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Biographia Literaria

by Samuel Taylor Coleridge · in Portuguese

BIOGRAPHIA LITERARIA

De Samuel Taylor Coleridge

ÍNDICE

CAP.

I Motivos da presente obra — Receção da primeira publicação do Autor — Disciplina do seu gosto na escola — Efeito dos escritores contemporâneos nas mentes juvenis — Sonetos de Bowles — Comparação entre os poetas anteriores e posteriores a Pope

II Suposta irritabilidade do génio submetida ao teste dos factos — Causas e ocasiões da acusação — A sua injustiça

III As obrigações do Autor para com os Críticos, e a provável ocasião — Princípios da crítica moderna — Obras e caráter do Sr. Southey

IV As Lyrical Ballads com o Prefácio — Primeiros poemas do Sr. Wordsworth — Sobre a Fantasia e a Imaginação — A investigação da distinção importante para as Belas-Artes

V Sobre a lei da Associação — A sua história traçada de Aristóteles a Hartley

VI Que o sistema de Hartley, na medida em que difere do de Aristóteles, não é sustentável na teoria, nem fundado em factos

VII Das consequências necessárias da Teoria Hartleiana — Do erro original ou equívoco que obteve a sua admissão — Memoria technica

VIII O sistema de Dualismo introduzido por Des Cartes — Refinado primeiro por Spinoza e depois por Leibnitz na doutrina da Harmonia praestabilita — Hilozoísmo — Materialismo — Nenhum destes sistemas, ou qualquer teoria possível de Associação, fornece ou substitui uma teoria da Perceção, ou explica a formação do Associável

IX É a Filosofia possível como ciência, e quais são as suas condições? — Giordano Bruno — Aristocracia Literária, ou a existência de um pacto tácito entre os eruditos como uma ordem privilegiada — As obrigações do Autor para com os Místicos — Para com Immanuel Kant — A diferença entre a letra e o espírito dos escritos de Kant, e uma defesa da Prudência no ensino da Filosofia — A tentativa de Fichte de completar o sistema Crítico — O seu sucesso parcial e fracasso final — Obrigações para com Schelling; e entre os escritores ingleses para com Saumarez

X Um Capítulo de digressão e anedotas, como um interlúdio que precede o da natureza e génese da Imaginação ou Poder Plástico — Sobre a Pedantaria e expressões pedantes — Conselhos aos jovens autores a respeito da publicação — Várias anedotas da vida literária do Autor, e o progresso das suas opiniões em Religião e Política

XI Uma exortação afetuosa àqueles que, no início da vida, sentem disposição para se tornarem autores

XII Um Capítulo de pedidos e premonições acerca da leitura ou omissão do capítulo que se segue

XIII Sobre a Imaginação, ou poder Esemplástico

XIV Ocasião das Lyrical Ballads, e os objetivos originalmente propostos — Prefácio à segunda edição — A controvérsia que se seguiu, as suas causas e acrimónia — Definições filosóficas de um Poema e da Poesia com escólios

XV Os sintomas específicos do poder poético elucidados numa análise Crítica de Vénus e Adónis, e O Rapto de Lucrécia de Shakespeare

XVI Pontos marcantes de diferença entre os Poetas da era atual e os dos séculos quinze e dezasseis — Desejo expresso pela união dos méritos característicos de ambos

XVII Exame dos princípios peculiares ao Sr. Wordsworth — A vida rústica (sobretudo, a vida humilde e rústica) especialmente desfavorável à formação de uma dicção humana — As melhores partes da linguagem produto dos filósofos, não de palhaços ou pastores — Poesia essencialmente ideal e genérica — A linguagem de Milton tanto a linguagem da vida real, sim, incomparavelmente mais do que a do habitante da cabana

XVIII Linguagem da composição métrica, por que e em que é essencialmente diferente da da prosa — Origem e elementos do metro — As suas consequências necessárias, e as condições daí impostas ao escritor métrico na escolha da sua dicção

XIX Continuação — Acerca do objeto real que, é provável, o Sr. Wordsworth tinha diante de si no seu prefácio crítico — Elucidação e aplicação disto

XX O assunto anterior continuado — O estilo neutro, ou aquele comum à Prosa e à Poesia, exemplificado por espécimes de Chaucer, Herbert, e outros

XXI Observações sobre o modo atual de conduzir revistas críticas

XXII Os defeitos característicos da poesia de Wordsworth, com os princípios a partir dos quais o juízo, de que são defeitos, é deduzido — A sua proporção relativamente às belezas — Na maior parte, característicos apenas da sua teoria

CARTAS DE SATYRANE

XXIII Crítica sobre Bertram

XXIV Conclusão

So wenig er auch bestimmt seyn mag, andere zu belehren, so wuenscht er doch sich denen mitzutheilen, die er sich gleichgesinnt weis, (oder hofft,) deren Anzahl aber in der Breite der Welt zerstreut ist; er wuenscht sein Verhaeltniss zu den aeltesten Freunden dadurch wieder anzuknuepfen, mit neuen es fortzusetzen, und in der letzten Generation sich wieder andere fur seine uebrige Lebenszeit zu gewinnen. Er wuenscht der Jugend die Umwege zu ersparen, auf denen er sich selbst verirrte. (Goethe. Einleitung in die Propylaeen.)

TRADUÇÃO. Por pouco chamado que possa sentir-se para instruir os outros, deseja, contudo, abrir o coração àqueles que sabe (ou espera) serem da mesma mentalidade que ele, mas cuja quantidade está dispersa pela vastidão do mundo: deseja restabelecer as suas conexões com os seus amigos mais antigos, continuar as formadas recentemente, e conquistar outros amigos entre a geração emergente para o curso restante da sua vida. Deseja poupar aos jovens os caminhos sinuosos nos quais ele próprio se perdeu.

BIOGRAPHIA LITERARIA

CAPÍTULO I

Motivos da presente obra — Receção da primeira publicação do Autor — Disciplina do seu gosto na escola — Efeito dos escritores contemporâneos nas mentes juvenis — Sonetos de Bowles — Comparação entre os poetas anteriores e posteriores a Pope.

Foi meu destino ter o meu nome introduzido tanto em conversas como em publicações com mais frequência do que acho fácil explicar, quer considere a escassez, a insignificância e a circulação limitada dos meus escritos, quer considere o retiro e a distância em que vivi, tanto do mundo literário como do político. Mais frequentemente, este esteve ligado a alguma acusação que eu não podia reconhecer, ou a algum princípio que nunca tinha alimentado. Contudo, se não tivesse outro motivo ou incentivo, o leitor não teria sido incomodado com esta exculpação. Quais foram os meus propósitos adicionais será visto nas páginas seguintes. Verificar-se-á que o menos do que escrevi diz respeito a mim pessoalmente. Usei a narração principalmente com o propósito de dar uma continuidade à obra, em parte por causa das reflexões miscelâneas sugeridas por acontecimentos particulares, mas ainda mais como introdutório a uma exposição dos meus princípios em Política, Religião e Filosofia, e a uma aplicação das regras, deduzidas de princípios filosóficos, à poesia e à crítica. Mas, entre os objetivos que me propus, não foi o menos importante efetuar, tanto quanto possível, um acordo sobre a controvérsia longamente continuada acerca da verdadeira natureza da dicção poética; e, ao mesmo tempo, definir com a maior imparcialidade o real caráter poético do poeta cujos escritos atearam esta controvérsia, e que desde então a tem alimentado e atiçado.

Na primavera de 1796, quando pouco tinha passado a fronteira da idade adulta, publiquei um pequeno volume de poemas juvenis. Foram recebidos com um grau de favor que, jovem como era, bem sei que lhes foi concedido não tanto por qualquer mérito positivo, mas porque eram considerados botões de esperança e promessas de melhores obras por vir. Os críticos daquele dia, os mais lisonjeiros, tanto quanto os mais severos, concordaram em objetar-lhes obscuridade, uma generalizada turgidez de dicção e uma profusão de epítetos duplos recém-criados [1]. O primeiro é o defeito que um escritor é menos capaz de detetar nas suas próprias composições: e a minha mente não estava então suficientemente disciplinada para aceitar a autoridade dos outros como um substituto para a minha própria convicção. Satisfeito por os pensamentos, tais como eram, não poderem ter sido expressos de outra forma, ou pelo menos com maior clareza, esqueci-me de indagar se os próprios pensamentos não exigiam um grau de atenção inadequado à natureza e aos objetos da poesia. Esta observação aplica-se, contudo, principalmente, embora não exclusivamente, aos Religious Musings. O resto da acusação admiti na sua totalidade, e não sem sinceros agradecimentos aos meus censores privados e públicos pelas suas advertências amigáveis. Nas edições posteriores, podei os epítetos duplos sem mão poupada e usei os meus melhores esforços para domar o inchaço e o brilho tanto do pensamento como da dicção; embora, em verdade, estas plantas parasitas da poesia juvenil se tivessem insinuado nos meus poemas mais longos com tal complexidade de união que, muitas vezes, me vi obrigado a omitir o desenredar da erva daninha, por medo de quebrar a flor. Desde esse período até à data da presente obra, não publiquei nada, com o meu nome, que pudesse, por qualquer possibilidade, ter passado pelo tribunal da crítica anónima. Mesmo os três ou quatro poemas, impressos com as obras de um amigo [2], na medida em que foram censurados, foram acusados dos mesmos ou semelhantes defeitos (embora eu esteja persuadido de que não com igual justiça) — com um excesso de ornamentação, além de uma dicção forçada e elaborada. Devo ter permissão para acrescentar que, mesmo no período inicial dos meus poemas juvenis, vi e admiti a superioridade de um estilo mais austero e mais natural, com uma perceção não menos clara do que a que possuo atualmente. O meu juízo era mais forte do que a minha capacidade de realizar os seus ditames; e as faltas da minha linguagem, embora, na verdade, em parte devidas a uma escolha errada de assuntos e ao desejo de dar uma coloração poética a verdades abstratas e metafísicas, nas quais um novo mundo parecia então abrir-se para mim, originaram-se, contudo, também em parte, de uma diffidência não fingida do meu talento comparativo. — Durante vários anos da minha juventude e início da idade adulta, reverenciei aqueles que tinham reintroduzido a simplicidade varonil do grego e dos nossos próprios poetas mais velhos, com tal entusiasmo que a esperança de escrever com sucesso no mesmo estilo parecia presunçosa. Talvez um processo semelhante tenha acontecido a outros; mas os meus primeiros poemas foram marcados por uma facilidade e simplicidade que estudei, talvez com menor sucesso, para imprimir nas minhas composições posteriores.

Na escola (Christ’s Hospital), desfrutei da inestimável vantagem de um mestre muito sensato, embora, ao mesmo tempo, muito severo, o Reverendo James Bowyer. Ele moldou cedo o meu gosto para a preferência de Demóstenes a Cícero, de Homero e Teócrito a Virgílio, e, de novo, de Virgílio a Ovídio. Habitou-me a comparar Lucrécio (em tais extratos como lia então), Terêncio e, acima de tudo, os poemas mais castos de Catulo, não apenas com os poetas romanos das chamadas idades de prata e bronze; mas até com os da era Augusta: e, com base no senso comum e na lógica universal, a ver e afirmar a superioridade dos primeiros na verdade e natividade tanto dos seus pensamentos como da sua dicção. Ao mesmo tempo que estudávamos os poetas trágicos gregos, ele fazia-nos ler Shakespeare e Milton como lições: e eram também as lições que exigiam mais tempo e esforço para serem apresentadas, de modo a escapar à sua censura. Aprendi com ele que a poesia, mesmo a das odes mais elevadas e, aparentemente, a das mais selvagens, tinha uma lógica própria, tão severa quanto a da ciência; e mais difícil, porque mais subtil, mais complexa e dependente de mais e mais fugitivas causas. Nos poetas verdadeiramente grandes, dizia ele, existe uma razão atribuível, não apenas para cada palavra, mas para a posição de cada palavra; e lembro-me bem de que, aproveitando-se dos sinónimos do Homero de Didymus, ele fazia-nos tentar mostrar, relativamente a cada um, por que não teria servido para o mesmo propósito; e em que consistia a aptidão peculiar da palavra no texto original.

Nas nossas próprias composições inglesas (pelo menos durante os últimos três anos da nossa educação escolar), ele não mostrava misericórdia a frases, metáforas ou imagens, sem o apoio de um senso sólido, ou onde o mesmo senso poderia ter sido transmitido com igual força e dignidade em palavras mais simples [3]. Alaúde, harpa e lira, Musa, Musas e inspirações, Pégaso, Parnaso e Hipocrene eram todos uma abominação para ele. Na imaginação, quase posso ouvi-lo agora, exclamando: "Harpa? Harpa? Lira? Pena e tinta, rapaz, queres tu dizer! Musa, rapaz, Musa? A filha da tua ama, queres tu dizer! Fonte Pieriana? Oh, sim! a bomba do claustro, suponho eu!" Na verdade, certas introduções, símiles e exemplos eram colocados por nome numa lista de interdição. Entre os símiles, recordo-me, estava o do fruto da mancenilheira, por se adequar igualmente bem a demasiados assuntos; no qual, contudo, cedeu a palma imediatamente ao exemplo de Alexandre e Cleito, que era igualmente bom e apto, qualquer que pudesse ser o tema. Seria ambição? Alexandre e Cleito! — Lisonja? Alexandre e Cleito! — raiva — embriaguez — orgulho — amizade — ingratidão — arrependimento tardio? Sempre, sempre Alexandre e Cleito! Finalmente, tendo os louvores da agricultura sido exemplificados na observação sagaz de que, se Alexandre estivesse a segurar o arado, não teria atravessado o seu amigo Cleito com uma lança, este antigo amigo, experimentado e prestável, foi banido por edito público in saecula saeculorum. Por vezes, aventurei-me a pensar que uma lista deste género, ou um index expurgatorius de certas frases bem conhecidas e sempre recorrentes, tanto introdutórias como de transição, incluindo um vasto sortido de egoísmos modestos e illeísmos lisonjeiros, e outros semelhantes, poderia ser pendurada nos nossos Tribunais e em ambas as Casas do Parlamento, com grande vantagem para o público, como uma importante poupança de tempo nacional, um alívio incalculável para os ministros de Sua Majestade, mas, acima de tudo, como garantindo os agradecimentos dos advogados do campo e dos seus clientes, que têm projetos de lei privados para levar avante na Câmara.

Seja como for, havia um costume do nosso mestre que não posso passar em silêncio, porque penso que é imitável e digno de imitação. Ele permitia frequentemente que os nossos exercícios, sob algum pretexto de falta de tempo, se acumulassem até que cada rapaz tivesse quatro ou cinco para serem revistos. Então, colocando o número total lado a lado na sua secretária, perguntava ao escritor por que razão aquela ou esta sentença não poderia ter encontrado um lugar tão apropriado sob esta ou aquela outra tese: e se nenhuma resposta satisfatória pudesse ser dada, e dois erros do mesmo tipo fossem encontrados num exercício, o veredito irrevogável seguia-se, o exercício era rasgado, e outro sobre o mesmo assunto devia ser produzido, além das tarefas do dia. O leitor, confio, desculpará este tributo de recordação a um homem cujas severidades, ainda hoje, não raramente fornecem os sonhos pelos quais a fantasia cega gostaria de interpretar para a mente as sensações dolorosas do sono doentio; mas que não diminuem nem ofuscam o profundo senso das minhas obrigações morais e intelectuais. Ele enviou-nos para a Universidade como excelentes estudiosos de latim e grego, e toleráveis hebraístas. No entanto, o nosso conhecimento clássico foi o menor dos bons dons que derivámos da sua tutoria zelosa e conscienciosa. Ele partiu agora para a sua recompensa final, cheio de anos e cheio de honras, mesmo daquelas honras que eram mais caras ao seu coração, como graciosamente concedidas por aquela escola, e ainda ligando-o aos interesses daquela escola em que ele próprio tinha sido educado, e à qual, durante toda a sua vida, foi um ser dedicado.

Por causas que não são o lugar para investigar, nenhuns modelos de tempos passados, por mais perfeitos que sejam, podem ter o mesmo efeito vívido na mente juvenil como as produções do génio contemporâneo. A disciplina que a minha mente tinha sofrido, Ne falleretur rotundo sono et versuum cursu, cincinnis, et floribus; sed ut inspiceret quidnam subesset, quae, sedes, quod firmamentum, quis fundus verbis; an figurae essent mera ornatura et orationis fucus; vel sanguinis e materiae ipsius corde effluentis rubor quidam nativus et incalescentia genuina; — removeu todos os obstáculos à apreciação da excelência no estilo sem diminuir o meu deleite. Que eu estivesse assim preparado para a leitura dos sonetos e primeiros poemas do Sr. Bowles, aumentou de uma só vez a sua influência e o meu entusiasmo. As grandes obras de eras passadas parecem a um jovem coisas de outra raça, relativamente às quais as suas faculdades devem permanecer passivas e submissas, tal como perante as estrelas e as montanhas. Mas os escritos de um contemporâneo, talvez não muitos anos mais velho do que ele, rodeado pelas mesmas circunstâncias e disciplinado pelos mesmos costumes, possuem uma realidade para ele e inspiram uma amizade real, como a de homem para homem. A sua própria admiração é o vento que aviva e alimenta a sua esperança. Os poemas em si assumem as propriedades de carne e osso. Recitar, exaltar, defender os mesmos é apenas o pagamento de uma dívida devida a alguém que existe para a receber.

Existem, de facto, modos de ensinar que produziram, e estão a produzir, jovens de um cunho muito diferente; modos de ensinar, em comparação com os quais fomos chamados a desprezar as nossas grandes escolas públicas e universidades,

em cujas salas estão penduradas Armarias dos cavaleiros invencíveis de outrora —

modos pelos quais as crianças devem ser metamorfoseadas em prodígios. E prodígios, com uma vingança, conheci serem assim produzidos; prodígios de presunção, superficialidade, arrogância e infidelidade! Em vez de armazenar a memória, durante o período em que a memória é a faculdade predominante, com factos para o exercício posterior do juízo; e em vez de despertar, pelos mais nobres modelos, o amor e a admiração fundos e puros, que são o temperamento natural e gracioso da juventude inicial; estes pupilos da pedagogia melhorada são ensinados a discutir e decidir; a suspeitar de tudo, exceto da sua própria sabedoria e da do seu conferencista; e a não manter nada sagrado contra o seu desprezo, exceto a sua própria arrogância desprezível; rapazes graduados em todas as tecnicidades, e em todas as paixões sujas e insolência da crítica anónima. A tais disposições apenas pode ser necessária a advertência de Plínio: Neque enim debet operibus ejus obesse, quod vivit. An si inter eos, quos nunquam vidimus, floruisset, non solum libros ejus, verum etiam imagines conquireremus, ejusdem nunc honor prasentis, et gratia quasi satietate languescet? At hoc pravum, malignumque est, non admirari hominem admiratione dignissimum, quia videre, complecti, nec laudare tantum, verum etiam amare contingit.

Eu tinha acabado de entrar no meu décimo sétimo ano, quando os sonetos do Sr. Bowles, vinte em número, e recém-publicados num panfleto em quarto, foram pela primeira vez tornados conhecidos e apresentados a mim, por um colega de escola que nos tinha deixado pela Universidade, e que, durante todo o tempo em que esteve na nossa primeira classe (ou, na linguagem da nossa escola, um Grego), tinha sido o meu patrono e protetor. Refiro-me ao Dr. Middleton, o verdadeiramente erudito e, em todos os aspetos, excelente Bispo de Calcutá:

qui laudibus amplis Ingenium celebrare meum, calamumque solebat, Calcar agens animo validum. Non omnia terra Obruta; vivit amor, vivit dolor; ora negatur Dulcia conspicere; at fiere et meminisse relictum est.

Foi um prazer duplo para mim, e ainda permanece como uma terna recordação, que eu devesse ter recebido de um amigo tão reverenciado o primeiro conhecimento de um poeta por cujas obras, ano após ano, fiquei tão entusiasticamente encantado e inspirado. Os meus primeiros conhecidos não terão esquecido a ânsia indisciplinada e o zelo impetuoso com que trabalhei para fazer prosélitos, não apenas dos meus companheiros, mas de todos com quem conversava, de qualquer posição e em qualquer lugar. Como as minhas finanças escolares não me permitiam comprar exemplares, fiz, em menos de um ano e meio, mais de quarenta transcrições, como os melhores presentes que podia oferecer àqueles que, de alguma forma, tinham conquistado a minha estima. E com quase igual deleite recebi as três ou quatro publicações seguintes do mesmo autor.

Embora eu tenha visto e conhecido o suficiente da humanidade para estar bem ciente de que talvez eu permaneça sozinho em meu credo, e que será bom se eu não me sujeitar a acusação pior do que a de singularidade; não me sinto, por isso, impedido de confessar que considero, e sempre considerei, as obrigações do intelecto entre as mais sagradas das reivindicações da gratidão. Um pensamento valioso, ou uma sucessão particular de pensamentos, dá-me prazer adicional quando posso seguramente referi-lo e atribuí-lo à conversação ou correspondência de outrem. As minhas obrigações para com o Sr. Bowles foram, na verdade, importantes e para um bem radical. Com uma idade muito prematura, mesmo antes do meu décimo quinto ano, eu me havia perdido na metafísica e na controvérsia teológica. Nada mais me agradava. A história e os fatos particulares perderam todo o interesse em minha mente. A poesia — (embora, para um estudante daquela idade, eu estivesse acima da média na versificação inglesa e já tivesse produzido duas ou três composições que, ouso dizer, sem referência à minha idade, estavam um pouco acima da mediocridade, e que me valeram mais crédito do que o bom e sensato senso do meu velho mestre estava disposto a aceitar) — a poesia em si, sim, romances e novelas, tornaram-se insípidos para mim. Em minhas errâncias sem amigos nos dias de folga (pois eu era órfão e quase não tinha conexões em Londres), ficava imensamente encantado se qualquer transeunte, especialmente se estivesse vestido de preto, entrasse em conversa comigo. Pois logo encontrei os meios de direcioná-la para os meus assuntos favoritos

Da providência, presciência, vontade e destino, Destino fixo, livre-arbítrio, presciência absoluta, E não encontrei fim, perdido em labirintos errantes.

Esta busca absurda foi, sem dúvida, prejudicial tanto para as minhas faculdades naturais quanto para o progresso da minha educação. Talvez tivesse sido destrutiva, se tivesse continuado; mas disto fui auspiciosamente retirado, em parte, na verdade, por uma introdução acidental a uma família amável, principalmente, contudo, pela influência genial de um estilo de poesia, tão terno e ainda assim tão viril, tão natural e real, e ainda assim tão digno e harmonioso, como os sonetos e outros poemas iniciais do Sr. Bowles. Teria sido bom para mim, talvez, se nunca tivesse recaído na mesma doença mental; se tivesse continuado a colher a flor e a ceifar a colheita da superfície cultivada, em vez de escavar nas minas de mercúrio insalubres do saber metafísico. E se em tempos posteriores busquei refúgio da dor corporal e da sensibilidade mal gerida em pesquisas abstrusas, que exercitaram a força e a sutileza do entendimento sem despertar os sentimentos do coração; ainda assim houve um longo e abençoado intervalo, durante o qual minhas faculdades naturais puderam expandir-se, e minhas tendências originais desenvolverem-se — minha fantasia, e o amor à natureza, e o senso de beleza nas formas e nos sons.

A segunda vantagem, que devo à minha leitura precoce e admiração por esses poemas (aos quais devo acrescentar), embora conhecidos por mim em um período um pouco posterior, o Lewesdon Hill do Sr. Crowe, incide mais imediatamente sobre o meu presente assunto. Entre aqueles com quem conversava, havia, naturalmente, muitos que tinham formado o seu gosto e as suas noções de poesia a partir dos escritos de Pope e dos seus seguidores; ou, para falar de forma mais geral, naquela escola de poesia francesa, condensada e revigorada pelo entendimento inglês, que predominara desde o século passado. Eu não era cego aos méritos desta escola, contudo, como pela inexperiência do mundo, e consequente falta de simpatia com os assuntos gerais desses poemas, eles me davam pouco prazer, sem dúvida subestimei o gênero e, com a presunção da juventude, recusei aos seus mestres o nome legítimo de poetas. Vi que a excelência deste tipo consistia em observações justas e agudas sobre homens e costumes em um estado artificial de sociedade, como sua matéria e substância; e na lógica do engenho, transmitida em dísticos epigramáticos suaves e fortes, como sua forma: que mesmo quando o assunto era dirigido à fantasia ou ao intelecto, como em The Rape of the Lock ou no Essay on Man; mais ainda, quando era uma narração consecutiva, como naquele produto espantoso de talento e engenhosidade inigualáveis, a Tradução da Ilíada de Pope; ainda assim esperava-se um ponto ao final de cada segundo verso, e o todo era, por assim dizer, um sorites, ou, se me permitem trocar uma metáfora lógica por uma gramatical, uma conjunção disjuntiva de epigramas. Entretanto, a matéria e a dicção pareciam-me caracterizadas não tanto por pensamentos poéticos, mas por pensamentos traduzidos na linguagem da poesia. Sobre este último ponto, tive a ocasião de tornar meus próprios pensamentos gradualmente cada vez mais claros para mim mesmo, por frequentes disputas amistosas sobre o Botanic Garden de Darwin, que, por alguns anos, foi muito exaltado, não apenas pelo público leitor em geral, mas até mesmo por aqueles cujo gênio e robustez natural de entendimento permitiram-lhes depois agir na vanguarda para dissipar essas "névoas pintadas" que ocasionalmente surgem dos pântanos ao pé do Parnaso. Durante as minhas primeiras férias em Cambridge, ajudei um amigo em uma contribuição para uma sociedade literária em Devonshire: e nisto lembro-me de ter comparado a obra de Darwin ao palácio de gelo russo, cintilante, frio e transitório. No mesmo ensaio também, atribuí várias razões, extraídas principalmente de uma comparação de passagens nos poetas latinos com o grego original, de onde foram tomadas, para a preferência das odes de Collins às de Gray; e do símile em Shakespeare

Quão semelhante a um jovem ou a um pródigo A barca enfeitada parte de sua baía natal, Abraçada e cingida pelo vento prostituta! Quão semelhante ao pródigo ela retorna, Com costelas castigadas pelo tempo e velas esfarrapadas, Magra, rasgada e mendicante pelo vento prostituta! (Merch. of Ven. Ato II, cena 6.)

à imitação no The Bard;

A manhã ri alegremente, e o zéfiro sopra suave Enquanto orgulhosamente cavalgando sobre o reino azul Em trajes galantes a embarcação dourada segue, A juventude na proa e o prazer no leme; Indiferente ao domínio do turbilhão varredor, Que calado em repouso sombrio, espera pela sua presa noturna.

(no qual, aliás, as palavras "reino" e "domínio" são rimas caramente compradas) — preferi o original sob o fundamento de que, na imitação, dependia inteiramente de o compositor colocar, ou não colocar, uma pequena maiúscula, tanto nesta quanto em muitas outras passagens do mesmo poeta, se as palavras deveriam ser personificações ou meras abstrações. Menciono isto porque, ao referir várias linhas em Gray aos seus originais em Shakespeare e Milton, e na percepção clara de quão completamente toda a propriedade era perdida na transferência, fui, naquele período precoce, levado a uma conjectura, que, muitos anos depois, me foi recordada por ter sido aventada em conversa, mas de forma muito mais capaz, e desenvolvida mais plenamente, pelo Sr. Wordsworth; — a saber, que este estilo de poesia, que caracterizei acima como traduções de pensamentos em prosa para linguagem poética, fora mantido por, se não inteiramente surgido de, o costume de escrever versos latinos, e a grande importância atribuída a esses exercícios, em nossas escolas públicas. Qualquer que tenha sido o caso no século XV, quando o uso da língua latina era tão geral entre os homens instruídos que se diz que Erasmo esqueceu sua língua materna; ainda assim, nos dias atuais, não se deve supor que um jovem possa pensar em latim, ou que possa ter qualquer outra confiança na força ou adequação de suas frases, senão a autoridade do escritor de quem as adotou. Consequentemente, ele deve primeiro preparar seus pensamentos e, então, escolher, de Virgílio, Horácio, Ovídio, ou talvez mais concisamente do seu Gradus, metades e quartos de versos nos quais incorporá-los.

Nunca me oponho a um certo grau de espírito de disputa em um jovem da idade de dezessete até aos vinte e quatro ou vinte e cinco anos, desde que o encontre sempre a argumentar de um lado da questão. As controvérsias, ocasionadas pelo meu zelo sincero pela honra de um contemporâneo favorito, então conhecido por mim apenas pelas suas obras, foram de grande vantagem na formação e estabelecimento do meu gosto e opiniões críticas. Na minha defesa dos versos que fluem uns para os outros, em vez de fechar a cada dístico; e de uma linguagem natural, nem livresca nem vulgar, nem cheirando à lâmpada nem à sarjeta, tal como "I will remember thee"; em vez do mesmo pensamento enfeitado na finura de brechó de,

------tua imagem em sua asa Antes do olho da minha fantasia trará a memória,--

Eu tinha continuamente que aduzir o metro e a dicção dos poetas gregos, de Homero a Teócrito inclusive; e ainda mais de nossos poetas ingleses mais antigos, de Chaucer a Milton. Nem foi isto tudo. Mas, como era a minha resposta constante às autoridades trazidas contra mim de poetas posteriores de grande nome, que nenhuma autoridade poderia valer em oposição à Verdade, à Natureza, à Lógica e às Leis da Gramática Universal; impulsionado também pela minha antiga paixão por investigações metafísicas; trabalhei por uma base sólida, sobre a qual fundamentar permanentemente as minhas opiniões, nas faculdades componentes da própria mente humana, e na sua dignidade e importância comparativas. De acordo com a faculdade ou fonte, da qual o prazer dado por qualquer poema ou passagem era derivado, estimei o mérito de tal poema ou passagem. Como resultado de toda a minha leitura e meditação, abstraí dois aforismos críticos, julgando que compreendiam as condições e critérios do estilo poético; — primeiro, que não o poema que lemos, mas aquele ao qual retornamos com o maior prazer, possui o poder genuíno e reivindica o nome de poesia essencial; — segundo, que quaisquer versos que possam ser traduzidos para outras palavras da mesma língua, sem diminuição de sua significância, seja no sentido ou associação, ou em qualquer sentimento digno, são, nessa medida, viciosos em sua dicção. Observe-se, contudo, que excluí da lista de sentimentos dignos o prazer derivado da mera novidade no leitor e o desejo de excitar admiração pelas suas capacidades no autor. Muitas vezes, desde então, ao ler tragédias francesas, imaginei dois pontos de exclamação ao final de cada linha, como hieróglifos da própria admiração do autor pela sua própria esperteza. Nossa admiração genuína por um grande poeta é uma corrente subterrânea contínua de sentimento! Ela está em toda parte presente, mas raramente em qualquer lugar como uma excitação separada. Eu costumava afirmar ousadamente que dificilmente seria mais difícil empurrar uma pedra das Pirâmides com a mão nua do que alterar uma palavra, ou a posição de uma palavra, em Milton ou Shakespeare (pelo menos nas suas obras mais importantes) sem fazer com que o poeta dissesse algo diferente, ou algo pior, do que ele diz. Uma grande distinção, parecia-me ver claramente entre até mesmo os defeitos característicos dos nossos poetas mais antigos e a beleza falsa dos modernos. Nos primeiros, de Donne a Cowley, encontramos os pensamentos mais fantásticos e extravagantes, mas na mais pura e genuína língua materna inglesa; nos últimos, os pensamentos mais óbvios, em uma linguagem a mais fantástica e arbitrária. Os nossos poetas mais velhos e defeituosos sacrificaram a paixão e o fluxo apaixonado da poesia às sutilezas do intelecto e às estrelas do engenho; os modernos ao brilho e cintilação de um imaginário perpétuo, porém fragmentado e heterogêneo, ou melhor, a um algo anfíbio, composto metade de imagem e metade de significado abstrato. Os primeiros sacrificaram o coração à cabeça; os segundos, tanto o coração quanto a cabeça, ao ponto e à indumentária.

O leitor deve familiarizar-se com o estilo geral de composição que era naquela época considerado poesia, a fim de compreender e explicar o efeito produzido em mim pelos Sonetos, pela Monódia em Matlock e pela Esperança, do Sr. Bowles; pois é peculiar ao gênio original tornar-se cada vez menos impressionante, na proporção do seu sucesso em melhorar o gosto e o julgamento dos seus contemporâneos. Os poemas de West, na verdade, tinham o mérito de uma dicção casta e viril; mas eram frios e, se assim posso expressar-me, apenas de cor morta; enquanto que no melhor de Warton há uma rigidez, que demasiadas vezes lhes dá a aparência de imitações do grego. Qualquer relação, portanto, de causa ou impulso que a coleção de Baladas de Percy possa ter para com os poemas mais populares dos dias atuais; ainda assim, em um estilo mais sustentado e elevado, dos poetas então vivos, Cowper e Bowles foram, tanto quanto é do meu conhecimento, os primeiros que combinaram pensamentos naturais com dicção natural; os primeiros que reconciliaram o coração com a cabeça.

É verdade, como mencionei antes, que por diffidência nas minhas próprias capacidades, adotei por um curto período uma dicção laboriosa e florida, que eu mesmo considerava, se não absolutamente viciosa, ainda assim de valor muito inferior. Gradualmente, contudo, a minha prática conformou-se ao meu melhor julgamento; e as composições dos meus vinte e quatro e vinte e cinco anos — (por exemplo, os poemas mais curtos em verso branco, os versos que agora formam o meio e a conclusão do poema intitulado The Destiny of Nations, e a tragédia de Remorse) — não estão mais abaixo do meu ideal atual no que diz respeito ao tecido geral do estilo do que as da data mais recente. Os seus defeitos eram, pelo menos, um remanescente do fermento anterior, e, entre os muitos que me fizeram a honra de colocar os meus poemas na mesma classe daqueles dos meus superiores, o um ou dois, que pretenderam trazer exemplos de simplicidade afetada do meu volume, foram capazes de aduzir apenas um exemplo, e esse de uma cópia de versos meio ridículos, meio coléricos, que eu pretendi, e eu mesmo caracterizei, como sermoni propiora.

Toda reforma, por mais necessária que seja, será por mentes fracas levada a um excesso, que ele mesmo precisará de reforma. O leitor me desculpará por notar que eu mesmo fui o primeiro a expor risu honesto os três pecados da poesia, um ou outro dos quais é o mais provável de assediar um jovem escritor. Há tanto tempo, na publicação do segundo número da Monthly Magazine, sob o nome de Nehemiah Higginbottom, contribuí com três sonetos, o primeiro dos quais tinha como objetivo excitar um riso bem-humorado sobre o espírito de egotismo lúgubre, e sobre a recorrência de frases favoritas, com o duplo defeito de ser ao mesmo tempo banal e licencioso; — o segundo era sobre linguagem e pensamentos baixos e rastejantes, sob o pretexto de simplicidade; o terceiro, cujas frases foram tomadas inteiramente dos meus próprios poemas, sobre o uso indiscriminado de linguagem e imagética elaboradas e pomposas. O leitor os encontrará na nota abaixo e, confio, considerá-los-á como reimpressos apenas para fins biográficos, e não pelos seus méritos poéticos. Tão geral naquela época, e tão decidida era a opinião sobre os vícios característicos do meu estilo, que um médico célebre (agora, infelizmente! não mais entre nós), falando de mim em outros aspectos com a sua habitual bondade, a um cavalheiro que estava prestes a encontrar-me em um jantar, não pôde, contudo, resistir a dar-lhe uma dica para não mencionar "The house that Jack built" na minha presença, pois "que eu ficava sensível como uma ferida sobre aquele soneto"; ele não sabendo que eu era o autor do mesmo.

CAPÍTULO II

Suposta irritabilidade dos homens de gênio submetida ao teste dos fatos — Causas e ocasiões da acusação — Sua injustiça.

Muitas vezes pensei que não seria nem pouco instrutivo nem pouco divertido analisar e trazer para a consciência distinta aquele sentimento complexo, com o qual os leitores em geral tomam partido contra o autor, em favor do crítico; e a prontidão com que aplicam a todos os poetas o velho sarcasmo de Horácio sobre os rabiscadores do seu tempo

------genus irritabile vatum.

Uma debilidade e obscuridade do poder imaginativo, e uma consequente necessidade de confiança nas impressões imediatas dos sentidos, tornam, bem sabemos, a mente suscetível à superstição e ao fanatismo. Tendo uma porção deficiente de calor interno e próprio, as mentes desta classe buscam na multidão circum fana por um calor comum, que não possuem isoladamente. Frias e fleumáticas por natureza, como feno úmido, elas aquecem e inflamam por coacervação; ou, como abelhas, tornam-se inquietas e irritáveis através da temperatura aumentada de multidões reunidas. Daí a palavra alemã para fanatismo (pelo menos era esse o seu sentido original) deriva do enxamear das abelhas, a saber, schwaermen, schwaermerey. Sendo a paixão inversamente proporcional à introspecção — a primeira mais vívida quanto menos distinta a última — a raiva é a consequência inevitável. A ausência de toda base dentro das suas próprias mentes para aquilo que, ainda assim, acreditam ser verdadeiro e indispensável à sua segurança e felicidade, não pode deixar de produzir um estado de sentimento inquieto, um senso involuntário de medo do qual a natureza não tem meios de resgatar-se senão pela raiva. A experiência nos informa que a primeira defesa das mentes fracas é recriminar.

Não há filósofo que não veja, Que a raiva e o medo são uma única doença; Embora aquela possa arder, e este possa congelar, Ambos são como a febre.

Mas onde as ideias são vívidas, e existe um poder infinito de combiná-las e modificá-las, os sentimentos e afetos misturam-se mais fácil e intimamente com essas criações ideais do que com os objetos dos sentidos; a mente é afetada por pensamentos, mais do que por coisas; e só então sente o interesse necessário mesmo pelos eventos e acidentes mais importantes, quando através da meditação eles se transformaram em pensamentos. A sanidade da mente está entre a superstição com o fanatismo, por um lado, e o entusiasmo com a indiferença e uma lentidão doentia para a ação, por outro. Pois as concepções da mente podem ser tão vívidas e adequadas, a ponto de impedir aquele impulso para a sua realização, que é mais forte e mais inquieto naqueles que possuem mais do que mero talento (ou a faculdade de apropriar e aplicar o conhecimento de outrem) — ainda carecendo de algo do poder criativo e autossuficiente do gênio absoluto. Por esta razão, portanto, eles são homens de gênio dominante. Enquanto os primeiros permanecem contentes entre o pensamento e a realidade, como que em um intermundium do qual o seu próprio espírito vivo fornece a substância, e a sua imaginação a forma sempre variável; os últimos devem imprimir as suas preconcepções no mundo exterior, a fim de apresentá-las de volta à sua própria visão com o grau satisfatório de clareza, distinção e individualidade. Estes, em tempos tranquilos, são formados para exibir um poema perfeito em palácio, ou templo, ou jardim paisagístico; ou um conto de romance em canais que unem mar com mar, ou em muralhas de rocha, que, empurrando as ondas, imitam o poder e suprem a benevolência da natureza para as marinhas abrigadas; ou em aquedutos que, arqueando o vale largo de montanha a montanha, dão uma Palmyra ao deserto. Mas ai de nós! em tempos de tumulto, eles são os homens destinados a emergir como o espírito modelador da ruína, a destruir a sabedoria das eras a fim de substituir as fantasias de um dia, e a mudar reis e reinos, conforme o vento desloca e molda as nuvens. Os registros da biografia parecem confirmar esta teoria. Os homens de maior gênio, tanto quanto podemos julgar pelas suas próprias obras ou pelos relatos dos seus contemporâneos, parecem ter sido de temperamento calmo e tranquilo em tudo o que se relacionava a eles mesmos. Na segurança interior de uma fama permanente, parecem ter sido indiferentes ou resignados com relação à reputação imediata. Por todas as obras de Chaucer reina uma alegria, uma hilaridade viril que torna quase impossível duvidar de um hábito de sentimento correspondente no próprio autor. A igualdade e a doçura de temperamento de Shakespeare eram quase proverbiais na sua própria época. Que isto não tenha surgido da ignorância da sua própria grandeza comparativa, temos prova abundante nos seus Sonetos, que dificilmente poderiam ter sido conhecidos por Pope quando afirmou que o nosso grande bardo —

------tornou-se imortal apesar de si mesmo. (Epist. to Augustus.)

Falando de alguém a quem ele havia celebrado, e contrastando a duração das suas obras com a da sua existência pessoal, Shakespeare acrescenta:

O teu nome, desde já, terá vida imortal, Embora eu, uma vez partido, para todo o mundo deva morrer; A terra pode oferecer-me apenas uma sepultura comum, Quando tu, sepultado, nos olhos dos homens jazerás. O teu monumento será o meu verso gentil, Que olhos ainda não criados hão de ler; E línguas por vir o teu ser hão de repetir, Quando todos os que respiram neste mundo estiverem mortos: Tu ainda viverás, tal virtude tem a minha pena, Onde o fôlego mais respira, até mesmo na boca dos homens. SONETO LXXXI.

Tomei o primeiro que me ocorreu; mas a prontidão de Shakespeare em louvar os seus rivais, ore pleno, e a confiança na sua própria igualdade com aqueles que ele considerava mais dignos do seu louvor, estão igualmente manifestadas noutro Soneto.

Foi a vela orgulhosa e cheia do seu grande verso, Destinada ao louvor do por demais precioso tu, Que os meus pensamentos maduros no cérebro me encerrou, Fazendo deles o túmulo, o ventre onde cresceram? Foi o seu espírito, por espíritos ensinado a escrever Acima de um tom mortal, que me atingiu de morte? Não, nem ele, nem os seus pares pela noite, Dando-lhe auxílio, o meu verso assombraram. Ele, nem aquele fantasma familiar e afável, Que noite após noite o engana com inteligência, Como vencedores do meu silêncio não podem gabar-se; Eu não estava doente de qualquer medo vindo daí! Mas quando o teu semblante preencheu a sua linha, Então faltou-me matéria, o que enfraqueceu a minha. S. LXXXVI.

Em Spenser, na verdade, traçamos uma mente constitucionalmente terna, delicada e, em comparação com os seus três grandes pares, quase diria, efeminada; e isto adicionalmente entristecido pela perseguição injusta de Burleigh e pelas severas calamidades que sobrecarregaram os seus últimos dias. Estas causas difundiram sobre todas as suas composições uma "graça melancólica" e extraíram ocasionais lamentos, tanto mais patéticos pela sua gentileza. Mas em parte alguma encontramos o menor vestígio de irritabilidade, e ainda menos de desprezo contencioso ou afetado pelos seus censores.

A mesma calma, e até maior autodomínio, pode ser afirmada de Milton, no que diz respeito aos seus poemas e ao seu caráter poético. Ele reservava a sua ira para os inimigos da religião, da liberdade e do seu país. A minha mente não é capaz de formar uma concepção mais augusta do que a que surge da contemplação deste grande homem nos seus últimos dias;—pobre, doente, velho, cego, caluniado, perseguido,—

Trevas à frente, e a voz do perigo atrás,—

numa época em que ele era tão pouco compreendido pelo partido a favor do qual, como por aquele contra o qual, ele lutara; e entre homens perante os quais ele caminhava tão à frente que se tornava pequeno pela distância; ainda assim, ouvindo a música dos seus próprios pensamentos, ou, se adicionalmente animado, animado apenas pela fé profética de dois ou três indivíduos solitários, ele, não obstante,

------não argumentou Contra a mão ou a vontade do Céu, nem diminuiu um jota De coração ou esperança; mas ainda assim aguentou-se e navegou Diretamente em frente.

É apenas de outros que derivamos o nosso conhecimento de que Milton, no seu último dia, teve os seus escarnecedores e detratores; e mesmo no seu dia de juventude e esperança, que ele teve inimigos seria desconhecido para nós, se eles não fossem também os inimigos do seu país.

Estou bem ciente de que, em estágios avançados da literatura, quando existem muitos e excelentes modelos, um alto grau de talento, combinado com gosto e discernimento, e empregado em obras de imaginação, adquirirá para um homem o nome de um grande génio; embora mesmo esse analogon de génio, que, em certos estados de sociedade, pode até tornar os seus escritos mais populares do que a realidade absoluta teria feito, seria procurado em vão na mente e no temperamento do próprio autor. Contudo, mesmo em instâncias deste tipo, um exame atento detetará frequentemente que a irritabilidade, que foi atribuída ao génio do autor como a sua causa, originou-se realmente de uma má conformação do corpo, dor obtusa ou defeito constitucional de sensação prazerosa. O que é imputado ao autor pertence ao homem, que provavelmente teria sido ainda mais impaciente, não fossem as influências humanizadoras da própria ocupação, que, contudo, suporta a culpa da sua irritabilidade.

Como, então, havemos de explicar a credulidade fácil geralmente dada a esta acusação, se a acusação em si não for, como me esforcei por mostrar, apoiada pela experiência? Isto parece-me de solução não muito difícil. Em qualquer país onde a literatura é amplamente difundida, haverá muitos que confundem um desejo intenso de possuir a reputação de génio poético com os poderes reais e as tendências originais que o constituem. Mas os homens, cujos desejos mais caros estão fixados em objetos totalmente fora do seu alcance, tornam-se em todos os casos mais ou menos impacientes e propensos à ira. Além disso, embora possa ser paradoxal afirmar que um homem pode saber uma coisa e acreditar no oposto, certamente uma pessoa vaidosa pode ter habitualmente condescendido no desejo, e perseverado na tentativa, de parecer o que não é, a ponto de se tornar ela própria um dos seus próprios prosélitos. Ainda assim, como esta persuasão artificial e contrafeita deve diferir, mesmo nos sentimentos da própria pessoa, de um sentido real de poder interior, o que pode ser mais natural do que o facto de esta diferença se trair numa irritabilidade suspeita e ciumenta? Tal como o relvado florido, que cobre um vazio, pode ser frequentemente detetado pelo seu sacudir e tremer.

Mas, ai! a multidão de livros e a difusão geral da literatura produziram outros e mais lamentáveis efeitos no mundo das letras, e tais que são abundantes para explicar, embora de modo algum para justificar, o desprezo com que as queixas mais fundamentadas do génio ferido são rejeitadas como frívolas ou encaradas como motivo de divertimento. Nos dias de Chaucer e Gower, a nossa língua poderia (com a devida tolerância para com as imperfeições de um símile) ser comparada a um deserto de juncos vocais, do qual apenas os favoritos de Pan ou Apolo poderiam construir até a rude siringe; e disto apenas os construtores poderiam extrair sons de música. Mas agora, em parte pelo trabalho de sucessivos poetas, e em parte pelo estado mais artificial da sociedade e das relações sociais, a língua, mecanizada por assim dizer num realejo, fornece de uma só vez tanto o instrumento como a melodia. Assim, até os surdos podem tocar, de modo a deleitar a multidão. Por vezes (pois é com símiles como é com piadas à mesa de vinho, um é certo que sugere outro) tentei ilustrar o estado atual da nossa língua, na sua relação com a literatura, por uma sala de imprensa de peças estereotipadas maiores e menores, que, na atual moda anglo-galicana de períodos desconexos e epigramáticos, requer apenas uma porção comum de engenho para variar indefinidamente, e ainda assim produzir algo que, se não for sentido, será tão semelhante a ele que servirá igualmente bem. Talvez melhor: pois poupa ao leitor o trabalho de pensar; evita o vazio, enquanto satisfaz a indolência; e assegura a memória de todo o perigo de uma pletora intelectual. Daí que, de todos os ofícios, a literatura exija atualmente o menor talento ou informação; e, de todos os modos de literatura, a fabricação de poemas. A diferença, na verdade, entre estes e as obras de génio não é menor do que entre um ovo e uma casca de ovo; contudo, à distância, ambos parecem iguais.

Ora, não é menos notável do que verdadeiro com quão pouco exame as obras de literatura erudita são comumente lidas, não apenas pela massa de leitores, mas por homens de habilidade de primeira ordem, até que algum acidente ou discussão casual tenha despertado a sua atenção e os tenha deixado em guarda. E daí indivíduos abaixo da mediocridade não menos em poder natural do que em conhecimento adquirido; aliás, incompetentes que falharam nos ofícios mecânicos mais baixos, e cuja presunção está em devida proporção à sua falta de senso e sensibilidade; homens, que sendo primeiro rabiscadores por ociosidade e ignorância, tornam-se depois difamadores por inveja e malevolência—têm sido capazes de conduzir um comércio bem-sucedido no emprego dos livreiros, aliás, elevaram-se a nome e reputação temporários junto do público em geral, por aquela mais poderosa de todas as adulações, o apelo às paixões más e malignas da humanidade. Mas como é da natureza do desprezo, da inveja e de todas as propensões malignas exigir uma mudança rápida de objetos, tais escritores são certos, mais cedo ou mais tarde, de acordar do seu sonho de vaidade para a desilusão e o esquecimento com sentimentos amargurados e envenenados. Mesmo durante o seu sucesso de curta duração, sensíveis apesar de si mesmos a quão instável é o fundamento em que repousa, ressentem-se da mera recusa de louvor como um roubo, e perante as mais justas censuras inflamam-se de imediato em abusos violentos e indisciplinados; até que a doença aguda, mudando para crónica, tanto mais mortal quanto menos violenta, tornam-se os instrumentos aptos da detração literária e da calúnia moral. Já não podem ser questionados sem expor o queixoso ao ridículo, porque, de facto, são críticos anónimos, e autorizados, na frase de Andrew Marvell, como "indivíduos sinodais" a falar de si mesmos plurali majestatico! Como se a literatura formasse uma casta, como a dos Paras no Hindustão, que, por mais maltratados que sejam, não se devem atrever a considerar-se injustiçados! Como se aquilo que em todos os outros casos acrescenta um tom mais profundo à calúnia, a circunstância de ser anónima, agisse aqui apenas para tornar o difamador inviolável! Assim, em parte, pelos temperamentos acidentais dos indivíduos—(homens de inquestionável talento, mas não homens de génio)—temperamentos tornados ainda mais irritáveis pelo seu desejo de parecerem homens de génio; mas ainda mais efetivamente pelos excessos dos meros simulacros tanto de talento como de génio; sendo o número também incomparavelmente maior daqueles que se pensa serem, do que daqueles que realmente são homens de génio; e em parte pela distinção natural, mas não por isso menos parcial e injusta, feita pelo próprio público entre a propriedade literária e todas as outras; creio que surgiu o preconceito, que considera uma irascibilidade invulgar quanto à receção dos seus produtos como característica do génio.

Poderia corrigir os sentimentos morais de uma numerosa classe de leitores supor uma Revista posta em marcha, cujo objetivo deveria ser criticar todas as principais obras apresentadas ao público pelos nossos tecelões de fitas, estampadores de chita, marceneiros e fabricantes de porcelana; que deveria ser conduzida no mesmo espírito, e tomar a mesma liberdade com o caráter pessoal, como os nossos jornais literários. Dificilmente, penso eu, negariam a sua crença, não só de que o genus irritabile incluiria muitas outras espécies além da dos bardos; mas de que a irritabilidade do comércio reduziria rapidamente os ressentimentos dos poetas a meros combates de sombras em comparação. Ou será a riqueza o único objeto racional do interesse humano? Ou mesmo se isto fosse admitido, não tem o poeta propriedade nas suas obras? Ou é um caso raro, ou culpável, que aquele que serve no altar das Musas, seja compelido a extrair a sua manutenção do altar, quando também ele talvez tenha abandonado deliberadamente as mais belas perspetivas de posição e opulência a fim de se dedicar, um homem completo e sem distrações, à instrução ou ao refinamento dos seus concidadãos? Ou, deveríamos ignorar todos os objetos e motivos superiores, toda a benevolência desinteressada, e até aquela ambição de louvor duradouro que é ao mesmo tempo a muleta e o ornamento, que ao mesmo tempo sustenta e trai, a enfermidade da virtude humana—é o caráter e a propriedade do homem, que trabalha para os nossos prazeres intelectuais, menos merecedor de uma parte da nossa simpatia, do que a do comerciante de vinhos ou da modista? A sensibilidade, na verdade, tanto rápida como profunda, não é apenas um traço característico, mas pode ser considerada uma parte integrante, do génio. Mas não é menos uma marca essencial do verdadeiro génio que a sua sensibilidade seja excitada por qualquer outra causa mais poderosamente do que pelos seus próprios interesses pessoais; por esta razão simples, que o homem de génio vive mais no mundo ideal, no qual o presente é ainda constituído pelo futuro ou pelo passado; e porque os seus sentimentos foram habitualmente associados a pensamentos e imagens, para cujo número, clareza e vivacidade a sensação de si mesmo é sempre inversamente proporcional. E ainda assim, caso ele porventura tenha ocasião de repelir alguma falsa acusação, ou de retificar alguma censura errónea, nada é mais comum do que a multidão confundir a vivacidade geral do seu modo e linguagem, qualquer que seja o assunto, com os efeitos de uma irritação peculiar pela sua relação acidental consigo mesmo.

Quanto a mim, se pelos meus próprios sentimentos, ou pelo teste menos suspeito das observações dos outros, tivesse sido alertado para qualquer irritabilidade ou ciúme literário; confio que não teria sido, contudo, nem tolo nem arrogante o suficiente para ter atribuído a imperfeição ao génio. Mas uma experiência—(e não precisaria de documentos em abundância para provar as minhas palavras, se eu acrescentasse)—uma experiência provada de vinte anos, ensinou-me que o pecado original do meu caráter consiste numa indiferença descuidada para com a opinião pública, e para com os ataques daqueles que a influenciam; que o louvor e a admiração se tornaram anualmente menos e menos desejáveis, exceto como marcas de simpatia; aliás, que é difícil e angustiante para mim pensar com qualquer interesse mesmo sobre a venda e o lucro das minhas obras, por importantes que, nas minhas atuais circunstâncias, tais considerações devam ser. Contudo, nunca me ocorreu acreditar ou imaginar que o quantum de poder intelectual que me foi concedido pela natureza ou pela educação estivesse de qualquer forma ligado a este hábito dos meus sentimentos; ou que precisasse de outros pais ou tutores que não a indolência constitucional, agravada em languidez pela má saúde; os embaraços acumulados da procrastinação; a covardia mental, que é a companheira inseparável da procrastinação, e que nos torna ansiosos por pensar e conversar sobre qualquer coisa, menos sobre o que nos diz respeito; enfim, todos aqueles vexames próximos, quer imputáveis às minhas faltas ou às minhas fortunas, que me deixam pouco pesar para poupar para males comparativamente distantes e estranhos.

A indignação contra erros literários deixo-a aos homens nascidos sob estrelas mais felizes. Não a posso pagar. Mas, longe de condenar aqueles que a podem sentir, considero um dever do escritor, e julgo louvável para o seu coração, sentir e expressar um ressentimento proporcional à grosseria da provocação e à importância do objeto. Não há profissão na terra que exija uma atenção tão precoce, tão longa ou tão ininterrupta como a da poesia; e, na verdade, como a da composição literária em geral, se for tal que satisfaça de alguma forma as exigências tanto do gosto como da lógica sólida. Quão difícil e delicada tarefa é a mera mecânica do verso, pode ser conjeturado pela falha daqueles que tentaram a poesia tarde na vida. Onde, então, um homem dedicou, desde a sua mais tenra juventude, todo o seu ser a um objeto, que pela admissão de todas as nações civilizadas em todas as épocas é honroso como ocupação e glorioso como conquista; o que de tudo o que diz respeito a ele e à sua família, se apenas excetuarmos o seu caráter moral, pode ter mais justas pretensões à sua proteção, ou mais autorizar atos de autodefesa, do que os elaborados produtos do seu intelecto e indústria intelectual? A própria prudência ordenar-nos-ia mostrar, mesmo que o defeito ou o desvio da sensibilidade natural nos tivesse impedido de sentir, um devido interesse e ansiedade qualificada pela descendência e representantes do nosso ser mais nobre. Sei-o, ai!, por experiência dolorosa. Pus ovos demais nas areias quentes deste deserto, o mundo, com descuido de avestruz e esquecimento de avestruz. A maior parte, na verdade, foi pisada e está esquecida; mas, ainda assim, um número nada pequeno rastejou para a vida, alguns para fornecer penas para os chapéus de outros, e ainda mais para ornar as flechas nas aljavas dos meus inimigos, daqueles que, sem serem provocados, armaram ciladas contra a minha alma.

Sic vos, non vobis, mellificatis, apes!

CAPÍTULO III

As obrigações do Autor para com os críticos, e a ocasião provável—Princípios da crítica moderna—As obras e o caráter do Sr. Southey.

Para com os críticos anónimos em revistas, magazines e noticiários de vários nomes e categorias, e para com os satiristas com ou sem nome em verso ou prosa, ou em texto de verso auxiliado por comentário em prosa, creio seriamente e professo que devo dois terços de qualquer reputação e publicidade que porventura possua. Pois quando o nome de um indivíduo ocorreu tão frequentemente, em tantas obras, por um período de tempo tão longo, os leitores destas obras—(que com uma prateleira ou duas de belezas, Extratos elegantes e Anas, formam nove décimos da leitura do Público leitor)—não podem deixar de estar familiarizados com o nome, sem se lembrarem distintamente se foi introduzido para elogio ou para censura. E isto torna-se mais provável, se (como creio) o hábito de ler obras periódicas puder ser devidamente acrescentado ao catálogo de Anti-Mnemónicos de Averróis, ou atenuadores da memória. Mas onde este não foi o caso, ainda assim o leitor tenderá a suspeitar que deve haver algo mais do que invulgarmente forte e extenso numa reputação que pudesse exigir ou suportar um canhoneio tão impiedoso e de tão longa duração. Sem qualquer sentimento de raiva, portanto—(para o qual, na verdade, por minha própria conta, não tenho pretexto)—pode, contudo, ser-me permitido expressar algum grau de surpresa, que, depois de ter passado pela vara da crítica para uma certa classe de faltas que eu tinha, sem que nada tenha chegado ao banco dos réus nesse intervalo, eu devesse, ano após ano, trimestre após trimestre, mês após mês—(para não mencionar vários pequenos periódicos de revolução ainda mais rápida, "quer semanais ou diurnos")—ter sido, durante pelo menos dezassete anos consecutivos, arrastado por eles para as fileiras da frente dos proscritos, e forçado a suportar o peso do abuso, por faltas diretamente opostas, e que eu certamente não tinha. Como explicarei isto?

Qualquer que tenha sido o caso com outros, certamente não posso atribuir esta perseguição a antipatia pessoal, ou a inveja, ou a sentimentos de animosidade vingativa. Não à primeira, pois com a exceção de muito poucos que são meus amigos íntimos, e o eram antes de serem conhecidos como autores, tive pouco outro conhecimento de personagens literários do que o que pode estar implícito numa introdução acidental, ou encontro casual numa companhia mista. E na medida em que as palavras e os olhares podem ser confiados, devo acreditar que, mesmo nestes casos, eu não despertara qualquer disposição hostil. Nem por carta, nem em conversa, tive alguma vez disputa ou controvérsia para além do comum intercâmbio social de opiniões. Aliás, onde tive razões para supor as minhas convicções fundamentalmente diferentes, foi meu hábito, e posso acrescentar, o impulso da minha natureza, indicar os fundamentos da minha crença, em vez da crença em si; e não expressar dissidência, até que pudesse estabelecer alguns pontos de completa simpatia, alguns fundamentos comuns a ambos os lados, a partir dos quais começar a sua explicação.

Ainda menos posso colocar estes ataques à conta da inveja. As poucas páginas que publiquei são de data demasiado distante, e a extensão da sua venda uma prova demasiado conclusiva contra terem sido populares em qualquer altura, para tornar provável, quase diria possível, a excitação da inveja por causa delas; e o homem que me invejasse por qualquer outro motivo, em verdade, ele deve ser louco de inveja!

Por último, com tão pouca aparência de razão, poderia eu suspeitar de qualquer animosidade contra mim, advinda de sentimentos vingativos, como causa. Já disse antes que o meu conhecimento de literatos tem sido limitado e distante; e que não tive nem disputas nem controvérsias. Desde a minha primeira entrada na vida, vivi, com intervalos poucos e curtos, ou no estrangeiro ou na aposentadoria. Os meus diversos ensaios sobre assuntos de interesse nacional, publicados em diferentes épocas, primeiro no Morning Post e depois no Courier, com os meus cursos de conferências sobre os princípios da crítica tal como aplicados a Shakespeare e Milton, constituem toda a minha publicidade; as únicas ocasiões em que poderia ofender qualquer membro da república das letras. Com uma única exceção em que as minhas palavras foram primeiro mal citadas e depois levianamente aplicadas a um indivíduo, nunca pude saber que tivesse despertado o desagrado de qualquer um dos meus contemporâneos literários. Tendo anunciado a minha intenção de dar um curso de conferências sobre os méritos e defeitos característicos da poesia inglesa nas suas diferentes eras; primeiro, de Chaucer a Milton; segundo, de Dryden inclusive a Thomson; e terceiro, de Cowper aos dias de hoje; mudei o meu plano e limitei a minha dissertação aos dois períodos anteriores, para que não pudesse fornecer qualquer pretexto possível para que os irrefletidos interpretassem mal, ou os malignos aplicassem mal as minhas palavras, e, tendo-lhes estampado o seu próprio significado, as fizessem passar como moeda corrente nos mercados da tagarelice ou da difamação.

Os louvores aos indignos são sentidos pelas mentes ardentes como roubos aos merecedores; e é demasiado verdadeiro, e demasiado frequente, que Bacon, Harrington, Machiavel e Spinoza não são lidos, porque Hume, Condillac e Voltaire o são. Mas em companhia promíscua, nenhum homem prudente contrariará os méritos de um contemporâneo no seu próprio departamento suposto; contentando-se em elogiar, por sua vez, aqueles que considera excelentes. Se eu alguma vez considerasse meu dever opor-me às pretensões de indivíduos, opor-me-ia a eles em livros que pudessem ser pesados e respondidos, nos quais pudesse desenvolver a totalidade das minhas razões e sentimentos, com os seus devidos limites e modificações; não em conversas irrecuperáveis, onde, por mais fortes que fossem as razões, os sentimentos que as suscitaram seriam certamente atribuídos por alguém à inveja e ao descontentamento. Além disso, sei bem, e confio em ter agido com base nesse conhecimento, que devem ser os ignorantes e os injudiciosos que exaltam os indignos; e os elogios de críticos sem gosto ou discernimento são a recompensa natural de autores sem sentimento ou génio. Sint unicuique sua praemia.

Como então, descartando, como faço, estas três causas, devo explicar os ataques, cuja longa continuação e inveterabilidade exigiriam todas as três para explicar? A solução parece ser esta: — eu tinha hábitos de intimidade com o Sr. Wordsworth e o Sr. Southey! Isto, contudo, transfere, em vez de remover, a dificuldade. Seja que, por uma extensão inescrupulosa do velho adágio, noscitur a socio, os meus amigos literários nunca estão sob a cascata da crítica sem que eu tenha de ficar encharcado com o spray; ainda assim, como veio a torrente a descer sobre eles?

Primeiro, então, no que diz respeito ao Sr. Southey. Lembro-me bem da receção geral das suas primeiras publicações; a saber, os poemas publicados com o Sr. Lovell sob os nomes de Moschus e Bion; os dois volumes de poemas sob o seu próprio nome, e a Joan of Arc. As censuras dos críticos de profissão existem e podem ser facilmente consultadas: — versos descuidados, desigualdade no mérito dos diferentes poemas e (nas obras mais ligeiras) uma predileção pelo estranho e caprichoso; em suma, tais falhas como poderiam ter sido antecipadas num escritor jovem e rápido, foram de facto suficientemente reforçadas. Nem faltou naquela época um espírito de partido para agravar os defeitos de um poeta que, com toda a coragem da juventude não corrompida, tinha declarado o seu zelo por uma causa que considerava ser a da liberdade, e a sua aversão à opressão, qualquer que fosse o nome por que fosse consagrada. Mas foi tão pouco objetado pelos outros, como sonhado pelo próprio poeta, que ele preferisse versos descuidados e prosaicos por regra e premeditação, ou, de facto, que pretendesse qualquer outra arte ou teoria de dicção poética, exceto aquela que todos podemos aprender de Horácio, Quintiliano, o admirável diálogo De Oratoribus, geralmente atribuído a Tácito, ou as Prolusions de Strada; se é que o bom senso natural e o estudo precoce dos melhores modelos na sua própria língua não tivessem infundido as mesmas máximas de forma mais segura e, se me atrevo a usar a expressão, mais vital. Tudo o que poderia ter sido deduzido de forma justa era que, no seu gosto e estimativa dos escritores, o Sr. Southey concordava muito mais com Thomas Warton do que com o Dr. Johnson. Nem pretendo negar que, em todos os momentos, o Sr. Southey foi da mesma opinião que Sir Philip Sidney, ao preferir uma excelente balada no estilo mais humilde da poesia a vinte poemas indiferentes que se pavoneavam no mais elevado. E pelo que têm sido caracterizadas as suas obras, publicadas desde então, cada uma mais notavelmente do que a anterior, senão por maior esplendor, um pathos mais profundo, reflexões mais profundas e uma dignidade mais sustentada de linguagem e de métrica? Distante pode estar o período, mas sempre que chegar o tempo em que todas as suas obras forem recolhidas por algum editor digno de ser o seu biógrafo, confio que um apêndice de excerpta de todas as passagens, nas quais os seus escritos, nome e caráter foram atacados, a partir dos panfletos e obras periódicas dos últimos vinte anos, possa ser um acompanhamento. Contudo, que se revelaria medicinal em tempos futuros, não ouso esperar; pois enquanto houver leitores a deleitar-se com a calúnia, encontrar-se-ão revisores para caluniar. E tais leitores tornar-se-ão, com toda a probabilidade, mais numerosos, à medida que uma difusão ainda maior da literatura produza um aumento de sciolistas, e o sciolismo traga consigo petulância e presunção. Nos velhos tempos, os livros eram como oráculos religiosos; à medida que a literatura avançava, tornaram-se depois veneráveis preceptores; desceram então ao nível de amigos instrutivos; e, à medida que o seu número aumentava, desceram ainda mais para o de companheiros de entretenimento; e, atualmente, parecem degradados a criminosos para levantar as mãos na barra de todo o juiz autoeleito, ainda que não menos peremptório, que escolhe escrever por humor ou interesse, por inimizade ou arrogância, e submeter-se à decisão "daquele que lê com malícia, ou daquele que lê depois do jantar".

O mesmo movimento retrógrado pode ser traçado na relação que os próprios autores assumiram para com os seus leitores. Do endereço elevado de Bacon: "estas são as meditações de Francis of Verulam, as quais, para que a posteridade as possuísse, ele considerou ser do interesse dela": ou da dedicatória a Monarca ou Pontífice, em que a honra dada era afirmada em equilíbrio com o patrocínio reconhecido: de Píndaro

------’ep’ alloi-- si d’alloi megaloi: to d’eschaton koryphoutai basilensi. Maeketi paptaine porsion. Eiae se te touton upsou chronon patein, eme te tossade nikaphorois omilein, prophanton sophian kath’ Ellanas eonta panta.--OLYMP. OD. I.

houve um declínio gradual na etiqueta ou estilo permitido de pretensão.

Poetas e Filósofos, tornados hesitantes pelo seu próprio número, dirigiam-se a "leitores doutos"; depois visavam conciliar as graças do "leitor cândido"; até que, o crítico subindo à medida que o autor descia, os amadores da literatura coletivamente foram erigidos numa municipalidade de juízes, e tratados como a Cidade! E agora, finalmente, sendo todos os homens supostos capazes de ler, e todos os leitores capazes de julgar, o multidunário Público, moldado em unidade pessoal pela magia da abstração, senta-se como déspota nominal no trono da crítica. Mas, infelizmente! como noutras despotismos, ele apenas ecoa as decisões dos seus ministros invisíveis, cujas pretensões intelectuais à guarda das Musas parecem, na maior parte, análogas às qualificações físicas que adaptam os seus irmãos orientais para a superintendência do Harém. Assim, diz-se que São Nepomuc foi instalado como guardião das pontes porque tinha caído de uma e se afundado fora de vista; assim também se diz que Santa Cecília foi primeiro propiciada pelos músicos porque, tendo falhado nas suas próprias tentativas, tinha ganhado uma aversão à arte e a todos os seus professores de sucesso. Mas terei provavelmente ocasião, mais tarde, de expor as minhas convicções de forma mais ampla sobre este estado de coisas, e as suas influências no gosto, génio e moralidade.

No Thalaba, no Madoc e, ainda mais evidentemente, no único [16] Cid, no Kehama e, como último, assim o melhor, o Roderick; Southey deu prova abundante, se cogitare quam sit magnum dare aliquid in manus hominum: nec persuadere sibi posse, non saepe tractandum quod placere et semper et omnibus cupiat. Mas, por outro lado, concebo que o Sr. Southey era totalmente incapaz de compreender em que poderia consistir o crime ou malefício de imprimir meia dúzia ou mais de poemas lúdicos; ou, para falar de forma mais geral, composições que seriam apreciadas ou ignoradas, conforme o gosto e o humor do leitor pudessem calhar ser; desde que não contivessem nada de imoral. Na era atual, periturae parcere chartae é enfaticamente uma exigência desarrazoada. A bagatela mais simples que ele alguma vez enviou para o mundo tinha dez vezes melhores reivindicações à sua tinta e papel do que todas as críticas tolas sobre ela, que provaram não mais do que o facto de o crítico não ser um daqueles para quem a bagatela foi escrita; e do que todas as exortações graves a uma maior reverência pelo público — como se a página passiva de um livro, ao ter um epigrama ou um conto de doggerel impresso nela, assumisse instantaneamente poder de locomoção e uma espécie de ubiquidade, de modo a esvoaçar e zumbir no ouvido do público para o incómodo doloroso da referida personagem misteriosa. Mas o que confere um absurdo adicional e mais ridículo a estas lamentações é o facto curioso de que, se num volume de poesia o crítico encontrar um poema ou passagem que considera mais especialmente sem valor, ele tem a certeza de o selecionar e reimprimir na revista; pelo que, nas suas próprias bases, desperdiça muito mais papel do que o autor, à medida que as cópias de uma revista da moda são mais numerosas do que as do livro original; em alguns, e esses os exemplos mais proeminentes, como dez mil para quinhentos. Não conheço nada que supere a vileza de decidir sobre os méritos de um poeta ou pintor — (não por defeitos característicos; pois onde há génio, estes apontam sempre para as suas belezas características; mas) — por falhas acidentais ou passagens defeituosas; exceto a impudência de a defender, como o dever adequado e a parte mais instrutiva da crítica. Omitir ou passar levemente pela expressão, graça e agrupamento das figuras de Rafael; mas ridicularizar em detalhe as agulhas de tricotar e os cabos de vassoura que devem representar árvores nos seus fundos; e nunca o deixar ouvir o fim dos seus potes de barro! Admitir que o Allegro e Penseroso de Milton não são sem mérito; mas pagar a si próprio por esta concessão reimprimindo na íntegra os dois poemas sobre o University Carrier! Como um espécime justo dos seus Sonetos, citar

“A Book was writ of late called Tetrachordon;”

e, como característico do seu ritmo e métrica, citar a sua tradução literal do primeiro e segundo Salmo! Para se justificar, só precisa de afirmar que, se tivesse incidido principalmente sobre as belezas e excelências do poeta, a admiração destas poderia seduzir a atenção de futuros escritores dos objetos do seu amor e admiração para uma imitação dos poucos poemas e passagens em que o poeta era mais diferente de si próprio.

Mas até que as revisões sejam conduzidas com princípios muito diferentes e com motivos muito diferentes; até que, em lugar de ditames arbitrários e escárnios petulantes, os revisores apoiem as suas decisões por referência a cânones fixos de crítica, previamente estabelecidos e deduzidos da natureza do homem; as mentes refletidas pronunciá-lo-ão arrogância da parte deles anunciarem-se assim aos homens de letras como os guias do seu gosto e julgamento. Para o comprador e mero leitor, é, em todo o caso, uma injustiça. Aquele que me diz que existem defeitos numa nova obra, não me diz nada que eu não devesse ter tomado como certo sem a sua informação. Mas aquele que aponta e elucida as belezas de uma obra original, esse sim dá-me informação interessante, tal como a experiência não me teria autorizado a antecipar. E quanto a composições que os próprios autores anunciam com

Haec ipsi novimus esse nihil,

por que deveríamos julgar por uma regra diferente duas obras impressas, apenas porque um autor está vivo e o outro na sua sepultura? Que literato não lamentou o pudor de Spratt ao recusar deixar o seu amigo Cowley aparecer em chinelos e robe? Não sou talvez o único que derivou um divertimento inocente das adivinhas, enigmas, versos de três sílabas e coisas semelhantes de Swift e dos seus correspondentes, em horas de languidez, quando ter lido as suas obras mais acabadas teria sido inútil para mim e, de certa forma, um ato de injustiça para com o autor. Mas estou sem saber por que perversidade de julgamento estas relaxações do seu génio poderiam ser empregues para diminuir a sua fama como autor de Gulliver ou do Tale of a Tub. Se o Sr. Southey tivesse escrito duas vezes mais poemas de mérito inferior, ou interesse parcial, do que os que animaram os jornais do dia, eles teriam acrescentado à sua honra junto dos homens bons e sábios, não meramente ou principalmente como prova da versatilidade dos seus talentos, mas como evidências da pureza daquela mente que, mesmo nas suas leviandades, nunca ditou uma linha que tivesse de lamentar por qualquer razão moral.

Transferi na imaginação para o futuro biógrafo o dever de contrastar a fama fixa e bem merecida de Southey com o abuso e a hostilidade infatigável dos seus críticos anónimos desde a sua juventude até à sua varonilidade mais madura. Mas não posso pensar tão mal da natureza humana para não acreditar que estes críticos já se envergonharam, quer considerem o objeto do seu abuso no seu caráter moral ou literário. Pois reflita apenas na variedade e extensão das suas aquisições! Ele não é inferior a ninguém, seja como historiador ou como bibliógrafo; e quando o considero como um ensaísta popular — (pois os artigos das suas composições nas revisões são, na maior parte, ensaios sobre assuntos de profundo ou curioso interesse, em vez de críticas sobre obras particulares) — procuro em vão por qualquer escritor que tenha transmitido tanta informação, de tantas e tão recônditas fontes, com tantas reflexões justas e originais, num estilo tão vivo e pungente, mas tão uniformemente clássico e perspicaz; ninguém, em suma, que tenha combinado tanta sabedoria com tanto engenho; tanta verdade e conhecimento com tanta vida e fantasia. A sua prosa é sempre inteligível e sempre divertida. Na poesia, tentou quase todas as espécies de composição conhecidas anteriormente, e acrescentou novas; e se excetuarmos a mais alta lírica — (em que quão poucas, quão muito poucas, mesmo das maiores mentes, foram afortunadas) — ele tentou todas as espécies com sucesso; desde a canção política do dia, lançada no transbordamento lúdico de alegria honesta e exultação patriótica, até à balada selvagem; da facilidade epistolar e narrativa graciosa, à declamação moral austera e impetuosa; dos encantos pastoris e luzes selvagens e fluentes do Thalaba, em que o sentimento e a imagética deram permanência até à excitação da curiosidade; e do brilho total do Kehama — (uma galeria de pinturas acabadas numa peça de fantasia esplêndida, na qual, no entanto, a grandeza moral se eleva gradualmente acima do brilho da coloração e da audácia e novidade da maquinaria) — às belezas mais sóbrias do Madoc; e, por último, do Madoc ao seu Roderick, no qual, mantendo todas as suas anteriores excelências de um poeta eminentemente inventivo e pitoresco, superou-se a si próprio na linguagem e métrica, na construção do todo e no esplendor de passagens particulares.

Concluirei então aqui? Não! Os caracteres dos falecidos, como os encômios em lápides, tal como são descritos com ternura religiosa, são lidos com simpatia condescendente, é verdade, mas ainda assim com dedução racional. Existem homens que merecem um registro superior; homens com cujos caracteres é de interesse dos seus contemporâneos, não menos que da posteridade, que se tome conhecimento; enquanto ainda é possível para a censura imparcial, e até para a inveja de visão aguçada, examinar o relato sem ofensa às cortesias da humanidade; e enquanto o eulogista, detectado em exagero ou falsidade, deve pagar a penalidade total da sua baixeza no desprezo que marca o adulador convicto. Publicamente, o Sr. Southey foi vilipendiado por homens que, como eu gostaria de esperar pela honra da natureza humana, lançaram tições contra uma figura da sua própria imaginação; publicamente, os seus talentos foram depreciados, os seus princípios denunciados; tão publicamente, portanto, eu, que o conheci intimamente, considero meu dever deixar registrado que é a felicidade quase inigualável de Southey possuir os melhores dons do talento e do génio, livres de todos os seus defeitos característicos. Para aqueles que se lembram do estado das nossas escolas públicas e universidades há uns vinte anos, parecerá não ser um louvor comum em qualquer homem ter passado da inocência à virtude, não só livre de todo o hábito vicioso, mas imaculado por um único ato de intemperança, ou das degradações afins à intemperança. Esse esquema de cabeça, coração e comportamento habitual, que na sua juventude e nos seus primeiros escritos controversos, Milton, reivindicando o privilégio da autodefesa, afirma de si mesmo, e desafia os seus caluniadores a desmentir; disto testemunharão os seus colegas de escola, os seus companheiros de colégio e os seus amigos mais maduros, com uma confiança proporcional à intimidade do seu conhecimento, como sendo novamente realizado na vida de Robert Southey. Mas ainda mais surpreendente para aqueles que, pela biografia ou pela sua própria experiência, estão familiarizados com os hábitos gerais do génio, parecerá a indústria e a perseverança inigualáveis do poeta nas suas atividades; a dignidade e o valor dessas atividades; a sua submissão generosa a tarefas de interesse transitório, ou tais como apenas o seu génio poderia tornar de outra forma; e que, tendo assim mais do que satisfeito as exigências do afeto ou da prudência, ele tenha ainda encontrado tempo e poder para realizar mais, e em departamentos mais variados, do que quase qualquer outro escritor, embora empregado totalmente em assuntos da sua própria escolha e ambição. Mas, como Southey possui, e não é possuído pelo seu génio, assim também é ele mestre até das suas virtudes. O teor regular e metódico dos seus trabalhos diários, que seria considerado raro nas atividades mais mecânicas, e poderia ser invejado pelo simples homem de negócios, perde toda a aparência de formalidade na digna simplicidade dos seus modos, no vigor e na alegria saudável dos seus espíritos. Sempre empregado, os seus amigos encontram-no sempre livre. Não menos pontual nas ninharias do que firme no desempenho dos deveres mais elevados, ele não inflige nenhuma daquelas pequenas dores e desconfortos que os homens irregulares espalham ao seu redor, e que, no conjunto, tantas vezes se tornam obstáculos formidáveis tanto à felicidade quanto à utilidade; enquanto, pelo contrário, ele concede todos os prazeres e inspira toda a tranquilidade de espírito naqueles ao seu redor ou ligados a ele, que a perfeita consistência e (se tal palavra pudesse ser forjada) a confiabilidade absoluta, tanto nos pequenos quanto nos grandes assuntos, não pode deixar de inspirar e conceder; quando isto também é suavizado, sem ser enfraquecido, pela bondade e pela gentileza. Conheço poucos homens que tão bem mereçam o caráter que um antigo atribui a Marcus Cato, a saber, que ele era o mais semelhante à virtude, na medida em que parecia agir corretamente, não em obediência a qualquer lei ou motivo exterior, mas pela necessidade de uma natureza feliz, que não poderia agir de outra forma. Como filho, irmão, marido, pai, mestre, amigo, ele move-se com passos firmes mas leves, igualmente despretensioso e igualmente exemplar. Como escritor, ele fez uniformemente com que os seus talentos servissem aos melhores interesses da humanidade, da virtude pública e da piedade doméstica; a sua causa foi sempre a causa da religião pura e da liberdade, da independência nacional e da iluminação nacional. Quando os críticos futuros pesarem a sua recompensa de louvor e censura, será apenas Southey o poeta que lhes fornecerá os escassos materiais para a última. Eles também não deixarão de registrar que, como nenhum homem foi jamais um amigo mais constante, nenhum poeta teve mais amigos e admiradores entre os bons de todos os partidos; e que os charlatães na educação, os charlatães na política e os charlatães na crítica foram os seus únicos inimigos.

CAPÍTULO IV

As Lyrical Ballads com o Prefácio--Os poemas anteriores do Sr. Wordsworth--Sobre a fantasia e a imaginação--A investigação da distinção é importante para as Belas-Artes.

Vagueei longe do objetivo em vista, mas como imaginei para mim mesmo leitores que respeitariam os sentimentos que me tentaram a sair do caminho principal, ouso contar com não poucos que simpatizarão calorosamente com eles. Por agora, será suficiente para o meu propósito se eu tiver provado que os escritos do Sr. Southey, não mais do que os meus, forneceram a ocasião original para esta ficção de uma nova escola de poesia, e para os clamores contra os seus supostos fundadores e prosélitos.

Tão pouco acredito que as Lyrical Ballads do Sr. Wordsworth tenham sido, por si mesmas, a causa. Falo exclusivamente dos dois volumes assim intitulados. Um exame cuidadoso e repetido destes confirma-me na crença de que a omissão de menos de cem versos teria impedido nove décimos da crítica sobre esta obra. Arrisco esta declaração, contudo, sob a suposição de que o leitor a tenha tomado, como teria feito com qualquer outra coleção de poemas que pretenda derivar os seus assuntos ou interesses dos incidentes da vida doméstica ou comum, entrelaçados com tensões mais elevadas de meditação que o poeta profere na sua própria pessoa e caráter; com a condição de que estes poemas foram lidos sem conhecimento ou referência às opiniões peculiares do autor, e que o leitor não teve a sua atenção previamente dirigida para essas peculiaridades. Nesse caso, como aconteceu realmente com as obras anteriores do Sr. Southey, os versos e passagens que poderiam ter ofendido o gosto geral teriam sido considerados como meras desigualdades, e atribuídos à desatenção, não à perversidade de juízo. Os homens de negócios que passaram as suas vidas principalmente nas cidades, e de quem se poderia, portanto, esperar que derivassem o maior prazer de notas agudas sobre homens e costumes, expressas numa linguagem fácil, porém correta e incisiva; e todos aqueles que, lendo pouca poesia, são mais estimulados por aquela espécie dela que parece mais distante da prosa, teriam provavelmente ignorado os volumes por completo. Outros, mais católicos no seu gosto, e ainda assim habituados a serem mais agradados quando mais excitados, ter-se-iam contentado em decidir que o autor tinha sido bem-sucedido na proporção da elevação do seu estilo e assunto. Não poucos, talvez, poderiam, pela sua admiração das Lines written near Tintern Abbey, on revisiting the Wye, aquelas Left upon a Yew Tree Seat, The Old Cumberland Beggar e Ruth, ter sido gradualmente levados a ler com sentimento semelhante The Brothers, The Hart-leap Well e quaisquer outros poemas nessa coleção que possam ser descritos como ocupando um lugar intermédio entre aqueles escritos no estilo mais elevado e aqueles no mais humilde; como, por exemplo, entre o Tintern Abbey e The Thorn, ou Simon Lee. Se o seu gosto não se submetesse a mais nenhuma mudança, e ainda permanecesse irreconciliado com as frases coloquiais, ou as imitações delas, que estão, mais ou menos, espalhadas pela classe mencionada por último; ainda assim, mesmo do pequeno número destas, tê-las-iam considerado apenas como uma subtração insignificante ao mérito de toda a obra; ou, o que por vezes não é desagradável na publicação de um novo escritor, como servindo para verificar a tendência natural, e consequentemente a direção adequada, do génio do autor.

Nas observações críticas, portanto, prefixadas e anexadas às Lyrical Ballads, creio que podemos descansar com segurança como a verdadeira origem da oposição inigualável que os escritos do Sr. Wordsworth têm estado desde então condenados a enfrentar. As passagens mais humildes nos próprios poemas foram objeto de reflexão e citadas para justificar a rejeição da teoria. O que em si mesmas e por si mesmas teria sido esquecido ou perdoado como imperfeições, ou pelo menos falhas comparativas, provocou hostilidade direta quando anunciado como intencional, como o resultado de uma escolha após plena deliberação. Assim, os poemas, admitidos por todos como excelentes, juntamente com aqueles que tinham agradado à grande maioria, embora formassem dois terços de toda a obra, em vez de serem considerados (como em toda a justiça deveriam ter sido, mesmo que tomemos como garantido que o leitor julgou corretamente) uma compensação pelas poucas exceções, deram vento e combustível à animosidade contra ambos, os poemas e o poeta. Em toda a perplexidade há uma porção de medo, que predispõe a mente para a raiva. Não sendo capazes de negar que o autor possuía tanto génio quanto um intelecto poderoso, sentiam-se muito positivos — mas ainda assim não tinham a certeza absoluta de que ele pudesse não estar no certo, e eles próprios no errado; um estado de espírito inquieto, que busca alívio ao brigar com a ocasião que o provoca, e por maravilhar-se com a perversidade do homem que tinha escrito um longo e argumentativo ensaio para convencê-los de que

Fair is foul, and foul is fair;

por outras palavras, que eles tinham passado toda a sua vida a admirar sem juízo, e estavam agora prestes a censurar sem razão.

Que esta conjetura não está longe da verdade, sou levado a acreditar pelo facto notável, que posso afirmar por conhecimento próprio, de que a mesma censura geral foi baseada por quase cada pessoa diferente em algum poema diferente. Entre aqueles cuja candura e julgamento estimo muito, recordo-me distintamente de seis que expressaram as suas objeções às Lyrical Ballads quase nas mesmas palavras, e totalmente com o mesmo propósito, ao mesmo tempo admitindo que vários dos poemas lhes tinham dado grande prazer; e, por mais estranho que possa parecer, a composição que um citou como execrável, outro citou como a sua favorita. Estou, de facto, convencido na minha própria mente de que, se a mesma experiência pudesse ter sido tentada com estes volumes, como foi feita na bem conhecida história do quadro, o resultado teria sido o mesmo; as partes que tinham sido cobertas por manchas pretas num dia, seriam encontradas igualmente albo lapide notatae no seguinte.

Seja como for, era certamente duro e injusto fixar a atenção em alguns poemas separados e isolados com tanta aversão como se tivessem sido tantas manchas de peste em toda a obra, em vez de passar por eles em silêncio, como tanto papel em branco, ou folhas de um catálogo de livreiro; especialmente porque ninguém fingiu ter encontrado neles qualquer imoralidade ou indelicadeza; e os poemas, portanto, no pior dos casos, só poderiam ser considerados como tantas moedas leves ou inferiores num rolo de ouro, não como tanto metal vil numa massa de ouro puro. Um amigo cujos talentos tenho na mais alta estima, mas cujo julgamento e forte bom senso tive ocasião quase contínua de reverenciar, fazendo-me as habituais queixas sobre o estilo e os assuntos dos poemas menores do Sr. Wordsworth; admiti que havia alguns poucos contos e incidentes nos quais eu próprio não conseguia encontrar uma causa suficiente para terem sido registrados em metro. Mencionei Alice Fell como um exemplo; “Não”, replicou o meu amigo com uma rapidez de modos mais do que habitual, “não posso concordar consigo aí! — esse, admito, parece-me um poema notavelmente agradável.” Nas Lyrical Ballads, (pois a minha experiência não me permite estender a observação igualmente sem qualificações aos dois volumes subsequentes,) ouvi em diferentes momentos, e de diferentes indivíduos, cada poema único ser exaltado e reprovado, com a exceção daqueles de tipo mais elevado, que, como foi observado antes, parecem ter ganho louvor universal. Este facto, por si só, ter-me-ia tornado hesitante nas minhas censuras, se um fundamento ainda mais forte não tivesse sido fornecido pelo estranho contraste do calor e da longa continuidade da oposição com a natureza das faltas declaradas como justificativas da mesma. As faltas sedutoras, os dulcia vitia de Cowley, Marini ou Darwin poderiam razoavelmente ser pensadas como capazes de corromper o juízo público durante meio século, e exigir uma guerra de vinte anos, campanha após campanha, a fim de destronar o usurpador e restabelecer o gosto legítimo. Mas que uma simplicidade absoluta, sob a afetação da simplicidade, palavras prosaicas em metro fraco, pensamentos tolos em frases infantis, e uma preferência por associações e caracteres mesquinhos, degradantes ou, na melhor das hipóteses, triviais, pudessem ter sucesso em formar uma escola de imitadores, uma companhia de admiradores quase religiosos, e isto também entre jovens de mentes ardentes, educação liberal, e não

------com louros académicos não conferidos;

e que esta falsificação nua e crua da poesia, que é caracterizada como abaixo da crítica, devesse, durante quase vinte anos, ter quase engolido a crítica, como o alvo principal, se não o único, de resenhas, revistas, panfletos, poemas e parágrafos; isto é, de facto, motivo de espanto. De ainda maior espanto é que a disputa deva ainda continuar tão indecisa como aquela entre Baco e as rãs em Aristófanes; quando o primeiro desceu aos reinos dos mortos para trazer de volta o espírito da antiga e genuína poesia;--

CH. Brekekekex, koax, koax. D. All’ exoloisth’ auto koax. Ouden gar est’ all’, hae koax. Oimozet’ ou gar moi melei. CH. Alla maen kekraxomestha g’, oposon hae pharynx an haemon chandanae di’ haemeras, brekekekex, koax, koax! D. Touto gar ou nikaesete. CH. Oude men haemas su pantos. D. Oude maen humeis ge dae m’ oudepote. Kekraxomai gar, kan me deae, di’ haemeras, eos an humon epikrataeso tou koax! CH. Brekekekex, KO’AX, KOAX!

Durante o último ano da minha residência em Cambridge, 1794, tomei conhecimento da primeira publicação do Sr. Wordsworth intitulada Descriptive Sketches; e raramente, se alguma vez, a emergência de um génio poético original acima do horizonte literário foi anunciada de forma mais evidente. Na forma, estilo e maneira de todo o poema, e na estrutura dos versos e períodos particulares, há uma aspereza e acerbidade ligadas e combinadas com palavras e imagens todas resplandecentes, que poderiam lembrar aqueles produtos do mundo vegetal, onde flores magníficas surgem de uma casca e invólucro duros e espinhosos, dentro dos quais o fruto rico se está a elaborar. A linguagem não é apenas peculiar e forte, mas por vezes nodosos e contorcida, como pela sua própria força impaciente; enquanto a novidade e a multidão agitada de imagens, agindo em conjunto com as dificuldades do estilo, exigem sempre uma maior proximidade de atenção do que a poesia — em todo o caso, do que a poesia descritiva — tem o direito de reivindicar. Não raras vezes justificou, portanto, a queixa de obscuridade. No extrato seguinte, por vezes imaginei ver um emblema do próprio poema, e do génio do autor tal como era exibido então.--

É tempestade; e ocultas em névoa de hora a hora, Todo o dia as cheias despejam um murmúrio profundo; O céu está velado, e cada visão alegre Escura é a região como com a noite que se avizinha; Contudo, que súbito rebentar de luz avassaladora! Triunfante no seio da tempestade, Reluz a forma circular da águia vestida de fogo; Para leste, em longa perspectiva cintilante, brilham Os penhascos coroados de árvores que sobre o lago se reclinam; Esses penhascos orientais cem correntes revelam, De uma vez transformadas em pilares que flamejam com ouro; Atrás da sua vela o camponês esforça-se por evitar O oeste, que queima como um sol dilatado, Onde num poderoso cadinho expiram As montanhas, brilhantes de calor, como brasas de fogo.

A Psique poética, no seu processo para o pleno desenvolvimento, sofre tantas mudanças quanto a sua homónima grega, a borboleta. E é notável quão cedo o génio se limpa e se purifica das faltas e erros dos seus primeiros produtos; faltas que, nas suas primeiras composições, são tanto mais intrusivas e confluentes porque, como elementos heterogéneos que tinham apenas um uso temporário, constituem a própria fermentação pela qual eles próprios são eliminados. Ou podemos compará-las a algumas doenças, que devem atuar sobre os humores e ser expelidas para a superfície, a fim de garantir o paciente contra a sua recorrência futura. Eu estava no meu vigésimo quarto ano quando tive a felicidade de conhecer o Sr. Wordsworth pessoalmente, e enquanto a memória durar, dificilmente esquecerei o efeito súbito produzido na minha mente pela sua recitação de um poema manuscrito, que ainda permanece inédito, mas do qual a estrofe e o tom de estilo eram os mesmos que os de The Female Vagrant, tal como originalmente impresso no primeiro volume das Lyrical Ballads. Não havia aqui qualquer marca de pensamento forçado, ou dicção forçada, nenhuma multidão ou turbulência de imagética; e, como o próprio poeta bem descreveu nas suas Lines on revisiting the Wye, a reflexão viril e as associações humanas tinham dado tanto variedade quanto um interesse adicional a objetos naturais, que, na paixão e apetite do primeiro amor, lhe tinham parecido não necessitar nem permitir. As obscuridades ocasionais, que tinham surgido de um controlo imperfeito sobre os recursos da sua língua materna, tinham quase desaparecido inteiramente, juntamente com aquele defeito pior de frases arbitrárias e ilógicas, ao mesmo tempo gastas e fantásticas, que ocupam um lugar tão distinto na técnica da poesia comum, e que, mais ou menos, contaminarão os primeiros poemas do génio mais verdadeiro, a menos que a atenção tenha sido especialmente dirigida para a sua falta de valor e incongruência. Não percebi nada de particular no estilo puro do poema aludido durante a sua recitação, exceto, na verdade, tal diferença que não era separável do pensamento e da maneira; e a estrofe spenseriana, que sempre, mais ou menos, recorda à mente do leitor o próprio estilo de Spenser, teria sem dúvida autorizado, na minha opinião de então, uma descida mais frequente às frases da vida comum do que poderia, sem um efeito negativo, ter sido arriscado no dístico heroico. Não foi, contudo, a liberdade do falso gosto, quer quanto a defeitos comuns, quer quanto àqueles mais propriamente seus, que fez uma impressão tão incomum nos meus sentimentos imediatamente, e subsequentemente no meu juízo. Foi a união do sentimento profundo com o pensamento profundo; o fino equilíbrio da verdade ao observar, com a faculdade imaginativa ao modificar os objetos observados; e acima de tudo o dom original de espalhar o tom, a atmosfera, e com ela a profundidade e a altura do mundo ideal em torno de formas, incidentes e situações de que, para a visão comum, o costume tinha obscurecido todo o lustre, tinha secado o brilho e as gotas de orvalho.

Esta excelência, que em todos os escritos do Sr. Wordsworth é mais ou menos predominante, e que constitui o caráter da sua mente, não a senti sem logo procurar compreendê-la. Meditações repetidas levaram-me primeiro a suspeitar — (e uma análise mais íntima das faculdades humanas, das suas marcas, funções e efeitos apropriados, amadureceu a minha conjectura em plena convicção) — que a Fantasia e a Imaginação eram duas faculdades distintas e amplamente diferentes, em vez de serem, segundo a crença geral, ou dois nomes com um só significado, ou, quando muito, o grau inferior e o superior de uma e a mesma potência. Não é, confesso, fácil conceber uma tradução mais apropriada do grego phantasia do que o latim imaginatio; mas é igualmente verdade que em todas as sociedades existe um instinto de crescimento, um certo bom senso coletivo e inconsciente, trabalhando progressivamente para desinonimizar aquelas palavras originalmente com o mesmo significado, que o confluir de dialetos forneceu às línguas mais homogéneas, como o grego e o alemão: e que a mesma causa, unida a acidentes de tradução de obras originais de diferentes países, ocasiona em línguas mistas como a nossa. O primeiro e mais importante ponto a provar é que duas conceções perfeitamente distintas são confundidas sob uma e a mesma palavra, e — feito isto — apropriar essa palavra exclusivamente a um significado, e o sinónimo, se houver, ao outro. Mas se — (como frequentemente será o caso nas artes e ciências) — não existir sinónimo, devemos inventar ou pedir emprestada uma palavra. No presente caso, a apropriação já começou, e foi legitimada no adjetivo derivativo: Milton tinha uma mente altamente imaginativa, Cowley uma mente muito fantasiosa. Se, portanto, eu conseguir estabelecer a existência real de duas faculdades geralmente diferentes, a nomenclatura ficaria de imediato determinada. À faculdade pela qual caracterizei Milton, deveríamos confinar o termo "imaginação"; enquanto a outra seria contradistinta como "fantasia". Ora, se fosse uma vez plenamente averiguado que esta divisão não está menos fundamentada na natureza do que a do delírio da mania, ou a de Otway:

Alaúdes, louros, mares de leite e navios de âmbar,

da de Shakespeare:

Que! terão suas filhas levado-o a tal estado?

ou da apóstrofe precedente aos elementos; a teoria das belas-artes, e da poesia em particular, não poderia deixar de obter alguma luz adicional e importante. Forneceria, nos seus efeitos imediatos, uma tocha de orientação ao crítico filosófico; e, em última instância, ao próprio poeta. Em mentes enérgicas, a verdade transforma-se rapidamente, por domesticação, em poder; e, de dirigir na discriminação e avaliação do produto, torna-se influente na produção. Admirar por princípio é a única forma de imitar sem perda de originalidade.

Já foi sugerido que a metafísica e a psicologia são há muito o meu cavalo de batalha. Mas ter um cavalo de batalha e ser vaidoso dele são coisas tão comumente encontradas juntas, que passam quase pelo mesmo. Confio, portanto, que haverá mais bom humor do que desprezo no sorriso com que o leitor castiga a minha autocomplacência, se confesso a minha incerteza sobre se a satisfação advinda da perceção de uma verdade nova para mim não terá sido tornada mais pungente pela vaidade de que seria igualmente satisfatória para o público. Houve um tempo, certamente, em que me atribuí algum pequeno crédito, na crença de que tinha sido o primeiro dos meus compatriotas a apontar o significado diverso de que os dois termos eram capazes, e a analisar as faculdades a que deveriam ser apropriados. O recente volume de sinónimos do Sr. W. Taylor ainda não vi; mas a sua especificação dos termos em questão foi claramente demonstrada como sendo insuficiente e errónea pelo Sr. Wordsworth no Prefácio adicionado à recente coleção dos seus Poemas. A explicação que o próprio Sr. Wordsworth deu diferirá da minha, talvez principalmente porque os nossos objetos são diferentes. Dificilmente poderia acontecer de outra forma, dada a vantagem que desfrutei de conversas frequentes com ele sobre um assunto ao qual um poema seu chamou a minha atenção pela primeira vez, e sobre o qual as minhas conclusões ele tornou mais lúcidas para mim por muitos exemplos felizes extraídos da operação dos objetos naturais sobre a mente. Mas o propósito do Sr. Wordsworth era considerar as influências da fantasia e da imaginação tal como se manifestam na poesia, e a partir dos diferentes efeitos concluir a sua diversidade em espécie; ao passo que o meu objetivo é investigar o princípio seminal, e então, a partir da espécie, deduzir o grau. O meu amigo desenhou um esboço magistral dos ramos com os seus frutos poéticos. Desejo acrescentar o tronco, e até as raízes, na medida em que se elevam acima do solo e são visíveis ao olho nu da nossa consciência comum.

Contudo, mesmo nesta tentativa, estou ciente de que serei obrigado a recorrer mais largamente à atenção do leitor do que uma miscelânea tão imetódica como esta pode autorizar; quando em tal obra (a Política Eclesiástica) de uma tal mente como a de Hooker, o autor judicioso, embora não menos admirável pela perspicuidade do que pelo porte e dignidade da sua linguagem — e embora escrevesse para homens de saber numa era erudita — viu contudo ocasião para antecipar e precaver-se contra "queixas de obscuridade", sempre que tinha de traçar o seu tema "até à nascente e fonte mais alta". A qual, (continua ele) "porque os homens não estão acostumados, as dores que tomamos são muito mais necessárias do que aceitáveis; e os assuntos que tratamos parecem, por causa da novidade (até que a mente se torne mais familiarizada com eles), obscuros e intrincados." Eu pouparia, portanto, de bom grado a mim e aos outros este trabalho, se soubesse como, sem ele, apresentar uma exposição inteligível do meu credo poético — não como as minhas opiniões, que não pesam nada, mas como deduções de premissas estabelecidas, transmitidas sob uma forma calculada quer para efetuar uma convicção fundamental, quer para receber uma refutação fundamental. Se me atrevo a adotar mais uma vez as palavras de Hooker, "aqueles a quem pareceremos tediosos, de modo algum são prejudicados por nós, porque está nas suas próprias mãos poupar esse trabalho que não estão dispostos a suportar." Aqueles, pelo menos, permitam-me acrescentar, que se deram a tanto trabalho para me tornar ridículo por uma perversão de gosto, e que sustentaram a acusação atribuindo-me noções estranhas sem outra autoridade que não as suas próprias conjecturas, devem a si mesmos, assim como a mim, não recusar a sua atenção à minha própria exposição da teoria que reconheço; ou recuar perante o trabalho de examinar os fundamentos nos quais a apoio, ou os argumentos que ofereço na sua justificação.

CAPÍTULO V

Sobre a lei da Associação — A sua história traçada de Aristóteles a Hartley.

