Por Conselho de Advogado
Sendo as Aventuras da Celebre Firma de
Tutt & Tutt
Advogados e Consultores Jurídicos
De
Arthur Train
Com Frontispício
De Arthur William Brown
Publicado em março de 1921
CONTEÚDO
O SHYSTER
O MIÚDO E O CAMELO
DESACATO AO TRIBUNAL
POR CONSELHO DE ADVOGADO
"ESSE TIPO DE MULHER"
VOCÊ É OUTRO!
ALÉM DE QUALQUER DÚVIDA RAZOÁVEL
O Shyster
Shyster, s. [Origem obscura.] Aquele que faz negócios de forma trapaceira; pessoa sem honra profissional: usado principalmente para advogados; como, advogados de porta de cadeia e shysters. — DICIONÁRIO CENTURY.
Quando Terry McGurk atirou o tijolo pela janela do talho de Froelich, fê-lo casualmente, por princípios gerais e sem qualquer ideia de começar o que quer que fosse. Tinha passeado inesperadamente pela esquina a partir da taberna do seu pai, vira a discussão entre Froelich e o grupo de rapazes que, depois das horas de escola, usava a rua em frente à loja como campo de futebol, e tinha apenas aproveitado a oportunidade para justificar a sua reputação de fora da lei e pregar uma partida ao alemão. O facto de ele estar a usar uma camisola vermelha foi a mais pura das coincidências. Tendo observado que o tijolo seguia precisamente a sua trajetória correta, encolheu-se e voltou para a esquina, continuando o seu caminho, radiante. Nem sequer reparou em Tony Mathusek que, tendo-se encontrado acidentalmente no meio da confusão, começara a bater em retirada no instante do estrondo, e correra diretamente para os braços do agente Delany, do Segundo Distrito. Infelizmente, Tony também usava uma camisola vermelha.
— Apanhei-te, seu pequeno diabo! — exultou Delany. — Aqui está um deles, Froelich!
— É ele! Foi um tipo com uma camisola vermelha! Foi esse quem o fez! — gritou o talhante. — Vou apresentar queixa contra ele!
— Anda daí, tu! Para de espernear! — ordenou o polícia, torcendo o braço fino de Tony até ele se contorcer. — Vai identificá-lo, Froelich?
— Claro! Não o vi com os meus próprios olhos? Ele é um daqueles patifes que afugentam todos os meus clientes com os seus gritos e berros. Trata disso para mim, Bill.
— Está tudo bem — garantiu-lhe o agente. — Eu trato dele, e bem! É o reformatório para ele. Ou então, podes apresentar queixa por dano malicioso.
— Claro! É isso! Dano malicioso! — assentiu o comerciante, não muito inteligente. — Livramo-nos dele de vez, hã?
— Claro — assentiu Delany. — Anda daí, tu!
Tony Mathusek ergueu um rosto pálido, contraído pela agonia do seu braço torturado.
— Olhe, senhor, enganou-se na pessoa! Não fui eu que parti a janela. Eu estava apenas a vir de casa...
— Ah, cala-te! — troçou Delany. — Diz isso ao juiz!
— Não me vai levar para a cadeia? — lamentou Tony. — Eu não estava com aqueles rapazes. Eu não pertenço a esse grupo.
— Oh, então pertences a um grupo, pois não? Bem, não queremos cá gangsters! — gritou o agente com uma sofística hábil, ainda que sem escrúpulos. — Anda daí agora, e mantém-te calado, ou será pior para ti.
— Não posso avisar a minha mãe? Ela vai estar à minha procura. Ela é uma senhora idosa.
— Avisar nada. Anda daí!
Tony viu toda a esperança desvanecer-se. Ele não tinha hipótese — nem sequer de ir para uma cadeia decente! Tinha ouvido falar de todos os horrores do reformatório. Nem sequer deixariam os familiares visitar aos domingos! E a sua mãe pensaria que ele fora atropelado ou assassinado. Ela ficaria louca de preocupação. Ele não se importava consigo próprio, mas com a mãe... Ele amava a velha viúva que trabalhava até aos ossos para o mandar para a escola. E ele era o único que restava, agora que Peter fora morto na guerra. Era demasiado. Com um movimento brusco, livrou-se do casaco e correu cegamente pela rua. Tão bem poderia um coelho esperar escapar às garras de um gato selvagem. Em três saltos, Delany apanhou-o novamente, sufocando-o até o mundo ficar negro.
Mas esta não é uma história sobre brutalidade policial, pois a maioria dos polícias não é brutal. Delany era um veterano que acreditava em métodos rudes. Pertencia, felizmente, a um sistema em rápido desaparecimento, mais em harmonia com a Idade Média do que com a nossa atual forma iluminada de governo municipal. Ele permanecia o que era pela razão de que, mais acima na hierarquia oficial, havia outros que contavam com ele, quando era desejável, para entregar a mercadoria — não necessariamente dinheiro —, mas para estar com o grupo. Estes, por sua vez, eram obrigados, ocasionalmente, por interesse próprio ou lealdade mal orientada a amigos ou partidos, a ignorar pequenas irregularidades, a usar vários tipos de pressão ou a esquecer o que lhes pediam para esquecer. Havia uma teia de longo alcance de relações complicadas — oficiais, políticas, matrimoniais, comerciais e outras — que tinham um efeito muito prático no desempenho do dever teórico.
Delany não era nem idealista nem filósofo. Era um empirista, com um toque de pragmatismo — embora ele não o soubesse. Era um "homem prático". Até as administrações reformistas são conhecidas por defender uma aplicação liberal das leis. Pode culpar-se Delany por ser prático quando outros muito maiores do que ele se orgulham do mesmo atributo de praticidade? Havia, claro, muitas coisas que ele simplesmente tinha de fazer ou sair da força; de qualquer modo, se não as fizesse, a sua vida seria intolerável. Estas consistiam, em parte, em ser surdo, mudo e cego quando lhe mandavam — uma questão comparativamente fácil. Mas havia outras coisas que ele tinha de fazer, de facto, para mostrar que estava tudo bem, as quais não eram apenas mais difíceis, mas dispendiosas, e por vezes perigosas.
Nunca fora chamado a jurar contra a liberdade de um homem inocente, mas mais do que uma vez teve de apoiar uma armação contra um culpado. De acordo com a sua psicologia policial, se o seu parceiro via alguma coisa, era praticamente o mesmo que se ele próprio a tivesse visto. Aquela centelha fantasmagórica de provas necessária para sustentar um caso fraco ou duvidoso podia sempre ser contada se Delany fosse o agente que fizera a detenção. Nenhum dos seus casos era alguma vez atirado para fora do tribunal por falta de provas, mas, por outro lado, Delany nunca prendia ninguém que não fosse culpado!
Claro que ele tinha de "dar o quinhão" a intervalos, dependendo de qual administração estava no poder, quem era o seu superior imediato e a que esquadra estava ligado, mas ele não era, de modo algum, um corrupto habitual. Era ocasional apenas; quando tinha de ser. Ele não considerava que estava a ser extorquido quando se esperava que contribuísse para festas, piqueniques, associações beneficentes, fundos de defesa ou presentes de casamento para altos funcionários da polícia. Tampouco pensava que estava a receber subornos porque, amigavelmente, permitia que Froelich deixasse um assado de costela de catorze libras todas as noites de sábado no apartamento do seu cunhado. Da mesma forma, considerava as notas que lhe eram passadas por Grabinsky, o fiador, como comissões bem merecidas, e não via razão para que as roupas civis que encomendava na loja não fossem pagas por alguma misteriosa pessoa amiga — de identidade desconhecida —, mas astutamente suspeita de ser o Sr. Joseph Simpkins, o mensageiro do Sr. Hogan. Não haveria bolos e cerveja em Nova Iorque só porque um intelectual calhou ser o presidente da câmara? Estariam a bondade humana, a boa natureza e a generosidade todas mortas? Teria ele aceitado uma nota de dez dólares — ou até de cem — de Simpkins quando ia ser testemunha num dos casos de Hogan? Nem penses! Ele não era um criminoso, não era! Não tinha de o ser. Ele era apenas uma engrenagem numa imensa roda de corrupção. Quando a roda descia sobre a sua engrenagem, ele fazia automaticamente a sua parte.
Percebo que a polícia está a ocupar demasiado da nossa atenção. Mas é necessário explicar por que Delany estava tão pronto para prender Tony Mathusek, e por que, ao arrastá-lo para a esquadra, fez sinal ao Sr. Joey Simpkins, que andava a vadiar lá fora em frente ao gabinete do xerife-adjunto, e sussurrou por trás da mão: "Está bem. Tenho um para ti!"
Então a máquina começou a funcionar tão automaticamente como uma caixa registadora. Tony foi presente a tribunal e, tendo dado a sua idade como dezasseis anos e cinco dias, acusado da "destruição maliciosa de propriedade, a saber, uma janela de vidro de Karl Froelich, no valor de cento e cinquenta dólares". O Sr. Joey Simpkins abrira caminho através da multidão fedorenta e colocara-se ao lado do rapaz atordoado e quase desmaiado.
— Está tudo bem, miúdo. Deixa comigo — disse ele, envolvendo-o com um braço protetor. Depois, ao escrivão: — Declara-se inocente.
O magistrado lançou um olhar sobre a queixa, na qual Delany, para poupar trabalho a Froelich, jurara que vira Tony atirar o tijolo. Não tinha o talhante dito que o vira? Além disso, isso livrava o alemão de um possível processo por detenção ilegal. Depois, o magistrado olhou para o próprio polícia.
— Conhece este rapaz? — perguntou bruscamente.
— Claro, Meritíssimo. É um gangster. Admitiu-mo a caminho daqui.
— Tem mesmo mais de dezasseis anos? — exigiu subitamente o juiz, que conhecia e desconfiava de Delany, tendo repetidamente declarado em tribunal aberto que não enforcaria um cão sarnento com o seu testemunho. O rapaz subnutrido e de baixa estatura não parecia ter mais de catorze anos.
— Sim, senhor — disse Tony. — Fiz dezasseis na semana passada.
— Tem alguém para o defender?
Tony olhou para Simpkins interrogativamente. Ele parecia um senhor muito bondoso.
— Caso do Sr. Hogan, juiz — respondeu Joey. — Por favor, fixe a fiança o mais baixo possível.
Ora, este juiz era um acidente político, tendo sido atirado para o cargo pela providência que por vezes vigia os marinheiros, os bêbados e os terceiros. Além disso, apesar de ser um reformista, não era parvo nenhum, e quando os outros reformistas que eram tolos foram prontamente despedidos, ele foi reconduzido por um chefe supostamente corrupto simplesmente porque, como o chefe disse, ele tinha sido um excelente juiz e precisavam de alguém com cérebro aqui e ali para manter as aparências. Por acaso, ele tinha um primo influente na Quinta Avenida que convidara o chefe e a sua esposa para jantar, razão pela qual os descontentes que perderam o lugar andavam por aí a perguntar que tipo de nota era quando um vigarista de classe alta podia comprar um cargo de nove mil dólares por um jantar de cinquenta dólares. De qualquer modo, ele era íntegro e parecia íntegro, amável, bem-humorado e sábio para a sua idade — que era de trinta e um anos. E Tony parecia-lhe um pobre infeliz, Simpkins e Delany eram ambos patifes, Froelich não estava no tribunal, e ele sentia um gato escondido com o rabo de fora. Teria soltado Tony imediatamente se tivesse qualquer desculpa. Não tinha, mas tentou.
— Gostaria de uma audição imediata? — perguntou ele a Tony num tom encorajador.
— O Sr. Hogan não pode estar aqui até amanhã de manhã — interpôs Simpkins. — Além disso, vamos querer apresentar testemunhas. Deixe para amanhã à tarde, juiz.
O juiz Harrison inclinou-se para a frente.
— Tem a certeza de que não prefere ter a audição agora? — perguntou ele com um sorriso para o rapaz que tremia.
— Bem, quero Froelich aqui — se vai prosseguir agora — falou Delany. — E gostaria de verificar o registo deste arguido na sede.
Tony encolheu-se. Ele temia e desconfiava de todos, exceto do bondoso Sr. Simpkins. Suspeitava que aquele juiz suave estivesse a tentar condená-lo apressadamente.
— Não! Não! — sussurrou ele ao advogado. — Quero que a minha mãe esteja aqui; e o porteiro, ele sabe que eu estava em minha casa. O rabino, ele vai dar-me uma boa recomendação.
O juiz ouviu e encolheu os ombros cobertos pela beca. Não servia de nada. Os filhos das trevas eram mais astutos na sua geração do que os filhos da luz.
— Quinhentos dólares de fiança — comentou ele secamente. — Agente, tenha as suas testemunhas prontas para prosseguir amanhã à tarde às duas horas.
* * * * *
— Sr. Tutt — disse Tutt com um ar deprimido enquanto via Willie remover o biombo e arrastar a antiga mesa de pernas articuladas para o chá diário da firma e conferência no gabinete do sócio sénior — se um homem lhe chamasse shyster, o que faria a respeito?
O advogado mais velho sugou meditativamente a ponta de um charuto antes de responder.
— Por que não o processa? — perguntou o Sr. Tutt.
— Mas e se ele não tivesse dinheiro? — respondeu Tutt desgostoso.
— Então por que não o manda prender? — continuou o Sr. Tutt. — É difamatório por si só chamar shyster a um advogado.
— Mesmo que ele seja um — acrescentou a Srta. Minerva Wiggin ironicamente, enquanto removia os punhos de papel preparando-se para acender a lamparina de álcool sob a chaleira. — Quanto maior a verdade, maior a difamação, sabe!
— E o que quer dizer com isso? — retorquiu Tutt bruscamente. — Você não...
— Não — respondeu a gerente de Tutt & Tutt. — Eu não! Claro que não! E, francamente, não sei o que é um shyster.
— Nem eu — admitiu Tutt. — Mas soa a algo injurioso. Ainda assim, esse é um teste perigoso. Lembra-se daquele cliente nosso de cor que queria que movêssemos uma ação contra alguém por lhe ter chamado etíope!
— Não há nada de desonroso em ser etíope — afirmou a Srta. Wiggin.
— Um shyster — disse o Sr. Tutt, lendo do Dicionário Century —, é definido como "alguém que faz negócios de forma trapaceira; uma pessoa sem honra profissional; usado principalmente para advogados".
— Bem? — soltou Tutt.
— Bem? — ecoou a Srta. Wiggin.
— H'm! Bem! — concluiu o Sr. Tutt.
— Nomeio para o primeiro pedestal no nosso Hall da Infâmia Jurídica — Raphael B. Hogan — anunciou Tutt, ignorando complacentemente todas as insinuações.
— Mas ele é uma pessoa muito elegante e cavalheiresca — objetou a Srta. Wiggin enquanto aquecia as chávenas. — A minha ideia de shyster é um advogado de tribunal de polícia de sapatos rotos, por fazer a barba e geralmente de aspeto duvidoso — de preferência com um nariz vermelho — que assassina a língua inglesa — e que ganha a vida a predar os ignorantes e indefesos.
— Como Finklestein? — sugeriu Tutt.
— Exatamente! — concordou a Srta. Wiggin. — Como Finklestein.
— Ele é um dos homens mais honrados que conheço! — protestou o Sr. Tutt. — Minha cara Minerva, você está a cometer o grande erro — comum, admito, a um grande número de pessoas — de associar sujidade e crime. Ora, a sujidade pode gerar crime, mas o crime não gera necessariamente sujidade.
— Não é preciso ser maltrapilho para predar os ignorantes e indefesos — argumentou Tutt. — Alguns dos nossos irmãos mais prósperos são os piores tubarões fora de Sing Sing.
— Isso é verdade! — admitiu ela, — mas não o digam em Gate!
— Um shyster — começou o Sr. Tutt, aplicando sem sucesso uma corrente de ar forçada ao seu charuto e depois atirando-o fora —, tem mais ou menos a mesma relação com um advogado honesto que um cafajeste com um cavalheiro. O facto de ele estar bem vestido, pertencer a um bom clube e ter o seu nome no Social Register não afeta a situação. As roupas não fazem os homens; apenas criam oportunidades.
— Mas por que é — persistiu a Srta. Wiggin — que invariavelmente associamos a ideia de crime à de "pobreza, fome e sujidade"?
— Isso é fácil de explicar — afirmou o Sr. Tutt. — O direito penal tratava originalmente apenas de crimes de violência — como homicídio, violação e agressão. Antigamente, as pessoas não tinham qualquer propriedade no sentido moderno — exceto a sua terra, o seu gado ou as suas armas. Não tinham obrigações, ações ou contas bancárias. Agora, é claro que é verdade que pessoas rudes e ignorantes são muito mais propensas à violência de discurso e ação do que aquelas de linhagem gentil, e, portanto, a maioria dos nossos crimes de violência é cometida por aqueles cujas vidas são de miséria. Mas — e aqui a voz do Sr. Tutt subiu indignada — o nosso maior erro é assumir que os crimes de violência são os mais perigosos para o Estado, porque não são. Causam maior perturbação e talvez mais inconveniência momentânea, mas geralmente não demonstram muita torpeza moral. Afinal, não faz grande mal se um homem der um murro na cabeça de outro, ou mesmo que num acesso de raiva lhe espete um punhal. A polícia pode facilmente tratar de tudo isso. O verdadeiro perigo para a comunidade reside nos crimes de duplicidade — as batotas, fraudes, falsos pretextos, truques e artifícios, embustes — praticados com mais sucesso por vigaristas bem vestidos e cavalheirescos de boas maneiras.
A esta altura, a chaleira fervia alegremente, como se não existisse tal coisa como direito penal, e a Srta. Wiggin começou a preparar o chá.
— Ainda assim — ruminou ela —, as pessoas — particularmente as pessoas muito pobres — são frequentemente levadas ao crime pela necessidade.
— É a primeira lei da Natureza — contribuiu Tutt alegremente.
O Sr. Tutt soltou um bufo de desdém.
— Pode ser a primeira lei da Natureza, mas é a defesa mais fraca que um homem culpado pode oferecer. "Eu não pude evitar" tem sido sempre a desculpa para se servir a si próprio!
— Muito bom — isso! — aprovou a Srta. Wiggin. — Pode repetir?
— A vítima das circunstâncias é inevitavelmente alguém que fez de outra pessoa uma vítima — continuou o Sr. Tutt sem hesitação.
— Ting-a-ling! Na mosca! — riu ela.
— É verdade! — assegurou-lhe ele seriamente. — Há duas defesas que estão esgotadas — necessidade e instigação. Nunca valeram de nada desde que o Todo-Poderoso anulou a alegação de Adão em confissão e evitamento de que uma certa co-arguida feminina aproveitou a sua inocência faminta e o levou a fazê-lo.
— Ninguém poderia respeitar um homem que tentasse esconder-se atrás das saias de uma mulher! — comentou Tutt.
— Refere-se a Adão? — perguntou o seu sócio. — De qualquer modo, agora que penso nisso, a máxima não é que "a necessidade é a primeira lei da Natureza", mas que "a necessidade não conhece lei".
— Aposto que... — começou Tutt. Depois hesitou, recordando uma certa aposta célebre que tinha perdido para o Sr. Tutt sobre a questão de quem cortara o cabelo a Sansão. — Aposto que não sabe quem o disse! — concluiu coxeante.
— Se bem me lembro — ruminou o Sr. Tutt —, Shakespeare diz em 'Júlio César' que 'a natureza deve obedecer à necessidade'; enquanto Rabelais diz 'a necessidade não tem lei'; mas a citação que usamos familiarmente é 'a necessidade não conhece lei exceto a de conquistar', que é de Publílio Siro.
— De quem? — gritou Tutt em surpresa gramatical.
— Não importa! — suavizou a Srta. Wiggin. — De qualquer forma, não foi Raphael B. Hogan.
— Que certamente satisfaz completamente a sua definição no que diz respeito a predar os ignorantes e indefesos — disse o Sr. Tutt. — Esse homem é uma hiena humana — pior que um salteador de estradas.
— Ainda assim, ele veste-se muito bem — interpôs Tutt. — É dono da sua casa e vive em harmonia com a sua esposa.
— Sem dúvida que é um marido leal e um pai dedicado — concordou o Sr. Tutt. — Mas, muito provavelmente, a hiena também o é. Certamente Hogan não tem a desculpa da necessidade para fazer o que faz.
— Não acha que ele tem de dar uma boa quantia a alguém? — exigiu Tutt. — Polícias, carcereiros, fiadores, sub-xerifes e todo o tipo de funcionários mesquinhos e corruptos. Com o que é que eu me preocupo!
_"As grandes pulgas têm pulgas pequenas sobre as costas para as morder, E as pulgas pequenas têm pulgas ainda menores, e assim ad infinitum,"_
citou a Srta. Wiggin, de forma nostálgica.
— Uma pulga tem de ser uma pulga — continuou Tutt. — Ele, ou ela, não pode ser outra coisa, mas Hogan não tem de ser advogado. Poderia ser um homem honesto se quisesse.
— Ele? Nem penses! Ele não conseguiria ser honesto nem que tentasse! — rugiu o Sr. Tutt. — Ele é apenas um animal carnívoro! Um comedor de homens! Falam sobre arranhar um russo e encontrar um tártaro; eu odiaria arranhar alguns dos nossos irmãos jurídicos.
— Eu também! — assentiu Tutt. — Acho que tem razão, Sr. Tutt. O Cristianismo e a Regra de Ouro são bons nos círculos sociais superiores, mas fora da Quinta Avenida existe o mesmo tipo de luta pela existência que acontece no mundo animal. Um homem pode ser toda doçura e luz para a sua esposa e filhos e ir à igreja aos domingos; pode até jogar limpo com o seu próprio grupo; mas fora do seu lar e círculo social, ele é um lobo devorador; pelo menos Raphael B. Hogan é!
* * * * *
O assunto da conversa inteiramente acidental que acabamos de narrar estava naquele momento de pé, pensativo, na janela do seu escritório, fumando um excelente charuto, preparando-se para retornar ao seio da sua família. Raphael B. Hogan acreditava em levar a vida com tranquilidade. Costumava dizer que, fora do horário de expediente, o seu tempo pertencia à sua esposa e aos seus filhos; e, várias vezes por semana, tinha por hábito, no caminho de volta para casa para o jantar, parar na floricultura ou na loja de brinquedos e levar consigo lembranças baratas do seu amor e afeto. Sobre a secretária atrás dele, por onde, no decorrer de cada mês, passava uma grande quantidade de dinheiro muito sujo, encontrava-se uma fotografia grande da Sra. Hogan e outra dos três pequenos Hogans em molduras de prata ornamentadas, e o seu rosto suavizava-se ternamente ao ver as suas fisionomias autoconscientes, mesmo num momento em que ele pudesse estar a esvaziar a conta poupança inteira de uma costureira viúva. Depois das cinco horas, esta hiena ronronava para a esposa e lambia as suas crias; no resto do tempo, não conhecia misericórdia.
Mas ele escondia a sua crueldade e a sua avareza sob uma máscara de benignidade. Era gordo, alegre e simpático, e o seu sorriso era o sorriso de um humanitário de bom coração. O leite da bondade humana transbordava de cada poro seu. De fato, ele estava sempre a queixar-se da quantidade de trabalho que tinha de fazer de graça. Era um anfitrião genial e generoso; discretamente proeminente na vida religiosa local da sua denominação; em tribunal, um modelo de urbanidade obsequiosa, deferente para com os juízes perante os quais comparecia e cortês para com todos com quem entrava em contato. Um homem gordo, de bom caráter, despreocupado e de espírito simples; deliberado, de fala lenta, bem-intencionado, com a honestidade a transparecer por todos os poros, ter-se-ia dito; alguém em quem a viúva e o órfão teriam encontrado um protetor leal e um amigo altruísta. E agora, tendo assim sutilmente conotado o caráter do nosso vilão, prossigamos com a nossa narrativa.
O telefone tocou na parede ao lado dele.
— É você, chefe? — veio a voz de Simpkins.
— Sim.
— Peguei um do Delany.
— O que é?
— Garoto quebrou uma janela — travessura maliciosa. Detido para exame amanhã às duas. Quinhentos de fiança.
— Tem açúcar?
— Não sei. Diz que o pai morreu e a mãe ganha dezessete por semana numa oficina de exploração e o manda para a escola. Tem um seguro. Vou passar lá agora mesmo.
— Bem — respondeu Hogan —, não a assuste tirando demais dela de início. Suponho que haja provas para o manter detido?
— Com certeza. Delany diz que viu.
— Tudo bem. Mas vá com calma! Boa noite.
— Deixe isso comigo, chefe! — assegurou Simpkins. — Vejo-o amanhã.
Observar-se-á que, nesta troca de informações profissional, nada foi dito sobre a possibilidade de estabelecer a inocência de Tony, mas que, pelo contrário, a mente do Sr. Simpkins estava concentrada na capacidade de pagamento da mãe. Esta era a única consideração realmente importante para ambos. Mas Hogan não se preocupou, pois sabia que Simpkins envolveria habilmente a Sra. Mathusek numa tal teia de apreensão que, em vez de enfrentar os seus medos, ela iria, se necessário, sair e roubar o dinheiro. Então, o Sr. Raphael B. Hogan desligou o fone e, com o coração cheio de gentil simpatia por toda a humanidade, caminhou lentamente para casa, parando para comprar algumas rosas para a Sra. Hogan e para comprar um bilhete para Daddy Long Legs no Strand, pois sempre que recebia um novo caso, ele fazia dele a ocasião para uma festa familiar, e queria que as crianças beneficiassem ao passar uma noite sob a doce influência da Srta. Pickford.
Ora, exatamente no momento em que o seu patrão comprava as rosas, o Sr. Simpkins entrou no apartamento da Sra. Mathusek e informou-a da prisão e encarceramento de Tony. Ele foi muito simpático quanto a isso, muito gentil, este homenzinho elegante de olhos cinzentos pálidos e nariz inquisitivo, semelhante ao de uma anta; e, após o primeiro momento de choque, a Sra. Mathusek ganhou coragem e implorou ao cavalheiro que se sentasse. Há sempre dois abutres a pairar sobre os pobres — a morte e a lei; mas, de ambos, a lei é o mal menor. O primeiro é uma calamidade; a última é um infortúnio. Um é definitivo, desesperador, irremediável; do outro, talvez possa haver uma saída. Ela sabia que Tony era um bom rapaz; tinha a certeza de que a sua prisão era um erro, e que, quando o juiz ouvisse as provas, deixaria Tony sair. A vida tinha sido dura com ela e fizera dela uma velha aos trinta e quatro anos, realmente velha, não apenas no corpo, mas no espírito, tal como na Idade Média o rigor da existência tornava até reis velhos aos trinta e cinco. O que sabem os ricos da idade? As mulheres dos pobres têm um dia de primavera, um ou dois anos de verão e uma vida inteira de outono e inverno.
A Sra. Mathusek desconfiava da lei e dos advogados em abstrato, mas a aparência do Sr. Simpkins era tão tranquilizadora que quase neutralizou na sua mente a angústia do infortúnio de Tony. Ele era claramente um cavalheiro, e ela tinha um respeito reverencial pela gente de bem. O que a gente fina dizia devia ser aceito como verdade. Além disso, este cavalheiro em particular era culto na lei e habilidoso em tirar pessoas desafortunadas de problemas. Ora, embora o Sr. Simpkins possuísse indubitavelmente esta última qualificação, era também verdade que ele era igualmente habilidoso em meter pessoas neles. Se ele, em última análise, duplicava as suas alegrias e reduzia as suas mágoas, inevitavelmente primeiro duplicava as suas mágoas e reduzia as suas economias. Como a bruxa em Macbeth: "Dobrem, dobrem, trabalho e problemas." Os seus objetivos eram infantilmente simples: primeiro, descobrir quanto dinheiro a sua vítima tinha e, depois, obtê-lo.
Os seus métodos não eram mais complicados do que os seus objetivos e tinham resistido ao teste de gerações de experiência. Então:
— Naturalmente, Tony deve ser libertado sob fiança — disse ele suavemente. — Não quer que ele passe a noite na cadeia.
— Cadeia! Oh, não! Quanto é a fiança? — exclamou a mãe de Tony.
— Apenas quinhentos dólares. Os seus olhos cinzentos pálidos observavam-na à procura do menor sinal de suspeita.
— Quinhentos dólares! Eoi! Eoi! É uma fortuna! Onde posso arranjar quinhentos dólares? — Ela desatou a chorar. — Guardei apenas cento e sessenta!
O Sr. Simpkins franziu os lábios. Então não havia nada a fazer! Ele estendeu a mão para o chapéu. A Sra. Mathusek torceu as mãos. Não poderia o cavalheiro pagar a fiança de Tony? Ele era um cavalheiro tão querido, gentil e bom! Ela examinou o rosto dele com avidez. O Sr. Simpkins admitiu, hesitante, que não possuía quinhentos dólares.
— Mas... — hesitou ele.
— Sim!
— Mas... — ela ecoou, agarrando a manga dele e puxando-o de volta.
O Sr. Simpkins achou que poderiam contratar alguém para pagar a fiança; não, nesse caso não haveria dinheiro para pagar ao grande advogado que eles deviam contratar imediatamente para defender o seu filho — o Sr. Hogan, alguém que tinha influência e chamava todos os juízes pelos primeiros nomes. Ele normalmente não compareceria em tribunal por menos de quinhentos dólares, mas o Sr. Simpkins disse que explicaria as circunstâncias a ele e quase poderia prometer à Sra. Mathusek que o persuadiria a fazê-lo desta vez por cento e cinquenta. Tão bem ele representou o seu papel que a mãe de Tony teve de o obrigar a aceitar o dinheiro, que ela descoseu de dentro do enchimento do seu colchão. Depois, ele conduziu-a à esquadra para lhe mostrar quão confortável Tony realmente estava e quão melhor era deixá-lo ficar na cadeia uma noite e garantir que ele fosse solto na tarde seguinte, dando o dinheiro ao Sr. Hogan, do que usá-lo para pagar a fiança e deixá-lo sem advogado e à mercê dos seus acusadores. Quando a Sra. Mathusek viu a cela em que Tony estava, ficou ainda mais assustada do que no início. Mas, nessa altura, ela já tinha dado o dinheiro a Simpkins.
Segundos pensamentos são, muitas vezes, os melhores. A maioria dos criminosos é eventualmente apanhada por, devido à longa impunidade, se ter tornado descuidada e ter cedido ao impulso. Uma vez assinado o auto de queixa no qual jurou ter visto Tony atirar o tijolo, Delany sofreu uma mudança de coração. Sendo um polícia experiente, era sensível à atmosfera oficial, e desenvolvera um palpite de que o juiz Harrison desconfiava do caso. Quanto mais pensava nisso, menos gostava da maneira como o filho da mãe agira, da maneira como tentara levar Mathusek a pedir uma audiência imediata. Por que fora ele tão tolo ao ponto de assinar a queixa ele mesmo? Tinha sido ridículo — apenas porque estava zangado com o rapaz por tentar fugir e queria facilitar as coisas para Froelich. Se fosse depor na tarde seguinte, teria de inventar todo o tipo de detalhes sofisticados, e Hogan pregaria a sua pele à porta do celeiro para sempre. Depois disso, acontecesse o que acontecesse, nunca seria capaz de mudar o seu testemunho. Afinal, seria fácil o suficiente abandonar a acusação neste momento. Era um caso genuíno de pés frios. Ele sentiu problemas. Queria desistir enquanto o desistir era bom. O que diabo Froelich fizera por ele, afinal? Algumas míseras peças de carne assada!
Quando Hogan voltou para casa naquela noite com os pequenos Hogans do cinema, encontrou o polícia à sua espera à porta.
— Ouça aqui — sussurrou Delany —, vou acabar com este caso da janela do Mathusek. Vou cair por terra na minha identificação e deixar você sair livre. Portanto, pegue leve comigo — e ajude-me um pouco, entende?
— O diabo você vai! — retorquiu Hogan indignado. — Então, onde entro eu, eh? Por que não cumpre com a sua parte?
— Mas eu enganei-me nele! — suplicou Delany. — Você não quer que eu meta o pescoço numa corda, quer, só para você poder ganhar uns trocados? Olhe para todo o dinheiro que mandei para o seu lado. Tenha coração, Rafe!
— Balelas! — zombou o honorável Rafe. — Um homem tem de viver! Você viu-o fazer isso! Você jurou, não jurou?
— Cometi um erro.
— Como é que isso vai soar para o comissário? E para o juiz Harrison? Não, não! Nada feito! Se você começar com algo assim, vou fritar a sua vida!
Delany cuspiu o mais perto que pôde, com elegância, do pé de Hogan.
— Você é um desgraçado, você é! — rosnou ele, e virou-lhe as costas como se fosse Satanás.
* * * * *
O tijolo que Terry McGurk arremessou por uma questão de princípio contra a janela de Froelich produziu consequências quase tão importantes quanto a falta do prego da ferradura na famosa máxima de Franklin. É o elemento desconhecido em cada transação que abre caminho para o perigo.
Na manhã seguinte à catástrofe, o Sr. Froelich apresentou prontamente um pedido à companhia de seguros com a qual tinha segurado a sua janela para o reembolso dos danos. Com a mesma prontidão, o advogado da companhia apareceu na talho e constatou que o malfeitor que cometera o ato hediondo tinha sido preso e seria levado a tribunal naquela tarde. Este advogado, cujo salário dependia indiretamente do sucesso que acompanhava os seus esforços para garantir a condenação e punição daqueles que tinham custado dinheiro à sua empresa, acampou imediatamente nos rastros tanto de Froelich quanto de Delany. Cabia-lhes, disse ele, mandar prender o autor da travessura desenfreada. Se não cooperassem, ele certamente averiguaria porquê. Ora, as companhias de seguros são corporações poderosas. Podem fazer favores e, inversamente, podem causar problemas, e o advogado Asche estava furioso com aquela janela. Se ele tivesse ouvido falar do lugar, tê-lo-ia comparado à destruição de Coucy-le-Château pelos Hunos.
Isto, para Delany, deu um aspecto inteiramente novo ao caso. Uma coisa era abandonar um caso e outra era cruzar-se com Nathan Asche. Ele tinha jurado a queixa e, se não cumprisse no banco das testemunhas, Asche tirar-lhe-ia o couro. Então, lembrou-se de que, se apenas Froelich fosse suficientemente enfático no seu testemunho, uma pequena incerteza da sua própria parte poderia ser desculpada.
Entretanto, porém, duas coisas tinham acontecido para azedar o entusiasmo de Froelich. Primeiro, a sua reclamação contra a Tornado Casualty Company tinha sido aprovada e, segundo, tinha sido informado por autoridade credível que tinham apanhado o rapaz errado. Ora, ele pensara sinceramente que tinha visto Tony atirar o tijolo — certamente vira um rapaz de camisola vermelha fazer alguma coisa —, mas percebeu também que estivera excitado e mais ou menos confuso na altura; e o seu informador — a Sra. Sussman, a esposa do vendedor de charutos — alegou positivamente que fora atirado por um miúdo estranho que aparecera repentinamente da esquina e tão repentinamente fugira na direção de onde viera.
Froelich percebeu que provavelmente se enganara e, sendo relativamente honesto — e estando também prestes a receber o seu dinheiro — e não querendo prestar falso testemunho, particularmente se pudesse mais tarde ser processado por detenção ilegal, decidiu esquivar-se e passar a batata quente para Delany, que estava definitivamente comprometido. Foi astuto o suficiente, porém, para não dar a sua verdadeira razão ao polícia, mas colocou-a no fundamento de estar tão confuso que não conseguia lembrar-se. Isto deixou Delany responsável por tudo.
— Mas você disse que aquele era o sujeito! — argumentou o polícia, que fora instar Froelich a assumir o ônus da acusação. — E agora quer deixar-me a segurar a trouxa!
— Bem, você disse você mesmo que o viu, não disse? — respondeu o alemão. — E você jurou. Eu não jurei nada.
— Ah, você! — rugiu o polícia enfurecido, e apressou-se a entrevistar o Sr. Asche.
Imitando um amplo humanitarismo, sugeriu a Asche que, se a Sra. Mathusek pagasse a janela, eles poderiam dar-se ao luxo de aliviar o rapaz. Ele fê-lo tão engenhosamente que conseguiu que Asche fosse lá, apenas para descobrir que ela não tinha dinheiro, tendo tudo sido dado a Simpkins. Caramba, que confusão!
É perfeitamente possível que, mesmo nestas circunstâncias, Delany ainda pudesse ter recorrido ao que na lei se chama *locus poenitentiae* não fosse o fato de a confusão ter-se tornado ainda mais confusa pela aparição sub-reptícia no caso do Sr. Michael McGurk, o pai do verdadeiro artista do tijolo, que descobrira que o polícia estava a ficar vacilante e a entreter a possibilidade absurda de retirar a acusação contra o inocente Mathusek, para perigo iminente da sua própria descendência. Em termos inequívocos, o dono da taberna deu a entender ao agora embaraçado guardião da paz pública que, se ele fizesse algo assim, fá-lo-ia ser expulso da força, para não falar de outras possibilidades mais sombrias ligadas ao necrotério. Tudo o que deu a Delany uma pausa decidida.
Hogan, pelas suas próprias razões, tinha, entretanto, chegado a uma conclusão independente sobre como poderia contornar a traição contemplada por Delany. Se, decidiu ele, o polícia voltasse atrás na sua identificação do criminoso, previa a libertação de Tony no tribunal de magistrados, e nenhum dinheiro mais. A única maneira segura, portanto, de evitar a fuga de Tony seria não dar a Delany a oportunidade de mudar o seu testemunho; e, ao renunciar ao exame perante o magistrado e consentir voluntariamente em ter o seu cliente detido para a ação do grande júri, caso em que Tony seria enviado para os Tombs e haveria tempo suficiente para Simpkins conseguir uma cessão do dinheiro do seguro da Sra. Mathusek antes que o grande júri expulsasse o caso. Isto também tinha a vantagem adicional de evitar qualquer jogada engraçada por parte do juiz Harrison.
Delany ainda estava indeciso sobre o que iria fazer quando o caso foi chamado às duas horas. É concebível que ele pudesse ainda ter tentado retificar o seu erro dizendo algo perto da verdade, apesar de Hogan, Asche e McGurk, mas a oportunidade foi-lhe negada.
Às duas horas, Tony, um mero fragmento atirado sem rumo para aqui e para ali por redemoinhos e correntes cruzadas, a única pessoa neste melodrama de motivos cujos interesses não estavam a ser considerados por ninguém, foi levado ao bar e, sem ser consultado sobre o assunto, ouviu o Sr. Hogan, o advogado gordo e gentil que a sua mãe contratara para o defender, dizer ao juiz que iam renunciar ao exame e consentir em ser detidos para a ação do grande júri.
— Vê como é, juiz — disse Hogan com um sorriso presunçoso. — O senhor não teria outra escolha senão deter o meu cliente com base no testemunho do oficial. A maneira mais fácil é renunciar ao exame e deixar o grande júri atirar o caso pela janela!
Delany ouviu este anúncio com intenso alívio, pois livrava-o do problema. Isso aliviá-lo-ia da perigosa necessidade de testemunhar perante o juiz Harrison e ele poderia mais tarde despejar o caso perante o grande júri quando chamado perante aquele augusto corpo. Além disso, ele poderia dar uma dica ao procurador distrital encarregado do gabinete de acusação de que o caso era uma fraude, e este último provavelmente expulsá-lo-ia por sua própria iniciativa. O gabinete do procurador não queria mais casos podres para processar do que o necessário. Parecia a sua melhor aposta, a única maneira de tirar os pés da armadilha. Que confusão por causa de alguns pedaços de carne podre!
— Entende o que está a ser feito, entende? — perguntou o juiz de rosto sagaz, asperamente. — Entende que isto significa que, a menos que pague fiança, terá de ficar na cadeia até que o grande júri despache o caso ou apresente uma acusação contra si?
Por baixo da cornija do estrado do juiz, Hogan deu-lhe uma palmadinha no braço, e Tony, olhando para encorajamento para o rosto grande e amigável acima dele, sussurrou "Sim".
Então Tony foi para os Tombs e foi alojado numa cela ao lado de Soko, o Monge, que quase espancara um chinês até à morte com um par de soqueiras de latão, de quem aprendeu muito que era excitante, se não edificante.
Ora, como Delany costumava dizer durante anos depois, aquele maldito caso Mathusek simplesmente estragou-se para ele. Ele acreditara que, na relativa privacidade da câmara inquisitorial, poderia facilmente fingir que fizera originalmente um erro honesto e que já não estava positivo quanto à identidade do réu, caso em que, quando o grande júri expulsasse o caso, ninguém saberia nunca a razão e nenhuma galinha viria a casa para descansar sobre ele.
Mas quando o polícia visitou o escritório do Vice-Procurador Distrital Caput Magnus na manhã seguinte, para o informar de que este caso de quebra de janela era uma Messina, encontrou o Sr. Nathan Asche já solidamente ali presente, empenhado em aconselhar o Sr. Magnus o mais enfaticamente possível para o contrário. De fato, o advogado foi retórico na sua insistência de que esta destruição da propriedade de contribuintes cumpridores da lei deve parar.
O Sr. Asche não era uma parte com a qual se pudesse brincar. Era uma pessoa retangular que nada podia mover, e a sua própria retangularidade denotava a sua retidão obstinada. Os seus ombros eram maciços e quadrados, o seu queixo e boca eram quadrados, as suas suíças eram cortadas de forma quadrada, e ele tinha uma cabeça quadrada e usava um chapéu de coco de topo quadrado. Parecia o retrato de família do Tio Amos Hardscrabble. Quando se sentava, permanecia até ter dito o que tinha a dizer. Foi um encontro infeliz para Delany, pois Asche pregou-o no local e fê-lo repetir para Caput Magnus a história de como vira Tony atirar o tijolo e depois, por alguma razão tola, não estando satisfeito em deixar ficar por aí, insistiu em chamar um estenógrafo e fazer Delany jurar a história em forma de declaração juramentada! Isto arruinou inteiramente qualquer hipótese que o polícia pudesse de outra forma ter tido de mudar o seu testemunho. Ele não tinha agora outra escolha senão avançar e jurar o caso perante o grande júri — o que ele fez.
Ainda assim, aquele distinto corpo de vinte e três cidadãos representativos não estava disposto a levar o assunto muito a sério. Depois de ouvirem o que Delany tinha a dizer — e ele foi bem incisivo e firme dadas as circunstâncias —, vários deles comentaram com desgosto que não entendiam por que o promotor público via razão em desperdiçar o seu tempo precioso com casos triviais daquele tipo. Rapazes brincam com bolas e rapazes atiram bolas por aí; se não bolas, então pedras. Estavam prestes a indeferir o caso por uma votação quase unânime, quando a situação se complicou novamente. O capataz, uma pessoa distinta em casaca de tecido grosso, levantou-se e anunciou que estava muito interessado em conhecer a opinião deles sobre o assunto, já que era presidente de uma companhia de seguros contra acidentes, e queria que compreendessem que milhares — se não centenas de milhares — de dólares em janelas de vidro eram quebrados voluntariamente por jovens arruaceiros, todos os anos, prejuízo que a sua companhia e outras tinham de reembolsar aos proprietários. De fato, alegou calorosamente, quebrar janelas era um sinal de perversidade peculiar. Criminosos incipientes geralmente iniciavam as suas carreiras infames dessa maneira; podia-se ler isso em qualquer livro de penologia. Deveria ser dado um exemplo. Apostava que aquele indivíduo que atirou o tijolo era um gangster.
Assim, os seus vinte e dois colegas do grande júri permitiram-lhe educadamente chamar novamente o oficial Delany e perguntar-lhe: "Diga lá, oficial, não é um fato — diga-nos francamente agora — se este tal Mathusek não é um gangster?"
"Claro, ele é um gangster. Ele andava a gabar-se disso para mim depois de eu o prender", jurou Delany sem hesitação.
O capataz varreu o círculo com um olhar triunfante.
"O que é que eu vos disse?", exigiu. "Todos a favor de indiciar o referido Tony Mathusek por destruição maliciosa de propriedade, manifestem-se da maneira habitual. Contra? É votado. Toque a campainha, Simmons, e traga o próximo caso."
Assim, Tony foi indiciado pelo Povo do Estado de Nova Iorque por um crime grave, e um juiz culto das Sessões Gerais fixou a sua fiança em mil e quinhentos dólares; e Hogan tinha a sua vítima onde a queria e onde a podia manter até ter sangrado a mãe até ao último tostão de tudo o que ela tinha ou poderia esperar ter neste mundo.
Toda a gente estava satisfeita — Hogan, Simpkins, Asche, McGurk, até Delany, porque as pulgas nas suas costas estavam satisfeitas e ele planeava, em última análise, ver-se livre de toda a maldita confusão fazendo com que a acusação fosse discretamente arquivada, quando ninguém estivesse a olhar, pelo seu amigo O'Brien, a quem o caso fora enviado para julgamento. E estando tudo como deveria estar, e Tony trancado em segurança numa cela, o Sr. Joey Simpkins dedicou-se à tarefa de extorquir mais trezentos e cinquenta dólares da Sra. Mathusek sob o pretexto de que o grande Sr. Hogan não poderia possivelmente conduzir o caso perante um júri por menos do que isso.
Ora, as relações do Sr. Assistente do Promotor Público O'Brien e do Exmo. Raphael B. Hogan eram distintamente amistosas. Em todo o caso, sempre que o Sr. Hogan pedia um adiamento no tribunal do Sr. O'Brien, geralmente conseguia-o sem dificuldade notável, e foi isso que ocorreu nas cinco ocasiões em que o caso do Povo contra Antonio Mathusek apareceu na pauta de julgamentos durante o mês seguinte ao encarceramento de Tony, em cada uma das quais o Sr. Hogan, com untuosa suavidade, se levantou e pediu humildemente que o caso fosse adiado a pedido urgente do seu cliente, para que o advogado pudesse ter tempo adequado para intimar testemunhas e preparar uma defesa.
E a cada dia Simpkins, que agora assumia um comportamento ameaçador e temível perante a Sra. Mathusek, visitava a mulher angustiada no seu apartamento e dizia-lhe que Tony podia e iria apodrecer em Tombs até ao momento em que ela conseguisse trezentos e cinquenta dólares. Na primeira semana, ela cedeu o dinheiro do seu seguro de vida; na segunda, penhorou a mobília; até que, finalmente, devia a Hogan apenas sessenta e cinco dólares. Intervaladamente, Hogan dizia a Tony que estava a tentar forçar o promotor público a julgar o caso, mas que este insistia em atrasar.
Na realidade, O'Brien nunca tinha olhado para os papéis, muito menos feito qualquer esforço para preparar o caso; se o tivesse feito, teria descoberto que não havia caso nenhum. E a mente de Delany ficou em paz porque percebeu que, no momento psicológico apropriado, poderia ir ter com O'Brien e sussurrar: "Diga, Sr. O'Brien, aquele caso Mathusek. É uma farsa! Melhor recomendar o arquivamento", e O'Brien fá-lo-ia pela simples razão de que nunca fazia mais trabalho do que aquele que era obrigado a fazer.
Mas, como quis o destino, três das cinco vezes, o Sr. Ephraim Tutt estava por acaso no tribunal quando o Sr. Hogan se levantou e fez o seu pedido de adiamento; e ele recordou-se disso porque a infração imputada era algo bastante estranho — partir uma janela.
O plano simples de Delany foi novamente derrotado pela Némesis, que o perseguiu na figura do retangular Sr. Asche, que se abriu caminho até ao escritório de O'Brien durante a quinta semana da prisão de Tony e quis saber por que diabos ele não julgava aquele caso Mathusek e se livrava dele. O assistente do promotor público tinha acabado de levar uma bronca do seu chefe oficial e, estando ainda irritado, ficou contente com a oportunidade de descarregar em alguém.
"Achas que não tenho nada melhor para fazer do que julgar os teus malditos casos de vidros partidos?", retorquiu ele. "Quem teve a ideia de indiciar um rapaz por esse tipo de coisa, afinal?"
"Essa não é maneira de falar", respondeu o Sr. Asche com firmeza. "Você é pago para processar quaisquer casos que lhe sejam enviados. Este é um deles. Houve demasiados atrasos. O nosso presidente ficará aborrecido."
"Oh, ficará, ficará?", retorquiu O'Brien, decidindo, no entanto, que o melhor seria encontrar outra desculpa que não a mera falta de vontade. "Se ele ficar muito irritado, direi-lhe que o caso chegou aqui sem qualquer preparação e, sendo de natureza privada, estivemos à espera que vocês ganhassem os vossos honorários. O que achas disso, hein?"
O Sr. Asche ficou descolorido.
"H'm!", respondeu ele suavemente. "Então é isso, é? Não terá essa desculpa por muito tempo, mesmo que pudesse safar-se agora. Terei um resumo do julgamento e declarações de todas as testemunhas prontos para si em quarenta e oito horas."
"Tudo bem, velhote!", assentiu O'Brien descuidadamente. "Esforçamo-nos sempre por agradar!"
Assim, o Sr. Asche pôs-se ao trabalho, enquanto no mesmo dia o Sr. Hogan pedia e obtinha outro adiamento.
Algumas pessoas assemelham-se a animais; outras têm um aspeto geométrico. Em cada classe, a semelhança tende a indicar caráter. O homem com cara de raposa tende a ser astuto, o homem triangular tende a ser um bronco. Assim, o Sr. Asche, sendo retilíneo, era uma pessoa reta; tal como o Sr. Hogan, sendo mole e redondo, era escorregadio e difícil de agarrar. Passaram três dias, durante os quais a Sra. Mathusek ficou abatida e desesperada. Ela poupava à taxa de dois dólares por dia e, a esse ritmo, conseguiria comprar a Tony um julgamento em mais cinco semanas. Ela tinha esgotado as suas possibilidades como mutuária. A acusação dormia no arquivo de metal de O'Brien. Ninguém além de Tony, da sua mãe e de Hogan se lembrava da existência de tal caso, exceto o Sr. Asche, que uma tarde apareceu inesperadamente nos escritórios da Tutt & Tutt, cujo sócio principal daquela célebre firma de advogados era, por acaso, consultor da Tornado Casualty Company.
"Só quero que veja estes papéis, Sr. Tutt", disse o Sr. Asche, e o seu maxilar parecia mais quadrado do que nunca.
O Sr. Tutt estava reclinado como de costume na sua cadeira giratória, com os pés cruzados sobre o seu antigo escritório de mogno.
"Tome um charuto!", observou ele sem se levantar, indicando com a ponta de uma bota a caixa que jazia aberta junto ao Código de Processo Penal. "Qual é a sua aflição?"
"O diabo está à solta!", respondeu o Sr. Asche, entregando solenemente um maço de declarações juramentadas. "Eu nunca fumo."
O Sr. Tutt, um tanto relutantemente, mudou a sua posição da horizontal para a vertical e estendeu a mão para um charuto novo. Então, o seu olhar captou o nome de Raphael B. Hogan.
"Que diabo é isto?", exclamou ele.
"É o próprio diabo!", respondeu o Sr. Asche com súbita veemência.
"Tutt, Tutt! Venha cá!", gritou o chefe da firma. "O meu inimigo foi entregue nas minhas mãos!"
"Eh? Quê?", perguntou Tutt, saltando o limiar. "Quem — quero dizer —"
"Raphael B. Hogan!"
"O diabo!", exclamou Tutt.
"Disse-o bem!", declarou o Sr. Asche devotamente.
* * * * *
Naquela noite, sob a cobertura da escuridão, o Sr. Ephraim Tutt saiu de um táxi em ruínas na esquina adjacente à talho de Froelich e, várias horas depois, foi levado de volta ao centro da cidade, para a residência de pedra castanha ocupada pelo Exmo. Simeon Watkins, o venerável juiz de cabelos brancos que presidia então à Parte I das Sessões Gerais, onde permaneceu até ao que se pode descrever como uma hora muito tardia ou muito cedo, e onde, durante o período final do seu convívio, ele e aquele distinto membro da magistratura esvaziaram uma garrafa antiga contendo um líquido rosado espumante de grande beleza artística.
Depois, o Sr. Tutt regressou à sua própria biblioteca na casa da Rua Vinte e Três e caminhou de um lado para o outro diante da antiquada lareira aberta, inalando quantidades do que o Sr. Bonnie Doon irreverentemente chamava de "fumo de feno", e ponderando profundamente sobre os males que os homens fazem uns aos outros, até que o amanhecer espreitou pelas janelas e ele lembrou-se da lanchonete aberta a noite toda ao virar da esquina da Décima Avenida, e lá procurou refresco.
"Salvatore", comentou ele com o filho sorridente dos olivais que atendia aquele balcão da inocência, "o pior vigarista do mundo é o homem que faz o mal por simples dinheiro."
"Si, Signor Tutti", respondeu Salvatore com perspicácia latina. "Tem um, eh? Vai dar-lhe uma lição?"
"Si! Si!", respondeu o Sr. Tutt alegremente. "Exatamente! E na verdade, além disso! Dê-me outro cachorro-quente e uma chávena de água suja!"
* * * * *
"Povo contra Mathusek?", perguntou o Juiz Watkins algumas horas depois na chamada da pauta, parecendo vagamente como se nunca tivesse ouvido falar do caso antes, em redor da Parte I, que estava como de costume cheia, quente, abafada e a cheirar a roupa suja e almoço de prisioneiros. "Povo contra Mathusek? O que quer que seja feito com este caso, Sr. O'Brien?"
"Pronto!", cantou o ruivo O'Brien e, exatamente como esperava, o Exmo. Raphael Hogan soltou-se da sua maneira lenta e genial e disse: "Se Vossa Excelência me permite, o arguido gostaria de mais alguns dias para conseguir as suas testemunhas. Vossa Excelência faria o favor de adiar o caso por uma semana?"
Ele não notou que o estenógrafo estava a anotar tudo o que ele dizia.
"Observo", notou o Juiz Watkins com aparente amabilidade, "que já teve cinco adiamentos. Se as testemunhas do Povo estão aqui, estou inclinado a ordenar que prossiga. O arguido está sob acusação há seis semanas. Isso deveria ser tempo suficiente para preparar a sua defesa."
"Mas, Vossa Excelência", retorquiu Hogan com patetismo, "as testemunhas são muito difíceis de encontrar. São pessoas trabalhadoras. Passei noites inteiras atrás delas. Além disso, o arguido está perfeitamente satisfeito por deixar o caso arrastar-se. Ele está ansioso por um adiamento!"
