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Catriona

by Robert Louis Stevenson · in Portuguese

Catriona

por Robert Louis Stevenson

Índice

PARTE I. O LORD ADVOCATE CAPÍTULO I. UM MENDIGO A CAVALO CAPÍTULO II. O ESCRIVÃO DAS HIGHLANDS CAPÍTULO III. VOU A PILRIG CAPÍTULO IV. LORD ADVOCATE PRESTONGRANGE CAPÍTULO V. NA CASA DO ADVOCATE CAPÍTULO VI. O FALECIDO MASTER OF LOVAT CAPÍTULO VII. FALTO À HONRA CAPÍTULO VIII. O BRAVO CAPÍTULO IX. A URZE EM CHAMAS CAPÍTULO X. O HOMEM DE CABELOS RUIVOS CAPÍTULO XI. O BOSQUE JUNTO A SILVERMILLS CAPÍTULO XII. NOVAMENTE EM MARCHA COM ALAN CAPÍTULO XIII. AS AREIAS DE GILLANE CAPÍTULO XIV. O BASS CAPÍTULO XV. O CONTO DE BLACK ANDIE SOBRE TOD LAPRAIK CAPÍTULO XVI. A TESTEMUNHA DESAPARECIDA CAPÍTULO XVII. O MEMORIAL CAPÍTULO XVIII. A BOLA NO SUPORTE CAPÍTULO XIX. ESTOU MUITO NAS MÃOS DAS SENHORAS CAPÍTULO XX. CONTINUO A FREQUENTAR A BOA SOCIEDADE

PARTE II. PAI E FILHA CAPÍTULO XXI. A VIAGEM PARA A HOLANDA CAPÍTULO XXII. HELVOETSLUYS CAPÍTULO XXIII. VIAGENS NA HOLANDA CAPÍTULO XXIV. A HISTÓRIA COMPLETA DE UM EXEMPLAR DE HEINECCIUS CAPÍTULO XXV. O REGRESSO DE JAMES MORE CAPÍTULO XXVI. O TRIO CAPÍTULO XXVII. O DUO CAPÍTULO XXVIII. EM QUE FICO SOZINHO CAPÍTULO XXIX. ENCONTRAMO-NOS EM DUNKERQUE CAPÍTULO XXX. A CARTA DO NAVIO

DEDICATÓRIA.

A CHARLES BAXTER, Writer to the Signet.

Meu caro Charles,

É o destino das sequelas desapontar aqueles que por elas esperaram; e o meu David, tendo sido deixado a marcar passo durante mais de um lustro no escritório da British Linen Company, tem de esperar que o seu tardio reaparecimento seja recebido com vaias, se não com projéteis. Contudo, quando me lembro dos dias das nossas explorações, não estou desprovido de esperança. Deve ter restado na nossa cidade natal alguma semente dos eleitos; algum jovem de pernas compridas e cabeça quente há de repetir hoje os nossos sonhos e errâncias de há tantos anos; ele apreciará o prazer, que deveria ter sido nosso, de seguir por ruas nomeadas e casas numeradas os passeios campestres de David Balfour, de identificar Dean, e Silvermills, e Broughton, e Hope Park, e Pilrig, e o pobre e velho Lochend — se ainda estiver de pé, e os Figgate Whins — se restar algum deles; ou de se aventurar (numas longas férias) tão longe como Gillane ou o Bass. Assim, talvez os seus olhos se abram para contemplar a sucessão das gerações, e ele pesará com surpresa o seu momentâneo e insignificante dom da vida.

Tu estás ainda — como quando te vi pela primeira vez, como quando te dirigi a palavra pela última — na venerável cidade que tenho de considerar sempre como o meu lar. E eu vim de tão longe; e as vistas e os pensamentos da minha juventude perseguem-me; e vejo como uma visão a juventude do meu pai, e a do seu pai, e todo o fluxo de vidas a correr ali longe, no norte, com o som do riso e das lágrimas, para me lançar no fim, como por uma cheia repentina, nestas ilhas derradeiras. E admiro-me e curvo a cabeça perante o romance do destino.

R. L. S.

Vailima, Upolu, Samoa, 1892.

CATRIONA

PARTE I. O LORD ADVOCATE

CAPÍTULO I. UM MENDIGO A CAVALO

No vigésimo quinto dia de agosto de 1751, por volta das duas da tarde, eu, David Balfour, saí da British Linen Company, um carregador acompanhando-me com um saco de dinheiro, e alguns dos principais mercadores a cumprimentarem-me à porta. Dois dias antes, e até à manhã de ontem, eu era como um mendigo à beira da estrada, vestido de trapos, reduzido aos meus últimos xelins, sendo o meu companheiro um traidor condenado, um preço pela minha própria cabeça por um crime com cujas notícias o país ressoava. Hoje, era herdeiro da minha posição na vida, um proprietário de terras, um carregador de banco a transportar o meu ouro, recomendações no bolso e (nas palavras do ditado) a bola diretamente ao meu pé.

Havia duas circunstâncias que me serviam de lastro para tanta vela. A primeira era o negócio muito difícil e mortífero que ainda tinha de tratar; a segunda, o lugar em que me encontrava. A cidade alta e negra, e os números, o movimento e o ruído de tanta gente faziam um mundo novo para mim, após as charnecas, as areias da praia e os campos tranquilos que eu frequentara até então. A multidão dos cidadãos, em particular, deixava-me embaraçado. O filho de Rankeillor era baixo e pequeno de compleição; as suas roupas mal me serviam; e era evidente que eu estava mal qualificado para pavonear-me à frente de um carregador de banco. Era evidente que, se o fizesse, apenas faria as pessoas rir e (o que era pior no meu caso) faria com que começassem a colocar perguntas. Por isso, tinha de arranjar roupas minhas e, entretanto, caminhar ao lado do carregador, colocando a mão no seu braço como se fôssemos dois amigos.

Num mercador nos Luckenbooths, fiz-me equipado: nada demasiado elegante, pois não tinha a intenção de parecer um mendigo a cavalo; mas decente e responsável, para que os criados me respeitassem. De lá, fui a um armeiro, onde comprei uma espada simples, para condizer com o meu grau na vida. Sentia-me mais seguro com a arma, embora (para alguém tão ignorante em defesa) se pudesse dizer que era um perigo acrescido. O carregador, que era naturalmente um homem com alguma experiência, julgou que o meu equipamento fora bem escolhido.

— "Naething kenspeckle" — disse ele; — roupas simples e decentes. Quanto ao florete, sem dúvida que assenta com o vosso grau; mas se eu fosse vós, teria gasto o meu dinheiro de melhor maneira. — E propôs que eu comprasse meias de inverno a uma mulher nas traseiras de Cowgate, que era sua prima e as fazia "extraordinariamente duráveis".

Mas eu tinha outros assuntos mais urgentes em mãos. Aqui estava eu nesta velha cidade negra, que era, para todos os efeitos, como uma toca de coelhos, não só pelo número dos seus habitantes, mas pela complicação das suas passagens e buracos. Era, de facto, um lugar onde nenhum estranho tinha hipótese de encontrar um amigo, quanto mais outro estranho. Suponhamos que ele acerta na viela certa; as pessoas viviam tão amontoadas naquelas casas altas que ele bem poderia procurar um dia antes de encontrar a porta certa. O curso habitual era contratar um rapaz a quem chamavam "caddie", que funcionava como um guia ou piloto, levava-o onde precisava e (concluídos os seus recados) trazia-o de volta ao local onde estava hospedado. Mas estes "caddies", sendo sempre empregados no mesmo tipo de serviços e tendo por obrigação estarem bem informados sobre todas as casas e pessoas da cidade, tinham acabado por formar uma irmandade de espiões; e eu sabia, pelas histórias do Sr. Campbell, como comunicavam uns com os outros, que fúria de curiosidade concebiam sobre os negócios dos seus patrões e como eram como olhos e dedos para a polícia. Seria pouco sensato, na situação em que me encontrava, levar tal furão atrás de mim. Eu tinha três visitas a fazer, todas imediatamente necessárias: ao meu parente, o Sr. Balfour de Pilrig; a Stewart, o escrivão que era agente de Appin; e a William Grant, Esquire de Prestongrange, Lord Advocate da Escócia. A visita ao Sr. Balfour era protocolar; e além disso (estando Pilrig no campo), atrevi-me a encontrar o caminho por mim mesmo, com a ajuda das minhas duas pernas e de uma língua escocesa. Mas as outras eram de natureza diferente. Não só a visita ao agente de Appin, no meio do alarido sobre o homicídio de Appin, era perigosa em si mesma, como era altamente incompatível com a outra. Eu estava prestes a ter um momento bastante difícil com o meu Lord Advocate Grant, da melhor das formas; mas ir ter com ele a quente, vindo do agente de Appin, era pouco provável que melhorasse os meus assuntos e poderia significar a pura ruína do amigo Alan. O assunto todo, além disso, dava-me um aspeto de correr com a lebre e caçar com os cães que não me agradava nada. Determinei, portanto, despachar imediatamente o Sr. Stewart e todo o lado jacobita dos meus negócios, e lucrar para esse fim com a guia do carregador ao meu lado. Mas aconteceu que mal lhe tinha dado o endereço, quando veio uma chuveirada — nada de preocupante, apenas para as minhas roupas novas — e abrigámo-nos sob uma passagem no topo de uma ruela.

Sendo estranho ao que via, entrei um pouco mais. O caminho estreito e pavimentado descia rapidamente. Casas prodigiosamente altas erguiam-se de cada lado e projetavam-se, um andar sobre o outro, à medida que subiam. No topo, apenas uma fita de céu se via. Pelo que pude vislumbrar nas janelas, e pelas pessoas respeitáveis que passavam, vi que as casas estavam muito bem ocupadas; e a aparência geral do lugar interessava-me como um conto.