Houve homens em todas as épocas que foram impelidos, como por um instinto, a propor a sua própria natureza como um problema, e que devotaram os seus esforços à sua solução. O primeiro passo foi construir uma tabela de distinções, que parecem ter formado sobre o princípio da ausência ou presença do Livre-arbítrio. As nossas várias sensações, perceções e movimentos foram classificados como ativos ou passivos, ou como meios que participam de ambos. Uma distinção ainda mais fina foi logo estabelecida entre o voluntário e o espontâneo. Nas nossas perceções, parecemos a nós mesmos meramente passivos a um poder externo, seja como um espelho que reflete a paisagem, ou como uma tela em branco sobre a qual uma mão desconhecida a pinta. Pois é digno de nota que este último, ou o sistema do Idealismo, pode ser traçado a fontes tão remotas quanto o primeiro, ou Materialismo; e Berkeley pode gabar-se de uma ascendência pelo menos tão venerável quanto a de Gassendi ou Hobbes. Estas conjecturas, contudo, sobre o modo como as nossas perceções se originaram, não poderiam alterar a diferença natural entre Coisas e Pensamentos. Nas primeiras, a causa parecia inteiramente externa, enquanto nos segundos, por vezes a nossa vontade interferia como causa produtora ou determinante, e por vezes a nossa natureza parecia agir por um mecanismo próprio, sem qualquer esforço consciente da vontade, ou mesmo contra ela. As nossas experiências interiores foram assim arranjadas em três classes separadas: o sentido passivo, ou o que os Escolásticos chamam a qualidade meramente recetiva da mente; o voluntário; e o espontâneo, que ocupa o lugar intermédio entre ambos. Mas não está na natureza humana meditar sobre qualquer modo de ação sem inquirir sobre a lei que o governa; e, na explicação dos movimentos espontâneos do nosso ser, o metafísico tomou a dianteira sobre o anatomista e o filósofo natural. No Egito, Palestina, Grécia e Índia, a análise da mente tinha atingido o seu meio-dia e maturidade, enquanto a investigação experimental ainda estava no seu alvorecer e infância. Durante muitos, muitíssimos séculos, tem sido difícil avançar uma nova verdade, ou mesmo um novo erro, na filosofia do intelecto ou da moral. Com relação, contudo, às leis que dirigem os movimentos espontâneos do pensamento e ao princípio do seu mecanismo intelectual, existe, tem-se afirmado, uma exceção importante, muito honrosa para os modernos, e no mérito da qual o nosso próprio país reivindica a maior parte. Sir James Mackintosh — (que, entre a variedade dos seus talentos e conhecimentos, não goza de menos reputação pela profundidade e precisão das suas investigações filosóficas do que pela eloquência com que se diz tornar claros os seus resultados mais difíceis, e atraentes os mais áridos) — afirmou nas Conferências proferidas por ele em Lincoln’s Inn Hall, que a lei da associação, estabelecida na contemporaneidade das impressões originais, formava a base de toda a verdadeira psicologia; e que qualquer ciência ontológica ou metafísica, não contida em tal psicologia (isto é, empírica), não passava de uma teia de abstrações e generalizações. Desta verdade prolífica, desta grande lei fundamental, declarou ele que Hobbes fora o descobridor original, enquanto a sua plena aplicação a todo o sistema intelectual devíamos a Hartley; que estava na mesma relação para com Hobbes que Newton para com Kepler; sendo a lei da associação para a mente o que a gravitação é para a matéria.

Quanto à primeira cláusula desta afirmação, no que respeita aos méritos comparativos dos antigos metafísicos, incluindo os seus comentadores, os Escolásticos, e dos filósofos modernos, britânicos e franceses, de Hobbes a Hume, Hartley e Condillac, este não é o lugar para falar. Tão largo é, de facto, o abismo entre o credo filosófico de Sir James Mackintosh e o meu, que, longe de podermos dar as mãos, dificilmente conseguiríamos tornar as nossas vozes inteligíveis um ao outro: e construí-lo exigiria mais tempo, habilidade e poder do que julgo possuir. Mas a última cláusula envolve, na sua maior parte, uma mera questão de facto e de história, e a precisão da afirmação deve ser aferida por documentos, mais do que pelo raciocínio.

Primeiro, então, nego a pretensão de Hobbes in toto: pois ele tinha sido antecipado por Des Cartes, cuja obra De Methodo precedeu a De Natura Humana de Hobbes em mais de um ano. Mas o que é de muito maior importância, Hobbes não constrói nada sobre o princípio que anunciou. Ele nem sequer o anuncia como diferindo em qualquer aspeto das leis gerais do movimento material e impacto: nem era, de facto, possível para ele fazê-lo, de forma compatível com o seu sistema, que era exclusivamente material e mecânico. Muito diferente é o caso de Des Cartes; por muito que ele também, nos seus escritos posteriores (e ainda mais flagrantemente os seus seguidores De la Forge e outros), tenha obscurecido a verdade pelas suas tentativas de explicá-la com a teoria dos fluidos nervosos e configurações materiais. Mas, na sua interessante obra, De Methodo, Des Cartes relata a circunstância que o levou pela primeira vez a meditar sobre este tema, e que desde então tem sido frequentemente notada e empregue como instância e ilustração da lei. Uma criança que, com os olhos vendados, perdera vários dos seus dedos por amputação, continuou a queixar-se durante muitos dias sucessivamente de dores, ora nesta articulação, ora naquela, dos próprios dedos que tinham sido cortados. Des Cartes foi levado por este incidente a refletir sobre a incerteza com que atribuímos qualquer lugar particular a qualquer dor ou desconforto interior, e procedeu, após longa consideração, a estabelecê-lo como uma lei geral: que impressões contemporâneas, sejam imagens ou sensações, recordam-se mecanicamente. Sobre este princípio, como base, ele construiu todo o sistema da linguagem humana, como um processo contínuo de associação. Mostrou em que sentido não apenas os termos gerais, mas as imagens genéricas — sob o nome de ideias abstratas — existiam realmente, e em que consistem a sua natureza e poder. Como uma palavra pode tornar-se o expoente geral de muitas, assim, por associação, uma imagem simples pode representar toda uma classe. Mas, na verdade, o próprio Hobbes não faz qualquer reivindicação a qualquer descoberta, e introduz esta lei da associação, ou (na sua própria linguagem) discursão da mente, como um facto admitido, na solução do qual, e isto por causas puramente fisiológicas, ele arroga qualquer originalidade. O seu sistema é brevemente este: sempre que os sentidos são atingidos por objetos externos, seja pelos raios de luz refletidos por eles, ou por eflúvios das suas partículas mais finas, resulta um movimento correspondente dos órgãos mais íntimos e subtis. Este movimento constitui uma representação, e permanece uma impressão do mesmo, ou uma certa disposição para repetir o mesmo movimento. Sempre que sentimos vários objetos ao mesmo tempo, as impressões que são deixadas (ou, na linguagem do Sr. Hume, as ideias) ficam ligadas. Sempre que, portanto, qualquer um dos movimentos que constituem uma impressão complexa é renovado através dos sentidos, os outros sucedem-se mecanicamente. Segue-se, necessariamente, portanto, que Hobbes, assim como Hartley e todos os outros que derivam a associação da conexão e interdependência da suposta matéria, cujos movimentos constituem os nossos pensamentos, devem ter reduzido todas as suas formas à lei única do Tempo. Mas nem mesmo o mérito de anunciar esta lei com precisão filosófica pode ser-lhe justamente concedido. Pois os objetos de quaisquer duas ideias não precisam de ter coexistido na mesma sensação para se tornarem mutuamente associáveis. O mesmo resultado seguirá quando apenas uma das duas ideias foi representada pelos sentidos, e a outra pela memória.

Muito antes, porém, de Hobbes ou Des Cartes, a lei da associação tinha sido definida, e as suas funções importantes expostas por Ludovicus Vives. Phantasia, deve notar-se, é empregue por Vives para expressar o poder mental de compreensão, ou a função ativa da mente; e imaginatio para a recetividade (via receptiva) das impressões, ou para a perceção passiva. O poder de combinação ele apropria ao primeiro: "quae singula et simpliciter acceperat imaginatio, ea conjungit et disjungait phantasia." E a lei pela qual os pensamentos são espontaneamente apresentados segue-se assim: "quae simul sunt a phantasia comprehensa, si alterutrum occurrat, solet secum alterum representare." Ao tempo, portanto, subordina ele todas as outras causas excitantes da associação. A alma procede "a causa ad effectum, ab hoc ad instrumentum, a parte ad totum;" daí para o lugar, do lugar para a pessoa, e desta para o que quer que tenha precedido ou seguido, tudo como sendo partes de uma impressão total, cada uma das quais pode recordar a outra. As fontes aparentes "saltus vel transitus etiam longissimos," ele explica pelo facto de o mesmo pensamento ter sido uma parte componente de duas ou mais impressões totais. Assim "ex Scipione venio in cogitationem potentiae Turcicae, propter victorias ejus de Asia, in qua regnabat Antiochus."

Mas de Vives passo imediatamente para a fonte das suas doutrinas, e (tanto quanto podemos julgar pelos restos ainda existentes da filosofia grega) tal como para a primeira, assim para a mais plena e perfeita enunciação do princípio associativo, nomeadamente, para os escritos de Aristóteles; e destes em particular para os tratados De Anima e "De Memoria", que este último pertence à série de ensaios intitulada nas traduções antigas Parva Naturalia. Na medida em que autores posteriores se desviaram das suas doutrinas, ou acrescentaram a elas, parecem-me ter introduzido ou erro ou suposição sem fundamento.

Em primeiro lugar, é de observar que as posições de Aristóteles sobre este assunto não estão misturadas com ficção. O sábio Estagirita não fala de partículas sucessivas propagando movimento como bolas de bilhar, como Hobbes; nem de espíritos nervosos ou animais, onde sólidos inanimados e irracionais são descongelados e destilados, ou filtrados por ascensão, em fluidos vivos e inteligentes, que gravam e regravam gravuras no cérebro, como os seguidores de Des Cartes e os patologistas humorais em geral; nem de um éter oscilante que deveria efetuar o mesmo serviço para os nervos do cérebro considerados como fibras sólidas, que os espíritos animais desempenham para eles sob a noção de tubos ocos, como ensina Hartley — nem finalmente, (com sonhadores ainda mais recentes) de composições químicas por afinidade eletiva, ou de uma luz elétrica que é ao mesmo tempo o objeto imediato e o órgão final da visão interior, que sobe ao cérebro como uma Aurora Boreal, e aí, divertindo-se em várias formas — conforme o equilíbrio de mais e menos, ou negativo e positivo, é destruído ou restabelecido — projeta tanto imagens passadas como presentes. Aristóteles entrega uma teoria justa sem pretender uma hipótese; ou, por outras palavras, uma visão abrangente dos diferentes factos e das suas relações uns com os outros sem suposição, isto é, um facto colocado sob um número de factos, como o seu suporte e explicação comuns; embora na maioria dos casos estas hipóteses ou suposições mereçam melhor o nome de upopoiaeseis, ou suficções. Ele usa, de facto, a palavra kinaeseis para expressar o que chamamos representações ou ideias, mas distingue-as cuidadosamente do movimento material, designando este último sempre anexando as palavras en topo, ou kata topon. Pelo contrário, no seu tratado De Anima, ele exclui o lugar e o movimento de todas as operações do pensamento, sejam representações ou volições, como atributos absoluta e absurdamente heterogéneos.

A lei geral da associação, ou, mais precisamente, a condição comum sob a qual atuam todas as causas excitantes, e na qual podem ser generalizadas, segundo Aristóteles, é esta. As ideias, por terem estado juntas, adquirem um poder de se recordarem mutuamente; ou cada representação parcial desperta a representação total da qual tinha sido parte. Na determinação prática deste princípio comum a recordações particulares, ele admite cinco agentes ou causas ocasionais: primeiro, conexão no tempo, seja simultânea, precedente ou sucessiva; segundo, vizinhança ou conexão no espaço; terceiro, interdependência ou conexão necessária, como causa e efeito; quarto, semelhança; e quinto, contraste. Como uma solução adicional para os aparentes abismos ocasionais na continuidade da reprodução, ele prova que movimentos ou ideias possuindo um ou outro destes cinco caracteres tinham passado pela mente como elos intermédios, suficientemente claros para recordar outras partes das mesmas impressões totais com as quais tinham coexistido, embora não vívidos o suficiente para excitar esse grau de atenção que é necessário para uma recordação distinta, ou, como podemos expressar apropriadamente, pós-consciência. Na associação consiste, então, todo o mecanismo da reprodução das impressões, na Psicologia Aristotélica. É a lei universal da fantasia passiva e da memória mecânica; aquela que fornece a todas as outras faculdades os seus objetos, a todo o pensamento os elementos dos seus materiais.

Ao consultar o excelente comentário de São Tomás de Aquino sobre a Parva Naturalia de Aristóteles, fiquei logo impressionado com a sua estreita semelhança com o Ensaio sobre a Associação de Hume. Os pensamentos principais eram os mesmos em ambos, a ordem dos pensamentos era a mesma, e até as ilustrações diferiam apenas pela substituição ocasional de exemplos mais modernos por Hume. Mencionei a circunstância a vários dos meus conhecidos literários, que admitiram a proximidade da semelhança, e que parecia demasiado grande para ser explicada por mera coincidência; mas acharam improvável que Hume tivesse considerado as páginas do Doutor Angélico dignas de serem folheadas. Mas algum tempo depois, o Sr. Payne mostrou a Sir James Mackintosh alguns volumes estranhos de São Tomás de Aquino, talvez em parte por ter ouvido dizer que ele tinha, nas suas Conferências, proferido um alto elogio a este filósofo canonizado; mas principalmente pelo facto de os volumes terem pertencido ao Sr. Hume, e terem aqui e ali marcas marginais e notas de referência escritas pela sua própria mão. Entre estes volumes estava aquele que contém a Parva Naturalia, na antiga versão latina, envolta e amortalhada no comentário supramencionado.

Resta-me, pois, primeiro, declarar em que ponto Hartley difere de Aristóteles; depois, exibir os fundamentos da minha convicção de que ele apenas divergiu para errar; e, em seguida, como resultado, mostrar, por quais influências da escolha e do juízo o poder associativo se torna memória ou fantasia; e, em conclusão, apropriar os ofícios restantes da mente à razão e à imaginação. Com os meus melhores esforços para ser tão perspicaz quanto a natureza da linguagem permitir sobre tal assunto, solicito sinceramente os bons votos e a paciência amistosa dos meus leitores, enquanto assim sigo “a sondar o meu caminho obscuro e perigoso”.

CAPÍTULO VI

Que o sistema de Hartley, na medida em que difere do de Aristóteles, não é sustentável na teoria, nem fundamentado nos factos.

Das vibrações hipotéticas de Hartley no seu éter oscilante hipotético dos nervos, que é a primeira e mais óbvia distinção entre o seu sistema e o de Aristóteles, direi pouco. Isto, com todas as outras tentativas semelhantes de tornar objeto da visão aquilo que não tem relação com a visão, já foi suficientemente exposto pelo jovem Reimarus, Maasz e outros, como um ultraje aos próprios axiomas da mecânica num esquema cujo mérito consiste em ser mecânico. Se alguma outra filosofia é possível, além da mecânica; e, por outro lado, se o sistema mecânico pode ter qualquer pretensão de ser chamado filosofia; são questões para outro lugar. É, contudo, certo que, enquanto negarmos a primeira e afirmarmos a última, devemos confundir-nos sempre que tentarmos penetrar nos adyta da causalidade; e tudo o que a conjetura laboriosa pode fazer é preencher as lacunas da fantasia. Sob esse despotismo do olho (a emancipação do qual Pitágoras, pelos seus símbolos numerais, e Platão, pelos seus símbolos musicais, e ambos pela disciplina geométrica, almejaram como o primeiro propaideuma da mente) — sob esta forte influência sensorial, sentimo-nos inquietos porque as coisas invisíveis não são objetos de visão; e os sistemas metafísicos, na sua maior parte, tornam-se populares não pela sua verdade, mas na proporção em que atribuem às causas uma suscetibilidade de serem vistas, se apenas os nossos órgãos visuais fossem suficientemente poderosos.

De uma centena de possíveis confutações, que baste uma. Segundo este sistema, a ideia ou vibração a do objeto externo A torna-se associável à ideia ou vibração m do objeto externo M, porque a oscilação a propagou-se de modo a reproduzir a oscilação m. Mas a impressão original de M era essencialmente diferente da impressão A: a menos que, portanto, causas diferentes possam produzir o mesmo efeito, a vibração a nunca poderia produzir a vibração m; e este, portanto, nunca poderia ser o meio pelo qual a e m são associados. Para compreender isto, o leitor atento apenas precisa de ser lembrado de que as ideias são elas próprias, no sistema de Hartley, nada mais do que as suas vibrações configurativas apropriadas. É uma mera ilusão da fantasia conceber a pré-existência das ideias, em qualquer cadeia de associação, como tantas bolas de bilhar de cores diferentes em contacto, de modo que quando um objeto, o taco de bilhar, atinge a primeira ou bola branca, o mesmo movimento propaga-se através da vermelha, verde, azul e preta, e coloca o todo em movimento. Não! Devemos supor a própria força, que constitui a bola branca, para constituir a vermelha ou preta; ou a ideia de um círculo para constituir a ideia de um triângulo; o que é impossível.

Mas pode dizer-se que, pelas sensações provenientes dos objetos A e M, os nervos adquiriram uma disposição para as vibrações a e m, e, portanto, a apenas precisa de ser repetida para reproduzir m. Ora, concederemos, por um momento, a possibilidade de tal disposição num nervo material, o que, contudo, parece pouco menos absurdo do que dizer que um cata-vento adquiriu o hábito de virar para o leste por o vento ter estado tanto tempo nesse quadrante: pois, se for respondido que devemos considerar a circunstância da vida, o que se torna então a filosofia mecânica? E o que é o nervo, senão o seixo que o brincalhão colocou na panela como o primeiro ingrediente do seu caldo de pedra, exigindo apenas sal, nabos e carneiro para o restante! Mas, se deixarmos isto de lado e pressupormos a existência real de tal disposição, dois casos são possíveis. Ou cada ideia tem o seu próprio nervo e oscilação correspondente, ou este não é o caso. Se o último for a verdade, não ganharíamos nada com estas disposições; pois então, tendo cada nervo várias disposições, quando o movimento de qualquer outro nervo é propagado para ele, não haverá fundamento ou causa presente para que a oscilação m surja, em vez de qualquer outra para a qual estava igualmente predisposto. Mas se tomarmos o primeiro, e deixarmos cada ideia ter um nervo próprio, então cada nervo deve ser capaz de propagar o seu movimento para muitos outros nervos; e, novamente, não há razão atribuível para que a vibração m surja, em vez de qualquer outra ad libitum.

É moda sorrir das vibrações e vibratiuncula de Hartley; e a sua obra foi reeditada por Priestley, com a omissão da hipótese material. Mas Hartley era um homem demasiado grande, um pensador demasiado coerente, para que isto tivesse sido feito, quer de forma consistente, quer para qualquer propósito sensato. Pois todas as outras partes do seu sistema, na medida em que são peculiares a esse sistema, uma vez removidas da sua base mecânica, não só perdem o seu apoio principal, mas o próprio motivo que levou à sua adoção. Assim, o princípio da contemporaneidade, que Aristóteles tinha tornado a condição comum de todas as leis da associação, Hartley foi constrangido a representar como sendo ele próprio a única lei. Pois a que lei pode a ação dos átomos materiais estar sujeita, senão a da proximidade no lugar? E a que lei podem os seus movimentos estar sujeitos, senão a do tempo? Novamente, disto resulta inevitavelmente que a vontade, a razão, o juízo e o entendimento, em vez de serem as causas determinantes da associação, devem necessariamente ser representados como as suas criaturas, e entre os seus efeitos mecânicos. Conceba, por exemplo, um largo rio, serpenteando através de um país montanhoso com um número indefinido de correntes, variando e fundindo-se umas nas outras conforme as rajadas sopram, por acaso, da abertura das montanhas. A união temporária de várias correntes numa só, de modo a formar a corrente principal do momento, apresentaria uma imagem precisa da teoria da vontade de Hartley.

Se este tivesse sido realmente o caso, a consequência seria que a nossa vida inteira seria dividida entre o despotismo das impressões exteriores e o da memória insensata e passiva. Pegue na sua lei na sua maior abstração e forma mais filosófica, nomeadamente, que cada representação parcial recorda a representação total da qual era uma parte; e a lei torna-se nula, se não fosse apenas pela sua universalidade. Na prática, seria, de facto, pura anarquia. Considere quão imensa deve ser a esfera de uma impressão total do topo da igreja de St. Paul; e quão rápida e contínua a série de tais impressões totais. Se, portanto, supusermos a ausência de toda a interferência da vontade, da razão e do juízo, uma ou outra de duas consequências deve resultar. Ou as ideias, ou relíquias de tal impressão, imitarão exatamente a ordem da própria impressão, o que seria delírio absoluto: ou qualquer parte dessa impressão poderia recordar qualquer outra parte, e — (como pela lei da continuidade, deve existir em cada impressão total, alguma ou mais partes, que são componentes de alguma outra impressão total seguinte, e assim por diante ad infinitum) — qualquer parte de qualquer impressão poderia recordar qualquer parte de qualquer outra, sem uma causa presente para determinar o que deveria ser. Pois trazer a vontade, ou a razão, como causas da sua própria causa, isto é, como ao mesmo tempo causas e efeitos, pode satisfazer apenas aqueles que, nas suas pretensas evidências de um Deus, tendo primeiro exigido a organização como a única causa e fundamento do intelecto, exigirão então calmamente a pré-existência do intelecto como a causa e base da organização. Há, na verdade, apenas um estado ao qual esta teoria se aplica de todo, nomeadamente, o de total desvario; e mesmo a este aplica-se apenas parcialmente, porque a vontade e a razão talvez nunca estejam totalmente suspensas.

Um caso deste tipo ocorreu numa cidade católica romana na Alemanha, um ano ou dois antes da minha chegada a Goettingen, e não tinha, então, deixado de ser um assunto frequente de conversa. Uma jovem de vinte e quatro ou vinte e cinco anos, que não sabia ler nem escrever, foi acometida por uma febre nervosa; durante a qual, de acordo com as asseverações de todos os padres e monges da vizinhança, ela ficou possuída, e, ao que parecia, por um demónio muito erudito. Ela continuava incessantemente a falar latim, grego e hebraico, em tons muito pomposos e com a mais distinta enunciação. Esta possessão foi tornada mais provável pelo facto conhecido de que ela era ou tinha sido uma herege. Voltaire aconselha humoristicamente o demónio a recusar todo o convívio com médicos; e teria sido mais para a sua reputação se ele tivesse seguido este conselho no presente caso. O caso atraiu a atenção particular de um jovem médico, e, pela sua declaração, muitos fisiologistas e psicólogos eminentes visitaram a cidade e interrogaram o caso no local. Folhas cheias dos seus desvarios foram anotadas da sua própria boca, e verificou-se que consistiam em frases, coerentes e inteligíveis cada uma por si, mas com pouca ou nenhuma conexão entre si. Do hebraico, apenas uma pequena parte pôde ser rastreada até à Bíblia; o restante parecia estar no dialeto rabínico. Qualquer truque ou conspiração estava fora de questão. Não só a jovem tinha sido sempre uma criatura inofensiva e simples; mas ela estava evidentemente a sofrer de uma febre nervosa. Na cidade, na qual ela residia há muitos anos como serva em diferentes famílias, nenhuma solução se apresentou. O jovem médico, contudo, determinou rastrear a sua vida passada passo a passo; pois a própria paciente era incapaz de dar uma resposta racional. Ele acabou por conseguir descobrir o lugar onde os seus pais tinham vivido: viajou até lá, encontrou-os mortos, mas um tio sobrevivente; e dele soube que a paciente tinha sido caridosamente acolhida por um velho pastor protestante aos nove anos de idade, e tinha permanecido com ele alguns anos, até à morte do velho. Deste pastor, o tio nada sabia, exceto que era um homem muito bom. Com grande dificuldade, e após muita busca, o nosso jovem filósofo médico descobriu uma sobrinha do pastor, que tinha vivido com ele como sua governanta, e tinha herdado os seus bens. Ela recordava-se da rapariga; relatou que o seu venerável tio tinha sido demasiado indulgente, e não suportava ouvir a rapariga ser repreendida; que ela estava disposta a tê-la mantido, mas que, após a morte do seu patrono, a própria rapariga recusou-se a ficar. Inquéritos ansiosos foram então, claro, feitos sobre os hábitos do pastor; e a solução do fenómeno foi logo obtida. Pois parecia que era o costume do velho, durante anos, caminhar de um lado para o outro num corredor da sua casa, para o qual a porta da cozinha dava, e ler para si mesmo em voz alta, dos seus livros favoritos. Um número considerável destes ainda estava na posse da sobrinha. Ela acrescentou que ele era um homem muito erudito e um grande hebraísta. Entre os livros, foi encontrada uma coleção de escritos rabínicos, juntamente com vários dos Padres gregos e latinos; e o médico conseguiu identificar tantas passagens com aquelas anotadas à cabeceira da jovem, que nenhuma dúvida poderia restar em qualquer mente racional sobre a verdadeira origem das impressões feitas no seu sistema nervoso.

Este caso autenticado fornece tanto prova como exemplo de que relíquias de sensação podem existir por um tempo indefinido num estado latente, exatamente na mesma ordem em que foram originalmente impressas; e como não podemos racionalmente supor que o estado febril do cérebro atue de outra forma senão como um estímulo, este facto (e não seria difícil apresentar vários do mesmo tipo) contribui para tornar até provável que todos os pensamentos são em si mesmos imperecíveis; e que, se a faculdade inteligente fosse tornada mais abrangente, exigiria apenas uma organização diferente e proporcionada — o corpo celestial em vez do corpo terrestre — para trazer diante de cada alma humana a experiência coletiva de toda a sua existência passada. E este, este, talvez, é o terrível livro do juízo, nos hieróglifos misteriosos do qual cada palavra ociosa está registada! Sim, na própria natureza de um espírito vivo, pode ser mais possível que o céu e a terra passem, do que uma única ação, um único pensamento, seja solto ou perdido dessa corrente viva de causas, com todos os elos da qual, conscientes ou inconscientes, o livre-arbítrio, o nosso único Eu absoluto, é coextensivo e copresente. Mas não me atrevo agora a discorrer mais sobre isto, esperando por um ânimo mais elevado, e um assunto mais nobre, advertido de dentro e de fora que é profanação falar destes “mistérios tois maede phantasteisin, os kalon to taes dikaiosynaes kai sophrosynaes prosopon, kai oute hesperos oute eoos outo kala. To gar horon pros to horomenon syngenes kai homoion poiaesamenon dei epiballein tae thea, ou gar an popote eiden ophthalmos haelion, haelioeidaes mae gegenaemenos oude to kalon an idae psychae, mae kagae genomenae” — para aqueles a cuja imaginação nunca foi apresentado quão bela é a face da justiça e da sabedoria; e que nem a estrela da manhã nem a da tarde são tão belas. Pois, para dirigir a visão corretamente, convém que o observador se tenha tornado congênere e semelhante ao objeto observado. Nunca o olho poderia ter visto o sol, se a sua própria essência não tivesse sido soliforme (isto é, pré-configurada para a luz por uma semelhança de essência com a da luz), “nem pode uma alma não bela alcançar uma intuição da beleza.”

CAPÍTULO VII

Das consequências necessárias da Teoria Hartleiana — Do erro ou equívoco original que obteve a sua admissão — Memoria technica.

Passaremos pela absoluta incompatibilidade de tal lei — se lei pode ser chamada, que seria ela própria escrava de acasos — mesmo com aquela aparência de racionalidade imposta sobre nós pelos fenómenos externos da conduta humana, abstraída da nossa própria consciência. Concordaremos em esquecer isto por um momento, a fim de fixar a nossa atenção naquela subordinação das causas finais às eficientes no ser humano, que flui por necessidade da suposição de que a vontade e, com a vontade, todos os atos de pensamento e atenção são partes e produtos deste mecanismo cego, em vez de serem poderes distintos, cuja função é controlar, determinar e modificar o caos fantasmagórico da associação. A alma torna-se um mero ens logicum; pois, como um ser real separável, seria mais inútil e ridícula do que os gatos no cravo-de-gatos, descritos no Spectator. Pois estes formavam parte do processo; mas, para o esquema de Hartley, a alma está presente apenas para ser beliscada ou acariciada, enquanto os próprios guinchos ou ronronares são produzidos por uma agência totalmente independente e alheia. Envolve todas as dificuldades, toda a incompreensibilidade (se não for, de facto, os emoige dokei, o absurdo), da intercomunhão entre substâncias que não têm uma única propriedade em comum, sem quaisquer das consequências convenientes que subornaram o juízo para a admissão da hipótese Dualista. Consequentemente, este caput mortuum do processo Hartleiano foi rejeitado pelos seus seguidores, e a consciência considerada como um resultado, como uma melodia, o produto comum da brisa e da harpa, embora isto, novamente, seja a mera remoção de um absurdo para dar lugar a outro, igualmente disparatado. Pois o que é harmonia senão um modo de relação, cujo próprio esse é percipi? — um ens rationale, que pressupõe o poder que, ao perceber, a cria? O fio da navalha torna-se uma serra para a visão armada; e as melodias deliciosas de Purcell ou Cimarosa poderiam ser balbucios desconexos para um ouvinte cuja partição do tempo fosse mil vezes mais subtil do que a nossa. Mas este obstáculo também imaginemos ter superado, e “num salto, ultrapassar bem alto todo o limite”. Contudo, de acordo com esta hipótese, a disquisição à qual estou atualmente a solicitar a atenção do leitor pode ser tão verdadeiramente dita como sendo escrita pela igreja de St. Paul quanto por mim: pois é o mero movimento dos meus músculos e nervos; e estes, novamente, são postos em movimento a partir de causas externas igualmente passivas, as quais causas externas estão elas próprias em conexão interdependente com tudo o que existe ou já existiu. Assim, o universo inteiro coopera para produzir o traço mais minúsculo de cada letra, exceto que eu mesmo, e eu apenas, nada tenho a ver com isso, a não ser o mero contemplar sem causa e sem efeito do mesmo, quando está feito. Contudo, dificilmente pode ser chamado um contemplar; pois não é nem um ato nem um efeito; mas uma criação impossível de um algo-nada a partir do seu próprio contrário! É o mero revestimento de mercúrio atrás de um espelho; e nisto apenas consiste o pobre e inútil Eu! A soma total do meu intercâmbio moral e intelectual, dissolvida nos seus elementos, é reduzida à extensão, movimento, graus de velocidade e aquelas cópias diminuídas de movimento configurativo, que formam o que chamamos de noções, e noções de noções. De tal filosofia bem poderia Butler dizer —

A metafísica não passa de um movimento de marioneta Que funciona com parafusos, a noção de uma noção; A cópia de uma cópia e um esboço coxo Antinaturalmente tirado de um pensamento Que falsifica todos os truques pantomímicos, E vira os olhos, como um velho crucifixo; Que troca o que quer que chame Por outro nome, e torna-o verdadeiro ou falso; Transforma verdade em falsidade, falsidade em verdade, Em virtude do dente do Babilónico.

O inventor do relógio, se esta doutrina for verdadeira, não o inventou na realidade; ele apenas observou, enquanto as causas cegas, os únicos verdadeiros artistas, se desenrolavam. Assim deve ter sido também com o meu amigo Allston, quando esboçou o seu quadro do homem morto revivido pelos ossos do profeta Elias. Assim deve ter sido com o Sr. Southey e Lord Byron, quando um se imaginou compondo o seu Roderick, e o outro o seu Childe Harold. O mesmo deve ser válido para todos os sistemas de filosofia; para todas as artes, governos, guerras por mar e por terra; em suma, para todas as coisas que foram ou que serão produzidas. Pois, de acordo com este sistema, não são as afeições e paixões que estão em ação, na medida em que são sensações ou pensamentos. Nós apenas imaginamos que agimos por resoluções racionais, ou motivos prudentes, ou por impulsos de raiva, amor ou generosidade. Em todos estes casos, o agente real é um algo-nada-tudo, que faz tudo o que sabemos, e nada sabe de tudo o que ele próprio faz.

A existência de um espírito infinito, de uma vontade inteligente e santa, deve, neste sistema, ser meros movimentos articulados do ar. Pois, como a função do entendimento humano não é outra senão meramente parecer a si mesmo combinar e aplicar os fenómenos da associação; e como estes derivam toda a sua realidade das sensações primárias; e as sensações, novamente, toda a sua realidade das impressões ab extra; um Deus não visível, audível ou tangível, pode existir apenas nos sons e letras que formam o seu nome e atributos. Se em nós mesmos não existirem tais faculdades como as da vontade e da razão científica, devemos ou ter uma ideia inata delas, o que derrubaria todo o sistema; ou não podemos ter ideia alguma. O processo, pelo qual Hume degradou a noção de causa e efeito num produto cego de ilusão e hábito, na mera sensação da vida que prossegue (nisus vitalis) associada às imagens da memória; este mesmo processo deve ser repetido para a igual degradação de cada ideia fundamental na ética ou teologia.

Longe, muito longe estou de carregar os caracteres morais daqueles que formaram primeiro, ou que adotaram desde então, o sistema, com o ódio destas consequências! É notável quanto ao excelente e piedoso Hartley que, nas provas da existência e dos atributos de Deus, com as quais o seu segundo volume começa, ele não faz referência ao princípio ou aos resultados do primeiro. Mais, ele assume, como seus fundamentos, ideias que, se abraçarmos as doutrinas do seu primeiro volume, não podem existir senão nas vibrações do meio etéreo comum aos nervos e à atmosfera. De fato, a totalidade do segundo volume é, com as pouquíssimas exceções possíveis, independente do seu sistema peculiar. Tão verdadeiro é que a fé, que salva e santifica, é uma energia coletiva, um ato total de todo o ser moral; que o seu sensório vivo está no coração; e que nenhum erro do entendimento pode ser moralmente arguido a menos que tenha procedido do coração. Mas se eles são tais, nenhum homem pode ter certeza no caso de outro, talvez dificilmente até no seu próprio. Daqui segue, por consequência inevitável, que o homem pode, porventura, determinar o que é uma heresia; mas só Deus pode saber quem é um herege. Não se segue, contudo, de forma alguma, que opiniões fundamentalmente falsas sejam inofensivas. Cem causas podem coexistir para formar um antídoto complexo. No entanto, o ferrão da víbora permanece venenoso, embora haja muitos que tenham tomado a coisa má, e ela não os tenha ferido. Alguns, na verdade, parece ter havido, em uma infortunada nação vizinha pelo menos, que abraçaram este sistema com uma visão completa de todas as suas consequências morais e religiosas; alguns—

------que se julgam mais livres, Quando eles, nesta esfera visível e grosseira, Acorrentam o pensamento alado, escarnecendo da ascensão, Orgulhosos na sua baixeza; e enganam a si mesmos Com a vacuidade ruidosa de frases eruditas, Seus fluidos sutis, impactos, essências, Ferramentas que operam por si, efeitos sem causa, e todos Aqueles oniscientes cegos, aqueles escravos onipotentes, Desalojando a criação do seu Deus!

Tais homens precisam de disciplina, não de argumento; devem ser tornados homens melhores, antes que possam tornar-se mais sábios.

A atenção será mais proveitosamente empregada na tentativa de descobrir e expor os paralogismos, pela magia dos quais tal fé pôde encontrar admissão em mentes moldadas para um credo mais nobre. Estes, parece-me, podem ser todos reduzidos a um sofisma como seu gênero comum; o equívoco de tomar as condições de uma coisa pelas suas causas e essência; e o processo, pelo qual chegamos ao conhecimento de uma faculdade, pela própria faculdade. O ar que respiro é a condição da minha vida, não sua causa. Nunca poderíamos ter aprendido que tínhamos olhos senão pelo processo de ver; contudo, tendo visto, sabemos que os olhos devem ter preexistido a fim de tornar possível o processo da visão. Examinemos o esquema de Hartley sob a orientação desta distinção; e descobriremos que a contemporaneidade (Lex Continui de Leibnitz) é o limite e a condição das leis da mente, sendo ela própria antes uma lei da matéria, pelo menos dos fenômenos considerados como materiais. No máximo, é para o pensamento o mesmo que a lei da gravitação é para a locomoção. Em cada movimento voluntário, primeiro contrariamos a gravitação a fim de nos valermos dela. Ela deve existir, para que haja algo a ser contrariado, e que, pela sua reação, possa ajudar a força que é exercida para resistir-lhe. Consideremos o que fazemos quando saltamos. Primeiro resistimos ao poder gravitante por um ato puramente voluntário, e então, por outro ato, voluntário em parte, cedemos a ele a fim de aterrissar no local que havíamos proposto anteriormente a nós mesmos. Ora, que um homem observe sua mente enquanto está compondo; ou, para tomar um caso ainda mais comum, enquanto está tentando recordar um nome; e ele achará o processo completamente análogo. A maioria dos meus leitores terá observado um pequeno inseto aquático na superfície dos riachos, que projeta uma sombra de cinco pontos, orlada com cores prismáticas, no fundo ensolarado do riacho; e terá notado como o pequeno animal ganha o seu caminho contra a corrente, por pulsações alternadas de movimento ativo e passivo, resistindo agora à corrente, e agora cedendo a ela a fim de reunir força e um fulcro momentâneo para uma propulsão ulterior. Este não é um emblema inapto da autoexperiência da mente no ato de pensar. Existem evidentemente dois poderes em ação, que, relativamente um ao outro, são ativos e passivos; e isto não é possível sem uma faculdade intermediária, que é ao mesmo tempo ativa e passiva. Na linguagem filosófica, devemos denominar esta faculdade intermediária, em todos os seus graus e determinações, de IMAGINAÇÃO. Mas, na linguagem comum, e especialmente sobre o assunto da poesia, apropriamos o nome a um grau superior da faculdade, unido a um superior controle voluntário sobre ela.

A contemporaneidade, então, sendo a condição comum de todas as leis da associação, e um elemento componente na materia subjecta, cujas partes devem ser associadas, deve necessariamente ser copresente com todas. Nada, portanto, pode ser mais fácil do que passar por uma mente incauta este companheiro constante de cada uma, como a substância essencial de todas. Mas se apelarmos à nossa própria consciência, descobriremos que até o tempo em si, como causa de um ato particular de associação, é distinto da contemporaneidade, como condição de toda associação. Ao ver uma cavala, pode acontecer que eu pense imediatamente em groselhas, porque ao mesmo tempo comi cavala com groselhas como molho. Sendo a primeira sílaba desta última palavra aquela que coexistira com a imagem da ave assim chamada, posso então pensar em um ganso. No momento seguinte, a imagem de um cisne pode surgir diante de mim, embora eu nunca tivesse visto as duas aves juntas. Nos dois primeiros casos, estou consciente de que a sua coexistência no tempo foi a circunstância que me permitiu recordá-los; e igualmente consciente estou de que o último foi trazido à minha memória pela operação conjunta de semelhança e contraste. Assim é com causa e efeito: assim também com a ordem. Assim, sou capaz de distinguir se foi a proximidade no tempo, ou a continuidade no espaço, que me levou a recordar B à menção de A. Elas não podem ser, de fato, separadas da contemporaneidade; pois isso seria separá-las da própria mente. O ato de consciência é, na verdade, idêntico ao tempo considerado em sua essência. Refiro-me ao tempo per se, como distinto da nossa noção de tempo; pois esta é sempre misturada com a ideia de espaço, que, como o oposto do tempo, é, portanto, sua medida. Não obstante, o acidente de ver dois objetos no mesmo momento, e o acidente de vê-los no mesmo lugar, são duas causas distintas ou distinguíveis: e a verdadeira lei geral prática da associação é esta; que o que quer que torne certas partes de uma impressão total mais vívidas ou distintas que o restante, determinará a mente a recordar estas de preferência a outras igualmente ligadas entre si pela condição comum da contemporaneidade, ou (o que considero um termo mais apropriado e filosófico) da continuidade. Mas a própria vontade, ao confinar e intensificar [25] a atenção, pode arbitrariamente dar vivacidade ou distinção a qualquer objeto que seja; e daqui podemos deduzir a inutilidade, se não o absurdo, de certos esquemas recentes que prometem uma memória artificial, mas que na realidade só podem produzir uma confusão e aviltamento da fantasia. A lógica sã, como a subordinação habitual do indivíduo à espécie, e da espécie ao gênero; o conhecimento filosófico dos fatos sob a relação de causa e efeito; um temperamento alegre e comunicativo que nos predispõe a notar as semelhanças e contrastes das coisas, para que possamos ser capazes de ilustrar uma com a outra; uma consciência tranquila; uma condição livre de ansiedades; boa saúde, e acima de tudo (no que se refere à lembrança passiva) uma digestão saudável; estas são as melhores, estas são as únicas Artes da Memória.

CAPÍTULO VIII

O sistema do Dualismo introduzido por Des Cartes--Refinado primeiro por Spinoza e depois por Leibnitz na doutrina da Harmonia praestabilita--Hilozoísmo--Materialismo--Nenhum destes sistemas, ou qualquer teoria possível de associação, fornece ou substitui uma teoria da percepção, ou explica a formação do associável.

Tanto quanto sei, Des Cartes foi o primeiro filósofo que introduziu a heterogeneidade absoluta e essencial da alma como inteligência, e do corpo como matéria. A suposição e a forma de falar permaneceram, embora a negação de todas as outras propriedades à matéria senão a da extensão, sobre a qual negação se fundamenta todo o sistema do Dualismo, tenha sido há muito tempo refutada. Pois, uma vez que a impenetrabilidade é inteligível apenas como um modo de resistência; sua admissão coloca a essência da matéria em um ato ou poder, que ela possui em comum com o espírito; e corpo e espírito não são, portanto, mais absolutamente heterogêneos, mas podem, sem qualquer absurdo, ser supostos como diferentes modos, ou graus de perfeição, de um substrato comum. A esta possibilidade, contudo, não era moda atentar. A alma era uma substância pensante, e o corpo uma substância que preenche o espaço. Todavia, a ação aparente de um sobre o outro pesava fortemente sobre o filósofo, por um lado; e não menos fortemente pesava, por outro lado, a verdade evidente de que a lei da causalidade se mantém apenas entre coisas homogêneas, isto é, coisas que possuem alguma propriedade comum; e não pode estender-se de um mundo para outro, o seu contrário. Uma análise rigorosa provou que não era menos absurdo do que a questão de saber se a afeição de um homem pela sua esposa jazia a Nordeste ou a Sudoeste do amor que ele nutria pelo seu filho. A doutrina de Leibnitz da harmonia preestabelecida, que ele certamente tomou de Spinoza, que por sua vez tomara a sugestão das máquinas animais de Des Cartes, era, na sua interpretação comum, estranha demais para sobreviver ao inventor--repugnante demais ao nosso senso comum; o qual não tem, de fato, direito a uma voz judicial nos tribunais da filosofia científica; mas cujos sussurros ainda exercem uma forte influência secreta. Mesmo Wolf, o admirador e ilustre sistematizador da doutrina leibniziana, contenta-se em defender a possibilidade da ideia, mas não a adota como parte do edifício.

A hipótese do Hilozoísmo, por outro lado, é a morte de toda fisiologia racional, e de fato de toda ciência física; pois esta requer uma limitação de termos, e não pode consistir com o poder arbitrário de multiplicar atributos por qualidades ocultas. Além disso, não serve a nenhum propósito; a menos que, de fato, uma dificuldade possa ser resolvida multiplicando-a, ou possamos adquirir uma noção mais clara da nossa alma sendo informados de que temos um milhão de almas, e que cada átomo dos nossos corpos tem uma alma própria. Muito mais prudente é admitir a dificuldade de uma vez por todas, e então deixá-la em repouso. Há, de fato, um sedimento no fundo do vaso, mas toda a água acima dele é clara e transparente. O Hilozoísta apenas agita o sedimento, e torna tudo turvo.

Mas não é da natureza do homem, nem do dever do filósofo, desesperar quanto a qualquer problema importante até que, como na quadratura do círculo, a impossibilidade de uma solução tenha sido demonstrada. Como o esse, assumido como originalmente distinto do scire, pode alguma vez unir-se a ele; como o ser pode transformar-se em um conhecer, torna-se concebível sob uma única condição; a saber, se puder ser mostrado que a vis representativa, ou o Senciente, é ele próprio uma espécie de ser; isto é, seja como uma propriedade ou atributo, ou como uma hipóstase ou subsistência própria. O primeiro--que pensar é uma propriedade da matéria sob condições particulares--é, de fato, a suposição do materialismo; um sistema que não poderia deixar de ser patrocinado pelo filósofo, se apenas ele realmente cumprisse o que promete. Mas como qualquer afeição de fora pode metamorfosear-se em percepção ou vontade, o materialista deixou até agora, não apenas tão incompreensível como a encontrou, mas agravou-a em um absurdo compreensível. Pois, admita-se que um objeto de fora pudesse agir sobre o eu consciente, como sobre um objeto consubstancial; ainda assim, tal afeição só poderia engendrar algo homogêneo consigo mesma. O movimento só poderia propagar o movimento. A matéria não tem um Interior. Removemos uma superfície, apenas para encontrar outra. Podemos apenas dividir uma partícula em partículas; e cada átomo compreende em si mesmo as propriedades do universo material. Que qualquer mente reflexiva faça o experimento de explicar a si mesma a evidência das nossas intuições sensoriais, a partir da hipótese de que em qualquer percepção dada existe algo que lhe foi comunicado por um impacto, ou uma impressão ab extra. Em primeiro lugar, pelo impacto sobre o percipiente, ou ens representans, não o objeto em si, mas apenas sua ação ou efeito, passará para o mesmo. Não a língua de ferro, mas suas vibrações, passam para o metal do sino. Ora, na nossa percepção imediata, não é o mero poder ou ato do objeto, mas o objeto em si, que está imediatamente presente. Poderíamos, de fato, tentar explicar este resultado por uma cadeia de deduções e conclusões; mas isso, primeiro, a própria faculdade de deduzir e concluir exigiria igualmente uma explicação; e segundo, que não existe, de fato, tal intermediação por noções lógicas, tais como as de causa e efeito. É o objeto em si, não o produto de um silogismo, que está presente à nossa consciência. Ou explicaríamos esta superveniência do objeto à sensação por uma faculdade produtiva posta em movimento por um impulso; ainda assim, a transição, para o percipiente, do objeto em si, do qual o impulso procedeu, assume um poder que pode permear e possuir totalmente a alma,

E como um Deus por arte espiritual, Ser tudo em tudo, e tudo em cada parte.

E como veio o percipiente aqui? E o que se tornou da Matéria promissora de maravilhas, que deveria realizar todos estes prodígios pela força da mera figura, peso e movimento? O procedimento mais consistente do materialista dogmático é recair na categoria comum dos "corpo-e-alma-ístas"; afetar o misterioso, e declarar todo o processo uma revelação dada, e não para ser compreendida, a qual seria profano examinar de perto demais. Datur non intelligitur. Mas uma revelação não confirmada por milagres, e uma fé não comandada pela consciência, um filósofo pode aventurar-se a deixar de lado, sem suspeitar a si mesmo de qualquer tendência irreligiosa.

Assim, como o materialismo tem sido geralmente ensinado, ele é totalmente ininteligível, e deve todos os seus prosélitos à propensão, tão comum entre os homens, de confundir imagens distintas com conceitos claros; e vice-versa, de rejeitar como inconcebível o que, pela sua própria natureza, é inimaginável. Mas assim que se torna inteligível, deixa de ser materialismo. A fim de explicar o pensamento como um fenômeno material, é necessário refinar a matéria até torná-la uma mera modificação da inteligência, com a dupla função de aparecer e perceber. Mesmo assim o fez Priestley na sua controvérsia com Price. Ele despojou a matéria de todas as suas propriedades materiais; substituiu poderes espirituais; e quando esperávamos encontrar um corpo, eis! não tínhamos nada senão o seu fantasma--a aparição de uma substância defunta!

Não me estenderei mais sobre este assunto; porque ele será (se Deus conceder saúde e permissão) tratado de forma ampla e sistemática em uma obra que venho preparando há muitos anos, sobre o Logos Produtivo humano e divino; com, e como a introdução a, um comentário completo sobre o Evangelho de São João. Para me fazer inteligível na medida em que o meu presente assunto requer, será suficiente observar brevemente.--1. Que toda associação exige e pressupõe a existência dos pensamentos e imagens a serem associados.--2. Que a hipótese de um mundo externo exatamente correspondente àquelas imagens ou modificações do nosso próprio ser, que apenas, segundo este sistema, realmente contemplamos, é um idealismo tão completo quanto o de Berkeley, na medida em que elimina igualmente, talvez em um grau mais perfeito, toda a realidade e imediatidade da percepção, e nos coloca em um mundo onírico de fantasmas e espectros, o enxame inexplicável e a geração equívoca de movimentos nos nossos próprios cérebros.--3. Que esta hipótese nem envolve a explicação, nem exclui a necessidade, de um mecanismo e forças coadequadas no percipiente, que ao toque mais do que mágico do impulso de fora deve criar de novo para si mesmo o objeto correspondente. A formação de uma cópia não é resolvida pela mera preexistência de um original; o copista da Transfiguração de Raffael deve repetir mais ou menos perfeitamente o processo de Raffael. Seria fácil explicar um pensamento a partir da imagem na retina, e esta a partir da geometria da luz, se esta própria luz não apresentasse a mesma dificuldade. Poderíamos, com a mesma racionalidade, entoar o credo bramânico da tartaruga que sustentava o urso, que sustentava o elefante, que sustentava o mundo, ao som de "Esta é a casa que Jack construiu". O sic Deo placitum est, todos admitimos como a causa suficiente, e a bondade divina como a razão suficiente; mas uma resposta ao Donde e Porquê não é uma resposta ao Como, que é o único interesse do fisiologista. É um sophisma pigrum, e (como disse Bacon) a arrogância da pusilanimidade, que ergue o ídolo da fantasia de um mortal e nos ordena cair e adorá-lo, como uma obra da sabedoria divina, um ancile ou paládio caído do céu. Pelo mesmo argumento, os defensores do sistema ptolomaico poderiam ter repelido o newtoniano, e apontando para o céu com um sorriso autocomplacente [26], ter apelado ao senso comum, se o sol não se movia e a terra permanecia imóvel.

CAPÍTULO IX

A Filosofia é possível como ciência, e quais são suas condições?--Giordano Bruno--Aristocracia Literária, ou a existência de um pacto tácito entre os eruditos como uma ordem privilegiada--As obrigações do Autor para com os Místicos--para com Immanuel Kant--A diferença entre a letra e o espírito dos escritos de Kant, e uma defesa da prudência no ensino da Filosofia--A tentativa de Fichte de completar o sistema Crítico--Seu sucesso parcial e fracasso final--Obrigações para com Schelling; e entre os escritores ingleses para com Saumarez.

Depois que estudei sucessivamente nas escolas de Locke, Berkeley, Leibnitz e Hartley, e não pude encontrar em nenhuma delas um lugar de repouso para a minha razão, comecei a perguntar a mim mesmo: é possível um sistema de filosofia, como diferente da mera história e classificação histórica? Se possível, quais são as suas condições necessárias? Estive por um tempo disposto a responder à primeira pergunta negativamente, e a admitir que o único emprego praticável para a mente humana era observar, colecionar e classificar. Mas logo senti que a própria natureza humana lutava contra esta resignação voluntária do intelecto; e tão logo descobri que o esquema, tomado com todas as suas consequências e limpo de todas as inconsistências, não era menos impraticável do que contranatural. Assuma em toda a sua extensão a posição, nihil in intellectu quod non prius in sensu, assuma-a sem o praeter ipsum intellectum qualificativo de Leibnitz, e no mesmo sentido em que a posição foi entendida por Hartley e Condillac: e então o que Hume deduzira demonstrativamente desta concessão sobre causa e efeito aplicar-se-á com força igual e esmagadora a todas as outras onze formas categóricas [27], e às funções lógicas correspondentes a elas. Como podemos fazer tijolos sem palha; ou construir sem cimento? Aprendemos todas as coisas, de fato, por ocasião da experiência; mas os próprios fatos assim aprendidos forçam-nos para dentro, para os antecedentes que devem ser pressupostos a fim de tornar a própria experiência possível. O primeiro livro do Ensaio de Locke, (se o suposto erro, que ele se esforça por subverter, não for uma mera coisa de palha, um absurdo que nenhum homem jamais acreditou, ou de fato jamais poderia acreditar,) é formado sobre um sophisma heterozaetaeseos, e envolve o velho equívoco de Cum hoc: ergo, propter hoc.

O termo, Filosofia, define-se como uma busca afetuosa pela verdade; mas a Verdade é o correlativo do Ser. Isto, por sua vez, de modo algum é concebível, a não ser assumindo como postulado que ambos são, ab initio, idênticos e coinserentes; que a inteligência e o ser são reciprocamente o substrato um do outro. Presumi que esta era uma concepção possível (isto é, que não envolvia nenhuma inconsonância lógica), devido ao longo tempo durante o qual a definição escolástica do Ser Supremo, como actus purissimus sine ulla potentialitate, foi recebida nas escolas de Teologia, tanto pelos divinos pontifícios quanto pelos reformados. O estudo precoce de Platão e Plotino, com os comentários e a THEOLOGIA PLATONICA do ilustre florentino; de Proclo e Gemistius Pletho; e, num período posterior, do De Immenso et Innumerabili e do “De la causa, principio et uno” do filósofo de Nola, que pôde gabar-se de um Sir Philip Sidney e Fulke Greville entre os seus patronos, e a quem os idólatras de Roma queimaram como ateu no ano de 1600; tudo isso contribuiu para preparar a minha mente para a recepção e o acolhimento do Cogito quia Sum, et Sum quia Cogito; uma filosofia de aparente ousadia, mas certamente a mais antiga e, portanto, presuntivamente a mais natural.

Por que hei de ter medo? Dizei antes: como ouso envergonhar-me do teosofista teutônico, Jacob Behmen? Muitas, na verdade, e grosseiras foram as suas ilusões; e tais que fornecem frequente e ampla ocasião para o triunfo dos eruditos sobre o pobre sapateiro ignorante, que ousara pensar por si mesmo. Mas, enquanto lembramos que essas ilusões eram tais como se poderia prever devido à sua absoluta falta de toda disciplina intelectual e à sua ignorância da psicologia racional, não se esqueça que este último defeito ele partilhava com os teólogos mais eruditos da sua época. Não convivia com livros, nem com homens versados em livros. Um quietista manso e tímido, os seus poderes intelectuais nunca foram estimulados a uma energia febril por multidões de prosélitos ou pela ambição de fazer prosélitos. Jacob Behmen era um entusiasta, no sentido mais estrito, não meramente distinguido, mas contradistinto de um fanático. Enquanto traduzo em parte as observações seguintes de um escritor contemporâneo do Continente, permiti-me premissar que eu poderia ter transcrito a substância de memorandos meus, que foram escritos muitos anos antes de o seu panfleto ser dado ao mundo; e que prefiro as palavras de outro às minhas, em parte como um tributo devido à prioridade da publicação; mas ainda mais pelo prazer da simpatia num caso em que apenas a coincidência era possível.

Quem quer que esteja familiarizado com a história da filosofia, durante os últimos dois ou três séculos, não pode deixar de admitir que parece ter existido uma espécie de pacto secreto e tácito entre os eruditos, de não ultrapassar um certo limite na ciência especulativa. O privilégio do livre pensamento, tão altamente exaltado, em momento algum foi considerado válido na prática real, exceto dentro deste limite; e nem um único passo além dele jamais foi aventurado sem trazer opróbrio sobre o transgressor. Os poucos homens de génio entre a classe dos eruditos, que realmente ultrapassaram esta fronteira, evitaram ansiosamente a aparência de o terem feito. Portanto, a verdadeira profundidade da ciência e a penetração até ao centro mais íntimo, de onde divergem todas as linhas do conhecimento para a sua circunferência sempre distante, foram abandonadas aos iletrados e aos simples, a quem um anseio incessante e uma efervescência original de espírito tinham instigado à investigação do fundamento interior e vivo de todas as coisas. Estes, então, porque os seus nomes nunca tinham sido inscritos nas corporações dos eruditos, foram perseguidos pelos funcionários registrados como intrusos nos seus direitos e privilégios. Todos, sem distinção, foram estigmatizados como fanáticos e fantasistas; não apenas aqueles cujas imaginações selvagens e exorbitantes tinham, na verdade, gerado apenas fantasmas extravagantes e grotescos, e cujas produções eram, na maior parte, cópias pobres e caricaturas grosseiras da inspiração genuína; mas também os verdadeiramente inspirados, os originais eles próprios. E isto por nenhuma outra razão, senão porque eram os não eruditos, homens de ocupações humildes e obscuras. Quando, e de quem entre os literatos por profissão, ouvimos alguma vez a doxologia divina repetida: Graças te dou, ó Pai! Senhor do Céu e da Terra! porque escondeste estas coisas aos sábios e prudentes, e as revelaste aos pequeninos [28]. Não; os altivos sacerdotes do saber não só baniram das escolas e dos mercados da ciência todos os que tinham ousado tirar águas vivas da fonte, mas expulsaram-nos do próprio Templo, que, entretanto, se permitia que os compradores, os vendedores e os cambistas transformassem num covil de ladrões.

E, contudo, não seria fácil descobrir qualquer fundamento substancial para este orgulho desdenhoso naqueles literatos que mais se distinguiram pelo seu desprezo por Behmen, Thaulerus, George Fox e outros; a menos que seja porque eles sabiam escrever ortograficamente, fazer períodos suaves e tinham as modas da autoria quase literalmente na ponta dos dedos, enquanto os últimos, na simplicidade da alma, faziam das suas palavras ecos imediatos dos seus sentimentos. Daí a frequência, entre eles, daquelas frases que foram confundidas com pretensões à inspiração imediata; como, por exemplo: “Foi-me entregue;” — “Esforcei-me para não falar;” — “Disse: estarei calado;” — “Mas a palavra estava no meu coração como um fogo ardente;” — “e não pude conter-me.” Daí também a relutância em causar ofensa; daí a previsão e o pavor dos clamores que seriam levantados contra eles, tão frequentemente confessados nos escritos destes homens, e expressos, como era natural, nas palavras do único livro com o qual estavam familiarizados [29]. “Ai de mim, que me tornei um homem de contenda e um homem de discórdia — amo a paz: as almas dos homens são-me caras: contudo, porque busco a luz, cada um deles me amaldiçoa!” Ó! requer sentimentos mais profundos e uma imaginação mais forte do que a que pertence à maioria daqueles para quem o raciocínio e a expressão fluente foram um ofício aprendido na infância, conceber com que força, com que lutas e comoções interiores, a percepção de uma verdade nova e vital toma posse de um homem de génio sem educação. As suas meditações são quase inevitavelmente empregadas no eterno, ou no perene; pois “o mundo não é seu amigo, nem a lei do mundo”. Precisamos então de ficar surpreendidos se, sob uma excitação ao mesmo tempo tão forte e tão invulgar, o corpo do homem simpatize com as lutas da sua mente; ou se ele for, por vezes, tão iludido a ponto de confundir as sensações tumultuosas dos seus nervos, e os espectros coexistentes da sua fantasia, como partes ou símbolos das verdades que se abriam perante ele? Foi, de fato, observação plausível a de que, para derivar qualquer vantagem, ou para colher qualquer significado inteligível dos escritos destes místicos ignorantes, o leitor deve trazer consigo um espírito e um discernimento superiores aos dos próprios escritores:

E o que ele traz, que necessidade tem de buscar alhures?

— um sofisma, com o qual concordo plenamente com Warburton, é indigno de Milton; quanto mais da terrível Pessoa, em cuja boca ele o colocou? Uma afirmação me atreverei a fazer, sugerida pela minha própria experiência, que existem fólios sobre o entendimento humano e a natureza do homem, que teriam um direito muito mais justo à sua elevada posição e celebridade, se no enorme volume inteiro se pudesse encontrar tanta plenitude de coração e intelecto quanto a que irrompeu em muitas páginas simples de George Fox, Jacob Behmen e até mesmo do comentador de Behmen, o piedoso e fervoroso William Law.

O sentimento de gratidão que nutro por estes homens levou-me a divagar mais do que previra ou me propus; mas tê-los omitido num esboço histórico da minha vida literária e das minhas opiniões ter-me-ia parecido como a negação de uma dívida, a ocultação de uma dádiva. Pois os escritos destes místicos agiram, em não pequena medida, para evitar que a minha mente fosse aprisionada dentro do contorno de qualquer sistema dogmático único. Contribuíram para manter vivo o coração na cabeça; deram-me um pressentimento indistinto, porém agitado e operante, de que todos os produtos da mera faculdade reflexiva participavam da morte, e eram como os ramos e galhos secos no inverno, nos quais uma seiva ainda tinha de ser impulsionada a partir de alguma raiz à qual eu não tinha penetrado, se é que haviam de oferecer à minha alma alimento ou abrigo. Se eles foram, demasiadas vezes, uma nuvem de fumo em movimento para mim durante o dia, foram sempre uma coluna de fogo durante toda a noite, durante as minhas errâncias pelo deserto da dúvida, e permitiram-me contornar, sem atravessar, os desertos arenosos da descrença total. Que o sistema é capaz de ser convertido num Panteísmo irreligioso, bem o sei. A Ética de Spinoza pode, ou não, ser um exemplo. Mas em momento algum pude acreditar que, em si mesmo e essencialmente, ele seja incompatível com a religião, natural ou revelada: e agora estou mais profundamente persuadido do contrário. Os escritos do ilustre sábio de Königsberg, o fundador da Filosofia Crítica, mais do que qualquer outra obra, revigoraram e disciplinaram ao mesmo tempo o meu entendimento. A originalidade, a profundidade e a compressão dos pensamentos; a novidade e sutileza, contudo a solidez e importância das distinções; a cadeia adamantina da lógica; e atrever-me-ei a acrescentar — (paradoxo como parecerá àqueles que extraíram a sua noção de Immanuel Kant dos Críticos e dos franceses) — a clareza e evidência da Crítica da Razão Pura; e da Crítica da Faculdade de Julgar; dos Princípios Metafísicos da Ciência da Natureza; e da sua Religião nos Limites da Simples Razão, tomaram posse de mim como que com a mão de um gigante. Após quinze anos de familiaridade com eles, ainda leio estas e todas as suas outras produções com deleite inalterado e crescente admiração. As poucas passagens que me permaneceram obscuras, após esforços devidos de pensamento (como o capítulo sobre a apercepção original), e as aparentes contradições que ocorrem, descobri logo serem pistas e insinuações referentes a ideias que KANT ou não considerou prudente confessar, ou que considerou consistentemente deixadas para trás numa análise pura, não da natureza humana in toto, mas apenas do intelecto especulativo. Aqui, portanto, ele foi constrangido a começar no ponto da reflexão, ou consciência natural: enquanto no seu sistema moral ele tinha permissão para assumir um terreno mais elevado (a autonomia da vontade) como um postulado dedutível do comando incondicional, ou (na linguagem técnica da sua escola) o imperativo categórico da consciência. Ele esteve em perigo iminente de perseguição durante o reinado do último rei da Prússia, aquele estranho composto de libertinagem desenfreada e superstição dominada por padres: e é provável que ele tivesse pouca inclinação, na sua velhice, para repetir as fortunas e as fugas por um triz de Wolf. A expulsão do primeiro entre os discípulos de Kant, que tentou completar o seu sistema, da Universidade de Jena, com o confisco e a proibição da obra censurável pelos esforços conjuntos das cortes da Saxônia e de Hannover, forneceu prova experimental de que a cautela do venerável velho não era infundada. Apesar, portanto, das suas próprias declarações, nunca pude acreditar que fosse possível ele não ter querido dizer nada mais com o seu Noumenon, ou Coisa em si, do que as suas meras palavras expressam; ou que, na sua própria concepção, ele confinasse todo o poder plástico às formas do intelecto, deixando para a causa externa, para o materiale das nossas sensações, uma matéria sem forma, o que é sem dúvida inconcebível. Nutri dúvidas também sobre se, na sua própria mente, ele chegou a colocar todo o peso, que parece colocar, nos postulados morais.

Uma ideia, no sentido mais elevado dessa palavra, não pode ser transmitida senão por um símbolo; e, exceto na geometria, todos os símbolos envolvem necessariamente uma contradição aparente. Phonaese synetoisin: e para aqueles que não podiam penetrar através desta casca simbólica, os seus escritos não eram destinados. Perguntas que não podem ser totalmente respondidas sem expor o respondente a perigo pessoal não têm direito a uma resposta honesta; e, contudo, dizer isto abertamente, forneceria em muitos casos a própria vantagem que o adversário procura insidiosamente. A veracidade não consiste em dizer, mas na intenção de comunicar a verdade; e o filósofo que não pode proferir a verdade inteira sem transmitir falsidade e, ao mesmo tempo, talvez, excitar as paixões mais malignas, é constrangido a expressar-se quer miticamente quer equivocadamente. Quando Kant, portanto, foi importunado para resolver ele próprio as disputas dos seus comentadores, declarando o que queria dizer, como poderia ele recusar as honras do martírio com menos ofensa do que respondendo simplesmente: “Eu quis dizer o que disse, e aos oitenta anos de idade, tenho outras coisas, e mais importantes, a fazer do que escrever um comentário sobre as minhas próprias obras.”

A Wissenschaftslehre, ou Doutrina da Ciência Fundamental de Fichte, devia acrescentar a pedra angular do arco: e ao começar com um ato, em vez de uma coisa ou substância, Fichte deu, certamente, o primeiro golpe mortal ao Espinosismo, tal como ensinado pelo próprio Spinoza; e forneceu a ideia de um sistema verdadeiramente metafísico, e de uma metafísica verdadeiramente sistemática: (isto é, tendo a sua fonte e princípio dentro de si mesmo). Mas esta ideia fundamental ele a sobrecarregou com uma massa pesada de meras noções e atos psicológicos de reflexão arbitrária. Assim, a sua teoria degenerou num egoísmo [30] cru, uma hostilidade gabarola e hiperestoica à Natureza, como inanimada, sem Deus e totalmente impura: ao passo que a sua religião consistia na suposição de uma mera Ordo ordinans, que nos era permitido exoterice chamar DEUS; e a sua ética numa mortificação ascética, e quase monástica, das paixões e desejos naturais. Na Natur-Philosophie de Schelling, e no System des transcendentalen Idealismus, encontrei pela primeira vez uma coincidência genial com muito do que eu tinha labutado para obter por mim mesmo, e um auxílio poderoso no que eu ainda tinha de fazer.

Introduzi esta declaração como apropriada à natureza narrativa deste esboço; contudo, mais em referência à obra que anunciei numa página anterior do que ao meu assunto presente. Seria apenas um mero ato de justiça para comigo mesmo se eu advertisse os meus futuros leitores de que uma identidade de pensamento, ou mesmo uma semelhança de frase, não será em todas as ocasiões uma prova certa de que a passagem foi tomada emprestada de Schelling, ou que as concepções foram originalmente aprendidas com ele. Neste caso, como nas lições dramáticas de Schlegel a que aludi anteriormente, pelo mesmo motivo de autodefesa contra a acusação de plágio, muitas das semelhanças mais marcantes, de fato todas as ideias principais e fundamentais, nasceram e amadureceram na minha mente antes de eu ter visto uma única página do filósofo alemão; e eu poderia, de fato, afirmar com verdade, antes de as obras mais importantes de Schelling terem sido escritas, ou pelo menos tornadas públicas. Nem esta coincidência é de estranhar. Tínhamos estudado na mesma escola; tínhamos sido disciplinados pela mesma filosofia preparatória, nomeadamente, os escritos de Kant; ambos tínhamos obrigações iguais para com a lógica polar e a filosofia dinâmica de Giordano Bruno; e Schelling recentemente, e como uma aquisição recente, professou aquela mesma reverência afetuosa pelos trabalhos de Behmen e outros místicos, que eu tinha formado num período muito anterior. A coincidência do sistema de Schelling com certas ideias gerais de Behmen, ele declara ter sido mera coincidência; enquanto as minhas obrigações têm sido mais diretas. Ele só precisa de ter por Behmen sentimentos de simpatia; enquanto eu lhe devo uma dívida de gratidão. Deus me livre de ser suspeito de um desejo de entrar em rivalidade com Schelling pelas honras que são inequivocamente dele por direito, não apenas como um génio grande e original, mas como o fundador da Filosofia da Natureza, e como o melhorador mais bem-sucedido do Sistema Dinâmico [31] que, iniciado por Bruno, foi reintroduzido (numa forma mais filosófica, e liberto de todas as suas impurezas e acompanhamentos visionários) por Kant; em quem foi o crescimento nativo e necessário do seu próprio sistema. Os seguidores de Kant, contudo, sobre os quais (na maior parte) o manto do seu mestre caíra sem, ou com uma porção muito escassa, do seu espírito, tinham adotado as suas ideias dinâmicas apenas como uma espécie mais refinada de mecânica. Com exceção de uma ou duas ideias fundamentais, que não podem ser negadas a Fichte, a Schelling devemos a conclusão, e as mais importantes vitórias, desta revolução na filosofia. Para mim, será felicidade e honra suficientes se eu conseguir tornar o sistema inteligível aos meus compatriotas, e na sua aplicação aos mais terríveis dos temas para os fins mais importantes. Se uma obra é fruto do próprio espírito de um homem, e produto de um pensamento original, será descoberto por aqueles que são os seus únicos juízes legítimos, por testes melhores do que a mera referência a datas. Para os leitores em geral, que tudo o que for encontrado nesta ou em qualquer obra futura minha, que se assemelhe, ou coincida com, as doutrinas do meu predecessor alemão, embora contemporâneo, seja totalmente atribuído a ele: desde que a ausência de referências distintas aos seus livros, que eu não poderia em todas as ocasiões fazer com verdade como designando citações ou pensamentos realmente derivados dele; e que, confio, seriam, após este reconhecimento geral, supérfluas; não me seja imputada como uma ocultação desonesta ou plágio intencional. Não tenho, de fato (eheu! res angusta domi!), conseguido até agora obter mais do que dois dos seus livros, a saber, o primeiro volume dos seus Tratados reunidos e o seu Sistema do Idealismo Transcendental; aos quais, contudo, devo acrescentar um pequeno panfleto contra Fichte, cujo espírito era, para os meus sentimentos, dolorosamente incongruente com os princípios, e que (com a tolerância habitual concedida a uma antítese) exibia o amor da sabedoria em vez da sabedoria do amor. Considero a verdade como um ventríloquo divino: não me importa de cuja boca se supõe que os sons procedam, se apenas as palavras forem audíveis e inteligíveis. “Embora, devo confessar, esteja na dúvida se devo trazê-lo a público ou não, sendo tão contrário ao olhar do mundo, e o mundo tão potente nos corações da maioria dos homens, que correrei o risco de não ser considerado ou de não ser compreendido.”

E para concluir o assunto da citação, com um conjunto de citações que, como retiradas de livros não de uso comum, podem contribuir para a diversão do leitor, como um voluntário antes de um sermão: “Dolet mihi quidem deliciis literarum inescatos subito jam homines adeo esse, praesertim qui Christianos se profitentur, et legere nisi quod ad delectationem facit, sustineant nihil: unde et discipline severiores et philosophia ipsa jam fere prorsus etiam a doctis negliguntur. Quod quidem propositum studiorum, nisi mature corrigitur, tam magnum rebus incommodum dabit, quam dedit barbaries olim. Pertinax res barbaries est, fateor: sed minus potent tamen, quam illa mollities et persuasa prudentia literarum, si ratione caret, sapientiae virtutisque specie mortales misere circumducens. Succedet igitur, ut arbitror, haud ita multo post, pro rusticana seculi nostri ruditate captatrix illa communi-loquentia robur animi virilis omne, omnem virtutem masculam, profligatura nisi cavetur.”

Uma observação demasiado profética, que esteve em cumprimento desde o ano 1680 até ao presente 1815. Por persuasa prudentia, Grynaeus quer dizer o senso comum autocomplacente, oposto à ciência e à razão filosófica.

Est medius ordo, et velut equestris, ingeniorum quidem sagacium, et commodorum rebus humanis, non tamen in primam magnitudinem patentium. Eorum hominum, ut sic dicam, major annona est. Sedulum esse, nihil temere loqui, assuescere labori, et imagine prudentiae et modistiae tegere angustiores partes captus, dum exercitationem ac usum, quo isti in civilibus rebus pollent, pro natura et magnitudine ingenii plerique accipiunt.

“Assim, portanto, como os médicos são muitas vezes forçados a abandonar métodos de cura que eles próprios sabem ser os mais adequados, e sendo superados pela impaciência do paciente, são obrigados a tentar o melhor que podem: da mesma forma, considerando como está o caso com esta era atual, cheia de língua e fraca de cérebro, eis que cederíamos (se o nosso assunto o permitisse) à corrente da mesma. Dessa maneira, contentar-nos-íamos em provar a nossa tese, que, sendo pior em si mesma, é, no entanto, agora, devido à imbecilidade comum, a mais apta e mais provável de ser suportada.”

Se este temor podia ser racionalmente concebido na era controversa de Hooker, sob a então robusta disciplina da lógica escolástica, perdoavelmente pode um escritor dos tempos atuais antecipar uma escassa audiência para temas abstrusíssimos, e verdades que não podem ser comunicadas nem recebidas sem esforço de pensamento, bem como paciência de atenção.

“Che s’io non erro al calcolar de’ punti, Par ch’ Asinina Stella a noi predomini, E’l Somaro e’l Castron si sian congiunti. Il tempo d’Apuleio piu non si nomini: Che se allora un sol huom sembrava un Asino, Mille Asini a’ miei di rassembran huomini!”

CAPÍTULO X

Um capítulo de digressões e anedotas, como um interlúdio que precede aquele sobre a natureza e a gênese da Imaginação ou Poder Plástico — Sobre pedantismo e expressões pedantes — Conselhos a jovens autores a respeito da publicação — Várias anedotas da vida literária do Autor, e o progresso de suas opiniões em Religião e Política.

“Esemplastic. A palavra não está em Johnson, nem a encontrei em outro lugar.” Tampouco eu. Construí-a eu mesmo a partir das palavras gregas, eis en plattein, dar forma em uma só; porque, tendo de transmitir um novo sentido, pensei que um novo termo auxiliaria tanto a recordação do meu significado, quanto evitaria que fosse confundido com a importação usual da palavra, imaginação. “Mas isto é pedantismo!” Não necessariamente, espero. Se não fui mal informado, o pedantismo consiste no uso de palavras inadequadas ao tempo, ao lugar e à companhia. A linguagem do mercado seria nas escolas tão pedante, embora pudesse não ser reprovada por esse nome, quanto a linguagem das escolas no mercado. O mero homem do mundo, que insiste em que nenhum outro termo senão aqueles que ocorrem na conversação comum deveria ser empregado em uma disquisição científica, e com não maior precisão, é tão verdadeiramente um pedante quanto o homem de letras que, ou superestimando as aquisições de seus auditores, ou iludido por sua própria familiaridade com termos técnicos ou escolásticos, conversa à mesa de vinho com sua mente fixada em seu museu ou laboratório; ainda que este último pedante, em vez de pedir à sua esposa que fizesse o chá, ordenasse-lhe que adicionasse ao quant. suff. de thea Sinensis o óxido de hidrogênio saturado com calórico. Para usar a metáfora coloquial (e, em verdade, um tanto vulgar), se o pedante do claustro e o pedante do átrio cheiram ambos igualmente à oficina, ainda assim o odor da encadernação russa de bons e antigos fólios e quartos de aparência autêntica é menos incômodo do que os vapores da taverna ou do bordel. Mais ainda, embora o pedantismo do erudito deva trair uma pequena ostentação, uma mente bem disposta toleraria mais facilmente, creio eu, a cauda da vaidade erudita do que a sans-culotterie de uma ignorância desprezível, que assume um mérito pela mutilação no escárnio autoconfortável contra o pomposo embaraço das caudas.

A primeira lição da disciplina filosófica é desmamar a atenção do estudante dos graus das coisas, que sozinhos formam o vocabulário da vida comum, e direcioná-la para o gênero abstraído do grau. Assim, o estudante de química é ensinado a não se assustar com disquisições sobre o calor no gelo, ou sobre a luz latente e fixável. Em tal discurso, o instrutor não tem outra alternativa a não ser usar palavras antigas com novos significados (o plano adotado por Darwin em sua Zoonomia); ou introduzir novos termos, seguindo o exemplo de Lineu e dos formuladores da atual nomenclatura química. O último modo é evidentemente preferível, nem que fosse apenas porque o primeiro exige um duplo esforço de pensamento em um mesmo ato. Pois ao leitor, ou ouvinte, é exigido não apenas aprender e ter em mente a nova definição, mas desaprender, e manter fora de sua vista, o significado antigo e habitual; uma tarefa muito mais difícil e desconcertante, e para a qual a mera aparência de evitar o pedantismo parece-me uma compensação inadequada. Onde, de fato, está em nosso poder recordar um termo inapropriado que se tornara obsoleto sem razão suficiente, é sem dúvida um mal menor restaurá-lo do que cunhá-lo novamente. Assim, para expressar em uma palavra tudo o que pertence à percepção, considerada como passiva e meramente receptora, adotei de nossos clássicos mais antigos a palavra sensuous; porque sensual não é atualmente usada, exceto em um sentido ruim, ou pelo menos como uma distinção moral; enquanto sensitive e sensible transmitiriam cada um um significado diferente. Assim também segui Hooker, Sanderson, Milton e outros, ao designar a imediatidade de qualquer ato ou objeto de conhecimento pela palavra intuition, usada às vezes subjetivamente, às vezes objetivamente, da mesma forma que usamos a palavra thought; ora como o pensamento, ou ato de pensar, e ora como um pensamento, ou o objeto de nossa reflexão; e fazemo-lo sem confusão ou obscuridade. As próprias palavras, objetivo e subjetivo, de tal recorrência constante nas escolas de outrora, arrisquei-me a reintroduzir, porque não poderia, de forma tão breve ou conveniente, por meio de termos mais familiares, distinguir o percipere do percipi. Por fim, distingui cautelosamente os termos a razão e o entendimento, encorajado e confirmado pela autoridade de nossos genuínos teólogos e filósofos, antes da Revolução.

------both life, and sense, Fancy and understanding; whence the soul Reason receives, and reason is her being, Discursive or intuitive: discourse Is oftest yours, the latter most is ours, Differing but in degree, in kind the same.

Digo que fui confirmado por autoridade tão venerável: pois eu tinha motivos anteriores e mais elevados em minha própria convicção da importância, mais ainda, da necessidade da distinção, como condição indispensável e parte vital de toda especulação sã em metafísica, ética ou teologia. Estabelecer esta distinção era um objetivo principal de The Friend; se é que em uma biografia da minha própria vida literária posso com propriedade referir-me a uma obra que foi impressa mais do que publicada, ou tão publicada que teria sido melhor para o infeliz autor se tivesse permanecido em manuscrito. Tenho, até hoje, motivos amargos para lembrar aquilo que um número de meus assinantes tem apenas um motivo trivial para esquecer. Esta efusão poderia ter sido poupada; mas eu gostaria de me lisonjear, que o leitor será menos austero do que um professor oriental de bastonada, que, durante uma tentativa de extorquir per argumentum baculinum uma confissão completa de um culpado, interrompeu seu grito de dor lembrando-lhe de que era “uma mera digressão!” “Todo esse ruído, senhor! não vem ao caso, e não é de forma alguma uma resposta às minhas perguntas!” “Ah! mas,” (respondeu o sofredor,) “é a resposta mais pertinente, por natureza, aos seus golpes.”

Um homem imprudente de comum bondade de coração não pode deixar de desejar transformar até mesmo suas imprudências no benefício dos outros, tanto quanto isso seja possível. Se, portanto, qualquer um dos leitores desta semi-narrativa estiver preparando ou pretendendo uma obra periódica, aviso-o, em primeiro lugar, contra confiar no número de nomes em sua lista de assinaturas. Pois ele não pode ter certeza de que os nomes foram colocados por autoridade suficiente; ou, se isso for verificado, ainda resta saber se não foram extorquidos pela importunidade de algum amigo zeloso demais; se o assinante não cedeu seu nome meramente por falta de coragem para responder "não"; e com a intenção de abandonar a obra o mais rápido possível. Um cavalheiro obteve-me quase cem nomes para THE FRIEND, e não apenas aproveitou frequentes oportunidades para me lembrar de seu sucesso em seu recrutamento, mas esforçou-se para imprimir em minha mente o senso da obrigação que eu tinha para com os assinantes; pois, (como ele muito pertinentemente me admoestou,) “cinquenta e dois xelins por ano era uma grande quantia para ser concedida a um indivíduo, onde havia tantos objetos de caridade com fortes reivindicações à assistência dos benevolentes.” Destes cem patronos, noventa abandonaram a publicação antes do quarto número, sem qualquer aviso; embora fosse bem sabido por eles que, em consequência da distância, e da lentidão e irregularidade do transporte, eu era forçado a estocar papel selado com pelo menos oito semanas de antecedência; cada folha do qual me custava cinco pence antes de sua chegada ao meu impressor; embora o dinheiro da assinatura não devesse ser recebido até a vigésima primeira semana após o início da obra; e, por fim, embora fosse, em nove casos de cada dez, impraticável para mim receber o dinheiro de dois ou três números sem pagar uma quantia igual pelo porte postal.

Em confirmação da minha primeira advertência, selecionarei um fato entre muitos. Em minha lista de assinantes, entre um número considerável de nomes igualmente lisonjeiros, estava o de um Conde de Cork, com seu endereço. Ele poderia muito bem ter sido um Conde de Garrafa, pelo que eu sabia dele, que se contentara em reverenciar a nobreza in abstracto, em vez de in concretis. Naturalmente, THE FRIEND era enviado regularmente até, se bem me lembro, o décimo oitavo número; isto é, até uma quinzena antes que a assinatura fosse paga. E eis que, justamente neste momento, recebi uma carta de Sua Senhoria, repreendendo-me em linguagem muito mais senhorial do que cortês pela minha insolência ao dirigir meus panfletos a ele, que nada sabia de mim ou da minha obra! Dezessete ou dezoito números dos quais, no entanto, Sua Senhoria teve a satisfação de reter, provavelmente para as conveniências culinárias ou pós-culinárias de seus criados.

Em segundo lugar, aviso a todos os outros contra a tentativa de desviar-se do modo comum de publicar uma obra pelo comércio. Pensei, de fato, que para o comprador fosse indiferente se trinta por cento do dinheiro da compra ia para os livreiros ou para o governo; e que a conveniência de receber a obra pelo correio em sua própria porta daria preferência ao último. É difícil, admito, ter trabalhado por anos, coletando e organizando os materiais; ter gasto cada xelim que poderia ser poupado depois de supridas as necessidades da vida, comprando livros, ou em viagens com o propósito de consultá-los ou de adquirir fatos na fonte; depois comprar o papel, pagar pela impressão, e coisas do gênero, tudo pelo menos quinze por cento acima do que o comércio teria pago; e depois, apesar de tudo, dar trinta por cento, não dos lucros líquidos, mas dos resultados brutos da venda, a um homem que tem apenas de dar prateleira ou espaço de armazém aos livros, e permitir que seu aprendiz os entregue sobre o balcão àqueles que possam pedi-los; e isto também cópia por cópia, embora, se a obra for sobre qualquer assunto filosófico ou científico, possa levar anos até que a edição seja vendida. Tudo isso, confesso, deve parecer uma dificuldade, e uma à qual os produtos da indústria em nenhum outro modo de exercício estão sujeitos. Contudo, até mesmo isto é melhor, muito melhor, do que tentar de qualquer maneira unir as funções de autor e editor. Mas o modo mais prudente é vender o direito autoral, pelo menos de uma ou mais edições, pelo máximo que o comércio oferecer. Por poucos apenas pode ser esperada uma grande remuneração; mas cinquenta libras e paz de espírito são de mais vantagem real para um homem literário do que a chance de quinhentas com a certeza de insultos e ansiedades degradantes. Terei sido gravemente mal compreendido se esta declaração for interpretada como escrita com o desejo de subtrair algo do caráter dos livreiros ou editores. Os indivíduos não fizeram as leis e os costumes de seu comércio, mas, como em qualquer outro comércio, tomam-nos como os encontram. Até que o mal possa ser provado como removível, e sem a substituição de um inconveniente igual ou maior, não seria sábio nem viril sequer reclamar dele. Mas usá-lo como pretexto para falar, ou até mesmo para pensar, ou sentir, de forma indelicada ou opróbria sobre os comerciantes, como indivíduos, seria algo pior do que imprudente ou até mesmo do que não viril; seria imoral e calunioso. Meus motivos apontam para uma direção muito diferente e para objetivos muito outros, como se verá na conclusão do capítulo.

Um erudito e exemplar velho clérigo, que há muitos anos foi para sua recompensa seguido pelos pesares e bênçãos de seu rebanho, publicou por sua própria conta dois volumes em oitavo, intitulados A NEW THEORY OF REDEMPTION. A obra foi tratada da maneira mais severa na THE MONTHLY ou CRITICAL REVIEW, esqueço qual; e esta hostilidade não provocada tornou-se o tópico favorito de conversação do bom e velho homem entre seus amigos. “Bem!” (ele costumava exclamar,) “na segunda edição, terei a oportunidade de expor tanto a ignorância quanto a malignidade do crítico anônimo.” Dois ou três anos, no entanto, passaram-se sem qualquer notícia do livreiro, que havia empreendido a impressão e publicação da obra, e que estava perfeitamente à vontade, já que o autor era conhecido como um homem de grandes posses. Finalmente, as contas foram solicitadas; e no decorrer de algumas semanas foram apresentadas pelo caixeiro da casa, pessoalmente. Meu velho amigo colocou seus óculos e, segurando o pergaminho com mão não muito firme, começou: — “Papel, tanto: oh, moderado o bastante — nem um pouco além da minha expectativa! Impressão, tanto: bem! moderado o bastante! Costura, capas, anúncios, frete, e assim por diante, tanto.” — Ainda nada de errado. Armazenagem (pois a ortografia não é parte necessária dos conhecimentos literários de um livreiro) £3. 3s. “Deus me livre! apenas três guinéus pelo que você chama — a armazenagem?” “Nada mais, senhor!” respondeu o caixeiro. “Não, mas isso é moderado demais!” replicou meu velho amigo. “Apenas três guinéus para vender mil cópias de uma obra em dois volumes?” “Oh, senhor!” (exclama o jovem viajante) “o senhor confundiu a palavra. Não houve nenhuma delas vendida; elas foram enviadas de volta de Londres há muito tempo; e estes £3. 3s. são pela armazenagem, ou espaço de armazém em nossa cave de livros.” A obra foi, consequentemente, promovida da sinistra cave do editor para o sótão do autor; e, ao apresentar uma cópia a um conhecido, o velho cavalheiro costumava contar a anedota com grande humor e ainda maior bondade.

Com igual falta de conhecimento mundano, fui um sofredor muito mais do que igual por causa disso, logo no início da minha carreira como autor. Perto do final do primeiro ano desde o momento em que, em uma hora inauspiciosa, deixei os claustros amigáveis e o feliz bosque de quietude, o sempre honrado Jesus College, Cambridge, fui persuadido por vários filantropos e antipolemistas a iniciar uma obra periódica, intitulada THE WATCHMAN, para que, de acordo com o lema geral da obra, todos pudessem conhecer a verdade, e que a verdade pudesse nos tornar livres! Para isentá-la do imposto de selo, e também para contribuir o mínimo possível para a suposta culpa de uma guerra contra a liberdade, ela deveria ser publicada a cada oitavo dia, trinta e duas páginas, grande oitavo, densamente impressas, e preço de apenas quatro pence. Consequentemente, com um prospecto flamejante — “Conhecimento é Poder”, “Para proclamar o estado da atmosfera política” — e assim por diante, parti em uma turnê para o Norte, de Bristol a Sheffield, com o propósito de angariar clientes, pregando pelo caminho na maioria das grandes cidades, como um voluntário sem soldo, de casaco azul e colete branco, para que nem um trapo da mulher da Babilônia pudesse ser visto em mim. Pois eu era naquela época e muito tempo depois, embora um Trinitário (isto é, ad normam Platonis) na filosofia, ainda assim um zeloso Unitário na religião; mais precisamente, eu era um Psilantropista, um daqueles que acreditam que nosso Senhor tenha sido o verdadeiro filho de José, e que colocam o peso principal na ressurreição em vez de na crucificação. Oh! nunca poderei lembrar-me daqueles dias com vergonha ou arrependimento. Pois eu era muito sincero, muito desinteressado. Minhas opiniões eram de fato em muitos e na maioria dos pontos importantes errôneas; mas meu coração era simples. Riqueza, posição, a própria vida então pareciam-me baratas, comparadas com os interesses daquilo que eu acreditava ser a verdade, e a vontade de meu Criador. Não posso sequer acusar-me de ter sido movido pela vaidade; pois na expansão do meu entusiasmo eu não pensava em mim mesmo de forma alguma.

Minha campanha começou em Birmingham; e meu primeiro ataque foi contra um rígido Calvinista, um fabricante de velas de sebo por profissão. Ele era um homem alto e sombrio, em quem o comprimento era tão predominante sobre a largura, que ele poderia quase ter sido emprestado como um atiçador de fundição. Oh, aquele rosto! um rosto kat’ emphasin! Tenho-o diante de mim neste momento. O cabelo liso, preto, como barbante, pingui-nitescente, cortado em linha reta ao longo do restolho preto de suas finas sobrancelhas de pólvora, que pareciam um restolho queimado de uma barba feita na semana passada. O colarinho do casaco atrás em perfeita uníssono, tanto de cor quanto de brilho, com a cordoalha grosseira, porém escorregadia, que suponho ele chamasse de seu cabelo, e que com uma curva para dentro na nuca — a única aproximação à flexão em toda a sua figura — esgueirava-se por trás de seu colete; enquanto o semblante liso, escuro, muito rígido, e com fortes sulcos perpendiculares, dava-me uma vaga noção de alguém olhando para mim através de uma grelha usada, toda fuligem, gordura e ferro! Mas ele era um dos sangue-puro, um verdadeiro amante da liberdade, e, como fui informado, havia provado para a satisfação de muitos, que o Sr. Pitt era um dos chifres da segunda besta em THE REVELATIONS, que falava como um dragão. Uma pessoa, a quem uma das minhas cartas de recomendação fora endereçada, foi meu introdutor. Foi um novo evento em minha vida, meu primeiro golpe no novo negócio que eu havia empreendido de autor, sim, e de autor comercializando por sua própria conta. Meu companheiro, após algumas frases imperfeitas e uma multidão de hums e has, abandonou a causa ao seu cliente; e eu comecei uma arenga de meia hora para Phileleutheros, o fabricante de velas de sebo, variando minhas notas, através de toda a gama da eloquência, da ratiocinativa à declamatória, e nesta última da patética à indignada. Argumentei, descrevi, prometi, profetizei; e começando com o cativeiro das nações terminei com a próxima aproximação do milênio, terminando o todo com alguns dos meus próprios versos descrevendo aquele estado glorioso fora das Religious Musings:

------Such delights As float to earth, permitted visitants! When in some hour of solemn jubilee The massive gates of Paradise are thrown Wide open, and forth come in fragments wild Sweet echoes of unearthly melodies, And odours snatched from beds of amaranth, And they, that from the crystal river of life Spring up on freshened wing, ambrosial gales!

Meu homem dos archotes ouviu com perseverante e louvável paciência, embora, como me disseram depois, ao reclamar de certos ventos que não eram de todo ambrosiais, fosse um dia de derretimento para ele. “E quanto, senhor,” disse ele, após uma breve pausa, “poderia custar?” “Apenas quatro pence,” — (Oh! como senti o anticlímax, o bathos abismal daqueles quatro pence!) — “apenas quatro pence, senhor, cada número, a ser publicado a cada oitavo dia.” — “Isso dá uma grande quantia de dinheiro no final de um ano. E quanto, o senhor disse, haveria pelo dinheiro?” — “Trinta e duas páginas, senhor, grande oitavo, densamente impressas.” — “Trinta e duas páginas? Deus me livre! por que, exceto o que faço em família no Sabá, isso é mais do que eu leio, senhor! o ano todo. Sou tão grande, quanto qualquer homem em Brummagem, senhor! pela liberdade e pela verdade e por todas essas coisas, mas quanto a isso — sem ofensa, espero, senhor — devo pedir para ser escusado.”

Assim terminou a minha primeira campanha: por razões que mencionarei em breve, fiz apenas mais uma solicitação pessoal. Esta ocorreu em Manchester, a um imponente e opulento atacadista de algodão. Ele tomou a minha carta de apresentação e, após lê-la, mediu-me da cabeça aos pés e novamente dos pés à cabeça, perguntando então se eu tinha alguma fatura ou nota fiscal da coisa. Apresentei-lhe o meu prospecto. Ele rapidamente folheou e murmurou sobre a primeira página, e ainda mais rapidamente a segunda e última; amassou-o entre os dedos e a palma da mão; depois, da maneira mais deliberada e significativa, esfregou e alisou uma parte contra a outra; e, finalmente, colocando-o no bolso, virou-me as costas com um "estou sobrecarregado com esses artigos!" e, sem mais uma sílaba, retirou-se para o seu escritório. E, posso dizer verdadeiramente, para o meu indizível divertimento.

Isto, eu disse, foi a minha segunda e última tentativa. Ao retornar frustrado da primeira, na qual tentei em vão repetir o milagre de Orfeu com o patriota de Brummagem, jantei com o comerciante que me havia apresentado a ele. Após o jantar, ele importunou-me para fumar um cachimbo com ele e dois ou três outros iluminados da mesma categoria. Objetei, tanto porque estava compromissado a passar a noite com um ministro e seus amigos, quanto porque nunca havia fumado, exceto uma ou duas vezes na vida, e naquelas ocasiões era tabaco de ervas misturado com Oronooko. No entanto, com a garantia de que o tabaco era igualmente suave, e vendo também que era de uma cor amarela; sem esquecer a lamentável dificuldade que sempre experimentei em dizer "Não" e em me abster do que as pessoas ao meu redor faziam, tomei meio cachimbo, enchendo a metade inferior da tigela com sal. Fui logo, contudo, compelido a deixá-lo, devido a uma tontura e uma sensação aflitiva nos olhos que, como eu havia bebido apenas um único copo de cerveja, eu sabia que devia ter sido o efeito do tabaco. Pouco depois, julgando-me recuperado, saí para o meu compromisso; mas a caminhada e o ar fresco trouxeram todos os sintomas de volta e, mal tinha entrado na sala de visitas do ministro e aberto um pequeno pacote de cartas que ele recebera de Bristol para mim, quando desabei no sofá num tipo de desmaio em vez de sono. Felizmente, eu tinha encontrado tempo suficiente para informá-lo sobre o estado confuso dos meus sentimentos e da ocasião. Pois aqui e assim eu estava deitado, o meu rosto como uma parede que está sendo caiada, mortalmente pálido e com gotas frias de suor escorrendo pela testa, enquanto um após outro iam chegando os diferentes cavalheiros que haviam sido convidados para me encontrar e passar a noite comigo, num número de quinze a vinte. Como o veneno do tabaco age por pouco tempo, finalmente despertei da insensibilidade e olhei em volta para o grupo, meus olhos ofuscados pelas velas que haviam sido acesas nesse ínterim. Como forma de aliviar o meu constrangimento, um dos cavalheiros começou a conversa com: "O senhor viu o jornal hoje, Sr. Coleridge?" "Senhor!", respondi, esfregando os olhos, "estou longe de estar convencido de que a um cristão seja permitido ler jornais ou quaisquer outros trabalhos de interesse meramente político e temporário." Esta observação, tão ridiculamente inoportuna ou, melhor dizendo, incongruente com o propósito para o qual eu era conhecido por ter visitado Birmingham, e para ajudar no qual eles estavam todos reunidos, produziu uma explosão involuntária e geral de risos; e raramente, na verdade, passei tantas horas deliciosas como desfrutei naquela sala, desde o momento daquele riso até às primeiras horas da manhã seguinte. Nunca, talvez, num grupo tão misto e numeroso, ouvi desde então uma conversa sustentada com tal animação, enriquecida com tamanha variedade de informações e animada com um tal fluxo de anedotas. Tanto então quanto depois, todos eles se uniram em me dissuadir de prosseguir com o meu plano; garantiram-me, nas expressões mais amigáveis e, contudo, mais lisonjeiras, que nem o emprego era adequado para mim, nem eu era adequado para o emprego. Contudo, se eu estivesse determinado a persistir nele, prometeram esforçar-se ao máximo para conseguir assinantes e insistiram que eu não fizesse mais solicitações pessoalmente, mas que realizasse a campanha por procuração. A mesma recepção hospitaleira, a mesma dissuasão e, falhando isso, os mesmos gentis esforços em meu favor, encontrei em Manchester, Derby, Nottingham, Sheffield; de fato, em todos os lugares onde fiz a minha estadia. Relembro frequentemente, com afetuoso prazer, os muitos homens respeitáveis que se interessaram por mim, um perfeito estranho para eles, e não poucos dos quais ainda posso nomear entre os meus amigos. Eles darão testemunho por mim de quão opostos, mesmo naquela época, eram os meus princípios aos do jacobinismo ou mesmo da democracia, e podem atestar a estrita precisão da declaração que deixei registrada no décimo e décimo primeiro números de THE FRIEND.

Desta memorável excursão, retornei com quase mil nomes na lista de assinantes de THE WATCHMAN; ainda assim, mais do que meio convencido de que a prudência ditava o abandono do plano. Mas, precisamente por esta razão, perseverei nele; pois eu estava, naquele período da minha vida, tão completamente atormentado pelo medo de ser influenciado por motivos egoístas que, saber que um modo de conduta era o ditame da prudência, era uma espécie de prova presuntiva para os meus sentimentos de que o contrário era o ditame do dever. Consequentemente, iniciei o trabalho, que foi anunciado em Londres por longos cartazes com letras maiores do que jamais se vira antes e que, fui informado — pois eu mesmo não os vi —, eclipsaram as glórias até mesmo dos anúncios de loteria. Mas, infelizmente! a publicação do primeiro número foi atrasada além do dia anunciado para o seu aparecimento. No segundo número, um ensaio contra os dias de jejum, com uma aplicação altamente censurável de um texto de Isaías como lema, custou-me quase quinhentos dos meus assinantes de uma só vez. Nos dois números seguintes, fiz inimigos de todos os meus patronos jacobinos e democráticos; pois, desgostoso com a sua infidelidade e a sua adoção da moral francesa com a filosofia francesa; e, talvez, pensando que a caridade deveria começar mais perto de casa, em vez de abusar do governo e dos aristocratas, principalmente ou inteiramente, como se esperava de mim, direcionei os meus ataques ao "patriotismo moderno" e até me arrisquei a declarar a minha crença de que, quaisquer que pudessem ter sido os motivos dos ministros para a sedição — ou, como era moda chamá-las então, as leis de mordaça —, as leis em si produziriam um efeito a ser desejado por todos os verdadeiros amigos da liberdade, na medida em que contribuíssem para deter os homens de declamar abertamente sobre assuntos cujos princípios nunca tinham fundamentado e de "defender os pobres e ignorantes, em vez de defender por eles". Ao mesmo tempo, confessei a minha convicção de que a educação nacional e uma difusão concorrente do Evangelho eram a condição indispensável de qualquer verdadeiro melhoramento político. Assim, por volta da publicação do sétimo número, tive a mortificação — mas por que deveria dizer isto, quando, na verdade, eu me importava muito pouco com qualquer coisa que dissesse respeito aos meus interesses mundanos para ficar minimamente mortificado com isso? — de ver os números anteriores expostos em várias lojas de ferro-velho por um centavo cada. No nono número, abandonei o trabalho. Mas, do editor de Londres, não consegui obter um xelim; ele era um ------ e desafiou-me. De outros lugares, obtive pouco e, após atrasos tais que tornaram esse pouco sem valor; e eu teria sido inevitavelmente atirado na cadeia pelo meu impressor de Bristol, que se recusou a esperar até por um mês por uma soma entre oitenta e noventa libras, se o dinheiro não tivesse sido pago por mim por um homem de modo algum afluente, um caro amigo que se afeiçoou a mim desde a minha primeira chegada a Bristol, que continuou meu amigo com uma fidelidade inabalável pelo tempo ou mesmo pela minha própria aparente negligência; um amigo de quem nunca recebi um conselho que não fosse sábio, nem uma repreensão que não fosse gentil e afetuosa.