"Quando o viu pela última vez?"
"Ontem à tarde."
O juiz desdobrou os papéis e pareceu estar a lê-los pela primeira vez. Ele próprio não era um mau ator, pois já tinha aprendido com o Sr. Tutt que Hogan não estava perto de Tony há três semanas.
"Um... um! Representou o arguido no tribunal de polícia?"
"Sim, Vossa Excelência."
"Por que dispensou o exame?"
Hogan sentiu subitamente um caroço a inchar na sua faringe. Que diabos era aquilo tudo?
"Eu... er... não havia utilidade em lutar contra o caso lá. Tive esperança de que o grande júri o arquivasse", gaguejou ele.
"Alguém lhe pediu para dispensar o exame?"
O inchaço no pescoço gordo de Hogan aumentou. Suponha que McGurk ou Delany estivessem a tentar passar-lhe a perna!
"Não! Certamente que não!", respondeu ele de forma pouco convincente. Não queria dar a resposta errada se pudesse evitá-lo.
"Tem um... associado, não tem? Um Sr. Simpkins?"
"Sim, Vossa Excelência." Hogan estava pálido agora e pequenas gotas acumulavam-se sobre as suas sobrancelhas.
"Onde ele está?"
"Lá em baixo, no tribunal do magistrado."
"Oficial", ordenou o juiz, "mande buscar o Sr. Simpkins. Vamos suspender até ele chegar aqui."
Então, Sua Excelência ocupou-se com alguns papéis, deixando Hogan sozinho na barra, a tentar entender o que aquilo tudo significava. Começou a desejar nunca ter tocado no maldito caso. Toda a gente no tribunal parecia estar a olhar para ele e a sussurrar. Ele estava extremamente desconfortável. Suponha que aquele polícia corrupto o tinha traído! No mesmo instante, no fundo da sala, um pensamento semelhante passou pela mente de Delany. Suponha que Hogan o traía! Coincidentemente, ambos os canalhas sentiram-se doentes. Então, veio a cada um a percepção simultânea de que nenhum deles poderia ganhar nada entregando o outro, e que a única coisa possível para ambos era manter a posição. Não, tinham de se manter unidos ou, certamente, ser enforcados separadamente. Então, a porta abriu-se e um oficial alto entrou, seguido por um Sr. Joey Simpkins muito nervoso.
"Venha aqui!", ordenou o juiz. "É o assistente do Sr. Hogan, não é?"
"Sim, senhor!", respondeu o ansioso Simpkins.
"Quanto dinheiro tirou à Sra. Mathusek?"
"Quatrocentos e trinta e cinco dólares."
"Para quê?", perguntou rispidamente.
"Para proteger o seu filho."
"Onde? Como?"
"Bem... desde a sua detenção até ao momento presente — e para a sua defesa aqui nas Sessões Gerais."
"Fizeram você ou o Sr. Hogan alguma coisa até agora — exceto dispensar o exame no tribunal de polícia?"
O Sr. Simpkins virou-se apressadamente para o Sr. Hogan, que percebeu que as coisas estavam a correr mal.
"Vossa Excelência", interpôs ele com voz grossa, "este dinheiro foi um honorário acordado pelos meus serviços como advogado. Este exame parece-me um tanto desnecessário e injusto."
"Chame Tony Mathusek à barra!", ordenou subitamente o juiz.
Era uma jogada perigosa, mas Hogan decidiu blefar.
"Tendo em conta que não recebi os meus honorários, recusar-me-ei a comparecer pelo arguido!", anunciou ele descaradamente.
"Na verdade!", retorquiu o juiz com sarcasmo. "Então, designarei o Sr. Ephraim Tutt para a defesa. Os dois senhores por favor sentem-se — mas não saiam do tribunal. Podemos precisar de vocês."
Nesse momento, logo quando o arguido foi levado à barra, o Sr. Tutt emergiu de trás da caixa do júri e posicionou-se ao lado de Tony. Pouco notável antes, o rapaz era ainda menos agora, com a palidez da prisão no seu rosto pequeno e encovado. Havia algo no pescoço fino, na boca entreaberta e nos olhos encovados, a piscar, que sugeria os de um passarinho indefeso.
"Escolham um júri!", continuou o juiz, e o Sr. Tutt conduziu Tony para dentro da grade e sentou-se ao lado dele na mesa reservada para o arguido.
"Está tudo bem, Tony!", sussurrou ele. "A armação não é contra ti desta vez, meu rapaz."
Encolhido no fundo da sala, Delany tentou esconder-se entre os espectadores. Alguma coisa diabólica tinha corrido mal. Ele não tinha ouvido tudo o que tinha passado entre o juiz e Hogan, mas tinha percebido o suficiente para notar que o caso todo tinha ido pelo cano.
O Juiz Watkins era esperto! Ele ia atrás de Hogan exatamente como o velho Tutt iria atrás dele, Delany. Havia um zumbido na sua cabeça e o sangue ardia-lhe nos olhos. Era melhor ele dar o fora! Meio dobrado, começou a esgueirar-se para a porta.
"Quem é aquele homem a tentar sair?", gritou o juiz com um tom aterrorizante que fez Delany tremer até aos tornozelos. Apressadamente, tentou sentar-se.
"Tragam aquele homem à barra!"
Meio cego de medo, Delany tentou fingir bravata e caminhar com arrogância até à grade.
"Qual é o seu nome?"
"Delany. Oficial afeto ao Segundo Distrito."
"Por que estava a sair da sala?"
Delany não conseguiu responder. O seu juízo estava toldado, a sua garganta dormente. Simplesmente olhou fixamente para o Juiz Watkins, os seus lábios vibrando de medo.
"Sente-se. Não; vá para o banco das testemunhas!", gritou o Juiz Watkins. "Eu mesmo julgarei este caso."
Como se o seu pé já estivesse preso a uma bola de ferro, Delany arrastou-se para cima — para cima — centenas de pés acima, parecia — para a cadeira das testemunhas. Como se fosse da encosta de uma montanha, viu formas indistintas movendo-se para a caixa do júri, ouviu o juiz e o Sr. Tutt trocando observações sem sentido. Os rostos diante dele sorriam e gesticulavam como uma horda de macacos. Tinham-no apanhado finalmente — tudo por causa de uns pedaços de carne podre! Aquele cão de caça magro e faminto arrancaria a sua língua pelas raízes se ele abrisse a boca; rasgaria as suas entranhas. E o velho Tutt fixava-o com o olhar de um basilisco, transformando-o lentamente em pedra. Alguém tinha traído, com certeza! Ele tinha estado uma vez numa feira em Coney Island onde a sala simulava o movimento de um navio a vapor. O tribunal começou a fazer o mesmo — inclinando-se para um lado e para o outro e girando obliquamente. Através do turbilhão das suas rotações, ele podia ver os olhos de abutre do velho Tutt, crescendo, tornando-se mais ferozes, mais sinistros a cada instante. Estava tudo acabado para ele! Era uma execução, e a multidão lá em baixo estava sedenta pelo seu sangue, esperando para o despedaçar!
"Viu este rapaz atirar um tijolo pela janela do Sr. Froelich, não viu?", instigou o Juiz Watkins insinuantemente. Delany sentiu que o velho raposa branca estava a tentar enganá-lo — apanhá-lo por perjúrio. Não! Ele não voltaria a perjurar-se! Não! Mas o que podia ele fazer? A sua cabeça balançava estupidamente, oscilando como a de um touro atordoado. O suor derramava-se de cada poro do seu corpo vasto. Um ruído rouco — como um estertor de morte — saiu-lhe da garganta. A sala dissolveu-se em ondas de branco e preto. Então, em vertigem, ele tombou para a frente e atirou-se de cabeça ao chão.
* * * * *
Deacon Terry, repórter estrela do Tribune, que estava por acaso lá, disse ao seu editor de cidade ao meio-dia que nunca tinha passado uma manhã tão agradável. O que ele viu e ouviu constituiu, alegou ele, uma grande história de primeira página "numa caixa" — embora só tenha recebido quatro linhas na décima primeira página — sendo empurrada pelo armistício. Ora, disse ele, foi a coisa mais maldita de sempre! Não houve qualquer prova contra o arguido! E depois de o polícia ter colapsado, o Juiz Watkins recusou-se a arquivar o caso e ordenou ao Sr. Tutt que continuasse à sua própria maneira.
O processo tinha-se resolvido num julgamento criminal de Hogan e Simpkins. O bom caráter de Tony foi estabelecido em três minutos, e então meia dúzia de testemunhas respeitáveis testemunharam que o tijolo tinha sido atirado por um rapaz completamente diferente. Finalmente, Sussman e o seu assistente juraram positivamente que Delany estava nas traseiras da loja de tabaco, de costas para a porta, obrigando-os a dar-lhe charutos, quando a queda aconteceu.
Terry queria duas colunas; quase chorou quando cortaram a sua grande história de página inteira para:
ADVOGADOS ACUSADOS DE EXTORSÃO
Uma cena dramática foi encenada no final de um caso menor na Parte I das Sessões Gerais ontem, quando por moção de Ephraim Tutt, da firma Tutt & Tutt, o Juiz Simeon Watkins, sentado como magistrado de instrução, reteve para a ação do grande júri Raphael B. Hogan e Joseph P. Simpkins, o seu assistente, pelo crime de extorsão, e ordenou que o seu caso fosse encaminhado ao Comitê de Queixas da Associação de Advogados do Condado para a ação necessária para a sua desqualificação.
Mais cedo no julgamento, um oficial de polícia chamado Delany, a suposta testemunha principal da acusação, desmaiou e caiu da cadeira das testemunhas. Após a sua recuperação, ele foi ali mesmo detido por perjúrio, à falta de dez mil dólares de fiança. Entende-se que ele sinalizou a sua disposição de se tornar testemunha do estado, mas que a sua oferta não foi aceite. Até onde se pode verificar, esta é a primeira vez que Hogan ou Simpkins foram acusados de uma infração criminal. O Promotor Público Peckham declarou que, além de acusações separadas por extorsão e perjúrio, pediria outra, acusando todos os três arguidos do crime de conspiração para obstruir a devida administração da lei.
Ao concluir o processo, o Juiz Watkins permitiu que o Sr. Tutt organizasse uma coleta voluntária em benefício do acusado entre os jurados, os funcionários do tribunal e os espectadores, a qual totalizou mil cento e oitenta e nove dólares. A este respeito, o juiz expressou a opinião de que era lamentável que pessoas falsamente acusadas de crime e injustamente aprisionadas não tivessem qualquer reparação financeira a não ser por meio de um ato especial da legislatura. O réu, no caso em questão, estivera preso por seis semanas. Entre as contribuições, encontrou-se uma nota nova de mil dólares.
"Falem em crime!", disse o Diácono, selvagemente, a Charlie Still, do Sun. "Aquele tolo inútil da redação cometeu agressão, lesão corporal e homicídio na minha matéria!" Depois, acrescentou pensativo: "Se eu achasse que o velho Tutt me passaria mil dólares para aliviar meus sentimentos feridos, eu mesmo iria lá reter a firma dele!"
O Garoto e o Camelo
Existe o homem com alma tão morta Que nunca a si mesmo tenha dito, Esta é a minha, minha terra natal! --LAY OF THE LAST MINSTREL.
A rua mais curta do mundo, a Edgar Street, conecta o centro financeiro de Nova Iorque ao Levante. Há menos de quinze metros através desta minúscula via pública desde as portas traseiras dos grandes edifícios de escritórios da Broadway até a Greenwich Street, onde as letras nos letreiros das janelas se assemelham a minhocas contorcidas e onde é tão provável tropeçar num homem de Bagdá quanto de Boston. Pode-se ficar parado no meio dela e, com o ouvido ocidental, captar o calão de Gotham e, com o oriental, todos os dialetos de Damasco. E se, por alguma convulsão inesperada da Natureza, o número 51 da Broadway desabasse, o Sr. Zimmerman, o corretor da bolsa, cujo escritório fica no sexto andar, poderia facilmente cair longe do restaurante grego na esquina da Greenwich Street, rolar mais vinte e cinco metros pela Morris Street e encontrar-se na Washington Street a ler um exemplar do Al-Hoda e a almoçar baha gannouge, majaddarah e milookeiah, que, afinal de contas, são apenas salada de beringela, lentilhas e arroz, e o favorito popular conhecido como Combinação Egípcia.
Para a maioria dos nova-iorquinos, esta é uma seção da cidade totalmente desconhecida e insuspeitada, ainda que existente como numa quarta dimensão a um tiro de pedra — e mais perto — da nossa mais movimentada artéria metropolitana; e ali, a menos de cem metros do escritório supracitado do Sr. Zimmerman, acima dos carros elétricos da Broadway, e ao alcance do som das buzinas dos automóveis de muitos multimilionários, numa certa noite, algo de caráter oriental estava acontecendo no corredor de uma casa na Washington Street que subsequentemente desempenhou um papel nas vidas profissionais de Tutt & Tutt.
Da escuridão literalmente egípcia do cortiço pertencente a Abadallah Shanin Khaldi, emanavam sons abafados e curiosos, juntamente com um inconfundível, pungente e circense odor.
"Pá!"
Ouviu-se um grunhido indignado, seguido por um gemido flácido e pelo esforço e ranger da escadaria mal construída, enquanto Kasheed Hassoun aplicava vigorosamente uma ripa nas ancas calejadas de Eset el Gazzar.
"Ascende, cão de um cão!", ofegava Kasheed. "Move teus pés malditos, ó corcunda murcha! Filha de Satanás, dá-me espaço! Estás a espremer a minha vida! Apenas segue, filha do meu coração! É apenas um passo acima, ó Rainha do Nilo. Segura a corda com firmeza, Kalil!"
O camelo avançou obedientemente, quebrando um trecho do corrimão. Através da confusão vinda do corredor acima, ouviu-se fracamente a voz de Kalil Majdalain.
"A cabeça dela está livre do teto. Rápido, Kasheed! Vira-a, tu, sobre o patamar!"
"Pá!", respondeu a ripa na mão de Kasheed Hassoun.
Passo a passo, o gentil e peludo animal tateava o caminho com pés, joelhos e focinho subindo a escadaria estreita. O que seria isso senão mais uma daquelas experiências bizarras que qualquer camelo-do-mundo deve esperar numa terra onde os poços de água esguichavam através de um tubo e os homens viajavam em carruagens movidas a fogo?
"Pá!"
"Segue, querida da minha alma!", sussurrou Kasheed. "Maldições sobre o teu pai e sobre a mãe que te gerou! Não te vais mover?"
"Pá!"
"Ai! Demônio fêmea! Pisaste no meu pé!"
Lá fora, para que o mundo ocidental não suspeitasse do que estava acontecendo, Shaheen Mahfous e Shanin Saba descarregavam, com o máximo de ruído possível, uma carroça de papel para o Meraat-ul-Gharb, o Daily Mirror. Logo, uma janela no quarto andar abriu-se e a cabeça de Kalil Majdalain apareceu.
"Mahabitcum!", ele sorriu; o que, sendo interpretado, significa "Boa camaradagem a todos!"
Então, pouco depois, ele e Kasheed juntaram-se aos outros na calçada e, tendo os rolos de papel sido entregues dentro da sala de impressão, os quatro sírios subiram no caminhão e dirigiram-se ao restaurante de Ghabryel & Assad, dois quarteirões mais ao norte, onde comeram um pouco de awamat, tomaram café e fumaram cigarros, e depois jogaram uma partida de cartas, enquanto no sótão do cortiço Eset el Gazzar mastigava um bocado de feno e acessava o seu reservatório interior para beber um gole de água limpa, suspirando através de suas narinas valvulares e fazendo beicinho com seus lábios almofadados, ponderando sobre os caprichos da existência quadrúpede.
Willie Toothaker, o contínuo da Tutt & Tutt, havia aperfeiçoado uma catapulta nos moldes daquelas usadas no Cerco de Cartago — forma derivada do apêndice da Gramática Latina de Allen e Greenough — que pressagiava o mal para os motoristas de caminhão da parte baixa de Gotham.
Desde a sua mudança de Pottsville Center, o gênio inventivo de Willie operou uma espécie de transformação nos escritórios da Tutt & Tutt, pois ele concebeu vários expedientes de economia de trabalho, como uma série complicada de polias para abrir janelas e fechar portas automaticamente sem que fosse preciso levantar-se; o que, como de fato funcionavam, o Sr. Tutt, sendo um pragmático, tolerava silenciosa, paciente e bom-humoradamente. Hoje, ambos os sócios estavam fora, no tribunal, e Willie tinha o escritório só para si, com exceção do velho Scraggs.
"Aposto que atira um quarteirão!", afirmou Willie, recolocando o chiclete, que havia removido temporariamente para evitar o perigo de engoli-lo devido à sua empolgação. "César usou uma igual a esta — só que maior, é claro. Vê aquela escotilha ali na Washington Street? Aposto que consigo acertar!"
"Aposto que não consegues chegar nem a sessenta metros dela!", retorquiu o escrivão de olhos lacrimejantes. "É muito mais longe do que pensas."
"Não é nada!", declarou Willie. "Eu sei a distância! O que podemos atirar?"
O olho de Scraggs vagou sem rumo pela sala.
"Oh, não sei."
"Tem de ser algo com peso", disse Willie. "'Tem de vencer a resistência da atmosfera."
"Que tal aquele peso de papel?"
"É pesado demais."
"Bem--"
"Já sei!", exclamou William de repente. "Dá-me aquele vidrinho de tinta vermelha. É o tamanho certo. E quando atingir, deixará uma marca para sabermos onde acertamos — como um alvo de verdade."
Scraggs hesitou.
"Tinta custa dinheiro", protestou ele.
"Mas é exatamente o que precisamos!", insistiu Willie. "Além disso, podes cobrar-me no caixa pequeno. Dá-me cá!"
Sendo a consciência assim satisfeita, os dois colocaram avidamente o frasco de tinta no receptáculo apropriado, que Willie fabricara com uma caixa de charutos, distorceram o arco e apontaram o aparelho para a escotilha inclinada, que se projetava de uma espécie de cobertura no telhado do cortiço do outro lado da rua.
"Agora!", exclamou ele extasiado. "Sai da frente, Scraggs!"
Ele pressionou uma alavanca. Houve um zunido, um assobio — e o frasco de tinta disparou numa bela parábola sobre a Greenwich Street.
"Nossa! Olha ela a ir!", gritou Willie em triunfo. "Reta como um fio."
Exatamente naquele instante — e justamente quando a garrafa estava prestes a descer sobre a cobertura — a escotilha abriu-se e foi projetada para fora uma enorme face amarela com lábios enormes e fuliginosos, contorcidos num sorriso inconfundível. No longo pescoço ondulante, a cabeça assemelhava-se a um dos manequins grotescos carregados em desfiles de circo. Eset el Gazzar, em busca de ar, descobrira que a escotilha do sótão estava ligeiramente entreaberta.
"Puxa! Um camelo!", arfou Willie.
"Senhor do amor!", exclamou Scraggs. "É mesmo um camelo!"
Houve um leve estrondo e um tilintar de vidro quando o frasco de tinta vermelha atingiu o telhado da cobertura, logo acima da cabeça do animal, e o inundou com seu conteúdo vermelhão. Eset empinou-se, sacudiu o pescoço, deu um grunhido desafiador e retirou rapidamente a cabeça para dentro do sótão.
Sophie Hassoun, a esposa de Kasheed, vendo a violenta mudança na compleição de Eset, torceu as mãos.
"O que fizeste, ó filha dos demônios? Estás a sangrar! Cortaste-te! Ai de mim, talvez morras, e então estaremos arruinados! Imprudente! Descuida! Maldita seja a tua tolice! Não tens cuidado? E não me atrevo a chamar o Doutor Koury, o veterinário, pois então a tua presença seria descoberta e os gendarmes viriam e levar-te-iam embora. Quem dera tivéssemos deixado-te em Coney Island! Ó, bisneta de Al Adha — camelo sagrado do Profeta — por que fizeste isso? Por que trouxeste miséria sobre nós? Awar! Awar!"
Ela atirou-se sobre o divã improvisado no canto, enquanto Eset, piscando os olhos, lambia a sua grande corcunda traseira amarela e tombou para a frente sobre os joelhos, preparando-se para se sentar.
"Um camelo!", repetiu Willie, com os olhos arregalados. Ele contou os telhados que separavam a cobertura de onde a Morris Street cortava o quarteirão. "Viva!", gritou ele, e saiu disparado do escritório.
Em menos de quatro minutos, o Patrulheiro Dennis Patrick Murphy, que estava de serviço na Washington Street, em frente ao Bazar de Bordados de Nasheen Zereik, conversando com Sardi Babu, viu um garoto ruivo e de nariz arrebitado vir voando pela esquina.
"Um, dois, três, quatro, cinco. É aquela casa!", gritou Willie Toothaker. "É aquela!"
"De que estás a falar?", arrastou Murphy.
"Há um camelo ali dentro!", gritou Willie, pulando de alegria.
"Camelo — a tua tia!", zombou o policial. "Eles não conseguiriam meter camelo nenhum ali dentro!"
"Há! Eu vi-o enfiar a cabeça pelo telhado!"
Sardi Babu, o pequeno negociante de fronhas de rosto oleoso, sorriu astuciosamente. Ele tinha cachos pretos grossos, divididos exatamente pelo meio do couro cabeludo, pendendo até os ombros, e uma farta barba negra e encaracolada que chegava ao meio do peito; além disso, vestia uma blusa azul e chinelos de carpete. Ele era um maronita do Líbano, e ele e os seus tinham uma rivalidade com Hassoun, Majdalain e todos os outros que pertenciam à seita liderada pelo Patriarca de Antioquia.
"Belki!", comentou ele significativamente. "Talvez as suas palavras sejam verdadeiras! Já ouvi sussurros de Lillie Nadowar, agora esposa de Butros, o confeiteiro. Além disso, eu mesmo vi feno na escada."
"Hã?", exclamou Murphy. "Logo descobriremos. Vem comigo, Babu! Mostra-me onde viste o feno."
A essa altura, aqueles que estavam descansando na soleira adjacente correram para ver o que estava acontecendo, e uma multidão se formou.
"É falso — o que ele diz!", declarou Gadas Maloof, o sapateiro. "Sentei-me em frente à casa dia e noite por dez, quinze anos — e nenhum camelo entrou. Camelo! Como se poderia levar um camelo por escadas tão estreitas?"
"Mas tu és amigo de Hassoun!", retorquiu Fajala Mokarzel, o merceeiro. "E", acrescentou ele num tom mais baixo, "de Sophie Tadros, a sua esposa."
Houve uma risadinha contida na multidão, e Murphy deduziu que estavam rindo dele.
"Mas este homem", gritou ele com raiva, apontando para Sardi Babu, "diz que todos vocês sabem que há um camelo lá em cima. E este garoto viu-o! Venham logo, os dois!"
Houve um murmúrio de raiva na multidão. Sardi Babu ficou pálido.
"Eu não disse nada!", declarou ele, tremendo. "Não fiz queixa nenhuma. O gendarme confirmar-me-á. Que me importa onde Kasheed Hassoun guarda o seu camelo?"
Maloof abriu caminho até ele e, agarrando o maronita pela barba, murmurou em árabe: "Teu cão! Vai confessar os teus pecados! Pois, pela Santa Cruz, certamente não tens muito tempo de vida!"
Murphy agarrou Babu pelo braço.
"Vamos!", ordenou ele ameaçadoramente. "Cumpre agora!" E levou-o escada acima, com a multidão pressionando logo atrás.
* * * * *
"O que é tudo isto?", perguntou o Magistrado Burke, confuso, uma hora depois, quando o Oficial Murphy entrou no tribunal de polícia conduzindo um sírio alto com um sobretudo pesado e chapéu Fedora verde, seguido por várias centenas de levantinos de cabelos pretos e pele azeitonada. "Não deixem entrar todos esses Dagos aqui! Mantenham-nos fora! Isto não é um cinema!"
"Eles não são Dagos, juiz", sussurrou Roony, o escrivão. "Eles são turcos."
"Eles não são turcos coisa nenhuma!", contradisse o estenógrafo, cuja gramática era quase sublimada em comparação com a de Roony. "Eles são armênios — pode notar-se pela compleição."
"Bem, eu não os quero aqui, sejam o que forem!", anunciou Burke. "Não gosto deles. O que tens aí, Murphy?"
"Chiu! Saiam daqui!", ordenou o oficial de serviço.
A multidão, no entanto, não entendendo, apenas sorriu.
"Avanti! Alley! Mouch! Caiam fora!", continuou o oficial, agitando os braços e empurrando os que estavam mais próximos em direção à porta.
A multidão recuou obedientemente. Eram um grupo gentil e de mente simples, acostumados no país de origem à opressão, chantagem e tirania, e ardendo com um fervor religioso desconhecido para a pálida heterodoxia do Ocidente.
"Isto aqui", começou Murphy, "é uma queixa de Sardi Babu" — ele girou o homenzinho encolhido com um puxão diante da bancada — "contra um tal de Kasheed Hassoun por violação das normas de saúde."
"Não, não! Eu não reclamo! Não sou alguém que reclama. Não é nada para mim se Kasheed Hassoun mantiver um camelo! Não me importa", gritou Babu em árabe.
"Do que é que ele está a falar?", interrompeu Burke. "Eu não entendo esse tipo de língua estranha."
"Ele faz a queixa de que este Hassoun aqui" — ele indicou o homem alto de sobretudo — "está a violar a Seção 1093d dos regulamentos ao manter um camelo no seu sótão."
"Camelo!", exclamou o magistrado. "No sótão dele!"
Murphy acenou com a cabeça.
"Está lá, sim senhor, juiz!", observou ele. "Eu vi-o."
"Isso é verdade?", exigiu Sua Excelência. "Como é que ele o levou para lá? Eu não suponho--"
De repente, Sardi Babu atirou-se bajulador sobre Hassoun.
"Oh, Kasheed Hassoun, juro-te que não fiz queixa nenhuma. É uma falsificação do gendarme! E havia um garoto — um garoto ruivo e amarelo — que disse ter visto a cabeça do teu camelo acima dos telhados! Eu sou teu amigo!"
Ele entrelaçou seus dedos contorcidos como cobras. Hassoun observou-o friamente.
"Tu conheces o destino dos informantes e provocadores — dos espiões — seu turco infame!", respondeu ele entre os dentes.
"Um turco! Um turco!", gritou Sardi Babu freneticamente, batendo no peito da sua blusa azul. "Tu chamas-me de turco! A mim, o afilhado de Sarkis Babu e de Elias Stephan — cujos pais e avós eram cristãos quando a tua família era adoradora de Maomé. Blasfêmia! A mim, afilhado de um bispo!"
"Eu também sou afilhado de um bispo!", zombou Kasheed. "Um bispo devidamente ungido! Sem sangue tártaro."
Sardi Babu ficou roxo.
"Ptha! Eu cuspiria na barba de um bispo desses!", gritou ele, fora de si.
Hassoun levantou ligeiramente as sobrancelhas.
"Cospe, então, infame — enquanto podes!"
"Aqui, aqui!", rosnou Burke com nojo. "Mantenham-nos calados, não conseguem? Agora, o que é tudo isto sobre um camelo?"
* * * * *
"É exatamente aquela a escotilha, senhor", afirmou Scraggs à firma, enquanto Tutt & Tutt, incluindo a Srta. Wiggin, observavam curiosamente pelas janelas de seus escritórios a cobertura no telhado da Washington Street que fora o alvo de Willie no dia anterior. "Não digo", continuou ele como explicação, "que o camelo tenha posto a cabeça de fora porque Willie acertou o telhado com a garrafa — foi provavelmente apenas uma coincidência — mas pareceu que foi isso. 'Bing!' fez o frasco de tinta na escotilha; e então — pop! — saiu o camelo como um boneco de mola."
"O que aconteceu com o camelo?", perguntou a Srta. Wiggin, nutrindo uma vaga esperança de que — pop! — ele pudesse aparecer novamente da mesma maneira.
"A polícia levou-o ontem à noite — baixaram-no da janela com um sistema de roldanas", respondeu o escrivão. "Uma espécie de cadeira de transporte."
"Já ouvi falar de xales de pelo de camelo, mas não de calças de pelo de camelo!", murmurou Tutt. "Suponho que se um camelo vestisse calças — bem, a minha imaginação recusa-se a contemplar o espetáculo! Onde está Willie?"
"Ele não apareceu de todo esta manhã!", disse a Srta. Wiggin. "Eu garanto--"
"O quê?", perguntou o Sr. Tutt desconfiado.
"--que ele está algures com aquele camelo", concluiu ela.
* * * * *
Ora, a Srta. Minerva, como o seu nome conotava, era uma mulher sábia; e ela chegara a uma conclusão infalível por dois caminhos diferentes e tortuosos, a saber, intuição e lógica, sendo estes a estrada alta e a estrada baixa da razão — alta ou baixa em qualquer caso, conforme prefira. Assim a lógica: Camelo — garoto pequeno. Intuição: Garoto pequeno — camelo. Mas havia aqui um elemento adicional — uma relação pessoal direta entre este garoto pequeno em particular e este camelo em particular, decorrente do incidente do frasco de tinta. Ela percebeu que aquele camelo devia ter adquirido para William uma qualidade peculiar — quase a de uma posse — tendo em vista o fato de ele ter deixado a sua marca nele. Ela sabia que Willie não poderia ficar longe dos arredores daquele camelo mais do que o referido camelo poderia permanecer naquele sótão. De fato, poderíamos continuar por algum tempo expondo ainda mais esta profunda lei da natureza humana de que onde há camelos haverá garotos pequenos; que, por assim dizer, em tais circunstâncias, a Natureza abomina um vácuo infantil.
"Se eu o conheço, ele está!", concordou o Sr. Tutt, referindo-se à provável proximidade de William com Eset el Gazzar.
"Falando em camelos", disse Tutt enquanto acendia um cigarro, "faz-me pensar em camas de latão."
"Sim", assentiu o seu sócio. "Claro que faria, naturalmente. O que raios queres dizer?"
"Quero dizer isto", começou Tutt, limpando a garganta como se estivesse a dirigir-se a doze homens bons e verdadeiros — "um camelo é obviamente um animal incomum — para não dizer peculiar — para estar alojado ali naquele sótão. É um exótico — se me permitem usar esse termo. É tão exótico quanto uma cama de latão de Connecticut seria, ou é, em Damasco ou no Líbano. Agora, portanto, um camelo causará problemas em Nova Iorque tão certamente quanto uma cama de latão em Bagdá!"
"A coisa certa muitas vezes causa problemas se colocada no lugar errado", ponderou o Sr. Tutt.
"Ou a coisa errada no lugar certo!", assentiu Tutt. "Agora, todos estes estrangeiros não assimilados--"
"O que é que eles têm a ver com camas de latão no Líbano?", desafiou a Srta. Wiggin.
"Bem", continuou Tutt, "fui informado de forma credível que a cama de latão americana — particularmente a cama de casal — devido à sua importação para a Ásia Menor, foi a causa direta dos massacres armênios."
"Tolice!", disse a Srta. Wiggin.
"É um fato!", afirmou Tutt. "É assim — um embaixador disse-me isso ele próprio — os turcos, sabe, são loucos por camas — e pensam numa grande cama de latão de família como as que — sabe — estão em todas as vitrines das lojas de departamento. Bem, todo turco em cada aldeia por toda a Ásia Menor poupa o seu dinheiro para comprar uma cama de latão — como um crioulo compra um relógio de catedral. Sinal de superioridade. Entende-me? E torna-se a sua posse doméstica mais prezada. Se ele encontra um amigo na rua, diz-lhe natural e facilmente, sem muito egoísmo consciente, exatamente como um americano poderia dizer: 'A propósito, viu a minha nova limusine?' — ele diz ao outro turco: 'Oh, diga-me, meu velho, por acaso notou a minha nova cama de latão de Connecticut? Acabaram de tirá-la do navio na semana passada em Alepo. Fátima está a tirar uma sesta nela agora, mas quando ela acordar--'"
"Que disparate!", bufou a Srta. Wiggin.
"Não é disparate!", protestou o sócio júnior. "Agora ouça o que acontece. Algum armênio — os armênios são os penhoristas da Ásia Menor — muda-se para aquela aldeia e, em três meses, ele tem uma hipoteca sobre tudo nela, incluindo aquela cama de latão. Então, o Governo Turco, que o considera um cidadão indesejável, diz-lhe para seguir o seu caminho; e o Mister Armênio carrega todas as coisas que os habitantes hipotecaram a ele numa carroça de bois e começa a sua jornada, escoltado pelas tropas do Sultão. Em cima da carga está a cama de latão de Yusuf Bulbul Ameer. Yusuf olha da sua porta e vê a cama a ser levada e corre atrás dela para proteger a sua propriedade.
"'Olha aqui!', ele grita. 'Onde vais com a minha cama de latão?'
"'Não é tua!', retorquiu o Mister Penhorista. 'É minha. Emprestei-te oitenta e sete piastras por ela!'
"'Mas eu tenho direitos sobre ela! Não podes levá-la!'
"'Claro que posso!', responde o armênio. 'Onde eu for, ela irá. O Governo Turco é responsável.'
"'Não muito', diz Yusuf, agarrando-a, tentando puxá-la para fora da carroça.
"'Tira as mãos daí!', grita o armênio.
"Então há uma confusão e toda a gente mete-se no meio — e ocorre um massacre!"
"Essa é uma bela história!", observou o Sr. Tutt. "Ainda assim, pode ser--"
"Lixo!", declarou a Srta. Wiggin. "E o que é que isso tem a ver com camelos?"
"O meu ponto de vista", afirmou Tutt, agitando o dedo indicador — "o meu ponto de vista é que, tal como uma cama de latão ianque na Turquia causará problemas certos, um camelo turco em Nova Iorque está destinado a fazer o mesmo."
Uma porta bateu atrás deles e a voz de Willie interrompeu a conversa.
"Sr. Tutt! Sr. Tutt!", gritou ele histericamente. "Houve um homicídio lá em baixo — e nós — eu — sou em parte responsável. Passei a noite com o camelo e ele está — ela está — bem — no estábulo de Regan. Mas Kasheed está nos Tombs e eu disse-lhes que o senhor o defenderia. Defenderá, não defenderá?"
O Sr. Tutt olhou para o rapaz agitado.
"Quem matou quem?", perguntou ele corretamente. "E onde é que o camelo entra na história?"
"Alguém matou Sardi Babu", explicou Willie. "Não sei exatamente quem o fez — mas prenderam Kasheed Hassoun, o dono de Eset el Gazzar."
"Quem?", trovejou Tutt.
"O camelo. Sabe, ninguém sabia que ela estava no sótão até eu a ver a pôr a cabeça fora do buraco no telhado. Então disse ao Murphy e ele subiu e encontrou-a lá. Mas Kasheed achava que Sardi o tinha denunciado, entende, e ninguém acreditava nele quando dizia que não tinha. O juiz multou Kasheed em vinte e cinco dólares e ele — Kasheed — acusou Sardi de ser um turco e tiveram uma grande discussão ali mesmo no tribunal. Nada aconteceu até que os polícias tiraram Eset pela janela e ela ficou no estábulo de Regan. Eu fiquei lá. A cabeça dela está vermelho-vivo por causa da tinta, sabe. Depois, alguém foi ao restaurante onde Sardi estava e matou-o. Portanto, vê, de certa forma, a culpa é minha, e não achei que se importasse de defender Kasheed, porque ele é um tipo formidável e, se o eletrocutarem, Eset morrerá à fome."
"Compreendo", disse o Sr. Tutt pensativo. "Achas que, por direito, se alguém tivesse de ser morto, devias ter sido tu?"
Willie assentiu.
"Sim, senhor", concordou.
E é assim que um camelo foi a causa determinante para que o célebre escritório de advocacia Tutt & Tutt aparecesse como defensor no caso do Povo contra Kasheed Hassoun, acusado do crime de homicídio em primeiro grau por ter tirado a vida a Sardi Babu com deliberação, premeditação e intenção maligna, e contra a paz do Povo do Estado de Nova Iorque.
* * * * *
"E depois há este caso de homicídio sírio", queixou-se o chefe da secretaria da procuradoria distrital ao seu superior de forma lastimosa. "Não sei o que fazer com ele. O arguido está há seis meses nos Tombs, com todos os jornais sírios a clamar como loucos por um julgamento. Ele matou-o, sem dúvida, mas o senhor sabe como são estes casos de homicídio em língua estrangeira, chefe! São uma dor de cabeça, cada um deles!"
"Qual é o problema?", inquiriu o procurador. "É um caso de pancadaria e morte, não é? Matou-o mesmo num restaurante, não foi?"
"Claro! Essa parte está bem", concordou o chefe da secretaria. "Ele matou-o — sim! Mas como é que se vai levar um júri americano a escolher entre testemunhas que são perfeitamente capazes de jurar que o cadáver matou o arguido? Como raio se pode saber do que estão a falar, de qualquer maneira?"
"Não se pode!", disse o procurador. "Envie os papéis ao Pepperill e diga-lhe, em particular, que isso o tornará famoso. Ele acreditará em si."
"Mas levará dez semanas a julgar!", lamentou o chefe da secretaria.
"Bem, envie-o para o velho Wetherell, na Parte Treze. Ele sofre da doença do sono e será algo calmante para ele ouvir."
"Pode acordá-lo?", sugeriu o outro.
"Impossível!", retorquiu o procurador. "Sobre o que é o caso, afinal?"
"É sobre um camelo", explicou o subordinado hesitante.
O procurador sorriu. Disse ele: "É mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um procurador justo condenar um sírio por homicídio. Bem, meu caro, mande vir um par de dúzias de Alcorões e alugue quartos para o júri acima do restaurante Kaydoub, Salone & Dabut e deixe-os entregar-se ao kibbeh arnabeiah, kashtah e halawee."
O Sr. William Montague Pepperill era uma pessoa jovem e muito intensa, de vinte e seis anos, de Boston pela Harvard College. Nascera sob a cúpula dourada do State House na Beacon Street e, das janelas da mansão Pepperill, os seus olhos infantis tinham contemplado, com superioridade, o Mall e o Frog Pond do histórico Common. Havia uma serenidade distante sobre a sua vida dentro da fachada abaulada da residência paternal com as suas antigas vidraças — ligeiramente tingidas de azul, tal como o sangue nas veias dos Pepperill também era ligeiramente tingido da mesma cor — a sua posição social irrepreensível no Hoppy's e, mais tarde, em Harvard — que ele pronunciava Haavaad — e o profundo respeito com que era tido na faculdade de direito em Cambridge, o que dava ao Sr. W. Montague Pepperill uma certa confiança na impecabilidade de si próprio, da sua família, dos seus parentes, dos seus amigos, da sua universidade, dos seus trajes e alfaiataria, do seu comportamento e das suas opiniões, políticas, religiosas e outras.
Para W.M.P., os únicos americanos verdadeiros viviam em Beacon Hill, embora alguns pudessem ser encontrados acidentalmente do outro lado da Charles Street, nas terras conquistadas ao mar em Back Bay. Um americano verdadeiro deve obrigatoriamente ser também um graduado de Harvard, unitarista, alopata, pertencer ao Somerset Club e remontar ancestralmente, pelo menos, à Guerra do Rei Filipe. W. Montague tinha, contudo, decidido cedo na vida que Boston era demasiado pequena para ele e que tinha um dever para com o resto do país.
Assim, tinha condescendido em ir para Nova Iorque, onde, através das suas ligações americanas reais no direito, finanças e negócios, tinha conseguido um emprego num gabinete político onde os aristocratas eram todos irlandeses, judeus ou italianos, que o consideravam um animal estranho. Tinha sido uma experiência estranha para ele. Assim como a descoberta de que a corrupção, a chantagem, o vício e o crime não eram meras convenções literárias, existentes apenas para fins teóricos de romancistas e dramaturgos, mas realidades frequentemente tratadas na sociedade metropolitana. Ele tinha assegurado a sua nomeação por uma administração reformista e tinha sido mantido como sobrevivente por Peckham, o novo procurador distrital, devido ao facto de o seu tio por afinidade ser um banqueiro de Wall Street que contribuía liberalmente, sem preconceitos, para ambos os partidos políticos. Isto, porém, W.M.P. não sabia, e assumia que lhe era permitido manter o seu salário de quatro mil dólares porque o condado não poderia continuar sem ele. Ele era esguio, usava um colete cor de rato, gravata e polainas castanhas, e colava o cabelo cuidadosamente de cada lado de um crânio brilhante que era uma esfera quase perfeita.
"Ah! Sr. William Montague Pepperill, suponho?", inquiriu o Sr. Tutt com profunda polidez a partir da porta do cubículo de W.M.P., que dava para o sombrio fosso de luz do Edifício dos Tribunais Criminais.
O Sr. Pepperill terminou o que estava a escrever e depois levantou os olhos.
"Sim", respondeu. "O que posso fazer por si?"
Ele não perguntou ao Sr. Tutt o seu nome nem o convidou a sentar-se.
O velho advogado sorriu. Ele gostava de homens jovens, mesmo homens jovens convencidos; eram tão entusiastas, tão confiantes, tão intransigentes. Além disso, W.M.P. era, no fundo, como o Sr. Tutt percebera, um tipo de alta classe. Por isso, sorriu.
"O meu nome é Tutt", disse ele. "Sou o advogado de um homem chamado Hassoun, a quem o senhor vai julgar por homicídio. Está, naturalmente, perfeitamente familiarizado com os factos."
Ele tateou no colete, produziu dois charutos baratos e secos e lançou o olhar ao longo da parede.
"Importar-se-ia — que eu me sentasse? E poderia oferecer-lhe um charuto?"
"Sente-se — com certeza", respondeu W.M.P. "Não, obrigado!" — ao charuto.
O Sr. Tutt sentou-se, colocou cuidadosamente a sua velha cartola de cabeça para baixo no parapeito da janela e empilhou nela o maço de papéis que trazia.
"Pensei que me pudesse perdoar se eu viesse discutir um pouco o caso consigo. Sabe, há tantas coisas que um procurador tem de considerar — e que é justo que considere." Ele fez uma pausa para acender um fósforo. "Agora, neste caso, embora com toda a probabilidade o meu cliente seja culpado, praticamente não existe possibilidade de ser condenado por nada mais grave do que homicídio involuntário em primeiro grau. A defesa apresentará muitas testemunhas — provavelmente tantas como a acusação. Ambos os lados contarão as suas histórias numa língua ininteligível para o júri, que deve tentar verificar o verdadeiro âmago da situação através de um intérprete. Eles perceberão que não estão a obter a verdadeira verdade — refiro-me à verdade síria. Como homens de mente decente, não se atreverão a enviar para a cadeira elétrica um colega cuja defesa não podem ouvir e cujos motivos não conhecem nem compreendem. Sentirão, como eu e talvez o senhor, que as únicas pessoas capazes de fazer justiça entre sírios são os sírios."
"Bem", respondeu o Sr. Pepperill educadamente, "o que tem a propor?"
"Que recomende a aceitação de uma confissão de culpa por homicídio involuntário em segundo grau."
O procurador distrital adjunto William Montague Pepperill ergueu-se altivamente. Considerava todos os advogados criminais como semigangsters, homens ignorantes, iletrados e algo sujos — não pertencentes à verdadeira classe americana.
"Não posso fazer nada do género", respondeu ele com severidade e muito claramente. "Se estes homens procuram a hospitalidade das nossas margens, devem estar preparados para ser julgados pelas nossas leis e pelos nossos padrões de moralidade. Não concordo consigo que os nossos processos jurídicos não sejam adequados a esse propósito. Além disso, considero pouco ético — pou-co é-ti-co — aceitar uma confissão por um grau de crime inferior ao que o arguido presumivelmente cometeu."
O Sr. Tutt observou-o com admiração não disfarçada.
"Os seus sentimentos honram-no, Sr. Pepperill!", retorquiu ele. "Tem a certeza de que não se importa com o meu fumo? Mas, naturalmente, o meu cliente é presumido inocente. Estou muito esperançoso — quase confiante — de o absolver completamente. Mas, em vez de correr a pequena probabilidade de uma condenação por homicídio, prefiro que a prudência tome o lugar do valor e proponho que ele admita a sua culpa por homicídio involuntário."
"Suponho", respondeu Pepperill laconicamente, cedendo ao seu único solecismo frequente, "que não proporia uma confissão de homicídio involuntário a menos que se sentisse bastante seguro de que o seu cliente iria para a cadeira elétrica! Agora..."
O Sr. Tutt levantou-se subitamente.
"Meu jovem amigo", interrompeu ele, "quando Ephraim Tutt diz uma coisa de homem para homem — como tenho estado a falar consigo — ele quer dizer o que diz. Disse-lhe que esperava absolver o meu cliente. A minha única razão para oferecer uma confissão é a muito pequena — e é muito pequena — probabilidade de uma zanga árabe poder ser a base de uma condenação por homicídio. Quando me conhecer melhor, não se sentirá tão à vontade para impugnar a minha sinceridade. Está preparado para considerar a minha sugestão ou não?"
"Mais certamente que não!", retorquiu W.M.P. com a sombra de um escárnio.
"Então despeço-me", disse o Sr. Tutt, tirando o chapéu do parapeito da janela e virando-se para a porta. "E — seu miúdo insolente", acrescentou ele assim que a porta se fechou atrás dele e se virou para agitar o seu punho seco e velho na direção do lugar onde W.M.P. presumivelmente ainda estava sentado, "eu mostrar-lhe-ei como tratar um membro respeitável da ordem, velho o suficiente para ser seu avô! Vou tirar a goma ao seu colarinho puritano! Vou persegui-lo, confundi-lo, importuná-lo e fazê-lo de tolo, vou enrolá-lo numa bola e atirá-lo pela janela, e soltar o velho Hassoun para umas férias egípcias que farão a Roma antiga parecer trinta piastras! Seu cabeça-oca, pretensioso, pomposo, egoísta, afetado..."
"Bem, bem, Sr. Tutt, o que se passa?", inquiriu Peckham, pousando a mão no ombro do velho advogado. "O que é que o Peppy lhe esteve a fazer?"
"Não é o que ele me esteve a fazer; é o que eu vou fazer a ele!", respondeu o Sr. Tutt severamente. "Espere só para ver!"
"Força!", riu-se o procurador. "Coma-o vivo! Estamos a atirá-lo aos leões!"
"Nenhum leão decente o quereria!", retorquiu o Sr. Tutt. "Poderia mordê-lo um pouco, mas eu não. Vou apenas dar-lhe uma oportunidade total para testar a sua pequena tese de que as instituições destes alegres Estados Unidos são perfeitamente adaptadas para resolver zangas entre todos os poliglota mentirosos do mundo e administrar justiça entre pessoas que ainda estão num estado bárbaro ou, pelo menos, patriarcal. Ele é jovem e não compreende que um comerciante de Nova Iorque é inteiramente consciente demais para considerar um homem culpado com base num testemunho que ele próprio descartaria fortemente nos seus próprios negócios."
"Vá tão longe quanto quiser", riu-se Peckham.
"Oh, só vou até Bagdad", respondeu o Sr. Tutt.
O procurador distrital adjunto Pepperill pôs-se complacentemente a preparar o seu caso, totalmente inconsciente dos perigos com que o seu caminho legal estava obstruído. Enquanto se sentava à sua secretária de carvalho brilhante e carregava no botão que convocava a estenógrafa, parecia-lhe a coisa mais simples do mundo satisfazer qualquer júri sobre o que tinha acontecido, e o auge da audácia insolente por parte do Sr. Tutt ter sugerido que Hassoun devia ser tratado de outra forma que não como um homicida de primeiro grau. E deve ser acrescentado entre parênteses que W.M.P., apesar do seu temperamento da Nova Inglaterra, tinha uma ambição ardente de enviar alguém para a cadeira elétrica.
Na verdade, à primeira vista, a história relatada por Fajala Mokarzel e pelos outros amigos de Sardi Babu, o falecido vendedor de almofadas, era a própria simplicidade. Além de Sardi Babu e Mokarzel, estavam Nicola Abbu, o confeiteiro; Menheem Shikrie, o vendedor de gelados; Habu Kahoots, o artista de espetáculos; e David Elias, um vendedor ambulante. Todos os seis, como alegaram, estiveram sentados pacificamente no restaurante de Ghabryel & Assad, a comer kibbeh arnabeiah e mamoul. Sardi tinha pedido sheesh kabab. Eram cerca das nove da noite e falavam de política, bebiam café e fumavam cigarros.
Subitamente, Kasheed Hassoun, acompanhado por um homem mais baixo e muito mais escuro, tinha entrado e, marchando até à mesa, exclamou de forma ameaçadora: "Onde está aquele que disse que cuspiria na barba do meu bispo?"
Aí, Sardi Babu levantou-se e respondeu: "Eis-me aqui, sou eu."
Imediatamente, Kasheed Hassoun, enquanto o seu cúmplice os mantinha à distância com um revólver, inclinou-se sobre a mesa e, agarrando Sardi pela garganta, partiu-lhe o pescoço. Depois, o homem mais pequeno disparou a sua pistola e ambos fugiram. A história mais simples de sempre. Havia tudo o que a lei exigia para enviar qualquer homicida para a cadeira elétrica, e o pequeno Sr. Pepperill tinha feito um diagrama do interior do restaurante e uma fotografia do exterior, e carimbou a acusação com tinta púrpura: Pronto para Julgamento.
Contemporaneamente, o Sr. Tutt dava as suas instruções finais ao Sr. Bonnie Doon, o seu encenador, diretor de ensaios e superintendente geral de arranjos em todos os casos que exigiam um toque extra-artístico.
"É uma pena não podermos transportar algumas centenas de metros cúbicos do Sara para a sala de tribunal e desviar o Nilo pela Center Street, mas suponho que pode produzir atmosfera suficiente", disse ele.
"Posso, claro — se tivesse um camelo", observou Bonnie.
"A atmosfera é necessária", continuou o Sr. Tutt. "Atmosfera real! Que estejam em trajes nativos — colares, chinelos vermelhos, narguilés, dançarinas."
"Compreendi", respondeu o Sr. Doon. "Quer uma verdadeira aldeia turca. Bem, tê-la-emos. Contratarei toda a produção das Ruas do Cairo de Coney e farei a Franklin Street encher-se de cabras, burros e dromedários. Até posso ter uma caravana a montar as suas tendas ao lado dos Tombs."
"Não pode exagerar", declarou o Sr. Tutt. "Mas não precisa de sair da Washington Street. E, Bonnie, lembre-se — quero cada turco, grego, arménio, judeu, árabe, egípcio e sírio abençoado que viu Sardi Babu matar Kasheed Hassoun."
"Quer dizer que viu Kasheed Hassoun matar Sardi Babu", corrigiu Bonnie.
"Bem — de qualquer das formas", concordou o Sr. Tutt.
Quando finalmente chegou o grande dia do julgamento, o Juiz Wetherell, ao subir para o banco na Parte Treze, apercebeu-se imediatamente de um cheiro oriental subtil que emanava de onde ninguém podia dizer, mas que, no entanto, impregnava toda a sala de tribunal. Parecia ser um composto curioso de incenso, couve, alho e água de colónia, com uma sugestão de camelo. A sala estava completamente cheia de sírios. Uma fila de bancos estava ocupada por um grupo solene de patriarcas de barbas brancas que pareciam ter parado momentaneamente numa peregrinação a Meca. Por toda a sala subia o murmúrio do árabe sussurrado. A estenógrafa examinava um exemplar do Meraat-ul-Gharb, o secretário um exemplar do El Zeman, e em frente da cadeira do juiz tinha sido colocado um exemplar do Al-Hoda.
Sua excelência deu um único cheiradela, lançou o olhar sobre a pitoresca multidão e disse: "Psiu! Capitão! Abra essa janela!" Depois pegou no calendário e leu: "'O Povo contra Kasheed Hassoun — Homicídio'."
A estenógrafa cantarolava para si mesma:
*Bagdad é uma cidade na Turquia* *Sobre um camelo alto e aos solavancos*.
"Estão ambos os lados prontos para julgar este caso?", inquiriu o Juiz Wetherell, sufocando um bocejo. Ele era um juiz muito corpulento e não conseguia evitar bocejar.
O procurador distrital adjunto Pepperill e o Sr. Tutt levantaram-se em uníssono, declarando que estavam. Por volta deste mesmo momento, a pequena porta nas traseiras da sala abriu-se e apareceu um oficial, conduzindo Kasheed Hassoun. Ele era um homem imponente, com mais de um metro e oitenta de altura, de porte digno, semblante sério e traços finamente cinzelados. Embora estivesse vestido como um europeu, havia, contudo, algo indefinivelmente sugestivo do Oriente no corte das suas roupas; não usava colete e à volta da cintura estava enrolada uma faixa de pano carmesim. Os seus olhos negros brilhavam através de sobrancelhas cerradas, selvagemente, quase ferozmente, e ele caminhava altivamente ao lado do seu guarda como um qualquer garanhão indomado do deserto.
"Bem, podem começar a selecionar um júri", ordenou o tribunal, colocando os óculos e estudando o seu exemplar do Al-Hoda com interesse. Pouco depois, fez um gesto a Pepperill.
"Já viu isto?", perguntou ele.
"Não, Vossa Excelência. O que é?"
"É um jornal publicado por estas pessoas", explicou Sua Excelência. "Bastante divertido, não é?"
"Não sabia que eles tinham algum jornal especial próprio", admitiu Pepperill.
"Têm oito só em Nova Iorque", interrompeu a estenógrafa.
"Noto que este jornal é largamente composto por anúncios", comentou Wetherell. "Mas os anunciantes estão aparentemente espalhados por todo o mundo — Chicago; Pittsburgh; Canton; Winnipeg; Albuquerque; Brooklyn; Tripoli; Greenville, Texas; Pueblo; Lawrence, Massachusetts; Providence, Rhode Island; Fall River; Detroit..."
"Aqui está um de Roxbury, Massachusetts, e outro da Cidade do México", observou o secretário deliciado.
"E aqui está um de Paris, França", acrescentou a estenógrafa. "Ora! Bons viajantes!"
"Bem, continuem a conseguir o júri", disse o juiz, bocejando novamente e entregando o jornal ao secretário.
Nesse momento, o Sr. Salim Zahoul, o intérprete contratado pelo Sr. Pepperill, aproximou-se, fez uma vénia e, retorcendo o seu bigode púrpura, dirigiu-se ao tribunal: "Sua Excelência: Tenho a dizer que este jornal tem artigos sobre este caso — o menkaha — que não são diplomáticos."
