myebooksbuy
My Books

Around the World in Eighty Days

by Jules Verne · in Portuguese

Phileas Fogg, tendo deixado a sua casa na Saville Row às onze e meia, dirigiu-se ao Reform Club, como de costume, e, depois de tomar o café da manhã, sentou-se na sala de leitura, onde o esperava o Morning Chronicle, que ele lia com uma atenção absoluta que só era interrompida pelo movimento das suas pálpebras.

Este cavalheiro, um membro assíduo do clube, passava ali todos os dias, comendo o almoço e o jantar às horas rigorosamente fixadas, na mesma mesa, sem nunca se associar aos outros membros nem convidando estranhos; ia embora apenas para dormir às doze em ponto, sem nunca aproveitar as confortáveis acomodações que o clube oferecia aos seus membros.

Naquele dia, 2 de outubro, Phileas Fogg tinha terminado o almoço e estava absorto na leitura do jornal, quando se aproximou um dos seus colegas de whist, que se sentou ao seu lado. Era Andrew Stuart, um dos seus parceiros habituais, homens de fortuna e distinção, que, como ele, faziam parte da elite da sociedade londrina.

— Bem, Stuart — disse Phileas Fogg —, que dizem as notícias?

— Ora — respondeu Andrew Stuart —, há um assunto que está a dar que falar.

— O roubo no Banco de Inglaterra?

— Exatamente. O ladrão, cuja identidade é desconhecida, conseguiu levar cinquenta e cinco mil libras.

— É um caso lamentável — comentou Phileas Fogg. — Mas, no nosso país, um ladrão consegue sempre escapar-se.

— Não será fácil fugir agora — disse Stuart. — O Inspetor Fix foi enviado a todos os portos importantes e está a vigiar a saída dos suspeitos.

Phileas Fogg limitou-se a acenar com a cabeça, como se o assunto não lhe dissesse respeito.

— Mas sabe, Fogg — continuou Stuart —, que o ladrão é um homem de grande habilidade?

— Não há lugares onde não se possa chegar rapidamente hoje em dia — disse Phileas Fogg, com indiferença.

— Ora, o mundo tornou-se mais pequeno! — exclamou John Sullivan, outro membro do clube que se juntara à conversa.

— O mundo tornou-se mais pequeno — disse Fogg — porque hoje em dia percorre-se cem vezes mais depressa do que antigamente. E é isso que nos permite dar a volta ao mundo em três meses.

— Em oitenta dias! — disse Stuart, citando o artigo do Morning Chronicle que o Fogg lia.

— Sim, oitenta dias — respondeu Phileas Fogg. — É o tempo que se leva agora, tendo em conta as novas linhas de caminho de ferro e os vapores.

— Mas isso não conta com os imprevistos, as tempestades, os naufrágios ou os atrasos! — retorquiu Stuart.

— Os imprevistos estão incluídos no cálculo — respondeu Fogg, imperturbável.

— O senhor fala a sério, Fogg? — perguntou Stuart.

— Um inglês nunca brinca quando se trata de algo tão sério como uma aposta. Eu aposto vinte mil libras com quem quiser que darei a volta ao mundo em oitenta dias ou menos.

— Vinte mil libras! — exclamaram os presentes.

— Sim — disse Phileas Fogg. — E aceito o desafio.

Os cavalheiros olharam uns para os outros, estupefactos. Phileas Fogg parecia estar a falar da coisa mais simples do mundo.

— Nós aceitamos! — disse Stuart, por fim.

— Muito bem — respondeu Fogg. — O comboio para Dover parte às oito e quarenta e cinco. Partirei esta noite.

Dito isto, Phileas Fogg consultou o seu relógio, levantou-se e saiu da sala de leitura, deixando os seus companheiros mergulhados num espanto que nem o melhor dos whiskies poderia aplacar.

CHAPTER IV. IN WHICH PHILEAS FOGG ASTOUNDS PASSEPARTOUT, HIS SERVANT

Passepartout, que ignorava por completo o que tinha acabado de acontecer no clube, estava na casa da Saville Row, ocupado a organizar os seus pertences, quando ouviu uma campainha tocar.

Phileas Fogg entrou e, sem olhar para o criado, disse:

— Passepartout, vamos partir.

— Partir, monsieur? — perguntou o criado, surpreso.

— Vamos dar a volta ao mundo.

Passepartout, por um momento, pensou ter ouvido mal.

— Dar a volta ao mundo? — repetiu, com os olhos arregalados.

— Sim, em oitenta dias. Portanto, não temos um minuto a perder.

— Mas as malas? — perguntou o criado, confuso.

— Apenas uma mala de viagem — respondeu o mestre. — Com duas camisas de lã e três pares de meias. Compraremos o resto pelo caminho. Traga o meu sobretudo e a minha capa. E, sobretudo, não se esqueça do meu saco de couro, que contém os meus vinte mil libras.

Passepartout, ainda atordoado, apressou-se a obedecer. O seu mestre, o homem mais metódico de Londres, ia embarcar numa aventura destas? Era inacreditável! Mas o tom de voz do Sr. Fogg não permitia qualquer contestação.

Em poucos minutos, a pequena mala estava pronta. Phileas Fogg verificou se tudo estava em ordem, vestiu o seu chapéu, e, às oito horas, os dois saíram da casa da Saville Row, trancando a porta atrás de si.

Passepartout, que ainda tentava processar a velocidade dos acontecimentos, seguia o mestre, sentindo que a sua vida tranquila tinha acabado de sofrer uma reviravolta dramática. E assim, sem uma palavra, o Sr. Phileas Fogg iniciou a sua jornada, enquanto o seu criado, com a mala na mão, corria atrás dele para não perder o passo.

CHAPTER V. IN WHICH A NEW SPECIES OF FUNDS, UNKNOWN TO THE MONEYED MEN, APPEARS ON ’CHANGE

A notícia da aposta de Phileas Fogg espalhou-se rapidamente por todo o Londres. O Reform Club tornou-se o centro de todas as atenções. Os jornais, que no início tinham tratado o assunto com ceticismo, começaram a publicar artigos sobre a possibilidade desta viagem.

Nas casas de apostas, o nome de Phileas Fogg começou a circular. Apostavam contra ele, apostavam a seu favor. O "gentleman" da Saville Row tinha-se tornado, sem o saber, numa espécie de valor financeiro que subia e descia conforme as notícias que chegavam de Suez ou de Bombaim.

Muitos consideravam a aposta de Fogg uma loucura, um capricho de um homem rico que não sabia o que fazer ao seu dinheiro. Outros, mais audazes, viam nela a prova da modernidade e da audácia do espírito humano.

Enquanto isso, em Saville Row, a casa permanecia vazia, à espera do regresso do seu dono, que, a esta hora, já atravessava o Canal da Mancha, rumo a uma aventura que o mundo inteiro acompanhava com a respiração suspensa.

CHAPTER VI. IN WHICH FIX, THE DETECTIVE, BETRAYS A VERY NATURAL IMPATIENCE

Enquanto a notícia da aposta de Fogg corria o mundo, o Inspetor Fix, um homem de constituição robusta e olhar penetrante, esperava em Suez por um navio que chegava de Brindisi. Fix era um detetive da Scotland Yard, cuja missão era apanhar o famoso ladrão que tinha roubado o Banco de Inglaterra.

Ele observava todos os passageiros que desembarcavam, comparando os seus rostos com a descrição que tinha do criminoso.

— Se ele passou por aqui — murmurava Fix para si mesmo —, terá de se identificar.

Mas o tempo passava, e nenhum passageiro parecia corresponder à descrição. A sua impaciência crescia a cada hora. Ele sabia que o ladrão estava a ser vigiado em todos os pontos, mas, por vezes, os criminosos mais inteligentes são aqueles que menos se parecem com o que esperamos.

Fix sentia que o seu destino estava ligado a esta investigação. Ele não sabia, contudo, que um homem, um tal de Phileas Fogg, estava prestes a cruzar o seu caminho, um homem cuja calma e método poderiam confundir até o mais astuto dos detetives.

CHAPTER VII. WHICH ONCE MORE DEMONSTRATES THE USELESSNESS OF PASSPORTS AS AIDS TO DETECTIVES

Os passaportes, naquela época, eram documentos que pouco serviam para identificar um homem de forma rigorosa. Fix sabia disso por experiência própria. Um homem pode mudar de nome, de aparência, de nacionalidade, e um papel assinado pelas autoridades locais raramente é um obstáculo para quem quer viajar incógnito.

— O passaporte é apenas uma formalidade — pensava Fix, observando a confusão no porto de Suez. — O que conta é o instinto.

Ele continuava a sua vigia, convencido de que o ladrão, mais cedo ou mais tarde, teria de cometer um erro. Mal sabia ele que o homem que procurava estava a viajar com tanta regularidade que parecia, ele próprio, a encarnação de um sistema perfeito, um sistema onde não havia espaço para erros ou deslizes.

CHAPTER VIII. IN WHICH PASSEPARTOUT TALKS RATHER MORE, PERHAPS, THAN IS PRUDENT

Passepartout, a bordo do navio que os levava para Suez, sentia-se um pouco mais à vontade. Apesar da pressa, ele não podia deixar de conversar com os outros passageiros.

— O meu mestre é um homem muito original — dizia ele, com um sorriso. — Ele viaja o mundo como se estivesse a caminhar pelo jardim da sua casa.

Os outros passageiros, intrigados, ouviam as histórias de Passepartout sobre a vida na Saville Row. O criado, orgulhoso, contava como o Sr. Fogg era rigoroso com as horas, como a sua vida era regrada, e como, para ele, o tempo era o bem mais precioso.

Sem se aperceber, Passepartout estava a revelar mais do que devia. A sua loquacidade poderia, em certas circunstâncias, ser perigosa. Mas, por enquanto, ele apenas desfrutava da atenção que o seu mestre despertava. Ele não sabia que as suas palavras estavam a ser ouvidas por alguém que, talvez, não tivesse apenas curiosidade, mas sim um interesse muito mais profissional.

CHAPTER IX. IN WHICH THE RED SEA AND THE INDIAN OCEAN PROVE PROPITIOUS TO THE DESIGNS OF PHILEAS FOGG

A viagem pelo Mar Vermelho e pelo Oceano Índico decorreu de forma favorável. Phileas Fogg, sempre calmo, passava o tempo a ler ou a jogar whist com os passageiros que encontrava. Ele não se deixava abalar pelas condições do mar ou pelo calor excessivo.

Passepartout, pelo contrário, sofria com as mudanças de clima, mas tentava manter o bom humor. O seu mestre, por sua vez, continuava a anotar cada milha percorrida no seu caderno de apontamentos, calculando o tempo que lhe restava.

— Estamos a tempo — dizia ele, com uma voz desprovida de qualquer emoção.

E, de facto, estavam. O destino parecia estar a conspirar a favor de Phileas Fogg, permitindo que a sua aposta, por muito audaz que fosse, se aproximasse do sucesso. O Oceano Índico, com as suas águas tranquilas, parecia ser o aliado perfeito para este homem que tinha feito do tempo o seu maior inimigo.

CHAPTER X. IN WHICH PASSEPARTOUT IS ONLY TOO GLAD TO GET OFF WITH THE LOSS OF HIS SHOES

Ao chegar à Índia, a aventura de Phileas Fogg tomou um rumo inesperado. Passepartout, na sua ingenuidade, cometeu um erro que quase lhe custou caro. Ele entrou num templo, sem saber que o seu comportamento era considerado uma ofensa à religião local.

— O que fiz eu? — perguntou, ao ser expulso do templo por sacerdotes enfurecidos.

Passepartout conseguiu escapar, mas perdeu os seus sapatos na confusão.

— Podia ter sido pior — disse ele, ao reencontrar o seu mestre. — Perdi apenas os sapatos.

Phileas Fogg, com a sua costumeira tranquilidade, não se zangou. Ele sabia que, numa viagem como aquela, imprevistos eram inevitáveis. E, sem perder tempo, continuaram a sua jornada, deixando para trás o templo e o perigo que ali tinham corrido.

CHAPTER XI. IN WHICH PHILEAS FOGG SECURES A CURIOUS MEANS OF CONVEYANCE AT A FABULOUS PRICE

A viagem pela Índia revelou ser mais complicada do que o esperado. O caminho de ferro não estava completo e eles tiveram de encontrar outro meio de transporte.

— Precisamos de um elefante — disse Fogg.

Passepartout achou que o seu mestre estava a brincar. Mas não, Phileas Fogg era sério. Ele negociou com o dono de um elefante e, pagando um preço exorbitante, conseguiu o meio de transporte que precisavam.

— O elefante será o nosso guia — disse Fogg, montando no animal.

Passepartout, montado atrás do seu mestre, não podia deixar de admirar a determinação daquele homem. Dinheiro não era um problema para Phileas Fogg, e ele estava disposto a gastar o que fosse necessário para manter o seu horário.

CHAPTER XII. IN WHICH PHILEAS FOGG AND HIS COMPANIONS VENTURE ACROSS THE INDIAN FORESTS, AND WHAT ENSUED

A travessia das florestas indianas no lombo de um elefante foi uma experiência inesquecível. Phileas Fogg mantinha-se imóvel, como se estivesse sentado na sua poltrona no Reform Club. Passepartout, porém, estava em constante alerta, observando a vegetação densa e ouvindo os sons da selva.

Durante a viagem, eles encontraram um grupo de pessoas que estavam a realizar uma cerimónia fúnebre. Foi um momento de tensão, mas Phileas Fogg, com a sua habitual frieza, conseguiu evitar qualquer conflito.

— A vida tem os seus mistérios — disse Fogg, depois de passarem pelo local.

Passepartout, ainda a tremer, concordou. Ele estava a aprender que o mundo era um lugar muito mais vasto e perigoso do que a sua vida em Londres o tinha feito acreditar.

CHAPTER XIII. IN WHICH PASSEPARTOUT RECEIVES A NEW PROOF THAT FORTUNE FAVORS THE BRAVE

Graças à coragem de Phileas Fogg e à sua determinação, eles conseguiram superar os obstáculos na Índia. Passepartout, ao ver o seu mestre agir com tanta bravura, sentiu por ele uma admiração profunda.

— O senhor é um homem extraordinário, monsieur — disse ele.

Fogg não respondeu. Ele estava concentrado na sua meta. O tempo continuava a ser o seu maior desafio, e cada segundo contava. A sorte, diziam, favorece os corajosos, e Phileas Fogg era, sem dúvida, o homem mais corajoso que Passepartout alguma vez conhecera.

CHAPTER XIV. IN WHICH PHILEAS FOGG DESCENDS THE WHOLE LENGTH OF THE BEAUTIFUL VALLEY OF THE GANGES WITHOUT EVER THINKING OF SEEING IT

A descida do vale do Ganges foi feita com a rapidez que o Sr. Fogg exigia. Ele não perdeu tempo a admirar a paisagem, apesar da sua beleza. O seu único objetivo era chegar ao destino no tempo estabelecido.

— Esta é a vista mais bela do mundo — disse Passepartout, olhando para o rio Ganges.

Fogg não olhou. Ele estava ocupado a ler o seu jornal e a verificar o seu relógio. O tempo não esperava por ninguém, nem mesmo pela beleza da natureza.

CHAPTER XV. IN WHICH THE BAG OF BANKNOTES DISGORGES SOME THOUSANDS OF POUNDS MORE

A viagem custava dinheiro, e Phileas Fogg não se importava de gastar. O saco de notas, que ele levava consigo, estava a ficar mais leve, mas isso não o preocupava. Ele sabia que o que estava em jogo valia bem o investimento.

— Monsieur, estamos a gastar muito dinheiro — disse Passepartout.

— O dinheiro serve para comprar o tempo — respondeu Fogg. — E o tempo é o que me falta.

Passepartout compreendeu, então, que para o seu mestre, o dinheiro era apenas um meio, e não um fim. Ele estava disposto a sacrificar tudo pela sua aposta.

CHAPTER XVI. IN WHICH FIX DOES NOT SEEM TO UNDERSTAND IN THE LEAST WHAT IS SAID TO HIM

O Inspetor Fix continuava a seguir o rasto de Fogg. Ele encontrou-o, finalmente, em Calcutá, mas ainda não tinha a certeza se aquele homem era o ladrão que procurava.

— O senhor é o Sr. Fogg? — perguntou Fix.

— Sim — respondeu Fogg.

— O senhor viaja de forma muito apressada.

— Sou um homem de negócios.

Fix tentou interrogá-lo, mas as respostas de Fogg eram tão vagas e formais que o detetive não sabia o que pensar. Ele sentia que Fogg estava a esconder algo, mas não conseguia provar o quê. A confusão de Fix só aumentava à medida que tentava decifrar o enigma que era o Sr. Phileas Fogg.

CHAPTER XVII. SHOWING WHAT HAPPENED ON THE VOYAGE FROM SINGAPORE TO HONG KONG

A viagem de Singapura para Hong Kong foi marcada por tempestades e atrasos. Fogg, sempre calmo, lia o seu jornal, enquanto os outros passageiros se queixavam do tempo.

— Vamos chegar a tempo? — perguntou Passepartout, ansioso.

— Chegaremos exatamente quando for necessário — respondeu Fogg.

E, de facto, a sua confiança nunca vacilava. Ele parecia ter um controlo absoluto sobre o destino, como se o mundo fosse apenas uma engrenagem que obedecia à sua vontade.

CHAPTER XVIII. IN WHICH PHILEAS FOGG, PASSEPARTOUT, AND FIX GO EACH ABOUT HIS BUSINESS

Em Hong Kong, cada um seguiu o seu destino. Fogg tentava organizar a continuação da sua viagem, Passepartout passeava pela cidade, e Fix, o detetive, continuava a sua perseguição silenciosa.

Eles eram três homens com propósitos diferentes, mas cujos destinos estavam ligados por uma teia invisível. Hong Kong, com a sua agitação, era apenas uma paragem num caminho que, para Phileas Fogg, não tinha fim até Londres.

CHAPTER XIX. IN WHICH PASSEPARTOUT TAKES A TOO GREAT INTEREST IN HIS MASTER, AND WHAT COMES OF IT

Passepartout, preocupado com o sucesso da aposta do seu mestre, acabou por cometer um erro que o separou de Fogg. Ele foi levado para um navio sem saber o seu destino.

— Onde está o meu mestre? — perguntava, em pânico.

Ele não sabia que, por causa da sua curiosidade, a viagem de Phileas Fogg ia sofrer um atraso inesperado. O destino, uma vez mais, mostrava que nem os planos mais perfeitos estão a salvo dos imprevistos.

CHAPTER XX. IN WHICH FIX COMES FACE TO FACE WITH PHILEAS FOGG

Fix, ao encontrar-se com Fogg em Hong Kong, decidiu que era o momento de agir. Ele não podia perder mais tempo.

— Tenho de o deter — pensou Fix.

Mas Fogg, com a sua habitual astúcia, conseguiu contornar as intenções do detetive. Ele estava sempre um passo à frente, como se soubesse que Fix o seguia. O confronto era inevitável, e o detetive sentia que estava a lutar contra um homem cujo poder parecia ir além da lei.

CHAPTER XXI. IN WHICH THE MASTER OF THE “TANKADERE” RUNS GREAT RISK OF LOSING A REWARD OF TWO HUNDRED POUNDS

Para chegar a Xangai, Phileas Fogg alugou um pequeno barco, o "Tankadere". O capitão, um homem corajoso, aceitou o risco de navegar em condições perigosas por uma recompensa de duzentas libras.

— O dinheiro é uma boa motivação — disse o capitão.

Fogg, com a sua habitual generosidade, não discutiu o preço. Ele sabia que o tempo era o bem mais precioso, e estava disposto a pagar o que fosse para o recuperar.

CHAPTER XXII. IN WHICH PASSEPARTOUT FINDS OUT THAT, EVEN AT THE ANTIPODES, IT IS CONVENIENT TO HAVE SOME MONEY IN ONE’S POCKET

Passepartout, sozinho e sem dinheiro em Yokohama, percebeu que a vida é difícil quando não temos os bolsos cheios. Ele tentou encontrar trabalho, mas a sua falta de recursos era um obstáculo.

— Se ao menos tivesse o meu mestre comigo — suspirou.

Ele aprendeu, da forma mais dura, que num mundo onde o dinheiro governa, a falta dele é um crime silencioso. Mas, fiel ao seu mestre, ele nunca desistiu de procurar uma forma de o reencontrar.

CHAPTER XXIII. IN WHICH PASSEPARTOUT’S NOSE BECOMES OUTRAGEOUSLY LONG

Nesta etapa da viagem, Passepartout passou por situações tão bizarras que o seu nariz, ou melhor, a sua capacidade de se meter em sarilhos, cresceu de forma inusitada. Ele viu-se envolvido em intrigas e situações que nem nos seus sonhos mais selvagens teria imaginado.

— Tudo isto faz parte da aventura — dizia, tentando convencer-se a si mesmo.

Ele não sabia que, a cada passo, estava a tornar-se numa parte essencial da história que Phileas Fogg estava a escrever com a sua viagem.

CHAPTER XXIV. DURING WHICH MR. FOGG AND PARTY CROSS THE PACIFIC OCEAN

A travessia do Oceano Pacífico foi longa e monótona. Fogg, sempre no seu lugar, jogava whist e lia o seu jornal. Ele não se deixava impressionar pela imensidão do mar.

— O oceano é apenas uma distância a ser percorrida — dizia ele.

Para ele, o Pacífico era apenas mais um obstáculo, mais um tempo a ser vencido. E, no navio, a viagem seguia o seu ritmo, com Fogg a controlar cada minuto.

CHAPTER XXV. IN WHICH A SLIGHT GLIMPSE IS HAD OF SAN FRANCISCO

San Francisco foi apenas uma breve paragem na viagem de Fogg. Ele não viu muito da cidade, pois estava concentrado na sua partida para o caminho de ferro.

— É uma cidade interessante — disse Fogg.

Passepartout, ao contrário, estava maravilhado com a modernidade da cidade. Ele queria ver mais, queria ficar mais tempo, mas o mestre já tinha o seu plano.

CHAPTER XXVI. IN WHICH PHILEAS FOGG AND PARTY TRAVEL BY THE PACIFIC RAILROAD

O caminho de ferro do Pacífico foi uma experiência nova para Fogg e o seu grupo. O comboio, com a sua velocidade e conforto, era uma maravilha da engenharia.

— Viajar é, acima de tudo, uma questão de conveniência — comentou Fogg.

Passepartout, a observar a paisagem a mudar diante dos seus olhos, sentia que estava a viver uma vida que nunca poderia ter imaginado.

CHAPTER XXVII. IN WHICH PASSEPARTOUT UNDERGOES, AT A SPEED OF TWENTY MILES AN HOUR, A COURSE OF MORMON HISTORY

Passepartout, no comboio, ouviu as histórias mais inacreditáveis sobre os mórmons. A velocidade do comboio, vinte milhas por hora, não impediu que ele aprendesse sobre a história e a cultura deste grupo religioso.

— A história é um livro aberto — dizia ele, fascinado.

Ele estava a aprender que cada cultura tem as suas próprias regras e os seus próprios segredos.

CHAPTER XXVIII. IN WHICH PASSEPARTOUT DOES NOT SUCCEED IN MAKING ANYBODY LISTEN TO REASON

Passepartout tentou, por diversas vezes, explicar a sua situação aos outros passageiros, mas ninguém parecia querer ouvi-lo. Ele sentia-se impotente perante a indiferença das pessoas.

— Porque é que ninguém me quer ouvir? — perguntava.

A resposta, ele ainda não sabia, é que o mundo está mais preocupado com os seus próprios interesses do que com a verdade dos outros.

CHAPTER XXIX. IN WHICH CERTAIN INCIDENTS ARE NARRATED WHICH ARE ONLY TO BE MET WITH ON AMERICAN RAILROADS

Os incidentes no caminho de ferro americano foram muitos. Desde conflitos entre passageiros até problemas técnicos, tudo o que podia acontecer, acontecia.

— Isto é a América — dizia Fogg, com a sua habitual calma.

Para ele, tudo era apenas parte da experiência de viajar. Ele mantinha-se inabalável, como uma rocha no meio de uma tempestade.

CHAPTER XXX. IN WHICH PHILEAS FOGG SIMPLY DOES HIS DUTY

Quando uma situação de perigo surgiu, Phileas Fogg não hesitou. Ele agiu com a precisão de quem cumpre o seu dever.

— É o que se espera de um gentleman — disse ele, simplesmente.

Passepartout, ao ver o seu mestre salvar o dia, sentiu que a sua lealdade tinha sido bem recompensada. O Sr. Fogg não era apenas um homem metódico; ele era um homem de princípios.

CHAPTER XXXI. IN WHICH FIX, THE DETECTIVE, CONSIDERABLY FURTHERS THE INTERESTS OF PHILEAS FOGG

Fix, ao perceber que Fogg não era o ladrão, começou a ver a sua missão sob uma nova luz. Ele percebeu que Fogg era um homem de valor, e decidiu ajudá-lo.

— Talvez ele não seja o culpado — pensou Fix.

A sua ajuda, embora involuntária, foi essencial para que Fogg pudesse continuar a sua viagem. O detetive, sem o saber, tinha passado de inimigo a aliado.

CHAPTER XXXII. IN WHICH PHILEAS FOGG ENGAGES IN A DIRECT STRUGGLE WITH BAD FORTUNE

A sorte, por vezes, vira-se contra nós. Fogg enfrentou momentos de grande dificuldade, mas nunca perdeu a esperança.

— A fortuna favorece os que lutam — dizia ele.

Ele continuava a sua luta contra o tempo e contra os obstáculos, mantendo sempre a cabeça erguida.

CHAPTER XXXIII. IN WHICH PHILEAS FOGG SHOWS HIMSELF EQUAL TO THE OCCASION

Perante a possibilidade de perder a aposta, Fogg não se desmoralizou. Ele procurou soluções, encontrou caminhos, e provou, mais uma vez, que é um homem capaz de enfrentar qualquer desafio.

— O tempo é o que fazemos dele — dizia Fogg.

E, com essa filosofia, ele enfrentou a sua maior prova.

CHAPTER XXXIV. INWHICH PHILEAS FOGG AT LAST REACHES LONDON

Finalmente, Londres! O regresso à Saville Row era o momento que Fogg tanto esperava. Ele chegou no tempo exato, com a precisão que sempre o caracterizou.

— Estou de volta — disse, ao entrar na sua casa.

A viagem tinha chegado ao fim, mas, para Fogg, ela tinha sido apenas um capítulo na sua vida.

CHAPTER XXXV. IN WHICH PHILEAS FOGG DOES NOT HAVE TO REPEAT HIS ORDERS TO PASSEPARTOUT TWICE

Passepartout, ao ver o seu mestre de regresso, não precisou de ordens. Ele sabia exatamente o que tinha de fazer.

— Tudo pronto, monsieur — disse o criado.

A vida na Saville Row voltava ao seu ritmo normal, como se nada tivesse acontecido.

CHAPTER XXXVI. IN WHICH PHILEAS FOGG’S NAME IS ONCE MORE AT A PREMIUM ON ’CHANGE

O nome de Phileas Fogg voltou a ser falado, desta vez com admiração. Ele tinha conseguido o impossível, e o mundo reconhecia a sua proeza.

— Um homem notável — diziam os membros do clube.

Fogg, contudo, permanecia o mesmo homem, indiferente à fama ou aos elogios.

CHAPTER XXXVII. IN WHICH IT IS SHOWN THAT PHILEAS FOGG GAINED NOTHING BY HIS TOUR AROUND THE WORLD, UNLESS IT WERE HAPPINESS

A aposta tinha sido ganha, o dinheiro tinha sido ganho, mas o que Phileas Fogg realmente ganhou, sem o saber, foi a felicidade. Ele descobriu que, para além da regularidade e do método, a vida também é feita de surpresas, de amizades e de amor.

— Não ganhei nada — dizia ele, com um sorriso. — A não ser a felicidade de ter encontrado alguém que me compreende.

E, assim, a história de Phileas Fogg termina, deixando-nos a lição de que o verdadeiro valor da vida não está naquilo que alcançamos, mas naquilo que, no caminho, aprendemos a valorizar.

Phileas Fogg, após ter fechado a porta de sua casa às onze e meia, e após ter colocado o pé direito à frente do esquerdo quinhentas e setenta e cinco vezes, e o pé esquerdo à frente do direito quinhentas e setenta e seis vezes, chegou ao Reform Club, um imponente edifício em Pall Mall, que não deve ter custado menos de três milhões. Dirigiu-se imediatamente à sala de jantar, cujas nove janelas dão para um jardim de bom gosto, onde as árvores já estavam douradas com o colorido do outono; e tomou o seu lugar na mesa habitual, cujo serviço já tinha sido posto para ele. O seu pequeno-almoço consistia num acompanhamento, um peixe grelhado com molho Reading, uma fatia escarlate de rosbife guarnecida com cogumelos, uma tarte de ruibarbo e groselha, e um pedaço de queijo Cheshire, sendo tudo regado com várias chávenas de chá, pelas quais o Reform é famoso. Levantou-se às treze para a uma, e dirigiu os seus passos em direção ao grande átrio, um sumptuoso compartimento adornado com pinturas em molduras luxuosas. Um criado entregou-lhe um Times por abrir, que ele procedeu a cortar com uma perícia que denunciava familiaridade com esta delicada operação. A leitura deste jornal absorveu Phileas Fogg até às quatro menos um quarto, enquanto o Standard, a sua tarefa seguinte, o ocupou até à hora do jantar. O jantar passou-se como o pequeno-almoço, e o Sr. Fogg reapareceu na sala de leitura e sentou-se com o Pall Mall às seis menos vinte. Meia hora depois, vários membros do Reform entraram e aproximaram-se da lareira, onde um lume de carvão ardia de forma constante. Eram os parceiros habituais do Sr. Fogg no whist: Andrew Stuart, um engenheiro; John Sullivan e Samuel Fallentin, banqueiros; Thomas Flanagan, um cervejeiro; e Gauthier Ralph, um dos Diretores do Banco de Inglaterra — todos personagens ricos e altamente respeitáveis, mesmo num clube que compreende os príncipes do comércio e das finanças inglesas.

— Bem, Ralph — disse Thomas Flanagan —, que dizer daquele roubo?

— Oh — respondeu Stuart —, o Banco perderá o dinheiro.

— Pelo contrário — interrompeu Ralph —, espero que possamos deitar a mão ao ladrão. Detetives habilidosos foram enviados a todos os principais portos da América e do Continente, e ele terá de ser um sujeito esperto se escapar por entre os dedos deles.

— Mas vocês têm a descrição do ladrão? — perguntou Stuart.

— Em primeiro lugar, ele não é ladrão de todo — retorquiu Ralph, categoricamente.

— Como! Um sujeito que se escapa com cinquenta e cinco mil libras, não é ladrão?

— Não.

— Talvez seja um fabricante, então.

— O Daily Telegraph diz que ele é um cavalheiro.

Foi Phileas Fogg, cuja cabeça surgia agora de trás dos seus jornais, quem fez esta observação. Ele saudou os seus amigos e entrou na conversa. O caso que formava o seu assunto, e que era o tema de conversa da cidade, tinha ocorrido três dias antes no Banco de Inglaterra. Um pacote de notas, no valor de cinquenta e cinco mil libras, tinha sido retirado da mesa do caixa principal, estando esse funcionário no momento ocupado a registar a receção de três xelins e seis pence. É claro que ele não podia ter olhos em toda a parte. Note-se que o Banco de Inglaterra deposita uma confiança comovente na honestidade do público. Não há guardas nem grades para proteger os seus tesouros; ouro, prata, notas bancárias estão livremente expostos, à mercê do primeiro que chegar. Um observador atento dos costumes ingleses relata que, estando um dia numa das salas do Banco, teve a curiosidade de examinar um lingote de ouro pesando cerca de sete ou oito libras. Pegou nele, examinou-o, passou-o ao seu vizinho, este ao homem seguinte, e assim por diante até que o lingote, indo de mão em mão, foi transferido para o fundo de uma entrada escura; e não regressou ao seu lugar durante meia hora. Entretanto, o caixa não tinha sequer levantado a cabeça. Mas, no presente caso, as coisas não tinham corrido tão bem. Como o pacote de notas não foi encontrado quando soaram as cinco horas no pesado relógio da “sala de desenho”, a quantia foi passada para a conta de lucros e perdas. Assim que o roubo foi descoberto, detetives de elite apressaram-se para Liverpool, Glasgow, Havre, Suez, Brindisi, Nova Iorque e outros portos, inspirados pela recompensa oferecida de duas mil libras, e cinco por cento sobre a soma que pudesse ser recuperada. Os detetives foram também encarregados de vigiar atentamente aqueles que chegavam ou partiam de Londres por caminho de ferro, e um inquérito judicial foi imediatamente iniciado.

Havia fundamentos reais para supor, como dizia o Daily Telegraph, que o ladrão não pertencia a um bando profissional. No dia do roubo, um cavalheiro bem vestido, de maneiras polidas e com um ar abastado, tinha sido observado a ir e vir na sala de pagamentos onde o crime foi cometido. Uma descrição sua foi facilmente obtida e enviada aos detetives; e alguns espíritos otimistas, dos quais Ralph era um, não desesperavam da sua captura. Os jornais e os clubes estavam cheios do caso, e por toda a parte as pessoas discutiam as probabilidades de uma perseguição bem-sucedida; e o Reform Club estava especialmente agitado, sendo vários dos seus membros funcionários do Banco.

Ralph não queria admitir que o trabalho dos detetives fosse provavelmente em vão, pois pensava que o prémio oferecido estimularia grandemente o seu zelo e atividade. Mas Stuart estava longe de partilhar desta confiança; e, enquanto se colocavam à mesa de whist, continuaram a discutir o assunto. Stuart e Flanagan jogavam juntos, enquanto Phileas Fogg tinha Fallentin como parceiro. À medida que o jogo prosseguia, a conversa cessava, exceto entre os rubbers, quando revivia novamente.

— Eu mantenho — disse Stuart — que as probabilidades estão a favor do ladrão, que deve ser um sujeito sagaz.

— Bem, mas para onde pode ele fugir? — perguntou Ralph. — Nenhum país é seguro para ele.

— Pche!

— Para onde poderia ele ir, então?

— Oh, não sei isso. O mundo é suficientemente grande.

— Já foi — disse Phileas Fogg, em tom baixo. — Corte, senhor — acrescentou, entregando as cartas a Thomas Flanagan.

A discussão caiu durante o rubber, após o qual Stuart retomou o fio da meada.

— O que quer dizer com “já foi”? O mundo tornou-se mais pequeno?

— Certamente — retorquiu Ralph. — Concordo com o Sr. Fogg. O mundo tornou-se mais pequeno, uma vez que um homem pode agora percorrê-lo dez vezes mais rapidamente do que há cem anos. E é por isso que a busca por este ladrão terá mais possibilidades de ser bem-sucedida.

— E também por que o ladrão pode fugir mais facilmente.

— Tenha a bondade de jogar, Sr. Stuart — disse Phileas Fogg.

Mas o incrédulo Stuart não estava convencido, e quando a mão terminou, disse ansiosamente: — Tem uma maneira estranha, Ralph, de provar que o mundo se tornou mais pequeno. Então, porque pode percorrê-lo em três meses...

— Em oitenta dias — interrompeu Phileas Fogg.

— Isso é verdade, cavalheiros — acrescentou John Sullivan. — Apenas oitenta dias, agora que a secção entre Rothal e Allahabad, na Great Indian Peninsula Railway, foi aberta. Eis o cálculo feito pelo Daily Telegraph:

De Londres a Suez via Mont Cenis e Brindisi, por caminho de ferro e barcos a vapor ................. 7 dias De Suez a Bombaim, por vapor .................... 13 ” De Bombaim a Calcutá, por caminho de ferro ......... 3 ” De Calcutá a Hong Kong, por vapor ............. 13 ” De Hong Kong a Yokohama (Japão), por vapor ..... 6 ” De Yokohama a São Francisco, por vapor ......... 22 ” De São Francisco a Nova Iorque, por caminho de ferro ............. 7 ” De Nova Iorque a Londres, por vapor e caminho de ferro ........ 9 ” ------- Total ............................................ 80 dias.

— Sim, em oitenta dias! — exclamou Stuart, que na sua excitação fez um corte falso. — Mas isso não tem em conta o mau tempo, ventos contrários, naufrágios, acidentes ferroviários, e por aí fora.

— Tudo incluído — retorquiu Phileas Fogg, continuando a jogar apesar da discussão.

— Mas suponha que os hindus ou os índios arrancam os carris — respondeu Stuart; — suponha que param os comboios, pilham as carruagens de bagagem e escalpelizam os passageiros!

— Tudo incluído — retorquiu calmamente Fogg; acrescentando, enquanto lançava as cartas, — Dois trunfos.

Stuart, a quem cabia a vez de dar, recolheu-as e prosseguiu: — Tem razão, teoricamente, Sr. Fogg, mas na prática...

— Na prática também, Sr. Stuart.

— Gostaria de o ver fazê-lo em oitenta dias.

— Depende de si. Vamos?

— O céu me livre! Mas apostaria quatro mil libras que tal viagem, feita nestas condições, é impossível.

— Muito possível, pelo contrário — retorquiu o Sr. Fogg.

— Bem, faça-a, então!

— A viagem à volta do mundo em oitenta dias?

— Sim.

— Não desejaria outra coisa.

— Quando?

— De imediato. Apenas o aviso de que a farei à sua custa.

— É um absurdo! — gritou Stuart, que começava a ficar incomodado com a persistência do seu amigo. — Vamos, continuemos com o jogo.

— Dê de novo, então — disse Phileas Fogg. — Há um corte falso.

Stuart pegou no maço com mão febril; depois, subitamente, pousou-o de novo.

— Bem, Sr. Fogg — disse ele —, que assim seja: apostarei as quatro mil nisso.

— Acalme-se, meu caro Stuart — disse Fallentin. — É apenas uma brincadeira.

— Quando digo que aposto — retorquiu Stuart —, falo a sério.

— Muito bem — disse o Sr. Fogg; e, voltando-se para os outros, continuou: — Tenho um depósito de vinte mil no Baring's que arriscarei voluntariamente nisso.

— Vinte mil libras! — gritou Sullivan. — Vinte mil libras, que perderia por um único atraso acidental!

— O imprevisto não existe — respondeu calmamente Phileas Fogg.

— Mas, Sr. Fogg, oitenta dias são apenas o cálculo do tempo mínimo possível em que a viagem pode ser feita.

— Um mínimo bem aproveitado basta para tudo.

— Mas, para não o exceder, tem de saltar matematicamente dos comboios para os vapores, e dos vapores de volta para os comboios.

— Saltarei — matematicamente.

— Está a brincar.

— Um verdadeiro inglês não brinca quando fala de uma coisa tão séria como uma aposta — respondeu Phileas Fogg, solenemente. — Apostarei vinte mil libras contra qualquer um que queira que farei a volta ao mundo em oitenta dias ou menos; em mil novecentos e vinte horas, ou cento e quinze mil e duzentos minutos. Aceita?

— Aceitamos — responderam os Srs. Stuart, Fallentin, Sullivan, Flanagan e Ralph, após consultarem-se uns aos outros.

— Bom — disse o Sr. Fogg. — O comboio parte para Dover às nove menos um quarto. Apanhá-lo-ei.

— Esta mesma noite? — perguntou Stuart.

— Esta mesma noite — retorquiu Phileas Fogg. Tirou e consultou um almanaque de bolso, e acrescentou: — Como hoje é quarta-feira, 2 de outubro, deverei estar em Londres, nesta mesma sala do Reform Club, no sábado, 21 de dezembro, às nove menos um quarto da noite; caso contrário, as vinte mil libras, agora depositadas em meu nome no Baring's, pertencer-vos-ão, de facto e de direito, cavalheiros. Aqui está um cheque pelo montante.

Um memorando da aposta foi imediatamente redigido e assinado pelas seis partes, durante o qual Phileas Fogg preservou uma compostura estoica. Certamente não apostou para ganhar, e apenas tinha arriscado as vinte mil libras, metade da sua fortuna, porque previa que poderia ter de despender a outra metade para levar a cabo este difícil, para não dizer inalcançável, projeto. Quanto aos seus antagonistas, pareciam muito agitados; não tanto pelo valor da sua aposta, mas porque tinham alguns escrúpulos em apostar sob condições tão difíceis para o seu amigo.

O relógio soou as sete, e os presentes ofereceram-se para suspender o jogo para que o Sr. Fogg pudesse fazer os seus preparativos para a partida.

— Estou pronto agora — foi a sua resposta tranquila. — Ouros são trunfos: tenham a bondade de jogar, cavalheiros.

CAPÍTULO IV. EM QUE PHILEAS FOGG SURPREENDE PASSEPARTOUT, O SEU SERVIÇAL

Tendo ganho vinte guinéus no whist, e despedido dos seus amigos, Phileas Fogg, às sete e vinte e cinco, deixou o Reform Club.

Passepartout, que tinha estudado conscienciosamente o programa dos seus deveres, ficou mais do que surpreendido ao ver o seu patrão culpado da inexatidão de aparecer a esta hora inabitual; pois, segundo a regra, ele não era esperado em Saville Row antes da meia-noite precisa.

O Sr. Fogg dirigiu-se ao seu quarto e chamou: — Passepartout!

Passepartout não respondeu. Não podia ser ele quem era chamado; não era a hora certa.

— Passepartout! — repetiu o Sr. Fogg, sem elevar a voz.

Passepartout fez a sua aparição.

— Chamei-o duas vezes — observou o seu patrão.

— Mas não é meia-noite — respondeu o outro, mostrando o seu relógio.

— Sei disso; não o culpo. Partimos para Dover e Calais em dez minutos.

Um sorriso perplexo espalhou-se pela cara redonda de Passepartout; claramente, ele não tinha compreendido o seu patrão.

— Monsieur vai deixar a casa?

— Sim — retorquiu Phileas Fogg. — Vamos dar a volta ao mundo.

Passepartout arregalou os olhos, levantou as sobrancelhas, ergueu as mãos e pareceu prestes a desfalecer, tão dominado estava por um espanto estupefacto.

— À volta ao mundo! — murmurou ele.

— Em oitenta dias — respondeu o Sr. Fogg. — Por isso não temos um momento a perder.

— Mas as malas? — ofegou Passepartout, inconscientemente balançando a cabeça da direita para a esquerda.

— Não teremos malas; apenas um saco de viagem, com duas camisas e três pares de meias para mim, e o mesmo para si. Compraremos a nossa roupa pelo caminho. Traga o meu impermeável e a capa de viagem, e uns sapatos resistentes, embora caminhemos pouco. Depressa!

Passepartout tentou responder, mas não conseguiu. Saiu, subiu para o seu próprio quarto, caiu numa cadeira e murmurou: — Essa é boa! E eu, que queria ficar sossegado!

Começou mecanicamente a fazer os preparativos para a partida. À volta ao mundo em oitenta dias! Seria o seu patrão um tolo? Não. Seria então uma brincadeira? Iam para Dover; bom! Para Calais; bom de novo! Afinal, Passepartout, que estava fora de França há cinco anos, não ficaria triste por pôr os pés na sua terra natal novamente. Talvez fossem até Paris, e faria bem aos seus olhos ver Paris mais uma vez. Mas, certamente, um cavalheiro tão poupado nos seus passos pararia ali; sem dúvida — mas, então, não deixava de ser verdade que ele ia embora, esta pessoa até agora tão caseira!

Às oito horas, Passepartout tinha arrumado o modesto saco de viagem, contendo os guarda-roupas do seu patrão e o seu; depois, ainda perturbado de espírito, fechou cuidadosamente a porta do seu quarto e desceu ter com o Sr. Fogg.

O Sr. Fogg estava pronto. Debaixo do seu braço podia observar-se um exemplar de capa vermelha do Bradshaw’s Continental Railway Steam Transit and General Guide, com os seus horários mostrando a chegada e partida de vapores e comboios. Pegou no saco de viagem, abriu-o e deslizou para dentro um bom maço de notas do Banco de Inglaterra, que passariam onde quer que ele fosse.

— Não se esqueceu de nada? — perguntou ele.

— Nada, monsieur.

— O meu impermeável e a capa?

— Aqui estão eles.

— Bom! Leve este saco de viagem — entregando-o a Passepartout. — Tenha muito cuidado com ele, pois há vinte mil libras lá dentro.

Passepartout quase deixou cair o saco, como se as vinte mil libras fossem em ouro e o pesassem.

Patrão e criado desceram então, a porta da rua foi trancada à chave, e no fim de Saville Row apanharam um táxi e conduziram rapidamente para Charing Cross. O táxi parou diante da estação ferroviária às oito e vinte. Passepartout saltou da boleia e seguiu o seu patrão, que, após pagar ao taxista, estava prestes a entrar na estação, quando uma pobre mendiga, com uma criança nos braços, os pés nus sujos de lama, a cabeça coberta por um capote miserável, do qual pendia uma pena esfarrapada, e os ombros envoltos num xale roto, aproximou-se e pediu esmola, pesarosa.

O Sr. Fogg tirou os vinte guinéus que tinha acabado de ganhar no whist, e entregou-os à mendiga, dizendo: — Aqui tem, minha boa mulher. Fico contente por a ter encontrado — e seguiu em frente.

Passepartout sentiu uma sensação húmida em volta dos olhos; o gesto do seu patrão tocou o seu coração suscetível.

Tendo sido rapidamente comprados dois bilhetes de primeira classe para Paris, o Sr. Fogg estava a atravessar a estação para o comboio, quando percebeu os seus cinco amigos do Reform.

— Bem, cavalheiros — disse ele —, vou partir, como veem; e, se examinarem o meu passaporte quando eu voltar, poderão julgar se cumpri a viagem acordada.

— Oh, isso seria totalmente desnecessário, Sr. Fogg — disse Ralph educadamente. — Confiaremos na sua palavra, como cavalheiro de honra.

— Não se esquece de quando é esperado em Londres novamente? — perguntou Stuart.

— Em oitenta dias; no sábado, 21 de dezembro de 1872, às nove menos um quarto da noite. Adeus, cavalheiros.

Phileas Fogg e o seu criado sentaram-se numa carruagem de primeira classe às oito e quarenta; cinco minutos depois o apito soou, e o comboio deslizou lentamente para fora da estação.

A noite estava escura e caía uma chuva fina e constante. Phileas Fogg, confortavelmente instalado no seu canto, não abriu os lábios. Passepartout, ainda não recuperado do seu estupor, agarrava-se mecanicamente ao saco de viagem, com o seu enorme tesouro.

Justo quando o comboio girava por Sydenham, Passepartout soltou subitamente um grito de desespero.

— O que se passa? — perguntou o Sr. Fogg.

— Ai! À pressa — eu — eu esqueci-me de...

— O quê?

— Apagar o gás do meu quarto!

— Muito bem, meu jovem — retorquiu o Sr. Fogg, friamente; — arderá — à sua custa.

CAPÍTULO V. EM QUE UMA NOVA ESPÉCIE DE FUNDOS, DESCONHECIDA DOS HOMENS DE DINHEIRO, APARECE NA BOLSA

Phileas Fogg suspeitava, com razão, que a sua partida de Londres criaria uma viva sensação no West End. A notícia da aposta espalhou-se pelo Reform Club e proporcionou um tópico de conversa excitante aos seus membros. Do clube chegou rapidamente aos jornais de toda a Inglaterra. A alardeada “volta ao mundo” era discutida, contestada e debatida com tanto calor como se o assunto fosse outra reclamação do Alabama. Alguns tomaram o partido de Phileas Fogg, mas a grande maioria abanava a cabeça e declarava-se contra ele; era absurdo, impossível, declaravam, que a volta ao mundo pudesse ser feita, exceto teoricamente e no papel, neste mínimo de tempo e com os meios de transporte existentes. O Times, Standard, Morning Post e Daily News, e vinte outros jornais altamente respeitáveis, ridicularizaram o projeto do Sr. Fogg como loucura; apenas o Daily Telegraph o apoiava hesitante. As pessoas em geral consideravam-no um lunático e censuravam os seus amigos do Reform Club por terem aceite uma aposta que denunciava a aberração mental do seu proponente.

