembolsos nacionais totais do que a de qualquer outra potência. No período 1881-5, a despesa para a marinha dos Estados Unidos foi de $6,20 de cada $100 apropriados para todos os fins nacionais; o valor subiu para $6,60 no período de cinco anos seguinte, para $8,10 no próximo, para $11,70 no próximo e para $16,40 em 1901-5. É moralmente certo que o gasto para o período atual de cinco anos mostrará um aumento ainda maior.
O custo crescente do militarismo pode ser ainda mais ilustrado calculando-o como um imposto per capita sobre a população. Do primeiro ao último dos períodos de cinco anos tomados como base para as comparações aqui apresentadas, ele subiu da seguinte forma: na Grã-Bretanha, de $18,47 para $52,50; na França, de $19,66 para $23,62; na Alemanha, de $10,17 para $15,51; nos Estados Unidos, de $5,62 para $13,64; na Rússia, de $6,14 para $8,37; na Itália, de $9,59 para $11,24; e no Japão, de 86 centavos para $3,11.
É em conexão com essa estimativa aproximada de custo per capita que o ônus econômico do militarismo é mais apreciável. A conclusão irresistível a partir dos dados disponíveis é que o aumento da despesa para fins de exército e marinha está superando rapidamente o crescimento da população em cada um dos países considerados no presente cálculo. Em outras palavras, uma continuação das crescentes exigências do militarismo ameaça cada uma dessas nações com um esgotamento progressivo tanto de homens quanto de recursos.
O desperdício terrível que o patriotismo necessita deveria ser suficiente para curar o homem de inteligência média dessa doença. No entanto, o patriotismo exige ainda mais. O povo é instado a ser patriótico e, por esse luxo, paga não apenas apoiando seus "defensores", mas até sacrificando seus próprios filhos. O patriotismo exige lealdade à bandeira, o que significa obediência e prontidão para matar pai, mãe, irmão, irmã.
A alegação habitual é que precisamos de um exército permanente para proteger o país de uma invasão estrangeira. Todo homem e mulher inteligente sabe, no entanto, que isso é um mito mantido para assustar e coagir os tolos. Os governos do mundo, conhecendo os interesses uns dos outros, não invadem uns aos outros. Eles aprenderam que podem ganhar muito mais com a arbitragem internacional de disputas do que com a guerra e a conquista. De fato, como disse Carlyle: "A guerra é uma briga entre dois ladrões covardes demais para lutar sua própria batalha; portanto, pegam meninos de uma aldeia e de outra aldeia; colocam-nos em uniformes, equipam-nos com armas e soltam-nos como feras selvagens uns contra os outros".
Não exige muita sabedoria traçar cada guerra de volta a uma causa semelhante. Tomemos a nossa própria guerra hispano-americana, supostamente um grande e patriótico evento na história dos Estados Unidos. Como nossos corações queimaram de indignação contra os atrozes espanhóis! Verdade, nossa indignação não explodiu espontaneamente. Foi nutrida por meses de agitação jornalística, e muito depois de o Açougueiro Weyler ter matado muitos nobres cubanos e ultrajado muitas mulheres cubanas. Ainda assim, em justiça à Nação Americana, diga-se que ela se indignou e estava disposta a lutar, e que lutou bravamente. Mas quando a fumaça passou, os mortos foram enterrados e o custo da guerra voltou ao povo em um aumento no preço das mercadorias e dos aluguéis — isto é, quando ficamos sóbrios da nossa farra patriótica — percebemos subitamente que a causa da guerra hispano-americana era a consideração do preço do açúcar; ou, para ser mais explícito, que as vidas, o sangue e o dinheiro do povo americano foram usados para proteger os interesses dos capitalistas americanos, que estavam ameaçados pelo governo espanhol. Que isso não é um exagero, mas baseado em fatos e números absolutos, é melhor provado pela atitude do governo americano em relação ao trabalho cubano. Quando Cuba estava firmemente nas garras dos Estados Unidos, os próprios soldados enviados para libertar Cuba foram ordenados a atirar nos trabalhadores cubanos durante a grande greve dos fabricantes de charutos, que ocorreu logo após a guerra.
Nem estamos sozinhos em travar guerras por tais causas. A cortina está começando a se levantar sobre os motivos da terrível guerra russo-japonesa, que custou tanto sangue e lágrimas. E vemos novamente que por trás do feroz Moloch da guerra está o deus ainda mais feroz do Comercialismo. Kuropatkin, o Ministro da Guerra russo durante a luta russo-japonesa, revelou o verdadeiro segredo por trás desta última. O Tsar e seus Grandes Duques, tendo investido dinheiro em concessões coreanas, a guerra foi forçada com o único propósito de acumular rapidamente grandes fortunas.
A alegação de que um exército e uma marinha permanentes são a melhor segurança da paz é tão lógica quanto a afirmação de que o cidadão mais pacífico é aquele que anda fortemente armado. A experiência da vida cotidiana prova plenamente que o indivíduo armado está invariavelmente ansioso para testar a sua força. O mesmo é historicamente verdadeiro para os governos. Países realmente pacíficos não desperdiçam vida e energia em preparativos de guerra, com o resultado de que a paz é mantida.
No entanto, o clamor por um exército e uma marinha maiores não se deve a nenhum perigo estrangeiro. Deve-se ao medo do crescente descontentamento das massas e do espírito internacional entre os trabalhadores. É para enfrentar o inimigo interno que as Potências de vários países estão se preparando; um inimigo que, uma vez despertado para a consciência, provará ser mais perigoso do que qualquer invasor estrangeiro.
Os poderes que durante séculos estiveram envolvidos na escravização das massas fizeram um estudo completo da sua psicologia. Eles sabem que o povo em geral é como crianças cujo desespero, tristeza e lágrimas podem ser transformados em alegria com um pequeno brinquedo. E quanto mais magnificamente o brinquedo estiver vestido, quanto mais vivas forem as cores, mais ele atrairá a criança de mil cabeças.
Um exército e uma marinha representam os brinquedos do povo. Para torná-los mais atraentes e aceitáveis, centenas e milhares de dólares estão sendo gastos para a exibição desses brinquedos. Esse foi o propósito do governo americano ao equipar uma frota e enviá-la ao longo da costa do Pacífico, para que todo cidadão americano fosse levado a sentir o orgulho e a glória dos Estados Unidos. A cidade de São Francisco gastou cem mil dólares para o entretenimento da frota; Los Angeles, sessenta mil; Seattle e Tacoma, cerca de cem mil. Para entreter a frota, eu disse? Para jantar e beber com alguns oficiais superiores, enquanto os "bravos rapazes" tinham que se amotinar para conseguir comida suficiente. Sim, duzentos e sessenta mil dólares foram gastos em fogos de artifício, festas teatrais e folias, em um momento em que homens, mulheres e crianças por toda a extensão do país passavam fome nas ruas; quando milhares de desempregados estavam dispostos a vender seu trabalho a qualquer preço.
Duzentos e sessenta mil dólares! O que não poderia ter sido realizado com uma soma tão enorme? Mas, em vez de pão e abrigo, as crianças daquelas cidades foram levadas para ver a frota, para que ela possa permanecer, como disse um dos jornais, "uma memória duradoura para a criança".
Uma coisa maravilhosa de se lembrar, não é? Os instrumentos do massacre civilizado. Se a mente da criança deve ser envenenada com tais memórias, que esperança há para uma verdadeira realização da fraternidade humana?
Nós, americanos, alegamos ser um povo amante da paz. Odiamos o derramamento de sangue; somos contra a violência. No entanto, entramos em espasmos de alegria com a possibilidade de lançar bombas de dinamite de máquinas voadoras sobre cidadãos indefesos. Estamos prontos para enforcar, eletrocutar ou linchar qualquer um que, por necessidade econômica, arrisque sua própria vida na tentativa contra a de algum magnata industrial. No entanto, nossos corações incham de orgulho com o pensamento de que a América está se tornando a nação mais poderosa da terra, e que eventualmente plantará seu pé de ferro no pescoço de todas as outras nações.
Essa é a lógica do patriotismo.
Considerando os resultados malignos com que o patriotismo está repleto para o homem comum, nada é comparado ao insulto e ao dano que o patriotismo amontoa sobre o próprio soldado — essa pobre vítima iludida da superstição e da ignorância. Ele, o salvador do seu país, o protetor da sua nação — o que o patriotismo tem reservado para ele? Uma vida de submissão servil, vício e perversão, durante a paz; uma vida de perigo, exposição e morte, durante a guerra.
Durante uma recente turnê de palestras em São Francisco, visitei o Presidio, o ponto mais bonito com vista para a Baía e o Golden Gate Park. Seu propósito deveria ter sido playgrounds para crianças, jardins e música para a recreação dos cansados. Em vez disso, é feito feio, monótono e cinzento por quartéis — quartéis nos quais os ricos não permitiriam que seus cães habitassem. Nesses casebres miseráveis, os soldados são amontoados como gado; aqui eles desperdiçam seus dias jovens, polindo as botas e os botões de latão de seus oficiais superiores. Aqui, também, vi a distinção de classes: filhos robustos de uma República livre, alinhados como condenados, saudando cada camarão de tenente que passava. Igualdade americana, degradando a humanidade e elevando o uniforme!
A vida nos quartéis tende ainda a desenvolver tendências de perversão sexual. Está produzindo gradualmente ao longo desta linha resultados semelhantes às condições militares europeias. Havelock Ellis, o notável escritor sobre psicologia sexual, fez um estudo completo do assunto. Cito: "Alguns dos quartéis são grandes centros de prostituição masculina... O número de soldados que se prostituem é maior do que estamos dispostos a acreditar. Não é exagero dizer que em certos regimentos a presunção é em favor da venalidade da maioria dos homens... Nas noites de verão, o Hyde Park e a vizinhança de Albert Gate estão cheios de guardas e outros exercendo um comércio animado, e com pouco disfarce, de uniforme ou não... Na maioria dos casos, os rendimentos formam um complemento confortável para o dinheiro de bolso de Tommy Atkins".
Até que ponto essa perversão corroeu o exército e a marinha pode ser melhor julgado pelo fato de existirem casas especiais para essa forma de prostituição. A prática não se limita à Inglaterra; é universal. "Os soldados não são menos procurados na França do que na Inglaterra ou na Alemanha, e casas especiais para prostituição militar existem tanto em Paris quanto nas cidades de guarnição".
Se o Sr. Havelock Ellis tivesse incluído a América em sua investigação sobre perversão sexual, ele teria descoberto que as mesmas condições prevalecem em nosso exército e marinha como nos de outros países. O crescimento do exército permanente contribui inevitavelmente para a propagação da perversão sexual; os quartéis são as incubadoras.
Além dos efeitos sexuais da vida nos quartéis, ela também tende a tornar o soldado inapto para o trabalho útil após deixar o exército. Homens, qualificados em um ofício, raramente entram para o exército ou a marinha, mas mesmo eles, após uma experiência militar, encontram-se totalmente inaptos para suas ocupações anteriores. Tendo adquirido hábitos de ociosidade e um gosto por emoção e aventura, nenhuma busca pacífica pode contentá-los. Liberados do exército, eles não podem se voltar para nenhum trabalho útil. Mas geralmente é a escória social, prisioneiros libertados e semelhantes, que a luta pela vida ou sua própria inclinação conduz às fileiras. Estes, terminado seu termo militar, voltam à sua antiga vida de crime, mais brutalizados e degradados do que antes. É um fato bem conhecido que em nossas prisões há um bom número de ex-soldados; enquanto, por outro lado, o exército e a marinha são, em grande parte, abastecidos por ex-condenados.
De todos os resultados malignos que acabei de descrever, nenhum me parece tão prejudicial à integridade humana quanto o espírito que o patriotismo produziu no caso do soldado William Buwalda. Porque ele acreditou tolamente que se pode ser um soldado e exercer seus direitos como homem ao mesmo tempo, as autoridades militares puniram-no severamente. Verdade, ele serviu ao seu país por quinze anos, durante os quais seu registro foi irrepreensível. De acordo com o Gen. Funston, que reduziu a sentença de Buwalda para três anos, "o primeiro dever de um oficial ou de um praça é a obediência e lealdade inquestionáveis ao governo, e não faz diferença se ele aprova ou não esse governo". Assim, Funston marca o verdadeiro caráter da lealdade. De acordo com ele, a entrada no exército revoga os princípios da Declaração de Independência.
Que estranho desenvolvimento do patriotismo que transforma um ser pensante em uma máquina leal!
Em justificativa desta sentença mais ultrajante contra Buwalda, o Gen. Funston diz ao povo americano que a ação do soldado foi um "crime grave igual à traição". Agora, em que consistiu realmente esse "crime terrível"? Simplesmente nisto: William Buwalda foi um dos mil e quinhentos presentes a uma reunião pública em São Francisco; e, oh, horrores, ele apertou a mão da oradora, Emma Goldman. Um crime terrível, de fato, que o General chama de "uma grande ofensa militar, infinitamente pior do que a deserção".
Pode haver uma acusação maior contra o patriotismo do que o fato de ele estigmatizar assim um homem como criminoso, lançá-lo na prisão e roubá-lo dos resultados de quinze anos de serviço fiel?
Buwalda deu ao seu país os melhores anos de sua vida e sua própria masculinidade. Mas tudo isso não foi nada. O patriotismo é inexorável e, como todos os monstros insaciáveis, exige tudo ou nada. Ele não admite que um soldado também seja um ser humano, que tem direito aos seus próprios sentimentos e opiniões, às suas próprias inclinações e ideias. Não, o patriotismo não pode admitir isso. Essa é a lição que Buwalda foi levado a aprender; levado a aprender a um preço bastante caro, embora não inútil. Quando ele retornou à liberdade, tinha perdido sua posição no exército, mas recuperou seu autorrespeito. Afinal, isso vale três anos de prisão.
Um escritor sobre as condições militares da América, em um artigo recente, comentou sobre o poder do homem militar sobre o civil na Alemanha. Ele disse, entre outras coisas, que se a nossa República não tivesse outro significado além de garantir a todos os cidadãos direitos iguais, ela teria uma causa justa para existir. Estou convencida de que o escritor não estava no Colorado durante o regime patriótico do General Bell. Ele provavelmente teria mudado de ideia se tivesse visto como, em nome do patriotismo e da República, homens eram jogados em cercados, arrastados, expulsos através da fronteira e submetidos a todo tipo de indignidades. Nem esse incidente do Colorado é o único no crescimento do poder militar nos Estados Unidos. Dificilmente há uma greve onde tropas e milícias não venham ao resgate daqueles no poder, e onde não ajam de forma tão arrogante e brutal quanto os homens que usam o uniforme do Kaiser. Além disso, temos a lei militar Dick. Teria o escritor esquecido disso?
Um grande infortúnio com a maioria dos nossos escritores é que eles são absolutamente ignorantes sobre os eventos atuais, ou que, carecendo de honestidade, não querem falar sobre esses assuntos. E assim aconteceu que a lei militar Dick foi apressada pelo Congresso com pouca discussão e ainda menos publicidade — uma lei que dá ao Presidente o poder de transformar um cidadão pacífico em um sanguinário matador de homens, supostamente para a defesa do país, na realidade para a proteção dos interesses daquele partido específico do qual o Presidente por acaso é o porta-voz.
Nosso escritor afirma que o militarismo nunca pode se tornar um poder tão grande na América quanto no exterior, já que conosco é voluntário, enquanto no Velho Mundo é obrigatório. Dois fatos muito importantes, no entanto, o cavalheiro esquece de considerar. Primeiro, que o recrutamento criou na Europa um ódio profundo pelo militarismo entre todas as classes da sociedade. Milhares de jovens recrutas se alistam sob protesto e, uma vez no exército, usarão todos os meios possíveis para desertar. Segundo, que é o caráter obrigatório do militarismo que criou um tremendo movimento antimilitarista, temido pelas Potências europeias muito mais do que qualquer outra coisa. Afinal, o maior baluarte do capitalismo é o militarismo. No exato momento em que este for minado, o capitalismo vacilará. É verdade, não temos recrutamento; isto é, os homens geralmente não são forçados a se alistar no exército, mas desenvolvemos uma força muito mais exigente e rígida — a necessidade. Não é um fato que, durante as depressões industriais, há um tremendo aumento no número de alistamentos? O ofício do militarismo pode não ser lucrativo ou honroso, mas é melhor do que vagar pelo país em busca de trabalho, ficar na fila do pão ou dormir em albergues municipais. Afinal, significa treze dólares por mês, três refeições por dia e um lugar para dormir. Contudo, nem mesmo a necessidade é um fator suficientemente forte para trazer ao exército um elemento de caráter e masculinidade. Não é de admirar que nossas autoridades militares reclamem do "material pobre" que se alista no exército e na marinha. Essa admissão é um sinal muito encorajador. Prova que ainda resta espírito de independência e amor à liberdade no americano médio o suficiente para arriscar a fome em vez de vestir o uniforme.
Homens e mulheres pensantes em todo o mundo estão começando a perceber que o patriotismo é uma concepção muito estreita e limitada para atender às necessidades do nosso tempo. A centralização do poder trouxe à existência um sentimento internacional de solidariedade entre as nações oprimidas do mundo; uma solidariedade que representa uma harmonia de interesses maior entre o trabalhador da América e seus irmãos no exterior do que entre o mineiro americano e seu compatriota explorador; uma solidariedade que não teme a invasão estrangeira, porque está levando todos os trabalhadores ao ponto em que dirão aos seus mestres: "Vão e façam seu próprio assassinato. Já fizemos isso tempo suficiente para vocês."
Essa solidariedade está despertando a consciência até mesmo dos soldados, eles também, sendo carne da carne da grande família humana. Uma solidariedade que se provou infalível mais de uma vez durante lutas passadas, e que foi o ímpeto que induziu os soldados parisienses, durante a Comuna de 1871, a recusar obedecer quando ordenados a atirar em seus irmãos. Deu coragem aos homens que se amotinaram nos navios de guerra russos durante anos recentes. Eventualmente, trará a revolta de todos os oprimidos e espezinhados contra seus exploradores internacionais.
O proletariado da Europa percebeu a grande força dessa solidariedade e, como resultado, inaugurou uma guerra contra o patriotismo e seu espectro sangrento, o militarismo. Milhares de homens enchem as prisões da França, Alemanha, Rússia e dos países escandinavos, porque ousaram desafiar a antiga superstição. Nem o movimento se limita à classe trabalhadora; ele abrangeu representantes de todas as estações da vida, sendo seus principais expoentes homens e mulheres proeminentes na arte, ciência e letras.
A América terá que seguir o exemplo. O espírito do militarismo já permeou todas as esferas da vida. De fato, estou convencida de que o militarismo está se tornando um perigo maior aqui do que em qualquer outro lugar, por causa dos muitos subornos que o capitalismo oferece àqueles que deseja destruir.
O começo já foi feito nas escolas. Evidentemente, o governo mantém a concepção jesuítica: "Dê-me a mente da criança e eu moldarei o homem." As crianças são treinadas em táticas militares, a glória das conquistas militares é exaltada no currículo, e as mentes juvenis são pervertidas para servir ao governo. Além disso, apela-se à juventude do país em cartazes chamativos para que se junte ao exército e à marinha. "Uma bela chance de ver o mundo!", grita o mascate governamental. Assim, meninos inocentes são moralmente aliciados para o patriotismo, e o Moloch militar avança conquistador através da Nação.
O trabalhador americano sofreu tanto nas mãos do soldado, Estadual e Federal, que ele está perfeitamente justificado em seu desgosto e sua oposição ao parasita uniformizado. No entanto, a mera denúncia não resolverá esse grande problema. O que precisamos é de uma propaganda de educação para o soldado: literatura antipatriótica que o esclareça sobre os verdadeiros horrores de seu ofício, e que desperte sua consciência para sua verdadeira relação com o homem a cujo trabalho ele deve sua própria existência.
É precisamente isso que as autoridades mais temem. Já é alta traição para um soldado comparecer a uma reunião radical. Sem dúvida, também marcarão como alta traição para um soldado ler um panfleto radical. Mas, afinal, a autoridade não marcou desde tempos imemoriais cada passo do progresso como traição? Aqueles, contudo, que lutam sinceramente pela reconstrução social podem muito bem arcar com tudo isso; pois provavelmente é ainda mais importante levar a verdade para os quartéis do que para a fábrica. Quando tivermos minado a mentira patriótica, teremos limpado o caminho para aquela grande estrutura onde todas as nacionalidades estarão unidas em uma fraternidade universal, uma SOCIEDADE LIVRE de verdade.
FRANCISCO FERRER E A ESCOLA MODERNA
A experiência passou a ser considerada a melhor escola da vida. O homem ou a mulher que não aprende alguma lição vital nessa escola é visto como um idiota, de fato. No entanto, por mais estranho que pareça, embora as instituições organizadas continuem perpetrando erros, embora não aprendam nada com a experiência, nós consentimos, como algo natural.
Viveu e trabalhou em Barcelona um homem chamado Francisco Ferrer. Ele era um professor de crianças, conhecido e amado pelo seu povo. Fora da Espanha, apenas a elite culta conhecia o trabalho de Francisco Ferrer. Para o mundo em geral, este professor não existia.
No primeiro dia de setembro de 1909, o governo espanhol — a mando da Igreja Católica — prendeu Francisco Ferrer. No dia treze de outubro, após um julgamento simulado, ele foi colocado na vala da prisão de Montjuich, contra a hedionda parede dos muitos suspiros, e fuzilado. Instantaneamente, Ferrer, o obscuro professor, tornou-se uma figura universal, bradando a indignação e a ira de todo o mundo civilizado contra o assassinato gratuito.
O assassinato de Francisco Ferrer não foi o primeiro crime cometido pelo governo espanhol e pela Igreja Católica. A história dessas instituições é um longo fluxo de fogo e sangue. Ainda assim, eles não aprenderam através da experiência, nem se deram conta de que cada ser frágil morto pela Igreja e pelo Estado cresce e cresce até se tornar um gigante poderoso, que um dia libertará a humanidade de seu domínio perigoso.
Francisco Ferrer nasceu em 1859, de pais humildes. Eram católicos e, portanto, esperavam criar seu filho na mesma fé. Eles não sabiam que o menino se tornaria o arauto de uma grande verdade, que sua mente se recusaria a viajar pelo caminho antigo. Em tenra idade, Ferrer começou a questionar a fé de seus pais. Ele exigia saber como era possível que o Deus que lhe falava de bondade e amor pudesse estragar o sono da criança inocente com medo e pavor de torturas, de sofrimento, do inferno. Alerta e de uma mente vívida e investigativa, não demorou muito para descobrir a hediondez daquele monstro negro, a Igreja Católica. Ele não quis saber de nada disso.
Francisco Ferrer não era apenas um duvidor, um buscador da verdade; ele também era um rebelde. Seu espírito se erguia em justa indignação contra o regime de ferro de seu país, e quando um bando de rebeldes, liderados pelo bravo patriota, General Villacampa, sob a bandeira do ideal Republicano, fez um ataque a esse regime, ninguém foi um lutador mais ardente do que o jovem Francisco Ferrer. O ideal Republicano — espero que ninguém o confunda com o Republicanismo deste país. Quaisquer que sejam as objeções que eu, como Anarquista, tenha aos Republicanos dos países latinos, sei que eles estão muito acima do partido corrupto e reacionário que, na América, está destruindo todo vestígio de liberdade e justiça. Basta pensar nos Mazzinis, nos Garibaldis, na multidão de outros, para perceber que seus esforços eram dirigidos, não meramente para a derrubada do despotismo, mas particularmente contra a Igreja Católica, que desde o seu início tem sido a inimiga de todo progresso e liberalismo.
Na América, é exatamente o oposto. O Republicanismo defende direitos adquiridos, o imperialismo, a corrupção, a aniquilação de toda aparência de liberdade. Seu ideal é a respeitabilidade oleosa e rastejante de um McKinley, e a arrogância brutal de um Roosevelt.
Os rebeldes republicanos espanhóis foram subjugados. É preciso mais do que um esforço corajoso para dividir a rocha dos séculos, para cortar a cabeça daquele monstro hidra, a Igreja Católica e o trono espanhol. Prisão, perseguição e punição seguiram-se à tentativa heroica do pequeno bando. Aqueles que conseguiram escapar dos cães de caça tiveram que fugir para a segurança em terras estrangeiras. Francisco Ferrer estava entre estes últimos. Ele foi para a França.