Eu ainda estava a olhar, quando se ouviu um súbito e enérgico bater de pés em ritmo e o tinir de aço atrás de mim. Voltando-me rapidamente, deparei com um grupo de soldados armados e, no meio deles, um homem alto num sobretudo. Ele caminhava com uma curvatura que parecia um gesto de cortesia, gentil e insinuante: acenava com as mãos de forma persuasiva enquanto seguia, e o seu rosto era astuto e belo. Pensei que o seu olhar me captou, mas não consegui encará-lo. Esta procissão passou para uma porta na ruela, que um criado em libré fina abriu; e dois dos soldados levaram o prisioneiro para dentro, enquanto os outros permaneciam com os seus fuzis junto à porta.

Nada pode acontecer nas ruas de uma cidade sem algum seguimento de pessoas ociosas e crianças. Foi o que aconteceu agora; mas a maior parte dispersou-se imediatamente até que restaram apenas três. Uma era uma rapariga; vestia-se como uma dama e tinha um lenço com as cores dos Drummond na cabeça; mas os seus companheiros ou (devo dizer) seguidores eram "gillies" maltrapilhos, tais como os que vira aos montes na minha viagem pelas Highlands. Falavam todos juntos, fervorosamente, em gaélico, cujo som era agradável aos meus ouvidos por causa de Alan; e, embora a chuva tivesse parado e o meu carregador me puxasse para irmos embora, aproximei-me de onde eles estavam para ouvir. A dama repreendia severamente, os outros pedindo desculpas e encolhendo-se perante ela, de modo que tive a certeza de que ela vinha de uma casa de um chefe. Durante todo o tempo, os três procuravam nos bolsos e, pelo que pude entender, tinham o valor de um quarto de centavo entre o grupo; o que me fez sorrir um pouco ao ver todos os habitantes das Highlands iguais em finas reverências e bolsas vazias.

Aconteceu que a rapariga se virou subitamente, de modo que vi o seu rosto pela primeira vez. Não há maior maravilha do que a forma como o rosto de uma jovem se ajusta na mente de um homem e lá permanece, sem que ele saiba explicar o porquê; parece apenas ser a coisa que ele queria. Ela tinha olhos maravilhosamente brilhantes como estrelas, e atrevo-me a dizer que os olhos tiveram um papel nisso; mas o que recordo mais claramente foi a forma como os seus lábios estavam ligeiramente entreabertos enquanto ela se voltava. E, qualquer que fosse a causa, fiquei ali a olhar como um tolo. Da parte dela, como não sabia que havia alguém tão perto, olhou para mim um pouco mais de tempo, e talvez com mais surpresa, do que era inteiramente civilizado.

Passou pela minha cabeça campestre que ela podia estar a admirar as minhas roupas novas; com isso, corei até ao cabelo, e ao ver o meu rubor é de supor que ela tenha tirado as suas próprias conclusões, pois moveu os seus "gillies" mais para baixo na ruela, e voltaram àquela discussão, da qual não pude ouvir mais nada.

Eu já tinha admirado uma rapariga antes, se bem que não de forma tão súbita e forte; e era mais da minha disposição retirar-me do que avançar, pois tinha muito receio de ser alvo de troça por parte das mulheres. Ter-se-ia pensado que eu tinha agora ainda mais razões para seguir a minha prática comum, uma vez que tinha conhecido esta jovem na rua da cidade, aparentemente a seguir um prisioneiro, e acompanhada por dois homens das Highlands muito maltrapilhos e de aspeto indecente. Mas havia aqui um ingrediente diferente; era evidente que a rapariga pensava que eu estive a bisbilhotar os seus segredos; e, com as minhas roupas novas e espada, e no topo da minha nova fortuna, isto era mais do que eu podia engolir. O mendigo a cavalo não podia suportar ser rebaixado tanto, ou, pelo menos, não por esta jovem.

Segui, portanto, e tirei o meu chapéu novo para ela o melhor que pude.

— Senhora — disse eu —, julgo ser apenas justo para comigo que entenda que não falo gaélico. É verdade que estava a ouvir, pois tenho amigos meus do outro lado da linha das Highlands, e o som daquela língua é-me familiar; mas quanto aos seus assuntos privados, se tivesse falado grego, talvez tivesse tido mais hipóteses de os adivinhar.

Ela fez-me uma pequena vénia distante. — Não há mal nenhum — disse ela, com um sotaque bonito, muito semelhante ao inglês (mas mais agradável). — Um gato pode olhar para um rei.

— Não pretendo ofender — disse eu. — Não tenho jeito para os costumes da cidade; nunca antes deste dia pus os pés dentro das portas de Edimburgo. Considere-me um rapaz do campo — é o que sou; e preferiria que eu lho dissesse do que a senhora o descobrir.

— De facto, será algo muito invulgar estranhos falarem uns com os outros na calçada — respondeu ela. — Mas se foi criado no interior, será diferente. Sou tão do interior como vós; sou das Highlands, como pode ver, e considero-me o mais longe possível da minha casa.

— Não faz ainda uma semana que passei a linha — disse eu. — Há menos de uma semana eu estava nas encostas de Balwhidder.

— Balwhidder? — exclama ela. — Vem de Balwhidder! O nome disso faz tudo o que há em mim rejubilar. Não deve estar lá há muito tempo, para não conhecer alguns dos nossos amigos ou família?

— Vivi com um homem muito honesto e bondoso chamado Duncan Dhu Maclaren — respondi.

— Bem, conheço o Duncan, e dá-lhe o nome verdadeiro! — disse ela; — e se ele é um homem honesto, a sua esposa é realmente honesta.

— Sim — disse eu —, são boas pessoas, e o lugar é um lugar bonito.

— Onde no grande mundo existe outro igual! — exclama ela; — eu adoro o cheiro daquele lugar e as raízes que lá crescem.

Fiquei infinitamente cativado pelo espírito da donzela. — Eu poderia desejar ter-lhe trazido um ramo daquela urze — digo eu. — E, embora tenha feito mal em falar consigo no início, agora que parece que temos conhecidos em comum, peço-lhe que não se esqueça de mim. David Balfour é o nome pelo qual sou conhecido. Este é o meu dia de sorte, em que acabei de entrar numa propriedade de terras e não faz muito tempo que saí de um perigo mortal. Gostaria que mantivesse o meu nome na memória por causa de Balwhidder — disse eu —, e eu manterei o seu por causa do meu dia de sorte.

— O meu nome não é pronunciado — respondeu ela, com muito orgulho. — Há mais de cem anos que não passa nas línguas dos homens, exceto por um relance. Sou sem nome, como o Povo da Paz. Catriona Drummond é o que uso.

Agora, de facto, eu sabia onde estava. Em toda a Escócia não havia senão um nome proscrito, e era o nome dos Macgregors. Contudo, longe de fugir a esta indesejável amizade, mergulhei ainda mais fundo.

— Estive sentado com alguém que estava no mesmo caso que vós — disse eu —, e julgo que ele será um dos vossos amigos. Chamavam-lhe Robin Oig.

— Chamaram? — exclama ela. — Conheceu o Rob?

— Passei a noite com ele — disse eu.

— Ele é uma ave noturna — disse ela.

— Havia lá um conjunto de gaitas de foles — continuei —, por isso pode julgar se o tempo passou.

— Não deve ser um inimigo, em qualquer caso — disse ela. — Aquele era o seu irmão ali há um momento, com os soldados vermelhos à volta dele. É a ele que chamo pai.

— É verdade? — exclamei. — É filha de James More?

— Toda a filha que ele tem — diz ela: — a filha de um prisioneiro; que eu me esqueça disso, mesmo por uma hora, para falar com estranhos!

Aqui um dos "gillies" dirigiu-se a ela no pouco inglês que tinha, para saber o que "ela" (querendo dizer com isso ele próprio) devia fazer quanto ao "ta sneeshin" (tabaco de rapé). Tomei nota dele como um homem baixo, de pernas arqueadas, ruivo e de cabeça grande, que eu viria a conhecer melhor para meu custo.

— Não pode haver nada hoje, Neil — respondeu ela. — Como vais conseguir rapé, sem dinheiro! Isto ensinar-te-á a ter mais cuidado noutra ocasião; e penso que James More não ficará muito satisfeito com Neil de Tom.

— Menina Drummond — disse eu —, disse-lhe que estava no meu dia de sorte. Aqui estou eu, e um carregador de banco na minha retaguarda. E lembre-se que recebi a hospitalidade da sua própria terra de Balwhidder.

— Não foi um dos meus que a deu — disse ela.

— Ah, bem — disse eu —, mas devo ao seu tio pelo menos algumas melodias nas gaitas. Além disso, ofereci-me para ser seu amigo, e a senhora foi tão esquecida que não me recusou a tempo.

— Se fosse uma grande soma, poderia ter-lhe dado honra — disse ela; — mas dir-lhe-ei o que é isto. James More jaz acorrentado na prisão; mas há algum tempo que o trazem diariamente aqui, ao Advocate...

— Ao Advocate! — gritei. — É esse...?

— É a casa do Lord Advocate Grant de Prestongrange — disse ela. — É lá que trazem o meu pai uma e outra vez, com que propósito não faço ideia; mas parece que nasceu alguma esperança para ele. Durante todo este tempo, não me deixam vê-lo, nem ele escrever; e nós esperamos na rua do Rei para o apanhar; e agora damos-lhe o seu rapé enquanto ele passa, e agora outra coisa. E aqui está este filho de problemas, Neil, filho de Duncan, que perdeu a minha moeda de quatro pence que servia para comprar esse rapé, e James More tem de ficar sem ele, e pensará que a sua filha se esqueceu dele.