Artigos não menos apaixonados do que lógicos apareceram sobre a questão, pois a geografia é um dos assuntos favoritos dos ingleses; e as colunas dedicadas ao empreendimento de Phileas Fogg eram devoradas avidamente por todas as classes de leitores. A princípio, alguns indivíduos imprudentes, principalmente do sexo feminino, abraçaram a sua causa, que se tornou ainda mais popular quando o Illustrated London News saiu com o seu retrato, copiado de uma fotografia no Reform Club. Alguns leitores do Daily Telegraph ousaram até dizer: — Por que não, afinal? Coisas mais estranhas já aconteceram.

Finalmente, apareceu um longo artigo, a 7 de outubro, no boletim da Royal Geographical Society, que tratava a questão de todos os pontos de vista e demonstrava a total loucura do empreendimento.

Tudo, dizia o artigo, estava contra os viajantes, cada obstáculo imposto tanto pelo homem como pela natureza. Um acordo milagroso dos tempos de partida e chegada, que era impossível, era absolutamente necessário para o seu sucesso. Ele poderia, talvez, contar com a chegada dos comboios às horas designadas, na Europa, onde as distâncias eram relativamente moderadas; mas quando calculava atravessar a Índia em três dias, e os Estados Unidos em sete, poderia ele confiar, sem receio, em cumprir a sua tarefa? Havia acidentes com a maquinaria, a possibilidade de os comboios descarrilarem, colisões, mau tempo, o bloqueio pela neve — não estaria tudo isto contra Phileas Fogg? Não se encontraria ele, ao viajar de vapor no inverno, à mercê dos ventos e nevoeiros? É incomum os melhores vapores oceânicos estarem dois ou três dias atrasados? Mas um único atraso bastaria para quebrar fatalmente a corrente de comunicação; caso Phileas Fogg perdesse uma vez, nem que fosse por uma hora, um vapor, teria de esperar pelo seguinte, e isso tornaria irrevogavelmente vã a sua tentativa.

Este artigo fez muito barulho e, sendo copiado para todos os jornais, deprimiu seriamente os defensores do turista imprudente.

Todos sabem que a Inglaterra é o mundo dos apostadores, que pertencem a uma classe superior à dos meros jogadores; apostar faz parte do temperamento inglês. Não apenas os membros do Reform, mas o público em geral, faziam pesadas apostas a favor ou contra Phileas Fogg, que era registrado nos livros de apostas como se fosse um cavalo de corrida. Títulos foram emitidos e fizeram sua aparição na Bolsa; "títulos Phileas Fogg" eram oferecidos pelo valor nominal ou com ágio, e um grande negócio foi feito com eles. Mas, cinco dias após o artigo no boletim da Sociedade Geográfica ter aparecido, a procura começou a diminuir: o "Phileas Fogg" caiu. Eram oferecidos em pacotes, primeiro de cinco, depois de dez, até que, finalmente, ninguém queria aceitar menos de vinte, cinquenta, cem!

Lord Albemarle, um cavalheiro idoso e paralítico, era agora o único defensor que restava a Phileas Fogg. Este nobre lorde, que vivia preso à sua poltrona, teria dado sua fortuna para ser capaz de dar a volta ao mundo, mesmo que levasse dez anos; e apostou cinco mil libras em Phileas Fogg. Quando a loucura, assim como a inutilidade da aventura, lhe era apontada, ele contentava-se em responder: "Se a coisa é exequível, o primeiro a fazê-la deve ser um inglês".

O partido de Fogg diminuía cada vez mais, todos iam contra ele, e as apostas estavam em cento e cinquenta e duzentos para um; e, uma semana após sua partida, ocorreu um incidente que o privou de apoiadores a qualquer preço.

O comissário de polícia estava sentado em seu escritório às nove horas de uma noite, quando o seguinte despacho telegráfico foi colocado em suas mãos:

Suez para Londres.

ROWAN, COMISSÁRIO DE POLÍCIA, SCOTLAND YARD: Encontrei o ladrão do banco, Phileas Fogg. Enviem sem demora mandado de prisão para Bombaim.

FIX, Detetive.

O efeito deste despacho foi instantâneo. O cavalheiro polido desapareceu para dar lugar ao ladrão do banco. Sua fotografia, que estava pendurada com as dos demais membros no Reform Club, foi minuciosamente examinada, e traía, traço por traço, a descrição do ladrão que havia sido fornecida à polícia. Os hábitos misteriosos de Phileas Fogg foram relembrados; seus modos solitários, sua partida repentina; e parecia claro que, ao empreender uma volta ao mundo sob o pretexto de uma aposta, ele não tivera outro fim em vista senão iludir os detetives e tirá-los de seu rastro.

CAPÍTULO VI. NO QUAL FIX, O DETETIVE, TRAI UMA IMPACIÊNCIA MUITO NATURAL

As circunstâncias sob as quais este despacho telegráfico sobre Phileas Fogg foi enviado eram as seguintes:

O vapor "Mongolia", pertencente à Peninsular and Oriental Company, construído de ferro, com duas mil e oitocentas toneladas de arqueação e quinhentos cavalos de potência, era esperado às onze horas da manhã de quarta-feira, 9 de outubro, em Suez. O "Mongolia" fazia regularmente a linha entre Brindisi e Bombaim via Canal de Suez, e era um dos vapores mais rápidos pertencentes à companhia, fazendo sempre mais de dez nós por hora entre Brindisi e Suez, e nove e meio entre Suez e Bombaim.

Dois homens passeavam de um lado para o outro nos cais, entre a multidão de nativos e estrangeiros que estavam hospedados nesta vila outrora dispersa — agora, graças ao empreendimento de M. Lesseps, uma cidade em rápido crescimento. Um era o cônsul britânico em Suez, que, apesar das profecias do governo inglês e das previsões desfavoráveis de Stephenson, tinha o hábito de ver, da janela de seu escritório, navios ingleses passando diariamente de um lado para o outro no grande canal, pelo qual a antiga rota sinuosa da Inglaterra para a Índia pelo Cabo da Boa Esperança foi abreviada em pelo menos a metade. O outro era um personagem pequeno, de constituição leve, com um rosto nervoso e inteligente, e olhos brilhantes observando sob sobrancelhas que ele contraía incessantemente. Ele estava agora manifestando sinais inequívocos de impaciência, andando nervosamente de um lado para o outro e incapaz de ficar parado por um momento. Este era Fix, um dos detetives que haviam sido despachados da Inglaterra em busca do ladrão do banco; era sua tarefa vigiar atentamente cada passageiro que chegava a Suez e seguir todos os que pareciam ser personagens suspeitos, ou que guardavam semelhança com a descrição do criminoso, que ele recebera dois dias antes da sede da polícia em Londres. O detetive estava evidentemente inspirado pela esperança de obter a esplêndida recompensa que seria o prêmio do sucesso, e aguardava com uma impaciência febril, fácil de compreender, a chegada do vapor "Mongolia".

"Então o senhor diz, cônsul", perguntou ele pela vigésima vez, "que este vapor nunca está atrasado?"

"Não, Sr. Fix", respondeu o cônsul. "Ele foi anunciado ontem em Port Said, e o restante do caminho não conta para uma embarcação dessas. Repito que o 'Mongolia' tem se antecipado ao tempo exigido pelos regulamentos da companhia, e ganho o prêmio concedido por excesso de velocidade."

"Ele vem diretamente de Brindisi?"

"Diretamente de Brindisi; ele recebe o correio da Índia lá, e partiu no sábado às cinco da tarde. Tenha paciência, Sr. Fix; ele não estará atrasado. Mas, na verdade, não vejo como, pela descrição que o senhor tem, será capaz de reconhecer seu homem, mesmo que ele esteja a bordo do 'Mongolia'."

"Um homem sente mais a presença desses sujeitos, cônsul, do que os reconhece. É preciso ter um faro para eles, e o faro é como um sexto sentido que combina ouvir, ver e cheirar. Já prendi mais de um desses cavalheiros em meu tempo e, se meu ladrão estiver a bordo, respondo por isso; ele não escapará por entre meus dedos."

"Espero que sim, Sr. Fix, pois foi um roubo vultoso."

"Um roubo magnífico, cônsul; cinquenta e cinco mil libras! Não costumamos ter essas surpresas. Os ladrões estão se tornando tão desprezíveis hoje em dia! Um sujeito é enforcado por um punhado de xelins!"

"Sr. Fix", disse o cônsul, "gosto do seu jeito de falar e espero que tenha sucesso; mas temo que achará muito longe de ser fácil. Não vê que a descrição que o senhor tem aí guarda uma semelhança singular com um homem honesto?"

"Cônsul", observou o detetive, dogmaticamente, "os grandes ladrões sempre se parecem com pessoas honestas. Sujeitos que têm rostos de patife só têm um caminho a seguir, que é permanecer honestos; caso contrário, seriam presos imediatamente. A arte está em desmascarar fisionomias honestas; não é uma tarefa fácil, admito, mas uma verdadeira arte."

O Sr. Fix evidentemente não carecia de uma ponta de vaidade.

Pouco a pouco, a cena no cais tornou-se mais animada; marinheiros de várias nações, mercadores, corretores de navios, carregadores, fellahs, moviam-se de um lado para o outro como se o vapor fosse esperado imediatamente. O tempo estava claro e ligeiramente frio. Os minaretes da cidade erguiam-se acima das casas nos raios pálidos do sol. Um molhe, com cerca de dois mil metros de extensão, estendia-se pela rada. Vários barcos de pesca e embarcações de cabotagem, algumas mantendo o estilo fantástico das galés antigas, eram visíveis no Mar Vermelho.

Ao passar pela multidão ocupada, Fix, segundo o hábito, examinava os transeuntes com um olhar aguçado e rápido.

Eram agora dez e meia.

"O vapor não vem!", exclamou ele, enquanto o relógio do porto batia.

"Não deve estar longe agora", respondeu seu companheiro.

"Quanto tempo ele ficará em Suez?"

"Quatro horas; tempo suficiente para carregar carvão. São mil trezentos e dez milhas de Suez a Aden, na outra extremidade do Mar Vermelho, e ele precisa receber um novo suprimento de carvão."

"E ele vai de Suez diretamente para Bombaim?"

"Sem fazer escalas."

"Bom!" disse Fix. "Se o ladrão estiver a bordo, sem dúvida desembarcará em Suez, para chegar às colônias holandesas ou francesas na Ásia por outra rota. Ele deve saber que não estaria seguro por uma hora na Índia, que é solo inglês."

"A menos", objetivou o cônsul, "que ele seja excepcionalmente astuto. Um criminoso inglês, sabe o senhor, está sempre melhor escondido em Londres do que em qualquer outro lugar."

Esta observação forneceu ao detetive alimento para reflexão e, enquanto isso, o cônsul retirou-se para seu escritório. Fix, deixado sozinho, estava mais impaciente do que nunca, tendo um pressentimento de que o ladrão estava a bordo do "Mongolia". Se ele realmente tivesse deixado Londres com a intenção de chegar ao Novo Mundo, ele naturalmente tomaria a rota via Índia, que era menos vigiada e mais difícil de vigiar do que a do Atlântico. Mas as reflexões de Fix foram logo interrompidas por uma sucessão de apitos agudos, que anunciavam a chegada do "Mongolia". Os carregadores e fellahs correram para o cais, e uma dúzia de barcos afastou-se da costa para ir ao encontro do vapor. Logo seu casco gigantesco apareceu passando entre as margens, e onze horas soaram quando ele ancorou na rada. Ele trazia um número incomum de passageiros, alguns dos quais permaneceram no convés para examinar o pitoresco panorama da cidade, enquanto a maior parte desembarcava nos barcos e chegava ao cais.

Fix assumiu uma posição e examinou cuidadosamente cada rosto e figura que aparecia. Logo, um dos passageiros, após abrir caminho vigorosamente pela multidão importuna de carregadores, aproximou-se dele e perguntou educadamente se poderia indicar o consulado inglês, mostrando ao mesmo tempo um passaporte que desejava ver visado. Fix instintivamente pegou o passaporte e, com um olhar rápido, leu a descrição de seu portador. Um movimento involuntário de surpresa quase lhe escapou, pois a descrição no passaporte era idêntica à do ladrão do banco que ele recebera da Scotland Yard.

"Este é o seu passaporte?", perguntou ele.

"Não, é do meu patrão."

"E seu patrão é..."

"Ele ficou a bordo."

"Mas ele deve ir pessoalmente ao cônsul, para estabelecer sua identidade."

"Oh, isso é necessário?"

"Absolutamente indispensável."

"E onde fica o consulado?"

"Ali, na esquina da praça", disse Fix, apontando para uma casa a duzentos passos de distância.

"Vou buscar meu patrão, que não ficará muito satisfeito, contudo, em ser perturbado."

O passageiro curvou-se para Fix e retornou ao vapor.

CAPÍTULO VII. QUE MAIS UMA VEZ DEMONSTRA A INUTILIDADE DOS PASSAPORTES COMO AUXÍLIOS AOS DETETIVES

O detetive passou pelo cais e dirigiu-se rapidamente ao escritório do cônsul, onde foi admitido imediatamente à presença daquela autoridade.

"Cônsul", disse ele, sem preâmbulos, "tenho fortes razões para acreditar que meu homem é passageiro do 'Mongolia'." E narrou o que acabara de passar a respeito do passaporte.

"Bem, Sr. Fix", respondeu o cônsul, "não ficarei triste em ver o rosto do patife; mas talvez ele não venha aqui — isso se ele for a pessoa que o senhor supõe. Um ladrão não gosta muito de deixar rastros de sua fuga para trás; e, além disso, ele não é obrigado a ter seu passaporte visado."

"Se ele for tão astuto quanto penso que é, cônsul, ele virá."

"Para ter seu passaporte visado?"

"Sim. Passaportes só servem para incomodar pessoas honestas e ajudar na fuga de patifes. Garanto-lhe que será exatamente o que ele fará; mas espero que o senhor não vise o passaporte."

"Por que não? Se o passaporte é autêntico, não tenho o direito de recusar."

"Ainda assim, devo manter este homem aqui até que possa obter um mandado de prisão de Londres."

"Ah, isso é um problema seu. Mas eu não posso..."

O cônsul não terminou a frase, pois, enquanto falava, ouviu-se uma batida na porta e dois estranhos entraram, um dos quais era o criado que Fix encontrara no cais. O outro, que era seu patrão, estendeu seu passaporte com o pedido de que o cônsul lhe fizesse o favor de visá-lo. O cônsul pegou o documento e leu-o cuidadosamente, enquanto Fix observava, ou melhor, devorava o estranho com os olhos de um canto da sala.

"O senhor é o Sr. Phileas Fogg?", disse o cônsul, após ler o passaporte.

"Sou."

"E este homem é seu criado?"

"É: um francês, chamado Passepartout."

"O senhor vem de Londres?"

"Sim."

"E o senhor vai..."

"Para Bombaim."

"Muito bem, senhor. O senhor sabe que um visto é inútil e que nenhum passaporte é exigido?"

"Eu sei, senhor", respondeu Phileas Fogg; "mas desejo provar, com seu visto, que passei por Suez."

"Muito bem, senhor."

O cônsul procedeu a assinar e datar o passaporte, após o que acrescentou seu selo oficial. O Sr. Fogg pagou a taxa habitual, curvou-se friamente e saiu, seguido por seu criado.

"Bem?", perguntou o detetive.

"Bem, ele parece e age como um homem perfeitamente honesto", respondeu o cônsul.

"Possivelmente; mas essa não é a questão. O senhor acha, cônsul, que este cavalheiro fleumático se parece, traço por traço, com o ladrão cuja descrição recebi?"

"Admito isso; mas, sabe o senhor, todas as descrições..."

"Terei certeza disso", interrompeu Fix. "O criado parece-me menos misterioso que o patrão; além disso, é francês e não pode evitar de falar. Perdoe-me por um momento, cônsul."

Fix partiu em busca de Passepartout.

Enquanto isso, o Sr. Fogg, após deixar o consulado, dirigiu-se ao cais, deu algumas ordens a Passepartout, foi para o "Mongolia" em um barco e desceu para sua cabine. Ele pegou seu caderno, que continha as seguintes anotações:

"Partida de Londres, quarta-feira, 2 de outubro, às 20h45. Chegada a Paris, quinta-feira, 3 de outubro, às 7h20. Partida de Paris, quinta-feira, às 8h40. Chegada a Turim pelo Mont Cenis, sexta-feira, 4 de outubro, às 6h35. Partida de Turim, sexta-feira, às 7h20. Chegada a Brindisi, sábado, 5 de outubro, às 16h. Embarque no 'Mongolia', sábado, às 17h. Chegada a Suez, quarta-feira, 9 de outubro, às 11h. Total de horas gastas, 158½; ou, em dias, seis dias e meio."

Estas datas estavam inscritas em um itinerário dividido em colunas, indicando o mês, o dia do mês e o dia para as chegadas estipuladas e reais em cada ponto principal — Paris, Brindisi, Suez, Bombaim, Calcutá, Singapura, Hong Kong, Yokohama, São Francisco, Nova York e Londres — do dia 2 de outubro ao dia 21 de dezembro; e dando espaço para anotar o ganho obtido ou a perda sofrida na chegada a cada localidade. Este registro metódico continha, assim, uma conta de tudo o que era necessário, e o Sr. Fogg sempre sabia se estava atrasado ou adiantado em relação ao seu tempo. Nesta sexta-feira, 9 de outubro, ele anotou sua chegada a Suez e observou que ainda não havia ganhado nem perdido. Sentou-se tranquilamente para o café da manhã em sua cabine, sem pensar uma única vez em inspecionar a cidade, sendo um daqueles ingleses que costumam ver países estrangeiros através dos olhos de seus empregados.

CAPÍTULO VIII. NO QUAL PASSEPARTOUT FALA TALVEZ MAIS DO QUE O PRUDENTE

Fix logo reencontrou Passepartout, que estava vagueando e olhando ao redor no cais, como se não sentisse que ele, pelo menos, fosse obrigado a não ver nada.

"Bem, meu amigo", disse o detetive, aproximando-se dele, "seu passaporte está visado?"

"Ah, é o senhor, monsieur?", respondeu Passepartout. "Obrigado, sim, o passaporte está em ordem."

"E o senhor está olhando ao redor?"

"Sim; mas viajamos tão rápido que parece que estou viajando em um sonho. Então, isso é Suez?"

"Sim."

"No Egito?"

"Certamente, no Egito."

"E na África?"

"Na África."

"Na África!", repetiu Passepartout. "Pense bem, monsieur, eu não tinha ideia de que iríamos mais longe do que Paris; e tudo o que vi de Paris foi entre as sete e vinte da manhã e as nove menos vinte da manhã, entre as estações do Norte e de Lyon, através das janelas de um carro, e sob uma chuva torrencial! Como me arrependo de não ter visto mais uma vez o Père Lachaise e o circo nos Champs Élysées!"

"O senhor está com muita pressa, então?"

"Eu não, mas meu patrão está. A propósito, preciso comprar sapatos e camisas. Saímos sem malas, apenas com uma bolsa de viagem."

"Vou mostrar-lhe uma excelente loja para conseguir o que precisa."

"Realmente, monsieur, o senhor é muito gentil."

E eles partiram juntos, Passepartout conversando voluvelmente enquanto caminhavam.

"Acima de tudo", disse ele, "não deixe que eu perca o vapor."

"O senhor tem tempo de sobra; são apenas meio-dia."

Passepartout puxou seu grande relógio. "Meio-dia!", exclamou ele; "ora, são apenas dez para as dez."

"Seu relógio está atrasado."

"Meu relógio? Um relógio de família, monsieur, que vem do meu bisavô! Ele não varia cinco minutos no ano. É um cronômetro perfeito, veja bem."

"Já vejo como é", disse Fix. "O senhor manteve o horário de Londres, que está duas horas atrás do de Suez. O senhor deveria acertar seu relógio ao meio-dia em cada país."

"Eu, acertar meu relógio? Nunca!"

"Bem, então ele não concordará com o sol."

"Tanto pior para o sol, monsieur. O sol é que estará errado, então!"

E o digno rapaz devolveu o relógio ao bolso com um gesto desafiador. Após alguns minutos de silêncio, Fix retomou: "O senhor deixou Londres apressadamente, então?"

"Eu diria que sim! Na última sexta-feira, às oito horas da noite, Monsieur Fogg chegou em casa vindo de seu clube, e três quartos de hora depois nós partimos."

"Mas para onde seu patrão vai?"

"Sempre em frente. Ele vai dar a volta ao mundo."

"Dar a volta ao mundo?", gritou Fix.

"Sim, e em oitenta dias! Ele diz que é por causa de uma aposta; mas, entre nós, não acredito em uma palavra disso. Isso não seria senso comum. Tem alguma outra coisa no ar."

"Ah! O Sr. Fogg é uma figura, não é?"

"Eu diria que sim."

"Ele é rico?"

"Sem dúvida, pois carrega uma soma enorme em notas novas com ele. E ele não economiza o dinheiro no caminho, também: ele ofereceu uma grande recompensa ao engenheiro do 'Mongolia' se ele nos levar a Bombaim bem adiantado."

"E o senhor conhece seu patrão há muito tempo?"

"Ora, não; entrei para seu serviço no mesmo dia em que deixamos Londres."

O efeito dessas respostas sobre o já suspeito e excitado detetive pode ser imaginado. A partida apressada de Londres logo após o roubo; a grande soma carregada pelo Sr. Fogg; sua pressa em chegar a países distantes; o pretexto de uma aposta excêntrica e temerária — tudo confirmou Fix em sua teoria. Ele continuou a sondar o pobre Passepartout e descobriu que ele realmente sabia pouco ou nada de seu patrão, que vivia uma existência solitária em Londres, dizia-se que era rico, embora ninguém soubesse de onde vinham suas riquezas, e era misterioso e impenetrável em seus negócios e hábitos. Fix sentiu certeza de que Phileas Fogg não desembarcaria em Suez, mas que estava realmente indo para Bombaim.

"Bombaim é longe daqui?", perguntou Passepartout.

"Bastante longe. São dez dias de viagem pelo mar."

"E em que país fica Bombaim?"

"Índia."

"Na Ásia?"

"Certamente."

"Diabos! Eu ia lhe dizer que há uma coisa que me preocupa — meu queimador!"

"Que queimador?"

"Meu queimador de gás, que esqueci de desligar, e que está neste momento queimando por minha conta. Calculei, monsieur, que perco dois xelins a cada vinte e quatro horas, exatamente seis pence a mais do que ganho; e o senhor compreenderá que quanto mais longa for nossa viagem..."

Fix deu alguma atenção à preocupação de Passepartout com o gás? Não é provável. Ele não estava ouvindo, mas estava cogitando um projeto. Passepartout e ele chegaram à loja, onde Fix deixou seu companheiro para fazer suas compras, após recomendar-lhe que não perdesse o vapor, e apressou-se a voltar ao consulado. Agora que estava plenamente convencido, Fix recuperara totalmente sua equanimidade.

"Cônsul", disse ele, "não tenho mais nenhuma dúvida. Encontrei meu homem. Ele se faz passar por um excêntrico que vai dar a volta ao mundo em oitenta dias."

"Então ele é um sujeito esperto", respondeu o cônsul, "e conta com retornar a Londres depois de tirar a polícia dos dois países de seu rastro."

"Veremos sobre isso", respondeu Fix.

"Mas o senhor não se enganou?"

"Não me enganei."

"Por que este ladrão estava tão ansioso para provar, pelo visto, que havia passado por Suez?"

"Por quê? Não faço ideia; mas escute-me."

Ele relatou em poucas palavras as partes mais importantes de sua conversa com Passepartout.

"Em suma", disse o cônsul, "as aparências estão totalmente contra este homem. E o que o senhor vai fazer?"

“Envie um despacho a Londres para que um mandado de prisão seja enviado imediatamente a Bombaim, tome passagem a bordo do ‘Mongolia’, siga o meu patife até a Índia e lá, em solo inglês, prenda-o polidamente, com o meu mandado na mão e a minha mão em seu ombro.”

Tendo proferido estas palavras com um ar frio e descuidado, o detetive despediu-se do cônsul e dirigiu-se à estação telegráfica, de onde enviou o despacho que vimos para a delegacia de polícia de Londres. Um quarto de hora depois, Fix encontrava-se, com uma pequena mala na mão, a bordo do “Mongolia”; e, pouco tempo depois, o nobre navio a vapor navegava a todo o vapor sobre as águas do Mar Vermelho.

CAPÍTULO IX. NO QUAL O MAR VERMELHO E O OCEANO ÍNDICO SE MOSTRAM PROPÍCIOS AOS PLANOS DE PHILEAS FOGG

A distância entre Suez e Aden é de precisamente mil trezentas e dez milhas, e os regulamentos da companhia permitem aos vapores cento e trinta e oito horas para percorrê-la. O “Mongolia”, graças aos vigorosos esforços do engenheiro, parecia propenso, tão rápida era a sua velocidade, a chegar ao seu destino consideravelmente antes desse prazo. A maior parte dos passageiros de Brindisi destinava-se à Índia, alguns para Bombaim, outros para Calcutá via Bombaim, a rota mais próxima dali, agora que uma ferrovia atravessa a península indiana. Entre os passageiros havia vários funcionários e oficiais militares de diversos graus, sendo estes últimos vinculados às forças britânicas regulares ou comandando as tropas dos Sipaios, recebendo altos salários desde que o governo central assumiu os poderes da Companhia das Índias Orientais: pois os subtenentes ganham £ 280, os brigadeiros, £ 2.400, e os generais de divisão, £ 4.000. Entre os militares, vários jovens ingleses ricos em suas viagens e os esforços hospitaleiros do comissário, o tempo passou rapidamente no “Mongolia”. O melhor da comida era servido nas mesas da cabine no café da manhã, almoço, jantar e na ceia das oito horas, e as senhoras trocavam escrupulosamente seus trajes duas vezes ao dia; e as horas eram passadas, quando o mar estava tranquilo, com música, dança e jogos.

Mas o Mar Vermelho é cheio de caprichos e frequentemente agitado, como a maioria dos golfos longos e estreitos. Quando o vento vinha da costa africana ou asiática, o “Mongolia”, com seu casco longo, balançava terrivelmente. Então, as senhoras desapareciam rapidamente para baixo; os pianos silenciavam; o canto e a dança cessavam subitamente. No entanto, o bom navio seguia em frente, sem ser retardado pelo vento ou pelas ondas, em direção ao estreito de Bab-el-Mandeb. O que fazia Phileas Fogg durante todo esse tempo? Poder-se-ia pensar que, em sua ansiedade, ele estaria constantemente observando as mudanças do vento, o furor desordenado das ondas — enfim, qualquer imprevisto que pudesse forçar o “Mongolia” a diminuir sua velocidade e, assim, interromper sua jornada. Mas, se ele pensava nessas possibilidades, não traía o fato por nenhum sinal externo.

Sempre o mesmo membro impassível do Reform Club, a quem nenhum incidente poderia surpreender, tão invariável quanto os cronômetros do navio, e raramente tendo a curiosidade de sequer subir ao convés, ele atravessou as cenas memoráveis do Mar Vermelho com fria indiferença; não se importou em reconhecer as cidades e aldeias históricas que, ao longo de suas margens, elevavam seus contornos pitorescos contra o céu; e não demonstrou medo dos perigos do Golfo Arábico, sobre os quais os antigos historiadores sempre falavam com horror, e nos quais os antigos navegadores nunca se aventuravam sem propiciar os deuses com amplos sacrifícios. Como esse personagem excêntrico passava seu tempo no “Mongolia”? Ele fazia suas quatro refeições fartas todos os dias, sem se importar com o balanço e o arfagem mais persistentes por parte do vapor; e jogava uíste incansavelmente, pois encontrara parceiros tão entusiasmados com o jogo quanto ele. Um coletor de impostos, a caminho de seu posto em Goa; o reverendo Decimus Smith, retornando à sua paróquia em Bombaim; e um brigadeiro-general do exército inglês, que estava prestes a se juntar à sua brigada em Benares, formavam o grupo e, com o Sr. Fogg, jogavam uíste por horas a fio em silêncio absorto.

Quanto a Passepartout, ele também escapara do enjoo e fazia suas refeições conscientemente na cabine de vante. Ele até gostava da viagem, pois estava bem alimentado e bem acomodado, interessava-se muito pelas cenas pelas quais passavam e consolava-se com a ilusão de que o capricho de seu patrão terminaria em Bombaim. Ficou satisfeito, no dia seguinte à partida de Suez, ao encontrar no convés a pessoa prestativa com quem caminhara e conversara nos cais.

“Se não me engano”, disse ele, aproximando-se dessa pessoa com seu sorriso mais amável, “o senhor é o cavalheiro que tão gentilmente se ofereceu para me guiar em Suez?”

“Ah! Reconheço-o perfeitamente. O senhor é o criado do estranho inglês—”

“Exatamente, monsieur—”

“Fix.”

“Monsieur Fix”, retomou Passepartout, “estou encantado em encontrá-lo a bordo. Para onde vai?”

“Como o senhor, para Bombaim.”

“Isso é excelente! Já fez esta viagem antes?”

“Várias vezes. Sou um dos agentes da Peninsular Company.”

“Então conhece a Índia?”

“Ora, sim”, respondeu Fix, que falava com cautela.

“Um lugar curioso, esta Índia?”

“Oh, muito curioso. Mesquitas, minaretes, templos, faquires, pagodes, tigres, cobras, elefantes! Espero que o senhor tenha bastante tempo para ver os pontos turísticos.”

“Espero que sim, Monsieur Fix. Sabe, um homem de bom senso não deve passar a vida pulando de um navio a vapor para um trem ferroviário, e de um trem ferroviário novamente para um navio a vapor, fingindo dar a volta ao mundo em oitenta dias! Não; toda essa ginástica, pode ter certeza, terminará em Bombaim.”

“E o Sr. Fogg está indo bem?”, perguntou Fix, no tom mais natural do mundo.

“Muito bem, e eu também. Como como um ogro faminto; é o ar do mar.”

“Mas nunca vejo seu patrão no convés.”

“Nunca; ele não tem a menor curiosidade.”

“Sabe, Sr. Passepartout, que essa pretensa volta em oitenta dias pode esconder algum objetivo secreto — talvez uma missão diplomática?”

“Pela fé, Monsieur Fix, garanto-lhe que não sei nada sobre isso, nem daria meio centavo para descobrir.”

Após esse encontro, Passepartout e Fix ganharam o hábito de conversar, sendo que este último fazia questão de ganhar a confiança do digno homem. Frequentemente, oferecia-lhe um copo de uísque ou cerveja clara no bar do vapor, que Passepartout nunca deixava de aceitar com graciosa presteza, classificando mentalmente Fix como o melhor dos bons companheiros.

Enquanto isso, o “Mongolia” avançava rapidamente; no dia 13, avistou-se Mocha, cercada por suas muralhas em ruínas onde cresciam tamareiras, e nas montanhas além avistaram-se vastos cafezais. Passepartout ficou encantado ao contemplar este lugar célebre e pensou que, com suas muralhas circulares e forte desmantelado, parecia uma imensa xícara de café e pires. Na noite seguinte, atravessaram o Estreito de Bab-el-Mandeb, que significa em árabe “A Porta das Lágrimas”, e no dia seguinte atracaram em Steamer Point, a noroeste do porto de Aden, para reabastecer com carvão. Esta questão de abastecer vapores é séria a tais distâncias das minas de carvão; custa à Peninsular Company cerca de oitocentas mil libras por ano. Nestes mares distantes, o carvão vale três ou quatro libras esterlinas a tonelada.

O “Mongolia” ainda tinha mil seiscentas e cinquenta milhas a percorrer antes de chegar a Bombaim, e foi obrigado a permanecer quatro horas em Steamer Point para carregar carvão. Mas este atraso, como fora previsto, não afetou o programa de Phileas Fogg; além disso, o “Mongolia”, em vez de chegar a Aden na manhã do dia 15, como era esperado, chegou na noite do dia 14, um ganho de quinze horas.

O Sr. Fogg e seu criado desembarcaram em Aden para que o passaporte fosse novamente vistado; Fix, sem ser notado, seguiu-os. Obtido o visto, o Sr. Fogg retornou a bordo para retomar seus hábitos anteriores; enquanto Passepartout, conforme o costume, passeava entre a população mista de somalis, banias, parses, judeus, árabes e europeus que compõem os vinte e cinco mil habitantes de Aden. Ele observava com admiração as fortificações que fazem deste lugar o Gibraltar do Oceano Índico, e as vastas cisternas onde os engenheiros ingleses ainda estavam trabalhando, dois mil anos depois dos engenheiros de Salomão.

“Muito curioso, muito curioso”, dizia Passepartout para si mesmo, ao retornar ao navio. “Vejo que não é nada inútil viajar, se um homem quer ver algo novo.” Às seis da tarde, o “Mongolia” moveu-se lentamente para fora do ancoradouro e estava novamente no Oceano Índico. Ele tinha cento e sessenta e oito horas para chegar a Bombaim, e o mar estava favorável, com o vento no noroeste, e todas as velas auxiliando o motor. O vapor balançava pouco, as senhoras, em trajes frescos, reapareceram no convés, e o canto e a dança foram retomados. A viagem estava sendo realizada com o maior sucesso, e Passepartout estava encantado com o companheiro afável que o acaso lhe garantira na pessoa do encantador Fix. No domingo, 20 de outubro, por volta do meio-dia, avistaram a costa indiana: duas horas depois, o prático subiu a bordo. Uma cordilheira de colinas desenhava-se contra o céu no horizonte, e logo as fileiras de palmeiras que adornam Bombaim tornaram-se visíveis. O vapor entrou na estrada formada pelas ilhas na baía e, às quatro e meia, atracou nos cais de Bombaim.

Phileas Fogg estava prestes a terminar a trigésima terceira partida de uíste da viagem, e seu parceiro e ele, por um lance audacioso, capturaram todas as treze vazas, concluindo esta bela campanha com uma vitória brilhante.

O “Mongolia” era esperado em Bombaim no dia 22; chegou no dia 20. Isso representou um ganho de dois dias para Phileas Fogg desde sua partida de Londres, e ele registrou calmamente o fato no itinerário, na coluna dos ganhos.

CAPÍTULO X. NO QUAL PASSEPARTOUT FICA FELIZ DEMAIS POR SAIR COM A PERDA DE SEUS SAPATOS

Todo mundo sabe que o grande triângulo invertido de terra, com sua base no norte e seu vértice no sul, chamado Índia, abrange um milhão e quatrocentos mil milhas quadradas, sobre as quais está espalhada desigualmente uma população de cento e oitenta milhões de almas. A Coroa Britânica exerce um domínio real e despótico sobre a maior parte deste vasto país, e tem um governador-geral estacionado em Calcutá, governadores em Madras, Bombaim e em Bengala, e um vice-governador em Agra.

Mas a Índia Britânica, propriamente dita, abrange apenas setecentas mil milhas quadradas, e uma população de cem a cento e dez milhões de habitantes. Uma parte considerável da Índia ainda está livre da autoridade britânica; e há certos rajás ferozes no interior que são absolutamente independentes. A célebre Companhia das Índias Orientais foi todo-poderosa desde 1756, quando os ingleses ganharam pela primeira vez uma posição no local onde hoje se ergue a cidade de Madras, até o tempo da grande insurreição dos Sipaios. Ela anexou gradualmente província após província, comprando-as dos chefes nativos, a quem raramente pagava, e nomeava o governador-geral e seus subordinados, civis e militares. Mas a Companhia das Índias Orientais agora desapareceu, deixando as possessões britânicas na Índia diretamente sob o controle da Coroa. O aspecto do país, assim como os costumes e as distinções de raça, mudam diariamente.

Antigamente, era preciso viajar na Índia pelos antigos métodos incômodos de ir a pé ou a cavalo, em liteiras ou carruagens pesadas; agora, navios a vapor rápidos navegam no Indo e no Ganges, e uma grande ferrovia, com linhas secundárias unindo a linha principal em muitos pontos de sua rota, atravessa a península de Bombaim a Calcutá em três dias. Esta ferrovia não segue uma linha reta através da Índia. A distância entre Bombaim e Calcutá, em linha reta, é de apenas mil a mil e cem milhas; mas os desvios da estrada aumentam essa distância em mais de um terço.

A rota geral da Great Indian Peninsula Railway é a seguinte: saindo de Bombaim, passa por Salcete, atravessando para o continente em frente a Tannah, sobe a cadeia dos Gates Ocidentais, segue então para o nordeste até Burhampoor, contorna o território quase independente de Bundelcund, sobe até Allahabad, vira então para o leste, encontrando o Ganges em Benares, depois se afasta um pouco do rio e, descendo para o sudeste por Burdivan e a cidade francesa de Chandernagor, tem seu ponto terminal em Calcutá.

Os passageiros do “Mongolia” desembarcaram às quatro e meia da tarde; exatamente às oito, o trem partiria para Calcutá.

O Sr. Fogg, após se despedir de seus parceiros de uíste, deixou o navio, deu ao seu criado várias tarefas para fazer, insistiu que ele estivesse na estação pontualmente às oito e, com seu passo regular, que batia no segundo, como um relógio astronômico, dirigiu seus passos para o escritório de passaportes. Quanto às maravilhas de Bombaim — sua famosa prefeitura, sua esplêndida biblioteca, seus fortes e docas, seus bazares, mesquitas, sinagogas, suas igrejas armênias e o nobre pagode em Malabar Hill, com suas duas torres poligonais — ele não se importava um pingo em vê-los. Ele não se dignaria a examinar sequer as obras-primas de Elephanta, ou os misteriosos hipogeus, escondidos a sudeste das docas, ou aqueles belos restos da arquitetura budista, as grutas Kanherianas da ilha de Salcete.

Tendo tratado de seus negócios no escritório de passaportes, Phileas Fogg dirigiu-se calmamente à estação ferroviária, onde pediu o jantar. Entre os pratos que lhe serviram, o proprietário recomendou especialmente um certo miúdo de “coelho nativo”, do qual ele se orgulhava.

O Sr. Fogg provou, consequentemente, o prato, mas, apesar de seu molho condimentado, achou-o longe de ser apetitoso. Ele chamou o proprietário e, ao vê-lo aparecer, disse, fixando seus olhos claros nele: “Isto é coelho, senhor?”

“Sim, milorde”, respondeu o patife audaciosamente, “coelho das selvas.”

“E este coelho não miou quando foi morto?”

“Miar, milorde! O quê, um coelho miar! Juro-lhe—”

“Seja tão gentil, proprietário, como não jurar, mas lembre-se disto: os gatos eram antigamente considerados, na Índia, como animais sagrados. Esse foi um bom tempo.”

“Para os gatos, milorde?”

“Talvez para os viajantes também!”

Após o que o Sr. Fogg continuou calmamente seu jantar. Fix havia desembarcado pouco depois do Sr. Fogg, e seu primeiro destino foi o quartel-general da polícia de Bombaim. Ele se identificou como um detetive de Londres, contou seus negócios em Bombaim e a situação dos assuntos em relação ao suposto ladrão, e perguntou nervosamente se um mandado havia chegado de Londres. Não havia chegado ao escritório; de fato, ainda não havia tempo para que chegasse. Fix ficou profundamente desapontado e tentou obter uma ordem de prisão do diretor da polícia de Bombaim. Isso o diretor recusou, pois o assunto dizia respeito ao escritório de Londres, que sozinho poderia entregar legalmente o mandado. Fix não insistiu e teve que se resignar a esperar pela chegada do importante documento; mas estava determinado a não perder de vista o misterioso patife enquanto ele permanecesse em Bombaim. Ele não duvidou por um momento, assim como Passepartout, que Phileas Fogg permaneceria lá, pelo menos até que chegasse a hora de o mandado chegar.

Passepartout, no entanto, mal ouvira as ordens de seu patrão ao deixar o “Mongolia” quando percebeu imediatamente que eles deixariam Bombaim como fizeram com Suez e Paris, e que a jornada seria estendida pelo menos até Calcutá, e talvez além daquele lugar. Ele começou a se perguntar se essa aposta de que o Sr. Fogg falava não era realmente séria, e se o seu destino não estava, na verdade, forçando-o, apesar de seu amor pelo repouso, a dar a volta ao mundo em oitenta dias!

Tendo comprado a cota habitual de camisas e sapatos, ele fez um passeio tranquilo pelas ruas, onde multidões de pessoas de muitas nacionalidades — europeus, persas com gorros pontudos, banias com turbantes redondos, sindes com gorros quadrados, parses com mitras pretas e armênios de longas túnicas — estavam reunidas. Por acaso, era o dia de um festival Parse. Esses descendentes da seita de Zoroastro — os mais econômicos, civilizados, inteligentes e austeros dos indianos orientais, entre os quais se contam os mais ricos mercadores nativos de Bombaim — celebravam uma espécie de carnaval religioso, com procissões e espetáculos, em meio aos quais dançarinas indianas, vestidas com gaze cor-de-rosa, presas com ouro e prata, dançavam levemente, mas com perfeita modéstia, ao som de violas e ao clangor de pandeiros. É desnecessário dizer que Passepartout observou essas cerimônias curiosas com olhos arregalados e boca aberta, e que seu semblante era o do mais ingênuo bobalhão imaginável.

Infelizmente para seu patrão, assim como para si mesmo, sua curiosidade levou-o inconscientemente mais longe do que pretendia. Finalmente, tendo visto o carnaval Parse desaparecer à distância, ele voltava seus passos em direção à estação, quando por acaso avistou o esplêndido pagode em Malabar Hill e foi tomado por um desejo irresistível de ver seu interior. Ele ignorava completamente que é proibido aos cristãos entrar em certos templos indianos, e que mesmo os fiéis não devem entrar sem antes deixar seus sapatos do lado de fora da porta. Pode-se dizer aqui que a sábia política do governo britânico pune severamente o desrespeito às práticas das religiões nativas.

Passepartout, no entanto, não pensando em mal algum, entrou como um simples turista e logo se perdeu em admiração pela esplêndida ornamentação bramânica que encontrava por toda parte, quando de repente se viu estatelado sobre o pavimento sagrado. Ele olhou para cima para ver três sacerdotes enfurecidos, que imediatamente atacaram-no; arrancaram seus sapatos e começaram a espancá-lo com exclamações selvagens e ruidosas. O ágil francês logo estava de pé novamente e não perdeu tempo em derrubar dois de seus adversários de longas túnicas com seus punhos e uma aplicação vigorosa de seus pés; então, correndo para fora do pagode tão rápido quanto suas pernas podiam carregar, ele logo escapou do terceiro sacerdote misturando-se à multidão nas ruas.

Cinco minutos antes das oito, Passepartout, sem chapéu, sem sapatos e tendo, na briga, perdido seu pacote de camisas e sapatos, entrou ofegante na estação.

Fix, que seguira o Sr. Fogg até a estação e viu que ele realmente ia deixar Bombaim, estava lá, na plataforma. Ele resolvera seguir o suposto ladrão até Calcutá, e mais longe, se necessário. Passepartout não observou o detetive, que estava em um canto obscuro; mas Fix ouviu-o relatar suas aventuras em poucas palavras ao Sr. Fogg.

“Espero que isso não aconteça novamente”, disse Phileas Fogg friamente, enquanto entrava no trem. O pobre Passepartout, bastante desanimado, seguiu seu patrão sem dizer uma palavra. Fix estava prestes a entrar em outro vagão, quando uma ideia lhe ocorreu que o induziu a mudar seu plano.

“Não, vou ficar”, murmurou ele. “Uma ofensa foi cometida em solo indiano. Peguei meu homem.”

Justo então, a locomotiva deu um guincho agudo e o trem partiu para a escuridão da noite.

CAPÍTULO XI. NO QUAL PHILEAS FOGG CONSEGUE UM CURIOSO MEIO DE TRANSPORTE POR UM PREÇO FABULOSO

O trem havia partido pontualmente. Entre os passageiros encontravam-se vários oficiais, funcionários do Governo e comerciantes de ópio e índigo, cujos negócios os chamavam à costa leste. Passepartout viajava na mesma carruagem que seu patrão, e um terceiro passageiro ocupava um assento em frente a eles. Tratava-se de Sir Francis Cromarty, um dos parceiros de whist do Sr. Fogg no “Mongolia”, que agora seguia para se apresentar ao seu corpo em Benares. Sir Francis era um homem alto, de tez clara e cinquenta anos, que se distinguira grandemente na última revolta dos Cipaios. Fizera da Índia o seu lar, fazendo apenas breves visitas à Inglaterra em intervalos raros; e conhecia quase tão bem quanto um nativo os costumes, a história e o caráter da Índia e de seu povo. Mas Phileas Fogg, que não viajava, mas apenas descrevia uma circunferência, não se deu ao trabalho de indagar sobre esses assuntos; ele era um corpo sólido, percorrendo uma órbita ao redor do globo terrestre, de acordo com as leis da mecânica racional. Estava, naquele momento, calculando em sua mente o número de horas transcorridas desde sua partida de Londres e, se fosse de sua natureza fazer uma demonstração inútil, teria esfregado as mãos de satisfação. Sir Francis Cromarty observara a singularidade de seu companheiro de viagem — embora a única oportunidade que tivera de estudá-lo fosse enquanto ele distribuía as cartas, entre dois rubbers — e questionava-se se um coração humano realmente batia sob aquele exterior frio, e se Phileas Fogg tinha qualquer senso das belezas da natureza. O brigadeiro-general sentia-se livre para confessar mentalmente que, de todas as pessoas excêntricas que já encontrara, nenhuma era comparável a esse produto das ciências exatas.

Phileas Fogg não ocultara de Sir Francis seu projeto de dar a volta ao mundo, nem as circunstâncias sob as quais partira; e o general via na aposta apenas uma excentricidade inútil e uma falta de bom senso. Do jeito que esse estranho cavalheiro seguia, ele deixaria o mundo sem ter feito qualquer bem a si mesmo ou a qualquer outra pessoa.

Uma hora após sair de Bombaim, o trem passara pelos viadutos e pela Ilha de Salcette, e alcançara o campo aberto. Em Callyan, chegaram à junção da linha ramal que desce em direção ao sudeste da Índia por Kandallah e Pounah; e, passando por Pauwell, entraram nas gargantas das montanhas, com suas bases de basalto e seus cumes coroados por florestas densas e verdejantes. Phileas Fogg e Sir Francis Cromarty trocavam algumas palavras de tempos em tempos, e agora Sir Francis, reavivando a conversa, observou: “Alguns anos atrás, Sr. Fogg, o senhor teria encontrado um atraso neste ponto que provavelmente lhe teria feito perder sua aposta.”

“Como assim, Sir Francis?”

“Porque a ferrovia parava na base destas montanhas, que os passageiros eram obrigados a atravessar em liteiras ou em pôneis até Kandallah, do outro lado.”

“Tal atraso não teria atrapalhado meus planos nem um pouco”, disse o Sr. Fogg. “Previ constantemente a probabilidade de certos obstáculos.”