Como sua alma deve ter se expandido na nova terra! França, o berço da liberdade, das ideias, da ação. Paris, a sempre jovem e intensa Paris, com sua vida pulsante, depois da melancolia de seu próprio país atrasado — como ela deve tê-lo inspirado. Que oportunidades, que chance gloriosa para um jovem idealista.
Francisco Ferrer não perdeu tempo. Como alguém faminto, ele se lançou nos vários movimentos liberais, conheceu todo tipo de pessoas, aprendeu, absorveu e cresceu. Enquanto estava lá, ele também viu em operação a Escola Moderna, que desempenharia um papel tão importante e fatal em sua vida.
A Escola Moderna na França foi fundada muito antes do tempo de Ferrer. Sua iniciadora, embora em pequena escala, foi aquele espírito doce, Louise Michel. Consciente ou inconscientemente, nossa própria grande Louise sentiu há muito tempo que o futuro pertence à geração jovem; que a menos que os jovens sejam resgatados daquela instituição destruidora de mentes e almas, a escola burguesa, os males sociais continuarão a existir. Talvez ela pensasse, com Ibsen, que a atmosfera está saturada de fantasmas, que o homem e a mulher adultos têm muitas superstições a superar. Assim que superam o aperto mortal de um espectro, eis que se encontram na escravidão de noventa e nove outros espectros. Assim, poucos alcançam o pico da montanha da regeneração completa.
A criança, no entanto, não tem tradições a superar. Sua mente não está sobrecarregada com ideias fixas, seu coração não se tornou frio com distinções de classe e casta. A criança é para o professor o que o barro é para o escultor. Se o mundo receberá uma obra de arte ou uma imitação miserável, depende em grande parte do poder criativo do professor.
Louise Michel era eminentemente qualificada para atender aos anseios da alma da criança. Não era ela mesma de natureza infantil, tão doce e terna, simples e generosa? A alma de Louise ardia sempre em fogo vivo sobre cada injustiça social. Ela estava invariavelmente nas primeiras fileiras sempre que o povo de Paris se rebelava contra algum erro. E como ela foi forçada a sofrer a prisão por sua grande devoção aos oprimidos, a pequena escola em Montmartre logo deixou de existir. Mas a semente foi plantada, e desde então deu frutos em muitas cidades da França.
O empreendimento mais importante de uma Escola Moderna foi o do grande e jovem velho, Paul Robin. Juntamente com alguns amigos, ele estabeleceu uma grande escola em Cempuis, um lugar bonito perto de Paris. Paul Robin visava um ideal mais elevado do que apenas ideias modernas na educação. Ele queria demonstrar por fatos reais que a concepção burguesa de hereditariedade é apenas um mero pretexto para isentar a sociedade de seus terríveis crimes contra os jovens. A alegação de que a criança deve sofrer pelos pecados dos pais, que deve continuar na pobreza e na sujeira, que deve crescer um bêbado ou criminoso, apenas porque seus pais não lhe deixaram outro legado, era muito absurda para o belo espírito de Paul Robin. Ele acreditava que, qualquer que seja o papel que a hereditariedade possa desempenhar, existem outros fatores igualmente grandes, se não maiores, que podem e irão erradicar ou minimizar a assim chamada causa primeira. Ambiente econômico e social adequado, o sopro e a liberdade da natureza, exercício saudável, amor e simpatia e, acima de tudo, uma compreensão profunda das necessidades da criança — isso destruiria o estigma cruel, injusto e criminoso imposto aos jovens inocentes.
Paul Robin não selecionou suas crianças; ele não foi aos assim chamados melhores pais: ele pegou seu material onde pôde encontrá-lo. Das ruas, dos casebres, dos orfanatos e asilos de enjeitados, dos reformatórios, de todos aqueles lugares cinzentos e hediondos onde uma sociedade benevolente esconde suas vítimas para pacificar sua consciência culpada. Ele reuniu todos os pequenos órfãos sujos, imundos e trêmulos que seu lugar podia conter, e os levou para Cempuis. Lá, rodeadas pela própria glória da natureza, livres e sem restrições, bem alimentadas, limpas, profundamente amadas e compreendidas, as pequenas plantas humanas começaram a crescer, a florescer, a se desenvolver além das expectativas de seu amigo e professor, Paul Robin.
As crianças cresceram e se tornaram homens e mulheres autoconfiantes e amantes da liberdade. Que perigo maior para as instituições que criam os pobres para perpetuar os pobres? Cempuis foi fechada pelo governo francês sob a acusação de coeducação, que é proibida na França. No entanto, Cempuis operou tempo suficiente para provar a todos os educadores avançados suas possibilidades tremendas, e para servir como um ímpeto para métodos modernos de educação, que lenta mas inevitavelmente estão minando o sistema atual.
Cempuis foi seguida por um grande número de outras tentativas educacionais — entre elas, a de Madelaine Vernet, uma escriturora e poetisa talentosa, autora de L'AMOUR LIBRE, e Sebastian Faure, com sua LA RUCHE,[1] que visitei enquanto estava em Paris, em 1907.
Há vários anos, o companheiro Faure comprou o terreno onde construiu sua LA RUCHE. Em um tempo comparativamente curto, ele conseguiu transformar o antigo campo selvagem e inculto em um local florescente, com toda a aparência de uma fazenda bem cuidada. Um grande pátio quadrado, cercado por três edifícios, e um caminho largo que leva ao jardim e aos pomares, saúdam o olhar do visitante. O jardim, mantido como só um francês sabe fazer, fornece uma grande variedade de vegetais para LA RUCHE.
Sebastian Faure é da opinião de que, se a criança for submetida a influências contraditórias, seu desenvolvimento sofre em consequência. Somente quando as necessidades materiais, a higiene do lar e o ambiente intelectual são harmoniosos, a criança pode crescer para ser um ser saudável e livre.
Referindo-se à sua escola, Sebastian Faure tem isto a dizer:
"Peguei vinte e quatro crianças de ambos os sexos, a maioria órfãs, ou cujos pais são pobres demais para pagar. Elas são vestidas, alojadas e educadas às minhas custas. Até os doze anos, receberão uma educação elementar sólida. Entre os doze e os quinze anos — com seus estudos ainda continuando — elas devem aprender algum ofício, de acordo com sua disposição e habilidades individuais. Depois disso, estão livres para deixar LA RUCHE para começar a vida no mundo exterior, com a garantia de que podem retornar a qualquer momento a LA RUCHE, onde serão recebidas de braços abertos e acolhidas como os pais fazem com seus amados filhos. Então, se desejarem trabalhar em nosso local, podem fazê-lo nas seguintes condições: um terço do produto para cobrir suas despesas de manutenção, outro terço para o fundo geral reservado para acomodar novas crianças, e o último terço para ser dedicado ao uso pessoal da criança, como ela achar conveniente.
"A saúde das crianças que estão agora sob meus cuidados é perfeita. Ar puro, comida nutritiva, exercício físico ao ar livre, longas caminhadas, observação de regras higiênicas, o método de instrução curto e interessante e, acima de tudo, nossa compreensão carinhosa e cuidado com as crianças, produziram resultados físicos e mentais admiráveis.
"Seria injusto afirmar que nossos alunos realizaram milagres; ainda assim, considerando que pertencem à média, não tendo tido oportunidades anteriores, os resultados são realmente muito gratificantes. A coisa mais importante que adquiriram — um traço raro em crianças comuns de escola — é o amor pelo estudo, o desejo de saber, de estar informado. Elas aprenderam um novo método de trabalho, que acelera a memória e estimula a imaginação. Fazemos um esforço particular para despertar o interesse da criança em seu ambiente, para fazê-la perceber a importância da observação, investigação e reflexão, de modo que, quando as crianças atingirem a maturidade, não sejam surdas e cegas para as coisas ao seu redor. Nossas crianças nunca aceitam nada por fé cega, sem questionar o porquê e o motivo; nem se sentem satisfeitas até que suas perguntas sejam respondidas minuciosamente. Assim, suas mentes estão livres de dúvidas e medos resultantes de respostas incompletas ou falsas; são estas últimas que distorcem o crescimento da criança e criam uma falta de confiança em si mesma e naqueles ao seu redor.
"É surpreendente o quanto nossos pequenos são francos, gentis e afetuosos uns com os outros. A harmonia entre eles e os adultos em LA RUCHE é altamente encorajadora. Sentir-nos-íamos culpados se as crianças nos temessem ou honrassem apenas porque somos seus mais velhos. Não deixamos nada por fazer para ganhar sua confiança e amor; uma vez alcançado isso, a compreensão substituirá o dever; a confiança, o medo; e o afeto, a severidade.
"Ninguém percebeu ainda totalmente a riqueza de simpatia, bondade e generosidade escondida na alma da criança. O esforço de todo verdadeiro educador deveria ser desbloquear esse tesouro — estimular os impulsos da criança e evocar as melhores e mais nobres tendências. Que recompensa maior pode haver para alguém cujo trabalho de vida é vigiar o crescimento da planta humana, do que ver sua natureza desabrochar suas pétalas e observá-la se desenvolver em uma verdadeira individualidade? Meus companheiros em LA RUCHE não buscam recompensa maior, e é devido a eles e a seus esforços, ainda mais do que aos meus próprios, que nosso jardim humano promete dar belos frutos."[2]
Em relação ao assunto da história e aos métodos antigos predominantes de instrução, Sebastian Faure disse:
"Explicamos às nossas crianças que a verdadeira história ainda está por ser escrita — a história daqueles que morreram, desconhecidos, no esforço de ajudar a humanidade a alcançar maiores conquistas."[3]
Francisco Ferrer não podia escapar desta grande onda de tentativas de Escola Moderna. Ele viu suas possibilidades, não meramente em forma teórica, mas em sua aplicação prática às necessidades do dia a dia. Ele deve ter percebido que a Espanha, mais do que qualquer outro país, precisa justamente dessas escolas, se quiser um dia livrar-se do jugo duplo do padre e do soldado.
Quando consideramos que todo o sistema de educação na Espanha está nas mãos da Igreja Católica, e quando nos lembramos, além disso, da fórmula católica: "Inculcar o catolicismo na mente da criança até que ela tenha nove anos de idade é arruiná-la para sempre para qualquer outra ideia", compreenderemos a tremenda tarefa de Ferrer ao trazer a nova luz para seu povo. O destino logo o ajudou a realizar seu grande sonho.
Mlle. Meunier, uma aluna de Francisco Ferrer e uma senhora abastada, interessou-se pelo projeto da Escola Moderna. Quando morreu, deixou a Ferrer algumas propriedades valiosas e doze mil francos de renda anual para a Escola.
Diz-se que almas vis só podem conceber ideias vis. Se for assim, os métodos desprezíveis da Igreja Católica para difamar o caráter de Ferrer, a fim de justificar seu próprio crime negro, podem ser facilmente explicados. Assim, espalhou-se a mentira, nos jornais católicos americanos, de que Ferrer usou sua intimidade com Mlle. Meunier para obter posse de seu dinheiro.
Pessoalmente, sustento que a intimidade, de qualquer natureza, entre um homem e uma mulher, é assunto deles, sagradamente deles. Portanto, não perderia uma palavra ao me referir ao assunto, se não fosse uma das muitas mentiras vis circuladas sobre Ferrer. É claro que aqueles que conhecem a pureza do clero católico entenderão a insinuação. Acaso os padres católicos já viram a mulher como algo além de uma mercadoria sexual? Os dados históricos sobre as descobertas em claustros e mosteiros me apoiarão nisso. Como, então, eles poderiam entender a cooperação de um homem e uma mulher, exceto em uma base sexual?
Na verdade, Mlle. Meunier era consideravelmente mais velha que Ferrer. Tendo passado sua infância e juventude com um pai avarento e uma mãe submissa, ela poderia facilmente apreciar a necessidade de amor e alegria na vida das crianças. Ela deve ter visto que Francisco Ferrer era um professor, não de colégio, máquina ou diploma, mas alguém dotado de gênio para essa vocação.
Munido de conhecimento, de experiência e dos meios necessários; acima de tudo, imbuído do fogo divino de sua missão, nosso camarada voltou para a Espanha e lá começou o trabalho de sua vida. Em nove de setembro de 1901, a primeira Escola Moderna foi inaugurada. Foi entusiasticamente recebida pelo povo de Barcelona, que prometeu seu apoio. Em um breve discurso na abertura da Escola, Ferrer submeteu seu programa a seus amigos. Ele disse: "Não sou um orador, não sou um propagandista, não sou um lutador. Sou um professor; amo as crianças acima de tudo. Acho que as compreendo. Quero que minha contribuição para a causa da liberdade seja uma geração jovem pronta para encontrar uma nova era."
Ele foi advertido por seus amigos a ter cuidado em sua oposição à Igreja Católica. Eles sabiam até onde ela iria para se livrar de um inimigo. Ferrer também sabia. Mas, como Brand, ele acreditava em tudo ou nada. Ele não ergueria a Escola Moderna sobre a mesma velha mentira. Ele seria franco, honesto e aberto com as crianças.
Francisco Ferrer tornou-se um homem marcado. Desde o primeiro dia da abertura da Escola, ele foi vigiado. O prédio da escola foi vigiado, sua pequena casa em Mangat foi vigiada. Ele era seguido a cada passo, mesmo quando ia à França ou à Inglaterra para conferir com seus colegas. Ele era um homem marcado, e era apenas uma questão de tempo até que o inimigo à espreita apertasse o nó corrediço.
Quase teve sucesso em 1906, quando Ferrer foi implicado na tentativa contra a vida de Alfonso. As evidências que o exoneravam eram fortes demais até para os corvos pretos;[4] eles tiveram que deixá-lo ir — não para sempre, contudo. Eles esperaram. Oh, eles sabem esperar, quando se propõem a capturar uma vítima.
O momento chegou, finalmente, durante o levante antimilitar na Espanha, em julho de 1909. Será preciso procurar em vão nos anais da história revolucionária para encontrar um protesto mais notável contra o militarismo. Tendo sido dominado por soldados durante séculos, o povo da Espanha não podia mais suportar o jugo. Eles se recusariam a participar de um massacre inútil. Eles não viam razão para ajudar um governo despótico a subjugar e oprimir um povo pequeno lutando por sua independência, como fizeram os bravos Riffs. Não, eles não pegariam em armas contra eles.
Durante mil e oitocentos anos, a Igreja Católica pregou o evangelho da paz. No entanto, quando o povo realmente quis tornar este evangelho uma realidade viva, ela exortou as autoridades a forçá-los a pegar em armas. Assim, a dinastia da Espanha seguiu os métodos assassinos da dinastia russa — o povo foi forçado ao campo de batalha.
Então, e não antes, seu poder de resistência chegou ao fim. Então, e não antes, os trabalhadores da Espanha voltaram-se contra seus mestres, contra aqueles que, como sanguessugas, drenaram suas forças, seu próprio sangue vital. Sim, eles atacaram as igrejas e os padres, mas se estes últimos tivessem mil vidas, não poderiam possivelmente pagar pelos terríveis ultrajes e crimes perpetrados contra o povo espanhol.
Francisco Ferrer foi preso em primeiro de setembro de 1909. Até primeiro de outubro, seus amigos e camaradas nem sequer sabiam o que havia acontecido com ele. Naquele dia, uma carta foi recebida pelo L'HUMANITE, da qual se pode aprender todo o escárnio do julgamento. E no dia seguinte sua companheira, Soledad Villafranca, recebeu a seguinte carta:
"Sem motivo para preocupação; você sabe que sou absolutamente inocente. Hoje estou particularmente esperançoso e alegre. É a primeira vez que posso escrever para você, e a primeira vez desde minha prisão que posso me banhar nos raios do sol, que entram generosamente pela janela da minha cela. Você, também, deve estar alegre."
Quão patético que Ferrer devesse acreditar, ainda em quatro de outubro, que não seria condenado à morte. Ainda mais patético que seus amigos e camaradas tenham mais uma vez cometido o erro de creditar ao inimigo um senso de justiça. Vez após vez eles depositaram fé nos poderes judiciais, apenas para ver seus irmãos mortos diante de seus próprios olhos. Eles não fizeram preparativos para resgatar Ferrer, nem mesmo um protesto de qualquer extensão; nada. "Ora, é impossível condenar Ferrer; ele é inocente." Mas tudo é possível com a Igreja Católica. Ela não é uma carrasca experiente, cujos julgamentos de seus inimigos são a pior zombaria da justiça?
Em quatro de outubro, Ferrer enviou a seguinte carta ao L'HUMANITE:
Cela da Prisão, 4 de outubro de 1909.
Meus caros Amigos — Não obstante a mais absoluta inocência, o promotor exige a pena de morte, baseada em denúncias da polícia, representando-me como o chefe dos anarquistas do mundo, dirigindo os sindicatos trabalhistas da França, e culpado de conspirações e insurreições em toda parte, e declarando que minhas viagens a Londres e Paris foram empreendidas sem outro objetivo.
Com tais mentiras infames eles estão tentando me matar.
O mensageiro está prestes a partir e não tenho tempo para mais. Toda a evidência apresentada ao juiz de instrução pela polícia não passa de um tecido de mentiras e insinuações caluniosas. Mas não há provas contra mim, não tendo feito nada absolutamente.
FERRER.
Treze de outubro de 1909, o coração de Ferrer, tão corajoso, tão firme, tão leal, silenciou. Pobres tolos! O último pulsar agonizante daquele coração mal havia morrido quando começou a bater cem vezes mais forte nos corações do mundo civilizado, até crescer em um trovão terrível, lançando sua maldição sobre os instigadores do crime negro. Assassinos de vestes negras e semblante piedoso, ao banco dos réus!
Francisco Ferrer participou do levante antimilitar? De acordo com a primeira acusação, que apareceu em um jornal católico em Madri, assinado pelo Bispo e por todos os prelados de Barcelona, ele nem sequer foi acusado de participação. A acusação era no sentido de que Francisco Ferrer era culpado de ter organizado escolas sem Deus e de ter divulgado literatura sem Deus. Mas, no século vinte, homens não podem ser queimados meramente por suas crenças sem Deus. Algo mais teve que ser inventado; daí a acusação de instigar o levante.
Em nenhuma fonte autêntica pesquisada até agora foi possível encontrar uma única prova para conectar Ferrer ao levante. Mas, então, nenhuma prova era desejada ou aceita pelas autoridades. Havia setenta e duas testemunhas, certamente, mas seu depoimento foi tomado no papel. Elas nunca foram confrontadas com Ferrer, nem ele com elas.
É psicologicamente possível que Ferrer tenha participado? Não acredito que seja, e aqui estão minhas razões. Francisco Ferrer não era apenas um grande professor, mas também era, sem dúvida, um organizador maravilhoso. Em oito anos, entre 1901-1909, ele organizou na Espanha cento e nove escolas, além de induzir o elemento liberal de seu país a organizar outras trezentas e oito escolas. Em conexão com seu próprio trabalho escolar, Ferrer montou uma moderna gráfica, organizou uma equipe de tradutores e espalhou cento e cinquenta mil cópias de obras científicas e sociológicas modernas, sem esquecer a grande quantidade de livros didáticos racionalistas. Certamente, ninguém além do mais metódico e eficiente organizador poderia ter realizado tal façanha.
Por outro lado, foi absolutamente provado que o levante antimilitar não foi de forma alguma organizado; que veio como uma surpresa para o próprio povo, como muitas ondas revolucionárias em ocasiões anteriores. O povo de Barcelona, por exemplo, teve a cidade sob seu controle por quatro dias e, de acordo com o depoimento de turistas, nunca prevaleceu maior ordem e paz. É claro que as pessoas estavam tão pouco preparadas que, quando chegou a hora, não sabiam o que fazer. A esse respeito, eles eram como o povo de Paris durante a Comuna de 1871. Eles também não estavam preparados. Enquanto passavam fome, protegiam os armazéns, cheios até a borda de provisões. Colocaram sentinelas para guardar o Banco da França, onde a burguesia mantinha o dinheiro roubado. Os trabalhadores de Barcelona, também, vigiavam os espólios de seus mestres.
Quão patética é a estupidez do oprimido; quão terrivelmente trágica! Mas, então, seus grilhões não foram forjados tão profundamente em sua carne que ele não os quebraria, mesmo que pudesse? O temor da autoridade, da lei, da propriedade privada, cem vezes queimado em sua alma — como ele pode descartá-lo, despreparado, inesperadamente?
Pode alguém supor por um momento que um homem como Ferrer se afiliaria a tal esforço espontâneo e desorganizado? Ele não saberia que isso resultaria em uma derrota, uma derrota desastrosa para o povo? E não é mais provável que, se ele tivesse participado, ele, o experiente EMPREENDEDOR, teria organizado minuciosamente a tentativa? Se faltassem todas as outras provas, esse fator seria suficiente para exonerar Francisco Ferrer. Mas há outros igualmente convincentes.
Para a própria data do surto, vinte e cinco de julho, Ferrer havia convocado uma conferência de seus professores e membros da Liga de Educação Racional. Era para considerar o trabalho de outono e, particularmente, a publicação do grande livro de Elisée Reclus, L'HOMME ET LA TERRE, e de A GRANDE REVOLUÇÃO FRANCESA, de Peter Kropotkin. É de alguma forma provável, é de alguma forma plausível que Ferrer, sabendo do levante, sendo parte dele, convidasse a sangue-frio seus amigos e colegas a Barcelona para o dia em que ele percebesse que suas vidas estariam em perigo? Certamente, apenas a mente criminosa e viciosa de um jesuíta poderia creditar tal assassinato deliberado.
Francisco Ferrer tinha o trabalho de sua vida traçado; ele tinha tudo a perder e nada a ganhar, exceto ruína e desastre, se ele prestasse assistência ao surto. Não que ele duvidasse da justiça da ira do povo; mas seu trabalho, sua esperança, sua própria natureza eram direcionados para outro objetivo.
Em vão são os esforços frenéticos da Igreja Católica, suas mentiras, falsidades, calúnias. Ela está condenada pela consciência humana desperta por ter repetido, mais uma vez, os crimes vis do passado.
Francisco Ferrer é acusado de ensinar às crianças as ideias mais arrepiantes — odiar a Deus, por exemplo. Horrores! Francisco Ferrer não acreditava na existência de um Deus. Por que ensinar a criança a odiar algo que não existe? Não é mais provável que ele levasse as crianças para o ar livre, que lhes mostrasse o esplendor do pôr do sol, o brilho dos céus estrelados, a maravilha inspiradora das montanhas e mares; que ele lhes explicasse, de sua maneira simples e direta, a lei do crescimento, do desenvolvimento, da inter-relação de toda a vida? Ao fazê-lo, ele tornou para sempre impossível que as ervas daninhas venenosas da Igreja Católica criassem raízes na mente da criança.
Foi declarado que Ferrer preparou as crianças para destruir os ricos. Histórias de fantasmas de solteironas. Não é mais provável que ele as tenha preparado para socorrer os pobres? Que ele lhes ensinou a humilhação, a degradação, a terribilidade da pobreza, que é um vício e não uma virtude; que ele lhes ensinou a dignidade e a importância de todos os esforços criativos, que sozinhos sustentam a vida e constroem o caráter? Não é essa a melhor e mais eficaz maneira de trazer à luz adequada a absoluta inutilidade e o prejuízo do parasitismo?
Por último, mas não menos importante, Ferrer é acusado de minar o exército ao inculcar ideias antimilitares. Sério? Ele deve ter acreditado com Tolstói que a guerra é um massacre legalizado, que perpetua o ódio e a arrogância, que corrói o coração das nações e as transforma em maníacos delirantes.
No entanto, temos a própria palavra de Ferrer a respeito de suas ideias de educação moderna:
"Gostaria de chamar a atenção de meus leitores para esta ideia: Todo o valor da educação reside no respeito pela vontade física, intelectual e moral da criança. Assim como na ciência nenhuma demonstração é possível senão pelos fatos, assim também não há educação real senão aquela que está isenta de todo dogmatismo, que deixa à própria criança a direção de seu esforço e se limita a secundar seu esforço. Ora, não há nada mais fácil do que alterar esse propósito, e nada mais difícil do que respeitá-lo. A educação é sempre imposição, violação, constrangimento; o verdadeiro educador é aquele que melhor pode proteger a criança contra suas (do professor) próprias ideias, seus caprichos peculiares; aquele que melhor pode apelar para as próprias energias da criança.
