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Blow The Man Down: A Romance Of The Coast

by Holman Day · in Portuguese

BLOW THE MAN DOWN

UM ROMANCE DA COSTA

Por Holman Day

Copyright, 1916, by Harper & Brothers

AO MEU BOM AMIGO

Capitão John W. Christie

CAPITÃO DA MARINHA MERCANTE BRITÂNICA QUE CANTOU TODAS AS CANTIGAS DE MARINHEIRO E NAVEGOU POR TODOS OS MARES

“_Ó, sopra o homem para baixo, valentões, sopra o homem para baixo! Way-ay, sopra o homem para baixo. Ó, sopra o homem para baixo na cidade de Liverpool! Dá-me um tempo para soprar o homem para baixo.”_ --Antiga Cantiga de Marinheiro dos Navios de Linha do Atlântico.

CONTEÚDO:

I ~ O CAPITÃO BOYD MAYO SAI DAS SONDAGENS

II ~ ENTÃO O CAPITÃO MAYO VÊ OS BAIXIOS

III ~ A TAVERNA DOS MARES

IV ~ SOBRE O CONVÉS DO “POLLY”

V ~ NA PONTE DO IATE “OLENIA”

VI ~ E NÓS NAVEGAMOS

VII ~ RUMO À CONFUSÃO VINDO DO LESTE

VIII ~ COMO PERCEVEJOS SOB UMA DEDEIRA

IX ~ UM TRABALHO DE HOMEM

X ~ HOSPITALIDADE, POR JULIUS MARSTON

XI ~ UMA VOZ DO CLAMOR PÚBLICO

XII ~ NENHUM LUGAR PARA AS SOLAS DOS SEUS PÉS

XIII ~ UM CAPITÃO DE FLOTSAM HUMANO

XIV ~ RUMOS PARA UM NOVO CURSO

XV ~ AS REGRAS DA NAVEGAÇÃO

XVI ~ MILHÕES E UMA MICA

XVII ~ “EXATAMENTE!” DISSE O SR. FOGG

XVIII ~ COMO UMA REUNIÃO ANUAL FOI REALIZADA—UMA VEZ!

XIX ~ O PACOTE PREMIADO DO SR. FOGG

XX ~ TESTANDO UM HOMEM

XXI ~ PROVA AMARGA PELA LUZ DA MANHÃ

XXII ~ NEGÓCIOS ESPECIAIS DE UM PASSAGEIRO

XXIII ~ O MONSTRO QUE ESCAPOU DA SUA TRELA

XXIV ~ POR UM MAR GALOPANTE

XXV ~ UMA GAROTA E SUA DÍVIDA DE HONRA

XXVI ~ AS PRESAS DO VELHO RAZEE

XXVII ~ A TEMPESTADE VIRA A CARTA

XXVIII ~ AJUDA DE GAROTA E TRABALHO DE HOMEM

XXIX ~ OS TRABALHADORES DO VELHO RAZEE

XXX ~ O ASSUNTO DE UM MONOGRAMA EM CERA

XXXI ~ O PRÓPRIO HOMEM GRANDE

XXXII ~ O QUERIDO “PORQUE!” DE UMA GAROTA

BLOW THE MAN DOWN

I ~ O CAPITÃO BOYD MAYO SAI DAS SONDAGENS

Quando em segurança ou em dúvida, Mantenha sempre um vigia seguro; Esforce-se para manter a cabeça fria, Cuidado com as luzes e cuidado com a prumo. --Cantiga da cabine de comando.

Durante dias ele teve medo daquela sua loucura incrível, como um homem teme um monstro sem nome. Mas estava seguro da sua força, mesmo admitindo a sua fraqueza. Estava confiante de que mantinha a coisa firmemente na trela.

Então, de repente, aconteceu!

Sem prefácio de palavra ou olhar, ele virou-se e ficou de frente para ela, puxou-a para os seus braços e beijou-a. Ele não tentou absolver-se ou atenuar a sua ofensa dizendo-lhe que a amava. Ele estava sem voz — não conseguia controlar a sua fala. Não se atreveu a mostrar tal presunção como falar de amor pareceria ser para ela. Sabia que não devia falar de amor; tal oferta para ela seria loucura. Mas esta presunção maior, esta captura cega dela nos seus braços — isto era algo que ele não tinha pretendido, tanto quanto um homem são considera voar até à lua.

Ele não compreendia; ele tinha sido ele mesmo — então, instantaneamente, num tempo medido por um estalar de dedos, ele tinha-se tornado este desgraçado que parecia ser outra pessoa.

Ele tinha deixado, por um momento insano, de ser mestre de todos os seus sentidos. Mas libertou-a tão subitamente quanto a tinha agarrado, e cambaleou até à porta da sala de cartas, virando-lhe as costas e gemendo na mais profunda miséria.

Naquele momento de delírio, ele tinha insultado o seu próprio sentido de decência e honra da Nova Inglaterra.

Ele estava com medo de olhar para trás para ela. Com uma agonia de apreensão, ele temia o som da sua voz. Sabia muito bem que ela estava a esforçar-se para recuperar o controlo de si mesma, para se recuperar do seu absoluto espanto. Ele esperou. O ultraje deve tê-la enfurecido além da medida; o silêncio prolongou-se.

No salão do iate, lá em baixo, um violino cantava a sua própria alma na noite de verão, tecendo o seu lamento no suave ondular adágio dos acordes de um piano.

Ele vasculhou a sua alma. A música, aquela frase melódica distante do chamado do amor, a música tinha-o desarmado. Enquanto ele caminhava pela ponte antes da chegada dela, aquela música tinha estado a derreter o gelo da sua reserva natural. Mas ele não se perdoou por ter agido como um tolo.

Ele olhou fixamente para a noite emoldurada na porta da sala de cartas. Pequenas ondas corriam em direção a ele, diretamente da lua, na linha do mar, como uma inundação de prata nova a jorrar da porta aberta da abundância!

Mas a beleza apelativa daquela noite não podia desculpar o insulto inconcebível que ele acabara de lhe oferecer. Ele sabia disso e estremeceu.

Ela tinha vindo e inclinado-se para ele sobre o mapa aberto, o seu hálito na sua bochecha — tão perto dele que uma madeixa errante do seu cabelo o roçou. Mas o facto de um fogo súbito ter saltado do toque para o seu cérebro não era razão para o ato pelo qual ele acabara de se condenar como um bruto presunçoso.

Pois ele, Boyd Mayo, capitão do iate do pai dela, um contratado, acabara de fazer o mesmo cortejo insultuoso a Alma Marston que um marinheiro ofereceria a uma garota galanteadora na rua.

“Vou saltar borda fora”, gaguejou ele finalmente. “Vou tirar-me da sua vista para sempre.”

O silêncio ominoso persistiu.

“Não lhe peço que me perdoe. Não é uma coisa que possa ser perdoada. Diga-lhes que eu enlouqueci — e saltei borda fora. Isso será a verdade. Sou um lunático.”

Ele cambaleou através da porta. Naquele momento desesperado, no turbilhão das suas emoções, parecia não haver outra saída para o seu horrível dilema. Ele tinha passado a amar a garota com toda a paixão consumidora da sua alma, realizando plenamente a sua cegueira ao mesmo tempo. Ele não tinha construído falsas esperanças. Quanto a falar desse amor — até mesmo traí-lo por um olhar — ele tinha-se revestido na armadura da restrição reservada; ele tinha a certeza de que preferiria ter caído de joelhos e uivado para aquela lua de prata do convés do iate Olenia do que fazer o que acabara de fazer.

“Capitão Mayo! Espere!”

Ele esperou sem se virar para olhar para ela. A voz dela não estava firme, mas ele não conseguia determinar pelo tom quais eram as emoções dela.

“Volte aqui!”

Ela foi obrigada a repetir a ordem com autoridade mais aguda antes que ele obedecesse. Ele baixou os olhos e ficou diante dela, um suplicante sem voz.

“Por que fez isso?” perguntou ela. Não foi a exigência desprezível que ele estivera a temer. A voz dela era tão baixa que era quase um sussurro.

“Não sei”, confessou ele.

O violino continuou a cantar; a lua brilhava na porta; duas badaladas, como glóbulos dourados de som, do sino do navio sinalizaram nove horas. Apenas o ritmo dos motores, tão suave quanto o ronronar de um gato, e o lento balançar do iate e o murmúrio das ondas divididas revelavam que o Olenia estava a caminho através da noite.

“Não sei”, repetiu ele. “Não me desculpa dizer que não pude evitar.”

E ele compreendia tão pouco as mulheres que não percebeu que estava a fazer o apelo antigo que suavizou o rancor feminino desde que as mulheres sabinas foram levadas nos braços dos seus captores e perdoaram os seus captores.

Ela olhou para ele, fazendo mais uma vez uma avaliação rápida de donzela deste jovem que se oferecera tão humildemente como um sacrifício. As suas mãos bronzeadas estavam cruzadas à frente dele e agarravam convulsivamente o seu boné branco. O boné e o linho acima da gola do casaco do seu uniforme realçavam ao máximo o tom do seu bronzeado viril. O rubor vermelho da sua contrição chocada tocou as suas bochechas, e, ao todo, qualquer que fosse o pensamento da filha de Julius Marston, sacerdote de alta finança de Wall Street, sobre a sua insolência, o olhar derretido que ela lhe lançou debaixo das pálpebras baixas indicava a sua apreciação pelas suas excelências exteriores.

“Suponho que esteja completa e devidamente envergonhado do que fez!”

“Estou envergonhado — tão envergonhado que nunca mais me atreverei a levantar os olhos para si. Farei o que prometi. Saltarei borda fora.”

“Capitão Mayo, olhe para mim!”

Quando ele obedeceu, com o comportamento de um cão açoitado, a sua perturbação não lhe permitiu mostrar tanta apreciação por ela quanto ela tinha exibido no estudo secreto dele, que ela agora prontamente ocultou. Ele examinou-a com melancolia, com medo. E uma donzela, depois de compreender que obteve domínio sobre força e alma, não gosta de ser olhada como se fosse a Medusa.

Ela lançou um olhar de lado para o seu rosto num dos espelhos, e depois prendeu no lugar uma madeixa de cabelo errante com um dedo bem formado, sugerindo assim, se houvesse um observador cínico presente, que a Srta. Alma Marston nunca permitia que qualquer situação, por mais crucial que fosse, desviasse totalmente a sua atenção de si mesma.

Não havia como enganar — se aquele observador cínico estivesse lá, ele teria notado que ela fez um beicinho ligeiro quando Mayo declarou a sua vergonha inefável.

“Nunca se vai livrar dessa vergonha, pois não?”

E o Capitão Mayo, febrilmente ansioso para mostrar que compreendia a enormidade da sua ofensa, e desejando oferecer penhor para o futuro, declarou que a sua vergonha nunca diminuiria.

Os seus olhos escuros brilharam; se havia malícia misturada com ressentimento, ou se o ressentimento suplantava completamente todas as outras emoções, poderia ter sido um problema difícil para o cínico. Mas quando ela inclinou o queixo e encarou o ofensor bem nos olhos, apoiando as suas mãos gordinhas nos bolsos laterais do seu casaco branco, o Capitão Mayo, como um homem atingido por um cacete, foi golpeado com o conhecimento súbito e desconcertante de que não sabia muito sobre mulheres, pois ela perguntou, com um arrastar de voz inquisidor: “O que é que há em mim, querido capitão, para inspirar esse eterno arrependimento que parece estar a incomodá-lo tanto?”

Mesmo então ele não compreendeu o alcance total da sua pergunta provocadora. “Não é a si. Eu sou o único que é totalmente culpado”, gaguejou ele. “Atrevi-me a... Mas não importa. Conheço o meu lugar. Vou mostrar-lhe que o conheço.”

“Atreveu-se a... O que se atreveu a fazer — além do que acabou de fazer?”

“Não lhe posso dizer, Srta. Marston. Não pretendo insultá-la novamente.”

“Ordeno-lhe que me diga, Capitão Mayo.”

Ele não conseguia compreender o humor dela nem um pouco e o seu comportamento mostrava isso. A ordem dela tinha uma pequena ondulação engraçada — como de riso reprimido. Havia estranhas contrações nos cantos dos seus lábios cheios e vermelhos.

“Agora endireite-se como o seu verdadeiro eu! Não gosto de o ver a ficar assim. Sabe que gosto de ter todas as pessoas nos iates a olhar para o nosso capitão quando entramos num porto! Não sabia? Bem, eu sei. Agora, o que se atreveu a fazer?”

Ele endireitou-se então. “Atrevi-me a apaixonar-me por si, Srta. Marston. Como muitos outros tolos, suponho. Mas eu sou o pior de todos. Sou apenas um marinheiro. Como perdi o controlo de mim mesmo, não sei!”

“Nem mesmo agora?” Ainda aquela suavidade inexplicável na voz dela, aquela expressão estranha no rosto dela. Sendo um marinheiro, ele via esta calma como um presságio ominoso de uma tempestade.

“Estou disposto a que me reporte ao seu pai, Srta. Marston. Aceitarei o meu castigo. Nunca mais a ofenderei.”

“Consegue controlar-se depois disto, consegue?”

“Sim, Srta. Marston, absolutamente.”

Ela hesitou; sorriu. Baixou as pálpebras novamente e examinou-o com a tolerância satisfeita que uma mulher bonita pode tão facilmente estender quando o ardor incontrolável levou à imprudência.

“Oh, seu Yankee engraçado e antiquado!” murmurou ela. “Nem mesmo agora compreende exatamente por que o fez!”

O rosto dele revelou que ele não compreendia nem um pouco.

“Venha aqui”, convidou ela.

Ele deu três passos através da cabine estreita e ficou numa atitude de respeito e obediência diante dela.

“O que agora, senhor?” Foi uma pergunta ainda mais provocadora — um sorriso acompanhava-a.

“Peço desculpa. Aprendi a minha lição.”

“Precisa de aprender muito — é muito ignorante”, respondeu ela, com considerável acidez.

“Sim”, concordou ele, humildemente.

O que aconteceu a seguir foi tão totalmente fora dos seus cálculos que os eventos anteriores da noite se retiraram mansamente para o plano de fundo. Tinha sido concebível que um impulso de paixão o pudesse levar a quebrar todas as regras de conduta que a sua consciência da Nova Inglaterra tinha imposto sobre ele; mas o que Alma Marston fez atordoou-o com tal estupefação que ele ficou ali tão rígido e imóvel quanto um pino de amarração num suporte. Ela levantou os braços, pressionou as suas duas mãos nos ombros dele, ficou na ponta dos pés e beijou-o nos lábios.

“Ali, tolo Yankee antiquado”, disse ela, suavemente, a boca perto da dele; “já que está tão envergonhado, devolvo-lhe o seu beijo — e tudo fica bem entre nós, porque estamos exatamente onde começámos há pouco tempo.”

O seu espanto tinha-o entorpecido tanto que, mesmo depois daquela rendição, ele ficou ali, perto dela, a sua fisionomia vazia, os seus braços a balançar ao lado.

“O que diabo se passa consigo?” perguntou ela, irritada.

“Não sei! Eu... eu... eu não pareço compreender.”

“Vou ser honesta consigo. É tão honesto que compreender-me-á, então”, disse-lhe ela. Parecia-lhe que devia estar enganado, mas certamente sentiu que os braços dela estavam a escorregar pelos ombros dele e se tinham encontrado atrás do seu pescoço. “Vi isso nos seus olhos há muito tempo. Uma mulher sabe sempre. Eu queria que fizesse o que fez esta noite. Sabia que seria obrigada a tentá-lo. Vim para aqui enquanto a lua e a música me ajudariam. Fiz tudo de propósito — fiquei perto de si — pois sabia que era apenas o meu lento Yankee antiquado que nunca sairia da sua concha até que eu cutucasse. Aí! Confessei!”

A sua alegria louca não lhe permitiu ver nada da coquete naquela confissão. Tudo parecia estar consagrado pelo amor que ele sentia por ela — um amor que era tão honesto que ele não percebeu audácia na atitude desta garota que tinha vindo de tão longe para o encontrar. Ele tomou-a nos seus braços novamente, e ela retribuiu os seus beijos.

“Diga-me novamente, Boyd, que me ama”, incitou ela.

“E, no entanto, não tenho o direito de a amar. Você é...”

“Silêncio! Silêncio! Lá vai a sua cautela Yankee a falar! Quero amor, pois sou uma garota. O amor não tem nada a ver com o que você é ou o que eu sou. Não agora! Amar-nos-emos — e esperaremos! Você é o meu grande rapaz! Não é?”

Ele ficou contente por cumprir o apelo dela para deixar de lado a conversa sensata naquele momento. Não havia nada sensato que ele pudesse dizer. Ele estava a segurar a filha de Julius Marston nos seus braços, e ela estava a dizer-lhe que o amava. O mundo estava subitamente de cabeça para baixo e ele estava a render-se ao presente louco.

No salão do iate, lá em baixo, uma mulher começou a cantar:

“O amor vem como um suspiro de verão, Suavemente roubando sobre nós. O amor vem e perguntamo-nos por que Diante do seu santuário estamos ajoelhados. O amor vem à medida que os dias passam...”

“É isso”, murmurou a garota, ansiosamente. “Não sabemos absolutamente nada sobre por que amamos. Pessoas que se casam por dinheiro fingem amor — observei-as — eu sei. Amo-o. Você é o meu grande rapaz. Isso é tudo. Isso é suficiente.”

Ele aceitou esta doutrina reconfortante sem questionar. A aceitação serena dela da situação, sem uma ruga na sua testa plácida para indicar que quaisquer problemas futuros a incomodavam, não despertou o seu espanto ou fez com que ele questionasse a profundidade das suas emoções; apenas adicionou mais um elemento à irrealidade de todo o caso.

Lua e música, mar de prata e noite gloriosa, e uma donzela que tinha sido, nos seus pensamentos secretos, o seu sonho do inatingível!

“Vai esperar por mim — esperar até que eu possa fazer algo de mim?” exigiu ele.

“Você é você mesmo — agora mesmo — isso é suficiente!”

“Mas o futuro. Eu devo...”

“Ame-me — ame-me agora — isso é tudo o que precisamos de pedir. O futuro cuidar-se-á sozinho quando chegar o tempo! Não leu sobre os grandes amores? Como simplesmente esqueceram o mundo mesquinho inteiro? O que tem o amor a ver com negócios e dinheiro e pechinchas? Amor no seu lugar — negócios no seu lugar! E o nosso amor será o nosso segredo até...”

Ele perdoou a sua indefinição, pois quando ela fez uma pausa e hesitou, pressionou os seus lábios nos dele, e essa garantia foi suficiente para ele.

“Sim — oh sim — Srta. Alma!” chamou a voz de um homem no canto da convocação ansiosa.

“É o Arthur”, disse ela, com um estalar de impaciência na voz. “Por que é que as pessoas não me deixam em paz?”

Ele libertou-a, e ela ficou à distância de um braço, as suas mãos contra o peito dele. “Pensei — Pareceu-me”, gaguejou ele, “que ele... Perdoe-me, mas eu amei-a tanto! Não conseguia suportar pensar... pensar que ele...”

“Pensou que eu me importava com ele!” repreendeu ela. “Esse é apenas o homem que o meu pai escolheu para mim! Ora, eu nem sequer permitiria que o meu pai escolhesse um boné de iatismo para mim, quanto mais um marido. Direi-lhe isso quando chegar o tempo!”

As sobrancelhas de Mayo franziram-se apesar de si mesmo. O amanhã parecia desempenhar um pequeno papel nos cálculos desta donzela.

“Dinheiro — isso é tudo o que há no Arthur Beveridge. O meu pai tem dinheiro suficiente para todos nós. E se ele for mesquinho connosco — oh, é fácil o suficiente ganhar dinheiro, não é? Todos os homens podem ganhar dinheiro.”

O Capitão Mayo, marinheiro, não tinha a certeza do seu curso em águas financeiras e não respondeu.

“Srta. Alma! Digo eu! Oh, onde está você?”

“Até aquele homem tonto, pequeno e seco”, troçou ela, com um movimento de cabeça na direção da voz arrastada, “vai para Wall Street e faz milhares e milhares de dólares sempre que lhe apetece. E você poderia metê-lo no bolso do seu casaco. Todos eles terão medo de si quando for para Wall Street fazer muito dinheiro para nós os dois. Você verá! Beije-me! Beije-me uma vez! Beije-me rapidamente! Lá vem ele!”

Ele obedeceu, libertou-a, e quando Beveridge empurrou o seu rosto enrugado pela porta, eles estavam debruçados sobre o mapa.

“Oh, digo eu, sentimos a sua falta. Estão a perguntar por si.”

Ela não se virou para olhar para ele. “Tenho outra coisa em mente, Arthur, além de ficar lá em baixo a ouvir o Wally Dalton tocar melodias de amor. E esta passagem, aqui, Capitão Mayo! O que é?” O seu dedo percorreu ociosamente algumas centenas de quilómetros de Oceano Atlântico mapeado.

“É o Canal da Lua de Mel”, respondeu o navegador, recatadamente. O seu novo êxtase tornou-o ousado o suficiente para brincar.

“Oh, então estamos a aprender a ser capitão, Srta. Alma?” inquiriu Beveridge com um sorriso irónico.

“Seria melhor se mais proprietários de iates soubessem como gerir as suas próprias embarcações”, informou ela, com espírito.

“Sim, poderia manter os subordinados na linha”, concordou o homem à porta. “Candidato-me ao cargo de imediato depois de você se qualificar, Capitão Alma.”

“E isto, diz você que é, Capitão Mayo?” interrogou ela, sem se preocupar em responder. O seu tom era crispado e factual.

Beveridge piscou para ela e mostrou o desconforto perturbado de um homem que se intrometeu em horas de expediente.

O Capitão Mayo, observando o dedo branco arrebatadamente, notou que ele estava a percorrer do Círculo Ártico até à Zona Tropical. “Isso é o Porto do Amor, alcançado através da via da Esperança”, respondeu ele, respeitosamente.

“Oh, digo eu!” exclamou Beveridge; “os marinheiros que traçaram esse curso devem ter sido românticos.”

“Os marinheiros têm almas que correspondem ao seu horizonte, Arthur. Preferiria nomes como Enseada do Dinheiro e Canal do Ganancioso?”

O Sr. Beveridge levantou uma sobrancelha e olhou para as costas eloquentes dela; também, lançou um olhar de pouco favor ao jovem capitão robusto do Olenia. Certamente não ocorreu ao Sr. Beveridge que dois jovens apaixonados estavam a fazer troça dele. Que a filha de Julius Marston descesse ao nível de um capitão de iate teria parecido uma enormidade tão incrível quanto um caso com o mordomo. Mas havia algo sobre esta companhia íntima da sala de cartas que o Sr. Beveridge não apreciava. O instinto, mais do que qualquer razão sã, dizia-lhe que ele não era desejado.

“Sinto muito por interromper os seus estudos, Srta. Marston”, disse ele, um tanto rígido. “Mas fui enviado pelo seu pai para chamá-la à cabine.” O ar do Sr. Beveridge, o seu tom de protesto, transmitia uma insinuação bastante direta de que as suas responsabilidades como anfitriã eram tão importantes quanto os seus estudos como navegadora.

“Tenho de ir”, sussurrou ela.

O alívio misturava-se ao pesar do Capitão Mayo. Ele temia que esta jovem impetuosa pudesse rebelar-se contra a convocação, mesmo que a ordem viesse do seu pai. E a sua permanência persistente na sua sala de cartas, mesmo sob o pretexto de um interesse fervoroso nos mistérios da navegação, poderia produzir complicações. Esta maravilhosa alegria nova na sua vida era preciosa demais para ser estragada por complicações.

Ela deslizou os dedos ao longo da mão dele quando se virou da mesa de cartas, e depois beliscou-o numa saudação de despedida.

“Boa noite, Capitão Mayo. Terei outra lição amanhã.”

“Estou ao seu dispor”, disse-lhe ele.

As suas vozes não traíam nada, mas os olhos atentos de Beveridge — os olhos que tinham estudado rostos no maior de todos os jogos, quando fortunas estavam em jogo — notaram o olhar que trocaram. Foi prolongado, tão expressivo quanto um beijo demorado.

O Sr. Beveridge, sancionado no seu cortejo por Julius Marston, não estava especialmente preocupado com quaisquer inferências daquele olhar suave. Ele não poderia culpar nem um carregador de carvão que olhasse ternamente para a Srta. Alma Marston, pois ela era especialmente agradável à vista, e ele próprio gostava de olhar para ela. Ele era filósofo o suficiente para estar disposto a deixar que outras pessoas se divertissem e, assim, dessem a sua aprovação à sua escolha. Ele desculpou o Capitão Mayo. Quanto à Srta. Marston, ele via a sua frivolidade como via a das outras raparigas que conhecia; todas tinham tempo demais nas mãos.

“Dê uma oportunidade aos pobres diabos, Alma. Não os vire de cabeça para baixo”, aconselhou ele, irritadiço, quando ela o seguiu pela escada. Ele ficou no sopé e ofereceu-lhe a mão, mas ela saltou os dois últimos degraus e não aceitou a sua ajuda. “Agora, você deixou aquele nosso capitão de tal forma que ele já não sabe o norte do sul.”

“Não gosto muito da sua ênfase no 'agora'”, declarou ela, indignada. “Parece insinuar que ando pelo mundo a tentar seduzir cada homem que vejo.”

“Esse parece ser o desporto popular, em recinto fechado ou ao ar livre, para as raparigas nos dias de hoje”, respondeu ele com bom humor. “Há pouco tempo, você estava a fazer o diabo a quatro com aquele sujeito lá em cima com os seus olhos. É claro que a prática leva à perfeição. Mas você é uma rapariga boa e gentil no fundo do coração. Não os faça infelizes.”

A comiseração do Sr. Beveridge teria sido desperdiçada com o Capitão Boyd Mayo naquela noite. O capitão apagou a luz na sala de cartas assim que eles partiram, e ali, na penumbra, ele guardou a sua felicidade no coração, tal como tinha guardado aquela sua pessoa deliciosa no seu peito. Ele ergueu as mãos e pressionou o rosto contra as palmas. Inalou a fragrância delicada e subtil — uma mera sugestão de perfume — o doce fantasma da sua personalidade, que ela deixara para trás. O toque dela ainda o fazia vibrar, e o calor do seu último beijo estava nos seus lábios.

Depois, ele saiu e subiu a escada para a ponte. Um espreitadela por cima do ombro do homem ao leme, para o brilho suave sob a cobertura da bitácula, mostrou-lhe que o Olenia estava no seu curso.

“É uma noite linda, Sr. McGaw”, disse ele ao imediato, um homem baixo e atarracado, de pernas arqueadas, que caminhava de um lado para o outro, medindo os passos com a regularidade de um pêndulo.

“É, sim, senhor!”

O Sr. McGaw, antes de responder, teve claramente dificuldade com algo que lhe avultava na bochecha. Parecia, também, estar consideravelmente surpreendido com o ar de alegria vivaz do capitão. O seu superior andara a vaguear pelo navio durante muitos dias com a melancolia escrita em cada linha do seu rosto.

“Sim, é a noite mais linda e perfeita que já vi, Sr. McGaw.” Havia triunfo nos tons exuberantes do capitão.

“Tem de se admitir que é o que chamam de uma noite estrelada para um passeio”, admitiu o imediato, tentando encontrar palavras que se adequassem à ocasião.

“Ficarei com o resto deste turno e com o turno do meio, Sr. McGaw”, ofereceu o capitão. “Quero ficar acordado esta noite. Não consigo dormir.”

A oferta significava que o Capitão Mayo pretendia permanecer de serviço até às quatro da manhã.

O imediato McGaw remexeu um dedo nodoso sob o nariz e tentou encontrar algumas palavras de protesto. Mas o Capitão Mayo acrescentou uma ordem seca.

“Vá para baixo, Sr. McGaw, e descanse. Pode compensar-me noutra altura, quando não houver lua!” Ele riu-se.

Quando todas as luzes da cabine estavam apagadas e ele percebeu que ela deveria estar a dormir, ele caminhou pela ponte, exultante por a segurança dela estar nas suas mãos, mas supremamente exultante porque ela o amava e lho tinha dito.

A obediência fazia parte da sua formação.

Ela tinha-lhe ordenado que vivesse e amasse no presente, permitindo que o futuro cuidasse de si mesmo, e isso proporcionava-lhe uma sensação de doce companheirismo obedecer ao seu menor desejo quando estava longe dela. Portanto, ele pôs de lado todos os pensamentos sobre Julius Marston e os seus milhões — Julius Marston, o seu mestre, dono do iate que seguia sob a lua — aquele homem frio e silencioso com a estreita faixa de barba gelada a apontar o queixo.

Mayo caminhou pela ponte e viveu e amou.

II ~ ENTÃO O CAPITÃO MAYO VÊ BAIXIOS

Não há nada na popa, não há nada a sotavento, Sopra alto, sopra baixo, e assim navegamos nós. Mas há um navio altivo a barlavento, E ele navega rápido e livre, Navegando ao longo da costa da alta Barbária. --Antiga Canção de Marinheiro.

O capitão do Olenia deu por si a alimentar suposições e espantos, mais do que é saudável para um homem de quem se espera que obedeça sem perguntar o motivo.

Aquele cruzeiro parecia uma série de alternâncias espasmódicas entre a preguiça descontraída e a pressa frenética.

Havia dias em que ele recebia ordens para seguir a meia velocidade ao largo da costa. Depois, por horas seguidas, Julius Marston e os seus dois companheiros especiais e próximos, homens de negócios, evidentemente, homens do seu tipo, reuniam-se em grupos nas suas cadeiras de lona sob o toldo da popa e falavam interminavelmente. Alma Marston e os seus jovens amigos, acompanhados por uma tia amável — assim o Capitão Mayo entendia o seu estatuto no grupo — permaneciam consideravelmente afastados do grupo sério de três. Arthur Beveridge juntava-se aos jovens.

Da ponte, o capitão vislumbrava toda esta rotina a bordo. Os passeios do iate ao largo da costa pareciam parte das férias de verão.

Mas as pressas ocasionais para os portos, as conferências lá em baixo com homens que iam e vinham com maior ou menor tentativa de secretismo, não se enquadravam no lado de férias do cruzeiro.

Estas conferências eram frequentemente seguidas por ordens ao capitão para percorrer as extensões interiores da costa e visitar portos pouco frequentados.

O Capitão Mayo tinha sido preparado para estas viagens, embora não tivesse sido informado da razão. Era a sua primeira temporada no iate Olenia. O corretor marítimo que o tinha contratado fora minucioso nas suas investigações sobre o conhecimento de Mayo acerca das vias secundárias da costa. O jovem que tinha comandado pescadores e navios costeiros desde os dezassete anos achara fácil convencer o corretor, e o corretor enviara-o para bordo do iate sem a formalidade de uma entrevista com o proprietário.

Mayo foi informado, secamente, de que não havia necessidade de uma entrevista. Disseram-lhe que Julius Marston nunca se preocupava com detalhes.

Quando Julius Marston subiu a bordo com o seu grupo, limitou-se a um reconhecimento frio da saudação do capitão do seu iate, que estava na amurada, de boné na mão.

O proprietário nunca demonstrara qualquer interesse na gestão do iate; permanecera a ré da amurada principal; nunca chamara o capitão para uma conferência sobre quaisquer movimentos do Olenia.

O Capitão Mayo, caminhando pela ponte no turno da manhã, tentando compreender toda a medida da sua fortuna após sonhos perturbados com a filha do seu patrão, recordou-se de que nunca tinha ouvido o som da voz de Julius Marston. No que dizia respeito ao contacto pessoal, o capitão do iate era evidentemente tão indiferente ao proprietário quanto a chaminé do iate.

As ordens eram sempre trazidas para a frente por um jovem pálido que era taciturno ao ponto da grosseria e que, por esse traço, parecia recomendar-se a Marston como um secretário seguro.

No início, Alma Marston trazia os seus amigos à ponte. Mas, depois de a novidade passar, eles pareciam preferir o conforto das cadeiras a ré ou os sofás do salão.

Durante algum tempo, o atencioso Beveridge seguira-a quando ela vinha para a frente; e depois, Beveridge descobriu que ela o ignorava completamente na sua busca por informações junto do jovem alto de uniforme. Ela vinha sozinha.

E depois daquilo, aconteceu o que aconteceu.

Ela veio sozinha naquela manhã. Ele viu-a a vir. Ele tinha roubado um olhar para a popa de cada vez que se virava na sua caminhada no fim da ponte. Ele inclinou-se e estendeu a mão para a ajudar a subir a escada.

“Estive quase louca toda a manhã. Mas tive de esperar um tempo decente e ouvir as suas fofocas depois do pequeno-almoço”, disse-lhe ela, com o rosto próximo do dele enquanto subia a escada. “E, além disso, o meu pai está rabugento hoje. Ele repreendeu-me ontem à noite por negligenciar os meus convidados. Como se eu fosse obrigada a sentar-me o dia todo e ouvir a Nan Burgess a avaliar os seus amantes ou a cantar uma canção de cada vez que o Wally Dalton tem uma recaída de amores. Ele veio para longe para a esquecer, sabe.” Ela riu-se, emitindo aquele seu pequeno gorgolejo engraçado que despertava nele, sempre, um desejo de o abafar com beijos.

Eles foram para o fim da ponte, afastados do homem ao leme.

“Apressei-me a dormir ontem à noite para poder sonhar contigo, o meu próprio grande rapaz.”

“Caminhei pela ponte até depois do amanhecer. Queria manter-me acordado. Não suportava deixar que o sono me tirasse os pensamentos.”

“O que há como o amor para tornar este mundo cheio de felicidade? Como o sol está brilhante! Como as ondas brilham! Aquelas pessoas sentadas ali atrás estão a ver as mesmas coisas que nós — ou podem olhar, embora não pareçam ter juízo suficiente. E quase tudo o que reparam é que é dia em vez de noite. O meu pai e aqueles homens estão a falar de dinheiro — apenas dinheiro — é só isso. E o Wally tem uma dor de cabeça de ter bebido demasiado Scotch. E a Nan Burgess não ama ninguém que a ame. Mas para nós — oh, este mundo glorioso!”

Ela estendeu os braços em direção ao sol e encarou audazmente aquele astro flamejante, como se não estivesse satisfeita com o que os seus olhos podiam contemplar, mas desejasse agarrar e sentir um pouco da glória do ar livre. Se o Capitão Mayo fosse tão versado em psicologia como era em navegação, poderia ter tirado algumas conclusões inquietantes desta expressão franca e inconsciente do estado de espírito da materialista. Ela enfatizou esse estado de espírito com palavras.

“Vou mostrar-te o meu livrinho de apontamentos um dia, grande rapaz. É onde escrevo os meus versos. Não os mostro a ninguém. Vês, estou a contar-te os meus segredos! Temos de contar um ao outro os nossos segredos, tu e eu! Coloquei a minha filosofia de vida em quatro versos. Ouve!

“O futuro? Porquê perplexar a alma? O passado? Esqueça a sua dor e luta! Vamos percorrer cada dia, um todo perfeito, Sobre o nosso rosário da Vida.”

“É lindo”, disse-lhe ele.

“Não é uma boa filosofia?”

“Sim”, admitiu ele, não ousando duvidar da alta sacerdotisa do novo culto ao qual fora cooptado.

“Poupa toda esta preocupação tola. A maioria das pessoas que conheço está sempre a falar das coisas más que lhes aconteceram ou a olhar para a frente na esperança de que coisas boas aconteçam, e nunca olham para baixo para admirar um momento dourado que o Destino colocou nas suas mãos. Vês, estou poética esta manhã. Por que não deveria estar? Nós amamo-nos.”

“Não sei falar”, gaguejou ele. “Sou apenas um marinheiro. Nunca disse uma palavra sobre amor a nenhuma rapariga na minha vida.”

“Tens a certeza de que nunca amaste ninguém? Lembra-te, temos de contar um ao outro os nossos segredos.”

“Nunca”, declarou ele com firmeza convincente.

Ela examinou-o, mostrando a satisfação que um buscador de ouro exibiria ao avaliar uma pepita de minério virgem. “Mas tu és tão grande e elegante! E deves ter conhecido tantas raparigas bonitas!”

Ele não ficou inquieto com este interrogatório. “Disse-lhe a verdade, Srta. Marston.”

“Que vergonha, grande rapaz! 'Srta. Marston', na verdade! Sou a Alma — Alma para ti. Diz! Diz de forma bonita!”

Ele corou. Lançou um olhar envergonhado ao homem do leme e fez uma inspeção rápida e apreensiva das regiões sagradas a ré.

“Estás com medo, depois de tudo o que te disse?”

“Não, mas parece — mal consigo acreditar —”

“Diz.”

“Alma”, ele engoliu em seco. “Alma, eu amo-te.”

“Precisas de algumas lições, grande rapaz. És tão desajeitado que acho que me estás a dizer a verdade sobre as outras raparigas.”

Ele não se atreveu a perguntar-lhe se ela tinha amado mais alguém. Com todo o ciúme apaixonado da sua alma, ele queria perguntar-lhe. Ela, que tinha tanta certeza de que podia instruí-lo, devia ter amado alguém. Ele tentou consolar-se com o pensamento de que o conhecimento dela provinha dos esforços que outros homens tinham feito para a conquistar.

“Temos o nosso Hoje”, murmurou ela. “Horas douradas até a lua aparecer — e depois talvez algumas prateadas! Não me importa o que o Arthur supõe. O meu pai está demasiado ocupado a falar de dinheiro com aqueles homens para supor qualquer coisa. Vou estar contigo o máximo que puder. Posso arranjar maneira. Estou a estudar navegação.”

Ela aninhou-se contra o parapeito, deleitando-se ao sol.

“Quem és tu?” perguntou ela, diretamente.

Aquela pergunta, vinda após a promessa da sua afeição, surpreendeu-o como o aparecimento de um recife a meio do canal.

“Basta-me que sejas exatamente como és, rapaz! Mas tu não és um príncipe disfarçado, pois não?”

“Sou apenas um marinheiro ianque”, disse-lhe ele. “Mas, se não achares que estou a tentar tirar partido do que os meus antepassados foram, direi que o meu avô era Gamaliel Mayo de Mayoport.”

“Isso soa bem, mas nunca ouvi falar dele. Com toda a minha filosofia, sou uma má estudante de história, querido.” O tom dela e o nome que lhe deu tiraram o veneno da sua confissão.

“Não creio que ele tenha desempenhado um grande papel na história. Mas ele construiu dezasseis navios no seu tempo, e a nossa bandeira de casa circulou o mundo muitas vezes. Dezasseis grandes navios, e o último foi o Harvest Home, o clipper da China que se pagou a si mesmo três vezes antes que uma monção do Oceano Índico o engolisse.”

“Bem, se ele ganhou todo esse dinheiro, porque é que vais para o mar por diversão?”

“Já não há mais navios de madeira ianques no mar. O meu pobre pai pensou que era sábio quando os navios de madeira foram afastados. Colocou o seu dinheiro em caminhos de ferro — e sabes o que aconteceu à maioria das pessoas que colocaram o seu dinheiro em novos caminhos de ferro.”

“Receio não saber muito sobre negócios.”

“Os gaviões apanharam as pombas. Foi um jogo que se jogou por toda a Nova Inglaterra. As pessoas cujo dinheiro construiu as estradas foram espremidas. Muito antes de a minha mãe morrer, o nosso dinheiro tinha acabado, mas o meu pai e eu não permitimos que ela o soubesse. Hipotecámos tudo e demos-lhe o que ela sempre tinha estado habituada. E quando o meu pai morreu, não restava nada!”

Os olhos dela brilharam. “Isso é cavalheirismo”, gritou ela. “Esse é o espírito dos cavaleiros de outrora quando as mulheres estavam em causa. Adoro-te pelo que fizeste!”

“Foi a forma como o meu pai e eu víamos as coisas”, disse ele, suavemente. “O meu pai não era um homem muito prático, mas sempre concordei com ele. E estou feliz agora, a ganhar o meu próprio sustento. Por que deveria pensar que o meu avô deveria ter trabalhado toda a sua vida para que eu não precisasse de trabalhar?”

“Suponho que é diferente com um homem grande e forte e uma mulher. Ela precisa de tanto que um homem tem de lhe dar.”

O Capitão Mayo ficou imediatamente em silêncio, abatido e embaraçado. Ele olhou para a popa, olhou para o esplêndido iate cujas finanças geria e cuja extravagância conhecia. Viu a rapariga ao seu lado e pestanejou perante as joias que brilhavam à luz do sol enquanto os seus dedos prendiam as madeixas de cabelo onde a brisa tinha brincado.

“Acho que o meu pai trabalha porque gosta”, disse ela. “Gostava que ele descansasse e desfrutasse mais de outras coisas. Se a mãe tivesse vivido para o influenciar, talvez ele visse algo mais na vida além de apenas acumular dinheiro. Mas ele não me ouve. Dá-me dinheiro e diz-me para ir brincar. Sinto falta da minha mãe, rapaz! Não tenho ninguém com quem falar — que compreenda!”

Havia lágrimas nos seus olhos, e ele sentiu-se grato por elas. Sentiu que ela tinha profundezas na sua natureza. Mas a consciência aguda da sua posição, comparada com a dela, perturbava-o. Ela estava ali, o luxo encarnado, senhora de tudo o que o dinheiro lhe podia dar.

“Qualquer um pode fazer dinheiro”, declarou ela. “O meu pai e aqueles homens estão sentados ali a traçar planos para obter milhares e milhares de dólares. Tudo o que precisam de fazer é juntar as cabeças e planear. De vez em quando, ouço algumas palavras. Vão ser donos de todos os barcos a vapor — ou algo desse género. Qualquer um pode fazer dinheiro, digo eu, mas há tão poucos que sabem como desfrutá-lo.”

“Tenho pensado muito desde ontem à noite — Alma.” Ele hesitou quando chegou ao nome dela, e depois deixou-o escapar.

“Achaste que é verdadeiramente de amantes tratar o meu nome como se fosse um obstáculo que tens de saltar?” perguntou ela, com o seu risinho irritante. “Oh, tens tanto para aprender!”

“Receio que sim. Tenho muitas coisas à minha frente para aprender e fazer. Tenho pensado. Tenho tido medo dos homens que se sentam e planeiam e colocam todas as suas mentes em fazer dinheiro. Eles fizeram coisas amargas connosco, e nós não compreendemos até que tudo estivesse acabado. Mas tenho de ir entre eles e observá-los e aprender a fazer dinheiro.”

“Não sejas como os outros, agora, e fala de dinheiro — dinheiro”, disse ela, irritadiça. “Dinheiro e as suas histórias de amor — é essa a conversa que ouço dos homens desde que me deixaram entrar na sala de estar vinda do berçário!”

“Mas tenho de falar um pouco de dinheiro, querida. Tenho o meu caminho a fazer no mundo.”

“Económico, prático e ianque!” brincou ela. “Suponho que não podes evitar!”

“Não é por mim — é por ti!” respondeu ele, com saudade, e com uma voz e um comportamento, ofereceu-se como sacrifício de Amor perante ela — a velha história de devoção total — o antigo sacrifício.

“Tenho tudo o que quero”, insistiu ela.

“Mas tenho de ser capaz de te dar o que tu queres!”

“Aviso-te que detesto gananciosos! Eles não têm uma faísca de romance neles. Boyd, tu serias como todos os outros dentro de pouco tempo. Não deves fazer isso.”

“Mas tenho de ter posição — meios antes de me atrever a ir ter com o teu pai — se é que algum dia serei capaz de ir ter com ele!”

“Ir ter com ele para quê?”

“Para lhe pedir — para dizer — para — bem, quando sentirmos que estou numa posição em que nos possamos casar —”

“Claro que nos casaremos um dia, rapaz, mas tudo isso se resolverá quando chegar a altura. Mas agora tu és — Quantos anos tens, Boyd?”

“Vinte e seis.”

“E eu tenho dezanove. E o que é que o casamento tem a ver com o amor que estamos a desfrutar agora?”

“Quando as pessoas estão apaixonadas, querem casar-se.”

“Concedido! Mas, quando os amantes são sensatos, tratarão o romance, a princípio, como o epicurista trata a sua taça de bom vinho. Servi-lo-ão lentamente, levantarão a taça contra a luz e admirarão a sua cor!” No seu estado de espírito alegre, ela juntou o polegar e o indicador e ergueu uma taça imaginária em direção ao sol. “Depois, aspirarão o bouquet. Ah-h-h, quão fragrante! E, após algum tempo, darão um pequeno gole — apenas um golinho minúsculo — e retê-lo-ão na língua por muito tempo. Pois, quando é engolido, que proveito há? Ora, rapaz, eis-te aqui — a falar, antes de tudo, em casamento! A falar do bom vinho da vida e do amor como se fosse um fluido apenas para saciar a sede. Nós vamos amar, antes de tudo! Vem, eu ensinar-te-ei.”

Ele não sabia o que lhe dizer. Havia uma espécie de abandono na sua alegria. A sua linguagem exótica embaraçava quem estava habituado à lacónica franqueza de fala dos marinheiros. Ela olhou para ele, provocando-o com os olhos. Ele sentiu-se um pouco aliviado quando o secretário de rosto pálido apareceu, arrastando-se pela escada, e interrompeu o tête-à-tête.

“As ordens do Sr. Marston são, Capitão Mayo, que vire aqui e siga para oeste. Conhece o curso habitual dos vapores da Bee line?”

“Sim, senhor.”

“Ele solicita que vire em direção à costa e siga esse curso.”

“Muito bem, senhor.” O Capitão Mayo caminhou até ao leme. “Noroeste-noroeste, Billy, até que eu lhe possa dar o rumo exato.”

“Noroeste-noroeste!” repetiu o timoneiro, virando o leme com força, e o Olenia descreveu uma curva que fez submergir o bordo e retomou o seu caminho ao longo do seu próprio rasto de espuma branca.

A Srta. Marston precedeu o capitão pela escada e entrou na sala de cartas. “Um beijo — rápido!” sussurrou ela.

Ele segurou-a junto a si por um longo momento.

“É um capitão muito obediente,” disse ela.

Quando ele a soltou e se dedicou à sua tarefa, ela inclinou-se sobre o seu ombro e observou-o enquanto ele estendia os seus paralelos sobre a carta náutica.

“Seguiremos para Razee Reef,” disse-lhe ele, ansioso por torná-la parceira em todas as suas pequenas preocupações. “Os barcos da Bee chegam ao apito ali para preparar a sua próxima etapa. Eu não sabia que o Sr. Marston estava interessado na Bee line.”

“Ouvi-o falar sobre essa linha,” disse ela, com indiferença. “Às vezes escuto quando não tenho mais nada para fazer. Ele usou uma palavra feia sobre alguém ligado a essa empresa — e é tão raro ele permitir-se dizer palavrões que escutei para ver do que se tratava. Ainda hoje não sei. Não compreendo essas coisas. Mas ele disse que, se não os pudesse comprar, tê-los-ia de destruir. Foram essas as suas palavras. Não é uma linguagem muito elegante. Mas é tudo de que me lembro.”

Antes de sair da sala de cartas, Mayo deu uma vista de olhos ao barómetro. “Lamento que ele me tenha ordenado seguir em direção à costa,” disse ele. “O vidro está demasiado abaixo dos trinta para o meu gosto. Creio que significa nevoeiro.”

“Mas está tão claro e bonito,” protestou ela.

“É sempre especialmente bonito no mar antes que algo mau aconteça,” explicou ele, sorrindo. “E há um grande banco de nevoeiro a sul há dois dias. É muito parecido com a vida, querida. Tudo adorável, e depois o nevoeiro fecha-se!”

“Mas eu seria feliz consigo no nevoeiro,” assegurou ela.

Ele brilhou com as palavras dela e respondeu com o olhar.

Ela tê-lo-ia seguido de volta para a ponte, mas o comissário interceptou-a. Ele tinha esperado fora da sala de cartas.

“Cumprimentos do Sr. Marston, Srta. Marston! Ele solicita que se junte a ele para jogar cartas.”

Ela fez um biquinho ao retribuir o olhar de aborrecimento de Mayo, e então obedeceu à ordem.

O Sr. Marston estava a acariciar a sua estreita faixa de barba no queixo com o polegar e o indicador quando ela chegou ao convés de popa. Os homens de negócios estavam no andar de baixo, e ele indicou uma cadeira de lona ao seu lado.

“Alma, pelo resto desta viagem, quero que fiques aqui atrás com os nossos convidados, onde é o teu lugar,” ordenou ele com a franqueza de ataque empregue por Julius Marston nos seus tratos com aqueles do seu círculo.

“O que queres dizer, pai?”

“Isso — exatamente. Fui explícito, não fui?”

“Mas não estás a insinuar que — que eu tenha —”

“Bem?” O Sr. Marston acreditava em deixar que os outros expusessem os seus sentimentos antes de revelar os seus.

“Não estás a sugerir que há algo de errado em eu estar na ponte, onde me divirto tanto. Estou a tentar aprender algo sobre navegação.”

“Estou a pagar àquele indivíduo lá em cima para tratar de tudo isso.”

“E torna-se cansativo aqui atrás.”

“Tu escolheste a tua própria companhia para a viagem — e lá está o Sr. Beveridge pronto para te divertir a qualquer momento.”

“O Sr. Beveridge diverte-me — distintamente diverte-me,” retorquiu ela. “Mas existe uma coisa chamada cansar-se até de uma piada como o Sr. Beveridge.”

“Por favor, emprega um tom mais respeitoso quando te referires a esse cavalheiro,” disse o seu pai, com severidade. Mas ele prontamente recaiu no seu habitual estado de espírito quando ela se intrometia nos seus assuntos. Ele era patronizador e tolerante. “A tua amiga, Srta. Burgess, tem feito piadas sobre a tua repentina devoção à navegação, Alma.”

“Nan Burgess não consegue manter a língua quieta, nem sequer sobre si própria.”

“Eu sei, mas não pretendo que dês ocasião sequer para piadas. É claro que compreendo. Conheço os teus caprichos. Estás interessada, pessoalmente, naquele tipo de galões dourados tanto quanto estarias interessada naquela coisa de latão onde fica a bússola — seja lá como chamam àquilo.”

“Mas ele é um cavalheiro!” gritou ela, o seu interesse tornando-a imprudente. “O avô dele era —”

“Alma!” sibilou Julius Marston. Os seus olhos abriram-se muito. Ele olhou para ela de cima a baixo. “Já ouvi dizer antes que uma viagem pelo oceano torna as mulheres tolas. Estou inclinado a acreditar nisso. Não me importa um caracol quem era o avô daquele tipo. Tu és a minha filha — e manténs-te longe daquela ponte!”

Os homens de negócios estavam a subir a escada, e ela levantou-se e apressou-se para o seu camarote.

“Não me atrevo a encontrar-me com Nan Burgess agora,” disse para si mesma. “As amizades podem ser quebradas ao dizer certas coisas — e sinto-me perfeitamente capaz de dizer exatamente essas coisas a ela neste momento.”

Ao final da tarde, o Olenia, com a linha da costa a avultar a estibordo, traçou o seu curso para encontrar e passar um grande vapor que vinha a rolar pelo mar com uma bandeira de fumo negro a tremular atrás de si.

O nevoeiro que o Capitão Mayo tinha previsto estava a chegar. Farrapos dele arrastavam-se sobre as ondas — escaramuçadores enviados à frente do corpo principal que marchava em massa mais lentamente atrás.

Uma boia com apito, com o seu grunhido sinistro, dizia a todos os navegantes para evitar Razee Reef, que erguia o seu volume negro e irregular contra a linha do horizonte. Com aquele nevoeiro a chegar, o Capitão Mayo precisava de tirar marcações exatas de Razee, pois decidira seguir para o porto naquela noite. Aquela linha costeira, para cujo curso interior as ordens de Marston tinham enviado o iate, era perigosa demais para ser negociada numa noite envolta em nevoeiro. Por isso, o capitão tomou o apito quase de frente, deixando ao vapor maior bastante espaço em mar aberto.

Com considerável espanto, Mayo notou que o outro tipo se aproximava do apito num ângulo mais agudo do que qualquer um precisaria. Esse curso, se fosse mantido, espremeria o iate em águas perigosas. Mayo deu ao vapor que se aproximava um sinal sonoro, indicando a sua intenção de passar a estibordo. Após um atraso, foi respondido com dois apitos roucos — uma infração flagrante das regras de navegação.

“Isso deve ser um erro,” informou o Capitão Mayo ao imediato McGaw.

“Esse é um nome educado para isso, senhor,” afirmou o Sr. McGaw, depois de ter movido a saliência na sua bochecha.

“Claro que ele não quer dizer isso, Sr. McGaw.”

“Então por que é que ele não nos está a dar espaço de manobra no lado de fora daquela boia, senhor?”

“Não posso virar e cruzar a proa dele agora. Se ele nos atingisse, seríamos nós os responsabilizados pelo acidente.”

Novamente, Mayo deu ao vapor obstinado um único apito.

“Se ele me responder com sinais cruzados outra vez, vou denunciá-lo,” informou ele ao imediato. “Preste muita atenção, Sr. McGaw, e você também, Billy. Podemos ter de ir perante os inspetores.”

Mas o grande tipo à frente deles não se dignou a responder. Continuou direto para o apito.

“Cumprimentos do Sr. Marston!” gritou o secretário da escada da ponte. “Que vapor é aquele?”

“O Conorno da Bee line, senhor,” declarou o Capitão Mayo por cima do ombro. Depois, soltou um palavrão de marinheiro bem sonoro e profundo. Segundo as aparências, por mais incrível que a situação parecesse, o Conorno pretendia levar o iate para dentro do apito.

Mayo correu para o leme e puxou o sino furiosamente. Ouviram-se quatro badaladas rápidas na casa das máquinas e, num momento, o Olenia começou a tremer em toda a sua estrutura. A navegar a toda a velocidade para a frente, Mayo tinha ordenado velocidade máxima a ré. Depois, soou três apitos, sinalizando conforme as regras de navegação exigem. Os hélices gémeos do iate agitaram uma agitação espumosa sob a sua popa e, enquanto ele trabalhava assim no seu próprio rasto, tremendo como um ser vivo na extremidade do terror, o grande vapor passou. A espuma das ondas cremosas na sua proa lançou salpicos desdenhosamente sobre Julius Marston e os seus convidados no convés de popa do Olenia. Homens sorriam lá de cima, das janelas altas da casa do leme do vapor.

Uma voz zombeteira trovejou através de um megafone: “Saiam do caminho da Bee line! Fiquem com a dica!”

Um oficial apontou o dedo para a bandeira da casa de Marston, que estalava no topo do mastro principal do iate. O rabo-de-peixe azul com a letra “M” tinha revelado a identidade do iate aos binóculos que procuravam.

“Mais vale torná-la preta! Caveira e ossos cruzados!” voluntariou-se o operador do megafone.

Seguiu ele mar abaixo e o Olenia balançou no rasto turbulento dos hélices em movimento.

Então, pela primeira vez, o Capitão Mayo ouviu o som da voz de Julius Marston. O magnata levantou-se, abanou o punho para o seu capitão estupefacto e gritou: “Que raio é que pensas que estás a fazer?”

Foi um pedido espantoso, insultuoso e, dadas as circunstâncias como Mayo as conhecia, injusto. O mestre do Olenia não respondeu. Não estava preparado para dar qualquer explicação à distância. Além disso, o iate exigia toda a sua atenção naquele momento. Deu as suas ordens e ele avançou para contornar o apito.

“Noroeste-noroeste, um quarto de oeste, Billy. E corta rente!”

O nevoeiro tinha saltado sobre eles vindo do mar. A brisa da terra tinha estado a conter a parede de vapor, represando-a num banco acastanhado a sul. A brisa tinha cedido. O nevoeiro tinha aproveitado a oportunidade.

“Saturday Cove para nós esta noite, Sr. McGaw,” disse o mestre. “Mantenha os olhos por cima do ombro do Billy.”

Então, o secretário apareceu novamente na escada. Desta vez, não trouxe nenhuns “cumprimentos”.

“O Sr. Marston quer que se apresente à ré imediatamente,” anunciou ele, bruscamente.

Mayo hesitou por um momento. Estavam a navegar para a brancura que se tinha fechado com aquela densidade sufocante que os marinheiros chamam de “nevoeiro de masmorra”. A entrada de Saturday Cove era um alvo distante e pequeno. Apesar do timoneiro e do imediato, a responsabilidade era toda dele.

“Por favor, explique ao Sr. Marston que não posso deixar a ponte.”

“Tem ordens diretas dele, capitão! É melhor parar o barco e apresentar-se.”

O capitão do Olenia estava a ter o seu primeiro contacto com o capricho irracional do autocrata que tinha o direito de invadir a disciplina de bordo, mesmo num momento crítico. Mayo sentiu a exasperação a crescer nele, mas estava disposto a explicar.

O apito e Razee Reef tinham sido apagados pelo nevoeiro.

“Se esta embarcação for parada cinco minutos nesta deriva de maré, perderemos a nossa localização, senhor. Não posso deixar esta ponte por enquanto.”

“Estou a pensar que a vai deixar para sempre!” disparou o secretário. “É o primeiro empregado que alguma vez disse a Julius Marston para ir morder o seu próprio polegar.”

“Posso ser um empregado,” retorquiu Mayo. “Mas também sou um mestre marítimo licenciado. Peço-lhe que se retire da ponte.”

“Isso vale para todos os outros — passageiros?” perguntou o secretário, zangado por sua vez. Ele enfatizou a última palavra. “Vale — num momento como este!”

“Muito bem, dar-lhes-ei essa palavra à ré.”

O Capitão Mayo captou um olhar de soslaio do imediato McGaw após algum tempo.

“Sempre me perguntei,” comentou o imediato para ninguém em particular, “como é que tantos tolos ficam ricos em terra.”

O Capitão Mayo não expressou qualquer opinião sobre o assunto. Agarrou-se ao corrimão da ponte e encarou o nevoeiro, parecendo ter muita dificuldade em conter algum tipo de emoção.

III ~ A TAVERNA DOS MARES

Agora, Senhor Macliver, conhece-o muito bem, Ele vem ao convés e faz um grande alarido; É caramba para os teus olhos ali e caramba para os teus olhos aqui, E direto para a prancha ele faz uma guinada larga. — La Pique “Come-all-ye.”

Para dentro de Saturday Cove, durante toda aquela tarde tardia, eles vinham a surgir — mastros e cordames delineados contra o pálio que avançava do nevoeiro cinzento — aqueles viajantes do alto mar.

Os primeiros a rolar para dentro, passando pelos portais rochosos do refúgio, foram os veneráveis carros do mar — os navios de cabotagem conhecidos como os “Apple-treers”. Os seus capitães experientes, velhos lobos do mar que podiam cheirar o tempo como cães de caça farejam pistas, tinham os narizes ao vento na devida altura naquele dia e sabiam que tinham de depender de um vento a diminuir para os empurrar para o porto. Um após o outro, as âncoras cobertas de cracas salpicavam das amuradas, arrastando correntes enferrujadas dos escovéns, e as velas velhas e remendadas vinham desabando com o ruído das roldanas e o sussurro das cordas em movimento.

Uma canção de marinheiros da costa explica a alcunha, “Apple-treers”:

Oh, para que serve a bússola ou o quadrante ou a barquinha? Mantém-na a descansar na lama num vento norte ou nevoeiro. Mas assim que a hipótese é melhor, lá a puxamos outra vez, Mantendo-nos perto o suficiente para marcações das macieiras em terra.

Por isso, as escunas de gávea, os veleiros de proa e popa, as proas rombas de Bluenose, entraram cedo antes que o nevoeiro borrasse o vulto das árvores e antes que se tornasse necessário adivinhar o que as velhas bússolas de cartão tinham a revelar sobre os rumos.

E assim, juntamente com o resto da ralé da cabotagem, que procurava porto e fundeadouro, veio a antiga escuna Polly. Mascarada por aquelas névoas ilusórias, era um navio-fantasma como os outros; mas, mais do que os outros, parecia um navio fantasma, pois as suas linhas e o seu aparelho informavam qualquer marinheiro bem informado de que deveria ser centenário; com a sua estranheza acentuada pelo pálio de nevoeiro, parecia irreal — uma imagem do passado.

Tinha uma proa projetada e um levantamento de popa quadrada e uma cintura afundada — tudo o que revelava com precisão uma antiguidade madura, tal como um chapéu de castor de topo arredondado e um casaco de cauda de andorinha com botões de latão identificariam um velho no meio de modas mais recentes. Tinha costuras como as rugas na pele de pergaminho da extrema velhice. Transportava uma figura de proa de madeira sob o gurupés, o rosto e o busto de uma mulher a quem um antigo escultor de madeira tinha conferido a sua noção de um sorriso beatífico; o resultado era um esgar idiota. O dourado glorioso tinha-se desgastado, a madeira estava cinzenta e rachada. A cozinha da Polly estava inteiramente escondida sob uma carga de convés de telhas e ripas em feixes; a casa de popa era larga e avultava alto acima do bordo, em contraste com as meras cabines que eram fornecidas para os outros veleiros de proa e popa na flotilha que vinha a navegar em direção a Saturday Cove.

A Polly, sendo velha o suficiente para ser celebrada, tinha sido objeto de uma letra de dezassete versos da costa, qualquer um dos quais era capaz de produzir a mais horrível profanação por parte do Capitão Epps Candage, o seu mestre, sempre que ouvia a cantiga a ecoar sobre as ondas, cantada por um satírico a bordo de outra embarcação.

Naquele vento que derivava, havia tempo livre; um homem a bordo de uma escuna de cal, a uma distância razoavelmente segura da Polly, encontrou inclinação e levantou a voz:

“Ow-w-w, lá vem a Polly com uma vela caída, E Epps, o das botas de borracha, está sentado no seu bordo. Quanto tempo levará para chegar à cidade de Boston? Não sei dizer, porque está a navegar para cima e para baixo.”

“Achas que esse tipo de ganido tem piada, achas, tu, filho de uma americana de cara de massa, de nariz de noz, guelras azuis e olhos de peixe?” trovejou o Capitão Candage, do seu posto ao leme da Polly.

“Pai!” protestou uma rapariga que estava na entrada da escotilha, com os cotovelos apoiados nas abas. “Tal linguagem! Para com isso!”

“Não é metade do que consigo fazer quando começo a sério,” respondeu o capitão.

“Nunca dizes tais coisas em terra.”

“Bem, não estou em terra agora, estou? Estou em alto mar e estou a falar de acordo com a ocasião. Quem é que manda nesta escuna, tu ou eu?”

Ela enfrentou o seu mau humor com um espírito próprio: “Estou a bordo aqui, onde não quero estar, por causa das tuas ideias estúpidas, pai. Tenho o direito de te pedir que uses uma linguagem decente e não nos envergonhes a ambos.”

Contra o fundo arcaicamente simples, a beleza da jovem rapariga aparecia num contraste impressionante. Os seus caracóis espreitavam debaixo da touca holandesa branca que usava. Os seus olhos brilhavam com um protesto indignado, o seu rosto era picante e estava precisamente corado, e o seu nariz tinha o mínimo de inclinação natural, dando-lhe o ar de uma jovem mulher que tinha vontade própria para temperar a sua amabilidade.

O Capitão Candage pestanejou para ela por cima dos raios do leme e, no seu coração de pai, reconheceu o seu encanto, percebendo mais agudamente que a sua filha sem mãe se tinha tornado um problema demasiado grande para o seu conhecimento limitado na gestão de mulheres.

Ele não a tinha visto crescer gradualmente, como outros pais tinham observado as suas filhas, sendo capaz de enfrentar problemas diários na moldagem e no domínio.

Ela parecia atingir o desenvolvimento, mental e físico, em fases desconcertantes enquanto ele estava fora nas suas viagens. Cada vez que a encontrava, era obrigado a conhecê-la de novo, parecia-lhe.

O Capitão Candage tinha admitido francamente para si mesmo que não era capaz de exercer qualquer autoridade sobre a sua filha quando ela estava em terra.

Ela não era voluntariosa; não era obstinada; dava-lhe afeição. Mas tinha-se tornado uma jovem mulher enquanto os seus pensamentos lentos a classificavam ainda como uma criança. Ela estava sempre à frente de todos os seus cálculos. Nas suas ausências, ela saltava de fase em fase de carácter — quase de identidade! Ele nunca tinha esquecido como lhe tinha trazido de Nova Iorque, após uma viagem, meio saco de estopa cheio de brinquedos de lata, e descobriu que, na sua ausência, por conselho e sanção da sua tia, que se tinha tornado a sua mãe adotiva, ela tinha baixado os seus vestidos até ao comprimento do tornozelo e se tinha tornado uma jovem dama a quem ele chamou “Srta. Candage” duas vezes antes de ter conseguido endireitar as suas emoções. Enquanto ele se maravilhava com a enormidade dos brinquedos de lata no saco de estopa aos seus pés, sentado na sala da tia, a sua filha pediu-lhe que fosse como convidado de honra ao piquenique da classe da escola dominical que ela estava a organizar como professora. Isso deu-lhe a oportunidade de mentir sobre os brinquedos e alegar que os tinha trazido para os seus alunos.

O Capitão Candage, no convés do seu navio, descobriu que era capaz de reunir um pouco de coragem e arrogância por alguns minutos, mas não se atrevia a olhar para ela por muito tempo enquanto se impunha.

Ele olhou para ela então, enquanto ela estava na entrada sombria, uma imagem radiante e rosada de donzela saudável. Mas a expressão no seu rosto não era reconfortantemente filial.

“Pai, tenho de o dizer novamente. Não consigo evitar dizê-lo. Estou tão infeliz. Estás a julgar-me tão cruelmente.”

“Fiz isso porque pensei que era a coisa certa a fazer. Não tenho estado a cuidar e a vigiar como um pai devia cuidar e vigiar. Nunca pareci ser capaz de te apanhar. Talvez não tenha razão. Talvez tenha! De qualquer modo, vou manter-me nesta tática, no teu caso, por mais algum tempo.”

“Tiraste-me do meu verdadeiro lar para isto? Este não é lugar para uma rapariga! Não és o mesmo que és quando estás em terra. Eu não sabia que podes ser tão rude — e — perverso!”

— Aguenta aí, filha! Amarra o cabo aí mesmo! Sou um homem honesto, temente a Deus e trabalhador — pago cada centavo do que devo, e tu sabes disso.

— Mas o que acabaste de gritar — bem ali, onde toda a gente podia ouvir?

— Aquilo — aquilo foram apenas cortesias do dia comparadas com o que sou capaz de fazer quando começo a sério. Achas que vou deixar qualquer javali de focinho arrebitado e limpador de cal que cante...

— Pai!

— O que é que uma rapariga sabe sobre as coisas que um pai tem de suportar quando vai para o mar e ganha dinheiro para ela?

— Estou disposta a trabalhar para mim mesma. Tiraste-me da minha boa posição na loja de chapelaria. Fizeste-me deixar todos os meus jovens amigos. Oh, sinto tantas saudades de casa! A sua autoconfiança desapareceu subitamente. Ela engasgou-se. Escondeu a cabeça na curva do braço e soluçou.

— Não faças isso! — implorou ele, suavizando-se de repente. — Por favor, não, Polly!

Ela olhou para cima e sorriu — um sorrisinho suplicante e pálido. — Não pretendia ceder a isso, paizinho querido. Não pretendo fazer nada para te deixar zangado ou triste. Tentei ser uma boa rapariga. Sou uma boa rapariga. Mas parte-me o coração quando não confias em mim.

— Eles estavam a cortejar-te — gaguejou ele. — Aqueles janotas da costa andavam a rondar-te. Não duvido de ti, Polly. Mas tu não tens mãe. Tive medo. Sei que fui um tolo com isso. Mas tive medo! — Lágrimas salpicaram as suas faces bronzeadas. — Não tenho sido grande pai porque tive de andar a navegar e a ganhar dinheiro. Mas pensei em levar-te para longe até — até conseguir planear alguma coisa.

Ela olhou para ele, suavizando-se visivelmente.

— Oh, Polly — disse ele, com a voz embargada —, não sabes o quão bonita és — não sabes o quanto tenho medo!

— Mas podes confiar em mim, pai — prometeu ela, após uma pausa, com dignidade simples. — Sei que sou apenas uma rapariga do campo, talvez não seja sábia, mas sei o que é certo e o que é errado. Não consegues compreender o quanto feriste terrivelmente o meu orgulho e o meu autorrespeito ao forçar-me a vir e a ser fechada aqui, como se eu fosse uma rapariga sem vergonha que não se sabe cuidar?

— Creio que fiz mal, Polly. Mas não sei muito — não sobre o mundo feminino. Estava a tentar fazer o que é certo — porque tu és tudo o que tenho neste mundo.

— Espero que penses bem em tudo — aconselhou ela, seriamente. — Vais compreender daqui a algum tempo, pai, tenho a certeza. Então deixar-me-ás voltar e confiarás em mim — como a tua própria filha deve ser confiada. Essa é a maneira certa de tornar as raparigas boas — deixá-las saber que se pode confiar nelas.

— Provavelmente tens razão — admitiu ele. — Vou pensar em tudo. Assim que chegarmos e ancorarmos, sentar-me-ei e farei uma boa revisão a tudo na minha mente. Talvez...

Ela aproveitou a pausa dele. — Vamos entrar num porto, não vamos, pai?

— Sim. Mesmo à nossa frente.

— Gostaria que me levasses a terra e me mandasses de volta. Perderei o meu lugar na loja se ficar fora muito tempo.

A sua obstinação reapareceu prontamente. — Não te quero naquela chapelaria. Disseram-me que os caixeiros-viajantes incomodam as raparigas nas lojas.

— Eles não me incomodam, pai. Não tens confiança na tua própria filha?

— Sim, tenho — disse ele, firmemente, e depois acrescentou: — mas fico a pensar nos janotas e depois fico com medo.

Ela lançou-lhe um olhar rápido, claramente tentada a dar uma resposta impaciente, e depois virou-se e desceu para a cabine.

— Não fiques zangada comigo, Polly — gritou ele atrás dela. — Acho que, talvez, esteja totalmente errado. Vou pensar no assunto; não prometo nada com certeza, mas não será nada surpreendente se te puser em terra aqui e te mandar de volta para casa. Não chores, pequena. Havia lágrimas na sua voz, assim como nos seus olhos.

O vocalista da escuna de cal sentiu um impulso de entoar outra estrofe:

“Ow-w-w, lá vem a Polly no meio da estrada, Rebocada por uma mula e com blocos de pavimentação por carga. O diabo está à espera e o diabo bem pode esperar, Pois nunca conseguirá esses blocos para terminar de pavimentar o inferno.”

O Capitão Candage deixou o seu leme e caminhou até ao corrimão. Toda a suavidade tinha desaparecido do seu rosto e da sua voz.

— Seu maldito escaravelho-do-mar de mandíbula de chifre e cara de lama, ousas ladrar mais alguma dessas porcarias e eu subirei a bordo depois de ancorarmos e saltar-te-ei pela goela abaixo e galoparei as entranhas eternas de ti! Não sabes que tenho senhoras a bordo?

— Não parece — respondeu o cantor.

— Bem, ouves o som que faço! Dá um nó cego nessas tuas mandíbulas de tralha!

As meditações do Capitão Candage não foram perturbadas depois disso.

Com a assistência do seu único ajudante a bordo, “Oakum Otie”, um indivíduo grisalho e barbudo que combinava numa só pessoa os vários cargos de primeiro imediato, segundo imediato, marinheiro A-1 e marujo de convés — além de companheiro de copo do capitão —, a Polly foi manobrada até ao seu ancoradouro em Saturday Cove e foi arrumada para a noite. O fumo começou a sair em espirais azuis da chaminé da cozinha, e houve vislumbres ocasionais do cozinheiro, um jovem de tez amarelada e um só olho, cuja decoração principal e eterna lhe valeu a alcunha de “Smut-nosed Dolph”.

Depois vieram alguns dos aristocratas do oceano juntar-se aos convidados mais humildes naquela taverna dos mares.

Os precursores de um iate clube metropolitano, no seu cruzeiro anual, chegaram, manobrando com montanhas ondulantes de lona branca espalhadas para apanhar os últimos sussurros da brisa. As chegadas posteriores, depois de a brisa falhar, foram rebocadas pelas elegantes embarcações a motor da frota. Uma a uma, à medida que as âncoras salpicavam a água, canhões de latão ladravam a saudação e eram respondidos pela arma do comodoro.

O Capitão Candage sentou-se na borda da casa da Polly e soltou uma piscadela involuntária e irada cada vez que um canhão estrondava. Naquele porto cercado por colinas, onde o nevoeiro se tinha acumulado, cada ruído era amplificado como por uma caixa de ressonância. Havia saudações alegres, os iatistas gritavam sobre os corrimões de latão embebidos em névoa a troca das experiências do dia, e as ágeis traineiras dos iates, com os seus escapamentos de latido estacado, começaram a transportar homens de um lado para o outro em tarefas de sociabilidade. Nos silêncios, o Capitão Candage conseguia ouvir o estalar das rolhas de champanhe.

— Esses tipos certamente vivem alto e dormem no sótão — observou Oakum Otie. Ele estava sentado de pernas cruzadas no topo da casa e martelava os caroços numa emenda de cabo recém-torcida com a ponta de um furador.

— Sempre foi uma maravilha para mim — rosnou o Capitão Candage —, como é que os janotas que não parecem ter mais inteligência do que aqueles tipos a rir-se ali, e a beber licor às carradas, alguma vez ganham dinheiro da forma que o fazem para poderem pagar tudo isto.

Sobre esse ponto, o Capitão Candage talvez tivesse encontrado o Imediato McGaw do Olenia disposto a entrar numa discussão proveitosa e num entendimento amigável!

— Eles não o ganham — não sabem o suficiente para o ganhar — afirmou Otie, com a convicção de um homem que sabia exatamente do que estava a falar. — Foi tudo deixado para eles pelos seus pais.

Os homens barbudos e bronzeados das tripulações das escunas de maçã apoiavam os cotovelos remendados dos seus casacos velhos nos corrimões e observavam sombriamente a convivialidade a bordo das embarcações de brincar. Os comentários que trocavam entre si eram formulados para indicar uma espécie de desdém altivo por estes foliões do mar. Os capitães de cabotagem, a maioria dos quais usava chapéus rígidos, como se não quisessem ser confundidos com aqueles capitães de iate afetados, patrulhavam os seus conveses de ré e cuspiam desdenhosamente sobre os corrimões.

Eternamente ouvia-se o clangor das bombas a bordo dos navios da Apple-treers, e as bombas estavam a combater as fugas eternas. Água avermelhada pelo contacto com tijolos, água tornada turva pela percolação através de blocos de pavimentação, salpicava continuamente dos imbornais soluçantes.

O Capitão Ranse Lougee da escuna de gávea Belvedere, carregada com restos de peixe para uma fábrica de cola de Boston, passou por cima da amurada para o seu escaler e veio a remar até à Polly, de pé e virado para a frente, balançando-se com o remo do pescador.

Ele transpôs facilmente a borda livre escassa da escuna e veio para a ré, sendo cumprimentado cordialmente pelo Capitão Candage.

— Pensei em mostrar àqueles gulosos que há um pouco de sociabilidade entre os cavalheiros no comércio de cabotagem também — informou o seu anfitrião. — Além disso, quero pedir emprestada a hora exata do dia. E, além disso, estou contente por me afastar daquela maldita aromática a bordo do Belvedere e arejar um pouco o nariz de vez em quando. Qual é a novidade, Capitão?

O Capitão Candage respondeu às banalidades do outro capitão de forma abstraída. Ele tinha visto a aproximação de Lougee com interesse, e agora estava claramente a ponderar sobre algo totalmente fora daquela conversa.

— Capitão Lougee — interrompeu ele, subitamente, em tons baixos —, quero que venhas para a frente comigo, fora do alcance de qualquer pessoa que esteja abaixo. Tenho uma pequena tralha que quero que me ajudes a rever.

Os dois caminharam para a frente sobre a carga do convés e sentaram-se no gurupés, que se espalhava descuidadamente onde tinha caído quando as adriças foram soltas.

— A minha filha está abaixo, ali — explicou o Capitão Candage.

— Viagem de férias, eh?

— Não creio que se possa chamar a isso, Capitão Lougee — afirmou o anfitrião, secamente. — Ela está a divertir-se tanto como um canário se divertiria numa pipoqueira sobre um fogo quente.

— Porque é que ela veio, então?

— Obriguei-a a vir. Eu ratei-a.

— Essa não é maneira de tratar as mulheres — declarou o Capitão Lougee. — Criei cinco filhas e sei do que estou a falar.

— Sei que criaste cinco raparigas, e elas são espertas como o diabo e corretas como um trivet — e é por isso que me meti diretamente no assunto como fiz. Fiquei contente por te ver a bordo, Capitão Lougee. Quero um conselho de um homem que sabe.

— Então sou o homem a consultar, Capitão Candage.

— Da última vez que estive em casa — onde ela tem vivido com a sua Tia Zilpah — apanhei-a! — confessou Candage. A sua voz era rouca. Os seus dedos, dobrados e calejados por puxar cabos, tremiam enquanto mexia na costura das suas calças.

— Não me digas! — Lougee cluckou, solícito.

— Sim, apanhei-a a andar de charrete!

— Sozinha?

— Não, havia um grupo deles numa carrinha de praia. Eles iam para uma festa. E apanhei-a a dançar com um tipo nessa festa.

— Bem, continua agora que começaste! Abre a vela grande!

— É quase tudo o que há — exceto que um tipo a tem acompanhado a casa vindo de concertos da escola dominical com uma lanterna. Sim, creio que é tudo até à data e à presente escrita — confessou Candage.

— O que mais suspeitas?

— Nada. Claro, não há como saber no que se tornará — com os janotas a incomodá-la da maneira que fazem.

— Não há como saber nada neste mundo, pois não? — exigiu o Capitão Lougee, muito bruscamente.

— Creio que não — não com certeza!

— Queres dizer que, porque a tua rapariga — como qualquer rapariga deveria — se divertiu um pouco inocentemente com jovens, a arrastaste para bordo desta velha traineira, envergonhando-a e tornando-a ridícula?

— Tenho tentado cumprir o meu dever como pai — afirmou o Capitão Candage, resolutamente, evitando o olhar flamejante do seu convidado.

O Capitão Lougee endireitou a perna para chegar ao bolso das calças, tirou um bocado de tabaco e roeu um pedaço de um canto, após uma inspeção cuidadosa para encontrar um local adequado para uma dentada.

— Preciso de ter algo na boca a esta hora — algo calmante para a língua e, como se poderia dizer, uma espécie de confinamento, para que demasiado discurso não exploda de uma vez — afirmou ele, falando com esforço enquanto tentava alojar o enorme pedaço de tabaco numa posição confortável. — Criei cinco raparigas simpáticas, e tratei-as sempre como se tivessem senso comum juntamente com a bondade natural da mulher e uma autoconfiança consideravelmente maior do que uma galinha Leghorn. E tratei-as como se tivessem os direitos e privilégios ordinários dos seres humanos. E elas cresceram e são um crédito para a família. E não tenho de olhar para trás sobre o meu registo e refletir que fui um Chinês ou um Turco. Não, senhor! Fui um pai — e as minhas raparigas podem vir e sentar-se no meu colo hoje e ouvir o meu conselho, e achar que vale alguma coisa.

Ele levantou-se e caminhou em direção ao seu escaler.

— Mas aguenta — chamou o Capitão Candage. — Não me disseste o que pensas.

— Não disse? Pensei que tinha dito, tornando-o suave e agradável. Mas se precisas de algo mais claro e direto, comentarei — ainda tornando-o suave e agradável — que és um velho tolo maldito! E agora vou voltar e ser sociável com aqueles restos de peixe. Creio que cheirarão melhor depois disto! — Ele saltou para o seu escaler e remou para longe.

O Capitão Candage não ofereceu réplica a esse resumo conciso e substancial. Naturalmente, ele era tão hábil com a língua como o Capitão Ranse Lougee ou qualquer outro homem ao longo da costa. Mas, neste caso, o mestre da Polly não tinha a certeza do seu terreno. Ele sabia que o Capitão Lougee se tinha qualificado como pai de cinco. No julgamento de um marinheiro, a experiência conta. E ele não se ressentiu da maneira do Capitão Lougee porque a brutal franqueza daquele capitão era bem conhecida pelos seus amigos. O Capitão Candage tinha pedido e tinha recebido. Ele descansou os cotovelos nos joelhos e olhou para o visitante que partia e ponderou.

— Talvez ele tenha razão. Provavelmente tem razão. Mas não seria disciplina de bordo se eu lhe dissesse que estive errado. Creio que vou para a ré e ser agradável e gentil, esperando que nada aconteça para irritar os meus sentimentos. Agora que os meus sentimentos estão calmos e pacíficos, e tendo tomado o rumo e as orientações de um pai de cinco, provavelmente direi a ela: 'É melhor ires para casa, sissy, vendo que já te disse como cuidar da tua vida depois disto.'

IV ~ SOBRE O CORRIMÃO DA “POLLY”

O Stormy era um bom velho homem! À minha maneira tu tempestade ao longo! Cara dura como uma velha lata, Ay, ay, ay, Senhor Storm-along! — Shantey de Storm-along.

Sem prestar muita atenção ao perturbador, o Capitão Candage tinha ficado um pouco irritado durante a sua meditação. Uma lancha de um dos iates continuava a circular a Polly, carregando uma espuma cremosa de água sob a sua proa levantada. Era um mosquito barulhento de barco e chutava uma esteira desdenhosa contra a velha carroça manchada de ferrugem.

Quando passou sob a ré, depois de o Capitão Candage estar de volta ao seu convés de ré, ele lançou-lhe um olhar por cima do corrimão, e a sua expressão era distintamente desagradável.

— Eles provavelmente desperdiçaram mais dinheiro naquilo do que esta escuna venderia no mercado hoje — informou ele a Otie.

— Eles não se importam com a forma como o dinheiro vai, desde que não tenham de suar para o ganhar. Atirando-o como se atirassem feijões!

De volta ao seu curso circular sibilou a traineira rápida. Desta vez, o motor a ronronar silenciou-se e o barco veio à deriva para o lado.

— A bordo da Polly! — gritou um dos iatistas, um homem com a insígnia de proprietário no seu boné.

O mestre da velha escuna colocou o seu rosto franzido mais longe sobre o corrimão, mas não respondeu.

— Esta Polly não é a verdadeira?

— Não, é apenas uma pintura cromada dela.

— Obrigado! Você é um cavalheiro! — retorquiu o iatista.

— Oh, aguenta, Paul — instou um dos homens na traineira. — Há uma maneira certa de lidar com estes velhos rapazes. — Ele levantou-se. — Estamos muito interessados neste pacote, capitão.

— É por isso que tens andado a fazer um espetáculo sagrado dela, brincando ao roda-roda, eh?

— Mas diga-me, esta não é a velha chalupa que foi um corsário na guerra de mil oitocentos e doze?

— Ninguém a bordo aqui disse alguma vez que não era.

— Bem, senhor, podemos vir a bordo e dar uma olhadela?

— Não senhor, não podem.

— Ora, veja lá, capitão...

— Estou a ver! — declarou o mestre da Polly em tons sinistros.

— Não pretendemos incomodá-lo, capitão.

— Pessoas que não sabem melhor fazem muitas coisas sem querer.

O Capitão Candage entretinha regularmente o ressentimento de um trabalhador do mar por homens que usavam o oceano como um mero recreio. Mas, mais especialmente, durante aqueles dias mais recentes, o seu temperamento geral era sensível em relação a jovens janotas, pois ele tinha enfrentado um problema em casa que tinha testado a sua alma. Ele sentia uma cólera irracional a subir nele em relação a estes rapazes, que pareciam não ter problemas próprios.

— Sou escritor — explicou o outro. — Se me for permitido ir a bordo, tirarei algumas fotografias e...

— E troçar de mim e do meu barco colocando um artigo no jornal para fazer cócegas aos janotas da cidade. Afasta-te! — comandou ele, notando que a traineira estava a derivar para o lado da escuna e que um dos membros da tripulação tinha colocado um gancho contra a chapa de corrente principal.

— Não te preocupes com o velho caranguejo — aconselhou o proprietário, azedamente.

Mas o outro persistiu, educadamente, até humildemente. — Temo que não me compreenda, capitão. Tão cedo faria troça da minha mãe como desta nobre relíquia.

— Segue em frente! Chama-lhe nomes!

— Estou a tirar o chapéu a isto — declarou ele, tirando o boné da cabeça. — O avô do meu pai esteve na guerra de mil oitocentos e doze. Quero honrar este velho patriota aqui com o melhor tributo que a minha caneta pode pagar. Se me permitir vir a bordo, sentir-me-ei como se estivesse a pisar um local sagrado, e posso garantir-lhe que os meus amigos, aqui, têm tanto respeito por esta embarcação como eu.

Mas este apelo honesto não suavizou o Capitão Candage. Ele não compreendia exatamente de que fonte fluía este rancor geral seu. Ao mesmo tempo, ele estava consciente da razão principal pela qual não queria permitir que estes visitantes remexessem a bordo da escuna. Eles conheceriam a sua filha, e ele tinha medo, e envergonhava-se amargamente de si próprio porque tinha medo. Vagamente, ele estava consciente de que este medo eterno por causa dela constituía um insulto a ela. O impulso mais nobre de proteger a sua privacidade não o estava a mover; ele sabia isso também. Ele estava apenas tolamente com medo de confiar nela na companhia de jovens, e a combinação das suas emoções produziu o produto mais simples de uma agitação mental — ira irracional.

— Afasta-te, digo eu — comandou ele.

— Mais uma vez imploro-lhe, capitão, com todo o respeito, por favor podemos vir a bordo?

— Tu vai-te embora daqui e trata dos teus próprios negócios, se os tiveres, ou atiro-te com um monte de telhas! — rugiu o capitão.

— Pai! — A voz expressou uma repreensão indignada. — Pai, tenho vergonha de ti!

A rapariga veio para o corrimão, e os iatistas olharam para ela como se fosse Afrodite saída do mar em vez de uma rapariga muito bonita emergindo de uma escotilha escura. Ela tinha aparecido tão subitamente! Ela era tão manifestamente incongruente nos seus arredores.

— Mãe das sereias! — murmurou o dono do iate ao ouvido do homem mais próximo. — O velho rato continua a ser corsário?

Os homens na traineira levantaram-se e tiraram os seus bonés.

— Insultaste estes cavalheiros, pai!

O Capitão Candage sabia disso, e esse facto não suavizou em nada a sua raiva. Ao mesmo tempo, este aparecimento da sua própria filha para lhe dar uma lição de boas maneiras em público era uma presunção demasiado despropositada para ser tolerada; a ousadia dela dava-lhe algo tangível para o seu ressentimento atacar.

Ele virou-se para ela. — Vai para baixo, onde pertences.

— Eu pertenço aqui, neste momento.

— Para baixo com tigo!

— Não vou até pedires desculpa a estes cavalheiros, pai!

— Tu não estás em terra agora, menina, para me dizeres quando limpar os pés e não sujar os naperons! Estás em alto mar, e eu sou o capitão deste navio. Para baixo, digo eu!

— Estes cavalheiros conhecem a Polly, e eles vão descobrir o nome do homem que a comanda, e não pretendo que se diga que os Candages são pagãos — declarou ela, firmemente. — Se não pedires desculpa, pai, pedirei desculpa por ti. — Ela tentou passar à frente dele para o corrimão, mas ele colocou a sua mão bronzeada sobre a boca dela e empurrou-a para trás. O seu impulso natural como comandante da sua embarcação dominou os seus sentimentos como pai.

— Eu ensinar-te-ei disciplina a bordo, Polly Candage — rosnou ele —, mesmo que tenha de te pôr sobre o meu joelho.

— Calma aí, se faz favor, capitão — chamou o porta-voz dos iatistas.

O capitão Candage estava a apressar a sua filha em direção à escada de acesso ao convés. Mas havia autoridade naquele tom, pelo que ele parou e projetou um queixo desafiante por cima do ombro.

— Que têm vocês, criaturas, a dizer sobre os meus assuntos privados?

A formalidade do homem na lancha foi um pouco exagerada na sua resposta. — Apenas isto, senhor. Vamos embora imediatamente, antes que tragamos mais problemas a esta jovem, a quem apresentamos os nossos mais respeitosos cumprimentos. Não conhecemos outra forma de a ajudar. Os nossos protestos, sendo protestos de cavalheiros, talvez não sejam capazes de penetrar; é preciso um berbequim para atravessar a pele de um rinoceronte!

O comandante do Polly não se preocupou com os matizes mais finos daquele pequeno discurso, mas de um facto ele tinha a certeza: fora chamado de rinoceronte. Soltou a filha, arrancou a saca-pinos das mãos de Otie, que se mantivera em segundo plano como força de reserva, e marchou pesadamente até à amurada. Preparou a sua arma, movendo-a de um lado para o outro para fazer pontaria certeira. Mas o engenheiro tinha engatado a transmissão e a lancha a motor afastou-se aos borbotões antes que o capitão alcançasse o alcance, e ele era demasiado poupado para atirar uma saca-pinos perfeitamente boa atrás de um alvo que não podia atingir, por mais zangado que estivesse.

A rapariga enfrentou o pai. Não havia como duvidar do seu estado de espírito. Ela era uma rebelde. A indignação ergueu os seus estandartes flamejantes nas suas faces, e as chamas de sinalização do combate faiscaram nos seus olhos.

— Como te atreveste a fazer-me uma coisa dessas — com aqueles cavalheiros a olhar? Pai, perdeste o juízo?

Otie expressou a opinião, em voz baixa, de que o capitão, pelo contrário, tinha "perdido o norte".

O superior hierárquico de Otie andava a pisotear o convés de ré, pontapeando objetos soltos e evitando o olhar ressentido da filha. Havia uma nota de insinceridade na sua fanfarronice, como se quisesse esconder o embaraço numa nuvem das suas próprias divagações, tal como um choco tinge a água quando receia ser capturado.

— De agora em diante, chama-me Capitão Candage — ordenou ele. — De agora em diante, sou o Capitão Candage em alto-mar, e pretendo comandar o meu próprio convés de ré. E quando eu permitir que um bando de janotas ande por aqui a espreitar, a espiar, a sorrir e a namoriscar contigo, terás cascas de amêijoas em vez de unhas. Agora, minha senhora, não quero respostas atrevidas!

— Mas eu vou falar contigo, pai!

— Lembra-te de que sou um Candage, e respostas atrevidas...

— Eu também sou uma Candage — e acabei de ter vergonha disso!

— Vou ter disciplina no meu próprio convés de ré.

— Respostas atrevidas, disciplina de convés, chamar-te capitão! Tolices e disparates! Sou tua filha e tu és o meu pai. E trouxeste vergonha a ambos! Pronto! Não quero ficar nesta velha carcaça, e não vou ficar. Vou para casa da tia Zilpah.

— Tinha tomado a decisão de te deixar ir. O meu temperamento era suave e doce até àqueles filhos de uma égua, enfeitados de ouro...

— Pai!

— Tinha tomado a decisão de te deixar ir. Mas não vou ceder a um motim mesmo diante da cara e dos olhos da minha própria tripulação.

Dolph, de nariz sujo, tinha chegado com os pratos do jantar equilibrados nos braços enquanto se arrastava pela carga do convés. Estava a ouvir com o máximo interesse.

— A tua tia Zilpah ajudou-te e encorajou-te nos teus namoricos — enfureceu-se o capitão. — A minha própria irmã, a aproveitar-se do facto de eu estar fora, no mar, a tentar ganhar dinheiro...

— Queres insultar toda a gente neste mundo, pai? Eu vou para casa, digo-te. Sou infeliz aqui.

— Vou certificar-me de que não andas por aí a foliar e a galhofar com janotas!

Apesar do seu espírito, a rapariga não conseguiu continuar a trocar respostas com aquele marinheiro de casca dura, cuja arma entre os seus pares, durante anos, fora uma língua rude. Uma dor chocante pôs fim à sua pobre rebeldia. As lágrimas surgiram.

— Estás a dar a estes dois homens um relato para levar para casa e espalhar pela aldeia! Oh, pai, és perverso — perverso! — Ela levou as mãos ao rosto, soluçou e depois fugiu para a cabine sombria.

Fez-se um longo silêncio no convés de ré. Otie recuperou a sua saca-pinos e começou a martelar o olhal.

— Sem querer ser presunçoso, pregar ou meter o nariz em coisas que não são da minha conta, quero dizer que não o culpo nem um pouco, capitão — voluntariou-se. — Independentemente do que ela diga, não era de confiar naqueles janotas em terra, e falo por observação e, sendo um velho solteirão, posso falar com imparcialidade. Os janotas na água são exatamente iguais. Aqueles tipos estiveram a namoriscar com ela todo o tempo que estiveram ao lado. Homens a sério, que significam gente decente, não são chamados a estar sempre a tirar e a pôr o chapéu cada vez que uma mulher está à vista — e vi um deles a piscar-lhe o olho.

O capitão Candage estava com disposição para aceitar este conforto de Oakum Otie e para expulsar da sua consciência contrita a memória do que o capitão Ranse Lougee dissera.

— Não te preocupes! Já a tenho onde posso estar de olho nela, e sou o capitão do meu próprio navio — que ninguém se esqueça disso! — Ele agitou o punho para o cozinheiro boquiaberto. — Que fazes aí parado, como um galinheiro com a porta aberta e a deixar os meus víveres arrefecer? Mexe-te! Desce lá abaixo e serve esse jantar na mesa!

O comandante permaneceu no convés, com a mão junto ao ouvido.

O nevoeiro estava a instalar-se sobre o porto interior. Na imensidão ténue em direção ao mar, um navio a vapor apitava. Cada explosão prolongada, em intervalos de meio minuto, soava mais perto. O som era profundo, de tom cheio, um diapasão poderoso.

— Que grandalhão será este que vem para aqui? — resmungou o capitão.

— Provavelmente apenas mais um iate de lata — sugeriu o imediato, atirando a emenda de cabo e a saca-pinos para a escotilha aberta do porão. — Já sabe o que eles gostam de fazer, essas criaturas de brincar! Metem um apito que chega para a sirene de nevoeiro de Seguin. — Ele estreitou os olhos sob a sombra da mão e esperou. — Lá surge ele. O que lhe disse? Nada mais que um iate.

— Mas é um colosso — observou o comandante. — Que nome lhe dás?

— O... L — soletrou Otie —, O... L... Olenia. Deve estar um piloto local a bordo. Nenhum daqueles capitães janotas de Nova Iorque conseguiria encontrar Saturday Cove através da maré de penas que está lá fora agora.

— Bem, se conseguem ou não, não é do meu interesse — afirmou o comandante, com fina indiferença. — Detestaria estar num aperto e ter de depender de um daqueles janotas dourados! Cheiro o jantar. Vamos!

Ele estava um pouco incerto sobre o comportamento que deveria adotar lá em baixo, mas desceu a escada de acesso com um esforço considerável de confiança, e Otie seguiu-o.

O capitão lançou um olhar atento à sua filha. Tinha receio de a encontrar a chorar, e não sabia como lidar com tais casos com qualquer certeza.

Mas ela tinha secado os olhos e não lhe lançou um olhar muito amável — pelo contrário, deu sinais de desafio. Ele sentiu-se mais à vontade. Na sua opinião, qualquer pessoa que ainda tivesse espírito suficiente para lutar estava com disposição para continuar a desfrutar da vida.

— Talvez tenha ido um pouco longe demais, Polly — admitiu ele. Estava brando, mas preservou um pequeno toque de rispidez para que ela não concluísse que a sua vitória estava ganha. — Mas vendo que te trouxe para o mar para te afastar de namoricos...

— Não te atrevas a dizer isso sobre mim! — Ela bateu com o seu pequeno punho redondo na mesa. — Não te atrevas!

— Não quero dizer que alguma vez o tenhas feito! Os janotas é que o fizeram! Quero fazer o que é correto por ti, Polly. Estive no mar durante tanto tempo que não sei muito sobre modos e maneiras, suponho. Não consigo avaliar as coisas como deveria. Sou um velho tolo, suponho. — A sua voz tremeu. — Mas deixou-me furioso ter-te ali no convés a chamar-me nomes diante deles.

Ela não respondeu.

— Trabalhei sempre arduamente por ti — a navegar nos mares e a passar sem coisas eu próprio, para que tu as pudesses ter — fazendo o melhor que podia desde que a tua pobre mãe partiu.

— Estou-te grata, pai. Mas tu não entendes uma rapariga — oh, tu não entendes! Mas não falemos mais sobre isso — não agora.

— Não digo hoje à noite — não estou a fazer promessas! Mas talvez — veremos como as coisas se desenrolam — talvez te mande de volta para casa. Talvez seja amanhã. Veremos como funciona a diligência para o comboio, e por aí fora!

— Vou deixar tudo ao teu critério, pai. Tenho a certeza de que queres fazer o correto. — Ela serviu a comida como senhora da mesa.

— Parece que estamos em casa contigo aqui — disse o Capitão Candage, de forma humilde e melancólica.

— Ficarei contigo, pai, se isso te fizer mais feliz.

— Não vou ouvir nada desse género. Não é lugar nenhum a bordo para uma rapariga.

Através da escotilha aberta, ouviram o tilintar frequente da campainha da casa das máquinas do iate a vapor e o tumulto das suas hélices a agitar a água enquanto se posicionava num ancoradouro. Estava muito perto deles — tão perto que podiam ouvir a tagarelice das vozes das pessoas alegres.

— Que barco é aquele, pai?

— Outro bolo de chantilly! Não me consigo lembrar do nome.

— É o Oilyena ou algo assim. Esqueço-me de nomes sofisticados muito depressa — informou-a Otie.

— Bem, não serve de muito carregar a tua mente com esse tipo de tralha — afirmou o Capitão Candage, equilibrando uma batata nos dentes do seu garfo e descascando-a, com os cotovelos sobre a mesa. — Esse iate e o tipo de pessoas que estão a bordo desse iate não contam para pessoas como nós.

A memória de algumas observações que são proferidas com fervor peculiar permanece com o autor. Algum tempo depois — muito depois — o Capitão Candage lembrou-se dessa observação e informou-se a si próprio de que, fora as previsões meteorológicas, era um profeta muito mau.

V ~ NA PONTE DO IATE “OLENIA”

Oh, os tempos são duros e os salários baixos, Deixem-na, valentões, deixem-na! Acho que está na hora de irmos, É hora de a deixarmos. --Através do Oceano Ocidental.

O Capitão Mayo não achava que a responsabilidade fosse a sua principal preocupação enquanto o Olenia entrava no porto.

Era um verdadeiro trabalho de marinheiro conduzi-lo através do nevoeiro, espetar a entrada do porto e procurar espaço de manobra num ancoradouro lotado. Mas tudo isso fazia parte da rotina diária. Enquanto vigiava a bússola, estimava a deriva da maré, compensava a velocidade reduzida e escutava os ecos que lhe indicariam a sua distância da costa rochosa, estava ocupado na ocupação mais absorvente de analisar os seus assuntos pessoais.

Como mestre contratado de um iate privado, poderia ter ignorado aquela afronta do proprietário, mesmo que dirigida a um capitão na ponte.

Mas o amor tem o seu próprio orgulho. Tinha sido insultado como um lacaio, ouvindo Alma Marston. Era evidente que o proprietário não tinha terminado o trabalho. Mayo sabia que apenas tinha adiado o seu momento de infortúnio ao enviar uma resposta que indubitavelmente pareceria insubordinação aos olhos de um homem que não compreendia a disciplina naval e a etiqueta do mar.

Era evidente que Marston pretendia chamá-lo "à alcatifa" no convés de ré assim que o iate estivesse ancorado, e propunha-se a continuar aquela acusação insultuosa.

No seu novo orgulho, no amor que agora tornava insignificantes todas as outras questões da vida, Mayo tinha medo de si próprio; conhecia as suas limitações no que diz respeito à submissão; mesmo então, sentia um desejo de ir para a popa e sacudir Julius Marston para cima e para baixo na sua rede de descanso. Não acreditava que pudesse permanecer calmamente na presença de Alma Marston e ouvir qualquer acusação injusta, mesmo vinda do seu pai.

Tentou afastar o seu ressentimento flamejante dos seus pensamentos, mas não conseguiu. No final, disse a si próprio que talvez fosse melhor assim! Alma Marston deveria ter o seu próprio orgulho. Ela não poderia continuar a amar um homem que permanecia na posição de empregado do seu pai; ela certamente sentiria vergonha de um amante que estivesse disposto a curvar as costas e a levar uma chicotada em público. O seu desejo de estar com ela, mesmo ao custo do seu orgulho, estava a torná-lo menos homem, e ele sabia-o. Decidiu enfrentar Marston, como um homem, e depois ir embora. Sentia que ela compreenderia, apesar da sua dor.

Então, ao afastar-se de um olhar para a bússola, viu que o proprietário do iate estava na ponte. Metade de um charuto apagado, empapado pela humidade do nevoeiro, tapava a boca de Marston.

Ele franziu o sobrolho quando o capitão o saudou.

— Não te dês ao trabalho de falar agora — interrompeu o milionário quando Mayo começou uma explicação sobre o seu atraso em obedecer ao chamado para o convés de ré. — Quando tenho algo a dizer a um homem, quero a sua atenção indivisa. Este nevoeiro vai continuar?

— Sim, senhor, até que o vento rode mais para norte.

— Então ancora.

— Estou a entrar em Saturday Cove agora, senhor.

— Ancora aqui.

— Estou à espera de consideravelmente mais do que uma lufada de vento quando ele chegar, senhor. Não é prudente ancorar ao largo.

Marston resmungou e afastou-se. Permaneceu na extremidade da ponte, mastigando o charuto, até que o Olenia estivesse no porto com a âncora lançada. Mayo tocou a campainha, sinalizando o desbloqueio ao engenheiro.

— Estou ao seu dispor, senhor — reportou ele, caminhando para o proprietário.

Marston enrolou o charuto entupido para um canto da boca e perguntou: — Agora, jovem, diz-me o que queres dizer ao saudar um vapor da Bee Line com o meu apito?

— Não saudei o Conomo, senhor.

— Deste-lhe três apitos.

— Sim, mas...

— Estás num iate de um cavalheiro agora, jovem, e não num vapor de pesca. A etiqueta de iatismo não permite que um apito a vapor seja tocado em saudação. O Sr. Beveridge acabou de procurar isso para mim, e eu sei, e não precisas de assumir nenhum do teu conhecimento importante. — Marston parecia estar a demonstrar muito mais irritação do que um assunto de pouca importância justificaria. Mas o que acrescentou deu mais luz sobre o assunto. — O gerente da Bee Line estava a bordo daquele vapor. Ouviste-o a apitar-me com aquela sirene!

— Ouvi-o dar sinais cruzados em desafio às regras de navegação, senhor.

— Não sabias que ele apitou para mim como um insulto — como um escárnio?

— Ouvi apenas sinais comuns, senhor.

— Tudo é comum para a observação de um marinheiro! Deixaste que ele te empurrasse para fora do teu curso. Fizeste um espetáculo do meu iate, espalhando-o por aí como um pato assustado.

— Estava a evitar uma colisão, senhor.

— Devias ter feito valer o tamanho do meu iate! Esquivaste-te e fugiste como um capitão de barco de pesca. Foi num barco de pesca que foste treinado para esses truques?

— Comandei um vapor de pesca, senhor.

— Para cúmulo de tudo, deste-lhe três apitos — maneiras regulares de barco de pesca, hein?

O Capitão Mayo endireitou-se e o seu rosto e olhos expressaram o espírito de um comandante ianque que sabia que tinha razão.

— Eu digo — insistiu Marston —, que o saudaste.

— E eu digo, senhor, que ele deu sinais cruzados, uma ofensa que fez capitães perderem as suas licenças. Quando fui apertado, dei-lhe três apitos para dizer que os meus motores estavam a ir à velocidade máxima para trás. Se o Sr. Beveridge tivesse procurado mais nesse livro, talvez tivesse encontrado essa regra também!

— Quando olhei para a ponte, aqui, estavas a acenar-lhe com a mão — três apitos e um aceno de mão! Não podes negar que estavas a saudar!

— Estava a agitar o punho para ele, senhor.

Dentro de si, o Capitão Mayo perguntava-se francamente porque é que o proprietário do Olenia estava a exibir todo este calor. Lembrou-se da provocação da casa do piloto do Conomo e compreendeu vagamente que havia profundezas no assunto que não tinha sondado. Mas não estava com disposição para expiar vicariamente os infratores a bordo do Conomo.

— Se pudesse ter encontrado um capitão de Nova Iorque que conhecesse os atalhos ao longo desta costa, poderia ter alguma decência e dignidade a bordo do meu iate. Estou até a esquecer o meu próprio sentido do que é apropriado — aqui fora a desperdiçar palavras e tempo desta maneira. Vocês são todos da mesma raça, vocês, os da Nova Inglaterra!

— Tenho a certeza de que pode encontrar um capitão de Nova Iorque... — começou Mayo.

— Não quero a tua opinião em relação aos meus negócios, jovem. Quando precisar de sugestões tuas, pedi-las-ei. — Ele atirou o seu charuto empapado pela amurada e desceu a escada, e o nevoeiro fechou-se imediatamente atrás dele.

O Capitão Mayo andava pela ponte. Estava sozinho lá. Um marinheiro tinha tapado os metais do habitáculo e do holofote, a ouvir enquanto o proprietário chamava o mestre à responsabilidade. Mayo sabia que o relatório completo daquele assunto seria levado para o convés de vante. A sua posição a bordo do iate tinha-se tornado intolerável. Perguntava-se quanto Marston diria à popa. As suas faces estavam quentes e o rancor arranhava os seus pensamentos. Perante a rapariga que adorava, as suas falhas seriam o assunto para alguns momentos de discurso desprezível, tal como as falhas dos cozinheiros formam um tópico para tagarelice ociosa à mesa de jantar.