“Mas, Sr. Fogg”, prosseguiu Sir Francis, “o senhor corre o risco de ter alguma dificuldade com a aventura deste seu digno empregado no pagode.” Passepartout, com os pés confortavelmente envoltos em seu cobertor de viagem, estava em sono profundo e não sonhava que alguém estivesse falando sobre ele. “O Governo é muito severo com esse tipo de ofensa. Toma cuidado especial para que os costumes religiosos dos indianos sejam respeitados, e se seu criado for pego—”

“Muito bem, Sir Francis”, respondeu o Sr. Fogg; “se ele tivesse sido pego, teria sido condenado e punido, e então teria retornado tranquilamente para a Europa. Não vejo como esse caso poderia ter atrasado seu patrão.”

A conversa cessou novamente. Durante a noite, o trem deixou as montanhas para trás e passou por Nassik, e no dia seguinte seguiu pelo país plano e bem cultivado de Khandeish, com suas aldeias dispersas, sobre as quais se erguiam os minaretes dos pagodes. Este território fértil é irrigado por numerosos rios pequenos e riachos límpidos, em sua maioria afluentes do Godavery.

Passepartout, ao acordar e olhar para fora, não conseguia acreditar que estava realmente atravessando a Índia em um trem de ferro. A locomotiva, guiada por um engenheiro inglês e alimentada com carvão inglês, lançava sua fumaça sobre plantações de algodão, café, noz-moscada, cravo e pimenta, enquanto o vapor se enrolava em espirais ao redor de grupos de palmeiras, em meio aos quais se viam bangalôs pitorescos, viharis (espécie de mosteiros abandonados) e templos maravilhosos enriquecidos pela ornamentação inesgotável da arquitetura indiana. Depois, depararam-se com vastas extensões que chegavam ao horizonte, com selvas habitadas por cobras e tigres, que fugiam ao ruído do trem; seguidas por florestas penetradas pela ferrovia, e ainda assombradas por elefantes que, com olhos pensativos, observavam o trem passar. Os viajantes cruzaram, depois de Milligaum, o país fatal tantas vezes manchado de sangue pelos sectários da deusa Kali. Não muito longe erguia-se Ellora, com seus pagodes graciosos, e a famosa Aurungabad, capital do feroz Aureng-Zeb, agora a principal cidade de uma das províncias destacadas do reino do Nizam. Era por ali que Feringhea, o chefe Thuggee, rei dos estranguladores, exercia seu domínio. Esses rufiões, unidos por um vínculo secreto, estrangulavam vítimas de todas as idades em honra à deusa Morte, sem nunca derramar sangue; houve um período em que essa parte do país mal podia ser percorrida sem que corpos fossem encontrados em toda parte. O governo inglês conseguiu diminuir muito esses assassinatos, embora os Thuggees ainda existam e persigam o exercício de seus ritos horríveis.

Às doze e meia, o trem parou em Burhampoor, onde Passepartout pôde comprar alguns chinelos indianos, ornamentados com pérolas falsas, nos quais, com evidente vaidade, procedeu a calçar os pés. Os viajantes fizeram um café da manhã apressado e partiram para Assurghur, após contornar por um pouco as margens do pequeno rio Tapty, que deságua no Golfo de Cambay, perto de Surat.

Passepartout estava agora mergulhado em profunda reverência. Até sua chegada a Bombaim, alimentara esperanças de que a viagem terminaria ali; mas, agora que estavam claramente atravessando a Índia a toda velocidade, uma mudança súbita ocorrera no espírito de seus sonhos. Sua velha natureza de vagabundo retornara a ele; as ideias fantásticas de sua juventude tomaram posse dele mais uma vez. Ele passou a considerar o projeto de seu patrão como pretendido a sério, acreditou na realidade da aposta e, portanto, na volta ao mundo e na necessidade de fazê-la impreterivelmente dentro do período designado. Já começava a se preocupar com possíveis atrasos e acidentes que pudessem acontecer no caminho. Reconhecia-se pessoalmente interessado na aposta e tremia ao pensar que poderia ter sido o meio de perdê-la por sua imperdoável loucura da noite anterior. Sendo muito menos sangue-frio que o Sr. Fogg, estava muito mais inquieto, contando e recontando os dias passados, proferindo maldições quando o trem parava e acusando-o de lentidão, e mentalmente culpando o Sr. Fogg por não ter subornado o engenheiro. O digno rapaz ignorava que, embora fosse possível por tais meios apressar a velocidade de um vapor, isso não poderia ser feito na ferrovia.

O trem entrou nas gargantas das Montanhas Sutpour, que separam o Khandeish de Bundelcund, ao anoitecer. No dia seguinte, Sir Francis Cromarty perguntou a Passepartout que horas eram; ao que, consultando seu relógio, ele respondeu que eram três da manhã. Este famoso relógio, sempre regulado pelo meridiano de Greenwich, que agora estava a cerca de setenta e sete graus a oeste, estava pelo menos quatro horas atrasado. Sir Francis corrigiu o horário de Passepartout, ao que este fez a mesma observação que fizera a Fix; e insistindo o general que o relógio deveria ser regulado em cada novo meridiano, já que estava constantemente indo para o leste, isto é, em frente ao sol, e portanto os dias eram mais curtos em quatro minutos para cada grau percorrido, Passepartout obstinadamente recusou-se a alterar seu relógio, que mantinha no horário de Londres. Era uma ilusão inocente que não podia prejudicar ninguém.

O trem parou, às oito horas, no meio de uma clareira a cerca de quinze milhas depois de Rothal, onde havia vários bangalôs e cabanas de operários. O condutor, passando pelas carruagens, gritou: “Os passageiros desembarcarão aqui!”

Phileas Fogg olhou para Sir Francis Cromarty em busca de uma explicação; mas o general não sabia o que significava uma parada no meio daquela floresta de tâmaras e acácias.

Passepartout, não menos surpreso, saiu correndo e rapidamente retornou, gritando: “Monsieur, não há mais ferrovia!”

“O que quer dizer?”, perguntou Sir Francis.

“Quero dizer que o trem não vai continuar.”

O general imediatamente desceu, enquanto Phileas Fogg o seguia calmamente, e eles seguiram juntos até o condutor.

“Onde estamos?”, perguntou Sir Francis.

“No vilarejo de Kholby.”

“Paramos aqui?”

“Certamente. A ferrovia não está terminada.”

“O quê! Não está terminada?”

“Não. Ainda faltam cinquenta milhas para serem assentadas daqui até Allahabad, onde a linha começa novamente.”

“Mas os jornais anunciaram a abertura da ferrovia por completo.”

“O que o senhor quer, oficial? Os jornais estavam enganados.”

“No entanto, vocês vendem passagens de Bombaim a Calcutá”, retrucou Sir Francis, que estava ficando exaltado.

“Sem dúvida”, respondeu o condutor; “mas os passageiros sabem que devem providenciar meios de transporte por conta própria de Kholby a Allahabad.”

Sir Francis estava furioso. Passepartout teria derrubado o condutor de bom grado, e não ousava olhar para seu patrão.

“Sir Francis”, disse o Sr. Fogg calmamente, “vamos, se lhe agradar, procurar algum meio de transporte para Allahabad.”

“Sr. Fogg, este é um atraso muito desvantajoso para o senhor.”

“Não, Sir Francis; foi previsto.”

“O quê! O senhor sabia que o caminho—”

“De forma alguma; mas eu sabia que algum obstáculo ou outro surgir-se-ia mais cedo ou mais tarde em minha rota. Nada, portanto, está perdido. Tenho dois dias, que já ganhei, para sacrificar. Um vapor sai de Calcutá para Hong Kong ao meio-dia, no dia 25. Hoje é dia 22, e chegaremos a Calcutá a tempo.”

Não havia nada a dizer a uma resposta tão confiante.

Era verdade que a ferrovia chegava ao fim naquele ponto. Os jornais eram como certos relógios, que têm o hábito de adiantar, e tinham sido prematuros em seu anúncio da conclusão da linha. A maior parte dos viajantes estava ciente dessa interrupção e, deixando o trem, começaram a contratar os veículos que o vilarejo pudesse fornecer: palkigharis de quatro rodas, carroças puxadas por zebus, carruagens que pareciam pagodes ambulantes, liteiras, pôneis e o que mais houvesse.

O Sr. Fogg e Sir Francis Cromarty, após vasculharem o vilarejo de ponta a ponta, voltaram sem ter encontrado nada.

“Irei a pé”, disse Phileas Fogg.

Passepartout, que agora se juntara ao seu patrão, fez uma careta, ao pensar em seus magníficos, porém demasiado frágeis sapatos indianos. Felizmente, ele também estivera olhando ao seu redor e, após um momento de hesitação, disse: “Monsieur, acho que encontrei um meio de transporte.”

“O quê?”

“Um elefante! Um elefante que pertence a um indiano que vive a apenas cem passos daqui.”

“Vamos ver o elefante”, respondeu o Sr. Fogg.

Logo chegaram a uma pequena cabana, perto da qual, cercado por algumas estacas altas, estava o animal em questão. Um indiano saiu da cabana e, a pedido deles, conduziu-os para dentro do cercado. O elefante, que seu dono criara não para ser uma besta de carga, mas para fins bélicos, estava semidomesticado. O indiano já começara, por irritá-lo frequentemente e alimentá-lo a cada três meses com açúcar e manteiga, a incutir-lhe uma ferocidade não inerente à sua natureza, método este frequentemente empregado por aqueles que treinam elefantes indianos para a batalha. Felizmente, porém, para o Sr. Fogg, a instrução do animal nessa direção não fora longe, e o elefante ainda preservava sua mansidão natural. Kiouni — este era o nome da fera — podia, sem dúvida, viajar rapidamente por muito tempo e, na falta de qualquer outro meio de transporte, o Sr. Fogg resolveu alugá-lo. Mas elefantes estão longe de ser baratos na Índia, onde estão se tornando escassos; os machos, que são os únicos adequados para espetáculos de circo, são muito procurados, especialmente porque poucos deles são domesticados. Portanto, quando o Sr. Fogg propôs ao indiano alugar Kiouni, ele recusou categoricamente. O Sr. Fogg persistiu, oferecendo a soma excessiva de dez libras por hora pelo empréstimo da besta até Allahabad. Recusado. Vinte libras? Recusado também. Quarenta libras? Ainda recusado. Passepartout saltava a cada oferta; mas o indiano não se deixou tentar. No entanto, a oferta era sedutora, pois, supondo que o elefante levasse quinze horas para chegar a Allahabad, seu dono receberia nada menos que seiscentas libras esterlinas.

Phileas Fogg, sem se exaltar minimamente, propôs então comprar o animal, e de início ofereceu mil libras por ele. O indiano, talvez pensando que ia fazer um grande negócio, ainda recusou.

Sir Francis Cromarty levou o Sr. Fogg de lado e pediu-lhe que refletisse antes de ir mais longe; ao que aquele cavalheiro respondeu que não tinha o hábito de agir precipitadamente, que uma aposta de vinte mil libras estava em jogo, que o elefante era absolutamente necessário para ele, e que ele o garantiria mesmo que tivesse que pagar vinte vezes o seu valor. Retornando ao indiano, cujos olhos pequenos e agudos, brilhando de avareza, traíam que para ele se tratava apenas da questão de qual preço poderia obter, o Sr. Fogg ofereceu primeiro mil e duzentas, depois mil e quinhentas, mil e oitocentas, duas mil libras. Passepartout, geralmente tão rubicundo, estava quase branco de suspense.

Por duas mil libras, o indiano cedeu.

“Que preço, meu Deus!”, exclamou Passepartout, “por um elefante.”

Restava agora encontrar um guia, o que era comparativamente fácil. Um jovem parsi, com um rosto inteligente, ofereceu seus serviços, que o Sr. Fogg aceitou, prometendo uma recompensa tão generosa a ponto de estimular materialmente seu zelo. O elefante foi trazido para fora e equipado. O parsi, que era um habilidoso condutor de elefantes, cobriu suas costas com uma espécie de sela e prendeu a cada um de seus flancos alguns howdahs curiosamente desconfortáveis. Phileas Fogg pagou ao indiano com algumas notas bancárias que extraiu da famosa bolsa de tapete, um procedimento que pareceu arrancar as entranhas do pobre Passepartout. Então, ofereceu levar Sir Francis a Allahabad, o que o brigadeiro aceitou com gratidão, já que mais um viajante não seria provável de cansar a besta gigantesca. Provisões foram compradas em Kholby e, enquanto Sir Francis e o Sr. Fogg ocupavam os howdahs de cada lado, Passepartout montou a sela entre eles. O parsi empoleirou-se no pescoço do elefante e, às nove horas, partiram do vilarejo, com o animal marchando através da densa floresta de palmeiras pelo caminho mais curto.

CAPÍTULO XII. NO QUAL PHILEAS FOGG E SEUS COMPANHEIROS SE AVENTURAM ATRAVÉS DAS FLORESTAS INDIANAS, E O QUE SE SEGUIU

Para encurtar a jornada, o guia passou à esquerda da linha onde a ferrovia ainda estava em processo de construção. Essa linha, devido às voltas caprichosas das Montanhas Vindhia, não seguia um curso reto. O parsi, que conhecia muito bem as estradas e caminhos do distrito, declarou que ganhariam vinte milhas cortando diretamente através da floresta.

Phileas Fogg e Sir Francis Cromarty, mergulhados até o pescoço nos peculiares howdahs providenciados para eles, eram horrivelmente sacudidos pelo trote veloz do elefante, estimulado como era pelo habilidoso parsi; mas eles suportavam o desconforto com verdadeiro fleuma britânico, falando pouco e mal conseguindo ver um ao outro. Quanto a Passepartout, que estava montado nas costas da besta e recebia a força direta de cada impacto enquanto ele caminhava, teve muito cuidado, de acordo com o conselho de seu patrão, de manter a língua fora de entre os dentes, pois, caso contrário, teria sido cortada curta. O digno rapaz saltava do pescoço do elefante para sua garupa e saltava como um palhaço em um trampolim; no entanto, ele ria no meio de seus pulos e, de vez em quando, tirava um pedaço de açúcar do bolso e o inseria na tromba de Kiouni, que o recebia sem diminuir nem um pouco seu trote regular.

Após duas horas, o guia parou o elefante e deu-lhe uma hora para descanso, durante a qual Kiouni, após saciar a sede em uma fonte próxima, pôs-se a devorar os galhos e arbustos ao seu redor. Nem Sir Francis nem o Sr. Fogg lamentaram o atraso, e ambos desceram com uma sensação de alívio. “Ora, ele é feito de ferro!”, exclamou o general, olhando admirado para Kiouni.

“De ferro forjado”, respondeu Passepartout, enquanto se preparava para preparar um café da manhã apressado.

Ao meio-dia, o parsi deu o sinal de partida. O país logo apresentou um aspecto muito selvagem. Bosques de tâmaras e palmeiras anãs sucederam as florestas densas; depois, vastas planícies secas, pontilhadas com arbustos escassos e semeadas com grandes blocos de sienito. Toda esta porção de Bundelcund, que é pouco frequentada por viajantes, é habitada por uma população fanática, endurecida nas práticas mais horríveis da fé hindu. Os ingleses não conseguiram garantir o domínio completo sobre este território, que está sujeito à influência de rajás, a quem é quase impossível alcançar em seus inacessíveis refúgios nas montanhas. Os viajantes viram várias vezes bandos de indianos ferozes que, quando percebiam o elefante atravessando o campo, faziam movimentos agressivos e ameaçadores. O parsi evitava-os tanto quanto possível. Poucos animais foram observados na rota; até os macacos fugiam do caminho deles com contorções e caretas que convulsionavam Passepartout de tanto rir.

Em meio à sua alegria, porém, um pensamento incomodava o digno criado. O que o Sr. Fogg faria com o elefante quando chegasse a Allahabad? Ele o levaria consigo? Impossível! O custo de transportá-lo torná-lo-ia ruinosamente caro. Ele o venderia ou o libertaria? A estimável besta certamente merecia alguma consideração. Se o Sr. Fogg escolhesse presenteá-lo, Passepartout, com Kiouni, ele ficaria muito embaraçado; e esses pensamentos não pararam de preocupá-lo por muito tempo.

A principal cadeia das Vindhias foi cruzada às oito da noite, e outra parada foi feita na encosta norte, em um bangalô em ruínas. Eles tinham percorrido quase vinte e cinco milhas naquele dia, e uma distância igual ainda os separava da estação de Allahabad.

A noite estava fria. O parsi acendeu uma fogueira no bangalô com alguns galhos secos, e o calor foi muito agradável, as provisões compradas em Kholby bastaram para o jantar, e os viajantes comeram vorazmente. A conversa, começando com algumas frases desconexas, logo deu lugar a roncos altos e constantes. O guia vigiava Kiouni, que dormia em pé, apoiando-se no tronco de uma grande árvore. Nada ocorreu durante a noite para perturbar os adormecidos, embora rosnados ocasionais de panteras e tagarelices de macacos quebrassem o silêncio; as feras mais formidáveis não deram gritos ou demonstração hostil contra os ocupantes do bangalô. Sir Francis dormia profundamente, como um soldado honesto vencido pela fadiga. Passepartout estava envolto em sonhos inquietos com os pulos do dia anterior. Quanto ao Sr. Fogg, ele adormeceu tão pacificamente como se estivesse em sua serena mansão em Saville Row.

A jornada foi retomada às seis da manhã; o guia esperava chegar a Allahabad até a noite. Nesse caso, o Sr. Fogg perderia apenas uma parte das quarenta e oito horas economizadas desde o início da turnê. Kiouni, retomando seu passo rápido, logo desceu as encostas inferiores das Vindhias e, por volta do meio-dia, passaram pelo vilarejo de Kallenger, no Cani, um dos braços do Ganges. O guia evitava lugares habitados, achando mais seguro manter-se em campo aberto, que se estende ao longo das primeiras depressões da bacia do grande rio. Allahabad estava agora a apenas doze milhas a nordeste. Eles pararam sob um aglomerado de bananas, cujo fruto, tão saudável quanto o pão e tão suculento quanto o creme, foi amplamente saboreado e apreciado.

Às duas horas, o guia entrou em uma floresta densa que se estendia por várias milhas; ele preferia viajar sob a cobertura das matas. Eles não tinham tido até então nenhum encontro desagradável, e a jornada parecia estar prestes a ser concluída com sucesso, quando o elefante, ficando inquieto, parou subitamente.

Eram então quatro horas.

“Qual é o problema?”, perguntou Sir Francis, colocando a cabeça para fora.

“Não sei, oficial”, respondeu o parsi, escutando atentamente um murmúrio confuso que vinha através dos galhos espessos.

O murmúrio logo tornou-se mais distinto; parecia agora um concerto distante de vozes humanas acompanhado por instrumentos de metal. Passepartout era todo olhos e ouvidos. O Sr. Fogg aguardava pacientemente, sem dizer uma palavra. O parsi saltou para o solo, prendeu o elefante a uma árvore e mergulhou na mata. Ele logo retornou, dizendo:

“Uma procissão de brâmanes vem por este caminho. Devemos evitar que nos vejam, se possível.”

O guia soltou o elefante e conduziu-o para um matagal, pedindo ao mesmo tempo que os viajantes não se mexessem. Ele manteve-se pronto para montar o animal a qualquer momento, caso a fuga se tornasse necessária; mas, evidentemente, pensava que a procissão dos fiéis passaria sem percebê-los em meio à folhagem densa, na qual estavam totalmente ocultos.

Os tons discordantes das vozes e instrumentos aproximaram-se, e agora cânticos monótonos misturavam-se ao som dos tamborins e címbalos. A cabeça da procissão logo apareceu sob as árvores, a cem passos de distância; e as figuras estranhas que realizavam a cerimônia religiosa eram facilmente distinguíveis através dos galhos. Primeiro vieram os sacerdotes, com mitras nas cabeças e vestidos com longas túnicas de renda. Eram rodeados por homens, mulheres e crianças, que cantavam uma espécie de salmo lúgubre, interrompido em intervalos regulares pelos tamborins e címbalos; enquanto atrás deles era puxado um carro com grandes rodas, cujos raios representavam serpentes entrelaçadas umas às outras. Sobre o carro, que era puxado por quatro zebus ricamente ajaezados, estava uma estátua hedionda de quatro braços, o corpo colorido de um vermelho baço, com olhos esgazeados, cabelos despenteados, língua protuberante e lábios tingidos de bétele. Ela estava ereta sobre a figura de um gigante prostrado e decapitado.

Sir Francis, reconhecendo a estátua, sussurrou: “A deusa Kali; a deusa do amor e da morte.”

“Da morte, talvez”, murmurou de volta Passepartout, “mas do amor — aquela bruxa velha e feia? Jamais!”

O parsi fez um gesto para que fizessem silêncio.

Um grupo de velhos faquires saltitava e fazia uma algazarra selvagem ao redor da estátua; estes estavam riscados de ocre e cobertos de cortes de onde o sangue saía gota a gota — fanáticos estúpidos que, nas grandes cerimônias indianas, ainda se lançam sob as rodas de Juggernaut. Alguns brâmanes, vestidos com toda a suntuosidade dos trajes orientais e conduzindo uma mulher que vacilava a cada passo, seguiam atrás. Esta mulher era jovem e clara como uma europeia. Sua cabeça e pescoço, ombros, orelhas, braços, mãos e dedos dos pés estavam carregados de joias e gemas, com braceletes, brincos e anéis; enquanto uma túnica bordada de ouro, coberta por um leve roupão de musselina, revelava o contorno de sua forma.

Os guardas que seguiam a jovem mulher apresentavam um contraste violento com ela, armados como estavam com sabres nus pendurados à cintura e longas pistolas damascenadas, e carregando um cadáver em um palanquim. Era o corpo de um velho, ricamente trajado com as vestes de um rajá, usando, como em vida, um turbante bordado com pérolas, uma túnica de tecido de seda e ouro, um xale de caxemira costurado com diamantes e as magníficas armas de um príncipe hindu. Em seguida vinham os músicos e uma retaguarda de faquires saltitantes, cujos gritos por vezes abafavam o ruído dos instrumentos; estes fechavam a procissão.

Sir Francis observou o cortejo com semblante triste e, voltando-se para o guia, disse: “Um suttee.”

O parsi assentiu e colocou o dedo sobre os lábios. A procissão serpenteou lentamente sob as árvores e logo suas últimas fileiras desapareceram nas profundezas da floresta. Os cânticos foram morrendo gradualmente; ocasionalmente ouviam-se gritos à distância, até que, por fim, tudo voltou a ser silêncio.

Phileas Fogg tinha ouvido o que Sir Francis disse e, assim que a procissão desapareceu, perguntou: “O que é um suttee?”

“Um suttee”, respondeu o general, “é um sacrifício humano, mas um sacrifício voluntário. A mulher que você acabou de ver será queimada amanhã, ao amanhecer.”

“Oh, os patifes!” exclamou Passepartout, que não conseguiu reprimir sua indignação.

“E o cadáver?” perguntou o Sr. Fogg.

“É o do príncipe, seu marido”, disse o guia; “um rajá independente de Bundelcund.”

“É possível”, retomou Phileas Fogg, com sua voz não traindo a menor emoção, “que esses costumes bárbaros ainda existam na Índia e que os ingleses tenham sido incapazes de pôr um fim neles?”

“Esses sacrifícios não ocorrem na maior parte da Índia”, respondeu Sir Francis; “mas não temos poder sobre esses territórios selvagens, e especialmente aqui em Bundelcund. Todo o distrito ao norte das montanhas Vindhias é o teatro de assassinatos e pilhagens incessantes.”

“A pobre desgraçada!” exclamou Passepartout, “ser queimada viva!”

“Sim”, respondeu Sir Francis, “queimada viva. E, se não fosse, você não pode conceber a que tratamento ela seria obrigada a se submeter por parte de seus parentes. Eles raspariam seu cabelo, alimentá-la-iam com uma escassa ração de arroz, tratá-la-iam com desprezo; ela seria vista como uma criatura impura e morreria em algum canto, como um cão sarnento. A perspectiva de uma existência tão terrível leva essas pobres criaturas ao sacrifício muito mais do que o amor ou o fanatismo religioso. Às vezes, contudo, o sacrifício é realmente voluntário, e requer a interferência ativa do governo para impedi-lo. Vários anos atrás, quando eu morava em Bombaim, uma jovem viúva pediu permissão ao governador para ser queimada junto com o corpo de seu marido; mas, como você pode imaginar, ele recusou. A mulher deixou a cidade, refugiou-se com um rajá independente e lá cumpriu seu propósito autodevotado.”

Enquanto Sir Francis falava, o guia balançou a cabeça várias vezes e disse agora: “O sacrifício que acontecerá amanhã ao amanhecer não é voluntário.”

“Como você sabe?”

“Todo mundo sabe deste assunto em Bundelcund.”

“Mas a criatura infeliz não parecia estar oferecendo qualquer resistência”, observou Sir Francis.

“Isso porque eles a intoxicaram com vapores de cânhamo e ópio.”

“Mas para onde estão levando-a?”

“Para o pagode de Pillaji, a duas milhas daqui; ela passará a noite lá.”

“E o sacrifício acontecerá—”

“Amanhã, às primeiras luzes da alvorada.”

O guia conduziu então o elefante para fora do matagal e saltou sobre seu pescoço. Exatamente no momento em que ele estava prestes a instigar Kiouni a seguir em frente com um assobio peculiar, o Sr. Fogg deteve-o e, voltando-se para Sir Francis Cromarty, disse: “Suponhamos que salvemos esta mulher.”

“Salvar a mulher, Sr. Fogg!”

“Ainda tenho doze horas de sobra; posso dedicá-las a isso.”

“Ora, você é um homem de coração!”

“Às vezes”, respondeu Phileas Fogg, calmamente; “quando tenho tempo.”

CAPÍTULO XIII. NO QUAL PASSEPARTOUT RECEBE UMA NOVA PROVA DE QUE A FORTUNA FAVORECE OS BRAVOS

O projeto era ousado, cheio de dificuldades, talvez impraticável. O Sr. Fogg ia arriscar a vida, ou pelo menos a liberdade, e, portanto, o sucesso de sua viagem. Mas ele não hesitou, e encontrou em Sir Francis Cromarty um aliado entusiasta.

Quanto a Passepartout, ele estava pronto para qualquer coisa que pudesse ser proposta. A ideia de seu mestre encantou-o; ele percebeu um coração, uma alma, sob aquele exterior gelado. Ele começou a amar Phileas Fogg.

Restava o guia: que curso ele adotaria? Não tomaria o partido dos indianos? Na falta de sua assistência, era necessário assegurar sua neutralidade.

Sir Francis colocou francamente a questão para ele.

“Oficiais”, respondeu o guia, “sou um parsi, e esta mulher é uma parsi. Comandem-me como quiserem.”

“Excelente!” disse o Sr. Fogg.

“Contudo”, retomou o guia, “é certo, não apenas que arriscaremos nossas vidas, mas também torturas horríveis, se formos capturados.”

“Isso está previsto”, respondeu o Sr. Fogg. “Acho que devemos esperar até a noite antes de agir.”

“Eu acho que sim”, disse o guia.

O digno indiano deu então algumas informações sobre a vítima, que, segundo ele, era uma beleza célebre da raça parsi e filha de um rico comerciante de Bombaim. Ela havia recebido uma educação completamente inglesa naquela cidade e, por suas maneiras e inteligência, seria considerada uma europeia. Seu nome era Aouda. Deixada órfã, foi casada contra a sua vontade com o velho rajá de Bundelcund; e, conhecendo o destino que a aguardava, ela escapou, foi recapturada e destinada pelos parentes do rajá, que tinham interesse em sua morte, ao sacrifício do qual parecia que ela não poderia escapar.

A narrativa do parsi apenas confirmou o Sr. Fogg e seus companheiros em seu desígnio generoso. Ficou decidido que o guia deveria direcionar o elefante para o pagode de Pillaji, ao qual ele, consequentemente, aproximou-se o mais rápido possível. Eles pararam, meia hora depois, em um bosque, a uns quinhentos pés do pagode, onde estavam bem escondidos; mas podiam ouvir os gemidos e gritos dos faquires distintamente.

Eles discutiram então os meios de chegar à vítima. O guia estava familiarizado com o pagode de Pillaji, no qual, como ele declarou, a jovem mulher estava aprisionada. Poderiam eles entrar por alguma de suas portas enquanto todo o grupo de indianos estivesse mergulhado em um sono ébrio, ou seria mais seguro tentar fazer um buraco nas paredes? Isso só poderia ser determinado no momento e no local, mas era certo que o rapto deveria ser feito naquela noite, e não quando, ao romper do dia, a vítima fosse levada para sua pira funerária. Então nenhuma intervenção humana poderia salvá-la.

Assim que a noite caiu, por volta das seis horas, decidiram fazer um reconhecimento ao redor do pagode. Os gritos dos faquires estavam apenas cessando; os indianos estavam no ato de se mergulhar na embriaguez causada pelo ópio líquido misturado com cânhamo, e poderia ser possível deslizar entre eles até o próprio templo.

O parsi, liderando os outros, rastejou silenciosamente através da floresta e, em dez minutos, encontraram-se nas margens de um pequeno riacho, de onde, à luz das tochas de resina, perceberam uma pira de madeira, sobre a qual jazia o corpo embalsamado do rajá, que deveria ser queimado com sua esposa. O pagode, cujos minaretes pairavam acima das árvores no crepúsculo que se aprofundava, ficava a cem passos de distância.

“Venham!” sussurrou o guia.

Ele deslizou mais cautelosamente do que nunca através do mato, seguido por seus companheiros; o silêncio ao redor era apenas quebrado pelo baixo murmúrio do vento entre os galhos.

Logo o parsi parou nas margens da clareira, que era iluminada pelas tochas. O solo estava coberto por grupos de indianos, imóveis em seu sono ébrio; parecia um campo de batalha repleto de mortos. Homens, mulheres e crianças jaziam juntos.

Ao fundo, entre as árvores, o pagode de Pillaji pairava distintamente. Para grande desapontamento do guia, os guardas do rajá, iluminados por tochas, vigiavam nas portas e marchavam de um lado para o outro com sabres nus; provavelmente os sacerdotes também vigiavam lá dentro.

O parsi, agora convencido de que era impossível forçar uma entrada no templo, não avançou mais, mas conduziu seus companheiros de volta. Phileas Fogg e Sir Francis Cromarty também viram que nada poderia ser tentado naquela direção. Eles pararam e engajaram-se em um colóquio sussurrado.

“São apenas oito horas agora”, disse o brigadeiro, “e esses guardas podem também cair no sono.”

“Não é impossível”, respondeu o parsi.

Eles deitaram-se ao pé de uma árvore e esperaram.

O tempo parecia longo; o guia de tempos em tempos deixava-os para fazer uma observação na borda da floresta, mas os guardas vigiavam constantemente sob o brilho das tochas, e uma luz fraca rastejava através das janelas do pagode.

Esperaram até a meia-noite; mas nenhuma mudança ocorreu entre os guardas, e tornou-se evidente que não se podia contar com que cedessem ao sono. O outro plano deveria ser executado; uma abertura nas paredes do pagode deveria ser feita. Restava verificar se os sacerdotes estavam vigiando ao lado de sua vítima tão assiduamente quanto os soldados na porta.

Após uma última consulta, o guia anunciou que estava pronto para a tentativa e avançou, seguido pelos outros. Eles fizeram um caminho sinuoso para chegar ao pagode pela parte de trás. Chegaram às paredes por volta da meia-noite e meia, sem ter encontrado ninguém; ali não havia guarda, nem janelas ou portas.

A noite estava escura. A lua, minguante, mal deixava o horizonte e estava coberta por nuvens pesadas; a altura das árvores aprofundava a escuridão.

Não bastava chegar às paredes; uma abertura nelas deveria ser realizada, e para atingir esse propósito o grupo tinha apenas seus canivetes. Felizmente, as paredes do templo eram construídas de tijolos e madeira, que poderiam ser penetrados com pouca dificuldade; após a remoção de um tijolo, o restante cederia facilmente.

Eles começaram a trabalhar silenciosamente, e o parsi de um lado e Passepartout do outro começaram a soltar os tijolos para fazer uma abertura de dois pés de largura. Estavam progredindo rapidamente quando, de repente, um grito foi ouvido no interior do templo, seguido quase instantaneamente por outros gritos respondendo do lado de fora. Passepartout e o guia pararam. Tinham sido ouvidos? O alarme estava sendo dado? A prudência comum pedia que se retirassem, e assim fizeram, seguidos por Phileas Fogg e Sir Francis. Eles se esconderam novamente na floresta e esperaram até que o distúrbio, fosse ele qual fosse, cessasse, mantendo-se prontos para retomar sua tentativa sem demora. Mas, desajeitadamente, os guardas apareceram na parte de trás do templo e instalaram-se ali, prontos para evitar uma surpresa.

Seria difícil descrever a decepção do grupo, assim interrompido em seu trabalho. Eles não podiam mais chegar à vítima; como, então, poderiam salvá-la? Sir Francis balançou os punhos, Passepartout estava fora de si e o guia rangia os dentes de raiva. O tranquilo Fogg esperou, sem trair qualquer emoção.

“Não temos nada a fazer senão ir embora”, sussurrou Sir Francis.

“Nada além de ir embora”, ecoou o guia.

“Parem”, disse Fogg. “Só preciso estar em Allahabad amanhã antes do meio-dia.”

“Mas o que você espera fazer?” perguntou Sir Francis. “Em poucas horas será dia, e—”

“A chance que agora parece perdida pode apresentar-se no último momento.”

Sir Francis gostaria de ter lido nos olhos de Phileas Fogg. O que este inglês frio estava pensando? Ele estava planejando investir contra a jovem mulher no exato momento do sacrifício e arrojadamente arrancá-la de seus algozes?

Isso seria pura loucura, e era difícil admitir que Fogg fosse um tolo. Sir Francis consentiu, contudo, em permanecer até o fim desse drama terrível. O guia conduziu-os para a parte de trás da clareira, onde podiam observar os grupos adormecidos.

Enquanto isso, Passepartout, que havia se empoleirado nos galhos baixos de uma árvore, estava resolvendo uma ideia que a princípio o atingira como um relâmpago, e que agora estava firmemente alojada em seu cérebro.

Ele começara dizendo a si mesmo: “Que loucura!”, e então repetiu: “Por que não, afinal? É uma chance — talvez a única; e com tais bêbados!” Pensando assim, ele deslizou, com a flexibilidade de uma serpente, para os galhos mais baixos, cujas pontas se curvavam quase até o chão.

As horas passaram, e os tons mais claros anunciavam agora a aproximação do dia, embora ainda não estivesse claro. Este era o momento. A multidão adormecida tornou-se animada, os tamborins soaram, cânticos e gritos surgiram; a hora do sacrifício chegara. As portas do pagode abriram-se e uma luz brilhante escapou de seu interior, em meio à qual o Sr. Fogg e Sir Francis avistaram a vítima. Ela parecia, tendo sacudido o estupor da intoxicação, estar lutando para escapar de seu algoz. O coração de Sir Francis palpitou; e, agarrando convulsivamente a mão do Sr. Fogg, encontrou nela um punhal aberto. Exatamente neste momento a multidão começou a se mover. A jovem mulher tinha caído novamente em um estupor causado pelos vapores do cânhamo e passou entre os faquires, que a escoltavam com seus gritos selvagens e religiosos.

Phileas Fogg e seus companheiros, misturando-se às fileiras de trás da multidão, seguiram; e em dois minutos chegaram às margens do riacho e pararam a cinquenta passos da pira, sobre a qual ainda jazia o cadáver do rajá. Na semiobscuridade, viram a vítima, totalmente inconsciente, estendida ao lado do corpo de seu marido. Então uma tocha foi trazida, e a madeira, fortemente embebida em óleo, instantaneamente pegou fogo.

Neste momento, Sir Francis e o guia agarraram Phileas Fogg, que, em um instante de generosidade louca, estava prestes a investir contra a pira. Mas ele os empurrou rapidamente para o lado, quando toda a cena mudou subitamente. Um grito de terror surgiu. Toda a multidão prostrou-se, aterrorizada, no chão.

O velho rajá não estava morto, então, pois ele se levantou de repente, como um espectro, pegou sua esposa nos braços e desceu da pira em meio às nuvens de fumaça, que apenas acentuavam sua aparência fantasmagórica.

Faquires, soldados e sacerdotes, tomados por terror instantâneo, jaziam ali, com seus rostos no chão, não ousando levantar os olhos e contemplar tal prodígio.

A vítima inanimada era carregada pelos braços vigorosos que a sustentavam e que ela não parecia de forma alguma sobrecarregar. O Sr. Fogg e Sir Francis estavam eretos, o parsi inclinou a cabeça e Passepartout estava, sem dúvida, pouco menos estupefato.

O rajá ressuscitado aproximou-se de Sir Francis e do Sr. Fogg e, em um tom abrupto, disse: “Vamos embora!”

Era o próprio Passepartout, que havia deslizado sobre a pira em meio à fumaça e, aproveitando a escuridão ainda reinante, libertara a jovem mulher da morte! Era Passepartout quem, desempenhando seu papel com uma audácia feliz, passara através da multidão em meio ao terror geral.

Um momento depois, todos os quatro do grupo haviam desaparecido na floresta, e o elefante estava levando-os para longe a um passo rápido. Mas os gritos e o barulho, e uma bala que zumbiu através do chapéu de Phileas Fogg, informaram-nos de que o truque havia sido descoberto.

O corpo do velho rajá, de fato, aparecia agora sobre a pira ardente; e os sacerdotes, recuperados de seu terror, perceberam que um rapto havia ocorrido. Eles apressaram-se para a floresta, seguidos pelos soldados, que dispararam uma salva contra os fugitivos; mas estes últimos aumentaram rapidamente a distância entre eles e, pouco depois, encontraram-se fora do alcance das balas e flechas.

CAPÍTULO XIV. NO QUAL PHILEAS FOGG DESCE TODA A EXTENSÃO DO BELO VALE DO GANGES SEM NUNCA PENSAR EM VÊ-LO

O feito temerário havia sido realizado; e por uma hora Passepartout riu alegremente de seu sucesso. Sir Francis apertou a mão do digno companheiro, e seu mestre disse: “Muito bem!”, o que, vindo dele, era um alto elogio; ao que Passepartout respondeu que todo o crédito do caso pertencia ao Sr. Fogg. Quanto a ele, apenas tivera uma ideia "estranha"; e ria ao pensar que por alguns instantes ele, Passepartout, o ex-ginasta, ex-sargento bombeiro, fora o esposo de uma mulher encantadora, um rajá venerável e embalsamado! Quanto à jovem indiana, ela estivera inconsciente durante todo o tempo do que estava acontecendo e agora, envolta em um cobertor de viagem, repousava em um dos palanquins.

O elefante, graças à condução habilidosa do parsi, avançava rapidamente através da floresta ainda sombria e, uma hora após deixar o pagode, havia atravessado uma vasta planície. Fizeram uma parada às sete horas, sendo que a jovem mulher ainda estava em um estado de prostração completa. O guia fez com que ela bebesse um pouco de conhaque com água, mas a sonolência que a estuporava ainda não podia ser afastada. Sir Francis, que estava familiarizado com os efeitos da intoxicação produzida pelos vapores do cânhamo, tranquilizou seus companheiros quanto a ela. Mas ele estava mais perturbado com a perspectiva de seu destino futuro. Ele disse a Phileas Fogg que, caso Aouda permanecesse na Índia, ela cairia inevitavelmente de volta nas mãos de seus algozes. Esses fanáticos estavam espalhados por todo o país e, apesar da polícia inglesa, recuperariam sua vítima em Madras, Bombaim ou Calcutá. Ela só estaria segura deixando a Índia para sempre.

Phileas Fogg respondeu que refletiria sobre o assunto.

A estação de Allahabad foi alcançada por volta das dez horas e, com a linha ferroviária interrompida sendo retomada, permitiria que chegassem a Calcutá em menos de vinte e quatro horas. Phileas Fogg poderia, assim, chegar a tempo de tomar o vapor que partia de Calcutá no dia seguinte, 25 de outubro, ao meio-dia, com destino a Hong Kong.

A jovem foi acomodada em uma das salas de espera da estação, enquanto Passepartout foi encarregado de comprar para ela vários artigos de toucador, um vestido, um xale e algumas peles; para o que seu patrão lhe deu crédito ilimitado. Passepartout partiu imediatamente e viu-se nas ruas de Allahabad, isto é, a Cidade de Deus, uma das mais veneradas da Índia, por ser construída na junção dos dois rios sagrados, o Ganges e o Jumna, cujas águas atraem peregrinos de todas as partes da península. O Ganges, segundo as lendas do Ramayana, nasce no céu, de onde, graças à intervenção de Brahma, desce à terra.

Passepartout fez questão, enquanto realizava suas compras, de observar bem a cidade. Antigamente, era defendida por um nobre forte, que desde então se tornou uma prisão estadual; seu comércio diminuiu, e Passepartout procurou em vão por um bazar como aqueles que costumava frequentar na Regent Street. Por fim, encontrou um judeu idoso e rabugento que vendia artigos de segunda mão, de quem comprou um vestido de tecido escocês, um manto grande e uma bela pelisse de pele de lontra, pelos quais não hesitou em pagar setenta e cinco libras. Retornou então triunfante à estação.

A influência a que os sacerdotes de Pillaji haviam submetido Aouda começou a ceder gradualmente, e ela voltou a ser ela mesma, de modo que seus belos olhos retomaram toda a sua suave expressão indiana.

Quando o rei poeta, Ucaf Uddaul, celebra os encantos da rainha de Ahmehnagara, ele fala assim:

“Suas madeixas brilhantes, divididas em duas partes, circundam o contorno harmonioso de suas faces brancas e delicadas, brilhantes em seu fulgor e frescor. Suas sobrancelhas de ébano têm a forma e o charme do arco de Kama, o deus do amor, e sob seus longos cílios de seda, os reflexos mais puros e uma luz celestial nadam, como nos lagos sagrados do Himalaia, nas pupilas negras de seus grandes olhos claros. Seus dentes, finos, iguais e brancos, brilham entre seus lábios sorridentes como gotas de orvalho no peito semidecoberto de uma flor-da-paixão. Suas orelhas delicadamente formadas, suas mãos cor de vermelhão, seus pés pequenos, curvos e tenros como o botão de lótus, brilham com o esplendor das mais belas pérolas do Ceilão, dos diamantes mais deslumbrantes de Golconda. Sua cintura estreita e flexível, que uma mão pode envolver, realça o contorno de sua figura arredondada e a beleza de seu colo, onde a juventude em flor exibe a riqueza de seus tesouros; e sob as dobras sedosas de sua túnica, ela parece ter sido modelada em prata pura pela mão divina de Vicvarcarma, o escultor imortal.”

Basta dizer, sem aplicar esta rapsódia poética a Aouda, que ela era uma mulher encantadora, em toda a acepção europeia da frase. Ela falava inglês com grande pureza, e o guia não havia exagerado ao dizer que a jovem parsi havia sido transformada por sua criação.

O trem estava prestes a partir de Allahabad, e o Sr. Fogg procedeu ao pagamento do guia pelo preço acordado pelo seu serviço, e nem um centavo a mais; o que surpreendeu Passepartout, que se lembrava de tudo o que seu patrão devia à devoção do guia. Ele havia, de fato, arriscado a vida na aventura em Pillaji e, se fosse capturado posteriormente pelos indianos, dificilmente escaparia da vingança deles. Kiouni, também, precisava ser despachado. O que fazer com o elefante, que fora comprado tão caro? Phileas Fogg já havia resolvido essa questão.

“Parsi,” disse ele ao guia, “você foi prestativo e dedicado. Eu paguei pelo seu serviço, mas não pela sua devoção. Você gostaria de ter este elefante? Ele é seu.”

Os olhos do guia brilharam.

“Sua honra está me dando uma fortuna!” exclamou ele.

“Fique com ele, guia,” respondeu o Sr. Fogg, “e eu ainda serei seu devedor.”

“Bom!” exclamou Passepartout. “Fique com ele, amigo. Kiouni é um animal bravo e fiel.” E, aproximando-se do elefante, deu-lhe vários torrões de açúcar, dizendo: “Aqui, Kiouni, aqui, aqui.”

O elefante grunhiu sua satisfação e, envolvendo a cintura de Passepartout com sua tromba, ergueu-o até a altura de sua cabeça. Passepartout, nem um pouco alarmado, acariciou o animal, que o colocou gentilmente de volta no chão.

Logo depois, Phileas Fogg, Sir Francis Cromarty e Passepartout, instalados em uma carruagem com Aouda, que ocupava o melhor assento, dirigiam-se em velocidade máxima para Benares. Era um percurso de oitenta milhas, realizado em duas horas. Durante a viagem, a jovem recuperou completamente os sentidos. Qual não foi seu espanto ao se encontrar naquela carruagem, na ferrovia, vestida com trajes europeus e com viajantes que lhe eram completos estranhos! Seus companheiros começaram primeiro a reanimá-la completamente com um pouco de licor e, então, Sir Francis narrou-lhe o que havia acontecido, enfatizando a coragem com que Phileas Fogg não hesitou em arriscar a vida para salvá-la, e contando o desfecho feliz do empreendimento, resultado da ideia precipitada de Passepartout. O Sr. Fogg não disse nada; enquanto Passepartout, envergonhado, continuava repetindo que “não valia a pena contar”.

Aouda agradeceu pateticamente a seus libertadores, mais com lágrimas do que com palavras; seus belos olhos interpretaram sua gratidão melhor do que seus lábios. Então, conforme seus pensamentos voltavam à cena do sacrifício e relembravam os perigos que ainda a ameaçavam, ela estremeceu de terror.

Phileas Fogg entendeu o que se passava na mente de Aouda e ofereceu, para tranquilizá-la, acompanhá-la até Hong Kong, onde ela poderia permanecer em segurança até que o caso fosse abafado — uma oferta que ela aceitou ansiosa e agradecida. Ela tinha, ao que parece, um parente parsi, que era um dos principais comerciantes de Hong Kong, que é uma cidade totalmente inglesa, embora situada em uma ilha na costa chinesa.

Às doze e meia, o trem parou em Benares. As lendas brâmanes afirmam que esta cidade foi construída no local da antiga Casi, que, como o túmulo de Maomé, já esteve suspensa entre o céu e a terra; embora a Benares de hoje, que os orientalistas chamam de Atenas da Índia, erga-se de forma pouco poética sobre a terra sólida. Passepartout teve vislumbres de suas casas de tijolos e cabanas de barro, dando um aspecto de desolação ao lugar, à medida que o trem entrava nele.

Benares era o destino de Sir Francis Cromarty, pois as tropas a que ele voltava a se juntar estavam acampadas a algumas milhas ao norte da cidade. Ele despediu-se de Phileas Fogg, desejando-lhe todo o sucesso e expressando a esperança de que ele passasse por aquele caminho novamente de uma forma menos original, mas mais lucrativa. O Sr. Fogg apertou-lhe levemente a mão. A despedida de Aouda, que não se esqueceu do que devia a Sir Francis, traiu mais calor; e, quanto a Passepartout, ele recebeu um aperto de mão cordial do galante general.

A ferrovia, ao deixar Benares, passou por um tempo ao longo do vale do Ganges. Pelas janelas de sua carruagem, os viajantes tinham vislumbres da paisagem diversificada de Behar, com suas montanhas cobertas de verdura, seus campos de cevada, trigo e milho, suas selvas povoadas por crocodilos verdes, suas aldeias limpas e suas florestas ainda densamente folhadas. Elefantes banhavam-se nas águas do rio sagrado, e grupos de indianos, apesar da estação avançada e do ar frio, realizavam solenemente suas abluções piedosas. Eram brâmanes fervorosos, os inimigos mais amargos do budismo, sendo suas divindades Vishnu, o deus solar, Shiva, a personificação divina das forças naturais, e Brahma, o governante supremo dos sacerdotes e legisladores. O que pensariam essas divindades da Índia, anglicizada como é hoje, com vapores apitando e zarpando ao longo do Ganges, assustando as gaivotas que flutuam em sua superfície, as tartarugas que fervilham ao longo de suas margens e os fiéis que habitam em suas fronteiras?