Tirei seis pence do bolso, dei-os a Neil e ordenei-lhe que fosse tratar do seu recado. Depois, para ela: — Aqueles seis pence vieram comigo de Balwhidder — disse eu.

— Ah! — disse ela —, é um amigo dos Gregara!

— Também não gostaria de a enganar — disse eu. — Sei muito pouco sobre os Gregara e menos sobre James More e os seus feitos, mas desde que estou parado nesta ruela, parece que sei algo sobre si; e se apenas disser "um amigo da menina Catriona", ver-se-á que foi menos enganada.

— O um não pode existir sem o outro — disse ela.

— Tentarei mesmo — disse eu.

— E o que pensará de mim! — exclamou ela —, por estar a dar a mão ao primeiro estranho!

— Não penso nada senão que é uma boa filha — disse eu.

— Não devo ficar sem retribuir — disse ela; — onde é que o senhor para?

— Para dizer a verdade, não paro em lado nenhum ainda — disse eu —, estando há menos de três horas na cidade; mas se me der o seu endereço, serei ousado o suficiente para vir procurar os meus seis pence por mim mesmo.

— Posso confiar no senhor para isso? — perguntou ela.

— Não precisa de ter medo — disse eu.

— James More não poderia suportar de outra forma — disse ela. — Eu paro para além da aldeia de Dean, no lado norte da água, com a Sra. Drummond-Ogilvy de Allardyce, que é uma amiga próxima minha e ficará feliz por lhe agradecer.

— Então, verá-me assim que o que tenho para fazer me permita — disse eu; e, com a lembrança de Alan a voltar novamente à minha mente, apressei-me a despedir.

Não pude deixar de pensar, mesmo ao fazê-lo, que tínhamos sido extraordinariamente livres após um curto conhecimento, e que uma jovem verdadeiramente sensata teria sido mais reservada. Creio que foi o porteiro do banco que me afastou deste pensamento pouco cavalheiresco.

— Pensei que o senhor fosse um rapaz com algum senso — começou ele, distendendo os lábios. — Não me parece que vá longe por este caminho. Um tolo e o seu dinheiro depressa se separam. Eh, mas é um rapaz verde! — exclamou ele, — e vicioso, também! Andar a engatar com moças de rua!

— Se se atrever a falar da jovem... — comecei.

— Senhora! — gritou ele. — Valha-nos Deus, que senhora? Chama àquilo uma senhora? A cidade está cheia delas. Senhoras! Homem, vê-se bem que não é muito chegado a Edimburgo!

Uma onda de raiva apoderou-se de mim.

— Aqui — disse eu, — leve-me para onde lhe indiquei e mantenha essa boca suja fechada!

Ele não me obedeceu totalmente, pois, embora já não se dirigisse diretamente a mim, cantou de forma muito insolente na minha direção, como que por insinuação, e com uma voz e um ouvido extremamente maus —

— Quando Mally Lee descia a rua, o seu capuz voou, Lançou um olhar para trás para ver o seu negligé. E andamos todos para leste e oeste, andamos todos a esmo, Andamos todos para leste e oeste a cortejar Mally Lee.

CAPÍTULO II. O ESCRIVÃO DAS HIGHLANDS

O Sr. Charles Stewart, o escrivão, habitava no topo da escadaria mais longa que algum pedreiro alguma vez construiu; quinze lanços, nada menos; e quando cheguei à sua porta, e um empregado a abriu, dizendo-me que o seu mestre estava dentro, mal tinha fôlego para mandar o meu porteiro embora.

— Vá para leste e oeste com o diabo que o carregue! — disse eu, tirei a bolsa de dinheiro das mãos dele e segui o empregado para dentro.

A sala exterior era um escritório com a cadeira do empregado junto a uma mesa coberta de papéis legais. Na câmara interior, que dava para ali, um homem pequeno e enérgico estava debruçado sobre uma escritura, da qual mal levantou os olhos à minha entrada; na verdade, manteve o dedo no lugar, como se estivesse preparado para me mostrar a saída e voltar aos seus estudos. Isto agradou-me muito pouco; e o que menos me agradou foi pensar que o empregado estava numa boa posição para ouvir o que se passaria entre nós.

Perguntei se ele era o Sr. Charles Stewart, o escrivão.

— O próprio — diz ele; — e, se a pergunta for igualmente justa, quem pode ser o senhor?

— Nunca ouviu falar do meu nome nem de mim — disse eu, — mas trago-lhe uma lembrança de um amigo que conhece bem. Que conhece bem — repeti, baixando a voz, — mas que talvez não esteja tão interessado em ouvir falar neste momento. E os pequenos assuntos que tenho para lhe propor são de natureza bastante confidencial. Em suma, gostaria de pensar que estávamos completamente a sós.

Ele levantou-se sem mais palavras, atirando o papel para baixo como um homem descontente, enviou o seu empregado numa recado e fechou a porta da casa atrás de si.

— Agora, senhor — disse ele, regressando, — diga o que tem a dizer e não tema nada; embora antes de começar — exclama ele, — digo-lhe que o meu pressentimento é mau! Digo-lhe de antemão: ou o senhor é um Stewart, ou foi um Stewart que o enviou. É um bom nome, e ficaria mal ao filho do meu pai tratá-lo levianamente. Mas começo a estremecer ao ouvi-lo.

— O meu nome é Balfour — disse eu, — David Balfour de Shaws. Quanto àquele que me enviou, deixarei que a sua lembrança fale. — E mostrei o botão de prata.

— Ponha isso no bolso, senhor! — grita ele. — Não precisa de dizer nomes. Pelo diabo, eu reconheço o botão dele! E que o diabo o carregue! Onde está ele agora!

Disse-lhe que não sabia onde estava Alan, mas que ele tinha algum lugar seguro (ou assim pensava) no lado norte, onde deveria ficar até que se encontrasse um navio para ele; e como e onde ele tinha combinado encontrar-se.

— Sempre fui da opinião de que acabaria na forca por causa desta minha família — exclamou ele, — e, raio! Acredito que o dia chegou! Arranjar um navio para ele, diz ele! E quem é que o vai pagar? O homem está louco!

— Essa é a minha parte do assunto, Sr. Stewart — disse eu. — Aqui está uma bolsa com bom dinheiro, e se for preciso mais, há mais de onde este veio.

— Não preciso de perguntar as suas convicções políticas — disse ele.

— Não precisa — disse eu, sorrindo, — pois sou tão Whig quanto possível.

— Espere um pouco, espere um pouco — diz o Sr. Stewart. — O que é tudo isto? Um Whig? Então, por que está aqui com o botão do Alan? E que tipo de negócio obscuro é este em que o encontro, Sr. Whig? Aqui está um rebelde condenado e um assassino acusado, com duzentas libras sobre a sua cabeça, e o senhor pede-me para me meter nos negócios dele, e depois diz-me que é um Whig! Não me lembro de nenhuns Whigs assim antes, embora tenha conhecido muitos deles.

— Ele é um rebelde condenado, o que é uma pena — disse eu, — pois o homem é meu amigo. Só posso desejar que tivesse sido melhor aconselhado. E um assassino acusado, isso é ele também, para sua desgraça; mas injustamente acusado.

— Ouço-o dizer isso — disse Stewart.

— Mais do que me ouvirá dizer isso, dentro em breve — disse eu. — Alan Breck é inocente, e James também.

— Oh! — diz ele, — os dois casos estão ligados. Se Alan está fora, James nunca pode estar dentro.

Aqui contei-lhe brevemente o meu conhecimento com Alan, o acidente que me tornou presente no assassinato de Appin, e as várias passagens da nossa fuga por entre a charneca, e a recuperação da minha propriedade. — Portanto, senhor, tem agora toda a sequência destes eventos — continuei, — e pode ver por si mesmo como me vi tão envolvido nos assuntos da sua família e amigos, os quais (para bem de todos nós) desejava que tivessem sido mais claros e menos sangrentos. Pode ver por si mesmo, também, que tenho certos assuntos pendentes que dificilmente seriam adequados para apresentar a um advogado escolhido ao acaso. Não resta mais nada, senão perguntar se assumirá o meu serviço?

— Não tenho grande vontade disso; mas, vindo como o senhor vem com o botão do Alan, a escolha mal me é deixada — disse ele. — Quais são as suas instruções? — acrescentou, e pegou na sua pena.

— O primeiro ponto é tirar Alan deste país às escondidas — disse eu, — mas não preciso de repetir isso.

— Dificilmente me esquecerei disso — disse Stewart.

— A segunda coisa é o pouco dinheiro que devo a Cluny — continuei. — Seria difícil para mim encontrar um meio de envio, mas isso não deveria ser um obstáculo para si. Eram duas libras, cinco xelins e três meios-peniques e um farthing esterlinos.

Ele anotou.

— Depois — disse eu, — há um Sr. Henderland, um pregador licenciado e missionário em Ardgour, a quem gostaria muito de fazer chegar algum rapé; e, como suponho que mantém contacto com os seus amigos em Appin (tão perto), é um trabalho que sem dúvida poderia tratar juntamente com o outro.

— Quanto rapé devemos dizer? — perguntou ele.

— Estava a pensar em duas libras — disse eu.

— Duas — disse ele.

— Depois, há a rapariga Alison Hastie, em Lime Kilns — disse eu. — Aquela que ajudou o Alan e a mim a atravessar o Forth. Estava a pensar que, se lhe pudesse arranjar um bom vestido de domingo, tal como ela pudesse usar com decência na sua condição, seria um alívio para a minha consciência; pois a pura verdade é que lhe devemos as nossas duas vidas.

— Fico contente por ver que é poupado, Sr. Balfour — diz ele, fazendo as suas notas.

