Camille (la Dame Aux Camilias)
By Alexandre Dumas, fils
CONTENTS
Chapter I Chapter II Chapter III Chapter IV Chapter V Chapter VI Chapter VII Chapter VIII Chapter IX Chapter X Chapter XI Chapter XII Chapter XIII Chapter XIV Chapter XV Chapter XVI Chapter XVII Chapter XVIII Chapter XIX Chapter XX Chapter XXI Chapter XXII Chapter XXIII Chapter XXIV Chapter XXV Chapter XXVI Chapter XXVII
Chapter I
Em minha opinião, é impossível criar personagens antes de se haver estudado longamente os homens, assim como é impossível falar uma língua antes de tê-la adquirido seriamente. Não tendo idade suficiente para inventar, contento-me em narrar, e peço ao leitor que se convença da veracidade de uma história cujos personagens, à exceção da heroína, ainda estão vivos. Testemunhas oculares da maior parte dos fatos que recolhi encontram-se em Paris, e eu poderia recorrer a elas para me confirmarem se o meu testemunho não bastasse. E, graças a uma circunstância particular, só eu posso escrever estas coisas, pois só eu estou em condições de dar os pormenores finais, sem os quais teria sido impossível tornar a história, ao mesmo tempo, interessante e completa.
Eis como estes pormenores chegaram ao meu conhecimento. No dia 12 de março de 1847, vi na Rue Lafitte um grande cartaz amarelo anunciando um leil
ão de bens e de móveis, provenientes de uma herança, após o falecimento de uma proprietária. O cartaz não indicava o nome da falecida, mas dizia que a venda teria lugar na Rue d'Antin, n.º 9, no dia 16, das doze às cinco da tarde. O cartaz dizia ainda que se poderia ver a casa e os móveis nos dias 13 e 14.
Sempre tive um gosto pelos objetos raros; resolvi não perder esta oportunidade, se não para comprar, pelo menos para ver. No dia 13, dirigi-me à Rue d'Antin.
Apesar da hora matinal, já havia pessoas a entrar na casa, e outras, mais curiosas, que, como eu, iam ver o que restava daquela que acabara de morrer.
Ao passar pela porta, vi a porteira, que estava sentada numa cadeira, rodeada de inquilinos, que pareciam discutir a venda e a falecida.
— Foi uma grande perda, minha senhora — disse eu, aproximando-me da porteira.
— Sim, meu senhor — respondeu ela —, era uma rapariga tão boa, tão gentil, tão bonita! Mas, enfim, é a vida! Todas as coisas têm um fim.
— A quem pertenciam estes móveis?
— À senhora Marguerite Gautier.
— Conheço esse nome; mas não a conhecia pessoalmente.
— Pois, era uma rapariga que vivia aqui. Ora, se o senhor a quer ver, pode subir, o leiloeiro deixou a porta aberta.
Subi as escadas, entrei num apartamento que tinha um ar de luxo, de elegância e de tristeza. Havia um salão, uma sala de jantar, um quarto, um gabinete de trabalho, tudo decorado com uma profusão de ornamentos que revelavam a vida de uma cortesã.
Era um ambiente que me fascinava; senti uma melancolia profunda ao pensar na vida daquela mulher, interrompida tão bruscamente. Tudo estava ali ainda, como se ela fosse voltar a qualquer momento.
Vi vestidos, jóias, livros, obras de arte, tudo espalhado, como se à espera de um novo dono. Era um cenário de desolação e de esplendor.
Fiquei ali por algum tempo, imerso nos meus pensamentos, imaginando a vida daquela mulher, as suas alegrias, as suas tristezas, o seu fim solitário.
Saí dali com uma sensação estranha. A vida de Marguerite Gautier parecia-me um mistério que eu desejava desvendar. E foi assim que, pouco a pouco, a curiosidade deu lugar a um sentimento de compaixão.
Voltei nos dias seguintes, e em cada visita descobria novos detalhes, novas histórias, que me ligavam cada vez mais àquela criatura que eu nunca conhecera, mas cuja memória me parecia cada vez mais viva.
E foi assim, através dos objetos que ela deixara, que comecei a reconstituir a sua vida, a sua história, o seu amor, o seu sofrimento.
«É muito simples. Eu esperava chegar a Paris a tempo do leilão e só consegui chegar esta manhã. Estava absolutamente decidido a ter algo que tivesse pertencido a ela, apressei-me a ir ter com o leiloeiro e pedi-lhe que me deixasse ver a lista das coisas vendidas e os nomes dos compradores. Vi que este volume tinha sido comprado por si e decidi pedir-lhe que mo cedesse, embora o preço que lhe tinha atribuído me fizesse recear que o senhor pudesse ter, ele próprio, alguma recordação ligada à posse deste livro.»
Ao falar, notava-se que ele receava que eu tivesse conhecido Marguerite como ele a conhecera. Apressei-me a tranquilizá-lo.
«Conhecia a Srta. Gautier apenas de vista», disse eu; «a morte dela causou-me a impressão que a morte de uma mulher bonita deve causar sempre a um jovem que gostava de a ver. Quis comprar algo no seu leilão e lancei licitações cada vez mais altas por este livro por mera obstinação e para aborrecer outra pessoa, que estava igualmente interessada em obtê-lo e que parecia desafiar-me para a disputa. Repito, pois, que o livro é seu e, mais uma vez, rogo-lhe que o aceite; não me trate como se eu fosse um leiloeiro e deixe que ele seja o penhor, entre nós, de um conhecimento mais longo e mais íntimo.»
«Bom», disse Armand, estendendo-me a mão e apertando a minha; «aceito e ser-lhe-ei grato toda a minha vida.»
Eu estava muito ansioso por interrogar Armand sobre o assunto de Marguerite, pois a dedicatória no livro, a viagem apressada do jovem e o seu desejo de possuir o volume aguçavam a minha curiosidade; mas temia que, ao questionar o meu visitante, pudesse parecer que tinha recusado o seu dinheiro apenas para ter o direito de bisbilhotar os seus assuntos.
Foi como se ele adivinhasse o meu desejo, pois disse-me:
«Leu o volume?»
«De fio a pavio.»
«O que achou das duas linhas que escrevi nele?»
«Percebi logo que a mulher a quem tinha dado o volume devia estar bem fora da categoria comum, pois não podia tomar aquelas duas linhas como um simples elogio vazio.»
«Tinha razão. Aquela mulher era um anjo. Veja, leia esta carta.» E entregou-me um papel que parecia ter sido relido muitas vezes.
Abri-o e eis o que continha:
«MEU CARO ARMAND: — Recebi a sua carta. Continua a ser bom e agradeço a Deus por isso. Sim, meu amigo, estou doente, e com uma daquelas doenças que nunca cedem; mas o interesse que ainda tem por mim torna o meu sofrimento menor. Não viverei o suficiente, creio, para ter a felicidade de apertar a mão que escreveu a carta carinhosa que acabei de receber; as suas palavras bastariam para me curar, se alguma coisa me pudesse curar. Não o verei, pois estou muito perto da morte e o senhor está a centenas de léguas de distância. Meu pobre amigo! A sua Marguerite dos velhos tempos está tristemente mudada. Talvez seja melhor para si não a voltar a ver do que vê-la como ela está. Pergunta se o perdoo; oh, com todo o meu coração, amigo, pois a forma como me magoou foi apenas uma maneira de provar o amor que tinha por mim. Estou de cama há um mês e penso tanto na sua estima que escrevo todos os dias o diário da minha vida, desde o momento em que nos separámos até ao momento em que já não puder escrever. Se o interesse que tem por mim é real, Armand, quando voltar, vá ver Julie Duprat. Ela dar-lhe-á o meu diário. Encontrará nele a razão e a desculpa para o que passou entre nós. Julie é muito boa para mim; falamos frequentemente de si. Ela estava lá quando a sua carta chegou e ambas chorámos sobre ela.
«Se não me tivesse enviado nenhuma notícia, eu tinha-lhe dito para lhe entregar esses papéis quando voltasse a França. Não me agradeça por isso. Este olhar quotidiano sobre os únicos momentos felizes da minha vida faz-me um bem imenso, e se o senhor encontrar ao lê-lo alguma desculpa para o passado, eu, pela minha parte, encontro nele um consolo contínuo. Gostaria de lhe deixar algo que o fizesse lembrar sempre de mim, mas tudo aqui foi penhorado e não tenho nada que seja meu.
«Compreende, meu amigo? Estou a morrer e, da minha cama, ouço um homem a andar de um lado para o outro na sala; os meus credores puseram-no lá para garantir que nada é levado e que nada me resta caso eu não morra. Espero que esperem até ao fim antes de começarem a vender.
«Oh, os homens não têm piedade! Ou melhor, estou enganada, é Deus quem é justo e inflexível!
«E agora, meu querido amor, virá ao meu leilão e comprará algo, pois se eu pusesse de parte a menor coisa para si, poderiam acusá-lo de desviar bens penhorados.
«É uma vida triste a que estou a deixar!
«Seria bom da parte de Deus deixar-me vê-lo mais uma vez antes de morrer. Segundo toda a probabilidade, adeus, meu amigo. Perdoe-me se não escrevo uma carta mais longa, mas aqueles que dizem que me vão curar esgotam-me com sangrias e a minha mão recusa-se a escrever mais.
«MARGUERITE GAUTIER.»
As duas últimas palavras eram quase ilegíveis. Devolvi a carta a Armand, que a tinha, sem dúvida, lido novamente na sua mente enquanto eu a lia no papel, pois disse-me ao recebê-la:
«Quem diria que uma cortesã poderia ter escrito isto?» E, dominado pelas recordações, fixou durante algum tempo a escrita da carta, que acabou por levar aos lábios.
«E quando penso», continuou ele, «que ela morreu antes que eu a pudesse ver, e que nunca mais a verei, quando penso que ela fez por mim o que nenhuma irmã jamais teria feito, não me posso perdoar por a ter deixado morrer daquela maneira. Morta! Morta e a pensar em mim, a escrever e a repetir o meu nome, pobre e querida Marguerite!»
E Armand, dando livre curso aos seus pensamentos e às suas lágrimas, estendeu-me a mão e continuou:
«As pessoas achariam tudo isto bastante infantil se me vissem lamentar-me assim por uma mulher morta como ela; ninguém saberá jamais o que fiz essa mulher sofrer, quão cruel fui para com ela! Quão boa, quão resignada ela era! Pensei que era eu quem tinha de a perdoar, e hoje sinto-me indigno do perdão que ela me concede. Oh, daria dez anos da minha vida para chorar aos seus pés durante uma hora!»
É sempre difícil consolar uma dor que nos é desconhecida e, no entanto, senti uma simpatia tão viva pelo jovem, ele tornou-me tão francamente confidente da sua angústia, que acreditei que uma palavra minha não lhe seria indiferente, e disse:
«Não tem pais, não tem amigos? Tenha esperança. Vá vê-los; eles consolá-lo-ão. Quanto a mim, só posso ter pena de si.»
«É verdade», disse ele, levantando-se e andando de um lado para o outro na sala, «estou a aborrecê-lo. Perdoe-me, não refleti sobre quão pouco a minha dor deve significar para si e que estou a impor-lhe algo que não pode nem deve interessar-lhe de todo.»
«Engana-se quanto ao que penso. Estou inteiramente ao seu dispor; apenas lamento a minha incapacidade de acalmar a sua angústia. Se a minha companhia e a dos meus amigos lhe puderem dar algum entretenimento, se, enfim, precisar de mim, não importa de que forma, espero que compreenda quanto prazer me dará fazer qualquer coisa por si.»
«Perdão, perdão», disse ele; «a dor aguça as sensações. Deixe-me ficar aqui por mais alguns minutos, tempo suficiente para enxugar os olhos, para que os ociosos na rua não olhem como uma curiosidade um marmanjo como eu a chorar. Fez-me muito feliz ao dar-me este livro. Não sei como poderei alguma vez expressar-lhe a minha gratidão.»
«Dando-me um pouco da sua amizade», disse eu, «e contando-me a causa do seu sofrimento. Sente-se melhor quando se conta o que se sofre.»
«Tem razão. Mas hoje preciso demasiado de chorar; não consigo falar muito bem. Um dia contar-lhe-ei a história toda e verá se tenho motivos para lamentar a pobre rapariga. E agora», acrescentou ele, esfregando os olhos pela última vez e olhando-se ao espelho, «diga que não me acha absolutamente idiota e permita-me que volte para o ver outra vez.»
Lançou-me um olhar suave e amável. Estive quase a abraçá-lo. Quanto a ele, os seus olhos começaram novamente a encher-se de lágrimas; viu que eu percebi e desviou o rosto.
«Vamos», disse eu, «coragem.»
«Adeus», disse ele.
E, fazendo um esforço desesperado para conter as lágrimas, saiu da sala, quase correndo.
Levantei a cortina da minha janela e vi-o entrar no cabriolet que o esperava à porta; mas mal se sentou, desatou a chorar e escondeu o rosto no lenço.
Capítulo V
Passou-se bastante tempo até que eu tivesse mais notícias de Armand, mas, por outro lado, ouvia constantemente falar de Marguerite.
Não sei se reparou, mas se o nome de alguém que, pela ordem natural das coisas, poderia ter permanecido sempre desconhecido ou, pelo menos, indiferente, é mencionado à sua frente, subitamente os detalhes começam a agrupar-se em torno do nome e descobre que todos os seus amigos lhe falam de algo que nunca lhe tinham mencionado antes. Descobre que essa pessoa esteve quase a tocar-lhe e passou perto de si muitas vezes na sua vida sem que o notasse; encontra coincidências nos eventos que lhe são contados, uma verdadeira afinidade com certos acontecimentos da sua própria existência. Eu não estava exatamente nesse ponto em relação a Marguerite, pois tinha-a visto e encontrado, conhecia-a de vista e de reputação; no entanto, desde o momento do leilão, o seu nome chegava-me aos ouvidos com tanta frequência e, devido à circunstância que mencionei no último capítulo, esse nome estava associado a uma dor tão profunda que a minha curiosidade aumentava em proporção ao meu espanto. A consequência foi que, sempre que encontrava amigos a quem nunca tinha pronunciado o nome de Marguerite, começava sempre por dizer:
«Alguma vez conheceu uma tal Marguerite Gautier?»
«A Dama das Camélias?»
«Exatamente.»
«Oh, muito bem!»
A palavra era por vezes acompanhada por um sorriso que não podia deixar dúvidas quanto ao seu significado.
«Bem, que espécie de rapariga era ela?»
«Uma boa rapariga.»
«É só isso?»
«Oh, sim; mais inteligência e talvez um pouco mais de coração do que a maioria.»
«Sabe alguma coisa de particular sobre ela?»
«Ela arruinou o Barão de G.»
«Nada mais que isso?»
«Ela foi amante do velho Duque de...»
«Foi realmente amante dele?»
«É o que dizem; de qualquer modo, ele deu-lhe muito dinheiro.»
Os traços gerais eram sempre os mesmos. No entanto, eu estava ansioso por descobrir algo sobre as relações entre Marguerite e Armand. Encontrando um dia um homem que andava constantemente com mulheres conhecidas, perguntei-lhe: «Conheceu Marguerite Gautier?»
A resposta foi a habitual: «Muito bem.»
«Que espécie de rapariga era ela?»
«Uma rapariga fina e boa. Fiquei muito triste ao saber da sua morte.»
«Não teve ela um amante chamado Armand Duval?»
«Alto e loiro?»
«Sim.»
«É verdade.»
«Quem era este Armand?»
«Um rapaz que esbanjou nela o pouco dinheiro que tinha e depois teve de a deixar. Dizem que ele estava completamente louco por ela.»
«E ela?»
«Dizem sempre que ela estava muito apaixonada por ele, mas como as raparigas daquela estirpe estão apaixonadas. Não adianta pedir-lhes o que não podem dar.»
«O que aconteceu ao Armand?»
«Não sei. Conhecemo-lo muito pouco. Ele esteve com Marguerite cinco ou seis meses no campo. Quando ela voltou, ele tinha ido embora.»
«E nunca mais o viu desde então?»
«Nunca.»
Eu, também, não tinha voltado a ver Armand. Começava a perguntar-me se, quando ele tinha vindo ver-me, a notícia recente da morte de Marguerite não teria exagerado o seu antigo amor e, consequentemente, a sua dor, e dizia para comigo que talvez ele já se tivesse esquecido da mulher morta e, com ela, da sua promessa de voltar para me ver. Esta suposição teria parecido bastante provável na maioria dos casos, mas no desespero de Armand havia um acento de verdadeira sinceridade e, passando de um extremo ao outro, imaginei que a angústia lhe tinha provocado uma doença e que o facto de não o ver se explicava por ele estar doente, talvez morto.
Interessava-me pelo jovem apesar de mim mesmo. Talvez houvesse algum egoísmo nesse interesse; talvez adivinhasse alguma história de amor patética sob toda aquela dor; talvez o meu desejo de saber tudo sobre o assunto tivesse muito a ver com a ansiedade que o silêncio de Armand me causava. Uma vez que o Sr. Duval não voltava para me ver, decidi ir vê-lo. Um pretexto não era difícil de encontrar; infelizmente, não sabia o seu endereço e ninguém entre aqueles a quem perguntei mo conseguiu dar.
Fui à Rue d’Antin; talvez o porteiro de Marguerite soubesse onde Armand vivia. Havia um novo porteiro; sabia tão pouco sobre o assunto como eu. Perguntei então em que cemitério a Srta. Gautier tinha sido enterrada. Era o Cemitério de Montmartre. Estávamos no mês de abril; o tempo estava bom, as campas não pareciam tão tristes e desoladas como no inverno; enfim, estava suficientemente quente para que os vivos pensassem um pouco nos mortos e lhes fizessem uma visita. Fui ao cemitério, dizendo para comigo: «Um olhar sobre a campa de Marguerite e saberei se a dor de Armand ainda existe, e talvez possa descobrir o que aconteceu a ele.»
Entrei na portaria do guarda e perguntei-lhe se, no dia 22 de fevereiro, uma mulher chamada Marguerite Gautier não tinha sido enterrada no Cemitério de Montmartre. Ele folheou as páginas de um grande livro onde aqueles que entram neste último repouso são inscritos e numerados, e respondeu que, no dia 22 de fevereiro, às 12 horas, uma mulher com esse nome tinha sido enterrada.
Pedi-lhe que me mostrasse a campa, pois não há como encontrar o caminho sem um guia nesta cidade dos mortos, que tem as suas ruas como uma cidade dos vivos. O guarda chamou um jardineiro, a quem deu as instruções necessárias; o jardineiro interrompeu-o, dizendo: «Eu sei, eu sei. — Não é difícil encontrar essa campa», acrescentou, voltando-se para mim.
«Porquê?»
«Porque tem flores muito diferentes das outras.»
«É o senhor que toma conta dela?»
«Sim, senhor; e oxalá todos os parentes tivessem tanto cuidado com os mortos como o jovem que me deu as ordens.»
Depois de várias voltas, o jardineiro parou e disse-me: «Aqui estamos.»
Vi diante de mim um quadrado de flores que nunca se teria tomado por uma campa, se não fosse uma lápide de mármore branco com um nome.
A lápide estava erguida, uma grade de ferro marcava os limites do terreno comprado e a terra estava coberta de camélias brancas. «O que diz a isto?» disse o jardineiro.
«É bonito.»
«E sempre que uma camélia murcha, tenho ordens para a substituir.»
«Quem lhe deu a ordem?»
«Um jovem cavalheiro, que chorou a primeira vez que veio aqui; um velho amigo dela, suponho, pois dizem que ela era uma rapariga alegre. Muito bonita, também, creio eu. Conhecia-a, senhor?»
«Sim.»
«Como a outra?» disse o jardineiro, com um sorriso conhecedor.
«Não, nunca falei com ela.»
«E o senhor vem aqui também! É muito gentil da sua parte, pois aqueles que vêm ver a pobre rapariga não entopem propriamente o cemitério.»
«Não vem ninguém?»
«Ninguém, exceto aquele jovem cavalheiro que veio uma vez.»
«Só uma vez?»
«Sim, senhor.»
«Ele nunca mais voltou?»
«Não, mas voltará quando chegar a casa.»
«Ele está fora?»
«Sim.»
«Sabe onde ele está?»
«Creio que foi ver a irmã da Srta. Gautier.»
«O que ele quer lá?»
«Foi pedir-lhe autorização para desenterrar o cadáver e colocá-lo noutro lugar.»
«Porque é que ele não o deixa ficar aqui?»
«Sabe, senhor, as pessoas têm ideias estranhas sobre os mortos. Vemos um pouco disso todos os dias. O terreno aqui só foi comprado por cinco anos e este jovem quer um arrendamento perpétuo e um pedaço de terra maior; será melhor na parte nova.»
«O que chama a parte nova?»
«Os novos pedaços de terra que estão à venda, ali à esquerda. Se o cemitério tivesse sido sempre mantido como agora, não haveria outro igual no mundo; mas ainda há muito a fazer antes que ele seja tudo o que deveria ser. E depois, as pessoas são tão estranhas!»
«O que quer dizer?»
«Quero dizer que há pessoas que levam o seu orgulho até aqui. Ora, esta Demoiselle Gautier, parece que viveu um pouco livre, se me permite a expressão. Pobre senhora, ela já morreu; não resta mais dela do que daqueles sobre quem ninguém tem nada a dizer. Nós regamo-los todos os dias. Bem, quando os parentes das pessoas que estão enterradas ao lado dela descobriram o tipo de pessoa que ela era, o que acha que disseram? Que tentariam impedi-la de ficar aqui e que deveria haver um pedaço de terra algures à parte para este tipo de mulheres, como há para os pobres. Já ouviu algo parecido? Eu respondi-lhes diretamente: gente abastada que vem ver os seus mortos quatro vezes por ano, e trazem as suas próprias flores, e que flores! e olham duas vezes para a manutenção daqueles por quem fingem chorar, e escrevem nas suas lápides tudo sobre as lágrimas que não derramaram, e vêm criar dificuldades aos vizinhos. Pode acreditar ou não, senhor, nunca conheci a jovem; não sei o que ela fez. Bem, estou apaixonado pela pobre rapariga; cuido bem dela e deixo-lhe as suas camélias a um preço honesto. Ela é o cadáver de que mais gosto. Vê, senhor, somos obrigados a amar os mortos, pois estamos tão ocupados que quase não temos tempo para amar mais nada.»
Olhei para o homem e alguns dos meus leitores compreenderão, sem que eu precise de lho explicar, a emoção que senti ao ouvi-lo. Ele observou-o, sem dúvida, pois continuou:
«Dizem-me que houve gente que se arruinou por causa daquela rapariga, e amantes que a adoraram; bem, quando penso que não há um só entre eles que lhe compre sequer uma flor agora, isso é estranho, senhor, e triste. E, afinal de contas, ela não está assim tão mal, pois tem a sua sepultura só para si, e se há apenas um que se lembra dela, ele compensa os outros. Mas temos aqui outras pobres raparigas, exatamente como ela e com a sua idade, que são simplesmente atiradas para uma vala comum, e parte-se-me o coração quando ouço os seus pobres corpos caírem na terra. E ninguém mais pensa nelas, uma vez mortas! Não é um ofício alegre, o nosso, especialmente quando ainda nos resta um pouco de coração. Que quer? Não posso evitar. Eu próprio tenho uma filha bem talhada; tem vinte anos, e quando uma rapariga dessa idade vem aqui penso nela, e não me importa se é uma grande dama ou uma vagabunda, não posso deixar de me sentir um pouco tocado. Mas estou a tomar o seu tempo, senhor, com as minhas histórias, e não foi para as ouvir que veio cá. Disseram-me para lhe mostrar a sepultura da Mlle. Gautier; aqui a tem. Há mais alguma coisa que possa fazer pelo senhor?»
«Sabe a morada do M. Armand Duval?», perguntei.
«Sim; ele vive na Rue de ——; pelo menos, é lá que vou sempre buscar o meu dinheiro para as flores que vê ali.»
«Obrigado, meu bom homem.»
Lancei mais um olhar à sepultura coberta de flores, com o desejo quase sentido de penetrar nas profundezas da terra e ver o que a terra tinha feito da bela criatura que lhe fora entregue; depois, afastei-me tristemente.
«Quer ver o M. Duval, senhor?», disse o jardineiro, que caminhava a meu lado.
«Sim.»
«Bem, estou quase certo de que ele ainda não regressou, ou já teria estado aqui.»
«Não pensa que ele se esqueceu da Marguerite?»
«Não só tenho a certeza de que não se esqueceu, como apostaria que ele quer mudar a sepultura dela simplesmente para a poder ver mais uma vez.»
«Por que pensa isso?»
«A primeira palavra que ele me disse quando veio ao cemitério foi: "Como posso vê-la novamente?" Isso não pode ser feito a menos que haja uma mudança de sepultura, e expliquei-lhe todas as formalidades que têm de ser tratadas para que tal aconteça; pois, veja, se quer mudar um corpo de uma sepultura para outra, tem de o identificar, e apenas a família pode dar autorização para tal, sob a direção de um inspetor da polícia. É por isso que o M. Duval foi ver a irmã da Mlle. Gautier, e pode ter a certeza de que a sua primeira visita será para mim.»
Tínhamos chegado ao portão do cemitério. Agradeci novamente ao jardineiro, colocando algumas moedas na sua mão, e dirigi-me à morada que ele me tinha dado.
Armand ainda não tinha regressado. Deixei um recado para ele, implorando-lhe que me viesse ver assim que chegasse, ou que me mandasse dizer onde o poderia encontrar.
No dia seguinte, pela manhã, recebi uma carta de Duval, comunicando-me o seu regresso e pedindo-me que fosse vê-lo, pois estava tão exausto de cansaço que lhe era impossível sair.
Capítulo VI
Encontrei Armand na cama. Ao ver-me, estendeu uma mão a arder. «Está com febre», disse-lhe. «Não é nada, o cansaço de uma viagem rápida; é só isso.» «Foi ver a irmã da Marguerite?» «Sim; quem lhe disse?» «Eu sabia. Conseguiu o que queria?»
«Sim; mas quem lhe falou da minha viagem e da razão por que a fiz?»
«O jardineiro do cemitério.»
«Viu o túmulo?»
Quase não me atrevi a responder, pois o tom em que as palavras foram proferidas provou-me que o interlocutor ainda estava possuído pela emoção a que eu tinha assistido antes, e que cada vez que os seus pensamentos ou a sua fala voltavam a esse tema fúnebre, a emoção provaria ainda, por muito tempo, ser mais forte do que a sua vontade. Contentai-me com um aceno de cabeça.
«Ele tratou bem dele?», continuou Armand. Duas grandes lágrimas rolaram pelas faces do doente, e ele desviou o rosto para as esconder de mim. Fingi não as ver e tentei mudar de conversa. «Esteve fora três semanas», disse eu.
Armand passou a mão pelos olhos e respondeu: «Exatamente três semanas.»
«Fez uma longa viagem.»
«Oh, não estive sempre a viajar. Estive doente durante uma quinzena, senão teria regressado há muito; mas mal lá cheguei apanhei esta febre, e fui obrigado a ficar no meu quarto.»
«E começou a viagem de regresso antes de estar realmente bom?»
«Se tivesse permanecido no local por mais uma semana, teria morrido lá.»
«Bem, agora que está de volta, tem de cuidar de si; os seus amigos virão cuidar de si; eu, em primeiro lugar, se mo permitir.»
«Vou levantar-me dentro de um par de horas.»
«Seria muito imprudente.»
«Tenho de o fazer.»
«O que tem de fazer com tanta pressa?»
«Tenho de ir ao inspetor da polícia.»
«Por que não pede a um dos seus amigos para tratar do assunto? É provável que o deixe pior do que está agora.»
«É a minha única hipótese de melhorar. Tenho de a ver. Desde que soube da sua morte, especialmente desde que vi a sua sepultura, não tenho conseguido dormir. Não consigo acreditar que esta mulher, tão jovem e tão bela quando a deixei, esteja realmente morta. Tenho de me convencer disso. Tenho de ver o que Deus fez de um ser que amei tanto, e talvez o horror da visão me cure do meu desespero. Acompanhar-me-á, se não for incómodo demasiado para si?»
«O que disse a irmã dela sobre isso?»
«Nada. Pareceu muito surpreendida por um estranho querer comprar um terreno e dar à Marguerite uma nova sepultura, e assinou imediatamente a autorização que lhe pedi.»
«Acredite em mim, seria melhor esperar até estar completamente bom.»
«Não tenha receio; estarei completamente composto. Além disso, eu simplesmente perderia o juízo se não cumprisse uma resolução que me impus cumprir. Juro-lhe que nunca voltarei a ser o mesmo até ter visto a Marguerite. É talvez a sede da febre, o sonho de uma noite sem sono, um momento de delírio; mas ainda que eu me tornasse um trapista, como o M. de Rancé, depois de ter visto, verei.»
«Compreendo», disse a Armand, «e estou ao seu dispor. Viu a Julie Duprat?»
«Sim, vi-a no dia em que regressei, pela primeira vez.»
«Deu-lhe os papéis que a Marguerite tinha deixado para si?»
Armand tirou um rolo de papéis debaixo da almofada e voltou a guardá-los imediatamente.
«Sei tudo o que está nestes papéis de cor», disse ele. «Durante três semanas li-os dez vezes por dia. Irá lê-los também, mas mais tarde, quando eu estiver mais calmo e puder fazer-lhe compreender todo o amor e ternura escondidos nesta confissão. Por agora, quero que me faça um serviço.»
«Qual é?»
«O seu carro está lá em baixo?»
«Sim.»
«Bem, quer levar o meu passaporte e perguntar se há cartas para mim na poste restante? O meu pai e a minha irmã devem ter-me escrito para Paris, e parti com tanta pressa que não fui ver antes de sair. Quando voltar, iremos juntos ao inspetor da polícia e trataremos da cerimónia de amanhã.»
Armand entregou-me o seu passaporte e fui à Rue Jean Jacques Rousseau. Havia duas cartas dirigidas a Duval. Peguei nelas e regressei. Quando voltei a entrar no quarto, Armand estava vestido e pronto a sair.
«Obrigado», disse ele, pegando nas cartas. «Sim», acrescentou, depois de olhar para os endereços, «são do meu pai e da minha irmã. Devem ter ficado completamente sem saber como compreender o meu silêncio.»
Abriu as cartas, adivinhou-as mais do que as leu, pois cada uma tinha quatro páginas; e, um momento depois, dobrou-as. «Vamos», disse ele, «responderei amanhã.»
Fomos à esquadra da polícia e Armand entregou a autorização assinada pela irmã da Marguerite. Recebeu em troca uma carta para o guarda do cemitério, e ficou decidido que a exumação teria lugar no dia seguinte, às dez horas, que eu passaria por ele uma hora antes e que iríamos juntos ao cemitério.
Confesso que estava curioso por estar presente e não dormi toda a noite. A julgar pelos pensamentos que enchiam o meu cérebro, deve ter sido uma longa noite para Armand. Quando entrei no seu quarto, às nove horas da manhã seguinte, ele estava assustadoramente pálido, mas parecia calmo. Sorriu e estendeu-me a mão. As suas velas tinham ardido até ao fim; e, antes de partir, pegou numa carta muito pesada dirigida ao seu pai, que sem dúvida continha um relato das impressões daquela noite.
Meia hora depois, estávamos em Montmartre. O inspetor de polícia já lá estava. Caminhámos lentamente na direção da sepultura da Marguerite. O inspetor ia à frente; Armand e eu seguíamos alguns passos atrás.
De tempos a tempos, senti o braço do meu companheiro tremer convulsivamente, como se ele tremesse da cabeça aos pés. Olhei para ele. Ele compreendeu o olhar e sorriu-me; não tínhamos trocado uma palavra desde que saíramos de casa.
Pouco antes de chegarmos à sepultura, Armand parou para limpar o rosto, que estava coberto de grandes gotas de suor. Aproveitei a pausa para respirar fundo, pois também eu sentia como se tivesse um peso no peito.
Qual é a origem desse prazer lúgubre que encontramos em espetáculos deste género? Quando chegámos à sepultura, o jardineiro tinha retirado todos os vasos de flores, a grade de ferro tinha sido removida e dois homens estavam a cavar o solo.
Armand encostou-se a uma árvore e observou. Toda a sua vida parecia passar diante dos seus olhos. De repente, uma das duas picaretas bateu contra uma pedra. Ao som, Armand recuou, como se tivesse levado um choque elétrico, e agarrou a minha mão com tal força que me magoou.
Um dos coveiros pegou numa pá e começou a despejar a terra; depois, quando apenas restaram as pedras que cobriam o caixão, atirou-as para fora, uma a uma.
Observei Armand, pois a cada momento temia que as emoções que ele estava visivelmente a reprimir fossem demasiado para ele; mas ele continuava a observar, com os olhos fixos e bem abertos, como os olhos de um louco, e um ligeiro tremor nas faces e nos lábios eram os únicos sinais da violenta crise nervosa de que estava a sofrer.
Quanto a mim, tudo o que posso dizer é que me arrependi de ter vindo.
Quando o caixão foi descoberto, o inspetor disse ao coveiro: «Abra-o.» Obedeceram, como se fosse a coisa mais natural do mundo.
O caixão era de carvalho, e começaram a desenroscar a tampa. A humidade da terra tinha enferrujado os parafusos, e não foi sem alguma dificuldade que o caixão foi aberto. Um odor penoso surgiu, apesar das plantas aromáticas com que estava coberto.
«Ó meu Deus, meu Deus!», murmurou Armand, e ficou mais pálido do que antes.
Até o coveiro recuou.
Um grande sudário branco cobria o cadáver, delineando estreitamente alguns dos seus contornos. Este sudário estava quase completamente roído numa das extremidades, deixando um dos pés visível.
Eu estava quase a desmaiar, e no momento em que escrevo estas linhas vejo toda a cena novamente em toda a sua imponente realidade.
«Depressa», disse o inspetor. Nisso, um dos homens estendeu a mão, começou a descoser o sudário e, pegando nele por uma ponta, pôs subitamente a descoberto o rosto da Marguerite.
Era terrível ver, é horrível relatar. Os olhos não eram mais do que dois buracos, os lábios tinham desaparecido, tinham-se esvaído, e os dentes brancos estavam firmemente cerrados. O cabelo preto, longo e seco, estava pressionado contra a testa e velava metade das cavidades verdes das faces; e, contudo, reconheci neste rosto o alegre rosto branco e rosa que tinha visto tantas vezes.
Armand, incapaz de desviar os olhos, tinha levado o lenço à boca e mordia-o.
Quanto a mim, foi como se um círculo de ferro se apertasse em volta da minha cabeça, um véu cobriu-me os olhos, um estrondo encheu-me os ouvidos, e tudo o que pude fazer foi destapar um frasco de sais que trazia comigo e respirar profundamente.
Através deste atordoamento, ouvi o inspetor dizer a Duval: «Identifica?»
«Sim», respondeu o jovem com uma voz baça.
«Então fechem-no e levem-no», disse o inspetor.
Os coveiros voltaram a colocar o sudário sobre o rosto do cadáver, fecharam o caixão, agarraram cada uma das extremidades e começaram a transportá-lo em direção ao local para onde lhes tinham dito para o levar.
Armand não se moveu. Os seus olhos estavam fixos na sepultura vazia; ele estava tão branco quanto o cadáver que tínhamos acabado de ver. Parecia ter sido transformado em pedra.
Percebi o que ia acontecer assim que a dor causada pelo espetáculo diminuísse e, assim, deixasse de o sustentar. Aproximei-me do inspetor. «A presença deste cavalheiro ainda é necessária?», disse eu, apontando para Armand.
«Não», respondeu ele, «e aconselho-o a levá-lo daqui. Parece doente.»
«Vamos», disse eu a Armand, agarrando-o pelo braço.
«O quê?», disse ele, olhando para mim como se não me reconhecesse.
«Já passou tudo», acrescentei. «Tem de vir, meu amigo; está completamente branco; está frio. Estas emoções serão demasiado para si.»
«Tem razão. Vamos embora», respondeu mecanicamente, mas sem dar um passo.
Agarrei-o pelo braço e conduzi-o. Ele deixou-se guiar como uma criança, apenas murmurando de tempos a tempos: «Viu os olhos dela?», e voltava-se como se a visão a tivesse trazido de volta.
No entanto, os seus passos tornaram-se mais irregulares; parecia caminhar aos solavancos; os dentes batiam; as mãos estavam frias; uma agitação violenta percorria-lhe o corpo. Falei-lhe; ele não respondeu. Apenas conseguia deixar-se conduzir. Um carro esperava no portão. Foi mesmo a tempo. Mal se tinha sentado, quando o tremor se tornou mais violento e ele teve um verdadeiro ataque de nervos, no meio do qual o seu medo de me assustar o levou a apertar-me a mão e a sussurrar: «Não é nada, não é nada. Quero chorar.»
O seu peito arfava, os seus olhos estavam injetados de sangue, mas não vieram lágrimas. Fi-lo cheirar os sais que trazia comigo, e quando chegámos à sua casa, apenas restava o tremor.
Com a ajuda do seu criado, deitei-o, acendi um grande fogo no seu quarto e corri para o meu médico, a quem contei tudo o que tinha acontecido. Ele apressou-se a vir comigo.
Armand estava rubro e delirava; balbuciava palavras desconexas, nas quais apenas o nome de Marguerite podia ser distintamente ouvido.
«Então?», perguntei ao médico quando ele examinou o paciente.
«Bem, ele não tem mais nem menos do que uma febre cerebral, e é muita sorte para ele, pois acredito firmemente (Deus me perdoe!) que ele teria perdido o juízo. Felizmente, a doença física matará a mental, e dentro de um mês ele estará livre de uma e talvez da outra.»
Capítulo VII
As doenças como a de Armand têm uma coisa de afortunada: ou matam imediatamente ou são rapidamente superadas. Quinze dias após os acontecimentos que acabei de relatar, Armand estava convalescente e já nos tínhamos tornado grandes amigos. Durante todo o curso da sua doença, quase não me tinha arredado do seu lado.
A primavera era pródiga nas suas flores, nas suas folhas, nos seus pássaros, nas suas canções; e a janela do meu amigo abria-se alegremente para o seu jardim, de onde parecia vir um sopro revigorante de saúde para ele. O médico tinha-lhe permitido levantar-se, e sentávamo-nos muitas vezes a conversar à janela aberta, à hora em que o sol está no seu zénite, entre o meio-dia e as duas. Tive o cuidado de não me referir à Marguerite, temendo que o nome despertasse recordações tristes escondidas sob a aparente calma do doente; mas Armand, pelo contrário, parecia deleitar-se em falar dela, não como antigamente, com lágrimas nos olhos, mas com um doce sorriso que me tranquilizava quanto ao estado do seu espírito.
Tinha notado que, desde a sua última visita ao cemitério e do espetáculo que tinha provocado uma crise tão violenta, a dor parecia ter sido superada pela doença, e a morte de Marguerite já não lhe aparecia sob o seu aspeto anterior. Uma espécie de consolação tinha brotado da certeza de que estava agora plenamente convencido, e para banir o quadro sombrio que muitas vezes se apresentava a ele, voltava às recordações felizes da sua ligação com a Marguerite e parecia decidido a não pensar em mais nada.
O corpo estava demasiado enfraquecido pelo ataque de febre, e até pelo processo da sua cura, para lhe permitir qualquer emoção violenta, e a alegria universal da primavera que o envolvia levava os seus pensamentos instintivamente para imagens de alegria. Ele tinha sempre recusado obstinadamente contar à família o perigo que tinha corrido, e quando ficou bom, o seu pai nem sequer sabia que ele tinha estado doente.
Uma noite, tínhamos ficado sentados à janela mais tempo do que o habitual; o tempo tinha estado soberbo e o sol ia dormir num crepúsculo deslumbrante de ouro e azul. Embora estivéssemos em Paris, o verde que nos rodeava parecia isolar-nos do mundo, e a nossa conversa era apenas perturbada, de vez em quando, pelo som de um veículo a passar.
«Foi por esta altura do ano, na noite de um dia como este, que conheci a Marguerite», disse-me Armand, como se estivesse a ouvir os seus próprios pensamentos e não o que eu estava a dizer. Não respondi. Depois, voltando-se para mim, disse:
«Tenho de lhe contar a história toda; o senhor fará um livro com ela; ninguém acreditará, mas talvez seja interessante fazê-lo.»
«Contar-me-á tudo isso mais tarde, meu amigo», disse-lhe eu; «ainda não está suficientemente forte.»
«É uma noite quente, comi a minha dose de frango», disse-me ele, sorrindo; «não tenho febre, não temos nada que fazer, contar-lha-ei agora.»
«Já que realmente o deseja, ouvirei.»
Foi isto que ele me contou, e alterei quase nada da história comovente.
Sim (continuou Armand, deixando a cabeça cair sobre a cadeira), sim, foi exatamente uma noite como esta. Tinha passado o dia no campo com um dos meus amigos, Gaston R—. Regressámos a Paris à noite e, não sabendo o que fazer, fomos ao Variétés. Saímos durante um dos intervalos e uma mulher alta passou por nós no corredor, a quem o meu amigo se curvou.
«A quem se está a curvar?», perguntei.