O Juiz Wetherell pestanejou para ele.
"Quem é este homem?", exigiu.
"É o intérprete", explicou W.M.P.
"Intérprete!", respondeu o tribunal. "Não consigo entender uma palavra do que ele diz!"
"Foi o melhor que consegui", pediu desculpa Pepperill, enquanto o rosto do Sr. Zahoul ardia de ira e humilhação. "É muito difícil conseguir um intérprete fluente em árabe."
"Bem, apenas interprete o que ele me diz, quer?", pediu gentilmente Sua Excelência.
"Eu digo", explodiu subitamente Zahoul — "este jornal tem um artigo desprezível sobre o menkaha de que este Kasheed Hassoun não matou este Sardi Babu!"
"Ele diz", traduziu Pepperill, "que o jornal contém um artigo indiscreto a favor da defesa. Não fazia ideia de que haveria qualquer tentativa imprópria de influenciar o júri."
"Que diferença faz, de qualquer maneira?", inquiriu Sua Excelência. "Não espera que algum jurado vá ler aquela coisa, espera? Ora, parece que um abelhão caiu num tinteiro e depois teve uma crise em toda a primeira página."
"Não suponho..." começou Pepperill.
"Continue e consiga o seu júri!", admoestou o tribunal.
Assim, o leão e o cordeiro, na figura do Sr. Tutt e de Pepperill, procederam à seleção de doze cavalheiros para julgar a questão, que nunca tinham estado mais perto da Síria do que o calçadão de Atlantic City e que apenas com a maior atenção conseguiam entender o que o Sr. Salim Zahoul alegava que as testemunhas tentavam dizer. Além disso, a maioria dos jurados potenciais demonstrava uma profunda desconfiança da sua própria capacidade de fazer justiça entre o Povo e o réu, e um curioso desejo de serem dispensados do serviço. Contudo, por fim, a dúzia foi escolhida e juramentada, a aglomeração na sala do tribunal ligeiramente aliviada, o Sr. Zahoul um pouco apaziguado, e o Sr. William Montague Pepperill levantou-se para expor o seu caso muito simples ao júri.
Não havia, explicou ele, mais dificuldade em administrar justiça no caso de um estrangeiro do que no de qualquer outra pessoa. Todos eram iguais perante a lei — igualmente presumidos inocentes, igualmente responsáveis quando provada a culpa. E ele provaria que Kasheed Hassoun era absolutamente culpado — culpado para além de uma dúvida razoável, para além de qualquer dúvida. Apresentaria cinco — cinco testemunhas respeitáveis que jurariam que Hassoun tinha assassinado Sardi Babu; e profetizou que hesitaria em exigir, no final do julgamento, uma expressão tão inequívoca, destemida e honesta da sua opinião coletiva que impediria permanentemente o Sr. Kasheed Hassoun de causar mais danos. Expressou-o de forma mais elegante, mas esse era o sentido. Ele próprio era tão sincero e honesto na sua crença na sua capacidade de estabelecer a verdade da sua alegação como o era na justiça da sua causa. Infelizmente, era demasiado jovem para perceber que existe uma vasta diferença entre conhecer a verdade e ser capaz de demonstrar qual ela é!
Na devida ordem, chamou o fotógrafo que tinha tirado a fotografia do restaurante, o desenhador que tinha feito o diagrama do interior, o polícia que tinha prendido Hassoun, o médico que realizara a autópsia oficial ao infeliz Babu e os cinco sírios que tinham estado presentes quando o crime foi perpetrado. Cada um jurou por tudo o que era sagrado que Kasheed Hassoun tinha agido exatamente como delineado pelo Procurador-Geral Adjunto Pepperill — e jurou-o palavra por palavra, *verbatim et literatim, in iisdem verbis, sic*, e ainda uma vez exatamente. O seu testemunho encaixava e ajustava-se de uma forma que alegraria o coração de um marceneiro. E, inicialmente para surpresa e mais tarde para consternação do Sr. Pepperill, o velho Tutt não fez a nenhum deles uma única pergunta sobre o assassínio. Em vez disso, limitou-se a perguntar, de forma casual, de onde vinham, como tinham chegado ali, o que faziam para viver e se alguma vez tinham feito qualquer declaração contraditória sobre o que tinha ocorrido, e, como o seu interrogatório ao Sr. Habu Kahoots foi típico de todos os restantes, talvez possa ser apresentado como exemplo, particularmente porque o Sr. Kahoots falava inglês, o que os outros não faziam.
"E den", afirmou o Sr. Kahoots estoicamente, "Kasheed Hassoun, ele agarra heem pelo troat e parte o pescoço dele."
Era um homem baixo, em forma de barril, com caracóis, bochechas gordas e protuberantes, queixo duplo pesado e uma barriga enorme, e usava um colete de lã verde e os seus dedos estavam carregados de anéis de ouro.
"Ah!", disse o Sr. Tutt complacente. "Viu tudo isso exatamente como o descreveu?"
"Sim, sair!"
"Onde nasceu?"
"Acre, Síria."
"Há quanto tempo está nos Estados Unidos?"
"Trinta anos."
"Onde vive?"
"Augusta, Geórgia."
"Qual é o seu negócio?"
O Sr. Kahoots expandiu-se visivelmente.
"Tenho feira de rua e carnaval próprios. Tenho teatro elétrico, plantação antiga, espetáculo oriental, exposição de cobras e carrossel."
"Bem, bem!", exclamou o Sr. Tutt. "É certamente um capitalista! Espero que não esteja financeiramente sobrecarregado!"
O Sr. Pepperill pareceu incomodado, não sabendo como impedir tal jocosidade por parte do seu adversário.
"Objeto", murmurou ele fracamente.
"Muito corretamente!", concordou o Sr. Tutt. "Agora, Sr. Kahoots, é cidadão dos Estados Unidos?"
O Sr. Kahoots pareceu ofendido.
"Eu? Não! Eu não cidadão. Eu volto algum dia para Acre e construo jardim de cinema e palácio de gelado."
"Imaginei", comentou o Sr. Tutt. "Agora, diga-me, o que estava a fazer no restaurante da Washington Street?"
"A comer kibbah arnabeiah e mamoul."
"Quero dizer, se vive em Augusta, como é que aconteceu estar em Nova Iorque precisamente naquela altura?"
"Eh?"
"Como veio para Nova Iorque?", traduziu o Sr. Tutt, enquanto o júri ria.
"Simplesmente vim."
"Mas porquê?"
"Simplesmente vim."
"Sim, sim; mas não veio apenas para estar presente no assassínio, pois não?"
Kahoots sorriu.
"Eu apenas vim para andar de um lado para o outro."
"Onde — andar de um lado para o outro?"
"Na Washington Street. Passo o inverno. Não faço nada. Eu homem rico."
"Quanto tempo ficou quando veio?"
"Três dias. Depois volto."
"Porque voltou?"
"Não sei. Apenas voltei."
O Sr. Tutt suspirou. O júri deu sinais de impaciência.
"Olhe aqui!", exigiu ele. "Quantas vezes repassou a sua história com o procurador distrital?"
"Nunca."
"O quê?"
"Eu nunca vejo heem."
"Nunca viu quem?"
"Este homem — juiz."
"Não estou a falar do juiz."
"Eu nunca vejo ninguém."
"Não disse ao Grande Júri que Hassoun esfaqueou Babu com uma faca comprida?"
"Não sei heem!"
"Quem?"
"Grande Júri."
"Não foi a uma sala grande e pôs a mão num livro e jurou?"
"Eu não juro — nunca!"
"E contou o que viu?"
"Eu digo o que vi."
"O que viu?"
"Vi Hassoun partir-lhe o pescoço."
"Não disse primeiro que Hassoun esfaqueou Babu?"
"Não — nunca!"
"Então não voltou e disse que ele o atingiu a tiro?"
"Não — nunca!"
"E finalmente, não disse que ele o estrangulou — depois de ter ouvido dizer que o médico legista tinha decidido que foi assim que ele foi morto?"
"Sim — ele parte-lhe o pescoço."
O Sr. Kahoots estava aparentemente muito aborrecido, mas não estava aborrecido da mesma forma que o juiz, que, despertando subitamente, perguntou ao Sr. Tutt se tinha alguma base para fazer tais perguntas.
"Ora, certamente", respondeu o velho advogado calmamente. "Provarei que esta testemunha fez três declarações absolutamente contraditórias perante o Grande Júri."
"É assim, Sr. Procurador Distrital?"
"Não sei", respondeu Pepperill fracamente. "Não tive nada a ver com os procedimentos perante o Grande Júri."
O Juiz Wetherell franziu o sobrolho.
"Parece-me", começou ele, "que uma preparação adequada do caso teria envolvido alguma atenção ligeira a... Bem, não importa! Prossiga, Sr. Tutt."
"Kahoots!", gritou o advogado severamente. "Não é um facto que o senhor próprio foi condenado por crime?"
O proprietário do carrossel endireitou-se indignado.
"Eu? Não!"
"Não foi condenado por agressão a um homem chamado Rafoul Rabyaz?"
"Eu? Olhe aqui, senhor! Eu digo-lhe sobre dat! Este Rafoul Rabyaz, ele meu sócio, veja, em bilhar e negócio de charutos na Greenwich Street. Isto muito tempo atrás. Anos atrás. Nós separamos. Eu vendo heem minhas partes, veja. Eu abro porta ao lado — mesa de bilhar, café e tudo. Mas eu não recebo metade cheia do stock. Eu não recebo a toalha de mesa, veja. Eu estava da toalha de mesa, sabe, curto. Ela não está lá. Eu volto lá essa altura. Eu vejo heem. Eu digo: 'Nós não contamos essas toalhas de mesa.' Ele diz: 'Sim.' Eu digo: 'Não.' Ele diz: 'Sim.' Eu digo: 'Não.' Ele diz: 'Sim.' Eu digo: 'Não'..."
"Pelo amor de Deus", exclamou o Juiz Wetherell, "não diga isso outra vez!"
"Sim, sair", concordou o homem do espetáculo. "Está bem. Eu digo: 'Não.' Eu digo: 'Você olha no livro.' Ele diz: 'Não.' Nós cada um pega na toalha. Eu tenho uma faca. Eu corto a toalha em duas. Eu dou-lhe metade. Eu levo metade. Eu digo: 'Você leva metade; eu levo metade.' Ele diz: 'Vá para o inferno!'"
Ele acenou com a mão definitivamente.
"Bem?", inquiriu o Sr. Tutt ansiosamente.
"Dat é tudo!", respondeu o Sr. Kahoots.
Um dos jurados tossiu subitamente e enfiou o lenço na boca.
"Então espetou-lhe a faca, não foi?", sugeriu o Sr. Tutt.
"Eu? Não!"
O Sr. Tutt encolheu os ombros e franziu os lábios.
"O senhor foi condenado, não foi?"
"Eu chamo vinte testemunhas!", anunciou o Sr. Kahoots com um ar grandioso.
"Não precisa!", retorquiu o Sr. Tutt. "Agora diga-nos porque teve de deixar a Síria?"
"Eu vou para o negócio de camelos em Coney Island", respondeu a testemunha recatadamente.
"O quê!", gritou o advogado. "Não fugiu de casa porque foi condenado pelo assassínio de Fátima, a filha de Abbas?"
"Eu? Não!" O Sr. Kahoots parecia chocado.
O Sr. Tutt inclinou-se e falou com Bonnie Doon, que produziu de um saco de couro um documento formidável em papel semelhante a pergaminho, coberto com inscrições em árabe e adornado com selos e fitas.
"Tenho aqui, Meritíssimo", disse ele, "o registo da condenação deste homem no Tribunal Criminal de Beirute, devidamente autenticado pelos nossos cônsules e pela embaixada em Constantinopla. Mandei traduzi-lo, mas se o Sr. Pepperill preferir que o intérprete o leia..."
"Mostre-o ao procurador distrital!", ordenou Sua Excelência.
Pepperill olhou para ele impotente.
"Pode ler a sua própria tradução", disse o tribunal sonolento.
O Sr. Tutt inclinou-se, pegou no papel e virou-se para o júri.
"Este é o registo oficial", anunciou ele. "Vou lê-lo.
"'Em nome de Deus.
"'Por uma acusação de assassínio dos gendarmes Nejib Telhoon e Abdurrahman e Ibrahim Aisha e Fátima, filha de Hason Abbas, do ataque a certos nómadas, de ter disparado sobre eles com a intenção de assassinar, de participação e auxílio no ato de assassínio, de ter disparado sobre as tropas regulares, de ajudar na fuga de alguns infratores e de ter apontado armas às tropas regulares, durante uma revolta no domingo, 24 de janeiro de 1303 — estilo maometano — entre os habitantes do bairro Mezreatil-Arab em Beirute e os nómadas que tinham montado as suas tendas perto, as seguintes pessoas presas, a saber: Metri, filho de Habib Eljemal, e Habib, filho de Mikael Nakash, e Hanna, filho de Abdallah Elbaitar, e Elias Esad Shihada, e Tanous, filho de Jerji Khedr, e Habib, filho de Aboud Shab, e Elias, filho de Metri Nasir, e Khalil, filho de Mansour Maoud, e Nakhle, filho de Elias Elhaj, e Nakhle, filho de Berkat Minari, e Antoon, filho de Berkat Minari, e Lutfallah, filho de Jerji-Kefouri, e Jabran Habib Bishara, e Kholil, filho de Lutf Dahir, e Nakhle Yousif Eldefoumi, todos residentes do referido bairro e súbditos turcos, e os seus companheiros, sessenta e cinco fugitivos, a saber: Isbir Bedoon, filho de Abdallah Zerik, e Elias, filho de Kanan Zerik, e Amin Matar, e Jerji Ferhan, vulgo Baldelibas, e Habu, filho de Hanna Kahoots, e...'"
O Procurador-Geral Adjunto, Pepperill, levantou-se duvidosamente.
"Se o tribunal me permite", murmurou ele com uma voz fraca, "objeto. Em primeiro lugar, não sei nada sobre este registo — e objeto com base nisso; e em segundo lugar, um julgamento e condenação na ausência de um réu, ao abrigo da nossa lei, não é condenação alguma."
"Mas este homem é um súbdito turco e é uma condenação válida na Turquia", argumentou o Sr. Tutt.
"Bem, não é aqui!", protestou Pepperill.
"Está um pouco atrasado, não está?", inquiriu Sua Excelência. "Já foi tudo lido ao júri. Contudo, aceitarei uma moção para retirar..."
"Gostaria de ser ouvido sobre a questão", disse o Sr. Tutt rapidamente. "Este é um assunto importante."
Inesperadamente, um jurado com aspeto mal-humorado na última fila levantou a mão.
"Gostaria de fazer uma pergunta eu mesmo", anunciou ele desafiadoramente, quase arrogantemente, à maneira de alguém com uma queixa. "Sou um homem de negócios trabalhador. Fui arrastado para aqui contra a minha vontade para servir neste júri e decidir se este réu assassinou alguém ou não. Não vejo que diferença faz se esta testemunha cortou uma toalha de mesa em duas ou assassinou Fátima, a filha de Não-Sei-Quê. Quero ir para casa... algum dia. Se estiver em ordem, gostaria de sugerir que continuássemos."
O Juiz Wetherell sobressaltou-se e perscrutou com um ar intrigado este ousado destruidor do procedimento estabelecido.
"Sr. Jurado", disse ele severamente, "estes assuntos relacionam-se diretamente com a credibilidade da testemunha. São bastante apropriados. Eu... eu... estou... surpreendido..."
"Mas, Meritíssimo", expostulou o iconoclasta na última fila, "acho que ninguém vai perder muito tempo com este encantador de serpentes turco! Não há um polícia ou alguém em quem possamos acreditar que viu o que aconteceu?"
"Bang!", soou o martelo judicial.
"O jurado, por favor, mantenha-se em silêncio!", gritou o Juiz Wetherell. "Isto está totalmente fora de ordem!" Então, cobriu rapidamente o rosto com o lenço. "Prossiga!", ordenou ele num tom abafado.
"Onde estávamos?", perguntou o Sr. Tutt sonhadoramente.
"Fátima, a filha de Abbas", ajudou o presidente do júri, *sotto voce*.
"E eu objetei a Fátima, a filha de Abbas!", retorquiu Pepperill.
"Bem, bem!", concedeu o Sr. Tutt. "Ela morreu, a pobre! Que descanse. É tudo, Sr. Kahoots."
É difícil descrever a intensa excitação que estas digressões do testemunho direto causaram entre o público. A referência à cobertura da mesa de bilhar e ao assassínio da infeliz Fátima aparentemente despertou fogos há muito latentes. Um grupo de sírios junto à janela começou uma altercação inesperada, que teve de ser contida por um oficial do tribunal, e quando a calma foi restaurada, o júri parecia pouco atento aos relatos precisamente semelhantes de Nicola Abbu, Menheem Shikrie, Fajal Mokarzel e David Elias, especialmente porque as atas do Grande Júri mostravam que tinham jurado três conjuntos de factos completamente diferentes sobre a causa da morte de Babu. Contudo, quando o Povo terminou, continuava a ser verdade que cinco testemunhas, independentemente do que o júri possa ter pensado delas, tinham testemunhado que Hassoun estrangulou Sardi Babu. O júri virou-se expectante para o Sr. Tutt para ouvir o que ele tinha a dizer.
"Cavalheiros", disse ele calmamente, "a defesa é muito simples. Nenhuma das testemunhas que compareceram aqui esteve, de facto, presente no local do homicídio. Chamarei cerca de dez ou doze cidadãos sírios respeitáveis que vos provarão que Kasheed Hassoun, o meu cliente, com um grande grupo de amigos, estava sentado tranquilamente no restaurante quando Sardi Babu entrou com um revólver na mão, o qual disparou contra Hassoun, e que então, e só então, um homem pequeno e de pele escura, cuja identidade não pode ser estabelecida — evidentemente um estranho — agarrou Babu antes que ele pudesse disparar novamente, e matou-o — em legítima defesa."
O queixo do Sr. William Montague Pepperill caiu como se ele tivesse visto o fantasma de um dos seus antepassados coloniais. Não conseguia acreditar que tinha ouvido o Sr. Tutt corretamente. Ora, o velho advogado tinha virado a coisa completamente ao contrário! Sardi Babu não tinha ido ao restaurante. Ele estava no restaurante, e tinha sido Kasheed Hassoun quem tinha ido lá.
Contudo, um por um, placidamente, imperturbavelmente, a dúzia de testemunhas previstas pelo Sr. Tutt, e reunidas por Bonnie Doon, marchou para a cadeira e jurou sobre a Bíblia Sagrada que tinha sido exatamente como o Sr. Tutt tinha dito, e que não tinham existido pessoas como Mokarzel, Kahoots, Abbu, Shikrie e Elias no restaurante em momento algum naquela noite, mas pelo contrário, que eles, os amigos de Hassoun, tinham estado lá a comer torta turca — alguns poderiam ter comido puré de feijão com *taheenak* — quando Sardi Babu, aparentemente com intenção suicida, entrou sozinho para se vingar do dono de camelos.
"É tudo. Esse é o nosso caso", disse o Sr. Tutt quando o último sírio deixou o estrado.
Mas não houve resposta do banco. O Juiz Wetherell tinha estado a cochilar pacificamente durante várias horas. Até Pepperill não conseguiu evitar um sorriso recatado. Então o funcionário retirou o exemplar do Al-Hoda e folheou-o, e Sua Excelência, que tinha estado a sonhar que cavalgava pelas ruas estreitas de Bagdade num dromedário branco e aos solavancos, tão alto que podia espreitar pelas varandas treliçadas as *odaliscas* rechonchudas e de olhos negros dentro dos haréns, voltou lentamente da Turquia para Nova Iorque.
"Cavalheiros do júri", disse ele, recompondo-se, "o réu aqui é acusado pelo Grande Júri de ter assassinado Fátima, a filha de Abbas... peço desculpa! Quero dizer... quem foi mesmo?... um tal de Sardi Babu. Definirei primeiro para vós os graus de homicídio..."
* * * * *
Um dia, três meses depois, após Kasheed Hassoun ter sido julgado duas vezes com o mesmo testemunho e o júri ter discordado — seis a seis, de cada vez — o Sr. Tutt, que tinha ultrapassado a sua hora de almoço no escritório, colocou o seu chapéu de cartola e passeou pela Washington Street, à procura de um lugar para comer qualquer coisa. Era meio da tarde e a maioria das lojas estava vazia, o que era tanto melhor para o seu gosto. Ele sempre quis experimentar um pouco daquela torta turca sobre a qual todos tinham falado tanto no julgamento. De repente, uma justaposição familiar de nomes chamou-lhe a atenção — Ghabryel & Assad. O próprio restaurante que tinha sido o cenário do crime! Curiosamente, entrou lá. Como todos os outros lugares, estava deserto, mas ao som dos seus passos, um pequeno rapaz sírio, com não mais de dez anos, veio de trás do biombo no fundo da sala e ficou timidamente à espera do seu pedido.
O Sr. Tutt sorriu um dos seus sorrisos geniais e curtidos pelo tempo para o rapaz e, lançando um olhar distraído pela ementa, pediu *biklama* e café. Depois acendeu um charuto e esticou as pernas longas confortavelmente debaixo da mesa estreita. Sim, este era o próprio local onde ou Sardi Babu e os seus amigos tinham estado sentados na noite do assassínio, ou Kasheed Hassoun e os seus amigos — um ou outro; ele perguntou-se se alguém saberia alguma vez qual. Seria possível que, neste pequeno lugar monótono, as paixões humanas tivessem sido despertadas para tirar uma vida por causa de uma mera diferença de dogma religioso? Seria isto Nova Iorque? Seria possível americanizar estas pessoas? Uma porta bateu nas traseiras e, de trás do biombo, surgiu novamente o rapaz, carregando um tabuleiro de pastelaria e café.
"Bem, meu pequeno homem", disse o Sr. Tutt, "trabalhas aqui?"
"Oh, sim", respondeu o futuro cidadão. "O meu pai, ele é dono de metade da loja. Vou à escola todos os dias, mas trabalho aqui depois. Recebi um prémio na semana passada."
"Que tipo de prémio?"
"Ganhei o prémio de inglês."
O advogado pegou na mão da criança e puxou-o para entre os seus joelhos. Era um rapaz atraente, limpo, recetivo, franco, e os seus olhos olhavam diretamente para os do Sr. Tutt.
"Meu rapaz", perguntou o seu novo amigo, "és americano?"
"Eu? Claro! Pode apostar que sou americano! Os velhos... não! Não os conseguiria mudar em cinquenta anos. Eles são exatamente o que sempre foram. Eles não querem nada diferente. Acham que ainda estão na Síria. Mas eu... diga lá, o que acha? Claro que sou americano!"
"Isso é verdade!", respondeu o Sr. Tutt, oferecendo-lhe um pedaço de pastelaria. "E qual é o teu nome?"
"George Nasheen Assad", respondeu o rapaz, mostrando uma série de dentes brancos.
"Bem, George", continuou o advogado, "o que aconteceu a Kasheed Hassoun?"
"Oh, ele está em Coney Island. Ele gere uma caravana. Ele tem seis camelos. Vou lá às vezes e ele deixa-me andar de graça. Eu sei quem o senhor é", disse o pequeno sírio confiantemente, enquanto comia o bolo. "O senhor é o grande advogado que defendeu Kasheed Hassoun."
"Isso é verdade. Como soubeste disso, agora?"
"Eu estive no julgamento."
"Achas que ele deveria ter sido libertado?", perguntou o Sr. Tutt caprichosamente.
"Não sei", respondeu a criança. "Acho que o senhor fez bem em não me chamar como testemunha."
O Sr. Tutt franziu as sobrancelhas.
"Eh? O quê? Tu não foste testemunha, pois não?"
"Claro que fui!", riu-se George. "Eu estava aqui atrás do biombo. Eu vi tudo. Vi Kasheed Hassoun entrar e falar com Sardi Babu, e vi Sardi puxar o seu revólver, e vi Kasheed arrancar-lho da mão e estrangulá-lo."
O Sr. Tutt sentiu um frio.
"Tu viste isso?", desafiou ele.
"Claro."
"Quantas outras pessoas estavam no restaurante?", inquiriu o Sr. Tutt.
"Ninguém", respondeu George num tom natural. "Apenas Kasheed e Sardi. Mais ninguém estava no restaurante."
"Que aconteceu à Katie — a segunda empregada de mesa?", perguntou a Sr.ª Althea Beekman a Dawkins, a sua governanta, enquanto se sentava à sua secretária de madeira de cetim após o pequeno-almoço. "Não a vi nem ontem à noite, nem esta manhã."
Dawkins, que era uma vitoriana de meia-idade, corou embaraçada.
"Tive mesmo de dispensar a rapariga, senhora!", explicou ela com um ar de ultraje. "Mal sei como lhe dizer — uma coisa destas nesta casa! Não podia de forma alguma tê-la por perto. Tive medo que ela corrompesse as outras raparigas, senhora — e elas são um grupo tão respeitável, quase inteiramente cavalheiresco, senhora. Por isso, simplesmente paguei-lhe e disse-lhe para ir embora."
A Sr.ª Beekman pareceu perturbada.
"Não devia tê-la posto na rua desse modo, Dawkins!", exclamou ela. "Para onde foi ela?"
Dawkins fixou os seus pés grandes, embaraçada.
"Não sei, senhora", admitiu. "Não supus que a quisesse aqui, por isso mandei-a embora. Foi muito inconveniente, também — com o problema dos criados como está. Mas espero conseguir outra esta tarde na agência da Sr.ª Healey."
A Sr.ª Beekman estava genuinamente irritada.
"Estou seriamente descontente consigo, Dawkins!", respondeu ela com severidade. "Claro que estou chocada com qualquer rapariga da minha casa que se comporte mal, mas... eu... não gostaria que ela fosse mandada embora... nessas circunstâncias. Seria muito cruel. Sim, estou muito perturbada!"
"Peço desculpa, senhora", respondeu a governanta, arrependida. "Mas só estava a pensar nas outras raparigas."
"Bem, é demasiado tarde para fazer seja o que for agora", repetiu a patroa. "Mas lamento, Dawkins; lamento muito, de facto. Temos responsabilidades para com estas pessoas! Contudo — hoje é quinta-feira, não é? — teremos vitela ao almoço, como de costume — e ela era tão bonita!", acrescentou ela de forma inconsequente.
"Hum. Esse era o problema!", fungou a governanta. "Estamos bem livres dela. Pensar-se-ia que uma rapariga teria alguma consideração pelo seu patrão — se não mais nada. Num certo sentido, ela é uma convidada na casa e deveria comportar-se como tal!"
"Sim, isso é bem verdade!", concordou a sua patroa. "Ainda assim... sim, Brown Betty é muito bom para a sobremesa. Isso basta, Dawkins."
Por detrás da cortina desta conversa casual, tinha sido encenado um melodrama tão intensamente vital e elementar como qualquer uma das tragédias de Shakespeare, pois no dia em que Dawkins despediu Katie O'Connell — "por razões", como disse — e lhe mandou voltar para onde tinha vindo, ou para qualquer lado que quisesse, desde que saísse da sua vista, o irmão de Katie, Shane, na sala das traseiras do palácio do gin de McManus, deu a Red McGurk — pelas mesmas "razões" — uma certa opção e, tendo este último recusado com desprezo aproveitar-se dela, disparou ali mesmo uma bala através do seu pescoço. Mas disto, naturalmente, a Sr.ª Beekman não sabia.
Como já se poderá ter presumido, a Sr.ª Althea era uma senhora graciosa, gentil e de coração terno que nunca teria feito mal a ninguém conscientemente e que não acreditava que, simplesmente porque Deus se tinha comprazido em chamá-la para um estado de vida pelo menos três andares acima da sua cozinha, estivesse por isso isenta do seu dever para com aqueles que a ocupavam. Contudo, da altitude desses três andares, ela via-os como fundamentalmente diferentes de si própria, pois vinha do que é conhecido como "uma longa linhagem de antepassados". Como, todavia, Katie O'Connell e Althea Beekman eram praticamente contemporâneas, é um tanto difícil compreender como uma delas poderia ter tido uma sucessão de antepassados que fosse mais longa do que a da outra. De facto, o amigo da Sr.ª Beekman, o Prof. Abelard Samothrace, da Universidade de Columbia, provavelmente teria admitido que, tal como as duas tinham vivido na mesma casa — ainda que em níveis diferentes — na Fifth Avenue, também os seus antepassados num período pré-histórico tinham, provavelmente, ocupado a mesma caverna e, na companhia uns dos outros, vadeado em manhãs geladas os pântanos cobertos de gelo da Mittel Europa em perseguição do urso das cavernas, do mastodonte e do rinoceronte lanudo, e, para relaxamento da tarde, tinham feito pares para caçar esposas com clavas de pedra em vez de ferros de golfe nas suas mãos peludas e preênseis.
Pareceria, portanto, que — qualquer que fosse a tradição que pudesse ter tido origem na época em questão — vislumbres de espírito desportivo, de orgulho pessoal, de dever tribal ou de consciência deveriam ter sido a herança comum de ambas. Pois era certamente verdade que, enquanto os antepassados históricos da Sr.ª Katie tinham sido celtiberos, vestidos ocasionalmente apenas com uma fina camada de tinta azul, os da Sr.ª Althea tinham habitado os pântanos húmidos do Elba e tinham sido inequivocamente teutónicos, embora esta maldição tenha sido largamente removida por casamentos inter-raciais durante milhares de anos subsequentes. De facto, pode bem ter acontecido que, num passado mais longínquo, algum servo Beekman, de joelhos, tenha entregue uma harpa dourada a algum Rei O'Connell no seu trono. Se os O'Connells eram estrangeiros, os Beekmans, do ponto de vista do aborígene americano, não o eram menos, simplesmente por o terem precedido por um par de centenas de anos.
A tradição não é uma questão de séculos, mas de eras. Se Katie herdou parte da sua dos pântanos de turfa adjacentes aos Salões de Tara naquele período remoto em que ainda havia serpentes na Irlanda, a Sr.ª Althea tinha adquirido vicarialmente outras dos bárbaros vestidos de peles descritos por Tácito, que passavam os seus tempos livres a beber, a jogar ou a partir os crânios uns dos outros com maços de pedra. Sobre este assunto, ver os "Data of Ethics" de Spencer e a "History of European Morals" de Lecky. Mas tudo isto escapou inteiramente à Sr.ª Althea, que sofria da impressão errónea de que, por ser uma Beekman e viver numa mansão de pedra virada para o Central Park, diferia fundamentalmente não só dos O'Connells, mas dos Smiths, dos Pasquales, dos Ivanovitches e dos Ginsbergs, todos os quais vêm, na verdade, de famílias muito antigas. Sobre esta suposta diferença, ela orgulhava-se.
Porque ela estava, de facto, enganada e porque os O'Connells partilhavam com os Beekmans e os Ginsbergs uma tradição que remontava a um período em que a vingança era justiça, e o costume dos parentes a única lei, Shane O'Connell procurou Red McGurk e enviou-o sem confissão para o seu Deus. A única razão pela qual este acontecimento quotidiano de Bowery suscitou qualquer atenção particular não foi o facto de Shane ser um O'Connell, mas de McGurk ser filho de um chefe político de grande influência e ele próprio um dos líderes de uma notória coorte de jovens rufiões que, quando necessário, podiam ser encarregados de encher uma urna de voto ou de, de outra forma, influenciar a opinião pública. Como Red era um homem poderoso em Gideon, a sua partida foi um acontecimento de momento, e foi velado com uma elegância insuperável nos anais de Cherry Hill.
"E se não puserem o filho da mãe que matou o meu rapaz na cadeira, os vossos nomes não valem nada — percebem?", tinha informado o mais velho McGurk ao Procurador Distrital Peckham na manhã seguinte. "Disse aos polícias quem o fez. Agora façam o resto — entendem?"
Peckham entendeu muito bem. Ninguém que visse a expressão no rosto púrpura de McGurk poderia ter falhado em fazê-lo.
"Vamos apanhá-lo! Não se preocupe!", assegurou Peckham ao pai desolado, com uma maneira que sugeria subtilmente tanto a mais profunda simpatia como as glórias proféticas de uma vingança jurídica em que o nome de McGurk estaria em todos os lábios e a fotografia do falecido, da sua família e da casa em que habitavam seria destaque na primeira página de todos os jornais. "Vamos apanhá-lo, com certeza!"
"Certifiquem-se de que o fazem!", comentou o seu visitante, de forma significativa.
Portanto, embora ninguém o tivesse visto cometer o crime, foi passada a palavra ao longo da linha para apanhar Shane O'Connell pelo homicídio de Red McGurk. Não importava que não houvesse provas, exceto o relato de uma ou duas ameaças murmuradas e a mentira passada abertamente na semana anterior.
Toda a gente sabia que Shane o tinha feito, e porquê; embora ninguém pudesse dizer como o sabia. E porque toda a gente sabia, tornou-se uma necessidade política para Peckham pô-lo sob detenção com um grande toque de trombetas e um anúncio grandioso da celeridade com que a corrente seria passada pelo seu corpo.
A única falha no plano era o facto de O'Connell ter entrado no gabinete do procurador distrital assim que o boato chegou até ele e se ter submetido silenciosamente a ser preso, dizendo apenas: "Ouvi dizer que me queriam. Bem, aqui estou eu!"
Mas, embora o tenham importunado durante horas, atraído por todos os pretextos para confessar, colocado um informador na mesma cela que ele e recorrido a todos os truques, artifícios e expedientes conhecidos pelo gabinete do procurador para o apanhar em algum tipo de admissão, não conseguiram nada pelos seus esforços. Foi apenas um daqueles casos em que as provas simplesmente não apareciam. E, no entanto, Peckham estava ciente de que, a menos que condenasse O'Connell, o seu nome não valeria, de facto, nada — ou pior. Esta história, contudo, preocupa-se menos com a honra familiar dos O'Connells do que com a dos Beekmans.
A Sr.ª Althea era o último membro sobrevivente do seu ramo da família. Embora provavelmente considerasse um pouco vulgar ser referida como "cem por cento americana", ela era-o tão perto disso — exceto por um afeto nostálgico pela "saudosa e querida Rainha" — que a frase, no seu caso, teria sido substancialmente correta. A sua mãe tinha sido filha de um distinto estadista revolucionário que tinha sido signatário da Declaração da Independência, embaixador e também juiz do Supremo Tribunal; o seu pai, um célebre editor de jornal.
Ela tinha nascido no período de "Prue and I" em Gramercy Park, perto do que é agora o The Players' Club, e a velha casa colonial com os seus acabamentos brancos e trabalhos em ferro ornamentais tinha sido o cenário de muitas modestas alegrias numa altura em que Emerson, Lowell e George William Curtis eram vistos menos como cidadãos do que como altos sacerdotes da Cultura, partilhando igualmente em santidade com a deusa da mesma. Ela ainda conseguia lembrar-se daqueles gentis velhos cavalheiros, bem como dos muitos veteranos da Guerra Civil que jantavam na decorosa mesa de mogno do seu pai e falavam da preservação da Constituição e daquelas outras instituições para fundar as quais se assume geralmente que os primeiros colonos desembarcaram na costa atlântica e aceitaram, de forma abnegada, bens imobiliários do astuto nativo em troca de uísque e contas de vidro. Ela tinha quarenta e sete anos de idade, era uma Dama Colonial, uma Filha da Revolução Americana, membro do conselho de administração de várias instituições de caridade e valia um par de milhões de dólares em títulos ferroviários. Aos domingos, frequentava sempre a igreja em Stuyvesant Square frequentada pela sua família e, ainda em 1907, fazia-o na famosa carruagem victoria com molas em C dos Beekman, conduzida por um idoso cocheiro negro.
Mas, além de estar cheia de retidão e boas obras — que por si mesmas falham tantas vezes em atrair —, a Sr.ª Althea possuía um rosto tão encantador, mesmo na sua beleza ligeiramente desbotada, que nos perguntávamos como era possível que ela tivesse resistido com sucesso aos pretendentes que deviam ter-se amontoado à sua volta. A sua casa na Fifth Avenue estava cheia de antigas gravuras de patriotas americanos, e a biblioteca herdada do seu progenitor editorial estava repleta de volumes sobre assuntos que teriam enchido um bolchevique de nojo. Resumidamente, se alguma vez Trotsky se tivesse tornado Comissário do Soviete de Manhattan, a Sr.ª Althea e os seus semelhantes teriam sido os primeiros candidatos a um tribunal sumário.
Ela orgulhava-se igualmente da sua adesão aos princípios religiosos e aos Atos do Congresso. Pela lei, meramente como lei, ela tinha a mais profunda veneração, encarando os estatutos heterogéneos aprovados de tempos a tempos por legisladores desatentos quase como se tivessem sido, de alguma forma misteriosa, transmitidos do Monte Sinai juntamente com os Dez Mandamentos.
Por qualquer violador da lei, ela tinha a maior aversão, e a única fraqueza na sua ética surgia da sua incapacidade de discriminar entre importâncias relativas, pois ela considerava, sem dúvida, que a venda de um copo de cerveja depois da hora de fecho era tão repreensível como um furto qualificado ou o falso testemunho. Para ela, cada juiz tinha de ser um homem culto, sábio e honrado, porque ele representava a aplicação da lei da terra, e ela nunca questionava se essa lei era sensata ou não, o que, deve confessar-se, muitas vezes não era.
Numa palavra, embora não houvesse nada de progressista na Sr.ª Althea, ela era uma daquelas deliciosas, cultas, leais e entusiastas cidadãs que são justamente consideradas como vértebras na espinha dorsal de um país que, depois de se ter erguido, pode indubitavelmente derrotar qualquer outra nação na Terra. Era característico dela que, cuidadosamente dobrado dentro do testamento elaborado para si pelo seu advogado de família, estivesse um pedaço de papel dirigido aos seus herdeiros e parentes próximos, solicitando que, no seu funeral, fosse tocado o hino nacional e que o seu caixão fosse coberto com a bandeira americana.
Mas existia uma curiosa, se não incomum, inconsistência na atitude da Sr.ª Beekman perante os infratores da lei, na medida em que, uma vez na prisão, eles tornavam-se instantaneamente objetos da sua mais gentil solicitude. Assim, ela era uma visitante frequente da prisão de Tombs, onde trazia conforto espiritual e, com mais frequência, deve admitir-se francamente, conforto corporal àqueles dos reclusos que eram recomendados pelo procurador distrital e pelas autoridades prisionais como dignos da sua atenção; e o Procurador Peckham, não estando alheio à possível vantagem política que poderia advir de estar em termos amigáveis com um membro tão conhecido da distinta família Beekman, não perdia oportunidade de se tornar agradável para ela e dava ordens aos seus subordinados para tornarem o seu caminho o mais fácil possível. Assim, muito naturalmente, ela tinha ouvido falar de Tutt & Tutt, e tinha um conhecimento casual do próprio sócio principal.
"Aquele O'Connell é uma ostra — não me diz absolutamente nada!", comentou o Sr. Tutt severamente, pendurando o chapéu no cabide do escritório com uma mão, enquanto procurava um fósforo no bolso do colete com a outra, na tarde do dia em que a Sr.ª Beekman teve a conversa com Dawkins com que esta história começa.
"Temperamento nacional", respondeu Bonnie Doon, produzindo o fósforo desejado. "É bem irlandês recusar liminarmente falar com o advogado que foi nomeado para o defender. Provavelmente tem medo de fazer alguma admissão da qual tu possas inferir que ele é culpado. Nenhum irlandês alguma vez admitiu que fosse culpado de coisa alguma!"
"Bem, nunca conheci um arguido de qualquer outra nacionalidade que o fizesse, também", replicou o Sr. Tutt, puxando vigorosamente pelo seu charuto. "Ainda assim, este tipo O'Connell é um enigma para mim. 'Siga em frente e defenda-me', disse ele hoje, 'mas não me peça para falar sobre o caso, porque eu não falarei'. Desisto. Nem sequer me quis dizer onde estava no dia do homicídio."
Bonnie grunhiu, duvidoso.
"Pode haver uma razão muito boa para isso!", retorquiu ele. "Se o que o boato diz for verdade, ele simplesmente caçou McGurk até o encontrar e colocou um projétil de chumbo atrás da sua orelha."
"E também, se o que o boato diz for verdade", acrescentou Tutt, que entrou neste momento, "foi um bom trabalho, também. McGurk era um tratante traiçoeiro e sujo, o líder de um gangue de criminosos, mesmo que fosse, como todos concordam, um patife atraente que tinha todas as mulheres do distrito em sobressalto. Alguma rapariga neste caso?"
Bonnie encolheu os ombros.
"Alegam que sim; apenas não há nada de definido. Os O'Connells são bem falados."
"Se houvesse, isso explicaria porque ele não queria falar", comentou o Sr. Tutt. "Esse é o diabo da questão. Não podes apresentar uma defesa ao abrigo da lei não escrita sem conspurcar a própria reputação que estás a tentar proteger."
O sócio principal da Tutt & Tutt virou a sua cadeira giratória para a janela e, cruzando as suas botas sobre o parapeito, contemplou pensativamente o transporte marítimo.
"Lei não escrita!", exclamou sarcasticamente Tutt à porta. "Não existe tal animal nestas paragens!"
"Estás completamente enganado!", retorquiu o seu sócio mais velho. "A maior parte da nossa lei — noventa e nove por cento dela, de facto — é não escrita."
"Desculpe!", interrompeu Bonnie Doon, abandonando a sua habitual leviandade. "O que foi que disse, Sr. Tutt?"
"Que noventa e nove por cento das leis pelas quais somos governados são leis não escritas, tão vinculativas como as impressas nos nossos livros de estatutos, que, afinal, são apenas a cristalização dos sentimentos e opiniões da comunidade baseados nas suas tradições, modos, costumes e crenças religiosas. Por cada estatuto impresso, há cem que não têm existência tangível, baseados no nosso sentido de decência, de dever e de honra, que são igualmente controladores e que nunca se achou necessário reduzir a escrito, uma vez que a sua infração traz habitualmente a sua própria penalidade ou infringe o domínio mais delicado da consciência privada, onde os processos grosseiros do direito penal não podem seguir. As leis da etiqueta e do jogo limpo são tão obrigatórias como as normas legislativas — os Dez Mandamentos tão eficazes como o Código Penal."
"Não concorda com isso, Tutt?", exigiu Bonnie. "A consciência de cada homem é a sua própria lei não escrita privada."
Tutt pareceu cético.
"Disse que cada homem tem uma consciência?", inquiriu ele.
"E causa muitos problemas às vezes", continuou o Sr. Tutt, ignorando-o. "Lembra-se de quando o velho Cogswell estava no banco e um homem foi levado perante ele por ter partido o seu guarda-chuva na cabeça de um companheiro que tinha insultado a esposa do arguido, ele disse ao júri: 'Cavalheiros, se este autor tivesse chamado à minha mulher um nome como aquele, eu teria partido o meu guarda-chuva na cabeça dele rapidamente. Contudo, essa não é a lei! Considerem o caso, cavalheiros!'"
"Bem, acho que estava enganado", admitiu Tutt. "Claro, isso é lei não escrita. As pessoas não gostam de punir um homem por se ressentir de uma calúnia à reputação da sua mulher."
"Mas vê onde isso o leva?", comentou o seu sócio. "A chamada lei não escrita baseia-se na nossa ideia herdada de cavalheirismo. A honra e a reputação de uma senhora eram sagradas, e o seu cavaleiro estava preparado para a defender instantaneamente até à última gota do seu sangue. Uma reflexão sobre a sua honestidade era quase tão insuportável como uma sobre a sua virtude. Logicamente, a lei não escrita deveria permitir às mulheres quebrassem os seus contratos e fizessem praticamente tudo o que bem entendessem."
"Elas fazem, não fazem... as queridas!", suspirou Bonnie.
"Lembro-me", interrompeu Tutt alegremente, "quando era lei não escrita no Condado de Cook, Illinois — isso é Chicago, sabe — que qualquer mulher podia matar o seu marido pelo dinheiro do seguro de vida. A sério!"
"Não vejo nenhum ponto de cavalheirismo envolvido nisso — é apenas um bom negócio", comentou o Sr. Doon, acendendo outro cigarro. "Ainda assim, é óbvio que a lei não escrita pode ser esticada muito longe. É uma grande conveniência, contudo, em certas ocasiões!"
"Estaríamos num péssimo serviço se hoje em dia substituíssemos as ideias de cavalheirismo pelas de justiça", declarou o Sr. Tutt. "Felizmente, o perigo passou. Como alguém disse: 'As mulheres, outrora nossas superiores, tornaram-se nossas iguais!'"
"Nem sequer lhes damos os nossos lugares no Metro", comentou Tutt, complacente. "Não, não precisamos de nos preocupar com o regresso do cavalheirismo — em Nova Iorque, pelo menos."
"Com certeza que não!", exclamou a Sr.ª Wiggin, entrando nesse momento com uma pilha de papéis, enquanto ninguém se levantava.
"Mas", insistiu Bonnie, "ainda assim, há certamente muitos casos em que, se tivesse de escolher entre elas, qualquer homem obedeceria à sua consciência em vez da lei."
"Claro, existem casos desses", admitiu o Sr. Tutt. "Mas deveríamos desencorajar a ideia tanto quanto possível."
"Desencorajar um sentido de honra?", exclamou a Sr.ª Wiggin. "Ora, Sr. Tutt!"
"Depende do que quer dizer com honra", retorquiu ele. "Não dou muito valor ao tipo de honra que faz um herdeiro aparente 'perjurar-se como um cavalheiro' sobre um jogo de cartas numa casa de campo."
"Nem eu", respondeu ela, "tal como não dou ao tipo de honra que obriga um homem a pagar uma dívida de jogo antes de pagar ao seu alfaiate, mas acredito que podem existir situações em que, embora não fosse permitido perjurar-se, a honra exigiria que se recusasse obedecer à lei."
"Essa é uma doutrina bastante perigosa", refletiu o Sr. Tutt. "Pois toda a gente seria livre de se tornar o juiz de quando deve respeitar a lei e quando não deve. Podemos facilmente imaginar que a lei sairia a perder."
"Em questões de consciência — que, presumo, seja a mesma coisa que o sentido de honra de alguém — temos de ser os nossos próprios juízes", declarou a Sr.ª Wiggin com firmeza.
"O caminho mais simples", anunciou Tutt, "é adotar a posição de que a lei deve ser sempre obedecida e que o homem mais honrado é aquele que mais a respeita."
"Sim, o mais seguro e também o mais covarde!" retorquiu a Sr.ª Wiggin. "Supondo que a lei lhe exigisse fazer algo que o senhor pessoalmente considerasse não apenas moralmente errado, mas detestável, o faria?"
"Não exigiria!" protestou Tutt com uma careta. "A lei é a perfeição da razão."
"Mas tenho o direito, não tenho, de supor, para fins de argumentação, que pudesse?" indagou ela com causticidade. "E digo que o nosso sentido de honra é a coisa mais preciosa que temos. É nosso dever respeitar as nossas instituições e obedecer à lei, quer gostemos ou não, a menos que entre em conflito com a nossa consciência, caso em que deveríamos desafiá-la e arcar com as consequências!"
"Meu Deus!" zombou Tutt. "E ser queimado na fogueira?"
"Se necessário; sim!"
"Não percebo bem isto tudo!" comentou Bonnie. "Eu fico-me pelo lado seguro da lei, sempre!"
"É altamente teórico", comentou Tutt. "Como de costume nas nossas discussões."
"Não tão teórico como poderia pensar!" interrompeu o seu superior, apressando-se a reforçar a Sr.ª Wiggin. "Ninguém pode negar que ser fiel a si mesmo é o princípio mais elevado da conduta humana, e que 'é a perdição do homem estar seguro quando pela verdade deveria morrer'. É por isso que reverenciamos os primeiros mártires cristãos. Mas quando se trata de escolher entre o que vagamente chamamos de honra e o que a lei exige..."
"Mas eu pensei que a lei personificava as nossas ideias de honra!" respondeu Tutt. "Não o disse — algumas horas antes nesta conversa? Como o nosso dever supremo é para com o Estado, é um mero jogo de palavras, na minha humilde opinião, falar de honra como algo distinto da lei ou da obrigação do juramento de alguém num tribunal de justiça. Aposto que encontro imensas autoridades nesse sentido na biblioteca!"
"Claro que pode", contra-argumentou a Sr.ª Wiggin. "Pode encontrar uma autoridade para qualquer lado de qualquer proposição que queira procurar. É por isso que o nosso próprio sentido de honra é muito mais fiável do que a lei. O que é a lei, afinal? É o que um juiz diz que é a lei — até ser revogada. Supõe que eu entregaria as minhas próprias ideias privadas de honra a uma decisão casual de um juiz que, muito provavelmente, não teria a mínima ideia do que eu considero honrado?"
"Será presa por desacato antes de acabar!" advertiu-a Tutt.
"O facto é", concluiu o Sr. Tutt, "que a honra e a lei não têm nada a ver uma com a outra. Os tribunais têm apontado isso constantemente desde os primórdios, embora os juízes gostem, quando podem, de fazer com que as duas pareçam uma só. O Barão Chefe Bowes, recordo-me, disse num caso em 1743: 'O tribunal não pode determinar o que é honra'. Não, não; as duas são diferentes, e essa diferença causará sempre problemas. Não é quase hora do chá?"
* * * * *
A Sr.ª Beekman estava a sair do elevador no primeiro andar de Tombs, na tarde seguinte, numa das suas visitas semanais, quando ficou cara a cara com o Sr. Tutt.
Cumprimentou-o cordialmente, pois tinha criado uma certa afeição pelo velho homem maltrapilho, atraída por ele, apesar da sua aversão natural a todos os membros do foro criminal, pelo refinamento gentil do seu rosto marcado pelo tempo. "Espero que tenha tido um dia bem-sucedido."
O advogado abanou a cabeça de uma forma pseudo-melancólica.
"Infelizmente, não tive", respondeu ele com capricho. "O meu único cliente recusa-se a falar comigo! Talvez conseguisse tirar algo dele por mim."
"Oh, eles falam todos comigo prontamente!" respondeu ela. "Imagino que saibam que sou inofensiva. Qual é o nome dele?"
"Shane O'Connell."
"Qual é o crime dele?"
"Ele é acusado de homicídio."
"Oh!"
A Sr.ª Althea recuou. Os seus impulsos caritativos não se estendiam a arguidos acusados de homicídio. Havia demasiada notoriedade ligada a eles, para começar; não havia nada que ela detestasse tanto quanto a notoriedade.
"Falando a sério", continuou ele com seriedade, "gostaria que tivesse uma palavra com ele. É muito difícil ter de defender um homem e não saber nada sobre o lado dele no caso. É quase um dever seu, não acha?"
A Sr.ª Althea hesitou e perdeu-se.
"Muito bem", respondeu ela relutantemente, "verei o que posso fazer. Talvez ele precise de algum medicamento ou papel de carta ou algo assim. Vou pedir uma autorização ao diretor e voltar imediatamente para o ver."
Vinte minutos depois, Shane O'Connell encarava a Sr.ª Beekman de forma carrancuda através da mesa de madeira da sala de aconselhamento. Um raio de sol tardio caía através da grade alta da janela fortemente gradeada sobre um rosto bem diferente daqueles que a Sr.ª Althea estava habituada a encontrar nestes ambientes, pois não mostrava sinal de depravação ou maus hábitos, e o confinamento ainda não tinha privado as suas bochechas do seu manto rugoso de carmesim, nem os seus olhos do seu brilho audaz.
Ele era pouco mais do que um rapaz, este homicida, um jovem tão bonito quanto qualquer um que já tenha atravessado o Condado de Kerry.
"E o que será que a leva a mandar chamar alguém como eu, Sr.ª Beekman!" exigiu ele, olhando-a fixamente.
Ela sentiu-se subitamente desanimada, sobressaltada e bastante chocada com o uso do seu nome. Onde o poderia ter descoberto? Do carcereiro, provavelmente, decidiu ela. Toda a sua compostura habitual, o seu porte sereno, a sua doçura distante e ligeiramente condescendente — tinham-na abandonado.
"Pensei", gaguejou ela — "que pudesse — possivelmente — ser útil para si."
"'É tarde demais para compensar o mal que fez!" Os seus olhos negros como carvão penetraram o corpo encolhido dela como se quisessem arrancar-lhe o coração.
"Eu!" exclamou ela. "Eu — fazer mal! O que quer dizer?"
"A minha irmã Katie não trabalhou para si?" perguntou ele, e as suas palavras saltaram e enrolaram-se à volta dela como chamas sibilantes. "Cuidou dela ou vigiou as suas idas e vindas, como ela cuidava de si — ela uma mera rapariga de dezasseis anos? Arrah! Não!"
Com uma sensação de horror, a Sr.ª Althea percebeu que, finalmente, estava envolvida num caso de homicídio, apesar de si mesma! Este rapaz, o irmão de Katie, a empregada de mesa que ela tinha despedido! Que curioso! E que infeliz! A acusação dele era absurda; no entanto, um leve rubor subiu-lhe às faces e ela desviou o olhar.
"Que ridículo!" conseguiu ela dizer. "Não fazia parte da minha obrigação cuidar dela! Como poderia?"
Os olhos de falcão dele observavam cada tremor dela.
"Não a deixou fechada fora de casa na noite do baile quando ela foi com McGurk?"
"Eu — que absurdo!"
Subitamente, ela vacilou. Uma recordação acusatória indistinta fê-la desfalecer — a governanta a dizer-lhe que uma das raparigas insistia em ir a um baile numa noite que não estava no seu horário, e como ela tinha dado ordens para que a casa fosse fechada, como de costume, às dez horas para a noite. Se a rapariga não conseguia cumprir as regras da casa Beekman, que dormisse noutro lugar. E daí? Supondo que o tinha feito? Ela não podia ser responsabilizada por consequências remotas, irracionais e desabonatórias!
E então, por acaso, Shane O'Connell usou uma frase que indiretamente salvou a sua vida, uma frase curiosamente semelhante à usada numa ocasião anterior por Dawkins para a Sr.ª Althea:
"Katie era um membro da sua casa; podia ter tido um pouco de consideração por ela!" afirmou ele amargamente.
Dawkins dissera: "Pensar-se-ia que uma rapariga teria alguma consideração pelo seu empregador, se mais não fosse. Num certo sentido, ela é uma convidada na casa e deveria comportar-se como tal."