— Teria vergonha de ser de outra forma no primeiro dia da minha fortuna — disse eu. — E agora, se calcular a despesa e os seus próprios honorários, gostaria de saber se poderia receber algum dinheiro de volta. Não é que me doa gastar tudo para pôr o Alan em segurança; não é que me falte mais; mas tendo retirado tanto num dia, penso que teria um aspeto muito mau se voltasse a pedir no dia seguinte. Apenas tenha a certeza de que tem o suficiente — acrescentei, — pois não tenho qualquer desejo de voltar a encontrar-me consigo.

— Bem, e fico contente por ver que também é cauteloso — disse o escrivão. — Mas penso que corre um risco ao colocar uma quantia tão considerável à minha discrição.

Ele disse isto com um desdém evidente.

— Terei de correr o risco — respondi. — Oh, e há outro serviço que gostaria de pedir, e é o de me indicar um alojamento, pois não tenho onde cair morto. Mas deve ser um alojamento que pareça ter encontrado por acaso, pois nunca daria certo se o Lorde Advogado tivesse algum ciúme do nosso conhecimento.

— Pode descansar o seu espírito cansado — disse ele. — Nunca mencionarei o seu nome, senhor; e é a minha convicção que o Advogado ainda é tão digno de simpatia que nem conhece a sua existência.

Vi que tinha entrado pelo lado errado com o homem.

— Haverá um belo dia a chegar para ele, então — disse eu, — pois ele terá de saber disso pelo lado surdo da sua cabeça, não mais tardar do que amanhã, quando for visitá-lo.

— Quando for visitá-lo! — repetiu o Sr. Stewart. — Estou louco, ou está você! O que o leva perto do Advogado!

— Oh, apenas para me entregar — disse eu.

— Sr. Balfour — gritou ele, — está a troçar de mim?

— Não, senhor — disse eu, — embora pense que se permitiu tal liberdade comigo. Mas quero que entenda de uma vez por todas que não estou com espírito de troça.

— Nem eu — diz Stewart. — E quero que entenda (se essa é a palavra) que gosto cada vez menos do aspeto do seu comportamento. O senhor vem aqui ter comigo com todo o tipo de propostas, que me colocarão numa série de atos muito duvidosos e me levarão a conviver com pessoas muito indesejáveis durante muitos dias. E depois diz-me que vai sair diretamente do meu escritório para fazer as pazes com o Advogado! Botão do Alan aqui ou botão do Alan ali, os quatro quartos do Alan não me subornariam mais.

— Eu levaria isso com um pouco mais de calma — disse eu, — e talvez possamos evitar o que critica. Não vejo outra forma senão a de me entregar, mas talvez o senhor veja outra; e se pudesse, nunca negaria que ficaria bastante aliviado. Pois penso que o meu trato com sua excelência tem poucas probabilidades de fazer bem à minha saúde. Só há uma coisa clara: que tenho de dar o meu testemunho; pois espero que salve o carácter do Alan (o que resta dele) e o pescoço do James, que é o mais imediato.

Ele ficou em silêncio por um breve momento, e depois: — Meu caro — disse ele, — nunca lhe será permitido dar tal testemunho.

— Veremos quanto a isso — disse eu; — sou obstinado quando quero.

— Seu grande asno! — gritou Stewart, — é o James que eles querem; o James tem de ser enforcado — o Alan também, se o pudessem apanhar — mas o James, seja como for! Vá perto do Advogado com tal assunto, e verá! Ele encontrará uma maneira de o amordaçar.

— Tenho melhor opinião do Advogado do que isso — disse eu.

— O Advogado que se dane! — grita ele. — São os Campbells, homem! Terá toda a corja deles às suas costas; e o Advogado também, pobre criatura! É extraordinário que não consiga ver onde está! Se não há forma justa de parar a sua língua, há uma imunda à espera. Podem colocá-lo no banco dos réus, não vê isso? — gritou ele, e picou-me na perna com um dedo.

— Sim — disse eu, — disseram-me o mesmo ainda esta manhã por outro advogado.

— E quem foi ele? — perguntou Stewart, — Ele falou sensatamente, pelo menos.

Disse-lhe que teria de me desculpar por não nomeá-lo, pois era um Whig decente e robusto, e tinha pouca vontade de ser misturado em tais assuntos.

— Parece que o mundo inteiro está misturado nisso! — grita Stewart. — Mas o que lhe disse?

— Contei-lhe o que tinha passado entre Rankeillor e eu antes da casa de Shaws.

— Bem, e assim o senhor vai para a forca! — disse ele. — Vai enforcar-se ao lado de James Stewart. Aí tem a sua sorte traçada.

— Espero melhor do que isso — disse eu; — mas nunca poderia negar que havia um risco.

— Risco! — diz ele, e depois sentou-se em silêncio novamente. — Devia agradecer-lhe a sua firmeza para com os meus amigos, a quem mostra um espírito muito bom — diz ele, — se tiver força para se manter fiel a isso. Mas aviso-o de que está a entrar em águas profundas. Eu não me colocaria no seu lugar (eu que sou um Stewart de nascimento!) por todos os Stewarts que alguma vez existiram desde Noé. Risco? Sim, corro muitos; mas ser julgado em tribunal perante um júri Campbell e um juiz Campbell, e isso num país Campbell e sobre uma disputa Campbell — pense o que quiser de mim, Balfour, é demais para mim.

— É uma forma diferente de pensar, suponho — disse eu; — fui educado desta maneira pelo meu pai antes de mim.

— Glória aos seus ossos! Deixou um filho decente para o seu nome — diz ele. — Contudo, não gostaria que me julgasse demasiado severamente. O meu caso é terrivelmente difícil. Veja, senhor, diz-me que é um Whig: pergunto-me o que sou eu. Whig, certamente que não; não poderia ser apenas isso. Mas — baixinho ao seu ouvido, homem — talvez não seja muito fervoroso do outro lado.

— É um facto? — gritei eu. — É o que eu pensaria de um homem da sua inteligência.

— Calado! Nada de rodeios! — grita ele. — Há inteligência de ambos os lados. Mas, pela minha parte, não tenho qualquer desejo particular de prejudicar o Rei George; e quanto ao Rei James, que Deus o abençoe! Ele faz muito bem por mim do outro lado do oceano. Sou advogado, veja bem: gosto dos meus livros e da minha garrafa, de uma boa petição, de uma escritura bem redigida, de uma conversa no Parlamento com outros colegas advogados, e talvez uma partida de golfe num sábado à noite. Onde é que entra o senhor com os seus tartãs e claymores das Highlands?

— Bem — disse eu, — é um facto que tem pouco do homem selvagem das Highlands.

— Pouco? — diz ele. — Nada, homem! E, no entanto, sou das Highlands, e quando os gaitistas do clã tocam, quem senão eu tem de dançar! O clã e o nome, isso está acima de tudo. É exatamente o que o senhor próprio disse; o meu pai ensinou-mo, e é um belo ofício que tenho. Traição e traidores, e o contrabando deles para fora e para dentro; e o recrutamento francês, que azar! E o contrabando dos recrutas; e as suas petições — que tristeza as suas petições! Aqui estive eu a apresentar uma para o jovem Ardsheil, meu primo; reclamou a propriedade sob o contrato de casamento — uma propriedade confiscada! Disse-lhes que era um disparate: grande coisa que eles se importaram! E lá estava eu, curvado atrás de um advogado que gostava do assunto tão pouco quanto eu, pois era a ruína total para ambos — uma marca negra, desafeiçoado, marcado nas nossas ancas, como nomes de pessoas no seu gado! E o que posso fazer? Sou um Stewart, veja bem, e tenho de defender o meu clã e família. Depois, não mais tarde do que ontem, houve um dos nossos rapazes Stewart levado para o Castelo. Porquê? Sei muito bem: Ato de 1736: recrutamento para o Rei Luís. E verá, ele vai chamar-me para ser o seu advogado, e haverá outra marca negra na minha reputação! Digo-lhe francamente: se eu soubesse a cabeça de uma palavra hebraica das ancas dela, que me danem se eu não atirasse tudo para o ar e me tornasse ministro!

— É uma posição bastante difícil — disse eu.

— Terrivelmente difícil! — grita ele. — E é isso que me faz pensar tanto em si — o senhor que não é Stewart — a meter a cabeça tão profundamente em negócios dos Stewarts. E porquê, não sei: a menos que fosse o sentido do dever.

— Espero que seja isso — disse eu.

— Bem — diz ele, — é uma grande qualidade. Mas aqui está o meu empregado de volta; e, com a sua licença, vamos petiscar um pouco, os três. Quando isso estiver feito, dar-lhe-ei a morada de um homem muito decente, que ficará muito contente por tê-lo como hóspede. E encher-lhe-ei os bolsos, além disso, com o dinheiro da sua própria bolsa. Pois este negócio não será nem de perto tão caro como supõe — nem sequer a parte do navio.

Fiz-lhe um sinal de que o seu empregado estava a ouvir.

— Ora, não se preocupe com o Robbie — grita ele. — Um Stewart, também, pobre diabo! E contrabandeou mais recrutas franceses e papistas traficantes do que os cabelos que tem na cara. Por que, é o Robin que gere esse ramo dos meus assuntos. Quem teremos agora, Rob, para o outro lado do oceano?

— Há o Andie Scougal, no Thristle — respondeu Rob. — Vi o Hoseason no outro dia, mas parece que ele está sem navio. Depois há o Tam Stobo; mas não tenho tanta certeza quanto ao Tam. Vi-o a conspirar com alguns conhecidos muito estranhos; e se fosse alguém importante, eu ignoraria o Tam.

— A cabeça vale duzentas libras, Robin — disse Stewart.

— Raios, não será o Alan Breck! — gritou o empregado.