«Marguerite Gautier», disse ele.
«Parece muito mudada, pois não a reconheci», disse eu, com uma emoção que o senhor compreenderá em breve.
«Ela esteve doente; a pobre rapariga não durará muito.»
Lembro-me das palavras como se me tivessem sido ditas ontem.
Devo dizer-lhe, meu amigo, que, durante dois anos, a visão desta rapariga causou-me uma estranha impressão sempre que a encontrava. Sem saber porquê, eu empalidecia e o meu coração batia violentamente. Tenho um amigo que estuda as ciências ocultas, e ele chamaria ao que eu experimentei «a afinidade dos fluidos»; quanto a mim, apenas sei que estava destinado a apaixonar-me por Marguerite e que o previa.
É, certamente, um facto que ela me causou uma impressão muito definida, que muitos dos meus amigos o tinham notado e que se tinham divertido muito quando viram quem era a pessoa que me causava tal impressão.
A primeira vez que a vi foi na Place de la Bourse, em frente à Susse; uma carruagem aberta estava parada ali, e uma mulher vestida de branco desceu dela. Um murmúrio de admiração saudou-a quando entrou na loja. Quanto a mim, fiquei pregado ao chão desde o momento em que ela entrou até ao momento em que voltou a sair. Podia vê-la através das montras da loja a escolher o que viera comprar. Poderia ter entrado, mas não me atrevi. Não sabia quem ela era e receava que ela adivinhasse por que motivo eu entrara e se ofendesse. No entanto, não pensei que a voltaria a ver.
Ela estava elegantemente vestida; usava um vestido de musselina com muitos folhos, um xaixe indiano bordado nos cantos com flores de ouro e seda, um chapéu de palha, uma pulseira única e uma pesada corrente de ouro, tal como estava a tornar-se moda naquela altura.
Ela regressou à sua carruagem e partiu. Um dos empregados da loja estava à porta a observar a carruagem da sua elegante cliente. Aproximei-me dele e perguntei-lhe qual era o nome da senhora.
«Mademoiselle Marguerite Gautier», respondeu ele. Não me atrevi a pedir-lhe a morada dela e segui o meu caminho.
A recordação desta visão, pois era realmente uma visão, não me saía da cabeça como tantas outras visões que eu tinha visto, e procurei por toda a parte esta mulher de branco, de uma beleza real.
Poucos dias depois, houve um grande espetáculo na Opéra-Comique. A primeira pessoa que vi num dos camarotes foi Marguerite Gautier.
O jovem que me acompanhava reconheceu-a imediatamente, pois disse-me, mencionando o seu nome: «Olha aquela rapariga bonita.»
Naquele momento, Marguerite virou o seu binóculo de ópera na nossa direção e, vendo o meu amigo, sorriu e fez-lhe sinal para que fosse ter com ela.
«Vou lá dizer-lhe um olá», disse ele, «e volto num momento.»
Não pude deixar de dizer: «Homem feliz!»
«Porquê?»
«Ir ver essa mulher.»
«Estás apaixonado por ela?»
«Não», disse eu, corando, pois na verdade não sabia o que dizer; «mas gostaria muito de a conhecer.»
«Vem comigo. Eu apresento-te.»
«Pergunta-lhe se podes.»
«A sério, não há necessidade de rodeios com ela; vem.»
O que ele disse perturbou-me. Tinha medo de descobrir que Marguerite não era digna do sentimento que eu nutria por ela.
Num livro de Alphonse Karr intitulado Am Rauchen, há um homem que, certa noite, segue uma mulher muito elegante, por quem se apaixonara à primeira vista por causa da sua beleza. Apenas para beijar a sua mão, sentia que tinha forças para empreender qualquer coisa, a vontade de conquistar qualquer coisa, a coragem de realizar qualquer coisa. Ele mal se atreve a olhar para o tornozelo elegante que ela mostra ao segurar o vestido para não o sujar na lama. Enquanto ele sonha com tudo o que faria para possuir esta mulher, ela para na esquina da rua e pergunta-lhe se ele quer ir com ela para sua casa. Ele vira a cabeça, atravessa a rua e regressa tristemente para a sua própria casa.
Lembrei-me da história e, tendo desejado sofrer por esta mulher, tive medo de que ela me aceitasse demasiado prontamente e me desse de imediato o que eu teria desejado comprar através de uma longa espera ou de algum grande sacrifício. Nós, homens, somos feitos assim, e é muito feliz que a imaginação empreste tanta poesia aos sentidos, e que os desejos do corpo façam assim tal concessão aos sonhos da alma. Se alguém me tivesse dito: «Terás esta mulher esta noite e serás morto amanhã», eu teria aceitado. Se alguém me tivesse dito: «Podes ser amante dela por dez libras», eu teria recusado. Teria chorado como uma criança que vê o castelo com que sonhava desvanecer-se ao acordar do sono.
Ainda assim, eu queria conhecê-la; era o meu único meio de me decidir sobre ela. Disse, portanto, ao meu amigo que fazia questão de ter a permissão dela para ser apresentado, e vagueei pelos corredores, dizendo a mim mesmo que, dentro de um momento, ela ia ver-me e que eu não saberia para onde olhar. Tentei (sublime infantilidade do amor!) encadear as palavras que lhe diria.
Um momento depois, o meu amigo regressou. «Ela está à nossa espera», disse ele.
«Ela está sozinha?», perguntei.
«Com outra mulher.»
«Não há homens?»
«Não.»
«Então, vamos.»
O meu amigo dirigiu-se para a porta do teatro.
«Não é por aí», disse eu.
«Temos de ir comprar uns doces. Ela pediu-me.»
Entrámos numa confeitaria na Passage de l’Opéra. Eu teria comprado a loja toda e estava a olhar à volta para ver que doces escolher, quando o meu amigo pediu meio quilo de passas glaceadas.
«Sabes se ela gosta delas?»
«Ela não come outro tipo de doces; toda a gente sabe disso.»
«Ah», continuou ele, quando saímos da loja, «sabes que tipo de mulher é aquela a quem te vou apresentar? Não imagines que é uma duquesa. É simplesmente uma mulher mantida, muito mantida, meu caro; não sejas tímido, diz qualquer coisa que te venha à cabeça.»
«Sim, sim», gaguejei, e segui-o, dizendo a mim mesmo que em breve me curaria da minha paixão.
Quando entrei no camarote, Marguerite estava a desmanchar-se a rir. Preferia que ela estivesse triste. O meu amigo apresentou-me; Marguerite deu-me um pequeno aceno e disse: «E os meus doces?»
«Aqui estão eles.»
Ela olhou para mim enquanto os recebia. Baixei os olhos e corei.
Ela inclinou-se para a vizinha e disse algo ao ouvido dela, ao que ambas riram. Evidentemente, eu era a causa da sua troça, e o meu embaraço aumentou. Naquela altura, eu tinha como amante uma pequena pessoa muito afetuosa e sentimental, cujos sentimentos e cujas cartas melancólicas me divertiam muito. Apercebi-me da dor que devo ter-lhe causado pelo que agora experimentava e, durante cinco minutos, amei-a como nenhuma mulher foi alguma vez amada.
Marguerite comeu as suas passas glaceadas sem prestar mais atenção a mim. O amigo que me tinha apresentado não queria deixar-me ficar numa posição tão ridícula.
«Marguerite», disse ele, «não te deves surpreender se o Sr. Duval não diz nada: tu deixas-o de tal forma atordoado que ele não consegue encontrar uma palavra para dizer.»
«Eu diria, pelo contrário, que ele só veio contigo porque te teria aborrecido vir aqui sozinho.»
«Se isso fosse verdade», disse eu, «não teria pedido ao Ernest para solicitar a tua permissão para me apresentar.»
«Talvez isso tenha sido apenas para adiar o momento fatal.»
Por pouco que se tenha conhecido mulheres como Marguerite, não se pode deixar de saber o deleite que elas sentem em fingir que são espirituosas e em provocar as pessoas que encontram pela primeira vez. É, sem dúvida, uma retribuição pelas humilhações a que frequentemente têm de se submeter por parte daqueles que veem todos os dias.
Para lhes responder adequadamente, é preciso um certo jeito, e eu não tinha tido a oportunidade de o adquirir; além disso, a ideia que eu tinha formado de Marguerite acentuava os efeitos da sua zombaria. Nada do que vinha dela me era indiferente. Levantei-me, dizendo com uma voz alterada, que não conseguia controlar totalmente:
«Se é isso que pensa de mim, madame, só tenho de lhe pedir perdão pela minha indiscrição e despedir-me com a garantia de que não voltará a acontecer.»
Dito isto, fiz uma vénia e saí do camarote. Mal tinha fechado a porta, ouvi uma terceira gargalhada. Não teria sido bom para ninguém que me tivesse empurrado naquele momento.
Regressei ao meu lugar. O sinal para levantar o pano foi dado. Ernest voltou para o seu lugar ao meu lado.
«Que maneira de te comportares!», disse ele, ao sentar-se. «Vão pensar que és louco.»
«O que disse a Marguerite depois de eu sair?»
«Riu-se e disse que nunca tinha visto ninguém tão engraçado. Mas não encares isto como uma oportunidade perdida; apenas não dês a estas mulheres a honra de as levar a sério. Elas não sabem o que é cortesia e cerimónia. É como se oferecesses perfumes a cães — eles pensariam que cheira mal e iriam rebolar-se na sarjeta.»
«Afinal de contas, que me importa isso?», disse eu, afetando falar de uma forma indiferente. «Nunca mais verei esta mulher e, se gostava dela antes de a conhecer, é muito diferente agora que a conheço.»
«Bah! Não desespero de te ver um dia no fundo do seu camarote e de ouvir dizer que te estás a arruinar por ela. No entanto, tens razão, ela não foi bem educada; mas seria uma amante encantadora para se ter.»
Felizmente, o pano subiu e o meu amigo calou-se. Não lhe conseguiria dizer de modo algum o que estavam a representar. Tudo o que me lembro é que, de tempos a tempos, levantava os olhos para o camarote que tinha abandonado tão abruptamente, e que os rostos de novos visitantes sucediam-se uns aos outros a toda a hora.
Eu estava longe de ter deixado de pensar em Marguerite. Outro sentimento tinha tomado conta de mim. Parecia-me que eu tinha o insulto dela e o meu absurdo para apagar; dizia a mim mesmo que, se gastasse até ao último centavo que tinha, conquistá-la-ia e ganharia o meu direito ao lugar que tinha abandonado tão rapidamente.
Antes do espetáculo terminar, Marguerite e a sua amiga deixaram o camarote. Levantei-me do meu lugar.
«Vais embora?», disse Ernest.
«Sim.»
«Porquê?»
Naquele momento, ele viu que o camarote estava vazio.
«Vai, vai», disse ele, «e boa sorte, ou melhor, melhor sorte.»
Saí.
Ouvi o farfalhar de vestidos, o som de vozes, na escadaria. Afastei-me e, sem ser visto, vi as duas mulheres passarem por mim, acompanhadas por dois jovens. À entrada do teatro, foram encontradas por um lacaio.
«Diz ao cocheiro para esperar à porta do Café Anglais», disse Marguerite. «Vamos a pé até lá.»
Poucos minutos depois, vi Marguerite, desde a rua, a uma janela de uma das grandes salas do restaurante, a despedaçar as camélias do seu bouquet, uma a uma. Um dos dois homens estava inclinado sobre o ombro dela e sussurrava-lhe ao ouvido. Posicionei-me no Maison-d’or, numa das salas do primeiro andar, e não perdi a janela de vista por um instante. À uma da manhã, Marguerite entrou na carruagem com os seus três amigos. Apanhei um táxi e segui-os. A carruagem parou no número 9 da Rue d’Antin. Marguerite saiu e entrou sozinha. Foi, sem dúvida, um mero acaso, mas o acaso encheu-me de deleite.
A partir desse momento, encontrei muitas vezes Marguerite no teatro ou nos Champs-Élysées. Havia sempre a mesma alegria nela, a mesma emoção em mim.
Finalmente, passou uma quinzena sem que eu a encontrasse. Encontrei o Gaston e perguntei por ela.
«Pobre rapariga, ela está muito doente», respondeu ele.
«O que se passa?»
«Ela tem tuberculose, e o tipo de vida que leva não é exatamente o que a vai curar. Ela deitou-se; está a morrer.»
O coração é uma coisa estranha; fiquei quase contente ao ouvir aquilo.
Todos os dias ia perguntar por ela, sem deixar o meu nome ou o meu cartão. Soube que estava a convalescer e que tinha ido para Bagnères.
O tempo passou, a impressão, se não a memória, desvaneceu-se gradualmente da minha mente. Viajei; casos amorosos, hábitos, trabalho, ocuparam o lugar de outros pensamentos, e quando me recordava desta aventura, encarava-a como uma daquelas paixões que se tem quando se é muito jovem e das quais se ri logo a seguir.
De resto, não foi mérito meu ter superado esta recordação, pois tinha perdido completamente Marguerite de vista e, como lhe disse, quando ela passou por mim no corredor do Variétés, não a reconheci. Ela estava velada, é verdade; mas, velada como poderia ter estado dois anos antes, eu não teria precisado de a ver para a reconhecer: tê-la-ia conhecido intuitivamente. Mesmo assim, o meu coração começou a bater quando soube que era ela; e os dois anos que tinham passado desde que a vi, e o que pareciam ser os resultados dessa separação, desvaneceram-se em fumo apenas com o toque do seu vestido.
Capítulo VIII
No entanto (continuou Armand após uma pausa), embora soubesse que continuava apaixonado por ela, sentia-me mais seguro de mim mesmo, e parte do meu desejo de voltar a falar com Marguerite era o desejo de lhe mostrar que eu era mais forte do que ela.
Quantos caminhos não toma o coração, quantas razões não inventa para si mesmo, a fim de chegar ao que quer!
Não podia permanecer no corredor e voltei para o meu lugar na plateia, olhando apressadamente à volta para ver em que camarote ela estava. Ela estava num camarote do piso térreo, completamente sozinha. Tinha mudado, como lhe disse, e já não exibia um sorriso indiferente nos lábios. Tinha sofrido; ainda estava a sofrer. Embora fosse abril, ainda usava um traje de inverno, toda enrolada em peles.
Observei-a tão fixamente que os meus olhos atraíram os dela. Ela olhou para mim durante alguns segundos, levantou o seu binóculo de ópera para me ver melhor e pareceu pensar que me reconhecia, sem ter a certeza de quem eu era, pois, quando baixou os binóculos, um sorriso, essa saudação feminina e encantadora, passou pelos seus lábios, como se para responder à vénia que ela parecia esperar; mas eu não respondi, para ter uma vantagem sobre ela, como se tivesse esquecido, enquanto ela se lembrava. Supondo que se enganara, ela desviou o olhar.
O pano subiu. Vi muitas vezes Marguerite no teatro. Nunca a vi prestar a mínima atenção ao que estava a ser representado. Quanto a mim, o espetáculo interessava-me igualmente pouco, e não prestava atenção a nada a não ser a ela, embora fazendo o meu melhor para evitar que ela o notasse.
Pouco depois, vi-a a olhar para a pessoa que estava no camarote oposto; ao olhar, vi uma mulher com quem eu estava muito familiarizado. Ela tinha sido, em tempos, uma mulher mantida e tinha tentado entrar no teatro, tinha falhado e, contando com o seu conhecimento de pessoas da moda em Paris, tinha entrado no mundo dos negócios e aberto uma loja de modista. Vi nela um meio de me encontrar com Marguerite e aproveitei um momento em que ela olhou na minha direção para lhe fazer um gesto com a mão. Como esperava, ela fez-me sinal para ir ao camarote dela.
Prudence Duvernoy (esse era o nome auspicioso da modista) era uma daquelas mulheres gordas de quarenta anos com quem é preciso muito pouca diplomacia para as fazer entender o que se quer saber, especialmente quando o que se quer saber é tão simples como o que eu tinha para lhe perguntar.
Aproveitei um momento em que ela sorria para Marguerite para lhe perguntar: «Para quem estás a olhar?»
«Marguerite Gautier.»
«Conheces a Marguerite?»
«Sim, sou a modista dela e ela é minha vizinha.»
«Moras na Rue d’Antin?»
«No número 7. A janela do quarto de vestir dela dá para a janela do meu.»
«Dizem que é uma rapariga encantadora.»
«Não a conheces?»
«Não, mas gostaria de a conhecer.»
«Queres que lhe peça para vir ao nosso camarote?»
«Não, preferia que me apresentasses a ela.»
«Em casa dela?»
«Sim.»
«Isso é mais difícil.»
«Porquê?»
«Porque ela está sob a proteção de um velho duque ciumento.»
«“Proteção” é encantador.»
«Sim, proteção», respondeu Prudence. «Pobre velho, ele ficaria muito embaraçado para lhe oferecer outra coisa qualquer.»
Prudence contou-me então como Marguerite tinha conhecido o duque em Bagnères.
«Foi por isso, então», continuei eu, «que ela está sozinha aqui?»
«Precisamente.»
«Mas quem a levará a casa?»
«Ele.»
«Ele virá buscá-la?»
«Dentro de um momento.»
«E tu, quem te leva a casa?»
«Ninguém.»
«Posso oferecer-me?»
«Mas tu estás com um amigo, não estás?»
«Podemos oferecer-nos, então?»
«Quem é o teu amigo?»
«Um tipo encantador, muito divertido. Ele ficará encantado por te conhecer.»
«Bem, está bem; iremos depois desta peça acabar, pois conheço a última peça.»
«Com todo o prazer; vou avisar o meu amigo.»
«Vai, então. Ah», acrescentou Prudence, quando eu estava a sair, «lá está o duque a entrar no camarote da Marguerite.»
Olhei para ele. Um homem de cerca de setenta anos tinha-se sentado atrás dela e dava-lhe um saco de doces, no qual ela mergulhava de imediato, sorrindo. Depois, estendeu-o na direção de Prudence, com um gesto que parecia dizer: «Queres?»
«Não», sinalizou Prudence.
Marguerite puxou o saco para trás e, voltando-se, começou a falar com o duque.
Pode parecer infantil contar-lhe todos estes detalhes, mas tudo o que se relaciona com Marguerite está tão fresco na minha memória que não consigo deixar de os recordar agora.
Voltei para o Gaston e contei-lhe o combinado que tinha feito para ele e para mim. Ele concordou, e deixámos os nossos lugares na plateia para dar a volta ao camarote da Mme. Duvernoy. Mal tínhamos aberto a porta que dava acesso à plateia, tivemos de nos afastar para deixar passar Marguerite e o duque. Teria dado dez anos da minha vida para estar no lugar do velho.
Quando estavam na rua, ele ajudou-a a entrar num phaeton, que ele próprio conduzia, e foram levados por dois cavalos soberbos.
Voltámos ao camarote da Prudence e, quando a peça acabou, apanhámos um táxi e fomos até ao número 7 da Rue d’Antin. À porta, Prudence convidou-nos a subir para ver os seus showrooms, que nunca tínhamos visto e dos quais ela parecia muito orgulhosa. Pode imaginar com que avidez aceitei. Parecia-me que estava a aproximar-me cada vez mais de Marguerite. Depressa mudei a conversa na direção dela.
«O velho duque está na casa da tua vizinha», disse eu à Prudence.
«Oh, não; ela provavelmente está sozinha.»
«Mas ela deve estar terrivelmente aborrecida», disse o Gaston.
«Passamos a maior parte da nossa noite juntas, ou ela chama-me quando chega. Ela nunca se deita antes das duas da manhã. Não consegue dormir antes disso.»
«Porquê?»
«Porque ela sofre do peito e está quase sempre com febre.»
«Ela não tem amantes?», perguntei eu.
«Nunca vejo ninguém ficar depois de eu sair; não digo que ninguém venha nunca quando eu já não estou. Frequentemente, à noite, encontro lá um certo Conde de N., que pensa que está a fazer progressos ao visitá-la às onze da noite e ao enviar-lhe joias a torto e a direito; mas ela não o suporta. Ela comete um erro; ele é muito rico. É em vão que lhe digo de vez em quando: “Minha querida criança, aí tens o homem para ti”. Ela, que geralmente me ouve, vira-me as costas e responde que ele é demasiado estúpido. Estúpido, de facto, ele é; mas seria uma posição para ela, enquanto este velho duque pode morrer a qualquer dia. Os velhos são egoístas; a família dele reprova-lhe constantemente o afeto por Marguerite; há duas razões pelas quais é provável que ele não lhe deixe nada. Dou-lhe bons conselhos, e ela apenas diz que haverá tempo de sobra para aceitar o conde quando o duque morrer. Não é só diversão», continuou Prudence, «viver assim. Sei muito bem que não me serviria, e eu rapidamente mandaria o velho à vida dele. Ele é tão aborrecido; chama-lhe filha; trata dela como a uma criança; e está sempre a estorvar. Tenho a certeza de que, neste exato momento, um dos seus criados está a rondar a rua para ver quem sai, e especialmente quem entra.»
«Ah, pobre Marguerite!», disse Gaston, sentando-se ao piano e tocando uma valsa. «Não fazia ideia, mas reparei que ela não tem parecido tão alegre ultimamente.»
«Silêncio», disse Prudence, a escutar. Gaston parou.
«Ela está a chamar-me, creio eu.»
Escutámos. Uma voz chamava: «Prudence!»
«Vamos, tens de ir», disse a Sra. Duvernoy.
«Ah, essa é a tua ideia de hospitalidade», disse Gaston, a rir; «não sairemos enquanto não nos apetecer.»
«Porque havemos de sair?»
«Vou a casa da Marguerite.»
«Esperaremos aqui.»
«Não podem.»
«Então vamos contigo.»
«Isso ainda menos.»
«Conheço a Marguerite», disse Gaston; «posso muito bem fazer-lhe uma visita.»
«Mas o Armand não a conhece.»
«Vou apresentá-lo.»
«Impossível.»
Ouvimos de novo a voz de Marguerite a chamar por Prudence, que correu para a janela do seu quarto de vestir. Segui-a com Gaston enquanto ela abria a janela. Escondemo-nos para não sermos vistos de fora.
«Estou a chamar-te há dez minutos», disse Marguerite da sua janela, num tom de voz quase imperioso.
«O que queres?»
«Quero que venhas imediatamente.»
«Porquê?»
«Porque o Conde de N. ainda aqui está, e está a aborrecer-me até à morte.»
«Não posso agora.»
«O que te impede?»
«Há aqui dois rapazes que não se querem ir embora.»
«Diz-lhes que tens de sair.»
«Já lhes disse.»
«Bem, então, deixa-os em casa. Eles sairão rapidamente quando virem que tu foste.»
«Eles vão virar tudo de pernas para o ar.»
«Mas o que é que eles querem?»
«Querem ver-te.»
«Como se chamam?»
«Conheces um, o Sr. Gaston R.»
«Ah, sim, conheço-o. E o outro?»
«O Sr. Armand Duval; e não o conheces.»
«Não, mas traz-nos. Tudo é melhor do que o conde. Espero-te. Vem já.»
Marguerite fechou a sua janela e Prudence a dela. Marguerite, que se lembrava do meu rosto por um momento, não se lembrava do meu nome. Preferiria ter sido lembrado em meu desfavor do que assim esquecido.
«Eu sabia», disse Gaston, «que ela ficaria encantada por nos ver.»
«Encantada não é a palavra», respondeu Prudence, enquanto vestia o chapéu e o xaile. «Ela ver-vos-á para se livrar do conde. Tentem ser mais agradáveis do que ele, ou (conheço a Marguerite) ela culpar-me-á por tudo.»
Seguimos a Prudence escada abaixo. Eu tremia; parecia-me que esta visita teria uma grande influência na minha vida. Estava ainda mais agitado do que na noite em que fui apresentado no camarote da Opéra Comique. Ao chegarmos à porta que conheces, o coração batia-me tão violentamente que mal conseguia pensar.
Ouvimos o som de um piano. Prudence tocou à campainha. O piano silenciou-se. Uma mulher que parecia mais uma dama de companhia do que uma criada abriu a porta. Entrámos na sala de estar e, daí, para o boudoir, que estava então exatamente como o tens visto desde aí. Um jovem estava encostado à lareira. Marguerite, sentada ao piano, deixava os dedos vaguear pelas notas, começando fragmentos de música sem os terminar. Toda a cena respirava tédio, o homem embaraçado pela consciência da sua nulidade, a mulher cansada do seu lúgubre visitante. À voz de Prudence, Marguerite levantou-se e, vindo na nossa direção com um olhar de gratidão para a Sra. Duvernoy, disse:
«Entrem, e sejam bem-vindos.»
Capítulo IX
«Boa noite, meu caro Gaston», disse Marguerite ao meu companheiro. «Estou muito contente por te ver. Porque não vieste ver-me ao meu camarote no Variétés?»
«Tive medo que fosse indelicado.»
«Amigos», e Marguerite prolongou a palavra, como se desse a entender aos presentes que, apesar da forma familiar como o cumprimentara, Gaston não era e nunca tinha sido mais do que um amigo, «os amigos são sempre bem-vindos.»
«Então, permite que lhe apresente o Sr. Armand Duval?»
«Já tinha autorizado a Prudence a fazê-lo.»
«Quanto a isso, madame», disse eu, fazendo uma vénia e conseguindo extrair sons mais ou menos inteligíveis da garganta, «já tive a honra de ser-lhe apresentado.»
Os belos olhos de Marguerite pareciam perscrutar a memória, mas ela não podia, ou parecia não conseguir, lembrar-se.
«Madame», continuei, «estou-lhe grato por ter esquecido a ocasião da minha primeira apresentação, pois fui muito absurdo e devo ter-lhe parecido muito enfadonho. Foi na Opéra Comique, há dois anos; eu estava com o Ernest de ——.»
«Ah, lembro-me», disse Marguerite, com um sorriso. «Não foi o senhor quem foi absurdo; fui eu que fui maldosa, como ainda sou, mas um pouco menos. Perdoou-me?»
E estendeu-me a mão, que beijei.
«É verdade», continuou ela; «sabe, tenho o mau hábito de tentar embaraçar as pessoas na primeira vez que as encontro. É muito estúpido. O meu médico diz que é porque sou nervosa e estou sempre doente; acredite no meu médico.»
«Mas parece estar muito bem.»
«Oh! Estive muito doente.»
«Eu sei.»
«Quem lho disse?»
«Toda a gente sabia; vim muitas vezes saber como estava, e fiquei feliz ao saber da sua convalescença.»
«Nunca me entregaram o seu cartão.»
«Não o deixei.»
«Foi então o senhor quem veio todos os dias enquanto estive doente e nunca quis deixar o seu nome?»
«Sim, fui eu.»
«Então é mais do que indulgente, é generoso. O senhor, conde, não teria feito isso», disse ela, voltando-se para o Sr. de N., depois de me lançar um daqueles olhares com que as mulheres resumem a sua opinião sobre um homem.
«Conheço-a apenas há dois meses», respondeu o conde.
«E este senhor apenas há cinco minutos. Diz sempre algo de ridículo.»
As mulheres são impiedosas para com aqueles de quem não gostam. O conde corou e mordeu os lábios.
Senti pena dele, pois parecia, tal como eu, estar apaixonado, e a amarga franqueza de Marguerite devia tê-lo deixado muito infeliz, especialmente na presença de dois estranhos.
«Estava a tocar piano quando entrámos», disse eu, para mudar a conversa. «Não seria tão amável a ponto de me tratar como um velho conhecido e continuar?»
«Oh», disse ela, atirando-se para o sofá e fazendo-nos sinal para nos sentarmos, «o Gaston sabe como é a minha música. Está muito bem quando estou a sós com o conde, mas não lhe infligirei tal castigo.»
«Mostra-me essa preferência?», disse o Sr. de N., com um sorriso que tentou tornar delicadamente irónico.
«Não me censure por isso. É a única.» Estava destinado que o pobre homem não diria uma única palavra. Lançou um olhar verdadeiramente suplicante a Marguerite.
«Bem, Prudence», continuou ela, «fizeste o que te pedi?»
«Sim.»
«Muito bem. Depois contar-me-ás. Temos de falar sobre isso; não vás embora antes que eu possa falar contigo.»
«Somos, sem dúvida, intrusos», disse eu, «e agora que nós, ou melhor, que eu tive uma segunda apresentação, para apagar a primeira, está na hora de o Gaston e eu partirmos.»
«De modo algum. Não disse isso para si. Quero que fique.»
O conde tirou um relógio muito elegante do bolso e viu as horas. «Tenho de ir ao meu clube», disse ele. Marguerite não respondeu. O conde, então, deixou o seu lugar junto à lareira e, aproximando-se dela, disse: «Adeus, madame.»
Marguerite levantou-se. «Adeus, meu caro conde. Já se vai embora?»
«Sim, temo estar a aborrecê-la.»
«Não me está a aborrecer hoje mais do que em qualquer outro dia. Quando o voltarei a ver?»
«Quando me permitir.»
«Adeus, então.»
Foi cruel, hão de admitir. Felizmente, o conde tinha excelentes maneiras e era muito bem-humorado. Limitou-se a beijar a mão de Marguerite, que ela lhe estendeu com bastante indiferença e, fazendo uma vénia para nós, saiu.
Ao atravessar o limiar, lançou um olhar a Prudence. Ela encolheu os ombros, como que a dizer:
«Que esperavas? Fiz tudo o que pude.»
«Nanine!», gritou Marguerite. «Acompanha o Sr. Conde até à porta.»
Ouvimos a porta abrir e fechar.
«Finalmente», gritou Marguerite, regressando, «ele foi-se! Aquele homem dá-me terrivelmente nos nervos!»
«Minha querida criança», disse Prudence, «tratas-o realmente mal demais, e ele é tão bom e amável contigo. Olha para este relógio na lareira, que ele te deu: deve ter-lhe custado pelo menos três mil francos, tenho a certeza.»
E a Sra. Duvernoy começou a remexê-lo, enquanto ele estava na lareira, olhando-o com olhos cobiçosos.
«Minha querida», disse Marguerite, sentando-se ao piano, «quando ponho de um lado o que ele me dá e do outro o que ele me diz, parece-me que ele compra as suas visitas muito barato.»
«O pobre rapaz está apaixonado por ti.»
«Se eu tivesse de ouvir toda a gente que está apaixonada por mim, não teria tempo para o jantar.»
E começou a passar os dedos pelo piano e, voltando-se para nós, disse:
«O que vão beber? Acho que gostaria de um pouco de ponche.»
«E eu poderia comer um pouco de frango», disse Prudence. «Que tal cearmos?»
«Isso mesmo, vamos cear», disse Gaston.
«Não, cearemos aqui.»
Ela tocou a campainha e Nanine apareceu.
«Manda vir a ceia.»
«O que devo pedir?»
«O que quiseres, mas depressa, depressa.»
Nanine saiu.
«É isso», disse Marguerite, saltando como uma criança, «vamos cear. Que aborrecido que é aquele idiota de conde!»
Quanto mais a via, mais ela me encantava. Era de uma beleza requintada. A sua magreza era um encanto. Eu estava perdido em contemplação.
O que se passava na minha mente teria alguma dificuldade em explicar. Estava cheio de indulgência pela sua vida, cheio de admiração pela sua beleza. A prova de desinteresse que ela deu ao não aceitar um jovem rico e elegante, pronto a desperdiçar todo o seu dinheiro com ela, desculpava-a aos meus olhos por todas as suas falhas no passado.
Havia uma espécie de candura nesta mulher. Podia ver-se que ela ainda estava na virgindade do vício. O seu andar firme, a sua figura flexível, as suas narinas rosadas e abertas, os seus olhos grandes, ligeiramente tingidos de azul, indicavam uma daquelas naturezas ardentes que espalham à sua volta um perfume voluptuoso, como os frascos orientais que, por mais apertados que sejam, deixam sempre escapar um pouco do seu perfume. Finalmente, fosse natureza simples ou um sopro de febre, passava de vez em quando nos olhos desta mulher um vislumbre de desejo, prometendo um verdadeiro paraíso para aquele a quem ela viesse a amar. Mas aqueles que tinham amado Marguerite não podiam ser contados, nem aqueles a quem ela tinha amado.
Nesta rapariga havia, simultaneamente, a virgem que um mero nada tinha transformado numa cortesã, e a cortesã que um mero nada teria transformado na mais amorosa e pura das virgens. Marguerite ainda tinha orgulho e independência, dois sentimentos que, se feridos, podem ser o equivalente a um sentido de vergonha. Não disse uma palavra; a minha alma parecia ter passado para o meu coração e o meu coração para os meus olhos.
«Então», disse ela de repente, «foi o senhor que veio saber de mim quando estive doente?»
«Sim.»
«Sabe, foi verdadeiramente esplêndido da sua parte! Como posso agradecer-lhe?»
«Permitindo-me vir vê-la de vez em quando.»
«Tantas vezes quantas quiser, das cinco às seis e das onze à meia-noite. Agora, Gaston, toca a *Invitation à la Valse*.»
«Porquê?»
«Para me agradar, antes de mais, e depois porque nunca consigo tocar a peça eu própria.»
«Que parte achas difícil?»
«A terceira parte, a parte com sustenidos.»
Gaston levantou-se e foi ao piano, e começou a tocar a maravilhosa melodia de Weber, cuja pauta estava aberta diante dele.
Marguerite, apoiando uma mão no piano, acompanhava cada nota na música, acompanhando-a em voz baixa, e quando Gaston chegava à passagem que ela lhe tinha mencionado, ela cantava, correndo os dedos pelo topo do piano:
«Dó, ré, mi, dó, ré, fá, mi, ré; é isso que não consigo fazer. Outra vez.»
Gaston começou de novo, após o que Marguerite disse:
«Agora, deixa-me tentar.»
Ela tomou o seu lugar e começou a tocar; mas os seus dedos rebeldes falhavam sempre numa das notas.
«Não é incrível», disse ela, exatamente como uma criança, «que eu não consiga tocar aquela passagem? Acreditaria que passo às vezes duas horas da manhã nela? E quando penso que aquele idiota de conde a toca sem a partitura, e maravilhosamente, acredito mesmo que é isso que me deixa tão furiosa com ele.» E recomeçou, sempre com o mesmo resultado.
«Que o diabo leve Weber, a música e os pianos!», gritou ela, atirando com a música para o outro lado da sala. «Como posso tocar oito sustenidos um atrás do outro?» Cruzou os braços e olhou para nós, batendo com o pé. O sangue subiu às suas faces e os lábios entreabriram-se numa ligeira tosse.
«Vamos, vamos», disse Prudence, que tinha tirado o chapéu e estava a ajeitar o cabelo diante do espelho, «vais enervar-te e fazer mal a ti própria. É melhor vires cear; por mim, estou a morrer de fome.»
Marguerite tocou a campainha, sentou-se novamente ao piano e começou a trautear uma canção muito atrevida, que acompanhou sem dificuldade. Gaston conhecia a canção e fizeram uma espécie de dueto.
«Não cantes essas coisas feias», disse eu a Marguerite, suplicante.
«Oh, como é correto!», disse ela, sorrindo e estendendo-me a mão. «Não é por mim, é por ti.»
Marguerite fez um gesto como que a dizer: «Oh, há muito que acabei com a correção!» Nesse momento, Nanine apareceu.
«A ceia está pronta?», perguntou Marguerite. «Sim, madame, num momento.»
«A propósito», disse Prudence para mim, «não olhou em volta; venha, e eu mostro-lhe.» Como sabe, a sala de estar era uma maravilha.
Marguerite veio connosco por um momento; depois chamou o Gaston e foi para a sala de jantar com ele para ver se a ceia estava pronta.
«Ah», disse Prudence, ao avistar uma pequena figura de Saxe numa mesa lateral, «nunca soube que tinhas este pequeno cavalheiro.»
«Qual?»
«Um pequeno pastor a segurar uma gaiola.»
«Leva-o, se gostas.»
«Não te vou privar dele.»
«Ia dá-lo à minha criada. Acho-o horrível; mas se gostas, leva-o.»
Prudence só via o presente, não a forma como era dado. Pôs a pequena figura de lado e levou-me para o quarto de vestir, onde me mostrou duas miniaturas penduradas lado a lado, e disse:
«Aquele é o Conde de G., que estava muito apaixonado pela Marguerite; foi ele quem a lançou. Conhece-o?»
«Não. E esta?», perguntei, apontando para a outra miniatura.
«Aquele é o pequeno Visconde de L. Foi obrigado a desaparecer.»
«Porquê?»
«Porque ficou quase na ruína. Aquele é um, se quiser, que amou a Marguerite.»
«E ela amou-o também, sem dúvida?»
«Ela é uma rapariga tão estranha, nunca se sabe. Na noite em que ele partiu, ela foi ao teatro como de costume, e no entanto tinha chorado quando ele se despediu dela.»
Nesse momento, Nanine apareceu para nos dizer que a ceia estava servida.
Quando entrámos na sala de jantar, Marguerite estava encostada à parede e Gaston, segurando-lhe as mãos, falava-lhe em voz baixa.
«Estás louco», respondeu Marguerite. «Sabes muito bem que não te quero. Não adianta ao fim de dois anos fazer a corte a uma mulher como eu. Connosco, é imediatamente ou nunca. Vamos, senhores, à ceia!»
E, escapando-se de Gaston, Marguerite fê-lo sentar-se à sua direita à mesa, a mim à sua esquerda, depois chamou a Nanine:
«Antes de te sentares, diz na cozinha para não abrirem a ninguém se tocarem à campainha.»
Esta ordem foi dada à uma da manhã.
Rimos, bebemos e comemos à vontade nesta ceia. Em pouco tempo, a alegria atingiu o seu limite máximo, e as palavras que parecem engraçadas para uma certa classe de pessoas, palavras que degradam a boca que as profere, eram ouvidas de vez em quando, entre os aplausos de Nanine, de Prudence e de Marguerite. Gaston divertia-se imenso; era um bom rapaz, mas um pouco estragado pelos hábitos da sua juventude. Por um momento, tentei esquecer-me, forçar o meu coração e os meus pensamentos a tornarem-se indiferentes à cena que tinha diante de mim, e a tomar a minha parte daquela alegria que parecia um dos pratos da refeição. Mas, pouco a pouco, afastei-me do ruído; o meu copo permanecia cheio e senti-me quase triste ao ver esta bela criatura de vinte anos a beber, a falar como um porteiro e a rir tanto mais alto quanto mais escandalosa era a piada.
No entanto, esta hilaridade, esta forma de falar e beber, que me parecia nos outros o mero resultado de más companhias ou de maus hábitos, parecia em Marguerite uma necessidade de esquecer, uma febre, uma irritabilidade nervosa. A cada copo de champanhe, as suas faces coravam com uma cor febril, e uma tosse, quase impercetível no início da ceia, tornou-se finalmente tão violenta que ela era obrigada a encostar a cabeça nas costas da cadeira e a segurar o peito com as mãos sempre que tossia. Sofria ao pensar no dano que tal constituição frágil devia sofrer com excessos diários como aquele. Por fim, algo que eu temia e previa aconteceu. Perto do fim da ceia, Marguerite foi tomada por um ataque de tosse mais violento do que qualquer outro que tivesse tido enquanto lá estive. Parecia que o seu peito estava a ser partido em dois. A pobre rapariga ficou carmesim, fechou os olhos sob a dor e levou o guardanapo aos lábios. Estava manchado com uma gota de sangue. Ela levantou-se e correu para o seu quarto de vestir.
«O que se passa com a Marguerite?», perguntou Gaston.
«Ela riu-se demais e está a cuspir sangue. Oh, não é nada; acontece-lhe todos os dias. Ela voltará num minuto. Deixa-a em paz. Ela prefere assim.»
Não consegui ficar parado; e, para consternação de Prudence e de Nanine, que me chamavam para voltar, segui a Marguerite.
Capítulo X
O quarto para o qual ela fugira estava iluminado apenas por uma única vela. Ela recostou-se num grande sofá, com o vestido desabotoado, mantendo uma mão sobre o coração e deixando a outra pender ao lado. Sobre a mesa havia uma bacia meio cheia de água, e a água estava manchada com vestígios de sangue.
Muito pálida, com a boca entreaberta, Marguerite tentava recuperar o fôlego. De tempos a tempos, o seu peito era erguido por um longo suspiro, que parecia aliviá-la um pouco, e, por alguns segundos, ela parecia sentir-se bastante bem.
Aproximei-me dela; ela não fez nenhum movimento, e eu sentei-me e tomei a mão que estava caída sobre o sofá.
— Ah! és tu — disse ela, com um sorriso.
Devo ter parecido muito agitado, pois ela acrescentou:
— Também não te sentes bem?
— Não, mas tu: ainda sofres?
— Muito pouco — e ela limpou com o lenço as lágrimas que a tosse trouxera aos seus olhos; — já estou habituada a isto.
— Estás a matar-te, madame — disse-lhe eu, com voz comovida. — Gostaria de ser teu amigo, teu parente, para poder impedir-te de te fazeres mal desta maneira.
— Ah! não vale realmente a pena alarmares-te — respondeu ela num tom um tanto amargo; — vê quanto caso os outros fazem de mim! Eles sabem demasiado bem que não há nada a fazer.
Dito isto, levantou-se e, pegando na vela, colocou-a sobre a lareira e mirou-se no espelho.