Do silêncio branco do nevoeiro envolvente vinham muitos sons. Os ruídos viajavam longe e a voz de um cantor invisível, que se ajustava ao tilintar de uma bomba Apple-treer, trazia a Mayo as palavras de uma velha canção de marinheiro:

— Venham todos vós, jovens, que seguem o mar, Agora rezem, prestem atenção e ouçam-me. Oh, soprem o homem para baixo, valentões, soprem o homem para baixo! Caminho, oh, soprem o homem para baixo. Oh, soprem o homem para baixo na cidade de Liverpool! Dêem-me algum tempo para soprar o homem para baixo. Foi a bordo de um Black-Bailer que servi o meu tempo pela primeira vez, E nesse Black-Bailer desperdicei o meu auge. É bombordo e estibordo no convés que vocês se espalharão, Pois sopradores e grevistas comandam o Black Ball. Então, é soprar o homem para baixo, valentões... —

A voz de Alma Marston interrompeu a sua apreciação sombria do significado daquela cantiga. — Estás aí em cima, Boyd? — perguntou ela, em tons cautelosos.

Ele apressou-se para o topo da escada e viu-a no seu pé, meio escondida nas névoas, mesmo a essa curta distância. Estendeu a mão e ela subiu, segurando-a.

Ela estava a estudar a sua expressão com avidez e apreensão. — Não consegui ficar mais tempo longe de ti — declarou ela. — O nevoeiro é bom para nós! O pai não me pôde ver quando vim para a vante. Tenho de te dizer, Boyd. Ele ordenou-me que ficasse à popa.

Ele não falou.

— Ele atreveu-se a dizer-te o que esteve a dizer lá em baixo sobre ti?

— Não creio que fosse necessário qualquer ousadia especial por parte do teu pai; sou apenas o seu servo — disse ele, com amargura.

— E ele... ele insultou-te assim?

— Suponho que o teu pai não viu o que disse como insulto. Repito, sou um servo pago.

— Mas o que fizeste estava certo! Sei que deve ter estado certo, pois tu sabes tudo sobre o que é certo fazer no mar.

— Compreendo os meus deveres.

— E ele culpou-te por alguma coisa?

— Foi um pouco pior do que isso do meu ponto de vista. — Ele sorriu para ela, pois os seus olhos examinavam o seu rosto como se apelassem a um pouco de consolação.

— Boyd, não lhe ligues — implorou ela. — Alguém que esteve a lutar com ele nos negócios tem sido muito mal-educado. Não sei bem do que se trata. Mas ele tem tantos assuntos que o preocupam. E ele resmunga comigo exatamente da mesma forma, de vez em quando.

— Sim, alguns homens são cobardes o suficiente para abusar daqueles que devem recorrer a eles para os confortos deste mundo — declarou ele.

— Devemos ser compreensivos.

— Não ficarei numa posição onde um homem que me contrata pensa que pode falar comigo como se eu fosse um marinheiro de convés. Alma, tu desprezar-me-ias se eu permitisse ser pontapeado como um cão.

— Eu amar-te-ia ainda mais por estares disposto a sacrificar algo por minha causa. Quero-te aqui — aqui com todo o teu amor — aqui comigo enquanto estes dias de verão durarem. — Ela deu-lhe palmadinhas na face. — Por que não me dizes que queres ficar comigo, Boyd? Que morrerás se não pudermos estar juntos? Podemos ver-nos aqui. Posso trazer Nan Burgess comigo para a ponte. O meu pai não se importará então. Deixa que cada dia cuide de si próprio!

— Quero ser o que tu queres que eu seja — fazer o que tu queres que eu faça. Mas desejo que me digas para ir para o mundo e fazer algo de mim mesmo. Alma, diz-me para ir! E espera por mim!

Ela encostou o rosto ao ombro dele e estendeu a mão para os dedos dele, esforçando-se por puxar um dos seus braços para a rodear. Mas ambas as suas mãos estavam agarradas ao corrimão da ponte. Ele resistiu.

— Vais ser como todos os outros? Apenas dinheiro, problemas e preocupações? — Ela esticou-se na ponta dos pés e roçou um beijo na face dele, húmida de nevoeiro. — Estás a dormir, meu grandalhão? Ontem estavas acordado.

— Penso que estou realmente acordado hoje, e que estava a sonhar ontem. Alma, não posso esconder-me pelas costas do teu pai para te fazer a corte. Não o consigo fazer. Vou abandonar este cargo. Não o suporto.

— Eu digo "Não!" Preciso de ti.

— Mas...

— Não vou desistir de ti.

Havia algo de dramático na sua declaração; o seu comportamento expressava a calma plácida de uma proprietária absoluta. Ela libertou os dedos relutantes dele do corrimão.

— Amo-te porque consegues esquecer-te de ti mesmo. Agora não sejas como todos os outros.

Ele percebeu que uma estranha picada de impaciência o estava a incomodar. A rapariga não parecia compreender o que a sua masculinidade estava a exigir.

— Não deves ser egoísta, Boyd!

Ela pôs em palavras o pensamento vago que o andava a apoquentar em relação à atitude dela; e agora que ele compreendia qual tinha sido o seu pensamento, sentia-se indignado com o que parecia ser a sua própria deslealdade. E, no entanto, a rapariga estava a pedir-lhe que refizesse a sua natureza!

— Receio que esteja tudo errado. Estas coisas nunca parecem correr bem — lamentou ele.

— Estás a tentar virar o mundo de pernas para o ar de uma só vez — e sozinho. Não penses tanto, seu ianque solene. Apenas ama!

Ele colocou os braços à volta dela. — Estou a navegar em águas novas. Parece que não conheço o rumo certo nem os rumos corretos!

— Fiquemos ancorados até que o nevoeiro levante! Não é isso que os marinheiros fazem normalmente?

Ele confessou que sim, beijando-a quando ela levantou o seu rosto tentador do ombro dele.

— Agora vais deixar o futuro em paz, não vais? — perguntou ela.

— Sim. — Mas, mesmo enquanto prometia, via-se obrigado a enfrentar esse futuro.

Julius Marston, no pé da escada, chamou a filha. — Estás aí em cima? — perguntou ele, rispidamente.

— Sim, pai.

— Desce até aqui.

Ela deu ao seu amante uma carícia apressada e obedeceu.

O Capitão Mayo viu-se obrigado a ouvir. Marston, na sua raiva, não demonstrou qualquer consideração por possíveis ouvintes.

— Eu disse-te para ficares na ré, onde pertences.

— Na verdade, pai, não compreendo porquê...

— Essas são as minhas ordens! Eu compreendo. Não precisas de compreender. Este mundo está cheio de sujeitos baratos que interpretam mal as ações.

O Capitão Mayo agarrou os corrimãos da escada da ponte e desceu para o convés sem tocar com os pés nos degraus. Apareceu perante o pai e a filha com uma rapidez surpreendente.

— Sr. Marston, vou deixar o meu cargo a bordo assim que o senhor conseguir outro homem para ocupar o meu lugar.

— Vais, é?

— Sim, senhor.

— Assinaste papéis para a temporada. Não me é conveniente fazer uma mudança. — Marston falou com a crueza de um homem que tinha decidido a questão.

O Capitão Mayo estava consciente de que a rapariga estava a tentar atrair o seu olhar, mas manteve os olhos resolutamente longe do rosto dela.

— Insisto em ser substituído.

— Não tenho paciência para criancices num homem! Achei necessário repreender-te. Provavelmente saberás qual é o teu lugar depois disto. — Ele afastou-se.

— Decidi que não pertenço a este iate — afirmou Mayo, com uma ênfase que sabia que a rapariga compreenderia. — O senhor tem de arranjar outro comandante!

— Não consigo tirar capitães deste nevoeiro, e não permito que ninguém me diga como gerir o meu próprio negócio. Vou manter-te fiel ao teu contrato escrito. Mantém-te pronto para levar telegramas para terra por mim. Suponho que haja um escritório aqui?

— Há, senhor — retorquiu Mayo, rigidamente.

A rapariga, ao partir, presenteou-o com uma bela careta de triunfo, regozijando-se claramente por a sua demissão impetuosa ter sido anulada de forma tão autocrática. Mas Mayo deu uma resposta sombria ao escárnio dos olhos dela. Tinha falado com Marston como um homem, e fora tratado com a indiferença desprezível que seria concedida a um servo contratado. Estava ferido pela forma ligeira como ela encarava aquele insulto, mesmo que o seu próprio pai o tivesse proferido.

Ficou ali sozinho por algum tempo, meditando sobre vários atos precipitados. Mas, sob todo o tumulto dos seus sentimentos, estava a consciência de que a responsabilidade pela disciplina e segurança daquele iate repousava sobre os seus ombros e ele foi tratar dos seus deveres. Chamou dois dos tripulantes e ordenou que descessem as escadas da passagem e que a chalupa de bombordo fosse limpa e descida. Depois, foi para a sala de cartas, sentou-se num cacifo e tentou descobrir se estava maravilhosamente feliz ou supremamente miserável.

Marston fechou-se prontamente com os seus três homens de negócios depois de ir para a ré. — Vamos redigir esses telegramas agora e enviá-los — disse-lhes ele. — Pensei que seria melhor esperar até ter expelido a bílis do meu sistema. Nunca tentem fazer negócios sensatos e seguros quando estão zangados, cavalheiros! Receio que esses telegramas não tivessem sido exatamente coerentes se os tivesse escrito logo após aquele navio da Bee ter passado por nós a esmagar.

— Estava pronto a acreditar que o Tucker viria connosco na jogada certa — disse um dos associados.

— Eu também — concordou Marston. — Pensei que toda a sua conversa alta fosse um bluff para conseguir um preço mais alto. Mas, depois do que ele fez hoje! Oh, não! Ele está pronto para lutar e agarrou a oportunidade para nos mostrar! Não acredito em grande parte desta conversa habitual de luta. Mas quando um homem vem e me esmaga entre os olhos, começo a suspeitar das suas intenções.

— Não há necessidade de negociar mais com ele, Sr. Marston. Ele tornou o seu trabalho o mais sujo possível hoje — não deixou nada aberto a dúvidas.

— Lamento — disse outro do grupo. — Tucker deixou-se ficar feio.

— Eu também — respondeu Marston, secamente. — E receio estar a ficar senil também. Fui para a vante e desperdicei tanto anátema naquele meu capitão quanto usaria para concluir um negócio de meio milhão com uma linha de tráfego de oposição. A próxima coisa que sei é que estarei a discutir com a chaminé. Mas devo confessar, cavalheiros, que Tucker me tirou o fôlego hoje. Ou ele ficou absolutamente louco ou então não compreende a força da combinação.

— Ele ainda não acordou. Ele não sabe o que está contra ele.

— Isso pode ser culpa nossa, em certa medida — afirmou um dos homens. — Não conseguimos deixar homens como o Tucker a par de todos os detalhes.

— Nos negócios, é quem adivinha melhor que vence — declarou Marston. — A nossa fusão não é algo para ser anunciado. E se dermos mais explicações ao Tucker, o plano todo será anunciado, podem ter a certeza. O tolo infernal tem-nos segurado há três meses, exigindo mais conhecimento — e não se pode confiar nele. Só há uma coisa a fazer, cavalheiros! Isto! — Ele enterrou o punho na palma da mão com um baque significativo.

— A linha Bee é absolutamente essencial nos nossos planos?

— Cada linha ao longo desta costa é essencial para tornar as ações desta fusão numa proposta hermética.

— É uma linha nova e não está a pagar dividendos.

— Bem, quanto a isso, não tem vantagem nenhuma em relação a algumas das outras linhas que estamos a salgar na fusão — sugeriu um membro do grupo, falando pela primeira vez.

— Receio que tenha dito isso agora, Thompson! Os navios americanos parecem ter-se transformado em jardins de cracas — declarou o homem que tinha questionado a questão do valor de Tucker.

— Cavalheiros, apenas um momento! — Julius Marston inclinou-se para a frente na sua cadeira. A sua voz era baixa. Os seus olhos estreitaram-se. Ele dominou-os com a sua seriedade. — Seguiram-me em vários empreendimentos, e tivemos boa sorte. Mas deixem-me dizer-vos que temos pela frente a maior coisa de sempre, e não nos podemos dar ao luxo de deixar uma ponta solta! Nem uma, cavalheiros! É por isso que um tolo como o Tucker não merece qualquer consideração quando se mete no nosso caminho. Oiçam-me! A maior coisa que alguma vez aconteceu neste mundo está prestes a acontecer. Como sei? Não tenho a certeza de que saiba. Mas, como acabei de vos dizer, o homem que adivinha corretamente é o vencedor. — O seu nariz fino estava enrugado, e a tira de barba no queixo eriçava-se. Por vezes, os homens chamavam a Marston "a raposa de Wall Street". Ele sugeriu a razão da sua alcunha enquanto se sentava ali e olhava para os seus associados. — E há um instinto que ajuda alguns homens a adivinhar corretamente. Algo vai acontecer neste mundo dentro em breve que fará milionários vezes sem conta a partir de homens que investiram alguns milhares em navios americanos.

— O que vai acontecer? — perguntou bruscamente um dos homens, após um silêncio.

— Não sou nem clarividente nem leitor de cristais — disse Marston, gravemente. — Mas levei-vos a algumas coisas boas quando o meu instinto sussurrou. Eu digo que vai acontecer — e não digo mais nada.

— Para tornar os navios americanos valiosos, toda a Europa terá de estar ocupada a fazer outra coisa com os seus navios.

— Muito bem! Então eles estarão a fazê-lo — respondeu Marston.

— Teria de ser uma guerra — uma grande guerra.

— Muito bem! Talvez essa seja a resposta.

— Mas nunca poderá haver outra grande guerra. Como financeiro, sabes disso.

— Fiz algum dinheiro aderindo às regras rígidas das finanças. Mas fiz a maior parte do meu dinheiro virando as costas a essas regras e ouvindo o meu instinto — foi a réplica de Marston. — Não quero influenciar-vos demasiado, cavalheiros. Não me interessa discutir mais o que vocês possam considerar sonhos. Não estou a prever uma grande guerra na Europa. O senso comum argumenta o contrário. Mas vou avançar com esta proposta de fusão de navios com cada grama de cérebro, energia e capital que possuo. O homem que se puser no meu caminho está a tentar manter estas duas mãos minhas longe de milhões! — Ele abanou os punhos cerrados acima da cabeça. — E vou passar por cima dele, pelos deuses! seja o Tucker ou qualquer outro. Tivemos algumas boas conversas sobre o assunto, primeiro e último. Estou a começar agora a lutar e a esmagar a oposição. O que propõem fazer a respeito, cavalheiros?

Ficaram em silêncio durante algum tempo, olhando uns para os outros, interrogando sem palavras. Depois, a partir do seu conhecimento das capacidades estranhas de Julius Marston, lembrando-se dos seus sucessos passados, veio a resolução.

— Estamos consigo até ao último dólar — garantiram-lhe, um após o outro.

— Muito bem! São sensatos!

Ele destrancou uma gaveta da sua secretária e obteve um livro de códigos. Carregou num botão e o secretário veio a correr do seu camarote.

— Vamos entrar em ação, cavalheiros, com uma pequena escaramuça de longa distância pelo fio.

Começou a ditar os seus telegramas.

VI ~ E NÓS NAVEGÁMOS

Ó Johnny foi para Baltimore Para dançar naquele chão arenoso. Ó Johnny partiu para todo o sempre; Nunca mais verei o meu John! Ó Johnny partiu! O que farei? A-vante tu. H-e-e l-o-o-o! Ó Johnny partiu! O que farei? Johnny partiu para Hilo. — Antiga Canção de Arrastar.

O secretário taciturno tateou o caminho para a vante e entregou ao Capitão Mayo um pequeno pacote firmemente atado com fita.

— Ordens do Sr. Marston para que o leve a terra, pessoalmente. São telegramas importantes e ele quer que sejam apressados.

O comandante chamou os seus homens para a chalupa, e eles remaram para longe através do nevoeiro. Era um trabalho delicado, abrir caminho através daquela escuridão. Ele levantou-se, inclinando-se para a frente, segurando as suas cordas de leme esticadas, e mais pelos ouvidos do que pelos olhos dirigiu o seu curso. Algumas das embarcações ancoradas, sabendo que estavam na via navegável do porto, tocavam os seus sinos preguiçosamente de vez em quando. Os iates auxiliares faziam as suas rondas, transportando grupos que pagavam e retribuíam visitas, e estes barcos evitavam-se uns aos outros com altos gritos. Pequenos objetos pareciam enormes e os pequenos sons eram acentuados.

A voz distante de um brincalhão invisível anunciou que podia encontrar o seu caminho através do nevoeiro, mas que temia não ter força suficiente para empurrar o seu barco através dele.

Mas Mayo conhecia as suas águas naquele porto, e encontrou o caminho para o cais. As suas verdadeiras dificuldades confrontaram-no no escritório de telégrafo da aldeia. Os iatistas visitantes tinham inundado o local com mensagens, e a jovem agitada estava num estado que quase se assemelhava à histeria. Ela declarava desafiadoramente que não aceitaria mais telegramas. Em vez de se pôr a trabalhar nos que já tinham sido entregues, passava o tempo a explicar as suas limitações aos que chegavam depois.

O Capitão Mayo ficou de um lado e observou por alguns momentos. Um leve toque no cotovelo chamou a sua atenção para um homem idoso com bigodes desgrenhados, que assim solicitou a sua atenção. O homem segurava um papel dobrado com cuidado por um canto, exibindo um respeito profundo pela sua carga minúscula.

— O senhor não é um destes janotas de iate — é um capitão, não é? — perguntou o homem.

— Sim, senhor.

— Bem, então posso falar consigo, como um oficial para outro — e fico contente por conhecer um da minha espécie. Sou o primeiro imediato da escuna Polly. Sr. Speed é o meu nome.

O Capitão Mayo acenou com a cabeça.

— E preciso de ajuda e conselho. Este é o primeiro telegrafo que alguma vez tive nas mãos. Preferiria estar agarrado a uma adriça gelada num nordeste! Fui enviado a terra para o telegrafar, e agora ela diz que não o vai colar ao fio, seja lá como eles fazem o maldito truque.

O Capitão Mayo já tinha notado que os mensageiros dos iates estavam a matar o tempo a provocar a jovem agitada; era uma troça bem-humorada, mas estava a bloquear eficazmente o progresso naquela extremidade da linha.

Sentiu um impulso instintivo de "nativo" para ir em socorro da jovem que estava a ser importunada pelos foliões; a responsabilidade da sua própria missão levou-o a ajudá-la a limpar o convés. Mas esperou, esperando que os iatistas se preocupassem com os seus assuntos.

— Da Polly, Sr. Speed? — inquiriu ele, amavelmente. — A Polly está no porto? Não a notei no nevoeiro.

— Calculo que a conheça, pela forma como fala dela — respondeu o satisfeito Sr. Speed.

— Deveria, senhor. Foi construída em Mayoport pelo meu bisavô antes de os estaleiros Mayo começarem a produzir navios.

— Bem, eu digo! O senhor é um Mayo?

O capitão fez uma vénia e sorriu com o entusiasmo demonstrado pelo Sr. Speed.

— Pelos diabos! isso quase que o coloca na nossa família, por assim dizer! — O imediato examinou-o com interesse e com crescente confiança. — Estou num sarilho, Capitão Mayo, e preciso de conselhos e conforto, calculo. Estava a seguir num rumo direto para o meu dever habitual, e de repente dei por mim em bolina e estagnado, e estou lá agora e a derivar. Vendo que a sua família construiu a Polly, considero que o senhor é da família, e que a Providência o colocou mesmo aqui esta noite neste escritório de telegrafo. Conhece o Capitão Epps Candage?

Mayo abanou a cabeça.

— Ou a sua filha, Polly, com o nome da Polly?

— Não, devo confessar.

— Bem, pode ser bom para si que não conheça — disse Oakum Otie, torcendo a sua barba esparsa num pavio e piscando nervosamente. — Lá estava eu, a seguir direito e mantendo o curso verdadeiro, e então ela olhou para mim e houve um tremor na sua voz e lágrimas nos seus olhos — e a próxima coisa que soube foi que estava aqui neste lugar de telegrafo com isto! — Ele segurou o papel dobrado e a sua mão tremeu.

O Capitão Mayo não compreendeu, e, portanto, não fez comentários.

— Havia uma canção que o velho Ephrum Wack costumava cantar — continuou o Sr. Speed, tornando-se mais confidencial e certificando-se de que os outros homens na sala estavam demasiado ocupados para ouvir. — O refrão dizia:

— "Não tenho medo do mar revolto, Nem das criaturas que lá estão, sejam quais forem. Mas uma bruxa de mulher é o que me assusta!"

— Lá estive eu, a apoiar o Capitão Epps em toda a confusão, e ela apanhou-me de lado e olhou para mim e disse algumas coisas com um tremor na voz e os olhos todos húmidos e brilhantes e... — ele fez uma pausa e olhou para o papel com uma perplexidade que era bastante piedosa — e passei por cima de todo o senso comum e regras de bordo e disciplina e tudo e vim aqui, trazendo isto para ser colado ao fio, ou lá o que eles fazem com os telegrafos. Mas — acrescentou, com um oscilar nos seus tons — ela é tão terrivelmente bonita, não pude evitar!

O Capitão Mayo continuou a abster-se de comentários ou perguntas.

— A questão agora é, deveria eu — perguntou o Sr. Speed. — Estou a incluí-lo na família por minha conta e risco. O senhor é um capitão, é um nativo, e preciso de bons conselhos. Deveria eu?

— Receio que terá de me desculpar, senhor. O assunto parece ser privado, e, além disso, não sei do que está a falar.

— Ela diz que é para a modista, para que a modista mantenha o emprego aberto. Mas suspeito que seja uma volta dada ao pretendente que está apaixonado por ela. Esse é o estilo das mulheres. O Capitão Epps raptou-a para a afastar daquele sujeito. Agora ela conseguiu arranjar as coisas para que possa voltar. Mas há um pretendente envolvido em vez de uma modista. Ela não estaria tão ansiosa por enviar uma palavra a uma modista. Essa é a minha ideia, e calculo que seja a sua também.

— Realmente não tenho ideias sobre o assunto — respondeu o Capitão Mayo. — Mas se prometeu a uma jovem enviar um telegrama por ela, certamente cumpriria essa promessa se estivesse no seu lugar.

No momento seguinte arrependeu-se do seu conselho bastante impetuoso, pois o Sr. Speed bateu com o papel numa palma dura e soltou: — Era tudo o que eu queria! Curso e rumos de um conselheiro de primeira. Agora, como vou trabalhar para enviar esta coisa?

— Eu próprio tenho pensado nesse assunto nos últimos minutos — reconheceu o capitão. — Está na hora de haver um pouco de ação neste lugar.

Foi obrigado a abrir caminho através do grupo de homens que rodeava o operador de telégrafo. Oakum Otie seguiu-o nos seus calcanhares, resolvido a estudar de perto o mistério da telegrafia, percebendo o que precisava para a sua própria instrução.

— Estes telegramas são importantes e têm de ir agora, senhora — informou Mayo à jovem agitada.

— Não os posso enviar. Sou tão incomodada que não consigo fazer nada — gaguejou ela.

— Oh, esqueça o seu negócio, capitão — aconselhou um dos elementos do grupo.

— Não é o meu negócio, senhor. — Ele colocou o pacote de mensagens perante o operador no seu pequeno balcão e bateu com o dedo nelas. — Têm de ir — repetiu ele.

— Na sua vez — avisou o iatista, mostrando que se sentia ofendido com esta intrusão. — E depois de a festa acabar!

— Pretendia limitar a minha conversa a esta jovem — disse Mayo. Ele virou-se e enfrentou-os. — Mas estive aqui tempo suficiente para ver que os senhores estão a interferir com o negócio deste escritório. Talvez as vossas mensagens não sejam importantes. As minhas são.

O iatista não estava sóbrio nem era sensato. — Volte para o seu trabalho, rapaz — aconselhou ele. — Está a meter-se entre cavalheiros.

— Eu também — guinchou o Sr. Speed, com o olho atento a nuvens de qualquer espécie.

O Capitão Mayo deu ao seu apoiante um olhar de espanto e prazer misturados. — É melhor não termos palavras sobre o assunto, cavalheiros — sugeriu ele, suavemente.

“Certamente que não”, afirmou o porta-voz. “Se seguirem em frente, não haverá palavras — nem mais nada.”

“Então dispensaremos as palavras!” A ira rápida da juventude inflamou-se em Mayo. O ar que o homem exalava, mais do que as suas palavras, tinha sido profundamente ofensivo. “Presumo que gostaria de ter esta sala só para si, para que possa tratar dos seus negócios?”, perguntou ele ao operador.

“Sim, gostaria.”

Oakum Otie pousou o seu jornal dobrado sobre o pacote do Capitão Mayo.

“Sairão da sala, cavalheiros”, aconselhou o capitão.

O Sr. Speed esticou os cotovelos ossudos e entrechocou os punhos duros. “Nunca gostei de janotas”, declarou. “Fui educado dessa maneira. Todo o meu treino com o Cap’n Epps foi dessa maneira.”

“Como é que te encaixas nisto?”, exigiu um dos iatistas.

“Mais ou menos assim”, afirmou o Sr. Speed. Agarrou o jovem pelos dois ombros e empurrou-o para a noite antes que alguém pudesse interferir. Então, o Sr. Speed reapareceu prontamente e perguntou: “Qual é o próximo?”

“Creio que todos eles vão”, disse o capitão.

“Vamos embora”, instou um dos elementos do grupo. “Não nos podemos dar ao luxo de entrar numa briga com nativos.”

“Podes apostar que não”, retorquiu Oakum Otie. “Não andei a carregar feixes de telhas toda a minha vida por nada!”

Mayo não disse mais nada. Mas depois de os iatistas o terem avaliado, saíram, transformando o caso num motivo de troça.

“Espero ter feito bem e demonstrado que estava grato pelo bom conselho”, sugeriu o Sr. Speed, procurando reconhecimento.

“Apenas um pouco precipitado, senhor.”

“Talvez, mas não há nada como dar às pessoas uma amostra apenas para mostrar a qualidade de toda a peça.”

“Agradeço-lhes — a ambos”, disse o operador grato.

“É melhor trancar a sua porta”, aconselhou Mayo. “Os homens são levianos quando não têm nada para fazer a não ser brincar.”

“Estou tão grata! E vou quebrar uma regra do escritório”, voluntariou-se a rapariga. “Vou enviar primeiro os seus telegramas.”

“E espero que possa enfiar esse pequeno em segundo lugar — não ocupará muito espaço!”, suplicou Oakum Otie. “É para ajudar uma rapariga terrivelmente bonita — o aspeto dela é muito parecido com o seu!”

“Tratarei disso”, prometeu a jovem, corando.

Lá fora, na rua da aldeia, o Sr. Speed limpou a palma da mão áspera na perna das calças e ofereceu a mão ao capitão. “Tenho de me despedir aqui, senhor. Tenho uma pequena tarefa a fazer — um bocado de tabaco e uma caixa de morangos. Confesso que tenho um desejo terrível de morangos. Quando o desejo me ataca e não consigo arranjar morangos, a minha mancha de morango aparece atrás da orelha. Espero ter feito bem em enviar aquele tele-graft por ela — mas é uma pena que um namorado citadino vá ficar com uma rapariga tão bonita.” Depois, Oakum Otie suspirou e dissolveu-se na penumbra enevoada.

Quando o Capitão Mayo estava a meio caminho do porto, no seu regresso ao iate, deparou-se com um espetáculo que o sobressaltou. O nevoeiro foi subitamente pintado com um brilho avermelhado que se espalhou por alto e flamejou de forma constante. Os seus primeiros receios sugeriram que um navio estava a arder. O Olenia encontrava-se naquela direção. Ordenou aos seus homens que remassem com força.

Quando irrompeu das brumas para a zona da iluminação, os seus receios foram dissipados, mas a sua curiosidade foi despertada.

Uma dúzia de botes de iate aglomeravam-se numa flotilha perto da popa de uma escuna velha e enferrujada. Todos os botes queimavam luzes Coston e, de vários barcos, os iatistas disparavam foguetes que riscavam o manto de nevoeiro com cores bizarras.

A popa da escuna estava bem iluminada pelas tochas, e Mayo viu o seu nome, embora não precisasse desse nome para garantir a sua identidade; era a venerável Polly.

A luz que flamejava à sua volta, revelando o seu aparelho e linhas, era estranhamente irreal e, mais do que nunca, ela parecia um navio fantasma. A cortina espessa do nevoeiro captava o clarão das tochas e refletia-o sobre ela a partir dos céus, e ela aparecia desenhada de forma fantástica, do mastro à linha de água. As sombras dos homens nos botes eram projetadas contra o ecrã de nevoeiro em contornos grotescos, e uma tripulação de espíritos parecia estar a trabalhar no cordame da velha escuna.

O Capitão Mayo ordenou aos seus homens que parassem e o bote derivou para perto da flotilha. Espiou um capitão de iate que conhecia de quando ambos estavam no comércio costeiro.

“Qual é a ideia, Duncan?”

O seu conhecido sorriu. “Serenata para a rapariga do velho Epps Candage — entregue a ela por cima da cabeça dele.” Apontou para cima.

Projetado sobre o varandim da escuna estava o semblante convulso do Capitão Candage. A cólera parecia estar a consumi-lo. A luz extravagante pintava tudo com padrões em arabesco; a cara do capitão parecia o semblante de uma gárgula.

Mayo, observando com o preconceito natural de um “nativo”, detetou troça no caso. Tinha acabado de presenciar uma demonstração do humor convivial dos iatistas brincalhões.

“Qual é a desculpa especial para isto?”, perguntou ele, azedo.

“Segundo a história, o Epps trouxe-a com ele nesta viagem para acabar com um namoro.”

“Bem, isso tem alguma coisa a ver com esta atuação?”

“Oh, é apenas uma pequena farra”, confessou o outro. “Foi planeada no nosso iate. O velho Epps comportou-se como um boçal hoje ao insultar alguns dos cavalheiros da frota, e os rapazes estão a dar-lhe um pouco do seu próprio remédio. É só isso! É apenas diversão!”

“Segundo a minha noção, é o tipo de diversão que magoa quando uma rapariga está envolvida, Duncan.”

“Sempre tão sério, eh? Bem, a minha noção é que uma pequena diversão bem-humorada nunca magoa uma rapariga bonita — e dizem que esta é uma beldade! Oh, espera um minuto, Boyd!” O mestre do Olenia tinha-se virado e estava prestes a dar uma ordem aos seus remadores. “Devias parar o tempo suficiente para ouvir aquela canção nova que um dos cavalheiros no Sunbeam compôs para a ocasião. É um mimo. Ouvi-os a ensaiá-la no nosso iate.”

Apesar do seu ressentimento impaciente em prol da filha de Epps Candage, o Capitão Mayo permaneceu. Nesse momento, o menestrel acreditado dos iatistas levantou-se, equilibrando-se num bote. Foi claramente revelado pelas luzes e ampliado pela auréola de nevoeiro colorido que o rodeava. Cantou, em tempo de valsa, num belo tenor:

“Nossa Polly O, Pelo mar tu vais; Mais justa que um raio de sol, adorável como um raio de luar, Todos nós te amamos tanto! Enquanto as brisas sopram Para te levar, Polly O, Seremos fiéis a ti, Atravessando o azul até ti, Polly — Polly! Querida pequena Polly, Polly — O-O-O!”

Terminou o verso e depois levantou ambos os braços com o gesto de um maestro de coro.

“Todos juntos, agora, rapazes!”

Cantaram com alma, vigor e excelente efeito.

Ferocidade quase inarticulada, fúria quase apoplética, eram expressas pela cara acima do varandim gasto pelo tempo.

“Dizem que a música acalma a alma selvagem, mas não parece ser esse o caso”, observou o Capitão Duncan com uma risadinha.

“Saiam daqui, seus janotas bêbados! Vou chamar a lei para cima de vocês! Vou prender-vos por... por perturbação da ordem pública.”

Essa ameaça, considerando as circunstâncias, provocou grande hilaridade.

“Cuidado! Lá vem um polícia!”, avisou uma voz trocista.

“Ele está a andar sobre a água”, explicou outro.

“O homem deve ser louco”, declarou o Capitão Mayo. “Se ele fosse para o convés inferior e se calasse, eles cansavam-se e iam-se embora em poucos minutos.”

No entanto, o Capitão Candage parecia acreditar que a retirada seria altamente desonrosa para si. Continuou a debruçar-se sobre o varandim, descarregando uma lista tão completa de palavrões de alto mar como a que alguma vez passou pelos lábios trémulos de um marinheiro. Por isso, os iatistas brincalhões ficaram altamente entretidos e ficaram para o provocar ainda mais. De vez em quando, cantavam a canção da Polly com renovado entusiasmo, enquanto o capitão enfurecido quase dançava ao som da mesma na sua fúria louca e agitava os braços como um maestro de orquestra enlouquecido.

O Sr. Speed veio a remar no seu escaler, empregando toda a sua força, salpicando os remos. “Meu Deus! Cap’n Mayo”, ofegou ele, “ouvi-os a gritar ‘Oh, Polly!’ e tive medo que ela estivesse a arder. Qual é o problema?”

“É melhor ir a bordo, senhor, e convencer o Capitão Candage a ir para o convés inferior e ficar calado. Ele está rapidamente a tornar-se num completo idiota.”

“Não tenho nenhuma influência sobre ele. Peço e imploro que suba a bordo e o acalme, senhor. O senhor consegue fazê-lo. Ele ouvirá um Mayo.”

“É melhor não tentar. Não é trabalho para um estranho, Sr. Speed.”

“Ele vai atirar-lhes com toda aquela carga de telhas no convés a seguir!”

“Peça à filha dele para o convencer.”

“Ele não a ouve quando está tão transtornado!”

“Lamento! Puxem, homens!”

Os seus remadores mergulharam os remos na água e afastaram-se com evidente relutância.

“É melhor ficar e ver o fim”, aconselhou o Capitão Duncan.

“Não me interessa muito o seu espetáculo”, afirmou Mayo, secamente.

As cortinas da cabine estavam fechadas no Olenia, e ele sentia-se especialmente isolado da companhia humana. Foi para a proa e caminhou pelo convés de um lado para o outro, remoendo os seus assuntos problemáticos na mente, mas fazendo um fraco esforço para colocar qualquer coisa no seu devido lugar.

Não havia sinais de que os iatistas que faziam a serenata se estivessem a cansar do seu método de matar o tempo durante uma noite presa pelo nevoeiro. Tinham arranjado banjos e bandolins, e estavam a cantar a canção da Polly com melhor efeito e maior gosto. E continuamente a voz rouca do mestre da Polly rugia maldições, distorcidas em novas formas de profanidade.

Mas o Capitão Mayo, caminhando sob o brilho húmido da luz de fundeadouro, prestou pouca atenção à algazarra. Estava demasiado absorto nos seus próprios problemas para sentir interesse especial no que os seus vizinhos estavam a fazer. Nem sequer reparou que uma brisa encharcada de nevoeiro começara a soprar espasmodicamente de leste e que as brumas se estavam a desfazer por cima.

No entanto, de repente, um som forçou a sua atenção; ouviu o tilintar de roldanas e soube que uma vela estava a ser içada. O estrato de nevoeiro que pairava baixo ainda era espesso e ele não conseguia perceber a identidade da embarcação que se propunha a tirar partido da brisa lenta. O “ruckle-ruckle” dos blocos soava a intervalos rápidos e indicava pressa; havia uma sugestão de determinação viciosa por parte dos homens que puxavam as adriças. Então o Capitão Mayo ouviu o tilintar constante das linguetas do cabrestante. Ele conhecia os métodos dos Apple-treers, a sua cautela e os seus hábitos pausados, e dificilmente podia acreditar que um capitão costeiro pretendesse deixar o porto naquela noite. Mas as linguetas do cabrestante começaram a clicar em estacato, mostrando que a âncora tinha sido solta.

Gritos de protesto por toda a parte na penumbra saudaram esse sinal.

Não havia como confundir a voz rouca do Capitão Candage quando ela se levantou em resposta; os seus tons tinham-se tornado familiares após aquela noite de maldições.

“Maldição, eu conheço uma maneira de me ver livre deste bando de vocês!”

“Não tentes mudar a tua ancoragem!”

“Ancoragem, nada! Vou para o mar!”, berrou o mestre da Polly.

“Abaixo com essa âncora! Vais destruir toda esta frota de iates com o teu velho carro de lixo!”

“Vocês levaram-me a isto! Agora podem arriscar-se!”

No momento seguinte, Mayo ouviu o rasgar de equipamento e um estrondo.

“Lá se foram dois botes e a nossa verga! Diabos, homem, larga a âncora!”

Mas a partir desse momento, o Capitão Candage, no que dizia respeito à sua boca, manteve um silêncio sinistro. O discurso estridente da destruição era mais eloquente.

Mayo não podia ver, mas compreendeu detalhadamente que danos foram causados na delicada estrutura dos iates por aquela velha escuna desajeitada. Aqui, outra verga levada, enquanto ela empurrava lentamente o seu volume através da frota; ali, um casco esmaltado arranhado pelos seus parafusos de chapa de ferro enferrujados. Agora, um bote esmagado nos turcos salientes, a seguir, um destroço de cordame aranha, uma verga de bujarrona estilhaçada e um mastro de gávea arrastado para baixo. Se o Capitão Mayo tivesse qualquer dúvida quanto aos detalhes dos desastres, teria recebido informações completas através da profanidade iluminadora das vítimas.

Ele sabia muito bem que o Capitão Candage não estava a agir com a intenção deliberada de causar todos aqueles danos. Com o pouco vento que havia, a escuna não estava sob controlo. Ela estava a derivar até ganhar velocidade suficiente para ser governada. Entretanto, estava a fazer o que lhe aparecia pelo caminho. A Polly tinha estado ancorada perto do Olenia. Assim que a sua âncora saiu do fundo, a escuna derivou pelo porto. Mayo soube, em poucos minutos, que Candage a estava a fazer virar. Um rebentamento especial de estilhaços sinalizou essa manobra.

Mayo cheirou a brisa, avaliou a distância e a direção, e depois correu para a proa e bateu com o punho na escotilha do castelo de proa.

“Chamem todos ao convés!”, gritou. “Preparem amortecedores e encerados!”

Com o vento como estava, ele percebeu que a escuna apontaria na direção do Olenia quando Candage se dirigisse para o mar.

Finalmente, Mayo vislumbrou-a através do nevoeiro. O seu cálculo estava correto. Estava a dirigir-se para o seu lado. Ela movia-se tão lentamente que era praticamente incontrolável; as suas proas de maçã mal agitavam uma onda, mas com a brisa a ajudar a maré, ela vinha irresistivelmente, desviando-se gradualmente e prometendo atingir lateralmente o grande iate.

Mayo tinha o orgulho de um marinheiro na sua embarcação e a devoção de um mestre ao dever. Não se contentou apenas em dar ordens aos homens que vinham a tropeçar para o convés.

Agarrou num enorme amortecedor de um dos marinheiros que parecia incerto sobre o que fazer; correu para a proa e empurrou-o para fora do varandim, inclinando-se muito para ver se estava colocado corretamente para absorver o impacto. Estava a dar mais atenção à segurança do Olenia do que àquilo que a Polly, que se aproximava, lhe poderia fazer.

Sob todos os gurupés das escunas, para sustentar os estais de proa, desce um pequeno mastro, em ângulo reto com o gurupé; chama-se martingale ou golfinho. Os armadores amadores que tinham mexido no equipamento da Polly de forma improvisada não se tinham preocupado em suavizar os espigões com que tinham reparado a extremidade inferior do martingale. O Capitão Mayo baixou-se para evitar um estai, e os espigões prenderam-se perfeitamente nas costas do seu casaco de oficial. O Sr. Marston tinha comprado tecido excelente e forte para o uniforme do seu capitão. O tecido aguentou, os espigões estavam bem fixos, a Polly não parou e, portanto, o mestre do Olenia foi arrancado do seu próprio convés e levado com ela.

Durante toda a noite, a gola de Mayo estivera bem abotoada à volta do pescoço para evitar a humidade do nevoeiro, e quando ele foi apanhado pelos espigões, a gola apertou-se fortemente à volta da sua garganta e contra a laringe. O seu pedido de ajuda foi apenas um grasnido estrangulado. Os seus homens estavam espalhados ao longo do lado do iate, tentando protegê-lo, a noite pairava sobre tudo, e ninguém notou a forma da partida do capitão.

A velha escuna passou pelo Olenia, roçando a pintura brilhante do iate e sujando-a com alcatrão e lodo. Era como se o espírito rancoroso do impuro tivesse encontrado uma oportunidade súbita para profanar o que estava limpo.

Depois, a Polly continuou noite adentro com caminho livre para o mar aberto.

VII ~ PARA A CONFUSÃO VINDO DE LESTE

Adeus aos amigos, adeus aos inimigos, Adeus aos queridos parentes. Estamos a caminho através do oceano azul — Destinados às nações estrangeiras. Então obedeçam ao chamado do contramestre, Caminhem com esse cabo de içar! E pensaremos naquelas raparigas quando já não pudermos ficar. E pensaremos naquelas raparigas quando estivermos muito, muito longe. —Desatracar.

Nos primeiros momentos, após ter sido arrebatado daquela forma, Mayo ficou pendurado no martingale sem se mexer, como um homem paralisado. Estava estupefacto com a rapidez daquele rapto. Tinha medo de lutar. Momentaneamente, esperou que o tecido se soltasse e que ele fosse enrolado sob a proa da escuna. Então começou a sentir-se desfalecer por falta de ar; estava quase estrangulado pela sua gola. Cuidadosamente, levantou as mãos e colocou-as à volta de um estai acima da cabeça, içando-se para que pudesse aliviar a garganta do aperto estrangulador da gola. Ficou ali pendurado sobre a água durante algum tempo, sentindo que não tinha força suficiente, após o seu sufoco, para se içar para as correntes ou para oscilar até à corda de pé.

Olhou para cima e viu a figura de proa; parecia estar a sorrir-lhe com um sorriso irritante. Havia algo de triunfo suave naquele sorriso. Na perturbação dos seus sentimentos, havia uma irritação pessoal e provocadora na expressão da figura de proa. Amaldiçoou-a como se fosse algo humano. A sua raiva ajudou-o, deu-lhe força. Começou a balançar-se e, finalmente, conseguiu passar um pé por cima de um estai.

Descansou durante algum tempo e depois deu a si mesmo outro impulso, conseguindo ficar montado no gurupé. Julgou que deveriam estar fora do promontório de Saturday Cove, porque a brisa era mais forte e o mar borbulhava e mostrava fios brancos de espuma contra as proas rombas. As suas lutas tinham consumido mais tempo do que ele tinha percebido no estado atordoado produzido pela sua gola estranguladora.

Ouviu o estalar do motor de um barco a motor muito atrás e sentiu-se animado pela convicção imediata de que a perseguição estava a decorrer. Portanto, apressou-se a entrar em contacto com o mestre da Polly. Rastejou para bordo ao longo do gurupé e tateou o caminho para a ré sobre as pilhas de madeira, obrigado a mover-se lentamente por medo de armadilhas. Uma ou duas vezes gritou, mas não recebeu resposta. Percebeu três figuras ténues no convés de ré quando lá chegou — três homens. O Capitão Candage estava a caminhar de um lado para o outro.

“Quem, em nome do diabo, és tu?”, berrou o velho capitão. “Sai daqui! Isto não é um barco de passageiros.”

“Sairei muito rapidamente e ficarei contente por isso”, retorquiu Mayo.

“Bem, serei amaldiçoado!”, explodiu o Sr. Speed, enfiando a cara sobre o leme. “É o...”

“Cala-te!”, rugiu o mestre. “Como é que vens a bordo como um clandestino?”

“Não digas disparates”, respondeu bruscamente o Capitão Mayo. “Os espigões do teu velho martingale prenderam-me. Para a máquina e deixa-me sair!”

“Para a máquina, é!”, ecoou Oakum Otie, começando a girar o leme.

O Capitão Candage virou-se para o seu imediato com a violência de um trovão. “Que te levem os diabos, quem é que dá ordens a bordo? Mantém o teu rumo!”

“Mas este é...”

“Cala-te!”, foi um sopro de esforço vocal. “Mantém o teu rumo!”

“E eu digo, para a máquina e deixa aquele barco a motor levar-me”, insistiu Mayo.

O Capitão Candage inclinou-se o suficiente para notar o casaco de uniforme do capitão do iate. “Quem pensas que estás a mandar, seu janota de riscas douradas e macaco?”

“Aquele barco a motor vem atrás de mim.”

“Pensas que tens toda essa importância, eh? Não, senhor! É um bando deles a perseguir-me para me obrigar a voltar ao porto e ser processado e apreendido por advogados baratos.”

“Deverias ser apreendido e processado! Não tinhas nada que sair daquele porto no escuro.”

“Deveria ter feito uma votação secreta de janotas, eh, para descobrir se eu tinha o direito de içar a minha âncora ou não?”

“Não estou aqui para discutir. Podes fazer isso no tribunal. Digo-te para virares ao vento e esperares por aquele barco.”

“É melhor fazê-lo, Cap Candage”, baliu Oakum Otie. “Este é o...”

“Cala-te! Estou a comandar a minha própria escuna, Sr. Speed.”

“Mas ele é um dos...”

“Não me importa se ele é um dos Apóstolos. Eu sei o que faço. Cala-te! Mantém-na no rumo!”

Deu duas voltas pelo convés de ré, semicerrando os olhos para a noite.

“Olha aqui, Candage, tu e eu vamos ter muitos problemas um com o outro se não mostrares algum senso comum. Preciso de voltar para o meu iate.”

“Salte borda fora e nade de volta. Não o estou a impedir. Não lhe pedi que subisse a bordo. Pode ir-se embora quando estiver pronto. Mas esta escuna tem como destino Nova Iorque, têm pressa por esta madeira, e eu não vou parar em estações intermédias!” Lançou outro olhar ao tempo, lambeu o polegar e manteve-o contra a brisa. “Sudoeste para sul, e deixe-a correr! E cale a boca!” comandou ao seu imediato.

Mayo agarrou um dos turcos do escaler e saltou para o varandim.

“Somos um pouco maiores do que uma agulha, mas enquanto o palheiro se mantiver suficientemente denso, suponho que não precisamos de nos preocupar!” observou o Capitão Candage, inclinando o ouvido para escutar o escape da lancha.

“Hoi-oi!” gritou Mayo para a noite na popa. Sabia que os homens ouvem indistintamente sobre o ruído de um motor a gasolina, mas tinha decidido continuar a gritar.

“Por aqui, homens! Por aqui com esse barco!”

“'Vast a remar com esse uivo!” comandou Candage.

Mas Mayo persistiu com todas as suas forças. A sua atenção estava confinada inteiramente aos seus esforços, e não estava preparado para o ataque repentino por trás. O mestre da Polly agarrou as pernas de Mayo e puxou-o para trás, para o convés. O jovem caiu pesadamente, e a sua cabeça bateu nas tábuas com uma violência que o atirou para a inconsciência.

Quando abriu os olhos, olhou para cima e viu um candeeiro suspenso que rangia nos seus cardãs enquanto oscilava ao balanço da escuna. Estava na cabine da Polly. A seguir, teve a consciência de que era incapaz de se mover. Estava sentado no chão, as costas contra um pilar, as mãos atadas atrás de si por amarras que o prendiam ao suporte vertical. Mas o aspeto mais desconfortável da sua situação era um saca-cavaletes que lhe estava espetado na boca como um bocado fornecido a um cavalo irrequieto, e que estava preso por amarras atrás da cabeça. Estava efetivamente amordaçado. Além disso, a parte de trás da sua cabeça doía da forma mais aguda. Revirou os olhos e descobriu que tinha uma companheira de infortúnio. Uma jovem muito bonita estava sentada numa cadeira de lona do outro lado da cabine. O seu rosto expressava muita simpatia.

Ele soltou um apelo sem palavras por ajuda, e então percebeu que ela estava atada à sua cadeira.

“Gostava de poder tirar essa coisa horrível da sua boca, senhor.”

Ele deu-lhe um olhar que a assegurou de que partilhava do seu desejo.

“O meu pai amarrou-me a esta cadeira. Tentei fazê-lo parar com aquela conversa terrível quando os barcos chegaram e acenderam as luzes. Ele pôs-me aqui em baixo e fez de mim sua prisioneira. É terrível, tudo o que tem estado a acontecer. Não consigo compreender! Espero que não pense mal do meu pai, senhor. Honestamente, ele parece estar fora de si.”

Ele queria devolver uma resposta reconfortante a este apelo melancólico, mas só podia balançar a cabeça contra o pilar e fazer sons inarticulados.

“Ele parecia estar muito amargurado quando o trouxe para baixo. Não o consegui fazer ouvir a razão. Tenho estado a pensar... e talvez seja o cavalheiro que liderou a cantoria que o deixou tão zangado?”

Mayo abanou a cabeça violentamente em protesto contra essa suspeita.

“Eu não me importei,” assegurou-lhe ela. “Eu sabia que era só por brincadeira.” Ela ponderou durante alguns minutos. “Talvez eles não tivessem provocado uma das suas amigas da cidade daquela maneira... mas suponho que os homens têm de se divertir quando estão longe de casa. Apenas... tornou-se difícil para mim!” Havia lágrimas nos seus olhos.

O rosto de Mayo ficou roxo enquanto tentava falar através do saca-cavaletes restritivo e fazê-la compreender os seus sentimentos sobre o assunto daquela serenata.

“Não tente falar, senhor. Lamento tanto. É vergonhoso!”

Houve silêncio na cabine depois disso durante muito tempo. Ele olhou para o candeeiro oscilante, o seu olhar vagueou pela cabine simples. Mas os seus olhos voltavam sempre ao rosto dela. Ele não podia usar a língua, e tentou dizer-lhe com os seus olhares, pequenos olhares apologéticos, que sentia muito por ela no seu desgosto. Ela encontrou esses olhares com manifesto embaraço.

Após uma ausência que foi prolongada para satisfazer a sua própria vontade azeda sobre o assunto, o Capitão Candage veio a pisar pesadamente pela escotilha abaixo. Ficou entre os seus cativos e olhou, primeiro para um e depois para o outro.

“Ambos a culpar-me, suponho, por aquilo que não podia ser evitado.”

“Pai, ouve-me agora, se ainda tens algum juízo,” gritou a rapariga, com paixão. “Tira essa coisa horrível da boca daquele cavalheiro.”

“Chegou-se a um ponto bonito neste mundo quando um homem honesto não pode conduzir os seus próprios negócios privados sem ter de atar os intrometidos para ter um pouco de paz.” Ele caminhou para perto de Mayo e abanou um dedo admoestador debaixo do nariz do jovem. “Agora, porque vieste a bordo, a meter-te nos meus assuntos?”

O capitão indignado fez os seus melhores esforços para dar uma réplica adequada, mas só conseguiu emitir uma série de “gargarejos”.

“E agora, em cima de tudo, sou informado pelo meu imediato, que nunca chega a fazer nada do que deveria ser feito até ser dois dias demasiado tarde, que tu és um dos Mayo! Porque não fui informado? Podia ter feito arranjos para te mostrar alguns favores. Podia ter parado e arriscado, considerando quem eras. E agora é demasiado tarde. Toda a gente parece estar pronta para abusar de mim!”

Mais uma vez Mayo tentou falar.

“Porque não te calas com esse grasnado e falas com sentido?” gritou o capitão irado, com um desrespeito enlouquecedor pela situação do cativo.

“Pai, estás completamente louco? Não tiraste esse saca-cavaletes da boca dele.”

“Esperas que um homem se lembre de tudo quando está todo envolvido nos seus próprios assuntos e toda a gente a tentar meter-se neles?” resmungou Candage. Ele remexeu no bolso e tirou uma faca. Cortou a corda de cânhamo que prendia o saca-cavaletes. “Se consegues falar com sentido, vou ajudar-te a fazê-lo! Suponho que já podes gritar tudo o que quiseres. Aqueles janotas não conseguem encontrar as suas próprias bocas num nevoeiro, quanto mais esta escuna. Agora fala!”

Mayo mexeu os seus maxilares doridos e encontrou a voz. “Sabe como vim parar a bordo, Capitão Candage. Sou o capitão do Olenia. Volte para trás comigo se quiser evitar problemas.”

“Nem por sombras, senhor! Não vou dar a volta e enfrentar aqueles recifes neste nevoeiro. Tenho o mar aberto à frente, e vou continuar!”

Mayo era um marinheiro que conhecia aquela costa, e admitiu para si mesmo que a teimosia de Candage era justificada.

“Não sou responsável por ter vindo a bordo. Deixá-lo-ei em terra assim que puder... e isso cobre a lei, senhor.”

Durante um silêncio prolongado, os dois homens encararam-se.

“De qualquer forma, Capitão Candage, confio que não considerará que tem o direito de me manter aqui atado por mais tempo.”

“Agora que há um melhor entendimento sobre quem é o chefe a bordo aqui, não sei se tenho medo de o ter à solta,” admitiu o capitão. “Apenas o aviso para se lembrar das suas maneiras e não esquecer que eu sou o capitão.”

Ele brandiu o seu canivete e inclinou-se para cortar as amarras. Depois, atravessou a cabine e fez o mesmo serviço à sua filha.

“Suponho que posso dar-me ao luxo de tê-lo solto também, agora que não pode dizer-me o meu negócio à frente de um bando de vadios a atirar beijos para todo o lado!”

“Pai! Oh, oh!” Ela pôs as mãos no rosto.

O Capitão Candage parecia estar com alguma dificuldade em manter o seu papel de capitão de navio autoritário; desviou os olhos do cenho franzido de Mayo e observou a filha com incerteza enquanto coçava a orelha.

“Quando um homem não é o chefe na sua própria escuna, mais vale deixar de ir ao mar,” murmurou ele. “Algumas pessoas sabem que é a verdade, estando numa posição de saber, e outras têm de ser ensinadas!” Ele subiu a pisar pesadamente a escotilha para a noite.

O Capitão Mayo esperou durante alguns minutos. A rapariga não levantou a cabeça.

“Sobre aquilo... O que ele disse sobre... Você compreende! Eu sei melhor!” vacilou ele.

“Obrigada, senhor,” disse ela, reconhecida, ainda escondendo o rosto dele.

“Os homens por vezes fazem coisas muito tolas.”

“Eu não sabia que o meu pai podia ser assim.”

“Eu estava a pensar nos homens que vieram e o incomodaram. Consigo compreender como ele se sentiu, porque eu próprio sou um ‘nativo’.”

“Pensei que fosse de fora.”

“O meu nome é Boyd Mayo. Sou de Mayoport.”

Ela olhou para ele com interesse franco.

“O meu pessoal construiu esta escuna,” afirmou ele, com um orgulho modesto.

“Eu sou a Polly Candage... fui nomeada por ela.”

“É uma pena!” deixou escapar ele. “Não quero dizer que o nome não esteja bem,” explicou ele, desajeitadamente, “mas não penso que nenhum de nós esteja particularmente orgulhoso desta velha embarcação neste preciso momento.” Ele atravessou a cabine e sentou-se num banco, testando a protuberância na parte de trás da cabeça com uma palma cautelosa.

Ela não respondeu, e ele pousou os cotovelos nos joelhos e começou a nutrir o seu ressentimento privado em silêncio, excluindo completamente a sua companheira dos seus pensamentos. Agora que tinha sido arrancado tão sumariamente da sua odiada posição a bordo do Olenia, o seu desejo de a deixar não era tão intenso. Após a declaração de Mayo ao proprietário, Marston poderia facilmente concluir que o seu capitão tinha desertado. A sua reputação e a sua licença como capitão de navio estavam em perigo, e ele já tinha tido um sabor amargo da intolerância de Marston perante falhas. Se Marston se desse ao trabalho de arruinar um cidadão tão humilde, a malícia tinha uma arma à mão. Mas, acima de tudo, Mayo estava preocupado com a visão que Alma Marston teria da situação. Ela acreditaria ou que ele tinha caído borda fora na escaramuça com a Polly atacante, ou que tinha desertado sem aviso... e no caso de um amante, ambas as suposições eram agonizantes. A sua angústia era tão aparente que a rapariga, do seu assento no banco oposto, estendeu simpatia nos olhares que se atreveu a dar-lhe.

“Como é que rasgou tanto o seu casaco nas costas?” aventurou-se ela, finalmente.

“Picos que o seu excelente pai deixou a espetar para fora do seu estai de gurupés,” disse ele, uma espécie de ressentimento infantil no seu tom.

“Então é apenas justo que eu me ofereça para o remendar para si.”

Ela apressou-se para um armário, como se estivesse contente com uma desculpa para se ocupar. Tirou o seu pequeno cesto de costura e depois veio até ele e estendeu-lhe a mão.

“Tire-o, por favor.”

“Não precisa de se incomodar,” protestou ele, ainda ríspido.

“Insisto. Por favor, deixe-me fazer alguma coisa para compensar a maldade da Polly.”

“Estará bem até eu conseguir chegar a terra... e talvez eu nunca precise de usar o casaco outra vez, de qualquer maneira.”

“Não me deixará fazer algo que me tire a mente dos meus problemas, senhor?” Então ela estalou o dedo na palma da mão e havia um espírito de comando maternal na sua voz, apesar da sua juventude. “Insisto, digo eu! Tire o seu casaco.”

Ele obedeceu, um pequeno sorriso vincando os cantos da sua boca... um brilho de luz na sua melancolia geral. Depois de ter colocado o casaco nas mãos dela, sentou-se no banco e observou os dedos ocupados dela. Ela trabalhava com destreza. Fechou os rasgos e depois cerziu os lugares desfiados com bocados de fio tirados do próprio casaco.

“Está a fazê-lo parecer quase como novo.”

“Uma rapariga do campo tem de saber como remendar e cerzir. O pessoal do campo não tem tantas coisas para deitar fora como o pessoal da cidade.”

“Mas aquilo... o que está a fazer... isso é arte real.”

“A minha tia faz costura e eu tenho ajudado. E ultimamente tenho trabalhado numa chapelaria. Qualquer rapariga deveria saber como usar a agulha.”

Ele lembrou-se do que o Sr. Speed tinha dito sobre a razão da sua presença na Polly. Lançou um olhar depreciativo à volta da cabine nua e decidiu na sua mente que o Sr. Speed tinha relatado a verdade e com pleno conhecimento dos factos. Certamente nenhuma rapariga escolheria aquele tipo de coisa para umas férias de verão.

Ela inclinou a cabeça mais para baixo sobre o seu trabalho e ele ficou consciente de uma simpatia mais calorosa por ela; os seus assuntos de coração atribulados estavam em situação semelhante. Sentiu um impulso de dizer algo para a consolar e sabia que apreciaria a compreensão e o consolo dela; prontamente teve medo da sua própria língua, e impôs um travão a toda a fala.

“Um homem nunca sabe até onde pode ir ao fazer conversa tola quando começa,” refletiu ele. “Sentindo-me como me sinto esta noite, é melhor manter a conversa bem presa.”

Agora que as suas mãos estavam ocupadas, ela não achou o silêncio embaraçoso. Mayo voltou às suas meditações feias.

Depois de algum tempo, ele foi obrigado a mudar de posição no banco. A escuna estava a adernar de uma maneira que mostrava o impulso do vento. Ele olhou para cima e viu que a chuva estava a espalhar salpicos largos no vidro sujo das janelas. A escotilha da entrada estava aberta, e quando inclinou o ouvido, com o interesse de marinheiro pelo tempo, ouviu o vento a ofegar no espaço aberto com um “gurgitar” estranho no seu tom.

Instintivamente, começou a olhar à volta da cabine por um barómetro.

Já nesse dia o vidro do Olenia o tinha avisado pela sua tendência descendente. Ele perguntou-se se uma leitura adicional indicaria algo mais ameaçador do que nevoeiro.

Do outro lado da cabine notou uma espécie de instrumento a oscilar de um gancho numa trave. Investigou. Era um barómetro improvisado, o brinde publicitário de uma empresa de levedura. O conteúdo do seu tubo estava turvo até à altura da marca que dizia “Tornado”.

“Não pode dizer nada com isso!” O Capitão Candage tinha descido à cabine e estava atrás do seu convidado involuntário. “Tem registado 'Tornado' desde que o vidro se partiu. E mesmo assim, é tão fiável como qualquer uma das outras coisas inúteis.”

“Não tem um barómetro normal... um aneróide?” perguntou o Capitão Mayo.

“Consigo cheirar todo o tempo que preciso sem me incomodar com uma dessas engenhocas,” declarou o mestre da escuna, de forma senhorial. Começou a tirar oleados sujos de um armário.

Mayo apressou-se a subir a escotilha e pôs a cabeça de fora. Havia tanto peso como ameaça no vento que soprava pelos seus ouvidos. O nevoeiro tinha desaparecido, mas a noite estava negra, sem cintilação de estrelas. As cristas brancas das ondas que galopavam ao lado salpicavam a escuridão com sinalizações ameaçadoras.

“Se consegue cheirar o tempo, Capitão Candage, o seu nariz deveria dizer-lhe que isto promete ser algo bastante desagradável.”

“Oh, pode ser chamado de desagradável por marinheiros de água doce num iate de luxo, mas eu naveguei os mares no meu tempo e estação, e não corro para uma poça costeira sempre que o vento sopra um pouco.” Ele estava a mexer num botão debaixo da sua barba ríspida e deu ao outro homem um olhar de superioridade.

“Não me classifica como um marinheiro de iate, pois não?”

“Bem, você estava num iate, não estava?”

“Olhe aqui, Capitão Candage, pode muito bem entender, agora e aqui, que eu sou do seu tipo de marinheiros. Desculpe pela conversa pessoal, mas quero informá-lo que dos quinze aos vinte anos fui um pescador dos Grand-Banks. Na época passada fui capitão do arrastão *Laura and Marion*. E naveguei a vapor no Estreito e fui primeiro imediato no comércio de pinho rígido em águas do Sul. Tive a oportunidade de descobrir mais ou menos sobre o tempo.”

“Hum!” observou o capitão, fingindo indiferença. “O que tem isso?”

“Digo-lhe que não tem nada que se meter nesta confusão que se está a formar de leste.”

“Se tem sido tanto e tão poderoso no seu tempo, então entende que um capitão não recebe ordens de ninguém quando está a bordo da sua própria embarcação.”

“Entendo perfeitamente, senhor. Não estou a dar ordens. Mas a minha própria vida vale algo para mim e tenho o direito de lhe dizer que está a correr riscos imprudentes. E você também o sabe!”

O olhar do Capitão Candage desviou-se. Ele era um costeiro e era naturalmente cauteloso, como os homens daquela zona são obrigados a ser. Ele sabia perfeitamente que estava na presença de um homem que sabia! Não tinha a confiança necessária para discutir com esse homem, embora o seu ressentimento geral contra todo o mundo naquele momento o impelisse a isso.

“Saí porque eles me expulsaram,” rosnou ele.

“Um homem não se pode dar ao luxo de ser infantil quando está no comando de uma embarcação, senhor. É um capitão demasiado velho para negar isso.”

“Eu estava tão zangado que não parei para cheirar o tempo,” admitiu o mestre, preparando-se para enfrentar uma nova inclinação da Polly. Ele evidentemente sentia que deveria defender a sua própria perspicácia e absolver-se da culpabilidade de marinheiro.

“Muito bem! Fique por aí! Mas o que vai fazer?”

“Não consigo voltar para Saturday Cove contra este vento... não agora! Ela destruiria a sua velha estrutura.”

“Então leve-a para Lumbo Reach. Pode navegar com mar de popa. Ela deveria andar bastante bem.”

“Isso é uma entrada estreita numa noite tão negra como esta.”

“Farei um cruzamento para si. Onde está a sua carta?” Mayo exibiu a ansiedade alerta de um marinheiro em ser útil.

“Nunca precisei de uma carta... não para esta costa.”

“Então terei de adivinhar, senhor.” Fechou os olhos para se concentrar. “Deu um rumo de sudoeste para sul. Vejamos... eram nove e quinze quando olhei e devemos ter registado...”

“Não adianta tentar entrar num buraco na parede como Lumbo Reach,” declarou Candage em tons desencorajados.

“Mas tem a sua bússola e eu posso...”

“Não há como confiar na minha bússola dentro de dois pontos e meio.”

“Diabos, eu posso compensar, senhor, se me disser o seu desvio!”

“Mas é uma bússola de cartão e gira tão mal com o mar que não há como saber, de qualquer maneira. Na minha navegação costeira não tive de ser rigoroso.”

“Não enquanto tivesse uma macieira à vista,” troçou Mayo, começando a perder a paciência.

“Não me atrevo a correr na direção de nada que seja sólido... vamos bater de certeza, e o inferno vai torrar pão de milho. Temos de ficar no mar!”

O Capitão Mayo cerrou os dentes e os punhos e deu algumas voltas pela cabine. Olhou para a noite através da escotilha aberta. O brilho pálido do candeeiro oscilante lançava um clarão suave contra a escuridão e iluminava dois rostos que estavam delineados contra esse pálido. Tanto Oakum Otie como Smut-nosed Dolph estavam ao leme. A sua força unida era necessária porque a escuna estava a guinar loucamente de vez em quando, quando as vagas mais fortes do mar espumante levantavam a sua popa, perseguindo-a como cavalos selvagens. Aqueles rostos, quando Mayo olhava para eles, eram muito solenes. Os dois estavam agachados como homens que estavam ansiosos por se esconder de uma besta selvagem. Grunhiram enquanto lutavam com o leme, tentando mantê-la direita quando a Polly andava de trenó com investidas que quase cortavam a respiração.

Mayo apressou-se para a rapariga. “Tenho de ter o meu casaco, Srta. Candage. Agradeço-lhe. Já serve.”

Ela manteve-o aberto para os braços dele, como uma donzela poderia ajudar o seu cavaleiro com a armadura. “Estamos em perigo?” perguntou ela, trémula.

“Espero que não... apenas é desconfortável... e desnecessário,” disse ele, com alguma irritação.

“Devo ficar aqui em baixo... sozinha?”

“Eu ficaria! É apenas uma tempestade de verão, Srta. Candage. Tenho a certeza de que estaremos bem.”

O Capitão Candage tinha subido ao convés, fazendo barulho com os seus oleados rígidos.

Mayo seguiu-o, mas o mestre desceu alguns degraus da escotilha e intercetou o voluntário, mostrando um brilho final da sua hostilidade.

“Quero notificá-lo de que eu posso comandar o meu próprio barco, senhor!”

“Sim, comande-o com um barómetro de levedura, um fundo de palha, uma bússola de brincar e a sua disposição azeda geral,” gritou Mayo para o turbilhão do vento, a sua ansiedade a aguçar o seu temperamento já muito testado.

“Se se sente dessa maneira, não o quero aqui em cima.”

“Sinto-me pior do que alguma vez entenderá, seu velho tolo teimoso!”

“Deixei que um homem me chamasse tolo hoje e não respondi — mas sei onde traçar a linha”, avisou Candage.

“Ouça aqui, proponho-me a começar consigo agora mesmo, senhor, numa base que entenderá! Digo que é um tolo e que precisa de um tutor — e de agora em diante vou impor a minha autoridade a bordo! Saia do meu caminho!”

O Capitão Mayo deu então ênfase à sua opinião sobre o Capitão Candage, empurrando o mestre para o lado com o cotovelo e saltando para o convés.

“Isso pode ser motim”, declarou o Sr. Speed entre dentes cerrados, contendo a exclamação assustada do seu ajudante ao leme. “Mas, pelo Judas Iscariotes, é um Mayo que o está a fazer! Lembre-se disso, Dolph!”

VIII ~ COMO INSETOS SOB UMA DEDALEIRA

O capitão sobe lá de baixo, E olha para o alto e olha para baixo. E olha para baixo e olha para o alto, E é: “Enrolem os cabos, aí, à proa e à popa.” Com um grande Au-au! Tow-row-row! Fal de rai de, ri do day! --Boston Shanty.

O Capitão Mayo caminhou diretamente para os homens ao leme. “Dê-me esses raios!” comandou. “Eu tomo o comando! Recolham a vossa lavagem, rapazes!”

“Sim, sim, senhor!” assentiu o Sr. Speed, dando um empurrão violento ao resistente Dolph.

Quando o Capitão Candage começou a praguejar, o Capitão Mayo mostrou que tinha uma voz e um vocabulário próprios. Ele rugiu literalmente contra o mestre do Polly.

“Agora cale-se!” ordenou ao capitão estupefacto, que o enfrentava de boca aberta. “Não é altura para mais loucuras. É um caso de trabalharmos juntos para salvar as nossas vidas. Abaixo com eles, rapazes!”

“Isso mesmo”, declarou o imediato. “Ela não precisa de muita coisa, exceto de uma luva com recife duplo e o polegar amarrado.”

O vento não atingira a velocidade de um vendaval, mas tinha um rosnado feio que sugeria maior violência. Mayo preparou-se, pronto para virar a escuna a fim de dar à tripulação a oportunidade de reduzir a vela.

O Capitão Candage, deposto como autocrata por um momento, parecia incerto quanto aos seus deveres.

Mayo, compreendendo a natureza dos marinheiros, sentiu algum remorso e foi impulsionado por um segundo pensamento mais sensato.

“É melhor assumir o leme, Capitão Candage. Conhece os truques dela melhor do que eu em mar alto. Vou ajudar os rapazes a recolher as velas.”

O mestre obedeceu com presteza. Parecia estar intimidado. A raiva já não o cegava para a sua situação difícil.

“Diga apenas o que quer que seja feito e tentarei fazê-lo”, disse ele a Mayo, numa voz que se tornara subitamente suave e algo suplicante. Depois chamou a filha, que viera até ao pé da escada da entrada: “É melhor apagar essa luz da cabine, Polly, minha filha! Ela pode dançar mal, e não queremos correr o risco de um incêndio.”

Mayo teve um vislumbre do rosto dela enquanto se apressava sobre o convés a caminho das adriças da vela grande. O rosto dela estava pálido, mas havia o espírito firme da sua ascendência ianque do mar no seu equilíbrio e no seu próprio silêncio naquela crise. Ela obedeceu sem queixas ou perguntas e a cabine ficou na escuridão; até o brilho da luz tinha contido algo de alegria. Agora, a penumbra era sombria e deprimente.

A escuna virou com uma espécie de pressa assustada quando o mestre atirou o leme com força e pisou os raios com todo o seu peso. Assim que a vela grande começou a bater, os três homens deixaram-na correr. Mantiveram a vela de proa, como é chamada a bujarrona principal; reduziram a vela de traquete para a sua menor dimensão.

Mayo, jovem, ágil e ansioso, deu sozinho mais nós de recife do que os seus dois ajudantes juntos, e os seus comandos precisos foram obedecidos sem questionamentos.

“Ele certamente é um raio em calças”, confidenciou Dolph a Otie.

“Ele sabe o que faz”, disse Otie a Dolph.

O Capitão Mayo liderou o caminho para a popa, rastejando sobre as ripas e sarrafos.

“Espero que seja do seu parecer, senhor, que é melhor mantê-la contra o vento como está e tentar superar isto”, sugeriu ao mestre.

“É o meu parecer, senhor”, respondeu o Capitão Candage, com gravidade oficial.

À capa, a velha Polly navegava de forma bastante confortável. Estava funda com a sua carga de madeira, mas a madeira tornava-a flutuante e ela elevava-se facilmente. A sua boca larga ajudava a estabilizá-la nos mares revoltos — mas o Capitão Mayo agarrou-se a um estai e enfrentou o vento e a chuva torrencial e sabia que o Atlântico aberto não era lugar para a Polly numa noite como aquela.

A espuma das cristas das ondas na sua proa desajeitada salgava a chuva no seu rosto gotejante. Era uma tempestade fora de época, dificilmente esperada naquela altura do ano. Mas ele tinha experiência frequente com as variações dos ventos de leste, e sabia que um vento de leste de verão, quando chega, traz possibilidades ameaçadoras.

“Eles sabiam como construir escunas quando os vossos antepassados construíram esta em Mayoport”, declarou o Capitão Candage, tentando colocar um tom conciliador na voz enquanto rugia contra a rajada. “Ela sobreviverá onde um desses iates de luxo com o dobro do seu tamanho seria sufocado.”

Mayo não respondeu. Saltou sobre o convés e ajudou Dolph e Otie a enrolar a vela grande que estava espalhada nos lazy-jacks. Eles levaram o seu tempo; o perigo mais iminente parecia ter passado.

“Nunca soube que um sopro de verão chegasse a significar muito”, observou o Sr. Speed, tentando animar-se, embora estivesse agarrado com as duas mãos para evitar ser levado pelo vento para fora do convés escorregadio.

“Depende se há um vendaval extra especial escondido algures a barlavento”, disse Mayo, numa acalmia do vento. “Então pode significar um diabo de um bocado, Sr. Speed!”

A escuna lavou o nariz numa onda curva que veio a bordo e varreu a popa. Com a sua pequena área de vela exposta e com o vento a fustigá-la, ela parou e derivou, perdendo o seguimento. Sofreu vários solavancos do mesmo tipo antes de se ter recomposto o suficiente para enfrentar o vento.

Novamente derivou, como se tentasse evitar uma rajada, e outra onda formou crista à frente da proa romba e depois pareceu explodir, despejando toneladas de água no convés. Sarrafos, madeira e feixes de telhas foram arrancados e foram para o mar. A Polly parecia demonstrar uma sagacidade própria naquela crise; estava a lançar carga ao mar para a sua própria salvação.

“Bom Cefas! Isto vai fazer-nos perder a carga do convés”, lamentou o mestre. “É melhor deixá-la correr!” “Não faça isso, senhor! Nunca a conseguirá virar!” Mayo tinha desistido do seu trabalho na vela e estava a ouvir. Acima do grito das rajadas que o assaltavam, ouvia um rugido surdo e solene a barlavento. Suspeitava do que aquele som indicava. Já o tinha ouvido antes na sua experiência. Tentou espreitar a tempestade, arrastando a chuva dos olhos com os dedos. Então a natureza segurou uma tocha para ele. Um raio vívido ondulou por cima e espalhou um clarão de iluminação pelo mar. As suas suspeitas, que tinham sido despertadas por aquele rugido sombrio, foram agora confirmadas. Viu uma parede baixa de água branca, rodopiando e espumando. Era um “cuspidor” de verão a atropelar as ondas.

Um cuspidor é uma aberração numa tempestade regular — uma loucura de verão de convulsão meteorológica. É um raio de vento, uma concentração de vendaval, um dervixe rodopiante de desastre — vento compactamente reunido numa única rajada todo-poderosa — vento suficiente para durar um vendaval regular durante um dia inteiro se o estoque fosse gasto com parcimónia.

“Não a alivie um centímetro!” gritou Mayo.

Mas, mesmo nesse momento, outra onda crescente subiu a bordo e apanhou mais dos sarrafos e mais das telhas, e foi-se embora pela noite dentro com o espólio. O sentido de parcimónia do Capitão Candage recebeu um golpe mais vital do que o seu sentido de medo. Os seus olhos estavam no leme, e ele não tinha visto a parede de espuma branca.

“Aquela carga de convés tem de ser amarrada”, murmurou ele. Decidiu correr com o vento até que esse trabalho pudesse ser realizado. Atirou o leme com força. Mayo estava a cavalgar a retranca da vela grande, puxando-se em direção ao capitão para o fazer ouvir. Quando o voluntário viu o mestre da Polly tentar virar as costas ao inimigo daquela maneira, saltou para o leme, mas era tarde demais. A escuna tinha derivado demasiado. O cuspidor gritante apanhou-os quando estavam equilibrados de lado no topo de uma onda, antes que a embarcação lenta tivesse completado a sua curva.

O que aconteceu depois poderia ter servido de confirmação da superstição dos marinheiros de que um verdadeiro demónio reina no coração da tempestade. O ataque à velha Polly mostrou uma inteligência diabólica no trabalho de equipa. Uma onda esmagadora aproveitou a carga solta e atingiu a escuna com um golpe lateral que enviou toda a madeira num impulso deslizante contra o bordo de sotavento e o cordame. A vela grande tinha sido apenas parcialmente assegurada; o cuspidor soprou para dentro da tela a bater com toda a sua força e a vela soltou-se e enfunou.

No instante seguinte, a Polly foi virada!

Ela tombou com toda a impotência e violência de peso morto de um homem que tropeçou num estendal de roupa no escuro.

Os quatro homens que estavam no convés eram marinheiros e não precisaram de ordens quando sentiram aquele balanço nauseante dela enquanto tombava. Instintivamente, de comum acordo, mergulharam para a entrada da cabine.

Sem dúvida, como marinheiro, o primeiro pensamento de cada um foi que a escuna estava a ficar de lado. Portanto, permanecer no convés significava que ou deslizariam para a água ou que uma onda destruidora os levaria.

Tombaram juntos na escuridão, e todos os quatro, com um impulso de preservação tão instantâneo e verdadeiro como o da aranha-de-alçapão, puseram as mãos no fecho da escotilha e nas folhas dobráveis da porta.

O Capitão Mayo, com a mão ainda num puxador, viu-se puxado para debaixo de água sem entender logo o que tinha acontecido. Soltou o aperto e veio à superfície, cuspindo. Ouviu a rapariga gritar num extremo de terror, tão perto dele que a sua respiração roçou o seu rosto. Estendeu o braço e apanhou-a enquanto se debatia à procura de apoio. Quando encontrou algo onde se apoiar e se equilibrou, não conseguia compreender o que tinha acontecido; o chão em que estava de pé tinha irregularidades estranhas.

“Viramos!” gritou o Sr. Speed na escuridão negra. “Viramos completamente. Estamos de pernas para o ar. Estamos de pé no teto!”

Então Mayo caminhou um pouco e convenceu-se de que as irregularidades debaixo dos seus pés eram as vigas e os cavernames.

A Polly tinha sido virada a valer! O Sr. Speed tinha razão — ela estava exatamente de pernas para o ar!

Mesmo naquele momento de stress, Mayo conseguia calcular como tinha acontecido. O cuspidor devia ter arrancado toda a sua tela podre dos mastros enquanto ela rolava e não houve suporte para a segurar de lado quando ela virou.

O Capitão Candage estava a cuspir e a chapinhar perto, e estava a rugir os seus medos. Depois começou a chamar pela filha de forma piedosa.

“Estás afogada, Polly querida?” gritou ele.

“Tenho-a a salvo, senhor”, assegurou-lhe Mayo em tons roucos, tentando limpar a água da garganta. “Fique de pé numa viga. Pode colocar metade do seu corpo acima da água.”

“Está tudo acabado para nós”, ofegou o mestre. “Estamos sentenciados.”

Tal escuridão total e impenetrável Mayo nunca tinha experimentado antes. As suas vozes ecoavam surdamente, como se estivessem num enorme barril que tinha sido tapado.

“‘Agora deito-me para dormir, peço ao Senhor que guarde a minha alma’”, murmurou o cozinheiro. “Se alguém souber uma oração melhor, gostaria que a dissesse.”

“Mesmo virados — de pernas para o ar! Pior do que moscas numa poça de melaço de Porto Rico”, lamentou o Sr. Speed.

O mestre juntou-se ao imediato na lamentação. “Trouxe a minha menina para isto! Trouxe a minha Polly para aqui! Deus perdoe-me. Não podes falar comigo, Polly?”

Mayo encontrou a rapariga muito quieta no encaixe do seu braço, e colocou a mão livre na bochecha dela. Ela não se moveu sob o seu toque.

“Ela desmaiou, senhor.”

“Não, ela está morta! Está morta!” Candage começou a chorar e começou a chapinhar pelo caminho através da cabine, direcionado pela voz de Mayo.

“Ela está bem — ela está a respirar”, assegurou o jovem ao pai. “Aqui! Por aqui, capitão! Pegue nela. Segure-a. Quero ver se se pode fazer alguma coisa por nós.”

“Nada pode ser feito!” soluçou Candage. “Estamos perdidos.”

“Estamos perdidos”, afirmou Oakum Otie.

“Estamos perdidos”, ecoou Dolph.

Mayo entregou a rapariga aos braços tateantes do seu pai e ficou por alguns momentos a refletir sobre a sua situação desesperada. Não estava esperançoso. No seu coração, concordava com as convicções que os seus companheiros estavam a expressar em falsete infantil. Mas, sendo um jovem marinheiro que encontrava a sua cabeça acima da água, resolveu continuar a lutar naquela emergência; o ditado do marinheiro costeiro é: “Não morras até que Davy Jones coloque a sua pitada final no teu pescoço!”

Primeiro de tudo, deu total consideração ao que tinha acontecido. A Polly tinha sido virada tão rapidamente que tinha sido transformada numa espécie de sino de mergulhador. Isto é, uma quantidade considerável de ar tinha sido capturada e estava agora retida nela. Estava comprimida pela água que era forçada a subir de baixo através das janelas e da claraboia estilhaçada. A pressão nas têmporas de Mayo deu-lhe informações sobre este ponto. A Polly estava a flutuar, e ele sentiu uma confiança reconfortante de que ela continuaria a flutuar por algum tempo. Mas esta perspetiva não garantia a segurança nem prometia vida aos infelizes que tinham ficado presos nas suas entranhas. O ar devia ou escapar gradualmente ou tornar-se viciado à medida que eles o respiravam.

Havia apenas uma coisa a fazer, decidiu ele: aproveitar qualquer período de trégua que o seu antigo inimigo, o mar, tivesse permitido naquela batalha desesperada.

Um marinheiro é presa de perigos e vítima do inesperado nos humores sempre variáveis do oceano; ele deve ser mestre de expedientes e um pronto agarrador de emergências.

“Onde estão as suas ferramentas — um serrote — um cinzel?” exigiu Mayo. Foi obrigado a repetir essa pergunta várias vezes. Os seus companheiros pareciam estar totalmente absorvidos pelas suas próprias mágoas.

Finalmente, o Sr. Speed conteve os seus gemidos o suficiente para declarar que as ferramentas estavam no “lazareto”.

O lazareto de uma embarcação costeira é uma despensa debaixo do convés de popa — repositório de apetrechos gerais e equipamento sobressalente.

“Alguma maneira de chegar lá exceto pela escotilha do convés?”

“Há uma porta que passa, atrás da escada da entrada”, disse o Sr. Speed, com indiferença lánguida.

Mayo abriu caminho pela escada depois de ter vadeado e tropeçado aqui e ali e a ter localizado. Colocou os ombros contra a inclinação dos degraus e empurrou a porta com os pés. Depois de a forçar a abrir, entrou na despensa. Era um negócio às cegas, procurar qualquer coisa naquele lugar. Conhecia os hábitos gerais das tripulações costeiras descuidadas e tinha a certeza de que as ferramentas tinham sido atiradas para o meio do resto da tralha pela pessoa que as usou da última vez. Se estivessem soltas no chão, estariam agora soltas no teto. Mexeu os pés, esperando pisar algo que parecesse um serrote ou cinzel.

“Ahoy, vocês homens aí fora!” chamou ele. “Não têm ideia de em que parte deste lazareto estavam as ferramentas?”

“Oh, provavelmente foram apenas atiradas”, disse o Sr. Speed. “Gostaria que não me incomodasse tanto! Estou a tentar compor a minha mente para rezar.”

Havia tanta tralha e coisas debaixo dos seus pés que Mayo desistiu de procurar após algum tempo. Tinha prendido a respiração e mergulhado a cabeça debaixo de água para que pudesse investigar com as mãos nuas, mas não encontrou nada que o ajudasse, e o seu cérebro estava tonto após os seus esforços e a sua boca estava sufocada pela água suja.

Mas quando ele tateou o caminho de volta para a cabine principal, as suas mãos entraram em contacto com o interior da porta do lazareto. Em laços de couro na porta encontrou serrote, machado, cinzel e martelo. Foi incapaz de conter alguns juramentos sinceros e satisfatórios.

“Porque não me disseram onde estavam as ferramentas? Estão aqui na porta.”

“Tinha-me esquecido de as apanhar. E a minha mente não está em ferramentas, de qualquer maneira.”

“A sua mente estará nelas assim que eu conseguir ir para a frente”, rosnou o capitão irritado.

Mayo não tinha a certeza do que precisava ou do que seria obrigado a fazer, por isso levou todas as ferramentas, segurando-as acima da água. Quando passou pelo Capitão Candage, ouviu o velho capitão a tentar confortar a rapariga, a sua voz baixa e quebrada por soluços. Ela tinha recuperado a consciência e Mayo ficou um pouco arrependido; no seu desmaio ela não tinha percebido a sua situação; ele temia ataques de histeria e outras demonstrações femininas, e sabia que precisava de toda a sua coragem.

“Vamos morrer — vamos morrer!” a rapariga continuava a gemer.

“Sim, minha pobre menina, e eu trouxe-te para isto”, choramingou o pai.

“Por favor, mantenha a coragem por um pouco de tempo, Srta. Candage”, pediu Mayo, melancolicamente.

“Mas não há esperança!”

“Há esperança enquanto tivermos um pouco de ar e um pouco de fibra”, insistiu ele. “Agora, por favor!”

“Estou com medo!” sussurrou ela.

“Eu também”, confessou ele. “Mas todos nós vamos trabalhar o melhor que soubermos. Não nos pode encorajar como uma rapariga corajosa e boa?” Ele continuou a tropeçar. “Agora diga-me, imediato”, ordenou ele, vivamente, “qual é a espessura da antepara entre a cabine, aqui, e o porão?”

“Não me posso dar ao trabalho de pensar”, respondeu o Sr. Speed.

“É apenas forro entre as vigas, senhor”, declarou o Capitão Candage.

“Imediato, você e o cozinheiro deem uma mão para me ajudar.”

Oakum Otie interrompeu a oração para a qual tinha voltado prontamente. “Para quê?” exigiu ele, com uma raiva que o seu medo tornava infantil. “Disse-lhe que estou a tentar compor a minha alma, e quero que este alarido pare.”

“Eu digo que para quê também!” queixou-se Dolph. “Não se pode remar uma bolacha através de uma poça de melaço com um par de palitos”, acrescentou ele, com a metáfora de cozinheiro para o absolutamente sem esperança.

Mayo gritou para eles com uma violência que fez um barulho hediondo naquele espaço estreito. “Vocês os dois homens vades até aqui ter comigo ou irei atrás de vocês com um machado numa mão e um martelo na outra! Malditos, falo a sério!”

Ficaram em silêncio, depois ouviu-se o chapinhar da água e vieram, resmungando. Tinham reconhecido o toque de resolução desesperada no seu comando.

Mayo, quando ouviu a sua respiração estertorosa perto, tateou por eles e enfiou as ferramentas nas suas mãos. Retinha o martelo e o cinzel para si próprio.

“É quase tudo o que preciso de vocês por agora — apenas para suportes de ferramentas”, rosnou ele. “Certifiquem-se de que não deixam cair isso.”

A escuna virada rolava lentamente, e de vez em quando a água lavava a sua cabine com impulso extra, tornando o apoio instável.

“Se eu tombar terei de as deixar cair”, choramingou Dolph.

“Então não se levante. Afogar-se será uma morte mais fácil para si”, declarou o capitão, ameaçadoramente. Ele estava a sondar a antepara com o seu martelo.

As batidas mostraram-lhe rapidamente onde estavam localizadas as vigas verticais do outro lado do revestimento. Em sua própria mente, ele não estava tão otimista quanto a sua atividade poderia indicar. Era uma experiência às cegas — ele não podia calcular os obstáculos que tinha pela frente. Mas ele compreendia, suficientemente bem, que se quisessem escapar, teriam de o fazer através do fundo da embarcação, a meia-nau; ali, por mais que ela estivesse a balançar, poderia haver alguma borda livre. Ele já tinha visto embarcações a flutuar com o fundo para cima. Geralmente, uma secção da quilha e uma parte das tábuas do bojo ficavam à vista acima do mar. Mas não podia haver escapatória através do fundo da embarcação acima deles, onde se encontravam na cabine. Ele sabia que o painel de popa e a alheta deviam estar bem abaixo da água.

“Tem uma carga completa no porão?” perguntou ele.

“Não”, declarou o capitão Candage, dando a entender pelo seu tom que se perguntava que diferença isso faria para eles nos apuros em que se encontravam.

Mayo sentiu um pouco de coragem renovada. Ele tinha receio de que o porão da Polly estivesse atulhado de madeira. O seu ânimo crescente incitou um pouco de sarcasmo.

“Como é que aconteceu que não tapou a armadilha que nos preparou?”

“Não consegui meter mais de dois terços da carga cá para baixo porque a madeira estava serrada com muito comprimento. Compensei com carga extra no convés.”

“Sim, empilhou tudo no convés para a tornar instável — para ter a certeza de nos apanhar”, sugeriu Mayo, começando a usar o martelo e o cinzel no revestimento.

“Não é nada disso!” protestou o capitão Candage, perdendo a ironia. “Essas telhas e ripas são frete de pacotilha, e eu não as podia pôr cá para baixo porque tenho de as entregar deste lado de Nova Iorque. E não espera que eu remexa numa carga de convés inteira só para...”

“Não agora”, interrompeu Mayo. “O Oceano Atlântico tratou do caso dessa carga de convés.”

“Meu Deus, sim!” lamentou o mestre. “Eu esquecia-me de que estamos virados ao contrário — e isso mostra o estado de espírito em que me encontro!”

Mayo tinha escolhido o seu local de operações. Enterrou o cinzel através do revestimento o mais perto que pôde do chão da cabine. Lembrando-se de que a escuna estava virada ao contrário e de que o chão estava acima da sua cabeça, a abertura na qual ele estava a começar a trabalhar levá-lo-ia para mais perto do porão. Quando cinzelou um buraco suficientemente grande para começar, obteve a serra do imediato e serrou uma abertura quadrada. Levantou-se e abriu caminho pelo buraco, dando por si sobre a madeira e fora da água. Era o que ele esperava encontrar, após a garantia do mestre: a carga parcial de madeira no porão tinha assentado no convés quando a escuna se virou. Investigando com as mãos tateantes, assegurou-se de que havia pelo menos três pés de espaço entre a carga e o fundo da embarcação.

“Venha aqui com a sua filha, Capitão Candage!” chamou ele, alegremente. “Está seco aqui dentro.”

Ajoelhou-se e estendeu as mãos através da abertura, orientando-as com a voz, alcançando a escuridão absoluta até que as mãos dela encontraram as dele, e então puxou-a para cima, para junto de si, sobre a madeira.

“Está um pouco melhor, mesmo que não seja nada de especial”, disse-lhe ele. “Sente-se ali de um lado para que os homens possam entrar passando por si. Vou precisar deles para me ajudarem.”

“E o que acha agora — vamos morrer?” perguntou ela, num sussurro trémulo.

“Não, não creio”, disse-lhe ele, resolutamente.

Estavam sozinhos no porão por alguns momentos, enquanto os outros ajudavam-se uns aos outros a passar pela abertura.

“Mas nesta armadilha — na escuridão — apertados aqui dentro!” O tom dela não expressava dúvida; era um esforço patético para compreender a situação. “O meu pai e os seus homens estão assustados — desistiram. E você disse-me que está assustado!”

“Sim, estou!”

“Mas eles não estão a fazer nada para o ajudar.”

“Talvez seja porque não estão tão assustados quanto eu. Acontece frequentemente que, quanto mais assustado um homem está num lugar apertado, mais ele se agita e mais tenta sair.”

“Não me interessa o que diz — eu sei o que você é!” retorquiu ela. “Você é um homem corajoso, Capitão Mayo. Agradeço-lhe!”

“Ainda não! Não até...”

“Sim, agora! Você deu-me um bom exemplo. Quando as pessoas estão assustadas, não devem sentar-se a choramingar!”

Ele estendeu a mão e encontrou um punho pequeno e rechonchudo que ela tinha cerrado num verdadeiro nó de decisão.

“Bom trabalho, menina! O seu tipo de coragem está a ajudar-me.” Ele soltou-lhe a mão e arrastou-se para a frente.

“Isto não nos está a ajudar em nada”, queixou-se o capitão Candage. “Eu sei o que nos vai acontecer. Assim que amanhecer, um maldito cortador da guarda-costeira virá a bufar e explodir-nos-á sem se preocupar em descobrir o que está debaixo desta carapaça de tartaruga.”

“Diga-me uma coisa, Candage”, chamou o Capitão Mayo, irritado, “chega de conversa! Já nos está a acontecer muita coisa, sem o seu palrar infernal sobre o que pode vir a acontecer.”

“Não está na hora de um homem de verdade ajudar o Capitão Mayo em vez de o estorvar?” perguntou a rapariga. Evidentemente, a sua nova compostura surpreendeu o pai.

“Já não estás assustada, Polly? Não estarás a perder o juízo, pois não?”

“Não, recuperei-o, espero.”

“A sua filha está a dar-lhe um bom exemplo, Capitão Candage. Agora, vamos ao trabalho, senhor! Como é o revestimento das cavernas?”

“Abeto de uma polegada e meia, se bem me lembro.”

“Suponho que ela tenha cavernas a cada doze polegadas.”

“Pelo que me lembro.”

“Muito bem! Venham todos para a frente, os três, e tenham essas ferramentas à mão, pois vou precisar delas.”

Ele tinha trazido o martelo e o cinzel nos bolsos do seu casaco e começou a trabalhar no revestimento acima da sua cabeça, tendo escolhido pelo tato e sentido de orientação uma secção que considerou ser quase a meia-nau. Era um esforço cego, mas conseguiu derrubar alguns pés quadrados das tábuas de abeto após algum tempo.

“Dêem-me essa serra, quem quer que a tenha.”

Uma mão veio tateando até à dele na escuridão e deu-lhe a ferramenta. Ele começou numa das cavernas de carvalho, descoberta quando as tábuas foram removidas. Era um trabalho difícil e tedioso, pois ele só podia usar a ponta da serra, já que as cavernas estavam muito próximas umas das outras. Mas ele trabalhou continuamente e, finalmente, o som da sua diligência pareceu animar os outros. Quando descansou por um momento, o Capitão Candage ofereceu-se para ajudar com a serra.

“Penso que serei obrigado a fazê-lo sozinho, senhor. Não se consegue distinguir na escuridão onde parei. No entanto, fico contente por ver que está a voltar a si”, acrescentou ele, um pouco causticante.

O mestre da Polly recebeu essa repreensão com uma humildade que indicava uma mudança de coração decidida. “Creio que eu, o Otie e o Dolph temos agido de forma, como posso dizer, bastante pusilânime, como ouvi uma professora dizer uma vez”, confessou o capitão, lutando com a palavra grande. “Mas nós três já não somos tão jovens como outrora, e deixo-o decidir, senhor, se isto não foi algo que ninguém alguma vez teria previsto.”

“Há uma considerável novidade nisto”, disse Mayo, em tom seco, passando os dedos pela caverna para encontrar o corte da serra. A dor tinha desaparecido dos seus braços e ele estava pronto para recomeçar.

“Lamento que o tenhamos arrastado para toda esta confusão”, continuou Candage. “E, por outro lado, não lamento! Porque se você não estivesse connosco, nunca teríamos saído deste sarilho.”

“Ainda não saímos dele, Capitão Candage.”

“Bem, estamos a ter um começo formidável e quero dizer aqui, na presença de todos os amigos interessados, que você é o sujeito mais inteligente que alguma vez vi a flutuar.”

“Espero que perdoe o meu pai”, suplicou Polly da Polly. Ele sentiu o hálito dela na sua bochecha. Ela estava tão perto que a sua voz quase o assustou. “Não pretendo meter-me no seu caminho, Capitão Mayo, mas de alguma forma sinto-me mais segura se estiver perto de si.”

“E creio que todos nós sentimos”, admitiu o Capitão Candage.

Mayo parou de serrar por um momento. “O que dizem, homens? Sejamos marinheiros americanos de agora em diante! Seremos do tipo correto, eh? Vamos colocar esta rapariga corajosa onde ela pertence — na terra firme de Deus!”

“Ámen!” trovejou o Sr. Speed. “Acordei. Devo ter estado fora de mim. Mostrei-lhe a minha natureza quando o conheci, Capitão Mayo, e creio que descobriu que era útil e empreendedora. Serei o mesmo de agora em diante, mesmo que me ordene para fazer de bode e tentar derrubar o fundo dela com a cabeça.” “Eu também!” disse Dolph, o de nariz sujo.

IX ~ O TRABALHO DE UM HOMEM

Ó Nancy Dawson, hi-o! Com ânimo, homem! Ela tem uma ideia, hi-o! Com ânimo, homem! Para o nosso velho contramestre, hi-o! Com ânimo, homem! Ó puxa, hi-o! Com ânimo, homem! --Canção de Puxar.

Boyd Mayo descobriu em breve que os seus antepassados não tinham colocado madeira de má qualidade na Polly. A velha caverna de carvalho era resistente além de volumosa. A tarefa de serrar apenas com a ponta da lâmina em jogo exigia tanto músculo quanto paciência, e a posição que ele foi obrigado a assumir aumentava as suas dificuldades. Ele descansou depois de ter serrado a caverna em quatro locais e decidiu dar a Oakum Otie algo para fazer; o imediato andava a implorar por uma oportunidade para ajudar. Foi-lhe ordenado que derrubasse o máximo que pudesse da secção serrada com martelo e cinzel. Mayo calculou que, quando essa secção da caverna fosse removida, deixaria espaço para um buraco através das tábuas do fundo com pelo menos dois pés quadrados — e não havia cinturas largas no grupo deles.

O imediato tinha força e estava ansioso por demonstrar aquele espírito prestável do qual se gabara. Ele atacou a viga com todas as suas forças.

A atenção de Mayo estava centrada na sua tarefa; agora, com um momento de lazer para notar outros assuntos, ele estava consciente de algo que provocou a sua apreensão; o ar debaixo do casco da escuna estava a tornar-se viciado. As suas têmporas latejavam e os seus ouvidos zumbiam.

“Não está a ficar bastante abafado aqui dentro?” perguntou o mestre, dando palavras aos pensamentos de Mayo.

“Tenho-me sentido como um inseto debaixo de um dedal há algum tempo”, afirmou Otie, golpeando o seu cinzel vigorosamente.

“O fundo dela não pode estar inundado com toda esta madeira. Se conseguirmos apenas fazer um pontinho de buraco através das tábuas exteriores agora mesmo, é melhor fazê-lo”, sugeriu Candage.

“É exatamente o que tenho estado a fazer”, declarou o Sr. Speed. “Estou mesmo em cima do trabalho, senhores, quando começo uma coisa. Útil e empreendedor, esse é o meu lema!”

No momento seguinte, antes que Mayo, com os pensamentos ocupados com o seu novo perigo de asfixia, pudesse emitir um aviso ou compreender o significado total do diálogo, o gume do cinzel atravessou as tábuas. Instantaneamente, ouviu-se um sibilo como de vapor a escapar. Mayo gritou um palavrão e colocou as mãos contra o imediato, empurrando-o violentamente para longe. O industrioso Sr. Speed tinha estado a dedicar a sua atenção às tábuas em vez de à viga serrada.

Uma luz pálida filtrava através da fenda feita pelo cinzel e Mayo plantou a palma da mão contra a rachadela. A pressão segurou a sua mão como se estivesse presa contra as tábuas, e o sibilo cessou.

A escuna, como estava, virada ao contrário no mar, era praticamente um sino de mergulhador; com aquele buraco no seu casco, a segurança deles estava em risco. A rapariga pareceu compreender a situação antes que as mentes mais lentas do seu pai e dos seus imediatos tivessem começado a funcionar. Ela procurou freneticamente a mão livre de Mayo e enfiou-lhe algum tipo de tecido.

“É da minha anágua”, arquejou ela. “Consegue calafetar com isso?”

“Dê-me o cinzel”, pediu ele.

Assim que ela lhe deu a ferramenta, ele libertou a mão da rachadela e introduziu instantaneamente o tecido na fenda, empurrando-o dobra a dobra com o gume do cinzel.

“Espero não ter feito nada de errado, a tentar ser útil”, desculpou-se o Sr. Speed.

“Farei o resto deste trabalho sem tal ajuda”, rosnou o capitão.

“Mas por que está a parar o ar quando este está a correr para dentro para nos vivificar?” perguntou Dolph, queixoso.

“Ele estava a sair, idiota! A sair tão depressa que esta madeira nos teria achatado contra o fundo deste casco dentro de pouco tempo.”

“Eu teria pensado exatamente ao contrário”, declarou o Sr. Speed, humildemente. “O ar exterior, sendo fresco, deveria naturalmente correr para dentro para encher os buracos pelos quais expirámos este ar.”

Mayo não estava com disposição para dar lições sobre fenómenos naturais. Ele investigou o corte que tinha sido feito pelo imediato imprudente e estimou, pelo que os seus dedos lhe diziam, que as tábuas do fundo da escuna tinham três polegadas de espessura. Ele sentou-se sobre os calcanhares e refletiu um pouco sobre o assunto, percebendo que tinha um trabalho delicado pela frente. Essas tábuas tinham de ser goivadas em todo o quadrado da abertura proposta, para que a secção pudesse ser removida de uma só vez por um golpe de baixo. Essa secção tinha de ceder total e instantaneamente. Estavam condenados se fizessem um trabalho incompleto. Naquela escuridão total, ele só tinha os seus dedos para o guiar. Aquele pequeno raio de luz do mundo aberto lá fora era uma promessa tentadora. Do outro lado daquelas tábuas estava o ar ilimitado de Deus. As pobres criaturas presas debaixo daquele casco estavam a ofegar e a sufocar por falta daquele ar. Mayo pôs-se corajosamente ao trabalho, martelando a cabeça do cinzel acima dele.

Todos estavam em silêncio. Sentiam o langor inicial da asfixia e conheciam o perigo que os ameaçava.

“Se houver algo que eu possa fazer...” arriscou Otie.

“Não há!”

O Capitão Mayo sentia a falta de oxigénio mais cruelmente, porque estava a trabalhar com todas as suas forças. O suor escorria-lhe para os olhos, ele estava a ofegar como um cão a correr, os seus golpes estavam a perder força.

Ele descobriu que Otie tinha limpado parcialmente a caverna antes que aquele ajudante demasiado zeloso se lembrasse de abrir um buraco através das tábuas. A caverna tinha de sair completamente! O carvalho resistente resistia; o cinzel escorregava; era um trabalho irritantemente lento. Mas ele terminou a tarefa finalmente e começou a goivar um canal nas tábuas perto das outras cavernas. A torpor envolvia-o com os seus tentáculos. Ele ouvia os seus companheiros a lutar por ar. Então, de repente, sentiu uma pequena palmadinha no ombro. Ele reconheceu aquele toque, embora ela não lhe tivesse falado; era o toque tranquilizador da rapariga. Confortou-o saber, daquela maneira, que ela estava a manter a sua coragem na situação horrível. Ele chanfrou as tábuas tão profundamente quanto se atreveu e fez o seu corte em três lados do quadrado. Foi forçado a parar por um momento e deitar-se prostrado, com o rosto sobre a madeira.

“Peguem nessa serra, um de vocês, e cortem alguns pedaços curtos de tábua”, sussurrou ele, roucamente. O raspar da serra manual informou-o de que fora obedecido.

Ele manteve os olhos bem abertos com esforço enquanto jazia ali na escuridão. Depois, levantou-se com esforço e voltou à sua tarefa mais uma vez. Chamas de cores estranhas disparavam diante dos seus olhos esforçados. Ele trabalhava em delírio parcial, e parecia-lhe que estava a olhar novamente para a fantasmagoria das luzes de Coston no nevoeiro quando os velejadores faziam uma serenata à rapariga da Polly. Deu por si a murmurar, marcando o ritmo das suas marteladas no cinzel:

“Nossa Polly O, Sobre o mar tu vais...”

Em todas as emoções humanas, não há terror mais enlouquecedor e devorador de almas do que o medo de estar fechado, que os sábios chamam de claustrofobia. Mayo tinha sido um homem dos espaços abertos — de horizontes largos, bebendo da fonte de todo o ar sob os céus. Este confinamento hediondo estava a desmoralizar a sua razão. Ele queria largar o martelo e o cinzel, gritar, pontapear e lançar-se contra as tábuas que o prendiam. Do outro lado estava o ar — o aberto! Ainda faltava fazer um lado do quadrado.

Novamente aquela pequena mão reconfortante tocou-lhe no ombro e ele foi estimulado pelo pensamento de que a rapariga ainda era corajosa e tinha fé nele. Ele gemeu e continuou.

A noção de tempo deixou de ter significado. De vez em quando, o martelo escorregava e magoava-lhe a mão cruelmente. Mas ele não sentia a dor. Ambas as ferramentas vacilavam na sua mão. Ele desferiu um golpe desesperado — um golpe de desespero — e o martelo e o cinzel caíram. Ele sabia que tinha terminado o quarto lado. Ele caiu sobre o colo de Polly Candage e ela ajudou-o a pôr-se de joelhos.

“Acabei, homens”, arquejou ele. “Todos juntos com essas vigas! Batam juntos! Diretamente acima da minha cabeça.”

Ele ouviu o capitão contar um... dois... três. Ouviu o golpe conjunto. As tábuas não cederam.

“Parece que não nos resta força”, explicou o imediato, em tom rouco.

Bateram novamente, mas de forma irregular.

“São as nossas vidas — as nossas vidas, homens!” gritou Mayo. “Força!”

“Aqui vai um para si, Capitão Mayo”, disse Candage, e enfiou um pedaço de tábua nas mãos tateantes.

“Façam-no juntos, desta vez — juntos!” ordenou Mayo. “Com força — um, dois, três!”

Eles empurraram os seus aríetes contra o teto da prisão. A fúria e o desespero estavam por trás do seu golpe.

A glória da luz inundou os seus olhos pestanejantes.

A secção tinha cedido!

Mayo foi o primeiro e saiu quase com a violência de uma rolha a saltar de uma garrafa. Ele sentiu a lufada do ar aprisionado a passar por ele enquanto emergia. Instantaneamente, virou-se, estendeu as mãos para baixo, puxou a rapariga para o exterior e os outros seguiram-se, com a madeira a empurrar debaixo dos seus pés.