Não havia sentido nisso! Não havia paralelo, nem analogia. Não havia obrigação de tratar a rapariga como uma convidada, mesmo que a rapariga devesse ter agido como tal. A Sr.ª Beekman sabia disso. E ainda assim havia — algo! Não deveria ela algum tipo de dever, pelo menos para com aqueles ao seu serviço — aqueles que dormiam sob o seu teto?
"'Teria sido melhor ter sido gentil com ela então do que ser gentil comigo agora!" disse ele com triste convicção.
A orgulhosa Sr.ª Althea Beekman, a digna descendente de uma longa linhagem de antepassados, ficou vermelha. Até então serenamente confiante na sua própria virtude pessoal e nos seus padrões artificiais de democracia, ela encontrava-se agora humilhada e mortificada perante este jovem criminoso rude.
"Tem — toda a — razão!" confessou ela, com os olhos a arder de lágrimas súbitas. "A minha posição é bastante — bastante ilógica. Mas é claro que não fazia ideia! Por favor, por favor, deixe-me tentar ajudá-lo — se puder — e a Katie também — se não for tarde demais."
Shane O'Connell sentiu contrição. Afinal, não era adequado que alguém como ele ditasse leis a alguém como ela. E ele nunca suportava ver uma mulher — particularmente uma mulher bonita — a chorar.
"Perdoe-me, senhora!" implorou ele, baixando a cabeça.
"Estava totalmente justificado em tudo o que disse!" garantiu-lhe ela. "Por favor, conte-me tudo o que aconteceu. Tenho influência junto do procurador distrital e — noutros lugares. Sem dúvida que poderei ser-lhe útil. Claro que pode confiar absolutamente em mim!"
Shane O'Connell, olhando para os seus honestos olhos cinzentos, soube que podia confiar nela. Lenta — fragmentada — tensamente, ele contou-lhe como tinha matado Red McGurk, e porquê.
Os corredores estavam cheios de sombras quando Althea Beekman colocou as mãos nos ombros de Shane O'Connell e lhe deu as boas noites. Embora abominasse o crime dele e o detestasse por o ter cometido, sentia-se de alguma forma parcialmente responsável, e percebia também que, pelo código dos O'Connell, Shane tinha feito o que acreditava estar certo. Ele tinha feito justiça pelas próprias mãos e estava pronto para pagar a penalidade necessária. Teria feito a mesma coisa tudo de novo. Até este ponto, pelo menos, ele tinha o respeito dela.
Ela encontrou o Sr. Tutt à espera dela no banco junto ao gabinete do diretor.
"Bem?" perguntou ele com um sorriso, levantando-se para a cumprimentar e atirando fora o seu charuto.
"Não tenho notícias muito boas para si", respondeu ela com pesar. "Ele confessou-me — contou-me tudo — porque o matou e onde comprou a pistola. É um rapaz corajoso, no entanto! É um caso triste! Mas o que se pode fazer com pessoas que se acreditam justificadas em fazer coisas como essa?"
Ela não reparou no detetive Eddie Conroy, do gabinete do procurador, parado atrás de uma coluna adjacente, a acender ostensivamente um charuto; nem o viu sorrir enquanto se afastava lentamente.
* * * * *
"Falem em sorte!" exultou O'Brien, o cão fiel do gabinete do procurador distrital, uma hora depois, ao seu chefe. "O que acha, chefe? Eddie Conroy ouviu a Sr.ª Beekman dizer ao velho Tutt em Tombs que O'Connell tinha confessado a ela! Diga lá, que tal? Alguma prova — hein?"
"Que bem nos fará isso?" perguntou Peckham, olhando para cima com um cenho franzido da sua secretária. "Ela não testemunhará por nós."
"Mas terá de testemunhar se a chamarmos, não terá?" exigiu o seu assistente.
O procurador distrital tamborilou na superfície polida à sua frente.
"Be-em, suponho que sim", admitiu ele hesitante. "Mas não se pode simplesmente intimar uma mulher como aquela sem qualquer aviso e colocá-la no banco das testemunhas e fazê-la testemunhar. Seria demasiado grosseiro!"
"É a única maneira de o fazer!" retorquiu O'Brien com um sorriso astuto. "Se ela soubesse com antecedência que estávamos a pensar em chamá-la, ela fugia da cidade."
"Isso é verdade", concordou o seu chefe. "Isso é tão longe quanto ela iria, também, ao desafiar a lei. Mas não gosto muito disto. Aqueles Beekman têm muita influência, e se ela se zangasse poderia causar-nos um monte de problemas! Além disso, é um truque um pouco baixo fazê-la desistir dele assim."
O'Brien levantou as sobrancelhas.
"Truque baixo! Ele é um homicida, não é? E ele escapará se não a chamarmos. É uma questão de dever, como eu vejo."
"Ainda assim, meu filho, a sua sugestão tem um cheiro podre. Podemos ter de o fazer — não digo que não o faremos — mas é um negócio arriscado!" respondeu Peckham duvidosamente.
"É muito menos arriscado do que não o fazer, no que diz respeito à sua candidatura no próximo outono!" retorquiu o seu assistente. "Não a deixaremos suspeitar do que vamos fazer; e no último minuto chamá-la-ei ao banco e fecharei o caso! Ela nem saberá quem a chamou! Talvez eu possa combinar com o Juiz Babson que a chame por algum outro ponto e depois pretender tropeçar no facto da confissão e interrogá-la ele próprio. Isso livrar-nos-ia. Eu posso disfarçar isso de alguma maneira."
"É melhor que o faça", comentou Peckham, "a menos que queira um clamor dos jornais! Daria uma bela história se a Sr.ª Althea Beekman se enfurecesse. Ela poderia ter a sua cabeça, meu rapaz, se quisesse!"
"E McGurk poderia ter a sua!" retorquiu O'Brien com a insolência nascida do conhecimento.
A acusação de Shane O'Connell, que de outra forma poderia ter definhado lentamente e morrido, ganhou nova vida devido à prova assim inocentemente entregue nas mãos do procurador distrital; de facto, tornou-se um *cause célèbre*. Os elementos essenciais para condenar estavam agora todos lá — o *corpus delicti*, provas de ameaças por parte do arguido, de motivo, de oportunidade, e — a sua confissão. A lei que estipula que a declaração de um arguido "não é suficiente para justificar a sua condenação sem prova adicional de que o crime imputado foi cometido" seria abundantemente satisfeita — embora sem a sua confissão não houvesse prova alguma de que o crime imputado tinha sido cometido por ele.
Assim, sem ela o saber, a Sr.ª Beekman era uma testemunha essencial e, de facto, o eixo sobre o qual todo o caso girava.
O dia do grande evento desportivo chegou. Com ele chegaram em plena pompa os McGurk, os seus parentes e seguidores. Toda a Cherry Hill parecia ter-se empacotado na Parte I do Supremo Tribunal. Havia uma atmosfera de alguma forma sugestiva das corridas ou de uma luta de boxe. Mas era um evento desportivo que cheirava a coisa certa — mais parecido com um enforcamento. Eles estavam lá para fazer festa sobre a vingança da lei pelo homicídio do querido dos Pearl Button Kids. Peckham garantiu pessoalmente a McGurk que tudo estava bem seguro.
"Ele já está a meio caminho do rio!" disse ele jocosamente.
E McGurk, inchando de importância e emoção, tirou um par de charutos do bolso e os dois fumaram o cachimbo da paz.
Mas o leitor não está particularmente preocupado com o progresso do julgamento, pois já assistiu a muitos. Basta dizer que um júri com queixos salientes, que tinha provado por experiência anterior a sua indiferença à pena capital e a toda a simpatia humana, foi finalmente selecionado e que as testemunhas foram devidamente chamadas, e testemunharam sobre os factos habituais, enquanto os Pearl Button Kids e os outros, cuspindo subrepticiamente debaixo dos bancos, bebiam avidamente cada palavra. Não havia nada para o Sr. Tutt fazer; nada para ele negar. O caso construiu-se a si mesmo, tijolo a tijolo. E Shane O'Connell sentava-se ali sem emoção, quase sem ouvir. Não havia nada nas provas que refletisse de qualquer forma a honra dos O'Connell em geral ou em particular. Ele tinha feito aquilo que essa honra exigia e estava pronto para pagar a penalidade — se a lei o conseguisse apanhar. Ele assumiu que o apanharia. Assim como os Tutt.
Mas quando, perto do fim do terceiro dia, nada tinha sido ainda apresentado para o ligar ao crime, Tutt inclinou-se e sussurrou ao Sr. Tutt: "Sabe, estou a começar a ter um palpite de que não há caso nenhum!"
O Sr. Tutt fez um gesto impercetível de assentimento.
"Parece que sim", respondeu ele pelo canto da boca. "Provavelmente eles vão lançar a prova de ligação no fim e dar-nos o *coup de grâce*."
Nesse momento, uma testemunha policial foi dispensada do banco e O'Brien aproximou-se do juiz e sussurrou algo ao magistrado, que olhou para o relógio e acenou. Eram três e quarenta, e o júri já estava a ficar inquieto, pois o julgamento tinha-se desenvolvido num caso monótono e rotineiro.
A Sr.ª Beekman, sentada bem atrás no fundo da sala do tribunal, ouviu subitamente O'Brien chamar o seu nome, e um tremor de apreensão percorreu o seu corpo. Ela nunca tinha testemunhado em qualquer processo legal, e a ideia de se levantar perante tal multidão de pessoas e responder a perguntas encheu-a de consternação. Era tão público! Ainda assim, se ia ajudar O'Connell...
"Althea Beekman", trovejou Cap. Phelan, "ao banco das testemunhas!"
Althea Beekman! A gentil senhora sentiu como se tivesse sido rudemente despida de toda a sua roupa protetora. Althea! Não lhe dava a lei a cortesia de a tratar sequer por "Sr.ª"? Armando-se para o cumprimento do seu dever, ela dirigiu-se trémula entre os bancos cheios, passou pela mesa dos repórteres e contornou a caixa do júri. O juiz, aparentemente um homem de rosto agradável e bastante idoso, inclinou-se gravemente para ela, indicou onde ela deveria sentar-se e administrou-lhe o juramento ele próprio, insistindo subtilmente na frase "toda a verdade", e elevando os olhos para os céus enquanto pronunciava solenemente as palavras "assim Deus a ajude!"
"Juro!" declarou a Sr.ª Beekman de forma recatada mas decidida.
Atrás dela, na parede da sala do tribunal, erguia-se, nas suas vestes esvoaçantes, a figura majestosa da Deusa da Lei, de olhos vendados e segurando no alto as balanças da justiça. Ao lado dela, sentado nas sedosas vestes do seu sagrado ofício, estava um juiz que administrava habilmente essa lei para promover os seus próprios interesses e os dos seus associados políticos. À sua frente, sorrindo traiçoeiramente, estava o cínico e de cabeça rapada O'Brien. A uma grande distância, o Sr. Tutt apoiava-se nos cotovelos numa mesa ao lado de Shane O'Connell. Foi para eles que ela dirigiu o seu olhar e sorriu fracamente.
"Sr.ª Beekman", começou O'Brien tão cortesmente quanto sabia, "a senhora reside, não é, no número 1000 da Quinta Avenida, nesta cidade e condado?"
"Resido", respondeu ela com resolução.
"A sua família viveu sempre em Nova Iorque, não viveu?"
"Desde 1630", respondeu ela depreciativamente e com mais confiança.
"A senhora é proeminente em várias atividades filantrópicas, religiosas e cívicas?"
"Não proeminente; interessada", corrigiu ela.
"E pratica o hábito de visitar prisioneiros em Tombs?"
Ela hesitou. O que poderia isto levar a?
"Ocasionalmente", admitiu ela.
"Conhece este arguido, Shane O'Connell?"
"Sim."
"Viu-o no dia vinte e três do mês passado?"
"Penso que sim — se esse foi o dia."
"A que dia se refere?"
"O dia em que tive a conversa com ele."
"Oh, teve uma conversa com ele?"
"Sim."
"Onde teve essa conversa com ele?"
"Na sala de aconselhamento de Tombs."
O'Brien fez uma pausa. Até a sua alma miserável revoltou-se com o que estava prestes a fazer.
"O que é que ele disse?" perguntou ele, olhando nervosamente para o lado.
Algo no seu olhar de traidor avisou a Sr.ª Beekman de que estava a ser traída, mas antes que ela pudesse responder, o Sr. Tutt estava de pé.
"Um momento!" gritou ele. "Posso fazer uma pergunta preliminar?"
O tribunal sinalizou concordância.
"Essa conversa que teve com o arguido foi confidencial?"
"Objeto à pergunta!" disparou O'Brien. "A lei não reconhece comunicações confidenciais como privilegiadas, exceto aquelas feitas a um padre, um médico ou um advogado. A testemunha não é nada disto. A pergunta é imaterial e irrelevante."
"Essa é a lei", anunciou o juiz, "mas, dadas todas as circunstâncias, permitirei que a testemunha responda."
A Sr.ª Beekman pausou.
"Bem", começou ela, "é claro que foi confidencial, Sr. Tutt. O'Connell não me teria dito nada se tivesse pensado por um momento que eu ia repetir o que ele disse. Além disso, sugeri que poderia ser capaz de o ajudar. Sim, certamente a nossa conversa foi confidencial."
"Lamento", vangloriou-se O'Brien, "mas terei de lhe perguntar o que foi."
"Isso não é uma pergunta", disse o Sr. Tutt calmamente.
"O que é que o arguido lhe disse na sala de aconselhamento de Tombs no dia vinte e três do mês passado?" reformulou cautelosamente O'Brien.
"Objeto!" trovejou o Sr. Tutt, a sua forma elevando-se até parecer igualar a da deusa cega em altura. "Objeto à resposta, pois exige uma quebra de confidencialidade que a lei não poderia tolerar."
O Juiz Babson virou-se educadamente para a Sr.ª Beekman.
"Lamento profundamente que eu seja obrigado a pedir-lhe que declare o que o arguido lhe disse. Recordar-se-á de que a própria senhorita se ofereceu para prestar a informação de que teve a conversa em questão. De outro modo" — ele tossiu e levantou a mão — "poderíamos possivelmente nunca ter tido conhecimento dela. Um arguido não pode privar o povo do direito de provar o que ele possa ter divulgado a respeito do seu crime apenas alegando que foi em confidência. A ordem pública nunca poderia permitir tal coisa. Pode ser desagradável para a senhorita responder à pergunta, mas sou obrigado a pedir-lhe que o faça."
"Mas", protestou ela, "o senhor certamente não pode esperar que eu traia uma confidência! Pedi ao O'Connell que me dissesse o que tinha feito para que eu pudesse ajudá-lo — e ele confiou em mim!"
"Mas a senhorita não é responsável pela lei! Ele que assumiu o risco!" admoestou o juiz.
Lentamente, a indignação da Sr.ª Althea aumentou ao aperceber-se do truque cobarde que O'Brien lhe tinha pregado. Já suspeitava que o juiz apenas se mascarava com as roupas de um cavalheiro. Com o rosto pálido, virou-se para o Sr. Tutt.
"A lei exige que eu responda, Sr. Tutt?" inquiriu ela.
"Não faça perguntas — responda-as", ordenou Babson bruscamente, sentindo a mudança na sua atitude. "A senhorita é uma testemunha do povo — não do arguido."
"Não sou uma testemunha contra o O'Connell!" declarou ela. "Este homem" — indicando O'Brien com desprezo — "descobriu de alguma forma que eu... Oh, certamente a lei não exige nada tão vil como isso!"
Fez-se silêncio. As engrenagens da justiça ficaram num ponto morto.
"Responda à pergunta", observou Sua Excelência com rispidez.
Toda a longa linhagem de antepassados da Sr.ª Beekman revirou-se nos seus túmulos. No seu sangue Beekman, o juiz supremo, o embaixador, o grande editor, o signatário da Declaração de Independência, agitaram-se, acordaram, esfregaram os olhos e ergueram-se severamente. E esse sangue — embora azul em vez de escarlate como o dos O'Connells — ferveu nas suas veias e queimou através do tecido delicado das suas faces.
"A minha consciência não me permite trair uma confidência!" gritou ela, irritada.
"Ordeno-lhe que responda!" comandou o juiz.
"Oponho-me a que o tribunal ameace a testemunha!" interveio o Sr. Tutt. "Desejo que conste em ata que a postura do tribunal é deveras pouco judicial e prejudicial para o arguido."
"Tome o seu lugar, senhor!" ladrou Babson, com as feições a incharem de raiva. "A sua linguagem é desrespeitosa!"
Os jurados inclinavam-se para a frente, atentos. Milicianos treinados da forca, ainda assim admiravam a destemor desta pequena mulher e a combatividade do velho advogado. Na parede do fundo, a face amarela do velho relógio de corda, que alegremente fizera passar tantos homens para a cadeira elétrica, olhava descaradamente para a deusa cega.
"Responda à pergunta, senhora! Se, como alega, é uma cidadã patriótica desta comunidade, tendo o devido respeito pelas suas instituições e pelos estatutos, não estabelecerá as suas próprias ideias sobre o que a lei deveria ser em desafio à lei tal como ela é. Ordeno-lhe que responda! Se não o fizer, serei obrigado a tomar medidas para a forçar a fazê-lo."
No silêncio mortal que se seguiu, as pedras do edifício da complacência herdada da Sr.ª Beekman, a cada batida do relógio, caíram uma a uma no chão até que este ficou totalmente demolido. Em vão, ela lutou para testar a sua consciência pela sua lealdade às leis do seu país. Mas a tarefa estava acima das suas capacidades.
Comprimindo os lábios, sentou-se em silêncio na cadeira, enquanto os repórteres, deliciados, escreviam mensagens furiosas para os seus editores de cidade a informar que a Sr.ª Althea Beekman, uma dos "Four Hundred", estava a desafiar o Juiz Babson, e para enviarem um fotógrafo imediatamente de táxi, e para pesquisarem sobre ela na morgue para uma manchete de primeira página. O'Brien olhou inquieto para Babson. Um possível desafio por parte desta senhora, habitualmente modesta, não tinha entrado nos seus cálculos. O juiz tomou um novo rumo.
"A senhorita provavelmente não compreende totalmente a situação em que se encontra", explicou ele. "Não é responsável pela lei. Nem é, de forma alguma, responsável pelas consequências para este arguido, quaisquer que elas sejam. O assunto está inteiramente fora das suas mãos. É obrigada a fazer o que o tribunal ordena. Como cidadã respeitadora da lei, não tem escolha no assunto."
O intelecto modesto da Sr.ª Althea vacilou, mas ela manteve-se firme, com o fantasma do Signatário ao seu lado.
"Lamento", respondeu ela, "mas o meu próprio autorrespeito não me permite responder."
"Nesse caso", declarou Babson, jogando a sua cartada final, "será meu dever desagradável detê-la por desacato."
Houve um alvoroço de excitação em torno da mesa dos repórteres. Ali estava uma história!
"Muito bem", respondeu a Sr.ª Beekman, orgulhosa. "Faça como entender, e como o seu próprio dever e consciência exigirem."
O juiz não conseguiu esconder o seu incómodo. A última coisa no mundo que ele desejava fazer era enviar a Sr.ª Althea para a cadeia. Mas, tendo-a ameaçado, tinha de cumprir a sua ameaça ou perder a face para sempre.
"Darei à testemunha até amanhã de manhã, às dez e meia, para decidir o que fará", anunciou ele após uma conferência apressada com O'Brien. "Suspenda-se a sessão!"
A Sr.ª Beekman não foi para a cama naquela noite. Até tarde, conferenciou na privacidade da sua biblioteca da Quinta Avenida com o seu advogado de cabelos grisalhos, que, de alguma forma misteriosa, apenas por telefone, conseguiu levar os jornais a omitir qualquer referência à conduta desrespeitosa da sua cliente nas suas edições matinais.
"Não há saída, minha cara", disse ele finalmente ao despedir-se — ele era primo do seu pai e gostava muito dela — "este juiz tem o poder de a enviar para a cadeia se quiser — e se se atrever! É uma probabilidade de cinquenta por cento se ele se atreverá ou não. Depende de ele preferir manter-se bem com os McGurks ou com o público em geral. É claro que respeito a sua atitude, mas realmente acho que é um pouco quixotesca. Questões de honra são demasiado efémeras para serem debatidas em tribunais de justiça. Fazê-lo seria abrir a porta a todo o tipo de abusos. Testemunhas desonestas aproveitariam constantemente a oportunidade para evitar prestar depoimento."
"Testemunhas desonestas provavelmente mentiriam desde o início!" ela estremeceu.
"Verdade! Esqueci-me completamente disso!" sorriu ele, olhando para ela de uma forma paternal. "Mas hoje a questão não está em aberto. Está resolvida, quer gostemos ou não. Nenhuma promessa de privacidade, nenhum juramento de segredo, pode prevalecer contra a exigência num tribunal de justiça. Até confissões obtidas por fraude são admissíveis — embora pudéssemos desejar o contrário."
A Sr.ª Beekman encolheu os ombros.
"Nada do que disse me parece alterar a situação."
"Muito bem", respondeu ele. "Suponho que isso encerra o assunto. Conhecendo a si e à linhagem Beekman! Há uma coisa que devo dizer", acrescentou ele enquanto estava à porta depois de lhe desejar boa noite, "aquele velho Tutt portou-se muito bem, deixando-a inteiramente sozinha desta forma. Sempre tive a ideia de que ele era uma espécie de advogado vigarista. A maioria dos advogados dessa classe estaria sentada à sua porta a noite toda a tentar persuadi-la a manter a sua resolução de não denunciar o cliente deles, e a fazer a coisa certa. Mas ele não fez nada disso. Até que foi decente!"
"Talvez ele reconheça uma mulher de honra quando vê uma!" retorquiu ela.
"Honra!" murmurou ele enquanto fechava a porta. "Que crimes são por vezes cometidos em teu nome!"
Mas nos degraus, parou e olhou para trás, afetuosamente, para a janela da biblioteca.
"Afinal, a Althea é uma boa desportista!" comentou para si mesmo.
* * * * *
No mesmo momento, ou por volta dessa altura, uma conferência bastante diferente estava a ser realizada entre o Juiz Babson e o Procurador Distrital Adjunto O'Brien no café do Passamaquoddy Club.
"Ela vai ceder!" declarou O'Brien, esvaziando o seu copo. "Meu Deus! Nenhuma mulher como ela vai ficar na cadeia! Além disso, se não a detiver, todos dirão que teve medo — que cedeu à influência. Está com a razão e será uma grande jogada para si mostrar que não tem medo de ninguém!"
Babson puxou nervosamente o seu charuto.
"Talvez seja assim", disse ele, "mas não me agrada muito que um tribunal de apelação me apoie na lei e, ao mesmo tempo, me arraste pelas brasas como homem!"
"Oh, eles não farão isso!" protestou O'Brien. "Como poderiam? Tudo o que lhes interessa é a lei!"
"Já vi esses tipos fazerem coisas estranhas por vezes", respondeu o douto juiz. "E os Beekmans são pessoas bastante poderosas."
"Bem, os McGurks também!" avisou O'Brien.
* * * * *
"Agora, Sr.ª Beekman", disse o Juiz Babson, muito amavelmente na manhã seguinte, depois de a senhora ter tomado o seu lugar na cadeira das testemunhas e os jurados terem respondido aos seus nomes, "espero que se sinta diferente hoje em relação a prestar o seu depoimento. Não acha que, afinal, seria mais adequado se respondesse à pergunta?"
A Sr.ª Althea comprimiu firmemente os lábios.
"Pelo menos deixe-me ler-lhe um pouco da lei sobre o assunto", continuou Sua Excelência pacientemente. "Originalmente, muitas pessoas, como a senhorita, tinham a ideia errada de que aquilo a que chamavam honra deveria ser autorizado a intervir entre elas e o seu dever. E até os tribunais por vezes decidiram assim. Mas isso foi há muito tempo — nos séculos XVI e XVII. Hoje, a lei sabiamente não reconhece tal coisa. Deixe-me ler-lhe o que o Barão Hotham disse, no Julgamento de Hill em 1777, a respeito do testemunho de uma testemunha que, muito corretamente, contou ao tribunal o que o acusado lhe tinha dito. É colocado de forma muito clara:
"'O arguido certamente pensou que ele era seu amigo, e ele' — o arguido — 'portanto, revelou tudo isto a ele. Cavalheiros, basta dizer mais que, se este ponto de honra fosse tão sagrado ao ponto de um homem que obtém conhecimento deste tipo de um infrator não ter liberdade para o revelar, os criminosos mais atrozes escapariam todos os dias à punição; e é por isso que a sabedoria da lei não conhece esse ponto de honra.'"
A Sr.ª Beekman ouviu educadamente.
"Lamento", respondeu ela com dignidade. "Não mudarei de ideias. Recuso-me a responder à pergunta, e... e pode fazer o que quiser comigo."
"Compreende que está em desacato a este tribunal? Pretende mostrar desprezo por este tribunal?" exigiu ele, irado.
"Pretendo", respondeu a Sr.ª Althea. "Tenho desprezo por este tribunal."
Um risinho dançou pelos bancos e algum tolo no fundo da sala bateu palmas.
O rosto do Juiz Babson tornou-se duro e os seus olhos estreitaram-se em pontas de aço.
"A testemunha fica detida por desacato", anunciou ele, mordaz. "Ordeno que seja confinada na prisão da cidade por trinta dias e que pague uma multa de duzentos e cinquenta dólares. Senhora, irá com o oficial."
A Sr.ª Althea levantou-se enquanto o fantasma do Signatário a envolvia com o seu braço.
O Sr. Tutt já estava de pé. Ele sabia que o fantasma do Signatário estava ali.
"Posso perguntar ao tribunal se a testemunha, tendo sido detida pela conduta desrespeitosa da qual é obviamente culpada, pode permanecer nos seus gabinetes até ao encerramento da sessão, para que possa tratar dos seus assuntos privados?"
"Conceder-lhe-ei esse privilégio", concordou o Juiz Babson com um alívio interno. "O pedido é bastante razoável. Capitão Phelan, pode levar a testemunha para a minha sala de vestimentas e mantê-la lá por enquanto."
Com a sua pequena cabeça erguida, os seus ombros estreitos para trás, e com um passo resoluto como convinha à descendente de uma longa linhagem de antepassados, a Sr.ª Althea passou por trás da caixa do júri e desapareceu.
Os doze olharam uns para os outros, duvidosos. Tanto Babson como O'Brien pareciam nervosos e indecisos.
"Bem, chame a sua próxima testemunha", observou finalmente o juiz.
"Mas eu não tenho mais testemunhas!" rosnou O'Brien. "E sabe isso muito bem, seu idiota!" murmurou ele por entre dentes.
"Se esse é o caso do povo, peço a absolvição imediata do arguido", gritou o Sr. Tutt, saltando para o seu lugar. "Não há provas que o liguem ao crime."
McGurk, furioso, saltou em direção à barra.
"Veja lá! Espere um minuto! Aguente, juiz! Eu posso arranjar cem testemunhas..."
"Sente-se!" gritou um dos oficiais, empurrando-o para trás. "Fique quieto!"
Babson olhou para O'Brien e elevou as sobrancelhas. Então, quando O'Brien deu de ombros, o juiz virou-se para o júri expectante e disse em tom de desculpa:
"Cavalheiros do júri, onde o povo não conseguiu provar a culpa do arguido para além de qualquer dúvida razoável, é dever do tribunal dirigir um veredito. Neste caso, embora por inferência o testemunho aponte fortemente para o prisioneiro, não há prova direta contra ele e, portanto, sinto-me constrangido — por muito que o lamente — a instruí-los a devolver um veredito de inocência."
Na confusão que se seguiu à prolação do veredito, um mensageiro entrou sem fôlego e, forçando a sua passagem pela multidão, entregou um papel dobrado ao Sr. Tutt, que se levantou imediatamente e o entregou ao funcionário; e esse oficial, tendo-o lido apressadamente e franzido os lábios de surpresa, passou-o por cima da bancada ao juiz.
"O que é isto?" exigiu Babson. "Não me chateiem agora com ninharias!"
"Mas é um mandado de *habeas corpus*, Excelência, assinado pelo Juiz Winthrop, exigindo que o diretor da prisão apresente a Sr.ª Beekman na Parte I do Supremo Tribunal, e que seja devolvido imediatamente", sussurrou o Sr. McGuire com uma voz cheia de espanto. "Não posso ignorar isso, sabe!"
"O quê!" gritou Babson. "Como diabos poderia ele ter emitido um mandado neste curto espaço de tempo? A coisa é impossível!"
"Se Vossa Excelência me permite", explicou urbanamente o Sr. Tutt, "como — tendo conhecido o pai da Sr.ª Beekman — antecipei que a testemunha seguiria o curso de conduta que, de facto, seguiu, preparei os documentos necessários logo pela manhã e, assim que ordenou a sua custódia, o meu sócio, que estava à espera nos gabinetes do Juiz Winthrop, apresentou-os a Sua Excelência, obteve a sua assinatura e trouxe o mandado até aqui num táxi."
Ninguém parecia estar mais interessado em O'Connell. Os repórteres tinham deixado os seus lugares e empurrado a sua passagem para o recinto diante do estrado. No fundo da sala, O'Brien estava empenhado em vão a tentar apaziguar os Pearl Button Kids, que juravam vingança sonora tanto contra ele como contra Peckham. Era uma cena quase tão turbulenta quanto o velho relógio amarelo alguma vez tinha testemunhado. Até os oficiais do tribunal abandonaram qualquer esforço para manter a ordem e juntaram-se ao grupo excitado em torno do Sr. Tutt perante a bancada.
"Deseja Vossa Excelência que esta matéria seja discutida perante o Supremo Tribunal?" inquiriu o Sr. Tutt suavemente. "Se assim for, pedirei que o prisioneiro seja libertado sob a minha custódia. O Juiz Winthrop está à espera."
Babson tinha ficado pálido. Enfrentando uma dúzia de jornalistas, lápis nas mãos, ele vacilou. Ao diabo com a "face". Ora, se continuasse por mais tempo com a farsa, os jornais arrastá-lo-iam pelas brasas. Com um pedido de desculpas por um sorriso que era, de facto, uma careta terrível, dirigiu-se ao grupo de jurados, advogados e repórteres que esperavam.
"É claro, cavalheiros", disse ele, "eu nunca tive qualquer intenção real de tratar a Sr.ª Beekman com severidade. Sem dúvida que ela agiu de forma bastante honesta e de acordo com as suas melhores convicções. Ela é um membro muito estimado da sociedade. Será desnecessário, Sr. Tutt, que argumente o mandado perante o Juiz Winthrop. A requerente, Althea Beekman, está em liberdade."
"Obrigado, Vossa Excelência!" respondeu o Sr. Tutt, fazendo uma vénia profunda e baixando uma pálpebra na direção dos cavalheiros da imprensa. "O senhor é, de facto, um juiz sábio e justo!"
O juiz sábio e justo levantou-se grandiosamente e juntou as suas vestes em torno das pernas judiciais.
"Bom dia, cavalheiros", comentou ele da sua altitude aos repórteres.
"Bom dia, juiz", responderam eles em coro. "Podemos dizer algo sobre o mandado?"
O Juiz Babson fez uma pausa momentânea na sua fuga.
"Oh! Talvez pudessem simplesmente deixar a coisa toda de parte", respondeu ele descuidadamente. "No geral, acho melhor que o façam."
Enquanto lutavam para sair pela porta, Charley Still, do *Sun*, sorriu para "Deacon" Terry, do *Tribune*, e perguntou jocosamente: "Diz-me, Deac., já alguma vez pensaste porque é que chamamos a um juiz 'Vossa Excelência'?"
O Deacon removeu momentaneamente o seu cotovelo do abdómen do cavalheiro ao seu lado e respondeu sinceramente, embora sem fôlego: "Não! Estás por tua conta!"
E o "Cap." Phelan, que por acaso estava a acertar o seu relógio exatamente naquele instante, afirma que fará uma declaração sob juramento de que o velho relógio amarelo piscou o olho através da sala para a Deusa da Justiça, e que, por baixo da sua venda, ela sorriu inequivocamente.
Por Conselho de Advogado
"Kotow! Kotow! Para o grande Yen-How, E deseje-lhe a maior das vidas! Com as suas uma-pequena, duas-pequenas, três-pequenas, quatro-pequenas, Cinco-pequenas, seis-pequenas esposas!"
"O facto é que fui preso por bigamia", disse o Sr. Higgleby de uma forma magoada e ligeiramente ressentida. Ele era uma pessoa ampla e flácida, construída como um triângulo isósceles com uma cabeça um tanto pequena para o ápice, ligeiramente expandida na região ganglionar logo acima da nuca — estudantes de medicina e frenologistas, por favor, notem — e que habitualmente usava uma expressão de *pathos* impotente. Instintivamente, sentia-se que se queria fazer algo pelo Sr. Higgleby — talvez cuidar dele como uma mãe.
"Então deveria ver o meu sócio, o Sr. Tutt", disse o Sr. Tutt severamente. "Ele é o especialista em assuntos matrimoniais."
"Quero ver o Sr. Tutt, o célebre advogado de divórcios", explicou o Sr. Higgleby.
"Refere-se ao meu sócio, o Sr. Tutt", disse o Sr. Tutt. "Willie, mostre o cavalheiro ao Sr. Tutt."
"Obrigado, senhor", disse o Sr. Higgleby, e seguiu Willie.
"É o Sr. Higgleby?" chilreou Tutt quando Higgleby entrou no escritório adjacente. "Encantado por vê-lo, senhor! O que posso eu — nós — fazer por si?"
"O facto é que fui preso por bigamia", repetiu o Sr. Higgleby.
Ora, o sistema Tutt — demonstrado eficaz por anos de experiência — para colocar um cliente num estado de espírito devidamente grato e, portanto, generoso, era, como o método de alguns médicos, primeiro assustar o dito cliente, ou paciente, para fora dos seus sete sentidos; segundo, admitir relutantemente, após reflexão, que, tendo em conta o facto de que ele tinha sabiamente vindo à Tutt & Tutt, poderia ainda haver alguma esperança para ele; e terceiro, absolvê-lo com tal floreado de felicitações pela sua fuga que ele ficava contente por pagar a módica quantia de honorários da qual era então e ali aliviado. A Tutt & Tutt só tinha duas classes de clientes: aqueles que pagavam ao entrar, e aqueles que pagavam ao sair.
Portanto, ao ouvir o anúncio do Sr. Higgleby quanto à natureza do seu problema, Tutt registou horror.
"O quê? O que disse?" exigiu ele.
"Eu disse", repetiu o Sr. Higgleby com uma sombra de aborrecimento, "'o facto é que fui preso por bigamia'. Não vejo razão para fazer tanto alarido sobre isso", acrescentou ele lamentavelmente.
"Quem está a fazer... um... alarido sobre isso?" inquiriu Tutt, apercebendo-se de que tinha tomado o caminho errado. "Eu não. Estava apenas um pouco surpreendido por um homem da sua aparência distinta..."
"Oh, tretas!" expostulou o Sr. Higgleby fracamente. "És igual a todos eles! Suponho que ias dizer que eu não parecia um bígamo — e tudo isso. Bem, corta! Vamos começar de forma justa. Eu sou um bígamo!"
Tutt observou-o com óbvia curiosidade. "Não me diga!" exclamou ele, quase como se quisesse acrescentar: "Qual é a sensação?"
"Digo, sim!" retorquiu o Sr. Higgleby.
"Bem", exclamou Tutt alegremente, passando para a segunda fase do tratamento Tutt-Tutt, "afinal, a bigamia não é tão má! São apenas cinco anos na pior das hipóteses. Geralmente não são mais de seis meses."
"Abre os olhos!" estalou o Sr. Higgleby. "Não vim aqui para me lançares calafrios. Vim aqui para descobrir como vencer isto!"
"Ora, certamente! É claro!" protestou Tutt apressadamente.
"Eu estava..."
"E espero que me safes!"
"Sim, sim!" murmurou Tutt, com o seu estilo habitual completamente tolhido.
"Não importa o quê!"
"Sim", murmurou fracamente Tutt.
"Bem", continuou Higgleby, tirando um charuto que, em forma e frouxidão do embrulho, se assemelhava muito ao seu dono, "agora que isso está resolvido, vamos ao que interessa. Aqui está uma cópia da acusação."
Ele produziu um documento com um grande selo dourado.
"Esses ladrões fizeram-me pagar um dólar e sessenta por uma certificação!" observou ele irritado, indicando o ornamento. "De que me serve a certificação? Como se eu quisesse pagar para ter a certeza de que estava a ser acusado em linguagem precisa! Qualquer um pode redigir uma acusação por bigamia!"
TRIBUNAL DE SESSÕES GERAIS DE PAZ NO E PARA O CONDADO DE NOVA IORQUE
O Povo do Estado de Nova Iorque contra
THEOPHILUS HIGGLEBY
O Grande Júri do Condado de Nova Iorque, através desta acusação, acusa Theophilus Higgleby do crime de bigamia, cometido da seguinte forma:
O referido Theophilus Higgleby, anteriormente do bairro de Manhattan da cidade de Nova Iorque, no condado de Nova Iorque supra mencionado, no décimo primeiro dia de maio do ano de Nosso Senhor de mil novecentos e dezanove, no Condado de Cook e na cidade de Chicago, no estado de Illinois, desposou uma tal Tomascene Startup, e a ela, a referida Tomascene Startup, teve então e ali como sua esposa;
E posteriormente, a saber, no décimo sétimo dia de dezembro do ano de Nosso Senhor de mil novecentos e dezanove, no bairro de Manhattan da cidade de Nova Iorque, no condado de Nova Iorque supra mencionado, desposou criminosamente e tomou como sua esposa uma tal Alvina Woodcock, e com a referida Alvina Woodcock foi então e ali casado, estando a referida Tomascene Startup então e ali viva e em pleno gozo de vida, contra a forma do estatuto em tal caso feito e providenciado, e contra a paz do povo do estado de Nova Iorque e a sua dignidade.
JEREMIAH PECKHAM, Procurador Distrital.
Tal era a acusação precisa contra o cliente de forma triangular isósceles, que agora se sentava tão frouxa e desarticuladamente do lado oposto da secretária de Tutt com um certo ar peculiar de segurança todo seu, como se, embora surpreendido e algo incomodado com a interferência do grande júri nos seus assuntos privados, não estivesse, contudo — sendo capitão da sua própria alma — particularmente perturbado com o assunto.
"E... er... o senhor desposou estas duas senhoras?" indagou Tutt de forma apologética.
"Claro!" respondeu Higgleby sem hesitação.
"Posso perguntar porquê?"
"Por que não?" replicou Higgleby. "Eu sou um homem viajante."
"Olhe lá", exigiu Tutt subitamente. "Alguma vez foi advogado?"
"Claro que fui!" respondeu o Sr. Higgleby. "Fui membro da ordem do Condado de Osceola, na Florida."
"Não me diga!" ofegou Tutt.
"E o que, posso perguntar, é o senhor agora?"
"Agora sou um bígamo!" respondeu o Sr. Higgleby.
Esquecemos precisamente quem foi que disse tão observadoramente a outro: "Muita erudição faz-te louco." De qualquer modo, o ponto a notar é que o excesso de indulgência na erudição sempre foi conhecido por ter um efeito infeliz sobre a faculdade intelectual. Demasiado vinho — embora deva ter requerido uma quantidade exorbitante em certos períodos mentirosos — era considerado como provocador da verdade; e demasiados livros como claramente causadores de perturbações mentais. A explicação é, naturalmente, bastante simples. Se sobrecarregamos a cabeça, toda a estrutura tende a ficar desequilibrada. É por esta razão que temos os eruditos em tão baixa estima. São um grupo desequilibrado. E, afinal, porque haveriam de ser pagos com mais do que metade do salário de canalizadores ou de fogueiros de locomotivas? O que há de mais fácil do que sentar-se diante de um confortável radiador a vapor e ler um dicionário etimológico ou as Leis de Hamurabi? Eles não trabalham, mesmo que as suas cabeças girem. Apenas na Alemanha é que o pedagogo recebeu a devida recompensa de ouro e de honra — e olhe-se para a Alemanha!
Os pedantes nunca foram muito considerados pelos homens de ação. Nunca serão. A experiência é a única professora que, na linguagem de Amos Eno, que deixou dois milhões para o Instituto de Mecânicos e Comerciantes, "vale a pena". Nós, americanos, detestamos qualquer afetação de erudição; daí a nossa fraqueza pela gíria. Deveria pedir desculpa pela palavra "fraqueza". Pelo contrário, é um sinal da nossa independência viril, do nosso desprezo pelas delicadezas da educação, puro diletantismo. E isto tem o seu lado prático, pois se não sabemos como pronunciar as palavras "persiflagem evanescente", podemos chamar-lhe "treta" ou "disparate". Suspeitamos de todos os licenciados universitários. Não os queremos nos nossos negócios. Eles esgueiram-se pelas nossas vidas como carteiristas receosos de serem detetados.
O que é que tudo isto tem a ver com alguma coisa? Tem a ver, caro leitor, com o Sr. Caput Magnus, o assistente do procurador distrital do condado de Nova Iorque, cujo dever era apresentar as provas em todos os casos criminais ao grande júri e preparar os instrumentos de tortura conhecidos como projetos de acusação para a ação daquele augusto corpo.
Pois, por todas as luzes dos Five Points, Chinatown — as ruas Mulberry, Canal, Franklin, Lafayette e Centre —, o Restaurante Pontin, o Estabelecimento de Alfaiataria de Preço Único de Moe Levy, e até pelas dos dias gloriosos de Howe & Hummel, pelos Nove Deuses da Lei — e mais —, Caput Magnus era um sábio erudito. Ele, e só ele, de todos os membros da ordem na folha de pagamentos do gabinete do promotor, alojados nos seus cubículos enfumados no Edifício dos Tribunais Criminais, sabia como redigir aquelas coisas complicadas e terríveis com os seus emaranhados de arame farpado de "referidos", "estando então e ali", "com intenções", "fez", "a saber" e "supra mencionados" em todo o caos verbal com que a lei exige que os acusados de crime sejam "simples, clara e diretamente" informados da natureza da infração contra eles imputada, a fim de que possam saber o que fazer a respeito e preparar a sua defesa.
E enquanto estamos nisto — e para que o leitor possa estar totalmente instruído e qualificado para seguir Tutt & Tutt nas suas várias aventuras daqui em diante — podemos acrescentar que aqui reside uma das armadilhas do crime; pois o ladrão ou o burlão de espírito simples pode alegremente levar um serviço de prata ou um maço de notas de banco apenas para se encontrar a debater-se, com armas e bagagens, num pântano de fraseologia do qual não consegue escapar, por mais que se contorça. Muitos desses levantaram as mãos — e com elas o serviço de prata, as notas de banco e tudo o mais — em horror ao que o grande júri alegou contra eles.
Na verdade, existe uma tradição bem autenticada de que um certo cavalheiro de cor que tinha inadvertidamente adquirido alguma criação pertencente a outrem, quando levado à barra e informado de que ele até então, a saber, num ano especificado de Nosso Senhor na calada da noite do dia supra mencionado, a dependência de um tal Jones então e ali situada, criminosa e furtivamente arrombou e entrou com a intenção de cometer um crime lá dentro, a saber, os bens, móveis e propriedade pessoal do referido Jones então e ali encontrados, então e ali criminosa e furtivamente pela força das armas e contra a paz do povo apreendeu, apropriou e levou, ergueu a voz em angústia e gritou:
"Pelo amor de Deus, meritíssimo, eu não fiz nada disso — tudo o que fiz foi levar um par de galinhas!"
Assim, aniquilar um homem com bloco e lápis é, de facto, uma arte digna de admiração. A pena de um escrivão de acusação é muitas vezes mais poderosa do que a espada de um Coração de Leão, o cérebro por trás da pena subtil muito mais hábil do que a perícia do referido espadachim. Além disso, a engenhosidade necessária para redigir um destes documentos não se limita à sua mera composição bem-sucedida, pois, tendo alcançado a façanha milagrosa de alegar de catorze maneiras sem pontuação que o réu fez algo e, com uma fanfarra final de "referidos" e "a saber", inseriu o seu verbo onde ninguém jamais o encontrará, o acusador deve então ser capaz de se desenrolar, rolando para dentro e para fora entre os "fez" e os "então" e "ali" até estar novamente seguro em terra firme de papel almaço na cabeça da primeira página.
O Sr. Caput Magnus conseguia fazê-lo — com a ajuda de um volume de formulários impressos concebidos nos dias de Jeremy Bentham. De facto, como um camelo que cheira água ao longe, ele conseguia, num deserto de areia verbal, encontrar infalivelmente um oásis de significado. Por isso, Caput Magnus era tido em alta honra entre a matilha de cães humanos que ladravam ao toque da trompa do Caçador Peckham. Outros podiam perder o rasto do que tudo aquilo significava na selva tropical de uma acusação com onze páginas, mas ele não. Como o cão velho em "Reynard the Fox" de Masefield, o Sr. Magnus trabalhava através de valas cheias de lama legal, farejava através de espinhais de confusão, corria através de matagais e bosques de palavras e frases, até se fechar nos calcanhares da inteligibilidade. O Honorável Peckham não teria conseguido redigir uma acusação para salvar a sua vida legal. Nem qualquer dos outros. Nem Caput sem o seu livro de formas antigas — embora não deixasse ninguém saber disso.
Envolto em mistério com um salário de cinco mil dólares por ano, Caput sentava-se no santuário do seu gabinete interior produzindo literatura de uma clareza apenas igualada pela de George Meredith ou do Sr. Henry James. Ele era o Grande Acusador. Ele conseguia chamar ladrão a um homem de mais maneiras diferentes do que qualquer deputado assistente do procurador distrital conhecido pela memória — com a ajuda do seu livrinho. Ele conseguia laçar e derrubar qualquer criminoso galopante, por mais feroz que fosse, com uma corda de adjetivos mortais graciosamente desenrolada. De tudo isto ele se orgulhava devidamente, até se tornar insuportável para os seus colegas e intolerável para Peckham, que o teria despedido alegremente meses antes se tivesse tido uma razão ou se houvesse qualquer outro esotérico legal para ocupar o seu lugar.
No entanto, o orgulho precede a queda. E eu fico contente por isso, pois Magnus era um burro convencido. Esta história é sobre a queda de Caput Magnus quase tanto quanto é sobre o uxório Higgleby, embora os dois estejam inextricavelmente entrelaçados.
* * * * *
"Sr. Tutt", observou Tutt após a partida de Higgleby, "aquele nosso novo cliente é certamente sui generis."
"Isso não é crime", sorriu o sócio sénior, estendendo a mão para a garrafa de extrato de malte.
"O seu conhecimento do matrimónio e das leis que regem as relações domésticas é certamente exaustivo — para não dizer esgotante. Pareço um amador ao lado dele."
"Pelo que", replicou o Sr. Tutt, "pode muito bem estar grato."
"Estou", respondeu Tutt devotamente. "Mas o que eu sei sobre bigamia caberia naquela garrafa de extrato de malte."
"Prefiro o conteúdo atual!" retorquiu o Sr. Tutt. "A bigamia é um crime fascinante, envolvendo, como envolve, assuntos tão complicados como a história da instituição do casamento, o direito eclesiástico ou canónico que rege o divórcio e a anulação, as interessantes doutrinas da afinidade e consanguinidade, os processos por alienação de afeto e conversação criminosa, o conflito de leis, a Lei do Tráfico de Brancas..."
"Comércio interestadual, por assim dizer?" sugeriu Tutt maliciosamente.
"Condonação, conluio e conivência", continuou o Sr. Tutt, afastando-o, "reinstituição dos direitos conjugais, a lei da mulher solteira, a Lei da Mulher Casada, separação a mensa et thoro, abandono, jurisdição, pensão de alimentos, custódia de filhos, pré-contrato..."
"Socorro! Está a partir-me o coração!" gritou Tutt. "Nenhum pequeno advogado poderia saber tudo sobre tais coisas. Seria preciso um grande advogado."
"De modo nenhum! De modo nenhum!" acalmou o Sr. Tutt, bebendo o seu alimento das onze horas e apalpando à procura de um charuto. "Quando se trata de divórcio, um advogado sabe tanto sobre a lei quanto outro. Nem o Supremo Tribunal é capaz de dizer se um homem e uma mulher estão realmente casados ou não sem recorrer a assistência externa."
"Bem, quem pode?" perguntou Tutt ansiosamente.
"Ninguém", respondeu o seu sócio com gravidade, mordendo a ponta de um charuto do ano passado, recuperado do fundo do cesto de correspondência. "Uma vez que um homem está casado, os seus problemas não só começam como nunca terminam."
"A propósito", disse Tutt, "falando deste tipo de coisas, vejo que aquele francês que remetemos ao nosso correspondente em Paris acaba de obter o divórcio da sua esposa americana."
"Refere-se ao diplomata francês que casou com a artista de vaudeville ianque na China?"
"Sim", respondeu Tutt. "Lembra-se de que se conheceram em Xangai e fizeram uma viagem relâmpago à Mongólia, onde foram casados por um missionário belga. O tribunal considerou que o casamento era inválido, uma vez que os estatutos franceses exigem que um nativo daquele país que case no estrangeiro tenha a cerimónia realizada perante um oficial diplomático francês ou 'de acordo com os usos do país em que o casamento é realizado'."
"O missionário belga não era um oficial diplomático?" perguntou o Sr. Tutt.
"Evidentemente não o suficiente", replicou o seu sócio. "De qualquer forma, na Mongólia existem apenas dois métodos santificados pela tradição pelos quais um homem pode obter uma esposa — captura ou compra."
"Bem, o nosso cliente não capturou a atriz?"
"Apenas com o consentimento dela — o que presumo ser conluio ao abrigo da lei francesa", disse Tutt. "E ele certamente não a comprou — embora pudesse tê-lo feito. Parece que naquela terra feliz uma esposa custa a partir de cinco camelos; cinco camelos por uma jovem e assim por diante até trinta ou quarenta camelos por uma viúva velha, que invariavelmente atinge a cotação mais alta."
"Na Mongólia, a idade evidentemente amadurece e suaviza as mulheres como faz ao vinho noutros países", refletiu o Sr. Tutt.
"Mas pode comprar algumas mulheres por cinco quilos de arroz", acrescentou Tutt. "País estranho, não é?"
"De todo!" declarou o seu superior. "Mesmo na América, cada homem paga e paga e paga pela sua esposa — até que não aguenta mais!"
Tutt sorriu apreciativamente.
"Seja como for", aventurou-se, "um homem que entra num contrato de casamento..."
"O casamento não é um contrato", interrompeu o Sr. Tutt.
"O que é então?"
"É um estatuto — algo inteiramente diferente — como a escravatura."
"É como a escravatura, de facto!" concordou Tutt. "Mas falamos sempre de um contrato de casamento, não falamos?"
"Muito imprecisamente. O único contrato num casamento é o que vulgarmente chamamos de noivado; esse é um contrato real e é regido pelas leis dos contratos. O casamento em si é uma coisa inteiramente diferente. Quando um casamento é realizado e consumado, as partes mudaram a sua condição; elas assumem uma relação inteiramente nova com a sociedade, que, tal como representada pelo estado, adquire um interesse na transação, e tudo o que se pode dizer sobre isso é que, enquanto ambos eram solteiros antes, estão casados agora, e que aos olhos da lei o seu estatuto foi alterado para um tão distinto e claramente definido como aquele que existe entre pai e filho, tutor e tutelado ou mestre e escravo."
"Bravo! Bravo!" observou Tutt. "Mas não vejo por que não é um contrato — ou algo muito semelhante", persistiu ele.
"É semelhante na medida em que a sua validade, tal como a dos contratos civis em geral, é determinada pela lei que rege o local onde foi celebrado", continuou o Sr. Tutt de forma oracular, como se se dirigisse ao tribunal de apelação. "Mas difere de um contrato pela razão de que as partes não são livres de fixar os seus termos, que são determinados por elas pelo estado; que não podem modificá-lo ou rescindi-lo por consentimento mútuo; que a natureza do estatuto de casamento muda com o estado e as leis do estado onde as partes se encontram domiciliadas; e que não se podem obter indemnizações por uma violação do dever conjugal."
"Sabe que nunca pensei nisso antes", admitiu Tutt. "Mas é perfeitamente verdade."
"É do interesse da sociedade que a relação seja ordenada e permanente", continuou o seu sócio. "É por isso que o estado está tão alerta em relação aos processos de divórcio e vigilante para evitar fraude ou conluio. Pode dizer-se que o estado é sempre parte em cada ação matrimonial — mesmo que não seja efetivamente chamado — e que tais processos são triangulares e desprovidos de muitas das características do processo civil comum."
"Suponho que outra razão para isso é que originalmente o casamento e o divórcio estavam inteiramente nas mãos da igreja, não estavam?" ruminou Tutt.
"Exatamente. Desde tempos muito remotos em Inglaterra, a igreja reivindicou a jurisdição de todos os assuntos pertinentes ao casamento, com base no facto de ser um sacramento."
"Os tribunais eclesiásticos assumiram a posição de que todos os casamentos eram feitos no céu?"
O Sr. Tutt encolheu os ombros.
"'Uma vez casados, sempre casados', era a sua doutrina."
"Então, como é que as pessoas que eram infelizmente casadas se livravam umas das outras?"
"Não se livravam — se os tribunais decidissem que tinham sido efetivamente casadas — mas isso deixava uma lacuna. Quando é que um casamento não era um casamento? Resposta: Quando as partes eram suficientemente aparentadas por sangue ou casamento, ou qualquer uma delas era mentalmente incapaz, menor de idade, vítima de coação, fraude, erro, previamente comprometida, ou... já casada."
"Ah!" suspirou Tutt, pensando no Sr. Higgleby.
"O direito eclesiástico permaneceu sem qualquer variação particular até depois da Revolução Americana e da separação das colónias da Grã-Bretanha, e como não havia união de igreja e estado deste lado do oceano, e portanto nenhuma igreja para assumir o controlo do assunto ou tribunais eclesiásticos para pôr em prática as suas doutrinas, durante algum tempo não houve lei de divórcio por aqui, e então, uma a uma, os estados abordaram o assunto e começaram a criar as leis que entenderam. Daí a bela confusão em que estamos agora!"
"Bela para nós", comentou Tutt. "Significa dólares por ano para nós. Bem", observou ele, esticando as pernas e bocejando, "o divórcio é certamente um mal."
"Isso não é novidade", replicou o Sr. Tutt. "Era tanto um mal no tempo de Moisés, de Júlio César e de Eduardo, o Confessor, como é agora. Não houve nada que se aproximasse da flagrância do divórcio romano na história moderna."