— Como estou pálida! — disse ela, enquanto apertava o vestido e passava os dedos pelo cabelo solto. — Vamos, voltemos para a ceia. Vens?
Fiquei sentado e não me movi.
Ela viu o quão profundamente eu tinha sido afetado por toda a cena e, aproximando-se de mim, estendeu-me a mão, dizendo:
— Vamos lá, vamos.
Tomei-lhe a mão, levei-a aos lábios e, apesar de mim mesmo, duas lágrimas caíram sobre ela.
— Ora, que criança que tu és! — disse ela, sentando-se novamente ao meu lado. — Estás a chorar! O que se passa?
— Devo parecer-te muito tolo, mas estou terrivelmente perturbado com o que acabei de ver.
— És muito bondoso! O que queres de mim? Não consigo dormir. Tenho de me divertir um pouco. E depois, raparigas como eu, que importa, uma a mais ou a menos? Os médicos dizem-me que o sangue que cuspo vem da garganta; finjo acreditar neles; é tudo o que posso fazer por eles.
— Ouve, Marguerite — disse eu, incapaz de me conter por mais tempo; — não sei que influência vais ter na minha vida, mas, neste exato momento, não há ninguém, nem mesmo a minha irmã, em quem eu sinta o interesse que sinto por ti. Tem sido exatamente o mesmo desde que te vi. Bem, pelo amor de Deus, cuida de ti e não vivas como estás a viver agora.
— Se eu cuidasse de mim, morreria. Tudo o que me sustenta é a vida febril que levo. Depois, quanto a cuidar de si mesma, isso é muito bom para mulheres com famílias e amigos; quanto a nós, a partir do momento em que já não podemos servir a vaidade ou o prazer dos nossos amantes, eles deixam-nos, e longas noites seguem-se a longos dias. Eu sei disso. Estive na cama durante dois meses e, após três semanas, ninguém veio visitar-me.
— É verdade que não sou nada para ti — continuei —, mas se me deixares, cuidarei de ti como um irmão, nunca sairei do teu lado e curar-te-ei. Depois, quando estiveres forte novamente, poderás voltar à vida que levas, se quiseres; mas tenho a certeza de que passarás a preferir uma vida tranquila, que te fará mais feliz e manterá a tua beleza intacta.
— Pensas assim esta noite porque o vinho te deixou triste, mas nunca terias a paciência que finges ter.
— Permite-me dizer, Marguerite, que estiveste doente durante dois meses e que, durante dois meses, vim perguntar por ti todos os dias.
— É verdade, mas por que não subiste?
— Porque não te conhecia então.
— Precisavas de ter sido tão cerimonioso com uma rapariga como eu?
— Deve-se ser sempre cerimonioso com uma mulher; é o que sinto, pelo menos.
— Então tu cuidarias de mim?
— Sim.
— Ficarias ao meu lado todo o dia?
— Sim.
— E até toda a noite?
— Enquanto eu não te cansasse.
— E a que chamas tu a isso?
— Devoção.
— E de onde vem essa devoção?
— Da simpatia irresistível que tenho por ti.
— Então estás apaixonado por mim? Diz isso claramente, é muito mais simples.
— É possível; mas se o disser um dia, não é hoje.
— Farás melhor em nunca o dizer.
— Porquê?
— Porque apenas uma de duas coisas pode resultar disso.
— O quê?
— Ou eu não aceitarei: então terás rancor de mim; ou eu aceitarei: então terás uma triste amante; uma mulher que é nervosa, doente, triste ou alegre com uma alegria mais triste do que o desgosto, uma mulher que cospe sangue e gasta cem mil francos por ano. Isso é muito bom para um velho rico como o duque, mas é muito mau para um jovem como tu, e a prova disso é que todos os jovens amantes que tive deixaram-me muito cedo. Não respondi; escutei. Esta franqueza, que era quase uma espécie de confissão, a vida triste, da qual vislumbrei algo através do véu dourado que a cobria, e cuja realidade a pobre rapariga procurava escapar na dissipação, na bebida e nas noites em claro, impressionou-me tão profundamente que não consegui pronunciar uma única palavra.
— Vamos — continuou Marguerite —, estamos a dizer tolices. Dá-me o teu braço e voltemos à sala de jantar. Eles não saberão o que queremos dizer com a nossa ausência.
— Entra, se quiseres, mas permite-me ficar aqui.
— Porquê?
— Porque a tua alegria magoa-me.
— Bem, serei triste.
— Marguerite, deixa-me dizer-te algo que, sem dúvida, já ouviste muitas vezes, tão frequentemente que o hábito de o ouvir te fez deixar de acreditar nele, mas que não deixa de ser real, e que nunca repetirei.
— E isso é...? — disse ela, com o sorriso de uma jovem mãe que escuta alguma noção disparatada do seu filho.
— É isto: que, desde que te vi, não sei porquê, ocupaste um lugar na minha vida; que, se expulso o pensamento de ti da minha mente, ele volta sempre; que, quando te encontrei hoje, depois de não te ver há dois anos, causaste uma impressão mais profunda no meu coração e na minha mente do que nunca; que, agora que me deixaste vir ver-te, agora que te conheço, agora que conheço tudo o que há de estranho em ti, tornaste-te uma necessidade da minha vida, e levar-me-ás à loucura, não apenas se não me amares, mas se não me deixares amar-te.
— Mas, criatura tola que és, dir-te-ei, como a Mme. D., «Deves ser muito rico, então!» Ora, não sabes que gasto seis ou sete mil francos por mês, e que não poderia viver sem isso; não sabes, meu pobre amigo, que eu te arruinaria num instante, e que a tua família te expulsaria se vivesses com uma mulher como eu. Sejamos amigos, bons amigos, mas nada mais. Vem ver-me, riremos e conversaremos, mas não exageres o meu valor, pois valho muito pouco. Tens um bom coração, queres alguém que te ame, és demasiado jovem e demasiado sensível para viver num mundo como o meu. Aranja uma mulher casada. Vês, falo-te francamente, como um amigo.
— Mas que diabo estais vós a fazer aqui? — gritou Prudence, que tinha entrado sem que a ouvissem, e que agora estava parada logo dentro da porta, com o cabelo meio desfeito e o vestido desabotoado. Reconheci a mão de Gaston.
— Estamos a falar sensatamente — disse Marguerite; — deixa-nos sós; voltaremos em breve.
— Bom, bom! Falai, meus filhos — disse Prudence, saindo e fechando a porta atrás de si, como se para enfatizar ainda mais o tom com que dissera estas palavras.
— Bem, está combinado — continuou Marguerite, quando ficámos sós —, não te vais apaixonar por mim?
— Vou-me embora.
— A esse ponto?
Eu tinha ido demasiado longe para recuar; e estava realmente arrebatado. Esta mistura de alegria, tristeza, candura, prostituição, a própria doença dela, que sem dúvida desenvolvia nela uma sensibilidade às impressões, bem como uma irritabilidade dos nervos, tudo isto me deixou claro que, se desde o início eu não dominasse completamente a sua natureza leve e esquecida, ela estava perdida para mim.
— Vamos lá, falas seriamente? — disse ela.
— Seriamente.
— Mas por que não mo disseste mais cedo?
— Quando poderia ter dito?
— No dia seguinte àquele em que foste apresentado a mim na Opéra-Comique.
— Pensei que me terias recebido muito mal se eu tivesse ido ver-te.
— Porquê?
— Porque me tinha portado de forma tão estúpida.
— É verdade. E, no entanto, já estavas apaixonado por mim.
— Sim.
— E isso não te impediu de ir para a cama e dormir bastante confortavelmente. Sabe-se o que esse tipo de amor significa.
— Aí estás enganada. Sabes o que fiz naquela noite, depois da Opéra-Comique?
— Não.
— Esperei por ti à porta do Café Anglais. Segui a carruagem em que tu e as tuas três amigas iam e, quando vi que foste a única a sair e que entraste sozinha, fiquei muito feliz.
Marguerite começou a rir.
— De que te estás a rir?
— De nada.
— Diz-me, peço-te, ou pensarei que ainda te estás a rir de mim.
— Não te vais zangar?
— Que direito tenho eu de me zangar?
— Bem, havia uma razão suficiente para eu ter entrado sozinha.
— Qual?
— Alguém estava à minha espera aqui.
Se ela me tivesse cravado um punhal, não me teria magoado mais. Levantei-me e, estendendo-lhe a mão, «Adeus», disse eu.
— Eu sabia que te zangarias — disse ela; — os homens são frenéticos para saber o que é certo que lhes dará dor.
— Mas garanto-te — acrescentei friamente, como se quisesse provar o quão completamente eu estava curado da minha paixão —, garanto-te que não estou zangado. Era bastante natural que alguém estivesse à tua espera, tal como é bastante natural que eu saia daqui às três da manhã.
— Tens, também, alguém à tua espera?
— Não, mas tenho de ir.
— Adeus, então.
— Estás a mandar-me embora?
— Nem um pouco.
— Por que és tão cruel para comigo?
— Como fui cruel para contigo?
— Ao dizer-me que alguém estava à tua espera.
— Não pude evitar rir-me da ideia de que tivesses ficado tão feliz por me ver entrar sozinha quando havia uma razão tão boa para tal.
— Encontra-se prazer em coisas bastante infantis, e é uma pena destruir esse prazer quando, simplesmente deixando-o estar, se pode fazer alguém tão feliz.
— Mas que pensas que eu sou? Não sou criada nem duquesa. Não te conhecia até hoje e não sou responsável perante ti pelos meus atos. Supondo que um dia me tornasse tua amante, és obrigado a saber que tive outros amantes além de ti. Se fazes cenas de ciúmes como esta antes, o que será depois, se esse depois alguma vez existisse? Nunca conheci ninguém como tu.
— Isso é porque ninguém te amou como eu te amo.
— Francamente, então, amas-me mesmo?
— Tanto quanto é possível amar, creio eu.
— E isso dura desde...?
— Desde o dia em que te vi entrar na Susse’s, há três anos.
— Sabes, isso é tremendamente belo? Bem, o que hei de fazer em troca?
— Ama-me um pouco — disse eu, com o coração a bater de tal forma que mal podia falar; pois, apesar dos sorrisos meio sarcásticos com que ela acompanhara toda a conversa, parecia-me que Marguerite começava a partilhar da minha agitação e que a hora tão esperada se aproximava.
— Bem, mas e o duque?
— Que duque?
— O meu velho duque ciumento.
— Ele não saberá de nada.
— E se soubesse?
— Ele perdoar-te-ia.
— Ah, não, ele deixar-me-ia, e o que seria de mim?
— Tu arriscas isso por outra pessoa.
— Como sabes?
— Pela ordem que deste para não admitir ninguém esta noite.
— É verdade; mas esse é um amigo sério.
— Por quem não tens qualquer carinho, uma vez que fechaste a tua porta a essa hora.
— Não te cabe a ti censurar-me, uma vez que foi para te receber, a ti e ao teu amigo.
Pouco a pouco, tinha-me aproximado de Marguerite. Tinha colocado os meus braços à volta da sua cintura e senti o seu corpo flexível pesar levemente sobre as minhas mãos unidas.
— Se soubesses o quanto te amo! — disse eu em voz baixa.
— Verdadeiramente?
— Juro-o.
— Bem, se prometeres fazer tudo o que eu te disser, sem uma palavra, sem uma opinião, sem uma pergunta, talvez eu diga que sim.
— Farei tudo o que desejares!
— Mas aviso-te que devo ser livre para fazer o que me aprouver, sem te dar o menor detalhe sobre o que faço. Há muito que desejava um jovem amante, que fosse jovem e não obstinado, amando sem desconfiança, amado sem reivindicar o direito a tal. Nunca encontrei um. Os homens, em vez de se darem por satisfeitos em obter por muito tempo o que mal esperavam obter uma vez, exigem das suas amantes uma prestação de contas completa do presente, do passado e até do futuro. À medida que se habituam a ela, querem governá-la, e quanto mais alguém lhes dá, mais exigentes eles se tornam. Se eu decidir agora ter um novo amante, ele deve ter três qualidades muito raras: deve ser confidente, submisso e discreto.
— Bem, serei tudo o que desejares.
— Veremos.
— Quando veremos?
— Mais tarde.
— Porquê?
— Porque — disse Marguerite, soltando-se dos meus braços e, tirando de um grande ramo de camélias vermelhas uma única camélia, colocou-a na minha casa de botão —, porque nem sempre se podem cumprir acordos no dia em que são assinados.
— E quando te voltarei a ver? — disse eu, abraçando-a.
— Quando esta camélia mudar de cor.
— Quando mudará de cor?
— Amanhã à noite, entre as onze e a meia-noite. Estás satisfeito?
— Precisas de perguntar-me?
— Nem uma palavra disto, nem ao teu amigo, nem a Prudence, nem a ninguém.
— Prometo.
— Agora, beija-me e voltaremos à sala de jantar.
Ela ofereceu-me os lábios, alisou o cabelo novamente e saímos do quarto, ela a cantar e eu quase fora de mim.
Na sala ao lado, ela parou por um momento e disse-me em voz baixa:
— Deve parecer-te estranho que eu esteja pronta a aceitar-te num momento. Queres que te diga porquê? É — continuou ela, pegando na minha mão e colocando-a contra o seu coração para que eu pudesse sentir quão rápida e violentamente ele palpitava; — é porque não viverei tanto tempo como os outros, e prometi a mim mesma viver mais rapidamente.
— Não me fales assim, suplico-te.
— Oh, fica descansado — continuou ela, rindo; — por pouco tempo que eu tenha para viver, viverei mais tempo do que tu me amarás!
E saiu a cantar para a sala de jantar.
— Onde está Nanine? — disse ela, vendo Gaston e Prudence sozinhos.
— Ela está a dormir no teu quarto, à espera que estejas pronta para te deitares — respondeu Prudence.
— Pobre criatura, estou a matá-la! E agora, cavalheiros, é hora de ir.
Dez minutos depois, Gaston e eu deixámos a casa. Marguerite apertou-me a mão e disse-me adeus. Prudence ficou para trás.
— Bem — disse Gaston, quando estávamos na rua —, o que achas da Marguerite?
— Ela é um anjo e estou perdidamente apaixonado por ela.
— Foi o que imaginei; disseste-lho?
— Sim.
— E ela prometeu acreditar em ti?
— Não.
— Ela não é como a Prudence.
— Ela prometeu que...?
— Melhor ainda, meu caro. Não dirias; mas ela ainda não é de todo má, a pobre Duvernoy!
Capítulo XI
Neste ponto, Armand parou.
— Poderias fechar a janela para mim? — disse ele. — Estou a começar a sentir frio. Entretanto, vou deitar-me.
Fechei a janela. Armand, que ainda estava muito fraco, despiu o roupão e deitou-se na cama, descansando a cabeça por alguns momentos na almofada, como um homem que está cansado de falar muito ou perturbado por memórias dolorosas.
— Talvez tenhas falado demasiado — disse-lhe eu. — Preferias que eu fosse embora e te deixasse dormir? Podes contar-me o resto da história noutro dia.
— Estás cansado de a ouvir?
— Pelo contrário.
— Então continuarei. Se me deixasses sozinho, não dormiria.
Quando voltei para casa (continuou ele, sem precisar de fazer pausas para recordar, tão frescos estavam todos os detalhes na sua mente), não fui dormir, mas comecei a refletir sobre a aventura do dia. O encontro, a apresentação, a promessa de Marguerite tinham sucedido uns aos outros tão rapidamente e tão inesperadamente que havia momentos em que me parecia ter estado a sonhar. No entanto, não era a primeira vez que uma rapariga como Marguerite se prometia a um homem no dia seguinte àquele em que ele pedira a promessa.
Embora, na verdade, eu fizesse esta reflexão, a primeira impressão produzida em mim pela minha futura amante era tão forte que ainda persistia. Recusava obstinadamente ver nela uma mulher como as outras e, com a vaidade tão comum a todos os homens, estava pronto a acreditar que ela não poderia deixar de partilhar a atração que me atraía a ela.
No entanto, tinha diante de mim muitos exemplos em contrário e tinha ouvido muitas vezes que o afeto de Marguerite era algo que se obtinha mais ou menos caro, conforme a estação.
Mas, por outro lado, como conciliar esta reputação com a sua constante recusa ao jovem conde que encontrámos em sua casa? Podem dizer que ele lhe era desagradável e que, como era esplendidamente mantida pelo duque, seria mais provável que ela escolhesse um homem que lhe fosse atraente, se tivesse de arranjar outro amante. Se assim fosse, por que não escolheu Gaston, que era rico, espirituoso e charmoso, e por que se interessou por mim, a quem ela achara tão ridículo a primeira vez que me vira?
É verdade que há acontecimentos de um momento que dizem mais do que o namoro de um ano. Daqueles que estavam na ceia, eu fui o único que se preocupou com o facto de ela ter deixado a mesa. Segui-a, fiquei tão afetado a ponto de não conseguir escondê-lo dela, chorei ao beijar-lhe a mão. Esta circunstância, somada às minhas visitas diárias durante os dois meses da sua doença, poderia ter-lhe mostrado que eu era um pouco diferente dos outros homens que ela conhecia, e talvez ela tivesse dito a si mesma que, por um amor que se podia manifestar desta maneira, ela bem poderia fazer o que já fizera tantas vezes que não tinha mais consequência para ela.
Todas estas suposições, como podes ver, eram bastante improváveis; mas qualquer que fosse a razão do seu consentimento, uma coisa era certa: ela tinha consentido.
Ora, eu estava apaixonado por Marguerite. Não tinha mais nada a pedir-lhe. Não obstante, embora ela fosse apenas uma mulher mantida, eu tinha antecipado tanto para mim, talvez para poetizá-lo um pouco, um amor sem esperança, que, quanto mais se aproximava o momento em que eu não teria mais nada a esperar, mais eu duvidava. Não fechei os olhos durante toda a noite.
Mal me reconhecia. Estava meio demente. Ora me parecia não ser suficientemente bonito, rico ou elegante para possuir tal mulher, ora me enchia de vaidade ao pensar nisso; depois, começava a temer que Marguerite tivesse por mim apenas um capricho de poucos dias, e dizia a mim mesmo que, visto que logo teríamos de nos separar, seria melhor não comparecer ao seu encontro, mas escrever-lhe para contar-lhe os meus receios e deixá-la. Disso passava à esperança ilimitada, à confiança sem fronteiras. Sonhava sonhos incríveis sobre o futuro; dizia a mim mesmo que ela deveria a mim a sua recuperação moral e física, que eu passaria toda a minha vida com ela, e que o seu amor me tornaria mais feliz do que todos os amores virginais do mundo.
Mas não posso repetir-te os mil pensamentos que subiram do meu coração à minha cabeça, e que só se desvaneceram com o sono que me veio ao romper do dia.
Quando acordei, eram duas horas. O tempo estava soberbo. Não creio que a vida alguma vez me tenha parecido tão bela e tão cheia de possibilidades. As lembranças da noite anterior vieram-me sem sombra ou obstáculo, escoltadas alegremente pelas esperanças da noite que viria. De tempos a tempos, o meu coração saltava de amor e de alegria no meu peito. Uma febre doce agitava-me. Já não pensava nas razões que tinham enchido a minha mente antes de dormir. Via apenas o resultado, pensava apenas na hora em que deveria ver Marguerite novamente.
Era impossível ficar dentro de casa. O meu quarto parecia demasiado pequeno para conter a minha felicidade. Precisava de toda a natureza para me desabafar.
Saí. Ao passar pela Rue d’Antin, vi o coupé de Marguerite à sua espera à porta. Direcionei-me para os Champs-Elysées. Amava todas as pessoas que encontrava. O amor confere uma espécie de bondade.
Depois de ter caminhado durante uma hora, dos cavalos de Marly ao Rond-Point, vi a carruagem de Marguerite ao longe; adivinhei-a mais do que a reconheci. Ao dobrar a esquina dos Champs-Elysées, parou, e um jovem alto deixou um grupo de pessoas com quem falava e aproximou-se dela. Conversaram durante alguns momentos; o jovem regressou para junto dos seus amigos, os cavalos puseram-se de novo em marcha e, ao aproximar-me do grupo, reconheci aquele que falara com Marguerite como o Comte de G., cujo retrato eu tinha visto e a quem Prudence me indicara como o homem a quem Marguerite devia a sua posição. Foi a ele que ela fechara as portas na noite anterior; imaginei que ela tivesse parado a carruagem para lhe explicar a razão de o ter feito, e esperava que, ao mesmo tempo, ela tivesse encontrado algum novo pretexto para não o receber na noite seguinte.
Como passei o resto do dia, não sei; caminhei, fumei, falei, mas o que disse, quem encontrei, já tinha esquecido completamente às dez horas da noite.
Tudo o que me lembro é que, quando regressei a casa, passei três horas na minha higiene pessoal, e olhei cem vezes para o meu relógio de bolso e para o meu relógio de parede, que infelizmente marcavam ambos a mesma hora.
Quando soaram as dez e meia, disse a mim mesmo que era hora de ir.
Eu vivia naquela época na Rue de Provence; segui pela Rue du Mont-Blanc, atravessei o Boulevard, subi a Rue Louis-le-Grand, a Rue de Port-Mahon e a Rue d’Antin. Olhei para as janelas de Marguerite. Havia luz. Toquei à campainha. Perguntei ao porteiro se Mlle. Gautier estava em casa. Ele respondeu que ela nunca chegava antes das onze ou onze e um quarto. Olhei para o meu relógio. Tinha a intenção de vir bem devagar, e tinha feito o percurso da Rue de Provence à Rue d’Antin em cinco minutos.
Caminhei de um lado para o outro na rua; não há lojas, e a essa hora ela está completamente deserta. Meia hora depois, Marguerite chegou. Olhou em volta ao descer do seu coupé, como se procurasse alguém. A carruagem partiu; as cavalariças não eram na casa. No momento em que Marguerite ia tocar à campainha, aproximei-me e disse: “Boa noite”.
“Ah, é você”, disse ela, num tom que de forma alguma me tranquilizou quanto ao seu prazer em ver-me.
“Não me prometeu que eu poderia vir vê-la hoje?”
“É verdade. Tinha-me esquecido.”
Esta palavra perturbou todas as reflexões que eu tinha feito durante o dia. Contudo, começava a habituar-me aos seus modos, e não a deixei, como certamente teria feito noutra altura. Entrámos. Nanine já tinha aberto a porta.
“A Prudence veio?” disse Marguerite.
“Não, madame.”
“Diga que ela deve ser admitida assim que chegar. Mas, primeiro, apague a lâmpada na sala de estar e, se alguém vier, diga que não voltei e que não voltarei.”
Ela estava como uma mulher que está preocupada com alguma coisa, e talvez aborrecida por um hóspede indesejado. Não sabia o que fazer ou dizer. Marguerite dirigiu-se ao seu quarto; eu permaneci onde estava.
“Venha”, disse ela.
Tirou o chapéu e a sua capa de veludo e atirou-os para cima da cama, depois deixou-se cair numa grande poltrona ao lado da lareira, que ela mantinha acesa até ao início do verão, e disse-me, enquanto mexia na corrente do seu relógio:
“Bem, que novidades tens para mim?”
“Nenhuma, exceto que eu não deveria ter vindo esta noite.”
“Porquê?”
“Porque pareces irritada, e sem dúvida estou a aborrecer-te.”
“Não me estás a aborrecer; apenas não me sinto bem; estive a sofrer o dia todo. Não consegui dormir e tenho uma dor de cabeça terrível.”
“Vou-me embora e deixo-te ir para a cama?”
“Oh, podes ficar. Se eu quiser ir para a cama, não me importo que estejas aqui.”
Nesse momento, ouviu-se uma campainha.
“Quem vem agora?” disse ela, com um movimento de impaciência.
Poucos minutos depois, houve outra campainha.
“Não há ninguém para ir à porta? Terei de ser eu.” Ela levantou-se e disse-me: “Espera aqui”.
Ela atravessou as divisões e ouvi-a abrir a porta da rua. Escutei.
A pessoa que ela admitira não passou da sala de jantar. À primeira palavra, reconheci a voz do jovem Comte de N.
“Como está esta noite?” disse ele.
“Não estou bem”, respondeu Marguerite secamente.
“Estou a incomodar?”
“Talvez.”
“Como me recebe! O que fiz eu, minha querida Marguerite?”
“Meu caro amigo, não fizeste nada. Estou doente; tenho de ir para a cama, por isso terás a gentileza de te ires embora. É enervante não poder voltar à noite sem que apareças cinco minutos depois. O que queres? Que eu seja a tua amante? Bem, já te disse cem vezes que não; apenas me aborreces, e mais valia ires para outro lado. Repito-te hoje, pela última vez, não quero ter nada que ver contigo; está decidido. Adeus. Aí vem a Nanine; ela pode iluminar-te até à porta. Boa noite.”
Sem acrescentar mais uma palavra, ou ouvir o que o jovem balbuciava, Marguerite regressou à sala e bateu a porta com força. Nanine entrou momentos depois.
“Agora entenda”, disse Marguerite, “deves dizer sempre a esse idiota que não estou, ou que não o receberei. Estou farta de ver pessoas que querem sempre a mesma coisa; que me pagam por isso, e depois pensam que estão quites comigo. Se aqueles que vão dedicar-se ao nosso negócio odioso soubessem o que ele realmente é, prefeririam ser criadas de servir. Mas não, a vaidade, o desejo de ter vestidos, carruagens e diamantes arrasta-nos; acredita-se no que se ouve, pois aqui, como noutros lugares, existe essa coisa de acreditar, e gasta-se o coração, o corpo, a beleza, pouco a pouco; somos temidas como uma fera, desprezadas como uma pária, rodeadas de pessoas que tomam sempre mais do que dão; e um belo dia morremos como um cão numa valeta, depois de termos arruinado os outros e a nós mesmas.”
“Vamos, vamos, madame, tenha calma”, disse Nanine; “os seus nervos estão um pouco alterados esta noite.”
“Este vestido incomoda-me”, continuou Marguerite, desapertando o corpete; “dá-me um roupão. Bem, e a Prudence?”
“Ainda não veio, mas enviar-lha-ei, madame, no momento em que chegar.”
“Aí está uma”, prosseguiu Marguerite, enquanto tirava o vestido e vestia um roupão branco, “aí está uma que sabe muito bem como me encontrar quando precisa de mim, e contudo não pode fazer-me um favor decentemente. Ela sabe que estou à espera de uma resposta. Sabe o quão ansiosa estou, e tenho a certeza de que anda por aí a tratar dos seus próprios assuntos, sem dar um pensamento a mim.”
“Talvez ela tivesse de esperar.”
“Vamos tomar um ponche.”
“Não lhe fará bem, madame”, disse Nanine.
“Tanto melhor. Traga fruta também, e um paté ou uma asa de frango; qualquer coisa, depressa. Estou com fome.”
Preciso de te dizer a impressão que esta cena me causou, ou não a podes imaginar?
“Vais jantar comigo”, disse ela para mim; “entretanto, pega num livro. Vou ao meu toucador por um momento.”
Ela acendeu as velas de um candelabro, abriu uma porta ao pé da cama e desapareceu.
Comecei a refletir sobre a vida desta pobre rapariga, e o meu amor por ela misturava-se com uma grande piedade. Caminhei de um lado para o outro na sala, a pensar nas coisas, quando Prudence entrou.
“Ah, estás aqui?” disse ela, “onde está a Marguerite?”
“No toucador dela.”
“Vou esperar. A propósito, sabes que ela te acha encantador?”
“Não.”
“Ela não te disse?”
“De todo.”
“Como estás aqui?”
“Vim fazer-lhe uma visita.”
“À meia-noite?”
“Por que não?”
“Farceur!”
“Ela recebeu-me, aliás, muito mal.”
“Ela receber-te-á melhor daqui a pouco.”
“Achas?”
“Tenho boas notícias para ela.”
“Não há mal nisso. Então ela falou-te de mim?”
“Ontem à noite, ou melhor, esta noite, quando tu e o teu amigo saíram. A propósito, como se chama o teu amigo? Gaston R., não é?”
“Sim”, disse eu, não sem sorrir, ao pensar no que Gaston me tinha confiado, e ao ver que Prudence mal sabia o nome dele.
“Ele é muito simpático, esse tipo; o que faz ele?”
“Ele tem vinte e cinco mil francos por ano.”
“Ah, realmente! Bem, voltando a ti. Marguerite perguntou-me tudo sobre ti: quem eras, o que fazias, que amantes tinhas tido; enfim, tudo o que se pode perguntar sobre um homem da tua idade. Contei-lhe tudo o que sabia, e acrescentei que eras um jovem encantador. É tudo.”
“Obrigado. Agora diz-me o que era aquilo que ela queria dizer-te ontem à noite.”
“Nada de especial. Foi apenas para me ver livre do conde; mas tenho realmente algo para ver com ela hoje, e estou a trazer-lhe uma resposta agora.”
Neste momento, Marguerite reapareceu do seu toucador, usando uma touca de dormir pequena e coquete com laços amarelos, tecnicamente conhecidos como “couves”. Ela estava arrebatadora. Tinha chinelos de cetim nos pés nus e estava a polir as unhas.
“Bem”, disse ela, ao ver Prudence, “viste o duque?”
“Sim, realmente.”
“E o que é que ele te disse?”
“Ele deu-me…”
“Quanto?”
“Seis mil.”
“Tens o dinheiro?”
“Sim.”
“Ele pareceu incomodado?”
“Não.”
“Pobre homem!”
Este “Pobre homem!” foi dito num tom impossível de transmitir. Marguerite pegou nas seis notas de mil francos.
“Foi mesmo a tempo”, disse ela. “Minha querida Prudence, precisas de dinheiro?”
“Sabes, minha querida, daqui a dois dias é dia 15, por isso, se pudesses emprestar-me trezentos ou quatrocentos francos, far-me-ias um serviço real.”
“Manda cá amanhã; é demasiado tarde para arranjar troco agora.”
“Não te esqueças.”
“Sem medo. Queres jantar connosco?”
“Não, o Charles está à minha espera.”
“Ainda estás dedicada a ele?”
“Louca, minha querida! Vejo-te amanhã. Adeus, Armand.”
Mme. Duvernoy saiu.
Marguerite abriu a gaveta de uma mesa de apoio e atirou as notas para dentro dela.
“Permite-me que me vá deitar?” disse ela com um sorriso, enquanto se movia em direção à cama.
“Não só permito, como te suplico.”
Ela afastou a colcha e entrou na cama.
“Agora”, disse ela, “vem sentar-te ao meu lado e vamos conversar.”
Prudence tinha razão: a resposta que ela tinha trazido a Marguerite tinha-a deixado bem-disposta.
“Perdoas-me pelo meu mau humor esta noite?” disse ela, tomando a minha mão.
“Estou pronto a perdoar-te tantas vezes quantas quiseres.”
“E tu amas-me?”
“Loucamente.”
“Apesar do meu mau feitio?”
“Apesar de tudo.”
“Juras?”
“Sim”, disse eu num sussurro.
Nanine entrou, trazendo pratos, um frango frio, uma garrafa de claret e alguns morangos.
“Não fiz o ponche”, disse Nanine; “o claret é melhor para si. Não é, senhor?”
“Certamente”, respondi, ainda sob a emoção das últimas palavras de Marguerite, com os olhos fixos ardentemente nela.
“Bom”, disse ela; “põe tudo na mesinha e puxa-a para junto da cama; nós servimo-nos. Esta é a terceira noite que ficas acordado, e deves precisar de sono. Vai para a cama. Não quero mais nada.”
“Queres que tranque a porta?”
“Claro que sim! E, acima de tudo, diz-lhes para não deixarem entrar ninguém antes do meio-dia.”
Capítulo XII
Às cinco horas da manhã, quando a luz começou a aparecer através das cortinas, Marguerite disse-me: “Perdoa-me se te mando embora; mas tenho de o fazer. O duque vem todas as manhãs; dir-lhe-ão, quando ele vier, que estou a dormir, e talvez ele espere até que eu acorde.”
Tomei a cabeça de Marguerite nas minhas mãos; o seu cabelo solto espalhava-se em redor; dei-lhe um último beijo, dizendo: “Quando te voltarei a ver?”
“Ouve”, disse ela; “pega na pequena chave dourada que está na lareira, abre aquela porta; traz-me a chave de volta e vai-te. Ao longo do dia terás uma carta, e as minhas ordens, pois sabes que deves obedecer cegamente.”
“Sim; mas se eu já te pedisse algo?”
“O quê?”
“Deixa-me ficar com essa chave.”
“O que pedes é algo que nunca fiz por ninguém.”
“Bem, faz por mim, pois juro-te que não te amo como os outros te amaram.”
“Bem, fica com ela; mas depende apenas de mim torná-la inútil para ti, afinal.”
“Como?”
“Há ferrolhos na porta.”
“Maldita!”
“Mandá-los-ei tirar.”
“Amas, então, um pouco?”
“Não sei como é, mas parece-me que sim! Agora vai; não consigo manter os olhos abertos.”
Segurei-a nos meus braços por alguns segundos e depois fui-me embora.
As ruas estavam vazias, a grande cidade ainda dormia, uma doce frescura circulava pelas ruas que, poucas horas depois, estariam cheias com o ruído dos homens. Parecia-me que esta cidade adormecida me pertencia; procurei na minha memória os nomes daqueles cuja felicidade eu tinha outrora invejado; e não consegui recordar-me de um sem me sentir mais feliz.
Ser amado por uma jovem pura, ser o primeiro a revelar-lhe o estranho mistério do amor, é de facto uma grande felicidade, mas é a coisa mais simples do mundo. Tomar cativo um coração que não tem experiência de ataque, é entrar numa cidade não fortificada e sem guarnição. A educação, o sentimento familiar, o sentido do dever, a família, são sentinelas fortes, mas não há sentinelas tão vigilantes que não possam ser enganadas por uma rapariga de dezasseis anos a quem a natureza, pela voz do homem que ela ama, dá os primeiros conselhos de amor, tanto mais ardentes por parecerem tão puros.
Quanto mais uma rapariga acredita na bondade, mais facilmente cederá, se não ao seu amante, pelo menos ao amor, pois, sendo sem desconfiança, é sem força, e ganhar o seu amor é um triunfo que pode ser alcançado por qualquer jovem de vinte e cinco anos. Vede como as jovens são vigiadas e guardadas! As paredes dos conventos não são suficientemente altas, as mães não têm fechaduras suficientemente fortes, a religião não tem deveres suficientemente constantes, para fechar estes pássaros encantadores nas suas gaiolas, gaiolas que nem sequer estão cobertas de flores. Então, como devem desejar o mundo que lhes é escondido, como devem achá-lo tentador, como devem ouvir a primeira voz que vem contar os seus segredos através das suas grades, e abençoar a mão que é a primeira a levantar um canto do misterioso véu!
Mas ser verdadeiramente amado por uma cortesã: esse é um triunfo de dificuldade infinitamente maior. Com elas, o corpo desgastou a alma, os sentidos queimaram o coração, a dissipação embotou os sentimentos. Elas conhecem há muito as palavras que lhes dizemos, os meios que usamos; venderam o amor que inspiram. Amam por profissão, e não por instinto. Estão guardadas melhor pelos seus cálculos do que uma virgem pela sua mãe e pelo seu convento; e inventaram a palavra capricho para esse amor não transacionado que se permitem de tempos a tempos, por descanso, por desculpa, por consolação, como usurários que enganam mil, e pensam ter comprado a sua própria redenção emprestando uma vez uma libra a um pobre diabo que morre de fome, sem pedir juros ou recibo.
Então, quando Deus permite o amor a uma cortesã, esse amor, que a princípio parece um perdão, torna-se para ela quase sem penitência. Quando uma criatura que tem todo o seu passado para se censurar é tomada de repente por um amor profundo, sincero, irresistível, de que nunca se sentira capaz; quando ela confessou o seu amor, como é que o homem que ela ama a domina absolutamente! Como ele se sente forte com o seu direito cruel de dizer: Tu não fazes mais por amor do que fizeste por dinheiro. Elas não sabem que prova dar. Um rapaz, diz a fábula, tendo-se divertido muitas vezes a gritar “Socorro! um lobo!” para perturbar os trabalhadores no campo, foi um dia devorado por um Lobo, porque aqueles a quem ele tinha enganado tantas vezes já não acreditavam nos seus pedidos de socorro. O mesmo acontece com estas mulheres infelizes quando amam seriamente. Mentiram tantas vezes que ninguém acredita nelas, e no meio do seu remorso são devoradas pelo seu amor.
Daí essas grandes devoções, esses retiros austeros do mundo, dos quais algumas delas deram exemplo.
Mas quando o homem que inspira este amor redentor é suficientemente grande de alma para o receber sem recordar o passado, quando se entrega a ele, quando, em suma, ele ama como é amado, este homem esgota de um só gole todas as emoções terrenas, e depois de tal amor o seu coração ficará fechado a qualquer outro.
Não fiz estas reflexões na manhã em que voltei para casa. Elas não podiam ser senão o pressentimento do que me iria acontecer, e, apesar do meu amor por Marguerite, não previ tais consequências. Faço estas reflexões hoje. Agora que tudo terminou irrevogavelmente, elas surgem naturalmente do que aconteceu.
Mas voltemos ao primeiro dia da minha ligação. Quando cheguei a casa, estava num estado de alegria louca. Ao pensar em como as barreiras que a minha imaginação tinha colocado entre Marguerite e mim tinham desaparecido, em como ela era agora minha; no lugar que eu ocupava agora nos seus pensamentos, na chave do seu quarto que eu tinha no bolso, e no meu direito de usar essa chave, eu estava satisfeito com a vida, orgulhoso de mim mesmo, e amava a Deus porque Ele tinha permitido que tais coisas fossem.
Um dia, um jovem passa na rua, roça numa mulher, olha para ela, vira-se, segue o seu caminho. Ele não conhece a mulher, e ela tem prazeres, desgostos, amores, nos quais ele não tem parte. Ele não existe para ela, e talvez, se ele lhe falasse, ela apenas se risse dele, como Marguerite se tinha rido de mim. Semanas, meses, anos passam, e de repente, quando cada um seguiu o seu destino por um caminho diferente, a lógica do acaso coloca-os frente a frente. A mulher torna-se amante do homem e ama-o. Como? Porquê? As suas duas existências são doravante uma só; mal começaram a conhecer-se quando parece que se conhecem desde sempre, e tudo o que veio antes é apagado da memória dos dois amantes. É curioso, deve-se admitir.
Quanto a mim, já não me lembrava de como tinha vivido antes daquela noite. Todo o meu ser estava exaltado de alegria ao lembrar-me das palavras que trocáramos durante aquela primeira noite. Ou Marguerite era muito hábil na decepção, ou tinha concebido por mim uma daquelas paixões repentinas que se revelam no primeiro beijo, e que morrem, muitas vezes, tão subitamente como nasceram.
Quanto mais refletia, mais dizia a mim mesmo que Marguerite não tinha razão para fingir um amor que não sentia, e dizia a mim mesmo também que as mulheres têm duas maneiras de amar, uma das quais pode surgir da outra: amam com o coração ou com os sentidos. Muitas vezes uma mulher aceita um amante em obediência à simples vontade dos sentidos, e aprende sem esperar o mistério do amor imaterial, e vive doravante apenas através do seu coração; muitas vezes uma rapariga que procurou no casamento apenas a união de dois afetos puros recebe a revelação súbita do amor físico, essa conclusão energética das mais puras impressões da alma.
No meio destes pensamentos adormeci; fui acordado por uma carta de Marguerite contendo estas palavras:
“Aqui estão as minhas ordens: Esta noite no Vaudeville.
“Venha durante o terceiro intervalo.”
Coloquei a carta numa gaveta, para que pudesse tê-la sempre à mão caso duvidasse da sua realidade, como fazia de tempos a tempos.
Ela não me disse para ir vê-la durante o dia, e eu não me atrevi a ir; mas tinha um desejo tão grande de vê-la antes da noite que fui aos Champs-Élysées, onde a vi passar e repassar novamente, como tinha feito no dia anterior.
Às sete horas estava no Vaudeville. Nunca tinha ido a um teatro tão cedo. Os camarotes enchiam-se uns atrás dos outros. Apenas um permanecia vazio, o camarote de proscénio. No início do terceiro ato, ouvi abrir-se a porta do camarote, na qual os meus olhos tinham estado quase constantemente fixos, e Marguerite apareceu. Veio logo para a frente, olhou em redor da plateia, viu-me e agradeceu-me com um olhar.
Naquela noite, ela estava maravilhosamente bela. Teria sido eu a causa desta coqueteria? Amava-me ela o suficiente para acreditar que quanto mais bela parecesse, mais feliz eu seria? Eu não sabia, mas se essa tinha sido a sua intenção, ela certamente conseguiu, pois quando apareceu todas as cabeças se voltaram, e o ator que estava então no palco olhou para ver quem tinha produzido tal efeito no público pela sua simples presença ali.
E eu tinha a chave do quarto desta mulher, e em três ou quatro horas ela seria novamente minha!
As pessoas culpam aqueles que se deixam arruinar por atrizes e mulheres mantidas; o que me espanta é que não se cometam loucuras vinte vezes maiores por elas. É preciso ter vivido essa vida, como eu, para saber o quanto as pequenas vaidades que elas proporcionam aos seus amantes todos os dias ajudam a prender mais profundamente no coração, já que não temos outra palavra para isso, o amor que ele tem por elas.