Pareceu ao Capitão Mayo, após aqueles poucos momentos frenéticos de fuga, que ele tinha despertado de um pesadelo; deu por si a agarrar-se à quilha coberta de cracas da escuna, com o braço a segurar Polly Candage para que ela não escorregasse pelo fundo viscoso para o mar.

“Boa sorte! Estivemos ali dentro a noite toda”, berrou o Capitão Candage. Ele jazia estendido no fundo da Polly, as suas mãos calejadas agarradas à quilha, o rosto levantado maravilhado para os céus que estavam inundados pela glória da manhã. Otie e Dolph estavam ao lado dele, de bocas abertas, engolindo lufadas de ar como se fossem peixes recém-tirados das profundezas do oceano.

Houve um longo silêncio após a exclamação do capitão.

Pensamentos, mais do que palavras, adequavam-se àquele momento sagrado da sua salvação.

As cinco pessoas que jaziam ali no fundo da escuna olhavam para o sol no seu céu sem nuvens e contemplavam o mar, cujo azul estava envolto pela névoa dourada de um dia de verão perfeito. Apenas um balanço preguiçoso restava da turbulência repentina da noite anterior. Uma brisa lánguida com um toque fresco de sal lambia a superfície das longas e lentas ondulações, e as facetas das ondulações refletiam a luz do sol alegremente.

O Capitão Candage puxou-se para a quilha, sentou-se nela e encontrou a fala de forma hesitante.

“Não sou membro de nenhuma igreja, nunca tendo sentido a necessidade de me juntar, e não estando num local onde pudesse assistir. Mas não tenho vergonha de dizer aqui, perante testemunhas, que acabei de dizer a Deus, da melhor maneira que sei, esperando que Ele me desculpe se não usei o caminho santimonioso, que vou ser um homem diferente depois disto — diferente e melhor, de acordo com as minhas melhores luzes.”

“Creio que falou por todos nós, Capitão Candage”, disse Mayo, seriamente. “Agradeço-lhe!”

Todos eles perceberam que a Polly tinha ganhado mar a um ritmo acelerado durante a sua galopada selvagem sob o impulso do vento de leste.

Mayo equilibrou-se na quilha e fez uma longa observação do horizonte. Num lugar, um fio azul, quase tão delicado como o traçado de uma veia no braço de uma rapariga, sugeria a linha costeira. Mas sem um vidro não tinha a certeza. Não viu sinal de qualquer outra embarcação; a tempestade tinha levado todos os barcos costeiros para o porto — e ainda não havia vento suficiente para os ajudar a voltar a alto-mar. Mas ele não se preocupou; tinha a certeza de que algo, algum iate ou barco de mar, viria a rolar sobre a orla do oceano dentro em pouco. A brisa fraca que lhes abanava os rostos vinha de sudoeste, e esse facto prometia vento suficiente para convidar as embarcações a içar vela.

Apenas o oval do bojo largo da escuna aparecia acima da água, e a velha Polly era tão chata e roliça que o seu ilhéu flutuante oferecia apenas uma borda livre escassa.

Mayo empurrou o braço para dentro do buraco pelo qual tinham escapado. Depois de o ar ter sido expulso, a madeira estava ao alcance do fundo da escuna. Tateou e encontrou o machado. Alguns dos pedaços curtos de madeira que tinham usado como aríetes estavam nas mandíbulas do buraco. Ocupou-se a talhar essas extremidades de tábuas em grandes cunhas e cravou-as nas fendas entre as tábuas perto da quilha.

“Pode tornar-se um pouco desleixado quando este sudoeste ganhar andamento”, sugeriu ao capitão. “Teremos algo a que nos agarrar.”

A primeira gratidão do Capitão Candage tinha mostrado um brilho radiante. Mas ele era um marinheiro, era cauteloso, era naturalmente receoso em relação a todos os assuntos do mar, e esse brilho estava agora um pouco embotado pelo seu segundo pensamento.

“Podemos ter de nos agarrar a algo durante mais tempo do que calculamos. Estamos demasiado longe para os barcos costeiros e demasiado longe para os grandes. E a menos que algo venha bastante perto de nós, não podemos ser vistos mais do que se fôssemos mexilhões num recife de maré. Devíamos ter algo para espetar para cima.”

“Se pudéssemos apenas tirar uma daquelas vigas compridas, faria um pouco de sinal.” O Capitão Mayo empurrou novamente o braço pelo buraco. “Mas estão encunhadas através de forma demasiado sólida.”

“Penso que há um pedaço de madeira a flutuar ali”, gritou a rapariga. Ela estava agarrada a uma das cunhas, e a compostura que sentia, ou que tinha assumido, despertou a admiração de Mayo. A mão rechonchuda que ela mantinha contra a testa para proteger os olhos não tremia. Do pequeno gorro holandês, sob cuja borda espreitavam madeixas soltas, descendo sobre o seu traje até aos pés, ela parecia ainda estar arrumada e elegante, apesar das suas experiências lá em baixo na escuridão e na humidade. Com um tipo de interesse suave por ela, refletiu que o seu pretendente do interior estaria muito justamente orgulhoso dela se a pudesse ver ali na quilha daquela escuna.

“Que retrato faria, Srta. Candage, exatamente como está!”, deixou escapar. Ela baixou a mão, e o olhar que lhe lançou não encorajou elogios. “Exatamente como está, e chame-lhe 'O Naufrágio'”, acrescentou ele.

“Pareço assim tão mal, Capitão Mayo?”

“Parece...” argumentou ele, e hesitou, pois o olhar dela não era distintamente tranquilizador.

“Não me diga, por favor, como pareço. Estou grata por não ter um espelho. Não é aquele um pedaço de madeira?” perguntou ela, secamente, pondo um fim a mais personalidades. “Espere! Está num côncavo agora mesmo.”

O mar levantou-o imediatamente de novo. Mayo viu que era uma tira comprida de barrote, sem dúvida do carregamento de convés que a Polly tinha lançado ao mar quando foi derrubada. Estava a barlavento, e esse facto prometia a sua recuperação; mas como estava a maré? Mayo semicerrou os olhos para o sol, fez um rápido cálculo a partir da hora da maré do dia anterior, e sorriu.

“Vamos conseguir aquilo, Srta. Candage. Ela está a vir para este lado.”

Observá-lo, vê-lo levantar e afundar, esperar por ele, ajudou a passar o tempo. Então, finalmente, veio a flutuar ao lado, e ele rastejou cautelosamente pela curva do bojo e prendeu-o. Depois de o ter reforçado no buraco do fundo da escuna com a ajuda do Sr. Speed, a rapariga deu-lhe um maço de pano amarrotado quando ele se virou da sua tarefa.

“É o resto da minha anágua. Pode ficar com ele”, explicou ela, um bonito toque de confusão rosada nas suas faces.

O Sr. Speed içou Mayo e o jovem prendeu o pano ao barrote e lançou o seu estandarte à brisa. Então não havia muito a fazer senão esperar, eternamente a espreitar através do mar brilhante até à orla do horizonte.

X ~ HOSPITALIDADE, POR JULIUS MARSTON

Hoo--oo--rah; e lá para cima ela sobe! Hoo--oo--rah! e lá para cima ela sobe! De manhã cedo. O que faremos com um marinheiro atrevido? Pô-lo no bote e fazê-lo esvaziar a água De manhã cedo! --Velho “Stamp-and-go.”

Mayo viu a vela primeiro. Estava a vir do mar, e era muito longínqua e minúscula. Apontou-a com uma exclamação.

“O que acha que é, senhor?”, perguntou o Capitão Candage. “Os seus olhos são mais novos que os meus.”

“Creio que é um barco de pesca vindo dos Bancos de Cashes. Parece estar bem inclinado, e isso mostra que há uma boa brisa lá fora. Ele deve chegar suficientemente perto para nos ver, a julgar pela forma como está a navegar.”

Aquela pequena vela, entalhada contra o céu, era algo mais para observar, especular e esperar, e esqueceram-se, quase, de que estavam com fome, com sede e queimados pelo sol.

Contudo, o Capitão Mayo manteve o seu próprio olhar mais fixamente no horizonte virado para a terra. Não revelou nenhum dos seus pensamentos, pois não queria criar falsas esperanças. Não obstante, estava firmemente na sua mente que, independentemente dos sentimentos de Julius Marston em relação ao seu recente capitão, o imediato e o engenheiro a bordo do Olenia eram amigos leais que usariam toda a sua influência junto do proprietário para o incitar a vir à procura do homem que se tinha perdido.

O facto de uma lancha a motor ter aparecido a saltar de Saturday Cove em perseguição da escuna sugeria que o Imediato McGaw tinha suspeitado do que tinha acontecido, e não estava a arrastar o fundo da enseada à procura de um homem afogado.

Mayo teve tempo de sobra para ponderar sobre o assunto, e permitiu que a esperança temperasse as suas suposições. Conhecia as características do Imediato McGaw e decidiu que o iate se poria a caminho cedo, que se aproximaria de alguns portos próximos onde uma escuna fustigada pela tempestade poderia ter-se esquivado para segurança, e depois perseguiria o mar, seguindo o curso provável de uma embarcação que tinha sido apanhada naquele nordeste. O Imediato McGaw era um homem marinheiro e entendia como encaixar um facto com outro. Ele tinha uma porção devida de imaginação de marinheiro, e não era o tipo de pessoa que desertasse de um companheiro, mesmo que fosse obrigado a usar um discurso duro para converter um proprietário. Portanto, Mayo espreitou em direção à linha costeira azul, mimando a esperança. Questionou-se se o Imediato McGaw teria coragem de sussurrar uma palavra de encorajamento a Alma Marston se ela fizesse perguntas.

Mayo ficou exultante em vez de espantado quando avistou uma mancha de fumo baço e foi capaz de determinar que a embarcação que lançava aquele fumo estava a dirigir-se para o mar, não a rastejar pela costa.

“Aquele é um barco de pesca, sem dúvida, e ele há de chegar suficientemente perto para nos distinguir”, afirmou o Capitão Candage, com o seu olhar firme para sul.

“Mas aqui vem outro sujeito que nos vai ganhar a vez”, anunciou o Capitão Mayo, alegremente.

“E o que acha que é?”, perguntou o capitão, piscando os olhos para o fumo distante.

“Um iate, provavelmente.”

“Huh? Um iate! Se é o que é, o mais provável é que passem a abrir. Vão pensar que estamos aqui num piquenique de pesca, quase de certeza. É mais ou menos tudo o que estes sujeitos dos iates sabem.”

A rapariga lançou ao pai um olhar de protesto, mas Mayo sorriu para ela.

“Penso que este é diferente, senhor. Se não estou muito enganado, aquele é o iate Olenia e ele está à minha procura. O Imediato McGaw é um dos nossos melhores pequenos adivinhadores.”

Um quarto de hora depois, ele foi capaz de lhes assegurar que a embarcação que se aproximava era o Olenia.

“Bom velho Imediato McGaw!”, gritou ele, arrebatado. Na sua alegria, desejou poder torná-los seus confidentes, dizer-lhes quem o esperava a bordo daquele iate, fazê-los compreender que maravilhosa boa fortuna era a sua.

Passado algum tempo — o longo tempo que até um iate rápido parece consumir a cobrir distância para efetuar o resgate daqueles que estão ansiosos — o apito do Olenia soou roucamente para lhes assegurar que tinham sido vistos.

“O mesmo para si, Imediato McGaw!”, engasgou-se o Capitão Mayo, balançando o seu boné em círculos largos.

“Vendo que as coisas se resolveram como resolveram, estou imensamente contente por si, Capitão Mayo”, declarou Candage. “Não sou pessoa de encher um homem de agradecimentos...”

“Não quero agradecimentos, senhor. Trabalhámos juntos para salvar as nossas vidas.”

“Então espero que não haja ressentimentos de um lado ou de outro. Perdi a minha escuna pela minha maldita tolice. Por isso, direi adeus e...”

“Adeus?”, exigiu Mayo, mostrando o seu espanto. “Porque me está a dizer adeus agora?”

“Porque vai subir a bordo do seu iate.”

“O resto de vocês também vai para lá.”

“Não é para pobres criaturas como nós irmos a incomodar...”

“Olhe aqui, Capitão Candage, eu sou o capitão daquele iate, e digo que vocês vão subir a bordo e ficar até que eu possa pô-los em terra no porto mais acessível.”

“Preferia esperar por aquele barco de pesca, senhor. Sentir-me-ei mais em casa a bordo dele.”

“Devia pensar primeiro na condição da sua filha, Capitão Candage. Ela precisa de alguns confortos imediatamente, e não os encontrará a bordo de um barco de pesca.”

Ele virou-se para a rapariga que estava sentada na quilha, silenciosa, a olhar para o mar. Ela parecia mostrar uma estranha falta de interesse pelo iate. O seu rosto bonito não exibia qualquer emoção, mas de alguma forma ela era uma figura melancolicamente patética enquanto estava ali sentada. O semblante de Mayo mostrou muito mais preocupação do que a que ela expressou quando se virou ao som da voz dele e olhou para ele. O sangue subiu-lhe às faces; havia embaraço nos seus olhos, uma estranha hesitação nos seus tons.

“Há uma jovem — há várias jovens — mas há a filha do Sr. Marston!”, vacilou ele. “Ela está no iate. Eu... eu sei que ela fará tudo o que puder por vocês. Ela será boa para vocês!” Os seus olhos caíram sob o olhar franco e bastante inquisidor dela.

“Ela pode não querer ser incomodada com uma maltrapilha como eu.”

“Posso falar por ela!”, gritou ele, ansiosamente. Estava agora ainda mais perturbado pelo olhar que ela lhe lançou. Ele tinha lido que as mulheres têm intuição nos assuntos do coração.

“Estou bastante certa de que pode, Capitão Mayo”, assegurou-lhe ela, recatadamente. “E estou grata. Mas talvez estivéssemos melhor a bordo daquela outra embarcação — o meu pai e o resto de nós.”

“Insisto”, disse ele, mas não se atreveu a encontrar os olhos perscrutadores dela. “Insisto!”, repetiu, retomando a maneira decisiva que tinha mostrado antes a bordo da Polly.

O Olenia, abrandando, tinha chegado bem perto, e os seus hélices revolventes levaram-no a parar. A sua tripulação fez descer um bote de modo ruidoso das suas turcas de bombordo. Enquanto rolava na ondulação, os seus corrimões de latão captavam a luz do sol em longos brilhos que cegavam quase os olhos encovados dos náufragos. A lona branca da ponte e dos toldos brilhava numa brancura nívea. Estava tão perto que Dolph cheirou os aromas saborosos da sua cozinha e começou a “fungar” humidade nos cantos da boca.

Aqueles que esperavam no casco craceado da Polly, fracos de fome, encharcados de salmoura, desalinhados e totalmente miseráveis depois de uma noite de labuta e vigília, sentiam-se como mendigos à porta de um palácio enquanto observavam a sua imaculadez.

Uma espécie de opulência insolente parecia emanar dele. Mayo, embora fosse o seu capitão, sentia essa sugestão de insolência mais profundamente do que os seus companheiros, pois tinha tido uma experiência amarga e recente com os humores de Julius Marston.

Não achou Marston um objeto reconfortante para o seu olhar; o magnata dos transportes estava a caminhar pela passagem de bombordo com um passo que era claramente impaciente. Perto da escada de portaló estava Alma Marston, impecável em brim branco. Cada vez que o seu pai lhe virava as costas, ela estendia as suas mãos juntas em direção ao seu amado com um gesto furtivo.

Polly Candage observou esta demonstração com franco interesse, e ocasionalmente lançava olhares furtivos para o rosto do homem que estava ao lado dela no fundo da escuna; ele estava totalmente absorto no seu exame da outra rapariga.

O próprio Imediato McGaw estava ao leme do bote. A sua cara honesta trabalhava com emoção, e começou a falar antes que os remadores tivessem encostado o barco contra o casco virado.

“Não fechei os olhos, Capitão Mayo. Fiquei acordado toda a noite, a tentar perceber isto. Quase desisti de qualquer ideia de que estivesse a bordo da escuna. Não chamou o barco que enviámos.”

“Tentei fazê-lo; talvez não me tenha ouvido.”

O semblante do Capitão Candage mostrou gratidão e alívio.

“Esta manhã tentei Lumbo e outros dois abrigos, e depois segui ao longo do rasto da ventania.”

Mayo desceu cuidadosamente pelo bojo e apertou a mão do imediato. “Estava à sua espera, Sr. McGaw. Sei que tipo de sujeito que é.”

McGaw, ainda segurando a mão do capitão, falou em tons mais baixos. “Tive um tempo dos diabos com o proprietário, senhor. Ele estava convicto de que tinha desertado.”

“Tive medo que ele pensasse algo do género.”

O imediato mostrou franco espanto. “Teve medo de quê? Ora, senhor, eu queria dizer-lhe que ele era um homem louco por ter tais ideias sobre si! Sim, senhor, estive quase a dizer-lhe isso! Tê-lo-ia feito se não quisesse manter-me suave e manso enquanto discutia com ele e tentava fazê-lo dar-me licença para procurar!”

“Tivemos um tempo terrível, Sr. McGaw”, declarou Mayo, evitando a curiosidade do imediato. “Vou levar estas pessoas a bordo e pô-las em terra.”

“Sim, senhor, claro.”

Os dois ficaram de mãos dadas e mantiveram o bote perto do naufrágio até que os passageiros embarcassem. Quando chegaram ao pé da escada do Olenia, o Capitão Mayo enviou os seus convidados à sua frente.

Marston parou a sua marcha e franziu a testa, e as pessoas no convés de ré amontoaram-se junto ao corrimão, mostrando grande interesse.

O Capitão Mayo trocou um longo olhar com Alma Marston quando subiu os degraus. Amor, piedade e saudação estavam nos seus olhos. O semblante dela revelava as suas emoções vívidas; ela estava sobrecarregada, perturbada, meio louca depois de uma noite passada com os seus medos. Quando ele ficou ao alcance dela, a cautela foi rasgada como gaze é afastada por uma ventania. O impulso sempre a tinha governado; ela cedeu a ele então.

“Não me importa”, soluçou ela. “Eu amo-o. Mais vale que eles saibam!”

Antes que ele compreendesse as suas intenções ou pudesse impedir a sua imprudência, ela atirou os braços ao pescoço dele e beijou-o repetidamente.

Marston ficou parado no seu lugar como um homem atingido por paralisia; o seu charuto caiu da sua boca aberta. Esta exibição mesmo debaixo do seu nariz, com os seus convidados e toda a tripulação do seu iate a ver, deixou-o bastante atordoado.

“Se tivesse morrido, eu teria morrido!”, lamentou ela.

Então o seu pai precipitou-se na direção dela, afastando o espantado Beveridge do seu caminho.

O Capitão Mayo desenganchou suavemente os braços da rapariga frenética do seu pescoço e avançou, colocando-se entre o pai e a filha. Não estava a pensar sensatamente no assunto; era movido por um impulso instintivo de protegê-la.

Mayo não tinha nenhuma palavra pronta na ponta da língua, e o anátema de Marston era abafado e incoerente. O ato imprudente da rapariga tinha derrubado o autodomínio são e másculo de ambos. O capitão estava demasiado perplexo para compreender a enormidade total da sua ação ao montar guarda à filha de Julius Marston, como se ela precisasse de proteção no convés de ré do seu pai. Ele não se moveu para um lado da passagem quando Marston fez um gesto impaciente.

“Quero dizer que a culpa é inteiramente minha, senhor”, vacilou ele. “Espero que possa ignorar...”

“Presume discutir a loucura da minha filha comigo?” Ele notou que os marinheiros se preparavam para içar o bote para as turcas. “Deixem cair esse barco de volta à água!”, gritou ele. Havia um rangido feio na sua voz, e por um momento pareceu que ele estava prestes a perder o controlo de si próprio. Depois, impôs um travão ao seu temperamento e língua, embora o seu rosto estivesse mortalmente pálido e os seus olhos fossem tão duros como berlindes. A resolução de terminar com qualquer exibição posterior neste negócio incrível dominava a sua vergonha colérica.

“Se puder pôr-nos em terra...”, suplicou Mayo.

“Volte para aquele barco, você e a sua gentalha, seja lá o que for!”

“Sr. Marston, esta jovem precisa...”

“Entre nesse barco, ou mando atirar vocês todos borda fora!” O proprietário falou em tons baixos, mas a sua determinação furiosa era aparente.

“Iremos sem sermos atirados, senhor. Ordenar-nos-á que sejamos postos a bordo daquele barco de pesca?” Ele apontou para a pequena escuna que estava quase ao alcance de voz.

“Saiam! Não me importa para onde vão!” Ele passou por Mayo, agarrou no braço da filha e conduziu-a para a popa.

Ela parecia ter esgotado toda a sua determinação na sua explosão sensacional.

O capitão encontrou o seu olhar suplicante quando ela se virou para sair. “É para o melhor”, declarou ele, corajosamente. “Vou compensar!”

Os patéticos náufragos da Polly formaram um pequeno grupo junto à escada de portaló, parados junto ao corrimão, como se tivessem medo de pisar o convés branco. O Imediato McGaw interceptou Mayo quando ele estava prestes a juntar-se a eles.

“Não seria melhor esticar um pouco a Secção Dois da lei de colisão e assustá-lo com a perspetiva de uma multa de mil dólares?”, perguntou o imediato, ansiosamente. “Meu Deus, Capitão Mayo, estou tão fraco que mal consigo manter-me de pé! Quem diria?”

“Vamos subir a bordo da escuna, Sr. McGaw. É o lugar para nós.”

“Talvez seja, mas eu falarei se disser a palavra, e fá-lo-ei pô-lo em terra — mesmo que eu parta juntamente consigo?”

“Mantenha o seu emprego, senhor. Recolherá os meus poucos pertences no meu camarote e trará para mim, Sr. McGaw? É melhor eu ficar aqui no convés com os meus amigos.” Ele enfatizou a última palavra, e o Capitão Candage lançou-lhe um olhar de gratidão. “Desculpem, companheiros! Não posso dizer mais nada!” O Capitão Mayo não se permitiu fazer mais comentários sobre a situação melancólica. Os outros ficaram em silêncio; o assunto estava fora do seu alcance; não tinham palavras para se ajustar ao caso. Polly Candage estava parada a olhar para o mar. Ele tinha esperança de que ela lhe desse um olhar de simpatia compreensiva, pelo menos. Mas não deu, nem mesmo quando ele a ajudou a descer os degraus para o bote.

O Imediato McGaw veio com o saco e pertences do capitão, e recebeu prontamente ordens do proprietário a partir do convés de ré.

“Vá para a ponte e chame aquela escuna. Diga-lhe que estamos a caminho de Nova Iorque e que não podemos ser incomodados por estas pessoas!”

O Sr. McGaw apertou a mão de Mayo em despedida, e depois apressou-se para cumprir o seu dever. A sua mensagem através do megafone ecoou sobre as suas cabeças enquanto o bote estava a caminho.

“Sim, sim, senhor!”, retorquiu o capitão de pesca, com um brado caloroso. “Contente por ajudar marinheiros em apuros.”

“E isso mostra-lhe...” deixou escapar o Capitão Candage, e interrompeu a sua fala a meio da sua explosão quando a sua filha empurrou um punho significativo contra as suas costelas.

O Capitão Mayo virou a cabeça uma vez enquanto o bote se apressava em direção à escuna. Mas não havia mulheres à vista no convés do iate. Houve um breve agitar de branco na escotilha de uma cabine, mas ele não teve a certeza se era um lenço ou a extremidade de uma cortina agitada pelo vento. Voltou-se resolutamente e não olhou para trás novamente. Vergonha, miséria, desesperança — ele não sabia qual emoção o picava de forma mais pungente. Os remadores no bote olhavam para cima inocentemente enquanto remavam, mas ele percebeu que estavam a esconder sorrisos. A sua humilhação daquela forma espantosa tornar-se-ia a piada do castelo de proa. Por causa dele, os seus novos amigos tinham sido sujeitos a insultos. Ele sentiu que compreendia o que o silêncio de Polly Candage significava.

No momento seguinte, sentiu o toque de uma mão pequena sobre o punho que ele mantinha cerrado no joelho.

“Pobre rapaz!”, sussurrou ela. “Eu compreendo! Tudo se resolverá se não perder a coragem.”

Mas ela não estava a olhar para ele quando ele lhe lançou um rápido olhar lateral.

O barco de pesca tinha virado ao vento, balançando na longa ondulação, com as velas sujas a bater, os flancos manchados de sal a mergulhar e a brilhar com reflexos húmidos enquanto rolava. Os seus homens estavam a preparar uma escada pelo lado de fora.

“Quero dizer, enquanto estamos aqui juntos e há tempo para o dizer”, anunciou o Capitão Candage, “que estamos todos muito gratos por esse convite que nos fez para vir a bordo do iate, senhor, e todos sabemos que se — bem, se as coisas tivessem sido diferentes do que foram, teria tratado de nós como deve ser. E o que eu poderia dizer sobre iates e o tipo de criaturas que os possuem, não o vou dizer.”

“Está a melhorar a olhos vistos, pai”, observou Polly Candage, secamente.

“Ainda assim, tenho as minhas próprias ideias sobre o assunto. Mas isso não vem ao caso. O senhor é um nativo e eu sou um nativo, e quero que olhe apenas para aquele rosto debruçado sobre a amurada de sotavento, ali, e depois diga que agora sabemos que estamos entre amigos verdadeiros.”

Era um rosto rubicundo e acolhedor sob a aba de um chapéu de oleado preto e gasto, e o homem era manifestamente o capitão. De vez em quando, acenava com o braço de forma encorajadora.

“Boas-vindas a bordo do Reuben and Esther”, gritou ele quando o bote chegou ao pé da escada. “Que escuna é aquela ali?”

“A pobre e velha Polly”, declarou o mestre, o primeiro a subir a escada. Na sua pressa para cumprimentar o capitão da pesca, deixou a filha ao cuidado do Capitão Mayo.

“Isso é mau — muito mau!”, cacarejou o capitão da pesca, com plena medida de simpatia no seu comportamento. “Era velha, mas era capaz, senhor!”

“E aqui está outra pobre Polly”, declarou o Capitão Candage. “Fui tolo o suficiente para a tirar de um bom lar para uma viagem ao mar.”

O capitão fez uma saudação com a cabeça. “Sinta-se em casa, menina. Vá para baixo. A casa é sua!”

Depois, a escuna afastou-se no seu bordo em direção à costa, e o insolente iate marchou para longe, através das ondas cintilantes.

Mayo apertou a mão ao solícito pescador de uma forma bastante sonhadora e indiferente. Percebeu que estava fraco de fome, mas recusou-se a comer. A fadiga e a dor exigiam o seu tributo de forma mais imperiosa do que a fome. Deitou-se ao sol no corredor de sotavento, colocou a cabeça sobre os braços cruzados, e o sono abençoado apagou os seus pensamentos amargos.

XI ~ UMA VOZ DE ALERTA E PERSEGUIÇÃO

Mas quando o dinheiro todo se vai e é gasto, E não há nada para pedir emprestado nem nada para emprestar, Entra o velho Rabugento com o cenho franzido, Dizendo: “Levanta-te, Jack, deixa o John sentar-se.” Pois agora estamos de partida, Hurra, estamos de partida! --Canção do Cão e do Sino.

O Capitão Mayo, quando acordou, foi prontamente informado de que a hospitalidade a bordo do Reuben and Esther tinha olhos atentos. Enquanto ele esfregava as pernas entorpecidas para recuperar a sensibilidade, sentado ali no corredor de sotavento, o cozinheiro veio carregado com um bule de café quente e um prato cheio de comida.

“Pensei que preferisse tê-lo aqui do que na camarata. A menina está a dormir na casa”, sussurrou o cozinheiro.

O Capitão Candage veio ter com Mayo enquanto este comia e sentou-se no convés. A melancolia tinha-se instalado sobre o mestre da escuna. “Não quero incomodá-lo com os meus problemas, vendo que o senhor já tem os seus de sobra. Mas preciso de um pequeno conselho. Perdi uma escuna que tem sido o meu lar desde que tinha tamanho para atirar um saco de bagagem por cima da amurada, e nem um cêntimo de seguro. O seguro teria comido todos os meus lucros. O que acha das minhas hipóteses de ganhar um dólar extra, supondo que alugo um rebocador e tento salvar o que resta?”

“Na minha opinião, as suas hipóteses seriam fracas, senhor. Reivindicações em tais casos geralmente consomem tudo o que uma embarcação vale. Além disso, pode encontrar esses iatistas no seu encalço por danos, caso consiga levá-la a um local onde possa ser arrestada.”

“Não me admiraria nada”, admitiu o Capitão Candage. “Quanto mais algumas pessoas têm, mais continuam a tentar obter.”

“Estive a observar o fundo dela enquanto estávamos sentados ali, e há que admitir que os anos pesaram sobre ela.”

“Detesto deixá-la ir.”

“É natural, senhor. Mas tenho a ideia de que ela será reportada como uma ameaça à navegação, e que um navio da guarda costeira a explodirá antes que possa arranjar os seus preparativos de salvamento.”

“Quando um homem está em baixo, todos saltam para cima dele.”

“Posso concordar consigo nisso”, afirmou o Capitão Mayo, melancolicamente.

“Ela mostrou coragem — aquela rapariga”, arriscou Candage, examinando o outro homem com atenção sob as suas sobrancelhas grisalhas.

“Peço-lhe que arrie as velas nesse assunto, senhor”, cortou Mayo, com a franqueza de um marinheiro.

“Só o disse como um elogio. Muitas vezes, as raparigas têm mais coragem do que lhes é creditado. O senhor pensa que são apenas raparigas, e depois descobre que são heroínas! Pensei que eu tinha alguma coragem, mas a minha própria Polly envergonhou-me. Estive a vê-la há pouco — ela está a dormir no beliche do Capitão Sinnett. Trouxe-me lágrimas aos olhos, senhor, ao pensar no que ela passou por causa da minha teimosa tolice. É claro que não lhe contaram. Mas a confissão é boa para um homem, e eu vou admitir. Levei-a comigo para a afastar de um rapaz que a corteja.”

Mayo não ofereceu comentários. Ele queria aconselhar o capitão a manter-se calado sobre esse assunto também.

“Não digo que ele não seja suficientemente bom para ela. Talvez seja. Mas eu não me tinha apercebido de que ela tinha crescido. Quando descobri que estava a ser cortejada, foi como bater numa rocha num canal. O senhor é jovem, anda por aí consideravelmente e conhece as ações dos jovens. Qual é o seu conselho?”

“Não sei nada sobre as circunstâncias, senhor.”

“Mas falando de um modo geral”, insistiu o Capitão Candage. “Quero fazer o que é correto. Não há muitos a quem eu consiga pedir. Sou um velho tolo, receio. Não quer meter a mão nisto, Capitão Mayo? Preciso mesmo de um pequeno conselho.” As suas mãos ásperas tremiam sobre os joelhos.

“Se o jovem for digno — for do tipo certo”, respondeu Mayo, em tons mais suaves, “penso que está a cometer um grande erro ao interferir.”

“Vou observar esse jovem — reexaminá-lo, por assim dizer”, declarou o capitão, após um momento de reflexão.

“Não conheço muito bem a sua filha, senhor, mas tenho muita fé no discernimento dela. Se eu fosse o senhor, deixá-la-ia escolher o seu próprio marido.”

“Obrigado por esse conselho. Sei que vem de um homem que mostrou saber exatamente o que fazer em emergências. Mudei de ideias sobre ela ser cortejada, senhor.”

“O amor honesto não é uma questão de dinheiro, Capitão Candage. Muitas boas raparigas são arruinadas por...” Ele falava amargamente e conteve-se. “Onde é que o Capitão Sinnett nos vai pôr em terra?”

“Maquoit. Ele vai levar o seu peixe ao grande mercado. Mas disse que nos poria em terra em qualquer lado, e por isso eu disse Maquoit. Posso muito bem estar lá como em qualquer outro lugar até saber o que vou fazer.”

“O mesmo se aplica a mim, suponho. Não me sinto com vontade de ir para a cidade ainda.”

O Capitão Sinnett veio andando pelo corredor, e quando Mayo começou a agradecer-lhe pelo trabalho que estava a ter, ele ergueu em protesto amável uma mão que se assemelhava na abertura a um bacalhau cortado.

“Trabalho! Não é trabalho. Ia passar por Maquoit para pôr gelo, de qualquer maneira. Conheço as minhas maneiras, mesmo que aqueles tipos do iate não conhecessem.”

O Capitão Candage manteve um comportamento de inocência sob o escrutínio de Mayo.

“Senti a sua falta nos pesqueiros — não sabia que tinha ido para um iate, senhor”, continuou o Capitão Sinnett. “Espero vê-lo de volta ao negócio da pesca; isto é, desde que não vá para um daqueles arrastões de viga que estão a remexer o fundo do Atlântico e a estragar a coisa toda para todos nós.”

“Concordo consigo sobre o arrastão; foi por isso que me despedi. E quanto a iatismo, acho que vou procurar um trabalho de homem a sério, senhor!”

“Faça isso! Ficará mais contente”, respondeu o outro, com significado nos seus tons.

Mayo sabia que o seu segredo tinha sido exposto, mas não tinha gosto por uma discussão com o Capitão Candage sobre o assunto da tagarelice. Terminou o seu café e foi para a frente, onde os pescadores estavam a enrolar as linhas de pesca nos cestos.

O barco de pesca chegou ao porto de Maquoit ao fim da tarde, e foi atracado no cais da fábrica de gelo.

Os náufragos foram para terra.

Maquoit era uma aldeia espalhada na cabeça de uma enseada que entalhava a linha costeira.

O Capitão Candage, um nativo de Apple-treer, que conhecia cada buraco ao longo da costa onde se podia encontrar refúgio do mau tempo, conduziu o seu grupo através da aldeia com confiança.

“Há uma viúva aqui que nos acomodará pelo tempo que quisermos ficar — e ficará contente com o dinheiro. Conheci o marido dela no comércio costeiro. Gosto de entrar num lugar como este que não foi estragado por esses malditos veraneantes e pelos preços que estão dispostos a pagar”, confidenciou ele a Mayo. Mostrou astuciosamente uma carteira que estava cheia de notas. “Não estou falido, mas não faz sentido pagar mais de cinco dólares por semana por comida e cama em lado nenhum. Ela lucrará bastante connosco a esse preço. Deixe-me tratar da negociação.”

A viúva revelou-se uma alma bondosa que, na primeira agitação da sua natureza simpática, recusou resolutamente considerar a questão de qualquer pagamento.

“O senhor está náufrago, e o corpo do meu pobre marido não descansaria tranquilo onde quer que esteja no Oceano Atlântico se eu tirasse dinheiro de pessoas náufragas.”

No entanto, no final, o Capitão Candage subiu-lhe o preço de três para cinco dólares por semana, e ela tomou Polly Candage no seu coração e no melhor quarto.

O Capitão Mayo voltou para o jantar depois de um passeio pensativo pela aldeia. O Capitão Candage patrulhava o jardim da frente da viúva e exibia mais alegria.

“É a Providência de Deus e a sua coragem que nos salvaram, senhor. Saí do meu estado de dormência e sinto tudo agora. Quais são os seus planos?”

“Não me parece ser capaz de fazer nenhum ainda.”

“Vou ficar por aqui durante algum tempo, e manterei o Dolph e o Otie comigo. Estaremos aqui na costa onde podemos ouvir falar de algo para agarrar. Assim que a Polly se recompor, deixá-la-ei ir para casa da tia dela. Mas, claro, ficar por aqui não lhe oferece nenhum atrativo, senhor. O senhor está à procura de caça maior do que nós.”

“Decidi quase por certo partir de manhã na diligência. Vou para algum lado.”

A viúva bateu com os nós dos dedos no vidro de uma janela próxima. “Jantar!”, anunciou ela. “Apressem-se enquanto está quente!”

“Sempre faço a minha melhor reflexão de estômago cheio”, disse o Capitão Candage. “E cheiro a biscoitos de creme de tártaro e vi-a a descascar morangos silvestres. É melhor ver o lado positivo das coisas comigo, Capitão Mayo.”

O Capitão Mayo não conseguiu encontrar qualquer lado positivo enquanto passava os seus assuntos pela mente. Tinha apenas uma escassa reserva de dinheiro. Tinha usado os seus modestos ganhos para saldar as dívidas da propriedade da família. A perspetiva de emprego era vaga — ele não conseguia avaliar até que ponto a hostilidade de Julius Marston poderia bloquear os seus esforços, caso o magnata se desse ao trabalho de descer para interferir nos assuntos de uma pessoa tão insignificante. O seu pequeno romance com Alma Marston tinha ficado numa condição chocante. Ele não falou à mesa do jantar, e a comida saudável da viúva era como cinza na sua boca. Saiu e sentou-se na varanda da casa da viúva, olhou para o pôr do sol e não viu nada nos seus tons rosados que lhe desse encorajamento para o seu próprio futuro.

Polly Candage veio timidamente e sentou-se ao lado dele. “O pai diz que está a pensar partir de manhã!”

“Não há nada para mim aqui.”

“Provavelmente não.”

Seguiu-se um longo silêncio.

“Suponho que não se importe que eu fale consigo, Capitão Mayo?”

“Escutá-la-ei com gratidão, a qualquer momento.”

“Sou apenas uma rapariga do campo. Não sei como dizer isto — como lhe dizer que sinto muito por si!”

“Aquele pequeno toque na minha mão hoje, foi melhor do que palavras.”

“É tudo em que consigo pensar — na sua infelicidade.”

“Isso toca-me porque sei que a senhorita tem tristeza suficiente própria.”

“Tristeza!” Ela abriu bem os olhos.

“Talvez não tenha o direito de falar sobre isso”, respondeu ele, com considerável embaraço.

“E, no entanto, fui tão ousada a ponto de falar consigo!”

Havia um toque de reprovação na sua voz, e por isso ele arriscou: “O seu pai disse-me — tentei impedi-lo, mas ele continuou e disse... Bem, eu compreendo! Mas tenho algum consolo para si e vou falar abertamente. Ele diz que vai permitir que se case com o seu jovem.”

“Ele atreveu-se a discutir tais assuntos consigo?”

“Ele insistiu em fazê-lo — em pedir o meu conselho. Por isso, aconselhei de forma a ajudá-la. Estou contente, pelo seu bem, que ele esteja a voltar a si.”

“Agradeço a sua ajuda”, disse ela, rigidamente.

“Claro que não é da minha conta. Lamento que ele me tenha contado. Mas desejo-lhe toda a felicidade.”

Ela levantou-se como se fosse embora. Depois, bateu com o pé e sentou-se. “O meu pai deveria levar um açaimo!”

Ela percebeu que ele poderia interpretar mal a sua indignação, pois ele disse: “Sinto-me envergonhado porque me intrometi nos seus assuntos. Mas, pelo que viu hoje no meu caso, senti que devia ajudar outros que estão no mesmo problema.”

“Mas o meu pai entendeu mal a minha...” Ela interrompeu-se com muita confusão, não compreendendo o olhar estranho que ele lhe lançou. “Eu... estou contente que o meu pai esteja a voltar a si e que me permita... casar-me com o jovem”, gaguejou ela. “E agora creio que posso dizer que espero que possa ter a rapariga que ama, algum dia. Gostaria que lhe falasse sobre ela — quão querida e bonita penso que ela é?”

“Não, dói! Mas quero que saiba, Srta. Candage, que não ando à caça de fortuna. Amo-a por ela mesma — apenas ela mesma — nada mais!”

“Sei que deve ser assim.”

“E sei que um jovem que a senhorita escolheria é digno de si. Disse ao seu pai...”

“Não importa. Isso também dói! Ambos compreendemos. Deixaremos isso por aqui!”

Após a declaração dessa trégua, ficaram francamente à vontade e começaram a conversar com uma liberdade amigável. O crepúsculo veio sombreando para o oeste, a estrela da tarde destilava luz prateada.

“É um lugar pacífico aqui”, sugeriu ela. “Toda a gente parece estar satisfeita.”

“Contentamento — numa rotina — talvez seja a melhor forma de passar esta vida, afinal de contas.”

“Mas se o senhor estivesse na rotina, Capitão Mayo, talvez descobrisse que o contentamento não aceitaria vir viver consigo.”

“Provavelmente não! Teria de ter nascido para a vida aqui, como este sujeito que está a subir a colina. Pode ver que ele não está preocupado consigo mesmo nem com o mundo exterior.”

O homem caminhava pesadamente com as suas botas de borracha; um boné velho estava torto na cabeça, com a pala puxada para baixo sobre uma orelha. Ele levantou a outra orelha ao som das vozes na varanda e aproximou-se, sentando-se na borda da tábua. O Capitão Mayo e a rapariga, acostumados à indiferença branda em relação à formalidade nos bairros rurais, aceitaram esta interrupção sem surpresa ou protesto.

“Não é uma noite má, para as noites que correm”, declarou o visitante.

“É uma noite linda”, disse Polly Candage.

“Creio que lhe parece assim, depois do que passou. Estive a ouvir o seu pai a contar a história lá na loja.”

Eles não responderam, tendo as suas próprias ideias quanto à loquacidade do Capitão Candage.

O visitante tirou um pedaço de tabaco do bolso, roeu uma dentada e começou a mover lentamente os maxilares. “Este mundo está cheio de problemas”, observou ele.

“Parece que está”, concordou o Capitão Mayo.

“Aqueles que estão em baixo são pontapeados ainda mais para baixo.”

“Também é verdade, em muitos casos.”

“Tome o seu caso! É mau. Mas o nosso é pior!” O visitante apontou para a massa ténue de uma pequena ilha que a enseada mantinha entre as mandíbulas ousadas do seu promontório. “O velho senhor que deu nome àquela Ilha de Alerta e Perseguição deve ter farejado o futuro para saber o que ia acontecer lá um dia — e hoje é esse dia!” Ele continuou a mastigar, e o seu silêncio tornou-se irritante.

“Bem, o que aconteceu?”, exigiu o capitão.

“Ainda não aconteceu — vai acontecer.”

Novo silêncio.

“Diga-nos o que vai acontecer, não pode?”

“Claro que posso, agora que me perguntou. Não sou de me meter onde não sou chamado. Não sou de fazer coisas a menos que me peçam. Somos dezassete famílias na Ilha de Alerta e Perseguição e mandaram-nos sair.”

“Quem mandou?”

“O estado! Uns figurões apareceram e disseram que o Governador os enviou, mostraram papéis e temos de ir embora.”

“Mas eu sei sobre a Ilha de Alerta e Perseguição!”, protestou Mayo. “Vocês vivem lá há anos!”

“Pois vivemos! O meu avô foi um dos primeiros colonos. Quase todos nós que vivemos lá tivemos avós que se estabeleceram no lugar. Mas, de acordo com o que nos dizem, alguns herdeiros encontraram papéis que dizem que eles são os donos da ilha. O estado comprou os herdeiros. Agora o estado diz para sair. Somos apenas invasores, diz o estado.”

“Mas, bom Deus, homem, vocês têm direitos de posse depois de todos estes anos. Contratem um advogado. Lutem pelo caso!”

“Não somos lutadores. Não temos dinheiro — não temos amigos. Podíamos ter lutado contra herdeiros comuns, mas não se pode lutar contra o estado — pelo menos, pobres diabos como nós não podem.”

“Para onde vão?”

“Bem, esse é o problema! Foi isso que me fez dizer que este mundo está cheio de problemas. Sabe, aceitámos ajuda da cidade em anos passados — tivemos de o fazer ou morrer à fome nos invernos. E tivemos ajuda do estado também. Dizem que isso faz de nós indigentes. Todas as cidades em redor avisaram que não nos podemos estabelecer lá e ganhar residência de indigentes. A ilha nunca foi admitida em nenhuma cidade. As cidades dizem que, já que o estado nos ordenou sair, agora que o estado tome conta de nós.”

“E homens estiveram aqui, representando o estado?”

“Pode apostar que estiveram.”

“O que é que eles dizem?”

“Dizem para sair! Mas não nos deixam estabelecer no continente. Parece que queriam que subíssemos em balões. Mas não temos balões. Temos de nos mudar, no entanto.”

“Nunca ouvi falar de tal coisa!”

“Nem eu”, admitiu este homem, com uma espécie de entorpecimento calmo e desencorajado. “Mas isso, de qualquer forma, não é surpreendente. Nós não ouvimos falar muito sobre nada em Hue and Cry até que venham e nos digam. Falando por mim, não estou tão terrivelmente preocupado. Tenho um barco-casa para levar minha mulher e meus filhos, e continuaremos a cavar amêijoas para os traineiros — sessenta centavos o balde, sem casca, e podemos cavar e descascar um balde por dia, com todos ajudando. Não morreremos de fome. Mas tenho pena das pobres criaturas que não têm um barco-casa. Parece que precisariam de asas. Não estou nem um pouco preocupado, digo eu. Eu tinha a melhor casa da ilha, e o estado autorizou cento e cinquenta dólares por ela. Considero-me bem arranjado.”

O plutocrata da infeliz tribo de Hue and Cry levantou-se e espreguiçou-se com um grunhido confortável.

“Se não é uma coisa, é outra”, disse ele, enquanto se afastava. “De qualquer forma, temos de ter uma certa dose de problemas, e pode muito bem ser este como qualquer outro.”

“Ora, é uma coisa terrível acontecer a essas pessoas!” declarou a moça. “Devo dizer que ele encara isso com calma.”

“Ele é uma amostra justa de algumas das águas-vivas humanas que encontrei escondidas em cantos remotos desta costa”, afirmou o Capitão Mayo. “Não resta mente ou espírito suficiente para lutar pela sua própria proteção. Mas isto é quase inacreditável. Não é possível que o estado esteja a promover um caso como este! Vou encontrar alguém que saiba mais sobre o assunto do que essa máquina de cavar amêijoas!”

Pouco depois, um homem passou caminhando, com as mãos atrás das costas. Fumava placidamente um charuto e, embora o crepúsculo tivesse se aprofundado, Mayo pôde perceber que ele estava trajado com certas pretensões de elegância urbana.

“Peço perdão, senhor”, chamou o jovem. “Mas sabe alguma coisa sobre o âmago deste negócio na Ilha Hue and Cry?”

“Posso contar-lhe tudo sobre isso”, declarou a pessoa que fora interpelada. Ele aproximou-se calmamente e sentou-se na borda da varanda. Exibia o ar de um homem que estava matando o tempo. “Sou o responsável por isso.”

“Não por expulsar aquelas pessoas da ilha?”

“Com certeza! É para isso que estou aqui. Sou agente estadual para assuntos de indigentes, agindo em nome do Governador e do Conselho.”

“Está dizendo que o estado está por trás disto?” perguntou Mayo, incrédulo.

“Certamente! É um assunto que o estado foi obrigado a assumir. O estado comprou aquela ilha dos verdadeiros herdeiros, ordenou a saída daqueles invasores, e nós queimaremos seus barracos e limparemos o terreno. É claro que permitimos aos chefes de família algum dinheiro por suas casas, se é que se pode chamá-las de casas. Isso está previsto na lei que regula as benfeitorias dos invasores. Mas benfeitorias é uma palavra educada para as construções naquela ilha. Vai nos custar um bom dinheiro limpar tudo para aquele grupo de Nova York que fez uma oferta ao estado — ele vai usar a ilha para uma propriedade de verão.”

Ele sacudiu as cinzas do charuto e interrompeu a réplica indignada de Mayo.

“Tinha de ser feito, senhor. Eles casaram-se entre si até que um bom número das crianças são tolas. Os homens invadem casas de veraneio depois que os proprietários partem no outono. Roubam tudo no continente que não esteja pregado. Colocaram faróis falsos no inverno e naufragaram navios costeiros. De vez em quando, algum jornal da cidade escreve sobre eles como homens selvagens, e isso deu ao estado uma má reputação. Vamos destruir o ninho.”

“Mas para onde eles irão?”

“Os tolos para a escola estadual para deficientes mentais, os aleijados para o asilo de pobres. Os aptos para o trabalho terão de sair e ir trabalhar em algo honesto.”

“Mas, ouça aqui, meu caro senhor! Esses pobres diabos estão começando com uma desvantagem grande demais. Depois de três gerações naquela ilha, eles não sabem como ganhar a vida no continente.”

“Isso é problema deles, não do estado! O estado não garante dar sustento a pessoas preguiçosas.”

“Que tal usar um pouco de bom senso no caso dessas pessoas?”

“Você não está fazendo deste assunto o seu negócio, está?” perguntou o comissário, com aspereza.

“Não.”

“É melhor não fazer; e é melhor não dizer muito para mim!” Ele levantou-se e espanou as calças. “Investiguei para o Governador e o Conselho, e eles estão agindo conforme as minhas recomendações. Você poderia muito bem aconselhar a cuidar e mimar um ninho de mariposas-do-cauda-marrom — e estamos gastando um bom dinheiro para exterminar mariposas. Não pretendemos encorajar a criação de ladrões. Não estamos mantendo lugares de exibição desse tipo ao longo da costa para que o pessoal da cidade fale e denigra o estado depois que voltarem para casa. Isso prejudica os negócios do estado!” Ele marchou para longe.

O Capitão Mayo andou de um lado para o outro na varanda e murmurou algumas opiniões enfáticas a respeito do intelecto e das ações dos governantes.

“Você vê, eu conheço o tipo de gente que vive naquela ilha, Srta. Candage. Já vi outros casos no litoral. Eles são culpados pelo que não sabem — e pelo que são levados a fazer. Missionários amadores vão sobrecarregá-los, num espasmo de generosidade de verão, com um monte de tralha e fazê-los pensar que o mundo lhes deve o sustento. Os pobres diabos não têm inteligência suficiente para olhar para o futuro. Quando chega o inverno, eles passam fome — e quando as crianças estão com fome e frio, um homem enfrentará uma proposta que é mais perigosa do que uma casa de veraneio trancada para o inverno. A seguir, aparece algum sujeito como aquele agente estadual, que se orgulha de ser um negócio direto e sem favores! Ele aperta o cerco contra eles! Não há ninguém para ajudar essa gente da maneira real e correta. Eu tenho pena deles!”

“Eu vivo no campo e sei quão insensíveis são as juntas de vereadores em muitos dos casos de indigentes. Quando se trata de economizar dinheiro para os eleitores e fazer um bom registro da cidade, eles não se importam muito com a forma como os pobres vivem.”

Mayo continuou a patrulhar a varanda. “Estou num estado de espírito um tanto rebelde agora, creio eu”, admitiu. “Parece-me que um monte de gente, inclusive eu, está sendo chutado. Estou sentindo a dor! Tenho um sentimento de camaradagem pelos oprimidos.” Ele riu, mas não havia alegria em seu tom. “São as criancinhas que mais sofrerão com isso, Srta. Candage”, continuou. “Elas não têm culpa — não entendem.”

“E é claro que nada pode ser feito.”

“Nada sensato, receio.” Ele andou de um lado para o outro por muitos minutos. “Sabe, não é da minha conta”, comentou, quando veio e sentou-se ao lado dela.

“Suponho que não haja um homem no mundo para se apresentar e dizer uma palavra em favor deles”, disse a moça, suavemente, expressando seus pensamentos.

“Palavras não significariam nada — com a engrenagem do estado funcionando tão alegremente como está. Mas este assunto está despertando um pouco a minha curiosidade, Srta. Candage. Isso é porque eu sou um dos oprimidos, creio eu.” Novamente sua risada sem alegria. “Eu pretendia pegar a diligência daqui pela manhã, mas tenho a ideia de que vou ficar e ver o que acontece quando aquele cavalheiro que representa o nosso grandioso e velho estado proceder a dispersar aquelas pessoas aos quatro ventos.”

“Eu esperava que você ficasse, Capitão Mayo.” Ela declarou isso com franqueza e prazer.

“Mas você não espera que eu faça nada, é claro!”

“Não é isso. Sabe, eu gostaria de ir até a ilha e... e meu pai é tão estranho que talvez não queira me acompanhar”, explicou ela, tentando ser prática, seu ar mostrando que se arrependia de seu desabafo.

“Eu me ofereço como voluntário, aqui e agora.”

Ela levantou-se e estendeu-lhe a mão. “Não lhe agradeci por salvar minha vida — salvar a todos nós, Capitão Mayo. É um assunto sagrado demais para ser profanado por quaisquer palavras. Mas aqui está minha mão — como um amigo — como uma irmã — não” — ela manteve-se ereta e olhou-o diretamente nos olhos através da penumbra e apertou mais a sua mão sobre os dedos dele — “como um homem!”

Ele retribuiu o aperto de mão sincero e soltou-a quando ela relaxou a pressão. Aquele espírito súbito, a sugestão de que ela desejava assumir a atitude de igual para igual com ele, pareceu desaparecer dela com o soltar de seus dedos.

Ela murmurou um trêmulo “Boa noite!” Houve até um vestígio de soluço. Então, correu para dentro da casa.

Mayo olhou para onde ela fora, franzindo a testa por um momento, como se tivesse descoberto alguma nova extravagância da feminilidade para confundi-lo. Então retomou sua patrulha com o passo lento de um mestre marinheiro. Hue and Cry erguia-se como uma massa sombria nas fauces do porto, sem exibir qualquer brilho de luz. Era estéril, sem árvores, um pedaço de terra que as cidades tinham rejeitado e que os limites do condado não tinham incluído. Ele admitia que o estado tinha boas razões para desejar mudar as condições em Hue and Cry, mas esta expulsão insensível e brutal de pessoas indefesas que estiveram ligadas àquele solo ao longo de três gerações era tão radicalmente sem sentido que seu ressentimento foi despertado. Estava oscilando do extremo da indulgência impensada para o da crueldade absoluta, e os pobres diabos não conseguiam entender de jeito nenhum!

“Parece que há outras coisas além de uma martingala com pontas que podem pegar um homem e mantê-lo longe de seus próprios negócios”, ponderou ele. “Que ideia tola me possui para ir até lá amanhã, não consigo entender. No entanto, posso ir e observar sem me intrometer em coisas que não são da minha conta.”

Dois homens passavam arrastando os pés pela estrada. No silêncio total daquela noite de verão, sua conversa levava longe.

“Sim, senhor, como eu estava dizendo, ali jaz ele, morto! Quando eu estava com ele no Luther Briggs, ele caiu do mastro principal, quebrou as duas pernas e um braço, e fez um amassado no convés, e ele sarou. E há uma semana, vindo amanhã, ele ganhou uma farpa sob o polegar, e ali jaz ele, morto.”

“É assim que muitas vezes acontece na vida. Enquanto um homem está olhando para o céu para ver as grandes coisas e evitá-las, ele tropeça o pé numa agulha de tricô.”

“É verdade”, informou-se o Capitão Mayo; “mas não consigo me controlar, de alguma forma!”

XII ~ SEM LUGAR PARA AS PLANTAS DOS SEUS PÉS

Não ouves o velho a rugir, Johnny, Mais um dia? Não ouves aquele piloto a gritar, Mais um dia? Apenas mais um dia, meu Johnny, Mais um dia! Oh, vem e embala-me, Mais um dia. — Canção do Molinete.

Quando o assunto da expedição proposta a Hue and Cry foi abordado à mesa do café da manhã, o Capitão Epps Candage demonstrou prontamente interesse.

“Vai ser uma coisa boa para a região por aqui — expulsá-los! Ouvi-os falando sobre isso na loja do Rowley ontem à noite. Irei com vocês e verei tudo acontecer.”

Mayo e Polly Candage trocaram olhares e abstiveram-se de comentar. Era evidente que o Capitão Candage refletia a visão utilitarista de Maquoit.

Mayo tinha deixado de lado aquele uniforme detestável do iate de Marston, e a moça lançou-lhe um olhar de aprovação quando ele apareceu naquela manhã em seu terno de passeio cinza discreto. Com a ajuda pronta da viúva, Polly Candage tinha tornado o seu próprio traje apresentável mais uma vez. Quando caminharam até a costa, ela sorriu maliciosamente para Mayo sob a aba de um chapéu de palha muito atraente.

“Fui cedo à loja geral e comprei um chapéu de menino”, explicou ela. “Eu mesma o decorei. Sabe, sou aprendiz de modista. O meu treinamento merece crédito?”

Ele foi um tanto caloroso em suas garantias de que merecia.

“Deveria ficar satisfeita com seu elogio”, disse ela, recatada, “porque as mulheres usam chapéus para a aprovação dos homens, e se minhas clientes forem para casa e ouvirem palavras tão gentis de seus maridos, minha carreira comercial certamente será um sucesso.”

“Sua carreira comercial?”

“Certamente, senhor!” Ela fez uma pequena reverência. “Tenho dinheiro, senhor! Dinheiro meu. Cinco mil dólares no banco, se me permite! Oh, não precisa ficar olhando para mim. Não o ganhei. A irmã da minha querida mãe deixou-o para mim em seu testamento. E um dia, quando você estiver caminhando pela rua da cidade, verá uma pequena placa de latão — muito brilhante, muito elegante — e nela estará escrito 'Polly'. Então você pode vir e visitar a grande modista — que será esta pessoa, agora tão humilde.”

“Mas aquele jovem!” protestou ele, sorrindo com a sua alegria.

“Oh, aquele jovem?” Ela enrugou o nariz. Então corou, consciente de que ele estava um pouco surpreso com seu tom de desdém. “Ora, ele usará um fraque e uma flor na lapela e cumprimentará minhas clientes. Você não pensou que o meu jovem era um rapaz da fazenda, pensou?”

Ela apressou-se à frente dele até a praia, onde seu pai esperava com seus homens. O Capitão Candage tinha pedido emprestado um bote para a viagem. Instalou-se na popa com o remo de leme, e o jovem e a moça sentaram-se juntos no banco do meio. O capitão ouviu a conversa deles com uma satisfação suave.

“Aquele sujeito é dos nossos, e não está tentando cortejar minha filha”, confidenciou ele ao Sr. Speed. “Ele tem compromisso e ela sabe disso. E, nessas circunstâncias, acredito em encorajar os jovens a serem sociáveis.”

Ainda era início da manhã quando chegaram à ilha, mas o agente estadual estava lá antes deles. Eles o viram caminhando vivamente entre as casas espalhadas, baforando seu charuto.

Ele estava fazendo visitas domiciliares e transacionando negócios em um tom de voz alto. Esse negócio consistia em pagar o dinheiro que o estado tinha autorizado pelas “benfeitorias dos invasores”. No caso dos colonos em Hue and Cry, as somas eram meras esmolas; suas benfeitorias consistiam em barracos cambaleantes, erguidos a partir de detritos resgatados do oceano e remendados repetidamente com papel alcatroado.

Havia apenas um edifício na ilha que merecia o nome de habitação; dele, o nosso comunicativo interlocutor da noite anterior estava retirando seus parcos pertences. Sua mulher e filhos estavam ajudando. Ele pousou uma mesa batida quando encontrou Mayo e seu grupo.

“Sou o único cidadão que pode sair cedo e — como se poderia dizer — de forma respeitável, cavalheiros. Peguei meus cento e cinquenta e comprei aquele barco-casa ali.” Era uma barcaça antiga, coberta, e evidentemente tinha se tornado venerável em serviço como um mercado de peixe flutuante. “Eles não podem me expulsar do Oceano Atlântico! Os outros não acordaram para a noção real de que têm de ir e que isto tudo é para valer! Estou saindo cedo ou então estariam todos tentando subir no meu barco como o pessoal queria fazer na arca de Noé quando viram que o dilúvio não era apenas um chuvisco.” Ele levantou sua mesa sobre a cabeça e marchou, conduzindo seu rebanho.

Toda a população da ilha estava ao ar livre. As mulheres e as crianças estavam ociosas em grupos; os homens seguiam apaticamente o comissário em suas rondas. Nenhum espírito de rebeldia era evidente. Os homens agiam mais como ovelhas curiosas. Eram daquela variedade abjeta de brancos pobres que aceitam as chuvas do céu e se curvam ao reinado da autoridade com a mesma resignação inquestionável.

Mas Mayo descobriu prontamente uma razão especial para a calma exibida por esses homens. Suas mentes lentas não tinham despertado para a compreensão total.

“O que vocês pretendem fazer?” perguntou o Capitão Mayo a um grupo que tinha abandonado o comissário e se aproximado para inspecionar os recém-chegados.

“Não há nada que possamos fazer”, declarou um porta-voz.

“Mas vocês não entendem que este homem está aqui com plenos poderes do estado para expulsá-los desta ilha?”

“Oh, eles já nos ameaçaram antes. Mas algo sempre aconteceu. Nunca fomos expulsos.”

“Mas desta vez vai acontecer! Por que vocês não acordam? Para onde vão?”

“Isso é para outra pessoa se preocupar. Isto não é escolha nossa.”

“Qual é a utilidade de tentar enfiar algo sensato pelas cascas desses moluscos?”, rosnou o Capitão Candage, com o desprezo litorâneo pela ineficiência.

“Não muita utilidade, temo eu”, reconheceu o jovem. “Mas olhem para as crianças!”

Aqueles órfãos patéticos de Hue and Cry estavam amontoados, mudos de terror que seus mais velhos não faziam esforço para acalmar. Eram garotos maltrapilhos, piedosos, melancólicos; rapazes de rostos encovados, pobres menininhas. Suas imaginações infantis transformavam o caso em uma tragédia que eles não conseguiam entender. Sob os braços, seguravam gatos assustados, gatinhos indefesos ou bonecas de trapos. A calma insensível dos homens os desconcertava; o choro de suas mães tornava seu medo miserável mais agudo. Olhavam de rosto em rosto, tentando compreender.

“O que posso dizer a eles?” perguntou Polly Candage, num sussurro. “É perverso. Eles estão tão assustados.”

“Talvez algo possa ser feito com aquele agente. Estou tentando pensar em algo para lhe dizer”, Mayo disse-lhe.

Um homem velho, um homem muito velho, sentou-se num balde de amêijoas virado e entoou um miserere discordante num violino. Seus olhos estavam bem abertos e sem visão. Uma mulher, cuja saia esfarrapada apenas parcialmente escondia as calças de homem e as botas de borracha que usava, ocasionalmente dirigia-se a ele como “pai”. Ela estava empilhando ao redor dele alguns artigos de mobília que ela carregava para fora de sua casa; essa casa era a parte superior da cabine de uma escuna — algo que o mar tinha lançado em Hue and Cry. Ela era obrigada a dobrar-se quase ao meio para poder caminhar dentro do abrigo. Cães esgueiravam-se entre os pés de seus mestres, o instinto canino informando-os de que algo mau estava no ar naquele dia. As crianças olhando de olhos arregalados e rosto pálido, as mulheres chorando, os homens intimidados que arrastavam os pés e balbuciavam! Entre eles caminhava o deus da máquina, curto, desdenhoso, baforando seu charuto! Ele passou pelo Capitão Mayo e seus amigos.

“Peço perdão, senhor”, chamou o capitão; “mas tem certeza de que está fazendo isso da maneira certa?”

“Vamos ver... se bem me lembro, tive uma conversinha com você ontem à noite!” sugeriu o agente, friamente. “Quem você representa?” “A mim mesmo.”

“Como é que você se encaixa neste assunto?” “Não creio que me encaixe — parece haver cantos demais”, afirmou Mayo, não gostando da maneira insolente do outro. “Bem, eu me encaixo! Tenho autoridade estadual.” “Assim você me disse. Posso lhe fazer uma pergunta?” “Vá em frente, mas seja rápido. Este é o meu dia ocupado.” “Estas pessoas estão sendo arrancadas; não parecem saber o que será feito delas. O que será feito?”

“Eu lhe disse ontem à noite! Tolos para uma instituição; os aptos devem ir trabalhar. O estado propõe...” “Quando você diz 'estado', exatamente o que quer dizer, senhor?” “Quero dizer que investiguei este assunto e sou eu quem o dirige.”

“Foi o que eu pensei! O estado geralmente não sabe muito sobre o que seus agentes estão fazendo.”

“Você não está duvidando da minha autoridade, está?”

“Não, mas estou duvidando do seu bom senso.”

“Olhe aqui, meu homem!”

“É melhor não perdermos a calma”, aconselhou Mayo, calmamente. “Você é um servidor do estado, você diz. Então um cidadão tem o direito de falar com você. Vamos deixar o estado fora disso, se você questiona meu direito. De homem para homem, agora! Você está errado.”

A população da ilha tinha formado um círculo próximo ao redor deles.

“Isso chega de conversa vinda de você”, declarou o agente, furioso.

“Você está tentando refazer de uma vez só o que levou três gerações para ser formado”, insistiu Mayo. “Você não pode fazer isso!”

“Observe-me e veja se não posso! Quando transaciono qualquer negócio que sou pago para transacionar, ele é transacionado. Eu poderia ter dado a estas pessoas mais alguns dias se você não tivesse vindo meter a colher aqui. Mas agora pretendo mostrar-lhe! Vou tê-los fora daqui ao anoitecer, e cada barraco queimado até o chão.”

“Quer dizer que você vai descontar a sua raiva nestas pobres pessoas só porque eu tentei dizer algo para ajudá-las?”

“Vou mostrar a você e a eles que não é seguro brincar com o estado quando o estado começa a agir.”

“Oh, que o estado seja condenado!” explodiu Mayo, sentindo seu próprio temperamento fugir-lhe ao controle. “Isto não é o estado — é um caso de soberba de um homem!”

“Saia desta ilha, você e seus intrometidos”, ordenou o agente.

“Sim, quando estivermos prontos para partir, senhor.”

Mayo maravilhava-se com sua própria obstinação. Ele sabia que um temperamento um tanto infantil, um ressentimento despertado pela arrogância do outro homem, tinham considerável participação em sua posição no assunto, mas, por baixo, havia o protesto contra a injustiça do mundo. Ele sentia que estivera tendo uma experiência pessoal com essa injustiça. Sabia que não viera a Hue and Cry para se voluntariar como o defensor desses infelizes, mas, agora que estava ali e se manifestara, era evidente que deveria permitir que fosse forçado a entrar no assunto até certo ponto; o agente declarara, ao alcance de todos, que essa interferência selara o destino dos ilhéus. Polly Candage estava de pé, perto do defensor, e ela olhava para ele com olhos que brilhavam de orgulho por ele e de seu próprio ânimo. Ela estendeu a mão e pegou uma das crianças assustadas.

“Se fui um pouco precipitado em minhas observações, peço desculpas”, suplicou o capitão, ansioso por reparar a falta. “Não pretendo interferir em seu dever. Não tenho o direito de fazê-lo!”

“Você ouve o que seu amigo diz, depois de metê-los nesta confusão”, gritou o agente, para que todos pudessem ouvir. “Agora ele está se preparando para picar a mula e deixá-los em seus apuros.”

“Você está enganado aí, meu amigo. Se está zangado comigo, vá em frente e tenha sua briga comigo. Não me ataque pelos ombros destas pobres pessoas. Isso não é justo.”

“Eles vão embora hoje — e vão porque você se enfiou no assunto. Todos vocês precisam ser mostrados que o estado não tolera intrometidos depois que as ordens foram dadas.” Então ele acrescentou, com malícia: “É melhor vocês montarem esse sujeito em uma vara e o levarem até a praia. O que quer que aconteça com vocês é culpa dele!”

Essa tentativa de transferir a responsabilidade como um método mesquinho de retaliação agitou a raiva de Mayo para valer.

O agente estava lidando com homens que eram pouco mais que crianças em suas avaliações dos assuntos; eles murmuravam entre si e lançavam olhares carrancudos para aquele estranho que levara seus problemas ao clímax.

“Não vou permitir que você se saia bem com esse tipo de conversa, Sr. Agente. Você sabe perfeitamente bem que as pessoas no continente não contratarão esses homens, mesmo que sejam capazes. Todos estão contra eles. Você me disse isso ontem à noite. Eles serão chutados de um lado para o outro — desta cidade para aquela! Serão piores que mendigos. E eles devem arrastar essas mulheres e criancinhas consigo. Vou expor isso!”

“Essa exposição soará muito bem!” zombou o comissário. “Expor um oficial do estado por fazer o que o Governador e o Conselho ordenaram!”

“Sim, ordenaram sob seu conselho!”

“Bem, foi ordenado! E eu serei apoiado! Assim que eu puder chegar a um juiz, prestarei queixa contra você por interferir com um oficial do estado.” Ele jogou fora a ponta de seu charuto. “Escutem, vocês! Saiam desta ilha. Qualquer um que estiver aqui ao pôr do sol — homem, mulher ou criança — será preso e colocado na cadeia por invasão de propriedade do estado. Agora, é melhor todos vocês darem três vivas para o seu amigo intrometido aqui!”

“Eles sempre nos deixaram ficar, mesmo quando nos ameaçaram antes”, choramingou um homem. “Ele derramou gordura no fogo para nós, foi o que ele fez!” Ele apontou o dedo para Mayo.

“É perverso!” ofegou a moça. “Essas pobres pessoas não sabem o que fazem, elas não são responsáveis!”

“Ei, olhem aqui, vocês!” gritou o Sr. Speed, que vinha se contendo com grande dificuldade. “Já está na hora de vocês acordarem!”

O plutocrata da casa flutuante subira da praia e estivera ouvindo. O homem que choramingava começou a falar novamente, e o magnata da ilha deu-lhe um tapa sonoro; era evidente que este homem, que morara na melhor casa, fora uma figura de autoridade na tribo.

“Tenho vergonha de todo esse bando de vocês”, vociferou ele. “Aqui está um cavalheiro que nos defendeu. Ele é o único homem que já ouvi dizer uma palavra de apoio para nós ou tentar nos ajudar! Ninguém mais no mundo fez isso! Tirem seus chapéus e agradeçam a ele!”

“Estou metido nisso!” sussurrou Mayo para a moça. “Pelo amor de Deus, o que vou fazer?”

“Faça tudo o que puder — por favor, Capitão Mayo!”

Ele deu um passo à frente. O agente começou a gritar.

“Espere, senhor!” interrompeu o capitão com um ar de oficial de convés que impunha obediência e atenção. “Você já deu sua palavra! Agora eu vou dar a minha. Escutem-me, pessoal! Não sou o homem que coloca meus amigos em apuros e depois sai correndo e os deixa para trás. Todos vocês que estão sendo expulsos pelo estado — todos os homens, mulheres e crianças que estão prontos para trabalhar — venham ter comigo no continente, em Maquoit, com o que puderem trazer em seus botes. Estarei esperando por vocês lá. Meu nome é Boyd Mayo.”

“Eu mesmo me lembrarei desse nome”, declarou o agente zangado. “Você verá que não pode interferir em um assunto de estado.”

“Você soltou essas pessoas no mundo, e eu vou dar-lhes uma mão quando chegarem onde estou. Se você escolhe chamar isso de interferência, venha! Isso dará uma bela história no tribunal!”

Ele não parou para apertar as mãos sujas que lhe foram estendidas. Ele abriu caminho entre a multidão, e seu grupo o seguiu.

“Encontrem-me lá no continente, rapazes”, ele gritou de volta com uma cordialidade de marinheiro que eles entenderam. “Veremos o que pode ser feito!”

“Bem, e o que, diabos, pode ser feito?” rosnou o Capitão Candage, acompanhando o passo do defensor.

“Não sei, senhor.”

“Você não pode fazer nada mais sensato com essas criaturas do que faria com casos combinados de varíola e coceira de sete anos.”

“Pai!” gritou a moça, com tom de reprovação.

“Eu sei do que estou falando! Isso é uma estupidez danada!”

“O Capitão Mayo é um homem nobre! Você deveria ter vergonha de se omitir quando sua ajuda é necessária.”

“Não o culpo por ter respondido à altura àquele velho traste enviesado, senhor”, admitiu o velho capitão. “Eu mesmo queria ter feito isso. Mas...”

“Receio não merecer muitos elogios”, disse Mayo. “Eu estava revidando aquele agente. Ele me deixou furioso. Tenho tendência a agir por impulso assim.”

“Eu também, senhor — e sempre me arrependo disso. É melhor darmos o fora antes que aquela tribo de tontos caia em cima de nossas costas.”

“Oh, de jeito nenhum! Dei minha palavra, senhor. Devo ir até o fim.”

“Mas o que você vai fazer com eles?”

“Bendito se eu sei agora! Quando estou realmente furioso, não paro para pensar.”

“Suponha que eu vá encontrá-los por você e diga que você teve uma morte repentina na família e foi chamado para longe? Eles não saberão a diferença”, ofereceu o Capitão Candage. “E uma morte real seria uma sorte para você em comparação com o que está reservado se você ficar por aqui.”

“Eu ficarei por aqui, senhor. Não posso me dar ao luxo de ter vergonha de mim mesmo.”

“Acho que você já disse o suficiente, pai”, declarou Polly Candage, com vigor.

“Já ouvi falar de adotar famílias antes”, disse o irredutível, “mas nunca ouvi falar de tal operação em atacado como esta. Acho que vou subir em uma árvore.”

Eles embarcaram no bote. O Sr. Speed e Dolph remaram, trocando olhares e não se arriscando a oferecer qualquer comentário.

“Você poderia leiloá-los para fazendeiros como espantalhos”, continuou o Capitão Candage, ainda mastigando o tópico como um cão rói um osso. “Eles não servem para trabalhos mais ativos do que isso.”

“Eu espero que você perdoe meu pai por falar desse jeito”, suplicou Polly Candage. Ela ergueu os olhos marejados para o olhar compreensivo do jovem ao seu lado. “Ele não entende isso da maneira que eu entendo.”

“Talvez eu mesmo não entenda exatamente”, protestou ele.

“Mas o que você está fazendo por eles?”

“Eu ainda não fiz nada, exceto criar problemas para eles. Agora preciso fazer algo para me redimir.”

“Há uma recompensa para as boas ações, Capitão Mayo, quando você ajuda aqueles que não podem ajudar a si mesmos. Eu acredito no que a Bíblia diz sobre lançar o pão sobre as águas. Ele retornará para você um dia!”

Ele sorriu para o entusiasmo dela de forma tolerante, mas estava longe de perceber, então, que aquela linda moça, cujos olhos eram tão brilhantes por trás das lágrimas e cujas faces estavam coradas com o ardor de sua admiração, estava falando com ele com a língua de uma sibila.

XIII ~ UM CAPITÃO DE FLOTILHA HUMANA

Oh, o que é isso que cheira tanto a alcatrão? Não tenho nada na casa que cheire a alcatrão. É um marinheiro alcatroado, lá embaixo, Chute-o para fora na neve! Doo me axna, dinghy a-a-a ma! Doo me ama-day! --Doo Me Ama.

O Capitão Candage rosnou e reclamou tão persistentemente durante a viagem ao continente que Mayo esperou ser abandonado pelo capitão rabugento no momento em que a proa do bote tocasse a praia. Mas o capitão veio seguindo em seus calcanhares quando Mayo partiu pela única rua de Maquoit.

“Posso ir com você?” perguntou a moça ao seu lado. “Posso ver que você está pensando em algum plano. Espero muito poder ir!” Ele lhe deu o braço como resposta.

“Não venho a este porto há algum tempo, Capitão Candage, mas na última viagem que fiz aqui, se bem me lembro, um homem chamado Rowley, que administra o armazém geral, era o primeiro vereador.”

“É agora”, grunhiu o capitão. “Eles pegaram o hábito de elegê-lo e parece que não conseguem parar.”

Quando chegaram em frente ao armazém, o Capitão Candage assumiu a liderança.

“Posso muito bem entrar e apresentá-lo, seja lá o que você queira dele. Conheço Rufe Rowley tão bem quanto qualquer um consegue conhecê-lo.”

O Sr. Rowley inclinou-se sobre seu balcão e reconheceu a apresentação com um lampejo de amabilidade iluminando sua reserva. Mas seu sorriso pálido desapareceu em vacuidade e ele coçou a barba do queixo nervosamente quando Mayo informou-lhe que convidara o povo despejado de Hue and Cry a desembarcar no continente naquele dia.

“Como supervisor dos pobres nesta cidade, não posso permitir isso, Capitão Mayo!”

“Essas pessoas precisam desembarcar em algum lugar.”

“Sim, sim, claro!” admitiu o vereador Rowley. “Mas não aqui! Devo satisfações aos contribuintes.”

“E suponho que os oficiais de todas as outras cidades por aqui dirão o mesmo?”

“Sim, sim! Claro.”

“Você ainda é dono daquele velho galpão de peixes?” perguntou o capitão, após hesitar por alguns momentos; “a fábrica de conservas de sardinha?”

“Sim, senhor.”

“Você não está usando agora?”

“Não, senhor.”

“Não está lhe rendendo nenhuma receita, eh?”

“Não, senhor.”

“Então você deveria estar disposto a alugar bem barato — contrato mensal!”

“Depende de para que estou alugando.”

“Quero acomodar aquelas pessoas pobres lá até que eu possa arranjar algo mais para elas, seja mostrar o assunto ao estado, ou conseguir trabalho para elas, ou algo assim! Você vai me deixar tê-lo?”

“Não, senhor!” declarou o vereador, com vigor.

“É apenas um aluguel mensal, repito. Você pode impedi-los de conseguir residência de indigentes aqui, caso nenhum dos meus planos funcione.”

“Não os quero aqui — não os terei! Considero os contribuintes primeiro!”

“Você nunca considera a decência humana comum e normal?” rugiu o Capitão Epps Candage.

Foi uma interrupção surpreendente. Sua violência tornou-a assustadora. Mayo virou-se e olhou espantado para esse novo recruta.

O Capitão Candage puxou sua carteira gorda do bolso e bateu-a no balcão com um estrondo que fez os olhos do vereador saltarem.

“Você me conhece, Rowley! Temos o dinheiro para pagar pelo que pedimos e contratamos. Aquelas pessoas não são indigentes enquanto estivermos por trás delas. Estamos trazendo-as para a costa, aqui, porque é certo ajudá-las a se colocar de pé. Espere, Capitão Mayo; deixe-me falar com Rowley! Ele e eu sabemos como ser sociáveis em uma conversa de negócios!”

No entanto, o Capitão Candage parecia estar buscando sociabilidade berrando ferozmente, batendo seu punho duro no balcão. Mayo não se surpreendia facilmente com os caprichos temperamentais de velhos caranguejos da costa como o Capitão Candage, mas essa conversão repentina realmente lhe tirou o fôlego.

“Quando um amigo próximo e particular meu, como este que acabei de apresentar, vem a você todo educado e pede um favor, quero polidez geral ou saberei o motivo do porquê”, gritou o intermediário. “Olhe aqui, Rowley, você finge ser um tipo terrível de homem cristão. Quando estive preso no nevoeiro aqui, frequentei reuniões de oração, e ouvi você gritar como um dos bons sobre a graça da morte e a salvação gratuita. Nunca ouvi você dizer muito sobre caridade viva que custa alguma coisa!”

“Afirmo ser um homem cristão”, vacilou Rowley, recuando do punho que batia.

“Então aja como um. Se não o fizer, que se danem, eu vou expô-lo como um pagão de West Quoddy a Kittery!”

“Deus te abençoe, meu pai!” sussurrou a moça, aconchegando-se perto do ombro do capitão.

“Além disso, Rowley, além de lhe pagar um aluguel justo por aquele velho galpão de peixes, compraremos comida para aqueles pobres diabos em sua loja.”

O Sr. Rowley acariciou sua barba e piscou.

“Eles estão como sacos de pregos vazios, e vão comer um bocado de comida, e temos dinheiro para pagar!”

“Eu tenho minha própria carteira”, declarou o Capitão Mayo. Ele não se recuperara de seu espanto com a mudança repentina do Capitão Candage. Depois de todo o rosnado carrancudo, ele ficara tentado a pedir ao velho capitão que parasse de segui-lo em sua missão de misericórdia.

“Ouviu isso, Rowley? Este é o melhor amigo que tenho em todo o mundo! Trouxe-o aqui! Apresentei-o a você! Aqui está minha filha! Interessada também! Agora, o que quer que você diga, é melhor ter certeza de que escolhe as palavras certas.”

“Bem, estou sempre pronto para ajudar amigos”, declarou o Sr. Rowley.

“Sim, e fazer negócios em tempos de escassez”, acrescentou o Capitão Candage.

“Estou disposto a mostrar caridade cristã àqueles que são pobres e oprimidos. Mas qual é o sentido de fazer isso neste caso?”

“Muitas pessoas nesta vida precisam de um choque forte antes de se voltarem e fazerem algo de si mesmas”, disse o Capitão Mayo. “As pessoas em Hue and Cry tiveram seu choque. Acredito que, com os conselhos e a administração certos, elas podem se tornar autossuficientes. Elas foram deixadas à própria sorte até agora, senhor. Fui puxado para isso de repente, e agora que estou dentro, estou disposto a dedicar um pouco de tempo e esforço para ajudá-las. Não tenho muito mais o que fazer agora”, acrescentou, amargamente.

“Venham para o meu escritório nos fundos”, convidou o Sr. Rowley.

“Muito obrigado — faremos isso”, disse o Capitão Candage. “Você é um homem brilhante, Rowley, e eu sabia que você veria o ponto quando ele fosse apresentado a você de forma correta e educada.”

O negócio no escritório dos fundos logo foi resolvido satisfatoriamente, e um dia atarefado seguiu-se àquela manhã memorável. Quando a noite caiu, os homens, mulheres e crianças que um estado benevolente — através de seu agente de “negócios diretos” — soltara no mundo para se virarem sozinhos, foram localizados em uma única colônia no espaçoso galpão de peixes.

Alguns fogões de segunda mão, alugados de Rowley, serviram para cozinhar a comida comprada de Rowley, e as famílias se agruparam em cômodos e atrás de divisórias e arrumaram os poucos pertences que haviam salvado de seus lares. Até mesmo o cidadão que a princípio resolvera flutuar no seio das profundezas juntou-se à colônia.

“É mais sociável”, explicou ele, “e minha esposa não gosta de abandonar seus vizinhos. Além disso, conheço o bando todo, raiz e ramo, caprichos, noções e tudo, e eles não podem me enganar. Vou ajudar a comandá-los!” Ele tornou-se um tenente de valor.

Essa vida comunitária sob um teto melhor do que qualquer um que já os abrigara antes em suas vidas parecia deliciar os refugiados. Velhos e jovens, eles desfrutavam das novas redondezas com o entusiasmo de crianças. Eles nunca tinham pensado no amanhã em sua existência em Hue and Cry. Tendo comida e abrigo nesta nova morada, não se preocupavam com os problemas do futuro. Eles vagavam por seu domínio com a satisfação de príncipes em um palácio. Não mostravam qualquer curiosidade sobre o que seria feito com eles. Não faziam perguntas ao Capitão Mayo e seus associados. Eles o observavam com uma mudez e uma espécie de gratidão canina quando ele se movia entre eles. Ele mesmo tentou fazer perguntas a alguns dos homens mais inteligentes, esperando que demonstrassem alguma iniciativa. Eles lhe disseram com branda serenidade que deixariam tudo com ele.

“Mas o que vocês vão fazer por si mesmos?”

“Exatamente o que você disser. Você é o chefe. Mostre-nos o trabalho!”

Ficou claro para ele que ele assumira um contrato maior do que planejara. Rowley e os contribuintes no continente olhavam para ele de um lado, e seus dependentes do outro.

“Parece que cabe a mim — a nós, quero dizer”, ele disse à moça, com pesar, quando estavam a caminho da casa da viúva naquela noite. “Cabe a mim, acima de tudo, porém, pois sou a parte culpada — puxei você e seu pai para dentro. Estou preso aqui até que possa pensar em algum tipo de plano.”

Ela estivera trabalhando o dia todo fielmente ao seu lado, uma ajudante diplomática e incansável. Ele estaria perdido a respeito das mulheres e crianças sem a ajuda dela, e disse-lhe isso com gratidão.

“Tanto minhas mãos quanto meu coração estão com você nisso, Capitão Mayo. E eu sei que você pensará em alguma saída para eles — assim como você nos ajudou a sair da escuna depois que tínhamos desistido de toda esperança.”

“Sair da escuna foi meramente um truque de marinheiro com as mãos, Srta. Candage. Não acredito que serei muito bom em transformar a natureza humana. Tenho demais dela em mim mesmo, e o material lá naquele galpão de peixes deixaria confuso até um doutor em divindade.”

“Oh, você pensará em algum plano”, ela garantiu-lhe, com grande lealdade. “Se você me permitir ajudar da minha pobre maneira, ficarei orgulhosa.”

“Não vou dizer o que penso de sua ajuda; poderia soar como conversa mole. Mas deixe-me dizer que você tem um grande pai!” ele declarou, sinceramente; mas, embora tentasse manter o rosto sério e o tom firme, ele olhou para ela e imediatamente perdeu o controle. A alegria estava misturada com lágrimas em seus olhos.

“Ele não é engraçado?” ela ofegou, e eles pararam em seus passos e riram em coro com o fervor sincero da juventude; aquele riso aliviou a tensão daquele dia angustiante.

“Não estou rindo do seu pai — você entende isso!” ele garantiu a ela.

“Claro que não está! Eu sei. Mas você está começando a entendê-lo, assim como eu o entendo. Ele é apenas uma criança grande sob toda sua fanfarronice. Mas ele me deixa tão zangada às vezes!”

“Não se pode saber muito sobre um ianque até que ele saia de sua concha, e concordo com você quanto às qualidades irritantes do Capitão Candage. Eu mesmo não sou muito paciente, quando sou provocado! Mas depois disso, ele e eu nos daremos muito bem.”

Eles caminharam até a casa.

“Boa noite”, disse ele à porta.

“E você ainda não tem um plano?”

“Talvez algo venha a mim em um sonho.”

O sonho não lhe veio, pois seu sono foi o repouso profundo da exaustão. Ele desceu ao amanhecer e mergulhou no mar, e enquanto caminhava de volta em direção à casa, uma ideia e uma convicção se apresentaram, de mãos dadas. A convicção já o acompanhava — a de que não poderia desistir naquele momento e deixar aquelas pobres pessoas à própria sorte, por mais ansioso que estivesse para cuidar de seus próprios negócios; seu empreendimento era quixotesco, mas se o abandonasse naquela conjuntura, uma história estranha o perseguiria ao longo da costa, e ele sabia que tipo de estima os marinheiros dedicavam aos desertores.

No entanto, no fundo do coração, confessou que não era meramente o orgulho de marinheiro que o estimulava. O desamparo patético da tribo de Hue and Cry apelava com uma insistência que ele não podia negar. Ele os compreendia como compreendia colônias semelhantes ao longo da costa — crianças que um mundo indiferente classificava como homens e tratava com injustiça impensada! O trabalho era prescrito para eles, como para os outros! Mas eles não sabiam como trabalhar ou como fazer seu trabalho render.

A ideia que lhe veio com a convicção de que devia ajudar aquele povo dizia respeito a trabalho para eles.

Após o café da manhã, ele confiou no Capitão Candage, para o deleite suave do capitão por ser considerado.

— Espero que seja algo em que possamos incluir Rowley — confessou o capitão. — Não me importo com aquelas criaturas — acrescentou, assumindo rispidez. — Não quero que insinuem por aí que estou ficando mole na velhice. Mas eles me dão uma desculpa para atormentar Rowley.

— Para levar adiante o plano que esbocei, precisamos de algum tipo de embarcação — disse Mayo.

— Com certeza! Iremos direto ao Rowley. Ele saberá. Se há algo nesta região em que ele não tenha colocado a mão de uma forma ou de outra — nota promissória, hipoteca, dívida que lhe devem ou que esperam dever, então não vale a pena notar.

O Sr. Rowley ouviu em seu escritório nos fundos. Ele alisou a barba satisfeito e irradiou seu prazer ao ver a perspectiva de fazer outro negócio lucrativo com homens que pareciam ser confiáveis e enérgicos.

— Eu tinha uma hipoteca sobre a Ethel and May quando o Capitão Tebbets partiu para a vida superior — informou-lhes. — A viúva desistiu da escuna quando executei a hipoteca, pois ela não desejava se... hã... incomodar com propriedades de embarcações. Então, eu a tenho livre e desembaraçada, sem que me tenha custado uma soma terrível! Terei o prazer de fretar para vocês, senhores, por um valor razoável. Além disso, vendo que a indústria contribui para a retidão, como nos dizem, seu plano de fazer com que aquelas criaturas trabalhem pode ser bom, desde que vocês usem um porrete nelas com frequência suficiente.

— Pelo que ouvi de sua conversa na reunião de oração, eu diria que você aconselharia a persuasão moral — sugeriu o Capitão Candage, claramente apreciando esta oportunidade de “atormentar”.

— Eu uso o bom senso, seja na religião, na política ou nos negócios — rebateu Rowley, exibindo um pouco de calor não cristão.

— É aconselhável lubrificar o bom senso com um pouco de caridade, e então a máquina não rangerá tanto.

— Eu não me comprometeria a colocar um cação no meu colo ou a niná-lo com um hino de poejo, Capitão Candage.

— Acho que podemos mostrar resultados sem o porrete — interpôs Mayo, com a intenção gentil de suavizar o tom daquela réplica.

O balconista chamou o Sr. Rowley para a loja para tratar de algum assunto de especial importância, e o vereador retirou-se, pisando com bastante força nos calcanhares.

— O velho Adão meio que se incendeia através de sua casca de vez em quando — comentou Candage.

— É melhor fecharmos o preço do afretamento, senhor, antes que você comece a atacá-lo demais — aconselhou o jovem.

— Eu simplesmente não consigo evitar de arpoá-lo — confessou o capitão. — Ele é um maldito hipócrita, trapaceando viúvas e órfãos por escolha porque eles não têm coragem de reagir, e eu sempre gostei de lutar contra gente como ele. Ele e eu estamos destinados a uma briga. Mas vou me segurar o melhor que puder até que o tenhamos vencido.

O plano de Mayo envolvia o empreendimento modesto de fretar uma embarcação adequada para a pesca. Não havia material para pescadores de banco reais na colônia de Hue and Cry, mas a maioria dos homens serviria para pescar peixes de fundo e de rocha a algumas milhas da costa. Era o único esquema que proporcionaria emprego para todo o grupo de dependentes; homens mais velhos e decrépitos, e mulheres e crianças, poderiam cavar e descascar mariscos para servir de isca. A fim de encorajar a ambição e a independência entre os homens mais aptos da colônia, Mayo sugeriu que os pescadores fossem contratados por participação nos lucros, e o Capitão Candage concordou.

Quando o Sr. Rowley voltou ao escritório, encontrou seu igual à sua espera na pessoa do Capitão Candage, preparado e pronto para fechar um negócio firme. Ao final de uma hora, os papéis representando o fretamento da Ethel and May foram entregues.

— Acho que é um bom trabalho — afirmou o capitão, quando ele e Mayo estavam do lado de fora da loja de Rowley. — Tomei a decisão de deixar a pobre velha Polly ir para o baú de Davy Jones. Escrevi aos expedidores e aos consignatários da madeira ontem à noite. Se eles quiserem, que venham buscá-la. É melhor eu pescar pelo resto desta temporada! — Ele olhou para o Capitão Mayo com olhos nos quais a indagação era quase melancólica. — É claro que você pode contar comigo para garantir que receba sua parte, senhor, exatamente como se estivesse a bordo.

— Eu vou a bordo, Capitão Candage.

O velho parou imóvel e encarou-o.

— Não tenho nada à vista agora. Você precisa de ajuda para começar a coisa direito. Não vou embora e deixar aquele bando em suas mãos até que possa ver como o plano funciona. Vou como imediato com você.

— De jeito nenhum você vai como imediato comigo — objetou Candage. — Você irá como capitão e eu terei orgulho de receber ordens suas, senhor.

Eles estavam discutindo amigavelmente sobre esse ponto quando retornaram à casa da viúva. Polly Candage resolveu o impasse.

— Por que não ter dois capitães? Isso será algo totalmente novo ao longo da costa!

— O restante já é novo o suficiente sem isso — disparou seu pai. — Mas considerando o tipo de tripulação que temos, acho que dois capitães não é exagero! Serei o capitão número dois e sei o suficiente para manter meu lugar.

— Não acho que você e eu voltaremos a brigar muito! — sorriu o Capitão Mayo, estendendo a mão e recebendo o aperto vigoroso de Candage. — Vou começar algumas cartas, e irei agora escrevê-las. Até que essas cartas me tragam algo como um emprego, estou com você, senhor.

O Capitão Candage caminhou em direção ao depósito de peixes com sua filha.

— Polly — declarou ele, após um silêncio constrangedor —, eu estava completamente errado no seu caso, menina. Aqui e agora, dou-lhe seus papéis de liberação. Navegue para casa assim que quiser. Não farei perguntas! Não é da minha conta!

— Meus pequenos assuntos devem ser sempre da sua conta, pai — respondeu ela. — Eu te amo. Eu obedecerei a você.

— Mas não vou dar mais nenhuma ordem. Não sirvo para comandar nas águas onde você está navegando, querida Polly. Então corra para casa e seja minha boa menina! Sei que você será!

— Mudei de ideia sobre ir para casa... agora mesmo! — Seus olhos encontraram os dele francamente. — Escrevi para a Tia Zilpah para que me enviasse algumas das minhas roupas. Pai — havia um espanto feminino, bastante indignado, em seu tom —, você sabia que não há uma única mulher de Hue and Cry que saiba usar uma agulha?

— Eu poderia ter adivinhado, a julgar pela aparência de suas crianças e de seus homens!

— Você percebe que aquelas crianças nem sequer sabem o A-B-C?

— Nunca ouvi falar de nenhum professor universitário sendo criado naquela ilha.

— Vou tirar férias da chapelaria, agora que estou aqui embaixo. Vou mostrar àquelas mulheres como costurar e cozinhar, e ensinarei aquelas crianças a ler. É o correto... meu dever! Eu não poderia ir para casa e ser feliz sem fazer isso!

— Chamar isso de férias é dar um nome educado, Polly.

— Se você pudesse ter visto os olhos delas, pai, quando prometi ajudá-las, você não se perguntaria por que estou ficando.

— Eu não me pergunto, minha menina Polly! Se você tivesse ido embora e... e nos deixado — Mayo e eu —, eu teria ficado muito decepcionado com você! Mas eu realmente nunca pensei muito sobre sua partida... porque eu sabia que você não iria até ter ajudado o máximo que pudesse. — Ele passou o braço em volta dela. — Tenho me preocupado por ter trazido você. Mas acho que Deus tinha tudo planejado para nós. Eu não conhecia minha própria filha como deveria ter conhecido. Eu tinha estado fora demais. Mas agora estamos meio que crescendo... juntos... meio que isso, não é, querida Polly?

Ela colocou os braços em volta do pescoço dele e respondeu-lhe com um beijo.

XIV ~ RUMOS PARA UM NOVO CURSO

E agora, meus bravos rapazes, vem o melhor da diversão, É virar o navio e reduzir as gáveas de uma só vez; Então subam, gávea, enquanto o leme desce, E recolham suas velas enquanto a verga do mastro principal gira. --La Pique.

Ao final daquela semana, a Ethel and May havia entregue no mercado sua primeira carga de peixes e seus capitães haviam dividido suas primeiras partes. Mayo decidiu que os resultados estavam à altura dos retornos modestos. Ele estava contemplando a regeneração da tribo de Hue and Cry. No caso deles, tinha sido o toque certo na hora certa. Por anos, suas esperanças estiveram famintas por uma chance de dar certo. Agora, a gratidão os inspirava e um desejo quase insano de mostrar que não eram inúteis os impelia ao esforço supremo. O fermento da psicologia da independência estava fazendo seu trabalho.

O povo de Hue and Cry, por três gerações, fora levado a sentir que eram párias. Quando traziam seus peixes ou mariscos para o continente, os compradores eram ao mesmo tempo injustos e desdenhosos, como se estivessem lidando com crianças pedintes que deveriam esperar apenas uma dádiva caridosa por seu produto, em vez de um preço de homem real. Os preços adequavam-se ao humor dos compradores de peixe no dia. Os ilhéus nunca tinham sido admitidos no nível de negócios diretos como outros pescadores. Tinham sempre aceitado humildemente o que lhes era oferecido — fosse moeda ou insultos. Portanto, seu trabalho nunca lhes rendera valores plenos.

Aqueles que compravam faziam os pobres coitados sentirem que constituía um favor especial aceitar seus peixes a qualquer preço.

Eles pareciam ter tomado posse do que era seu naquele primeiro dia no mercado, quando a Ethel and May fez seu volume no cais do mercado de peixes da cidade. Homens autoritários representavam-nos nas negociações com os compradores. A tripulação escondia seus sorrisos encantados atrás de mãos ásperas quando o Capitão Epps Candage gritava com os licitantes que estavam abaixo das cotações de mercado; eles olhavam com admiração para o Capitão Mayo quando ele lia de folhas impressas — sendo a impressão um mistério que nunca tinham dominado — e calculava com um lápis pronto e até corrigia o comprador, que reconhecia seu erro e humildemente se desculpava. Chega de barganhas servis às portas dos mercados de peixes!

De volta para casa, as mulheres, as crianças e os idosos tinham um bom teto sobre suas cabeças; os pescadores tinham o convés de uma escuna arrumada sob seus pés. A preguiça partiu deles. Após anos de opressão, haviam encontrado sua oportunidade. Homens mais experientes teriam achado esta nova fortuna apenas modesta; esses homens agarravam-na com entusiasmo juvenil.

Eles estavam fora do convés da escuna e em seus botes quando pescadores mais cautelosos agarravam-se ao castelo de proa. Em sua terceira viagem, devido a essa ousadia, pegaram o mercado da cidade vazio em uma quinta-feira e fizeram uma limpa.

— Disseram-me que São Pedro começou com essa ideia de sexta-feira porque ele estava no negócio de peixes — afirmou o Capitão Candage, separando o dinheiro das partes. — Tudo o que tenho a dizer é que ele fez um bom trabalho.

O Sr. Speed, navegando como imediato, sempre encontrava pronta obediência.

Dolph, o de nariz sujo, nunca ouvira antes tal elogio como o que era derramado pelos homens famintos sobre as tigelas que ele enchia.

O Capitão Mayo, fazendo as contas um dia, ficou honestamente surpreso ao descobrir que quase um mês havia se passado desde que ele desembarcara em Maquoit.

— Isso mostra como um homem se interessa quando é pego e lançado em algo — disse ele a Polly Candage.

— Você está fazendo homens de verdade deles, Capitão Mayo! — Ela acrescentou, com uma risada: — E você me disse que não tinha nenhum jeito para transformar a natureza humana!

— Eles estão fazendo isso sozinhos.

— Não direi nada para ferir sua modéstia, senhor.

— Agora preciso acordar. Preciso! Não há nada que valha a pena no lucro tanto para seu pai quanto para mim. Quero que ele tenha o negócio sozinho. Haverá um ganho justo para ele. Eu não pretendia ficar aqui tanto tempo. Acho que meio que me esqueci. — Ele continuou com seus números.

— Mas eu sabia que você não poderia esquecer — aventurou-se ela, após uma pausa.

Ele olhou para cima e encontrou uma expressão estranha no rosto dela. Havia simpatia e amizade francas em seus olhos. Ele tinha revolvido pensamentos amargos sozinho, lutando com um problema que não conseguia dominar. Em uma emoção repentina — em uma entrega de si mesmo não premeditada — ele estendeu a mão para alguém em quem confiar. Ele precisava de conselho em uma questão em que nenhum homem poderia ajudá-lo. Esta garota era a única que poderia entender.

— Pode haver cartas me esperando na cidade... na cidade grande onde posso ser esperado — disparou ele. — Não tive coragem de enviar nenhuma. — Ele hesitou e então cedeu ao seu impulso. — Senhorita Polly, não tenho o direito de incomodá-la com meus assuntos. Posso parecer impertinente. Mas você é uma garota! Uma garota costuma sentar-se e pensar em todas as dificuldades — quando ela não recebe cartas — e então fazer concessões?

— Tenho certeza que ela faz... quando ela ama alguém.

— E, no entanto, pode parecer muito estranho. Estou preocupado fora de mim. Não sei o que fazer.

Ela ficou em silêncio por um longo tempo, olhando para longe dele e torcendo as mãos no colo; ela estava claramente buscando em sua alma por inspiração... e coragem!

— Você acha que ela entenderá a situação? — insistiu ele.

— Ela deveria.

— Mas nenhuma palavra minha! Silêncio por semanas!

Sua voz era baixa, mas ela evidentemente havia encontrado coragem. — Eu não ouvi uma única palavra... nem uma carta chegou para mim... desde que deixei a casa da minha tia.

— Você se sente segura de que ele a ama da mesma forma? Você não precisa de cartas?

— Oh, não! Eu não preciso de cartas.

— Mas no meu caso?

— Eu pude ver que ela ama você muito. Ela se destacou diante de todos eles, Capitão Mayo. Esse tipo de garota não precisa de cartas.

— Você me deu nova coragem. Acredito que você entende exatamente como uma garota se sentiria. Você conhece um ianque! Ele espera encontrar um amigo exatamente onde o deixou, em termos de afeição.

— Uma garota não precisa ser ianque para ser assim em seu amor.

— Não posso me esgueirar até ela pelos fundos... não posso fazer isso! — exclamou ele. — Não quero me envergonhar. Não quero trazer mais problemas para ela. Você não acha que ela esperará por mim até que eu possa ir... e ir da forma certa!

— Ela esperará por você, senhor. É da natureza das mulheres esperar... quando elas amam.

— Mas não posso pedir que ela espere para sempre. É por isso que devo ir embora e tentar me recuperar. — Ele cerrou os dentes, e os músculos do maxilar ficaram rígidos. — Acredito que um homem pode conseguir o que busca se estiver com o espírito certo, Senhorita Polly. — Ele saiu da varanda e a deixou.

O nevoeiro estava denso na costa e no mar naquele dia, mantendo a Ethel and May no porto. Ele desapareceu na névoa sufocante, e a garota sentou-se e encarou aquele vazio por um longo tempo.

Mayo remou até a escuna, que estava ancorada na rada do porto. Ele estava levando suas contas ao Capitão Candage.

De pé e virado para a proa enquanto remava, ele se deparou repentinamente com um grande iate a vapor que havia entrado na enseada através do nevoeiro e estava ancorado em seu curso. Era o Sprite, e ele havia feito amizade com seu capitão naquele verão, encontrando-o em portos onde o Sprite e o Olenia haviam sido vizinhos na ancoragem. Ele parou de remar e deixou o bote derivar. Notou que a bandeira azul estava hasteada na verga de estibordo do mastro principal, anunciando a ausência do proprietário, e entendeu que poderia chamar o capitão sem envergonhar aquele cavalheiro. Um dos tripulantes estava colocando capas nas partes de latão na proa.

— Cumprimentos ao Capitão Trott, e diga-lhe que o Capitão Mayo está na escada de portaló.

O capitão apareceu prontamente, respondendo ao chamado antes que o marinheiro tivesse se movido. — Venha a bordo, senhor.

— Não vou incomodá-lo tanto, capitão. Posso fazer minha pergunta da mesma forma daqui. Você sabe de alguma boa abertura para um homem do meu porte?

O capitão do Sprite veio até o parapeito e não respondeu prontamente.

— Deixei o Olenia e estou procurando algo.

O Capitão Trott dirigiu-se ao portaló. — Oh, você não precisa se incomodar em subir, senhor.

— Eu preferiria, Capitão Mayo. — Depois de descer, ele agachou-se na plataforma ao pé da escada e manteve o bote perto, segurando na amurada. — O que você está fazendo para si mesmo nos dias de hoje?

Mayo não tinha gosto por uma longa história. — Estou esperando para conseguir algo — respondeu ele.

O Capitão Trott não demonstrou qualquer presteza em chegar ao assunto que Mayo havia abordado. — O tempo fechou bastante, não é? Recebi ordens para esperar aqui pelos meus patrões; eles estão visitando alguma grande propriedade rio acima.

— Mas sobre a chance de um emprego, capitão!

— Escute aqui! Que tipo de desavença você teve com o proprietário do Olenia?

Mayo abriu a boca e depois a fechou prontamente. Ele não podia revelar a natureza do problema entre ele e seu antigo empregador.

— Tivemos palavras — disse ele, rigidamente.

— Sim, imagino! Mas o resto!

— Isso é tudo.

— Você não precisa me dizer mais do que deseja, é claro — disse o Capitão Trott. — Mas preciso dizer que o Sr. Marston saiu com algumas conversas bastante ferozes para um proprietário fazer. Ele fez um negócio bastante sério ao espalhar essa conversa. Eu não percebi que você é tão importante no mundo, Mayo — acrescentou, secamente.

— Não sei o que ele está dizendo.

— Você não o deixou na calada da noite... sem aviso, ou algo do tipo?

— Foi um acidente.

— Espero que você tenha uma boa história para se defender, Capitão Mayo, pois eu gostei muito de você desde que nos conhecemos pela primeira vez. O que há por trás disso?

— Não posso lhe dizer.

— Mas você pode dizer a alguém... alguém que possa esclarecer as coisas para você, não pode?

— Não, Capitão Trott.

— Bem, você sabe o que aconteceu no seu caso, não sabe? — O capitão do Sprite exibiu um pouco de irritação por ser excluído da confiança de Mayo.

O jovem balançou a cabeça.

— Marston alega que você se amotinou e o abandonou... escapou na calada da noite... largou seu emprego em alto mar... deixou-o trabalhar até Nova York com uma tripulação reduzida... o imediato como capitão.

— Isso é uma mentira infernal!

— Então venha à frente e desmascare-o.

— Não posso falar sobre o caso. Tenho minhas razões... boas razões!

— Sinto muito por você, Mayo. Você está acabado no jogo do iatismo, receio. Ele vai colocá-lo na lista negra em todos os iates clubes, de Bar Harbor a Miami. Ouvi meus patrões falando sobre isso. Ele parece ter um rancor terrível... mais do que um grande homem costuma se preocupar no caso de um capitão.

Mayo colocou seu remo contra a borda da plataforma e afastou-se. O capitão chamou por ele, mas ele foi instantaneamente engolido pelo nevoeiro e não respondeu.