Conscientemente um oponente da primeira guerra revolucionária, mas com os meus olhos completamente abertos para o verdadeiro caráter e impotência dos favorecedores dos princípios revolucionários na Inglaterra, princípios que eu mantinha em abominação — pois era parte do meu credo político que quem deixasse de agir como indivíduo, fazendo-se membro de qualquer sociedade não sancionada pelo seu Governo, perderia os direitos de um cidadão —, um veemente antiministerialista, mas, após a invasão da Suíça, um antigalicano ainda mais veemente, e mais intensamente ainda um antijacobino, retirei-me para uma cabana em Stowey e provi a minha parca manutenção escrevendo versos para um jornal matutino de Londres. Vi claramente que a literatura não era uma profissão da qual eu pudesse esperar viver; pois não podia esconder de mim mesmo que, quaisquer que fossem os meus talentos ou não em outros aspectos, eles não eram do tipo que poderia me permitir tornar-me um escritor popular; e que, quaisquer que fossem as minhas opiniões em si mesmas, elas eram quase equidistantes de todos os três partidos proeminentes: os pittitas, os foxitas e os democratas. Da natureza invendável dos meus escritos, tive um lembrete divertido uma manhã da nossa própria empregada. Pois, acontecendo de levantar-me mais cedo do que o habitual, observei-a colocando uma quantidade extravagante de papel na grelha para acender o fogo e repreendi-a suavemente pela sua prodigalidade; "Ora, senhor!", respondeu a pobre Nanny, "por que, são apenas Watchmen."

Dediquei-me então à poesia e ao estudo da ética e da psicologia; e tão profunda era a minha admiração nesta época pelo ENSAYO SOBRE O HOMEM de Hartley, que dei o seu nome ao meu primogênito. Além do cavalheiro, meu vizinho, cujo jardim se unia ao meu pequeno pomar e cujo cultivo da amizade fora o meu único motivo para escolher Stowey como residência, tive a sorte de adquirir, pouco depois da minha instalação ali, uma bênção inestimável na sociedade e na vizinhança de alguém a quem eu podia admirar com igual reverência, quer o considerasse como poeta, filósofo ou homem. A sua conversa estendia-se a quase todos os assuntos, exceto física e política; com esta última ele nunca se preocupou. Contudo, nem a minha reclusão nem a minha total abstração de todas as disputas do dia puderam me proteger, naqueles tempos ciumentos, da suspeita e do opróbrio, que não pararam em mim, mas estenderam-se ao meu excelente amigo, cuja perfeita inocência foi até mesmo apresentada como prova da sua culpa. Um dos muitos sicofantas ocupados daquela época — uso aqui a palavra sicofanta no seu sentido original, como um miserável que lisonjeia o partido dominante denunciando os seus vizinhos, sob o pretexto de que são exportadores de figos proibidos ou fantasias; para a aplicação moral do termo, não importa qual — um desses vira-latas sicofânticos da lei, discorrendo sobre a política da vizinhança, proferiu a seguinte observação profunda: "Quanto a Coleridge, não há tanto mal nele, pois ele é um cérebro-redemoinho que fala o que lhe vem à cabeça; mas aquele ------! ele é o traidor sombrio. Nunca se ouve ELE dizer uma sílaba sobre o assunto."

Agora que a mão da Providência disciplinou toda a Europa para a sobriedade, como os homens domam elefantes selvagens, por golpes e carícias alternados; agora que os ingleses de todas as classes foram restaurados às suas antigas noções e sentimentos ingleses; será difícil acreditar quão grande influência era na época possuída e exercida pelo espírito de difamação secreta — o companheiro demasiado constante do zelo partidário — durante o inquieto ínterim de 1793 até ao início da administração Addington, ou o ano antes da trégua de Amiens. Pois, por este último período, as mentes dos partidários, exaustas pelo excesso de estimulação e humilhadas pela decepção mútua, tinham se tornado lânguidas. As mesmas causas que inclinaram a nação à paz dispuseram os indivíduos à reconciliação. Ambos os partidos tinham se descoberto errados. Um tinha, confessadamente, confundido o caráter moral da revolução, e o outro tinha calculado mal tanto os seus recursos morais quanto os físicos. A experiência foi feita ao preço de grandes, quase, podemos dizer, de humilhantes sacrifícios; e homens sábios previram que ela falharia, pelo menos no seu objetivo direto e ostensível. Contudo, foi comprada barato e realizou um objetivo de igual valor e, se possível, de importância ainda mais vital. Pois trouxe uma unanimidade nacional sem paralelo na nossa história desde o reinado de Elizabeth; e a Providência, nunca ausente de uma boa obra quando os homens fizeram a sua parte, logo providenciou um foco comum na causa da Espanha, o que nos tornou todos mais uma vez ingleses, ao gratificar e corrigir simultaneamente as predileções de ambos os partidos. Os sinceros reverentes do trono sentiram a causa da lealdade enobrecida pela sua aliança com a da liberdade; enquanto os honestos zelotas do povo não podiam deixar de admitir que a própria liberdade assumia uma forma mais sedutora, humanizada pela lealdade e consagrada por princípios religiosos. Os jovens entusiastas que, lisonjeados pelo arco-íris matinal da revolução francesa, tinham se gabado de expatriar as suas esperanças e medos, agora, disciplinados pelas tempestades seguintes e tornados sóbrios pelo aumento dos anos, tinham sido ensinados a valorizar e honrar o espírito de nacionalidade como a melhor salvaguarda da independência nacional, e esta, por sua vez, como o pré-requisito absoluto e a base necessária dos direitos populares.

Se na Espanha também a decepção frustrou as nossas expectativas demasiado prematuras, contudo nem tudo está destruído que é refreado. A colheita estava talvez brotando demasiado viçosa no caule para granar bem; e havia, sem dúvida, sintomas da praga galicana nela. Se a superstição e o despotismo foram autorizados a deixar entrar as suas ovelhas lupinas para pisar e comer até à superfície, contudo as raízes permanecem vivas, e o segundo crescimento pode provar ser mais forte e saudável pela interrupção temporária. De qualquer modo, para nós, o céu foi justo e gracioso. O povo da Inglaterra fez o seu melhor e recebeu as suas recompensas. Que possamos continuar a merecê-lo por muito tempo! Causas que era hábito demasiado geral de antigos estadistas considerar como pertencentes a outro mundo são agora admitidas por todas as fileiras como tendo sido os principais agentes do nosso sucesso. "Lutamos desde o céu; as estrelas nos seus cursos lutaram contra Sísera." Se, então, a unanimidade fundamentada em sentimentos morais esteve entre as fontes menos equívocas da nossa glória nacional, esse homem merece a estima dos seus compatriotas, mesmo como patriotas, que dedica a sua vida e os maiores esforços do seu intelecto à preservação e continuidade dessa unanimidade pela revelação e estabelecimento de princípios. Pois, por estes, todas as opiniões devem ser ultimamente julgadas; e, (como os sentimentos dos homens são dignos de consideração apenas na medida em que são os representantes das suas opiniões fixas,) no conhecimento destes toda unanimidade, não acidental e passageira, deve ser fundamentada. Deixe o erudito, que duvida desta afirmação, referir-se apenas aos discursos e escritos de Edmund Burke no início da guerra americana e compará-los com os seus discursos e escritos no início da revolução francesa. Ele encontrará os princípios exatamente os mesmos e as deduções as mesmas; mas as inferências práticas quase opostas num caso das que foram extraídas no outro; contudo, em ambos, igualmente legítimas e em ambos igualmente confirmadas pelos resultados. De onde obteve ele a superioridade da previsão? De onde surgiu a notável diferença e, na maioria dos casos, até mesmo a discrepância entre os fundamentos atribuídos por ele e por aqueles que votaram com ele, sobre as mesmas questões? Como explicar o fato notório de que os discursos e escritos de Edmund Burke são mais interessantes nos dias de hoje do que foram encontrados na época da sua primeira publicação; enquanto os dos seus ilustres confederados estão esquecidos, ou existem apenas para fornecer provas de que a mesma conclusão, que um homem deduziu cientificamente, pode ser alcançada por outro em consequência de erros que, felizmente, se neutralizaram mutuamente? Seria indelicado como conjectura, mesmo que não fosse, como é na verdade, falso em termos de fato atribuir esta diferença à deficiência de talento por parte dos amigos de Burke, ou de experiência, ou de conhecimento histórico. A solução satisfatória é que Edmund Burke possuía e tinha aguçado sedulosamente aquele olho que vê todas as coisas, ações e eventos em relação às leis que determinam a sua existência e circunscrevem a sua possibilidade. Ele referia-se habitualmente a princípios. Ele era um estadista científico; e, portanto, um vidente. Pois cada princípio contém em si os germes de uma profecia; e, como o poder profético é o privilégio essencial da ciência, assim o cumprimento dos seus oráculos fornece o teste externo e, (para os homens em geral,) o único teste da sua reivindicação ao título. Por mais cansativos que os refinamentos de Burke parecessem aos seus auditores parlamentares, contudo as classes cultivadas por toda a Europa têm motivos para serem gratas por ele

------continuar refinando, E pensar em convencer, enquanto eles pensavam em jantar.

As nossas próprias placas de sinalização, (disse-me um ilustre amigo,) dão evidência de que houve um Ticiano no mundo. Da mesma forma, não apenas os debates no parlamento, não apenas as nossas proclamações e documentos de estado, mas os ensaios e parágrafos principais dos nossos jornais são tantos lembretes de Edmund Burke. Disso o leitor pode facilmente se convencer, se, por recordação ou referência, comparar os jornais de oposição no início e durante os cinco ou seis anos seguintes da revolução francesa com os sentimentos e bases de argumentação assumidos na mesma classe de jornais atualmente, e há alguns anos.

Se o espírito do jacobinismo, que os escritos de Burke exorcizaram das classes superiores e das classes literárias, pode ou não, como o fantasma em Hamlet, ser ouvido movendo-se e minando nas câmaras subterrâneas com uma atividade tanto mais perigosa quanto menos ruidosa, pode admitir um questionamento. Dei as minhas opiniões sobre este ponto, e os fundamentos delas, nas minhas cartas ao juiz Fletcher, ocasionadas pela sua acusação ao grande júri de Wexford, e publicadas no Courier. Seja como for, o espírito maligno do ciúme, e com ele os filhotes cerberinos da discórdia e da calúnia, já não fazem as suas rondas na sociedade cultivada.

Muito diferentes eram os dias aos quais estas anedotas me transportaram. As conjecturas obscuras de um certo Quidnunc zeloso encontraram um solo tão propício no grave alarme de um Dogberry de nosso bairro, que um espião foi realmente enviado pelo governo para a vigilância de mim e de meu amigo. Deve ter havido não apenas abundância, mas variedade desses “homens honrados” à disposição dos Ministros: pois este revelou ser um sujeito muito honesto. Após três semanas de uma perseverança verdadeiramente indígena em nos seguir (pois costumávamos estar juntos), durante todo o tempo em que raramente saíamos de casa, mas ele dava um jeito de estar ao alcance de nossa voz — (e todo o tempo totalmente insuspeitado; como, de fato, tal suspeita poderia entrar em nossa imaginação?) — ele não apenas rejeitou o pedido de Sir Dogberry de que tentasse um pouco mais, mas declarou-lhe sua crença de que tanto meu amigo quanto eu éramos tão bons súditos, pelo que pudesse descobrir em contrário, quanto qualquer outro nos domínios de Sua Majestade. Ele havia se escondido repetidamente, disse ele, por horas a fio atrás de um banco à beira-mar, (nosso assento favorito), e ouvido nossa conversa. A princípio, ele imaginou que estivéssemos cientes de nosso perigo; pois muitas vezes me ouvia falar de um tal Spy Nozy, que ele tendia a interpretar como sendo ele mesmo, e devido a uma característica notável que lhe pertencia; mas logo se convenceu de que era o nome de um homem que havia escrito um livro e vivido há muito tempo. Nossa conversa girava quase sempre sobre livros, e estávamos perpetuamente pedindo um ao outro para olhar isto e ouvir aquilo; mas ele não conseguia captar uma palavra sobre política. Uma vez, ele me acompanhou na estrada; (isto ocorreu quando eu voltava para casa sozinho da casa do meu amigo, que ficava a cerca de três milhas da minha própria casa) e, fazendo-se passar por um viajante, entrou em conversa comigo e falou propositalmente de maneira democrática a fim de me levar a dizer algo. O resultado, ao que parece, não apenas o convenceu de que eu não era um amigo do jacobinismo; mas, (acrescentou ele), eu “havia claramente demonstrado ser uma coisa tão tola quanto perversa, que ele sentiu vergonha mesmo que apenas a tivesse experimentado”. Lembrei-me nitidamente do ocorrido, e o mencionei imediatamente ao retornar, repetindo o que o viajante com seu nariz de Bardolph havia dito, com minha própria resposta; e tão pouco suspeitei do verdadeiro objetivo do meu “tentador antes que acusador”, que expressei com não pequeno prazer minha esperança e crença de que a conversa tivesse sido de alguma utilidade para o pobre malcontente enganado. Este incidente, portanto, evitou qualquer dúvida quanto à veracidade do relato, que através de um meio amigável chegou até mim pelo proprietário da estalagem da vila, a quem fora ordenado que entretivesse o cavalheiro do Governo da melhor maneira possível, mas, acima de tudo, que ficasse em silêncio sobre tal pessoa estar em sua casa. Finalmente, ele recebeu as ordens de Sir Dogberry para acompanhar seu hóspede na entrevista final; e, após o sufrágio absolutório do cavalheiro honrado com a confiança dos Ministros, respondeu, como segue, às seguintes perguntas: D. “Bem, estalajadeiro! E o que você sabe sobre a pessoa em questão? L. Vejo-o frequentemente passar com o maister ----, meu senhorio (isto é, o dono da casa), e às vezes com os recém-chegados em Holford; mas nunca disse uma palavra a ele nem ele a mim. D. Mas você não sabe que ele distribuiu papéis e folhetos de natureza sediciosa entre o povo comum? L. Não, vossa Senhoria! Nunca ouvi falar de tal coisa. D. Você não viu este Sr. Coleridge, ou ouviu falar de seus discursos e conversas com grupos e aglomerados de habitantes? -- Do que você está rindo, senhor? L. Peço perdão a vossa Senhoria! Mas eu estava apenas pensando em como eles teriam ficado pasmos com ele. Se o que ouvi for verdade, vossa Senhoria! eles não teriam entendido uma palavra do que ele disse. Quando nosso Vigário estava aqui, o Dr. L., diretor da grande escola e Cônego de Windsor, houve um grande jantar na casa do maister; e um dos fazendeiros que estava lá nos contou que ele e o Doutor falaram grego hebraico real um com o outro por uma hora depois do jantar. D. Responda à pergunta, senhor! Ele faz discursos ao povo? L. Espero que vossa Senhoria não esteja zangado comigo. Não posso dizer mais do que sei. Nunca o vi conversando com ninguém, exceto com meu senhorio, nosso cura e o estranho cavalheiro. D. Ele não tem sido visto vagando pelas colinas em direção ao Canal, e ao longo da costa, com livros e papéis na mão, fazendo cartas e mapas do país? L. Bem, quanto a isso, vossa Senhoria! Confesso, ouvi dizer; tenho certeza, não gostaria de falar mal de ninguém; mas é certo que ouvi -- D. Fale claramente, homem! Não tenha medo, você está cumprindo seu dever para com seu Rei e Governo. O que você ouviu? L. Bem, as pessoas dizem, vossa Senhoria! que ele é um Poeta, e que ele vai colocar Quantock e tudo por aqui na imprensa; e como eles estão tão juntos, suponho que o estranho cavalheiro tenha alguma participação no negócio”. -- Assim terminou esta formidável inquisição, cuja última parte apenas requer explicação e, ao mesmo tempo, dá direito à anedota a um lugar na minha vida literária. Eu considerara um defeito no admirável poema THE TASK que o assunto, que dá o título à obra, não era, e de fato não poderia ser, levado adiante além das três ou quatro primeiras páginas, e que, ao longo do poema, as conexões são frequentemente desajeitadas, e as transições abruptas e arbitrárias. Busquei um assunto que desse igual espaço e liberdade para descrição, incidente e reflexões apaixonadas sobre os homens, a natureza e a sociedade, mas que fornecesse em si uma conexão natural para as partes, e unidade para o todo. Tal assunto concebi ter encontrado em um riacho, traçado desde sua fonte nas colinas entre o musgo amarelo-avermelhado e as touceiras cônicas em forma de vidro de bent, até a primeira quebra ou queda, onde suas gotas se tornam audíveis e ele começa a formar um canal; dali para o celeiro de turfa, ele próprio construído dos mesmos quadrados escuros que abrigava; para o curral de ovelhas; para o primeiro lote de terra cultivada; para a casa isolada e seu jardim desolado conquistado da charneca; para o povoado, as vilas, a cidade comercial, as manufaturas e o porto marítimo. Minhas caminhadas, portanto, eram quase diárias no topo de Quantock, e entre seus vales inclinados. Com meu lápis e caderno de notas em mãos, eu fazia estudos, como os artistas os chamam, e muitas vezes moldava meus pensamentos em versos, com os objetos e a imaginação imediatamente diante dos meus sentidos. Muitas circunstâncias, más e boas, intervieram para impedir a conclusão do poema, que deveria ter sido intitulado THE BROOK. Se eu tivesse terminado a obra, era meu propósito, no calor do momento, tê-la dedicado ao nosso então comitê de segurança pública como contendo as cartas e mapas com os quais eu teria suprido o Governo Francês em auxílio aos seus planos de invasão. E estes também para uma extensão de costa que, de Clevedon a Minehead, mal permite a aproximação de um barco de pesca!

Toda a minha experiência desde minha primeira entrada na vida até a hora presente está a favor da máxima de advertência de que o homem que se opõe in totum aos zelosos políticos ou religiosos de sua era está mais seguro de seu opróbrio do que aquele que difere deles apenas em um ou dois pontos, ou talvez apenas em grau. Por aquela transferência dos sentimentos da vida privada para a discussão de questões públicas, que é a abelha rainha na colmeia do fanatismo partidário, o partidário tem mais simpatia por um oposto intemperado do que por um amigo moderado. Desfrutamos agora de um intervalo, e que ele dure muito! Além de méritos muito maiores e mais importantes, nossas atuais sociedades bíblicas e outras inúmeras associações para objetivos nacionais ou caritativos podem servir, talvez, para descarregar a atividade supérflua e o fervor de mentes inquietas em hipérboles inocentes e na agitação da gestão. Mas a árvore venenosa não está morta, embora a seiva possa, por uma estação, ter descido para suas raízes. Pelo menos não nos deixemos embalar por tal noção de nossa completa segurança a ponto de não mantermos vigilância, mesmo sobre nossos melhores sentimentos. Tenho visto grossa intolerância demonstrada em apoio à tolerância; antipatia sectária exibida de forma muito intrusiva na promoção de uma compreensão indistinta de seitas; e atos de crueldade (eu quase diria) de traição, cometidos em prol de um objetivo vitalmente importante para a causa da humanidade; e tudo isso por homens também de disposições naturalmente gentis e conduta exemplar.

A varinha mágica do fanatismo é preservada nos próprios adyta da natureza humana; e precisa apenas do calor reexcitante de uma mão mestra para brotar novamente e produzir os frutos antigos. O horror da guerra dos camponeses na Alemanha, e os efeitos terríveis dos dogmas dos anabatistas (que diferiam apenas dos do jacobinismo pela substituição do jargão teológico pelo filosófico), atingiram toda a Europa por um tempo com espanto. No entanto, pouco mais de um século foi suficiente para obliterar toda memória efetiva desses eventos. Os mesmos princípios, com consequências semelhantes, embora menos terríveis, estavam novamente em ação desde a prisão do primeiro Charles até a restauração de seu filho. A máxima fanática de extirpar o fanatismo pela perseguição produziu uma guerra civil. A guerra terminou na vitória dos insurgentes; mas o temperamento sobreviveu, e Milton tinha abundantes motivos para afirmar que “Presbyter era apenas o VELHO SACERDOTE escrito em letras grandes!”. Um bom resultado, graças aos céus! deste zelo era o restabelecimento da igreja. E agora poder-se-ia ter esperado que o espírito malicioso tivesse sido acorrentado por uma estação, “e um selo colocado sobre ele, para que não enganasse mais as nações”. Mas não! A bola da perseguição foi apanhada com vigor inabalado pelos perseguidos. O mesmo princípio fanático que, sob solene juramento e convênio, transformara catedrais em estábulos, destruíra os mais raros troféus de arte e piedade ancestral, e caçara os mais brilhantes ornamentos da aprendizagem e da religião para buracos e cantos, agora marchava sob estandartes episcopais e, tendo primeiro lotado as prisões da Inglaterra, esvaziou todo o seu frasco de ira sobre os miseráveis Covenanters da Escócia. Uma providência misericordiosa finalmente forçou ambas as partes a se unirem contra um inimigo comum. Um governo sábio seguiu; e a igreja estabelecida tornou-se, e agora é, não apenas o exemplo mais brilhante, mas nosso melhor e único baluarte seguro de tolerância! -- o verdadeiro e indispensável dique contra uma nova inundação de zelo persecutório -- Esto perpetua!

Um longo intervalo de quietude sucedeu; ou melhor, a exaustão produzira um acesso frio de febre que era sintomatizado pela indiferença entre a multidão, e uma tendência à infidelidade ou ceticismo nas classes educadas. Finalmente, aqueles sentimentos de repulsa e ódio que, por um breve período, a multidão atribuíra aos crimes e absurdos do fanatismo sectário e democrático, foram transferidos para os privilégios opressores da nobreza, e para o luxo, intrigas e favoritismo das cortes continentais. Os mesmos princípios, vestidos com as roupas ostentosas de uma filosofia da moda, elevaram-se mais uma vez triunfantes e efetuaram a revolução francesa. E não tivemos, nos últimos três ou quatro anos, razão para temer que as detestáveis máximas e medidas correspondentes do recente despotismo francês já tivessem obscurecido as recordações públicas do frenesi democrático; tivessem desviado para outros objetos a força elétrica dos sentimentos que haviam unido e sustentado essas recordações; e que apenas uma concorrência favorável de ocasiões faltava para despertar o trovão e precipitar o relâmpago do lado oposto do céu político?

Em parte por indolência constitucional, que no próprio apogeu da esperança mantivera meu entusiasmo sob controle, mas ainda mais pelos hábitos e influências de uma educação clássica e buscas acadêmicas, mal havia decorrido um ano do início de minhas aventuras literárias e políticas antes que minha mente mergulhasse em um estado de total desgosto e desânimo, tanto com relação às disputas quanto às partes disputantes. Com sentimento mais do que poético, exclamei:

O sensual e o sombrio rebelam-se em vão, Escravos por sua própria compulsão! Em jogo louco Quebram suas algemas, para usar o nome Da liberdade, gravado em uma corrente mais pesada. Ó Liberdade! Com esforço inútil Tenho te perseguido por muitas horas cansativas; Mas tu não inchas a pompa do vencedor, nem nunca Respiraste tua alma em formas de poder humano! De todos igualmente, por mais que te louvem, (Nem oração nem nome jactancioso te detém) Dos asseclas gárgulas da Superstição E dos escravos mais obscenos da Blasfêmia facciosa, Tu segues veloz em tuas asas de querubim, A guia dos ventos sem lar e companheira das ondas!

Retirei-me para uma casa de campo em Somersetshire, ao pé de Quantock, e dediquei meus pensamentos e estudos aos fundamentos da religião e da moral. Aqui me vi totalmente à deriva. Dúvidas surgiram; irromperam sobre mim “das fontes do grande abismo” e caíram “das janelas do céu”. As verdades fundamentais da religião natural e os livros da Revelação contribuíram igualmente para a inundação; e demorou muito até que minha arca tocasse um Ararat e descansasse. A ideia do Ser Supremo parecia-me ser tão necessariamente implícita em todos os modos particulares de ser quanto a ideia de espaço infinito em todas as figuras geométricas pelas quais o espaço é limitado. Fiquei satisfeito com a opinião cartesiana de que a ideia de Deus se distingue de todas as outras ideias por envolver sua realidade; mas não fiquei totalmente satisfeito. Comecei então a me perguntar: que prova eu tinha da existência externa de qualquer coisa? Desta folha de papel, por exemplo, como uma coisa em si, separada do fenômeno ou imagem em minha percepção. Vi que, na natureza das coisas, tal prova é impossível; e que, de todos os modos de ser que não são objetos dos sentidos, a existência é assumida por uma necessidade lógica que surge da constituição da própria mente -- pela ausência de qualquer motivo para duvidá-la, não por qualquer contradição absoluta na suposição do contrário. Ainda assim, a existência de um Ser, o fundamento de toda existência, não era ainda a existência de um criador e governador moral. “Na posição de que toda realidade ou está contida no ser necessário como um atributo, ou existe através dele, como seu fundamento, permanece indeciso se as propriedades de inteligência e vontade devem ser referidas ao Ser Supremo no primeiro ou apenas no último sentido; como atributos inerentes, ou apenas como consequências que têm existência em outras coisas através dele. Se o último fosse a verdade, então, apesar de toda a preeminência que deve ser atribuída ao Primeiro Eterno pela suficiência, unidade e independência de seu ser, como o terrível fundamento do universo, sua natureza ainda ficaria muito aquém daquilo que somos obrigados a compreender na ideia de DEUS. Pois, sem qualquer conhecimento ou resolução determinante própria, ele seria apenas um fundamento cego e necessário de outras coisas e outros espíritos; e assim não se distinguiria do DESTINO de certos filósofos antigos em nenhum aspecto, exceto no de ser mais definitiva e inteligivelmente descrito.”

Por um período muito longo, de fato, não pude reconciliar a personalidade com o infinito; e minha cabeça estava com Spinoza, embora todo o meu coração permanecesse com Paulo e João. No entanto, havia amanhecido sobre mim, mesmo antes de ter encontrado a CRÍTICA DA RAZÃO PURA, uma certa luz guia. Se o puro intelecto não pudesse fazer nenhuma descoberta certa de uma primeira causa santa e inteligente, ele poderia ainda fornecer uma demonstração de que nenhum argumento legítimo poderia ser extraído do intelecto contra sua verdade. E o que é isso mais do que a afirmação de São Paulo de que, pela sabedoria -- (mais propriamente traduzida pelos poderes do raciocínio) -- nenhum homem jamais chegou ao conhecimento de Deus? O que mais do que o mais sublime, e provavelmente o mais antigo, livro na terra nos ensinou,

A prata e o ouro o homem pesquisa: Traz o minério da terra, e a escuridão para a luz.

Mas onde ele encontra a sabedoria? Onde é o lugar do entendimento?

O abismo clama; não está em mim! O oceano ecoa de volta; não está em mim!

De onde então vem a sabedoria? Onde habita o entendimento?

Escondida dos olhos dos vivos Mantida em segredo das aves do céu!

O inferno e a morte respondem; Ouvimos o rumor disso de longe!

DEUS marca o caminho para ela; DEUS conhece seu lugar de morada!

Ele contempla os confins da terra; Ele examina o que está sob os céus!

E quando ele pesou os ventos, e mediu o mar, E nomeou leis para a chuva, E um caminho para o trovão, Um caminho para os lampejos do relâmpago!

Então ele a viu, E ele a contou; Ele pesquisou a profundidade dela, E com uma linha ele a cercou!

Mas ao homem ele disse, O temor do Senhor é sabedoria para ti! E evitar o mal, Esse é o teu entendimento.

Tornei-me convencido de que a religião, como pedra angular e chave da moralidade, deve ter uma origem moral; até onde, pelo menos, a evidência de suas doutrinas não poderia, como as verdades da ciência abstrata, ser totalmente independente da vontade. Seria, portanto, de esperar que sua verdade fundamental fosse tal que pudesse ser negada; embora apenas pelo tolo, e mesmo pelo tolo apenas pela loucura do coração!

A questão então sobre nossa fé na existência de um Deus, não apenas como o fundamento do universo por sua essência, mas como seu criador e juiz por sua sabedoria e santa vontade, parecia estar assim. A razão científica, cujos objetos são puramente teóricos, permanece neutra, desde que seu nome e aparência não sejam usurpados pelos oponentes da doutrina. Mas então ela se torna uma aliada eficaz ao expor a falsa aparência de demonstração, ou ao provar a igual demonstrabilidade do contrário a partir de premissas igualmente lógicas. O entendimento, enquanto isso, sugere, a analogia da experiência facilita a crença. A natureza a excita e recorda, como por uma revelação perpétua. Nossos sentimentos quase a tornam necessária; e a lei da consciência a comanda peremptoriamente. Os argumentos que de alguma forma se aplicam a ela estão a seu favor; e não há nada contra ela, exceto sua própria sublimidade. Ela não poderia ser intelectualmente mais evidente sem se tornar moralmente menos eficaz; sem neutralizar seu próprio fim ao sacrificar a vida da fé ao frio mecanismo de uma anuência inútil porque compulsória. A crença em um Deus e em um estado futuro (se uma aquiescência passiva pode ser lisonjeada com o nome de crença) não gera, de fato, sempre um bom coração; mas um bom coração gera tão naturalmente a crença, que as pouquíssimas exceções devem ser consideradas como anomalias estranhas resultantes de circunstâncias estranhas e infelizes.

Dessas premissas, passei a tirar as seguintes conclusões. Primeiro, que tendo admitido plenamente a existência de um Criador infinito, porém autoconsciente, não nos é permitido fundamentar a irracionalidade de qualquer outro artigo de fé em argumentos que provariam igualmente ser irracional aquilo que permitimos ser real. Segundo, que tudo o que é dedutível da admissão de um espírito autocompreensivo e criativo pode ser legitimamente usado como prova da possibilidade de qualquer mistério adicional sobre a natureza divina. Possibilitatem mysteriorum, (Trinitatis, etc.) contra insultus Infidelium et Haereticorum a contradictionibus vindico; haud quidem veritatem, quae revelatione sola stabiliri possit; diz Leibnitz em uma carta ao seu Duque. Ele então acrescenta a seguinte observação justa e importante. “Em vão serão aduzidas a tradição ou textos das escrituras em apoio a uma doutrina, donec clava impossibilitatis et contradictionis e manibus horum Herculum extorta fuerit. Pois o herege ainda responderá que textos, cujo sentido literal não está tanto acima quanto diretamente contra toda a razão, devem ser entendidos figurativamente, como Herodes é uma raposa, e assim por diante.”

Mantive estes princípios, filosoficamente, enquanto no que respeita à religião revelada permanecia um Unitário zeloso. Considerava a ideia da Trindade uma inferência escolástica justa a partir do ser de Deus, como uma inteligência criadora; e que, portanto, tinha direito à categoria de doutrina esotérica da religião natural. Mas, não vendo nela qualquer alcance prático ou moral, restringi-a às escolas de filosofia. A admissão do Logos, como hipostasiado (isto é, nem um mero atributo, nem uma personificação), não removeu de forma alguma as minhas dúvidas quanto à Encarnação e à Redenção pela cruz; as quais eu não conseguia conciliar na razão com a impassibilidade do Ser Divino, nem, nos meus sentimentos morais, com a distinção sagrada entre coisas e pessoas, o pagamento vicário de uma dívida e a expiação vicária da culpa. Uma revolução mais profunda nos meus princípios filosóficos, e uma percepção mais profunda do meu próprio coração, eram ainda necessárias. Contudo, não posso duvidar que a diferença das minhas noções metafísicas daquelas dos Unitários em geral contribuiu para a minha reconversão final à verdade plena em Cristo; tal como, segundo a sua própria confissão, os livros de certos filósofos platónicos (libri quorundam Platonicorum) iniciaram o resgate da fé de Santo Agostinho do mesmo erro, agravado pelo acompanhamento muito mais sombrio da heresia maniqueísta.

Enquanto a minha mente estava assim perplexa, por uma providência graciosa pela qual nunca poderei ser suficientemente grato, o patrocínio generoso e munificente do Sr. Josiah e do Sr. Thomas Wedgwood permitiu-me terminar a minha educação na Alemanha. Em vez de incomodar os outros com as minhas próprias noções cruas e composições juvenis, fui, a partir de então, melhor empregue em tentar armazenar a minha própria cabeça com a sabedoria dos outros. Fiz o melhor uso do meu tempo e meios; e não há, portanto, período da minha vida sobre o qual eu possa olhar para trás com tanta satisfação imaculada. Depois de adquirir uma suficiência tolerável na língua alemã em Ratzeburg, o que, com a minha viagem e jornada até lá, descrevi em *The Friend*, segui através de Hanôver para Goettingen.

Aqui assisti regularmente às aulas de fisiologia pela manhã, e de história natural à noite, sob a regência de Blumenbach, um nome tão caro a todo inglês que tenha estudado naquela universidade, quanto é venerável para os homens de ciência por toda a Europa! As aulas de Eichhorn sobre o Novo Testamento eram-me repetidas a partir de notas por um estudante de Ratzeburg, um jovem de saber sólido e indústria incansável, que é agora, creio eu, professor de línguas orientais em Heidelberg. Mas os meus esforços principais foram direcionados para um conhecimento fundamentado da língua e literatura alemãs. Do professor Tychsen recebi tantas lições sobre o gótico de Ulfilas quanto bastaram para me familiarizar com a sua gramática e com as palavras radicais de ocorrência mais frequente; e, com a assistência ocasional do mesmo linguista filosófico, li a paráfrase métrica do evangelho de Ottfried e os vestígios mais importantes do Teotisco, ou o estado de transição da língua teutónica do gótico para o alto-alemão do período suábio. Deste período — cujo dialeto polido é análogo ao do nosso Chaucer, e que deixa o estudante filosófico na dúvida se a língua não terá, desde então, perdido mais em doçura e flexibilidade do que ganhou em condensação e copiosidade — li com precisão diligente os Minnesinger (ou cantores de amor, os poetas provençais da corte suábia) e os romances métricos; e depois trabalhei através de espécimes suficientes dos *meistersinger*, os seus sucessores degenerados; não, contudo, sem prazer ocasional vindo das rudes, ainda que interessantes, estrofes de Hans Sachs, o sapateiro de Nuremberga. Do génio deste homem, cinco volumes em fólio com colunas duplas existem impressos, e quase um número igual em manuscrito; ainda assim, o bardo incansável tem o cuidado de informar os seus leitores de que nunca fez um sapato a menos, mas que tinha virtuosamente criado uma família numerosa pelo trabalho das suas mãos.

Em Píndaro, Chaucer, Dante, Milton, e muitos mais, temos exemplos da ligação estreita do génio poético com o amor à liberdade e à reforma genuína. O sentido moral, pelo menos, não será ultrajado se eu acrescentar à lista o nome deste honesto sapateiro (um ofício, aliás, notável pela produção de filósofos e poetas).

O seu poema intitulado *A ESTRELA DA MANHÃ* foi a primeiríssima publicação que apareceu em louvor e apoio a Lutero; e um excelente hino de Hans Sachs, que tem sido merecidamente traduzido para quase todas as línguas europeias, era habitualmente cantado nas igrejas protestantes, sempre que o heroico reformador as visitava.

Nos escritos alemães do próprio Lutero, e eminentemente na sua tradução da Bíblia, a língua alemã começou. Refiro-me à língua tal como é presentemente escrita; aquela que é chamada de Alto-Alemão, em contra-distinção ao *Platt-Teutsch*, o dialeto dos países planos ou do norte, e ao *Ober-Teutsch*, a língua da Alemanha central e meridional. O Alto-Alemão é, na verdade, uma *lingua communis*, não sendo propriamente a língua nativa de nenhuma província, mas a escolha e a fragrância de todos os dialetos. Por esta causa, é ao mesmo tempo a mais copiosa e a mais gramatical de todas as línguas europeias.

Dentro de menos de um século após a morte de Lutero, o alemão foi inundado de barbarismos pedantes. Li alguns volumes deste período por motivos de curiosidade; pois não é fácil imaginar nada mais fantástico do que a própria aparência das suas páginas. Quase cada terceira palavra é uma palavra latina com uma terminação germanizada, sendo a porção latina sempre impressa em caracteres romanos, enquanto na última sílaba o caráter alemão é retido.

Finalmente, por volta do ano 1620, surgiu Opitz, cujo génio se assemelhava mais ao de Dryden do que qualquer outro poeta que me ocorra à memória presentemente. Na opinião de Lessing, o mais agudo dos críticos, e de Adelung, o primeiro dos lexicógrafos, Opitz e os poetas silesianos, os seus seguidores, não só restauraram a língua, mas ainda permanecem como modelos de dicção pura. Um estrangeiro não tem voto numa tal questão; mas após repetida leitura das obras de Opitz, os meus sentimentos justificaram o veredito, e pareceu-me ter adquirido a partir deles uma espécie de tato para o que é genuíno no estilo dos escritores posteriores.

Da era esplêndida que começou com Gellert, Klopstock, Ramler, Lessing e os seus pares, não preciso falar. Com as oportunidades de que usufruí, seria vergonhoso não estar familiarizado com os seus escritos; e já disse tanto quanto este esboço biográfico exige acerca dos filósofos alemães, cujas obras, na maior parte, conheci num período muito mais tardio.

Pouco depois do meu regresso da Alemanha, fui solicitado a assumir o departamento literário e político do *Morning Post*; e acedi à proposta sob a condição de que o jornal fosse, a partir de então, conduzido segundo certos princípios fixos e anunciados, e de que eu não fosse obrigado nem solicitado a desviar-me deles em favor de qualquer partido ou qualquer evento. Em consequência, aquele diário tornou-se, e durante muitos anos continuou, antiministerial, de facto, embora com uma aprovação muito qualificada da oposição, e com muito maior seriedade e zelo, tanto antijacobino quanto antigalicano. Até hoje não consigo encontrar razão para aprovar a primeira guerra, nem no seu início nem na sua condução. Nem consigo compreender com que razão, quer o Sr. Perceval (a quem sou singular o suficiente para considerar como o melhor e mais sábio ministro deste reinado), quer a atual Administração, podem ser ditos ter prosseguido os planos do Sr. Pitt. O amor ao seu país e a hostilidade perseverante aos princípios franceses e à ambição francesa são, de facto, qualidades honrosas comuns a eles e ao seu predecessor. Mas parece-me tão claro quanto a evidência dos factos pode tornar qualquer questão de história que os sucessos de Perceval e do ministério existente se devem ao facto de terem prosseguido medidas diretamente contrárias às do Sr. Pitt. Tais são, por exemplo, a concentração da força nacional num objetivo; o abandono da política de subsídios, pelo menos até ao ponto de não incitar nem subornar as cortes continentais para a guerra, até que as convicções dos seus súbditos a tivessem tornado uma guerra de sua própria busca; e, acima de tudo, a sua confiança varonil e generosa no bom senso do povo inglês, e nessa lealdade que está ligada ao próprio coração da nação pelo sistema de crédito e pela interdependência da propriedade.

Seja como for, estou persuadido de que o *Morning Post* provou ser um aliado muito mais útil para o Governo nos seus objetivos mais importantes, por ser geralmente considerado moderadamente antiministerial, do que se tivesse sido o panegirista declarado do Sr. Pitt. Os poucos cuja curiosidade ou fantasia os leve a folhear os jornais daquela data poderão encontrar uma pequena prova disto nas acusações frequentes feitas pelo *Morning Chronicle* de que tais e tais ensaios ou parágrafos principais tinham sido enviados pelo Tesouro. O rápido e invulgar aumento nas vendas do *Morning Post* é uma garantia suficiente de que uma imparcialidade genuína, com uma porção respeitável de talento literário, assegurará o sucesso de um jornal sem a ajuda de patrocínio partidário ou ministerial. Mas por imparcialidade refiro-me a uma adesão honesta e esclarecida a um código de princípios inteligíveis previamente anunciados, e fielmente referidos em apoio a cada julgamento sobre homens e eventos; não o abuso indiscriminado, não a indulgência das paixões malignas de um editor, e ainda menos, se tal for possível, uma determinação de ganhar dinheiro bajulando a inveja e a cupidez, a inquietude vingativa e a presunção da vulgaridade de espírito medíocre; uma determinação quase diabólica, mas que, fui informado, foi vaidosamente assumida por um homem, o mais notório destes sicofantas da ralé! Desde o início da administração de Addington até ao dia de hoje, tudo o que escrevi no *THE MORNING POST*, ou (após aquele jornal ter sido transferido para outros proprietários) no *THE COURIER*, tem sido em defesa ou promoção das medidas do Governo.

Coisas desta natureza mal sobrevivem à noite Que lhes dá nascimento; perecem à vista; Lançadas tão longe da vida posterior, que nela Mal se pode dizer algo, senão que existiram!

Contudo, nestes labores empreguei, e, na crença de amigos parciais, desperdicei, o auge e a virilidade do meu intelecto. Com toda a certeza, nada acrescentaram à minha fortuna ou à minha reputação. A indústria da semana supria as necessidades da semana. Do governo ou dos amigos do governo não só nunca recebi remuneração, nem nunca a esperei; mas nunca fui honrado com um único reconhecimento, ou expressão de satisfação. No entanto, a retrospetiva está longe de ser dolorosa ou motivo de arrependimento. Não sou, de facto, tolo o suficiente para tomar como algo mais do que uma hipérbole violenta do debate partidário a afirmação do Sr. Fox de que a guerra recente (confio que o epíteto não seja prematuramente aplicado) foi uma guerra produzida pelo *Morning Post*; ou sentir-me-ia orgulhoso de ter as palavras inscritas no meu túmulo. Tão pouco dou importância ao facto de que fui um objeto especificado do ressentimento de Bonaparte durante a minha residência na Itália, em consequência desses ensaios no *Morning Post* durante a paz de Amiens. Disso fui avisado, diretamente, pelo Barão Von Humboldt, o Plenipotenciário prussiano, que na época era o ministro da corte prussiana em Roma; e indiretamente, através do seu secretário, pelo próprio Cardeal Fesch. Nem dou maior peso ao facto confirmatório de que uma ordem para a minha detenção foi enviada de Paris, perigo do qual fui resgatado pela bondade de um nobre beneditino e pela conivência graciosa daquele bom velho, o presente Papa. Pois o apetite vingativo do falecido tirano era omnívoro, e predava igualmente sobre um Duque d’Enghien e sobre o escritor de um parágrafo de jornal. Como um verdadeiro abutre, Napoleão, com um olho não menos telescópico, e com um gosto igualmente grosseiro na sua rapina, podia descer das alturas mais deslumbrantes para atacar a lebre no matagal, ou mesmo o rato do campo por entre a erva. Mas retiro uma satisfação do conhecimento de que os meus ensaios contribuíram para introduzir a prática de colocar as questões e eventos do dia sob um ponto de vista moral; em conferir dignidade a medidas particulares ao traçar a sua política ou imprudência até princípios permanentes, e um interesse aos princípios pela aplicação deles a medidas individuais. Nos escritos do Sr. Burke, de facto, os germes de quase todas as verdades políticas podem ser encontrados. Mas ouso assumir para mim o mérito de ter definido e analisado explicitamente, pela primeira vez, a natureza do Jacobinismo; e de que, ao distinguir o Jacobino do republicano, do democrata e do mero demagogo, resgatei a palavra de permanecer um mero termo de abuso e pus de sobreaviso muitas mentes honestas que, mesmo no seu calor de zelo contra o Jacobinismo, admitiam ou apoiavam princípios dos quais as piores partes desse sistema podem ser legitimamente deduzidas. Que estes não sejam resultados práticos necessários de tais princípios, devemos àquela consequência afortunada da nossa natureza, que permite ao coração retificar os erros do entendimento. O exame detalhado do Governo consular e da sua pretendida constituição, e a prova por mim dada de que era um despotismo consumado em máscara, extorquiu uma retratação até do *Morning Chronicle*, que tinha anteriormente exaltado esta constituição como a perfeição de uma liberdade sábia e regulada. Em cada grande ocorrência, esforçei-me por descobrir na história passada o evento que mais se lhe assemelhava. Procurei, sempre que possível, os historiadores, memorialistas e panfletistas contemporâneos. Depois, subtraindo justamente os pontos de diferença daqueles de semelhança, conforme o balanço favorecia os primeiros ou os últimos, conjecturei que o resultado seria o mesmo ou diferente. Na série de ensaios intitulada “Uma comparação da França sob Napoleão com Roma sob os primeiros Césares”, e naqueles que se seguiram “Sobre a provável restauração final dos Bourbons”, sinto-me autorizado a afirmar, pelo efeito produzido em muitos homens inteligentes, que, se faltassem as datas, poder-se-ia ter suspeitado que os ensaios tinham sido escritos nos últimos doze meses. O mesmo plano segui no início da revolução espanhola, e com o mesmo sucesso, tomando a guerra das Províncias Unidas com Filipe II como base da comparação. Mencionei isto não por motivos de vaidade, nem mesmo por motivos de autodefesa, o que justificaria um certo grau de egoísmo, especialmente se for considerado quão frequente e grosseiramente fui atacado por sentimentos que envidei os meus melhores esforços para refutar e expor, e quão gravemente estas acusações agiram em meu desfavor enquanto estive em Malta. Ou, melhor, tê-lo-iam feito, se os meus próprios sentimentos não tivessem excluído o desejo de um estabelecimento fixo naquela ilha. Mas mencionei-o pela plena persuasão de que, armado com o conhecimento duplo da história e da mente humana, um homem dificilmente errará no seu julgamento acerca do total de qualquer futuro evento nacional, se tiver sido capaz de obter os documentos originais do passado, juntamente com relatos autênticos do presente, e se tiver um tato filosófico para o que é verdadeiramente importante nos factos, e, portanto, na maioria dos casos, para tais factos que a dignidade da história excluiu dos volumes dos nossos compiladores modernos, por cortesia da época intitulados historiadores.

Ter vivido em vão deve ser um pensamento doloroso para qualquer homem, e especialmente para aquele que fez da literatura a sua profissão. Deveria, portanto, antes condoer-me do que zangar-me com a mente que não pôde atribuir a sentimentos mais dignos do que os da vaidade ou do amor-próprio a satisfação que reconheci ter desfrutado com a republicação dos meus ensaios políticos (fosse na íntegra ou como extratos) não apenas em muitos dos nossos jornais provinciais, mas nos jornais federais por toda a América. Considerei como alguma prova de não ter trabalhado totalmente em vão o facto de que, a partir dos artigos escritos por mim pouco antes e no início da última infeliz guerra com a América, não só os sentimentos foram adotados, mas em alguns casos a própria linguagem, em vários dos documentos oficiais do estado de Massachusetts.

Mas nenhum destes motivos, nem todos em conjunto, me teriam impelido a uma declaração tão desconfortável para os meus próprios sentimentos, se o meu caráter não tivesse sido repetidamente atacado, por uma intrusão injustificável na vida privada, como o de um homem incorrigivelmente ocioso, e que, confiado não só com talentos amplos, mas favorecido com oportunidades invulgares de os melhorar, tinha, no entanto, sofrido que enferrujassem sem qualquer esforço eficiente, quer para o seu próprio bem, quer para o dos seus semelhantes. Mesmo que as composições que tornei públicas, e isso numa forma a mais certa de uma circulação extensiva, embora a menos lisonjeira para o amor-próprio de um autor, tivessem sido publicadas em livros, teriam preenchido um número respeitável de volumes, mesmo que cada passagem de interesse meramente temporário fosse omitida. Os meus escritos em prosa foram acusados de uma exigência desproporcional à atenção; com um excesso de requinte no modo de chegar às verdades; com bater o terreno por aquilo que poderia ter sido abatido pelo olhar; com a extensão e a construção laboriosa dos meus períodos; em suma, com obscuridade e o amor ao paradoxo. Mas os meus críticos mais severos não pretenderam ter encontrado nas minhas composições trivialidade, ou vestígios de uma mente que recuasse perante o trabalho de pensar. Ninguém me acusou de adornar com outras palavras os pensamentos dos outros, ou de reaquecer o *crambe jam decies cocta* da literatura ou filosofia inglesa. Raramente escrevi num dia aquilo cuja aquisição ou investigação não me tivesse custado o trabalho prévio de um mês.

Mas serão os livros o único canal através do qual pode fluir a corrente da utilidade intelectual? Deve a difusão da verdade ser estimada pelas publicações; ou as publicações pela verdade que difundem ou, pelo menos, contêm? Digo isto no calor desculpável de uma mente ferida por uma acusação que não só foi avançada em revistas da mais ampla circulação, não só registada nas obras mais volumosas da literatura periódica, mas que, pela frequência da repetição, se tornou um facto admitido nos círculos literários privados, e impensadamente repetida por demasiados que se intitulam meus amigos e cujas próprias recordações deveriam ter sugerido um testemunho contrário. Oxalá o critério da utilidade de um erudito fosse o número e o valor moral das verdades que ele teve o meio de lançar na circulação geral; ou o número e o valor das mentes que, pela sua conversação ou cartas, ele estimulou à atividade e supriu com os germes do seu crescimento posterior!

Uma posição distinta poderia, na verdade, nem então ser atribuída aos meus esforços; mas eu ousaria olhar para o futuro com confiança a uma absolvição honrosa. Ousaria apelar às numerosas e respeitáveis audiências que, em diferentes ocasiões e em diferentes lugares, honraram as minhas salas de aula com a sua presença, se os pontos de vista a partir dos quais os temas tratados foram examinados — se os fundamentos do meu raciocínio foram tais como tinham ouvido ou lido noutros lugares, ou como desde então encontraram em publicações anteriores. Posso declarar conscientemente que o sucesso completo de REMORSE na primeira noite da sua representação não me deu um prazer tão grande ou tão sentido como a observação de que a plateia e os camarotes estavam cheios de rostos familiares para mim, embora de indivíduos cujos nomes eu desconhecia e de quem nada sabia, exceto que tinham assistido a um ou outro dos meus cursos de palestras. É um provérbio excelente, embora talvez algo vulgar, que há casos em que um homem pode estar tão bem "por uma libra como por um centavo". Àqueles que, por ignorância do grave prejuízo que recebi deste rumor de ter sonhado a minha vida em vão, prejuízos que, com relutância, recordo, quanto mais disposto a registar num esboço da minha vida literária; ou àqueles que, pelos seus próprios sentimentos, ou pela gratificação que derivam de pensar depreciativamente nos outros, gostariam, como os consoladores de Job, de atribuir estas queixas, extorquidas de mim pelo sentido de injustiça, à presunção ou à vaidade presunçosa, já forneci materiais tão amplos que nada ganharei retendo o restante. Não hesitarei, portanto, em perguntar às consciências daqueles que, pelo seu longo conhecimento de mim e das circunstâncias, estão mais qualificados para decidir ou ser meus juízes, se a restituição do suum cuique aumentaria ou diminuiria a minha reputação literária. Nesta exculpação, espero ser compreendido como falando de mim comparativamente, e em proporção às reivindicações que outros têm o direito de fazer sobre o meu tempo ou os meus talentos. Pelo que efetuei, devo ser julgado pelos meus semelhantes; o que poderia ter feito é uma questão para a minha própria consciência. Por minha própria conta, talvez tenha tido razão suficiente para lamentar a minha deficiência no autocontrolo e a negligência em concentrar os meus poderes na realização de alguma obra permanente. Mas ao verso, mais do que à prosa, se a qualquer um, pertence a voz do lamento por

Agudos pungentes do Amor, despertando como um infante Turbulento, com um grito no coração; E medos voluntários que evitavam o olhar da esperança; E a esperança que mal se distinguiria do medo; Sentido da juventude passada, e da virilidade vinda em vão, E génio dado e conhecimento ganho em vão; E tudo o que eu tinha colhido em passeios silvestres, E tudo o que o trabalho paciente tinha criado, e tudo, A comunhão contigo tinha aberto — mas flores Espalhadas sobre o meu cadáver, e levadas no meu esquife, No mesmo caixão, para a mesma sepultura!

Estes existirão, para o futuro, confio, apenas nas estirpes poéticas que os sentimentos da altura provocaram. Nesses apenas, gentil leitor,

Affectus animi varios, bellumque sequacis Perlegis invidiae, curasque revolvis inanes, Quas humilis tenero stylus olim effudit in aevo. Perlegis et lacrymas, et quod pharetratus acuta Ille puer puero fecit mihi cuspide vulnus. Omnia paulatim consumit longior aetas, Vivendoque simul morimur, rapimurque manendo. Ipse mihi collatus enim non ille videbor; Frons alia est, moresque alii, nova mentis imago, Vox aliudque sonat--Jamque observatio vitae Multa dedit--lugere nihil, ferre omnia; jamque Paulatim lacrymas rerum experientia tersit.

CAPÍTULO XI

Uma exortação afetuosa àqueles que, na juventude, se sentem dispostos a tornar-se autores.

Era uma observação favorita do falecido Sr. Whitbread que nenhum homem faz nada por um motivo único. Os motivos separados, ou melhor, os estados de espírito que produziram as reflexões e anedotas anteriores, foram expostos ao leitor em cada caso separado. Mas um interesse pelo bem-estar daqueles que, no momento presente, possam estar em circunstâncias não dessemelhantes das minhas no meu primeiro ingresso na vida, tem sido o acompanhamento constante e (por assim dizer) o sub-canto de todos os meus sentimentos. Whitehead, exercendo a prerrogativa da sua posição de poeta laureado, dirigiu aos jovens poetas uma Carga poética, que é talvez a melhor, e certamente a mais interessante, das suas obras. Sem outro privilégio que não o da simpatia e sinceros bons votos, dirigiria uma exortação afetuosa aos jovens literatos, baseada na minha própria experiência. Será curta; pois o início, o meio e o fim convergem para uma única recomendação: nunca sigam a literatura como profissão. Com exceção de um homem extraordinário, nunca conheci um indivíduo, muito menos um indivíduo de génio, saudável ou feliz sem uma profissão, isto é, algum emprego regular que não dependa da vontade do momento, e que possa ser levado a cabo de forma tão mecânica que apenas um quantum médio de saúde, espírito e esforço intelectual seja necessário para o seu fiel desempenho. Três horas de lazer, não incomodadas por qualquer ansiedade alheia, e aguardadas com deleite como uma mudança e recreação, bastarão para realizar na literatura um produto maior do que é verdadeiramente genial do que semanas de compulsão. O dinheiro e a reputação imediata formam apenas um fim arbitrário e acidental do trabalho literário. A esperança de aumentá-los por qualquer esforço dado provará frequentemente ser um estimulante para a indústria; mas a necessidade de adquiri-los converterá, em todas as obras de génio, o estimulante num narcótico. Os motivos, por excesso, invertem a sua própria natureza e, em vez de excitar, atordoam e estupidificam a mente. Pois uma das distinções do génio face ao talento é que o seu fim predominante está sempre contido nos meios; e este é um dos muitos pontos que estabelecem uma analogia entre o génio e a virtude. Ora, embora os talentos possam existir sem génio, contudo, como o génio não pode existir, certamente não manifestar-se, sem talentos, aconselharia todo o erudito, que sinta o poder genial a trabalhar dentro de si, a fazer uma divisão entre os dois, de modo a dedicar os seus talentos à aquisição de competência em algum comércio ou profissão conhecida, e o seu génio a objetos da sua escolha tranquila e imparcial; enquanto a consciência de ser movido em ambos, da mesma forma, pelo desejo sincero de cumprir o seu dever, enobrecerá ambos. "Meu caro jovem amigo", (diria eu) "suponha-se estabelecido em qualquer ocupação honrosa. Da fábrica ou escritório, do tribunal, ou de ter visitado o seu último paciente, regressa à noite,

Querido tempo tranquilo, quando o doce sentido do Lar É mais doce------

para a sua família, preparado para os seus desfrutes sociais, com as próprias fisionomias da sua esposa e filhos iluminadas, e a sua voz de boas-vindas tornada duplamente bem-vinda, pelo conhecimento de que, no que lhes diz respeito, satisfez as exigências do dia pelo trabalho do dia. Então, quando se retira para o seu escritório, nos livros das suas estantes revisita tantos amigos veneráveis com quem pode conversar. O seu próprio espírito quase tão livre de ansiedades pessoais como as grandes mentes que nesses livros ainda vivem para si! Até a sua secretária com o seu papel em branco e todos os seus outros instrumentos parecerá uma corrente de flores, capaz de ligar os seus sentimentos, bem como os seus pensamentos, a eventos e personagens passados ou por vir; não uma corrente de ferro, que o obriga a pensar no futuro e no remoto ao recordar as exigências e sentimentos do presente peremptório. Mas por que deveria dizer retirar-se? Os hábitos da vida ativa e o convívio diário com a agitação do mundo tenderão a dar-lhe tal autocontrolo que a presença da sua família não será qualquer interrupção. Aliás, o silêncio social, ou as vozes não perturbadoras de uma esposa ou irmã, serão como uma atmosfera restauradora, ou música suave que molda um sonho sem se tornar o seu objeto. Se factos são necessários para provar a possibilidade de combinar desempenhos importantes na literatura com um emprego pleno e independente, as obras de Cícero e Xenofonte entre os antigos; de Sir Thomas More, Bacon, Baxter, ou para referir de imediato instâncias posteriores e contemporâneas, Darwin e Roscoe, são de uma vez decisivas para a questão."

Mas nem todos os homens podem ousar prometer a si mesmos suficiência de autocontrolo para a imitação desses exemplos: embora um escrutínio rigoroso deva sempre ser feito, se a indolência, a inquietude ou uma vaidade impaciente por gratificação imediata não adulteraram o juízo e assumiram a máscara da humildade para os propósitos de autoengano. Ainda assim, a Igreja apresenta a todo o homem de saber e génio uma profissão na qual pode acalentar uma esperança racional de ser capaz de unir os mais vastos planos de utilidade literária com o cumprimento mais estrito dos deveres profissionais. Entre as numerosas bênçãos do Cristianismo, a introdução de uma Igreja estabelecida faz uma reivindicação especial à gratidão dos eruditos e filósofos; na Inglaterra, pelo menos, onde os princípios do Protestantismo conspiraram com a liberdade do governo para duplicar todos os seus poderes salutares pela remoção dos seus abusos.

Que não só as máximas, mas os fundamentos de uma moral pura, cujos meros fragmentos

------os altivos graves trágicos ensinaram Em coro ou iâmbico, os melhores professores De prudência moral, com deleite recebidos Em breves preceitos sentenciosos; [43]

e que as verdades sublimes da unidade e atributos divinos, que um Platão achou mais difícil de aprender e considerou ainda mais difícil de revelar; que estas se tenham tornado a propriedade quase hereditária da infância e da pobreza, da choupana e da oficina; que mesmo para os iletrados soem como lugar-comum, é um fenómeno que deve impedir todos, exceto as mentes do nível mais vulgar, de desvalorizar os serviços até do púlpito e da mesa de leitura. Contudo, aqueles que confinam a eficiência de uma Igreja estabelecida aos seus ofícios públicos dificilmente podem ser colocados num nível mais elevado de intelecto. Que a cada paróquia por todo o reino seja transplantado um germe de civilização; que nas aldeias mais remotas exista um núcleo em torno do qual as capacidades do lugar possam cristalizar-se e brilhar; um modelo suficientemente superior para excitar, mas suficientemente próximo para encorajar e facilitar a imitação; isto, a agência contínua e discreta de um estabelecimento eclesiástico protestante, isto é o que o patriota e o filantropo, que desejariam unir o amor da paz com a fé na melhoria progressiva da humanidade, não podem estimar a um preço demasiado alto. Não pode ser avaliado com o ouro de Ofir, com o precioso ónix, ou a safira. Não se fará menção de coral, ou de pérolas: pois o preço da sabedoria está acima dos rubis. O clérigo está com os seus paroquianos e entre eles; ele não está nem na cela claustrada, nem no deserto, mas é um vizinho e um homem de família, cuja educação e posição o admitem na mansão do rico proprietário, enquanto os seus deveres fazem dele o visitante frequente da quinta e da casa de campo. Ele é, ou pode tornar-se, relacionado com as famílias da sua paróquia ou das suas imediações pelo casamento. E entre os exemplos da cegueira, ou na melhor das hipóteses da miopia, que é da natureza da cupidez infligir, conheço poucos mais impressionantes do que os clamores dos agricultores contra a propriedade da Igreja. Tudo o que não fosse pago ao clérigo seria inevitavelmente, no próximo contrato de arrendamento, pago ao proprietário, enquanto, tal como o caso se apresenta atualmente, as receitas da Igreja são, de certo modo, a propriedade reversível de cada família que possa ter um membro educado para a Igreja, ou uma filha que possa casar com um clérigo. Em vez de ser encerrada e imóvel, é, de facto, a única espécie de propriedade fundiária que é essencialmente móvel e circulante. Que não existem inconvenientes, quem pretenderá afirmar? Mas ainda aguardo a prova de que os inconvenientes são maiores nesta do que em qualquer outra espécie; ou que quer os agricultores, quer o clero, seriam beneficiados forçando estes últimos a tornarem-se ou Trullibers ou funcionários assalariados. Aliás, não hesito em declarar a minha firme convicção de que, qualquer que seja a razão de descontentamento que os agricultores possam alegar, a causa verdadeira é esta: que eles podem enganar o pároco, mas não podem enganar o administrador; e que ficam desapontados se, tendo sido capazes de reter apenas duas libras a menos do que a reivindicação legal, esperavam reter cinco. Em todo o caso, considerado relativamente ao encorajamento do saber e do génio, o estabelecimento apresenta um patrocínio tão eficaz e leve que seria impossível proporcionar outro semelhante ou igual em qualquer outro país, exceto num país cristão e protestante. Dificilmente existe um departamento do conhecimento humano sem alguma relação com as várias verdades críticas, históricas, filosóficas e morais, nas quais o erudito deve estar interessado como clérigo; nenhum objetivo digno de um homem de génio que não possa ser seguido sem incongruência. Dar a história da Bíblia como um livro seria pouco menos do que relatar a origem ou o primeiro estímulo de toda a literatura e ciência que agora possuímos. O próprio decoro que a profissão impõe é favorável aos melhores propósitos do génio e tende a contrariar os seus defeitos mais frequentes. Finalmente, esse homem deve ser deficiente em sensibilidade, quem não encontraria um incentivo à emulação nas grandes e ardentes luzes, que numa longa série ilustraram a igreja da Inglaterra; quem não ouviria do seu interior um eco à voz dos seus santuários sagrados,

Et Pater Aeneas et avunculus excitat Hector.

Mas, qualquer que seja a profissão ou comércio escolhido, as vantagens são muitas e importantes, comparadas com o estado de um mero literato, que em qualquer grau depende da venda das suas obras para as necessidades e confortos da vida. No primeiro, um homem vive em simpatia com o mundo em que vive. Pelo menos, adquire um tato melhor e mais rápido para o conhecimento daquilo com que os homens em geral podem simpatizar. Aprende a gerir o seu génio com mais prudência e eficácia. Os seus poderes e conhecimentos ganham-lhe igualmente mais admiração real; pois superam as expectativas legítimas dos outros. Ele é algo além de um autor, e não é, portanto, considerado meramente como um autor. Os corações dos homens estão abertos a ele, como a um da sua própria classe; e quer se esforce ou não nos círculos de conversação dos seus conhecidos, o seu silêncio não é atribuído ao orgulho, nem a sua comunicatividade à vaidade. A estas vantagens, arriscar-me-ei a acrescentar uma chance superior de felicidade na vida doméstica, se não fosse apenas porque é tão natural para o homem estar fora do círculo da sua casa durante o dia, como é meritório para a mulher permanecer, na maior parte, dentro dele. Mas este tema envolve pontos de consideração tão numerosos e tão delicados, e não só permitiria, mas exigiria documentos tão amplos da biografia de homens literários, que agora apenas aludo a ele in transitu. Quando a mesma circunstância ocorreu em momentos muito diferentes a pessoas muito diferentes, todas as quais têm algo em comum; há razão para supor que tal circunstância não é meramente atribuível às pessoas em questão, mas é, em alguma medida, ocasionada pelo único ponto em comum a todas elas. Em vez da veemente e quase caluniosa desortação do casamento que o Misogino, Boccaccio [44], dirige aos homens literários, eu substituiria o simples conselho: não sejas apenas um homem de letras! Deixa que a literatura seja um aumento honroso para o teu brasão; mas não constitua o casaco, nem preencha o escudo!

A objeções da consciência, claro, não posso responder de outra forma senão pedindo ao jovem objetor (como já fiz numa ocasião anterior) que verifique, com um autoexame rigoroso, se outras influências não estarão em jogo; se espíritos "não de saúde", e com sussurros "não do céu", não estarão a caminhar no crepúsculo da sua consciência. Que ele catalogue os seus escrúpulos e os reduza a uma forma distinta e inteligível; que tenha a certeza de que leu com uma mente dócil e disposições favoráveis as melhores e mais fundamentais obras sobre o assunto; que teve tanto a mente como o coração abertos às qualidades grandes e ilustres dos muitos personagens famosos que duvidaram como ele, e cujas pesquisas terminaram na convicção clara de que as suas dúvidas tinham sido infundadas, ou pelo menos sem proporção com o contrapeso. Feliz será para tal homem se, entre os seus contemporâneos mais velhos do que ele, encontrar alguém que, com poderes semelhantes e sentimentos tão aguçados quanto os seus, tivesse nutrido os mesmos escrúpulos; tivesse agido sobre eles; e que, por pesquisa posterior (quando o passo era, infelizmente! irrecuperável, mas por essa mesma razão a sua pesquisa inegavelmente desinteressada), tivesse descoberto ter discutido com opiniões recebidas apenas para abraçar erros, ter deixado a direção traçada para ele na estrada larga do esforço honroso, apenas para desviar-se para um labirinto onde, quando tinha vagueado até ficar com a cabeça tonta, a sua melhor sorte foi finalmente encontrar o caminho de volta, tarde demais para a prudência, embora não tarde demais para a consciência ou para a verdade! O tempo gasto em tal atraso é tempo ganho: pois a maturidade, entretanto, está a avançar, e com ela o aumento do conhecimento, a força do juízo e, acima de tudo, a temperança dos sentimentos. E mesmo que estes não efetuem qualquer mudança, contudo, o atraso impedirá pelo menos que a aprovação final da decisão seja ligada pela censura interior da precipitação e vaidade pelas quais tinha sido precipitada. Seria uma espécie de irreligião, e pouco menos do que um libelo contra a natureza humana, acreditar que existe qualquer profissão ou emprego estabelecido e respeitável no qual um homem não possa continuar a agir com honestidade e honra; e sem dúvida não existe igualmente nenhum que não possa, por vezes, apresentar tentações ao contrário. Mas encontrar-se-á, desgraçadamente, enganado aquele homem que imagina que a profissão de literatura, ou (para falar mais claramente) o comércio da autoria, assedia os seus membros com menos ou com menos insidiosas tentações do que a Igreja, a lei ou os diferentes ramos do comércio. Mas tratei suficientemente deste tema desagradável num capítulo inicial deste volume. Concluirei, portanto, o presente com um pequeno excerto de Herder, cujo nome poderia ter acrescentado à lista ilustre daqueles que combinaram o sucesso na busca das Musas, não só com o fiel desempenho, mas com as mais altas honras e emolumentos honrosos de uma profissão estabelecida. A tradução o leitor encontrará numa nota abaixo [45]. "Am sorgfaeltigsten, meiden sie die Autorschaft. Zu frueh oder unmaessig gebraucht, macht sie den Kopf wueste and das Herz leer; wenn sie auch sonst keine ueble Folgen gaebe. Ein Mensch, der nur lieset um zu druecken, lieset wahrscheinlich uebel; und wer jeden Gedanken, der ihm aufstosst, durch Feder and Presse versendet, hat sie in kurzer Zeit alle versandt, und wird bald ein blosser Diener der Druckerey, ein Buchstabensetzer werden."

CAPÍTULO XII

Um capítulo de pedidos e premonições sobre a leitura ou omissão do capítulo que se segue.

Na leitura de obras filosóficas, beneficiei-me grandemente de uma resolução que, na forma antitética e com a peculiaridade permitida de um adágio ou máxima, costumo formular assim: até que compreendas a ignorância de um escritor, presume-te ignorante da sua compreensão. Esta minha regra de ouro, confesso, assemelha-se às de Pitágoras na sua obscuridade mais do que na sua profundidade. Se, contudo, o leitor me permitir ser o meu próprio Híerocles, confio que ele encontrará o seu significado plenamente explicado pelos exemplos seguintes. Tenho agora diante de mim um tratado de um fanático religioso, repleto de sonhos e experiências sobrenaturais. Vejo claramente os fundamentos do escritor e a sua vacuidade. Tenho uma visão completa das causas que, por intermédio do seu corpo, atuaram na sua mente; e, pela aplicação de leis recebidas e comprovadas, posso explicar satisfatoriamente à minha própria razão todos os incidentes estranhos que o escritor regista sobre si mesmo. E posso fazê-lo sem suspeitar dele de qualquer falsidade intencional. Tal como quando, em plena luz do dia, um homem segue os passos de um viajante que se perdeu num nevoeiro ou por um luar traiçoeiro, assim mesmo, e com o mesmo sentido tranquilo de certeza, posso seguir os vestígios deste visionário atordoado. Compreendo a sua ignorância.

Por outro lado, tenho relido com as melhores energias da minha mente o TIMEU de Platão. Tudo o que compreendo imprime-me um sentido reverente do génio do autor; mas há uma parte considerável da obra à qual não consigo atribuir qualquer significado coerente. Em outros tratados do mesmo filósofo, destinados às compreensões médias dos homens, deleitei-me com o bom senso magistral, com a perspicuidade da linguagem e com a aptidão das induções. Recordo-me, da mesma forma, de que numerosas passagens neste autor, que compreendo perfeitamente, foram outrora tão ininteligíveis para mim quanto as passagens agora em questão. Estaria, bem sei, muito na moda descartá-las de imediato como jargão platónico. Mas não o posso fazer com satisfação para a minha própria mente, porque procurei em vão causas adequadas para a solução da suposta inconsistência. Não tenho qualquer percepção da possibilidade de um homem tão eminentemente sábio usar palavras com tais meios-significados para si mesmo, que devam forçosamente transformar-se em ausência de significado para os seus leitores. Quando, além dos motivos assim sugeridos pela minha própria razão, trago à memória distinta o número e a série de grandes homens que, após um estudo longo e zeloso destas obras, se uniram em honrar o nome de Platão com epítetos que quase transcendem a humanidade, sinto que um veredito de desprezo da minha parte poderia argumentar falta de modéstia, mas dificilmente seria recebido pelos juízos esclarecidos como prova de penetração superior. Portanto, totalmente frustrado em todas as minhas tentativas de compreender a ignorância de Platão, concluo-me ignorante da sua compreensão.

Em vez dos vários pedidos que a ansiedade da autoria endereça ao leitor desconhecido, apresento apenas este: que ele ou passe por cima do capítulo seguinte, ou leia o todo de forma conectada. A parte mais justa do corpo mais belo parecerá deformada e monstruosa se separada do seu lugar no todo orgânico. Aliás, em assuntos delicados, onde uma diferença aparentemente insignificante de mais ou menos pode constituir uma diferença de espécie, mesmo uma exibição fiel das ideias principais e de apoio, se ainda estiverem separadas das formas pelas quais são simultaneamente revestidas e modificadas, pode talvez apresentar um esqueleto, de facto; mas um esqueleto para alarmar e dissuadir. Embora eu pudesse encontrar numerosos precedentes, não desejarei que o leitor despindo a sua mente de todos os preconceitos, nem que mantenha todos os sistemas anteriores fora de vista durante o seu exame do presente. Pois, na verdade, tais pedidos parecem-me não muito diferentes do conselho dado aos pacientes hipocondríacos na medicina doméstica do Dr. Buchan; a saber, que se mantenham uniformemente tranquilos e de bom humor. Até que eu tivesse descoberto a arte de destruir a memória a parte post, sem prejuízo para as suas operações futuras e sem detrimento para o juízo, eu suprimiria o pedido como prematuro; e, portanto, por mais que deseje ser lido com uma mente sem preconceitos, não presumo declará-lo como uma condição necessária.

A extensão da minha audácia é sugerir um critério, pelo qual se pode conjeturar racionalmente de antemão, se um leitor perderia ou não o seu tempo, e talvez o seu temperamento, na leitura deste ou de qualquer outro tratado construído sobre princípios semelhantes. Mas seria cruelmente mal interpretado, como implicando o menor desrespeito pelas qualidades morais ou intelectuais dos indivíduos por ele excluídos. O critério é este: se um homem recebe como factos fundamentais, e, portanto, naturalmente indemonstráveis e incapazes de análise posterior, as noções gerais de matéria, espírito, alma, corpo, ação, passividade, tempo, espaço, causa e efeito, consciência, perceção, memória e hábito; se ele sente a sua mente completamente em repouso quanto a tudo isto, e se sente satisfeito, desde que possa analisar todas as outras noções em um ou mais destes supostos elementos com plausível subordinação e arranjo apto: a tal mente eu transmitiria, tão cortesmente quanto possível, a dica de que para ele o capítulo não foi escrito.

Vir bonus es, doctus, prudens; ast haud tibi spiro.

Pois estes termos incluem, na verdade, todas as dificuldades que a mente humana pode propor para solução. Tomando-os, portanto, em massa, e não examinados, bastou uma aprendizagem decente em lógica para extrair os seus conteúdos em todas as formas e cores, como os professores de prestidigitação nas nossas feiras de aldeia retiram fita após fita das suas bocas. E não é mais difícil reduzi-los de volta aos seus diferentes géneros. Mas, embora esta análise seja altamente útil para tornar o nosso conhecimento mais distinto, não lhe acrescenta realmente nada. Não aumenta, embora nos dê um maior domínio sobre, a riqueza que possuíamos anteriormente. Para fins forenses, para todas as profissões estabelecidas da sociedade, isto é suficiente. Mas para a filosofia no seu sentido mais elevado como a ciência das verdades últimas e, portanto, scientia scientiarum, esta mera análise de termos é apenas preparatória, embora como disciplina preparatória indispensável.

Ainda menos se pode antecipar uma leitura favorável dos prosélitos daquela filosofia compendiosa que, falando de mente mas pensando em tijolo e argamassa, ou outras imagens igualmente abstraídas do corpo, concebe uma teoria do espírito apelidando a matéria e, em poucas horas, pode qualificar os seus discípulos mais obtusos a explicar o omne scibile reduzindo todas as coisas a impressões, ideias e sensações.

Mas é tempo de dizer a verdade; embora exija alguma coragem para a confessar numa era e num país em que as dissertações sobre todos os assuntos, não privilegiadas por adotar termos técnicos ou símbolos científicos, devem ser dirigidas ao Público. Digo, então, que não é possível nem necessário que todos os homens, nem muitos, sejam filósofos. Existe uma consciência filosófica (e, na medida em que é atualizada por um esforço de liberdade, uma consciência artificial) que jaz abaixo ou (por assim dizer) por trás da consciência espontânea natural a todos os seres reflexivos. Como os antigos romanos distinguiam as suas províncias do norte em Cisalpina e Transalpina, assim podemos dividir todos os objetos do conhecimento humano naqueles deste lado, e naqueles do outro lado da consciência espontânea; citra et trans conscientiam communem. O último é exclusivamente o domínio da filosofia pura, que é, portanto, corretamente intitulada transcendental, a fim de a distinguir imediatamente, tanto da mera reflexão e representação, por um lado, como, por outro, daqueles voos de especulação desenfreada que, abandonados por toda a consciência distinta, porque transgredindo os limites e propósitos das nossas faculdades intelectuais, são justamente condenados como transcendentes [46]. A primeira cordilheira, que circunda o vale escasso da vida humana, é o horizonte para a maioria dos seus habitantes. Nas suas cristas nasce e parte o sol comum. Delas surgem as estrelas, e tocando-as, elas desaparecem. Pela maioria, mesmo esta cordilheira, o limite natural e baluarte do vale, é apenas imperfeitamente conhecida. As suas ascensões mais altas estão muitas vezes escondidas por névoas e nuvens provenientes de pântanos incultos, que poucos têm coragem ou curiosidade de penetrar. Para a multidão abaixo, estes vapores aparecem, ora como os covis escuros de agentes terríveis, nos quais ninguém pode intrometer-se impunemente; e ora todos brilhantes, com cores que não são suas, são olhados como os esplêndidos palácios da felicidade e do poder. Mas em todas as eras houve alguns que, medindo e sondando os rios do vale aos pés das suas quedas mais distantes e inacessíveis, aprenderam que as fontes devem estar muito mais altas e muito mais para dentro; alguns que, mesmo nos riachos planos, detetaram elementos que nem o próprio vale nem as montanhas circundantes continham ou podiam fornecer [47]. Como e de onde a estes pensamentos, a estas fortes probabilidades, a visão que constata, o conhecimento intuitivo podem finalmente sobrevir, só se pode aprender pelo facto. Poderia opor à questão as palavras com as quais [48] Plotino supõe que a Natureza responda a uma dificuldade semelhante. “Se alguém a interrogar, como ela trabalha, se graciosamente ela se dignar a ouvir e falar, ela responderá: não te convém inquietar-me com interrogatórios, mas compreender em silêncio, tal como eu sou silenciosa, e trabalho sem palavras.”

Da mesma forma, no quinto livro da quinta Enéada, falando do conhecimento mais elevado e intuitivo como distinto do discursivo, ou na linguagem de Wordsworth,

“A visão e a faculdade divina;”

ele diz: “não é lícito indagar de onde surgiu, como se fosse uma coisa sujeita a lugar e movimento, pois ela nem se aproximou daqui, nem novamente parte daqui para algum outro lugar; mas ou ela aparece-nos ou não aparece. De modo que não devemos persegui-la com o intuito de detetar a sua fonte secreta, mas vigiar em silêncio até que ela subitamente brilhe sobre nós; preparando-nos para o espetáculo abençoado como o olho espera pacientemente pelo sol nascente.” Eles e só eles podem adquirir a imaginação filosófica, o poder sagrado da auto-intuição, aqueles que dentro de si mesmos podem interpretar e compreender o símbolo, de que as asas da sílfide do ar estão a formar-se dentro da pele da lagarta; aqueles apenas, que sentem nos seus próprios espíritos o mesmo instinto que impele a crisálida da mosca-com-chifres a deixar espaço no seu invólucro para a antena, ainda por vir. Eles sabem e sentem que o potencial trabalha neles, tal como o atual trabalha sobre eles! Em suma, todos os órgãos dos sentidos são estruturados para um mundo de sentidos correspondente; e nós têmo-lo. Todos os órgãos do espírito são estruturados para um mundo de espírito correspondente: embora estes últimos órgãos não estejam desenvolvidos da mesma forma em todos. Mas existem em todos, e a sua primeira aparência revela-se no ser moral. Como poderia ser de outra forma, que até os mundanos, não totalmente degradados, contemplem o homem de bondade simples e desinteressada com sentimentos contraditórios de piedade e respeito? “Pobre homem! ele não é feito para este mundo.” Oh! nisto eles proferem uma profecia de cumprimento universal; pois o homem deve elevar-se ou afundar-se.

É a marca essencial do verdadeiro filósofo não se dar por satisfeito com nenhuma luz imperfeita, enquanto a impossibilidade de alcançar um conhecimento mais completo não tiver sido demonstrada. Que a própria consciência comum fornecerá provas pela sua própria direção, de que está ligada a correntes mestras abaixo da superfície, assumirei apenas como um postulado pro tempore. Tendo isto sido concedido, embora apenas na expectativa do argumento, posso deduzir com segurança a verdade igual da minha afirmação anterior, de que a filosofia não pode ser inteligível para todos, nem mesmo das classes mais eruditas e cultivadas. Um sistema, cujo primeiro princípio é tornar a mente intuitiva do espiritual no homem (isto é, daquilo que jaz do outro lado da nossa consciência natural) deve necessariamente ter uma grande obscuridade para aqueles que nunca disciplinaram e fortaleceram esta consciência ulterior. Deve ser, na verdade, uma terra de trevas, um Anti-Góssen perfeito, para homens a quem os tesouros mais nobres do seu próprio ser são relatados apenas através da tradução imperfeita de movimentos sem vida e sem visão. Talvez, em grande parte, através de palavras que são apenas as sombras de noções; tal como o próprio entendimento nocional é apenas a abstração sombria da verdade viva e real. No IMEDIATO, que habita em cada homem, e na intuição original, ou afirmação absoluta dele, (que está igualmente em cada homem, mas não sobe em cada homem à consciência) toda a certeza do nosso conhecimento depende; e isto torna-se inteligível para nenhum homem pelo ministério de meras palavras de fora. O meio, pelo qual os espíritos se compreendem, não é o ar circundante; mas a liberdade que possuem em comum, como o elemento etéreo comum do seu ser, cujas reciprocidades trémulas se propagam até ao íntimo da alma. Onde o espírito de um homem não está preenchido com a consciência da liberdade (fosse apenas pela sua inquietação, como de alguém ainda a lutar no cativeiro) todo o intercâmbio espiritual é interrompido, não apenas com os outros, mas até consigo mesmo. Não admira, pois, que ele permaneça incompreensível para si mesmo, bem como para os outros. Não admira que, no deserto medonho da sua consciência, ele se canse com palavras vazias, às quais nenhum eco amigável responde, quer do seu próprio coração, quer do coração de um semelhante; ou que se perca na busca de fantasmas nocionais, meras refrações de verdades invisíveis e distantes através do meio distorcido do seu próprio entendimento inanimado e estagnado! Permanecer ininteligível para tal mente, exclama Schelling numa ocasião semelhante, é honra e bom nome perante Deus e os homens.

A história da filosofia (observa o mesmo escritor) contém exemplos de sistemas que, por sucessivas gerações, permaneceram enigmáticos. Tal ele considera o sistema de Leibnitz, a quem outro escritor (temerariamente, penso, e de forma invejosa) exalta como o único filósofo que estava ele próprio profundamente convencido das suas próprias doutrinas. Como interpretadas até agora, contudo, elas não produziram o efeito que o próprio Leibnitz, numa passagem muito instrutiva, descreve como o critério de uma verdadeira filosofia; a saber, que ela explicaria e reuniria de uma só vez os fragmentos de verdade espalhados por sistemas aparentemente mais incongruentes. A verdade, diz ele, está difundida mais amplamente do que geralmente se acredita; mas é frequentemente pintada, mais frequentemente mascarada, e é por vezes mutilada e por vezes, infelizmente! em estreita aliança com erros perniciosos. Quanto mais profundamente, contudo, penetramos no fundamento das coisas, mais verdade descobrimos nas doutrinas da maioria das seitas filosóficas. A falta de realidade substancial nos objetos dos sentidos, segundo os céticos; as harmonias ou números, os protótipos e ideias, aos quais os pitagóricos e platónicos reduziram todas as coisas: o UM e TUDO de Parménides e Plotino, sem [49] o espinosismo; a conexão necessária das coisas segundo os estoicos, reconciliável com a espontaneidade das outras escolas; a filosofia vital dos cabalistas e hermetistas, que assumiram a universalidade da sensação; as formas substanciais e enteléquias de Aristóteles e dos escolásticos, juntamente com a solução mecânica de todos os fenómenos particulares segundo Demócrito e os filósofos recentes -- todas estas encontraremos unidas num ponto central de perspetiva, que mostra regularidade e uma coincidência de todas as partes no próprio objeto que, de qualquer outro ponto de vista, deve parecer confuso e distorcido. O espírito de sectarismo tem sido até agora a nossa falha e a causa dos nossos fracassos. Aprisionámos as nossas próprias conceções pelas linhas que traçámos, a fim de excluir as conceções dos outros. J’ai trouve que la plupart des Sectes ont raison dans une bonne partie de ce qu’elles avancent, mais non pas tant en ce qu’elles nient.

Um sistema que visa deduzir a memória com todas as outras funções da inteligência deve, naturalmente, colocar a sua primeira posição a partir de além da memória, e anterior a ela; caso contrário, o princípio da solução seria ele próprio parte do problema a ser resolvido. Tal posição deve, portanto, ser exigida em primeira instância, e a primeira questão será: com que direito ela é exigida? Por esta razão, penso ser conveniente fazer algumas observações preliminares sobre a introdução de Postulados na filosofia. A palavra postulado é tomada de empréstimo da ciência da matemática [50]. Na geometria, a construção primária não é demonstrada, mas postulada. Esta primeira e mais simples construção no espaço é o ponto em movimento, ou a linha. Se o ponto é movido numa mesma direção, ou se a sua direção é continuamente alterada, permanece ainda indeterminado. Mas se a direção do ponto tiver sido determinada, é ou por um ponto fora dele, e então surge a linha reta que não encerra qualquer espaço; ou a direção do ponto não é determinada por um ponto fora dele, e então ele deve fluir de volta para si mesmo, isto é, surge uma linha cíclica, que encerra um espaço. Se a linha reta for assumida como a positiva, a cíclica é então a negação da reta. É uma linha que em nenhum ponto se lança na reta, mas altera a sua direção continuamente. Mas se a linha primária for concebida como indeterminada, e a linha reta como determinada em toda a sua extensão, então a cíclica é a terceira composta de ambas. É simultaneamente indeterminada e determinada; indeterminada através de qualquer ponto fora, e determinada através de si mesma. A geometria, portanto, fornece à filosofia o exemplo de uma intuição primária, da qual toda a ciência que reivindica evidência deve tomar o seu início. O matemático não começa com uma proposição demonstrável, mas com uma intuição, uma ideia prática.

Mas aqui apresenta-se uma distinção importante. A filosofia é empregada em objetos do SENTIDO interno, e não pode, como a geometria, apropriar-se para cada construção de uma intuição externa correspondente. Contudo, a filosofia, se quer chegar à evidência, deve proceder da construção mais original, e a questão então é: qual é a construção mais original ou o primeiro ato produtivo para o sentido interno. A resposta a esta questão depende da direção que é dada ao sentido interno. Mas na filosofia o sentido interno não pode ter a sua direção determinada por um objeto externo. Para a construção original da linha, posso ser compelido por uma linha desenhada perante mim na lousa ou na areia. O traço assim desenhado não é, de facto, a linha em si, mas apenas a imagem ou retrato da linha. Não é a partir dele que aprendemos primeiro a conhecer a linha; mas, pelo contrário, trazemos este traço à linha original gerada pelo ato da imaginação; de outro modo, não poderíamos defini-la como sem largura ou espessura. Ainda assim, este traço é a imagem sensível da linha original ou ideal, e um meio eficiente para excitar toda a imaginação para a intuição dela.

Pergunta-se, pois, se existe na filosofia algum meio de determinar a direção do sentido interno, tal como na matemática ele é determinável pela sua imagem específica ou figura exterior. Ora, o sentido interno tem a sua direção determinada, na maior parte, apenas por um ato de liberdade. A consciência de um homem estende-se apenas às sensações agradáveis ou desagradáveis causadas nele por impressões externas; outro alarga o seu sentido interno a uma consciência de formas e quantidade; um terceiro, além da imagem, é consciente da conceção ou noção da coisa; um quarto atinge uma noção das suas noções — reflete sobre as suas próprias reflexões; e assim podemos dizer, sem impropriedade, que um possui mais ou menos sentido interno do que o outro. Este mais ou menos trai, desde já, que a filosofia, nos seus primeiros princípios, deve ter um lado prático ou moral, bem como um lado teórico ou especulativo. Esta diferença de grau não existe na matemática. Sócrates, em Platão, mostra que um escravo ignorante pode ser levado a compreender e a resolver, por si mesmo, o mais difícil problema geométrico. Sócrates desenhou as figuras para o escravo na areia. Os discípulos da filosofia crítica poderiam, da mesma forma (como foi, de facto, realizado por La Forge e alguns outros seguidores de Des Cartes), representar a origem das nossas representações em placas de cobre; mas ninguém o tentou ainda, e seria totalmente inútil. Para um esquimó ou um habitante da Nova Zelândia, a nossa filosofia mais popular seria totalmente ininteligível. O sentido, o órgão interior, ainda não nasceu nele. Assim há muitos entre nós, sim, e alguns que se julgam filósofos também, aos quais falta inteiramente o órgão filosófico. Para tal homem, a filosofia é um mero jogo de palavras e noções, como uma teoria da música para o surdo, ou como a geometria da luz para o cego. A conexão das partes e as suas dependências lógicas podem ser vistas e recordadas; mas o todo é infundado e oco, não sustentado por um contacto vivo, desacompanhado de qualquer intuição realizadora que existe por e no ato que afirma a sua existência, que é conhecida porque é, e é porque é conhecida. As palavras de Plotino, na pessoa assumida da Natureza, mantêm-se verdadeiras para a energia filosófica. To theoroun mou, theoraema poiei, osper oi geometrai theorountes graphousin; all’ emon mae graphousaes, theorousaes de, uphistantai ai ton somaton grammai. Comigo, o ato de contemplação faz a coisa contemplada, tal como os geómetras, contemplando, descrevem linhas correspondentes; mas eu, não descrevendo linhas, mas simplesmente contemplando, as formas representativas das coisas erguem-se até à existência.

O postulado da filosofia e, ao mesmo tempo, o teste da capacidade filosófica, não é outro senão o descido do céu CONHECE-TE A TI MESMO! (E coelo descendit, Gnothi seauton). E isto tanto prática como especulativamente. Pois, como a filosofia não é nem uma ciência apenas da razão ou do entendimento, nem meramente uma ciência da moral, mas a ciência do SER por completo, o seu fundamento primário não pode ser nem meramente especulativo nem meramente prático, mas ambos num só. Todo o conhecimento repousa na coincidência de um objeto com um sujeito. (Os meus leitores foram avisados num capítulo anterior de que, para conveniência deles, assim como a do autor, o termo, sujeito, é usado por mim no seu sentido escolástico como equivalente a mente ou ser senciente, e como o correlativo necessário de objeto ou quicquid objicitur menti.) Pois só podemos conhecer aquilo que é verdadeiro: e a verdade é universalmente colocada na coincidência do pensamento com a coisa, da representação com o objeto representado.

Ora, a soma de tudo o que é meramente OBJETIVO, chamaremos de ora em diante NATUREZA, confinando o termo ao seu sentido passivo e material, como compreendendo todos os fenómenos pelos quais a sua existência nos é dada a conhecer. Por outro lado, a soma de tudo o que é SUBJETIVO, podemos compreender no nome de EU ou INTELIGÊNCIA. Ambas as conceções estão em antítese necessária. A inteligência é concebida como exclusivamente representativa, a natureza como exclusivamente representada; uma como consciente, a outra como sem consciência. Ora, em todos os atos de conhecimento positivo, é necessária uma concorrência recíproca de ambos, a saber, do ser consciente e daquilo que é em si mesmo inconsciente. O nosso problema é explicar esta concorrência, a sua possibilidade e a sua necessidade.

Durante o próprio ato do conhecimento, o objetivo e o subjetivo estão tão instantaneamente unidos que não podemos determinar a qual dos dois pertence a prioridade. Não há aqui um primeiro e um segundo; ambos são coinstantâneos e um só. Enquanto tento explicar esta coalizão íntima, devo supor que ela está dissolvida. Devo necessariamente partir de um, ao qual dou, portanto, uma antecedência hipotética, a fim de chegar ao outro. Mas, como há apenas dois fatores ou elementos no problema, sujeito e objeto, e como é deixado indeterminado por qual deles devo começar, há dois casos igualmente possíveis.

1. OU O OBJETIVO É TOMADO COMO O PRIMEIRO, E ENTÃO TEMOS DE DAR CONTA DA SUPERVENIÊNCIA DO SUBJETIVO, QUE SE FUNDE COM ELE.

A noção do subjetivo não está contida na noção do objetivo. Pelo contrário, excluem-se mutuamente. O subjetivo deve, portanto, sobrevir ao objetivo. A conceção de natureza aparentemente não envolve a co-presença de uma inteligência que faça um duplicado ideal dela, isto é, que a represente. Esta secretária, por exemplo, seria (segundo as nossas noções naturais) mesmo que não existisse nenhum ser senciente para a olhar. Este é, pois, o problema da filosofia natural. Assume o objetivo ou natureza inconsciente como o primeiro, e tem, portanto, de explicar como a inteligência pode sobrevir a ela, ou como ela própria pode crescer até à inteligência. Se parecer que todos os naturalistas esclarecidos, sem terem proposto distintamente o problema a si mesmos, se moveram, contudo, constantemente na linha da sua solução, isso deve oferecer uma forte presunção de que o problema em si está fundado na natureza. Pois, se todo o conhecimento tem, por assim dizer, dois polos reciprocamente exigidos e pressupostos, todas as ciências devem proceder de um ou de outro, e devem tender para o oposto até ao ponto equatorial em que ambos se reconciliam e se tornam idênticos. A tendência necessária de toda a filosofia natural é, portanto, da natureza para a inteligência; e esta, e nenhuma outra, é a verdadeira base e ocasião do esforço instintivo de introduzir a teoria nas nossas visões dos fenómenos naturais. A mais alta perfeição da filosofia natural consistiria na perfeita espiritualização de todas as leis da natureza em leis da intuição e do intelecto. Os fenómenos (o material) desaparecem totalmente, e apenas as leis (o formal) devem permanecer. Daí vem que, na própria natureza, quanto mais o princípio da lei irrompe, mais a casca cai, os próprios fenómenos tornam-se mais espirituais e, por fim, cessam completamente na nossa consciência. Os fenómenos óticos não passam de uma geometria, cujas linhas são desenhadas pela luz, e a materialidade desta luz em si já se tornou matéria de dúvida. Nas aparências do magnetismo, perde-se todo o vestígio de matéria, e dos fenómenos da gravitação, que não poucos entre os mais ilustres newtonianos declararam não ser compreensíveis senão como uma influência espiritual imediata, não resta nada senão a sua lei, cuja execução numa vasta escala é o mecanismo dos movimentos celestes. A teoria da filosofia natural estaria então completa quando toda a natureza fosse demonstrada como sendo idêntica em essência àquilo que, na sua mais alta potência conhecida, existe no homem como inteligência e autoconsciência; quando os céus e a terra declararem não apenas o poder do seu criador, mas a glória e a presença do seu Deus, tal como Ele apareceu ao grande profeta durante a visão do monte, nas orlas da sua divindade.

Isto pode bastar para mostrar que até a ciência natural, que começa com o fenómeno material como a realidade e substância das coisas existentes, acaba, contudo, pela necessidade de teorizar inconscientemente, e como que instintivamente, na natureza como uma inteligência; e por esta tendência a ciência da natureza torna-se finalmente filosofia natural, um dos dois polos da ciência fundamental.

2. OU O SUBJETIVO É TOMADO COMO O PRIMEIRO, E O PROBLEMA É ENTÃO: COMO LHE SOBREVÉM UM OBJETIVO COINCIDENTE.

Na busca destas ciências, o nosso sucesso em cada uma depende de uma adesão austera e fiel aos seus próprios princípios, com uma cuidadosa separação e exclusão daqueles que pertencem à ciência oposta. Tal como o filósofo natural, que direciona as suas visões para o objetivo, evita acima de tudo a mistura do subjetivo no seu conhecimento, como, por exemplo, suposições arbitrárias ou melhor, suflicções, qualidades ocultas, agentes espirituais e a substituição de causas finais por causas eficientes; assim, por outro lado, o filósofo transcendental ou inteleccional está igualmente ansioso por impedir toda a interpelação do objetivo nos princípios subjetivos da sua ciência, como, por exemplo, a suposição de impressões ou configurações no cérebro, correspondentes a imagens em miniatura na retina pintadas por raios de luz de supostos originais, que não são os objetos imediatos e reais da visão, mas deduções dela para fins de explicação. Esta purificação da mente é efetuada por um ceticismo absoluto e científico, ao qual a mente se determina voluntariamente para o fim específico da certeza futura. Des Cartes, que (nas suas meditações) ele próprio deu, pelo menos entre os modernos, um belo exemplo desta dúvida voluntária, desta indeterminação autodeterminada, expressa felizmente a sua total diferença do ceticismo da vaidade ou da irreligião: Nec tamen in Scepticos imitabar, qui dubitant tantum ut dubitent, et praeter incertitudinem ipsam nihil quaerunt. Nam contra totus in eo eram ut aliquid certi reperirem [51]. Nem é menos distinta nos seus motivos e fim último do que nos seus objetos próprios, que não são, como no ceticismo comum, os preconceitos da educação e da circunstância, mas aqueles preconceitos originais e inatos que a própria natureza plantou em todos os homens, e que, para todos exceto para o filósofo, são os primeiros princípios do conhecimento e o teste final da verdade.

Ora, estes preconceitos essenciais são todos redutíveis à única presunção fundamental: QUE EXISTEM COISAS FORA DE NÓS. Como isto, por um lado, não se origina nem em fundamentos nem em argumentos, e, contudo, por outro lado, permanece à prova de todas as tentativas de o remover por fundamentos ou argumentos (naturam furca expellas tamen usque redibit;); por um lado, reivindica a certeza IMEDIATA como uma posição ao mesmo tempo indemonstrável e irresistível e, contudo, por outro lado, na medida em que se refere a algo essencialmente diferente de nós mesmos, aliás, mesmo em oposição a nós mesmos, deixa inconcebível como poderia possivelmente tornar-se uma parte da nossa consciência imediata; (por outras palavras, como aquilo que, ex hypothesi, é e continua a ser extrínseco e alheio ao nosso ser, deveria tornar-se uma modificação do nosso ser) o filósofo, portanto, obriga-se a tratar esta fé como nada mais do que um preconceito, inato é verdade e connatural, mas ainda assim um preconceito.

A outra posição, que não só reivindica como necessita a admissão da sua certeza imediata, igualmente para a razão científica do filósofo como para o senso comum da humanidade em geral, a saber, EU SOU, não pode ser tão propriamente intitulada de preconceito. É infundada, na verdade; mas, então, na própria ideia, exclui todo o fundamento e, separada da consciência imediata, perde todo o seu sentido e importância. É infundada; mas apenas porque ela própria é o fundamento de toda a outra certeza. Ora, a aparente contradição de que a posição anterior, a saber, a existência de coisas fora de nós, que pela sua natureza não pode ser imediatamente certa, deva ser recebida tão cegamente e tão independentemente de todos os fundamentos como a existência do nosso próprio ser, o filósofo transcendental só a pode resolver pela suposição de que a primeira está inconscientemente envolvida na última; que não é apenas coerente, mas idêntica, e uma e a mesma coisa com a nossa própria autoconsciência imediata. Demonstrar esta identidade é o cargo e objeto da sua filosofia.

Se se disser que isto é idealismo, lembre-se que é apenas idealismo na medida em que é, ao mesmo tempo, e precisamente por essa razão, o mais verdadeiro e o mais vinculativo realismo. Pois em que consiste propriamente o realismo da humanidade? Na asserção de que existe algo fora deles, o que, ou como, ou onde, não sabem, que causa os objetos da sua perceção? Oh, não! Isto não é nem connatural nem universal. É o que poucos ensinaram e aprenderam nas escolas, e que muitos repetem sem se questionarem sobre o seu próprio significado. O realismo comum a toda a humanidade é muito mais antigo e jaz infinitamente mais fundo do que esta explicação hipotética da origem das nossas perceções, uma explicação retirada da mera superfície da filosofia mecânica. É a própria mesa, que o homem de senso comum acredita ver, não o fantasma de uma mesa, do qual pode argumentativamente deduzir a realidade de uma mesa, que ele não vê. Se destruir a realidade de tudo o que contemplamos realmente é idealismo, o que pode ser mais egregiamente tal do que o sistema da metafísica moderna, que nos bane para uma terra de sombras, nos rodeia de aparições e distingue a verdade da ilusão apenas pela maioria daqueles que sonham o mesmo sonho? "Afirmei que o mundo estava louco", exclamou o pobre Lee, "e o mundo disse que eu estava louco, e, confundam-nos, superaram-me em votos".

É ao realismo verdadeiro e original que eu gostaria de dirigir a atenção. Este não acredita e não requer nem mais nem menos do que o objeto que contempla ou apresenta a si mesmo, é o objeto real e verdadeiro. Neste sentido, por muito que possamos lutar contra isso, nascemos todos coletivamente idealistas, e, portanto, e apenas por isso, somos ao mesmo tempo realistas. Mas disto os filósofos das escolas nada sabem, ou desprezam a fé como o preconceito do vulgo ignorante, porque vivem e movem-se numa multidão de frases e noções das quais a natureza humana desapareceu há muito. Oh, vós que vos reverenciais, e caminhais humildemente com a divindade nos vossos próprios corações, vós sois dignos de uma filosofia melhor! Deixai os mortos enterrar os mortos, mas preservai a vossa natureza humana, cuja profundidade nunca foi sondada por uma filosofia feita de noções e meras entidades lógicas.

No terceiro tratado da minha Logosophia, anunciado no fim deste volume, darei (Deo volente) as demonstrações e construções da Filosofia Dinâmica cientificamente organizadas. É, segundo a minha convicção, nada mais do que o sistema de Pitágoras e de Platão revivido e purificado de misturas impuras. Doctrina per tot manus tradita tandem in vappam desiit! A ciência da aritmética fornece exemplos de que uma regra pode ser útil na aplicação prática, e para o fim particular pode ser suficientemente autenticada pelo resultado, antes de ter sido ela própria plenamente demonstrada. Basta que seja tornada inteligível. Isto, confio, terá sido efetuado nas seguintes Teses para aqueles dos meus leitores que estejam dispostos a acompanhar-me através do capítulo seguinte, no qual os resultados serão aplicados à dedução da Imaginação, e com ela os princípios da produção e da crítica genial nas belas-artes.

TESE I

A verdade é correlativa ao ser. Conhecimento sem uma realidade correspondente não é conhecimento; se conhecemos, deve haver algo conhecido por nós. Conhecer é, na sua própria essência, um verbo ativo.

TESE II

Toda a verdade é ou mediata, isto é, derivada de alguma outra verdade ou verdades; ou imediata e original. A última é absoluta, e a sua fórmula A. A.; a primeira é de certeza dependente ou condicional, e representada na fórmula B. A. A certeza, que adere em A, é atribuível a B.