Prudence ocupou então o seu lugar no camarote, e um homem, que reconheci como o Comte de G., sentou-se ao fundo. Ao vê-lo, um frio percorreu o meu coração.
Sem dúvida que Marguerite percebeu a impressão causada em mim pela presença deste homem, pois sorriu-me de novo e, virando as costas ao conde, pareceu estar muito atenta à peça. No terceiro intervalo, ela virou-se e disse duas palavras: o conde saiu do camarote, e Marguerite fez-me sinal para ir ter com ela.
“Boa noite”, disse ela enquanto eu entrava, estendendo-me a mão.
“Boa noite”, respondi tanto a Marguerite como a Prudence.
“Sente-se.”
“Mas estou a ocupar o lugar de alguém. O Comte de G. não vai voltar?”
“Sim; mandei-o buscar alguns doces, para que pudéssemos falar a sós por um momento. A Mme. Duvernoy está no segredo.”
“Sim, meus filhos”, disse ela; “não tenham medo. Não direi nada.”
“O que se passa consigo esta noite?”, disse Marguerite, levantando-se e vindo para o fundo do camarote e beijando-me na testa.
“Não me sinto muito bem.”
“Devia ir para a cama”, respondeu ela, com aquele ar irónico que combinava tão bem com o seu rosto delicado e espirituoso.
“Onde?”
“Em casa.”
“Sabe que não seria capaz de dormir lá.”
“Bem, então não serve de nada vir para aqui fazer birra porque viu um homem no meu camarote.”
“Não é por essa razão.”
“Sim, é. Eu sei; e está enganado, por isso não falemos mais nisso. Voltará com a Prudence depois do teatro, e ficará lá até que eu chame. Compreende?”
“Sim.”
Como poderia desobedecer?
“Ainda me ama?”
“Pode perguntar?”
“Pensou em mim?”
“O dia todo.”
“Sabe que tenho medo de que vou gostar muito de si? Pergunte à Prudence.”
“Ah”, disse ela, “é espantoso!”
“Agora, tem de voltar para o seu lugar. O conde vai voltar, e não se ganha nada em que ele o encontre aqui.”
“Porque não gosta de o ver.”
“Não; apenas se me tivesse dito que queria vir ao Vaudeville esta noite eu poderia ter conseguido este camarote para si, tal como ele.”
“Infelizmente, ele conseguiu-o para mim sem que eu lho pedisse, e pediu-me para ir com ele; sabe muito bem que não podia recusar. Tudo o que pude fazer foi escrever e dizer-lhe onde ia, para que me pudesse ver, e porque eu própria queria vê-lo; mas já que é assim que me agradece, aproveitarei a lição.”
“Eu estava enganado; perdoe-me.”
“Muito bem; e agora volte calmamente para o seu lugar e, acima de tudo, nada de ciúmes.”
Ela beijou-me de novo e eu saí do camarote. No corredor encontrei o conde a voltar. Voltei para o meu lugar.
Afinal, a presença do M. de G. no camarote de Marguerite era a coisa mais natural do mundo. Ele tinha sido seu amante, ele enviava-lhe um camarote, ele acompanhava-a ao teatro; era tudo muito natural, e se eu tivesse de ter uma amante como Marguerite, teria de me habituar aos seus modos.
Mesmo assim, fiquei muito infeliz durante o resto da noite e parti muito triste depois de ter visto Prudence, o conde e Marguerite entrarem na carruagem, que os esperava à porta.
No entanto, um quarto de hora depois estava em casa de Prudence. Ela tinha acabado de chegar.
Capítulo XIII
“Chegou quase tão depressa como nós”, disse Prudence.
“Sim”, respondi mecanicamente. “Onde está Marguerite?”
“Em casa.”
“Sozinha?”
“Com o M. de G.”
Caminhei de um lado para o outro na sala.
“Bem, o que se passa?”
“Acha que me diverte esperar aqui até que o M. de G. saia de casa da Marguerite?”
“Como é irracional! Não vê que a Marguerite não pode expulsar o conde de casa? O M. de G. está com ela há muito tempo; ele deu-lhe sempre muito dinheiro; continua a dar. Marguerite gasta mais de cem mil francos por ano; tem montes de dívidas. O duque dá-lhe tudo o que ela pede, mas nem sempre ela se aventura a pedir-lhe tudo o que precisa. Não seria nada bom que ela se zangasse com o conde, que lhe vale pelo menos dez mil francos por ano. Marguerite gosta muito de si, meu caro, mas a sua ligação com ela, nos interesses dela e nos seus, não deveria ser séria. O senhor, com os seus sete ou oito mil francos por ano, o que poderia fazer para suprir todos os luxos de que uma rapariga como aquela precisa? Não chegaria para manter a carruagem dela. Aceite a Marguerite pelo que ela é, uma rapariga boa, alegre e bonita; seja seu amante por um mês, dois meses; dê-lhe flores, doces, camarotes no teatro; mas não meta outras ideias na cabeça, e não faça cenas absurdas de ciúmes. Sabe com quem tem de lidar; Marguerite não é uma santa. Ela gosta de si, o senhor gosta muito dela; deixe o resto. Espanta-me vê-lo tão suscetível; tem a amante mais encantadora de Paris. Ela recebe-o com o maior estilo, está coberta de diamantes, não precisa de lhe custar um cêntimo, a menos que queira, e o senhor não está satisfeito. Meu caro, o senhor pede demasiado!”
“Tem razão, mas não posso evitar; a ideia de que aquele homem é o amante dela magoa-me horrivelmente.”
“Em primeiro lugar”, respondeu Prudence; “é ele ainda seu amante? Ele é um homem que lhe é útil, nada mais. Ela fechou-lhe as portas durante dois dias; ele veio esta manhã — ela não pôde deixar de aceitar o camarote e deixar que ele a acompanhasse. Ele levou-a a casa; ele entrou por um momento, ele não fica, porque o senhor está à espera aqui. Tudo isso, parece-me, é muito natural. Além disso, não se importa com o duque.”
“Sim; mas ele é um homem velho, e tenho a certeza de que Marguerite não é sua amante. Depois, é muito bom aceitar uma ligação, mas não duas. Tal facilidade na matéria é muito semelhante a cálculo, e coloca o homem que consente nisso, mesmo por amor, muito na categoria daqueles que, num estrato inferior da sociedade, fazem comércio da sua conivência, e lucro do seu comércio.”
“Ah, meu caro, como é antiquado! Quantos dos homens mais ricos e elegantes das melhores famílias eu vi prontos a fazer o que lhe aconselho a fazer, e sem esforço, sem vergonha, sem remorsos! Ora, vê-se todos os dias. Como supõe que as mulheres mantidas em Paris poderiam viver com o estilo que têm, se não tivessem três ou quatro amantes de uma vez? Nenhuma fortuna, por maior que seja, poderia bastar para as despesas de uma mulher como Marguerite. Uma fortuna de quinhentos mil francos por ano é, em França, uma fortuna enorme; bem, meu caro amigo, quinhentos mil francos por ano ainda seriam pouco, e por esta razão: um homem com tal rendimento tem uma casa grande, cavalos, criados, carruagens; ele caça, tem amigos, muitas vezes é casado, tem filhos, corre cavalos, joga, viaja e o que mais houver. Todos estes hábitos são tão parte da sua posição que ele não pode abdicar deles sem parecer que perdeu todo o seu dinheiro, e sem causar escândalo. Somando tudo, com quinhentos mil francos por ano ele não pode dar a uma mulher mais de quarenta ou cinquenta mil francos por ano, e isso já é muito. Bem, outros amantes compensam o resto das suas despesas. Com Marguerite, é ainda mais conveniente; ela encontrou por milagre um velho de dez milhões, cuja mulher e filha morreram; que tem apenas alguns sobrinhos, eles próprios ricos, e que lhe dá tudo o que ela quer sem pedir nada em troca. Mas ela não lhe pode pedir mais de setenta mil francos por ano; e tenho a certeza de que se ela pedisse mais, apesar da sua saúde e do afeto que ele tem por ela, ele não lho daria.
“Todos os jovens de vinte ou trinta mil francos por ano em Paris, isto é, homens que mal têm o suficiente para viver na sociedade em que se movem, sabem perfeitamente bem, quando são amantes de uma mulher como Marguerite, que ela nem sequer poderia pagar os quartos onde vive e os criados que a servem com o que eles lhe dão. Eles não lhe dizem que o sabem; fingem não ver nada, e quando já estão fartos, seguem o seu caminho. Se tiverem a vaidade de querer pagar tudo o que obtêm, arruínam-se, como os tolos que são, e vão morrer em África, depois de deixar cem mil francos de dívidas em Paris. Acha que uma mulher lhes é grata por isso? Longe disso. Ela declara que sacrificou a sua posição por eles, e que enquanto estava com eles estava a perder dinheiro. Estes detalhes parecem-lhe chocantes? Bem, são verdadeiros. O senhor é um rapaz muito simpático; gosto muito de si. Vivo com estas mulheres há vinte anos; sei quanto valem, e não quero vê-lo a levar demasiado a sério o capricho que uma rapariga bonita tem por si.
“Depois, além disso”, continuou Prudence; “admita que Marguerite o ama o suficiente para desistir do conde ou do duque, no caso de um deles descobrir a vossa ligação e lhe dizer para escolher entre ele e si, o sacrifício que ela faria por si seria enorme, não pode negá-lo. Que sacrifício equivalente poderia o senhor fazer por ela, da sua parte, e quando se fartasse dela, o que poderia fazer para compensar o que lhe tinha tirado? Nada. Tê-la-ia cortado do mundo onde a sua fortuna e o seu futuro se encontravam; ela ter-lhe-ia dado os seus melhores anos, e seria esquecida. Ou seria um homem comum, e, atirando-lhe o passado à cara, deixá-la-ia, dizendo-lhe que apenas estava a fazer como os outros amantes, e abandoná-la-ia a uma miséria certa; ou seria um homem honesto, e, sentindo-se obrigado a mantê-la consigo, traria problemas inevitáveis para si próprio, pois uma ligação que é desculpável num jovem, já não o é num homem de meia-idade. Torna-se um obstáculo a tudo; não permite nem família nem ambição, os segundos e últimos amores do homem. Acredite-me, pois, meu amigo, aceite as coisas pelo que valem, e não dê a uma mulher mantida o direito de se intitular sua credora, seja de que forma for.”
Foi bem argumentado, com uma lógica da qual eu teria julgado a Prudence incapaz. Não tinha nada a responder, exceto que ela tinha razão; peguei-lhe na mão e agradeci-lhe os seus conselhos.
“Vamos, vamos”, disse ela, “afaste essas teorias tolas e ria-se delas. A vida é agradável, meu caro; tudo depende da cor do vidro através do qual a vemos. Pergunte ao seu amigo Gaston; aquele é um homem que me parece entender o amor como eu o entendo. Tudo o que precisa de pensar, a menos que seja um perfeito tolo, é que aqui ao lado há uma rapariga bonita que espera impacientemente que o homem que está com ela saia, pensando em si, guardando toda a noite para si, e que o ama, tenho a certeza. Agora, venha à janela comigo, e vamos vigiar a saída do conde; ele não tardará a deixar o caminho livre.”
Prudence abriu a janela e inclinámo-nos lado a lado sobre a varanda. Ela observava os poucos transeuntes, eu refletia. Tudo o que ela tinha dito zumbia-me na cabeça, e não podia deixar de sentir que ela tinha razão; mas o amor genuíno que eu tinha por Marguerite tinha alguma dificuldade em acomodar-se a tal crença. Suspirava de tempos a tempos, ao que a Prudence se voltava e encolhia os ombros como um médico que desistiu do seu paciente.
“Como se percebe a brevidade da vida”, dizia eu para comigo, “pela rapidez das sensações! Conheço a Marguerite apenas há dois dias, ela é minha amante apenas desde ontem, e já absorveu tão completamente os meus pensamentos, o meu coração e a minha vida que a visita do Comte de G. é uma desgraça para mim.”
Finalmente o conde saiu, entrou na sua carruagem e desapareceu. Prudence fechou a janela. No mesmo instante Marguerite chamou-nos:
“Venham já”, disse ela; “estão a pôr a mesa, e vamos cear.”
Quando entrei, Marguerite correu para mim, lançou os seus braços ao meu pescoço e beijou-me com todas as suas forças.
“Ainda estamos amuados?”, disse-me ela.
“Não, já passou tudo”, respondeu Prudence. “Dei-lhe uma palestra, e ele prometeu ser razoável.”
“Muito bem.”
Apesar de mim, lancei um olhar para a cama; não estava desfeita. Quanto a Marguerite, ela já estava com o seu roupão branco. Sentámo-nos à mesa.
Encanto, doçura, espontaneidade, Marguerite tinha tudo isso, e eu era forçado de tempos a tempos a admitir que não tinha o direito de lhe pedir mais nada; que muitas pessoas seriam muito felizes por estar no meu lugar; e que, como o pastor de Virgílio, só tinha de desfrutar dos prazeres que um deus, ou melhor, uma deusa, punha diante de mim.
Tentei pôr em prática as teorias de Prudence, e ser tão alegre como as minhas duas companheiras; mas o que era natural nelas era da minha parte um esforço, e o riso nervoso, cuja fonte eles não detetavam, estava mais perto das lágrimas do que da alegria.
Finalmente a ceia acabou e fiquei a sós com Marguerite. Ela sentou-se como de costume no tapete da lareira diante do fogo e olhou tristemente para as chamas. No que estaria ela a pensar? Não sei. Quanto a mim, olhava para ela com uma mistura de amor e terror, ao pensar em tudo o que eu estava pronto a sofrer por causa dela.
“Sabe no que estou a pensar?”
“Não.”
“Num plano que me veio à cabeça.”
“E qual é esse plano?”
“Ainda não lhe posso dizer, mas posso dizer-lhe qual seria o resultado. O resultado seria que, num mês, eu estaria livre, não teria mais dívidas, e poderíamos ir passar o verão ao campo.”
“E não me pode dizer por que meios?”
“Não, apenas ame-me como eu o amo, e tudo terá sucesso.”
“E fez este plano todo sozinho?”
“Sim.”
“E vai levá-lo a cabo todo sozinho?”
“Eu sozinho terei o trabalho disso”, disse Marguerite, com um sorriso que jamais esquecerei, “mas ambos compartilharemos os benefícios.”
Não pude evitar corar com a palavra benefícios; pensei em Manon Lescaut dissipando com Desgrieux o dinheiro do Sr. de B.
Respondi com voz dura, levantando-me do assento:
“Deve permitir-me, minha cara Marguerite, compartilhar apenas os benefícios daqueles empreendimentos que eu mesmo concebi e realizei.”
“O que isso significa?”
“Significa que tenho uma forte suspeita de que o Sr. de G. será seu sócio neste belo plano, do qual não posso aceitar nem o custo nem os benefícios.”
“Que criança você é! Pensei que me amasse. Enganei-me; está bem.”
Ela levantou-se, abriu o piano e começou a tocar a “Invitation à la Valse”, até à famosa passagem em maior que sempre a detinha. Teria sido por força do hábito, ou para me lembrar do dia em que nos conhecemos? Tudo o que sei é que a melodia trouxe de volta essa recordação e, aproximando-me dela, tomei a sua cabeça entre as minhas mãos e beijei-a. “Perdoa-me?”, disse eu.
“Vês que perdoo”, respondeu ela; “mas repara que estamos apenas no nosso segundo dia, e já tive de te perdoar algo. É assim que cumpres a tua promessa de obediência cega?”
“O que posso fazer, Marguerite? Amo-te demasiado e tenho ciúmes do menor dos teus pensamentos. O que me propuseste há pouco deixou-me frenético de prazer, mas o mistério na sua execução magoa-me terrivelmente.”
“Vamos, raciocinemos sobre isso”, disse ela, pegando em ambas as minhas mãos e olhando para mim com um sorriso encantador ao qual era impossível resistir. “Tu amas-me, não amas? E ficarias feliz por passar dois ou três meses sozinho comigo no campo? Eu também ficaria feliz com essa solitude à deux, e não apenas feliz com ela, mas a minha saúde exige-o. Não posso deixar Paris por tanto tempo sem pôr os meus assuntos em ordem, e os assuntos de uma mulher como eu estão sempre em grande confusão; bem, encontrei uma maneira de reconciliar tudo, os meus assuntos financeiros e o meu amor por ti; sim, por ti, não te rias; sou tola o suficiente para te amar! E aqui estás tu a assumir ares de lorde e a dizer palavras grandiosas. Criança, três vezes criança, lembra-te apenas de que te amo e não deixes que nada te perturbe. Então, está combinado?”
“Concordo com tudo o que desejas, como sabes.”
“Então, em menos de um mês estaremos nalguma aldeia, caminhando pela margem do rio e bebendo leite. Parece-te estranho que Marguerite Gautier te fale assim? O facto é, meu amigo, que quando esta vida de Paris, que parece fazer-me tão feliz, não me queima, ela fatiga-me, e então tenho aspirações repentinas a uma existência mais calma que pudesse recordar a minha infância. Toda a gente teve uma infância, independentemente do que se torna. Não te alarmes; não vou dizer-te que sou filha de um coronel reformado e que fui educada em Saint-Denis. Sou uma pobre rapariga do campo e, há seis anos, não sabia escrever o meu próprio nome. Estás aliviado, não estás? Porque será que és o primeiro a quem pedi para compartilhar a alegria deste meu desejo? Suponho que porque sinto que me amas por mim mesma e não por ti, enquanto todos os outros me amaram apenas por si mesmos.”
“Já estive muitas vezes no campo, mas nunca como gostaria de lá ir. Conto contigo para esta felicidade simples; não sejas cruel, deixa-me tê-la. Diz isto para ti mesmo: ‘Ela nunca chegará a velha, e um dia eu arrepender-me-ia de não ter feito por ela a primeira coisa que me pediu, uma coisa tão fácil de fazer!’”
O que poderia eu responder a tais palavras, especialmente com a memória de uma primeira noite de amor, e na expectativa de uma segunda?
Uma hora depois, eu tinha Marguerite nos meus braços e, se ela me tivesse pedido para cometer um crime, tê-la-ia obedecido.
Às seis da manhã deixei-a e, antes de a deixar, disse: “Até esta noite!” Ela beijou-me mais calorosamente do que nunca, mas não disse nada.
Durante o dia recebi um bilhete contendo estas palavras:
“QUERIDA CRIANÇA: Não me sinto muito bem e o médico receitou repouso. Vou deitar-me cedo esta noite e não te verei. Mas, para compensar, esperar-te-ei amanhã às doze horas. Amo-te.”
O meu primeiro pensamento foi: Ela está a enganar-me!
Um suor frio brotou na minha testa, pois eu já amava esta mulher demasiado para não ser dominado pela suspeita. E, no entanto, eu devia esperar tal coisa quase todos os dias com Marguerite, e já me tinha acontecido muitas vezes com as minhas outras amantes, sem que eu desse muita importância. Qual seria o significado do domínio que esta mulher tinha exercido sobre a minha vida?
Então ocorreu-me, uma vez que tinha a chave, ir vê-la como de costume. Desta forma, saberia logo a verdade, e se encontrasse lá um homem, dar-lhe-ia uma bofetada.
Entretanto, fui aos Champs-Élysées. Esperei lá quatro horas. Ela não apareceu. À noite, fui a todos os teatros que ela costumava frequentar. Ela não estava em nenhum.
Às onze horas fui à Rue d’Antin. Não havia luz nas janelas de Marguerite. Mesmo assim, toquei à campainha. O porteiro perguntou-me onde ia.
“À da Srta. Gautier”, disse eu.
“Ela não chegou.”
“Subirei e esperarei por ela.”
“Não há lá ninguém.”
Evidentemente, eu podia entrar, pois tinha a chave, mas, receando um escândalo tolo, fui-me embora. Apenas não voltei para casa; não conseguia deixar a rua e nunca tirei os olhos da casa de Marguerite. Parecia-me que ainda havia algo a descobrir, ou pelo menos que as minhas suspeitas estavam prestes a ser confirmadas.
Por volta da meia-noite, uma carruagem que eu conhecia bem parou diante do número 9. O Conde de G. desceu e entrou na casa, depois de dispensar a carruagem. Por um momento, tive esperança de que lhe dessem a mesma resposta que a mim, e que eu o veria sair; mas às quatro da manhã ainda o esperava.
Sofri profundamente durante estas últimas três semanas, mas isso não é nada, penso eu, em comparação com o que sofri naquela noite.
Capítulo XIV
Quando cheguei a casa, comecei a chorar como uma criança. Não há homem a quem uma mulher não tenha sido infiel, pelo menos uma vez, e que não saiba o que eu sofri.
Disse a mim mesmo, sob o peso destas resoluções febris que se sente sempre como se tivéssemos a força para levar a cabo, que devia romper com o meu amor de imediato, e esperei impacientemente pelo amanhecer para partir logo de seguida para reencontrar o meu pai e a minha irmã, do amor dos quais eu estava, pelo menos, certo, e certo de que esse amor nunca seria traído.
No entanto, não queria partir sem deixar que Marguerite soubesse a razão da minha partida. Apenas um homem que já não se importa realmente com a sua amante a deixa sem lhe escrever. Fiz e refiz vinte cartas na minha cabeça. Eu tinha tido que ver com uma mulher como todas as outras mulheres do género. Eu tinha estado a poetizar demasiado. Ela tinha-me tratado como a um escolar, tinha usado, ao enganar-me, um estratagema que era insultuosamente simples. A minha autoestima levou a melhor. Eu tinha de deixar esta mulher sem lhe dar a satisfação de saber que ela me tinha feito sofrer, e foi isto que lhe escrevi com a minha letra mais elegante e com lágrimas de raiva e tristeza nos olhos:
“MINHA CARA MARGUERITE: Espero que a tua indisposição de ontem não tenha sido grave. Vim, às onze da noite, saber de ti, e disseram-me que não tinhas chegado. O Sr. de G. teve mais sorte, pois apresentou-se pouco depois e, às quatro da manhã, ainda não tinha saído.
“Perdoa-me pelas poucas horas aborrecidas que te dei, e tem a certeza de que jamais esquecerei os momentos felizes que te devo.
“Teria passado hoje para saber de ti, mas pretendo voltar para casa do meu pai.
“Adeus, minha cara Marguerite. Não sou suficientemente rico para te amar como eu gostaria, nem suficientemente pobre para te amar como tu gostarias. Esqueçamos, então, tu um nome que te deve ser bastante indiferente, eu uma felicidade que se tornou impossível.
“Devolvo a tua chave, que nunca usei, e que poderia ser-te útil, se estiveres frequentemente doente como estiveste ontem.”
Como verás, não consegui terminar a minha carta sem um toque de ironia impertinente, o que provava o quanto eu ainda estava apaixonado.
Li e reli esta carta dez vezes; depois, o pensamento da dor que ela causaria a Marguerite acalmou-me um pouco. Tentei persuadir-me dos sentimentos que ela professava; e quando o meu criado veio ao meu quarto às oito horas, entreguei-lha e disse-lhe para a levar de imediato.
“Devo esperar por uma resposta?”, perguntou Joseph (o meu criado, como todos os criados, chamava-se Joseph).
“Se perguntarem se há resposta, dirás que não sabes, e espera.”
Alimentei-me com a esperança de que ela responderia. Pobres, frágeis criaturas que somos! Durante todo o tempo em que o meu criado esteve fora, eu estive num estado de agitação extrema. A dado momento, recordava como Marguerite se tinha entregue a mim e perguntava a mim mesmo por que direito lhe escrevia uma carta impertinente, quando ela poderia responder que não tinha sido o Sr. de G. quem me suplantou, mas eu quem tinha suplantado o Sr. de G.: um modo de raciocinar que permite a muitas mulheres terem muitos amantes. Noutro momento, recordava as suas promessas e tentava convencer-me de que a minha carta era apenas demasiado gentil, e que não havia expressões suficientemente fortes para punir uma mulher que se ria de um amor como o meu. Então, dizia a mim mesmo que teria feito melhor em não lhe ter escrito, mas em ter ido vê-la, e que então teria tido o prazer de ver as lágrimas que ela derramaria. Finalmente, perguntava a mim mesmo o que ela me responderia; já preparado para acreditar em qualquer desculpa que ela desse.
Joseph regressou.
“Bem?”, disse-lhe eu.
“Senhor”, disse ele, “a madame não se tinha levantado e ainda dormia, mas assim que ela tocar a campainha, a carta ser-lhe-á entregue, e se houver alguma resposta, ser-me-á enviada.”
Ela estava a dormir!
Vinte vezes estive a ponto de mandar recuperar a carta, mas todas as vezes dizia a mim mesmo: “Talvez ela já a tenha recebido, e pareceria que me arrependi de a ter enviado.”
À medida que a hora em que parecia provável que ela respondesse se aproximava, mais eu lamentava ter escrito. O relógio bateu dez, onze, doze. Às doze, estava a ponto de cumprir o compromisso como se nada tivesse acontecido. No fim, não via saída para o círculo de fogo que se fechava sobre mim.
Então, comecei a acreditar, com a superstição que as pessoas têm quando estão à espera, que se saísse por um pouco, encontraria uma resposta quando voltasse. Saí sob o pretexto de ir almoçar.
Em vez de almoçar no Café Foy, na esquina do Boulevard, como habitualmente fazia, preferi ir ao Palais Royal e passar pela Rue d’Antin. Cada vez que via uma mulher à distância, imaginava que era Nanine trazendo-me uma resposta. Passei pela Rue d’Antin sem sequer encontrar um comissionário. Fui ao Very’s, no Palais Royal. O empregado deu-me algo para comer, ou melhor, serviu-me o que quis, pois não comi nada. Apesar de mim, os meus olhos estavam constantemente fixos no relógio. Regressei a casa, certo de que encontraria uma carta de Marguerite.
O porteiro não tinha recebido nada, mas eu ainda esperava no meu criado. Ele não tinha visto ninguém desde que eu saí.
Se Marguerite tivesse de me responder, tê-lo-ia feito muito antes.
Então, comecei a lamentar os termos da minha carta; deveria ter dito absolutamente nada, e isso teria, sem dúvida, despertado as suas suspeitas, pois, ao descobrir que eu não cumpria o meu compromisso, ela teria perguntado a razão da minha ausência, e só então lha teria dado. Assim, ela teria de se desculpar, e o que eu queria era que ela se desculpasse. Já me dava conta de que teria acreditado em quaisquer razões que ela me desse, e qualquer coisa era melhor do que não a voltar a ver.
Por fim, comecei a acreditar que ela viria ver-me ela mesma; mas hora após hora passava, e ela não vinha.
Decididamente, Marguerite não era como as outras mulheres, pois poucas haveria que recebessem tal carta como eu tinha acabado de escrever sem lhe responder de todo.
Às cinco, apressei-me para os Champs-Élysées. “Se a encontrar”, pensei, “farei um ar indiferente, e ela ficará convencida de que já não penso nela.”
Ao virar a esquina da Rue Royale, vi-a passar na sua carruagem. O encontro foi tão repentino que empalideci. Não sei se ela viu a minha emoção; quanto a mim, estava tão agitado que não vi nada além da carruagem.
Não fui mais longe na direção dos Champs-Élysées. Olhei para os cartazes dos teatros, pois ainda tinha uma hipótese de a ver. Havia uma estreia no Palais Royal. Marguerite certamente estaria lá. Estava no teatro às sete horas. Os camarotes encheram-se um após outro, mas Marguerite não estava lá. Deixei o Palais Royal e fui a todos os teatros onde ela era vista mais frequentemente: ao Vaudeville, aos Variétés, à Opéra Comique. Ela não estava em lado nenhum.
Ou a minha carta a tinha perturbado demasiado para que ela se preocupasse em ir ao teatro, ou temia encontrar-me, e assim queria evitar uma explicação. Era o que a minha vaidade me sussurrava nos boulevards, quando encontrei Gaston, que me perguntou onde tinha estado.
“No Palais Royal.”
“E eu na Ópera”, disse ele; “esperava ver-te lá.”
“Porquê?”
“Porque Marguerite estava lá.”
“Ah, ela estava lá?”
“Sim.”
“Sozinha?”
“Não; com outra mulher.”
“Só isso?”
“O Conde de G. veio ao camarote dela por um instante; mas ela saiu com o duque. Esperava ver-te a cada momento, pois havia uma cadeira ao meu lado que permaneceu vazia a noite toda, e eu estava certo de que a tinhas reservado.”
“Mas por que deveria eu ir onde Marguerite vai?”
“Porque tu és o amante dela, certamente!”
“Quem te disse isso?”
“Prudence, que encontrei ontem. Dou-te os meus parabéns, meu caro; ela é uma amante encantadora, e não é toda a gente que tem a sorte. Fica com ela; ela dar-te-á crédito.”
Estas simples reflexões de Gaston mostraram-me quão absurdas tinham sido as minhas suscetibilidades. Se eu o tivesse encontrado apenas na noite anterior e ele me tivesse falado assim, certamente não teria escrito a carta tola que escrevi.
Estava a ponto de visitar Prudence e de a enviar para dizer a Marguerite que eu queria falar com ela; mas temia que ela se vingasse de mim dizendo que não podia ver-me, e regressei a casa, depois de passar pela Rue d’Antin. Perguntei de novo ao meu porteiro se havia uma carta para mim. Nada! Ela está à espera para ver se eu darei algum passo novo, e se me retratarei da minha carta de hoje, disse a mim mesmo enquanto me deitava; mas, vendo que não escrevo, ela escrever-me-á amanhã.
Naquela noite, mais do que nunca, reprovei-me pelo que tinha feito. Estava sozinho, incapaz de dormir, devorado pela inquietação e pelo ciúme, quando, simplesmente deixando as coisas seguirem o seu curso natural, eu estaria com Marguerite, ouvindo as palavras deliciosas que tinha ouvido apenas duas vezes, e que faziam os meus ouvidos arder na minha solidão.
A parte mais terrível da situação era que o meu julgamento estava contra mim; na verdade, tudo provava que Marguerite me amava. Primeiro, a sua proposta de passar o verão comigo no campo, depois a certeza de que não havia razão para que ela fosse minha amante, uma vez que os meus rendimentos eram insuficientes para as suas necessidades e até para os seus caprichos. Não poderia, então, ter havido da parte dela nada mais do que a esperança de encontrar em mim um afeto sincero, capaz de lhe dar descanso dos amores mercenários em cujo meio ela vivia; e, logo no segundo dia, eu tinha destruído essa esperança e pago com ironia impertinente pelo amor que tinha aceitado durante duas noites. O que fiz não era, portanto, apenas ridículo, era indelicado. Eu nem sequer tinha pago à mulher, para que pudesse ter algum direito de lhe apontar falhas; retirando-me após dois dias, não seria eu como um parasita do amor, com medo de ter de pagar a conta do banquete? O quê! Eu só conhecia Marguerite há trinta e seis horas; eu tinha sido seu amante há apenas vinte e quatro; e, em vez de ser demasiado feliz por ela me conceder tudo o que concedeu, eu queria tê-la toda para mim e obrigá-la a cortar de um golpe todas as suas relações passadas, que eram o rendimento do seu futuro. O que tinha eu a censurar nela? Nada. Ela tinha escrito a dizer que não estava bem, quando poderia ter-me dito muito rudemente, com a frankeza hedionda de certas mulheres, que tinha de ver um amante; e, em vez de acreditar na sua carta, em vez de ir a qualquer rua de Paris exceto a Rue d’Antin, em vez de passar a noite com os meus amigos e apresentar-me no dia seguinte à hora marcada, eu estava a representar Otelo, espiando-a e pensando em puni-la não a vendo mais. Mas, pelo contrário, ela devia estar encantada com esta separação. Ela devia achar-me supremamente tolo, e o seu silêncio não era sequer o de rancor; era desprezo.
Eu poderia ter feito a Marguerite um presente que não deixasse dúvidas quanto à minha generosidade e me permitisse sentir-me adequadamente quite dela, como de uma mulher mantida, mas eu teria sentido que estava a ofender, pela menor aparência de tráfico, se não o amor que ela tinha por mim, pelo menos o amor que eu tinha por ela, e uma vez que este amor era tão puro que não podia admitir divisão, não podia pagar com um presente, por mais generoso que fosse, a felicidade que tinha recebido, por mais curta que essa felicidade tivesse sido.
Foi isso que disse a mim mesmo durante toda a noite, e o que estava a cada momento preparado para ir dizer a Marguerite. Quando o dia amanheceu, eu ainda estava sem dormir. Estava com febre. Não conseguia pensar em nada a não ser em Marguerite.
Como pode imaginar, era altura de dar um passo decisivo e acabar ou com a mulher ou com os meus escrúpulos, isto é, se ela ainda estivesse disposta a ver-me. Mas sabe bem como é: demora-se sempre a dar um passo decisivo; assim, incapaz de ficar em casa e não me atrevendo a visitar Marguerite, fiz uma tentativa na direção dela, uma tentativa que eu poderia sempre considerar como um mero acaso, caso tivesse sucesso.
Eram nove horas e fui de imediato visitar Prudence, que perguntou a que devia aquela visita matinal. Não me atrevi a dizer-lhe francamente o que me trazia. Respondi que tinha saído cedo para reservar um lugar na diligência para C., onde vivia o meu pai.
— Tem sorte — disse ela — em poder afastar-se de Paris com este bom tempo.
Olhei para Prudence, perguntando a mim mesmo se ela estava a troçar de mim, mas o seu rosto estava bastante sério.
— Vai despedir-se de Marguerite? — continuou ela, com a mesma seriedade de antes.
— Não.
— Faz muito bem.
— Acha?
— Naturalmente. Uma vez que rompeu com ela, por que motivo deveria vê-la novamente?
— Sabe que tudo acabou?
— Ela mostrou-me a sua carta.
— O que é que ela disse sobre isso?
— Ela disse: "Minha querida Prudence, o teu protegido não é educado; pensam-se tais cartas, não se escrevem."
— Em que tom é que ela disse isso?
— A rir — e acrescentou: — Ele jantou comigo duas vezes e nem sequer telefonou.
Aquele foi, portanto, o efeito produzido pela minha carta e pelo meu ciúme. Fui cruelmente humilhado na vaidade do meu afeto.
— O que é que ela fez ontem à noite?
— Foi à ópera.
— Eu sei. E depois?
— Jantou em casa.
— Sozinha?
— Com o Comte de G., creio eu.
Portanto, o meu rompimento com ela não tinha mudado nenhum dos seus hábitos. É por razões como esta que certas pessoas lhe dizem: Não tenhas mais nada a ver com essa mulher; ela não se importa nada contigo.
— Bem, estou muito contente por descobrir que a Marguerite não se incomoda por mim — disse eu com um sorriso forçado.
— Ela tem muito boas razões para não se incomodar. Fez o que tinha de fazer. Foi mais sensato do que ela, pois ela estava realmente apaixonada por si; não fazia outra coisa senão falar de si. Não sei do que ela não teria sido capaz de fazer.
— Por que é que ela não me respondeu, se estava apaixonada por mim?
— Porque percebeu que se enganou ao deixar-se apaixonar por si. As mulheres permitem por vezes que se seja infiel ao amor delas; nunca permitem que se fira a sua autoestima; e fere-se sempre a autoestima de uma mulher quando, dois dias depois de se ter tornado seu amante, a deixamos, independentemente do motivo. Conheço a Marguerite; ela morreria antes de responder.
— O que posso eu fazer, então?
— Nada. Ela esquecê-lo-á, o senhor esquecê-la-á, e nenhum terá qualquer repreensão a fazer ao outro.
— Mas se eu escrever e lhe pedir perdão?
— Não faça isso, pois ela perdoar-lhe-ia.
Teria abraçado o pescoço de Prudence.
Um quarto de hora depois, estava de volta às minhas instalações e escrevi a Marguerite:
"Alguém, que se arrepende de uma carta que escreveu ontem e que deixará Paris amanhã se não o perdoar, deseja saber a que horas poderia depositar o seu arrependimento aos seus pés.
"Quando é que o pode encontrar sozinha? Pois, sabe, as confissões devem ser feitas sem testemunhas."
Dobrei este género de madrigal em prosa e enviei-o por Joseph, que o entregou à própria Marguerite; ela respondeu que enviaria a resposta mais tarde.
Saí apenas para jantar apressadamente e, às onze da noite, não tinha chegado qualquer resposta. Tomei a decisão de não suportar mais aquilo e de partir no dia seguinte. Na sequência desta resolução, e convencido de que não dormiria se me deitasse, comecei a fazer as malas.
Capítulo XV
Mal tinha passado uma hora desde que Joseph e eu tínhamos começado a preparar a minha partida, quando se ouviu uma campainha violenta na porta.
— Vou abrir? — disse Joseph.
— Vai — disse eu, perguntando a mim mesmo quem poderia ser àquela hora e não me atrevendo a acreditar que fosse Marguerite.
— Senhor — disse Joseph, voltando para junto de mim —, são duas senhoras.
— Somos nós, Armand — gritou uma voz que reconheci como sendo a de Prudence.
Saí do meu quarto. Prudence estava de pé, a observar o lugar; Marguerite, sentada no sofá, meditava. Fui ter com ela, ajoelhei-me, peguei-lhe nas duas mãos e, profundamente comovido, disse-lhe: "Perdão."
Ela beijou-me na testa e disse:
— Esta é a terceira vez que o perdoo.
— Eu deveria ter ido embora amanhã.
— Como pode a minha visita mudar os seus planos? Não vim para o impedir de deixar Paris. Vim porque não tive tempo de lhe responder durante o dia e não queria deixá-lo pensar que estava zangada consigo. A Prudence não queria que eu viesse; disse que eu poderia estar a estorvar.
— A estorvar, Marguerite! Mas como?
— Bem, poderia ter uma mulher aqui — disse Prudence —, e dificilmente seria divertido para ela ver chegar mais duas.
Durante este comentário, Marguerite olhou-me atentamente.
— Minha querida Prudence — respondi —, não sabes o que estás a dizer.
— Que sítio tão agradável que tens! — continuou Prudence. — Podemos ver o quarto?
— Sim.
Prudence entrou no quarto, não tanto para o ver, mas para compensar a tolice que acabara de dizer e para nos deixar, a mim e à Marguerite, sozinhos.
— Por que trouxeste a Prudence? — perguntei-lhe.
— Porque ela estava no teatro comigo e porque, quando sair daqui, quero ter alguém que me acompanhe a casa.
— Não poderia ser eu?
— Sim, mas, além de não querer incomodá-lo, tinha a certeza de que, se viesse até à minha porta, quereria subir, e como não poderia deixar, não queria deixá-lo partir a culpar-me por dizer "não".
— E por que não podias deixar-me subir?
— Porque sou vigiada e a menor suspeita poderia fazer-me o maior mal.
— É mesmo esse o único motivo?
— Se houvesse qualquer outro, dir-lho-ia; pois não devemos ter segredos um do outro agora.
— Vamos, Marguerite, não vou usar de rodeios para dizer o que realmente quero dizer. Sinceramente, gostas um pouco de mim?
— Muito.
— Então, por que me enganaste?
— Meu amigo, se eu fosse a Duquesa de Tal, se tivesse duzentos mil francos por ano, e se fosse tua amante e tivesse outro amante, terias o direito de mo perguntar; mas sou a Mlle. Marguerite Gautier, devo quarenta mil francos, não tenho um cêntimo que seja meu e gasto cem mil francos por ano. A tua pergunta torna-se desnecessária e a minha resposta inútil.
— Tens razão — disse eu, deixando a cabeça cair sobre os seus joelhos —, mas amo-te loucamente.
— Bem, meu amigo, ou tens de me amar um pouco menos ou compreender-me um pouco melhor. A tua carta causou-me muita dor. Se eu fosse livre, primeiro que tudo não teria visto o conde anteontem, ou, se o tivesse visto, teria vindo pedir-te perdão como tu me pedes agora, e no futuro não teria outro amante senão tu. Imaginei por um momento que poderia dar-me a felicidade de seis meses; tu não quiseste; insististe em saber os meios. Bem, santo Deus, os meios eram fáceis de adivinhar! Ao empregá-los, fazia por ti um sacrifício maior do que imaginas. Poderia ter-te dito: "Quero vinte mil francos"; estavas apaixonado por mim e tê-los-ias arranjado, sob o risco de me censurares por isso mais tarde. Preferi não te dever nada; não compreendeste o escrúpulo, pois tal era o que sentias. Aquelas de nós que são como eu, quando temos algum coração, damos um significado e um desenvolvimento a palavras e coisas desconhecidas de outras mulheres; repito, pois, que da parte de Marguerite Gautier os meios que usou para pagar as suas dívidas sem te pedir o dinheiro necessário para isso, foram um escrúpulo pelo qual deverias tirar proveito, sem dizer nada. Se me tivesses conhecido apenas hoje, estarias demasiado encantado com o que te prometi e não me interrogarias sobre o que fiz anteontem. Somos por vezes obrigadas a comprar a satisfação das nossas almas à custa dos nossos corpos, e sofremos ainda mais quando, depois, essa satisfação nos é negada.