"Estamos convencidos de que a educação do futuro será de natureza inteiramente espontânea; certamente não podemos realizá-la ainda, mas a evolução dos métodos na direção de uma compreensão mais ampla dos fenômenos da vida, e o fato de que todos os avanços em direção à perfeição significam a superação da restrição — tudo isso indica que estamos no caminho certo quando esperamos pela libertação da criança através da ciência.
"Não temamos dizer que queremos homens capazes de evoluir sem parar, capazes de destruir e renovar seus ambientes sem cessação, de renovar-se também; homens cuja independência intelectual será sua maior força, que não se apegarão a nada, sempre prontos a aceitar o que há de melhor, felizes no triunfo de novas ideias, aspirando a viver múltiplas vidas em uma vida. A sociedade teme tais homens; não devemos, portanto, esperar que ela queira uma educação capaz de nos dar tais seres.
"Seguiremos os trabalhos dos cientistas que estudam a criança com a maior atenção e buscaremos ansiosamente meios de aplicar sua experiência à educação que queremos construir, na direção de uma libertação cada vez mais plena do indivíduo. Mas como podemos atingir nosso fim? Não será colocando-nos diretamente ao trabalho de favorecer a fundação de novas escolas, que serão regidas tanto quanto possível por esse espírito de liberdade, que prevemos que dominará todo o trabalho de educação no futuro?
"Foi feita uma tentativa que, por enquanto, já deu excelentes resultados. Podemos destruir tudo o que na escola atual responde à organização do constrangimento, os ambientes artificiais pelos quais as crianças são separadas da natureza e da vida, a disciplina intelectual e moral utilizada para impor ideias feitas a elas, crenças que depravam e aniquilam a inclinação natural. Sem medo de nos enganarmos, podemos restaurar a criança ao ambiente que a atrai, o ambiente da natureza em que ela estará em contato com tudo o que ama, e em que as impressões da vida substituirão o fastidioso aprendizado livresco. Se não fizéssemos nada além disso, já teríamos preparado em grande parte a libertação da criança.
"Em tais condições, poderíamos já aplicar livremente os dados da ciência e trabalhar de forma mais frutífera.
"Sei muito bem que não poderíamos realizar assim todas as nossas esperanças, que muitas vezes seríamos forçados, por falta de conhecimento, a empregar métodos indesejáveis; mas uma certeza nos sustentaria em nossos esforços — a saber, que mesmo sem atingir nosso objetivo completamente, faríamos mais e melhor em nosso trabalho ainda imperfeito do que a escola atual realiza. Gosto mais da espontaneidade livre de uma criança que nada sabe do que do conhecimento mundano e da deformidade intelectual de uma criança que foi submetida à nossa educação atual."[5]
Se Ferrer tivesse realmente organizado os distúrbios, se tivesse lutado nas barricadas, se tivesse lançado cem bombas, ele não poderia ter sido tão perigoso para a Igreja Católica e para o despotismo quanto com sua oposição à disciplina e à restrição. Disciplina e restrição — não estão elas por trás de todos os males do mundo? Escravidão, submissão, pobreza, toda miséria, todas as iniquidades sociais resultam da disciplina e da restrição. De fato, Ferrer era perigoso. Portanto, ele teve que morrer, treze de outubro de 1909, na vala de Montjuich. No entanto, quem ousa dizer que sua morte foi em vão? Tendo em vista o tempestuoso levante de indignação universal: a Itália nomeando ruas em memória de Francisco Ferrer, a Bélgica inaugurando um movimento para erguer um memorial; a França chamando à frente seus homens mais ilustres para retomar a herança do mártir; a Inglaterra sendo a primeira a publicar uma biografia: — todos os países se unindo para perpetuar o grande trabalho de Francisco Ferrer; a América, inclusive, sempre tardia em ideias progressistas, dando à luz uma Associação Francisco Ferrer, cujo objetivo é publicar uma vida completa de Ferrer e organizar Escolas Modernas por todo o país; diante desta onda revolucionária internacional, quem há para dizer que Ferrer morreu em vão?
Aquela morte em Montjuich — quão maravilhosa, quão dramática foi, como agita a alma humana. Orgulhoso e ereto, o olho interior voltado para a luz, Francisco Ferrer não precisou de padres mentirosos para lhe dar coragem, nem censurou um fantasma por tê-lo abandonado. A consciência de que seus executores representavam uma era moribunda, e que a sua era a verdade viva, sustentou-o nos últimos momentos heroicos.
Uma era moribunda e uma verdade viva, Os vivos enterrando os mortos.
[1] A COLMEIA.
[2] MOTHER EARTH, 1907.
[3] Ibid.
[4] Corvos pretos: O clero católico.
[5] MOTHER EARTH, dezembro de 1909.
A HIPOCRISIA DO PURITANISMO
Falando sobre o puritanismo em relação à arte americana, o Sr. Gutzen Burglum disse: "O puritanismo nos tornou egocêntricos e hipócritas por tanto tempo que a sinceridade e a reverência pelo que é natural em nossos impulsos foram praticamente eliminadas de nós, com o resultado de que não pode haver nem verdade nem individualidade em nossa arte."
O Sr. Burglum poderia ter acrescentado que o puritanismo tornou a própria vida impossível. Mais do que a arte, mais do que o esteticismo, a vida representa a beleza em mil variações; é, de fato, um panorama gigantesco de mudança eterna. O puritanismo, por outro lado, repousa sobre uma concepção fixa e imutável da vida; é baseado na ideia calvinista de que a vida é uma maldição, imposta ao homem pela ira de Deus. Para se redimir, o homem deve fazer penitência constante, deve repudiar todo impulso natural e saudável e virar as costas para a alegria e a beleza.
O puritanismo celebrou o seu reinado de terror na Inglaterra durante os séculos XVI e XVII, destruindo e esmagando todas as manifestações de arte e cultura. Foi o espírito do puritanismo que roubou de Shelley os seus filhos, porque ele não se curvava aos ditames da religião. Foi o mesmo espírito estreito que alienou Byron da sua terra natal, porque aquele grande génio se rebelou contra a monotonia, o tédio e a mesquinhez do seu país. Foi o puritanismo, também, que forçou algumas das mulheres mais livres da Inglaterra à mentira convencional do casamento: Mary Wollstonecraft e, mais tarde, George Eliot. E, recentemente, o puritanismo exigiu outro tributo — a vida de Oscar Wilde. De facto, o puritanismo nunca deixou de ser o fator mais pernicioso no domínio de John Bull, atuando como censor da expressão artística do seu povo e carimbando a sua aprovação apenas no tédio da respeitabilidade da classe média.
É, portanto, puro chauvinismo britânico apontar a América como o país do provincianismo puritano. É bem verdade que a nossa vida é atrofiada pelo puritanismo, e que este último está a matar o que é natural e saudável nos nossos impulsos. Mas é igualmente verdade que é à Inglaterra que devemos a transplantação deste espírito para o solo americano. Foi-nos legado pelos pais peregrinos. Fugindo da perseguição e da opressão, os peregrinos da fama do Mayflower estabeleceram no Novo Mundo um reinado de tirania e crime puritanos. A história da Nova Inglaterra, e especialmente de Massachusetts, está cheia de horrores que transformaram a vida em tristeza, a alegria em desespero, a naturalidade em doença, a honestidade e a verdade em mentiras e hipocrisias hediondas. A cadeira de imersão e o pelourinho, assim como numerosos outros dispositivos de tortura, eram os métodos ingleses favoritos para a purificação americana.
Boston, a cidade da cultura, entrou nos anais do puritanismo como a "Cidade Sangrenta". Rivalizou com Salem, inclusive, na sua cruel perseguição a opiniões religiosas não autorizadas. No agora famoso Common, uma mulher semivestida, com um bebé nos braços, foi publicamente açoitada pelo crime de liberdade de expressão; e, no mesmo local, Mary Dyer, outra mulher quacre, foi enforcada em 1659. De facto, Boston tem sido o cenário de mais do que um crime gratuito cometido pelo puritanismo. Salem, no verão de 1692, matou dezoito pessoas por bruxaria. Nem Massachusetts esteve sozinha em expulsar o diabo com fogo e enxofre. Como disse Canning justamente: "Os pais peregrinos infestaram o Novo Mundo para restabelecer o equilíbrio do Velho." Os horrores daquele período encontraram a sua expressão mais suprema no clássico americano, A LETRA ESCARLATE.
O puritanismo já não emprega o parafuso de polegar e o chicote; mas ainda mantém um controlo muito pernicioso sobre as mentes e os sentimentos do povo americano. Nada mais pode explicar o poder de um Comstock. Como os Torquemadas dos dias anteriores à guerra, Anthony Comstock é o autocrata da moralidade americana; ele dita os padrões do bem e do mal, da pureza e do vício. Como um ladrão na noite, ele esgueira-se para a vida privada das pessoas, para as suas relações mais íntimas. O sistema de espionagem estabelecido por este homem, Comstock, envergonha a infame Terceira Divisão da polícia secreta russa. Por que é que o público tolera tal ultraje às suas liberdades? Simplesmente porque Comstock não passa da expressão ruidosa do puritanismo criado no sangue anglo-saxónico, e de cuja escravidão nem os liberais conseguiram emancipar-se totalmente. Os elementos sem visão e pesados das antigas Uniões Cristãs de Jovens e Jovens Mulheres, Ligas de Pureza, Uniões do Sábado Americano e o Partido da Proibição, com Anthony Comstock como seu santo padroeiro, são os coveiros da arte e da cultura americanas.
A Europa pode pelo menos vangloriar-se de uma arte e literatura audazes que mergulham profundamente nos problemas sociais e sexuais do nosso tempo, exercendo uma crítica severa a todas as nossas farsas. Como com a faca de um cirurgião, cada carcaça puritana é dissecada, e o caminho é assim desimpedido para a libertação do homem dos pesos mortos do passado. Mas com o puritanismo como o travão constante da vida americana, nem a verdade nem a sinceridade são possíveis. Nada além de tristeza e mediocridade para ditar a conduta humana, restringir a expressão natural e sufocar os nossos melhores impulsos. O puritanismo neste século XX é tanto inimigo da liberdade e da beleza como o era quando desembarcou em Plymouth Rock. Repudia, como algo vil e pecaminoso, os nossos sentimentos mais profundos; mas, sendo absolutamente ignorante quanto às verdadeiras funções das emoções humanas, o puritanismo é, ele próprio, o criador dos vícios mais indizíveis.
Toda a história do ascetismo prova que isto é demasiado verdadeiro. A Igreja, assim como o puritanismo, combateu a carne como algo maligno; ela tinha de ser subjugada e escondida a todo o custo. O resultado desta atitude viciosa só agora começa a ser reconhecido pelos pensadores e educadores modernos. Eles percebem que "a nudez tem um valor higiénico, bem como um significado espiritual, muito além das suas influências em atenuar a curiosidade natural dos jovens ou atuar como preventiva de emoções mórbidas. É uma inspiração para adultos que há muito ultrapassaram quaisquer curiosidades juvenis. A visão da forma humana essencial e eterna, a coisa mais próxima de nós em todo o mundo, com o seu vigor, a sua beleza e a sua graça, é um dos tónicos primordiais da vida."[1] Mas o espírito do purismo perverteu de tal modo a mente humana que esta perdeu o poder de apreciar a beleza da nudez, forçando-nos a esconder a forma natural sob o pretexto da castidade. Contudo, a castidade em si não passa de uma imposição artificial sobre a natureza, expressiva de uma falsa vergonha da forma humana. A ideia moderna de castidade, especialmente em relação à mulher, a sua maior vítima, não passa do exagero sensual dos nossos impulsos naturais. "A castidade varia com a quantidade de roupa", e, portanto, cristãos e puristas apressam-se sempre a cobrir o "pagão" com farrapos, convertendo-o assim à bondade e à castidade.
O puritanismo, com a sua perversão do significado e das funções do corpo humano, especialmente no que diz respeito à mulher, condenou-a ao celibato, ou à reprodução indiscriminada de uma raça doente, ou à prostituição. A enormidade deste crime contra a humanidade é aparente quando consideramos os resultados. A continência sexual absoluta é imposta à mulher solteira, sob pena de ser considerada imoral ou caída, com o resultado de produzir neurastenia, impotência, depressão e uma grande variedade de queixas nervosas que envolvem capacidade de trabalho diminuída, prazer limitado da vida, insónia e preocupação com desejos e imaginações sexuais. O ditame arbitrário e pernicioso da continência total explica provavelmente também a desigualdade mental dos sexos. Assim, Freud acredita que a inferioridade intelectual de tantas mulheres se deve à inibição do pensamento imposta a elas com o propósito de repressão sexual. Tendo assim suprimido os desejos sexuais naturais da mulher solteira, o puritanismo, por outro lado, abençoa a sua irmã casada pela fecundidade incontinente no matrimónio. De facto, não apenas a abençoa, mas força a mulher, hipersexualizada pela repressão anterior, a ter filhos, independentemente da condição física enfraquecida ou da incapacidade económica para criar uma família numerosa. A prevenção, mesmo por métodos seguros determinados cientificamente, é absolutamente proibida; mais, a própria menção do assunto é considerada criminosa.
Graças a esta tirania puritana, a maioria das mulheres encontra-se rapidamente no limite dos seus recursos físicos. Doentes e desgastadas, são totalmente incapazes de dar aos seus filhos até mesmo um cuidado elementar. Isso, somado à pressão económica, força muitas mulheres a arriscar o perigo extremo em vez de continuar a dar à vida. O costume de provocar abortos atingiu proporções tão vastas na América que é quase inacreditável. De acordo com investigações recentes nesta linha, dezassete abortos são cometidos em cada cem gravidezes. Esta percentagem assustadora representa apenas os casos que chegam ao conhecimento dos médicos. Considerando o segredo em que esta prática é necessariamente envolvida, e a consequente ineficiência e negligência profissional, o puritanismo continua a exigir milhares de vítimas para a sua própria estupidez e hipocrisia.
A prostituição, embora caçada, aprisionada e acorrentada, é, no entanto, o maior triunfo do puritanismo. É o seu filho mais querido, apesar de toda a santimónia hipócrita. A prostituta é a fúria do nosso século, varrendo os países "civilizados" como um furacão, e deixando um rasto de doença e desastre. O único remédio que o puritanismo oferece para este filho ilegítimo é maior repressão e perseguição mais impiedosa. O ultraje mais recente é representado pela Lei Page, que impõe a Nova Iorque o terrível fracasso e crime da Europa; a saber, o registo e a segregação das infelizes vítimas do puritanismo. De maneira igualmente estúpida, o purismo procura travar o terrível flagelo da sua própria criação — as doenças venéreas. É mais desanimador que este espírito de estreiteza mental obtusa tenha envenenado até os nossos chamados liberais, e os tenha cegado, levando-os a juntar-se à cruzada contra as próprias coisas nascidas da hipocrisia do puritanismo — a prostituição e os seus resultados. Numa cegueira deliberada, o puritanismo recusa-se a ver que o verdadeiro método de prevenção é aquele que torna claro para todos que "as doenças venéreas não são uma coisa misteriosa ou terrível, a penalidade do pecado da carne, uma espécie de mal vergonhoso marcado pela maldição purista, mas uma doença comum que pode ser tratada e curada." Com os seus métodos de obscuridade, disfarce e ocultação, o puritanismo forneceu condições favoráveis para o crescimento e propagação destas doenças. O seu fanatismo é novamente demonstrado de forma mais notável pela atitude sem sentido em relação à grande descoberta do Prof. Ehrlich, com a hipocrisia a velar a importante cura para a sífilis com alusões vagas a um remédio para "um certo veneno".
A capacidade quase ilimitada do puritanismo para o mal deve-se ao seu entrincheiramento por detrás do Estado e da lei. Fingindo salvaguardar o povo contra a "imoralidade", impregnou a maquinaria do governo e acrescentou à sua usurpação da tutela moral a censura legal das nossas visões, sentimentos e até da nossa conduta.
A arte, a literatura, o teatro, a privacidade do correio, de facto, os nossos gostos mais íntimos, estão à mercê deste tirano inexorável. A Anthony Comstock, ou a algum outro polícia igualmente ignorante, foi dado o poder de profanar o génio, de sujar e mutilar a criação mais sublime da natureza — a forma humana. Livros que lidam com as questões mais vitais das nossas vidas, e que procuram lançar luz sobre problemas perigosamente obscurecidos, são tratados legalmente como ofensas criminosas, e os seus autores indefesos são lançados na prisão ou levados à destruição e à morte.
Nem mesmo no domínio do Tsar a liberdade pessoal é diariamente ultrajada na medida em que o é na América, o reduto dos eunucos puritanos. Aqui, o único dia de recreio deixado às massas, o domingo, foi tornado hediondo e totalmente impossível. Todos os escritores sobre costumes primitivos e civilizações antigas concordam que o sábado era um dia de festividades, livre de preocupações e deveres, um dia de regozijo geral e folia. Em todos os países europeus, esta tradição continua a trazer algum alívio do quotidiano e da estupidez da nossa era cristã. Em toda a parte, salas de concerto, teatros, museus e jardins estão cheios de homens, mulheres e crianças, particularmente trabalhadores com as suas famílias, cheios de vida e alegria, esquecidos das regras e convenções comuns da sua existência quotidiana. É nesse dia que as massas demonstram o que a vida poderia realmente significar numa sociedade sã, com o trabalho despido do seu propósito de lucro e destruição da alma.
O puritanismo roubou ao povo até esse único dia. Naturalmente, apenas os trabalhadores são afetados: os nossos milionários têm as suas casas luxuosas e clubes sofisticados. Os pobres, no entanto, estão condenados à monotonia e ao tédio do domingo americano. A sociabilidade e a diversão da vida ao ar livre europeia são aqui trocadas pela tristeza da igreja, pela sala de estar abafada e saturada de germes da casa de campo, ou pela atmosfera brutalizante do bar dos fundos. Nos estados da Proibição, o povo carece até deste último, a menos que possa investir os seus escassos ganhos em quantidades de bebida adulterada. Quanto à Proibição, todos sabem que farsa ela realmente é. Como todas as outras conquistas do puritanismo, ela também apenas empurrou o "diabo" mais profundamente para o sistema humano. Em nenhum outro lugar se encontram tantos bêbados como nas nossas cidades sob Proibição. Mas, enquanto se puder usar rebuçados perfumados para atenuar o mau hálito da hipocrisia, o puritanismo triunfa. Ostensivamente, a Proibição opõe-se à bebida por razões de saúde e economia, mas sendo o próprio espírito da Proibição anormal, ela apenas consegue criar uma vida anormal.
Cada estímulo que aviva a imaginação e eleva o espírito é tão necessário para a nossa vida como o ar. Ele revigora o corpo e aprofunda a nossa visão da fraternidade humana. Sem estímulos, de uma forma ou de outra, o trabalho criativo é impossível, nem de facto o espírito de bondade e generosidade. O facto de alguns grandes génios terem visto o seu reflexo no copo com demasiada frequência não justifica que o puritanismo tente acorrentar toda a gama de emoções humanas. Um Byron e um Poe comoveram a humanidade mais profundamente do que todos os puritanos alguma vez poderão esperar fazer. Os primeiros deram cor e significado à vida; os últimos estão a transformar o sangue vermelho em água, a beleza em fealdade, a variedade em uniformidade e decadência. O puritanismo, em qualquer expressão, é um germe venenoso. À superfície, tudo pode parecer forte e vigoroso; contudo, o veneno abre caminho persistentemente, até que toda a estrutura esteja condenada. Com Hippolyte Taine, todo o espírito verdadeiramente livre chegou à conclusão de que "o puritanismo é a morte da cultura, da filosofia, do humor e da boa camaradagem; as suas características são o tédio, a monotonia e a tristeza."
[1] A PSICOLOGIA DO SEXO. Havelock Ellis.
O TRÁFICO DE MULHERES
Os nossos reformadores fizeram subitamente uma grande descoberta — o tráfico de escravas brancas. Os jornais estão cheios destas "condições inauditas", e os legisladores já estão a planear um novo conjunto de leis para travar o horror.
É significativo que sempre que a mente pública deve ser desviada de um grande erro social, uma cruzada é inaugurada contra a indecência, o jogo, os bares, etc. E qual é o resultado dessas cruzadas? O jogo está a aumentar, os bares estão a fazer negócios animados através de entradas pelas traseiras, a prostituição está no seu auge, e o sistema de proxenetas e rufiões é apenas agravado.
Como é que uma instituição, conhecida quase por todas as crianças, deveria ter sido descoberta tão subitamente? Como é que este mal, conhecido por todos os sociólogos, deveria agora ser tornado uma questão tão importante?
Assumir que a recente investigação sobre o tráfico de escravas brancas (e, a propósito, uma investigação muito superficial) descobriu algo de novo é, para dizer o mínimo, muito tolo. A prostituição tem sido, e é, um mal generalizado, contudo a humanidade continua com os seus negócios, perfeitamente indiferente aos sofrimentos e à angústia das vítimas da prostituição. Tão indiferente, de facto, quanto a humanidade permaneceu em relação ao nosso sistema industrial, ou à prostituição económica.
Apenas quando as tristezas humanas são transformadas num brinquedo com cores berrantes é que o povo-bebé se interessará — pelo menos por um tempo. O povo é um bebé muito inconstante que precisa de brinquedos novos todos os dias. O grito "justo" contra o tráfico de escravas brancas é um desses brinquedos. Serve para divertir o povo por um pouco de tempo, e ajudará a criar mais alguns empregos políticos gordos — parasitas que vagueiam pelo mundo como inspetores, investigadores, detetives, e assim por diante.
Qual é realmente a causa do comércio de mulheres? Não apenas de mulheres brancas, mas de mulheres amarelas e negras também. Exploração, claro; o implacável Moloch do capitalismo que engorda com o trabalho mal pago, conduzindo assim milhares de mulheres e raparigas à prostituição. Com a Sra. Warren, estas raparigas sentem: "Por que desperdiçar a sua vida a trabalhar por alguns xelins por semana numa copa, dezoito horas por dia?"
Naturalmente, os nossos reformadores não dizem nada sobre esta causa. Conhecem-na bem o suficiente, mas não compensa dizer nada sobre ela. É muito mais lucrativo bancar o fariseu, fingir uma moralidade ultrajada, do que ir ao fundo das coisas.
No entanto, há uma exceção louvável entre os jovens escritores: Reginald Wright Kauffman, cujo trabalho, A CASA DA ESCRAVIDÃO, é a primeira tentativa séria de tratar o mal social, não a partir de um ponto de vista filisteu sentimental. Um jornalista de vasta experiência, o Sr. Kauffman prova que o nosso sistema industrial não deixa à maioria das mulheres alternativa senão a prostituição. As mulheres retratadas em A CASA DA ESCRAVIDÃO pertencem à classe trabalhadora. Se o autor tivesse retratado a vida das mulheres noutras esferas, ter-se-ia confrontado com o mesmo estado de coisas.
Em parte alguma a mulher é tratada de acordo com o mérito do seu trabalho, mas antes como um sexo. É, portanto, quase inevitável que ela deva pagar pelo seu direito de existir, de manter uma posição em qualquer área, com favores sexuais. Assim, é meramente uma questão de grau se ela se vende a um homem, dentro ou fora do casamento, ou a muitos homens. Quer os nossos reformadores o admitam ou não, a inferioridade económica e social da mulher é responsável pela prostituição.
Neste momento, as nossas boas pessoas estão chocadas com as revelações de que, apenas na cidade de Nova Iorque, uma em cada dez mulheres trabalha numa fábrica, que o salário médio recebido pelas mulheres é de seis dólares por semana por quarenta e oito a sessenta horas de trabalho, e que a maioria das trabalhadoras assalariadas enfrenta muitos meses de ociosidade, o que deixa o salário médio em cerca de 280 dólares por ano. Perante estes horrores económicos, será de admirar que a prostituição e o tráfico de escravas brancas se tenham tornado fatores tão dominantes?