— O próprio Alan — disse o seu mestre.

— Vento nos leve! Isso é sério — gritou Robin. — Tentarei o Andie, então; o Andie será o melhor.

— Parece que é um negócio bastante grande — observei.

— Sr. Balfour, não tem fim — disse Stewart.

— Houve um nome que o seu empregado mencionou — continuei: — Hoseason. Esse deve ser o meu homem, penso eu: Hoseason, do brigue Covenant. Confiaria nele?

— Ele não se comportou muito bem consigo e com o Alan — disse o Sr. Stewart; — mas a minha ideia do homem em geral é bastante diferente. Se ele tivesse levado o Alan a bordo do seu navio num acordo, a minha ideia é que teria provado ser um negociante justo. O que diz, Rob?

— Não há capitão mais honesto no comércio do que o Eli — disse o empregado. — Eu confiaria na palavra do Eli — sim, mesmo que fosse o Chevalier, ou o próprio Appin — acrescentou.

— E foi ele que trouxe o médico, não foi? — perguntou o mestre.

— Foi o próprio homem — disse o empregado.

— E penso que ele levou o médico de volta? — diz Stewart.

— Sim, com o seu bornal cheio! — gritou Robin. — E o Eli sabia disso!

— Bem, parece que é difícil conhecer as pessoas corretamente — disse eu.

— Foi exatamente isso que me esqueci quando entrou, Sr. Balfour! — diz o escrivão.

CAPÍTULO III. VOU PARA PILRIG

Na manhã seguinte, não tinha acabado de acordar no meu novo alojamento quando já estava de pé e com a minha roupa nova; e não tinha acabado de tomar o pequeno-almoço, quando já estava fora nas minhas aventuras. Alan, podia esperar, estava cuidado; James parecia ser um assunto mais difícil, e não pude deixar de pensar que esse empreendimento me poderia custar caro, tal como todos diziam a quem tinha aberto a minha opinião. Parecia que tinha chegado ao topo da montanha apenas para me atirar abaixo; que tinha subido, através de tantas e difíceis provações, para ser rico, para ser reconhecido, para usar roupas da cidade e uma espada ao lado, tudo para cometer um mero suicídio no fim de tudo, e o pior tipo de suicídio, aliás, que é ser enforcado às custas do Rei.

Por que razão o estaria a fazer? Perguntei-me, enquanto descia a High Street e saía para norte por Leith Wynd. Primeiro disse a mim mesmo que era para salvar James Stewart; e, sem dúvida, a memória da sua angústia, dos gritos da sua esposa e de uma ou duas palavras que deixara escapar naquela ocasião, influenciaram-me fortemente. Ao mesmo tempo, refleti que era (ou deveria ser) um assunto da maior indiferença para o filho do meu pai se James morresse na sua cama ou num cadafalso. Era primo de Alan, é certo; mas, no que respeitava a Alan, o melhor seria manter-me em silêncio e deixar que o Rei, a Sua Graça de Argyll e os corvos da charneca escolhessem os ossos do seu parente à sua própria maneira. Nem podia esquecer que, enquanto estávamos todos no mesmo barco, James não demonstrara qualquer ansiedade particular quer por Alan, quer por mim.

A seguir, ocorreu-me que eu agia em nome da justiça: e achei que essa era uma palavra nobre, e argumentei que (uma vez que vivíamos em sociedades políticas, com certo desconforto para cada um de nós) a coisa principal de todas devia ser ainda a justiça, e a morte de qualquer homem inocente uma ferida em toda a comunidade. Depois, novamente, foi o Acusador dos Irmãos que me deu uma volta ao seu argumento; ordenou-me que me envergonhasse de me pretender preocupado com estes assuntos elevados, e disse-me que eu não passava de uma criança vaidosa e faladora, que dissera grandes palavras a Rankeillor e a Stewart, e que me sentia obrigado pela minha vaidade a cumprir essa jactância. Ora, e ele atingiu-me com a outra ponta do pau; pois acusou-me de uma espécie de covardia astuta, andando por aí à custa de um pequeno risco para comprar maior segurança. Sem dúvida, até que eu me tivesse declarado e esclarecido, poderia a qualquer dia encontrar Mungo Campbell ou o oficial do xerife, ser reconhecido e arrastado para o homicídio de Appin pelos calcanhares; e, sem dúvida, caso conseguisse fazer a minha declaração com sucesso, respiraria mais livremente para sempre depois. Mas, quando olhei este argumento de frente, não consegui ver nada de que me envergonhar. Quanto ao resto, "Eis os dois caminhos", pensei, "e ambos vão para o mesmo lugar. É injusto que James seja enforcado se o posso salvar; e seria ridículo da minha parte ter falado tanto para depois não fazer nada. É uma sorte para James of the Glens que eu tenha gabado-me de antemão; e não é tão azarado para mim, porque agora estou comprometido a fazer o que é correto. Tenho o nome de um cavalheiro e os meios de um; seria um pobre dever se me faltasse a essência." E então pensei que este era um espírito pagão, e disse uma oração para comigo, pedindo a coragem que me pudesse faltar, e que pudesse seguir direto para o meu dever como um soldado para a batalha, e sair de lá incólume, como tantos fazem.

Este encadeamento de raciocínio levou-me a um temperamento mais resoluto; embora estivesse longe de fechar o meu sentido dos perigos que me rodeavam, nem de quão apto eu estava (se continuasse) a tropeçar na escada da forca. Era uma manhã clara e justa, mas com vento de leste. O leve arrepio cantava no meu sangue e dava-me uma sensação de outono, de folhas mortas e de corpos de gente morta nas suas sepulturas. Parecia que o diabo estava por trás disso, se eu tivesse de morrer naquela maré da minha sorte e por causa dos negócios alheios. No cimo de Calton Hill, embora não fosse a época habitual do ano para essa diversão, algumas crianças choravam e corriam com as suas papagaios de papel. Estes brinquedos pareciam muito nítidos contra o céu; reparei num grande que subiu com o vento a uma grande altitude e depois mergulhou entre as tojos; e pensei para comigo, ao vê-lo: "Lá vai o Davie."

O meu caminho passava por Mouter’s Hill e por um extremo de um clachan na encosta, entre campos. Ouve-se um zumbido de teares que ia de casa em casa; abelhas zumbiam nos jardins; os vizinhos que vi à porta das casas falavam numa língua estranha; e descobri mais tarde que isto era Picardy, uma aldeia onde os tecelões franceses trabalhavam para a Linen Company. Aqui obtive uma nova direção para Pilrig, o meu destino; e um pouco mais à frente, na beira do caminho, passei por um patíbulo e dois homens enforcados em correntes. Estavam banhados em alcatrão, como é costume; o vento fazia-os girar, as correntes retiniam e os pássaros pairavam em torno dos sinistros bonecos saltitantes e gritavam. A visão, caindo sobre mim de repente, como uma ilustração dos meus medos, mal pude deixar de a examinar e de beber o desconforto. E, enquanto eu assim girava e girava em torno do patíbulo, em que é que fui dar senão numa velha estranha, que estava sentada atrás de uma das pernas da forca, e acenava e falava em voz alta consigo mesma, com vénias e cortesias.

"Quem são estes dois, mãe?" perguntei, apontando para os cadáveres.

"Uma bênção sobre o teu rosto precioso!" gritou ela. "Dois dos meus namorados: apenas dois dos meus velhos namorados, meu querido docinho."

"O que sofreram eles?" perguntei.

"Ora, apenas pela boa causa," disse ela. "Muitas vezes previ-lhes a forma como acabaria. Duas xelins escoceses: nem um pouco mais; e lá estão dois belos rapazes a baloiçar por causa disso! Tiraram-no a uma criança que pertencia a Brouchton."

"Sim!" disse eu para mim mesmo, e não para a louca criatura, "e chegaram a tal ponto por um negócio tão insignificante? Isto é perder tudo, de facto."

"Dá-me a tua palma, docinho," diz ela, "e deixa-me prever o teu destino."

"Não, mãe," disse eu, "vejo longe o suficiente para o caminho onde estou. É uma coisa terrível ver demasiado à frente."

"Li-o no teu rosto," disse ela. "Há uma bela rapariga que tem olhos brilhantes, e há um homem pequeno num casaco elegante, e um homem grande com uma peruca empoada, e há a sombra da forca, meu caro, que se estende por todo o teu caminho. Dá-me a tua palma, docinho, e deixa a Velha Merren prever-te o futuro com beleza."

Os dois tiros ao acaso que pareciam apontar para Alan e a filha de James More atingiram-me fortemente; e fugi da criatura medonha, atirando-lhe uma moeda, com a qual ela continuou sentada a brincar sob as sombras em movimento dos enforcados.

O meu caminho pela calçada de Leith Walk teria sido mais agradável para mim, não fosse este encontro. O velho baluarte corria entre campos, cujos semelhantes nunca tinha visto pela engenhosidade da agricultura; sentia-me satisfeito, além disso, por estar tão longe no campo silencioso; mas os grilhões do patíbulo retiniam na minha cabeça; e as caretas e trejeitos da velha bruxa, e o pensamento dos homens mortos, assombravam o meu espírito. Pendurar numa forca parecia um caso duro; e quer um homem fosse lá parar por dois xelins escoceses, ou (como dizia o Sr. Stewart) por sentido de dever, uma vez que estivesse alcatroado, acorrentado e pendurado, a diferença parecia pequena. Ali poderia David Balfour ficar pendurado, e outros rapazes passar nos seus afazeres e pensar pouco nele; e velhas loucas sentarem-se ao pé de uma perna de forca a prever os seus destinos; e as donzelas limpas e gentis passarem, olharem para o outro lado e taparem o nariz. Vi-as claramente, e tinham olhos cinzentos, e os seus véus sobre as cabeças eram das cores de Drummed.