A bordo do Ethel and May, sua tripulação maltrapilha, porém animada, preparava as iscas, fisgando amêijoas nos anzóis de galhada e enrolando as linhas em baldes. Os homens sorriram em saudação quando ele saltou sobre a amurada. Ele os olhou de cara feia; lançou até um olhar carrancudo ao Capitão Candage quando encontrou este último no convés de ré.

“Sim, senhor! Eu vejo como é! O senhor está ficando terrivelmente farto desse jogo de dois centavos aqui”, disse Candage, melancolicamente. “Eu não o culpo. Nós não estamos no seu nível aqui, Capitão Mayo.” Ele pegou os papéis que o jovem lhe estendeu. “Suponho que esta seja a última vez que dividiremos, o senhor e eu. Vou sentir uma falta diabólica do senhor. Eu preferiria não ganhar nada e deixar que o senhor ficasse com tudo a perdê-lo. Mas, é claro, não adianta argumentar ou insistir.”

Mayo foi sentar-se na amurada, cruzando os braços, e não respondeu. O velho capitão caminhou pesadamente para a proa, com a cabeça baixa e as mãos apertadas atrás das costas. Quando ele retornou, Mayo levantou-se e colocou a mão sobre o ombro do velho.

“Capitão Candage, por favor, não me entenda mal. Neste momento, sinto que os únicos amigos que tenho no mundo estão aqui. Não ligue para o modo como agi agora há pouco quando cheguei a bordo. Tive muitos problemas — estou tendo mais deles. Não vou deixá-lo ainda. Quero ficar a bordo até que eu possa pensar sobre tudo isso — possa recuperar o meu controle. Isto é, se o senhor estiver satisfeito em que seja assim!”

“Satisfeito! Por todos os diabos!” explodiu o Capitão Candage. Ele pegou o bote e remou até a costa. Encontrou sua filha olhando para o nevoeiro da varanda da casa da viúva. “Ele vai ficar mais um pouco”, informou-lhe, arrebatado. “Algo aconteceu. Você supõe que aquela moça o tenha dispensado?”

“Pai, o senhor tem coragem de rir porque um amigo está com problemas?”

“Eu vou rir e bater na minha perna se ele se livrar de uma vez daquela garota esnobe”, respondeu ele, resoluto.

“Estou admirada — estou envergonhada do senhor, pai!”

“Polly, querida, seja honesta com seu pai!” ele suplicou. “Você quer vê-lo casado com ela?”

“Certamente que sim. Eu só gostaria de poder ajudá-lo.” Seus lábios estavam brancos, sua voz tremia. Ela se levantou e apressou-se para dentro de casa.

“Eu não entendo as mulheres”, declarou o Capitão Candage, tamborilando o dedo sob o nariz. “Aquele sujeito que ela escolheu para si deve ser o Imperador do Peru.”

O Capitão Mayo não voltou a terra antes que o Ethel and May zarpasse.

O nevoeiro dissipou-se naquela noite e eles avançaram para as áreas de pesca impulsionados por uma brisa forte, e lançaram suas redes ao amanhecer. Ao pôr do sol, seguidos por uma bandeira vacilante de gaivotas estridentes que devoravam os restos jogados pela tripulação ocupada em limpar a pesca, estavam atracando no entreposto de peixes da cidade.

“Sorte novamente”, comentou o Capitão Candage, retornando de sua negociação acirrada com o comprador. “As criaturas da cidade estão todas famintas por haddock, e foi exatamente o que pescamos hoje.” Ele examinou seu sócio sombrio com preocupação solidária. “Por que você não dá um pulo na cidade?” sugeriu. “Você está ficando preso demais a esta embarcação para um jovem. Além disso, se vir uma loja aberta, compre para mim uma caixa de colarinhos de papel. Rowley não tem o meu tamanho!”

Mayo, inconciliável e inquieto, odiando naquele dia o som dos peixes que escorregavam e batiam ao serem jogados com forquilhas nos baldes para içamento, incomodado com o guinchar das roldanas e percebendo que seus nervos não estavam nada bem, obedeceu à sugestão. Ele tinha uma missão secreta, cedendo a uma esperança tênue; foi até a janela de encomendas gerais dos correios e perguntou por correspondência. Ele sabia que o amor faz suposições certeiras. O Olenia visitava aquele porto frequentemente para buscar correspondência. Mas não havia nada para ele. Ele passeou pelas ruas, nutrindo sua melancolia, esquecendo a encomenda do Capitão Candage, invejando o contentamento demonstrado pelos outros.

Naquele estado de espírito, ele teria evitado o Capitão Zoradus Wass se tivesse avistado aquele marinheiro alegre e barulhento a tempo. Mas o capitão o pegou pelo braço e o girava pela calçada, demonstrando mais afabilidade do que era seu costume.

“Pelos deuses! rapaz”, gritou o capitão grisalho, “você veio à minha procura?”

“Não”, vacilou Mayo. “O senhor queria me ver?”

“Gastei a sola das minhas botas hoje correndo do escritório do comissário marítimo a cada canto e recanto à beira-mar. Ouvi dizer que você tinha largado um iate e pensei que tivesse recuperado o juízo e quisesse um trabalho de verdade.”

“Se o senhor tivesse perguntado entre os armazéns de peixe, poderia ter me encontrado, senhor.” O tom de Mayo era sombrio.

“Peixe! Você pescando?” perguntou o Capitão Wass, com descrença.

“Sim, e em uma traineira fretada, ainda por cima — pescando por comissão!” Mayo estava amargamente decidido a pintar sua situação humilde com cores negras. “E cheguei à conclusão de que é só para isso que sirvo.”

“Esse é um belo linguajar de marinheiro para vir de um jovem rapaz que eu treinei até obter a habilitação de mestre, dando-lhe dois anos na minha cabine de pilotagem. Eu temia que você estivesse indo pelo caminho errado, seu jovem teimoso, quando ouvi dizer que você tinha virado capitão de um iate, mas não pensei que fosse tão ruim assim.”

“Meus negócios com iates terminaram, senhor.”

“Graças ao bom Deus! Há esperanças para você. Alguém lhe disse que eu estive à sua procura?”

“Não, senhor!”

“Fico feliz. Agora posso lhe contar eu mesmo. Você sabe onde estou agora?”

“Ouvi dizer que o senhor estava em um cargueiro da linha Vose, senhor.”

“Não sei quem lhe contou isso — mas não foi Ananias. Você está certo. É o velho Nequasset, devolvido a mim porque sou o único que entende suas manias idiotas. O primeiro imediato ficou bêbado ontem e quebrou a perna do segundo imediato na briga — um está na cadeia e o outro no hospital, e nenhum dos dois jamais pisará em qualquer navio comigo novamente. Zarparei ao amanhecer, com destino a Chesapeake para buscar trilhos de aço. Tem seus documentos?”

“Sim, senhor!”

“Venha comigo. Você é o primeiro imediato.”

“O senhor realmente me quer, senhor?”

“Quero você? Maldita seja, eu tenho você! Em meio dia, vou tirar todas essas noções de iatismo da sua cabeça e remover essas escamas de peixe, e então você será o que era quando deixei você ir — o jovem mais esperto que já treinei.”

Mayo obedeceu ao puxão do braço do capitão jubilante e foi com ele. “Vou explicar ao Capitão Candage, meu sócio.”

“Tudo bem. Eu vou junto e ajudo você a ser breve.”

Enquanto caminhavam, o Capitão Wass inspecionou seu companheiro criticamente.

“A vida luxuosa a bordo do iate de Marston o deixou dispéptico, filho? Você parece que sua comida não tem lhe caído bem.”

“Minha saúde está ótima, senhor.”

“Ouvi dizer que você teve problemas com Marston”, continuou o velho capitão, com brutal franqueza. “Qualquer um que tenha problemas com aquele pirata maldito é bem recomendado para mim. Ele está tentando roubar todas as linhas de barcos a vapor nesta costa. Graças a Deus, ele nunca conseguirá colocar suas garras na velha linha Vose. Grandes coisas estão por vir no negócio de barcos a vapor, Mayo. Acho que é um bom setor para se estar se você gosta de luta e quer fazer o seu nome.”

Mayo caminhou em silêncio. Ele estava perturbado com essa informação adicional de que as notícias de seu caso com Marston tinham ganhado tamanha circulação. No entanto, estava feliz que esta nova oportunidade lhe oferecesse a chance de se esconder no isolamento da cabine de pilotagem de um cargueiro.

O Capitão Candage recebeu a notícia com resignação humilde. “Eu sabia que isso teria de acontecer”, disse ele. “Não podia esperar outra coisa. De qualquer forma, não é reconfortante.”

“Não se pode manter um bom rapaz como este remexendo em restos de peixe”, declarou o Capitão Wass.

“Eu sei, e desejo-lhe sorte e tudo de melhor!”

A despedida deles, presidida pelo imperioso capitão do Nequasset, foi curta.

“Provavelmente terei a chance de vê-lo quando voltarmos aqui”, gritou Mayo do cais, olhando para o semblante melancólico do capitão. “Talvez eu tenha tempo de dar um pulo até Maquoit enquanto estivermos descarregando. De qualquer modo, explique tudo para mim, especialmente para sua filha.”

“Direi a todos os interessados exatamente o que é certo”, assegurou-lhe o Capitão Candage. “Eu direi a ela por você.”

Ela estava na praia quando o capitão chegou remando sozinho do Ethel and May.

“Ele se foi”, gritou ele para ela. “Claro que não podíamos mantê-lo. Ele é inteligente demais para ficar em um trabalho como este.”

Quando estavam a caminho da casa da viúva, ele lançava olhares de lado para ela, e seu silêncio o angustiava.

“Deixe-me ver! Ele me disse — se eu conseguir lembrar direito — ele diz, diz ele: 'Leve meus melhores respeitos e' — deixe-me ver — sim, 'leve meus melhores respeitos e amor para sua Polly...'”

“Pai! Por favor, não minta.”

“É exatamente como me lembro, querida. 'Em especial', ele diz. Lembro-me disso! 'Em especial', ele diz. E ele parecia muito triste, querida, muito triste.” Ele colocou o braço ao redor dela. “Há muitas coisas tristes neste mundo para todos, Polly. Às vezes as coisas ficam tão malditas de confusas que tenho vontade de ir embora e subir em uma árvore!”

XV ~ AS REGRAS DA ESTRADA

Agora o Dreadnought navega pelo Atlântico tão largo, Onde os mares altos e rugidores rolam ao longo de seu costado negro. Seus marinheiros como leões caminham pelo convés de um lado para o outro, Ele é o pacote de Liverpool — Ó Senhor, deixe-o ir! — Canção do Flash Packet.

Em um dia no início de agosto, o Nequasset subia a costa com dificuldade através de um nevoeiro tenebroso, trilhos de aço como sua carga arrastada, a cautela como sua palavra de ordem.

A agulha de seu indicador marcava “Meia velocidade”, e isso realmente significava meia velocidade. O Capitão Zoradus Wass fazia das regras estabelecidas pelo Departamento de Comércio e Trabalho as suas escrituras. Não havia brechas astutas sob seu comando — nenhum conluio entre a cabine de pilotagem e a plataforma do engenheiro-chefe. Não, o Capitão Wass não era esse tipo de homem, embora o nevoeiro tivesse se mantido à sua frente por dois dias, vapor denso como penas em um travesseiro, e ele tivesse mantido uma média de pouco mais de seis milhas náuticas por hora, estando amargamente ciente de que a taxa de frete sobre trilhos de aço era de sessenta e cinco centavos por tonelada.

“E como eu tenho lhe dito, a sessenta e cinco centavos, há quase tanto lucro quanto haveria em trocar moedas de um dólar de uma mão para a outra, dependendo da prata que você consiga raspar”, disse o Capitão Wass ao primeiro imediato Mayo.

O capitão mantinha o botão do apito sob constante controle. Regularmente, a cada minuto, o sinal prolongado do Nequasset soava, estritamente de acordo com as regras da estrada.

Sua voz começava com um grasnido de reclamação, ganhava tom pleno por alguns instantes e, em seguida, perdia-se em mais lamúrias; o timbre daquele tom parecia combinar com o estado de espírito do Capitão Wass.

“São tempos difíceis quando um cargueiro tem que calcular tão precisamente que pode perder lucro por causa do que os homens comem”, continuou ele. “Se você está dois dias atrasado, respeitando as regras no nevoeiro, os donos perguntam o que diabos há de errado com você! Este tipo de negócio não precisa mais de homens de barcos a vapor; exige donos de pensão que consigam cortar filé mignon de uma criatura até o chifre, e que sejam habilidosos em contornar esquinas com as sobras. Vou comprar um livro de receitas de culinária e tentar gerar dividendos.”

O capitão era de proa larga, como o Nequasset; ele se curvava sobre pernas curtas como se carregasse uma carga tão pesada quanto trilhos de aço, suas barbas brancas esvoaçavam de seu nariz afiado como a espuma levantada pela proa do velho cargueiro. Ele mastigava lenta, conscienciosa e continuamente o tabaco que avultava em sua bochecha; suas mandíbulas, movendo-se tão firmemente quanto o balanço de um pêndulo, pareciam marcar o tempo para o apito isócrono. Sessenta mastigadas ruminantes, então ele cuspia no nevoeiro, então o apito — correto com o tempo do relógio!

As janelas da cabine de pilotagem estavam abaixadas em suas molduras, para que todos os sons pudessem ser admitidos; a brisa úmida formava gotas na barba do capitão e umedecia o cabelo crespo do imediato. Enquanto o imediato se inclinava para fora de uma janela, com o ouvido atento aos sinais, o capitão submetia-o a mais daquela inspeção crítica em que ele se permitia quando a ocasião servia.

Além disso, o Capitão Wass continuava a cutucar as bordas de um tópico que ele vinha atacando de tempos em tempos com uma tentativa desajeitada de inquisição astuta.

“Tão ruim quanto é em um cargueiro, suponho que você não esteja arrependido de ter deixado aquele iate, filho?”

“Não estou arrependido, senhor.”

“Pelo que você me contou, o dono ficava interferindo o tempo todo.”

“Não me lembro de ter dito isso, senhor.”

“Ah, achei que tivesse dito”, resmungou o Capitão Wass, e encobriu seu momento de hesitação soprando o apito.

“Agora que você está de volta ao negócio de barcos a vapor, é claro que você é um homem de barcos a vapor. Tenha os interesses de seus donos no coração”, retomou ele.

“Certamente, senhor.”

“Seria de grande ajuda para os homens de barco a vapor regulares — os bons e velhos veteranos — se pudessem obter alguma pista sobre o que aqueles canalhas de Wall Street estão tramando com Marston à frente deles — ou, pelo menos, ele deveria estar à frente. Ele se esconde no meio da teia e deixa que as outras aranhas corram e busquem. Mas é o esquema de Marston, pode apostar nisso! O que você acha?”

“Não pensei nada sobre isso, Capitão Wass.” “Mas como você poderia deixar de pensar, captando uma palavra aqui e outra ali, a bordo daquele iate?”

“Eu nunca ouvi — nunca ouvi nada.”

“Mas ele tinha aquelas outras aranhas a bordo — vi eu mesmo através do meu telescópio quando vocês nos passaram um dia em junho.”

“Suponho que eles conversassem lá atrás, mas meu dever era na proa, senhor.”

“É uma pena que ninguém lhe tenha sussurrado sobre conseguir uma pista do esquema de Marston, seja ele qual for. Você poderia ter ajudado os verdadeiros rapazes neste jogo!”

Mayo não respondeu.

O Capitão Wass mostrou uma resolução de parar de cutucar as bordas e dar uma investida no centro do assunto. Ele puxou o apito, soltou o botão e voltou para a janela, apoiando os cotovelos na moldura.

“Filho, você não está apaixonado por aquele pirata Marston, está?”

“Não, senhor!” respondeu o jovem, com amargura que não podia ser duvidada.

“Bem, e quanto a você estar apaixonado pela filha dele?” O humor cáustico no tom do velho capitão tirou da pergunta parte de sua franqueza brutal, e Mayo estava acostumado ao tipo de humor do Capitão Wass. O jovem não virou a cabeça por alguns momentos; continuou a olhar para o nevoeiro como se estivesse focado em seu dever; ele estava tentando recuperar o controle, plenamente consciente de que o ressentimento não funcionaria no caso de Zoradus Wass. Quando Mayo finalmente encarou o capitão, este último ficou, por sua vez, perturbado, pois Mayo exibiu seus dentes alinhados em um sorriso cordial.

“O senhor acha que eu estive tentando o truque do chofer para fisgar uma herdeira, senhor?”

“Bem, há uma grande rede de fofocas operando ao longo da costa e marinheiros nem sempre mantêm a boca fechada depois de terem aceitado o dinheiro de um homem para ficarem calados”, declarou o Capitão Wass, incisivamente. “Eu não o culparia por aproveitar. Você é bonito o suficiente para fazer o que outros fizeram em casos semelhantes.”

“Obrigado, senhor. Qual é o resto da piada?”

“Eu nunca brinco”, retorquiu o capitão, virando-se e puxando o cabo do apito. O grito do Nequasset subiu e morreu em sua garganta de bronze. “O nome dela é Alma?” ele instigou. “Algo como um veleiro rápido. Se Marston algum dia o tornar gerente geral, coloque-me em um emprego melhor do que este, fará isso?”

“Farei, senhor!”

O capitão lançou ao seu imediato um olhar de desprezo. “Você é um diabo de homem para se manter uma conversa!” Ele cuspiu contra a parede de nevoeiro e, mais uma vez, soltou o lamento rouco do cargueiro.

De algum lugar à frente, uma buzina lamentou, dividindo seu chamado em dois apitos.

“Amura de bombordo e cruzando nossa frente”, rosnou o mestre, após uma fungada no ar e um olhar para a ondulação lenta.

“Por que o tolo infernal não está ancorado, em vez de ficar à deriva sob nossos pés? Como ele está, Sr. Mayo?” Ele estava agora de volta à formalidade da cabine de pilotagem com seu imediato.

“Dois pontos e meio, bombordo da proa, senhor. E há outro sujeito dando um apito na mesma direção.”

“Outro à deriva — não há vento suficiente para eles saberem em que amura estão realmente. Bem, sempre há o Artigo Vinte e Sete para recorrer”, resmungou o capitão. Ele citou sarcasticamente no tom em que essa regra é tão frequentemente murmurada nas cabines de pilotagem ao longo da costa: “'Deve-se ter a devida consideração a todos os perigos da navegação e colisão, e a quaisquer circunstâncias especiais que possam tornar necessária uma saída das regras acima, e assim por diante e et cetera. Significando, graças ao Senhor, que um navio a vapor pode sempre fugir de uma escuna maldita, mesmo a meia velocidade. Espero que, se algum dia chegar a um confronto, o secretário do departamento de comércio concorde comigo. Reduza para bombordo, Sr. Mayo, até que os tenhamos a bombordo.”

O imediato deu uma olhada rápida na bússola. “Leste por norte, Jack”, comandou.

“Leste por norte, senhor”, repetiu o timoneiro em tom mecânico, girando o grande volante para a esquerda.

Era evidente que o Nequasset tinha companhia considerável no mar naquele dia. Um pouco atrás de seu través, um rebocador soprava um apito longo e dois curtos, indicando seu reboque. Ele tinha sido seu “camarada” por algum tempo, e Mayo ocasionalmente tomava sua posição por som e bússola e sabia que o cargueiro estava lentamente avançando. Ele calculou, ouvindo novamente as buzinas, que o Nequasset estava seguindo para passar por todos.

“Você pega um capitão que estuda seu livro e está sempre pronto para encarar o departamento sem vacilar, ele tem que cuidar de seus próprios negócios e também dos negócios do outro sujeito”, disse o Capitão Wass, continuando seu monólogo de rabugice. “Esquivando-se aqui e ali, mantendo-se fora do caminho, dois dias atrás do cronograma, carne três vezes ao dia ou então você não consegue manter uma tripulação, e todos saudáveis na hora das refeições! Meus donos nunca me disseram para deixar a lei para lá e bater com tudo! Mas quando levo minhas contas, eles parecem estar tentando inventar uma linguagem que diz a um homem para fazer algo, e ainda assim não lhe diz. O que é aquilo?” Ele colocou a cabeça bem para fora da janela.

Flutuando para fora do nevoeiro veio um som abafado e grunhidor, um diapasão distante e fraco, um apito marinho que anunciava um navio grande.

“Eu diria que é um transatlântico da Union, senhor — ou o Triton ou o Neptune.”

Eles ouviram. Esperaram dois minutos longos por outro sinal.

“Parece estar levando todo o seu tempo legal”, rosnou o Capitão Wass. “Desde que Marston engoliu aquela linha, talvez ele tenha colocado um registro especial para controlar o apito — acha que é desperdício de vapor e reduzirá os dividendos. Espera que nós, os pequenos, façamos o grasnido!”

O apito grande rugiu novamente, bem à frente, e tão mais próximo que provocou o capitão a soltar um palavrão redondo.

“Ele está fazendo dezoito nós de velocidade, ou podem usar minha cabeça como porca de rebite!” Ele puxou o cabo e o cargueiro uivou irritado. O outro respondeu com rugido estrondoso — autocrático, dominador. Com ironia, com vingança, o Capitão Wass lançou sua voz em um tom nasal sarcástico e recitou outra regra — tentando assim expressar sua opinião irada sobre a ilegalidade de outros homens.

“Artigo Dezesseis, Sr. Mayo! Ele provavelmente carrega isso na caixa do relógio em vez da foto da namorada! Leitura agradável para um dia chuvoso! 'Uma embarcação a vapor que ouve, aparentemente à frente de seu través, o sinal de nevoeiro de uma embarcação cuja posição não foi determinada, deve, na medida em que as circunstâncias do caso permitirem, parar seus motores e navegar com cautela até que todo perigo de colisão tenha passado.' Viva as regras!”

O Capitão Wass enganchou um dedo retorcido no laço do sino e puxou violentamente para cima. Um clangor abafado soou lá embaixo. Ele puxou novamente e a vibração do motor cessou.

“Maldito seja! Vou até o fim, como o departamento ordena! Se ele bater em mim, veremos quem se sai melhor na audiência.”

Ele deu dois puxões rápidos no laço do sino; então mudou a mão para outro puxão e o sino de tilintar soou na casa das máquinas — o Nequasset recebeu ordem de navegar a toda velocidade à ré.

O cargueiro sacudiu e tremeu quando o hélice começou a inverter o sentido, puxando o mar espumante, agarrando-se freneticamente para levá-lo a uma parada. O capitão então deu três apitos de protesto, ressentidos.

Mas a resposta que recebeu à frente foi um uivo rouco e prolongado. Nele não havia qualquer indício de que o grandalhão pretendesse atender ao protesto dos três apitos. Era uma insistência na preferência de passagem, a insolência do transatlântico pomposo ganhando tempo em competição com rivais; sugeria a opinião confiante de que os menores fariam melhor em sair do caminho.

O que se aproximava recebera um sinal que servia para justificar essa opinião. O capitão Wass anunciara docilmente que estava em velocidade máxima à ré; seus apitos declararam que ele saíra da calçada da rota oceânica — como de costume! Os grandalhões sabiam que os pequeninos o fariam!

O imediato Mayo inclinou-se para fora da janela, os músculos do maxilar tensos, ansiedade em seus olhos.

O apito grande agora estava sacudindo as cortinas da névoa e não lhe dava nenhuma garantia reconfortante de que o transatlântico estivesse virando para evitá-los.

O contramestre encarava a situação de forma mais filosófica que seus superiores. Ele cantarolava:

Dizem todos os peixinhos que nadam para lá e para cá, É o navio de Liverpool — ó Senhor, deixe-o passar!

“Aquele idiota maldito lá na frente acha que eu soei três apitos para saudar o aniversário de Marston ou o último dividendo deles, Sr. Mayo?” gritou o capitão Wass.

As névoas são estranhas; as brumas oceânicas são frequentemente sinistras em seus movimentos. Existem estratos, existem correntes de ar em redemoinho que rasgam a cortina ou desfazem os vapores que se acumulam. Os homens na casa do leme do Nequasset descobriram subitamente que seu campo de visão se ampliara. A névoa não se dissipou; tornou-se mais tênue e revelou uma área do mar. Era como um véu fino que revelava vagamente o que distorcia e ampliava.

Em uma névoa, marinheiros experientes examinam sempre com olhar atento a linha onde a névoa e o oceano se fundem. Eles não olham para cima, na névoa, tentando distinguir o vulto de uma embarcação que se aproxima; são capazes de discernir, antes de tudo, a linha branca de espuma que marca o deslocamento de água da proa da embarcação ou seu rastro.

“Lá vem ele, senhor!” anunciou o imediato. Ele apontou o dedo para uma elevação espumante de água revolta.

“Sim, senhor! Dezoito nós e os dois olhos fechados!” Mas havia alívio misturado ao ressentimento. Seu olhar rápido informou-lhe que o transatlântico passaria pelo Nequasset bem a estibordo — sua proa mostrava uma divergência de pelo menos dois quartos da rota do cargueiro. Mas, no instante seguinte, o capitão Wass soltou um grito de alarme irritado. “Sim, ambos os olhos fechados!” repetiu ele.

Bem na linha da proa daquele gigante estava um barco Hampton de pescadores, revelado conforme a névoa derivava.

O navio de passageiros emitiu meia dúzia de “woofs” de seu apito, respondendo ao aviso estacado do cargueiro, mas não deu sinais de desacelerar. Mas o fato de estarem tentando desviar do minúsculo obstáculo em seu caminho foi anunciado por um grito de seu vigia e seu chamado agudo: “Bombordo! Tudo a bombordo!”

O pescador tinha toda a agilidade de sua espécie, treinado por perigos e pela possibilidade sempre presente de infortúnios, para recorrer a medidas desesperadas. Ele saltou para a frente, arrancou seu mastro e jogou o mastro e a vela ao mar.

Ele sabia que teria de enfrentar a tremenda ressaca e o rastro do casco veloz. Sua casca de barco, se deixada instável pela vela, teria pouca chance.

“Ele está perdido!” ofegou o capitão Wass. “Ele vai atropelá-lo — a menos que aumente um pouco mais a velocidade e salte por cima dele!” acrescentou, levado a um sarcasmo amargo.

Eles viram o pequeno barco ser eclipsado atrás da proa negra, o primeiro levante das águas agitadas girando a casca de noz como uma moeda é lançada pelo polegar. O pescador não estava à vista — ele se jogara estirado no fundo do barco.

“Ele afundou para sempre”, declarou o capitão, com convicção. “Se o seu bojo não o esmagar, o hélice de bombordo o fará!”

Tão rapidamente o transatlântico se movia, tão abrupta sua guinada para a direita, que ele inclinou-se muito e mostrou-lhes o vermelho de seu imenso bojo. Sua alta velocidade permitiu-lhe fazer uma curva especialmente rápida. Enquanto eles observavam boquiabertos, suas duas chaminés alinharam-se quase perfeitamente. Sua proa cortante ameaçou o Nequasset.

“O maldito velho cão do inferno vai nos cravar agora!” berrou o capitão Wass. Em seu pânico e sua fúria, ele saltava para cima e para baixo, puxando o cordão do apito.

Ele estava quase sobre eles — apenas algumas centenas de jardas de água cinzenta separavam os dois vapores.

Era o Triton!

Seu nome estava visível em sua proa. Seus escovéns vermelhos brilhavam como olhos ferozes e cruéis. Havia uma ameaça indescritivelmente brutal nessa investida súbita em sua direção. Era como se um monstro marinho tivesse engolido um inseto na forma de um barco Hampton e agora buscasse um bocado de verdade. Mas seu grande leme girou ao puxão rápido de seu sistema de direção a vapor e novamente ele guinou, cortando um s. O movimento levou-o para além da popa do Nequasset, a uma distância de um arremesso de biscoito. A poderosa vaga de sua passagem estrondosa levantou a popa do cargueiro, e a enorme onda que se comprimia entre os dois cascos coroou-se de branco espumante e despejou uma boa tonelada de água esverdeada sobre a superestrutura do navio menor.

O capitão Wass pegou seu megafone; ele queria apresentar algumas observações que pareciam adequadas ao incidente.

Mas o capitão do Triton foi mais rápido, com uma presteza que igualava a velocidade moderna de sua embarcação. Ele berrava através do enorme funil que um contramestre segurava para ele. Sua linguagem era terrível. Ele amaldiçoou os cargueiros com grande habilidade. Perguntou por que o Nequasset estava vadiando ali na rota sem governo algum! Essa pergunta surpreendente tirou o fôlego do capitão Wass e qualquer poder de retrucar. Perguntar isso a um homem que obedecera à lei ao pé da letra! Um sujeito que cruzava a névoa a dezoito nós de velocidade culpando um capitão consciencioso porque este último parara para sair do caminho!

E, acima de tudo, indo tão rápido ao fazer a pergunta que já estava fora de alcance antes que uma resposta adequada pudesse ser dada!

O capitão Wass remoía esses pensamentos giratórios em um cérebro que ardia e mostrava suas chamas através dos olhos arregalados do capitão.

Então ele bateu o megafone contra a casa do leme. Ele ricocheteou contra ele, e ele o chutou para um canto. Começou a golpear com o punho um grande cartaz que estava pregado sob sua licença de mestre. O papelão estava branco, fresco, e suas tachas brilhavam, mostrando que fora adicionado recentemente como um elemento da casa do leme. Letras grandes em tinta vermelha no topo aconselhavam: “Segurança em Primeiro Lugar”. Outras letras grandes na parte inferior alertavam: “Não Corra Riscos”. O texto central informava aos comandantes que, em caso de acidente, as partes culpadas sentiriam todo o peso da mão pesada do Tio Sam; era a mais recente publicação do Departamento de Comércio e Trabalho, e trazia a assinatura do honorável secretário da repartição.

Mayo notou que seu chefe estava totalmente absorto nessa atividade silenciosa; portanto, puxou os sinos que interromperam o movimento de ré e enviaram o cargueiro em seu caminho. Eles passaram pelo pescador no barco Hampton; ele estava esgotando a água de sua embarcação.

“Essa foi por pouco, senhor! Fico feliz por ter sido treinado pelo senhor a ser um homem cuidadoso. O senhor não correu riscos!”

“E aonde cheguei por obedecer às regras dos Estados Unidos e nunca correr riscos, Sr. Mayo? Aos sessenta e cinco anos, sou mestre de uma barcaça de carga, insultado por proprietários em terra e insultado em alto-mar por sujeitos como aquele que acabou de passar por nós! Se aquele navio de passageiros tivesse me atingido, os advogados teriam colocado a ponta suja do porrete em minhas mãos! É tudo para o bem dos sujeitos infernais do jeito que as coisas estão arranjadas neste mundo atualmente. Terei sorte se ele não registrar uma queixa contra mim quando chegar a Nova York, dizendo que eu entrei no caminho dele!” Ele cortou um novo pedaço de fumo preto e assumiu sua posição no puxador do apito. “É melhor você arranjar uma herdeira”, aconselhou o imediato, azedo. “Ser um capitão à moda antiga nestes dias de navegação a vapor é algo que sou educado demais para nomear. E quanto a ser do outro tipo — bem, você acabou de vê-lo passar zunindo!”

Entretanto, enquanto seguiam costeando, sua velha banheira cedendo sob o peso dos trilhos sob suas escotilhas, o imediato Mayo sentia considerável inveja ambiciosa de jovem por aquele pavão impecável que gritara anátemas da casa do leme do Triton. Era a verdadeira navegação a vapor, refletiu ele, mesmo que as exigências dos proprietários e dos buscadores de dividendos forçassem um mestre a enfrentar a sorte e galopar pelos mares.

XVI ~ MILHÕES E UMA MÍDIA

À Tiffany eu a levei, Não me importei com a despesa; Comprei-lhe dois brincos de ouro, Custaram-me cinquenta centavos. E a-a-adiante, seu santee! Minha querida Annie! Ó vocês, garotas de Nova York! Não sabem dançar a polca! --Shanty, “The Lime Juicer.”

O Sr. Ralph Bradish, usando um dos telefones da cabine nos escritórios de Marston & Waller em Wall Street, pediu seriamente ao caixa de um restaurante da zona nobre, como um favor especial, que segurasse por vinte e quatro horas o cheque pessoal, no valor de vinte e cinco dólares, entregue pelo Sr. Bradish na noite anterior.

Dez minutos depois, com a maior nonchalance e bastante certo de que o documento era tão bom quanto trigo, o Sr. Bradish assinou um cheque de um milhão e duzentos e cinquenta mil dólares.

Esse montante não o espantou em nada. Ele estava bastante acostumado a assinar cheques de quantias astronômicas quando era chamado à presença de Julius Marston. Certa vez, o valor mencionado fora de dois milhões. E houvera números e números do que o Sr. Bradish chamava mentalmente de “cheques de pífios” — cem mil, duzentos e trezentos mil. E ele nunca tivera de solicitar qualquer retenção sobre esses cheques por falta de fundos. Porque, em cada instância, houvera uma linha mágica impressa ao longo da qual o Sr. Bradish espalhara sua assinatura.

Antes de secar a tinta neste cheque, Bradish olhou, com apenas curiosidade ociosa, para notar em que capacidade servia desta vez. A linha impressa anunciava-lhe que ele era “Tesoureiro, Paramount Coast Transportation Company, Inc.”. Ele lembrou-se de que, no passado, assinara como tesoureiro da “Union Securities Company”, da “Amalgamated Holding Company” e de outras corporações que patrocinavam ferrovias e grandes indústrias com cujos destinos Julius Marston, financista, parecia ter muito a ver. Era evidente que o Financista Marston preferia ter um escriturário de quarenta dólares por semana fazendo o trabalho braçal de assinar cheques, ou pelo menos ter o nome daquele escriturário em evidência em vez do nome de Marston.

Essa modéstia quanto a ter seu nome aparecendo em público em um cheque parecia estar ligada aos hábitos de negócios do Sr. Marston.

Pouquíssimas pessoas eram admitidas neste santuário interno onde Bradish sentava-se de frente para seu empregador através da mesa de tampo plano. E os homens que viam aquele empregador fora de seu escritório não viravam a cabeça para observá-lo, nem apontavam dedos respeitosos para ele, nem comentavam com outra pessoa: “Ali está o grande Julius Marston”. Em primeiro lugar, o Sr. Marston não era grande no sentido físico, e não havia nada nele que atraísse atenção ou o fizesse ser notado em uma multidão. E apenas algumas pessoas realmente o conheciam, de qualquer forma.

Ele sentava-se em sua cadeira maciça; uma mão apoiada no braço, o cotovelo arqueado, e com a outra mão arrancava lentamente a estreita faixa de barba que se estendia de seu lábio inferior até a ponta pontiaguda do queixo.

“Muito bem, Sr. Bradish”, comentou ele, depois que este último retirou o mata-borrão do cheque.

Bradish levantou-se, fez uma reverência e começou a sair. Ele era um jovem alto e bem formado, com cintura, com porte. Sua vestimenta estava na moda de última hora — contida. Ele era um estudo em marrom, quanto ao tecido do traje e seus acessórios. Um daqueles sujeitos de rosto pálido que sempre parecem um pouco entediados, com um toque de cinismo moderno! Um daqueles sujeitos que ouvem muito e dizem pouco!

“Apenas um momento, Bradish”, convidou Marston, e o jovem parou. “Gosto do seu jeito nessas questões. Você não faz perguntas. Você não mostra nenhum interesse tolo em qualquer cheque que assina.”

Bradish refletiu um instante sobre o cheque na gaveta do caixa do restaurante e apertou os lábios finos um pouco mais.

“Tenho certeza de que você não sai por aí falando sobre a natureza desses deveres especiais.” O financista apontou para o cheque. “Direi francamente que não o selecionei para este serviço até ter certeza de que você não falava sobre seus próprios assuntos no escritório com meus outros escriturários.”

Bradish inclinou a cabeça respeitosamente.

“Em questões financeiras, é necessário escolher os homens com cuidado. Confio que você entenda minha atitude. Estas transações são perfeitamente legítimas. Mas os métodos modernos de alta finança tornam necessário manipular os detalhes um pouco. Sua atitude ao aceitar esses deveres, como algo natural, é muito gratificante do ponto de vista comercial. Como uma pequena marca de nossa confiança em você, você receberá setenta e cinco dólares por semana daqui em diante.”

“Obrigado.”

O Sr. Marston permitiu-se um sorriso rápido e seco. “Isto não é um suborno, você entende. Não há nada ligado a este serviço nominal que exija suborno. Apenas queremos fazer valer a pena para um jovem prudente e discreto permanecer conosco.”

Uma campainha, tão discreta quanto eram todas as características do Financista Marston, soou seu ronronar manso.

“Sim”, murmurou ele no receptor do telefone que comunicava com o vigia atento dos escritórios da Marston & Waller. “Quem? Oh, ela pode entrar imediatamente.”

“Espere aqui um momento, por favor, Sr. Bradish. É minha filha que veio para uma rápida palavra comigo. Tenho algo mais para você tratar.”

Bradish caminhou até uma das janelas. Ele olhou fixamente para a moça que entrava apressada. Seu chapéu e rosto estavam envoltos em um véu de automóvel, e a luz claustrada da grande sala ajudava a ocultar suas feições. Mas Bradish parecia reconhecer algo nela, apesar da vagueza do contorno. Quando ela falou com seu pai, os olhos do jovem brilharam com verdadeiro espanto.

“Não consegui explicar muito bem pelo telefone, papai, então vim logo. Perdoe-me se o incomodo por apenas um minuto.” Ela olhou rapidamente para o jovem ao lado da janela, mas achou-o apenas um contorno contra a luz.

“Apenas um de nossos escriturários”, disse seu pai. “O que é, minha filha?”

“É a festa na casa de Nan Burgess em Kingston! Haverá um desfile de automóveis — todos decorados — na festa, e quero ir no nosso carro grande, e tê-lo por dois dias. Tive medo de que o senhor dissesse não se eu pedisse pelo telefone, mas agora que estou aqui, olhando o senhor nos olhos com todo o poder de persuasão da minha alma, o senhor simplesmente não pode recusar, pode, papai?”

“Acho que talvez eu tivesse consentido pelo telefone, Alma.”

“Então posso pegar o carro?” Seus tons brincalhões subiram em um crescendo extasiado. A impulsividade de sua natureza foi exibida por sua maneira de aceitar esse favor. Ela dançou até seu pai e passou os braços ao redor dele. Ela demonstrou tanto deleite como se ele lhe tivesse concedido um presente de pérolas inestimáveis. A exuberância de sua alegria pareceu irritá-lo um pouco.

“Com calma, com calma, Alma! Se você desperdiça seus agradecimentos desta maneira por um pequeno favor, o que fará algum dia para superlativos quando estiver realmente ansiosa para agradecer a alguém por um grande presente?”

“Oh, eu sempre terei agradecimentos suficientes para distribuir — essa é minha disposição. As pessoas que me amam, eu posso amá-las duas vezes mais. Você é um querido velho pai, e sei que quer que eu vá logo para que possa voltar a ganhar muito mais dinheiro. Então, vou apenas tirar-me do caminho.”

Quando ela se virou, olhou novamente para a pessoa perto da janela, e desta vez teve uma boa visão de seu rosto. Nem o véu pôde esconder de Bradish a cor que se espalhou por suas bochechas. Ela estava tão consciente de seu constrangimento e de sua aparência que não virou o rosto para seu pai quando ele falou com ela.

“Um momento, Alma! Vendo que meu carro grande vai ter dois dias de férias no campo, posso muito bem fazer com que ele cumpra uma última tarefa de negócios para mim.”

Ele chamou Bradish até a mesa com um puxão de cabeça lateral.

“Quero que aquele cheque seja colocado nas mãos da firma de corretagem Mower Brothers o mais rapidamente possível. Meu carro está na porta, e pode muito bem levá-lo. Alma, permita que este nosso jovem vá com você até o local para onde estou enviando-o.”

Ele não apresentou Bradish à Srta. Marston. Bradish não esperava que o financista o fizesse. Mas essa dispensa como um mero office-boy — com a jovem olhando-o fixamente de uma maneira meio assustada — feriu um pouco o orgulho, mesmo no caso de um simples escriturário. E este escriturário ponderava sobre a memória de que, apenas na noite anterior, ele abraçara esta jovem — então uma pessoa desconhecida que estava evidentemente decidida a uma escapada incognita — rodeara esta mesma donzela com seus braços durante muitas danças felizes em um dos suntuosos salões de baile públicos da Broadway. E ele a tratara, a ela e a uma amiga, com iguarias pelas quais seu cheque de vinte e cinco dólares mal bastara para pagar.

Bradish estava bastante familiarizado com as fases e as esquisitices da febre da dança, mas esse contratempo o deixou um tanto atordoado.

Eles não haviam feito perguntas um ao outro durante aquelas danças. Eles estavam perfeitamente satisfeitos com a alegria do momento. Ela o olhara de uma maneira e com uma suavidade nos olhos que lhe dizia que ela o achava agradável à vista. Ela estivera entusiasmada, com aquela mesma exuberância que ele acabara de testemunhar, com sua graça na dança. Eles prometeram encontrar-se novamente no salão de baile onde as convenções sociais não impediam jovens saudáveis de se divertirem.

“Meu Deus!” sussurrou ela para ele, enquanto o precedia pela porta. “Você trabalha no escritório do meu pai?”

“Você está surpresa — um pouco chocada — e não a culpo”, respondeu ele, humildemente. “Quanto a mim, estou simplesmente atônito. Mas não sou um fofoqueiro.”

Ela lançou um olhar ao seu rosto pálido e impassível, e parte do instinto de seu pai em julgar homens pareceu tranquilizá-la.

“É preciso brincar um pouco”, ela suspirou. “E é tão estúpido na maior parte do tempo, entre pessoas que se conhece muito bem. Não há mais surpresas.”

Enquanto ele fechava a porta suavemente atrás deles, Bradish ouviu Marston, mais uma vez imerso em seus negócios, ordenando pelo telefone que um tal Fletcher Fogg fosse localizado e enviado a ele.

“Peço desculpas”, disse Bradish, no corredor. Eles esperavam pelo elevador.

“Pelo quê?” Ela ergueu as sobrancelhas, e não havia sinal de aborrecimento em seus olhos escuros.

“Por — bem — vendo como a situação se apresenta, quase parece que presumi — que estava disfarçado. Sou apenas um escriturário, e —”

“Mas você é um escriturário nos escritórios de Julius Marston”, disse ela, com orgulho, “e isso significa que você é digno de confiança. Não preciso de desculpas de você, Sr. — er —”

“Meu nome é Ralph Bradish.”

“Eu me esquivei do tédio ontem à noite; eu estava esperando ter um pouco de diversão. E encontrei um jovem cavalheiro que não fez perguntas impertinentes, que foi muito gentil e que foi um deleite na dança. Foi tudo muito inocente — um tanto imprudente — mas totalmente adorável. Pronto!”

“Agradeço-lhe.”

“E — bem, depois da festa na casa de Nan Burgess, eu —”

Ela olhou para ele, provocação em seus olhos.

“Mas não ouso esperar, ouso, que você se dignará a vir novamente e dançar comigo?”

“Julius Marston ensinou sua filha a cumprir sua promessa, senhor. Se bem me lembro, eu prometi.”

Ele não respondeu, pois a porta de grade do elevador se abriu com um choque para que entrassem.

E no elevador, e mais tarde no carro, ele ficou em silêncio, como convinha ao funcionário dos escritórios de Marston na companhia da filha de Marston quando havia ouvintes por perto.

Os olhos dela deram-lhe uma aprovação clara e os seus lábios ofereceram-lhe um sorriso encantador quando ele desceu no seu destino.

Bradish ficou por um momento a observar o carro enquanto este se enfiava no tráfego da Broadway.

“Ela é uma jovem volúvel, com uma nova ideia a cada minuto”, disse ele para si mesmo. “Dá para ver isso claramente. Provavelmente, é tudo uma brincadeira da parte dela. No entanto, nestes dias, se um sujeito mantiver a cabeça firme e os pés ocupados, não há como dizer onde o tango pode levar. Isto pode ser exatamente aquilo para o que tenho pago as contas dos alfaiates.”

Indicando que nestes tempos calculistas o espírito da juventude no ardor do amor à primeira vista não é como o poeta do romance o pintou.

XVII ~ “EXATAMENTE!”, DISSE O SR. FOGG

“Ó, eu não sou um navio de guerra ou corsário”, disse ele, Sopra alto, sopra baixo, e assim navegamos! “Mas sou um pirata honesto à procura do meu pagamento, Cruzando ao longo da costa da Alta Barbária.” --Shanty do “Prince Luther.”

O Sr. Fletcher Fogg, em privado, mentalmente e metaforicamente, dava palmadinhas nas suas próprias costas sempre que considerava as suas muitas atividades.

Ele tinha a perfeita certeza de que era o melhor pequeno operador geral, de duas mãos e de caráter versátil, que qualquer cavalheiro poderia contratar quando esse cavalheiro queria um trabalho feito e não se importava de dar instruções explícitas sobre os detalhes do procedimento.

O olhar de pesar e arrependimento que a cara gorda do Sr. Fogg conseguia assumir quando o referido cavalheiro — depois de o trabalho estar feito — culpava os métodos como não sancionados, mesmo que o resultado tivesse sido alcançado — essa expressão era um estudo sobre a humildade — humildade com a língua no canto da boca.

Se o Sr. Fogg pudesse ter anunciado o seu negócio como bem entendesse — não se envergonhando nem um pouco das suas táticas — ele teria emitido um cartão com os seguintes dizeres:

“Sr. FLETCHER FOGG: Promovendo e rebaixando. Construindo e destruindo. Todo o interior de qualquer queijo financeiro ou industrial limpo sem perturbar a casca exterior. Todo o trabalho silencioso feito sem ruído. Muitas bandas de música para trabalhos ruidosos. Ombros largos fornecidos para assumir toda a culpa.”

O Sr. Fogg, na presença de Julius Marston, era devidamente obsequioso, mas nem um pouco servil. Ele limpou as manchas de humidade ao lado do nariz com um lenço roxo e guardou-o de volta no bolso exterior do peito, com as pontas a sobressair como orelhas atentas. Cruzou as pernas e colocou sobre o joelho um tornozelo vestido com uma meia de seda roxa. Devido à sua rotundidade, foi forçado a segurar o tornozelo no lugar com o aperto firme da sua mão. Ajustou a gravata roxa com a outra mão.

“Estou contente por estar ao alcance quando precisou de mim”, assegurou ele ao Sr. Marston. “Acabo de chegar no Triton. E quero dizer-lhe que está a gerir essa linha de barcos a vapor da maneira que um empresário americano quer que seja gerida. Se eu estivesse em qualquer outra linha, senhor, não estaria aqui hoje quando me procurava. Tudo o resto na costa a rondar a meia velocidade, mas o velho Triton desceu a todo o vapor, espalhando-os debaixo dos pés como um automóvel a atravessar um bando de galinhas, mas sem um solavanco, um arranhão ou um balanço, e para dentro da sua doca, através de dois dias de nevoeiro cerrado, exatamente no ponto. É assim que um americano quer ser transportado, senhor.”

“Creio que sim, Sr. Fogg”, concordou Julius Marston. “E é por isso que sentimos que vai ser uma coisa boa para todas as linhas costeiras estarem sob uma única gestão — a nossa gestão.”

“Exatamente!”

“É o verdadeiro progresso — verdadeiro benefício para os viajantes, acionistas e todos os envolvidos. Consolidação em vez de rivalidade. Eu acredito nisso.”

“Exatamente!”

“Como um empresário de visão ampla — suficientemente grande para compreender grandes assuntos — viu como a consolidação efetua reformas.”

“Não há duas formas de ver isso”, afirmou o Sr. Fogg.

“Foi um trabalho missionário muito bom o que fez na questão da linha Sound & Cape — muito bom, de facto.”

“É surpreendente as ideias elevadas e grandiosas que alguns acionistas têm sobre as propriedades em que estão interessados. Em questões financeiras, a conclusão mais pobre que um homem pode tirar é que uma ação continuará sempre a pagar dividendos simplesmente porque sempre o fez. Tive de lançar um fogo de artifício bastante ruidoso para acordar aqueles tipos da Sound & Cape. Tive de lhes mostrar que danos os novos negócios e a concorrência e a nossa combinação lhes causariam se continuassem a dormir sobre os seus certificados de ações. Engraçado como é difícil descolar algumas pessoas das suas noções de valor nominal.” O Sr. Fogg entregou esta pequena dissertação sobre a intratabilidade dos acionistas com vigor reprovador, olhando placidamente para o olhar insone do Sr. Marston. “Não quero elogiar demasiado os meus humildes esforços”, continuou ele, “mas acredito verdadeiramente que dentro de mais trinta dias a multidão da Sound estaria pronta para descontar a cinquenta, apesar daquele grupo minoritário que clamava pelo par. Isso foi apenas um grande berro de algumas pessoas.”

“Cinquenta era um preço justo tendo em conta o que está por vir em termos de concorrência, mas tornamo-lo uma proposta de cinco oitavos a fim de fechar o negócio prontamente. Acabei de enviar um dos nossos rapazes com o cheque.”

O Sr. Fogg brilhou. Usou o seu lenço roxo nas bochechas mais uma vez. Permitiu-se algumas palavras de elogio: “Eles entenderão um dia que os salvei de um choque maior. Mas é difícil mostrar isso a algumas pessoas.”

“Agora, Sr. Fogg, chegamos à questão da linha Vose. Qual é a perspetiva?”

O Sr. Fogg parecia triste. “Depois de semanas a persegui-los, só posso dizer que são feios e teimosos, simplesmente cegos para os seus melhores interesses.”

“Insistem no par, não é?”

“Pior do que isso. O velho Vose e os seus filhos e aqueles velhos diretores cabeçudos — capitães de mar reformados, sabe, duros como velhas tartarugas — tomaram uma posição contra a consolidação. Eles pertencem à idade das trevas dos negócios. O velho Vose teve a audácia de me dizer que formar esta combinação de barcos a vapor era um crime, e que não seria parte de uma traição ao público. Ele não vai entrar; ele não vai vender; ele vai competir.”

O Sr. Marston acariciou a sua faixa de barba. “Para que as nossas ações sejam o que pretendemos que sejam, a Paramount Coast Transportation tem de operar como um monopólio completo, como compreende, Sr. Fogg. Um monopólio benéfico — consolidação a beneficiar todos — mas, no entanto, um monopólio. Com uma linha a resistir-nos, só temos uma proposta coxa.”

“Exatamente!”

“O que vamos fazer em relação à linha Vose?”

“Deixe-a competir, senhor. Podemos matá-la no fim.”

“Possivelmente — provavelmente. Mas esse plano não servirá, Sr. Fogg.”

“É negócio.”

“Mas não é finança. Estou a olhar para esta proposta unicamente como um financista, Sr. Fogg. Mal sei distinguir uma extremidade de um barco a vapor da outra. Não estou interessado em problemas de redução de tarifas. Não sei quanto tempo levaria para derrubar a linha Vose. Mas sei isto, como financista, a lidar com um grande negócio, que as ações da Paramount não atrairão investidores ou as obrigações aos bancos a menos que possamos lançar o nosso projeto como uma combinação limpa e perfeita, com cada carta de transporte fechada. Ludo com dinheiro, e conheço toda a timidez do dinheiro e toda a coragem do dinheiro. Acha que os diretores da Vose são capazes de manter os seus acionistas na linha, acha?”

O Sr. Fogg descruzou as pernas, colocou ambos os pés no chão, enganchou as mãos sobre o ventre e olhou para o teto, evidentemente ponderando profundamente.

“Repito, não estou a ver isto como uma proposta de navegação a vapor, não a calcular que tipo de tarifas eliminará a concorrência”, declarou o Sr. Marston. “Não estou a estimar que tipo de tarifas trará lucro para a Paramount. Preferia vender açúcar ao balcão. Os meus associados esperam que eu ganhe dinheiro para eles de outra maneira — ganhá-lo em grandes somas e numa volta rápida. A linha Vose, a competir, mata-nos do ponto de vista financeiro.”

“Exatamente.”

Houve silêncio na sala durante algum tempo.

“Nunca se sabe o que os acionistas farão”, comentou o Sr. Fogg, com os olhos ainda a estudar os painéis do teto.

O Sr. Marston não contestou esse ditame.

O seu marechal de campo inclinou lentamente a cabeça e deu ao seu superior outro daqueles olhares plácidos.

“Portanto, vou seguir em frente e ver o que eles farão, senhor.”

Ele levantou-se e puxou as pernas das calças para o lugar.

“Compreende que neste caso, como em todos os assuntos onde foi empregue, deve haver um trabalho absolutamente limpo. Não deve haver retornos. É claro que lhe instruí sobre isto regularmente, mas desejo que se lembre de que repeti as instruções, senhor.”

“Exatamente!” Os olhos do Sr. Fogg não pestanejaram.

“Estará preparado para testemunhar nesse sentido caso a necessidade surja.”

“Exatamente!”

O Sr. Fogg entregou essa palavra como uma senha. Nela, nas suas entrevistas com Julius Marston, ele colocou compreensão, humildade, promessa.

“Podemos esperar uma ação rápida?”, perguntou o financista. “A coisa não deve ficar pendente. Temos muito do nosso dinheiro ágil empatado como está.”

“Exatamente!”, respondeu o Sr. Fogg, a caminho da porta. “Ação rápida é!”

“Esta é provavelmente a ideia mais louca que já passou pela cabeça de um homem quando esse homem estava sentado no escritório de Julius Marston”, refletiu o Sr. Fogg, marchando através da antecâmara deste templo das finanças. “Há uma coisa nisto que é reconfortante — é tão descabelada que nunca será atribuída a Julius Marston como algo da sua criação. E esse é o seu principal cuidado quando um negócio está em curso. Parece caber-me a mim entregar a mercadoria.”

Ele sentou-se num banco na sala de espera e esfregou os nós dos dedos na testa.

“Deixem-me apenas colocar esta coisa no sentido certo”, disse ele para si mesmo. “Como é que a ideia me ocorreu, de qualquer forma? Ah, sim! O velho Vose a gabar-se para mim de que todos os acionistas da linha Vose estavam atrás dele, e que a reunião anual estava prestes a realizar-se, e então eu veria que péssima amostra eu tinha para conseguir enfiar sequer a ponta da minha bota na fresta da porta da empresa. Ele é uma corporação do Maine. Já soube de casos em que esse facto ajudou muito. Há muitos 'ses' e 'mas' nisto, mas aqui vou eu!”

Ele aplicou-se a um dos telefones do escritório, pediu vários números, um após o outro, e colocou perguntas com ânsia e rapidez.

A informação que recebeu pareceu perturbá-lo consideravelmente. Ele saiu da cabina e esfregou as bochechas com o seu lenço roxo.

“A reunião anual deles às dez horas de amanhã de manhã, a quatrocentas milhas daqui! Bem, suponho que deveria estar grato por não estar a ser realizada agora mesmo”, informou-se o Sr. Fogg, determinado a abanar aquele único vislumbre de esperança com ambas as asas do seu otimismo. “Mas tenho de admitir que vinte e quatro horas é um tempo terrivelmente curto para um trabalho deste tipo, mesmo quando o operador é o próprio pequeno Fogg. Diabo, ainda não cheguei a uma compreensão plena e consciente de tudo o que tenho de fazer e como o vou fazer.”

Ele apressou-se a sair, mergulhou num elevador e foi disparado para a rua.

Teve a sorte de encontrar um táxi no passeio.

“Grand Central”, disse ele ao motorista. “Tenho cinco dólares que dizem que pode vencer o expresso do Subway e deixar-me a tempo para o limite das dez horas para Boston.”

Assim que se tornou evidente para o Sr. Fogg que o seu motorista tinha visto o seu dever e o ia cumprir, que se lixe a equipa de trânsito, o promotor acomodou-se, e os seus pensamentos começaram a girar mais depressa do que as rodas do táxi.

“Vai ser como a 'mão lulu' do acampamento mineiro”, foi o seu prefácio mental para os seus planos. “Só pode ser jogada uma vez por sessão; tem de ser apoiada com um bom bluff, mas é uma maravilha quando funciona. E para que sou eu um promotor? Para que estudei as leis das corporações estrangeiras?”

O Sr. Fogg tirou o chapéu e limpou a sua calvície, enrugando as pálpebras numa profunda reflexão.

“A ideia é”, ponderou ele, “sou um candidato à presidência da linha Vose na reunião de amanhã. Mas ainda não fui eleito!”

No entanto, o farejar preliminar do Sr. Fogg nos assuntos da linha Vose informou-o de onde ele poderia apanhar pelo menos dez ações dispersas das suas ações. Ele calculou que antes da meia-noite as teria na sua posse. Quanto ao dia seguinte e aos passos seguintes, bem, o nervo de um verdadeiro apostador americano agarra-se à vida até ao pôr-do-sol de todas as esperanças, tal como a cauda da serpente, embora a cabeça da serpente esteja ferida sem reparação, é suposto contorcer-se até ao pôr-do-sol.

Ele enviou um telegrama em New Haven. Recebeu uma resposta em Providence, leu-a e sentiu-se como um jogador que tirou uma carta para completar a sua mão incompleta. Quando um desígnio é descarado e o jogo é largamente um bluff, deve recorrer-se ao puro acaso de sorte.

O telegrama tinha sido dirigido ao advogado Sawyer Franklin, numa cidade do Maine. Tinha solicitado uma marcação com o Sr. Franklin na manhã seguinte.

A resposta tinha declarado que o Sr. Franklin estava gravemente doente num hospital, mas que todos os assuntos de negócio seriam tratados pelo seu pessoal de escritório, tanto quanto possível.

O advogado Sawyer Franklin, como o Sr. Fogg, claro, estava plenamente consciente, era o funcionário da corporação da linha Vose, organizada de acordo com a lei do Maine como uma “corporação estrangeira”, sob os regulamentos mais liberais que atraíram tantos promotores metropolitanos para os estados do Maine e Nova Jérsia.

XVIII ~ COMO UMA REUNIÃO ANUAL FOI REALIZADA--UMA VEZ!

Ó, um navio estava aparelhado e pronto para o mar, E todos os seus marinheiros eram peixes a tornar-se! Tempo ventoso, Tempo tempestuoso! Quando o vento sopra estamos todos juntos! --Os Peixes.

Fletcher Fogg, suave, digno, irradiando importância empresarial, refrescado pelos cuidados de um barbeiro, entrou nos escritórios de advocacia Franklin na manhã seguinte às nove e meia.

Anunciou-se a uma datilógrafa, e ela encaminhou-o para um jovem que saiu de uma sala privada.

“Tenho uma procuração do Sr. Franklin para tratar dos seus negócios de rotina”, explicou o jovem. “Claro, se for um caso novo ou uma questão de lei...”

“Nem um, nem outro, meu caro senhor! Simplesmente uma questão de rotina. Mas”, ele inclinou-se perto do ouvido do jovem, “estritamente privado.”

O próprio Sr. Fogg fechou a porta do escritório interior quando os dois se retiraram para lá.

“Um dos seus assuntos de hoje, creio, é a reunião anual da linha Vose. Sou acionista.”

Fogg produziu um pacote de certificados e colocou-os sobre a mesa.

“Haverá algum oficial ou outros acionistas presentes?”, perguntou ele, mostrando apenas um pouco de solicitude, apesar de si mesmo.

“Penso que não”, respondeu o jovem. “Nada foi dito sobre isso. As procurações e instruções foram enviadas, como de costume, por correio registado.” Ele indicou documentos empilhados sobre a mesa. “Estava prestes a começar com o assunto.”

“Suponho que as nossas procurações vão para o funcionário da corporação, como de costume, com plenos poderes de substituição, o funcionário a seguir as instruções”, disse o Sr. Fogg, um pouco pomposamente, usando o seu conhecimento completo da rotina corporativa.

“Sim, senhor. Tratamos a maioria das reuniões corporativas dessa forma quando está tudo pronto e terminado. Neste caso, é simplesmente uma reeleição dos antigos oficiais.”

“Exatamente!”

O Sr. Fogg puxou a sua cadeira para mais perto, tocou com o seu lenço roxo em cada lado do nariz, e perguntou, gentil e confidencialmente: “Meu filho, qual é o seu nome?”

“David Boyne.”

“Estudante de direito aqui — secretário, eh?”

“Sim, senhor.”

“Exatamente — e um longo e difícil caminho à sua frente. É uma pena que não esteja em Nova Iorque, onde um jovem não tem de viajar por todo o caminho, mas pode cortar um ou dois cantos. Eu poderia dar-lhe muitos exemplos de jovens brilhantes que agarraram a oportunidade quando a oportunidade era boa.

“Mas não tenho tempo. Tome a minha palavra. Sou um empresário simples e franco, e estou com os maiores interesses financeiros de Nova Iorque. E vou oferecer-lhe a oportunidade mais grandiosa da sua vida agora mesmo, David.”

Ele pegou nos seus certificados e arrumou-os numa mão, como um jogador arruma as suas cartas.

“Tenho aqui dez ações, digamos, e cada ação é detida por um indivíduo diferente — todos bons homens. Não os conhece, mas eu conheço. Estão ligados aos nossos grandes interesses. E estou aqui como acionista. Percebe, David, que instruí-lo a realizar esta reunião sem um único acionista presente é realmente pedir-lhe para fazer algo que não é estritamente legal?”

“Normalmente fazemo-lo desta forma”, hesitou Boyne.

“Exatamente! Homens como aqueles que estão a gerir a linha Vose estão sempre a pedir a um homem inocente para fazer algo ilegal. Vou direto ao assunto consigo, David. Aqueles velhos atrasados que enviaram essas instruções estão a tentar destruir a linha Vose. Quero que ignore essas instruções. Estou ansioso por ser presidente e gerente geral da linha. Quero que eleja como diretores estes acionistas.” Ele bateu com o dedo nos certificados.

O jovem estava ao mesmo tempo assustado e perplexo. Ficou pálido. “Não posso fazer isso”, ofegou ele.

“Sim, pode. Lá estão as procurações. Cabe-lhe a si votá-las como quiser. Elas permitem plenos poderes de substituição, da forma habitual!”

“Mas não posso desobedecer às minhas instruções.”

“Digo-lhe que pode, se tiver coragem suficiente para fazer algo bom para si próprio.”

“Tal coisa nunca foi feita aqui.”

“Provavelmente não. É uma ideia nova. Mas coisas novas estão a ser feitas a todo o momento nas altas finanças. Deveria estar onde as grandes coisas estão a acontecer todos os dias. Fique comigo, e eu colocá-lo-ei lá. Vê, estou a ir direto aos casos sobre este assunto consigo, David. Vote nessas procurações como eu dirijo e eu entregar-lhe-ei cinco mil dólares dentro de duas horas, e colocá-lo-ei num cargo espetacular com o meu povo assim que isto acalmar. Poderia ter falado muito tempo antes de chegar aos negócios desta forma, mas vejo que é um jovem brilhante e não precisa de muita conversa fiada. Não lhe peço para ferir ninguém em especial. Pode eleger o antigo tesoureiro — não queremos lidar com o dinheiro — isto não é um jogo barato. Mas quero um conselho de administração que me coloque como gerente geral até que certas reformas possam ser instituídas de forma a trazer a linha para a atualidade. Cinco mil dólares, note bem, e depois será tratado.”

“Mas serei colocado na prisão estadual.”

“Disparate, meu rapaz! Por que votaria essas procurações de acordo com as suas instruções? Ora, porque seria do seu interesse fazê-lo se eu não tivesse entrado aqui com uma proposta melhor. Agora é do seu interesse votá-las como eu lhe digo. O máximo que podem extrair disso é uma quebra de confiança, e isso não resulta em nada. Com cinco mil dólares na mão, não precisaria de andar por aqui a levar um monte de insultos. Eu dar-lhe-ei mais mil para as suas despesas numa pequena viagem até que o ar esteja todo limpo.”

Boyne olhou para este tentador direto e vigoroso; a sua mão que segurava os braços da cadeira tremia; “Vou ser ainda mais franco consigo, meu rapaz. E, a propósito, deve saber que não sou um mero fanfarrão. Já ouviu falar de Fletcher Fogg, eh? Sabia quem eu era quando recebeu aquele telegrama meu ontem?”

“Ora, sim, ouvi falar de si através do nosso trabalho corporativo, senhor.”

“Exatamente!” O Sr. Fogg assumiu de forma ainda mais untuosa a maneira de um velho amigo. “Agora, como eu digo, vou ser franco — vou incluí-lo no negócio desde o início. É claro que eles podem convocar outra — uma reunião especial da linha Vose após um aviso de trinta dias aos acionistas. Provavelmente convocarão essa reunião, e não me importo se o fizerem. Mas tenho a ambição de ser gerente-geral da linha durante esses trinta dias para fazer... bem, quero realizar uma pequena investigação das condições gerais”, declarou o Sr. Fogg, recorrendo ao seu lenço púrpura. “É tudo o que me importa dizer. Ao final de trinta dias poderemos — estou falando dos grandes interesses que represento — poderemos decidir comprar a linha e torná-la realmente valiosa para os acionistas. Você entende, espero. É estritamente profissional — está tudo bem — é uma boa gestão financeira. Depois que tudo acabar e aqueles velhos diretores cabeçudos acordarem, arrisco dizer que ficarão todos satisfeitos por esta pequena mudança ter sido feita. Entretanto, tendo sido bem cuidado, você não precisa se preocupar se eles estão satisfeitos ou não.”

Boyne olhou para o maço de certificados na mão de Fogg; lançou um olhar assustado aos documentos empilhados sobre a mesa. Eles jaziam ali representando sua responsabilidade, mas também representavam uma oportunidade. A visão deles era uma reprimenda aos pensamentos agitados de traição que o assaltavam. Mas os meros papéis não tinham voz para tornar essa reprimenda incisiva.

O Sr. Fogg tinha voz. “Cinco mil dólares no seu punho, meu rapaz, assim que eu puder usar o fio para Nova York — e não há hesitação no homem que consegue fazer com que cinco mil sejam trazidos para cá quando ele pede. Você pode ver que tipo de homens estão atrás de mim. O que você se importa com o velho Vose e sua turma?”

“Há o Sr. Franklin! Estarei pregando uma peça muito cruel, Sr. Fogg. Não, não farei isso.”

O Sr. Fogg não se exaltou. Ficou em silêncio por algum tempo. Franzindo os lábios, encarou Boyne e, em seguida, desviou o olhar para o teto.

“É uma pena — uma pena um jovem recusar tal oportunidade”, suspirou ele. “Pode ser feito sem você, Boyne, de outra maneira. O mesmo resultado acontecerá. Mas você poderia muito bem estar envolvido nisso. Agora deixe-me contar alguns exemplos de como alguns dos grandes homens deste país começaram.”

O Sr. Fogg era um excelente contador de histórias com uma imaginação vívida, e isso não perturbava sua consciência, pois as narrativas que ele transmitia a este jovem de olhos arregalados eram amplamente apócrifas.

“Você vê”, ele acrescentou ao final da primeira história, “o que um começo fulminante fará por um homem. Suponha que aquele sujeito sobre quem acabei de lhe falar tivesse ficado sentado e se recusado a saltar quando o caminho estava todo aberto para ele! Você não ouve ninguém criticando esse homem hoje em dia, ouve? E, no entanto, esse foi o truque que ele usou para começar.”

Com um remate semelhante, o Sr. Fogg dava o toque final a cada uma de suas histórias de sucesso.

“Eu... eu não tinha ideia... pensei que eles administrassem de outra forma”, murmurou David Boyne.

“Seu horizonte tem sido limitado; você não esteve no mundo o suficiente para saber, meu filho.”

“Já ouvi falar de todos esses homens, é claro. Eles são grandes homens hoje.”

“Você não pensou que eles se tornaram milionários economizando dinheiro de salários de escriturários, pensou? É claro, Boyne, admito que neste caso você se envolverá em uma pequena prática desonesta. Mas você não está roubando nada. Ninguém pode carregar navios a vapor no bolso do colete. É apenas um negócio — e negócios são feitos todos os dias.”

Fogg era um juiz astuto de seus semelhantes. Ele conhecia a fraqueza quando a via. Ele podia determinar pelo lábio inferior e pela linha do nariz de um homem se aquela pessoa era cobiçosa. E ele sabia agora o que significava o rubor nas bochechas de Boyne e o brilho em seus olhos. No entanto, havia algo mais a considerar.

“Não trairei a confiança que o Sr. Franklin deposita em mim. Positivamente, não farei isso”, disse o jovem. “Ele está doente, e isso tornaria as coisas piores.”

“Quão doente ele está?”

“Ele está muito, muito doente. Foi uma operação, e ele teve uma recaída. Mas esperamos que ele se recupere bem.”

“Em que hospital ele está?”

Boyne deu o nome.

“Acho que vou ligar e perguntar quando se espera que ele possa receber visitas”, anunciou Fogg, com presteza comercial. “Eu gostaria que Franklin estivesse aqui no convés — o próprio Franklin.”

“Não acredito que o Sr. Franklin realizaria um truque deste tipo”, afirmou o escriturário. “Eu odiaria enfrentá-lo depois de ter feito isso eu mesmo.”

“Franklin seria capaz de ver mais longe em um negócio financeiro do que um jovem rapaz”, disse o Sr. Fogg, severamente, e então ele encontrou seu número e fez a ligação. “Meu Deus!” ele exclamou, após uma pergunta. “Estou no escritório dele. Sim, direi a Boyne.”

Com uma bela afetação de pesar e surpresa, ele bateu o transmissor no gancho e girou para Boyne. Suas costas estavam voltadas para o jovem — ele havia falado com a mão sobre o receptor.

“Ele acabou de morrer — ele está morto! Franklin partiu.”

“Eu teria sido notificado”, ofegou Boyne.

“Eles estavam prestes a ligar para você. Você me ouviu dizer que o informaria.”

“Mas devo ligar para o hospital — oferecer meus serviços. Devo ir até lá.”

O Sr. Fogg estendeu a mão e empurrou o jovem de volta para sua cadeira. “Um lance de mestre deve ser jogado rapidamente e o pote recolhido de repente”, refletiu ele.

“Apenas um momento, meu filho. Agora você está por sua própria conta. Você não terá que explicar nada ao Sr. Franklin.”

Ele apontou para o relógio. Suas histórias haviam consumido tempo. Eram dez e trinta e cinco.

“Aquela reunião anual da linha Vose foi convocada para as dez horas de hoje. O Sr. Franklin estava vivo àquela hora. Ele era o escriturário daquela corporação. O que acontece agora não o embaraçará no que diz respeito a ele. Seja sensato. Dê um golpe para si mesmo. Você está sem emprego, de qualquer maneira. Vá em frente, agora.”

Fogg falou de forma ríspida, imperiosa. Ele exerceu sobre o jovem toda a força de sua personalidade.

“Cinco mil dólares — protegidos pelos meus interesses — escondidos por alguns meses — é fácil. Sente-se aí e prepare seus registros; vote nessas procurações. Vote nelas, eu digo. Esta reunião foi realizada às dez horas. Prepare seus registros.”

Ele ficou sobre Boyne, argumentando, prometendo, insistindo, e o jovem, finalmente, suando, corado, tremendo, inclinou-se sobre seus documentos, separou-os e preparou seus registros.

“Enviaremos uma cópia para o escritório da linha Vose por correio registrado”, ordenou Fogg. “Ateste-a como uma cópia do registro verdadeiro por notário. Quando ela chegar até eles, eu estarei lá, com meus diretores e minha historinha — e a cara do Tio Vose valerá a pena ser vista, embora sua linguagem possa não ser edificante. Você vem comigo, Boyne. Vou ao escritório de telégrafos.”

“Mas preciso entrar em contato imediatamente com a família do Sr. Franklin — oferecer meus serviços”, implorou o escriturário.

“Não há nada que você possa fazer agora”, disparou o cavalheiro dominador de Nova York. “Sugiro que feche o escritório. Mande a garota para casa. Você deveria fazer pelo menos isso em respeito à memória do seu empregador.”

Dez minutos depois, o registro havia sido enviado e o agitado Boyne estava trotando pela cidade com o Sr. Fogg. Este último parecia ter uma quantidade tremenda de negócios em mãos. Ele alugou um táxi e foi apressado para lá e para cá, deixando o jovem no veículo, com instruções para ficar ali, sempre que uma parada era feita. Mas, finalmente, o Sr. Fogg retornou de um recado com resultados muito tangíveis. Ele colocou um pacote de notas bancárias nas mãos trêmulas de Boyne.

“Você já viu tanto dinheiro de verdade antes, meu filho?” perguntou Fogg, jovialmente. “Esses são seus cinco mil. E aqui estão quinhentos para aquelas despesas que prometemos. Estou sugerindo que você deixe a cidade hoje à noite. Guarde esse dinheiro com você e suma de vista.”

Tendo garantido o dinheiro e colocado esse argumento poderoso nas mãos do jovem, a pressa e a ansiedade do Sr. Fogg pareciam ter acabado. Quando ele viu o pacote abotoado dentro do paletó de Boyne, ele sorriu.

“O negócio está fechado e o trabalho está feito, filho, e sinto-me certo de que, sendo um jovem cidadão americano saudável com muito dinheiro para pagar suas despesas, você não vai deixar esse dinheiro escapar nem fazer qualquer confissão tola.”

“Fui longe demais para recuar”, admitiu Boyne, dando tapinhas na parte externa de seu casaco. “Mas parece um sonho.”

“Ouvi uma pequena notícia boa enquanto corria por aí — esqueci de lhe contar”, disse Fogg, de maneira prática. “Aquele atendente idiota do hospital deve ter me entendido mal, ou eu o entendi mal. Franklin não está morto.”

“Ele... não... está morto?”

“Não. O último relatório é que ele está melhor esta manhã. Mas é assim que alguns desses atendentes malucos confundem as coisas quando alguém pergunta em um hospital. Agora, é claro, vendo que a cópia registrada está a caminho e Franklin está melhorando, isso é mais um motivo para você não querer ficar por aqui e ser incomodado. Tenho um plano. Ele o levará para fora da cidade em um estilo muito discreto. Telefonei para as docas e há um cargueiro da Vose aqui descarregando trilhos. Você mora em casa ou em uma pensão?”

“Eu moro em pensão”, disse Boyne, ainda lutando com a informação nauseante de que ele havia traído um empregador que estava vivo; de alguma forma, o sentimento de que era igualmente vil trair um empregador falecido não havia se gravado em sua consciência entorpecida. Ele estava agora plenamente consciente de que temia encontrar um advogado Franklin vivo e indignado. Fogg perguntou, e Boyne deu o endereço de sua pensão.

“Vamos dirigir até lá, e eu esperarei do lado de fora no táxi até que você possa juntar uma mala com suas coisas. Não se sobrecarregue demais. Lembre-se, você tem muito dinheiro nos bolsos.”

Pouco tempo depois, Fogg escoltou o jovem pela rampa do Nequasset, de cujo porão a última carga de trilhos estridentes estava sendo içada por motores de guincho ofegantes. Ao Capitão Zoradus Wass, que estava encostado no corrimão logo do lado de fora da casa do leme, o Sr. Fogg marchou com presteza comercial e falou com segurança.

“Capitão, meu nome é Fletcher Fogg. Dentro de quarenta e oito horas, os diretores da linha Vose me elegerão presidente e gerente-geral. Essa notícia pode ser bastante surpreendente, mas é verdade.”

O capitão veterano não respondeu. Ele mudou um certo volume de uma bochecha para a outra.

“Bem?” perguntou Fogg, um pouco bruscamente.

“Não estou dizendo nada.”

“Você acredita no que lhe digo, não acredita?”

“Eu não o conheço.”

“Este jovem é David Boyne, escriturário em exercício da corporação da linha Vose. A reunião anual acaba de ser realizada nesta cidade. Ele fez os registros oficiais. Ele lhe dirá que um novo conselho de diretores foi escolhido — a velha turma está fora.”

“Isso é verdade”, declarou Boyne, obedecendo ao impulso do olhar rápido de Fogg.

“Eu também não o conheço.”

O Sr. Fogg não ficou constrangido. “Não é especialmente necessário que você nos conheça. Quando você parte?”

“Estamos saindo vazios assim que aqueles trilhos estiverem no cais.”

“Estou enviando o Sr. Boyne com você em uma viagem de inspeção, capitão. Por favor, dê a ele aposentos e trate-o bem.”

“Nada feito até eu receber ordens dos proprietários”, declarou o Capitão Wass.

“Eu não lhe disse que serei o gerente-geral desta linha amanhã, ou no máximo depois de amanhã?”

“Quando você for gerente-geral, apareça e dê suas ordens, senhor.”

“Farei isso. Subirei a bordo em Nova York...”

“Tenho ordens para a Filadélfia”, lembrou o Capitão Wass. “É lá que você me encontrará.”

“Filadélfia, então! Subirei a bordo e demitirei você.”

“Faça exatamente como quiser.”

“Você se recusa a levar este jovem?”

“Isto não é um barco de passageiros. Eu não o conheço. Mostre ordens dos proprietários — caso contrário, nada feito.”

O imediato Mayo havia saído de sua cabine, ali perto. Com a percepção mais rápida de um jovem sobre possibilidades e contingências, ele percebeu que seu capitão poderia estar permitindo que a obstinação de um velho homem bloqueasse o bom senso.

O primeiro imediato tinha olho para os homens e suas maneiras. Ele estava ouvindo o Sr. Fogg. Aquele cavalheiro certamente parecia saber do que estava falando. E o jovem imediato Mayo, tendo faro para notícias, bem como olho para os homens, entendeu que o negócio de transporte costeiro estava, em geral, em um estado delicado. Ele deu ao Sr. Fogg uma inspeção mais detalhada e decidiu que um pouco de compromisso habilidoso era aconselhável.

“Capitão Wass, o senhor se afastaria comigo por um momento?” perguntou o imediato.

“Para quê?”

“Quero ter uma palavra com o senhor.”

“Diga bem aqui”, disse o capitão, asperamente. “Nunca tenho nenhum assunto que precise ser sussurrado pelos cantos.” Ele franziu a testa quando seu imediato lhe deu uma piscadela, tanto sugestiva quanto implorante. “Cospe para fora!”

“A lei não nos permite levar passageiros, como você sugere. E, naturalmente, você não gosta de agir sem ordens dos proprietários.” Ele olhou para o Sr. Fogg enquanto falava, oferecendo claramente um pedido de desculpas àquele cavalheiro. “Mas precisamos de um segundo comissário e...”

“Nós não precisamos!” O Capitão Wass foi direto e sem tato.

“Peço perdão — nós realmente precisamos. E podemos registrar este jovem de uma... uma maneira nominal, e então, quando chegarmos à Filadélfia, provavelmente encontraremos o assunto todo resolvido.”

“Qual é o seu nome?” perguntou o Sr. Fogg.

“Boyd Mayo, senhor. Primeiro imediato.”

“Sr. Mayo, você é um jovem com muito bom senso”, declarou Fogg.

Para si mesmo, olhando para o jovem, ele disse: “Vou jogar este jogo até o fim com cartas baixas, e aqui está uma pronta para a tirada!”

“Vejo você na Filadélfia, Sr. Mayo”, continuou ele, em voz alta. “Sou exatamente quem digo ser. Capitão Wass, você tem algo vindo em sua direção. Sr. Mayo, você também tem algo vindo — e é bom!” Sua assertividade era convincente, e até o capitão exibiu sintomas de estar impressionado. “Não é de forma alguma necessário que meu agente faça esta viagem com você, Capitão Wass. Talvez eu não tivesse um direito distinto de trazê-lo aqui. Mas sou um empresário do tipo ágil e quero resolver as questões rapidamente. No entanto, não peço favores. Vamos, Boyne!”

“Nós o registraremos como comissário para cobrir a lei”, ofereceu o capitão, tão conciso no consentimento quanto fora na recusa.

“Muito bem”, concordou Fogg. “Você tem um primeiro imediato capaz, senhor.” Ele girou seu relógio. “Tenho um trem para pegar, cavalheiros. Bom dia!”

Ele pegou Boyne pelo braço e o conduziu até a escada da ponte. “Filho”, disse ele, “você investigue aquele sujeito Mayo até conhecê-lo de cima a baixo, de dentro para fora. Vou usá-lo. E mantenha sua boca fechada sobre si mesmo.” Ele desceu a escada, tateando cautelosamente com suas pernas gordas, trotou até o táxi que esperava e foi levado embora.

Ao meio-dia do dia seguinte, Fletcher Fogg marchou para os escritórios gerais da linha Vose na companhia de dez cidadãos de aparência sólida. Imperturbável e sorridente, ele permitiu que o Presidente Vose gritasse anátemas e agitasse a cópia certificada do registro da reunião anual sob o nariz empinado de Fogg.

“O que o senhor diz não muda a situação em nada”, afirmou o Sr. Fogg. “O senhor encontrará os registros reais da reunião depositados no lugar habitual no estado de sua incorporação. Se acha que esses novos diretores não são legal e devidamente eleitos, pode recorrer aos tribunais.”

“Seu ladrão maldito, é provável que leve um ano para obter uma decisão. Isso é condenável. É pirataria. Você sabe como são os tribunais!”

“Pressione seus tribunais, então. Não é minha culpa se eles são lentos.”

Os novos diretores entraram na sala do conselho e, com grande celeridade, procederam à eleição de Fletcher Fogg como presidente e gerente-geral da linha Vose.

“O que você vai fazer?” implorou o chefe executivo deposto. “Meu dinheiro está aqui — toda a minha vida está nele — meu orgulho — minha intenção de ver que o público receba um negócio justo. Seu patife infernal, o que você vai fazer com minha propriedade?”

“Isso é assunto meu”, disse Fletcher Fogg.

“Você não pode se safar com isso — você não pode fazer isso!” enfureceu-se Vose. “Vou chegar ao âmago de como essa reunião foi conduzida. É melhor você recuar agora mesmo, Fogg, e salvar a si mesmo. Não tenho medo de lhe dizer o que vou fazer. Vou conseguir uma liminar temporária. Vou provar que fraude foi usada naquela reunião — suborno, sim, senhor!”

O Sr. Fogg sorriu e sentou-se na mesa do presidente. “Primeiro ele terá que encontrar um jovem chamado David Boyne”, disse ele a si mesmo.

“Vose”, disse o novo presidente, “tudo o que o senhor pode mostrar a um tribunal é o registro de uma reunião anual, devida e legalmente realizada. E se o juiz quiser dar uma olhada em mim, ele me encontrará administrando esta linha muito melhor do que o senhor jamais administrou.”

“É um truque barato e vulgar”, baliu o idoso gerente da companhia de navegação. “Sua turma vai vender para a Paramount — é seu complô.”

“Oh, não! Não estamos convidando liminares, leis, conversas de jornal, difamações e calúnias, Sr. Vose. Se algum dia houver alguma venda, o senhor será o primeiro a sugerir; eu nunca sugerirei. O senhor vê, sou tão franco com o senhor quanto o senhor é comigo. Vender esta linha para a Paramount agora, só porque o novo conselho está dentro, seria um trabalho desleixado — um trabalho muito bruto. Graças ao céu, tenho um respeito adequado pela lei — e pelo que ela pode fazer para incomodar um tolo. Eu não sou um tolo, Sr. Vose.”

XIX ~ O PACOTE PREMIADO DO SR. FOGG

Nosso capitão estava no seu convés de popa, E um belo homenzinho era ele! “Revisionem, revisionem, o seu cabo de turco, E lancem seus barcos ao mar, Bravos rapazes! E lancem seus barcos ao mar.” --A Baleia.

Um rebocador, buzinando explosões agitadas e staccato que o Capitão Wass traduziu como comandos para parar, interceptou o Nequasset em Hampton Roads.

O Sr. Fletcher Fogg era um passageiro no rebocador. Em um terno de cinza elegante, ele se destacava conspicuamente no corredor fora da casa do leme do rebocador. Ele praguejou veementemente quando subiu penosamente a escada para o convés do cargueiro, pois o revestimento enferrujado sujou os joelhos de suas calças.

“Estou fazendo um pouco melhor do que prometi ao senhor, capitão”, afirmou ele quando finalmente chegou à presença do mestre. “Eu disse Filadélfia. Mas aqui estou. O senhor me conhece agora?”

“Seu nome é Fogg”, respondeu o Capitão Wass, sem exibir prazer especial.

“E sou o gerente desta linha. Como parece ser muito difícil para o senhor entender qualquer coisa através dessa sua cabeça dura, pedirei que dê uma olhada em um documento que poupará argumentos.”

O papel era uma notificação atestada, assinada pelos diretores, declarando em fraseologia jurídica lacônica o que o Sr. Fogg acabara de declarar.

“O senhor reconhece minha autoridade, não reconhece?”

“Sua nota fiscal está em ordem”, assentiu o capitão.

“Muito bem! Exatamente! Então o senhor recebe suas ordens. Siga para uma ancoragem ao largo de Lambert Point abaixo de Norfolk, escolha um ancoradouro bem fora do canal e lance ambas as âncoras. O barco está sendo desativado. Percebo que o senhor não está ganhando dinheiro para os proprietários.”

“Não é minha culpa. Com afretamentos a...” começou o mestre, indignado.

“Não tenho tempo para um debate conjunto. O senhor está dispensado. Traga suas contas ao escritório principal assim que tiver entregue o vapor ao zelador — ele virá de Norfolk.” O gerente Fogg virou-se nos calcanhares para encontrar o imediato Mayo. “O senhor também se apresentará nos escritórios principais, Sr. Mayo. O senhor possui documentos de mestre?”

“Possuo, senhor — águas do Atlântico, de Jacksonville a Eastport.”

“Muito bom — o senhor será promovido. Colocá-lo-ei a bordo do vapor de passageiros Montana como capitão.” Ele olhou ao redor bruscamente. “Onde está meu agente?”

“Lá, na cabine do intendente. Demos a ele aquela”, respondeu o Capitão Wass, rudemente. “Estou feliz por estar fora da navegação a vapor. Aprendi como administrar uma pensão e ganhar dinheiro com isso.”

O Sr. Fogg não entendeu aquele desprezo e não prestou atenção à maneira do capitão. Ele começou a caminhar para a cabine indicada.

“Bem, agora pode andar por aí com seus galões dourados e pescar a sua herdeira”, observou o Capitão Wass ao seu imediato.

“Sinto muito, capitão”, disse o jovem, com sentimento real. “O senhor é quem deveria ser promovido, não eu. Não é justo — não parece real.”

“Não existe mais navegação a vapor de verdade nesta costa. É... não sei que diabo é isto”, rosnou o veterano. “Tenho farejado e investigado. Gostaria de ser um rato na parede daqueles escritórios de Nova York para ouvir o que estão tentando fazer conosco, pobres coitados. Ordenam num dia que cumpramos a lei; ordenam no dia seguinte que a quebremos; perseguidos pelos proprietários e ameaçados pelo governo! Estou contente por estar fora disso e contente por você ter conseguido um bom emprego. Sobre este último, estou especialmente contente. Mas mantenha os olhos bem abertos. Há coisas estranhas acontecendo ao seu redor!”

Fogg entrou na cabine e fechou a porta atrás de si. Encontrou Boyne sentado em um banquinho e parecendo um tanto apreensivo. “Escondendo-se?”, indagou Fogg.

“Pensei em não me mostrar até ter certeza de quem estava naquele rebocador”, disse o jovem.

“Esse é o garoto, David”, elogiou Fogg, com verdadeira cordialidade. “Você não é tolo. Nada como ser cuidadoso. Faça sua mala e vá para o rebocador.” Ele saiu a passos firmes.

“O contrato da Filadélfia foi cancelado, hein?”, perguntou o Capitão Wass. O tom de sua voz não convidava à amizade.

“Foi, senhor.”

“Parece estranho recusar uma carga que está lá esperando — e o velho barco pode carregá-la mais barato do que qualquer outro, da maneira como reduzi as despesas.”

“Está tentando me ensinar o meu trabalho?”

“Navego a vapor há quarenta anos e sei um pouco sobre isso.”

O Sr. Fogg olhou para o velho marinheiro, com os olhos semicerrados. Ele queria informar ao Capitão Wass que este último sabia demais sobre navegação a vapor para o tipo de trabalho que estava planejado ao longo da costa naqueles tempos delicados.

“Então não devo esperar nada de especial daqui para frente?”, perguntou o capitão. Apesar de sua determinação em ser ríspido e manter o lábio superior firme, ele não pôde reprimir um pouco de melancolia, e seus olhos percorreram o velho cargueiro com afeição.

“Nem uma coisa, senhor!” O Sr. Fogg foi direto e frio. Ele começou a caminhar para a escada. Ele deu um tapa no ombro de Mayo ao passar pelo jovem. “Aqui está o tipo de sujeito que procuramos hoje em dia. Quanto mais cedo se apresentar, meu rapaz, melhor para você.”

Com Boyne seguindo-o, ele desceu a escada oscilante e foi içado dos degraus inferiores para além do parapeito do rebocador, alcançando um apoio firme.

Depois que os cabos foram soltos e o rebocador afastou-se aos solavancos em um ângulo fechado, o Capitão Wass caminhou com dificuldade até a sua cabine de comando e acionou os sinos.

“Ela parece sentir — honestamente, ela sente!”, disse ao Imediato Mayo. “Ela parte pesada. Não levanta as patas. Nem eu consegui quando entrei aqui. Vamos ser sucateados — os dois! Malditos sejam suas explorações, roubos, brigas e finanças. Eles não estão mais fazendo navegação a vapor. Eles estão usando bons barcos para jogar damas em Wall Street. Bem, filho”, lamentou ele, debruçando-se desanimado sobre o peitoril da janela e olhando para o Chesapeake varrido pelo vento, “não vou chorar — mas sentirei falta do velho navio e do estrondo e barulho da velha máquina ali embaixo, em seu ventre. Eu até aceitaria o emprego de vigia a bordo se ele me contratasse.”

“Ele parece gostar um pouco de mim. Vou pedir para ele contratar o senhor”, ofereceu o imediato, ansiosamente.

“Creio que você não viu o olhar dele quando me demitiu”, disse o Capitão Wass. “Não permitirei que você lhe diga uma palavra sobre mim. Vá em frente, rapaz, e aceite o emprego que ele ofereceu. Mas lembre-se sempre de que ele é um operador astuto. Veja o que ele fez com o Tio Vose; e não conseguimos arrancar daquele passageiro como isso foi feito, também. Financiar nestes dias chega bem perto de navegar sem luzes e com caldeiras forçadas. Isso leva um homem à Terra da Prosperidade com pressa, desde que ele não atinja nada maior do que ele mesmo. Eles vão desativar este cargueiro e culpar a mim porque não estou gerando lucro para os proprietários. Eles terão números de sobra para provar. Cuide para que não coloquem algo pior e maior nas suas costas. Eles vão jogar um jogo com a linha Vose, eu lhe digo! No jogo das grandes finanças, a 'pega', transformar o pequeno sujeito que não consegue correr muito rápido no 'pegador', parece ser terrivelmente popular.”

Ele reduziu o cargueiro a um passo de lesma quando se aproximou do canal dragado e, finalmente, o sondador encontrou o fundo adequado. Ambas as âncoras foram lançadas.

O velho capitão tocou o sinal, informando ao engenheiro-chefe que a equipe do motor estava dispensada. Em um tubo acústico, o capitão ordenou que ambas as caldeiras fossem esvaziadas.

“E aí está o fim de mim como mestre do meu navio”, disse ele.

Os olhos do Imediato Mayo estavam marejados, mas palavras de simpatia que se adequassem ao caso não vieram à sua língua de marinheiro, e ele ficou em silêncio.

Quando o rebocador estava perto de Newport News, o Gerente Fogg afastou David Boyne de todos os ouvidos que pudessem ouvir. Ele deu ao jovem outro pacote de dinheiro.

“O restante das suas despesas para uma boa viagem”, disse ele. “Você parece ser um sujeito que sabe cuidar da própria vida — e capaz de se meter na vida do outro sujeito de uma forma bastante razoável. Você não contou muita coisa sobre o jovem Mayo, mas é satisfatório saber que ele viveu uma vida tão simples e cotidiana que não há muito o que contar.”

“Nunca vi um homem tão ingênuo”, afirmou Boyne. “Não que eu tenha muita experiência, mas no escritório de um advogado você é obrigado a ver uma quantidade considerável da natureza humana.”

“Ele é, sem dúvida, um jovem muito merecedor — e estou feliz por poder usá-lo”, disse Fogg, incapaz de manter toda a crueza fora de seus tons. “Agora, filho”, continuou ele, após um momento de reflexão, “fique a bordo deste rebocador até que eu tenha ido embora há cinco minutos. Há muitos olhos atentos por aí nestes tempos, e alguns dos amigos de Vose ficariam felizes em correr até ele com uma história sobre mim. Após cinco minutos, pegue sua mala e caminhe até o Cais Sete e suba a bordo do cargueiro Ariel — vá como se você pertencesse a ele. Diga ao capitão que você é Daniel Boyle — guarde o nome — Daniel Boyle. E nunca diga a ninguém, até que tenha notícias minhas, que seu nome é David Boyne. Aquele cargueiro parte esta noite para Barbados com maquinário açucareiro. Você terá uma boa viagem.”

“Não me importo quão longe eu vá”, declarou Boyne, um tanto amargamente. “Fiz um serviço sujo. Sou praticamente um renegado. Não, não me importo quão longe eu vá.”

“Nem eu”, concordou Fogg, mas um sorriso aliviou a brutalidade da fala. “Você vê, filho, ambos temos razões especiais pelas quais é melhor para você ficar longe destes lugares por um tempo. Se algumas pessoas puserem as mãos em você, elas vão incomodá-lo com muitas perguntas tolas. Quando se cansar de Barbados, vá em frente e escolha outra boa viagem, e continue indo, e mais tarde encontraremos um bom emprego para você por aqui. Mantenha-me informado. Adeus.”

O rebocador havia atracado e ele saiu apressado.

“É um jogo e tanto”, refletiu o Sr. Fogg. “Blefei num pote com um dois. O trabalho foi um pouco grosseiro porque teve que ser feito de última hora. O trabalho que farei com meu segundo dois será mais suave, e não haverá tantas reclamações depois que o pote for recolhido. Muita gritaria e seu jogo acaba invadido! Posso ver o que aconteceria comigo — Julius Marston fazendo isso — se eu der uma abertura para a equipe de força bruta. Mas se eles virem o pequeno Fogg esconder uma carta na próxima rodada que ele vai fazer — bem, eu comerei o Montana, se essa for a única maneira de me livrar dele.”

Boyd Mayo não perdeu tempo em obedecer às suas ordens de se apresentar em Nova York. Ele deu seu nome a um funcionário nos escritórios da linha Vose e pediu para ver o Sr. Fogg. Ele se apresentou um pouco timidamente. Ele não tinha certeza alguma de sua boa sorte. É um tanto desconcertante para um jovem ter o comando de um transatlântico de passageiros de hélice dupla jogado sobre si tão casualmente quanto se joga um amendoim para uma criança. Ele amassou o boné entre as palmas das mãos trêmulas quando seguiu o funcionário até o escritório interno.

O Sr. Fogg levantou-se e cumprimentou Mayo com grande cordialidade. “Bom dia, capitão”, disse o gerente. “Permita-me esperar que você seja tão ágil em cumprir o cronograma quanto tem sido em chegar aqui desde Norfolk.”

“Não senti vontade de perder muito tempo, considerando o que me foi prometido”, gaguejou Mayo, ainda não seguro de si.

“Com medo de que eu pudesse mudar de ideia?”

“Parecia bom demais para ser verdade. Eu queria chegar aqui assim que pudesse e ter certeza de que tinha ouvido corretamente, senhor. Aqui estão meus papéis.”

Ele os colocou na mão do gerente. Fogg não os abriu. Ele os abanou, indicando uma cadeira.

“Sente-se, Capitão Mayo. Você entende que a nova administração assumiu a linha Vose para trazer vida e agilidade ao negócio. Temos uma concorrência forte. Um grande sindicato está assumindo as outras propriedades de navegação a vapor, e precisamos nos apressar para acompanhar o cortejo. Estou dispensando cargueiros que não estão mostrando um lucro adequado — estou eliminando os capitães cobertos de musgo que não estão atualizados. É por isso que estou colocando você no Montana no lugar de Jacobs.”

“Ele é um bom homem — um dos melhores”, aventurou-se Mayo, a lealdade à sua classe instigando-o. “Ficarei triste em vê-lo sair, por mais feliz que eu esteja em ser promovido — e isso é honesto.”

“Essa é a maneira de falar; mas precisamos de agilidade e energia, e homens jovens podem nos dar o que procuramos. Isso não significa que você precise correr riscos imprudentes.”

“Espero que não, Sr. Fogg. Meu treinamento com o Capitão Wass foi o contrário. E se o senhor pudesse apenas dar a ele...”

“Capitão, você tem sua própria fila para capinar. Mantenha os olhos nela”, aconselhou o gerente geral, rispidamente. “Estou escolhendo capitães para os barcos Vose, e acho que entendo do meu negócio. Agora o que quero saber é, você tem confiança em mim? Você será leal a mim?”

“Sim, senhor!”, afirmou Mayo, impressionado pelo comportamento comercial ágil e brusco de seu superior.

“Exatamente! E a única conversa que quero que você espalhe é a de que você acredita que estou fazendo o meu melhor para tornar esta linha valiosa para os acionistas. Onde você está hospedado?”

Mayo nomeou um pequeno hotel na esquina.

“Eu o colocarei a bordo do Montana assim que puder organizar os detalhes da transferência. Posso deixar Jacobs fazer mais uma ou duas viagens. Apresente-se aqui todas as manhãs às nove. Pelo resto do tempo, mantenha-se ao alcance do telefone do hotel.”

Mayo prestou continência e saiu.

Fogg chamou o observador do serviço meteorológico pelo telefone e fez algumas perguntas. Ele foi informado de que o vento havia virado para o noroeste e que o nevoeiro que predominava há muito tempo havia sido varrido da costa.

O Sr. Fogg pareceu sentir-se um tanto irritado com esta partida repentina do fenômeno climático que carregava o seu sobrenome. Ele bateu o receptor no gancho e disse uma palavra feia. Uma pessoa que ouvisse poderia ter ficado um pouco admirada, pois aqui estava um gerente de barcos a vapor amaldiçoando a ausência do nevoeiro em vez de guardar sua profanação para gastar com a presença das névoas desmoralizantes. Mas o reinado do vento norte no final do verão nunca é longo; três dias depois, a brisa mudou, e os bancos cinzentos de nevoeiro marcharam do mar aberto.

Mayo foi acordado cedo pelo clamor dos apitos das embarcações fluviais, pois o pequeno hotel ficava perto da orla. Ele viu o nevoeiro à deriva em massas esfarrapadas contra os edifícios altos, encobrindo as torres. Ele estava esperando seu chamado para o dever com muita impaciência, achando o confinamento do hotel irritante nos dias frescos de sol, ansioso para estar fora e envolvido nesta nova e esplêndida tarefa que prometia tanto.

Era o dia de partida do Montana do lado de Nova York.

Ele tinha ido dormir entusiasmado com a esperança sincera de que seria chamado para levá-lo. Mas quando olhou para fora naquela manhã, viu as cortinas drapeadas das névoas que se aproximavam, ouviu os gritos frenéticos das embarcações no porto, uivos frenéticos de alarme, buzinas roucas de protestos e avisos, ele ficou repentinamente e intensamente ansioso para que sua ascensão à cabine de comando do Montana fosse adiada. Melhor o escritório enfumaçado e apertado do pequeno hotel onde ele estava se corroendo em uma espera sombria. Ele estava perfeitamente disposto a sentar-se lá e estudar novamente os cromos publicitários nas paredes e contemplar a procissão interminável de carroças barulhentas. Mas às oito horas o telefone o chamou.

“Aqui é o Gerente Geral Fogg”, a voz o informou, embora ele não precisasse da informação; ele conhecia aqueles tons nítidos. “Estou falando dos meus apartamentos. Por favor, dirija-se imediatamente ao Montana. Subirei a bordo dentro de uma hora.”

“O senhor espera que eu assuma o comando — para — levá-lo hoje?”, hesitou Mayo.

“Certamente. O Capitão Jacobs transferirá o comando assim que eu chegar.”

Mayo acabara de se alegrar em seu coração porque Jacobs seria obrigado a carregar a responsabilidade da navegação daquele dia; ele tinha certeza absoluta de que um homem novo não seria convocado sob as condições que prevaleciam. Ele queria sugerir ao Gerente Fogg que fazer a mudança naquele momento seria desaconselhável. Ele limpou a garganta e buscou em sua alma as palavras. Mas um clique nítido e decisivo disse-lhe que o Sr. Fogg considerava o assunto encerrado. Ele afastou-se do telefone, tonto e perturbado, e não se sentiu confortado quando se lembrou de como o Gerente Fogg havia recebido sugestões humildes no passado. Ele pagou sua modesta conta, pegou sua mala de viagem e partiu para o píer da linha Vose.

Quando ele a viu surgindo no nevoeiro — seu navio, finalmente — ele sentiu vontade de fugir dela incontinenti, em vez de correr em sua direção.

Mayo tinha todo o zelo, ambição e coragem de um jovem — mas ele tinha na medida certa a cautela e o conhecimento das condições de um marinheiro; ele havia sido treinado por aquele mestre da cautela, Capitão Zoradus Wass. Ele estava realmente assustado ao olhar para a proa imponente, os flancos poderosos, a curva graciosa da superestrutura, e perceber que ele deveria guiar este gigante e sua carga de seres humanos para o vazio branco do nevoeiro. Em sua honestidade, ele admitiu para si mesmo que estava assustado.

Todo aquele grande edifício praticamente gritava responsabilidade para ele.

Ele estava confiante em sua habilidade. Como primeiro imediato, ele havia dominado os problemas de cursos e manobras no nevoeiro ao longo da mesma rota que ele deveria seguir agora. Mas até então, a responsabilidade suprema recaíra sobre outro.

Homens estavam levando carga a bordo em carrinhos barulhentos — linhas paralelas de estivadores trabalhavam. Havia muitos baús, precursores dos passageiros.

Ele subiu a bordo pela entrada de carga e encontrou seu caminho até a fileira de cabines dos oficiais. Ele reconheceu o veterano de barba grisalha que caminhava pelo corredor fora da cabine de comando, embora o homem não estivesse de uniforme; era o mestre deposto.

“Bom dia, Capitão Mayo”, disse ele, sem qualquer ressentimento em seus tons. “Parabenizo-o por sua promoção.”

“Espero que entenda que eu não fui caçar este emprego”, disparou Mayo.

“Acredito que seja apenas uma questão de nova política — assim me diz o Gerente Fogg. Entenda-me também, Capitão Mayo! Não guardo ressentimento, especialmente não contra você.”

Ele estendeu a mão de uma maneira fina e masculina, e era tão distintamente o melhor tipo de capitão de mar digno e autoconfiante da velha escola, que Mayo recuou diante da ideia de substituir este homem.

O Capitão Jacobs abriu a porta com a inscrição “Capitão”. “Toda a minha tralha já saiu e foi para além do parapeito. Vou sentar com você, se não se importar, até que o Sr. Fogg chegue. Você terá uma passagem densa, Capitão Mayo.”

“Não me parece certo — colocar um homem novo aqui neste nevoeiro”, protestou Mayo, calorosamente. “Eu deveria levá-la em tempo limpo até conhecer seus truques. Em um aperto, quando você tem que saber como um barco se comporta, e saber isso muito rapidamente para evitar um choque, um movimento em falso o coloca no buraco.”

“Eles parecem estar dirigindo linhas de barcos a vapor de Wall Street hoje em dia, em vez da orla marítima”, disse o Capitão Jacobs, secamente. “Está tudo no jogo, como eles estão jogando nestes tempos. Não há nada a ser dito pelos homens na cabine de comando.”

“Sou marinheiro, e simples. Acho que conheço meu trabalho, Capitão Jacobs, ou então não aceitaria esta promoção. Mas não tenho cabeça inchada. É a coisa sensata e adequada você levar o Montana esta noite e deixar-me ficar pela cabine de comando e observá-lo. Se eu puder convencer o Sr. Fogg a permitir isso, o senhor faria outra viagem?”

“Eu faria isso para ajudá-lo, mas serei condenado se ajudar Fogg — não se ele viesse aqui agora e me implorasse”, declarou o Capitão Jacobs, mostrando temperamento pela primeira vez. “E se você tivesse sido chutado como eu fui após todos os meus anos de serviço honesto, você se sentiria exatamente como eu, Capitão Mayo. Você não me culpa, culpa?”

“Não posso culpá-lo.”

“Você conhece os cursos e terá a mesma equipe que eu tive. Você encontrará cada anotação no registro precisa até a jarda ou o segundo. Ela é uma velha garota constante e, conhecendo a maré e os cursos, como você conhece, você pode depender dela até a volta de um parafuso. Você tem meus melhores votos — mas eu terminei.”

Ele colocou o fervor da resolução final na declaração. Mas, com o espírito fraternal de ajuda do marinheiro, ele se sentou e entrou nos detalhes de todos os poucos caprichos do Montana. Ele chamou os imediatos e os apresentou ao novo mestre. Eles pareciam ser homens tranquilos e robustos que não guardavam malícia porque uma nova política colocara um novo homem sobre eles.

Então chegou o Gerente Geral Fogg, e nesta presença estritamente comercial Mayo não presumiu expressar nenhuma de suas dúvidas ou sua opinião sobre sua ineficiência.

A cerimônia um tanto rígida e decididamente dolorosa de despedida do ex-comandante logo terminou, e o Capitão Jacobs partiu.

“Por que você não vestiu seu uniforme?”, perguntou Fogg. “Você se arranjou com um novo, é claro?”

“Sim, senhor.” As bochechas de Mayo coraram levemente quando se lembrou de como ele havia desfilado diante do espelho em seu quarto no hotel. Mas ele teve vergonha de correr para vestir seu casaco incrustado de ouro na presença do Capitão Jacobs.

“Coloque-o assim que puder”, ordenou o gerente geral. “Quero que você faça uma inspeção geral do barco comigo.”