ESCOLIO. Uma corrente sem um grampo, do qual todos os elos derivassem a sua estabilidade, ou uma série sem um primeiro, foi não inaptamente alegorizada como uma fila de cegos, cada um segurando a aba do homem à sua frente, estendendo-se muito para além da vista, mas todos movendo-se sem o menor desvio numa linha reta. Naturalmente, tomar-se-ia como garantido que havia um guia à cabeça da fila: e se fosse respondido, Não! Senhor, os homens são sem número, e a cegueira infinita supre o lugar da vista?

Igualmente inconcebível é um ciclo de verdades iguais sem um princípio comum e central, que prescreve a cada uma a sua esfera própria no sistema da ciência. Que o absurdo não nos choque tão imediatamente, que não pareça igualmente inimaginável, deve-se a um ato sub-reptício da imaginação, que, instintivamente e sem que o notemos, não só preenche os espaços intervenientes, e contempla o ciclo (de B. C. D. E. F. etc.) como um círculo contínuo (A.) dando a todos coletivamente a unidade da sua órbita comum; mas também supre, por uma espécie de subintelligitur, a única potência central, que torna o movimento harmonioso e cíclico.

TESE III

Devemos procurar, portanto, alguma verdade absoluta capaz de comunicar a outras posições uma certeza, que ela própria não tomou emprestada; uma verdade auto-fundada, incondicional e conhecida pela sua própria luz. Em suma, temos de encontrar algo que é, simplesmente porque é. Para ser tal, deve ser uma que é o seu próprio predicado, pelo menos na medida em que todos os outros predicados nominais devem ser modos e repetições de si mesma. A sua existência também deve ser tal, que exclua a possibilidade de requerer uma causa ou antecedente sem um absurdo.

TESE IV

Que não pode haver senão um tal princípio, pode ser provado a priori; pois se houvesse dois ou mais, cada um deveria referir-se a algum outro, pelo qual a sua igualdade é afirmada; consequentemente, nenhum seria auto-estabelecido, como a hipótese exige. E a posteriori, será provado pelo próprio princípio quando for descoberto, como envolvendo antecedência universal na sua própria conceção.

ESCOLIO. Se afirmamos de uma tábua que é azul, o predicado (azul) é acidental, e não implícito no sujeito, tábua. Se afirmamos de um círculo que é equirradial, o predicado, na verdade, está implícito na definição do sujeito; mas a existência do próprio sujeito é contingente, e supõe tanto uma causa como um percipiente. O mesmo raciocínio aplicar-se-á ao número indefinido de supostas verdades indemonstráveis isentas da abordagem profana da investigação filosófica pelo amável Beattie, e outros inauguradores menos eloquentes e não mais profundos do senso comum no trono da filosofia; uma tentativa infrutífera, se não fosse porque é a dupla função da filosofia reconciliar a razão com o senso comum, e elevar o senso comum à razão.

TESE V

Tal princípio não pode ser qualquer COISA ou OBJETO. Cada coisa é o que é em consequência de alguma outra coisa. Uma coisa infinita e independente [52] não é menos uma contradição do que um círculo infinito ou um triângulo sem lados. Além disso, uma coisa é aquilo que é capaz de ser um objeto que ele próprio não é o único percipiente. Mas um objeto é inconcebível sem um sujeito como a sua antítese. Omne perceptum percipientem supponit.

Mas também o princípio não pode ser encontrado num sujeito como um sujeito, contrastado com um objeto: pois unicuique percipienti aliquid objicitur perceptum. Deve ser encontrado, portanto, nem no objeto nem no sujeito tomados separadamente, e consequentemente, como nenhum outro terceiro é concebível, deve ser encontrado naquilo que não é nem sujeito nem objeto exclusivamente, mas que é a identidade de ambos.

TESE VI

Este princípio, e assim caracterizado, manifesta-se na SOMA ou EU SOU; que doravante expressarei indistintamente pelas palavras espírito, eu e autoconsciência. Nisto, e nisto apenas, objeto e sujeito, ser e conhecer, são idênticos, cada um envolvendo e supondo o outro. Por outras palavras, é um sujeito que se torna um sujeito pelo ato de se construir objetivamente a si mesmo; mas que nunca é um objeto exceto para si mesmo, e apenas na medida em que pelo próprio ato se torna um sujeito. Pode ser descrito, portanto, como uma autoduplicação perpétua de uma e a mesma potência em objeto e sujeito, que se pressupõem mutuamente, e podem existir apenas como antíteses.

ESCÓLIO. Se a um homem for perguntado como ele sabe que é, ele só pode responder: sum quia sum. Mas se (admitida a absolutidade desta certeza) ele for perguntado novamente como ele, a pessoa individual, passou a existir, então, em relação ao fundamento da sua existência, e não ao fundamento do seu conhecimento dessa existência, ele poderia responder: sum quia Deus est, ou, ainda mais filosoficamente: sum quia in Deo sum.

Mas se elevarmos a nossa concepção ao eu absoluto, ao grande e eterno EU SOU, então o princípio do ser e do conhecimento, da ideia e da realidade; o fundamento da existência e o fundamento do conhecimento da existência, são absolutamente idênticos, Sum quia sum; eu sou, porque me afirmo ser; afirmo-me ser, porque sou.

TESE VII

Se, portanto, conheço-me apenas através de mim mesmo, é contraditório exigir qualquer outro predicado do eu, senão o da autoconsciência. Apenas na autoconsciência de um espírito existe a necessária identidade de objeto e representação; pois nisto consiste a essência de um espírito, que ele é autorrepresentativo. Se, portanto, esta for a única verdade imediata, na certeza da qual a realidade do nosso conhecimento coletivo se fundamenta, deve seguir-se que o espírito, em todos os objetos que contempla, contempla apenas a si mesmo. Se isto pudesse ser provado, a realidade imediata de todo conhecimento intuitivo estaria assegurada. Foi demonstrado que um espírito é aquilo que é o seu próprio objeto, embora não originalmente um objeto, mas um sujeito absoluto para o qual tudo, ele mesmo incluído, pode tornar-se um objeto. Deve, portanto, ser um ATO; pois todo objeto é, como objeto, morto, fixo, incapaz em si mesmo de qualquer ação e necessariamente finito. Novamente, o espírito (originalmente a identidade de objeto e sujeito) deve, em certo sentido, dissolver esta identidade para ser dela consciente; fit alter et idem. Mas isto implica um ato, e segue-se, portanto, que a inteligência ou autoconsciência é impossível, exceto por e em uma vontade. O espírito autoconsciente é, portanto, uma vontade; e a liberdade deve ser assumida como fundamento da filosofia, e nunca pode ser deduzida dela.

TESE VIII

Tudo o que na sua origem é objetivo, é, do mesmo modo, necessariamente finito. Portanto, uma vez que o espírito não é originalmente um objeto, e como o sujeito existe em antítese a um objeto, o espírito não pode ser originalmente finito. Mas tampouco pode ser um sujeito sem tornar-se um objeto, e, como é originalmente a identidade de ambos, não pode ser concebido nem como infinito nem como finito exclusivamente, mas como a união mais original de ambos. Na existência, na reconciliação e na recorrência desta contradição consiste o processo e o mistério da produção e da vida.

TESE IX

Este principium commune essendi et cognoscendi, na medida em que subsiste numa VONTADE, ou ATO primário de autoduplicação, é o princípio mediato ou indireto de toda ciência; mas é o princípio imediato e direto apenas da ciência última, isto é, da filosofia transcendental. Pois deve ser lembrado que todas estas Teses se referem unicamente a uma das duas Ciências Polares, a saber, aquela que começa com, e restringe-se rigidamente ao, subjetivo, deixando o objetivo (na medida em que é exclusivamente objetivo) para a filosofia natural, que é o seu polo oposto. Na sua própria ideia, portanto, como um conhecimento sistemático do nosso CONHECER coletivo (scientia scientiae), envolve a necessidade de um princípio supremo de conhecimento, como sendo simultaneamente a fonte e a forma acompanhante em todos os atos particulares do intelecto e da percepção. Isto, como foi demonstrado, pode ser encontrado apenas no ato e na evolução da autoconsciência. Não estamos investigando um principium essendi absoluto; pois então, admito, muitas objeções válidas poderiam ser levantadas contra a nossa teoria; mas um principium cognoscendi absoluto. O resultado de ambas as ciências, ou o seu ponto equatorial, seria o princípio de uma filosofia total e indivisa, como, por razões de prudência, escolhi antecipar no Escólio da Tese VI e na nota que o segue. Por outras palavras, a filosofia passaria a religião, e a religião tornar-se-ia inclusiva da filosofia. Começamos com o EU CONHEÇO-ME, a fim de terminar com o EU SOU absoluto. Prosseguimos a partir do EU, a fim de perder e encontrar todo o eu em DEUS.

TESE X

O filósofo transcendental não indaga que fundamento último do nosso conhecimento pode residir fora do nosso conhecer, mas o que é o último no nosso próprio conhecer, além do qual não podemos passar. O princípio do nosso conhecer é buscado dentro da esfera do nosso conhecer. Deve ser, portanto, alguma coisa que possa, ela mesma, ser conhecida. Afirma-se apenas que o ato da autoconsciência é para nós a fonte e o princípio de todo o nosso conhecimento possível. Se, abstraído de nós, existe algo superior e além deste autoconhecimento primário, que é para nós a forma de todo o nosso conhecimento, deve ser decidido pelo resultado.

Que a autoconsciência seja o ponto fixo ao qual tudo, para nós, está fixado e anexado, não necessita de mais provas. Mas que a autoconsciência possa ser a modificação de uma forma superior de ser, talvez de uma consciência superior, e esta, por sua vez, de uma ainda superior, e assim por diante num regressus infinito; em suma, que a autoconsciência possa ser, ela mesma, algo explicável em algo que deva residir para além da possibilidade do nosso conhecimento, porque toda a síntese da nossa inteligência é formada primeiramente em e através da autoconsciência, não nos diz respeito, enquanto filósofos transcendentais. Pois, para nós, a autoconsciência não é um tipo de ser, mas um tipo de conhecer, e, além disso, o mais elevado e distante que existe para nós. Pode, contudo, ser mostrado, e em parte já foi mostrado anteriormente, que mesmo quando o Objetivo é assumido como o primeiro, nunca podemos ir além do princípio da autoconsciência. Se tentássemos, seríamos rechaçados de fundamento em fundamento, cada um dos quais deixaria de ser um fundamento no momento em que nele pressionássemos. Seríamos redemoinhados para o abismo de uma série infinita. Mas isto faria com que a nossa razão frustrasse o fim e o propósito de toda a razão, a saber, a unidade e o sistema. Ou teríamos de romper a série arbitrariamente e afirmar um algo absoluto que é em e de si mesmo, simultaneamente, causa e efeito (causa sui), sujeito e objeto, ou, antes, a identidade absoluta de ambos. Mas, como isto é inconcebível, exceto numa autoconsciência, segue-se que, mesmo como filósofos naturais, devemos chegar ao mesmo princípio do qual, como filósofos transcendentais, partimos; isto é, numa autoconsciência na qual o principium essendi não se encontra em relação de causa e efeito com o principium cognoscendi, mas ambos, um e outro, são coinerentes e idênticos. Assim, o verdadeiro sistema da filosofia natural coloca a única realidade das coisas num ABSOLUTO, que é simultaneamente causa sui et effectus, pater autopator, uios heautou — na identidade absoluta de sujeito e objeto, que ela chama de natureza, e que, na sua potência mais elevada, não é nada além de vontade autoconsciente ou inteligência. Neste sentido, a posição de Malebranche, de que vemos todas as coisas em Deus, é uma estrita verdade filosófica; e igualmente verdadeira é a afirmação de Hobbes, de Hartley, e dos seus mestres na Grécia antiga, de que todo conhecimento real supõe uma sensação prévia. Pois a sensação em si mesma é apenas visão nascente, não a causa da inteligência, mas a própria inteligência revelada como uma potência anterior no processo de autoconstrução.

Makar, ilathi moi; Pater, ilathi moi Ei para kosmon, Ei para moiran Ton son ethigon!

Tendo, pois, isto em mente — que a inteligência é um autodesenvolvimento, não uma qualidade que sobrevém a uma substância —, podemos abstrair de todo grau e, para fins de construção filosófica, reduzi-la ao género, sob a ideia de uma potência indestrutível com duas forças opostas e contra-atuantes, que, por uma metáfora tomada de empréstimo à astronomia, podemos chamar de forças centrífuga e centrípeta. A inteligência, na primeira, tende a objetivar-se e, na segunda, a conhecer-se no objeto. Será, doravante, minha tarefa construir, por uma série de intuições, os esquemas progressivos que devem seguir-se de tal potência com tais forças, até chegar à plenitude da inteligência humana. Para o meu propósito atual, assumo tal potência como meu princípio, a fim de deduzir dela uma faculdade cuja geração, agência e aplicação formam o conteúdo do capítulo seguinte.

Numa página precedente, justifiquei o uso de termos técnicos na filosofia, sempre que tendam a impedir a confusão de pensamento e quando auxiliam a memória pela singeleza exclusiva do seu significado, mais do que podem, por um curto período, confundir a atenção pela sua estranheza. Confio não ter estendido este privilégio para além dos fundamentos nos quais o reclamei; a saber, a conveniência da fraseologia escolástica para distinguir o género de todos os graus, ou, antes, para expressar o género com a abstração do grau, como, por exemplo, multeidade em vez de multidão; ou, em segundo lugar, por causa da correspondência sonora em termos interdependentes ou antitéticos, como sujeito e objeto; ou, finalmente, para evitar a recorrente e fatigante circunlocução e definição. Assim, aventurar-me-ei a usar potência, a fim de expressar um grau específico de uma força, à imitação dos algebristas. Arrisquei, até mesmo, o novo verbo potencizar, com os seus derivados, a fim de expressar a combinação ou transferência de potências. Ocorre com termos novos ou inusuais o mesmo que com privilégios em tribunais de justiça ou legislativos; não pode haver privilégio legítimo onde já existe uma lei positiva adequada ao propósito; e, quando não existe lei em vigor, o privilégio deve ser justificado pela sua conformidade com o fim, ou causa final, de toda a lei. Palavras inusuais e recém-cunhadas são, sem dúvida, um mal; mas a imprecisão, a confusão e a transmissão imperfeita dos nossos pensamentos são um mal muito maior. Todo sistema que tenha a necessidade de usar termos não familiarizados pela metafísica em voga será descrito como escrito num estilo ininteligível, e o autor deve esperar a acusação de ter substituído o jargão erudito por uma concepção clara; enquanto, segundo o credo dos nossos filósofos modernos, nada é considerado uma concepção clara, a menos que seja representável por uma imagem distinta. Assim, o concebível é reduzido aos limites do pictórico. Hinc patet, qui fiat, ut cum irrepraesentabile et impossibile vulgo ejusdem significatus habeantur, conceptus tam continui, quam infiniti, a plurimis rejiciantur, quippe quorum, secundum leges cognitionis intuitivae, repraesentatio est impossibilis. Quanquam autem harum e non paucis scholis explosarum notionum, praesertim prioris, causam hic non gero, maximi tamen momenti erit monuisse gravissimo illos errore labi, qui tam perverse argumentandi ratione utuntur. Quicquid enim repugnat legibus intellectus et rationis, utique est impossibile; quod autem, cum rationis purae sit objectum, legibus cognitionis intuitivae tantummodo non subest, non item. Nam hic dissensus inter facultatem sensitivam et intellectualem, (quarum indolem mox exponam,) nihil indigitat, nisi, quas mens ab intellectu acceptas fert ideas abstractas, illas in concreto exsequi et in intuitus commutare saepenumero non posse. Haec autem reluctantia subjectiva mentitur, ut plurimum, repugnantiam aliquam objectivam, et incautos facile fallit, limitibus, quibus mens humana circumscribitur, pro iis habitis, quibus ipsa rerum essentia continetur.

Os críticos, que estão mais prontos a trazer esta acusação de pedantismo e ininteligibilidade, são os mais aptos a negligenciar o fato importante de que, além da linguagem das palavras, existe uma linguagem dos espíritos (sermo interior) — e que a primeira é apenas o veículo da segunda. Consequentemente, a sua certeza de que não compreendem o escritor filosófico, em vez de provar qualquer coisa contra a filosofia, pode fornecer uma presunção igual, e (caeteris paribus) até mesmo mais forte, contra o seu próprio talento filosófico.

Grandes, de fato, são os obstáculos que um metafísico inglês tem de enfrentar. Entre os seus juízes mais respeitáveis e inteligentes, haverá muitos que dedicaram a sua atenção exclusivamente às preocupações e interesses da vida humana, e que trazem consigo, para a leitura de um sistema filosófico, uma aversão habitual a todas as especulações cuja utilidade e aplicação não sejam evidentes e imediatas. A estes, eu oporia, em primeira instância, apenas uma autoridade que eles próprios consideram venerável, a de Lord Bacon: non inutiles Scientiae existimandae sunt, quarum in se nullus est usus, si ingenia acuant et ordinent.

Há outros cujos preconceitos são ainda mais formidáveis, na medida em que estão fundamentados nos seus sentimentos morais e princípios religiosos, que foram alarmados e chocados pelos dogmas ímpios e perniciosos defendidos por Hume, Priestley e pelos fatalistas ou necessitaristas franceses; alguns dos quais perverteram raciocínios metafísicos para a negação dos mistérios e, de fato, de todas as doutrinas peculiares do Cristianismo; e outros, até mesmo, para a subversão de toda distinção entre o certo e o errado. Eu pediria a tais homens que considerassem o que um eminente e bem-sucedido defensor da fé cristã observou: que a verdadeira metafísica não é nada além da verdadeira divindade e que, de fato, os escritores que lhes causaram tal justa ofensa eram sofistas que tinham tirado proveito do negligenciamento geral em que a ciência da lógica caiu infelizmente, em vez de metafísicos — um nome, de fato, que esses escritores foram os primeiros a explodir como destituído de sentido. Em segundo lugar, lembrar-lhes-ia que, enquanto houver homens no mundo para quem o Gnothi seauton é um instinto e um comando da sua própria natureza, haverá metafísicos e especulações metafísicas; que a falsa metafísica pode ser efetivamente neutralizada apenas pela verdadeira metafísica; e que, se o raciocínio for claro, sólido e pertinente, a verdade deduzida nunca poderá ser menos valiosa por causa da profundidade de onde possa ter sido extraída.

Uma terceira classe professa-se amigável à metafísica e acredita que são eles próprios metafísicos. Não têm objeção ao sistema ou à terminologia, desde que seja o método e a nomenclatura aos quais se familiarizaram nos escritos de Locke, Hume, Hartley, Condillac, ou talvez do Dr. Reid e do Professor Stewart. A objeções desta causa, é uma resposta suficiente que um dos principais objetivos da minha tentativa foi demonstrar a imprecisão ou insuficiência dos termos usados nas escolas metafísicas da França e da Grã-Bretanha desde a revolução, e que os erros que me proponho atacar não podem subsistir, exceto se estiverem escondidos por trás da máscara de uma nomenclatura plausível e indefinida.

Mas o pior e mais vasto impedimento ainda permanece. É a predominância de uma filosofia popular, simultaneamente o simulacro e o inimigo mortal de toda a verdadeira e viril investigação metafísica. É aquela corrupção, introduzida por certos ecléticos aforísticos imetódicos que, descartando não apenas todo sistema, mas toda conexão lógica, escolhem o que é mais plausível e ostensivo; que selecionam todas as palavras que podem ter alguma aparência de sentido a elas ligado sem o menor dispêndio de pensamento; em suma, tudo o que possa permitir aos homens falar daquilo que não compreendem, com um cuidadoso evitamento de tudo o que pudesse despertá-los para um momento de suspeita da sua ignorância. Esta, infelizmente, é uma doença irremediável, pois traz consigo não tanto uma indisposição para qualquer sistema em particular, mas uma perda total do gosto e da faculdade para todo o sistema e para toda a filosofia. Como ecos que se engendram uns aos outros entre as montanhas, o louvor ou a culpa de tais homens rola em salvas muito tempo após o disparo do bacamarte original. Sequacitas est potius et coitio quam consensus: et tamen (quod pessimum est) pusillanimitas ista non sine arrogantia et fastidio se offert.

Passarei agora à natureza e gênese da Imaginação; mas devo primeiro pedir licença para notar que, após uma leitura mais precisa das observações do Sr. Wordsworth sobre a Imaginação, no seu prefácio à nova edição dos seus poemas, concluo que as minhas conclusões não são tão concordantes com as dele como, confesso, eu tinha tomado como certo. Num artigo contribuído por mim para a Omniana do Sr. Southey, Sobre a alma e os seus órgãos dos sentidos, estão as seguintes frases: “Estas (as faculdades humanas) eu arranjaria sob os diferentes sentidos e potências: como o olho, o ouvido, o tato, etc.; o poder imitativo, voluntário e automático; a imaginação, ou o poder de dar forma e modificar; a fantasia, ou o poder agregativo e associativo; o entendimento, ou o poder regulador, substanciador e realizador; a razão especulativa, vis theoretica et scientifica, ou o poder pelo qual produzimos, ou visamos produzir, unidade, necessidade e universalidade em todo o nosso conhecimento por meio de princípios a priori; a vontade, ou razão prática; a faculdade de escolha (Germanice, Willkuehr) e (distinta tanto da vontade moral quanto da escolha), a sensação de volição, que encontrei razões para incluir sob o título de tato simples e duplo.” A isto, na medida em que se relaciona com o assunto em questão, a saber, as palavras (o poder agregativo e associativo), a objeção do Sr. Wordsworth “é apenas que a definição é demasiado geral. Agregar e associar, evocar e combinar, pertencem tanto à Imaginação quanto à Fantasia.” Respondo que, se pelo poder de evocar e combinar o Sr. Wordsworth entende o mesmo que, e nada mais do que, eu entendi por agregativo e associativo, continuo a negar que pertença de todo à Imaginação; e estou disposto a conjecturar que ele confundiu a co-presença da Fantasia com a Imaginação com a operação desta última, isoladamente. Um homem pode trabalhar com duas ferramentas muito diferentes no mesmo momento; cada uma tem a sua parte no trabalho, mas o trabalho efetuado por cada uma é distinto e diferente. Mas provavelmente aparecerá no próximo capítulo que, julgando necessário voltar muito mais atrás do que o assunto do Sr. Wordsworth requeria ou permitia, atribuí um significado tanto à Fantasia quanto à Imaginação que ele não tinha em vista, pelo menos enquanto escrevia aquele prefácio. Ele julgará. Oxalá eu pudesse encontrar muitos leitores assim! Concluirei com as palavras do Bispo Jeremy Taylor: “Aquele para quem todas as coisas são uma, que atrai todas as coisas para uma, e vê todas as coisas numa só, pode gozar de verdadeira paz e descanso de espírito.”

CAPÍTULO XIII

Sobre a imaginação, ou poder esemplástico

O Adam, One Almighty is, from whom All things proceed, and up to him return, If not deprav’d from good, created all Such to perfection, one first matter all, Endued with various forms, various degrees Of substance, and, in things that live, of life; But more refin’d, more spiritous and pure, As nearer to him plac’d, or nearer tending, Each in their several active spheres assigu’d, Till body up to spirit work, in bounds Proportion’d to each kind. So from the root Springs lighter the green stalk, from thence the leaves More aery: last the bright consummate flower Spirits odorous breathes: flowers and their fruit, Man’s nourishment, by gradual scale sublim’d, To vital spirits aspire: to animal: To intellectual!--give both life and sense, Fancy and understanding; whence the soul REASON receives, and reason is her being, Discursive or intuitive.

“Sane dicerentur si res corporales nil nisi materiale continerent, verissime in fluxu consistere, neque habere substantiale quicquam, quemadmodum et Platonici olim recte agnovere.”

“Hinc igitur, praeter pure mathematica et phantasiae subjecta, collegi quaedam metaphysica solaque mente perceptibilia, esse admittenda et massae materiali principium quoddam superius et, ut sic dicam, formale addendum: quandoquidem omnes veritates rerum corporearum ex solis axiomatibus logisticis et geometricis, nempe de magno et parvo, toto et parte, figura et situ, colligi non possint; sed alia de causa et effectu, actioneque et passione, accedere debeant, quibus ordinis rerum rationes salventur. Id principium rerum, an entelecheian an vim appellemus, non refert, modo meminerimus, per solam Virium notionem intelligibiliter explicari.”

Sebomai noeron Kruphian taxin Chorei TI MESON Ou katachuthen.

Des Cartes, falando como naturalista e à imitação de Arquimedes, disse: dai-me matéria e movimento e eu vos construirei o universo. Devemos, é claro, entender que ele quis dizer: tornarei a construção do universo inteligível. No mesmo sentido, o filósofo transcendental diz: concedei-me uma natureza dotada de duas forças contrárias, uma das quais tende a expandir-se infinitamente, enquanto a outra se esforça por apreender ou encontrar a si mesma nesta infinidade, e eu farei surgir diante de vós o mundo das inteligências com todo o sistema de suas representações. Toda outra ciência pressupõe a inteligência como já existente e completa: o filósofo contempla-a em seu crescimento e, por assim dizer, representa a sua história ao espírito, desde o nascimento até a maturidade.

O venerável sábio de Koenigsberg precedeu a marcha deste pensamento mestre como um pioneiro eficaz em seu ensaio sobre a introdução de quantidades negativas na filosofia, publicado em 1763. Nele, mostrou que, em vez de atacar a ciência da matemática pela metafísica, como Berkeley fez em seu ANALYST, ou de sofisticá-la, como Wolf fez, pela vã tentativa de deduzir os primeiros princípios da geometria a partir de fundamentos supostamente mais profundos da ontologia, cabia ao metafísico examinar se a única província do conhecimento que o homem conseguiu erigir em ciência pura não poderia fornecer materiais, ou pelo menos indícios, para estabelecer e pacificar o domínio instável, belicoso e conturbado da filosofia. Uma imitação do método matemático fora, de fato, tentada, com não mais sucesso do que o acompanhou o ensaio de David em vestir a armadura de Saul. Outro uso, contudo, é possível e de promessa muito maior, a saber, a aplicação real das posições que tinham tão maravilhosamente ampliado as descobertas da geometria, mutatis mutandis, aos assuntos filosóficos. Kant, tendo ilustrado brevemente a utilidade de tal tentativa nas questões de espaço, movimento e quantidades infinitamente pequenas, conforme empregadas pelo matemático, procede à ideia de quantidades negativas e à transferência das mesmas para a investigação metafísica. Opostos, observa ele acertadamente, são de dois tipos: ou lógicos, isto é, aqueles que são absolutamente incompatíveis; ou reais, sem serem contraditórios. Os primeiros ele denomina Nihil negativum irrepraesentabile, cuja conexão produz o absurdo. Um corpo em movimento é algo--Aliquid cogitabile; mas um corpo, ao mesmo tempo em movimento e não em movimento, não é nada, ou, no máximo, ar articulado em absurdo. Mas uma força motora de um corpo em uma direção e uma força igual do mesmo corpo em uma direção oposta não são incompatíveis, e o resultado, a saber, o repouso, é real e representável. Para os propósitos do cálculo matemático, é indiferente qual força chamamos de negativa e qual de positiva, e consequentemente apropriamo-nos desta última para aquilo que por acaso é o objeto principal em nossos pensamentos. Assim, se o capital de um homem é dez e suas dívidas oito, a subtração será a mesma, quer chamemos o capital de dívida negativa, quer a dívida de capital negativo. Mas, na medida em que esta última se encontra praticamente em referência à primeira, representamos, é claro, a soma como 10-8. É igualmente claro que duas forças iguais agindo em direções opostas, sendo ambas finitas e cada uma distinguida da outra apenas pela sua direção, devem neutralizar ou reduzir uma à outra à inação. Ora, a filosofia transcendental exige: primeiro, que duas forças sejam concebidas de modo a neutralizarem-se por sua natureza essencial; não apenas não em consequência da direção acidental de cada uma, mas como anteriores a toda direção, aliás, como as forças primárias das quais as condições de todas as direções possíveis são deriváveis e dedutíveis: segundo, que essas forças sejam assumidas como sendo ambas igualmente infinitas, ambas igualmente indestrutíveis. O problema será então descobrir o resultado ou produto de duas tais forças, conforme distinguido do resultado daquelas forças que são finitas e derivam sua diferença unicamente da circunstância de sua direção. Quando tivermos formado um esquema ou esboço desses dois tipos diferentes de força, e de seus diferentes resultados, pelo processo do raciocínio discursivo, restar-nos-á então elevar a tese do notional ao atual, contemplando intuitivamente este poder com suas duas forças inerentes indestrutíveis, porém contrárias, e os resultados ou gerações aos quais sua interpenetração dá existência, no princípio vivo e no processo de nossa própria autoconsciência. Por qual instrumento isso é possível, a própria solução descobrirá, ao mesmo tempo em que revelará a quem e para quem é possível. Non omnia possumus omnes. Existe um gênio filosófico, não menos que um poético, que se diferencia da mais alta perfeição do talento, não por grau, mas por espécie.

A neutralização, pois, das duas forças assumidas não depende do seu encontro em direções opostas; o poder que nelas atua é indestrutível; é, portanto, inesgotavelmente reebuliente; e como algo deve ser o resultado dessas duas forças, ambas igualmente infinitas e ambas igualmente indestrutíveis; e como o repouso ou a neutralização não pode ser este resultado; nenhuma outra concepção é possível a não ser que o produto deva ser um tertium aliquid, ou geração finita. Consequentemente, esta concepção é necessária. Ora, este tertium aliquid não pode ser outro senão uma interpenetração dos poderes contrários, participando de ambos.

* * * * * *

Até aqui o trabalho fora transcrito para a imprensa, quando recebi a seguinte carta de um amigo, cujo juízo prático tive ampla razão para estimar e reverenciar, e cujo gosto e sensibilidade excluem todas as desculpas que o meu amor-próprio poderia possivelmente ter-me incitado a apresentar como apelo contra a decisão de conselheiros de igual bom senso, porém com menos tato e sentimento.

"Caro C.

"Pedis a minha opinião sobre o teu Capítulo sobre a Imaginação, tanto quanto às impressões que causou em mim, quanto às que penso que causará no Público, isto é, aquela parte do público que, pelo título da obra e por ela formar uma espécie de introdução a um volume de poemas, provavelmente constituirá a grande maioria dos teus leitores.

"Quanto a mim, e declarando em primeiro lugar o efeito sobre o meu entendimento, as tuas opiniões e o teu método de argumentação não eram apenas tão novos para mim, mas tão diretamente o inverso de tudo o que eu estivera acostumado a considerar como verdade, que, mesmo se eu tivesse compreendido as tuas premissas suficientemente para as ter admitido, e tivesse visto a necessidade das tuas conclusões, eu ainda estaria naquele estado de espírito que, na tua nota no Cap. IV, tão engenhosamente desenvolveste, como a antítese daquele em que um homem se encontra quando comete um disparate. Nas tuas próprias palavras, eu me teria sentido como se estivesse de cabeça para baixo.

"O efeito sobre os meus sentimentos, por outro lado, não posso representar melhor do que supondo-me ter conhecido apenas as nossas leves e arejadas capelas modernas, e então, pela primeira vez, ter sido colocado, e deixado sozinho, em uma das nossas maiores catedrais góticas em uma noite tempestuosa de luar de outono. 'Ora em claridade, ora em penumbra;' frequentemente em trevas palpáveis, não sem uma sensação arrepiante de terror; então emergindo subitamente para luzes amplas, porém visionárias, com sombras coloridas de formas fantásticas, embora todas adornadas com insígnias sagradas e símbolos místicos; e de vez em quando saindo em cheio para retratos e imagens de pedra de grandes homens, com cujos nomes eu estava familiarizado, mas que olhavam para mim com semblantes e uma expressão, a mais díspar de tudo o que eu estivera habituado a associar àqueles nomes. Aqueles que eu fora ensinado a venerar como quase sobre-humanos em magnitude de intelecto, encontrei empoleirados em pequenos nichos de entalhes, como anões grotescos; enquanto os grotescos, na minha crença até então, permaneciam guardando o altar-mor com todos os caracteres de apoteose. Em suma, o que eu supusera substâncias foram adelgaçadas até se tornarem sombras, enquanto por toda parte sombras eram aprofundadas até se tornarem substâncias:

Se substância pudesse ser chamada aquela que sombra parecia, Pois cada uma parecia a outra!

"Contudo, após tudo, não pude deixar de repetir os versos que citaste de um poema manuscrito teu no FRIEND, e aplicaste a uma obra do Sr. Wordsworth, embora com algumas das palavras alteradas:

------Um conto órfico, na verdade, Um conto obscuro de pensamentos elevados e apaixonados Cantado para uma música estranha!

"Esteja certo, porém, de que aguardo ansiosamente o teu grande livro sobre a FILOSOFIA CONSTRUTIVA, que prometeste e anunciaste: e que farei o meu melhor para compreendê-lo. Apenas não prometerei descer à caverna escura de Trofônio contigo, para lá esfregar os meus próprios olhos, a fim de fazer as faíscas e lampejos figurados que me é exigido ver.

"Tanto por mim. Mas quanto ao Público, não hesito um momento em aconselhar-te e incitar-te a retirar o Capítulo da presente obra, e reservá-lo para os teus anunciados tratados sobre o Logos ou intelecto comunicativo no Homem e na Divindade. Primeiro, porque, por mais imperfeitamente que eu compreenda o presente Capítulo, vejo claramente que fizeste demasiado, e contudo não o suficiente. Foste obrigado a omitir tantos elos, pela necessidade de compressão, que o que resta parece (se me é permitido recorrer à minha ilustração anterior) como os fragmentos dos degraus em espiral de uma velha torre em ruínas. Em segundo lugar, um argumento ainda mais forte (pelo menos um que tenho a certeza de que será mais forçoso contigo) é que os teus leitores terão tanto o direito quanto a razão para se queixarem de ti. Este Capítulo, que não pode, quando impresso, totalizar menos de cem páginas, aumentará necessariamente muito o custo da obra; e todo leitor que, como eu, não esteja preparado nem talvez calculado para o estudo de um assunto tão abstruso tão abstrusamente tratado, estará, como insinuei antes, quase habilitado a acusar-te de uma espécie de imposição sobre ele. Pois quem, poderia ele observar verdadeiramente, poderia, a partir da tua página de rosto, a saber, “Minha Vida e Opiniões Literárias,” publicada também como introdutória a um volume de poemas diversos, ter antecipado, ou mesmo conjeturado, um longo tratado sobre Realismo Ideal que mantém a mesma relação em abstrusidade com Plotino, que Plotino mantém com Platão. Será bom se já não tiveres demasiada dissertação metafísica na tua obra, embora, como a maior parte da dissertação seja histórica, será sem dúvida interessante e instrutiva para muitos para cujas mentes despreparadas as tuas especulações sobre o poder esemplástico seriam totalmente ininteligíveis. Esteja certo de que, se publicares este Capítulo na presente obra, serás lembrado do Siris do Bispo Berkeley, anunciado como um Ensaio sobre Água de Alcatrão, que começando com Alcatrão termina com a Trindade, formando o omne scibile o espaço intermediário. Digo na presente obra. Naquela obra maior à qual dedicaste tantos anos, e estudo tão intenso e variado, estará no seu devido lugar. O teu prospecto terá descrito e anunciado tanto o seu conteúdo quanto a sua natureza; e se algumas pessoas o comprarem, que não sentem interesse nos assuntos de que trata, terão apenas a si mesmas a culpar.

"Poderia acrescentar a estes argumentos um derivado de motivos pecuniários, e particularmente dos efeitos prováveis sobre a venda da tua presente publicação; mas pesariam pouco contigo em comparação com os anteriores. Além disso, há muito observei que argumentos extraídos dos teus próprios interesses pessoais agem mais frequentemente sobre ti como narcóticos do que como estimulantes, e que, em questões de dinheiro, tens alguma pequena porção de natureza suína na tua idiossincrasia moral e, como essas criaturas amáveis, deves ocasionalmente ser puxado para trás do barco a fim de te fazer entrar nele. Todo sucesso te acompanhe, pois se pensamento árduo e leitura árdua são méritos, tu os mereceste.

"Teu afetuoso, etc."

Em consequência desta carta muito judiciosa, que produziu completa convicção na minha mente, contentar-me-ei por enquanto em declarar o resultado principal do capítulo, que reservei para aquela publicação futura, cujo prospecto detalhado o leitor encontrará ao final do segundo volume.

A Imaginação, então, considero-a ou como primária, ou secundária. A Imaginação primária considero ser o poder vivo e agente principal de toda percepção humana, e como uma repetição na mente finita do ato eterno de criação no EU SOU infinito. A Imaginação secundária considero como um eco da anterior, coexistindo com a vontade consciente, contudo ainda idêntica à primária na espécie de sua agência, e diferindo apenas em grau e no modo de sua operação. Ela dissolve, difunde, dissipa, a fim de recriar: ou, onde este processo é tornado impossível, ainda assim, em todo caso, ela luta por idealizar e por unificar. É essencialmente vital, mesmo como todos os objetos (como objetos) são essencialmente fixos e mortos.

A FANTASIA, pelo contrário, não tem outros contadores com que jogar, senão fixidades e definidos. A fantasia não é, na verdade, nada mais do que um modo de memória emancipado da ordem do tempo e do espaço; enquanto é misturada com, e modificada por, aquele fenômeno empírico da vontade que expressamos pela palavra Escolha. Mas, igualmente com a memória comum, a Fantasia deve receber todos os seus materiais prontos da lei de associação.

CAPÍTULO XIV

Ocasião das Lyrical Ballads, e os objetivos originalmente propostos--Prefácio à segunda edição--A controvérsia subsequente, suas causas e acrimônia--Definições filosóficas de um Poema e da Poesia com escolias.

Durante o primeiro ano em que o Sr. Wordsworth e eu fomos vizinhos, as nossas conversas voltaram-se frequentemente para os dois pontos cardeais da poesia: o poder de excitar a simpatia do leitor por uma fidelidade à verdade da natureza, e o poder de conferir o interesse da novidade pelas cores modificadoras da imaginação. O encanto súbito, que acidentes de luz e sombra, que o luar ou o pôr do sol difundiam sobre uma paisagem conhecida e familiar, parecia representar a praticabilidade de combinar ambos. Estas são a poesia da natureza. O pensamento sugeriu-se—(a qual de nós, não recordo)—que uma série de poemas poderia ser composta de dois tipos. No primeiro, os incidentes e agentes deveriam ser, em parte pelo menos, sobrenaturais; e a excelência visada deveria consistir em interessar as afeições pela verdade dramática de tais emoções, como as que naturalmente acompanhariam tais situações, supondo-as reais. E reais neste sentido foram para todo ser humano que, de qualquer fonte de ilusão, em qualquer momento acreditou estar sob agência sobrenatural. Para a segunda classe, os assuntos deveriam ser escolhidos da vida comum; os personagens e incidentes deveriam ser tais como serão encontrados em cada aldeia e sua vizinhança, onde houver uma mente meditativa e sentiente para procurá-los, ou para notá-los quando se apresentam.

Nesta ideia originou-se o plano das LYRICAL BALLADS; nas quais foi acordado que os meus esforços deveriam ser dirigidos a pessoas e personagens sobrenaturais, ou pelo menos românticos; ainda que de modo a transferir da nossa natureza interior um interesse humano e uma aparência de verdade suficiente para obter para estas sombras da imaginação aquela voluntária suspensão da descrença pelo momento, que constitui a fé poética. O Sr. Wordsworth, por outro lado, deveria propor a si mesmo como seu objetivo dar o encanto da novidade às coisas de cada dia, e excitar um sentimento análogo ao sobrenatural, despertando a atenção da mente para a letargia do hábito, e dirigindo-a para a amabilidade e as maravilhas do mundo diante de nós; um tesouro inesgotável, mas para o qual, em consequência da película da familiaridade e da solicitude egoísta, temos olhos, mas não vemos, ouvidos que não ouvem, e corações que nem sentem nem compreendem.

Com este intuito escrevi THE ANCIENT MARINER, e estava a preparar, entre outros poemas, THE DARK LADIE e CHRISTABEL, nos quais teria realizado mais de perto o meu ideal do que fizera na minha primeira tentativa. Mas a indústria do Sr. Wordsworth provou ser muito mais bem-sucedida, e o número dos seus poemas muito maior, de modo que as minhas composições, em vez de formarem um equilíbrio, pareciam antes uma interpolação de matéria heterogênea. O Sr. Wordsworth acrescentou dois ou três poemas escritos no seu próprio caráter, na dicção apaixonada, elevada e sustentada, que é característica do seu gênio. Nesta forma, as LYRICAL BALLADS foram publicadas; e foram apresentadas por ele, como um experimento, se assuntos que pela sua natureza rejeitavam os ornamentos usuais e o estilo extra-coloquial dos poemas em geral não poderiam ser tão geridos na linguagem da vida comum a ponto de produzir o interesse prazeroso que é a tarefa peculiar da poesia transmitir. À segunda edição, ele acrescentou um prefácio de considerável extensão; no qual, não obstante algumas passagens de sentido aparentemente contrário, foi entendido que ele defendia a extensão deste estilo à poesia de todos os tipos, e rejeitava como viciosas e indefensáveis todas as frases e formas de fala que não estivessem incluídas naquilo que ele (infelizmente, penso eu, adotando uma expressão equívoca) chamou de linguagem da vida real. Deste prefácio, prefixado a poemas nos quais era impossível negar a presença de gênio original, por mais equivocada que a sua direção pudesse ser considerada, surgiu toda a longa controvérsia. Pois, da conjunção de poder percebido com suposta heresia, explico a inveterada e, em alguns casos, lamento dizer, as paixões acrimoniosas com que a controvérsia tem sido conduzida pelos atacantes.

Se os poemas do Sr. Wordsworth tivessem sido as coisas tolas e infantis que por muito tempo foram descritas como sendo; se tivessem sido realmente distinguidos das composições de outros poetas meramente pela baixeza da linguagem e inanidade do pensamento; se de fato não tivessem contido nada mais do que o que é encontrado nas paródias e pretensas imitações deles; teriam afundado de uma vez, como um peso morto, no pântano do esquecimento, e teriam arrastado o prefácio consigo. Mas ano após ano aumentou o número de admiradores do Sr. Wordsworth. Foram encontrados, também, não nas classes inferiores do público leitor, mas principalmente entre jovens de forte sensibilidade e mentes meditativas; e a sua admiração (inflamada talvez em algum grau pela oposição) distinguia-se pela sua intensidade, eu poderia quase dizer, pelo seu fervor religioso. Estes fatos, e a energia intelectual do autor, que era mais ou menos conscientemente sentida onde era exterior e até estridentemente negada, encontrando sentimentos de aversão às suas opiniões e de alarme quanto às suas consequências, produziram um redemoinho de crítica, que por si só teria mantido os poemas à tona pela violência com que os girava de um lado para o outro. Com muitas partes deste prefácio, no sentido atribuído a elas e que as palavras indubitavelmente parecem autorizar, nunca concordei; pelo contrário, opus-me a elas como errôneas em princípio, e como contraditórias (em aparência pelo menos) tanto a outras partes do mesmo prefácio, quanto à própria prática do autor na maior parte dos próprios poemas. O Sr. Wordsworth, na sua recente coleção, descobri, rebaixou esta dissertação prefacial ao final do seu segundo volume, para ser lida ou não, à escolha do leitor. Mas ele não anunciou, tanto quanto pude descobrir, qualquer mudança no seu credo poético. Em todo caso, considerando-o como a fonte de uma controvérsia na qual fui honrado mais do que mereço pela frequente conjunção do meu nome com o dele, considero expedito declarar, de uma vez por todas, em que pontos coincido com as opiniões sustentadas naquele prefácio, e em que pontos difiro totalmente. Mas, a fim de tornar-me inteligível, devo previamente, no menor número de palavras possível, explicar as minhas visões, primeiro, de um Poema; e segundo, da própria Poesia, em espécie e em essência.

O ofício da dissertação filosófica consiste na distinção justa; ao passo que é privilégio do filósofo manter-se constantemente ciente de que distinção não é divisão. A fim de obter noções adequadas de qualquer verdade, devemos separar intelectualmente as suas partes distinguíveis; e este é o processo técnico da filosofia. Mas, tendo-o feito, devemos então restaurá-las nas nossas conceções à unidade na qual elas efetivamente coexistem; e este é o resultado da filosofia. Um poema contém os mesmos elementos que uma composição em prosa; a diferença, portanto, deve consistir numa combinação diferente deles, em consequência de um objetivo diferente ser proposto. De acordo com a diferença do objetivo será a diferença da combinação. É possível que o objetivo seja meramente facilitar a recordação de quaisquer factos ou observações dados por meio de um arranjo artificial; e a composição será um poema, meramente porque se distingue da prosa pela métrica, ou pela rima, ou por ambos conjuntamente. Neste, o sentido mais baixo, um homem poderia atribuir o nome de poema à bem conhecida enumeração dos dias nos vários meses;

“Trinta dias tem setembro, Abril, junho e novembro,” etc.

e outros da mesma classe e propósito. E como se encontra um prazer particular em antecipar a recorrência de sons e quantidades, todas as composições que tenham este encanto acrescido, quaisquer que sejam os seus conteúdos, podem ser intituladas poemas.

Tanto pela forma superficial. Uma diferença de objetivo e conteúdos fornece uma base adicional de distinção. O propósito imediato pode ser a comunicação de verdades; quer de verdade absoluta e demonstrável, como nas obras de ciência; quer de factos experienciados e registados, como na história. O prazer, e esse do tipo mais elevado e permanente, pode resultar da obtenção do fim; mas não é, ele próprio, o fim imediato. Noutras obras, a comunicação de prazer pode ser o propósito imediato; e embora a verdade, quer moral ou intelectual, deva ser o fim último, contudo isto distinguirá o caráter do autor, não a classe a que a obra pertence. Bem-aventurado é, de facto, esse estado de sociedade no qual o propósito imediato seria frustrado pela perversão do fim último adequado; no qual nenhum encanto de dicção ou imagética poderia isentar o BATHYLLUS mesmo de um Anacreonte, ou o ALEXIS de Virgílio, de repugnância e aversão!

Mas a comunicação de prazer pode ser o objetivo imediato de uma obra não composta metricamente; e esse objetivo pode ter sido em alto grau alcançado, como em novelas e romances. Conferiria então a mera superadição de métrica, com ou sem rima, a estes o nome de poemas? A resposta é que nada pode agradar permanentemente que não contenha em si a razão de ser assim, e não de outra forma. Se a métrica for superadicionada, todas as outras partes devem ser feitas consoantes com ela. Devem ser tais que justifiquem a atenção perpétua e distinta a cada parte, que uma recorrência exata e correspondente de acento e som é calculada para excitar. A definição final, então, assim deduzida, pode ser redigida da seguinte forma. Um poema é aquela espécie de composição que se opõe às obras de ciência, ao propor como seu objetivo imediato o prazer, não a verdade; e de todas as outras espécies — (tendo este objetivo em comum com ele) — distingue-se ao propor para si próprio tal deleite do todo, que seja compatível com uma gratificação distinta de cada parte componente.

A controvérsia não é raramente excitada em consequência de os disputantes atribuírem, cada um, um significado diferente à mesma palavra; e em poucos casos tem sido isto mais notável do que em disputas concernentes ao presente assunto. Se um homem escolhe chamar poema a toda a composição que seja rima, ou medida, ou ambos, devo deixar a sua opinião incontroversa. A distinção é, pelo menos, competente para caracterizar a intenção do escritor. Se fosse acrescentado que o todo é igualmente divertido ou comovente, como um conto, ou como uma série de reflexões interessantes; admito, naturalmente, isto como outro ingrediente apto de um poema, e um mérito adicional. Mas se a definição procurada for a de um poema legítimo, respondo que deve ser um cujas partes se apoiem e expliquem mutuamente; todas, na sua proporção, harmonizando-se com, e apoiando o propósito e as influências conhecidas do arranjo métrico. Os críticos filosóficos de todas as eras coincidem com o juízo último de todos os países, ao negarem igualmente os louvores de um poema justo, por um lado, a uma série de versos ou dísticos marcantes, cada um dos quais, absorvendo para si toda a atenção do leitor, se torna desunido do seu contexto e forma um todo separado, em vez de uma parte harmonizante; e, por outro lado, a uma composição não sustentada, da qual o leitor recolhe rapidamente o resultado geral sem ser atraído pelas partes componentes. O leitor deve ser levado adiante, não meramente ou principalmente pelo impulso mecânico da curiosidade, ou por um desejo inquieto de chegar à solução final; mas pela atividade prazerosa da mente excitada pelas atrações da própria jornada. Como o movimento de uma serpente, que os egípcios fizeram o emblema do poder intelectual; ou como o caminho do som através do ar; — a cada passo ele para e recua a meio; e do movimento retrogressivo recolhe a força que novamente o leva avante. Praecipitandus est liber spiritus, diz Petrónio muito felizmente. O epíteto, liber, aqui equilibra o verbo precedente; e não é fácil conceber mais significado condensado em menos palavras.

Mas se isto deve ser admitido como um caráter satisfatório de um poema, temos ainda de procurar uma definição de poesia. Os escritos de Platão, e Jeremy Taylor, e a *Teoria da Terra* de Burnet, fornecem provas inegáveis de que a poesia do tipo mais elevado pode existir sem métrica, e mesmo sem os objetos contradistintivos de um poema. O primeiro capítulo de Isaías — (de facto, uma porção muito grande de todo o livro) — é poesia no sentido mais enfático; contudo, não seria menos irracional do que estranho afirmar que o prazer, e não a verdade, era o objeto imediato do profeta. Em suma, qualquer que seja o significado específico que atribuamos à palavra Poesia, encontrar-se-á envolvido nela, como uma consequência necessária, que um poema de qualquer extensão nem pode ser, nem deveria ser, toda poesia. Contudo, se um todo harmonioso deve ser produzido, as partes restantes devem ser preservadas em consonância com a poesia; e isto não pode ser efetuado de outra forma senão por tal seleção estudada e arranjo artificial que participará de uma, embora não uma propriedade peculiar da poesia. E isto, novamente, não pode ser outra coisa senão a propriedade de excitar uma atenção mais contínua e igual do que aquela a que a linguagem da prosa aspira, seja coloquial ou escrita.

As minhas próprias conclusões sobre a natureza da poesia, no uso mais estrito da palavra, foram em parte antecipadas em algumas das observações sobre a Fantasia e a Imaginação na primeira parte desta obra. O que é poesia? — é uma questão tão próxima daquela, o que é um poeta? — que a resposta a uma está envolvida na solução da outra. Pois é uma distinção que resulta do próprio génio poético, que sustenta e modifica as imagens, pensamentos e emoções da própria mente do poeta.

O poeta, descrito em perfeição ideal, traz toda a alma do homem para a atividade, com a subordinação das suas faculdades umas às outras de acordo com o seu valor e dignidade relativos. Ele difunde um tom e espírito de unidade, que mistura, e (por assim dizer) funde, cada uma com cada uma, por aquele poder sintético e mágico ao qual eu apropriaria exclusivamente o nome de Imaginação. Este poder, posto primeiro em ação pela vontade e pelo entendimento, e retido sob o seu controlo irremissível, embora suave e despercebido, laxis effertur habenis, revela-se “no equilíbrio ou reconciliação de qualidades opostas ou discordantes”: do mesmo, com a diferença; do geral com o concreto; a ideia com a imagem; o indivíduo com o representante; o sentido de novidade e frescura com objetos velhos e familiares; um estado de emoção mais do que habitual com uma ordem mais do que habitual; o juízo sempre desperto e a posse de si firme com o entusiasmo e o sentimento profundo ou veemente; e, enquanto mistura e harmoniza o natural e o artificial, subordina ainda a arte à natureza; o modo à matéria; e a nossa admiração pelo poeta à nossa simpatia pela poesia. Sem dúvida, como Sir John Davies observa sobre a alma — (e as suas palavras podem, com ligeira alteração, ser aplicadas, e até mais apropriadamente, à Imaginação poética) —

Sem dúvida isto não poderia ser, senão que ela transforma Corpos em espírito por sublimação estranha, Como o fogo converte em fogo as coisas que queima, Como nós o nosso alimento na nossa natureza mudamos.

Da sua matéria grosseira ela abstrai as suas formas, E extrai uma espécie de quinta-essência das coisas; Que para a sua própria natureza ela transforma Para as carregar leves nas suas asas celestiais.

Assim faz ela, quando de estados individuais Ela abstrai os tipos universais; Que então, revestidos em diversos nomes e destinos, Roubam acesso através dos sentidos às nossas mentes.

Finalmente, o Bom Senso é o Corpo do génio poético, a Fantasia a sua Vestimenta, o Movimento a sua Vida, e a Imaginação a Alma que está em toda a parte, e em cada um; e forma tudo num todo gracioso e inteligente.

CAPÍTULO XV

Os sintomas específicos do poder poético elucidados numa análise crítica de VÉNUS E ADÓNIS e O RAPTO DE LUCRÉCIA de Shakespeare.

Na aplicação destes princípios a propósitos de crítica prática, tal como empregada na avaliação de obras mais ou menos imperfeitas, esforcei-me por descobrir quais são as qualidades num poema que podem ser consideradas promessas e sintomas específicos de poder poético, em distinção do talento geral determinado para a composição poética por motivos acidentais, por um ato da vontade, em vez de pela inspiração de uma natureza genial e produtiva. Nesta investigação, não poderia, pensei, fazer melhor do que manter diante de mim a obra mais antiga do maior génio que talvez a natureza humana tenha ainda produzido, o nosso Shakespeare de mil mentes [61]. Refiro-me a VÉNUS E ADÓNIS e a LUCRÉCIA; obras que dão, de uma vez, promessas fortes da força, e contudo provas óbvias da imaturidade, do seu génio. Destas abstraí as seguintes marcas como características do génio poético original em geral.

1. Em VÉNUS E ADÓNIS, a primeira e mais óbvia excelência é a doçura perfeita da versificação; a sua adaptação ao assunto; e o poder exibido em variar a marcha das palavras sem passar para um ritmo mais elevado e majestoso do que o exigido pelos pensamentos, ou permitido pela propriedade de preservar um sentido de melodia predominante. O deleite na riqueza e doçura do som, mesmo até um excesso defeituoso, se for evidentemente original, e não o resultado de um mecanismo facilmente imitável, considero como uma promessa altamente favorável nas composições de um jovem. O homem que não tem música na sua alma não pode, de facto, nunca ser um poeta genuíno. Imagética — (mesmo retirada da natureza, muito mais quando transplantada de livros, como viagens, navegações e obras de história natural) — incidentes comoventes, pensamentos justos, sentimentos pessoais ou domésticos interessantes, e com estes a arte da sua combinação ou entretecimento na forma de um poema — podem todos, por esforço incessante, ser adquiridos como um ofício, por um homem de talento e muita leitura, que, como observei uma vez antes, confundiu um desejo intenso de reputação poética com um génio poético natural; o amor do fim arbitrário com uma posse dos meios peculiares. Mas o sentido de deleite musical, com o poder de o produzir, é um dom da imaginação; e este, juntamente com o poder de reduzir a multidão à unidade de efeito, e modificar uma série de pensamentos por algum pensamento ou sentimento predominante, pode ser cultivado e melhorado, mas nunca pode ser aprendido. É nestes que “poeta nascitur non fit”.

2. Uma segunda promessa de génio é a escolha de assuntos muito remotos dos interesses e circunstâncias privados do próprio escritor. Pelo menos descobri que, onde o assunto é retirado imediatamente das sensações e experiências pessoais do autor, a excelência de um poema particular é apenas uma marca equívoca, e muitas vezes um penhor falaz, de um poder poético genuíno. Talvez nos lembremos do conto do estatuário que adquirira reputação considerável pelas pernas das suas deusas, embora o resto da estátua concordasse apenas indiferentemente com a beleza ideal; até que a sua esposa, exaltada pelos elogios do seu marido, reconheceu modestamente que tinha sido ela a sua modelo constante. Em VÉNUS E ADÓNIS, esta prova de poder poético existe mesmo até ao excesso. É, em toda a parte, como se um espírito superior, mais intuitivo, mais intimamente consciente, mesmo do que as próprias personagens, não apenas de cada olhar e ato exterior, mas do fluxo e refluxo da mente em todos os seus pensamentos e sentimentos mais subtis, estivesse a colocar o todo perante a nossa vista; ele próprio, entretanto, não participando nas paixões, e movido apenas por aquela excitação prazerosa, que tinha resultado do fervor energético do seu próprio espírito em exibir tão vividamente o que tinha tão precisa e profundamente contemplado. Penso que teria conjeturado a partir destes poemas que, mesmo então, o grande instinto que impeliu o poeta para o drama estava secretamente a trabalhar nele, levando-o — por uma série e corrente ininterrupta de imagética, sempre vívida e, porque ininterrupta, muitas vezes minuciosa; pelo esforço mais elevado do pitoresco nas palavras, de que as palavras são capazes, mais elevado talvez do que jamais foi realizado por qualquer outro poeta, nem mesmo Dante excetuado; a fornecer um substituto para aquela linguagem visual, aquela intervenção constante e comentário corrente por tom, olhar e gesto, que nas suas obras dramáticas ele tinha o direito de esperar dos atores. O seu Vénus e Adónis parecem, de uma vez, as próprias personagens, e toda a representação dessas personagens pelos atores mais consumados. Parece que não nos é dito nada, mas que vemos e ouvimos tudo. Daí que, pela atividade perpétua da atenção exigida da parte do leitor; pelo fluxo rápido, a mudança veloz e a natureza brincalhona dos pensamentos e imagens; e acima de tudo pelo alheamento, e, se me é permitida tal expressão, o distanciamento total dos próprios sentimentos do poeta, daqueles de que ele é, de uma vez, o pintor e o analista; que, embora o próprio assunto não possa deixar de diminuir o prazer de uma mente delicada, contudo nunca um poema foi menos perigoso por uma conta moral. Em vez de fazer como Ariosto, e como, ainda mais ofensivamente, Wieland tem feito, em vez de degradar e deformar a paixão em apetite, as provações do amor nas lutas da concupiscência; Shakespeare aqui representou o impulso animal em si, de modo a excluir toda a simpatia por ele, ao dissipar a atenção do leitor entre as mil imagens exteriores, e circunstâncias ora belas, ora fantasiosas, que formam os seus trajes e o seu cenário; ou ao desviar a nossa atenção do assunto principal por aquelas reflexões frequentes, engenhosas ou profundas, que a mente sempre ativa do poeta deduziu da, ou conectou com a, imagética e os incidentes. O leitor é forçado a demasiada ação para simpatizar com o meramente passivo da nossa natureza. Tão pouco pode uma mente assim despertada e aguçada ser chocada por emoção vil e indistinta, como a névoa baixa e preguiçosa pode rastejar sobre a superfície de um lago, enquanto um vendaval forte a impele adiante em ondas e vagas.

3. Observou-se antes que as imagens, por mais belas que sejam, embora fielmente copiadas da natureza, e tão precisamente representadas em palavras, não caracterizam por si mesmas o poeta. Tornam-se provas de génio original apenas na medida em que são modificadas por uma paixão predominante; ou por pensamentos ou imagens associadas despertadas por essa paixão; ou quando têm o efeito de reduzir a multidão à unidade, ou a sucessão a um instante; ou, finalmente, quando uma vida humana e intelectual lhes é transferida do próprio espírito do poeta,

Que dispara o seu ser através da terra, do mar e do ar.

Nos dois versos seguintes, por exemplo, não há nada de censurável, nada que os impedisse de formar, no seu lugar próprio, parte de um poema descritivo:

Contempla aquela fila de pinheiros, que tosquiados e curvados Se dobram perante o sopro do mar, vistos ao crepúsculo.

Mas com uma pequena alteração de ritmo, as mesmas palavras estariam igualmente no seu lugar num livro de topografia, ou numa excursão descritiva. A mesma imagem elevar-se-á à semelhança da poesia se for assim transmitida:

Aquela fila de pinheiros sombrios e visionários, Pelo vislumbre do crepúsculo discernidos, nota! como fogem Do sopro feroz do mar, todas as suas madeixas selvagens Fluindo diante deles.

Dei isto como uma ilustração, de modo algum como um exemplo, daquela excelência particular que eu tinha em vista, e na qual Shakespeare, mesmo nas suas obras mais antigas, como nas suas mais recentes, supera todos os outros poetas. É por isto que ele ainda confere uma dignidade e uma paixão aos objetos que apresenta. Sem ajuda de qualquer excitação prévia, eles irrompem sobre nós de uma vez em vida e em poder, —

“Muitas e gloriosas manhãs vi eu Lisonjear os cumes das montanhas com olhar soberano.”

“Nem os meus próprios medos, nem a alma profética Do vasto mundo a sonhar com coisas por vir —

* * * * * * * * * * * *

A lua mortal suportou o seu eclipse, E os tristes áugures zombam do seu próprio presságio; Incertezas agora coroam-se asseguradas, E a Paz proclama oliveiras de era sem fim. Agora com as gotas deste tempo tão balsâmico O meu amor parece fresco, e a Morte a mim submete-se, Pois apesar dela, viverei nesta pobre rima, Enquanto ela insulta tribos mudas e estúpidas. E tu nisto encontrarás o teu monumento, Quando os brasões dos tiranos, e os túmulos de latão estiverem gastos.”

Como de valor mais elevado, assim sem dúvida mais característica do génio poético torna-se a imagética, quando se molda e colore às circunstâncias, paixão ou caráter, presente e primordial na mente. Para instâncias inigualáveis desta excelência, a própria memória do leitor remetê-lo-á ao LEAR, OTHELLO, em suma, a qual não das obras dramáticas do “grande, sempre vivo, homem morto”? Inopem me copia fecit. Quão verdadeira é para com a natureza, ele próprio expressou finamente no caso do amor no seu Soneto 98.

De ti estive ausente na primavera, Quando o orgulhoso e variegado abril, vestido em todo o seu apuro, Pôs um espírito de juventude em tudo; Que o pesado Saturno riu e saltou com ele. Contudo, nem os cantos das aves, nem o doce cheiro De diferentes flores em odor e em matiz, Puderam fazer-me contar qualquer história de verão, Ou do seu colo orgulhoso arrancá-las, onde cresciam. Nem me maravilhei com os lírios brancos, Nem louvei o vermelho profundo na rosa; Eram, se bem que doces, apenas figuras de deleite, Desenhadas segundo ti, tu padrão de todas elas. Contudo parecia inverno ainda, e, tu ausente, Como com a tua sombra, eu com estas brinquei!”

Quase menos certa, ou se uma marca menos valiosa, não menos indispensável

Gonimon men poiaetou------ ------hostis rhaema gennaion lakoi,

fornecerá a imagética, quando, com mais do que o poder do pintor, o poeta nos dá a imagem mais vívida de sucessão com o sentimento de simultaneidade: —

Com isto, ele liberta-se do doce abraço Daqueles belos braços, que o prendiam ao peito dela, E para casa através da clareira escura corre a passo apressado; —

* * * * * *

Olha! como uma estrela brilhante dispara do céu, Assim desliza ele na noite do olhar de Vénus.

O último caráter que mencionarei, o qual, na verdade, pouco provaria, exceto se tomado em conjunto com os anteriores — mas sem o qual os anteriores dificilmente poderiam existir em alto grau e (mesmo que isso fosse possível) apenas prometeriam lampejos transitórios e um poder meteórico — é a profundidade e a energia do pensamento. Nenhum homem foi ainda um grande poeta sem ser, ao mesmo tempo, um filósofo profundo. Pois a poesia é o florescer e a fragrância de todo o conhecimento humano, pensamentos humanos, paixões humanas, emoções, linguagem. Nos poemas de Shakespeare, o poder criativo e a energia intelectual lutam como num abraço de guerra. Cada um, no seu excesso de força, parece ameaçar a extinção do outro. Por fim, no drama, reconciliaram-se e lutaram cada um com o seu escudo perante o peito do outro. Ou como dois riachos rápidos que, ao seu primeiro encontro entre margens estreitas e rochosas, lutam mutuamente para se repelir e se misturam com relutância e em tumulto; mas que, logo encontrando um canal mais largo e margens mais maleáveis, se fundem, se dilatam e fluem numa só corrente e com uma só voz. O VENUS AND ADONIS não permitiu, talvez, a exibição das paixões mais profundas. Mas a história de Lucrécia parece favorecer e até exigir os seus funcionamentos mais intensos. E, contudo, não encontramos no tratamento da história por Shakespeare nem pathos, nem qualquer outra qualidade dramática. Existe a mesma imagética minuciosa e fiel que no poema anterior, nas mesmas cores vivas, inspirada pelo mesmo vigor impetuoso de pensamento, e divergindo e contraindo-se com a mesma atividade das faculdades assimilativas e modificadoras; e com uma exibição ainda maior, um alcance ainda mais vasto de conhecimento e reflexão; e, por fim, com o mesmo domínio perfeito, frequentemente dominação, sobre todo o mundo da linguagem. O que diremos então? Mesmo isto: que Shakespeare, não um mero filho da natureza; não um autómato de génio; não um veículo passivo de inspiração, possuído pelo espírito, não possuindo-o; primeiro estudou pacientemente, meditou profundamente, compreendeu minuciosamente, até que o conhecimento, tornado habitual e intuitivo, se uniu aos seus sentimentos habituais e, por fim, deu à luz aquele poder estupendo, pelo qual ele permanece sozinho, sem igual ou segundo na sua própria classe; àquele poder que o sentou num dos dois cumes atingidos pela glória da montanha poética, com Milton como seu par, não rival. Enquanto o primeiro se lança para fora e passa por todas as formas do caráter e paixão humanos, o único Proteu do fogo e da inundação; o outro atrai todas as formas e coisas a si mesmo, para a unidade do seu próprio ideal. Todas as coisas e modos de ação moldam-se de novo no ser de Milton; enquanto Shakespeare se torna todas as coisas, permanecendo, contudo, para sempre ele mesmo. Ó que grandes homens não produziste, Inglaterra, minha pátria! — Verdadeiramente, na verdade —

Devemos ser livres ou morrer, nós que falamos a língua, Que Shakespeare falou; a fé e a moral manter, Que Milton manteve. Em tudo somos descendentes Do primeiro sangue da terra, temos títulos múltiplos.

CAPÍTULO XVI

Pontos marcantes de diferença entre os poetas da era atual e os dos séculos XV e XVI — Desejo expresso pela união dos méritos característicos de ambos.

A cristandade, desde o seu primeiro estabelecimento sobre direitos feudais, tem sido, até certo ponto, um grande corpo, por mais imperfeitamente organizado que seja, de modo que um espírito semelhante será encontrado em cada período a ter agido em todos os seus membros. O estudo dos poemas de Shakespeare — (não incluo as suas obras dramáticas, por mais eminente que elas também mereçam esse título) — levou-me a um exame mais cuidadoso dos poetas contemporâneos, tanto na Inglaterra como noutros países. Mas a minha atenção fixou-se especialmente nos da Itália, desde o nascimento até à morte de Shakespeare; sendo esse o país em que as belas-artes tinham sido mais assiduamente, e até então mais bem-sucedidamente, cultivadas. Abstraídas dos graus e peculiaridades do génio individual, as propriedades comuns aos bons escritores de cada período parecem estabelecer um ponto marcante de diferença entre a poesia dos séculos XV e XVI e a da era atual. A observação pode talvez ser estendida à arte irmã da pintura. Pelo menos, esta última servirá para ilustrar a primeira. Na era atual, o poeta — (gostaria de ser entendido como falando de forma geral, e sem alusão a nomes individuais) — parece propor a si mesmo, como o seu principal objetivo, e como aquilo que é mais característico da sua arte, imagens novas e marcantes; com incidentes que interessem as afeções ou excitem a curiosidade. Tanto as suas personagens como as suas descrições ele torna, tanto quanto possível, específicas e individuais, até ao ponto do retrato. Na sua dicção e métrica, por outro lado, ele é comparativamente descuidado. A medida é construída sem qualquer sistema prévio e não reconhece outro princípio justificativo senão o da conveniência do escritor; ou então adota-se algum movimento mecânico, do qual um dístico ou estrofe é, até certo ponto, um espécime adequado, na medida em que as diferenças ocasionais parecem evidentemente surgir do acaso, ou das qualidades da própria linguagem, não da meditação e de um propósito inteligente. E a linguagem, desde a tradução de Homero por Pope até ao Temple of Nature de Darwin, pode, não obstante algumas exceções ilustres, ser demasiado fielmente caracterizada como pretendendo ser poética sem melhor razão do que o facto de ser intolerável na conversação ou na prosa. Embora, ai! mesmo os nossos escritos em prosa, aliás, até o estilo dos nossos discursos mais formais, lutem por estar na moda e se adornem com os enfeites sujos e gastos da musa meretrícia. É verdade que, ultimamente, uma grande melhoria a este respeito é observável nos nossos escritores mais populares. Mas é igualmente verdade que este retorno ao bom senso e ao genuíno inglês materno está longe de ser geral; e que a composição dos nossos romances, revistas, discursos públicos e afins é comumente tão trivial no pensamento, e contudo enigmática na expressão, como se o Eco e a Esfinge tivessem juntado as cabeças para a construir. Aliás, mesmo daqueles que mais se resgataram desta contaminação, eu declarar-me-ia interiormente culpado da acusação de duplicidade ou cobardia se retivesse a minha convicção de que poucos guardaram a pureza da sua língua nativa com aquele cuidado zeloso que o sublime Dante, no seu tratado De la volgare Eloquenza, declara ser o primeiro dever de um poeta. Pois a linguagem é o arsenal da mente humana; e contém simultaneamente os troféus do seu passado e as armas das suas futuras conquistas. Animadverte, diz Hobbes, quam sit ab improprietate verborum pronum hominibus prolabi in errores circa ipsas res! Sat [vero], diz Sennertus, in hac vitae brevitate et naturae obscuritate, rerum est, quibus cognoscendis tempus impendatur, ut [confusis et multivotis] sermonibus intelligendis illud consumere opus non sit. [Eheu! quantas strages paravere verba nubila, quae tot dicunt ut nihil dicunt; — nubes potius, e quibus et in rebus politicis et in ecclesia turbines et tonitrua erumpunt!] Et proinde recte dictum putamus a Platone in Gorgia: os an ta onomata eidei, eisetai kai ta pragmata: et ab Epicteto, archae paideuseos hae ton onomaton episkepsis: et prudentissime Galenus scribit, hae ton onomaton chraesis tarachtheisa kai taen ton pragmaton epitarattei gnosin.

Egregie vero J. C. Scaliger, in Lib. I. de Plantis: Est primum, inquit, sapientis officium, bene sentire, ut sibi vivat: proximum, bene loqui, ut patriae vivat.

Algo análogo aos materiais e à estrutura da poesia moderna parece ter notado — (mas aqui peço que seja entendido como falando com a máxima timidez) — nos nossos pintores de paisagens comuns. Os seus primeiros planos e distâncias intermédias são comparativamente pouco atraentes; enquanto o principal interesse da paisagem é lançado para o fundo, onde montanhas, torrentes e castelos proíbem o olho de prosseguir, e nada o tenta a refazer o caminho de volta. Mas nas obras dos grandes mestres italianos e flamengos, os objetos da frente e do meio da paisagem são os mais óbvios e determinados, o interesse morre gradualmente no fundo, e o encanto e o valor peculiar do quadro consistem, não tanto nos objetos específicos que ele transmite ao entendimento numa linguagem visual formada pela substituição de figuras por palavras, mas na beleza e harmonia das cores, linhas e expressão com que os objetos são representados. Daí que a novidade do tema fosse antes evitada do que procurada. A excelência superior na maneira de tratar os mesmos temas era a prova e o teste do mérito do artista.

Não é diferente com os poetas mais polidos dos séculos XV e XVI, especialmente os da Itália. A imagética é quase sempre geral: sol, lua, flores, brisas, riachos murmurantes, aves canoras, sombras deliciosas, lindas donzelas cruéis como belas, ninfas, náiades e deusas são os materiais que são comuns a todos, e que cada um moldou e arranjou de acordo com o seu julgamento ou fantasia, pouco solícito em adicionar ou particularizar. Se fizermos uma exceção honrosa a favor de alguns poetas ingleses, os pensamentos também são tão pouco novos como as imagens; e a fábula dos seus poemas narrativos, na maior parte extraída da mitologia ou fontes de igual notoriedade, retira os seus principais atrativos da maneira de os tratar; do fluxo apaixonado ou arranjo pitoresco. Em oposição à era atual, e talvez num extremo tão defeituoso, colocavam a essência da poesia na arte. A excelência a que visavam consistia no polimento requintado da dicção, combinado com uma simplicidade perfeita. Este seu objetivo principal alcançaram-no evitando cada palavra que um cavalheiro não usaria numa conversação digna, e cada palavra e frase que apenas um homem erudito usaria; pela posição estudada de palavras e frases, de modo que não apenas cada parte fosse melodiosa em si mesma, mas contribuísse para a harmonia do todo, cada nota referindo-se e conduzindo à melodia de todas as palavras precedentes e seguintes do mesmo período ou estrofe; e, finalmente, com igual trabalho, maior por não ser traído, pela variação e harmonias diversas do seu movimento métrico. As suas medidas, contudo, não deviam a sua variedade à introdução de novos metros, tais como os tentados ultimamente no Alonzo and Imogen, e outros emprestados do alemão, tendo na sua própria mecânica uma melodia específica e avassaladora, à qual o leitor generoso adapta a sua voz e ênfase, com mais indulgência para com o autor do que atenção ao significado ou quantidade das palavras; mas que, para um ouvido familiarizado com os numerosos sons dos poetas gregos e romanos, tem um efeito não diferente do de galopar sobre uma estrada pavimentada numa carruagem alemã sem molas. Pelo contrário, os bardos mais antigos, tanto da Itália como da Inglaterra, produziam uma variedade muito maior e também mais encantadora através de incontáveis modificações e equilíbrios subtis de som nos metros comuns do seu país. Uma reputação duradoura e invejável aguarda aquele homem de génio que tentasse e realizasse uma união; — que recordasse o acabamento elevado, a adequação, a facilidade, a proporção delicada e, acima de tudo, a graça difusa e omnipresente, que preservaram, como num santuário de âmbar precioso, o Pardal de Catulo, a Andorinha, a Cigarra e todos os outros pequenos amores de Anacreonte; e que, com glórias brilhantes, embora diminuídas, revisitou a juventude e o início da idade adulta da Europa cristã, nos vales do Arno e nos bosques de Ísis e de Cam; e que com estes combinasse o interesse mais agudo, o pathos mais profundo, a reflexão mais viril e a imagética mais fresca e variada, que conferem um valor e um nome que não passarão aos poetas que honraram os nossos próprios tempos e os dos nossos predecessores imediatos.

CAPÍTULO XVII

Exame dos dogmas peculiares ao Sr. Wordsworth — A vida rústica (sobretudo, a vida humilde e rústica) especialmente desfavorável à formação de uma dicção humana — As melhores partes da linguagem são produto de filósofos, não de palhaços ou pastores — Poesia essencialmente ideal e genérica — A linguagem de Milton tão linguagem da vida real, sim, incomparavelmente mais, do que a do camponês.

Portanto, na medida em que o Sr. Wordsworth, no seu prefácio, defendeu, e defendeu muito habilmente, uma reforma na nossa dicção poética, na medida em que demonstrou a verdade da paixão e a propriedade dramática daquelas figuras e metáforas nos poetas originais que, despidas das suas razões justificativas e convertidas em meros artifícios de conexão ou ornamento, constituem a falsidade característica no estilo poético dos modernos; e na medida em que, com igual agudeza e clareza, apontou o processo pelo qual esta mudança foi efetuada e as semelhanças entre aquele estado em que a mente do leitor é lançada pela confusão agradável de pensamento resultante de uma sequência inabitual de palavras e imagens, e aquele estado induzido pela linguagem natural do sentimento apaixonado; ele empreendeu uma tarefa útil e merece todo o louvor, tanto pela tentativa como pela execução. As provocações para esta admoestação em prol da verdade e da natureza eram ainda de recorrência perpétua antes e depois da publicação deste prefácio. Não posso, da mesma forma, deixar de acrescentar que a comparação de tais poemas de mérito, como os que foram dados ao público nos últimos dez ou doze anos, com a maioria dos produzidos anteriormente ao aparecimento desse prefácio, não deixa dúvida na minha mente de que o Sr. Wordsworth está plenamente justificado em acreditar que os seus esforços não foram de modo algum ineficazes. Não apenas nos versos daqueles que professaram a sua admiração pelo seu génio, mas mesmo daqueles que se distinguiram pela hostilidade à sua teoria e depreciação dos seus escritos, as impressões dos seus princípios são claramente visíveis. É possível que, com estes princípios, outros possam ter sido misturados, que não são igualmente evidentes; e alguns que são instáveis e subversíveis devido à estreiteza ou imperfeição da sua base. Mas é mais do que possível que estes erros de defeito ou exagero, ao acender e alimentar a controvérsia, possam ter contribuído não apenas para a propagação mais ampla das verdades que os acompanham, mas que, pela sua apresentação frequente à mente num estado excitado, possam ter conquistado para elas um resultado mais permanente e prático. Um homem tomará emprestada uma parte do seu oponente mais facilmente se se sentir justificado em continuar a rejeitar outra parte. Enquanto restarem pontos importantes nos quais ele ainda possa sentir que está no caminho certo, nos quais ainda encontre bases firmes para uma resistência contínua, ele adotará gradualmente aquelas opiniões que eram as menos remotas das suas próprias convicções, como não menos congruentes com a sua própria teoria do que com aquela que ele reprova. Da mesma forma, com uma espécie de prudência instintiva, ele abandonará, pouco a pouco, as suas posições mais fracas, até que, finalmente, pareça esquecer que elas alguma vez lhe pertenceram, ou afete considerá-las, no máximo, como acidentais e “pequenos anexos”, cuja remoção deixa a cidadela incólume e sem perigo.

As minhas próprias divergências de certas partes supostas da teoria do Sr. Wordsworth baseiam-se no pressuposto de que as suas palavras tinham sido corretamente interpretadas, como pretendendo que a dicção adequada para a poesia em geral consiste totalmente numa linguagem retirada, com as devidas exceções, das bocas dos homens na vida real, uma linguagem que constitui realmente a conversação natural dos homens sob a influência de sentimentos naturais. A minha objeção é, primeiro, que em qualquer sentido esta regra é aplicável apenas a certas classes de poesia; segundo, que mesmo a estas classes não é aplicável, exceto num sentido que nunca foi, por ninguém (tanto quanto sei ou li), negado ou posto em dúvida; e, finalmente, que na medida em que, e no grau em que, é praticável, é contudo, como regra, inútil, se não prejudicial, e, portanto, ou não precisa de ser, ou não deveria ser praticada. O poeta informa o seu leitor que escolheu, geralmente, a vida humilde e rústica; mas não como humilde e rústica, ou a fim de repetir aquele prazer de duvidoso efeito moral que pessoas de categoria elevada e de refinamento superior retiram, muitas vezes, de uma imitação feliz dos modos e discurso rudes e não polidos dos seus inferiores. Pois o prazer assim derivado pode ser atribuído a três causas excitantes. A primeira é a naturalidade, de facto, das coisas representadas. A segunda é a aparente naturalidade da representação, tal como elevada e qualificada por uma infusão impercetível do conhecimento e talento do próprio autor, infusão esta que, de facto, a constitui como uma imitação, tal como distinguida de uma mera cópia. A terceira causa pode ser encontrada no sentimento consciente do leitor da sua própria superioridade, despertado pelo contraste que lhe é apresentado; tal como, para o mesmo propósito, os reis e grandes barões de outrora mantinham, por vezes, palhaços e tolos verdadeiros, mas mais frequentemente homens astutos e espirituosos nesse caráter. Estes, contudo, não eram os objetivos do Sr. Wordsworth. Ele escolheu a vida humilde e rústica, “porque, nessa condição, as paixões essenciais do coração encontram um solo melhor, no qual podem atingir a sua maturidade, estão menos sob restrição e falam uma linguagem mais clara e enfática; porque, nessa condição de vida, os nossos sentimentos elementares coexistem num estado de maior simplicidade e, consequentemente, podem ser mais precisamente contemplados e mais forçosamente comunicados; porque os modos da vida rural germinam a partir desses sentimentos elementares; e, pelo caráter necessário das ocupações rurais, são mais facilmente compreendidos e são mais duradouros; e, finalmente, porque, nessa condição, as paixões dos homens estão incorporadas nas formas belas e permanentes da natureza.”

Ora, é claro para mim que, nos mais interessantes dos poemas, nos quais o autor é mais ou menos dramático, como THE BROTHERS, MICHAEL, RUTH, THE MAD MOTHER e outros, as pessoas introduzidas não são de modo algum retiradas da vida humilde ou rústica na aceção comum dessas palavras! E não é menos claro que os sentimentos e a linguagem, na medida em que podem ser concebidos como tendo sido realmente transferidos das mentes e da conversação de tais pessoas, são atribuíveis a causas e circunstâncias não necessariamente ligadas às “suas ocupações e morada”. Os pensamentos, sentimentos, linguagem e modos dos pastores-agricultores nos vales de Cumberland e Westmoreland, na medida em que são realmente adotados nesses poemas, podem ser explicados por causas que produzirão e produzem os mesmos resultados em todos os estados de vida, quer na cidade quer no campo. Como as duas principais, classifico aquela independência, que eleva um homem acima da servidão ou do trabalho diário para o lucro de outros, mas não acima da necessidade da indústria e de uma simplicidade frugal da vida doméstica; e a educação acompanhante, pouco ambiciosa, mas sólida e religiosa, que tornou poucos livros familiares, exceto a Bíblia e o Livro de Oração ou de Hinos. A esta última causa, de facto, que é tão acidental, na medida em que é a bênção de países particulares e de uma era particular, não o produto de lugares ou empregos particulares, o poeta deve o vislumbre de probabilidade de que as suas personagens poderiam realmente sentir, pensar e falar com qualquer semelhança tolerável com a sua representação. É uma excelente observação do Dr. Henry More: “um homem de educação limitada, mas de bons dotes, pela leitura constante da Bíblia, formará naturalmente uma retórica mais atraente e comandante do que aqueles que são eruditos: a mistura de línguas e de frases artificiais degradando o seu estilo.”

É, além disso, de considerar que para a formação de sentimentos saudáveis, e de uma mente reflexiva, as negações envolvem impedimentos não menos formidáveis do que a sofisticação e a mistura viciosa. Estou convencido de que, para a alma humana prosperar na vida rústica, um certo terreno vantajoso é um pré-requisito. Não é todo homem que provavelmente será melhorado por uma vida no campo ou pelos trabalhos rurais. A educação, ou a sensibilidade original, ou ambas, devem preexistir se as mudanças, formas e incidentes da natureza houverem de provar um estímulo suficiente. E onde estas não são suficientes, a mente contrai-se e endurece-se pela falta de estímulos: e o homem torna-se egoísta, sensual, grosseiro e de coração endurecido. Que a gestão das Leis dos Pobres em Liverpool, Manchester ou Bristol seja comparada com a dispensa habitual das taxas dos pobres em aldeias agrícolas, onde os agricultores são os supervisores e guardiões dos pobres. Se a minha própria experiência não tiver sido particularmente infeliz, bem como a de muitos clérigos rurais respeitáveis com quem conversei sobre o assunto, o resultado geraria mais do que ceticismo quanto às influências desejáveis da vida baixa e rústica em si mesma e por si mesma. O que quer que se possa concluir do outro lado, a partir dos vínculos locais mais fortes e do espírito empreendedor dos suíços e outros montanheses, aplica-se a um modo particular de vida pastoral, sob formas de propriedade que permitem e engendram modos verdadeiramente republicanos, não à vida rústica em geral, ou à ausência de cultivo artificial. Pelo contrário, os montanheses, cujos costumes têm sido tão frequentemente elogiados, são em geral mais bem educados e maiores leitores do que homens de igual categoria em outras partes. Mas onde este não é o caso, como entre o campesinato do Norte do País de Gales, as montanhas antigas, com todos os seus terrores e todas as suas glórias, são pinturas para o cego, e música para o surdo.

Eu não deveria ter entrado em tantos detalhes sobre esta passagem, mas aqui parece estar o ponto para o qual todas as linhas de diferença convergem como para a sua fonte e centro; quero dizer, na medida em que, e em qualquer aspecto que seja, o meu credo poético difere das doutrinas promulgadas neste prefácio. Adoto com plena fé o princípio de Aristóteles de que a poesia, enquanto poesia, é essencialmente ideal, que evita e exclui todo acidente; que as suas individualidades aparentes de categoria, caráter ou ocupação devem ser representativas de uma classe; e que as pessoas da poesia devem estar revestidas de atributos genéricos, com os atributos comuns da classe: não com aqueles que um indivíduo talentoso pudesse possivelmente possuir, mas tais como, pela sua situação, é mais provável de antemão que possuísse. Se as minhas premissas estão corretas e as minhas deduções legítimas, segue-se que não pode haver meio poético entre os pastores de Teócrito e os de uma idade de ouro imaginária.

Os personagens do vigário e do pastor-marinheiro no poema OS IRMÃOS, e o do pastor de Green-head Ghyll em MICHAEL, têm toda a verossimilhança e qualidade representativa que os propósitos da poesia podem exigir. São pessoas de uma classe conhecida e duradoura, e os seus modos e sentimentos são o produto natural das circunstâncias comuns à classe. Tomemos Michael, por exemplo:

Um velho de coração robusto e fortes membros. Sua estrutura corporal fora, da juventude à idade, De uma força incomum: sua mente era aguçada, Intensa e frugal, apta para todos os negócios, E em seu chamado de pastor ele era pronto E mais vigilante do que os homens comuns. Daí ele ter aprendido o significado de todos os ventos, De rajadas de todos os tons; e muitas vezes, Quando outros não prestavam atenção, Ele ouvia o Sul Fazer música subterrânea, como o ruído De gaiteiros em distantes colinas das Terras Altas. O Pastor, a tal aviso, do seu rebanho Recordava-se, e ele a si mesmo dizia: "Os ventos estão agora a tramar trabalho para mim!" E verdadeiramente, em todos os momentos, a tempestade, que conduz O viajante a um abrigo, convocava-o Para as montanhas: ele estivera sozinho Em meio ao coração de muitos milhares de névoas, Que vinham até ele e deixavam-no nas alturas. Assim viveu ele, até que seu octogésimo ano passou. E grosseiramente erra aquele homem que supusesse Que os vales verdes, e os riachos e rochas, Eram coisas indiferentes aos pensamentos do Pastor. Campos, onde com espírito alegre ele respirara O ar comum; as colinas, que ele tantas vezes Subira com passos vigorosos; que tinham impresso Tantos incidentes em sua mente De privação, habilidade ou coragem, alegria ou medo; Que, como um livro, preservavam a memória Dos animais mudos, a quem ele salvara, Alimentara ou abrigara, ligando a tais atos, Tão gratos em si mesmos, a certeza De ganho honroso; estes campos, estas colinas Que eram o seu Ser vivente, ainda mais Do que o seu próprio sangue — o que poderiam menos? tinham lançado Forte domínio sobre as suas afeições, eram para ele Um sentimento prazeroso de amor cego, O prazer que existe na própria vida.

Por outro lado, nos poemas que são entoados num tom mais baixo, como HARRY GILL e O MENINO IDIOTA, os sentimentos são os da natureza humana em geral; embora o poeta tenha judiciosamente situado a cena no campo, a fim de se colocar nas proximidades de imagens interessantes, sem a necessidade de atribuir uma percepção sentimental da sua beleza às pessoas do seu drama. Em O MENINO IDIOTA, de fato, o caráter da mãe não é tanto o produto real e nativo de uma "situação onde as paixões essenciais do coração encontram um solo melhor, no qual podem atingir a sua maturidade e falar uma linguagem mais clara e enfática", como é uma personificação de um instinto abandonado pelo juízo. Daí as duas acusações seguintes parecerem-me não totalmente infundadas: pelo menos, são as únicas objeções plausíveis que ouvi a esse belo poema. Uma é que o autor não tomou, no próprio poema, cuidado suficiente para excluir da imaginação do leitor as imagens repugnantes da idiotia mórbida comum, que, contudo, de modo algum era sua intenção representar. Ele foi, até mesmo pelo "burr, burr, burr", não contrabalançado por qualquer descrição anterior da beleza do menino, ajudado a recordá-las. A outra é que a idiotia do menino é tão equilibrada pela loucura da mãe que apresenta ao leitor geral mais uma paródia risível sobre a cegueira da senilidade decrépita do que uma exibição analítica do afeto maternal em seus funcionamentos comuns.

Em O ESPINHEIRO, o próprio poeta reconhece em uma nota a necessidade de um poema introdutório, no qual deveria ter retratado o caráter da pessoa de quem se supõe que as palavras do poema procedam: um homem supersticioso moderadamente imaginativo, de faculdades lentas e sentimentos profundos, "um capitão de uma pequena embarcação comercial, por exemplo, que, tendo passado da meia-idade, retirou-se com uma anuidade, ou pequeno rendimento independente, para alguma aldeia ou cidade rural da qual não era nativo, ou na qual não estava acostumado a viver. Tais homens, não tendo nada para fazer, tornam-se crédulos e faladores por indolência". Mas em um poema, ainda mais em um poema lírico — e a Ama em ROMEU E JULIETA sozinha me impede de estender a observação até à poesia dramática, se é que a Ama pode ser considerada de todo um caso pertinente — não é possível imitar verdadeiramente um orador monótono e tagarela, sem repetir os efeitos da monotonia e da tagarelice. Seja como for, ouso afirmar que as partes — (e estas formam a maior porção do todo) — que poderiam tão bem ou ainda melhor ter procedido da própria imaginação do poeta, e ter sido faladas em seu próprio caráter, são as que deram, e que continuarão a dar, um deleite universal; e que as passagens exclusivamente apropriadas ao narrador suposto, como o último dístico da terceira estrofe [64]; as sete últimas linhas da décima [65]; e as cinco estrofes seguintes, com exceção das quatro admiráveis linhas do início da décima quarta, são sentidas por muitos corações imparciais e não sofisticados como afundamentos repentinos e desagradáveis da altura para a qual o poeta os tinha previamente elevado, e para a qual ele novamente reeleva tanto a si mesmo quanto ao seu leitor.

Se, pois, sou compelido a duvidar da teoria pela qual a escolha dos caracteres deveria ser guiada, não apenas a priori, por fundamentos de razão, mas tanto pelos poucos casos em que o próprio poeta precisa ser suposto ter sido governado por ela, quanto pela inferioridade comparativa desses casos; ainda mais devo hesitar em meu assentimento à sentença que segue imediatamente a citação anterior; e que não posso admitir nem como fato particular, nem como regra geral. "A linguagem, também, destes homens foi adotada (purificada, de fato, do que parecem ser os seus defeitos reais, de todas as causas duradouras e racionais de aversão ou repugnância) porque tais homens comunicam-se de hora em hora com os melhores objetos dos quais a melhor parte da linguagem é originalmente derivada; e porque, pela sua posição na sociedade e pela mesmice e estreito círculo do seu convívio, sendo menos sujeitos à ação da vaidade social, transmitem os seus sentimentos e noções em expressões simples e não elaboradas." A isto respondo: que a linguagem de um rústico, purificada de todo provincianismo e grosseria, e de tal modo reconstruída que se torne consistente com as regras da gramática — (que em essência não são outras senão as leis da lógica universal, aplicadas a materiais psicológicos) — não diferirá da linguagem de qualquer outro homem de bom senso, quão culto ou refinado ele possa ser, exceto na medida em que as noções que o rústico tem para transmitir são menos numerosas e mais indiscriminadas. Isto tornar-se-á ainda mais claro se adicionarmos a consideração — (igualmente importante embora menos óbvia) — de que o rústico, devido ao desenvolvimento mais imperfeito das suas faculdades, e ao estado inferior do seu cultivo, visa quase unicamente transmitir fatos isolados, seja os da sua escassa experiência ou da sua crença tradicional; enquanto o homem educado busca principalmente descobrir e expressar essas conexões de coisas, ou essas relações factuais de fato para fato, das quais alguma lei mais ou menos geral é dedutível. Pois os fatos são valiosos para um homem sábio, principalmente na medida em que conduzem à descoberta da lei intrínseca, que é o verdadeiro ser das coisas, a única solução dos seus modos de existência, e cujo conhecimento constitui a nossa dignidade e o nosso poder.

Tão pouco posso concordar com a afirmação de que, a partir dos objetos com os quais o rústico comunica de hora em hora, a melhor parte da linguagem é formada. Pois primeiro, se comunicar-se com um objeto implica um tal conhecimento dele que o torna capaz de ser discriminadamente refletido, o conhecimento distinto de um rústico sem educação forneceria um vocabulário muito escasso. As poucas coisas e modos de ação necessários para as suas conveniências corporais seriam os únicos individualizados; enquanto todo o resto da natureza seria expresso por um pequeno número de termos gerais confusos. Em segundo lugar, nego que as palavras e combinações de palavras derivadas dos objetos com os quais o rústico está familiarizado, seja com conhecimento distinto ou confuso, possam justamente dizer-se formar a melhor parte da linguagem. É mais do que provável que muitas classes da criação bruta possuam sons discriminantes pelos quais podem transmitir umas às outras avisos de tais objetos que dizem respeito ao seu alimento, abrigo ou segurança. Contudo, hesitamos em chamar ao agregado de tais sons uma linguagem, a não ser metaforicamente. A melhor parte da linguagem humana, propriamente dita, deriva da reflexão sobre os atos da própria mente. É formada por uma apropriação voluntária de símbolos fixos a atos internos, a processos e resultados da imaginação, a maior parte dos quais não tem lugar na consciência do homem sem educação; embora na sociedade civilizada, pela imitação e lembrança passiva do que ouvem dos seus instrutores religiosos e outros superiores, os mais sem educação partilhem da colheita que não semearam nem ceifaram. Se a história das frases em circulação horária entre os nossos camponeses fosse traçada, uma pessoa não previamente ciente do fato ficaria surpreendida ao encontrar um número tão grande que, há três ou quatro séculos, era propriedade exclusiva das universidades e das escolas; e, no início da Reforma, fora transferida da escola para o púlpito, e assim passou gradualmente para a vida comum. A extrema dificuldade, e muitas vezes a impossibilidade, de encontrar palavras para os processos morais e intelectuais mais simples das línguas de tribos não civilizadas provou ser talvez o obstáculo mais pesado ao progresso dos nossos missionários mais zelosos e astutos. Contudo, estas tribos estão rodeadas pela mesma natureza que os nossos camponeses; mas em formas ainda mais impressionantes; e estão, além disso, obrigadas a particularizar muito mais delas. Quando, portanto, o Sr. Wordsworth acrescenta, "consequentemente, tal linguagem" — (significando, como antes, a linguagem da vida rústica purificada de provincianismo) — "surgindo da experiência repetida e sentimentos regulares, é uma linguagem mais permanente, e muito mais filosófica, do que aquela que é frequentemente substituída por ela por Poetas, que pensam que estão a conferir honra a si mesmos e à sua arte na medida em que se entregam a hábitos arbitrários e caprichosos de expressão;" pode responder-se que a linguagem que ele tem em vista pode ser atribuída aos rústicos com não maior direito do que o estilo de Hooker ou Bacon a Tom Brown ou Sir Roger L’Estrange. Sem dúvida, se o que é peculiar a cada um fosse omitido em cada um, o resultado teria necessariamente de ser o mesmo. Além disso, que o poeta, que usa uma dicção ilógica, ou um estilo apto a excitar apenas o prazer baixo e mutável da maravilha por meio de novidade infundada, substitui uma linguagem de loucura e vaidade, não pela do rústico, mas pela do bom senso e sentimento natural.

Aqui, permitam-me lembrar ao leitor que as posições que contesto estão contidas nas frases: — "uma seleção da linguagem real dos homens"; — "a linguagem destes homens" (isto é, homens na vida baixa e rústica) "foi adotada; propus-me a imitar, e, na medida do possível, adotar a própria linguagem dos homens."

"Entre a linguagem da prosa e a da composição métrica, não há, nem pode haver, nenhuma diferença essencial": é contra estas exclusivamente que a minha oposição é dirigida.

Oponho-me, logo de início, a um equívoco no uso da palavra "real". A linguagem de cada homem varia, de acordo com a extensão do seu conhecimento, a atividade das suas faculdades e a profundidade ou rapidez dos seus sentimentos. A linguagem de cada homem tem, primeiro, as suas individualidades; segundo, as propriedades comuns da classe a que pertence; e terceiro, palavras e frases de uso universal. A linguagem de Hooker, Bacon, Bispo Taylor e Burke difere da linguagem comum da classe erudita apenas pelo número superior e novidade dos pensamentos e relações que tinham para transmitir. A linguagem de Algernon Sidney não difere em nada daquela que todo cavalheiro bem educado desejaria escrever, e (com as devidas concessões para a não deliberação, e o fio de pensamento menos conectado, natural e próprio da conversação) tal como ele desejaria falar. Nem uma nem outra diferem metade tanto da linguagem geral da sociedade culta quanto a linguagem da composição mais simples do Sr. Wordsworth difere da de um camponês comum. Por "real", portanto, devemos substituir comum, ou lingua communis. E isto, provamos, não é mais encontrado na fraseologia da vida baixa e rústica do que na de qualquer outra classe. Omiti as peculiaridades de cada uma e o resultado, claro, deve ser comum a todas. E certamente as omissões e mudanças a serem feitas na linguagem dos rústicos, antes que ela pudesse ser transferida para qualquer espécie de poema, exceto o drama ou outra imitação declarada, são pelo menos tão numerosas e pesadas quanto as que seriam necessárias na adaptação ao mesmo propósito da linguagem comum dos comerciantes e fabricantes. Sem mencionar que a linguagem tão altamente exaltada pelo Sr. Wordsworth varia em cada condado, aliás, em cada aldeia, de acordo com o caráter acidental do clérigo, a existência ou não existência de escolas; ou até mesmo, talvez, conforme o fiscal, o taberneiro e o barbeiro aconteça serem, ou não serem, políticos zelosos e leitores do jornal semanal pro bono publico. Antes do cultivo, a lingua communis de cada país, como Dante bem observou, existe em toda parte em partes, e em lugar nenhum como um todo.

Nem o caso é tornado de todo mais sustentável pela adição das palavras, "em um estado de excitação". Pois a natureza das palavras de um homem, quando ele é fortemente afetado pela alegria, tristeza ou raiva, deve necessariamente depender do número e qualidade das verdades gerais, concepções e imagens, e das palavras que as expressam, com as quais a sua mente fora previamente armazenada. Pois a propriedade da paixão não é criar, mas colocar em atividade aumentada. Pelo menos, quaisquer que sejam as novas conexões de pensamentos ou imagens, ou — (o que é igualmente, se não mais do que igualmente, o efeito apropriado de forte excitação) — quaisquer generalizações de verdade ou experiência que o calor da paixão possa produzir; contudo, os termos da sua transmissão devem ter preexistido nas suas conversações anteriores, e são apenas coletados e amontoados pela estimulação incomum. É, na verdade, muito possível adotar em um poema as repetições sem sentido, frases habituais e outros contadores em branco que um entendimento desprovido ou confuso interpõe em curtos intervalos, a fim de manter o controle do seu assunto, que ainda lhe está escapando, e para lhe dar tempo para a recordação; ou, em mero auxílio da vacuidade, como nas escassas companhias de um palco rural o mesmo ator salta para trás e para a frente, a fim de evitar a aparência de espaços vazios, na procissão de Macbeth, ou Henrique VIII. Mas que assistência ao poeta, ou ornamento ao poema, estes podem fornecer, estou em dúvida para conjecturar. Nada, certamente, pode diferir mais amplamente, tanto em origem quanto em modo, das aparentes tautologias de sentimento intenso e turbulento, em que a paixão é maior e de duração mais longa do que para ser exaurida ou satisfeita por uma única representação da imagem ou incidente que a excita. Tais repetições admito serem uma beleza do mais alto tipo; como ilustrado pelo próprio Sr. Wordsworth a partir do cântico de Débora. Aos pés dela ele se curvou, ele caiu, ele se deitou: aos pés dela ele se curvou, ele caiu: onde ele se curvou, ali ele caiu morto. Juízes v. 27.

CAPÍTULO XVIII

Linguagem da composição métrica, por que e em que é essencialmente diferente da da prosa — Origem e elementos da métrica — Suas consequências necessárias e as condições impostas por isso ao escritor métrico na escolha da sua dicção.

Concluo, portanto, que a tentativa é impraticável; e que, se não fosse impraticável, seria ainda assim inútil. Pois o próprio poder de fazer a seleção implica a posse prévia da linguagem selecionada. Ou onde pode o poeta ter vivido? E por que regras poderia ele direcionar a sua escolha, que não o teriam capacitado a selecionar e organizar as suas palavras à luz do seu próprio juízo? Não adotamos a linguagem de uma classe pela mera adoção exclusiva de tais palavras que essa classe usaria, ou pelo menos entenderia; mas também seguindo a ordem em que as palavras de tais homens costumam suceder-se umas às outras. Ora, esta ordem, no intercurso de homens sem educação, distingue-se da dicção dos seus superiores em conhecimento e poder, pela maior disjunção e separação nas partes componentes daquilo, seja o que for, que eles desejam comunicar. Há uma falta daquela prospectividade de mente, daquela visão panorâmica, que permite a um homem prever o todo do que ele tem a transmitir, pertencente a qualquer ponto; e por este meio subordinar e organizar as diferentes partes de acordo com a sua importância relativa, de modo a transmiti-lo de uma só vez, e como um todo organizado.