Ouvi e contemplei Marguerite com admiração. Quando pensei que esta criatura maravilhosa, cujos pés eu outrora ansiara beijar, estava disposta a deixar-me ocupar o meu lugar nos seus pensamentos, o meu papel na sua vida, e que eu ainda não estava satisfeito com o que ela me dava, perguntei-me se o desejo do homem tem, de facto, limites quando, satisfeito tão prontamente como o meu tinha sido, procura algo mais.
— Verdadeiramente — continuou ela —, nós, pobres criaturas do acaso, temos desejos fantásticos e amores inconcebíveis. Entregamo-nos ora por uma coisa, ora por outra. Há homens que se arruínam sem obter a mínima coisa de nós; há outros que nos obtêm por um ramo de flores. Os nossos corações têm os seus caprichos; são a sua única distração e a sua única desculpa. Entreguei-me a ti mais cedo do que a qualquer outro homem, juro-to; e sabes porquê? Porque quando me viste a cuspir sangue, pegaste na minha mão; porque choraste; porque és o único ser humano que alguma vez teve pena de mim. Vou dizer-te uma loucura: tive uma vez um cãozinho que me olhava com um ar triste quando eu tossia; essa é a única criatura que alguma vez amei. Quando ele morreu, chorei mais do que quando a minha mãe morreu. É verdade que durante doze anos da sua vida ela costumava bater-me. Bem, amei-te de uma vez, tanto quanto o meu cão. Se os homens soubessem o que podem ter por uma lágrima, seriam mais amados e ser-lhes-íamos menos ruinosas.
"A tua carta desenganou-me; mostrou-me que te faltava a inteligência do coração; fez-te mais mal comigo do que qualquer coisa que possas ter feito. Era ciúme, certamente, mas ciúme irónico e impertinente. Eu já me sentia triste quando recebi a tua carta. Estava ansiosa por ver-te às doze horas, por almoçar contigo e por apagar, ao ver-te, um pensamento que estava comigo incessantemente e que, antes de te conhecer, não tinha dificuldade em tolerar."
— Então — continuou Marguerite —, tu eras a única pessoa diante da qual me parecia, desde o início, que podia pensar e falar livremente. Todos aqueles que rodeiam mulheres como eu têm interesse em calcular as suas mínimas palavras, em pensar nas consequências das suas ações mais insignificantes. Naturalmente, não temos amigos. Temos amantes egoístas que gastam as suas fortunas, não connosco, como dizem, mas com a sua própria vaidade. Para essas pessoas, temos de estar alegres quando eles estão alegres, bem quando eles querem jantar, cépticos como eles próprios. Não nos é permitido ter coração, sob pena de sermos vaiadas e de arruinarmos o nosso crédito.
"Já não pertencemos a nós próprias. Já não somos seres, mas coisas. Estamos em primeiro lugar na sua autoestima, em último na sua estima. Temos mulheres que se dizem nossas amigas, mas são amigas como a Prudence, mulheres que foram outrora mantidas e que ainda têm os gostos dispendiosos que a sua idade não lhes permite satisfazer. Então tornam-se nossas amigas, ou melhor, nossas convidadas à mesa. A sua amizade é levada ao ponto da servilidade, nunca ao do desinteresse. Nunca te dão um conselho que não seja lucrativo. Pouco lhes importa que tenhamos mais dez amantes, desde que consigam vestidos ou uma pulseira deles, e que possam andar na nossa carruagem de vez em quando ou vir ao nosso camarote no teatro. Ficam com os nossos ramos de flores da véspera e pedem emprestados os nossos xailes. Nunca nos prestam um serviço, por mais pequeno que seja, sem verem que lhes é pago o dobro do seu valor. Tu próprio viste, quando a Prudence me trouxe os seis mil francos que lhe pedi para obter do duque, como ela pediu emprestados quinhentos francos, que nunca me pagará, ou que me pagará em chapéus, que nunca sairão das suas caixas.
"Não podemos, portanto, ter, ou melhor, eu não posso ter mais do que um tipo possível de felicidade, e este é, por mais triste que por vezes eu esteja, por mais que sofra como sempre sofro, encontrar um homem suficientemente superior para não fazer perguntas sobre a minha vida, e para ser o amante das minhas impressões mais do que do meu corpo. Tal homem encontrei no duque; mas o duque é velho, e a velhice não protege nem consola. Pensei que poderia aceitar a vida que ele me oferecia; mas o que querias? Eu morria de tédio, e se se está destinado a ser consumido, é preferível atirar-se para as chamas do que ser asfixiado com carvão.
"Depois conheci-te, jovem, ardente, feliz, e tentei fazer de ti o homem que eu tinha ansiado na minha solitária algazarra. O que eu amava em ti não era o homem que era, mas o homem que ia ser. Não aceitas a posição, rejeitas-na como indigna de ti; és um amante vulgar. Faz como os outros; paga-me e não fales mais nisso."
Marguerite, exausta com esta longa confissão, atirou-se de volta para o sofá e, para abafar uma ligeira tosse, levou o lenço aos lábios e, daí, aos olhos.
— Perdão, perdão — murmurei. — Compreendi tudo, mas queria ouvi-lo dos teus próprios lábios, minha querida Marguerite. Esquece o resto e lembra-te apenas de uma coisa: que pertencemos um ao outro, que somos jovens e que amamos. Marguerite, faz de mim o que quiseres; sou o teu escravo, o teu cão, mas em nome do céu, rasga a carta que te escrevi e não me faças partir amanhã; isso matar-me-ia.
Marguerite tirou a carta do peito e, entregando-ma com um sorriso de infinita doçura, disse:
— Aqui está. Trouxe-a de volta.
Rasguei a carta em pedaços e beijei com lágrimas a mão que mo entregou.
Nesse momento, Prudence reapareceu.
— Olha, Prudence; sabes o que ele quer? — disse Marguerite.
— Ele quer que o perdoes.
— Precisamente.
— E perdoas?
— Tem de ser; mas ele quer mais do que isso.
— O quê, então?
— Ele quer jantar connosco.
— E tu consentes?
— O que é que tu achas?
— Acho que vocês são duas crianças que não têm um átomo de juízo; mas também acho que estou com muita fome e que quanto mais depressa consentirem, mais depressa jantaremos.
— Vamos — disse Marguerite —, há lugar para os três na minha carruagem.
— A propósito — acrescentou ela, voltando-se para mim —, a Nanine estará deitada. Tens de abrir a porta; leva a minha chave e tenta não a perder novamente.
Abracei Marguerite até ela ficar quase sufocada.
A essa altura, Joseph entrou.
— Senhor — disse ele, com o ar de um homem que está muito satisfeito consigo mesmo —, a bagagem está feita.
— Toda?
— Sim, senhor.
— Bem, então, desfaz-na outra vez; eu não vou partir.
Capítulo XVI
Poderia ter-lhe contado o início desta ligação em poucas linhas, mas queria que visse cada passo pelo qual viemos, eu a concordar com tudo o que Marguerite desejava, Marguerite a ser incapaz de viver longe de mim.
Foi no dia seguinte à noite em que ela veio ver-me que lhe enviei Manon Lescaut.
A partir desse momento, vendo que não podia mudar a vida da minha amante, mudei a minha. Queria, acima de tudo, não me dar tempo para pensar na posição que tinha aceite, pois, apesar de mim, era um grande sofrimento. Assim, a minha vida, geralmente tão calma, assumiu de repente uma aparência de ruído e desordem. Nunca acredite, por mais desinteressado que seja o amor de uma mulher mantida, que não lhe custará nada. Nada é tão caro como os seus caprichos, flores, camarotes no teatro, jantares, dias no campo, que nunca se podem recusar à sua amante.
Como lhe disse, eu tinha pouco dinheiro. O meu pai era, e ainda é, receveur général em C. Tem uma grande reputação lá pela sua lealdade, graças à qual foi capaz de encontrar a garantia de que precisava para obter esta posição.
Vale quarenta mil francos por ano e, durante os dez anos que a ocupa, pagou a garantia e guardou um dote para a minha irmã. O meu pai é o homem mais honrado do mundo. Quando a minha mãe morreu, deixou seis mil francos por ano, que ele dividiu entre a minha irmã e eu no próprio dia em que recebeu a sua nomeação; depois, quando fiz vinte e um anos, acrescentou a este pequeno rendimento uma mesada anual de cinco mil francos, assegurando-me que, com oito mil francos por ano, eu poderia viver muito feliz em Paris, se, além disso, eu construísse uma posição para mim, quer em direito, quer em medicina. Vim para Paris, estudei direito, fui aceite na ordem e, como muitos outros jovens, meti o diploma no bolso e deixei-me ir, como se faz tão facilmente em Paris.
As minhas despesas eram muito moderadas; apenas consumia o meu rendimento anual em oito meses e passava os quatro meses de verão com o meu pai, o que, na prática, me dava doze mil francos por ano e, além disso, a reputação de bom filho. De resto, nem um cêntimo de dívida.
Esta era, pois, a minha posição quando conheci Marguerite. Pode bem compreender que, apesar de mim, as minhas despesas aumentaram rapidamente. A natureza de Marguerite era muito caprichosa e, como tantas mulheres, ela nunca considerou como uma despesa séria os mil e um divertimentos que compunham a sua vida. Assim, desejando passar o máximo de tempo possível comigo, escrevia-me de manhã que jantaria comigo, não em casa, mas num qualquer restaurante em Paris ou no campo. Eu ia buscá-la, jantávamos e íamos ao teatro, muitas vezes jantando também; e ao fim da noite tinha gasto quatro ou cinco luíses, o que perfazia dois ou três mil francos por mês, o que reduzia o meu ano a três meses e meio e me tornava necessário ou contrair dívidas ou deixar Marguerite. Teria consentido em qualquer coisa, menos na última.
Perdoe-me se lhe dou todos estes detalhes, mas verá que foram a causa do que se seguiu. O que lhe conto é uma história verdadeira e simples, e deixo-lhe toda a ingenuidade dos seus detalhes e toda a simplicidade dos seus desenvolvimentos.
Percebi então que, como nada no mundo me faria esquecer a minha amante, era necessário encontrar um meio de arcar com as despesas em que ela me envolvia. Além disso, o meu amor por ela exercia sobre mim uma influência tão perturbadora que cada momento que passava longe de Marguerite parecia um ano, e sentia a necessidade de consumir esses instantes no fogo de qualquer tipo de paixão, e de vivê-los tão velozmente a ponto de não notar que os vivia.
Comecei por pedir emprestados cinco ou seis mil francos sobre o meu pequeno capital, e com isso entreguei-me ao jogo. Desde que as casas de jogo foram destruídas, o jogo acontece em toda a parte. Antigamente, quando se ia ao Frascati, tinha-se a hipótese de fazer fortuna; jogava-se contra dinheiro e, se se perdia, havia sempre o consolo de dizer que se poderia ter ganho; enquanto agora, exceto nos clubes, onde ainda existe um certo rigor quanto aos pagamentos, é quase certo que, no momento em que se ganha uma quantia considerável, não a recebemos. Compreenderá facilmente porquê. O jogo é apenas suscetível de ser praticado por jovens que precisam muito de dinheiro e que não possuem a fortuna necessária para sustentar a vida que levam; jogam, pois, e com este resultado; ou então ganham, e nesse caso os que perdem servem para pagar os seus cavalos e amantes, o que é muito desagradável. Contraem-se dívidas, os conhecimentos iniciados à volta de uma mesa verde terminam em querelas nas quais a vida ou a honra acabam por sofrer; e, embora se possa ser um homem honesto, encontramo-nos arruinados por homens muito honestos, cujo único defeito é não terem duzentos mil francos por ano.
Não preciso de lhe falar daqueles que batoteiam no jogo, e de como se ouve um belo dia falar do seu desaparecimento apressado e da sua tardia condenação.
Lancei-me nesta vida rápida, ruidosa e vulcânica, que antigamente me aterrorizava quando nela pensava, e que se tinha tornado para mim o complemento necessário do meu amor por Marguerite. Que mais poderia eu ter feito?
As noites que não passava na Rue d’Antin, se as tivesse passado sozinho no meu quarto, não teria conseguido dormir. O ciúme ter-me-ia mantido acordado e inflamado o meu sangue e os meus pensamentos; enquanto o jogo dava um novo rumo à febre que, de outro modo, teria consumido o meu coração, e fixava-a numa paixão que se apoderava de mim apesar de mim mesmo, até que soasse a hora em que poderia ir ter com a minha amante. Então, e foi por isso que conheci a violência do meu amor, deixava a mesa sem um momento de hesitação, quer estivesse a ganhar ou a perder, compadecendo-me daqueles que deixava para trás porque não encontrariam, como eu, a sua verdadeira felicidade ao abandoná-la. Para a maioria deles, o jogo era uma necessidade; para mim, era um remédio. Livre de Marguerite, estaria livre do jogo.
Assim, no meio de tudo isto, mantive um considerável grau de autodomínio; só perdia o que podia pagar e só ganhava o que teria sido capaz de perder.
De resto, a sorte estava do meu lado. Não contraí dívidas e gastei três vezes mais dinheiro do que quando não jogava. Era impossível resistir a uma existência que me dava um meio fácil de satisfazer os mil caprichos de Marguerite. Quanto a ela, continuava a amar-me tanto, ou ainda mais do que nunca.
Como lhe disse, comecei por ter permissão para ficar apenas da meia-noite às seis da manhã, depois fui convidado por vezes para um camarote no teatro, e depois ela vinha por vezes jantar comigo. Uma manhã, só saí às oito, e chegou o dia em que só saí às doze.
Mas, mais cedo do que a metamorfose moral, uma metamorfose física ocorreu em Marguerite. Eu tinha tomado a cura dela em mãos e a pobre rapariga, vendo o meu objetivo, obedeceu-me para provar a sua gratidão. Tinha conseguido, sem esforço ou transtorno, isolá-la quase por completo dos seus hábitos anteriores. O meu médico, a quem a apresentei, dissera-me que apenas o descanso e a calma poderiam preservar a sua saúde, pelo que, em vez de ceias e noites sem dormir, consegui substituir por um regime higiénico e sono regular. Apesar de si mesma, Marguerite habituou-se a esta nova existência, cujos efeitos salutares já percebia. Começou a passar algumas das suas noites em casa ou, se o tempo estivesse bom, envolvia-se num xale, punha um véu e íamos a pé, como duas crianças, pelas alamedas sombrias dos Champs-Élysées. Ela chegava cansada, fazia uma ceia ligeira e ia deitar-se depois de um pouco de música ou de leitura, o que nunca tinha tido o hábito de fazer. A tosse, que cada vez que a ouvia parecia atravessar-me o peito, tinha quase desaparecido por completo.
Ao fim de seis semanas, o conde foi inteiramente deixado de lado e apenas o duque me obrigava a ocultar a minha ligação com Marguerite; e até ele era mandado embora quando eu lá estava, sob o pretexto de que ela estava a dormir e tinha dado ordens para não ser acordada.
O hábito ou a necessidade de me ver que Marguerite tinha agora contraído teve este bom resultado: obrigou-me a deixar a mesa de jogo exatamente no momento em que um jogador hábil a teria deixado. Pesando uma coisa com a outra, encontrei-me na posse de uns dez mil francos, o que me parecia um capital inesgotável.
A época do ano em que eu costumava juntar-me ao meu pai e à minha irmã tinha chegado, e eu não fui; ambos escreviam-me frequentemente, implorando-me que fosse. A estas cartas respondi o melhor que pude, repetindo sempre que estava muito bem e que não precisava de dinheiro, duas coisas que, pensava eu, consolariam o meu pai pela minha demora em fazer-lhe a minha visita anual.
Foi então que, num belo dia de verão, Marguerite foi acordada pela luz do sol que inundava o seu quarto e, saltando da cama, perguntou-me se a levaria para o campo durante todo o dia.
Mandámos chamar Prudence e partimos os três, depois de Marguerite ter dado ordens a Nanine para dizer ao duque que tinha aproveitado o bom tempo para ir ao campo com a Sra. Duvernoy.
Além de a presença da Sra. Duvernoy ser necessária por causa do velho duque, Prudence era uma daquelas mulheres que parecem feitas de propósito para dias no campo. Com o seu bom humor inabalável e o seu apetite eterno, nunca deixava um momento de tédio àqueles com quem estava, e era perfeitamente feliz a pedir ovos, cerejas, leite, coelho estufado e tudo o resto do tradicional almoço no campo.
Restava-nos apenas decidir para onde iríamos. Foi mais uma vez Prudence quem resolveu a dificuldade.
— Querem ir para o campo a sério? — perguntou ela.
— Sim.
— Bem, vamos a Bougival, no Point du Jour, na casa da viúva Arnould. Armand, pede uma carruagem aberta.
Uma hora e meia depois estávamos na casa da viúva Arnould.
Talvez conheça a estalagem, que é um hotel nos dias úteis e um jardim de chá aos domingos. Há uma vista magnífica do jardim, que fica à altura de um primeiro andar comum. À esquerda, o Aqueduto de Marly fecha o horizonte; à direita, olha-se através de colina após colina; o rio, quase sem corrente naquele local, desenrola-se como uma larga fita branca de água entre a planície dos Gabillons e a ilha de Croissy, embalado eternamente pelo tremer dos seus altos choupos e pelo murmúrio dos seus salgueiros. Mais além, distintos à luz do sol, erguem-se pequenas casas brancas, com telhados vermelhos, e fábricas, que, àquela distância, dão um acabamento admirável à paisagem. Além disso, Paris na névoa! Como Prudence nos tinha dito, era o campo a sério e, devo acrescentar, foi um almoço a sério.
Não é apenas por gratidão pela felicidade que lhe devo, mas Bougival, apesar do seu nome horrível, é um dos lugares mais bonitos que se pode imaginar. Viajei bastante e vi coisas muito mais grandiosas, mas nada mais encantador do que esta pequena aldeia alegremente sentada ao pé da colina que a protege.
A Sra. Arnould perguntou-nos se queríamos um barco, e Marguerite e Prudence aceitaram alegremente.
As pessoas sempre associaram o campo ao amor, e fizeram bem; nada proporciona uma moldura tão bela para a mulher que se ama como o céu azul, os odores, as flores, a brisa, a solidão brilhante dos campos ou dos bosques. Por muito que se ame uma mulher, por muita confiança que se possa ter nela, por muita certeza que o seu passado nos possa oferecer quanto ao seu futuro, estamos sempre mais ou menos ciumentos. Se já esteve apaixonado, deve ter sentido a necessidade de isolar deste mundo o ser em quem quer viver inteiramente. Parece que, por mais indiferente que ela possa ser ao que a rodeia, a mulher que se ama perde algo do seu perfume e da sua unidade ao contacto com os homens e as coisas. Quanto a mim, senti isso mais do que a maioria. O meu não era um amor comum; eu estava tão apaixonado quanto uma criatura comum poderia estar, mas por Marguerite Gautier; isto é, em Paris, a cada passo, podia esbarrar com o homem que já tinha sido seu amante ou que estava prestes a sê-lo, enquanto no campo, rodeado de pessoas que nunca tínhamos visto e que nada tinham a ver connosco, a sós com a natureza na primavera do ano, esse perdão anual, e fechado ao ruído da cidade, eu podia esconder o meu amor e amar sem vergonha ou medo.
A cortesã desaparecia pouco a pouco. Tinha ao meu lado uma mulher jovem e bela, que eu amava, que me amava e que se chamava Marguerite; o passado já não tinha realidade e o futuro não tinha mais nuvens. O sol brilhava sobre a minha amante como poderia ter brilhado sobre a mais pura noiva. Caminhávamos juntos por aqueles lugares encantadores que pareciam ter sido feitos de propósito para recordar os versos de Lamartine ou para cantar as melodias de Scudo. Marguerite estava vestida de branco, apoiava-se no meu braço, repetindo-me sob o céu estrelado as palavras que me tinha dito no dia anterior, e, ao longe, o mundo seguia o seu caminho, sem obscurecer com a sua sombra o quadro radiante da nossa juventude e do nosso amor.
Esse foi o sonho que o sol quente me trouxe naquele dia através das folhas das árvores, enquanto, deitado na relva da ilha onde tínhamos desembarcado, deixava o meu pensamento vaguear, livre dos laços humanos que o tinham prendido, reunindo para si todas as esperanças que encontrava pelo caminho.
Acrescente-se que, do local onde eu estava, podia ver na margem uma pequena casa encantadora de dois andares, com uma grade semicircular; através da grade, em frente à casa, um relvado verde, macio como veludo, e atrás da casa um pequeno bosque cheio de retiros misteriosos, onde o musgo deveria apagar todas as manhãs o caminho que tinha sido feito no dia anterior. Flores trepadeiras agarravam-se à porta desta casa desabitada, subindo até ao primeiro andar.
Olhei para a casa durante tanto tempo que comecei por pensar nela como minha, tão perfeitamente encarnava o sonho que eu estava a sonhar; via Marguerite e eu ali, de dia no pequeno bosque que cobria a encosta, à noite sentados na relva, e perguntava-me se criaturas terrenas tinham sido alguma vez tão felizes como nós seríamos.
— Que casa bonita! — disse-me Marguerite, enquanto seguia a direção do meu olhar e talvez do meu pensamento.
— Onde? — perguntou Prudence.
— Ali — e Marguerite apontou para a casa em questão.
— Ah, deliciosa! — respondeu Prudence. — Gostas dela?
— Muito.
— Bem, diz ao duque para a alugar para ti; ele fá-lo-ia, tenho a certeza. Eu trato disso, se quiseres.
Marguerite olhou para mim, como se me perguntasse o que eu pensava. O meu sonho desvaneceu-se com as últimas palavras de Prudence, e trouxe-me de volta à realidade tão brutalmente que ainda fiquei atordoado com a queda.
— Sim, sim, uma ideia excelente — gaguejei, sem saber o que estava a dizer.
— Bem, eu vou tratar disso — disse Marguerite, soltando a minha mão e interpretando as minhas palavras de acordo com o seu próprio desejo. — Vamos ver se está para alugar.
A casa estava vazia e para alugar por dois mil francos.
— Serias feliz aqui? — disse-me ela.
— Tenho a certeza de vir para cá?
— E para quem mais me enterraria aqui, se não fosse para ti?
— Pois bem, então, Marguerite, deixa-me alugá-la eu mesmo.
— Estás louco; não só é desnecessário, como seria perigoso. Sabes perfeitamente que não tenho o direito de a aceitar senão de um homem. Deixa-me em paz, bebé crescido, e não digas nada.
— Isso significa — disse Prudence — que, quando tiver dois dias livres, virei passá-los convosco.
Deixámos a casa e começámos o nosso regresso a Paris, falando sobre o novo plano. Tinha Marguerite nos meus braços e, ao sair da carruagem, já tinha começado a encarar o seu arranjo com olhos menos críticos.
Capítulo XVII
No dia seguinte, Marguerite mandou-me embora muito cedo, dizendo que o duque vinha a uma hora adiantada, e prometendo escrever-me no momento em que ele saísse e marcar um encontro para a noite. No decorrer do dia, recebi este bilhete:
"Vou a Bougival com o duque; aparece na casa da Prudence esta noite às oito."
À hora marcada, Marguerite veio ter comigo a casa da Sra. Duvernoy. "Bem, está tudo resolvido", disse ela ao entrar. "A casa foi alugada?", perguntou Prudence. "Sim; ele concordou imediatamente."
Eu não conhecia o duque, mas sentia-me envergonhado por enganá-lo.
"Mas isso não é tudo", continuou Marguerite.
"Que mais há?"
"Estive a ver um lugar para o Armand ficar."
"Na mesma casa?", perguntou Prudence, rindo.
"Não, no Point du Jour, onde jantámos, o duque e eu. Enquanto ele admirava a vista, perguntei à Sra. Arnould (ela chama-se Sra. Arnould, não é?) se havia quartos adequados, e ela mostrou-me exatamente o que era preciso: sala, antecâmara e quarto, por sessenta francos por mês; o lugar todo mobilado de uma forma a distrair um hipocondríaco. Aluguei-o. Fiz bem?" Lancei-lhe os braços ao pescoço e beijei-a.
"Vai ser encantador", continuou ela. "Tu tens a chave da porta pequena e eu prometi ao duque a chave da porta da frente, que ele não levará, porque ele virá durante o dia quando vier. Penso, entre nós, que ele está encantado com um capricho que me manterá longe de Paris durante algum tempo e, assim, silenciará as objeções da família. No entanto, ele perguntou-me como é que eu, amando Paris como amo, me podia decidir a enterrar-me no campo. Disse-lhe que estava doente e que precisava de descanso. Ele pareceu ter alguma dificuldade em acreditar em mim. O pobre velho está sempre de vigia. Temos de tomar todas as precauções, meu caro Armand, pois ele fará com que me vigiem enquanto lá estiver; e não é apenas a questão de ele alugar uma casa para mim, mas ele tem as minhas dívidas para pagar, e infelizmente tenho muitas. Tudo isso te convém?"
"Sim", respondi, tentando acalmar os escrúpulos que este modo de vida despertava em mim de vez em quando.
"Visitámos a casa toda e teremos tudo perfeito. O duque vai tratar de cada pequena coisa. Ah, meu querido", acrescentou ela, beijando-me, "tens sorte; é um milionário que te faz a cama."
"E quando te mudarás para a casa?", perguntou Prudence.
"O mais cedo possível."
"Levarás os teus cavalos e carruagem?"
"Levarei a casa toda, e podes tomar conta do meu lugar enquanto eu estiver fora."
Uma semana depois, Marguerite estava instalada na sua casa de campo e eu estava instalado no Point du Jour.
Começou então uma existência que terei alguma dificuldade em descrever-lhe. No início, Marguerite não pôde romper inteiramente com os seus antigos hábitos e, como a casa estava sempre em festa, todas as mulheres que ela conhecia vinham vê-la. Durante um mês inteiro, não houve um dia em que Marguerite não tivesse oito ou dez pessoas para as refeições. Prudence, por seu lado, trazia todas as pessoas que conhecia e fazia as honras da casa como se a casa lhe pertencesse.
O dinheiro do duque pagava tudo isso, como pode imaginar; mas, de tempos a tempos, Prudence vinha ter comigo, pedindo uma nota de mil francos, pretensamente em nome de Marguerite. Sabe que eu tinha ganho algum dinheiro no jogo; entreguei, portanto, imediatamente a Prudence o que ela pediu para Marguerite e, temendo que ela precisasse de mais do que eu possuía, pedi emprestado em Paris uma quantia igual à que já tinha pedido e pago. Estava então novamente na posse de uns dez mil francos, sem contar com a minha mesada. No entanto, o prazer de Marguerite em ver os seus amigos foi um pouco moderado quando viu a despesa que esse prazer implicava, e especialmente a necessidade que ela tinha, por vezes, de me pedir dinheiro. O duque, que tinha alugado a casa para que Marguerite pudesse descansar ali, já não a visitava, receando encontrar-se no meio de uma grande e alegre companhia, pela qual não queria ser visto. Isto aconteceu porque ele tinha chegado uma vez para jantar tête-à-tête com Marguerite, e tinha caído no meio de um grupo de quinze pessoas, que ainda estavam a almoçar a uma hora em que ele estava preparado para se sentar para jantar. Tinha aberto a porta da sala de jantar sem suspeitar de nada, sido recebido por uma gargalhada e teve de se retirar precipitadamente perante o riso impertinente das mulheres que lá estavam reunidas.
Marguerite levantou-se da mesa e juntou-se ao duque na sala ao lado, onde tentou, tanto quanto possível, levá-lo a esquecer o incidente, mas o velho, ferido na sua dignidade, guardou-lhe rancor por isso e não a pôde perdoar. Disse-lhe, de forma algo cruel, que estava farto de pagar as loucuras de uma mulher que nem sequer podia fazer com que ele fosse tratado com respeito sob o seu próprio teto, e partiu com grande indignação.
Desde aquele dia, nunca mais se ouviu falar dele.
Em vão, Marguerite despediu os seus convidados e mudou o seu modo de vida; não se voltou a ouvir falar do duque. Eu fui o beneficiário, na medida em que a minha amante agora me pertencia mais completamente, e o meu sonho tinha finalmente sido realizado. Marguerite não podia estar sem mim. Não se importando com o que pudesse resultar disso, ela proclamou publicamente a nossa ligação, e eu tinha vindo viver inteiramente para casa dela. Os criados tratavam-me oficialmente como seu patrão.
Prudence tinha sermoneado estritamente Marguerite em relação ao seu novo modo de vida; mas ela tinha respondido que me amava, que não podia viver sem mim e que, acontecesse o que acontecesse, não sacrificaria o prazer de me ter constantemente consigo, acrescentando que aqueles que não estivessem satisfeitos com este arranjo estavam livres de não aparecer. Tanto ouvi eu um dia, quando Prudence disse a Marguerite que tinha algo de muito importante para lhe contar, e eu escutei à porta da sala onde elas se tinham fechado.
Pouco depois, Prudence voltou. Eu estava na outra extremidade do jardim quando ela chegou, e ela não me viu. Não tive dúvidas, pela maneira como Marguerite veio ao seu encontro, de que outra conversa semelhante iria ocorrer, e fiquei ansioso por ouvir sobre o que seria. As duas mulheres fecharam-se num gabinete, e eu coloquei-me num lugar onde pudesse ouvir.
— Bem? — perguntou Marguerite.
— Bem, vi o duque.
— O que é que ele disse?
— Que te perdoaria de bom grado a cena que ocorreu, mas que soube que vives publicamente com o Sr. Armand Duval, e que isso ele nunca perdoará. "Que a Marguerite deixe o jovem", disse-me ele, "e, como no passado, dar-lhe-ei tudo o que ela necessitar; se não, que não me peça mais nada".
— E tu respondeste?
— Que te comunicaria a sua decisão, e prometi-lhe que te levaria a um estado de espírito mais razoável. Pensa bem, minha querida criança, na posição que estás a perder, e que o Armand nunca te poderá dar. Ele ama-te com toda a alma, mas não tem fortuna capaz de satisfazer as tuas necessidades, e será obrigado a deixar-te um dia, quando já for demasiado tarde e quando o duque se recusar a fazer mais nada por ti. Queres que eu fale com o Armand?
Marguerite parecia estar a pensar, pois não respondeu nada. O meu coração batia violentamente enquanto esperava pela sua resposta.
— Não — respondeu ela —, não deixarei o Armand, e não ocultarei o facto de que vivo com ele. É loucura, sem dúvida, mas amo-o. O que queres que eu faça? E depois, agora que ele se habituou a estar sempre comigo, sofreria demasiado cruelmente se tivesse de me deixar por apenas uma hora que fosse por dia. Além disso, não tenho assim tanto tempo de vida para me fazer infeliz a fim de agradar a um velho cuja própria visão me faz sentir velha. Que ele fique com o seu dinheiro; eu passarei sem ele.
— Mas o que vais fazer?
— Não faço a mínima ideia.
Prudence ia, sem dúvida, fazer alguma réplica, mas entrei subitamente e lancei-me aos pés de Marguerite, cobrindo as suas mãos de lágrimas na minha alegria por ser assim amado.
— A minha vida é tua, Marguerite; já não precisas deste homem. Não estou eu aqui? Alguma vez te deixarei, e poderei eu alguma vez retribuir-te a felicidade que me dás? Chega de barreiras, minha Marguerite; nós amamo-nos; o que importa todo o resto?
— Oh, sim, eu amo-te, meu Armand — murmurou ela, passando os dois braços à volta do meu pescoço. — Amo-te como nunca pensei que pudesse amar. Seremos felizes; viveremos tranquilamente, e direi adeus para sempre à vida pela qual agora me envergonho. Nunca me censurarás pelo passado? Diz-me!
As lágrimas sufocaram-me a voz. Só pude responder apertando Marguerite contra o meu coração.
— Bem — disse ela, voltando-se para Prudence e falando com uma voz trémula —, podes contar esta cena ao duque, e podes acrescentar que já não precisamos dele.
A partir desse dia, nunca mais se falou do duque. Marguerite já não era a mesma mulher que eu tinha conhecido. Evitava tudo o que me pudesse fazer lembrar a vida que ela levava quando a conheci pela primeira vez. Nunca esposa ou irmã rodeou marido ou irmão com tanto cuidado amoroso como ela tinha por mim. A sua natureza era morbidamente aberta a todas as impressões e acessível a todos os sentimentos. Tinha rompido igualmente com os seus amigos e com os seus hábitos, com as suas palavras e com as suas extravagâncias. Qualquer pessoa que nos visse a sair de casa para passear no rio, no encantador barquinho que eu tinha comprado, nunca teria acreditado que a mulher vestida de branco, usando um chapéu de palha e carregando no braço uma pequena pelisse de seda para a proteger da humidade do rio, era aquela Marguerite Gautier que, há apenas quatro meses, era o assunto da cidade pelo luxo e pelo escândalo da sua existência.
Infelizmente, apressámo-nos a ser felizes, como se soubéssemos que não seríamos felizes por muito tempo.
Durante dois meses, nem sequer tínhamos ido a Paris. Ninguém nos vinha visitar, exceto Prudence e Julie Duprat, de quem lhe falei, e a quem Marguerite havia de entregar mais tarde a comovente narrativa que ali tenho.
Passava dias inteiros aos pés da minha amante. Abríamos as janelas para o jardim e, enquanto observávamos o verão a amadurecer nas suas flores e sob a sombra das árvores, respirávamos juntos aquela vida verdadeira que nem Marguerite nem eu tínhamos conhecido antes.
O seu prazer nas coisas mais pequenas era como o de uma criança. Havia dias em que ela corria pelo jardim, como uma criança de dez anos, atrás de uma borboleta ou de uma libélula. Esta cortesã, que tinha custado mais dinheiro em bouquets do que o necessário para manter uma família inteira com conforto, sentava-se por vezes na erva durante uma hora, examinando a flor simples cujo nome ela ostentava.
Foi por esta altura que ela leu Manon Lescaut, vezes sem conta. Encontrei-a várias vezes a fazer notas no livro, e ela declarava sempre que, quando uma mulher ama, não pode agir como Manon agiu.
O duque escreveu-lhe duas ou três vezes. Ela reconhecia a caligrafia e dava-me as cartas sem as ler. Por vezes, os termos destas cartas traziam lágrimas aos meus olhos. Ele tinha imaginado que, ao fechar a bolsa a Marguerite, a traria de volta para si; mas quando percebeu a inutilidade destes meios, não conseguiu aguentar mais; escreveu a pedir que pudesse vê-la novamente, como antes, independentemente das condições.
Li estas cartas urgentes e repetidas, e rasguei-as em pedaços, sem dizer a Marguerite o que continham e sem a aconselhar a ver o velho novamente, embora estivesse meio inclinado a fazê-lo, tal era a pena que sentia por ele, mas tinha medo que, se a aconselhasse, ela pensasse que eu desejava que o duque, não apenas viesse vê-la novamente, mas que assumisse as despesas da casa; temia, acima de tudo, que ela me pudesse considerar capaz de evitar as responsabilidades de todas as consequências a que o seu amor por mim a pudesse levar.
Assim aconteceu que o duque, não recebendo resposta, deixou de escrever, e que Marguerite e eu continuámos a viver juntos sem pensar no futuro.
Capítulo XVIII
Seria difícil dar-lhe todos os detalhes da nossa nova vida. Era feita de uma série de pequenos eventos infantis, encantadores para nós, mas insignificantes para qualquer outra pessoa. Sabe o que é estar apaixonado por uma mulher, sabe como isso encurta os dias e com que lassidão amorosa nos deixamos arrastar para o dia seguinte. Sabe aquele esquecimento de tudo o que advém de um amor violento, confiante e correspondido. Todo o ser que não é a pessoa amada parece um ser inútil na criação. Arrependemo-nos de ter atirado pedaços do nosso coração a outras mulheres, e não conseguimos acreditar na possibilidade de apertar outra mão que não seja aquela que seguramos entre as nossas. A mente não admite trabalho nem recordação; nada, em suma, que a possa distrair do pensamento único em que está incessantemente absorvida. Todos os dias descobrimos na nossa amante um novo encanto e delícias desconhecidas. A existência em si é apenas o cumprimento incessante de um desejo imutável; a alma é apenas a vestal encarregada de alimentar o fogo sagrado do amor.
Muitas vezes íamos durante a noite sentar-nos no pequeno bosque acima da casa; lá, escutávamos as harmonias alegres da noite, ambos a pensar nas horas vindouras que nos deixariam um ao outro até ao despontar do dia. Outras vezes não nos levantávamos durante todo o dia; nem sequer deixávamos a luz do sol entrar no nosso quarto.
As cortinas estavam hermeticamente fechadas, e por um momento o mundo exterior não existia para nós. A Nanine era a única que tinha o direito de abrir a nossa porta, mas apenas para trazer as nossas refeições, e até estas tomávamos sem nos levantarmos, interrompendo-as com risos e alegria. A isso seguia-se um breve sono, pois, desaparecendo nas profundezas do nosso amor, éramos como dois mergulhadores que só vêm à superfície para recuperar o fôlego.
Contudo, surpreendi momentos de tristeza, até lágrimas, em Marguerite; perguntei-lhe a causa do seu sofrimento, e ela respondeu:
— O nosso amor não é como os outros amores, meu Armand. Tu amas-me como se eu nunca tivesse pertencido a outro, e tremo de medo que mais tarde, arrependendo-te do teu amor e acusando-me pelo meu passado, me deixes cair de volta naquela vida de onde me tiraste. Penso que agora que provei outra vida, morreria se voltasse à antiga. Diz-me que nunca me deixarás!
— Juro!
A estas palavras ela olhou para mim como se quisesse ler nos meus olhos se o meu juramento era sincero; depois lançou-se nos meus braços e, escondendo a cabeça no meu peito, disse-me: "Tu não sabes o quanto eu te amo!"
Certa noite, sentados na varanda fora da janela, olhámos para a lua que parecia subir com dificuldade do seu leito de nuvens, e ouvimos o vento a agitar violentamente as árvores; segurávamo-nos pelas mãos, e durante um quarto de hora inteiro não tínhamos falado, quando Marguerite me disse:
— O inverno aproxima-se. Gostarias que fôssemos para o estrangeiro?
— Para onde?
— Para a Itália.
— Estás cansada daqui?
— Tenho medo do inverno; tenho particularmente medo do teu regresso a Paris.
— Porquê?
— Por muitas razões.
E prosseguiu abruptamente, sem me dar as suas razões para os receios:
— Irás para o estrangeiro? Venderei tudo o que tenho; iremos viver para lá, e não restará nada do que eu era; ninguém saberá quem eu sou. Queres?
— Com certeza, se quiseres, Marguerite, vamos viajar — disse eu. — Mas qual a necessidade de vender coisas que te serão úteis quando regressarmos? Não tenho fortuna suficiente para aceitar tal sacrifício; mas tenho o suficiente para podermos viajar magnificamente durante cinco ou seis meses, se isso te divertir minimamente.
— Afinal, não — disse ela, deixando a janela e indo sentar-se no sofá na outra extremidade da sala. — Por que havemos de gastar dinheiro no estrangeiro? Já te custou o suficiente, aqui.
— Censuras-me, Marguerite; não é generoso.
— Perdoa-me, meu amigo — disse ela, dando-me a mão. — Este tempo de trovoada irrita-me os nervos; não digo o que pretendo dizer.
E depois de me abraçar, caiu numa longa divagação.
Cenas deste género ocorriam frequentemente, e embora não conseguisse descobrir a sua causa, não podia deixar de ver em Marguerite sinais de inquietação em relação ao futuro. Ela não podia duvidar do meu amor, que aumentava dia após dia, e ainda assim encontrava-a muitas vezes triste, sem conseguir obter qualquer explicação para a razão, exceto alguma causa física. Receando que uma vida tão monótona a estivesse a começar a cansar, propus o regresso a Paris; mas ela recusava sempre, assegurando-me que não poderia ser tão feliz em lado nenhum como no campo.
Prudence agora vinha raramente; mas escrevia frequentemente cartas que eu nunca pedia para ver, embora, todas as vezes que chegavam, parecessem preocupar Marguerite profundamente. Eu não sabia o que pensar.
Um dia, Marguerite estava no seu quarto. Entrei. Ela estava a escrever. "A quem escreves?", perguntei. "À Prudence. Queres ver o que estou a escrever?"
Eu tinha horror a qualquer coisa que pudesse parecer suspeita, e respondi que não tinha qualquer desejo de saber o que ela escrevia; e ainda assim estava certo de que aquela carta me teria explicado a causa da sua tristeza.
No dia seguinte, o tempo estava esplêndido. Marguerite propôs-me levar o barco e ir até à ilha de Croissy. Ela parecia muito alegre; quando regressámos eram cinco horas.
— A Sra. Duvernoy esteve aqui — disse Nanine, ao ver-nos entrar. — Ela já foi embora? — perguntou Marguerite.
— Sim, madame, na carruagem; ela disse que estava combinado.
— Muito bem — disse Marguerite bruscamente. — Serve o jantar.
Dois dias depois, chegou uma carta de Prudence, e durante quinze dias Marguerite pareceu ter-se livrado da sua melancolia misteriosa, pela qual me pedia constantemente perdão, agora que ela já não existia. Ainda assim, a carruagem não voltava.
— Como é que a Prudence não te devolve a tua carruagem? — perguntei um dia.