Eles fizeram o tour e, apesar de suas dúvidas, quando ele viu as névoas varrendo a extremidade do píer, o Capitão Mayo, recebendo as saudações de subalternos respeitosos, sentiu a alegria orgulhosa de quem finalmente chegou ao objetivo de sua ambição.

Mestre do lendário Montana, rainha da frota Vose, aos vinte e seis anos!

Ele olhou para cada um dos esplêndidos espelhos do grande salão para ter certeza das letras douradas em seu boné.

O carpete espesso parecia grato ao seu passo. A orquestra do navio estava ensaiando em sua galeria.

Se ao menos aquele nevoeiro diabólico se dissipasse! Mas ainda assim ele surgia do mar, e o barômetro, em 29.40, não prometia tempo claro.

“Segurança até o detalhe mais ínfimo — esse é o meu lema”, declarou o Gerente Fogg. “Ordene um exercício de incêndio.”

Foi realizado, e o Sr. Fogg criticou a falta de agilidade. Ele foi bastante severo depois que o exercício de botes salva-vidas terminou. Ordenou um segundo ensaio. Comandou que a tripulação o fizesse uma terceira vez. O calor de sua insistência neste aspecto da disciplina a bordo era muito notável.

“E quando puserem esses botes de volta, certifiquem-se de que cada cabo esteja livre e enrolado, e cada cobertura solta. Custa muito dinheiro bom se vocês matarem passageiros nos dias de hoje.” Então ele se apressou em sair. “Vejo vocês antes da hora da partida”, informou ao Capitão Mayo.

O novo comandante ficou feliz por estar sozinho e ter lazer para estudar os diários de bordo do navio. Ele estava acostumado ao tempo mais lento de um cargueiro nas rotas. Fez alguns cálculos. Descobriu que, a setenta e cinco rotações por minuto, o Montana registraria aproximadamente a mesma velocidade que o cargueiro fazia quando operava no seu máximo. Decidiu usar o nevoeiro como desculpa e reduzir a velocidade para o ritmo familiar do Nequasset. Refletiu que se sentiria bem à vontade naquelas circunstâncias. Sentiu-se encorajado e circulou pelo navio parecendo menos um malfeitor condenado à execução.

Quando o Gerente Geral Fogg apressou-se a bordo, alguns minutos antes do horário de partida anunciado para as cinco horas, comentou sobre o comportamento melhorado do Capitão Mayo.

“Conseguir um dos melhores empregos nesta costa parecia torná-lo um homem de luto. Talvez um espelho lhe tenha mostrado quão bem você parece nesse novo uniforme. De qualquer forma, estou feliz em ver que você se animou. E agora vou lhe dar uma notícia que deveria deixá-lo ainda mais feliz: vou nesta viagem com você. Se me mostrar que consegue fazer um bom trabalho neste tipo de tempo, não precisará se preocupar com seu cargo.”

A expressão no rosto do Capitão Mayo não indicava deleite absoluto ao ouvir esta “boa notícia”. Inexperiente como era no navio, não podia esperar apresentar um desempenho tranquilo.

“E ainda assim você se recusa a se alegrar!”, repreendeu o gerente.

“Estou feliz que o senhor venha, senhor. Não me entenda mal. Mas um marinheiro é um sujeito bastante sério quando sente a responsabilidade. Estou empreendendo uma grande tarefa.”

“É a melhor maneira de descobrir se você é o homem para o trabalho — se você é o homem que penso que é. É um teste que supera velejar em uma poça.”

“Estou feliz que esteja a bordo”, repetiu o capitão. “Isso vai atenuar um pouco a minha responsabilidade.”

“Vai, é?” gritou o Gerente Fogg, com tons agudos. “Nem por um decreto! Você é o capitão desta embarcação. Eu sou um passageiro. Não tente se esquivar. Você não está com medo, está?”

Eles estavam parados ao lado do parapeito gotejante fora da cabine de comando. Bem abaixo deles, nas profundezas espaçosas do vapor, uma corneta soou notas longas e os chamados monótonos dos comissários avisavam: “Todos em terra!”

As passarelas foram retiradas com um “clacle” surdo de correntes molhadas sobre roldanas, e o Capitão Mayo, após um rápido olhar para seu relógio para ter certeza da hora, ordenou a um contramestre que soasse o sinal de “Desatracar!” O apito soltou uma nota rude e, vendo que tudo estava livre, o capitão puxou os cabos da campainha auxiliar no parapeito. Dois para o motor de bombordo, dois para o de boreste, e o Montana começou a recuar para dentro do manto cinzento que envolvia o rio.

O Capitão Mayo viu as fileiras de rostos no cais, maridos e esposas, mães e namoradas, despedindo-se daqueles que acenavam adeus dos conveses do vapor. Ele se recompôs com um domínio supremo de determinação. Dependia dele! Ele quase disse isso em voz alta.

Tremores de dúvida não o agitavam mais. Era uma fé impensada, contudo era uma confiança implícita que todas aquelas pessoas depositavam nele. Elas estavam se confiando à sua embarcação com a segurança cega dos viajantes que seguem uma rota regular, sem se importar com a forma como o destino é alcançado, contanto que cheguem ao fim de sua jornada.

O apito rouco, longo e de advertência, que anunciava a todos no rio que o vapor estava deixando seu cais, abafou os gritos de despedida e as notas da melodia alegre que a orquestra tocava.

“Vejo você mais tarde”, disse o Gerente Geral Fogg. “Acho que vou jantar cedo.”

O Capitão Mayo subiu a pequena escada e entrou em sua cabine de comando.

Dependia dele!

XX ~ TESTANDO UM HOMEM

Ora, a primeira terra que alcançamos chama-se The Deadman, O Ramhead perto de Plymouth, Start, Portland e Wight. Navegamos por Beachy, Por Fairlee e Dungeness, Até ficarmos a par do Farol de South Foreland. --Adeus e Partida.

Com o motor de boreste arranhando-a para trás e o motor de bombordo conduzindo-a à frente, o Montana girou sua enorme massa quando ficou livre dos cais que a cercavam. As hélices agitadas, compensando-se, giraram-na no lugar. Então, começou a encontrar seu caminho para fora do labirinto do tráfego.

Os homens sombrios e silenciosos das cabines de comando não falam muito, mesmo quando estão livres em terra. Eles são taciturnos quando em serviço. Eles não relatam suas sensações quando estão abrindo caminho pelo East River em meio ao nevoeiro; eles não têm o vocabulário para isso.

Um psicólogo poderia fazer muito sobre o assunto discutindo a concentração sublimada, sentidos humanos coordenando visão e som no instante, uma espécie de sexto sentido que deve ser relegado aos limbos da suposição como instinto.

O homem na cabine de comando não entenderia nem um pouco o que o psicólogo estaria falando.

O oficial do barco a vapor simplesmente entende que deve estar em seu posto!

O Montana somou sua voz à balbúrdia do alarido do rio.

O nevoeiro era tão denso que mesmo o vigia postado em seus molinetes de proa era uma figura nebulosa quando visto da cabine de comando. Uma balsa baixa, que se dirigia através do rio direto para o atracadouro onde seu gongo costeiro a chamava, espirrou sob a proa do vapor; dois rebocadores avançavam com indiferença na outra direção — pardais atrevidos do tráfego fluvial, sempre sob os pés e esquivando-se do perigo por uma margem de fôlego.

Apitos assobiavam ou rugiam sozinhos e em pares, um dueto de vozes a vapor, ou misturavam-se às vezes em um coro intrigante.

O apito de um vapor no nevoeiro transmite pouca informação, exceto anunciar que uma embarcação movida a vapor está em algum lugar ali no vazio branco, invisível, em movimento. Nenhuma embarcação tem permissão para soar sinais de passagem a menos que a embarcação para a qual está sinalizando esteja à vista.

O Capitão Mayo não conseguia ver nada — até a superfície da água era quase indistinguível.

À frente, atrás, à direita e à esquerda, tudo o que podia apitar estava ocupado e vociferante. Aqui e ali, um dueto de três apitos curtos indicava que vizinhos estavam ameaçando colidir e recuavam o melhor que podiam.

Duas vezes o grande vapor parou seus motores e derivou até que a confusão à sua frente parecesse ter sido resolvida.

Uma parada mistura as anotações do diário de bordo, mas os imediatos do vapor fizeram os sinais de Battery e, depois de algum tempo, os contornos de aranha da primeira grande ponte deram a certeza de que seus cálculos estavam corretos.

Providencialmente, houve uma dispersão do nevoeiro em Hell Gate, com uma brisa costeira retirando as névoas da superfície da água.

Então foi revelada a situação que estava por trás dos apitos “um longo e dois curtos” particularmente enfáticos e ruidosos de um apito violento. Um rebocador da Lehigh Valley vinha descendo a corrente de cinco nós com três barcaças vazias, que a deriva havia desalinhado até ocuparem todo o canal. Com seus cabos, o rebocador e o reboque estendiam-se por pelo menos quatro mil pés, quase uma milha de arrasto perigoso.

“Nossa sorte, senhor”, admitiu o primeiro imediato. “Ela estava uivando tão alto, que me dane se eu pudesse dizer se ela estava vindo ou indo. Ela não tem o que fazer descendo o Sound.”

O Capitão Mayo, com os dentes cerrados, seu rosto rígido gotejando umidade enquanto estava na janela aberta, parou os motores de sua carga gigante e tocou o sino para velocidade total à ré a fim de pará-la. Ele não tinha desejo de lutar pela posse do canal com o que via à frente.

Nesse momento, o Gerente Fogg entrou na cabine de comando, ignorando o aviso de “Proibida a Entrada” por autoridade de seu cargo. Ele acendeu um charuto e exibiu o ar satisfeito de um homem que se alimentou bem.

“Você tem feito um arrasto bem lento, não é, Capitão Mayo? Tive tempo de jantar — e olha que eu como bem! E ainda não chegamos ao Gate!”

“Não poderíamos fazer nada melhor e estar seguros”, disse o capitão por cima do ombro, com os olhos no reboque.

“Qual é o problema agora?”

“Um rebocador e três barcaças no caminho.”

“Você quer dizer que está atrasando um transatlântico da Vose com oitocentos passageiros, esperando por um rebocador? Olhe aqui, Mayo, precisamos levar as pessoas para onde querem ir, e levá-las a tempo.”

“Aquele reboque está descendo com a corrente e tem o direito de passagem, senhor. E não há chance de passar, pois ele está varrendo o canal.”

“Não acredito que exista qualquer lei que faça um barco de passageiros esperar por chatas”, resmungou Fogg. “Se existe uma, um bom homem sabe como contorná-la e manter seu cronograma.” Ele caminhou pela cabine de comando até o extremo fundo, soltando fumaça de seu charuto.

Ele bufou quando Mayo deu os sinais de seguir em frente e a pulsação dos motores começou.

“Agora acelere, rapaz. As pessoas nos dias de hoje não querem perder tempo na estrada. Estão até acelerando os carros funerários automotivos.”

O Capitão Mayo não respondeu. Ele estava grato por os perigos de Hell Gate terem sido revelados. As névoas pendiam em farrapos contra North Brother Island quando ele entrou no canal do Gate, e podia ver, bem à frente, o fuste do farol. Era um trecho onde cálculos precisos eram necessários, e esse capricho das névoas lhe dera uma ótima chance. Ele sinalizou para velocidade total e deu uma espiada para notar o rumo do marco de Sunken Meadow.

“Nordeste, cinco oitavos leste!”, direcionou ao contramestre no leme.

O homem repetiu o comando mecanicamente e trouxe-a para seu rumo para a passagem de Middle Ground.

Depois que contornaram North Brother, a torre de Whitestone Point foi revelada. Realmente parecia que o nevoeiro estava clareando, e mesmo no canal entre Execution Rocks e Sands Point suas esperanças estavam aumentando. Mas nas águas mais amplas perto de Race Rock, o Montana empurrou seu focinho preto mais uma vez para dentro do manto branco, e seu apito começou a bramir novamente.

O jovem capitão suspirou. “Leste, meio norte!”

“Leste, meio norte, é, senhor!”

Pelo menos, ele havia conquistado o East River, o Gate e os estreitos adiante, e tinha muitas milhas em linha reta até o sinal sonoro perto de Point Judith. Ele estava decidido a ser grato por pequenos favores.

Ele esperava que com o cair da noite e devido à prevalência do nevoeiro, ele descobriria que o transporte marítimo do tipo comum havia parado de se mover. No entanto, em poucos minutos, ele ouviu apitos reveladores à frente e sinalizou meia velocidade. Uma velha e pesada embarcação de carga com um guindaste oscilante passou perto de bordo. Um barco de pesca auxiliar, seu escapamento estalando como uma metralhadora e parecendo depender desse ruído para aviso, foi ultrapassado.

“Pode deixar essa janela por um minuto, Capitão Mayo?”, perguntou o gerente geral.

O capitão juntou-se prontamente ao Sr. Fogg no fundo da espaçosa cabine de comando.

“Veja bem, Capitão”, repreendeu seu superior, “eu passei por essas águas no Triton da linha Union outro dia, e ele cumpriu o horário. Qual é o problema conosco?”

“Estou obedecendo à lei, senhor. E há novos avisos recém-emitidos.” Ele apontou para o cartaz com o título “Segurança Primeiro” em letras grandes e vermelhas. “Foi passada a palavra de que o primeiro capitão que for pego com a boca na botija será feito de exemplo.”

“É mesmo?”, comentou Fogg, estudando a ponta de seu charuto. Seu tom era um pouco peculiar. “Mas o Triton passou.”

“E ele quase abalroou o Nequasset no nevoeiro na última viagem que fiz subindo a costa. Foi simplesmente por um triz, Sr. Fogg, e tudo por culpa dele. Nós estávamos seguindo as regras à risca.”

“E essa é uma maneira de estragar os negócios de uma linha de barcos a vapor”, retrucou Fogg. Ele acrescentou para si mesmo: “Mas não é a minha maneira!”

“Sinto muito, mas fui treinado para acreditar que um histórico de segurança é melhor do que todos os históricos de velocidade, senhor.”

“Deixei Jacobs ir porque ele era antiquado, Mayo. Esta é a era de arriscar — arriscar e chegar lá! Negócios, política, ferrovias e navegação a vapor. As pessoas esperam isso. O pessoal certo faz isso.”

“O senhor é gerente geral desta linha, Sr. Fogg. O senhor me ordena que cumpra o horário do cronograma, não importam as condições?”

“Você é o capitão deste barco. Eu simplesmente quero que você entregue bens atualizados. Quanto a como você faz isso, não é da minha conta. Não sou capitão de mar e não presumo aconselhar sobre detalhes.”

O Capitão Mayo era jovem. Ele conhecia o jogo da costa. Ele era ambicioso. A oportunidade havia se apresentado. Ele entendia o temperamento irracional daqueles que buscavam dividendos sem se preocupar muito com detalhes. Ele sabia como outros capitães de passageiros estavam se dando bem com os poderosos que controlavam os interesses de transporte. Ele confessou a si mesmo que invejara o mestre do veloz Triton, que passara pavoneando-se como se fosse dono do mar.

Até então, Mayo fora o transeunte humilde e apologético ao longo da rota oceânica, esperando ser empurrado para um lado, desviando-se quando o grandalhão exigia passagem livre.

Ele se lembrava com que pressa sempre manobrava o velho Nequasset para fora do perigo quando ouvia a convocação senhorial dos transatlânticos de passageiros. Não era esse o método geral dos comandantes de cargueiros? Por que ele não deveria esperar que eles saíssem de seu caminho, agora que ele era um dos pavões do mar? Deixe que eles se preocupem agora, como ele se preocupou e se esquivou no passado! Ele voltou para sua janela, com essas reflexões girando em seu cérebro.

“Isto não é um cargueiro”, disse a si mesmo. “Fogg tem razão. Se eu não entregar o que esperam, alguém mais será chamado para fazê-lo, então para que serve? Vou jogar o jogo. Apenas lembre-se — ouve, Mayo? — que você realizou o desejo do seu coração e é o capitão do Montana. Se eu perder este emprego por causa de um cartaz com letras vermelhas, vou me chutar para dentro de um rebocador e ficar lá pelo resto da minha vida.”

Ele puxou um diário de bordo da estante e anotou a velocidade média do vapor a partir das entradas. Ele sinalizou para a casa das máquinas através do tubo acústico.

“Dê a ela duzentas por minuto, chefe!”, ordenou.

E quinze segundos depois, com seus motores pulsando ritmicamente, a grande embarcação estava cortando o nevoeiro e a água em velocidade expressa, uivando para que os pequenos saíssem da frente.

Lá embaixo, em suas profundezas cintilantes, a orquestra entoava uma valsa alegre, a prata tilintava sobre a alvura da sala de jantar, homens e mulheres riam, conversavam e flertavam; homens escreviam telegramas, marcando compromissos para o dia seguinte em horários matinais, e o telégrafo sem fio os transmitia. Eles eram enviados com a certeza, por parte dos remetentes, de que nenhum homem nos dias de hoje espera pela maré ou pelo nevoeiro. As águas espumantes passavam voando na noite lá fora, e aqueles que se aventuravam nos conveses gotejantes olhavam para o leque de espuma branca que se espalhava pelo nevoeiro e ficavam felizes em retornar às poltronas aconchegantes e ao brilho do salão.

Lá no alto, na proa, na cabine de comando, estavam os olhos e os cérebros desse monstro veloz. Estava escuro ali, exceto pelo brilho amarelo e suave das luzes da bússola. Estava silencioso, exceto pela voz baixa de um imediato que anunciava suas anotações.

Ocasionalmente, os imediatos olhavam um para o outro na penumbra quando o apito de um vapor soava à frente. Este jovem capitão parecia ser um sujeito que carregava sua coragem consigo! Eles estavam acostumados ao sistema mais cauteloso do Capitão Jacobs.

O mestre não reduziu a velocidade. Ele se inclinou para fora, com a mão na orelha. Na terceira vez que um desconhecido soou seu apito, ele deu uma olhada rápida na bússola.

“Desvio de dois pontos — assim ela mostra”, disse em voz alta. “Passaremos por ele sem problemas.”

A mudança na direção do som o assegurara. Poucos minutos depois, o apito anunciou uma localização a salvo por bombordo. Mas o próximo apito que ouviram soou exatamente à frente, e aumentou o volume do som apenas gradualmente. Eles estavam ultrapassando uma embarcação que seguia na mesma direção.

O Capitão Mayo puxou o cabo mais vezes e soou apitos mais prolongados e mais imperiosos. Ele não ordenou nenhuma mudança em seu curso. Ele estava seguindo para o sinal sonoro de Point Judith e não pretendia correr riscos de se atrapalhar com desvios. A embarcação à frente, finalmente, pareceu reconhecer a voz de seu mestre. O som do apito mostrou que ela havia mudado de curso.

O imediato murmurou anotações.

“Todos com ouvidos atentos!”, ordenou o capitão. “Deveríamos encontrar aquele sinal sonoro!” E na mesma respiração ele disse: “Lá está ele!” Ele apontou uma mão molhada para a frente e ligeiramente para bombordo. Um grunhido estranho e retumbante chegou até eles. “Você está bem, velha senhora”, declarou. “Jacobs não estava exagerando nos elogios a você.” Ele alcançou o parapeito e acariciou a madeira de seu animal gigante. Voltou-se para o contramestre. “Leste, cinco oitavos sul”, foi sua direção.

“Leste, cinco oitavos sul, senhor!”

“O que é o próximo que encontraremos, capitão?”, perguntou o gerente geral da penumbra no fundo da cabine de comando.

“Navio-farol Sow and Pigs, entrada do Vineyard Sound, senhor.”

“Bom trabalho! Vou dar uma volta lá embaixo. Nos vemos novamente! O que posso dizer a qualquer cavalheiro inquieto que tem medo de perder um compromisso de negócios pela manhã?”

“Diga-lhe que estaremos no horário, pontualmente”, declarou o capitão, calmamente.

O Sr. Fogg fechou a porta da cabine de comando atrás de si e deu uma risadinha ao descer pela escada escorregadia.

O Sr. Fogg passeou pelo salão brilhantemente iluminado, com as mãos nos bolsos, transmitindo a impressão de um homem completamente à vontade. Ninguém parecia reconhecer o novo gerente geral da linha Vose, e ele não atraiu atenção especial. Mas se alguém tivesse se interessado o suficiente pelo Sr. Fogg para observá-lo de perto, teria notado que sua boca trabalhava nervosamente quando ele parava no topo da grande escadaria e olhava ao redor. Suas bochechas pendiam. Quando ele tirou o lenço, sua mão tremeu.

Ele desceu as escadas para o convés principal e espiou ao redor na área de fumantes, passando os olhos pelos rostos dos homens ali reunidos. De repente, ele levantou o queixo com um pequeno solavanco e subiu as escadas novamente. Um homem grande jogou fora um charuto e seguiu a uma distância respeitável. Ele perseguiu o Sr. Fogg pelo salão e por um corredor e entrou em uma cabine atrás do gerente geral.

“Pelo amor de Deus, Burkett, estou sentindo calafrios!”, explodiu o Sr. Fogg, assim que a porta foi fechada.

“Não entendo bem o porquê.”

“Aquela gente lá fora — acabei de observá-los. É mexer com uma proposta grande demais, Burkett. Você não pode calcular com antecedência uma coisa dessas.”

“Claro que pode. Eu planejei tudo corretamente.”

“Oh, eu sei que você entende do que está falando, mas...”

“Bem, eu deveria saber. Fui piloto da equipe de reavaliação nos bancos de areia nos últimos dois meses. Conheço cada centímetro do fundo.”

“Mas o pânico. Com certeza haverá um. Os outros não vão entender, Burkett. Vai ser horrível a bordo aqui. Eu mesmo estarei aqui. Não suporto.”

“Olhe aqui, governador; não haverá pânico nenhum. Ela deslizará para a areia como um bebê se acomodando em um berço. Não há uma pedrinha sequer nessa areia por milhas. Metade desse bando de passageiros estará na cama dormindo. Eles não vão acordar. Os outros nunca saberão de nada especial, exceto que os motores pararam. E isso não é nada incomum em um nevoeiro. É uma noite tranquila — nem uma marola. Nada para nos machucar. O rádio sem fio trará o navio patrulha de Wood's Hole, e ele ficará de prontidão até de manhã e os levará embora.”

“A teoria é boa. É basicamente uma ideia minha, e tenho orgulho dela, e fiquei imensamente contente de encontrar um homem com a sua experiência para me apoiar com os detalhes práticos”, disse Fogg, tentando fortalecer sua fé com palavras, mas fracassando. “Mas agora que estamos chegando aos finalmentes, estou com medo.”

“Bem, a decisão é sua, naturalmente, governador. Insisto que pode ser feito, e feito sem problemas, e o senhor vai deixar este vapor em terra de forma limpa, suave e fácil! Isso vai dar um golpe na linha Vose e fazer com que os acionistas prestem atenção da próxima vez que uma oferta justa for feita.”

“É o que deve ser feito, e eu sei disso. As condições são perfeitas, e temos um capitão novato para servir de bode expiatório. Tudo pronto! Mas é uma coisa horrível de se brincar — oitocentas pessoas, e não se sabe como elas vão reagir! Isso me veio à mente enquanto eu estava lá parado, olhando para elas!”

“Areia é areia, e toda a terra redonda está escorada sob essa areia. Ela não pode afundar. Ela vai simplesmente abrir caminho como um arado em um sulco, e lá vai ela ficar, assentada reta, sólida como uma ilha — e vai levar um tempão até que consigam desenterrá-la. É um golpe na linha Vose, eu digo, governador!” A malevolência brilhava nos olhos pequenos de Burkett.

“Claro, o dinheiro que vou receber por este trabalho parece bom para mim, governador, mas a minha chance de dar uma surra em qualquer coisa que aquele velho Vose e seus filhos estejam interessados parece tão boa quanto. Eu não estaria nisto apenas pelo lado financeiro. Não sou um pirata, mas quando me chutaram da casa do leme e me baniram por toda esta costa, eles se colocaram na linha de frente para receber o que lhes é devido por mim.”

“Mas você considerou todos os lados disso?” implorou Fogg. “Você é o homem prático nesta proposta. O que pode acontecer?”

“Se você fizer exatamente o que eu lhe disser para fazer, nada pode acontecer além do que está em nosso programa. Deixe-me apenas encorajá-lo passando tudo novamente.”

Ele tirou uma carta dobrada e suja de mãos do bolso do peito e estendeu-a sobre os joelhos. Com o dedo indicador rombudo, indicou os pontos aos quais fazia referência em sua explicação.

“Quando ele avistar o farol de Nobska a bombordo, com marcação noroeste por oeste, ele mudará o curso. Depois de cerca de cinco milhas, ele deverá mudar novamente, virando seis pontos para o norte. O senhor ouvirá o imediato dizer a marcação do apito a vapor de West Chop. Então o senhor caminha direto para a esquerda da bússola e fica lá. Pode ouvir um pouco de tagarelice por alguns segundos. Haverá um pouco de xingamento, talvez, mas o senhor não será xingado, é claro. Fique parado ali, calmo e sereno, sem nem piscar. E então acontecerá, e quando acontecer, será uma surpresa e tanto.”

“É naufragar um navio de passageiros de sete mil toneladas na calada da noite!” lamentou o gerente geral.

“Não é! É colocá-lo em um berço seguro.”

“Mas nesta velocidade!”

“Aquele sujeito na casa do leme não é tolo. Ele receberá sua dica a tempo de salvá-lo de danos reais. O senhor não precisa se preocupar!”

Fogg abriu sua mala de viagem e retirou uma tira de metal. Ele a manuseou com tanto cuidado como se fosse um réptil, e olhou para ela com um ar como se temesse que ela o mordesse.

“Esse é o pequeno curinga”, disse Burkett. “Cerca de dois pontos de desvio por atração local farão o serviço!”

“Estou tentado a jogá-la ao mar e cancelar tudo, Burkett. Já realizei muitos negócios na minha vida no grande jogo, mas isto parece cru demais. Não posso evitar! Sinto um pressentimento de que algo vai dar errado.”

“Não tenho mais nada a dizer, governador.”

“Meu pessoal não me faz perguntas, mas espera resultados. Se eu não fizer, suponho que vou me arrepender amanhã de manhã.” Ele aguçou os ouvidos e ouviu o bramido do grande apito do transatlântico. “Mas parece diferente na calada da noite.”

“O senhor não está deixando rastros”, encorajou Burkett. “E o fato de esta ser a primeira viagem dele torna tudo mais plausível. O senhor está aqui naturalmente, por si mesmo. Poderia parecer um tanto estranho se o senhor fizesse outra viagem. É a primeira viagem dele nele, lembro-lhe. Se ele der um deslize, não vai surpreender nem um pouco os sabichões.”

“Parece estar tudo pronto — tenho que admitir. Por Deus, Burkett, sempre levei as coisas até o fim quando comecei! É por isso que chamam o pequeno Fogg. Prefiro pedir desculpas à minha consciência do que a... Bem, não importa quem ele seja.” Ele enfiou a tira de metal no bolso interno do paletó e abotoou-o. “Droga! Nada de muito ruim pode acontecer neste mar calmo — e aquele último exercício de botes salva-vidas correu bem. Lá vamos nós!”, declarou Fogg, com ênfase desesperada.

“Esse é o garoto!”, declarou Burkett, encorajado à familiaridade pela associação deles na traquinagem.

O gerente geral achou a noite negra quando contornou o convés molhado em direção à casa do leme. As luzes do navio formavam manchas borradas no nevoeiro. Agora ele parecia ter o mar só para si; não havia apitos de resposta.

“Estou de volta, Capitão Mayo”, disse ele, ao fechar a porta contra a noite. “Espero não incomodar vocês aqui. Vou ficar fora do caminho.” Ele sentou-se em um banco na parte extrema de trás da casa e fumou seu charuto com nervosa veemência.

Outro quartel-mestre sucedeu o homem ao leme, o imediato fez suas anotações de navegação estimada e marcou a carta náutica, a rotina habitual prosseguiu. Mayo continuou na janela, com a cabeça projetada para fora, exceto quando olhava para a carta, a bússola ou notava os mostradores que marcavam as rotações das hélices.

De vez em quando, ele encostava o ouvido no receptor de sinal submarino. Finalmente, ouviu o pulsar fraco e distante do sino submarino de Sow and Pigs — sete batidas, com o intervalo de quatro segundos, depois as sete batidas repetidas.

Um pouco mais tarde, ele obteve, doce e baixo como uma trompa de terra dos elfos, o apito de sino do navio-farol. Estava exatamente à frente, o que não estava exatamente em seu cálculo. A corrente da maré tinha sido mais forte do que ele havia calculado. Ele ordenou ao timoneiro que aliviasse meio ponto, a fim de garantir uma distância segura para a curva em Vineyard Sound.

Bem dentro do estreito, o sino de Tarpaulin Cove tranquilizou-o, e depois de algum tempo ele ouviu o inconfundível sopro da grande trompa de palheta de Nobska emitindo seu pio triplo como uma coruja gigante empoleirada em algum lugar nas névoas.

“Nobska”, disse o imediato. “Estamos certamente chegando, senhor.”

“Nobremente”, concordou o Capitão Mayo, permitindo-se um momento de júbilo, mesmo que os temidos baixios estivessem à frente.

“O senhor vai manter esta velocidade através dos baixios, Capitão Mayo?”, perguntou o gerente geral, exibindo real deferência.

“Não, senhor!”, afirmou o capitão com decisão, preparando-se para dar ao Sr. Fogg uma ou duas palavras ríspidas se aquele cavalheiro apresentasse mais de suas “razões de homem de negócios” para a velocidade. “Não estaria demonstrando o devido cuidado.”

“Fico feliz em ouvi-lo dizer isso”, afirmou o Sr. Fogg, cordialmente. “Pode estar um pouco fora de lugar agora, mas quero que saiba que sinto que escolhi exatamente o homem certo para comandar este navio. Fico feliz com a chance de dizer isso onde seus imediatos possam me ouvir.”

“Obrigado, Sr. Fogg”, respondeu o jovem, agradecido. “Este é um trabalho que consome a alma, e fico feliz que o senhor esteja aqui para ver o que estamos enfrentando. Não sinto que perderemos muito tempo atravessando os baixios se formos com cuidado. Podemos acelerar depois que virarmos a leste de Monomoy. Ela é uma ótima embarcação.”

Na penumbra, Fogg passou os dedos cautelosamente pela parte externa de seu paletó para ter certeza de que a tira de metal estava em seu lugar.

Houve silêncio na casa do leme depois disso. À frente, a navegação era delicada. Havia os canais estreitos, os baixios aglomerados, as curvas cegas de Nantucket Sound, temidas em todos os climas, mas o horror de um marinheiro em um nevoeiro.

O chamado clarim de Nobska desenhou-se lentamente a bombordo e, após o lapso de tempo devido, o apito a vapor de West Chop elevou sua voz guia nas névoas à frente.

“Melhor usar o pelorus e ter cuidado com a marcação de West Chop depois que passarmos por ela, Sr. Bangs”, o Capitão Mayo advertiu seu primeiro imediato.

Como um marinheiro bem sabe, a marcação de West Chop dá a direção da bússola para a passagem entre os baixios conhecidos como Hedge Fence e Squash Meadow — uma corrida de dez milhas até o navio-farol Cross Rip. Em um nevoeiro, é vitalmente importante ter West Chop exata em um oitavo de ponto.

Fogg ficou feliz por estar sozinho onde se sentava. Ele tremia tão violentamente que colocou um charuto apagado entre os dentes para evitar que batessem.

O imediato estava delineado contra a janela, seus olhos no instrumento, seu ouvido atento. A cada meio minuto, o apito de West Chop soprava.

“Certo, senhor!”, o imediato relatou finalmente, falando com presteza. “Obtenho oeste por norte, cinco oitavos norte.”

Fogg levantou-se e cambaleou para a frente, posicionando-se logo à esquerda do leme e da bússola.

“Leste por sul, cinco oitavos sul”, o capitão orientou o timoneiro. “Atenção cuidadosa, senhor. A maré é de enchente, quatro nós. Mantenha o curso bom!”

O quartel-mestre repetiu e girou seu leme pelo número habitual de rotações para permitir uma mudança de três pontos.

O Capitão Mayo deu um passo atrás e olhou para a bússola para ter certeza de que seu timoneiro estava encontrando seu curso corretamente. “O que diabos está acontecendo com você, homem?”, ele gritou. “Traga este navio para o rumo! Traga-o para o rumo!” Ele agarrou o leme e girou-o. “Você é mais lento que o diabo puxando melaço”, enfureceu-se Mayo, esquecendo sua dignidade.

“Ele deve ter guinado”, protestou o homem. “Eu estava com ele no curso, senhor. Achei que tinha superado.”

“Você não deve achar. Você deve manter seus olhos naquele cartão da bússola e mover-se mais rápido quando eu der uma ordem.”

Os olhos do timoneiro arregalaram-se enquanto ele encarava a bússola. Enquanto ele piscava os olhos, assim lhe parecia, o curso verdadeiro tinha se afastado completamente da linha de fé.

Em sua pressa frenética, o Capitão Mayo o desviou demais. Ele ajudou o homem a colocá-lo no curso certo. Então ele sinalizou meia velocidade. Os caminhos tortuosos e estreitos estavam à frente deles.

“Esse é um salto incrivelmente estranho que a velha senhora deu então”, ponderou o quartel-mestre. Mas ele era treinado demais para discutir com um capitão. Aceitou a falha como sua, e agora que ela estava em seu curso, ele a manteve lá obstinadamente.

Mesmo a meia velocidade do Montana era um ritmo respeitável, e a tripulação silenciosa em sua casa do leme podia ouvir o mar espumando ao longo de seus lados.

“O que você acha disso, Sr. Bangs?”, perguntou o capitão após um período prolongado de escuta.

“Sino, senhor!”

“Mas o único sino naquela direção seria no navio-farol Hedge Fence caso seu apito tivesse sido desativado.”

“Parece-me um navio ancorado.”

“Mas está bem no canal.” O Capitão Mayo convenceu-se com uma olhada na bússola. “Nenhuma embarcação lançaria sua âncora no canal. Isso não é sino no Hedge Fence”, refletiu o capitão. “É o sino de uma escuna. Mas o som muitas vezes fica estranho em um nevoeiro. Estamos no nosso curso à fração, e temos que continuar!”

E, após um momento, o sino cessou seu clangor. Era um som distante, e sua localização era indefinida até mesmo para um ouvido apurado.

“Parece-me que os sons em geral estão um pouco desviados de repente”, disse o capitão ao seu imediato. “Juro que posso ouvir os sopros de cinco segundos de Hedge Fence agora. Mas lá uiva ela a boreste. As nuvens devem estar nos dando um eco. Temos que deixar para a bússola.”

Um marinheiro habilidoso tem cuidado ao abandonar o dedo firme de uma bússola comprovada para perseguir sons ao virar da esquina em tempo de nevoeiro. Ele entende que os estratos de ar fazem uma bagunça com os sopros de apito. Existem zonas de silêncio — existe divergência de som.

Fogg manteve sua posição, suas pernas firmes, e ninguém prestou atenção especial a ele. Eles na casa do leme estavam ocupados demais com outros assuntos.

Existe um som em tempo denso que diz muito a um navegador. É o eco de seu próprio apito.

O grande navio a vapor estava buzinando roucamente seu caminho.

De repente, houve um som que voou e atingiu o Capitão Mayo no rosto. Era um eco. Era o som do apito do Montana lançado de volta para ele por algum objeto tão próximo que havia mal um tique-taque de relógio entre o apito e o eco.

O capitão soltou um grande juramento e puxou seus cabos de sinalização furiosamente. “Esse eco veio das velas de uma escuna”, gritou ele.

Então, exatamente à frente, tocou seu sino. No instante seguinte, avançando pelo menos oito milhas por hora, apesar dos motores forçando em velocidade máxima à ré, a proa imponente esmagou o obstáculo em seu caminho.

Foi um choque poderoso que enviou um tremor da proa à popa do grande navio. Viram que o atingiram — uma escuna de três mastros ancorada, com suas velas içadas, lona suja, úmida e inativa na noite nevoenta e sem fôlego. Mas o impacto contra ela foi quase como se tivessem atingido um cais. A colisão os fez cambalear pela casa do leme. Enquanto passavam, viram-na afundar, sua popa uma massa de destroços, na qual homens lutavam freneticamente.

“Aquela é uma transportadora de granito! Veja-a afundar, como uma pedra!”, ofegou o imediato Bangs. “Meu Deus! O que você acha que ela fez conosco na proa?”

“Chegue lá. Chegue lá!”, rugiu o Capitão Mayo. “Chegue lá e reporte, senhor!”

Mas antes que o imediato estivesse na metade da escada, a voz lamentosa do vigia relatou o desastre. “Buraco abaixo da linha de água na proa”, gritou ele.

“Há homens na água lá atrás, senhor”, disse um quartel-mestre.

“Estamos entrando água rapidamente no compartimento dianteiro”, veio uma voz pelo tubo acústico.

Já eles na casa do leme podiam ouvir a ululação das mulheres nas entranhas do navio, e então o clamor rouco das muitas vozes dos homens abafou os gritos mais agudos.

O Capitão Mayo tinha visto os sobreviventes da escuna lutando na água. Mas ele tocou para velocidade máxima à frente e ordenou ao quartel-mestre que o apontasse para o norte, sabendo que a terra ficava naquela direção.

“Oitocentas vidas sobre meus ombros e um buraco nele”, disse ele a si mesmo, enquanto todo o seu mundo de esperança e ambição parecia ruir. “Não posso esperar para pegar aqueles pobres diabos.”

Em poucos minutos — em tão poucos minutos que todos os seus cálculos sobre sua localização foram destruídos — o Montana arrastou-se até uma parada trêmula em um baixio, sua proa levantando ligeiramente. E quando os motores foram parados, ele descansou lá, solidamente ereto, firme como uma ilha. Mas em seu salão, os homens e mulheres que lutavam, gritavam e amaldiçoavam, movendo-se para lá e para cá em ondas de humanidade como ondas em uma caverna, estavam convencidos de que o choque trêmulo havia sinalizado a condenação da embarcação. Homens semivestidos, ainda tontos de sono, confusos por sonhos que se misturavam à terrível realidade, pisoteavam os indefesos, procurando saída do salão.

O barulho horrível que anunciava o pânico foi um chamado alto ao mestre da embarcação. Ele entendeu que tipo de caos poderia ser causado pela brutal insensatez da luta. Ele correu da casa do leme, pisando nos pés do gerente geral, que tropeçava de maneira confusa.

“Chame toda a tripulação para os postos e guarde as saídas”, ordenou o Capitão Mayo ao segundo imediato.

Em seu caminho precipitado para o salão, o capitão passou pela sala do operador de rádio, e o estalido tenso da faísca disse-lhe que o sinal SOS estava enviando seu voo suplicante através da noite.

Três homens, semivestidos, com coletes salva-vidas afivelados de qualquer jeito, encontraram-no no convés, esquivaram-se de seu aperto furioso e saltaram sobre o corrimão para o mar, gritando com todo o poder de seus pulmões.

Um quartel-mestre estava nos calcanhares do capitão.

“Ponham um bote salva-vidas de cada lado e cuidem desses idiotas!”, rugiu Mayo.

Ele forçou seu caminho para um corredor lotado, rechaçando homens frenéticos com os punhos, exortando, assegurando, apelando, ameaçando. Ele subiu em uma cadeira no salão. Ele superou o resto deles em altura de voz. Homens do mar são treinados para gritar contra a tempestade.

“Vocês estão seguros! Fiquem quietos! Sentem-se! Este vapor está encalhado em um banco de areia. Ele é sólido como Bunker Hill.” Ele gritou essas garantias várias vezes.

Eles começaram a olhar para ele, a prestar atenção nele. Seu uniforme marcava sua identidade.

“Você mente!”, gritou um homem excitado. “Estamos no mar! Estamos afundando! Onde estão seus botes salva-vidas?”

O pandemônio começou novamente. Como o tolo que grita “Fogo!” em uma multidão, esse indivíduo sem cérebro reviveu todos os medos dos passageiros frenéticos.

Mayo percebeu que uma ação heroica era necessária. Ele saltou da cadeira, agarrou o homem que tinha gritado e bateu no rosto dele com a palma de sua mão dura.

Aquela cena de conflito foi surpreendente o suficiente para servir como um verdadeiro choque para a atenção deles. Eles calaram seus gritos; eles observaram, impressionados, intimidados.

“Se houver qualquer outro homem nesta multidão que queira me dizer que sou um mentiroso, que se apresente e diga”, gritou o Capitão Mayo. “Vocês estão bancando os tolos. Não há perigo.”

Ele soltou o homem pálido e trêmulo de quem fizera um exemplo e subiu em uma cadeira. Ele ergueu a mão, dominando-os até que tivesse obtido silêncio absoluto.

“Você... você... você!”, disse ele, incisivamente, lançando o dedo aqui e ali, apontando indivíduos. “Vocês parecem ter mais juízo do que o resto, vocês homens! Vão para a frente, onde o homem está lançando a sonda. Lancem a sonda vocês mesmos. Voltem aqui e reportem a esses passageiros, como seu comitê. Estou dizendo a verdade. Não há água sob nós que valha a pena mencionar.” Ele permaneceu no salão até que seu comitê retornasse.

O homem que relatou parecia um pouco envergonhado. “O capitão está certo, senhoras e senhores. Poderíamos até ver a areia onde ele arou — eles têm lanternas sobre o corrimão. Não há perigo.”

Um comissário trotou até o Capitão Mayo e entregou-lhe um pedaço de papel. O capitão leu a mensagem e sacudiu o papel na cara da multidão.

“O navio de fiscalização Acushnet recebeu nosso chamado de rádio e está partindo, e o Itasca seguirá. Aconselho que vão para a cama e durmam. Vocês estão perfeita e absolutamente seguros. Vocês serão transferidos quando amanhecer. Agora, sejam homens e mulheres!”

Ele correu para o convés. Seus homens estavam içando a bordo os três passageiros encharcados e bufantes que tinham corrido em desespero.

“E esses mesmos homens cuidariam de um cavalo em fuga e zombariam que ele não tinha cérebro”, comentou o Capitão Mayo, desgostoso.

Pela meia hora seguinte, ele foi um homem ocupado. Ele investigou o ferimento do Montana, antes de tudo. Ele o encontrou inundado na proa — seu nariz ancorado na areia com uma solidez rochosa.

Seu coração afundou quando percebeu o que sua situação significava do ponto de vista de naufrágio e salvamento. Naquelas areias movediças, sopradas constantemente pelas correntes apressadas do estreito, desenterrá-lo poderia ser uma tarefa gigantesca, libertá-lo uma empreitada desesperadora.

Sua turnê de investigação mostrou-lhe que, exceto pela proa esmagada, o vapor estava intacto. Sua desamparo ali na areia era ainda mais lamentável por causa disso.

Ele não tinha começado a fazer um balanço de sua própria responsabilidade por este desastre. O turbilhão de eventos tinha sido vertiginoso demais. Como mestre do navio, ele seria responsabilizado por seu infortúnio. Mas até que ponto ele tinha sido negligente? Ele não conseguia descobrir. Ele percebeu que a excitação prega peças estranhas com a consciência de um homem sobre eventos encadeados ou sobre a passagem do tempo. Ele não conseguia entender por que o vapor encalhou tão rapidamente após a colisão. De acordo com seu amplo conhecimento dos baixios, ele estava em seu curso verdadeiro e bem longe das perigosas águas rasas.

O seu imediato encontrou-o a meio do navio. "Enviei um dos nossos salva-vidas, senhor. Disse-lhes para voltarem e procurarem pelos homens que vimos na água. Encontraram dois. Os outros parecem ter desaparecido."

"Fico contente por ter pensado nisso, Sr. Bangs. Eu próprio deveria ter tratado disso."

"O senhor já tinha mãos a mais, senhor, tal como as coisas estavam. Era o Lucretia M. Warren, com granito de Vinal-haven. Foi isso que nos deu um estoiro tão horrível."

"Quem são os homens?"

"O imediato e um marinheiro. Tomaram umas bebidas quentes e estão a recuperar bem."

"Vamos trocar umas palavras com eles, Sr. Bangs."

Os sobreviventes do Warren estavam à proa, nos alojamentos da tripulação, e ainda estavam atordoados. Não tinham recuperado do susto; estavam taciturnos.

"Lamento, homens! De marinheiro para marinheiro, sabem o que quero dizer se não disser mais nada. É um mau negócio para ambos os lados. Mas o que estavam a fazer na rota de navegação?"

"Não estávamos na rota de navegação", protestou um homem grisalho, evidentemente o imediato. Estava desconfortável com as roupas emprestadas – tinha cedido as suas próprias peças a um despenseiro que se voluntariara para as secar.

"Devem ter estado", insistiu o Capitão Mayo.

"Sei que estávamos a uns bons três quilómetros a norte do curso normal. Não navego nestes baixios há trinta anos para não saber sondagens quando as faço eu próprio. Além disso, ela falará por si mesma, onde está afundada."

O capitão não pôde contradizer esse ditame.

O imediato lançou um olhar carrancudo ao jovem.

"Tenho uma pergunta para si. O que está o senhor a fazer, a uns bons três quilómetros fora do seu curso, a zunir, a apitar o seu velho apito como se fosse dono do mar e tivesse rolos por baixo de si para atravessar terra seca, também?"

"Eu não estava três quilómetros fora do meu curso", protestou o capitão, e ainda assim o sentimento nauseante invadiu-o de que tinha havido algum erro terrível, em algum lugar, de alguma forma.

"Quando puserem estes vapores nas mãos de homens a sério em vez de terem janotas e miúdos a geri-los, então o transporte marítimo terá uma oportunidade justa nesta costa", declarou o imediato, lançando um olhar depreciativo ao novo uniforme de Mayo. "Era o meu turno no convés, e sei do que estou a falar. Veio a abrir direto contra nós, dois pontos fora do seu curso, e pensei que o nevoeiro estava a pregar partidas, e não acreditei nos meus próprios ouvidos. Afogou o meu capitão e quatro homens honestos. Quando eu estiver em tribunal, eles ouvirão os factos diretamente de mim, isso posso garantir-lhe. E dizem-me que é a sua primeira viagem. Podia ter adivinhado que era um novato, quando o ouvi a vir dois pontos fora do seu curso. É melhor tirar essas roupas. Calculo que tenha feito a sua última viagem, também!"

Era o lamento rabugento de um homem que estivera perto da morte; era a queixa eterna do homem da vela contra o pomposo homem do vapor. Mayo não tinha coragem para censuras ou retorquidos. O que lhe tinha acontecido, afinal? Este velho homem da escuna parecia saber exatamente do que estava a falar.

"Se não acredita no que lhe estou a dizer, vá ao convés e veja se não consegue ouvir o apito de Hedge Fence", aconselhou o imediato, com amargura. "Se não soar a sul de leste, eu como esse fato que estão a secar para mim. E isso mostrar-lhe-á que está dois quilómetros a norte de onde deveria estar."

A caminho da casa do leme, o Capitão Mayo ouviu a voz oca do apito distante, com o seu sopro duplo e o seu longo intervalo de silêncio. O som vinha de trás da sua linha de bombordo e a sua inquietação aumentou.

Então, a perceção aguda impôs-se-lhe de que tinha o diretor-geral da linha para enfrentar. O capitão não tinha avistado o seu superior durante a agitação; perguntou-se agora por que razão o Sr. Fogg se tinha ocultado tão cuidadosamente.

A brasa vermelha de um charuto brilhava num canto da casa do leme. Desse canto veio uma pergunta seca: "Bem, Capitão Mayo, o que tem a dizer sobre isto?"

"Penso que farei o meu depoimento depois de ter a luz do dia sobre a proposta, senhor."

"Não tem qualquer ideia de como aconteceu estar tão fora do seu curso?" perguntou Fogg, a sua ansiedade notável nos seus tons.

"Como sabe que eu estava fora do meu curso?"

"Bem... er... bem, não estaria encalhado, estaria, se não se tivesse perdido?"

"Eu não me perdi, Sr. Fogg."

"O que aconteceu, então?"

"Isso é para mim descobrir."

"Não lhe vou dizer nada ainda, Capitão Mayo. É demasiado repentino... um golpe demasiado grande. Vai paralisar a linha Vose." O Sr. Fogg disse isto de forma despachada, como se estivesse a falar do tempo.

"Estou grato por estar a encarar a situação com tanta calma, senhor. Estava a recear encontrá-lo."

"Oh... um homem de negócios nestes dias não se pode dar ao luxo de se desmoronar com contratempos. O otimismo é metade da batalha."

Mas Mayo, sentado ali naquela casa do leme escura durante o resto da noite, a olhar para a parede em branco do nevoeiro e a observar os destroços das suas esperanças, decididamente não estava otimista.

XXI ~ PROVA AMARGA À LUZ DA MANHÃ

Más notícias, más notícias vieram ao nosso capitão Que o magoaram muito profundamente; Mas quando soube que tudo era verdade, Magoou-o dez vezes mais, Bravos rapazes! Magoou-o dez vezes mais! --Cold Greenland.

A manhã não lhe trouxe nem ânimo nem conselho. Os ventos varreram o nevoeiro dos mares, e o brilho do sol apenas zombava da tristeza dos pensamentos do Capitão Mayo.

Ele estava inequivocamente muito fora do seu curso. Tomou as suas marcações cuidadosamente, e tateou através da sua memória e da sua experiência por razões que explicassem como viera parar ali em cima em Hedge Fence. Dois dos mastros da escuna de pedra afundada mostravam-se acima do mar, dois monumentos deprimentes de desastre. Ele tirou mais marcações e testou a sua bússola com um cuidado minucioso. Tanto quanto pôde determinar, estava correta até ao ponto.

Foi uma manhã ocupada para todos a bordo do vapor. Os navios da guarda costeira levaram os passageiros. Representantes das seguradoras vieram de Wood's Hole num rebocador. O enorme Montana, assente solidamente no seu leito de areia, surgia contra o céu, testemunha muda da ineficiência ou erro de alguém.

Mais tarde no dia, o Capitão Mayo e o Diretor-Geral Fogg trancaram-se na cabine do capitão para resolver o assunto.

Quando o mestre terminou a sua declaração, o Sr. Fogg sacudiu a cinza do seu charuto, estudou a ponta incandescente por um tempo e estreitou os olhos.

"Portanto, resumindo tudo, aconteceu, e não sabe exatamente como aconteceu. Estava fora do seu curso e não sabe como aconteceu estar fora do seu curso. Não espera que o defendamos perante os inspetores de barcos a vapor, com isso como explicação, Mayo?"

"Tudo o que posso fazer é dizer a verdade na audição, senhor."

"Eles vão destruir a sua carreira, tão certo como um burro abana as orelhas. Há cinco homens mortos dentro daquele destroço ali. Não acha que será acusado de homicídio involuntário?"

"Vou alegar que a colisão foi inevitável."

"Mas estava fora do seu curso... estava num lugar onde não tinha negócios para estar. Isso manda a sua defesa toda para o inferno. Está numa situação terrivelmente má, Mayo. Tem de acordar para isso."

O jovem estava pálido, rígido e silencioso.

"A linha Vose já está bastante mal, sem tentar defendê-lo. Suponho que serei culpado por contratar um capitão jovem. Mayo, sou mais velho que você e mais sábio sobre a lei e tais assuntos. Porque não se esquiva, eh?"

"Quer dizer, fugir?"

"Não diria de uma forma tão direta como essa. Quero dizer, vá embora e mantenha-se fora de vista até que as coisas acalmem. Se ficar, eles vão colocá-lo no estrado e confundi-lo todo disparando perguntas contra si. E o que ganhará ao passar por essa confusão? Tem de concordar comigo que os inspetores o suspenderão... revogarão a sua licença. Aqui está este vapor aqui, a falar por si mesmo. Se ficar por perto, e todas as provas forem trazidas na audição, então o grande júri federal tratará do assunto, provavelmente. Eles terão um caso de homicídio involuntário contra si."

Ainda assim, o Capitão Mayo não falou.

"Se simplesmente desaparecer, não acredito que o persigam. Pessoalmente, tendo-o observado na noite passada, não acredito que seja culpado de qualquer erro muito grave. Simplesmente aconteceu de forma errada. Não queremos toda a notoriedade que um julgamento traria à linha. E aqui está o que farei, Mayo. Dou-lhe algumas centenas para despesas para que possa ir embora e agarrar-se ao negócio do transporte marítimo noutro lugar. Um tipo como você pode cair de pé."

"Sr. Fogg, um homem de vapor renegado tem uma oportunidade muito pobre. Posso ser suspenso, e algo pior pode acontecer-me, mas não vou arruinar-me a mim próprio e ao meu bom nome fugindo. Isso é uma confissão! É destruir todas as minhas perspetivas para sempre... e trabalhei demasiado para o que tenho. Vou ficar aqui e enfrentar a música... contar a minha história como um homem."

"Fará uma bela história... e você próprio disse-me que eles estão apenas à espera de fazer um exemplo esmagador de alguém", zombou Fogg. "Você, um capitão novato, quebrou as regras de navegação na noite passada ao correr a pelo menos quinze nós no nevoeiro. O seu diário de bordo e o testemunho dos seus imediatos mostrarão isso. Não o estou a culpar, filho. Estou a mostrar-lhe como isso parece! Saiu do seu curso e abalroou uma escuna ancorada, e nem sequer parou para recolher os seus homens. Eu vi isso tanto. Mayo, a única coisa sensata para si fazer é esquivar-se. Poupará a linha de um monte de escândalo e má publicidade. Por Deus! Se não fizer sequer isso por nós, depois da oferta que acabei de lhe fazer, subirei ao estrado e testemunharei contra si."

"Parece estar muito pronto e ansioso para me fazer o bode expiatório nisto", explodiu o jovem, o seu temperamento a fugir-lhe. Ele estava sem dormir há muitas horas, a sua alma fora crucificada pelas experiências amargas por que passara.

"Está à procura de uma luta?"

"Não, Sr. Fogg, estou à procura de um tratamento justo. Não fiz nada intencionalmente para me tornar um fugitivo da justiça. Não vou fugir."

"Você não será a primeira testemunha que ajudou grandes interesses mantendo-se fora de vista e fora do alcance dos advogados. É negócio, Mayo."

"Pode ser, Sr. Fogg. Não conheço o interior dos grandes negócios. Sou apenas um marinheiro. Associo-me a marinheiros. E tenho um pouco de orgulho no meu bom nome."

O Sr. Fogg olhou para este recalcitrante com desprezo. Queria dizer a este indivíduo teimoso que ele era meramente um número dois no grande jogo que estava a ser jogado. Mas a expressão no rosto de Mayo não encorajava nem leviandade nem zombarias.

"Dar-lhe-ei mil dólares para despesas para a sua viagem e falarei de emprego consigo no próximo ano depois de recuperar a sua licença", ofereceu o diretor-geral.

O Capitão Mayo fixou olhos flamejantes no tentador. "Que razão especial e privada tem para querer subornar-me?" exigiu o jovem, com tal calor que Fogg recuou. "Está a fazer algo muito misterioso daquilo que deveria ser aberto e honesto. Essas podem ser as táticas de Wall Street, Sr. Fogg, mas não funcionam com um marinheiro que ganhou os papéis de mestre e se orgulha disso."

"Bem, siga em frente então", ordenou Fogg. "Há um rebocador ao lado para levar os seguradores de volta a Wood's Hole. Vá... para a prisão, ou onde quer que vá parar."

"Ficarei a bordo deste navio como seu capitão até ser dispensado de acordo com as formalidades do direito marítimo", declarou o Capitão Mayo, com dignidade. "Não pretendo fugir ao dever ou ao castigo, Sr. Fogg."

O diretor-geral fez uma boca de desprezo e partiu da cabine. Ele foi-se embora no rebocador sem mais palavra para Mayo.

Durante os dois dias seguintes, pequenas embarcações zumbiam em torno do gigante atingido como moscas em torno de uma carcaça. Havia homens de seguros, salvadores de navios com planos e projetos, turistas, acionistas... e um visitante era o Capitão Zoradus Wass.

"Nada mais a fazer agora, rapaz, exceto vir e simpatizar consigo." Ele estalou a língua contra os dentes enquanto observava o vapor. Era condolência sem palavras. "Agora conte-me a história disso... com todos os detalhes minuciosos", exigiu ele, depois de estarem fechados na cabine do capitão. Ele sentou-se com os cotovelos nos joelhos e olhou para o chão durante o relato, e continuou a olhar para o chão por algum tempo depois de Mayo ter parado de falar.

"Admito que o timoneiro o deixou desviar por apenas um minuto... menos de um minuto", repetiu o jovem. "Eu tinha acabado de desviar o olhar por um instante. Ajudei-o a corrigir. Não podemos ter feito mais do que cortar uma letra S por alguns comprimentos. Mas quanto mais penso nisso, mais estranho parece. Dois pontos fora, quase num estalar de dedos!"

"Conte essa parte vezes sem conta, enquanto eu fecho os olhos e fixo-a na minha mente como se a tivesse visto", pediu o Capitão Wass. "Quem estava lá, onde estavam, e assim por diante e et cetera. Quando uma coisa acontece e não consegue percebê-la, é geralmente porque não examinou os detalhes com cuidado suficiente. Vá em frente! Sou um bom ouvinte."

Mas depois de ter ouvido, ele não teve comentários a fazer. Ele saiu da cabine após alguns minutos de espera que foram dedicados a uma meditação profunda, e passeou pelo navio, mãos atrás das costas, arrastando os pés. Meia hora depois, encontrando o Capitão Mayo nas suas rondas, o veterano perguntou:

"Como aconteceu ter Oliver Burkett a bordo aqui?" "Não o conheço."

"Deveria conhecê-lo. É o capitão que a linha Vose despediu do Nirvana há três anos. Ele deu o sinal de avançar e um tilintar quando estava a atracar, e triturou quatro barcos de pesca e parte do cais. Teve de escolher entre admitir que estava bêbado, louco, ou subornado pela oposição. E imagino que eles tenham calculado que ele era as três coisas. Estava ele a bordo aqui na noite em que aconteceu?"

"Não sei, senhor."

"Segundo a minha noção, vale a pena descobrir", rosnou o Capitão Wass. "Não estou a ver muito longe nesta coisa ainda, filho, e admito-o. Mas se trabalho sujo foi feito contra si, Burkett teria sido uma ferramenta mais à mão para Fogg do que uma chave inglesa num trabalho de canalização. Não, não me faça perguntas agora. Não tenho qualquer consolação para si ou confiança em mim próprio. Estou apenas a pensar."

No dia seguinte, o Montana ferido foi formalmente entregue aos seguradores.

O Capitão Boyd Mayo foi ordenado a comparecer perante os inspetores dos Estados Unidos, e ele foi e contou a sua história o melhor que pôde. Mas o seu melhor era uma história pouco convincente, afinal de contas. Ele deixou a audição após o seu testemunho e caminhou até ao pequeno hotel à beira-mar para esperar por notícias.

O Capitão Wass veio apressado até ao pequeno hotel, avançando a uma velocidade extra, pousando os calcanhares com força, um monumento em movimento de tristeza.

O seu protegido, removendo o olhar desconsolado dos cromos poeirentos nas paredes do escritório, não necessitou de relatório verbal; o comportamento do Capitão Wass dizia tudo.

"E não podia esperar muito mais de nada", declarou o velho. "Fiz o melhor discurso que pude por si depois de ter terminado o seu testemunho e ter saído. Mas não serviu de nada, filho! O departamento estava à espera de uma vítima. Ambos sabíamos disso desde o início. Eles deram-lhe a volta de forma correta e própria."

"Por quanto tempo estou suspenso?" hesitou Mayo.

"Esse é o ponto! Indefinidamente. Você era carne. Todos a observar o caso. Eles moeram-no."

Mayo colocou as mãos no seu cabelo espesso, apoiou a cabeça e olhou para o chão.

"Indefinidamente não significa para sempre, mas não há muito conforto nisso. Dizer-lhe-ei o que significa, rapaz. Significa que se houve trabalho tortuoso, temos de expô-lo para o reintegrar. E agora prepare-se bem. Dei uma espreitadela no tribunal dos Estados Unidos."

O jovem, sem levantar a cabeça, deu ao veterano um olhar lateral piedoso.

"Fletcher Fogg está a zumbir em torno do exterior daquela colmeia. Ele tem Burkett consigo como um subordinado. Estão a reunir testemunhas perante o grande júri... aqueles homens do Warren, e você sabe o que eles dirão, claro! Os seus imediatos e timoneiros, também! Mayo, eles vão mandá-lo para a penitenciária de Atlanta. Eles fizeram algo contra si porque é jovem e calcularam que seria um pouco inexperiente. Pareceu-me estranho quando Fogg foi tão simpático consigo de repente. Mas eles não despedem um homem como Jacobs e metem um homem novo apenas para serem simpáticos. Ou sentiram que não podiam manipular Jacobs, ou sentiram que um homem inexperiente lhes daria uma boa desculpa para o que aconteceu."

"Mas eles não podiam arranjar para ter uma escuna..."

"Isso foi provavelmente mais do que eles calcularam. Mas desde que aconteceu, eles vão usá-lo da melhor maneira possível. Você vai ter ambas as latas amarradas a si, filho. Cada maldita influência vai ser usada contra si. Pobres diabos do lado de fora, como você e eu, não entendemos exatamente como as engrenagens podem ser lubrificadas. Mayo, vou dar-lhe um bom conselho. Fuja!"

"Fugir como um criminoso confesso? Esse é o conselho que Fogg me deu. Não penso que o seu conselho seja bom, Capitão Wass. Não vou fugir."

"Pode não ser um bom conselho. Não sou sábio o suficiente para saber tudo o que é melhor. Mas se o puserem atrás das grades em Atlanta, filho, ficará lá até que o seu termo acabe. Não importa o que seja descoberto no seu caso, levará dinheiro e muito tempo para levar a verdade às pessoas certas. Mas se não estiver na prisão, e pudermos obter uma pista sobre este caso e escavar até mesmo uma parte da verdade, então tem uma oportunidade de luta em campo aberto. Se conseguirmos apenas o suficiente para os fazer temer colocá-lo no estrado como testemunha, isso pode fazê-los parar com o seu ladrar. Você é um marinheiro, rapaz! Sabe que um marinheiro não pode fazer muito quando tem as mãos atadas. Fique fora da penitenciária e ajude-me a lutar contra isto."

"Não sei o que fazer", lamentou o jovem. "Estou todo num turbilhão. Não sou um cobarde, Capitão Wass. Estou disposto a enfrentar a música. Mas estou tão impotente."

"Fique fora da cadeia até que o nevoeiro levante um pouco neste caso", exortou o seu mentor. "Vai deitar-se e levantar as pernas para as ter atadas, como um bezerro a caminho do mercado? Aqui estão algumas coisas que pode fazer se se esconder por um pouco de tempo. Eu irei à frente e..."

De repente, ele parou. Ele estava de frente para a janela, que comandava uma secção considerável da rua. Ele não desperdiçou mais fôlego em bons conselhos.

"Conheço aqueles homens a vir lá abaixo", gritou ele. "São oficiais de justiça. Vi-os em torno do tribunal. Eles estão atrás de si, Mayo! Você corra! Vá embora! Deve haver uma porta das traseiras aqui. Fuja!" Ele puxou o bode expiatório, que não resistiu, para fora da sua cadeira e apressou-o para as traseiras do escritório.

Um jovem pode ter as melhores intenções. Pode resolver ser um mártir, curvar-se perante a majestade da lei. Mas, naquele momento, Mayo estava a receber uma ordem imperiosa do mestre do navio cujas ordens ele obedecera por tanto tempo que a obediência era uma segunda natureza. E o pânico apoderou-se dele! Homens estavam à mão para o prender. Não havia tempo para raciocinar sobre o assunto. A fuga é o primeiro impulso da inocência perseguida. A resolução viril derreteu-se. Ele correu.

— Ficarei para trás e enganá-los-ei! Direi que você apenas saiu por um minuto, que estou aqui à sua espera — gritou o Capitão Wass. — Isso dar-lhe-á uma vantagem. Tente os cais. Pode encontrar um dos rapazes que o ajude.

Mayo escapou para um pátio, esquivou-se por um beco, planeando os seus movimentos enquanto se apressava, possuindo a rapidez de pensamento de um marinheiro numa emergência.

Dirigiu-se diretamente para o cais onde as embarcações a vapor abasteciam água. Um enorme rebocador oceânico estava precisamente a preparar-se para deixar o seu posto sob a mangueira de água. O seu apito rouco ordenara que as amarras fossem soltas. O conhecimento de Mayo sobre a costa era bastante extenso. Este era um rebocador de barcaças de carvão, e ele acenou um rápido cumprimento ao rosto familiar na casa do leme e saltou a bordo. Subiu a escada de vante com agilidade.

— Calculo que terá de fazer do olá e do adeus uma coisa só, companheiro — avisou o capitão. — Estou de saída para levar um reboque leve para a costa abaixo. Próxima paragem, Norfolk.

— Deixe-a ir — quanto mais cedo, melhor — ofegou o fugitivo. — Explicarei o motivo assim que estiver fora do cais.

— Não me diga que quer fazer a viagem?

— Tenho de a fazer.

O capitão ergueu uma sobrancelha e puxou a campainha. — Sinta-se em casa, companheiro — aconselhou. — Espero que não tenha tanta pressa de chegar lá como parece ter, pois tenho três barcaças para rebocar.

Mayo sentou-se na popa e ficou escondido de todos os olhares no cais.

Não houve oportunidade para uma explicação até que as barcaças tivessem sido recolhidas, pois houve muitas manobras e muitos apitos. Mas encontrou pronta simpatia depois de ter explicado.

— Os espertalhões da lei estão sempre ansiosos por apanhar um pobre diabo que tenta navegar nestas águas e satisfazer os inspetores e os armadores ao mesmo tempo — admitiu o mestre do rebocador. — Li tudo o que os jornais tinham a dizer sobre o seu caso, e concluí que não lhe deram uma oportunidade justa. Jornais, advogados e armadores não entendem o que um homem enfrenta. Estou contente por estar a bordo, companheiro, porque quero ouvir o seu lado, com todos os detalhes.

O debate sobre o assunto ocupou muitas horas da longa navegação ao longo da costa de Jersey, e o capitão do rebocador ponderou todas as facetas do caso com o cuidado de um homem que tem muito tempo livre e com o entusiasmo que um marinheiro demonstra ao considerar os assuntos da sua própria gente.

— Se eu não o conhecesse muito bem, Mayo, e não soubesse com que tipo de homem teve o seu treino, poderia pensar — tal como esses espertalhões da lei provavelmente dirão — que foi criminosamente descuidado ou que não sabia o seu ofício. Mas aquela guinada que ela lhe deu! Dois pontos fora do curso! Tem de colocar o dedo exatamente ali e segurá-lo! Deixe-me dizer-lhe uma coisa. Foi uma coisa estranha no meu próprio caso. Aquilo foi uma coisa estranha no seu caso. Coloque duas coisas estranhas da nossa profissão lado a lado, observe-as bem, e poderá aprender alguma coisa.

— Ela estava no seu curso — coloquei-a lá com as minhas próprias mãos — insistiu Mayo.

— Certo! Você conhece o seu ofício. Se esta coisa fosse deixada ao grupo que o conhece, você seria absolvido. Mas eis o que aconteceu no meu caso: eu tinha um homem novo na casa do leme, aqui, e ele quase me fez abalroar Cuttyhunk, deu-me um susto com o navio-farol de Pollock Rip, e tinha-me apontado para Nauset quando o nevoeiro levantou. E ele estava a seguir os meus cursos com uma precisão de um fio de cabelo, ainda por cima! Diga-me, tive um súbito estalo, revistei aquele sujeito e tirei uma faca peixeira do seu bolso — uma daquelas facas de um pé de comprimento. Ela andava a desviar-se da bússola durante todo o tempo entre um ponto e um ponto e meio. Quando trocou o turno do leme?

— Antes de entrarmos em Vineyard Sound.

— E nenhum problema a subir o estreito?

— Fiz Nobska e West Chop na perfeição.

— Então talvez o seu diretor-geral, que estava naquela casa do leme, tivesse uma moela de ferro dentro dele. A maioria desses tipos de Wall Street tem! — disse o capitão, com sarcasmo.

— Há algo a acontecer no negócio dos barcos a vapor que não consigo entender — declarou Mayo. — É lá em cima; não tem a ver com nós, rapazes, que temos de levar com os pontapés. Fogg trouxe um homem a bordo do velho Nequasset, e não trouxe uma boa explicação para acompanhar esse homem. Tenho-me perguntado desde então como é que aconteceu que Fogg se tornou diretor-geral da linha Vose tão repentinamente.

— Esses altos financeiros jogam um jogo grande, companheiro. E se você por acaso fosse uma carta marcada nele, eles rasgá-lo-iam e atirá-lo-iam para debaixo da mesa sem pensar duas vezes. Se quiser um conselho meu, mantenha-se discreto e pense muito enquanto o Tio Zoradus faz o reconhecimento. O que vai fazer quando chegar a Norfolk?

— Não pensei nisso.

— Bem, ambos é melhor pensarmos, e pensarmos bem, companheiro. Se os Estados Unidos estão realmente atrás de si, haverá um olho atento a cada buraco. Não me posso dar ao luxo de deixar que eles me apanhem por causa do que fiz.

— Saltar-lhe-ei borda fora antes dos cabos antes de o comprometer — afirmou Mayo, com profunda emoção.

Naquela noite, o capitão do rebocador assumiu pessoalmente o turno ao leme.

O seu convidado deitou-se na popa, fumando o cachimbo de reserva do capitão, e forçando a mente em busca de meios e modos. Passado algum tempo, deu-se conta de que o capitão cantarolava um pouco de uma canção para aliviar o tédio da sua tarefa. Cantava as mesmas palavras repetidamente — uma cantiga de marinheiro de Chesapeake, testada e verdadeira:

— “Oh, naveguei a bordo de um lugre, e embarquei numa barcaça, E naveguei a bordo de uma casca de noz que tinha uma proa afiada. Agulha num palheiro, tijolo numa parede! Um homem negro em Norfolk, não conta para nada!”

Mayo rolou para fora da popa e foi para o lado do capitão. — Há mais verdade do que poesia nessa sua canção, senhor — disse ele. — Deu-me uma ideia. Um negro em Norfolk não atrai muita atenção. E nem sequer tenho de ser um dos negros. Não acha que há algo a bordo aqui que eu possa usar para manchar a cara?

— O meu cozinheiro é um grande operador como tatuador.

— Não creio que queira tornar o disfarce permanente, senhor — afirmou o jovem, com um sorriso.

— O que quero dizer é que ele pode ter algo no seu kit que possa usar para me pintar. Qual é a sua ideia — ficar lá? Receio que o apanhem.

— Ficarei lá apenas o tempo suficiente para embarcar como marinheiro raso num escune. Não há tempo para pensar em nenhum plano melhor agora. Qualquer coisa para me manter fora de vista até que eu possa decidir o que é realmente melhor fazer.

— Chamaremos esse cozinheiro aqui acima — ofereceu o capitão. — Ele é de confiança.

O cozinheiro demonstrou um interesse pronto e profissional pelo assunto. — Claro! — disse ele. — Tenho uma tinta que penetrará e permanecerá por muito tempo, se não for usada nenhuma gordura. Só que não deve lavar a cara.

— Não há perigo de alguém ter qualquer incentivo para fazer isso quando está como marinheiro raso num escune nestes dias — declarou o capitão do rebocador, secamente.

Uma hora depois, o Capitão Boyd Mayo, ex-membro do navio de luxo Montana, era um mulato muito passável, o seu cabelo frisado e encaracolado contribuindo para o disfarce. Trocou o seu fato castanho elegante com um marinheiro de convés e recebeu algumas peças de roupa particularmente desalinhadas.

Na noite seguinte, quando o rebocador estava atracado na estação de água, ele deslizou para a escuridão, tão sem-abrigo e tão desconsolado como um cão abandonado.

XXII ~ NEGÓCIOS ESPECIAIS DE UM PASSAGEIRO

O Ranzo não era marinheiro, Embarcou a bordo de um baleeiro. Oh, pena do velho Reuben Ranzo, Ranzo, rapazes! Oh, pobre velho Reuben Ranzo, Ranzo, rapazes! --Reuben Ranzo.

O Capitão Mayo manteve-se fora da região das luzes brancas durante algum tempo. Ele tinha um conhecimento bastante vasto no porto da Virgínia, e conhecia os caminhos batidos dos passageiros ocasionais dos vapores, em terra para um pouco de descanso.

Escondeu-se em becos, sentindo-se particularmente desacreditado. Não tinha a certeza de que a sua caracterização fosse eficaz. A sua própria autoconsciência convencia-o de que era uma fraude evidente, cuja identidade seria revelada prontamente a qualquer pessoa que o conhecesse. Mas, enquanto se esgueirava pelos arredores da cidade, vários dos seus amigos estivadores passaram por ele sem um segundo olhar. Um, segundo engenheiro num cargueiro da linha Union, virou-se depois de passar e voltou para ele.

— Tens emprego, rapaz?

— Não, senhor.

— Precisamos de carvoeiros no Drummond. Ele está no canal. Vem a bordo de manhã.

Mas não estava de acordo com os cálculos de Mayo, envolver-se com homens de barcos a vapor. — Ah, não concluo que queira tal trabalho — disse ele arrastando as palavras.

— Não, claro que não queres trabalhar, seu cão amarelo maldito! — estalou o engenheiro. Continuou a marchar, praguejando, e Mayo sentiu-se encorajado, pois o homem tinha-o examinado minuciosamente.

Saiu para as ruas mais largas. Estava à procura de um capitão de escune itinerante, calculando que reconheceria um dessa classe pelo aspeto geral.

Um homem pesado vinha a caminhar pesadamente pelo passeio, balançando os ombros.

— É um deles — decidiu Mayo. O chapéu macio de copa redonda, sem amolgadelas, as pernas das calças a esvoaçar, o andar reconhecido prontamente por quem já viu um mestre marinheiro patrulhar o seu convés de popa — tudo isto marcava-o como um homem seguro para abordar. Parou, riscou um fósforo contra o lado de tijolo de um edifício e reacendeu o seu charuto. Mas antes que Mayo pudesse alcançá-lo, um homem de cor apressou-se e abordou o grande cavalheiro, tirando o chapéu e curvando-se com uma humildade presunçosa. Mayo ficou a uma certa distância. Reconheceu o homem de cor; era um dos numerosos intermediários de Norfolk que fornecem tripulações para navios. Usava calças cinzento-pérola, um casaco de cauda e tinha um cravo na casa do botão.

— Já tenho de dizer que ainda não consegui aquele homem número sete, Capitão Downs, embora tenha procurado por ele por toda a parte. Mas espero...

O Capitão Downs franziu o sobrolho sobre as mãos em concha, puxando fortemente o seu charuto. Atirou fora o fósforo.

— Olhe aqui! Tem-me perseguido durante dois dias com novas histórias sobre esse sétimo homem. Não me conhece há tempo suficiente para saber que não pode enganar-me para obter outra comissão?

— Capitão Downs, o senhor sabe bem a presente escassez de marinheiros.

— Sei que se não puser esse homem a bordo do meu escune hoje à noite ou logo pela manhã, nunca mais porá nenhum a bordo para mim. Vá despachar-se! E olhe aqui! Vejo que está a preparar a boca! Nem mais um cêntimo!

O homem de cor recuou e foi-se embora.

Mayo abordou o capitão quando esse cavalheiro furioso veio a caminhar pelo passeio. — Gostaria de ter esse trabalho, capitão — suplicou ele.

— És marinheiro?

— Sim, senhor.

— Como é que não estás a contratar através dos intermediários regulares?

— Não gosto de dar todo o meu dinheiro a um negro convencido para andar a exibi-lo.

— Bem, há algo nisso — reconheceu o Capitão Downs, amolecendo um pouco. — Eu próprio não tenho muita estima por esse tipo. Anda comigo. Mas se não fores de primeira, bem organizado e marinheiro, e vieres a bordo do meu navio para vadiar no teu trabalho, desejarás estar no inferno com as tochas acesas. Tens alguma bagagem por aí?

— Não, senhor.

— Bem, então, acho que és um marinheiro a sério, tal como a raça corre hoje em dia. Isso soa perfeitamente natural. O capitão liderou o caminho até um cais público, onde uma lancha a motor, com engenheiro e um imediato, estava à espera. — Ela vai para o canal esta noite, Sr. Dodge? — perguntou o Capitão Downs, secamente.

— Não, senhor! Ainda faltam cerca de quatrocentas toneladas.

Os capitães de escunes mantêm-se religiosamente afastados dos seus navios enquanto as embarcações estão nos cais de carvão.

— Venha buscar-me de manhã assim que ela estiver no canal. Aqui está um homem para completar a tripulação. Se aquele negro aparecer com outro homem, pontapeie os dois para fora do cais.

— O passageiro virá a bordo consigo, senhor?

— Ele ligou-me para o hotel à hora do jantar e disse algo sobre querer vir a bordo no cais. Tentei dizer-lhe que era uma tolice, mas é seguro calcular que um homem que quer viajar como passageiro daqui até Boston num escune de carvão é um tolo, de qualquer maneira. Se ele aparecer, deixe-o vir a bordo. O Capitão Downs afastou-se e a noite fechou-se atrás dele.

Mayo ocupou o seu lugar na lancha e manteve um silêncio humilde e apropriado durante a viagem pelo porto.

Quando passaram por baixo da popa do escune que era o seu destino, o jovem notou que se tratava do Drusilla M. Alden, um navio de cinco mastros, de um historial não muito invejável ao longo da costa, no que dizia respeito aos métodos e modos do seu mestre; Mayo ouvira falar do seu mestre, cuja alcunha era “Old Mull”. Não o tinha reconhecido sob o nome de Capitão Downs quando o intermediário se dirigira a ele.

O novo membro da tripulação seguiu o imediato pela escada — apenas alguns degraus, pois o enorme escune, com a maior parte da sua carga a bordo, mostrava menos de três metros de borda livre a meio navio.

— Com sono, George? — perguntou o imediato, quando estavam no convés.

— Não, senhor.

— Então pode muito bem ir neste turno.

— Sim, senhor!

— Vamos chamar-lhe agora oito badaladas, meia-noite. Sairá do turno às oito badaladas da manhã.

Mayo sabia que a hora não passava muito das onze, mas não protestou; sabia alguma coisa sobre o procedimento a bordo dos escunes de carvão da costa.

Holofotes lançavam um brilho constante sobre as calhas por onde corriam os fluxos de carvão, poeira negra rodopiando na brancura radiante. Os grandes silos em Lambert Point nunca estão inativos. Lá no alto, na via férrea, comboios de vagões de carvão faziam barulho. Sob os seus pés, a estrutura do navio tremia à medida que as calhas o alimentavam através das três escotilhas. Homens suados, enegrecidos pelo carvão, trabalhavam nas profundezas, revelados abaixo das escotilhas pelas luzes elétricas, picando a avalanche com as suas pás, equilibrando a carga.

O jovem trocou algumas palavras apáticas com os dois negros que estavam no convés, os seus companheiros de turno.

Eles claramente não estavam interessados nele, e ele evitou-os.

As horas arrastaram-se. Ajudou a fechar e a vedar a escotilha da frente, e mais tarde realizou serviço semelhante na escotilha de ré. A escotilha principal continuou a engolir o alimento negro que a calha lhe fornecia.

De repente, um homem alto e jovem apareceu a Mayo. O estranho estava elegantemente vestido, e o seu traje impecável contrastava estranhamente com o tumulto geral de sujidade a bordo do escune. Pisou cautelosamente as tábuas cobertas de pó e carregava duas malas.

— Aqui, George — ordenou ele. — Leve isto para o meu camarote.

Mayo hesitou.

— Vou como passageiro — disse o jovem, impacientemente, e Mayo lembrou-se do que o capitão tinha dito ao imediato.

Passageiros em escunes de carvão, viajando como amigos do mestre, não eram desconhecidos na costa, mas Mayo julgou, pelo que tinha ouvido, que aquela pessoa não era um amigo, e tinha ficado um pouco intrigado.

— Não me é permitido ir para a ré, senhor, sem ordens do imediato.

— Onde está o imediato?

— Penso que está abaixo, senhor.

— A dormir?

— Não me admiraria.

Mayo não se deu ao trabalho de usar o seu dialeto com aquele estranho, um mero passageiro, que falava como se estivesse a dirigir-se a um carregador de comboios. O tom produziu uma irritação e um ressentimento imediatos no homem que, tão recentemente, fora mestre do seu próprio navio.

O passageiro pousou a sua bagagem e ponderou por um momento. Observou Mayo de uma forma calculista; olhou para o cais. Depois, pegou nas suas malas e apressou-se pelo corredor lateral e desapareceu pela escotilha de entrada.

Regressou momentos depois, veio para a parte central do navio e fez um levantamento cuidadoso de tudo à sua volta. Havia dois marinheiros muito à frente, meras sombras ténues. Por alguma razão, as condições gerais no escune pareciam satisfazer o estranho.

— A coisa está a desenrolar-se mais ou menos bem — como calculei que aconteceria — disse ele em voz alta. — Olhe aqui, George, quanto é que fala sobre as coisas que vê?

— Falar com quem, senhor?

— Ora, com o seu chefe — o capitão — o imediato.

— Um marinheiro raso é bastante cuidadoso para não dizer nada a um capitão ou aos imediatos a menos que eles falem com ele primeiro, senhor.

— George, não vou fazer nada a não ser o que é perfeitamente correto, entende? Não se meterá em problemas por causa disso. Mas o que não vê, não pode contar, não importa se perguntas forem feitas mais tarde. Aqui, tome isto! — Enfiou duas moedas de prata nas mãos de Mayo e deu-lhe um empurrão. — Vá para a frente e fique lá cerca de cinco minutos, isso é que é, rapaz! Está tudo bem. É um pequeno negócio privado meu. Vá lá!

Mayo foi. Refletiu que não era da sua conta o que um passageiro fazia a bordo do navio. Era muito pouco o interesse que ele tinha na embarcação, de qualquer maneira, exceto como um refúgio temporário. Virou-se e pôs o dinheiro no bolso, a escuridão escondendo o seu sorriso.

Não olhou para o cais. Passeou para lá da casa da frente, onde o engenheiro estava a alimentar a sua caldeira, ganhando pressão para o motor do molinete do escune. Quando patrulhou a ré novamente, após uma espera conscienciosa, encontrou o passageiro encostado à porta da casa do convés, fumando um cigarro. A luz elétrica mostrava o seu rosto, e este exibia um ar de satisfação peculiar.

Nesse momento, alguém mexeu dentro da porta da casa do convés, atrás do estranho, e quando este se afastou, o primeiro imediato apareceu, bocejando.

— Sou o passageiro — Sr. Bradish — explicou o jovem prontamente. — Apenas me instalei, coloquei as minhas coisas num camarote, tranquei a porta e levei a chave. Está tudo bem?

— Pode ser melhor trancá-la enquanto estamos no cais e os estivadores estão a bordo — concordou o imediato.

— Quanto tempo falta para sairmos daqui?

O imediato bocejou de novo e olhou para o céu, onde o primeiro cinzento da madrugada de verão aparecia sobre os guindastes dos silos de carvão. — Dentro de meia hora, diria eu. Assim que o rebocador puder usar a luz do dia para nos colocar no canal.

O rugido do carvão na calha da escotilha principal tinha cessado. O escune estava carregado.

— Vá bater oito badaladas, Jeff, e vá dormir! — ordenou o imediato, dirigindo-se a Mayo.

— Bem, ficarei do lado de fora, aqui, e verei o sol nascer — disse Bradish. — Será uma nova experiência.

— É um sítio terrivelmente sujo para vadiar até entrarmos no canal e limparmos o navio, senhor. Eu diria que fazer uma excursão num lugre de carvão seria outra nova experiência! — Havia apenas um toque de sarcasmo sombrio no seu tom.

— O médico ordenou-me que saísse e fosse para longe, onde não ouvisse falar de negócios nem visse negócios, e um amigo meu disse-me que havia muito espaço e conforto a bordo de um destes grandes escunes. Aquela cabine e os camarotes, são ótimos!

— Oh, eles têm de dar ao mestre um bom lar nestes dias. Aquilo é um tapete Winton no salão — declarou o imediato, com orgulho. — E temos um cozinheiro de um olho só que certamente sabe preparar comida. Sim, para umas férias baratas, não sei se um escune não é uma boa opção!

Os dois estavam a entender-se o mais amigavelmente possível quando Mayo foi para a frente. Estava exausto e deitou-se nas tábuas nuas do seu beliche no castelo de proa.

Nenhuma roupa de cama é fornecida aos homens antes do mastro nos transportadores de carvão.

Se um homem quer algo entre si e as tábuas, tem de o trazer consigo, e poucos o fazem. No final de cada viagem, uma tripulação é dispensada e novos homens são contratados, a fim de poupar o pagamento de salários enquanto um navio está no porto a carregar ou descarregar. Portanto, um escune costeiro abriga apenas passageiros temporários, para quem o castelo de proa é apenas um abrigo entre turnos.

Mas Mayo era marinheiro, e as tábuas nuas serviam-lhe melhor do que a roupa de cama na qual algum filho de Cam sombrio e sujo se tivesse aninhado. Deitou-se e dormiu profundamente.

O segundo imediato convocou o turno de serviço às quatro badaladas — seis da manhã. A escuna estava no canal e todos os homens eram necessários para manejar as mangueiras e as vassouras e limpar o pó de carvão. Mayo labutou na lama de água negra até seus músculos doerem.

Houve um respiro feliz — pararam tempo suficiente para tomar o café da manhã. Foi-lhes enviado da cozinha em uma única panela de metal enorme, sem pratos, facas ou garfos.

Um cozinheiro branco lavando pratos para negros?

Mayo conhecia o costume que prevalecia a bordo das escunas entre os portos de carvão e as cidades da Nova Inglaterra, e pescou a comida com os dedos e cortou a carne com seu canivete com a devida humildade.

Quando ele voltou à sua esfrega, o cozinheiro passou pela popa, carregando a cesta forrada de zinco que continha o café da manhã para a mesa da cabine. Que este cozinheiro possuía o vocabulário completo de outros de sua laia ficou revelado quando o homem com a mangueira quase encharcou a cesta.

— Isso mesmo, cozinheiro! — rugiu o Capitão Downs, subindo pesadamente a bordo a partir de seu escaler. — Fale assim com esses filhos de uma caixa de carvão preguiçosos, caolhos e cor de panela quando eu não estiver aqui para o fazer. Desvie essa mangueira, seu Fiji de orelhas de mula! — Ele virou-se para Mayo, que estava de um lado e equilibrava sua vassoura de esfregar para permitir que o mestre passasse. — Vá trabalhar, seu cachorro amarelo! Vá trabalhar!

Normalmente, o capitão dirige-se a um de seus marinheiros apenas através do imediato. Mas não havia imediato por perto naquele momento.

— Uma mão para os donos e uma mão para você quando estiver no alto, mas no convés são ambas as mãos para os donos — afirmou ele, enquanto caminhava pesadamente para a popa, proferindo o aforismo para o benefício de todos que pudessem ouvir.

O passageiro ainda estava no convés, e Mayo ouviu o Capitão Downs cumprimentá-lo de forma bastante brusca.

Então, o sino de mão do cozinheiro anunciou o café da manhã, e antes que o capitão e seu convidado reaparecessem no convés, um rebocador já tinha o cabo da Alden e a rebocava pelo canal dragado, a caminho de Hampton Roads e para o mar.

Mayo dedicou-se às suas novas tarefas com tamanha destreza que passou no teste como marinheiro experiente. Se um marinheiro a bordo de uma grande escuna nos dias de hoje é rápido, disposto e forte, ele não precisa das qualidades e do conhecimento que faziam de um homem um “A.B.” nos velhos tempos.

Enquanto a escuna seguia seu caminho atrás do rebocador, içaram suas velas, um longo cabo chamado “o mensageiro” permitindo que o guincho a vapor à proa fizesse todo o trabalho. Mayo foi designado para o mastro da mezena e subiu para soltar a vela de gávea. Era uma altura vertiginosa, e a tarefa provou seu espírito, pois a vela era pesada, e ele achou difícil manter o equilíbrio enquanto puxava as dobras da lona. Ele foi obrigado a trabalhar sozinho — havia apenas um homem por mastro, e seus companheiros pareciam insetos minúsculos quando Mayo olhava para a frente, ao longo da fileira dos mastros.

O rebocador largou-os ao largo de Tail of the Horseshoe; um vento sudoeste impetuoso servia-os.

Com toda a sua velame içada, a escuna saiu arando para além dos cabos, e Mayo recebeu seu merecido turno de descanso; ele estava com tanto sono que sua cabeça girava.

Quando acordou, foi ordenado a assumir seu turno no leme. A escuna havia ganhado seu espaço e estava a caminho do norte, ao longo da costa, que se mostrava como um fio fino de branco ao longo do azul brilhante do mar.

Mayo assumiu o curso do jamaicano magro e fuliginoso que se afastou da roda do leme; ele fixou o olhar na bússola e tinha muito para ocupar suas mãos e sua mente, pois uma grande escuna que registra seis ou oito nós em um mar de seguimento é um desafio considerável para um timoneiro. Ocasionalmente, ele era obrigado a subir fisicamente na roda para manter o navio em sua rota.

O Capitão Downs caminhava firmemente de bombordo a estibordo entre o leme e a cabine. A cada volta, ele olhava para cima para espiar as velas. Era a patrulha regular de um capitão de escuna.

Apesar de sua absorção na tarefa, Mayo não pôde resistir a dar um olhar rápido ocasional para o passageiro. O comportamento do jovem tornara-se tão peculiar que atraía atenção. Ele parecia preocupado, inquieto, fumava seus cigarros nervosamente, jogou ao mar um que acabara de acender e começou a caminhar em direção ao capitão, com a boca aberta. Então, virou-se, protegeu um fósforo sob o capô da entrada da cabine e acendeu outro cigarro. Ele estava claramente lutando com um problema que o afligia muito.

Por fim, ele correu para baixo. Voltou quase imediatamente. Ele tinha o ar de um homem que decidira resolver um assunto desagradável.

— Capitão Downs — disparou ele, colocando-se à frente de Old Mull e detendo aquele capitão atônito —, o senhor poderia descer à cabine comigo por alguns momentos? Tenho algo a lhe contar.

— Bem, conte-me — conte-me aqui! — latiu o capitão.

— É muito particular, senhor!

— Não conheço lugar mais particular do que este convés de popa, a quinze milhas da costa.

— Mas o... o homem no leme!

— Grande Josephus! Isso não é um homem! É um marinheiro negro governando minha escuna. Conte sua história, Sr. Bradish. Conte-a bem aqui. Aquele sujeito não conta mais do que aquela cabeça de leme conta.

— Se o senhor pudesse descer à cabine, eu...

— Meu lugar é neste convés de popa, senhor. Se tem algo a me dizer, diga! — Ele começou a caminhar novamente.

Bradish acompanhou o passo, após um ou dois tropeços.

— Espero que o senhor leve isso na esportiva, Capitão Downs. Pode soar estranho para o senhor a princípio — gaguejou ele.

— Bem, bem, bem, conte-me — conte-me! Então eu lhe direi se soa estranho ou não.

— Trouxe outra passageira a bordo comigo. Ela está trancada em uma cabine.

Old Mull parou sua patrulha com um solavanco. — Ela? — exigiu. — O senhor quer me dizer que tem uma mulher a bordo?

— Estamos noivos — queremos nos casar. Então ela veio junto...

— Então por que diabos o senhor não foi se casar? O senhor não acha que isto é uma paróquia, acha?

— Havia razões pelas quais não podíamos nos casar em terra. É preciso ter licenças, e perguntas são feitas, e temíamos que fosse descoberto antes que pudéssemos arranjar tudo.

— Então isto é uma fuga, hein?

— Bem, o pai da jovem tem ideias tolas sobre um marido para sua filha, e ela não concorda com ele.

— Quem é o pai dela?

— Não pretendo lhe dizer, senhor. Isso não tem nada a ver com o assunto.

O Capitão Downs olhou seu passageiro de cima a baixo com grande desaprovação. — E qual é a sua ideia geral ao se carregarem em mim desta maneira?

— O senhor tem o direito, como capitão de um navio fora do limite de três milhas, de casar pessoas em uma emergência.

— Não tenho certeza de que tenho tal direito, e não estou nada certo sobre a emergência, Sr. Bradish. Não vou enfiar minha cabeça em uma enrascada.

— Mas não pode haver enrascada para o senhor. O senhor simplesmente exerce seu direito, nos casa, registra no seu diário de bordo e nos dá um papel. Será casamento suficiente para que não possamos ser separados.

— Quer ter uma mão com a qual possa blefar o pai dela, hein? Não aprovo tais táticas no matrimônio.

— Eu não estaria fazendo isso se houvesse qualquer outra maneira segura para nós — protestou Bradish, seriamente. — Não sou um sujeito barato. Tenho um bom emprego, senhor. Mas o problema é que trabalho para o pai dela — e o senhor sabe como é sempre em um caso desses. Ele não consegue me ver!

— Rico, eh?

— Sim, senhor! — Bradish fez a admissão de forma bastante carrancuda.

— É geralmente o caso quando há fugas!

— Mas isto não parecerá uma fuga quando for relatado nos jornais. Casamento no mar — parecerá uma maneira romântica de se livrar do incômodo de um casamento na igreja. Divulgaremos uma declaração desse tipo. Isso dará ao pai dela uma chance de parar com toda a fofoca. Ele ficará feliz se o senhor realizar a cerimônia.

— Diga, jovem, o senhor não está ensaiando comigo o material que usou com a moça, está? Bem, não cola!

— Capitão Downs, o senhor deve entender quão cabeça-dura alguns homens ricos são em assuntos desse tipo. Sou ativo e empreendedor. Serei um homem útil para ele. Ele gosta de mim no sentido comercial — ele mesmo disse isso. Ele ficará bem depois que se acalmar.

— Mais ensaio! Mas não estou apaixonado pelo senhor como aquela moça está.

— Estamos em uma posição terrível, capitão! Talvez não tenha sido uma coisa sensata a se fazer. Mas tudo ficará bem se o senhor nos casar.

— Qual é o nome dela?

— Não posso lhe dizer.

— Como diabos posso casar o senhor e ela se não sei o nome dela?

— Mas o senhor ainda não prometeu que fará sua parte! Não quero expor tudo isto para depois ser rejeitado.

— Não estou fazendo promessas precipitadas — afirmou o Capitão Downs, caminhando até o corrimão e dando uma espiada no velame. — Além disso — acrescentou, em sua caminhada de volta ao outro corrimão —, ele pode ser um dos donos desta escuna, por tudo o que sei. Dezesseis avos dela estão espalhados do inferno a Tar Hollow!

— O senhor não precisa se preocupar com ele possuir propriedades em escunas! Ele está fazendo um trabalho e tanto para tirar vocês sujeitos do mercado!

Curiosidade e algo mais brilharam nos olhos do Capitão Downs. — Chance para eu provocá-lo, hein, ao enfiar o senhor na família?

Essa nova ideia na situação atraiu instantaneamente Bradish como uma possibilidade a ser explorada. — Prometa, de homem para homem, que realizará o casamento, e eu lhe direi o nome dele; então o senhor ficará feliz por ter prometido — disse ele, ansiosamente.

— Não creio que tentaria me vingar do próprio Judas Iscariotes roubando sua filha dele, senhor. Há a moça a ser considerada em todos esses casos!

— Mas isto não é roubar! Estamos apaixonados.

— Talvez, mas o senhor não está me enganando muito, jovem. Não digo que o senhor não goste dela, mas o senhor está atrás de outra coisa também.

— Um homem tem que seguir seu caminho no mundo como melhor pode.

— Esse plano parece ser muito elegante entre vocês, sujeitos das finanças, hoje em dia. Mas sou um bom juiz de homens e não pode me enganar, digo eu. Agora, como o senhor enganou a moça?

Foi um questionamento direto e insultuoso, mas Bradish não teve coragem de se ressentir; ele tinha muita necessidade de apaziguar esse déspota. O amante hesitou e olhou apreensivamente para o homem no leme.

— Não se importe com aquele negro! — berrou o Capitão Downs. — Como o senhor conseguiu chegar perto o suficiente daquela moça para iludi-la com essa tolice?

— Nos conhecemos em danças. Nós nos atraímos — explicou Bradish, humildemente.

— Huh! Sim, me dizem que as moças estão loucas por chacoalhar o corpo hoje em dia, e suponho que seja fácil passar daí para um estado geral de loucura total — comentou Old Mull, com desgosto. — O senhor mostra que não está realmente apaixonado por ela, jovem. O senhor nunca permitiria que ela fizesse essa travessura se estivesse!

Ele colocou um charuto apagado na boca e continuou a patrulhar seu convés de popa, resmungando.

Bradish acendeu um cigarro, jogou-o fora após duas tragadas e encostou-se na cabine, estudando as pontas dos dedos, carrancudo e mal-humorado.

Mayo ouvira toda a conversa, mas seu interesse na identidade dessas pessoas era limitado; Nova York estava cheia de homens ricos, e havia muitas filhas tolas.

— Olhe aqui — sugeriu o capitão, desagradavelmente —, o que quer que seja feito mais tarde, há algo a ser feito agora. É crueldade com os animais manter aquela moça trancada naquela cabine por mais tempo.

— Ela não quis sair e se mostrar até que eu tivesse uma conversa com o senhor, senhor. Falei com ela através da porta algumas vezes. — Ele endireitou-se e assumiu uma postura digna. — Capitão Downs, chamo sua atenção — quero que se lembre de que observei todas as conveniências desde que estou a bordo.

O Capitão Downs bufou. — Conveniências — poosh! O senhor a colocou em uma bela enrascada! E ela está lá embaixo trancada como uma gata, e provavelmente morrendo de fome!

— Ela não quer comer. Acho que não está se sentindo muito bem.

— Eu não acharia que ela estaria! Vá buscá-la e traga-a aqui, onde ela possa pegar um ar fresco. Vou falar com ela.

Após um momento de hesitação, Bradish desceu. Ele retornou em pouco tempo.

Apesar de seus esforços para fingir indiferença, Mayo olhou fixamente para a entrada da cabine, ansioso por ver o rosto da moça. Mas ela não seguiu seu amante.

— Ela não se sente bem o suficiente para vir ao convés — relatou Bradish. — Mas ela está no salão. Capitão Downs, o senhor não poderia ir falar com ela e dizer algo para deixá-la tranquila? Ela está muito nervosa. Ela está assustada.

— Não sou muito chegado em mulheres — declarou Old Mull. Mas ele tirou seu boné e alisou seu cabelo grisalho.

— E se o senhor pudesse apenas dizer que vai nos ajudar! — implorou o amante. — Colocamo-nos à sua mercê, senhor.

— Não sou muito bom como bote salva-vidas neste negócio de amor. — Ele começou a caminhar em direção à entrada da cabine.

— Mas não lhe diga que não vai nos casar — não agora. Espere até que ela esteja mais calma.

— Oh, eu não lhe direi! Não se preocupe! — disse o Capitão Downs, com um endurecimento sombrio em sua boca. — Tudo o que ela, ou o senhor, conseguir de mim pode ser colocado no olho de uma pulga.

Ele desapareceu escada abaixo, e Bradish seguiu. Um imediato tinha vindo para a popa, obedecendo ao gesto do mestre, e assumiu o turno. Pouco tempo depois, Mayo foi rendido. Ele foi para a proa, consciente de que estava um pouco irritado e desapontado por não ter visto a heroína desta aventura amorosa, e maravilhando-se um pouco com seu interesse por aquela jovem dama.

Uma hora depois, Mayo, enrolando cabos no corredor fora da casa das máquinas, ouviu um boletim entregue pelo cozinheiro caolho ao engenheiro.

O cozinheiro trotara para a proa, seu olho bom saltando e, assim, expressando silenciosamente muito espanto. — Tem uma dama na popa. Tenho feito chá e torrada para ela.

— Bem, você age como se fosse a primeira mulher que você já viu. Qual é a excitação especial sobre uma saia indo como passageira?

— Ela não era esperada a bordo. Ouvi o velho falando com ela. O cavalheiro elegante que é passageiro a trouxe de alguma forma. Não entendi tudo porque o velho só meio que ronronava enquanto eu estava ao alcance da audição. Mas entendi o suficiente para saber que não está de acordo com o planejado.

— Bonita? — O engenheiro mostrava um pouco de interesse.

— Com certeza é! — declarou o cozinheiro, demonstrando que um olho é tão útil, às vezes, quanto dois. — Pêssegos e creme, cabelo cor de bala de melaço, mãos tão brancas quanto farinha de trigo. Parece boa o suficiente para comer.

— Ninguém jamais adivinharia que você é um cozinheiro, ouvindo você descrever uma garota — zombou o engenheiro.

— Há um mistério sobre ela. Ouvi ela meio que choramingando antes que o dândi a calasse. Ela dizia algo sobre estar arrependida de ter vindo, e que gostaria de estar de volta, e que sempre fez coisas por impulso, e não parava para pensar, e assim por diante, e se o navio não poderia ser virado.

Mayo esqueceu-se de si mesmo. Ele parou de enrolar cordas e ficou ali, ouvindo ansiosamente até que o olho indignado do cozinheiro por acaso se voltasse em sua direção.

— Você vê quem está aí se metendo na conversa privada de dois cavalheiros? — perguntou ele ao engenheiro. — Entregue-me aquele atiçador de grelha — o quente. Vou mostrar a esse negro onde é o seu lugar.

Mas Mayo retirou-se apressadamente, sabendo que não lhe era permitido protestar nem por palavra nem por olhar. No entanto, o cozinheiro lhe dera algo mais além de um insulto — ele contara fofocas que mantiveram os pensamentos do jovem ocupados.

Apesar de sua opinião bastante desprezível sobre a inteligência de uma garota que arriscaria tal aventura tola, ele se pegou lamentando sua situação, adivinhando que ela estava realmente arrependida. Mas quanto ao que estava acontecendo na cabine do mestre, ele não tinha como verificar. Ele se perguntava se o Capitão Downs casaria o casal de maneira tão equívoca.

De qualquer forma, ponderou Mayo, como isso poderia ser da conta dele? Ele tinha problemas suficientes para ocupar toda a sua atenção.

Seu vento forte do sudoeste parou exatamente quando o crepúsculo caiu. Uma névoa amarelada obscureceu as estrelas. Mayo ouviu um dos imediatos dizer que o barômetro havia caído. Ele mesmo sentiu o cheiro de mau tempo, tendo o instinto aguçado do marinheiro. As velas de gávea foram recolhidas, e ele subiu ao alto e teve uma longa luta solitária antes de conseguir dobrar e amarrar a lona pesada.

Quando chegou ao convés, um imediato ordenou-lhe que prendesse as coberturas de lona sobre as claraboias da cabine. O trabalho levou-o ao alcance da conversa que o Capitão Downs e Bradish estavam mantendo, caminhando pelo convés juntos.

— É claro que não quero prejudicar ninguém, capitão — dizia Bradish. Havia um tom obsequioso em sua voz; era o tom de um homem que estava fingindo cordialidade confidencial para conseguir seguir em frente — para ganhar um favor. — Mas tenho muita simpatia pelo senhor e pelo restante do pessoal da escuna. Tenho estado bem ali no escritório, e tive um dedo na torta, e vi o que foi feito em muitos casos. É claro, o senhor entende, isto é tudo entre nós! Não estou revelando nenhum dos segredos do escritório para serem usados contra os grandes. Mas estou disposto a mostrar que sou um amigo seu. E sei que o senhor será um amigo meu, e manterá segredo. Tudo o que é, o senhor pode ficar sabendo pelo que lhe conto e pode manter seus olhos bem abertos a partir de agora.

Mayo ouviu uma explicação fragmentária de como a combinação de interesses de barcos a vapor e barcaças operara para deixar apenas as sobras para as escunas. Os dois homens estavam caminhando pelo convés juntos, e nas voltas estavam longe demais dele para serem ouvidos distintamente.

— Mas eles estão realizando o maior trabalho de todos agora — continuou Bradish. — Diabos, Capitão Downs, não devo ser culpado por fugir com a filha de um homem depois de vê-lo operar pelo tempo que eu vi. O lema dele é: "Vá atrás disso quando vir uma coisa que deseja neste mundo". Fui treinado para esse sistema. Tenho tanto direito de ir atrás de uma coisa quanto ele. Sou tesoureiro da Paramount — esse é o truste com o qual eles pretendem esmagar a oposição. Meu trabalho é não fazer perguntas e assinar cheques quando me mandam, e só Deus sabe que tipo de bode expiatório isso fará de mim se eles algum dia tiverem um confronto nos tribunais! Eles armaram algum tipo de manobra para tomar a linha Vose; eu enviei um monte de dinheiro para Fletcher Fogg, que estava fazendo o trabalho sujo, e foi pago a um funcionário para manipular procurações na reunião anual. E então Fogg armou algum tipo de golpe contra um capitão novato — trabalhou um truque rápido com o sujeito e o fez empurrar a Montana para as areias. Suponho que eles terão a linha Vose pelo preço deles antes que eu volte.

Mayo sentou-se ali na sombra, agachado sobre pernas que tremiam.

Esse tagarela — com a língua solta por sua nova liberdade e pelo antagonismo que sua natureza mesquinha desenvolvia ao antecipar a inimizade de seu empregador — deixara escapar uma palavra sobre o que Mayo sabia ser a verdade. Tinha sido uma armadilha — e Fletcher Fogg a arquitetara! Mayo não sabia quem poderia ser o empregador de Fletcher Fogg. De que escritório vinha esse dedo-duro ele não sabia; mas era evidente que Bradish estava a par do truque. Como resultado dessa trapaça, um homem honesto fora arruinado e colocado em uma lista negra, privado da oportunidade de trabalhar em sua profissão, era um fugitivo, um marinheiro desprezado, chutado para o fundo da escada que subira tão pacientemente e com honra.