Agora, tomarei a primeira estrofe, na qual calhei abrir, nas Lyrical Ballads. É uma das mais simples e menos peculiares na sua linguagem.

“Em países distantes estive, E contudo, não vi muitas vezes Um homem saudável, um homem adulto, Chorar nas estradas públicas, sozinho. Mas um tal homem, em solo inglês, E na ampla estrada, encontrei; Pela ampla estrada ele veio, Suas faces com lágrimas molhadas; Robusto parecia, embora triste; E em seus braços um cordeiro ele trazia.”

As palavras aqui são, sem dúvida, tais como são correntes em todas as classes da vida; e, naturalmente, não menos nas aldeias e cabanas do que nas oficinas, fábricas, colégios ou palácios. Mas será esta a ordem em que o rústico teria colocado as palavras? Estou gravemente enganado se o seguinte modo menos compacto de começar o mesmo relato não for uma cópia muito mais fiel. “Estive em muitas partes, longe e perto, e não sei se alguma vez vi antes um homem a chorar sozinho na estrada pública; um homem adulto, quero dizer, que não estava nem doente nem ferido”, etc., etc. Mas quando passo à seguinte estrofe em The Thorn:

“A todas as horas do dia e da noite Esta mulher miserável para lá se dirige; E ela é conhecida de cada estrela, E de cada vento que sopra; E ali, junto ao Espinheiro, ela senta-se, Quando a luz do dia azul está nos céus, E quando o turbilhão está na colina, Ou o ar gelado é cortante e imóvel, E para si mesma ela chora, Oh miséria! Oh miséria! Oh, ai de mim! Oh miséria!”

e comparo isto com a linguagem dos homens comuns; ou com aquela que posso conceber como minimamente provável de proceder, na vida real, de um tal narrador, como é suposto na nota ao poema; comparo-a seja na sucessão das imagens ou das sentenças; lembro-me da sublime oração e hino de louvor, que Milton, em oposição a uma liturgia estabelecida, apresenta como um justo espécime de devoção extemporânea comum, e tal como poderíamos esperar ouvir de cada ministro auto-inspirado de um conventículo! E reflito com deleite quão pouco uma mera teoria, ainda que de sua própria manufactura, interfere com os processos da genuína imaginação num homem de verdadeiro génio poético, que possui, como o Sr. Wordsworth, se alguma vez homem possuiu, muito certamente possui,

“A Visão e a Faculdade divina.”

Um ponto, então, apenas resta, mas esse o mais importante; a sua análise tendo sido, na verdade, o meu principal incentivo para a inquirição precedente. “Não existe nem pode existir qualquer diferença essencial entre a linguagem da prosa e a composição métrica.” Tal é a asserção do Sr. Wordsworth. Ora, a prosa em si, pelo menos em todas as obras argumentativas e consecutivas, difere, e deve diferir, da linguagem da conversação; tal como a leitura deve diferir do falar. A menos, portanto, que a diferença negada seja a das meras palavras, como materiais comuns a todos os estilos de escrita, e não do estilo em si no sentido universalmente admitido do termo, poder-se-ia presumir naturalmente que deve existir uma diferença ainda maior entre a ordenança da composição poética e a da prosa, do que se espera distinguir a prosa da conversação comum.

Não faltam, de facto, exemplos na história da literatura, de aparentes paradoxos que convocaram o assombro público como verdades novas e surpreendentes, mas que, sob exame, encolheram-se em trivialidades dóceis e inofensivas; tal como os olhos de um gato, vistos no escuro, foram confundidos com chamas de fogo. Mas o Sr. Wordsworth está entre os últimos homens a quem uma ilusão deste tipo seria atribuída por qualquer pessoa que tivesse desfrutado da menor oportunidade de compreender a sua mente e caráter. Onde uma objeção foi antecipada por um tal autor como natural, a sua resposta a ela deve necessariamente ser interpretada num sentido que ou é, ou foi, ou é capaz de ser controvertido. O meu objeto, então, deve ser descobrir algum outro significado para o termo “diferença essencial” neste lugar, exclusivo da indistinção e comunhão das palavras em si. Pois, se deveria existir uma classe de palavras no inglês, em qualquer grau semelhante ao dialeto poético do grego e do italiano, é uma questão de importância muito subordinada. O número de tais palavras seria, de facto, pequeno na nossa língua; e mesmo no italiano e no grego, elas consistem não tanto em palavras diferentes, mas em ligeiras diferenças nas formas de declinar e conjugar as mesmas palavras; formas, sem dúvida, que tendo sido, num período mais ou menos remoto, as flexões gramaticais comuns de alguma tribo ou província, foram acidentalmente apropriadas à poesia pela admiração geral de certos intelectos mestres, as primeiras luzes estabelecidas da inspiração, aos quais aquele dialeto por acaso era nativo.

Essência, na sua significação primária, significa o princípio da individuação, o princípio mais íntimo da possibilidade de qualquer coisa, enquanto essa coisa particular. É equivalente à ideia de uma coisa, sempre que usamos a palavra ideia com precisão filosófica. Existência, por outro lado, distingue-se da essência pela superindução da realidade. Assim, falamos da essência e das propriedades essenciais de um círculo; mas não afirmamos, por isso, que qualquer coisa que realmente existe é matematicamente circular. Assim também, sem qualquer tautologia, lutamos pela existência do Ser Supremo; isto é, por uma realidade correspondente à ideia. Existe, a seguir, um uso secundário da palavra essência, no qual ela significa o ponto ou fundamento da contradistinção entre duas modificações da mesma substância ou sujeito. Assim, ser-nos-ia permitido dizer que o estilo de arquitetura da Abadia de Westminster é essencialmente diferente do de São Paulo, ainda que ambos tivessem sido construídos com blocos cortados na mesma forma e da mesma pedreira. Apenas neste último sentido do termo deve ter sido negado pelo Sr. Wordsworth (pois é apenas neste sentido que é afirmado pela opinião geral) que a linguagem da poesia (isto é, a construção formal, ou arquitetura, das palavras e frases) é essencialmente diferente da da prosa. Ora, o ónus da prova cabe ao opositor, não aos defensores da crença comum. O Sr. Wordsworth, consequentemente, atribui como prova da sua posição “que não apenas a linguagem de uma grande parte de cada bom poema, mesmo do caráter mais elevado, deve necessariamente, exceto com referência ao metro, em nada diferir da da boa prosa, mas também que algumas das partes mais interessantes dos melhores poemas revelar-se-ão ser estritamente a linguagem da prosa, quando a prosa é bem escrita. A verdade desta asserção poderia ser demonstrada por inumeráveis passagens de quase todos os escritos poéticos, mesmo do próprio Milton”. Ele então cita o soneto de Gray--

“Em vão para mim as manhãs sorridentes brilham, E o avermelhado Febo levanta o seu fogo dourado; Os pássaros em vão o seu descante amoroso unem, Ou os campos alegres retomam o seu traje verde. Estes ouvidos, ai! por outras notas anseiam; Um objeto diferente requerem estes olhos; A minha angústia solitária não derrete coração senão o meu; E no meu peito as alegrias imperfeitas expiram. Contudo a manhã sorri para animar a raça ocupada, E traz prazer recém-nascido aos homens mais felizes; Os campos a todos o seu tributo habitual dão; Para aquecer os seus pequenos amores os pássaros queixam-se: Eu infrutiferamente lamento àquele que não pode ouvir, E choro mais, porque choro em vão.”

e acrescenta a seguinte observação:--“Facilmente se perceberá que a única parte deste Soneto que tem qualquer valor são as linhas impressas em itálico; é igualmente óbvio que, exceto na rima, e no uso da palavra única ‘infrutiferamente’ por infrutiferamente, o que é um defeito, a linguagem destas linhas não difere em nada da da prosa.”

A um idealista que defendia o seu sistema pelo facto de que, quando adormecidos, muitas vezes acreditamos estar acordados, respondeu bem o seu vizinho simples: “Ah, mas quando acordados, alguma vez nos acreditamos adormecidos?” Coisas idênticas devem ser conversíveis. A passagem precedente parece basear-se num sofisma semelhante. Pois a questão não é se pode não ocorrer na prosa uma ordem de palavras que seria igualmente apropriada num poema; nem se não há belas linhas e sentenças de ocorrência frequente em bons poemas que seriam igualmente adequadas, bem como belas, na boa prosa; pois nem uma nem outra coisa jamais foi negada ou posta em dúvida por alguém. A verdadeira questão deve ser se não existem modos de expressão, uma construção e uma ordem de sentenças que estão no seu lugar próprio e natural numa composição séria em prosa, mas que seriam desproporcionadas e heterogéneas na poesia métrica; e, vice-versa, se na linguagem de um poema sério não pode haver um arranjo tanto de palavras como de sentenças, e um uso e seleção de (o que são chamadas) figuras de linguagem, tanto quanto ao seu tipo, à sua frequência e às suas ocasiões, que sobre um assunto de igual peso seriam viciosos e estranhos numa prosa correta e viril. Sustento que, em ambos os casos, esta inaptidão de cada um para o lugar do outro frequentemente existirá e deve existir.

E primeiro, quanto à origem do metro. Eu a atribuiria ao equilíbrio na mente efetuado por aquele esforço espontâneo que se esforça por manter sob controlo os trabalhos da paixão. Poderia ser facilmente explicado, também, de que maneira este antagonismo salutar é auxiliado pelo próprio estado que contraria; e como este equilíbrio de antagonistas tornou-se organizado em metro (na aceção usual desse termo), por um ato superveniente da vontade e do juízo, conscientemente e para o fim previsto do prazer. Assumindo estes princípios como os dados do nosso argumento, deduzimos deles duas condições legítimas que o crítico tem o direito de esperar em cada obra métrica. Primeiro, que, tal como os elementos do metro devem a sua existência a um estado de excitação aumentada, também o próprio metro deveria ser acompanhado pela linguagem natural da excitação. Segundo, que tal como estes elementos são formados em metro artificialmente, por um ato voluntário, com o desígnio e para o propósito de misturar o deleite com a emoção, também os vestígios de volição presente deveriam ser proporcionalmente discerníveis por toda a linguagem métrica. Ora, estas duas condições devem ser reconciliadas e co-presentes. Deve haver não apenas uma parceria, mas uma união; uma interpenetração da paixão e da vontade, do impulso espontâneo e do propósito voluntário. Novamente, esta união pode ser manifestada apenas numa frequência de formas e figuras de linguagem (originalmente rebentos da paixão, mas agora filhos adotivos do poder), maior do que seria desejada ou suportada onde a emoção não é voluntariamente encorajada e mantida em prol daquele prazer que tal emoção, assim temperada e dominada pela vontade, é capaz de comunicar. Não só dita, mas por si mesma tende a produzir um emprego mais frequente de linguagem pitoresca e vivificante do que seria natural em qualquer outro caso em que não existisse, como existe no presente, um pacto prévio e bem compreendido, embora tácito, entre o poeta e o seu leitor, de que este último tem o direito de esperar, e o primeiro a obrigação de fornecer, esta espécie e grau de excitação prazerosa. Podemos, em certa medida, aplicar a esta união a resposta de Polixenes, em O Conto de Inverno, ao desprezo de Perdita pelos goivos estriados, porque ela ouvira dizer:

“Existe uma arte que, na sua variegada, partilha Com a grande natureza criadora. POL. Digamos que exista; Contudo, a natureza não é tornada melhor por nenhum meio, Mas a natureza faz esse meio; assim, sobre essa arte, Que, dizes tu, acrescenta à natureza, é uma arte, Que a natureza faz. Vês, doce donzela, nós casamos Um rebento mais gentil com a cepa mais selvagem; E fazemos conceber uma casca de tipo mais vil Pelo botão de raça mais nobre. Esta é uma arte, Que emenda a natureza... altera-a, antes; mas A própria arte é natureza.”

Segundo, argumento a partir dos efeitos do metro. Na medida em que o metro atua em si e por si mesmo, ele tende a aumentar a vivacidade e a suscetibilidade tanto dos sentimentos gerais como da atenção. Este efeito ele produz pela excitação contínua da surpresa, e pelas rápidas reciprocidades da curiosidade ainda gratificada e ainda reexcitada, que são demasiado ligeiras, na verdade, para serem, em qualquer momento, objetos de consciência distinta, contudo tornam-se consideráveis na sua influência agregada. Como uma atmosfera medicada, ou como o vinho durante uma conversa animada, agem poderosamente, embora não sejam notados por si mesmos. Onde, portanto, alimento correspondente e matéria apropriada não são fornecidos para a atenção e sentimentos assim despertados, deve necessariamente sentir-se uma desilusão; como a de saltar no escuro do último degrau de uma escada, quando tínhamos preparado os nossos músculos para um salto de três ou quatro.

A discussão sobre os poderes do metro no prefácio é altamente engenhosa e toca em todos os pontos da verdade. Mas não consigo encontrar qualquer declaração dos seus poderes considerados abstrata e separadamente. Pelo contrário, o Sr. Wordsworth parece sempre estimar o metro pelos poderes que exerce durante (e, como penso, em consequência da) sua combinação com outros elementos da poesia. Assim, a dificuldade anterior é deixada sem resposta: quais são os elementos com os quais ele deve ser combinado para produzir os seus próprios efeitos para qualquer propósito prazeroso? Rimas duplas e trissilábicas, de facto, formam uma espécie inferior de engenho e, atendidas exclusivamente por si mesmas, podem tornar-se uma fonte de divertimento momentâneo; como no dístico do pobre Smart ao Escudeiro Galês que lhe prometera uma lebre:

“Dize-me, tu, filho do grande Cadwallader! Enviaste a lebre? ou tê-la-ás engolido?”

Mas, para quaisquer propósitos poéticos, o metro assemelha-se (se a adequação do símile pode desculpar a sua baixeza) ao fermento, sem valor ou desagradável por si só, mas dando vivacidade e espírito ao líquido com o qual é proporcionalmente combinado.

A referência a AS CRIANÇAS NO BOSQUE de modo algum satisfaz o meu julgamento. Todos nós nos lançamos voluntariamente, por um tempo, aos sentimentos da nossa infância. Esta balada, portanto, lemo-la sob tais recordações dos nossos próprios sentimentos infantis, como igualmente nos tornariam caros poemas que o próprio Sr. Wordsworth consideraria como defeituosos no extremo oposto de ornamentos vistosos e técnicos. Antes da invenção da imprensa, e em grau ainda maior, antes da introdução da escrita, o metro, especialmente o metro aliterativo (seja aliterativo no início das palavras, como em PIERCE PLOUMAN, ou no fim, como nas rimas), possuía um valor independente como auxiliar da recordação e, consequentemente, da preservação de qualquer série de verdades ou incidentes. Mas não estou convencido pela colação de factos de que AS CRIANÇAS NO BOSQUE deva a sua preservação, ou a sua popularidade, à sua forma métrica. O repositório do Sr. Marshal oferece um número de contos em prosa inferiores em pathos e mérito geral, alguns com data tão antiga, e muitos tão amplamente populares. TOM HICKATHRIFT, JACK O MATADOR DE GIGANTES, GOODY TWO-SHOES e O CAPUCHINHO VERMELHO são rivais formidáveis. E que eles tenham continuado em prosa, não pode ser razoavelmente explicado pelo pressuposto de que a baixeza comparativa dos seus pensamentos e imagens excluía até as mais humildes formas de metro. A cena de GOODY TWO-SHOES na igreja é perfeitamente suscetível de narração métrica; e, entre os thaumata thaumastotata até da presente idade, não me recordo de uma imagem mais espantosa do que a de “todo o corival, que voou para fora da barba do gigante”, assustado pela voz tremenda com que este monstro respondeu ao desafio do heroico TOM HICKATHRIFT!

Se destes passarmos para composições universalmente, e independentemente de todas as associações precoces, amadas e admiradas; será que MARIA, O MONGE ou O BURRO DO POBRE HOMEM de Sterne seriam lidos com mais deleite, ou teriam uma melhor chance de imortalidade, se tivessem sido compostos em rima, sem qualquer mudança na dicção, do que no seu estado presente? Se não estou grosseiramente enganado, a resposta geral seria negativa. Aliás, confessarei que, nos próprios volumes do Sr. Wordsworth, ANEDOTA PARA PAIS, SIMON LEE, ALICE FELL, MENDIGOS e A MÃE DO MARINHEIRO, apesar das belezas que se podem encontrar em cada um deles onde o poeta interpõe a música dos seus próprios pensamentos, teriam sido mais deleitáveis para mim em prosa, contados e geridos, como pelo Sr. Wordsworth o teriam sido, num ensaio moral ou passeio pedestre.

O metro, em si, é simplesmente um estimulante da atenção e, portanto, excita a questão: Por que a atenção deve ser assim estimulada? Ora, a questão não pode ser respondida pelo prazer do metro em si; pois isto mostrámos ser condicional e dependente da adequação dos pensamentos e expressões aos quais a forma métrica é superadicionada. Nem consigo conceber qualquer outra resposta que possa ser racionalmente dada, senão esta: Escrevo em metro porque estou prestes a usar uma linguagem diferente da da prosa. Além disso, onde a linguagem não é tal, por mais interessantes que sejam as reflexões que são capazes de ser extraídas por uma mente filosófica dos pensamentos ou incidentes do poema, o próprio metro deve muitas vezes tornar-se fraco. Tomemos as três últimas estrofes de A MÃE DO MARINHEIRO, por exemplo. Se eu pudesse por um momento abstrair do efeito produzido nos sentimentos do autor, como homem, pelo incidente no momento da sua ocorrência real, ousaria apelar ao seu próprio juízo, se no próprio metro ele encontrou uma razão suficiente para serem escritas metricamente?

E, assim continuando, ela disse, “Eu tinha um Filho, que muitos dias Navegou nos mares; mas ele está morto; Na Dinamarca ele foi perdido; E viajei até Hull para ver Que roupas ele poderia ter deixado, ou outra propriedade.

O Pássaro e a Gaiola eram ambos dele, Era o Pássaro do meu Filho; e limpo e arrumado Ele o mantinha: muitas viagens Este pássaro cantor fez com ele; Quando navegou pela última vez, ele deixou o Pássaro para trás; Como poderia ser, talvez, por presságios da sua mente.

Ele, aos cuidados de um colega de quarto, Tinha-o deixado, para ser vigiado e alimentado, Até ele voltar; e lá Encontrei-o quando o meu Filho estava morto; E agora, Deus me ajude pela minha pouca inteligência! Eu arrasto-o comigo, Senhor! ele tirava tanto prazer dele.”

Se, desproporcionando a ênfase, lermos estas estrofes de modo a tornar as rimas percetíveis, até rimas trissilábicas dificilmente poderiam produzir um sentido igual de estranheza e singularidade, como sentimos aqui ao encontrar rimas em sentenças tão exclusivamente coloquiais. Perguntaria ainda se, não fosse aquele estado visionário em que a figura da mulher e a suscetibilidade do seu próprio génio tinham colocado a imaginação do poeta -- (um estado que espalha a sua influência e coloração sobre tudo o que coexiste com a causa excitante, e no qual

“As coisas mais simples e as mais familiares Ganham um estranho poder de espalhar temor à sua volta”),

perguntaria ao poeta se ele não teria sentido uma queda abrupta nestes versos a partir da estrofe precedente?

“O antigo espírito não está morto; Os velhos tempos, pensei, estão a respirar ali; Orgulhoso fiquei por o meu país ter criado Tal força, uma dignidade tão bela: Ela pediu uma esmola, como alguém em pobres condições; Olhei novamente para ela, nem o meu orgulho abateu.”

Não deve ser omitido, e é além disso digno de nota, que essas estrofes fornecem o único exemplo justo que fui capaz de descobrir em todos os escritos do Sr. Wordsworth, de uma adoção real, ou verdadeira imitação, da linguagem real e própria da vida baixa e rústica, liberta de provincialismos.

Em terceiro lugar, deduzo a posição de todas as causas atribuídas alhures, que tornam o metro a forma própria da poesia, e a poesia imperfeita e defeituosa sem o metro. O metro, portanto, tendo sido associado à poesia muito frequentemente e por uma adequação peculiar, qualquer outra coisa que seja combinada com o metro deve, ainda que não seja em si essencialmente poética, possuir contudo alguma propriedade em comum com a poesia, como um intermédio de afinidade, uma espécie — se me atrevo a tomar emprestada uma frase bem conhecida da química técnica — de mordente entre ela e o metro superadicionado. Ora, a poesia, afirma verdadeiramente o Sr. Wordsworth, implica sempre paixão: palavra que deve ser aqui entendida no seu sentido mais geral, como um estado excitado dos sentimentos e faculdades. E, tal como cada paixão tem o seu pulso próprio, também terá os seus modos característicos de expressão. Mas, onde existe esse grau de génio e talento que habilita um escritor a aspirar às honras de um poeta, o próprio ato da composição poética é, e admite-se que implica e produz, um estado invulgar de excitação, o que, naturalmente, justifica e exige uma diferença correspondente de linguagem, tão verdadeiramente, ainda que talvez não em grau tão marcado, como a excitação do amor, do medo, da raiva ou do ciúme. A vivacidade das descrições ou declamações em Donne ou Dryden deriva tanto e tão frequentemente da força e do fervor do descrevente quanto das reflexões, formas ou incidentes que constituem o seu assunto e materiais. As rodas incendeiam-se pela mera rapidez do seu movimento. Até que ponto, e sob que modificações, isto pode ser admitido a atuar, tentarei definir numa nota posterior sobre a resposta do Sr. Wordsworth a esta objeção, ou melhor, sobre a sua objeção a esta resposta, tal como já antecipado no seu prefácio.

Em quarto lugar, e como intimamente ligado a isto, se não for o mesmo argumento numa forma mais geral, aduzo o elevado instinto espiritual do ser humano que nos impele a buscar a unidade por ajustamento harmonioso, estabelecendo assim o princípio de que todas as partes de um todo organizado devem ser assimiladas às partes mais importantes e essenciais. Este e os argumentos precedentes podem ser fortalecidos pela reflexão de que a composição de um poema se insere nas artes imitativas; e que a imitação, em oposição à cópia, consiste ou na interfusão do mesmo por todo o radicalmente diferente, ou do diferente por toda uma base radicalmente a mesma.

Por último, apelo à prática dos melhores poetas, de todos os países e em todas as épocas, como autorizando a opinião (deduzida de tudo o que precede) de que, em qualquer sentido da palavra essencial que não envolva aqui um mero truísmo, pode haver, há, e deve haver uma diferença essencial entre a linguagem da prosa e a da composição métrica.

Na crítica do Sr. Wordsworth ao soneto de Gray, a simpatia do leitor com o seu louvor ou censura das diferentes partes é tomada como certa, talvez com demasiada facilidade. Ele não tentou, pelo menos, ganhá-la ou compelir a ela através de análise argumentativa. Na minha conceção, pelo menos, os versos rejeitados como sem valor diferem, com exceção dos dois primeiros, tanto e tão pouco da linguagem da vida comum quanto aqueles que ele imprimiu em itálico por possuírem genuína excelência. Dos cinco versos assim honrosamente distinguidos, dois diferem da prosa ainda mais largamente, na posição das palavras, do que os versos que os precedem ou seguem.

“Um objeto diferente requerem estes olhos; A minha angústia solitária não funde coração algum senão o meu; E no meu peito as alegrias imperfeitas expiram.”

Mas, se fosse de outro modo, que provaria isto, senão uma verdade da qual ninguém jamais duvidou? — a saber, que existem frases que estariam igualmente no seu lugar tanto em verso como em prosa. Certamente, isso não prova o ponto que é o único a requerer prova; a saber, que não existem passagens que seriam adequadas a um e não ao outro. O primeiro verso deste soneto distingue-se da linguagem comum dos homens pelo epíteto dado à manhã. Pois deixaremos de lado, por ora, a consideração de que a palavra particular “sorridente” está gasta e, por envolver uma espécie de personificação, não é totalmente congruente com o atributo comum e material de “brilhante”. E, sem dúvida, esta adjunção de epítetos com o propósito de descrição adicional, onde nenhuma atenção particular é exigida para a qualidade da coisa, seria notada como conferindo um cunho poético à conversação de um homem. Se o desportista exclamar: “Vamos, rapazes! a manhã rosada vos chama”, supor-se-á que tem alguma canção na cabeça. Mas ninguém suspeita disto quando ele diz: “Uma manhã chuvosa não nos confinará às nossas camas”. Isto é, então, ou um defeito na poesia, ou não o é. A quem quer que decida afirmativamente, pedir-lhe-ia que releia qualquer poema de qualquer poeta confessadamente grande, de Homero a Milton, ou de Ésquilo a Shakespeare; e que risque (em pensamento, refiro-me) cada exemplo deste tipo. Se o número dessas supostas rasuras não o assustar; ou se ele continuar a considerar a obra melhorada pela sua omissão total; ele deve apresentar razões de força e evidência não ordinárias, razões baseadas na essência da natureza humana. De outro modo, não hesitaria em considerá-lo como um homem não tanto à prova contra toda a autoridade, mas morto para ela.

O segundo verso,

“E o Febo avermelhado levanta o seu fogo dourado;—”

tem, na verdade, quase tantos defeitos como palavras. Mas então é um mau verso, não porque a linguagem seja distinta da da prosa; mas porque transmite imagens incongruentes; porque confunde a causa e o efeito; a coisa real com o representante personificado da coisa; em suma, porque difere da linguagem do bom senso! Que o “Febo” seja gasto, e uma imagem de escolar, é uma falha acidental, dependente da época em que o autor escreveu, e não deduzida da natureza da coisa. Que seja parte de uma mitologia superada é uma objeção mais profundamente fundamentada. Contudo, quando a tocha da aprendizagem antiga foi reacesa, tão animadores foram os seus raios que os nossos poetas mais velhos, cortados pelo Cristianismo de todo o mecanismo acreditado, e privados de todos os guardiões e símbolos reconhecidos dos grandes objetos da natureza, foram naturalmente induzidos a adotar, como linguagem poética, esses personagens fabulosos, essas formas do sobrenatural na natureza, que lhes tinham dado tal deleite nos poemas dos seus grandes mestres. Aliás, até aos dias de hoje, que erudito de gosto genial não simpatizará tanto com eles a ponto de ler com prazer em Petrarca, Chaucer ou Spenser aquilo que talvez condenasse como pueril num poeta moderno?

Não me recordo de nenhum poeta cujos escritos suportariam mais seguramente o teste da teoria do Sr. Wordsworth do que Spenser. Contudo, dirá o Sr. Wordsworth que o estilo da estrofe seguinte não se distingue da prosa e da linguagem da vida comum? Ou que é vicioso, e que as estrofes são manchas em THE FAERY QUEEN?

“Por esta altura o carreiro do norte tinha posto O seu atrelado de sete vezes atrás da estrela constante, Que nas ondas do oceano jamais esteve molhada, Mas firme está fixa e envia luz de longe A todos os que no deserto profundo vagueiam E o alegre galo com a sua nota estridente Tinha avisado uma vez que o carro ardente de Febo À pressa subia a colina oriental, Cheio de inveja por a noite tanto tempo o seu espaço preencher.”

“Finalmente o portão dourado oriental Do maior céu começou a abrir-se formoso, E Febo fresco, como noivo para a sua companheira, Veio dançando, sacudindo o seu cabelo orvalhado, E arremessou os seus raios cintilantes através do ar sombrio: O que quando o elfo desperto percebeu, imediatamente Levantou-se, e preparou-se Em armas brilhantes como o sol e em batalha armada; Pois com aquele pagão orgulhoso ele combaterá nesse dia.”

Pelo contrário, a quantas passagens, tanto em livros de hinos como em poemas em verso branco, poderia eu (se não fosse odioso) dirigir a atenção do leitor, cujo estilo é o mais impoético, porque, e apenas porque, é o estilo da prosa? Ele não suporá que sou capaz de ter em mente versos como

“Coloquei o meu chapéu na minha cabeça E caminhei até ao Strand; E lá encontrei outro homem, Cujo chapéu estava na sua mão.”

A tais espécimes seria, de facto, uma resposta justa e completa que estes versos não são maus porque são impoéticos, mas porque estão vazios de todo o sentido e sentimento; e que seria uma tentativa vã provar que “um macaco não é um Newton, quando é evidente por si mesmo que ele não é um homem”. Mas o sentido será bom e ponderado, a linguagem correta e dignificada, o assunto interessante e tratado com sentimento; e, contudo, o estilo será, não obstante todos estes méritos, justamente censurável como prosaico, e unicamente porque as palavras e a ordem das palavras encontrariam o seu lugar apropriado na prosa, mas não são adequadas à composição métrica. CIVIL WARS de Daniel é uma obra instrutiva, e até interessante; mas tomemos as estrofes seguintes (e, das centenas de exemplos que abundam, poderia provavelmente ter selecionado outros muito mais marcantes):

“E para que possamos com maior facilidade Discernir o verdadeiro discurso, dignai-vos mostrar Quais foram os tempos precedentes próximos destes, Para que estes possamos com maior proveito conhecer. Dizei como o mundo caiu nesta doença; E como tão grande temperamento se tornou; Assim veremos com que graus ele veio; Como as coisas em cheio depressa perdem a forma.”

“Dez reis tinham reinado desde o Conquistador normando Com destino misturado e variável, Quando a Inglaterra atingiu a sua maior altura De poder, domínio, glória, riqueza e estado; Depois de ter com muito custo sustentado A violência dos príncipes, com debate Pelos títulos e os frequentes motins Dos nobres pelas suas antigas liberdades.”

“Pois primeiro, o normando, conquistando tudo pela força, Pela força foi forçado a manter o que tinha obtido; Misturando os nossos costumes e a forma do direito Com constituições estrangeiras, que tinha trazido; Dominando os poderosos, humilhando o pobre desgraçado, Por todos os meios mais severos que podiam ser forjados; E, tornando a sucessão duvidosa, despedaçou O seu estado recém-adquirido, e deixou-o turbulento.”

Sustentar-se-á, de um lado, que estes versos são mesquinhos e sem sentido? Ou, do outro, que não são prosaicos e, por essa razão, impoéticos? O epíteto bem merecido deste poeta é o de “Daniel de boa linguagem”; mas também, e pelo consentimento dos seus contemporâneos não menos do que de todos os críticos sucessivos, “o Daniel prosaico”. Contudo, aqueles que assim designam este sábio e amável escritor pela frequente incorrespondência da sua dicção ao seu metro na maioria das suas composições, não só os consideram valiosos e interessantes por outras razões, mas admitem voluntariamente que se podem encontrar, por todos os seus poemas, e especialmente nas suas EPISTLES e em HYMEN’S TRIUMPH, muitos e requintados espécimes daquele estilo que, como o terreno neutro da prosa e do verso, é comum a ambos. Um extrato fino e quase impecável, eminente tanto por outras belezas como pela sua perfeição nesta espécie de dicção, pode ser visto nos DRAMATIC SPECIMENS de Lamb, uma obra de interesse variado pela natureza das seleções em si (todas das peças dos contemporâneos de Shakespeare), e derivando um elevado valor adicional das notas, que estão repletas de crítica justa e original, expressa com toda a frescura da originalidade.

Entre os possíveis efeitos de uma adesão prática a uma teoria que visa identificar o estilo da prosa e do verso — (se é que não reclama para este último uma semelhança ainda maior com o estilo médio dos homens no intercâmbio viva voce da vida real) — poderíamos antecipar o seguinte como não sendo o menos provável de ocorrer. Acontecerá, como de facto observei antes, que o próprio metro, a única diferença reconhecida, se tornará ocasionalmente metro apenas para o olho. A existência de prosaísmos, e que eles diminuem o mérito de um poema, deve finalmente ser concedida quando um número de versos sucessivos pode ser tornado, até para o ouvido mais delicado, irreconhecível como verso, ou como tendo sequer sido pretendido como verso, simplesmente transcrevendo-os como prosa; quando, se o poema for em verso branco, isto puder ser efetuado sem qualquer alteração, ou, no máximo, restaurando apenas uma ou duas palavras aos seus lugares próprios, de onde foram transplantadas por nenhuma causa ou razão atribuível senão a conveniência do autor; mas se for em rima, pela simples troca da palavra final de cada verso por outra com o mesmo significado, igualmente apropriada, dignificada e eufónica.

A resposta ou objeção no prefácio à observação antecipada de que “o metro abre o caminho para outras distinções” está contida nas seguintes palavras. “A distinção de rima e metro é regular e uniforme, e não, como a produzida pelo (que é habitualmente chamado) dicção poética, arbitrária e sujeita a infinitos caprichos, sobre os quais nenhum cálculo pode ser feito. No primeiro caso, o leitor está totalmente à mercê do poeta no que respeita a que imagética ou dicção ele pode escolher associar à paixão.” Mas será este um poeta de quem um poeta está a falar? Não, certamente! Antes de um tolo ou louco: ou, na melhor das hipóteses, de um vaidoso ou ignorante fantasta! E não poderiam cérebros tão selvagens e tão deficientes causar exatamente o mesmo estrago com rimas e metros como se supõe que causam com modos e figuras de linguagem? Como está o leitor à mercê de tais homens? Se ele continuar a ler o seu disparate, não é culpa sua? O fim último da crítica é muito mais estabelecer os princípios da escrita do que fornecer regras sobre como julgar o que foi escrito por outros; se é que seria possível que os dois pudessem ser separados. Mas se for perguntado por que princípios o poeta deve regular o seu próprio estilo, se ele não aderir estreitamente ao tipo e ordem das palavras que ouve no mercado, na festa, na estrada ou no campo de lavoura? Respondo: por princípios, cuja ignorância ou negligência o condenariam a não ser poeta, mas um tolo ou presunçoso usurpador do nome. Pelos princípios da gramática, da lógica, da psicologia. Numa palavra, por tal conhecimento dos factos, materiais e espirituais, que mais pertencem à sua arte, que, se tiver sido governado e aplicado pelo bom senso, e tornado instintivo pelo hábito, torna-se o representante e a recompensa dos nossos passados raciocínios, perspicácias e conclusões conscientes, e adquire o nome de Gosto. Por que regra que não deixe o leitor à mercê do poeta, e o poeta à sua própria, deve este último distinguir entre a linguagem adequada à raiva suprimida e a linguagem que é característica da raiva indulgente? Ou entre a da fúria e a do ciúme? É obtida vagueando em busca de pessoas raivosas ou ciumentas numa sociedade inculta, a fim de copiar as suas palavras? Ou não muito antes pelo poder da imaginação procedendo sobre o todo em cada um da natureza humana? Pela meditação, em vez da observação? E por esta última apenas em consequência da primeira? Como olhos, para os quais a primeira predeterminou o seu campo de visão, e aos quais, como ao seu órgão, comunica um poder microscópico? Não há, creio firmemente, um homem hoje vivo que tenha, da sua própria experiência interior, uma intuição mais clara do que o próprio Sr. Wordsworth de que as últimas mencionadas são as verdadeiras fontes da discriminação genial. Através do mesmo processo e pela mesma agência criativa, o poeta distinguirá o grau e o tipo de excitação produzida pelo próprio ato da composição poética. Tão intuitivamente ele saberá que diferenças de estilo ela inspira e justifica de imediato; que intermistura de volição consciente é natural a esse estado; e em que instâncias tais figuras e cores de linguagem degeneram em meras criaturas de um propósito arbitrário, frios artifícios técnicos de ornamento ou conexão. Pois, mesmo como a verdade é a sua própria luz e evidência, descobrindo de imediato a si mesma e à falsidade, assim é a prerrogativa do génio poético distinguir por instinto parental a sua própria descendência dos trocados que os gnomos da vaidade ou as fadas da moda possam ter deixado no seu berço ou chamado pelos seus nomes. Se uma regra pudesse ser dada de fora, a poesia deixaria de ser poesia e afundar-se-ia numa arte mecânica. Seria morfose, não poiesis. As regras da Imaginação são, em si mesmas, as próprias forças de crescimento e produção. As palavras às quais elas são redutíveis apresentam apenas os contornos e a aparência externa do fruto. Um contrafeito enganoso da forma e cores superficiais pode ser elaborado; mas o pêssego de mármore parece frio e pesado, e apenas as crianças o levam à boca. Não encontramos dificuldade em admitir como excelente, e como linguagem legítima do fervor poético autoapaixonado, a apóstrofe de Donne ao Sol na segunda estrofe do seu PROGRESS OF THE SOUL.

“A ti, olho do céu! esta grande Alma não inveja; Pela tua força masculina tudo o que temos é gerado. No primeiro Oriente tu agora começas a brilhar, Chupas bálsamo precoce e especiarias da ilha ali, E logo na tua carreira de rédeas soltas Em Tejo, Pó, Sena, Tamisa e Danúbio jantarás, E verás à noite este meu mundo ocidental: Contudo não viste mais nações do que ela, Que antes de ti um dia começou a existir, E, sendo a tua luz frágil extinta, há de longamente, longamente sobreviver-te.”

Ou a estrofe seguinte à próxima:

“Grande Destino, o comissário de Deus, Que marcaste um caminho e um período Para todas as coisas! Tu, que, onde tomámos a origem, Os nossos caminhos e fins vês num só instante: tu Nó de todas as causas! Tu, cuja fronte imutável Nunca sorri nem se franze! Ó! digna-te olhar, E mostra a minha história no teu livro eterno,” etc.

Tão pouca dificuldade encontramos em excluir das honras do calor não afetado e da elevação a loucura prepensada da pseudopoesia, ou o histérico surpreendente da fraqueza que se esforça demais, que irrompe sobre o leitor despreparado em várias odes e apóstrofes a termos abstratos. Tais são as Odes ao ciúme, à Esperança, ao Esquecimento e similares, na coleção de Dodsley e nas revistas daquela época, que raramente deixam de me lembrar uma cópia de versos de Oxford sobre os dois SUTTONS, começando com

“Inoculação, donzela celestial! desce!”

Não se pode negar que homens de talentos indubitáveis, e até poetas de génio verdadeiro, embora não de primeira linha, se iludiram, por uma teoria equivocada, tanto a si mesmos como aos outros no extremo oposto. Li uma vez para uma companhia de mulheres sensatas e bem educadas o período introdutório do prefácio de Cowley às suas “Odes Pindáricas”, escrito em imitação do estilo e maneira das odes de Píndaro. “Se”, (diz Cowley), “um homem se encarregasse de traduzir Píndaro, palavra por palavra, pensar-se-ia que um louco tinha traduzido outro, como pode aparecer quando ele, que não entende o original, lê a tradução verbal dele para prosa latina, da qual nada parece mais delirante.” Prossegui então com a sua própria versão livre da segunda Olímpica, composta com o propósito caridoso de racionalizar a Águia Tebana.

“Rainha de todas as coisas harmoniosas, Palavras dançantes e cordas falantes, Que deus, que herói, cantarás? Que homem feliz trarás a glórias iguais? Começa, começa a tua nobre escolha, E deixa que as colinas em redor reflitam a imagem da tua voz. Pisa pertence a Júpiter, Júpiter e Pisa reclamam o teu canto. Os belos primeiros frutos da guerra, os jogos Olímpicos, Alcides, ofereceu a Júpiter; Alcides, também, as tuas cordas pode mover, Mas, oh! que homem para se juntar a estes se pode mostrar digno? Junta Terão audaciosamente aos seus nomes sagrados; Terão reclama a honra seguinte; Terão a homem nenhum dá lugar, É primeiro na corrida de Pisa e da Virtude; Terão lá, e ele sozinho, Até aos seus próprios ancestrais velozes superou.”

Um dos membros da companhia exclamou, com a total anuência dos restantes, que, se o original fosse mais louco do que aquilo, teria de ser incuravelmente louco. Traduzi então a ode do grego, tão literalmente quanto possível, palavra por palavra; e a impressão foi a de que, no movimento geral dos períodos, na forma das conexões e transições, e na majestade sóbria de um sentido elevado, parecia-lhes aproximar-se, mais do que qualquer outra poesia que tivessem ouvido, do estilo da nossa Bíblia, nos livros proféticos. A primeira estrofe bastará como exemplo:

“Ó hinos controladores de harpas! (ou) ó hinos soberanos das harpas! Que Deus? que Herói? Que Homem celebraremos? Verdadeiramente Pisa é de Júpiter, Mas a Olimpíada (ou os jogos Olímpicos) estabeleceu Hércules, As primícias dos espólios de guerra. Mas Terão, pelo carro de quatro cavalos, Que lhe trouxe a vitória, Cabe-nos agora proclamar em voz alta: O Justo, o Hospitaleiro, O Baluarte de Agrigento, De pais renomados A Flor, ele mesmo Que preserva a sua cidade natal ereta e segura.”

Mas serão tais caprichos retóricos condenáveis apenas pelo seu desvio da linguagem da vida real? E não haverá outros meios de os evitar, senão pela rejeição de todas as distinções entre prosa e verso, exceto a do metro? Certamente, o bom senso e uma perspicácia moderada na constituição da mente humana seriam amplamente suficientes para provar que tal linguagem e tais combinações não são produto nativo nem da fantasia nem da imaginação; que a sua operação consiste em excitar a surpresa pela justaposição e aparente reconciliação de coisas vastamente diferentes ou incompatíveis. Como quando, por exemplo, se faz com que as colinas reflitam a imagem de uma voz. Certamente, não é necessário um gosto invulgar para ver claramente que esta justaposição compulsória não é produzida pela apresentação de formas impressionantes ou deliciosas à visão interior, nem por qualquer simpatia com os poderes modificadores com os quais o génio do poeta unira e inspirara todos os objetos do seu pensamento; que é, portanto, uma espécie de espírito, uma obra pura da vontade, e implica um lazer e um domínio de si mesmo, tanto do pensamento como do sentimento, incompatíveis com o fervor constante de uma mente possuída e preenchida pela grandeza do seu tema. Para resumir tudo numa frase: quando for apresentado um poema, ou parte de um poema, que seja evidentemente vicioso nas figuras e na contextura do seu estilo, mas para cuja condenação não se possa atribuir nenhuma razão, exceto a de que difere do estilo com que os homens conversam realmente, então, e só então, poderei considerar esta teoria plausível, ou praticável, ou capaz de fornecer qualquer regra, orientação ou precaução que não pudesse, mais fácil e seguramente, bem como mais naturalmente, ter sido deduzida na mente do próprio autor a partir de considerações de gramática, lógica e da verdade e natureza das coisas, confirmadas pela autoridade de obras cuja fama não pertence a um país nem a uma época.

CAPÍTULO XIX

Continuação — Sobre o objetivo real que, é provável, o Sr. Wordsworth tinha diante de si no seu prefácio crítico — Elucidação e aplicação disto.

Poderia parecer, por algumas passagens na parte anterior do prefácio do Sr. Wordsworth, que ele pretendia confinar a sua teoria do estilo, e a necessidade de uma estreita conformidade com a linguagem real dos homens, àqueles temas particulares da vida rústica e humilde, que, a título de experiência, se propusera a naturalizar como uma nova espécie na nossa poesia inglesa. Mas, pelo fio da argumentação que se segue; pela referência a Milton; e pelo espírito da sua crítica ao soneto de Gray; essas frases parecem ter sido mais cortesias de modéstia do que limitações reais do seu sistema. Contudo, tão infundado parece este sistema num exame atento; e tão estranho e avassalador [70] nas suas consequências, que não posso, e não acredito, que o próprio poeta o tenha adotado no sentido incondicional em que as suas expressões foram compreendidas por outros e que, na verdade, segundo todas as leis comuns de interpretação, parecem ter. O que ele queria dizer, então? Receio que, na clara perceção, não desacompanhada de desgosto ou desprezo, das afetações ostentosas de um estilo que passava por ditado poético entre muitos (embora, na verdade, tivesse tão poucas pretensões à poesia como à lógica ou ao senso comum), ele tenha estreitado a sua visão por um momento; e, sentindo uma preferência justificável pela linguagem da natureza e do bom senso, mesmo nas suas formas mais humildes e menos ornamentadas, permitiu-se expressar, em termos demasiado amplos e demasiado exclusivos, a sua predileção por um estilo o mais remoto possível do falso e vistoso esplendor que desejava erradicar. É possível que esta predileção, a princípio meramente comparativa, tenha desviado por um tempo para uma parcialidade direta. Mas o verdadeiro objetivo que ele tinha em vista era, não duvido, uma espécie de excelência que fora muito antes caracterizada de forma mais feliz pelo judicioso e amável Garve, cujas obras são tão justamente amadas e estimadas pelos alemães, nas suas observações sobre Gellert, das quais o seguinte é traduzido literalmente: “O talento que é necessário para fazer versos excelentes é talvez maior do que o filósofo está pronto a admitir, ou acharia estar ao seu alcance adquirir: o talento de buscar apenas a expressão apta do pensamento, e ainda assim encontrar ao mesmo tempo a rima e o metro. Gellert possuía este dom feliz, se algum dos nossos poetas alguma vez o possuiu; e nada talvez contribuiu mais para a grande e universal impressão que as suas fábulas causaram na sua primeira publicação, ou contribui mais para a sua contínua popularidade. Foi um fenómeno estranho e curioso, e tal como na Alemanha tinha sido anteriormente inaudito, ler versos nos quais tudo era expresso exatamente como alguém desejaria falar, e ainda assim tudo digno, atraente e interessante; e tudo ao mesmo tempo perfeitamente correto quanto à medida das sílabas e à rima. É certo que a poesia, quando atinge esta excelência, causa uma impressão muito maior do que a prosa. Tanto, de facto, que até a gratificação que as próprias rimas proporcionam se torna, então, uma gratificação não desprezível ou trivial.” [71]

Por mais novo que este fenómeno pudesse ter sido na Alemanha no tempo de Gellert, não é de modo algum novo, nem de existência recente na nossa língua. Apesar da licenciosidade com que Spenser força ocasionalmente a ortografia das suas palavras a uma subordinação às suas rimas, toda a FAIRY QUEEN é um exemplo quase contínuo desta beleza. A canção de Waller, GO, LOVELY ROSE, é sem dúvida familiar à maioria dos meus leitores; mas, se eu tivesse tido à mão os Poems de Cotton, mais, mas muito menos merecidamente célebre como o autor do VIRGIL TRAVESTIED, ter-me-ia deliciado, e creio que teria satisfeito muitos que não conhecem as suas obras sérias, selecionando alguns exemplos admiráveis deste estilo. Não são poucos os poemas nesse volume, repletos de toda a excelência de pensamento, imagem e paixão que esperamos ou desejamos na poesia da musa mais suave; e, no entanto, redigidos de tal forma que o leitor não vê qualquer razão, seja na seleção ou na ordem das palavras, pela qual não poderia ter dito o mesmo numa conversa apropriada, e não consegue conceber como poderia ter expresso tais pensamentos de outra forma sem perda ou prejuízo para o seu significado.

Mas, na verdade, a nossa língua é, e desde o primeiro alvorecer da poesia sempre foi, particularmente rica em composições distinguidas por esta excelência. O e final, que é agora mudo, na época de Chaucer era pronunciado ou omitido indiferentemente. Nós próprios ainda usamos "beloved" ou "belov’d", conforme a rima, a medida ou o propósito de maior ou menor solenidade possa exigir. Deixe o leitor, então, adotar apenas a pronúncia do poeta e da corte em que viveu, tanto no que diz respeito ao e final como à acentuação da última sílaba; aventurar-me-ia então a perguntar, o que poderíamos ouvir, mesmo na linguagem coloquial de mulheres elegantes e sem afetação (que são as mestras peculiares do “puro inglês e imaculado”), que fosse mais natural, ou aparentemente mais espontâneo, do que as seguintes estrofes do TROILUS AND CRESEIDE de Chaucer.

“E depois disto, ele foi para o portão, Onde Creseide partiu a passo muito bom, E lá fez, para cima e para baixo, muitas voltas, E dizia para si mesmo, muitas vezes, Ai de mim! Daqui partiu a minha felicidade e o meu solas Como queria o Deus bem-aventurado, agora pela sua alegria, Que eu a pudesse ver regressar a Troia! E para aquela colina lá ao longe eu a segui, Ai de mim! e ali tomei dela a minha despedida, E lá a vi cavalgar para o seu pai; De cuja tristeza o meu coração se partirá; E para cá, para casa, vim quando era serão, E aqui habito, banido de toda a alegria, E definho, até que a possa ver de novo em Troia. E imaginava ele, muitas vezes, para si mesmo, Que estava abatido, pálido e tornado mais fraco Do que costumava ser, e que os homens diziam baixinho, O que poderá ser? quem pode adivinhar a verdade, Por que Troilus tem toda esta tristeza? E tudo isto não era senão a sua melancolia, Que ele tinha de si mesmo tal fantasia. Noutra ocasião, imaginar ele queria Que cada pessoa, que passava por ele no caminho, Tinha dele pena, e que eles diriam, Estou muito triste, Troilus morrerá! E assim ele levava um dia ou dois, Como ouvistes: tal vida começou ele a levar Como aquele que estava entre a esperança e o medo: Pelo que lhe agradou mostrar nas suas canções A razão do seu sofrimento, como melhor pôde, E fez uma canção de poucas palavras, Um pouco para aliviar o seu coração doloroso, E quando ele estava fora da vista de qualquer homem, Com voz suave, da sua senhora querida, Que estava ausente, começou a cantar como podeis ouvir:

* * * * * *

Esta canção, quando ele assim a cantou, muito depressa Caiu de novo nos seus velhos suspiros, E todas as noites, como era o seu costume fazer; Ele estava de pé a contemplar a lua brilhante E toda a sua tristeza à lua ele contava, E dizia: Espero, quando tu estiveres de novo em quarto crescente, Que serei feliz, se todo o mundo for verdadeiro!”

Outro mestre requintado desta espécie de estilo, onde o erudito e o poeta fornecem o material, mas o perfeito cavalheiro bem-educado as expressões e o arranjo, é George Herbert. Como, pela natureza do tema e pela frequência excessiva da estranheza dos pensamentos, o seu TEMPLE; or SACRED POEMS AND PRIVATE EJACULATIONS é comparativamente pouco conhecido, extrairei dois poemas. O primeiro é um soneto, igualmente admirável pelo peso, número e expressão dos pensamentos, e pela dignidade simples da linguagem. A menos, é claro, que um gosto fastidioso se oponha à segunda metade da sexta linha. O segundo é um poema de maior extensão, que escolhi não apenas para o presente propósito, mas também como um exemplo notável e ilustração de uma afirmação arriscada numa página anterior destes esboços: nomeadamente, que a falha característica dos nossos poetas mais antigos é o inverso daquela que distingue demasiados dos nossos versificadores mais recentes; uns transmitindo os pensamentos mais fantásticos na linguagem mais correta e natural; os outros, na linguagem mais fantástica, transmitindo os pensamentos mais triviais. O último é um enigma de palavras; o primeiro, um enigma de pensamentos. Um lembra-me uma passagem estranha nas IDEAS de Drayton:

Como outros homens, eu próprio medito, Por que desta sorte torço a invenção; E por que estas metáforas vertiginosas uso, Deixando o caminho que a maior parte percorre; Resolver-vos-ei: sou lunático! [72]

O outro recorda uma passagem ainda mais estranha em THE SYNAGOGUE: or THE SHADOW OF THE TEMPLE, uma série conexa de poemas em imitação do TEMPLE de Herbert e, em algumas edições, a ele anexa.

Ó como a minha mente Está obstruída! Nem um pensamento, Que possa encontrar, Que não esteja emaranhado Tudo a nada! Pontas curtas de fios, E tiras estreitas De fendas, Nós, rufos emaranhados, Soltos tufos partidos De torções, São o vestuário esfarrapado das minhas meditações feridas, Que, enrolado e tecido, forma um fato para nada: Num momento penso, e depois sinto dor Ao pensar em como despensar esse pensamento novamente.

Imediatamente após estas passagens burlescas, não posso prosseguir com os extratos prometidos sem mudar o tom lúdico do sentimento através da interposição das três estrofes seguintes de Herbert.

VIRTUDE.

Doce dia, tão fresco, tão calmo, tão brilhante, O nupcial da terra e do céu, O orvalho chorará a tua queda esta noite; Pois tu deves morrer.

Doce rosa, cuja tonalidade irritada e corajosa Ordena ao observador imprudente que limpe o olho, A tua raiz está sempre na sua sepultura, E tu deves morrer.

Doce primavera, cheia de doces dias e rosas, Uma caixa, onde doces compactados jazem, A minha música mostra, vós tendes os vossos fins, E todos devem morrer.

O PECADO DO ÍNTIMO: UM SONETO POR GEORGE HERBERT.

Senhor, com que cuidado nos cingiste em redor, Os pais temperam-nos primeiro; depois os mestres-escola Entregam-nos às leis; enviam-nos ligados Às regras da razão, mensageiros sagrados, Púlpitos e domingos, a tristeza perseguindo o pecado, Aflições selecionadas, angústia de todos os tamanhos, Redes finas e estratagemas para nos apanhar, Bíblias abertas, milhões de surpresas; Bênçãos de antemão, laços de gratidão, O som da Glória a tocar nos nossos ouvidos, Por fora, a nossa vergonha; por dentro, as nossas consciências; Anjos e graça, esperanças e medos eternos. Contudo, todas estas cercas e toda a sua disposição Um pecado íntimo astuto sopra para longe.

AMOR DESCONHECIDO.

Caro amigo, sente-se, a história é longa e triste, E nas minhas fraquezas, presumo, o vosso amor Mais se conformará do que ajudará. Um Senhor eu tinha, E tenho, de quem algumas terras, que podem melhorar, Detenho por duas vidas, e ambas as vidas em mim. Para ele levei um prato de fruta um dia, E no meio coloquei o meu coração. Mas ele (Suspiro ao dizer) Olhou para um servo, que conhecia o seu olhar, Melhor do que vós me conheceis, ou (o que é o mesmo) Do que eu próprio. O servo instantaneamente, Deixando a fruta, apoderou-se apenas do meu coração, E atirou-o para uma pia batismal, onde caía Um fluxo de sangue, que emanava do lado De uma grande rocha: lembro-me bem de tudo, E tenho bons motivos: lá foi mergulhado e tingido, E lavado, e torcido: o próprio ato de torcer ainda Provoca lágrimas. "O vosso coração estava sujo, temo." De facto é verdade. Cometo e cometi Muitos erros, mais do que o meu contrato suportará; Contudo, ainda pedi perdão, e não fui negado. Mas ouvireis. Depois de o meu coração estar bem, E limpo e justo, como eu numa tarde (Suspiro ao contar) Caminhava sozinho pelo exterior, vi um grande E espaçoso forno flamejante, e sobre ele Um caldeirão a ferver, à volta de cuja borda Estava escrito em letras grandes AFLIÇÃO. A grandeza mostrava o dono. Então fui Buscar um sacrifício fora do meu redil, Pensando com isso, que assim apresentava, Aquecer o seu amor, que, temia, arrefecia. Mas enquanto o meu coração o oferecia, o homem Que o devia tomar de mim, escorregou a mão, E atirou o meu coração para a panela a escaldar; O meu coração que o trouxera (compreendeis?) O coração do ofertante. "O vosso coração estava duro, temo." De facto é verdade. Descobri uma matéria calosa Que começava a espalhar-se e a expandir-se lá: Mas com um fármaco mais rico do que água a escaldar Banhei-o muitas vezes, até com sangue sagrado, Que numa mesa, enquanto muitos bebiam vinho puro, Um amigo roubou para dentro da minha taça para o bem, Mesmo tomado internamente, e diviníssimo Para suavisar as durezas. Mas, finalmente, Saindo do caldeirão, fugi logo Para a minha casa, onde para reparar a força Que tinha perdido, apressei-me para a minha cama: Mas quando pensei em dormir todos estes erros, (Suspiro ao falar) Descobri que alguns tinham enchido a cama com pensamentos, Direi espinhos. Caro, não poderia o meu coração partir-se, Quando com os meus prazeres até o meu descanso se fora? Muito bem compreendi quem estivera lá: Pois não tinha dado a chave a ninguém senão a um: Deve ser ele. "O vosso coração estava baço, temo." De facto, um estado de espírito frouxo e sonolento Possuía-me frequentemente; de modo que quando rezava, Embora os meus lábios se movessem, o meu coração ficava para trás. Mas todas as minhas dívidas foram pagas por outro, Que tomou a minha culpa sobre si. "Verdadeiramente, Amigo, Pelo que ouço, o vosso Mestre mostra-vos Mais favor do que vós sabeis. Notai o fim. A pia apenas renovou o que era velho; O caldeirão suavizou o que crescera demasiado duro: Os espinhos avivaram o que crescera demasiado baço: Tudo apenas se esforçou por consertar o que vós estragastes. Portanto, alegrai-vos, e louvai-o na plenitude Cada dia, cada hora, cada momento da semana, Que deseja que sejais novo, terno, rápido."

CAPÍTULO XX

O tema anterior continuado — O estilo neutro, ou aquele comum à Prosa e à Poesia, exemplificado por exemplos de Chaucer, Herbert e outros.

Não tenho receio em declarar a minha convicção de que a excelência definida e exemplificada no capítulo precedente não é a excelência característica do estilo do Sr. Wordsworth; porque posso acrescentar, com igual sinceridade, que ela é precluída por poderes superiores. O louvor da adesão uniforme ao inglês genuíno e lógico é, sem dúvida, seu; mais, colocando a ênfase principal na palavra uniforme, atrever-me-ia a acrescentar que, de todos os poetas contemporâneos, é apenas dele. Pois, num sentido menos absoluto da palavra, incluiria certamente o Sr. Bowles, Lord Byron, e, quanto a todos os seus escritos mais tardios, o Sr. Southey, sendo as exceções nas suas obras tão poucas e sem importância. Mas da excelência específica descrita na citação de Garve, parece-me encontrar mais, e exemplos mais indubitáveis, nas obras de outros; por exemplo, entre os poemas menores do Sr. Thomas Moore e do nosso ilustre Laureado. Para mim, permanecerá sempre um facto singular e notável que uma teoria, que estabeleceria esta lingua communis, não apenas como o melhor, mas como o único estilo louvável, devesse ter partido de um poeta cuja dicção, a seguir à de Shakespeare e Milton, me parece, de todas as outras, a mais individualizada e característica. E lembremo-nos também de que estou agora a interpretar as passagens controversas do prefácio crítico do Sr. Wordsworth pelo propósito e objetivo que se pode supor que ele tenha pretendido, em vez de pelo sentido que as próprias palavras devem transmitir, se forem tomadas sem esta concessão.

Uma pessoa com qualquer gosto, que tivesse estudado apenas três ou quatro das principais peças de Shakespeare, dificilmente deixaria de reconhecer, sem o nome aposto, como sendo de Shakespeare uma citação de qualquer outra peça, ainda que apenas de poucas linhas. Uma peculiaridade semelhante, embora em menor grau, acompanha o estilo do Sr. Wordsworth sempre que ele fala na sua própria pessoa; ou sempre que, embora sob um nome fictício, é claro que ele próprio ainda está a falar, como nas diferentes dramatis personae de THE RECLUSE. Mesmo nos outros poemas, nos quais ele pretende ser mais dramático, há poucos nos quais ela não irrompa ocasionalmente. O leitor poderia frequentemente dirigir-se ao poeta nas suas próprias palavras, com referência às personagens introduzidas:

"Parece, enquanto releio a balada linha a linha, Que apenas metade é deles, e a melhor metade é tua."

Quem, tendo sido previamente familiarizado com qualquer parte considerável das publicações do Sr. Wordsworth, e tendo-as estudado com um sentimento pleno do génio do autor, não reclamaria imediatamente como Wordsworthiano o pequeno poema sobre o arco-íris?

"A Criança é o pai do Homem, etc."

Ou no LUCY GRAY?

"Nenhum companheiro, nenhum camarada Lucy conhecia; Ela habitava num largo pântano; A coisa mais doce que jamais cresceu Ao lado de uma porta humana."

Ou no IDLE SHEPHERD-BOYS?

“Ao longo da margem pedregosa do rio A cotovia-da-areia entoa um canto alegre; O tordo está atarefado no bosque, E gorjeia alto e forte. Mil cordeiros estão nos rochedos, Todos recém-nascidos! tanto a terra quanto o céu Celebram o jubileu, e mais do que tudo, Aqueles rapazes com a sua coroa verde; Eles nunca ouvem o clamor, Aquele clamor plangente! que subindo a colina Vem das profundezas de Dungeon-Ghyll.”

Precisarei mencionar a descrição requintada do Sea-Loch em THE BLIND HIGHLAND BOY. Quem senão um poeta conta uma história em tal linguagem aos pequeninos junto à lareira como—

“Contudo, ele tinha muitos sonhos inquietos; Tanto quando ouvia o grito da águia, Como quando ouvia o rugir da torrente, E ouvia a água bater na margem Perto de onde a sua cabana se erguia.

Ao lado de um lago a sua cabana se erguia, Não pequena como a nossa, um fluxo pacífico; Mas um de tamanho imenso, e estranho; Que, áspero ou suave, é cheio de mudança, E revolto no seu leito.

Pois a este lago, de noite e de dia, A grande água do Mar encontra o seu caminho Através de longas, longas voltas das colinas, E bebe todos os pequenos regatos E rios grandes e fortes:

Depois apressa-se de volta pelo caminho que veio Retorna em tarefa ainda a mesma; Isto fazia quando a terra era nova; E isto para todo o sempre fará, Enquanto a terra durar.

E, com a vinda da maré, Vêm barcos e navios que docemente navegam, Entre os bosques e as rochas elevadas; E aos pastores com os seus rebanhos Trazem contos de terras distantes.”

Eu poderia citar quase todo o seu RUTH, mas tomemos as seguintes estrofes:

Mas, como vos foi dito antes, Este Mancebo, esportivo, alegre e audaz, E, com a sua crista dançante, Tão belo, através de terras selvagens Tinha vagueado com bandos errantes De Índios no Oeste.

O vento, a tempestade rugindo alto, O tumulto de um céu tropical, Poderiam bem ser alimento perigoso Para ele, um Jovem a quem foi dado Tanto da terra—tanto do céu, E um sangue tão impetuoso.

O que quer que naqueles climas ele encontrasse Irregular à vista ou ao som Imprimia à sua mente Um impulso semelhante, parecia aliado Às suas próprias forças, e justificava As operações do seu coração.

Nem menos, para alimentar o pensamento voluptuoso, As formas belas da natureza operavam, Árvores justas e flores adoráveis; As brisas emprestavam a sua própria languidez; As estrelas tinham sentimentos, que enviavam Para aqueles caramanchões mágicos.

Contudo, nos seus piores intentos, creio, Que por vezes ali intervinham Esperanças puras de alto propósito Pois paixões ligadas a formas tão justas E imponentes, devem ter a sua parte De nobre sentimento.”

Mas das composições mais elevadas do Sr. Wordsworth, que já formam três quartos das suas obras; e que, confio, constituirão doravante uma proporção ainda maior;—destas, quer em rima ou verso branco, seria difícil e quase supérfluo selecionar exemplos de uma dicção peculiarmente sua, de um estilo que não pode ser imitado sem que seja imediatamente reconhecido como tendo origem no Sr. Wordsworth. Não seria fácil abrir em qualquer uma das suas linhagens mais sublimes que não contenha exemplos disto; e mais na proporção em que os versos são mais excelentes, e mais parecidos com o autor. Para aqueles que porventura estejam menos familiarizados com os seus escritos, darei três espécimes tomados com pouca escolha. O primeiro das linhas sobre o BOY OF WINANDER-MERE,—que

“Soprava imitações de piados às corujas silenciosas, Para que elas lhe pudessem responder.—E elas gritavam Através do vale aquático, e gritavam novamente, Com longos alaridos, e gritos, e ecos altos Redobrados e redobrados; tumulto selvagem De alegria e alarido jovial! E quando acontecia, Que pausas de profundo silêncio zombavam da sua habilidade, Então, por vezes, nesse silêncio, enquanto ele ficava suspenso Escutando, um choque suave de branda surpresa Carregou profundamente para o seu coração a voz Das torrentes de montanha; ou a cena visível Entraria despercebida na sua mente Com toda a sua imaginação solene, as suas rochas, Os seus bosques, e aquele céu incerto, recebido No seio do lago constante.”

O segundo será aquela nobre imitação de Drayton (se não foi antes uma coincidência) nas linhas TO JOANNA.

—“Quando eu tinha contemplado talvez pelo espaço de dois minutos, Joanna, olhando nos meus olhos, contemplou Aquele meu arrebatamento, e riu alto. O Rochedo, como algo que desperta de um sono, Acolheu a voz da Dama, e riu novamente! Aquela mulher antiga sentada em Helm-crag Estava pronta com a sua caverna; Hammar-scar E a alta Encosta de Silver-How enviaram Um ruído de riso; Lougbrigg do sul ouviu, E Fairfield respondeu com um tom de montanha. Helvellyn, longe no céu azul claro, Carregou a voz da dama!—o velho Skiddaw soprou A sua trombeta falante!—de volta das nuvens De Glaramara para o sul veio a voz: E Kirkstone lançou-a da sua cabeça enevoada!”

O terceiro, que é em rima, tomo da SONG AT THE FEAST OF BROUGHAM CASTLE, sobre a restauração de Lord Clifford, o Pastor, às Propriedades e Honras dos seus Ancestrais.

------“Agora outro dia chegou, Esperança mais apta, e destino mais nobre; Ele lançou de lado o seu cajado, E enterrou profundamente o seu livro; Armadura enferrujando nos seus salões Pelo sangue de Clifford clama,— ‘Subjugai o Escocês’, exclama a Lança! Levai-me ao coração da França, É o anseio do Escudo— Diz o teu nome, Campo trêmulo!— Campo de morte, onde quer que estejas, Geme com a nossa vitória! Dia feliz, e hora poderosa, Quando o nosso Pastor, no seu poder, Encouraçado e montado, com lança e espada, Aos seus ancestrais restaurado, Como uma Estrela reaparecida, Como uma glória de longe, Primeiro liderará o rebanho da guerra!”

“Ai! o fervoroso harpista não sabia, Que para uma Alma tranquila o Canto foi moldado, Quem, longamente compelido a andar em caminhos humildes, Foi suavizado em sentimento, acalmado e domado.

Amor ele encontrara em cabanas onde homens pobres jazem; Os seus professores diários tinham sido bosques e regatos, O silêncio que está no céu estrelado, O sono que está entre as colinas solitárias.”

As palavras em si, nos extratos anteriores, são, sem dúvida, suficientemente comuns na maior parte.—Mas em que poema não o são, se excetuarmos algumas tentativas desastrosas de traduzir as artes e ciências em verso? Em THE EXCURSION o número de palavras polissilábicas (ou o que as pessoas comuns chamam, de dicionário) é mais do que habitualmente grande. E assim deve ser, na proporção do número e variedade das conceções de um autor, e da sua solicitude em expressá-las com precisão.—Mas serão essas palavras nesses lugares comumente empregadas na vida real para expressar o mesmo pensamento ou coisa exterior? São elas o estilo usado no intercâmbio comum das palavras faladas? Não! nem são os modos de conexões; e ainda menos as pausas e transições. Teria alguém, senão um poeta—pelo menos poderia alguém, sem estar consciente de que se expressou com notável vivacidade—ter descrito um pássaro a cantar alto como, “O tordo está atarefado no bosque?”—ou ter falado de rapazes com um fio de musgo-de-clube à volta dos seus chapéus enferrujados, como os rapazes “com a sua coroa verde?”—ou ter traduzido um belo dia de Maio para “Tanto a terra quanto o céu celebram o jubileu!”—ou ter trazido todas as diferentes marcas e circunstâncias de um lago marinho diante da mente, como as ações de um poder vivo e atuante? Ou ter representado o reflexo do céu na água, como “Aquele céu incerto recebido no seio do lago constante?” Mesmo a construção gramatical não é raramente peculiar; como “O vento, a tempestade rugindo alto, o tumulto de um céu tropical, poderiam bem ser alimento perigoso para ele, um jovem a quem foi dado, etc.” Existe uma peculiaridade no uso frequente do asindeto (isto é, a omissão da partícula conectiva antes da última de várias palavras, ou várias frases usadas gramaticalmente como palavras únicas, estando todas no mesmo caso e governando ou sendo governadas pelo mesmo verbo) e não menos na construção de palavras por aposição (“para ele, um jovem”). Em suma, se fossem excluídas das composições poéticas do Sr. Wordsworth todas, que uma adesão literal à teoria do seu prefácio excluiria, dois terços pelo menos das belezas marcantes da sua poesia teriam de ser apagadas. Pois um número muito maior de versos seria sacrificado do que em qualquer outro poeta recente; porque o prazer recebido dos poemas de Wordsworth sendo menos derivado quer da excitação da curiosidade quer do fluxo rápido da narração, as passagens marcantes formam uma proporção maior do seu valor. Não apresento isto como um critério justo de excelência comparativa, nem sequer penso que o seja; mas meramente como um facto. Afirmo que de nenhum escritor contemporâneo poderiam ser citados tantos versos, sem referência ao poema em que se encontram, pelo seu próprio peso ou beleza independentes. Da esfera da minha própria experiência posso trazer à minha memória três pessoas de poderes e conhecimentos não vulgares, que tinham lido os poemas de outros com prazer cada vez mais puro, e tinham pensado mais altamente dos seus autores, como poetas; que contudo me confessaram, que de nenhuma obra moderna tinham surgido tantas passagens de novo nas suas mentes em diferentes momentos, e conforme diferentes ocasiões tinham despertado um estado de espírito meditativo.

CAPÍTULO XXI

Observações sobre o modo atual de conduzir revistas críticas.

Há muito que desejo ver uma inquisição justa e filosófica sobre o caráter de Wordsworth, como poeta, com base na evidência das suas obras publicadas; e uma apreciação positiva, não comparativa, das suas excelências, deficiências e defeitos característicos. Não conheço qualquer pretensão que a mera opinião de qualquer indivíduo possa ter para pesar mais do que a opinião do próprio autor; contra a probabilidade da sua parcialidade paternal devemos contrapor a de ele ter pensado mais longa e profundamente sobre o assunto. Mas eu chamaria a essa investigação justa e filosófica na qual o crítico anuncia e se esforça por estabelecer os princípios, que ele considera como fundamento da poesia em geral, com a especificação destes na sua aplicação às diferentes classes de poesia. Tendo assim preparado os seus cânones de crítica para louvor e condenação, ele procederia a particularizar as passagens mais marcantes às quais ele julga serem aplicáveis, notando fielmente a recorrência frequente ou infrequente de méritos ou defeitos semelhantes, e tão fielmente distinguindo o que é característico do que é acidental, ou um mero cansaço da asa. Então, se as suas premissas forem racionais, as suas deduções legítimas, e as suas conclusões justamente aplicadas, o leitor, e possivelmente o próprio poeta, pode adotar o seu julgamento à luz do discernimento e na independência do livre-arbítrio. Se ele errou, apresenta os seus erros num lugar definido e forma tangível, e segura a tocha e guia o caminho para a sua deteção.

Admito de bom grado, e estimo num valor elevado, os serviços que a EDINBURGH REVIEW, e outras formadas depois sobre o mesmo plano, prestaram à sociedade na difusão do conhecimento. Penso que o início da EDINBURGH REVIEW é uma época importante na crítica periódica; e que tem um direito à gratidão da república literária, e de facto do público leitor em geral, por ter originado o esquema de rever apenas aqueles livros que são suscetíveis e merecedores de crítica argumentativa. Não menos meritório, e muito mais fielmente e em geral muito mais habilmente executado, é o seu plano de substituir o lugar vazio do lixo ou mediocridade, sabiamente deixado a afundar no esquecimento pelo seu próprio peso, por ensaios originais sobre os temas mais interessantes do tempo, religiosos ou políticos; nos quais os títulos dos livros ou panfletos prefixados fornecem apenas o nome e a ocasião da dissertação. Não critico a acuidade, ou aspereza do seu estilo condenatório, em si e por si, desde que o autor seja abordado ou tratado como a mera personificação da obra então sob julgamento. Não tenho nenhuma disputa com eles por este motivo, desde que não sejam admitidas alusões pessoais, e não seja feito nenhum reenvio (para novo julgamento) de desempenhos juvenis, que foram publicados, talvez esquecidos, muitos anos antes do início da revista: uma vez que, para forçar o retorno de tais obras à atenção pública, não são facilmente atribuíveis motivos, senão aqueles que são fornecidos ao crítico pela sua própria malignidade pessoal; ou o que é ainda pior, por um hábito de malignidade sob a forma de mera devassidão.

“Nenhum rancor privado eles precisam, nenhuma má vontade pessoal A vivissecção é o seu próprio deleite! Toda inimizade, toda inveja, eles desmentem, Ladrões desinteressados do nosso bom nome: Assassinos frios, sóbrios, da fama do seu vizinho!” S. T. C.

Toda censura, todo sarcasmo respeitante a uma publicação que o crítico, com a obra criticada diante dele, possa justificar, é direito do crítico. O escritor está autorizado a responder, mas não a queixar-se. Nem pode alguém prescrever ao crítico, quão suave ou quão duro; quão amigável, ou quão amargo, devem ser as frases que ele escolherá para a expressão de tal repreensão ou ridículo. O crítico deve saber, que efeito é o seu objetivo produzir; e com vista a este efeito deve ele pesar as suas palavras. Mas assim que o crítico trai, que sabe mais do seu autor, do que as publicações do autor poderiam ter-lhe dito; assim que, a partir deste conhecimento mais íntimo, obtido noutro lugar, ele se aproveita do menor traço contra o autor; a sua censura instantaneamente torna-se injúria pessoal, os seus sarcasmos insultos pessoais. Ele deixa de ser um crítico, e assume o caráter mais desprezível a que uma criatura racional pode ser degradada, o de um mexeriqueiro, difamador e pasquineiro: mas com este agravante pesado, que ele rouba as paixões inquietas e deformadoras do mundo para o museu; para o próprio lugar que, a seguir à capela e ao oratório, deveria ser o nosso santuário, e lugar seguro de refúgio; oferece abominações no altar das Musas; e faz da sua vedação sagrada o próprio círculo em que ele conjura o espírito mentiroso e profano.

Esta determinação de personalidade não autorizada, e de censura permitida e legítima, (que devo em parte ao ilustre Lessing, ele próprio um modelo de crítica aguda, espirituosa, por vezes mordaz, mas sempre argumentativa e honrosa) é, sem controvérsia, a verdadeira: e embora eu próprio não exercesse todos os direitos desta última, ainda assim, desde que a primeira seja excluída, submeto-me ao seu exercício nas mãos de outros, sem queixa e sem ressentimento.

Que se forme uma comunicação entre qualquer número de homens sábios nos vários ramos da ciência e da literatura; e quer o presidente e o comité central estejam em Londres, ou Edimburgo, se apenas eles previamente deixarem de lado a sua individualidade, e se comprometerem interiormente, bem como ostensivamente, a administrar julgamento de acordo com uma constituição e código de leis; e se, fundamentando este código na dupla base da moral universal e da razão filosófica, independentemente de toda a aplicação prevista a obras e autores particulares, eles obtiverem o direito de falar cada um como o representante do seu corpo corporativo; eles terão honra e bons votos meus, e eu conceder-lhes-ei as suas justas dignidades, embora autoassumidas, não menos alegremente do que se eu pudesse inquirir sobre eles no escritório do arauto, ou consultar o livro da nobreza. Por mais altos que possam ser os protestos contra a reputação impedida ou subvertida, por mais numerosos e impacientes as queixas de severidade impiedosa e despotismo insuportável, não sentirei, nem pronunciarei nada senão em defesa e justificação da máquina crítica. Se algum Quixote literário se encontrar provocado pelos seus sons e movimentos regulares, eu admoestá-lo-ia com Sancho Pança, que não é nenhum gigante mas um moinho de vento; ali está ele no seu próprio lugar, e na sua própria colina, nunca sai do seu caminho para atacar ninguém, e a ninguém e de ninguém dá ou pede assistência. Quando a imprensa pública derramou qualquer parte da sua produção entre as suas mós, ela mói-a, o saco de um homem o mesmo que o de outro, e com qualquer vento que possa estar então a soprar. Todos os trinta e dois ventos são igualmente seus amigos. De toda a vasta atmosfera não deseja um único centímetro a mais do que o necessário para as suas velas girarem. Mas este espaço deve ser deixado livre e desimpedido. Mosquitos, besouros, vespas, borboletas, e toda a tribo de efémeros e insignificantes, podem voar para dentro e para fora e entre; podem zumbir, e sussurrar, e ranger; podem aguçar os seus pequenos tubos, e tocar as suas pequenas trompas, não castigados e despercebidos. Mas ociosos e fanfarrões de maior tamanho e aparência mais orgulhosa devem ter cuidado, como se colocam dentro do seu alcance. Muito menos podem presumir colocar as mãos nas velas, cuja força não é maior nem menor do que o vento é, que as impele a girar. Quem quer que o braço impiedoso lance para o alto, ou faça girar consigo no ar, tem apenas a si mesmo a culpar; embora, quando o mesmo braço o atira para longe, ele mais frequentemente dobrará do que quebrará a força da sua queda.

Deixando de lado a interferência demasiado manifesta e demasiado frequente do partido nacional, e até da predileção ou aversão pessoal; e reservando para sentimentos mais profundos essas piores e mais criminosas intrusões na sacralidade da vida privada, que não poucas vezes merecem castigo legal em vez de literário, os dois principais objetos e ocasiões que encontro para censura e arrependimento na conduta da revista em questão são, primeiro, a sua falta de fidelidade ao seu próprio plano anunciado e excelente, submetendo à crítica obras nem indecentes nem imorais, contudo de tal importância trivial, mesmo em termos de tamanho, e, de acordo com o próprio veredito do crítico, tão desprovidas de todo o mérito, como deve excitar na mente mais cândida a suspeita de que ou a antipatia ou sentimentos vingativos estavam em ação; ou que houve uma fria predeterminação prudencial de aumentar a venda da revista lisonjeando as paixões malignas da natureza humana. Para que eu próprio não me torne sujeito à acusação que estou a trazer contra outros, por uma acusação sem prova, refiro-me ao artigo sobre o sermão do Dr. Rennell no próprio primeiro número da EDINBURGH REVIEW como uma ilustração do que quero dizer. Se ao olhar através de todos os volumes seguintes o leitor encontrar este um exemplo solitário, devo submeter-me àquela dolorosa perda de estima, que aguarda uma acusação sem fundamento ou exagerada.

O segundo ponto de objeção pertence a esta revista apenas em comum com todas as outras obras de crítica periódica: pelo menos, aplica-se em comum ao sistema geral de todas, qualquer que seja a exceção que possa haver a favor de artigos particulares. Ou se se liga à EDINBURGH REVIEW, e à sua única rival (THE QUARTERLY), com qualquer força peculiar, isto resulta da superioridade de talento, conhecimento e informação que ambas exibiram tão inegavelmente; e que sem dúvida aprofunda o arrependimento, embora não a culpa. Refiro-me à substituição da asserção pela argumentação; à frequência de vereditos arbitrários e por vezes petulantes, não poucas vezes não apoiados sequer por uma única citação da obra condenada, o que poderia pelo menos ter explicado o significado do crítico, se não provasse a justiça da sua sentença. Mesmo onde este não é o caso, os extratos são demasiadas vezes feitos sem referência a quaisquer fundamentos ou regras gerais a partir das quais a falibilidade ou inadmissibilidade das qualidades atribuídas possa ser deduzida; e sem qualquer tentativa de mostrar, que as qualidades são atribuíveis à passagem extraída. Encontrei tais extratos dos poemas do Sr. Wordsworth, anexados a tais asserções, que me levaram a imaginar que o crítico, tendo escrito a sua crítica antes de ter lido a obra, tinha então picado com um alfinete passagens, com as quais ilustrar os vários ramos das suas opiniões preconcebidas. Por que princípio de escolha racional podemos supor que um crítico tenha sido dirigido (pelo menos num país cristão, e sendo ele próprio, esperamos, um cristão) que dá as seguintes linhas, retratando o fervor da devoção solitária excitada pela magnífica exibição das obras do Todo-Poderoso, como uma prova e exemplo da tendência de um autor para delírios totais, e absoluta ininteligibilidade?

«Ó então que alma era a sua, quando nos cumes Das altas montanhas ele contemplava o sol Elevar-se, e banhar o mundo em luz! Ele olhou-- O oceano e a terra, a estrutura sólida da terra, E a massa líquida do oceano, jaziam sob ele Em contentamento e profunda alegria. As nuvens foram tocadas, E nas suas faces silenciosas ele leu Amor inexprimível. Som não era necessário, Nem qualquer voz de alegria: o seu espírito bebeu O espetáculo! sensação, alma e forma, Tudo se fundiu nele; elas engoliram O seu ser animal; nelas ele viveu, E por elas ele viveu: elas eram a sua vida.»

Pode esperar-se que, quer o autor quer os seus admiradores, sejam levados a prestar qualquer atenção séria a decisões que nada provam senão o estado lamentável do gosto e da sensibilidade do próprio crítico? Ao abrirem a crítica, veem uma passagem favorita, da força e verdade da qual tiveram uma certeza intuitiva na sua própria experiência interior, confirmada, se confirmação pudesse receber, pela simpatia dos seus amigos mais esclarecidos; alguns dos quais talvez, mesmo na opinião do mundo, detenham uma categoria intelectual mais elevada do que o próprio crítico se atreveria a reclamar. E esta mesma passagem eles encontram selecionada como a efusão característica de uma mente abandonada pela razão!—como fornecendo provas de que o escritor estava a delirar, ou não teria assim encadeado palavras sem sentido ou propósito! Nenhuma diversidade de gosto parece capaz de explicar tal contraste de julgamento.

Que eu tenha sobreavaliado o mérito de uma passagem ou poema, que eu tenha errado quanto ao grau da sua excelência, poderia ser facilmente levado a acreditar ou recear. Mas que linhas, cujo sentido eu tinha analisado e achado consonante com todas as melhores convicções do meu entendimento; e cujo imaginário e dicção tinham reunido em torno dessas convicções os meus sentimentos mais nobres bem como os mais deleitáveis; que eu devesse admitir que tais linhas são mero disparate ou demência, é demasiado para que os argumentos mais engenhosos o consigam. Mas que tal revolução de gosto deva ser provocada por algumas asserções vagas, parece pouco menos que impossível. Pelo contrário, exigiria um esforço de caridade não descartar a crítica com o aforismo do sábio, in animam malevolam sapientia haud intrare potest.

Que dizer então se este próprio crítico tiver citado um grande número de linhas isoladas e até de longos parágrafos, que ele próprio reconhece possuírem uma beleza eminente e original? Que dizer se ele próprio tiver confessado que belezas tão grandes estão espalhadas em abundância por todo o livro? E contudo, ainda sob esta impressão, tiver começado a sua crítica em exultação vulgar com uma profecia destinada a garantir o seu próprio cumprimento? Com um «Isto não serve!» Que? Se após tais reconhecimentos extorquidos do seu próprio juízo, ele prosseguir de acusação em acusação de insipidez e delírio; voos e vacuidade; e, finalmente, consignando o autor à casa dos incuráveis, concluir com um tom do mais rude desprezo, evidentemente fundamentado no estado doentio das suas próprias associações morais? Suponha-se também tudo isto feito sem um único princípio orientador estabelecido ou sequer anunciado, e sem qualquer tentativa de dedução argumentativa, embora o poeta tivesse apresentado uma oportunidade mais do que habitual para tal, tendo previamente tornado públicos os seus próprios princípios de julgamento em poesia, e sustentando-os por uma linha conexa de raciocínio!

O ofício e o dever do poeta é selecionar a mais digna bem como

«A atitude mais alegre, mais feliz das coisas.»

O contrário, pois em todos os casos um contrário é possível, é o negócio apropriado do burlesco e da paródia, um gosto predominante pelo qual tem sido sempre considerado uma marca de uma mente baixa e degradada. Quando eu estava em Roma, entre muitas outras visitas ao túmulo de Júlio II, fui lá uma vez com um artista prussiano, um homem de génio e grande vivacidade de sentimento. Enquanto contemplávamos o MOISÉS de Miguel Ângelo, a nossa conversa recaiu sobre os chifres e a barba daquela estátua estupenda; sobre a necessidade de cada um para sustentar o outro; sobre o efeito sobre-humano do primeiro, e a necessidade da existência de ambos para conferir harmonia e integridade tanto à imagem quanto ao sentimento por ela despertado. Concebam-nos removidos, e a estátua tornar-se-ia não-natural, sem ser sobre-natural. Recordámos os chifres do sol nascente, e eu repeti a nobre passagem de HOLY DYING de Taylor. Que os chifres eram o emblema de poder e soberania entre as nações orientais, e ainda são retidos como tal na Abissínia; o Aqueloo dos antigos gregos; e as prováveis ideias e sentimentos que originalmente sugeriram a mistura da forma humana e da bruta na figura, pela qual eles realizaram a ideia do seu misterioso Pan, como representando a inteligência misturada com um poder mais sombrio, mais profundo, mais poderoso e mais universal do que o intelecto consciente do homem; do que a inteligência;—todos estes pensamentos e recordações passaram em procissão perante as nossas mentes. O meu companheiro, que possuía mais do que a sua parte do ódio que os seus compatriotas votavam aos franceses, tinha acabado de observar-me: «um francês, senhor! é o único animal em forma humana que, de modo algum, se pode elevar à religião ou à poesia»: quando, eis! dois oficiais franceses de distinção e patente entraram na igreja! «Repare», sussurrou o prussiano, «a primeira coisa que esses canalhas notarão—(pois eles começarão por notar instantaneamente a estátua em partes, sem um momento de pausa de admiração impressionada pelo todo)—serão os chifres e a barba. E as associações que eles ligarão imediatamente a eles serão as de um bode e de um corno.» Nunca homem adivinhou com mais sorte. Se ele tivesse herdado uma porção dos poderes proféticos do grande legislador, cuja estátua tínhamos estado a contemplar, dificilmente poderia ter proferido palavras mais coincidentes com o resultado: pois, tal como ele tinha dito, assim aconteceu.

Em THE EXCURSION, o poeta introduziu um velho, nascido em circunstâncias humildes mas não abjetas, que tinha desfrutado de vantagens de educação superiores às habituais, tanto através dos livros quanto da disciplina mais terrível da natureza. Esta pessoa ele representa como tendo sido impelida pela inquietude de sentimentos fervorosos e por um intelecto ávido para uma vida itinerante; e como tendo, por consequência, passado a maior parte do seu tempo, desde o início da idade adulta, em aldeias e lugarejos de porta em porta,

«Um mercador errante curvado sob a sua carga.»

Ora, se este é um caráter apropriado para um poema didático elevado, é talvez questionável. Apresenta um justo assunto para controvérsia; e a questão deve ser determinada pela congruência ou incongruência de tal caráter com o que se provará serem os constituintes essenciais da poesia. Mas certamente o crítico que, ignorando todas as oportunidades que tal modo de vida apresentaria a tal homem; todas as vantagens da liberdade da natureza, da solidão e do pensamento solitário; todas as variedades de lugares e estações pelas quais o seu rasto se estendeu, com todo o imaginário variável que elas trazem consigo; e, finalmente, todas as observações dos homens,

«Os seus costumes, os seus prazeres e ocupações, As suas paixões e os seus sentimentos»

que a memória destas jornadas anuais deve ter dado e recordado a tal mente—o crítico, digo eu, que da multidão de associações possíveis ignore todas estas a fim de fixar a sua atenção exclusivamente nos alfinetes e fitas de corpete, que poderiam estar entre as mercadorias da sua trouxa; este crítico, na minha opinião, não pode ser considerado como possuindo um estado de sentimento moral muito mais elevado ou muito mais saudável do que os franceses acima referidos.

CAPÍTULO XXII

Os defeitos característicos da poesia de Wordsworth, com os princípios a partir dos quais o julgamento, de que são defeitos, é deduzido—A sua proporção perante as belezas—Na maior parte característicos apenas da sua teoria.

Se o Sr. Wordsworth estabeleceu princípios de poesia que os seus argumentos são insuficientes para sustentar, que ele e aqueles que adotaram os seus sentimentos sejam corrigidos pela refutação desses argumentos, e pela substituição de princípios mais filosóficos. E ainda que seja dado o devido crédito à porção e importância das verdades que estão misturadas com a sua teoria; verdades cuja atenção demasiado exclusiva tinha causado os seus erros, ao tentá-lo a levar essas verdades além dos seus limites próprios. Se a sua teoria equivocada influenciou de todo as suas composições poéticas, que os efeitos sejam apontados, e os exemplos dados. Mas que seja igualmente mostrado até que ponto a influência atuou; se difusamente, ou apenas por arranques; se o número e importância dos poemas e passagens assim infetados são grandes ou triviais comparados com a porção sã; e, finalmente, se estão entretecidos na textura das suas obras, ou são soltos e separáveis. O resultado de tal julgamento demonstraria, sem dúvida, o que é mais do que tempo de anunciar de forma decisiva e em voz alta, que as supostas características da poesia do Sr. Wordsworth, quer admiradas ou reprovadas; quer sejam simplicidade ou simploriedade; adesão fiel à natureza essencial, ou seleções deliberadas da natureza humana das suas formas mais vis e sob as associações menos atraentes; são tão pouco as reais características da sua poesia em geral, como o são do seu génio e da constituição da sua mente.

Num número comparativamente pequeno de poemas ele escolheu fazer uma experiência; e esta experiência suporemos ter falhado. Contudo, mesmo nestes poemas é impossível não perceber que a tendência natural da mente do poeta é para grandes objetos e conceções elevadas. O poema intitulado FIDELITY é, na maior parte, escrito numa linguagem tão baixa e despida como talvez qualquer outra nos dois volumes. Contudo, tome-se a seguinte estrofe e compare-se com as estrofes precedentes do mesmo poema.

«Ali, por vezes, um peixe que salta Envia através do lago uma alegria solitária; Os rochedos repetem o grasnar do corvo, Em sinfonia austera; Lá o arco-íris vem—a nuvem— E névoas que espalham a mortalha voadora; E raios de sol; e a lufada sonora, Que, se pudesse, passaria a correr; Mas essa enorme barreira retém-na firmemente.»

Ou compare-se as quatro últimas linhas da estrofe final com a metade anterior.

«Sim, a prova era clara de que, desde o dia Em que o Viajante tinha assim morrido, O Cão tinha vigiado em torno do local, Ou ao lado do seu Mestre: Como nutrido aqui durante tanto tempo Ele sabe, quem deu esse amor sublime,— E deu essa força de sentimento, grande Acima de toda a estimativa humana!»

Pode qualquer mente cândida e inteligente hesitar em determinar qual destas melhor representa a tendência e o caráter nativo do génio do poeta? Não decidirá ele que uma foi escrita porque o poeta queria escrever assim, e a outra porque ele não podia reprimir tão inteiramente a força e a grandeza da sua mente, sem ter de escrever de outra forma em qualquer parte da composição? Em suma, que a sua única doença é estar fora do seu elemento; como o cisne, que, tendo-se divertido, por um momento, a esmagar as ervas daninhas na margem do rio, regressa em breve aos seus próprios movimentos majestosos na sua superfície reflexiva e sustentadora. Observe-se que estou aqui a supor que o juiz imaginado, a quem apelo, já decidiu contra a teoria do poeta, na medida em que ela difere dos princípios da arte, geralmente reconhecidos.

Não posso aqui entrar numa análise detalhada das obras do Sr. Wordsworth; mas tentarei dar os principais resultados do meu próprio julgamento, após um convívio de muitos anos, e repetidas leituras. E embora, para apreciar os defeitos de uma mente grande seja necessário compreender previamente as suas excelências características, já me exprimi com suficiente plenitude para evitar a maior parte dos maus efeitos que poderiam advir de eu seguir um arranjo contrário. Começarei, portanto, com o que considero os defeitos proeminentes dos seus poemas até agora publicados.

A primeira característica, embora apenas um defeito ocasional, que me parece encontrar nestes poemas é a inconstância do estilo. Sob este nome refiro-me às transições súbitas e despreparadas de linhas ou sentenças de felicidade peculiar—(em todo o caso marcantes e originais)—para um estilo não só desapaixonado como indistinto. Ele cai demasiado frequentemente e demasiado abruptamente para aquele estilo que eu colocaria na segunda divisão da linguagem, dividindo-a em três espécies; primeiro, aquela que é peculiar à poesia; segundo, aquela que é apenas própria da prosa; e terceiro, a neutra ou comum a ambas. Houve obras, como o Ensaio sobre Cromwell de Cowley, nas quais prosa e verso estão misturados (não como na Consolação de Boécio, ou na ARGENIS de Barclay, pela inserção de poemas supostos terem sido falados ou compostos em ocasiões previamente relatadas em prosa, mas) o poeta passando de um para o outro, conforme a natureza dos pensamentos ou os seus próprios sentimentos ditavam. Contudo, este modo de composição não satisfaz um gosto cultivado. Há algo de desagradável em ser assim obrigado a alternar estados de sentimento tão díspares, e isto numa espécie de escrita, cujo prazer é em parte derivado da preparação e expectativa prévia do leitor. Uma porção daquela estranheza é sentida, a qual paira sobre a introdução de canções nas nossas modernas óperas cómicas; e para evitar a qual o judicioso Metastasio (quanto ao gosto requintado do qual não pode haver hesitação, quaisquer que sejam as dúvidas que se possam ter sobre o seu génio poético) colocava uniformemente a ária no final da cena, ao mesmo tempo que quase sempre eleva e inflama o estilo do recitativo imediatamente precedente. Mesmo na vida real, a diferença é grande e evidente entre palavras usadas como marcas arbitrárias do pensamento, a nossa moeda corrente e suave de intercâmbio, com a imagem e inscrição gastas pelo uso; e aquelas que transmitem imagens quer emprestadas de um objeto exterior para animar e particularizar algum outro; ou usadas alegoricamente para corporizar o estado interior da pessoa que fala; ou tais que são pelo menos expoentes do seu peculiar traço e invulgar extensão de faculdade. Tanto assim, de facto, que nos círculos sociais da vida privada frequentemente descobrimos que um uso marcante destas últimas interrompe o fluxo geral da conversa, e pela excitação decorrente da atenção concentrada produz uma espécie de arrefecimento e interrupção durante alguns minutos. Mas na leitura de obras de arte literária, preparamo-nos para tal linguagem; e o negócio do escritor, como o de um pintor cujo assunto requer um esplendor e destaque invulgares, é elevar de tal modo os tons inferiores e neutros, que aquilo que num estilo diferente seriam as cores dominantes, são aqui usadas como meios daquela degradação suave necessária para produzir o efeito de um todo. Onde isto não é alcançado num poema, o metro apenas lembra ao leitor as suas exigências a fim de as desapontar; e onde este defeito ocorre frequentemente, os seus sentimentos são alternadamente sobressaltados por anticlímax e hipérclise.

Remeto o leitor para as estrofes requintadas citadas para outro propósito de THE BLIND HIGHLAND BOY; e anexo então, por serem, na minha opinião, exemplos desta desarmonia de estilo, as duas seguintes:

«E uma, a mais rara, era uma concha, Que ele, pobre criança, tinha estudado bem: A concha de uma tartaruga verde, fina E oca;—poderias sentar-te nela, Era tão larga, e profunda.»

«O nosso Rapaz das Terras Altas visitava frequentemente A casa que continha este prémio; e, levado Pelo acaso ou pela escolha, lá chegou Um dia, quando ninguém estava em casa, E encontrou a porta destrancada.»

Ou página 172, vol. I.

«’Está esquecido, deixa-me fazer O meu melhor. Havia um ou dois sorrisos— Consigo lembrar-me deles, vejo Os sorrisos que valem o mundo para mim. Querido Bebé! Devo deitar-te: Tu perturbas-me com alarmes estranhos; Sorrisos tens tu, doces, teus; Não posso manter-te nos meus braços; Pois eles confundem-me: tal como está, Esqueci aqueles sorrisos dele!»

Ou página 269, vol. I.

«Tens um ninho, para o teu amor e o teu descanso E embora pouco perturbado pela preguiça Cotovia ébria! tu não serias relutante Em ser um viajante como eu. Feliz, feliz ser vivo! _Com uma alma tão forte como um rio de montanha Derramando louvor ao dador Todo-Poderoso,_ Que a alegria e o folguedo estejam connosco ambos! Ouvindo-te ou então algum outro, Um irmão tão alegre Eu na terra irei caminhando Por mim mesmo alegremente até o dia findar.»

A incongruência, que me parece encontrar nesta passagem, é a das duas linhas nobres em itálico com as anteriores e as seguintes. Assim, vol. II, página 30.

«Junto a um Lago, no lado mais distante, Ele estava sozinho; um minuto, creio, Observei-o, ele continuando imóvel Então para a margem distante do Lago me dirigi; Ele estando todo o tempo diante de mim em plena vista.»

Compare isto com a repetição da mesma imagem, duas estrofes depois da seguinte.

«E, ainda enquanto me aproximava com passo suave, Ao lado do pequeno lago ou charco pantanoso Imóvel como uma Nuvem o Velho estava, Que não ouve os ventos ruidosos quando eles chamam; E move-se totalmente, se se mover de todo.»

Ou finalmente, a segunda das três estrofes seguintes, comparada tanto com a primeira quanto com a terceira.

«Os meus pensamentos anteriores voltaram; o medo que mata; E a esperança que não quer ser alimentada; Frio, dor, e trabalho, e todos os males carnais; E poderosos Poetas mortos na sua miséria. Mas agora, perplexo pelo que o Velho tinha dito, A minha pergunta ansiosamente renovei, “Como é que vive, e o que faz?”»

«Ele com um sorriso repetiu então as suas palavras; E disse, que colhendo Sanguessugas por toda a parte Ele viajava; agitando assim à volta dos seus pés As águas dos Lagos onde elas habitam. “Outrora eu podia encontrá-las por todos os lados; “Mas elas diminuíram há muito por lenta decadência; “Contudo ainda persevero, e encontro-as onde posso.”»

Enquanto ele falava assim, o lugar solitário, A forma do Velho, e a fala, tudo me perturbou No olho da minha mente parecia-me vê-lo caminhar Pelas charnecas cansadas continuamente, Errando em redor sozinho e silenciosamente.

De facto, este belo poema é especialmente característico do autor. Quase não há defeito ou excelência nos seus escritos dos quais ele não apresentaria um espécime. Mas seria injusto não repetir que este defeito é apenas ocasional. De uma releitura cuidadosa dos dois volumes de poemas, duvido que as passagens censuráveis totalizassem, no todo, cem linhas; não a oitava parte do número de páginas. Em THE EXCURSION o sentimento de incongruência é raramente excitado pela dicção de qualquer passagem considerada em si mesma, mas pela superioridade súbita de alguma outra passagem que forma o contexto.

O segundo defeito posso generalizar com tolerável precisão, se o leitor perdoar uma palavra inculta e recém-cunhada. Existe, diria eu, não raramente, uma adesão aos fatos em certos poemas. Esta pode ser dividida em: primeiro, uma minúcia laboriosa e fidelidade na representação dos objetos, e de suas posições, conforme apareceram ao próprio poeta; segundo, a inserção de circunstâncias acidentais, a fim de explicar plenamente seus personagens vivos, suas disposições e ações; circunstâncias que poderiam ser necessárias para estabelecer a probabilidade de um relato na vida real, onde nada é tomado como garantido pelo ouvinte, mas que parecem supérfluas na poesia, onde o leitor está disposto a acreditar em benefício próprio. A esta acidentalidade eu me oponho, por contrariar a essência da poesia, que Aristóteles proclama ser spoudaiotaton kai philosophotaton genos, o produto mais intenso, ponderado e filosófico da arte humana; acrescentando, como razão, que é o mais católico e abstrato. A seguinte passagem da carta prefatória de Davenant a Hobbes expressa bem esta verdade. “Quando considerei as ações que pretendia descrever (aquelas que deduzem as pessoas), persuadi-me novamente a escolher as de uma era anterior, em vez da presente; e em um século tão remoto, que pudesse me preservar de seus exames impróprios, daqueles que não conhecem os requisitos de um poema, nem quanto prazer perdem (e até mesmo os prazeres da poesia heroica não são inúteis), que retiram a liberdade de um poeta e prendem seus pés nas algemas de um historiador. Pois por que um poeta deveria hesitar em corrigir na história as intrigas da sorte por meios mais encantadores de ficções prováveis, porque historiadores austeros firmaram compromisso com a verdade? Uma obrigação que, em poetas, seria tão tola e desnecessária quanto o cativeiro de falsos mártires, que jazem em correntes por uma opinião equivocada. Mas com isto quero dizer que a verdade, narrativa e passada, é o ídolo dos historiadores (que adoram uma coisa morta), e a verdade operativa, e por efeitos continuamente viva, é a amante dos poetas, que não tem sua existência na matéria, mas na razão.”