— Um dos cavalos está doente, e há algumas reparações a fazer. É melhor que isso seja feito enquanto estamos aqui, e não precisamos de carruagem, do que esperar até voltarmos a Paris.
Prudence veio dois dias depois e confirmou o que Marguerite tinha dito. As duas mulheres foram dar um passeio no jardim, e quando me juntei a elas, mudaram de assunto. Nessa noite, ao ir embora, Prudence queixou-se do frio e pediu a Marguerite que lhe emprestasse um xaile.
Assim passou um mês, e durante todo o tempo Marguerite estava mais alegre e afetuosa do que nunca. No entanto, a carruagem não voltava, o xaile não tinha sido devolvido, e comecei a ficar ansioso, apesar de mim mesmo, e como sabia em que gaveta Marguerite guardava as cartas de Prudence, aproveitei um momento em que ela estava na outra extremidade do jardim, fui à gaveta e tentei abri-la; em vão, pois estava trancada. Quando abri a gaveta onde as bugigangas e os diamantes eram normalmente guardados, estes abriram-se sem resistência, mas as caixas de joias tinham desaparecido, juntamente com o seu conteúdo, sem dúvida.
Um medo agudo penetrou o meu coração. Eu poderia, de facto, pedir a Marguerite a verdade sobre estes desaparecimentos, mas era certo que ela não a confessaria.
— Minha querida Marguerite — disse-lhe eu —, vou pedir a tua permissão para ir a Paris. Eles não sabem a minha morada, e suponho que haja cartas do meu pai à minha espera. Não tenho dúvidas de que ele está preocupado; devo responder-lhe.
— Vai, meu amigo — disse ela; — mas volta cedo. Fui diretamente à Prudence.
— Anda — disse eu, sem rodeios —, diz-me francamente, onde estão os cavalos da Marguerite?
— Vendidos.
— O xaile?
— Vendido.
— Os diamantes?
— Penhorados.
— E quem os vendeu e penhorou?
— Eu.
— Por que não me disseste?
— Porque a Marguerite fez-me prometer que não o faria.
— E porque não me pediste dinheiro?
— Porque ela não deixou.
— E para onde foi este dinheiro?
— Em pagamentos.
— Ela está muito endividada?
— Trinta mil francos, ou por aí. Ah, meu caro, não te disse eu? Tu não quiseste acreditar em mim; agora estás convencido. O estofador, com quem o duque tinha concordado em acertar contas, foi posto fora de casa quando se apresentou, e o duque escreveu no dia seguinte a dizer que não responderia por nada em relação à Sra. Gautier. Este homem queria o seu dinheiro; deram-lhe um pagamento parcial com os poucos milhares de francos que recebi de ti; depois, algumas almas caridosas avisaram-no de que a sua devedora tinha sido abandonada pelo duque e vivia com um jovem sem um tostão; aos outros credores foi dito o mesmo; pediram o seu dinheiro e penhoraram alguns dos bens. Marguerite queria vender tudo, mas era demasiado tarde, e além disso eu ter-me-ia oposto. Mas era necessário pagar, e para não te pedir dinheiro, ela vendeu os seus cavalos e os seus xailes, e penhorou as suas joias. Queres ver os recibos e os talões de penhor?
E Prudence abriu a gaveta e mostrou-me os papéis.
— Ah, pensas — continuou ela, com a insistência de uma mulher que pode dizer: "eu tinha razão, afinal" —, ah, pensas que basta estar apaixonado, ir para o campo e levar uma vida sonhadora e pastoral. Não, meu amigo, não. Ao lado dessa vida ideal, existe uma vida material, e as resoluções mais puras são mantidas presas à terra por fios que parecem bastante leves, mas que são de ferro, não fáceis de quebrar. Se a Marguerite não te foi infiel vinte vezes, é porque tem uma natureza excecional. Não foi por falta de eu a aconselhar, pois não suportava ver a pobre rapariga a despojar-se de tudo. Ela não quis; respondeu que te amava e que não te seria infiel por nada deste mundo. Tudo isso é muito bonito, muito poético, mas não se pode pagar aos credores com essa moeda, e agora ela não se consegue livrar das dívidas, a menos que consiga arranjar trinta mil francos.
— Está bem, eu fornecerei essa quantia.
— Vais pedi-la emprestada?
— Valha-me Deus! Pois claro que sim!
— Uma bela coisa que isso será fazer; vais zangar-te com o teu pai, comprometer os teus recursos, e não se encontram trinta mil francos de um dia para o outro. Acredita em mim, meu caro Armand, conheço as mulheres melhor do que tu; não cometas esta loucura; vais arrepender-te um dia. Sê razoável. Não te aconselho a deixar a Marguerite, mas vive com ela como vivias no início. Deixa que ela encontre os meios para sair desta dificuldade. O duque voltará dentro de pouco tempo. O Conde de N., se ela o aceitasse, disse-me ele ainda ontem, pagaria todas as suas dívidas e dar-lhe-ia quatro ou cinco mil francos por mês. Ele tem duzentos mil por ano. Seria uma posição para ela, enquanto tu serás certamente obrigado a deixá-la. Não esperes até estares arruinado, especialmente porque o Conde de N. é um tolo, e nada impediria que continuasses a ser o amante da Marguerite. Ela choraria um pouco no início, mas habituar-se-ia, e um dia agradecer-me-ias pelo que fizeste. Imagina que a Marguerite está casada, e engana o marido; é tudo. Já te disse tudo isto uma vez, só que naquela altura era apenas um conselho, e agora é quase uma necessidade.
O que a Prudence dizia era cruelmente verdadeiro.
— É assim que as coisas são — continuou ela, guardando os papéis que me tinha acabado de mostrar; — mulheres como a Marguerite preveem sempre que alguém as amará, nunca que elas amarão; de outra forma, guardariam dinheiro, e aos trinta anos poderiam dar-se ao luxo de ter um amante de graça. Se eu tivesse sabido uma vez o que sei agora! Em suma, não digas nada à Marguerite e traze-a de volta a Paris. Vivebeste com ela sozinho durante quatro ou cinco meses; isso é mais do que suficiente. Fecha os olhos agora; é tudo o que alguém te pede. Ao fim de quinze dias, ela aceitará o Conde de N., ela poupará durante o inverno, e no próximo verão começarás tudo de novo. É assim que as coisas se fazem, meu caro!
E a Prudence parecia estar encantada com o seu conselho, que eu recusei indignado.
Não só o meu amor e a minha dignidade não me permitiam agir assim, como tinha a certeza de que, sentindo o que sentia agora, a Marguerite morreria antes de aceitar outro amante.
— Chega de brincadeiras — disse eu à Prudence; — diz-me exatamente de quanto a Marguerite precisa.
— Já te disse: trinta mil francos.
— E quando é que ela precisa desta quantia?
— Antes do fim de dois meses.
— Ela tê-la-á.
Prudence encolheu os ombros.
— Eu dar-tos-ei — continuei —, mas tens de me jurar que não dirás à Marguerite que fui eu que os dei.
— Não tenhas medo.
“E se ela te enviar qualquer outra coisa para vender ou penhorar, avisa-me.”
“Não há perigo. Já não lhe resta nada.”
Fui direto para a minha própria casa para ver se havia alguma carta do meu pai. Havia quatro.
Capítulo XIX
Nas suas três primeiras cartas, o meu pai indagava a causa do meu silêncio; na última, permitiu-me perceber que ouvira falar da minha mudança de vida e informou-me de que estava prestes a vir visitar-me.
Sempre tive um grande respeito e um afeto sincero pelo meu pai. Respondi-lhe que estivera a viajar por um curto período e implorei-lhe que me avisasse com antecedência em que dia chegaria, para que eu pudesse estar lá para recebê-lo.
Dei ao meu criado o meu endereço no campo, dizendo-lhe que me trouxesse a primeira carta que chegasse com o carimbo de C., depois regressei a Bougival.
Marguerite esperava por mim no portão do jardim. Olhou para mim ansiosamente. Passando os braços pelo meu pescoço, disse-me: “Viste a Prudence?”
“Não.”
“Demoraste muito tempo em Paris.”
“Encontrei cartas do meu pai às quais tive de responder.”
Poucos minutos depois, entrou Nanine, toda ofegante. Marguerite levantou-se e falou com ela em sussurros. Quando Nanine saiu, Marguerite sentou-se novamente ao meu lado e disse, tomando a minha mão:
“Porque me enganaste? Foste ver a Prudence.”
“Quem te disse?”
“A Nanine.”
“E como é que ela soube?”
“Seguiu-te.”
“Mandaste-a seguir-me?”
“Sim. Pensei que devias ter um motivo muito forte para ir a Paris, depois de não me teres deixado durante quatro meses. Tive medo que te tivesse acontecido alguma coisa, ou que talvez fosses ver outra mulher.”
“Criança!”
“Agora estou aliviada. Sei o que fizeste, mas ainda não sei o que te disseram.”
Mostrei a Marguerite as cartas do meu pai.
“Não é sobre isso que te estou a perguntar. O que quero saber é porque foste ver a Prudence.”
“Para a ver.”
“Isso é mentira, meu amigo.”
“Bem, fui perguntar-lhe se a égua estava melhor e se ela ainda queria o teu xaile e as tuas joias.”
Marguerite corou, mas não respondeu.
“E”, continuei, “soube o que fizeste com os teus cavalos, xailes e joias.”
“E estás zangado?”
“Estou zangado por nunca te ter ocorrido pedir-me o que precisavas.”
“Numa ligação como a nossa, se a mulher tiver qualquer sentido de dignidade, deve fazer todos os sacrifícios possíveis em vez de pedir dinheiro ao seu amante e, assim, dar um caráter venal ao seu amor. Tu amas-me, tenho a certeza, mas não sabes por um fio quão ténue depende o amor que se tem por uma mulher como eu. Quem sabe? Talvez um dia, quando estivesses aborrecido ou preocupado, imaginasses ver um plano cuidadosamente concertado na nossa ligação. A Prudence é uma tagarela. Que necessidade tinha eu dos cavalos? Foi uma economia vendê-los. Não os uso e não gasto nada com a sua manutenção; se me amas, não peço mais nada, e amar-me-ás exatamente da mesma forma sem cavalos, nem xailes, nem diamantes.”
Tudo aquilo foi dito de forma tão natural que as lágrimas vieram-me aos olhos enquanto a ouvia.
“Mas, minha querida Marguerite”, respondi, apertando-lhe as mãos com amor, “sabias que um dia eu descobriria o sacrifício que tinhas feito e que, no momento em que o descobrisse, não o permitiria mais.”
“Mas porquê?”
“Porque, minha querida criança, não posso permitir que o teu afeto por mim te prive sequer de uma bugiganga. Também não gostaria que fosses capaz, num momento em que estivesses aborrecida ou preocupada, de pensar que, se vivesses com outra pessoa, esses momentos não existiriam; e de te arrependeres, ainda que por um minuto, de viveres comigo. Dentro de alguns dias, os teus cavalos, os teus diamantes e os teus xailes ser-te-ão devolvidos. Eles são tão necessários para ti como o ar para a vida, e pode ser absurdo, mas gosto mais de te ver vistosa do que simples.”
“Então já não me amas.”
“Criatura tola!”
“Se me amasses, deixar-me-ias amar-te à minha maneira; pelo contrário, persistes em ver em mim apenas uma mulher a quem o luxo é indispensável, e a quem pensas que és sempre obrigado a pagar. Tens vergonha de aceitar a prova do meu amor. Apesar de ti mesmo, pensas em deixar-me um dia e queres colocar o teu desinteresse acima de qualquer risco de suspeita. Tens razão, meu amigo, mas eu tinha melhores esperanças.”
E Marguerite fez um movimento para se levantar; eu segurei-a e disse-lhe:
“Quero que sejas feliz e que não tenhas nada de que me censurar, é só isso.”
“E vamos ser separados!”
“Ora, Marguerite, quem nos pode separar?” exclamei.
“Tu, que não me deixas aceitar-te no teu nível, mas insistes em aceitar-me no meu; tu, que desejas que eu mantenha o luxo no meio do qual vivi e, assim, mantenha a distância moral que nos separa; tu, que não acreditas que o meu afeto seja suficientemente desinteressado para partilhar comigo o que tens, embora pudéssemos viver bastante felizes com isso juntos, e preferes arruinar-te porque ainda estás preso a um preconceito tolo. Achas mesmo que eu poderia comparar uma carruagem e diamantes com o teu amor? Achas que a minha verdadeira felicidade reside nas ninharias que significam tanto quando não se tem nada para amar, mas que se tornam realmente triviais quando se tem? Irás pagar as minhas dívidas, liquidar o teu património e depois sustentar-me? Quanto tempo durará isso? Dois ou três meses, e então será tarde demais para viver a vida que proponho, pois então terás de tirar tudo de mim, e isso é o que um homem de honra não pode fazer; enquanto agora tens oito ou dez mil francos por ano, com os quais deveríamos conseguir viver. Venderei o resto do que não preciso e, só com isso, farei dois mil francos por ano. Alugaremos um apartamento pequeno e agradável onde possamos viver ambos. No verão, iremos para o campo, não para uma casa como esta, mas para uma casa apenas grande o suficiente para duas pessoas. Tu és independente, eu sou livre, somos jovens; em nome do céu, Armand, não me empurres de volta para a vida que tive de levar outrora!”
Não consegui responder. Lágrimas de gratidão e amor encheram os meus olhos e lancei-me aos braços de Marguerite.
“Eu queria”, continuou ela, “organizar tudo sem te dizer, pagar todas as minhas dívidas e alugar um novo apartamento. Em outubro, teríamos regressado a Paris e tudo teria vindo a público; mas como a Prudence te contou tudo, terás de concordar de antemão, em vez de concordar depois. Amas-me o suficiente para isso?”
Era impossível resistir a tal dedicação. Beijei as suas mãos ardentemente e disse:
“Farei tudo o que desejares.”
Ficou acordado que faríamos como ela tinha planeado. Com isso, ela ficou louca de alegria; dançou, cantou, divertiu-se a evocar imagens do seu novo apartamento em toda a sua simplicidade e começou a consultar-me sobre a sua localização e disposição. Vi o quão feliz e orgulhosa ela estava com esta resolução, que parecia que nos aproximaria cada vez mais, e resolvi fazer a minha parte. Num instante, decidi todo o rumo da minha vida. Pus os meus assuntos em ordem e transferi para Marguerite o rendimento que me provinha da minha mãe, e que parecia pouco em troca do sacrifício que eu estava a aceitar. Restavam os cinco mil francos por ano do meu pai; e, acontecesse o que acontecesse, tinha sempre o suficiente para viver. Não disse a Marguerite o que tinha feito, certo de que ela recusaria a dádiva. Este rendimento provinha de uma hipoteca de sessenta mil francos sobre uma casa que eu nunca tinha sequer visto. Tudo o que eu sabia era que, a cada três meses, o advogado do meu pai, um velho amigo da família, me entregava setecentos e cinquenta francos em troca do meu recibo.
No dia em que Marguerite e eu fomos a Paris procurar um apartamento, fui ter com esse advogado e perguntei-lhe o que era necessário fazer para transferir este rendimento para outra pessoa. O bom homem imaginou que eu estava arruinado e questionou-me sobre a causa da minha decisão. Como sabia que seria obrigado, mais cedo ou mais tarde, a dizer a favor de quem fazia esta transferência, achei melhor dizer-lhe a verdade imediatamente. Ele não fez nenhuma das objeções que a sua posição como amigo e advogado o autorizava a fazer e assegurou-me que organizaria todo o assunto da melhor maneira possível. Naturalmente, implorei-lhe que usasse a maior discrição em relação ao meu pai, e, ao deixá-lo, reuni-me a Marguerite, que me esperava em casa de Julie Duprat, para onde ela tinha ido em vez de ir ouvir as moralizações da Prudence.
Começámos a procurar apartamentos. Todos os que vimos pareciam demasiado caros a Marguerite e demasiado simples para mim. No entanto, encontrámos finalmente, numa das zonas mais tranquilas de Paris, uma pequena casa, isolada da parte principal do edifício. Atrás desta pequena casa havia um jardim encantador, rodeado por muros altos o suficiente para nos esconder dos vizinhos, e baixos o suficiente para não obstruir a nossa própria vista. Era melhor do que as nossas expectativas.
Enquanto eu fui avisar que ia deixar o meu próprio apartamento, Marguerite foi ver um agente de negócios que, segundo ela me disse, já tinha feito por uma das suas amigas exatamente o que ela queria que ele fizesse por ela. Ela apareceu na Rue de Provence em estado de grande alegria. O homem tinha prometido pagar todas as suas dívidas, dar-lhe um recibo pelo montante e entregar-lhe vinte mil francos, em troca de toda a sua mobília. Como viste pelo montante obtido na venda, este homem honesto teria ganho trinta mil francos à custa da sua cliente.
Voltámos alegremente para Bougival, falando sobre os nossos projetos para o futuro, que, graças à nossa imprudência, e especialmente ao nosso amor, víamos sob a luz mais cor-de-rosa.
Uma semana depois, enquanto almoçávamos, Nanine veio dizer-nos que o meu criado estava a perguntar por mim. “Deixa-o entrar”, disse eu.
“Senhor”, disse ele, “o seu pai chegou a Paris e pede-lhe que regresse imediatamente aos seus aposentos, onde ele está à sua espera.”
Esta notícia era a coisa mais natural do mundo, no entanto, ao ouvi-la, Marguerite e eu olhámo-nos. Previmos problemas. Antes de ela ter dito uma palavra, respondi ao seu pensamento e, pegando na sua mão, disse: “Não temas nada.”
“Volta o mais depressa possível”, sussurrou Marguerite, abraçando-me; “esperar-te-ei à janela.”
Mandei o Joseph dizer ao meu pai que estava a caminho. Duas horas depois, estava na Rue de Provence.
Capítulo XX
O meu pai estava sentado no meu quarto de roupão; escrevia, e percebi logo, pela forma como ele levantou os olhos para mim quando entrei, que ia haver uma discussão séria. Aproximar-me-ia dele, de qualquer modo, como se não tivesse visto nada no seu rosto, abracei-o e disse:
“Quando chegaste, pai?”
“Ontem à noite.”
“Vieste direto para aqui, como de costume?”
“Sim.”
“Lamento muito não ter estado aqui para te receber.”
Esperava que o sermão que o rosto frio do meu pai ameaçava começasse imediatamente; mas ele não disse nada, selou a carta que acabara de escrever e deu-a ao Joseph para a colocar no correio.
Quando ficámos sozinhos, o meu pai levantou-se e, encostando-se à lareira, disse-me:
“Meu caro Armand, temos assuntos sérios a discutir.”
“Estou a ouvir, pai.”
“Prometes-me ser franco?”
“Não estou habituado a sê-lo?”
“Não é verdade que vives com uma mulher chamada Marguerite Gautier?”
“Sim.”
“Sabes o que era esta mulher?”
“Uma mulher mantida.”
“E é por ela que te esqueceste de vir ver a tua irmã e a mim este ano?”
“Sim, pai, admito-o.”
“Estás muito apaixonado por esta mulher?”
“Vês bem, pai, uma vez que ela me fez faltar ao dever para contigo, pelo que humildemente te peço perdão hoje.”
O meu pai, sem dúvida, não esperava respostas tão categóricas, pois pareceu refletir por um momento e depois disse-me:
“Percebeste, é claro, que não podes viver sempre assim?”
“Temo que sim, pai, mas não o percebi.”
“Mas tens de perceber”, continuou o meu pai, num tom mais seco, “que eu, em todo o caso, não o permitiria.”
“Disse a mim mesmo que, enquanto não fizesse nada contrário ao respeito que devo à probidade tradicional da família, poderia viver como estou a viver, e isto tranquilizou-me um pouco em relação aos receios que tive.”
As paixões são inimigas formidáveis do sentimento. Eu estava preparado para todas as lutas, até com o meu pai, para que pudesse manter a Marguerite.
“Então, o momento chegou em que tens de viver de outra forma.”
“Porquê, pai?”
“Porque estás a fazer coisas que ultrajam o respeito que imaginas ter pela tua família.”
“Não percebo o que queres dizer.”
“Vou explicar-te. Tem uma amante se quiseres; paga-lhe como um homem de honra é obrigado a pagar à mulher que mantém, certamente; mas que chegues a esquecer as coisas mais sagradas por ela, que deixes o relato da tua vida escandalosa chegar ao meu sossegado campo e manchar o nome honrado que te dei, isso não pode ser, não o será.”
“Permite-me dizer-te, pai, que aqueles que te deram informações sobre mim foram mal informados. Sou o amante da Srta. Gautier; vivo com ela; é a coisa mais natural do mundo. Não dou à Srta. Gautier o nome que me deste; gasto por conta dela o que os meus meios me permitem gastar; não tenho dívidas; e, em suma, não estou numa posição que autorize um pai a dizer ao seu filho o que acabaste de me dizer.”
“Um pai está sempre autorizado a resgatar o seu filho de maus caminhos. Ainda não fizeste nenhum mal, mas fá-lo-ás.”
“Pai!”
“Senhor, sei mais da vida do que tu. Não existem sentimentos inteiramente puros senão em mulheres perfeitamente castas. Toda a Manon pode ter o seu Des Grieux, e os tempos mudaram. Seria inútil o mundo envelhecer se não corrigisse os seus hábitos. Vais deixar a tua amante.”
“Lamento muito desobedecer-te, pai, mas é impossível.”
“Vou obrigar-te a fazê-lo.”
“Infelizmente, pai, já não existe uma Santa Marguerite para a qual as cortesãs possam ser enviadas, e, mesmo que existisse, eu seguiria a Srta. Gautier se conseguisses que ela fosse enviada para lá. O que querias? Talvez eu esteja enganado, mas só posso ser feliz enquanto for o amante desta mulher.”
“Vamos, Armand, abre os olhos. Reconhece que é o teu pai que te fala, o teu pai que sempre te amou e que apenas deseja a tua felicidade. É honroso para ti viver como marido e mulher com uma mulher que todos tiveram?”
“Que importa, pai, se ninguém a terá mais? Que importa, se esta mulher me ama, se toda a sua vida mudou através do amor que ela tem por mim e do amor que eu tenho por ela? Que importa, se ela se tornou uma mulher diferente?”
“Achas, então, senhor, que a missão de um homem de honra é andar por aí a converter mulheres perdidas? Achas que Deus deu um objetivo tão grotesco à vida e que o coração deve ter algum espaço para entusiasmo desse género? Qual será o fim desta cura maravilhosa e o que pensarás do que estás a dizer hoje quando tiveres quarenta anos? Rir-te-ás deste teu amor, se ainda te puderes rir, e se ele não tiver deixado um rasto demasiado sério no teu passado. O que serias agora se o teu pai tivesse tido as tuas ideias e tivesse entregue a sua vida a cada impulso deste género, em vez de se enraizar firmemente em convicções de honra e firmeza? Pensa nisso, Armand, e não digas mais tais absurdos. Vamos, deixa esta mulher; o teu pai implora-te.”
Não respondi nada.
“Armand”, continuou o meu pai, “em nome da tua santa mãe, abandona esta vida, que esquecerás mais facilmente do que pensas. Estás preso a ela por uma teoria impossível. Tens vinte e quatro anos; pensa no futuro. Não podes amar sempre esta mulher, que também não te pode amar sempre. Ambos exageram o vosso amor. Estás a pôr fim a toda a tua carreira. Mais um passo, e já não serás capaz de deixar o caminho que escolheste, e sofrerás toda a tua vida pelo que fizeste na tua juventude. Deixa Paris. Vem passar um mês ou dois com a tua irmã e comigo. O repouso no nosso sossegado afeto familiar curar-te-á em breve desta febre, pois não é outra coisa. Entretanto, a tua amante consolar-se-á; ela arranjará outro amante; e quando vires por que razão estiveste quase a romper com o teu pai e quase a perder o seu amor, dir-me-ás que fiz bem em vir procurar-te e agradecer-me-ás por isso. Vamos, vais vir comigo, Armand, não vais?” Senti que o meu pai teria razão se fosse qualquer outra mulher, mas estava convencido de que ele estava errado em relação a Marguerite. Contudo, o tom com que ele disse estas últimas palavras era tão gentil, tão apelativo, que não me atrevi a responder.
“Bem?” disse ele com uma voz trémula.
“Bem, pai, não posso prometer nada”, disse eu finalmente; “o que me pedes está para além do meu poder. Acredita-me”, continuei, vendo-o fazer um movimento impaciente, “exageras os efeitos desta ligação. Marguerite é um tipo de mulher diferente do que pensas. Este amor, longe de me desviar, é capaz, pelo contrário, de me colocar na direção certa. O amor torna sempre um homem melhor, não importa que mulher o inspire. Se conhecesses a Marguerite, entenderias que não corro perigo. Ela é tão nobre como a mais nobre das mulheres. Há tanto desinteresse nela como cobiça noutras.”
“Tudo o que não a impede de aceitar a totalidade da tua fortuna, pois os sessenta mil francos que te vêm da tua mãe, e que lhe estás a dar, são, entende bem, toda a tua fortuna.”
O meu pai tinha provavelmente guardado esta peroração e esta ameaça para o último golpe. Fui mais firme perante estas ameaças do que perante as suas súplicas.
“Quem te disse que eu lhe estava a entregar esta quantia?” perguntei.
“O meu advogado. Poderia um homem honesto levar a cabo tal procedimento sem me avisar? Bem, é para te impedir de te arruinares por uma prostituta que estou agora em Paris. A tua mãe, quando morreu, deixou-te o suficiente para viveres respeitavelmente, e não para esbanjares com as tuas amantes.”
“Juro-te, pai, que a Marguerite não sabia nada desta transferência.”
“Porque, então, a fazes?”
“Porque a Marguerite, a mulher que calunias e a quem queres que eu abandone, está a sacrificar tudo o que possui para viver comigo.”
“E aceitas esse sacrifício? Que espécie de homem és tu, senhor, para permitir que a Srta. Gautier sacrifique o que quer que seja por ti? Vamos, chega disto. Deixarás esta mulher. Há pouco implorei-te; agora, ordeno-to. Não quero tais escândalos na minha família. Faz as tuas malas e prepara-te para vir comigo.”
“Perdoe-me, meu pai”, disse eu, “mas não irei.”
“E porquê?”
“Porque tenho idade para já não obedecer a ordens.”
O meu pai empalideceu com a minha resposta.
“Muito bem, senhor”, disse ele, “eu sei o que resta fazer.”
Tocou a campainha e o Joseph apareceu.
“Manda levar as minhas coisas para o Hotel de Paris”, disse ele ao meu criado. E, logo a seguir, dirigiu-se ao seu quarto e terminou de se vestir. Quando voltou, fui ter com ele.
“Prometa-me, meu pai”, disse eu, “que não fará nada para causar sofrimento à Marguerite?”
O meu pai parou, olhou-me com desdém e contentou-se em dizer: “Acredito que estejas louco.” Depois disso, saiu, fechando a porta violentamente atrás de si.
Desci, apanhei um fiacre e voltei para Bougival.
A Marguerite esperava-me à janela.
Capítulo XXI
“Finalmente chegaste”, disse ela, lançando-me os braços ao pescoço. “Mas como estás pálido!”
Contei-lhe a cena com o meu pai.
“Meu Deus! Eu temia isso”, disse ela. “Quando o Joseph veio avisar-te da chegada do teu pai, tremi como se ele trouxesse notícias de alguma desgraça. Meu pobre amigo, eu sou a causa de toda a tua angústia. Talvez fosses mais feliz se me deixasses e não te zangasses com o teu pai por minha causa. Ele sabe que hás de ter uma amante, e deveria estar agradecido por ser eu, já que te amo e não exijo de ti mais do que a tua posição permite. Disseste-lhe como tínhamos planeado o nosso futuro?”
“Sim; foi isso que mais o irritou, pois viu o quanto realmente nos amamos.”
“O que vamos fazer, então?”
“Manter-nos unidos, minha boa Marguerite, e deixar a tempestade passar.”
“Passará?”
“Terá de passar.”
“Mas o teu pai não ficará por aqui.”
“O que supões que ele pode fazer?”
“Como hei de saber? Tudo o que um pai pode fazer para que o filho lhe obedeça. Ele recordar-te-á da minha vida passada e talvez me faça a honra de inventar alguma nova história, para que me deixes.”
“Sabes que te amo.”
“Sim, mas o que também sei é que, mais cedo ou mais tarde, terás de obedecer ao teu pai, e talvez acabes por acreditar nele.”
“Não, Marguerite. Sou eu quem o fará acreditar em mim. Alguns dos seus amigos têm-lhe contado histórias que o irritaram; mas ele é bom e justo, mudará a sua primeira impressão; e depois, afinal, que me importa?”
“Não digas isso, Armand. Preferiria que acontecesse qualquer coisa antes de te zangares com a tua família; espera até depois de hoje, e amanhã volta a Paris. O teu pai, também, terá refletido da parte dele, e talvez ambos cheguem a um melhor entendimento. Não vás contra os seus princípios, finge fazer algumas concessões ao que ele quer; parece que não te importas tanto assim comigo, e ele deixará as coisas como estão. Tem esperança, meu amigo, e tem a certeza de uma coisa: aconteça o que acontecer, a Marguerite será sempre tua.”
“Juras?”
“Preciso de jurar?”
Quão doce é deixar-se persuadir pela voz que se ama! A Marguerite e eu passámos o dia todo a falar sobre os nossos projetos para o futuro, como se sentíssemos a necessidade de os concretizar o mais rapidamente possível. A cada momento esperávamos algum evento, mas o dia passou sem nos trazer notícias novas.
No dia seguinte, parti às dez e cheguei ao hotel por volta do meio-dia. O meu pai tinha saído.
Fui para os meus quartos, esperando que ele tivesse ido lá. Ninguém tinha aparecido. Fui ao advogado. Não estava lá ninguém. Voltei ao hotel e esperei até às seis. O Sr. Duval não regressou e voltei para Bougival.
Encontrei a Marguerite não à minha espera, como estivera no dia anterior, mas sentada junto à lareira, que o tempo ainda tornava necessária. Estava tão absorta nos seus pensamentos que me aproximei da sua cadeira sem que ela me ouvisse. Quando encostei os lábios à sua testa, ela sobressaltou-se como se o beijo a tivesse despertado subitamente.
“Assustaste-me”, disse ela. “E o teu pai?”
“Não o vi. Não sei o que isto significa. Não estava no seu hotel, nem em parte alguma onde houvesse hipótese de o encontrar.”
“Bem, tens de tentar novamente amanhã.”
“Estou muito inclinado a esperar até que ele mande chamar-me. Penso que fiz tudo o que se podia esperar de mim.”
“Não, meu amigo, não é suficiente; tens de visitar o teu pai novamente, e tens de ir amanhã.”
“Por que amanhã em vez de qualquer outro dia?”
“Porque”, disse a Marguerite, e pareceu-me que ela corou ligeiramente com esta pergunta, “porque mostrará que estás mais empenhado nisso, e ele perdoar-nos-á mais depressa.”
Pelo resto do dia, a Marguerite esteve triste e preocupada. Tive de repetir duas vezes tudo o que lhe dizia para obter uma resposta. Ela atribuía esta preocupação à sua ansiedade relativamente aos acontecimentos dos últimos dois dias. Passei a noite a tranquilizá-la, e ela mandou-me embora de manhã com uma inquietação insistente que não consegui explicar a mim mesmo.
Mais uma vez o meu pai estava ausente, mas deixara-me esta carta:
“Se voltares hoje, espera por mim até às quatro. Se eu não estiver às quatro, vem jantar comigo amanhã. Preciso de te ver.”
Esperei até à hora que ele tinha marcado, mas ele não apareceu. Voltei para Bougival.
Na noite anterior, tinha encontrado a Marguerite triste; nessa noite, encontrei-a febril e agitada. Ao ver-me, lançou-me os braços ao pescoço, mas chorou durante muito tempo nos meus braços. Interroguei-a sobre esta súbita aflição, que me alarmou pela sua violência. Não me deu qualquer razão positiva, mas desviou-me com aquelas evasivas a que uma mulher recorre quando não quer dizer a verdade.
Quando ela se acalmou um pouco, contei-lhe o resultado da minha visita e mostrei-lhe a carta do meu pai, da qual, disse eu, poderíamos augurar algo bom. À vista da carta e ao ouvir o meu comentário, as suas lágrimas começaram a correr tão copiosamente que temi um ataque de nervos e, chamando a Nanine, deitei-a na cama, onde chorou sem dizer uma palavra, mas segurava as minhas mãos e beijava-as a cada momento.
Perguntei à Nanine se, durante a minha ausência, a sua senhora tinha recebido alguma carta ou visita que pudesse explicar o estado em que a encontrei, mas a Nanine respondeu que ninguém tinha aparecido e nada tinha sido entregue.
Algo, contudo, tinha ocorrido desde o dia anterior, algo que me perturbava ainda mais porque a Marguerite mo ocultava.
À noite, parecia um pouco mais calma e, fazendo-me sentar ao fundo da cama, disse-me muitas vezes o quanto me amava. Sorria para mim, mas com um esforço, pois, apesar de si mesma, os seus olhos estavam velados por lágrimas.
Usei todos os meios para a fazer confessar a verdadeira causa da sua aflição, mas ela persistiu em dar-me apenas razões vagas, como vos disse. Finalmente adormeceu nos meus braços, mas era o sono que cansa em vez de descansar o corpo. De tempos a tempos, soltava um grito, sobressaltava-se e, depois de se certificar de que eu estava ao seu lado, fazia-me jurar que a amaria sempre.
Eu nada compreendia destes espasmos intermitentes de aflição, que duraram até à manhã. Então, a Marguerite caiu numa espécie de estupor. Não dormia há duas noites.
O seu descanso foi de curta duração, pois perto das onze acordou e, vendo que eu estava de pé, olhou em volta, gritando:
“Já vais embora?”
“Não”, disse eu, segurando as suas mãos; “mas queria deixar-te dormir mais um pouco. Ainda é cedo.”
“A que horas vais para Paris?”
“Às quatro.”
“Tão cedo? Mas vais ficar comigo até lá?”
“Claro. Não fico sempre?”
“Fico tão contente! Vamos almoçar?” continuou ela, distraída.
“Se quiseres.”
“E depois serás carinhoso comigo até ao momento exato em que partires?”
“Sim; e voltarei assim que puder.”
“Voltarás?” disse ela, olhando-me com olhos esgazeados.
“Naturalmente.”
“Oh, sim, voltarás esta noite. Eu esperar-te-ei, como faço sempre, e tu amar-me-ás, e seremos felizes, como temos sido desde que nos conhecemos.”
Todas estas palavras foram ditas com uma voz tão tensa, pareciam esconder um pensamento tão persistente e tão doloroso, que eu tremia a cada momento por medo que a Marguerite entrasse em delírio.
“Ouve”, disse eu. “Estás doente. Não posso deixar-te assim. Vou escrever a dizer ao meu pai para não me esperar.”
“Não, não”, gritou ela apressadamente, “não faças isso. O teu pai acusar-me-á novamente de te impedir de o ir ver quando ele quer ver-te; não, não, tens de ir, tens de ir! Além disso, não estou doente. Estou muito bem. Tive um sonho mau e ainda não estou totalmente acordada.”
A partir desse momento, a Marguerite tentou parecer mais alegre. Não houve mais lágrimas.
Quando chegou a hora de eu partir, abracei-a e perguntei-lhe se queria vir comigo até ao comboio; esperava que a caminhada a distraísse e que o ar lhe fizesse bem. Queria, sobretudo, estar com ela o máximo de tempo possível.
Ela aceitou, pôs a sua capa e levou a Nanine consigo, para não voltar sozinha. Vinte vezes estive a ponto de não ir. Mas a esperança de um regresso rápido e o medo de ofender ainda mais o meu pai sustentaram-me, e tomei o meu lugar no comboio.
“Até esta noite!” disse eu à Marguerite, ao deixá-la. Ela não respondeu.
Já uma vez ela não tinha respondido às mesmas palavras, e o Conde de G., lembrar-vos-eis, passara a noite com ela; mas aquele tempo estava tão longe que parecia ter sido apagado da minha memória, e se eu tinha algum receio, certamente não era de a Marguerite me ser infiel. Ao chegar a Paris, apressei-me a ir ver a Prudence, com a intenção de lhe pedir que fosse fazer companhia à Marguerite, na esperança de que a sua alegria e vivacidade a distraíssem. Entrei sem ser anunciado e encontrei a Prudence à sua toalete.
“Ah!” disse ela, ansiosa; “a Marguerite está contigo?”
“Não.”
“Como está ela?”
“Não está bem.”
“Ela não vem?”
“Estavas à espera dela?”
A Madame Duvernoy corou e respondeu, com um certo constrangimento:
“Queria apenas dizer que, já que estás em Paris, ela não vem ter contigo?”
“Não.”
Olhei para a Prudence; ela baixou os olhos e li no seu rosto o medo de ver a minha visita prolongar-se.
“Vim até para te pedir, minha cara Prudence, se não tens nada para fazer esta noite, que vás ver a Marguerite; serás companhia para ela e podes lá passar a noite. Nunca a vi como hoje, e tenho medo que ela fique doente.”
“Vou jantar fora”, respondeu a Prudence, “e não posso ir ver a Marguerite esta noite. Vê-la-ei amanhã.”
Despedi-me da Mme. Duvernoy, que parecia quase tão preocupada quanto a Marguerite, e segui para casa do meu pai; o seu primeiro olhar pareceu estudar-me atentamente. Estendeu-me a mão.
“As tuas duas visitas deram-me prazer, Armand”, disse ele; “fazem-me ter esperança de que tenhas refletido sobre as coisas do teu lado, tal como eu do meu.”
“Pode dizer-me, meu pai, qual foi o resultado da sua reflexão?”
“O resultado, meu caro rapaz, é que exagerei a importância dos relatórios que me tinham sido feitos e que tomei a decisão de ser menos severo contigo.”
“O que está a dizer, meu pai?” exclamei alegremente.
“Digo, meu caro filho, que todo o jovem deve ter a sua amante e que, pelas informações recentes que obtive, preferiria ver-te como amante da Srta. Gautier do que de qualquer outra.”
“Meu querido pai, quão feliz me faz!”
Conversámos desta forma durante alguns momentos e depois sentámo-nos à mesa. O meu pai esteve encantador durante todo o jantar.
Eu tinha pressa de voltar a Bougival para contar à Marguerite esta mudança afortunada, e olhava para o relógio a cada momento.
“Estás a olhar para as horas”, disse o meu pai, “e estás impaciente por me deixar. Ó jovens, como sacrificais sempre as afeições sinceras pelas duvidosas!”
“Não diga isso, meu pai; a Marguerite ama-me, tenho a certeza.”
O meu pai não respondeu; parecia não dizer nem sim nem não.
Ele insistiu muito para que eu passasse a noite toda com ele e não fosse até de manhã; mas a Marguerite não estava bem quando a deixei. Contei-lho e pedi a sua permissão para voltar cedo para junto dela, prometendo vir novamente no dia seguinte.
O tempo estava bom; ele acompanhou-me até à estação. Nunca tinha sido tão feliz. O futuro aparecia como há muito desejava vê-lo. Nunca tinha amado o meu pai como o amava naquele momento.
Justo quando eu o deixava, ele pediu-me mais uma vez para ficar. Recusei.
“Estás realmente muito apaixonado por ela?” perguntou ele.
“Loucamente.”
“Vai, então”, e ele passou a mão pela testa como para afastar um pensamento, depois abriu a boca como se fosse dizer algo; mas apenas apertou a minha mão e deixou-me apressadamente, dizendo:
“Até amanhã, então!”
Capítulo XXII
Parecia-me que o comboio não se movia. Cheguei a Bougival às onze.
Nem uma janela na casa estava iluminada e, quando toquei, ninguém respondeu à campainha. Era a primeira vez que tal coisa me acontecia. Finalmente, o jardineiro veio. Entrei. A Nanine veio ao meu encontro com uma luz. Fui ao quarto da Marguerite.
“Onde está a madame?”
“Foi para Paris”, respondeu a Nanine.
“Para Paris!”
“Sim, senhor.”
“Quando?”
“Uma hora depois de si.”
“Não deixou recado para mim?”
“Nada.”
A Nanine deixou-me.
Talvez ela tivesse alguma suspeita ou outra, pensei, e foi a Paris para se certificar de que a minha visita ao meu pai não era uma desculpa para um dia de folga. Talvez a Prudence lhe tivesse escrito sobre algo importante. Disse para comigo mesmo, quando estava sozinho; mas eu vi a Prudence; ela não disse nada que me fizesse supor que tinha escrito à Marguerite.
De repente, lembrei-me da pergunta da Mme. Duvernoy, “Ela não vem hoje?”, quando eu tinha dito que a Marguerite estava doente. Lembrei-me, ao mesmo tempo, de quão embaraçada a Prudence tinha parecido quando a olhei depois desse comentário, que parecia indicar um encontro. Lembrei-me, também, das lágrimas da Marguerite durante todo o dia, que a receção gentil do meu pai tinha mais ou menos apagado da minha mente. A partir desse momento, todos os incidentes agruparam-se em torno da minha primeira suspeita e fixaram-na tão firmemente na minha mente que tudo servia para a confirmar, até a bondade do meu pai.