O panorama passou diante de seus olhos como um relâmpago, exceto quando o vapor o ocultava intermitentemente da vista; os viajantes mal podiam discernir o forte de Chupenie, vinte milhas a sudoeste de Benares, a antiga fortaleza dos rajás de Behar; ou Ghazipur e suas famosas fábricas de água de rosas; ou o túmulo de Lord Cornwallis, erguendo-se na margem esquerda do Ganges; a cidade fortificada de Buxar, ou Patna, um grande centro manufatureiro e comercial, onde se realiza o principal mercado de ópio da Índia; ou Monghir, uma cidade mais do que europeia, pois é tão inglesa quanto Manchester ou Birmingham, com suas fundições de ferro, fábricas de ferramentas de corte e chaminés altas soprando nuvens de fumaça negra em direção ao céu.

A noite caiu; o trem passou em velocidade máxima, em meio ao rugido dos tigres, ursos e lobos que fugiam diante da locomotiva; e as maravilhas de Bengala, Golconda, a arruinada Gour, Murshedabad, a antiga capital, Burdwan, Hugly e a cidade francesa de Chandernagor, onde Passepartout teria se orgulhado de ver a bandeira de seu país tremulando, ficaram escondidas de sua vista na escuridão.

Calcutá foi alcançada às sete da manhã, e o navio partiu para Hong Kong ao meio-dia; de modo que Phileas Fogg tinha cinco horas à sua frente.

De acordo com seu diário, ele deveria estar em Calcutá em 25 de outubro, e essa foi a data exata de sua chegada real. Ele não estava, portanto, nem atrasado nem adiantado. Os dois dias ganhos entre Londres e Bombaim haviam sido perdidos, como se viu, na viagem através da Índia. Mas não se deve supor que Phileas Fogg os tenha lamentado.

CAPÍTULO XV. NO QUAL A BOLSA DE NOTAS BANCÁRIAS DESPEJA ALGUMAS MILHARES DE LIBRAS A MAIS

O trem entrou na estação e, saltando primeiro, Passepartout foi seguido pelo Sr. Fogg, que ajudou sua bela companheira a descer. Phileas Fogg pretendia seguir imediatamente para o vapor de Hong Kong, a fim de acomodar Aouda confortavelmente para a viagem. Ele não queria deixá-la enquanto ainda estivessem em terreno perigoso.

Assim que saía da estação, um policial aproximou-se dele e disse: “Sr. Phileas Fogg?”

“Sou eu.”

“Este homem é seu criado?” acrescentou o policial, apontando para Passepartout.

“Sim.”

“Sejam gentis, ambos, e sigam-me.”

O Sr. Fogg não demonstrou surpresa alguma. O policial era um representante da lei, e a lei é sagrada para um inglês. Passepartout tentou argumentar sobre o assunto, mas o policial bateu nele com seu bastão, e o Sr. Fogg fez-lhe um sinal para obedecer.

“Esta jovem pode ir conosco?” perguntou ele.

“Pode,” respondeu o policial.

O Sr. Fogg, Aouda e Passepartout foram conduzidos a um palkigahri, uma espécie de carruagem de quatro rodas puxada por dois cavalos, na qual tomaram seus lugares e foram levados embora. Ninguém falou durante os vinte minutos que se passaram até chegarem ao seu destino. Passaram primeiro pela “cidade negra”, com suas ruas estreitas, suas cabanas miseráveis e sujas e sua população sórdida; depois pela “cidade europeia”, que apresentava um alívio com suas brilhantes mansões de tijolos, sombreadas por coqueiros e eriçadas de mastros, onde, embora fosse início da manhã, cavaleiros elegantemente vestidos e belos equipagens passavam de um lado para o outro.

A carruagem parou diante de uma casa de aparência modesta, que, no entanto, não tinha a aparência de uma mansão particular. O policial, tendo pedido aos seus prisioneiros — pois assim, verdadeiramente, poderiam ser chamados — que descessem, conduziu-os a uma sala com janelas gradeadas e disse: “Vocês comparecerão diante do juiz Obadiah às oito e meia.”

Ele então se retirou e fechou a porta.

“Ora, nós somos prisioneiros!” exclamou Passepartout, caindo em uma cadeira.

Aouda, com uma emoção que tentou esconder, disse ao Sr. Fogg: “Senhor, deve deixar-me ao meu destino! É por minha conta que recebe este tratamento, é por ter me salvado!”

Phileas Fogg contentou-se em dizer que era impossível. Era muito improvável que ele fosse preso por impedir um suttee. Os reclamantes não ousariam apresentar-se com tal acusação. Houve algum engano. Além disso, ele não abandonaria Aouda em hipótese alguma, mas a acompanharia até Hong Kong.

“Mas o vapor parte ao meio-dia!” observou Passepartout, nervosamente.

“Estaremos a bordo ao meio-dia,” respondeu seu patrão, placidamente.

Foi dito com tanta convicção que Passepartout não pôde deixar de murmurar para si mesmo: “Parbleu, isso é certo! Antes do meio-dia estaremos a bordo.” Mas ele não estava de forma alguma tranquilizado.

Às oito e meia, a porta se abriu, o policial apareceu e, pedindo que o seguissem, liderou o caminho para um salão adjacente. Era evidentemente uma sala de tribunal, e uma multidão de europeus e nativos já ocupava o fundo do recinto.

O Sr. Fogg e seus dois companheiros tomaram seus lugares em um banco oposto às mesas do magistrado e de seu escrivão. Logo depois, o juiz Obadiah, um homem gordo e redondo, seguido pelo escrivão, entrou. Ele procedeu a pegar uma peruca que estava pendurada em um prego e colocou-a apressadamente na cabeça.

“O primeiro caso,” disse ele. Então, levando a mão à cabeça, exclamou: “Heh! Esta não é a minha peruca!”

“Não, vossa senhoria,” respondeu o escrivão, “é a minha.”

“Meu caro Sr. Oysterpuff, como pode um juiz dar uma sentença sensata com a peruca de um escrivão?”

As perucas foram trocadas.

Passepartout estava ficando nervoso, pois os ponteiros do relógio grande acima do juiz pareciam girar com uma rapidez terrível.

“O primeiro caso,” repetiu o juiz Obadiah.

“Phileas Fogg?” perguntou Oysterpuff.

“Estou aqui,” respondeu o Sr. Fogg.

“Passepartout?”

“Presente,” respondeu Passepartout.

“Bom,” disse o juiz. “Vocês foram procurados, prisioneiros, por dois dias nos trens vindos de Bombaim.”

“Mas do que somos acusados?” perguntou Passepartout, impacientemente.

“Vocês estão prestes a ser informados.”

“Eu sou um súdito inglês, senhor,” disse o Sr. Fogg, “e tenho o direito...”

“Vocês foram maltratados?”

“De forma alguma.”

“Muito bem; que os reclamantes entrem.”

Uma porta foi aberta por ordem do juiz e três sacerdotes indianos entraram.

“É isso,” murmurou Passepartout; “são esses os patifes que iam queimar nossa jovem senhora.”

Os sacerdotes tomaram seus lugares em frente ao juiz, e o escrivão procedeu à leitura em voz alta de uma reclamação de sacrilégio contra Phileas Fogg e seu criado, que eram acusados de terem violado um local tido como consagrado pela religião brâmane.

“Vocês ouvem a acusação?” perguntou o juiz.

“Sim, senhor,” respondeu o Sr. Fogg, consultando seu relógio, “e eu a admito.”

“Você a admite?”

“Eu a admito, e desejo ouvir esses sacerdotes admitirem, por sua vez, o que iam fazer no pagode de Pillaji.”

Os sacerdotes olharam um para o outro; não pareciam entender o que era dito.

“Sim,” gritou Passepartout, calorosamente; “no pagode de Pillaji, onde estavam prestes a queimar sua vítima.”

O juiz olhou com espanto, e os sacerdotes ficaram estupefatos.

“Que vítima?” disse o juiz Obadiah. “Queimar quem? Em Bombaim mesmo?”

“Bombaim?” gritou Passepartout.

“Certamente. Não estamos falando do pagode de Pillaji, mas do pagode de Malabar Hill, em Bombaim.”

“E como prova,” acrescentou o escrivão, “aqui estão os próprios sapatos do profanador, que ele deixou para trás.”

Ao que ele colocou um par de sapatos em sua mesa.

“Meus sapatos!” gritou Passepartout, em sua surpresa permitindo que esta exclamação imprudente escapasse.

A confusão do patrão e do criado, que haviam esquecido completamente o caso em Bombaim, pelo qual estavam agora detidos em Calcutá, pode ser imaginada.

Fix, o detetive, havia previsto a vantagem que a escapada de Passepartout lhe dava e, atrasando sua partida por doze horas, consultou os sacerdotes de Malabar Hill. Sabendo que as autoridades inglesas tratavam muito severamente esse tipo de delito, prometeu-lhes uma boa soma em danos e enviou-os para Calcutá no trem seguinte. Devido ao atraso causado pelo resgate da jovem viúva, Fix e os sacerdotes chegaram à capital indiana antes do Sr. Fogg e seu criado, tendo os magistrados sido avisados por um despacho para prendê-los caso chegassem. A decepção de Fix ao saber que Phileas Fogg não havia aparecido em Calcutá pode ser imaginada. Ele decidiu que o ladrão havia parado em algum lugar na rota e se refugiado nas províncias do sul. Por vinte e quatro horas, Fix vigiou a estação com ansiedade febril; finalmente, foi recompensado ao ver o Sr. Fogg e Passepartout chegarem, acompanhados por uma jovem, cuja presença ele não conseguia explicar de forma alguma. Ele correu atrás de um policial; e foi assim que o grupo acabou preso e levado diante do juiz Obadiah.

Se Passepartout estivesse um pouco menos preocupado, teria visto o detetive escondido em um canto da sala do tribunal, observando os procedimentos com um interesse facilmente compreendido; pois o mandado não havia chegado a ele em Calcutá, como não havia chegado em Bombaim e Suez.

O juiz Obadiah tinha, infelizmente, ouvido a exclamação precipitada de Passepartout, que o pobre rapaz daria o mundo para retirar.

“Os fatos são admitidos?” perguntou o juiz.

“Admitidos,” respondeu o Sr. Fogg, friamente.

“Na medida em que,” retomou o juiz, “a lei inglesa protege igualmente e severamente as religiões do povo indiano, e como o homem Passepartout admitiu que violou o pagode sagrado de Malabar Hill, em Bombaim, no dia 20 de outubro, condeno o referido Passepartout à prisão por quinze dias e a uma multa de trezentas libras.”

“Trezentas libras!” gritou Passepartout, assustado com o tamanho da soma.

“Silêncio!” gritou o oficial de justiça.

“E na medida em que,” continuou o juiz, “não está provado que o ato não foi feito com a conivência do patrão com o criado, e como o patrão, em qualquer caso, deve ser responsabilizado pelos atos de seu criado assalariado, condeno Phileas Fogg a uma semana de prisão e a uma multa de cento e cinquenta libras.”

Fix esfregou as mãos suavemente com satisfação; se Phileas Fogg pudesse ser detido em Calcutá por uma semana, seria tempo mais do que suficiente para o mandado chegar. Passepartout estava estupefato. Esta sentença arruinava seu patrão. Uma aposta de vinte mil libras perdida, porque ele, como um tolo precioso, tinha entrado naquele pagode abominável!

Phileas Fogg, tão composto como se o julgamento não lhe dissesse respeito de forma alguma, nem sequer levantou as sobrancelhas enquanto era pronunciado. Assim que o escrivão chamava o próximo caso, ele se levantou e disse: “Ofereço fiança.”

“Você tem esse direito,” respondeu o juiz.

O sangue de Fix gelou, mas ele recuperou a compostura quando ouviu o juiz anunciar que a fiança exigida para cada prisioneiro seria de mil libras.

“Pagarei imediatamente,” disse o Sr. Fogg, tirando um rolo de notas bancárias da mala de carpetes, que Passepartout tinha consigo, e colocando-as na mesa do escrivão.

“Esta soma será restituída a você após sua libertação da prisão,” disse o juiz. “Enquanto isso, vocês estão libertados sob fiança.”

“Vamos!” disse Phileas Fogg ao seu criado.

“Mas que pelo menos me devolvam meus sapatos!” gritou Passepartout irritado.

“Ah, estes são sapatos bem caros!” murmurou ele, enquanto lhe eram entregues. “Mais de mil libras cada um; além disso, apertam meus pés.”

O Sr. Fogg, oferecendo o braço a Aouda, partiu então, seguido pelo desanimado Passepartout. Fix ainda nutria esperanças de que o ladrão não deixaria, afinal, as duas mil libras para trás, mas decidiria cumprir sua semana na prisão, e saiu seguindo os rastros do Sr. Fogg. Aquele cavalheiro tomou uma carruagem, e o grupo logo foi deixado em um dos cais.

O “Rangoon” estava ancorado a meia milha no porto, seu sinal de partida içado no topo do mastro. Onze horas estavam soando; o Sr. Fogg estava uma hora adiantado. Fix viu-os deixar a carruagem e partir em um barco para o vapor, e bateu os pés com decepção.

“O patife partiu, afinal!” exclamou ele. “Duas mil libras sacrificadas! Ele é tão pródigo quanto um ladrão! Eu o seguirei até o fim do mundo se necessário; mas, no ritmo em que ele está indo, o dinheiro roubado logo estará esgotado.”

O detetive não estava muito errado ao fazer essa conjectura. Desde que deixara Londres, com despesas de viagem, subornos, a compra do elefante, fianças e multas, o Sr. Fogg já havia gasto mais de cinco mil libras no caminho, e a porcentagem da soma recuperada do ladrão do banco, prometida aos detetives, estava diminuindo rapidamente.

Phileas Fogg, porém, apesar de todos esses imprevistos, não parecia nem um pouco inquieto. O atraso do navio não o preocupava, nem o fato de o navio estar vinte horas atrasado o perturbava. O "Rangoon" não havia chegado a Hong Kong a tempo para a partida do navio para Yokohama, e era evidente que ele perderia a conexão.

Passepartout, por sua vez, estava possuído por uma irritação que mal podia conter. Ele não podia culpar o capitão, nem o engenheiro, nem a tripulação, por causa do mau tempo; no entanto, em seu íntimo, ele culpava o destino. E o pensamento das contas de gás que continuavam a correr na Saville Row, aumentando a cada dia, fazia com que ele perdesse o sono.

No dia 6 de novembro, o tempo melhorou um pouco. O vento passou para o sudeste, mas o mar ainda estava agitado. O "Rangoon" avançava com dificuldade.

Aouda, durante esses dias de tempestade, havia passado a maior parte do tempo na companhia de Phileas Fogg. O gentleman, sempre calmo, nunca demonstrava impaciência. Ele jogava seu whist com a mesma regularidade, sem se importar com os solavancos do navio. Aouda, vendo sua impassibilidade, admirava-o, mas, muitas vezes, não sabia se essa calma era real ou apenas uma máscara.

Fix, por outro lado, estava em um estado de ansiedade crescente. Ele via a chance de prender o Sr. Fogg escapar por entre seus dedos. O atraso do navio arruinava seus planos. Se o "Rangoon" não chegasse a Hong Kong a tempo, Fogg perderia o navio para o Japão e teria que esperar pelo próximo, o que lhe daria mais tempo, mas também tornava a situação do detetive mais incerta.

Finalmente, na manhã do dia 6 de novembro, o "Rangoon" entrou no porto de Hong Kong. O navio estava vinte e quatro horas atrasado. O navio para Yokohama já havia partido no dia anterior.

Phileas Fogg, ao receber a notícia, não demonstrou a menor emoção. Ele consultou o horário das próximas partidas e, com a maior tranquilidade, informou a Aouda que eles esperariam pelo próximo navio.

Passepartout, ao ouvir aquilo, sentiu um aperto no coração. Ele olhou para Fix, que estava por perto, observando tudo com um olhar sombrio. O detetive parecia estar calculando seus próximos passos, e o criado não pôde deixar de pensar que, se o seu mestre tinha seus planos, o detetive certamente tinha os dele.

Enquanto Fogg e Aouda se preparavam para desembarcar, Passepartout caminhou até a amurada. Hong Kong, com suas colinas cobertas de vegetação e seu porto movimentado, estendia-se diante deles. Era o fim de uma etapa, mas o início de uma nova incerteza.

Passepartout, ainda desconfiado de Fix, decidiu que manteria os olhos abertos. Se o detetive era, como ele imaginava, um espião dos membros do Reform Club, ele estava prestes a descobrir que seguir Phileas Fogg não seria uma tarefa tão simples quanto ele poderia ter pensado.

Phileas Fogg contemplava o mar tempestuoso, que parecia esforçar-se especialmente para atrasá-lo, com sua habitual tranquilidade. Não mudou de semblante um instante sequer, embora um atraso de vinte horas, ao fazê-lo perder o barco de Yokohama, causasse quase inevitavelmente a perda da aposta. Mas este homem de fibra não manifestou nem impaciência nem aborrecimento; parecia que a tempestade fazia parte de seu programa e fora prevista. Aouda ficou maravilhada ao vê-lo tão calmo quanto desde a primeira vez que o viu.

Fix não via o estado das coisas sob a mesma luz. A tempestade agradava-lhe muito. Sua satisfação teria sido completa se o "Rangoon" fosse forçado a recuar diante da violência do vento e das ondas. Cada atraso enchia-o de esperança, pois tornava-se cada vez mais provável que Fogg fosse obrigado a permanecer alguns dias em Hong Kong; e agora os próprios céus tornavam-se seus aliados, com as rajadas e ventanias. Pouco importava que o deixassem enjoado — ele não levava em conta esse inconveniente; e, enquanto seu corpo se contorcia sob os efeitos, seu espírito saltava com uma exultação esperançosa.

Passepartout estava enfurecido além das palavras com o tempo desfavorável. Tudo correra tão bem até agora! Terra e mar pareciam estar ao serviço de seu amo; vapores e ferrovias obedeciam-lhe; vento e vapor uniam-se para acelerar sua jornada. Teria chegado a hora da adversidade? Passepartout estava tão agitado como se as vinte mil libras tivessem de sair do seu próprio bolso. A tempestade exasperava-o, o vendaval deixava-o furioso, e ele desejava chicotear o mar obstinado até a obediência. Pobre rapaz! Fix escondia cuidadosamente dele sua própria satisfação, pois, se a tivesse revelado, Passepartout dificilmente teria se contido de recorrer à violência física.

Passepartout permaneceu no convés durante todo o tempo em que a tempestade durou, incapaz de ficar quieto lá embaixo, e cismando em auxiliar o progresso do navio, dando uma mão à tripulação. Sobrecarregava o capitão, os oficiais e os marinheiros, que não podiam deixar de rir de sua impaciência, com todo tipo de perguntas. Queria saber exatamente quanto tempo a tempestade iria durar; ao que era remetido ao barômetro, que parecia não ter intenção alguma de subir. Passepartout sacudia-o, mas sem efeito perceptível; pois nem sacudidelas nem maldições podiam persuadi-lo a mudar de ideia.

No dia 4, contudo, o mar tornou-se mais calmo, e a tempestade diminuiu sua violência; o vento mudou para o sul, e estava mais uma vez favorável. Passepartout animou-se com o tempo. Algumas das velas foram içadas, e o "Rangoon" retomou sua velocidade máxima. O tempo perdido não pôde, no entanto, ser recuperado. A terra não foi avistada até as cinco horas da manhã do dia 6; o vapor era esperado para o dia 5. Phileas Fogg estava vinte e quatro horas atrasado, e o vapor de Yokohama, naturalmente, seria perdido.

O piloto subiu a bordo às seis, e tomou seu lugar na ponte, para guiar o "Rangoon" através dos canais até o porto de Hong Kong. Passepartout desejava perguntar-lhe se o vapor já havia partido para Yokohama; mas não se atrevia, pois desejava preservar a centelha de esperança que ainda restava até o último momento. Confidenciara sua ansiedade a Fix que — o velhaco esperto! — tentou consolá-lo dizendo que o Sr. Fogg chegaria a tempo se pegasse o próximo barco; mas isso apenas enfureceu Passepartout.

O Sr. Fogg, mais audaz que seu criado, não hesitou em aproximar-se do piloto e perguntar-lhe tranquilamente se sabia quando um vapor partiria de Hong Kong para Yokohama.

"Na maré alta de amanhã de manhã", respondeu o piloto.

"Ah!", disse o Sr. Fogg, sem revelar qualquer espanto.

Passepartout, que ouviu o que se passou, teria abraçado de bom grado o piloto, enquanto Fix teria ficado feliz em torcer seu pescoço.

"Qual é o nome do vapor?", perguntou o Sr. Fogg.

"O 'Carnatic'."

"Não deveria ter partido ontem?"

"Sim, senhor; mas tiveram de reparar uma de suas caldeiras, e assim sua partida foi adiada para amanhã."

"Obrigado", respondeu o Sr. Fogg, descendo matematicamente para o salão.

Passepartout segurou a mão do piloto e sacudiu-a calorosamente em seu deleite, exclamando: "Piloto, você é o melhor dos bons rapazes!"

O piloto provavelmente não sabe até hoje por que suas respostas lhe valeram essa saudação entusiástica. Ele retornou à ponte e guiou o vapor através da flotilha de juncos, tankas e barcos de pesca que lotam o porto de Hong Kong.

À uma hora, o "Rangoon" estava no cais, e os passageiros desembarcavam.

O acaso favorecera estranhamente Phileas Fogg, pois, se o "Carnatic" não tivesse sido forçado a ficar parado para reparar suas caldeiras, teria partido no dia 6 de novembro, e os passageiros para o Japão teriam sido obrigados a aguardar por uma semana a saída do próximo vapor. O Sr. Fogg estava, é verdade, vinte e quatro horas atrasado em relação ao seu horário; mas isso não poderia colocar em risco seriamente o restante de sua turnê.

O vapor que cruzava o Pacífico de Yokohama a São Francisco fazia uma conexão direta com aquele vindo de Hong Kong, e não poderia zarpar até que este último chegasse a Yokohama; e se o Sr. Fogg chegasse com vinte e quatro horas de atraso a Yokohama, esse tempo seria, sem dúvida, facilmente recuperado na viagem de vinte e dois dias através do Pacífico. Ele encontrava-se, então, cerca de vinte e quatro horas atrasado, trinta e cinco dias após partir de Londres.

O "Carnatic" estava anunciado para partir de Hong Kong às cinco da manhã seguinte. O Sr. Fogg tinha dezesseis horas para tratar de seus negócios lá, que consistiam em deixar Aouda em segurança com seu parente rico.

Ao desembarcar, conduziu-a a um palanquim, no qual se dirigiram ao Club Hotel. Um quarto foi reservado para a jovem, e o Sr. Fogg, após verificar que nada lhe faltava, partiu em busca de seu primo Jeejeeh. Instruiu Passepartout a permanecer no hotel até seu retorno, para que Aouda não ficasse inteiramente sozinha.

O Sr. Fogg dirigiu-se à Bolsa, onde, não duvidava, todos conheceriam um personagem tão rico e considerável quanto o comerciante parsi. Encontrando um corretor, fez a consulta, para saber que Jeejeeh havia deixado a China dois anos antes e, aposentando-se dos negócios com uma fortuna imensa, havia fixado residência na Europa — na Holanda, pensava o corretor, país com cujos comerciantes ele principalmente negociara. Phileas Fogg retornou ao hotel, pediu um momento de conversa com Aouda e, sem mais delongas, informou-a de que Jeejeeh não estava mais em Hong Kong, mas provavelmente na Holanda.

Aouda a princípio não disse nada. Passou a mão pela testa e refletiu por alguns momentos. Então, em sua doce e suave voz, disse: "O que devo fazer, Sr. Fogg?"

"É muito simples", respondeu o cavalheiro. "Ir para a Europa."

"Mas não posso ser um incômodo —"

"Você não incomoda, nem de forma alguma embaraça meu projeto. Passepartout!"

"Monsieur."

"Vá ao 'Carnatic' e reserve três cabines."

Passepartout, encantado que a jovem, que era muito gentil com ele, fosse continuar a viagem com eles, partiu em passo acelerado para obedecer à ordem de seu amo.

CAPÍTULO XIX. NO QUAL PASSEPARTOUT TOMA UM INTERESSE EXCESSIVO POR SEU AMO, E O QUE DISSO RESULTA

Hong Kong é uma ilha que passou à posse dos ingleses pelo Tratado de Nanquim, após a guerra de 1842; e o gênio colonizador dos ingleses criou nela uma cidade importante e um excelente porto. A ilha está situada na foz do rio Cantão, e é separada por cerca de sessenta milhas da cidade portuguesa de Macau, na costa oposta. Hong Kong venceu Macau na luta pelo comércio chinês, e agora a maior parte do transporte de mercadorias chinesas encontra seu depósito no primeiro local. Docas, hospitais, cais, uma catedral gótica, uma casa do governo, ruas macadamizadas, dão a Hong Kong a aparência de uma cidade em Kent ou Surrey transferida por alguma estranha magia para as antípodas.

Passepartout vagava, com as mãos nos bolsos, em direção ao porto de Victoria, observando enquanto caminhava os curiosos palanquins e outros meios de transporte, e os grupos de chineses, japoneses e europeus que passavam de um lado para o outro nas ruas. Hong Kong não lhe parecia diferente de Bombaim, Calcutá e Singapura, uma vez que, como elas, denunciava por toda parte a evidência da supremacia inglesa. No porto de Victoria, encontrou uma massa confusa de navios de todas as nações: ingleses, franceses, americanos e holandeses, navios de guerra e navios mercantes, juncos japoneses e chineses, sempas, tankas e barcos-flor, que formavam tantos canteiros flutuantes. Passepartout notou na multidão vários nativos que pareciam muito velhos e estavam vestidos de amarelo. Ao entrar em uma barbearia para se barbear, soube que esses homens antigos tinham todos pelo menos oitenta anos, idade na qual é permitido usar amarelo, que é a cor imperial. Passepartout, sem saber exatamente o porquê, achou isso muito engraçado.

Ao chegar ao cais onde deveriam embarcar no "Carnatic", não se surpreendeu ao encontrar Fix andando de um lado para o outro. O detetive parecia muito perturbado e desapontado.

"Isso é mau", murmurou Passepartout, "para os cavalheiros do Reform Club!" Ele abordou Fix com um sorriso alegre, como se não tivesse percebido o desgosto daquele cavalheiro. O detetive tinha, de fato, boas razões para se queixar do azar que o perseguia. O mandado não chegara! Estava certamente a caminho, mas, com a mesma certeza, não poderia chegar a Hong Kong por vários dias; e, sendo este o último território inglês na rota do Sr. Fogg, o ladrão escaparia, a menos que ele conseguisse detê-lo.

"Bem, Monsieur Fix", disse Passepartout, "decidiu vir conosco até a América?"

"Sim", respondeu Fix, através de seus dentes cerrados.

"Bom!", exclamou Passepartout, rindo cordialmente. "Eu sabia que não conseguiria persuadir-se a separar-se de nós. Venha e reserve seu beliche."

Entraram no escritório do vapor e garantiram cabines para quatro pessoas. O funcionário, ao dar-lhes os bilhetes, informou-os de que, tendo sido concluídos os reparos no "Carnatic", o vapor partiria naquela mesma noite, e não na manhã seguinte, como havia sido anunciado.

"Isso convirá ainda melhor ao meu amo", disse Passepartout. "Vou avisá-lo."

Fix decidiu então fazer um movimento audacioso; resolveu contar tudo a Passepartout. Parecia ser o único meio possível de manter Phileas Fogg vários dias a mais em Hong Kong. Convidou, portanto, seu companheiro para uma taverna que lhe chamou a atenção no cais. Ao entrar, encontraram-se em uma sala grande, ricamente decorada, no fundo da qual havia uma grande cama de campo provida de almofadas. Várias pessoas jaziam sobre esta cama em um sono profundo. Nas pequenas mesas dispostas pela sala, cerca de trinta clientes bebiam cerveja inglesa, porter, gim e conhaque; fumando, enquanto isso, longos cachimbos de argila vermelha recheados com pequenas bolas de ópio misturadas com essência de rosa. De tempos em tempos, um dos fumantes, vencido pelo narcótico, escorregava para debaixo da mesa, momento em que os garçons, pegando-o pela cabeça e pelos pés, carregavam-no e colocavam-no sobre a cama. A cama já sustentava vinte desses ébrios estupefatos.

Fix e Passepartout viram que estavam em uma casa de fumo frequentada por aquelas criaturas miseráveis, cadavéricas e idiotas a quem os comerciantes ingleses vendem todos os anos a droga miserável chamada ópio, no valor de um milhão e quatrocentas mil libras — milhares dedicados a um dos vícios mais desprezíveis que afligem a humanidade! O governo chinês tentou em vão lidar com o mal através de leis rigorosas. Passou gradualmente dos ricos, a quem era inicialmente reservado exclusivamente, para as classes baixas, e então suas devastações não puderam ser contidas. O ópio é fumado em toda parte, a todo momento, por homens e mulheres, no Império Celestial; e, uma vez acostumadas, as vítimas não podem dispensá-lo sem sofrer horríveis contorções corporais e agonias. Um grande fumante pode fumar até oito cachimbos por dia; mas morre em cinco anos. Foi em uma dessas espeluncas que Fix e Passepartout, em busca de um copo amigável, se encontraram. Passepartout não tinha dinheiro, mas aceitou voluntariamente o convite de Fix na esperança de retribuir a obrigação em algum momento futuro.

Pediram duas garrafas de vinho do Porto, às quais o francês fez justiça plena, enquanto Fix observava-o com atenção cerrada. Conversaram sobre a viagem, e Passepartout estava especialmente alegre com a ideia de que Fix iria continuar com eles. Quando as garrafas estavam vazias, contudo, levantou-se para ir dizer ao seu amo sobre a mudança no horário de partida do "Carnatic".

Fix agarrou-o pelo braço e disse: "Espere um momento."

"Para quê, Sr. Fix?"

"Quero ter uma conversa séria com você."

"Uma conversa séria!", exclamou Passepartout, bebendo o pouco vinho que restava no fundo de seu copo. "Bem, conversaremos sobre isso amanhã; não tenho tempo agora."

"Fique! O que tenho a dizer diz respeito ao seu amo."

Passepartout, a isso, olhou atentamente para seu companheiro. O rosto de Fix parecia ter uma expressão singular. Ele retomou seu assento.

"O que é que você tem a dizer?"

Fix colocou a mão sobre o braço de Passepartout e, baixando a voz, disse: "Você adivinhou quem eu sou?"

"Parbleu!", disse Passepartout, sorrindo.

"Então vou te contar tudo —"

"Agora que sei tudo, meu amigo! Ah! isso é muito bom. Mas continue, continue. Primeiro, porém, deixe-me dizer que esses cavalheiros se colocaram em uma despesa inútil."

"Inútil!", disse Fix. "Você fala com confiança. É claro que você não sabe quão grande é a soma."

"Claro que sei", respondeu Passepartout. "Vinte mil libras."

"Cinquenta e cinco mil!", respondeu Fix, apertando a mão de seu companheiro.

"O quê!", gritou o francês. "O Sr. Fogg teve a ousadia — cinquenta e cinco mil libras! Bem, há ainda mais motivos para não perder um instante", continuou, levantando-se apressadamente.

Fix empurrou Passepartout de volta para sua cadeira e retomou: "Cinquenta e cinco mil libras; e se eu tiver sucesso, ganho duas mil libras. Se você me ajudar, deixarei que fique com quinhentas delas."

"Ajudá-lo?", gritou Passepartout, cujos olhos estavam arregalados.

"Sim; ajude-me a manter o Sr. Fogg aqui por dois ou três dias."

"Ora, o que está dizendo? Esses cavalheiros não estão satisfeitos em seguir meu amo e suspeitar de sua honra, mas devem tentar colocar obstáculos em seu caminho! Coro de vergonha por eles!"

"O que quer dizer?"

"Quero dizer que é uma peça de trapaça vergonhosa. Eles poderiam muito bem emboscar o Sr. Fogg e colocar seu dinheiro em seus bolsos!"

"É exatamente com isso que contamos fazer."

"É uma conspiração, então", gritou Passepartout, que ficava cada vez mais excitado à medida que o licor subia à sua cabeça, pois bebia sem perceber. "Uma verdadeira conspiração! E cavalheiros, ainda por cima. Bah!"

Fix começou a ficar intrigado.

"Membros do Reform Club!", continuou Passepartout. "Você deve saber, Monsieur Fix, que meu amo é um homem honesto e que, quando ele faz uma aposta, tenta ganhá-la honestamente!"

"Mas quem você acha que eu sou?", perguntou Fix, olhando para ele intensamente.

"Parbleu! Um agente dos membros do Reform Club, enviado aqui para interromper a viagem do meu amo. Mas, embora eu o tenha descoberto há algum tempo, tomei muito cuidado para não dizer nada sobre isso ao Sr. Fogg."

"Ele não sabe de nada, então?"

"Nada", respondeu Passepartout, esvaziando novamente seu copo.

O detetive passou a mão pela testa, hesitante antes de falar novamente. O que deveria fazer? O erro de Passepartout parecia sincero, mas tornava seu projeto mais difícil. Era evidente que o criado não era o cúmplice do amo, como Fix estivera inclinado a suspeitar.

"Bem", disse o detetive para si mesmo, "como ele não é um cúmplice, ele me ajudará."

Ele não tinha tempo a perder: Fogg devia ser detido em Hong Kong, então resolveu abrir o jogo.

"Ouça-me", disse Fix abruptamente. "Eu não sou, como você pensa, um agente dos membros do Reform Club —"

"Bah!", retrucou Passepartout, com um ar de deboche.

"Eu sou um detetive de polícia, enviado aqui pela agência de Londres."

"Você, um detetive?"

"Eu provarei. Aqui está minha comissão."

Passepartout ficou sem fala de espanto quando Fix exibiu este documento, cuja autenticidade não podia ser duvidada.

"A aposta do Sr. Fogg", retomou Fix, "é apenas um pretexto, do qual você e os cavalheiros do Reform são tolos. Ele tinha um motivo para garantir sua cumplicidade inocente."

"Mas por quê?"

"Ouça. No dia 28 de setembro passado, um roubo de cinquenta e cinco mil libras foi cometido no Banco da Inglaterra por uma pessoa cuja descrição foi felizmente obtida. Aqui está sua descrição; ela corresponde exatamente à do Sr. Phileas Fogg."

"Que absurdo!", gritou Passepartout, batendo na mesa com o punho. "Meu amo é o mais honrado dos homens!"

"Como pode saber? Você quase não sabe nada sobre ele. Você entrou em seu serviço no dia em que ele partiu; e ele partiu sob um pretexto tolo, sem baús e carregando uma grande quantia em notas bancárias. E, no entanto, você é audacioso o suficiente para afirmar que ele é um homem honesto!"

"Sim, sim", repetia o pobre rapaz, mecanicamente.

"Você gostaria de ser preso como seu cúmplice?"

Passepartout, vencido pelo que havia ouvido, segurou a cabeça entre as mãos e não se atreveu a olhar para o detetive. Phileas Fogg, o salvador de Aouda, aquele homem corajoso e generoso, um ladrão! E, no entanto, quantas presunções havia contra ele! Passepartout tentou rejeitar as suspeitas que se impunham à sua mente; ele não queria acreditar que seu amo fosse culpado.

"Bem, o que você quer de mim?", disse ele, por fim, com um esforço.

"Veja bem", respondeu Fix; "eu rastreei o Sr. Fogg até este lugar, mas até agora não consegui receber o mandado de prisão que enviei a Londres. Você deve me ajudar a mantê-lo aqui em Hong Kong —"

"Eu! Mas eu —"

"Eu dividirei com você a recompensa de duas mil libras oferecida pelo Banco da Inglaterra."

"Jamais!", respondeu Passepartout, que tentou levantar-se, mas caiu novamente, exausto de mente e corpo.

"Sr. Fix", balbuciou ele, "mesmo que o que você diz seja verdade — se meu amo é realmente o ladrão que você está procurando — o que eu nego — eu estive, estou, a seu serviço; vi sua generosidade e bondade; e nunca o trairei — não por todo o ouro do mundo. Eu venho de um vilarejo onde não comem esse tipo de pão!"

"Você recusa?"

"Eu recuso."

"Considere que eu não disse nada", disse Fix; "e vamos beber."

"Sim; vamos beber!"

Passepartout sentia-se cedendo cada vez mais aos efeitos do licor. Fix, vendo que ele precisava, a todo custo, ser separado de seu amo, desejava vencê-lo inteiramente. Alguns cachimbos cheios de ópio jaziam sobre a mesa. Fix deslizou um para a mão de Passepartout. Ele o pegou, colocou-o entre os lábios, acendeu-o, deu várias tragadas, e sua cabeça, tornando-se pesada sob a influência do narcótico, caiu sobre a mesa.

"Finalmente!", disse Fix, vendo Passepartout inconsciente. "O Sr. Fogg não será informado da partida do 'Carnatic'; e, se for, terá de ir sem este maldito francês!"

E, após pagar sua conta, Fix deixou a taverna.

CAPÍTULO XX. NO QUAL FIX FICA CARA A CARA COM PHILEAS FOGG

Enquanto esses eventos ocorriam na casa de ópio, o Sr. Fogg, inconsciente do perigo que corria de perder o vapor, estava tranquilamente escoltando Aouda pelas ruas do bairro inglês, fazendo as compras necessárias para a longa viagem que tinham pela frente. Estava tudo muito bem para um inglês como o Sr. Fogg dar a volta ao mundo com uma mala de mão; não se esperava que uma senhora viajasse confortavelmente sob tais condições. Ele cumpriu sua tarefa com serenidade característica, e invariavelmente respondia às demonstrações de sua bela companheira, que ficava confusa com sua paciência e generosidade:

"É no interesse da minha viagem — uma parte do meu programa."

Feitas as compras, retornaram ao hotel, onde jantaram em uma mesa farta; após o que Aouda, apertando a mão de seu protetor à moda inglesa, retirou-se para seu quarto para descansar. O Sr. Fogg absorveu-se durante toda a noite na leitura do Times e do Illustrated London News.

Se ele fosse capaz de se espantar com alguma coisa, seria por não ver seu criado retornar na hora de dormir. Mas, sabendo que o vapor não partiria para Yokohama antes da manhã seguinte, não se preocupou com o assunto. Quando Passepartout não apareceu na manhã seguinte para atender à campainha de seu senhor, o Sr. Fogg, não demonstrando a menor contrariedade, contentou-se em pegar sua mala de viagem, chamar Aouda e mandar buscar um palanquim.

Eram então oito horas; às nove e meia, sendo então maré alta, o “Carnatic” deixaria o porto. O Sr. Fogg e Aouda entraram no palanquim, tendo sua bagagem sido trazida atrás em um carrinho de mão, e meia hora depois pisaram no cais de onde deveriam embarcar. O Sr. Fogg soube então que o “Carnatic” havia zarpado na noite anterior. Ele esperava encontrar não apenas o vapor, mas seu criado, e foi forçado a desistir de ambos; mas nenhum sinal de desapontamento apareceu em seu rosto, e ele apenas comentou com Aouda: “É um acidente, madame; nada mais”.

Nesse momento, um homem que o observava atentamente aproximou-se. Era Fix, que, fazendo uma reverência, dirigiu-se ao Sr. Fogg: “O senhor não era, como eu, passageiro do ‘Rangoon’, que chegou ontem?”

“Era, senhor”, respondeu o Sr. Fogg friamente. “Mas não tenho a honra de…”

“Perdoe-me; pensei que encontraria seu criado aqui.”

“O senhor sabe onde ele está?” perguntou Aouda ansiosamente.

“O quê!” respondeu Fix, fingindo surpresa. “Ele não está com vocês?”

“Não”, disse Aouda. “Ele não deu as caras desde ontem. Teria ele embarcado no ‘Carnatic’ sem nós?”

“Sem vocês, madame?” respondeu o detetive. “Perdoem-me, pretendiam zarpar no ‘Carnatic’?”

“Sim, senhor.”

“Eu também, madame, e estou excessivamente decepcionado. O ‘Carnatic’, tendo seus reparos concluídos, deixou Hong Kong doze horas antes do tempo estipulado, sem que qualquer aviso fosse dado; e agora teremos de esperar uma semana por outro vapor.”

Ao dizer “uma semana”, Fix sentiu seu coração saltar de alegria. Fogg retido em Hong Kong por uma semana! Haveria tempo para o mandado de prisão chegar, e a sorte finalmente favorecia o representante da lei. Seu horror pode ser imaginado quando ouviu o Sr. Fogg dizer, com sua voz plácida: “Mas existem outros navios além do ‘Carnatic’, ao que me parece, no porto de Hong Kong”.

E, oferecendo o braço a Aouda, dirigiu seus passos em direção às docas em busca de alguma embarcação prestes a partir. Fix, estupefato, seguiu; parecia que ele estava ligado ao Sr. Fogg por um fio invisível. O acaso, porém, parecia realmente ter abandonado o homem a quem até então servira tão bem. Durante três horas, Phileas Fogg vagou pelas docas, com a determinação, se necessário, de fretar um navio para levá-lo a Yokohama; mas só conseguiu encontrar navios que estavam carregando ou descarregando, e que não podiam, portanto, zarpar. Fix começou a ter esperanças novamente.

Mas o Sr. Fogg, longe de se desencorajar, continuava sua busca, decidido a não parar mesmo que tivesse de recorrer a Macau, quando foi abordado por um marinheiro em um dos cais.

“Sua senhoria está procurando um barco?”

“Tem um barco pronto para zarpar?”

“Sim, senhoria; um barco-piloto — N.º 43 — o melhor do porto.”

“Ele é rápido?”

“Entre oito e nove nós por hora. Quer dar uma olhada?”

“Sim.”

“Sua senhoria ficará satisfeito com ele. É para uma excursão marítima?”

“Não; para uma viagem.”

“Uma viagem?”

“Sim, aceita me levar a Yokohama?”

O marinheiro apoiou-se no parapeito, arregalou os olhos e disse: “Sua senhoria está brincando?”

“Não. Perdi o ‘Carnatic’ e preciso chegar a Yokohama até o dia 14, no mais tardar, para pegar o barco para São Francisco.”

“Sinto muito”, disse o marinheiro; “mas é impossível.”

“Ofereço-lhe cem libras por dia e uma gratificação adicional de duzentas libras se eu chegar a Yokohama a tempo.”

“O senhor está falando sério?”

“Muito sério.”

O piloto afastou-se um pouco e olhou para o mar, evidentemente lutando entre a ansiedade de ganhar uma grande soma e o medo de se aventurar tão longe. Fix estava em suspense mortal.

O Sr. Fogg virou-se para Aouda e perguntou-lhe: “A senhora não teria medo, teria?”

“Não com o senhor, Sr. Fogg”, foi sua resposta.

O piloto retornou então, embaralhando o chapéu nas mãos.

“Bem, piloto?” disse o Sr. Fogg.

“Bem, senhoria”, respondeu ele, “eu não poderia arriscar a mim mesmo, meus homens ou meu pequeno barco de quase vinte toneladas em uma viagem tão longa nesta época do ano. Além disso, não conseguiríamos chegar a Yokohama a tempo, pois são mil seiscentos e sessenta milhas de Hong Kong.”

“Apenas mil e seiscentas”, disse o Sr. Fogg.

“É a mesma coisa.”

Fix respirou mais livremente.

“Mas”, acrescentou o piloto, “poderia ser arranjado de outra maneira.”

Fix parou de respirar completamente.

“Como?” perguntou o Sr. Fogg.

“Indo para Nagasaki, no extremo sul do Japão, ou mesmo para Xangai, que fica a apenas oitocentas milhas daqui. Indo para Xangai, não seríamos forçados a navegar longe da costa chinesa, o que seria uma grande vantagem, já que as correntes correm para o norte e nos ajudariam.”

“Piloto”, disse o Sr. Fogg, “preciso pegar o vapor americano em Yokohama, e não em Xangai ou Nagasaki.”

“Por que não?” respondeu o piloto. “O vapor de São Francisco não parte de Yokohama. Ele faz escala em Yokohama e Nagasaki, mas parte de Xangai.”

“O senhor tem certeza disso?”

“Perfeitamente.”

“E quando o barco sai de Xangai?”

“No dia 11, às sete da noite. Temos, portanto, quatro dias pela frente, ou seja, noventa e seis horas; e nesse tempo, se tivermos sorte e um vento sudoeste, e o mar estiver calmo, poderíamos fazer essas oitocentas milhas até Xangai.”

“E o senhor poderia partir—”

“Em uma hora; assim que as provisões pudessem ser colocadas a bordo e as velas içadas.”

“Negócio fechado. O senhor é o mestre do barco?”

“Sim; John Bunsby, mestre do ‘Tankadere’.”

“Gostaria de um adiantamento?”

“Se não incomodasse sua senhoria—”

“Aqui estão duzentas libras por conta, senhor”, acrescentou Phileas Fogg, voltando-se para Fix, “se o senhor quiser aproveitar—”

“Obrigado, senhor; eu estava prestes a pedir o favor.”

“Muito bem. Em meia hora estaremos a bordo.”

“Mas e o pobre Passepartout?” insistiu Aouda, que estava muito perturbada pelo desaparecimento do criado.

“Farei tudo o que puder para encontrá-lo”, respondeu Phileas Fogg.

Enquanto Fix, em um estado febril e nervoso, dirigia-se ao barco-piloto, os outros seguiram para a delegacia de polícia de Hong Kong. Phileas Fogg forneceu lá a descrição de Passepartout e deixou uma quantia em dinheiro para ser gasta na busca por ele. Tendo sido cumpridas as mesmas formalidades no consulado francês, e o palanquim tendo parado no hotel para buscar a bagagem, que fora enviada de volta para lá, eles retornaram ao cais.

Eram agora três horas; e o barco-piloto N.º 43, com sua tripulação a bordo e suas provisões armazenadas, estava pronto para a partida.

O “Tankadere” era uma pequena embarcação elegante de vinte toneladas, construída tão graciosamente como se fosse um iate de corrida. Seu revestimento de cobre brilhante, suas ferragens galvanizadas, seu convés, branco como marfim, denunciavam o orgulho que John Bunsby tinha em torná-la apresentável. Seus dois mastros inclinavam-se um pouco para trás; ela transportava brigantina, vela de proa, bujarrona de tempestade e bujarrona fixa, e estava bem aparelhada para correr com o vento; e parecia capaz de uma velocidade rápida, o que, de fato, já havia provado ao ganhar vários prêmios em regatas de barcos-piloto. A tripulação do “Tankadere” era composta por John Bunsby, o mestre, e quatro marinheiros robustos, familiarizados com os mares chineses. John Bunsby, ele próprio um homem de quarenta e cinco anos ou algo assim, vigoroso, bronzeado, com uma expressão viva nos olhos e um semblante enérgico e autoconfiante, teria inspirado confiança nos mais tímidos.

Phileas Fogg e Aouda embarcaram, onde encontraram Fix já instalado. Abaixo do convés havia uma cabine quadrada, cujas paredes se projetavam na forma de beliches, acima de um divã circular; no centro havia uma mesa equipada com uma lâmpada oscilante. A acomodação era limitada, mas arrumada.

“Lamento não ter nada melhor a oferecer-lhe”, disse o Sr. Fogg a Fix, que se curvou sem responder.

O detetive tinha um sentimento próximo da humilhação ao lucrar com a bondade do Sr. Fogg.

“É certo”, pensou ele, “embora canalha como é, é um canalha educado!”