"Graças a Deus ainda há o suficiente para pagar o nosso aluguer de escritório — de qualquer modo!" disse Tutt contentemente. "Espero que não façam nada tão tolo como aprovar uma lei nacional de divórcio."
"Não vão", assegurou-lhe o Sr. Tutt. "A maioria dos membros do Congresso são advogados e não vão tirar o pão da boca dos seus filhos. Além disso, o poder de regular as relações domésticas dos Estados Unidos, não sendo delegado ao abrigo da Constituição ao Governo Federal, é expressamente retido pelos próprios estados."
"Deu-me muitas ideias", admitiu Tutt. "Se o entendi corretamente, como cada estado é regido pelas suas próprias leis independentes, o estatuto das pessoas casadas deve ser regido pela lei do estado onde se encontram; caso contrário, se cada casal, com base em alguma teoria de extraterritorialidade, carregasse consigo a lei do estado onde por acaso tivessem sido unidos, teríamos o espetáculo de cada estado da união a interpretar as leis de divórcio de todos os outros estados — uma confusão pior que a anterior."
"Por outro lado", replicou o Sr. Tutt, "a lei está estabelecida no sentido de que um casamento válido quando celebrado é válido em toda a parte; e, inversamente, se for inválido onde foi celebrado, é inválido em toda a parte — tal como o nosso caso da Mongólia. Se não fosse assim, cada casal, para continuar legalmente casado, teria de passar por uma nova cerimónia em cada estado pelo qual viajassem."
"Certo!" assobiou Tutt. "Um pastor em cada carruagem Pullman!"
"Segue-se", continuou o Sr. Tutt, acendendo um charuto novo e entusiasmando-se com o assunto, "que, como cada estado tem o direito de regular o estatuto dos seus próprios cidadãos, tem jurisdição para agir num processo de divórcio, desde que uma das partes esteja efetivamente domiciliada dentro das suas fronteiras. Naturalmente, esta ação deve ser determinada pelas suas próprias leis e não pelas de qualquer outro estado. A grande divergência destas leis cria complicações extraordinárias."
"Aleluia!" gritou Tutt. "Agora, nas palavras do salmista, disse tudo! Conheço um homem que, ao mesmo tempo, está legalmente casado com uma mulher em Inglaterra, com outra no Nevada, é bígamo em Nova Iorque e..."
"O que mais poderia ser, exceto viúvo em Pittsburgh?" ponderou o velho Tutt. "Mas é perfeitamente possível. Há um caso a decorrer agora em que uma mulher na cidade de Nova Iorque está a processar o seu ex-marido por divórcio com base no fundamento estatutário habitual, e a nomear a sua atual esposa como co-respondente, embora a própria autora se tenha divorciado dele há dez anos em Reno, e ele tenha casado novamente logo a seguir, baseando-se nisso."
"Sinto-me mais forte a cada minuto!" exclamou Tutt. "Certamente, em todo este manicómio, deveríamos ser capazes de absolver o nosso novo cliente, o Sr. Higgleby, da acusação de bigamia. Pelo menos o senhor deveria ser capaz. Eu não conseguiria."
"Qual é a dificuldade?" perguntou o Sr. Tutt.
"A dificuldade é simplesmente que ele casou com a atual Sra. Higgleby no dia dezassete de dezembro passado aqui na cidade de Nova Iorque, quando tinha uma esposa perfeitamente válida, com quem tinha casado no dia onze de maio anterior, a viver em Chicago."
"O que raio se passa com ele?" perguntou o Sr. Tutt.
"Ele simplesmente diz que é um homem viajante", replicou o seu sócio, "e... ele estava por acaso em Nova Iorque."
"Bem, na próxima vez que ele telefonar, mande-o vir falar comigo", ordenou o Sr. Tutt. "Qual era o nome da atual senhora?"
"Woodcock", respondeu Tutt. "Alvina Woodcock."
"E ela queria mudar para Higgleby?" murmurou o seu sócio. "Pergunto-me porquê."
"Oh, há algo de cativante nele", reconheceu Tutt. "Mas ele não tem cara de bígamo", concluiu. "Que aspeto tem um bígamo?", meditou o Sr. Tutt enquanto acendia outro charuto de folha.
* * * * *
"Bom dia, Sr. Tutt", murmurou o Honorável Peckham por detrás da planta de borracha de imitação no seu escritório, onde estava ocupado a consumir sub-repticiamente uma maçã. "Hum... esteja comigo num minuto. O que lhe vai na cabeça?"
O Sr. Tutt removeu simultaneamente o charuto de folha com uma mão e a sua cartola com a outra.
"Pensei que poderíamos rever a minha lista de casos", respondeu ele. "Posso oferecer-lhe uma ou duas confissões, se desejar."
"Se desejo!" exclamou o D.A., revirando os olhos para o céu. "Vamos ouvir o Rol de Honra."
O Sr. Tutt colocou o chapéu, com a parte inferior para cima, no tapete e baixou-se para uma enorme poltrona de couro, fornecida ao condado por um amigo político do Sr. Peckham e faturada a quatrocentos por cento do preço normal de retalho. Depois, reintroduziu o charuto entre os lábios e tirou do bolso interior uma folha dactilografada.
"Há o Watkins... assassinou a madrasta... indiciado há sete meses. Dá-lhe homicídio em segundo grau?"
"Aceito", assentiu Peckham, acendendo um charuto de forma profissional. "Que mais tem?"
"Joseph Goldstein... roubo. Dar-lhe-á furto qualificado em segundo grau?"
O Honorável Peckham abanou a cabeça.
"Lamento não poder ajudar, meu caro", disse ele com pesar. "Ele é chamado o Rei dos Receptadores. Se eu o fizesse, os jornais gritariam como loucos. Faço-o qualquer grau de roubo, no entanto."
"Muito bem. Roubo em terceiro grau", concordou o Sr. Tutt, anotando-o. "Depois, há aqui um grupo inteiro... cinco... indiciados juntos por agressão a um empregado de bar."
"Que grau?"
"Segundo... soco-inglês."
"Pode ter terceiro grau para o lote", resmungou Peckham laconicamente.
"Está bem", disse o Sr. Tutt. "Agora, os que vão a julgamento. Aqui está Jennie Smith, indiciada por roubar uma corrente de mandarim avaliada em sessenta e cinco dólares na Monahaka's. A corrente só vale cerca de seis e cinquenta e posso prová-lo. Monahaka não quer ir a julgamento porque sabe que o vou expor como o impostor oriental que ele é. Mas, é claro, ela levou-a. O que diz? Eu faço-a confessar furto simples e o senhor dá-lhe uma pena suspensa? É uma troca justa."
Peckham ponderou.
"Certo", disse finalmente. "Estou de acordo. Apenas diga à Jennie que, da próxima vez, a farei correr para fora da cidade."
O Sr. Tutt assentiu.
"Vou sussurrar-lho. Agora, aqui está Higgleby..."
"Higgle quem?", perguntou Peckham sonhadoramente.
"Bee... by... Higgleby", explicou o Sr. Tutt. "Por bigamia. Quero que descarte a acusação por mim."
"Porquê?"
"Nunca o condenará."
"Por que não?"
"Simplesmente porque nunca o fará!" assegurou-lhe o Sr. Tutt com seriedade. "E mais vale que o apague da lista."
"Há algo de errado com a acusação?", perguntou o D.A. "Caput Magnus redigiu-a. Ele é um bom homem, sabe."
O Sr. Tutt deu uma passa sentenciosa no seu charuto.
"Eu gostaria de lhe contar todos os meus segredos", respondeu após uma pausa, "mas não posso dar-me a esse luxo. A acusação está na forma habitual. Mas, entre mim e o senhor, nunca condenará Higgleby enquanto for vivo."
"Ele não casou com duas senhoras conjuntas e solidárias?"
"Casou."
"E uma delas aqui mesmo no condado de Nova Iorque?"
"Casou."
"Bem, como raio posso descartar a acusação?"
"Oh, facilmente. Falta de prova quanto ao primeiro casamento em Chicago, por exemplo. Como vai provar que ele não se divorciou?"
"Isso é matéria de defesa", retorquiu Peckham.
"O que é uma pequena bigamia entre amigos, de qualquer forma?", ruminou o velho advogado. "É um tipo de ofensa sumptuária. As pessoas casam-se. E é boa política tê-las. Se por acaso exagerarem um pouco..."
"Bem, se eu deitar fora essa coisa, o que me dará em troca?", perguntou Peckham. "Claro, bigamia não é o meu crime favorito, nem nada parecido. Não sou um cão de caça para ofensas matrimoniais. Como quer trocar?"
"Se descartar Higgleby, farei com que Angelo Ferrero confesse homicídio culposo", anunciou o Sr. Tutt com um ar grandioso de quem concede uma dádiva a um destinatário indigno.
"Cocorocó!", riu Peckham. "Está bem, a gente vê! Angelo já está a meio caminho da cadeira elétrica!"
"É o melhor que posso fazer", respondeu o Sr. Tutt, tateando à procura do seu chapéu.
Peckham hesitou. O Sr. Tutt era um negociador justo. E ele queria livrar-se de Angelo.
"Dê-lhe homicídio em segundo grau", insistiu ele.
"Homicídio culposo."
"Nada feito", respondeu o D.A. categoricamente. "O seu Sr. Higglebigamia terá de enfrentar julgamento."
"Oh, muito bem!", respondeu o Sr. Tutt, desarticulando-se. "Estamos prontos... quando o senhor estiver."
A figura esguia do velho advogado mal tinha desaparecido do escritório da frente quando Peckham tocou a campainha para Caput Magnus.
"Olhe aqui, Caput", comentou ele suspeitosamente ao funcionário das acusações, "há algo de errado com aquela acusação do Higgledy?"
"Higgleby, quer dizer, suponho", respondeu o Sr. Magnus, observando o D.A. de uma forma superior por cima dos seus óculos de aro de chifre. "Não há nada de errado com a acusação. Segui a minha forma habitual. Resistiu a todos os testes repetidamente. Por que pergunta?"
O Honorável Peckham virou-se impacientemente.
"Oh... nada. Olhe aqui", acrescentou inesperadamente, "acho que vou pedir-lhe para tentar essa acusação o próprio."
"Eu!", exclamou Caput em horror. "Mas, eu nunca tentei um caso na minha vida!"
"Bem, está na hora de começar!", rosnou o D.A.
"Eu... eu... não saberia o que fazer!", protestou o Sr. Magnus em agonia perante a mera sugestão.
"Onde diabo estaríamos se todos se sentissem assim?", exigiu o seu mestre. "Supõe-se que seja um advogado, não é?"
"Mas eu... eu... não posso! Eu... não sei como!"
"Raio de coisa", gritou Peckham furiosamente, "vá em frente e faça o que digo. Você indiciou Higgledy; agora pode tentar Higgledy!"
Ele era totalmente irracional, mas a sua raiva era genuína, embora sem fundamento.
"Oh, muito bem, senhor", gaguejou o Sr. Magnus. "Claro que vou... devo... fazer o que o senhor disser."
"É melhor!", gritou Peckham atrás da sua figura em retirada. "Seu pequeno camarão tagarela!"
Depois, atirou-se para a sua cadeira giratória com um estrondo.
"Judas H. Priest!", rugiu ele para a planta de borracha. "Daria muito por uma desculpa decente para despedir aquele paspalho florescente!"
Entretanto, enquanto o objeto da sua ira se esgueirava pelo corredor, a escuridão desceu sobre a alma de Caput Magnus. Pois Caput era o que se conhece como um advogado de escritório e nunca tinha ido a tribunal senão como espectador ou... como ele teria formulado... um amicus curiae. Ele era um erudito perfeito... "um demónio na lei", segundo o Honorável Peckham... um pequeno galo pavoneante no seu próprio monturo particular, mas, despido dos seus óculos, livros, formulários e papel almaço, no que dizia respeito à sua equanimidade, poderia muito bem ter estado em rosto, figura e objeção geral. Já não se podia ouvi-lo a rugir pela sua estenógrafa. Em vez disso, aqueles dos seus colegas que paravam furtivamente à porta dele a caminho do Pont's para o "chá das cinco" ouviam tons suaves a flutuar do postigo em variações flutuantes:
"Ahem! H'm! Senhores do júri... h'm! O réu está indiciado pelo crime ultrajante de bigamia! Não, isso não serve! Senhores do júri, o réu está indiciado pelo crime de bigamia! H'm! O crime de bigamia é uma daquelas ofensas atrozes contra a lei moral..."
"Oh! Oh!", engasgaram-se os assistentes jurídicos enquanto se abraçavam descontroladamente. "Oh! Oh! Caput está a praticar! Ouçam-no só! Não é ele um pequeno cuco! Aposto que está a ter lições de elocução! Mas não o vai o velho Tutt comer vivo!"
E nas horas silenciosas da madrugada, aqueles que dormiam em cortiços e anexos adjacentes ao quarto de aluguer ocupado por Caput eram despertados por uma voz trémula que procurava em vão imitar a descontração da experiência, declamando: "Senhores do júri, o réu está indiciado pelo crime de bigamia! Esta ofensa é repugnante aos instintos da civilização e odiosa aos princípios da religião!" E, depois disso, rebolavam até à hora do pequeno-almoço, tornando-se a bigamia cada vez mais odiosa para eles a cada minuto.
Nenhuma forma de dieta, nenhum exercício físico, nenhum "reducicle" poderia ter alcançado a alteração extraordinária na aparência do Sr. Magnus que foi, de facto, induzida pela sua ansiedade sobre a sua futura acusação de Higgleby. Enquanto outrora fora presunçoso e condescendente, complacente, letárgico e pesado, agora tornara-se abatido, nervoso, apreensivo e subserviente. Além disso, estava visivelmente mais magro. Estava obviamente em declínio, causado por puro medo. Fale-lhe bruscamente e ele assustar-se-ia como um pónei assustado. O Honorável Peckham estava em êxtase, alegando agora ter um sistema de se vingar das pessoas que batia a invenção de Torquemada. Quando lhe representaram que Caput poderia morrer, desaparecer completamente, caso em que o escritório ficaria sem qualquer funcionário de acusações, o Honorável Peckham declarou profanamente que não se importava um caralho. Caput Magnus ia tentar Higgleby, isso era tudo o que havia para dizer! E, finalmente, chegou o dia.
Reunidos na sala de audiências do Juiz Russell estavam tantos assistentes do escritório quantos conseguiram escapar aos seus deveres, ansiosos por oficiar no desaparecimento legal de Caput Magnus. Até o Honorável Peckham não pôde evitar ter negócios lá na chamada do calendário. Parecia uma conferência mensal regular da equipa profissional do D.A., à qual, por alguma razão, Tutt e o Sr. Tutt também tinham sido convidados a comparecer. Sim, os espectadores estavam todos lá no coliseu jurídico, esperando ansiosamente para ver Caput Magnus entrar na arena para ser engolido por Tutt & Tutt. Eles sedentos do seu sangue, tendo sido durante anos aborrecidos pelos seus cérebros. Prefeririam ver Caput Magnus transformado em carne picada do que noventa e nove criminosos condenados, mesmo que fossem culpados de bigamia.
Mas, até ao momento, Caput Magnus não estava lá. Eram dez e vinte e nove. O escrivão estava lá; o Sr. Higgleby, isósceles, flácido e acéfalo como sempre, estava lá; Tutt e o Sr. Tutt estavam lá; e Bonnie Doon, e a estenógrafa e o júri. E, no banco da frente, as duas esposas de Higgleby sentavam-se, lado a lado, tão friamente que, se aquele cavalheiro possuísse o dom da premonição, nunca teria casado com nenhuma delas; a Sra. Tomascene Startup Higgleby e a Sra... ou Srta... Alvina Woodcock (Higgleby)... dependendo da ação do júri. Todo o elenco do drama triangular matrimonial eterno estava lá, exceto o juiz e o promotor na pessoa de Caput Magnus.
E então, precedendo o juiz por apenas meio minuto, a sua entrada cronometrada historicamente ao segundo, ele veio, como Eudoxia, como uma chama vinda do leste. Entrou Caput Magnus com toda a dignidade e graça de um Irving a interpretar o Cardeal Wolsey. Abatido, sim; pálido, sim; trémulo, talvez; mas, no entanto, glorioso num novo casaco de corte, sapatos de verniz, gravata verde, um botão de rosa corando na sua lapela, o cabelo recém-cortado e colocado em belas pequenas ondulações com pomada, a figura ereta, o queixo no ar, um livro debaixo do braço, a mão direita acenando num gesto delicado de saudação; pois Caput levara a sugestão de O'Leary a sério e comprara aquela obra amplamente conhecida e autoritária à qual tantos advogados eminentes devem todo o seu sucesso... "Como tentar um caso"... e nela aprendera que, para ganhar os corações do júri, deve tornar-se belo.
"O que diabo fez ele a si próprio?", ofegou O'Leary para O'Brien.
"Ele fará um cadáver maravilhoso!", sussurrou este último em resposta.
"Ordem no tribunal! Sua Excelência o Juiz das Sessões Gerais!", berrou um oficial neste momento, e o juiz entrou.
Todos se levantaram. Ele fez uma vénia. Todos fizeram uma vénia. Todos se sentaram novamente. Alguns, profundamente afetados, assoaram-se. Depois, Sua Excelência sorriu afavelmente e perguntou que negócios havia perante o tribunal, e o escrivão disse-lhe que estavam todos lá para julgar um homem chamado Higgleby por bigamia, e o juiz, acenando para Caput, disse para ir em frente e julgá-lo.
No fundo do seu peritoneu, o Sr. Magnus sentiu que carregava uma pedra fria do tamanho de uma toranja. As suas mãos eram gelo, os seus lábios sem sangue. E havia um Niágara onde a sua audição deveria estar. Mas ele levantou-se, exatamente como o livro lhe dissera para fazer, em toda a sua beleza, e enunciou nos tons cristalinos que aprendera durante as últimas semanas na escola de representação e elocução da Madame Winterbottom... em sílabas cinzeladas da pedra da eloquência pelo lapidador da cultura:
"Se Sua Excelência permitir, apresento a causa do Povo do estado de Nova Iorque contra Theophilus Higgleby, indiciado por bigamia."
Peckham e o resto não podiam acreditar nos seus ouvidos. Não era possível! Aquele espécime perfeito de arte tonsorial e sartorial, gorgeando como um Caruso jurídico, conduzindo-se tão natural, fácil e casualmente, não podia ser o velho Caput Magnus! Eles beliscaram-se.
"Diga!", exclamou Peckham. "O que lhe aconteceu? Quando é que o Sir Henry assinou connosco?"
O Sr. Tutt, do outro lado do recinto em frente à caixa do júri, levantou as suas sobrancelhas espessas e olhou caprichosamente para o D.A. por cima dos seus óculos.
"Está pronto, Sr. Tutt?", perguntou o juiz.
"Inteiramente, Sua Excelência", respondeu o advogado.
"Então, escolha um júri."
O júri foi escolhido, com o Sr. Caput Magnus a passar por essa provação difícil com grande éclat.
"Pode prosseguir com a abertura do seu caso", ordenou o juiz.
A equipa viu um Caput Magnus muito branco levantar-se e fazer uma vénia na direção do banco. Depois, aproximou-se da caixa do júri e limpou a garganta. Os seus associados oficiais prenderam a respiração expectantes. Iria ele... ou não iria? Houve uma pausa.
Depois: "Senhor Presidente e senhores do júri", declamou Caput em tons de flauta: "O réu está indiciado pelo crime de bigamia, uma ofensa igualmente repugnante à religião, à civilização e à lei."
As palavras fluíam dele como um riacho cintilante ao sol; envolviam-no como um colar de joias verbais, um rosário, cada palavra uma pérola ou uma conta ou o que quer que seja. Com perfeita articulação, enunciação e gesticulação, o Sr. Caput Magnus continuou a informar os seus ouvintes de que o Sr. Higgleby era um bígamo da pior espécie, que ele tinha, criminosa, voluntária e conscientemente, casado com duas fêmeas diferentes e, por todos os padrões de conduta, era total e inteiramente detestável.
O Sr. Higgleby, ladeado por Tutt e pelo Sr. Tutt, ouvia calmamente. Caput aquecia-se na sua tarefa.
O dito Higgleby, disse ele, tinha, como referido na acusação, cometido o ato de bigamia, a saber, de casamento quando já tinha uma esposa legal, em Nova Iorque no dia dezassete de dezembro passado, ao casar na Grace Church Chantry com a senhora que viam sentada ao lado da outra senhora... ele queria dizer a que tinha a pena vermelha no chapéu... isto é, o seu chapéu, enquanto a outra senhora, como ele dissera supra, tinha sido legal e devidamente casada com o réu em maio anterior, a saber, em Chicago como supra...
"Perdoe-me!", interrompeu o presidente petulantemente. "Qual é a senhora que quer dizer que foi casada com o réu em Nova Iorque? Disse que ela estava sentada ao lado da outra senhora e que queria dizer a da pena vermelha, mas não disse se a da pena vermelha era a outra senhora ou aquela de quem estava a falar."
Caput engasgou-se e ficou cor-de-rosa.
"Eu... eu...", gaguejou. "A senhora de chapéu vermelho é... a... senhora de Nova Iorque."
"Quer dizer que ela não é a sua esposa, embora o réu tenha passado pela forma de casamento com ela, porque ele já era casado com outra", sugeriu Sua Excelência. "Poderia, penso eu, colocar as coisas de forma um pouco mais simples. No entanto, faça à sua maneira."
"Si-im, Sua Excelência."
"Continue."
Mas Caput estava perdido... irremediavelmente. Todo o vestígio da compostura tão laboriosamente adquirida no salão da Madame Winterbottom tinha evaporado. Sentia-se como se estivesse a balançar no ar, preso a um avião em fuga por uma corda à volta da cintura. As membranas mucosas da sua garganta estavam tão secas e cheias de pó como as entranhas de um aspirador de carpetes. A sua visão estava desfocada e não tinha controlo sobre os seus músculos. Debilmente, apoiou-se na mesa em frente ao júri, com a sala a oscilar à sua volta. As dores do inferno apoderaram-se dele. Ele estava a morrer. Até a equipa sentiu compunção... todos menos o Honorável Peckham.
O Juiz Russell sentiu rapidamente a situação. Era um homem bondoso, que tinha tirado muitos asnos do lamaçal da confusão. Por isso, com um olhar para o Sr. Tutt, veio em socorro de Caput.
"Vejamos, Sr. Magnus", comentou agradavelmente; "suponha que prova primeiro o casamento de Illinois. A Sra. Higgleby está no tribunal?"
Ambas as senhoras levantaram-se dos seus lugares.
"Sra. Tomascene Higgleby", corrigiu Sua Excelência. "Aproxime-se, por favor, senhora!"
A antiga Srta. Startup dirigiu-se timidamente à cadeira de testemunhas e, com uma voz fraca, respondeu às perguntas relativas ao seu casamento da primavera anterior, como lhe foram colocadas pelo juiz. O Sr. Tutt afastou-a e Caput Magnus sentiu a força a regressar. Ele tinha esperado e preparado um ataque altamente técnico à legalidade da cerimónia realizada no Condado de Cook. Tinha antecipado toda a variedade e forma de perguntas. Mas o Sr. Tutt não fez nenhuma. Limitou-se a sorrir benevolentemente para Caput de uma forma avuncular.
"Não tem perguntas, Sr. Tutt?", perguntou Sua Excelência.
"Nenhuma", respondeu o advogado.
"Então prove o casamento bigâmico", ordenou o Juiz Russell.
Então levantou-se, ao chamado da justiça, militantemente e com um curioso ar de propriedade sobre o réu demasiado casado, a esposa ou donzela que, em tempos anteriores, atendia pelo nome de Alvina Woodcock. Embora ela fosse a parte lesada e embora a culpa pelo seu estado infeliz recaísse inteiramente sobre Higgleby, o seu ressentimento parecia menos dirigido ao homem infrator do que à senhora de Chicago que era a sua esposa legítima. Não havia questão sobre as circunstâncias às quais ela testemunhou tão definitiva e agressivamente. Ninguém podia negar o facto deplorável de que ela tinha, como supunha, sido ligada em matrimónio legal ao cliente isósceles do Sr. Tutt. Mas havia algo no seu modo que sugeria que ela sentia que, sendo a última, deveria ser a primeira, que quem achou guardou, e que a posse era nove pontos da lei matrimonial.
E, como antes, o Sr. Tutt não disse nada. Nem ele, nem Tutt, nem Bonnie Doon, nem mesmo Higgleby mostraram qualquer sinal de preocupação. O autorreconhecimento momentaneamente regressado de Caput abandonou-o. O que pressagiava o seu silêncio ominoso? Teria cometido algum erro horrível? Teria negligenciado algum facto jurisdicional importante? Iria ele agora ser içado por alguma razão desconhecida pelo seu próprio petardo? Ele estava, pobre inocente... ele estava!
"Esse é o caso", anunciou ele debilmente. "O Povo descansa."
O Juiz Russell olhou curiosamente para o Sr. Tutt.
"Bem", comentou ele, "como é, Sr. Tutt?"
Mas o velho advogado apenas sorriu.
"Venha aqui um minuto", ordenou Sua Excelência.
E quando o Sr. Tutt chegou ao banco, o juiz disse: "Tem alguma defesa neste caso? Se não, porque não confessa a culpa e deixa-me resolver o assunto?"
"Mas, Sua Excelência", protestou o Sr. Tutt, "claro que tenho uma defesa... e das melhores!"
"Tem?"
"Certamente."
O juiz elevou a testa.
"Muito bem", comentou ele; "se realmente tem uma, é melhor continuar com ela. E", acrescentou em voz baixa, mas num tom claramente audível para o escrivão, "que o Senhor tenha misericórdia da sua alma!"
Os assistentes viram Caput baixar-se na sua cadeira e, simultaneamente, o Sr. Tutt elevar lentamente a sua forma esguia em direção ao teto.
"Senhores jurados", disse ele benignamente: "O meu cliente, o Sr. Higgleby, é acusado nesta denúncia do crime de bigamia, cometido aqui em Nova Iorque, ao casar-se com Alvina Woodcock -- a dama de ideias firmes na primeira fila de bancos ali -- quando já tinha uma esposa legítima viva em Chicago. A denúncia não alega qualquer outra ofensa e o procurador distrital não tentou provar nenhuma, tendo o meu douto e eloquente adversário, o Sr. Magnus, o devido respeito pelos direitos constitucionais de cada infeliz que ele leva à barra da justiça. Se, portanto, eu puder provar-lhes que o Sr. Higgleby nunca foi legalmente casado com Tomascene Startup em Chicago no dia onze de maio passado ou em qualquer outra data, a alegação de bigamia cai por terra; pelo menos no que diz respeito a esta denúncia. Pois, a menos que a denúncia apresente um casamento anterior válido, é óbvio que o casamento subsequente não pode ser bígamo. Fui claro? Percebo pelas vossas expressões faciais muito inteligentes que fui. Bem, meus amigos, o Sr. Higgleby nunca foi legalmente casado com Tomascene Startup em maio passado em Chicago, e serão, portanto, obrigados a absolvê-lo! Venha cá, Sr. Smithers."
Caput Magnus sentiu subitamente as dores da dissolução. Quem era Smithers? O que poderia o velho Tutt estar a tramar? Mas Smithers -- evidentemente o Reverendo Sanctimonious Smithers -- já estava placidamente sentado na cadeira das testemunhas, com as suas mãos moles cruzadas sobre o estômago e o seu nariz fino olhando interrogativamente para o Sr. Tutt.
"Qual é o seu nome?" perguntou o advogado dramaticamente.
"O meu nome é Oswald Garrison Smithers", respondeu o reverendo cavalheiro com um sotaque de flanela de Canton, "e resido em Pantuck, Iowa, onde sou pastor da Igreja Luterana Reformada."
"Conhece o arguido?"
"Certamente que conheço", suspirou o Reverendo Smithers. "Lembro-me muito bem dele. Celebrei o seu casamento com uma viúva da minha congregação em 4 de julho de 1917; de facto, com a viúva do nosso falecido guardião sénior, o diácono Pellatiah Higgins. Sarah Maria Higgins era o nome da dama, e ela está viva e bem no presente momento."
Ele olhou desdenhosamente para o júri. Se a mansidão tivesse eficácia, ele teria herdado a terra.
"O quê?" exclamou o capataz. "Diz que este homem é casado com três mulheres?"
"Trigamia -- não bigamia!" murmurou o escrivão, *sotto voce*.
"O senhor tocou no ponto preciso, Sr. Capataz!" exclamou o Sr. Tutt com admiração. "Se o Sr. Higgleby já era legalmente casado com uma dama no Iowa quando se casou com a Srta. -- ou Sra. -- Startup em Chicago em maio passado, o seu casamento com esta última não foi um casamento legal; na verdade, não foi casamento nenhum. Não se pode acusar um homem de bigamia a menos que se cite um casamento legal seguido por um ilegal. Portanto, uma vez que a denúncia não consegue apresentar um casamento legal em parte alguma, seguido por um casamento, legal ou não, no Condado de Nova Iorque, ela não cita qualquer crime, e o meu cliente deve ser absolvido. Não é esta a lei, Meritíssimo?"
O juiz Russell escondeu rapidamente um sorriso e virou-se para o moribundo Caput.
"Sr. Magnus, tem algo a dizer em resposta ao argumento do Sr. Tutt?" perguntou ele. "Se não..."
Mas não veio qualquer resposta de Caput Magnus. Ele estava para lá de qualquer audição, compreensão ou resposta. Estava pronto para ser levado e enterrado.
"Bem, tudo o que tenho a dizer é..." começou o capataz com nojo.
"Não tem de dizer nada!" admoestou o juiz severamente. "Eu farei qualquer fala que seja necessária. Um pouco mais de cuidado na preparação da denúncia poderia ter tornado esta situação bastante absurda impossível. Como está, devo ordenar uma absolvição. O arguido é dispensado desta denúncia. Mas vou mantê-lo sob fiança para a ação de outro grande júri."
"Nesse caso, teremos outra defesa igualmente boa, Meritíssimo", assegurou-lhe o Sr. Tutt.
"Não duvido, Sr. Tutt", retorquiu o juiz com bom humor. "O seu cliente parece ter amado não sabiamente, mas demasiado bem." E todos saíram alegremente para o corredor -- isto é, todos eles, exceto Caput e as duas senhoras, que permaneceram sentadas no seu banco, olhando feroz e desdenhosamente uma para a outra, como dois gatos malhados numa cerca.
"Então também não és casada com ele!" escarneceu a Srta. Woodcock.
"Bem, sou tão casada com ele quanto tu!" retorquiu a Srta. Startup com o nariz no ar.
Então, instintivamente, ambas viraram-se e, de comum acordo, olharam malevolamente para Caput que, vendo no seu olhar algo de que não gostou, deslizou furtivamente da sua cadeira e saiu da sala, deixando ignominiosamente para trás, no chão, o seu precioso volume intitulado "Como Julgar um Caso"!
"Esse Tipo de Mulher"
"Não julgueis segundo a aparência." -- João VII: 24.
"Tutt", disse o Sr. Tutt, entrando nos escritórios da Tutt & Tutt e pendurando a sua cartola antediluviana no cabide no canto, "vejo pelo jornal da manhã que Payson Clifford partiu desta para melhor."
"Não me diga!" respondeu o jovem Tutt, levantando o olhar da carta que estava a escrever. "Qual deles, Payson Sénior ou Payson Júnior?"
"Payson Sénior", respondeu o Sr. Tutt enquanto cortava a ponta de um charuto barato com a tesoura de unhas que trazia sempre no bolso do colete.
"Nesse caso, é uma pena", comentou Tutt com pesar.
"Por que 'nesse caso'?" questionou o seu sócio.
"Ah, o filho não é grande coisa!" respondeu o Tutt mais novo. "Não digo que o pai fosse grande coisa também. Payson Clifford era um bom sujeito -- mesmo que não fosse o nosso Primeiro Cidadão -- ou que tivesse probabilidade de ser candidato a essa posição no Além. Mas aquele rapaz..."
"Shh!" repreendeu o Sr. Tutt, abanando lentamente a cabeça de modo a que o fumo do seu charuto fino tecesse um pergaminho cinzento no ar diante da sua face. "Lembre-se de que há uma coisa pior do que falar mal dos mortos, e isso é falar mal de um cliente!"
O Sr. Payson Clifford, o cliente em questão, era um jovem comum que tinha sido cuidadosamente preparado para as mudanças e os acasos desta vida mortal, primeiro numa escola diurna da Quinta Avenida na Cidade de Nova Iorque, depois num colégio interno de elite entre as colinas rochosas do Granite State, e finalmente em Cambridge, Massachusetts, na atmosfera culta da Universidade de Harvard, pelos cujos recintos, no passado ténue e quase esquecido, somos levados a acreditar que os bons e os grandes caminharam pensativamente no seu belo apogeu. Ele emergiu com um desprezo talvez quase pudico pelo feio, pelo vulgar e pelo impuro -- e com claras ilusões de grandeza. Ele ainda estava naquele estado não mal descrito pelo velho ditado: "Sempre se pode dizer quem é um homem de Harvard, mas não se lhe pode dizer muito."
A sua mãe tinha morrido quando ele ainda era uma criança e ele preservava a sua memória como o tesouro mais sagrado do seu santuário interior. Ele conseguia apenas recordar-se dela como uma presença gentil e digna, em contraste com a qual o seu pai, corpulento e de voz alta, sempre lhe parecera grosseiro e vulgar. E embora fosse esse mesmo pai que, desde que se lembrava, lhe fornecia um cheque substancial no primeiro dia de cada mês e, assim, lhe permitia atingir aquele estado exaltado de superioridade intelectual e espiritual que ele, de facto, alcançara, ainda assim, colocando as coisas francamente no vernáculo, Payson olhava um pouco de cima para o velho, que sofria visivelmente da falta das vantagens que ele tinha proporcionado ao seu filho.
Payson, Sr., nunca se tinha dado ao trabalho de alterar a opinião que o filho tinha de si mesmo. No geral, ele orgulhava-se dele mais do que o contrário, reconhecendo que, embora ele sofresse obviamente de um desenvolvimento excessivo do ego e de um excesso de requinte no vestir, era, no fundo, claramente alguém decente e um bom tipo. Ainda assim, era forçado a confessar que não havia muito entre eles. O seu filho expressava o mesmo pensamento lamentando que o seu pai "não falasse a sua língua".
Assim, nas férias de inverno, quando Payson, Sr., exausto pelo seu longo dia no escritório, procurava os "Frolics" ou os "Folies", Payson, Jr., podia ser visto num concerto de cravo e viola, ou numa noite de Palestrina ou dos Primeiros Cantos Gregorianos. Se ele tivesse sido menos arrogante a esse respeito, esta história nunca teria sido escrita -- e, sem dúvida, não seria grande perda. Mas é a prerrogativa da juventude ser arrogantemente impiedosa no seu julgamento dos velhos. O seu léxico brilhante não tem o veredito "com circunstâncias atenuantes". A juventude é justa quando está certa; é cruel quando está errada; e é inexorável em qualquer caso. Se alguma vez formos julgados pelos nossos crimes, que tenhamos júris de velhos de barbas brancas que gostem de tabaco, flocos de caranguejo, vinhos leves e comédia musical.
Tudo isto conduz à triste admissão, da nossa parte, de que Payson, Jr., era um pedante. E, exatamente no meio da pedanteria do seu filho, Payson, Sr., morreu, e Tutt e o Sr. Tutt foram chamados para administrar o seu espólio.
Pode haver escondidos algures alguns raros seres humanos que consigam olhar para trás, para o tratamento que deram aos seus pais, com honesta satisfação. Nunca conheci nenhum. É o destino daqueles que trazem outros ao mundo serem censurados pelas suas maneiras, abusados pelos seus erros e humilhados pelas suas faltas. Vinte anos de diferença de idade transformam muita elegância num barbarismo; muita virtude num vice-versa. Não faço demonstrações ao pequeno-almoço para a edificação da minha descendência sobre o bigode, mas mastigo as sementes dos meus morangos, o que eles alegam ser pior. O meu avô e a minha avó costumavam deitar o café das suas chávenas e bebê-lo dos pires e eram -- apesar disso -- classificados como AA1 no Blue Book de Back Bay em Boston. E agora as minhas filhas, que fumam cigarros, opõem-se ruidosamente ao fumo do meu cachimbo! *Autre temps, autres manières*. E ninguém é herói para os seus filhos. Ele tem muito mais hipóteses com o seu criado -- se nestes dias se puder dar ao luxo de manter um.
A morte do pai foi um choque para Payson, Jr., porque ele não supunha que pessoas em negócios ativos como aquele alguma vez morressem -- elas "reformavam-se" em vez disso e, após um período discreto de semi-reclusão, desintegravam-se gradualmente por etapas apropriadas. Mas Payson, Sr., simplesmente morreu exatamente no meio de tudo -- sem qualquer hipótese de um entendimento espiritual -- "reconciliação" seria impreciso -- com o seu filho. Então, Payson, Jr., protestando, adquiriu por parte em dinheiro e o resto a crédito um conjunto completo do que ele descreveu corrosivamente como "a bárbara panóplia da morte" e, transformando-se no que chamou, de igual modo, de "catafalco humano", seguiu Payson, Sr., até à sepultura.
Talvez, afinal de contas, tenhamos sido um pouco duros com Payson, Jr. Ele era fundamentalmente, como o seu pai tinha percebido, boa gente, e queria fazer a coisa certa. Mas o que é a coisa certa? Na verdade, não é metade tão difícil ser bom quanto saber como.
Enquanto o órfão Payson, instalado em solidão imponente num dos táxis funerários, era levado a um trote rápido pela Broadway em direção aos escritórios da Tutt & Tutt, consolava-se da sua perda com a reflexão de que aquela era, provavelmente, a última vez que teria de ver qualquer um dos seus parentes. Nunca na sua curta vida tinha estado frente a frente com tal reunião de seres humanos pouco atraentes. Ele não tinha imaginado que tais pessoas existissem. Elas não deveriam existir. A terra deveria ser um lugar adorável, o seu imobiliário ocupado apenas por pessoas cultas e adoráveis. Estas considerações estéticas lembraram-lhe com um choque que, tal como ele tinha sido um completo estranho para eles, ele tinha sido um estranho para o seu pai -- o seu pobre, velho e viúvo pai. O que sabia ele realmente sobre ele? -- nem uma única coisa! E ele nunca tinha tentado descobrir nada sobre ele -- sobre os seus amigos, os seus pensamentos, o seu modo de vida -- contentando-se apenas em levantar os seus cheques, sob a suposição inconsciente de que o homem que os passava deveria estar igualmente contente por ser o pai de tal jovem como ele. Mas aqueles parentes enferrujados! Eles deviam ser do lado do pai! Certamente os da mãe não teriam sido assim -- e ele sentia-se confiante de que tinha herdado os traços da mãe. Ainda assim, aqueles parentes preocupavam-no! Lá em Harvard, ele tinha-se mantido bastante grandiosamente sobre o seu nome -- "Payson Clifford, Jr." -- sem perguntas feitas sobre o "Sénior" ou qualquer outra pessoa. Ele percebia agora que ia ser lançado para o mundo dos factos onde quem e o que o seu pai tinha sido poderia fazer muita diferença. Com bastante ansiedade, ele esperava que o velho cavalheiro se revelasse alguém correto; -- e que tivesse deixado um espólio suficiente para que ele pudesse continuar a levantar cheques no primeiro dia de cada mês!
Era uma das leis não escritas do escritório da Tutt & Tutt que o Sr. Tutt nunca deveria ser incomodado com os detalhes de uma questão de sucessões, e é mais do que duvidoso se, mesmo que tivesse tentado, ele conseguiria ter feito corretamente o inventário de um espólio para apresentação no Tribunal de Sucessões. Pois saiba-se que, embora o sócio sénior da firma fosse versado na filosofia do direito e nas subtilezas das "restrições à alienação", "poderes", "perpetuidades" e os mistérios do "próximo espólio eventual", ele era francamente carente de paciência para somar e subtrair. Então, embora o Sr. Tutt escrevesse os testamentos dos seus clientes, era Tutt quem tentava validá-los e executá-los. Então, se por acaso houvesse algum problema ou algum parente ingrato achasse que não tinha recebido o suficiente, era o Sr. Tutt quem, relutantemente, deitava fora o seu charuto, passeava até ao tribunal e defendia o testamento que ele próprio tinha redigido -- geralmente com sucesso.
Portanto, foi o Tutt mais novo quem apertou a mão de Payson Clifford e lhe cedeu a poltrona de couro junto à janela.
"E agora sobre o testamento!" chilreou Tutt, enquanto, após um laborioso elogio às virtudes de Payson, Sénior, falecido, se dava ao luxo de acender um cigarro antes de começar a ler o instrumento que jazia num envelope pardo sobre a secretária diante dele. "E agora sobre o testamento! Suponho que já está ciente de que o seu pai o tornou seu testamenteiro e, após alguns legados menores, o herdeiro residual de todo o seu espólio?"
Payson abanou a cabeça silenciosamente. Sentia que era mais adequado fingir ser ignorante destas coisas dadas as circunstâncias.
"Sim", continuou Tutt alegremente, pegando no envelope, "o Sr. Tutt redigiu o testamento -- há quase quinze anos -- e o seu pai nunca achou necessário mudá-lo. Tem estado ali mesmo na nossa 'Caixa de Testamentos' sem ser perturbado mais do que uma vez -- e isso foi há sete ou oito anos, quando ele entrou um dia e pediu para lhe ser permitido vê-lo -- penso que ele colocou um envelope contendo uma carta junto dele. Encontrei um lá no outro dia."
Payson pegou languidamente no testamento com a mão.
"Qual o tamanho do espólio que ele deixou?" inquiriu.
"Tanto quanto consigo calcular, cerca de setenta mil dólares", respondeu Tutt. "Mas o imposto de transferência não será pesado, e os legados não totalizam mais de dez mil."
O instrumento era curto -- redigido com toda a capacidade de compressão do Sr. Tutt -- e preenchia apenas uma única folha. O pai de Payson tinha legado sete mil e seiscentos dólares aos seus três primos e respetivos filhos, e deixou tudo o resto ao seu filho. Payson calculou rapidamente que, após pagar as contas contra o espólio, incluindo a da Tutt & Tutt, provavelmente obteria pelo menos sessenta mil dólares. À taxa atual, continuaria a ser bastante confortável -- mais do que até então, de facto. Ainda assim, era menos do que ele tinha esperado. Talvez o seu pai tivesse tido hábitos dispendiosos.
"Aqui está a carta", continuou Tutt, entregando-a a Payson, que tirou o seu canivete para a abrir mais cuidadosamente. "Provavelmente uma sugestão quanto à disposição de efeitos pessoais -- lembranças ou algo do género. É feito frequentemente."
O envelope era barato, ornamentado no canto superior esquerdo com uma xilogravura mostrando uma deusa robusta em camisa de dormir, evidentemente destinada a ser Proserpina -- derramando uma Niágara de grãos de uma cornucópia da abundância sobre uma terra agrícola empilhada com maçãs, milho e abóboras, e inundada pelos raios de um sol nascente com uma face real. Abaixo estavam as palavras:
"Se não for entregue em cinco dias, devolver a
Clifford, Cobb & Weng, Comerciantes de Grãos e Produtos 597 Water Street, N.Y. City, N.Y."
Mesmo quando o seu olhar caiu sobre ela, Payson estava consciente da sua vulgaridade grosseira. E "Weng"! Quem alguma vez ouviu tal nome? Ele certamente não -- nem sequer sabia que o seu pai tinha um sócio com tal cognome absurdo! "--& Weng!" Havia algo terrivelmente plebeu nisso. Bem como no óbvio desejo de simetria que tinha levado à adição daquele "N.Y." supérfluo abaixo do inteiramente adequado "N.Y. City". Mas, claro, ele ficaria feliz por fazer qualquer coisa que o seu pai pedisse numa carta.
Ele forçou a extremidade da lâmina através da fibra resistente do envelope, retirou a folha fechada e desdobrou-a. No meio do topo estava uma réplica da xilogravura do exterior, apenas sem o "Se não for entregue em cinco dias, devolver a". Então, Payson leu na caligrafia audaz e habitual do seu pai a simples inscrição, condenada a persegui-lo acordado e a dormir durante muitas luas: --
"Em caso de morte súbita, desejo que o meu testamenteiro dê vinte e cinco mil dólares à minha querida amiga Sadie Burch, de Hoboken, N.J.
"PAYSON CLIFFORD."
Por um breve -- muito breve -- momento, uma névoa reuniu-se sobre a carta na mão do filho. "Minha querida amiga Sadie Burch!" Ele sufocou a exclamação de surpresa que subiu inconscientemente aos seus lábios e esforçou-se por suprimir qualquer evidência facial dos seus sentimentos interiores. "Vinte e cinco mil!" Então, estendeu a carta mais ou menos casualmente a Tutt.
"Wee-e-ll!" assobiou o advogado suavemente, com um olhar rápido debaixo das sobrancelhas.
"Ah, não é pelo dinheiro!" comentou Payson num tom doentio -- embora, claro, estivesse a mentir. Era pelo dinheiro.
A ideia de entregar quase metade do espólio do seu pai a uma estranha deixou-o atordoado; contudo, para seu crédito eterno, naquele primeiro instante de agonia atordoada, nenhum pensamento de desconsiderar os desejos do seu pai entrou na sua mente. Foi um golpe duro, mas ele tinha de o aguentar.
"Ah, isso não é nada!" comentou Tutt. "Não é vinculativo. Não precisa de prestar qualquer atenção a isso."
"Quer dizer realmente que esse papel não tem qualquer efeito legal?" exclamou o rapaz com tal reação de alívio que, por um momento, o aspeto ético do caso ficou inteiramente obscurecido pelo legal.
"Nenhum!" retorquiu Tutt definitivamente.
"Mas é parte do testamento!" protestou Payson. "Está na caligrafia do meu próprio pai."
"Isso não faz qualquer diferença", declarou o advogado. "Não sendo testemunhado da maneira exigida por lei, não tem a mínima importância."
"Nem mesmo se estiver colocado junto com o testamento?"
"Nem uma partícula."
"Mas já ouvi falar muitas vezes de cartas serem colocadas com testamentos."
"Sem dúvida. Mas aposto que nunca ouviu falar de nenhuma delas ter sido validada."
A experiência jurídica de Payson, de facto, não alcançava este ponto técnico.
"Olhe aqui!" retorquiu ele obstinadamente. "Que me matem se eu entendo. Diz que este papel não tem valor legal e, no entanto, está na letra do meu próprio pai e praticamente anexado ao seu testamento. Agora, à parte de qualquer -- er -- questão moral envolvida, por que razão não é esta carta vinculativa para mim?"
Tutt sorriu com indulgência.
"Quer um cigarro?" perguntou ele, e quando Payson aceitou um, acrescentou com simpatia enquanto lhe segurava o fósforo, "A sua atitude, meu caro senhor, abona a seu favor. É inteiramente correto e natural que deseje instintivamente defender o que, à primeira vista, parece ser um desejo do seu pai. Mas, ainda assim, essa carta não vale o papel em que está escrita -- como questão de lei."
"Mas por que não?" exigiu Payson. "Que melhor prova poderiam os tribunais desejar dos desejos de um testador do que tal carta?"
— A razão é bastante simples! — respondeu Tutt, acomodando-se numa posição confortável. — Perante a lei, nenhuma propriedade fica jamais sem dono. Ela sempre pertence a alguém, embora a titularidade possa estar em disputa. Quando um homem morre, os seus bens imóveis passam instantaneamente para os seus herdeiros e os seus bens móveis são transmitidos de acordo com o estatuto local de partilhas ou, na falta deste, para os seus parentes mais próximos; mas se ele deixar um testamento, na medida em que este for válido, ele desvia a propriedade do seu destino legal natural. Assim, na verdade, o propósito real de um testamento é impedir que as leis operem sobre o património de alguém após a morte. Se o seu pai tivesse morrido intestado, o senhor teria tornado-se instantaneamente, aos olhos da lei, o proprietário de todos os seus bens. O seu testamento — o seu testamento legal — priva-o de uma pequena parte dele em benefício de outros. Mas a lei é extremamente cuidadosa ao reconhecer tal intenção de um testador para impedir a operação dos estatutos e exige que ele demonstre a sinceridade e a fixidez dessa intenção passando por várias formalidades estabelecidas, tais como colocar a sua intenção na forma devida num instrumento escrito que ele deve assinar e declarar ser o seu último testamento perante um certo número de testemunhas competentes, a quem ele solicita que assinem como tal e que de facto assinam como tal na sua presença e na presença umas das outras. O seu pai, obviamente, não fez nada disto quando colocou esta carta junto ao seu testamento.
— Mas uma carta não é suficiente, em circunstância alguma? — indagou Payson.
— Bem — disse Tutt. — É verdade que, sob certas circunstâncias excecionais, um homem pode fazer o que é conhecido como um testamento nuncupativo.
— O que é um... um... testamento nuncupativo? — perguntou o seu cliente.
— Tecnicamente, é um testamento oral, que opera apenas sobre bens móveis, feito in extremis — isto é, efetivamente com medo da morte — e, ao abrigo dos nossos estatutos, limitado a soldados em serviço militar ativo ou a marinheiros no mar. Segundo a antiga common law, era tão eficaz para transmitir bens móveis como um instrumento escrito.
— Mas o meu pai não era nem soldado nem marinheiro — comentou Payson —, e, de qualquer forma, uma carta não é um testamento oral; se é alguma coisa, é um testamento escrito, não é?
— Essa é a atitude que a lei adota — assentiu Tutt. — É claro que alguém poderia argumentar que não faria diferença se um homem expressasse os seus desejos oralmente na presença de testemunhas ou se os reduzisse a escrito e os assinasse, mas a lei é muito técnica em tais matérias e tem sido decidido que um testamento reduzido a escrito e assinado pelo testador, ou um memorando de instruções para fazer um testamento, não pode ser tratado como um testamento nuncupativo; nem um testamento escrito, redigido por um advogado, mas não assinado devido à doença do testador, deve ser tratado como um testamento nuncupativo; contudo, mediante prova necessária — num caso apropriado —, um documento, não aperfeiçoado como testamento escrito, pode ser estabelecido como testamento nuncupativo quando a sua conclusão é impedida por ato de Deus, ou qualquer outra causa que não seja uma intenção de abandonar ou adiar a sua consumação. A presunção da lei é contra a validade de um documento testamentário não completado. Deve existir no testador o animus testandi, que é por vezes presumido a partir das circunstâncias em tais casos e em tais lugares onde os testamentos nuncupativos são reconhecidos. Ora, o seu pai, sendo como o senhor aponta, nem soldado nem marinheiro, não poderia ter feito um testamento nuncupativo em circunstância alguma, mesmo que uma carta fosse legalmente tratada como tal testamento em vez de como uma tentativa ineficaz de fazer um escrito — ponto sobre o qual confesso a minha ignorância. Portanto — e ele atirou a ponta do cigarro com um ar de finalidade —, esta carta que lega vinte e cinco mil dólares a Sadie Burch — seja ela quem ou o que for — é ou uma tentativa de fazer um testamento ou um codicilo a um testamento de uma forma não reconhecida pelo estatuto, ou é uma tentativa de acrescentar, alterar ou variar um testamento já devidamente executado e testemunhado ao afixar arbitrariamente a ele ou colocar dentro dele um documento escrito estranho.
— Bem — comentou Payson —, compreendo o que disse sobre testamentos nun... nuncupativos, tudo bem... ou seja, penso que compreendo. Mas, deixando-os fora de consideração, ainda não vejo por que razão esta carta não pode ser considerada parte do testamento original.
— Pela razão de que, quando o seu pai executou o documento original, ele cumpriu todas as formalidades exigidas pelo estatuto para fazer um testamento. Se não o tivesse feito, não teria sido um testamento de todo. Se este papel, que nunca foi testemunhado por uma única pessoa, pudesse ser tratado como um suplemento ou adição ao testamento, também não haveria utilidade em exigir que o testamento original fosse testemunhado.
— Isso parece lógico — concordou Payson. — Mas não é muitas vezes costume incorporar outros documentos referindo-os num testamento?
— Por vezes é feito, e geralmente resulta apenas em litígio. O senhor mesmo vê quão absurdo seria tratar um papel redigido ou executado depois de o testamento ter sido feito como parte dele, pois isso tornaria os requisitos do estatuto nulos.
— Mas suponha que a carta já existia ou foi escrita ao mesmo tempo que o testamento... isso não faria diferença? — hesitou Payson.
— Nem um pouco! Nem um pouco! — chilreou Tutt. — A lei está estabelecida no sentido de que tal documento escrito só pode produzir efeitos sob certas condições muito especiais e apenas numa extensão limitada. De qualquer modo, essa questão não surge aqui.
— Por que não? — perguntou o legatário residual. — Como sabe que esta carta não foi escrita e colocada dentro do testamento quando ele foi feito? — E que o meu pai supôs que, naturalmente, ela produziria efeitos?
— Nesse caso, por que não teria ele incorporado o legado no testamento? — rebateu Tutt bruscamente.
— Ele... er... pode não ter desejado que o Sr. Tutt soubesse disso — murmurou Payson, baixando os olhos.
— Oh... dificilmente! — protestou Tutt. — Podemos ter a certeza moral de que esta carta foi escrita e colocada com o testamento naquela vez em que o seu pai veio aqui e pediu para vê-lo, há uns sete anos. O Sr. Tutt teria notado se o seu pai a tivesse colocado com o testamento na primeira instância e tê-lo-ia avisado de que nada do género poderia ser eficaz.
— Mas — insistiu Payson —, assumindo para fins de argumentação que esta carta foi de facto escrita na altura em que o testamento foi originalmente executado, qual é a razão para a lei não a reconhecer como um legado válido?
Tutt sorriu e tateou numa caixa aberta à procura de outro cigarro.
— Meu caro senhor — respondeu ele —, nenhum papel poderia ser tratado como parte de um testamento — mesmo que existente na altura em que o testamento foi executado — a menos que fosse distintamente referido no próprio testamento. Numa palavra, deve haver uma intenção clara e inconfundível por parte do testador de tentar incorporar o documento estranho por referência. Ora, aqui, não há qualquer referência ao documento no testamento.
— Isso é verdade! — admitiu Payson. — Mas...