Eu estava, pois, no pior dos humores, embora ainda bastante decidido, quando avistei Pilrig, uma casa agradável com empenas, situada na beira do caminho entre alguns bosques jovens e corajosos. O cavalo do proprietário estava selado à porta quando cheguei, mas ele próprio estava no escritório, onde me recebeu no meio de obras eruditas e instrumentos musicais, pois ele não era apenas um filósofo profundo, mas também um grande músico. Cumprimentou-me de início bastante bem e, quando leu a carta de Rankeillor, colocou-se, de forma obrigadora, ao meu dispor.

"E o que é, primo David!" disse ele — "uma vez que parece que somos primos — o que é isto que posso fazer por si? Uma palavra para Prestongrange! Sem dúvida que é facilmente dada. Mas qual deve ser a palavra?"

"Sr. Balfour," disse eu, "se eu lhe contasse toda a minha história tal como aconteceu, é a minha opinião (e era a de Rankeillor antes de mim) que o senhor não ficaria nada satisfeito com ela."

"Lamento ouvir isto de si, parente," diz ele.

"Não posso aceitar isso vindo de si, Sr. Balfour," disse eu; "não tenho nada que me pese na consciência para me fazer lamentar, ou ao senhor lamentar por mim, a não ser as falhas comuns da humanidade. 'A culpa do primeiro pecado de Adão, a falta de justiça original e a corrupção de toda a minha natureza', a tanto devo responder, e espero ter sido ensinado onde procurar ajuda," disse eu; pois julguei, pelo olhar do homem, que ele teria melhor opinião de mim se eu conhecesse as minhas questões. "Mas, em matéria de honra mundana, não tenho nenhum grande tropeço de que me reprovar; e as minhas dificuldades aconteceram-me muito contra a minha vontade e (por tudo o que vejo) sem culpa minha. O meu problema é ter ficado imerso numa complicação política, da qual se julga que o senhor ficaria feliz por evitar o conhecimento."

"Ora, muito bem, Sr. David," respondeu ele, "fico satisfeito por ver que é tudo o que Rankeillor representou. E quanto ao que diz sobre complicações políticas, não me faz mais do que justiça. É o meu estudo estar acima de qualquer suspeita e, de facto, fora do campo dela. A questão é," diz ele, "como, se não devo saber nada sobre o assunto, posso ajudá-lo?"

"Ora, senhor," disse eu, "proponho que escreva a Sua Senhoria que sou um jovem de família razoavelmente boa e de bons meios: ambas as coisas que acredito serem o caso."

"Tenho a palavra de Rankeillor para isso," disse o Sr. Balfour, "e considero isso uma garantia contra todo o perigo."

"Ao que poderia acrescentar (se quiser acreditar na minha palavra quanto a isso) que sou um bom membro da igreja, leal ao Rei Jorge, e assim criado," continuei.

"Nada do que não lhe fará mal," disse o Sr. Balfour.

"Depois poderia continuar dizendo que procurei Sua Senhoria sobre um assunto de grande importância, ligado ao serviço de Sua Majestade e à administração da justiça," sugeri.

"Como não devo ouvir o assunto," diz o proprietário, "não assumirei a responsabilidade de qualificar o seu peso. 'Grande importância', portanto, cai por terra, e 'importância' juntamente com ele. Quanto ao resto, poderia expressar-me muito como propõe."

"E então, senhor," disse eu, e esfreguei o pescoço um pouco com o polegar, "então ficaria muito desejoso se pudesse inserir uma palavra que talvez pudesse contar para a minha proteção."

"Proteção?" diz ele, "para a sua proteção! Eis uma frase que me desencoraja um pouco. Se o assunto for tão perigoso, confesso que ficaria um pouco relutante em avançar nele de olhos vendados."

"Creio que poderia indicar em duas palavras onde a coisa prende," disse eu.

"Talvez isso fosse o melhor," disse ele.

"Bem, é o homicídio de Appin," disse eu.

Ele ergueu ambas as mãos. "Senhores! Senhores!" gritou ele.

Pensei, pela expressão do seu rosto e voz, que tinha perdido o meu auxiliador.

"Deixe-me explicar..." comecei.

"Agradeço-lhe amavelmente, não ouvirei mais nada sobre isso," diz ele. "Recuso-me in toto a ouvir mais sobre isso. Pelo seu nome e pelo de Rankeillor, e talvez um pouco pelo seu próprio, farei o que puder para o ajudar; mas não ouvirei mais nada sobre os factos. E é o meu primeiro dever claro avisá-lo. Estas são águas profundas, Sr. David, e o senhor é um jovem. Seja cauteloso e pense duas vezes."

"Supõe-se que terei pensado mais vezes do que isso, Sr. Balfour," disse eu, "e dirigirei a sua atenção novamente para a carta de Rankeillor, onde (espero e acredito) ele registou a sua aprovação daquilo que planeio."

"Bem, bem," disse ele; e depois novamente, "Bem, bem! Farei o que puder por si." Com isto, pegou numa caneta e papel, ficou um tempo a pensar e começou a escrever com muita ponderação. "Compreendo que Rankeillor aprovou o que tem em mente?" perguntou pouco depois.

"Após alguma discussão, senhor, ele mandou-me avançar em nome de Deus," disse eu.

"Esse é o nome em que avançar," disse o Sr. Balfour, e retomou a sua escrita. Pouco depois, assinou, releu o que tinha escrito e dirigiu-se a mim novamente. "Agora aqui, Sr. David," disse ele, "está uma carta de apresentação, que selarei sem fechar, e darei em suas mãos aberta, como a forma exige. Mas, uma vez que estou a agir no escuro, vou apenas lê-la para si, para que possa ver se assegurará o seu fim—

"Pilrig, 26 de agosto de 1751.

"Meu Senhor,—Esta é para trazer ao seu conhecimento o meu homónimo e primo, David Balfour, Esquire de Shaws, um jovem cavalheiro de ascendência imaculada e boas propriedades. Desfrutou, além disso, das vantagens mais valiosas de uma educação piedosa, e os seus princípios políticos são tudo o que Vossa Senhoria pode desejar. Não estou na confiança do Sr. Balfour, mas compreendo que ele tem um assunto a declarar, tocando o serviço de Sua Majestade e a administração da justiça; propósitos para os quais o zelo de Vossa Senhoria é conhecido. Devo acrescentar que a intenção do jovem cavalheiro é conhecida e aprovada por alguns dos seus amigos, que observarão com ansiosa esperança o evento do seu sucesso ou fracasso.

"Ao que," continuou o Sr. Balfour, "subscrevi-me com os cumprimentos habituais. Observa que disse 'alguns dos seus amigos'; espero que possa justificar o meu plural?"

"Perfeitamente, senhor; o meu propósito é conhecido e aprovado por mais do que um," disse eu. "E a sua carta, pela qual tenho o prazer de lhe agradecer, é tudo o que eu poderia ter esperado."

"Foi tudo o que pude extrair," disse ele; "e, pelo que sei do assunto em que pretende intrometer-se, só posso rezar a Deus para que se revele suficiente."

CAPÍTULO IV. LORD ADVOCATE PRESTONGRANGE

O meu parente reteve-me para uma refeição, "pela honra do teto", disse ele; e creio que ganhei mais velocidade no meu regresso. Não tinha outro pensamento senão terminar a fase seguinte e comprometer-me totalmente; para uma pessoa na minha situação, a aparência de fechar uma porta à hesitação e à tentação era extremamente tentadora; e fiquei tanto mais desapontado, quando cheguei à casa de Prestongrange, ao ser informado de que ele estava fora. Acredito que fosse verdade no momento, e por algumas horas depois; e depois não tenho dúvidas de que o Advocate voltou a casa e se divertiu numa sala próxima entre amigos, enquanto talvez o próprio facto da minha chegada fosse esquecido. Teria ido embora uma dúzia de vezes, não fosse esta forte atração de terminar a minha declaração de uma vez por todas e ser capaz de me deitar para dormir com a consciência limpa. No início li, pois o pequeno gabinete onde fui deixado continha uma variedade de livros. Mas temo ter lido com pouco proveito; e o tempo ficando nublado, a escuridão chegando mais cedo do que o habitual, e o meu gabinete sendo iluminado apenas por uma janela em fenda, fui finalmente obrigado a desistir desta diversão (tal como era) e a passar o resto do meu tempo de espera numa vacuidade muito onerosa. O som de pessoas a falar numa sala próxima, a nota agradável de um cravo, e uma vez a voz de uma senhora a cantar, fizeram-me uma espécie de companhia.

Não sei a hora, mas a escuridão já tinha chegado há muito, quando a porta do gabinete se abriu, e percebi, pela luz atrás dele, uma figura alta de um homem no limiar. Levantei-me de imediato.

"Está alguém aí?" perguntou ele. "Quem está aí?"

"Sou portador de uma carta do proprietário de Pilrig para o Lord Advocate," disse eu.

"Está aqui há muito tempo?" perguntou ele.

"Não gostaria de arriscar uma estimativa de quantas horas," disse eu.

"É a primeira vez que ouço falar disso," respondeu ele, com uma risadinha. "Os rapazes devem tê-lo esquecido. Mas está finalmente dentro, pois eu sou Prestongrange."

Dizendo isto, passou à minha frente para a sala seguinte, para onde (sob o seu sinal) o segui, e onde ele acendeu uma vela e tomou o seu lugar perante uma mesa de trabalho. Era uma sala longa, de boas proporções, totalmente forrada de livros. Aquela pequena faísca de luz num canto realçava a figura elegante e o rosto forte do homem. Ele estava corado, o seu olho lacrimejava e brilhava, e antes de se sentar observei-o balançar para a frente e para trás. Sem dúvida, tinha estado a cear liberalmente; mas a sua mente e a sua língua estavam sob total controlo.