Para que os números anteriores não sejam considerados um exagero, é bom examinar o que alguns especialistas em prostituição têm a dizer:
"Uma causa prolífica da depravação feminina pode ser encontrada nas diversas tabelas, mostrando a descrição do emprego exercido, e os salários recebidos, pelas mulheres antes da sua queda, e será uma questão para o economista político decidir até que ponto as considerações meramente comerciais devem ser uma desculpa por parte dos empregadores para uma redução nas suas taxas de remuneração, e se a poupança de uma pequena percentagem nos salários não é mais do que compensada pela enorme quantidade de impostos impostos ao público em geral para custear as despesas incorridas por conta de um sistema de vício, QUE É O RESULTADO DIRETO, EM MUITOS CASOS, DE COMPENSAÇÃO INSUFICIENTE PELO TRABALHO HONESTO."[1]
Os nossos reformadores atuais fariam bem em consultar o livro do Dr. Sanger. Lá descobrirão que, dos 2.000 casos sob a sua observação, poucos vieram das classes médias, de condições bem ordenadas ou lares agradáveis. De longe, a maior maioria eram raparigas trabalhadoras e mulheres trabalhadoras; algumas levadas à prostituição pela pura necessidade, outras por causa de uma vida cruel e miserável em casa, outras ainda por causa de naturezas físicas frustradas e atrofiadas (sobre as quais falarei mais adiante). Também fará bem aos mantenedores da pureza e moralidade aprender que, de dois mil casos, 490 eram mulheres casadas, mulheres que viviam com os seus maridos. Evidentemente, não havia muita garantia para a sua "segurança e pureza" na santidade do casamento.[2]
O Dr. Alfred Blaschko, em A PROSTITUIÇÃO NO SÉCULO XIX, é ainda mais enfático ao caracterizar as condições económicas como um dos fatores mais vitais da prostituição.
"Embora a prostituição tenha existido em todas as eras, coube ao século XIX desenvolvê-la numa gigantesca instituição social. O desenvolvimento da indústria com vastas massas de pessoas no mercado competitivo, o crescimento e a congestão das grandes cidades, a insegurança e a incerteza do emprego, deram à prostituição um impulso nunca sonhado em qualquer período da história humana."
E, novamente, Havelock Ellis, embora não seja tão absoluto ao tratar da causa económica, é, contudo, forçado a admitir que é direta e indiretamente a causa principal. Assim, ele descobre que uma grande percentagem de prostitutas é recrutada da classe dos criados, embora estes últimos tenham menos cuidados e maior segurança. Por outro lado, o Sr. Ellis não nega que a rotina diária, o trabalho árduo, a monotonia da sorte da criada, e especialmente o facto de ela nunca poder partilhar da companhia e da alegria de um lar, não é um fator desprezível em forçá-la a procurar recreação e esquecimento na alegria e no brilho da prostituição. Por outras palavras, a criada, sendo tratada como uma escrava, nunca tendo direito a si própria, e desgastada pelos caprichos da sua patroa, só pode encontrar uma saída, tal como a operária da fábrica ou da loja, na prostituição.
O lado mais divertido da questão que se encontra agora perante o público é a indignação das nossas "pessoas boas e respeitáveis", especialmente os vários cavalheiros cristãos, que se encontram sempre nas primeiras fileiras de todas as cruzadas. Será que são absolutamente ignorantes da história da religião, e especialmente da religião cristã? Ou será que esperam cegar a presente geração quanto ao papel desempenhado no passado pela Igreja em relação à prostituição? Qualquer que seja a sua razão, deveriam ser os últimos a clamar contra as infelizes vítimas de hoje, uma vez que é conhecido por todo o estudante inteligente que a prostituição é de origem religiosa, mantida e fomentada durante muitos séculos, não como uma vergonha, mas como uma virtude, aclamada como tal pelos próprios Deuses.
"Pareceria que a origem da prostituição se encontra principalmente num costume religioso, a religião, a grande conservadora da tradição social, preservando sob uma forma transformada uma liberdade primitiva que estava a desaparecer da vida social geral. O exemplo típico é o registado por Heródoto, no século V antes de Cristo, no Templo de Mylitta, a Vénus babilónica, onde cada mulher, uma vez na vida, tinha de vir e entregar-se ao primeiro estranho, que atirava uma moeda para o seu colo, para adorar a deusa. Costumes muito semelhantes existiam noutras partes da Ásia Ocidental, no Norte de África, em Chipre e noutras ilhas do Mediterrâneo Oriental, e também na Grécia, onde o templo de Afrodite na fortaleza de Corinto possuía mais de mil hieródulas, dedicadas ao serviço da deusa.
"A teoria de que a prostituição religiosa se desenvolveu, como regra geral, a partir da crença de que a atividade geradora dos seres humanos possuía uma influência misteriosa e sagrada na promoção da fertilidade da Natureza, é sustentada por todos os escritores autorizados sobre o assunto. Gradualmente, no entanto, e quando a prostituição se tornou uma instituição organizada sob influência sacerdotal, a prostituição religiosa desenvolveu lados utilitários, ajudando assim a aumentar a receita pública.
"A ascensão do Cristianismo ao poder político produziu pouca mudança na política. Os principais pais da Igreja toleravam a prostituição. Bordéis sob proteção municipal encontram-se no século XIII. Constituíam uma espécie de serviço público, sendo os seus diretores considerados quase como funcionários públicos."[3]
A isto deve acrescentar-se o seguinte da obra do Dr. Sanger:
"O Papa Clemente II emitiu uma bula de que as prostitutas seriam toleradas se pagassem uma certa quantia dos seus ganhos à Igreja.
"O Papa Sisto IV foi mais prático; de um único bordel, que ele próprio tinha construído, recebeu um rendimento de 20.000 ducados."
Nos tempos modernos a Igreja é um pouco mais cuidadosa nessa direção. Pelo menos não exige abertamente tributo das prostitutas. Considera muito mais rentável dedicar-se ao imobiliário, como a Trinity Church, por exemplo, para arrendar armadilhas mortais a um preço exorbitante àqueles que vivem da e pela prostituição.
Por muito que eu quisesse, o meu espaço não permitirá falar da prostituição no Egito, Grécia, Roma e durante a Idade Média. As condições neste último período são particularmente interessantes, na medida em que a prostituição estava organizada em corporações, presididas por uma Rainha do bordel. Estas corporações empregavam greves como um meio de melhorar a sua condição e manter um preço padrão. Certamente esse é um método mais prático do que o usado pelo escravo assalariado moderno na sociedade.
Seria unilateral e extremamente superficial sustentar que o fator económico é a única causa da prostituição. Existem outros não menos importantes e vitais. Isso, também, os nossos reformadores sabem, mas ousam discutir ainda menos do que a instituição que suga a própria vida tanto de homens como de mulheres. Refiro-me à questão sexual, cuja própria menção causa na maioria das pessoas espasmos morais.
É um facto concedido que a mulher está a ser educada como uma mercadoria sexual, e ainda assim é mantida em absoluta ignorância do significado e da importância do sexo. Tudo o que trata do assunto é suprimido, e as pessoas que tentam trazer luz a esta terrível escuridão são perseguidas e lançadas na prisão. Contudo, não deixa de ser verdade que enquanto uma rapariga não souber como cuidar de si própria, não souber a função da parte mais importante da sua vida, não nos devemos surpreender se ela se tornar uma presa fácil da prostituição, ou de qualquer outra forma de relacionamento que a degrade à posição de um objeto para mera gratificação sexual.
É devido a esta ignorância que toda a vida e natureza da rapariga são frustradas e aleijadas. Há muito que tomámos como um facto evidente que o rapaz pode seguir o apelo do instinto; isto é, que o rapaz pode, logo que a sua natureza sexual se afirma, satisfazer essa natureza; mas os nossos moralistas ficam escandalizados com a própria ideia de que a natureza de uma rapariga se deva afirmar. Para o moralista, a prostituição não consiste tanto no facto de a mulher vender o seu corpo, mas sim no facto de ela o vender fora do matrimónio. Que esta não é uma mera afirmação é provado pelo facto de que o casamento por considerações monetárias é perfeitamente legítimo, santificado pela lei e pela opinião pública, enquanto qualquer outra união é condenada e repudiada. Contudo, uma prostituta, se devidamente definida, não significa outra coisa senão "qualquer pessoa para quem os relacionamentos sexuais são subordinados ao ganho."[4]
"São prostitutas aquelas mulheres que vendem os seus corpos para o exercício do ato sexual e fazem disto uma profissão."[5]
De facto, Sanger vai mais longe; sustenta que o ato de prostituição é "intrinsecamente igual ao de um homem ou mulher que contrai um casamento por razões económicas".
Claro que o casamento é o objetivo de toda a rapariga, mas como milhares de raparigas não podem casar, os nossos estúpidos costumes sociais condenam-nas ou a uma vida de celibato ou à prostituição. A natureza humana afirma-se independentemente de todas as leis, nem existe qualquer razão plausível pela qual a natureza deva adaptar-se a uma conceção pervertida de moralidade.
A sociedade considera as experiências sexuais de um homem como atributos do seu desenvolvimento geral, enquanto experiências semelhantes na vida de uma mulher são vistas como uma terrível calamidade, uma perda de honra e de tudo o que é bom e nobre num ser humano. Este duplo padrão de moralidade desempenhou um papel não pequeno na criação e perpetuação da prostituição. Envolve manter os jovens em absoluta ignorância sobre assuntos sexuais, cuja alegada "inocência", juntamente com uma natureza sexual sobrecarregada e sufocada, ajuda a provocar um estado de coisas que os nossos puritanos estão tão ansiosos por evitar ou prevenir.
Não que a gratificação do sexo tenha necessariamente de levar à prostituição; é a cruel, impiedosa e criminosa perseguição daqueles que ousam desviar-se dos caminhos trilhados, que é responsável por ela.
Raparigas, meras crianças, trabalham em salas apinhadas e sobreaquecidas dez a doze horas por dia numa máquina, o que tende a mantê-las num estado sexual constantemente sobre-excitado. Muitas destas raparigas não têm casa ou confortos de qualquer espécie; portanto, a rua ou algum lugar de diversão barata é o único meio de esquecer a sua rotina diária. Isto naturalmente traz-lhes uma proximidade estreita com o outro sexo. É difícil dizer qual dos dois fatores leva a condição hipersexualizada da rapariga ao clímax, mas é certamente a coisa mais natural que um clímax resulte. Esse é o primeiro passo para a prostituição. Nem a rapariga deve ser considerada responsável por isso. Pelo contrário, é inteiramente culpa da sociedade, culpa da nossa falta de compreensão, da nossa falta de apreço pela vida em formação; especialmente é a culpa criminosa dos nossos moralistas, que condenam uma rapariga por toda a eternidade, porque ela se desviou do "caminho da virtude"; isto é, porque a sua primeira experiência sexual ocorreu sem a sanção da Igreja.
A rapariga sente-se uma completa pária, com as portas de casa e da sociedade fechadas na sua cara. Todo o seu treino e tradição são tais que a própria rapariga se sente depravada e caída, e portanto não tem chão onde se apoiar, ou qualquer suporte que a levante, em vez de a arrastar para baixo. Assim, a sociedade cria as vítimas que depois tenta inutilmente eliminar. O homem mais vil, mais depravado e decrépito ainda se considera demasiado bom para tomar como sua esposa a mulher cuja graça ele estava bastante disposto a comprar, mesmo que pudesse, desse modo, salvá-la de uma vida de horror. Nem pode ela recorrer à sua própria irmã em busca de ajuda. Na sua estupidez, esta última considera-se demasiado pura e casta, não percebendo que a sua própria posição é em muitos aspetos ainda mais deplorável do que a da sua irmã da rua.
"A esposa que casou por dinheiro, comparada com a prostituta", diz Havelock Ellis, "é a verdadeira fura-greves. É paga menos, dá muito mais em troca de trabalho e cuidado, e está absolutamente ligada ao seu senhor. A prostituta nunca assina o direito sobre a sua própria pessoa, ela retém a sua liberdade e direitos pessoais, nem é sempre obrigada a submeter-se ao abraço de um homem."
Nem a mulher que se acha "mais santa que os outros" percebe a alegação apologética de Lecky de que "embora ela possa ser o tipo supremo de vício, é também a guardiã mais eficiente da virtude. Se não fosse por ela, lares felizes seriam poluídos, práticas não naturais e prejudiciais abundariam."
Os moralistas estão sempre prontos a sacrificar metade da raça humana em prol de alguma instituição miserável que não conseguem superar. Na verdade, a prostituição não é mais uma salvaguarda para a pureza do lar do que as leis rígidas são uma salvaguarda contra a prostituição. Cinquenta por cento dos homens casados são clientes de bordéis. É através deste elemento virtuoso que as mulheres casadas — não, até as crianças — são infetadas com doenças venéreas. Contudo, a sociedade não tem uma palavra de condenação para o homem, enquanto nenhuma lei é demasiado monstruosa para ser posta em prática contra a vítima indefesa. Ela não é apenas explorada por aqueles que a usam, mas também está absolutamente à mercê de cada polícia e miserável detetive da ronda, dos funcionários na esquadra, das autoridades em cada prisão.
Num livro recente de uma mulher que foi durante doze anos a dona de uma "casa", encontram-se os seguintes números: "As autoridades obrigavam-me a pagar todos os meses multas entre $14,70 a $29,70, as raparigas pagavam de $5,70 a $9,70 à polícia." Considerando que a escritora exercia o seu negócio numa pequena cidade, que os montantes que ela dá não incluem subornos extra e multas, pode-se ver facilmente a tremenda receita que o departamento de polícia deriva do dinheiro de sangue das suas vítimas, a quem nem sequer protege. Ai daqueles que se recusam a pagar o seu pedágio; seriam reunidos como gado, "só para causar uma impressão favorável aos bons cidadãos da cidade, ou se os poderes precisassem de dinheiro extra por fora. Para a mente deformada que acredita que uma mulher caída é incapaz de emoção humana seria impossível perceber a dor, a desgraça, as lágrimas, o orgulho ferido que eram nossos cada vez que éramos apanhadas."
Estranho, não é, que uma mulher que manteve uma "casa" deva ser capaz de sentir dessa maneira? Mas mais estranho ainda que um bom mundo cristão deva sangrar e tosquiar tais mulheres, e não lhes dar nada em troca exceto opróbrio e perseguição. Oh, pela caridade de um mundo cristão!
Dá-se muita ênfase aos escravos brancos a serem importados para a América. Como é que a América alguma vez conservaria a sua virtude se a Europa não a ajudasse? Não negarei que este possa ser o caso em alguns exemplos, tal como não negarei que existem emissários da Alemanha e de outros países a atrair escravos económicos para a América; mas nego absolutamente que a prostituição seja recrutada em qualquer extensão apreciável da Europa. Pode ser verdade que a maioria das prostitutas na cidade de Nova Iorque são estrangeiras, mas isso é porque a maioria da população é estrangeira. No momento em que vamos a qualquer outra cidade americana, a Chicago ou ao Médio Oeste, descobriremos que o número de prostitutas estrangeiras é de longe uma minoria.
Igualmente exagerada é a crença de que a maioria das raparigas de rua nesta cidade estava envolvida neste negócio antes de vir para a América. A maioria das raparigas fala um excelente inglês, são americanizadas nos hábitos e aparência — uma coisa absolutamente impossível a menos que tivessem vivido neste país muitos anos. Isto é, foram levadas para a prostituição pelas condições americanas, pelo costume profundamente americano de exibição excessiva de adornos e roupas, o que, claro, necessita de dinheiro — dinheiro que não pode ser ganho em lojas ou fábricas.
Por outras palavras, não há razão para acreditar que qualquer grupo de homens correria o risco e a despesa de obter produtos estrangeiros, quando as condições americanas estão a inundar o mercado com milhares de raparigas. Por outro lado, há evidência suficiente para provar que a exportação de raparigas americanas para fins de prostituição não é de modo algum um fator pequeno.
Assim, Clifford G. Roe, ex-Procurador Assistente do Estado do Condado de Cook, Ill., faz a acusação aberta de que raparigas da Nova Inglaterra são enviadas para o Panamá para o uso expresso de homens ao serviço do Tio Sam. O Sr. Roe acrescenta que "parece haver uma estrada de ferro subterrânea entre Boston e Washington que muitas raparigas percorrem." Não é significativo que a estrada de ferro deva levar ao próprio assento da autoridade Federal? Que o Sr. Roe disse mais do que era desejado em certos círculos é provado pelo facto de ter perdido o seu cargo. Não é prático para homens em cargos públicos contar segredos da escola.
A desculpa dada para as condições no Panamá é que não existem bordéis na Zona do Canal. Essa é a via de escape habitual para um mundo hipócrita que não ousa enfrentar a verdade. Não na Zona do Canal, não nos limites da cidade — portanto, a prostituição não existe.
A seguir ao Sr. Roe, há James Bronson Reynolds, que fez um estudo profundo do tráfico de escravas brancas na Ásia. Como um leal cidadão americano e amigo do futuro Napoleão da América, Theodore Roosevelt, ele é certamente o último a desacreditar a virtude do seu país. Contudo, somos informados por ele de que em Hong Kong, Xangai e Yokohama, as cavalariças de Áugias do vício americano estão localizadas. Lá as prostitutas americanas tornaram-se tão conspícuas que no Oriente "rapariga americana" é sinónimo de prostituta. O Sr. Reynolds lembra aos seus compatriotas que, enquanto os americanos na China estão sob a proteção dos nossos representantes consulares, os chineses na América não têm proteção nenhuma. Todos os que conhecem a perseguição brutal e bárbara que os chineses e japoneses suportam na Costa do Pacífico, concordarão com o Sr. Reynolds.
Tendo em vista os factos acima, é bastante absurdo apontar para a Europa como o pântano de onde vêm todas as doenças sociais da América. Tão absurdo é proclamar o mito de que os judeus fornecem o maior contingente de presas voluntárias. Tenho a certeza de que ninguém me acusará de tendências nacionalistas. Fico contente por dizer que me desenvolvi para fora delas, como de muitos outros preconceitos. Se, portanto, me oponho à afirmação de que as prostitutas judias são importadas, não é por causa de quaisquer simpatias judaicas, mas por causa dos factos inerentes às vidas destas pessoas. Ninguém senão o mais superficial afirmará que as raparigas judias migram para terras estranhas, a menos que tenham algum laço ou relação que as leve para lá. A rapariga judia não é aventureira. Até anos recentes, ela nunca tinha deixado a sua casa, nem sequer tão longe como a aldeia ou cidade vizinha, exceto se fosse para visitar algum parente. É então credível que as raparigas judias deixassem os seus pais ou famílias, viajassem milhares de milhas para terras estranhas, através da influência e promessas de forças estranhas? Vá a qualquer dos grandes navios a vapor que chegam e veja por si próprio se estas raparigas não vêm com os seus pais, irmãos, tias ou outros familiares. Podem existir exceções, claro, mas afirmar que grandes números de raparigas judias são importadas para prostituição, ou qualquer outro propósito, é simplesmente não conhecer a psicologia judaica.
Aqueles que se sentam numa casa de vidro fazem mal em atirar pedras à sua volta; além disso, a casa de vidro americana é bastante fina, quebrará facilmente, e o interior é tudo menos uma visão atraente.
Atribuir o aumento da prostituição à alegada importação, ao crescimento do sistema de proxenetas, ou causas semelhantes, é altamente superficial. Já me referi à primeira. Quanto ao sistema de proxenetas, por mais detestável que seja, não devemos ignorar o facto de que é essencialmente uma fase da prostituição moderna — uma fase acentuada pela supressão e corrupção, resultando de cruzadas esporádicas contra o mal social.
O procurador é sem dúvida um pobre espécime da família humana, mas de que maneira é ele mais desprezível do que o polícia que tira o último cêntimo à mulher da rua, e depois a encerra na esquadra? Porque é o proxeneta mais criminoso, ou uma ameaça maior para a sociedade, do que os donos de lojas de departamento e fábricas, que engordam à custa do suor das suas vítimas, apenas para as conduzir às ruas? Não faço um apelo pelo proxeneta, mas não consigo ver porque deveria ele ser impiedosamente perseguido, enquanto os verdadeiros perpetradores de toda a iniquidade social gozam de imunidade e respeito. Então, também, é bom lembrar que não é o proxeneta que faz a prostituta. É a nossa farsa e hipocrisia que criam tanto a prostituta como o proxeneta.
Até 1894 muito pouco se sabia na América sobre o procurador. Então fomos atacados por uma epidemia de virtude. O vício deveria ser abolido, o país purificado a todo o custo. O cancro social foi, portanto, levado para fora da vista, mas mais profundamente para dentro do corpo. Donos de bordéis, assim como as suas infelizes vítimas, foram entregues às ternas mercês da polícia. A consequência inevitável de subornos exorbitantes e da penitenciária seguiu-se.
Enquanto comparativamente protegidas nos bordéis, onde representavam um certo valor monetário, as raparigas encontravam-se agora na rua, absolutamente à mercê da polícia ávida de corrupção. Desesperadas, precisando de proteção e ansiando por afeto, estas raparigas provaram naturalmente ser uma presa fácil para proxenetas, eles próprios o resultado do espírito da nossa era comercial. Assim, o sistema de proxenetas foi o resultado direto da perseguição policial, corrupção e tentativa de supressão da prostituição. Seria pura loucura confundir esta fase moderna do mal social com as causas deste último.
A mera supressão e os decretos bárbaros só podem servir para amargar e degradar ainda mais as infelizes vítimas da ignorância e da estupidez. Esta última atingiu a sua expressão mais elevada na lei proposta para tornar o tratamento humano das prostitutas um crime, punindo qualquer pessoa que abrigue uma prostituta com cinco anos de prisão e 10.000 dólares de multa. Tal atitude apenas expõe a terrível falta de compreensão das verdadeiras causas da prostituição, como um fator social, assim como manifesta o espírito puritano dos dias da Letra Escarlate.
Não há um único escritor moderno sobre o assunto que não se refira à absoluta futilidade dos métodos legislativos em lidar com a questão. Assim, o Dr. Blaschko constata que a supressão governamental e as cruzadas morais não realizam nada além de conduzir o mal para canais secretos, multiplicando os seus perigos para a sociedade. Havelock Ellis, o mais profundo e humano estudante da prostituição, prova através de uma riqueza de dados que quanto mais rigorosos os métodos de perseguição, pior a condição se torna. Entre outros dados, aprendemos que em França, "em 1560, Carlos IX aboliu os bordéis através de um édito, mas os números de prostitutas apenas aumentaram, enquanto muitos novos bordéis apareceram sob formas insuspeitas, e eram mais perigosos. Apesar de toda essa legislação, OU POR CAUSA DELA, não houve país em que a prostituição tenha desempenhado um papel mais conspícuo."[6]
Uma opinião pública educada, liberta da perseguição legal e moral à prostituta, é a única que pode ajudar a melhorar as condições presentes. O fechar de olhos deliberado e a ignorância deste mal como um fator social da vida moderna só podem agravar as coisas. Devemos elevar-nos acima das nossas noções tolas de "mais virtuoso do que tu" e aprender a reconhecer na prostituta um produto das condições sociais. Tal realização varrerá a atitude de hipocrisia e garantirá uma maior compreensão e um tratamento mais humano. Quanto a uma erradicação completa da prostituição, nada a pode realizar exceto uma completa transvaloração de todos os valores aceites — especialmente os morais — aliada à abolição da escravatura industrial.
[1] Dr. Sanger, THE HISTORY OF PROSTITUTION.
[2] É um facto significativo que o livro do Dr. Sanger tenha sido excluído do serviço postal dos Estados Unidos. Evidentemente, as autoridades não estão ansiosas por que o público seja informado sobre a verdadeira causa da prostituição.
[3] Havelock Ellis, SEX AND SOCIETY.
[4] Guyot, LA PROSTITUTION.
[5] Banger, CRIMINALITE ET CONDITION ECONOMIQUE.
[6] SEX AND SOCIETY.
SUFRÁGIO FEMININO
Gabamo-nos da era do avanço, da ciência e do progresso. Não será estranho, então, que ainda acreditemos no culto de fetiches? É verdade, os nossos fetiches têm forma e substância diferentes, contudo, no seu poder sobre a mente humana, são ainda tão desastrosos como os de outrora.