Para esta precisão minuciosa na pintura de imagens locais, as linhas em THE EXCURSION, págs. 96, 97 e 98, podem ser tomadas, se não como um exemplo notável, pelo menos como uma ilustração do que quero dizer. Deve haver algum motivo forte — (como, por exemplo, que a descrição fosse necessária para a inteligibilidade do conto) — que pudesse me induzir a descrever em vários versos o que um desenhista poderia apresentar ao olho com satisfação incomparavelmente maior com meia dúzia de traços de seu lápis, ou o pintor com outros tantos toques de seu pincel. Tais descrições, com demasiada frequência, ocasionam na mente de um leitor, que está determinado a compreender seu autor, um sentimento de trabalho, não muito diferente daquele com que ele construiria um diagrama, linha por linha, para uma longa proposição geométrica. Parece ser como retirar as peças de um mapa dissecado de sua caixa. Primeiro olhamos para uma parte, depois para outra, depois as unimos e encaixamos; e quando os sucessivos atos de atenção foram concluídos, há um esforço regressivo da mente para contemplá-lo como um todo. O poeta deve pintar para a imaginação, não para a fantasia; e não conheço caso mais feliz para exemplificar a distinção entre estas duas faculdades. Obras-primas do primeiro modo de pintura poética abundam nos escritos de Milton, por exemplo:

“A figueira; não aquela espécie renomada pelo fruto, “Mas tal como hoje, aos indianos conhecida, “Em Malabar ou Decan estende seus braços, “Ramificando-se tão larga e longa, que no solo “Os galhos curvados criam raízes, e filhas crescem “Ao redor da árvore mãe, uma sombra sustentada “Por pilares, altamente arqueada e com CAMINHOS ECOANTES ENTRE ELAS; “Ali, muitas vezes, o pastor indiano, evitando o calor, “Abriga-se no frescor, e cuida de seus rebanhos que pastam “Em aberturas cortadas na sombra mais espessa.”

Isto é criação em vez de pintura, ou se é pintura, contudo tal, e com tal copresença de todo o quadro projetado de uma só vez aos olhos, como o sol pinta em uma câmara escura. Mas o poeta deve igualmente compreender e dominar o que Bacon chama de vestigia communia dos sentidos, a latência de tudo em cada um, e mais especialmente como por um centavo mágico duplex, a excitação da visão pelo som e os expoentes do som. Assim, “Os caminhos ecoantes entre elas” pode quase ser dito inverter a fábula na tradição da cabeça de Memnon, na estátua egípcia. Tais podem ser merecidamente intituladas as palavras criativas no mundo da imaginação.

A segunda divisão diz respeito a uma aparente adesão minuciosa aos fatos em caráter e incidentes; uma atenção biográfica à probabilidade, e uma ansiedade de explicação e retrospecto. Sob este ponto, apresentarei, sem fingida timidez, os resultados da minha melhor reflexão sobre o grande ponto de controvérsia entre o Sr. Wordsworth e seus objetores; a saber, sobre a escolha de seus personagens. Já declarei, e confio ter justificado, minha total discordância do modo de argumentação que seus críticos empregaram até agora. À pergunta deles: “Por que você escolheu tal personagem, ou um personagem de tal classe social?” — o poeta poderia, na minha opinião, retorquir com justiça: por que, com a concepção do meu personagem, vocês fizeram a escolha deliberada de associações mesquinhas ou ridículas não fornecidas por mim, mas supridas por seus próprios sentimentos doentios e fastidiosos? Como era, de fato, provável que tais argumentos pudessem ter qualquer peso com um autor cujo plano, cujo princípio orientador e objetivo principal era atacar e subjugar aquele estado de associação, que nos leva a colocar o valor principal naquelas coisas nas quais o homem difere do homem, e a esquecer ou desprezar as altas dignidades que pertencem à Natureza Humana, o sentido e o sentimento que podem ser, e devem ser, encontrados em todas as classes? Os sentimentos com os quais, como cristãos, contemplamos uma congregação mista levantando-se ou ajoelhando-se diante de seu Criador comum, o Sr. Wordsworth gostaria que mantivéssemos em todos os momentos, como homens e como leitores; e pela excitação desta imparcialidade elevada, porém sem orgulho, na poesia, ele poderia esperar ter encorajado sua continuidade na vida real. O louvor dos bons homens seja dele! Na vida real, e, confio, até mesmo na minha imaginação, honro um homem virtuoso e sábio, sem referência à presença ou ausência de vantagens artificiais. Seja na pessoa de um barão armado, de um bardo laureado, ou de um velho vendedor ambulante, ou de um ainda mais velho coletor de sanguessugas, as mesmas qualidades de cabeça e coração devem reivindicar a mesma reverência. E mesmo na poesia, não tenho consciência de ter jamais deixado que meus sentimentos fossem perturbados ou ofendidos por quaisquer pensamentos ou imagens que o próprio poeta não tenha apresentado.

Mas, ainda assim, oponho-me, não obstante, e pelas seguintes razões. Primeiro, porque o objetivo em vista, como objetivo imediato, pertence ao filósofo moral, e seria perseguido, não apenas de forma mais apropriada, mas, na minha opinião, com muito maior probabilidade de sucesso em sermões ou ensaios morais do que em um poema elevado. Parece, de fato, destruir a principal distinção fundamental, não apenas entre um poema e a prosa, mas até mesmo entre a filosofia e as obras de ficção, na medida em que propõe a verdade como seu objetivo imediato, em vez do prazer. Ora, até que chegue o tempo abençoado em que a própria verdade seja prazer, e ambos estejam tão unidos a ponto de serem distinguíveis apenas em palavras, não no sentimento, permanecerá como ofício do poeta proceder sobre aquele estado de associação que realmente existe como geral; em vez de tentar primeiro torná-lo o que deveria ser, e então deixar que o prazer se siga. Mas aqui há, infelizmente, um pequeno hysteron-proteron. Pois a comunicação do prazer é o meio introdutório pelo qual, apenas, o poeta deve esperar moralizar seus leitores. Segundo: embora eu admitisse, por um momento, que este argumento fosse infundado, ainda assim, como o efeito moral seria produzido ao simplesmente anexar o nome de alguma profissão humilde a poderes que são menos prováveis, e a qualidades que certamente não são mais prováveis, de serem encontradas nela? O Poeta, falando em sua própria pessoa, pode ao mesmo tempo nos deleitar e nos melhorar com sentimentos que nos ensinam a independência da bondade, da sabedoria e até mesmo do gênio, em relação aos favores da fortuna. E tendo feito uma reverência devida diante do trono de Antonino, ele pode curvar-se com igual temor diante de Epiteto entre seus companheiros escravos

------“e regozijar-se Na presença simples de sua dignidade.”

Quem não é ao mesmo tempo deleitado e melhorado, quando o próprio Poeta Wordsworth exclama:

“Oh! muitos são os Poetas que são semeados Pela Natureza; homens dotados com os dons mais elevados, A visão e a faculdade divina, Mas carecendo da realização do verso, Nem tendo jamais, conforme a vida avançava, sido levados Pela circunstância a tomar até a altura A medida de si mesmos; estes seres favorecidos, Exceto uns poucos dispersos, vivem seu tempo, Poupando aquilo que possuem dentro, E vão para a sepultura, sem serem notados. As mentes mais fortes São frequentemente aquelas das quais o mundo barulhento Menos ouve falar.”

Para usar uma frase coloquial, tais sentimentos, em tal linguagem, fazem bem ao coração da gente; embora eu, pela minha parte, não tenha a mais plena fé na verdade da observação. Pelo contrário, acredito que os casos sejam extremamente raros; e sentiria uma objeção quase tão forte em introduzir tal personagem em uma ficção poética quanto um par de cisnes negros em um lago, em uma paisagem imaginária. Quando penso em quantos, e em quão melhores livros do que Homero, ou mesmo do que Heródoto, Píndaro ou Ésquilo, poderiam ter lido, estão ao alcance de quase todo homem, em um país onde quase todo homem é instruído a ler e escrever; e quão inquietos, quão dificilmente escondidos, os poderes do gênio são; e ainda assim encontro, mesmo em situações as mais favoráveis, segundo o Sr. Wordsworth, para a formação de uma linguagem pura e poética; em situações que garantem a familiaridade com os objetos mais grandiosos da imaginação; apenas um Burns, entre os pastores da Escócia, e nenhum único poeta de vida humilde entre os dos lagos e montanhas ingleses; concluo que o Gênio Poético não é apenas uma planta muito delicada, mas muito rara.

Mas seja como for, os sentimentos com os quais,

“Penso em Chatterton, o Menino maravilhoso, A Alma sem sono, que pereceu em seu orgulho; Em Burns, que caminhou em glória e em alegria Atrás de seu arado, na encosta da montanha”--

são amplamente diferentes daqueles com os quais eu leria um poema, onde o autor, precisando do personagem de um poeta e um filósofo na fábula de sua narração, tivesse escolhido torná-lo um limpador de chaminés; e então, a fim de remover todas as dúvidas sobre o assunto, tivesse inventado um relato de seu nascimento, parentesco e educação, com todos os estranhos e afortunados acidentes que tivessem concorrido para torná-lo ao mesmo tempo poeta, filósofo e varredor! Nada, exceto a biografia, pode justificar isto. Se for admissível mesmo em um romance, deve ser um ao modo de De Foe, que pretendia passar por história, não ao modo de Fielding: em THE LIFE OF MOLL FLANDERS, ou COLONEL JACK, não em um TOM JONES, ou mesmo em um JOSEPH ANDREWS. Muito menos, então, pode ser legitimamente introduzido em um poema, cujos personagens, em meio à mais forte individualização, ainda devem permanecer representativos. Os preceitos de Horácio, sobre este ponto, baseiam-se na natureza tanto da poesia quanto da mente humana. Eles não são mais peremptórios do que sábios e prudentes. Pois, em primeiro lugar, um desvio deles confunde os sentimentos do leitor, e todas as circunstâncias que são fingidas a fim de tornar tais acidentes menos improváveis dividem e inquietam sua fé, em vez de ajudá-la e apoiá-la. Apesar de todas as tentativas, a ficção aparecerá, e infelizmente não como fictícia, mas como falsa. O leitor não apenas sabe que os sentimentos e a linguagem são do próprio poeta, e dele também em seu caráter artificial, como poeta; mas, pelos esforços infrutíferos para fazê-lo pensar o contrário, ele não é sequer autorizado a esquecê-lo. O efeito é semelhante ao produzido por um Poeta Épico, quando a fábula e os personagens são derivados da história das Escrituras, como em THE MESSIAH de Klopstock, ou em CUMBERLAND’S CALVARY; e não apenas sugeridos por ela, como no PARADISE LOST de Milton. Aquela ilusão, contradistinta de delusão, aquela fé negativa, que simplesmente permite que as imagens apresentadas trabalhem por sua própria força, sem negação ou afirmação de sua existência real pelo julgamento, torna-se impossível por sua vizinhança imediata a palavras e fatos de verdade conhecida e absoluta. Uma fé que transcende até a crença histórica deve extinguir absolutamente este mero análogo poético da fé, como se diz que o sol de verão extingue nossas lareiras domésticas quando brilha plenamente sobre elas. O que de outra forma teria sido aceito como uma ficção agradável é repelido como uma falsidade revoltante. O efeito produzido neste último caso pela crença solene do leitor é, em um grau menor, alcançado nos casos aos quais venho me opondo pelas tentativas frustradas do autor de fazê-lo acreditar.

Acrescente a tudo o que precede a aparente inutilidade tanto do projeto quanto das anedotas das quais ele deve derivar apoio. Existe uma palavra, por exemplo, atribuída ao vendedor ambulante em THE EXCURSION, característica de um vendedor ambulante? Um sentimento que não pudesse, mais plausivelmente, mesmo sem o auxílio de qualquer explicação prévia, ter procedido de qualquer velho sábio e benéfico, de uma classe ou profissão na qual a linguagem do aprendizado e do refinamento são naturais e esperadas? Precisava a classe ter sido de todo particularizada, onde nada se segue que o conhecimento daquela classe deva explicar ou ilustrar? Quando, pelo contrário, esta informação torna a linguagem, os sentimentos, as opiniões e a informação do homem um enigma, que deve ele próprio ser resolvido por episódios de anedotas? Finalmente, quando isto, e apenas isto, poderia ter induzido um Poeta genuíno a entrelaçar em um poema do estilo mais elevado, e sobre assuntos da mais elevada e universal importância, tais minúcias de fatos (não diferentes daquelas fornecidas para o obituário de uma revista pelos amigos de algum obscuro “ornamento da sociedade recentemente falecido” em alguma cidade obscura), como:

“Entre as colinas de Athol ele nasceu Lá, em uma pequena fazenda hereditária, Uma tira improdutiva de solo acidentado, Seu pai habitava; e morreu na pobreza; Enquanto Ele, cuja humilde fortuna eu refaço, O mais jovem de três filhos, era ainda um bebê, Um Pequenino — inconsciente de sua perda. Mas antes que ele tivesse superado seus dias de infância Sua mãe viúva, por um segundo companheiro, Desposou o professor da Escola da Aldeia; Que a sua prole zelosamente conferiu Instrução necessária.”

“Desde o seu sexto ano, o Menino de quem falo, No verão cuidava do gado nas Colinas; Mas, através dos dias inclementes e perigosos Do inverno de longa duração, ele reparava Para a Escola de seu Padrasto,”-etc.

Pois todas as passagens admiráveis interpostas nesta narração poderiam, com alterações insignificantes, ter sido contadas de forma muito mais apropriada, e com muito maior verossimilhança, sobre um poeta no caráter de um poeta; e sem incorrer em outro defeito que mencionarei agora, e uma ilustração suficiente do qual terá sido aqui antecipada.

Terceiro: uma indevida predileção pela forma dramática em certos poemas, da qual um ou outro de dois males resulta. Ou os pensamentos e a dicção são diferentes dos do poeta, e então surge uma incongruência de estilo; ou eles são os mesmos e indistinguíveis, e então apresenta uma espécie de ventriloquismo, onde dois são representados como falando, enquanto na verdade apenas um homem fala.

A quarta classe de defeitos está estreitamente ligada à anterior; mas ainda assim são tais que surgem igualmente de uma intensidade de sentimento desproporcional a tal conhecimento e valor dos objetos descritos, como se pode razoavelmente esperar dos homens em geral, mesmo das classes mais cultivadas; e com os quais, portanto, poucos apenas, e esses poucos particularmente circunstanciados, pode-se supor que simpatizem: Nesta classe, incluo a prolixidade ocasional, a repetição e um movimento em redemoinho, em vez de progressão, do pensamento. Como exemplos, veja as páginas 27, 28 e 62 dos Poemas, vol. I. e as primeiras oitenta linhas do VI Livro de THE EXCURSION.

Quinto e último: pensamentos e imagens grandes demais para o sujeito. Esta é uma aproximação ao que poderia ser chamado de bombástico mental, como distinto do verbal: pois, como neste último há uma desproporção das expressões para com os pensamentos, assim neste há uma desproporção do pensamento para com a circunstância e a ocasião. Isto, aliás, é uma falta da qual ninguém além de um homem de gênio é capaz. É a estranheza e a força de Hércules com a roca de Ônfale.

É um fato bem conhecido que cores brilhantes em movimento tanto criam quanto deixam as impressões mais fortes no olho. Nada é mais provável, também, do que uma imagem vívida ou espectro visual, assim originado, possa tornar-se o elo de associação ao relembrar os sentimentos e imagens que acompanharam a impressão original. Mas se descrevemos isto em linhas como:

“Elas brilham sobre aquele olho interior, Que é a bem-aventurança da solidão!”

em que palavras descreveremos a alegria da retrospectiva, quando as imagens e as ações virtuosas de toda uma vida bem vivida passam diante daquela consciência que é, de fato, o olho interior: que é, de fato, “a bem-aventurança da solidão”? Certamente parecemos cair de forma mais abrupta, para não dizer burlesca, e quase como em um pot-pourri, deste dístico para:

“E então meu coração se enche de prazer, E dança com os narcisos.” Vol. I. p. 328.

O segundo exemplo é do vol. II. página 12, onde o poeta, tendo saído para um passeio de prazer de um dia, encontra logo pela manhã um grupo de Ciganos, que tinham armado suas tendas de cobertor e camas de palha, juntamente com seus filhos e burros, em algum campo à beira da estrada. Ao final do dia, em seu retorno, nosso turista encontrou-os no mesmo lugar. “Doze horas”, diz ele,

“Doze horas, doze horas generosas se foram, enquanto eu Tenho sido um viajante sob o céu aberto, Muito testemunhando de mudança e alegria, Contudo, como deixei, eu os encontro aqui!”

Ao que o poeta, sem parecer refletir que os pobres andarilhos bronzeados poderiam provavelmente ter caminhado por semanas a fio através de estradas e vielas, sobre charnecas e montanhas, e consequentemente deveriam ter ficado muito contentes por descansar a si mesmos, seus filhos e gado, por um dia inteiro; e negligenciando a verdade óbvia de que tal repouso poderia ser tão necessário para eles, quanto uma caminhada da mesma duração era agradável ou saudável para o poeta mais afortunado; expressa sua indignação em uma série de linhas, cuja dicção e imagética teriam estado mais acima do que abaixo da marca, se tivessem sido aplicadas ao imenso império da China, improgressivo por trinta séculos:

“O Sol cansado retirou-se para descansar:-- --Então surgiu Vésper do fulgente poente, Superando, como um Deus visível, O caminho glorioso em que caminhava. E agora, ascendendo, após uma hora escura, E a diminuição de uma noite de seu poder, Eis a poderosa Lua! para este lado Ela olha, como se para eles -- mas eles Não a consideram:--oh, melhor erro e conflito, Melhor ações vãs ou mal do que tal vida! Os Céus silenciosos têm seus movimentos, As estrelas têm tarefas!--mas estes não têm nenhuma!”

O último exemplo deste defeito, (pois não conheço outro além destes já citados) é da Ode, página 351, vol. II., onde, falando de uma criança, “um Queridinho de seis anos de tamanho pigmeu”, ele assim se dirige a ele:

“Tu, melhor Filósofo, que ainda manténs Tua herança, tu, Olho entre os cegos, Que, surdo e silencioso, lês o abismo eterno, Assombrado para sempre pela Mente Eterna,-- Poderoso Profeta! Vidente abençoado! Sobre quem aquelas verdades repousam, Que estamos labutando todas as nossas vidas para encontrar! Tu, sobre quem tua Imortalidade Paira como o Dia, um Mestre sobre um Escravo, Uma Presença que não deve ser posta de lado!”

Ora, aqui, para não nos determos no ousado espírito da metáfora que conecta os epítetos “surdo e silencioso” com o olho apostrofado; ou (se havemos de referi-lo à palavra precedente, “Filósofo”), a sintaxe defeituosa e equívoca da passagem; e sem examinar a propriedade de fazer um “Mestre pairar sobre um Escravo”, ou “o Dia” pairar de todo; perguntaremos meramente: o que significa tudo isso? Em que sentido uma criança daquela idade é um Filósofo? Em que sentido ela lê “o abismo eterno”? Em que sentido é declarada estar “para sempre assombrada” pelo Ser Supremo? Ou tão inspirada a ponto de merecer os esplêndidos títulos de Poderoso Profeta, um Vidente abençoado? Pela reflexão? Pelo conhecimento? Pela intuição consciente? Ou por qualquer forma ou modificação da consciência? Estas seriam, de fato, novidades; mas tais que pressuporiam uma revelação imediata ao comunicador inspirado, e exigiriam milagres para autenticar sua inspiração. Crianças nesta idade não nos dão tal informação sobre si mesmas; e em que tempo fomos mergulhados no Lete, que produziu tal esquecimento absoluto de um estado tão divino? Há muitos de nós que ainda possuem algumas lembranças, mais ou menos distintas, a respeito de si mesmos aos seis anos de idade; pena que apenas os palhais sem valor flutuem, enquanto tesouros, comparados aos quais todas as minas de Golconda e do México não seriam senão palha, sejam absorvidos por algum golfo desconhecido para algum abismo desconhecido.

Mas se isto for demasiado selvagem e exorbitante para ser suspeitado como tendo sido o significado do poeta; se estes dons, faculdades e operações misteriosas não são acompanhados de consciência, quem mais está consciente deles? Ou como pode ser chamado de a criança, se não é parte do ser consciente da criança? Pelo que sei, o Espírito pensante dentro de mim pode ser substancialmente um com o princípio da vida e da operação vital. Pelo que sei, poderia ser empregado como um agente secundário na maravilhosa organização e nos movimentos orgânicos do meu corpo. Mas, certamente, seria uma linguagem estranha dizer que eu construo meu coração! Ou que eu impulsiono as influências mais sutis através dos meus nervos! Ou que eu comprimo meu cérebro e fecho as cortinas do sono ao redor dos meus próprios olhos! Spinoza e Behmen eram, em sistemas diferentes, ambos Panteístas; e entre os antigos havia filósofos, professores do EN KAI PAN, que não apenas ensinavam que Deus era Tudo, mas que este Tudo constituía Deus. Contudo, nem mesmo estes confundiriam a parte, como parte, com o todo, como o todo. De fato, em nenhum sistema a distinção entre o indivíduo e Deus, entre a Modificação e a única Substância, é traçada de forma mais nítida do que no de Spinoza. Jacobi, na verdade, relata sobre Lessing que, após uma conversa com ele na casa do poeta Gleim (o Tirteu e Anacreonte do Parnaso alemão), na qual Lessing havia confessado privadamente a Jacobi sua relutância em admitir qualquer existência pessoal do Ser Supremo, ou a possibilidade de personalidade exceto em um Intelecto finito, e enquanto estavam sentados à mesa, uma chuva caiu inesperadamente. Gleim expressou seu pesar pela circunstância, porque eles pretendiam beber seu vinho no jardim: ao que Lessing, em um de seus humores meio sérios, meio brincalhões, fez um sinal de concordância para Jacobi e disse: “Sou eu, talvez, que estou fazendo isso”, i.e., chovendo! — e Jacobi respondeu: “ou talvez eu”; Gleim contentou-se em olhar para ambos, sem pedir qualquer explicação.

Assim com relação a esta passagem. Em que sentido podem os atributos magníficos, acima citados, ser apropriados a uma criança, o que não os tornaria igualmente adequados a uma abelha, ou a um cão, ou a um campo de milho: ou mesmo a um navio, ou ao vento e às ondas que o impulsionam? O Espírito onipresente trabalha igualmente neles, como na criança; e a criança é igualmente inconsciente disso como eles. Certamente não pode ser que as quatro linhas, imediatamente a seguir, devam conter a explicação?

“Para quem a sepultura É apenas um leito solitário sem o sentido ou a vista Do dia ou da luz quente, Um lugar de pensamento onde jazemos à espera;”--

Certamente, não pode ser que esta apóstrofe que desperta espanto seja apenas um comentário sobre o pequeno poema “Nós somos Sete?” — que todo o significado da passagem é redutível à afirmação de que uma criança, que aliás aos seis anos de idade teria sido mais bem instruída na maioria das famílias cristãs, não tem outra noção de morte além da de jazeres em um lugar escuro e frio? E ainda, espero, não como em um lugar de pensamento! Não a noção assustadora de jazeres acordado em sua sepultura! A analogia entre a morte e o sono é demasiado simples, demasiado natural, para tornar possível tal crença horrível para as crianças; mesmo que não estivessem habituadas, como todas as crianças cristãs estão, a ouvir o último termo usado para expressar o primeiro. Mas se a crença da criança for apenas que “ela não está morta, mas dorme”: em que difere daquela de seu pai e de sua mãe, ou de qualquer outra pessoa adulta e instruída? Formar uma ideia de uma coisa tornar-se nada; ou de nada tornar-se uma coisa; é impossível para todos os seres finitos igualmente, de qualquer idade, e quão educados ou não educados que sejam. Assim é com os paradoxos esplêndidos em geral. Se as palavras são tomadas no sentido comum, elas transmitem um absurdo; e se, em desprezo aos dicionários e ao costume, elas são interpretadas de modo a evitar o absurdo, o significado diminui para algum truísmo árido. Assim, deve-se entender as palavras de uma vez contrárias ao seu significado comum, a fim de chegar a qualquer sentido; e de acordo com seu significado comum, se se há de receber delas qualquer sentimento de sublimidade ou admiração.

Embora os exemplos deste defeito nos poemas do Sr. Wordsworth sejam tão poucos que, por si mesmos, dificilmente teria sido justo atrair a atenção do leitor para eles; contudo, detive-me nele, e talvez mais por esta mesma razão. Pois, sendo tão poucos, eles não podem diminuir sensivelmente a reputação de um autor, que é caracterizado mesmo pelo número de verdades profundas em seus escritos, que suportarão a análise mais severa; e ainda assim, poucos como são, eles são exatamente aquelas passagens que seus admiradores cegos seriam mais propensos, e mais capazes, de imitar. Mas Wordsworth, onde ele é de fato Wordsworth, pode ser mimetizado por copistas, pode ser saqueado por plagiadores; mas ele não pode ser imitado, exceto por aqueles que não nasceram para ser imitadores. Pois sem sua profundidade de sentimento e seu poder imaginativo, seu senso careceria de seu calor vital e peculiaridade; e sem seu forte senso, seu misticismo tornar-se-ia doentio — mera névoa e obscuridade!

A estes defeitos que, como aparece pelos extratos, são apenas ocasionais, posso opor, com muito menos medo de encontrar o dissenso de qualquer leitor cândido e inteligente, as seguintes (na maior parte correspondentes) excelências. Primeiro, uma pureza austera de linguagem tanto gramatical quanto logicamente; em suma, uma adequação perfeita das palavras ao significado. De quão alto valor eu considero isso, e quão particularmente estimável eu mantenho o exemplo nos dias de hoje, já foi declarado: e em parte também as razões nas quais baseio tanto a importância moral quanto a intelectual de nos habituarmos a uma precisão estrita de expressão. É notável quão limitado conhecimento das obras-primas da arte bastará para formar um gosto correto e até sensível, onde nada além de obras-primas foram vistas e admiradas: enquanto, por outro lado, as noções mais corretas, e o mais amplo conhecimento com as obras de excelência de todas as eras e países, não nos garantirão perfeitamente contra a contagiante familiaridade com os muito mais numerosos rebentos da falta de gosto ou de um gosto pervertido. Se este é o caso, como notoriamente é, com as artes da música e da pintura, muito mais difícil será evitar a infecção de exemplos multiplicados e diários na prática de uma arte, que usa palavras, e palavras apenas, como seus instrumentos. Na poesia, na qual cada linha, cada frase, pode passar pelo calvário da deliberação e da escolha deliberada, é possível, e mal possível, atingir aquele ultimato que me aventurei a propor como o teste infalível de um estilo irrepreensível; a saber: sua intraduzibilidade em palavras da mesma língua sem prejuízo ao significado. Seja observado, contudo, que incluo no significado de uma palavra não apenas seu objeto correspondente, mas igualmente todas as associações que ela recorda. Pois a linguagem é estruturada para transmitir não o objeto apenas, mas igualmente o caráter, o estado de espírito e as intenções da pessoa que a está representando. Na poesia é praticável preservar a dicção não corrompida pelas afetações e apropriações indébitas, que a autoria promíscua, e a leitura não apenas promíscua por ser desproporcionalmente mais familiarizada com as composições do dia, tornaram geral. Contudo, mesmo para o poeta, compondo em sua própria província, é um trabalho árduo: e como o resultado e penhor de um bom senso vigilante, de uma distinção fina e luminosa, e de completo domínio de si, pode justamente reivindicar toda a honra que pertence a uma conquista igualmente difícil e valiosa, e tanto mais valiosa por ser rara. É em todos os momentos o alimento próprio do entendimento; mas em uma era de eloquência corrupta é tanto alimento quanto antídoto.

Em prosa, duvido se é mesmo possível preservar nosso estilo totalmente não aliado à fraseologia viciosa que nos encontra em toda parte, do sermão ao jornal, da arenga do legislador ao discurso da cadeira convivial, anunciando um brinde ou sentimento. Nossas correntes chacoalham, mesmo enquanto estamos reclamando delas. Os poemas de Boécio elevam-se em nossa estima quando os comparamos com os de seus contemporâneos, como Sidônio Apolinário, e outros. Eles poderiam até ser referidos a uma era mais pura, não fosse a prosa, em que estão inseridos, como joias em uma coroa de chumbo ou ferro, trair a verdadeira era do escritor. Muito, contudo, pode ser efetuado pela educação. Acredito não apenas por fundamentos da razão, mas por ter em grande medida assegurado a mim mesmo do fato por experiência real, embora limitada, que, para um jovem levado desde sua primeira infância a investigar o significado de cada palavra e a razão de sua escolha e posição, a lógica apresenta-se como um velho conhecido sob novos nomes.

Em alguma ocasião futura, que demande mais especialmente tal disquisição, tentarei provar a conexão próxima entre a veracidade e os hábitos de precisão mental; os efeitos benéficos posteriores da precisão verbal na preclusão do fanatismo, que domina os sentimentos mais especialmente por palavras de ordem indistintas; e exibir as vantagens que a linguagem sozinha, pelo menos que a linguagem com incomparavelmente maior facilidade e certeza do que qualquer outro meio, apresenta ao instrutor de impressionar modos de energia intelectual tão constantemente, tão imperceptivelmente, e como que por tais elementos e átomos, a ponto de assegurar em devido tempo a formação de uma segunda natureza. Quando refletimos que o cultivo do juízo é um comando positivo da lei moral, uma vez que a razão pode dar apenas o princípio, e a consciência testemunha apenas o motivo, enquanto a aplicação e os efeitos devem depender do juízo; quando consideramos que a maior parte do nosso sucesso e conforto na vida depende de distinguir o similar do mesmo, aquilo que é peculiar em cada coisa daquilo que ela tem em comum com outras, de modo a ainda selecionar o mais provável, em vez do meramente possível ou positivamente inadequado, aprenderemos a valorizar seriamente e com uma seriedade prática um meio, já preparado para nós pela natureza e pela sociedade, de ensinar a mente jovem a pensar bem e sabiamente pelo mesmo processo esquecido e com os mesmos resultados nunca esquecidos, como aqueles pelos quais é ensinada a falar e conversar. Ora, quão mais caloroso é o interesse, quão mais geniais os sentimentos de realidade e praticabilidade, e daí quão mais fortes os impulsos à imitação, que um escritor contemporâneo, e especialmente um poeta contemporâneo, excita na juventude e no início da idade adulta, tem sido tratado nas páginas anteriores destes esboços. Tenho apenas a acrescentar que todo o louvor que é devido ao exercício de tal influência para um propósito tão importante, unido àquele que deve ser reivindicado pela raridade da mesma excelência na mesma perfeição, pertence por pleno direito ao Sr. Wordsworth. Estou longe, contudo, de negar que temos poetas cujo estilo geral possui a mesma excelência, como o Sr. Moore, Lord Byron, o Sr. Bowles e, em todas as suas obras posteriores e mais importantes, nosso Laureado honrador de louros. Mas não há nenhum, em cujas obras não me pareça encontrar mais exceções do que nas de Wordsworth. Citações ou espécimes estariam aqui totalmente fora de lugar e devem ser deixados para o crítico que duvida e invalidaria a justiça deste elogio assim aplicado.

A segunda excelência característica do trabalho do Sr. Wordsworth é: um peso e sanidade correspondentes dos Pensamentos e Sentimentos, conquistados, não de livros, mas da própria observação meditativa do poeta. Eles são frescos e têm o orvalho sobre eles. Sua musa, pelo menos quando em sua força de asa, e quando ela paira no alto em seu elemento próprio,

Faz audível um canto encadeado de verdade, De verdade profunda um doce canto contínuo, Não aprendido, mas nativo, suas próprias notas naturais!

Mesmo ao longo de seus poemas menores, dificilmente há um que não seja tornado valioso por alguma reflexão justa e original.

Veja a página 25, vol. II.: ou as duas passagens seguintes em uma de suas composições mais humildes.

“Ó Leitor! tivesses tu em tua mente Tais tesouros que o pensamento silencioso pode trazer, Ó gentil Leitor! tu encontrarias Um conto em cada coisa;”

e

“Ouvi falar de corações cruéis, atos gentis Com frieza ainda retornando; Ai! a gratidão dos homens Frequentemente deixou-me lamentando;”

ou em um tom ainda mais elevado as seis belas quadras, página 134.

“Assim vai ainda em nossa decadência: E contudo a mente mais sábia Lamenta menos pelo que a idade retira Do que pelo que ela deixa para trás.

O Melro nas árvores de verão, A Cotovia sobre a colina, Soltam seus cantos quando lhes apraz, Estão quietos quando querem.

Com a Natureza nunca travam Uma disputa tola; eles veem Uma juventude feliz, e sua velhice É bela e livre!

Mas somos pressionados por leis pesadas; E frequentemente já não alegres, Usamos um rosto de alegria, porque Já fomos alegres outrora.

Se há um, que precise lamentar Seus parentes depositados na terra, Os corações domésticos que eram seus, É o homem de alegria.

Meus dias, meu Amigo, estão quase findos, Minha vida foi aprovada, E muitos me amam; mas por ninguém Sou o suficiente amado;”

ou o soneto sobre Buonaparte, página 202, vol. II. ou finalmente (pois um volume dificilmente bastaria para esgotar os exemplos), a última estrofe do poema sobre a Celidônia murcha, vol. II. p. 312.

“Ser o Favorito de um Pródigo — então, verdade pior, Pensionista de um Avarento — eis nosso lote! Ó Homem! Que da tua juventude justa e brilhante A idade pudesse apenas tirar as coisas que a Juventude não precisava.”

Tanto em relação a esta quanto à excelência anterior, o Sr. Wordsworth assemelha-se notavelmente a Samuel Daniel, um dos escritores de ouro da nossa era de ouro elisabetana, agora negligenciado sem causa: Samuel Daniel, cuja dicção não traz marca de tempo, distinção de idade que foi, e enquanto durar nossa língua, será tanto a língua do hoje e para sempre, quanto é que ela é mais inteligível para nós do que as modas transitórias de nossa própria era particular. Um louvor similar é devido aos seus sentimentos. Nenhuma frequência de leitura pode privá-los de seu frescor. Pois embora sejam trazidos para a plena luz do dia da compreensão de cada leitor, ainda assim são retirados de profundidades que poucos em qualquer era têm o privilégio de visitar, nas quais poucos em qualquer era têm coragem ou inclinação para descer. Se o Sr. Wordsworth não é, igualmente a Daniel, inteligível a todos os leitores de compreensão média em todas as passagens de suas obras, a dificuldade comparativa não surge da maior impureza do minério, mas da natureza e usos do metal. Um poema não é necessariamente obscuro porque não visa ser popular. É o suficiente se uma obra for perspicaz para aqueles para quem é escrita, e

“Encontre audiência adequada, ainda que pouca.”

Para a “Ode sobre os Indícios de Imortalidade de Lembranças da primeira Infância”, o poeta poderia ter prefixado as linhas que Dante endereça a uma de suas próprias Canzoni --

“Canzone, i’ credo, che saranno radi Color, che tua ragione intendan bene, Tanto lor sei faticoso ed alto.”

“Ó canção lírica, haverá poucos, penso eu, Que possam entender teu importo corretamente: Tu és para eles tão árdua e tão alta!”

Mas a ode destinava-se apenas a leitores que tivessem se acostumado a observar o fluxo e refluxo de sua natureza mais íntima, a aventurar-se às vezes nos reinos crepusculares da consciência, e a sentir um profundo interesse em modos de ser mais íntimo, aos quais sabem que os atributos de tempo e espaço são inaplicáveis e estranhos, mas que, contudo, não podem ser transmitidos, exceto em símbolos de tempo e espaço. Para tais leitores, o sentido é suficientemente claro, e eles estarão tão pouco dispostos a acusar o Sr. Wordsworth de acreditar na pré-existência platônica na interpretação comum das palavras, quanto eu de acreditar que o próprio Platão jamais a significou ou ensinou.

Polla oi ut’ ankonos okea belae endon enti pharetras phonanta synetoisin; es de to pan hermaeneon chatizei; sophos o polla eidos phua; mathontes de labroi panglossia, korakes os, akranta garueton Dios pros ornicha theion.

Terceiro (e onde ele se eleva muito acima de Daniel) a força nervosa e originalidade de linhas e parágrafos isolados: a frequente curiosa felicidade de sua dicção, da qual não preciso aqui dar espécimes, tendo-os antecipado em uma página precedente. Esta beleza, e como eminentemente característica da poesia de Wordsworth, seus mais rudes agressores sentiram-se compelidos a reconhecer e admirar.

Quarto; a verdade perfeita da natureza em suas imagens e descrições conforme tomadas imediatamente da natureza, e provando uma longa e genial intimidade com o próprio espírito que dá a expressão fisionômica a todas as obras da natureza. Como um campo verde refletido em um lago calmo e perfeitamente transparente, a imagem é distinguida da realidade apenas por sua maior suavidade e brilho. Como a umidade ou o polimento em um seixo, o gênio nem distorce nem falsifica as cores de seus objetos; mas, pelo contrário, traz à tona muitas veias e muitos tons que escapam ao olho da observação comum, elevando assim à categoria de joias o que tinha sido frequentemente chutado pelo pé apressado do viajante na estrada poeirenta do costume.

Permita-me referir-me a toda a descrição da patinação, vol. I. página 42 a 47, especialmente às linhas

“Assim através da escuridão e do frio voamos, E nenhuma voz estava ociosa. com o estrondo Enquanto isso os precipícios soavam alto; As árvores sem folhas e cada rochedo gelado Tilintavam como ferro; enquanto as colinas distantes Dentro do tumulto enviavam um som estranho De melancolia, não despercebido, enquanto as estrelas, Ao leste, cintilavam claras, e no oeste O céu laranja da noite morria.”

Ou ao poema sobre O PINTARROXO VERDE, vol. I. página 244. O que pode ser mais preciso, porém mais adorável do que as duas estrofes conclusivas?

“Sobre aquele tufo de aveleiras, Que cintilam à brisa rajada, Vê-o empoleirado em êxtases, Ainda parecendo pairar; Lá! onde o bater de suas asas Sobre suas costas e corpo lança Sombras e brilhos ensolarados, Que o cobrem por inteiro.

Enquanto assim diante de meus olhos ele cintila, Um Irmão das Folhas ele parece; Quando em um momento adiante ele verte Sua pequena canção em jorros Como se lhe agradasse desdenhar E zombar da Forma que ele fingiu Enquanto ele dançava com o cortejo De Folhas entre os arbustos.”

Ou a descrição do chapim-azul, e do silêncio do meio-dia, página 284; ou o poema ao cuco, página 299; ou, finalmente, embora eu pudesse multiplicar as referências a dez vezes o número, ao poema, tão completamente de Wordsworth, começando

“Três anos ela cresceu ao sol e ao chuvisco”--

Quinto: um pathos meditativo, uma união de pensamento profundo e sutil com a sensibilidade; uma simpatia pelo homem enquanto homem; a simpatia, na verdade, de um contemplador, mais do que de um co-sofredor ou companheiro (espectador, haud particeps), mas de um contemplador, de cuja visão nenhuma diferença de classe oculta a mesmice da natureza; nenhum dano do vento ou do tempo, ou do labor, ou mesmo da ignorância, disfarça inteiramente a face humana divina. A inscrição e a imagem do Criador ainda lhe permanecem legíveis sob as linhas escuras com as quais a culpa ou a calamidade as cancelaram ou riscaram. Aqui o Homem e o Poeta perdem-se e encontram-se um no outro, aquele como glorificado, este como substanciado. Nesse pathos brando e filosófico, Wordsworth parece-me sem um par. Tal como ele é: assim ele escreve. Veja o vol. I, páginas 134 a 136, ou aquela composição mais comovente, THE AFFLICTION OF MARGARET ---- OF ----, páginas 165 a 168, que nenhuma mãe, e, se posso julgar pela minha própria experiência, nenhum pai pode ler sem uma lágrima. Ou volte-se para aquele lírico genuíno, na edição anterior, intitulado THE MAD MOTHER, páginas 174 a 178, do qual não posso deixar de citar duas das estrofes, ambas pelo seu pathos, e a primeira pela bela transição nas duas linhas finais da estrofe, tão expressivas daquele estado perturbado em que, pela sensibilidade aumentada, a atenção do sofredor é abruptamente desviada por qualquer ninharia e, no mesmo instante, arrancada de volta pelo único pensamento despótico, trazendo consigo, pelo poder de mistura e fusão da Imaginação e da Paixão, o objeto estranho ao qual fora tão abruptamente desviada, não mais um estranho, mas um aliado e um inquilino.

“Suga, pequeno bebê, oh suga outra vez! Esfria o meu sangue; esfria o meu cérebro; Teus lábios, eu os sinto, bebê! Eles Tiram do meu coração a dor. Oh! pressiona-me com tua pequena mão; Ela solta algo em meu peito Sobre aquela faixa apertada e mortal Sinto teus dedinhos pressionarem. A brisa que vejo está na árvore! Ela vem para refrescar meu bebê e a mim.”

“Teu pai não se importa com meu seio, É teu, doce bebê, aí descansar; É todo teu!--e se sua cor Mudou, que era tão bela de se ver, É bela o bastante para ti, minha pomba! Minha beleza, pequena criança, voou, Mas tu viverás comigo em amor; E o que importa se minha pobre face é parda? É bom para mim, tu não podes ver Quão pálida e macilenta ela seria de outra forma.”

Por último, e preeminentemente, reivindico para este poeta o dom da Imaginação no sentido mais alto e estrito da palavra. No jogo da fantasia, Wordsworth, para os meus sentimentos, nem sempre é gracioso, e às vezes é recondito. A semelhança é ocasionalmente estranha demais, ou exige um ponto de vista peculiar demais, ou é tal que parece criatura de pesquisa predeterminada, mais do que de apresentação espontânea. De fato, sua fantasia raramente se exibe como fantasia pura e não modificada. Mas, no poder imaginativo, ele é o que está mais próximo, entre todos os escritores modernos, de Shakespeare e Milton; e ainda assim de uma espécie perfeitamente não emprestada e sua própria. Para empregar suas próprias palavras, que são ao mesmo tempo uma instância e uma ilustração, ele de fato a todos os pensamentos e a todos os objetos--

“------acrescenta o brilho, A luz que nunca esteve, no mar ou na terra, A consagração, e o sonho do Poeta.”

Selecionarei alguns exemplos como os que mais obviamente manifestam essa faculdade; mas se eu for um dia afortunado o bastante para tornar minha análise da Imaginação, sua origem e caracteres, completamente inteligível ao leitor, ele dificilmente abrirá uma página das obras deste poeta sem reconhecer, mais ou menos, a presença e as influências dessa faculdade. Do poema sobre as YEW TREES, vol. I, páginas 303, 304.

“Mas ainda mais dignos de nota São aqueles quatro fraternais de Borrowdale, Unidos em um bosque solene e espaçoso; Troncos enormes!--e cada tronco particular um crescimento De fibras entrelaçadas serpentinas Enrolando-se para cima, e inveteradamente convolutas; Não desinformado de fantasia, e olhares Que ameaçam o profano;--uma sombra em pilares, Sobre cujo chão sem grama de tom marrom-avermelhado, Pelas quedas da umbragem pinífera tingido Perenemente--sob cujo telhado de ébano De ramos, como se para propósito festivo, adornado Com bagas não jubilosas--formas fantasmagóricas Podem encontrar-se ao meio-dia; MEDO e ESPERANÇA trêmula, SILÊNCIO e PREVIDÊNCIA; MORTE, o Esqueleto, E TEMPO, a Sombra; ali para celebrar, Como em um templo natural espalhado Com altares inperturbados de pedra musgosa, Adoração unida; ou em silêncio repouso Deitar-se, e escutar a torrente da montanha Murmurando das cavernas mais profundas de Glazamara.”

O efeito da figura do velho no poema de RESOLUTION AND INDEPENDENCE, vol. II, página 33.

“Enquanto ele falava assim, o lugar solitário, A forma do Velho, e a fala, tudo me perturbou No olho da minha mente parecia vê-lo caminhar Pelos pântanos cansativos continuamente, Vagando por aí sozinho e silenciosamente.”

Ou o 8º, 9º, 19º, 26º, 31º e 33º, na coleção de sonetos diversos--o soneto sobre a subjugação da Suíça, página 210, ou a última ode, da qual seleciono especialmente as duas estrofes ou parágrafos seguintes, páginas 349 a 350.

“Nosso nascimento é apenas um sono e um esquecimento: A Alma que nasce conosco, a Estrela da nossa vida, Teve noutro lugar seu ocaso, E vem de longe. Não em completo esquecimento, E não em total nudez, Mas arrastando nuvens de glória nós viemos De Deus, que é o nosso lar: O Céu jaz ao nosso redor em nossa infância! Sombras da casa-prisão começam a fechar-se Sobre o Menino que cresce; Mas Ele contempla a luz, e de onde ela flui, Ele a vê em sua alegria! O Jovem que diariamente mais longe do Oriente Deve viajar, ainda é o Sacerdote da Natureza, E pela visão esplêndida É em seu caminho acompanhado; Por fim o Homem percebe-a morrer, E desvanecer-se na luz do dia comum.”

E páginas 352 a 354 da mesma ode.

“Oh alegria! que em nossas brasas Há algo que vive, Que a natureza ainda se lembra Do que era tão fugaz! O pensamento de nossos anos passados em mim engendra Bênçãos perpétuas: não de fato Por aquilo que é mais digno de ser abençoado; Deleite e liberdade, o credo simples Da Infância, seja ocupada ou em repouso, Com esperança recém-nascida ainda tremulando em seu peito:-- Não por estes eu ergo A canção de agradecimento e louvor; Mas por aqueles questionamentos obstinados Do sentido e das coisas exteriores, Quedas de nós, desvanecimentos; Dúvidas em branco de uma Criatura Movendo-se por mundos não realizados, Instintos elevados, diante dos quais nossa Natureza mortal Tremia como uma Coisa culpada surpreendida! Mas por aqueles primeiros afetos, Aquelas recordações sombrias, Que, sejam o que forem, São ainda a fonte de luz de todo o nosso dia, São ainda uma luz mestra de todo o nosso ver; Sustentam-nos--mimam-nos--e têm poder para fazer Nossos anos ruidosos parecerem momentos no ser Do Silêncio eterno; verdades que despertam Para nunca perecer; Que nem a apatia, nem o esforço louco, Nem Homem nem Menino, Nem tudo o que está em inimizade com a alegria, Pode abolir ou destruir inteiramente! Daí, em uma estação de tempo calmo, Embora estejamos longe do interior, Nossas Almas têm visão daquele mar imortal Que nos trouxe até aqui; Podem em um momento viajar até lá,-- E ver as crianças brincarem na praia, E ouvir as águas poderosas rolando para sempre.”

E uma vez que seria injusto concluir com um extrato que, embora altamente característico, deva ser, pela natureza dos pensamentos e do assunto, interessante ou talvez inteligível para apenas um número limitado de leitores; acrescentarei, da última obra publicada do poeta, uma passagem igualmente wordsworthiana; sobre cuja beleza, e o poder imaginativo nela exibido, só pode haver uma opinião, e um sentimento. Veja White Doe, página 5.

“Rápido o cemitério enche-se;--logo Olhe novamente e eles todos se foram; O grupo ao redor do alpendre, e o povo Que sentava à sombra do Carvalho do Prior! E mal desapareceram Quando o hino preludial é ouvido;-- Com um consentimento o povo regozija-se, Enchendo a igreja com uma voz elevada! Eles cantam um serviço que eles sentem: Pois é o nascer do sol agora do zelo; E a fé e a esperança estão em seu auge No tempo dourado da grande Eliza.”

“Um momento termina o fervoroso estrondo, E tudo está em silêncio, fora e dentro; Pois embora o sacerdote, mais tranquilamente, Recite a santa liturgia, A única voz que você pode ouvir É o rio murmurando perto. --Quando suave!--entre as árvores sombrias, E descendo o caminho pelo verde aberto, Onde não há ser vivo a ser visto; E por aquele portão, onde se encontra, Sob o arco com hera atado, Livre entrada para o terreno do cemitério-- E bem através do gramado verdejante, Em direção à própria casa de Deus; Vem deslizando com um brilho adorável, Vem deslizando serena e lentamente, Suave e silenciosa como um sonho. Uma Corça solitária! Branca ela é como o lírio de junho, E bela como a lua prateada Quando fora de vista as nuvens são levadas E ela é deixada sozinha no céu! Ou como um navio em um dia gentil Sob o sol navegando para longe Um navio cintilante que tem a planície Do oceano para seu próprio domínio.”

* * * * * *

“Que mudanças harmoniosas e pensativas Aguardam-na enquanto ela vaga Ao redor e através desta Pilha de estado Derrubada e desolada! Agora um passo ou dois seu caminho É pelo espaço do dia aberto, Onde a luz solar apaixonada Brilha sobre ela que era tão brilhante; Agora uma sombra delicada cai, Cai sobre ela como um sopro, De algum arco ou muro elevado, Enquanto ela passa por baixo.”

A analogia seguinte, temo eu, parecerá obscura e fantástica, mas ao ler as Viagens de Bartram não pude deixar de transcrever as linhas seguintes como uma espécie de alegoria, ou símile e metáfora conectados do intelecto e gênio de Wordsworth.--“O solo é um molde profundo, rico e escuro, sobre um estrato profundo de argila tenaz; e isso sobre uma fundação de rochas, que frequentemente irrompem através de ambos os estratos, levantando suas costas acima da superfície. As árvores que crescem principalmente aqui são o carvalho negro gigantesco; magnólia grandi-flora; fraxinus excelsior; platano; e algumas majestosas tulipas.” O que o Sr. Wordsworth produzirá, não cabe a mim profetizar, mas eu poderia pronunciar com as mais vivas convicções o que ele é capaz de produzir. É o PRIMEIRO POEMA FILOSÓFICO GENUÍNO.

A crítica precedente, estou ciente, não servirá para superar os preconceitos daqueles que fizeram um negócio de atacar e ridicularizar as composições do Sr. Wordsworth.

Verdade e prudência poderiam ser imaginadas como círculos concêntricos. O poeta talvez tenha passado além do último, mas confinou-se muito dentro dos limites do primeiro, ao designar estes críticos como “petulantes demais para serem passivos a um poeta genuíno, e fracos demais para lutar com ele;----homens de imaginações paralisadas, em cujas mentes toda ação saudável é lânguida;----que, portanto, alimentam-se como os muitos os dirigem, ou com os muitos são gananciosos por provocativos viciosos.”

Tanto para os detratores dos méritos de Wordsworth. Por outro lado, por mais que eu possa desejar sua simpatia mais plena, não ouso lisonjear-me de que a liberdade com que declarei minhas opiniões sobre sua teoria e seus defeitos, a maioria dos quais está mais ou menos conectada com sua teoria, seja como causa ou efeito, seja satisfatória ou agradável a todos os admiradores e defensores do poeta. Mais indiscriminada do que a minha pode ser sua admiração: mais profunda e sincera não pode ser. Mas não adiantei nenhuma opinião, seja para louvor ou censura, senão como textos introdutórios às razões que me obrigam a formá-la. Acima de tudo, estava plenamente convencido de que tal crítica não era apenas necessária; mas que, se executada com habilidade adequada, deveria conduzir, em grau não desprezível, à reputação do Sr. Wordsworth. Sua fama pertence a outra era, e não pode ser nem acelerada nem retardada. Quão pequena é a proporção dos defeitos para as belezas, declarei repetidamente; e que nenhum deles origina-se de deficiência de gênio poético. Tivessem sido mais e maiores, eu ainda, como um amigo de seu caráter literário na era presente, consideraria uma exibição analítica deles como puro ganho; se apenas removesse, como certamente para todas as mentes reflexivas até a análise anterior deve ter removido, o estranho equívoco, tão pouco fundamentado, porém tão ampla e industriosamente propagado, da inclinação do Sr. Wordsworth pela simplicidade! Não me irrito nem pela metade ao ouvir seus inimigos abusarem dele pela vulgaridade de estilo, assunto e concepção, como me sinto enojado com o lado dourado do mesmo significado, como exibido por alguns admiradores afetados, com quem ele é, de fato, um “poeta doce e simples!” e tão natural, que o pequeno mestre Charles e sua irmã mais nova ficam tão encantados com eles, que brincam de “Goody Blake”, ou de “Johnny and Betty Foy!”

Se a coleção de poemas, publicada com estes esboços biográficos, fosse importante o bastante, (o que não sou vaidoso o suficiente para acreditar,) para merecer tal distinção; assim como fiz, assim seria feito comigo.

Por mais de dezoito meses o volume de Poemas, intitulado SIBYLLINE LEAVES, e o presente volume, até esta página, estiveram impressos, e prontos para publicação. Mas, antes que eu fale de mim mesmo nos tons, que são os únicos naturais para mim sob as circunstâncias dos últimos anos, eu gostaria de apresentar-me ao Leitor como eu era no primeiro alvorecer da minha vida literária:

Quando a Esperança crescia ao meu redor, como a vinha trepadeira, E frutos, e folhagem, não meus, pareciam meus!

Para este propósito, selecionei das cartas que escrevi para casa da Alemanha, aquelas que pareciam ser mais interessantes, e ao mesmo tempo mais pertinentes ao título desta obra.

CARTAS DE SATYRANE

CARTA I

Na manhã de domingo, 16 de setembro de 1798, o paquete de Hamburgo içou velas de Yarmouth; e eu, pela primeira vez em minha vida, contemplei minha terra natal retirando-se de mim. No momento de seu desaparecimento--em todas as igrejas, capelas e casas de reunião, nas quais a maior parte, espero, dos meus compatriotas estava naquele momento reunida, ouso questionar se houve uma oração mais ardente oferecida ao céu, do que aquela que então preferi por meu país. “Agora, então,” (disse eu a um cavalheiro que estava de pé perto de mim,) “estamos fora do nosso país.” “Ainda não, ainda não!” respondeu ele, e apontou para o mar; “Este, também, é o país de um bretão.” Este bon mot deu um estímulo aos meus espíritos, levantei-me e olhei ao redor para meus companheiros de viagem, que estavam todos no convés. Éramos dezoito em número, a saber, cinco ingleses, uma dama inglesa, um cavalheiro francês e seu criado, um hanoveriano e seu criado, um prussiano, um sueco, dois dinamarqueses, e um menino mulato, um alfaiate alemão e sua esposa, (o menor casal que já contemplei,) e um judeu. Estávamos todos no convés; mas em pouco tempo observei marcas de desânimo. A dama retirou-se para a cabine em certa confusão, e muitos dos rostos ao meu redor assumiram uma aparência muito lúgubre e cor de rã; e dentro de uma hora o número daqueles no convés foi reduzido pela metade. Eu estava tonto, mas não doente, e a tontura logo passou, mas deixou uma febre e falta de apetite, que atribuí, em grande medida, à saeva Mephitis da água do porão; e certamente não foi diminuída pelas exportações da cabine. No entanto, eu estava bem o bastante para juntar-me aos passageiros capazes, um dos quais observou, não inaptamente, que Momus poderia ter descoberto uma maneira mais fácil de ver o interior de um homem do que colocando uma janela em seu peito. Ele só precisaria ter feito uma viagem de água salgada em um navio-paquete.

Inclino-me a acreditar que um paquete é muito superior a uma carruagem, como um meio de fazer os homens se abrirem uns para os outros. Nesta última, a uniformidade da postura predispõe ao cochilo, e a definitividade do período, em que a companhia se separará, faz com que cada indivíduo pense mais naqueles para quem vai, do que naqueles com quem vai. Mas no mar, mais curiosidade é excitada, se apenas por esta razão, que as qualidades agradáveis ou desagradáveis de seus companheiros são de maior importância para você, pela incerteza de quanto tempo você pode ser obrigado a habitar com eles. Além disso, se vocês são compatriotas, isso agora começa a formar uma distinção e um laço de fraternidade; e se de diferentes países, há novos incitamentos para a conversa, mais a perguntar e mais a comunicar. Descobri que havia interessado os dinamarqueses em grau não comum. Eu havia rastejado para o bote no convés e adormecido; mas fui despertado por um deles, por volta das três horas da tarde, que me disse que eles estiveram me procurando em cada buraco e canto, e insistiu que eu deveria juntar-me ao grupo deles e beber com eles. Ele falava inglês com tal fluência, que me deixou totalmente incapaz de explicar a singular e até ridícula incorreção com que o falava. Fui, e encontrei alguns vinhos excelentes e uma sobremesa de uvas com um abacaxi. Os dinamarqueses haviam me batizado de Doutor Teologia, e vestido como eu estava todo de preto, com sapatos grandes e meias de lã pretas, eu certamente poderia ter passado muito bem por um missionário metodista. No entanto, declinei meu título. O que pode ser então? Um homem de fortuna? Não!--Um mercador? Não!--Um viajante de mercador? Não!--Um escriturário? Não!--Um filósofo, talvez? Foi naquele momento de minha vida, em que de todos os nomes e caracteres possíveis eu tinha o maior desgosto pelo de “un Philosophe”. Mas eu estava cansado de ser questionado, e em vez de ser nada, ou na melhor das hipóteses apenas a ideia abstrata de um homem, submeti-me com uma reverência, até mesmo à aspersão implícita na palavra “un Philosophe.”--O dinamarquês então informou-me que todos no grupo presente eram filósofos também. Certamente não éramos da escola estóica. Pois bebemos e conversamos e cantamos, até conversarmos e cantarmos todos juntos; e então nos levantamos e dançamos no convés um conjunto de danças, que em um sentido da palavra, pelo menos, eram muito inteligível e apropriadamente intituladas reels. Os passageiros, que jaziam na cabine abaixo em todas as agonias do enjoo, devem ter achado nossa alegria bacanal

------uma melodia Áspera e de humor dissonante de sua queixa.

Pensei assim na época; e, (a propósito, suponho, de sustentar meu caráter filosófico recém-assumido,) pensei também, quão estreitamente a maior parte de nossas virtudes está conectada com o medo da morte, e quanta pouca simpatia dedicamos à dor, onde não há perigo.

Os dois dinamarqueses eram irmãos. Um era um homem com uma compleição branca clara, cabelo branco e sobrancelhas brancas; parecia tolo, e nada que ele proferisse desmentia sua aparência. O outro, a quem, por via de eminência, chamei de Dinamarquês, também tinha cabelo branco, mas era muito mais baixo que seu irmão, com membros delgados e um rosto muito fino, levemente marcado por varíola. Este homem convenceu-me da justiça de uma velha observação, que muitos retratos fiéis em nossos romances e farsas foram precipitadamente censurados como uma caricatura ultrajante, ou talvez não-entidade. Eu havia me retirado para minha posição no bote--ele veio e sentou-se ao meu lado, e parecia não pouco embriagado. Ele começou a conversa no estilo mais magnífico, e, como uma espécie de pioneirismo à sua própria vaidade, ele me lisonjeou com tal grosseria! Os parasitas da velha comédia eram modestos em comparação. Sua linguagem e acentuação eram tão singularmente singulares, que determinei, uma vez na vida, tomar notas de uma conversa. Aqui segue, algo abreviada, de fato, mas em todos os outros aspectos tão precisamente quanto minha memória permitiu.

O DINAMARQUÊS. Vat imaginação! vat linguagem! vat vasta ciência! e vat olhos! vat uma testa branco-leite! Ó meu heafen! vy, você é um Got!

RESPOSTA. Você me dá honra demais, Senhor.

O DINAMARQUÊS. Ó, eu! se você devesse dink que eu estou lisonjeando você!--Não, não, não! eu haf dez mil por ano--sim, dez mil por ano--sim, dez mil libras por ano! Vel--e vat é dhat? uma mera ninharia! Eu não daria meu coração sincero por dez vezes o dinheiro. Sim, você é um Got! Eu um mero homem! Mas, meu caro amigo! dhink de mim, como um homem! É, é--eu quero perguntar-lhe agora, meu caro amigo--não sou eu muito eloquente? Não falo eu inglês muito fino?

RESPOSTA. Admiravelmente! Acredite-me, Senhor! Raramente ouvi até um nativo falar tão fluentemente.

O DINAMARQUÊS. (Apertando minha mão com grande veemência.) Meu caro amigo! vat uma afeição e fidelidade ve temos um pelo outro! Mas diga-me, diga-me mesmo,--Não falo eu, agora e den, com algum erro? Não estou eu em algum erro?

RESPOSTA. Ora, Senhor! talvez pudesse ser observado por críticos minuciosos da língua inglesa que o senhor ocasionalmente usa a palavra "is" em vez de "am". Em nossas melhores companhias geralmente dizemos I am, e não I is ou I'se. Desculpe-me, Senhor! é uma mera ninharia.

O DINAMARQUÊS. Ó!--is, is, am, am, am. Sim, sim--eu sei, eu sei.

RESPOSTA. I am, thou art, he is, we are, ye are, they are.

O DINAMARQUÊS. Sim, sim,--eu sei, eu sei--Am, am, am, é dhe praesens, e is é dhe perfectum--sim, sim--e are é dhe plusquam perfectum.

RESPOSTA. E art, Senhor! é--?

O DINAMARQUÊS. Meu caro amigo! é dhe plusquam perfectum, não, não--dhat é uma grande mentira; are é dhe plusquam perfectum--e art é dhe plasquam plue-perfectum--(então balançando minha mão para lá e para cá, e arqueando seus pequenos olhos castanhos brilhantes para mim, que dançavam com vaidade e vinho)--Você vê, meu caro amigo, que eu também tenho algum lehrning?

RESPOSTA. Erudição, Senhor? Quem ousa suspeitá-lo? Quem pode ouvi-lo por um minuto, quem pode sequer olhar para o senhor, sem perceber a extensão dela?

O DINAMARQUÊS. Meu caro amigo!--(então com um olhar pretensamente humilde, e em um tom de voz como se estivesse argumentando) Eu não poderia falar assim de pronomes e imperfectum, e futurum e plusquamplue perfectum, e tudo dhat, meu caro amigo! sem alguma lehrning?

RESPOSTA. Senhor! um homem como o senhor não pode falar sobre qualquer assunto sem descobrir a profundidade de sua informação.

O DINAMARQUÊS. Dhe grammatic Grego, meu amigo; há! há! Há! (rindo, e balançando minha mão para lá e para cá--então com uma transição súbita para uma grande solenidade) Agora eu lhe direi, meu caro amigo! Dhere aconteceu comigo vat toda a historia da Dinamarca registra não haver instância sobre ninguém mais. O bispo me fez todas as perguntas sobre toda a religião na gramática latina.

RESPOSTA. A gramática, Senhor? A língua, presumo--

O DINAMARQUÊS. (Um pouco ofendido.) Gramática é língua, e língua é gramática--

RESPOSTA. Dez mil perdões!

O DINAMARQUÊS. Vell, e eu tinha apenas catorze anos--

RESPOSTA. Apenas catorze anos de idade?

O DINAMARQUÊS. Não mais. Eu vas catorze anos de idade--e ele me fez todas as perguntas, religião e filosofia, e tudo na língua latina--e eu respondi a ele tudo cada uma, meu caro amigo! tudo na língua latina.

RESPOSTA. Um prodígio! um absoluto prodígio!

O DINAMARQUÊS. Não, não, não! ele era um bispo, um grande superintendente.

RESPOSTA. Sim! um bispo.

O DINAMARQUÊS. Um bispo--não um mero predicante, não um prediger.

RESPOSTA. Meu caro Senhor! nós nos entendemos mal. Eu disse que o senhor responder em latim em uma idade tão precoce era um prodígio, isto é, uma coisa que é maravilhosa; que não acontece muitas vezes.

O DINAMARQUÊS. Muitas vezes! Dhere não há von instância registrada em toda a historia da Dinamarca.

RESPOSTA. E desde então, Senhor--?

O DINAMARQUÊS. Fui enviado ofer para as Vest Indies--para nossa Ilha, e dhere eu não tive mais nada a fazer vid livros. Não! não! Coloquei meu gênio de outra maneira--e eu haf feito dez mil libras por ano. Não é dhat ghenius, meu caro amigo?--Mas vat é dinheiro?--Eu dhink o homem mais pobre vivo meu igual. Sim, meu caro amigo; minha pequena fortuna é agradável ao meu coração generoso, porque eu posso fazer o bem--nenhum homem com tão pouca fortuna jamais fez tanta generosidade--nenhuma pessoa--nenhuma pessoa homem, nenhuma pessoa mulher jamais nega isso. Mas somos todos filhos de Got.

Aqui o hanoveriano o interrompeu, e o outro dinamarquês, o sueco e o prussiano juntaram-se a nós, juntamente com um jovem inglês que falava alemão fluentemente, e interpretou para mim muitas das piadas do prussiano. O prussiano era um comerciante viajante, com mais de sessenta anos, um homem são, alto, forte e robusto, cheio de histórias, gesticulações e bufonarias, com a alma assim como a aparência de um saltimbanco, que, enquanto o faz rir, rouba-lhe a carteira. Em meio a todos os seus olhares engraçados e gestos engraçados, permanecia um olhar intocado pelo riso; e esse único olhar era o verdadeiro rosto, os outros eram apenas sua máscara. O hanoveriano era um jovem pálido, gordo e inchado, cujo pai fizera uma grande fortuna em Londres como empreiteiro do exército. Ele parecia emular os modos dos jovens ingleses de fortuna. Era um sujeito de bom coração, não sem informação ou literatura; mas um vaidoso absolutamente notável. Tinha o hábito de frequentar a Câmara dos Comuns e certa vez falara, como me informou, com grande aplauso em uma sociedade de debates. Para isso, ele parecia ter se qualificado com louvável diligência: pois era perfeito no Dicionário de Pronúncia de Walker, e com um sotaque que me lembrava forçosamente o escocês em Roderic Random, que professava ensinar a pronúncia inglesa, ele estava constantemente recorrendo ao meu julgamento superior, se eu havia pronunciado esta ou aquela palavra com propriedade, ou "a verdadeira delicadeza". Quando falava, ainda que fossem apenas meia dúzia de sentenças, ele sempre se levantava: para o que eu não conseguia detectar outro motivo a não ser sua parcialidade por aquela frase elegante tão liberalmente introduzida nas orações de nossos legisladores britânicos, "Enquanto estou de pé". O sueco, a quem, por razões que logo aparecerão, distinguirei pelo nome de Nobreza, era um homem de traços fortes e rosto escorbútico, sua tez assemelhando-se na cor a um atiçador em brasa começando a esfriar. Ele parecia miseravelmente dependente do dinamarquês; mas era, contudo, incomparavelmente o mais bem informado e mais racional do grupo. De fato, seus modos e conversa revelavam que ele era tanto um homem do mundo quanto um cavalheiro. O judeu estava no porão: o cavalheiro francês estava deitado no convés tão doente que eu não podia observar nada sobre ele, exceto as atenciosas atenções de seu criado para com ele. O pobre coitado estava muito doente ele mesmo, e de vez em quando corria para o lado da embarcação, mantendo sempre os olhos em seu senhor, mas retornava em um momento e sentava-se novamente ao lado dele, agora apoiando sua cabeça, agora enxugando sua testa e falando com ele o tempo todo nos tons mais suaves. Houve uma briga matrimonial de um tipo muito ridículo na cabine, entre o pequeno alfaiate alemão e sua pequena esposa. Ele havia garantido duas camas, uma para si mesmo e uma para ela. Isso atingira a pequena mulher como uma ação muito cruel; ela insistiu em que tivessem apenas uma, e assegurou ao imediato nos tons mais piedosos que ela era sua esposa legítima. O imediato e o grumete decidiram a seu favor, abusaram do homenzinho por sua falta de ternura com muito humor, e içaram-no para o mesmo compartimento com sua esposa enjoada. Esta briga foi interessante para mim, pois me garantiu uma cama, que de outra forma eu não teria tido.

À noite, às sete horas, o mar rolou mais alto, e o dinamarquês, por meio da maior agitação, eliminou o suficiente do que estivera engolindo para abrir espaço para muito mais. Sua bebida favorita era açúcar e conhaque, isto é, um pouco de água morna com uma grande quantidade de conhaque, açúcar e noz-moscada. Seu criado, um mulato de olhos pretos, tinha um rosto redondo e bem-humorado, exatamente da cor da casca da noz. O dinamarquês e eu estávamos novamente sentados, tête-à-tête, no bote do navio. A conversa, que era agora, de fato, mais uma oração do que um diálogo, tornou-se extravagante além de tudo o que eu já ouvira. Ele me disse que fizera uma grande fortuna na ilha de Santa Cruz e que agora retornava à Dinamarca para desfrutá-la. Ele discorreu sobre o estilo em que pretendia viver e os grandes empreendimentos que se propunha a iniciar, até que, o conhaque ajudando sua vaidade, e sua vaidade e tagarelice ajudando o conhaque, ele falava como um louco--implorou-me para acompanhá-lo à Dinamarca--lá eu veria sua influência com o governo, e ele me apresentaria ao rei, etc., etc. Assim ele continuava sonhando em voz alta, e então passando com uma transição muito lírica para o assunto da política geral, ele declamava, como um membro da Sociedade Correspondente, sobre, (não concernente a,) os Direitos do Homem, e assegurou-me que, apesar de sua fortuna, ele considerava o homem mais pobre vivo seu igual. "Todos são iguais, meu caro amigo! todos são iguais! Ve somos todos filhos de Got. O homem mais pobre haf os mesmos direitos comigo. Jack! Jack! mais um pouco de açúcar e conhaque. Dhere está aquele sujeito agora! Ele é um mulato--mas ele é meu igual.--Isso é certo, Jack! (pegando o açúcar e o conhaque.) Aqui você Senhor! aperte a mão deste cavalheiro! Aperte a mão comigo, seu cão! Dhere, dhere!--Nós somos todos iguais meu caro amigo! Não falo eu como Sócrates, e Platão, e Catão--eles eram todos filósofos, meu caro filósofo! todos homens muito grandes!--e assim era Homero e Virgílio--mas eles eram poetas. Sim, sim! Eu sei tudo sobre isso!--Mas o que alguém pode dizer mais do que isto? Nós somos todos iguais, todos filhos de Got. Eu haf dez mil por ano, mas eu não sou nada mais do que o homem mais humilde vivo. Eu não tenho orgulho; e ainda assim, meu caro amigo! eu posso dizer, faça! e é feito. Há! há! há! meu caro amigo! Agora dhere está aquele cavalheiro (apontando para Nobreza) ele é um barão sueco--você verá. Ho! (chamando o sueco) consiga-me, você fará, uma garrafa de vinho da cabine. SUECO.--Aqui, Jack! vá e pegue para seu senhor uma garrafa de vinho da cabine. DINAMARQUÊS. Não, não, não! vá você agora--vá você mesmo você vá agora! SUECO. Pah!--DINAMARQUÊS. Agora vá! Vá, eu lhe imploro." E o sueco foi!!

Depois disso, o dinamarquês começou uma arenga sobre religião, e enganando-me como um philosophe no sentido continental da palavra, ele falou da Divindade em um estilo declamatório, muito semelhante aos delírios devocionais daquele rude trapalhão, Sr. Thomas Paine, em sua Idade da Razão, e sussurrou em meu ouvido, que maldita hipocrisia era todo o negócio de Jesus Cristo. Ouso afirmar que poucos homens têm menos motivos para se acusarem de ceder à pilhéria do que eu. Eu a odiaria, se fosse apenas por ser um vício de francês, e sinto orgulho em evitá-la, porque nossa própria língua é honesta demais para ter uma palavra para expressá-la. Mas neste caso a tentação tinha sido poderosa demais, e coloquei-a na lista das minhas ofensas. Péricles respondeu a um de seus amigos mais queridos, que o havia solicitado em um caso de vida ou morte, para prestar um juramento equívoco para sua preservação: Debeo amicis opitulari, sed usque ad Deos. A própria amizade deve colocar seu último e mais ousado passo deste lado do altar. O que Péricles não faria para salvar a vida de um amigo, você pode ter certeza, eu não arriscaria meramente para mexer a cafeteira de chocolate da vaidade de um tolo bêbado até que espumasse. Assumindo um olhar sério, professei-me um crente, e afundei de uma vez cem braças em suas boas graças. Ele se retirou para sua cabine, e eu me enrolei em meu sobretudo, e olhei para a água. Uma bela nuvem branca de espuma em intervalos momentâneos corria ao lado da embarcação com um rugido, e pequenas estrelas de chama dançavam e cintilavam e se apagavam nela: e de vez em quando leves destacamentos desta espuma branca como nuvem disparavam do lado da embarcação, cada um com sua própria pequena constelação, sobre o mar, e varriam fora de vista como uma tropa tártara sobre um deserto.

Estava frio, a cabine estava em guerra aberta com meu olfato, e encontrei motivo para me alegrar com meu sobretudo, um tapete pesado, de gola alta e respeitável, cuja gola virava e desempenhava o papel de uma touca de dormir muito passavelmente. Ao olhar para duas ou três estrelas brilhantes, que oscilavam com o movimento das velas, adormeci, mas fui acordado à uma hora da manhã de segunda-feira por uma chuva. Vi-me compelido a descer para a cabine, onde dormi muito profundamente, e acordei com um apetite muito bom na hora do café da manhã, minhas narinas, o mais plácido de todos os sentidos, reconciliadas com, ou de fato insensíveis à mefite.

Segunda-feira, 17 de setembro, tive uma longa conversa com o sueco, que falou com o mais profundo desprezo do dinamarquês, a quem descreveu como um tolo, louco por dinheiro; mas ele confirmou as ostentações do dinamarquês a respeito da grandeza de sua fortuna, que ele adquirira inicialmente como advogado, e posteriormente como plantador. Do dinamarquês e dele mesmo concluí que ele era, de fato, um nobre sueco, que desperdiçara uma fortuna que nunca fora muito grande, e transferira seus bens para o dinamarquês, de quem agora dependia inteiramente. Ele parecia sofrer muito pouca dor com a insolência do dinamarquês. Ele era em alto grau humano e atencioso com a dama inglesa, que sofria muito terrivelmente, e para quem ele realizava muitos pequenos ofícios com uma ternura e delicadeza que pareciam provar uma real bondade de coração. De fato, seus modos e conversa gerais não eram apenas agradáveis, mas até interessantes; e eu me esforcei para acreditar em sua insensibilidade a respeito da do dinamarquês como uma fortaleza filosófica. Pois embora o dinamarquês estivesse agora bastante sóbrio, seu caráter transpirava por cada poro. E depois do jantar, quando ele estava novamente corado com o vinho, a cada quarto de hora ou talvez com mais frequência, ele gritava para o sueco: "Ho! Nobreza, vá--faça tal coisa! Sr. Nobreza!--conte aos cavalheiros tal história, e assim por diante;" com uma insolência que deve ter despertado nojo e detestação, se suas vulgares diatribes sobre os direitos sagrados da igualdade, unidas ao seu selvagem estrago da gramática geral não menos do que da língua inglesa, não a tivessem tornado tão irresistivelmente risível.

Às quatro horas observei um pato selvagem nadando nas ondas, um único e solitário pato selvagem. Não é fácil conceber quão interessante parecia aquela coisa naquele deserto redondo e sem objetos de águas. Eu havia associado tal sentimento de imensidão ao oceano, que me senti excessivamente desapontado, quando estava fora da vista de toda terra, com o estreitamento e a proximidade, por assim dizer, do círculo do horizonte. Tão pouco as imagens são capazes de satisfazer os sentimentos obscuros conectados com as palavras. À noite, as velas foram baixadas, para que não colidíssemos com a terra, que pode ser vista apenas a uma pequena distância. E às quatro horas, na manhã de terça-feira, fui acordado pelo grito de "terra! terra!". Era uma feia rocha insular à distância à nossa esquerda, chamada Heiligeland, bem conhecida por muitos passageiros de Yarmouth a Hamburgo, que foram obrigados pelo tempo tempestuoso a passar semanas e semanas em cansativo cativeiro nela, despojados de todo o seu dinheiro pelas exigências exorbitantes dos miseráveis que a habitam. Assim, pelo menos, os marinheiros me informaram.--Por volta das nove horas vimos o continente, que parecia mal capaz de manter a cabeça acima da água, baixo, plano e lúgubre, com faróis e marcos que pareciam dar um caráter e uma linguagem à melancolia. Entramos na foz do Elba, passando por Neu-werk; embora até então apenas a margem direita do rio nos fosse visível. Nela vi uma igreja, e agradeci a Deus pela minha viagem segura, não sem pensamentos afetuosos por aqueles que deixei na Inglaterra. Às onze horas da mesma manhã chegamos a Cuxhaven, o navio lançou âncora, e o bote foi içado para levar o hanoveriano e alguns outros para a terra. O capitão concordou em nos levar, que permanecemos, para Hamburgo por dez guinéus, para os quais o dinamarquês contribuiu tão largamente que os outros passageiros pagaram apenas meio guinéu cada. Consequentemente, levantamos âncora e passamos suavemente rio acima. Em Cuxhaven, ambos os lados do rio podem ser vistos em tempo claro; agora podíamos ver apenas a margem direita. Passamos por uma multidão de comerciantes ingleses que estavam esperando há muitas semanas por um vento. Em pouco tempo ambas as margens tornaram-se visíveis, ambas planas e evidenciando o trabalho das mãos humanas por sua extrema limpeza. Na margem esquerda vi uma ou duas igrejas ao longe; na margem direita passamos por campanário e moinho de vento e cabana, e moinho de vento e casa isolada, moinho de vento e moinho de vento, e casa isolada limpa, e campanário. Estes eram os objetos e na sucessão. As margens eram muito verdes e plantadas com árvores não inelegantemente. A trinta e cinco milhas de Cuxhaven a noite caiu sobre nós, e, como a navegação do Elba é perigosa, lançamos âncora.

Sobre que lugar, pensei, a lua paira para o seu olho, meu caríssimo amigo? Para mim, ela pairava sobre a margem esquerda do Elba. Perto acima da lua havia um enorme volume de nuvem preta profunda, enquanto um fio muito fino cruzava o meio do orbe, tão estreito e fino e preto quanto uma fita de crepe. A longa estrada trêmula de luar, que jazia na água e chegava até a popa de nossa embarcação, brilhava indistinta e obscurecidamente. Vimos duas ou três luzes da margem direita, provavelmente de quartos de dormir. Senti o contraste marcante entre o silêncio deste majestoso riacho, cujas margens são povoadas de homens e mulheres e crianças, e rebanhos e manadas--entre o silêncio noturno deste rio povoado, e o ruído incessante, e o tumulto, e as altas agitações da desolada solidão do oceano. Os passageiros abaixo haviam se retirado para suas camas; e senti o interesse desta cena tranquila mais profundamente devido à circunstância de tê-los acabado de deixar. Pois o prussiano, durante toda a noite, exibira todos os seus talentos para cativar o dinamarquês, que o admitira no séquito de seus dependentes. O jovem inglês continuou a interpretar as piadas do prussiano para mim. Eram todas, sem exceção, profanas e abomináveis, mas algumas suficientemente espirituosas, e alguns incidentes, que ele relatou em sua própria pessoa, eram valiosos como ilustração dos costumes dos países nos quais haviam ocorrido.

Às cinco horas da manhã de quarta-feira içamos a âncora, mas logo fomos obrigados a lançá-la novamente em consequência de um nevoeiro espesso, que nosso capitão temia que durasse o dia todo; mas por volta das nove horas o tempo clareou e navegamos lentamente, rente à margem de uma ilha belíssima, a quarenta milhas de Cuxhaven, com o vento continuando fraco. Esta ilhota ou ilha tem cerca de uma milha e meia de comprimento, em forma de cunha, bem arborizada, com clareiras do verde mais vivo, e tornada mais interessante pela casa de fazenda notavelmente elegante que nela se encontra. Parecia feita para o retiro sem a solidão — um lugar que atrairia os amigos da gente, ao mesmo tempo que impediria as visitas impertinentes dos meros conhecidos. As margens do Elba tornaram-se agora mais belas, com prados ricos e árvores correndo como um muro baixo ao longo da beira do rio; e, espreitando por sobre eles, casas elegantes e, (especialmente na margem direita,) uma profusão de torres de igreja, brancas, pretas ou vermelhas. Um gosto instintivo ensina os homens a construir suas igrejas em países planos com torres pontiagudas, que, como não podem ser referidas a nenhum outro objeto, apontam, como um dedo silencioso, para o céu e as estrelas, e às vezes, quando refletem a luz bronzeada de um pôr do sol rico, embora chuvoso, parecem uma pirâmide de chama queimando em direção ao céu. Lembro-me de ter visto uma vez, e apenas uma vez, uma torre em um vale estreito de um país montanhoso. O efeito não foi apenas medíocre, mas ridículo, e lembrou-me contra a minha vontade de um abafador de velas; a vizinhança próxima da alta montanha, ao pé da qual ela se erguia, a tinha reduzido completamente e privado de qualquer conexão com o céu ou as nuvens. A quarenta e seis milhas inglesas de Cuxhaven, e dezesseis de Hamburgo, a aldeia dinamarquesa Veder adorna a margem esquerda com sua torre preta, e perto dela está o povoado selvagem e pastoral de Schulau. Até então, ambas as margens, direita e esquerda, verdes até à própria beira e niveladas com o rio, assemelhavam-se às margens de um canal de parque. As árvores e as casas eram igualmente baixas, por vezes as árvores baixas sobrepujando as casas ainda mais baixas, por vezes as casas baixas elevando-se acima das árvores ainda mais baixas. Mas em Schulau a margem esquerda eleva-se de imediato quarenta ou cinquenta pés, e encara o rio com a sua fachada perpendicular de areia, ligeiramente remendada com tufos de verde. O Elba continuou a apresentar um espetáculo cada vez mais vivo devido à multidão de barcos de pesca e aos bandos de gaivotas que giravam em torno deles, os rivais e companheiros clamorosos dos pescadores; até chegarmos a Blankaness, uma aldeia interessantíssima espalhada entre árvores dispersas, sobre três colinas em três divisões. Cada uma das três colinas encara o rio com faces de areia nua, com as quais os barcos com os seus mastros nus, parados em filas ao longo das margens, formavam uma espécie de harmonia fantástica. Entre cada fachada situa-se um vale verde e arborizado, cada um mais profundo do que o outro. Em suma, é uma grande aldeia composta por casas individuais, cada casa no centro do seu próprio pequeno bosque ou pomar, e cada uma com o seu próprio caminho separado: uma aldeia com um labirinto de caminhos, ou melhor, uma vizinhança de casas! É habitada por pescadores e construtores de barcos, sendo os barcos de Blankanese muito procurados em toda a navegação do Elba. Aqui vimos pela primeira vez as torres de Hamburgo, e daqui em diante, até Altona, a margem esquerda do Elba é extraordinariamente agradável, considerada como a vizinhança de uma cidade industriosa e republicana — naquele estilo de beleza, ou melhor, graciosidade, que poderia tentar o cidadão a ir para o campo, e ainda assim gratificar o gosto que ele adquiriu na cidade. Casas de veraneio e trabalhos ornamentais chineses estão por toda parte espalhados ao longo das margens altas e verdes; as tábuas das casas de fazenda deixadas sem reboco e pintadas alegremente de verde e amarelo; e dificilmente há uma árvore que não seja cortada em formas e feita para lembrar ao ser humano o seu próprio poder e inteligência, em vez da sabedoria da natureza. Ainda assim, no entanto, estes são elos de conexão entre a cidade e o campo, e muito melhores do que a afetação de gostos e prazeres para os quais os hábitos dos homens os desqualificaram. Passe por eles aos sábados e domingos com os burgueses de Hamburgo a fumar os seus cachimbos, as mulheres e as crianças a banquetearem-se nas alcovas de buxo e teixo, e torna-se uma natureza por si só. Na quarta-feira, às quatro horas, deixamos o navio e, passando com dificuldade pelas enormes massas de navios que pareciam sufocar o largo Elba desde Altona para cima, fomos finalmente desembarcados na Boom House, em Hamburgo.

CARTA II

Para uma senhora.

RATZEBURG.

Meine liebe Freundinn,

Veja como o alemão me vem naturalmente, embora eu não esteja no país há seis semanas! — quase tão fluentemente como o inglês do meu vizinho, o Amtsschreiber (ou secretário público), que, sempre que nos encontramos, mesmo que seja meia dúzia de vezes no mesmo dia, nunca deixa de me cumprimentar com — “---ddam your ploot unt eyes, my dearest Englander! vhee goes it!” — o que é certamente uma prova de grande generosidade da parte dele, sendo estas palavras todo o seu repertório de inglês. Tive, contudo, uma razão melhor do que o desejo de exibir a minha proficiência: pois queria deixá-la bem-humorada com uma língua, da qual prometi a mim mesmo muita edificação e também os meios de comunicar um novo prazer a si e à sua irmã, durante as nossas leituras de inverno. E como posso fazer isto melhor do que apontando a sua atenciosa galanteria para com as senhoras? O nosso sufixo inglês, ess, creio eu, limita-se a palavras derivadas do latim, como actress, directress, etc., ou do francês, como mistress, duchess, e afins. Mas o inn alemão permite-nos designar o sexo em todas as relações possíveis da vida. Assim, a senhora do Amtmann é a Frau Amtmanninn — a mulher do secretário (aliás, a mulher mais bonita que vi até agora na Alemanha) é die allerliebste Frau Amtsschreiberinn — a senhora do coronel, die Frau Obristinn ou Colonellinn — e até a mulher do pastor, die Frau Pastorinn. Mas estou especialmente satisfeito com a sua Freundinn, que, ao contrário da amica dos romanos, é raramente usada senão no seu melhor e mais puro sentido. Ora, sei que se dirá que um amigo é já algo mais do que um amigo, quando um homem sente ansiedade por expressar a si mesmo que este amigo é do sexo feminino; mas isto eu nego — pelo menos no sentido em que a objeção será feita. Arriscaria a acusação de heresia, antes de abandonar a minha crença de que existe um sexo nas nossas almas, tal como nas suas vestimentas perecíveis; e aquele que não o sente, nunca amou verdadeiramente uma irmã — aliás, não é capaz nem de amar uma esposa como ela merece ser amada, se ela de fato for digna desse santo nome.

Agora sei, minha gentil amiga, o que está a murmurar para si mesma — “Isto é tão a cara dele! Fugindo atrás da primeira bolha que o acaso soprou da superfície da sua fantasia; quando se está ansioso por saber onde ele está e o que ele viu.” Bem, então! que estou instalado em Ratzeburg, com os meus motivos e os pormenores da minha viagem até aqui, o informará. A minha primeira carta para ele, com a qual sem dúvida ele edificou toda a sua lareira, deixou-me desembarcado em segurança em Hamburgo, nas escadas do Elba, na Boom House. Enquanto estava nas escadas, diverti-me com o conteúdo do barco de passageiros que atravessa o rio uma ou duas vezes por dia de Hamburgo para Haarburg. Estava apinhado com pessoas de todas as nações, em todos os tipos de trajes; os homens todos com cachimbos na boca, e estes cachimbos de todas as formas e fantasias — retos e em espiral, simples e complexos, longos e curtos, de cana, barro, porcelana, madeira, estanho, prata e marfim; a maioria deles com correntes de prata e tampas de prata no fornilho. Cachimbos e botas são a primeira característica universal dos hamburgueses do sexo masculino que impressionaria o olhar de um viajante inexperiente. Mas esqueço a minha promessa de escrever um diário tanto quanto possível. — Portanto, 19 de setembro, tarde. O meu companheiro, que, recorda-se, fala a língua francesa com uma propriedade invulgar, tinha estabelecido uma espécie de conhecimento confidencial com o emigrante, que parecia ser um homem de bom senso e cujas maneiras eram as de um perfeito cavalheiro. Parecia ter cerca de cinquenta anos ou um pouco mais. Tudo o que é desagradável nas maneiras francesas por excesso de grau tinha sido suavizado pela idade ou pela aflição; e tudo o que é delicioso no gênero, a presteza e a delicadeza nas pequenas atenções, etc., permanecia, e sem agitação, gesticulação ou avidez desproporcional. O seu comportamento exibia a filantropia minuciosa de um francês polido, temperada pela sobriedade do caráter inglês, dissociada da sua reserva. Há algo estranhamente atraente no caráter de um cavalheiro quando se aplica a palavra enfaticamente, e ainda assim naquele sentido do termo que é mais fácil de sentir do que de definir. Não inclui nem a posse de alta excelência moral, nem, necessariamente, as graças ornamentais das maneiras. Tenho agora em mente uma pessoa cuja vida dificilmente resistiria ao escrutínio até mesmo no tribunal da honra, muito menos no da consciência; e as suas maneiras, se observadas atentamente, excitariam antes uma ideia de falta de jeito do que de elegância: e, no entanto, todos os que conversavam com ele sentiam e reconheciam o cavalheiro. O segredo da questão, creio eu, é este — sentimos o caráter de cavalheiro presente em nós, sempre que, sob todas as circunstâncias de interação social, as triviais não menos do que as importantes, através de todo o detalhe das suas maneiras e comportamento, e com a facilidade de um hábito, uma pessoa mostra respeito pelos outros de tal forma que, ao mesmo tempo, implica nos seus próprios sentimentos uma antecipação habitual e assegurada de respeito recíproco deles para consigo próprio. Em suma, o caráter de cavalheiro surge do sentimento de Igualdade agindo, como um Hábito, mas flexível às variedades de Hierarquia, e modificado sem ser perturbado ou substituído por elas. Esta descrição explicará talvez a base de uma das suas próprias observações, enquanto eu lhe traduzia o interessante diálogo sobre as causas da corrupção da eloquência. “Que cavalheiros perfeitos estes antigos romanos deviam ser! Fiquei impressionada, lembro-me, com o mesmo sentimento na altura em que lia uma tradução dos diálogos filosóficos e da correspondência epistolar de Cícero: enquanto nas Cartas de Plínio parecia ter um sentimento diferente — ele dava-me a noção de um cavalheiro muito fino.” Proferiu as palavras como se tivesse sentido que o adjunto tinha prejudicado a substância e o grau aumentado alterado o gênero. Plínio era o cortesão de um monarca absoluto — Cícero um republicano aristocrático. Por esta razão, o caráter de cavalheiro, no sentido a que o limitei, é frequente na Inglaterra, raro na França, e encontrado, onde é encontrado, na idade ou no último período da maturidade; enquanto na Alemanha o caráter é quase desconhecido. Mas o antípoda adequado de um cavalheiro deve ser procurado entre os democratas anglo-americanos.

Devo esta digressão como um ato de justiça para com este amável francês, e de humilhação para comigo mesmo. Pois, numa pequena controvérsia entre nós sobre o tema da poesia francesa, ele fez-me sentir o meu próprio mau comportamento pela reprovação silenciosa do contraste, e quando mais tarde lhe pedi desculpas pela veemência da minha linguagem, respondeu-me com uma expressão alegre de surpresa, e um elogio imediato, que um cavalheiro poderia fazer com dignidade e receber com prazer. Fiquei, portanto, satisfeito por concordarmos que deveríamos, se possível, instalar-nos na mesma casa. O meu amigo foi com ele à procura de um hotel, e eu fui entregar as minhas cartas de recomendação.

Caminhei para a frente a passo apressado, animado não tanto por qualquer coisa que visse realmente, mas pelo sentido confuso de que estava pela primeira vez na minha vida no continente do nosso planeta. Parecia-me um pássaro libertado que tinha sido chocado num viveiro, que agora, após o seu primeiro voo de liberdade, se equilibra no ar superior. Muito naturalmente comecei a maravilhar-me com todas as coisas, algumas por serem tão parecidas e outras por serem tão diferentes das coisas na Inglaterra — mulheres holandesas com grandes chapéus de guarda-chuva projetando-se meio metro à frente delas, com uma gordura pródiga de saias atrás — as mulheres de Hamburgo com toucas franzidas na carapuça com prata, ou ouro, ou ambos, orladas com renda endurecida, que se projetava diante dos seus olhos, mas não mais abaixo, de modo que os olhos brilhavam através dela — a hanoveriana com a parte da frente da cabeça nua, depois uma renda rígida erguendo-se como uma parede perpendicular na touca, e a touca atrás atada com uma quantidade enorme de fita que repousa ou se agita nas costas:

“Suas fisionomias pareciam um bom estandarte Espalhado em desafio a todos os inimigos.”

As senhoras todas com trajes ingleses, todas pintadas, e todas com dentes maus: o que se nota instantaneamente pelo seu contraste com a brancura quase animal, demasiado brilhante, de madrepérola e a regularidade dos dentes das risonhas, falantes camponesas e raparigas de serviço, que com as suas meias brancas limpas e com chinelos sem calcanhar, trotavam pelas ruas sujas, como se estivessem protegidas por um encanto da sujidade: com uma leveza também, que me surpreendeu, a mim que sempre considerei como um dos aborrecimentos de dormir numa estalagem ter de andar a bater escadas acima com um par deles. As ruas estreitas; para o meu nariz inglês suficientemente ofensivas, e explicando à primeira vista o uso universal de botas; sem qualquer caminho apropriado para os peões; as empenas das casas todas viradas para a rua, algumas na forma triangular comum e inteiras, como dizem os botânicos; mas a maior parte entalhada e recortada com uma grotesquice mais do que chinesa. Acima de tudo, fiquei impressionado com a profusão de janelas, tão grandes e tantas, que as casas parecem todas de vidro. O imposto sobre janelas do Sr. Pitt, com os seus bonitos pequenos adicionais brotando dele como jovens sapos nas costas de um sapo do Suriname, melhoraria certamente a aparência das casas de Hamburgo, que têm um ligeiro aspeto de verão, não condizente com o seu tamanho, incongruente com o clima, e impedindo aquele sentimento de retiro e autossuficiência que se deseja associar a uma casa numa cidade barulhenta. Mas um incêndio seria, receio, o requisito prévio para a produção de qualquer beleza arquitetônica em Hamburgo: pois na verdade é uma cidade imunda. Avancei e atravessei uma multidão de pontes feias, com enormes deformidades negras de rodas d'água perto delas. A água corta a cidade por toda parte, e teria fornecido ao gênio da Itália as capacidades de tudo o que é mais belo e magnífico na arquitetura. Poderia ter sido a rival de Veneza, e é confusão e fealdade, fedor e estagnação. O Jungfer Stieg (isto é, o Passeio das Jovens Senhoras), para o qual as minhas cartas me dirigiram, constituía uma exceção. Era um passeio ou promenade plantado com filas triplas de ulmeiros, que, sendo anualmente podados e cortados, permanecem finos e anões. Este passeio ocupa um lado de um pedaço de água quadrado, com muitos cisnes nele perfeitamente mansos, e, movendo-se entre os cisnes, barcos de recreio vistosos com senhoras neles, remados pelos seus maridos ou amantes. ------

(Alguns parágrafos foram aqui omitidos.) ------ assim embaraçado por uma polidez triste e solene, ainda mais do que por um inglês macarrônico, soou como a voz de um velho amigo quando ouvi o criado do emigrante a perguntar por mim. Ele tinha vindo com o objetivo de me guiar até ao nosso hotel. Através de ruas e mais ruas avancei tão feliz como uma criança, e, não tenho dúvidas, com uma expressão infantil de espanto nos meus olhos ocupados, divertido pelas carroças de vime com bancos móveis atravessados nelas, um atrás do outro (estes eram os carros de praça); divertido pelas tabuletas das lojas, nas quais todos os artigos vendidos no interior estão pintados, e isso também com muita precisão, embora numa confusão grotesca (um substituto útil para a linguagem neste grande mercado de nações); divertido com o tilintar incessante das campainhas das lojas e das casas, o sino pendurado sobre cada porta e atingido com uma pequena vara de ferro a cada entrada e saída; — e finalmente, divertido por olhar pelas janelas, enquanto passava; as senhoras e os senhores a beber café ou a jogar cartas, e os senhores todos a fumar. Desejei ser pintor, para poder ter-lhe enviado um esboço de um dos jogos de cartas. O longo cachimbo de um cavalheiro repousava sobre a mesa, o seu fornilho a meio metro da sua boca, fumegando como um incensário junto ao tanque de peixes — o outro cavalheiro, que estava a dar as cartas, e naturalmente tinha ambas as mãos ocupadas, segurava o seu cachimbo nos dentes, o qual, pendurado entre os joelhos, fumegava junto aos seus tornozelos. O próprio Hogarth nunca desenhou uma distorção mais ridícula tanto de atitude como de fisionomia do que este esforço causou, nem faltava ao lado dela um daqueles belos rostos femininos que o mesmo Hogarth, em quem o satírico nunca extinguiu aquele amor pela beleza que lhe pertencia como poeta, tão frequentemente e tão alegremente introduz, como a figura central, numa multidão de deformidades humorísticas, cujas figuras (tal é o poder do verdadeiro gênio!) não agem, nem pretendem agir como um contraste; mas difunde por todos, e sobre cada um do grupo, um espírito de reconciliação e bondade humana; e, mesmo quando a atenção já não está conscientemente dirigida para a causa deste sentimento, ainda assim mistura a sua ternura com o nosso riso: e assim evita que a alegria instrutiva pelos caprichos da natureza ou pelas fraquezas ou humores dos nossos semelhantes se degenere no veneno para o coração do desprezo ou do ódio.

Nosso hotel DIE WILDE MAN (cuja placa não era uma má semelhança do estalajadeiro, que enxertara num rosto muito sombrio um sorriso inquieto, que estava ao dispor de qualquer um, e que, na verdade, como um ator ensaiando para si mesmo, ele mantinha em expectativa de uma ocasião para ele) — nem nosso hotel, digo eu, nem seu estalajadeiro eram da classe mais distinta. Mas ele tem uma grande vantagem para um estranho, por estar na praça do mercado e ser o vizinho imediato da enorme igreja de São Nicolau: uma igreja com lojas e casas construídas contra ela, de cujas verrugas e protuberâncias ergue-se seu alto e maciço campanário, adornado perto do topo com uma fileira de grandes bolas douradas. Uma estrela-guia melhor dificilmente poderia ser desejada. Por muito tempo guardarei a impressão feita em minha mente pelo eco terrível, tão alto, longo e trêmulo, do relógio de som profundo dentro desta igreja, que me despertou às duas da manhã de um sonho aflitivo, ocasionado, creio eu, pelo colchão de penas, que é usado aqui em vez de roupa de cama. Preferirei carregar meu cobertor comigo como um índio selvagem do que me submeter a esse costume abominável. Nosso conhecido emigrante era, descobrimos, um amigo íntimo do célebre Abbé de Lisle: e da grande fortuna que possuía sob a monarquia, resgatara o suficiente não apenas para a independência, mas para a respeitabilidade. Ele havia ofendido alguns de seus companheiros emigrantes em Londres, a quem obrigara com somas consideráveis, ao recusar fazer novos adiantamentos, e, em consequência de suas intrigas, recebeu uma ordem para deixar o reino. Achei que era uma prova de sua inocência o fato de ele não atribuir culpa nem à lei dos estrangeiros, nem ao ministro que a exercera contra ele; e uma prova ainda maior, o fato de falar de Londres com arrebatamento, e de sua sobrinha favorita, que se casara e se estabelecera na Inglaterra, com todo o fervor e todo o orgulho de um pai afetuoso. Um homem enviado à força para fora de um país, obrigado a vender suas ações com grande prejuízo e exilado daqueles prazeres e daquele estilo de sociedade que o hábito tornara essencial à sua felicidade, cujos sentimentos predominantes eram, contudo, todos de natureza privada, ressentimento por uma amizade ultrajada e angústia por afetos domésticos interrompidos — tal homem, creio eu, eu poderia ousar garantir como inocente de espionagem a qualquer serviço, principalmente ao do atual Diretório francês. Ele falou com êxtase de Paris sob a Monarquia: e, no entanto, os fatos particulares que compunham sua descrição deixaram uma convicção tão profunda em minha mente sobre a inutilidade francesa quanto seu próprio relato deixara sobre a ingratidão dos emigrantes. Desde minha chegada à Alemanha, não encontrei uma única pessoa, mesmo entre aqueles que abominam a Revolução, que falasse com favor, ou mesmo caridade, dos emigrantes franceses. Embora a crença de sua influência na organização desta guerra desastrosa (das cujas horrores a Alemanha do Norte se considera apenas poupada, não assegurada) possa ter alguma participação na aversão geral com que são vistos, estou profundamente persuadido de que a maior parte deve-se à sua própria devassidão, à sua traição e dureza de coração uns com os outros, e à miséria doméstica ou princípios corruptos que tantos deles levaram para as famílias de seus protetores. Meu coração dilatou-se com honesto orgulho ao recordar os caracteres severos, porém amáveis, dos patriotas ingleses que buscaram refúgio no Continente na Restauração! Oh, não deixemos que nossa guerra civil sob o primeiro Carlos seja comparada com a Revolução Francesa! Na primeira, o caráter transbordava por excesso de princípio; na última, pela fermentação das escórias! A primeira foi uma guerra civil entre as virtudes e os preconceitos virtuosos das duas partes; a última, entre os vícios. O vidro veneziano da monarquia francesa estilhaçou-se e despedaçou-se com a ação de um veneno duplo.