— Mas mesmo que houvesse — continuou Tutt, ansiosamente —, a lei está estabelecida neste estado de que, quando um testador — seja por descuido ou por desejo de economizar espaço ou esforço — referiu no seu testamento documentos ou memorandos estranhos, seja para fixar os nomes dos beneficiários de disposições ou legados específicos, ou para fixar o montante ou a forma como o montante de tais disposições ou legados deve ser apurado, tal documento não deve conter qualquer disposição testamentária de propriedade. Numa palavra, o testador, tendo legado algo, pode identificá-lo por meio de um documento estranho se for corretamente designado, mas não pode legar a coisa através de um documento estranho, independentemente de como seja referido. Por exemplo, se A lega a B "todas as ações cobertas pelo meu acordo de 1 de maio, com X", isso descreve e identifica meramente a coisa legada — e isso está correto. A lei dará efeito ao acordo identificador, embora seja separado do testamento e não atestado. Mas, se o testamento de A dissesse "e dou os legados adicionais que constam num documento aqui anexo" e o documento contivesse um legado a B de "todas as ações cobertas pelo meu acordo de 1 de maio, com X", seria uma tentativa de legado fora do testamento e, portanto, não teria efeito legal.
— Obrigado — disse Payson. — Compreendo. Portanto, em caso algum esta carta poderia ter qualquer efeito legal?
— Absolutamente nenhum! O senhor está perfeitamente seguro! — E Tutt recostou-se com um sorriso confortável.
Mas Payson não sorriu em resposta. Nem estava confortável. Diga-se a seu favor que, por mais tipos de tolo que ele pudesse ter sido, embora momentaneamente aliviado ao saber que não tinha obrigação legal de cumprir os desejos do seu pai no que dizia respeito a Sadie Burch, a sua consciência não estava de modo algum tranquila e ele não tinha gostado nada do tom com que o pequeno advogado pançudo tinha usado a frase "o senhor está perfeitamente seguro".
— O que quer dizer com "perfeitamente seguro"? — indagou ele de forma algo fria.
— Ora, que Sadie Burch nunca poderia obrigá-lo a pagar-lhe o legado — porque não é um legado legal. Pode ficar com ele com segurança. É seu, legal e moralmente.
— Bem, será? — perguntou Payson lentamente. — Moralmente, não é meu dever pagar o dinheiro, independentemente de quem ela seja?
Tutt, que se tinha inclinado para trás na sua cadeira giratória, colocou ambos os pés no chão com um estrondo.
— Claro que não é! — exclamou ele. — O senhor seria louco se prestasse a menor atenção a qualquer rabisco vago e inexplicado como esse. Ouça, jovem! Em primeiro lugar, o senhor não tem ideia de quando o seu pai escreveu esse papel — exceto que foi há pelo menos sete anos. Ele pode ter mudado de ideias uma dúzia de vezes desde que o escreveu. Pode ter sido um mero capricho passageiro, feito num momento de fraqueza ou emoção ou irracionalidade temporária. De facto, pode ter sido feito sob coação. Ninguém, exceto um advogado que tenha o conhecimento mais íntimo da vida quotidiana e dos negócios dos seus clientes, tem a remota suspeita de... Oh, bem, não vamos entrar por aí! Mas a primeira proposição é que, em caso algum, é possível afirmar que o pedido nessa carta era o desejo real do seu pai no momento da sua morte. Tudo o que pode dizer é que, em alguma altura, pode ter sido o seu desejo.
— Compreendo! — concordou Payson. — Bem, que outros pontos existem?
— Em segundo lugar — continuou Tutt —, deve presumir-se que, se o seu pai se deu ao trabalho de contratar um advogado para ter o seu testamento devidamente redigido e executado, ele deve ter sabido, primeiro, que era necessário fazê-lo para que os seus desejos fossem cumpridos e, segundo, que nenhum desejo não devidamente incorporado no próprio testamento poderia ter qualquer efeito legal. Por outras palavras, inferencialmente, ele sabia que este documento não tinha força e, portanto, deve assumir-se que, se ele o fez dessa forma, pretendia que não tivesse qualquer efeito legal e não pretendia que fosse cumprido. Entende-me?
— Ora, sim, creio que sim. O seu ponto é que, se um homem conhece a lei e faz uma coisa de modo a que ela não tenha efeito legal, deve assumir-se que ele pretende que ela não tenha efeito legal.
— Exatamente — Tutt assentiu com satisfação. — A lei é sábia, baseada em gerações de experiência. Ela percebe as incertezas, caprichos e vacilações da mente humana — e as oportunidades proporcionadas a pessoas astutas para tirar partido das fraquezas momentâneas dos outros — e, portanto, para evitar fraudes e garantir que apenas os desejos finais reais de um homem sejam cumpridos, ela exige que esses desejos sejam expressos de uma forma particular, definida e formal — por escrito, assinados e publicados perante testemunhas.
— O senhor torna-o certamente muito claro! — assentiu Payson. — O que fazem habitualmente os executores em tais circunstâncias?
— Se têm juízo, deixam os assuntos como estão e deixam a lei seguir o seu curso — respondeu Tutt com convicção. — Já conheci mais problemas...! Vários exemplos aqui mesmo neste escritório. Uma viúva encontrou um papel com o testamento do marido expressando o desejo de que uma certa quantia de dinheiro fosse dada a uma mulher casada que vivia em Duluth. Não havia nada que indicasse quando o papel foi escrito, embora o testamento tivesse sido executado apenas um mês antes de ele morrer. Aparentemente, o falecido não via a senhora em questão há anos. Disse-lhe para esquecer isso, mas nada a satisfazia senão enviar à mulher um vale postal pela quantia total — dez mil dólares. Ela ficou com ele, claro! Bem, a viúva descobriu depois que o seu marido tinha escrito aquele papel trinta anos antes, numa altura em que estava noivo daquela mulher, que tinham mudado de ideias e cada um tinha casado felizmente, e que o papel, com algumas cartas de amor antigas, se tinha, como acontece habitualmente, misturado com o testamento em vez de ter sido destruído como deveria ter sido. Sabe, é espantoso o lixo que as pessoas guardam nos seus cofres! Aposto que noventa e nove em cada cem estão meio cheios de coisas inúteis e sem valor, como relógios velhos, botões de punho de azeviche do avô, as cartas que o tio William escreveu da Terra Santa, seguros de incêndio caducados e correspondência que ninguém nunca lerá — tudo se mistura sempre — e, no entanto, cada papel que um homem deixa após a sua morte é uma possível fonte de confusão ou problema. E não se pode dizer como ou por que uma pessoa, num determinado momento, pode chegar a expressar um desejo por escrito. Seria muito perigoso prestar-lhe atenção. Suponha que não fosse por escrito. Moralmente, um desejo é tão vinculativo se for falado como se for incorporado numa carta. Perderia tempo com Sadie Burch se ela viesse aqui e lhe dissesse que o seu pai expressou o desejo de que ela recebesse vinte e cinco mil dólares? Nem pensar!
— Suponho que não! — admitiu Payson.
— Outra coisa! — disse Tutt. — Lembre-se disto: a lei não lhe permitiria, como executor do testamento do seu pai, pagar este dinheiro se outro que não o senhor fosse o legatário residual. O senhor não teria o direito de retirar vinte e cinco mil dólares da herança e dá-los à Srta. Burch à custa de qualquer outra pessoa!
— Então diz que a lei não me deixa pagar este dinheiro a Sadie Burch, quer eu queira ou não? — perguntou Payson.
— Não como executor. Como executor, o senhor é absolutamente obrigado a cumprir os termos do testamento e a ignorar qualquer outra coisa. Deve preservar a herança intacta e entregá-la sem prejuízo ao legatário residual! — repetiu Tutt.
— Mas eu sou o legatário residual! — disse Payson.
— Como executor, o senhor tem de pagá-lo na totalidade a si próprio como legatário residual! — repetiu Tutt obstinadamente, evitando a questão.
— Bem, onde é que isso me deixa? — perguntou o seu cliente.
— Tira-o da sua dificuldade, não é? — perguntou Tutt. — Não crie problemas onde não os há! Não seja — se me permite que diga — um idiota!
Seguiu-se silêncio durante vários minutos, finalmente quebrado pelo advogado, que voltou à carga com vigor renovado.
— Ora, este tipo de coisas acontece a toda a hora. Veja este tipo de caso, por exemplo. A lei só permite que um homem legue uma certa proporção da sua propriedade para caridade — diz que não é correto ele fazê-lo se deixar uma família. Ora, suponha que o seu pai tivesse dado toda a sua propriedade para caridade; sentir-se-ia obrigado a empobrecer-se em benefício de um Lar para Marinheiros Idosos?
— Na verdade — respondeu o desconcertado Payson —, não sei. Mas, de qualquer forma, estou satisfeito por saber que o senhor tem toda a razão e estou tremendamente agradecido. No entanto — acrescentou ele, pensativo —, gostaria muito de saber quem é esta Sadie Burch!
— Se eu fosse o senhor, jovem — aconselhou o advogado sabiamente —, não tentaria descobrir!
O Sr. Payson Clifford deixou os escritórios de Tutt & Tutt mais recalcitrante contra o destino e irritado com a sua família do que quando tinha entrado neles. Descobriu que estava provido de forma muito menos confortável do que esperava, e a impressão desagradável criada pelos supostos parentes paternos no funeral do seu pai tinha sido acentuada pela carta referente a Sadie Burch. Havia algo ainda mais ofensivamente plebeu neles do que no vulgar Weng. Teria sido suficientemente mau ter de considerar a propriedade de pagar uma grande soma a uma senhora que se chamasse por um nome elegante ou, pelo menos, arrojado como Claire Desmond ou Lillian Lamar — mas Sadie! E Burch! Por todos os deuses! Era ignóbil, sórdido. Essa foi uma bela descoberta a fazer sobre o próprio pai!
Enquanto caminhava lentamente pela Quinta Avenida em direção ao seu hotel, deve confessar-se que as suas reflexões sobre a memória daquele pai estavam longe de ser filiais. Disse a si próprio que sempre suspeitou de algo furtivo sobre o velho, que deve ter estado sob obrigações muito incomuns e extraordinárias para com uma mulher a quem desejava que o seu filho entregasse vinte e cinco mil dólares. Era quase metade de toda a sua fortuna! Reduziria o seu rendimento de cerca de quatro mil para quase dois mil! Quanto mais ponderava sobre o assunto, mais os argumentos do advogado pareciam absolutamente convincentes. Os advogados sabiam, de qualquer forma, mais do que as outras pessoas sobre tais coisas. Pagava-lhes pelo conselho, e teria, sem dúvida, de pagar a Tutt pelo dele sobre este mesmo assunto, o que, de alguma forma, parecia ser uma razão bastante boa para segui-lo. Não, ele esqueceria Sadie Burch e a carta para sempre da sua mente. Muito provavelmente ela estaria morta de qualquer forma, fosse ela quem fosse. Quatro mil por ano! Não era um mau rendimento para um solteiro!
E enquanto o nosso inocente jovem Lancelot, caminhando para a zona alta, endurecia o seu coração contra Sadie Burch, por acaso essa senhora figurou numa curta mas pungente conversa entre o Sr. Ephraim Tutt e a Srta. Minerva Wiggin, no limiar da sala da qual ele tinha acabado de sair.
A Srta. Wiggin nunca confiava em ninguém a não ser em si própria para fechar os escritórios, nem mesmo no Sr. Tutt, e nesta noite em particular ela tinha feito disso uma desculpa para ficar depois de os outros terem ido para casa e emboscá-lo. Tais encontros não eram de modo algum pouco frequentes e tinham geralmente uma relação com o aspeto ético de algum curso de procedimento legal proposto por parte da firma.
A Srta. Minerva considerava Samuel Tutt como moralmente uma criatura abandonada e irremediável. O Sr. Ephraim Tutt, ela amava-o com uma devoção rara entre um sexo com o qual a devoção é felizmente um traço comum, mas havia uma qualidade maternal no seu afeto, explicada pelo facto de que, embora o Sr. Tutt fosse, de facto, um homem de idade, ele tinha ocasionalmente uma perversidade élfica e brincalhona que era singularmente juvenil, momentos em que ela sentia ser obrigatório, para o seu próprio respeito, chamá-lo à ordem. Assim, sempre que Tutt parecia estar a incubar alguma evasão da lei que parecia mais subtilmente plausível do que o habitual, ela fazia questão de chamar a atenção do Sr. Tutt para tal. Além disso, sempre que, como no presente caso, ela sentia que, ao seguir o conselho dado pelo membro mais jovem da firma, um cliente estava prestes a embarcar em algum empreendimento duvidoso ou curso de conduta questionável, ela esforçava-se por contrariar a sua influência apelando ao chefe da firma.
Durante a entrevista entre Tutt e Payson Clifford, a porta estivera aberta e ela tinha ouvido tudo; além disso, depois de Payson ter ido embora, Tutt tinha-a chamado e revisto a situação com ela. E ela considerava o conselho de Tutt ao seu cliente — não o aspeto puramente legal, mas a parte pessoal e persuasiva — como uma interferência com a liberdade de consciência daquele jovem cavalheiro.
— Valha-me Deus! — não sabia que ainda estava aqui, Minerva! — exclamou o seu empregador quando ela o confrontou no escritório exterior. — Há algo que a preocupa?
— Nada de perigoso! — respondeu ela com um sorriso. — E talvez não seja da minha conta...
— O meu negócio é o seu negócio, minha querida! — respondeu ele. — Sem si, a Tutt & Tutt não seria a Tutt & Tutt. O meu sócio júnior pode ser os olhos e as pernas da firma e eu talvez seja alguma outra parte da sua anatomia, mas a senhora é o seu coração e a sua consciência. Desembuche! Que patifaria se avizinha? Que ave de mau agouro paira sobre os escritórios da Tutt & Tutt? Não poupe um velho curvado sob as tristezas deste mundo! Terá o meu astuto associado aconselhado o roubo a um banco ou o rapto do órfão de uma mãe viúva?
— Nada tão mau quanto isso! — retorquiu ela. — É apenas que o Sr. Samuel Tutt usou a sua influência esta tarde para tentar persuadir um jovem a não cumprir os desejos do seu pai — expressos de uma forma juridicamente ineficaz — e penso que ele conseguiu... embora não tenha a certeza.
— Deve ter sido Payson Clifford — respondeu o Sr. Tutt. — Quais eram os desejos paternos?
— O Sr. Tutt encontrou uma carta junto ao testamento na qual o pai pedia ao filho que desse vinte e cinco mil dólares a uma Srta. Sadie Burch.
— Srta. Sadie Burch! — repetiu o Sr. Tutt. — E quem é ela?
— Ninguém sabe — disse a Srta. Wiggin. — Mas, seja quem for, a nossa responsabilidade termina ao aconselhar o Sr. Payson Clifford de que a carta não tem efeito legal. O Sr. Tutt foi mais longe e tentou induzir o Sr. Clifford a não respeitar o pedido nela contido. Isso, parece-me, é ir longe demais. Não acha?
— Tem a certeza de que nunca ouviu falar desta Srta. Burch? — perguntou subitamente o Sr. Tutt, observando-a atentamente por baixo das suas sobrancelhas espessas.
— Nunca — respondeu ela.
— H'm! — exclamou o Sr. Tutt. — Uma mulher no caso!
— Que tipo de rapaz é este Payson Clifford? — inquiriu a Srta. Wiggin após um momento.
— Oh, não é grande coisa! — respondeu o Sr. Tutt de forma caprichosa.
— E como era o pai? — continuou ela, com a curiosidade típica de uma mulher.
— Ele também não era grande coisa, evidentemente — respondeu o Sr. Tutt.
Já tivemos anteriormente a ocasião de comentar o facto de que nenhum cliente, homem ou mulher, consulta um advogado a respeito do que deve fazer. As mulheres, tendo muitas vezes decidido fazer aquilo que não deveriam, tentam obter a aprovação do conselho para o pecado contemplado; mas, embora um advogado seja por vezes chamado a fortalecer uma consciência culpada, raramente é ele sinceramente convidado a agir como conselheiro espiritual. A maioria dos homens, sendo pior do que os seus advogados, prefere não ser descoberta por estes. Se tomaram a decisão de fazer algo vil, não querem correr o risco de que o seu advogado os envergonhe a ponto de desistirem. Isso é assunto deles. E deve sê-lo! A lei apresenta problemas suficientemente perplexos para o advogado sem que este tenha de procurar problemas nas complexidades duvidosas da moral dos seus clientes! De qualquer forma, essa é a maneira regulamentar como um advogado encara o assunto e é essa a forma de manter os seus clientes. Faça o que lhe é instruído — desde que não seja demasiado grosseiro! Questione a propriedade do seu curso de ação e, embora o seu cliente possa seguir o seu conselho nesta única instância, provavelmente não voltará.
O aspeto paradoxal da questão com o Sr. Tutt era que, embora fosse conhecido como um advogado criminalista, sempre que lhe pediam conselhos, ele preocupava-se tanto com o dever moral do seu cliente quanto com o seu dever legal. A razão bastante subtil para isto encontrava-se provavelmente no facto de, uma vez que achava a lei tão fácil de contornar, preferir ignorá-la inteiramente como uma sanção de conduta e limitar-se a perguntar a si mesmo: "Bem, será isto o que um desportista e um cavalheiro faria?" O facto de um homem ser tecnicamente um criminoso não significava nada para ele; o que o interessava era se o homem era ou não um homem "vil". Se fosse, que se lixe! Numa palavra, ele aplicava a qualquer situação dada a lei como ela deveria ser e não a lei como ela era. Um teste muito fácil e flexível! dirá você, sarcasticamente. Pensa mesmo assim? Podem existir quarenta leis diferentes sobre o mesmo assunto em outros tantos estados da nossa união política, mas quantos pontos de vista diferentes sobre uma única questão moral encontraria entre outros tantos cidadãos? O código moral das pessoas decentes é praticamente o mesmo em todo o globo terrestre e, fundamentalmente, não mudou desde os dias de Hamurabi. As ideias dos cavalheiros e desportistas sobre o que "se faz" e "não se faz" não mudaram desde que Fábio Túlio apanhava narcejas nos pântanos pontinos.
O Sr. Tutt era um excêntrico sobre este tema geral e levava o seu entusiasmo tão longe que estava sempre a investir, como Dom Quixote, contra algum moinho de vento imaginário, arrastando um muito relutante Sancho Pança atrás de si, sob a forma do seu sócio relutante. Além disso, tinha uma simpatia muito aguçada por todo o tipo de párias, considerando a maioria deles vítimas dos pecados dos seus próprios pais ou dos de outrem. Assim, quando soube pela Srta. Wiggin que Tutt tinha presumido interferir nas perspetivas financeiras da desconhecida Srta. Sadie Burch, ficou nitidamente agastado, menos por conta dela, certamente, do que pela do seu cliente, a quem considerava, mais ou menos, sob a sua proteção. E, por sorte, o objeto do seu agastamento, tendo-se esquecido de algo, reentrou inesperadamente no escritório naquele momento para o recuperar.
— Olá, Sr. Tutt! — exclamou ele. — Ainda não foi embora!
O seu sócio sénior olhou-o fixamente, enquanto a Srta. Wiggin se desviava apressadamente para o corredor.
— Olhe aqui, Tutt! — disse o Sr. Tutt. — Não sei exatamente o que tem estado a dizer ao jovem Clifford, ou como tem interferido nos seus assuntos privados, mas se o tem persuadido a ignorar qualquer desejo do seu pai claramente expresso pela sua própria mão e incorporado no seu testamento, foi mais longe do que tem qualquer direito de ir.
— Mas — protestou Tutt —, sabe quão perigoso é intrometer-se em coisas como essa. A nossa experiência mostra certamente que é muito mais sensato deixar a lei resolver todas as questões duvidosas do que tentar adivinhar qual era realmente a intenção testamentária final de um testador morto. Não se lembra do caso Dodworth? Uma consciência hipersensível custou dez mil dólares à nossa cliente viúva! Eu digo: deixe as coisas como estão.
— "Como estão"! "Como estão"! — rosnou o Sr. Tutt. — Vai constituir-se juiz do que é suficiente para a alma de um jovem? Dou-lhe um aviso justo, Tutt: ele ouviu o seu lado, mas antes de terminar, ele vai ouvir o meu também!
Samuel Tutt ficou ligeiramente rosado na região do colarinho.
— Ora, certamente, Sr. Tutt! — gaguejou ele. — Faça-o, com certeza!
— Pode apostar que farei! — respondeu o Sr. Tutt, ajustando o seu chapéu alto.
Passaram-se vários dias, contudo, sem que o assunto fosse mais mencionado, enquanto as medidas adequadas para o inventário do testamento eram tomadas como de costume. O dilema de Payson Clifford não teve qualquer reação legal. Ele tinha tomado uma decisão e ia mantê-la. Tinha ouvido a opinião de um advogado e estava plenamente satisfeito com o que tinha feito. Ninguém ia saber de nada, de qualquer modo. Quando chegasse a altura certa, queimaria a carta de Sadie Burch e esqueceria Sadie Burch. Isto é, ele pensava que ia e que conseguia. Mas — como diz Plauto: "_Nihil est miserius quam animus hominis conscius_."
Veja bem, Payson Clifford, tendo sido enviado para uma boa escola e uma boa faculdade, independentemente de o seu pai ser um canalha ou não, tinha absorvido algum sentido de honra. Por mais que lutasse contra isso, a sombra de Sadie Burch continuava a pairar sobre a sua mente. Havia tantas possibilidades! E se ela estivesse em dificuldades desesperadas? Não seria melhor procurá-la, de qualquer forma? Não, ele definitivamente não queria saber nada sobre ela! E se ela tivesse realmente prestado algum serviço ao seu pai, pelo qual devesse ser recompensada como ele tinha procurado recompensá-la? Estes pensamentos intrometiam-se na atenção de Payson quando ele menos desejava, mas não o levaram a alterar a sua intenção de deitar as mãos a todo o património residual do seu pai e guardá-lo para si. Ele tinha, observe, uma consciência, mas ela não conseguia resistir a vinte e cinco mil dólares reforçados por argumentos jurídicos perfeitamente sólidos.
Não, ele tinha uma boa desculpa para não ser um cavalheiro e um desportista e não pretendia procurar razões para agir de forma diferente. Então, inesperadamente, foi convidado para jantar pelo Sr. Ephraim Tutt numa casa velha, engraçada e em ruínas na West Twenty-third Street, com grades de ferro ornamentadas na varanda, todas cobertas pelos caules murchos de glicínias há muito mortas, e algo aconteceu-lhe. "O Jantar de Vinte e Cinco Mil Dólares de Payson Clifford". Ele não tinha suspeitas, claro, do que estava para vir quando foi lá... foi apenas porque o Sr. Tutt era um dos poucos amigos do seu pai que ele conhecia. E ele tinha em relação ao velho advogado o mesmo tipo de atitude condescendente que tinha tido em relação ao velho. Seria um jantar medíocre, provavelmente seguido por uma noite mortalmente aborrecida com um velho fóssil ranzinza que lhe contaria anedotas intermináveis e divagantes sobre como Nova Iorque era quando havia cabras selvagens no Central Park.
O velho fóssil ranzinza, contudo, não fez qualquer referência à velha Nova Iorque ou às cabras selvagens — o mais próximo que chegou disso foram as "wild oats" (extravagâncias da juventude). Em vez disso, começou a noite lúgubre abrindo um armário na parede da sua biblioteca e revelando três garrafas longas, das quais encheu parcialmente um recipiente de prata brilhante contendo gelo picado. Agitou isto com uma habilidade e vigor surpreendentes, proferindo, entretanto, altos gritos de "Miranda! Traga a hortelã!". Então, uma senhora de cor opulenta em chita — com um sorriso como aquele que tornou a Tia Sallie famosa — tendo aparecido, ofegante, com dois copos grandes e um molho de ervas verdes numa bandeja de prata, o velho fóssil derramou uma decocção fervilhante — da qual apenas a memória perdura — realizou um encantamento sobre cada copo com os verdes odoríferos, sorriu ternamente para o trabalho das suas mãos e comentou com amável hospitalidade: "Bem, meu filho! Fico contente por vê-lo! — Um brinde!"
Quase imediatamente, um magnetismo animal benigno invadiu o peito de Payson Clifford e, a partir do seu peito, estendeu-se pelas suas artérias e veias, as suas arteríolas e vénulas, até às extremidades mais profundas do seu ser. Percebeu num instante que o Sr. Tutt não era um homem comum e que a sua casa não era uma casa comum; e esta impressão intensificou-se quando, sentado à mesa de mogno brilhante do seu anfitrião, com os seus pesados cristais lapidados e a estranha prata antiga, descobriu que Miranda não era uma cozinheira comum. Começou a inflar-se por ter descoberto este Sr. Tutt, que lhe servia suculentas ostras e ensopado de cágado, acompanhados por uma garrafa espumante de Krug 98. Descobriu-se possuidor de um apetite espantoso e de uma sede prodigiosa. As luzes de gás no velho lustre de bronze brilhavam como uma galáxia de sóis radiantes acima da sua cabeça e aqueciam-no de cima a baixo. E depois do cágado, Miranda trouxe um peru selvagem fumegante com duas codornizes assadas no seu interior, servido com geleia de groselha, bolos de arroz e batatas doces fritas em açúcar derretido. Então, como num sonho, ouviu um estouro satisfatório e Miranda colocou um copo alto, de cor âmbar, junto ao seu pulso e encheu-o com o vinho tinto cremoso da antiga Borgonha. Ouviu-se a contar ao Sr. Tutt tudo sobre si próprio — os segredos mais íntimos do seu coração — e viu o Sr. Tutt a ouvir atentamente, quase reverentemente. Percebeu que estava a causar uma impressão espantosa ao Sr. Tutt, que obviamente o considerava um grande homem; e, depois de o manter numa dúvida razoável sobre isso durante algum tempo, admitiu modestamente ao Sr. Tutt que isso era verdade. Depois, bebeu mais alguns copos de Borgonha e comeu uma enorme pilha de waffles cobertos com xarope de ácer. "I'se in town, honey!" O Sr. Tutt tinha crescido vários tamanhos — a sala inteira estava cheia dele. Por fim, tomou café preto e um pouco de vinho do Porto. Era uma ocasião, afirmou... er... sempre bom tempo... ou algo do género... quando bons rapazes se juntavam! Declarou com uma ênfase que era completamente desnecessária, mas que, no entanto, não o perturbou, que havia poucos homens como eles no mundo — homens com a vantagem da educação — homens de ideais. Disse ao Sr. Tutt que o amava. Já não tinha pai e, evidentemente contando com mais entretenimentos semelhantes, queria o Sr. Tutt como um. O Sr. Tutt assentiu generosamente em atuar nessa capacidade e, como primeiro passo, ajudou o seu convidado a subir para a biblioteca, onde abriu a janela alguns centímetros.
De repente, Payson não sabia exatamente como, começaram a falar sobre a vida... e o Sr. Tutt disse, de forma ruminante, que, afinal, as únicas coisas que realmente contavam eram a lealdade, a coragem e a bondade... e que um pouco de simpatia humana estendida, mesmo naquilo que por vezes parecia à primeira vista a direção errada, muitas vezes fazia mais bem — contribuía mais para a verdadeira felicidade — do que a mais eficiente caridade organizada. Falou sobre a solidão da velhice — a solidão inevitável da alma humana —, a sede de afeto diário. E depois desviaram-se para a universidade, e o Sr. Tutt perguntou casualmente se Payson tinha visto muito o seu pai, que, aproveitou para observar, tinha sido um bom tipo de homem de negócios direto, honesto e trabalhador.
Payson, fumando o seu terceiro charuto e tomando de vez em quando um traço de conhaque, começou a pensar melhor sobre o seu velho pai. Realmente não lhe tinha dado a atenção devida. Admitiu-o ao Sr. Tutt — com as primeiras lágrimas genuínas nos seus olhos desde que tinha deixado Cambridge; — talvez, se ele tivesse sido mais para ele... Mas o Sr. Tutt desviou-se novamente — desta vez para a educação universitária; a inestimável função da universidade ser, disse ele, preservar intactos e imaculados, numa era materialista, os ideais espirituais herdados do passado.
Neste sentimento bastante comum, Payson concordou apaixonadamente com ele. Concordou ainda com igual entusiasmo quando o seu anfitrião avançou a doutrina de que, afinal, preservar a própria honra imaculada era a única coisa que importava. Absolutamente! declarou Payson, enquanto permitia que o Sr. Tutt lhe servisse mais um copo de vinho do Porto.
Payson, apesar do ligeiro suor na testa e da visão embaciada em torno dos bicos de gás, começou a sentir-se muito um homem do mundo — não um homem de "seis garrafas" talvez, mas... e riu-se complacentemente... um homem de "duas garrafas". Se tivesse vivido nos bons velhos tempos desportivos, muito provavelmente poderia ter feito melhor. Mas tinha dado conta de duas garrafas cheias, não tinha? O Sr. Tutt respondeu que tinha dado conta delas muito bem, de facto. E com esta abertura, o velho advogado lançou-se no seu tópico favorito... a saber, que só havia dois tipos de homens no mundo — os cavalheiros e aqueles que não o eram. O que tornava um homem um cavalheiro era a galanteria e a lealdade... a prontidão para sacrificar tudo — até a vida — por um ideal. O herói era o sujeito que nunca contava o custo para si próprio. Era por isso que as pessoas veneravam os santos, aclamavam os cavalheiros e admiravam o jogador de coração grande que estava pronto a arriscar a sua fortuna no virar de uma carta. Havia até, afirmou, um elemento de espiritualidade no descuido do jogador em relação ao dinheiro.
Esta teoria interessou muito Payson, que a apoiava fortemente, tendo sempre tido uma secreta e oculta predileção por jogadores. Com base nisso, mencionou Charles James Fox — aí estava um verdadeiro cavalheiro e desportista para si! Nada de piegas — mas um tipo estrondoso, de seis garrafas — com um grande cérebro e um sentido de honra escrupuloso. Sim, senhor! Charley Fox era o tipo certo! Conseguiu insinuar com sucesso que Charley e ele eram da mesma raça. Neste ponto, o Sr. Tutt, tendo cuidadosamente comprometido o seu convidado com um padrão ético o mais afastado possível de um baseado no interesse próprio, abriu a janela mais alguns centímetros, passeou-se até à lareira, acendeu um charuto novo e estendeu as suas pernas compridas em frente ao fogo de carvão marinho como um alongado Colosso de Rodes. Começou a sua traiçoeira contra-minagem do conselho do seu sócio, elogiando Payson por ser um homem cujas palavras, maneiras e aparência o proclamavam perante o mundo como um verdadeiro desportista e um tipo correto. A partir deste prólogo lisonjeiro, deslizou naturalmente para as perspetivas e objetivos de vida do dito tipo correto. Esperava que Payson Clifford, Sénior, tivesse deixado património suficiente para permitir que Payson, Júnior, completasse a sua educação em Harvard? Esqueceu-se, confessou, de quanto montava o resíduo. Depois, virou-se para o fogo, pontapeou-o, sacudiu a cinza da ponta do seu charuto e esperou — a fim de dar ao seu convidado uma oportunidade de recuperar a consciência — pois o Sr. Payson Clifford tinha subitamente mudado de cor, devido ao facto de se ver inesperadamente confrontado com a necessidade de decidir definitiva e imediatamente se ia alinhar com os tipos corretos ou com os de segunda categoria, os cavalheiros ou os canalhas, os C.J. Fox ou os Benedict Arnold da humanidade. Ele não era totalmente a coisa real, um jovem idiota convencido, se quiser, mas, por outro lado, não era de modo algum um mau tipo. Em suma, era muito parecido com todos nós. E não estava pronto para assinar o compromisso ainda. Percebeu que se tinha colocado em desvantagem, mas não se ia comprometer até ter tido uma boa oportunidade de pensar em tudo cuidadosamente. Em trinta segundos, estava sóbrio como um juiz — e um juiz sóbrio, nesse caso.
— Sr. Tutt — disse ele num tom de voz bastante diferente. — Acho que tenho falado muito alto... mais do que realmente sou. O facto é que tenho um problema meu que me está a incomodar muito.
O Sr. Tutt assentiu com compreensão.
— Refere-se a Sadie Burch.
— Sim.
— Bem, qual é o problema? O seu pai queria que lhe desse o dinheiro, não queria?
Payson hesitou. O que estava prestes a dizer parecia tão desonesto, mesmo que tivesse tido origem na Tutt & Tutt.
— Como sei eu realmente o que ele queria? Ele pode ter mudado de ideias uma dúzia de vezes desde que a pôs junto ao testamento.
— Se tivesse mudado, não a teria deixado lá, pois não? — perguntou o Sr. Tutt com um sorriso.
— Mas talvez ele se tenha esquecido completamente disso... não se tenha lembrado de que estava lá — persistiu o jovem, ainda a agarrar-se desesperadamente ao Tutt mais novo. — E se não o tivesse feito, tê-la-ia rasgado.
— Isso poderia ser igualmente verdade para as disposições do seu testamento, não poderia? — retorquiu o advogado.
— Mas — contorceu-se Payson, esforçando-se por recordar os argumentos de Tutt, anteriormente tão convincentes —, ele sabia como um testamento deveria ser executado e, como deliberadamente negligenciou a execução do documento de uma forma legal, não é justo presumir que ele não pretendia que tivesse qualquer força legal?
— Sim — respondeu o Sr. Tutt com inteira equanimidade —, concordo consigo que é justo assumir que ele não pretendia que tivesse qualquer efeito legal.
— Bem, então! — exclamou Payson triunfante.
— Mas — continuou o advogado —, isso não prova que ele não pretendia que tivesse um efeito moral... e que esperava que honrasse e respeitasse os seus desejos, tal como se os tivesse sussurrado ao ouvido com o seu último suspiro.
Havia algo no seu comportamento que, embora cortês, tinha um toque de severidade, que fez Payson sentir-se envergonhado. Percebeu que não se podia dar ao luxo de deixar o Sr. Tutt pensar que ele era um canalha... quando ele era, na verdade, um C.J. Fox. E na sua confusão mental, o seu cérebro entrou em contacto com a única palha lógica em toda a controvérsia.
— Ah! — disse ele com uma suposição de candura. — Nesse caso, eu deveria saber positivamente que eles eram, de facto, os desejos do meu pai.
— Exatamente! — respondeu o Sr. Tutt. — E cumpri-los-ia sem um momento de hesitação.
— Claro! — cedeu Payson.
— Então, toda a questão é se este documento expressa ou não um desejo dele. Esse problema é um problema real, e é para si, e só para si, resolver... e, claro, está na desvantagem de ter um interesse financeiro no resultado, o que o torna duplamente difícil.
— Ainda assim — manteve o rapaz —, quero ser justo comigo mesmo.
"— E para ele — acrescentou o Sr. Tutt solenemente. — O facto de este desejo não estar expresso de modo a ser legalmente obrigatório torna-o ainda mais vinculativo. De certo modo, suponho que isso seja o seu azar. Poderia, talvez, contestar uma disposição no testamento. Não pode contestar isto — nem ignorá-lo, também."
"Não vejo exatamente por que é que isto é mais vinculativo do que uma disposição no próprio testamento!" protestou Payson.
O Sr. Tutt atirou o seu charuto para o lume e tateou à procura de outro na longa caixa sobre a mesa da biblioteca.
"Talvez não seja", concedeu ele, "mas sempre gostei daquela anedota especiosa atribuída a Sheridan, que pagava as suas dívidas de jogo e deixava o alfaiate à espera. Lembra-se dela, claro? Quando o alfaiate exigiu a razão para tal, Sheridan disse-lhe que uma dívida de jogo era uma dívida de honra e a conta de um alfaiate não, uma vez que o seu afortunado adversário na mesa de jogo tinha apenas a sua promessa de pagamento, enquanto o alfaiate possuía uma ação por conta que podia levar a tribunal.
"'Nesse caso!' declarou o alfaiate, 'rasgarei a minha fatura!' o que ele fez, e Sheridan prontamente pagou-lhe. Quer outro trago de conhaque?"
"Não, obrigado!" respondeu Payson. "Está a ficar tarde e tenho de ir. Passei um tempo... er... perfeitamente... fantástico!"
"Tem de voltar em breve!" disse o Sr. Tutt calorosamente, do topo dos degraus lá fora.
Quando Payson chegou ao passeio, olhou para trás com um ar um tanto envergonhado e disse:
"Acha que faz alguma diferença que tipo de pessoa é esta Sadie Burch?"
À luz amarela do candeeiro de rua, pareceu ao estudante como se o rosto do velho tivesse, por um instante, uma fugaz semelhança com o do seu pai.
"Nem uma partícula!" respondeu ele. "Boa noite, meu rapaz!"
Mas Payson Clifford não teve uma boa noite, de forma alguma. Em vez de regressar ao seu hotel, vagueou sem rumo e miserável ao longo da margem do rio. Já não tinha qualquer dúvida quanto ao seu dever. O Sr. Tutt tinha demolido Tutt num sopro — e exposto toda a proposição claramente. Tutt tinha dado, por assim dizer, e o Sr. Tutt tinha retirado. Contudo, disse a si mesmo, não era só isso; o dinheiro era seu por lei e ninguém o poderia privar dele. Por que não ficar quieto e deixar o Sr. Tutt ir para o diabo? Nunca mais precisaria de o ver! E ninguém mais saberia! Vinte e cinco mil dólares? Levaria anos a ganhar uma soma tão impressionante! Além disso, havia dois lados distintos na questão. Não seria Tutt um advogado tão bom como o Sr. Tutt? Não poderia ele decidir corretamente a seu favor quando o tribunal estava igualmente dividido? E Tutt tinha dito enfaticamente que ele seria um tolo se entregasse o dinheiro. À medida que Payson Clifford caminhava pelas sombras das docas, ficou obcecado com um sentimento curioso de que Tutt e o Sr. Tutt estavam ambos ali diante dele; o Sr. Tutt — uma figura alta e benevolente, carregando uma tocha sob a forma de um enorme charuto preto e fumegante que o chamava através da escuridão; e atrás dele Tutt — um diabinho pançudo e vermelho, com chifres e cauda — que o puxava pelo casaco e chilreava: "Não deites fora vinte e cinco mil dólares! A melhor maneira é deixar as coisas como estão e deixar que a lei resolva tudo. Assim não corres riscos!"
Mas, no fim — por volta das seis e quarenta e cinco da manhã — o Sr. Tutt ganhou. Exausto, mas em paz consigo mesmo, Payson Clifford entrou aos tropeções no Harvard Club, na Quarenta e Quarta Rua, pediu três ovos fritos de um lado, duas doses de bacon e uma cafeteira de café, e depois escreveu uma carta que enviou por um mensageiro à Tutt & Tutt.
"Cavalheiros", dizia ela: "Por favor, tomem medidas imediatas para encontrar a Srta. Sarah Burch e entreguem-lhe vinte e cinco mil dólares provenientes da herança residual do meu pai. Estou totalmente convencido de que este era o seu desejo. Regresso a Cambridge hoje. Se for necessário, podem comunicar comigo lá.
"Atenciosamente,
"PAYSON CLIFFORD."
* * * * *
Poder-se-ia supor que um legatário de vinte e cinco mil dólares pudesse ser facilmente encontrado; mas a Srta. Sadie Burch revelou-se uma pessoa muito esquiva. Não cresciam Burches em Hoboken — de acordo com a lista telefónica ou o diretório comercial — e os anúncios repetidos do Sr. Tutt nos jornais daquela cidade não suscitaram qualquer resposta. Três meses passaram e começou a parecer que a senhora tinha morrido ou que se tinha ausentado permanentemente — e que Payson Clifford poderia conseguir manter os seus vinte e cinco mil com a consciência tranquila. Então, um dia de maio, chegou uma carta de uma pequena cidade no centro de Nova Jérsia, da parte de Sadie Burch. Ela tinha, disse, acabado de saber por puro acaso que era objeto de interesse da Messrs. Tutt & Tutt. Infelizmente, não lhe era conveniente ir à cidade de Nova Iorque, mas se pudesse ser-lhes útil, teria todo o prazer, etc.
"Acho que vou dar uma vista de olhos à senhora!" comentou o Sr. Tutt, enquanto olhava através da baía cintilante para as colinas sombrias de Nova Jérsia. "Está um dia maravilhoso, e não há muito para fazer por aqui..."
* * * * *
"Sadie Burch? Sadie Burch? Claro, conheço-a!" respondeu o homem esguio que conduzia o trator ali perto, enquanto inspecionava o automóvel do Sr. Tutt. "Ela vive na segunda casa depois do grande olmo..." e recomeçou a lavrar com um grande estrondo.
A estrada brilhava de branco sob o sol do final da tarde. De ambos os lados estendiam-se quilómetros de campos cuidadosamente cultivados, o campo adormecia, o ar estava quente, mas doce com magnólias, lilases e flores de macieira. A Srta. Burch tinha, obviamente, determinado que, quando se retirasse do mundo dos homens, faria um trabalho completo e não se exporia a nenhuma tentação de regressar — a oito milhas da ferrovia mais próxima. Logo após os olmos, abrandaram junto a uma cerca de ripas brancas que envolvia um jardim antiquado de onde vinha, para o Sr. Tutt, o murmúrio atarefado das abelhas. Depois chegaram a um portão que dava para um caminho de tijolos vermelhos, bordejado de buxos e coberto de musgo, que levava a uma pequena casa branca com toldos às riscas azuis e brancas. Um lagarto verde e dourado pôs a cabeça de fora da sebe e observou o Sr. Tutt com mais curiosidade do que hostilidade.
"A Srta. Sadie Burch mora aqui?" perguntou o Sr. Tutt ao lagarto.
"Sim!" respondeu uma voz feminina alegre vinda da varanda. "Não quer subir ao terraço?"
A voz não era do tipo de voz que o Sr. Tutt imaginara pertencer a Sadie Burch. Mas a senhora no terraço também não era esse tipo de senhora. À sombra do toldo, numa cadeira de balanço confortável, estava sentada uma mulher de cabelos brancos e rosto bondoso, a tricotar um casaco de bebé. Ela olhou para ele com um sorriso amigável.
"Sou a Srta. Burch", disse ela. "Suponho que seja aquele advogado a quem escrevi? Não quer subir e sentar-se?"
"Obrigado", respondeu ele, aproximando-se com um sorriso de resposta. "Só posso ficar uns momentos e estive sentado no automóvel quase todo o dia. Mais vale ir direto ao assunto. Sem dúvida que ouviu falar da morte do Sr. Payson Clifford, Sénior?"
A Srta. Burch pousou o casaco de bebé e os seus lábios tremeram. Depois, as lágrimas brotaram nos seus olhos azuis desbotados e ela tateou apressadamente no seu peito à procura do lenço.
"Tem de me desculpar!" disse ela com uma voz embargada. "Sim, li sobre isso. Ele foi o melhor amigo que tive no mundo — exceto o meu irmão John. O amigo mais bondoso e verdadeiro que já viveu!"
Ela olhou para o pequeno jardim e limpou os olhos novamente.
O Sr. Tutt sentou-se no degrau da porta coberto de musgo ao lado dela.
"Sempre achei que ele era um bom homem", respondeu ele calmamente. "Era um antigo cliente meu — embora não o conhecesse muito bem."
"Devo-lhe esta casa", continuou a Srta. Burch ternamente. "Se não fosse o Sr. Clifford, não sei o que teria sido de mim. Agora que o John morreu e estou sozinha no mundo, este pequeno lugar — com as flores e as abelhas — é tudo o que tenho."
Ficaram em silêncio durante vários momentos. Depois o Sr. Tutt disse:
"Não, não é tudo. O Sr. Clifford deixou uma carta com o seu testamento na qual instruía o seu filho a pagar-lhe vinte e cinco mil dólares. Estou aqui para lhos entregar."
Um ar de perplexidade surgiu no seu rosto, e depois ela sorriu novamente e abanou a cabeça.
"Isso é mesmo a cara dele!" comentou ela. "Mas é tudo um engano. Ele devolveu-me esse dinheiro há cinco anos. Sabe, ele convenceu o John a entrar num tipo de esquema de negócio com ele e perderam tudo o que lá puseram — vinte e cinco mil cada um. Era tudo o que tínhamos. Não foi culpa dele, mas depois de o John morrer, o Sr. Clifford obrigou-me — simplesmente obrigou-me — a deixar que ele devolvesse o dinheiro. Ele deve ter escrito a carta antes disso e esqueceu-se completamente dela!"
Tu também!
"Temos estatutos rigorosos e leis que mais mordem." Medida por Medida, Ato I, Cena 4.
"Sou, além disso, da opinião de que seria melhor para nós não termos [leis] de todo do que tê-las em números tão prodigiosos como temos."
Montaigne. Da Experiência, Capítulo XIII.
A Sra. Pierpont Pumpelly, esposa legítima do Vice-Presidente Pumpelly, da Cuban Crucible, outrora de Athens, Ohio, estava plenamente consciente de que, mesmo que não fosse a coisa mais inteligente na Quinta Avenida, o seu pequeno carro vistoso era. Era, como ela dizia, uma "joia perfeita!" As duas capas de raposa prateada apenas tinham custado oito mil e quinhentos dólares, mas isso não era nada; a Sra. Pumpelly — nas suas meias — custava ao Pierpont pelo menos dez vezes isso todos os anos. Mas ele podia pagá-lo com a Crucible a 791. Portanto, tendo-se mudado de Athens para a metrópole, divertiram-se à grande. Lá em casa, o Pierpont tinha sido simplesmente um P. e sem perguntas feitas sobre o que isso significava; P. Pumpelly. Mas, independentemente do seu passado, o P. tinha agora florescido definitivamente em Pierpont.
Embora o dito Pierpont produzisse os meios, era a sua esposa, Edna, que tratava de os gastar. Ela amava o marido, mas considerava-o socialmente como um certo inconveniente, e a Sociedade era agora, como ela informava toda a gente, o seu "pão de cada dia".
Ela tinha comido o seu caminho diretamente através da refeição — camarote na ópera, banco na Igreja de São Simeão Stylites, Sala de Cristal, saraus musicais, Carusals, entretenimentos hospitalares, Leite Maltado para a França Congelada, Estalagens para Italianos Indigentes, Biscoitos para Belgas Desamparados, jantares, almoços, ceias, toda a coisa; e muitas das pessoas certas tinham aparecido também.
A mosca na pomada da sua felicidade social — e infelizmente tratava-se de uma borboleta extremamente vistosa, de facto — era a sua vizinha da porta ao lado, a Sra. Rutherford Wells, que obstinadamente se recusava a reconhecer a sua existência.
Em casa, em Athens, Edna teria recorrido ao simples expediente de enviar a criada para pedir algo emprestado. Mas aqui não havia nada a fazer. A Sra. Rutherford provavelmente nunca tinha visto o seu próprio chefe de cozinha e a Sra. Pumpelly tinha medo do dela. Além disso, até Edna reconhecia o facto lamentável de que cabia à Sra. Wells visitar primeiro, o que ela não fazia. Uma vez, quando as senhoras tinham saído simultaneamente das suas habitações, a Sra. Pumpelly tinha avançado sorridente alguns passos com uma vénia insinuante, mas a Sra. Wells tinha olhado por cima da sua cabeça e não a tinha visto.
A partir daí, o ferro entrou na alma da Sra. Pumpelly e a sua vida tornou-se fel e absinto, cinzas na sua boca e tudo o resto. Ela propôs-se a vingar-se da gata na primeira oportunidade, mas, de alguma forma, a oportunidade nunca parecia surgir. Ela detestava viver na mesma rua com aquele tipo de pessoa desagradável. E quem era esta mulher Wells? O marido nunca fazia nada a não ser jogar croquet ou algo parecido num clube! Provavelmente era um bêbado — e um libertino. A Sra. Pumpelly convenceu-se rapidamente de que a Sra. Wells também devia ser uma senhora muito indesejável, se não irremediavelmente imoral. De qualquer forma, decidiu que certamente não aceitaria mais nada dela. Mesmo que a Sra. Wells tivesse uma mudança de coração e achasse por bem fazer uma visita, ela simplesmente não a retribuiria! Por isso, quando chegou no carro diminuto e encontrou a limusina desajeitada da Sra. Wells a bloquear a porta, ficou simplesmente furiosa.
"Faça esse homem seguir em frente!" ordenou ela, e Jules buzinou e buzinou, mas a limusina não se mexeu.
Então a Sra. Pumpelly cedeu a um ataque de indignação que a teria deixado orgulhosa mesmo em Athens, Ohio. Deitando fogo pelas ventas, saiu do seu carro e, aproximando-se da limusina, disse ao motorista imperturbável que, mesmo que ele trabalhasse para a Sra. Rutherford Wells, a Sra. Rutherford Wells não era melhor do que ninguém, e que isso não lhe dava o direito de bloquear a rua toda. Ela falou alto, enfaticamente, com raiva, e bem no meio disso o motorista, que não se tinha dignado a olhar na direção dela, pressionou astuciosamente o botão elétrico da sua buzina e fê-la emitir um rosnado baixo e desdenhoso. Então um lacaio abriu a porta da mansão dos Wells e a própria Sra. Rutherford Wells desceu os degraus, e a Sra. Pumpelly disse-lhe na cara exatamente o que pensava dela e ordenou-lhe que afastasse o carro para que o seu pudesse entrar em frente ao vestíbulo.
A Sra. Wells ignorou-a. Deliberadamente — e como se não houvesse tal pessoa como a Sra. Pumpelly no passeio — entrou no seu automóvel e, tendo o motorista ajustado a manta, comentou de uma forma casual, quase indiferente, que, no entanto, fez a Sra. Pumpelly contorcer-se: "Vá ter com o Sr. Hepplewhite, William. Não preste atenção àquela mulher. Se ela fizer mais alguma perturbação, chame um polícia."
E a limusina partiu com um escárnio da Sra. Pumpelly vindo do escape. Mais do que um rei foi destronado por causa muito menor!
* * * * *
"Telefone ao Sr. Edgerton", gritou ela quase para Simmons, o mordomo, "que ele deve vir aqui o mais depressa que puder. Tenho de o ver imediatamente!"
"Muito bem, minha senhora", respondeu Simmons obsequiosamente.
E sem mais delongas, em menos de quarenta minutos, o distinto Sr. Wilfred Edgerton, da Edgerton & Edgerton, advogados da Cuban Crucible e, portanto, atentos a obedecer às ordens das esposas dos seus responsáveis, tinha depositado a sua cartola alta sobre a mesa de mármore renascentista no hall de entrada e estava a entrar na sala de estar Luís XV da Sra. Pumpelly com o ar de um Sir Walter Raleigh a aproximar-se da sua Rainha Isabel.
"Sente-se, Sr. Edgerton!" ordenou a senhora de forma impressionante. "Não, achará a outra cadeira mais confortável; a em que está tem uma protuberância no assento. Como eu estava a dizer ao mordomo antes de chegar, fui insultada e proponho-me a ensinar àquela mulher que ela não pode menosprezar-me, não importa o que custe — e Pierpont diz que o senhor não é nada mole a cobrar."
"Minha cara senhora!" balbuciou o advogado embaraçado. "Claro, há advogados e advogados. Mas se deseja o melhor, sinto-me seguro de que a minha firma não cobra mais do que outras de igual posição. Em qualquer caso, pode estar assegurada da nossa dedicação aos seus interesses. Agora, quais são, posso perguntar, as circunstâncias do caso?"
"Sr. Edgerton", começou ela, "só quero que escute atentamente o que tenho a dizer. Esta mulher aqui ao lado tem..."
Neste ponto, como o papel é precioso e a senhora loquaz, baixaremos o pano sobre o primeiro ato da nossa comédia jurídica.
* * * * *
"Suponho que teremos de o fazer por ela!" rosnou o Sr. Wilfred Edgerton ao seu irmão no seu regresso ao escritório. "Ela é uma idiota louca e receio muito que nos envolvamos todos numa boa dose de publicidade indesejável. Ainda assim, é a esposa do vice-presidente do nosso cliente que melhor paga!"
"O que é que ela quer que façamos?" perguntou o Sr. Winfred, o outro Edgerton. "Não nos podemos dar ao luxo de ser ridicularizados — por ninguém."
Isto era bem verdade, uma vez que a dignidade era o ponto forte da Edgerton & Edgerton, sendo eles o tipo de advogados de Wall Street que se diz dormirem com as suas cartolas e sobretudos.
"Se consegues imaginar", respondeu o irmão irritado, "ela insiste que prendamos a Sra. Wells por obstruir a rua em frente à sua casa. Perguntou-me se não era contra a lei, e arrisquei e disse-lhe que era. Depois quis partir imediatamente para o tribunal da polícia, mas como nunca tinha estado num, disse que teríamos de preparar os documentos; eu não sabia que documentos."
"Mas não podemos prender a Sra. Wells!" expostulou o Sr. Winfred Edgerton. "Socialmente, ela é uma das nossas pessoas mais proeminentes. Jantei com ela ainda na semana passada!"
"É por isso que a Sra. Pumpelly quer que ela seja presa, imagino!" respondeu o Sr. Wilfred sombriamente. "A Sra. Wells deu-lhe o tratamento do gelo. Não adianta; tentei demover a velha senhora disso, mas não consegui. Ela sabe o que quer e tenciona muito bem obtê-lo."
"Desejo-te felicidades com ela!" retorquiu melancolicamente o Edgerton mais jovem. "Mas o problema é teu. Não te posso ajudar. Nunca mandei prender ninguém e não faço a mínima ideia de como proceder."
"Nem eu", admitiu o irmão. "Felizmente a minha prática não tem sido desse género. Contudo, não deve ser uma questão difícil. O principal é saber exatamente por que estamos a tentar prender a Sra. Wells."
"Porque não reteres a Tutt & Tutt para o fazer por nós?" sugeriu Winfred. "Advogados criminais estão habituados a todo esse tipo de negócio sujo."
"Oh, não daria para deixar que Pumpelly suspeitasse que não podíamos tratar disso nós mesmos. Além disso, a senhora quer um advogado distinto para a representar. Não, por uma vez, temos de pôr a dignidade de lado. Acho que vou enviar o Maddox ao Edifício dos Tribunais Criminais e pedir-lhe que descubra exatamente o que fazer."