O nosso fetiche moderno é o sufrágio universal. Aqueles que ainda não alcançaram esse objetivo travam revoluções sangrentas para o obter, e aqueles que gozaram do seu reinado trazem pesados sacrifícios ao altar desta divindade omnipotente. Ai do herege que se atreva a questionar tal divindade!
A mulher, ainda mais do que o homem, é uma adoradora de fetiches e, embora os seus ídolos possam mudar, ela está sempre de joelhos, sempre a erguer as mãos, sempre cega para o facto de que o seu deus tem pés de barro. Assim, a mulher tem sido a maior apoiante de todas as divindades desde tempos imemoriais. Assim, também, ela tem tido de pagar o preço que apenas os deuses podem exigir — a sua liberdade, o sangue do seu coração, a sua própria vida.
A máxima memorável de Nietzsche, "Quando fores ter com a mulher, leva o chicote", é considerada muito brutal, contudo, Nietzsche expressou numa frase a atitude da mulher para com os seus deuses.
A religião, especialmente a religião cristã, condenou a mulher à vida de inferior, de escrava. Contrariou a sua natureza e acorrentou a sua alma, todavia, a religião cristã não tem apoiante maior, nem mais devota, do que a mulher. De facto, é seguro dizer que a religião teria deixado de ser um fator na vida das pessoas há muito tempo, se não fosse pelo apoio que recebe da mulher. As trabalhadoras da igreja mais ardentes, as missionárias mais incansáveis do mundo inteiro, são mulheres, sempre a sacrificar no altar dos deuses que encadearam o seu espírito e escravizaram o seu corpo.
O monstro insaciável, a guerra, rouba à mulher tudo o que lhe é querido e precioso. Exige os seus irmãos, amantes, filhos, e em troca dá-lhe uma vida de solidão e desespero. No entanto, a maior apoiante e adoradora da guerra é a mulher. É ela quem incute o amor pela conquista e pelo poder nos seus filhos; é ela quem sussurra as glórias da guerra aos ouvidos dos seus pequeninos, e quem embala o seu bebé até adormecer com as melodias de trombetas e o ruído das armas. É a mulher, também, quem coroa o vencedor no seu regresso do campo de batalha. Sim, é a mulher quem paga o preço mais alto a esse monstro insaciável, a guerra.
Depois, há o lar. Que fetiche terrível que é! Como drena a própria energia vital da mulher — esta prisão moderna com grades douradas. O seu aspeto brilhante cega a mulher para o preço que ela teria de pagar como esposa, mãe e dona de casa. Todavia, a mulher agarra-se tenazmente ao lar, ao poder que a mantém em cativeiro.
Pode dizer-se que, porque a mulher reconhece o preço terrível que é obrigada a pagar à Igreja, ao Estado e ao lar, ela quer o sufrágio para se libertar. Isso pode ser verdade para algumas poucas; a maioria das sufragistas repudia totalmente tal blasfémia. Pelo contrário, insistem sempre que é o sufrágio feminino que fará dela uma melhor cristã e dona de casa, uma cidadã convicta do Estado. Assim, o sufrágio é apenas um meio de fortalecer a omnipotência dos próprios Deuses que a mulher serviu desde tempos imemoriais.
Que admiração, então, que ela deva ser tão devota, tão zelosa, tão prostrada perante o novo ídolo, o sufrágio feminino. Como outrora, ela suporta a perseguição, o encarceramento, a tortura e todas as formas de condenação, com um sorriso no rosto. Como outrora, os mais esclarecidos, até, esperam um milagre da divindade do século XX — o sufrágio. Vida, felicidade, alegria, liberdade, independência — tudo isso, e mais, deve brotar do sufrágio. Na sua devoção cega, a mulher não vê o que pessoas de intelecto perceberam há cinquenta anos: que o sufrágio é um mal, que só ajudou a escravizar as pessoas, que apenas fechou os seus olhos para que não vejam quão astuciosamente foram levadas a submeter-se.
A exigência da mulher pelo sufrágio igual baseia-se em grande parte na alegação de que a mulher deve ter o direito igual em todos os assuntos da sociedade. Ninguém poderia, possivelmente, refutar isso, se o sufrágio fosse um direito. Ai da ignorância da mente humana, que consegue ver um direito numa imposição. Ou não será a mais brutal das imposições um conjunto de pessoas fazer leis que outro conjunto é coagido pela força a obedecer? Contudo, a mulher clama por essa "oportunidade de ouro" que causou tanta miséria no mundo, e roubou ao homem a sua integridade e autoconfiança; uma imposição que corrompeu profundamente as pessoas e as tornou presa absoluta nas mãos de políticos inescrupulosos.
O pobre, estúpido, cidadão americano livre! Livre para passar fome, livre para percorrer as estradas deste grande país, ele goza do sufrágio universal e, por esse direito, forjou correntes à volta dos seus membros. A recompensa que recebe são leis laborais rigorosas que proíbem o direito de boicote, de piquete, na verdade, de tudo, exceto o direito de ser roubado dos frutos do seu trabalho. Contudo, todos estes resultados desastrosos do fetiche do século XX nada ensinaram à mulher. Mas, então, a mulher purificará a política, somos assegurados.
Escusado será dizer que não me oponho ao sufrágio feminino pelo motivo convencional de que ela não está à altura dele. Não vejo razões físicas, psicológicas ou mentais pelas quais a mulher não deva ter o direito igual de votar com o homem. Mas isso não me pode cegar para a noção absurda de que a mulher realizará aquilo em que o homem falhou. Se ela não tornasse as coisas piores, certamente não as poderia tornar melhores. Assumir, portanto, que ela teria sucesso em purificar algo que não é suscetível de purificação, é creditar-lhe poderes sobrenaturais. Uma vez que o maior infortúnio da mulher tem sido o facto de ser vista como anjo ou como demónio, a sua verdadeira salvação reside em ser colocada na terra; nomeadamente, em ser considerada humana e, portanto, sujeita a todas as loucuras e erros humanos. Devemos, então, acreditar que dois erros farão um acerto? Devemos assumir que o veneno já inerente à política diminuirá se as mulheres entrarem na arena política? As sufragistas mais ardentes dificilmente manteriam tal insensatez.
Na verdade, os estudantes mais avançados do sufrágio universal chegaram a perceber que todos os sistemas existentes de poder político são absurdos e são completamente inadequados para enfrentar as questões prementes da vida. Esta visão é também confirmada por uma declaração de alguém que é, ela própria, uma crente ardente no sufrágio feminino, a Dra. Helen L. Sumner. Na sua obra competente sobre EQUAL SUFFRAGE, ela diz: "No Colorado, descobrimos que o sufrágio igual serve para mostrar da maneira mais marcante a podridão essencial e o caráter degradante do sistema existente." Claro, a Dra. Sumner tem em mente um sistema de votação específico, mas o mesmo aplica-se com igual força a toda a maquinaria do sistema representativo. Com tal base, é difícil entender como a mulher, como fator político, beneficiaria a si mesma ou ao resto da humanidade.
Mas, dizem os nossos devotos do sufrágio, olhem para os países e Estados onde existe o sufrágio feminino. Vejam o que a mulher realizou — na Austrália, Nova Zelândia, Finlândia, nos países escandinavos e nos nossos quatro Estados, Idaho, Colorado, Wyoming e Utah. A distância traz encanto — ou, para citar uma fórmula polaca — "estamos bem onde não estamos". Assim, assumir-se-ia que esses países e Estados são diferentes de outros países ou Estados, que têm maior liberdade, maior igualdade social e económica, uma melhor apreciação da vida humana, uma compreensão mais profunda da grande luta social, com todas as questões vitais que ela envolve para a raça humana.
As mulheres da Austrália e da Nova Zelândia podem votar e ajudar a fazer as leis. Serão as condições laborais melhores lá do que na Inglaterra, onde as sufragistas estão a travar uma luta tão heroica? Existe uma maternidade maior, crianças mais felizes e mais livres do que na Inglaterra? A mulher lá já não é considerada uma mera mercadoria sexual? Terá ela se emancipado do padrão duplo puritano de moralidade para homens e mulheres? Certamente, ninguém exceto a política de comício feminina comum se atreverá a responder a estas perguntas afirmativamente. Se for esse o caso, parece ridículo apontar a Austrália e a Nova Zelândia como a Meca das realizações do sufrágio igual.
Por outro lado, é um facto para aqueles que conhecem as reais condições políticas na Austrália, que a política amordaçou o trabalho ao promulgar as leis laborais mais rigorosas, tornando as greves sem a sanção de uma comissão de arbitragem um crime igual à traição.
Não pretendo, nem por um momento, insinuar que o sufrágio feminino é responsável por este estado de coisas. Quero dizer, contudo, que não há razão para apontar a Austrália como uma operadora de milagres da realização feminina, uma vez que a sua influência foi incapaz de libertar o trabalho da escravidão do domínio político.
A Finlândia concedeu à mulher o sufrágio igual; não, até o direito de se sentar no Parlamento. Ajudou isso a desenvolver um heroísmo maior, um zelo mais intenso do que o das mulheres da Rússia? A Finlândia, tal como a Rússia, sofre sob o chicote terrível do czar sangrento. Onde estão as Perovskaias, Spiridonovas, Figners, Breshkovskaias finlandesas? Onde estão as inúmeras jovens finlandesas que partem alegremente para a Sibéria pela sua causa? A Finlândia precisa desesperadamente de libertadores heroicos. Por que é que o voto não os criou? O único vingador finlandês do seu povo foi um homem, não uma mulher, e ele usou uma arma mais eficaz do que o voto.
Quanto aos nossos próprios Estados onde as mulheres votam, e que são constantemente apontados como exemplos de maravilhas, o que foi realizado lá através do voto que as mulheres não gozem em grande medida noutros Estados; ou que não pudessem alcançar através de esforços enérgicos sem o voto?
É verdade, nos Estados do sufrágio, as mulheres têm garantidos direitos iguais à propriedade; mas de que serve esse direito à massa de mulheres sem propriedade, os milhares de trabalhadores assalariados, que vivem com o que ganham? Que o sufrágio igual não afetou, e não pode afetar, a sua condição é admitido até pela Dra. Sumner, que certamente está em posição de saber. Como uma sufragista ardente, e tendo sido enviada ao Colorado pela Collegiate Equal Suffrage League do Estado de Nova Iorque para recolher material a favor do sufrágio, ela seria a última a dizer algo depreciativo; contudo, somos informados de que "o sufrágio igual afetou apenas ligeiramente as condições económicas das mulheres. Que as mulheres não recebem salário igual para trabalho igual e que, embora a mulher no Colorado tenha gozado do sufrágio escolar desde 1876, as professoras são pagas menos do que na Califórnia." Por outro lado, a Srta. Sumner deixa de contabilizar o facto de que, embora as mulheres tenham tido o sufrágio escolar durante trinta e quatro anos, e o sufrágio igual desde 1894, o censo em Denver apenas há poucos meses revelou o facto de quinze mil crianças em idade escolar com deficiências. E isso, também, com a maioria das mulheres no departamento de educação, e também apesar de as mulheres no Colorado terem aprovado as "leis mais rigorosas para a proteção da criança e do animal". As mulheres do Colorado "têm demonstrado grande interesse nas instituições estatais para o cuidado de crianças dependentes, com deficiências e delinquentes". Que terrível acusação contra o cuidado e interesse da mulher, se uma cidade tem quinze mil crianças com deficiências. O que dizer da glória do sufrágio feminino, uma vez que falhou totalmente na questão social mais importante, a criança? E onde está o sentido superior de justiça que a mulher deveria trazer para o campo político? Onde estava ele em 1903, quando os donos das minas travaram uma guerra de guerrilha contra a Western Miners' Union; quando o General Bell estabeleceu um reinado de terror, tirando homens das camas à noite, sequestrando-os através da linha fronteiriça, atirando-os para cercados de gado, declarando "ao diabo com a Constituição, o bastão é a Constituição"? Onde estavam as mulheres políticas então, e por que não exerceram o poder do seu voto? Mas elas exerceram. Ajudaram a derrotar o homem mais justo e liberal, o Governador Waite. Este último teve de dar lugar ao instrumento dos reis das minas, o Governador Peabody, o inimigo do trabalho, o Czar do Colorado. "Certamente, o sufrágio masculino não poderia ter feito nada pior." Concedido. Onde estão, então, as vantagens para a mulher e para a sociedade do sufrágio feminino? A asserção repetidamente feita de que a mulher purificará a política é também apenas um mito. Não é confirmada pelas pessoas que conhecem as condições políticas de Idaho, Colorado, Wyoming e Utah.
A mulher, essencialmente purista, é naturalmente dogmática e implacável no seu esforço para tornar os outros tão bons como ela pensa que deveriam ser. Assim, em Idaho, ela desfranqueou a sua irmã da rua, e declarou todas as mulheres de "caráter impuro" inaptas para votar. "Impuro" não sendo interpretado, é claro, como prostituição NO casamento. Escusado será dizer que a prostituição ilegal e o jogo foram proibidos. A este respeito, a lei deve necessariamente ser de natureza feminina: ela proíbe sempre. Nesse aspeto, todas as leis são maravilhosas. Elas não vão mais longe, mas as suas próprias tendências abrem todas as comportas do inferno. A prostituição e o jogo nunca fizeram negócios mais florescentes do que desde que a lei foi definida contra eles.
No Colorado, o puritanismo da mulher expressou-se de uma forma mais drástica. "Homens de vidas notoriamente impuras, e homens ligados a saloons, foram excluídos da política desde que as mulheres têm o voto."[1] Poderia o irmão Comstock fazer mais? Poderiam todos os pais puritanos ter feito mais? Pergunto-me quantas mulheres percebem a gravidade deste suposto feito. Pergunto-me se elas compreendem que é a própria coisa que, em vez de elevar a mulher, a tornou uma espiã política, uma cusca desprezível nos assuntos privados das pessoas, não tanto pelo bem da causa, mas porque, como disse uma mulher do Colorado, "elas gostam de entrar em casas onde nunca estiveram, e descobrir tudo o que podem, política e doutra forma."[2] Sim, e na alma humana e nos seus recantos mais ínfimos. Pois nada satisfaz tanto o desejo da maioria das mulheres como o escândalo. E quando é que ela gozou de tais oportunidades como as que são suas, as do político?
"Vidas notoriamente impuras, e homens ligados aos saloons." Certamente, as senhoras angariadoras de votos não podem ser acusadas de muito sentido de proporção. Concedendo mesmo que estas bisbilhoteiras podem decidir cujas vidas são suficientemente limpas para aquela atmosfera eminentemente limpa, a política, será que se segue que os donos de saloons pertencem à mesma categoria? A menos que seja hipocrisia e dogmatismo americanos, tão manifestos no princípio da Proibição, que sanciona a propagação da embriaguez entre homens e mulheres da classe rica, mas mantém vigilância atenta sobre o único lugar que resta ao homem pobre. Se não por outra razão, a atitude estreita e purista da mulher perante a vida torna-a um perigo maior para a liberdade onde quer que ela tenha poder político. O homem há muito superou as superstições que ainda envolvem a mulher. No campo competitivo económico, o homem foi forçado a exercer eficiência, julgamento, capacidade, competência. Ele, portanto, não tinha tempo nem inclinação para medir a moralidade de todos com uma régua puritana. Nas suas atividades políticas, também, ele não andou de olhos vendados. Ele sabe que a quantidade e não a qualidade é o material para o moinho político e, a menos que ele seja um reformador sentimental ou um fóssil antigo, ele sabe que a política nunca pode ser outra coisa senão um pântano.
As mulheres que estão minimamente familiarizadas com o processo da política conhecem a natureza da besta, mas, na sua autossuficiência e egoísmo, fazem-se acreditar que só precisam de acariciar a besta, e ela tornar-se-á tão dócil como um cordeiro, doce e pura. Como se as mulheres não tivessem vendido os seus votos, como se as mulheres políticas não pudessem ser compradas! Se o seu corpo pode ser comprado em troca de consideração material, por que não o seu voto? Que isso está a ser feito no Colorado e noutros Estados não é negado nem mesmo por aqueles a favor do sufrágio feminino.
Como disse antes, a visão estreita da mulher sobre os assuntos humanos não é o único argumento contra ela como política superior ao homem. Há outros. O seu parasitismo económico de toda a vida obscureceu totalmente a sua conceção do significado de igualdade. Ela clama por direitos iguais aos dos homens, contudo, aprendemos que "poucas mulheres se preocupam em fazer campanha em distritos indesejáveis."[3] Quão pouco a igualdade significa para elas comparada com as mulheres russas, que enfrentam o próprio inferno pelo seu ideal!
A mulher exige os mesmos direitos que o homem, contudo, ela fica indignada porque a sua presença não o mata: ele fuma, mantém o chapéu na cabeça e não salta do seu assento como um lacaio. Estas podem ser coisas triviais, mas são, no entanto, a chave para a natureza das sufragistas americanas. De certo, as suas irmãs inglesas superaram estas noções tolas. Mostraram-se à altura das maiores exigências sobre o seu caráter e poder de resistência. Toda a honra ao heroísmo e à robustez das sufragistas inglesas. Graças aos seus métodos enérgicos e agressivos, elas provaram ser uma inspiração para algumas das nossas próprias senhoras sem vida e sem espinha. Mas, afinal, as sufragistas, também, ainda carecem de apreciação da verdadeira igualdade. De que outra forma se pode explicar o esforço tremendo, verdadeiramente gigantesco, posto em movimento por essas lutadoras valentes por um pequeno e miserável projeto de lei que beneficiará um punhado de senhoras proprietárias, sem absolutamente nenhuma disposição para a vasta massa de mulheres trabalhadoras? É verdade, como políticas, elas devem ser oportunistas, devem tomar meias medidas se não podem obter tudo. Mas, como mulheres inteligentes e liberais, deveriam perceber que, se o voto é uma arma, os deserdados precisam dela mais do que a classe economicamente superior, e que esta última já goza de demasiado poder em virtude da sua superioridade económica.
A brilhante líder das sufragistas inglesas, a Sra. Emmeline Pankhurst, admitiu ela própria, quando na sua digressão de palestras americana, que não pode haver igualdade entre superiores e inferiores políticos. Se assim é, como poderá a mulher trabalhadora da Inglaterra, já inferior economicamente às senhoras que são beneficiadas pelo projeto de lei de Shackleton,[4] trabalhar com as suas superiores políticas, caso o projeto seja aprovado? Não será provável que a classe de Annie Keeney, tão cheia de zelo, devoção e martírio, seja forçada a carregar nas costas as suas chefes políticas femininas, tal como carregam os seus mestres económicos? Elas continuariam a ter de o fazer, mesmo que o sufrágio universal para homens e mulheres fosse estabelecido na Inglaterra. Não importa o que os trabalhadores façam, eles são obrigados a pagar, sempre. Ainda assim, aqueles que acreditam no poder do voto mostram pouco sentido de justiça quando não se preocupam de todo com aqueles a quem, como alegam, ele mais poderia servir.
O movimento sufragista americano tem sido, até muito recentemente, um caso de salão, absolutamente desligado das necessidades económicas do povo. Assim, Susan B. Anthony, sem dúvida um tipo excecional de mulher, não foi apenas indiferente, mas antagónica ao trabalho; nem hesitou em manifestar o seu antagonismo quando, em 1869, aconselhou as mulheres a ocuparem os lugares dos impressores em greve em Nova Iorque.[5] Não sei se a sua atitude tinha mudado antes da sua morte.
Existem, naturalmente, algumas sufragistas que estão ligadas às mulheres trabalhadoras — a Women's Trade Union League, por exemplo; mas constituem uma pequena minoria e as suas atividades são essencialmente económicas. As restantes encaram o trabalho árduo como uma disposição justa da Providência. O que seria dos ricos, se não fossem os pobres? O que seria destas senhoras ociosas e parasitárias, que desperdiçam numa semana mais do que as suas vítimas ganham num ano, se não fossem os oitenta milhões de trabalhadores assalariados? Igualdade, quem alguma vez ouviu falar de tal coisa?
Poucos países produziram tanta arrogância e esnobismo como a América. Isto é particularmente verdadeiro para a mulher americana de classe média. Ela não só se considera igual ao homem, como superior a ele, especialmente na sua pureza, bondade e moralidade. Não é de admirar que a sufragista americana reivindique para o seu voto os poderes mais milagrosos. Na sua vaidade exaltada, ela não vê o quão verdadeiramente escravizada está, não tanto pelo homem, mas pelas suas próprias noções e tradições tolas. O sufrágio não pode melhorar esse triste facto; só o pode acentuar, como aliás faz.
Uma das grandes líderes femininas americanas afirma que a mulher tem direito não só a um salário igual, como deveria ter direito legal até ao salário do seu marido. Se ele não a sustentar, deveria ser condenado a trajar o uniforme de presidiário, e os seus ganhos na prisão serem recolhidos pela sua igual, a esposa. Não reivindica outra brilhante expoente da causa para a mulher que o seu voto abolirá o mal social, contra o qual se tem lutado em vão através dos esforços coletivos das mentes mais ilustres de todo o mundo? É, de facto, de lamentar que o suposto criador do universo já nos tenha presenteado com o seu maravilhoso esquema das coisas, caso contrário o sufrágio feminino permitiria seguramente à mulher superá-lo completamente.
Nada é tão perigoso como a dissecação de um fetiche. Se sobrevivemos ao tempo em que tal heresia era punível na fogueira, não sobrevivemos ao espírito estreito de condenação daqueles que ousam divergir das noções aceites. Por conseguinte, serei provavelmente considerada uma oponente da mulher. Mas isso não me pode impedir de encarar a questão frontalmente. Repito o que disse no início: não acredito que a mulher torne a política pior; nem posso acreditar que a possa tornar melhor. Se, então, ela não pode melhorar os erros do homem, por que perpetuar estes últimos?
A história pode ser uma compilação de mentiras; não obstante, contém algumas verdades, e são elas o único guia que temos para o futuro. A história das atividades políticas dos homens prova que estas não lhe deram absolutamente nada que ele não pudesse ter alcançado de uma forma mais direta, menos dispendiosa e mais duradoura. Na verdade, cada centímetro de terreno que conquistou foi através de uma luta constante, um esforço incessante de autoafirmação, e não através do sufrágio. Não há qualquer razão para assumir que a mulher, na sua escalada para a emancipação, tenha sido, ou será, ajudada pelo voto.
No mais sombrio de todos os países, a Rússia, com o seu despotismo absoluto, a mulher tornou-se igual ao homem, não através do voto, mas pela sua vontade de ser e de fazer. Não só conquistou para si todas as vias de aprendizagem e vocação, como ganhou a estima do homem, o seu respeito, o seu companheirismo; sim, ainda mais do que isso: ganhou a admiração, o respeito de todo o mundo. Isso também, não através do sufrágio, mas pelo seu maravilhoso heroísmo, a sua fortaleza, a sua capacidade, força de vontade e a sua resistência na luta pela liberdade. Onde estão as mulheres em qualquer país ou Estado com sufrágio que possam reclamar tal vitória? Quando consideramos as realizações da mulher na América, descobrimos também que algo mais profundo e mais poderoso do que o sufrágio a ajudou na marcha para a emancipação.
Passaram apenas sessenta e dois anos desde que um punhado de mulheres na Convenção de Seneca Falls apresentou algumas exigências pelo seu direito a uma educação igual à dos homens, e acesso às várias profissões, ofícios, etc. Que realização maravilhosa, que triunfos maravilhosos! Quem, senão o mais ignorante, ousa falar da mulher como uma mera escrava doméstica? Quem ousa sugerir que esta ou aquela profissão não deveria estar aberta a ela? Durante mais de sessenta anos, ela moldou uma nova atmosfera e uma nova vida para si própria. Tornou-se uma potência mundial em todos os domínios do pensamento e da atividade humana. E tudo isso sem sufrágio, sem o direito de fazer leis, sem o "privilégio" de se tornar juíza, carcereira ou carrasca.
Sim, posso ser considerada uma inimiga da mulher; mas se puder ajudá-la a ver a luz, não me queixarei.