Uma paixão furiosa atropelou a prudência de Mayo. Ele saltou do topo da casa de máquinas e apresentou-se diante dos dois homens.

— Eu ouvi — não pude evitar ouvir! — gaguejou ele.

— Eis um negro que enlouqueceu! — gritou o Capitão Downs. — À vante, aí! Venham aqui para a popa com uma corda!

— Não sou negro e não estou louco! — gritou Mayo.

A lanterna oscilante na entrada da escadaria iluminava-o fracamente. Mas, na penumbra, sua tonalidade escura era ainda mais acentuada. Sua agitação parecia a de um homem cujos miolos tinham sido afetados.

— Eu sabia que era uma armadilha. Mas qual foi a armadilha? — exigiu ele, avançando em direção a Bradish, com as mãos crispadas estendidas.

O Capitão Downs chutou aquele marinheiro obstinado e, ao mesmo tempo, tentou acertar-lhe um golpe na cabeça com a palma da mão aberta.

Mayo evitou tanto o pé quanto a mão. — O que diz a lei sobre bater em um marinheiro, capitão? Espere aí! Sou um homem tão bom quanto você. Não ordene a esses homens que coloquem as mãos em mim. — Ele recuou dos marinheiros que corriam para a popa, com o segundo imediato a comandá-los. Ele arregaçou a manga e manteve o braço sobre o brilho da luz da bitácula. — Essa é a pele de um homem branco, não é? — exigiu.

— Que tipo de encenação é essa? — perguntou o Velho Mull, com indignação espantada.

Nessa crise, Mayo controlou a língua após um esforço hercúleo para se acalmar. Ele sentiu vontade de obedecer ao seu estado de espírito e anunciar sua identidade com toda a fúria que sentia. Mas ali estava o homem que servira como um dos instrumentos de seus inimigos, quem quer que fossem. Como arma contra esse homem, Mayo só tinha algumas palavras de fofoca que haviam sido soltas em um momento de descuido; ele percebeu sua posição; arrependeu-se de sua pressa apaixonada. Ele não estava pronto para se colocar sob o poder de seus inimigos contando a esse homem quem era; lembrou-se de que estava fugindo da lei.

Bradish olhava boquiaberto para esse intruso, sem parecer entender o que tudo aquilo significava.

— É melhor que os passageiros desçam para se livrarem da confusão — aconselhou o Capitão Downs. — Aqui está um negro louco, imediato. Agarrem-no e amarrem-no.

Mayo recuou até o suporte no corrimão e puxou dois cavilhões, armas poderosas, uma para cada mão.

Bradish apressou-se para as profundezas da casa de máquinas, visivelmente satisfeito em sair do caminho.

— Não permitam que esses negros coloquem as mãos em mim — repetiu o homem acuado. — Capitão Downs, deixe-me ter uma palavra com você em particular. — Ele decidira desesperadamente fazer um confidente de um de sua própria estirpe. Ele precisava amargamente da ajuda que um capitão de longo curso poderia lhe dar.

— Peguem-no! — rugiu o capitão. — Avancem, seus negros!

— Pelos deuses! Vocês ficarão com a tripulação reduzida, senhor. Eu os matarei!

Essa ameaça foi mais eficaz do que apenas bravata. O Capitão Downs instintivamente olhou para cima, para as nuvens baixas que obscureciam as estrelas; ele fungou o vento que soprava.

— Uma palavra com você, e o senhor entenderá! — implorou Mayo. Ele colocou os cavilhões de volta no suporte e caminhou diretamente até o capitão.

Não havia ameaça em sua ação, e o imediato não interferiu.

— Apenas uma ou duas palavras ao senhor, para mostrar que fiz mais do que jogar meu chapéu pela porta da Associação de Capitães e Imediatos. — Ele inclinou-se e sussurrou. — Agora deixe-me lhe contar outra coisa — em particular? — insistiu em tons baixos.

O Capitão Downs olhou novamente para o braço exposto e examinou esse marinheiro com mais atenção. — Dê a volta e entre na cabine de vante pela porta da casa do convés — ordenou ele, após uma pequena hesitação.

Mayo curvou-se e apressou-se pelo corredor de sotavento.

Aquela cabine designada como local da conferência era o salão de jantar da escuna. Ele esperou lá até que o Capitão Downs, movendo seu volume de forma mais deliberada, subisse pela escadaria principal e entrasse no compartimento pela porta de popa, que a nenhum marinheiro era permitido profanar.

— Alguém — aí dentro — pode ouvir? — perguntou Mayo, cautelosamente. Ele apontou para o salão principal.

— Ela está na cabine dela e ele está falando através da porta — resmungou o capitão. — Agora, o que você tem em mente?

Mayo levou a mão ao bolso interno de sua camisa e retirou um documento. Ele o colocou na mão do Capitão Downs. O capitão sentou-se à mesa, puxou seus óculos e ajustou-os em seu nariz protuberante de maneira calma, espalhou o papel sobre a toalha de damasco vermelho e o estudou. Ele abaixou a cabeça e encarou Mayo sobre a borda dos óculos com verdadeiro espanto.

— Este é o seu nome nestes papéis de capitão? — exigiu ele.

— Sim, senhor.

— Você é... você afirma ser o Capitão Mayo que destruiu a Montana?

— Sou o homem, senhor. Guardei meus papéis, mesmo que tenham sido cancelados.

— Como sei sobre esses papéis? Como sei que seu nome é Mayo? Você poderia tê-los roubado — embora, a bem da verdade, você poderia muito bem carregar uma bomba de dinamite no bolso, dado o bem que eles farão a você.

— Esse é o ponto, senhor. Eles meramente provam minha identidade. Ninguém mais os quereria. Capitão Downs, estou fugindo da lei. Admito para o senhor. Deixe-me contar como aconteceu.

— Seja breve — disparou o capitão, não demonstrando grande amabilidade para com esse capitão depenado e desacreditado. — O vento está aumentando.

Ele contou sua história de forma concisa e viril, permanecendo em pé enquanto o Capitão Downs se sentava e olhava por cima dos óculos, tamborilando com seus dedos grossos sobre o damasco vermelho.

— Pronto, senhor, é por isso que estou aqui e como acabei chegando aqui — concluiu Mayo.

— Não estou preparado para dizer que não é verdade — admitiu o Velho Mull por fim —, não importa o quão tolo soe. E estou me perguntando se, a seguir, encontrarei o Rei da Peruvia ou a Rainha de Sabá a bordo desta escuna. Pessoas novas estão chegando rápido! Conheço o Capitão Wass muito bem, embora nunca tenha posto os olhos em você para reconhecê-lo. Onde fica aquela verruga no rosto dele?

— No lado estibordo do nariz, senhor.

— O que ele faz, corta o fumo ou morde o tablete?

— Nenhum dos dois. Masca fumo picado.

— Qual é sua linha favorita de conversa?

— Recitar as regras de pilotagem e resmungar porque os grandões passam zunindo sem observá-las.

— O último comentário mostra que você esteve na casa do leme com o Capitão Wass! O exame acabou, você obteve nota cem e a banca está encerrada! — Ele se levantou e apertou a mão de Mayo. — Agora, o que posso fazer por você?

— Não suponho que o senhor possa fazer muita coisa, Capitão Downs. Mas vou lhe pedir isto, de capitão para capitão. Não deixe que ninguém a bordo desta escuna saiba quem eu sou — especialmente aqueles dois lá atrás! — Ele apontou para a porta do salão principal.

— Parece ser uma festa à fantasia a bordo aqui! — resmungou o capitão.

— Aquele homem que você chama de Bradish, quem quer que ele seja, sabe que tipo de jogo eles armaram para mim. Quero extrair isso dele. Se ele souber quem eu sou, não vai abrir a boca! Fui um tolo ao interromper como fiz. Ele estava vindo até você.

— Parecia ser bem fofoqueiro — admitiu o capitão. — Está tentando ser meu grande amigo para me manipular!

— O senhor não supõe que possa arrancar mais dele?

— Poderia ser feito.

— Sinto que são os marinheiros contra os piratas da terra desta vez, senhor. O senhor não chamaria esse homem aqui para lhe fazer algumas perguntas e permitir que eu ouça?

— Dadas as circunstâncias, eu farei isso. Marinheiros primeiro, é meu lema. Você entre na cabine do imediato, ali, e coloque o ouvido na fresta da porta.

Mas quando Bradish apareceu, respondendo ao chamado do capitão, toda a sua loquacidade o abandonara. Ele declarou que não sabia nada sobre o problema no caso Montana.

— Mas você disse algo sobre um esquema para enganar um capitão novato?

— Era apenas fofoca — provavelmente entendi errado. Pensei sobre isso e realmente não consigo me lembrar de onde ouvi ou muito a respeito. Pode ter sido apenas invenção de jornal.

Ele continuava espiando pelo quarto mal iluminado.

— Você não precisa se preocupar, jovem. Aquele negro não está aqui.

— Mas ele disse que era um homem branco. E como ele se interessa por isso?

— É um negro que enlouqueceu com esse caso — ele provavelmente esteve lendo histórias falsas nos jornais também — afirmou o Capitão Downs, severamente. — Devo lembrá-lo novamente, Bradish, que você estava falando comigo em um estilo bem animado.

— Ah, um homem solta muitas suposições quando está nervoso com seus próprios negócios.

— Bem, eu poderia dar um jeito para que você ficasse um pouco menos nervoso, contanto que mostre uma disposição mais disposta quando eu lhe fizer algumas perguntas — sondou o capitão. Mas essa insistência alarmou Bradish, e seus olhos piscantes revelaram seus medos e suspeitas.

— Não sei nada sobre o caso Montana. Não pretendo conversar sobre isso.

O Capitão Downs bateu mais forte na mesa, franziu a testa e ficou em silêncio.

— Mais alguma coisa, senhor? — perguntou Bradish, após uma pausa.

— Acho que não, se é assim que você se sente a respeito! — disparou o Capitão Downs.

Bradish voltou para o salão principal, e o escutador aventurou-se a sair.

— Não sei exatamente o que fazer a seu respeito, agora que sei quem você é — confessou o capitão, observando Mayo de cima a baixo.

— Não há nada a fazer a não ser me deixar voltar ao meu trabalho, senhor.

— Estou em uma posição terrível. Você é um capitão.

— Embarquei aqui antes do mastro, Capitão Downs, e sabia exatamente o que estava fazendo. Vou arcar com as consequências.

— Não gosto de ter você lá na frente entre aquele gado, Mayo.

— Capitão Downs, foi errado da minha parte fazer aquela cena no seu convés de popa. Eu deveria ter ficado quieto; mas a coisa veio a mim tão de repente que eu perdi o controle. Gostaria de voltar para a tripulação e que o senhor esquecesse que sou Boyd Mayo. Vou sair escondido em Boston e me perder.

O capitão ergueu o quepe e coçou o lado da cabeça. — Parece que me lembro de você no leme, Mayo, quando aquele sujeito estava descarregando algumas informações bem importantes para mim.

— Não pude evitar ouvir, senhor.

— Então você sabe que ele está fugindo com uma garota? — O velho capitão baixou a voz.

— Sim, senhor.

— Você já ouviu falar de um desempenho tão maldito e infernal? E conversei com a garota, e ela realmente não parece ser desse tipo. Ela é inconstante, você pode ver isso. Ela foi deixada solta demais, como muitas garotas na sociedade estão soltas hoje em dia. Elas pensam em algo diferente e, zás! elas vão lá e fazem. Ela está desejando não ter feito isso. Isso mostra algum bom senso. — Ele estudou o jovem. — Você sabe algo sobre esse direito que um capitão tem de realizar cerimônias de casamento?

— Nada em especial.

— Provavelmente será uma coisa boa para aquela garota se casar e se estabelecer. Ela parece ter escolhido Bradish. Mayo, você é um dos meus, e quero ajudá-lo. Vou arriscar meu direito de realizar a cerimônia. O que acha de trazermos Bradish de volta aqui e trocarmos um casamento pelo que ele pode nos contar sobre o negócio da Montana?

— Capitão Downs, um sujeito que arma uma dessas para uma garota, não importa se ela o encorajou, é um canalha barato — declarou Mayo, pronta e firmemente. — Não quero comprar meus papéis de volta de tal maneira.

— Então você não aprova que eu os case?

— Não tenho o direito de lhe dizer o que deve fazer, senhor. Estou falando apenas por mim.

O Capitão Downs ponderou. — Se ele é o braço direito do pai dela, provavelmente é tão bom quanto a maioria dos piratas da terra que a têm cortejado. Se ela for para casa casada, mesmo que seja apenas um casamento em alto-mar, contrato entre pessoas dispostas com testemunhas e o mestre da embarcação oficiando, como acredito que seja permitido, ela terá seu bom nome protegido, e isso significa muito. Não sei se tenho o direito de me opor e bloquear o caminho deles, vendo até onde foi. O que você acha, Mayo?

— Não acredito que queira dar nenhuma sugestão, senhor.

Nesse momento, a porta de popa se abriu. Mayo estava perto da porta da cabine do imediato nas sombras, e ele recuou para seu esconderijo. Ele ouviu a voz de Bradish.

— Capitão Downs, esta jovem tem algo a dizer ao senhor e espero que ouça!

Então a voz da garota! Foi uma explosão impetuosa. Ela apressou as palavras como se temesse esperar por uma segunda reflexão mais sensata.

— Capitão Downs, não posso esperar mais. O senhor deve agir. Eu lhe imploro. Tomei minha decisão. Estou pronta!

— Pronta para se casar, quer dizer?

— Sim! Agora que tomei minha decisão, por favor, apresse-se!

Seu tom era agudo, as lágrimas estavam próximas da sua desesperação, suas palavras surgiam quase incoerentes. Mas Mayo, olhando sem ver na escuridão negra da pequena cabine, com a audição aguçada, conhecia aquela voz. Ele não pôde se conter. Ele abriu a porta completamente.

A garota era Alma Marston.

Seus olhos brilhavam, suas bochechas estavam coradas, e era evidente que sua natureza impulsiva ardia de determinação. As sombras eram profundas nos cantos do salão, e o homem na porta da cabine não foi notado pelos três que estavam ali, na mancha de luz lançada pela lâmpada oscilante.

— Eu lhe peço — eu imploro — tomei minha decisão! Preciso acabar com isso.

— Não tenha histeria! Isso não é algo para ser apressado.

— O senhor deve.

— Você está falando com um capitão a bordo de sua própria embarcação, senhora!

Da garganta sufocada de Mayo veio algum tipo de som, e a garota olhou em sua direção, mas foi um olhar apressado e indiferente. Seus próprios assuntos a estavam absorvendo. Ele cambaleou de volta para o quartinho, e o balanço da escuna fechou a porta.

— O senhor é o capitão! O senhor tem o poder! É por isso que estou falando com o senhor, senhor!

— Mas quando você falou comigo há pouco, você estava recuando! — foi a objeção direta do Capitão Downs.

— Lamento ter sido tão imprudente. Não deveria estar aqui. Eu disse isso. Faço muitas coisas por impulso. Agora quero me casar!

— Mais impulso, hein?

— Preciso ser capaz de encarar meu pai.

Houve silêncio no salão.

Mayo enfiou os dedos trêmulos na boca e mordeu-os para reprimir o que sua razão horrorizada avisava que seria um grito de protesto. Apesar do que seus olhos e ouvidos lhe diziam, tudo parecia algum tipo de irrealidade hedionda.

— É uma grande responsabilidade — prosseguiu o Capitão Downs, resmungando as palavras e falando metade consigo mesmo em sua incerteza. — Tenho tentado obter alguma luz sobre isso de outro — de um homem que deveria entender mais sobre isso do que eu. É um problema grande demais para um homem lutar sozinho.

Ele virou as costas para eles, encarou a porta da cabine, inclinou o quepe e coçou a cabeça mais vigorosamente do que em suas reflexões passadas.

— Ei, você aí dentro! Imediato! — chamou ele, desajeitadamente preservando o incógnito de Mayo. — Estou em um aperto. Diga o que você realmente pensa!

Não houve palavra da cabine.

— Você é uma parte imparcial — insistiu o capitão. — Você tem bom senso. E agora?

— Quem é esse, aí dentro? — exigiu Bradish.

— Por que essa pessoa, quem quer que seja, teria algo a dizer sobre meus assuntos? — perguntou a garota.

— Porque estou pedindo a ele que diga! — gritou o capitão, mostrando raiva. — Eu mando aqui! Não tente me dizer como conduzir meus próprios negócios! — Ele caminhou em direção à porta. — Fale, imediato!

— É um insulto a mim — perguntar a estranhos sobre meus assuntos privados! — O protesto da garota foi uma explosão furiosa.

— Eu me ofendo com isso, capitão! Ofendo-me amargamente — declarou Bradish.

O velho capitão caminhou de volta na direção deles. — Ofendam-se o quanto quiserem, senhor! Vocês estão aqui pedindo favores a mim. Quero fazer o que é certo para todos os envolvidos. Vocês deveriam se casar — admito isso. Mas em que tipo de posição isso me deixa? Vocês vão me dizer o nome desta garota?

— Eu sou Alma Marston! — Ela disparou o nome contra ele com violência histérica, mas ele não pareceu impressionado. — Sou filha de Julius Marston!

O capitão a observou de cima a baixo.

— Agora, o senhor faria a gentileza de prosseguir com seu dever! — ordenou ela, altivamente.

— Bem, você não pode esperar que eu mostre qualquer bondade de vizinho em especial ao usurpador de Wall Street que me manteve preso sem um contrato por dois meses na primavera passada com suas combinações de barcos a vapor e seus negócios escusos!

— Como devemos entender isso, senhor? — perguntou Bradish.

A garota estava olhando com espanto franco para esse marinheiro casca-grossa a quem ela não conseguira impressionar com seu nome ou seus modos.

— Exatamente como vocês quiserem.

— Exijo uma explicação.

— Bem, eu vou lhe dar, já que estou perfeitamente disposto a fazê-lo. Entenda de um jeito, e estou disposto a dar uma surra em Julius Marston entregando a ele o tipo de genro que você faria; entenda do outro jeito, e não faço questão nenhuma de fazer qualquer coisa para acomodar alguém da família Marston. — Ele os olhou sardonicamente.

— Portanto, vejam vocês, estou entre a cruz e a espada no assunto! É como resolver uma questão jogando uma moeda. E direi o que vou fazer! — Ele bateu com a palma da mão na mesa. Ele caminhou de volta em direção à porta da cabine. — Imediato, ahoy, aí! De marinheiro para marinheiro, agora, e lembre-se de que você me pediu algo! Se você fosse capitão desta escuna, casaria estes dois?

Eles esperaram em silêncio, no qual ouviam o zumbido e o guincho do vento lá fora e o protesto irritado do revestimento das paredes da cabine da escuna que mergulhava nas ondas.

A voz que respondeu à pergunta do Capitão Downs não parecia humana. Foi uma espécie de lamento abafado, mas não havia como confundir sua firmeza.

— Não! — disse o homem atrás da porta.

O Capitão Downs cambaleou de volta para a mesa. Ele bateu o punho. — Isso resolve para mim! — Então ele equilibrou sua mão grande na borda da toalha de mesa. — Eu estava pronto para inclinar para um lado ou para o outro e só precisava de um empurrãozinho. Eu me decidi. — A palma da mão desceu plana sobre a toalha de mesa com firmeza final e decisiva. — Jovem — informou ele a Bradish —, há uma cabine extra ali, saindo deste salão de jantar. Você a ocupará!

— O que posso dizer ao meu pai? — lamentou a garota, o fogo de sua determinação subitamente extinto por um soluço de desamparo.

— Você pode dizer a ele que eu a adotei temporariamente como minha filha às três badaladas desta noite em particular, e irei até ele e a apoiarei se for necessário. — Ele abriu a porta que levava à popa e curvou-se. — Agora, vá para sua cabine, mocinha!

Após hesitar por alguns momentos, ela se apressou. O capitão trancou a porta e colocou a chave no bolso.

— Você acha que eu vou... — começou Bradish, com raiva.

— Não estou desperdiçando pensamentos com você, senhor. Estou guardando todos eles para a Drusilla M. Alden agora mesmo.

O balanço da embarcação dava provas de que o mar estava aumentando. Naquele instante, o primeiro imediato desceu alguns degraus da escada de vante, entrando pela porta da casa do convés.

— O vento está aumentando vindo do leste, senhor! — relatou ele.

— Assim julguei pela forma como este revestimento está reclamando. Estarei no convés imediatamente, Sr. Dodge.

Aquele relatório foi uma convocação para um marinheiro; Mayo saiu cambaleando da cabine. Ele não olhou nem para a direita nem para a esquerda, nem para nenhum dos dois homens no salão. Tropeçou em direção à escada de acesso, estendendo as mãos à sua frente da maneira como um homem tateia no escuro.

— Você está deixando um negro — e um louco, ainda por cima — decidir a coisa mais importante da minha vida? — enfureceu-se Bradish.

— Eu sei o que estou fazendo — assegurou-lhe o Capitão Downs. Mas o capitão estava manifestamente espantado com a expressão que via no rosto de Mayo.

— Eu não vou aceitar isso! Ei, você! — Bradish atravessou a sala correndo e interceptou Mayo.

— Afaste-se desse homem! — ordenou o capitão.

Mas Bradish não estava com disposição para obedecer à autoridade. — Há algo por trás disso e pretendo saber o que é! Pare, você! — Ele empurrou Mayo para trás, mas o rosto deste não mudou sua expressão de desespero embotado, vazio e absoluto, que não via nem ouvia. Mayo recuperou-se e avançou novamente, olhando para o nada.

— Se você tem um rancor contra mim, pelos deuses, eu vou acordar você e fazê-lo explicar! — gritou Bradish. Ele puxou o braço para trás e desferiu um soco rápido bem no rosto inexpressivo. O golpe veio com um solavanco da embarcação e Mayo caiu de costas. Ele desabou tão rigidamente quanto havia caminhado, com tão pouco esforço para se salvar quanto um manequim de loja teria feito.

Mas ele era outro homem quando se pôs de pé.

Bradish o havia despertado!

O mestre do Alden correu em volta da mesa, rugindo palavrões, e tentou ficar entre eles, mas era um homem desajeitado em suas pernas curtas. Antes que estivesse ao alcance dos braços, eles já estavam um sobre o outro, esquivando-se aqui e ali.

Bradish não era um adversário pequeno; ele era mais alto que seu antagonista e manejou os punhos como um homem que havia sido treinado como boxeador amador.

Eles lutaram por toda a cabine, golpeando o rosto um do outro.

O indignado mestre ameaçou-os com uma cadeira levantada, tentou derrubar suas mãos com ela, mas eles não estavam com disposição para se importar com um mediador. Lutaram como gatos enfurecidos, batendo contra as paredes da cabine, girando em um rigadoon maluco para encontrar uma abertura para seus punhos; o Capitão Downs não era ágil o suficiente para pegá-los. Proferindo palavrões terríveis, ele ameaçou atirar em ambos e correu para o salão principal, destrancando a porta.

— Vou voltar com uma arma! — prometeu ele. Mas a luta terminou repentinamente com um golpe de luta livre.

Mayo fechou-se, agarrou a mão direita de Bradish em uma pegada e dobrou o braço atrás das costas de seu adversário. Então, ele derrubou o homem da cidade e o jogou de costas sobre a mesa e contra sua borda com uma violência que provocou um grito de dor e deixou Bradish flácido e passivo. Mayo o manteve lá.

— Meu rancor, hein? Meu rancor! — o vencedor ofegava. — Porque você não quis me contar como os covardes me arruinaram? Não! A garota não está aqui agora. Eu vou te contar! É porque você roubou o autorrespeito e o bom nome dela, e isso faz de você um cão sujo demais para ser seu marido!

Ele pegou Bradish e o jogou no chão. Quando se virou, viu o rosto branco, angustiado e assustado da garota na fresta da porta do salão.

— Capitão Downs! — ela gritou, — aquele negro está matando ele. Ele está matando Ralph!

O vencedor virou as costas para ela e cambaleou em volta da mesa a caminho da saída. Ele limpou o sangue do rosto com a palma da mão e ficou feliz por ela não tê-lo reconhecido; e, no entanto, sua falha em fazê-lo, mesmo que ele fosse uma figura tão lamentável do homem que ela conhecera, foi mais uma chicotada de angústia em sua alma exposta. Por um momento, eles estiveram ali, cara a cara, e apenas um vazio de não reconhecimento o saudou; isso fez com que esse terrível contratempo parecesse ainda mais irreal.

Mayo não parou para ouvir os delírios do Capitão Downs, que passou por ela empurrando. Tonto, sangrando, quase cego, ele subiu a escada de vante e entrou na noite negra no convés.

O imediato gritava para que todos reduzissem as velas, e Mayo tomou seu lugar com os trabalhadores, que manejavam as escotas e descidas.

XXIII ~ O MONSTRO QUE SOLTOU A COLEIRA

E lá o Capitão Kirby provou ser um covarde afinal, E ele brincou de esconde-esconde atrás do mastro principal, E lá eles ficaram, rapazes, a tremer e sacudir, Por medo de que aquele terror suas vidas pudesse consumir. --Almirante Benbow.

A chuva veio com o vento, e o tempo estabeleceu-se em um sombrio e impetuoso leste de verão.

O final do verão fornece regularmente uma dessas tempestades para a costa do Atlântico, um recrudescimento dos vendavais de inverno, um teste dos elementos, uma espécie de ensaio interequinocial para que Euro tenha certeza de que seus foles estão em condições de funcionamento.

Tal tempestade raramente dá aviso prévio de que será severa. Parece ser uma brincadeira meteorológica para pegar os marinheiros cochilando.

À meia-noite, o Alden mergulhava em mares espumantes, seus cinco mastros vibravam com a rajada. Com cinco mil toneladas de carvão pesando, ele se arrastava como um tronco encharcado.

Mayo, que foi despertado de sua terrível agonia de alma às quatro horas da manhã para subir ao convés para seu turno, aventurou-se o mais perto possível da porta da casa das máquinas, pois a chuva estava encharcando suas roupas escassas e o brilho vermelho lá de dentro era grato. A bomba do navio estava batendo, uma circunstância de forma alguma alarmante, porque as enormes escunas do comércio de carvão são sacudidas e torcidas em águas agitadas.

O segundo imediato veio para a casa das máquinas, carregando a vara de sondagem até a luz para examinar a mancha em seu comprimento recém-coberto de giz.

Ele a jogou no convés com um grunhido de satisfação. — Nada que preocupe! — disse ele ao engenheiro. — No entanto, eu preferiria estar dentro dos cabos neste vendaval. A velha escumadeira não é o que costumava ser. Johnson, você sabe que esta escuna é uns sessenta centímetros mais longa quando está carregada do que quando está leve?

— Eu sabia que ela estava arqueada, mas não sabia que era tão ruim assim.

— Coloquei a linha de prumo nela antes de entrar na doca de carvão nesta viagem, e a medi novamente no canal ontem. Com carga, ela simplesmente se curva como um macaco indo para a guerra. É assim com esses cinco mastros! Eles sofrem tal esforço que estragam antes que os proprietários percebam.

— Eles nunca construirão mais, e não suponho que queiram gastar muito dinheiro nas antigas — sugeriu o engenheiro.

— Naturalmente que não, quando elas nem pagam dividendos como estão — Ele caminhou até o parapeito de barlavento e fungou. — Suponho que o velho vai soltar a âncora em breve — disse ele.

Mayo sabia algo sobre os métodos dos mestres de escuna e não se surpreendeu com a última observação.

Nos valentes velhos tempos, quando era costume enfrentar um vendaval, o plano posterior de ancorar uma grande embarcação em alto mar ao largo da costa de Delaware, com a Europa como proteção, teria sido visto com uma certa quantidade de horror por um capitão.

Mas o capitão moderno calcula que há menos desgaste se ele ancorar e esperar passar. Com certeza, não é lugar para uma pessoa sensível, a bordo de uma escuna carregada cujo gancho de lama se agarra ao fundo enquanto o mar a sacode, mas os mestres e as tripulações de cargueiros de carvão não são sensíveis.

Mayo, olhando para a popa, viu dois homens vindo para a vante lentamente, parando em intervalos regulares. A luz de uma lanterna brincava sobre suas roupas de oleado pingando. Quando chegaram à quebra do convés principal, perto da casa de vante, ele reconheceu o Capitão Downs e o primeiro imediato. O segundo imediato saiu e respondeu ao chamado do capitão.

— Traga uma marreta e mais algumas cunhas! — ordenou o mestre.

— A Drusilla está levantando as costas mais um pouco — comentou o segundo imediato, saindo para o depósito. — Eu não a culpo muito. Este não é lugar para uma velha senhora, aqui fora hoje à noite. — Ele ordenou que Mayo o acompanhasse.

Em poucos momentos, eles se apresentaram ao capitão, o imediato carregando a marreta de duas cabeças e o jovem carregando um braço cheio de cunhas.

O Capitão Downs concedeu a Mayo quase a mesma atenção que teria concedido a uma barata de cozinha. Ele apontou para uma lacuna no corrimão.

— Ali — coloque uma lá — disse ele ao imediato. — Deixe aquele negro segurar a cunha. — Havia rancor em sua voz — hostilidade maligna brilhava em seus olhos penetrantes; nenhum capitão tolera desobediência no mar, e Mayo havia ignorado toda a disciplina na cabine.

O jovem ajoelhou-se e realizou o serviço e seguiu o grupo obedientemente quando eles se moveram para a próxima lacuna.

A escuna que arfava gemia, resmungava e gritava em toda a sua estrutura.

Cada junta angular estava funcionando — abrindo e fechando com rangidos surdos enquanto a embarcação rolava e mergulhava.

— Pelo amor de Deus, ela está rangendo os dentes de bom grado! — comentou o primeiro imediato.

— Ela deveria ter sido reforçada há um ano, quando começou a afrouxar e trabalhar! — declarou o Capitão Downs. Sua ansiedade agitava tanto seu temperamento quanto sua língua. — Eu estava disposto a ter minha décima sexta parte nela avaliada para reparos, mas um acionista não precisa ir para o mar! Eu gostaria de ter um grupo de excursão de proprietários a bordo aqui agora.

— Quando essas criaturas velhas ficam soltas o suficiente para brincar, elas se despedaçam muito rápido — disse o imediato. — Mas isso não é nada especialmente ruim.

— Descubra o que temos sob nós — disparou o Capitão Downs. As cunhas haviam sido inseridas. — Deixe esse negro levar o prumo para a vante!

Era uma tarefa difícil na noite, porque a linha de prumo tinha que ser passada do convés de popa para o turco fora dos brandais; os trilhos e o convés estavam escorregadios. Claramente, o Capitão Downs estava propondo mostrar a Mayo "uma ou duas coisas".

Ele soltou o prumo por comando e ouviu o homem no convés de popa, pegando a linha quando ela balançou para uma posição perpendicular, relatar vinte e cinco braças.

Novamente, respondendo às ordens gritadas do imediato, Mayo levou o prumo para a vante e o soltou, após um período de espera, durante o qual a escuna havia sido aliviada. Ele estava encharcado até os ossos e sentia-se miserável tanto no corpo quanto na mente. Ele havia se traído, fizera um inimigo do homem que sabia algo que poderia ajudá-lo; sentiu uma estranha sensação de vergonha e desespero ao lembrar da garota e da expressão de seu rosto. Ele tentou convencer-se de que não se importava com a opinião dela sobre ele. O que aconteceu com aquele amor que ela professara a bordo do Olenia? Que tipo de donzela era esta? Ele não entendia!

Cinco vezes ele fez sua viagem precária com o prumo, tateando seu caminho fora do aparelho.

Em vinte braças, o Capitão Downs decidiu ancorar, depois que o imediato, "armando" o prumo ao encher seu copo com graxa, descobriu que estavam sobre um bom solo de ancoragem.

Quando o Alden entrou no vento e diminuiu a velocidade, batendo as velas molhadas, o segundo imediato martelou o pino de retenção da gigantesca âncora de bombordo, e o escovém vomitou braça após braça de corrente.

Todos os homens estavam no convés soltando as velas, e a grande escuna girou de lado para o cavado do mar. Ela formava um pêndulo poderoso, rolando os trilhos para baixo, serrando os céus negros com seus mastros imponentes.

Há muitas coisas que podem acontecer a bordo de uma escuna nessa posição quando os homens são lentos ou estúpidos. Um grande negro que estava soltando as adriças da mezena permitiu que sua linha enroscasse. O vento soprou dentro do triângulo da vela, e a retranca da mezena de trinta pés, com a ajuda do balanço do navio, girou o máximo que suas escotas soltas permitiram. O "viajante", um aro de ferro que circundava uma longa barra de ferro presa em ambas as extremidades ao convés, soltou faíscas como uma polia de bonde produz fogo de um fio congelado.

Com estilhaçamento de madeira e clangor de metal, a barra de ferro foi arrancada de suas fixações no convés e começou a voar de um lado para o outro pelo convés na ponta de sua corda, como uma funda de gigante. Ela girava, rodopiava, lançava-se para longe e retornava em arcos inesperados.

Os homens fugiram da área que este terror dominava.

A retranca girou até bater nos brandais da mezena a bombordo, e então voltou rapidamente pelo convés, para bater contra os brandais de estibordo. O projétil clangoroso e amarrado que carregava na ponta parecia estar procurando uma vítima. Quando a retranca encontrou os brandais de estibordo em sua investida desenfreada, a escuna estremeceu.

— Liberem essa adriça e baixem o topo! — rugiu o primeiro imediato.

Um marinheiro começou, abaixando-se, mas ele correu de volta quando a retranca atravessou o convés com um balanço tão vicioso que a barra de ferro literalmente gritou pelo ar.

— Deus do céu! Ela vai arrancar o mastro! — clamou o Capitão Downs. — Levem alguns homens para aquelas adriças, Sr. Dodge! Peguem aquela retranca!

O imediato correu e chutou um marinheiro, gritando ordens profanas. Ele agarrou o sujeito e o empurrou em direção aos pinos onde as adriças estavam amarradas. Mas, naquele instante, a retranca apressada veio zunindo acima com sua funda, e o ferro bateu no trilho quase exatamente onde a linha enroscada estava presa. O imediato e o marinheiro caíram de cara e rastejaram para longe da zona de perigo.

— Peguem uma corda e lacem aquela retranca! Laçem-na! — ordenou o mestre, temperando suas ordens com alguns palavrões marítimos intensos.

Mas os homens que se adiantaram fizeram-no timidamente e lentamente, e recuaram quando a retranca ameaçava. A barra voadora era uma arma terrível. Agora ela girava em direção ao mastro — agora varria em um raio maior. Onde ela varreria o convés entre os mastros a seguir dependia do capricho da onda e do vento. Era perfeitamente aparente que qualquer um que ficasse em seu caminho encontraria a morte tão instantaneamente quanto uma mosca sob a vela de uma dona de casa.

A vida é doce, mesmo que um homem seja negro e esteja trabalhando por um salário de um dólar por dia.

E mesmo que um homem seja um imediato, com um salário mais alto e mais responsabilidade, ele tende a pensar em si mesmo antes de pensar em salvar um mastro e equipamentos para os proprietários de uma escuna.

— Que tipo de tripulação maldita eu tenho a bordo aqui? — gritou o mestre.

— Do tipo que todos os navios a vela carregam hoje em dia — disse uma voz ao seu lado.

O Capitão Downs girou e encontrou Mayo ali. — Como você ousa falar comigo, seu marinheiro de caldeira? — exigiu o mestre. Em sua paixão, ele continuou: — Você está a bordo aqui sob falsos pretextos. Você não consegue nem fazer seu trabalho. Você tornou esta embarcação responsável por agredir um passageiro. Você não presta! Com você a bordo aqui, sou como se me faltasse um homem. — Mas ele não tinha tempo para dedicar a essa pessoa.

Ele se afastou e começou a insultar seus imediatos e marinheiros, sua voz subindo mais alto a cada vez que a retranca descontrolada batia de um lado para o outro. Um ou dois dos estais haviam se rompido, e estava claro que em pouco tempo o mastro iria por água abaixo.

— Se aquele mastro sair, é provável que nos esmague até a linha d'água — lamentou o capitão.

— Se você puder fazer seu rebanho de ovelhas me dar uma mão na hora certa, vou lhe mostrar que um marinheiro de caldeira é tão bom quanto um marinheiro de navio a vela — disse Mayo, retaliando com o mesmo tipo de rancor que o Capitão Downs vinha gastando. Naquela crise, ele foi ousado o suficiente para presumir sua identidade como capitão de mar. — Eu odiaria encontrar esse tipo de bando em qualquer navio a vapor com o qual já tive experiência.

Então ele correu antes que o capitão tivesse tempo de retrucar. Ele deslizou pela zona de perigo de costas, como um corredor em um jogo de bola. Esse movimento o levou a um lugar seguro entre o mastro principal e o da mezena. Havia uma bobina de cabo extra aqui, e ele agarrou a ponta solta e habilmente fez um nó de laçada. Ele colocou a alça firmemente sobre seus ombros, saltou e agarrou-se aos aros no mastro da mezena.

— Certifiquem-se de que a linha corra livre daquela bobina, e fiquem prontos para ordens! — ele gritou, e embora sua pele tingida fosse escura e ele vestisse o traje do marinheiro comum, ele falou com o tom inconfundível de um capitão de mar. O segundo imediato correu para a linha e assumiu o comando.

— Este é um bronco indomável, com certeza! — murmurou Mayo. — Mas é pela honra dos homens de navio a vapor! Vou mostrar a essa gangue!

Ele se equilibrou por alguns momentos na forquilha da retranca, agarrando-se às tralhas da testa — as cordas curtas com as quais a vela é tomada.

Enquanto ele estava ali, preparando-se para seu empreendimento desesperado, esperando pela oportunidade, medindo o monstro que se debatia e insensível que ele resolvera subjugar, ele ouviu o Capitão Downs gritar um comando impaciente:

— Passageiros, desçam!

Mayo olhou para a popa e viu Alma Marston agarrada ao suporte do mastro da vela grande. A lanterna da casa de comando brilhava em seu rosto branco.

— Desçam! — repetiu o mestre.

Ela balançou a cabeça.

— Este não é lugar para uma mulher.

— A embarcação vai afundar! — ela vacilou.

— A escuna está bem. Você, desça!

Quão amargo era seu medo, Mayo não podia determinar. Mas, mesmo à distância, ele podia ver uma resolução teimosa em seu semblante.

— Se eu tiver que morrer, não vou morrer lá embaixo em uma caixa — ela gritou. — Vou ficar bem aqui.

O Capitão Downs xingou e virou as costas para ela. Aparentemente, ele não queria chegar a um confronto real com essa amotinada feminina.

A grande verga caiu até o limite de seu arco, e a vela balançou com ela, inflando sob o peso do vento. Os pontos de rizo não estavam mais ao alcance de Mayo. Ele correu ao longo da retranca, braços estendidos para se equilibrar, e estava na metade do caminho até sua extremidade antes que o surto revelador sob ele desse o aviso. Então ele caiu sobre a enorme vara, rolou sob ela e enfiou braços e pernas sob o pé da vela. Mal ele havia agarrado a verga em um abraço feroz antes que ela começasse sua jornada de retorno. Foi uma varredura tonta pelo convés, um mergulho de tirar o fôlego.

Quando a verga colidiu com os estais, ele sentiu como se braços e pernas fossem arrancados de seu corpo. Ele não se arriscou a se mover ou a relaxar sua pegada. Ele se agarrou com toda a sua força e se preparou para a jornada de retorno. Ele havia observado cuidadosamente e sabia algo sobre os caprichos do gigante mangual. Quando ela era lançada a bombordo, o vento ajudava a mantê-la lá até que o surto irresistível da escuna a fizesse voar selvagem mais uma vez. Ele sabia que nenhuma carne e sangue poderia suportar muitas dessas colisões com os estais. Ele resolveu agir na próxima oscilação a bombordo, para que sua força não se esgotasse.

— Vejam que o cabo corra livre! — ele gritou quando sentiu a vara levantar para seu bote.

Ele se balançou para cima sobre a verga no momento em que ela atingiu, e o impulso o ajudou. Ele correu novamente, equilibrando-se como um acrobata de corda bamba. Ele arrancou a laçada de seus ombros, passou-a pela extremidade da retranca e gritou uma ordem, com toda a força de seus pulmões:

— Puxem firme!

Naquele instante, a retranca começou a girar novamente.

Em pé na extremidade da verga, ele estava fora de borda; o mar espumante estava sob ele. Ele não podia pular então; saltar quando a retranca estava varrendo o convés significava um saco cheio de ossos quebrados; esperar até que a retranca batesse contra os estais, ele percebeu, convidaria um desastre certo; ele seria esmagado entre a retranca e os brandais ou lançado para longe no oceano como um feijão é jogado por um polegar. Na extremidade extrema da verga, a alavancagem seria tão grande que ele não poderia esperar se agarrar lá com braços e pernas.

Um estranho lampejo de pensamento trouxe a Mayo a frase: "Entre o diabo e o mar profundo". Aquela retranca voadora era certamente o diabo, e o mar espumante parecia muito profundo.

O balanço de barlavento era mais lento e Mayo teve um momento para procurar algum modo de fuga.

Ele viu a vela do mastro de “número quatro” estendida frouxamente em seus *lazy-jacks*, desfraldada e exibindo uma vasta extensão de lona revolta. Quando ele estava dentro da amurada, e enquanto a retranca ganhava impulso, ele tomou a vida em suas mãos e a coragem entre os dentes e saltou em direção à vela. Ele fez o salto justamente no momento em que a retranca lhe daria a maior ajuda.

Ele ouviu o juramento de espanto do Capitão Downs quando mergulhou sobre a cabeça daquele digno marinheiro, um cometa humano em uma parábola de seis metros.

Ele aterrissou na vela de mãos e joelhos, gritando, mesmo enquanto pousava: “Segurem-na, rapazes!”

Eles o fizeram quando a verga bateu contra os estais. Eles puxaram a corda, apertaram o laço e, antes que a embarcação adernasse novamente, tinham dado meia dúzia de voltas com a ponta livre do cabo em torno dos cunhos mais próximos.

Mayo desceu apressado da vela e ajudou-os a completar o trabalho de prender a verga. Ele passou perto do Capitão Downs quando o serviço foi concluído.

“Bem”, rosnou o comandante do Alden, “o que você espera que eu diga a respeito disso?”

“Peço apenas que evite dizer algo.”

“O quê?”

“Que um homem de barco a vapor não pode ganhar seu pagamento a bordo de um veleiro, senhor. Não gosto de sentir que estou sob obrigações de qualquer maneira.”

O comandante resmungou.

“E se a pequena coisa que fiz ajudar a compensar aquele deslize que cometi ao bater no seu passageiro, ficarei contente”, acrescentou Mayo.

“Você não precisa insistir nisso”, disse o Capitão Downs, notando cuidadosamente que não havia ninguém ao alcance da voz. “Quando um homem esteve em um pesadelo por vinte e quatro horas, como eu estive, você tem que fazer algumas concessões, Capitão Mayo. Esta é uma confusão terrivelmente complicada.” Ele olhou semicerrando os olhos para o aparelho do mastro de mezena onde as lanternas revelavam o dano. “E pelo modo como esses brandais estão arrancados, e vendo como aquele mastro está bamboleando, esta escuna é capaz de ficar tão maltratada quanto as pessoas que estão a bordo dela.”

Mayo virou-se e voltou ao seu trabalho. Eles estavam armando estais extras para o mastro de mezena. E ele notou que a moça perto da porta da casaria estava olhando para ele com muito interesse. Mas naquela penumbra ele era apenas uma figura em movimento entre homens trabalhadores.

Uma hora depois, o imediato ordenou que os sacos de óleo fossem amarrados aos turcos. Os sacos eram enormes sacos de estopa cheios de estopa de algodão que estava saturada de óleo.

Apesar do fato de sua vela de estai, com dois rizes, estar içada a fim de mantê-la contra o vento, ao estilo de um cata-vento, a escuna parecia determinada a manter seu costado voltado para os mares revoltos. A mancha de óleo ajudou apenas um pouco; a cada poucos momentos, uma onda com espuma voando dela espatifava-se pelo convés, disparando toneladas de água entre as amuradas, com um som como o de um trovão. Nessas ocasiões, a torrente rodopiante na parte central chegava aos joelhos de um homem.

Mayo não foi para o seu turno abaixo. A agitação de sua recente experiência havia espantado qualquer desejo de sono, e o revestimento no alojamento da tripulação estava rangendo com um barulho tão infernal que apenas um homem surdo poderia ter permanecido lá com conforto.

No entanto, ele não estava inquieto quanto à segurança da escuna. Em um vendaval de inverno, com gelo acumulando-se nela, ele teria visto a situação deles sob uma luz diferente. Mas ele frequentemente vira os mares quebrando sobre as chatas de carvão balouçantes quando passava por elas ancoradas na costa.

Ele fez uma incursão própria ao longo do convés principal, subindo nas vergas para evitar o dilúvio ocasional que varria a parte central da embarcação. As escotilhas vedadas estavam aparentemente resistindo aos ataques das ondas. Ele podia sentir menos peso no vento. Era evidente que a crise da tempestade havia passado. As ondas não eram tão selvagens; suas cristas não estavam quebrando. Mas exatamente então o segundo imediato passou correndo, e Mayo ouviu o relatório que ele deu ao capitão, que caminhava pelo corredor de sotavento:

“O mastro de mezena está ganhando mais jogo, senhor. Receio que esteja criando um problema sério com a base e a sobrequilha.”

“Arme estais extras e teste-a novamente quanto à água”, ordenou o comandante.

Mayo, retornando para a mezena, encontrou toda a tripulação agrupada lá. O mastro estava contorcendo-se e gemendo em seu colar de convés, retorcendo sua cobertura — o revestimento de lona em sua base onde entrava no convés.

Os rostos sombrios exibiam muita preocupação. Eles tinham se reunido onde o navio estava ferindo a si mesmo; o sexto sentido do marinheiro sobre problemas iminentes os levara até lá.

“Quatro de vocês subam ao mastro e fiquem prontos para prender esses estais!” comandou o primeiro imediato.

“O restante de vocês preparem o aparelho de manobra!” gritou o segundo imediato, seguindo de perto os passos de Mayo.

Os negros não se moveram. Eles murmuraram entre si.

“Andem logo!” insistiu o imediato.

“Desculpe-nos, mas aquele mastro vai cair”, arriscou um homem.

“Para o alto com vocês, eu disse!”

Justamente então, a escuna golpeou-se em uma grande crista de onda, e os estais de boreste romperam-se, um após o outro, como cordas de violino gigantescas. O mastro oscilou e houve um som ameaçador abaixo do convés.

“Ela furou a si mesma!” gritou um marinheiro.

Na penumbra, seus olhos brilhavam com o fogo que se observa nos olhos de gatos assustados.

“Lá vem ela!” gritou um deles. Ele apontou um dedo trêmulo.

Sobre as bordas da escotilha de vante, água negra estava borbulhando.

Uivando como animais, os marinheiros debandaram para a popa em um bando, derrubando Mayo e os imediatos em sua corrida.

“Parem-nos, capitão!” bradou o primeiro imediato, adivinhando a intenção deles. Ele levantou-se e correu atrás deles. Mas o medo deu-lhes asas nos calcanhares. Eles correram sobre o teto da casaria de popa e estavam no convés de popa antes que o capitão saísse do corredor. Eles saltaram para a baleeira que estava suspensa nos turcos de popa.

“Seus renegados!” rugiu o comandante. “Saiam desse barco!”

Com os dois imediatos em seus calcanhares, ele avançou sobre eles. Eles agarraram três homens que lutavam pelas pernas e arrastaram-nos de volta. Mas os negros se soltaram, impulsionados a esforços frenéticos por seu pânico. Eles se jogaram no barco novamente.

“Sejam homens!” clamou Mayo, juntando-se às forças de disciplina. “Há uma mulher a bordo!”

Mas o apelo que poderia ter afetado um anglo-saxão não prevaleceu. Suas facas estavam desembainhadas — não para atacar seus superiores, mas para cortar o aparelho de içamento dos turcos.

“Vamos, rapazes! Joguem-nos fora!” gritou o comandante, liderando o caminho para dentro da baleeira sobre a amurada.

Seus dois imediatos e Mayo seguiram, e o engenheiro, recém-chegado da parte de vante, saltou atrás deles. Mas, tão rapidamente quanto jogavam um homem para o convés de popa, ele estava de pé e no barco novamente, lutando por um lugar.

“Joguem-nos ao mar!” rugiu o comandante, soltando um terrível juramento. Ele nocauteou um dos miseráveis enlouquecidos para dentro do mar. No momento seguinte, o capitão estava de costas no chão, e os marinheiros o atropelavam.

A maioria das ondas vinha cavalgando na altura da amurada; às vezes, uma onda especialmente violenta lavava o convés de popa.

Seguindo-a, um abismo abria-se regularmente sob a popa da embarcação, um poço rodopiante no oceano com seis metros de profundidade.

Houve boa sorte, assim como infortúnio, no caso da baleeira. Quando finalmente ela caiu, evitou o período do abismo.

Apesar dos esforços do capitão e de seus ajudantes, os marinheiros conseguiram cortar o aparelho dos turcos. Uma onda crescente veio ao encontro do barco quando o último fio cedeu e varreu-o, com sua carga, para dentro da noite. Mas, enquanto ele ia, Mayo agarrou uma roldana de turco e balançou no ar.

As profundezas vertiginosas do mar abriram-se sob ele enquanto ele pendia ali e olhava para baixo.

Um instante depois, toda a sua atenção estava concentrada em Alma Marston, que estava na entrada da cabine, agarrando-se às laterais e gritando seus medos. A lanterna mostrava-a claramente para ele. Sua luminosidade iluminava-o também. Ele chamou por ela várias vezes, finalmente com raiva.

“Onde está aquele homem, Bradish?” ele exigiu, ferozmente.

Parecia que seus braços seriam arrancados. Ele não conseguia alcançar o ferro do turco de onde pendia; a amurada da escuna estava longe demais, embora ele chutasse os pés naquela direção.

“Não seja tola! Pare com esse grito”, disse-lhe ele. “Chame Bradish!”

“Ele está doente... ele... ele está assustado”, ela hesitou.

“Venha aqui! Puxe aquela corda! Balance-me para dentro, não consigo aguentar aqui por muito mais tempo. Você quer me ver afogar?”

Ela veio ao longo da amurada, agarrando-se a ela.

“Não, não essa corda! A outra! Puxe com força!”

Ela obedeceu, lutando contra seu medo. O turco balançou para dentro lentamente, e ele conseguiu deslizar suas pernas sobre a amurada e ganhar o convés.

“Obrigado!” ele arquejou. “Você é uma ótima marinheira!”

Ele vinha imaginando quais seriam suas primeiras palavras para ela. Mesmo enquanto balançava sobre as profundezas abissais do mar, o problema de seu amor era tão mais absorvente do que seu medo da morte que seus pensamentos estavam ocupados com ela. Ele tentou falar com ela com um tom descuidado; estivera em sua mente que ele falaria, faria uma reverência e iria embora. Mas ele não conseguiu se mover quando ela abriu os olhos para ele. Ela estava tão imóvel quanto ele — uma estátua pálida, silenciosa e atônita de medo espantado. A corda escorregou lentamente de seus dedos relaxantes.

“Sim! É exatamente o homem que você pensa que é”, informou-lhe ele, secamente. “Mas não há nada a ser dito!”

“Eu preciso dizer algo...”

Mas ele a interrompeu selvagemente. “Este não é o lugar para discutir loucuras! Não é o lugar para falar nada! Há algo mais a fazer além de falar!”

“Nós vamos morrer, não vamos?” Ela inclinou-se para perto dele, e a pergunta não passou de um sussurro emoldurado por seus lábios trêmulos.

“Eu acho que sim”, ele respondeu, brutalmente.

“Então deixe-me dizer...”

“Você não pode me dizer nada! Fique quieta!” ele gritou, e afastou-se dela.

“Por que o Capitão Downs não volta atrás de nós?”

“Não seja tola! O mar os levou embora.”

Eles trocaram olhares e ficaram em silêncio por um tempo, e o orgulho em ambos ergueu barreiras mútuas. Foi uma atitude que conspirou para o alívio de ambos os lados. Porque havia tanto a dizer, não havia nada a dizer naquela agitação do mar e de suas emoções.

“Eu não serei tola — não mais”, ela disse-lhe. Havia uma nota tão distintamente nova em sua voz que ele a encarou. “Eu não sou uma covarde”, disse ela. Ela parecia ter dominado a si mesma súbita e singularmente.

Os olhos de Mayo expressaram franco espanto; ele dizia a si mesmo novamente que não entendia as mulheres.

“Não o culpo por pensar que sou uma tola, mas não sou uma covarde”, ela repetiu.

“Sinto muito”, balbuciou o jovem. “Eu me esqueci.”

“Há perigo, não há?”

“Temo que o mastro tenha aberto um buraco feio nela. Devo correr para vante. Devo ver se algo pode ser feito.”

“Eu vou com você.” Ela seguiu-o quando ele começou a se afastar.

“Você deve ficar na popa. Você não pode chegar à vante ao longo desse convés. Olhe para as ondas quebrando sobre ela!”

“Eu vou com você”, ela insistiu. “Talvez haja algo que possa ser feito. Talvez eu possa ajudar.”

A moça era teimosa, e ele sabia que não havia tempo para discussão.

Três vezes em seu caminho para vante, ele foi obrigado a segurá-la no gancho de seu braço enquanto lutava contra a torrente que uma onda lançava sobre o convés.

Não havia dúvida quanto à situação desesperadora da escuna. Ela estava visivelmente adernada pela proa, e água negra estava espirrando à vante da quebra do convés principal. A porta da cozinha estava aberta, e o cozinheiro caolho foi revelado sentado dentro sob uma lanterna balançante. Ele segurava um gato sob o braço.

“Dê uma mão aqui, cozinheiro!” chamou Mayo.

Mas o homem não saiu de seu banco.

“Dê uma mão, eu disse! Temos que armar o aparelho e colocar este escaler na água.”

O barco reserva da escuna estava em calços entre o mastro de vante e o principal. Mayo notou que estava cheio de cabos sobressalentes e continha as quinquilharias habituais de uma caixa de entulhos. Ele subiu apressado e deu uma mão à moça para ajudá-la sobre a amurada.

“Isso a manterá fora da água”, aconselhou ele. “Sente-se ali na popa enquanto eu jogo fora essa tralha.”

Mas ela não se sentou. Ela começou a jogar fora os artigos que sua força permitia.

Novamente Mayo chamou o cozinheiro, xingando-o calorosamente.

“Ah, não adianta”, declarou o homem, com resignação. “Estamos perdidos.”

“Não estamos perdidos até irmos, seu tartaruga infernal! Venha aqui e ajude.”

“Não me resta coragem para nada. Eu nunca teria acreditado nisso. O Velho indo embora e salvando um monte de marinheiros negros em vez de mim — depois de todas as vitualhas que preparei para ele. Se é esse o tipo de gratidão que existe no mundo, estou feliz por estar indo embora dele. Eu e o gato iremos juntos. O gato é um amigo, de qualquer maneira.”

Mayo perdeu a paciência então, para valer. Toda a sua natureza estava no limite naquela crise, e essa rendição supina de um homem capaz cujas duas mãos eram necessárias tão desesperadamente era peculiarmente exasperante. Ele saltou do barco, correu para a cozinha e deu ao cozinheiro uma surra revigorante com a palma das mãos. O cozinheiro agarrou seu gato com mais firmeza, apoiou-se no banco e recebeu seu castigo.

“Mate-me se quiser”, convidou ele. “Tenho que morrer, e não faz a menor diferença como. Mate-me se estiver tão inclinado.”

“Homem — homem — homem, qual é o seu problema?” arquejou Mayo. “Temos uma chance! Aqui está uma moça para salvar!”

“Ela não tinha nada que estar aqui. Foi trazida escondida a bordo. Não adianta me bater. Não levantarei um dedo. Minha mente está decidida. Fui abandonado pelo Velho.”

“Seu lunático, o Capitão Downs foi levado por aqueles covardes. Acorde! Ajude-me! Pelo amor de Deus, ajude-me!”

“Correr por aí só vai tirar minha mente dos pensamentos sobre o além, e preciso fazer um pensamento correto antes do meu fim. Não adianta ameaçar e falar; nada faz diferença para mim agora.”

Mayo viu a inutilidade de mais apelos, e o sujeito pendia tão frouxamente quanto um boneco de pano quando o jovem o sacudiu. Portanto, Mayo desistiu de seus esforços e correu de volta para o escaler. O espetáculo da moça lutando com as coisas que ela estava jogando ao mar deu-lhe uma nova determinação. Sua incrível coragem no momento em que ele esperava histeria e colapso deu-lhe uma nova luz sobre o enigma da feminilidade.

“Você me disse que Bradish está doente?” ele perguntou, apressadamente.

“Ele está na cabine. Ele não queria falar comigo. Não consegui induzi-lo a vir ao convés.”

“Preciso de ajuda com o aparelho”, ele disse a ela, e começou a correr para a popa.

Ele encontrou Bradish estatelado em uma cadeira de balanço que estava amarrada a um radiador. Ele esperava palavras duras e mais insultos, mas Bradish virou para ele um rosto que estava cinzento de evidente terror. Sua mandíbula caiu; seus olhos suplicaram.

“Isto é terrível!” ele lamentou. “O que aconteceu no convés? Ouvi a briga. Onde está a Srta. Marston?”

“Ela está na vante. Houve um acidente — um grave. Perdemos o capitão e a tripulação. Vamos. Preciso de ajuda.”

“Não posso ajudar. Estou acabado!” gemeu Bradish.

“Eu digo que você deve. É a única maneira de salvar nossas vidas.”

Bradish rolou a cabeça no encosto da cadeira, recusando-se. Sua maneira, sua mudança repentina do humor de luta, surpreendeu Mayo. O pensamento veio a ele de que este homem fora incitado ao conflito por rancor amargo em vez de por sua coragem.

“Olhe aqui, Bradish, você não vai me ajudar a salvar aquela moça?”

“Não sou marinheiro. Não há nada que eu possa fazer.”

“Mas você tem duas mãos, homem. Quero colocar um barco na água. Ande!”

“Não, não! Eu não entraria em um barco pequeno com essas ondas tão altas. Não seria seguro.”

“Esta escuna está afundando!” gritou Mayo. Ele segurou com força os ombros de Bradish. “Não há tempo para discutir isso. Você vem comigo!”

Ele puxou Bradish para seus pés e impeliu-o para a entrada da cabine, e o homem foi sem resistência. Era evidente que o perigo real e o medo da morte quase o haviam paralisado.

“Não há nada que eu possa fazer!” ele continuava balindo.

Mas Mayo apressou-o para a vante.

“Ralph!” gritou a moça, praticamente chicoteando-o com o tom em que ela entregou a palavra. “O que há com você?”

“Não há nada que eu possa fazer. Não é seguro aqui fora.”

“Você deve fazer o que este homem diz para você fazer. Ele sabe.”

Mas Bradish agarrou-se à amurada do escaler e encarou as ondas espumantes, piscando os olhos.

“Se eu pelo menos tivesse um par de homens em vez desses dois vermes infernais”, enfureceu-se Mayo, “eu poderia armar o aparelho e colocar este barco na água. Acorde! Acorde!” ele clamou, batendo o punho nas costas de Bradish.

“Ralph! Seja um homem!” Havia raiva, protesto e espanto chocado em seu tom.

De repente, Mayo viu uma visão ameaçadora e ouviu um som de mau agágio. A escotilha de vante arrebentou com um estrondo poderoso, forçada pelo ar comprimido pela água que entrava. Ele não desperdiçou mais fôlego em discussões e apelos. Ele percebeu que mesmo uma tripulação capaz não teria tempo para lançar o barco. A escuna estava perto de seu destino final.

Com toda a pressa, ele puxou seu canivete e cortou as amarras que prendiam o barco em seus calços. Que a embarcação fosse impulsionada para longe dos destroços emaranhados e flutuasse quando a escuna afundasse, ele dificilmente poderia esperar. Mas havia apenas esta chance desesperada para confiar na emergência.

Em sua agonia de desespero e sua fúria de ressentimento, ele foi tentado a subir no barco e deixar os dois covardes à sua sorte. Mas ele se abaixou, pegou Bradish pelas pernas e impulsionou-o sobre a amurada para dentro da baleeira. O impulso de um marinheiro é salvar a vida mesmo com o risco da sua própria. Mayo correu para a cozinha, chutou o cozinheiro do banco e então o conduziu de cabeça para o escaler. O homem foi junto, abraçando seu gato.

“O que acontecerá conosco?” perguntou a moça quando Mayo subiu.

“Não sei”, ele ofegou. “Acho que o diabo está jogando moedas para nós agora — e a moeda está apenas saltando da ponta do seu polegar!”

Seu tom era imprudente. A agitação das últimas horas estava finalmente surtindo efeito nele. Ele não estava mais normal. Algo que era quase um delírio o afetava.

“Você não está assustado?” ela perguntou.

“Sim”, ele admitiu. “Mas vou continuar lutando da mesma forma.”

Bradish e o cozinheiro estavam agachados no meio da baleeira.

“Deitem-se sob aquelas bancadas, vocês dois, e segurem-se”, gritou Mayo. Então, ele rapidamente passou uma corda em torno da cintura da moça e prendeu as pontas da linha aos cunhos. “Não sei o que acontecerá quando a velha banheira mergulhar”, disse-lhe ele. “Aquelas cinco mil toneladas de carvão a levarão com um impulso quando ela começar. Tudo o que posso dizer é: segure-se firme e reze muito!”

“Obrigada”, disse ela, calmamente.

“Pelo amor de Deus, ela tem coragem!” murmurou o jovem, subindo para a vante sobre as formas prostradas dos outros passageiros. “Será que todas as mulheres do mundo são assim?” Ele estava se lembrando da bravura de Polly Candage.

Havia uma enorme bobagem de corda na proa, cabo de reserva ali guardado. Mayo prendeu a extremidade livre, trabalhando tão rapidamente quanto podia, e enrolou cerca de metade da bobagem em uma massa compacta — um nó na ponta de uns dez braças de linha. E a este nó ele amarrou remos e o mastro que encontrou guardado no barco. Ele sabia que, se conseguissem se libertar da escuna, apenas uma âncora flutuante ou um arrasto eficiente manteria a baleeira na posição correta. Quando essa tarefa terminou, ele agachou-se baixo na proa e olhou para a moça.

“Estamos quase prontos para começar nossa jornada”, chamou ele para ela. “Se eu não a vir novamente, adeus!”

“Não direi adeus ao senhor, Capitão Mayo — ainda não!”

XXIV ~ DESCENDO UM MAR GALOPANTE

Eu selei para mim um corcel árabe e selei para ela outro, E partimos juntos como irmã e como irmão, Cantando: “Soprai, ventos, pela manhã! Soprai, ventos, hi ho! Espalhai o orvalho da manhã, Soprai, ventos, hi ho!” --Soprai, ventos.

Com uma ansiedade que era quase desesperadora, Mayo olhou para as enxárcias, estais e adriças, que estavam armados como redes à esquerda, à direita e acima.

Uma grande vaga tombou a bordo e encheu o espaço à vante da quebra do convés principal. A água turbilhonante tocou os lados do escaler e depois recuou quando a escuna atingida lutou para emergir da confusão. Uma barrica de água foi arrancada de suas peias e foi pelo bordo, e outros destroços a seguiram.

Mayo achou aquele espetáculo encorajador. Mas o escaler estava alto em seus calços; quando ele flutuasse, poderia ser tarde demais.

Outra onda rugiu passando, e o escaler estremeceu. Então Mayo arriscou-se sem calcular as consequências. Ele deu uma volta dupla com o cabo em torno do antebraço, saltou do barco e ficou no convés, com o ombro contra a roda de proa. A onda seguinte lavou-o até a cintura, puxou-o, bateu-o contra a sapata do escaler, mas ele agarrou-se firme e levantou e empurrou com todas as suas forças.

Aquele empurrão resolveu!

O barco precisava apenas daquele impulso para se libertar dos calços. Ele levantou-se e correu com a popa à frente para barlavento, e o jovem foi arrastado atrás dele.

Quando o barco mergulhou e parou em um vale do mar, ele agarrou a proa e subiu a bordo. Puxando com força, conseguiu lançar a âncora flutuante ao mar.

A onda seguinte apanhou-a pela amura e despejou um barril de água dentro dela. Mas ela manteve-se na posição correta e, em poucos momentos, o cabo esticou-se e ela navegou de encontro ao tumulto do oceano; a âncora flutuante estava arrastando e cumprindo seu serviço.

Mayo foi obrigado a chutar os dois homens com considerável vigor antes que pudesse movê-los para esvaziar o barco com os baldes. O gato encharcado fugiu para o abrigo dos braços da moça. Mayo lutou para ir à ré, a fim de tirar seu peso da proa do barco, e quando se sentou ao lado da moça, ela estava cuidando do animal.

“Está entrando mais rápido do que posso jogar fora!” lamentou Bradish.

“Esvazie mais rápido, então! Esvazie ou afunde!”

“Ela está vazando”, anunciou o cozinheiro. “Ela ficou no convés tanto tempo que ressecou toda.”

“Esvazie ou afunde!” repetiu Mayo. Para a moça, ele disse: “Esta parece ser a única maneira de conseguir trabalho de covardes. Eles terão que fazê-lo. Estou quase acabado.”

As ondas estavam levantando-os e derrubando-os de maneira vertiginosa. Houve, de repente, um arremesso mais violento da água.

“Essa é a velha embarcação! Ela afundou agora!” explicou Mayo. “Graças a Deus estamos fora das garras dela! Eu estava com medo de estarmos presos lá.”

“Há alguma esperança para nós agora?” ela indagou.

“Não sei. Se o barco permanecer flutuando e o vento não mudar e golpear este mar transversalmente, se alguém nos vir pela manhã, se não formos jogados na costa nas arrebentações e...” Ele não terminou.

“Parece que muita coisa pode acontecer no mar”, ela sugeriu.

“Esse fato foi provado para mim nas últimas semanas.”

“O senhor quer dizer nas últimas horas, não é?”

“Srta. Marston, o que aconteceu naquela escuna é parte do ofício, e um marinheiro deve aceitar como ele vem. Eu gostaria que nada pior tivesse acontecido comigo do que o que está acontecendo agora.”

Ela não respondeu.

“Mas não importa isso”, disse ele, bruscamente.

Os dois homens, ajoelhados a meio navio, agarrando-se a um banco e esvaziando com as mãos livres, trabalhavam arduamente; até Bradish despertara para o fato de que estava trabalhando para sua própria salvação.

Na obscuridade, as ondas que se erguiam à frente pareciam montanhas cobertas de neve. Vales e colinas de água varriam à direita e à esquerda. Mas as cristas das ondas não estavam quebrando, e esse fato significava um respiro do perigo imediato.

“Lamento que tudo tenha ficado para o senhor fazer”, arriscou a moça, quebrando um longo silêncio. “Eu pensei que Ralph tivesse mais homem nele”, acrescentou ela, amargamente. “Sinto que ele deveria pedir desculpas ao senhor por... por várias coisas.”

Ele, por sua vez, não respondeu a isso. Ele temia que ela pretendesse arrastá-lo para uma discussão ou explicação. O que exatamente ele seria capaz de dizer a ela sobre esse tópico não estava claro para ele.

“Parece que anos se passaram em vez de horas. Parece que vivi meia vida desde que saí de casa. Parece que mudei minha natureza e cresci para ver as coisas sob uma luz diferente. É tudo muito estranho para mim.”

Ele não sabia se ela estava falando consigo mesma ou com ele. Ele não ofereceu comentário.

Houve um longo período de silêncio. O som das águas correntes preenchia aquele silêncio e tornava a conversa audível apenas para eles mesmos quando falavam.

“Não entendo como o senhor foi parar naquela escuna... como... como o senhor estava”, disse ela, hesitante.

“Eu não me vesti desta maneira para pregar peças, Srta. Marston”, ele respondeu, amargamente.

“Eu gostaria de saber como tudo aconteceu... o seu lado da história.”

“Já falei demais.”

Não houve mais conversa por um longo tempo. Ele se perguntava como ela havia reunido coragem para falar. Eles estavam em uma situação que testaria a coragem até de um marinheiro experiente. Na noite, sacudida por aquele mar selvagem, derivando sem saber para onde, ela aparentemente ignorava o perigo. Ele se perguntou se ela não havia simplesmente exibido a ignorância feminina sobre o que a situação deles significava. Ele já tinha visto casos em que a bravata aparente era baseada nessa ignorância.

“Devo dizer que o senhor me contou pelo menos uma verdade há pouco... o senhor não é um covarde”, disse ele, finalmente.

Ela estava confortando o gato miserável. “Mas estou terrivelmente assustada”, admitiu ela. “Não ouso pensar sobre isso. Não ouso olhar para as ondas. Falei com o senhor para tirar minha mente dos meus problemas. Não tive a intenção de ser indiscreta.”

“Vou contar o que fizeram comigo”, ele disparou. “Ouvir os problemas de alguém pode tirar sua mente dos seus próprios.”

Enquanto os dois homens a meio navio esvaziavam obstinadamente e exaustos, ele contou sua história tão brevemente quanto pôde. O amanhecer cinzento mostrou-lhe o rosto dela depois de algum tempo, e ele ficou singularmente confortado pela simpatia que viu lá. Ele não comunicou a ela quaisquer suspeitas que pudesse ter alimentado. Com franqueza de marinheiro, ele relatou como havia tido esperança e como tudo lhe fora arrebatado. Mas, sobre um tópico, as bocas de ambos pareciam seladas!

Depois de algum tempo, Bradish e o cozinheiro puderam descansar do trabalho de esvaziar o barco. As tábuas do barco incharam e o vazamento foi interrompido.

“É melhor o senhor rastejar para a ré aqui e sentar-se ao lado da Srta. Marston”, aconselhou Mayo. “Tenha cuidado ao se mover.”

Ele passou por Bradish e ocupou o lugar deste com o cozinheiro, e sentiu uma sensação de alívio; ele temia que aquele, o tópico temido, se impusesse sobre ele.

“Não vejo sentido em prolongar toda essa agonia”, afirmou seu companheiro desalentado. “Nunca vamos sair disto vivos. Estamos derivando para a costa, e o senhor sabe o que isso significa.”

“O senhor pode saltar ao mar a qualquer momento que desejar”, disse o capitão da embarcação. “Não preciso mais do senhor para esvaziar!”

“Se é assim que o senhor se sente, não vai se livrar de mim tão facilmente”, declarou o cozinheiro, com malevolência em seu único olho.

Mayo notou, com alguma surpresa, que, depois que os dois trocaram algumas palavras, houve silêncio entre Bradish e a moça. O nova-iorquino estava pálido e trêmulo, e seu maxilar ainda caía, e ele lançava olhares para a direita e para a esquerda enquanto as ondas galopavam sob eles. Ele estava clara e totalmente ocupado com seus medos.

Quando o dia finalmente chegou sem chuva, mas com céus pesados, nos quais massas de vapor se arrastavam, Mayo começou uma busca ansiosa pelo mar. Ele não tinha como determinar sua localização; ele esperava que estivessem longe o suficiente da costa para estarem na rota do tráfego. No entanto, não conseguia ver nenhuma vela, nenhum rastro encorajador de fumaça. Mas, depois de algum tempo, ele viu algo que não era encorajador. Ele se levantou, equilibrou-se e olhou para o oeste, na direção em que estavam derivando; de vez em quando, uma onda que se elevava permitia-lhe comandar uma vasta extensão do mar.

Ele viu uma fita branca de espuma que se estendia para o norte e para o sul na obscuridade das névoas. Ele não relatou essa descoberta imediatamente. Ele olhou para seus companheiros e ponderou.

“Acho que o senhor tem algo a me dizer”, sugeriu a moça.

“Suponho que deva dizer. Estive pensando em como isso deveria ser dito. Não são boas notícias.”

“Estou preparada para ouvir qualquer coisa, Capitão Mayo. Nada importa muito agora.”

“Estamos sendo levados para a costa. Não sei se é a costa de Delaware ou de Nova Jersey. Não faz muita diferença. As arrebentações são tão ruins em um lugar quanto no outro.”

“Por que o senhor não ancora este barco? Vai deixar que ele vá para a costa e seja destruído?” perguntou Bradish, com uma raiva que era infantil.

“A âncora parece ter sido esquecida quando começamos esta pequena excursão. Pelo que me lembro, houve alguma pressa e correria”, respondeu Mayo, secamente.

“Por que o senhor não se lembrou dela? O senhor nos colocou nesta enrascada. O senhor gritou e mandou em todo mundo. Não deu chance para ninguém pensar. O senhor se chama de marinheiro! É um belo marinheiro para sair sem uma âncora.”

“Suponho que sim”, admitiu Mayo.

“E não houve sentido em sair neste barquinho. Deveríamos ter ficado na escuna.”

“Ralph!” protestou a moça. “O senhor perdeu completamente o juízo? Não sabe que a escuna afundou quase no momento em que a deixamos?”

“A mente do Sr. Bradish estava muito ocupada na época”, disse o Capitão Mayo.

“Eu não acredito que a escuna afundou. O que uma moça sabe sobre tais coisas? Aquele sujeito ficou com medo, esse é o problema. Não há sentido em deixar um barco grande em uma tempestade. Teríamos sido resgatados antes disso. Teríamos ficado bem. É isso que acontece quando se deixa um tolo mandar em você quando ele está com medo”, ele delirou.

“O tolo é você!” ela gritou, com paixão. “O Capitão Mayo nos salvou.”

“Salvou-nos do quê? Aqui estamos nós indo para as arrebentações — e ele mesmo diz isso — e não há âncora aqui. Ele tirou tudo das minhas mãos. Agora, por que ele não faz alguma coisa?”

“Não preste atenção nele”, ela implorou.

“Vamos nos afogar! O senhor não pode negar, pode? Vamos morrer!” Ele puxou uma mão trêmula de entre os joelhos, onde mantinha ambas as mãos apertadas para estabilizá-las. Ele sacudiu o punho para Mayo. “Admita agora. Vamos morrer, não vamos?”

“Acho correto dizer a verdade nesta fase”, disse Mayo, em tons firmes. “Não somos crianças. Lá adiante há uma praia com bancos de areia e arrebentações, e quando atingirmos a areia, este barco vai virar repetidamente e seremos lançados para fora. As ondas vão nos jogar para cima e nos puxar de volta como um gato brincando com ratos. E temos as mesmas chances que os ratos.”

“E isso é o melhor que o senhor pode fazer por nós — e se chama de marinheiro!” choramingou Bradish.

“Sou apenas um coitado que fez o seu melhor conforme as coisas surgiram”, disse o jovem, procurando os olhos da moça com os seus.

Ela o fitou por um momento e depois colocou as duas mãos no rosto e começou a soluçar.

“É uma coisa difícil de enfrentar, mas é melhor entendermos a verdade e sermos tão corajosos quanto pudermos”, disse Mayo, gentilmente.

“Por mim, não estou nem um pouco surpreso”, afirmou o cozinheiro. “Eu tive meu palpite! Eu estava resignado. Mas meus planos foram interferidos. Eu queria afundar em águas boas, profundas, verdes e limpas, como um marinheiro deveria. E agora vou ser moído na areia e ter uma morte dolorosa.”

“Cale a boca!” latiu Mayo.

A moça estava tremendo, e ele temia um colapso.

Bradish começou a chorar. “Não estou preparado para morrer”, protestou ele.

Mayo estudou seu passageiro por algum tempo, franzindo as sobrancelhas. “Bradish, ouça-me um momento!”

O nova-iorquino deu-lhe tanta atenção quanto o terror e a dor permitiram.

“Não há muito que possamos fazer agora para consertar nossos assuntos mundanos em geral. Mas podemos limpar a ficha entre nós dois. Isso ajudará um pouco nossas consciências. Não tenho mais nenhuma briga com você. Não seremos melosos quanto a isso. Mas vamos riscar isso.”

“Está tudo acabado”, lamentou Bradish. “Então, qual é o sentido de guardar rancores?”

“Suponho que seja verdade que o tribunal me indiciou por homicídio culposo. Bradish, diga-me, de homem para homem, se tenho que ir para aquelas arrebentações com isso na minha consciência!”

“Não sei o que o senhor quer dizer.”

“Sim, sabe! Você sabe se aqueles homens da escuna Warren se afogaram por algum erro criminoso meu ou não!”

Bradish não falou.

“Você não teria dito tanto ao Capitão Downs se não soubesse de alguma coisa”, insistiu a vítima da trama.

“Foi apenas o que Burkett deixou escapar quando veio atrás de algum dinheiro. Suponho que ele achou que era seguro falar comigo. Mas qual é o bem de eu lhe dar suposições? Não sei nada de definitivo. Não entendo de assuntos de marinheiro.”

“Bradish, o que Burkett disse... foi algo sobre a bússola... sobre armar um plano contra mim mexendo na bússola?”

“Foi algo assim.” Seu tom exibia indiferença; era evidente que ele estava mais ocupado com seu terror do que com sua confissão.

“Burkett não disse algo sobre um ímã?”

“Ele soltou algum tipo de piada sobre Fogg na casa do leme e nevoeiro lá fora — mas que o Fogg lá dentro é que fez o serviço. E ele disse algo sobre o osso da sorte de ferro do Fogg.”

“Então foi assim que foi feito — e feito pelo gerente geral da linha!” gritou Mayo. “O gerente geral em pessoa! Não é de admirar que eu tenha esmagado essa suspeita entre os olhos toda vez que ela aparecia! Eu suspeitava — mas não ousava suspeitar! Isso faz parte das suas altas finanças, Bradish?”

“Não, não faz”, declarou o nova-iorquino, com calor. “É um subordinado como Fogg indo em frente e produzindo resultados, como ele chama. Os grandes homens nunca se preocupam com os detalhes.”

“Os detalhes! Tirando de mim tudo pelo que trabalhei — minha reputação como mestre, meus documentos, minha posição — minha liberdade. Pelos deuses, eu vou viver! Vou passar por aquelas arrebentações! Enfrentarei aquele bando como um homem que lutou para voltar do inferno”, enfureceu-se a vítima.

“Isto... isto não foi assunto do meu pai! Não poderia ter sido”, contestou a Srta. Marston.

“Seu pai nunca sabe nada sobre os detalhes das operações de Fogg”, declarou Bradish.

“Ele deveria saber”, insistiu o bode expiatório enlouquecido. “Ele dá as ordens, não dá? Ele senta no meio da teia. E se ele soubesse como Fogg estava operando?”

“Provavelmente não permitiria! Mas ele não sabe. E o próprio Arcanjo Gabriel não teria a chance de lhe contar!” declarou o escriturário.

“Uma trama armada, então, é isso — e tudo chamado de alta finança!” zombou Mayo.

“A alta finança não é a culpada pelos truques que os trabalhadores de campo fazem para ganhar seu dinheiro de forma rápida e fácil. Qual é o bem de me importunar com perguntas neste momento terrível? Vou morrer! Vou morrer!” ele lamentou.

A Srta. Marston deslizou do assento para os joelhos, para que pudesse alcançar a mão de Mayo. “Deixe que este aperto de mão lhe diga tudo o que sinto sobre isso — todo o seu sofrimento, todo o seu trabalho corajoso neste momento terrível? Estou tão assustada, Capitão Mayo! Mas vou manter meus olhos no senhor — e terei vergonha de lhe mostrar o quanto estou assustada.”

Ele retribuiu o aperto fervoroso dos dedos dela com uma pressão gentil e um sorriso tranquilizador. “Honestamente, sinto-me feio demais para morrer agora. Vamos continuar esperando.”

Mas quando ele se levantou e viu as montanhas brancas de água entre seu pequeno barco e a costa, e percebeu o que aconteceria quando estivessem naquele tumulto selvagem, com o refluxo arrastando e as ondas chicoteando, ele não sentiu esperança dentro de si.

Pela aparência da costa, ele não podia determinar sua provável localização. A terra era estéril e arenosa. Parecia não haver entrada. Até onde ele podia ver, a linha de branco espumante era ininterrupta. O mar espumava através de águas rasas, onde nenhum barco poderia possivelmente permanecer em pé e nenhum ser humano poderia esperar viver.

No entanto, ele permaneceu de pé e observou sob a mão, determinado a estar alerta até o fim, decidido a aproveitar qualquer oportunidade.

De repente, ele viu certas linhas pretas em silhueta perpendicular contra a espuma. A princípio, ele não tinha certeza do que poderiam ser, e observou-as atentamente enquanto o barco era sacudido em seu caminho.

Finalmente, sua identidade foi revelada. Eram estacas de cercados de pesca. O cercado em si estava evidentemente desmontado. As estacas que restavam estavam colocadas a alguma distância umas das outras, como postes de cerca situados irregularmente.

Ele fez uma observação apressada dos rumos enquanto o barco derivava, e teve certeza de que o mar os levaria para além das estacas. O quão perto eles passariam dependia do capricho das ondas e da maré. Ele percebeu que três homens, mesmo que fossem marinheiros capazes, poderiam fazer pouco no sentido de remar ou guiar o escaler na confusão daquele mar, agora subindo loucamente sobre os baixios. Ele sabia que não havia muita água sob a quilha, pois o oceano estava turvo com areia turbilhonante, e as ondas eram mais montanhosas, amontoadas pela fricção da água no fundo. De vez em quando, a crista de uma vaga ostentava uma bandeira de borrifos, mostrando arrebentações por perto.

Mayo correu para a proa do barco e puxou uma longa extensão de cabo. Ele fez um nó de laçada, abriu um laço tão grande quanto podia manejar, enrolou o resto do cabo cuidadosamente e equilibrou-se em um banco.

“O que agora?” perguntou o cozinheiro.

“Não importa”, respondeu Mayo. Seu projeto era uma aposta tão grande que ele não queria discuti-lo com antecedência.

Quanto mais perto eles chegavam das estacas, mais inatingíveis esses objetos pareciam. Eles projetavam-se alto acima da água.

O cozinheiro percebeu-os e levantou-se sobre os joelhos e semicerrou os olhos. “Huh!” ele bufou. “O senhor nunca vai conseguir. Não pode ser feito!”

Em sua ansiedade feroz, Mayo lançou seu laço cedo demais, e ele caiu curto. Ele puxou o cabo com toda a sua rapidez e força e lançou o laço novamente. A corda atingiu a estaca a três quartos de altura e caiu no mar.

“Precisa de um cowboy para esse trabalho”, murmurou o cozinheiro.

Mayo recuperou seu laço e equilibrou-se novamente.

Nas águas rasas onde se encontravam, o barco que o transportava tornou-se um verdadeiro bronco em corcoveio. Era arremessado para o alto, mergulhava nos vãos das ondas. Ele fez uma tentativa desesperada pela estaca seguinte na linha. O laço prendeu, e ele deu um puxão rápido. O topo da estaca partiu-se com um estalo surdo de madeira podre quando a onda seguinte ergueu o barco.

Mayo puxou sua corda com as mãos, em uma pressa frenética. Viu-se obrigado a libertar a estaca quebrada do laço e puxar seu laço improvisado para a posição novamente. Fez um laço mais largo. Seu fracasso lhe ensinara uma ou duas lições. Esperou até que o barco estivesse no topo de uma onda. Conteve sua impaciência desesperada, cerrou os dentes e girou o laço sobre a cabeça em um círculo que se alargava. Então, lançou-o exatamente quando o barco começou a descer. A corda envolveu a estaca, caiu na água, e ele soltou todo o cabo livre para que um bom comprimento da corda pesada pudesse ficar na água e formar uma rédea improvisada. Quando ele deu o puxão com cuidado, o laço se fechou ao redor da estaca, e esta aguentou. As ondas que passavam por baixo deles eram terríveis, e o coração de Mayo ia à boca toda vez que um solavanco indicava que a corda se esticara.

Contudo, após cinco minutos de espera ansiosa, ajoelhado na proa, com os olhos no cabo, sentiu sua coragem aumentar e suas esperanças brilharem.

— Isso significa...? — arquejou a moça, quando ele se virou e olhou para ela.

— Não sei exatamente o que significará no final, Srta. Marston — disse ele, com emoção. — Mas é um alívio enquanto essa corda aguentar.

Bradish sentou-se agarrando a amurada com as duas mãos, encarando por cima do ombro as águas que espumavam e rugiam na costa. A moça lançou-lhe um olhar ocasional com um certo espanto na expressão. Pareceu a Mayo que ela estava tentando assegurar a si mesma que Bradish era alguém que ela conhecia. Mas ela não parecia ter muito sucesso em fazê-lo parecer real. Falou com ele uma ou duas vezes em voz baixa, mas ele não respondeu. Então, ela lhe deu as costas.

De repente, Mayo saltou e gritou.

Um homem corria ao longo da crista arenosa de uma colina baixa perto da praia. Ele desapareceu em uma pequena estrutura que não era maior do que uma guarita.

— É uma patrulha da guarda costeira da estação de salvamento. Deve haver uma em algum lugar por aqui!

O homem saiu correndo e agitou os braços.

— Ele telefonou — explicou Mayo. — Aqueles são os rapazes! Há esperança para nós!

Houve mais do que esperança; houve resgate após algumas horas de uma espera lúgubre e ansiosa.

O barco salva-vidas veio espumando pelo mar a partir da enseada distante, e eles foram içados a bordo por braços fortes.

E então Alma Marston lançou a Mayo o olhar mais estranho que ele já recebera dos olhos de uma mulher. Mas seus lábios ficaram brancos, seus olhos se fecharam, e ela caiu inconsciente enquanto ele dobrava um cobertor ao redor dela.

— Você deve ter tido um baita trabalho para cuidar de uma mulher nessa enrascada — sugeriu o capitão da tripulação.

— É exatamente o contrário — declarou Mayo. — Dou a ela o crédito por salvar a todos nós.

— Como assim?

— Acho que seria um pouco difícil fazer o senhor entender, capitão. Deixe como eu disse.

XXV ~ UMA MOÇA E SUA DÍVIDA DE HONRA

Diz ela: "Seu marinheiro de lima, Agora você pode me levar para casa." Mas quando chegamos à porta de sua casa Ela para mim disse... E longe, seu santee, Minha querida Annie! Oh, vocês, moças de Nova York, Não sabem dançar a polca! --Caminhando pela Broadway.

Mayo foi prontamente informado de que o Capitão Downs e a tripulação do Alden estavam a salvo.

— Ele captou nosso sinalizador, fez o motor funcionar e chegou à enseada por um golpe de sorte — explicou o capitão da estação costeira. — Mas ele não esperava ver vocês novamente. Como aconteceu de ele não me dizer que havia uma mulher a bordo?

— O senhor terá que perguntar a ele.

— Quem é ela?

— O senhor terá que perguntar isso a ele também. Sou apenas um marinheiro.

O capitão examinou-o com considerável suspeita: sua camisa estava rasgada e sua pele branca aparecia. O encharcamento pela chuva e pela maresia causara estragos em seu disfarce; a maior parte da coloração fora lavada.

— Você tem algo especial a dizer sobre si mesmo?

— Não, senhor.

O capitão virou as costas para seus homens e inclinou-se para perto de Mayo. — Eles têm sua foto no jornal esta semana — disse ele. — Você é o capitão que eles estão procurando naquele caso de Montana. Eles estão atrás de você. Tenho que relatar isso, entende!

— Muito bem, capitão.

— Mas acho que conversaremos sobre tudo isso depois que chegarmos à estação — disse o mestre, gentilmente. — Pode haver algo nisso que eu não entendo.

— Há muita coisa nisso que eu mesmo não entendo, agora, mas vou descobrir — declarou o Capitão Mayo.

Eles colocaram Alma Marston aos cuidados da esposa do capitão da estação assim que chegaram a salvo à enseada. O acaso quis que a mulher estivesse na estação naquele dia em uma visita ao marido.

O Capitão Downs, alimentado e aquecido, observou os recém-chegados comerem ao lado do fogão da cozinha e ouviu a história que Mayo tinha para lhe contar.

O gato maltrapilho lambia leite, protegido do ciúme ressentido do gato oficial da estação pelo cozinheiro caolho.

E depois, a sós com o Capitão Downs e o capitão da estação, Mayo passou a limpo seu caso.

— Devo dizer que você parece estar bem encalhado em águas muito turvas — comentou o capitão da guarda costeira. — Não é da minha conta, mas o que você pretende fazer?

— Ir para Nova York e arcar com o que me impuserem, suponho. Eu deveria ter ficado lá e enfrentado a música. Coloquei-me em maus lençóis ao fugir. Mas fiquei desnorteado.

— Os melhores de nós ficam desnorteados — disse o anfitrião, consoladoramente. — Não sou policial, xerife ou detetive, companheiro. Vou relatar este caso como o Capitão Downs e tantas almas salvas da escuna Alden. É melhor você seguir para a cidade e enfrentá-los como um homem deveria. Vou arrumar algumas roupas minhas para você. Seu velho amigo, Wass, teve boas intenções ao apressar sua partida, mas sempre descobri que em uma briga de homem você não consegue fazer muito a menos que esteja perto o suficiente do outro sujeito para atingi-lo quando ele tentar alcançá-lo.

Meia hora depois, apresentável no terno de folga do capitão da guarda costeira, Mayo caminhou pela cozinha. Bradish e o cozinheiro ainda estavam em frente ao fogão.

A esposa do capitão, parada em uma porta que dava para um cômodo interno, ergueu um dedo para sinalizar ao jovem e depois balançou a cabeça em convite. — A jovem quer vê-lo, senhor — informou ela em um sussurro, quando ele chegou ao seu lado. — Entre! — Ela fechou a porta atrás dele e permaneceu na cozinha.

Ele ficou no meio do cômodo e encarou a moça por algum tempo, e nenhum deles falou. Ela estava envolta em cobertores e encolhida em uma cadeira grande; seu rosto estava pálido e seus olhos mostravam seu cansaço. Mas sua voz era firme e sincera quando ela se dirigiu a ele.

— Capitão Mayo, o que vou lhe dizer soará muito estranho. Diga-me que você vai me ouvir como ouviria um homem.

— Receio que... — ele gaguejou.

— É uma pena que homem e mulher raramente possam se encontrar no plano onde homem e homem se encontram. Mas não quero ser considerada uma moça agora. Sou um ser humano, e você é outro, e devo algo a você que precisa ser pago, ou serei desonrada por uma dívida que me preocupará por toda a minha vida. — Ela estendeu as mãos e entrelaçou os dedos em apelo. — Entenda-me; ajude-me!

Ele estava desconfortável. Temia com toda a sua alma abordar o único grande assunto.

— Quando pensamos que íamos morrer, eu lhe disse que parecia que eu tinha vivido uma vida em poucas horas; que eu não parecia a mesma pessoa enquanto olhava para dentro dos meus pensamentos. Capitão Mayo, isso é verdade. É mais aparente para mim agora, quando tive tempo de examinar minha alma. Oh, eu não sou a Alma Marston que foi mimada e indulgente; uma tola saltando aqui e ali com cada impulso; observando uma moça do meu círculo fazer uma tolice e depois fazendo algo mais tolo para surpreendê-la. Essa tem sido nossa vida na cidade. Eu nunca soube o que significava ser um mero ser humano, perto da morte. Você sabe que me salvou daquela morte!

— Eu apenas fiz o que um homem deve fazer, Srta. Marston.

— Talvez. Mas você fez, esse é o ponto. Existem outros homens... — Ela hesitou. — Tive uma conversa com o Sr. Bradish — disse ela a ele. — Foi um erro. Você me salvou desse erro. Você fez isso na cabine da escuna. Ele me contou. Foi melhor para mim do que salvar minha vida.

— Mas porque um homem não é marinheiro, não está acostumado ao perigo...? — ele protestou.

— Não é isso. Digo que acabei de ter uma conversa com o Sr. Bradish! Descobri exatamente o que ele é. Não descobri quando dancei com ele. Mas agora que estive perto de morrer com ele, eu o descobri. — As bandeiras vermelhas em suas bochechas sinalizavam tanto vergonha quanto indignação. — Um covarde mostrará toda a sua natureza antes de conseguir se controlar novamente, e o Sr. Bradish me mostrou que está disposto a me arruinar e me desonrar para obter lucro para si mesmo. E não há mais nada a ser dito sobre ele! — Ela fez uma pausa.

— Capitão Mayo, eu sei que ideia você deve ter de mim; de uma moça que faria o que eu fiz! Mas você não tem metade do desprezo por mim que eu tenho por mim mesma; pela moça que eu era. Mas agora tenho meu autorrespeito! Respeito a mulher que sou neste momento após aquela experiência! Talvez você não entenda. Eu entendo! Estou feliz por ter esse autorrespeito. Enfrentarei o que está à minha frente. Farei o que é certo de agora em diante. — Ela falou rápida e apaixonadamente, e ele quis dizer algo, mas sua língua de marinheiro travou. — Não vou mencionar um certo assunto; não agora! É sagrado demais. Tenho vergonha demais! Novamente, Capitão Mayo, digo que quero estar com você como homem para homem! Quero prestar um serviço pelo que você fez por mim. Você perdeu tudo em sua vida que valoriza. Quero que você recupere. Você vai me ouvir agora?

— Sim, Srta. Marston.

— Você vai ao meu pai com uma carta minha. Não acredito que ele saiba que tipo de métodos têm sido praticados por seus subordinados, mas ele pode descobrir. Você diz a ele que ele deve descobrir; que ele deve fazê-los confessar. Você diz a ele que esta é uma briga de homem, e que você está revidando com toda a força que pode comandar. Você diz a ele que você me tem escondida, e que eu não posso escapar, como minha própria carta lhe dirá. Você diz a ele que ele deve fazer uma troca justa com você; devolver-lhe o que é seu antes que ele possa ter o que é dele.

Mayo caminhou para trás, cambaleante, tateando a parede com as mãos, e encostou-se nela.

— Você está sozinho; é um jogo grande que eles jogam na cidade quando estão atrás de dinheiro; e você deve aceitar as cartas que lhe forem oferecidas — ela insistiu, exibindo a astúcia da natureza Marston.

— Você quer dizer que vou ao seu pai como se estivesse mantendo você como refém? — ele arquejou.

— Algo assim — ela respondeu, ansiosa. — A única maneira de conseguir o que quer, e conseguir rapidamente, é com um bom blefe. Tive algumas boas amostras de sua coragem, Capitão Mayo. Você pode fazer isso maravilhosamente.

— Mas eu não vou fazer isso!

— Eu digo que você vai!

— Não por um... — Seus sentimentos estavam levando-o. Ele estava esquecendo que essas negociações eram com uma moça impulsiva. Sua raiva estava aumentando. Ela estava colocando-o no nível de um vigarista.

— Vá em frente e fale tão forte quanto quiser, Capitão Mayo. Isso fará parecer um negócio de homens entre nós.

— Esses truques podem estar bem em Wall Street, mas não servem para mim. E você tem uma opinião muito ruim de mim se acha que vou fazer isso.

— Não seja quixotesco — ela protestou, impaciente. — Estamos vivendo em tempos modernos, Capitão Mayo. Alguns desses subordinados pregaram uma peça suja em você. Eles devem ser expostos.

— Isso é uma ideia maluca de moça!

— Capitão Mayo, é assim que você me ajuda a pagar minha dívida?

— Você não me deve nada.

— E agora você me insulta! Minha honra como moça e minha vida não valem nada? Você salvou ambas.

— Não sei como falar com você. Não tive experiência em falar com mulheres. Simplesmente digo que não vou ao seu pai de tal maneira. Certamente que não!

— Você não percebe o que lhe ofereci? — ela implorou. — Você está jogando meu sacrifício na minha cara. Como o caso está agora, posso correr para a casa de alguma amiga e inventar uma historinha de uma brincadeira tola, e meu pai nunca saberá o que aconteceu. Ele espera que eu faça um monte de coisas tolas.

— Isso é problema seu, e dele — ele respondeu, secamente.

— Capitão Mayo, estive tentando lhe mostrar que sou apta a ser considerada algo além de uma moça tola. Eu queria que você soubesse que tenho senso de obrigação. O plano pode parecer uma noção romântica de moça. Mas não é. É ousado, e seu caso requer ousadia. Eu estava tentando mostrar a você que não sou uma covarde. Eu ia confessar ao meu pai o que fiz e começar limpa com ele. Você joga tudo na minha cara; você insulta meu plano chamando-o de louco.

— É — ele insistiu, obstinado. — E já estou em maus lençóis o suficiente como está!

— Oh, você está com medo, então?

Ele franziu a testa. O escárnio dela parecia um ferimento gratuito.

Ele não entendia aquela variedade de astúcia feminina que busca incitar à ação aquele que se recusa a ser liderado.

— Admiro a ousadia em um homem quando seu caso é desesperador e ele está tentando se salvar. Vivi entre homens que são ousados ao buscar o que querem.

— Tive uma pequena experiência com esse tipo de piratas terrestres, e não gosto do sistema.

— Não farei sacrifícios desnecessários — declarou ela, asperamente, mas havia lágrimas em seus olhos. — Fiz o que pude para ajudá-lo quando você estava tentando me salvar. Por que você é tão pouco generoso a ponto de se recusar a me ajudar agora?

— É tirar vantagem de você, da sua posição.

— Mas eu ofereço; eu imploro que você faça isso.

— Eu não farei isso.

— Você se recusa absolutamente?

— Sim, Srta. Marston.

— Então eu o deixarei à sua própria sorte, Capitão Mayo. Você não espera que eu vá ao meu pai com a história, espera?

— Certamente não.

— Vou seguir em frente agora e me proteger da melhor maneira que puder. Tenho certeza de que o Capitão Downs guardará meu segredo. Vou esquecer que um dia naveguei naquela escuna. Suponho que você vai se maquiar e fugir novamente!

— Vou para Nova York.

— Para ser preso?

— Provavelmente.

— Você me deixa muito irritada. Depois de mostrar que pode lutar, justamente quando deveria lutar com mais força, você se encolhe para ser chicoteado.

— Sim, Srta. Marston, se você quiser colocar dessa forma.

— Então, adeus!

— Adeus!

Talvez cada um esperasse que o outro rompesse o muro de reserva neste momento de despedida. Ele hesitou por um momento, um instante embaraçoso, depois curvou-se e deixou o cômodo.

O Capitão Downs caminhou com Mayo por uma distância através das dunas de areia quando este começou a seguir para a estação ferroviária mais próxima. O capitão pretendia permanecer na enseada até que um representante dos proprietários do Alden chegasse.

Eles deixaram Bradish ainda encolhido atrás do fogão na cozinha.

— A menos que meus olhos tenham falhado, Capitão Mayo, minha noção é que o dândi está perdendo seu tempo ficando por perto daquela moça — sugeriu o Capitão Downs. — Ela o colocou na carreira de varredura do amor, fez a inspeção adequada e decidiu que odiaria navegar no mar do matrimônio com ele. Você não acha que é assim?

— Acho que o senhor é um bom juiz do que vê, Capitão Downs.

— Imagino que você e eu, como cavalheiros e mestres marinheiros, vamos manter segredo sobre ela ter estado a bordo do Alden?

— Certamente, senhor.

— A tripulação da guarda costeira não sabe quem ela é e não pode descobrir. Então ela pode ir para casa e cuidar de sua vida de agora em diante. Quase toda mulher faz uma tolice infernal na vida, e depois fica tudo bem para sempre. Mas agora uma palavra sobre um assunto sensato! O que você vai fazer?

— Enfiar minha cabeça no laço. É quase a única coisa que posso fazer.

— Mas você vai falar com eles, é claro?

— Jogarei as poucas cartas que tenho da melhor maneira que sei, senhor. O máximo que posso esperar é fazê-los desistir daquele caso de homicídio culposo. Talvez eu possa dizer o suficiente para que fiquem com medo de me levar a julgamento. Quanto a recuperar meus papéis, receio que isso esteja fora de questão. Terei que começar a vida de novo em outra coisa.

— Mayo, por que você não vai ao escritório do capitão? — Ele respondeu prontamente ao olhar de indagação do jovem. — O próprio Julius Marston é o chefe supremo desse negócio de consolidação de navios a vapor. Bradish entregou toda essa parte, contando sobre aqueles cheques; embora, é claro, todos nós soubéssemos sobre Marston antes. É provavelmente provável que Marston dê cursos verdadeiros aos seus subordinados. Se eles pegam atalhos de pescador entre as boias para chegar lá rápido, aposto que ele não sabe disso. Vá até ele e diga, de homem para homem, o que aconteceu com você.

— Há duas razões pelas quais provavelmente nunca verei o Sr. Marston — respondeu Mayo, sombriamente. — Primeiro, serei preso antes que possa atravessar Nova York até seu escritório; segundo, nunca chegarei além do escritório externo. Ele é guardado como o Czar da Rússia, pelo que me dizem.

— A moça dele sabe alguma coisa sobre o seu caso?

— Eu contei para ela, como um tolo, quando estávamos no barco. Por que é que quando um homem está bêbado ou excitado ou em apuros, ele solta toda a história de sua vida para uma mulher? — rosnou Mayo.

— Já pensei nisso, eu mesmo — admitiu o Capitão Downs. — Especialmente em ocasiões em que voltei a mim e percebi o que deixei escapar. Suponho que seja isto, mais ou menos: um homem não conta seus problemas a outro homem, pois sabe que o outro homem geralmente fica secretamente contente com isso, porque qualquer amigo está em apuros. Mas a simpatia de uma mulher é como um emplastro de linhaça; acalma a dor e puxa ao mesmo tempo.

Mayo caminhou em silêncio, chutando a areia.

— Parece-me que a coisa mais pequena que aquela moça poderia ter feito era oferecer-lhe uma audiência com o velho pai dela. Foi um trabalhão que você fez para ela, companheiro!

— Eu tive que me salvar. Algumas pessoas a mais no grupo não importavam.

— Essas moças da sociedade pensam nelas mesmas primeiro, é claro! Não suponho que você se importe com meu conselho, Capitão Mayo, mas estou falando com você com o melhor espírito do mundo.

— Sei que está, Capitão Downs — declarou o jovem, sua rispidez diminuindo. — Não tive a intenção de mostrar espinhos para você! Vou tentar ver Marston. Será uma tarefa difícil. Mas estou com disposição para tentar qualquer coisa. Por Deus! Se eles me arrastarem para a cadeia, irei chutando!

— Esse é o espírito, rapaz. E se você conseguir desferir alguns pontapés onde Julius Marston possa vê-los, eles podem contar. Ele é o chefão! Não creio que irei mais longe com você. O terreno é duro demais para um velho bamboleante como eu. Boa sorte!

Eles apertaram as mãos e viraram as costas um para o outro, com o comedimento dos marinheiros no que diz respeito às emoções.

O jovem seguiu seu caminho, perguntando-se em desespero entorpecido como poderia ter deixado Alma Marston com apenas uma palavra curta de despedida.

Mayo espreitou naquela noite pelos arredores de Jersey City e entrou na metrópole depois da meia-noite em uma balsa que tinha poucos passageiros e lhe proporcionou um canto escuro onde pôde ficar só. Encontrou alojamento em instalações humildes no East Side.

Pela manhã, preparou-se para a provação de aparecer nas ruas. Sua crença na própria inocência tornava seu sofrimento ainda maior enquanto esperava pelo impacto de uma mão pesada em seu ombro e pela intimação da voz de um oficial. Ele sabia que os olhos do Tio Sam são aguçados e seu alcance é longo. Tinha uma crença firme na vigilância quase sobrenatural dos funcionários do governo. Ficou bastante surpreso ao se ver, finalmente, no escritório externo da Marston & Waller.

Sentou-se em um banco e esperou por algum tempo a fim de recuperar o autocontrole. Queria dominar as feições e a voz antes de abordar um dos guardiões do magnata. Mas a espionagem dos funcionários não permitia que ociosos permanecessem muito tempo naquele lugar sem uma explicação. Um homem caminhou na ponta dos pés até ele e perguntou seu nome e o motivo de sua visita.

— Meu nome não importa — disse Mayo. — Mas tenho negócios importantes com o Sr. Marston. Se você lhe disser que o assunto é da maior importância — que é algo que ele deveria saber, e que...

— Você não tem um horário marcado, então?

— Não.

— Você pensa por um momento que pode entrar para ver o Sr. Marston sem dar seu nome e explicar de antemão a natureza do seu negócio?

— Eu esperava que sim, pois é importante.

— O que é?

— É particular — é algo para o Sr. Marston.

— Impossível! — foi a réplica curta do homem. Ele voltou ao seu posto. Em poucos momentos, retornou a Mayo. — Você não deve permanecer aqui. Você não pode ver o Sr. Marston.

— Você não levaria uma mensagem minha? Eu explicarei...

— Explique para mim. É para isso que estou aqui.

Dizer àquela pessoa insensível que este visitante era o capitão arruinado do Montana estava fora de cogitação. Mencionar o caso do Montana para aquele cão de guarda era perigoso. Mas Mayo temia voltar para a rua novamente.

— Ficarei aqui por um tempinho e talvez eu possa... — começou ele.

— Se você ficar aqui sem explicar o seu negócio, farei com que seja escoltado até a rua por um oficial, meu amigo.

Mayo levantou-se e saiu apressado.

— Um oficial! — Mesmo em sua busca desesperada e inocente por uma audiência, ele foi ameaçado com uma prisão! Ele esgueirou-se de volta para seu alojamento, escondeu-se no apartamento sórdido e cultivou a miséria de sua alma.

Naquela noite, Mayo sentou-se até tarde, trabalhando em uma carta endereçada a Julius Marston.

Enviou-a por um mensageiro logo cedo, reuniu sua coragem no meio da manhã e seguiu pessoalmente. Assumiu uma audácia que não sentia em seu coração trêmulo ao abordar o guardião do escritório externo.