"Bem, senhor, sente-se," disse ele, "e vejamos a carta de Pilrig."

Lançou-lhe um olhar descuidado no início, olhando para cima e inclinando-se quando chegou ao meu nome; mas, nas últimas palavras, julguei observar a sua atenção redobrar, e tive a certeza de que as leu duas vezes. Durante todo este tempo, deve supor que o meu coração batia, pois tinha agora cruzado o meu Rubicão e chegado, de facto, ao campo de batalha.

"Tenho o prazer de fazer o seu conhecimento, Sr. Balfour," disse ele, quando terminou. "Deixe-me oferecer-lhe um copo de clarete."

"Sob o seu favor, meu senhor, penso que seria pouco justo para comigo," disse eu. "Vim aqui, como a carta terá mencionado, para um negócio de alguma gravidade para mim; e, como estou pouco habituado a vinho, poderia ser afetado mais cedo."

"O senhor será o juiz," disse ele. "Mas, se me permitir, acredito que eu próprio tomarei a garrafa."

Ele tocou uma campainha, e um criado veio, como que a um sinal, trazendo vinho e copos.

"Tem a certeza de que não se juntará a mim?" perguntou o Advocate. "Bem, aqui está para o nosso melhor conhecimento! De que maneira posso servi-lo?"

"Deveria, talvez, começar por lhe dizer, meu senhor, que estou aqui por seu próprio convite insistente," disse eu.

"O senhor tem vantagem sobre mim em algum ponto," disse ele, "pois professo nunca ter ouvido falar de si antes desta noite."

"Certo, meu senhor; o nome é, de facto, novo para si," disse eu. "E, no entanto, o senhor tem estado, há algum tempo, extremamente desejoso de fazer o meu conhecimento, e declarou o mesmo em público."

"Gostaria que me desse uma pista," diz ele. "Não sou nenhum Daniel."

"Talvez sirva de tal," disse eu, "que se eu estivesse num humor de troça — o que está longe de ser o caso — acredito que poderia apresentar uma reclamação a Vossa Senhoria por duzentas libras."

"Em que sentido?" perguntou ele.

"No sentido de recompensas oferecidas pela minha pessoa," disse eu.

Ele afastou o seu copo de uma vez por todas e sentou-se direito na cadeira onde estivera anteriormente a recostar-se. "O que devo entender?" disse ele.

"Um rapaz alto e forte de cerca de dezoito anos," citei, "_fala como um habitante das terras baixas e não tem barba_."

"Reconheço essas palavras," disse ele, "que, se o senhor veio aqui com qualquer intenção mal ponderada de se divertir, podem revelar-se extremamente prejudiciais para a sua segurança."

"O meu propósito nisto," respondi, "é exatamente tão sério como a vida e a morte, e o senhor entendeu-me perfeitamente. Eu sou o rapaz que estava a falar com Glenure quando ele foi baleado."

"Só posso supor (vendo-o aqui) que alega ser inocente," disse ele.

"A conclusão é clara", disse eu. "Sou um súbdito muito leal ao Rei George, mas se tivesse algo de que me censurar, teria tido mais discrição do que caminhar para dentro da sua cova."

"Fico contente com isso", disse ele. "Este crime horrível, Sr. Balfour, é de uma têmpera que não pode permitir qualquer clemência. Sangue foi barbaramente derramado. Foi derramado em direta oposição a Sua Majestade e a toda a nossa estrutura de leis, por aqueles que são os seus declarados e públicos oponentes. Tomo isto como um assunto muito grave. Não negarei que considero o crime como diretamente pessoal a Sua Majestade."

"E infelizmente, meu senhor", acrescentei, um pouco secamente, "diretamente pessoal a outro grande personagem que pode permanecer sem ser nomeado."

"Se o senhor quer dizer algo com essas palavras, devo dizer-lhe que as considero impróprias para um bom súbdito; e se fossem ditas publicamente, faria questão de tomar nota delas", disse ele. "O senhor não me parece reconhecer a gravidade da sua situação, ou seria mais cuidadoso para não a piorar com palavras que afetam a pureza da justiça. A justiça, neste país, e nas minhas pobres mãos, não respeita pessoas."

"Dá-me demasiada importância nas minhas próprias palavras, meu senhor", disse eu. "Apenas repeti a conversa comum do país, que ouvi em toda a parte e de homens de todas as opiniões enquanto vinha pelo caminho."

"Quando tiver mais discrição, entenderá que tal conversa não deve ser ouvida, quanto mais repetida", diz o Advogado. "Mas absolvo-o de uma má intenção. Aquele nobre, a quem todos honramos, e que foi de fato ferido num lugar próximo pela recente barbárie, senta-se demasiado alto para ser alcançado por essas calúnias. O Duque de Argyle — vê que trato o assunto claramente consigo — toma-o a peito como eu, e como ambos somos obrigados a fazer pelas nossas funções judiciais e pelo serviço de Sua Majestade; e eu desejaria que todas as mãos, nesta má época, estivessem igualmente limpas de rancor familiar. Mas, pelo acidente de ser este um Campbell que caiu mártir do seu dever — pois quem mais senão os Campbells se colocaram sempre na vanguarda desse caminho? — posso dizê-lo, eu que não sou Campbell — e por o chefe dessa grande casa acontecer (apesar de todas as nossas vantagens) ser o atual chefe do Colégio de Justiça, mentes pequenas e línguas desafetadas ficam agitadas em cada estalagem do país; e encontro um jovem cavalheiro como o Sr. Balfour tão mal aconselhado que se torna o eco delas." Falou isto com uma dicção muito oratória, como se estivesse em tribunal, e depois voltou ao modo de um cavalheiro. "Tudo isto à parte", disse ele. "Resta agora que eu saiba o que devo fazer consigo."

"Eu pensava que seria antes eu quem deveria aprender o mesmo com Vossa Senhoria", disse eu.

"Sim, é verdade", diz o Advogado. "Mas, veja, o senhor vem-me bem recomendado. Há um bom nome honesto de Whig nesta carta", diz ele, pegando-a por um momento da mesa. "E — extrajudicialmente, Sr. Balfour — existe sempre a possibilidade de algum arranjo; digo-lhe, e digo-lhe de antemão para que possa estar mais sobre aviso, que o seu destino reside unicamente comigo. Em tal assunto (diga-se com reverência) sou mais poderoso do que a Majestade do Rei; e se me agradar — e, claro, satisfizer a minha consciência — no que resta da nossa entrevista, digo-lhe que pode ficar apenas entre nós."

"O que significa como?", perguntei.

"Ora, quero dizer isto, Sr. Balfour", disse ele, "que se me der satisfação, nenhuma alma precisa de saber sequer que visitou a minha casa; e pode observar que nem sequer chamo o meu escrivão."

Vi o caminho para onde ele se dirigia. "Suponho que é desnecessário que alguém seja informado sobre a minha visita", disse eu, "embora a natureza precisa dos meus ganhos com isso eu não consiga ver. Não me envergonho nada de vir aqui."

"E não tem motivo para o estar", diz ele, encorajadoramente. "Nem ainda (se for cuidadoso) para temer as consequências."

"Meu senhor", disse eu, "falando sob a sua correção, não sou muito fácil de assustar."

"E tenho a certeza de que não procuro assustá-lo", diz ele. "Mas passemos ao interrogatório; e deixe-me avisá-lo para não oferecer nada além das perguntas que lhe farei. Pode consistir muito imediatamente com a sua segurança. Tenho uma grande discrição, é verdade, mas há limites para ela."

"Tentarei seguir o conselho de Vossa Senhoria", disse eu.

Ele espalhou uma folha de papel na mesa e escreveu um cabeçalho. "Parece que o senhor estava presente, aliás, no bosque de Lettermore no momento do disparo fatal", começou ele. "Foi por acidente?"

"Por acidente", disse eu.

"Como veio a falar com Colin Campbell?", perguntou ele.

"Eu estava a perguntar-lhe o caminho para Aucharn", respondi.

Observei que ele não anotou esta resposta.

"Hum, é verdade", disse ele, "tinha-me esquecido disso. E sabe, Sr. Balfour, eu não me demoraria, se fosse o senhor, nas suas relações com estes Stewarts. Poderia ser considerado como complicando o nosso negócio. Ainda não estou inclinado a considerar estas questões como essenciais."

"Eu pensava, meu senhor, que todos os pontos de fato fossem igualmente materiais em tal caso", disse eu.

"Esquece-se de que estamos agora a julgar estes Stewarts", respondeu ele, com grande significado. "Se alguma vez chegássemos a julgá-lo, será muito diferente; e pressionarei exatamente estas perguntas sobre as quais agora estou disposto a deslizar. Mas para retomar: tenho aqui na pré-cognição do Sr. Mungo Campbell que o senhor correu imediatamente para a colina. Como foi isso?"

"Não imediatamente, meu senhor, e a causa foi eu ter visto o assassino."

"Viu-o, então?"

"Tão claramente como vejo Vossa Senhoria, embora não tão de perto."

"Conhece-o?"

"Conhecê-lo-ia novamente."

"Na sua perseguição, não teve a sorte, então, de o alcançar?"

"Não tive."

"Estava ele sozinho?"

"Ele estava sozinho."

"Não havia mais ninguém naquela vizinhança?"

"Alan Breck Stewart não estava longe, num pedaço de bosque."

O Advogado pousou a sua pena. "Penso que estamos a falar de coisas diferentes", disse ele, "o que descobrirá ser um divertimento muito mau para si próprio."

"Contento-me em seguir o conselho de Vossa Senhoria e responder ao que me é perguntado", disse eu.