O infortúnio da mulher não é que ela seja incapaz de fazer o trabalho do homem, mas que está a desperdiçar a sua força vital para o superar, com uma tradição de séculos que a deixou fisicamente incapaz de acompanhar o seu ritmo. Oh, sei que algumas conseguiram, mas a que custo, a que custo terrível! O que importa não é o tipo de trabalho que a mulher faz, mas sim a qualidade do trabalho que ela fornece. Ela não pode dar ao sufrágio ou ao voto qualquer nova qualidade, nem pode receber dele nada que melhore a sua própria qualidade. O seu desenvolvimento, a sua liberdade, a sua independência devem vir de e através de si mesma. Primeiro, afirmando-se como personalidade, e não como uma mercadoria sexual. Segundo, recusando o direito a qualquer um sobre o seu corpo; recusando ter filhos, a menos que os queira; recusando ser serva de Deus, do Estado, da sociedade, do marido, da família, etc.; tornando a sua vida mais simples, mas mais profunda e mais rica. Isto é, tentando aprender o significado e a substância da vida em todas as suas complexidades, libertando-se do medo da opinião pública e da condenação pública. Só isso, e não o voto, libertará a mulher, torná-la-á uma força até então desconhecida no mundo, uma força para o amor verdadeiro, para a paz, para a harmonia; uma força de fogo divino, de dar vida; uma criadora de homens e mulheres livres.
[1] EQUAL SUFFRAGE. Dr. Helen Sumner.
[2] EQUAL SUFFRAGE.
[3] Dr. Helen A. Sumner.
[4] O Sr. Shackleton era um líder sindical. É, portanto, evidente que ele deveria apresentar um projeto de lei que excluísse os seus próprios constituintes. O Parlamento inglês está cheio de tais Judas.
[5] EQUAL SUFFRAGE. Dr. Helen A. Sumner.
A TRAGÉDIA DA EMANCIPAÇÃO FEMININA
Começo com uma admissão: Independentemente de todas as teorias políticas e económicas que tratam das diferenças fundamentais entre vários grupos dentro da raça humana, independentemente das distinções de classe e raça, independentemente de todas as linhas fronteiriças artificiais entre os direitos da mulher e os direitos do homem, defendo que existe um ponto onde estas diferenciações podem encontrar-se e crescer num único todo perfeito.
Com isto não pretendo propor um tratado de paz. O antagonismo social geral que se apoderou de toda a nossa vida pública hoje, provocado pela força de interesses opostos e contraditórios, desmoronar-se-á quando a reorganização da nossa vida social, baseada nos princípios da justiça económica, se tornar uma realidade.
A paz ou harmonia entre os sexos e os indivíduos não depende necessariamente de uma equalização superficial dos seres humanos; nem exige a eliminação de traços e peculiaridades individuais. O problema que nos confronta hoje, e que o futuro próximo resolverá, é como ser um mesmo e, ainda assim, estar em unidade com os outros, sentir profundamente com todos os seres humanos e ainda reter as suas próprias qualidades características. Esta parece-me ser a base sobre a qual a massa e o indivíduo, o verdadeiro democrata e a verdadeira individualidade, homem e mulher, se podem encontrar sem antagonismo e oposição. O lema não deveria ser: Perdoai-vos uns aos outros; mas sim, Compreendei-vos uns aos outros. A frase frequentemente citada de Madame de Stael: "Compreender tudo significa perdoar tudo", nunca me atraiu particularmente; tem o odor do confessionário; perdoar o próximo transmite a ideia de superioridade farisaica. Compreender o próximo é suficiente. A admissão representa parcialmente o aspeto fundamental das minhas opiniões sobre a emancipação da mulher e o seu efeito sobre todo o sexo.
A emancipação deveria tornar possível à mulher ser humana no mais verdadeiro sentido. Tudo dentro dela que anseia por afirmação e atividade deveria atingir a sua expressão mais plena; todas as barreiras artificiais deveriam ser quebradas, e o caminho em direção a uma maior liberdade limpo de qualquer vestígio de séculos de submissão e escravidão.
Este foi o objetivo original do movimento pela emancipação da mulher. Mas os resultados até agora alcançados isolaram a mulher e roubaram-na das fontes de felicidade que lhe são tão essenciais. A emancipação meramente externa fez da mulher moderna um ser artificial, que faz lembrar os produtos da arboricultura francesa com as suas árvores e arbustos em arabesco, pirâmides, rodas e grinaldas; tudo, exceto as formas que seriam alcançadas pela expressão das suas próprias qualidades interiores. Tais plantas artificialmente cultivadas do sexo feminino encontram-se em grande número, especialmente na chamada esfera intelectual da nossa vida.
Liberdade e igualdade para a mulher! Que esperanças e aspirações estas palavras despertaram quando foram proferidas pela primeira vez por algumas das mais nobres e corajosas almas daqueles dias. O sol, em toda a sua luz e glória, deveria erguer-se sobre um novo mundo; neste mundo, a mulher deveria ser livre para dirigir o seu próprio destino — um objetivo certamente digno do grande entusiasmo, coragem, perseverança e esforço incessante da imensa hoste de homens e mulheres pioneiros, que arriscaram tudo contra um mundo de preconceito e ignorância.
As minhas esperanças também se movem em direção a esse objetivo, mas defendo que a emancipação da mulher, tal como interpretada e praticamente aplicada hoje, falhou em atingir esse grande fim. Agora, a mulher depara-se com a necessidade de se emancipar da emancipação, se deseja verdadeiramente ser livre. Isto pode soar paradoxal, mas é, contudo, demasiado verdadeiro.
O que é que ela alcançou através da sua emancipação? Sufrágio igual em alguns Estados. Purificou isso a nossa vida política, como previram muitos defensores bem-intencionados? Certamente que não. Incidentalmente, é realmente altura de pessoas com um julgamento simples e sensato deixarem de falar sobre corrupção na política num tom de colégio interno. A corrupção da política nada tem a ver com a moral, ou a lassidão moral, de várias personalidades políticas. A sua causa é totalmente material. A política é o reflexo do mundo empresarial e industrial, cujos lemas são: "É mais abençoado dar do que receber"; "comprar barato e vender caro"; "uma mão suja lava a outra". Não há esperança, sequer, de que a mulher, com o seu direito de voto, venha alguma vez a purificar a política.
A emancipação trouxe à mulher a igualdade económica com o homem; isto é, ela pode escolher a sua própria profissão e ofício; mas como o seu treino físico passado e presente não a equipou com a força necessária para competir com o homem, ela é frequentemente compelida a esgotar toda a sua energia, consumir a sua vitalidade e esforçar cada nervo para atingir o valor de mercado. Muito poucas conseguem, pois é um facto que as mulheres professoras, médicas, advogadas, arquitetas e engenheiras não são tratadas com a mesma confiança que os seus colegas homens, nem recebem remuneração igual. E aquelas que alcançam essa sedutora igualdade, geralmente fá-lo-ão à custa do seu bem-estar físico e psíquico. Quanto à grande massa de raparigas e mulheres trabalhadoras, quanta independência é ganha se a estreiteza e a falta de liberdade do lar são trocadas pela estreiteza e falta de liberdade da fábrica, da oficina de exploração, da loja de departamentos ou do escritório? Acrescenta-se o fardo que é colocado sobre muitas mulheres de cuidar de um "lar, doce lar" — frio, lúgubre, desordenado, pouco convidativo — após um dia de trabalho árduo. Gloriosa independência! Não é de admirar que centenas de raparigas estejam dispostas a aceitar a primeira oferta de casamento, doentes e cansadas da sua "independência" atrás do balcão, na máquina de costura ou de escrever. Estão tão prontas para casar como as raparigas da classe média, que anseiam por sacudir o jugo da supremacia parental. Uma chamada independência que conduz apenas a ganhar a mera subsistência não é tão sedutora, não é tão ideal, que se pudesse esperar que a mulher sacrificasse tudo por ela. A nossa tão elogiada independência é, afinal de contas, apenas um processo lento de entorpecer e sufocar a natureza da mulher, o seu instinto de amor e o seu instinto materno.
Não obstante, a posição da rapariga trabalhadora é muito mais natural e humana do que a da sua irmã aparentemente mais afortunada nos ramos profissionais mais cultos da vida — professoras, médicas, advogadas, engenheiras, etc., que têm de apresentar uma aparência digna e adequada, enquanto a vida interior se torna vazia e morta.
A estreiteza da conceção existente de independência e emancipação da mulher; o pavor do amor por um homem que não é o seu igual social; o medo de que o amor a roube da sua liberdade e independência; o horror de que o amor ou a alegria da maternidade apenas a impeçam no exercício pleno da sua profissão — tudo isto junto faz da mulher moderna emancipada uma vestal compulsória, diante da qual a vida, com as suas grandes tristezas esclarecedoras e as suas alegrias profundas e arrebatadoras, desenrola-se sem tocar ou agarrar a sua alma.
A emancipação, tal como entendida pela maioria dos seus adeptos e expoentes, tem um âmbito demasiado estreito para permitir o amor ilimitado e o êxtase contidos na emoção profunda da verdadeira mulher, namorada, mãe, em liberdade.
A tragédia da mulher que se sustenta a si própria ou que é economicamente livre não reside em demasiadas, mas em poucas experiências. É verdade, ela supera a sua irmã de gerações passadas no conhecimento do mundo e da natureza humana; é precisamente por isso que sente profundamente a falta da essência da vida, que por si só pode enriquecer a alma humana, e sem a qual a maioria das mulheres se tornou meros autómatos profissionais.
Que tal estado de coisas estava destinado a acontecer foi previsto por aqueles que se aperceberam de que, no domínio da ética, ainda restavam muitas ruínas decadentes do tempo da superioridade indiscutível do homem; ruínas que ainda são consideradas úteis. E, o que é mais importante, um bom número das emancipadas é incapaz de viver sem elas. Todo o movimento que visa a destruição das instituições existentes e a substituição das mesmas por algo mais avançado, mais perfeito, tem seguidores que em teoria defendem as ideias mais radicais, mas que, contudo, na sua prática quotidiana, são como o filisteu comum, fingindo respeitabilidade e clamando pela boa opinião dos seus oponentes. Existem, por exemplo, socialistas, e até anarquistas, que defendem a ideia de que a propriedade é roubo, mas que se indignarão se alguém lhes dever o valor de meia dúzia de alfinetes.
O mesmo filisteu pode ser encontrado no movimento pela emancipação da mulher. Jornalistas sensacionalistas e literatos de água-vai-leite pintaram retratos da mulher emancipada que fazem os cabelos do bom cidadão e da sua companheira monótona ficarem em pé. Cada membro do movimento pelos direitos das mulheres era retratado como uma George Sand no seu desrespeito absoluto pela moralidade. Nada era sagrado para ela. Ela não tinha respeito pela relação ideal entre homem e mulher. Em suma, a emancipação representava apenas uma vida imprudente de luxúria e pecado; independentemente da sociedade, da religião e da moralidade. Os expoentes dos direitos da mulher estavam altamente indignados com tal representação e, carecendo de humor, exercitaram toda a sua energia para provar que não eram de todo tão más como eram pintadas, mas exatamente o contrário. Naturalmente, enquanto a mulher fosse escrava do homem, ela não podia ser boa e pura, mas agora que ela era livre e independente, ela provaria o quão boa podia ser e que a sua influência teria um efeito purificador sobre todas as instituições na sociedade. É verdade, o movimento pelos direitos da mulher quebrou muitos velhos grilhões, mas também forjou novos. O grande movimento da VERDADEIRA emancipação não encontrou uma grande raça de mulheres que pudessem olhar a liberdade de frente. A sua visão estreita e puritana baniu o homem, como um perturbador e personagem duvidosa, da sua vida emocional. O homem não devia ser tolerado a qualquer preço, exceto talvez como o pai de uma criança, uma vez que uma criança não poderia muito bem vir ao mundo sem um pai. Felizmente, os puritanos mais rígidos nunca serão fortes o suficiente para matar o desejo inato pela maternidade. Mas a liberdade da mulher está estreitamente ligada à liberdade do homem, e muitas das minhas chamadas irmãs emancipadas parecem ignorar o facto de que uma criança nascida em liberdade precisa do amor e da devoção de cada ser humano à sua volta, homem tanto quanto mulher. Infelizmente, é esta conceção estreita das relações humanas que provocou uma grande tragédia nas vidas do homem e da mulher modernos.
Há cerca de quinze anos apareceu uma obra da autoria da brilhante norueguesa, Laura Marholm, chamada MULHER, UM ESTUDO DE CARÁTER. Ela foi uma das primeiras a chamar a atenção para o vazio e a estreiteza da conceção existente de emancipação da mulher, e o seu efeito trágico na vida interior da mulher. Na sua obra, Laura Marholm fala do destino de várias mulheres dotadas de fama internacional: a génio, Eleonora Duse; a grande matemática e escritora, Sonya Kovalevskaia; a artista e natureza poética, Marie Bashkirtzeff, que morreu tão jovem. Através de cada descrição das vidas destas mulheres de mentalidade tão extraordinária, corre um rasto marcado de desejo insatisfeito por uma vida plena, arredondada, completa e bela, e a agitação e solidão resultantes da falta dela. Através destes esboços psicológicos magistrais, não se pode deixar de ver que quanto mais elevado o desenvolvimento mental da mulher, menos possível é para ela encontrar um parceiro compatível que veja nela, não apenas o sexo, mas também o ser humano, a amiga, a camarada e a forte individualidade, que não pode e não deve perder um único traço do seu caráter.
O homem comum com a sua autossuficiência, os seus ares ridiculamente superiores de patronato em relação ao sexo feminino, é uma impossibilidade para a mulher tal como retratada no ESTUDO DE CARÁTER de Laura Marholm. Igualmente impossível para ela é o homem que não consegue ver nela nada mais do que a sua mentalidade e o seu génio, e que falha em despertar a sua natureza feminina.
Um intelecto rico e uma alma fina são geralmente considerados atributos necessários de uma personalidade profunda e bela. No caso da mulher moderna, estes atributos servem como um entrave à afirmação completa do seu ser. Durante mais de cem anos, a velha forma de casamento, baseada na Bíblia, "até que a morte os separe", tem sido denunciada como uma instituição que defende a soberania do homem sobre a mulher, a sua submissão completa aos seus caprichos e comandos, e a dependência absoluta do seu nome e sustento. Vez após vez foi conclusivamente provado que a velha relação matrimonial restringia a mulher à função de serva do homem e portadora dos seus filhos. E, no entanto, encontramos muitas mulheres emancipadas que preferem o casamento, com todas as suas deficiências, à estreiteza de uma vida solteira; estreita e insuportável por causa das correntes do preconceito moral e social que restringem e amarram a sua natureza.
A explicação para tal inconsistência por parte de muitas mulheres avançadas encontra-se no facto de que elas nunca compreenderam verdadeiramente o significado da emancipação. Pensaram que tudo o que era necessário era independência das tiranias externas; os tiranos internos, muito mais prejudiciais à vida e ao crescimento — as convenções éticas e sociais — foram deixados a cuidar de si mesmos; e eles cuidaram de si mesmos. Parecem dar-se tão bem nas cabeças e corações dos mais ativos expoentes da emancipação da mulher, como nas cabeças e corações das nossas avós.
Estes tiranos internos, quer sejam sob a forma da opinião pública ou o que dirá a mãe, ou o irmão, pai, tia, ou parente de qualquer tipo; o que dirá a Sra. Grundy, o Sr. Comstock, o empregador, o Conselho de Educação? Todos estes bisbilhoteiros, detetives morais, carcereiros do espírito humano, o que dirão eles? Até que a mulher tenha aprendido a desafiá-los a todos, a manter-se firmemente no seu próprio terreno e a insistir na sua própria liberdade irrestrita, a ouvir a voz da sua natureza, quer ela chame pelo maior tesouro da vida, o amor por um homem, quer pelo seu privilégio mais glorioso, o direito de dar à luz uma criança, ela não se pode chamar emancipada. Quantas mulheres emancipadas são corajosas o suficiente para reconhecer que a voz do amor está a chamar, batendo violentamente contra os seus peitos, exigindo ser ouvida, ser satisfeita.
A emancipação, tal como entendida por muitos dos seus defensores, é, infelizmente, apenas um processo de desintegração, uma vez que a mulher se esquece do que é essencial para a sua própria natureza. Ela torna-se tão rígida, tão intelectualmente seca e tão preocupada com as convenções da sua classe que perde o que é mais belo e vital em si. É nesta perda que reside o verdadeiro perigo para o futuro da mulher. O que ela precisa de compreender é que a liberdade não é um conjunto de regras, nem um diploma, nem o direito de ocupar um lugar numa mesa de conferências; a liberdade é a capacidade de viver em pleno, de amar com todo o ser e de ser, acima de tudo, humana.
Se a emancipação da mulher continuar a significar a negação da paixão e a submissão a um ideal de correção puritana, então não é emancipação, é apenas uma nova forma de cativeiro. A verdadeira emancipação exige que a mulher se liberte não só das cadeias que o homem lhe impôs, mas também das que ela própria criou ao tentar imitar a frieza e a lógica utilitária do mundo masculino. A mulher nova não deve ser uma cópia do homem, nem uma estátua de virtude sem sangue nas veias. Deve ser a portadora da vida, da intuição e da emoção, sem que isso signifique fraqueza ou inferioridade.
O amor, esse sentimento que transborda e que não conhece barreiras, é a única força capaz de transformar a vida e de dar sentido à existência. Sem ele, a vida da mulher, por mais bem-sucedida que seja do ponto de vista profissional ou social, será sempre uma existência incompleta, um deserto de conveniências. É altura de a mulher reivindicar o direito ao amor, ao prazer e à maternidade, não como deveres ou concessões de uma instituição, mas como expressões inalienáveis da sua própria essência.
O futuro não pertence àquelas que se escondem atrás de máscaras de sobriedade e que medem os seus sentimentos com a régua da prudência. O futuro pertence àquelas que têm a coragem de ser autênticas, de desafiar os preconceitos e de afirmar a sua humanidade em todas as suas vertentes. Se a mulher deseja ser livre, deve começar por derrubar os muros que ela própria ergueu em torno da sua alma. Deve aprender que a sua força não reside na sua semelhança com o mundo que a oprimiu, mas sim na sua diferença, na sua capacidade de amar, de criar e de sentir com uma profundidade que o mundo, até agora, insistiu em tentar abafar.
Amor livre? Como se o amor fosse outra coisa que não livre! O homem comprou cérebros, mas todos os milhões do mundo falharam em comprar o amor. O homem subjugou corpos, mas todo o poder na terra foi incapaz de subjugar o amor. O homem conquistou nações inteiras, mas todos os seus exércitos não puderam conquistar o amor. O homem acorrentou e prendeu o espírito, mas permaneceu totalmente impotente perante o amor. Alto num trono, com todo o esplendor e pompa que o seu ouro pode comandar, o homem é ainda assim pobre e desolado, se o amor o ignora. E se ele permanece, a mais pobre choupana irradia calor, vida e cor. Assim, o amor tem o poder mágico de fazer de um mendigo um rei. Sim, o amor é livre; não pode habitar em nenhuma outra atmosfera. Na liberdade, ele entrega-se sem reservas, abundantemente, completamente. Todas as leis nos estatutos, todos os tribunais do universo, não o podem arrancar do solo, uma vez que o amor tenha criado raízes. Se, no entanto, o solo é estéril, como pode o casamento fazê-lo dar frutos? É como a última luta desesperada da vida efémera contra a morte.
O amor não precisa de proteção; ele é a sua própria proteção. Enquanto o amor gerar vida, nenhuma criança será abandonada, ou terá fome, ou definhará por falta de afeto. Sei que isto é verdade. Conheço mulheres que se tornaram mães em liberdade pelos homens que amavam. Poucas crianças no matrimónio desfrutam do cuidado, da proteção, da devoção que a maternidade livre é capaz de conceder.
Os defensores da autoridade temem o advento de uma maternidade livre, receando que ela os prive da sua presa. Quem lutaria nas guerras? Quem criaria riqueza? Quem faria o polícia, o carcereiro, se a mulher se recusasse à criação indiscriminada de filhos? A raça, a raça! grita o rei, o presidente, o capitalista, o padre. A raça deve ser preservada, ainda que a mulher seja degradada a uma mera máquina — e a instituição do casamento é a nossa única válvula de segurança contra o pernicioso despertar sexual da mulher. Mas são vãos estes esforços frenéticos para manter um estado de escravidão. Em vão, também, os éditos da Igreja, os ataques loucos dos governantes, em vão até o braço da lei. A mulher já não quer ser parte na produção de uma raça de seres humanos doentios, débeis, decrépitos, miseráveis, que não têm nem a força nem a coragem moral para lançar fora o jugo da pobreza e da escravidão. Em vez disso, ela deseja menos filhos e melhores, concebidos e criados no amor e através da livre escolha; não por compulsão, como o casamento impõe. Os nossos pseudo-moralistas ainda têm de aprender o profundo sentido de responsabilidade para com a criança, que o amor em liberdade despertou no seio da mulher. Antes renunciaria ela para sempre à glória da maternidade do que trazer vida a uma atmosfera que respira apenas destruição e morte. E se ela se torna mãe, é para dar à criança o mais profundo e o melhor que o seu ser pode oferecer. Crescer com a criança é o seu lema; ela sabe que apenas dessa forma pode ajudar a construir a verdadeira masculinidade e feminilidade.
Ibsen deve ter tido uma visão de uma mãe livre quando, com um golpe de mestre, retratou a Sra. Alving. Ela era a mãe ideal porque tinha superado o casamento e todos os seus horrores, porque tinha quebrado as suas correntes e libertado o seu espírito para voar até que este regressou como uma personalidade regenerada e forte. Ai, era demasiado tarde para resgatar a alegria da sua vida, o seu Oswald; mas não demasiado tarde para compreender que o amor em liberdade é a única condição de uma vida bela. Aqueles que, como a Sra. Alving, pagaram com sangue e lágrimas pelo seu despertar espiritual, repudiam o casamento como uma imposição, uma zombaria superficial e vazia. Eles sabem que, quer o amor dure apenas um breve lapso de tempo ou por toda a eternidade, ele é a única base criativa, inspiradora e elevadora para uma nova raça, um novo mundo.
No nosso presente estado pigmeu, o amor é, de facto, um estranho para a maioria das pessoas. Incompreendido e evitado, raramente cria raízes; ou, se o faz, logo murcha e morre. A sua fibra delicada não pode suportar o stress e a tensão da rotina diária. A sua alma é demasiado complexa para se ajustar à trama viscosa do nosso tecido social. Ele chora, geme e sofre com aqueles que precisam dele, mas carecem da capacidade de ascender ao cume do amor.
Algum dia, algum dia, homens e mulheres levantar-se-ão, alcançarão o cume da montanha, encontrar-se-ão grandes, fortes e livres, prontos a receber, a participar e a banhar-se nos raios dourados do amor. Que fantasia, que imaginação, que génio poético pode prever, mesmo que aproximadamente, as potencialidades de tal força na vida dos homens e das mulheres. Se o mundo alguma vez der à luz um verdadeiro companheirismo e unidade, não o casamento, mas o amor será o progenitor.
O DRAMA MODERNO: UM PODEROSO DISSEMINADOR DE PENSAMENTO RADICAL
Enquanto o descontentamento e a inquietação se fizerem sentir apenas de forma muda dentro de uma classe social limitada, os poderes de reação podem muitas vezes ter sucesso em suprimir tais manifestações. Mas quando a inquietação muda cresce para uma expressão consciente e se torna quase universal, afeta necessariamente todas as fases do pensamento e da ação humana, e procura a sua expressão individual e social na gradual transvaloração dos valores existentes.
Uma apreciação adequada da tremenda propagação da moderna e consciente inquietação social não pode ser obtida apenas através de literatura propagandística. Antes, devemos tornar-nos versados nas fases maiores da expressão humana manifestadas na arte, na literatura e, acima de tudo, no drama moderno — o mais forte e mais abrangente intérprete da nossa insatisfação profundamente sentida.
Que fator tremendo para o despertar do descontentamento consciente são as telas simples de um Millet! As figuras dos seus camponeses — que terrível acusação contra as nossas injustiças sociais; injustiças que condenam o Homem com a Enxada a um trabalho árduo e sem esperança, ele próprio excluído da generosidade da Natureza.
A visão de um Meunier concebe a crescente solidariedade e desafio do trabalho no grupo de mineiros que carregam o seu irmão mutilado para um lugar seguro. O seu génio retrata, assim, poderosamente a inter-relação da inquietação fervilhante entre aqueles que escravizam nas entranhas da terra, e a revolta espiritual que procura expressão artística.