20 de setembro. Fui apresentado ao Sr. Klopstock, irmão do poeta, que por sua vez me apresentou ao Professor Ebeling, um homem inteligente e vivaz, embora surdo: tão surdo, de fato, que era um esforço doloroso conversar com ele, pois éramos obrigados a deixar cair nossas pérolas num enorme trompete acústico. Deste homem de letras cortês e de bom coração (espero que os literatos alemães em geral possam se assemelhar a este primeiro espécime), ouvi um trocadilho italiano tolerável e uma anedota interessante. Quando Buonaparte estava na Itália, tendo sido irritado por algum exemplo de perfídia, disse em tom alto e veemente, em uma companhia pública — “’tis a true proverb, gli Italiani tutti ladroni” — (isto é, os italianos são todos saqueadores). Uma senhora teve a coragem de responder: “Non tutti; ma BUONA PARTE” (não todos, mas uma boa parte, ou Buonaparte). Isso, confesso, soou aos meus ouvidos como uma das muitas coisas boas que poderiam ter sido ditas. A anedota é mais valiosa; pois exemplifica as formas e meios da insinuação francesa. Hoche havia recebido muitas informações sobre a topografia do país a partir de um mapa de extraordinária plenitude e precisão, cujo autor, soube ele, residia em Duesseldorf. No ataque a Duesseldorf pelo exército francês, Hoche ordenou previamente que a casa e a propriedade desse homem fossem preservadas, e confiou a execução da ordem a um oficial em cuja tropa ele podia confiar. Descobrindo depois que o homem escapara antes que o ataque começasse, Hoche exclamou: “ELE não tinha motivo para fugir! É por tais homens, não contra eles, que a nação francesa faz guerra e consente em derramar o sangue de seus filhos.” Você se lembra do soneto de Milton —

“O grande conquistador ematiano ordenou poupar A casa de Píndaro quando templo e torre Foram ao chão”------

Agora, embora o cartógrafo de Duesseldorf possa estar na mesma relação com o bardo tebano que o caracol, que marca seu caminho por linhas de película na parede sobre a qual rasteja, com a águia que voa em direção ao sol e vence a tempestade com suas asas; não se segue, portanto, que o jacobino da França não possa ser um general tão valente e um político tão bom quanto o louco da Macedônia.

Do Professor Ebeling, o Sr. Klopstock acompanhou meu amigo e eu à sua própria casa, onde vi um belo busto de seu irmão. Havia uma grandeza solene e pesada em seu semblante, que correspondia às minhas pré-concepções de seu estilo e gênio. Vi ali, também, um retrato muito belo de Lessing, cujas obras são atualmente o principal objeto de minha admiração. Seus olhos eram incomumente semelhantes aos meus, se é que eram um pouco maiores e mais proeminentes. Mas a parte inferior de seu rosto e seu nariz — oh, que expressão requintada de elegância e sensibilidade! — Não parecia haver profundidade, peso ou abrangência na testa. O rosto inteiro parecia dizer que Lessing era um homem de sentimentos rápidos e voluptuosos; de uma fantasia ativa, porém leve; agudo; mas agudo não na observação da vida real, mas nos arranjos e na gestão do mundo ideal, isto é, no gosto e na metafísica. Garanto-lhe que escrevi estas mesmas palavras em meu caderno de notas com o retrato diante de meus olhos, e quando eu não sabia nada de Lessing além de seu nome e que ele era um escritor alemão de destaque.

Consumimos duas horas ou mais em um almoço ruim, na table d’hôte. “Paciência em um refeitório alemão, sorrindo para o tempo.” Os alemães são os piores cozinheiros da Europa. Coloca-se para cada duas pessoas uma garrafa de vinho comum — Reno e Clarete alternadamente; mas nas casas dos abastados, durante os muitos e longos intervalos do jantar, os criados servem taças de vinhos mais ricos. Na casa do Lorde de Culpin, eles vieram nesta ordem: Borgonha — Madeira — Porto — Frontiniac — Pacchiaretti — Hock antigo — Mountain — Champanhe — Hock novamente — Bishop, e, por último, Ponche. Um quantum tolerável, penso eu! O último prato no refeitório, a saber, fatias de porco assado (pois todos os pratos maiores são trazidos, cortados e primeiro servidos e depois colocados na mesa), com ameixas cozidas e outras frutas doces, e isto seguido por queijo e manteiga, com pratos de maçãs, lembrou-me de Shakespeare [76], e Shakespeare colocou na minha cabeça ir à comédia francesa.

Deus me perdoe! Por que é pior do que nossas peças inglesas modernas! O primeiro ato informou-me que uma corte marcial será realizada contra um Conde Vatron, que sacara sua espada contra o Coronel, seu cunhado. Os oficiais imploram em seu favor — em vão! Sua esposa, irmã do Coronel, implora com agonias tempestuosas — em vão! Ela cai em histeria e desmaia, com a descida da cortina interna! No segundo ato, a sentença de morte é proferida contra o Conde — sua esposa, tão frenética e histérica quanto antes: mais (boa criatura industriosa!), ela não poderia ser. No terceiro e último ato, a esposa ainda frenética, muito frenética, de fato! — os soldados prestes a disparar, o lenço efetivamente caído; quando indulto! indulto! é ouvido de trás das cenas: e entra o Príncipe Alguém, perdoa o Conde, e a esposa ainda está frenética, apenas com alegria; isso era tudo!

Oh, cara senhora! este é um dos casos em que o riso é seguido pela melancolia: pois tal é o tipo de drama que agora é substituído em toda parte por Shakespeare e Racine. Você bem sabe que cometo violência aos meus próprios sentimentos ao unir esses nomes. Mas, por mais que eu possa pensar mal do drama sério francês, mesmo em seus espécimes mais perfeitos; e com qualquer direito que eu possa reclamar de sua perpétua falsificação da linguagem, e das conexões e transições de pensamento que a Natureza apropriou aos estados de paixão; ainda assim, as tragédias francesas são obras de arte consistentes e fruto de grande poder intelectual. Preservando uma adequação nas partes e uma harmonia no todo, elas formam uma natureza própria, embora uma natureza falsa. Ainda assim, elas excitam as mentes dos espectadores para um pensamento ativo, para uma busca pela excelência ideal. A alma não é entorpecida em meras sensações por uma simpatia inútil com nossos próprios sofrimentos comuns, ou uma curiosidade vazia pelo surpreendente, não dignificada pela linguagem ou pelas situações que impressionam e encantam a imaginação. O que (eu perguntaria à multidão que se apressa para as tragédias pantomímicas e comédias chorosas de Kotzebue e seus imitadores), o que vocês estão buscando? É comédia? Mas na comédia de Shakespeare e Molière, quanto mais preciso meu conhecimento e mais profundamente penso, maior é a satisfação que se mistura ao meu riso. Pois, embora as qualidades que esses escritores retratam sejam verdadeiramente ridículas, seja pelo tipo ou pelo excesso, e exquisitamente ridículas, elas são o crescimento natural da mente humana e tais que, com mais ou menos mudança na indumentária, posso aplicar ao meu próprio coração, ou pelo menos a classes inteiras de meus semelhantes. Quantas vezes o moralista e o metafísico não são obrigados, pelas mais felizes ilustrações de verdades gerais e das leis subordinadas do pensamento e da ação humana, a citações, não apenas dos personagens trágicos, mas igualmente de Jaques, Falstaff, e até dos tolos e palhaços de Shakespeare, ou do Avarento, do Hipocondríaco e do Hipócrita de Molière! Não digam que estou recomendando abstrações: pois essas características de classe, que constituem a instrutividade de um personagem, são tão modificadas e particularizadas em cada pessoa do Drama Shakesperiano que a própria vida não excita mais distintamente aquele senso de individualidade que pertence à existência real. Por mais paradoxal que possa soar, uma das propriedades essenciais da geometria não é menos essencial à excelência dramática e, (se posso mencionar seu nome sem pedantismo a uma senhora), Aristóteles exigiu, consequentemente, do poeta uma involução do universal no individual. As principais diferenças são que, na geometria, é a verdade universal em si que está no topo da consciência; na poesia, a forma individual na qual a verdade está vestida. Com os antigos, e não menos com os antigos dramaturgos da Inglaterra e da França, tanto a comédia quanto a tragédia eram consideradas como tipos de poesia. Eles não buscavam na comédia fazer-nos rir meramente, muito menos fazer-nos rir por caretas, acidentes de jargão, frases de gíria do dia, ou o revestimento de moralidades comuns em metáforas tiradas das lojas ou ocupações mecânicas de seus personagens; nem condescendiam na tragédia em bajular o aplauso dos espectadores, representando diante deles fac-símiles de seus próprios seres mesquinhos em toda a sua mesquinhez existente, ou em trabalhar em suas simpatias lentas por um pathos que não é um pouco mais respeitável do que as lágrimas lacrimosas da embriaguez. Suas cenas trágicas pretendiam nos afetar, de fato, mas dentro dos limites do prazer, e em união com a atividade de nosso entendimento e imaginação. Eles desejavam transportar a mente para um senso de sua possível grandeza, e implantar os germes dessa grandeza durante o esquecimento temporário da "coisa inútil que somos" e do estado peculiar em que cada homem por acaso se encontra; suspendendo nossas recordações individuais e embalando-as para dormir em meio à música de pensamentos mais nobres.

Espere! — (penso ouvir o porta-voz da multidão responder, e nós o ouviremos. Eu sou o autor, e ele o réu.)

RÉU. Espere! Nossas peças sentimentais modernas não estão cheias da melhor moralidade cristã?

AUTOR. Sim! Exatamente tanto dela, e exatamente aquela parte dela, que você pode exercer sem uma única virtude cristã — sem um único sacrifício que seja realmente doloroso para você! — exatamente tanto quanto o lisonjeia, manda você embora satisfeito com seus próprios corações e totalmente reconciliado com seus vícios, que nunca podem ser pensados muito mal quando eles mantêm tão boa companhia e andam de mãos dadas com tanta compaixão e generosidade; adulação tão repugnante, que você cuspiria na cara do homem que ousasse oferecê-la a você em uma companhia privada, a menos que você a interpretasse como ironia insultuosa, você a apropria com infinita satisfação, quando compartilha a gororoba com todo o chiqueiro e a devora de um cocho comum. Nenhum César deve caminhar em seus palcos — nenhum Antônio, nenhum dinamarquês real, nenhum Orestes, nenhuma Andrómaca!

R. Não: ou o menos possível deles. O que um simples cidadão de Londres, ou Hamburgo, tem a ver com seus reis e rainhas, e seus velhos heróis pagãos de estudante? Além disso, todo mundo conhece as histórias; e que curiosidade podemos sentir----

A. O quê, senhor, não pela maneira? — não pela linguagem deliciosa do poeta? — não pelas situações, a ação e reação das paixões?

R. Você é apressado, senhor! a única curiosidade que sentimos é na história: e como podemos estar ansiosos sobre o fim de uma peça, ou ser surpreendidos por ela, quando sabemos como tudo terminará?

A. Perdoe-me por tê-lo interrompido! Agora nos entendemos. Você busca, então, em uma tragédia, que os homens sábios de antigamente consideravam o mais alto esforço do gênio humano, a mesma gratificação que você recebe de um novo romance, a última história alemã e outras iguarias do dia, que só podem ser desfrutadas uma vez. Se você levar esses sentimentos para a arte irmã da Pintura, a Capela Sistina de Michelangelo e a Galeria das Escrituras de Rafael não podem esperar nenhum favor de você. Você já sabe tudo sobre elas de antemão; e está, sem dúvida, mais familiarizado com os assuntos dessas pinturas do que com os contos trágicos das eras históricas ou heroicas. Há uma consistência, portanto, em sua preferência por escritores contemporâneos: pois os grandes homens dos tempos passados, pelo menos aqueles que eram considerados grandes por nossos ancestrais, buscavam tão pouco gratificar esse tipo de curiosidade que pareciam ter considerado a história sob uma luz não muito mais elevada do que o pintor considera sua tela: como aquilo sobre, não por meio do qual, eles deveriam exibir sua excelência apropriada. Nenhuma obra, semelhante a um conto ou romance, pode bem mostrar menos variedade de invenção nos incidentes, ou menos ansiedade em entrelaçá-los, do que o DOM QUIXOTE de Cervantes. Seus admiradores sentem a disposição de voltar e reler algum capítulo anterior, pelo menos dez vezes para cada uma vez que sentem qualquer desejo de correr para a frente: ou abrir o livro naquelas partes que melhor recordam, assim como visitamos com mais frequência aqueles amigos que mais amamos, e cujos caracteres e ações conhecemos mais intimamente. No divino Ariosto, (como seus compatriotas chamam este, seu poeta querido), questiono se existe um único conto de sua própria invenção, ou cujos elementos não fossem familiares aos leitores do “velho romance”. Deixarei de lado os antigos gregos, que achavam até mesmo necessário para a fábula de uma tragédia que sua substância fosse previamente conhecida. Que tivessem existido pelo menos cinquenta tragédias com o mesmo título seria um dos motivos que determinaram Sófocles e Eurípides na escolha de Electra como assunto. Mas Milton--

R. Sim, Milton, de fato! — mas o Dr. Johnson e outros grandes homens não nos dizem que ninguém hoje lê Milton a não ser como uma tarefa?

A. Tanto pior para eles, de quem isso pode ser dito com verdade! Mas por que então você pretende admirar Shakespeare? A maior parte, se não todos, de seus dramas eram, na medida em que os nomes e os principais incidentes estão em causa, já peças de repertório. Todas as histórias, pelo menos, sobre as quais eles são construídos, já existiam nas crônicas, baladas ou traduções de escritores ingleses contemporâneos ou anteriores. Por que, repito, você pretende admirar Shakespeare? É, talvez, que você apenas finja admirá-lo? No entanto, como, de uma vez por todas, você descartou os eventos e personagens bem conhecidos da história, ou a musa épica, o que você tomou em seu lugar? Quem sua musa trágica armou com sua taça e adaga? a musa sentimental, devo ter dito, a quem você colocou no trono da tragédia? Que heróis ela criou em seus coturnos?

R. Oh! nossos bons amigos e vizinhos de porta ao lado — comerciantes honestos, marinheiros valentes, oficiais reformados de espírito elevado, judeus filantropos, cortesãs virtuosas, latoeiros de coração terno e caçadores de ratos sentimentais! — (um pouco rudes ou assim, mas todos os nossos personagens muito generosos e de coração terno são um pouco rudes ou misantropos, e todos os nossos misantropos, muito ternos de coração.)

A. Mas eu lhe peço, amigo, em que ações grandes ou interessantes podem tais homens estar envolvidos?

R. Eles distribuem muito dinheiro; encontram ricos dotes para jovens homens e moças que têm todas as outras boas qualidades; eles intimidam lordes, baronetes e juízes de paz, (pois são tão corajosos quanto Heitor!) — eles resgatam carruagens no instante em que estão caindo em precipícios; levam embora crianças à vista de exércitos oponentes; e alguns de nossos artistas interpretam um homem musculoso e capaz com tal perfeição que nossos poetas dramáticos, que sempre têm os atores em vista, raramente falham em tornar seu personagem masculino favorito tão forte quanto Sansão. E então eles dão saltos prodigiosos!! E o que é feito no palco é ainda mais marcante do que o que é encenado. Lembro-me uma vez de uma explosão tão ensurdecedora que não pude ouvir uma palavra da peça por metade de um ato depois dela: e um pouco de pólvora real sendo incendiada ao mesmo tempo, e sentida por todos os espectadores, a naturalidade da cena foi bastante surpreendente!

A. Mas como você pode conectar com tais homens e tais ações aquela dependência de milhares sobre o destino de um só, que dá um interesse tão elevado aos personagens de Shakespeare e dos tragediógrafos gregos? Como você pode conectar com eles aquele sentimento mais sublime de todos, o poder do destino e o poder controlador do céu, que parece elevar os personagens que afundam sob seu golpe irresistível?

R. Oh, meras fantasias! Buscamos e encontramos no palco atual nossas próprias necessidades e paixões, nossas próprias contrariedades, perdas e embaraços.

A. É a sua própria natureza mesquinha e rasteira, então, que você deseja ver representada diante de você? — não a natureza humana em sua altura e vigor? Mas certamente você poderia encontrar a primeira, com todas as suas alegrias e tristezas, mais convenientemente em suas próprias casas e paróquias.

R. Verdade! mas aqui vem uma diferença. A sorte é cega, mas o poeta tem os olhos abertos e é, além disso, tão complacente quanto a sorte é caprichosa. Ele faz com que tudo acabe exatamente como desejaríamos. Ele nos gratifica ao representar como odiosos ou desprezíveis aqueles a quem odiamos e desejamos desprezar.

A. (à parte.) Isto é, ele gratifica sua inveja difamando seus superiores.

D. Ele faz com que todos esses moralistas precisos, que fingem ser melhores do que os seus vizinhos, revelem-se, por fim, hipócritas abjetos, traidores e vilões de coração endurecido; e os vossos homens de espírito, que tomam a sua moça e o seu copo com igual liberdade, provam ser os verdadeiros homens de honra, e (para que nenhuma parte do público permaneça insatisfeita) reformam-se na última cena e não deixam dúvida nas mentes das damas de que se tornarão os mais fiéis e excelentes maridos: embora pareça uma pena que eles sejam obrigados a livrar-se de qualidades que os tornaram tão interessantes! Além disso, os pobres tornam-se ricos de repente; e, na escolha matrimonial final, os opulentos e de alto nascimento são forçados a confessar que A VIRTUDE É A ÚNICA NOBREZA VERDADEIRA, E QUE UMA MULHER ADORÁVEL É, POR SI SÓ, UM DOTE!!

P. Excelente! Mas esqueceu-se daqueles lampejos brilhantes de lealdade, daqueles elogios patrióticos ao Rei e à Velha Inglaterra, que, especialmente se transmitidos numa metáfora do navio ou da loja, tantas vezes solicitam e tão infalivelmente recebem o aplauso público! Dou crédito à vossa prudência pela omissão. Pois todo o sistema do vosso drama é um jacobinismo moral e intelectual do tipo mais perigoso, e essas tiradas banais de lealdade não são melhores do que hipocrisia nos vossos dramaturgos, e a vossa própria simpatia por elas, um crasso autoengano. Pois todo o segredo da popularidade dramática consiste, convosco, na confusão e subversão da ordem natural das coisas, das suas causas e dos seus efeitos; na excitação da surpresa, ao representar as qualidades de liberalidade, sentimento refinado e um agudo sentido de honra (aquelas coisas, melhor dizendo, que passam entre vós por tais) em pessoas e em classes sociais onde a experiência nos ensina a menos esperá-las; e ao recompensar com todas as simpatias, que são o devido da virtude, aqueles criminosos a quem a lei, a razão e a religião excomungaram da nossa estima!

E agora — boa noite! Verdadeiramente! Eu poderia ter escrito esta última folha sem ter ido à Alemanha; mas imaginei-me a falar convosco junto à vossa própria lareira, e podeis pensar que é um pequeno prazer para mim esquecer de vez em quando que não estou aí? Além disso, vós e os meus outros bons amigos conformastes-vos comigo como sou, e, de qualquer lugar de onde eu escreva, esperareis que parte das minhas “Viagens” consista em excursões na minha própria mente.

CARTA III

RATZEBURG. Nenhum peixinho devolvido à água, nenhuma mosca liberta da mão de uma criança, poderia desfrutar do seu elemento com mais vivacidade do que eu esta casa limpa e pacífica, com esta vista encantadora da cidade, dos bosques e do lago de Ratzeburg, da janela à qual escrevo. O meu ânimo, certamente, e a minha saúde, eu imaginava, estavam a começar a sucumbir ao ruído, à sujeira e ao ar insalubre do nosso hotel em Hamburgo. Deixei-o no domingo, 23 de setembro, com uma carta de apresentação do poeta Klopstock para o Amtmann de Ratzeburg. O Amtmann recebeu-me com gentileza e apresentou-me ao digno pastor, que concordou em dar-me pensão e alojamento por qualquer período não inferior a um mês. O veículo, no qual tomei o meu lugar, era consideravelmente maior do que uma diligência inglesa, à qual guardava a mesma proporção e semelhança rude que a orelha de um elefante guarda para a humana. O seu topo era composto de tábuas nuas de cores diferentes, que pareciam ter sido partes de lambris distintos. Em vez de janelas, havia cortinas de couro com um pequeno olho de vidro em cada uma: serviam perfeitamente ao propósito de impedir a vista e deixar entrar o frio. Pude observar pouco, portanto, além das estalagens e quintas em que parámos. Eram todas iguais, exceto no tamanho: uma grande sala, como um celeiro, com um palheiro por cima, a palha e o feno pendurados em tufos através das tábuas que formavam o teto da sala e o chão do palheiro. Desta sala, que é pavimentada como uma rua, por vezes um, por vezes dois compartimentos menores são fechados numa extremidade. Estes são geralmente assoalhados. Na sala grande, o gado, os porcos, as aves, os homens, as mulheres e as crianças vivem em amigável comunidade; contudo, havia uma aparência de limpeza e conforto rústico. Medi uma destas casas. Tinha cem pés de comprimento. Os aposentos eram separados de um canto. Entre estes e as estrebarias havia um pequeno espaço intermédio, e aqui a largura era de quarenta e oito pés, mas de trinta e dois onde ficavam as estrebarias; naturalmente, as estrebarias tinham, de cada lado, oito pés de profundidade. As cabeças das vacas, etc., estavam viradas para a sala; na verdade, estavam dentro dela, de modo que tinham pelo menos o conforto de ver as cabeças umas das outras. A alimentação no estábulo é universal nesta parte da Alemanha, uma prática a respeito da qual o agricultor e o poeta provavelmente terão opiniões opostas — ou, pelo menos, sentimentos muito diferentes. A madeira destas construções, no exterior, é deixada sem reboco, como nas casas antigas entre nós, e, sendo pintada de vermelho e verde, divide e mosaica os edifícios com bastante alegria. Desde três milhas de Hamburgo quase até Molln, que fica a trinta milhas de distância, o campo, tanto quanto pude ver, era uma planície morta, apenas variada por bosques. Em Molln tornou-se mais belo. Observei um pequeno lago quase rodeado de bosques e, à vista, um palácio pertencente ao Rei da Grã-Bretanha, habitado pelo Inspetor das Florestas. Levámos quase o mesmo tempo a percorrer as trinta e cinco milhas de Hamburgo a Ratzeburg que levámos de Londres a Yarmouth, cento e vinte e seis milhas.

O lago de Ratzeburg estende-se de sul para norte, com cerca de nove milhas de comprimento, variando em largura de três milhas a meia milha. Cerca de uma milha a partir do ponto mais ao sul, é dividido em duas partes, naturalmente muito desiguais, por uma ilha que, estando ligada por uma ponte e uma estreita faixa de terra a uma margem, e por outra ponte de imensa extensão à outra margem, forma um istmo completo. Nesta ilha está construída a cidade de Ratzeburg. A casa do pastor ou vigararia, juntamente com o Amtsschreiber do Amtmann e a igreja, situam-se perto do cume de uma colina, que desce até à faixa de terra e à pequena ponte, de onde, através de um soberbo portão militar, se entra na cidade-ilha de Ratzeburg. Esta, por sua vez, é também ela uma pequena colina, subindo e descendo a qual se chega à longa ponte e, assim, à outra margem. A água ao sul da cidade é chamada de Pequeno Lago, que, no entanto, quase absorve as belezas de todo o conjunto, sendo as margens apenas suficientemente verdes e nuas para dar o efeito adequado aos magníficos bosques que ocupam a maior parte da sua circunferência. A partir das curvas, ziguezagues e reentrâncias da margem, as vistas variam quase a cada dez passos, e o todo tem uma espécie de beleza majestosa, uma grandeza feminina. Ao norte do Grande Lago, espreitando por cima dele, vejo as sete torres das igrejas de Lübeck, à distância de doze ou treze milhas, mas tão distintamente como se não estivessem a três. O único defeito na vista é que Ratzeburg é construída inteiramente de tijolos vermelhos, e todas as casas têm telhados de telhas vermelhas. Para o olho, portanto, apresenta um amontoado de vermelho de pó de tijolo. Contudo, esta noite, 10 de outubro, vinte minutos depois das cinco, vi a cidade perfeitamente bela, e o conjunto suavizado em completa harmonia, se me é permitido pedir emprestado um termo aos pintores. O céu sobre Ratzeburg e todo o leste era de um azul puro de fim de tarde, enquanto sobre o oeste estava coberto de nuvens leves e arenosas. Daí, uma luz vermelha profunda espalhou-se por toda a perspectiva, em harmonia imperturbável com a cidade vermelha, os bosques castanho-avermelhados e os juncos amarelo-avermelhados nas margens do lago. Dois ou três barcos, com pessoas sozinhas a remar, flutuavam para cima e para baixo na luz rica, que não só estava ela própria em harmonia com tudo, como trazia tudo à harmonia.

Deveria ter-vos dito que voltei a Hamburgo na quinta-feira (27 de setembro) para me despedir do meu amigo, que viaja para o sul, e regressei aqui na segunda-feira seguinte. De Empfelde, uma aldeia a meio caminho de Ratzeburg, caminhei até Hamburgo por estradas de areia profunda e uma planície sombria: o solo por toda parte branco, faminto e excessivamente pulverizado; mas a aproximação à cidade é agradável. Casas de campo claras e frescas, pelas quais se pode olhar e ver os jardins atrás delas, com caramanchões e treliças, e muros vegetais espessos, e árvores em claustros e pórticos, cada casa com grades arrumadas à frente e assentos verdes dentro das grades. Cada objeto, quer fosse fruto da natureza ou obra do homem, era limpo e artificial. Agradou-me muito mais do que se as casas, os jardins e os campos de lazer tivessem um gosto mais nobre: pois este gosto mais nobre teria sido mera imitação. O comerciante atarefado, ansioso e ávido de dinheiro de Hamburgo só poderia ter adotado, não poderia ter desfrutado da simplicidade da natureza. A mente começa a amar a natureza imitando as conveniências humanas na natureza; mas este é um passo no intelecto, embora baixo — e se não fosse assim, ainda assim tudo à minha volta falava de prazer inocente e confortos sensíveis, e entrei com simpatia sem escrúpulos nos prazeres e confortos até dos comerciantes atarefados, ansiosos e ávidos de dinheiro de Hamburgo. Neste estado de espírito caridoso e católico, cheguei às vastas muralhas da cidade. São enormes almofadas verdes, uma elevando-se acima da outra, com árvores a crescer nos espaços intermédios, penhores e símbolos de uma longa paz. Do meu regresso, não tenho nada que valha a pena comunicar, exceto que tomei um transporte extra, que corresponde ao serviço de correio em Inglaterra. Estas carruagens de correio do norte da Alemanha são carroças de vime descobertas. Uma carroça de lixo inglesa é uma peça de luxo, um chef d’oeuvre de mecânica, comparada com elas, e os cavalos! — um selvagem poderia usar as suas costelas em vez dos dedos para uma tábua de contagem. Onde quer que parássemos, o postilhão alimentava o gado com o pão de centeio escuro que ele próprio comia, tomando todos o pequeno-almoço juntos; apenas os cavalos não tinham gim na sua água, e o postilhão não tinha água para o seu gim. Agora, e daqui em diante, para assuntos de maior interesse para vós, e para os objetivos em busca dos quais vos deixei: a saber, os literatos e a literatura da Alemanha.

Acreditai-me, caminhei com uma impressão de reverência no meu espírito, enquanto W---- e eu acompanhámos o Sr. Klopstock à casa do seu irmão, o poeta, que fica a cerca de um quarto de milha da porta da cidade. É uma de uma fila de pequenas casas de verão banais (pois assim pareciam), com quatro ou cinco filas de ulmeiros jovens e magros diante das janelas, além dos quais há um relvado, e depois uma planície morta intersectada por várias estradas. Qualquer beleza (pensei) que possa estar diante dos olhos do poeta no momento, deve certamente ser puramente da sua própria criação. Esperámos alguns minutos num pequeno salão arrumado, ornamentado com as figuras de duas das Musas e com gravuras, cujos temas eram extraídos das odes de Klopstock. O poeta entrou. Fiquei muito desapontado com o seu semblante e não reconheci nele nenhuma semelhança com o busto. Não havia compreensão na testa, não havia peso sobre as sobrancelhas, nenhuma expressão de peculiaridade, moral ou intelectual, nos olhos, nenhuma massividade no semblante geral. Ele é, se tanto, um pouco abaixo da estatura média. Usava botas de cano alto muito grandes, que as suas pernas preenchiam, tão terrivelmente inchadas estavam. No entanto, embora nem W---- nem eu pudéssemos descobrir quaisquer indicações de sublimidade ou entusiasmo na sua fisionomia, ambos ficámos igualmente impressionados com a sua vivacidade e a sua cortesia amável e pronta. Falou em francês com o meu amigo e, com dificuldade, disse algumas frases em inglês para mim. A sua enunciação não foi minimamente afetada pela falta total dos dentes superiores. A conversação começou, da parte dele, pela expressão do seu entusiasmo pela rendição do destacamento de tropas francesas sob o comando do General Humbert. As suas ações na Irlanda em relação ao comité que tinham nomeado, com o resto do seu sistema organizativo, pareciam ter dado ao poeta grande entretenimento. Declarou então a sua crença otimista na vitória de Nelson e antecipou a sua confirmação com um prazer agudo e triunfante. As suas palavras, tons e olhares implicavam o mais veemente Anti-Galicanismo. O assunto mudou para a literatura, e indaguei em latim sobre a história da poesia alemã e os poetas alemães mais velhos. Para meu grande espanto, confessou que sabia muito pouco sobre o assunto. De fato, lera ocasionalmente um ou dois dos seus escritores mais antigos, mas não de forma a permitir-lhe falar dos seus méritos. O Professor Ebeling, disse ele, provavelmente dar-me-ia todas as informações deste tipo: o assunto não tinha despertado particularmente a sua curiosidade. Falou então de Milton e Glover, e achou o verso branco de Glover superior ao de Milton. W---- e eu expressámos a nossa surpresa: e o meu amigo deu a sua definição e noção de verso harmonioso, que consistia (o verso branco iâmbico inglês acima de tudo) na disposição apta de pausas e cadências, e no varrimento de parágrafos inteiros,

“com muitas voltas sinuosas De doçura encadeada longamente estendida”,

e não no fluxo uniforme, muito menos na proeminência de vigor antitético, de versos isolados, que eram, de fato, prejudiciais ao efeito total, exceto onde eram introduzidos para algum propósito específico. Klopstock assentiu e disse que pretendia restringir a superioridade de Glover a versos isolados. Disse-nos que lera Milton, numa tradução em prosa, quando tinha catorze anos [77]. Eu próprio compreendi-o assim, e W---- interpretou o francês de Klopstock tal como eu já o tinha interpretado. Parecia saber muito pouco de Milton ou, na verdade, dos nossos poetas em geral. Falou com grande indignação da tradução em prosa inglesa do seu MESSIAS. Todas as traduções tinham sido más, muito más — mas a inglesa não era uma tradução — havia páginas e páginas que não constavam no original — e metade do original não se encontrava na tradução. W---- disse-lhe que eu pretendia traduzir algumas das suas odes como exemplares da lírica alemã — ele disse-me então em inglês: “Gostaria que traduzisse para inglês algumas passagens selecionadas do MESSIAS, e me vingasse do seu compatriota!”. Foi a coisa mais viva que ele produziu em toda a conversação. Disse-nos que a sua primeira ode era cinquenta anos mais velha do que a sua última. Olhei para ele com muita emoção — considerei-o como o venerável pai da poesia alemã; como um bom homem; como um cristão; setenta e quatro anos de idade; com pernas enormemente inchadas; mas ativo, vivo, alegre, amável e comunicativo. Os meus olhos sentiram como se uma lágrima estivesse a inchar neles. No retrato de Lessing havia uma peruca de topete, que prejudicava enormemente o efeito da sua fisionomia — Klopstock usava a mesma, empoada e frisada. A propósito, os velhos nunca deveriam usar pó — o contraste entre uma grande peruca branca como a neve e a cor da pele de um velho é repugnante, e as rugas, nessa vizinhança, parecem apenas canais para a sujidade. É uma honra para os poetas e grandes homens que penseis neles como partes da natureza; e qualquer truque ou moda fere-vos neles tanto quanto quando vedes teixos veneráveis cortados em pavões miseráveis. — O autor do MESSIAS deveria ter usado o seu próprio cabelo grisalho. — O seu pó e peruca eram para o olho o que o Sr. Virgílio seria para o ouvido.

Klopstock insistiu muito no poder superior que a língua alemã possuía de concentrar o significado. Disse que tinha frequentemente traduzido partes de Homero e Virgílio, linha por linha, e uma linha alemã provava ser sempre suficiente para uma grega ou latina. Em inglês, não se pode fazer isto. Respondi que, em inglês, podíamos habitualmente traduzir um verso heroico grego num verso e meio do nosso metro heroico comum, e conjecturei que este verso e meio conteria apenas o mesmo número de sílabas que um hexâmetro alemão ou grego. Ele não me compreendeu [78]: e eu, que desejava ouvir as suas opiniões, não corrigi-las, fiquei contente por ele não ter compreendido.

Despedimo-nos então. No início da Revolução Francesa, Klopstock escreveu odes de congratulação. Recebeu alguns presentes honorários da República Francesa (uma coroa de ouro, creio eu) e, como o nosso Priestley, foi convidado para um assento na legislatura, o que recusou. Mas quando a liberdade francesa se metamorfoseou numa fúria, enviou de volta estes presentes com uma palinódia, declarando a sua aversão aos seus procedimentos: e desde então tem sido, talvez, mais do que suficiente, um Anti-Galicano. Quero dizer que, no seu justo desprezo e detestação pelos crimes e loucuras dos Revolucionários, permite-se esquecer que a própria revolução é um processo da Divina Providência; e que, assim como a loucura dos homens é a sabedoria de Deus, também as suas iniquidades são instrumentos da sua bondade. Da casa de Klopstock, caminhámos até às muralhas, conversando sobre o poeta e a sua conversação, até que a nossa atenção foi desviada pela beleza e singularidade do pôr do sol e os seus efeitos sobre os objetos à nossa volta. Havia bosques à distância. Uma luz arenosa rica (aliás, de uma cor muito mais profunda do que arenosa) pousava sobre estes bosques que se escureciam no brilho. Sobre aquela parte dos bosques que jazia imediatamente sob a luz mais intensa, flutuava uma névoa cor de latão. As árvores nas muralhas e as pessoas movendo-se para lá e para cá entre elas estavam cortadas ou divididas em segmentos iguais de sombra profunda e luz cor de latão. Se as árvores e os corpos dos homens e mulheres tivessem sido divididos em segmentos iguais por uma régua ou compasso, as porções não poderiam ter sido mais regulares. Tudo o resto era obscuro. Era uma cena de conto de fadas! — e para aumentar o seu caráter romântico, entre os objetos em movimento, assim divididos em sombra e brilho alternados, estava uma criança linda, vestida com a elegância simples de uma criança inglesa, montada num majestoso bode, cuja sela, rédeas e outros arreios eram em alto grau dispendiosos e esplêndidos. Antes de deixar o assunto de Hamburgo, permiti-me dizer que fiquei um dia ou dois mais tempo do que teria ficado de outra forma, para estar presente na festa de São Miguel, o santo padroeiro de Hamburgo, esperando ver a pompa cívica desta República comercial. Fiquei, contudo, desapontado. Não houve procissões, dois ou três sermões foram pregados para duas ou três velhas em duas ou três igrejas, e São Miguel e o seu patrocínio desejados noutro lugar pelas classes mais altas, estando todos os locais de entretenimento, teatro, etc., fechados neste dia. Em Hamburgo, parece não haver religião alguma; em Lübeck, está confinada às mulheres. Os homens pareciam determinados a divorciarem-se das suas esposas no outro mundo, se não o puderem fazer neste. Não concebereis facilmente um espetáculo mais singular do que o apresentado pela vasta nave da igreja principal de Lübeck, vista do coro do órgão: pois, estando cheia de criadas e pessoas da mesma classe social, e todas as suas toucas tendo coifas de ouro e prata, parece um rico pavimento de ouro e prata.

Concluirei esta carta com a mera transcrição de notas que o meu amigo W---- tomou das suas conversas com Klopstock, durante as entrevistas que tiveram lugar após a minha partida. Sobre estas farei apenas uma observação no momento, e esta parecerá presunçosa, a saber, que as observações de Klopstock sobre o venerável sábio de Koenigsberg são, segundo o meu próprio conhecimento, injuriosas e erróneas; e está tão longe de ser verdade que o seu sistema seja agora abandonado, que em todas as Universidades da Alemanha não existe um único professor que não seja ou um kantiano ou um discípulo de Fichte, cujo sistema é construído sobre o kantiano, e pressupõe a sua verdade; ou, finalmente, que, embora antagonista de Kant quanto ao seu trabalho teórico, não tenha adotado total ou parcialmente o seu sistema moral, e adotado parte da sua nomenclatura. “Tendo Klopstock manifestado o desejo de ver o CALVARY de Cumberland, e perguntado o que se pensava dele em Inglaterra, fui a Remnant’s (o livreiro inglês) onde obtive a Analytical Review, na qual se contém a crítica ao CALVARY de Cumberland. Lembrei-me de ter lido ali alguns espécimes de uma tradução em verso solto de THE MESSIAH. Tinha mencionado isto a Klopstock, e ele teve um grande desejo de os ver. Fui a pé até sua casa e coloquei o livro nas suas mãos. Ao referir-se ao seu próprio poema, disse-me que começou THE MESSIAH quando tinha dezassete anos; dedicou três anos inteiros ao plano sem compor uma única linha. Estava muito perdido sobre a maneira de executar o seu trabalho. Não havia espécimes bem-sucedidos de versificação na língua alemã antes desta época. Os três primeiros cantos escreveu-os numa espécie de prosa medida ou numerosa. Isto, embora feito com muito trabalho e algum sucesso, estava longe de o satisfazer. Tinha composto hexâmetros tanto latinos como gregos como exercício escolar, e tinham também existido na língua alemã tentativas nesse estilo de versificação. Estas eram apenas de mérito muito moderado. Um dia, foi atingido pela ideia do que poderia ser feito desta forma - manteve-se no seu quarto um dia inteiro, até dispensou o seu jantar, e descobriu que à noite tinha escrito vinte e três hexâmetros, versificando uma parte do que antes tinha escrito em prosa. A partir desse momento, satisfeito com os seus esforços, não compôs mais em prosa. Hoje informou-me que tinha terminado o seu plano antes de ler Milton. Ficou encantado ao ver um autor que antes dele tinha trilhado o mesmo caminho. Isto é uma contradição do que disse antes. Não queria falar do seu poema a ninguém até estar terminado: mas alguns dos seus amigos que tinham visto o que ele tinha terminado, atormentaram-no até que ele consentiu em publicar alguns livros num jornal. Ele era então, creio eu, muito jovem, cerca de vinte e cinco anos. O resto foi impresso em diferentes períodos, quatro livros de cada vez. A receção dada aos primeiros espécimes foi altamente lisonjeira. Levou quase trinta anos a terminar todo o poema, mas desses trinta anos não foram empregues mais de dois na composição. Compunha apenas em momentos favoráveis; além disso, tinha outras ocupações. Ele valoriza-se pelo plano das suas odes, e acusa os escritores líricos modernos de uma deficiência grosseira a este respeito. Apresentei a mesma acusação contra Horácio: ele não quis ouvi-la - mas evitou a discussão. Chamou à ODE À FORTUNA de Rousseau uma dissertação moral em estrofes. Falei da ST. CECILIA de Dryden; mas ele não parecia familiarizado com os nossos escritores. Queria saber as distinções entre o nosso verso solto dramático e épico. Recomendou-me que lesse o seu HERMANN antes de ler THE MESSIAH ou as odes. Lisonjeava-se de que, mais tarde ou mais cedo, os seus poemas dramáticos seriam conhecidos em Inglaterra. Não tinha ouvido falar de Cowper. Achava que Voss, na sua tradução da THE ILIAD, tinha violentado o idioma dos alemães, e tinha-o sacrificado aos gregos, não se lembrando suficientemente de que cada língua tem o seu espírito e génio particulares. Disse que Lessing era o primeiro dos seus escritores dramáticos. Queixei-me de NATHAN como tedioso. Ele disse que não havia ação suficiente nele; mas que Lessing era o mais casto dos seus escritores. Falou favoravelmente de Goethe; mas disse que os seus SORROWS OF WERTER eram o seu melhor trabalho, melhor do que qualquer um dos seus dramas: preferia o primeiro escrito aos restantes dramas de Goethe. Os ROBBERS de Schiller achou-os tão extravagantes que não os conseguiu ler. Falei da cena do sol poente. Ele não a conhecia. Disse que Schiller não poderia sobreviver. Achava DON CARLOS o melhor dos seus dramas; mas disse que o enredo era inextricável. Era evidente que sabia pouco das obras de Schiller: de facto, disse que não as conseguia ler. Buerger, disse ele, era um verdadeiro poeta, e sobreviveria; que Schiller, pelo contrário, deve ser esquecido em breve; que se entregou à imitação de Shakespeare, que muitas vezes era extravagante, mas que Schiller era dez mil vezes mais. Falou de forma muito desdenhosa de Kotzebue, como um autor imoral em primeiro lugar, e depois, como deficiente em poder. Em Viena, disse ele, estão transportados com ele; mas nós não consideramos o povo de Viena nem o mais sábio nem o mais espirituoso povo da Alemanha. Disse que Wieland era um autor encantador, e um mestre soberano da sua própria língua: que, a este respeito, Goethe não podia ser comparado a ele, nem, de facto, mais ninguém. Disse que o seu defeito era ser fértil até à exuberância. Disse-lhe que OBERON tinha acabado de ser traduzido para inglês. Perguntou-me se eu não estava encantado com o poema. Respondi que achava que a história começava a esmorecer por volta do sétimo ou oitavo livro; e observei que era indigno de um homem de génio fazer o interesse de um longo poema girar inteiramente em torno da gratificação animal. Ele pareceu, a princípio, disposto a desculpar isto dizendo que existem diferentes temas para a poesia, e que os poetas não estão dispostos a ser restringidos na sua escolha. Respondi que achava a paixão do amor tão adequada aos propósitos da poesia como qualquer outra paixão; mas que era uma forma barata de agradar fixar a atenção do leitor ao longo de um poema na mera apetência. Bem! mas, disse ele, vê que tais poemas agradam a todos. Respondi que era a província de um grande poeta elevar as pessoas ao seu próprio nível, não descer ao delas. Ele concordou, e confessou que, sob hipótese alguma, teria escrito uma obra como OBERON. Falou com entusiasmo do estilo de Wieland, e apontou a passagem onde Retzia dá à luz o seu filho como requintadamente bela. Disse que não percebi nenhuma passagem muito marcante; mas que tive em conta as imperfeições de uma tradução. Sobre os furtos de Wieland, disse ele que eram tão requintadamente geridos, que os maiores escritores poderiam orgulhar-se de roubar como ele. Ele considerava os livros e fábulas dos antigos escritores de romance à luz da mitologia antiga, como uma espécie de propriedade comum, da qual um homem era livre de tirar tudo o que pudesse fazer um bom uso. Um inglês tinha-lhe oferecido as odes de Collins, que ele tinha lido com prazer. Sabia pouco ou nada de Gray, exceto a sua ELEGY escrita num CHURCH-YARD de campo. Queixou-se do louco em LEAR. Observei que ele parecia conferir uma selvajaria terrível à angústia; mas ainda assim queixou-se. Perguntou se não era aceite que Pope tinha escrito poesia rimada com mais perícia do que qualquer um dos nossos escritores - disse que preferia Dryden, porque os seus dísticos tinham maior variedade no seu movimento. Achou a minha razão boa; mas perguntou se a rima de Pope não era mais exata. Esta pergunta entendi-a como se aplicando às terminações finais, e observei-lhe que acreditava que era o caso; mas que achava que era fácil desculpar alguma imprecisão nos sons finais, se o balanço geral do verso fosse superior. Disse-lhe que não éramos tão exatos no que diz respeito às terminações finais dos versos como os franceses. Ele não parecia saber que não fazíamos distinção entre rimas masculinas e femininas (isto é, simples ou duplas): pelo menos dirigiu-me perguntas sobre este assunto. Parecia pensar que nenhuma língua poderia estar tão formada que não pudesse ser enriquecida por idiomas emprestados de outra língua. Disse que esta era uma prática muito perigosa; e acrescentei que achava que Milton tinha muitas vezes prejudicado tanto a sua prosa como o seu verso ao tomar esta liberdade com demasiada frequência. Recomendei-lhe as obras em prosa de Dryden como modelos de inglês puro e nativo. Estava a pisar terreno delicado, uma vez que tenho razões para supor que ele próprio se entregou liberalmente a esta prática.”

No mesmo dia jantei em casa do Sr. Klopstock, onde tive o prazer de uma terceira entrevista com o poeta. Falámos principalmente sobre coisas indiferentes. Perguntei-lhe o que pensava de Kant. Disse que a sua reputação estava muito em declínio na Alemanha. Que, pela sua parte, não se surpreendia que assim fosse, pois as obras de Kant eram-lhe totalmente incompreensíveis - que tinha sido frequentemente importunado pelos kantianos; mas raramente tinha o hábito de discutir com eles. O seu costume era produzir o livro, abri-lo e apontar para uma passagem, e pedir que a explicassem. Isto eles tentavam habitualmente fazer substituindo as suas próprias ideias. Não quero, digo eu, uma explicação das vossas próprias ideias, mas da passagem que está perante nós. Desta forma, geralmente levo a disputa a uma conclusão imediata. Falou de Wolfe como o primeiro metafísico que tiveram na Alemanha. Wolfe teve seguidores; mas dificilmente poderiam ser chamados de uma seita, e felizmente até ao aparecimento de Kant, há cerca de quinze anos, a Alemanha não tinha sido importunada por nenhuma seita de filósofos; mas que cada homem tinha seguido separadamente as suas investigações sem ser controlado pelos dogmas de um mestre. Kant tinha parecido ambicioso de ser o fundador de uma seita; que tinha tido sucesso: mas que os alemães estavam agora a voltar a si novamente. Que Nicolai e Engel tinham contribuído de diferentes formas para desencantar a nação; mas, acima de tudo, a incompreensibilidade do filósofo e da sua filosofia. Pareceu satisfeito ao ouvir que, até agora, as doutrinas de Kant não tinham encontrado muitos admiradores em Inglaterra - não duvidava que tivéssemos demasiada sabedoria para sermos enganados por um escritor que desafiava o senso comum e o entendimento comum dos homens. Falámos de tragédia. Ele parecia avaliar altamente o poder de incitar lágrimas - eu disse que nada era mais fácil do que inundar um público, que era feito todos os dias pelos escritores mais medíocres.

Devo lembrar-lhe, meu amigo, primeiro, que estas notas não pretendem ser espécimes do poder intelectual de Klopstock, ou mesmo de "destreza coloquial", julgar os quais por uma conversa acidental, e esta com estranhos, e ainda por cima estrangeiros, seria não só irracional, mas calunioso. Em segundo lugar, atribuo pouco outro interesse às observações senão o que deriva da celebridade da pessoa que as fez. Finalmente, se me perguntar, se li THE MESSIAH, e o que penso dele? Respondo - até agora apenas os quatro primeiros livros: e quanto à minha opinião - (cujas razões virão depois) - pode adivinhá-la pelo que não pude deixar de murmurar para mim mesmo, quando o bom pastor me disse esta manhã que Klopstock era o Milton alemão - "um Milton muito alemão, na verdade!!!"

O céu o preserve, e S. T. COLERIDGE.

CAPÍTULO XXIII

Quid quod praefatione praemunierim libellum, qua conor omnem offendiculi ansam praecidere? [79] Neque quicquam addubito, quin ea candidis omnibus faciat satis. Quid autem facias istis, qui vel ob ingenii pertinaciam sibi satisfieri nolint, vel stupidiores sint, quam ut satisfactionem intelligant? Nam quemadmodum Simonides dixit, Thessalos hebetiores esse, quam ut possint a se decipi, ita quosdam videas stupidiores, quam ut placari queant. Adhaec, non mirum est invenire quod calumnietur, qui nihil aliud quaerit, nisi quod calumnietur. ERASMUS ad Dorpium, Theologum.

No rifacimento de THE FRIEND, inseri excertos dos CONCIONES AD POPULUM, impressos, embora dificilmente publicados, no ano de 1795, no próprio calor e auge do meu entusiasmo antiministerial: estes como prova de que os meus princípios políticos não sofreram qualquer mudança. No presente capítulo, anexei às minhas Cartas da Alemanha, com referência particular àquela que contém uma disquisição sobre o drama moderno, uma crítica à tragédia de BERTRAM, escrita nos últimos doze meses: como prova de que fui falsamente acusado de qualquer inconstância nos meus princípios de gosto. A carta foi escrita a um amigo: e a aparente brusquidão com que começa deve-se à omissão das frases introdutórias.

Lembra-se, meu caro Senhor, que o Sr. Whitbread, pouco antes da sua morte, propôs aos subscritores reunidos do Teatro Drury Lane, que o empreendimento fosse arrendado a algum indivíduo responsável sob certas condições e limitações: e que a sua proposta foi rejeitada, não sem indignação, como subversiva do principal objetivo, para cuja obtenção o esclarecido e patriótico agrupamento de filodramaturgos tinha sido induzido a arriscar as suas subscrições. Ora, este objetivo foi declarado não ser menos do que a redenção do palco britânico não só de cavalos, cães, elefantes e raridades zoológicas semelhantes, mas também das mais perniciosas barbáries e Kotzebuismos na moral e no gosto. Drury Lane devia ser restaurado ao seu antigo renome clássico; Shakespeare, Jonson e Otway, com as musas expurgadas de Vanbrugh, Congreve e Wycherley, deviam ser reinaugurados no seu legítimo domínio sobre os públicos britânicos; e o processo hercúleo devia começar pelo extermínio dos monstros falantes importados das margens do Danúbio, comparados com os quais os seus parentes mudos, os emigrantes das carroças de espetáculos de Exeter ’Change e Polito (antigamente Pidcock’s), eram dóceis e inofensivos. Poderia um projeto heroico, ao mesmo tempo tão refinado e tão árduo, ser confiantemente entregue a, poderia o seu sucesso ser racionalmente esperado de, um gerente mercenário, em cuja quarentena crítica o lucri bonus odor conciliaria um certificado de saúde à própria praga? Não! Como o trabalho proposto, assim devem ser os mestres do trabalho. Posição, fortuna, educação liberal e (os seus acompanhamentos ou consequências naturais) discernimento crítico, tato delicado, desinteresse, moral insuspeita, patriotismo notório e um mecenato comprovado, estas foram as recomendações que influenciaram os votos dos subscritores proprietários do Teatro Drury Lane, estes os motivos que ocasionaram a eleição do seu Supremo Comité de Gestão. Esta circunstância isolada teria despertado um forte interesse no espírito público, respeitando a primeira produção da Musa Trágica que tinha sido anunciada sob tais auspícios, e tinha passado pelo calvário de tais julgamentos: e a tragédia, sobre a qual solicitou o meu julgamento, foi o trabalho sobre o qual as grandes expectativas, justificadas por tantas causas, estavam destinadas finalmente a assentar.

Mas antes de entrar na análise de BERTRAM, ou THE CASTLE OF ST. ALDOBRAND, interporei algumas palavras sobre a expressão Drama Alemão, que considero ser totalmente um nome impróprio. Na época de Lessing, o palco alemão, tal como era, parece ter sido uma cópia plana e servil do francês. Foi Lessing quem introduziu pela primeira vez o nome e as obras de Shakespeare à admiração dos alemães; e talvez não vá longe demais se acrescentar que foi Lessing quem provou pela primeira vez a todos os homens pensantes, até aos próprios compatriotas de Shakespeare, a verdadeira natureza das suas aparentes irregularidades. Estas, demonstrou ele, eram desvios apenas dos acidentes da tragédia grega; e de tais acidentes como penduravam um peso pesado nas asas dos poetas gregos, e estreitavam o seu voo dentro dos limites do que podemos chamar a ópera heroica. Provou que, em todos os essenciais da arte, não menos do que na verdade da natureza, as Peças de Shakespeare eram incomparavelmente mais coincidentes com os princípios de Aristóteles do que as produções de Corneille e Racine, apesar da apregoada regularidade destas últimas. Sob estas convicções foram compostas as próprias obras dramáticas de Lessing. A sua deficiência está na profundidade e na imaginação: a sua excelência está na construção do enredo; no bom senso dos sentimentos; na sobriedade da moral; e no alto polimento da dicção e do diálogo. Em suma, os seus dramas são as antípodas de todos aqueles que tem sido moda nos últimos anos abusar e desfrutar simultaneamente, sob o nome de drama alemão. Deste último, os ROBBERS de Schiller foram o primeiro espécime; os primeiros frutos da sua juventude (quase diria da sua infância), e como tal, o penhor e a promessa de um génio não comum. Só como tal, o julgamento mais maduro do autor tolerou a Peça. Durante toda a sua vida, expressou-se sobre esta produção com mais aspereza do que a necessária, como um monstro não menos ofensivo ao bom gosto do que à sã moral; e, nos seus últimos anos, a sua indignação perante a invulgar popularidade dos ROBBERS seduziu-o para os extremos opostos, a saber, uma estudada fraqueza de interesse (na medida em que o interesse devia ser derivado de incidentes e da excitação da curiosidade); uma dicção elaboradamente métrica; a afetação de rimas; e a pedantaria do coro.

Mas para compreender o verdadeiro caráter dos ROBBERS, e das incontáveis imitações que foram a sua cria, devo informar-vos, ou pelo menos chamar à vossa memória, que, por essa altura, e durante alguns anos antes, três dos livros mais populares na língua alemã eram as traduções de NIGHT THOUGHTS de Young, MEDITATIONS de Hervey e CLARISSA HARLOW de Richardson. Ora, só temos de combinar o estilo inchado e o ritmo peculiar de Hervey, que é poético apenas devido à sua total inaptidão para a prosa, e poderia com a mesma propriedade ser chamado de prosaico, devido à sua total inaptidão para a poesia; só temos, repito, de combinar estes Herveyísmos com os pensamentos forçados, a metafísica figurativa e os epigramas solenes de Young por um lado; e com a sensibilidade carregada, o detalhe minucioso, a consciência mórbida de cada pensamento e sentimento em todo o fluxo e refluxo da mente, em suma, a autoinvolução e continuidade onírica de Richardson por outro lado; e depois adicionar os incidentes horríveis e vilões misteriosos (génios de intelecto sobrenatural, se quiser aceitar a palavra dos autores, mas ao nível dos mais vis rufiões das celas de condenados, se devemos julgar pelas suas ações e estratagemas) - adicionar os castelos arruinados, as masmorras, os alçapões, os esqueletos, os fantasmas de carne e osso e o luar perpétuo de um autor moderno (eles próprios a ninhada literária de THE CASTLE OF OTRANTO, cujas traduções, com as imitações e melhorias supracitadas, estavam por essa altura a começar a fazer tanto ruído na Alemanha como os seus originais estavam a fazer em Inglaterra) - e como o composto destes ingredientes devidamente misturados, reconhecerá o assim chamado drama alemão. A olla podrida assim cozinhada foi denunciada, pelos melhores críticos da Alemanha, como meras cãibras de fraqueza e orgasmos de uma imaginação doentia por parte do autor, e a mais baixa provocação de sentimentos entorpecidos por parte dos leitores. O velho erro, contudo, relativo à irregularidade e selvajaria de Shakespeare, no qual o alemão apenas ecoava o francês, que por sua vez eram apenas os ecos dos nossos próprios críticos, ainda estava na moda, e Shakespeare era citado como autoridade para o drama mais anti-shakespeareano. Temos, na verdade, dois poetas que escreveram como um, perto da época de Shakespeare, a quem (como a pior característica dos seus escritos), o Corifeu do drama atual pode desafiar a honra de ser um parente pobre, ou descendente empobrecido. Pois, se quisermos caridosamente consentir em esquecer o humor cómico, a sagacidade, as felicidades de estilo, por outras palavras, toda a poesia, e nove décimos de todo o génio de Beaumont e Fletcher, o que restaria tornar-se-ia um Kotzebue.

O chamado drama alemão, portanto, é inglês na sua origem, inglês nos seus materiais e inglês por readopção; e até que possamos provar que Kotzebue, ou qualquer um da linhagem inteira dos Kotzebues, fossem eles dramaturgos ou escritores românticos, ou escritores de dramas românticos, foram alguma vez admitidos a qualquer outra prateleira nas bibliotecas dos alemães bem educados que não aquelas ocupadas pelos seus originais, e pelos macacos dos macacos na sua pátria, deveríamos resignar-nos a carregar o nosso próprio pirralho nos nossos próprios ombros; ou melhor, considerá-lo como um filho ingrato que regressou da deportação com apenas aquelas melhorias no crescimento e nos modos com que os jovens condenados deportados costumam voltar para casa.

Não conheço nada que contribua mais para uma visão mais clara da verdadeira natureza de qualquer fenómeno literário do que a comparação do mesmo com alguma produção mais antiga, cuja semelhança é impressionante, embora apenas aparente, enquanto a diferença é real. No presente caso, esta oportunidade é-nos proporcionada pela antiga peça espanhola, intitulada Atheista Fulminato, outrora, e talvez ainda, representada nas igrejas e mosteiros de Espanha, e que, sob vários nomes (Don Juan, o Libertino, etc.), teve o seu dia de favor em todos os países da Europa. Uma popularidade tão extensa, e de uma obra tão grotesca e extravagante, reclama e merece atenção e investigação filosóficas. O primeiro ponto a notar é que a peça é, do princípio ao fim, imaginativa. Nada nela pertence ao mundo real, exceto os nomes dos lugares e das pessoas. As partes cómicas, tanto quanto as trágicas; as personagens vivas, tanto quanto as defuntas, são criaturas do cérebro; tão pouco sujeitas às regras da probabilidade comum quanto o Satanás de PARADISE LOST, ou o Caliban de THE TEMPEST, e, portanto, para serem compreendidas e julgadas como abstrações personificadas. Posição, fortuna, espírito, talento, conhecimentos adquiridos e realizações liberais, com beleza física, saúde vigorosa e resistência constitucional — todas estas vantagens, elevadas pelos hábitos e simpatias do nascimento nobre e do carácter nacional, supõe-se que se tenham combinado em Don Juan, de modo a dar-lhe os meios de levar a todas as suas consequências práticas a doutrina de uma natureza ímpia, como o único fundamento e causa eficiente não apenas de todas as coisas, acontecimentos e aparências, mas também de todos os nossos pensamentos, sensações, impulsos e ações. A obediência à natureza é a única virtude: a gratificação das paixões e apetites o seu único ditame: o livre-arbítrio de cada indivíduo o único órgão através do qual a natureza profere os seus comandos, e

“A autocontradição é o único erro! Pois, pelas leis do espírito, no direito Está cada caráter individual Que age em estrita consistência consigo mesmo.”

Que as opiniões especulativas, por mais ímpias e ousadas que sejam, nem sempre são seguidas por uma conduta correspondente, é a mais pura verdade, tal como é verdade que dificilmente podem, em qualquer caso, ser sistematicamente realizadas, devido à sua inadequação à natureza humana e às instituições da sociedade. Pode ser o inferno apenas onde tudo é inferno: e um mundo separado de demónios é necessário para a existência de qualquer um demónio completo. Mas, por outro lado, não é menos claro, nem, com a biografia de Carrier e dos seus companheiros ateus diante de nós, pode ser negado sem uma cegueira voluntária, que o (assim chamado) sistema da natureza (isto é, o materialismo, com a rejeição total da responsabilidade moral, de uma Providência presente, e de retribuição presente e futura) pode influenciar os caracteres e ações de indivíduos, e até de comunidades, a um grau que quase elimina a distinção entre homens e demónios, e fará a página do historiador do futuro assemelhar-se à narração dos sonhos de um louco. Não é, portanto, a maldade de Don Juan que constitui o caráter uma abstração, e o remove das regras da probabilidade; mas a rápida sucessão dos atos e incidentes correspondentes, a sua superioridade intelectual, e a esplêndida acumulação dos seus dons e qualidades desejáveis, como coexistentes com uma maldade total em uma e na mesma pessoa. Mas esta é também a própria circunstância que dá a esta estranha peça o seu encanto e interesse universal. Don Juan é, do princípio ao fim, um caráter inteligível: tanto quanto o Satanás de Milton. O poeta pede apenas ao leitor o que, como poeta, tem o privilégio de pedir: nomeadamente, aquele tipo de fé negativa na existência de tal ser, que concedemos voluntariamente a produções professadamente ideais, e uma disposição para o mesmo estado de espírito com que contemplamos as figuras idealizadas do Apolo Belvedere e do Hércules Farnese. O que o Hércules é para o olho em força corporal, Don Juan é para a mente em força de caráter. O ideal consiste no equilíbrio feliz do genérico com o individual. O primeiro torna o caráter representativo e simbólico, portanto instrutivo; porque, mutatis mutandis, é aplicável a classes inteiras de homens. O segundo dá-lhe interesse vivo; pois nada vive ou é real, exceto como definido e individual. Para compreender isto completamente, o leitor só precisa recordar o estado específico dos seus sentimentos quando, ao olhar para uma pintura da classe histórica (mais propriamente da poética ou heroica), se opõe a uma figura particular por ser demasiado um retrato; e esta interrupção da sua complacência ele sente sem a menor referência a, ou o menor conhecimento de, qualquer pessoa na vida real que pudesse reconhecer nesta figura. Basta que tal figura não seja ideal: e, portanto, não ideal, porque um dos dois fatores ou elementos do ideal está em excesso. Uma objeção semelhante e mais poderosa ele sentiria em relação a um conjunto de figuras que fossem meras abstrações, como as de Cipriani, e o que tem sido chamado de formas e rostos gregos, isto é, contornos desenhados de acordo com uma receita. Estes, por sua vez, não são ideais; porque neles o outro elemento está em excesso. “Forma formans per formam formatam translucens” é a definição e perfeição da arte ideal.

Esta excelência é tão felizmente alcançada em Don Juan que é capaz de interessar sem poesia, aliás, até sem palavras, como na nossa pantomima com esse nome. Vemos claramente como o caráter é formado; e a própria extravagância dos incidentes, e a inteireza sobre-humana da ação de Don Juan, impede que a maldade choque as nossas mentes a um grau doloroso. Não acreditamos nela o suficiente para este efeito; não, nem mesmo com aquele tipo de crença temporária e negativa ou aquiescência que descrevi acima. Entretanto, as qualidades do seu caráter são demasiado desejáveis, demasiado lisonjeiras para o nosso orgulho e os nossos desejos, para não compensarem deste lado tanta fé adicional quanto a que se perdeu do outro. Não há perigo (pensa o espectador ou leitor) de eu me tornar um monstro de iniquidade como Don Juan! Nunca serei um ateu! Nunca irei rejeitar toda a distinção entre o bem e o mal! Não tenho a menor inclinação para ser um fanfarrão tão ultrajante nos meus casos amorosos! Mas possuir tal poder de cativar e encantar as afeições do outro sexo! — ser capaz de inspirar numa mulher encantadora e até virtuosa, um amor tão profundo, e tão inteiramente pessoal para mim! — que mesmo os meus piores vícios, (se eu fosse vicioso), mesmo a minha crueldade e perfídia, (se eu fosse cruel e pérfido), não pudessem erradicar a paixão! — ser tão amado por mim mesmo, que mesmo com um conhecimento distinto do meu caráter, ela ainda morresse para me salvar! — isto, senhor, apodera-se de dois lados da nossa natureza, o melhor e o pior. Pois o desinteresse heroico, ao qual o amor pode transportar uma mulher, não pode ser contemplado sem uma honrosa emoção de reverência perante a feminilidade: e, por outro lado, está entre as misérias, e reside no fundamento sombrio da nossa natureza, ansiar por uma confirmação exterior daquele algo dentro de nós, que é o nosso próprio eu, esse algo, não composto pelas nossas qualidades e relações, mas ele próprio o sustentáculo e base substancial de todas elas. Ama-me, e não as minhas qualidades, pode ser um desejo vicioso e insano, mas não é um desejo totalmente sem significado.

Sem poder, a virtude seria insuficiente e incapaz de revelar o seu ser. Assemelhar-se-ia à transformação mágica da heroína de Tasso numa árvore, na qual ela só podia gemer e sangrar. Daí que o poder seja necessariamente um objeto do nosso desejo e da nossa admiração. Mas de todo o poder, o da mente é, por todos os motivos, o grande desiderato da ambição humana. Sereis como Deuses em conhecimento, foi e deve ter sido a primeira tentação: e a coexistência de um grande domínio intelectual com a culpa nunca foi adequadamente representada sem excitar o mais forte interesse, e por esta razão, que nesta má e heterogénea coordenação podemos contemplar o intelecto do homem mais exclusivamente como uma subsistência separada, do que no seu estado próprio de subordinação à sua própria consciência, ou à vontade de um ser infinitamente superior.

Este é o encanto sagrado das personagens masculinas de Shakespeare em geral. Todas elas são moldadas no intelecto gigantesco do próprio Shakespeare; e esta é a atração evidente do seu Ricardo, Iago, Edmund, e outros em particular. Mas, mais uma vez; de todo o poder intelectual, o da superioridade ao medo do mundo invisível é o mais deslumbrante. A sua influência é abundantemente provada pela única circunstância de que nos pode subornar a uma submissão voluntária do nosso melhor conhecimento, a uma suspensão de todo o nosso julgamento derivado da experiência constante, e permitir-nos ler com o mais vivo interesse os contos mais selvagens de fantasmas, feiticeiros, génios e talismãs secretos. Sobre esta propensão, tão profundamente enraizada na nossa natureza, uma probabilidade dramática específica pode ser erguida por um verdadeiro poeta, se a totalidade da sua obra estiver em harmonia: uma probabilidade dramática, suficiente para o prazer dramático, mesmo quando os caracteres e incidentes componentes roçam a impossibilidade. O poeta não exige que estejamos acordados e acreditemos; ele solicita-nos apenas que nos entreguemos a um sonho; e isto também com os olhos abertos, e com o nosso julgamento à espreita atrás da cortina, pronto a despertar-nos ao primeiro movimento da nossa vontade: e, entretanto, apenas, a não descrerermos. E num tal estado de espírito, quem não ficaria impressionado com a fria intrepidez de Don Juan perante o aparecimento do fantasma do seu pai:

“FANTASMA. — Monstro! Contempla estas feridas!

“D. JUAN. — Contemplo! Foram bem intencionadas e bem executadas, vejo eu.

“FANTASMA. — Repente-te, repente-te de todas as tuas vilanias. O meu sangue clamoroso ao céu clama por vingança, O Céu derramará os seus juízos sobre todos vós. O Inferno escancara-se para ti, por ti cada demónio clama, E espera a cada hora a tua queda impenitente. Eles atormentar-te-ão com horrores eternos, A menos que te arrependas subitamente de todos os teus crimes. (O fantasma afunda-se.)

“D. JUAN. — Adeus, és um fantasma tolo. Arrepende-te, disse ele! O que poderia isto significar? Os nossos sentidos estão todos num nevoeiro, certamente.

“D. ANTONIO. — (um dos companheiros réprobos de D. Juan.) Não estão! Era um fantasma.

“D. LOPEZ. — (outro réprobo.) Nunca acreditei nesses contos tolos antes.

“D. JUAN. — Vamos! Não importa. Seja o que for, deve ser natural.

“D. ANT. — E a natureza é inalterável em nós também.

“D. JUAN. — É verdade! A natureza de um fantasma não pode mudar a nossa.”

Quem também pode negar uma porção de sublimidade à tremenda consistência com que ele suporta a última prova temível, como um segundo Prometeu?

“Coro de Demónios.

“ESTÁTUA-FANTASMA. — Não vais ceder e sentir remorso?

“D. JUAN. — Se pudesses conceder-me outro coração, talvez. Mas com este coração que tenho, não posso.

“D. LOPEZ. — Estas coisas são prodigiosas.

“D. ANTON. — Tenho uma espécie de relutância em ceder, mas algo me detém.

“D. LOP. — Se pudéssemos, é agora demasiado tarde. Não o farei.

“D. ANT. — Nós desafiamo-te!

“FANTASMA. — Perecei, miseráveis ímpios, ide e encontrai os castigos guardados para vós!

(Trovão e relâmpagos. D. Lop. e D. Ant. são tragados.)

“FANTASMA para D. JUAN. — Contempla os seus destinos terríveis, e sabe que o teu último momento chegou!

“D. JUAN. — Não penses em assustar-me, fantasma tolo; partirei o teu corpo de mármore em pedaços e derrubarei o teu cavalo. (Trovão e relâmpagos — coro de demónios, etc.)

“D. JUAN. — Estas coisas vejo com espanto, mas sem medo. Se todos os elementos fossem confundidos, E misturados todos no seu caos anterior; Se mares de enxofre ardessem ao meu redor, E toda a humanidade rugisse dentro desses fogos, Eu não poderia temer, ou sentir o menor remorso. Até ao último instante desafiaria o teu poder. Aqui permaneço firme, e todas as tuas ameaças desprezo. O teu assassino (para o fantasma de um que ele tinha assassinado) Está aqui! Agora faz o teu pior!” (Ele é tragado numa nuvem de fogo.)

Em suma, o caráter de Don Juan consiste na união de tudo o que é desejável para a natureza humana, como meio, e que, portanto, pela bem conhecida lei da associação, se torna finalmente desejável por si próprio. Por si próprio, e na sua própria dignidade, são aqui exibidos, como sendo empregues para fins tão desumanos que, no efeito, parecem quase meios sem um fim. Os ingredientes também são misturados na proporção mais feliz, de modo a sustentar e aliviar um ao outro — especialmente naquele constante contrapeso de espírito, alegria e generosidade social, que impede que o criminoso, mesmo nos seus momentos mais atrozes, caia na categoria de mero rufião, pelo menos na medida em que a nossa imaginação julga. Acima de tudo, a bela difusão por toda a obra, com os modos e sentimentos característicos de um cavalheiro altamente educado, dá vida ao drama. Assim, tendo convidado o fantasma-estátua do governador, a quem tinha assassinado, para jantar, convite que o fantasma de mármore aceitou com um aceno de cabeça, Don Juan preparou um banquete.

“D. JUAN. — Algum vinho, rapaz! Um brinde ao fantasma de Don Pedro — ele deveria ter sido bem-vindo.

“D. LOP. — O patife tem medo de ti depois da morte. (Batem com força à porta.)

“D. JUAN. — (ao criado) — Levanta-te e cumpre o teu dever.

“CRIADO. — Oh, o diabo, o diabo! (Entra o fantasma de mármore.)

“D. JUAN. — Ah! É o fantasma! Levantemo-nos e recebamo-lo! Vem, Governador, és bem-vindo, senta-te ali; se tivéssemos pensado que terias vindo, teríamos esperado por ti.

* * * * * *

Aqui, Governador, à tua saúde! Amigos, sirvam-se! Eis carne excelente, prova este ragu. Vem, vou servir-te, vem, come, e que as velhas zangas sejam esquecidas. (O fantasma ameaça-o com vingança.)

“D. JUAN. — Estamos demasiado confirmados — maldito seja este discurso seco. Vem, um brinde à tua amante, tinhas uma quando estavas vivo: sem esquecer a tua doce irmã. (Entram demónios.)

“D. JUAN. — São estes parte do teu séquito? Demónios, dizes tu? Lamento que não tenha aguardente queimada para os tratar, é bebida própria para demónios,” etc.

Nem a cena da qual citamos é interessante apenas na probabilidade dramática; é suscetível também de uma moral sã; de uma moral que tem mais do que comuns direitos à atenção de uma classe demasiado numerosa, que está pronta a aceitar as qualidades da coragem cavalheiresca e da honra escrupulosa, (em todas as leis reconhecidas da honra), como substitutos da virtude, em vez dos seus ornamentos. Este, de facto, é o valor moral da peça em geral, e o que a coloca a uma distância de um mundo do espírito do jacobinismo moderno. Este último introduz-nos cópias desajeitadas destas qualidades instrumentais vistosas, a fim de nos reconciliar com o vício e a falta de princípios; enquanto o Atheista Fulminato apresenta um retrato requintado das mesmas qualidades, em todo o seu brilho e fulgor, mas apresenta-as com o único propósito de exibir a sua vacuidade, e a fim de nos pôr de sobreaviso, demonstrando a sua total indiferença ao vício e à virtude, sempre que estas e outras realizações semelhantes são contempladas apenas por si mesmas.

Há dezoito anos observei que todo o segredo do drama jacobinista moderno, (que, e não o alemão, é a sua designação apropriada), e de toda a sua popularidade, consiste na confusão e subversão da ordem natural das coisas nas suas causas e efeitos: nomeadamente, na excitação da surpresa ao representar as qualidades da liberalidade, sentimento refinado e um agudo sentido de honra (aquelas coisas que, aliás, passam entre nós por tais) em pessoas e em classes onde a experiência nos ensina menos a esperá-las; e ao recompensar com todas as simpatias que são devidas à virtude, aqueles criminosos que a lei, a razão e a religião excomungaram da nossa estima.

Isto, por si só, levar-me-ia de volta a BERTRAM, ou ao CASTELO DE ST. ALDOBRAND; mas, na minha própria mente, esta tragédia foi trazida para conexão com O LIBERTINO, (a adaptação de Shadwell do Atheista Fulminato ao palco inglês no reinado de Carlos II), pelo facto de o nosso drama moderno ser retirado, na sua substância, da primeira cena do terceiro ato de O LIBERTINO. Mas com que palpável superioridade de juízo no original! A terra e o inferno, homens e espíritos estão de armas na mão contra Don Juan; os dois primeiros atos da peça não só nos prepararam para o sobrenatural, como nos habituaram ao prodigioso. É, portanto, nem mais nem menos do que antecipamos quando o Capitão exclama: “Em todos os perigos em que estive, tais horrores nunca conheci. Estou completamente desanimado:” e quando o Eremita diz que tinha “contemplado o oceano na sua fúria mais selvagem, contudo nunca antes vira uma tempestade tão terrível, tais lampejos horríveis de relâmpagos, e tais estrondos de trovão, nunca estiveram na minha memória.” E o rompante de impiedade surpreendente de Don Juan é tão inteligível na sua motivação quanto dramático no seu efeito.

Mas o que há para explicar o prodígio da tempestade no naufrágio de Bertram? É um mero efeito sobrenatural, sem sequer uma alusão a qualquer agência sobrenatural; um prodígio, sem qualquer circunstância mencionada que seja prodigiosa; e um milagre introduzido sem fundamento, e terminando sem resultado. Cada evento e cada cena da peça poderiam ter tido lugar da mesma forma se Bertram e a sua embarcação tivessem sido trazidos por um vendaval comum, ou por falta de provisões. O primeiro ato teria, na verdade, perdido a sua maior e mais sonora imagem; uma cena pelo bem de uma cena, sem uma palavra dita; como tal, portanto (uma raridade sem precedente), devemos aceitá-la, e ser gratos! Na opinião de não poucos, foi, em todos os sentidos da palavra, a melhor cena da peça. Estou muito certo de que foi a mais inocente: e a firme e silenciosa verticalidade da chama das velas de cera, que os monges seguravam sobre as ondas rugidoras em meio à tempestade de vento e chuva, foi realmente milagrosa.

A costa marítima siciliana: um convento de monges: noite: uma tempestade portentosa e sobrenatural: uma embarcação é naufragada contrariamente a toda a expectativa humana, um homem salva-se pelos seus poderes prodigiosos como nadador, auxiliado pela peculiaridade do seu destino —

“PRIOR. — Tudo, tudo pereceu.

PRIMEIRO MONGE. — Muda, muda essas vestes encharcadas —

PRIOR. — Nada sei delas — cada alma pereceu — Entra o terceiro Monge apressadamente.

“TERCEIRO MONGE. — Não, houve um que batalhou com a tempestade Com força descuidada e desesperada; muitas vezes A sua vida foi ganha e perdida, como se não se importasse — Nenhuma mão o ajudou, e ele não ajudou ninguém — Sozinho ele enfrentou a onda larga, sozinho Esse homem foi salvo.”

Bem! Este homem é conduzido pelos monges, supostamente encharcado, e às perguntas muito naturais ele ou permanece em silêncio, ou dá respostas muito breves e rudes, e após três ou quatro destas cortesias de meio verso, “afastando os monges” que o tinham salvo, ele exclama na verdadeira sublimidade do nosso heroísmo misantrópico moderno —

“Afastai-vos! Sois homens — há veneno no vosso toque. Mas devo ceder, pois isto” (o quê?) “deixou-me sem forças.”

Assim terminam as três primeiras cenas. Na seguinte (o Castelo de St. Aldobrand), encontramos os criados ali igualmente assustados com esta tempestade sobrenatural, embora em que diferia de outras tempestades violentas não nos seja dito, exceto que Hugo nos informa, página 9 —

“PIET. — Hugo, bem encontrado. A tua idade guarda Memória de uma tempestade tão terrível?

HUGO. — Têm sido frequentes ultimamente.

PIET. — São sempre assim na Sicília.

HUGO. — Assim se diz. Mas as tempestades quando eu era jovem Passavam sempre como as febres caprichosas da Natureza, E tornavam tudo mais saudável. Agora a sua fúria, Enviada assim inoportuna e infrutífera, Fala como as ameaças do céu.”

Uma teoria deveras intrigante sobre as tempestades sicilianas é esta do velho Hugo! E o que é muito notável, aparentemente não fundamentada em qualquer grande familiaridade dele próprio com este artigo problemático. Pois, quando Pietro afirma a “frequência cada vez maior” de tempestades na Sicília, o velho professa não saber nada mais sobre o fato, senão por ouvir dizer. “Assim se diz.” — Mas por que ele presumiu que esta tempestade fosse intempestiva, e em que baseou a sua profecia (pois a tempestade ainda está em plena fúria) de que seria infrutífera e sem os poderes físicos comuns a todos os outros ventos marítimos violentos na purificação da atmosfera, ficamos às escuras; bem como a respeito dos pontos particulares nos quais ele sabia que ela, durante a sua duração, diferia daquelas que ele conhecera na sua juventude. Somos finalmente apresentados à Lady Imogine, que, ficamos sabendo, não descansara “durante” a noite; não por causa da tempestade, pois

“Muito antes de a tempestade surgir, os seus gestos inquietos Proibiam toda a esperança de vê-la abençoada pelo sono.”

Sentada a uma mesa, e olhando para um retrato, ela informa-nos — Primeiro, que os pintores de retratos podem fazer um retrato de memória,

“A arte do retratista pode traçar o traço ausente.”

Pois certamente estas palavras nunca poderiam significar que um pintor pode ter uma pessoa a posar para ele que depois possa deixar a sala ou talvez o país? Segundo, que um pintor de retratos pode permitir que uma dama em luto possua uma boa semelhança do seu amante ausente, mas que o pintor de retratos não pode, e quem o fará —

“Restaurar as cenas em que se encontraram e separaram?”

A resposta natural teria sido — Ora, o cenógrafo, com certeza! Mas esta dama desarrazoada exige, além disso, várias coisas a serem pintadas que não têm nem linhas nem cores —

“Os pensamentos, as recordações, doces e amargas, Ou os sonhos elísios dos amantes quando amavam.”

Cujo último período deve ser suposto significar: quando eles estavam presentes, e fazendo amor um com o outro. — Então, se este retrato pudesse falar, ele “absolveria a fé da linhagem feminina”. Como? Teria ela permanecido constante? Não, ela foi casada com outro homem, de quem agora é esposa. Como então? Ora, que, apesar do seu voto de casamento, ela continuara a ansiar e a desejar o seu antigo amante —

“Este tem o seu corpo, aquele a sua mente: Qual tem o melhor negócio?”

O amante, contudo, não estava contente com este precioso arranjo, como logo veremos. A dama prossegue informando-nos que, durante os muitos anos da sua separação, ocorreram nas diferentes partes do mundo uma série de “tais coisas”; mesmo tais, como no curso dos anos sempre ocorreram, e até ao Milénio, sem dúvida sempre ocorrerão em algum lugar ou outro. Contudo, esta passagem, tanto na linguagem quanto na métrica, é talvez uma das melhores partes da peça. A companheira amorosa e atendente mais estimada da dama, Clotilda, entra agora e explica este amor e estima provando ser uma ouvinte passiva e desapaixonada, bem como uma inquiridora breve e sortuda, que faz por acaso perguntas que teríamos pensado serem feitas pelo próprio bem das respostas. Em suma, ela lembra-nos muito aquelas heroínas de marionetas, para quem o manipulador inventa o diálogo sem qualquer habilidade em ventriloquismo. Isto, não obstante, é a melhor cena da Peça, e embora apinhada de solecismos, dicção corrupta e ofensas contra a métrica, possuiria méritos suficientes para superá-los, se pudéssemos suspender o sentido moral durante a leitura. Ela conta bem e apaixonadamente as circunstâncias preliminares, e assim supera a principal dificuldade da maioria dos primeiros atos, a saber, a da narração retrospetiva. Conta-nos de ela ter sido honrosamente cortejada por um jovem nobre, de posição e fortuna vastamente superiores às suas: do seu amor mútuo, intensificado da parte dela pela gratidão; da perda do favor do seu soberano; da sua desgraça; proscrição; e fuga; que ele (assim degradado) afundou-se num vil rufião, o chefe de um bando assassino; e que, pela indulgência habitual dos hábitos mais réprobos e paixões ferozes, ele se tinha tornado tão mudado, mesmo na aparência, e nos traços,

“Que aquela que o gerou recuara dele, Nem conhecera o semblante alienígena do seu filho, Ainda assim ela (Imogine) amava-o.”

Ela é compelida pelos apelos silenciosos de um pai, perecendo com “amarga e vergonhosa carência sobre a terra fria”, a dar a sua mão, com um coração assim irrevogavelmente pré-comprometido, ao Lord Aldobrand, o inimigo do seu amante, até ao próprio homem que frustrara os seus esquemas ambiciosos, e estava, no momento presente, encarregado da execução da sentença de morte que fora proferida contra Bertram. Ora, a prova do “amor de mulher”, tão industriosamente apresentada para a simpatia, se não para a estima do público, consiste nisto: que, embora Bertram se tivesse tornado um ladrão e um assassino por profissão, um rufião nos modos, sim, com forma e traços diante dos quais a sua própria mãe não podia senão “recuar”, ainda assim ela (Lady Imogine), “a esposa de um nobre e honrado Lord”, estimável como homem, exemplar e afetuoso como marido, e o pai extremoso do seu único filho — que ela, não obstante tudo isto, batendo no seu coração, ousa dizer-lhe —

“Mas tu és de Bertram ainda, e de Bertram para sempre.”

Um Monge entra agora, e suplica em nome do seu Prior pela hospitalidade costumeira, e “livre uso nobre” do Castelo de St. Aldobrand para algumas almas miseráveis náufragas, e disto ficamos a saber, pela primeira vez, para nossa infinita surpresa, que, não obstante o sobrenaturalismo da tempestade supracitada, não apenas Bertram, mas todo o seu bando, tinham sido salvos, por meios que deixamos à conjectura, e só podemos concluir que eles tinham todos os mesmos poderes desesperados de natação, e o mesmo destino salvador que o herói, o próprio Bertram. Assim termina o primeiro ato, e com ele a história dos eventos, tanto aqueles com os quais a tragédia começa, quanto aqueles que tinham ocorrido antes da data do seu início. O segundo mostra Bertram num sono perturbado, que o Prior, que paira sobre ele, prefere chamar de “transe de sobressalto”, e com uma voz forçada, que teria acordado um dos sete dormentes, observa ao público —

“Como o lábio trabalha! Como os dentes nus rangem! E gotas peroladas correm [81] pela sua testa retorcida!”

O efeito dramático desta passagem nós não apenas concedemos aos admiradores desta tragédia, mas reconhecemos as vantagens adicionais de preparar o público para a mais surpreendente série de caretas, bocas contorcidas e gestos lunáticos que foram alguma vez “lançados” a um público para “cauterizar o sentido”. [82]

“PRIOR. — Eu despertá-lo-ei deste transe horrível. Este não é um sono natural! Ho, desperta, estranho!”

Esta é uma aplicação bastante caprichosa do verbo reflexivo, devemos confessar, embora nos lembremos de uma transferência semelhante do agente para o paciente numa tragédia manuscrita, na qual o Bertram da peça, prostrando um homem com um único golpe do seu punho, exclama — “Derruba-me tu a ele, então pergunta-lhe se ele vive.” Bem; o estranho obedece, e qualquer que tenha sido o seu sono, o seu despertar foi perfeitamente natural; pois a letargia em si não poderia resistir à Stentoria censuradora do Sr. Holland, o Prior. Ficamos em seguida a saber, pela melhor autoridade, a sua própria confissão, que o herói misantrópico, cujo destino era incompatível com o afogamento, é o Conde Bertram, que não apenas revela as suas fortunas passadas, mas confessa com aberta atrocidade o seu ódio satânico ao senhor de Imogine, e a sua sede frenética de vingança; e assim o personagem delirante delira, e o personagem censurador censura — e que mais? Não age o Prior? Ele não envia em busca de um grupo de polícias ou agentes da lei para algemar o vilão, ou levá-lo para Bedlam ou Newgate? Nada do género; o autor preserva a unidade de caráter, e o Prior censurador, do início ao fim, não faz nada senão censurar, com exceção, de facto, da última cena do último ato, na qual, com uma revolução surpreendente, ele chora, soluça e ajoelha-se perante o assassino condenado e blasfemo por puro afeto ao homem de coração nobre, a sublimidade do pecado angélico do qual rivaliza com o apóstata brilhante como uma estrela (isto é, que era tão orgulhoso como Lúcifer, e tão ímpio como o Diabo), e que “o arrepiara” (o Prior Holland supracitado) com selvagem admiração.

Consequentemente, na cena seguinte, temos este Macheath trágico, com todo o seu bando, no Castelo de St. Aldobrand, sem qualquer tentativa por parte do Prior, quer para impedi-lo, quer para colocar a senhora e os servos do Castelo de sobreaviso contra os seus novos hóspedes; embora ele (o Prior) soubesse, e confesse que sabia, que os “medonhos companheiros” de Bertram eram assassinos tão habituados e naturalizados à culpa que —

“Quando o seu porão encharcado abandonou ouro e apetrechos, Eles agarraram os seus punhais com o instinto de um assassino;”

e embora ele também soubesse que Bertram era o líder de um bando cujo comércio era o sangue. Para o Castelo, no entanto, ele vai, assim com o consentimento do santo Prior, se não com a sua assistência; e para lá sigamo-lo.

Não tão cedo o nosso herói está alojado em segurança no Castelo de St. Aldobrand, ele atrai a atenção da dama e da sua confidente, pelos seus “olhos selvagens e terrivelmente escuros”, “forma amortalhada”, “forma medonha”, [83] “obscuramente selvagem”, “orgulhosamente severa”, e outros indefinidos lugares-comuns semelhantes, temperados por antíteses meramente verbais, e na melhor das hipóteses, copiados com muito ligeira mudança, do Conrade da JOANA D’ARC de Southey. A dama Imogine, que tem estado, (como é o caso, diz ela, com todos os espíritos suaves e solenes), a adorar a lua num terraço ou muralha à vista do Castelo, insiste em ter uma entrevista com o nosso herói, e isto também tete-a-tete. Quereria o leitor saber o porquê e a razão pela qual a confidente é excluída, ela que muito apropriadamente protesta contra tal “conferência, a sós, à noite, com alguém que ostenta tão medonha forma”? A razão segue-se — “ora, por isso envia-o!” Digo, segue-se, porque a linha seguinte, “todas as coisas de medo perderam o seu poder sobre mim”, é separada da anterior por uma quebra ou pausa, e além de ser uma resposta muito pobre ao perigo, não é resposta alguma à grosseira indelicadeza desta exposição deliberada. Devemos, portanto, considerá-la como um mero pensamento tardio, que amacia um pouco a grosseria, mas não acrescenta nada ao peso, daquela requintada razão de mulher supracitada. E assim sai Clotilda e entra Bertram, que “fica parado sem olhar para ela”, isto é, com os membros inferiores afastados, os braços em alça, o lado para a frente da dama, a figura inteira assemelhando-se a um Y invertido. Ele é logo, contudo, despertado do estado rabugento para o estado frenético, e então seguem-se delírios, gritos, pragas, ela desmaiando, ele cedendo, entra o filho de Imogine, guincha “mãe!” Ele arrebata-o, e com um “Deus te abençoe, criança! Bertram beijou a tua criança”, — o pano cai. O terceiro ato é curto, e curta seja a nossa descrição dele. Introduz o Lord St. Aldobrand no seu caminho para casa, e depois Imogine no convento, confessando a imundície do seu coração ao Prior, que primeiro se entrega ao seu velho humor com um ataque de censura sem sentido, depois deixa-a sozinha com o seu paramor rufião, com quem ela marca de imediato um encontro infame, e o pano cai, para que possa ser levado a cabo e consumado.

Faltam-me palavras para descrever o horror e o nojo misturados com que testemunhei a abertura do quarto ato, considerando-o como uma melancólica prova da depravação da mente pública. O espírito chocante do jacobinismo parecia já não estar confinado à política. A familiaridade com eventos e personagens atrozes parecia ter envenenado o gosto, mesmo onde não tinha desorganizado diretamente os princípios morais, e deixado os sentimentos calosos a todos os apelos suaves, e ansiando apenas pelos estimulantes mais grosseiros e ultrajantes. O próprio facto então presente aos nossos sentidos, de que um público britânico podia permanecer passivo sob tal insulto à decência comum, mais, receber com um trovão de aplausos, um ser humano suposto ter acabado de vir fumegante da consumação desta complexa imundície e baixeza, estas e outras reflexões semelhantes pesaram como chumbo sobre o meu coração, que ator, autor e tragédia teriam sido esquecidos, não fosse por um homem idoso e simples sentado ao meu lado, que, com um rosto muito sério, que ao mesmo tempo expressava surpresa e aversão, tocou-me o cotovelo e, apontando para o ator, disse-me em meio-sussurro — “Vê aquele pequeno ali? ele acabou de cometer adultério!” Um pouco aliviado pelo riso que este discurso cómico ocasionou, forcei a minha atenção para o palco o suficiente para saber que Bertram se recuperou de um ataque passageiro de remorso pela informação de que St. Aldobrand estava encarregado (de fazer o que qualquer homem honesto deveria ter feito sem incumbência, se cumprisse o seu dever) de prendê-lo e entregá-lo à justa vingança da lei; uma informação que (como ele sabia há muito que era um traidor proscrito e um fora da lei proclamado, e não apenas um mercador de sangue ele próprio, mas notoriamente o Capitão de um bando de ladrões, piratas e assassinos), certamente não poderia ter sido nova para ele. É isto, contudo, que sozinho e instantaneamente o restaura ao seu estado habitual de delírio, blasfémia e disparate. Segue-se a entrevista forçada de Imogine com o seu marido ofendido, e a sua partida súbita novamente, tudo em amor e bondade, para assistir à festa de St. Anselmo no convento. Este era, deve ser admitido, um compromisso muito estranho para um marido tão terno assumir poucos minutos após uma ausência tão longa. Mas primeiro a sua senhora disse-lhe que ela tem “um voto sobre si”, e deseja “que a perdição negra engula a sua alma perjura”, — (Nota: ela está a mentir no próprio momento) — se ela ascender ao leito dele, até que a sua penitência esteja cumprida. Como, portanto, deve o pobre marido divertir-se neste intervalo da penitência dela? Mas não fiquem angustiados, leitores, por causa da ausência de St. Aldobrand! Como o autor conseguiu enviá-lo para fora de casa, quando um marido estaria no caminho do outro e do amante, assim ele sem dúvida não terá dificuldades em trazê-lo de volta assim que ele for necessário. Bem! o marido tendo saído por um lado, sai o amante pelo outro, e com o propósito diabólico de dilacerar a alma da sua miserável cúmplice na culpa, anunciando-lhe, com as mais brutais e blasfemas execrações, a sua fixa e deliberada resolução de assassinar o seu marido; tudo isto também sem qualquer propósito detetável por parte do autor, senão o de introduzir uma série de sobressaltos super-trágicos, pausas, gritos, lutas, arremessos de adagas, quedas no chão, levantando-se novamente de forma selvagem, juras, pedidos de ajuda, caindo novamente no chão, levantando-se, cambaleando fracamente em direção à porta, e, para terminar a cena, um desmaio mais conveniente da nossa senhora, bem a tempo de dar a Bertram uma oportunidade de procurar o objeto do seu ódio, antes que ela alerte a casa, o que, de facto, ela teve tempo suficiente para fazer antes, não fosse pelo autor preferir que ela se divertisse e ao público com os delírios e sobressaltos acima descritos. Ela recupera-se lentamente, e entra Clotilda, a confidente e mãe confessional; então começa o que na linguagem teatral é chamado de loucura, mas que o autor mais precisamente intitula de delírio, parecendo de facto uma espécie de febre intermitente com ataques de desorientação, sempre que a ocasião e o efeito de palco pedem. Um conveniente regresso da tempestade, (já dissemos ao leitor de antemão como seria), mudara —

“O riacho, que banhava as muralhas do convento, Num dilúvio espumante: sobre a sua margem O Lord e o seu pequeno séquito estão horrorizados. Com tocha e sino das suas altas ameias Os monges convocam para a passagem em vão; Ele deve retornar esta noite.”

Fala do Diabo, e os seus chifres aparecem, diz o provérbio, e com certeza, dez linhas após a saída do mensageiro, enviado para detê-lo, a chegada do Lord St. Aldobrand é anunciada. O bando de rufiões de Bertram entra agora, e coloca-se através do palco, dando nova causa aos gritos e loucura de Imogine. St. Aldobrand, tendo recebido a sua ferida mortal atrás das cenas, cambaleia para dentro para se banhar no seu sangue, e morrer aos pés desta adúltera duplamente condenada.

Dela, na medida em que ela está envolvida neste quarto ato, temos dois pontos adicionais a notar: primeiro, a astúcia baixa e o truque jesuítico com que ela ilude o seu marido para palavras de perdão, que ele próprio não compreende; e segundo, que em toda a parte ela é feita o objeto de interesse e simpatia, e não é culpa do autor se, em qualquer momento, ela excita sentimentos menos gentis do que aqueles que estamos acostumados a associar com as auto-acusações de uma penitente religiosa sincera. E um público britânico suportou tudo isto? — Eles receberam-no com aplausos que, não fosse a rivalidade das carroças e carruagens de praça, poderiam ter perturbado as orações noturnas da escassa congregação de dias de semana na catedral de St. Paul.

Tempora mutantur, nos et mutamur in illis.

Do quinto ato, a única coisa notável, (pois o palavreado e o disparate, embora abundantes como sempre, já se tornaram coisas banais muito antes do último ato), é a representação profana do altar-mor numa capela, com todos os vasos e outros preparativos para o santo sacramento. Um hino é realmente cantado no palco pelos meninos do coro! Pelo resto, Imogine, que de vez em quando fala de forma delirante, mas que está sempre desorientada na medida em que o seu vestido e cabelo podem fazê-la parecer, vagueia por florestas escuras com rochas de cavernas e precipícios no cenário de fundo; e um número de figurantes mudos move-se para dentro e para fora continuamente, para cuja presença há sempre pelo menos esta razão: que eles proporcionam algo para ser visto, por aquela parte muito grande do público de Drury Lane que tem pouca hipótese de ouvir uma palavra. Ela tinha, ao que parece, levado o seu filho consigo, mas o que acontece com a criança, se ela o assassinou ou não, ninguém pode dizer, ninguém pode saber; era um enigma na representação, e após uma leitura muito atenta da Peça, um enigma permanece.

“Não sei mais, queria saber, E eu diria tudo a ti; Pois o que aconteceu a esta pobre criança Ninguém jamais soube.”

Toda a nossa informação [84] é derivada das seguintes palavras —

“PRIOR. — Onde está a tua criança?

CLOTIL. — (Apontando para a caverna na qual ela olhou) Oh, ele jaz frio dentro do seu túmulo-caverna! Por que a urges com o tema horrível?

PRIOR. — (que não quer, o leitor pode observar, ser privado da sua dose de censura) Era para fazer (pergunta: acordar) uma corda viva do coração, E eu tentarei, embora o meu próprio se quebre com isso. Onde está a tua criança?

IMOG. — (com uma risada frenética) O demónio da floresta arrebatou-o — Ele (quem? o demónio ou a criança?) cavalga o pesadelo através das florestas mágicas.”

Ora, estas duas linhas consistem num plágio sem sentido da loucura fingida de Edgar em Lear, que, imitando os encantamentos ciganos, faz trocadilhos com a antiga palavra mair, uma bruxa; e na não menos sem sentido adoção do demónio da floresta de Dryden, e o riacho mágico pelo qual Milton, no seu Lycidas, caracteriza tão finamente o Deva que se espalha, fabulosus amnis. Observe-se também que estas imagens são únicas nos discursos de Imogine, sem a menor semelhança com qualquer coisa que ela diga antes ou depois. Mas estamos cansados. As personagens neste ato saltam por aqui, por ali e por todo o lado, tão irritantemente como as luzes de fogo-fátuo que rapazes travessos, do outro lado de uma rua estreita, projetam com um espelho nos rostos dos seus vizinhos da frente. Bertram desarmado, superando Herodes em relação a Charles de Moor em Os Salteadores, afronta os cavaleiros reunidos de St. Anselm, (todos em armadura completa) e assim, pela pura força de olhares sombrios, desafia-os a ponto de os transformar em poltrões passivos. A súbita revolução nos modos do Prior já a notámos anteriormente, e é de facto tão outre que vários espectadores imaginaram que um grande segredo estava prestes a ser revelado, a saber: que o Prior era um dos muitos exemplos de um pecador juvenil metamorfoseado num velho resmungão, e que este Bertram apareceria finalmente como sendo o seu filho. Imogine reaparece no convento e morre por vontade própria. Bertram apunhala-se e morre ao lado dela, e para que a peça possa terminar como começou, isto é, numa superfetação de blasfémia sobre disparate, porque ele tinha arrebatado uma espada a um cobarde desprezível, que recua em terror quando esta é apontada para ele por brincadeira; este felo de se e capitão-ladrão — esta confluência repugnante e leprosa de roubo, adultério, homicídio e assassínio cobarde — este monstro, cujo melhor ato é ter poupado os seus superiores da degradação de o enforcarem, ao fazer de Jack Ketch de si mesmo; recomenda primeiro aos caridosos Monges e ao santo Prior que rezem pela sua alma, e depois tem a tolice e a impudência de exclamar —

“Não morro morte de facínora, Uma arma de guerreiro libertou a alma de um guerreiro!”

CAPÍTULO XXIV

CONCLUSÃO

Acontece por vezes que somos punidos pelas nossas faltas por incidentes na causação dos quais essas faltas não tiveram qualquer papel: e esta senti-a sempre como a punição mais severa. A ferida, na verdade, é das mesmas dimensões; mas as bordas são irregulares, e existe uma dor surda e subjacente que sobrevive à picada que ela própria agravou. Pois existe sempre um sentimento consolador que acompanha a perceção de uma proporção entre antecedentes e consequentes. O sentido de Antes e Depois torna-se inteligível e intelectual quando, e apenas quando, contemplamos a sucessão nas relações de Causa e Efeito, que, como os dois polos do íman, manifestam o ser e a unidade do mesmo poder através de opostos relativos, e conferem, por assim dizer, um substrato de permanência, de identidade e, portanto, de realidade, ao fluxo sombrio do Tempo. É a Eternidade revelando-se nos fenómenos do Tempo: e a perceção e o reconhecimento da proporcionalidade e adequação do Presente ao Passado provam à Alma aflita que ela ainda não foi privada da visão de Deus, que ainda pode reconhecer a presença efetiva de um Pai, embora através de um vidro escurecido e de uma atmosfera turva, embora de um Pai que a está a castigar. E por esta causa, sem dúvida, estamos tão formados em mente, e até tão organizados em cérebro e nervos, que toda a confusão é dolorosa. É da experiência de muitos médicos que um paciente, com sintomas estranhos e invulgares de doença, se sentiu mais angustiado mentalmente, mais miserável, pelo facto de ser ininteligível para si próprio e para os outros, do que pela dor ou perigo da doença: aliás, que o paciente recebeu o conforto mais sólido, e retomou uma alegria genial e duradoura, a partir de algum novo sintoma ou produto, que de imediato determinou o nome e a natureza da sua queixa, e a tornou num efeito inteligível de uma causa inteligível: mesmo que a descoberta impedisse no mesmo momento toda a esperança de recuperação. Daqui os teólogos místicos, cujas ilusões podemos esperar com mais confiança separar das suas intuições reais, quando condescendemos em ler as suas obras sem a presunção de que tudo o que a nossa fantasia (sempre o macaco, e demasiadas vezes o adulterador e falsificador da nossa memória) não criou ou não pode criar uma imagem, deve ser disparate — daqui, digo eu, os Místicos juntaram-se ao representar o estado dos espíritos réprobos como um sonho terrível no qual não há sentido de realidade, nem mesmo das agonias que estão a suportar — uma eternidade sem tempo, e por assim dizer abaixo dele — Deus presente sem manifestação da sua presença. Mas estas são profundezas sobre as quais não ousamos deter-nos. Voltemo-nos para um exemplo mais ao nível das simpatias comuns da humanidade. Aqui então, e nesta mesma influência curativa da Luz e do Observar distinto, podemos detetar a causa final daquele instinto que, na grande maioria dos casos, leva, e quase obriga os Aflitos a comunicar as suas mágoas. Daqui flui também o alívio que resulta de “desabafar as nossas mágoas”: que são assim apresentadas em formas distinguíveis em vez da névoa, através da qual tudo o que é informe se torna magnificado e (literalmente) enorme. Casimir, na quinta Ode do seu terceiro Livro, expressou alegremente [85] este pensamento.

Me longus silendi Edit amor, facilesque luctus Hausit medullas. Fugerit ocyus, Simul negantem visere jusseris Aures amicorum, et loquacem Questibus evacuaris iram.

Olim querendo desinimus queri, Ipsoque fletu lacryma perditur Nec fortis [86] aeque, si per omnes Cura volat residetque ramos.