A Marguerite quase insistira para que eu fosse a Paris; fingira estar mais calma quando propus ficar com ela. Teria eu caído nalguma armadilha? Estaria a Marguerite a enganar-me? Teria ela contado com estar de volta a tempo de eu não perceber a sua ausência, e teria sido retida pelo acaso? Por que não disse nada à Nanine, ou por que não escreveu? Qual era o significado daquelas lágrimas, desta ausência, deste mistério?
Foi o que me perguntei com medo, parado na sala vazia, olhando para o relógio, que marcava meia-noite e parecia dizer-me que era demasiado tarde para esperar pelo regresso da minha amante. Contudo, depois de todos os arranjos que tínhamos acabado de fazer, depois dos sacrifícios que tinham sido oferecidos e aceites, seria provável que ela me estivesse a enganar? Não. Tentei livrar-me da minha primeira suposição.
Provavelmente ela tinha encontrado um comprador para a sua mobília e tinha ido a Paris para concluir o negócio. Não quis dizer-me antes, pois sabia que, embora eu tivesse consentido nisso, a venda, tão necessária para a nossa felicidade futura, era dolorosa para mim, e temia ferir o meu orgulho ao falar-me disso. Preferia não me ver até que tudo estivesse feito, e era evidentemente por isso que a Prudence a esperava quando deixou escapar o segredo. A Marguerite não podia terminar todo o negócio hoje e estava a passar a noite com a Prudence, ou talvez ela ainda viesse, pois devia saber o quão ansioso eu estaria e não desejaria deixar-me naquele estado. Mas, sendo assim, porquê aquelas lágrimas? Sem dúvida, apesar do seu amor por mim, a pobre rapariga não conseguia decidir-se a desistir de todo o luxo em que tinha vivido até agora, e pelo qual tinha sido tão invejada, sem chorar por isso. Eu estava bem disposto a perdoar-lhe tais arrependimentos. Esperei por ela impacientemente, para poder dizer-lhe, enquanto a cobria de beijos, que tinha adivinhado a razão da sua ausência misteriosa.
Todavia, a noite avançava e a Marguerite não voltava.
A minha ansiedade apertava o seu círculo pouco a pouco e começava a oprimir-me a cabeça e o coração. Talvez lhe tivesse acontecido algo. Talvez estivesse ferida, doente, morta. Talvez um mensageiro chegasse com as notícias de algum acidente terrível. Talvez o romper do dia me encontrasse com a mesma incerteza e com os mesmos medos.
A ideia de que a Marguerite talvez me fosse infiel no preciso momento em que esperava por ela, aterrorizado com a sua ausência, não voltou à minha mente. Tinha de haver alguma causa, independente da sua vontade, para a manter longe de mim, e quanto mais pensava, mais convencido ficava de que essa causa só poderia ser algum contratempo ou outro. Ó vaidade do homem, que volta a nós sob todas as formas!
Uma hora soou. Disse para comigo mesmo que esperaria mais uma hora, mas que às duas, se a Marguerite não tivesse voltado, partiria para Paris. Entretanto, procurei um livro, pois não me atrevia a pensar. Manon Lescaut estava aberto sobre a mesa. Parecia-me que, aqui e ali, as páginas estavam húmidas, como se fosse de lágrimas. Folheei as páginas e depois fechei o livro, pois as letras pareciam-me desprovidas de significado através do véu das minhas dúvidas.
O tempo passava lentamente. O céu estava coberto de nuvens. Uma chuva de outono açoitava as janelas. A cama vazia parecia, por momentos, assumir o aspeto de um túmulo. Tive medo.
Abri a porta. Escutei e não ouvi nada além da voz do vento nas árvores. Nem um veículo se via na estrada. A meia hora soou tristemente na torre da igreja.
Comecei a recear que alguém entrasse. Parecia-me que apenas um desastre poderia vir a tal hora e sob aquele céu sombrio.
Duas horas soaram. Esperei ainda um pouco. Apenas o som do sino perturbava o silêncio com o seu batimento monótono e rítmico.
Por fim, deixei o quarto, onde cada objeto assumira aquele aspecto melancólico que a inquietante solidão do coração confere a tudo o que o rodeia.
No quarto seguinte, encontrei Nanine a dormir sobre o seu trabalho. Ao som da porta, ela despertou e perguntou se a sua patroa tinha chegado.
— Não; mas se ela chegar, diz-lhe que eu estava tão ansioso que tive de ir a Paris.
— A esta hora?
— Sim.
— Mas como? Não vais encontrar nenhuma carruagem.
— Irei a pé.
— Mas está a chover.
— Não importa.
— Mas a madame estará a voltar, ou, se ela não vier, ainda será tempo suficiente pela manhã para ir ver o que a reteve. Serás assassinado pelo caminho.
— Não há perigo, minha querida Nanine; ver-te-ei amanhã.
A boa rapariga foi buscar-me uma capa, colocou-a sobre os meus ombros e ofereceu-se para acordar a Mme. Arnould a fim de ver se se conseguia um veículo; mas eu não quis ouvir nada, convencido como estava de que perderia, numa investigação talvez infrutífera, mais tempo do que o que levaria a percorrer metade do caminho. Além disso, sentia a necessidade de ar e de fadiga física para arrefecer a superexcitação que me possuía.
Peguei na chave do apartamento na Rue d’Antin e, após dizer adeus a Nanine, que me acompanhou até ao portão, parti.
A princípio comecei a correr, mas a terra estava lamacenta com a chuva e fatiguei-me a dobrar. Ao fim de meia hora fui obrigado a parar, e estava encharcado de suor. Recuperei o fôlego e continuei. A noite estava tão escura que, a cada passo, temia esbarrar contra uma das árvores à beira da estrada, que se erguiam bruscamente diante de mim como grandes fantasmas que se precipitavam sobre mim.
Ultrapassei uma ou duas carroças, que logo deixei para trás. Uma carruagem seguia a galope em direção a Bougival. Ao passar por mim, surgiu-me a esperança de que Marguerite estivesse nela. Parei e gritei: “Marguerite! Marguerite!”. Mas ninguém respondeu e a carruagem continuou o seu curso. Observei-a a desvanecer-se à distância e, depois, retomei o meu caminho. Levei duas horas a chegar à Barrière de l’Étoile. A visão de Paris restaurou-me as forças e corri toda a extensão da alameda que tantas vezes percorrera.
Naquela noite não passava ninguém; era como atravessar o meio de uma cidade morta. O amanhecer começou a romper. Quando cheguei à Rue d’Antin, a grande cidade agitava-se um pouco antes de despertar completamente. Cinco horas soaram na igreja de Saint Roch no momento em que entrei na casa de Marguerite. Gritei o meu nome ao porteiro, que tinha recebido de mim moedas de vinte francos suficientes para saber que eu tinha o direito de visitar a Mlle. Gautier às cinco da manhã. Passei sem dificuldade. Poderia ter perguntado se Marguerite estava em casa, mas ele poderia ter dito “Não”, e eu preferi permanecer na dúvida por mais dois minutos, pois, enquanto duvidasse, ainda havia esperança.
Escutei à porta, tentando descobrir um som, um movimento. Nada. O silêncio do campo parecia continuar aqui. Abri a porta e entrei. Todas as cortinas estavam hermeticamente fechadas. Abri as da sala de jantar e dirigi-me ao quarto, empurrando a porta. Lancei-me ao cordão da cortina e puxei-o violentamente. A cortina abriu-se, uma luz ténue abriu caminho. Corri para a cama. Estava vazia.
Abri as portas uma após a outra. Visitei todos os quartos. Ninguém. Era o suficiente para enlouquecer alguém.
Entrei no quarto de vestir, abri a janela e chamei por Prudence várias vezes. A janela da Mme. Duvernoy permaneceu fechada.
Desci até ao porteiro e perguntei-lhe se a Mlle. Gautier tinha chegado a casa durante o dia.
— Sim — respondeu o homem; — com a Mme. Duvernoy.
— Ela não deixou nenhuma mensagem para mim?
— Não.
— Sabe o que fizeram depois?
— Saíram numa carruagem.
— Que tipo de carruagem?
— Uma carruagem particular.
O que poderia tudo isto significar?
Toquei à campainha da porta ao lado.
— Onde vai, senhor? — perguntou o porteiro, quando me abriu.
— À casa da Mme. Duvernoy.
— Ela não voltou.
— Tem a certeza?
— Sim, senhor; aqui está até uma carta que lhe trouxeram ontem à noite e que ainda não lhe entreguei.
E o porteiro mostrou-me uma carta, a qual observei mecanicamente. Reconheci a letra de Marguerite. Peguei na carta. Estava endereçada: “À Mme. Duvernoy, para entregar ao Sr. Duval”.
— Esta carta é para mim — disse ao porteiro, enquanto lhe mostrava o endereço.
— O senhor é o Sr. Duval? — respondeu ele.
— Sim.
— Ah! Lembro-me. O senhor vinha muitas vezes ver a Mme. Duvernoy.
Quando estava na rua, quebrei o selo da carta. Se um raio tivesse caído aos meus pés, não teria ficado mais sobressaltado do que fiquei com o que li.
“Quando leres esta carta, Armand, serei amante de outro homem. Tudo acabou entre nós.
“Volta para o teu pai, meu amigo, e para a tua irmã, e lá, ao lado de uma jovem pura, ignorante de todas as nossas misérias, esquecerás em breve o que terias sofrido por causa dessa criatura perdida que se chama Marguerite Gautier, a quem amaste por um instante e que deve a ti os únicos momentos felizes de uma vida que, ela espera, não será muito longa agora.”
Quando li a última palavra, pensei que ia enlouquecer. Por um momento, tive mesmo medo de cair na rua. Uma nuvem passou-me diante dos olhos e o meu sangue pulsava nas têmporas. Por fim, recuperei um pouco. Olhei à minha volta e fiquei espantado por ver a vida dos outros continuar sem parar perante o meu sofrimento.
Não tinha forças para suportar o golpe sozinho. Então, lembrei-me de que o meu pai estava na mesma cidade, que eu poderia estar com ele em dez minutos e que, qualquer que fosse a causa da minha dor, ele a partilharia.
Corri como um louco, como um ladrão, para o Hôtel de Paris; encontrei a chave na porta do quarto do meu pai; entrei. Ele estava a ler. Demonstrou tão pouco espanto ao ver-me que parecia que me esperava. Lancei-me nos seus braços sem dizer uma palavra. Entreguei-lhe a carta de Marguerite e, caindo de joelhos ao lado da sua cama, chorei lágrimas quentes.
Capítulo XXIII
Quando a corrente da vida retomou o seu curso, não conseguia acreditar que o dia que via romper não fosse como aqueles que o tinham precedido. Houve momentos em que imaginei que alguma circunstância, que eu não conseguia recordar, me tinha obrigado a passar a noite longe de Marguerite, mas que, se voltasse a Bougival, a encontraria novamente tão ansiosa como eu tinha estado, e que ela me perguntaria o que me tinha detido longe dela por tanto tempo.
Quando a existência de alguém contrai um hábito, como o deste amor, parece impossível que o hábito seja quebrado sem, ao mesmo tempo, quebrar todas as outras molas da vida. Fui forçado, de tempos a tempos, a reler a carta de Marguerite para me convencer de que não tinha estado a sonhar.
O meu corpo, sucumbindo ao choque moral, estava incapaz de se mover. A ansiedade, a caminhada noturna e as notícias da manhã tinham-me prostrado. O meu pai aproveitou esta prostração total de todas as minhas faculdades para me exigir uma promessa formal de o acompanhar. Prometi tudo o que ele pediu, pois era incapaz de sustentar uma discussão e precisava de algum afeto para me ajudar a viver, depois do que tinha acontecido. Ficava-lhe muito grato pelo facto de o meu pai estar disposto a consolar-me perante tal calamidade.
Tudo o que me lembro é que, naquele dia, por volta das cinco horas, ele levou-me consigo numa carruagem de correio. Sem me dizer nada, mandou arrumar a minha bagagem e colocá-la atrás da carruagem com a dele, e assim levou-me. Não me dei conta do que fazia até que a cidade desapareceu e a solidão da estrada me recordou o vazio do meu coração. Então, as minhas lágrimas recomeçaram a fluir.
O meu pai tinha percebido que as palavras, mesmo as dele, nada fariam para me consolar, e deixou-me chorar sem dizer uma palavra, apenas apertando-me, por vezes, a mão, como se para me lembrar de que tinha um amigo ao meu lado.
À noite, dormi um pouco. Sonhei com Marguerite.
Acordei sobressaltado, sem me recordar de por que estava na carruagem. Então, a verdade voltou-me e deixei a cabeça cair sobre o peito. Não me atrevi a dizer nada ao meu pai. Tinha medo de que ele dissesse: “Vês? Eu tinha razão quando declarava que esta mulher não te amava”. Mas ele não usou a sua vantagem e chegámos a C. sem que ele me tivesse dito nada, exceto falar de assuntos totalmente alheios ao evento que tinha causado a minha partida de Paris.
Quando abracei a minha irmã, lembrei-me do que Marguerite tinha dito sobre ela na sua carta, e vi de imediato quão pouco a minha irmã, por mais boa que fosse, seria capaz de me fazer esquecer a minha amante.
A caça tinha começado e o meu pai achou que isso seria uma distração para mim. Organizou partidas de caça com amigos e vizinhos. Fui sem relutância nem entusiasmo, com aquela espécie de apatia na qual tinha mergulhado desde a minha partida.
Estávamos a bater o terreno em busca de caça e deram-me o meu posto. Pus a minha espingarda descarregada ao meu lado e meditei. Observei as nuvens passar. Deixei o meu pensamento vaguear pelas planícies solitárias e, de tempos a tempos, ouvia alguém chamar-me e apontar para uma lebre a dez passos de distância. Nenhum destes detalhes escapou ao meu pai e ele não se deixou enganar pela minha calma exterior. Ele sabia bem que, destruído como eu estava agora, experimentaria um dia uma reação terrível, que poderia ser perigosa, e, sem parecer fazer qualquer esforço para me consolar, fez o possível para distrair os meus pensamentos.
A minha irmã, naturalmente, não sabia nada do que tinha acontecido e não conseguia compreender como era possível que eu, que outrora fora tão alegre, me tivesse tornado subitamente tão triste e sonhador.
Por vezes, surpreendendo no meio da minha tristeza o olhar ansioso do meu pai, apertava-lhe a mão como se para lhe pedir tacitamente que me perdoasse pela dor que, apesar de mim mesmo, lhe estava a causar.
Assim passou um mês, mas, ao fim desse tempo, não pude suportar mais. A memória de Marguerite perseguia-me incessantemente. Eu tinha amado, ainda amava tanto esta mulher que não podia tornar-me subitamente indiferente a ela. Tinha de a amar ou de a odiar. Acima de tudo, qualquer que fosse o sentimento que eu nutrisse por ela, tinha de a ver de novo, e imediatamente. Este desejo possuía a minha mente, e com toda a violência de uma vontade que começava a reafirmar-se num corpo há muito inerte.
Não me bastava ver Marguerite daqui a um mês, ou uma semana. Tinha de a ver no dia seguinte àquele em que o pensamento me ocorrera; e fui ter com o meu pai e disse-lhe que tinha sido chamado a Paris por negócios, mas que regressaria prontamente. Sem dúvida que ele adivinhou a razão da minha partida, pois insistiu para que eu ficasse, mas, vendo que, se eu não realizasse a minha intenção, as consequências, no estado em que eu estava, poderiam ser fatais, abraçou-me e pediu-me, quase com lágrimas, que regressasse sem demora.
Não dormi durante a viagem para Paris. Uma vez lá, o que ia eu fazer? Não sabia; só sabia que tinha de ser algo relacionado com Marguerite. Fui aos meus aposentos para mudar de roupa e, como o tempo estava bom e ainda era cedo, dirigi-me aos Champs-Élysées. Ao fim de meia hora, vi a carruagem de Marguerite, a alguma distância, vindo do Rond-Point para a Place de la Concorde. Ela tinha recomprado os seus cavalos, pois a carruagem estava exatamente como eu estava habituado a vê-la, mas ela não estava nela. Mal tinha notado este facto, ao olhar à minha volta, vi Marguerite a pé, acompanhada por uma mulher que nunca tinha visto.
Ao passar por mim, ela empalideceu e um sorriso nervoso contraiu-se nos seus lábios. Quanto a mim, o meu coração batia violentamente no peito; mas consegui dar uma expressão fria ao meu rosto enquanto fazia uma vénia fria à minha antiga amante, que acabava de chegar à sua carruagem, para a qual entrou com a sua amiga.
Eu conhecia Marguerite: este encontro inesperado devia certamente tê-la transtornado. Sem dúvida que ela tinha ouvido dizer que eu tinha ido embora e tinha ficado, assim, tranquilizada quanto às consequências da nossa rutura; mas, vendo-me de novo em Paris, encontrando-se face a face comigo, pálido como eu estava, ela deve ter percebido que eu não tinha regressado sem propósito, e deve ter-se perguntado qual era esse propósito.
Se eu tivesse visto Marguerite infeliz, se, ao vingar-me dela, pudesse ter acorrido em seu auxílio, talvez a tivesse perdoado e, certamente, nunca me teria passado pela cabeça fazer-lhe mal. Mas encontrei-a aparentemente feliz, alguém lhe tinha devolvido o luxo que eu não lhe podia dar; a sua separação de mim parecia assumir um caráter de interesse pessoal da pior espécie; eu estava rebaixado na minha própria estima, assim como no meu amor. Resolvi que ela pagaria pelo que eu tinha sofrido.
Eu não podia ser indiferente ao que ela fazia; consequentemente, o que mais a magoaria seria a minha indiferença; era, portanto, este sentimento que eu deveria afetar, não apenas aos seus olhos, mas aos olhos dos outros.
Tentei exibir uma fisionomia sorridente e fui visitar Prudence. A criada anunciou-me e tive de esperar alguns minutos na sala de estar. Finalmente, Mme. Duvernoy apareceu e convidou-me a entrar no seu boudoir; ao sentar-me, ouvi a porta da sala abrir-se, um passo leve fez o soalho ranger e a porta da frente foi fechada violentamente.
— Estou a incomodá-la — disse a Prudence.
— De modo algum. Marguerite estava aqui. Quando a ouviu ser anunciada, ela escapou-se; foi ela quem acabou de sair.
— Ela tem medo de mim agora?
— Não, mas tem medo de que o senhor não queira vê-la.
— Mas porquê? — disse eu, respirando com dificuldade, pois estava sufocado pela emoção. — A pobre rapariga deixou-me pela sua carruagem, pelos seus móveis e pelos seus diamantes; fez muito bem, e não lhe guardo rancor. Encontrei-a hoje — continuei com indiferença.
— Onde? — perguntou Prudence, olhando para mim e parecendo perguntar a si mesma se este era o mesmo homem que ela conhecera tão perdidamente apaixonado.
— Nos Champs-Élysées. Ela estava com outra mulher, muito bonita. Quem é ela?
— Como era ela?
— Loira, esguia, com caracóis nas têmporas; olhos azuis; muito elegante.
— Ah! Era a Olympe; ela é, de facto, muito bonita.
— Com quem vive ela?
— Com ninguém; com qualquer um.
— Onde vive ela?
— Rue Tronchet, n.º —. Quer cortejá-la?
— Nunca se sabe.
— E a Marguerite?
— Dificilmente lhe diria a verdade se dissesse que não penso mais nela; mas sou daqueles com quem tudo depende da maneira como se termina. Ora, a Marguerite terminou comigo tão levianamente que percebo ter sido um grande tolo por ter estado tão apaixonado por ela quanto estive, pois, na verdade, estive muito apaixonado por essa rapariga.
Pode imaginar a forma como disse isto; o suor rompeu-me na testa.
— Ela gostava muito de si, sabe, e ainda gosta; a prova é que, depois de o encontrar hoje, veio diretamente contar-mo. Quando ela chegou aqui, estava toda a tremer; pensei que ela ia desmaiar.
— Bem, o que é que ela disse?
— Ela disse: “Ele certamente virá aqui”, e pediu-me para lhe pedir que a perdoasse.
— Perdoei-a, pode dizer-lhe. Era uma boa rapariga; mas, afinal, como as outras, e eu deveria ter esperado o que aconteceu. Até lhe estou grato, pois vejo agora o que teria acontecido se eu tivesse vivido com ela totalmente. Era ridículo.
— Ela ficará muito contente por saber que o senhor encara isto tão bem. Já era tempo de ela o deixar, meu caro. O patife do agente a quem ela tinha oferecido vender os seus móveis foi ter com os seus credores para saber quanto ela devia; eles assustaram-se e, em dois dias, ela teria sido leiloada.
— E agora está tudo pago?
— Mais ou menos.
— E quem forneceu o dinheiro?
— O Comte de N. Ah, meu caro amigo, há homens feitos de propósito para tais ocasiões. Para encurtar a história, ele deu-lhe vinte mil francos, mas ele teve a sua vez, finalmente. Ele sabe muito bem que a Marguerite não está apaixonada por ele; mas ele é muito simpático com ela, apesar de tudo. Como viu, ele recomprou os seus cavalos, tirou as suas joias do penhor e dá-lhe tanto dinheiro quanto o duque lhe dava; se ela quiser viver tranquilamente, ele ficará com ela por muito tempo.
— E o que é que ela faz? Vive em Paris permanentemente?
— Ela nunca mais quis voltar a Bougival depois de o senhor ter ido embora. Tive de ir eu mesma tratar de todas as suas coisas, e das suas também. Fiz um embrulho com elas e pode mandar buscá-las aqui. Encontrará tudo, exceto um pequeno estojo com as suas iniciais. A Marguerite quis guardá-lo. Se o quer mesmo, peço-lho.
— Que ela o guarde — balbuciei, pois senti as lágrimas subirem do meu coração aos olhos ao recordar a aldeia onde tinha sido tão feliz, e ao pensar que a Marguerite desejava guardar algo que me tinha pertencido e que a faria recordar-me. Se ela tivesse entrado naquele momento, os meus pensamentos de vingança teriam desaparecido e eu ter-me-ia lançado aos seus pés.
— De resto — continuou Prudence —, nunca a vi como ela está agora; quase não dorme, vai a todos os bailes, vai a ceias, até bebe. No outro dia, depois de uma ceia, teve de ficar na cama durante uma semana; e quando o médico a deixou levantar-se, recomeçou, com risco da própria vida. Vai visitá-la?
— Para quê? Vim ver a si, porque sempre foi encantadora para mim, e conheci-a antes de conhecer a Marguerite. Devo-lhe o facto de ter sido seu amante e também, não é, o facto de já não o ser?
— Bem, fiz tudo o que pude para a afastar de si, e acredito que me ficará grato mais tarde.
— Deve-lhe uma dupla gratidão — acrescentei, levantando-me, pois sentia nojo daquela mulher, ao vê-la levar cada palavra que eu lhe dizia como se fosse séria.
— Vai-se embora?
— Sim.
Tinha aprendido o suficiente.
— Quando é que o verei?
— Em breve. Adeus.
— Adeus.
Prudence acompanhou-me até à porta e voltei para os meus aposentos com lágrimas de raiva nos olhos e um desejo de vingança no coração.
Assim, Marguerite não era diferente das outras; assim, o amor constante que ela tivera por mim não pôde resistir ao desejo de regressar à sua vida anterior, e à necessidade de ter uma carruagem e de mergulhar na dissipação. Foi o que disse a mim mesmo, enquanto jazia acordado à noite, embora, se tivesse refletido tão calmamente como professava, teria visto nesta vida nova e turbulenta de Marguerite a tentativa de silenciar um pensamento constante, uma memória incessante. Infelizmente, a paixão maligna levou a melhor, e procurei apenas meios de me vingar da pobre criatura. Oh, quão mesquinho e vil é o homem quando é ferido numa das suas paixões estreitas!
Esta Olympe que eu vira era, se não uma amiga de Marguerite, pelo menos a mulher com quem ela era vista mais frequentemente desde o seu regresso a Paris. Ela ia dar um baile e, como tomei por certo que Marguerite lá estaria, tentei obter um convite e consegui.
Quando, cheio das minhas emoções dolorosas, cheguei ao baile, este já estava muito animado. Dançavam, gritavam mesmo, e numa das quadrilhas percebi Marguerite a dançar com o Comte de N., que parecia orgulhoso de a exibir, como se dissesse a todos: "Esta mulher é minha."
Apoiei-me na lareira, exatamente em frente a Marguerite, e observei-a a dançar. O seu rosto mudou no momento em que me avistou. Saudei-a casualmente com um olhar e um aceno de mão.
Quando refleti que, depois do baile, ela iria para casa, não comigo, mas com aquele rico tolo, quando pensei no que se seguiria ao regresso deles, o sangue subiu-me à face e senti a necessidade de fazer algo para perturbar as suas relações.
Após a contradança, aproximei-me da dona da casa, que exibia, em benefício dos seus convidados, um busto deslumbrante e ombros magníficos. Ela era bela e, do ponto de vista da figura, mais bela do que Marguerite. Percebi este facto ainda mais claramente a partir de certos olhares que Marguerite lhe lançava enquanto eu falava com ela. O homem que fosse amante de tal mulher poderia bem estar tão orgulhoso como o M. de N., e ela era bela o suficiente para inspirar uma paixão não menos grande do que aquela que Marguerite inspirara em mim. Naquele momento, ela não tinha amante. Não seria difícil tornar-me um; dependia apenas de mostrar dinheiro suficiente para atrair a sua atenção.
Tomei a minha decisão. Aquela mulher seria minha amante. Comecei por dançar com ela. Meia hora depois, Marguerite, pálida como a morte, vestiu o seu pelisse e deixou o baile.
Capítulo XXIV
Já era alguma coisa, mas não era suficiente. Vi o domínio que eu tinha sobre esta mulher e aproveitei-me dele cobardemente.
Quando penso que ela está morta agora, pergunto a mim mesmo se Deus algum dia me perdoará pelo mal que lhe fiz.
Após a ceia, que foi ruidosa quanto possível, houve jogo. Sentei-me ao lado de Olympe e coloquei o meu dinheiro de forma tão imprudente que ela não pôde deixar de me notar. Num instante, tinha ganho cento e cinquenta ou duzentas luíses, que espalhei diante de mim na mesa e sobre as quais ela fixou os olhos avidamente.
Eu era o único não completamente absorvido pelo jogo e capaz de lhe prestar alguma atenção. Durante o resto da noite, ganhei, e fui eu quem lhe deu dinheiro para jogar, pois ela tinha perdido tudo o que tinha diante de si e, provavelmente, tudo o que tinha em casa.
Às cinco da manhã, os convidados partiram. Eu tinha ganho trezentas luíses.
Todos os jogadores já estavam a descer as escadas; eu era o único que tinha ficado para trás e, como não conhecia nenhum deles, ninguém o notou. A própria Olympe estava a iluminar o caminho, e eu ia seguir os outros quando, voltando-me, lhe disse:
— Tenho de falar consigo.
— Amanhã — disse ela.
— Não, agora.
— O que tem para dizer?
— Verá.
E voltei para a sala.
— Perdeu — disse eu.
— Sim.
— Tudo o que tinha em casa?
Ela hesitou.
— Seja franca.
— Bem, é verdade.
— Ganhei trezentas luíses. Aqui as tem, se me deixar ficar aqui esta noite.
E atirei o ouro sobre a mesa.
— E por que esta proposta?
— Porque estou apaixonado por si, naturalmente.
— Não, mas porque ama Marguerite e quer vingar-se dela tornando-se meu amante. Não engana uma mulher como eu, meu caro amigo; infelizmente, ainda sou demasiado jovem e demasiado bonita para aceitar o papel que me propõe.
— Portanto, recusa?
— Sim.
— Preferia aceitar-me por nada? Sou eu quem não aceitaria então. Pense nisso, minha cara Olympe; se eu tivesse enviado alguém para lhe oferecer estas trezentas luíses em meu nome, nas condições que lhes imponho, teria aceite. Preferi falar consigo eu próprio. Aceite sem questionar as minhas razões; diga a si mesma que é bela e que não há nada de surpreendente em eu estar apaixonado por si.
Marguerite era uma mulher na mesma posição que Olympe e, contudo, eu nunca teria ousado dizer-lhe, na primeira vez que a encontrei, o que tinha dito à outra mulher. Eu amava Marguerite. Via nela instintos que faltavam na outra e, no preciso momento em que fiz o meu negócio, senti um nojo da mulher com quem o estava a fazer.
Ela aceitou, claro, no final, e ao meio-dia saí da sua casa como o seu amante; mas deixei-a sem uma recordação das carícias e das palavras de amor que ela se sentira obrigada a prodigalizar-me em troca dos seis mil francos que deixei com ela. E, contudo, havia homens que se tinham arruinado por aquela mulher.
A partir desse dia, infliji a Marguerite uma perseguição contínua. Olympe e ela deixaram de se ver, como pode imaginar. Dei à minha nova amante uma carruagem e joias. Joguei, cometi todas as extravagâncias que se poderiam esperar de um homem apaixonado por uma mulher como Olympe. O relato da minha nova paixão espalhou-se imediatamente.
A própria Prudence foi enganada e, finalmente, pensou que eu tinha esquecido completamente Marguerite. A própria Marguerite, quer tenha adivinhado o meu motivo ou tenha sido enganada como toda a gente, preservou uma dignidade perfeita em resposta aos insultos que eu lhe acumulava diariamente. Apenas parecia sofrer, pois sempre que a encontrava, ela estava cada vez mais pálida, cada vez mais triste. O meu amor por ela, levado ao ponto em que se transformava em ódio, regozijava-se ao ver a sua tristeza diária. Frequentemente, quando a minha crueldade para com ela se tornava infame, Marguerite levantava para mim olhos tão suplicantes que eu corava pelo papel que estava a representar e estava pronto a implorar o seu perdão.
Mas o meu arrependimento era apenas de curta duração, e Olympe, que tinha finalmente deixado de lado todo o amor-próprio e descoberto que, ao irritar Marguerite, podia obter de mim tudo o que quisesse, atiçava constantemente o meu ressentimento contra ela e insultava-a sempre que encontrava oportunidade, com a cobarde persistência de uma mulher licenciada pela autoridade de um homem.
Por fim, Marguerite deixou de ir a bailes ou teatros, por medo de encontrar Olympe e a mim. Então, as impertinências diretas deram lugar a cartas anónimas, e não houve coisa vergonhosa que eu não incentivasse a minha amante a contar, e que eu próprio não contasse em relação a Marguerite.
Para chegar a tal ponto, devo ter estado literalmente louco. Eu era como um homem embriagado por vinho mau, que cai numa daquelas exaltações nervosas em que a mão é capaz de cometer um crime sem que a cabeça saiba de nada. No meio de tudo isto, suportei um martírio. A calma não desdenhosa, a dignidade não desprezível com que Marguerite respondia a todos os meus ataques, e que a elevava acima de mim aos meus próprios olhos, enfurecia-me ainda mais contra ela.
Certa noite, Olympe tinha ido a algum lado e encontrou Marguerite, que, por uma vez, não poupara a criatura tola, de modo que ela teve de se retirar confusa. Olympe regressou furiosa, e Marguerite desmaiou e teve de ser levada. Olympe relatou-me o que acontecera, declarou que Marguerite, vendo-a sozinha, tinha-se vingado dela porque era minha amante, e que eu devia escrever-lhe a dizer para respeitar a mulher que eu amava, quer estivesse presente ou ausente.
Não preciso de lhe dizer que consenti e que coloquei na carta que enviei para o seu endereço, no mesmo dia, tudo o que havia de amargo, vergonhoso e cruel que pude imaginar.
Desta vez, o golpe foi mais do que a infeliz criatura podia suportar sem responder. Senti-me seguro de que uma resposta viria e decidi não sair durante todo o dia. Por volta das duas, tocou a campainha e Prudence entrou.
Tentei assumir um ar indiferente ao perguntar-lhe o que a trazia; mas, naquele dia, Mme. Duvernoy não estava com disposição para rir e, com uma voz verdadeiramente comovida, disse-me que, desde o meu regresso, isto é, há cerca de três semanas, eu não tinha deixado passar ocasião que pudesse causar dor a Marguerite, que ela estava completamente perturbada com isso e que a cena da noite passada e a minha carta irritada da manhã a tinham forçado a ir para a cama. Em suma, sem fazer qualquer reprovação, Marguerite enviava-me pedir um pouco de piedade, já que não tinha mais força moral ou física para suportar o que eu a estava a fazer sofrer.
— Que a Mlle. Gautier — disse eu a Prudence — me expulse da sua própria casa é bastante razoável, mas que ela insulte a mulher que amo, sob o pretexto de que esta mulher é minha amante, é uma coisa que nunca permitirei.
— Meu amigo — disse Prudence —, está sob a influência de uma mulher que não tem nem coração nem juízo; está apaixonado por ela, é verdade, mas essa não é uma razão para torturar uma mulher que não se pode defender.
— Que a Mlle. Gautier envie-me o seu Comte de N. e os lados ficarão iguais.
— Sabe muito bem que ela não fará isso. Portanto, meu caro Armand, deixe-a em paz. Se a visse, teria vergonha da forma como a está a tratar. Ela está branca, tosse — não durará muito tempo agora.
E Prudence estendeu-me a mão, acrescentando:
— Venha vê-la; deixá-la-á muito feliz.
— Não tenho qualquer desejo de encontrar o M. de N.
— O M. de N. nunca lá está. Ela não o suporta.
— Se Marguerite deseja ver-me, ela sabe onde vivo; que venha ver-me, mas, da minha parte, nunca porei os pés na Rue d’Antin.
— Recebê-la-á bem?
— Certamente.
— Bem, estou certa de que ela virá.
— Que venha.
— Estará fora hoje?
— Estarei em casa toda a noite.
— Eu dir-lhe-ei.
E Prudence deixou-me.
Nem sequer escrevi a dizer a Olympe para não me esperar. Nunca me preocupei muito com ela, mal indo vê-la uma noite por semana. Ela consolou-se, creio eu, com um ator de um teatro qualquer.
Saí para jantar e voltei quase imediatamente. Mandei acender o lume no meu quarto e disse a Joseph que podia sair.
Não lhe posso dar uma ideia das diferentes impressões que me agitaram durante a hora em que esperei; mas quando, por volta das nove horas, ouvi uma campainha, elas acumularam-se numa tal emoção que, ao abrir a porta, fui obrigado a apoiar-me contra a parede para não cair.
Felizmente, a antecâmara estava na penumbra e a mudança na minha fisionomia era menos visível. Marguerite entrou.
Ela estava vestida de preto e com véu. Mal pude reconhecer o seu rosto através do véu. Ela entrou na sala de estar e levantou o véu. Estava pálida como mármore.
— Estou aqui, Armand — disse ela; — querias ver-me e eu vim.
E, deixando a cabeça cair sobre as mãos, irrompeu em lágrimas.
Aproximei-me dela.
— O que se passa? — disse-lhe em voz baixa.
Ela apertou a minha mão sem dizer uma palavra, pois as lágrimas ainda velavam a sua voz. Mas, após alguns minutos, recuperando-se um pouco, disse-me:
— Foste muito indelicado comigo, Armand, e eu não te fiz nada.
— Nada? — respondi, com um sorriso amargo.
— Nada senão o que as circunstâncias me forçaram a fazer.
Não sei se já experimentou na sua vida, ou se algum dia experimentará, o que senti ao ver Marguerite.
A última vez que ela viera ver-me, sentara-se no mesmo lugar onde estava sentada agora; apenas, desde então, ela tinha sido a amante de outro homem, outros beijos que não os meus tinham tocado os seus lábios, em direção aos quais, apesar de mim, os meus se estendiam, e, contudo, senti que amava esta mulher tanto, talvez mais, do que a tinha amado sempre.
Foi difícil para mim iniciar a conversa sobre o assunto que a trazia. Marguerite, sem dúvida, percebeu-o, pois continuou:
— Vim incomodar-te, Armand, pois tenho duas coisas a pedir: perdão pelo que disse ontem à Mlle. Olympe, e piedade pelo que estás talvez ainda pronto a fazer-me. Intencionalmente ou não, desde o teu regresso causaste-me tanta dor que eu seria incapaz agora de suportar a quarta parte do que suportei até hoje. Terás piedade de mim, não terás? E compreenderás que um homem que não é desalmado tem outras coisas mais nobres a fazer do que vingar-se de uma mulher doente e triste como eu. Vê, toma a minha mão. Estou com febre. Deixei a minha cama para vir ter contigo e pedir, não a tua amizade, mas a tua indiferença.
Tomei a mão de Marguerite. Estava a arder e a pobre mulher tremia sob o seu casaco de peles.
Empurrei a poltrona em que ela estava sentada para perto do lume.
— Pensa então que eu não sofri — disse eu —, naquela noite em que, depois de te esperar no campo, fui procurar-te a Paris e não encontrei nada senão a carta que quase me deixou louco? Como pudeste enganar-me, Marguerite, quando eu te amava tanto?
— Não fales disso, Armand; não vim para falar disso. Queria ver-te apenas não como um inimigo, e queria tomar a tua mão mais uma vez. Tens uma amante; ela é jovem, bonita, tu amas-na, dizem. Sê feliz com ela e esquece-me.
— E tu. Tu és feliz, sem dúvida?
— Tenho cara de mulher feliz, Armand? Não zombes da minha tristeza, tu, que sabes melhor do que ninguém qual é a sua causa e a sua profundidade.
— Só dependia de ti não teres sido infeliz de todo, se és como dizes.
— Não, meu amigo; as circunstâncias foram mais fortes do que a minha vontade. Obedeci, não aos instintos de uma mulher leviana, como pareces dizer, mas a uma necessidade séria, e a razões que saberás um dia, e que te farão perdoar-me.
— Porque não me dizes essas razões hoje?
— Porque elas não trariam uma impossível reunião entre nós, e separariam talvez de ti aqueles de quem não deves ser separado.
— A quem te referes?
— Não te posso dizer.
— Então estás a mentir-me.
Marguerite levantou-se e caminhou em direção à porta. Não pude contemplar esta tristeza silenciosa e expressiva sem ficar comovido, quando comparava na minha mente esta mulher pálida e a chorar com a maluca que tinha zombado de mim na Opera Comique.
— Não sairás — disse eu, colocando-me à frente da porta.
— Porquê?
— Porque, apesar do que me fizeste, amo-te sempre, e quero que fiques aqui.
— Para me expulsares amanhã? Não; é impossível. Os nossos destinos estão separados; não tentes reuni-los. Desprezar-me-ás talvez, enquanto agora podes apenas odiar-me.
— Não, Marguerite — exclamei, sentindo todo o meu amor e todo o meu desejo reavivarem-se ao contacto desta mulher. — Não, esquecerei tudo, e seremos felizes como prometemos um ao outro que seríamos.
Marguerite abanou a cabeça duvidosamente e disse:
— Não sou eu a tua escrava, o teu cão? Faz de mim o que quiseres. Toma-me; eu sou tua.
E, tirando o casaco e o chapéu, atirou-os para o sofá e começou apressadamente a desapertar a frente do vestido, pois, por uma daquelas reações tão frequentes na sua doença, o sangue subiu-lhe à cabeça e sufocou-a. Uma tosse seca e dura seguiu-se.
— Diz ao meu cocheiro — disse ela — para voltar com a carruagem.
Desci eu próprio e mandei-o embora. Quando voltei, Marguerite estava deitada diante do lume, e os seus dentes castanhetavam com o frio.
Tomei-a nos meus braços. despi-a, sem que ela fizesse um movimento, e levei-a, gelada, para a cama. Depois sentei-me ao lado dela e tentei aquecê-la com as minhas carícias. Ela não disse uma palavra, mas sorriu-me.
Foi uma noite estranha. Toda a vida de Marguerite parecia ter passado para os beijos com que me cobria, e eu amava-a tanto que, nos meus transportes de amor febril, perguntava a mim mesmo se não deveria matá-la, para que ela nunca pudesse pertencer a outro.
Um mês de amor como aquele, e teriam restado apenas o cadáver do coração ou do corpo.
O amanhecer encontrou-nos a ambos acordados. Marguerite estava lívida de branca. Não disse uma palavra. De vez em quando, grandes lágrimas rolavam dos seus olhos e ficavam nas suas faces, brilhando como diamantes. Os seus braços finos abriam-se, de tempos a tempos, para me segurar firme, e caíam de volta impotentes sobre a cama.
Por um momento, pareceu-me que podia esquecer tudo o que tinha passado desde que deixara Bougival, e disse a Marguerite:
— Iremos embora e deixaremos Paris?
— Não, não! — disse ela, quase com susto; — seríamos demasiado infelizes. Já não posso fazer mais para te fazer feliz, mas enquanto houver um sopro de vida em mim, serei a escrava das tuas fantasias. A qualquer hora do dia ou da noite que quiseres, vem, e serei tua; mas não ligues mais o teu futuro ao meu, serias demasiado infeliz e tornar-me-ias demasiado infeliz. Ainda serei bonita por um tempo; aproveita, mas não peças mais nada.
Quando ela se foi, fiquei assustado com a solidão em que me deixou. Duas horas depois, eu ainda estava sentado na beira da cama, olhando para a almofada que guardava a marca da sua forma, e perguntando a mim mesmo o que seria de mim, entre o meu amor e o meu ciúme.