Não menos importante é o fator para o despertar rebelde na literatura moderna — Turgenev, Dostoievski, Tolstoi, Andreiev, Gorki, Whitman, Emerson e muitos outros, encarnando o espírito do fermento universal e o desejo de mudança social.
Ainda mais abrangente é o drama moderno, como o fermento do pensamento radical e o disseminador de novos valores.
Poderia parecer um exagero atribuir ao drama moderno um papel tão importante. Mas um estudo do desenvolvimento das ideias modernas na maioria dos países provará que o drama obteve sucesso em incutir grandes verdades sociais, verdades geralmente ignoradas quando apresentadas sob outras formas. Sem dúvida, existem exceções, como a Rússia e a França.
A Rússia, com a sua terrível pressão política, fez as pessoas pensar e despertou as suas simpatias sociais, devido ao tremendo contraste que existe entre a vida intelectual do povo e o regime despótico que tenta esmagar essa vida. Contudo, embora as grandes obras dramáticas de Tolstoi, Tchekhov, Gorki e Andreiev espelhem de perto a vida e a luta, as esperanças e aspirações do povo russo, não influenciaram o pensamento radical na medida em que o drama o fez noutros países.
Quem pode negar, contudo, a tremenda influência exercida por O PODER DAS TREVAS ou NO FUNDO DO POÇO. Tolstoi, o cristão real e verdadeiro, é ainda assim o maior inimigo do cristianismo organizado. Com uma mão de mestre, ele retrata os efeitos destrutivos sobre a mente humana do poder das trevas, as superstições da Igreja Cristã.
Que outro meio poderia expressar, com tal força dramática, a responsabilidade da Igreja pelos crimes cometidos pelas suas vítimas iludidas; que outro meio poderia, por consequência, despertar a indignação da consciência humana?
Da mesma forma direta e poderosa é a acusação contida em NO FUNDO DO POÇO de Gorki. Os párias sociais, forçados à pobreza e ao crime, ainda se agarram desesperadamente aos últimos vestígios de esperança e aspiração. Existências perdidas estas, arruinadas e esmagadas por um ambiente cruel e antissocial.
A França, por outro lado, com a sua luta contínua pela liberdade, é de facto o berço do pensamento radical; como tal, também ela não precisou do drama como meio de despertar. E, no entanto, as obras de Brieux — como A TOGA VERMELHA, retratando a terrível corrupção do judiciário — e OS NEGÓCIOS SÃO OS NEGÓCIOS de Mirbeau — retratando a influência destrutiva da riqueza na alma humana — alcançaram, sem dúvida, círculos mais vastos do que a maioria dos artigos e livros que foram escritos em França sobre a questão social.
Em países como a Alemanha, a Escandinávia, a Inglaterra e até na América — embora em menor grau — o drama é o veículo que está realmente a fazer história, disseminando o pensamento radical em estratos que de outra forma não seriam alcançados.
Tomemos a Alemanha, por exemplo. Durante quase um quarto de século, homens de cérebro, de ideias e da maior integridade fizeram do seu trabalho de vida espalhar a verdade da fraternidade humana, da justiça, entre os oprimidos e espezinhados. O socialismo, essa tremenda onda revolucionária, era para as vítimas de um sistema impiedoso e desumano como água para os lábios secos do viajante no deserto. Ai! As pessoas cultas permaneceram absolutamente indiferentes; para elas, essa maré revolucionária era apenas o murmúrio de homens insatisfeitos, descontentes, perigosos, alvoroçadores iletrados, cujo lugar apropriado era atrás das grades da prisão.
Autossatisfeitos como os "cultos" geralmente são, não podiam entender porque se deveria fazer alarido sobre o facto de milhares de pessoas estarem a passar fome, embora contribuíssem para a riqueza do mundo. Rodeados de beleza e luxo, não podiam acreditar que, lado a lado com eles, viviam seres humanos degradados a uma posição inferior à de uma besta, sem abrigo e maltrapilhos, sem esperança ou ambição.
Esta condição de coisas foi particularmente pronunciada na Alemanha após a guerra franco-prussiana. Cheia até ao ponto de rutura com a sua vitória, a Alemanha prosperou com uma literatura sentimental e patriótica, envenenando assim as mentes da juventude do país com a glória da conquista e do derramamento de sangue.
A Alemanha intelectual teve de refugiar-se na literatura de outros países, nas obras de Ibsen, Zola, Daudet, Maupassant e, especialmente, nas grandes obras de Dostoievski, Tolstoi e Turgenev. Mas como nenhum país pode manter durante muito tempo um padrão de cultura sem uma literatura e um drama relacionados com o seu próprio solo, a Alemanha começou gradualmente a desenvolver um drama que refletia a vida e as lutas do seu próprio povo.
Arno Holz, um dos dramatistas mais jovens daquele período, surpreendeu os filisteus no seu conforto e facilidade com a sua FAMÍLIA SELICKE. A peça lida com os refugos da sociedade, homens e mulheres dos becos, cuja única subsistência consiste no que conseguem apanhar nos barris de lixo. Um assunto macabro, não é? E, no entanto, que outro método existe para romper a casca dura das mentes e almas das pessoas que nunca conheceram a necessidade e que, portanto, assumem que tudo está bem no mundo?
Escusado será dizer que a peça despertou tremenda indignação. A verdade é amarga, e as pessoas que viviam na Quinta Avenida de Berlim odiavam ser confrontadas com a verdade.
Não que FAMÍLIA SELICKE representasse algo sobre o qual não se tivesse escrito durante anos sem qualquer resultado aparente. Mas o génio dramático de Holz, juntamente com a poderosa interpretação da peça, fez necessariamente incursões nos círculos mais vastos e forçou as pessoas a pensar sobre as terríveis desigualdades à sua volta.
A HONRA[1] e O LAR[2] de Sudermann lidam com assuntos vitais. Já me referi ao patriotismo sentimental que virou tão completamente a cabeça do alemão comum a ponto de criar uma conceção pervertida de honra. O duelo tornou-se um acontecimento diário, custando inúmeras vidas. Um grande clamor foi levantado contra a moda por uma série de escritores proeminentes. Mas nada agiu como tal clarificador e expositor dessa doença nacional como A HONRA.
Não que a peça trate apenas de duelos; ela analisa o verdadeiro significado da honra, provando que não é um sentimento fixo e inato, mas que varia com cada povo e cada época, dependendo particularmente da posição económica e social de alguém na vida. Percebemos por esta peça que o homem na mansão de pedra definirá necessariamente a honra de forma diferente das suas vítimas.
A família Heinecke desfruta da caridade do milionário Muhling, sendo-lhe permitido ocupar uma choupana em ruínas nas suas instalações na ausência do seu filho, Robert. Este último, como representante de Muhling, está a fazer uma vasta fortuna para o seu empregador na Índia. No seu regresso, Robert descobre que a sua irmã tinha sido seduzida pelo jovem Muhling, cujo pai gentilmente se oferece para resolver o assunto com um cheque de 40.000 marcos. Robert, ultrajado e indignado, ressente-se do insulto à honra da sua família e é imediatamente despedido do seu cargo por insolência. Robert lança finalmente esta acusação à cara do milionário filantropo:
"Nós escravizamos por si, sacrificamos o sangue do nosso coração por si, enquanto o senhor seduz as nossas filhas e irmãs e paga amavelmente a sua desgraça com o ouro que nós ganhámos para si. É isso que o senhor chama de honra."
Um vislumbre incidental sobre a conceção de honra é dado pelo Conde Trast, a personagem principal em A HONRA, um homem amplamente conhecedor dos costumes de vários climas, que relata que nas suas muitas viagens se cruzou com uma tribo selvagem cuja honra ofendeu mortalmente ao recusar a hospitalidade que lhe oferecia os encantos da esposa do chefe.
O tema de O LAR trata da luta entre as gerações mais velhas e as mais novas. Ocupa um lugar permanente e importante na literatura dramática.
Magda, a filha do Tenente-Coronel Schwartz, cometeu um pecado imperdoável: recusou o pretendente selecionado pelo seu pai. Por ousar desobedecer às ordens parentais, é expulsa de casa. Magda, cheia de vida e do espírito de liberdade, sai para o mundo para regressar à sua cidade natal, doze anos mais tarde, como uma cantora célebre. Ela consente em visitar os seus pais com a condição de que respeitem a privacidade do seu passado. Mas o seu pai, um autómato militar, começa imediatamente a interrogá-la, insistindo nos seus "direitos paternos". Magda fica indignada, mas gradualmente a sua persistência traz à luz a tragédia da sua vida. Ele descobre que o respeitado Conselheiro Von Keller tinha sido, nos seus tempos de estudante, o amante de Magda, enquanto ela lutava pela sua independência económica e social. A consequência do romance efémero foi uma criança, abandonada pelo homem antes mesmo de nascer. O rígido pai militar de Magda exige como retribuição do Conselheiro Von Keller que legalize o caso amoroso. Tendo em conta o sucesso social e profissional de Magda, Keller consente voluntariamente, mas com a condição de que ela abandone o palco e coloque a criança numa instituição. A luta entre o Velho e o Novo culmina nas palavras desafiadoras de Magda, a mulher que cresceu para uma independência consciente de pensamento e ação: "...Direi o que penso de si — de si e da sua sociedade respeitável. Porque deveria eu ser pior do que vocês, para que tenha de prolongar a minha existência entre vocês através de uma mentira! Porque deveria este ouro sobre o meu corpo, e o brilho que rodeia o meu nome, apenas aumentar a minha infâmia? Não trabalhei eu cedo e tarde durante dez longos anos? Não teci eu este vestido com noites sem dormir? Não construí eu a minha carreira passo a passo, como milhares das minhas congéneres? Porque deveria eu corar perante alguém? Eu sou eu mesma, e através de mim mesma tornei-me o que sou."
O tema geral de O LAR não era original. Tinha sido tratado anteriormente por uma mão de mestre em PAIS E FILHOS. Em parte porque a grande obra de Turgenev era típica mais de condições russas do que universais, e ainda mais porque estava na forma de ficção, a influência de PAIS E FILHOS ficou limitada à Rússia. Mas O LAR, especialmente devido à sua expressão dramática, tornou-se quase um fator mundial.
O dramaturgo que não só disseminou o radicalismo, mas literalmente revolucionou os alemães pensadores, é Gerhardt Hauptmann. A sua primeira peça, ANTES DO NASCER DO SOL[3], recusada por todos os principais teatros alemães e representada pela primeira vez num miserável pequeno teatro atrás de uma cervejaria, agiu como um raio, iluminando todo o horizonte social. O seu tema lida com a vida de um grande proprietário de terras, ignorante, iletrado e brutalizado, e os seus escravos económicos do mesmo calibre mental. A influência da riqueza, tanto sobre as vítimas que a criaram como sobre o seu possuidor, é mostrada nas cores mais vívidas, resultando em embriaguez, idiotice e decadência. Mas a característica mais marcante de ANTES DO NASCER DO SOL, aquela que trouxe uma chuva de abusos sobre a cabeça de Hauptmann, foi a questão sobre a criação indiscriminada de filhos por pais inaptos.
Durante a segunda representação da peça, um cirurgião proeminente de Berlim quase causou um pânico no teatro ao agitar um par de fórceps sobre a sua cabeça e gritar no topo da sua voz: "A decência e a moralidade da Alemanha estão em risco se o parto for discutido abertamente a partir do palco." O cirurgião está esquecido, e Hauptmann permanece uma figura colossal perante o mundo.
Quando OS TECELÕES[4] viu a luz pela primeira vez, o pandemónio rebentou na terra de pensadores e poetas. "O quê", gritaram os moralistas, "trabalhadores, escravos sujos e imundos, para serem postos no palco! Pobreza em todos os seus horrores e fealdade para ser servida como entretenimento após o jantar? Isso é demasiado!"
De facto, era demasiado para a gorda e oleosa burguesia ser trazida face a face com os horrores da existência do tecelão. Era demasiado por causa da verdade e da realidade que soavam como trovão nos ouvidos surdos da sociedade autossatisfeita, J'ACCUSE!
Claro, era geralmente sabido, mesmo antes do aparecimento deste drama, que o capital não pode engordar a menos que devore o trabalho, que a riqueza não pode ser entesourada exceto através dos canais da pobreza, da fome e do frio; mas essas coisas são melhor mantidas no escuro, para que as vítimas não despertem para a perceção da sua posição. Mas é o propósito do drama moderno despertar a consciência dos oprimidos; e esse, de facto, foi o propósito de Gerhardt Hauptmann ao retratar para o mundo as condições dos tecelões na Silésia. Seres humanos a trabalhar dezoito horas diariamente, mas não ganhando o suficiente para pão e combustível; seres humanos a viver em cabanas quebradas e miseráveis, meio cobertas de neve, e nada além de trapos para os proteger do frio; bebés cobertos de escorbuto pela fome e exposição; mulheres grávidas nos últimos estágios da tuberculose. Vítimas de uma era cristã benevolente, sem vida, sem esperança, sem calor. Ah, sim, era demasiado!
A versatilidade dramática de Hauptmann lida com todos os estratos da vida social. Além de retratar o efeito esmagador das condições económicas, ele também trata da luta do indivíduo pela sua libertação mental e espiritual da escravidão da convenção e da tradição. Assim, Heinrich, o fundidor de sinos, no poema dramático em prosa, O SINO SUBMERSO[5], falha em alcançar os cumes da montanha da liberdade porque, como disse Rautendelein, ele tinha vivido no vale durante demasiado tempo. Da mesma forma, o Dr. Vockerath e Anna Maar permanecem almas solitárias porque também eles carecem da força para desafiar tradições veneradas. Contudo, o próprio fracasso deles deve despertar o espírito rebelde contra um mundo que impede para sempre a emancipação individual e social.
JUVENTUDE[6] de Max Halbe e O DESPERTAR DA PRIMAVERA[7] de Wedekind são dramas que disseminaram o pensamento radical numa direção completamente diferente. Tratam da criança e da densa ignorância e puritanismo estreito que encontram o despertar da natureza. Particularmente isto é verdade para O DESPERTAR DA PRIMAVERA. Jovens rapazes e raparigas sacrificados no altar da falsa educação e da nossa moralidade doentia que proíbe a iluminação da juventude sobre questões tão imperativas para a saúde e o bem-estar da sociedade — a origem da vida e as suas funções. Mostra como uma mãe — e uma mãe verdadeiramente boa, diga-se — mantém a sua filha de catorze anos na ignorância absoluta sobre todos os assuntos de sexo, e quando finalmente a jovem cai vítima da sua própria ignorância, a mesma mãe vê a sua filha ser morta por medicamentos de charlatões. A inscrição na sua campa declara que ela morreu de anemia, e a moralidade está satisfeita.
A fatalidade da nossa hipocrisia puritana nestes assuntos é especialmente iluminada por Wedekind na medida em que as nossas crianças mais promissoras caem vítimas da ignorância sexual e da total falta de apreciação por parte dos professores do despertar da criança.
Wendla, invulgarmente desenvolvida e alerta para a sua idade, suplica à mãe que lhe explique o mistério da vida:
"Tenho uma irmã que está casada há dois anos e meio. Eu própria fui feita tia pela terceira vez, e não faço a menor ideia de como tudo isso acontece... Não fiques zangada, mamã, querida! A quem no mundo hei de perguntar senão a ti? Não me ralhes por perguntar sobre isso. Dá-me uma resposta. — Como é que acontece? — Não podes realmente enganar-te a ti própria pensando que eu, que tenho catorze anos, ainda acredito na cegonha."
Se a sua própria mãe não fosse vítima de falsas noções de moralidade, uma explicação afetuosa e sensata poderia ter salvo a sua filha. Mas a mãe convencional procura esconder a sua vergonha "moral" e o seu embaraço nesta resposta evasiva:
"Para ter um filho — é preciso amar — o homem — com quem se está casada... É preciso amá-lo, Wendla, como tu, na tua idade, ainda és incapaz de amar. — Agora já sabes!"
Quanto é que Wendla "sabia", a mãe percebeu tarde demais. A rapariga grávida imagina-se doente de hidropisia. E quando a sua mãe grita em desespero: "Não tens hidropisia, tens um filho, rapariga", a angustiada Wendla exclama perplexa: "Mas não é possível, mamã, ainda nem sou casada... Oh, mamã, porque não me disseste tudo?"
Com igual estupidez, o rapaz Morris é levado ao suicídio porque chumba nos exames escolares. E Melchior, o jovem pai do filho ainda não nascido de Wendla, é enviado para a Casa de Correção, sendo o seu despertar sexual precoce carimbado como degenerado aos olhos dos professores e dos pais.
Durante anos, homens e mulheres ponderados na Alemanha advogaram a necessidade premente da educação sexual. MUTTERSCHUTZ, uma publicação especialmente dedicada à discussão franca e inteligente do problema sexual, tem levado a cabo a sua agitação durante um tempo considerável. Mas coube ao génio dramático de Wedekind influenciar o pensamento radical ao ponto de forçar a introdução da fisiologia sexual em muitas escolas da Alemanha.
A Escandinávia, tal como a Alemanha, progrediu através do drama muito mais do que através de qualquer outro canal. Muito antes de Ibsen aparecer em cena, Bjornson, o grande ensaísta, trovejou contra as desigualdades e a injustiça prevalecentes naqueles países. Mas a sua era uma voz no deserto, chegando apenas a poucos. Não foi o caso de Ibsen. O seu BRAND, CASA DE BONECA, PILARES DA SOCIEDADE, ESPECTROS e UM INIMIGO DO POVO abalaram consideravelmente as velhas conceções e substituíram-nas por uma visão moderna e real da vida. Basta ler BRAND para compreender a conceção moderna, digamos, da religião — a religião como um ideal a ser alcançado na terra; a religião como um princípio de fraternidade humana, de solidariedade e de bondade.
Ibsen, o supremo detestador de todas as farsas sociais, arrancou o véu da hipocrisia dos seus rostos. O seu maior ataque, contudo, é aos quatro pontos cardeais que sustentam a frágil rede da sociedade. Primeiro, a mentira sobre a qual repousa a vida de hoje; segundo, a inutilidade do sacrifício tal como pregado pelos nossos códigos morais; terceiro, a mesquinha consideração material, que é o único deus que a maioria adora; e quarto, a influência entorpecedora do provincianismo. Estes quatro reaparecem como o LEITMOTIV nas peças de Ibsen, mas particularmente em PILARES DA SOCIEDADE, CASA DE BONECA, ESPECTROS e UM INIMIGO DO POVO.
Pilares da Sociedade! Que tremenda acusação contra a estrutura social que repousa sobre pilares podres e degradados — pilares bem dourados e aparentemente intactos, mas que apenas escondem a sua verdadeira condição. E o que são estes pilares?
O cônsul Bernick, no auge da sua carreira social e financeira, o benfeitor da sua cidade e o pilar mais forte da comunidade, atingiu o cume através do canal das mentiras, do engano e da fraude. Roubou ao seu amigo íntimo, Johann, o seu bom nome, e traiu Lona Hessel, a mulher que amava, para casar com a sua meia-irmã por causa do dinheiro dela. Enriqueceu através de transações obscuras, sob a capa do "bem da comunidade", e finalmente chega mesmo ao ponto de pôr em perigo vidas humanas ao preparar o INDIAN GIRL, um navio podre e perigoso, para ir ao mar.
Mas o regresso de Lona traz-lhe a perceção do vazio e da vileza da sua vida estreita. Procura aplacar a consciência despertada com a esperança de ter aberto o caminho para a vida melhor do seu filho, da nova geração. Mas até esta última esperança cai por terra, ao perceber que a verdade não pode ser construída sobre uma mentira. No momento em que toda a cidade se prepara para celebrar o grande benfeitor da comunidade com um banquete de elogios, ele próprio, agora chegado à plena maturidade espiritual, confessa aos habitantes reunidos:
"Não tenho direito a esta homenagem — ... Os meus concidadãos devem conhecer-me até ao âmago. Então que cada um examine a si próprio, e que possamos concretizar a previsão de que, a partir deste evento, iniciamos um novo tempo. O velho, com o seu ouropel, a sua hipocrisia, o seu vazio, a sua propriedade mentirosa e a sua piedosa cobardia, ficará atrás de nós como um museu, aberto para instrução."
Com CASA DE BONECA, Ibsen preparou o caminho para a emancipação da mulher. Nora desperta do seu papel de boneca para a perceção da injustiça que lhe foi feita pelo pai e pelo marido, Helmer Torvald.
"Enquanto estive em casa com o meu pai, ele costumava dizer-me todas as suas opiniões, e eu tinha as mesmas opiniões. Se tinha outras, escondia-as, porque ele não as teria aprovado. Ele costumava chamar-me sua boneca e brincava comigo como eu brincava com as minhas bonecas. Depois vim viver para a tua casa. Tu decidiste tudo de acordo com o teu gosto, e eu fiquei com o mesmo gosto que tu, ou fingi que tinha. Quando olho para trás agora, parece que vivi como uma mendiga, de mão em mão. Vivi a fazer truques para ti, Torvald, mas tu querias que fosse assim. Tu e o meu pai fizeram-me um grande mal."
Em vão Helmer usa os velhos argumentos filisteus do dever conjugal e das obrigações sociais. Nora saiu do seu vestido de boneca para a estatura plena da mulher consciente. Está determinada a pensar e a julgar por si própria. Percebeu que, antes de tudo, é um ser humano, devendo o primeiro dever a si mesma. Nem a possibilidade de ostracismo social a intimida. Tornou-se cética quanto à justiça da lei, à sabedoria do estabelecido. A sua alma rebelde ergue-se em protesto contra o existente. Nas suas próprias palavras: "Tenho de me decidir sobre o que é correto, a sociedade ou eu."
Na sua fé infantil no marido, ela esperara pelo grande milagre. Mas não foi a esperança desiludida que lhe abriu a visão para as falsidades do casamento. Foi, antes, o contentamento presunçoso de Helmer com uma mentira segura — uma que permaneceria escondida e não poria em perigo a sua posição social.
Quando Nora fechou atrás de si a porta da sua gaiola dourada e saiu para o mundo como uma nova personalidade regenerada, abriu o portão da liberdade e da verdade para o seu próprio sexo e para a raça que viria.
Mais do que qualquer outra peça, ESPECTROS atuou como a explosão de uma bomba, abalando a estrutura social até aos seus próprios alicerces.
Em CASA DE BONECA, a justificação da união entre Nora e Helmer repousava, pelo menos, na conceção de integridade do marido e na rígida adesão à nossa moral social. De facto, ele era o marido ideal convencional e o pai dedicado. Não assim em ESPECTROS. A Sra. Alving casou com o Capitão Alving apenas para descobrir que ele era um destroço físico e mental, e que a vida com ele significaria uma degradação total e seria fatal para possíveis descendentes. No seu desespero, recorreu ao companheiro da sua juventude, o jovem Pastor Manders que, como verdadeiro salvador de almas para o céu, tinha de ser indiferente às necessidades terrenas. Ele mandou-a de volta para a vergonha e a degradação — para os seus deveres para com o marido e o lar. De facto, a felicidade — para ele — não passava da manifestação profana de um espírito rebelde, e o dever de uma esposa não era julgar, mas "suportar com humildade a cruz que um poder superior, para o seu próprio bem, lhe tinha imposto."
A Sra. Alving suportou a cruz durante vinte e seis longos anos. Não por causa do poder superior, mas pelo seu pequeno filho Oswald, a quem ansiava salvar da atmosfera venenosa da casa do marido.
Foi também por causa do querido filho que ela sustentou a mentira da bondade do seu pai, num temor supersticioso do "dever e da decência". Aprendeu, infelizmente! tarde demais, que o sacrifício de toda a sua vida tinha sido em vão, e que o seu filho Oswald era visitado pelos pecados do pai, que estava irrevogavelmente condenado. Isto, também, ela aprendeu: que "somos todos, nós, fantasmas. Não é apenas o que herdamos do nosso pai e da nossa mãe que caminha em nós. São todos os tipos de ideias mortas e crenças velhas e sem vida. Não têm vitalidade, mas agarram-se a nós da mesma forma e não nos conseguimos livrar delas... E depois somos, todos e cada um, tão piedosamente medrosos da luz. Quando me forçaste sob o jugo a que chamaste Dever e Obrigação; quando louvaste como correto e apropriado o que toda a minha alma repudiava como algo repugnante; foi então que comecei a olhar para as costuras da tua doutrina. Eu só queria puxar um único nó, mas quando o desfiz, a coisa toda desmanchou-se. E então compreendi que era tudo costurado à máquina."