Vires amicis perdit in auribus, Minorque semper dividitur dolor, Per multa permissus vagari Pectora.--

Não farei disto uma desculpa, contudo, para incomodar os meus leitores com quaisquer queixas ou explicações, com as quais, enquanto leitores, eles têm pouca ou nenhuma preocupação. Pode bastar, (pelo menos por agora), declarar que as causas que atrasaram a publicação destes volumes por um período tão longo depois de terem sido impressos, não estavam relacionadas com qualquer negligência da minha parte; e que formariam um comentário instrutivo sobre o capítulo relativo à autoria como profissão, dirigido aos jovens de génio no primeiro volume desta obra. Lembro-me do efeito ridículo produzido na minha mente pela primeira frase de uma autobiografia, que, felizmente para o escritor, era tão escassa em incidentes quanto é possível que seja a vida de um indivíduo — “A vida agitada que estou prestes a registar, desde a hora em que surgi para a existência neste planeta, etc.” Contudo, quando, não obstante este exemplo de aviso sobre a importância própria diante de mim, revejo a minha própria vida, não posso deixar de lhe aplicar o mesmo epíteto, e com mais do que ênfase habitual — e nenhum sentimento privado, que afetasse apenas a mim mesmo, deveria impedir-me de publicar o mesmo, (pois escrevê-lo-ei certamente, caso a vida e o lazer me sejam concedidos), se a reflexão contínua fortalecer a minha crença atual de que a minha história acrescentaria o seu contingente ao reforço de uma verdade importante, a saber, que não devemos apenas amar os nossos vizinhos como a nós mesmos, mas a nós mesmos igualmente como aos nossos vizinhos; e que não podemos fazer nenhum dos dois a menos que amemos a Deus acima de ambos.

Quem vive, que não seja Depravado ou deprave? Quem morre, que não leve Para a sepultura uma ofensa fruto da oferta dos seus amigos?

Por mais estranha que a ilusão possa parecer, é contudo verdade que, há três anos, eu não sabia nem acreditava que tinha um inimigo no mundo: e agora até as minhas sensações mais fortes de gratidão estão misturadas com medo, e recrimino-me por estar demasiadas vezes disposto a perguntar — Tenho um amigo? — Durante os muitos anos que mediaram entre a composição e a publicação de CHRISTABEL, tornou-se quase tão conhecida entre os literatos como se estivesse à venda comum; as mesmas referências eram-lhe feitas, e as mesmas liberdades tomadas com ela, até aos próprios nomes das pessoas imaginárias no poema. De quase todos os nossos poetas mais célebres, e de alguns com quem não tinha qualquer conhecimento pessoal, recebi ou ouvi expressões de admiração que, (posso dizer verdadeiramente), me pareceram absolutamente desproporcionadas a uma obra que não pretendia ser mais do que um Conto de Fadas comum. Muitos, que não tinham atribuído qualquer mérito aos meus outros poemas, quer impressos ou manuscritos, e que francamente mo disseram, abriram uniformemente uma exceção a favor de CHRISTABEL e do poema intitulado AMOR. Ano após ano, e em sociedades dos tipos mais diferentes, fui suplicado para o recitar, e o resultado era sempre o mesmo em todas, e totalmente diferente a este respeito do efeito produzido pela recitação ocasional de quaisquer outros poemas que tinha composto. — Isto antes da publicação. E desde então, com muito poucas exceções, não ouvi nada mais do que abuso, e isto também num espírito de amargura pelo menos tão desproporcionado às pretensões do poema, mesmo que tivesse sido o mais lamentavelmente abaixo da mediocridade, como os elogios anteriores, e muito mais inexplicável. — Isto pode servir como um aviso aos autores de que, nos seus cálculos sobre a receção provável de um poema, devem subtrair uma grande quantidade ao panegírico, que os pode ter encorajado a publicá-lo, por mais insuspeitas e por mais variadas que tenham sido as fontes deste panegírico. E, primeiro, devem ser feitas concessões à inimizade privada, da própria existência da qual eles talvez não tivessem tido qualquer suspeita — à inimizade pessoal por trás da máscara da crítica anónima: segundo, à necessidade de uma certa proporção de abuso e ridículo numa Revista, a fim de torná-la vendável, em consequência do que, se não tiverem amigos nos bastidores, a sorte deve necessariamente estar contra eles; mas por último e principalmente, à excitação e simpatia temporária de sentimento, que a recitação do poema por um admirador, especialmente se ele for simultaneamente um admirador caloroso e um homem de celebridade reconhecida, desperta no público. Pois isto é realmente uma espécie de magnetismo animal, no qual o recitador inflamado, por comentário perpétuo de olhares e tons, empresta a sua própria vontade e faculdade apreensiva aos seus auditores. Eles vivem durante o tempo dentro da esfera dilatada do seu ser intelectual. É igualmente possível, embora não igualmente comum, que um leitor deixado a si mesmo se afunde abaixo do poema, como que o poema deixado a si mesmo esmoreça abaixo dos sentimentos do leitor. — Mas, no meu próprio caso, tive o infortúnio adicional de ter sido alvo de mexericos, como devotado à metafísica, e pior do que tudo, a um sistema incomparavelmente mais próximo dos voos visionários de Platão, e até ao jargão dos Místicos, do que aos dogmas estabelecidos de Locke. Tudo, portanto, que aparecia com o meu nome era condenado de antemão, como metafísica predestinada. Num poema dramático, que tinha sido submetido por mim a um cavalheiro de grande influência no mundo teatral, ocorreu a seguinte passagem: —

“Oh, somos criaturas queixosas! Pouco menos Que todas as coisas podem bastar para nos fazer felizes: E pouco mais que nada é suficiente Para nos tornar miseráveis.”

Sim, agora aqui! (exclamou o crítico) aqui vem a metafísica de Coleridge! E o mesmíssimo motivo (isto é, não que as linhas fossem inadequadas ao estado atual dos nossos imensos teatros; mas que eram metafísica [87]) foi atribuído noutro lugar para a rejeição das duas passagens seguintes. A primeira é dita em resposta a um usurpador, que tinha baseado a sua alegação na circunstância de ter sido escolhido pelas aclamações do povo. —

“Que povo? Como convocado? ou, se convocado, Não deve o poder mágico que atrai Milhões de homens em conselho, ter necessariamente poder Para os conquistar ou manejar? Antes, oh, muito antes Grita os teus títulos para aquelas montanhas circundantes, E com uma reverberação de mil vezes Faz com que as rochas te adulem, e o ar que ecoa, Sem suborno, grite de volta para ti, Rei Emerick! Pelas leis saudáveis para conter o poder soberano, Para aprofundar pela restrição, e pela prevenção Da vontade sem lei para acumular e guiar a cheia No seu canal majestoso, é a tarefa do homem E a glória do verdadeiro patriota! Em tudo o resto Os homens confiam mais seguramente no Céu, do que em si mesmos Quando menos eles próprios: mesmo naquelas multidões giratórias Onde a loucura é contagiosa, e demasiadas vezes Até os homens sábios deixam o seu melhor senso em casa, Para censurá-los e maravilhar-se com eles, quando regressam.”

A segunda passagem está na boca de um cortesão velho e experiente, traído pelo homem em quem mais confiara.

“E contudo Sarolta, simples, inexperiente, Podia vê-lo como ele era, e avisou-me muitas vezes. Onde aprendeu ela isto? — Oh, ela era inocente! E ser inocente é a sabedoria da Natureza! A pomba emplumada conhece os predadores do ar, Temidos assim que vistos, e esvoaça de volta para o abrigo. E o jovem corcel recua sobre os seus jarretes, Ao ouvir pela primeira vez o silvo da víbora nunca antes vista. Oh, mais seguro do que os cem olhos da suspeita É aquele senso fino, que para os puros de coração, Pela mera oposição da sua própria bondade, Revela a aproximação do mal.”

Como, portanto, o meu caráter como escritor não podia facilmente ser mais prejudicado por um ato aberto do que já o fora em consequência do relatório, publiquei uma obra, uma grande parte da qual era declaradamente metafísica. Ocorreu um longo atraso entre o seu primeiro anúncio e o seu aparecimento; foi revista portanto por antecipação com uma malignidade, tão declarada e exclusivamente pessoal, como é, creio eu, sem precedentes até no atual desprezo por toda a humanidade comum que desonra e põe em perigo a liberdade de imprensa. Após o seu aparecimento, o autor deste pasquim encarregou-se de a rever na Edinburgh Review; e sob a única condição de que ele tivesse escrito o que ele próprio realmente pensava, e tivesse criticado a obra como o teria feito se o seu autor lhe fosse indiferente, eu teria escolhido esse homem eu próprio, tanto pelo vigor e pela originalidade da sua mente, como pela sua particular agudeza no raciocínio especulativo, antes de todos os outros. — Lembrei-me das linhas de Catulo.

Desine de quoquam quicquam bene velle mereri, Aut aliquem fieri posse putare pium. Omnia sunt ingrata: nihil fecisse benigne est: Immo, etiam taedet, taedet obestque magis; Ut mihi, quem nemo gravius nec acerbius urget, Quam modo qui me unum atque unicum amicum habuit.

Mas posso dizer verdadeiramente que a dor com que li esta rapsódia de insulto predeterminado, teve o próprio rapsodo como seu objeto único e exclusivo.

* * * * * *

Refiro-me a esta revista atualmente, em consequência de me ter sido dada a informação de que a insinuação da minha “potencial infidelidade”, baseada numa passagem do meu primeiro Sermão Leigo, foi recebida e propagada com um grau de credulidade, do qual posso seguramente absolver o autor da calúnia. Dou as frases, tal como estão no sermão, premissando apenas que eu falava exclusivamente de milagres operados para os sentidos exteriores dos homens. “Foi apenas para derrubar a usurpação exercida nos e através dos sentidos, que se apelou milagrosamente aos sentidos. A RAZÃO E A RELIGIÃO SÃO A SUA PRÓPRIA EVIDÊNCIA. O sol natural é a este respeito um símbolo do espiritual. Antes de estar plenamente erguido, e enquanto as suas glórias estão ainda sob véu, ele chama a brisa para afastar os vapores usurpadores da época noturna, e converte assim o ar próprio no ministro da sua própria purificação: não certamente em prova ou elucidação da luz do céu, mas para evitar a sua interceção.”

“Onde quer que, portanto, circunstâncias semelhantes coexistam com as mesmas causas morais, os princípios revelados, e os exemplos registados, nos escritos inspirados, tornam os milagres supérfluos: e se negligenciarmos aplicar verdades na expectativa de maravilhas, ou sob pretexto da cessação destas últimas, tentamos a Deus, e merecemos a mesma resposta que o nosso Senhor deu aos Fariseus numa ocasião semelhante.”

No sermão e nas notas, tanto a verdade histórica como a necessidade dos milagres são forte e frequentemente afirmadas. “O testemunho dos livros de história (isto é, relativamente aos sinais e maravilhas, com que Cristo veio) é um dos pilares fortes e majestosos da igreja: mas não é o fundamento!” Em vez, portanto, de me defender, o que poderia facilmente efetuar por uma série de passagens, expressando a mesma opinião, dos Padres e dos mais eminentes Divinos Protestantes, desde a Reforma até à Revolução, declararei meramente qual é a minha crença, concernente às verdadeiras evidências do Cristianismo. 1. A sua consistência com a Racionalidade correta, considero-a como o pátio exterior do templo — a área comum, dentro da qual ele se encontra. 2. Os milagres, com e através dos quais a Religião foi revelada e atestada pela primeira vez, considero-os como os degraus, o vestíbulo e o portal do templo. 3. O sentido, o sentimento interior, na alma de cada crente da sua extrema desejabilidade — a experiência, de que ele precisa de algo, juntado com o forte presságio, de que a redenção e as graças propostas a nós em Cristo são o que ele precisa — isto considero ser o verdadeiro fundamento do edifício espiritual. Com a forte probabilidade a priori que flui de 1 e 3 sobre a correspondente evidência histórica de 2, nenhum homem pode recusar ou negligenciar fazer a experiência sem culpa. Mas, 4, é a experiência derivada de uma conformidade prática com as condições do Evangelho — é o olho que se abre; a luz que amanhece: os terrores e as promessas do crescimento espiritual; a bem-aventurança de amar a Deus como Deus, o sentido nascente do pecado odiado como pecado, e da incapacidade de alcançar qualquer um sem Cristo; é a tristeza que ainda se levanta de baixo e a consolação que a encontra de cima; as traições íntimas do principal na guerra e a extrema fidelidade e longanimidade do aliado desinteressante; — numa palavra, é o teste real da fé em Cristo, com os seus acompanhamentos e resultados, que deve formar o teto arqueado, e a fé em si mesma é a chave de abóbada completadora. Para uma crença eficiente no Cristianismo, um homem deve ter sido um Cristão, e este é o aparente argumentum in circulo, incidente a todas as Verdades espirituais, a todo o assunto não apresentável sob as formas de Tempo e Espaço, enquanto tentamos dominar pelos atos reflexos do Entendimento o que só podemos conhecer pelo ato de nos tornarmos. Fazei a vontade do meu Pai, e sabereis se sou de Deus. Estas quatro evidências acredito terem sido e ainda serem, para o mundo, para toda a Igreja, todas necessárias, todas igualmente necessárias: mas presentemente, e para a maioria dos Cristãos nascidos em países Cristãos, acredito que a terceira e a quarta evidências sejam as mais operativas, não como substituindo mas como envolvendo uma fé alegre e sem dúvidas nas duas primeiras. Credidi, ideoque intellexi, parece-me o ditame igualmente da Filosofia e da Religião, tal como acredito que a Redenção é o antecedente da Santificação, e não o seu consequente. Todos os predicados espirituais podem ser construídos indiferentemente como modos de Ação ou como estados de Ser. Assim, Santidade e Bem-aventurança são a mesma ideia, vista agora em relação ao ato e agora à existência. A crença pronta que foi cedida à calúnia da minha “potencial infidelidade”, atribuo-a em parte à abertura com que confessei as minhas dúvidas, se o pesado interdito, sob o qual o nome de Benedict Spinoza jaz, é merecido no todo ou em toda a extensão. Seja como for, desejo, contudo, que pudesse encontrar nos livros de filosofia, teórica ou moral, que são os únicos recomendados aos atuais estudantes de teologia nas nossas escolas estabelecidas, algumas passagens tão profundamente Paulinas, tão completamente de acordo com as doutrinas da Igreja Estabelecida, como as frases seguintes na página final da Ética de Spinoza. Deinde quo mens hoc amore divino, seu beatitudine magis gaudet, eo plus intelligit, hoc est, eo majorem in affectus habet potentiam, et eo minus ab affectibus, qui mali sunt, patitur; atque adeo ex eo, quod mens hoc amore divino, seu beatitudine gaudet, potestatem habet libidines coercendi; et quia humana potentia ad coercendos affectus in solo intellectu consistit; ergo nemo beatitudine gaudet, quia affectus coercuit, sed contra potestas libidines coercendi ex ipsa beatitudine oritur.

Quanto aos Unitarianos, tem sido desavergonhadamente afirmado que neguei serem eles Cristãos. Deus me livre! Pois como saberia eu qual possa ser a piedade do coração, ou que quantum de erro no entendimento possa ser compatível com uma fé salvadora nas intenções e disposições reais de todo o ser moral em qualquer indivíduo? Jamais Deus rejeitará uma alma que sinceramente O ama: sejam quais forem suas opiniões especulativas: e se, em qualquer caso dado, certas opiniões — sejam descrença ou crença errônea — são compatíveis com um amor sincero a Deus, só Deus pode saber. Mas isto eu disse, e continuarei a dizer: que, se as doutrinas, cuja soma acredito constituir a verdade em Cristo, são o Cristianismo, então o Unitarianismo não o é, e vice-versa: e que, ao falar teológica e impessoalmente, isto é, do Psilantropismo e do Teantropismo como sistemas de crença, sem referência aos indivíduos que professam um ou outro, seria absurdo usar uma linguagem diferente enquanto for um ditame do senso comum que dois opostos não podem ser propriamente chamados pelo mesmo nome. Eu não me sentiria ofendido se um Unitariano aplicasse o mesmo a mim, tanto quanto se ele dissesse que, sendo dois e dois quatro, quatro e quatro devem ser oito.

alla broton ton men keneophrones auchai ex agathon ebalon; ton d’ au katamemphthent’ agan ischun oikeion paresphalen kalon, cheiros elkon opisso, thumos atolmos eon.

Este tem sido o meu objetivo, e apenas isto pode ser a minha defesa — e oh! que com isto a minha vida pessoal, assim como a minha VIDA LITERÁRIA, pudesse concluir! — refiro-me ao desejo inextinguível, não sem a consciência de ter tentado fervorosamente despertar mentes jovens, e de as proteger contra as tentações dos escarnecedores, mostrando que o sistema do Cristianismo, tal como ensinado na liturgia e nas homilias da nossa Igreja, embora não descoberto pela razão humana, está, contudo, em conformidade com ela; que elo segue elo por consequência necessária; que a Religião passa para fora do alcance da Razão apenas onde o olho da Razão atingiu o seu próprio horizonte; e que a Fé é então apenas a sua continuação: assim como o dia se suaviza no doce crepúsculo, e o crepúsculo, silencioso e sem fôlego, rouba para a escuridão. É noite, sagrada noite! O olho erguido contempla apenas o céu estrelado que se manifesta sozinho: e o olhar exterior fixa-se nas centelhas que cintilam na profundidade terrível, embora sóis de outros mundos, apenas para preservar a alma firme e recolhida no seu puro ato de adoração interior ao grande EU SOU, e ao VERBO filial que o reafirma da eternidade à eternidade, cujo eco coral é o universo.

THEO, MONO, DOXA.

NOTAS DE RODAPÉ

[Nota de rodapé 1: A autoridade de Milton e Shakespeare pode ser utilmente apontada a jovens autores. Em Comus e outros poemas antigos de Milton, há uma superfluidade de epítetos duplos; enquanto no Paraíso Perdido encontramos muito poucos, no Paraíso Reconquistado quase nenhum. A mesma observação é quase igualmente verdadeira para Trabalhos de Amor Perdidos, Romeu e Julieta, Vênus e Adônis e Lucrécia, comparados com o Lear, Macbeth, Otelo e Hamlet do nosso grande Dramaturgo. A regra para a admissão de epítetos duplos parece ser esta: ou que já sejam habitantes da nossa língua, tais como manchado de sangue, aterrorizado, que a si mesmo se aplaude: ou quando um novo epíteto, ou um encontrado apenas em livros, é arriscado, que ele, pelo menos, seja uma palavra, não duas palavras feitas uma pela mera virtude do hífen do impressor. Uma língua que, como o inglês, é quase sem casos, é de fato, em seu próprio gênio, inadequada para compostos. Se um escritor, toda vez que uma palavra composta lhe ocorre, buscasse algum outro modo de expressar o mesmo sentido, as chances são sempre muito favoráveis a que ele encontre uma palavra melhor. Ut tanquam scopulum sic fugias insolens verbum, é o sábio conselho de César aos Oradores Romanos, e o preceito aplica-se com força dobrada aos escritores em nossa própria língua. Mas não deve ser esquecido que o mesmo César escreveu um Tratado com o propósito de reformar a linguagem comum, trazendo-a para uma maior conformidade com os princípios da lógica ou gramática universal.]

[Nota de rodapé 2: Ver as críticas sobre o Ancient Mariner, nas Monthly e Critical Reviews do primeiro volume das Lyrical Ballads.]

[Nota de rodapé 3: Isto é digno de ser classificado como uma máxima (regula maxima) da crítica. O que quer que seja traduzível em outras e mais simples palavras da mesma língua, sem perda de sentido ou dignidade, é ruim. N.B. — Por dignidade quero dizer a ausência de associações ridículas e degradantes.]

[Nota de rodapé 4: A frase do Christ’s Hospital, não para feriados inteiramente, mas para aqueles em que os meninos têm permissão para ir além dos limites da escola.]

[Nota de rodapé 5: Lembro-me de um exemplo ridículo no poema de um jovem comerciante:

“Não mais suportarei a dor prazerosa do amor, Ou em volta da perna do meu coração atarei sua corrente degradante.”]

[Nota de rodapé 6: O Task de Cowper foi publicado algum tempo antes dos Sonetos do Sr. Bowles; mas eu não estava familiarizado com ele até muitos anos depois. A veia de sátira que percorre aquele excelente poema, juntamente com o tom sombrio de suas opiniões religiosas, teria, provavelmente, naquela época, impedido que ele tivesse uma forte influência sobre as minhas afeições. O amor à natureza parece ter levado Thomson a uma religião alegre; e uma religião sombria parece ter levado Cowper a um amor pela natureza. Um levaria seus semelhantes consigo para a natureza; o outro foge para a natureza de seus semelhantes. Na castidade da dicção, contudo, e na harmonia do verso branco, Cowper deixa Thomson imensamente abaixo de si; ainda assim, sinto que este último foi o poeta nato.]

[Nota de rodapé 7: SONETO I

Pensativo ao cair da tarde, sobre o mundo duro meditei, E meu pobre coração estava triste; então para a Lua Olhei e suspirei, e suspirei; pois ah, quão cedo A tarde entristece na noite! meus olhos perscrutaram Com vacuidade lacrimosa a grama úmida Que chorava e brilhava no raio pálido E pausei em meu caminho solitário E meditei sobre os miseráveis que passam Pela charneca desolada da tristeza. Mas ai! Mais de mim mesmo pensei! quando aconteceu, Que o espírito suave do bosque brando Soprou em meu ouvido: “Tudo isto é muito bom, Mas muito de uma coisa, não é para nada bom.” Oh, o inexplicável inchaço do meu pobre coração!

SONETO II

Oh, eu te amo, mansa Simplicidade! Pois de teus versos a simplicidade calmante Vai ao meu coração, e suaviza cada pequena angústia, Angústia pequena, ainda que talvez grande para mim. É verdade que no passo mais gentil da Dama Fortuna Eu caminho; e ainda assim não sei por que Tão triste estou! mas se um amigo e eu Franzirmos a testa, fizermos biquinho e nos separarmos, então fico muito triste. E então com sonetos e com simpatia Meus pesares místicos do peito sonhador eu acalmo: Agora do meu falso amigo lamentando lastimosamente, Agora delirando contra a humanidade em geral; Mas seja triste ou feroz, é tudo simples, Tudo muito simples, mansa Simplicidade!

SONETO III

E esta casa arruinada é aquela, a qual ele construiu, Lamentado Jack! e aqui o seu malte ele empilhou, Cauteloso em vão! estes ratos, que guincham tão selvagens, Não guincham inconscientes da culpa de seu pai. Não a viu ele brilhando através da clareira! Talvez fosse ela, a donzela toda desamparada. O que se ela não ordenha a vaca com chifre torto, Ainda assim, ela sempre assombra o vale onde antes errava: E sempre, ao lado dela, espreita seu amante cavaleiro Ainda em suas coxas seus costumeiros calções são usados, E através desses calções, ainda esfarrapados e rasgados, Seus encantos traseiros brilham de um branco sobrenatural. Ah! assim através de nuvens quebradas ao meio-dia da noite Espreita para fragmentos justos a lua cheia da colheita!]

[Nota de rodapé 8: --

Das coisas antigas todas estão velhas demais, Das coisas boas nenhuma é boa o suficiente;-- Mostraremos que podemos ajudar a moldar Um mundo de outro material.

Eu também terei meus reis, que tiram De mim o sinal de vida e morte: Reinos se moverão, como nuvens, Obedientes ao meu sopro. Rob Roy de Wordsworth.--Poet. Works, vol. III. p. 127.]

[Nota de rodapé 9: Pope estava sob o erro comum de sua época, um erro longe de ser suficientemente explodido até os dias atuais. Consiste (como expliquei amplamente, e provei em detalhes em minhas palestras públicas,) em confundir com os fundamentos do palco grego certas regras, que os sábios poetas impuseram a si mesmos, a fim de tornar todas as partes restantes do drama consistentes com aquelas que lhes haviam sido impostas por circunstâncias independentes de sua vontade; das quais circunstâncias o próprio drama surgiu. As circunstâncias no tempo de Shakespeare, que estava igualmente fora de seu poder alterar, eram diferentes, e tais que, na minha opinião, permitiam uma esfera muito mais ampla, e um interesse mais profundo e humano. Os críticos são muito propensos a esquecer que as regras são apenas meios para um fim; consequentemente, onde os fins são diferentes, as regras devem ser igualmente assim. Devemos ter determinado qual é o fim, antes de podermos determinar quais devem ser as regras. Julgando sob esta impressão, não hesitei em declarar minha plena convicção de que o julgamento consumado de Shakespeare, não apenas na construção geral, mas em todos os detalhes de seus dramas, impressionou-me com maior admiração do que até mesmo o poder de seu gênio, ou a profundidade de sua filosofia. O conteúdo dessas palestras espero publicar em breve; e é apenas uma dívida de justiça para comigo e meus amigos notar que o primeiro curso de palestras, que diferia dos cursos seguintes apenas por variar ocasionalmente as ilustrações dos mesmos pensamentos, foi endereçado a públicos muito numerosos, e não preciso acrescentar, respeitáveis, na Royal Institution, antes que o Sr. Schlegel desse suas palestras sobre os mesmos assuntos em Viena.]

[Nota de rodapé 10: No decorrer de uma de minhas Palestras, tive a ocasião de apontar a posição e a escolha quase impecáveis das palavras, nas composições originais de Pope, particularmente em suas Sátiras e Ensaios morais, com o propósito de compará-las com sua tradução de Homero, que, não estou sozinho em considerar, como a principal fonte de nossa dicção pseudo-poética. E isto, a propósito, é uma confirmação adicional de uma observação feita, creio eu, por Sir Joshua Reynolds, que depois do homem que forma e eleva o gosto do público, aquele que o corrompe é comumente o maior gênio. Entre outras passagens, analisei sentença por sentença, e quase palavra por palavra, as linhas populares,

Como quando a lua, lâmpada refulgente da noite, etc. (Iliada. B. viii.)

quase da mesma maneira que foi feito desde então, em um excelente artigo sobre os British Poets de Chalmers na Quarterly Review. A impressão no público em geral foi súbita e evidente: e vários esclarecidos e altamente educados, que em diferentes momentos depois me abordaram sobre o assunto, expressaram seu espanto de que uma verdade tão óbvia não lhes tivesse ocorrido antes; mas ao mesmo tempo reconheceram--(tão acostumados estavam eles, ao ler poesia, a receber prazer das imagens e frases separadas sucessivamente, sem se perguntarem se o significado coletivo era sentido ou disparate)--que eles poderiam com toda a probabilidade ter lido a mesma passagem novamente vinte vezes com admiração inabalada, e sem uma única vez refletir, que

astra phaeinaen amphi selaenaen phainet aritretea--

(isto é, as estrelas ao redor, ou perto da lua cheia, brilham de forma preeminente) transmite uma imagem justa e feliz de um céu enluarado: enquanto é difícil determinar se, nas linhas,

Ao redor de seu trono os planetas vívidos rolam, E estrelas incontáveis douram o pólo brilhante,

o sentido ou a dicção é o mais absurdo. Minha resposta foi; que, embora eu tivesse derivado vantagens peculiares da minha disciplina escolar, e embora minha teoria geral da poesia fosse a mesma então e agora, eu ainda tinha experimentado as mesmas sensações e senti quase como se tivesse sido recém-operado, quando, pela conversa do Sr. Wordsworth, fui levado a reexaminar com imparcial severidade a célebre Elegia de Gray. Eu há muito detectara os defeitos em The Bard; mas a Elegia eu considerava à prova de todos os ataques justos; e até hoje não consigo ler nenhum dos dois sem deleite, e uma porção de entusiasmo. De qualquer forma, qualquer prazer que eu possa ter perdido pela percepção mais clara das falhas em certas passagens, foi mais do que recompensado pelo prazer adicional com que li o restante.

Outro exemplo em confirmação dessas observações ocorre-me na Faithful Shepherdess. Seward rastreia primeiro as linhas de Fletcher;

Mais doenças imundas do que jamais o quente Sol gerou através de suas queimaduras, enquanto o cão Persegue o leão enfurecido, lançando o nevoeiro E o vapor mortal de seu hálito irado, Enchendo o mundo inferior com praga e morte,

para o Shepherd’s Calendar de Spenser,

O leão desenfreado ele caça rapidamente Com cães de hálito nojento; Cujo latido funesto traz, com pressa, Pinho, pragas, e morte lúgubre!

Ele então aproveita a ocasião para introduzir o símile de Homero da aparência da armadura de Aquiles para Príamo comparada com a Estrela do Cão; literalmente assim--

“Pois isto de fato é o mais esplêndido, mas foi feito um sinal maligno, e traz muitas doenças consumidoras aos mortais miseráveis.” Nada pode ser mais simples como descrição, ou mais preciso como símile; o que (diz Seward) é assim finamente traduzido pelo Sr. Pope

Glória Terrífica! pois seu hálito ardente Contamina o ar vermelho com febres, pragas, e morte!

Agora aqui--(para não mencionar a tremenda grandiloquência)--a Estrela do Cão, assim chamada, é transformada em um cão real, um cão muito estranho, um fogo, febre, praga, e hálito que respira morte, um cão que contamina o ar vermelho: e toda a semelhança visual é perdida, enquanto a semelhança nos efeitos é tornada absurda pelo exagero. Em Spenser e Fletcher o pensamento é justificável; pois as imagens são pelo menos consistentes, e era a intenção dos escritores marcar as estações por esta alegoria de trocadilhos visualizados.]

[Nota de rodapé 11: Especialmente nesta era de personalidade, esta era de fofocas literárias e políticas, quando os insetos mais vis são adorados com uma espécie de superstição egípcia, se apenas a cabeça sem cérebro for expiada pelo ferrão da malignidade pessoal na cauda;--quando as sátiras mais insípidas se tornaram objetos de um interesse público agudo, puramente pelo número de personagens contemporâneos nomeados nas notas de retalhos, (que possuem, no entanto, o mérito comparativo de serem mais poéticas que o texto,) e porque, para aumentar o estímulo, o autor sagazmente deixou seu próprio nome para sussurros e conjecturas.]

[Nota de rodapé 12: Se valesse a pena misturar, como ingredientes, metade das anedotas que eu mesmo sei serem verdadeiras, ou que recebi de homens incapazes de falsidade intencional, sobre os caracteres, qualificações e motivos de nossos críticos anônimos, cujas decisões são oráculos para o nosso público leitor; eu poderia seguramente tomar emprestadas as palavras do Daniel apócrifo; “Dá-me licença, ó SOBERANO PÚBLICO, e eu matarei este dragão sem espada ou cajado.” Pois o composto seria como o “betume, e gordura, e cabelo, que Daniel pegou, e ferveu-os juntos, e fez pedaços deles; isto ele colocou na boca do dragão, e assim o dragão explodiu em pedaços; e Daniel disse, EIS, ESTES SÃO OS DEUSES QUE ADORAIS.”]

[Nota de rodapé 13: Este é um exemplo entre muitos de decepção, por contar a metade de um fato, e omitir a outra metade, quando é de sua contra-ação e neutralização mútua que toda a verdade surge, como um tertium aliquid diferente de qualquer um. Assim na famosa linha de Dryden

Grande inteligência (significando gênio) à loucura certamente está próxima.

Agora, se a profunda sensibilidade, que é sem dúvida um dos componentes do gênio, fosse considerada isoladamente, única e desequilibrada, poderia ser justamente descrita como expondo o indivíduo a uma chance maior de desequilíbrio mental; mas então uma rapidez de associação mais do que usual, um poder mais do que usual de passar de pensamento para pensamento, e de imagem para imagem, é um componente igualmente essencial; e na devida modificação de cada um pelo outro consiste o gênio em si; de modo que seria tão justo descrever a terra como em perigo iminente de exorbitar, ou de cair no sol, dependendo de o declarante do absurdo confinar sua atenção ou à força de projeção ou à força atrativa exclusivamente.]

[Nota de rodapé 14: Pois quanto aos devotos das bibliotecas circulantes, não ouso elogiar seu passatempo, ou melhor, passa-tempo, com o nome de leitura. Chame-o antes de uma espécie de devaneio de mendigo, durante o qual a mente do sonhador não fornece para si nada além de preguiça, e um pouco de sensibilidade enjoativa; enquanto todo o material e imagética da soneca é suprido ab extra por uma espécie de câmara escura mental fabricada na tipografia, que pro tempore fixa, reflete e transmite os fantasmas móveis do delírio de um homem, de modo a povoar a esterilidade de cem outros cérebros aflitos com o mesmo transe ou suspensão de todo o senso comum e todo propósito definido. Deveríamos, portanto, transferir esta espécie de diversão--(se é que se pode dizer que aqueles se retiram a musis, que nunca estiveram em sua companhia, ou que o relaxamento é atribuível àqueles cujos arcos nunca estão tensos)--do gênero, leitura, para aquela classe abrangente caracterizada pelo poder de reconciliar as duas propensões contrárias, porém coexistentes, da natureza humana, a saber, indulgência da preguiça e ódio da vacuidade. Além de romances e contos de cavalaria em prosa ou rima, (pelo que último não quero dizer nem ritmo nem métrica) este gênero compreende como suas espécies, jogo, balançar, ou oscilar em uma cadeira ou portão; cuspir sobre uma ponte; fumar; tomar rapé; brigas tête-à-tête após o jantar entre marido e mulher; decorar palavra por palavra todos os anúncios de um jornal diário em um pub em um dia chuvoso, etc. etc. etc.]

[Nota de rodapé 15: Ex. gr. Pediculos e capillis excerptos in arenam jacere incontusos; comer fruta verde; olhar para as nuvens, e (in genere) para coisas móveis suspensas no ar; cavalgar entre uma multidão de camelos; riso frequente; ouvir uma série de piadas e anedotas humorísticas,--como quando (para modernizar o significado do sábio Sarraceno) a história engraçada de um homem sobre um irlandês inevitavelmente causa a história engraçada de outro sobre um escocês, que novamente, pelo mesmo tipo de conjunção disjuntiva, leva a alguma etourderie de um galês, e essa novamente a algum golpe sutil de um habitante de Yorkshire;--o hábito de ler lápides em cemitérios, etc. A propósito, este catálogo, por mais estranho que possa parecer, não é insuscetível de um comentário psicológico sólido.]

[Nota de rodapé 16: Arrisquei chamá-la de única; não apenas porque não conheço obra do gênero em nossa língua, (se excetuarmos alguns capítulos da antiga tradução de Froissart)--nenhuma, que unindo os encantos do romance e da história, mantém a imaginação tão constantemente em voo, e ainda assim deixa tanto para reflexão posterior; mas também, e principalmente, porque é uma compilação que, nas várias excelências de tradução, seleção e arranjo, exigiu e prova um gênio maior no compilador, vivendo no estado atual da sociedade, do que nos compositores originais.]

[Nota 17: Não é fácil estimar os efeitos que o exemplo de um jovem, tão distinto pela pureza estrita de caráter e conduta quanto pelo poder intelectual e conhecimentos literários, pode produzir sobre aqueles da mesma idade, especialmente sobre aqueles de ocupações semelhantes e mentes afins. Por muitos anos, minhas oportunidades de convívio com o Sr. Southey foram raras e em longos intervalos; mas detenho-me com prazer inabalado na influência forte e repentina, embora creio não passageira, que meu ser moral sofreu ao conhecê-lo em Oxford, para onde eu havia ido, no início de nossas férias de Cambridge, em visita a um antigo colega de escola. Não, na verdade, sobre meus princípios morais ou religiosos, pois estes nunca haviam sido contaminados; mas ao despertar o senso do dever e da dignidade de fazer com que minhas ações estivessem de acordo com esses princípios, tanto em palavra quanto em ato. As irregularidades, apenas não universais entre os jovens de minha condição, que eu sempre soube serem erradas, aprendi então a sentir como degradantes; aprendi a saber que uma conduta oposta, que naquela época era considerada por nós como a virtude fácil da prudência fria e egoísta, poderia originar-se das emoções mais nobres, de visões as mais desinteressadas e imaginativas. Não é, contudo, apenas por lembranças gratas que fui impelido a deixar assim registrados estes meus sentimentos deliberados; mas, em certo sentido, como uma dívida de justiça ao homem cujo nome tem sido tão frequentemente associado ao meu para o mal, que lhe é estranho. Como amostra, acrescento parte de uma nota de The Beauties of the Anti-jacobin, na qual, tendo informado previamente ao público que eu havia sido desonrado em Cambridge por pregar o deísmo, num momento em que, por meu ardor juvenil em defesa do cristianismo, eu era difamado como um fanático pelos prosélitos da filosofia (ou, para falar mais verdadeiramente, psi-losofia) francesa, o autor conclui com estas palavras: “desde este momento ele deixou seu país natal, tornou-se cidadão do mundo, deixou seus pobres filhos órfãos de pai, e sua esposa na miséria. Ex his disce his friends, LAMB and SOUTHEY.” Com a mais severa verdade pode ser afirmado que não seria fácil selecionar dois homens mais exemplares em suas afeições domésticas do que aqueles cujos nomes foram assim impressos por extenso como estando no mesmo nível moral que um infiel denunciado e fugitivo, que deixara seus filhos órfãos de pai e sua esposa na miséria! É de surpreender que muitos homens bons tenham permanecido por mais tempo do que talvez teriam permanecido de outra forma, adversos a um partido que encorajava e recompensava abertamente os autores de tais calúnias atrozes? Qualis es, nescio; sed per quales agis, scio et doleo.]

[Nota 18: Em opiniões de longa data, e nas quais nunca antes fomos perturbados por uma única dúvida, ser subitamente convencido de um erro é quase como ser condenado por uma falha. Existe um estado de espírito que é a antítese direta daquele que ocorre quando cometemos um disparate. O disparate, nomeadamente, consiste em trazer à tona dois pensamentos incompatíveis, com a sensação, mas sem o sentido, de sua conexão. A condição psicológica, ou aquilo que constitui a possibilidade deste estado, é uma vivacidade tão desproporcional de dois pensamentos distantes, que extingue ou obscurece a consciência das imagens ou concepções intermediárias, ou abstrai totalmente a atenção delas. Assim, no conhecido disparate: “Eu era uma criança bonita, mas eles me trocaram”: a primeira concepção expressa na palavra “Eu” é a da identidade pessoal — Ego contemplans: a segunda, expressa na palavra “me”, é a imagem visual ou objeto pelo qual a mente representa a si mesma sua condição passada, ou melhor, sua identidade pessoal sob a forma na qual imaginou a si mesma ter existido previamente — Ego contemplatus. Ora, a troca de uma imagem visual por outra não envolve em si absurdo algum, e torna-se absurda apenas por sua imediata justaposição com o primeiro pensamento, o que é tornado possível pela atenção total ser absorvida sucessivamente por cada um separadamente, de modo a não notar a noção interjacente, trocado, que, por sua incongruência com o primeiro pensamento, Eu, constitui o disparate. Acrescente-se apenas que este processo é facilitado pela circunstância de as palavras Eu e me serem, por vezes, equivalentes e, por vezes, terem um significado distinto; por vezes, nomeadamente, significando o ato de autoconsciência, por vezes a imagem externa na qual e pela qual a mente representa esse ato a si mesma, o resultado e símbolo de sua individualidade. Agora, suponha o estado diretamente contrário, e você terá um sentido distinto da conexão entre duas concepções, sem aquela sensação de tal conexão que é fornecida pelo hábito. O homem sente como se estivesse de cabeça para baixo, embora não possa deixar de ver que está verdadeiramente de pé sobre seus pés. Isto, como uma sensação dolorosa, terá naturalmente uma tendência a associar-se àquele que a ocasiona; assim como pessoas que foram restauradas da alienação mental por meios dolorosos são conhecidas por sentirem uma aversão involuntária em relação ao seu médico.]

[Nota 19: Sem, contudo, as apreensões atribuídas ao reformador pagão da república poética. Se pudermos julgar pelo prefácio da recente coleção de seus poemas, o Sr. W. teria respondido com Xanthias —

su d’ ouk edeisas ton huophon ton rhaematon, kai tas apeilas; XAN, ou ma Di’, oud’ ephrontisa. — Ranae, 492-3.

E aqui, deixe-me dar uma dica aos autores das numerosas paródias e pretensas imitações do estilo do Sr. Wordsworth, de que ocultar e transmitir simultaneamente inteligência e sabedoria sob a aparência de tolice e estupidez, como é feito nos Palhaços e Tolos, ou mesmo no Dogberry, de nosso Shakespeare, é sem dúvida uma prova de gênio, ou, de qualquer modo, de talento satírico; mas que a tentativa de ridicularizar um poema tolo e infantil escrevendo outro ainda mais tolo e ainda mais infantil, só pode provar (se é que prova alguma coisa) que o parodista é um idiota ainda maior que o escritor original e, o que é muito pior, um presunçoso maligno de brinde. O talento para a imitação parece ser mais forte onde a raça humana é mais degradada. Os pobres e nus selvagens semihumanos da Nova Holanda foram considerados excelentes imitadores: e, na sociedade civilizada, apenas mentes do nível mais baixo satirizam copiando. Pelo menos a diferença, que deve misturar-se e equilibrar a semelhança para constituir uma imitação justa, existindo aqui meramente em caricatura, detrai do coração do difamador, sem acrescentar um iota ao crédito de seu entendimento.]

[Nota 20: —

A Borboleta os antigos gregos fizeram O belo emblema da alma, e seu único nome — Mas da alma, escapada ao comércio escravo Da vida mortal! Pois a esta estrutura terrena Nossa é a sorte do réptil, muito trabalho, muita censura, Múltiplos movimentos fazendo pouca velocidade, E deformar e matar as coisas das quais nos alimentamos.]

[Nota 21: O Sr. Wordsworth, mesmo em seus dois primeiros poemas, The Evening Walk e Descriptive Sketches, está mais livre deste último defeito do que a maioria dos jovens poetas seus contemporâneos. Pode, contudo, ser exemplificado, juntamente com a construção áspera e obscura em que ele mais frequentemente ofendeu, nas seguintes linhas: —

“’Mid stormy vapours ever driving by, Where ospreys, cormorants, and herons cry; Where hardly given the hopeless waste to cheer, Denied the bread of life the foodful ear, Dwindles the pear on autumn’s latest spray, And apple sickens pale in summer’s ray; Ev’n here content has fixed her smiling reign With independence, child of high disdain.”

Espero não precisar dizer que citei estas linhas sem outro propósito que não o de tornar meu significado plenamente compreendido. É de lamentar que o Sr. Wordsworth não tenha republicado estes dois poemas na íntegra.]

[Nota 22: Isto é efetuado dando a uma palavra um uso geral e à outra um uso exclusivo; como “pôr nas costas” e “endossar”; ou por uma distinção real de significados, como “naturalista” e “médico”; ou por diferença de relação, como “Eu” e “Mim” (cada um dos quais os rústicos de nossas diferentes províncias ainda usam em todos os casos singulares do primeiro pronome pessoal). Mesmo a simples diferença, ou corrupção, na pronúncia da mesma palavra, se se tornou geral, produzirá uma nova palavra com uma significação distinta; assim, “propriedade” e “propriedade” (no sentido de decoro); a última das quais, até o tempo de Carlos II, era a palavra escrita para todos os sentidos de ambas. Existe uma espécie de ínfimo imortal entre os animalículos infusórios, que não possui naturalmente nascimento ou morte, início absoluto ou fim absoluto: pois em um certo período um pequeno ponto aparece em suas costas, que se aprofunda e se alonga até que a criatura se divide em duas, e o mesmo processo recomeça em cada uma das metades que agora se tornaram integrais. Este pode ser um emblema fantasioso, mas de modo algum é um mau emblema da formação das palavras, e pode facilitar a concepção de quão imensa nomenclatura pode ser organizada a partir de alguns sons simples por seres racionais em um estado social. Pois cada nova aplicação, ou excitação do mesmo som, evocará uma sensação diferente, que não pode deixar de afetar a pronúncia. As lembranças posteriores do som, sem a mesma sensação vívida, modificá-lo-ão ainda mais até que, finalmente, todo vestígio da semelhança original seja desgastado.]

[Nota 23: Eu deveria ter acrescentado, com a exceção de uma única folha com a qual me deparei acidentalmente na impressora. Mesmo a partir desta escassa amostra, achei impossível duvidar do talento, ou não admirar a engenhosidade, do autor. Que suas distinções fossem, em sua maior parte, insatisfatórias para minha mente, não prova nada contra a sua precisão; mas pode possivelmente ser útil a ele, em caso de uma segunda edição, se eu aproveitar esta oportunidade para sugerir a questão: se ele não teria sido ocasionalmente induzido ao erro por ter assumido, como me parece ter feito, a inexistência de quaisquer sinônimos absolutos em nossa língua? Ora, não posso deixar de pensar que existem muitos que permanecem para nossa posteridade distinguir e apropriar, e que considero como tanta riqueza reversível em nossa língua materna. Quando dois significados distintos são confundidos sob uma ou mais palavras — (e tal deve ser o caso, tão certo quanto nosso conhecimento é progressivo e, naturalmente, imperfeito) — consequências errôneas serão tiradas, e o que é verdadeiro em um sentido da palavra será afirmado como verdadeiro in toto. Homens de pesquisa, assustados pelas consequências, buscam nas próprias coisas — (seja dentro ou fora da mente) — pelo conhecimento do fato e, tendo descoberto a diferença, removem o equívoco, seja pela substituição de uma nova palavra, ou pela apropriação de uma das duas ou mais palavras que antes eram usadas promiscuamente. Quando esta distinção se naturalizou e é de tal circulação geral que a língua, por assim dizer, pensa por nós — (como a régua de cálculo, que é o substituto seguro do mecânico para o conhecimento aritmético) — dizemos então que é evidente ao senso comum. O senso comum, portanto, difere em diferentes épocas. O que nasceu e foi batizado nas Escolas passa gradualmente para o mundo em geral e torna-se propriedade do mercado e da mesa de chá. Pelo menos não consigo descobrir nenhum outro significado para o termo senso comum, se ele deve transmitir qualquer diferença específica do senso e juízo in genere, e onde não é usado escolasticamente para a razão universal. Assim, no reinado de Carlos II, o mundo filosófico foi chamado às armas pelos sofismas morais de Hobbes, e os escritores mais capazes exerceram-se na detecção de um erro que um estudante de escola agora seria capaz de refutar pela mera lembrança de que compulsão e obrigação transmitiam duas ideias perfeitamente díspares, e que o que pertencia a uma havia sido falsamente transferido para a outra por uma mera confusão de termos.]

[Nota 24: Uso aqui a palavra ideia no sentido do Sr. Hume por causa de sua circulação geral entre os metafísicos ingleses; embora contra meu próprio julgamento, pois acredito que o uso vago desta palavra tem sido a causa de muito erro e mais confusão. A palavra ideia, em seu sentido original, como usada por Píndaro, Aristófanes e no Evangelho de São Mateus, representava a abstração visual de um objeto distante, quando vemos o todo sem distinguir suas partes. Platão adotou-a como termo técnico e como antítese a eidolon, ou imagem sensível; o emblema transitório e perecível, ou palavra mental, da ideia. As ideias em si ele considerava como poderes misteriosos, vivos, seminais, formativos e isentos do tempo. Neste sentido, a palavra Ideia tornou-se propriedade da escola platônica; e raramente ocorre em Aristóteles sem alguma frase anexa, como segundo Platão, ou como diz Platão. Nossos escritores ingleses, até o fim do reinado de Carlos II ou um pouco mais tarde, empregavam-na no sentido original, ou platonicamente, ou em um sentido quase correspondente ao nosso uso atual do substantivo Ideal; sempre, contudo, opondo-o, mais ou menos, à imagem, seja de objetos presentes ou ausentes. O leitor não ficará desgostoso com a seguinte exemplificação interessante do Bispo Jeremy Taylor. “São Luís, o Rei, enviou Ivo, Bispo de Chartres, em uma embaixada, e ele contou que encontrou uma matrona grave e imponente no caminho com um incensário de fogo em uma mão e um vaso de água na outra; e observando que ela tinha um comportamento e olhar melancólicos, religiosos e fantásticos, ele perguntou-lhe o que significavam aqueles símbolos, e o que ela pretendia fazer com seu fogo e sua água; ela respondeu: Meu propósito é, com o fogo, queimar o paraíso, e com minha água, extinguir as chamas do inferno, para que os homens possam servir a Deus puramente por amor a Deus. Mas raramente encontramos tais espíritos que amam a virtude tão metafisicamente a ponto de abstraí-la de todas as composições sensíveis e amar a pureza da ideia.” Descartes, tendo introduzido em sua filosofia a hipótese fantasiosa das ideias materiais, ou certas configurações do cérebro que eram como tantos moldes para os influxos do mundo externo — Locke adotou o termo, mas estendeu sua significação a qualquer coisa que seja o objeto imediato da atenção ou consciência da mente. Hume, distinguindo aquelas representações que são acompanhadas por um senso de um objeto presente daquelas reproduzidas pela própria mente, designou as primeiras por impressões e confinou a palavra ideia às últimas.]

[Nota 25: Estou ciente de que esta palavra não ocorre nem no Dicionário de Johnson nem em nenhum escritor clássico. Mas a palavra, intender (to intend), que Newton e outros antes dele empregam neste sentido, está agora tão completamente apropriada a outro significado que eu não poderia usá-la sem ambiguidade: enquanto para parafrasear o sentido, como por tornar intenso, frequentemente quebraria a frase e destruiria aquela harmonia da posição das palavras com a posição lógica dos pensamentos, que é uma beleza em toda composição, e especialmente desejável em uma investigação filosófica rigorosa. Arrisquei, portanto, a palavra intensificar (intensify): embora confesse que soa estranha ao meu próprio ouvido.]

[Nota 26: E os presunçosos vencem Berkeley com um sorriso.]

[Nota 27: Videlicet: Quantidade, Qualidade, Relação e Modo, consistindo cada um em três subdivisões. Ver Kritik der reinen Vernunft. Ver também as observações judiciosas sobre Locke e Hume.]

[Nota 28: São Lucas x. 21.]

[Nota 29: Um índio americano, com pouca variedade de imagens e um estoque de linguagem ainda mais escasso, é obrigado a voltar suas poucas palavras para muitos propósitos, por semelhanças tão claras e analogias tão remotas a ponto de dar à sua língua a aparência e o caráter de poesia lírica entremeada com grotescos. Algo não muito diferente disso foi o caso de homens como Behmen e Fox com relação à Bíblia. Era seu único arsenal de expressões, seu único órgão de pensamento.]

[Nota 30: A seguinte sátira sobre o Egoísmo de Fichte pode, talvez, ser divertida para os poucos que estudaram o sistema, e para aqueles que não estão familiarizados com ele, pode transmitir uma semelhança tão tolerável do idealismo de Fichte quanto se pode esperar de uma caricatura declarada.

O Imperativo Categórico, ou a anunciação do novo Deus teutônico, EGOENKAIPAN: uma ode ditirâmbica, por QUERKOPF VON KLUBSTICK, gramático e sub-reitor em ginásio.

Eu! Dei vices gerens, ipse Divus, (Fale inglês, Amigo!) o Deus Imperativus, Aqui nesta cruz do mercado em voz alta clamo: Eu, Eu, Eu! O próprio Eu, Eu! A forma e a substância, o quê e o porquê, O quando e o onde, e o baixo e o alto, O dentro e o fora, a terra e o céu, Eu, você e ele, e ele, você e eu, Todas as almas e todos os corpos são o próprio Eu, Eu! Tudo o próprio Eu, Eu! (Tolos! uma trégua com este sobressalto!) Todo o meu Eu! todo o meu Eu! Ele é um cão herético quem apenas acrescenta Betty Martin! Assim clamou o Deus com tom imperial elevado; Em veste de estado mais rígida, que zombava da beleza, Um pronome-verbo imperativo ele brilhava — Então substantivo e plural-singular tornado Ele assim prosseguiu! Contemplai em Eu somente (Pois a ética ostenta uma sintaxe própria) Ou se em vós, contudo como Eu vos deputo, Em O! Eu, você, o vocativo do dever! Eu de todo o Léxico do mundo a raiz! De todo o universo do toque, som, visão O genitivo e ablativo de brinde: O acusativo do erro, o nominativo do direito, E em todos os casos o caso absoluto! Auto-construído, Eu declino todos os outros modos: Imperativo, do nada nos derivamos; Contudo, como um super-postulado meu, Antecedência não construída eu atribuo A X, Y, Z, o Deus Infinitivus!]

[Nota 31: Seria um ato de alta e quase criminosa injustiça passar em silêncio o nome do Sr. Richard Saumarez, um cavalheiro igualmente bem conhecido como médico e como filantropo, mas que exige atenção nesta ocasião como autor de “A new System of Physiology” em dois volumes em oitavo, publicado em 1797; e em 1812 de “An Examination of the natural and artificial Systems of Philosophy which now prevail” em um volume em oitavo, intitulado “The Principles of physiological and physical Science”. A última obra não é inteiramente igual à primeira em estilo ou arranjo; e há uma maior necessidade de distinguir os princípios da filosofia do autor de suas conjecturas sobre a cor, a matéria atmosférica, cometas, etc., que, sejam justas ou errôneas, não são de modo algum consequências necessárias dessa filosofia. Contudo, mesmo neste departamento deste volume, que considero como a obra comparativamente inferior, os raciocínios pelos quais o Sr. Saumarez invalida a imanência de um poder infinito em qualquer substância finita são fruto de uma mente nada comum; e o experimento sobre a expansibilidade do ar é pelo menos plausível e altamente engenhoso. Mas o mérito, que garantirá tanto ao livro quanto ao escritor um nome alto e honroso com a posteridade, consiste na força magistral de raciocínio e na copiosidade de indução com que ele atacou e (em minha opinião) subverteu a tirania do sistema mecânico na fisiologia; estabeleceu não apenas a existência de causas finais, mas sua necessidade e eficiência para todo sistema que merece o nome de filosófico; e, substituindo a vida e o poder progressivo pela força inerte contraditória, tem o direito de ser conhecido e lembrado como o primeiro instaurador da filosofia dinâmica na Inglaterra. As visões do autor, no que lhe diz respeito, não são tomadas de empréstimo e são completamente suas, pois ele não possuía, nem seus escritos descobrem, o menor conhecimento das obras de Kant, nas quais os germes da filosofia existem: e seus volumes foram publicados muitos anos antes do pleno desenvolvimento desses germes por Schelling. A detecção do sistema braunoniano pelo Sr. Saumarez não foi um serviço leve ou comum na época; e dificilmente me lembro em qualquer obra sobre qualquer assunto de uma refutação tão completamente satisfatória. É suficiente neste momento ter declarado o fato; como no prefácio da obra que já anunciei sobre o Logos, exibi em detalhes os méritos deste escritor e filósofo genuíno, que precisava apenas ter tomado sua base um pouco mais profunda e larga para ter substituído uma parte considerável de meus trabalhos.]

[Nota 32: Não fossem por várias notas sobre Shakespeare e outros escritos que me caíram às mãos, teria considerado desnecessário observar que discurso, aqui ou alhures, não significa o que agora chamamos de discorrer, mas a discursão da mente, os processos de generalização e subsunção, de dedução e conclusão. Assim, a Filosofia tem sido até agora discursiva; ao passo que a Geometria é sempre e essencialmente intuitiva.]

[Nota 33: Apocalipse xx. 3.]

[Nota 34: Ver a História da Escócia de Laing - Os bardos, baladas, etc., de Walter Scott.]

[Nota 35: Assim, a organização e o movimento são considerados como procedentes de Deus, não em Deus.]

[Nota 36: Jó, cap. xxviii.]

[Nota 37: Onde A=B e A não é =B forem igualmente demonstráveis, a premissa em cada um inegável, a indução evidente e a conclusão legítima — o resultado deve ser, ou que contrários podem ambos ser verdadeiros (o que é absurdo), ou que a faculdade e as formas de raciocínio empregadas são inaplicáveis ao assunto — isto é, que há um metabasis eis allo genos. Assim, os atributos de Espaço e tempo aplicados ao Espírito são heterogêneos — e a prova disso é que, admitindo-os explícita ou implicitamente, contrários podem ser demonstrados como verdadeiros — isto é, que a mesma coisa, tomada no mesmo sentido, é verdadeira e não verdadeira. — Que o mundo teve um início no Tempo e um limite no Espaço; e Que o mundo não teve um início e não tem limite; — Que um ato que se origina a si mesmo é, e não é possível, são exemplos.]

[Nota 38: Para aqueles que planejam adquirir a língua de um país no próprio país, pode ser útil se eu mencionar a vantagem incalculável que obtive ao aprender todas as palavras que poderiam ser aprendidas dessa forma, com os objetos diante de mim, e sem a intermediação dos termos ingleses. Era uma parte regular dos meus estudos matinais durante as primeiras seis semanas da minha residência em Ratzeburg acompanhar o bom e gentil velho pastor, com quem eu morava, da adega ao telhado, através de jardins, pátios de fazenda, etc., e chamar cada coisa, por mais minúscula que fosse, pelo seu nome em alemão. Anúncios, farsas, livros de piadas e a conversa das crianças enquanto eu brincava com elas contribuíram com sua parte para um conhecimento mais familiar da língua do que eu poderia ter adquirido apenas com obras de literatura polida, ou mesmo com a sociedade polida. Há uma passagem de bom senso vigoroso na Carta alemã de Lutero sobre a interpretação, à tradução da qual prefixarei, em benefício daqueles que leem o alemão, mas que dificilmente se aprofundaram nos maciços fólios deste heróico reformador, as palavras simples, nervosas e idiomáticas do original. “Denn man muss nicht die Buchstaben in der Lateinischen Sprache fragen wie man soll Deutsch reden: sondern man muss die Mutter in Hause, die Kinder auf den Gassen, den gemeinen Mann auf dem Markte, darum fragen: und denselbigen auf das Maul sehen wie sie reden, und darnach dolmetschen. So verstehen sie es denn, und merken dass man Deutsch mit ihnen redet.”

TRADUÇÃO:

Pois não se deve perguntar às letras na língua latina como se deve falar alemão; mas deve-se perguntar à mãe em casa, às crianças nas vielas e becos, ao homem comum no mercado a esse respeito; sim, e observar o movimento de suas bocas enquanto estão falando, e depois interpretar. Eles então o compreendem e notam que se fala alemão com eles.]

[Nota 39: Esta paráfrase, escrita por volta da época de Carlos Magno, não carece de forma alguma de passagens ocasionais de considerável mérito poético. Há uma fluidez e um terno entusiasmo nas linhas seguintes (na conclusão do Capítulo XI) que, mesmo na tradução, não deixará, lisonjeio-me, de interessar ao leitor. Ottfried descreve as circunstâncias imediatamente posteriores ao nascimento de nosso Senhor.

Ela deu com alegria o seu seio virgem; Ela não o escondeu, ela expôs o seio, Que amamentou aquele bebê diviníssimo! Benditos, benditos foram os seios Que o infante Salvador beijou; E bendita, bendita foi a mãe Que envolveu seus membros em faixas, Cantando colocou-o em seu colo, Inclinou-se sobre ele com seus olhares de amor, E acalmou-o com um movimento de embalo. Bendita; pois ela o abrigou Do ar úmido e frio; Bendita, bendita! pois ela deitou Com tal bebê em um leito bendito, Tão perto quanto bebês e mães se deitam! Bendita, bendita para todo o sempre, Com seus lábios virgens ela beijou, Com seus braços, e para o seu seio Ela abraçou o bebê divino, Seu bebê divino a mãe virgem! Não vive neste anel da terra Um mortal que possa cantar o seu louvor. Poderosa mãe, virgem pura, Na escuridão e na noite Por nós ela deu à luz o Senhor celestial!

É interessantíssimo considerar o efeito quando os sentimentos são elevados acima do tom natural pela crença em algo misterioso, enquanto todas as imagens são puramente naturais. É então que a religião e a poesia atingem mais profundamente.]

[Nota 40: Lord Grenville reafirmou recentemente (na Câmara dos Lordes) o perigo iminente de uma revolução na fase inicial da guerra contra a França. Não duvido que Sua Senhoria seja sincero; e deve ser lisonjeiro para seus sentimentos acreditar nisso. Mas onde estão as evidências do perigo às quais um futuro historiador pode recorrer? Ou deve ele apoiar-se em uma afirmação? Permita-me extrair uma passagem sobre o assunto de The Friend. “Eu disse que, para resistir aos argumentos dos sem lei, os anti-jacobinos propuseram suspender a lei e, pela interposição de um estatuto particular, eclipsar a luz abençoada do sol universal, para que espiões e informantes pudessem tiranizar e escapar na escuridão sinistra. Oh! se esses homens equivocados, inebriados pelo alarme e desnorteados por aquele pânico da propriedade, que eles próprios foram os principais agentes em excitar, tivessem vivido em um país onde realmente existisse uma disposição geral para a mudança e a rebelião! Se tivessem viajado pela Sicília; ou pela França no início da revolução; ou mesmo, ai de mim!, por muitas das províncias de uma ilha irmã; não poderiam deixar de recuar diante de suas próprias declarações sobre o estado de sentimento e opinião predominante na época em toda a Grã-Bretanha. Houve um tempo — (que o Céu conceda que esse tempo tenha passado!) — em que, ao atravessar um estreito canal, poderiam ter aprendido os verdadeiros sintomas do perigo iminente e se protegido de confundir as reuniões e o discurso ocioso de tal sedição, que recuava horrorizada diante da visão de um oficial de justiça, com o terrível murmúrio e a estranha consternação que precede a tempestade ou o terremoto da discórdia nacional. Não apenas em cafés e teatros públicos, mas até nas mesas dos ricos, teriam ouvido os defensores do Governo existente defender sua causa na linguagem e com o tom de homens que estão conscientes de que são uma minoria. Mas na Inglaterra, quando o alarme estava no auge, não havia cidade, não, nem mesmo uma vila ou aldeia, na qual um homem suspeito de sustentar princípios democráticos pudesse andar ao ar livre sem receber alguma prova desagradável do ódio com que suas supostas opiniões eram mantidas pela grande maioria do povo; e os únicos exemplos de excesso popular e indignação eram do lado do governo e da igreja estabelecida. Mas por que preciso recorrer a esses fatos odiosos? Folheie as páginas da história e busque um único exemplo de uma revolução que tenha sido efetuada sem a concordância dos nobres, ou dos eclesiásticos, ou das classes abastadas, em qualquer país em que as influências da propriedade tivessem sido predominantes e onde os interesses dos proprietários estivessem interligados! Examine a revolução das províncias belgas sob Filipe II; as guerras civis da França na geração anterior; a história da revolução americana, ou os eventos ainda mais recentes na Suécia e na Espanha; e será quase impossível não perceber que na Inglaterra, de 1791 até a paz de Amiens, não havia tendências a confederações nem confederações reais contra as quais as leis existentes não tivessem fornecido salvaguardas suficientes e um punição ampla. Mas, ai de mim!, o pânico da propriedade foi desencadeado inicialmente por propósitos partidários; e quando se tornou geral, seus propagadores o contraíram e terminaram acreditando em sua própria mentira; assim como nossos touros em Borrowdale às vezes enlouquecem com o eco de seu próprio mugido. As consequências foram muito prejudiciais. Nossa atenção estava concentrada em um monstro que não poderia sobreviver às convulsões nas quais havia sido gerado — até mesmo o iluminado Burke falava e raciocinava, muitas vezes, como se uma anarquia perpétua e organizada fosse uma coisa possível! Assim, enquanto guerreávamos contra as doutrinas francesas, pouco nos importava se os meios pelos quais tentávamos derrubá-las não ajudariam e aumentariam o mal muito mais formidável da ambição francesa. Como crianças, fugimos do latido de um vira-lata e nos refugiamos nas patas de um cavalo de guerra vicioso.” (Vol. II. Ensaio i. p. 21, 4ª ed.)]

[Nota 41: Raramente penso no assassinato deste ilustre Príncipe sem recordar os versos de Valério Flaco:

------super ipsius ingens Instat fama viri, virtusque haud laeta tyranno; Ergo anteire metus, juvenemque exstinguere pergit. Argonaut, I. 29.]

[Nota 42: --

Theara de kai ton chaena kai taen dorkada, Kai ton lagoon, kai to ton tauron genos. Manuel Phile, De Animal. Proprietat. sect. I. i. 12.]

[Nota 43: Paraíso Reconquistado. Livro IV. I. 261.]

[Nota 44: Vita e Costumi di Dante.]

[Nota 45: TRADUÇÃO: “Evite a autoria com a maior solicitude possível. Empregada cedo demais ou imoderadamente, faz a cabeça definhar e o coração esvaziar; mesmo que não houvesse outras consequências piores. Uma pessoa que lê apenas para imprimir, com toda a probabilidade, lê mal; e aquele que envia através da caneta e da imprensa cada pensamento, no momento em que lhe ocorre, terá em pouco tempo enviado tudo embora, e se tornará um mero jornaleiro da tipografia, um compositor.”

Ao que posso acrescentar, por minha própria conta, que o que os fisiologistas médicos afirmam sobre certas secreções aplica-se igualmente aos nossos pensamentos; eles também devem ser retomados na circulação e ser re-secretados repetidamente para garantir um vigor saudável, tanto para a mente quanto para sua prole intelectual.]

[Nota 46: Esta distinção entre transcendental e transcendente é observada pelos nossos antigos teólogos e filósofos sempre que se expressam escolasticamente. O Dr. Johnson, de fato, confundiu as duas palavras; mas suas próprias autoridades não o sustentam. Sobre este célebre dicionário, arriscarei remarkar, de uma vez por todas, que suspeitaria de um homem de disposição morosa que falasse dele sem respeito e gratidão como um livro muito instrutivo e divertido, e até agora, infelizmente, um livro indispensável; mas confesso que ficaria surpreso ao ouvir de um estudioso filosófico e completo quaisquer elogios que não fossem muito qualificados a ele, como dicionário. Não estou aludindo agora ao número de palavras genuínas omitidas; pois isso é (e talvez em maior extensão) verdade, como o Sr. Wakefield notou, dos nossos melhores Léxicos Gregos, e isso também após os sucessivos trabalhos de tantos gigantes do saber. Refiro-me no momento tanto a omissões quanto a comissões de uma natureza mais importante. O que são elas, me saltem judice, será declarado na íntegra em The Friend, republicado e completado.

Eu nunca tinha ouvido falar da correspondência entre Wakefield e Fox até ver o relato dela esta manhã (16 de setembro de 1815) na Monthly Review. Fiquei não pouco gratificado ao descobrir que o Sr. Wakefield havia proposto para si mesmo quase o mesmo plano para um Dicionário Grego e Inglês que eu havia formado, e comecei a executar, agora dez anos atrás. Mas muito, muito mais entristecido fico por ele não ter vivido para completá-lo. Não posso deixar de considerar um assunto de muito sério pesar que o mesmo gasto pesado, que agora está sendo empregado na republicação de STEPHANUS aumentado, não tivesse sido aplicado a um novo Léxico em um plano mais filosófico, com os sinônimos em inglês, alemão e francês, bem como o latim. Em quase todos os casos, o significado individual preciso poderia ser dado em uma palavra em inglês ou alemão; ao passo que em latim devemos, muitas vezes, nos contentar com um mero termo geral e inclusivo. Como, de fato, poderia ser de outra forma, quando tentamos traduzir a língua mais copiosa do mundo, a mais admirável pela fineza de suas distinções, para uma das línguas mais pobres e vagas? Especialmente quando refletimos sobre o número comparativo das obras, ainda existentes, escritas quando o grego e o latim eram línguas vivas. Se me perguntassem o que eu considerava o maior e mais puro benefício que um indivíduo rico, ou uma associação de indivíduos ricos, poderia conceder ao seu país e à humanidade, eu não hesitaria em responder: “um dicionário inglês filosófico; com os sinônimos gregos, latinos, alemães, franceses, espanhóis e italianos, e com índices correspondentes”. Que as línguas eruditas poderiam, assim, ser adquiridas melhor, na metade do tempo, é apenas uma parte, e não a parte mais importante, das vantagens que adviriam de tal obra. Oh! se fosse permitido pela Providência que, sem prejuízo à liberdade e à independência, nosso governo pudesse ser capaz de se tornar mais do que um comitê para guerra e receita! Houve um tempo em que tudo deveria ser feito pelo Governo. Não voamos para o extremo oposto?]

[Nota 47: Abril de 1825. Se eu não visse com meus próprios olhos, eu não acreditaria que teria sido culpado de tantos Touros hidrostáticos que mugem nesta infeliz alegoria ou sequência de metáforas! Como um rio viajaria montanha acima a partir de um vale muito interior, sobre as montanhas intervenientes, Morfeu, o tecelão de sonhos, pode apenas decifrar. Estou envergonhado e humilhado. S. T. Coleridge.]

[Nota 48: Enéada, III. 8. 3. A força do grego sunienai é imperfeitamente expressa por “entender”; nossa própria expressão idiomática “acompanhar-me” aproxima-se mais dela. A passagem que se segue, cheia de sentido profundo, parece-me evidentemente corrupta; e, de fato, nenhum escritor precisa mais, merece melhor ou é menos provável que obtenha uma nova e mais correta edição-ti oun sunienai; oti to genomenon esti theama emon, siopaesis (mallem, theama, emon sioposaes,) kai physei genomenon theoraema, kai moi genomenae ek theorias taes odi, taen physin echein philotheamona uparkei. (mallem, kai moi hae genomenae ek theorias autaes odis). “O que então devemos entender? Que tudo o que é produzido é uma intuição, eu silencioso; e aquilo que é assim gerado é, por sua natureza, um teorema, ou forma de contemplação; e o nascimento que resulta para mim desta contemplação atinge ter uma natureza contemplativa.” Assim Sinesio:

‘Odis hiera ‘Arraeta gona

A comparação posterior do processo da natura naturans com a do geômetra é tirada do próprio coração da filosofia.]

[Nota 49: Isso é felizmente efetuado em três linhas por Sinesio, em seu TERCEIRO HINO:

‘En kai Pan’ta-- (tomado por si só) é o Espinosismo. ‘En d’ ’Apan’ton-- uma mera Anima Mundi. ‘En te pro panton-- é o Teísmo mecânico.

Mas una todos os três, e o resultado é o Teísmo de São Paulo e do Cristianismo. Sinesio foi censurado por sua doutrina da pré-existência da alma; mas nunca, que eu saiba, processado ou considerado herege por seu Panteísmo, embora nem Giordano Bruno nem Jacob Behmen o tenham professado de forma mais ampla.

Mystas de Noos, Ta te kai ta legei, Buthon arraeton Amphichoreuon. Su to tikton ephus, Su to tiktomenon; Su to photizon, Su to lampomenon; Su to phainomenon, Su to kryptomenon Idiais augais. ‘En kai panta, ‘En kath’ heauto, Kai dia panton.

O Panteísmo, portanto, não é necessariamente irreligioso ou herético; embora possa ser ensinado de forma ateísta. Assim, Espinosa concordaria com Sinesio em chamar Deus de Physis en Noerois, a Natureza nas Inteligências; mas ele não poderia subscrever o Nous kai noeros anterior, isto é, Ele mesmo Inteligência e inteligente.

Neste esboço biográfico da minha vida literária, posso ser desculpado se mencionar aqui que eu havia traduzido os oito Hinos de Sinesio do grego para anacreônticos ingleses antes dos meus quinze anos.]

[Nota 50: Ver Schell. Abhandl. zur Erlaeuter. des Id. der Wissenschafslehre.]

[Nota 51: Des Cartes, Diss. de Methodo.]

[Nota 52: A impossibilidade de uma coisa absoluta (substantia unica) como nem gênero, nem espécie, nem indivíduo: bem como sua total inaptidão para a posição fundamental de um sistema filosófico, será demonstrada na crítica ao Espinosismo no quinto tratado da minha Logosophia.]

[Nota 53: É digno de nota que, na primeira revelação de si mesmo, não confinada a indivíduos; de fato, na própria primeira revelação de seu ser absoluto, Jeová revelou ao mesmo tempo a verdade fundamental de toda filosofia, que deve ou começar com o absoluto, ou não ter um começo fixo; isto é, deixar de ser filosofia. Não posso deixar de expressar meu pesar por, no uso equívoco da palavra that (que), por in that (em que), ou because (porque), nossa admirável versão ter tornado a passagem suscetível a uma interpretação degradada na mente de leitores ou ouvintes comuns, como se fosse uma mera repreensão a uma pergunta impertinente, Eu sou o que sou, o que poderia ser igualmente afirmado de si mesmo por qualquer ser existente.

O Cogito ergo sum cartesiano é questionável, porque ou o Cogito é usado extra gradum, e então está envolvido no sum e é tautológico; ou é tomado como um modo ou dignidade particular, e então é subordinado ao sum como a espécie ao gênero, ou melhor, como uma modificação particular ao sujeito modificado; e não pré-ordenado como os argumentos parecem exigir. Pois Cogito é Sum Cogitans. Isso é claro pela falta de evidência da recíproca. Cogitat, ergo est é verdadeiro, porque é uma mera aplicação da regra lógica: Quicquid in genere est, est et in specie. Est (cogitans), ergo est. É uma cerejeira; portanto, é uma árvore. Mas est, ergo cogitat é ilógico: pois quod est in specie, non NECESSARIO in genere est. Pode ser verdade. Considero verdadeiro que quicquid vere est, est per veram sui affirmationem; mas é uma verdade derivada, não imediata. Aqui, então, temos, por antecipação, a distinção entre o EU finito condicional! (que, como conhecido na consciência distinta por ocasião da experiência, é chamado pelos seguidores de Kant de empírico!) e o EU SOU absoluto, e também a dependência ou melhor, a inerência do primeiro no último; em quem “vivemos, e nos movemos, e existimos”, como São Paulo afirma divinamente, diferindo muito dos Teístas da escola mecânica (como Sir J. Newton, Locke e outros) que devem dizer de quem tivemos nosso ser, e com ele a vida e os poderes da vida.]

[Nota 54: TRADUÇÃO. “Daqui fica claro, por qual causa muitos rejeitam a noção do contínuo e do infinito. Eles tomam, a saber, as palavras irrepresentável e impossível em um e o mesmo sentido; e, de acordo com as formas de evidência sensível, a noção do contínuo e do infinito é sem dúvida impossível. Não estou aqui defendendo a causa dessas leis, que não poucas escolas acharam por bem explodir, especialmente a primeira (a lei da continuidade). Mas é da maior importância advertir o leitor de que aqueles que adotam um modo de raciocínio tão pervertido estão sob um erro grave. Tudo o que se opõe aos princípios formais do entendimento e da razão é confessadamente impossível; mas não, por conseguinte, aquilo que não é acessível às formas de evidência sensível, porque é exclusivamente um objeto de puro intelecto. Pois essa não coincidência do sensível e do intelectual (cuja natureza exporei em breve) não prova nada mais do que o fato de que a mente nem sempre pode representar adequadamente ao concreto, e transformar em imagens distintas, noções abstratas derivadas do puro intelecto. Mas essa contradição, que é em si mesma meramente subjetiva (isto é, uma incapacidade na natureza humana), passa muitas vezes por uma incongruência ou impossibilidade no objeto (isto é, as próprias noções), e seduz o incauto a confundir as limitações das faculdades humanas com os limites das coisas, como realmente existem.”]

Aproveito esta ocasião para observar que, aqui e alhures, Kant usa o termo intuição (intuition) e o verbo ativo (intueri, germanice anschauen), para o qual infelizmente não temos palavra correspondente, exclusivamente para aquilo que pode ser representado no espaço e no tempo. Ele, portanto, coerente e corretamente, nega a possibilidade de intuições intelectuais. Mas, como não vejo razão adequada para este sentido exclusivo do termo, reverti à sua significação mais ampla, autorizada pelos nossos teólogos e metafísicos mais antigos, segundo os quais o termo compreende todas as verdades conhecidas por nós sem um meio.

Do Tratado de Kant De mundi sensibilis et intelligibilis forma et principiis. 1770.]

[Nota de rodapé 55: Franc. Baconis de Verulam, NOVUM ORGANUM.]

[Nota de rodapé 56: Esta expressão, a priori, é, em geral, grosseiramente mal compreendida, e como absurdo sobre ela recai, o que não merece. Por conhecimento a priori, não queremos dizer que podemos conhecer algo anteriormente à experiência, o que seria uma contradição em termos; mas que, tendo-o conhecido uma vez por ocasião da experiência (isto é, algo agindo sobre nós de fora), sabemos então que deve ter existido, ou a própria experiência teria sido impossível. Pela experiência apenas agora sei que tenho olhos; mas então minha razão convence-me de que devo ter tido olhos para a experiência.]

[Nota de rodapé 57: Jer. Taylor’s Via Pacis.]

[Nota de rodapé 58: Par. Lost. Livro V. I. 469.]

[Nota de rodapé 59: Leibnitz. Op. T. II. P. II. p. 53.--T. III. p. 321.]

[Nota de rodapé 60: Synesii Episcop. Hymn. III. I. 231]

[Nota de rodapé 61: 'Anaer morionous, uma expressão que tomei emprestada de um monge grego, que a aplica a um Patriarca de Constantinopla. Eu poderia ter dito que a recuperei, em vez de tomá-la emprestada: pois parece pertencer a Shakespeare, de jure singulari, et ex privilegio naturae.]

[Nota de rodapé 62: Publicado pela primeira vez em 1803.]

[Nota de rodapé 63: Estes pensamentos foram sugeridos a mim durante a leitura dos Madrigais de Giovambatista Strozzi, publicados em Florença em maio de 1593, por seus filhos Lorenzo e Filippo Strozzi, com uma dedicatória ao seu tio paterno, Signor Leone Strozzi, Generale delle battaglie di Santa Chiesa. Como não me lembro de ter visto os poemas ou seu autor mencionados em qualquer obra inglesa, ou de tê-los encontrado em qualquer das coleções comuns de poesia italiana; e como a pequena obra é de rara ocorrência; transcreverei alguns espécimes. Raramente encontrei composições que possuíssem, em minha opinião, mais daquela totalidade satisfatória, daquela adequação completa da maneira à matéria que tanto nos encanta em Anacreonte, unida à ternura e a mais do que a delicadeza de Catulo. Por mais triviais que sejam, foram provavelmente elaborados com grande cuidado; contudo, ao lê-los, atribuímo-los a uma energia espontânea e não a um esforço voluntário. Para um gosto cultivado, há um deleite na perfeição por si mesma, independentemente do material em que se manifesta, que ninguém, exceto um gosto cultivado, pode compreender ou apreciar.

Após o que apresentei, pareceria presunção oferecer uma tradução; mesmo que a tentativa não fosse desencorajada pelo gênio diferente da mente e da língua inglesas, que exige um corpo de pensamento mais denso como condição de um alto polimento do que o italiano. Não posso deixar de considerar também uma vantagem na língua italiana, em muitos outros aspectos inferior à nossa, que a linguagem da poesia é mais distinta daquela da prosa do que entre nós. Desde o surgimento precoce e a primazia estabelecida dos poetas toscanos, concorrendo com o número de estados independentes e a diversidade de dialetos escritos, os italianos ganharam um idioma poético, como os gregos antes deles haviam obtido pelas mesmas causas com distinções maiores e mais variadas; por exemplo, o jônico para seus versos heroicos; o ático para seu iâmbico; e os dois modos do dórico para o lírico ou sacerdotal, e o pastoral, cujas distinções eram sem dúvida mais óbvias para os próprios gregos do que para nós.

Arriscarei adicionar outra observação antes de prosseguir para a transcrição. Estou ciente de que os sentimentos que confessei a respeito dos pontos de diferença entre a poesia da era atual e a do período entre 1500 e 1650 são o inverso da opinião comumente mantida. Eu conversava sobre este assunto com um amigo, quando a criada, uma mulher digna e sensata, entrando, coloquei diante dela duas gravuras, uma uma placa cor-de-rosa da época, a outra uma gravura magistral de Salvator Rosa a partir de um de seus próprios quadros. Ao pressioná-la para nos dizer qual ela preferia, após um pouco de rubor e agitação de sentimentos, ela respondeu: "Ora, essa, senhor, com certeza!" (apontando para a mercadoria das lojas de gravuras da Fleet-street); --"é tão limpa e elegante. A outra é uma coisa tão rabiscada e desleixada." Um artista, cujos escritos são pouco menos valiosos do que seus quadros, e a cuja autoridade será concedida mais deferência do que eu poderia até desejar que fosse mostrada à minha, nos disse, e também por sua própria experiência, que o bom gosto deve ser adquirido e, como todas as outras coisas boas, é o resultado do pensamento e do estudo submisso dos melhores modelos. Se for perguntado: "Mas o que devo considerar como tal?"--a resposta é: presuma que são os melhores aqueles cuja reputação foi amadurecida em fama pelo consentimento dos séculos. Pois a sabedoria sempre tem uma maioria final, se não por convicção, ainda assim por aquiescência. Além de Sir J. Reynolds, posso mencionar Harris de Salisbury, que em uma de suas dissertações filosóficas escreveu sobre os meios de adquirir um gosto justo com a precisão de Aristóteles e a elegância de Quintiliano.

MADRIGALI.

Gelido suo ruscel chiaro, e tranquillo M’insegno Amor di state a mezzo’l giorno; Ardean le solve, ardean le piagge, e i colli. Ond’ io, ch’ al piu gran gielo ardo e sfavillo, Subito corsi; ma si puro adorno Girsene il vidi, che turbar no’l volli: Sol mi specchiava, e’n dolce ombrosa sponda Mi stava intento al mormorar dell’ onda.

Aure dell’ angoscioso viver mio Refrigerio soave, E dolce si, che piu non mi par grave Ne’l ardor, ne’l morir, anz’ il desio; Deh voil ghiaccio, e le nubi, e’l tempo rio Discacciatene omai, che londa chiara, E l’ombra non men cara A scherzare, a cantar per suoi boschetti, E prati festa et allegrezza alletti.

Pacifiche, ma spesso in amorosa Guerra co’fiori, e l’erba Alla stagione acerba Verdi insegne del giglio e della rosa, Movete, Aure, pian pian; che tregua o posa, Se non pace, io ritrove; E so ben dove:--Oh vago, a mansueto Sguardo, oh labbra d’ambrosia, oh rider, lieto!

Hor come un scoglio stassi, Hor come un rio se’n fugge, Ed hor crud’ orsa rugge, Hor canta angelo pio: ma che non fassi! E che non fammi, O sassi, O rivi, o belue, o Dii, questa mia vaga Non so, se ninfa, o magna, Non so, se donna, o Dea, Non so, se dolce o rea?

Piangendo mi baciaste, E ridendo il negaste: In doglia hebbivi pin, In festa hebbivi ria: Nacque gioia di pianti, Dolor di riso: O amanti Miseri, habbiate insieme Ognor paura e speme.

Bel Fior, tu mi rimembri La rugiadosa guancia del bet viso; E si vera l’assembri, Che’n te sovente, come in lei m’affiso: Et hor del vago riso, Hor del serene sguardo Io pur cieco riguardo. Ma qual fugge, O Rosa, il mattin lieve! E chi te, come neve, E’l mio cor teco, e la mia vita strugge!

Anna mia, Anna dolce, oh sempre nuovo E piu chiaro concento, Quanta dolcezza sento In sol Anna dicendo? Io mi pur pruovo, Ne qui tra noi ritruovo, Ne tra cieli armonia, Che del bel nome suo piu dolce sia: Altro il Cielo, altro Amore, Altro non suona l’Ecco del mio core.

Hor che’l prato, e la selva si scoiora, Al tuo serena ombroso Muovine, alto Riposo, Deh ch’io riposi una sol notte, un hora: Han le fere, e git augelli, ognun talora Ha qualche pace; io quando, Lasso! non vonne errando, E non piango, e non grido? e qual pur forte? Ma poiche, non sent’ egli, odine, Morte.

Risi e piansi d’Amor; ne pero mai Se non in fiamma, o’n onda, o’n vento scrissi Spesso msrce trovai Crudel; sempre in me morto, in altri vissi: Hor da’ piu scuri Abissi al ciel m’aizai, Hor ne pur caddi giuso; Stance al fin qui son chiuso.

[Nota de rodapé 64: --

“I’ve measured it from side to side; ’Tis three feet long, and two feet wide.”]

[Nota de rodapé 65: --

“Nay, rack your brain--’tis all in vain, I’ll tell you every thing I know; But to the Thorn, and to the Pond Which is a little step beyond, I wish that you would go: Perhaps, when you are at the place, You something of her tale may trace.

I’ll give you the best help I can Before you up the mountain go, Up to the dreary mountain-top, I’ll tell you all I know. ’Tis now some two-and-twenty years Since she (her name is Martha Ray) Gave, with a maiden’s true good will, Her company to Stephen Hill; And she was blithe and gay, And she was happy, happy still Whene’er she thought of Stephen Hill.

And they had fixed the wedding-day, The morning that must wed them both But Stephen to another maid Had sworn another oath; And, with this other maid, to church Unthinking Stephen went-- Poor Martha! on that woeful day A pang of pitiless dismay Into her soul was sent; A fire was kindled in her breast, Which might not burn itself to rest.

They say, full six months after this, While yet the summer leaves were green, She to the mountain-top would go, And there was often seen; ’Tis said a child was in her womb, As now to any eye was plain; She was with child, and she was mad; Yet often she was sober sad From her exceeding pain. Oh me! ten thousand times I’d rather That he had died, that cruel father!

* * * * * * * * * * * * * * * *

Last Christmas when they talked of this, Old Farmer Simpson did maintain, That in her womb the infant wrought About its mother’s heart, and brought Her senses back again: And, when at last her time drew near, Her looks were calm, her senses clear.

No more I know, I wish I did, And I would tell it all to you For what became of this poor child There’s none that ever knew And if a child was born or no, There’s no one that could ever tell; And if ’twas born alive or dead, There’s no one knows, as I have said: But some remember well, That Martha Ray about this time Would up the mountain often climb.”]

[Nota de rodapé 66: Não é um erro menor nos professores, do que um tormento para as pobres crianças, insistir na necessidade de ler como se falasse. A fim de curá-las de cantar, como é chamado, isto é, de uma diferença muito grande, a criança é feita repetir as palavras com os olhos longe do livro; e então, de fato, seus tons assemelham-se à fala, tanto quanto seus medos, lágrimas e tremores permitirão. Mas assim que o olho é novamente direcionado para a página impressa, o feitiço recomeça; pois um sentido instintivo diz aos sentimentos da criança que proferir seus próprios pensamentos momentâneos e recitar os pensamentos escritos de outro, como de outro, e um muito mais sábio do que ele mesmo, são duas coisas amplamente diferentes; e como os dois atos são acompanhados por sentimentos amplamente diferentes, assim devem justificar diferentes modos de enunciação. Joseph Lancaster, entre suas outras sofisticações do inestimável sistema do excelente Dr. Bell, cura este defeito de cantar, pendurando algemas e correntes na criança, à música das quais um de seus colegas de escola, que caminha à frente, canta dolorosamente o último discurso e confissão da criança, nascimento, parentesco e educação. E esta ignomínia que entorpece a alma, este arremedo profano e endurecedor do coração sobre a última e terrível imposição da lei ultrajada, ao pronunciar a sentença para a qual o juiz severo e familiarizado não raramente irrompe em lágrimas, tem sido exaltado como um método feliz e engenhoso de remediar--o quê? e como?--bem, um extremo a fim de introduzir outro, pouco menos distante do bom senso, e certamente propenso a ter piores efeitos morais, ao impor uma aparência de facilidade petulante e autossuficiência, na repressão e possível posterior perversão dos sentimentos naturais. Tenho que pedir perdão ao Dr. Bell por esta conexão dos dois nomes, mas ele sabe que o contraste não é uma causa de associação menos poderosa do que a semelhança.]

[Nota de rodapé 67: Alterado da descrição de Night-Mair em REMORSE.

“Oh Céu! foi assustador! Agora corria para baixo e era encarado por Formas hediondas que não podem ser lembradas; Agora não vendo nada e não imaginando nada; Mas apenas estando com medo--sufocado de medo! Enquanto toda forma boa ou familiar Tinha um estranho poder de espalhar terror ao meu redor!”

N.B.--Embora Shakespeare tenha, para seus próprios propósitos de justificação total, introduzido a Pesadelo (Night-Mare) com seus próprios potros, Mair significa uma Irmã, ou talvez uma Bruxa.]

[Nota de rodapé 68: Mas ainda mais pelo sistema mecânico de filosofia que infectou desnecessariamente nossas opiniões teológicas, e ensinando-nos a considerar o mundo em sua relação com Deus, como a de um edifício com seu pedreiro, deixa a ideia de onipresença como uma mera noção abstrata na sala de estar de nossa razão.]

[Nota de rodapé 69: Como o cavalheiro engenhoso sob a influência da Musa Trágica conseguiu deslocar, “Desejo-lhe um bom dia, senhor! Obrigado, senhor, e desejo-lhe o mesmo”, em dois versos heroicos de verso branco:--

Para você uma manhã boa, bom senhor! Eu desejo. Você, senhor! Eu agradeço: a você o mesmo desejo eu.

Nas partes das obras do Sr. Wordsworth que estudei minuciosamente, encontro menos instâncias em que isso seria praticável do que encontrei em muitos poemas, onde uma aproximação da prosa foi zelosamente e por sistema evitada. De fato, excetuando as estrofes já citadas de THE SAILOR’S MOTHER, posso recordar apenas uma instância: isto é, uma curta passagem de quatro ou cinco linhas em THE BROTHERS, aquele modelo de pastoral inglesa, que nunca li com olho não nublado.--"James, apontando para o seu cume, sobre o qual todos pretendiam retornar juntos, informou-os de que esperaria por eles lá. Eles se separaram, e seus camaradas passaram por ali algumas duas horas depois, mas não o encontraram no local designado, *uma circunstância da qual não prestaram atenção:* mas um deles, indo por acaso à casa, que neste momento era a casa de James, soube lá que ninguém o tinha visto durante todo o dia". A única mudança feita está na posição da pequena palavra lá em duas instâncias, sendo a posição no original claramente tal que não é adotada na conversação comum. As outras palavras impressas em itálico foram assim marcadas porque, embora bom e genuíno inglês, não são a fraseologia da conversação comum, nem na palavra colocada em aposição, nem na conexão pelo pronome genitivo. Os homens em geral teriam dito: "mas essa foi uma circunstância à qual eles não prestaram atenção, ou não notaram"; e a linguagem é, na teoria do prefácio, justificada apenas pelo fato de o narrador ser o Vigário. No entanto, se algum ouvido pudesse suspeitar que essas frases foram impressas como metro, apenas sobre essas palavras a suspeita poderia ter se baseado.]

[Nota de rodapé 70: Eu tinha em mente o epíteto impressionante, mas intraduzível, que o célebre Mendelssohn aplicou ao grande fundador da Filosofia Crítica "Der alleszermalmende KANT", isto é, o tudo-esmagador, ou melhor, o tudo-a-nada-esmagador Kant. Na facilidade e força de epítetos compostos, o alemão, pelo número de seus casos e flexões, aproxima-se do grego, aquela língua tão

“Bendita no feliz casamento de doces palavras.”

É na dureza lastimável de seus sons que o alemão precisa se encolher da comparação.]

[Nota de rodapé 71: Sammlung einiger Abhandlungen von Christian Garve.]

[Nota de rodapé 72: Soneto IX.]

[Nota de rodapé 73: O fato de o Sr. Wordsworth ter adotado judiciosamente "concourse wild" nesta passagem por "a wild scene", como estava na edição anterior, encoraja-me a arriscar uma observação que certamente eu não teria feito nas obras de um poeta menos austeramente preciso no uso das palavras do que ele é, para sua própria grande honra. Diz respeito à propriedade da palavra "scene", mesmo na frase em que é mantida. Dryden, e ele apenas em seus versos mais descuidados, foi o primeiro, até onde minhas pesquisas descobriram, que, pela conveniência da rima, usou esta palavra no sentido vago, que tem sido muito atual desde então até mesmo em nossos melhores escritores, e que (infelizmente, penso eu) é dada como sua primeira explicação no Dicionário do Dr. Johnson e, portanto, seria tomada por um leitor incauto como seu sentido próprio. Em Shakespeare e Milton, a palavra nunca é usada sem alguma referência clara, própria ou metafórica, ao teatro. Assim Milton:

“Cedro, e pinheiro, e abeto, e palma ramificada Uma cena silvestre; e, conforme as fileiras ascendem Sombra sobre sombra, um teatro amadeirado De vista majestosa.”

Eu me oponho a qualquer extensão de seu significado, porque a palavra já é mais equívoca do que se poderia desejar; na medida em que, para o uso limitado que recomendo, ainda pode significar duas coisas diferentes; a saber, o cenário, e os personagens e ações apresentados no palco durante a presença de cenas particulares. Pode, portanto, ser preservada da obscuridade apenas mantendo a significação original plenamente na mente. Assim Milton novamente,

------“Prepare-te para outra cena.”]

[Nota de rodapé 74: --

Que Copland mal tinha falado, mas rapidamente cada colina, Sobre sua borda que se ergue, os vales vizinhos enchem; Helvillon de sua altura, através das montanhas lançou, De quem tão logo novamente, o som Dunbalrase atraiu, De cuja cabeça troféu de pedra, ele sobre o Windross foi, Que em direção ao mar novamente, ressoou para Dent. Que Brodwater, com isso dentro de suas margens atônito, Ao navegar para o mar, contou a Egremound, Cujos edifícios, caminhadas e ruas, com ecos altos e longos, Elogiaram poderosamente a velha Copland por sua canção. Drayton’s POLYOLBION: Canção XXX.]

[Nota de rodapé 75: Tradução. Cabe-me ficar do lado dos meus amigos, mas apenas até onde os deuses.]

[Nota de rodapé 76: “Slender. Eu machuquei minha canela brincando com espada e adaga por um prato de ameixas cozidas, e, por minha fé, não suporto o cheiro de carne quente desde então.”--Assim novamente, Evans. “Farei um fim do meu jantar: há maçãs e queijo por vir.”]

[Nota de rodapé 77: Isso foi acidentalmente confirmado para mim por um velho cavalheiro alemão em Helmstadt, que tinha sido colega de escola e de quarto de Klopstock. Entre outras anedotas de menino, ele relatou que o jovem poeta dava um valor particular a uma tradução do PARAÍSO PERDIDO, e sempre dormia com ela sob o travesseiro.]

[Nota de rodapé 78: A observação de Klopstock era parcialmente verdadeira e parcialmente errônea. No sentido literal de suas palavras, e se confinarmos a comparação à média de espaço necessária para a expressão do mesmo pensamento nos dois idiomas, ela é errônea. Traduzi alguns hexâmetros alemães para o hexâmetro inglês; e descobri que, em média, três linhas inglesas expressam quatro linhas alemãs. A razão é evidente: nossa língua abunda em monossílabos e dissílabos. O alemão, não menos que o grego, é uma língua polissilábica. Mas, sob outro ponto de vista, a observação não carecia de fundamento. Pois o alemão, possuindo o mesmo privilégio ilimitado de formar compostos, tanto com preposições quanto com epítetos, como o grego, pode expressar a mais rica palavra grega individual em uma única palavra alemã, ficando assim livre da necessidade de paráfrases fracas ou deselegantes. Contentar-me-ei com uma por ora, a saber, o uso dos particípios prefixados ver, zer, ent e weg: assim, reissen, rasgar; verreissen, rasgar para longe; zerreissen, despedaçar; entreissen, arrancar para fora de uma coisa, no sentido ativo: ou schmelzen, derreter — ver, zer, ent, schmelzen — e, da mesma maneira, através de todos os verbos neutros e ativos. Se considerarem apenas quanto sentiríamos a falta do prefixo be, como em bedropt, besprinkle, besot, especialmente em nossa linguagem poética, e então pensarem que esse mesmo modo de composição é esculpido através de todas as suas preposições simples e compostas, e muitos de seus advérbios; e que, com a maioria destes, os alemães têm o mesmo privilégio que nós de separá-los do verbo e colocá-los ao final da sentença; não terão dificuldade em compreender a realidade e a causa desse poder superior no alemão de condensar o significado, no qual seu grande poeta se regozijava. É impossível ler meia dúzia de páginas de Wieland sem perceber que, a este respeito, o alemão não tem rival a não ser o grego. E, contudo, sinto que concentração ou condensação não é o modo mais feliz de expressar esta excelência, que parece consistir não tanto no menor tempo necessário para transmitir uma impressão, mas na unidade e simultaneidade com que a impressão é transmitida. Isso tende a tornar sua língua mais pitoresca: ela retrata melhor as imagens. Obtivemos esse poder em parte por nossos verbos compostos derivados do latim: e o senso de seu grande efeito, sem dúvida, induziu nosso Milton tanto ao uso quanto ao abuso de derivados latinos. Mas, ainda assim, essas partículas prefixadas, não transmitindo significado separado ou separável ao leitor meramente inglês, não podem possivelmente agir sobre a mente com a força ou vivacidade de uma língua original e homogênea como é a alemã e, além disso, estão confinadas a certas palavras.]

[Nota de rodapé 79: Praecludere calumniam, no original.]

[Nota de rodapé 80: Melhor assim: Forma specifica per formam individualem translucens: ou melhor ainda — Species individualisata, sive Individuum cuilibet Speciei determinatae in omni parte correspondens et quasi versione quadam eam interpretans et repetens.]

[Nota de rodapé 81: —

“As grandes e redondas lágrimas Perseguiam-se pelo seu nariz inocente Em piedosa caça”,

diz Shakespeare de um cervo ferido que abaixa a cabeça sobre um riacho: naturalmente, pela posição da cabeça, e belissimamente, pela associação da imagem precedente da caça, na qual “o pobre cervo isolado do alvo do caçador havia sofrido um dano”. Na suposta posição de Bertram, a metáfora, se não for falsa, perde toda a propriedade do original.]

[Nota de rodapé 82: Entre várias outras instâncias de palavras escolhidas sem razão, Imogine declara no primeiro ato que as tempestades não eram capazes de interceptar suas orações pelo “homem desesperado, que em vias desesperadas agia” —

“Sim, quando o raio lançado cauterizou seu sentido, As profundas orações de sua alma eram respiradas por ele;”

isto é, quando um raio em brasa, lançado sobre ela de uma nuvem de tempestade, havia cauterizado seu sentido, ou, em inglês simples, queimado os olhos de sua cabeça, ela continuava rezando.

“Não era isso amor? Sim, é assim que a mulher ama!”]

[Nota de rodapé 83: Este tipo de repetição é uma das peculiaridades deste escritor, e quase não há página que não forneça uma ou mais instâncias — Ex. gr. na primeira ou segunda página. Ato I, linha 7ª, “e julguei que eu poderia dormir”. — Linha 10, “Oscilava e tremia no brilho cintilante”. — Linhas 14, 15, 16, “Mas pelos lampejos momentâneos de azul estendido, os mármores pálidos encaravam-me tão severamente, quase julguei que vivessem”. — Linha 37, “O brilho do Inferno”. — Linha 35, “Ó santo Prior, esta não é uma tempestade terrena”. — Linha 38, “Esta não é uma tempestade terrena”. — Linha 42, “Lidando conosco”. — Linha 43, “Lidar tão severamente:”. — Linha 44, “Fala! tu viste algo?”. — “Uma visão terrível!”. — Linha 45, “Que viste! Uma visão piedosa e terrível”. — Linha 48, “lampejos trêmulos”. — Linha 50, “Nas pausas ocas da tempestade”. — Linha 61, “As pausas da tempestade, etc.”]

[Nota de rodapé 84: A criança é uma personagem importante, pois não vejo por quais meios possíveis o autor poderia ter terminado o segundo e o terceiro atos, não fosse por sua aparição oportuna. Quão ingrato, portanto, não notar mais o seu destino!]

[Nota de rodapé 85: Classicamente também, tanto quanto condiz com a fantasia alegorizante do moderno, que ainda se esforçando para projetar o interior, contradistingue-se da aparente facilidade com que a poesia dos antigos reflete o mundo exterior. Casimir oferece, talvez, o exemplo mais notável desta diferença característica. — Pois seu estilo e dicção são realmente clássicos: enquanto Cowley, que se assemelha a Casimir em muitos aspectos, barbariza completamente sua latinidade, e até mesmo sua métrica, pela natureza heterogênea de seus pensamentos. Que o Dr. Johnson tenha emitido um julgamento contrário, e tenha até preferido os Poemas Latinos de Cowley aos de Milton, é um capricho que, se não me engano, excitou a surpresa de todos os estudiosos. Fiquei muito divertido no verão passado com o susto risível com que um poeta italiano leu uma página da Davideis de Cowley, contrastado com o entusiasmo com que ele primeiro percorreu, e depois leu em voz alta, o Mansus e Ad Patrem de Milton.]

[Nota de rodapé 86: Flectit, ou se a métrica tivesse permitido, premit teria sustentado melhor a metáfora.]

[Nota de rodapé 87: Pobres e azaradas Metafísicas! E o que são elas? Uma única sentença expressa o objeto e, portanto, o conteúdo desta ciência. Gnothi seauton:

Nosce te ipsum, Tuque Deum, quantum licet, inque Deo omnia noscas.

Conhece-te a ti mesmo: e assim conhecerás a Deus, tanto quanto é permitido a uma criatura, e em Deus todas as coisas. — Certamente, há uma estranha — ou melhor, uma natural demais — aversão de muitos em conhecerem a si mesmos.]

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