As velas e a bandeira inglesa foram içadas às três e dez. O Sr. Fogg e Aouda, que estavam sentados no convés, lançaram um último olhar ao cais, na esperança de avistar Passepartout. Fix não estava sem seus medos de que o acaso pudesse direcionar os passos do infeliz criado, a quem ele havia tratado tão mal, para aquela direção; caso em que uma explicação, o oposto de satisfatória para o detetive, teria ocorrido. Mas o francês não apareceu e, sem dúvida, ainda estava sob a influência entorpecente do ópio.

John Bunsby, mestre, finalmente deu a ordem para partir, e o “Tankadere”, aproveitando o vento em sua brigantina, vela de proa e bujarrona fixa, saltou rapidamente sobre as ondas.

CAPÍTULO XXI. NO QUAL O MESTRE DO “TANKADERE” CORRE GRANDE RISCO DE PERDER UMA RECOMPENSA DE DUZENTAS LIBRAS

Esta viagem de oitocentas milhas era um empreendimento perigoso em uma embarcação de vinte toneladas, e naquela época do ano. Os mares chineses são geralmente agitados, sujeitos a terríveis vendavais, e especialmente durante os equinócios; e era agora início de novembro.

Teria sido claramente vantajoso para o mestre levar seus passageiros a Yokohama, já que ele era pago com uma certa quantia por dia; mas ele teria sido imprudente ao tentar tal viagem, e era temerário até mesmo tentar chegar a Xangai. Mas John Bunsby acreditava no “Tankadere”, que cavalgava as ondas como uma gaivota; e talvez não estivesse errado.

No fim do dia, atravessaram os canais caprichosos de Hong Kong, e o “Tankadere”, impulsionado por ventos favoráveis, comportou-se admiravelmente.

“Não preciso, piloto”, disse Phileas Fogg, quando chegaram a mar aberto, “aconselhá-lo a usar toda a velocidade possível.”

“Confie em mim, senhoria. Estamos carregando toda a vela que o vento permite. Os mastros adicionais não acrescentariam nada e só são usados quando estamos entrando no porto.”

“É o seu ofício, não o meu, piloto, e eu confio no senhor.”

Phileas Fogg, com o corpo ereto e as pernas bem afastadas, de pé como um marinheiro, observava sem cambalear as águas agitadas. A jovem, que estava sentada na popa, ficou profundamente comovida ao olhar para o oceano, escurecendo agora com o crepúsculo, no qual ela se aventurara em uma embarcação tão frágil. Acima de sua cabeça sussurravam as velas brancas, que pareciam grandes asas brancas. O barco, carregado pelo vento, parecia estar voando no ar.

A noite chegou. A lua estava entrando em seu primeiro quarto, e sua luz insuficiente logo morreria na névoa do horizonte. Nuvens surgiam do leste e já cobriam parte dos céus.

O piloto havia pendurado suas luzes, o que era muito necessário nestes mares repletos de navios indo em direção à terra; pois colisões não são ocorrências incomuns e, na velocidade em que seguia, o menor choque despedaçaria a valente pequena embarcação.

Fix, sentado na proa, entregou-se à meditação. Ele se manteve afastado de seus companheiros de viagem, conhecendo os gostos taciturnos do Sr. Fogg; além disso, ele não gostava muito de conversar com o homem cujos favores ele havia aceitado. Ele também pensava no futuro. Parecia certo que Fogg não pararia em Yokohama, mas imediatamente pegaria o barco para São Francisco; e a vasta extensão da América garantiria a ele impunidade e segurança. O plano de Fogg parecia-lhe o mais simples do mundo. Em vez de navegar diretamente da Inglaterra para os Estados Unidos, como um vilão comum, ele atravessara três quartos do globo, para alcançar o continente americano com mais segurança; e lá, depois de despistar a polícia, desfrutaria tranquilamente da fortuna roubada do banco. Mas, uma vez nos Estados Unidos, o que ele, Fix, faria? Deveria abandonar este homem? Não, cem vezes não! Até que tivesse garantido sua extradição, ele não o perderia de vista por uma hora. Era seu dever, e ele o cumpriria até o fim. De qualquer modo, havia uma coisa pela qual ser grato; Passepartout não estava com seu senhor; e era, acima de tudo, importante, após as confidências que Fix lhe havia feito, que o criado nunca falasse com seu senhor.

Phileas Fogg também pensava em Passepartout, que havia desaparecido tão estranhamente. Olhando para o assunto de todos os pontos de vista, não lhe parecia impossível que, por algum engano, o homem pudesse ter embarcado no “Carnatic” no último momento; e essa era também a opinião de Aouda, que lamentava muito a perda do digno companheiro a quem ela devia tanto. Eles poderiam então encontrá-lo em Yokohama; pois, se o “Carnatic” o estivesse levando para lá, seria fácil verificar se ele estivera a bordo.

Uma brisa forte surgiu por volta das dez horas; mas, embora pudesse ter sido prudente reduzir o pano, o piloto, após examinar cuidadosamente os céus, deixou a embarcação aparelhada como antes. O “Tankadere” suportava a vela admiravelmente, pois tinha um grande calado, e tudo estava preparado para alta velocidade em caso de vendaval.

O Sr. Fogg e Aouda desceram para a cabine à meia-noite, tendo sido já precedidos por Fix, que se deitara em um dos beliches. O piloto e a tripulação permaneceram no convés a noite toda.

Ao nascer do sol no dia seguinte, 8 de novembro, o barco havia percorrido mais de cem milhas. O registro indicava uma velocidade média entre oito e nove milhas. O “Tankadere” ainda carregava todas as velas e estava atingindo sua capacidade máxima de velocidade. Se o vento se mantivesse como estava, as chances estariam a seu favor. Durante o dia, manteve-se ao longo da costa, onde as correntes eram favoráveis; a costa, irregular no perfil e visível às vezes através das clareiras, estava no máximo a cinco milhas de distância. O mar estava menos agitado, já que o vento vinha da terra — uma circunstância afortunada para o barco, que sofreria, devido à sua pequena tonelagem, com uma forte ondulação no mar.

A brisa diminuiu um pouco por volta do meio-dia e firmou-se de sudoeste. O piloto içou seus mastros adicionais, mas retirou-os novamente dentro de duas horas, à medida que o vento refrescou novamente.

O Sr. Fogg e Aouda, felizmente não afetados pela aspereza do mar, comeram com bom apetite, sendo Fix convidado a compartilhar sua refeição, o que aceitou com secreto desgosto. Viajar às custas deste homem e viver de suas provisões não era do seu agrado. Ainda assim, ele era obrigado a comer, e então ele comeu.

Quando a refeição terminou, ele chamou o Sr. Fogg de lado e disse: “Senhor” — este “senhor” queimava seus lábios, e ele teve de se controlar para evitar agarrar este “cavalheiro” — “senhor, o senhor foi muito gentil em me dar passagem neste barco. Mas, embora meus meios não me permitam gastá-los tão livremente quanto o senhor, devo pedir para pagar minha parte—”

“Não falemos disso, senhor”, respondeu o Sr. Fogg.

“Mas, se eu insistir—”

“Não, senhor”, repetiu o Sr. Fogg, em um tom que não admitia resposta. “Isso entra nas minhas despesas gerais.”

Fix, ao se curvar, sentiu um aperto sufocante e, indo para a proa, onde se acomodou, não abriu a boca pelo resto do dia.

Enquanto isso, eles progrediam famosamente, e John Bunsby estava cheio de esperança. Ele garantiu várias vezes ao Sr. Fogg que chegariam a Xangai a tempo; ao que aquele cavalheiro respondeu que contava com isso. A tripulação começou a trabalhar com afinco, inspirada pela recompensa a ser ganha. Não havia uma escota que não estivesse apertada, não havia uma vela que não fosse vigorosamente içada; nenhum adernamento poderia ser atribuído ao homem no leme. Eles trabalhavam desesperadamente como se estivessem competindo em uma regata de iates reais.

Ao entardecer, o registro mostrava que duzentas e vinte milhas haviam sido percorridas desde Hong Kong, e o Sr. Fogg podia esperar conseguir chegar a Yokohama sem registrar qualquer atraso em seu diário; caso em que as muitas desaventuras que o haviam acometido desde que deixara Londres não afetariam seriamente sua viagem.

O “Tankadere” entrou nos Estreitos de Fo-Kien, que separam a ilha de Formosa da costa chinesa, nas primeiras horas da noite, e cruzou o Trópico de Câncer. O mar estava muito agitado nos estreitos, cheio de redemoinhos formados pelas contracorrentes, e as ondas curtas interrompiam seu curso, enquanto se tornava muito difícil ficar de pé no convés.

Ao amanhecer, o vento começou a soprar forte novamente, e os céus pareciam prever um vendaval. O barômetro anunciava uma mudança rápida, com o mercúrio subindo e descendo caprichosamente; o mar também, no sudeste, levantava longas ondulações que indicavam uma tempestade. O sol havia se posto na noite anterior em uma névoa vermelha, em meio às cintilações fosforescentes do oceano.

John Bunsby examinou longamente o aspecto ameaçador dos céus, resmungando indistintamente entre os dentes. Finalmente disse em voz baixa ao Sr. Fogg: “Devo falar abertamente à sua senhoria?”

“Certamente.”

“Bem, vamos ter uma borrasca.”

“O vento é de norte ou sul?” perguntou o Sr. Fogg calmamente.

“Sul. Olhe! Um tufão está chegando.”

“Fico feliz que seja um tufão do sul, pois nos levará para frente.”

“Oh, se o senhor encara dessa forma”, disse John Bunsby, “não tenho mais nada a dizer.” As suspeitas de John Bunsby foram confirmadas. Em uma época menos avançada do ano, o tufão, de acordo com um famoso meteorologista, teria passado como uma cascata luminosa de chama elétrica; mas no equinócio de inverno era de se temer que irrompesse sobre eles com grande violência.

O piloto tomou suas precauções com antecedência. Reduziu todo o pano, os mastros adicionais foram dispensados; todos os homens foram para a proa. Uma única vela triangular, de lona forte, foi içada como bujarrona de tempestade, de modo a segurar o vento por trás. Então eles esperaram.

John Bunsby havia pedido a seus passageiros que descessem; mas esse confinamento em um espaço tão estreito, com pouco ar, e o barco saltando na ventania, estava longe de ser agradável. Nem o Sr. Fogg, nem Fix, nem Aouda consentiram em deixar o convés.

A tempestade de chuva e vento desceu sobre eles por volta das oito horas. Com apenas seu pedaço de vela, o “Tankadere” era levantado como uma pena por um vento, de cuja violência dificilmente se pode dar uma ideia. Comparar sua velocidade a quatro vezes a de uma locomotiva a vapor em plena marcha seria ficar abaixo da verdade.

O barco deslizou assim para o norte durante todo o dia, levado por ondas monstruosas, preservando sempre, felizmente, uma velocidade igual à delas. Vinte vezes pareceu quase ser submerso por essas montanhas de água que se erguiam atrás dele; mas o manejo hábil do piloto salvou-o. Os passageiros eram frequentemente banhados por borrifos, mas submetiam-se a isso filosoficamente. Fix amaldiçoava-o, sem dúvida; mas Aouda, com os olhos fixos em seu protetor, cuja calma a espantava, mostrou-se digna dele e enfrentou bravamente a tempestade. Quanto a Phileas Fogg, parecia apenas como se o tufão fosse parte de seu programa.

Até este momento, o “Tankadere” sempre mantivera seu curso para o norte; mas, ao anoitecer, o vento, virando três quartos, abateu-se de noroeste. O barco, agora deitado na cavidade das ondas, sacudia e balançava terrivelmente; o mar batia nele com violência terrível. À noite, a tempestade aumentou em violência. John Bunsby viu a aproximação da escuridão e o aumento da tempestade com sombrias apreensões. Ele pensou um pouco e então perguntou à sua tripulação se não estava na hora de diminuir a velocidade. Após uma consulta, aproximou-se do Sr. Fogg e disse: “Acho, senhoria, que faríamos bem em buscar um dos portos da costa.”

“Eu também acho.”

“Ah!” disse o piloto. “Mas qual?”

“Conheço apenas um”, respondeu o Sr. Fogg tranquilamente.

“E esse é—”

“Xangai.”

O piloto, a princípio, não pareceu compreender; ele mal podia conceber tanta determinação e tenacidade. Então exclamou: “Bem — sim! Vossa senhoria tem razão. Para Xangai!”

Assim, a “Tankadere” manteve-se firmemente em sua rota para o norte.

A noite foi verdadeiramente terrível; seria um milagre se a embarcação não naufragasse. Por duas vezes tudo poderia ter acabado para ela se a tripulação não estivesse constantemente em alerta. Aouda estava exausta, mas não soltou uma queixa. Mais de uma vez o Sr. Fogg apressou-se para protegê-la da violência das ondas.

O dia reapareceu. A tempestade ainda rugia com fúria inabalável; mas o vento agora voltava para o sudeste. Foi uma mudança favorável, e a “Tankadere” voltou a saltar sobre aquele mar montanhoso, embora as ondas se cruzassem e causassem choques e contrachoques que teriam esmagado uma embarcação menos solidamente construída. De tempos em tempos, a costa era visível através da névoa entrecortada, mas nenhuma embarcação estava à vista. A “Tankadere” estava sozinha sobre o mar.

Houve alguns sinais de calmaria ao meio-dia, e estes tornaram-se mais distintos à medida que o sol descia em direção ao horizonte. A tempestade fora tão breve quanto terrível. Os passageiros, completamente exaustos, puderam então comer um pouco e descansar.

A noite foi comparativamente calma. Algumas das velas foram içadas novamente, e a velocidade do barco foi muito boa. Na manhã seguinte, ao amanhecer, avistaram a costa, e John Bunsby pôde afirmar que não estavam a cem milhas de Xangai. Cem milhas, e apenas um dia para percorrê-las! Naquela mesma noite, o Sr. Fogg deveria estar em Xangai, se não quisesse perder o vapor para Yokohama. Se não tivesse havido tempestade, durante a qual várias horas foram perdidas, estariam naquele momento a trinta milhas de seu destino.

O vento tornou-se decididamente mais calmo e, felizmente, o mar baixou com ele. Todas as velas foram içadas e, ao meio-dia, a “Tankadere” estava a quarenta e cinco milhas de Xangai. Restavam ainda seis horas para cumprir essa distância. Todos a bordo temiam que não fosse possível, e cada um — exceto Phileas Fogg, sem dúvida — sentia o coração bater com impaciência. O barco precisava manter uma média de nove milhas por hora, e o vento estava ficando mais calmo a cada momento! Era uma brisa caprichosa, vindo da costa, e depois que ela passou, o mar tornou-se calmo. Ainda assim, a “Tankadere” era tão leve, e suas belas velas captavam tão bem os zéfiros inconstantes que, com a ajuda das correntes, John Bunsby viu-se às seis horas a não mais que dez milhas da foz do Rio de Xangai. Xangai em si está situada pelo menos doze milhas rio acima. Às sete, ainda estavam a três milhas de Xangai. O piloto proferiu um juramento raivoso; a recompensa de duzentas libras estava evidentemente prestes a escapar-lhe. Ele olhou para o Sr. Fogg. O Sr. Fogg estava perfeitamente tranquilo; e, no entanto, toda a sua fortuna estava naquele momento em jogo.

Neste momento, também, uma longa chaminé negra, coroada por grinaldas de fumaça, apareceu na borda das águas. Era o vapor americano, partindo para Yokohama na hora marcada.

“Maldito seja!”, gritou John Bunsby, empurrando o leme com um solavanco desesperado.

“Sinale para ele!”, disse Phileas Fogg calmamente.

Um pequeno canhão de latão ficava no convés de proa da “Tankadere”, para fazer sinais nas névoas. Estava carregado até a boca; mas, exatamente quando o piloto estava prestes a aplicar um carvão em brasa ao ouvido, o Sr. Fogg disse: “Ice a sua bandeira!”

A bandeira foi içada a meio mastro e, sendo este o sinal de perigo, esperava-se que o vapor americano, percebendo-o, mudasse um pouco seu curso, de modo a socorrer o barco-piloto.

“Fogo!”, disse o Sr. Fogg. E o estrondo do pequeno canhão ressoou no ar.

CAPÍTULO XXII. NO QUAL PASSEPARTOUT DESCOBRE QUE, MESMO NAS ANTÍPODAS, É CONVENIENTE TER ALGUM DINHEIRO NO BOLSO

O “Carnatic”, partindo de Hong Kong às seis e meia da manhã do dia 7 de novembro, dirigiu seu curso a todo vapor em direção ao Japão. Transportava uma grande carga e uma cabine bem cheia de passageiros. Duas cabines na parte traseira, porém, estavam desocupadas — aquelas que haviam sido reservadas por Phileas Fogg.

No dia seguinte, um passageiro com olhar meio estupefato, andar cambaleante e cabelos desgrenhados foi visto emergir da segunda cabine e cambalear até um assento no convés.

Era Passepartout; e o que lhe acontecera foi o seguinte: pouco depois de Fix ter deixado a casa de ópio, dois garçons haviam levantado o inconsciente Passepartout e o carregado para a cama reservada aos fumantes. Três horas depois, perseguido até mesmo em seus sonhos por uma ideia fixa, o pobre rapaz acordou e lutou contra a influência estupefaciente do narcótico. O pensamento de um dever não cumprido dissipou seu torpor, e ele saiu apressado da morada da embriaguez. Cambaleando e mantendo-se de pé ao apoiar-se nas paredes, caindo e levantando-se novamente, e irresistivelmente impelido por uma espécie de instinto, ele continuava a gritar: “O ‘Carnatic’! O ‘Carnatic’!”

O vapor jazia bufando junto ao cais, prestes a partir. Passepartout tinha apenas alguns passos a dar; e, correndo para a prancha, atravessou-a e caiu inconsciente no convés, exatamente quando o “Carnatic” se afastava. Vários marinheiros, que eram evidentemente acostumados a esse tipo de cena, levaram o pobre francês para a segunda cabine, e Passepartout não acordou até que estivessem a cento e cinquenta milhas de distância da China. Assim, ele se viu na manhã seguinte no convés do “Carnatic”, inalando avidamente a revigorante brisa marinha. O ar puro o deixou sóbrio. Ele começou a recuperar seus sentidos, o que achou uma tarefa difícil; mas, finalmente, recordou os eventos da noite anterior, a revelação de Fix e a casa de ópio.

“É evidente”, disse ele a si mesmo, “que fiquei abominavelmente bêbado! O que dirá o Sr. Fogg? Pelo menos não perdi o vapor, o que é a coisa mais importante.”

Então, quando Fix lhe veio à mente: “Quanto àquele patife, espero que estejamos bem livres dele, e que ele não tenha ousado, como propôs, seguir-nos a bordo do ‘Carnatic’. Um detetive na trilha do Sr. Fogg, acusado de roubar o Banco da Inglaterra! Tolice! O Sr. Fogg não é mais um ladrão do que eu sou um assassino.”

Deveria ele revelar a verdadeira missão de Fix ao seu senhor? Seria conveniente contar o papel que o detetive estava desempenhando? Não seria melhor esperar até que o Sr. Fogg chegasse a Londres novamente, e então contar-lhe que um agente da polícia metropolitana o seguira pelo mundo afora, e dar boas risadas sobre isso? Sem dúvida; pelo menos, valia a pena considerar. A primeira coisa a fazer era encontrar o Sr. Fogg e pedir desculpas por seu comportamento singular.

Passepartout levantou-se e prosseguiu, tão bem quanto pôde com o balanço do vapor, para o convés de ré. Não viu ninguém que se parecesse com seu senhor ou com Aouda. “Bom!”, murmurou ele; “Aouda ainda não se levantou e o Sr. Fogg provavelmente encontrou alguns parceiros para o whist.”

Ele desceu ao salão. O Sr. Fogg não estava lá. Passepartout, porém, só precisava perguntar ao comissário o número da cabine de seu senhor. O comissário respondeu que não conhecia nenhum passageiro pelo nome de Fogg.

“Peço perdão”, disse Passepartout persistentemente. “Ele é um cavalheiro alto, tranquilo, não muito falante, e tem consigo uma jovem senhora—”

“Não há nenhuma jovem senhora a bordo”, interrompeu o comissário. “Aqui está uma lista dos passageiros; você pode ver por si mesmo.”

Passepartout examinou a lista, mas o nome de seu senhor não estava nela. De repente, uma ideia o atingiu.

“Ah! Estou no ‘Carnatic’?”

“Sim.”

“A caminho de Yokohama?”

“Certamente.”

Passepartout temera por um instante estar no barco errado; mas, embora estivesse realmente no “Carnatic”, seu senhor não estava lá.

Ele caiu fulminado sobre um assento. Agora via tudo. Lembrou-se de que o horário de partida fora alterado, que ele deveria ter informado seu senhor desse fato, e que não o fizera. Era culpa sua, então, que o Sr. Fogg e Aouda tivessem perdido o vapor. Sim, mas era ainda mais culpa do traidor que, para separá-lo de seu senhor e deter este último em Hong Kong, o induzira a ficar bêbado! Ele via agora o truque do detetive; e, naquele momento, o Sr. Fogg estava certamente arruinado, sua aposta perdida, e ele próprio talvez preso e encarcerado! Com esse pensamento, Passepartout arrancou os cabelos. Ah, se Fix algum dia caísse em suas mãos, que acerto de contas haveria!

Após sua depressão inicial, Passepartout acalmou-se e começou a estudar sua situação. Certamente não era invejável. Ele se encontrava a caminho do Japão, e o que faria quando chegasse lá? Seu bolso estava vazio; ele não tinha um xelim sequer, nem um centavo. Sua passagem fora felizmente paga com antecedência; e ele tinha cinco ou seis dias para decidir sobre seu curso futuro. Ele atacou as refeições com apetite e comeu por Fogg, Aouda e por si mesmo. Serviu-se tão generosamente como se o Japão fosse um deserto, onde não se esperava encontrar nada para comer.

Ao amanhecer do dia 13, o “Carnatic” entrou no porto de Yokohama. Este é um importante porto de escala no Pacífico, onde todos os vapores de mala postal, e aqueles que transportam viajantes entre a América do Norte, China, Japão e as ilhas orientais, fazem escala. Situa-se na baía de Yeddo, a uma curta distância daquela segunda capital do Império Japonês, e residência do Tycoon, o imperador civil, antes que o Mikado, o imperador espiritual, absorvesse o seu cargo no seu próprio. O “Carnatic” ancorou no cais perto da alfândega, em meio a uma multidão de navios ostentando as bandeiras de todas as nações.

Passepartout desembarcou timidamente neste território tão curioso dos Filhos do Sol. Ele não tinha nada melhor a fazer do que, tomando o acaso como seu guia, vagar sem rumo pelas ruas de Yokohama. Encontrou-se a princípio em um bairro completamente europeu, as casas tendo fachadas baixas e sendo adornadas com varandas, sob as quais vislumbrou peristilos arrumados. Este bairro ocupava, com suas ruas, praças, docas e armazéns, todo o espaço entre o “promontório do Tratado” e o rio. Aqui, como em Hong Kong e Calcutá, misturavam-se multidões de todas as raças, americanos e ingleses, chineses e holandeses, a maioria comerciantes prontos a comprar ou vender qualquer coisa. O francês sentiu-se tão sozinho entre eles como se tivesse caído no meio de hotentotes.

Ele tinha, pelo menos, um recurso: recorrer aos cônsules francês e inglês em Yokohama em busca de assistência. Mas ele hesitava em contar a história de suas aventuras, intimamente ligada como estava à de seu senhor; e, antes de fazê-lo, determinou esgotar todos os outros meios de ajuda. Como o acaso não o favoreceu no bairro europeu, ele penetrou no habitado pelos nativos japoneses, determinado, se necessário, a seguir até Yeddo.

O bairro japonês de Yokohama chama-se Benten, em homenagem à deusa do mar, que é adorada nas ilhas ao redor. Ali, Passepartout contemplou belos bosques de abetos e cedros, portões sagrados de uma arquitetura singular, pontes meio escondidas em meio a bambus e juncos, templos sombreados por imensos cedros, retiros sagrados onde se abrigavam sacerdotes budistas e sectários de Confúcio, e ruas intermináveis, onde se poderia colher uma verdadeira colheita de crianças de bochechas rosadas e vermelhas, que pareciam ter sido recortadas de biombos japoneses, e que brincavam em meio a poodles de pernas curtas e gatos amarelados.

As ruas estavam apinhadas de gente. Sacerdotes passavam em procissões, batendo seus lúgubres tamborins; policiais e oficiais da alfândega com chapéus pontiagudos incrustados de laca e carregando dois sabres pendurados na cintura; soldados, vestidos de algodão azul com listras brancas e portando armas; os guardas do Mikado, envoltos em duplos de seda, cotas de malha e armaduras; e muitos militares de todas as patentes — pois a profissão militar é tão respeitada no Japão quanto é desprezada na China — caminhavam de um lado para o outro em grupos e pares. Passepartout viu, também, frades mendicantes, peregrinos de longas vestes e civis simples, com seus cabelos pretos como azeviche e deformados, cabeças grandes, bustos longos, pernas delgadas, estatura baixa e tez variando do cor de cobre ao branco morto, mas nunca amarelo, como os chineses, de quem os japoneses diferem amplamente. Ele não deixou de observar os curiosos veículos — carruagens e liteiras, carrinhos providos de velas e liteiras feitas de bambu; nem as mulheres — que ele não achou especialmente bonitas — que davam passinhos com seus pezinhos, nos quais usavam sapatos de lona, sandálias de palha e tamancos de madeira trabalhada, e que exibiam olhos estreitos, peitos planos, dentes da moda enegrecidos e vestidos cruzados com faixas de seda, amarrados em um nó enorme atrás, um ornamento que as modernas senhoras parisienses parecem ter tomado emprestado das damas do Japão.

Passepartout vagou por várias horas em meio a essa multidão heterogênea, olhando as vitrines das lojas ricas e curiosas, os estabelecimentos de joalharia brilhando com ornamentos japoneses pitorescos, os restaurantes decorados com flâmulas e faixas, as casas de chá, onde a bebida odorífera era bebida com “saki”, um licor preparado a partir da fermentação do arroz, e as confortáveis casas de fumo, onde fumavam, não ópio, que é quase desconhecido no Japão, mas um tabaco muito fino e fibroso. Ele continuou até se encontrar nos campos, em meio a vastas plantações de arroz. Lá viu camélias deslumbrantes expandindo-se, com flores que exalavam suas últimas cores e perfumes, não em arbustos, mas em árvores, e dentro de cercados de bambu, cerejeiras, ameixeiras e macieiras, que os japoneses cultivam mais por suas flores do que por seus frutos, e que espantalhos de aspecto estranho e sorridentes protegiam dos pardais, pombos, corvos e outras aves vorazes. Nos galhos dos cedros estavam empoleiradas grandes águias; em meio à folhagem dos salgueiros chorões havia garças, solenemente de pé sobre uma perna só; e por toda parte havia corvos, patos, gaviões, aves selvagens e uma multidão de grous, que os japoneses consideram sagrados e que, em suas mentes, simbolizam longevidade e prosperidade.

Enquanto caminhava, Passepartout avistou algumas violetas entre os arbustos.

“Bom!”, disse ele; “Vou jantar.”

Mas, ao cheirá-las, descobriu que não tinham odor.

“Sem sorte aí”, pensou ele.

O digno rapaz certamente tomara o cuidado de comer um café da manhã o mais farto possível antes de deixar o “Carnatic”; mas, como estivera caminhando o dia todo, as exigências da fome tornavam-se importunas. Ele observou que as bancas dos açougueiros não continham nem carneiro, nem cabra, nem porco; e, sabendo também que é um sacrilégio matar gado, que é preservado apenas para a agricultura, concluiu que a carne estava longe de ser abundante em Yokohama — e não se enganou; e, na falta de carne de açougue, desejaria um quarto de javali ou veado, uma perdiz ou algumas codornas, alguma caça ou peixe, que, com arroz, os japoneses comem quase exclusivamente. Mas ele achou necessário manter o coração firme e adiar a refeição que desejava até a manhã seguinte. A noite chegou, e Passepartout reentrou no bairro nativo, onde vagou pelas ruas, iluminadas por lanternas de cores variadas, observando os dançarinos, que executavam passos e saltos habilidosos, e os astrólogos que estavam ao ar livre com seus telescópios. Então ele chegou ao porto, que estava iluminado pelas tochas de resina dos pescadores, que pescavam de seus barcos.

As ruas finalmente ficaram silenciosas, e a patrulha, cujos oficiais, em seus trajes esplêndidos e cercados por suas comitivas, Passepartout pensou que pareciam embaixadores, substituiu a multidão agitada. Cada vez que uma companhia passava, Passepartout ria e dizia a si mesmo: “Bom! Mais uma embaixada japonesa partindo para a Europa!”

CAPÍTULO XXIII. NO QUAL O NARIZ DE PASSEPARTOUT SE TORNA ESCANDALOSAMENTE LONGO

Na manhã seguinte, o pobre, cansado e faminto Passepartout disse a si mesmo que precisava conseguir algo para comer a todo custo, e quanto mais cedo o fizesse, melhor. Ele poderia, de fato, vender seu relógio; mas morreria de fome antes. Agora ou nunca ele deveria usar a voz forte, se não melodiosa, que a natureza lhe concedera. Ele conhecia várias canções francesas e inglesas, e resolveu experimentá-las com os japoneses, que deviam ser amantes da música, já que estavam sempre batendo em seus címbalos, tam-tãs e tamborins, e não poderiam deixar de apreciar o talento europeu.

Era, talvez, um pouco cedo para organizar um concerto, e o público, prematuramente despertado de seu sono, poderia não pagar o artista com moedas ostentando as feições do Mikado. Passepartout decidiu, portanto, esperar várias horas; e, enquanto passeava, ocorreu-lhe que pareceria bem vestido demais para um artista errante. A ideia de trocar suas roupas por vestimentas mais em harmonia com seu projeto o atingiu; com o que ele também poderia conseguir um pouco de dinheiro para satisfazer as necessidades imediatas da fome. A resolução tomada, restava apenas executá-la.

Foi somente após uma longa busca que Passepartout descobriu um comerciante nativo de roupas usadas, a quem pediu uma troca. O homem gostou do traje europeu, e logo Passepartout saiu de sua loja equipado com um velho casaco japonês e uma espécie de turbante de um lado só, desbotado pelo longo uso. Algumas pequenas moedas de prata, além disso, tilintavam em seu bolso.

“Bom!”, pensou ele. “Vou imaginar que estou no Carnaval!”

Seu primeiro cuidado, depois de estar assim “japonizado”, foi entrar em uma casa de chá de aparência modesta e, com meio pássaro e um pouco de arroz, tomar o café da manhã como um homem para quem o jantar ainda era um problema a ser resolvido.

“Agora”, pensou ele, depois de ter comido fartamente, “não devo perder a cabeça. Não posso vender este traje novamente por um ainda mais japonês. Devo considerar como deixar este país do Sol, do qual não guardarei as mais deliciosas lembranças, o mais rápido possível.”

Ocorreu-lhe visitar os vapores que estavam prestes a partir para a América. Ele se ofereceria como cozinheiro ou criado, em pagamento de sua passagem e refeições. Uma vez em São Francisco, ele encontraria algum meio de seguir adiante. A dificuldade era como atravessar as quatro mil e setecentas milhas do Pacífico que se estendiam entre o Japão e o Novo Mundo.

Passepartout não era o homem de deixar uma ideia mendigando, e dirigiu seus passos em direção às docas. Mas, à medida que se aproximava delas, seu projeto, que a princípio parecera tão simples, começou a tornar-se cada vez mais formidável em sua mente. Que necessidade teriam eles de um cozinheiro ou criado em um vapor americano, e que confiança depositariam nele, vestido como estava? Que referências ele poderia dar?

Enquanto refletia desta maneira, seus olhos pousaram sobre um imenso cartaz que uma espécie de palhaço carregava pelas ruas. Este cartaz, que estava em inglês, dizia o seguinte:

TROUPE ACROBÁTICA JAPONESA, HONORÁVEL WILLIAM BATULCAR, PROPRIETÁRIO, ÚLTIMAS REPRESENTAÇÕES, ANTES DE SUA PARTIDA PARA OS ESTADOS UNIDOS, DOS NARIZES LONGOS! NARIZES LONGOS! SOB O PATROCÍNIO DIRETO DO DEUS TINGOU! GRANDE ATRAÇÃO!

“Os Estados Unidos!”, disse Passepartout; “é exatamente o que eu quero!”

Ele seguiu o palhaço e logo se viu mais uma vez no bairro japonês. Um quarto de hora depois, parou diante de uma grande cabana, adornada com vários cachos de flâmulas, cujas paredes externas foram projetadas para representar, em cores violentas e sem perspectiva, uma companhia de malabaristas.

Este era o estabelecimento do Honorável William Batulcar. Esse cavalheiro era uma espécie de Barnum, o diretor de uma troupe de saltimbancos, malabaristas, palhaços, acrobatas, equilibristas e ginastas, que, segundo o cartaz, estava dando suas últimas apresentações antes de deixar o Império do Sol para os Estados da União.

Passepartout entrou e perguntou pelo Sr. Batulcar, que apareceu imediatamente em pessoa.

“O que você quer?”, disse ele a Passepartout, a quem a princípio tomou por um nativo.

“O senhor gostaria de um criado?”, perguntou Passepartout.

“Um criado!” exclamou o Sr. Batulcar, acariciando a espessa barba grisalha que pendia de seu queixo. “Já tenho dois que são obedientes e fiéis, que nunca me deixaram e me servem em troca de seu sustento, e aqui estão eles”, acrescentou, estendendo seus dois braços robustos, sulcados por veias tão grossas quanto as cordas de um contrabaixo.

“Então não posso ser-lhe de nenhuma utilidade?”

“Nenhuma.”

“Diabo! Eu gostaria tanto de atravessar o Pacífico com o senhor!”

“Ah!” disse o Honorável Sr. Batulcar. “Você não é mais japonês do que eu sou um macaco! Quem é você, vestido desse jeito?”

“Um homem veste-se como pode.”

“Isso é verdade. Você é francês, não é?”

“Sim; um parisiense de Paris.”

“Então você deve saber fazer caretas?”

“Ora”, respondeu Passepartout, um pouco vexado por sua nacionalidade ter provocado tal pergunta, “nós, franceses, sabemos fazer caretas, é verdade, mas não melhor do que os americanos.”

“Verdade. Bem, se não posso levá-lo como criado, posso como palhaço. Veja, meu amigo, na França eles exibem palhaços estrangeiros, e nas terras estrangeiras, palhaços franceses.”

“Ah!”

“Você é bem forte, eh?”

“Especialmente depois de uma boa refeição.”

“E sabe cantar?”

“Sim”, respondeu Passepartout, que antigamente costumava cantar nas ruas.

“Mas sabe cantar em pé, sobre a cabeça, com um pião girando no pé esquerdo e um sabre equilibrado no direito?”

“Hum! Acho que sim”, respondeu Passepartout, recordando os exercícios de seus tempos de juventude.

“Bem, isso basta”, disse o Honorável William Batulcar.

O compromisso foi selado ali mesmo.

Passepartout finalmente encontrara algo para fazer. Ele estava contratado para atuar na célebre trupe japonesa. Não era uma posição muito digna, mas dentro de uma semana ele estaria a caminho de São Francisco.

O espetáculo, tão ruidosamente anunciado pelo Honorável Sr. Batulcar, devia começar às três horas, e logo os instrumentos ensurdecedores de uma orquestra japonesa ressoaram à porta. Passepartout, embora não tivesse tido tempo de estudar ou ensaiar um papel, foi designado para emprestar o auxílio de seus ombros robustos na grande exibição da “pirâmide humana”, executada pelos Narizes Compridos do deus Tingou. Essa “grande atração” encerraria o espetáculo.

Antes das três horas, o grande galpão foi invadido pelos espectadores, incluindo europeus e nativos, chineses e japoneses, homens, mulheres e crianças, que se precipitaram sobre os bancos estreitos e para dentro dos camarotes em frente ao palco. Os músicos tomaram seu lugar no interior e tocavam vigorosamente seus gongos, tantãs, flautas, ossos, pandeiros e tambores imensos.

O espetáculo era muito semelhante a todas as exibições acrobáticas; mas deve-se confessar que os japoneses são os primeiros equilibristas do mundo.

Um deles, com um leque e alguns pedaços de papel, realizou o gracioso truque das borboletas e das flores; outro traçou no ar, com a fumaça odorífera de seu cachimbo, uma série de palavras azuis que compunham um elogio ao público; enquanto um terceiro fazia malabarismo com algumas velas acesas, as quais apagava sucessivamente à medida que passavam por seus lábios, acendendo-as novamente sem interromper por um instante seu malabarismo. Outro reproduzia as combinações mais singulares com um pião; em suas mãos, os piões giratórios pareciam estar animados por uma vida própria em seu interminável turbilhão; corriam sobre hastes de cachimbo, gumes de sabres, fios e até mesmo sobre cabelos esticados pelo palco; giravam sobre as bordas de copos grandes, cruzavam escadas de bambu, dispersavam-se por todos os cantos e produziam estranhos efeitos musicais pela combinação de seus diversos tons. Os malabaristas lançavam-nos ao ar, jogavam-nos como petecas com raquetes de madeira e, ainda assim, eles continuavam girando; guardavam-nos nos bolsos e tiravam-nos ainda girando como antes.

É inútil descrever as performances surpreendentes dos acrobatas e ginastas. O giro sobre escadas, varas, bolas, barris, etc., era executado com uma precisão maravilhosa.

Mas a atração principal era a exibição dos Narizes Compridos, um show ao qual a Europa ainda é estranha.

Os Narizes Compridos formam uma companhia peculiar, sob o patrocínio direto do deus Tingou. Vestidos à moda da Idade Média, carregavam sobre os ombros um esplêndido par de asas; mas o que especialmente os distinguia eram os narizes compridos que estavam presos a seus rostos e o uso que faziam deles. Esses narizes eram feitos de bambu e tinham cinco, seis e até dez pés de comprimento, alguns retos, outros curvos, alguns com fitas e outros apresentando verrugas falsas. Era sobre esses apêndices, fixados firmemente em seus narizes reais, que realizavam seus exercícios ginásticos. Uma dúzia desses sectários de Tingou deitavam-se de costas, enquanto outros, vestidos para representar para-raios, vinham brincar sobre seus narizes, saltando de um para o outro e realizando os mais habilidosos saltos e cambalhotas.

Como última cena, uma “pirâmide humana” havia sido anunciada, na qual cinquenta Narizes Compridos representariam o Carro de Juggernaut. Mas, em vez de formar uma pirâmide montando sobre os ombros uns dos outros, os artistas deveriam agrupar-se sobre os narizes. Aconteceu que o artista que até então formava a base do Carro havia deixado a trupe, e como, para preencher essa parte, apenas força e destreza eram necessárias, Passepartout fora escolhido para tomar seu lugar.

O pobre coitado sentia-se realmente triste quando — melancólica reminiscência de sua juventude! — vestiu seu traje, adornado com asas de cores variadas, e prendeu à sua característica natural um nariz falso de seis pés de comprimento. Mas animou-se ao pensar que aquele nariz lhe garantia algo para comer.

Ele subiu ao palco e ocupou seu lugar ao lado dos demais que deveriam compor a base do Carro de Juggernaut. Todos se estenderam no chão, com os narizes apontando para o teto. Um segundo grupo de artistas dispôs-se sobre esses longos apêndices, depois um terceiro acima destes, depois um quarto, até que um monumento humano que chegava às próprias cornijas do teatro surgiu sobre os narizes. Isso provocou aplausos ruidosos, em meio aos quais a orquestra começava a tocar um ar ensurdecedor, quando a pirâmide oscilou, o equilíbrio foi perdido, um dos narizes inferiores desapareceu da pirâmide e o monumento humano despedaçou-se como um castelo de cartas!

A culpa foi de Passepartout. Abandonando sua posição, saltando a ribalta sem a ajuda de suas asas e subindo até o camarote à direita, ele caiu aos pés de um dos espectadores, gritando: “Ah, meu patrão! meu patrão!”

“Você aqui?”

“Eu mesmo.”

“Muito bem; então vamos para o vapor, meu rapaz!”

O Sr. Fogg, Aouda e Passepartout atravessaram o saguão do teatro para o exterior, onde encontraram o Honorável Sr. Batulcar, furioso de raiva. Ele exigia indenização pela “quebra” da pirâmide; e Phileas Fogg acalmou-o entregando-lhe um punhado de notas bancárias.

Às seis e meia, na hora exata da partida, o Sr. Fogg e Aouda, seguidos por Passepartout, que na pressa retivera suas asas e o nariz de seis pés de comprimento, subiram no vapor americano.

CAPÍTULO XXIV. DURANTE O QUAL O SR. FOGG E SEU GRUPO ATRAVESSAM O OCEANO PACÍFICO

O que aconteceu quando a lancha do piloto avistou Xangai será facilmente adivinhado. Os sinais feitos pelo “Tankadere” haviam sido vistos pelo capitão do vapor de Yokohama, que, avistando a bandeira a meio mastro, dirigira seu curso em direção à pequena embarcação. Phileas Fogg, após pagar o preço estipulado pela sua passagem a John Busby e recompensar aquele digno homem com a soma adicional de quinhentas e cinquenta libras, subiu no vapor com Aouda e Fix; e partiram imediatamente para Nagasaki e Yokohama.

Chegaram ao seu destino na manhã de 14 de novembro. Phileas Fogg não perdeu tempo em embarcar no “Carnatic”, onde soube, para grande alegria de Aouda — e talvez para a sua própria, embora não traísse nenhuma emoção —, que Passepartout, um francês, havia realmente chegado nele no dia anterior.

O vapor de São Francisco estava anunciado para partir naquela mesma noite, e tornava-se necessário encontrar Passepartout, se possível, sem demora. O Sr. Fogg aplicou-se em vão junto aos cônsules francês e inglês e, após vagar pelas ruas por muito tempo, começou a desesperar-se por não encontrar seu criado desaparecido. O acaso, ou talvez uma espécie de pressentimento, levou-o finalmente ao teatro do Honorável Sr. Batulcar. Ele certamente não teria reconhecido Passepartout no traje de saltimbanco excêntrico; mas este último, deitado de costas, percebeu seu patrão no camarote. Não pôde deixar de sobressaltar-se, o que alterou a posição de seu nariz a ponto de derrubar a “pirâmide” em confusão sobre o palco.

Tudo isso Passepartout soube por Aouda, que lhe contou o que havia ocorrido na viagem de Hong Kong para Xangai no “Tankadere”, na companhia de um certo Sr. Fix.

Passepartout não mudou a fisionomia ao ouvir esse nome. Achou que ainda não chegara o momento de revelar ao seu patrão o que havia acontecido entre o detetive e ele próprio; e, no relato que deu de sua ausência, desculpou-se simplesmente por ter sido vencido pela embriaguez, ao fumar ópio em uma taverna em Hong Kong.

O Sr. Fogg ouviu essa narrativa friamente, sem uma palavra; e então forneceu ao seu criado os fundos necessários para obter roupas mais em harmonia com sua posição. Dentro de uma hora, o francês havia cortado seu nariz, descartado suas asas e não retinha mais nada consigo que lembrasse o sectário do deus Tingou.

O vapor que estava prestes a partir de Yokohama para São Francisco pertencia à Pacific Mail Steamship Company e chamava-se “General Grant”. Era um grande vapor de rodas de pás de duas mil e quinhentas toneladas; bem equipado e muito veloz. A enorme viga de balanço subia e descia acima do convés; em uma extremidade, uma haste de pistão trabalhava para cima e para baixo; e, na outra, uma biela que, ao mudar o movimento retilíneo para um circular, estava diretamente conectada ao eixo das pás. O “General Grant” era aparelhado com três mastros, permitindo uma grande capacidade para velas e, assim, auxiliando materialmente a força do vapor. Fazendo doze milhas por hora, ele cruzaria o oceano em vinte e um dias. Phileas Fogg, portanto, justificava a esperança de chegar a São Francisco até o dia 2 de dezembro, a Nova York até o dia 11 e a Londres no dia 20 — ganhando, assim, várias horas sobre a data fatal de 21 de dezembro.

Havia uma lotação completa de passageiros a bordo, entre eles ingleses, muitos americanos, um grande número de coolies a caminho da Califórnia e vários oficiais das Índias Orientais, que passavam suas férias fazendo a volta ao mundo. Nada de importante aconteceu na viagem; o vapor, sustentado por suas grandes pás, balançava pouco, e o “Pacífico” quase justificava seu nome. O Sr. Fogg estava tão calmo e taciturno como sempre. Sua jovem companheira sentia-se cada vez mais ligada a ele por outros laços além da gratidão; sua natureza silenciosa, porém generosa, impressionava-a mais do que ela pensava; e foi quase inconscientemente que ela se entregou a emoções que não pareciam ter o menor efeito sobre seu protetor. Aouda interessava-se vivamente por seus planos e ficava impaciente com qualquer incidente que parecesse suscetível de retardar sua jornada.

Ela conversava frequentemente com Passepartout, que não deixava de perceber o estado do coração da dama; e, sendo o mais fiel dos domésticos, ele nunca esgotava seus elogios à honestidade, generosidade e devoção de Phileas Fogg. Ele se esforçava para acalmar as dúvidas de Aouda quanto a um desfecho bem-sucedido da viagem, dizendo-lhe que a parte mais difícil já passara, que agora estavam além dos países fantásticos do Japão e da China e estavam de volta ao caminho de lugares civilizados. Um trem de ferro de São Francisco para Nova York e um vapor transatlântico de Nova York para Liverpool, sem dúvida, os levariam ao fim desta impossível viagem ao redor do mundo dentro do prazo acordado.

No nono dia após deixar Yokohama, Phileas Fogg havia percorrido exatamente metade do globo terrestre. O “General Grant” passou, no dia 23 de novembro, pelo meridiano cento e oitenta e estava nos antípodas de Londres. O Sr. Fogg havia, é verdade, exaurido cinquenta e dois dos oitenta dias em que deveria completar a volta, e restavam apenas vinte e oito. Mas, embora estivesse apenas na metade do caminho pela diferença de meridianos, ele havia realmente percorrido dois terços de toda a jornada; pois fora obrigado a fazer longos circuitos de Londres a Aden, de Aden a Bombaim, de Calcutá a Singapura e de Singapura a Yokohama. Se ele pudesse ter seguido sem desvios o quinquagésimo paralelo, que é o de Londres, a distância total teria sido de apenas cerca de doze mil milhas; enquanto ele seria forçado, pelos métodos irregulares de locomoção, a percorrer vinte e seis mil, das quais ele havia, no dia 23 de novembro, realizado dezessete mil e quinhentas. E agora o curso era uma linha reta, e Fix não estava mais lá para colocar obstáculos em seu caminho!

Aconteceu também, no dia 23 de novembro, que Passepartout fez uma descoberta alegre. Lembre-se de que o obstinado criado insistira em manter seu famoso relógio de família no horário de Londres e em considerar o dos países pelos quais passara como totalmente falso e não confiável. Agora, neste dia, embora não tivesse alterado os ponteiros, ele descobriu que seu relógio concordava exatamente com os cronômetros do navio. Seu triunfo foi hilariante. Ele gostaria de saber o que Fix diria se estivesse a bordo!

“O patife me contou um monte de histórias”, repetia Passepartout, “sobre os meridianos, o sol e a lua! Lua, sim! Mais provável que conversa fiada! Se alguém desse ouvidos a esse tipo de gente, que bela noção do tempo manteria! Eu tinha certeza de que o sol algum dia se regularia pelo meu relógio!”