Pode parecer notável que nenhum dos membros de uma firma de advogados de classe alta na cidade de Nova Iorque tenha alguma vez estado num tribunal de polícia, mas tal situação não é de modo algum pouco frequente. O advogado do condado ou da pequena cidade conhece o seu negócio de cima a baixo. Começa com agressões e ofensas corporais, pequenos furtos e casos de cobrança, e gradualmente abre caminho, por assim dizer, até ao homicídio e reorganizações empresariais. Mas em Wall Street, o jovem estudante cuja ambição é aparecer perante o Supremo Tribunal dos Estados Unidos em alguma questão constitucional o mais rapidamente possível, tende a passar os seus primeiros anos a escrever sumários e depois torna-se especialista em direito imobiliário, corporativo, marítimo ou sucessório e talvez nunca chegue a ver o interior de um tribunal de primeira instância, quanto mais um tribunal de polícia, que, para os pobres e ignorantes, pelo menos, é o mais importante de todos, uma vez que é aqui que o cidadão tem de ir para fazer valer os seus direitos quotidianos.
O Sr. Wilfred Edgerton suspeitava que o tribunal de um magistrado era um buraco sujo, cheio de advogados vigaristas e barulhentos, e não queria saber mais sobre esses lugares do que o necessário. Teoricamente, ele tinha consciência de que, com uma queixa devida, jurada por uma pessoa que se considerasse criminalmente ofendida, o juiz emitiria um mandado para um oficial, que o executaria na pessoa do criminoso e o levaria para a cadeia. A ideia de a Sra. Wells ser arrastada a gritar pela Quinta Avenida ou ser levada da sua casa num carro prisional enchia-o de consternação.
No entanto, era isso que a Sra. Pumpelly propunha que fosse feito, e infelizmente ele tinha de fazer exatamente o que a Sra. Pumpelly dizia; rapidamente também.
"Maddox", chamou ele para um jovem tímido com uma pala verde que estava sentado numa solidão grandiosa na espaçosa biblioteca, "vá até ao... er... tribunal do magistrado na Rua Blank e verifique o procedimento adequado para punir uma pessoa por obstruir a via pública. Se encontrar um estatuto ou regulamento apropriado, pode apresentar uma denúncia contra a Sra. Rutherford Wells por o ter violado esta tarde em frente à residência ao lado da dela; e veja que o processo adequado seja emitido da forma regular."
Ao ouvi-lo, pensar-se-ia que ele fazia coisas assim diariamente antes do pequeno-almoço — tal é o efeito do jargão jurídico.
"Sim, senhor", respondeu Maddox respeitosamente, tomando nota. "Deseja que o mandado seja retido ou executado?"
O Sr. Wilfred Edgerton mordeu o bigode com dúvida.
"Bem", respondeu ele após um longo tempo, percebendo que se encontrava à beira de um Rubicão legal, "pode fazer o que parecer aconselhável dadas todas as circunstâncias."
No seu estado de nervosismo, ele não se recordou do que, se tivesse parado calmamente para considerar o assunto, teria de saber muito bem — a saber, que nenhum mandado poderia ser emitido a menos que a Sra. Pumpelly, na qualidade de queixosa, assinasse e prestasse juramento sobre a denúncia ela própria.
"Muito bem, senhor", respondeu Maddox, no mesmo tom e maneira que teria usado se fosse o segundo lacaio da Sra. Pumpelly.
Dali em diante, ambos os Edgerton, mas particularmente Wilfred, passaram uma hora miserável. Deram-se conta de que tinham começado algo e não faziam ideia de onde, como ou quando o que tinham começado iria parar. De facto, tiveram visões aterrorizantes da Sra. Wells a ser espancada até à inconsciência, se não reduzida a polpa, por uma coorte de oficiais de polícia brutais, e de eles próprios serem responsabilizados pessoalmente. Mas antes que qualquer coisa desse género realmente acontecesse, Maddox regressou.
"Bem", inquiriu Wilfred com uma suposição de indiferença, "o que descobriu?"
"O magistrado disse que teríamos de apresentar o pedido no tribunal do distrito onde a infração ocorreu e que a Sra. Pumpelly teria de comparecer lá pessoalmente. Obstruir a via pública é uma violação da Secção Dois do Artigo Dois dos Regulamentos do Departamento de Polícia para o Tráfego Rodoviário, que reza: 'Um veículo à espera no passeio deve ceder prontamente a passagem a um veículo que chegue para apanhar ou deixar passageiros.' Não é habitual emitir um mandado em tais casos, mas apenas uma convocatória."
"Ah!" suspiraram ambos os Edgerton com grande alívio.
"Sobre a qual o arguido deve comparecer sob pena de multa ou prisão", continuou Maddox.
Os dois advogados olharam um para o outro interrogativamente.
"Trataram-no... er... com polidez?" perguntou Wilfred com curiosidade.
"Oh, suficientemente bem", respondeu o empregado. "Não posso dizer que seja um lugar onde anseio ter muito a ver. Não é como uma festa de chá da tarde. Mas está tudo bem. Deseja que eu faça mais alguma coisa?"
"Sim!" replicou Wilfred com ênfase, "desejo. Quero que vá diretamente a casa da Sra. Pumpelly, conduza essa senhora ao tribunal de polícia mais próximo e faça com que ela própria preste juramento para a convocatória contra a Sra. Wells. Telefonar-lhe-ei a dizer que está a caminho."
O que foi uma conclusão sensata, tendo em conta o facto de que Edna Pumpelly, nascida Haskins, estava muito mais bem equipada pela natureza para lidar com o Sr. Wilfred Edgerton nos ambientes agitados de um tribunal de polícia do que ele estava qualificado para lidar com ela. E foi assim que, exatamente quando a Sra. Rutherford Wells estava prestes a sentar-se para o chá com várias amigas da alta sociedade, o seu mordomo entrou, trazendo sobre uma salva um papel impresso, que lhe apresentou, na forma e maneira seguinte:
TRIBUNAL DO MAGISTRADO DA CIDADE, CIDADE DE NOVA IORQUE
Em nome do povo do Estado de Nova Iorque Para "Jane" Wells, sendo o nome "Jane" fictício:
É por este meio convocada a comparecer perante o Tribunal do Magistrado do Distrito ------, Bairro de Manhattan, Cidade de Nova Iorque, no oitavo dia de maio de 1920, pelas dez horas da manhã, para responder à acusação feita contra si por Edna Pumpelly por violação da Secção Dois, Artigo Dois dos Regulamentos de Tráfego que dispõem que um veículo à espera no passeio deve ceder prontamente a passagem a um veículo que chegue para apanhar ou deixar passageiros, e, em caso de não comparência no tempo e local aqui mencionados, está sujeita a uma multa não superior a cinquenta dólares ou a prisão não superior a dez dias, ou ambas.
Datado de 6 de maio de 1920.
JAMES CUDDAHEY, Oficial de Polícia,
Esquadra de Polícia ------, Cidade de Nova Iorque.
Atesto: JOHN J. JONES, Magistrado Chefe da Cidade.
"Céus!" exclamou a Sra. Wells ao ler este documento formidável. "Que mulher horrível! O que hei de fazer?"
O Sr. John De Puyster Hepplewhite, um dos homens mais simpáticos de Nova Iorque, que ele próprio já tinha tido uma experiência algo interessante nos tribunais criminais relacionada com a detenção de um vagabundo que se tinha ido deitar numa cama de seda cor-de-rosa na mansão Hepplewhite na Quinta Avenida, sorriu de forma desdenhosa, pousou a sua chávena de porcelana de Dresden e limpou o bigode decorosamente com um guardanapo de filigrana.
"Cara senhora", observou ele com convicção, "em circunstâncias tão aflitivas, não hesito de todo em aconselhá-la a consultar o Sr. Ephraim Tutt."
* * * * *
"Tenho estado a pensar sobre o que disse outro dia em relação à relação do crime com o progresso, Sr. Tutt, e sou da opinião de que é uma asneira", anunciou Tutt enquanto caminhava do seu próprio escritório para o do seu sócio sénior para uma chávena de chá, praticamente no mesmo momento em que o Sr. Hepplewhite aconselhava a Sra. Wells. "No vernáculo... treta."
"O que é que ele disse?" perguntou a Srta. Wiggin, lavando com água quente a chávena de porcelana azul especial de Tutt, no fundo da qual se tinha acumulado algum pó castanho-avermelhado dos Relatórios de Almirantado e Divórcio de Mason & Welsby na prateleira adjacente.
"Ele defendeu o ponto", respondeu Tutt, servindo-se de uma fatia de torrada, "de que o crime era — se me é permitida a figura — parte do impulso progressivo da humanidade em direção a uma nova e talvez melhor ordem social; um impulso natural para rebelar-se contra abusos existentes; e afirmou que, embora um revolucionário mal-sucedido fosse naturalmente considerado um criminoso, por outro lado, se fosse bem-sucedido, tornar-se-ia imediatamente um patriota, um herói, um estadista ou um santo."
"Uma doutrina geral muito perigosa, diria eu", observou a Srta. Wiggin. "Eu pensaria que tudo dependia contra que tipo de leis ele se estava a rebelar. Não vejo como um assassino poderia ser visto como alguém que ajuda no impulso progressivo em direção à doçura e à luz, exatamente."
"Não dependeria um pouco de quem se estaria a assassinar?" inquiriu o Sr. Tutt, conseguindo finalmente a sua tentativa de manter um charuto húmido em estado de combustão. "Se assassinasse um tirano, não estaria a contribuir para o progresso?"
"Não", replicou a Srta. Wiggin, "não estaria; e sabe-o. Em certos casos em que as leis são manifestamente injustas, antiquadas ou talvez não representem realmente o sentido moral da comunidade, a sua violação pode ocasionalmente chamar a atenção para o seu absurdo, como as famosas leis puritanas de Connecticut, por exemplo; mas como as leis, no seu conjunto, cristalizam a opinião geral do que é correto e desejável em matéria de conduta, um movimento em direção ao progresso exibir-se-ia não através da violação das leis, mas através da criação de leis."
"Mas", argumentou o Sr. Tutt, abandonando o seu charuto, "fazer uma nova lei não é a mesma coisa que mudar uma lei antiga? E mudar uma lei não é essencialmente a mesma coisa que quebrá-la?"
"Não é", respondeu a Srta. Wiggin com aspereza. "Pela razão óbvia e simples de que os legisladores que mudam as leis têm o direito de o fazer, enquanto o homem que as quebra não tem."
"Ainda assim", admitiu Tutt, ligeiramente hesitante, "vejo o que o Sr. Tutt quer dizer."
"Oh, eu vejo o que ele quer dizer!" fungou a Srta. Wiggin. "Eu estava apenas a combater o que ele disse!"
"Mas o fazer das leis não demonstra progresso", insistiu perversamente o Sr. Tutt. "Quanto mais estatutos se aprovam, mais isso indica que se precisa deles. Uma comunidade ideal não teria leis de todo."
"Eis um pensamento!" interveio Tutt. "E também não haveria advogados!"
"Como disse o Rei Hal: 'A primeira coisa que fazemos, vamos matar todos os advogados'", comentou o Sr. Tutt.
"Visão terrível!" exclamou a Srta. Wiggin. "Felizmente para nós, esse dia ainda não amanheceu. No entanto, o argumento do Sr. Tutt é flagrantemente falacioso. Claro que a criação de novas leis indica um impulso em direção à melhoria social — e, portanto, em direção ao progresso."
"Parece-me", aventurou-se Tutt, "que esta conversa é mais do que habitualmente teórica — para não dizer especiosa! O facto é que a lei é parte da nossa civilização e o estado da lei marca o estágio do nosso desenvolvimento — mais ou menos."
O Sr. Tutt sorriu sardonicamente.
"Enunciou duas grandes verdades", disse ele. "Primeiro, que é uma 'parte'; e segundo, 'mais ou menos'. A lei é uma parte muito pequena da nossa proteção contra o que nos é prejudicial. É apenas uma das nossas sanções de conduta, e muito rudimentar, por sinal. Alguma vez parou para pensar que, comparada com a religião, a eficácia da lei era quase nula? A lei lida com a conduta, mas apenas num certo ponto. Somos propensos a encontrar-lhe defeitos porque faz o que nos parecem ser distinções arbitrárias e desarrazoadas. Isso deve-se, em grande medida, ao facto de a lei ser apenas suplementar."
"O que quer dizer com... suplementar?" questionou Tutt.
"Ora", respondeu o seu sócio, "como James C. Carter salientou, noventa e nove por cento de toda a lei não está escrita. O que mantém a maioria das pessoas no caminho certo não são os estatutos criminais, mas o seu próprio sentido de decência, consciência ou qualquer nome que lhe queira dar. Sem dúvida que se lembra do famoso ditado de Diógenes Laércio: 'Existe uma lei escrita e uma não escrita. Aquela pela qual regulamos as nossas constituições nas nossas cidades é a lei escrita; aquela que nasce do costume é a lei não escrita.' Eu percebo isso, claro que percebe! Como dizia ainda outro dia, as infrações de bom gosto e de etiqueta, os danos civis, os pecados, os crimes — são em essência um e o mesmo, diferindo apenas em grau. Assim, o homem que vai jantar sem colarinho viola as leis do uso social; se ele se despiu completamente e caminha pelas ruas, comete um crime. Em certa medida, depende simplesmente de quantas roupas ele tem vestidas para determinar que grau de ofensa comete. Desse ponto de vista, o homem que não é um cavalheiro é, em certo sentido, um criminoso. Mas a lei não pode tornar um homem um cavalheiro."
"Eu diria que não!" murmurou a Srta. Wiggin.
"Bem", continuou o Sr. Tutt, "temos várias maneiras de lidar com estes fora da lei. O homem que viola as nossas ideias de bom gosto ou de boas maneiras é enviado para o ostracismo; o homem que lhe faz um mal é condenado a pagar indemnizações; o pecador é mantido debaixo da bomba de água da cidade e expulso da cidade montado numa vara, ou a igreja intervém e ameaça-o com a vida além-túmulo; mas se ele atravessa uma certa linha, prendemo-lo e fechamo-lo — quer por espírito cívico ou para os nossos fins privados."
"Bravo! Bravo!" gritou Tutt admirado.
"Fundamentalmente, existe apenas uma distinção arbitrária entre erros, pecados e crimes. O mais mesquinho e detestável dos homens, ao lado do qual um ladrão honesto é um ser humano simpático, pode, ainda assim, nunca violar um estatuto criminal."
"É verdade!" disse Tutt. "Veja o Badger, por exemplo."
"Quantas vezes defendemos casos", ruminou o seu sócio, "onde o queixoso é tão mau quanto o prisioneiro no banco dos réus — se não pior."
"E, claro", acrescentou Tutt, "tem de admitir que há muitos criminosos que são criminosos por motivos perfeitamente bons. Veja o homem, por exemplo, que surra um transeunte que insulta a sua mulher — a mulher do homem, quero eu dizer, naturalmente."
"Apenas naqueles casos em que decidimos fazer justiça pelas próprias mãos é que deveríamos estar dispostos a aceitar as consequências como cavalheiros e desportistas", comentou o sócio sénior.
"Isto é tudo muito interessante, sem dúvida", observou a Srta. Wiggin, "mas, como informação geral, gostaria de saber porque é que a lei criminal não pune os pecadores — tal como pune os criminosos."
"Suponho que uma razão", respondeu Tutt, "é que as pessoas não desejam ser impedidas de pecar."
"Falaste!" concordou o Sr. Tutt. "E outra razão é que a lei criminal não foi originalmente concebida com o propósito de erradicar o pecado — que, afinal de contas, é o estado em que se diz que o homem nasceu — mas destinava-se apenas a evitar certos tipos de violência física e ilegalidade — homicídio, assalto à mão armada, agressão, e assim por diante. Supunha-se que a igreja tratasse do pecado, e existia um sistema elaborado de tribunais eclesiásticos. Na verdade, embora exista uma grande incompreensão sobre o assunto, a lei criminal não lida com o pecado enquanto pecado, nem sequer com erros meramente enquanto erros. Tem um propósito preciso e limitado — a saber, evitar certos tipos de atos e compelir a execução de outros atos.
"O estado confia no bom gosto e no sentido de decência, dever e justiça do cidadão individual para o manter na ordem a maior parte do tempo. Não tenta, ou de qualquer modo não deveria tentar, lidar com pequenas pecadilhos; geralmente não o conseguiria. Apenas diz que, se a consciência e a ideia de jogo limpo de um homem não forem suficientes para o fazer comportar-se, bem, então, quando ele se torna demasiado turbulento, fechamo-lo. E diferentes gerações tiveram ideias inteiramente diferentes sobre o que era demasiado turbulento para ser ignorado. Nos primeiros tempos, a lei apenas punia o derramamento de sangue e a violência. Mais tarde, o seu âmbito foi aumentado, até que milhares de atos e omissões são agora tornados criminosos por estatuto. Mas isso explica por que o facto de algo ser um pecado não significa necessariamente que seja um crime. A lei é artificial e não fundada em qualquer tentativa geral de proibir o que é pouco ético, mas simplesmente de prevenir o que é imediatamente perigoso para a vida, integridade física e propriedade."
"O que, afinal de contas, é uma coisa boa — pois deixa-nos livres para fazer o que quisermos, desde que não prejudiquemos mais ninguém", disse a Srta. Wiggin.
"No entanto", continuou o seu empregador, "infelizmente — ou talvez felizmente do nosso ponto de vista profissional — os nossos legisladores, de tempos a tempos, ficam um tanto histéricos e aprovam uma tal multiplicidade de estatutos que ninguém sabe se está a cometer um crime ou não."
"Neste estado iluminado", interpôs Tutt, "é crime anunciar-se como advogado de divórcio; arrestar um cadáver para pagamento de dívida; embarcar num comboio enquanto ele está em movimento; plantar ostras sem permissão; ou, sem autoridade, usar o emblema dos Patrons of Husbandry."
"Realmente, ter-se-ia de ser um estudante para evitar tornar-se um criminoso", comentou a Srta. Wiggin.
O Sr. Tutt levantou-se e, olhando ao longo de uma das prateleiras, retirou um volume que abriu num ponto marcado por um fósforo queimado enfiado entre as folhas.
"O meu velho amigo Joseph H. Choate", observou ele, "no seu memorial sobre o seu sócio, Charles H. Southmayde, que era geralmente considerado um dos maiores advogados da nossa ou de qualquer outra geração, diz: 'A lista sempre crescente de delitos menores, criados por estatuto, perturbava-o, e ele até empregava consultores para estarem atentos a tais estatutos introduzidos na legislatura — armadilhas, como ele lhes chamava —, para que não cometesse, sem saber, ofensas que pudessem envolver a pena de prisão'."
"Certamente que vivemos na devassidão da palavra impressa", disse a Srta. Wiggin. "Sabe que só no ano passado, para interpretar todos esses estatutos e decidir os respetivos direitos dos nossos cidadãos, o Supremo Tribunal deste estado escreveu cinco mil e oitocentas páginas de pareceres?"
"Meu Deus!" exclamou Tutt. "É mesmo verdade?"
"Claro que é!" respondeu ela.
"Mas quem é que lê essa coisa?" exigiu o sócio júnior. "Eu não!"
"Os verdadeiros advogados", respondeu a Srta. Wiggin inocentemente.
"Os juízes que as escrevem provavelmente leem-nas", declarou o Sr. Tutt. "E os litigantes derrotados; os bem-sucedidos limitam-se a ler os parágrafos finais."
"Mas voltando ao crime por um momento", disse a Srta. Wiggin, servindo-se de uma segunda chávena de chá; "quase me tinha esquecido de que a lei criminal se destinava originalmente apenas a conter a violência. Isso explica muitas coisas. Confesso ser uma daquelas que inconscientemente assumiu que a lei é uma espécie de Sra. Grundy oficial."
"De modo nenhum! De modo nenhum!" corrigiu o Sr. Tutt. "A lei não faz qualquer pretensão de ser um árbitro de moral. Mesmo onde a justiça está em causa, espera que o mero sentimento da comunidade seja capaz de lidar com pequenas ofensas. As leis da etiqueta e dos modos, concebidas com o 'propósito de manter os tolos à distância', estão razoavelmente adaptadas para impor os ditames do bom gosto e para lidar com ofensas menores contra as nossas ideias de decoro."
"Pergunto-me", aventurou-se a Srta. Wiggin pensativamente, "se não existe alguma lei sociológica sobre os crimes, como a lei dos rendimentos decrescentes na física?"
"A lei de quê?"
"Ora, a lei de que quanto maior a força ou esforço aplicado a qualquer coisa", explicou ela um pouco vagamente, "maior se torna a resistência, até que o esforço não alcança nada; o aumento de velocidade num navio de guerra, por exemplo."
"O que é que isso tem a ver com o crime?"
"Ora, quanto mais estatutos se aprovam e mais novos crimes se criam, mais difícil se torna impor a obediência a eles, até que, finalmente, não se consegue impô-los de todo."
"Essa é uma analogia bastante profunda", observou o Sr. Tutt. "Poderia muito bem compensar o estudo."
"A Srta. Wiggin não tem o exclusivo das analogias", chilreou Tutt. "Aprovar estatutos criando novos crimes é como imprimir papel-moeda sem nada que o suporte; num caso, não há realmente mais dinheiro do que havia antes, e no outro também não há realmente mais crime."
"Só que gera mais negócio para nós."
"Tenho outra ideia", continuou Tutt alegremente, "e é que o crime é uma coisa boa. Não porque signifique progresso ou qualquer treta desse género, mas porque, a menos que se tivesse uma certa quantidade de crime, e também advogados criminais para atacar a lei, o estado nunca descobriria as fraquezas nos seus estatutos. Portanto, quanto mais crime houver, mais o poder protetor do estado é construído, tal como a febre gerada pela vacina torna o corpo humano imune à varíola! Eh, quê?"
"Nunca ouvi tal disparate!" exclamou a Srta. Wiggin. "Deixe-me dar-lhe mais chá! Eh, quê?"
Mas nesse momento Willie anunciou que o Sr. Rutherford Wells estava a pedir para ver o Sr. Tutt e o chá foi apressadamente interrompido. Meia hora depois, o velho advogado tocou a campainha para chamar Bonnie Doon.
"Bonnie", disse ele, "uma das nossas clientes recebeu uma queixa da sua vizinha do lado, uma senhora que enriqueceu depressa, por obstruir a rua com o seu automóvel. É obviamente um caso de inveja social, ódio e malícia. Dê lá um salto amanhã, examine a Sra. Pierpont Pumpelly e as suas instalações e informe-me de quaisquer violações que por acaso observe. Não me importa quão técnicas sejam, também."
"Está bem, Sr. Tutt", respondeu Bonnie. "Entendido. Não existe uma nova portaria que rege o enchimento dos caixotes do lixo?"
"Penso que existe", anuiu o Sr. Tutt. "E, entretanto, acho que vou dar um salto e ver o Juiz O'Hare."
* * * * *
"Vou acabar com ela, a meretriz!" declarou a Sra. Pumpelly ao seu marido ao jantar na noite seguinte. "Vou ensiná-la a insultar pessoas decentes e a violar a lei. Só porque o marido pertence a um clube de elite, ela pensa que pode fazer o que lhe apetece! Mas vou mostrar-lhe! Espere até a ter no tribunal amanhã!"
"Bem, claro, Edna, eu dar-te-ei cobertura e tudo isso", assegurou-lhe Pierpont. "Não, obrigado, Simmons, não quero mais 'vol-au-vent'. Mas detestaria ver-te metida em sarilhos num tribunal de polícia!"
"Eu... metida em sarilhos!" exclamou ela altivamente. "Acho que me consigo cuidar em quase qualquer lugar — e muito bem!"
"Claro que consegues, querida!" protestou ele num tom tranquilizador. "Mas estes advogados de pacotilha que andam por esses lugares... lembras-te do Jim O'Leary lá em casa, em Atenas? Bem, eles não reconhecem uma dama quando a veem, e não se importariam se a reconhecessem; e tentarão bisbilhotar a tua vida passada..."
"Eu não tenho vida passada, e tu também o sabes, Pierpont Pumpelly!" retorquiu ela calorosamente. "Sou uma mulher respeitável, cumpridora da lei, eu sou. Nunca quebrei uma lei em todos os meus dias..."
"Com licença, senhora", interpôs Simmons, com quem o segundo lacaio tinha acabado de ter uma conferência sussurrada atrás do biombo, "mas James informa-me que há um oficial de polícia à espera para vê-la no átrio da frente."
"Para me ver?" exclamou a Sra. Pumpelly.
"Sim, senhora."
"Suponho que seja sobre amanhã. Diga-lhe para aparecer por volta das nove horas da manhã."
"'Ele diz que tem de a ver esta noite, senhora", anotou James excitadamente. "E portou-se de forma muito 'obnoxiosa' comigo!"
"Oh, portou-se de forma obnoxiosa, pois foi?" observou a Sra. Pumpelly despreocupadamente. "Sobre o que é que ele foi obnoxioso?"
"'Ele tem um papel que diz que quer servir-lhe pessoalmente", respondeu James em agitação. "'Ele diz que se a senhora lhe permitir entrar na sala de jantar, ele não levará um minuto."
"Talvez seja melhor deixá-lo entrar", sugeriu Pierpont suavemente. "É sempre melhor mantermo-nos em bons termos com a polícia."
"Mas eu não quebrei nenhuma lei", repetiu a Sra. Pumpelly, inexpressiva.
"Talvez tenha quebrado sem saber", comentou seu marido.
"Ora, Pierpont Pumpelly, você sabe que eu jamais faria tal coisa!" retorquiu ela.
"Bem, de qualquer modo, vamos deixá-lo entrar", insistiu ele. "Não consigo digerir minha comida com ele parado ali no corredor."
A Sra. Pumpelly assumiu o controle da situação.
"Faça o homem entrar, Simmons!" ordenou ela com imponência.
E logo em seguida entrou o policial Patrick Roony. Polidamente, o oficial Roony removeu seu quepe, polidamente desabotoou vários metros de sobretudo azul e tateou nas cavernas sob ele. Eventualmente, ele trouxe à luz uma folha de papel quadrada — que tinha um certo aspecto familiar para a Sra. Pumpelly — e entregou-lha.
"Desculpe incomodá-la, madame", desculpou-se ele, "mas recebi instruções para me certificar de servi-la pessoalmente."
"Está tudo bem! Está tudo bem!" disse Pierpont com um esforço de bonhomie. "O... er... mordomo lhe dará um highball se você pedir."
"Ah, rapaz, leve-me até ele!" murmurou Roony da maneira mais aprovada da East Fourteenth Street. "Por onde?"
"Venha comigo!" entoou Simmons com o gesto exaltado de um arcebispo conduzindo uma cerimônia eclesiástica.
"O que diz aí?" perguntou seu marido apressadamente enquanto o mordomo guiava o tira até a bebida.
"Shiu!" advertiu a Sra. Pumpelly. "James, retire-se, por favor!"
James retirou-se, e a dama examinou o papel sob a luz temperada das velas sombreadas que cercavam o que restava do "voly vong".
"Quem já ouviu falar de tal coisa?" gritou ela. "Escute só, Pierpont!"
"TRIBUNAL DO MAGISTRADO DA CIDADE, CIDADE DE NOVA YORK
"Em nome do povo do Estado de Nova York
"Para 'Maggie' Pumpelly, sendo o nome 'Maggie' fictício:
"A senhora é por este meio intimada a comparecer perante o Tribunal do Magistrado do Distrito ------, Bairro de Manhattan, Cidade de Nova York, no décimo dia de maio de 1920, às dez horas da manhã, para responder à acusação feita contra si por William Mulcahy por violação da Seção Um, Artigo Dois, dos Regulamentos de Tráfego Policial, pelo fato de que, em 7 de maio de 1920, permitiu que um veículo de sua propriedade ou sob seu controle parasse com o lado esquerdo voltado para o meio-fio em uma rua que não fosse de mão única; e também por violação da Seção Dezessete, Artigo Dois do Capítulo Vinte e Quatro do Código de Portarias da Cidade de Nova York, pelo fato de que, na data supracitada, sendo proprietária de um veículo sujeito à Subdivisão Um da referida seção e nele trafegando, causou ou permitiu que o mesmo prosseguisse a uma velocidade superior a quatro milhas por hora ao fazer a curva de cruzamento de vias, a saber, Park Avenue e Rua Setenta e Três; e, caso não compareça na data e local aqui mencionados, estará sujeita a uma multa não superior a cinquenta dólares ou à prisão não superior a dez dias, ou ambos.
"Datado de 7 de maio de 1920.
"PATRICK ROONY, Policial,
"Distrito Policial ----,
"Cidade de Nova York.
"Atesto: JOHN J. JONES,
"Magistrado Chefe da Cidade."
"Bem, essa é boa!" explodiu ela. "Que absurdo! Quatro milhas por hora! E 'Maggie'... como se todo mundo não soubesse que meu nome é Edna!"
"A coisa toda parece um pouco falsa para mim!" murmurou Pierpont, preocupado com a possibilidade de ter desperdiçado uma dose da bebida legítima em um policial ilegítimo. "Talvez aquele sujeito não fosse um tira de verdade!"
"E quem é William Mul-kay-hay?" continuou ela. "Não conheço essa pessoa! É melhor você ligar para o Sr. Edgerton imediatamente e ver qual é a lei."
"Espero que ele saiba!" rebateu o Sr. Pumpelly. "Quatro milhas por hora... isso é uma piada! Um carrinho de bebê vai mais rápido que quatro milhas por hora. Você não prenderia um bebê!"
"Bem, ligue para ele!" ordenou a Sra. Pumpelly. "Diga-lhe para vir direto para cá."
A intimação de sua cliente interrompeu o Sr. Edgerton no meio de um jantar caro em seu clube, e ele saiu de lá sem o menor bom humor. Ele não gostava de ser mandado para lá e para cá como um criado, do jeito que a Sra. Pumpelly estava fazendo. Não era digno. Além disso, um advogado fora de seu escritório era como um caracol fora da concha: em uma desvantagem distinta. Não se podia simplesmente dar uma desculpa para entrar no escritório ao lado por um momento e perguntar a alguém qual era a lei. Os Edgertons sempre mantinham alguém em um escritório adjacente que conhecesse a lei — muitos advogados fazem isso.
Na escadaria dos Pumpelly, o advogado encontrou um indivíduo de aparência maligna e muito maltrapilho segurando um papel na mão, mas ignorou-o até que a porta de ferro grelhado do cinquecento se abriu, revelando James, o segundo criado que se retirava.
Então, antes que ele pudesse entrar, a pessoa maltrapilha empurrou-o e perguntou em um tom alto e vulgar: "Edna Pumpelly mora aqui?"
James enrijeceu-se no estilo aprovado de vertebrado ereto.
"Esta é a residência da Madame Pierpont Pumpelly", respondeu ele com altivez.
"Madame ou não madame, apenas entregue isto a ela", disse o maltrapilho. "Dias felizes!"
O Sr. Wilfred Edgerton, sob a tapeçaria medieval do saguão de mármore dos Pumpelly, olhou para a folha suja na mão de James e, embora não estivesse familiarizado com a forma do documento, percebeu que se tratava de uma intimação emitida a pedido de um certo Henry J. Goldsmith, com retorno marcado para o dia seguinte, por violar a Seção Duzentos e Quinze do Artigo Doze do Capítulo Vinte das Portarias Municipais por manter e cuidar de um certo pássaro, a saber, uma cacatua, que com seu barulho perturbava o sossego e o repouso de uma certa pessoa nas redondezas, em detrimento da saúde de tal pessoa, a saber, Henry J. Goldsmith, supracitado, e, caso ela falhasse em comparecer, e assim por diante.
Wilfred tinha uma ideia vaga sobre uma lei referente à criação de pássaros, mas não conseguia lembrar exatamente qual era. Havia algo incongruente no fato de a Sra. Pierpont Pumpelly manter uma cacatua. O que alguém quereria com uma cacatua? Ele concluiu que deveria ser uma herança ancestral de Athens, Ohio. Nervosamente, ele subiu as escadas para o que Edna chamava de salão.
"Então você finalmente chegou!" gritou ela. "Bem, o que você tem a dizer sobre isso? É contra a lei fazer uma curva a mais de quatro milhas por hora?"
Ora, ao passo que o Sr. Wilfred Edgerton poderia ter explicado à Sra. Pumpelly a "regra no caso de Shelly" ou a doutrina de *cy pres*, ele nunca tinha lido o código de obras, as portarias de saúde ou os regulamentos de tráfego, e, no presente caso, estes últimos eram pertinentes, enquanto os primeiros não. Assim, ele se viu diante da alternativa desagradável de admitir sua ignorância ou blefar. Ele escolheu a segunda opção, imprudentemente.
"Claro que não! Absurdo total!" respondeu ele alegremente. "A velocidade permitida por lei é de pelo menos quinze milhas por hora."
"Com licença, madame", disse James, aparecendo mais uma vez na porta. "Um homem acaba de deixar este... er... papel na entrada da área."
A Sra. Pumpelly arrancou-o de sua mão.
"Bem, essa é o fim da picada!" ela arquejou.
"Para 'Bridget' Pumpelly", começava, "sendo o primeiro nome 'Bridget' fictício:
"A senhora é por este meio intimada a comparecer... por violar a Seção Duzentos e Quarenta e Oito do Artigo Doze do Capítulo Vinte das Portarias de Saúde, pelo fato de que, no dia sete de maio de 1920, deixou de manter um certo recipiente de lata usado para lavagem ou lixo, na forma e formato de um barril, dentro do edifício ocupado e de sua propriedade até o momento adequado para sua remoção e deixou de amarrar, atar e empacotar de forma segura os jornais e outros detritos leves e lixo contidos nele, e, ainda, que causou e permitiu que certos recipientes de lata, na forma e formato de barris, contendo tal lavagem ou lixo, fossem enchidos com tal material a uma altura superior a uma linha dentro de tal recipiente a quatro polegadas do topo."
"E agora, o que você me diz disso?" comentou o vice-presidente da Cuban Crucible para o sócio sênior da Edgerton & Edgerton.
"Não sei nada sobre isso!" respondeu o elegante Wilfred, miseravelmente. "Não conheço a lei do lixo, e não adianta fingir que conheço. É melhor você arranjar um advogado especialista em lixo."
"Eu achava que todos os advogados deveriam conhecer a lei!" bufou a Sra. Pumpelly. "O que é isso que você tem na mão?"
"É outra intimação, por manter um pássaro", respondeu o advogado.
"Um pássaro? Você não supõe que seja o Moses?" exclamou ela indignada.
"O nome do pássaro não é mencionado", disse Wilfred. "Mas é muito provável que seja o Moses, se o Moses lhe pertence."
"Mas eu tenho o Moses desde que era uma menininha!" protestou ela. "E ninguém nunca reclamou dele antes."
"Peço perdão, madame", interpôs Simmons, afastando o arranjo flamengo, no qual estava representado o naufrágio da Armada Espanhola. "O policial Roony está de volta com mais dois papéis. Ele diz que não é necessário que ele a veja novamente, já que uma vez é o bastante, mas ele estava se perguntando se, como está meio frio..."
"Leve-o até lá!" ordenou apressadamente Pierpont, que estava começando a tirar certo proveito da situação. "Mas diga a ele que não precisa voltar."
"Dê isso aqui!" disparou a Sra. Pumpelly, agarrando os documentos. "Isso já é demais! 'Lulu' desta vez. Fictício como sempre. Quem é Julius Aberthaw? Ele diz que eu fiz com que um certo tapete fosse sacudido em tal lugar e de tal maneira que certas partículas de poeira passaram dele para a via pública ou rodovia, a saber, a Rua Setenta e Três Leste, contrariando a Seção Duzentos e Cinquenta e Três do Artigo Doze do Capítulo Vinte das Portarias Municipais. Huh!"
"Qual é o outro?" perguntou seu marido com uma demonstração de simpatia.
"Por violar a Seção Quinze do Artigo Dois do Capítulo Vinte, pelo fato de que, em 7 de maio de 1920, permiti que um certo cão sem focinheira, a saber, um cão spaniel marrom pequinês, estivesse em uma via pública, a saber, a Rua Setenta e Três Leste na Cidade de Nova York. Mas esse era o Randolph!"
"O Randolph estava de focinheira?" perguntou o Sr. Edgerton maliciosamente.
"Claro que não! Ele só pesa dois quilos e duzentos gramas!" protestou a Sra. Pumpelly.
"Mesmo assim, ele consegue morder direitinho!" interpolou Pierpont.
"Mas o que devo fazer?" lamentou a Sra. Pumpelly, agora completamente transtornada.
"Acho que você vai ter que engolir o remédio, assim como outros infratores da lei", comentou seu marido.
"Nunca ouvi falar de leis tão ridículas!"
"O desconhecimento da lei não serve de desculpa para ninguém!" murmurou Wilfred.
"Não serve de desculpa para um advogado!" bufou ela. "Tenho a impressão de que você não sabe muito mais sobre a lei... esse tipo de lei, de qualquer forma... do que eu. Aposto que é contra a lei fazer uma curva a mais de quatro milhas! Quer apostar?"
"Não, não quero!" disparou Edgerton. "O que você precisa é de um advogado de tribunal de polícia... se você vai entrar nessa."
"Meu Deus! O que é agora, Simmons?" ela esbravejou enquanto o mordomo aparecia novamente de forma desculpante com outro papel.
"Acho, madame", respondeu ele calmamente, "que é uma intimação por permitir que o empregado da casa use a mangueira na calçada depois das oito da manhã. O Roony acabou de trazer."
"H'm!" observou o Sr. Pumpelly. "Não o leve até lá novamente!"
"Mas eu não a teria incomodado se não fosse por um jovem cavalheiro que veio com outra referente às jardineiras das janelas."
"O que tem as jardineiras das janelas?" gemeu a Sra. Pumpelly.
"Ele diz", explicou Simmons, "que tem uma intimação para a senhora referente às jardineiras das janelas, mas que se a senhora quiser falar com ele, talvez o assunto possa ser ajustado..."
"Vamos ver a intimação!" exclamou Wilfred, ganhando vida.
"'Para Edna Pumpelly'", leu ele.
"Eles estão ficando mais educados", comentou ela ironicamente.
"'Por violar a Seção Duzentos e Cinquenta do Artigo Dezoito do Capítulo Vinte e Três, pelo fato de que a senhora colocou, manteve e conservou sobre um certo parapeito de janela das instalações agora ocupadas pela senhora na Cidade de Nova York uma jardineira para o cultivo ou retenção de flores, arbustos, vinhas ou outros artigos ou coisas sem que a mesma estivesse firmemente protegida por grades de ferro...'"
"Céus", exclamou o Sr. Pumpelly, "logo aparecerá alguém aqui reclamando que eu não uso o comprimento correto de bastão de barbear."
"Entendo", observou o Sr. Edgerton, "que em um certo estado do Oeste eles regulam o comprimento dos lençóis!"
"Para que serve isso?" perguntou Edna com interesse repentino.
"Sobre ver esse sujeito?" continuou apressadamente o Sr. Pumpelly. "Parece-me que eles pegaram você, Edna!"
"Mas qual é a utilidade de vê-lo?" perguntou ela. "Eu fui intimada, não fui?"
"Por que não ver o homem?" aconselhou o Sr. Edgerton, agarrando alegremente essa possibilidade de distração. "Não pode fazer mal."
"Qual é o nome dele?"
"Sr. Bonright Doon", respondeu Simmons de forma encorajadora. "E ele é um jovem muito agradável de se falar."
"Muito bem", cedeu a Sra. Pumpelly.
Dois minutos depois, "Sr. Doon!" anunciou Simmons.
Embora os amigos de Tutt & Tutt tenham conhecido Bonnie Doon apenas casualmente, eles já viram o suficiente dele para perceber que ele é um jovem promissor, com uma consciência elástica e um sorriso cativante. De fato, os Pumpelly ficaram bastante encantados com seu jeito alegre de "Bem, aqui estamos nós de novo!", além de impressionados com o fato de ele estar vestido com um traje de gala impecável.
"Represento o Sr. Ephraim Tutt, que foi contratado pela sua vizinha, a Sra. Rutherford Wells, em conexão com a intimação que a senhora fez com que fosse emitida contra ela ontem", anunciou ele de forma agradável como introdução. "A Sra. Wells, veja bem, ficou um pouco aborrecida por ser referida nos jornais como Jane, quando seu nome correto é Beatrix. Além disso, ela sentiu que a ofensa da qual foi acusada era... por assim dizer... bastante trivial. No entanto... seja como for... ela e seus amigos no quarteirão não estão inclinados a serem severos com a senhora se estiver disposta a deixar o assunto de lado."
"Inclinados a serem severos comigo!" exclamou a Sra. Pumpelly, eriçando-se.
"Edna!" advertiu seu marido. "O Sr. Doon não é o responsável."
"Exatamente. Descobri, após uma investigação um tanto casual, que a senhora tem violado consistentemente um grande número de portarias municipais: manter papagaios, bater tapetes, permitir cães sem focinheira soltos, encher demais suas latas de lixo, desrespeitar as leis de velocidade e regulamentos de tráfego, usar jardineiras de janela inadequadamente protegidas..."
"Mais alguma coisa?" perguntou Pierpont jocosamente. "Não se preocupe conosco."
Bonnie removeu casualmente do bolso de seu fraque um maço de papéis.
"Uma por negligenciar o uso do distintivo de metal do seu motorista na parte externa de seu casaco: Seção Noventa e Quatro do Artigo Oito do Capítulo Catorze.
"Uma por permitir que seus toldos se estendam por mais de seis pés da linha da casa: Seção Quarenta e Dois do Artigo Cinco do Capítulo Vinte e Dois.
"Uma por não manter seu meio-fio em um nível adequado: Seção Cento e Sessenta e Quatro do Artigo Quatorze do Capítulo Vinte e Três.
"Uma por manter uma projeção ornamental em sua casa... uma estátua, acredito, da Deusa Vênus... projetando-se mais de cinco pés além da linha de construção: Seção Cento e Oitenta e Um do Artigo Quinze do Capítulo Vinte e Três.
"Uma por ter o portão de sua área abrindo para fora em vez de para dentro: Seção Cento e Sessenta e Quatro do Artigo Quatorze do Capítulo Vinte e Três.
"E uma por não afixar na claraboia ou na porta o número da sua casa: Seção Cento e Dez do Artigo Dez do Capítulo Vinte e Três.
"Arrisco dizer que há outras."
"Eu confiaria em você para encontrá-las!" concordou o Sr. Pumpelly. "Agora, qual é a sua proposta? Quanto custa?"
"Não custa absolutamente nada! Desista de seus processos e nós desistiremos dos nossos", respondeu Bonnie jovialmente.
"O que você diz, Edgerton?" disse Pumpelly, voltando-se para o descontente Wilfred e, pela primeira vez em anos, assumindo o controle de seus próprios assuntos domésticos.
"Eu diria que é um excelente compromisso!" respondeu o advogado com convicção. "Há algo na Bíblia, não há, sobre tirar o argueiro do seu próprio olho antes de tentar tirar a trave do olho de qualquer outra pessoa?"
"Acredito que sim", assentiu Bonnie educadamente. "'Você é outro' certamente não é uma alegação legal estatutária, mas como uma defesa prática..."
"Olho por olho, dente por dente!" disse o Sr. Edgerton de forma brincalhona. "Ha, ha! Ha!"
"Ha, ha! Ha!" zombou a Sra. Pumpelly, com o nariz empinado. "Muita utilidade você teve para mim!"
"A propósito, jovem", perguntou o Sr. Pumpelly, "a quem você diz representar?"
"Tutt & Tutt", cantarolou Bonnie, exibindo instantaneamente um dos cartões da empresa.
"Obrigado", disse Pumpelly, colocando-o cuidadosamente no bolso. "Talvez eu precise de vocês algum dia... talvez até mais cedo. Agora, se por acaso você quiser um highball..."
"Leve-me direto para ele!" suspirou Bonnie, extasiado.
"Eu também!" ecoou Wilfred, para grande surpresa dos presentes.
Além de Qualquer Dúvida Razoável
"Pois doze homens honestos decidiram a causa, Que são juízes tanto do fato quanto das leis." --O Júri Honesto.
"Por último", diz Stevenson em sua Carta a um Jovem Cavalheiro Que Propõe Abraçar a Carreira da Arte, "chegamos àquelas vocações que são, ao mesmo tempo, decisivas e precisas; aos homens que nascem com o amor pelos pigmentos, a paixão pelo desenho, o dom da música ou o impulso de criar com palavras, assim como outros, e talvez os mesmos homens, nascem com o amor pela caça, ou pelo mar, ou pelos cavalos, ou pelo torno mecânico. Estes são predestinados; se um homem ama o labor de qualquer ofício, à parte de qualquer questão de sucesso ou fama, os deuses o chamaram."
Se alguém tivesse dito a Danny Lowry que os deuses o tinham chamado, ele teria estigmatizado seu informante como um mentiroso... e, no entanto, eles tinham. Pois, à parte de qualquer questão de sucesso ou fama, ele amava cavalos desde o dia em que, ainda bebê, estatelou-se pela primeira vez na palha do estábulo de aluguel e cavalariça de seu tio Mike Aherne, na cidade de Dublin. Ele cresceu ao som do raspar e do roçar da rasqueadeira, respirando amônia, rachando a pele de seus nós dos dedos infantis com sabão de arreios. Do amor que ele sentia pelos belos animais mudos cresceu um entendimento que, com o tempo, tornou-se quase sobrenatural. Todos os jóqueis e cavalariços diziam que havia magia nas mãos do rapaz. Ele podia montar qualquer coisa com cascos com rédea solta; e o pior cavalo que mordia no estábulo aceitava o freio dele como se fosse uma maçã.
"Muitas vezes, agora, eu o ouço falando com eles, ouço mesmo." Mike Aherne costumava dizer entre cuspidelas. "E eles sabem o que ele diz, estou lhe dizendo. Ele é um encantador, ele é; como o Ferreiro Sussurrante. Você já ouviu falar dele, provavelmente? Bem, Danny pode falar com eles sem nem mesmo um sussurro, ele pode, sim!"
Isso foi há quase setenta anos, e agora Danny era um velho vagabundo encolhido e de cabelos brancos que frequentava o estábulo Mulqueen na Rua Vinte e Quatro, perto da Décima Avenida, desaparecendo e reaparecendo do porão, do sótão e das baias como um *leprechaun* que habita uma árvore oca. Ninguém sabia de onde ele tinha vindo ou onde morava, exceto que ele sempre podia ser encontrado onde quer que houvesse um animal sofrendo, fosse cachorro, gato ou esquilo, e no resto do tempo no Mulqueen's, com quem ele tinha um acordo sobre o telefone. Ele era baixo, ágil, sem barba, com pernas de jóquei; e, quando conseguia, bebia. Isso, no entanto, não era o motivo pelo qual ele tinha deixado a Irlanda, o que tinha tido algo a ver com o Phoenix Park; nem era a causa do declínio de sua fortuna, que tinha sido o advento do automóvel.
Algum dia, uma história deverá ser escrita chamada O Poste de Amarração, sobre aqueles milhares de garotos negros de ferro fundido que ficam tão pacientemente nas faixas de grama verde ao longo das ruas das aldeias, esperando para segurar rédeas de cavalos há muito esquecidas. Eles perderam sua utilidade há uma década ou mais, e assim, pelo mesmo motivo e ao mesmo tempo, perdeu-se todo aquele exército de pessoas que viviam, moviam-se e existiam atendendo às necessidades do cavalo. O motor a combustão foi para eles o que a bobina mecânica foi para os tecelões de Liverpool e Belfast. Com o advento do automóvel, a raça de cocheiros, tratadores e veterinários começou a desaparecer da face da terra. Entre os últimos estava Danny Lowry, no auge de sua fortuna um veterinário não oficial da maioria dos estábulos luxuosos pertencentes ao pessoal das carruagens da Quinta Avenida. Um a um, esses estábulos foram convertidos em garagens, e os *broughams* e *victorias* de mola C, os *landaus* e as charretes de vime foram arrastados para a sala de leilões ou empurrados para cantos escuros para dar lugar a motores ágeis; e os cavalos que Danny conhecia e amava tão bem foram vendidos ou levados para pastar.
Mas não havia ninguém para levar Danny para pastar. Ele tinha de continuar. Assim, ele foi levado cada vez mais para baixo, passando do estábulo particular para o estábulo de transporte de carga, e do estábulo de transporte para os últimos e decrépitos pensionatos e cocheiras do remoto West Side. A tragédia do cavalo é a tragédia de todos que os amavam. Danny era uma dessas tragédias, mas ainda assim garantia um sustento precário fazendo bicos na Mulqueen's e atuando como veterinário quando chamado, e geralmente podia ser encontrado ou descansando no pequeno escritório malcheiroso ou fumando seu cachimbo T D nos degraus do lado de fora.
Ele e o Sr. Ephraim Tutt, o advogado, que vivia na velha casa trêmula com as janelas altas e varandas protegidas por grades de ferro aberto ao redor das quais se torciam os caules de glicínias extintas, eram amigos há muito tempo. Em muitas noites de verão, os dois velhos sentavam-se juntos e discorriam sobre jóqueis famosos e cavalos ainda mais famosos, sobre Epsom e Ascot, até que a adega do Sr. Tutt estivesse vazia e não restasse nenhum charuto na caixa. Provavelmente ninguém, exceto o estranho e alto velho advogado, que ele mesmo parecia pertencer a uma era passada, conhecia a história do passado glorioso de Danny — como ele subira da cocheira de seu Tio Aherne em Dublin primeiro para ser o tratador de cocheira de Lord Ashburnham e depois para jóquei, finalmente montando no Derby sob as cores dourado e carmesim de Farringdon, e levando Katherine Brady, a segunda camareira, como a Sra. Lowry quando voltou a Dublin com uma boa pilha de dinheiro para assumir o negócio do seu tio; e como depois disso vieram os bebês, e a febre, e a epizootia, e os tempos difíceis; e Danny, um homem de coração partido, fugira do luto e do pauperismo e possivelmente da prisão para buscar a sorte na América. E então o automóvel! Por último, agora, uma velhice que vivia de mão para a boca, furtiva e ignorante, uma luta pela sobrevivência nua e crua e para manter o pequeno apartamento para sua neta de dezessete anos, Katie, que cuidava da casa para ele e cuja existência poucos, mesmo entre os amigos de Danny, conheciam, exceto o Sr. Tutt.
Havia, de fato, um paralelo marcante entre esses dois velhos, o um tão ignorante, o outro tão essencialmente um homem de cultura, no sentido de que ambos eram humanitários em um alto grau. É improvável que Ephraim Tutt tivesse consciência do que o atraía a Danny Lowry, mas atraído ele estava; e a razão disso era que a mola mestra fundamental da vida de cada um era o amor — no caso do homem da lei, pelos seus semelhantes que sofriam por tolice, pobreza, fraquezas ou infortúnio; e no de seu homólogo mais humilde, cujas limitações impediam sua compreensão de seres humanos mais dotados, pelos animais mudos, que devem sofrer silenciosamente pela tolice, pobreza, fraqueza ou infortúnio de seus donos e senhores.
Danny passara a noite toda acordado com apenas um cobertor de cavalo sobre as pernas, cuidando de uma égua ruana com crupe. A criatura indefesa jazia estirada de lado na palha, lutando para respirar, e Danny, com o coração dilacerado pela piedade, sentara-se na baia ao lado dela, a cada hora dando-lhe vapor e derramando suavemente sua própria mistura secreta garganta abaixo. Ninguém além de Danny se importava com o que aconteceria com a égua, deixada ali duas semanas antes por um estranho que não voltara para buscá-la; roubada, provavelmente. Com cãibras, rígido de reumatismo, quase morto de fadiga e sofrendo ele mesmo de uma tosse terrível, ele deixou o estábulo às oito horas da manhã seguinte, esperançoso de que a pobre besta se recuperasse, e deu uma passada no carrinho de lanches do Salvatore para uma tigela de café e um cachorro-quente. Ele estava apenas acendendo seu cachimbo, preparando-se para voltar ao estábulo, quando um estranho parou no meio-fio em uma carroça de carga salpicada de lama.
"Bom dia", comentou ele agradavelmente. "Pode me dizer se o estábulo da Mulqueen fica por aqui?"
Danny removeu o cachimbo e cuspiu educadamente.
"Claro", respondeu ele, examinando o cavalo que, além de manco e com uma espavim evidente na pata traseira direita, era apenas um saco de ossos bom apenas para a fábrica de sabão. "É logo ali na esquina. Eu estou indo para lá agora mesmo."
O estranho, um homem de rosto pesado e pescoço grosso, acenou.
"Tudo bem. Você vai indo que eu te sigo."
Mulqueen ainda não estava no estábulo e Danny ajudou a desatrelar o animal que, assim que aliviado das hastes, pendurou a cabeça entre as pernas, evidentemente exausto. O estranho deu um charuto a Danny.
"Estou procurando um veterinário", disse ele. "Meu cavalo precisa que façam algo por ele."
"Eu posso ver isso muito bem!" concordou Danny. "Ele precisa de uma cataplasma e bandagens quentes. Um pouco de descanso não faria mal a ele também."
"Bem, eu não sou veterinário", retrucou o estranho com um sorriso de desculpa, "mas não é preciso muito para saber que ele é um cavalo doente. Eu sou médico, mas não veterinário. Você tem um aqui?"
"Alguns me chamam de veterinário", respondeu Danny modestamente. "Eu posso tratar um espavim e colocar uma bandagem tão bem quanto qualquer outro. Por quanto tempo vai deixá-lo?"
"Oh, um ou dois dias, eu acho. Bem, se você é veterinário, eu o deixo sob seus cuidados. Meu nome é Simon — Dr. Joseph R. Simon, de Hempstead, Long Island."
Danny trabalhou a manhã toda com o cavalo, fazendo o seu melhor para deixá-lo confortável. De fato, antes de concluir seu tratamento, o animal estava provavelmente mais confortável que ele, pois a noite na baia fria lhe dera um calafrio e, quando deixou o estábulo para ir para casa almoçar, ele estava com febre alta. O doutor Simon estava lá fora na calçada conversando com Mulqueen.
"Bem, doutor", disse ele, "o que você descobriu que havia com meu cavalo?"
"Espavim, manco de três pernas, olhos doloridos, desnutrido", respondeu Danny, tremendo. "Com certeza, ele é um animal doente."
"Quanto eu lhe devo?" perguntou o doutor Simon.
Danny estava prestes a responder que um par de dólares estaria bem, quando lhe ocorreu que ali estava uma oportunidade de obter tratamento médico para si mesmo.
"Se você me der algo para parar uma febre, ficaremos quites", sugeriu ele.