— Você perguntaria ao Sr. Marston se ele verá o homem que lhe enviou uma carta por mensageiro esta manhã? — Que carta? Assinada com qual nome? — Ele entenderá a qual carta me refiro. — Ele entenderá, é? — O funcionário examinou o solicitante com atenção. As roupas de liberdade do capitão da guarda costeira não eram impressionantes, nem serviam muito bem. Mayo exibiu o embaraço do homem que sabia que estava sendo caçado. — Você acha que o Sr. Marston recebe apenas uma carta por mensageiro em uma manhã? Escute aqui, meu caro, você esteve aqui ontem, e considero você um personagem suspeito. Você não pode ver o Sr. Marston com qualquer desculpa dessas. Saia por aquela porta dentro de um minuto ou chamarei a polícia!

E, mais uma vez, Mayo fugiu do perigo que o ameaçava. Comprou uma pilha de jornais em uma banca de calçada; suas horas de solidão em seu quartinho no dia anterior o haviam torturado mentalmente. Sentou-se e leu-os. A notícia de que a linha Vose havia entrado na combinação de empresas de navegação era interessante e significativa. Evidentemente, a paralisação do Montana desencorajara a massa de acionistas. Ele tinha tempo a perder e pensamentos para sufocar; continuou lendo escrupulosamente, demorando-se em assuntos nos quais não tinha interesse, esforçando-se para ocupar a mente e expulsar as memórias amargas e seus medos. Nunca antes em sua vida lera as fofocas da sociedade nos jornais. No entanto, arrastando-se pelas colunas, encontrou um parágrafo no qual se deteve por muito tempo. Dizia que a Srta. Marston, da Quinta Avenida, havia retornado de carro de uma festa em Catskills, acompanhada pela Srta. Lana Vanadistine, que seria hóspede da Srta. Marston por alguns dias.

Essa notícia era significativa. Ela estabelecera seu álibi; ela se restabelecera e apresentara uma fachada suave ao mundo.

Mayo tinha certeza em sua alma de que conhecia o tipo dela. Suas ilusões estavam partindo. Agora que sua experiência trágica ficara para trás, agora que ela estava de volta entre os seus, agora que o fervor do romance esfriara, ela estava agradecendo a Deus, dizia ele a si mesmo, por não ter se sacrificado por ninguém. Ele estava honestamente feliz por ela estar em casa, feliz pela dica que o parágrafo dava — de que seu segredo ainda era apenas dela, no que dizia respeito à família e ao mundo social.

Naquela noite, Mayo aconselhou-se ainda mais consigo mesmo. Pela manhã, sua decisão final foi tomada. Ele tentaria mais uma vez ver Julius Marston. Determinou que marcharia até o escritório externo, anunciaria seu nome audaciosamente, afirmaria que estava ali para expor um crime e diria a eles que, se o Sr. Marston se recusasse a ouvi-lo, ele contaria o que sabia ao público através dos jornais; então pediria que chamassem a polícia, caso a porta do escritório de Marston permanecesse fechada para ele. Chamaria a atenção para si mesmo e para seu caso com todo o alarido que pudesse fazer. Quando fosse para a cadeia, iria com muita gente olhando. Que Marston e seus colegas financiadores vissem como gostavam disso!

Era um plano desesperado e rude, mas Mayo não era um diplomata — era um marinheiro.

Ele marchou para sua missão com o queixo erguido e a determinação ardendo dentro de si.

Outros homens, homens prósperos e corpulentos, subiram no elevador com ele e entraram no escritório da Marston & Waller à sua frente, pois ele havia se afastado modestamente para deixá-los passar.

Ele ouviu algumas conversas sobre uma "reunião de diretoria". Estava claro que o Sr. Marston estaria ocupado por algum tempo. Este não era um momento favorável para se lançar à atenção do financiador; ele precisava de um campo livre. Portanto, ele caminhou de um lado para o outro no corredor do prédio comercial, observando a porta do elevador, esperando ver os cavalheiros corpulentos seguirem seu caminho. E, com a atenção assim focada, viu a Srta. Alma Marston chegar.

Ela esperou até que o elevador tivesse passado e então veio diretamente até ele. Sua expressão não revelou seu estado de espírito, exceto para sugerir que ela estava composta.

— Não estou especialmente surpresa por encontrá-lo aqui — disse ela. — Acredito que você disse ao Capitão Downs — assim ele me informou — que tentaria ver meu pai. E homens que tentam ver meu pai, sem a devida apresentação, geralmente ficam batendo sola do lado de fora de seu escritório por alguns dias.

Havia um pouco de arrogância em sua voz. Ela preservava muito da aspereza que marcara seu comportamento quando se despediram. Ele não admitiria para si mesmo que esperava que ela o encontrasse em outro plano; ele aceitou docilmente a atitude dela como a correta. Ele era um marinheiro, e ela era a filha de Julius Marston.

— Você me culpa por ser suspeita em relação ao que você pretende dizer ao meu pai? — ela exigiu. — Digo-lhe francamente que vim aqui à sua procura. Devemos resolver nosso assunto.

— Estou tentando falar com ele sobre meus próprios negócios — simplesmente meus negócios, Srta. Marston.

— Mas quanto a mim! O que você vai dizer a ele sobre mim? Você se lembra de que eu lhe disse que pretendia me proteger? — declarou ela, com certa insolência.

— Achei que você tivesse uma opinião melhor de mim — protestou ele. — Srta. Marston, no que me diz respeito, você nunca esteve naquela escuna. Não sei nada sobre você. Nem sequer a conheço. Você entende?

Ele começou a se afastar apressadamente. — Não fique aqui. Não fale comigo. Alguém pode vê-lo.

— Volte aqui!

Ele parou.

— Exijo uma promessa explícita sua de que, se você conseguir falar com meu pai, nunca mencionará meu nome a ele nem tentará tirar proveito do erro terrível que cometi.

— Prometo, pela minha honra — disse ele, endireitando-se.

— Obrigada, senhor.

— E agora que prometi — acrescentou ele, com as bochechas bronzeadas coradas —, quero dizer-lhe, Srta. Marston, que a senhora me insultou gratuitamente. Suponho que não sou muito do tipo de cavalheiro que a senhora encontra na sociedade. Sou apenas um marinheiro. Mas não sou fofoqueiro nem chantagista. Sei o que é correto fazer quando se trata de uma mulher, e o teria feito sem ser colocado sob um compromisso. — Ele fez uma reverência e afastou-se.

Ela o observou, um brilho estranho nos olhos. — Veremos quanto a você, seu grande bebê! — murmurou ela.

Ela entrou na sala de espera da suíte da Marston & Waller e foi informada de que seu pai estava ocupado com uma reunião de diretoria.

— Mas é apenas um pouco de trabalho de rotina. Logo terminará, Srta. Marston — se a senhorita for tão gentil de esperar.

Depois de um tempo, os cavalheiros saíram, mas ela continuou esperando.

— Diga ao meu pai que estou aqui e entrarei em breve — ordenou ela ao guardião.

Antes que o mensageiro retornasse, Mayo entrou, um tanto apreensivo. Ele tentou evitá-la, mas ela o encontrou face a face e o abordou com ânimo.

— Agora que coloquei você sob sua honra, não tenho medo de que você discuta seu assunto com meu pai. Venha comigo. Eu o levarei até ele. Então acertaremos as contas entre nós.

— Muito bem — consentiu ele. — Depois do que passei aqui, sinto que um serviço compensa o outro. — Mayo seguiu-a e entrou na Presença.

Julius Marston estava sozinho, entrincheirado atrás de sua mesa, em seu trono de negócios; o espaldar escuro da cadeira, elevando-se sobre sua cabeça, destacava em contraste seu traje cinza e seu rosto frio; para Mayo, que parou respeitosamente logo dentro da porta, ele parecia uma espécie de baixo-relevo contra aquele fundo — algo insensível, sem ouvidos para ouvir ou coração para conceder compaixão.

A moça, apressando-se até ele, prendeu sua atenção até que ela se sentou no braço de sua cadeira. Então ele viu Mayo, reconheceu-o e tentou levantar-se, mas ela o empurrou de volta, insistindo com um apelo ansioso.

— Você deve me ouvir, pai! É sério! É importante!

Ele tateou a fileira de botões da mesa, mas ela segurou sua mão para longe deles.

O Capitão Mayo caminhou para a frente, determinado a falar por si mesmo, tornado ousado pelo sacrifício corajoso que a moça estava fazendo.

— Nem uma palavra! Nem uma palavra! A suprema insolência disso! — Marston repetiu a última frase várias vezes com violência crescente. Ele empurrou a filha do braço da cadeira e lutou para se levantar. Apenas medidas heroicas poderiam salvar aquela situação — e a moça conhecia seu pai! Ela forçou-se entre ele e sua mesa.

— É melhor você ouvir! — avisou ela, histericamente. — Há alguns dias, fugi para me casar!

Ele ficou ali, paralisado, e ela colocou as mãos contra o peito dele e o pressionou de volta à cadeira.

— Mas este não é o homem, pai!

Marston estivera reunindo sua voz para uma invectiva selvagem, mas aquela última afirmação tirou todo o seu poder de fala.

— Eu avisei que era melhor você ouvir!

Naquele momento, ela dominou a situação tão completamente como se estivesse entre os dois homens com uma bomba acesa na mão.

Mayo ficou ainda mais sobrecarregado do que o financiador. Ele percebeu que a extorsão de uma promessa dele havia sido um subterfúgio; os olhos triunfantes dela revelavam a informação completa sobre esse ponto. Tanto a raiva quanto a perplexidade o tornaram incapaz de qualquer tentativa sensata de pressionar seu caso com Marston naquele momento. Ele virou-se e começou a caminhar para a porta.

— Pare esse homem, pai. Você se arrependerá se não o fizer! Ele deve ficar!

— Volte aqui! — gritou Marston.

Mayo olhou para trás.

O magnata estava com o dedo no botão de pressão. — Volte, eu disse!

— Eu protesto. Isso não é problema meu. Estou aqui por outra coisa que não seja ouvir os assuntos particulares de sua filha.

— Você volte! — ordenou o pai em tons baixos de ameaça —, ou farei com que você seja detido pelos delegados dos Estados Unidos no minuto em que colocar os pés fora daquela porta.

Fervendo dentro de si com as táticas daquela moça incompreensível, o Capitão Mayo caminhou lentamente até a mesa; ocorreu-lhe que era tão difícil sair do escritório de Julius Marston quanto entrar.

— Eu nunca teria vindo aqui se tivesse imaginado que sua filha lhe contaria o que ela contou. Estou em uma posição falsa. Insisto que me permita sair.

— Você sairá quando eu chegar ao fundo dessa história! Agora, Alma, que nova loucura é toda essa?

— Não estou me ressentindo da palavra que você aplica a isso — respondeu ela, enfrentando-o resolutamente. — Eu fiz — e não sei por que fiz!

— Fez o quê?

— Eu fugi. Fiz isso porque as garotas me desafiaram a fazê-lo. Prometi a um homem que me casaria com ele.

— Este homem, hein?

— Não. Já lhe disse que este não é o homem.

— Bem, quem, então? — A incredulidade misturava-se à raiva do pai.

— Um de seus jovens cavalheiros de confiança. Sr. Ralph Bradish.

— Onde você o conheceu?

— Nos bailes.

— Não em nossa casa?

— Não sei como você tem tanta certeza disso, pai — respondeu ela, com um toque de reprovação bastante melancólica em seu tom. — Você me deixou sozinha naquela casa desde que a mãe partiu. Mas não foi em nossa casa — foi nos salões de baile públicos.

— O inferno ao som de música! — sibilou ele. — Eu deveria ter percebido que você ainda é uma criança!

— Não; hoje sou uma mulher. Vivi uma vida inteira em uma única noite no oceano. Sei que você tem motivos para se envergonhar de mim. Mas nunca mais lhe darei motivo para vergonha. Agora, o que você vai dizer a este homem que salvou minha vida — que fez mais do que isso? Ele me salvou de mim mesma!

Marston estreitou os olhos e examinou Mayo. — Ainda não entendo essa coisa! A história não soa bem. — Ele virou-se para a filha. — Como este homem salvou sua vida? Seja rápida e seja breve!

Ele a interrompeu no meio de seu relato ansioso. Ele estivera franzindo a testa enquanto ela falava, olhando para o vazio em meditação.

— Uma história de livro! — declarou ele, impacientemente, e ainda assim havia uma sombra de insinceridade naquela impaciência. — Eu ficaria amargamente envergonhado de você, Alma, se você tivesse fugido como está tentando me fazer acreditar. Mas...

— Você não acredita em mim?

— Silêncio! Mas esta história inventada é transparente demais. Você ainda está agindo como tola no que diz respeito a esta pessoa, aqui. Agora, escute aqui, meu caro, você está aqui hoje por causa do assunto do Montana. Não é isso?

— É, senhor.

— Eu tinha certeza disso. Como você ousou se infiltrar nesse emprego depois que eu o demiti do Olenia?

— Não houve infiltração nenhuma! Fui contratado pelo Sr. Fogg e eu...

— Você pode ter certeza de que eu não sabia que você estava a bordo do Montana. Mas não posso cuidar de todos os detalhes dos meus negócios. Você percebe, não é, que você é um fugitivo da justiça?

— Sou um bode expiatório para os cães sujos que operam para você!

— Já chega! Estou investigando este assunto agora? Sente-se naquela cadeira!

Mayo obedeceu, acalmado pela garantia.

— Alma, vá para casa!

— Vou ficar aqui, pai, até que o Capitão Mayo...

— Já ouvi todas as falsidades que pretendo ouvir! — Esta réplica deixou seus dois ouvintes pasmos. — Vejo este assunto claro até o fundo. Estou surpreso que você pense que uma história tão boba me enganaria por um momento. — Ele pressionou um dos botões. Para o homem que abriu a porta, ele disse: — Diga ao Sr. Bradish que quero vê-lo aqui imediatamente. Ele está no escritório, não está?

— Sim, senhor! Informarei a ele.

Mayo e a moça trocaram olhares eloquentes; eles haviam deixado o Sr. Bradish fora de seus cálculos; haviam descartado-o de seus pensamentos; o fato de que ele tivera a ousadia de reaparecer nos escritórios da Marston & Waller era de fato uma notícia.

Marston pegou a moça pelo braço e conduziu-a em direção a uma porta. — Eu disse para você ir para casa! — gritou ele, irritado, interrompendo os protestos dela. — Não, você vai por esta porta lateral. Não acredito em uma palavra do que me contou. É tudo uma tentativa transparente de continuar sua loucura. Saberei como cuidar de você de agora em diante! — Ele fechou a porta atrás dela e trancou-a.

— Juro que tudo isso é verdade, senhor — implorou Mayo. — Não estou tentando enganá-lo através de sua filha. Não entendi o que ela pretendia dizer. Quero meus direitos como um homem que foi enganado, abusado...

O Sr. Bradish apareceu, curvando-se respeitosamente. Ele era mais uma vez parte da maquinaria suave dos escritórios da Marston & Waller. Ele estava pálido, calmo, sereno, o mestre contido de suas emoções como os funcionários de Julius Marston eram treinados para ser.

— Você já viu este homem antes? É claro que nunca viu! — instigou o financiador.

— Nunca o vi antes, senhor.

— Certamente não! O que você tem a dizer sobre a história ridícula e sem sentido de que tentou fugir com minha filha?

Nem por um piscar de olhos o imperturbável criador de cheques de um milhão de dólares mostrou confusão.

— Se tal mentira precisa de negação da minha parte, eu a nego firmemente, senhor.

— Seu renegado barato! — rugiu o capitão.

— Isso basta, Sr. Bradish!

O funcionário obedeceu ao aceno da mão de seu mestre e retirou-se rapidamente.

— Sr. Marston — vociferou Mayo —, estou lutando por tudo o que vale a pena em minha vida. Minha reputação como capitão de longo curso, minha chance de ganhar a vida no meu trabalho. Fui um tolo a bordo de seu iate! Com toda a minha alma, estou arrependido. Eu...

— Chega! Não se atreva a discutir minha própria filha comigo!

— Não pretendo, senhor. Vou acreditar que o senhor não sabe o que seus subalternos fizeram comigo. O senhor só vê resultados. Mas descubra o que está sendo feito em seu nome, Sr. Marston. Algum dia será ruim para o senhor se não os parar.

— Isso é uma ameaça?

— É apenas meu apelo por justiça. Meu Deus, senhor...

— Há justiça esperando por você.

— Então chame seus delegados. Deixe-os me arrastar para o tribunal! A boca do seu homem Bradish está fechada agora, mas esteve aberta. Sei o que foi feito comigo. Deixe-os me colocar no banco das testemunhas. O senhor não se atreve a me deixar ficar de pé no tribunal e contar o que sei.

— Você supõe que eu estou administrando os tribunais federais?

— O senhor deveria descobrir se tem poder ou não. Há homens neste mundo que acreditarão na história verdadeira de um homem honesto!

— Bom dia! — disse o Sr. Marston, significativamente.

Mayo hesitou, fitou o semblante impassível do magnata e, então, a convicção da inutilidade de qualquer argumento o dominou. Ele caminhou em direção à porta.

“Algumas coisas sensatas podem ser feitas”, chamou Marston atrás dele. “É melhor você sair de Nova York. Se conhece um lugar para se esconder, é melhor entrar nele.”

Mayo não respondeu. Ele saiu a passos largos pelos escritórios, desceu para a rua e seguiu seu caminho.

Ele não notou que um automóvel o perseguia através do tráfego ruidoso das ruas, parando à sua frente quando ele dobrou em uma das vias mais tranquilas.

O carro estava rente ao meio-fio, e Alma Marston estendeu a mão e sinalizou para ele. “Ele não te deu esperança? Nada?”

“Nada!”

“Eu esperei. Pensei em pedir que você viesse conversar comigo.”

Ele balançou a cabeça.

“Talvez seja melhor como está! Não há muito a ser dito — não agora!” Ela se incluiu sobre a lateral do veículo e o barulho do tráfego permitiu que falasse sem envolver o chofer, que escutava tudo, em sua confidência. “Não sou digna de seus pensamentos ou de sua confiança depois disso, Boyd. O que eu era ontem, não sou hoje; eu já lhe disse isso. Não, não diga nada! Sei, agora, que estava apenas brincando com o amor. Não consigo nomear o que sinto por você agora; insultei demais a palavra 'amor' no passado. Não vou dizer nada a respeito. Foi alguma desculpa para mim o fato de você ter afundado um navio, estar indo para a prisão por matar homens, como os jornais insinuavam? Não, não foi! Mas permiti-me usar isso como desculpa para a loucura.”

“Você não sabe o que é o amor”, declarou ele. Na agonia de sua degradação, ele não tinha gosto por sentimentos mais suaves. Mas ele não ousou olhar para cima, para ela.

“Eu não sabia! Mas talvez algum dia eu possa lhe mostrar que agora sei”, respondeu ela, humildemente. “Esse será o dia em que poderei lhe dar as provas contra os homens que tentaram arruiná-lo. Estou dentro do campo de seus inimigos, Boyd, e lhe darei essas provas — mesmo contra meu próprio pai, se ele for culpado. É só isso! Vamos esperar. Mas, enquanto você estiver trabalhando, espero que lhe dê um pouco de coragem saber que estou trabalhando por você!” Ela deu um tapinha em sua bochecha. “Siga!” ela ordenou ao motorista. O carro arrancou e foi ocultado entre as carruagens que rugiam através da moderna Babilônia.

Sem capacidade para a autoanálise, sem ser capaz de penetrar nos recessos íntimos de sua própria alma naquela crise, ele seguiu arrastando os pés.

Pouco depois, quase inconsciente de sua própria vontade no assunto, viu-se em um escritório de barcos a vapor comprando uma passagem. Ele estava voltando para a obscuridade de Maquoit. Mas tinha plena consciência de que não estava obedecendo à ordem de Julius Marston de ir se esconder. Um sentimento mais profundo o atraía. Ele sabia onde existia uma fé simples nele e afeição por ele, e ansiava por esse consolo. Havia pessoas humildes em Maquoit que o receberiam.

“Vou voltar — vou para casa”, disse ele. Outrora, ele teria sorrido ao pensar que chamaria a colônia Hue and Cry de “casa”.

XXVI ~ AS PRESAS DO VELHO RAZEE

Um dólar por dia é o pagamento de um caipira, Terras baixas, terras baixas, longe, meu John! Sim, um dólar por dia é o pagamento de um caipira, Meu dólar e meio por dia. --Antiga Canção de Bombeamento.

Antes de deixar Nova York, Mayo fez perguntas nos escritórios de corretores marítimos e rastreou o Capitão Zoradus Wass até seu covil na sala dos ociosos de um escritório de rebocadores. A conferência deles foi sombria; nenhum tinha qualquer conforto para oferecer ao outro. Mayo foi lacônico em seu relato dos eventos: disse que havia fugido — e que tinha voltado. De Marston e da filha de Marston, ele não fez menção alguma.

“Estive visitando aquele filhote gordo de Fogg”, declarou o velho mestre marinheiro. “Não tenho medo dele. Tive uma boa desculpa; disse que queria um emprego. Não deixei transparecer para ele que o aconselhei a soltar os cabos, mas eu poderia ter ganhado sua simpatia dizendo isso. Ele parecia estar muito satisfeito pelo fato de você ter escapado.”

“Capitão Wass, esse é o principal assunto pelo qual vim falar com o senhor. Aqui está minha passagem de volta para casa. Mas sinto que deveria caminhar até o escritório do marechal dos Estados Unidos e me entregar. E quero perguntar sobre as perspectivas de conseguir fiança. O senhor pode me ajudar?”

“Eu suponho que, se eu o visse atrás das grades, faria o meu melhor para tirá-lo de lá, filho. Mas você se afaste daqui, siga seu caminho e cuide da sua própria vida! Quando os Estados Unidos quiserem você, eles virão buscá-lo — não precisa se preocupar!”

“Mas eu me preocupo, senhor! Estou andando pelas ruas, esquivando-me. Espero sentir uma mão no meu ombro a cada momento. Não suporto a tensão disso! Não quero que ninguém pense que sou um covarde.”

“Até onde pude descobrir farejando um pouco por aí, essa acusação é secreta — mesmo se ela realmente foi formalizada. E estou quase inclinado a pensar que não houve acusação alguma! Talvez aqueles oficiais tenham sido enviados apenas para pegá-lo e mantê-lo como testemunha. Fogg tem falado a maior parte do tempo sobre a existência dessa acusação. Seja como for, se eles não o querem ainda, eu não iria até a porta de uma cela, filho, para gritar, bater e pedir para entrar. A lei tem um jeito curioso de dar a um homem aquilo que ele grita para ter. Você vá embora e deixe que eu faça a espionagem e a escuta por você nestas paragens. Estou colecionando algumas informações aqui no cais. Não tenho muito mais o que fazer, ultimamente!”

“Acho que meu primeiro palpite era o correto, senhor! Vou para casa. Se ouvir alguém com um distintivo perguntando por mim, diga que estou pescando no Ethel and May.”

“Esse é um trabalho ingrato para você, filho. Mas acho que é melhor eu não dizer nada a respeito, vendo no que eu o envolvi.”

“Não foi sua culpa nem minha, o que aconteceu, senhor. Não estou choramingando!”

“Por Deus! Eu sei que não está! Mas prepare-se para rosnar quando chegar a hora certa, e mantenha os dentes afiados! Quando for a nossa vez de morder, daremos uma mordida de buldogue!” Ele enfatizou o vigor dessa mordida em seu aperto de mão de despedida.

Mas Mayo não refletiu com muito entusiasmo sobre a convocação metafórica do Capitão Wass para o combate.

Ao retornar a Maquoit, o jovem decidiu que se sentia mais como um cão espancado, esgueirando-se de volta com ansiedade canina para cuidar de suas feridas em segredo.

Suas experiências tinham sido terríveis e numerosas demais nos últimos dias para serem separadas e assimiladas. Ele se sentira como um homem atordoado por uma queda — paralisado por um golpe. Agora, o formigamento agonizante da memória e do desespero tornava seus pensamentos uma tortura requintada. Ele tentou tirar Alma Marston desses pensamentos. Ele não ousava tentar encontrar um lugar para ela na economia de seus assuntos. No entanto, ela e ele estiveram juntos às portas da morte, e ele percebeu que a experiência teve efeito sobre a natureza dela; ele acreditava que também tinha desenvolvido seu caráter. Insistentemente, a lembrança de suas palavras de despedida estava com ele, e ele sabia, apesar de seus esforços brutais e furiosos para condená-la, que o amor não estava morto e que a esperança ainda vivia.

Ele embarcou no Ethel and May certa tarde, depois de esperar pacientemente por sua chegada com a carga.

“Voltei para pescar com o senhor, Capitão Candage, até que meus problemas sejam resolvidos — se é que algum dia serão.”

O Capitão Candage ficou em silêncio, controlando algumas emoções visíveis.

“Voltei para ficar com pessoas que não falarão demais sobre esses problemas”, acrescentou ele, sombriamente.

“Exatamente”, concordou o capitão. “Nada é ganho agitando problemas depois que eles foram bem cozidos. Coloque a panela de volta no fogo, digo eu, e deixe ferver até que esfrie por conta própria. Eu achei que você voltaria.”

“Por quê?”

“Bem, eu sabia que tinham tirado seus documentos. Além disso, Polly tem dito que você voltaria.”

“E por que ela achou isso?” perguntou Mayo, em tons mais suaves.

“Ela não disse o porquê”, admitiu o Capitão Candage. “Talvez as mulheres vejam as coisas mais profundamente do que os homens.”

“Parece que estou voltando para casa — voltando para casa quando um homem está doente e cansado de tudo no mundo, senhor.”

“Suponho que minha Polly tinha algo assim em mente. Ela deixou escapar algumas dicas de que esperava que você viesse descansar de seus problemas.”

“E ela voltou para o trabalho dela, suponho?”

“Não, ela ainda está em seu posto em Maquoit, senhor — chama de seu verdadeiro trabalho. Ela não desiste, a Polly. Ela diz que eles precisam dela.”

“Como diz a canção, 'As flores precisam da luz do sol e as rosas precisam do orvalho', é assim que eles precisam dela”, afirmou Oakum Otie. “Embora não se possa dizer que aquelas mulheres e crianças de Hue and Cry sejam muito parecidas com rosas e gerânios! Mas eles são mais parecidos com isso do que jamais foram antes, desde que a Srta. Polly tomou conta deles. É maravilhoso o que uma boa moça pode fazer quando tenta, Capitão Mayo!”

Retomar sua vida na escuna de pesca foi como calçar um par de sapatos velhos, e Mayo sentiu-se grato por aquele estoicismo da Nova Inglaterra que o recebera de maneira tão direta.

“O que você quer me contar está tudo bem, e o que você não quer me contar é ainda melhor”, declarou o Capitão Candage. “Porque quando você não está falando sobre isso, você não está agitando!”

Assim, daquela maneira, ele voltou à vida humilde de Maquoit. Não houve constrangimento em seu encontro com o Capitão Candage; foi de homem para homem, e eles entenderam como dispensar palavras. Mas Mayo aguardava seu encontro com Polly Candage sem sentir a equanimidade que o pai inspirara.

Ele sentia um desejo quase irresistível de confiar a ela seus problemas do coração. Mas sabia que não seria capaz de fazer isso. Seu pequeno templo fora tão cruelmente profanado. Sua humilhação era grande demais.

Ele tinha consciência de que algum outro motivo operava para impedi-lo de se explicar a ela; e, porque ele não entendia exatamente o que era, sentia-se inquieto quando finalmente ficou cara a cara com ela. Ele sentiu gratidão por uma circunstância — o primeiro encontro deles foi na antiga casa de peixes em Maquoit, sob os cem olhos curiosos da colônia. Ele remou até a margem em seu bote e foi procurá-la em meio às suas atividades. Ela estendeu ambas as mãos e o cumprimentou com prazer franco e pareceu entender seu constrangimento, antecipar seus próprios pensamentos, respeitar sua reserva.

“Estou feliz que você tenha voltado para esperar até que todos os seus problemas estejam resolvidos. Os amigos que mais consolam são aqueles que sabem, que simpatizam e que ficam em silêncio! Agora venha comigo e ouça as crianças e veja o que as mulheres estão fazendo. Você ficará orgulhoso e feliz porque defendeu a causa delas naquele dia em que fomos a Hue and Cry.”

Depois disso, não houve mais constrangimento entre eles; eles mantinham seus assuntos particulares escondidos um do outro. O outono passou e as longas e frias noites chegaram, e quando a escuna de pesca estava no porto de Maquoit, entre as viagens, Mayo e a moça passavam horas confortáveis juntos, jogando cartas sob o lampião de cúpula vermelha da viúva e sob os olhos aprovadores da viúva.

“Não, eles também não estão namorando”, ela informou aos vizinhos insistentes. “Vocês acham que eu fui casada duas vezes e viúva duas vezes para não saber o que é namoro quando vejo um? É 'Boyd pra lá' e 'Polly pra cá', com certeza, o tempo todo; mas ela está noiva de outra pessoa, porque ela tem usado um anel de noivado que ganhou desde que chegou aqui. Ela me mostrou, e ela mostrou a ele! E quanto a ele, todo mundo na costa sabe o quanto aquela moça milionária é caidinha por ele! Agora, cada um cuide da sua própria vida!”

À medida que os dias passavam, o conselho da viúva parecia se aplicar a todos os assuntos de Maquoit; as pessoas cuidavam de seus negócios com determinação.

O vento de inverno soprava, as estacas do cais estavam cobertas de gelo e apenas homens resistentes estavam do lado de fora no cais da cidade costeira, mas a tripulação do Ethel and May estava excepcionalmente alegre naquele dia.

A escuna permaneceu nos Bancos de Cashes e enfrentou uma tempestade que levou outros pescadores a procurar abrigo. Então, na primeira calmaria, eles lançaram seus botes pela borda e baixaram suas redes para uma investida, e que investida vigorosa! Parecia que o bacalhau, a pescada e o arinca estavam esperando aquela tempestade parar para que pudessem caçar anzóis com isca e ter um banquete. Quase cada linha tinha seu prêmio. A roldana de proa em cada bote quase ria de deleite enquanto a linha de pesca era puxada sobre ela. A cada três pés havia uma linha de pescar. Cada bote estendia uma milha de rede. E quando os botes retornaram à escuna e despejaram a captura no porão, a pequena embarcação quase balançava sob o peso.

Eles pegaram o mercado vazio; a tempestade soprava há quase uma semana. As peixarias deram lances animados umas contra as outras, e quando finalmente um negócio foi feito e a tripulação da escuna começou a jogar o peixe com forcados nos baldes do guincho, e os baldes subiam rangendo pela borda, os dois capitães foram para o escritório da peixaria calcular alguns lucros muito gratificantes.

“Nada como a sorte no jogo da pesca, senhores”, observou o gerente.

“Bem, coragem conta para alguma coisa”, afirmou o Capitão Candage. “Temos uma tripulação que não tem medo de um pouco de mau tempo.”

“Se esse for o caso, pode haver algo para vocês na costa agora que é melhor do que o jogo da pesca.”

“O que é isso?” perguntou o velho capitão.

“Naufrágio. Viram os jornais da manhã?”

“Tivemos algo a fazer além de brincar com jornais.”

“Aquele novo vapor da Bee Line, Conomo, foi parar no Recife Razee.”

“Desta vez — desta última vez — ele abraçou o recife muito de perto!” disparou o jovem. Os outros lançaram um olhar inquisitivo sobre ele. Mas ele não explicou. Seus pensamentos estavam ocupados com os eventos daquele dia em que o vapor da Bee Line iniciou seus problemas com Marston.

“O jornal diz que é considerado perda total”, continuou o gerente. “Se for assim, e os seguradores desistirem dele, deve haver algumas ótimas oportunidades para homens com coragem. O conselho de inspeção foi até ele em um rebocador esta manhã.” Ele lhes entregou o cheque, e eles voltaram para sua escuna.

O caso do Conomo não foi mencionado entre eles até que estivessem no mar a caminho do leste novamente. A notícia não interessou a Mayo a princípio, exceto como um desastre marítimo que não tinha relação com seus próprios assuntos.

O Capitão Candage caminhava pelo convés de popa, tragando seu cachimbo curto e preto. “Não sei se você sente como eu sobre isso, Capitão Mayo, mas não será um grande esforço para nós se seguirmos para Razee e vermos o que está acontecendo por lá”, sugeriu ele.

“Não tenho objeções”, respondeu Mayo. “Mas, da maneira como as coisas são administradas hoje em dia em caso de naufrágios, não vejo muita perspectiva de nos envolvermos no assunto de forma alguma.”

“Talvez não; mas caso eles pretendam abandoná-lo, haverá alguma disputa, e poderíamos muito bem disputar com o resto deles.”

“Se eles não conseguirem tirá-lo de lá, alguma empresa de sucata apostará nele. Mas faremos uma excursão para ver as vistas, senhor. Podemos pagar uma pequena viagem depois do que ganhamos hoje.”

Não havia esperança de chegar ao naufrágio antes do anoitecer, então eles navegaram confortavelmente no vento oeste leve que sucedera a tempestade.

O Capitão Candage assumiu o primeiro turno após o segundo turno da tarde e, às duas badaladas, ou nove horas da noite, Mayo acordou e ouviu-o dar ordens para ajustar as velas. Ele ouviu as velas baterem e soube que os homens estavam reduzindo o pano para se prepararem para ficar à espera. Ele vestiu suas roupas de frio e foi para o convés.

“Chegamos”, declarou o velho capitão, “e parece que alguns outros mosquitos chegaram aqui antes de nós, prontos para enfiar seus bicos quando tiverem uma chance.”

Era uma noite clara, brilhante de estrelas. Em contraste com as luzes cintilantes e puras dos céus, havia luzes fracas vermelhas, verdes e brancas amareladas na superfície do oceano. Essas luzes balançavam, oscilavam e se agitavam conforme as ondas gigantes passavam.

“Consigo distinguir meia dúzia de veleiros — pequenos — e dois rebocadores”, disse o Capitão Candage. “Mas fique de olho no prêmio principal!”

Mayo olhou na direção da mão estendida e enluvada.

“Algum iceberg, hein?” comentou o capitão.

A meia milha de distância, um verdadeiro navio fantasma, o naufragado Conomo surgia. A maresia passara por ele e congelara até que ele parecesse uma massa de gelo que fora moldada na forma de um navio. Ele brilhava, uma figura espectral, sob os céus estrelados.

Uma única luz vermelha, uma mancha de cor funesta, brilhava de seu cordame principal.

Eles o observaram por algum tempo.

“Eu diria que ele já foi reservado”, foi a opinião do Capitão Candage. “A maré está alta agora, e uma maré de sizígia, e aqueles rebocadores estão apenas ociosos lá fora — não fazem nenhum movimento para tirá-lo de lá. Poderemos saber mais sobre a perspectiva pela manhã.”

Então os dois capitães foram descansar, pois o Ethel and May permanecia docilmente à espera, com um único timoneiro ao leme.

A luz nítida da manhã não revelou nada especialmente novo ou importante. Havia meia dúzia de pequenas escunas, pescadores, ociosos sob velas reduzidas nas proximidades do naufrágio. Um dos rebocadores partiu em direção à costa depois de algum tempo.

Mayo certificara-se, através do telescópio da escuna, de que o rebocador restante se chamava Seba J. Ransom.

“O capitão daquele sujeito foi imediato comigo em um navio de pesca uma vez”, informou ele ao Capitão Candage. “Me leve até lá a uma distância que eu possa alcançar e irei a bordo dele em um bote. Ele pode ter alguma notícia.”

O Capitão Dodge ficou imensamente satisfeito em ver seu velho companheiro, chamou-o para dentro da casa do leme e lhe deu um charuto.

“É apenas um trabalho de ociosidade”, disse ele. “Tenho que ficar por perto e tirar o capitão e a tripulação dele em caso de mau tempo ou se algo mais se romper além do que já está quebrado. Eles ainda estão presos a ele para entregá-lo ao comprador.”

“Comprador?”

“Sim! Para qualquer sucateiro que seja tolo o suficiente para dar um lance. Ele está preso. Os seguradores desistiram daquele rebocador e vão leiloá-lo. Estou aqui para ajudar a afastar piratas e levar seus homens para a costa depois que ele for entregue. Você é um pirata, Mayo?” perguntou ele, com um sorriso.

“Eu sou quase qualquer coisa hoje em dia, se houver um dólar a ser ganho”, respondeu o jovem.

O capitão do Ransom deu-lhe uma piscadela. “Estou por dentro do que aconteceu a bordo do Olenia”, confidenciou. “Um sujeito que estava na tripulação me contou. Você é bom o suficiente para a garota do velho Marston. Por que você não foi até Nova York e a tomou...”

“Corte essa conversa, Dodge”, rosnou Mayo, com o rosto rígido e o maxilar projetado ameaçadoramente. “Bom dia!” acrescentou o jovem, batendo a porta da casa do leme atrás de si.

Sua escuna, navegando de um lado para o outro, apanhou-o.

“Não adianta ficar por aqui”, informou ele ao velho capitão. “Eles vão transformá-lo em sucata, se conseguirem encontrar alguém tolo o suficiente para dar um lance. Ele será guardado até depois do leilão.”

Portanto, o Ethel and May içou todas as suas velas e rumou para Maquoit para garantir seu novo suprimento de isca.

“É uma vergonha”, lamentou o Capitão Candage, olhando sobre a borda do convés para o vapor coberto de gelo. “Quase novo, e custou duzentos e cinquenta mil dólares para ser construído, se me lembro bem do que o jornal dizia quando foi lançado.”

“Se ela estava dando dinheiro, eles colocarão outra em seu lugar”, disse Mayo.

“Não sei quanto a isso, senhor. A Bee Line não estava nada bem financeiramente, pelo que me disseram — um monte de pequenos investidores que colocaram o que puderam juntar e pegaram o resto emprestado. Depende do seguro e da coragem deles o que farão depois disso.” Ele ofereceu outra observação depois de ter socado uma carga em seu cachimbo preto. “Os homens farão quase qualquer coisa por dinheiro — dinheiro suficiente.”

“Parece que já ouvi essa afirmação antes”, foi a réplica curta de Mayo.

“Ah, eu sei que não é nada nova. Mas quanto mais penso no que aconteceu ao Conomo, mais certeiro parece o ponto dessa observação. E, enquanto eu ficava por perto esperando pelo senhor, cheguei perto o suficiente daquele vapor para distinguir alguns rostos a bordo.”

Mayo olhou para ele sem comentar.

“Por exemplo, vi Art Simpson. O senhor o conhece, não conhece?”

“Ele foi capitão do iate do Sr. Marston uma vez.”

“Por que ele saiu de lá?”

“Ouvi dizer que ele tinha sido demitido. Foi o que o corretor disse quando me contratou.”

“Sim, foi o que Simpson disse. Ele fazia questão de sair por aí jurando sobre isso. Parecia querer que todo mundo ao longo da costa o ouvisse jurar sobre isso. Quando vejo um homem fazer disso um negócio excessivo, jurar sobre outro homem, fico desconfiado. Depois que Art Simpson manobrou para conseguir o emprego de segundo oficial a bordo do novo Conomo, fiquei mais desconfiado ainda. Agora que vi como aquele vapor foi jogado de forma precisa em Razee, estou extremamente desconfiado. Estou desconfiado o suficiente para acreditar que ela bateu durante o turno de Art Simpson.”

“Onde você quer chegar, Capitão Candage? Está insinuando que alguém plantaria um homem para um trabalho desse tipo?”

“Exatamente o que estou insinuando”, arrastou o capitão.

“Mas colocar um vapor nas rochas nesta época do ano!”

“Sem passageiros — e com muitos botes salva-vidas para a tripulação, senhor. Tenho ouvido muita conversa sobre as condições dos barcos a vapor desde que comecei a transportar peixe.”

“Eu descobri um pouco sobre isso eu mesmo”, admitiu Mayo.

“Há uma coisa a ser dita sobre Barba Negra, o Capitão Teach e o velho Capitão Kidd — eles iam para o mar e cuidavam de sua própria pirataria; não ficavam atrás de uma escrivaninha enviando subordinados.”

Mayo, apesar de suas memórias amargas da atitude de Julius Marston, sentiu-se compelido a atenuar em certo grau as aparentes enormidades dos magnatas dos vapores.

“Eu não acredito que os grandes conheçam tudo o que é feito, Capitão Candage. Como partes responsáveis, eles não ousariam permitir que essas coisas fossem feitas. Os subordinados, como você diz, estão ansiosos para se dar bem e ganhar seu dinheiro, e quando a palavra é passada para baixo, eles realizam o trabalho de forma imprudente. Acho que será muito difícil provar qualquer coisa contra os verdadeiros mandantes. É por isso que estou no frio com as mãos atadas, por enquanto.”

“Eu gostaria que entrássemos um pouco no assunto do Conomo, para que pudéssemos fazer um reconhecimento em primeira mão. Parece-me o trabalho mais sórdido até hoje, e pode ser o início de uma devassa geral. Quando a vilania começa a correr rápido demais, geralmente tropeça nos próprios pés, senhor.” O Capitão Candage encontrou um brilho receptivo nos olhos de Mayo e continuou. “Claro, eu não ouvi a conversa, nem vi o dinheiro trocar de mãos, nem estava na cabine de comando quando Art Simpson fechou os olhos e a deixou bater. Mas, tendo sido um marinheiro a vida toda, sinto o mau tempo a uma longa distância. Aquele vapor foi naufragado de propósito, e foi naufragado em uma época do ano em que não pode ser resgatado. Você não precisa ensinar o diabo a fazer uma fogueira.”

Mayo não ofereceu nenhum comentário. Parecia muito ocupado com seus pensamentos.

Dois dias depois, um jornal chegou às mãos de Mayo em Maquoit, e ele leu que o vapor naufragado tinha sido colocado em leilão pelos seguradores. Estava claro que os licitantes tinham compartilhado o sentimento geral de pessimismo do pessoal do seguro — ela tinha sido arrematada por dois mil e quinhentos dólares. Os jornais explicavam que apenas essa quantia ridícula foi alcançada porque os especialistas decidiram que, no primeiro vendaval, o vapor escorregaria dos recifes nos quais estava empalado e afundaria como um chumbo nas águas profundas de onde o velho Razee surgia. Nem mesmo o mais imprudente dos sucateiros apostadores poderia ser esperado que arriscasse muito investimento em um jogo de esconde-esconde como aquele.

“Mas pergunto-me qual seria o problema com o especialista que previu isso”, ponderou Mayo. “Ele não conhece os dentes do velho recife Razee tão bem quanto eu.”

Quando o Ethel and May partiu de Maquoit em sua próxima viagem aos Bancos de Cashes, Mayo sugeriu — e ele ficou um pouco envergonhado ao fazê-lo — que poderiam muito bem desviar um pouco do caminho e ver o que os sucateiros estavam fazendo em Razee.

O Capitão Candage olhou para seu sócio com uma expressão bastante irônica. “Grandes mentes pensam igual, et cetera!” ele riu. “Eu estava prestes a dizer a mesma coisa para você. Pensando um pouco nisso, não é?”

“Sim, e apenas um pouco. Claro, não pode haver nada para nós. Aqueles sucateiros vão ficar com ela até que ela mergulhe para águas profundas. Mas tenho me perguntado por que eles acham que ela vai mergulhar. Eu pesquei ao redor de Razee por um tempo, e o velho sujeito tem dentes como uma hiena — presas verdadeiras.”

“Talvez eles tenham levado em conta a palavra de Art Simpson”, observou o velho, franzindo o nariz. “Art seria muito encorajador sobre as perspectivas de salvá-la — isto é, ele seria assim caso perder aquele vapor tenha afetado seu cérebro.”

“Acho que não havia muito interesse por parte dos seguradores”, sugeriu Mayo. “Eles não foram muito afetados, descobri isso. Ela pertencia em sua maioria a sessenta e quatro avos, e com os riscos marítimos onde estão, os pequenos proprietários não fazem seguro. É uma coisa perversa do início ao fim, Candage! Aquele grande vapor novo empilhado lá pela vilania de alguém! Eu acredito como você sobre o assunto! Estou no mar há tanto tempo que um barco significa algo para mim além de ferro e madeira. Há algo neles — algo...”

“Quase humano”, acrescentou o velho. “Eu lamentei pela Polly, mas não me senti tão mal como se ela fosse nova. Foi como quando pessoas idosas morrem de causas naturais — você sabe que elas viveram tanto quanto podiam. É triste vê-las partir, mas você tem que se sentir resignado. Mas sei exatamente como é com você no caso daquele vapor, pois sou um marinheiro como você. É como levar um bom rapaz até a faculdade, vê-lo começar cheio de vida, coragem, esperanças e perspectivas, e então vê-lo cair morto a seus pés.”

Houve um tremor na voz do velho. Mas Mayo, que conhecia as almas dos marinheiros, entendeu. Sob suas cascas duras, existe uma imaginação que foi nutrida em longos, longos pensamentos. Nas calmarias sob céus estrelados, na escuridão negra quando ondas agitadas balançam sob a quilha, nas vistas cintilantes de mares banhados pelo sol, os marinheiros ponderam enquanto seus irmãos mais estóicos em terra permitem que suas almas cochilem.

“Você tem razão, Capitão Candage. É por isso que quase odeio ir até o Conomo. Aqueles ghouls infernais de sucateiros estarão despedaçando-a em vez de tentar colocar o sopro da vida de volta nela.”

O vapor indefeso parecia mais solitário do que quando eles o visitaram antes. A frota de mosquitos que a cercava, esperando por algumas sobras, tinha se dispersado. Um rebocador e algumas chatas estavam presos contra suas laterais geladas e, como sanguessugas, sugavam dela o que podiam. Eles estavam realizando seu trabalho diligentemente, pois o mar estava calmo em uma daquelas pausas entre as tempestades, uma trégua invernal que os trabalhadores da costa atlântica entendem e da qual dependem.

Mayo, com sua curiosidade aguçada, determinou-se a embarcar em uma das chatas e descobrir a que extremos os chacais da sucata estavam recorrendo.

Dois de seus homens da dory o levaram até lá depois que a escuna foi colocada perto do naufrágio.

“Qual é o seu negócio?” perguntou um homem que estava enrolado em um casaco de pele e parecia estar comandando as operações.

“Nada demais”, confessou o jovem de sua dory, que balançava ao lado da chata. “Sou apenas um pescador.”

Os guindastes oscilantes das chatas, com os guinchos roncando, os pequenos motores de içamento bufando em staccato ofegante, içavam e baixavam a carga — batatas em sacos e enormes rolos de papel de impressão. Mayo ficou um pouco surpreso ao notar que eles não estavam desmontando o vapor; nem mesmo suas âncoras e correntes tinham sido perturbadas.

“Afastem-se!” ordenou o chefe.

O Capitão Dodge baixou uma das janelas de sua cabine de comando e apoiou-se nos cotovelos, colocando a cabeça para fora. O rebocador Seba J. Ransom ainda estava no trabalho. Ele estava amarrado ao lado do naufrágio, esfregando seus para-lamas contra o casco coberto de gelo.

“Olá, Capitão Mayo!” ele chamou, um sorriso de boas-vindas abrindo seu rosto. “Venha a bordo e fume um charuto, e desta vez manterei a conversa sobre escamas de peixe e restos de peixe.”

O homem de casaco de pele olhou de um para o outro e foi prontamente apaziguado. “Ah, este é um amigo seu, é, Capitão Dodge?”

“Pode apostar que sim. Ele já foi meu chefe antes.”

“Se for esse o caso, sinta-se em casa em qualquer lugar. Mas você sabe o que alguns desses sujeitos ao longo da costa que se dizem pescadores farão perto de um naufrágio quando você vira as costas!”

Mayo assentiu amigavelmente.

“Suba a bordo”, convidou o chefe.

“Estou bem aqui na dory, e estou fora do caminho, senhor. Vamos para os pesqueiros num instante. Estou apenas satisfazendo a curiosidade de um marinheiro. Perguntava-me o que pretendiam fazer com esta proposta.”

“Estamos apenas pegando o que está à mão agora. Parte da carga à vante está acima da água. Eu mesmo estou nisso de uma maneira meio estranha.” Este jovem de olhos aguçados, que tinha sido tão calorosamente endossado pelo capitão do rebocador, deu ao homem do casaco de pele a oportunidade de conversar um pouco sobre si mesmo. “Sou o homem externo da Todd & Simonton, de Boston, e comprei por impulso depois de trocar um telegrama ou dois com a empresa. Apareci naquele leilão e comprei no escuro. Acredito em uma aposta. Então alguém enviou um telegrama para a empresa dizendo que eles tinham sido enganados, e eles me deram um esporro daqueles em uma mensagem noturna. Um homem pode sentar-se a uma escrivaninha em Boston e imaginar um monte de coisas que não são verdade. Bem, voei para cá com o equipamento que pude juntar às pressas, e você pode ver o que estou fazendo! Há o suficiente à vista em termos de carga solta para me redimir com a empresa. Mas, que droga! Se Jake Simonton tivesse um pouco de coragem e me apoiasse, acredito que faríamos um sucesso.”

“Claro, tudo depende de como ela está apoiada e do que acontecerá quando o próximo vendaval vier”, disse Mayo. “Você esteve lá embaixo?”

“Sou um apressado em uma negociação e um demônio em sucata”, respondeu o chefe. “Não sou marinheiro, profeta ou arquiteto naval. Simplesmente sei que ela está cheia de água na popa e tem algo sério errado com suas entranhas. Estou tirando o suficiente para fazer Simonton se arrepender de ter me dado uma bronca em uma mensagem noturna. Só que ele nunca admitirá que está arrependido. Ele nunca solta bumerangues que circulem e voltem para atingi-lo. Ele quer estar em uma posição de me criticar da próxima vez que eu cometer um erro em uma aposta.”

“Toda a tripulação foi para terra — os homens da Bee Line?”

“Com certeza — com malas e bagagens. Nós somos donos dela como está. Aquele segundo oficial os deixava tremendo toda vez que uma onda a atingia. Fiquei feliz quando ele foi embora. Ele quase debandou meus homens. Disse que ela estava sujeita a escorregar a qualquer minuto.”

A voz arrastada do Capitão Dodge interrompeu acima deles. “Lá vem o rebocador Resolute”, ele afirmou. “Talvez seja outra daquelas mensagens noturnas da sua empresa, Titus. Talvez queiram que você coloque o que puder carregar dela em um saco de papel e leve para Boston.”

“Você nunca pode dizer o que eles vão fazer em Boston”, resmungou o homem externo. “Fico desencorajado, às vezes, tentando ser empreendedor.”

Ele começou a andar de um lado para o outro, parecendo preocupado, e não respondeu a várias perguntas que Mayo lhe fez. Então o jovem aceitou o convite do Capitão Dodge e subiu para a cabine de comando do rebocador. Ele tinha um desejo muito humano de saber o que a chegada daquele rebocador do continente significava, e decidiu ficar por ali um pouco mais, mesmo sob o risco de deixar o Capitão Candage impaciente.

O Resolute trouxe um telegrama, e o homem de casaco de pele abriu-o, compreendeu sua essência de relance e começou a jurar com grande entusiasmo.

Ele subiu para a cabine de comando do Ransom, com o ar de um homem buscando conforto nos amigos, e abanou a folha de papel com raiva.

“Ordens para revender. Sair fora. Pegar o que eu puder. Não querem a aposta. E aqui eu já limpei um bom lucro.”

“Por que você não envia uma mensagem aconselhando-os a aguentar?” perguntou o Capitão Dodge.

“E ter um vendaval em algumas horas e derrubá-la desta rocha? É isso que aconteceria. Seria típico da minha sorte. Sou apenas um funcionário, senhores. Se a minha empresa não quer apostar, não cabe a mim. Se eu desobedecer às ordens e aguentar, ficarei morrendo de medo da primeira vez que o vento começar a soprar. Não adianta arruinar um bom par de nervos para uma empresa que não valoriza o sacrifício, e preciso de coragem para continuar trabalhando para eles. Eu digo que não cabe a mim. Vou para a terra assim que carregar essas chatas. Cada dólar que eu conseguir revendendo é lucro líquido, então que seja!”

“O que eles dizem para você fazer quanto ao preço?” arriscou Mayo.

“Aceitar a primeira oferta — e ser rápido quanto a isso. Eles parecem ter a ideia de que este vapor está de ponta-cabeça na ponta de uma agulha, e que apenas um cego o comprará.”

Ele voltou para sua tripulação, muito desgostoso, ordenou que o rebocador recém-chegado esperasse para rebocar e estimulou os trabalhadores lentos com palavrões afiados.

“Alguém esteve assustando a empresa dele”, sugeriu Mayo, deixado a sós com o Capitão Dodge.

“Talvez sim — mas pode ser um bom negócio ficar com medo, desde que eles possam descarregar isso em outra pessoa por um pouco de dinheiro vivo. Este período de tempo não pode durar muito mais. Olhe para aquele banco ao sul. Não sei exatamente o que está debaixo dela em termos de recifes — nunca soube muito sobre o velho Razee. Mas minha previsão é que ela se partirá ao meio assim que as ondas lhe derem qualquer movimento.”

Estava na ponta da língua de Mayo discutir o assunto com o homem do rebocador, mas ele pensou melhor e fechou a boca.

“Você provavelmente tem razão”, admitiu ele. “É melhor eu ir. Não vejo nenhum peixe pulando a bordo da nossa escuna. Temos que ir e pegá-los. Adeus, Dodge.”

Quando seu sócio subiu a bordo do Ethel and May, o Capitão Candage, por força do hábito, tendo recolhido seus homens, deu ordens para deixá-la seguir contra o vento.

“Segure-a toda no contra-vento!” ordenou Mayo. “Desculpe-me, Capitão Candage, por uma contraordem, mas tenho uma novidade que quero que você ouça antes de partirmos. O pessoal da sucata está com medo e vai vender como está, assim que conseguirem cargas para aquelas chatas.”

“Bem, ela realmente está em uma situação ruim, e o tempo está fechando”, disse o capitão, remexendo o dedo indicador sob o nariz com dúvida.

“Eles nem mesmo tiraram o creme dela — provavelmente conseguirão toda a carga que vale a pena salvar e algumas coisas soltas na linha do aparelho. Por Deus! Que chance para uma aposta!”

“Pode ser para um sujeito que tivesse tanto dinheiro que pudesse dar adeus a uma fatia dele caso o Oceano Atlântico mostrasse ases”, disse o velho, revelando a familiaridade de um marinheiro com um jogo popular.

“Existe uma coisa como estar desesperado o suficiente para apostar todo o seu pacote”, declarou Mayo. “Capitão, sou jovem e suponho que tenho a loucura de um homem jovem. Não posso esperar que você se sinta como eu sinto sobre uma aposta.”

“Posso parecer velho, mas ainda não cheguei ao fim da linha”, resmungou o capitão. “O que você está tentando colocar na sua cabeça?”

“Aquele homem gordo na chata tem um telegrama no bolso de seu pessoal em Boston, ordenando que ele aceite a primeira oferta feita pelo Conomo como está. Sou tolo o suficiente para estar disposto a colocar cada dólar que tenho, e arriscar.”

O Capitão Candage olhou para seu sócio por um tempo, e então caminhou até o parapeito e deu uma longa olhada no vapor. “Nunca ouvi falar de um sujeito que tenha ficado especialmente rico no jogo da pesca”, observou ele.

Mayo, pensamentos selvagens instigando-o a empreendimentos desesperados, soltou uma corroboração daquela máxima.

“E conheci muitos sujeitos que quebraram no jogo dos naufrágios”, continuou o Capitão Candage. “Quanto você tem?” Aquela pergunta veio inesperadamente.

“Tenho quase seiscentos dólares.” Ele estava carregando sua pequena fortuna no bolso, pois um homem operando a partir da aldeia de Maquoit precisava ser seu próprio banqueiro.

“Tenho quase seiscentos no meu próprio bolso”, disse o capitão. “Aquele homem gordo pode ter ordens para aceitar a primeira oferta feita, mas temos que fazer uma que seja grande o suficiente para que ele não nos jogue ao mar e depois vá procurar um comprador no continente.”

Os dois pescadores de Hue and Cry que tinham transportado o jovem estavam guardando sua dory em cima de outras dories, e logo à vante da cabine, e estavam ao alcance da voz. Nenhum dos capitães notou com que interesse esses homens estavam ouvindo, trocando olhares com o homem no leme.

“E depois que balançarmos nossa bolada sob o nariz dele — e menos de mil será um insulto, pelo que calculo — o que nos resta para operar? Não nos servirá de nada navegar ao redor daquele vapor pelo resto do inverno e admirá-lo. O que você estava pensando, Mayo, em tentar conseguir um negócio rápido, agora que ele está aqui no local e ansioso para vender, e depois lucrar um pouco rapidamente revendendo-a para outra pessoa?”

“Não, senhor!” gritou o jovem, com decisão. “Tenho minhas próprias boas razões para querer fazer deste trabalho tudo ou nada! Não entrarei nisso em nenhum outro plano.”

“Bem, estaremos em algo, com certeza, depois que investirmos nosso dinheiro — o montante total. Provavelmente estaremos em uma situação difícil, sem um dólar sobrando para contratar homens ou comprar equipamento de resgate.”

Os dois homens terminaram de amarrar as dories e foram para a proa.

“É um esquema louco, e sou um tolo por estar pensando nisso, Capitão Candage. Mas esquemas loucos me atraem agora. Posso ganhar mais dinheiro trabalhando duro e economizando, alguns dólares de cada vez, mas nunca espero ver outra chance como esta. Ah, sim, vejo aquele banco ao sul!” Seus olhos seguiram o olhar sombrio do capitão. “Amanhã a esta hora ela pode estar a quarenta braças abaixo. Mas é assim que me sinto.” Ele puxou sua carteira e bateu com ela no teto da cabine. “Tudo na virada de uma carta! E lá vem o vendaval que vai virá-la!” Ele apontou para o sul, para as nuvens acinzentadas.

O Capitão Candage parou em sua patrulha do convés de popa e olhou para a carteira. Então ele começou a puxar a sua. “Não sou um morto, mesmo que meu cabelo seja grisalho”, resmungou ele.

Os dois capitães olharam para as duas carteiras e, em seguida, um para o outro. No momento seguinte, sua atenção foi inteiramente tomada por outro assunto. A tripulação de quinze homens veio marchando para a popa e alinhou-se a vante da superestrutura. Um porta-voz deu um passo à frente.

“Desculpem-nos, capitães, por nos metermos em algo que talvez não seja da nossa conta. Não pretendemos espiar nem bisbilhotar, mas alguns de nós não puderam deixar de ouvir. Esvaziamos nossos bolsos. Aqui está: trezentos e sessenta e oito dólares e trinta e sete centavos. O senhor me permite subir ao convés de comando e depositá-los ao lado dessas carteiras?” Ele aceitou o silêncio atônito deles como consentimento e fez seu depósito solenemente.

“Mas tudo isso é uma aposta, e das mais incertas”, protestou Mayo.

“Nunca tivemos chance de ser apostadores antes em toda a nossa vida”, suplicou o homem. “Não teríamos esse dinheiro se vocês dois, heróis, não nos tivessem dado a chance que nos deram. Não éramos mais do que meio homens antes. Agora podemos erguer a cabeça. Vocês nos farão sentir muito mesquinhos, como se não fôssemos dignos de estar com vocês, se não nos deixarem entrar.”

“Podem apostar que podem entrar, rapazes!” gritou o Capitão Candage. “Eu sei como vocês se sentem.”

“E outra coisa”, continuou o porta-voz. “Não tivemos muito tempo para conversar sobre isso; corremos para a popa assim que ouvimos e esvaziamos nossos bolsos. Mas dissemos o suficiente uns aos outros para podermos lhes dizer que todos nós vamos arregaçar as mangas naquele naufrágio com vocês e trabalhar de graça até... até... bem, o que quer que aconteça. Não queremos salários! Não precisamos de promessas! E se ela afundar, cantaremos uma música e voltaremos a pescar novamente.”

O homem no leme soltou os raios da roda, veio para a frente e depositou um punhado de dinheiro ao lado do restante. “Aí está o meu. Quem me dera fosse um milhão; iria com a mesma facilidade.”

“Rapazes, eu faria um discurso para vocês... mas minha garganta está apertada demais”, engasgou Mayo. “Agora entendo melhor por que algo me chamou para Hue and Cry no verão passado. Leme todo a bombordo! Manobre-a em direção ao naufrágio!”

Quando estavam ao alcance da voz da balsa, Mayo ergueu seu megafone. “Vocês aceitam mil e quinhentos dólares — em espécie — agora — por aquele naufrágio, deixando-o quando tiverem carregado essas balsas?” gritou ele.

Houve um longo período de silêncio. Então, o homem do casaco de pele respondeu, através de suas mãos em concha: “Sim — e que se danem os idiotas em Boston que estão me forçando a vender!”

XXVII ~ A TEMPESTADE VIRA A CARTA

E uma coisa que temos que implorar, É que ele possa ter um túmulo no mar. Então vamos jogá-lo em algum buraco escuro, Onde os tubarões terão seu corpo e o diabo sua alma. Com um grande au au! Puxa, puxa, puxa! Pal de, rai de, ri do day! --Boston.

Depois que o homem do casaco de pele colocou uma nota de venda executada às pressas nas mãos de Mayo, ele declarou francamente que seu interesse na sorte do navio naufragado havia cessado.

“O Resolute informa que sinais de tempestade estão sendo exibidos. Vou apenas garantir o que recebi. Vou jogar o jogo como aqueles desistentes em Boston parecem querer que eu jogue.”

Os rebocadores, partindo com seus comboios, apitaram saudações para a pequena escuna, que estava em posição de espera sob a popa do Conomo.

“Parece que estão zombando de nós”, rosnou Candage. Ele franziu a testa para os céus cinzentos e para o mar solitário.

Mayo, também, sentiu uma nota de escárnio nos apitos. A depressão seguiu prontamente a excitação que o impelira a esse empreendimento. O estalido do documento legal no bolso de seu casaco apenas acentuou sua melancolia. Aquele papel parecia representar tão pouco agora. Não era apenas sua própria aposta — ele havia arrastado para um empreendimento desesperado homens que não podiam se dar ao luxo de perder. Eles haviam colocado toda a sua pequena prosperidade em risco. Havia mulheres e crianças em terra a considerar. Ele e seus companheiros agora possuíam aquele grande vapor que surgia ali sob os céus sombrios. Mas era uma posse precária. A perda dele agora significaria não apenas a perda de todas as suas pequenas economias — significaria a perda da esperança, e o sacrifício de expectativas, e o arrependimento de homens que falharam em uma grande tarefa. Ele percebeu quão dolorosa seria a derrota, pois estava construindo as perspectivas de seu futuro ao vencer nisso.

A esperança quase falhou em tranquilizá-lo enquanto ele olhava primeiro para as balsas que partiam e depois para o casco coberto de gelo em Razee.

Certamente, nenhum mendigo jamais teve um elefante mais difícil de manejar em suas mãos, sem um fiapo de feno à vista para alimentar. Ele já tinha visto operações de salvamento: dinheiro, homens e equipamentos gigantescos frequentemente falhavam em vencer. Habilidades técnicas e conhecimento especializado eram necessários. Ele não sabia o que um exame de seu casco revelaria. Ele havia comprado como garotos trocam canivetes — sem ver! Ele confessou para si mesmo que até a ninharia que haviam apostado nesse risco fora gasta com a imprudência da loucura, considerando que tinham gasto tudo o que possuíam. Não restava nada para operar. Era como um homem amarrando as mãos atrás das costas antes de pular ao mar.

Oh, aquele era um mar solitário! Era cinzento, carrancudo e ameaçador.

A fumaça preta dos rebocadores distantes acenou um adeus lúgubre. Um vento frio começara a dedilhar através da cordoalha da pequena escuna; o lamento — longínquo, místico, uma voz vinda do nada — que pressagia a tempestade, cantarolava em seus ouvidos.

“Consigo sentir algo neste tempo que é pior do que pudim queimado”, declarou o Capitão Candage. “Não sei exatamente como o senhor se sente, senhor, mas se um sujeito aparecesse aqui em um carro funerário agora e quisesse minha opção sobre ela pelo que paguei, acredito que eu negociaria com ele antes que chegássemos às vias de fato.”

“Não posso culpá-lo”, confessou o jovem. “Este parece ser outro caso de ‘Agora que conseguimos, que diabos vamos fazer com isso?’”

“Vamos desembarcar no rastro daquelas balsas e negociar, e ser sensatos”, aconselhou seu associado. “Sinto como se fosse dono de uma parte do velho Poppocatterpettul — ou seja lá qual for o nome daquela montanha — e tivesse recebido ordens de movê-la em uma bolsa de mão.”

Mayo observou sua propriedade recém-adquirida através do crepúsculo que avançava.

“Acredito que conheço um sujeito para quem podemos passar isso”, insistiu Candage. “Ele já fez alguns salvamentos e é um sujeito imprudente.”

“Olha aqui”, cortou seu associado, “vamos resolver um ponto agora mesmo, senhor. Não estou fazendo festa com essa perspectiva — nem um pouco. Mas estou nela, e vou manter meu plano original. Não quero ninguém comigo que vá ficar olhando para trás e lamentando. Se tudo for pelos ares, você não ouvirá um pio meu. Se você quer desistir agora, Capitão Candage, vá em frente, e eu hipotecarei meu futuro para pagar de volta o que você arriscou. Agora, o que me diz?”

“Ora, digo que você está falando exatamente da maneira que gosto de ouvir um homem falar”, declarou o capitão, resolutamente. “Serei amaldiçoado se gosto de entrar em algo com qualquer sujeito hesitante. Você é do meu tipo, e depois disso descobrirá que sou do seu.” Ele se virou e gritou ordens. “Recolham a vela grande, reduzam a vela de proa, e deixem ela navegar com essa e a buja.”

“Essa é a ideia!” elogiou Mayo. “O Oceano Atlântico está se preparando para distribuir as cartas neste jogo. Temos que nos manter unidos se quisermos ver quais cartas tiraremos.”

Uma escuna de pesca, se bem manuseada, é um verdadeiro petrel da tempestade ao enfrentar um vendaval. Nem mesmo os sinais ameaçadores da tempestade intimidaram os dois capitães. Eles estavam lá para guardar sua propriedade e para ver suas esperanças ou seus medos realizados.

“Se o Conomo tiver coragem e sobreviver a isso”, disse o Capitão Candage, “estaremos aqui para dar-lhe três vivas quando acabar. E se ela afundar, estaremos no convés para lhe acenar um adeus.”

Com esse espírito, eles prenderam tudo a bordo da escuna e se prepararam para desafiar a tempestade. Ela veio na noite, com um uivo de rajadas e uma saraivada de granizo como chumbo de caça. Ela pisoteou o mar pulsante e causou tumulto na água e no ar. À meia-noite, eles estavam balançando com apenas uma vela de estai que estava congelada com a dureza de uma chapa de caldeira. Mas, embora as vastas ondas lançassem seus braços poderosos na tentativa de agarrar a escuna, ela esquivava e dançava em seu caminho ágil e frustrava sua malignidade. Seus homens não dormiam; eles se descongelavam em revezamento e voltavam a enxamear o convés. Cada um parecia ser animado por um interesse pessoal e vital.

“Você não pode comprar tripulações como esta com salários”, observou o Capitão Candage, com a barba cheia de pingentes de gelo perto do ouvido de Mayo. “Acho que foi mais ou menos como minha Polly disse — você lança o pão sobre as águas quando defende o lado deles em Hue and Cry.”

O jovem, agarrado a um grampo e observando a luta de sua embarcação, acenou com uma mão enluvada para indicar que concordava. Naquela desordem de tempestade e confusão do mar, ele estava esforçando os olhos, tentando vislumbrar o casco em Razee. Mas a escuna trabalhara seu caminho longe demais para o oeste, pressionada a sotavento pela palma implacável da tempestade.

Então, finalmente veio a manhã, um amanhecer opaco envolto em neve rodopiante, e tudo estava escondido de seus olhos, exceto as montanhas de água revolta que varriam em direção a eles, ameaçavam engoli-los, e então derretiam sob sua quilha. Os capitães só podiam adivinhar a extensão de sua deriva, mas quando o vento se acalmou após o meio-dia, e eles foram capazes de içar velas na escuna, não tiveram dúvidas quanto à direção em que o vapor devia estar. Eles começaram seu caminho de retorno para o leste.

Mayo desafiou o vento cortante e o cordame gelado e levou o binóculo para as gáveas. Ele permaneceu lá, embora estivesse gelado até os ossos.

Finalmente, perto da borda do horizonte, ele avistou um tumulto espumante do mar, marcando alguma obstrução na qual as ondas estavam lutando. No meio desse emaranhado branco, havia uma forma que era quase espectral sob os céus cinzentos. A pequena escuna arfava tão ferozmente que apenas ocasionalmente ele conseguia trazer esse objeto para o alcance do binóculo. Mas ele teve certeza, finalmente. Ele agarrou o binóculo e deslizou para o convés pelos brandais escorregadios.

“Ela está lá, Capitão Candage!” gritou ele. “Os dentes da velha Razee ainda estão mordendo.”

Eles estavam de volta a ela antes que a noite precoce descesse. Ela estava coberta de gelo até o mastro principal, e a maresia depositara montes de gelo em seu convés, pesando-a sobre os recifes que a haviam aprisionado. Mas, apesar da surra que recebera, sua posição não mudara. Eles circularam ao redor dela — a pequena escuna parecendo lamentavelmente inadequada para lidar com esta embarcação monstruosa.

“Bem”, suspirou o Capitão Candage, “graças ao Senhor, ela ainda está aqui. Nosso trabalho está definido para nós agora — seja lá o que pudermos fazer com ela. Dizem que um rato soltou um leão uma vez roendo suas cordas. Parece-me que teremos que roer bem devagar aqui.”

Eles ficaram ao lado dela naquela noite em um mar que se acalmava, e passaram horas sem dormir na cabine, lutando impotentes com planos.

“Claro, é reconfortante encontrá-la aqui e saber que o Oceano Atlântico terá que ter mais força para movê-la”, disse Candage. “E, por outro lado, não é tão reconfortante assim. Parece-me que ela está tão presa ali que você não conseguiria movê-la nem se jogasse a lua nela. Acho que minha esperança tem sido a mesma que a sua, Mayo — salvá-la inteira em vez de transformá-la em sucata.”

“Sou um marinheiro, não um sucateiro. Eu quase preferiria perder meu dinheiro, Capitão Candage, do que ser cúmplice em despedaçar aquele vapor novo em ferro velho. Ela enganou os que faziam suposições ao ficar onde está. Tem sido minha esperança desde o início que ela possa ser reflutuada. Ela não é uma lata velha de ferro enferrujado. Claro, ela tem um buraco, e podemos ver agora que ela está plantada muito solidamente. Mas ela é sólida e estanque, aposto, em todas as suas partes, exceto onde está aquele ferimento. Suponho que a maioria dos homens que passasse por aqui agora diria que ela não pode ser retirada inteira. Vou entrar nessa e tentar enganar esses adivinhadores também.”

“Essa é a única aposta real”, concordou o capitão. “Só ganharíamos salários diários cortando-a em uma pilha de lixo. Um ferro-velho não vale muito, exceto como ferro velho a meio centavo a libra; mas um vapor novo como esse vale duzentos mil dólares, por Deus! se estiver flutuando.”

“Bem, temos que fazer algo além de ficar aqui parados olhando para suas linhas. Em primeiro lugar, quero saber qual é o problema dela — sobre o tamanho do buraco que ela tem. Nossos olhos devem nos dizer alguma coisa.”

E com essa missão, Mayo partiu na manhã seguinte após o café da manhã.

Somente um marinheiro, jovem, alerta e audacioso, poderia ter escalado a lateral do vapor naquele tempo. Sua escada estava no lugar, mas não passava de um picolé gigante. Mas estava no lado de sotavento, e sua baleeira estava razoavelmente bem protegida da investida do mar. Com sua machadinha, ele cortou degraus na escada, deixou seus homens na baleeira e subiu perigosamente até o convés. A escotilha de vante estava aberta, exatamente como os salvadores que partiram às pressas a deixaram. Ele desceu, pela escada de ferro congelada. Ele se deparou com um aspecto desolador. A carga e a água escondiam os danos que ela havia sofrido. O homem gordo havia garantido a maior parte da carga que a água não havia arruinado.

Ele subiu de volta ao convés e explorou a meia-nau e a popa. Sua sala de máquinas estava parcialmente inundada, pois sua proa estava apoiada na parte mais alta do recife, e a água havia se acumulado na popa. Os alojamentos da tripulação ficavam acima do convés principal, como é o caso da maioria dos cargueiros de tipo mais novo. Ele encontrou bastante comida enlatada nas dependências do comissário, carvão no bunker da cozinha, e havia roupas de cama nos camarotes dos oficiais.

Mayo voltou rapidamente para sua baleeira e subiu a bordo da escuna. Ele relatou suas descobertas.

“E aqui está o único plano sensato para o presente, Capitão Candage: levarei dois homens e uma baleeira, irei a bordo e guardarei nossa propriedade. Alguém deve ficar aqui — e não quero que você corra os riscos naquele naufrágio. Você tem uma filha. Você provavelmente conhece mais o pessoal do estaleiro em Limeport do que eu. É a cidade mais próxima, e acredito que quando você relatar que o Conomo está aguentando após esta tempestade, você poderá contratar alguns equipamentos a crédito e pedir dinheiro emprestado.”

“Juro que farei o meu melhor. Conheço muitas pessoas da orla e sempre paguei minhas contas.”

“Precisamos de material para todo o jogo de salvamento — motor, bombas e todo o resto. Vá para terra, investigue e capture alguns homens e traga-os aqui para verem nossa perspectiva.”

“Oferecer a eles uma parte?”

“Não, senhor. Faremos disso uma sociedade fechada. Não pretendo deixar um bando de tubarões terrestres aqui para nos manipular e tirar o que é nosso. É a nossa aposta, e queremos o que vem dela. Vá para terra e veja o que pode fazer em termos de preços e condições. Não feche nada até que você e eu tenhamos conferido. Terei uma lista de necessidades pronta quando você voltar.”

Meia hora depois, ele estava posicionado no naufrágio com os dois homens que ele havia selecionado como seus companheiros. Eles carregavam equipamentos com os quais içaram sua baleeira — seu principal trunfo em caso de emergência.

E o mar que Mayo observava estava mais solitário do que nunca, pois o Ethel and May estava se afastando através da superfície ondulante em direção ao continente, e o casco foi deixado sozinho na imensidão do oceano. Ele se sentia muito como um pigmeu e muito impotente enquanto subia e descia pelos conveses gelados. Ele lembrava que a fé pode mover montanhas, mas ele ainda não era capaz de determinar que poder seria capaz de mover aquele vapor, em cujas entranhas o recife de Razee havia fincado seus dentes.

Às oito badaladas, meia-noite, Mayo saiu de seu beliche, pois ouviu algo que o interessou. Era um tamborilar suave, um farfalhar gentil. Como marinheiro, ele sabia quão repentinas podem ser as mudanças meteorológicas na costa no inverno. Quando os ventos do norte rugiram e uivaram e se exauriram, cuspindo granizo e neve, os ventos mais suaves do sul têm sua vez e trazem umidade mais amena da Corrente do Golfo. Ele pôs a cabeça para fora e sentiu um ar suave e uma chuva morna. Ele esperava e quase contava que uma mudança no tempo traria essa condição — conhecida como degelo de janeiro. Ele voltou para seu beliche, muito reconfortado.

Um sol brilhante o acordou. Céus limpos sucederam a chuva. Tudo estava pingando e derretendo. Pedaços de gelo estavam caindo dos mastros grossos do vapor, e seus sobornos estavam começando a descarregar a água da massa que amolecia em seu convés.

Ele e sua pequena tripulação tomaram café da manhã com grande alegria, então pegaram machados do depósito de ferramentas do vapor e começaram a cortar canais na água no gelo. Um sol benigno em um céu sem nuvens havia se alistado como membro da equipe de salvamento no recife Razee. Aquele tempo logo limparia o Conomo de seu revestimento.

Essa era uma perspectiva alegre, porque o cordame e o equipamento de convés de vários tipos seriam liberados. O vapor começou a parecer uma proposta menos desencorajadora. Ela não era mais o picolé que causara calafrios nos subscritores e licitantes. Mayo perdeu a melancolia que o pesava. O mar não parecia tão solitário e tão ameaçador. Ele sentiu que poderia mostrar algo tangível e esperançoso para as partes que o Capitão Candage pudesse solicitar.

Quando viu um rebocador se aproximando à tarde, seu otimismo sugeriu que ele trazia o capitão e seu grupo; suas próprias esperanças estavam tão altas agora que ele sentia que homens com equipamento e dinheiro estariam ansiosos para emprestar a partes que possuíam perspectivas tão excelentes. Dessa forma, ele traduziu essa aparente pressa em chegar ao recife.

Mas não foi o Capitão Candage quem o chamou quando o rebocador se encostou na escada, seu hélice agitando o mar em marcha ré. Um estranho saiu da casa do leme do Resolute, carregando uma grande mala de couro. Ele era claramente o passageiro que o havia fretado. Um marinheiro jogou uma corda para o convés do vapor, e Mayo prontamente a jogou de volta.

“Vocês não podem subir a bordo.”

“Quem diz isso?”

“Eu digo. Tenho uma nota de venda dela no meu bolso.”

“Não a reconheço. A lei terá algo a dizer sobre isso mais tarde.”

“Não me importa o que a lei possa dizer mais tarde. Estou falando agora mesmo. Nós somos donos deste vapor. O que você quer aqui?”

“Deixei um monte de pequenos pertences pessoais nela. Saí com pressa. Quero subir a bordo com esta mala e pegá-los.”

“Devem ser pertences muito valiosos, vendo que você fretou um rebocador para vir até aqui.”

“A propriedade de um homem significa mais para ele do que para qualquer outra pessoa. Agora que gastei tudo isso, você não é tão mesquinho a ponto de não me deixar subir, certo? Isso é entre marinheiros.”

“Quem é você?”

O homem hesitou. “Bem, se preciso ser apresentado, direi que meu nome é Simpson — fui segundo oficial a bordo aqui.”

“Você não está aqui com nenhum documento legal — não está tentando nenhum truque para obter a posse, está?”

“Que todos que ouvem testemunhem que não! Vou pegar minhas coisas e sair em dez minutos.”

“Suba a bordo, então.”

O homem pousou sua mala e prendeu uma corda de arremesso na alça. Ele enrolou a corda e entregou a um marinheiro. “Jogue isso para mim quando eu estiver no convés”, ordenou ele. Então ele subiu a escada.

“Puxe, e eu içarei a mala”, sugeriu Mayo no parapeito.

“Espere até eu chegar aí”, latiu o visitante, ainda subindo. Ele pegou a corda depois de alcançar o parapeito e puxou a mala com algum esforço e muito cuidado.

“Olhe aqui, essa mala não está vazia”, disse Mayo.

“Quem disse que estava? Estou carregando nela tudo o que possuo no mundo. Estou partindo para Nova York assim que este rebocador me deixar em terra.”

Ele pegou a mala e começou a caminhar em direção aos alojamentos dos oficiais. Mayo foi junto.

“Está com medo de que eu roube o motor dela? As poucas coisinhas minhas que vim buscar estavam escondidas, e foi por isso que as esqueci. Agora, não me insulte me seguindo por aí como se eu fosse um ladrão.”

“Não sei exatamente o que você é”, murmurou o rapaz. “Há algo que parece muito falso nisso, mas ainda não consegui avaliar você.”

“Vou voltar — vou voltar agora mesmo. Achei que estava pedindo um favor a um cavalheiro e a um oficial colega.” Ele começou o retorno para a escada.

“Vá buscar suas coisas”, ordenou Mayo. “Se o seu negócio aqui é só seu, não quero espioná-lo.”

Ele voltou para questionar o capitão do rebocador em busca de informações sobre o Ethel and May.

“Ela está em Limeport”, informou o capitão, com os cotovelos no parapeito da janela. “Passei por ela no porto interno esta manhã. Você mordeu um pedaço grande aqui, não foi? Todos nós pensamos que esta tempestade a tinha levado. Causou um rebuliço tanto no cais quando o velho Candage apareceu e relatou que ela tinha resistido.”

“Acredito que alguns dos que estavam em pânico estão falando em outro tom sobre as perspectivas aqui fora, agora, não estão?”

“Não tenho tanta certeza disso, senhor”, afirmou o homem do rebocador, relaxando em uma postura mais confortável.

“Não existe um sentimento em terra de que provavelmente teremos sucesso nesta proposta?” Havia solicitude na voz de Mayo. Ele estava extremamente ansioso. Do sentimento em terra dependia o sucesso do Capitão Candage.

“Não posso dizer que ouvi falar de algum!”

“Mas a conversa deve—”

“Não há muita conversa — não agora. Geralmente considera-se que este navio é uma causa perdida e as pessoas estão falando de outra coisa.”

“Mas ela está aqui — ela está na vertical e firme! Ela está—”

O homem do rebocador não estava interessado o suficiente para ouvir declarações sobre a condição do Conomo. “Olha aqui, filho”, interrompeu ele, “você acha por um minuto que essa coisa não teria sido agarrada pelas pessoas de verdade se houvesse qualquer sinal de lucro? Eu sei que não há!”

“Como você sabe?”, exigiu Mayo, com indignação.

“Eu não estive conversando com o representante de uma das maiores empresas de salvamento da costa do Atlântico? Ele está em Limeport agora — estava a bordo do meu rebocador esta manhã.”

“Como ele sabe?”

“Bem, ele sabe. Esse é o negócio dele. E todos em Limeport sabem o que ele disse. Ele não tem sido tímido ao expressar sua opinião.”

Mayo inclinou-se sobre o parapeito, uma luz funesta em seus olhos indicando quais eram suas próprias opiniões a respeito desse detrator desconhecido, naquele momento.

“Eu gostaria de saber quem é esse Lorde Adivinha — latindo pelas costas de homens honestos!”

“Sr. Fogg! É ele! Parece saber do seu negócio!”

“Fogg?”

“‘Exato!’ Essa é a sua grande palavra”, explicou o outro, sorrindo. “Um sujeito e tanto, com charutos e conversa!”

“Pelos deuses, agora eu sei quem fretou este rebocador!”, gritou ele. “Que tipo de tolo estou me tornando?”

Ele se virou e correu em direção aos alojamentos dos oficiais. Saltou para o corredor principal e explorou as cabines precipitadamente. Não havia sinal de seu visitante.

Naquele momento, no tumulto de seus pensamentos, ele tinha apenas um vislumbre de uma ideia sobre qual poderia ser o motivo da visita do homem. Mas ele tinha certeza, agora, de que um miserável que havia deliberadamente naufragado um navio rival — se as suspeitas de Candage estivessem corretas — faria quase qualquer outra coisa por dinheiro.

Uma escotilha estreita com trilhos de latão levava abaixo para os alojamentos da tripulação. Mayo, chegando ao topo, viu o homem se apressando para a base. O capitão agarrou os trilhos e deslizou para baixo em um movimento só.

“O que diabos você está fazendo?”, ele arquejou.

O intruso o agarrou, jogou-o para o lado e começou a subir a escotilha. Ele tinha largado a mala para agarrar Mayo, e ela saltou de uma maneira que mostrava que estava vazia.

Mayo saltou e agarrou as pernas do outro enquanto ele subia. O homem chutou-o ferozmente no peito antes que o atacante conseguisse imobilizar as pernas em seus braços. Eles caíram juntos, rolando repetidamente.

O estranho era atarracado e forte, seus músculos endurecidos pelas atividades de um marinheiro. Além disso, parecia ser animado por algo mais do que um simples rancor ou desejo de se defender; ele lutava com frenesi, golpeando com os punhos o rosto e as costelas de Mayo enquanto rolavam. Então ele começou a gritar. Ele praticamente berrava, lutando para se soltar.

Mas seu agressor era tão resistente e tão desesperado quanto, e tinha a agilidade superior de um homem mais jovem. O outro tinha forçado a luta. Mayo pretendia agarrar-se a ele até descobrir o significado daquela ferocidade peculiar.

Ele girou sobre seu prisioneiro, agarrou-o pelas duas orelhas e bateu a cabeça do homem nas tábuas do convés com tanta força que sua vítima relaxou, semi-inconsciente.

Então ele abriu olhos arregalados. “Deixe-me ir! Deixe-me ir! Eu desisto. Fuja. Deixe-me fugir. Estamos perdidos!”, ele gritou.

“Fugir? Por quê?”, exigiu o vencedor.

“Dinamite! Eu a plantei. O pavio está queimando.”

“Onde está?”

“Abaixo — em algum lugar. Esqueci. Não consigo me lembrar. Minha mente se foi. Estou assustado demais para pensar. Fuja!”

Mayo levantou-se e puxou o homem para os pés. “Leve-me até ela!”, gritou ele.

“Não há tempo. Eu adivinhei o tamanho do pavio — pode queimar mais rápido do que calculei.”

O jovem enterrou o punho no rosto do outro e derrubou-o. Então puxou-o de volta para a vertical.

“Leve-me onde você plantou essa dinamite ou ficaremos aqui e explodiremos juntos. E agora você sabe que falo sério.”

O último golpe tinha intimidado o homem; ele levantou o punho novamente.

O visitante saltou para longe dele e correu ao longo do convés inferior, com Mayo em seu encalço. Ele liderou o caminho para a popa. Na penumbra do convés, brilhava uma centelha vermelha. Mayo correu até ela, arrancou o boné e apagou o brilho funesto. Quando teve certeza de que o pavio estava morto, ouviu seu homem subindo a escada da escotilha. Ele perseguiu e alcançou a presa quando ela alcançou o convés superior, golpeou o homem pelas orelhas e forçou-o a entrar em uma cabine.

“Isso significa prisão estadual para você! Você já era culpado de barataria antes, e sabe disso! Como você ousou tentar este último truque?”

“Eu recebi ordens.”

“Ordens de que homem?”

“Não importa. Você não precisa perguntar. Não vou dizer.” O estranho estava carrancudo, tendo recuperado parte de sua segurança, agora que seu medo da dinamite havia desaparecido.

“Você é um lunático. Deveria saber que não conseguiria realizar algo desse tipo.”

“Eu não sei quanto a isso! Estava funcionando muito bem. Se ela tivesse se partido e saído desses recifes, você não teria conseguido provar nada de especial. Tenho um bom apoio. É melhor você me deixar ir.”

Mayo olhou fixamente para ele, privado de fala por essa audácia.

“É melhor você se juntar aos grandes”, aconselhou o homem. “Posso lhe dizer agora mesmo que todos os buracos em Limeport foram fechados para você. Você não pode contratar equipamentos lá, ou conseguir um centavo de crédito. Tudo foi muito bem cuidado. Você está aqui brincando com um pato morto. Estaria em melhor situação se essa dinamite tivesse sido deixada para parti-la.”

A total inutilidade das palavras em uma situação como essa, a inadequação da fala para enfrentar tamanha audácia, conteve o anátema salpicado de juramentos de Mayo. Ele tirou a chave da porta da cabine e ameaçou o prisioneiro com o punho quando o homem começou a segui-lo para fora.

“Você não ousa me manter a bordo aqui! Tome cuidado com o que eles já fizeram com você, Mayo! Tenho certeza do meu apoio.”

“Você terá a chance de usá-lo!”, retrucou o jovem. Ele esquivou-se para fora e trancou a porta da cabine.

“Seu passageiro não vai voltar com você, senhor”, chamou ele sobre o parapeito para o capitão do rebocador.

“Eu recebo minhas ordens dele.”

“Você está recebendo-as de mim agora. Solte os cabos!”

“Olhe aqui—”

“Falo sério, senhor. Esse homem que você trouxe aqui vai ficar até que eu possa colocá-lo nas mãos da polícia.”

“O que ele fez?”

“Quanto menos você souber sobre o assunto, melhor será para você e para seu barco! Você diga ao homem que fretou seu rebocador—”

“Você o tem a bordo, lá!”

Mayo olhou diretamente nos olhos do homem do rebocador.

“Diga ao Sr. Fogg, que fretou seu rebocador, que eu tenho seu homem sob chave e cadeado e que quanto mais confusão ele fizer sobre o assunto, mais satisfeito eu ficarei. E não traga mais passageiros aqui a menos que sejam oficiais de polícia.” Então ele rugiu em seu tom de mestre marítimo: “Solte seus cabos, senhor. Você sabe qual é a lei do almirantado!”

O capitão assentiu, fechou a janela da casa do leme e fez soar seu sino. Mayo sabia, pelo seu ar mistificado, que ele não estava totalmente na confiança de seu passageiro e de seu empregador.

Esta tentativa desajeitada e descarada de destruir o navio tocou o orgulho de Mayo tão profundamente quanto despertou sua ira. Fogg evidentemente via as pretensões da nova propriedade com desprezo. Ele devia acreditar em seu próprio poder de arruinar e escapar das consequências, ponderou o jovem. Ele tinha colocado Mayo e seus humildes associados no patamar dos piratas saqueadores comuns da costa — homens que agarravam sem lei ou direito, que deviam estar preparados para lutar contra outros piratas do mesmo tipo, e cujos negócios não podiam ter posição em um tribunal.

Ainda mais perturbadoras eram as declarações de que as vias de crédito em terra tinham sido fechadas. Asserções maliciosas podiam arruinar o projeto mais eficazmente do que a dinamite. Mas agora que o Conomo tinha resistido ao espancamento de uma tempestade e avultava no recife, um penhor visível de valor, parecia que o Capitão Candage devia ser capaz de encontrar alguém que os apoiasse.

Por dois dias, Mayo esperou com muita impaciência, ele e seus homens fazendo o trabalho preliminar que se apresentava.

Ele esperava que Fogg enviasse uma expedição de socorro, mas suas apreensões não deram frutos. Seu prisioneiro era amargamente reticente e, pelas poucas palavras que deixou escapar, parecia consolar-se com a certeza de que a retribuição aguardava Mayo.

No terceiro dia veio a escuna. Ela veio sem entusiasmo, sob um vento leve, e suas velas flácidas pareciam expressar desencorajamento e decepção. Mayo, olhando para ela enquanto se aproximava, recebeu essa impressão, apesar de suas esperanças. Ele teve um vislumbre do rosto do Capitão Candage quando ele chegou ao lado do navio em seu bote, e seus medos foram confirmados.

“Não tem utilidade”, foi o relato lacônico do capitão enquanto ele subia a escada.

“Você quer dizer que não conseguiu convencer ninguém?”

“Nada feito em lugar nenhum. Há um homem gordo chamado Fogg em Limeport, e ele está espalhando conversas de que não temos lei ou perspectivas. Fiz com que alguns homens me ouvissem, mas eles me enxotaram quando descobriram que não os aceitaríamos e lhes daríamos todos os lucros. Fui a Maquoit e tentei colocar o Diácono Rowley na coisa — e quando vou pedir favores ao Diácono Rowley, você pode imaginar o quão desesperado estou. Ele é um homem de dinheiro na mão — você descobriu isso.”

“Mas você não conseguiu mostrar a ele que esta é a melhor aposta na costa?”

“Ele não é um apostador; ele é um operador de resultados certos. E quando ele soube que tínhamos colocado todo o nosso dinheiro, ele ameaçou tirar a escuna de nós, a menos que voltássemos a pescar e ‘fôssemos sensatos’ — foi assim que ele colocou. Então, ele e eu tivemos aquela briga adiada.”

“Mas olhe para ela”, implorou Mayo, acenando com a mão, “Gelo fora dela, sólida em todos os seus rebites após sua surra. Se pudéssemos trazer os homens certos aqui agora—”

“Eu mesmo não estou confiante, não mais”, afirmou o Capitão Candage, passando um olhar de desaprovação sobre sua propriedade. “Se você sai daqui, longe de empresários sensatos, e sonha com o que poderia acontecer, pode enganar a si mesmo. Posso ver como é com você. Mas estive em terra, e fui colocado no meu lugar de forma bem clara. Pensei em uma maneira de conseguir algum dinheiro, mas recuperei o juízo e desisti.”

“Conseguir dinheiro — como?”

“Não importa. Eu cortaria as duas mãos antes de deixar que essas mãos pegassem aquele dinheiro para algo desesperado como isso. Vamos vendê-la como sucata para o primeiro homem que a levar — e então cuidar da nossa própria vida e ir pescar.”

“Você vai assumir seu turno a bordo aqui e me deixar ir a terra?”

“Não faz sentido desperdiçarmos mais tempo.”

“Eu fiz minha parte aqui, Capitão Candage, e tem sido uma boa parte. Só peço que você faça a sua, como um colega de navio deve fazer. Mantenha uma dúzia de homens aqui com você. Há comida de sobra. Afaste todos os que vierem até que eu volte.”

“O que você vai fazer?”

“Fazer uma tentativa de homem, senhor, antes de deixá-los nos descartar. Sempre podemos ir pescar. Mas só existe um Conomo.”

“Eu ficarei. É justo com você ter sua chance em terra. E eu tenho um rifle muito bom a bordo daquela escuna”, afirmou o capitão. “Envie-o para mim por um dos homens.”

“Você pode precisar dele”, afirmou o Capitão Mayo, com uma firmeza sombria no maxilar. “Venha comigo. Quero mostrar-lhe um pássaro que voou para bordo outro dia.”

Do lado de fora da porta da cabine, ele parou o Capitão Candage, que estava seguindo em seus calcanhares, levando a declaração de Mayo ao pé da letra e mostrando apenas um interesse leve.

“Capitão Candage, seu homem, Art Simpson, está nesta cabine. Ele veio aqui em um rebocador com uma mala de dinamite e pretendia explodir este naufrágio.”

“Por Deus, eles não vão parar por nada?”, grasnou o velho capitão.

“Já está na hora de descobrirmos quanto disso é perversidade imprudente por parte de homens contratados e quanto os grandes homens realmente sabem do que está sendo feito nesta costa, senhor. E é por isso que estou mantendo este homem Simpson.”

“Deixe-me chegar nele!”, implorou Candage. “Vou quebrar a casca dele! Vou chegar à carne dele!”

Mayo destrancou a porta e entrou.

“Simpson, você—” bradou o velho capitão, e então parou em confusão, com a boca aberta.

“Este não é Art Simpson!”, ele declarou, após uma análise espantada do estranho carrancudo. “Quem é você?”

“Não é da sua conta infernal! Quando você souber quem eu sou, descobrirá que tem um problema difícil em mãos.”

“Já percebemos isso, sem saber seu nome”, retrucou Mayo.

“Não estou preocupado; cabe a vocês se preocuparem! Eu lhes dei o meu aviso! Agora aguentem o que vier dos homens que estão por trás de mim.”

“Qual é o seu nome — é isso que eu perguntei?”, exigiu Candage.

“Não é da sua conta — é isso que eu lhe disse.”

“Teremos alguma luz sobre esse assunto depois que eu tiver você em terra”, disse Mayo. “Vamos! Você está indo!”

“Quanto antes, melhor!”, concordou o estranho. “Vou gostar de ver você receber o que merece!”

Mayo não perdeu tempo. Ele enviou seu prisioneiro escada abaixo para o bote à sua frente e estendeu a mão para o velho capitão.

“Se eu não puder fazer melhor, pegarei aquele diabo, quem quer que seja, pelos calcanhares e espancarei os cérebros dos outros piratas.”

“Acredito que eles recuarão quando virem que você o pegou no flagra”, afirmou o capitão, consoladoramente. “Tenho muita confiança na sua coragem, senhor. Mas devo dizer que é uma gangue terrivelmente traiçoeira contra a qual estamos, ao que parece.”

“Esta pode ser exatamente a corda certa para puxarmos”, respondeu Mayo; “não há como implorar a eles, mas podemos ser capazes de assustá-los.”

“Tenho medo de estar muito inclinado a ver o lado negro”, confessou o Capitão Candage. “Você vai encontrá-los todos contra você em terra, senhor. Mas as últimas palavras que minha Polly me diz para lhe dizer é para manter sua coragem e não se importar com o meu resmungar. Ela acha que temos um negócio certo aqui — e isso mostra o quão pouco uma garota sabe sobre o trabalho dos homens!”

E ainda assim, aquela pequena mensagem de ânimo vinda de terra confortou tanto Mayo que ele seguiu seu caminho com o pensamento caprichoso de que garotas que sabiam exatamente o momento certo para dar um tapinha e conceder um sorriso entendiam muito bem o trabalho dos homens.

XXVIII ~ AJUDA DE GAROTA E TRABALHO DE HOMEM

Conhecemos os truques do vento e da maré Que fazem e significam desastre, E os impedimos também, a Wren e eu, Longe na Pastagem do Velho. Dia após dia, os peixes-negros lá Vão cambaleando para fora e para dentro, E nas noites observamos os navios costeiros rastejarem De luz em luz lá longe. --O Capitão.

Era o período das calmarias de janeiro — aquela calmaria entre os delírios das tempestades dos equinócios, e o Ethel and May fez um tempo lento em seu retorno ao continente. No humor de ansiosa impaciência de Mayo, a esperança em seus negócios era tão desconcertante quanto os ventos nas velas da pequena escuna.

Seu passageiro sentou-se no parapeito e deu ao capitão, que caminhava de um lado para o outro, olhares ocasionais nos quais ironia e aspereza estavam misturadas.

“Então você vai me levar ao tribunal, eh?”, ele perguntou, quando finalmente passaram a deriva pelo final do quebra-mar em Limeport. “Bem, isso lhe dará uma boa desculpa para abandonar seu trabalho naquele naufrágio.”

Mayo continuou caminhando e não respondeu. Ele estava ponderando sobre a questão do que fazer com esse novo “elefante” em suas mãos. De certa forma, este estranho era uma proposta difícil de lidar em conjunto com o problema do Conomo.

“Apenas entenda que eu não dou a mínima se você me entregar à polícia”, continuou o homem. “Eu serei cuidado. Você também! Você estará amarrado! Tribunais gostam que as testemunhas principais atendam estritamente ao trabalho.”

O jovem tinha apenas um conhecimento vago de marinheiro sobre o procedimento dos tribunais de justiça; mas esse conhecimento e consideráveis boatos tinham o convencido de que a lei era lenta, exigente e autoritária.

Todo o seu tempo, seus melhores esforços, sua presença eram necessários na tarefa gigantesca que ele tinha empreendido em Razee. Permitir-se ser atolado em uma briga judicial junto com essa pessoa, mesmo que em um processo criminal contra o homem, certamente significava atraso, junto com a interrupção repetida de seu trabalho, se não seu abandono por um tempo.

“Onde está seu chefe?”, ele exigiu, parando na frente do prisioneiro.

“Nome, por favor?”

“Não tente me blefar. Fogg, quero dizer!”

“Você provavelmente encontrará o Sr. Fogg no Hotel Nicholas.”

“Vou levá-lo andando até lá. Se você tentar fugir—”

“Fuja com sua tia Huldah! Piff, filho! Agora você está mostrando bom senso. Leve-me ao Sr. Fogg. Algumas coisas lhe serão mostradas.”

Eles não tiveram dificuldade em encontrar o Sr. Fogg. Ele estava em frente à lareira no escritório do Nicholas, torrando as costas e aquecendo suas palmas que se abriam lentamente, e conversando com um grupo de homens.

Ele fingiu não reconhecer Mayo quando o jovem perguntou, bruscamente, se poderia vê-lo em particular.

“Certamente, senhor. E seu amigo?”

“Sim.”

O estranho, seguindo escada acima com Mayo, deu um empurrão no seu companheiro.

“Ele é um prodígio! ‘E seu amigo?’”, citou ele com uma risada. “Nada de trabalho grosseiro nisso!”

Mayo tinha decidido firmemente em sua mente que seu negócio atual era o único assunto que ele discutiria com Fletcher Fogg. Embora a justa ira de um homem inocente, arruinado e perseguido, o incitasse a assaltar esse trapaceiro presunçoso com a língua, e até com os punhos, ele se obrigou por uma promessa mental a esperar até ter provas além de palavras vagas e suas próprias convicções.

“E agora—”, convidou Fogg, quando fechou a porta de seu quarto, esperando até que seus visitantes tivessem entrado.

“Sim, agora!” soltou o Capitão Mayo. “Não naquela hora, Sr. Fogg! Resolveremos isso mais tarde, quando eu fizer você pagar pelo que me fez. Este homem aqui, você o conhece, é claro! Ele tentou dinamitar o Conomo. Eu o peguei em flagrante. Ele é o seu homem. Ele se gabou de que seria protegido.”

O Sr. Fogg lançou um olhar frio para o sorriso de reconhecimento do homem.

“Nunca vi esta pessoa antes, senhor.”

“Eu sei muito bem!” Mayo tirou conclusões precipitadas e blefou. “Posso provar por homens aqui nesta cidade que você tem conversado com ele.”

“Ele pode ter sido uma das pessoas que vieram até mim pedindo trabalho no naufrágio, caso minha empresa decidisse fazer o salvamento. Mas concluímos não empreender o trabalho, e não lhe dei atenção. No que diz respeito a qualquer memória minha, nunca o vi antes, eu digo.”

“Você não representa nenhuma companhia de salvamento”, insistiu Mayo. “Você veio aqui para interferir com qualquer um que tente salvar aquele vapor.”

“Qual é o seu negócio comigo, senhor? Vá para algum lugar!”

“Eu vim para lhe mostrar este homem. Se você tirar as mãos dos meus negócios, fechar a boca e parar de dizer aos homens aqui que o plano de salvamento é desesperador, eu entregarei este homem a você. Você sabe o que eu deveria fazer com você aqui e agora, Fogg”, gritou ele, selvagemente. “Mas não vou me incomodar — não agora. Estou aqui para negociar com você sobre este único assunto.”

“Não estou interessado.”

“Então levarei este homem à delegacia e apresentarei minha queixa. Quando o processo criminal começar, você verá o que acontece com você.”

“Vá o mais longe que quiser”, consentiu o Sr. Fogg, sem entusiasmo. “Você não pode me tornar responsável pelos atos de uma pessoa que eu não conheço de Adão.”

“Essa é a sua última palavra?”

“Claro que é!” respondeu o promotor bruscamente. “Você deve ser um lunático para pensar o contrário.”

“Muito bem. Posso usar seu telefone para chamar a polícia?”

“Certamente.” O Sr. Fogg acendeu um charuto e pegou um jornal.

“Só um momento antes de usar esse telefone”, objetou o terceiro membro do grupo. “Quero um entendimento. Por favor, saia da sala, Mayo.”

“Fique onde está”, ordenou Fogg. “Não darei chance para qualquer trabalho sujo.” Ele franziu a testa quando o prisioneiro piscou para ele. “Isso me parece uma armação entre vocês dois.”

“Não há armação nenhuma entre nós”, declarou o homem. “É melhor que haja um acordo entre vocês dois. A coisa pode ir até certo ponto, no que me diz respeito, e não além. Eu quero um entendimento, eu digo!”

Fogg abriu as páginas de seu jornal com um tapa.

“Eu já falei o que tinha que falar”, disse Mayo.

“Pelo amor de Deus, não vou para a cadeia — não por causa de ninguém!”

Fogg removeu seus óculos e lançou ao homem um olhar completo e sem piscar.

“Você tentou dinamitar aquele naufrágio?”

“Isso são ordens — ordens para falar abertamente?”

“Ordens? Não sei o que você quer dizer, senhor. Fiz-lhe uma pergunta direta.”

“E você quer uma resposta?”

“Naturalmente.”

“O que tentei fazer não funcionou — ele foi rápido demais para mim. Pronto, agora, entendam-se! Ele lhe fez uma oferta justa, Sr. Fogg. Não há necessidade de eu ir para a cadeia. Eu não vou!”

“Você deveria ir, pelo que fez!” comentou Fogg, secamente.

“Não, pelo que ele não fez — do seu ponto de vista”, sugeriu o Capitão Mayo.

“E você tem se gabado, eh?” Fogg manteve seu olhar desconcertante, com olhos de peixe.

“Não vou deixar que homens passem por cima de mim e limpem os pés em mim quando estou cumprindo ordens.”

“Ordens de quem, senhor?”

“Que diabo, ordens de homens que podem me proteger dizendo uma palavra! Não vou suportar toda essa confusão de charadas! Direto agora, Sr. Fogg, o que me diz?”

“Nem uma palavra! Se o que esse sujeito diz é verdade, você deveria estar na cadeia.”

“O conselho é bom. Ele estará lá muito em breve”, declarou Mayo, caminhando para o telefone. Fogg recolocou seus óculos e começou a ler.

“Estou pronto para explodir!” avisou o homem. Ele correu pela sala e guardou o telefone com os braços abertos.

“Ambos se arrependerão se a polícia for chamada”, gritou ele. Para Mayo, que estava perto dele, murmurou: “Maldito seja, se ele me descartar assim, você será o vencedor!”

Havia tanta realidade no rancor do homem que Mayo ficou impressionado e agarrou a ideia que lhe ocorreu.

“Vamos testar seu amigo”, sussurrou ele, agarrando o homem e fingindo uma luta. “Vou simular uma ligação. Continue lutando.”

Fogg deu apenas atenção indiferente ao caso no canto da sala.

Com uma mão segurando o gancho do telefone, Mayo ligou; ele foi empurrado violentamente, mas conseguiu dizer: “Secretaria? Chame a polícia para o hotel — saguão — imediatamente!”

“Sr. Fogg”, implorou o homem, dando a Mayo um cutucão de entendimento com o cotovelo, “você não vai me dar uma chance para uma conversa privada?”

“Se você falar comigo ou tentar me ver novamente, mandarei prendê-lo.”

“Mas você está me descartando.”

“Saiam desta sala, ambos! Não quero a polícia aqui.”

Mayo bateu a mão no ombro de seu prisioneiro e o empurrou para fora.

“Desça as escadas devagar”, protestou o homem. “Ele é obrigado a sair e me chamar de volta! Ele tem que fazer isso! Ele não se atreve a me descartar!”

“Ele se atreve a fazer qualquer coisa”, afirmou Mayo, amargamente, “incluindo o que fez comigo e com o Montana. Suponho que você tenha lido sobre isso — todos os outros leram.”

Eles caminharam calmamente, mas a porta do Sr. Fogg permaneceu fechada. Eles esperaram no saguão do hotel. Ele não apareceu.