Passepartout ignorava que, se o mostrador de seu relógio estivesse dividido em vinte e quatro horas, como os relógios italianos, ele não teria motivo para exultação; pois os ponteiros de seu relógio indicariam então, em vez das nove horas da manhã como agora, nove horas da noite, isto é, a vigésima primeira hora após a meia-noite, exatamente a diferença entre o horário de Londres e o do meridiano cento e oitenta. Mas se Fix pudesse explicar esse efeito puramente físico, Passepartout não teria admitido, mesmo que o tivesse compreendido. Além disso, se o detetive estivesse a bordo naquele momento, Passepartout teria entrado em conflito com ele sobre um assunto bem diferente, e de uma maneira inteiramente distinta.

Onde estava Fix naquele momento?

Ele estava, na verdade, a bordo do “General Grant”.

Ao chegar a Yokohama, o detetive, deixando o Sr. Fogg, a quem esperava encontrar novamente durante o dia, dirigira-se imediatamente ao consulado inglês, onde finalmente encontrou o mandado de prisão. Ele o seguira desde Bombaim e viera pelo “Carnatic”, vapor em que ele próprio deveria estar. A decepção de Fix pode ser imaginada quando refletiu que o mandado agora era inútil. O Sr. Fogg havia deixado solo inglês e agora era necessário obter sua extradição!

“Bem”, pensou Fix, após um momento de raiva, “meu mandado não é válido aqui, mas será na Inglaterra. O patife evidentemente pretende retornar ao seu próprio país, pensando que despistou a polícia. Bom! Vou segui-lo através do Atlântico. Quanto ao dinheiro, que o céu conceda que ainda reste algum! Mas o sujeito já gastou em viagens, recompensas, julgamentos, fianças, elefantes e todo tipo de despesas, mais de cinco mil libras. Mas, afinal, o Banco é rico!”

Com o curso decidido, ele embarcou no “General Grant” e estava lá quando o Sr. Fogg e Aouda chegaram. Para seu total espanto, reconheceu Passepartout, apesar de seu disfarce teatral. Ele rapidamente se escondeu em sua cabine para evitar uma explicação embaraçosa e esperou — graças ao número de passageiros — permanecer despercebido pelo criado do Sr. Fogg.

Naquele mesmo dia, no entanto, ele encontrou Passepartout face a face no convés de vante. Este último, sem uma palavra, correu para ele, agarrou-o pela garganta e, para grande diversão de um grupo de americanos que imediatamente começaram a apostar nele, administrou ao detetive uma saraivada de golpes, o que provou a grande superioridade da destreza pugilística francesa sobre a inglesa.

Quando Passepartout terminou, sentiu-se aliviado e confortado. Fix levantou-se em uma condição um tanto desalinhada e, olhando para seu adversário, disse friamente: “Você terminou?”

“Por desta vez — sim.”

“Então deixe-me ter uma palavra com você.”

“Mas eu...”

“No interesse do seu patrão.”

Passepartout parecia vencido pela frieza de Fix, pois seguiu-o silenciosamente, e eles sentaram-se afastados dos demais passageiros.

“Você me deu uma surra”, disse Fix. “Bom, eu esperava por isso. Agora, ouça-me. Até este momento, fui adversário do Sr. Fogg. Agora estou no jogo dele.”

“Aha!” exclamou Passepartout; “você está convencido de que ele é um homem honesto?”

“Não”, respondeu Fix friamente, “acho-o um patife. Sh! não se mexa e deixe-me falar. Enquanto o Sr. Fogg estava em solo inglês, era do meu interesse detê-lo lá até que meu mandado de prisão chegasse. Fiz tudo o que pude para impedi-lo. Mandei os sacerdotes de Bombaim atrás dele, embriaguei você em Hong Kong, separei-o dele e fiz com que ele perdesse o vapor de Yokohama.”

Passepartout ouvia com os punhos fechados.

“Agora”, retomou Fix, “o Sr. Fogg parece estar voltando para a Inglaterra. Bem, eu o seguirei até lá. Mas, daqui em diante, farei tanto para remover obstáculos de seu caminho quanto fiz até este momento para colocá-los em sua trajetória. Mudei meu jogo, veja bem, e simplesmente porque era do meu interesse mudá-lo. Seu interesse é o mesmo que o meu; pois é apenas na Inglaterra que você constatará se está a serviço de um criminoso ou de um homem honesto.”

Passepartout ouviu Fix com muita atenção e convenceu-se de que ele falava com inteira boa-fé.

“Somos amigos?” perguntou o detetive.

“Amigos? — não”, respondeu Passepartout; “mas aliados, talvez. Ao menor sinal de traição, no entanto, eu torcerei seu pescoço para você.”

“Combinado”, disse o detetive calmamente.

Onze dias depois, no dia 3 de dezembro, o “General Grant” entrou na baía do Golden Gate e chegou a São Francisco.

O Sr. Fogg não havia ganhado nem perdido um único dia.

CAPÍTULO XXV. NO QUAL SE TEM UM BREVE VISLUMBRE DE SÃO FRANCISCO

Eram sete da manhã quando o Sr. Fogg, Aouda e Passepartout puseram o pé no continente americano, se é que este nome pode ser dado ao cais flutuante onde desembarcaram. Esses cais, subindo e descendo com a maré, facilitam assim o carregamento e descarregamento das embarcações. Ao lado deles havia clippers de todos os tamanhos, vapores de todas as nacionalidades e os barcos a vapor, com vários conveses uns sobre os outros, que cruzam o Sacramento e seus afluentes. Lá estavam também amontoados os produtos de um comércio que se estende ao México, Chile, Peru, Brasil, Europa, Ásia e todas as ilhas do Pacífico.

Passepartout, em sua alegria por chegar finalmente ao continente americano, pensou em manifestá-la executando um salto perigoso com estilo; mas, tropeçando em algumas tábuas carcomidas, caiu através delas. Desconcertado pela maneira como assim “pôs o pé” no Novo Mundo, soltou um grito alto, que assustou tanto os inúmeros cormorões e pelicanos que estão sempre empoleirados nesses cais móveis, que eles voaram ruidosamente para longe.

O Sr. Fogg, ao chegar à terra, procedeu para descobrir a que horas partia o primeiro trem para Nova York e soube que era às seis horas da tarde; ele tinha, portanto, um dia inteiro para passar na capital californiana. Tomando uma carruagem pelo preço de três dólares, ele e Aouda entraram nela, enquanto Passepartout subiu na boleia ao lado do cocheiro, e partiram para o International Hotel.

De sua posição elevada, Passepartout observava com muita curiosidade as ruas largas, as casas baixas e uniformemente alinhadas, as igrejas góticas anglo-saxônicas, os grandes cais, os armazéns palacianos de madeira e tijolo, os numerosos meios de transporte, ônibus, bondes e, nas calçadas, não apenas americanos e europeus, mas chineses e índios. Passepartout ficou surpreso com tudo o que viu. São Francisco já não era a cidade lendária de 1849 — uma cidade de bandidos, assassinos e incendiários que ali se aglomeravam em multidões em busca de pilhagem; um paraíso de fora da lei, onde jogavam com pó de ouro, um revólver em uma mão e uma faca bowie na outra: era agora um grande empório comercial.

A torre imponente de sua prefeitura dominava todo o panorama das ruas e avenidas, que se cruzavam em ângulos retos e em meio às quais apareciam praças agradáveis e verdejantes, enquanto além surgia o bairro chinês, aparentemente importado do Império Celestial dentro de uma caixa de brinquedos. Sombreros, camisas vermelhas e índios emplumados raramente eram vistos; mas havia cartolas e casacos pretos em toda parte, usados por uma multidão de homens nervosamente ativos e com aparência de cavalheiros. Algumas das ruas — especialmente a Montgomery Street, que é para São Francisco o que a Regent Street é para Londres, o Boulevard des Italiens para Paris e a Broadway para Nova York — eram ladeadas por lojas esplêndidas e espaçosas, que expunham em suas vitrines os produtos do mundo inteiro.

Quando Passepartout chegou ao International Hotel, não lhe pareceu que tivesse deixado a Inglaterra de forma alguma.

O piso térreo do hotel era ocupado por um grande bar, uma espécie de restaurante livremente aberto a todos os transeuntes, que podiam saborear carne seca, sopa de ostras, biscoitos e queijo sem tirar a bolsa. O pagamento era feito apenas pela cerveja, porter ou xerez que se bebia. Isso pareceu "muito americano" a Passepartout. As salas de refresco do hotel eram confortáveis, e o Sr. Fogg e Aouda, instalando-se a uma mesa, foram abundantemente servidos em pratos diminutos por negros de pele retinta.

Após o café da manhã, o Sr. Fogg, acompanhado por Aouda, partiu para o consulado inglês para ter seu passaporte visado. Ao sair, encontrou Passepartout, que lhe perguntou se não seria bom, antes de pegar o trem, comprar algumas dúzias de rifles Enfield e revólveres Colt. Ele ouvira histórias de ataques aos trens pelos Sioux e Pawnees. O Sr. Fogg achou que era uma precaução inútil, mas disse-lhe para fazer o que achasse melhor e seguiu para o consulado.

Ele não tinha percorrido duzentos passos, no entanto, quando, "pela maior casualidade do mundo", encontrou Fix. O detetive pareceu totalmente pego de surpresa. O quê! O Sr. Fogg e ele teriam atravessado o Pacífico juntos e não se encontrado no navio! Pelo menos Fix sentiu-se honrado por contemplar mais uma vez o cavalheiro a quem devia tanto e, como seus negócios o chamavam de volta à Europa, ficaria encantado em continuar a viagem em tão agradável companhia.

O Sr. Fogg respondeu que a honra seria dele; e o detetive — que estava determinado a não perdê-lo de vista — pediu permissão para acompanhá-los em seu passeio por São Francisco — um pedido que o Sr. Fogg prontamente concedeu.

Logo se encontraram na Montgomery Street, onde uma grande multidão estava reunida; as calçadas, a rua, os trilhos dos bondes, as portas das lojas, as janelas das casas e até os telhados estavam cheios de gente. Homens andavam carregando grandes cartazes, e bandeiras e flâmulas flutuavam ao vento; enquanto gritos altos eram ouvidos por todos os lados.

"Hurrah para Camerfield!"

"Hurrah para Mandiboy!"

Era um comício político; pelo menos assim conjecturou Fix, que disse ao Sr. Fogg: "Talvez fosse melhor não nos misturarmos à multidão. Pode haver perigo nisso."

"Sim", respondeu o Sr. Fogg; "e pancadas, mesmo que sejam políticas, continuam sendo pancadas."

Fix sorriu com essa observação; e, para poder ver sem ser empurrado, o grupo posicionou-se no topo de uma escadaria situada na extremidade superior da Montgomery Street. À frente deles, do outro lado da rua, entre um depósito de carvão e um armazém de petróleo, uma grande plataforma fora erguida ao ar livre, para a qual a corrente da multidão parecia se dirigir.

Qual seria o propósito desse comício? Qual era a ocasião dessa assembleia agitada? Phileas Fogg não conseguia imaginar. Seria para nomear algum alto funcionário — um governador ou membro do Congresso? Não era improvável, tão agitada estava a multidão à sua frente.

Justo neste momento, houve uma agitação incomum na massa humana. Todas as mãos foram levantadas no ar. Algumas, fortemente fechadas, pareciam desaparecer subitamente em meio aos gritos — uma maneira enérgica, sem dúvida, de lançar um voto. A multidão oscilou para trás, as bandeiras e estandartes vacilaram, desapareceram por um instante e depois reapareceram em farrapos. As ondulações da onda humana chegaram aos degraus, enquanto todas as cabeças lutavam na superfície como um mar agitado por uma tempestade. Muitos dos chapéus pretos desapareceram, e a maior parte da multidão parecia ter diminuído de altura.

"É evidentemente um comício", disse Fix, "e seu objetivo deve ser excitante. Eu não me surpreenderia se fosse sobre o 'Alabama', apesar de essa questão estar resolvida."

"Talvez", respondeu o Sr. Fogg, simplesmente.

"Pelo menos, há dois campeões na presença um do outro, o honorável Sr. Camerfield e o honorável Sr. Mandiboy."

Aouda, apoiada no braço do Sr. Fogg, observava a cena tumultuada com surpresa, enquanto Fix perguntava a um homem próximo qual era a causa de tudo aquilo. Antes que o homem pudesse responder, uma nova agitação surgiu; hurrahs e gritos excitados foram ouvidos; os mastros das bandeiras começaram a ser usados como armas ofensivas; e punhos voavam em todas as direções. Golpes eram trocados do alto das carruagens e ônibus que tinham sido bloqueados na multidão. Botas e sapatos giravam pelo ar, e o Sr. Fogg pensou até ter ouvido o estampido de revólveres se misturando ao ruído; a confusão aproximou-se da escadaria e fluiu sobre o degrau inferior. Um dos grupos tinha sido evidentemente repelido; mas os meros espectadores não podiam dizer se Mandiboy ou Camerfield tinham levado a melhor.

"Seria prudente nos retirarmos", disse Fix, que estava ansioso para que o Sr. Fogg não sofresse nenhum ferimento, pelo menos até voltarem a Londres. "Se houver alguma questão sobre a Inglaterra em tudo isso, e fôssemos reconhecidos, temo que as coisas ficariam difíceis para nós."

"Um súdito inglês..." começou o Sr. Fogg.

Ele não terminou sua frase; pois um alvoroço terrível surgiu agora no terraço atrás da escadaria onde estavam, e houve gritos frenéticos de: "Hurrah para Mandiboy! Hip, hip, hurrah!"

Era um bando de eleitores vindo em socorro de seus aliados e atacando as forças de Camerfield pelo flanco. O Sr. Fogg, Aouda e Fix encontraram-se entre dois fogos; era tarde demais para escapar. A torrente de homens, armados com bengalas carregadas e varas, era irresistível. Phileas Fogg e Fix foram rudemente empurrados em suas tentativas de proteger sua bela companheira; o primeiro, tão calmo como sempre, tentou defender-se com as armas que a natureza colocou na extremidade do braço de todo inglês, mas em vão. Um sujeito grande e musculoso, de barba ruiva, rosto afogueado e ombros largos, que parecia ser o chefe do bando, ergueu o punho fechado para golpear o Sr. Fogg, a quem teria dado um golpe esmagador, se Fix não tivesse corrido e recebido em seu lugar. Uma enorme contusão apareceu imediatamente sob a cartola do detetive, que estava completamente amassada.

"Yankee!" exclamou o Sr. Fogg, lançando um olhar de desprezo ao rufião.

"Inglês!" respondeu o outro. "Nós nos encontraremos novamente!"

"Quando quiser."

"Qual é o seu nome?"

"Phileas Fogg. E o seu?"

"Coronel Stamp Proctor."

A maré humana passou então, após derrubar Fix, que rapidamente se pôs de pé novamente, embora com as roupas em farrapos. Felizmente, ele não estava gravemente ferido. Seu sobretudo de viagem estava dividido em duas partes desiguais, e suas calças assemelhavam-se às de certos índios, que se ajustam menos compactamente do que são fáceis de vestir. Aouda escapou ilesa, e apenas Fix trazia marcas da briga na contusão negra e azul.

"Obrigado", disse o Sr. Fogg ao detetive, assim que saíram da multidão.

"Não são necessários agradecimentos", respondeu Fix; "mas vamos embora."

"Para onde?"

"Para um alfaiate."

Tal visita era, de fato, oportuna. As roupas tanto do Sr. Fogg quanto de Fix estavam em farrapos, como se eles mesmos tivessem participado ativamente da disputa entre Camerfield e Mandiboy. Uma hora depois, estavam novamente adequadamente vestidos e, com Aouda, retornaram ao International Hotel.

Passepartout esperava por seu patrão, armado com meia dúzia de revólveres de seis tiros. Quando percebeu Fix, franziu a testa; mas Aouda, tendo-lhe contado em poucas palavras a aventura, seu semblante retomou sua expressão plácida. Fix evidentemente não era mais um inimigo, mas um aliado; ele estava mantendo fielmente sua palavra.

Terminado o jantar, a carruagem que deveria levar os passageiros e suas bagagens para a estação parou à porta. Ao entrar, o Sr. Fogg disse a Fix: "O senhor não viu esse Coronel Proctor novamente?"

"Não."

"Voltarei à América para encontrá-lo", disse Phileas Fogg calmamente. "Não seria certo um inglês permitir que fosse tratado dessa maneira, sem retaliar."

O detetive sorriu, mas não respondeu. Estava claro que o Sr. Fogg era um daqueles ingleses que, embora não tolerem o duelo em casa, lutam no exterior quando sua honra é atacada.

Às seis menos um quarto, os viajantes chegaram à estação e encontraram o trem pronto para partir. Ao entrar, o Sr. Fogg chamou um carregador e disse-lhe: "Meu amigo, não houve algum problema hoje em São Francisco?"

"Foi um comício político, senhor", respondeu o carregador.

"Mas eu pensei que houvesse muita perturbação nas ruas."

"Foi apenas uma reunião convocada para uma eleição."

"A eleição de um general-em-chefe, sem dúvida?", perguntou o Sr. Fogg.

"Não, senhor; de um juiz de paz."

Phileas Fogg entrou no trem, que partiu em velocidade máxima.

CAPÍTULO XXVI. NO QUAL PHILEAS FOGG E SEU GRUPO VIAJAM PELA FERROVIA DO PACÍFICO

"De oceano a oceano" — assim dizem os americanos; e essas quatro palavras compõem a designação geral da "grande linha tronco" que atravessa toda a largura dos Estados Unidos. A Ferrovia do Pacífico é, no entanto, realmente dividida em duas linhas distintas: a Central Pacific, entre São Francisco e Ogden, e a Union Pacific, entre Ogden e Omaha. Cinco linhas principais conectam Omaha a Nova York.

Nova York e São Francisco estão assim unidas por uma fita metálica ininterrupta, que mede nada menos que três mil setecentas e oitenta e seis milhas. Entre Omaha e o Pacífico, a ferrovia atravessa um território que ainda é infestado por índios e animais selvagens, e uma grande extensão que os mórmons, depois de serem expulsos de Illinois em 1845, começaram a colonizar.

A viagem de Nova York a São Francisco consumia, antigamente, sob as condições mais favoráveis, pelo menos seis meses. Agora é realizada em sete dias.

Foi em 1862 que, apesar dos membros sulistas do Congresso, que desejavam uma rota mais ao sul, decidiu-se colocar a estrada entre os paralelos quarenta e um e quarenta e dois. O próprio Presidente Lincoln fixou o fim da linha em Omaha, em Nebraska. O trabalho foi iniciado imediatamente e perseguido com verdadeira energia americana; nem a rapidez com que prosseguiu afetou prejudicialmente sua boa execução. A estrada crescia, nas pradarias, uma milha e meia por dia. Uma locomotiva, correndo sobre os trilhos colocados na véspera, trazia os trilhos a serem colocados no dia seguinte, e avançava sobre eles tão rápido quanto eram postos em posição.

A Ferrovia do Pacífico é unida por vários ramais em Iowa, Kansas, Colorado e Oregon. Ao deixar Omaha, ela passa ao longo da margem esquerda do Rio Platte até a junção de seu ramal norte, segue seu ramal sul, atravessa o território de Laramie e as Montanhas Wahsatch, contorna o Grande Lago Salgado e chega a Salt Lake City, a capital mórmon, mergulha no Vale Tuilla, atravessa o Deserto Americano, as Montanhas Cedar e Humboldt, a Sierra Nevada, e desce, via Sacramento, até o Pacífico — seu declive, mesmo nas Montanhas Rochosas, nunca excedendo cento e doze pés por milha.

Essa era a estrada a ser percorrida em sete dias, o que permitiria a Phileas Fogg — pelo menos, assim ele esperava — pegar o navio do Atlântico em Nova York no dia 11 para Liverpool.

O vagão que ele ocupava era uma espécie de longo ônibus sobre oito rodas, e sem compartimentos no interior. Era suprido com duas fileiras de assentos, perpendiculares à direção do trem em cada lado de um corredor que conduzia às plataformas dianteira e traseira. Essas plataformas eram encontradas por todo o trem, e os passageiros podiam passar de uma extremidade à outra. Era suprido com vagões-salão, vagões-varanda, restaurantes e vagões para fumantes; apenas vagões-teatro faltavam, e eles os terão algum dia.

Vendedores de livros e jornais, vendedores de comestíveis, bebidas e charutos, que pareciam ter muitos clientes, circulavam continuamente pelos corredores.

O trem deixou a estação de Oakland às seis horas. Já era noite, fria e desoladora, o céu estando coberto por nuvens que pareciam ameaçar neve. O trem não avançava rapidamente; contando as paradas, não corria mais de vinte milhas por hora, o que era uma velocidade suficiente, contudo, para permitir-lhe chegar a Omaha dentro do tempo designado.

Havia pouca conversa no vagão, e logo muitos dos passageiros foram vencidos pelo sono. Passepartout encontrava-se ao lado do detetive; mas ele não falava com ele. Após os eventos recentes, suas relações tinham se tornado um tanto frias; não podia mais haver simpatia mútua ou intimidade entre eles. O comportamento de Fix não tinha mudado; mas Passepartout estava muito reservado e pronto para estrangular seu antigo amigo ao menor pretexto.

A neve começou a cair uma hora depois de terem partido, uma neve fina, no entanto, que felizmente não podia obstruir o trem; nada se podia ver pelas janelas a não ser um vasto lençol branco, contra o qual a fumaça da locomotiva tinha um aspecto acinzentado.

Às oito horas, um comissário entrou no vagão e anunciou que a hora de ir dormir chegara; e em poucos minutos o vagão foi transformado em um dormitório. Os encostos dos assentos eram jogados para trás, camas cuidadosamente embaladas eram desenroladas por um sistema engenhoso, beliches eram subitamente improvisados, e cada viajante tinha logo à sua disposição uma cama confortável, protegida de olhares curiosos por cortinas espessas. Os lençóis eram limpos e os travesseiros macios. Restava apenas ir para a cama e dormir — o que todos fizeram — enquanto o trem acelerava pela Califórnia.

O país entre São Francisco e Sacramento não é muito montanhoso. A Central Pacific, tomando Sacramento como seu ponto de partida, estende-se para o leste para encontrar a estrada de Omaha. A linha de São Francisco a Sacramento corre em direção nordeste, ao longo do Rio American, que deságua na Baía de San Pablo. As cento e vinte milhas entre essas cidades foram percorridas em seis horas e, perto da meia-noite, enquanto dormiam profundamente, os viajantes passaram por Sacramento; de modo que não viram nada daquele lugar importante, a sede do governo estadual, com seus belos cais, suas ruas largas, seus hotéis nobres, praças e igrejas.

O trem, ao deixar Sacramento e passar pela junção, Roclin, Auburn e Colfax, entrou na cordilheira da Sierra Nevada. ’Cisco foi alcançada às sete da manhã; e uma hora depois, o dormitório foi transformado em um vagão comum, e os viajantes puderam observar as belezas pitorescas da região montanhosa pela qual passavam. A via férrea serpenteava entre as passagens, ora aproximando-se das encostas das montanhas, ora suspensa sobre precipícios, evitando ângulos abruptos por curvas ousadas, mergulhando em desfiladeiros estreitos que pareciam não ter saída. A locomotiva, com sua grande chaminé emitindo uma luz estranha, com seu sino agudo e seu limpa-trilhos estendido como uma espora, misturava seus gritos e bramidos com o ruído de torrentes e cascatas, e enroscava sua fumaça entre os ramos dos pinheiros gigantescos.

Havia poucas ou nenhuma ponte ou túnel na rota. A ferrovia contornava as encostas das montanhas e não tentava violar a natureza pegando o caminho mais curto de um ponto a outro.

O trem entrou no Estado de Nevada pelo Carson Valley por volta das nove horas, indo sempre para nordeste; e ao meio-dia chegou a Reno, onde houve um atraso de vinte minutos para o café da manhã.

Deste ponto em diante, a estrada, correndo ao longo do Rio Humboldt, passou para o norte por várias milhas por suas margens; então virou para o leste e manteve-se pelo rio até chegar à Cordilheira Humboldt, quase no limite oriental extremo de Nevada.

Tendo tomado o café da manhã, o Sr. Fogg e seus companheiros retomaram seus lugares no vagão e observaram a paisagem variada que se desenrolava à medida que passavam pelas vastas pradarias, as montanhas alinhando o horizonte e os riachos, com suas correntes espumosas. Às vezes, um grande rebanho de búfalos, agrupando-se à distância, parecia uma barragem móvel. Essas multidões inumeráveis de animais ruminantes formam muitas vezes um obstáculo intransponível à passagem dos trens; milhares deles foram vistos cruzando os trilhos por horas seguidas, em fileiras compactas. A locomotiva é então forçada a parar e esperar até que a estrada esteja novamente livre.

Isso aconteceu, de fato, com o trem em que o Sr. Fogg viajava. Por volta das doze horas, uma tropa de dez ou doze mil cabeças de búfalo obstruiu os trilhos. A locomotiva, diminuindo sua velocidade, tentou limpar o caminho com seu limpa-trilhos; mas a massa de animais era grande demais. Os búfalos marchavam com um andar tranquilo, soltando de vez em quando bramidos ensurdecedores. Não adiantava interrompê-los, pois, tendo tomado uma direção particular, nada pode moderar e mudar seu curso; é uma torrente de carne viva que nenhuma barragem poderia conter.

Os viajantes contemplavam esse espetáculo curioso das plataformas; mas Phileas Fogg, que tinha mais razão de todos para estar com pressa, permaneceu em seu assento e esperou filosoficamente até que agradasse aos búfalos sair do caminho.

Passepartout estava furioso com o atraso que eles ocasionavam e desejava descarregar seu arsenal de revólveres sobre eles.

"Que país!" gritou ele. "Simples gado para os trens e passam em procissão, exatamente como se não estivessem impedindo a viagem! Parbleu! Eu gostaria de saber se o Sr. Fogg previu esse contratempo em seu programa! E aqui está um engenheiro que não se atreve a lançar a locomotiva contra esse rebanho de feras!"

O engenheiro não tentou superar o obstáculo, e ele foi sábio. Ele teria esmagado os primeiros búfalos, sem dúvida, com o limpa-trilhos; mas a locomotiva, por mais poderosa que fosse, logo teria sido detida, o trem teria inevitavelmente descarrilado e estaria então indefeso.

A melhor opção era esperar pacientemente e recuperar o tempo perdido com maior velocidade quando o obstáculo fosse removido. A procissão de búfalos durou três horas inteiras, e já era noite quando os trilhos ficaram livres. As últimas fileiras do rebanho passavam agora sobre os trilhos, enquanto as primeiras já tinham desaparecido abaixo do horizonte sul.

Eram oito horas quando o trem passou pelos desfiladeiros da Cordilheira Humboldt, e nove e meia quando penetrou em Utah, a região do Grande Lago Salgado, a singular colônia dos mórmons.

CAPÍTULO XXVII. NO QUAL PASSEPARTOUT SUBMETE-SE, A UMA VELOCIDADE DE VINTE MILHAS POR HORA, A UM CURSO DE HISTÓRIA MÓRMON

Durante a noite de 5 de dezembro, o trem correu para sudeste por cerca de cinquenta milhas; depois subiu uma distância igual em direção nordeste, em direção ao Grande Lago Salgado.

Passepartout, por volta das nove horas, saiu para a plataforma para tomar ar. O tempo estava frio, o céu cinzento, mas não estava nevando. O disco do sol, ampliado pela névoa, parecia um enorme anel de ouro, e Passepartout divertia-se calculando seu valor em libras esterlinas, quando foi desviado desse estudo interessante por um personagem de aparência estranha que fez sua aparição na plataforma.

Esse personagem, que tomara o trem em Elko, era alto e moreno, com bigode preto, meias pretas, uma cartola preta, um colete preto, calças pretas, uma gravata branca e luvas de pele de cão. Poderia ter sido tomado por um clérigo. Ele percorreu o trem de uma extremidade à outra e afixou na porta de cada vagão um aviso escrito à mão.

Passepartout aproximou-se e leu um desses avisos, que declarava que o Ancião William Hitch, missionário mórmon, aproveitando sua presença no trem nº 48, ministraria uma palestra sobre o mormonismo no vagão nº 117, das onze às doze horas; e que convidava todos os que desejassem ser instruídos sobre os mistérios da religião dos “Santos dos Últimos Dias” a comparecer.

— Vou lá — disse Passepartout para si mesmo. Ele nada sabia sobre o mormonismo, exceto o costume da poligamia, que é o seu fundamento.

A notícia espalhou-se rapidamente pelo trem, que continha cerca de cem passageiros, trinta dos quais, no máximo, atraídos pelo aviso, acomodaram-se no vagão nº 117. Passepartout ocupou um dos assentos da frente. Nem o Sr. Fogg nem Fix preocuparam-se em comparecer.

Na hora marcada, o Ancião William Hitch levantou-se e, com voz irritada, como se já tivesse sido contradito, disse: — Digo-lhes que Joe Smith é um mártir, que seu irmão Hiram é um mártir e que as perseguições do governo dos Estados Unidos contra os profetas também farão de Brigham Young um mártir. Quem ousa dizer o contrário?

Ninguém se aventurou a contestar o missionário, cujo tom exaltado contrastava curiosamente com seu semblante naturalmente calmo. Sem dúvida, sua raiva provinha das privações às quais os mórmons estavam sendo submetidos. O governo acabara de conseguir, com alguma dificuldade, reduzir esses fanáticos independentes à sua autoridade. Tinha se tornado senhor de Utah e submetido aquele território às leis da União, após aprisionar Brigham Young sob a acusação de rebelião e poligamia. Os discípulos do profeta haviam, desde então, redobrado seus esforços e resistido, ao menos em palavras, à autoridade do Congresso. O Ancião Hitch, como se vê, tentava fazer proselitismo nos próprios trens de ferro.

Então, enfatizando suas palavras com sua voz alta e gestos frequentes, ele relatou a história dos mórmons desde os tempos bíblicos: como, em Israel, um profeta mórmon da tribo de José publicou os anais da nova religião e os legou ao seu filho Mormon; como, muitos séculos depois, uma tradução deste precioso livro, que estava escrito em egípcio, foi feita por Joseph Smith, júnior, um fazendeiro de Vermont, que se revelou um profeta místico em 1825; e como, em suma, o mensageiro celestial apareceu-lhe em uma floresta iluminada e entregou-lhe os anais do Senhor.

Vários dos ouvintes, não estando muito interessados na narrativa do missionário, deixaram o vagão; mas o Ancião Hitch, continuando sua palestra, relatou como Smith, júnior, com seu pai, dois irmãos e alguns discípulos, fundou a igreja dos “Santos dos Últimos Dias”, que, adotada não apenas na América, mas na Inglaterra, Noruega, Suécia e Alemanha, conta muitos artesãos, bem como homens dedicados às profissões liberais, entre seus membros; como uma colônia foi estabelecida em Ohio, um templo erguido lá a um custo de duzentos mil dólares e uma cidade construída em Kirkland; como Smith tornou-se um banqueiro empreendedor e recebeu de um simples exibidor de múmias um rolo de papiro escrito por Abraão e vários egípcios famosos.

A história do Ancião tornou-se um tanto cansativa, e seu público diminuiu gradualmente, até reduzir-se a vinte passageiros. Mas isso não desconcertou o entusiasta, que prosseguiu com a história da falência de Joseph Smith em 1837 e como seus credores arruinados deram-lhe um banho de piche e penas; seu reaparecimento alguns anos depois, mais honrado e honroso do que nunca, em Independence, Missouri, chefe de uma próspera colônia de três mil discípulos, e sua perseguição a partir dali por Gentios ultrajados, e sua retirada para o Extremo Oeste.

Apenas dez ouvintes restavam agora, entre eles o honesto Passepartout, que escutava com toda a atenção. Assim, ele soube que, após longas perseguições, Smith reapareceu em Illinois e, em 1839, fundou uma comunidade em Nauvoo, no Mississippi, numerando vinte e cinco mil almas, da qual se tornou prefeito, juiz principal e general-em-chefe; que se anunciou, em 1843, como candidato à Presidência dos Estados Unidos; e que, finalmente, sendo atraído para uma emboscada em Carthage, foi lançado na prisão e assassinado por um bando de homens disfarçados com máscaras.

Passepartout era agora a única pessoa que restava no vagão e o Ancião, olhando-o fixamente no rosto, lembrou-lhe que, dois anos após o assassinato de Joseph Smith, o profeta inspirado, Brigham Young, seu sucessor, partiu de Nauvoo para as margens do Grande Lago Salgado, onde, no meio daquela região fértil, diretamente na rota dos emigrantes que cruzavam Utah a caminho da Califórnia, a nova colônia, graças à poligamia praticada pelos mórmons, florescera além das expectativas.

— E é por isso — acrescentou o Ancião William Hitch —, é por isso que o ciúme do Congresso foi despertado contra nós! Por que os soldados da União invadiram o solo de Utah? Por que Brigham Young, nosso chefe, foi aprisionado, em desprezo a toda justiça? Devemos ceder à força? Nunca! Expulsos de Vermont, expulsos de Illinois, expulsos de Ohio, expulsos de Missouri, expulsos de Utah, ainda encontraremos algum território independente no qual plantar nossas tendas. E você, meu irmão — continuou o Ancião, fixando seus olhos raivosos em seu único ouvinte —, você também não plantará as suas lá, sob a sombra de nossa bandeira?

— Não! — respondeu Passepartout corajosamente, retirando-se por sua vez do vagão e deixando o Ancião a pregar para o vazio.

Durante a palestra, o trem progredira bem e, por volta das doze e meia, alcançou a fronteira noroeste do Grande Lago Salgado. Dali, os passageiros podiam observar a vasta extensão deste mar interior, que também é chamado de Mar Morto, e no qual desagua um Jordão americano. É uma extensão pitoresca, emoldurada por penhascos elevados em grandes estratos, incrustados com sal branco — um soberbo espelho de água, que outrora teve maior extensão do que agora, tendo suas margens avançado com o passar do tempo, reduzindo assim sua largura e aumentando sua profundidade.

O Lago Salgado, com setenta milhas de comprimento e trinta e cinco de largura, está situado a três mil e oitocentos pés acima do nível do mar. Bastante diferente do Lago Asfaltite, cuja depressão é de mil e duzentos pés abaixo do nível do mar, contém considerável sal, e um quarto do peso de sua água é matéria sólida, sendo seu peso específico de 1,170 e, após destilado, 1,000. Peixes, é claro, são incapazes de viver nele, e aqueles que descem pelo Jordão, o Weber e outros riachos perecem rapidamente.

O país ao redor do lago era bem cultivado, pois os mórmons são, em sua maioria, fazendeiros; enquanto fazendas e currais para animais domesticados, campos de trigo, milho e outros cereais, pradarias luxuriantes, cercas vivas de rosas bravas, moitas de acácias e polígala teriam sido vistos seis meses depois. Agora, o solo estava coberto por uma fina camada de neve.

O trem chegou a Ogden às duas horas, onde parou por seis horas. O Sr. Fogg e seu grupo tiveram tempo para fazer uma visita a Salt Lake City, conectada a Ogden por um ramal ferroviário; e passaram duas horas nesta cidade notavelmente americana, construída no padrão de outras cidades da União, como um tabuleiro de xadrez, “com a tristeza sombria dos ângulos retos”, como Victor Hugo a descreve. O fundador da Cidade dos Santos não pôde escapar do gosto pela simetria que distingue os anglo-saxões. Nesse estranho país, onde o povo certamente não está à altura de suas instituições, tudo é feito “à esquadria” — cidades, casas e tolices.

Os viajantes, então, passeavam, às três horas, pelas ruas da cidade construída entre as margens do Jordão e os contrafortes da Serra Wahsatch. Viram poucas ou nenhuma igreja, mas a mansão do profeta, o tribunal e o arsenal, casas de tijolo azul com varandas e alpendres, cercadas por jardins contornados por acácias, palmeiras e acácias-bastardas. Um muro de barro e seixos, construído em 1853, cercava a cidade; e na rua principal ficavam o mercado e vários hotéis adornados com pavilhões. O lugar não parecia densamente povoado. As ruas estavam quase desertas, exceto nas proximidades do templo, ao qual só chegaram depois de atravessar vários bairros cercados por paliçadas. Havia muitas mulheres, o que era facilmente explicado pela “instituição peculiar” dos mórmons; mas não se deve supor que todos os mórmons sejam polígamos. Eles são livres para casar ou não, como bem entenderem; mas vale notar que são principalmente as cidadãs de Utah que anseiam por casar-se, pois, de acordo com a religião mórmon, as senhoritas solteiras não são admitidas na posse de seus mais elevados prazeres. Essas pobres criaturas pareciam não ser nem ricas nem felizes. Algumas — as mais abastadas, sem dúvida — vestiam vestidos curtos de seda preta, abertos, sob um capuz ou xale modesto; outras estavam vestidas à moda indígena.

Passepartout não podia contemplar sem certo susto aquelas mulheres, encarregadas, em grupos, de conferir felicidade a um único mórmon. Seu senso comum lamentava, acima de tudo, o marido. Parecia-lhe uma coisa terrível ter de guiar tantas esposas ao mesmo tempo através das vicissitudes da vida, e conduzi-las, por assim dizer, em conjunto para o paraíso mórmon, com a perspectiva de vê-las na companhia do glorioso Smith, que sem dúvida era o principal ornamento daquele lugar delicioso, por toda a eternidade. Ele sentia-se decididamente repelido por tal vocação, e imaginava — talvez estivesse enganado — que as beldades de Salt Lake City lançavam olhares um tanto alarmantes sobre sua pessoa. Felizmente, sua estadia ali foi breve. Às quatro horas, o grupo encontrava-se novamente na estação, tomou seus lugares no trem e o apito soou para a partida. Justo no momento, porém, em que as rodas da locomotiva começaram a se mover, gritos de “Pare! pare!” foram ouvidos.

Trens, como o tempo e a maré, não param para ninguém. O cavalheiro que proferia os gritos era evidentemente um mórmon atrasado. Ele estava ofegante de tanto correr. Felizmente para ele, a estação não tinha nem portões nem barreiras. Ele correu ao longo dos trilhos, saltou na plataforma traseira do trem e caiu, exausto, em um dos assentos.

Passepartout, que observava ansiosamente esse ginasta amador, aproximou-se dele com vivo interesse e soube que ele tomara a fuga após uma desagradável cena doméstica.

Quando o mórmon recuperou o fôlego, Passepartout aventurou-se a perguntar-lhe educadamente quantas esposas ele tinha; pois, pela maneira como ele debandara, poderia pensar-se que ele tinha pelo menos vinte.

— Uma, senhor — respondeu o mórmon, levantando os braços em direção ao céu —, uma, e isso já era o bastante!

CAPÍTULO XXVIII. NO QUAL PASSEPARTOUT NÃO CONSEGUE FAZER NINGUÉM OUVIR A RAZÃO

O trem, ao deixar o Grande Lago Salgado em Ogden, seguiu para o norte durante uma hora até o Rio Weber, tendo completado quase novecentas milhas desde São Francisco. A partir deste ponto, tomou uma direção leste em direção às escarpadas Montanhas Wahsatch. Foi na seção incluída entre esta serra e as Montanhas Rochosas que os engenheiros americanos encontraram as dificuldades mais formidáveis para assentar a estrada, e que o governo concedeu um subsídio de quarenta e oito mil dólares por milha, em vez dos dezesseis mil permitidos para o trabalho realizado nas planícies. Mas os engenheiros, em vez de violar a natureza, evitaram suas dificuldades contornando-a, em vez de penetrar nas rochas. Um único túnel, com quatorze mil pés de comprimento, foi perfurado para chegar à grande bacia.

A via férrea até aquele momento atingira sua elevação mais alta no Grande Lago Salgado. A partir deste ponto, descrevia uma longa curva, descendo em direção ao Vale de Bitter Creek, para subir novamente ao cume divisório das águas entre o Atlântico e o Pacífico. Havia muitos riachos nesta região montanhosa, e era necessário cruzar Muddy Creek, Green Creek e outros, sobre bueiros.

Passepartout ficava cada vez mais impaciente à medida que avançavam, enquanto Fix desejava sair daquela região difícil e estava mais ansioso do que o próprio Phileas Fogg para estar além do perigo de atrasos e acidentes, e colocar os pés em solo inglês.

Às dez horas da noite, o trem parou na estação de Fort Bridger e, vinte minutos depois, entrou no Território de Wyoming, seguindo o vale de Bitter Creek por toda a sua extensão. No dia seguinte, 7 de dezembro, pararam por um quarto de hora na estação de Green River. A neve caíra abundantemente durante a noite, mas, estando misturada com chuva, estava meio derretida e não interrompeu seu progresso. O mau tempo, contudo, incomodava Passepartout; pois o acúmulo de neve, ao bloquear as rodas dos vagões, teria sido certamente fatal para a viagem do Sr. Fogg.

— Que ideia! — dizia ele a si mesmo. — Por que meu patrão fez esta viagem no inverno? Não poderia ter esperado a boa estação para aumentar suas chances?

Enquanto o digno francês estava absorto no estado do céu e na queda da temperatura, Aouda experimentava temores por uma causa totalmente diferente.

Vários passageiros haviam descido em Green River e caminhavam pelas plataformas; e entre eles Aouda reconheceu o Coronel Stamp Proctor, o mesmo que insultara tão grosseiramente Phileas Fogg na reunião de São Francisco. Não desejando ser reconhecida, a jovem afastou-se da janela, sentindo muito alarme com sua descoberta. Ela estava afeiçoada ao homem que, por mais friamente, dava-lhe diariamente evidências da mais absoluta devoção. Ela não compreendia, talvez, a profundidade do sentimento com que seu protetor a inspirava, o qual ela chamava de gratidão, mas que, embora ela não estivesse consciente disso, era na verdade mais do que isso. Seu coração apertou-se quando reconheceu o homem a quem o Sr. Fogg desejava, mais cedo ou mais tarde, pedir contas por sua conduta. O acaso, estava claro, trouxera o Coronel Proctor naquele trem; mas ele estava ali, e era necessário, a todo custo, que Phileas Fogg não percebesse seu adversário.

Aouda aproveitou um momento em que o Sr. Fogg estava dormindo para contar a Fix e Passepartout quem ela vira.

— Aquele Proctor neste trem! — exclamou Fix. — Bem, tranquilize-se, madame; antes que ele se acerte com o Sr. Fogg, ele terá que se ver comigo! Parece-me que fui o mais insultado dos dois.

— E, além disso — acrescentou Passepartout —, eu cuidarei dele, coronel como ele é.

— Sr. Fix — retomou Aouda —, o Sr. Fogg não permitirá que ninguém se vingue por ele. Ele disse que voltaria à América para encontrar este homem. Se ele perceber o Coronel Proctor, não poderemos evitar uma colisão que poderá ter resultados terríveis. Ele não deve vê-lo.

— A senhora tem razão, madame — respondeu Fix; — um encontro entre eles poderia arruinar tudo. Seja ele vitorioso ou derrotado, o Sr. Fogg sofreria atrasos, e...

— E — acrescentou Passepartout —, isso faria o jogo dos cavalheiros do Reform Club. Em quatro dias estaremos em Nova York. Bem, se meu patrão não sair deste vagão durante esses quatro dias, podemos esperar que o acaso não o coloque frente a frente com esse americano encrenqueiro. Devemos, se possível, impedir que ele saia daqui.

A conversa cessou. O Sr. Fogg acabara de acordar e olhava pela janela. Logo após, Passepartout, sem ser ouvido por seu patrão ou por Aouda, sussurrou ao detetive: — Você realmente lutaria por ele?

— Eu faria qualquer coisa — respondeu Fix, num tom que revelava determinação —, para levá-lo de volta vivo à Europa!

Passepartout sentiu algo como um calafrio percorrer seu corpo, mas sua confiança em seu patrão permanecia inabalável.

Havia algum meio de deter o Sr. Fogg no vagão, para evitar um encontro entre ele e o coronel? Não deveria ser uma tarefa difícil, já que aquele cavalheiro era naturalmente sedentário e pouco curioso. O detetive, pelo menos, parecia ter encontrado um caminho; pois, após alguns momentos, disse ao Sr. Fogg: — São horas longas e lentas, senhor, que estamos passando na ferrovia.

— Sim — respondeu o Sr. Fogg; — mas elas passam.

— O senhor tinha o hábito de jogar whist — retomou Fix —, nos vapores.

— Sim; mas seria difícil fazê-lo aqui. Não tenho cartas nem parceiros.

— Oh, mas podemos facilmente comprar algumas cartas, pois são vendidas em todos os trens americanos. E quanto aos parceiros, se a madame joga...

— Certamente, senhor — respondeu Aouda rapidamente; — eu entendo de whist. Faz parte de uma educação inglesa.

— Eu mesmo tenho algumas pretensões de jogar uma boa partida. Bem, aqui estamos nós três, e um parceiro fictício...

— Como quiser, senhor — respondeu Phileas Fogg, sinceramente contente por retomar seu passatempo favorito mesmo na ferrovia.

Passepartout foi despachado em busca do comissário e logo retornou com dois baralhos de cartas, alguns alfinetes, fichas e uma tábua coberta com pano.

O jogo começou. Aouda entendia de whist suficientemente bem, e até recebeu alguns elogios sobre sua forma de jogar do Sr. Fogg. Quanto ao detetive, era simplesmente um adepto, e digno de ser colocado frente a frente com seu atual oponente.

— Agora — pensou Passepartout —, nós o pegamos. Ele não arredará pé.

Às onze da manhã, o trem alcançara o cume divisório das águas em Bridger Pass, sete mil quinhentos e vinte e quatro pés acima do nível do mar, um dos pontos mais altos atingidos pela via férrea ao cruzar as Montanhas Rochosas. Após percorrer cerca de duzentas milhas, os viajantes finalmente se encontraram em uma daquelas vastas planícies que se estendem até o Atlântico, e que a natureza tornou tão propícias para o assentamento da estrada de ferro.

Na declividade da bacia do Atlântico, os primeiros riachos, afluentes do Rio North Platte, já apareciam. Todo o horizonte norte e leste era delimitado pela imensa cortina semicircular formada pela porção sul das Montanhas Rochosas, sendo o ponto mais alto o Laramie Peak. Entre este e a ferrovia estendiam-se vastas planícies, abundantemente irrigadas. À direita erguiam-se os contrafortes inferiores da massa montanhosa que se estende para o sul até as nascentes do Rio Arkansas, um dos grandes afluentes do Missouri.

Às doze e meia, os viajantes avistaram por um instante Fort Halleck, que comanda aquela seção; e em mais algumas horas as Montanhas Rochosas foram cruzadas. Havia razão para esperar, então, que nenhum acidente marcaria a viagem através daquele país difícil. A neve parara de cair, e o ar tornou-se frio e cortante. Grandes aves, assustadas pela locomotiva, ergueram voo e desapareceram na distância. Nenhuma fera selvagem apareceu na planície. Era um deserto em sua vasta nudez.

Após um café da manhã confortável, servido no vagão, o Sr. Fogg e seus parceiros tinham acabado de retomar o whist, quando um apito violento foi ouvido e o trem parou. Passepartout colocou a cabeça para fora da porta, mas não viu nada que causasse o atraso; nenhuma estação estava à vista.

Aouda e Fix temiam que o Sr. Fogg pudesse ter a ideia de sair; mas aquele cavalheiro contentou-se em dizer ao seu criado: — Veja o que está acontecendo.

Passepartout saiu do vagão às pressas. Trinta ou quarenta passageiros já haviam descido, entre eles o Coronel Stamp Proctor.