Às cinco horas, sem saber o que ia fazer, fui à Rue d’Antin.
Nanine abriu-me.
— Madame não pode recebê-lo — disse ela de forma embaraçada.
— Porquê?
— Porque o M. le Comte de N. está lá, e ele deu ordens para não deixar entrar ninguém.
— Exato — balbuciei; — esqueci-me.
Voltei para casa como um homem ébrio e, sabe o que fiz durante o momento de delírio ciumento que foi longo o suficiente para a coisa vergonhosa que eu estava prestes a cometer? Disse a mim mesmo que a mulher estava a rir de mim; vi-a sozinha com o conde, repetindo-lhe as mesmas palavras que ela me tinha dito durante a noite, e, pegando numa nota de quinhentos francos, enviei-lha com estas palavras:
“Partiste tão subitamente que me esqueci de te pagar. Aqui está o preço da tua noite.”
Então, quando a carta foi enviada, saí como se quisesse libertar-me do remorso instantâneo desta ação infame.
Fui ver Olympe, a quem encontrei a experimentar vestidos, e, quando ficámos a sós, ela cantou canções obscenas para me divertir. Ela era o próprio tipo da cortesã sem vergonha, sem coração e sem juízo, pelo menos para mim, pois talvez alguns homens pudessem ter sonhado com ela como eu sonhei com Marguerite. Ela pediu-me dinheiro. Dei-lho e, livre então para partir, voltei para casa.
Marguerite não tinha respondido.
Não preciso de lhe dizer em que estado de agitação passei o dia seguinte. Às nove e meia, um estafeta trouxe-me um envelope contendo a minha carta e a nota de quinhentos francos, nem uma palavra a mais.
— Quem lhe deu isto? — perguntei ao homem.
— Uma senhora que partia com a sua criada na mala-posta seguinte para Boulogne, e que me disse para não a levar até que a carruagem estivesse fora do pátio.
Corri para a Rue d’Antin.
— Madame partiu para Inglaterra às seis horas — disse o porteiro.
Já não havia nada que me prendesse em Paris, nem ódio nem amor. Eu estava exausto por esta série de choques. Um dos meus amigos ia partir numa viagem pelo Oriente. Disse ao meu pai que gostaria de o acompanhar; o meu pai deu-me letras de câmbio e cartas de recomendação, e oito ou dez dias depois embarquei em Marselha.
Foi em Alexandria que soube, por um adido da embaixada, a quem eu tinha visto algumas vezes em casa de Marguerite, que a pobre rapariga estava gravemente doente.
Escrevi-lhe então a carta que ela respondeu da forma que sabe; recebi-a em Toulon.
Parti imediatamente, e o resto já sabe.
Agora, só lhe resta ler algumas folhas que Julie Duprat me deu; são o melhor comentário ao que lhe acabei de contar.
Capítulo XXV
Armand, cansado por esta longa narrativa, frequentemente interrompida pelas suas lágrimas, colocou as duas mãos sobre a testa e fechou os olhos para pensar, ou para tentar dormir, depois de me ter dado as páginas escritas pela mão de Marguerite. Poucos minutos depois, uma respiração mais rápida indicou-me que Armand dormia, mas aquele sono leve que o menor ruído afasta.
Isto é o que li; copio-o sem acrescentar nem omitir uma sílaba:
Hoje é dia 15 de dezembro. Estou doente há três ou quatro dias. Esta manhã fiquei na cama. O tempo está escuro, estou triste; não há ninguém ao meu lado. Penso em ti, Armand. E tu, onde estás, enquanto escrevo estas linhas? Longe de Paris, longe, muito longe, dizem-me, e talvez já te tenhas esquecido de Marguerite. Bem, sê feliz; devo-te os únicos momentos felizes da minha vida.
Não consigo evitar o desejo de te explicar toda a minha conduta, e escrevi-te uma carta; mas, escrita por uma rapariga como eu, tal carta poderia parecer uma mentira, a menos que a morte a tivesse santificado com a sua autoridade e, em vez de uma carta, fosse uma confissão.
Hoje estou doente; posso morrer desta doença, pois sempre tive o pressentimento de que morrerei jovem. A minha mãe morreu de tuberculose, e a forma como sempre vivi só poderia aumentar a única herança que ela me deixou. Mas não quero morrer sem esclarecer tudo sobre mim para ti; isto é, se, quando voltares, ainda te preocupares com a pobre rapariga que amaste antes de partires.
Isto é o que a carta continha; gostaria de a escrever novamente, para me dar outra prova da minha própria justificação.
Lembrar-te-ás, Armand, de como a chegada do teu pai nos surpreendeu em Bougival; lembras-te do susto involuntário que a sua chegada me causou, e da cena que ocorreu entre ti e ele, de que me falaste à noite.
No dia seguinte, quando estavas em Paris à espera do teu pai e ele não voltou, um homem veio à porta e entregou uma carta do Sr. Duval.
A sua carta, que incluo com esta, implorava-me, nos termos mais sérios, que te mantivesse longe no dia seguinte, com qualquer desculpa, e que visse o teu pai, que desejava falar comigo, pedindo-me particularmente para não te dizer nada sobre isso.
Sabes como insisti para que voltasses a Paris no dia seguinte.
Tinhas partido há apenas uma hora quando o teu pai se apresentou. Não direi que impressão o seu rosto severo me causou. O teu pai tinha a velha teoria de que uma cortesã é um ser sem coração ou razão, uma espécie de máquina de cunhar ouro, sempre pronta, como a máquina, a esmagar a mão que lhe dá tudo, e a despedaçar, sem piedade ou discernimento, aqueles que a põem em movimento.
O teu pai tinha-me escrito uma carta muito educada para que eu consentisse em vê-lo; ele não se apresentou exatamente como tinha escrito. O seu modo era, no início, tão rígido, insolente e até ameaçador, que tive de lhe fazer entender que estava na minha própria casa e que não tinha necessidade de lhe prestar contas da minha vida, exceto por causa do afeto sincero que nutria pelo seu filho.
O Sr. Duval acalmou-se um pouco, mas continuou a dizer que não podia permitir por mais tempo que o seu filho se arruinasse por minha causa; que eu era bonita, era verdade, mas, por mais bonita que fosse, não deveria usar a minha beleza para estragar o futuro de um jovem com despesas como as que eu causava.
Diante disso, só havia uma coisa a fazer: mostrar-lhe a prova de que, desde que era tua amante, não poupei sacrifícios para te ser fiel sem pedir mais dinheiro do que aquele que tinhas para me dar. Mostrei-lhe as cautelas do monte de piedade, os recibos das pessoas a quem vendi o que não podia penhorar; contei-lhe a minha resolução de vender a minha mobília para pagar as minhas dívidas e viver contigo sem ser uma despesa demasiado pesada. Falei-lhe da nossa felicidade, de como me tinhas mostrado a possibilidade de uma vida mais calma e feliz, e ele acabou por ceder à evidência, oferecendo-me a mão e pedindo perdão pela forma como inicialmente me tinha abordado.
Então ele disse-me:
“Portanto, madame, não é por admoestações ou ameaças, mas por súplicas, que devo tentar obter de si um sacrifício maior do que aquele que já fez pelo meu filho.”
Trem-i com este início.
O teu pai aproximou-se de mim, pegou nas minhas duas mãos e continuou com uma voz afetuosa:
“Minha filha, não leves a mal o que tenho para te dizer; lembra-te apenas de que existem por vezes na vida necessidades cruéis para o coração, mas às quais é preciso submeter-se. Tu és boa, a tua alma tem uma generosidade desconhecida por muitas mulheres que talvez te desprezem e sejam menos dignas do que tu. Mas lembra-te de que não existe apenas a amante, mas a família; que, além do amor, existem deveres; que à idade da paixão sucede a idade em que o homem, se quer ser respeitado, deve assentar-se solidamente numa posição séria. O meu filho não tem fortuna e, no entanto, está pronto a abandonar-te o legado da sua mãe. Se ele aceitasse de ti o sacrifício que estás prestes a fazer, a sua honra e dignidade exigiriam que ele te desse, em troca, este rendimento, que te colocaria sempre fora do perigo da adversidade. Mas ele não pode aceitar este sacrifício, porque o mundo, que não te conhece, daria uma interpretação errada a esta aceitação, e tal interpretação não deve manchar o nome que ostentamos. Ninguém pensaria se o Armand te ama, se tu o amas, se este amor mútuo significa felicidade para ele e redenção para ti; veriam apenas uma coisa: que Armand Duval permitiu que uma mulher mantida (perdoa-me, minha filha, pelo que sou forçado a dizer-te) vendesse tudo o que tinha por ele. Então chegaria o dia das reprovações e dos arrependimentos, podes ter a certeza, para ti ou para outros, e ambos carregariam uma corrente que não poderiam cortar. Que farias então? A tua juventude estaria perdida, o futuro do meu filho destruído; e eu, o seu pai, receberia apenas de um dos meus filhos a recompensa que espero de ambos.
“Tu és jovem, bonita, a vida consolar-te-á; tu és nobre, e a memória de uma boa ação redimir-te-á de muitos atos passados. Durante os seis meses que te conhece, o Armand esqueceu-me. Escrevi-lhe quatro vezes e ele nunca respondeu uma única vez. Eu poderia ter morrido e ele não o saberia!
“Qualquer que seja a tua resolução de viver de outra forma que não a que tens vivido, o Armand, que te ama, nunca consentirá no isolamento a que a sua modesta fortuna o condenaria, e ao qual a tua beleza não te dá direito. Quem sabe o que ele faria então! Ele jogou, eu sei; sem que te contasse, eu sei também, mas, num momento de loucura, ele poderia ter perdido parte do que poupei, durante muitos anos, para o dote da minha filha, para ele e para o repouso da minha velhice. O que poderia ter acontecido ainda pode acontecer.
“Tens a certeza, aliás, de que a vida que estás a abandonar por ele nunca mais te virá atrair? Tens a certeza, tu que o tens amado, de que nunca amarás outro? Não sofrerias ao ver os entraves impostos pelo teu amor à vida do teu amante, entraves para os quais serias impotente para o consolar, se, com a idade, os pensamentos de ambição sucedessem aos sonhos de amor? Pensa em tudo isso, madame. Tu amas o Armand; prova-lho pelo único meio que te resta de ainda lho provar, sacrificando o teu amor pelo seu futuro. Nenhuma desgraça aconteceu ainda, mas uma acontecerá, e talvez uma maior do que aquelas que prevejo. O Armand poderia tornar-se ciumento de um homem que te tenha amado; poderia provocá-lo, bater-se, ser morto. Pensa, então, no que sofrerias na presença de um pai que te chamasse para prestar contas da vida do seu filho!
“Finalmente, minha querida filha, deixa-me dizer-te tudo, pois ainda não te disse tudo, deixa-me dizer-te o que me trouxe a Paris. Tenho uma filha, como te disse, jovem, bonita, pura como um anjo. Ela ama, e também ela fez deste amor o sonho da sua vida. Escrevi tudo isso ao Armand, mas, absorvido em ti, ele não respondeu. Bem, a minha filha está prestes a casar-se. Ela vai casar-se com o homem que ama; entra numa família honrada, que exige que a minha não seja menos honrada. A família do homem que se tornará o meu genro soube do tipo de vida que o Armand leva em Paris e declarou-me que o casamento deve ser desfeito se o Armand continuar esta vida. O futuro de uma criança que não fez nada contra ti, e que tem o direito de esperar um futuro feliz, está nas tuas mãos. Tens o direito, tens a força, para o destruir? Em nome do teu amor e do teu arrependimento, Marguerite, concede-me a felicidade da minha filha.”
Chorei em silêncio, meu amigo, por todas estas reflexões que eu própria tinha feito tantas vezes e que, na boca do teu pai, assumiam uma realidade ainda mais grave. Disse a mim mesma tudo o que o teu pai não se atreveu a dizer-me, embora lhe tivesse vindo aos lábios vinte vezes: que eu era, afinal, apenas uma mulher mantida, e que, qualquer que fosse a desculpa que desse para a nossa ligação, pareceria sempre cálculo da minha parte; que a minha vida passada não me deixava o direito de sonhar com tal futuro, e que eu estava a assumir responsabilidades para as quais os meus hábitos e reputação estavam longe de oferecer qualquer garantia. Em suma, eu amava-te, Armand.
A forma paternal com que o Sr. Duval me tinha falado; as memórias puras que ele despertou em mim; o respeito deste velho, que eu ganharia; o teu, que eu tinha a certeza de ganhar mais tarde: tudo isso evocava no meu coração pensamentos que me elevaram aos meus próprios olhos com uma espécie de orgulho sagrado, até então desconhecido. Quando pensava que um dia este velho, que agora me implorava pelo futuro do seu filho, pediria à sua filha que misturasse o meu nome com as suas orações, como o nome de uma amiga misteriosa, parecia que me transformava, e senti orgulho de mim mesma.
A exaltação do momento talvez exagerasse a verdade destas impressões, mas era isso o que eu sentia, amigo, e estes novos sentimentos silenciaram a memória dos dias felizes que passei contigo.
— Diga-me, senhor — disse eu ao seu pai, enxugando as lágrimas —, acredita que amo o seu filho?
— Sim — disse o Sr. Duval.
— Com um amor desinteressado?
— Sim.
— Acredita que fiz deste amor a esperança, o sonho, o perdão da minha vida?
— Implicitamente.
— Bem, senhor, abrace-me uma vez, como abraçaria a sua filha, e juro-lhe que esse beijo, o único beijo casto que alguma vez recebi, tornar-me-á forte contra o meu amor, e que, dentro de uma semana, o seu filho estará mais uma vez ao seu lado, talvez infeliz por um tempo, mas curado para sempre.
— Tu és uma criança nobre — respondeu o teu pai, beijando-me na testa —, e estás a fazer uma tentativa pela qual Deus te recompensará; mas temo muito que não tenhas qualquer influência sobre o meu filho.
— Oh, fique tranquilo, senhor; ele vai odiar-me.
Tive de erguer entre nós, tanto por mim como por ti, uma barreira intransponível.
Escrevi a Prudence a dizer que aceitava a proposta do Conde de N., e que ela lhe dissesse que eu cearia com ela e com ele. Fechei a carta e, sem lhe dizer o que continha, pedi ao teu pai que a fizesse seguir para o seu destino ao chegar a Paris.
Ele perguntou-me o que continha.
— O bem-estar do seu filho — respondi.
O teu pai abraçou-me mais uma vez. Senti duas lágrimas de gratidão na minha testa, como o batismo das minhas faltas passadas, e no momento em que consenti em entregar-me a outro homem, resplandeci de orgulho ao pensar no que estava a redimir através desta nova falta.
Era perfeitamente natural, Armand. Tu disseste-me que o teu pai era o homem mais honesto do mundo.
O Sr. Duval voltou para a sua carruagem e partiu para Paris.
Eu era apenas uma mulher, e quando te vi de novo não pude evitar chorar, mas não cedi.
Fiz bem? É o que me pergunto hoje, enquanto estou doente na minha cama, que nunca mais deixarei, talvez, até estar morta.
Tu és testemunha do que senti à medida que a hora da nossa separação se aproximava; o teu pai já lá não estava para me apoiar, e houve um momento em que estive prestes a confessar-te tudo, tão aterrorizada estava com a ideia de que me ias odiar e desprezar.
Uma coisa que talvez não acredites, Armand, é que rezei a Deus para me dar forças; e o que prova que Ele aceitou o meu sacrifício é que me deu as forças pelas quais rezei.
À ceia, ainda precisei de ajuda, pois não conseguia pensar no que ia fazer, de tanto que temia que a minha coragem me faltasse. Quem diria que eu, Marguerite Gautier, sofreria tanto com o simples pensamento de um novo amante? Bebi para esquecer, e quando acordei no dia seguinte, estava ao lado do conde.
Toda a verdade é esta, amigo. Julga-me e perdoa-me, como eu te perdoei por todo o mal que me fizeste desde aquele dia.
Capítulo XXVI
O que se seguiu àquela noite fatal, tu sabes tão bem quanto eu; mas o que não podes saber, o que não podes suspeitar, é o que sofri desde a nossa separação.
Ouvi dizer que o teu pai te tinha levado com ele, mas senti-me certa de que não conseguirias viver longe de mim por muito tempo, e quando te encontrei nos Champs-Élysées, fiquei um pouco perturbada, mas de forma alguma surpreendida.
Então começou aquela série de dias; cada um deles trazia-me um insulto novo da tua parte. Recebi-os todos com uma espécie de alegria, pois, além de me provarem que ainda me amavas, parecia-me que, quanto mais me perseguisses, mais eu seria elevada aos teus olhos quando viesses a saber a verdade.
Não te admires da minha alegria no martírio, Armand; o teu amor por mim tinha aberto o meu coração a um nobre entusiasmo.
Ainda assim, não fui tão forte logo de uma vez.
Entre o tempo do sacrifício feito por ti e o tempo do teu regresso, passou muito tempo, durante o qual fui obrigada a recorrer a meios físicos para não enlouquecer, e para ficar cega e surda no turbilhão da vida em que me lancei. Prudence contou-te (não foi?) como fui a todas as festas, bailes e orgias. Tive uma espécie de esperança de que me mataria com todos estes excessos, e penso que não faltará muito para que esta esperança se realize. A minha saúde, naturalmente, tornou-se cada vez pior, e quando enviei a Sra. Duvernoy para te pedir piedade, eu estava totalmente exausta, de corpo e alma.
Não te recordarei, Armand, a recompensa que deste à última prova de amor que te dei, e o ultraje com que expulsaste uma mulher moribunda, que não pôde resistir à tua voz quando me pediste uma noite de amor, e que, como uma tola, pensou por um instante que poderia unir novamente o passado ao presente. Tinhas o direito de fazer o que fizeste, Armand; as pessoas nem sempre deram um preço tão alto por uma noite minha!
Deixei tudo depois disso. Olympe ocupou o meu lugar junto do Conde de N. e contou-lhe, soube eu, as razões da minha partida. O Conde de G. estava em Londres. Ele é um daqueles homens que dão apenas a importância suficiente a cortejar mulheres como eu para que seja um passatempo agradável, e que são assim capazes de permanecer amigos das mulheres, não as odiando por nunca terem tido ciúmes delas, e ele é, também, um daqueles grandes senhores que nos abrem apenas uma parte dos seus corações, mas a totalidade das suas bolsas. Foi nele que pensei imediatamente. Juntei-me a ele em Londres. Ele recebeu-me o mais gentilmente possível, mas ele era lá o amante de uma mulher da sociedade e temia comprometer-se se fosse visto comigo. Apresentou-me aos seus amigos, que ofereceram uma ceia em minha honra, depois da qual um deles me levou para casa consigo.
O que mais restava para eu fazer, meu amigo? Se eu tivesse me matado, teria sobrecarregado a sua vida, que deveria ser feliz, com um remorso desnecessário; e, além disso, de que serve matar-se quando se está tão perto de morrer?
Tornei-me um corpo sem alma, uma coisa sem pensamento; vivi durante algum tempo dessa maneira automática; depois voltei a Paris e perguntei por você; soube então que tinha partido para uma longa viagem. Não restava nada que me prendesse à vida. Minha existência tornou-se o que fora dois anos antes de eu conhecê-lo. Tentei reconquistar o duque, mas eu o havia ofendido profundamente demais. Os velhos não são pacientes, sem dúvida porque percebem que não são eternos. Fiquei mais fraca a cada dia. Eu estava pálida, triste e mais magra do que nunca. Os homens que compram amor examinam a mercadoria antes de levá-la. Em Paris, havia mulheres com melhor saúde e não tão magras quanto eu; fui, em certa medida, esquecida. Isso é todo o passado até ontem.
Agora estou gravemente doente. Escrevi ao duque para pedir-lhe dinheiro, pois não tenho nenhum, e os credores voltaram e vieram a mim com suas contas com uma perseverança implacável. O duque responderá? Por que você não está em Paris, Armand? Você viria me ver, e suas visitas me fariam bem.
20 de dezembro.
O tempo está horrível; está nevando e estou sozinha. Tenho tido tanta febre nos últimos três dias que não consegui escrever-lhe uma palavra. Nenhuma notícia, meu amigo; todos os dias espero vagamente por uma carta sua, mas ela não vem, e sem dúvida nunca virá. Apenas os homens são fortes o suficiente para não perdoar. O duque não respondeu.
Prudence está penhorando minhas coisas novamente.
Tenho cuspido sangue o tempo todo. Oh, você teria pena de mim se pudesse me ver. Você é realmente feliz por estar sob um céu quente e não, como eu, com um inverno inteiro de gelo sobre o peito. Hoje levantei-me por um breve momento, olhei através das cortinas da minha janela e observei a vida de Paris passando lá embaixo, a vida com a qual agora não tenho mais nada a ver. Vi os rostos de algumas pessoas que conhecia, passando rapidamente, alegres e despreocupadas. Ninguém levantou os olhos para a minha janela. No entanto, alguns jovens vieram perguntar por mim. Uma vez, antes, estive doente, e você, embora não me conhecesse, embora não tivesse recebido de mim nada além de uma impertinência no dia em que nos vimos pela primeira vez, veio perguntar por mim todos os dias. Passamos seis meses juntos. Eu tinha todo o amor por você que o coração de uma mulher pode conter e dar, e você está longe, está me amaldiçoando, e não há uma palavra de consolação sua. Mas tenho certeza de que foi apenas o acaso que o fez deixar-me, pois se você estivesse em Paris, não deixaria a cabeceira da minha cama.
25 de dezembro.
Meu médico diz que não devo escrever todos os dias. E, de fato, minhas lembranças apenas aumentam minha febre, mas ontem recebi uma carta que me fez bem, mais pelo que dizia do que pela ajuda material que continha. Posso, então, escrever-lhe hoje. Esta carta é do seu pai, e eis o que ela diz:
“MADAME: Acabo de saber que a senhora está doente. Se eu estivesse em Paris, iria pessoalmente saber como a senhora passa; se meu filho estivesse aqui, eu o enviaria; mas não posso deixar C., e Armand está a seis ou setecentas léguas daqui; permita-me, pois, simplesmente escrever-lhe, madame, para dizer-lhe quão triste estou ao saber de sua doença, e creia em meus sinceros votos por sua rápida recuperação.
“Um dos meus bons amigos, o Sr. H., irá visitá-la; teria a gentileza de recebê-lo? Confiei-lhe uma comissão, cujo resultado aguardo impacientemente.
“Creia-me, madame,
“Seu mui fiel.”
Esta é a carta que ele me enviou. Seu pai tem um coração nobre; ame-o bem, meu amigo, pois há poucos homens tão dignos de ser amados. Este papel assinado com o nome dele me fez mais bem do que todas as prescrições do nosso grande médico.
Esta manhã, o Sr. H. veio. Pareceu muito embaraçado com a missão delicada que o Sr. Duval lhe confiara. Na verdade, ele veio trazer-me três mil francos de seu pai. Quis recusar a princípio, mas o Sr. H. disse-me que minha recusa aborreceria o Sr. Duval, que o autorizara a dar-me essa quantia agora, e, mais tarde, o que quer que eu precisasse. Aceitei, pois, vindo de seu pai, não poderia ser exatamente receber esmola. Se eu estiver morta quando você voltar, mostre ao seu pai o que escrevi para ele e diga-lhe que, ao escrever estas linhas, a pobre mulher a quem ele teve a bondade de escrever uma carta tão consoladora chorou lágrimas de gratidão e rezou a Deus por ele.
4 de janeiro.
Passei por dias terríveis. Nunca soube que o corpo pudesse sofrer tanto. Oh, minha vida passada! Pago o dobro por ela agora.
Tem havido alguém para vigiar-me todas as noites; não consigo respirar. O que resta da minha pobre existência divide-se entre o delírio e a tosse.
A sala de jantar está cheia de doces e todo tipo de presentes que meus amigos trouxeram. Alguns deles, arrisco dizer, esperam que eu seja sua amante mais tarde. Se pudessem ver o que a doença fez de mim, iriam embora aterrorizados.
Prudence está dando seus presentes de Ano Novo com aqueles que recebi.
O degelo começou, e o médico diz que poderei sair em alguns dias se o tempo bom continuar.
8 de janeiro.
Saí ontem em minha carruagem. O tempo estava adorável. Os Champs-Elysées estavam cheios de gente. Era como o primeiro sorriso da primavera. Tudo ao meu redor tinha um ar de festa. Eu nunca soube antes que um raio de sol pudesse conter tanta alegria, doçura e consolação.
Encontrei quase todas as pessoas que conhecia, todas felizes, todas absortas em seus prazeres. Quantas pessoas felizes nem sequer sabem que são felizes! Olympe passou por mim em uma carruagem elegante que o Sr. de N. lhe deu. Tentou insultar-me com o olhar. Mal sabe ela quão longe estou de tais coisas agora. Um rapaz simpático, que conheço há muito tempo, perguntou-me se eu gostaria de jantar com ele e um de seus amigos, que, disse ele, estava muito ansioso para fazer meu conhecimento. Sorri tristemente e dei-lhe a mão, queimando de febre. Nunca vi um semblante tão espantado.
Voltei às quatro e tive bastante apetite para o meu jantar. Sair fez-me bem. Se eu ao menos fosse melhorar! Como a visão da vida e da felicidade dos outros desperta o desejo de viver naqueles que, apenas na noite anterior, na solidão de sua alma e na sombra de seu quarto de doente, só queriam morrer logo!
10 de janeiro.
A esperança de melhorar era apenas um sonho. Voltei para a cama, coberta de emplastros que me queimam. Se eu fosse oferecer o corpo pelo qual as pessoas pagaram tão caro um dia, quanto dariam, pergunto-me, hoje?
Devemos ter feito algo muito perverso antes de nascermos, ou então devemos ser muito felizes quando estivermos mortos, para que Deus permita que esta vida tenha todas as torturas da expiação e todas as mágoas de uma provação.
12 de janeiro.
Continuo doente.
O Conde de N. enviou-me algum dinheiro ontem. Não o guardei. Não aceitarei nada daquele homem. É por causa dele que você não está aqui.
Oh, aquele bom tempo em Bougival! Onde está agora?
Se eu sair viva deste quarto, farei uma peregrinação à casa em que vivemos juntos, mas nunca a deixarei até que esteja morta.
Quem sabe se escreverei para você amanhã?
25 de janeiro.
Não durmo há onze noites. Estou sufocada. Imagino a cada momento que vou morrer. O médico proibiu-me de tocar em uma caneta. Julie Duprat, que cuida de mim, deixa-me escrever-lhe estas poucas linhas. Você não voltará antes que eu morra? Está tudo acabado entre nós para sempre? Parece-me que eu melhoraria se você viesse. De que serviria melhorar?
28 de janeiro.
Esta manhã fui acordada por um grande barulho. Julie, que dormia em meu quarto, correu para a sala de jantar. Ouvi vozes de homens e as dela protestando contra eles em vão. Ela voltou chorando.
Tinham vindo penhorar minhas coisas. Disse-lhe para deixar o que chamam de justiça seguir seu curso. O oficial de justiça entrou em meu quarto com o chapéu na cabeça. Abriu as gavetas, anotou o que via e nem sequer pareceu perceber que havia uma mulher morrendo na cama que, felizmente, a caridade da lei me deixa.
Disse, de fato, antes de sair, que eu poderia recorrer dentro de nove dias, mas deixou um homem para montar guarda. Meu Deus! O que será de mim? Esta cena deixou-me pior do que estava antes. Prudence queria ir pedir dinheiro ao amigo do seu pai, mas não a deixei.
Recebi sua carta esta manhã. Eu precisava dela. Minha resposta chegará a tempo? Você me verá novamente? Este é um dia feliz, e ele me fez esquecer todos os dias que passei nas últimas seis semanas. Parece-me que estou melhor, apesar da sensação de tristeza sob cuja impressão lhe respondi.
Afinal, ninguém é infeliz para sempre.
Quando penso que pode acontecer comigo não morrer, que você volte, que eu veja a primavera novamente, que você ainda me ame e que possamos recomeçar a vida do ano passado!
Tola que sou! Mal consigo segurar a caneta com a qual lhe escrevo sobre este sonho selvagem do meu coração.
Aconteça o que acontecer, eu o amei muito, Armand, e teria morrido há muito tempo se não tivesse a memória do seu amor para me ajudar e uma espécie de esperança vaga de vê-lo ao meu lado novamente.
4 de fevereiro.
O Conde de G. retornou. Sua amante foi infiel a ele. Ele está muito triste; gostava muito dela. Veio contar-me tudo a respeito. O pobre rapaz não está nada bem de dinheiro; mesmo assim, pagou meu oficial de justiça e mandou embora o homem.
Falei com ele sobre você, e ele prometeu falar-lhe sobre mim. Esqueci que tinha sido sua amante, e ele tentou fazer com que eu também esquecesse. Ele é um bom amigo.
O duque enviou alguém ontem para perguntar por mim, e esta manhã veio ver-me. Não sei como o velho ainda se mantém vivo. Permaneceu comigo três horas e não disse vinte palavras. Duas grandes lágrimas caíram de seus olhos quando viu quão pálida eu estava. A memória da morte de sua filha o fez chorar, sem dúvida. Ele a terá visto morrer duas vezes. Suas costas estavam curvadas, sua cabeça pendida para o chão, seus lábios caídos, seus olhos vagos. A idade e a tristeza pesam com um peso duplo sobre seu corpo exausto. Ele não me repreendeu. Parecia que se alegrava secretamente ao ver as devastações que a doença fez em mim. Parecia orgulhoso de estar ainda de pé, enquanto eu, que ainda sou jovem, estava prostrada pelo sofrimento.
O mau tempo voltou. Ninguém vem me ver. Julie vigia-me tanto quanto pode. Prudence, a quem já não posso dar tanto quanto costumava, começa a dar desculpas para não vir.
Agora que estou tão perto da morte, apesar do que os médicos me dizem, pois tenho vários, o que prova que estou piorando, quase me arrependo de ter ouvido seu pai; se eu soubesse que estaria apenas tomando um ano do seu futuro, não poderia ter resistido ao desejo de passar aquele ano com você e, pelo menos, teria morrido com um amigo para segurar minha mão. É verdade que, se tivéssemos vivido juntos este ano, eu não teria morrido tão cedo.
Seja feita a vontade de Deus!
5 de fevereiro.
Oh, venha, venha, Armand! Sofro horrivelmente; vou morrer, meu Deus! Eu estava tão miserável ontem que queria passar a noite, que parecia que seria tão longa quanto a última, em qualquer lugar, menos em casa. O duque veio pela manhã. Parece-me que a visão deste velho, a quem a morte esqueceu, faz-me morrer mais depressa.
Apesar da febre ardente que me devorava, fiz com que me vestissem e me levassem ao Vaudeville. Julie passou um pouco de rouge em mim, sem o qual eu pareceria um cadáver. Estava no camarote onde lhe dei nosso primeiro encontro. O tempo todo mantive meus olhos fixos na poltrona onde você se sentou naquele dia, embora uma espécie de homem do campo estivesse lá, rindo alto de todas as tolices que os atores diziam. Eu estava quase morta quando me trouxeram para casa. Tossi e cuspi sangue a noite toda. Hoje não consigo falar, mal consigo mover meu braço. Meu Deus! Meu Deus! Vou morrer! Eu esperava por isso, mas não consigo me acostumar com a ideia de sofrer mais do que sofro agora, e se...
Depois disto, os poucos caracteres traçados por Marguerite eram indecifráveis, e o que se seguiu foi escrito por Julie Duprat.
18 de fevereiro.
MONSIEUR ARMAND:
Desde o dia em que Marguerite insistiu em ir ao teatro, ela piorou cada vez mais. Perdeu completamente a voz e, agora, o uso dos membros.
O que nossa pobre amiga sofre é impossível dizer. Não estou acostumada a emoções deste tipo, e estou em um estado de susto constante.
Como eu gostaria que você estivesse aqui! Ela está quase sempre delirando; mas, delirante ou lúcida, é sempre o seu nome que ela pronuncia, quando consegue dizer uma palavra.
O médico me diz que ela não ficará aqui por muito tempo. Desde que ficou tão doente, o velho duque não voltou. Ele disse ao médico que a visão era demais para ele.
A Sra. Duvernoy não está se comportando bem. Esta mulher, que pensava que poderia tirar mais dinheiro de Marguerite, às custas de quem vivia quase completamente, contraiu dívidas que não pode pagar e, vendo que sua vizinha não lhe é mais útil, nem sequer vem vê-la. Todos a estão abandonando. O Sr. de G., processado por suas dívidas, teve que voltar a Londres. Ao partir, enviou-nos mais dinheiro; ele fez tudo o que podia, mas voltaram para penhorar as coisas, e os credores estão apenas esperando que ela morra para vender tudo.
Eu queria usar meus últimos recursos para pôr um fim a isso, mas o oficial de justiça disse-me que não adiantava, e que há outras penhoras por vir. Já que ela deve morrer, é melhor deixar tudo ir do que salvar para sua família, a quem ela nunca se importou em ver e que nunca se importou com ela. Você não pode conceber em meio a qual miséria dourada a pobre criatura está morrendo. Ontem não tínhamos absolutamente dinheiro nenhum. Prataria, joias, xales, tudo está penhorado; o resto foi vendido ou penhorado. Marguerite ainda está consciente do que acontece ao seu redor, e ela sofre no corpo, na mente e no coração. Grandes lágrimas escorrem por suas bochechas, tão finas e pálidas que você nunca reconheceria o rosto daquela a quem você amou tanto, se pudesse vê-la. Ela me fez prometer escrever-lhe quando não pudesse mais escrever, e escrevo diante dela. Ela volta os olhos para mim, mas já não me vê; seus olhos já estão velados pela chegada da morte; no entanto, ela sorri, e todos os seus pensamentos, toda a sua alma são seus, tenho certeza.
Toda vez que a porta se abre, seus olhos brilham, e ela pensa que você vai entrar; então, quando vê que não é você, seu rosto retoma sua expressão dolorosa, um suor frio rompe sobre ele e suas maçãs do rosto coram.
19 de fevereiro, meia-noite.
Que dia triste tivemos hoje, pobre Sr. Armand! Esta manhã, Marguerite estava sufocando; o médico sangrou-a, e sua voz retornou por um momento. O médico implorou-lhe que visse um padre. Ela disse “Sim”, e ele mesmo foi buscar um abade de Saint Roch.
Enquanto isso, Marguerite chamou-me até sua cama, pediu-me para abrir um armário, apontou uma touca e uma camisola longa coberta de renda e disse com voz fraca:
“Morrerei assim que tiver me confessado. Então, você me vestirá com estas coisas; é o capricho de uma mulher moribunda.”
Depois, abraçou-me em lágrimas e acrescentou:
“Posso falar, mas fico sufocada quando falo; estou sufocando. Ar!”
Caí em prantos, abri a janela e, poucos minutos depois, o padre entrou. Fui até ele; quando ele soube onde estava, pareceu com medo de ser mal recebido.
“Entre corajosamente, padre”, eu lhe disse.
Ele permaneceu muito pouco tempo no quarto, e quando saiu, disse-me:
“Ela viveu pecadora e morrerá cristã.”
Poucos minutos depois, ele voltou com um coroinha carregando um crucifixo e um sacristão que ia à frente deles tocando a sineta para anunciar que Deus vinha à moribunda.
Entraram os três no quarto onde tantas palavras estranhas foram ditas, mas que agora era uma espécie de tabernáculo sagrado.
Caí de joelhos. Não sei quanto tempo durará a impressão do que vi, mas não creio que, até que chegue a minha vez, qualquer coisa humana possa causar-me uma impressão tão profunda.
O padre ungiu com óleo santo os pés, as mãos e a testa da mulher moribunda, repetiu uma breve oração, e Marguerite estava pronta para partir para o céu para onde não duvido que ela vá, se Deus viu a provação de sua vida e a santidade de sua morte.
Desde então, ela não disse uma palavra nem fez um movimento. Vinte vezes eu a teria pensado morta se não a tivesse ouvido respirar penosamente.
20 de fevereiro, 17h.
Tudo acabou.
Marguerite caiu em sua agonia final por volta das duas horas. Nunca um mártir sofreu tal tortura, a julgar pelos gritos que ela deu. Duas ou três vezes ela se sentou ereta na cama, como se quisesse segurar sua vida, que escapava para Deus.
Duas ou três vezes também ela disse o seu nome; depois tudo ficou em silêncio, e ela caiu exausta na cama. Lágrimas silenciosas escorreram de seus olhos, e ela estava morta.
Então aproximei-me dela; chamei-a, e como ela não respondeu, fechei seus olhos e beijei-lhe a testa.
Pobre e querida Marguerite, gostaria de ser uma mulher santa para que meu beijo pudesse recomendá-la a Deus.
Depois, vesti-a como ela me pedira. Fui buscar um padre em Saint Roch, queimei duas velas para ela e rezei na igreja por uma hora.
Dei o dinheiro que ela deixou aos pobres.
Não sei muito sobre religião, mas penso que Deus saberá que minhas lágrimas foram genuínas, minhas preces fervorosas, minha caridade sincera, e que Ele terá piedade daquela que, morrendo jovem e bela, só teve a mim para fechar seus olhos e colocá-la em sua mortalha.
22 de fevereiro.
O enterro realizou-se hoje. Muitas das amigas de Marguerite vieram à igreja. Algumas delas choraram com sinceridade. Quando o funeral iniciou o caminho para Montmartre, apenas dois homens o seguiram: o Comte de G., que veio de Londres de propósito, e o duque, que era amparado por dois criados.
Escrevo-lhe estes detalhes de sua casa, em meio às minhas lágrimas e sob a lâmpada que arde tristemente ao lado de um jantar que não posso tocar, como pode imaginar, mas que Nanine preparou para mim, pois não como há vinte e quatro horas.
Minha vida não pode reter estas tristes impressões por muito tempo, pois minha vida não me pertence, assim como a de Marguerite não pertencia a ela; é por isso que lhe dou todos estes detalhes no próprio local onde ocorreram, com receio de que, se muito tempo decorresse entre eles e seu retorno, eu não fosse capaz de lhe narrar com toda a sua melancólica exatidão.
Capítulo XXVII
“Você leu?”, disse Armand, quando terminei o manuscrito.
“Compreendo o que você deve ter sofrido, meu amigo, se tudo o que li é verdade.”
“Meu pai confirmou-o em uma carta.”
Conversamos por algum tempo sobre o triste destino que se cumprira, e fui para casa descansar um pouco.
Armand, ainda triste, mas um pouco aliviado pela narração de sua história, logo se recuperou, e fomos juntos fazer uma visita a Prudence e a Julie Duprat.
Prudence falira. Disse-nos que Marguerite era a causa disso; que durante sua doença ela lhe emprestara muito dinheiro na forma de notas promissórias que não pôde pagar, tendo Marguerite morrido sem lhe ter restituído o dinheiro e sem lhe ter dado um recibo com o qual pudesse apresentar-se como credora.
Com a ajuda desta fábula, que a Sra. Duvernoy repetia em toda parte para justificar suas dificuldades financeiras, ela extraiu uma nota de mil francos de Armand, que não acreditava nela, mas que fingiu acreditar, por respeito a todos aqueles em cuja companhia Marguerite vivera.
Depois, fomos visitar Julie Duprat, que nos contou o triste incidente que presenciara, vertendo lágrimas verdadeiras ao recordar a amiga.
Por fim, fomos ao túmulo de Marguerite, sobre o qual os primeiros raios do sol de abril faziam brotar as primeiras folhas.
Restava um dever a Armand: retornar ao pai. Ele quis que eu o acompanhasse.
Chegamos a C., onde vi o Sr. Duval, tal como eu o imaginara a partir do retrato que seu filho fizera dele: alto, digno, bondoso.
Ele acolheu Armand com lágrimas de alegria e apertou minha mão afetuosamente. Não demorei a perceber que o sentimento paternal era aquele que dominava todos os outros em sua mente.
Sua filha, chamada Blanche, tinha aquela transparência nos olhos, aquela serenidade na boca, que indica uma alma que concebe apenas pensamentos santos e lábios que repetem apenas palavras piedosas. Ela saudou o retorno do irmão com sorrisos, sem saber, na pureza de sua juventude, que, longe dali, uma cortesã sacrificara sua própria felicidade à simples invocação de seu nome.
Permaneço por algum tempo na feliz família deles, cheia de cuidados indulgentes para com aquele que lhes trazia a convalescença de seu coração.
Voltei a Paris, onde escrevi esta história exatamente como me foi contada. Ela tem apenas um mérito, que talvez lhe seja negado: o de ser verdadeira.
Não tiro desta história a conclusão de que todas as mulheres como Marguerite são capazes de fazer tudo o que ela fez — muito pelo contrário; mas descobri que uma delas vivenciou um amor sério no curso de sua vida, que sofreu por ele e que morreu dele. Contei ao leitor tudo o que soube. Era meu dever.
Não sou o apóstolo do vício, mas seria de bom grado o eco de uma nobre dor onde quer que eu levasse sua voz em oração.
A história de Marguerite é uma exceção, repito; se não fosse uma exceção, não teria valido o trabalho de escrevê-la.