“Pelo Judas!” sibilou o homem, “outro par de ases rasgado e jogado no descarte junto com você! E eu ajudei eles a fazerem isso com você! Vou falar a verdade, Mayo! Aquela história do telefone foi um truque muito amigável para me ajudar a forçá-lo. Eu aprecio isso! Eu estava a bordo do Montana naquela noite em que você e ela se deram mal! Meu nome é Burkett — Oliver. Eu estava lá, embora você não tenha me visto.”

“Ouvi dizer que você estava lá, depois”, afirmou o Capitão Mayo, sombriamente. “O Capitão Wass mencionou você!”

“E provavelmente não me deu uma boa reputação. Não posso evitar isso! Você não precisa depositar nem um pouco mais de confiança em mim, Capitão Mayo, do que você quiser. Não peço que tenha qualquer respeito por mim. Mas quero lhe dizer que, quando um homem promete me apoiar e depois vira as costas e me descarta para cobrir seus próprios rastros, ele receberá o troco se eu for capaz de entregar! Eu geralmente sou sujo. Sou especialmente sujo em um caso como esse!”

“Se você me mostrar algum favor, Sr. Burkett, suponho que terei que depender do seu rancor contra Fogg em vez de seu afeto por mim. Veja, sou perfeitamente franco. Mas fui enganado demais para depositar confiança em qualquer pessoa.”

“Não peço que confie em mim. Eu sei como o trabalho do Montana foi feito. Não vou lhe contar agora. Vou me certificar de que fui enganado pelo Fogg. E se eu tiver sido — se ele fala sério — vou usar você para que eu possa me vingar dele, não importa o quanto isso ajude você. Posso ser bastante franco, entende!”

Eles ficaram em silêncio e olharam um para o outro.

“Bem?” perguntou Burkett, azedo.

“Bem, o quê?” perguntou Mayo, com o mínimo de demonstração de gosto.

“O que dizer sobre esse negócio de polícia — sobre sua queixa contra mim?”

“Não vou dizer nada sobre o caso! Você está livre, no que me diz respeito. Estou em terra aqui para conseguir algum dinheiro ou crédito. Não posso perder tempo no tribunal, me incomodando com você.”

“Acho que você obteve sua satisfação com aquela surra que me deu. Eu comecei a gostar de você depois disso”, disse Burkett, puxando um canto da boca para um sorriso que era uma careta. “Vou ficar neste hotel.”

“Fogg verá que nosso caso agora há pouco foi um blefe. Ele terá você no acampamento mais uma vez.”

“Você tem que correr seus riscos com isso, Mayo. O que você me diz?”

“Correrei meus riscos.”

“Pelo amor de Deus! Senhor, você é um sujeito honrado, e não estou encontrando muitos desse tipo nestes dias! Deixe isso como está. Antes de deixar a cidade, mande uma palavra para mim aqui. Eu lhe contarei as novidades!”

Com esse entendimento, eles se separaram.

Três dias depois, reconhecendo para si mesmo que era um jovem totalmente derrotado, Mayo entrou no Hotel Nicholas. Ele não tinha conseguido obter encorajamento, dinheiro ou crédito. Havia partes que o apoiariam em qualquer tentativa de desmantelar o Conomo; mas sua proposta de levantá-lo com a ajuda da tribo de Hue and Cry fazia seu projeto parecer uma piada enorme e despertava grande diversão por toda a orla. Em todos os lugares ele encontrava provas do trabalho organizado de desencorajamento de Fogg. Se uma verdadeira companhia de salvamento tinha rejeitado o esquema como impraticável, como poderiam amadores sem dinheiro ter esperança? Aceitava-se nos círculos empresariais e financeiros que eles tinham esperança porque eram amadores.

A perspectiva de Mayo sobre seus assuntos estritamente pessoais era tão sombria quanto sua visão do projeto Razee, no qual seus associados estavam envolvidos. Ele foi ao hotel apenas porque prometera a Burkett que avisaria aquele bucaneiro moderno sobre qualquer partida pretendida. Ele refletiu, desanimado, que se Fogg e Burkett tivessem concordado novamente, a combinação contra ele ainda existia. Se eles estivessem persistentemente em desacordo, Burkett era apenas um agente desacreditado cuja palavra, sem provas, poderia ser tão facilmente descartada quanto sua conexão com Fogg no assunto do Conomo. Na verdade, assim ponderou Mayo, ele poderia achar perigosa a associação com Burkett, porque demandas por consideração podem ser distorcidas em semelhança de chantagem por advogados habilidosos. Ele tinha tão poucas esperanças em relação a qualquer assistência de Burkett que ficou bastante aliviado ao descobrir que o homem não era mais um hóspede no hotel.

“Ele deixou a cidade?”

“Suponho que não haja segredo sobre isso”, explicou o recepcionista. “O Sr. Fogg mandou prender o homem ontem, por palavras e ações ameaçadoras. Algo desse tipo. De qualquer forma, ele está na cadeia e deve pagar fiança para manter a paz.”

O interesse vacilante de Mayo nas possibilidades de Burkett como uma ajuda em seus assuntos foi um pouco acelerado por essa notícia, e ele correu para a cadeia. Se algum dia um pássaro de passagem capturado e rebelde bateu as asas contra as grades de sua gaiola em fúria e desespero, o Sr. Burkett estava fazendo isso com vigor. Mayo, admitido como um amigo que poderia ajudar a conter o distúrbio que estava fazendo os carcereiros ensurdecidos e os prisioneiros enlouquecidos pelo barulho lamentarem a presença do Sr. Burkett, encontrou o homem agarrado às barras de ferro e chutando-as.

“É a última coisa que ele fez antes de sair da cidade, isso que ele fez comigo. Não posso pagar fiança. Não conheço ninguém nesta cidade”, delirou o prisioneiro.

“Receio que não conheça muito bem o pessoal aqui, a julgar pelas minhas experiências tentando levantar dinheiro”, afirmou o Capitão Mayo, depois de ter acalmado Burkett. “Mas vou sair e ver o que posso fazer.”

Após algum apelo, ele convenceu um atacadista de peixes a ir à cadeia com ele e inspecionar Burkett como um risco no que diz respeito às fianças. O Sr. Burkett, sendo um homem de astúcia, controlou sua ira e ofereceu uma aparência aceitável de suavidade.

“Mas como saberei que ele não estará caçando esse inimigo assim que eu pagar a fiança?” perguntou o peixeiro.

“O Capitão Mayo está enfrentando um trabalho de naufrágio, na costa”, disse Burkett, “e estou sem trabalho agora e irei com ele. Serei um risco seguro, tudo bem, lá fora.”

“Isso vale para você, Capitão Mayo?”

“Sim, senhor.”

Depois que a questão das fianças foi arranjada perante o comissário, e quando Burkett caminhava pela rua com Mayo, este último parou em uma esquina.

“Vou ter que deixar você aqui, Burkett. Estou indo a bordo da escuna. Estamos partindo.”

“Mas e quanto a você me levar?”

“Eu estava disposto a ajudar você a mentir até esse ponto, Burkett. Eu sabia que você não pretendia ir comigo.”

“Não quero colocar você em má situação com ninguém depois disso, Capitão Mayo. Preciso ficar longe por um tempo, onde não correrei o risco de ver Fletcher Fogg. Se eu encontrá-lo enquanto estou espumando assim, eu o matarei, mesmo que signifique a cadeira elétrica. Me dê um lugar a bordo desse vapor, não importa quão ruins sejam suas perspectivas, e serei correto com você. Essa é a palavra de homem que lhe dou. Percebo que não é muita palavra na sua estimação — mas há algumas promessas que posso manter. Proponho ajudar você a se vingar de Fogg e sua gangue. Essa é razão suficiente para o que estou fazendo”, implorou ele, sinceramente. “Você deveria ver isso por si mesmo. Sou tão bom com máquinas quanto sou na casa do piloto. Não vou atrasar você em nada!”

“Tudo bem, Sr. Burkett, venha”, concordou Mayo, secamente, sem entusiasmo.

Havia um vento favorável para sua partida e Mayo direcionou a escuna para Maquoit. As poucas palavras que o Capitão Candage tinha deixado escapar sobre o estado de espírito de Rowley preocupavam Mayo. Seu pequeno edifício de esperança estava cambaleando para uma queda, mas a perda do Ethel and May significaria o último empurrão e a ruína total. Ele decidiu que estava honradamente obrigado a preservar a escuna para o uso dos homens de Hue and Cry, mesmo que isso significasse o abandono do Conomo e o retorno à pesca. Sem aquela embarcação, eles seriam indigentes mais uma vez.

O Ethel and May entrou sorrateiramente no porto de Maquoit — se é que se pode dizer que uma escuna entra sorrateiramente. Uma brisa ao cair da noite a impulsionou, e quando sua âncora desceu, a corrente enferrujada gemeu queixosamente do seu escovém.

Mayo remou até a costa e labutou pelo caminho subindo a pequena rua até a cabana da viúva. Ele tinha vergonha de encontrar Polly Candage — vergonha com os sentimentos de um homem forte que se esforçou ao máximo e falhou. Mas, de alguma forma, ele queria sentir aquele aperto fraternal de sua mão e olhar para aqueles olhos cinzentos encorajadores. Ele se lembrava de que, no passado, ela o acalmara e estimulara. Desta vez, ele não veio até ela esperando obter nova coragem para mais esforços; ele tinha esgotado todos os recursos, dizia a si mesmo. Mas em sua amarga humilhação, ele precisava da companhia de uma verdadeira amiga — sim, sentia ele, quase que ela era agora a única amiga que lhe restava. Suas experiências com aqueles que ele antes considerava amigos fizeram-no sentir que estava sozinho.

Ela veio correndo até ele na pequena sala, com as mãos estendidas e o rosto radiante.

Ele sentiu, à primeira vista dela, e seu rosto corou ao pensar em sua fraqueza, que queria colocar a cabeça no ombro dela e chorar.

“Seu pobre rapaz, as coisas não têm corrido bem!”

Ele engasgou, pois a carícia em seu tom tocou seu coração. Ele acariciou as mãos dela, e ela se sentou ao lado dele no antigo sofá de crina.

“Tive uma semana terrível, Polly.”

Seu doce sorriso não vacilou. Os olhos cinzentos fitaram diretamente os dele.

“Falei com eles até minha boca ficar seca e minha língua dolorida, e Deus sabe que meu coração está dolorido. Tudo o que fazem é olhar para mim e balançar a cabeça. Pensei que tinha amigos ao longo da costa — homens que acreditavam em mim — homens que aceitariam minha palavra e me ajudariam. Nunca mais serei enganado pelos sujeitos que dão tapinhas nas costas em tempo ensolarado, e não emprestam um guarda-chuva quando chove, a menos que você deixe seu relógio com eles como garantia. E falando no relógio”, continuou ele, sorrindo melancolicamente, pois a simples presença dela e sua simpatia tácita tinham começado a animá-lo, “lembra-me por que estou aqui em Maquoit. Ah, sim”, acrescentou ele, apressadamente, ao notar um estranho olhar de desapontamento no rosto dela, “eu queria ver você. Ansiava por vê-la depois que todos os outros me deram as costas. Há algo maravilhosamente reconfortante em seu rosto, Polly, quando você apenas olha para mim. Você não precisa dizer uma palavra.”

“Eu agradeço, Boyd.”

“Ouvi dizer que Rowley está ficando inquieto com sua escuna — quer tirá-la de nós. Então vendi meu relógio e todas as outras pequenas coisas pessoais que pude transformar em dinheiro, e estou aqui para lhe dar o dinheiro e dizer que vamos voltar a pescar novamente.”

“Você vai desistir do vapor?”

“Sim — e sonhos, perspectivas e tudo. Eu tenho que fazer isso.”

“Mas se você pudesse vencer!”

“Ficarei lá embaixo, onde pertenço. Não sonharei mais.”

“Não desista.”

“Não há mais nada a fazer. Nós, pobres diabos, precisamos de algo além de nossas mãos vazias.”

A moça lutou muito com sua próxima pergunta, mas ele não notou suas emoções, pois seus cotovelos estavam sobre os joelhos e ele estava olhando para o tapete de retalhos.

“Custará muito dinheiro o que você quer fazer no vapor?”

“Podemos precisar de muito antes que possamos fazer tudo. Mas tenho ficado acordado à noite planejando a coisa, Polly. Tenho passado por cima disso várias vezes. Quando eu estava a bordo do vapor esperando por seu pai, examinei-o o melhor que pude. Se eu tivesse um pouco de dinheiro, poderia começar, e depois que começasse, e pudesse mostrar aos duvidosos o que poderia ser feito, poderia arrecadar mais dinheiro então. Tenho certeza disso. Claro que o primeiro investimento é a aposta mais perigosa, e é por isso que todos estão tímidos. Mas acredito que meu esquema funcionaria, embora não pareça conseguir fazer mais ninguém acreditar nisso.”

“Eu entenderia se você me contasse?”

“Eu conseguiria um equipamento de mergulho e material, e construiria anteparas nele, de ambos os lados do buraco no fundo. Então, eu teria um motor e bombas, e mostraria que poderia tirar a água dele, ou o suficiente para que ele flutuasse.”

“Mas o buraco grande, você não consertaria?”

“Acho que poderíamos reforçar as anteparas para que pudéssemos manter a água fora de ambas as extremidades dele e deixar o buraco principal sozinho.”

“E ele não afundaria?”

Ele foi paciente com a falta de sabedoria da moça sobre as maneiras do mar.

“Desde que você está aqui em Maquoit, Polly, você viu os barcos de lagosta com o que chamam de 'poços' neles. Tudo a meia nau está cheio de água, você sabe — entra por buracos perfurados no casco — água do mar fresca que entra e sai e mantém as lagostas vivas até chegarem ao mercado. Mas a embarcação é estanque em ambas as extremidades, e ela flutua. Bem, é isso que planejo fazer com o Conomo. Com alguns milhares de dólares, tenho certeza de que posso fazer um começo suficiente para mostrar a eles que o resto pode ser feito.” Ele perdeu prontamente o pouco de entusiasmo que mostrara enquanto explicava. Ele começou seu levantamento sombrio do tapete mais uma vez. “Mas não adianta. Ninguém quer ouvir um homem que quer pedir dinheiro emprestado com base em uma esperança selvagem.”

Ela ficou em silêncio por um longo tempo, e olhou para ele, e ele não percebeu que era o objeto de tal olhar atento. Várias vezes ela abriu a boca e pareceu prestes a dirigir-se a ele ansiosamente, pois seus olhos estavam brilhantes e suas bochechas coradas.

“Eu gostaria de ter o dinheiro para lhe emprestar”, aventurou-se ela, finalmente.

“Oh, eu não aceitaria — não de uma moça, Polly. Não, de jeito nenhum! Esta é uma aposta para homens — não um investimento para viúvas e órfãos”, declarou ele, sorrindo para ela. “Eu acredito nisso; isso porque estou desesperado e preciso vencer. É por uma grande razão, Polly!”

Ela virou o rosto e ficou pálida. Ela corou com suas próximas palavras:

“A coisa mais importante do mundo para mim é tirar aquele vapor de Razee e mostrar a esse maldito Marston e toda a sua gangue costeira que não sou um blefador. Estou com sangue nos olhos por causa deles!”

Ele acariciou as mãos que ela mantinha unidas sobre os joelhos, e não percebeu que ela entrelaçava os dedos com tanta força que estavam quase desprovidos de sangue. Ele se levantou e caminhou em direção à porta.

“Vou apaziguar Rowley esta noite e estar pronto para uma partida cedo.”

“Boyd”, ela suplicou, “você me faria um pequeno favor?”

“Certamente, Polly.”

“Espere até amanhã de manhã para seus negócios com o Sr. Rowley.”

“Por quê?” Ele a olhou com considerável surpresa.

“Porque... bem, porque você está um pouco tenso e cansado, e você e ele podem discutir, e você pode não usar seu julgamento sereno se ele for ríspido com você. Você sabe que está um pouco em desacordo com todo o mundo agora!” Ela falou nervosamente e sorriu com melancolia. “Eu ficaria triste se você brigasse com o Sr. Rowley porque... bem, papai é sócio e já teve discussões com ele. Por favor, espere até de manhã. Você não deve perder a escuna!”

“Estou muito por baixo para me dar ao luxo de brigar com Rowley, mas farei como você diz, Polly. Boa noite.”

“Você é um bom rapaz por obedecer ao capricho de uma moça. Boa noite.”

No momento em que seu pé deixou o último degrau da varanda, ela correu para seu quarto na casa de campo e pegou um pequeno pacote de sua pasta.

Ela ouviu o baque dos remos do bote dele enquanto caminhava pela rua. Ela ficou feliz em saber que ele estava em segurança, fora de seu caminho.

As janelas encardidas de Rowley lançavam um borrão difuso sobre a noite gelada. Estava perto da hora de ele fechar sua loja e, quando ela entrou, ele estava expulsando os ociosos que tinham se acomodado perto de seu fogão de ferro.

Após alguns momentos de espera, a moça ficou sozinha com ele.

“Não, não quero comprar nada, Sr. Rowley. Preciso de sua ajuda. Peço que me ajude a fazer uma boa ação.”

Ele puxou seus óculos para a ponta do nariz e olhou para ela com dúvida e curiosidade.

“Se for sobre a escuna, prefiro tratar de negócios com homens”, disse ele.

“Este é um negócio que só você e eu podemos fazer, e deve ser um segredo entre nós. Você poderia, por favor, dar uma olhada nesta caderneta bancária?”

Ele lambeu um dedo fino e virou as páginas.

“Depósito de cinco mil dólares e juros acumulados”, observou ele, retomando sua inspeção inquisitiva do semblante animado dela.

“A irmã de minha mãe me deixou esse legado. É toda a minha pequena fortuna, senhor. Quero emprestar esse dinheiro ao meu pai e ao Capitão Mayo.”

“Bem, vá em frente, se você é tola o suficiente para isso. Eu não sou seu guardião”, assentiu o diácono Rowley, estendendo-lhe a caderneta. “Mas aconselho que guarde seu dinheiro. Sei tudo sobre a insensatez deles.”

“Meu pai não aceitaria de mim... e o Capitão Mayo também não.”

“Isso mostra que eles não são patifes, além de serem tolos.”

“Mas tenho fé que eles podem ter sucesso e ganhar muito dinheiro se tiverem um começo”, insistiu ela. “Vejo que o senhor não entende o que preciso de você. Quero que lhes empreste esse dinheiro, como se viesse de você. Eu lhe darei a caderneta e um documento, e você pode sacá-lo.”

“Não, minha senhora.”

“Você não vai ajudar uma moça que precisa tanto de ajuda? Você é um homem cristão, diz você.”

“É exatamente por isso que não posso mentir sobre esse dinheiro. Terei que dizer a eles que sou eu quem está emprestando.”

“Você estará emprestando.”

“Como assim, senhorita?”

“Pelo seu incômodo no assunto, deixarei que você fique com os juros para si mesmo, a seis por cento. Oh, Diácono Rowley, tudo o que precisa fazer é entregar o dinheiro e dizer que prefere não falar sobre isso. Você é um homem de negócios esperto; saberá o que dizer sem proferir uma falsidade. Você partirá meu coração se recusar. Pense! Você está apenas me ajudando a ajudar meu próprio pai. Ele tem noções tolas sobre isso. Você pode dizer que vai deixá-los ter o dinheiro por um ano, e receberá trezentos dólares de juros pelo seu trabalho.”

“Não acredito que eles algum dia ganharão o suficiente para pagar os juros... muito menos o principal.”

“Dê a eles cinco mil dólares e retire um ano de juros para você dos meus juros que foram acumulados.”

“Diga, quantos anos você tem?”

“Farei vinte e dois em junho.”

O Diácono Rowley olhou para ela calculista, dedilhando o nariz.

“Sendo maior de idade, você deveria saber o que faz, mas, sendo maior de idade, pode fazer o que quiser com o que é seu. Você promete nunca contar nada a ninguém sobre isso?”

“Eu prometo, solenemente.”

“Então você assina alguns papéis quando eu os preparar, e eu entregarei o dinheiro a eles; mas veja bem, se eu sair correndo atrás deles com cinco mil dólares, eles vão suspeitar que estou louco, ou algo pior. Não é do feitio de Rufus Rowley fazer algo desse tipo com seu dinheiro.”

“Eu sei”, ela confessou, suavizando seu acordo franco com um sorriso ingênuo. “Mas o Capitão Mayo virá vê-lo amanhã de manhã a negócios sobre a escuna, e você pode colocar o assunto para ele de alguma forma. Oh, eu sei que você é tão perspicaz e esperto que pode fazer isso sem que ele suspeite de nada.”

“Não sei se está me elogiando ou zombando de mim, senhorita. Mas vou levar isso adiante, de alguma forma.”

Ela assinou os papéis dando-lhe uma procuração, deixou sua caderneta bancária com ele e partiu noite adentro, com o rosto radiante.

Ela lançou um beijo feliz à luz de ancoragem fraca que marcava a localização da Ethel and May no porto.

“Estou ajudando você a conseguir a garota que ama”, disse ela, em voz alta.

Ela seguiu em direção à casa da viúva. Sua cabeça estava erguida, mas havia lágrimas em suas faces.

XXIX ~ OS TRABALHADORES DE OLD RAZEE

Hurra! Hurra! pela astúcia ianque. Hurra! Hurra! pela coragem de Cape Ann. É a determinação e o ímpeto que certamente vencerão -- “A Horton chegou! A Horton chegou!” -- Folclore Local.

Polly Candage, cobrindo suas emoções com aquela máscara de recato que a natureza empresta ao sexo mais frágil para sua proteção, recebeu um Mayo tumultuado na manhã seguinte na sala de estar da casa de campo.

“Não sei como aconteceu. Não consigo entender”, ele explodiu. “Eu não supus que alguém pudesse extrair dinheiro do bolso dele com dinamite — seu pai disse que não podia ser feito. Mas o Diácono Rowley nos emprestou cinco mil dólares. Aqui está o cheque dele do First National de Limeport. Cobra apenas seis por cento. Estou tão fraco que foi tudo o que pude fazer para subir até aqui.”

“O que ele disse para explicar isso?”, indagou Polly, com a curiosidade de donzela em aprender até que ponto de prevaricação um diácono iria para ganhar trezentos dólares.

“Não quis dizer quase nada. Entregou este cheque, disse que meu endosso nele seria suficiente como recibo, e disse que seu pai e eu poderíamos assinar uma nota promissória conjunta mais tarde — algum dia — quando ele tivesse tempo. Você ouviu algum boato de que o velho está perdendo a cabeça? Mas este cheque parece bom!”

“Bem, acho que ele tem refletido sobre o assunto desde que meu pai esteve lá. Na verdade, o Diácono Rowley disse algumas coisas para mim”, disse a moça, encontrando o olhar de Mayo francamente. “Não muito, é claro, mas algo que insinuava que ele tinha muita confiança em ambos, vendo que vocês o trataram bem nos outros negócios que ele fez com vocês. Às vezes, você sabe, esses velhos ianques durões passam a gostar de alguém e fazem coisas de repente.”

“Isso é repentino, com certeza”, afirmou Mayo, arranhando a borda serrilhada do cheque contra a palma da mão como se para ter certeza de que era real e não uma sombra. “Sim, ele me disse para não mencionar a nota a ele até que ele dissesse algo a nós sobre isso, e para ficar calado sobre o empréstimo. Não queria outros correndo atrás dele com seus esquemas.”

“E se eu estivesse no seu lugar”, aconselhou a moça, “eu não diria a papai de onde você conseguiu o dinheiro — não por enquanto. Você sabe, ele não se dá muito bem com o Diácono Rowley — velhos às vezes discutem tanto — e ele poderia ficar preocupado, pensando que o diácono tinha algum esquema por trás disso. Mas você não pensa dessa maneira, pensa?”

“Eu tenho o dinheiro, e ele não me pediu para assinar nenhum papel. Não há volta a dar aí, até onde posso ver”, declarou o jovem.

“Agora o que você vai fazer?”

“Correr para Limeport, alugar equipamentos — pois tenho dinheiro para pagar adiantado por qualquer locação — e chegar àquele naufrágio e terminar meu trabalho.”

“Apenas diga a papai que você conseguiu o dinheiro — de um amigo! Se ele estiver preocupado com alguma coisa, ele não trabalha nem metade tão bem. Pedirei a Deus para ajudar e abençoar vocês a cada hora do dia.”

“Polly Candage”, exclamou Mayo, pegando suas mãos mornas e cheias, “há algo em você que colocou coragem, fibra e determinação em mim desde que você acariciou meu ombro lá na velha Polly. Tenho pensado muito nisso — tive tempo para pensar quando estava lá a bordo daquele navio, esperando.”

“Só há uma garota para você pensar”, ela censurou.

O rosto dele se anuviou. “E é o tipo de pensamento que não é saudável para um homem com uma mente normal. Graças ao Senhor, tenho algum trabalho real para pensar agora — e o dinheiro para fazer esse trabalho.” Ele acariciou o bolso.

Ela foi com ele até o cais, e quando a escuna deslizou para o mar atrás de Hue and Cry, seu lenço branco deu-lhe a saudação final e um silencioso boa viagem.

O Capitão Boyd Mayo, de volta a Limeport mais uma vez, não era o suplicante acovardado, apologético e implorante que havia solicitado aos maquinistas e proprietários de estaleiros da orla alguns dias antes. Ele não ofereceu cheques para que eles olhassem com desdém. Ele tirou uma carteira que estava pletórica com notas novas e amareladas. Ele mostrava seu dinheiro frequentemente, e com um propósito. Ele fazia negócios rigorosos enquanto o mantinha à vista. Recebia ofertas de crédito em lugares onde antes tinha sido negado. Tal magia exerce a riqueza visível nas transações entre homens!

Ele não encontrou Fletcher Fogg em Limeport, e ficou feliz com isso. Alguém o informou que o magnata havia voltado para Nova York. Era manifesto para Mayo que, em seu desprezo, Fogg decidira que o salvamento do Conomo intacto havia sido relegado ao depósito dos sonhos. Seu propósito seria atendido se ela fosse transformada em sucata, assim o jovem percebeu. Apenas o Conomo flutuando, um pioneiro de sucesso em novos experimentos de transporte ao longo da costa, ameaçaria seus interesses investidos.

Houvera ventos invernais e calmaria intermitente nos dias desde que Mayo estivera processando seus projetos em terra. Mas, de boca em boca, por pescadores errantes e capitães de paquetes, ele fora assegurado de que o vapor ainda estava preso em Razee.

E quando finalmente estava equipado, ele partiu de Limeport; ele foi alegremente, embora soubesse que um trabalho de titã o esperava. Ele manteve seus planos em segredo sobre o que propunha fazer com o vapor. Ele até permitiu que as fofocas da orla adivinhassem, sem contestação, que ele ia transformar o naufrágio em sucata. Ele não estava convidando mais daquela hostilidade descarada que caracterizava as operações de Fogg e seus capangas.

Ele estava ao leme de uma balsa robusta que havia fretado; o resto da tripulação ele forneceu de seus próprios homens. A balsa era movida por sua própria energia e carregava uma boa bomba e um guindaste resistente; seus conveses estavam carregados de carvão. A escuna agora era apenas um comboio. Foi uma viagem de um dia inteiro até Razee, pois a balsa era uma embarcação lenta e desajeitada, mas quando Mayo finalmente se prendeu ao lado do Conomo e soltou uma saudação estridente com o apito, a alegria que encontrou no semblante rubicundo do Capitão Candage compensou a ansiedade e o atraso.

“Eu sabia que você conseguiria, de alguma forma”, garantiu o velho capitão. “Mas quem você teve que derrubar em um lugar escuro para roubar o dinheiro dele?”

“Isso é assunto privado até que estejamos prontos para pagar de volta, com seis por cento de juros”, afirmou o jovem, sem rodeios.

“Oh, muito bem. Desde que nós o tenhamos, não me importo onde você o roubou”, respondeu Candage, com grande serenidade. “Eu simplesmente sei que você não o conseguiu do sovina Rowley, e isso é conforto suficiente para mim. Deixe-me dizer que não estivemos folgando a bordo aqui. Equipamos aquele taakul que você vê no alto, e jogamos fora toda a carga que pudemos alcançar. Estava toda estragada pela água. Há um espaço bem livre para operações a meio navio. Tirei todo o cabo sobressalente dela, e está pronto.”

“E você fez um bom trabalho aí, senhor. Temos que prender esta balsa ao lado de tal maneira que uma rajada não a destrua contra nós. Cabos de mola — muitos deles — e somos marinheiros o suficiente para saber como atracar. Mas quando penso no quanto somos amadores no resto deste trabalho, arrepios percorrem meu corpo.”

“Aquela multidão da orla de Limeport pegou você também, hein?”

“Capitão Candage, observei homens mais ou menos nesta vida. Às vezes é uma desvantagem muito grande para um homem ser sábio demais. Enquanto o homem terrivelmente sábio senta-se, balança a cabeça, calcula as possibilidades e diz que não pode ser feito, o tolo se precipita, porque não sabe nada melhor, tropeça no trabalho, o realiza e vence. Vamos continuar sendo tolos, e muito, mas nos manter ocupados do mesmo jeito.”

E nessa base, os amadores de Razee prosseguiram com toda a fibra que havia neles.

Os homens de Hue and Cry tinham muita força muscular e pouca inteligência. Eles não faziam perguntas, não olhavam sombriamente para perspectivas duvidosas. A mesma filosofia, ou a falta dela, que sempre tornara a vida cheia de esperança alegre quando seus estômagos estavam cheios, sem pensar no amanhã, animava-os agora. O destino dera a Mayo e seu associado uma tripulação ideal para aquele trabalho perigoso. Não era uma questão de horas sindicais e salários fixos; eles trabalhavam a noite toda tão alegremente quanto trabalhavam o dia todo.

Uma epopeia do mar foi vivida ali no Recife de Razee durante as semanas que se seguiram.

A tarefa que foi realizada daria uma história por si só, muito além dos limites de tal narrativa como esta deve ser.

O trabalho amargo de muitos dias muitas vezes provou ser um erro triste, pois os homens que trabalhavam ali tinham mais coragem no esforço do que bom entendimento dos métodos.

Então, após a decepção, a esperança reviveu, pois um esforço maior evitou os erros que tinham sido tão custosos.

O peso do trabalho, o dever de ser pioneiro, recaiu sobre Mayo.

Ele vestiu um traje de mergulho e desceu nas entranhas rasgadas do naufrágio e abriu caminho para os outros.

No convés, eles construíram seções de antepara, e ele desceu e tateou na água turva, e pregou os suportes e ajustou aquelas seções e calafetou os espaços entre a antepara e o casco.

Houve tempestades que ameaçaram sua balsa e levaram a pequena escuna para o mar em meio a um turbilhão de tempestade.

Houve calmarias que os animaram com a promessa da primavera.

A escuna era o mensageiro que trazia suprimentos e carvão do continente. Mas os homens que iam à terra recusavam-se a fofocar na orla, e às embarcações ocasionais que apareciam nas proximidades de Razee não era permitido desembarcar pessoas curiosas no naufrágio.

Após muitas semanas, as anteparas foram ajustadas e as bombas foram ligadas. Havia três tripulações para essas bombas, e seu barulho nunca cessava, dia ou noite. Havia menos água na parte da frente; sua proa estava escorada no alto das rochas. O progresso aqui era encorajador.

A ré, houve desastres. Três vezes a antepara cedeu sob a pressão tremenda do mar, assim que as bombas aliviaram a pressão oposta dentro do casco. Mayo, abatido, desleixado, sem fazer a barba, magro com suas vigílias, permanecia debaixo d'água em seu traje de mergulho até se tornar um destroço de homem. Mas, finalmente, eles construíram uma seção transversal que prometia resistir. As bombas começaram a ganhar terreno sobre a água. À medida que a inundação interna diminuía e eles podiam alcançar a antepara mais efetivamente por dentro, eles continuavam adicionando a ela e reforçando-a.

E então veio a necessidade de mais material e mais equipamento, pois o trabalho gigantesco de flutuar o vapor ainda estava à frente deles.

Mayo sentiu que havia provado sua teoria e estava agora em posição de alistar o capital que os veria através. Ele poderia mostrar um casco que estava sólido, exceto pela rachadura a meio navio — um casco de cujas extremidades o mar invasor estava sendo expulso. Com o dinheiro que forneceria balsas de boia, rebocadores e o equipamento maciço para flutuá-la, ele sentiu que seria capaz de converter aquela massa indefesa de sucata em um vapor mais uma vez — transformar ferro-velho em um valor ativo de pelo menos cento e cinquenta mil dólares.

E quando ele e o Capitão Candage chegaram a essa crença esperançosa e sincera, após dias de observação trêmula do trabalho que as bombas estavam fazendo, o jovem foi novamente ao continente em sua missão momentosa.

Ao navegarem para Limeport, Mayo ficou um pouco atônito ao ver verde nas colinas inclinadas. Ele estivera vivendo em um sonho acordado de trabalho árduo em Razee; quase esquecera que tantas semanas haviam se passado.

Quando ele foi para a terra em seu bote a partir da escuna, o hálito suave da primavera soprava para ele de jardins em brotamento e a brisa morna acariciava suas bochechas endurecidas.

Assim como esquecera que a primavera chegara, ele esquecera de sua aparência pessoal. Ele correra para a terra vindo de um trabalho de homem que agora esperava por ele para que voltasse correndo. Ele não percebia que parecia um homem das cavernas — assemelhava-se a algum humano peludo e pré-histórico; sua mente estava cheia demais de seus assuntos em Razee.

Quando o Capitão Mayo caminhou pela rua principal de Limeport, não o incomodou nem um pouco o fato de as pessoas ficarem boquiabertas e virarem-se para encará-lo. Ele se arrancara de sua tarefa gigantesca apenas por um propósito, e essa ideia preenchia sua mente.

Ele estava esfarrapado, suas mãos estavam inchadas, roxas, cortadas e em carne viva pelo trabalho de mergulhador, seu cabelo caía sobre a gola e uma barba mascarava seu rosto. Aqueles que lotavam as ruas estavam aproveitando os primeiros dias quentes para exibir seus trajes de primavera. O contraste dessa figura rude vinda do mar aberto tornava-se ainda mais marcante enquanto ele passava pelas multidões.

Aqui e ali, ele entrava em escritórios onde havia homens que conhecia e aos quais esperava interessar. Ele não tinha uma carteira gorda para exibir a eles desta vez. Ele tinha apenas suas mãos vazias e inchadas e uma história selvagem, ansiosa e gaguejante sobre o que esperava fazer. Eles o encaravam, muitos deles estupidamente, alguns francamente incrédulos, a maioria sem interesse particular. Ele parecia um homem que fracassara miseravelmente; não havia nada nele que sugerisse sucesso.

Um homem colocou a questão sucintamente: “Olha aqui, Mayo, se você entrasse aqui, parecendo como está, e me pedisse vinte e cinco centavos para comprar uma refeição, eu acharia perfeitamente natural e lhe daria os vinte e cinco centavos. Mas dez mil não — você não parece ter o perfil.”

“O que minhas roupas têm a ver com isso? Não tenho tempo para pensar em roupas. Não posso usar uma cartola com um traje de mergulho. Estive trabalhando. E ainda estou no trabalho. O jeito que estou deve mostrar a vocês que falo sério.”

Mas eles o recusaram. Em meia dúzia de escritórios, eles ouviram e balançaram a cabeça ou se recusaram bruscamente a analisar a coisa. Ele não tinha vindo à terra mendigar assistência como se fosse um favor. Ele tinha vindo sentindo-se certo de que, desta vez, tinha algo valioso a oferecer. Seus trabalhos tinham arruinado seu corpo, seus nervos estavam à flor da pele, seu temperamento estava curto. Quando eles se recusaram a ajudar, ele os amaldiçoou e saiu disparado. O fato de permitirem que sua aparência pessoal influenciasse o julgamento deles despertou sua fúria — era tão injusto com sua devoção abnegada à sua tarefa.

Logo ele esgotou seu círculo de conhecidos, mas as recusas o deixaram furioso em vez de desanimado. Empurrando rudemente os pedestres que eram polidos e elegantes, ele marchou pela rua, carrancudo.

E então seus olhos pousaram em um rosto que deu um novo estímulo a toda a amargura que havia nele.

Ele viu Fletcher Fogg parado do lado de fora do Nicholas Hotel. O dia estava ameno, o sol da primavera aquecia, mas era evidente que o Sr. Fogg não estava se regalando satisfeito; sua fisionomia era tão sombria quanto a do Capitão Mayo, e ele mastigava um charuto apagado e cuspia pedaços de fumo sobre o meio-fio enquanto ponderava.

Mayo não estava com disposição para raciocinar com sua paixão. Ele acabara de bater seu orgulho e persistência contra homens cujo modo de recusa mostrava que eles se lembravam do que Fletcher Fogg dissera a respeito das perspectivas de uma flutuação bem-sucedida do Conomo. Lá estava o pirata pesado, bloqueando o caminho de Mayo na calçada, exatamente como havia bloqueado as perspectivas de vida do jovem no caso de Montana — exatamente como havia fechado avenidas de crédito. Mayo esbarrou nele e o empurrou de volta pela calçada até a parede de granito do hotel. Ele colocou suas duas mãos cruas e inchadas sobre o colete imaculado de Fogg e aproximou o rosto barbudo, marcado pelo trabalho e manchado de sal.

Mesmo assim, o promotor não pareceu reconhecer Mayo. Ele piscou apreensivo. Olhou em volta como se pretendesse pedir ajuda.

— Você não parece estar com seu osso da sorte de ferro no bolso desta vez — rosnou o agressor. Ele cutucou cruelmente as costelas de Fogg com os polegares.

— Diabos! Você é... você é o Capitão Mayo! Que eu seja amaldiçoado se o reconheci até você falar!

— Eu consegui me conter da última vez que você me viu, Fogg. Eu estava esperando. Agora, maldito seja, eu peguei você!

Ele se referia meramente à força física com que segurava o homem. Mas Fogg pareceu encontrar um significado mais profundo nas palavras.

— Eu sei, Mayo — ele choramingou. — É por isso que estou aqui. Tenho pensado na melhor maneira de chegar até você... de encontrar você direito!

— Você chegou até mim muito bem, seu renegado infernal!

— Mas, veja bem, Mayo, não podemos tratar deste assunto aqui na rua.

— Não haverá conversa nenhuma! O encontro fora tão inesperado e a ira de Mayo tão impetuosa que o jovem não tinha pensado no que pretendia fazer. Seu impulso era transformar aquele rosto gordo em polpa. Ele já tinha desistido há muito tempo de qualquer esperança de que algum apelo a Fogg como homem ajudaria. Ele não esperava nenhuma consideração, nenhuma restituição.

— Mas precisa haver alguma conversa. Estou aqui para fazê-la. Você me pegou num momento ruim! Eu admito. Mas ouça a razão — implorou ele. — Não vai te fazer bem nenhum espernear.

— Vou amassar sua cara para você! Arcarei com as consequências.

— Mas, depois que fizer isso, você ainda terá que negociar comigo sobre aqueles papéis.

Apesar de sua fúria, Mayo percebeu pelo comportamento e pelas palavras de Fogg que o mero medo de uma surra não estava produzindo aquela humildade; havia um policial na esquina.

— Não fale tão alto — instou Fogg. — Venha ao meu quarto, onde podemos ser discretos.

Mayo hesitou, intrigado com a atitude de seu inimigo.

— É um recado do próprio Velho. Ele me ordenou vir aqui. É de Marston! — sussurrou o promotor. — Estou em uma situação terrível por todos os lados, Mayo.

— Muito bem! Eu irei. Posso bater em você no seu quarto mais confortavelmente!

— Não tenho medo da surra! Quem dera fosse só isso — murmurou Fogg. Ele liderou o caminho para dentro do hotel e Mayo seguiu, recuperando o controle de si mesmo, consciente de que havia alguma nova crise em seus assuntos, sentindo uma rendição de algum tipo na surpreendente humildade de Fogg.

— Vai fumar? — perguntou Fogg, obsequioso, quando estavam no quarto do hotel.

— Não! — Ele recusou com veneno. Viu-se em um dos espelhos compridos e não tinha percebido até então o quão desleixado e grosseiro estava. Sentiu-se desconfortável quando se sentou em uma poltrona acolchoada. Por semanas, estivera acostumado aos improvisos rudes da vida a bordo. Em temperamento e aparência, sentia-se como um homem das cavernas.

— Estou na esperança de que possamos chegar a algum tipo de base amigável — implorou Fogg, humildemente. — Simplesmente brigar pela coisa toda de novo não nos levará a lugar nenhum. Eu tive que fazer certas coisas e as fiz. Você falou do meu osso da sorte de ferro! Agora, sobre aquele assunto de Montana...

— Não quero nenhum ensaio, Sr. Fogg. Qual é o seu negócio comigo?

— É difícil começar a menos que eu possa sentir que você ouviria algumas explicações e faria algumas concessões. Quando um homem trabalha para Julius Marston, ele tem que esquecer de si mesmo e fazer...

— Eu já trabalhei para Julius Marston!

— Mas não no jogo das finanças, Mayo! — Havia um tremor na voz do promotor. — Os homens são apenas sombras para ele quando se trata de grandes finanças. Ele dá suas ordens para que os resultados sejam produzidos. Ele não para para pensar nos homens envolvidos. São os números em seus livros que ele observa! Ele usa um homem como usaria um guardanapo à mesa!

— Como você me usou! Você teve um bom treinamento!

— Bem, se o truque foi passado adiante, agora está sendo passado para cima — declarou Fogg, desanimado. — Eu sou o bode expiatório, agora mesmo. Você não pode me ver pessoalmente neste assunto?

— Eu não quero. Eu me levantaria e usaria estes punhos em você, por mais doloridos que estejam!

— Temo que seja um assunto difícil para nós resolvermos — suspirou o promotor. — Pensei que tinha deixado tudo amarrado da maneira usual. Maldita seja, se não fosse por uma mulher estar misturada nisso, a coisa teria dado certo! — Ele deixou sua raiva solta. — Você nunca pode contar com negócios quando uma mulher mete os dedos! Não me importa se você está apaixonado pela filha de Marston, Mayo! Ela é como muitas outras garotas mimadas e malditas que sempre tiveram mais tempo e dinheiro do que é bom para elas. Ela é o Problema agitando anáguas! E você deve ter uma hipoteca considerável sobre ela, vendo que ela traiu o próprio pai para tirar suas castanhas do fogo!

Não tendo a menor ideia do que o Sr. Fogg estava falando, Mayo ficou em silêncio.

— Você é frio! Tenho que admitir! — disparou o promotor.

— É melhor o senhor deixar o nome da Srta. Marston fora deste negócio comigo.

— Como diabos posso deixá-lo fora, vendo o que ela fez?

E Mayo, sem saber que nova explosão marcara as atividades da incompreensível jovem, retomou seu silêncio sombrio, seus próprios interesses sugerindo que uma espera vigilante seria sua melhor política.

— Bem, o que você vai dizer sobre os papéis? — exigiu Fogg. — Podemos muito bem ir direto ao ponto!

— Não vou dizer nada.

— Você tem que dizer algo, Mayo. Este é um assunto grande demais para brincadeiras. Se você for razoável, pode me ajudar a consertar isso — e isso ajudará a garota. Ela é filha de Marston, com certeza, e o pai dela entende como ela é errática e releva suas loucuras. Mas ele não pode tolerar certas coisas.

Naquele momento, a curiosidade era mais ardente em Mayo do que o ressentimento, embora o tom de Fogg em relação a Alma Marston provocasse a última emoção. Era evidente que ela tinha empreendido algo em seu favor — de alguma maneira sacrificara os interesses do pai e sua própria paz de espírito para ajudar o pária. Ele se perguntou por que não sentia mais alegria ao ouvir aquela notícia. Lembrou-se da promessa dela quando se separaram, mas não depositara esperanças nela. Isso não o consolara enquanto lutava com seus problemas. Estava consciente de que seus sentimentos em relação a todo o caso eram bastante complexos, e ele não se incomodou em analisá-los; ficou parado e encarou o Sr. Fogg com uma expressão de total indiferença.

— Você está com os papéis?

— Não! — Ele acrescentou: — Claro que não!

— Tudo bem. Pode ser melhor, desde que estejam em um lugar seguro. Agora veja aqui, Mayo! Não vou fazer jogo duro com você. Não posso, dadas as circunstâncias. Não sei para onde Burkett foi e...

— Burkett está comigo no Conomo. Eu também não vou fazer jogo duro com você, Fogg!

— Não me importa onde ele está nem o que ele lhe disse. Quaisquer alegações de mentirosos comuns e homens que foram demitidos podem ser resolvidas no tribunal, sob a lei de chantagem. Mas no caso desses papéis é diferente. Sou aberto e franco com você, Mayo. Fomos traídos de dentro do forte. Por algum vazamento no escritório, aquela garota conseguiu esses papéis. Não sei qual é o seu senso de honra em tais assuntos. Não estou aqui para apelar para ele. Muita sujeira foi feita com você para que esse argumento tenha qualquer efeito especial. Sou aberto e franco, eu disse! — Ele estendeu as mãos. — Provavelmente ela nem percebeu o que estava fazendo! Mas agora que você tem os papéis, você percebe!

Nem por um piscar de olhos Mayo traiu sua total ignorância sobre o que Fogg se referia.

— Quero perguntar-lhe, de homem para homem — prosseguiu o emissário —, se você pretende usar esses papéis apenas para si mesmo — para recuperar... bem... você sabe! — Ele acenou com a mão. — Ou se você vai cortar para a direita e para a esquerda com eles, por vingança geral?

— Eu não decidi.

— É uma pergunta justa que fiz. No que diz respeito a você em qualquer coisa que possa estar nesses papéis — e isso são principalmente meus próprios relatórios —, você será compensado e mais, capitão. Você pode ter o Triton com um contrato de dez anos como mestre, contrato a ser protegido por uma fiança, seu pagamento de duzentos e cinquenta dólares por mês. É claro que esse acordo inclui sua reintegração como mestre licenciado e a queda de todas as acusações no caso de Montana. Não há acusação, e as testemunhas serão cuidadas, de modo que o assunto não surgirá, desde que você tenha inimigos. Isso é conversa de homem, Mayo! Você terá que admitir!

— Há outra coisa que deve ser admitida, Fogg! Fui desonrado, perseguido e vitimado. Os homens ao longo desta costa, a maioria deles, sempre acreditarão que cometi um erro. Você sabe o que isso significa para um mestre de navio!

O Sr. Fogg limpou a umidade de suas bochechas com um lenço roxo.

— Você foi colocado em uma situação terrivelmente errada. Eu admito. Fui longe demais. É por isso que Marston está me fazendo de bode expiatório agora. Serei descartado se este assunto não for resolvido entre nós!

— Eu estava neste mesmo quarto um dia, Sr. Fogg, e vi como você descartou um tal de Burkett. Você parecia gostar de fazê-lo. Por que eu não deveria ter um pouco de diversão própria?

— Eu tive que descartá-lo. Ele era um tolo. Ele tinha se gabado. Eu tinha que proteger os interesses, assim como a mim mesmo. Mas você não tem nada a considerar, agora, a não ser seu próprio lucro.

— É mesmo? — perguntou Mayo, sardônico. — Você parece ter me classificado como um desses anjos gentis e perdoadores.

— Agora, veja aqui, Mayo, não deixe que noções tolas fiquem no caminho de você se dar bem. Não faz sentido; não é negócio! Você tem algo que queremos e estamos dispostos a pagar por isso.

— Que outras amarras estão presas? — perguntou o jovem, fingindo intratabilidade como seu melhor recurso neste assunto intrigante.

— Bem, é claro que você desiste desse trabalho tolo que está fazendo. Pare de ser um sucateiro!

— Eu não sou um sucateiro. Nós vamos flutuar o Conomo.

— Mayo, fale sensatamente! Esse trabalho não pode ser feito!

— Então você tem dito a todos os fornecedores e banqueiros nesta cidade, Fogg! Mas agora você está falando com um homem que sabe mais. E deixe-me dizer outra coisa a você. Não farei negócios com o tipo de homem que você mostrou ser.

— Não seja um menino, Mayo. Estou aqui com plenos poderes. Vamos tirar esse destroço de suas mãos.

— Quer matá-la como ela está, não é?

— É problema nosso o que fazemos com ela depois que pagarmos nosso dinheiro — declarou Fogg, ofendido.

— Há algo mais do que negócios — negócios com você — neste assunto.

— Sim, vejo que há! É sua vingança infantil que você está procurando. Vou lhe dar dez mil dólares para dividir entre aquele bando de indigentes. Mande-os embora para pescar e seja sensato.

— Não adianta falarmos, Fogg. Vejo que você não me entende de forma alguma. Você deveria saber que não deve me pedir para vender a mim mesmo e aos meus sócios. — Ele se levantou e começou a caminhar para a porta.

— Sócios — aqueles indigentes?

— Eles congelaram e suaram, trabalharam e passaram fome comigo lá fora no Razee Reef, Fogg. Eles são sócios.

— Qual é a sua parte? O que dizem os papéis? — insistiu o promotor, seguindo Mayo.

— Nem um traço de caneta. Apenas a decência e a honra de um homem. Você e seu chefe não têm dinheiro suficiente para comprar... Não há nada para vender!

— Mas há algumas coisas que podemos comprar, se chegou a uma questão de chantagem — enfureceu-se Fogg. — Você é barato o suficiente para negociar com a intromissão maldita de uma garota tola em assuntos que ela não entendia? Você tem apalpado esses papéis. Você sabe o que eles significam!

Mayo virou-se e olhou para o homem excitado.

— Eles não têm nada a ver com você ou seus assuntos, a maioria desses papéis — soltou Fogg. — Mayo, seja razoável. Não podemos nos dar ao luxo de ter nossas holdings expostas. O sindicato pode passar por essa lei federal infernal se trabalharmos com cuidado.

— Caso contrário, Marston, você e alguns outros poderiam ir para Atlanta, eh?

— Não é tarde demais para mandar você para lá.

— Você está preocupado com esses papéis, está?

— É claro que estou preocupado com eles! O que você acha que estou fazendo aqui?

— Continue se preocupando, Sr. Fogg! Venha para o pequeno canto do inferno onde estive nos últimos meses; o fogo está ótimo!

Ele puxou a porta e bateu-a atrás de si, interrompendo os apelos frenéticos do promotor.

XXX ~ O ASSUNTO DE UM MONOGRAMA EM CERA

Venha, ouça um pouco e logo saberá. Pelo mar revolto viveu uma donzela justa. Seu pai seguia o comércio de contrabando Como um heroico guerreiro, Como um heroico guerreiro que nunca teve medo! --A Contrabandista.

O Capitão Mayo levou apenas dúvidas e desencorajamento de volta aos destroços em Razee. Suas dúvidas diziam respeito principalmente aos documentos que o Sr. Fogg buscava tão insistentemente. O próprio Mayo fizera algumas buscas. Perguntou nos correios, mas não havia correspondência para ele. Se nenhum papel tivesse sido extraído dos arquivos de Marston, se esse assunto fosse alguma nova tentativa de astúcia por parte de Fogg, o promotor certamente fizera uma atuação magistral, disse Mayo a si mesmo. Determinou manter seu próprio conselho e esperar pelos desenvolvimentos.

Dois dias depois, os desenvolvimentos chegaram a Razee na pessoa do Capitão Zoradus Wass, que veio visitar em uma lancha fretada. Ele subiu a escada, cumprimentou seu protegido com cordialidade de marinheiro e seguiu em uma excursão de inspeção sem pressa.

— Algo como o trabalho de um funileiro em uma chaleira de ferro, filho — comentou ele. — Você deve ter nascido com alguns instintos de encanador. Continue operando como está fazendo e você a tirará de lá.

— Nunca vou tirá-la operando como estou agora, Capitão Wass. Estamos parados. Sem dinheiro, sem crédito, sem comida. Consegui levantar cinco mil e gastei. Não me atrevo a ir ao velho pão-duro novamente.

— Bem, por que não tentar a herdeira? — perguntou o velho capitão. — Você sabe que sempre o aconselhei fortemente sobre a herdeira.

— Olhe aqui, Capitão Wass, não quero ouvir mais piadas sobre esse assunto — objetivou o jovem, bruscamente.

— Nenhuma piada nisso — declarou o capitão, com serenidade. — Vamos entrar nesta cabine. — Ele liderou o caminho e trancou a porta.

— Não há piada, filho — repetiu ele —, e não gosto que você demonstre qualquer aspereza no assunto. Vendo os amigos que temos sido, não estou achando muito gentil o fato de você ter sido tão fechado. Sou um homem de confiança. Você cometeu um erro ao não me contar. A coisa quase desandou entre mim e ela!

Ele franziu a testa em tom de reprovação para o atônito Mayo.

— Ela veio esperando, é claro, que eu fosse seu amigo mais próximo, e quando tive que admitir que você nunca a mencionou para mim, ela achou que tinha se enganado a meu respeito e não ia me dar a coisa!

— Que coisa, e do que você está falando?

O Capitão Wass deu tapinhas no bolso do casaco.

— Eu a convenci, e foi sorte ter conseguido, pois é um assunto onde apenas um amigo próximo e cuidadoso deveria ser admitido. Mas depois disso, você não deve guardar segredos de mim se espera que eu o ajude. No entanto, você mostrou que pode aceitar bons conselhos quando eu os dou. Aconselhei você a agarrar a filha de Julius Marston e, por trovoada! você foi e fez isso. Agora...

Mayo interrompeu impacientemente. O Capitão Wass estava falando arrastado, com manifesto prazer pela parte que estava desempenhando neste romance.

— Você trouxe algo para mim, trouxe?

— Ela é uma garota sagaz, filho — prosseguiu o capitão, não fazendo menção de mostrar o objeto que estava apalpando. — Me procurou, lembrando que eu tinha você comigo no velho Nequasset, e me fez perguntas espertas, posso lhe dizer! Você deveria ter sido mais confidencial comigo.

— Capitão Wass, não aguento mais esse absurdo. Se você tem algo para mim, entregue!

— Eu tive trabalho por você, viajei até aqui, quatro ou quinhentas milhas, levando...

— Sim, levando seu tempo para a viagem e para esta conversa — declarou Mayo, com raiva. — Fui colocado em uma posição muito mesquinha por não saber que você tinha esses papéis.

— Seguro e certo sempre foi meu lema! E eu tinha um pequeno negócio próprio para cuidar no caminho. Tenho descoberto como aquele gordo Fogg se meteu como gerente geral da linha Vose. É claro que já se sabia bem como ele fez isso, mas localizei o sujeito que fez isso por ele... aquela criatura que levamos como comissário, você se lembra.

Apesar de sua ansiedade para ter em suas mãos o pacote no bolso do velho capitão, Mayo ouviu com interesse essa informação; ela se relacionava com seus próprios assuntos com Fogg.

— Vou ajudar a multidão honesta na administração da linha Vose a derrubar aquela venda que foi feita, e quando chegar a hora certa, terei aquele funcionário covarde no banco das testemunhas, mesmo que tenha que arrastá-lo pelas orelhas. Agora, Mayo, aquela garota não disse o que havia neste pacote. — Ele tirou um pequeno embrulho que fora cuidadosamente amarrado com cordões. — Ela está apaixonada por você, porque deve estar apaixonada para ter tanto trabalho para enviar um recado a você. Se isso é uma carta de amor, é grande. Parece ser tudo papel! Eu o pesei e senti consideravelmente.

Ele o manteve longe do alcance ansioso de Mayo e investigou ainda mais com dedos cutucantes.

— Espero que ela não esteja devolvendo suas cartas de amor, filho. Mas, pelo olhar que ela tinha no rosto quando estava falando de você para mim, não achei que ela estivesse fazendo isso. Bem, aqui está o conforto para você! — Ele colocou o pacote nas mãos de Mayo.

O pacote estava selado com três remendos limpos de cera, e em cada bolha estava impressa as letras “A M” em um monograma. Mayo virou o pacote de um lado para o outro.

— Se você quer que eu saia, por não estar me sentindo tão confidencial comigo como costumava ser, eu farei — ofereceu o Capitão Wass, após uma espera educada.

— Não vou abrir isso... ainda não — declarou o jovem. — Isso é por razões próprias... bastante privadas, senhor.

— Mas eu não me importaria de sair.

— Não, senhor. O fato de o senhor estar aqui não tem absolutamente nada a ver com o assunto.

Ele abotoou o pacote no bolso do paletó. Tinha pouco respeito pela delicadeza de Fletcher Fogg em qualquer questão de procedimento; o ânimo do promotor em relação àqueles papéis era claro. Contudo, o agente havia cristalizado em palavras amargas uma ideia que estava desencorajando Mayo: ele se aproveitaria da traição impensada de uma garota contra o próprio pai? De alguma forma, aqueles selos com seu monograma tornavam sagradas as dependências do interior do pacote; ele os tocou e retirou a mão como se estivesse invadindo uma porta fechada para a privacidade da família.

— Suponho que o senhor prefira manter sua mente inteiramente voltada para os negócios, visto a má posição em que se encontra — sugeriu o Capitão Wass. — Muito bem, vamos guardar as cartas de amor e falar sobre algo sensato. É uma pena que não tenhamos alguma ferramenta para abrir à força aquela liquidação da linha Vose. Os acionistas ficaram com medo e pularam fora da Vose depois que o Montana foi encostado.

— O que foi feito com ela?

— Nada, até agora. Receberam o pagamento dos seguradores e provavelmente estão usando o dinheiro para jogar damas em Wall Street. Talvez estejam usando o navio como um exemplo horrível até assustarem o resto das empresas independentes para dentro da combinação.

— Os seguradores venderam?

— Sim. Ela foi arrematada — provavelmente por algum testa de ferro dos grandes piratas. É um milagre que tenham deixado você colocar as mãos nesta.

— Eles achavam que ela já estava comprometida. Quando descobriram que não estava, enviaram Burkett para cá para explodi-la.

O Capitão Wass não se surpreendeu com essa informação.

— Provavelmente! Toda a conversa que circulou diz que você estava desmontando o navio. Eu não tinha ideia de que você estava tentando salvá-lo.

— Fomos bloqueados por alguns faladores ocupados — admitiu o jovem.

— É uma pena que as outras pessoas não possam falar e ter os fatos para apoiar o que dizem, meu rapaz. Você sabe o que poderia ser feito se aquele sindicato fosse desmantelado? A velha turma da Vose provavelmente se aliaria ao pessoal da linha Bee. O pessoal da Bee está desanimado, mas não abriram mão de sua carta patente. Você não teria que se preocupar, então, em conseguir dinheiro para terminar este trabalho, e teria um mercado rápido como um raio para este vapor assim que ele saísse deste recife.

O pacote volumoso parecia pressionar as costelas de Mayo, sugerindo insistentemente seu poder de ajuda.

— Vou voltar e conversar com o velho Vose sobre este vapor — disse o Capitão Wass. — Agora, meu rapaz, uma última palavra. Não quero me intrometer em assuntos delicados. Mas sinto cheiro de coisa estranha nesses papéis em seu bolso. Quando ela os tirou da manga, tudo o que pude sentir foi violeta. Você acha que tem algo consigo que poderia me ajudar... nos ajudar... ajudar a si mesmo?

— Não, senhor; apenas o que o senhor mesmo vê nas possibilidades deste vapor.

— Muito bem; então farei o melhor que puder. Mas que se danem esses assuntos de garotas quando se misturam às questões dos homens! — Foi um eco sincero dos sentimentos do Sr. Fogg.

O Capitão Wass partiu em sua lancha fretada, depois de comer um pouco do peixe cozido e das batatas que compunham a humilde refeição dos trabalhadores em Razee.

Mayo não depositou esperanças na intervenção prometida pelo velho capitão. Ele estava tão completamente desencorajado por todos os interesses insensíveis em terra que tinha certeza de que seu projeto era considerado um fracasso geral. Quando ele mesmo estava em terra, tudo parecia ser mais ou menos um sonho. {*}

* Quando o vapor Carolyn naufragou no Rochedo Metinic alguns anos atrás, um jovem empreendedor, sem dinheiro ou experiência em salvatagem, conseguiu levantar alguns milhares de dólares, comprou o vapor por 1.000 dólares de uma empresa de sucata assustada e, após muitos meses de labuta, durante os quais foi ridicularizado por homens experientes, conseguiu desencalhá-lo. Ele foi vendido recentemente por 180.000 dólares e agora transporta cargas para a Europa.

Eles estavam reduzidos a extremos a bordo do Conomo. Não havia mais carvão para o motor da alvarenga, o equipamento estava inutilizado, peças eram necessárias para o maquinário desgastado, Smut-nosed Dolph batia o ritmo de Hungryman no fundo do barril de farinha, tentando tirar pó suficiente para mais uma fornada de biscoitos.

Mayo mantivera sua promessa e não confiara ao Capitão Candage a fonte do empréstimo que lhes permitira fazer o que tinham feito. Após alguns dias de consideração desesperada, Mayo navegou no Ethel and May para Maquoit.

Ele evitou os olhares dos moradores o máximo que pôde; desembarcou bem longe da praia, perto da casa que era o refúgio para o pessoal de Hue and Cry. Em seu próprio coração, ele sabia o motivo dessa aproximação furtiva: não queria que Polly Candage o visse naquela situação. A confiança dela fora tão absoluta! Sua fé nele, tão suprema! Em sua angústia mental, ele não estava pensando em suas roupas esfarrapadas ou em sua aparência física lamentável. Ele foi direto à loja do Diácono Rowley e sua aparência assustou aquele cavalheiro, provocando algumas exclamações pouco bíblicas.

No entanto, o Diácono Rowley recuperou prontamente a presença de espírito quando Mayo solicitou um empréstimo adicional. A recusa foi seca e definitiva.

— Mas o senhor pode muito bem seguir sua própria mão nisto — insistiu Mayo. — É por isso que vim ao senhor. Odiei vir, senhor. Tentei todos os outros meios. O senhor pode ver como trabalhei! — Ele estendeu suas mãos torturadas. — Venha ver por si mesmo!

— Eu não gosto da água.

— Mas o senhor pode ver que teremos sucesso se conseguirmos mais dinheiro. O senhor tem cinco mil no projeto; não pode se dar ao luxo de desistir onde está.

— Eu sei o que posso me dar ao luxo de fazer. Eu sempre disse, desde o início, que você nunca conseguiria levar isso adiante.

Diante dessa declaração, Mayo demonstrou verdadeiro espanto.

— Mas, que se dane tudo, o senhor nos emprestou dinheiro! O que quer dizer com se acovardar dessa maneira?

O Diácono Rowley ficou visivelmente embaraçado; ele deixara escapar para aquele interessado vital uma admissão prejudicial de seus sentimentos reais.

— Quero dizer que não vou jogar mais dinheiro fora, agora que você não está indo bem! Eu poderia ter acreditado em você na primeira vez que veio. Acho que devo ter acreditado. Mas você não pode me enganar novamente. Não adianta insistir! Nem mais um centavo.

— O senhor não está preocupado sobre como vai recuperar o que já emprestou? — exigiu Mayo, com exasperação.

— O Senhor proverá — declarou o Diácono Rowley, devotamente.

O jovem encarou aquele credor surpreendente, moveu as mandíbulas por alguns instantes sem dizer palavra, não encontrou discurso adequado e saiu da loja batendo os pés. Ele não temia mais encontrar Polly Candage. Sentia que precisava vê-la. Buscava o conforto da sanidade naquele mundo costeiro de loucura incompreensível; ele tivera experiência com a calma tranquilizadora de Polly Candage.

Ela saiu de sua pequena escola e controlou suas emoções com dificuldade ao ver sua condição lastimável.

— Vamos caminhar onde eu possa sentir o conforto da grama verde sob meus pés — ele suplicou; — isso pode parecer real! Nada mais parece!

Com sua aceitação pragmática dele, de sua aparência e de seu humor, ela o acalmou enquanto caminhavam.

— E até Rowley — ele acrescentou, após sua confissão franca de fracasso —, ele acabou de me rejeitar. Não vai seguir seus cinco mil com mais um centavo. O velho patife merece ser enganado se falharmos. Ele está me dizendo que sempre acreditou que nunca teríamos sucesso no trabalho. Ele está louco, ou estou eu?

— Seja compreensivo com o Diácono Rowley — ela suplicou. — Fique longe dele. Ele não é um homem que consola. Mas deve haver algum caminho para você, Boyd. Vamos pensar! Você tem ficado muito apegado à coisa — ao seu trabalho — e existem outros lugares além de Limeport.

— Existe Nova York — e existe um caminho — ele rosnou.

— Você deve tentar todas as chances; significa muito para você!

— Esse é o seu conselho?

— Certamente, Boyd!

Ele parou e puxou o pacote selado de seu paletó. Na tensão de seu desespero e ressentimento, ele foi brutal em vez de atencioso.

— Há papéis aí dentro com os quais posso golpear Julius Marston até que ele grite. Não os vi, mas sei muito bem o que são. Posso assustá-lo a ponto de devolver tudo o que tirou de mim. Posso fazê-lo devolver muito a outras pessoas. E dessas outras pessoas posso conseguir dinheiro para terminar nosso trabalho no Conomo. Olhe o monograma naquele selo, Polly! — Ele apontou com o dedo sujo e segurou o pacote perto dela.

— De... Srta. Marston? — ela perguntou, trêmula.

— Sim, Polly.

— E ela está ajudando você?

— Suponho que ela esteja tentando.

— Bem, é o que uma garota deve fazer quando ama um homem — ela respondeu. Mas ela não olhou para ele e seus lábios estavam brancos.

— E você acha que eu deveria usar a ajuda dela?

— Sim. — Ela evidentemente percebeu que seu tom era apenas um tremor de concordância, pois repetiu a palavra com mais firmeza.

— Mas estes papéis não são dela, Polly. Ela os roubou — ou alguém os roubou para ela — do próprio pai — ele continuou, implacavelmente.

— Ela deve amar muito você, Boyd.

Eles se viraram um para o outro e olharam em direções opostas. Ele estava se perguntando, como fizera durante muitas horas agonizantes, que motivo estaria influenciando Alma Marston naqueles últimos dias. Com toda a sua alma, ele queria questionar Polly Candage — obter a luz do instinto feminino dela sobre seus assuntos conturbados; mas a natureza do segredo que ele escondia colocou um freio eficaz em sua língua.

— Nessas circunstâncias, não importa que tipo de sacrifício ela tenha feito por você, você deve aceitá-lo, Boyd.

— Quero aceitá-lo; todo impulso em mim diz para ir lá e pegar. Polly, o fogo do inferno está queimando dentro de mim. Quero derrubá-los — a todos eles. Eu quero! Você não precisa se assustar! Mas se eu usar esses papéis que aquela garota roubou de seu pai, serei um canalha sujo. Você sabe disso, e eu sei disso! Suponha que você me contasse algum segredo sobre seu próprio pai para que eu pudesse usá-lo para enganá-lo e tirar dele sua parte em nossa parceria? Você poderia ter boas intenções, mas depois que eu o usasse, você me odiaria! Agora não odiaria?

— Talvez... provavelmente eu não odiaria você — ela gaguejou. — Mas eu pensaria melhor de você se você... sim, tenho certeza de que pensaria melhor de você se não se aproveitasse da minha tolice.

— É isso, exatamente! Qualquer homem, se eu lhe contasse sobre essa situação, diria que sou um tolo por não usar todas as ferramentas que posso encontrar. Mas você entende melhor! Estou feliz por ter vindo falar com você. Tenho sido terrivelmente tentado. Seu conselho está me mantendo no caminho certo!

— Eu não o aconselhei, Boyd!

— Você não precisa usar palavras! É o seu instinto me dizendo o que é certo fazer. Você não acharia justo da minha parte usar esses papéis, acharia?

— Se você a ama tanto que está disposto a sacrificar a si mesmo e seu trabalho e...

— Diga logo, Polly! Estou sacrificando seu pai também! É por uma noção — nada muito além disso!

— Não, deve ser porque você a ama tanto. Você tem medo de que ela pense menos de você se você se aproveitar dela. Acho sua posição nobre, Boyd!

— Eu não acho! Acho que é uma tolice infernal, e queria que a raça Mayo não tivesse tanto dessa maldita consciência cabeça-dura! Nossa família não estaria onde está hoje. — Ele falou com tanto calor que ela virou olhos maravilhados para ele.

— Mas é por causa dela, Boyd! É...

— Nada disso! Ou seja, não é como você pensa que é.

— Eu só acho que você a ama.

— Eu não quero que você diga isso — ou acredite nisso! — ele se enfureceu. — Se você soubesse — se eu pudesse te contar — você veria que é um insulto ao meu bom senso dizer que estou apaixonado por Alma Marston. Eu não a amo! Eu... eu não sei exatamente onde estou. Não sei o que há de errado comigo. Estou na posição mais maldita em que um homem pode estar. E estou falando como um tolo. Não é verdade?

— Eu não entendo você — ela vacilou.

— É claro que não entende. Acho que sou um lunático. Vou rolar por aqui e morder a grama em seguida!

Sua paixão a intrigava. Seus olhos em brasa, sua barba áspera, sua raiva e toda a sua personalidade rude a chocaram.

— Boyd, o que... o que há de errado? Estou com medo.

— Não a culpo. Estou com medo de mim mesmo nestes dias! — Ele sacudiu seus punhos inchados acima da cabeça.

— Deve encorajá-lo o fato de ela estar tentando ajudá-lo!

— Fique quieta! — ele rugiu. — Você não sabe do que está falando. Ajudar-me! Existem mulheres que podem ajudar um homem — ajudam um homem, a cada passo que ele dá. Existem outras mulheres que continuam chutando-o para a danação, mesmo quando pensam que estão ajudando. Não vou ficar aqui por mais tempo. Não devo ficar, Polly. Vou acabar dizendo coisas piores do que as que disse. O que eu disse sobre mulheres não se refere a você! Você é verdadeira e boa, e eu invejo esse homem, seja quem for.

Ele começou a descer a encosta em direção à praia.

— Você está voltando para o naufrágio? — ela perguntou, melancolicamente.

— Para o naufrágio!

— Mas espere! — Ela não conseguia controlar seus sentimentos nem sua voz.

— Não posso esperar. Não ouso ficar mais um minuto!

Ela chamou novamente e ele parou a uma pequena distância e virou-se para ela. Ele era absolutamente selvagem em comportamento e tom.

— Lembre-se do que eu disse sobre ela! Não insulte meu bom senso! Ela é... Oh, não importa! — Ele sacudiu os punhos novamente e seguiu seu caminho.

Ela ficou na encosta e o observou remar até a pequena escuna. E, em meio às lágrimas, ela não sabia se ele acenava para ela com aquelas mãos pobres e calejadas pelo trabalho, ou se sacudia os punhos novamente. Ele fez algum tipo de gesto sobre o parapeito do convés de popa. A garota, entristecida e perplexa, tinha a certeza sombria de que seus problemas haviam afetado o juízo de Mayo.

XXXI ~ O PRÓPRIO GRANDE HOMEM

Will prometera à sua Sue que esta viagem, se bem terminada, Deveria enrolar suas cordas e ele ancoraria em terra. Quando seus bolsos estivessem cheios, bem, sua vida seria consertada, As leis que quebrara ele nunca mais quebraria. --Will Watch.

Eles precisavam de comida, o dinheiro do aluguel de seu equipamento estava vencido, e os dependentes em Maquoit precisavam ser cuidados.

Orgulho e esperança haviam inspirado a tripulação em Razee a salvar o Conomo intacto. O material removido dele se tornaria imediatamente sucata, a ser avaliado a preços de sucata, em vez de ser um ativo valioso e ativo a bordo. Mas não havia outro recurso à vista. Nenhuma notícia chegou do Capitão Wass; e Mayo depositara pouca confiança nessa possibilidade, de qualquer forma.

Não havia mais nada a fazer — eles teriam que vender algo sobre o que pudessem lucrar rapidamente.

Na estimativa de muitos homens práticos, esse procedimento teria sido um paliativo justificável, com o único inconveniente de sacrificar valores. Mas para os capitães em Razee, parecia o começo da rendição completa; era o primeiro passo para o desmantelamento do navio a vapor. Estavam transformando-o em um monte de sucata, e confessavam a si mesmos que provavelmente seriam obrigados a continuar o trabalho de destruição. No passado, seu trabalho mais amargo era temperado com a esperança de uma grande conquista; o trabalho que agora se impunham era uma labuta melancólica.

Trouxeram o Ethel and May para o lado e carregaram nele as âncoras, correntes, cabos sobressalentes e vários dos botes salva-vidas. Mayo assumiu o comando da expedição ao continente.

A pequena escuna, curvada sob o peso de sua carga, arrastou-se pelo porto de Limeport pouco antes do pôr do sol, uma tarde. O início de junho estava pelo mar e os iates de cruzeiro pioneiros tinham sido atraídos para o leste; Mayo viu várias embarcações finas ancoradas dentro do quebra-mar e não lhes deu muita atenção. Ele caminhava nos estreitos confins de seu convés de popa e sentia o mesmo tipo de vergonha que um homem arruinado sente quando está a caminho da casa de penhores pela primeira vez. Ele estava com a cabeça baixa; odiava olhar para a frente, para a carga reveladora da escuna.

— Pelo amor de Deus! Aqui está uma velha amiga sua, este iate! — chamou o Sr. Speed, que estava ao leme.

Eles estavam atravessando o porto em direção a uma ancoragem bem próxima aos cais e passavam pela popa de um grande iate. Mayo olhou para cima. Era o Olenia.

— Mas perdoe-me por chamá-lo de amigo, Capitão Mayo — berrou o imediato, com o desrespeito de quem vive no mar aberto quanto às possibilidades de revelação em sua voz de longo alcance.

Um homem levantou-se de uma cadeira no convés de popa do iate e foi até o parapeito. Embora a escuna passasse a pouca distância, o homem nivelou binóculos marítimos, evidentemente para ter certeza de que o que ele havia adivinhado, após o comentário do Sr. Speed, era verdade.

Mayo sentiu um impulso de virar as costas, de se esquivar para baixo. Mas ele não recuou; caminhou até seu próprio parapeito humilde e olhou carrancudo para a face de Julius Marston. A escuna estava lenta e a brisa era fraca, e os dois homens tiveram tempo para uma troca prolongada de rancor visual.

— Eu não quis gritar tão alto, Capitão Mayo — latiu Oakum Otie, de uma maneira ainda mais ressonante, para oferecer desculpas. — Mas vendo-a, e lembrando da última vez que posei os olhos nela...

— Cale a boca! — ordenou o mestre. — Vou assumir o leme. Vá para a frente e prepare o cabo, e fique pronto para a ordem!

Ele olhou para trás, apesar de si mesmo, e viu que uma lancha motorizada saíra do Olenia. Ela espumava ao longo da esteira da escuna. Circundou-a depois de passar e manteve essas manobras até que a âncora da escuna fosse lançada. Então a lancha chegou ao lado e parou. O imediato e o engenheiro nela eram homens novos; Mayo não os conhecia. O imediato fez uma saudação respeitosa e afirmou que o Sr. Marston os enviara para trazer o Capitão Mayo a bordo do iate imediatamente.

— Meus cumprimentos ao Sr. Marston. Mas não estou em condições de ir.

Eles foram embora, mas retornaram em pouco tempo, e o imediato entregou um bilhete sobre o parapeito. Era uma declaração curta, ditada e datilografada, de que o Sr. Marston desejava ver o Capitão Mayo sobre negócios relacionados ao Conomo, e que se o Capitão Mayo não estivesse em condições de tratar desses negócios, o Sr. Marston seria obrigado a procurar outra parte que pudesse tratar de negócios referentes ao Conomo. Lembrando que tinha os interesses de outros a considerar, Mayo desceu para a lancha, carrancudo, ressentido, imaginando que novo teste de sua resistência estava por vir, e sentindo-se peculiarmente mal equipado, em sua atual condição de coragem e temperamento, para encontrar Julius Marston.

Este último manteve-se sob total controle quando se encontraram no convés de popa do iate, e Mayo estava mais plenamente consciente de sua própria inadequação.

— Abaixo, se me permite, capitão. — Ele liderou o caminho, mesmo enquanto proferia o convite.

Ninguém era visível no salão. No luxo daquele interior, o visitante desleixado parecia especialmente estranho, particularmente fora de lugar.

— O senhor me desculpará pelo que pareceu ser minha pressa em trazê-lo para cá, senhor, mas suponho que sua navegação para este porto agora coincide com a chegada da turma Vose a esta cidade hoje.

O Sr. Fletcher Fogg primeiro, e agora o empregador do Sr. Fogg, haviam dado informações antecipadas que previam o conhecimento de Mayo. O jovem tivera algum treinamento especial em dissimulação, e ele não demonstrou nenhuma surpresa. Ele fez uma reverência.

— É melhor para você falar comigo antes de permitir que eles façam de você um tolo. Estou preparado para tirar esse vapor de suas mãos, como está, por uma avaliação justa, e darei fianças para assumir todas as despesas do processo movido pelos seguradores.

— Não foi movido nenhum processo pelos seguradores.

O Sr. Marston ergueu as sobrancelhas. — Oh! Devo lembrar-me de que você está consideravelmente fora do mundo. Os seguradores alegam que a embarcação não foi legalmente entregue por eles. Você possui documentos que comprovem a liberação? Se assim for, estarei disposto a lhe pagar cerca do dobro do que, de outra forma, sentiria vontade de oferecer. Aceitar um título contestado em um caso de almirantado é um negócio delicado.

Mayo lembrou-se da maneira improvisada pela qual o vapor havia sido transferido e não respondeu.

A maneira de Marston era a de um homem de negócios calmo, compenetrado e frio; seu ar tinha peso. Mais do que nunca, Mayo sentiu sua própria fraqueza miserável nesses grandes assuntos, onde mais do que trabalho árduo e honesto contava no ajuste final.

— Quanto você pagou aos seus grandes advogados para instigar este processo pelos seguradores? — ele deixou escapar, e as pálpebras de Marston tremularam, apesar de sua impassibilidade. Havia o instinto do animal acuado, mais do que qualquer conhecimento, por trás da pergunta de Mayo.

— Por que você deveria sugerir que eu tenho algo a ver com tal processo?

— Você parece ter uma prontidão divina para assumir toda a responsabilidade.

— Não estou aqui para ter disputas infantis com você, senhor. Isto é negócio direto.

— Muito bem. O que você quer?

— Você tem documentos, como sugeri?

— Tenho minha nota fiscal. Considero como um dado adquirido que as pessoas que me venderam estejam respaldadas por papéis dos seguradores.

— É aí que você está em erro, infelizmente. Vocês todos foram incluídos como parte em um processo. Cláusula de tempo, abandono real, direito de resgate — todas essas questões estão envolvidas. É claro que isso significa liminar e um longo litígio. Sugeri assumir responsabilidades e intervir, porque sou apoiado pelos melhores advogados de almirantado em Nova York. Repito a oferta que o Sr. Fogg lhe fez.

— Você admite que o Sr. Fogg fez essa oferta por você ou por seus interesses, não é?

— Bem, sim! — admitiu Marston. — Permiti que o Sr. Fogg agisse por nós em alguns assuntos.

— Fico feliz em saber disso. Houve tanto jogo de empurra que eu andava um pouco em dúvida!

— Por favor, evite o sarcasmo e o temperamento, se me permite! Você tem interesse em aceitar a oferta?

Mayo encarou o financista, olhando-o de cima a baixo. O ódio furioso tirou-lhe o poder de um julgamento sensato. Ele não estava com disposição para pesar chances, nem para si mesmo, nem para seus associados. Ele duvidava da honestidade de propósitos de Marston. Ele sabia como aquele homem devia se sentir em relação ao tolo presunçoso que ousara olhar para Alma Marston; estava consciente de que o magnata devia estar escondendo algum motivo especial sob seu exterior frio.

Se Marston estava esperando chantagem pela posse dos documentos por parte de Mayo ou se havia arquitetado um litígio ostensivo para forçar os incômodos amadores a saírem da proposta da Conomo, o jovem não conseguia determinar; qualquer uma das visões da situação era igualmente insultuosa para aqueles a quem ele tornara seus antagonistas.

— Bem! — disparou o magnata, claramente achando difícil conter seu próprio ódio violento por muito mais tempo nesta entrevista. — Decida se você quer um pouco de dinheiro vivo e uma boa posição ou se será expulso completamente!

— Não quero o seu dinheiro! Você está tentando me enganar com negócios jurídicos falsos mesmo enquanto me oferece dinheiro! Não quero o seu emprego! Já trabalhei para você uma vez. Nunca mais serei seu homem de aluguel.

— Se eu não soubesse que você tem um motivo melhor para se manter firme desta maneira, diria que você permitiu que seu despeito o deixasse louco, meu jovem.

— Qual é esse motivo melhor?

— Chantagem! Você pretende lucrar com um roubo.

Mayo lutou por um momento com um impulso que era quase frenético; ele queria jogar o pacote na cara de Marston e dizer-lhe que ele mentia. Novamente, o jovem sentiu aquela estranha sensação de impotência; ele sabia que não conseguiria fazer Marston entender.

— Mayo, tentei lidar com você como se fosse mais ou menos um homem. Estava disposto a admitir que meus agentes o prejudicaram com seus erros. Ofereci um compromisso decente. Fiz o que quase nunca faço — preocupar-me com detalhes insignificantes como este!

Aquele impulso de entregar os papéis a Marston não era, então, tão insistente; nem mesmo a crescente raiva de Mayo o levou a fazer isso. O naufrágio da vida e das esperanças de um homem descartado levianamente como detalhes insignificantes!

— Vendo que não sou capaz de lidar com você em uma base de homem de negócios, tratá-lo-ei como trataria qualquer outro ladrão.

Mayo virou-se para sair, com medo de seu próprio desejo desesperado de transformar aquela boca debochada em algo informe.

No topo da escada, havia meia dúzia de marinheiros, armados com barras de ferro de grelha.

— Se esses papéis estão com você, eu vou pegá-los — declarou o financista. — Se não estiverem com você, você ficará feliz em me dizer onde estão antes que eu termine com você.

O cativo parou entre o mestre e os vassalos.

— Vou crucificar um pouco mais os meus sentimentos, Mayo — declarou Marston. — Dê um passo à frente aqui, onde esses homens não podem ouvir. É importante.

Marston bateu suavemente na porta de um camarote e sua filha saiu. Ela ofegou ao ver aquele visitante maltrapilho, e em seu olhar havia um horror real.

— Não consegui chegar ao fundo desta coisa. Ao enfrentar vocês dois, como estou fazendo, talvez consiga obter a verdade sobre o caso — disse Marston, com o ar de um magistrado lidando com malfeitores. — Agora, Alma, permitirei que você use sua língua por um minuto ou dois neste belo espécime antes que meus homens usem suas barras.

— Ouvi o que meu pai lhe ofereceu. Você deve aceitar.

— Tenho outros homens a considerar — homens honestos, que trabalharam duro comigo.

Ele tremia na presença deles. A aparência dela expulsava pensamentos sensatos de sua cabeça e sufocava as palavras em sua garganta. Ele se viu em um espelho e perguntou-se se aquilo não era um sonho — se não fora um sonho que ela um dia o amara.

Ele queria estender-lhe suas mãos mutiladas que escondia atrás de si. Ansiava por explicar-lhe o lado do homem no caso. Queria que ela entendesse o que devia aos homens que arriscaram a vida para servi-lo, fazê-la perceber o vínculo que existe entre homens que trabalharam e passaram fome juntos.

— Você tem a si mesmo a considerar, acima de tudo. Muito depende disso. Em suas noções tolas sobre um monte de indigentes, você está jogando a bondade do meu pai na cara dele!

Ele gaguejou, incapaz de formular uma resposta coerente.

— Seja sensato. Você não tem o direito de colocar um monte de sucata e um bando de criaturas inferiores à frente de seus interesses pessoais.

Havia malícia nos olhos de Marston. Ele viu uma oportunidade de tornar a posição de Mayo ainda mais falsa na opinião da moça.

— Serei totalmente franco, Mayo. Apesar de nossas diferenças pessoais, quero seus serviços — preciso deles. Descobri que você é um jovem de determinação e muita habilidade. Vou colocá-lo à frente rapidamente se você vier comigo. Mas você deve vir limpo. Sem vínculos com aquela outra turma.

— Não posso traí-los. Não farei isso — protestou Mayo. Ele não entendia exatamente todas as razões de sua obstinação. Mas seu instinto dizia-lhe que Julius Marston não estava descendo a esse nível, exceto por razões poderosas, e que ele estava tentando comprar um traidor para seus usos.

— Como você ousa se voltar contra meu pai?

— Eu... não sei! Algo parece estar errado comigo. — Ele puxou a garganta com a mão.

— E depois do que fiz — minha tolice perversa — aqueles papéis...

— Continue! Pretendo chegar ao fundo desta coisa — declarou Marston.

O jovem enfiou a mão no bolso, tirou o pacote selado e forçou-o nas mãos da moça. Marston prontamente o tomou.

— Você não o abriu?

— Não, senhor.

— Eu também não abri — gritou a moça. — Eu o selei, exatamente como estava amarrado.

Marston arrancou os cordões e a cera.

Do lado de fora, uma voz alta chamava o iate. — Cumprimentos do Capitão Wass ao Capitão Mayo, e ele poderia dizer quando voltará a bordo de sua escuna?

O financista não prestou atenção; ele estava ocupado com os papéis. Seu rosto estava branco de raiva. Ele os jogou ao seu redor no chão.

— Cada folha está em branco — é papel de rascunho! — ele gritou. — Que truque maldito é este?

— Você deveria perguntar ao homem que deu esse pacote à sua filha — sugeriu Mayo. Ele parecia estar menos espantado do que Marston e a moça. — Eu deveria saber que seu homem, Bradish, seria esse tipo de canalha.

— O que você sabe sobre Bradish estar envolvido nisso?

— Estou supondo. Provavelmente sua filha pode dizer.

— Não quero mais suas evasivas, Alma. Vou ao fundo desta questão agora. Bradish lhe deu este pacote?

— Sim, pai.

— Como ele chegou a este homem aqui?

— Eu o entreguei a um homem chamado Capitão Wass.

Novamente eles ouviram a voz lá fora. — Não me importa se ele está ocupado! Digo-lhe para levar o recado ao Capitão Mayo de que ele é esperado agora mesmo em sua escuna. Diga-lhe que é o Capitão Wass.

— O diabo enviou esse homem na hora certa — declarou Marston. Ele caminhou até a escada. — Informe ao Capitão Wass que ele é esperado a bordo aqui! Escondam essas barras até que ele esteja embaixo!

Ele voltou, furioso, e ficou entre Mayo e a moça, que parecia ter achado as palavras inadequadas durante o curto período em que ficaram juntos.

— Não acredito em nada que você me diz! Há um truque infernal aqui. Os papéis desapareceram. Alguém os tem.

Sua fúria cegou sua prudência.

Ele caminhou em direção ao Capitão Wass quando o velho marinheiro subiu a escada.

— Seu nome é Wass?

— Capitão Wass, senhor.

— Você pegou papéis da minha filha e os trouxe para este homem!

— Correto.

Marston recuou e chutou as folhas em branco no chão.

— Talvez você possa me dizer se são estes os que você trouxe.

O Capitão Wass encarou longamente Mayo, a moça e o magnata enfurecido. Então, ele olhou para os papéis espalhados e coçou a cabeça com muita deliberação.

— Por que você não diz nada? — exigiu Marston.

— Sou naturalmente lento e cauteloso — declarou o Capitão Wass. Ele colocou seus óculos, ajoelhou-se no tapete macio e examinou os papéis em branco e os selos quebrados. Ele os colocou de volta no tapete e meditou por algum tempo, ainda de joelhos. Quando ele olhou para cima, espiando por cima da borda de seus óculos, ele não prestou atenção a Marston, para o espanto indignado deste último.

— Vose e outros estão nos esperando no hotel — ele informou ao Capitão Mayo —, e é um assunto importante, e é melhor cuidarmos disso em vez de perder tempo aqui.

— Não importa qualquer outro assunto exceto este, senhor — gritou Marston.

— Não pode haver muitos negócios misturados em um monte de folhas de papel em branco — disparou o Capitão Wass. — Qual é o problema?

— Perdi papéis valiosos.

O velho capitão lançou um olhar astuto para o homem irritado que estava de pé sobre ele. — Papéis de combinação de vapores, hein?

— Você parece saber muito bem.

— Deveria saber.

— Por quê?

O Capitão Wass levantou-se lentamente, com grunhidos, e esfregou os joelhos rígidos. — Porque eu os tenho.

— Roubou-os do pacote, foi?

— Não foi roubo — foi negócio.

— Entregue-os.

— Eu insisto nisso também, Capitão Wass — disse Mayo, com indignação. — Entregue esses papéis.

— Não pode ser feito, pois não os tenho comigo. E não os entregarei até que os tenha usado em meus negócios.

— Vou mandar prendê-lo — anunciou Marston.

— Faça isso. Quanto mais cedo tudo for para o tribunal, melhor. Sua calma perfeita teve seu efeito sobre o financista.

— Para que você pretende usar esses papéis?

— Para fazer vocês, piratas, devolverem a propriedade da linha Vose e pagarem danos. Quanto ao resto da sua combinação, as criaturas que estão nela que se virem. Acho que tudo se resolverá sozinho depois que recuperarmos a linha Vose.

— Você está pedindo uma impossibilidade. O assunto não pode ser resolvido.

— Então veremos até onde o Tio Sam pode ir para organizar aquele ninho específico de ovos. Darei os papéis ao governo.

— Você não tem influência sobre este homem? — Marston perguntou ao atônito Mayo.

— Não, ele não tem — nem um pouco neste caso — retrucou o Capitão Wass. — Ele precisa de um guardião em algumas coisas, e estou servindo como um agora.

— Você deve obtê-los dele — você deve, Capitão Mayo — gritou a moça. — Eu não entendi o que estava fazendo.

— Eu os conseguirei.

— Eu gostaria de vê-lo tentar, rapaz!

Ele se virou para o homem de Wall Street. — Estou apenas pedindo o que é legitimamente devido ao meu próprio pessoal. Sou um homem de poucas palavras e, agora, estou seguindo o cronograma à risca. Até as onze da noite, você encontrará Vose, eu mesmo e nossos advogados no Hotel Nicholas. Depois das onze, estaremos na cama, porque precisamos começar cedo para o naufrágio em Razee. Vamos financiar esse trabalho. E, caso não cheguemos a um acordo com você esta noite, usaremos nosso clube para mantê-lo fora de nossos negócios depois disso. Você sabe o que é o clube.

Marston estava ocupado demais com o Capitão Wass para prestar atenção à filha. Ela aproximou-se de Mayo e sussurrou.

— Você deve deixá-los, Boyd. É por minha causa. Você deve ajudar meu pai. Eles são uns miseráveis. Pense no que significará para você se puder nos ajudar! Você fará isso. Prometa-me!

Ele não respondeu.

— Você ousa hesitar por um momento — quando eu lhe peço — por minha causa?

— Essa é minha última palavra — berrou o Capitão Wass. — Não há chantagem nisso — estamos apenas pegando de volta o que é nosso.

— Você é uma dessas — criaturas? — ela perguntou, indignada.

Se ela tivesse mostrado uma centelha de simpatia ou compreensão real naquele momento crítico de seus assuntos, se ela não tivesse sido tanto, naquele momento, a filha de Julius Marston, aconselhando o egoísmo, ele poderia ter continuado tolamente a mimar seu romance, apesar de tudo o que havia precedido. Mas os olhos dela eram duros. Sua voz tinha o tilintar do dinheiro. Ele sobressaltou-se, como um homem despertado. Seu boné velho caíra no tapete. Ele o pegou.

— Adeus! — ele disse. — Descobri onde pertenço neste mundo.

E, daquela maneira pouco heroica, terminou algo que, como ele então percebeu, nunca deveria ter começado. Ele seguiu o Capitão Wass pelo salão.

— É melhor aconselhar seus capangas a terem cuidado com a forma como manuseiam essas barras de grelha — gritou o Capitão Wass. — Estou carregado, e se eu for sacudido, posso explodir.

Eles não foram molestados quando deixaram o iate. O canoeiro que trouxera o Capitão Wass remou-os até o cais.

— Aqueles papéis... — Mayo aventurou-se, logo após deixarem o costado do iate.

— Nem uma palavra sobre eles! — berrou o velho capitão. — É meu negócio — integral! Quando chegar a hora certa, mostrarei a você que é meu negócio particular. Nunca permito que ninguém interfira nisso.

Naquela noite, após a conferência no hotel, e depois que Julius Marston, resmungando palavrões, colocou seu nome em certos papéis, redigidos por advogados cuidadosos, o Capitão Wass explicou por que a questão do pacote selado era seu negócio particular. Ele afastou Marston dos outros com o propósito de explicar.

— Não disse uma palavra a Vose ou a seus associados sobre esse assunto dos documentos. Eles pensam que você veio porque queria resolver um truque sujo feito por um subordinado. Então, isso o deixou muito bem na fita com a turma do Vose, senhor.

Marston grunhiu.

— Deve ser agradável ter algumas pessoas pensando que você é correto — continuou o Capitão Wass.

— Chega dessa conversa fiada. Entregue esses papéis!

— Só um momento! — Ele sinalizou para o Capitão Mayo, que veio até eles. — Vou dizer ao Sr. Marston por que esses documentos eram meu negócio especial hoje, e por que você não pôde me controlar no assunto. Posso muito bem explicar aos dois de uma vez. Foi meu próprio negócio por este motivo: não sei nada sobre papéis. Nunca vi nenhum. Nunca abri aquele pacote. Entreguei-o exatamente como me foi dado. Isso é verdade, sob minha palavra sagrada, Sr. Marston; e não tenho motivos para mentir para você — não depois que você assinou esses acordos.

— Venha aqui fora — insistiu o financista. — Quero lhe dizer o que penso de você.

— Não — disse o velho capitão, suavemente. — E eu baixaria o tom de voz, senhor, se fosse você. Esses homens aqui têm uma boa ideia de quem você é agora, e não quero que você estrague isso.

— Você é um renegado mentiroso!

— Oh, não! Apenas mostrei a você que nem todos os bons blefadores estão confinados a Wall Street. Há um ainda à solta lá. Seu homem Bradish provavelmente tinha motivos para querer blefar sua filha — e salvar sua própria pele. Ele provavelmente entregará seus papéis a você!

Marston xingou e partiu.

— Tracei esse curso enquanto estava de joelhos na cabine dele, rezando por uma boa mentira em um momento de necessidade desesperada — o Capitão Wass confidenciou a Mayo. — Não foi ruim, considerando como tudo se resolveu.

XXXII ~ O QUERIDO “PORQUE” DE UMA MOÇA!

Anime-se, Jack, sorrisos brilhantes o aguardam Dos mais belos entre os belos, E seus olhos amorosos o saudarão Com boas-vindas gentis em toda parte. Voltando para casa, voltando para casa, Voltando para casa através do mar. Voltando para casa, para a querida e velha Inglaterra, Voltando para casa, terra querida, para ti! --Rolling Home.

Não houve mesquinharia no negócio que o pessoal de Vose fez com o Capitão Mayo. Eles contrataram cooperar com ele e seus homens para flutuar o navio a vapor, repará-lo em doca seca e reequipá-lo para sua rota. Ele seria avaliado como estava após o reequipamento, como uma proposta em andamento, e Mayo receberia ações no valor dele — ações na recém-organizada linha Vose.

— Além disso — declarou o velho Vose —, precisaremos de um rapaz com o seu perfil como gerente. Você mostrou que é capaz de fazer as coisas.

Ele estava no convés do Conomo após uma longa inspeção do trabalho que havia sido feito sob dificuldades.

— Você teria tirado este vapor com seus próprios esforços se seu dinheiro tivesse durado. Seu próximo trabalho é o Montana; mas você simplesmente administrará isso, Capitão Mayo — use sua cabeça e economize seus músculos.

— Vou tirá-lo de lá, já que fui eu quem o coloquei lá.

— Todos nós sabemos exatamente como ele foi colocado lá — e Marston pagará por isso com sua moeda forte.

Sob essas circunstâncias, o Recife Razee não era mais um banco de lamentações! Os dias sombrios de improviso haviam chegado ao fim.

As balsas de uma das maiores empresas de salvamento da costa correram para Razee e reuniram-se ao redor do navio a vapor mutilado — Samaritanos do mar. Equipamentos gigantescos o abraçaram; grandes bombas engoliram a água dele; reforçado e apoiado, como um homem atingido manca com os braços sobre os ombros de seus amigos, o navio a vapor saiu do Recife Razee com a primeira maré de primavera em julho, e labutou pelo mar a reboque de rebocadores bufantes, e foi escorado e seguro, finalmente, em uma doca seca — o hospital dos gigantes aleijados do oceano.

Nenhuma música soou tão doce para o Capitão Mayo quanto aquele refrão metálico que os martelos dos metalúrgicos tocavam nos flancos do Conomo. Mas ele arrancou-se daquela música e desceu para Maquoit junto com um Capitão Candage vastamente contente, que se lembrava agora de que tinha uma filha esperando por ele.

Ela fora avisada por carta de seu sucesso e de sua vinda.

Maquoit fez uma celebração daquela chegada do Ethel and May, e Dolph e Otie, cozinheiro e imediato da escuna, lideraram o desfile quando os homens estavam em terra.

Eles voltaram para o que era deles com as bolsas cheias que a generosidade de seus empregadores havia proporcionado, e não havia mais qualquer dúvida quanto ao futuro dos homens que um dia passaram fome em Hue and Cry.

O Capitão Mayo declarara que sabia onde encontrar trabalhadores fiéis quando chegasse a hora de distribuir empregos.

Polly Candage viera ao seu encontro quando ele pisou em terra, com as mãos estendidas e os olhos brilhantes. E, quando ela colocou as mãos nas dele, ele soube, em sua alma, que aquela era a saudação pela qual estivera esperando; as palavras de congratulação dela eram as mais caras de todas, seu sorriso era a melhor recompensa, e era por sua querida pessoa que ele estivera faminto.

Mas ele não admitia para si mesmo que viera para cortejar.

Quando o crepúsculo suave amenizou os contornos rudes do pequeno vilarejo, e os outros estavam ocupados com seus próprios afazeres e deixaram Mayo e Polly a sós, ele sentou-se com ela na varanda da casa da viúva, onde passaram aquela primeira noite depois de terem sido salvos do mar.

Houve um longo silêncio entre eles. "Não tivemos oportunidade... ainda não me atrevi a lhe contar minhas melhores esperanças para a coisa mais querida de todas", ela se aventurou.

"Aquela lá no interior. Eu sei. Estou feliz por você."

"Que coisa lá no interior?"

"Aquele jovem... o único jovem em todo o mundo."

"Ah, sim! Eu tinha esquecido."

Ele a encarou. "Esquecido?"

"Bem... bem... não quero dizer exatamente esquecido. Mas eu não estava pensando nele quando falei. Quero dizer que agora... com suas novas perspectivas... você pode ir para... para... Pode chegar um momento em que você poderá falar com o Sr. Marston."

"Falei com o Sr. Marston, muito recentemente. Ele falou comigo", disse ele, com o rosto endurecido. "Nunca mais falaremos um com o outro, se depender de mim."

Ele encontrou o olhar atônito dela. "Polly, detesto incomodá-la com meus pobres assuntos desse tipo. Posso falar de negócios com o Sr. Vose, e do mar com seu pai. Mas há outro assunto que não posso mencionar a ninguém... a menos que você queira ouvir. Vou lhe contar onde vi o Sr. Marston... e sua filha."

Ela ouviu, com os lábios entreabertos.

"Então, você vê", disse ele ao final, "foi pior do que um sonho; foi um erro. Não poderia ter sido amor verdadeiro, pois não foi construído sobre a base correta. Nunca tive muita experiência com moças. Tenho vivido a navegar no mar quase toda a minha vida. Talvez eu não saiba o que é o amor verdadeiro. Mas me parece que não pode significar muito a menos que seja construído sobre o entendimento mútuo, a disposição de se sacrificar um pelo outro."

"Eu penso assim", respondeu Polly, suavemente.

"Quero ver esse seu jovem, lá no interior. Quero dizer a ele que ele é muito sortudo porque conheceu você primeiro."

"Por quê?"

"Não posso lhe dizer exatamente por quê. Não é certo da minha parte fazê-lo."

"Mas uma moça gosta de ouvir essas coisas. Por favor!"

"Você me perdoará por dizer o que não deveria dizer?"

"Eu o perdoarei."

"Ele é sortudo, porque se eu não soubesse que você está prometida e apaixonada, eu cairia a seus pés e lhe imploraria que se casasse comigo. Você é a esposa para um marinheiro ianque, Polly Candage. Se apenas houvesse duas de você neste mundo, teríamos um casamento duplo."

Ele saltou e começou a se afastar.

"Aonde você vai?" ela perguntou, e havia quase um lamento em seu tom. "Não, ele não entende bem as moças", ela disse a si mesma, amargamente.

"Vou à loja de Rowley para ver se ele aceita seu dinheiro de volta e nos poupa os juros. Ele me disse que eu teria que manter o dinheiro por um ano."

Ela o chamou vacilante, mas com tal apelo em sua voz que ele parou e olhou para ela.

"Você não poderia... Não seria melhor deixar o assunto descansar até... até..."

"Ah, não há tempo como o presente em questões de dinheiro", declarou ele, com uma risada, totalmente alheio, sem entender nem um pouco o embaraço dela, seu esforço piedoso para fechar seu pequeno templo de sacrifício amoroso para que ele não pudesse entrar pisoteando naquele momento.

Sua risada foi forçada. Ele percebeu que, se não se apressasse em se afastar daquela moça, ele estaria estendendo os braços para ela, declarando o amor que surgia nele, agora que ele havia despertado para a plena consciência daquele amor; sua reticência ianque, seu instinto de honra entre homens, lutavam arduamente contra sua paixão; ele dizia a si mesmo que não trairia um homem que não conhecia, nem ofereceria amor a uma moça que, segundo ele acreditava, amava outro.

"Posso ir com você?" ela suplicou, contendo seu impulso selvagem de correr à frente dele e avisar o diácono.

"Claro!" ele consentiu, e eles caminharam pela rua, nenhum dos dois ousando falar.

Encontraram Rowley sozinho em sua loja. Ele estava ocupado, preparando-se para fechar o local para a noite.

Ao entrarem, a moça passou por trás de Mayo e, encontrando o olhar do diácono, fez gestos frenéticos. Na penumbra, esses gestos eram decididamente incompreensíveis; o diácono baixou os óculos e olhou para ela, tentando entender aquele sinalizar.

"Eu gostaria de quitar aquele empréstimo e economizar o restante dos juros do ano, Diácono Rowley", declarou Mayo, com a franqueza de marinheiro.

A moça estava tentando transmitir ao diácono o fato de que ele não deveria revelar seu segredo. Ela balançava a cabeça. Isso pareceu ao intermediário como ordens diretas e conclusivas do principal.

"Não, senhor, Capitão Mayo! Não pode ser feito."

"Não chamo isso de um acordo justo entre homens, não importa o que sejam negócios diretos."

Polly agora sinalizou uma concordância ansiosa, querendo fazer o diácono entender que ele devia aceitar o dinheiro. Mas o diácono não entendeu; ele pensou que a moça confirmava seu desejo por negócios diretos.

"Você pegou por um ano. Sem voltar atrás, capitão."

Ela balançou a cabeça, violentamente.

"Não, senhor! Fique com ele, como concordou, e pague seus juros."

"Diácono Rowley, você é um velho idiota!" explodiu a moça.

Quando o diácono arrancou os óculos e o Capitão Mayo virou olhos espantados para ela, ela levou as mãos ao rosto e saiu correndo da loja, soluçando. Ela era apenas uma moça! Ela não tinha mais recursos para enfrentar aquela situação nos assuntos dos homens.

O impulso de Mayo foi segui-la, mas o diácono o deteve.

"Não vou mais ser feito de bobo nisso, nem para ganhar trezentos dólares", ele resmungou.

"Um bobo! O que você quer dizer?"

"Você vá se resolver com ela."

"O que Polly Candage tem a ver com este negócio?"

"O dinheiro é dela."

"Você quer dizer que..."

"Ela tirou o dinheiro do banco e me enganou para que eu mentisse por ela. O que uma moça não faria quando está apaixonada por um rapaz? Se você não sabia disso antes, já passou da hora de saber!"

Aquele último comentário do diácono tinha referência desgostosa apenas à questão do dinheiro. Mas transmitiu outra coisa ao Capitão Boyd Mayo.

Ele saiu correndo da loja!

Lá no alto da estrada, ele a alcançou. Ela estava caminhando apressada para casa. Quando ela se voltou para ele, ele viu lágrimas em suas bochechas, embora a generosa penumbra da noite os envolvesse onde estavam. Ele segurou as duas mãos dela.

"Polly Candage, por que você arriscou seu dinheiro comigo?" ele exigiu.

"Eu sabia que você teria sucesso!" ela murmurou, desviando o rosto. "Foi um... um bom investimento."

"Quando você o deu, você... Você estava pensando... Foi apenas um investimento, Polly?"

Ela não respondeu.

"Olhe aqui! Esta última coisa deveria amarrar minha língua, pois devo tudo a você. Mas minha língua não quer ficar amarrada... não agora, Polly. Não me importo se há alguém lá no interior. Eu deveria me importar. Eu deveria respeitar seu..."

Ela soltou uma mão e colocou dedos rechonchudos sobre os lábios dele. "Não há ninguém lá no interior; nunca houve ninguém, Boyd", ela sussurrou.

Ele a tomou em seus braços, beijou-a e a segurou junto a si.

"Você me dirá uma coisa, agora? Eu sei a resposta, minha querida, mas quero ouvir você dizer. Por que você me deu todo o seu dinheiro?"

Ela colocou as palmas das mãos nas bochechas dele e disse as palavras pelas quais sua alma estava faminta:

"Porque eu amo você!"

FIM

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