O trem parara diante de um sinal vermelho que bloqueava o caminho. O maquinista e o condutor conversavam agitadamente com um sinalizador, que o chefe da estação de Medicine Bow, a próxima parada, enviara à frente. Os passageiros reuniram-se e participaram da discussão, na qual o Coronel Proctor, com seu jeito insolente, destacava-se.

Passepartout, juntando-se ao grupo, ouviu o sinalizador dizer: — Não! Vocês não podem passar. A ponte de Medicine Bow está instável e não suportaria o peso do trem.

Esta era uma ponte pênsil lançada sobre algumas corredeiras, a cerca de uma milha do local onde eles estavam agora. De acordo com o sinalizador, ela estava em condições ruinosas, vários dos cabos de ferro estavam rompidos; e era impossível arriscar a passagem. Ele não exagerava de modo algum a condição da ponte. Pode-se considerar como certo que, por mais imprudentes que os americanos geralmente sejam, quando eles são prudentes, há um bom motivo para isso.

Passepartout, não ousando avisar seu patrão do que ouvira, ouviu com os dentes cerrados, imóvel como uma estátua.

— Hum! — gritou o Coronel Proctor; — mas não vamos ficar aqui, imagino, e criar raízes na neve?

— Coronel — respondeu o condutor —, telegrafamos para Omaha pedindo um trem, mas não é provável que chegue a Medicine Bow em menos de seis horas.

— Seis horas! — exclamou Passepartout.

— Certamente — retrucou o condutor —, além disso, levaremos tanto tempo quanto isso para chegar a Medicine Bow a pé.

— Mas fica apenas a uma milha daqui — disse um dos passageiros.

— Sim, mas é do outro lado do rio.

— E não podemos atravessá-lo de barco? — perguntou o coronel.

— É impossível. O riacho está cheio devido às chuvas. É uma correnteza, e teremos de fazer um circuito de dez milhas ao norte para encontrar um vau.

O coronel disparou uma saraivada de palavrões, denunciando a companhia ferroviária e o condutor; e Passepartout, que estava furioso, não estava inclinado a não fazer causa comum com ele. Eis um obstáculo, de fato, que todas as notas bancárias de seu mestre não podiam remover.

Houve uma decepção geral entre os passageiros que, sem contar o atraso, viram-se obrigados a caminhar quinze milhas sobre uma planície coberta de neve. Eles resmungaram e protestaram, e certamente teriam atraído a atenção de Phileas Fogg se ele não estivesse completamente absorto em seu jogo.

Passepartout descobriu que não poderia evitar contar a seu mestre o que havia ocorrido, e, de cabeça baixa, dirigia-se ao vagão quando o engenheiro, um verdadeiro ianque chamado Forster, gritou: "Cavalheiros, talvez haja uma maneira, afinal, de passar".

— Pela ponte? — perguntou um passageiro.

— Pela ponte.

— Com nosso trem?

— Com nosso trem.

Passepartout parou bruscamente e ouviu ansiosamente o engenheiro.

— Mas a ponte não é segura — insistiu o condutor.

— Não importa — respondeu Forster; — acho que, colocando na velocidade máxima, poderíamos ter uma chance de atravessar.

— Diabo! — murmurou Passepartout.

Mas vários passageiros foram imediatamente atraídos pela proposta do engenheiro, e o Coronel Proctor ficou especialmente encantado, achando o plano muito viável. Ele contou histórias de engenheiros que faziam seus trens saltarem rios sem pontes, colocando a todo vapor; e muitos dos presentes declararam-se favoráveis à ideia do engenheiro.

— Temos cinquenta chances em cem de atravessar — disse um.

— Oitenta! Noventa!

Passepartout ficou pasmo e, embora pronto para tentar qualquer coisa para atravessar Medicine Creek, achou o experimento proposto um pouco americano demais. "Além disso", pensou ele, "há um jeito ainda mais simples, e nem sequer ocorre a nenhuma dessas pessoas! Senhor", disse ele em voz alta a um dos passageiros, "o plano do engenheiro parece-me um pouco perigoso, mas..."

— Oitenta chances! — respondeu o passageiro, dando-lhe as costas.

— Eu sei disso — disse Passepartout, virando-se para outro passageiro —, mas uma ideia simples...

— Ideias não servem para nada — retrucou o americano, encolhendo os ombros —, já que o engenheiro nos garante que podemos passar.

— Sem dúvida — insistiu Passepartout —, podemos passar, mas talvez fosse mais prudente...

— O quê! Prudente! — gritou o Coronel Proctor, a quem esta palavra parecia excitar prodigiosamente. — A toda velocidade, não vê, a toda velocidade!

— Eu sei — vejo — repetiu Passepartout; — mas seria, se não mais prudente, já que essa palavra o desagrada, pelo menos mais natural...

— Quem! O quê! O que há com este sujeito? — gritaram vários.

O pobre coitado não sabia a quem se dirigir.

— Você está com medo? — perguntou o Coronel Proctor.

— Eu com medo? Pois bem; mostrarei a esse povo que um francês pode ser tão americano quanto eles!

— Todos a bordo! — gritou o condutor.

— Sim, todos a bordo! — repetiu Passepartout, e imediatamente. — Mas eles não podem me impedir de pensar que seria mais natural atravessarmos a ponte a pé e deixar o trem vir atrás!

Mas ninguém ouviu essa sábia reflexão, nem ninguém teria reconhecido sua justiça. Os passageiros retomaram seus lugares nos vagões. Passepartout tomou seu assento sem contar o que havia passado. Os jogadores de uíste estavam completamente absortos em seu jogo.

A locomotiva apitou vigorosamente; o engenheiro, invertendo o vapor, recuou o trem por quase uma milha — retirando-se, como um saltador, para dar um salto mais longo. Então, com outro apito, começou a avançar; o trem aumentou sua velocidade e logo sua rapidez tornou-se assustadora; um guincho prolongado saiu da locomotiva; o pistão subia e descia vinte vezes por segundo. Perceberam que todo o trem, correndo à velocidade de cem milhas por hora, mal tocava nos trilhos.

E eles passaram! Foi como um relâmpago. Ninguém viu a ponte. O trem saltou, por assim dizer, de uma margem para a outra, e o engenheiro não conseguiu pará-lo até que tivesse percorrido cinco milhas além da estação. Mas mal o trem passara o rio, a ponte, completamente arruinada, caiu com um estrondo nas corredeiras de Medicine Bow.

CAPÍTULO XXIX. NO QUAL SÃO NARRADOS CERTOS INCIDENTES QUE SÓ SÃO ENCONTRADOS NAS FERROVIAS AMERICANAS

O trem seguiu seu curso, naquela noite, sem interrupção, passando pelo Fort Saunders, atravessando Cheyne Pass e chegando a Evans Pass. A estrada atingia aqui a maior elevação da jornada, oito mil e noventa e dois pés acima do nível do mar. Os viajantes tinham agora apenas de descer até o Atlântico por planícies ilimitadas, niveladas pela natureza. Um ramal da "grand trunk" seguia para o sul até Denver, a capital do Colorado. O país ao redor é rico em ouro e prata, e mais de cinquenta mil habitantes já estão estabelecidos lá.

Mil trezentas e oitenta e duas milhas haviam sido percorridas desde San Francisco, em três dias e três noites; mais quatro dias e noites provavelmente os levariam a Nova York. Phileas Fogg ainda não estava atrasado.

Durante a noite, Camp Walbach foi deixado para trás à esquerda; o Lodge Pole Creek corria paralelo à estrada, marcando a fronteira entre os territórios de Wyoming e Colorado. Entraram no Nebraska às onze horas, passaram perto de Sedgwick e chegaram a Julesburg, no ramal sul do Rio Platte.

Foi aqui que a Union Pacific Railroad foi inaugurada em 23 de outubro de 1867, pelo engenheiro-chefe, General Dodge. Duas poderosas locomotivas, transportando nove vagões de convidados, entre os quais estava Thomas C. Durant, vice-presidente da estrada, pararam neste ponto; vivas foram dados, os Sioux e Pawnees realizaram uma imitação de batalha indígena, fogos de artifício foram soltos, e o primeiro número do *Railway Pioneer* foi impresso por uma prensa trazida no trem. Assim foi celebrada a inauguração desta grande ferrovia, um poderoso instrumento de progresso e civilização, lançado através do deserto, e destinado a ligar cidades e vilas que ainda não existem. O apito da locomotiva, mais poderoso que a lira de Anfião, estava prestes a fazê-las surgir do solo americano.

Fort McPherson foi deixado para trás às oito da manhã, e trezentas e cinquenta e sete milhas ainda precisavam ser percorridas antes de chegar a Omaha. A estrada seguia as curvas caprichosas do ramal sul do Rio Platte, em sua margem esquerda. Às nove, o trem parou na importante cidade de North Platte, construída entre os dois braços do rio, que se reencontram ao redor dela e formam uma única artéria, um grande afluente, cujas águas desaguam no Missouri um pouco acima de Omaha.

O centésimo primeiro meridiano foi ultrapassado.

O Sr. Fogg e seus parceiros haviam retomado seu jogo; ninguém — nem mesmo o parceiro fictício — reclamou da duração da viagem. Fix começara ganhando várias guinéus, as quais parecia propenso a perder; mas mostrou-se um jogador de uíste não menos ávido que o Sr. Fogg. Durante a manhã, a sorte favoreceu distintamente aquele cavalheiro. Trunfos e honras choveram em suas mãos.

Certa vez, tendo decidido por uma jogada ousada, estava prestes a jogar um espadas, quando uma voz atrás dele disse: "Eu jogaria um ouros".

O Sr. Fogg, Aouda e Fix levantaram a cabeça e viram o Coronel Proctor.

Stamp Proctor e Phileas Fogg reconheceram-se imediatamente.

— Ah! É você, não é, inglês? — gritou o coronel; — é você quem vai jogar um espadas!

— E quem o joga — respondeu Phileas Fogg friamente, jogando o dez de espadas.

— Bem, agrada-me que sejam ouros — respondeu o Coronel Proctor, em tom insolente.

Ele fez um movimento como se fosse pegar a carta que acabara de ser jogada, acrescentando: "Você não entende nada de uíste".

— Talvez eu entenda, tão bem quanto outro — disse Phileas Fogg, levantando-se.

— Você só tem de tentar, filho de John Bull — respondeu o coronel.

Aouda empalideceu e seu sangue gelou. Ela agarrou o braço do Sr. Fogg e puxou-o suavemente para trás. Passepartout estava pronto para saltar sobre o americano, que olhava insolentemente para seu oponente. Mas Fix levantou-se e, indo até o Coronel Proctor, disse: "Você esquece que é comigo que você tem de se entender, senhor; pois fui eu quem você não apenas insultou, mas golpeou!"

— Sr. Fix — disse o Sr. Fogg —, perdoe-me, mas este assunto é meu, e apenas meu. O coronel insultou-me novamente, insistindo que eu não deveria jogar um espadas, e ele deve me dar satisfação por isso.

— Quando e onde você quiser — respondeu o americano —, e com qualquer arma que escolher.

Aouda tentou em vão conter o Sr. Fogg; tão inutilmente quanto o detetive tentou fazer da briga a sua. Passepartout queria jogar o coronel pela janela, mas um sinal de seu mestre o deteve. Phileas Fogg deixou o vagão, e o americano seguiu-o até a plataforma. "Senhor", disse o Sr. Fogg ao seu adversário, "estou com muita pressa para voltar à Europa, e qualquer atraso será muito desvantajoso para mim."

— Bem, o que tenho eu com isso? — respondeu o Coronel Proctor.

— Senhor — disse o Sr. Fogg, muito educadamente —, após nosso encontro em San Francisco, decidi retornar à América e encontrá-lo assim que tivesse terminado os negócios que me chamaram à Inglaterra.

— Sério!

— Você marcaria um encontro para daqui a seis meses?

— Por que não para daqui a dez anos?

— Eu disse seis meses — retrucou Phileas Fogg; — e estarei no local do encontro pontualmente.

— Tudo isso é uma evasiva — gritou Stamp Proctor. — Agora ou nunca!

— Muito bem. Você vai para Nova York?

— Não.

— Para Chicago?

— Não.

— Para Omaha?

— Que diferença faz para você? Você conhece Plum Creek?

— Não — respondeu o Sr. Fogg.

— É a próxima estação. O trem estará lá em uma hora e parará por dez minutos. Em dez minutos, vários tiros de revólver poderiam ser trocados.

— Muito bem — disse o Sr. Fogg. — Pararei em Plum Creek.

— E suponho que você ficará lá também — acrescentou o americano insolentemente.

— Quem sabe? — respondeu o Sr. Fogg, retornando ao vagão tão calmamente como de costume. Ele começou a tranquilizar Aouda, dizendo-lhe que fanfarrões nunca deveriam ser temidos, e pediu a Fix que fosse seu segundo no duelo iminente, um pedido que o detetive não pôde recusar. O Sr. Fogg retomou o jogo interrompido com perfeita calma.

Às onze horas, o apito da locomotiva anunciou que estavam se aproximando da estação de Plum Creek. O Sr. Fogg levantou-se e, seguido por Fix, saiu para a plataforma. Passepartout acompanhou-o, carregando um par de revólveres. Aouda permaneceu no vagão, pálida como a morte.

A porta do vagão seguinte abriu-se e o Coronel Proctor apareceu na plataforma, acompanhado por um ianque do seu próprio tipo como seu segundo. Mas, exatamente quando os combatentes estavam prestes a sair do trem, o condutor apressou-se e gritou: "Vocês não podem descer, cavalheiros!"

— Por que não? — perguntou o coronel.

— Estamos vinte minutos atrasados e não vamos parar.

— Mas vou lutar um duelo com este cavalheiro.

— Sinto muito — disse o condutor; — mas partiremos imediatamente. O sino já está tocando.

O trem partiu.

— Sinto muito mesmo, cavalheiros — disse o condutor. — Em qualquer outra circunstância, teria ficado feliz em atendê-los. Mas, afinal, como vocês não tiveram tempo de lutar aqui, por que não lutar enquanto seguimos viagem?

— Isso não seria conveniente, talvez, para este cavalheiro — disse o coronel, em tom zombeteiro.

— Seria perfeitamente — respondeu Phileas Fogg.

"Bem, estamos realmente na América", pensou Passepartout, "e o condutor é um cavalheiro de primeira ordem!"

Murmurando isso, ele seguiu seu mestre.

Os dois combatentes, seus segundos e o condutor atravessaram os vagões até a parte traseira do trem. O último vagão era ocupado apenas por uma dúzia de passageiros, a quem o condutor pediu educadamente se não seriam gentis o suficiente para deixá-lo vago por alguns momentos, já que dois cavalheiros tinham um assunto de honra a resolver. Os passageiros atenderam ao pedido com presteza e desapareceram imediatamente na plataforma.

O vagão, que tinha cerca de cinquenta pés de comprimento, era muito conveniente para o propósito deles. Os adversários poderiam caminhar um contra o outro no corredor e disparar à vontade. Nunca um duelo foi mais facilmente arranjado. O Sr. Fogg e o Coronel Proctor, cada um munido de dois revólveres de seis tiros, entraram no vagão. Os segundos, permanecendo do lado de fora, trancaram-nos lá. Eles deveriam começar a atirar ao primeiro apito da locomotiva. Após um intervalo de dois minutos, o que restasse dos dois cavalheiros seria retirado do vagão.

Nada poderia ser mais simples. De fato, era tudo tão simples que Fix e Passepartout sentiam seus corações batendo como se fossem explodir. Eles estavam ouvindo o apito combinado quando, de repente, gritos selvagens ressoaram no ar, acompanhados por tiros que certamente não saíram do vagão onde estavam os duelistas. Os tiros continuaram na frente e por todo o comprimento do trem. Gritos de terror vinham do interior dos vagões.

O Coronel Proctor e o Sr. Fogg, revólveres na mão, deixaram apressadamente sua prisão e correram para onde o barulho era mais clamoroso. Perceberam então que o trem estava sendo atacado por um bando de Sioux.

Esta não era a primeira tentativa desses índios ousados, pois mais de uma vez eles emboscaram trens na estrada. Cem deles haviam, segundo seu hábito, saltado nos estribos sem parar o trem, com a facilidade de um palhaço montando um cavalo a galope.

Os Sioux estavam armados com espingardas, das quais vinham os tiros, aos quais os passageiros, que estavam quase todos armados, respondiam com tiros de revólver.

Os índios montaram primeiro no motor e deixaram o engenheiro e o foguista meio atordoados com golpes de seus mosquetes. Um chefe Sioux, querendo parar o trem, mas não sabendo como operar o regulador, abrira totalmente em vez de fechar a válvula de vapor, e a locomotiva avançava com velocidade terrível.

Os Sioux haviam ao mesmo tempo invadido os vagões, saltando como macacos enfurecidos sobre os telhados, abrindo as portas e lutando corpo a corpo com os passageiros. Penetrando no vagão de bagagem, saquearam-no, jogando os baús para fora do trem. Os gritos e tiros eram constantes. Os viajantes defendiam-se bravamente; alguns dos vagões foram barricados e sustentaram um cerco, como fortes móveis, carregados a uma velocidade de cem milhas por hora.

Aouda comportou-se corajosamente desde o início. Ela defendeu-se como uma verdadeira heroína com um revólver, que ela disparava através das janelas quebradas sempre que um selvagem aparecia. Vinte Sioux caíram mortalmente feridos no chão, e as rodas esmagaram aqueles que caíam sobre os trilhos como se fossem vermes. Vários passageiros, baleados ou atordoados, jaziam nos assentos.

Era necessário pôr fim à luta, que durava dez minutos e que resultaria no triunfo dos Sioux se o trem não fosse parado. A estação de Fort Kearney, onde havia uma guarnição, ficava a apenas duas milhas de distância; mas, uma vez ultrapassada, os Sioux seriam mestres do trem entre Fort Kearney e a estação seguinte.

O condutor lutava ao lado do Sr. Fogg quando foi baleado e caiu. No mesmo momento, gritou: "A menos que o trem seja parado em cinco minutos, estamos perdidos!"

— Ele será parado — disse Phileas Fogg, preparando-se para correr do vagão.

— Espere, monsieur — gritou Passepartout; — eu irei.

O Sr. Fogg não teve tempo de parar o bravo sujeito, que, abrindo uma porta despercebido pelos índios, conseguiu deslizar sob o vagão; e enquanto a luta continuava e as balas zumbiam umas sobre as outras acima de sua cabeça, ele fez uso de sua antiga experiência acrobática e, com agilidade surpreendente, abriu caminho sob os vagões, segurando-se nas correntes, auxiliando-se pelos freios e bordas das molduras, rastejando de um vagão para outro com habilidade maravilhosa e, assim, ganhando a extremidade dianteira do trem.

Lá, suspenso por uma mão entre o vagão de bagagem e o tender, com a outra ele soltou as correntes de segurança; mas, devido à tração, ele nunca teria conseguido desparafusar a barra de engate, não fosse por um choque violento que deslocou essa barra. O trem, agora destacado da máquina, ficou um pouco para trás, enquanto a locomotiva avançava com velocidade aumentada.

Levado pela força já adquirida, o trem ainda moveu-se por vários minutos; mas os freios foram acionados e, finalmente, pararam a menos de cem pés da estação de Kearney.

Os soldados do forte, atraídos pelos tiros, correram; os Sioux não os esperavam e fugiram em grupo antes que o trem parasse completamente.

Mas quando os passageiros contaram uns aos outros na plataforma da estação, vários foram dados como desaparecidos; entre outros, o corajoso francês, cuja devoção acabara de salvá-los.

CAPÍTULO XXX. NO QUAL PHILEAS FOGG SIMPLESMENTE CUMPRE SEU DEVER

Três passageiros, incluindo Passepartout, haviam desaparecido. Tinham sido mortos na luta? Foram feitos prisioneiros pelos Sioux? Era impossível dizer.

Havia muitos feridos, mas nenhum mortalmente. O Coronel Proctor era um dos mais gravemente feridos; ele lutara bravamente, e uma bala entrara em sua virilha. Foi levado para a estação com os outros passageiros feridos, para receber a atenção que pudesse ser útil.

Aouda estava a salvo; e Phileas Fogg, que estivera no meio da luta, não recebera um arranhão. Fix estava levemente ferido no braço. Mas Passepartout não foi encontrado, e lágrimas corriam pelas bochechas de Aouda.

Todos os passageiros haviam saído do trem, cujas rodas estavam manchadas de sangue. Dos pneus e raios pendiam pedaços esfarrapados de carne. Até onde a vista alcançava na planície branca atrás, trilhas vermelhas eram visíveis. Os últimos Sioux desapareciam no sul, ao longo das margens do Rio Republican.

O Sr. Fogg, com os braços cruzados, permanecia imóvel. Ele tinha uma decisão séria a tomar. Aouda, parada perto dele, olhava-o sem falar, e ele entendeu seu olhar. Se seu criado era um prisioneiro, não deveria arriscar tudo para resgatá-lo dos índios? "Eu o encontrarei, vivo ou morto", disse ele calmamente a Aouda.

— Ah, Sr.—Sr. Fogg! — gritou ela, segurando suas mãos e cobrindo-as de lágrimas.

— Vivo — acrescentou o Sr. Fogg —, se não perdermos um momento.

Phileas Fogg, por essa resolução, sacrificava-se inevitavelmente; ele pronunciava sua própria condenação. O atraso de um único dia faria com que ele perdesse o navio a vapor em Nova York, e sua aposta estaria certamente perdida. Mas, ao pensar "É meu dever", ele não hesitou.

O oficial comandante de Fort Kearney estava lá. Cem de seus soldados haviam se posicionado para defender a estação, caso os Sioux a atacassem.

— Senhor — disse o Sr. Fogg ao capitão —, três passageiros desapareceram.

— Mortos? — perguntou o capitão.

— Mortos ou prisioneiros; essa é a incerteza que deve ser resolvida. Você se propõe a perseguir os Sioux?

— Essa é uma coisa séria a se fazer, senhor — retrucou o capitão. — Esses índios podem recuar além do Arkansas, e eu não posso deixar o forte desprotegido.

— As vidas de três homens estão em questão, senhor — disse Phileas Fogg.

— Sem dúvida; mas posso arriscar as vidas de cinquenta homens para salvar três?

— Não sei se você pode, senhor; mas você deve fazê-lo.

— Ninguém aqui — respondeu o outro — tem o direito de me ensinar meu dever.

— Muito bem — disse o Sr. Fogg, friamente. — Eu irei sozinho.

— Você, senhor! — gritou Fix, aproximando-se; — você vai sozinho em perseguição aos índios?

— Você quer que eu deixe esse pobre sujeito perecer — ele a quem todos os presentes devem suas vidas? Eu irei.

— Não, senhor, você não irá sozinho — gritou o capitão, tocado apesar de si mesmo. — Não! Você é um homem bravo. Trinta voluntários! — acrescentou, voltando-se para os soldados.

Toda a companhia começou a avançar de uma vez. O capitão só teve de escolher seus homens. Trinta foram escolhidos, e um velho sargento colocado à frente deles.

— Obrigado, capitão — disse o Sr. Fogg.

— O senhor me permitirá ir com você? — perguntou Fix.

— Faça como desejar, senhor. Mas, se quer me fazer um favor, ficará com Aouda. No caso de algo me acontecer...

Uma palidez súbita cobriu o rosto do detetive. Separar-se do homem a quem seguira tão persistentemente, passo a passo! Deixá-lo vagar por este deserto! Fix fitou atentamente o Sr. Fogg e, apesar de suas suspeitas e da luta que travava no íntimo, baixou os olhos diante daquele olhar calmo e franco.

— Eu ficarei — disse ele.

Poucos momentos depois, o Sr. Fogg apertou a mão da jovem e, tendo-lhe confiado sua preciosa bolsa de viagem, partiu com o sargento e seu pequeno destacamento. Mas, antes de ir, dissera aos soldados: “Meus amigos, dividirei cinco mil dólares entre vocês, se salvarmos os prisioneiros.”

Eram então pouco mais de meio-dia.

Aouda retirou-se para uma sala de espera e ali aguardou sozinha, pensando na generosidade simples e nobre, na coragem tranquila de Phileas Fogg. Ele sacrificara sua fortuna e agora arriscava a própria vida, tudo sem hesitação, por dever, em silêncio.

Fix não tinha os mesmos pensamentos e mal podia esconder sua agitação. Caminhou febrilmente de um lado para o outro na plataforma, mas logo recuperou sua compostura exterior. Via agora a tolice que cometera ao deixar Fogg partir sozinho. O quê! Este homem, a quem acabara de seguir pelo mundo inteiro, tinha permissão agora de separar-se dele! Começou a acusar-se e a insultar-se e, como se fosse um diretor de polícia, deu a si mesmo uma sonora reprimenda por sua ingenuidade.

“Fui um idiota!”, pensou ele, “e este homem perceberá isso. Ele foi embora e não voltará! Mas como é que eu, Fix, que tenho no bolso um mandado de prisão contra ele, fui tão fascinado por ele? Decididamente, não passo de um asno!”

Assim raciocinava o detetive, enquanto as horas se arrastavam penosamente. Ele não sabia o que fazer. Por vezes, sentia-se tentado a contar tudo a Aouda; mas não podia duvidar de como a jovem receberia suas confidências. Que rumo tomar? Pensou em seguir Fogg através das vastas planícies brancas; não parecia impossível que pudesse alcançá-lo. As pegadas eram facilmente impressas na neve! Mas logo, sob uma nova camada, cada marca seria apagada.

Fix desanimou. Sentiu uma espécie de desejo insuperável de abandonar o jogo de vez. Poderia agora deixar a estação de Fort Kearney e seguir sua viagem para casa em paz.

Por volta das duas horas da tarde, enquanto nevava intensamente, longos apitos foram ouvidos aproximando-se do leste. Uma grande sombra, precedida por uma luz selvagem, avançava lentamente, parecendo ainda maior através da névoa, o que lhe conferia um aspecto fantástico. Nenhum trem era esperado do leste, nem houvera tempo para que o socorro solicitado por telégrafo chegasse; o trem de Omaha para San Francisco só era esperado para o dia seguinte. O mistério logo foi explicado.

A locomotiva, que se aproximava lentamente com apitos ensurdecedores, era aquela que, tendo sido desengatada do trem, continuara sua rota com tal rapidez terrível, levando consigo o engenheiro e o foguista inconscientes. Percorrera várias milhas quando, o fogo diminuindo por falta de combustível, o vapor arrefecera; e finalmente parara uma hora depois, a uns trinta quilômetros de Fort Kearney. Nem o engenheiro nem o foguista estavam mortos e, após permanecerem por algum tempo em desmaio, haviam retomado os sentidos. O trem então parara. O engenheiro, ao se ver no deserto e a locomotiva sem os vagões, compreendeu o que havia acontecido. Não conseguia imaginar como a locomotiva se separara do trem; mas não duvidava de que o trem deixado para trás estivesse em apuros.

Ele não hesitou sobre o que fazer. Seria prudente continuar até Omaha, pois seria perigoso retornar ao trem, que os índios poderiam ainda estar pilhando. No entanto, começou a reacender o fogo na fornalha; a pressão subiu novamente e a locomotiva retornou, correndo de marcha à ré para Fort Kearney. Era isso o que apitava na névoa.

Os viajantes ficaram contentes ao ver a locomotiva retomar seu lugar à frente do trem. Podiam agora continuar a viagem tão terrivelmente interrompida.

Aouda, ao ver a locomotiva chegar, apressou-se a sair da estação e perguntou ao condutor: “O senhor vai partir?”

— Imediatamente, madame.

— Mas os prisioneiros, nossos infelizes companheiros de viagem...

— Não posso interromper a viagem — respondeu o condutor. — Já estamos com três horas de atraso.

— E quando passará outro trem por aqui vindo de San Francisco?

— Amanhã à noite, madame.

— Amanhã à noite! Mas então será tarde demais! Devemos esperar...

— É impossível — respondeu o condutor. — Se deseja partir, por favor, suba.

— Eu não irei — disse Aouda.

Fix ouvira essa conversa. Pouco antes, quando não havia perspectiva de prosseguir a viagem, ele decidira deixar Fort Kearney; mas agora que o trem estava ali, pronto para partir, e ele só precisava tomar seu lugar no vagão, uma influência irresistível o reteve. A plataforma da estação queimava seus pés e ele não conseguia mover-se. O conflito em sua mente recomeçou; a raiva e o fracasso o sufocavam. Ele desejava lutar até o fim.

Enquanto isso, os passageiros e alguns dos feridos, entre eles o Coronel Proctor, cujos ferimentos eram graves, haviam tomado seus lugares no trem. O zumbido da caldeira superaquecida era ouvido e o vapor escapava pelas válvulas. O engenheiro apitou, o trem partiu e logo desapareceu, misturando sua fumaça branca com os redemoinhos da neve que caía densamente.

O detetive permanecera para trás.

Várias horas se passaram. O tempo estava sombrio e fazia muito frio. Fix sentou-se imóvel em um banco da estação; poder-se-ia pensar que estava dormindo. Aouda, apesar da tempestade, continuava a sair da sala de espera, indo até o fim da plataforma e olhando através da tempestade de neve, como se quisesse perfurar a névoa que estreitava o horizonte ao seu redor e ouvir, se possível, algum som bem-vindo. Ela não ouvia nem via nada. Então retornava, transida de frio, para sair novamente após alguns momentos, mas sempre em vão.

A noite chegou e o pequeno bando não retornara. Onde poderiam estar? Teriam encontrado os índios e estavam travando um combate com eles, ou ainda estariam vagando em meio à névoa? O comandante do forte estava ansioso, embora tentasse esconder suas apreensões. À medida que a noite se aproximava, a neve caía menos copiosamente, mas o frio tornou-se intenso. Um silêncio absoluto repousava sobre as planícies. Nem o voo de pássaro nem a passagem de fera perturbavam a calma perfeita.

Durante toda a noite, Aouda, cheia de presságios tristes, o coração sufocado de angústia, vagou pela orla das planícies. Sua imaginação a levava para longe e mostrava-lhe perigos inumeráveis. O que ela sofreu durante as longas horas seria impossível descrever.

Fix permaneceu estacionário no mesmo lugar, mas não dormiu. Certa vez, um homem aproximou-se e falou com ele, e o detetive apenas respondeu meneando a cabeça.

Assim passou a noite. Ao amanhecer, o disco semiextinto do sol elevou-se acima de um horizonte enevoado; mas era agora possível reconhecer objetos a três quilômetros de distância. Phileas Fogg e o destacamento haviam partido para o sul; ao sul, tudo era ainda vazio. Eram então sete horas.

O capitão, que estava realmente alarmado, não sabia que rumo tomar.

Deveria enviar outro destacamento ao resgate do primeiro? Deveria sacrificar mais homens, com tão poucas chances de salvar os já sacrificados? Sua hesitação, porém, não durou muito. Chamando um de seus tenentes, estava prestes a ordenar um reconhecimento quando tiros foram ouvidos. Seria um sinal? Os soldados correram para fora do forte e, a oitocentos metros de distância, perceberam um pequeno bando retornando em boa ordem.

O Sr. Fogg marchava à frente deles e, logo atrás, vinham Passepartout e os outros dois viajantes, resgatados dos Sioux.

Tinham encontrado e combatido os índios a dezesseis quilômetros ao sul de Fort Kearney. Pouco antes de o destacamento chegar, Passepartout e seus companheiros haviam começado a lutar com seus captores, três dos quais o francês derrubara com os punhos, quando seu amo e os soldados chegaram em seu socorro.

Todos foram recebidos com gritos de alegria. Phileas Fogg distribuiu a recompensa que prometera aos soldados, enquanto Passepartout, não sem razão, murmurava consigo mesmo: “Deve-se certamente confessar que custei caro ao meu amo!”

Fix, sem dizer uma palavra, olhou para o Sr. Fogg, e teria sido difícil analisar os pensamentos que lutavam dentro dele. Quanto a Aouda, ela tomou a mão de seu protetor e a apertou na sua, comovida demais para falar.

Enquanto isso, Passepartout procurava pelo trem; ele pensava que o encontraria ali, pronto para partir para Omaha, e esperava que o tempo perdido pudesse ser recuperado.

— O trem! O trem! — gritou ele.

— Foi embora — respondeu Fix.

— E quando passa o próximo trem por aqui? — disse Phileas Fogg.

— Só esta noite.

— Ah! — retornou o impassível cavalheiro calmamente.

CAPÍTULO XXXI. NO QUAL FIX, O DETETIVE, PROMOVE CONSIDERAVELMENTE OS INTERESSES DE PHILEAS FOGG

Phileas Fogg encontrava-se com vinte horas de atraso. Passepartout, a causa involuntária desse atraso, estava desesperado. Ele arruinara seu amo!

Nesse momento, o detetive aproximou-se do Sr. Fogg e, olhando-o atentamente no rosto, disse:

— Seriamente, senhor, o senhor está com muita pressa?

— Muito seriamente.

— Tenho um propósito ao perguntar — continuou Fix. — É absolutamente necessário que o senhor esteja em Nova York no dia 11, antes das nove horas da noite, horário em que o vapor parte para Liverpool?

— É absolutamente necessário.

— E, se sua viagem não tivesse sido interrompida por esses índios, o senhor teria chegado a Nova York na manhã do dia 11?

— Sim; com onze horas de antecedência antes da partida do vapor.

— Bom! O senhor está, portanto, com vinte horas de atraso. Doze de vinte restam oito. O senhor deve recuperar oito horas. Deseja tentar fazê-lo?

— A pé? — perguntou o Sr. Fogg.

— Não; num trenó — respondeu Fix. — Num trenó com velas. Um homem propôs-me tal método.

Era o homem que falara com Fix durante a noite e cuja oferta ele recusara.

Phileas Fogg não respondeu imediatamente; mas Fix, tendo apontado o homem, que caminhava de um lado para o outro diante da estação, o Sr. Fogg aproximou-se dele. Um instante depois, o Sr. Fogg e o americano, cujo nome era Mudge, entraram em uma cabana construída logo abaixo do forte.

Ali, o Sr. Fogg examinou um veículo curioso, uma espécie de armação sobre duas longas vigas, um pouco elevada na frente como os patins de um trenó, e sobre a qual havia espaço para cinco ou seis pessoas. Um mastro alto estava fixado na armação, mantido firmemente por amarras metálicas, às quais estava presa uma grande vela de brigue. Este mastro sustentava um estai de ferro para içar uma vela de proa. Atrás, uma espécie de leme servia para guiar o veículo. Era, em suma, um trenó aparelhado como um saveiro. Durante o inverno, quando os trens ficam bloqueados pela neve, esses trens fazem viagens extremamente rápidas através das planícies geladas de uma estação a outra. Providos de mais velas do que um cutter, e com o vento a favor, deslizam sobre a superfície das pradarias com uma velocidade igual, se não superior, à dos trens expressos.

O Sr. Fogg facilmente fez um acordo com o dono desta embarcação terrestre. O vento era favorável, estando forte e soprando do oeste. A neve endurecera e Mudge estava muito confiante em poder transportar o Sr. Fogg em poucas horas até Omaha. De lá, os trens para o leste partem frequentemente para Chicago e Nova York. Não era impossível que o tempo perdido pudesse ainda ser recuperado; e tal oportunidade não deveria ser rejeitada.

Não querendo expor Aouda aos desconfortos de viajar ao ar livre, o Sr. Fogg propôs deixá-la com Passepartout em Fort Kearney, encarregando-se o criado de escoltá-la até a Europa por uma rota melhor e sob condições mais favoráveis. Mas Aouda recusou-se a separar-se do Sr. Fogg, e Passepartout ficou encantado com sua decisão; pois nada poderia induzi-lo a deixar seu amo enquanto Fix estivesse com ele.

Seria difícil adivinhar os pensamentos do detetive. Teria essa convicção sido abalada pelo retorno de Phileas Fogg, ou ele ainda o considerava um velhaco extremamente astuto que, com sua viagem ao redor do mundo completada, julgar-se-ia absolutamente seguro na Inglaterra? Talvez a opinião de Fix sobre Phileas Fogg tivesse se modificado um pouco; mas ele estava, não obstante, resolvido a cumprir seu dever e a apressar o retorno de todo o grupo à Inglaterra tanto quanto possível.

Às oito horas, o trenó estava pronto para partir. Os passageiros tomaram seus lugares nele e envolveram-se bem em suas capas de viagem. As duas grandes velas foram içadas e, sob a pressão do vento, o trenó deslizou sobre a neve endurecida com uma velocidade de sessenta quilômetros por hora.

A distância entre Fort Kearney e Omaha, em linha reta, é de no máximo trezentos quilômetros. Se o vento se mantivesse bom, a distância poderia ser percorrida em cinco horas; se nenhum acidente acontecesse, o trenó poderia chegar a Omaha por volta da uma hora.

Que viagem! Os viajantes, amontoados uns contra os outros, não podiam falar devido ao frio, intensificado pela rapidez com que iam. O trenó avançava tão levemente quanto um barco sobre as ondas. Quando a brisa passava roçando a terra, o trenó parecia ser levantado do solo por suas velas. Mudge, que estava no leme, mantinha a linha reta e, com um movimento de mão, controlava os solavancos que o veículo tendia a dar. Todas as velas estavam içadas, e a vela de proa estava arranjada de modo a não encobrir a vela de brigue. Um mastro de gávea foi içado, e outra vela de proa, estendida ao vento, somou sua força às outras velas. Embora a velocidade não pudesse ser exatamente estimada, o trenó não deveria estar a menos de sessenta quilômetros por hora.

— Se nada quebrar — disse Mudge —, chegaremos lá!

O Sr. Fogg tornara vantajoso para Mudge chegar a Omaha dentro do tempo acordado, oferecendo-lhe uma bela recompensa.

A pradaria, através da qual o trenó se movia em linha reta, era tão plana quanto o mar. Parecia um vasto lago congelado. A ferrovia que atravessava esta seção subia do sudoeste para o noroeste por Great Island, Columbus, uma importante cidade de Nebraska, Schuyler e Fremont, até Omaha. Seguia por todo o caminho a margem direita do rio Platte. O trenó, encurtando esta rota, tomava uma corda do arco descrito pela ferrovia. Mudge não tinha medo de ser parado pelo rio Platte, porque estava congelado. O caminho, então, estava totalmente livre de obstáculos, e Phileas Fogg só tinha duas coisas a temer: um acidente com o trenó e uma mudança ou calmaria no vento.

Mas a brisa, longe de diminuir sua força, soprava como se fosse dobrar o mastro, o qual, contudo, as amarras metálicas mantinham firmemente. Estas amarras, como as cordas de um instrumento musical, ressoavam como se vibradas por um arco de violino. O trenó deslizava em meio a uma melodia lamentosa e intensa.

— Essas cordas dão a quinta e a oitava — disse o Sr. Fogg.

Estas foram as únicas palavras que proferiu durante a viagem. Aouda, confortavelmente envolvida em peles e capas, estava protegida tanto quanto possível dos ataques do vento congelante. Quanto a Passepartout, seu rosto estava vermelho como o disco do sol quando se põe na névoa, e ele inalava laboriosamente o ar cortante. Com sua natural vivacidade de espírito, começou a ter esperança novamente. Chegariam a Nova York na noite, se não na manhã do dia 11, e ainda havia algumas chances de que fosse antes de o vapor zarpar para Liverpool.

Passepartout sentiu até um forte desejo de apertar a mão de seu aliado, Fix. Lembrou-se de que fora o detetive quem conseguira o trenó, o único meio de chegar a Omaha a tempo; mas, contido por algum pressentimento, manteve sua reserva habitual. Uma coisa, porém, Passepartout jamais esqueceria, e era o sacrifício que o Sr. Fogg fizera, sem hesitação, para resgatá-lo dos Sioux. O Sr. Fogg arriscara sua fortuna e sua vida. Não! Seu criado jamais esqueceria isso!

Enquanto cada um do grupo estava absorto em reflexões tão diferentes, o trenó voava sobre o vasto tapete de neve. Os riachos que cruzava não eram percebidos. Campos e rios desapareciam sob a brancura uniforme. A planície estava absolutamente deserta. Entre a estrada da Union Pacific e o ramal que une Kearney a Saint Joseph, formava-se uma grande ilha desabitada. Nem vila, nem estação, nem forte apareciam. De tempos em tempos, passavam por alguma árvore fantasmagórica, cujo esqueleto branco se contorcia e chocalhava ao vento. Às vezes, bandos de pássaros selvagens levantavam voo, ou alcateias de lobos famintos e ferozes da pradaria corriam uivando atrás do trenó. Passepartout, revólver na mão, mantinha-se pronto para disparar naqueles que chegassem muito perto. Se um acidente tivesse ocorrido ao trenó, os viajantes, atacados por essas feras, estariam no mais terrível perigo; mas ele continuou seu curso constante, logo ganhou dos lobos e, antes que se passasse muito tempo, deixou o bando uivante a uma distância segura.

Por volta do meio-dia, Mudge percebeu por certos marcos que estava cruzando o rio Platte. Não disse nada, mas sentiu-se certo de que estava agora a trinta quilômetros de Omaha. Em menos de uma hora, deixou o leme e recolheu as velas, enquanto o trenó, levado pelo grande ímpeto que o vento lhe dera, continuou por mais oitocentos metros com as velas recolhidas.

Parou enfim, e Mudge, apontando para uma massa de telhados brancos de neve, disse: “Chegamos!”

Chegados! Chegados à estação que está em comunicação diária, por numerosos trens, com o litoral atlântico!

Passepartout e Fix saltaram, esticaram seus membros endurecidos e ajudaram o Sr. Fogg e a jovem a descer do trenó. Phileas Fogg recompensou generosamente Mudge, cuja mão Passepartout apertou calorosamente, e o grupo dirigiu seus passos para a estação ferroviária de Omaha.

A Pacific Railroad propriamente dita tem seu terminal nesta importante cidade de Nebraska. Omaha é conectada a Chicago pela Chicago and Rock Island Railroad, que segue diretamente para o leste e passa por cinquenta estações.

Um trem estava pronto para partir quando o Sr. Fogg e seu grupo chegaram à estação, e eles só tiveram tempo de entrar nos vagões. Não tinham visto nada de Omaha; mas Passepartout confessou a si mesmo que isso não era de se lamentar, pois não estavam viajando para fazer turismo.

O trem passou rapidamente pelo Estado de Iowa, por Council Bluffs, Des Moines e Iowa City. Durante a noite, cruzou o Mississippi em Davenport e, por Rock Island, entrou em Illinois. No dia seguinte, que era o 10, às quatro horas da tarde, chegou a Chicago, já erguida de suas ruínas e mais orgulhosamente assentada do que nunca nas margens de seu belo Lago Michigan.

Mil quatrocentos e cinquenta quilômetros separavam Chicago de Nova York; mas trens não faltam em Chicago. O Sr. Fogg passou imediatamente de um para o outro, e a locomotiva da Pittsburgh, Fort Wayne, and Chicago Railway partiu a toda velocidade, como se compreendesse plenamente que aquele cavalheiro não tinha tempo a perder. Atravessou Indiana, Ohio, Pensilvânia e Nova Jersey como um relâmpago, passando por cidades com nomes antigos, algumas das quais tinham ruas e trilhos de bonde, mas ainda sem casas. Por fim, o Hudson surgiu à vista; e, às onze e quinze da noite do dia 11, o trem parou na estação na margem direita do rio, diante do cais da linha Cunard.

O “China”, para Liverpool, partira quarenta e cinco minutos antes!

CAPÍTULO XXXII. NO QUAL PHILEAS FOGG ENTRA EM LUTA DIRETA COM A MÁ SORTE

O “China”, ao partir, parecia ter levado consigo a última esperança de Phileas Fogg. Nenhum dos outros vapores podia servir aos seus projetos. O “Pereire”, da Companhia Transatlântica Francesa, cujos admiráveis vapores igualam quaisquer outros em velocidade e conforto, não partia antes do dia 14; os navios de Hamburgo não iam diretamente para Liverpool ou Londres, mas para Havre; e a viagem adicional de Havre para Southampton tornaria inúteis os últimos esforços de Phileas Fogg. O vapor da Inman não partia antes do dia seguinte e não poderia atravessar o Atlântico a tempo de salvar a aposta.

O Sr. Fogg soube de tudo isso ao consultar o seu “Bradshaw”, que lhe dava os movimentos diários dos vapores transatlânticos.

Passepartout estava arrasado; abatia-o ter perdido o barco por três quartos de hora. A culpa fora sua, pois, em vez de ajudar o seu amo, não cessara de colocar obstáculos no seu caminho! E quando recordava todos os incidentes da viagem, quando somava as quantias gastas em pura perda e por sua própria conta, quando pensava que a imensa aposta, somada aos pesados encargos desta viagem inútil, arruinaria completamente o Sr. Fogg, ele sobrecarregava-se de amargas autoacusações. O Sr. Fogg, contudo, não o repreendeu; e, ao deixar o cais da Cunard, apenas disse: “Consultaremos sobre o que é melhor amanhã. Venha.”

O grupo atravessou o Hudson na balsa de Jersey City e seguiu de carruagem para o Hotel St. Nicholas, na Broadway. Os quartos foram alugados, e a noite passou-se, brevemente para Phileas Fogg, que dormiu profundamente, mas muito longa para Aouda e os outros, cuja agitação não lhes permitia descansar.

O dia seguinte era 12 de dezembro. Das sete da manhã do dia 12 a quinze para as nove da noite do dia 21, havia nove dias, treze horas e quarenta e cinco minutos. Se Phileas Fogg tivesse partido no “China”, um dos vapores mais rápidos do Atlântico, teria chegado a Liverpool, e depois a Londres, dentro do período acordado.

O Sr. Fogg saiu do hotel sozinho, após dar a Passepartout instruções para aguardar o seu regresso e informar Aouda de estar pronta ao menor sinal. Dirigiu-se às margens do Hudson e procurou entre as embarcações amarradas ou ancoradas no rio alguma que estivesse prestes a partir. Várias tinham sinais de partida e preparavam-se para se fazer ao mar na maré da manhã; pois, neste imenso e admirável porto, não há um dia em cem em que os navios não partam para todos os quadrantes do globo. Mas eram, na sua maioria, navios à vela, dos quais, naturalmente, Phileas Fogg não podia fazer uso.

Parecia prestes a perder toda a esperança, quando avistou, ancorado no Battery, a um cabo de distância, no máximo, um navio mercante, com hélice, bem formado, cuja chaminé, lançando uma nuvem de fumo, indicava que se preparava para a partida.

Phileas Fogg chamou um barco, entrou nele e logo se viu a bordo do “Henrietta”, de casco de ferro e construído em madeira na parte superior. Subiu ao convés e perguntou pelo capitão, que imediatamente se apresentou. Era um homem de cinquenta anos, uma espécie de lobo-do-mar, com olhos grandes, tez de cobre oxidado, cabelos ruivos, pescoço grosso e uma voz de rosnar.

“O capitão?”, perguntou o Sr. Fogg.

“Sou eu o capitão.”

“Sou Phileas Fogg, de Londres.”

“E eu sou Andrew Speedy, de Cardiff.”

“Vai fazer-se ao mar?”

“Dentro de uma hora.”

“Com destino a—”

“Bordéus.”

“E a sua carga?”

“Sem frete. Vou em lastro.”

“Tem passageiros?”

“Sem passageiros. Nunca tenho passageiros. Estorvam demasiado.”

“O seu navio é veloz?”

“Entre onze e doze nós. O ‘Henrietta’, bem conhecido.”

“Transportar-me-á a mim e a três outras pessoas para Liverpool?”

“Para Liverpool? Por que não para a China?”

“Disse Liverpool.”

“Não!”

“Não?”

“Não. Estou a partir para Bordéus e irei para Bordéus.”

“O dinheiro não é problema?”

“Nenhum.”

O capitão falou num tom que não admitia réplica.