"Isso é fácil!" respondeu o doutor Simon calorosamente. "Entre no escritório e eu vou medir sua temperatura e escrever uma receita."
Então eles se sentaram perto do fogão e o doutor mediu o pulso de Danny e colocou um termômetro sob sua língua, conversando amigavelmente enquanto isso, e quando terminou o exame, escreveu algo em um pedaço de papel.
"Há quanto tempo você pratica medicina veterinária?" ele perguntou.
"Toda a minha vida", respondeu Danny sinceramente. "Mas não recebo tanto trabalho quanto costumava. Estes são tempos difíceis para aqueles que têm de lidar com cavalos."
Ele se levantou dolorosamente.
"Bem, agora", disse o doutor Simon, "eu me sentiria melhor se lhe pagasse pelo tratamento do meu cavalo. Apenas coloque esta nota de cinco dólares no seu bolso. Acho que você precisa dela mais do que eu."
Danny balançou a cabeça. "Tudo bem!" ele disse fracamente, pois estava se sentindo muito mal. "Estamos quites."
"Oh, vá em frente, pegue!" insistiu o doutor Simon, empurrando a nota para o bolso do sobretudo de Danny. "A propósito, você tem seu cartão? Eu poderia enviar um pouco de trabalho para você."
Quando sua habilidade mágica com cavalos era de conhecimento comum entre o círculo superior de tratadores e cocheiros de Long Island, Danny mandara imprimir alguns cartões com um impressor amigo. Alguns espécimes manchados ainda restavam na gaveta da mesa de Mulqueen. Danny procurou até encontrar um:
DANIEL LOWRY VETERINÁRIO 212 WEST 53D STREET CIDADE DE NOVA YORK
"Aqui, senhor", disse ele, com a cabeça girando, "esse é meu nome, mas o endereço está errado."
O doutor Simon colocou-o em sua carteira.
"Obrigado", comentou ele. "Muito grato por ter consertado meu cavalo." Então, de maneira profissional, ele jogou o casaco para trás e exibiu um distintivo brilhante. "Agora", acrescentou bruscamente, "devo prendê-lo por praticar medicina veterinária sem licença. Apenas venha comigo para a delegacia de polícia mais próxima."
* * * * *
Quando o Sr. Tutt voltou para casa naquela noite depois de participar de uma das sessões semanais no Colophon Club, onde relutantemente contribuiu com a soma de cinquenta e sete dólares para aliviar as necessidades imediatas de certas pessoas sem dinheiro reunidas ali ao redor de uma mesa coberta de baeta verde em um canto remoto da sala de jogos, ele percebeu, pela luz de um poste de iluminação pública próximo, que alguém estava sentado no topo dos degraus que levavam à sua porta da frente.
"O senhor é o Sr. Tutt?" perguntou Katie Lowry, levantando-se e fazendo uma reverência tímida. "O grande advogado?"
"Esse é o meu nome, criança", respondeu ele. "O que quer de mim?"
Ela era apenas uma menina frágil e seus olhos brilhavam como os de um gato sob um xale cinza envolto sobre um par de ombros estreitos e contraídos.
"Levaram meu avô para a prisão", respondeu ela com um nó na garganta. "Ele não veio almoçar nem jantar, e quando fui ao estábulo, o Sr. Mulqueen disse que um detetive prendera meu avô por tratar de cavalos sem licença, que ele se declarara culpado e que o tinham trancado. Fui à delegacia, mas disseram que ele não estava mais lá, que ele estava no Tombs."
"Quem é seu avô?" exigiu o Sr. Tutt enquanto destrancava a porta.
"Danny Lowry", respondeu ela. "Oh, senhor, o senhor não tentaria fazer algo por ele, senhor? Ele pensa tanto no senhor! Ele frequentemente me disse que o senhor era um grande homem e tão gentil, além de ser um advogado tão inteligente e que todos os juízes têm medo do senhor!"
"Danny Lowry no Tombs!" exclamou o Sr. Tutt. "Que ultraje! É claro que farei o que puder por ele. Mas primeiro entre e aqueça-se. Miranda!" gritou ele para a empregada de cor. "Faça-nos uma torrada quente e chá e traga para a biblioteca. Agora, minha querida, tire seu xale, sente-se e conte-me tudo sobre isso."
Então, com seus sapatos de pelica gastos voltados para cima no para-brasa, a pequena Katie Lowry, confiante de que encontrara um amigo todo-poderoso naquele homem alto e estranho que fumava charutos longos e estranhos, bebendo seu chá apenas quando precisava parar para respirar, despejou a história da luta de seu avô contra a pobreza e o infortúnio, enquanto o rosto enrugado de seu ouvinte se tornava suave e duro alternadamente enquanto ele a observava através das nuvens cinzentas de seu charuto. Uma hora depois, ele a deixou na porta de seu apartamento, feliz e encorajada, com uma nota de vinte dólares amassada na mão.
* * * * *
"Mas o que você espera que eu faça a respeito?" retrucou o promotor público Peckham em seu escritório na manhã seguinte, depois que o Sr. Tutt lhe explicou a perversão da justiça para cuja realização a lei fora invocada. "Lamento! Sem dúvida ele é um bom sujeito. Mas ele é culpado, não é? Admitiu isso no tribunal da polícia, não foi?"
"Eu espero que você tempere a justiça com misericórdia", respondeu o Sr. Tutt seriamente. "Toda a vida desse velho homem foi dedicada a aliviar o sofrimento dos animais. Ele é um autêntico samaritano."
"Isso é como dizer que um ladrão fez o bem com o seu saque, não é?" comentou Peckham. "Olha aqui, Tutt, é claro que espero que você tire seu cliente dessa e tudo mais, mas se eu pessoalmente descartasse o caso, eu teria todos os veterinários da cidade no meu pescoço. Você vê, os motores praticamente acabaram com o negócio deles. Não há cavalos doentes suficientes para todos, então eles vêm conduzindo uma espécie de cruzada. Azar o dele — mas a lei é a lei. E eu tenho que aplicá-la — ostensivamente, pelo menos."
"Muito bem", respondeu o velho advogado amavelmente, porém de forma desafiadora. "Então, se você tem que aplicar a lei contra um bom velho como aquele, eu tenho que fazer o meu melhor para quebrar essa lei. E vou lhe dizer uma coisa, Peckham — que é que o coração humano é muito maior que a consciência humana."
* * * * *
Danny Lowry vivia há anos com medo do golpe que o atingira tão repentinamente, pois nunca houve qualquer ocultação do fato óbvio de que, ao agir como um veterinário não licenciado, ele estava violando descaradamente a lei. Por outro lado, não sendo capaz de ler ou escrever, e não tendo conhecimento técnico de medicina, toda a sua experiência, toda a sua habilidade, todo o seu amor pelos animais não podiam lhe servir de nada no que dizia respeito a obter uma licença. Ele não conseguia ler um papel de exame, mas conseguia interpretar os sintomas vistos em um pescoço trêmulo e em um olho sem brilho. Danny não tinha escolha a não ser quebrar a lei ou abandonar a única carreira para a qual tinha aptidão, ou pela qual poderia esperar ganhar a vida na sua idade. Seu crime era *malum prohibitum*, não *malum in se*, mas era, contudo, uma violação de uma lei muito necessária. Certamente nenhum de nós deseja ser tratado por amadores ou farsantes, ou ter nossos animais tratados por eles. Apenas Danny não era nem amador nem farsante, e se ele não fosse um fora da lei, o mundo teria sido, em certa medida, um perdedor.
No entanto, por todos os cânones da ética e da justiça, era muito impróprio que o Sr. Tutt corresse para o Tombs e pagasse a fiança do velho Danny Lowry, um confesso violador da lei, dando sua própria fiança e a casa na Rua Vinte e Três como garantia. Ainda mais, por ser mais descaradamente ostensivo, foi levar o criminoso ao Pont's e dar-lhe o melhor jantar que o Signor Faccini, proprietário daquele célebre estabelecimento, pudesse fornecer.
Dizem que casos difíceis criam leis ruins; eu me pergunto se eles criam pessoas ruins. Se "a consciência nos torna covardes a todos", será que a simpatia humana brinca com a consciência? Será que ela cega o olho da razão? Pelo contrário, será que ela não ilumina e expõe as falácias da lógica e as falsidades do silogismo? Dois e dois são quatro na política humana como na matemática? Às vezes não pareceria assim.
Certamente você teria escolhido o Sr. Bently Gibson, da The Gibson Woolen Mills, como um jurado modelo. Um olhar para ele como um possível jurado em um caso de assassinato e você teria murmurado sem hesitação: "A defesa desafia peremptoriamente!" Sua testa larga, nariz grande e bem formado, queixo firme e olho claro e calmo evidenciavam seu bom senso, sua consciência e sua adesão inabalável aos princípios. Suas declarações alfandegárias eram completas até o menor item, suas declarações de imposto de renda modelos de autossaca, ele era patriótico e cívico, pertencia à Welfare League e à Citizens' Union, e — hesito em confessar — ele assinava o déficit anual da Sociedade para a Supressão do Pecado. À primeira vista, ele era o tipo de homem que o promotor público tenta selecionar como capataz de um júri quando tem de processar uma mulher que sequestrou seu próprio filho de um asilo de órfãos.
Os capangas e seguidores dos tribunais criminais o teriam descrito como um intelectual e como um santarrão; talvez ele pudesse, em um momento de jocosidade, ter se descrito assim — pois ele tinha seu lado humano — talvez eu devesse ter dito, seu lado mais fraco. Certamente ele parecia humano o suficiente quando beijou Eleanor na porta de sua casa de campo no Sound, na manhã em que foi intimado a servir como jurado na Parte Cinco das Sessões Gerais. Ele planejara tirar uma semana de férias naquela primavera, e tivera um trabalho infinito para organizar seus negócios para tê-la, pois eles tinham ficado noivos onze anos antes, no momento em que as flores de macieira e os cornos estavam no auge de sua glória, exatamente como estavam agora.
Quando, porém, encontrou a intimação marrom em seu escritório, ordenando que se apresentasse para o serviço na segunda-feira seguinte, ele simplesmente deu um suspiro, meio grunhido de desgosto, e deixou as tão esperadas férias passarem; pois uma de suas teorias favoritas era que o sistema de júri era o principal baluarte da Constituição, a pedra angular da liberdade. Se ele tivesse sido apenas dissimulado o suficiente, ele nunca precisaria ter servido em nenhum júri, pois nenhum advogado de defesa, ouvindo-o ampliar o que ele considerava serem os deveres de um jurado, jamais o teria permitido na caixa. Mas quando outros rapazes no painel apresentavam suas desculpas ao juiz e conseguiam convencê-lo das necessidades imperativas da família ou dos negócios, e deslizavam — sorrindo discretamente — para fora da sala do tribunal, ele apenas, inaudivelmente, os chamava de covardes e trapaceiros. Não, ele considerava o serviço de júri um dever e um privilégio, um que não devia ser evitado levianamente — a única função governamental comum em que o Tio Sam esperava que todo cidadão fizesse seu dever.
"Não deixarei nenhum dos patifes escapar de mim!" ele gritou alegremente para sua esposa sobre a parte de trás do motor. "E de qualquer maneira, não serei trancado a noite toda. Não há casos de assassinato no calendário. Estarei fora às cinco e quinze, como de costume."
Ai, pobre Bently! Ai da fraqueza humana e de todas aquelas visões esplêndidas nas quais ele se imaginava como a âncora do navio da justiça, um apoio e sustento da estrutura da democracia.
Seu trem estava um pouco atrasado e a lista do júri já tinha sido chamada, e as desculpas perenes ouvidas, quando ele entrou na sala do tribunal; mas o escrivão, que o conhecia, acenou de maneira acolhedora, marcou-o como presente e deixou cair seu cartão de nome na roda giratória. Era uma cena bem conhecida por Bently, um veterano de quinze anos de serviço. Até os atores eram velhos conhecidos — o juiz de rosto rosado com suas costeletas brancas como a neve, que às vezes sugeria a Bently um anjo octogenário, e, em outras, um certo babuíno antigo observado uma vez na jaula dos Primatas no Zoológico do Bronx; o pequeno escrivão, apressado e ansioso, com sua entonação paradoxalmente grandiloquente; o promotor público assistente de comédia com sua voz sibilante emanando de um corpo falstaffiano, que sofria de uma doença soporífera e estava acostumado a abrir um caso e depois deixá-lo cuidar de si mesmo enquanto ele cochilava audivelmente sob o estrado; até mesmo Ephraim Tutt, o advogado de aspecto magro e benignamente extravagante, em seu fraque preto enferrujado e gravata solta; seu sócio rotundo, cuja vivacidade de pássaro e barriga gorda traziam inevitavelmente à mente um tordo dilatado de óculos; e o *dégagé* Bonnie Doon em seu terno xadrez cortado na cintura — ele conhecia todos de longa data.
"Bem, chame seu primeiro caso, Senhor Promotor Público!" ordenou o juiz, acenando encorajadoramente para Bently, sabendo bem que nele ele tinha um defensor leal da lei como ela é, que poderia ser contado para reforçar seu irmão jurado mais fraco ou sentimental para a atitude mental de condenação correta.
Então — conforme o cronograma em vigor por pelo menos uma época — o bonachão Tom Hingman, o promotor assistente mais antigo do escritório, levantou-se pesadamente, mexeu com seus dedos atarracados entre as acusações azuis na mesa, retirou uma, ofegou algumas vezes, engasgou um "Pessoas contra Daniel Lowry" e olhou ao redor de uma maneira pseudo-indefesa, como se não soubesse exatamente o que fazer.
Houve uma ligeira agitação, e do fundo da sala do tribunal veio para frente um velhinho engraçado de pernas arqueadas, carregando com as duas mãos um chapéu-coco engraçado e de topo plano, e sentou-se timidamente na barra da justiça ao lado do Sr. Tutt, que sorriu para ele afetuosamente e colocou o braço sobre os ombros gastos como se para protegê-lo dos males do mundo. Eles formavam um quadro pitoresco e longe de ser desagradável, pensou Bently Gibson, o jurado ideal, e ele se perguntou o que o pobre velho poderia estar fazendo ali.
Um júri foi empossado, Bently entre eles; o restante do painel foi dispensado até as duas horas; a sala do tribunal foi limpa de ociosos; o juiz examinou a acusação com um olhar praticado; Tom Hingman levantou-se novamente, sibilou e sorriu para o júri entrincheirado; e o moinho da justiça começou a moer.
Ora, o moinho da justiça, pelo menos nas Sessões Gerais do Condado de Nova York, mói excessivamente fino, no que diz respeito ao número de condenações. Dos que são levados ao tribunal para julgamento, poucos escapam; pois os jurados modernos, sendo homens de cabeça dura, encaram a coisa toda como uma questão de negócios e tentam terminar com ela o mais rápido e eficientemente possível. O orador pomposo, o fanfarrão grandiloquente, o orador de palanque empolado ganham poucos vereditos e recebem poucos aplausos, exceto de seus clientes. E os promotores distritais que imitam o cão de caça em seu semblante e táticas ganham pouca aprovação e menos aquiescência dos cavalheiros entediados que são forçados a ouvi-los. Hoje em dia — independentemente de qual tenha sido o caso duas gerações atrás — cada lado declara brevemente suas alegações e tenta vencer por pontos.
As pessoas costumavam se perguntar por que cada administração sucessiva retinha inevitavelmente o antiquado Tom Hingman, por sete mil e quinhentos dólares por ano, para cuidar do calendário na Quinta Parte. No entanto, os que estavam por dentro sabiam muito bem o porquê. Era porque Tom, há muito tempo, em sua juventude pré-histórica, aprendera que a maneira de garantir vereditos era parecer não se importar a mínima se o júri considerasse o réu culpado ou não. Ele fingia nunca saber nada sobre qualquer caso com antecedência, estar em completa ignorância sobre quem poderiam ser as testemunhas e sobre o que iriam testemunhar, e estar terrivelmente arrependido por ter que processar o infeliz no banco dos réus, embora ele não tivesse culpa disso, mais do que o júri por ter que considerá-lo culpado se provado ser, o que, ao que lhe parecia, estava claramente provado. Digo que Tom fingia tudo isso, embora fosse mais da metade verdade, pois Tom era um velho de bom coração. Mas o ponto era que, sendo verdade ou não, isso resultava em condenações. O júri, absorvendo tudo aquilo por completo, sentia mais pena do velho simplório que era Tom, como acreditavam que ele fosse, do que do réu, que concluíam ser muito mais esperto que o promotor assistente.
Em suma, isso os colocava sob sua honra como funcionários públicos para não deixar que a administração da justiça sofresse apenas porque o promotor assistente era velho demais, descontraído e geralmente apático demais para estar realmente em seu trabalho. Assim, eles mesmos se tornavam advogados de acusação — ao todo, treze contra um. Então, Tom, tendo assim delegado suas funções ao júri, calmamente deixava tudo com eles e ia dormir, o que era a melhor coisa que ele fazia. Valia sete mil e quinhentos por ano? Melhor dizendo, setenta e cinco mil!
"Senhores do júri", começou ele hesitante, "este réu parece ter sido indiciado pelo crime de praticar medicina sem licença — uma contravenção. Não vejo exatamente como ele chega a este tribunal, que deveria julgar apenas casos de crimes graves, mas suponho que meu velho amigo Tutt tenha feito uma moção para transferir o caso das Sessões Especiais para as Gerais, sob a teoria de que ele teria mais chances com um júri do que com três — er — juízes endurecidos. Bem, talvez ele tenha — eu não sei! Pelo que entendi dos jornais, o Sr. Lowry aqui, após se apresentar como um veterinário devidamente licenciado, tratou de um cavalo pertencente ao queixoso. Não é uma ofensa muito grave, e vocês e eu não temos grande interesse no caso, mas, é claro, o público precisa ser protegido de charlatães, e a única maneira de fazer isso é marcar como culpados aqueles que fingem que são devidamente licenciados para praticar medicina quando não são. Se vocês tivessem um bebê doente, Sr. Presidente do Júri, e vissem uma placa 'A.S. Smith, M.D., Especialista em Crianças', vocês gostariam de ter certeza de que não iam contratar um encanador, eh? Estão vendo! É só isso que há neste caso!"
"Tudo o que há neste caso!" murmurou o Sr. Tutt audivelmente, elevando os olhos em direção ao teto.
"Aproxime-se, Sr. Brown."
O Sr. Brown, o suposto Doutor Simon cujo cavalo Danny havia atendido, sentou-se complacentemente na cadeira de testemunhas e curvou-se para o júri de maneira profissional. Ele havia, disse-lhes, sido um detetive empregado pelo conselho estadual de saúde por mais de dezesseis anos. Era seu dever andar por aí e prender pessoas que fingiam ser praticantes licenciados de medicina e que se propunham a tratar outras pessoas e animais. Havia muitos deles, também; o júri ficaria surpreso —
O Sr. Tutt objetou à surpresa deles e isso foi riscado por ordem do tribunal.
"Vou riscar 'e há muitos deles, também', se você insistir, Sr. Tutt", ofereceu o tribunal, sorrindo, mas o Sr. Tutt balançou a cabeça.
"Não; deixe como está!" disse ele significativamente. "Deixe como está!"
"Bem, de qualquer forma", continuou o Sr. Brown, "este réu aqui, Lowry, como ele se chama, é bem conhecido —"
Objetado e riscado.
"Bem, este réu aqui faz uma prática —"
"Risque isso! O que ele fez?" disparou o babuíno octogenário no banco.
"Estou lhe dizendo, juiz", protestou Brown vigorosamente. "Este réu aqui —"
"Você já disse isso três vezes!" retorquiu o babuíno. "Siga em frente, não pode? O que ele fez?"
"Ele tratou meu cavalo de esparavão aqui em Nova York, no número 500 da West 24th Street, a meu pedido, em vinte de março passado, e eu lhe paguei cinco dólares. Ele disse que era um veterinário licenciado e me deu seu cartão. Aqui está."
"Bem, por que você não disse isso antes?" observou o juiz de forma mais amável. "Deixe-me ver o cartão. Muito bem! Mais alguma coisa, Sr. Hingman?"
Mas o Sr. Hingman, muito antes disso, havia se acomodado em sua cadeira e emitia sons como os de um saxofone.
"Esse é um testemunho simples e claro, Sr. Tutt", observou o juiz. "Prossiga com o interrogatório."
Ephraim Tutt desarticulou-se lentamente, a quintessência da afabilidade, embora o Sr. Brown claramente o mantivesse sob suspeita.
"Há quanto tempo o senhor ganha a vida, meu caro senhor, andando por aí prendendo pessoas?"
"Dezesseis anos."
"Sob que nome — o seu próprio?"
"Uso qualquer nome que me der na telha."
O Sr. Tutt assentiu com apreciação.
"Vejamos, então. O senhor anda por aí fingindo ser alguém que não é?"
"Coloque dessa forma, se desejar."
"E fingindo ser o que não é?"
O Sr. Brown olhou para o Sr. Tutt selvagemente. "O que quer dizer com isso?"
"O senhor não disse a este velho cavalheiro ao meu lado que era um doutor em medicina, mas não um doutor em medicina veterinária — e pediu-lhe que tratasse seu cavalo por essa razão?"
"Claro que disse. Certamente."
"Bem, o senhor é um médico licenciado?"
"Olhe aqui! O que isso tem a ver com o caso?" rosnou o Sr. Brown, procurando ajuda do adormecido Hingman.
"A pergunta é pertinente. Responda", ordenou o juiz.
"Não, não sou um médico licenciado."
"Bem, o senhor não tratou o Sr. Lowry?"
O júri, a essa altura, havia captado o rumo do interrogatório e ouvia com uma apreciação atenta.
O Sr. Brown inclinou-se para frente, um sorriso doentio de desprezo superior contorcendo-se ao redor de seus molares amarelados.
"Ah!" exclamou ele. "É aí que eu o pego, senhor! Eu apenas fingi tratá-lo. Eu não tratei realmente. Eu só rabisquei algo em um pedaço de papel."
"O senhor sabia que ele não sabia ler, é claro?"
"Claro."
O Sr. Tutt voltou-se para os rostos erguidos dos doze. "Então", retorquiu ele, franzindo os lábios enrugados e colocando os dedos juntos naquela atitude de piedade que observamos frequentemente nas efígies de eclesiásticos defuntos — "então o senhor fez a mesma coisa pela qual jogou este velho ao meu lado na cadeia — e pela qual ele está sendo julgado agora! O senhor mentiu para ele sobre ser médico! O senhor o enganou sobre dar-lhe o tratamento médico de que ele tanto precisava! E o senhor o prendeu depois que ele trabalhou por horas para aliviar os sofrimentos de um animal doente. A propósito, era um animal doente, não era?"
"O mais doente que consegui encontrar", respondeu Brown alegremente.
"E ele aliviou seus sofrimentos, não foi?" continuou o Sr. Tutt gentilmente.
"Muito provavelmente. Eu não estava particularmente interessado nessa parte."
A estrutura magra do Sr. Tutt pareceu subitamente expandir-se até que ele pairou sobre a cadeira das testemunhas como o gênio que brotou tão inesperadamente da garrafa do pescador nas Mil e Uma Noites.
"O senhor não estava interessado em ministrar cuidados a um cavalo pobre, tão doente que mal conseguia ficar de pé! O senhor estava interessado apenas em aprisionar e privar de sua única forma de sustento este velho cujo coração não era endurecido como o seu! Posso perguntar a mando de quem o senhor foi lá e mentiu para ele?"
"Sr. Tutt! Sr. Tutt!" interrompeu o anjo octogenário. "Seu interrogatório está ultrapassando os limites da propriedade judicial."
Ephraim Tutt curvou-se profundamente.
"Mil perdões, Meritíssimo! Minhas emoções me arrebataram! Peço humildemente desculpas! Mas quando esta testemunha confessa tão descaradamente como desempenhou o papel de canalha, velho praticante calejado como sou, meu coração protesta contra tal traição infame —"
Bang! O martelo do juiz bateu.
"Você está apenas piorando as coisas!" declarou o tribunal severamente. "Prossiga com o seu interrogatório."
"Muito bem, Meritíssimo!" respondeu o Sr. Tutt, seus lábios tremendo com indignação bem simulada. "Agora, senhor, quem instigou este engano miserável — peço perdão a Vossa Excelência! Quem o colocou nesse jogo — quero dizer, nesse curso de conduta?"
"Ninguém", respondeu Brown em um tom grosseiro.
"O senhor já ouviu falar da Associação Unida de Veterinários da Grande Nova York — às vezes referida como União das Sanguessugas de Cavalos?" perguntou o Sr. Tutt insinuantemente.
O Sr. Brown hesitou.
"Ouvi falar de alguma organização desse tipo", admitiu ele. "Mas nunca ouvi dizer que fosse chamada de União das Sanguessugas de Cavalos."
"Um de seus funcionários não veio ao senhor e disse que, a menos que algo fosse feito para reduzir a concorrência, eles teriam que fechar as portas — devido à diminuição de cavalos em Nova York?"
"Não me lembro", respondeu Brown lentamente. "Um deles pode ter dito algo do tipo para mim. Mas isso é problema meu!"
"Sim!" rugiu o Sr. Tutt de repente. "É problema seu fingir que é médico quando não é, e você caminha pelas ruas um homem livre; e quer enviar meu cliente para Sing Sing pela mesma ofensa! É tudo! Terminei com você! Desça do banco! Não deixe que eu o detenha da prática de sua profissão não licenciada!"
"Sr. Tutt!" advertiu novamente Sua Excelência enquanto o advogado se lançava furiosamente em sua cadeira. "Isso realmente não está nada certo!"
"Peço perdão a Vossa Excelência — mil vezes!" disse o Sr. Tutt em tons tão humildes e sinceros que quase fez o babuíno com cara de anjo acreditar nele.
Eu gostaria de continuar e descrever todo o curso do julgamento de Danny Lowry item por item, testemunha por testemunha, e contar o que o Sr. Tutt fez com cada uma. Mas não posso; não há espaço. Só posso me deter nas táticas do Sr. Tutt o suficiente para declarar que, ao final do caso contra Daniel Lowry, no qual foi clara, definida e convincentemente estabelecido que Danny praticava medicina veterinária há muito tempo sem o menor direito legal, o advogado levantou-se e declarou enfaticamente ao júri que seu cliente era absoluta, total e inquestionavelmente inocente, como eles veriam ao prestar a devida atenção à prova que ele produziria — de modo que ele não tomaria mais do tempo valioso deles com conversa.
E tendo feito esta declaração de abertura com toda a seriedade e solenidade de que era capaz, o Sr. Tutt chamou para provar a boa reputação do réu, primeiro, o Padre Plunkett, o sacerdote a quem Danny fazia sua confissão mensal e que disse ao júri que não conhecia homem melhor em toda a sua paróquia; segundo, Mulqueen, que descreveu o amor de Danny pelos cavalos, seu conhecimento sobre eles, sua intuição misteriosa em relação às suas doenças ocultas, as quais, sendo que eles não podiam falar, era dado a poucos conhecer, e como noite após noite ele se sentava com um animal doente ou moribundo para aliviar sua dor sem pensar em si mesmo ou em qualquer recompensa terrena; então, homem após homem e mulher após mulher da vizinhança da West Twenty-third Street, que deram a Danny o melhor dos caracteres, incluindo policiais, bombeiros, donos de delicatessen, donos de hotéis, e Salvatore, o proprietário do almoço noturno frequentado pelo Sr. Tutt.
E por último, a pequena Katie Lowry. Foi ela quem encontrou a rachadura na armadura moral de Bently. Pois Eleanor, sua esposa, era de ascendência irlandesa e do tipo colleen, como Katie; e Bently sempre jogava com seu lado irlandês ao cortejá-la como um atalho bem-humorado para uma quase familiaridade, pois você pode chamar uma garota de "acushla" e "Ellin darlint" quando, de outra forma, você está plenamente ciente de que, não fosse pelo irlandês, ela teria que ser tratada como Srta. Dodworth. E essa garotinha, com seus grandes olhos cinzentos debruados de preto olhando para cima e para fora de seu xale de tricô cinza, não fosse pelos buracos em suas meias brancas e pelo fato de que o alabastro de seu pescoço estava um tom fora de cor — fé, e ela poderia ter sido a própria Eleanor! É óbvio que qualquer jurado que permite que sua mente seja influenciada pelo simples fato de que uma das testemunhas de defesa é uma mulher bonita — mesmo que ela o faça lembrar de sua esposa ou namorada — é um fraco, um tolo.
Caso contrário, tudo o que um vigarista precisaria fazer seria contratar meia dúzia das belezas da meia-noite de Ziegfeld para testemunhar por ele durante o dia; e as queridas esguias poderiam trabalhar em turnos duplos e ser levadas em ônibus de jardim na cobertura até o tribunal. Bently não era um fraco, mas Katie — talvez porque fosse o momento das flores de maçã e do dogwood e o aniversário do dia de seu casamento — Katie o conquistou. Kathleen Mavourneen, e tudo o mais! Nenhum homem poderia ter criado uma garota órfã de pai e mãe daquela maneira e mantê-la tão simples, franca e inocente a menos que houvesse algo de bom nele. Vejam bem, intelectuais e iletrados são todos iguais abaixo da clavícula.
E aqui está o truque. Bently havia dito a Eleanor naquela mesma manhã que nenhum dos patifes passaria por ele, e ele falava sério. Nenhum deles nunca passou — em todos os seus anos de serviço como jurado. Vez após vez, ele fora o homem obstinado a aguentar a noite toda por um veredito de culpado contra onze colegas jurados ultrajados e indignados que queriam absolver. Mas, inconscientemente, ele se viu dizendo que aquele velho no banco não era um patife de jeito nenhum. Se ele era um criminoso, era apenas em um sentido "Pickwickiano". Todos os casos anteriores em que ele participara eram por assassinato ou incêndio criminoso, roubo ou furto, arrombamento, chantagem ou alguma outra ofensa ultrajante contra a moral ou decência comum. Mas ali estava um homem que nunca fizera nada além do bem em sua vida, e estava no banco da justiça acusado de crime apenas porque alguns mercenários de sangue frio achavam que ele estava interferindo em seus negócios! Bently estava em um estado de espírito recalcitrante e indignado contra a acusação muito antes de a defesa começar. Todo o processo parecia-lhe uma farsa ultrajante. Não era para isso que eles estavam lá! Tão rapidamente o ácido da simpatia corrói e enfraquece a consciência mais firme, a mais lógica das mentes!
O Sr. Tutt não colocou Danny no banco das testemunhas — por que o faria? — e o juiz octogenário declarou o caso encerrado para ambos os lados. Então, todos fizeram um discurso, no qual diziam ao júri para desconsiderar tudo o que todos os outros disseram.
O Sr. Tutt falou primeiro. Ele agradeceu ao júri boquiaberto por sua atenção, cortesia, bondade e inteligência, e por se darem ao trabalho de ouvi-lo. Ele lhes disse que juiz sábio e íntegro era o velho babuíno no banco; e que sujeito honesto, bondoso e correto era o promotor assistente gordo. Eles eram o mais alto tipo de funcionários públicos — mas pagos — ele acentuou o "pagos" muito levemente — para cumprir seu dever como o interpretavam. Agora, o Sr. Hingman teria que alegar que Danny Lowry era um criminoso; enquanto que, graças aos céus! todos eles — cada um deles — sabiam que ele não era nada disso! Criminoso — aquele velho? O Sr. Tutt elevou os olhos e os braços ao céu em protesto. Ora, um olhar para ele criaria uma dúvida razoável! Mas o caso contra ele falhou absolutamente pelas seguintes razões:
Daniel Lowry não havia praticado medicina veterinária sem licença ao cuidar do cavalo doente de Brown, porque ele não havia alegado ser veterinário; ele não havia sido pago por seus serviços; e porque tudo o que ele havia feito foi ajudar um animal em sofrimento, como qualquer homem que se autodenominasse cristão e tivesse um coração teria feito, e como era seu dever fazer. Quem "terá um jumento ou um boi caído em um poço"? e assim por diante. Estava nas Sagradas Escrituras! A lei mais elevada!
Não havia evidência nenhuma contra Danny, porque Brown era um cúmplice e seu testemunho não era corroborado; de qualquer forma, ele era um procurador e instigador de crime, um agente provocador, um mentiroso desprezível, hipócrita e violador da própria lei que ele era pago para defender; e como ele se apresentara como médico a Danny Lowry, tudo o que passou entre eles era privilegiado como uma comunicação confidencial e devia ser desconsiderado como se nunca tivesse sido dito.
Daniel Lowry era um homem da mais alta reputação, de tal caráter que nunca fora culpado de um ato indelicado ou egoísta em toda a sua vida, muito menos cometer um crime; o que, por si só, isoladamente, era bastante para interpor e suscitar uma dúvida razoável — sobre a qual eles deveriam absolver.
Então, Tom Hingman levantou-se, fez uma careta e disse que conhecia o Sr. Tutt por toda a sua vida profissional e que ele era um sujeito nota dez, mas que eles não deviam acreditar no que ele dizia nem deixar que ele os passasse para trás, pois ele era muito esperto, mesmo sendo um bom velho. Agora, o fato simples era, como todos sabiam perfeitamente bem, que esse velhote fora pego com a boca na botija. Poderia ser má sorte, mas a lei era a lei e eles estavam todos lá para aplicá-la — por mais que detestassem fazê-lo — e não havia nada a fazer a não ser condenar e deixar que o juiz tratasse o réu com aquela misericórdia, clemência e tolerância pela qual ele era tão justamente famoso. Ele ofegou algumas vezes e sentou-se.
Então, o juiz deu sua cartada. Ele disse ao júri, com todas as letras, para não prestar atenção nem ao promotor assistente nem ao Sr. Tutt, e para ouvir apenas a ele, porque ele era quem mandava. A questão era: O réu se propôs a dar tratamento médico ao cavalo de Brown, por qualquer tipo de contraprestação valiosa? Ao determinar isso, eles deveriam considerar todas as evidências, incluindo o fato de que o prisioneiro havia alegado ser veterinário, fora pago por tratar o cavalo de Brown como tal, declarara-se culpado no tribunal de polícia e que nenhum dos fatos alegados sobre os quais a acusação se baseava fora negado diante deles no presente julgamento.
Ao dizer isso, o babuíno rosado olhou para eles de forma constante e significativa por vários segundos sobre seus óculos. Eles deveriam considerar o cartão comercial que o réu havia dado à testemunha queixosa e no qual ele se apresentava como veterinário. O testemunho do queixoso permanecia sem contradição. O queixoso não era um cúmplice e seu testemunho não precisava ser corroborado. Um chamariz não era um cúmplice. Essa era a lei. Nem o que havia passado entre o queixoso e o réu era privilegiado como uma comunicação confidencial, porque o queixoso não era médico. Isso era tudo o que havia sobre isso!
Eles deveriam perguntar a si mesmos o que, de fato, o réu havia feito, se não praticar a medicina veterinária sem licença? Não foi contestado que ele dissera ser veterinário, administrara um medicamento a um cavalo doente, oferecera-se para quitar o pagamento pelo tratamento médico para si mesmo, finalmente aceitara cinco dólares e admitira sua culpa perante o magistrado. Se tivessem qualquer dúvida razoável — e tal dúvida poderia, é claro, ser suscitada por evidências de bons antecedentes — eles a dariam, naturalmente, ao réu e o absolveriam, mas tal dúvida não deveria ser um mero capricho, palpite ou conjectura de que o réu poderia não ser culpado, afinal, mesmo que as evidências parecessem demonstrar isso; deveria ser uma dúvida substancial, baseada nas evidências e tal que os influenciasse nos assuntos importantes de suas próprias vidas diárias, domésticas e comerciais. Era só isso! Que tomassem o caso e decidissem! Não deveria levar muito tempo para eles. A questão de como o réu deveria ser punido, se é que deveria, não lhes concernia. Ele cuidaria disso. Eles poderiam deixar isso por sua conta, com segurança! Ele fez uma reverência e voltou-se para seus papéis. O júri reuniu seus casacos e saiu da sala do tribunal atrás de Cap Phelan.
"O senhor ficaria bem, conselheiro", comentou o segundo oficial de justiça, suspendendo momentaneamente as delícias da mastigação, "se não fosse por aquele filho da mãe na última fila, Gibson! Ele é um sujeito ruim! Eu o conheço há anos! Ele condenaria a própria mãe por furto qualificado!"
"É mesmo? É mesmo?", murmurou o Sr. Tutt, retirando de seu bolso interno uma carteira de couro do tamanho de uma bolsa de instrumentos de médico e removendo de lá um par de charutos. "Bem, agora é tarde demais para fazer qualquer coisa a respeito. Vou lá fora esticar as pernas e fumar um pouco."
O Sr. Tutt vagou até o corredor, caminhou discretamente para trás de uma coluna, deslizou para dentro da sala de tribunal adjacente — que por acaso estava vazia — e de lá voltou para a passagem na qual se abriam as salas do júri. Ele encontrou Cap Phelan parado diante de uma delas com um dedo sobre os lábios.
"Psiu! Eles já estão nisso!", sussurrou Phelan enquanto o Sr. Tutt lhe passava um charuto.
A bandeira acima estava aberta e através dela derivava uma tênue nuvem azul. Uma grande algazarra acontecia lá dentro. De repente, acima dela, uma voz áspera soou: "Isso não é uma dúvida razoável! Eu lhes digo, isso não é uma dúvida razoável! Ah, vocês me dão nos nervos, vocês dão!"
"Eu os peguei!", sorriu o Sr. Tutt, satisfeito. "Phelan, traga-me uma cadeira!"
Agora, é aqui que esta história começa — apenas aqui.
"Bem, cavalheiros", disse o capataz, que era um comerciante de luvas e parecia o Sam Bernard, enquanto tomavam seus assentos ao redor da mesa de carvalho batida. "O que dizem? Devemos discutir ou fazer uma votação?"
"Vamos fumar!", emendou um corretor de imóveis. "Não adianta voltar agora e ficar preso em outro caso maldito! Onde está aquela escarradeira?"
"Falando em veterinários", riu um homem com três dobras de gordura no pescoço, "vocês já ouviram a história do negro e da mula com tosse?"
Aparentemente, nenhum deles tinha ouvido, então o irmão gordo contou tudo sobre como — há, há! — a mula tossiu primeiro.
"Lembro-me dessa história agora", observou um dos jurados, de forma reminiscente, enquanto o homem gordo o encarava furiosamente. "Se dependesse de mim, todos esses veterinários estariam na cadeia! Eles são um grupo perigoso. Tive um primo em segundo grau uma vez que pagou cem dólares — cem dólares! — por um cavalo e ele teve cólica. Então ele chamou um veterinário e o cavalo morreu."
"Bem, o veterinário não o matou, matou?", indagou o homem gordo com desprezo.
"Meu primo sempre afirmou que sim!", respondeu o outro solenemente. "Houve algum erro sobre o que ele deu ao cavalo — álcool de madeira ou algo assim — eu esqueço o que era. De qualquer forma, acho que eles são todos um grupo perigoso. Todos deveriam ser trancados. Proponho que o condenem!"
"Mas nenhum desses sujeitos é veterinário!", retrucou um senhor de aparência triste, vestido de preto. "A acusação é que um deles fingiu ser — mas não era. Então, se ele não era, como vocês poderiam condená-lo por ser veterinário?"
"Bem, se ele tivesse sido, eu o teria condenado, com certeza", afirmou o primeiro. "Eles são perigosos — como todos esses clarividentes e adivinhos."
"Alguém poderia me dizer?", solicitou um homem alto que olhava atentamente pela janela, "se um veterinário é a mesma coisa que um médico veterinário? Sempre supus que um médico veterinário fosse uma espécie de religião, como um unitariano. Veterano significa velho — pensei que fosse alguma forma antiga de religião; ou um sujeito que não acreditava em comer carne."
"Tirem esse maluco daqui!", gritou alguém. "Vamos ao trabalho. A questão é: esse velho fingiu que era um médico de cavalos quando não era? Eu digo que ele fingiu."
"Vamos fazer uma votação", sugeriu Bently.
"Bem, vamos entender o que estamos fazendo", advertiu o capataz. "Vocês, cavalheiros, entendem que estamos tentando condenar este sujeito por tratar um cavalo sem uma receita?"
"Você quer dizer uma licença, não quer?", indagou Bently.
"Claro — uma licença. Tudo bem! Vamos fazer uma votação."
A primeira votação resultou em sete votos pela absolvição, quatro pela condenação e um em branco — o de Bently.
"Não sei quem são os sujeitos que votaram pela absolvição!", anunciou de repente um jurado com o rosto vermelho. "Mas conheço este Brown pessoalmente e ele é gente boa. Vocês podem confiar nele absolutamente. Ele vai ao mesmo lugar que eu no verão — Cottage Point. Se algum de vocês cavalheiros quiser um bom lugar tranquilo..."
"Tem mosquitos?", indagou um desconhecido irreverentemente.
"Não mais do que em qualquer outro lugar perto de Nova York."
Eles fizeram outra votação e descobriram que o jurado que conhecia Brown havia trazido outros dois para a condenação, de modo que o júri estava agora dividido igualmente, com Bently votando de forma irresponsável pela absolvição.
"Olhem aqui!", propôs o homem de preto. "Vamos discutir isso. Suponham que eu coloque as várias proposições e vocês votem em cada uma separadamente."
"Manda ver!", exortou alguém.
"Agora, primeiro, todos os que acham que este réu alegou ser veterinário, digam sim."
"Espere um minuto!", interpôs o homem alto, que ainda estava de pé junto à janela. "Talvez eu seja um maluco. Mas gostaria que alguém me explicasse quem é o defensor. Eu pensei que o Sr. Tutt fosse o defensor."
"Oh, meu Deus!", gemeu um vendedor flácido com uma gravata rosa. "Réu — r-é-u — lembre-se do réu! Ele é o homem que estamos julgando! O outro é o queixoso!"
"O único que teve alguma queixa foi o cavalo", protestou o homem alto. "Mas entendo agora — estamos julgando o réu. Nunca servi em um júri antes. Agora, qual é a questão?"
"O réu — réu — alegou ser um veterinário licenciado — quando não era?"
"Agora espere um segundo", objetou o homem alto novamente. "Quero entender isso direito. O ponto é que, se este velho fingiu que era um médico de cavalos quando não era, ele tem que ir para a cadeia?"
"Com certeza."
"Mas o outro homem fingiu que era médico."
"Mas ele estava tentando enganar o réu."
"Mas o primeiro sujeito não era médico, tanto quanto o outro sujeito. Por que não condenar o primeiro sujeito?"
Houve um coro de gemidos ao redor da mesa.
"Você nem deveria estar aqui!", observou o vendedor acidamente. "Você é simplório, você é! Fique quieto agora e vote com a maioria, ou vamos contar ao juiz sobre você!"
O homem alto se calou.
"Bem", interveio de repente o capataz, "ele admitiu que era culpado na corte policial."
"Claro!" "É verdade!" "Passe a caixa de novo!", veio de todas as mãos.
Quando o capataz contou os votos, Bently ficou horrorizado ao descobrir que dez jurados agora achavam o réu culpado, e apenas dois o acreditavam inocente.
"Posso sugerir", disse ele seriamente, "que talvez este velho não tenha entendido, no tribunal do magistrado, os elementos que compunham a infração contra ele imputada? Ele simplesmente estava pronto para admitir livremente quais eram os fatos. Sua opinião sobre a questão puramente legal de sua própria culpa não tinha muito valor. De qualquer forma, sua declaração subsequente de inocência à acusação neutraliza o significado da declaração original."
Houve um murmúrio de surpresa e admiração por parte dos companheiros de Bently.
"Isso também é verdade!", declarou o vendedor. "Eu nunca tinha pensado nisso! Você fala muito bem — devo dizer! Mas e aquele cartão de visitas?"
"Parece-me", argumentou Bently, "que o cartão não desempenha nenhum papel particular neste caso. Em primeiro lugar, a questão diante de nós não é se Lowry alguma vez — no passado — se apresentou como veterinário, mas se ele o fez no dia alegado na acusação. O fato de ele ter dado ao detetive um cartão que ele mandara imprimir talvez anos antes só tende a mostrar que, em algum momento ou outro, ele pode ter fingido ser um veterinário licenciado. E vocês se lembrarão, cavalheiros, de que o testemunho é apenas que ele disse ao detetive, referindo-se ao cartão: 'Esse é o meu nome.' Ele não disse nada a ele sobre ser veterinário."
Este argumento um tanto dissimulado causou uma impressão profunda.
"Diga, agora você disse algo!", declarou o vendedor. "Você deveria ter sido um advogado. Vamos fazer outra votação."
Curiosamente, o argumento de Bently pareceu ter tido um efeito revolucionário, pois o júri agora estava dez a dois pela absolvição. Ele começou a se sentir encorajado. Se alguma vez houve um caso... Então ele ouviu uma altercação ocorrendo ferozmente entre o vendedor e o amigo de verão de Brown, este último insistindo em voz alta que o detetive era um perfeito cavalheiro e totalmente correto.
"Ninguém questiona a total honestidade do Sr. Brown", interpôs Bently apressadamente, de uma maneira amigável. "A questão diante de nós é a suficiência da evidência. Sobre isso, parece-me que existe o que poderia ser chamado justamente de dúvida razoável."
"E você tem que dar isso ao réu — é a lei!", gritou o vendedor, furioso.
Foi neste ponto que o Sr. Tutt e Phelan tinham assumido suas posições do lado de fora da porta, e o amigo de Brown tinha dito ao vendedor que ele lhe dava nos nervos; que a dúvida dele não era uma dúvida razoável.
"Cavalheiros! Cavalheiros!", protestou Bently. "Vamos discutir este assunto calmamente."
"Mas eu sou um homem razoável!", gritou o vendedor. "E, portanto, se eu tenho qualquer dúvida, minha dúvida é obrigada a ser razoável."
"Você... um homem razoável?", zombou o amigo de Brown. "Você não é nada além de um maldito tolo!"
"Eu sou, é?", gritou o vendedor, começando a tirar o casaco. "Eu vou te mostrar..."
"Oh, pare com isso!", expostulou o homem gordo, complacentemente. "Resolvam tudo isso depois! Não estamos interessados."
"Bem, façam outra votação", sugeriu suavemente o capataz.
Desta vez, ficou onze a um pela absolvição. Todos se concentraram no amigo de Brown, sobre cujo rosto se instalara um olhar de determinação sombria. Mas uma expressão semelhante ocupava as feições do Sr. Bently Gibson, outrora o expoente do direito-como-ele-é, o baluarte do sistema de júri, agora à deriva no navio da justiça, cegamente determinado de que, não importava o quê — lei ou sem lei, princípios ou sem princípios — aquele velho seria absolvido.
"Meu amigo", comentou ele solenemente, assumindo a palavra, "é claro que você quer fazer justiça neste caso. Não temos nada contra o Sr. Brown. Ele é, sem dúvida, um oficial muito honesto e eficiente. Mas, certamente, os bons antecedentes deste réu podem muito bem criar uma dúvida razoável — e o resto de nós sente que criam."
"Claro! 'Claro que cria!", veio de todos os lados. O amigo de rosto vermelho do Sr. Brown, tendo escapado da ira do vendedor, começou a mostrar um pouco menos de agressividade.
"Não estou nem aí para Brown!", garantiu-lhes ele. "Ele que vá para o inferno por mim! Mas não vejo como vocês podem absolver esse sujeito quando a evidência é incontestada de que ele disse a Brown que era veterinário e tratou de seu cavalo. Eu estaria violando meu juramento se votasse pela absolvição depois daquele testemunho. Não vou cometer perjúrio por ninguém! Eu gostaria de agradar aos senhores também, e votar do seu jeito, mas simplesmente não posso com aquela evidência entalada na minha garganta. Se não fosse por isso..."
"Ele poderia ter tratado o cavalo sem fazê-lo como veterinário, exatamente como o Sr. Tutt disse!", interpôs o homem alto.
"Muito bem para você!", disse o vendedor, totalmente restaurado à equanimidade. "Você está ficando inteligente. Sirva em mais alguns júris..."
"Mas ele disse que era veterinário", insistiu o amigo de Brown. "Como ele poderia ter tratado o cavalo como qualquer outra coisa senão como veterinário quando ele disse que estava tratando dele como veterinário?"
"Talvez ele apenas pensasse que estava fazendo isso como veterinário", comentou o melancólico de preto. "Ele pode ter tentado fazê-lo como veterinário e falhado. Nesse caso, ele não o fez como veterinário, mas apenas como um homem comum. Entendem?"
"Não, não entendo!", bufou o de rosto vermelho. "Isso é tudo besteira. Ele disse que era veterinário e tratou o cavalo como veterinário e recebeu cinco dólares por isso."
"Como você sabe que ele recebeu?", perguntou inesperadamente Bently.
"Porque ele mesmo disse. Isso foi parte da conversa entre Brown e Lowry", declarou o obstinado amigo de verão de Brown. "Se não fosse por isso..."
"Se não fosse por isso você absolveria?", exigiu Bently bruscamente.
"Sim. Claro que eu absolveria!"
"Então eu digo que vocês devem desconsiderar toda essa conversa porque foi uma comunicação privilegiada entre um médico — Brown — e seu paciente — Lowry!", declarou Bently calorosamente.
"Mas o juiz disse que não era privilegiada!", retrucou o outro.
"O Sr. Tutt disse que era, no entanto", disparou de volta o vendedor.
"Bem, o juiz disse..."
"Vamos entrar e descobrir quem disse o quê", propôs o homem alto. "Eu mesmo gostaria de saber. Não me lembro mais quem disse nada."
Então, eles voltaram em fila para o tribunal.
"Excelência", gaguejou o capataz, lambendo os lábios em constrangimento, "alguns dos cavalheiros querem indagar se a conversa entre o Sr. Brown e o Sr. Lowry é privilegiada ou se temos que acreditar nela?"
O juiz, que evidentemente esperava que o retorno do júri fosse com o propósito de declarar o réu culpado, franziu a testa.
"A regra é", disse ele cansadamente, "que conversas entre um médico e seu paciente são privilegiadas e não podem ser testemunhadas sem o consentimento do paciente. Se Brown tivesse sido um médico — o que ele não é — é possível que eu pudesse ter sustentado a objeção do Sr. Tutt com base nisso e excluído a conversa. Mas ele apenas fingiu ser médico, e nenhum privilégio existe nessas circunstâncias, mesmo que, em alguns casos, pareça causar uma dificuldade para aquele que é enganado. A conversa, neste caso, é parte do registro. Podem retirar-se."
Mas Bently, com uma luz em seu semblante como até então nunca fora vista no mar ou na terra, ergueu subitamente a mão.
"Uma pergunta, Excelência. Se Brown tivesse sido um médico, o senhor teria excluído o testemunho?"
O velho anjo ergueu as sobrancelhas, desaprovando.
"Talvez; eu poderia ter considerado a sugestão."
"Obrigado", disse Bently, e todos saíram em fila.
"Isso o cozinhou!", sussurrou Phelan para o Sr. Tutt pelo buraco da fechadura.
"Espere e veja! Espere e veja!", murmurou o advogado. "Ainda não estamos mortos."
Uma vez de volta à sua sala, o júri fez outra votação. Onze a um novamente. Então Bently levantou-se.
"Cavalheiros", gritou ele, "acho que tenho a chave para este caso."
Todos olharam para ele expectantes.
"Somos obrigados por lei a dar ao réu o benefício de toda dúvida razoável. Agora, o único obstáculo para absolvermos este pobre velho é o fato de que há nos autos uma conversa na qual se alega que Lowry teria dito que era veterinário e que agira como tal durante toda a sua vida. O Sr. Tutt diz que essa conversa é privilegiada e deve ser desconsiderada porque foi uma comunicação confidencial entre um médico e um paciente. O juiz diz que não é privilegiada pelo motivo de que o Sr. Brown não era, de fato, um médico — mas ele diz, além disso, que se Brown fosse um médico, teríamos que desconsiderar essa parte da evidência — o que, como todos concordamos, nos deixaria livres para absolver.
"Ora, então, como sabemos que Brown não é um médico? Ele diz que não é; mas ele mentiu sobre tudo o mais que disse a Lowry, e pode ter mentido sobre isso também. E se ele mentiu para Lowry, pode ter mentido para nós aqui hoje. Eu digo que há uma dúvida razoável bem aí sobre se Brown é realmente um médico ou não. Tal dúvida pertence ao réu. Ele tem direito a ela e é nosso dever absolvê-lo!"
"Ouça! Ouça!", "É verdade!", "Parabéns para você!", "O que você tem a dizer agora, hein?", "Façam uma votação!", "Passe a caixa!", ressoou através da bandeira em meio a um tremendo arrastar de pés e raspagem de cadeiras.
"Phelan!", ofegou o Sr. Tutt. "Quem terá novamente a temeridade de sugerir que o sistema de júri não é a maior de nossas instituições?"
"Psiu!", respondeu Cap. "Escute! Sh-h. Por Deus! Eles o absolveram!"
* * * * *
"Então você pegou o trem das cinco e quinze, afinal!", foi a saudação de Eleanor enquanto o jurado modelo saltava do trem. "Eu estava terrivelmente com medo de que você não o fizesse! Espero que não tenha deixado nenhum patife escapar de você?"
"Não!", ele riu enquanto saltava para o automóvel ao lado dela. "Nenhum patife! E tenho uma surpresa para você! Vou tirar minhas férias, afinal!"
"Sério!", ela gritou, encantada. "Seu garoto esperto! Como você conseguiu?"
"Bem", ele respondeu um pouco envergonhado enquanto acendia um cigarro, "o fato é que, quando o júri do qual eu fazia parte retornou com o veredito esta tarde, o juiz disse que não exigiria mais nossos serviços."
* * * * *
Foi quase no mesmo momento que dois outros bons e verdadeiros amigos estavam ao pé dos degraus que levavam à porta da frente caindo aos pedaços do Sr. Tutt.
"Senhor!", Danny estava dizendo com uma voz trêmula, as lágrimas em seus olhos desbotados. "Senhor! Eu iria para a cadeia por cem anos ou mais, sim, eu iria, se pudesse ouvir novamente o que todos disseram de mim! Certamente, eu nunca soube que eu tinha algum valor, de jeito nenhum! E eles dizendo que homem bom eu era, e tudo mais! Deus o abençoe, senhor! E quando o senhor estiver, senhor, no tribunal do céu perante Deus, o Juiz, e o júri de todos os seus santos anjos, se não houver mais ninguém para defendê-lo, certamente o velho Danny Lowry estará lá para fazer exatamente isso."