Como poderia uma sociedade costurada à máquina compreender as profundezas fervilhantes de onde saiu a grande obra-prima de Henrik Ibsen? Não podia compreender e, por isso, derramou os frascos de abuso e veneno sobre o seu maior benfeitor. Que Ibsen não foi intimidado, provou-o pela sua resposta em UM INIMIGO DO POVO.
Nesse grande drama, Ibsen realiza os últimos ritos fúnebres sobre um sistema social em decadência e moribundo. Das suas cinzas ergue-se o indivíduo regenerado, o rebelde audaz e ousado. O Dr. Stockman, um idealista, cheio de simpatia social e solidariedade, é chamado à sua cidade natal como médico das termas. Descobre rapidamente que estas estão construídas sobre um pântano e que, em vez de encontrarem alívio, os pacientes que afluem ao local estão a ser envenenados.
Um homem honesto, de fortes convicções, o médico considera seu dever tornar conhecida a sua descoberta. Mas depressa aprende que os dividendos e os lucros não se preocupam nem com a saúde nem com os princípios. Mesmo os reformadores da cidade, representados no MENSAGEIRO DO POVO, sempre prontos a tagarelar sobre a sua devoção ao povo, retiram o seu apoio ao idealista "imprudente" no momento em que aprendem que a descoberta do médico pode trazer má fama à cidade e, assim, prejudicar os seus bolsos.
Mas o Doutor Stockman continua na fé que nutre pelos seus conterrâneos. Eles ouvi-lo-iam. Mas aqui, também, descobre rapidamente que está sozinho. Nem sequer consegue arranjar um lugar para proclamar a sua grande verdade. E quando finalmente tem sucesso, é oprimido por abusos e ridicularizado como o inimigo do povo. O médico, tão entusiasmado com a assistência dos seus conterrâneos para erradicar o mal, é rapidamente conduzido a uma posição solitária. O anúncio da sua descoberta resultaria num prejuízo pecuniário para a cidade, e essa consideração leva os funcionários, os bons cidadãos e os reformadores de almas a abafarem a voz da verdade. Encontra-os a todos como uma maioria compacta, sem escrúpulos suficientes para estarem dispostos a construir a prosperidade da cidade sobre um pântano de mentiras e fraude. É acusado de tentar arruinar a comunidade. Mas para ele, "não importa se uma comunidade mentirosa é arruinada. Deve ser nivelada até ao chão. Todos os homens que vivem de mentiras devem ser exterminados como vermes. Levareis as coisas a tal ponto que o país inteiro merecerá perecer."
O Doutor Stockman não é um político prático. Um homem livre, pensa ele, não se deve comportar como um patife. "Não deve agir de modo a cuspir na sua própria cara." Pois apenas os cobardes permitem que "considerações" de suposto bem-estar geral ou de partido se sobreponham à verdade e aos ideais. "Os programas partidários torcem o pescoço a todas as verdades jovens e vivas; e as considerações de conveniência viram a moralidade e a retidão do avesso, até que a vida se torne simplesmente hedionda."
Estas peças de Ibsen — OS PILARES DA SOCIEDADE, CASA DE BONECA, ESPECTROS e UM INIMIGO DO POVO — constituem uma força dinâmica que está gradualmente a dissipar os fantasmas que caminham no cemitério social chamado civilização. Mais ainda; os efeitos destrutivos de Ibsen são, ao mesmo tempo, supremamente construtivos, pois ele não se limita a minar os pilares existentes; de facto, constrói com traços seguros a fundação de um futuro mais saudável e ideal, baseado na soberania do indivíduo dentro de um ambiente social solidário.
A Inglaterra, com os seus grandes pioneiros do pensamento radical, os peregrinos intelectuais como Godwin, Robert Owen, Darwin, Spencer, William Morris e tantos outros; com as suas maravilhosas cotovias da liberdade — Shelley, Byron, Keats — é outro exemplo da influência da arte dramática. Dentro de poucos anos, comparativamente, as obras dramáticas de Shaw, Pinero, Galsworthy, Rann Kennedy levaram o pensamento radical a ouvidos anteriormente surdos até aos maravilhosos poetas da Grã-Bretanha. Assim, um público que permaneceria indiferente lendo um ensaio de Robert Owen sobre a Pobreza, ou ignorando os tratados socialistas de Bernard Shaw, foi levado a pensar por MAJOR BARBARA, onde a pobreza é descrita como o maior crime da civilização cristã. "A pobreza torna as pessoas fracas, servis, insignificantes; a pobreza cria doenças, crimes, prostituição; em suma, a pobreza é responsável por todos os males e infortúnios do mundo." A pobreza também necessita de dependência, de organizações de caridade, de instituições que prosperam precisamente daquilo que estão a tentar destruir. O Exército de Salvação, por exemplo, como mostrado em MAJOR BARBARA, combate a embriaguez; no entanto, um dos seus maiores contribuintes é Badger, um destilador de uísque, que fornece anualmente milhares de libras para acabar com a própria fonte da sua riqueza. Bernard Shaw, portanto, conclui que o único verdadeiro benfeitor da sociedade é um homem como Undershaft, o pai de Barbara, um fabricante de canhões, cuja teoria de vida é que a pólvora é mais forte que as palavras.
"O pior dos crimes", diz Undershaft, "é a pobreza. Todos os outros crimes são virtudes ao lado dele; todas as outras desonras são a própria cavalaria por comparação. A pobreza arruína cidades inteiras; espalha pestilências horríveis; mata a própria alma de todos os que entram no seu alcance, som ou cheiro. O que chamas de crime não é nada; um assassínio aqui, um roubo ali, uma bofetada agora e uma maldição ali: que importam eles? São apenas os acidentes e as doenças da vida; não há cinquenta criminosos profissionais genuínos em Londres. Mas há milhões de pessoas pobres, pessoas abjetas, pessoas sujas, mal alimentadas, mal vestidas. Elas envenenam-nos moral e fisicamente; matam a felicidade da sociedade; obrigam-nos a acabar com as nossas próprias liberdades e a organizar crueldades não naturais por medo de que se levantem contra nós e nos arrastem para o seu abismo... A pobreza e a escravidão resistiram durante séculos aos vossos sermões e artigos de fundo; não resistirão às minhas metralhadoras. Não lhes pregueis; não raciocineis com elas. Matai-as... É o teste final da convicção, a única alavanca suficientemente forte para derrubar um sistema social... Votai! Bah! Quando votais, apenas mudais o nome do gabinete. Quando disparais, derrubais governos, inaugurais novas épocas, abolis velhas ordens e instaurais novas."
Não é de admirar que as pessoas pouco se preocupassem em ler os tratados socialistas do Sr. Shaw. De nenhuma outra forma, senão no drama, poderia ele transmitir verdades históricas tão contundentes. E, portanto, é apenas através do drama que o Sr. Shaw é um fator revolucionário na disseminação de ideias radicais.
Depois de DIE WEBER de Hauptmann, STRIFE, de Galsworthy, é o drama laboral mais importante.
O tema de STRIFE é uma greve com dois fatores dominantes: Anthony, o presidente da empresa, rígido, intransigente, que não está disposto a fazer a menor concessão, embora os homens resistam há meses e estejam em estado de quase inanição; e David Roberts, um revolucionário intransigente, cuja devoção ao trabalhador e à causa da liberdade está em brasa. Entre eles, os grevistas estão gastos e cansados da terrível luta, e são assediados e conduzidos pela terrível visão da pobreza e da carência nas suas famílias.
A peça de trabalho mais maravilhosa e brilhante em STRIFE é o retrato que Galsworthy faz da turba, da sua inconstância e falta de coluna vertebral. Num momento aplaudem o velho Thomas, que fala do poder de Deus e da religião e admoesta os homens contra a rebelião; no instante seguinte são levados por um delegado sindical, que defende a causa do sindicato — o sindicato que sempre defende o compromisso, e que abandona os trabalhadores sempre que eles ousam fazer greve por exigências independentes; novamente, estão incandescentes com a seriedade, o espírito e a intensidade de David Roberts — todas estas pessoas dispostas a ir em qualquer direção que o vento sopre. É a maldição da classe trabalhadora que eles sigam sempre como ovelhas levadas para o matadouro.
A consistência é o maior crime da nossa era comercial. Não importa quão intenso seja o espírito ou quão importante seja o homem, no momento em que ele não se deixa usar ou vender os seus princípios, é atirado para o lixo. Tal foi o destino do presidente da empresa, Anthony, e de David Roberts. Certamente, representavam polos opostos — polos antagónicos um ao outro, polos divididos por um terrível fosso que nunca poderá ser transposto. No entanto, partilharam um destino comum. Anthony é a personificação do conservadorismo, das velhas ideias, dos métodos de ferro:
"Sou presidente desta empresa há trinta e dois anos. Lutei contra os homens quatro vezes. Nunca fui derrotado. Tem-se dito que os tempos mudaram. Se mudaram, eu não mudei com eles. Tem-se dito que patrões e homens são iguais. Hipocrisia. Só pode haver um mestre numa casa. Tem-se dito que Capital e Trabalho têm os mesmos interesses. Hipocrisia. Os seus interesses são tão distantes quanto os polos. Só há uma forma de tratar os homens — com a vara de ferro. Patrões são patrões. Homens são homens."
Podemos não gostar desta adesão a noções velhas e reacionárias, e ainda assim há algo admirável na coragem e na consistência deste homem, nem ele é metade tão perigoso para os interesses dos oprimidos quanto os nossos reformadores sentimentais e moles que roubam com nove dedos e dão bibliotecas com o décimo; que esmagam seres humanos como Russell Sage e depois gastam milhões de dólares em trabalho de investigação social; que transformam belas plantas jovens em velhas mulheres desbotadas e depois lhes dão uns poucos dólares ou fundam um Lar para Raparigas Trabalhadoras. Anthony é um inimigo digno; e para lutar contra tal inimigo, é preciso aprender a enfrentá-lo em batalha aberta.
David Roberts tem todos os atributos mentais e morais do seu adversário, aliados ao espírito de revolta e à profundidade das ideias modernas. Ele também é consistente e não quer nada para a sua classe que não seja a vitória completa.
"Não é por este pequeno momento de tempo que estamos a lutar, não é pelos nossos pequenos corpos e pelo seu calor; é por todos aqueles que virão depois, por todos os tempos. Oh, homens, por amor a eles, não ponham mais uma pedra sobre as suas cabeças, não ajudem a enegrecer o céu. Se podemos abalar esse monstro de cara branca e lábios ensanguentados que sugou a vida de nós próprios, das nossas esposas e filhos desde que o mundo existe, se não temos o coração de homens para nos colocarmos contra ele, peito a peito e olho a olho, e forçá-lo a recuar até que peça misericórdia, ele continuará a sugar a vida, e nós permaneceremos para sempre onde estamos, menos que os próprios cães."
É inevitável que o compromisso e o interesse mesquinho sigam em frente e deixem dois gigantes como estes para trás. Inevitável, até que a massa atinja a estatura de um David Roberts. Atingirá algum dia? A profecia não é a vocação do dramaturgo, mas a lição moral é evidente. Não se pode deixar de perceber que os trabalhadores terão de usar métodos até agora desconhecidos para eles; que terão de descartar todos os elementos no seu seio que estão sempre prontos a reconciliar o irreconciliável, nomeadamente o Capital e o Trabalho. Terão de aprender que personagens como David Roberts são as próprias forças que revolucionaram o mundo e, assim, prepararam o caminho para a emancipação das garras desse "monstro de cara branca com lábios ensanguentados", em direção a um horizonte mais brilhante, uma vida mais livre e um reconhecimento mais profundo dos valores humanos.
Nenhum assunto de igual importância social recebeu uma consideração tão extensa nos últimos anos como a questão da prisão e da punição.
Dificilmente existe uma revista de importância que não tenha dedicado suas colunas à discussão deste tema vital. Diversos livros de escritores capazes, tanto na América quanto no exterior, discutiram este tópico sob o ponto de vista histórico, psicológico e social, concordando todos que as atuais instituições penais e nosso modo de lidar com o crime mostraram-se, em todos os aspectos, inadequados, bem como dispendiosos. Esperar-se-ia que algo muito radical resultasse da acusação literária cumulativa dos crimes sociais perpetrados contra o prisioneiro. Contudo, com exceção de algumas reformas menores e comparativamente insignificantes em algumas de nossas prisões, absolutamente nada foi realizado. Mas, finalmente, esse grave erro social encontrou uma interpretação dramática em JUSTICE, de Galsworthy.
A peça começa no escritório de James How and Sons, solicitadores. O escriturário sênior, Robert Cokeson, descobre que um cheque que ele havia emitido por nove libras foi falsificado para noventa. Por eliminação, a suspeita recai sobre William Falder, o escriturário júnior. Este último está apaixonado por uma mulher casada, a esposa abusada e maltratada de um bêbado brutal. Pressionado por seu empregador, um homem severo, porém não desprovido de bondade, Falder confessa a falsificação, alegando a terrível necessidade de sua amada, Ruth Honeywill, com quem planejara fugir para salvá-la da brutalidade insuportável de seu marido. Apesar das súplicas do jovem Walter, que é tocado pelas ideias modernas, seu pai, um cidadão moral e respeitador da lei, entrega Falder à polícia.
O segundo ato, na sala do tribunal, mostra a Justiça no próprio processo de fabricação. A cena iguala, em poder dramático e veracidade psicológica, a grande cena do tribunal em RESURRECTION. O jovem Falder, um rapaz de vinte e três anos, nervoso e um tanto frágil, está diante do banco dos réus. Ruth, sua amada casada, cheia de amor e devoção, arde de ansiedade para salvar o jovem cujo afeto provocou sua situação atual. O jovem é defendido pelo advogado Frome, cujo discurso ao júri é uma obra-prima de profunda filosofia social entrelaçada com as gavinhas da compreensão e da simpatia humanas. Ele não tenta contestar o simples fato de Falder ter alterado o cheque; e embora alegue alienação temporária em defesa de seu cliente, essa alegação baseia-se em uma consciência social tão profunda e abrangente quanto as raízes de nossos males sociais — "o pano de fundo da vida, aquela vida palpitante que sempre jaz por trás da prática de um crime". Ele mostra que Falder enfrentou a alternativa de ver a mulher amada ser assassinada por seu marido brutal, de quem ela não pode se divorciar; ou de tomar a lei em suas próprias mãos. A defesa implora ao júri que não transforme o jovem frágil em um criminoso ao condená-lo à prisão, pois "a justiça é uma máquina que, quando alguém lhe dá um empurrão inicial, rola por si mesma... Será que este jovem deve ser reduzido a pedaços sob esta máquina por um ato que, na pior das hipóteses, foi de fraqueza? Ele deve se tornar um membro das tripulações desafortunadas que guarnecem aqueles navios sombrios e malfadados chamados prisões?... Eu vos exorto, senhores, não arruínem este jovem. Pois, como resultado daqueles quatro minutos, a ruína, total e irrecuperável, encara-o de frente... O rolar das rodas da carruagem da Justiça sobre este rapaz começou quando se decidiu processá-lo".
Mas a carruagem da Justiça rola impiedosamente, pois — como diz o culto Juiz — "a lei é o que é — um edifício majestoso, abrigando a todos nós, cada pedra do qual repousa sobre outra".
Falder é sentenciado a três anos de trabalhos forçados.
Na prisão, o jovem e inexperiente condenado logo se vê vítima do terrível "sistema". As autoridades admitem que o jovem Falder está mental e fisicamente "em má forma", mas nada pode ser feito a respeito: muitos outros estão em uma posição semelhante, e "as acomodações são inadequadas".
A terceira cena do terceiro ato é arrebatadora em sua força silenciosa. A cena inteira é uma pantomima, ocorrendo na cela de prisão de Falder.
"Na luz do dia que desaparece rapidamente, Falder, de meias, é visto parado, imóvel, com a cabeça inclinada em direção à porta, ouvindo. Ele se move um pouco para mais perto da porta, seus pés calçados apenas pelas meias não fazem barulho. Ele para na porta. Ele está tentando cada vez mais ouvir algo, qualquer pequena coisa que esteja acontecendo do lado de fora. Ele salta subitamente para a posição ereta — como se diante de um som — e permanece perfeitamente imóvel. Então, com um suspiro profundo, ele se move para seu trabalho e permanece olhando para ele, com a cabeça baixa; ele dá um ponto ou dois, tendo o ar de um homem tão perdido na tristeza que cada ponto é, por assim dizer, um retorno à vida. Então, virando-se abruptamente, ele começa a andar de um lado para o outro em sua cela, movendo a cabeça, como um animal andando de um lado para o outro em sua jaula. Ele para novamente na porta, ouve e, colocando as palmas das mãos contra ela com os dedos espalhados, encosta a testa no ferro. Virando-se dela, momentos depois, ele se move lentamente de volta para a janela, segurando a cabeça, como se sentisse que ela fosse explodir, e para sob a janela. Mas, como não consegue ver nada do lado de fora, ele para de olhar e, pegando a tampa de uma das latas, espia dentro dela, como se tentasse fazer companhia ao seu próprio rosto. Escureceu quase por completo. De repente, a tampa cai de sua mão com um estrondo — o único som que rompeu o silêncio — e ele fica parado, olhando fixamente para a parede onde o tecido da camisa está pendurado, bastante branco na escuridão — ele parece estar vendo alguém ou algo ali. Há um toque seco e um clique; a luz da cela atrás da tela de vidro foi acesa. A cela está fortemente iluminada. Falder é visto ofegante por ar.
Um som vindo de longe, como de batidas distantes e surdas em metal espesso, é subitamente audível. Falder recua, incapaz de suportar esse clamor repentino. Mas o som cresce, como se algum grande carroceiro estivesse rolando em direção à cela. E, gradualmente, parece hipnotizá-lo. Ele começa a rastejar centímetro a centímetro para mais perto da porta. O som de batidas, viajando de cela em cela, aproxima-se cada vez mais; as mãos de Falder são vistas movendo-se como se seu espírito já tivesse se juntado a essas batidas, e o som aumenta até parecer ter entrado na própria cela. Ele subitamente levanta os punhos cerrados. Ofegante violentamente, ele se lança contra sua porta e bate nela."
Finalmente, Falder deixa a prisão, um homem em liberdade condicional arruinado, a marca do condenado em sua fronte, o ferro da miséria em sua alma. Graças às súplicas de Ruth, a firma de James How and Son está disposta a aceitar Falder de volta em seu emprego, sob a condição de que ele desista de Ruth. É então que Falder recebe a terrível notícia de que a mulher que ele ama havia sido levada pelo impiedoso Moloch econômico a se vender. Ela "tentou fazer saias... coisas baratas... Eu nunca ganhei mais do que dez xelins por semana, comprando meu próprio algodão e trabalhando o dia todo. Eu dificilmente ia para a cama antes de meia-noite... E então... meu empregador aconteceu — ele aconteceu desde então". Nesse terrível momento psicológico, a polícia aparece para arrastá-lo de volta à prisão por não se apresentar como um homem em liberdade condicional. Completamente sobrecarregado pela inexorabilidade de seu ambiente, o jovem Falder busca e encontra a paz, maior que a justiça humana, lançando-se à morte, enquanto os detetives o levam de volta à prisão.
Seria impossível estimar o efeito produzido por esta peça. Talvez alguma concepção possa ser obtida pela circunstância muito incomum de que ela se provou tão poderosa a ponto de induzir o Ministro do Interior da Grã-Bretanha a empreender extensas reformas prisionais na Inglaterra. Um sinal muito encorajador este, da influência exercida pelo drama moderno. Espera-se que a acusação estrondosa do Sr. Galsworthy não permaneça sem efeito semelhante sobre o sentimento público e as condições prisionais da América. De qualquer forma, é certo que nenhuma outra peça moderna deu frutos tão diretos e imediatos ao despertar a consciência social.
Outra peça moderna, THE SERVANT IN THE HOUSE, toca uma nota vital em nossa vida social. O herói da obra-prima do Sr. Kennedy é Robert, um bêbado grosseiro e imundo, a quem a sociedade respeitável repudiou. Robert, o limpador de esgotos, é o verdadeiro herói da peça; mais, seu verdadeiro e único salvador. É ele quem se voluntaria para descer ao perigoso esgoto, para que seus camaradas "possam ter luz e ar". Afinal, ele não sacrificou sua vida sempre, para que outros pudessem ter luz e ar?
O pensamento de que o trabalho é o redentor do bem-estar social foi gritado dos telhados em todas as línguas e em todos os climas. No entanto, as palavras simples de Robert expressam o significado do trabalho e sua missão com muito maior potência.
A América ainda está em sua infância dramática. A maioria das tentativas nessa linha de espelhar a vida foram falhas miseráveis. Ainda assim, existem sinais esperançosos na atitude do público inteligente em relação às peças modernas, mesmo que sejam de solo estrangeiro.
O único drama real que a América produziu até agora é THE EASIEST WAY, de Eugene Walter.
Supõe-se que represente uma "fase peculiar" da vida de Nova York. Se isso fosse tudo, seria de importância menor. Aquilo que dá à peça sua importância e valor reais reside muito mais profundamente. Reside, primeiro, na corrente fundamental de nosso tecido social que nos impulsiona a todos, até personagens mais fortes que Laura, para o caminho mais fácil — um caminho tão destrutivo da integridade, da verdade e da justiça. Em segundo lugar, o fatalismo cruel e sem sentido condicionado no sexo de Laura. Esses dois traços colocam o selo universal na peça e a caracterizam como uma das mais fortes acusações dramáticas contra a sociedade.
O desperdício criminoso de energia humana, nas condições econômicas e sociais, leva Laura, como leva a garota comum, a se casar com qualquer homem por um "lar"; ou como leva os homens a suportar as piores indignidades por uma ninharia miserável.
Depois, há aquela outra instituição respeitável, o fatalismo do sexo de Laura. A inevitabilidade dessa força é resumida nas seguintes palavras: "Você não sabe que nós não contamos mais na vida desses homens do que animais domesticados? É um jogo, e se não jogarmos bem nossas cartas, perdemos". A mulher na batalha com a vida tem apenas uma arma, uma mercadoria — o sexo. Isso sozinho serve como um trunfo no jogo da vida.
Esse fatalismo cego tornou a mulher uma parasita, uma coisa inerte. Por que então esperar perseverança ou energia de Laura? O caminho mais fácil é a trilha traçada para ela desde tempos imemoriais. Ela não poderia seguir outra.
Diversas outras peças poderiam ser citadas como características do papel crescente do drama como disseminador do pensamento radical. Basta mencionar THE THIRD DEGREE, de Charles Klein; THE FOURTH ESTATE, de Medill Patterson; A MAN'S WORLD, de Ida Croutchers — todos apontando para o amanhecer da arte dramática na América, uma arte que está descobrindo para o povo as terríveis doenças de nosso corpo social.
Dizia-se antigamente, todos os caminhos levam a Roma. Em aplicação parafraseada às tendências de nossos dias, pode-se verdadeiramente dizer que todos os caminhos levam à grande reconstrução social. O despertar econômico do trabalhador e sua percepção da necessidade de ação industrial concertada; as tendências da educação moderna, especialmente em sua aplicação ao livre desenvolvimento da criança; o espírito de inquietação crescente expresso através de, e cultivado por, arte e literatura, tudo pavimenta o caminho para a Estrada Aberta. Acima de tudo, o drama moderno, operando através do canal duplo de dramaturgo e intérprete, afetando como afeta tanto a mente quanto o coração, é a força mais forte no desenvolvimento do descontentamento social, inchando a poderosa maré de inquietação que varre adiante e sobre a represa da ignorância, do preconceito e da superstição.
[1] HONOR.
[2] MAGDA.
[3] BEFORE SUNRISE.
[4] THE WEAVERS.
[5] THE SUNKEN BELL.
[6] YOUTH.
[7] THE AWAKENING OF SPRING.