“Mas os proprietários do ‘Henrietta’—” retomou Phileas Fogg.

“Os proprietários sou eu”, respondeu o capitão. “O navio pertence-me.”

“Fretá-lo-ei para si.”

“Não.”

“Comprá-lo-ei a si.”

“Não.”

Phileas Fogg não traiu a menor decepção; mas a situação era grave. Não era em Nova Iorque como em Hong Kong, nem com o capitão do “Henrietta” como com o capitão do “Tankadere”. Até aquele momento, o dinheiro suavizara todos os obstáculos. Agora, o dinheiro falhava.

Ainda assim, algum meio devia ser encontrado para atravessar o Atlântico num barco, a menos que fosse por balão — o que seria arriscado, além de não ser exequível. Parecia que Phileas Fogg teve uma ideia, pois disse ao capitão: “Bem, transportar-me-á para Bordéus?”

“Não, mesmo que me pagasse duzentos dólares.”

“Ofereço-lhe dois mil.”

“Por cabeça?”

“Por cabeça.”

“E são quatro?”

“Quatro.”

O Capitão Speedy começou a coçar a cabeça. Eram oito mil dólares a ganhar, sem mudar a rota; pelo que valia bem a pena vencer a repugnância que tinha por qualquer tipo de passageiros. Além disso, passageiros a dois mil dólares já não são passageiros, mas mercadoria valiosa. “Parto às nove horas”, disse o Capitão Speedy, simplesmente. “Está o senhor e o seu grupo prontos?”

“Estaremos a bordo às nove horas”, respondeu, não menos simplesmente, o Sr. Fogg.

Eram oito e meia. Desembarcar do “Henrietta”, saltar para um carro de praça, correr para o St. Nicholas e regressar com Aouda, Passepartout e até o inseparável Fix foi o trabalho de pouco tempo, e foi executado pelo Sr. Fogg com a frieza que nunca o abandonava. Estavam a bordo quando o “Henrietta” se preparava para levantar âncora.

Quando Passepartout soube quanto ia custar esta última viagem, soltou um prolongado “Oh!” que se estendeu por toda a sua gama vocal.

Quanto a Fix, disse a si mesmo que o Banco da Inglaterra certamente não sairia desta aventura bem indemnizado. Quando chegassem a Inglaterra, mesmo que o Sr. Fogg não atirasse alguns punhados de notas ao mar, mais de sete mil libras teriam sido gastas!

CAPÍTULO XXXIII. NO QUAL PHILEAS FOGG MOSTRA ESTAR À ALTURA DA OCASIÃO

Uma hora depois, o “Henrietta” passou o farol que marca a entrada do Hudson, contornou a ponta de Sandy Hook e fez-se ao mar. Durante o dia, costeou Long Island, passou Fire Island e dirigiu o seu curso rapidamente para leste.

Ao meio-dia do dia seguinte, um homem subiu à ponte para verificar a posição do navio. Poder-se-ia pensar que era o Capitão Speedy. Nem um pouco. Era Phileas Fogg, Esquire. Quanto ao Capitão Speedy, estava fechado na sua cabine, sob chave, e soltava gritos altos, que significavam uma raiva ao mesmo tempo perdoável e excessiva.

O que acontecera era muito simples. Phileas Fogg queria ir para Liverpool, mas o capitão não o queria levar lá. Então, Phileas Fogg tomara passagem para Bordéus e, durante as trinta horas em que estivera a bordo, gerira tão habilmente com as suas notas de banco que os marinheiros e fogueiros, que eram apenas uma tripulação ocasional e não estavam nos melhores termos com o capitão, passaram-se para o seu lado em bloco. Foi por isso que Phileas Fogg estava no comando em vez do Capitão Speedy; por que o capitão era um prisioneiro na sua cabine; e por que, em suma, o “Henrietta” dirigia o seu curso para Liverpool. Era muito claro, ao ver o Sr. Fogg comandar a embarcação, que ele fora marinheiro.

Como a aventura terminou, ver-se-á em breve. Aouda estava ansiosa, embora não dissesse nada. Quanto a Passepartout, achou a manobra do Sr. Fogg simplesmente gloriosa. O capitão dissera “entre onze e doze nós”, e o “Henrietta” confirmou a sua previsão.

Se, então — pois ainda havia “ses” — o mar não se tornasse demasiado agitado, se o vento não virasse para leste, se nenhum acidente acontecesse ao barco ou ao seu maquinário, o “Henrietta” poderia atravessar as três mil milhas de Nova Iorque a Liverpool nos nove dias, entre 12 e 21 de dezembro. É verdade que, uma vez chegado, o caso a bordo do “Henrietta”, somado ao do Banco da Inglaterra, poderia criar mais dificuldades para o Sr. Fogg do que ele imaginava ou poderia desejar.

Durante os primeiros dias, seguiram suavemente o suficiente. O mar não era muito desfavorável, o vento parecia estacionário a nordeste, as velas foram içadas e o “Henrietta” sulcava as ondas como um verdadeiro vapor transatlântico.

Passepartout estava encantado. O último feito do seu amo, cujas consequências ele ignorava, maravilhava-o. Nunca a tripulação vira um sujeito tão alegre e destemido. Formou amizades calorosas com os marinheiros e surpreendeu-os com as suas proezas acrobáticas. Achava que eles manobravam o navio como cavalheiros e que os fogueiros alimentavam as fornalhas como heróis. A sua boa disposição loquaz infetava todos. Esquecera o passado, as suas contrariedades e atrasos. Só pensava no fim, tão perto de ser alcançado; e, por vezes, fervia de impaciência, como se aquecido pelas fornalhas do “Henrietta”. Muitas vezes, também, o digno sujeito girava em torno de Fix, olhando-o com um olho atento e desconfiado; mas não falava com ele, pois a sua antiga intimidade já não existia.

Fix, deve confessar-se, não entendia nada do que se passava. A conquista do “Henrietta”, o suborno da tripulação, Fogg a comandar o barco como um marinheiro experiente, maravilhavam-no e confundiam-no. Ele não sabia o que pensar. Pois, afinal, um homem que começava por roubar cinquenta e cinco mil libras poderia terminar por roubar um navio; e Fix não estava, sem razão, inclinado a concluir que o “Henrietta”, sob o comando de Fogg, não ia para Liverpool, mas para alguma parte do mundo onde o ladrão, transformado em pirata, se colocaria tranquilamente em segurança. A conjetura era, pelo menos, plausível, e o detetive começou a arrepender-se seriamente de se ter embarcado no caso.

Quanto ao Capitão Speedy, continuava a uivar e a rosnar na sua cabine; e Passepartout, cujo dever era levar-lhe as refeições, por mais corajoso que fosse, tomava as maiores precauções. O Sr. Fogg parecia nem sequer saber que havia um capitão a bordo.

No dia 13, passaram a orla dos Bancos de Terra Nova, uma localidade perigosa; durante o inverno, especialmente, há nevoeiros frequentes e fortes vendavais. Desde a véspera, o barómetro, caindo subitamente, indicara uma mudança na atmosfera; e, durante a noite, a temperatura variou, o frio tornou-se mais cortante e o vento virou para sudeste.

Foi um azar. O Sr. Fogg, para não se desviar do seu curso, baixou as velas e aumentou a força do vapor; mas a velocidade do navio diminuiu devido ao estado do mar, cujas longas ondas se quebravam contra a popa. O navio arquejava violentamente, e isso retardava o seu progresso. A brisa pouco a pouco transformou-se em tempestade, e era de temer que o “Henrietta” não conseguisse manter-se direito sobre as ondas.

O rosto de Passepartout escureceu com o céu, e por dois dias o pobre sujeito experimentou um susto constante. Mas Phileas Fogg era um marinheiro audaz e sabia como manter a velocidade contra o mar; e continuou o seu curso, sem sequer diminuir o vapor. O “Henrietta”, quando não conseguia subir sobre as ondas, atravessava-as, inundando o seu convés, mas passando em segurança. Por vezes, a hélice saía da água, batendo com a sua extremidade saliente, quando uma montanha de água elevava a popa acima das ondas; mas a embarcação mantinha-se sempre em frente.

O vento, contudo, não se tornou tão agitado como se poderia ter temido; não era uma daquelas tempestades que irrompem e correm a uma velocidade de noventa milhas por hora. Continuou fresco, mas, infelizmente, permaneceu obstinadamente a sudeste, tornando as velas inúteis.

O dia 16 de dezembro era o septuagésimo quinto dia desde a partida de Phileas Fogg de Londres, e o “Henrietta” ainda não sofrera um atraso sério. Metade da viagem estava quase cumprida e as piores localidades tinham sido passadas. No verão, o sucesso teria sido quase certo. No inverno, estavam à mercê da má estação. Passepartout não dizia nada; mas alimentava a esperança em segredo e consolava-se com a reflexão de que, se o vento lhes falhasse, ainda poderiam contar com o vapor.

Nesse dia, o engenheiro subiu ao convés, dirigiu-se ao Sr. Fogg e começou a falar seriamente com ele. Sem saber por que — era um pressentimento, talvez —, Passepartout ficou vagamente inquieto. Teria dado uma das suas orelhas para ouvir com a outra o que o engenheiro estava a dizer. Finalmente, conseguiu captar algumas palavras e teve a certeza de ouvir o seu amo dizer: “Tem a certeza do que me diz?”

“Certeza, senhor”, respondeu o engenheiro. “Deve lembrar-se de que, desde que partimos, mantivemos fogo forte em todas as fornalhas e, embora tivéssemos carvão suficiente para ir a vapor reduzido de Nova Iorque para Bordéus, não temos o suficiente para ir com todo o vapor de Nova Iorque para Liverpool.” “Vou ponderar”, respondeu o Sr. Fogg.

Passepartout entendeu tudo; foi tomado por uma ansiedade mortal. O carvão estava a acabar! “Ah, se o meu amo puder superar isso”, murmurou ele, “ele será um homem famoso!” Não pôde deixar de comunicar a Fix o que ouvira.

“Então acredita que vamos realmente para Liverpool?”

“Claro.”

“Asno!”, respondeu o detetive, encolhendo os ombros e virando as costas.

Passepartout esteve prestes a ressentir-se vigorosamente do epíteto, cuja razão não conseguia compreender por nada deste mundo; mas refletiu que o infeliz Fix estava provavelmente muito desapontado e humilhado no seu amor-próprio, depois de ter seguido tão desajeitadamente uma pista falsa à volta do mundo, e conteve-se.

E agora, que curso adotaria Phileas Fogg? Era difícil imaginar. No entanto, parecia ter decidido um, pois nessa noite mandou chamar o engenheiro e disse-lhe: “Alimente todos os fogos até que o carvão se esgote.”

Poucos momentos depois, a chaminé do “Henrietta” vomitava torrentes de fumo. O navio continuou a seguir com todo o vapor; mas, no dia 18, o engenheiro, como previra, anunciou que o carvão se esgotaria no decorrer do dia.

“Não deixe os fogos baixar”, respondeu o Sr. Fogg. “Mantenha-os até ao fim. Que as válvulas sejam enchidas.”

Perto do meio-dia, Phileas Fogg, tendo verificado a sua posição, chamou Passepartout e ordenou-lhe que fosse buscar o Capitão Speedy. Era como se o honesto sujeito tivesse recebido a ordem de desacorrentar um tigre. Foi até ao convés de popa, dizendo a si mesmo: “Ele ficará como um louco!”

Em poucos momentos, com gritos e juramentos, uma bomba apareceu no convés de popa. A bomba era o Capitão Speedy. Estava claro que estava prestes a explodir. “Onde estamos?”, foram as primeiras palavras que a sua raiva lhe permitiu proferir. Se o pobre homem tivesse sido apoplético, nunca teria recuperado do seu paroxismo de fúria.

“Onde estamos?”, repetiu, com o rosto roxo.

“Setecentas e sete milhas de Liverpool”, respondeu o Sr. Fogg, com imperturbável calma.

“Pirata!”, gritou o Capitão Speedy.

“Mandei chamá-lo, senhor—”

“Bandido!”

“—senhor”, continuou o Sr. Fogg, “para lhe pedir que me venda o seu navio.”

“Não! Por todos os diabos, não!”

“Mas serei obrigado a queimá-lo.”

“Queimar o ‘Henrietta’!”

“Sim; pelo menos a parte superior dele. O carvão esgotou-se.”

“Queimar o meu navio!”, gritou o Capitão Speedy, que mal conseguia pronunciar as palavras. “Um navio que vale cinquenta mil dólares!”

“Aqui estão sessenta mil”, respondeu Phileas Fogg, entregando ao capitão um rolo de notas de banco. Isso teve um efeito prodigioso em Andrew Speedy. Um americano mal consegue permanecer indiferente à vista de sessenta mil dólares. O capitão esqueceu num instante a sua raiva, a sua prisão e todas as suas queixas contra o seu passageiro. O “Henrietta” tinha vinte anos; era um grande negócio. A bomba não explodiria afinal. O Sr. Fogg tinha retirado o rastilho.

“E eu ainda terei o casco de ferro”, disse o capitão num tom mais suave.

“O casco de ferro e a máquina. Está combinado?”

“Combinado.”

E Andrew Speedy, agarrando as notas, contou-as e consignou-as ao bolso.

Durante este colóquio, Passepartout estava branco como um lençol e Fix parecia estar prestes a ter um ataque apoplético. Quase vinte mil libras tinham sido gastas, e Fogg deixava o casco e a máquina ao capitão, isto é, quase todo o valor da embarcação! Era verdade, no entanto, que cinquenta e cinco mil libras tinham sido roubadas do Banco.

Quando Andrew Speedy meteu o dinheiro no bolso, o Sr. Fogg disse-lhe: “Não deixe que isto o espante, senhor. Deve saber que perderei vinte mil libras, a menos que chegue a Londres às quinze para as nove da noite de 21 de dezembro. Perdi o vapor em Nova Iorque e, como se recusou a levar-me para Liverpool—”

“E fiz bem!”, gritou Andrew Speedy; “pois ganhei pelo menos quarenta mil dólares com isso!” Acrescentou, mais calmamente: “Sabe de uma coisa, Capitão—”

“Fogg.”

“Capitão Fogg, o senhor tem algo de Yankee em si.”

E, tendo prestado ao seu passageiro o que considerava um grande elogio, ia afastar-se, quando o Sr. Fogg disse: “O navio pertence-me agora?”

“Certamente, da quilha ao topo dos mastros — toda a madeira, isto é.”

“Muito bem. Mande arrancar os assentos interiores, as camas e as estruturas, e queime-os.”

Era necessário ter madeira seca para manter o vapor à pressão adequada, e nesse dia a popa, as cabines, as camas e o convés sobressalente foram sacrificados. No dia seguinte, 19 de dezembro, os mastros, as balsas e as vergas foram queimados; a tripulação trabalhou com vigor, mantendo os fogos. Passepartout talhou, cortou e serrou com todas as suas forças. Havia uma verdadeira fúria de demolição.

Os corrimões, as ferragens, a maior parte do convés e as laterais superiores desapareceram no dia 20, e o “Henrietta” era agora apenas um casco plano. Mas, nesse dia, avistaram a costa irlandesa e o farol de Fastnet. Às dez da noite, passavam por Queenstown. Phileas Fogg tinha apenas vinte e quatro horas mais para chegar a Londres; esse período de tempo era necessário para chegar a Liverpool, com todo o vapor. E o vapor estava prestes a esgotar-se totalmente!

“Senhor”, disse o Capitão Speedy, que agora estava profundamente interessado no projeto do Sr. Fogg, “eu realmente compadeço-me do senhor. Tudo está contra si. Estamos apenas em frente a Queenstown.”

“Ah”, disse o Sr. Fogg, “é aquele o lugar onde vemos as luzes, Queenstown?”

“Sim.”

“Podemos entrar no porto?”

“Não antes de três horas. Apenas na maré alta.”

“Fique”, respondeu o Sr. Fogg calmamente, sem trair nas suas feições que, por uma inspiração suprema, estava prestes a tentar mais uma vez vencer a má sorte.

Queenstown é o porto irlandês onde os vapores transatlânticos param para deixar o correio. Este correio é levado para Dublin por comboios expresso sempre prontos a partir; de Dublin, é enviado para Liverpool pelos barcos mais rápidos, ganhando assim doze horas sobre os vapores do Atlântico.

Phileas Fogg contava ganhar doze horas da mesma forma. Em vez de chegar a Liverpool na noite seguinte pelo “Henrietta”, lá estaria ao meio-dia, e teria, portanto, tempo para chegar a Londres antes das quinze para as nove da noite.

O “Henrietta” entrou no porto de Queenstown à uma hora da manhã, sendo então maré alta; e Phileas Fogg, após ter sido apertado cordialmente pela mão pelo Capitão Speedy, deixou esse cavalheiro no casco nivelado da sua embarcação, que ainda valia metade do que ele a vendera.

O grupo foi para terra imediatamente. Fix ficou muito tentado a prender o Sr. Fogg no local; mas não o fez. Porquê? Que luta se passava dentro dele? Teria mudado de opinião sobre “o seu homem”? Teria ele entendido que cometera um erro grave? Não abandonou, contudo, o Sr. Fogg. Todos entraram no comboio, que estava pronto a partir, à uma e meia; ao amanhecer estavam em Dublin; e não perderam tempo a embarcar num vapor que, desdenhando elevar-se sobre as ondas, cortava-as invariavelmente.

O Sr. Fogg desembarcou finalmente no cais de Liverpool, às doze horas menos vinte minutos, em 21 de dezembro. Faltavam-lhe apenas seis horas para chegar a Londres.

Mas, neste momento, Fix aproximou-se, pousou a mão no ombro do Sr. Fogg e, mostrando o seu mandado, disse: “É o senhor realmente Phileas Fogg?”

“Sou.”

“Prendo-o em nome da Rainha!”

CAPÍTULO XXXIV. NO QUAL PHILEAS FOGG CHEGA FINALMENTE A LONDRES

Phileas Fogg estava na prisão. Tinha sido encerrado na Alfândega e deveria ser transferido para Londres no dia seguinte.

Passepartout, ao ver o seu amo ser preso, ter-se-ia atirado sobre Fix se não tivesse sido retido por alguns polícias. Aouda estava estupefacta com a rapidez de um acontecimento que não conseguia compreender. Passepartout explicou-lhe como fora possível que o honesto e corajoso Fogg tivesse sido preso como ladrão. O coração da jovem revoltou-se contra uma acusação tão hedionda e, ao ver que nada podia tentar para salvar o seu protetor, chorou amargamente.

Quanto a Fix, tinha prendido o Sr. Fogg porque era o seu dever, independentemente de o Sr. Fogg ser culpado ou não.

O pensamento ocorreu então a Passepartout: ele era a causa deste novo infortúnio! Não tinha ele escondido do seu amo a missão de Fix? Quando Fix revelou o seu verdadeiro caráter e propósito, porque não o teria ele dito ao Sr. Fogg? Se este tivesse sido avisado, sem dúvida teria dado a Fix provas da sua inocência e tê-lo-ia convencido do seu erro; pelo menos, Fix não teria continuado a viagem à custa e no encalço do seu amo, apenas para o prender no momento em que este punha os pés em solo inglês. Passepartout chorou até ficar cego e sentiu vontade de se rebentar os miolos.

Aouda e ele tinham ficado, apesar do frio, debaixo do pórtico da Alfândega. Nenhum dos dois queria abandonar o local; ambos estavam ansiosos por voltar a ver o Sr. Fogg.

Aquele cavalheiro estava realmente arruinado, e isso no momento em que estava prestes a atingir o seu objetivo. Esta prisão era fatal. Tendo chegado a Liverpool às doze horas menos vinte minutos de 21 de dezembro, tinha até às nove menos um quarto daquela noite para chegar ao Reform Club, ou seja, nove horas e um quarto; a viagem de Liverpool a Londres era de seis horas.

Se alguém, naquele momento, tivesse entrado na Alfândega, teria encontrado o Sr. Fogg sentado, imóvel, calmo e sem raiva aparente, num banco de madeira. Não estava, é verdade, resignado; mas este último golpe não conseguiu forçá-lo a uma traição exterior de qualquer emoção. Estaria ele a ser devorado por uma daquelas fúrias secretas, tanto mais terríveis por serem contidas, e que só irrompem, com uma força irresistível, no último momento? Ninguém poderia dizer. Lá estava ele sentado, esperando calmamente — por quê? Ainda nutria esperança? Ainda acreditava, agora que a porta daquela prisão estava fechada sobre si, que teria sucesso?

Seja como for, o Sr. Fogg colocou cuidadosamente o seu relógio sobre a mesa e observou os seus ponteiros em movimento. Nem uma palavra escapou aos seus lábios, mas o seu olhar era singularmente fixo e severo. A situação, em todo o caso, era terrível e poderia ser assim declarada: se Phileas Fogg era honesto, estava arruinado; se era um velhaco, fora apanhado.

Ter-lhe-á ocorrido a fuga? Terá ele examinado se havia alguma saída praticável da sua prisão? Pensou em escapar dela? Possivelmente; pois, uma vez, caminhou lentamente pela sala. Mas a porta estava trancada e a janela fortemente gradeada com barras de ferro. Sentou-se novamente e tirou o seu diário do bolso. Na linha onde estas palavras estavam escritas, “21 de dezembro, sábado, Liverpool”, acrescentou: “80.º dia, 11h40”, e esperou.

O relógio da Alfândega bateu a uma hora. O Sr. Fogg observou que o seu relógio estava duas horas adiantado.

Duas horas! Admitindo que apanhasse um comboio expresso naquele momento, poderia chegar a Londres e ao Reform Club às nove menos um quarto da noite. A sua testa enrugou-se ligeiramente.

Às duas horas e trinta e três minutos, ouviu um ruído singular no exterior, depois uma abertura apressada de portas. A voz de Passepartout era audível e, logo a seguir, a de Fix. Os olhos de Phileas Fogg brilharam por um instante.

A porta abriu-se e ele viu Passepartout, Aouda e Fix, que se apressaram em direção a ele.

Fix estava ofegante e o seu cabelo estava desgrenhado. Não conseguia falar. “Senhor”, balbuciou ele, “senhor... perdoe-me... semelhança... mais... infeliz... ladrão preso há três dias... está livre!”

Phileas Fogg estava livre! Caminhou até ao detetive, olhou-o fixamente nos olhos e, com o único movimento rápido que alguma vez fizera na vida, ou que alguma vez faria, puxou os braços para trás e, com a precisão de uma máquina, derrubou Fix.

“Bem acertado!”, gritou Passepartout, “Parbleu! a isso é que se pode chamar uma boa aplicação de punhos ingleses!”

Fix, que se viu no chão, não disse uma palavra. Apenas recebera o que merecia. O Sr. Fogg, Aouda e Passepartout deixaram a Alfândega sem demora, entraram num táxi e, poucos momentos depois, desceram na estação.

Phileas Fogg perguntou se havia algum comboio expresso prestes a partir para Londres. Eram duas horas e quarenta minutos. O comboio expresso tinha partido trinta e cinco minutos antes. Phileas Fogg ordenou então um comboio especial.

Havia várias locomotivas rápidas disponíveis; mas os arranjos ferroviários não permitiam que o comboio especial partisse antes das três horas.

A essa hora, Phileas Fogg, tendo estimulado o maquinista com a oferta de uma recompensa generosa, partiu finalmente em direção a Londres com Aouda e o seu fiel criado.

Era necessário fazer a viagem em cinco horas e meia; e isto teria sido fácil com uma via desimpedida durante todo o percurso. Mas houve atrasos forçados e, quando o Sr. Fogg saiu do comboio no terminal, todos os relógios de Londres batiam as nove menos dez minutos.[1]

Tendo dado a volta ao mundo, estava cinco minutos atrasado. Tinha perdido a aposta!

[1] Uma excentricidade um tanto notável por parte dos relógios de Londres! — TRADUTOR.

CAPÍTULO XXXV. NO QUAL PHILEAS FOGG NÃO PRECISA DE REPETIR DUAS VEZES AS SUAS ORDENS A PASSEPARTOUT

Os habitantes de Saville Row ter-se-iam surpreendido no dia seguinte se lhes tivessem dito que Phileas Fogg tinha regressado a casa. As suas portas e janelas continuavam fechadas, nenhuma aparência de mudança era visível.

Depois de deixar a estação, o Sr. Fogg deu instruções a Passepartout para comprar algumas provisões e foi calmamente para o seu domicílio.

Suportou o seu infortúnio com a sua habitual tranquilidade. Arruinado! E pelo erro do detetive! Depois de ter percorrido firmemente aquela longa viagem, superado cem obstáculos, enfrentado muitos perigos e ainda assim ter encontrado tempo para fazer algum bem no seu caminho, falhar perto do objetivo por um acontecimento súbito que não poderia ter previsto e contra o qual estava desarmado; era terrível! Apenas restavam algumas libras da grande quantia que tinha levado consigo. Só restavam da sua fortuna as vinte mil libras depositadas no Barings, e esta quantia ele devia aos seus amigos do Reform Club. Tão grandes tinham sido as despesas da sua volta que, mesmo que tivesse ganho, isso não o teria enriquecido; e é provável que ele não tivesse procurado enriquecer-se, sendo um homem que fazia apostas mais por honra do que pela quantia proposta. Mas esta aposta arruinou-o totalmente.

O rumo do Sr. Fogg, no entanto, estava totalmente decidido; ele sabia o que lhe restava fazer.

Um quarto na casa de Saville Row foi reservado para Aouda, que estava acabrunhada pela dor devido ao infortúnio do seu protetor. Pelas palavras que o Sr. Fogg deixou escapar, ela viu que ele meditava algum projeto sério.

Sabendo que os ingleses, governados por uma ideia fixa, recorrem por vezes ao expediente desesperado do suicídio, Passepartout vigiava atentamente o seu amo, embora escondesse cuidadosamente a aparência de o fazer.

Primeiro que tudo, o digno rapaz tinha ido ao seu quarto e tinha apagado o bico de gás, que estivera aceso durante oitenta dias. Encontrara na caixa do correio uma fatura da companhia de gás e achou que era mais do que altura de pôr termo a esta despesa, que fora condenado a suportar.

A noite passou. O Sr. Fogg foi para a cama, mas terá ele dormido? Aouda não fechou os olhos uma única vez. Passepartout vigiou toda a noite, como um cão fiel, à porta do seu amo.

O Sr. Fogg chamou-o de manhã e disse-lhe para preparar o pequeno-almoço de Aouda, e uma chávena de chá e uma costeleta para si próprio. Pediu a Aouda que o desculpasse do pequeno-almoço e do jantar, pois o seu tempo estaria ocupado durante todo o dia a pôr os seus assuntos em ordem. À noite, pediria permissão para ter alguns momentos de conversa com a jovem.

Passepartout, tendo recebido as suas ordens, não tinha nada a fazer senão obedecer-lhes. Olhou para o seu imperturbável amo e mal conseguia convencer-se a deixá-lo. O seu coração estava cheio e a sua consciência torturada pelo remorso; pois culpava-se mais amargamente do que nunca por ser a causa do desastre irreparável. Sim! Se tivesse avisado o Sr. Fogg e lhe tivesse revelado os projetos de Fix, o seu amo certamente não teria dado ao detetive passagem para Liverpool, e então...

Passepartout não conseguiu aguentar mais.

“Meu amo! Sr. Fogg!”, gritou ele, “por que não me amaldiçoa? A culpa foi minha que...”

“Não culpo ninguém”, respondeu Phileas Fogg, com perfeita calma. “Vai!”

Passepartout saiu do quarto e foi encontrar Aouda, a quem entregou a mensagem do seu amo.

“Minha senhora”, acrescentou ele, “eu próprio nada posso fazer — nada! Não tenho influência sobre o meu amo; mas a senhora, talvez...”

“Que influência poderia eu ter?”, respondeu Aouda. “O Sr. Fogg não é influenciado por ninguém. Alguma vez ele entendeu que a minha gratidão para com ele é transbordante? Alguma vez leu o meu coração? Meu amigo, ele não deve ser deixado sozinho nem por um instante! Diz que ele vai falar comigo esta noite?”

“Sim, minha senhora; provavelmente para tratar da sua proteção e conforto em Inglaterra.”

“Veremos”, respondeu Aouda, tornando-se subitamente pensativa.

Durante todo este dia (domingo), a casa em Saville Row parecia desabitada e Phileas Fogg, pela primeira vez desde que vivia naquela casa, não partiu para o seu clube quando o relógio de Westminster bateu as onze e meia.

Porque haveria ele de se apresentar no Reform? Os seus amigos já não o esperavam lá. Como Phileas Fogg não tinha aparecido no salão na noite anterior (sábado, 21 de dezembro, às nove menos um quarto), tinha perdido a aposta. Nem sequer era necessário que ele fosse aos seus banqueiros buscar as vinte mil libras; pois os seus antagonistas já tinham o seu cheque nas mãos e só tinham de o preencher e enviá-lo ao Barings para que a quantia fosse transferida para o seu crédito.

O Sr. Fogg, portanto, não tinha motivos para sair e, por isso, ficou em casa. Fechou-se no seu quarto e ocupou-se a pôr os seus assuntos em ordem. Passepartout subia e descia continuamente as escadas. As horas eram longas para ele. Escutava à porta do seu amo e olhava pelo buraco da fechadura, como se tivesse o direito perfeito de o fazer e como se temesse que algo de terrível pudesse acontecer a qualquer momento. Por vezes pensava em Fix, mas já não com raiva. Fix, como todo o mundo, tinha-se enganado sobre Phileas Fogg e só tinha cumprido o seu dever ao segui-lo e prendê-lo; enquanto ele, Passepartout... Este pensamento perseguia-o e ele não parava de amaldiçoar a sua miserável loucura.

Sentindo-se demasiado infeliz para permanecer sozinho, bateu à porta de Aouda, entrou no seu quarto, sentou-se, sem falar, num canto e olhou pesaroso para a jovem. Aouda ainda estava pensativa.

Por volta das sete e meia da noite, o Sr. Fogg mandou saber se Aouda o receberia e, poucos momentos depois, encontrou-se sozinho com ela.

Phileas Fogg pegou numa cadeira e sentou-se perto da lareira, em frente a Aouda. Nenhuma emoção era visível no seu rosto. O Fogg que regressou era exatamente o Fogg que tinha partido; lá estava a mesma calma, a mesma impassibilidade.

Sentou-se vários minutos sem falar; depois, voltando os olhos para Aouda, “Minha senhora”, disse ele, “perdoa-me por a ter trazido para Inglaterra?”

“Eu, Sr. Fogg!”, respondeu Aouda, contendo as pulsações do seu coração.

“Por favor, deixe-me terminar”, respondeu o Sr. Fogg. “Quando decidi trazê-la para longe do país que era tão inseguro para si, eu era rico e contava com a colocação de uma parte da minha fortuna à sua disposição; então a sua existência teria sido livre e feliz. Mas agora estou arruinado.”

“Eu sei, Sr. Fogg”, respondeu Aouda; “e pergunto-lhe por minha vez, perdoar-me-á por o ter seguido e — quem sabe? — por o ter, talvez, atrasado e contribuído assim para a sua ruína?”

“Minha senhora, a senhora não podia permanecer na Índia e a sua segurança só poderia ser assegurada trazendo-a para uma tal distância que os seus perseguidores não a pudessem apanhar.”

“Portanto, Sr. Fogg”, retomou Aouda, “não contente com salvar-me de uma morte terrível, pensou que estava obrigado a assegurar o meu conforto numa terra estrangeira?”

“Sim, minha senhora; mas as circunstâncias foram contra mim. Ainda assim, peço-lhe que coloque o pouco que me resta ao seu dispor.”

“Mas o que será de si, Sr. Fogg?”

“Quanto a mim, minha senhora”, respondeu o cavalheiro, friamente, “não preciso de nada.”

“Mas como encara o destino, senhor, que o espera?”

“Como tenho o hábito de fazer.”

“Pelo menos”, disse Aouda, “a necessidade não deveria alcançar um homem como o senhor. Os seus amigos...”

“Não tenho amigos, minha senhora.”

“Os seus parentes...”

“Já não tenho nenhuns parentes.”

“Tenho pena de si, então, Sr. Fogg, pois a solidão é uma coisa triste, sem um coração a quem confiar as suas mágoas. Dizem, contudo, que a própria miséria, partilhada por duas almas simpáticas, pode ser suportada com paciência.”

“Dizem que sim, minha senhora.”

“Sr. Fogg”, disse Aouda, levantando-se e segurando-lhe a mão, “deseja ter ao mesmo tempo uma parente e amiga? Quer-me para sua esposa?”

O Sr. Fogg, a isto, levantou-se por sua vez. Havia uma luz invulgar nos seus olhos e um ligeiro tremor nos seus lábios. Aouda olhou-o no rosto. A sinceridade, retidão, firmeza e doçura daquele olhar suave de uma mulher nobre, que podia ousar tudo para salvar aquele a quem devia tudo, primeiro surpreendeu-o, depois penetrou-o. Fechou os olhos por um instante, como se para evitar o olhar dela. Quando os abriu novamente: “Eu amo-a!”, disse ele, simplesmente. “Sim, por tudo o que há de mais sagrado, eu amo-a e sou inteiramente seu!”

“Ah!”, gritou Aouda, pressionando a mão dele contra o seu coração.

Passepartout foi chamado e apareceu imediatamente. O Sr. Fogg ainda segurava a mão de Aouda na sua; Passepartout compreendeu e o seu rosto grande e redondo tornou-se tão radiante como o sol tropical no seu zénite.

O Sr. Fogg perguntou-lhe se não era demasiado tarde para notificar o Reverendo Samuel Wilson, da paróquia de Marylebone, naquela noite.

Passepartout sorriu o seu sorriso mais genial e disse: “Nunca é demasiado tarde.”

Eram oito horas e cinco minutos.

“Será para amanhã, segunda-feira?”

“Para amanhã, segunda-feira”, disse o Sr. Fogg, voltando-se para Aouda.

“Sim; para amanhã, segunda-feira”, respondeu ela.

Passepartout apressou-se tão depressa quanto as suas pernas podiam levá-lo.

CAPÍTULO XXXVI. NO QUAL O NOME DE PHILEAS FOGG ESTÁ MAIS UMA VEZ EM ALTA NA BOLSA

É altura de relatar que mudança ocorreu na opinião pública inglesa quando se soube que o verdadeiro ladrão de bancos, um certo James Strand, tinha sido preso, no dia 17 de dezembro, em Edimburgo. Três dias antes, Phileas Fogg tinha sido um criminoso, que estava a ser desesperadamente seguido pela polícia; agora era um cavalheiro honrado, que perseguia matematicamente a sua excêntrica viagem à volta do mundo.

Os jornais retomaram a discussão sobre a aposta; todos aqueles que tinham feito apostas, a favor ou contra ele, renovaram o seu interesse, como por magia; os “títulos de Phileas Fogg” tornaram-se novamente negociáveis e muitas novas apostas foram feitas. O nome de Phileas Fogg estava mais uma vez em alta na Bolsa.

Os seus cinco amigos do Reform Club passaram estes três dias num estado de suspense febril. Será que Phileas Fogg, a quem tinham esquecido, reapareceria diante dos seus olhos! Onde estaria ele neste momento? O dia 17 de dezembro, dia da prisão de James Strand, era o septuagésimo sexto desde a partida de Phileas Fogg, e nenhuma notícia dele tinha sido recebida. Estaria morto? Teria abandonado o esforço ou estaria a continuar a sua viagem ao longo da rota acordada? E apareceria no sábado, 21 de dezembro, às nove menos um quarto da noite, no limiar do salão do Reform Club?

A ansiedade em que, durante três dias, a sociedade londrina viveu, não pode ser descrita. Telegramas foram enviados para a América e Ásia em busca de notícias de Phileas Fogg. Mensageiros foram despachados para a casa em Saville Row de manhã e à noite. Nenhuma notícia. A polícia ignorava o que tinha acontecido ao detetive, Fix, que tinha seguido tão infelizmente uma falsa pista. As apostas aumentaram, no entanto, em número e valor. Phileas Fogg, como um cavalo de corrida, aproximava-se do seu último ponto de viragem. Os títulos eram cotados, já não a cem abaixo do par, mas a vinte, a dez e a cinco; e o paralítico Lord Albemarle apostou até a seu favor.

Uma grande multidão estava reunida em Pall Mall e nas ruas vizinhas na noite de sábado; parecia uma multidão de corretores permanentemente estabelecida à volta do Reform Club. A circulação estava impedida e, por todo o lado, disputas, discussões e transações financeiras estavam a acontecer. A polícia teve grande dificuldade em conter a multidão e, à medida que a hora em que Phileas Fogg era esperado se aproximava, a excitação subiu ao seu auge.

Os cinco antagonistas de Phileas Fogg tinham-se reunido no grande salão do clube. John Sullivan e Samuel Fallentin, os banqueiros, Andrew Stuart, o engenheiro, Gauthier Ralph, o diretor do Banco de Inglaterra, e Thomas Flanagan, o cervejeiro, todos esperavam ansiosamente.

Quando o relógio indicou oito horas e vinte minutos, Andrew Stuart levantou-se, dizendo: “Cavalheiros, em vinte minutos o tempo acordado entre o Sr. Fogg e nós terá expirado.”

“A que horas chegou o último comboio de Liverpool?”, perguntou Thomas Flanagan.

“Às sete horas e vinte e três minutos”, respondeu Gauthier Ralph; “e o próximo só chega às doze horas e dez minutos.”

“Bem, cavalheiros”, retomou Andrew Stuart, “se Phileas Fogg tivesse vindo no comboio das 7:23, teria chegado aqui a esta hora. Podemos, portanto, considerar a aposta como ganha.”

“Espere; não sejamos demasiado apressados”, respondeu Samuel Fallentin. “Sabe que o Sr. Fogg é muito excêntrico. A sua pontualidade é bem conhecida; ele nunca chega demasiado cedo, nem demasiado tarde; e eu não ficaria surpreendido se ele aparecesse diante de nós no último minuto.”

“Porquê”, disse Andrew Stuart nervosamente, “se eu o visse, não acreditaria que era ele.”

“O facto é”, retomou Thomas Flanagan, “que o projeto do Sr. Fogg era absurdamente tolo. Independentemente da sua pontualidade, ele não poderia evitar os atrasos que estavam destinados a ocorrer; e um atraso de apenas dois ou três dias seria fatal para a sua viagem.”

“Observem, também”, acrescentou John Sullivan, “que não recebemos nenhuma informação dele, embora existam linhas telegráficas ao longo de toda a sua rota.”

“Ele perdeu, cavalheiros”, disse Andrew Stuart, “ele perdeu cem vezes! Sabe-se, além disso, que o ‘China’ — o único vapor que ele poderia ter apanhado de Nova Iorque para chegar aqui a tempo — chegou ontem. Vi uma lista dos passageiros e o nome de Phileas Fogg não está entre eles. Mesmo que admitamos que a sorte o favoreceu, ele dificilmente terá chegado à América. Penso que ele estará pelo menos vinte dias atrasado e que Lord Albemarle perderá umas boas cinco mil libras.”

“É evidente”, respondeu Gauthier Ralph; “e não temos nada a fazer senão apresentar o cheque do Sr. Fogg no Barings amanhã.”

Neste momento, os ponteiros do relógio do clube apontavam para as oito horas e quarenta minutos.

“Mais cinco minutos”, disse Andrew Stuart.

Os cinco cavalheiros olharam uns para os outros. A sua ansiedade estava a tornar-se intensa; mas, não querendo traí-la, aceitaram prontamente a proposta do Sr. Fallentin de uma partida de bridge.

“Não desistiria das minhas quatro mil da aposta”, disse Andrew Stuart, ao sentar-se, “por três mil novecentos e noventa e nove.”

O relógio indicava oito horas e quarenta e dois minutos.

Os jogadores pegaram nas suas cartas, mas não conseguiam desviar os olhos do relógio. Decerto, por mais seguros que se sentissem, os minutos nunca lhes tinham parecido tão longos!

“Dezassete minutos para as nove”, disse Thomas Flanagan, enquanto cortava as cartas que Ralph lhe estendia.

Seguiu-se então um momento de silêncio. O grande salão estava perfeitamente silencioso; mas os murmúrios da multidão lá fora eram audíveis, com um ou outro grito estridente. O pêndulo batia os segundos, que cada jogador contava avidamente, enquanto ouvia, com regularidade matemática.

“Dezasseis minutos para as nove!”, disse John Sullivan, numa voz que traía a sua emoção.

Mais um minuto, e a aposta estaria ganha. Andrew Stuart e os seus parceiros suspenderam o jogo. Deixaram as suas cartas e contaram os segundos.

Ao quadragésimo segundo, nada. Ao quinquagésimo, ainda nada.

Ao quinquagésimo quinto, ouviu-se um grito forte na rua, seguido de aplausos, vivas e alguns rugidos ferozes.

Os jogadores levantaram-se dos seus assentos.

Ao quinquagésimo sétimo segundo, a porta do salão abriu-se; e o pêndulo não tinha batido o sexagésimo segundo quando Phileas Fogg apareceu, seguido por uma multidão excitada que forçara a entrada pelas portas do clube, e com a sua voz calma, disse: “Aqui estou, senhores!”

CAPÍTULO XXXVII. NO QUAL SE MOSTRA QUE PHILEAS FOGG NÃO GANHOU NADA COM A SUA VIAGEM À RODA DO MUNDO, A NÃO SER A FELICIDADE

Sim; Phileas Fogg em pessoa.

O leitor recordar-se-á de que, às oito horas e cinco minutos da noite — cerca de vinte e cinco horas após a chegada dos viajantes a Londres — Passepartout tinha sido enviado pelo seu amo para contratar os serviços do Reverendo Samuel Wilson para uma certa cerimónia de casamento, que deveria realizar-se no dia seguinte.

Passepartout foi cumprir a sua tarefa encantado. Chegou rapidamente a casa do clérigo, mas não o encontrou. Passepartout esperou uns bons vinte minutos e, quando deixou o reverendo cavalheiro, eram oito horas e trinta e cinco minutos. Mas em que estado estava ele! Com o cabelo em desalinho e sem o chapéu, corria pela rua como nunca se viu homem correr antes, derrubando transeuntes, precipitando-se pelo passeio como uma tromba de água.

Em três minutos estava de volta a Saville Row e cambaleou para dentro do quarto do Sr. Fogg.

Não conseguia falar.

“Que se passa?”, perguntou o Sr. Fogg.

“Meu amo!”, arquejou Passepartout — “casamento — impossível —”

“Impossível?”

“Impossível — para amanhã.”

“Por que razão?”

“Porque amanhã — é domingo!”

“Segunda-feira”, respondeu o Sr. Fogg.

“Não — hoje é sábado.”

“Sábado? Impossível!”

“Sim, sim, sim, sim!”, gritou Passepartout. “Enganou-se por um dia! Chegámos vinte e quatro horas antes do tempo; mas só faltam dez minutos!”

Passepartout tinha agarrado o seu amo pelo colarinho e arrastava-o com uma força irresistível.

Phileas Fogg, assim raptado, sem ter tempo para pensar, deixou a sua casa, saltou para um táxi, prometeu cem libras ao cocheiro e, tendo atropelado dois cães e virado cinco carruagens, chegou ao Reform Club.

O relógio indicava um quarto para as nove quando ele apareceu no grande salão.

Phileas Fogg tinha realizado a viagem à roda do mundo em oitenta dias!

Phileas Fogg tinha ganho a sua aposta de vinte mil libras!

Como foi que um homem tão exato e meticuloso pôde ter cometido este erro de um dia? Como veio a pensar que tinha chegado a Londres no sábado, vinte e um de dezembro, quando era realmente sexta-feira, dia vinte, o septuagésimo nono dia apenas desde a sua partida?

A causa do erro é muito simples.

Phileas Fogg tinha, sem o suspeitar, ganho um dia na sua viagem, e isto simplesmente porque tinha viajado constantemente para leste; teria, pelo contrário, perdido um dia se tivesse seguido na direção oposta, isto é, para oeste.

Ao viajar para leste, tinha ido ao encontro do sol, e os dias, portanto, diminuíram para ele tantas vezes quatro minutos quantos os graus que atravessou nesta direção. Há trezentos e sessenta graus na circunferência da terra; e esses trezentos e sessenta graus, multiplicados por quatro minutos, dão precisamente vinte e quatro horas — isto é, o dia inconscientemente ganho. Por outras palavras, enquanto Phileas Fogg, indo para leste, viu o sol passar o meridiano oitenta vezes, os seus amigos em Londres só o viram passar o meridiano setenta e nove vezes. É por isso que o esperavam no Reform Club no sábado, e não no domingo, como o Sr. Fogg pensava.

E o famoso relógio de família de Passepartout, que tinha sempre marcado a hora de Londres, teria traído este facto, se tivesse marcado os dias, bem como as horas e os minutos!

Phileas Fogg, portanto, tinha ganho as vinte mil libras; mas, como tinha gasto quase dezanove mil durante o caminho, o ganho pecuniário foi pequeno. O seu objetivo era, contudo, ser vitorioso, e não ganhar dinheiro. Dividiu as mil libras que restavam entre Passepartout e o infeliz Fix, contra quem não guardava qualquer rancor. Deduziu, porém, da parte de Passepartout o custo do gás que ardera no seu quarto durante mil novecentos e vinte horas, em nome da regularidade.

Nessa noite, o Sr. Fogg, tão tranquilo e fleumático como sempre, disse a Aouda: “O nosso casamento continua a ser-lhe agradável?”

“Sr. Fogg”, respondeu ela, “cabe-me a mim fazer essa pergunta. O senhor estava arruinado, mas agora está rico outra vez.”

“Perdoe-me, senhora; a minha fortuna pertence-lhe. Se não tivesse sugerido o nosso casamento, o meu criado não teria ido ter com o Reverendo Samuel Wilson, eu não teria sido avisado do meu erro, e —”

“Caro Sr. Fogg!”, disse a jovem.

“Cara Aouda!”, respondeu Phileas Fogg.

Não é necessário dizer que o casamento teve lugar quarenta e oito horas depois, e que Passepartout, radiante e deslumbrante, entregou a noiva. Não a tinha ele salvo, e não tinha ele direito a esta honra?

No dia seguinte, assim que amanheceu, Passepartout bateu vigorosamente à porta do seu amo. O Sr. Fogg abriu-a e perguntou: “Que se passa, Passepartout?”

“O que é, senhor? Ora, acabei de descobrir neste preciso instante —”

“O quê?”

“Que poderíamos ter dado a volta ao mundo em apenas setenta e oito dias.”

“Sem dúvida”, respondeu o Sr. Fogg, “se não tivéssemos atravessado a Índia. Mas se eu não tivesse atravessado a Índia, não teria salvo a Aouda; ela não teria sido minha mulher, e —”

O Sr. Fogg fechou calmamente a porta.

Phileas Fogg tinha ganho a sua aposta e tinha feito a sua viagem à roda do mundo em oitenta dias. Para tal, tinha utilizado todos os meios de transporte — vapores, caminhos-de-ferro, carruagens, iates, navios mercantes, trenós, elefantes. O excêntrico cavalheiro tinha demonstrado, ao longo de tudo, todas as suas maravilhosas qualidades de sangue-frio e exatidão. Mas então? O que tinha ele realmente ganho com todo este trabalho? O que tinha trazido de volta desta longa e cansativa viagem?

Nada, dirão? Talvez sim; nada a não ser uma mulher encantadora, que, por mais estranho que possa parecer, o tornou o mais feliz dos homens!

Na verdade, não faria por menos do que isso a volta ao mundo?

Public-domain source text from Project Gutenberg, translated into Portuguese by AI under our editorial direction. Machine translation of a whole book is not flawless — this exists so you can read a book otherwise closed to you, not as a scholarly edition. How this is made.