"Seja tão sábio a ponto de pensar a tempo", disse ele, "trato-o com a mais ansiosa ternura, que mal parece apreciar, e que (a menos que seja mais cuidadoso) pode revelar-se em vão."

"Aprecio a sua ternura, mas concebo-a como sendo um erro", respondi, com algo de um tremor, pois vi que tínhamos chegado finalmente a um impasse. "Estou aqui para apresentar-lhe certas informações, pelas quais o convencerei de que Alan não teve qualquer participação no assassinato de Glenure."

O Advogado pareceu por um momento paralisado, sentado com os lábios franzidos, e piscando os olhos para mim como um gato zangado. "Sr. Balfour", disse ele por fim, "digo-lhe categoricamente que segue um mau caminho para os seus próprios interesses."

"Meu senhor", disse eu, "estou tão isento da acusação de considerar os meus próprios interesses neste assunto como Vossa Senhoria. Como Deus me julga, tenho apenas um desígnio, e esse é ver a justiça executada e os inocentes saírem ilesos. Se, na busca disso, eu vier a cair no desagrado de Vossa Senhoria, devo suportá-lo como puder."

A isto, ele levantou-se da cadeira, acendeu uma segunda vela, e por um momento observou-me fixamente. Fiquei surpreendido ao ver uma grande mudança de gravidade cair sobre o seu rosto, e quase poderia ter pensado que ele estava um pouco pálido.

"O senhor é ou muito simples, ou extremamente o oposto, e vejo que devo tratar consigo de forma mais confidencial", diz ele. "Este é um caso político — ah, sim, Sr. Balfour! quer gostemos ou não, o caso é político — e tremo quando penso que problemas podem depender dele. Para um caso político, mal preciso dizer a um jovem da sua educação, aproximamo-nos com pensamentos muito diferentes de um que é apenas criminoso. Salus populi suprema lex é uma máxima suscetível de grande abuso, mas tem aquela força que encontramos noutros lugares apenas nas leis da natureza: refiro-me à força da necessidade. Abrir-lhe-ei isto, se me permitir, com mais pormenor. O senhor quer que eu acredite..."

"Com a sua licença, meu senhor, eu quero que acredite apenas naquilo que posso provar", disse eu.

"Tretas! tretas; jovem cavalheiro", diz ele, "não seja tão pragmático, e permita que um homem que poderia ser seu pai (se não fosse nada mais) empregue a sua própria linguagem imperfeita, e expresse os seus próprios pobres pensamentos, mesmo quando têm o infortúnio de não coincidir com os do Sr. Balfour. O senhor quer que eu acredite na inocência de Breck. Eu consideraria isto de pouca importância, tanto mais que não podemos apanhar o nosso homem. Mas a questão da inocência de Breck ultrapassa-se a si mesma. Uma vez admitida, destruiria todas as presunções do nosso caso contra outro e um criminoso muito diferente; um homem envelhecido na traição, já duas vezes em armas contra o seu rei e já duas vezes perdoado; um fomentador de descontentamento, e (quem quer que tenha disparado) o inconfundível original do ato em questão. Não preciso de lhe dizer que me refiro a James Stewart."

"E eu posso apenas dizer claramente que a inocência de Alan e de James é o que estou aqui para declarar em privado a Vossa Senhoria, e o que estou preparado para estabelecer no julgamento pelo meu testemunho", disse eu.

"Ao que apenas posso responder com uma igual clareza, Sr. Balfour", disse ele, "que (nesse caso) o seu testemunho não será chamado por mim, e desejo que o retenha totalmente."

"O senhor está à cabeça da Justiça neste país", gritei, "e propõe-me um crime!"

"Eu sou um homem que cuida com ambas as mãos dos interesses deste país", respondeu ele, "e insisto consigo numa necessidade política. O patriotismo nem sempre é moral no sentido formal. O senhor poderia ficar contente com isso, penso eu: é a sua própria proteção; os fatos pesam contra si; e se ainda estou a tentar excluí-lo de um lugar muito perigoso, é em parte, claro, porque não sou insensível à sua honestidade em vir aqui; em parte por causa da carta de Pilrig; mas em parte, e principalmente, porque considero neste assunto o meu dever político em primeiro lugar e o meu dever judicial apenas em segundo. Pela mesma razão — repito-lho nas mesmas palavras francas — não quero o seu testemunho."

"Não desejo que pensem que faço uma réplica, quando expresso apenas o sentido claro da nossa posição", disse eu. "Mas se Vossa Senhoria não tem necessidade do meu testemunho, acredito que o outro lado ficaria extremamente feliz por obtê-lo."

Prestongrange levantou-se e começou a andar de um lado para o outro na sala. "O senhor não é tão jovem", disse ele, "que não se deva lembrar muito claramente do ano de 45 e do choque que percorreu o país. Li na carta de Pilrig que o senhor é correto na Igreja e no Estado. Quem os salvou naquele ano fatal? Não me refiro a Sua Alteza Real e às suas varetas, que foram extremamente úteis no seu tempo; mas o país tinha sido salvo e o campo ganho antes mesmo de Cumberland chegar a Drummossie. Quem o salvou? Repito; quem salvou a religião protestante e toda a estrutura das nossas instituições civis? O falecido Lord President Culloden, por um; desempenhou um papel de homem, e poucos agradecimentos recebeu por isso — tal como eu, a quem vê diante de si, forçando cada nervo no mesmo serviço, não espero recompensa além da consciência dos meus deveres cumpridos. Depois do Presidente, quem mais? O senhor sabe a resposta tão bem como eu; é em parte um escândalo, e o senhor aludiu a isso, e eu repreendi-o por isso, quando entrou pela primeira vez. Foi o Duque e o grande clã de Campbell. Ora, aqui está um Campbell barbaramente assassinado, e isso ao serviço do Rei. O Duque e eu somos das Terras Altas. Mas somos das Terras Altas civilizados, e não é assim com a grande massa dos nossos clãs e famílias. Eles ainda têm virtudes e defeitos selvagens. Ainda são bárbaros, como estes Stewarts; apenas os Campbells foram bárbaros do lado certo, e os Stewarts foram bárbaros do lado errado. Agora seja o juiz. Os Campbells esperam vingança. Se não a obtiverem — se este homem James escapar — haverá problemas com os Campbells. Isso significa perturbação nas Terras Altas, que estão inquietas e muito longe de estarem desarmadas: o desarmamento é uma farsa..."

"Posso corroborar isso", disse eu.

"A perturbação nas Terras Altas faz a hora do nosso antigo inimigo vigilante", continuou a sua senhoria, estendendo um dedo enquanto caminhava; "e dou-lhe a minha palavra de que podemos ter um 45 novamente com os Campbells do outro lado. Para proteger a vida deste homem Stewart — que já está perdida em meia dúzia de acusações diferentes, se não nesta — propõe o senhor mergulhar o seu país em guerra, colocar em risco a fé dos seus pais, e expor as vidas e fortunas de quantos milhares de pessoas inocentes?... Estas são considerações que pesam comigo, e que espero que não pesem menos consigo, Sr. Balfour, como um amante do seu país, do bom governo e da verdade religiosa."

"O senhor trata-me muito francamente, e agradeço-lho", disse eu. "Tentarei, do meu lado, ser não menos honesto. Acredito que a sua política seja sensata. Acredito que estes deveres profundos possam recair sobre Vossa Senhoria; acredito que possa tê-los colocado sobre a sua consciência quando prestou o juramento do alto cargo que detém. Mas para mim, que sou apenas um homem simples — ou mal um homem ainda — os deveres simples devem bastar. Só consigo pensar em duas coisas: numa pobre alma em perigo imediato e injusto de uma morte vergonhosa, e nos gritos e lágrimas da sua esposa que ainda ressoam na minha cabeça. Não consigo ver além, meu senhor. É a forma como fui feito. Se o país tem de cair, tem de cair. E rezo a Deus, se isto for cegueira deliberada, que Ele me ilumine antes que seja tarde demais."

Ele tinha-me ouvido imóvel, e permaneceu assim por mais algum tempo.

"Este é um obstáculo inesperado", diz ele, em voz alta, mas para si mesmo.

"E como é que Vossa Senhoria vai dispor de mim?", perguntei.

"Se eu desejasse", disse ele, "o senhor sabe que poderia dormir na prisão?"

"Meu senhor", disse eu, "dormi em lugares piores."

"Bem, meu rapaz", disse ele, "há uma coisa que aparece muito claramente da nossa entrevista, que é a de que posso confiar na sua palavra empenhada. Dê-me a sua honra de que será totalmente secreto, não apenas sobre o que se passou esta noite, mas sobre o assunto do caso de Appin, e deixo-o sair livre."

"Dá-la-ei até amanhã ou qualquer outro dia próximo que Vossa Senhoria deseje marcar", disse eu. "Não gostaria de ser considerado demasiado astuto; mas se desse a promessa sem qualificação, Vossa Senhoria teria atingido o seu fim."

"Não tive a intenção de o apanhar", disse ele.

"Tenho a certeza disso", disse eu.

"Deixe-me ver", continuou ele. "Amanhã é o Sabbath. Venha ter comigo na segunda-feira pelas oito da manhã, e dê-me a sua promessa até lá."

"Livremente dada, meu senhor", disse eu. "E quanto ao que saiu da boca de Vossa Senhoria, dá-la-ei por todo o tempo que a Deus aprouver poupar os seus dias."

"Observará", disse ele a seguir, "que não fiz uso de ameaças."

"Foi como a nobreza de Vossa Senhoria", disse eu. "No entanto, não sou tão estúpido que não possa perceber a natureza daquelas que o senhor não proferiu."

"Bem", disse ele, "boa noite para si. Que durma bem, pois penso que é mais do que eu provavelmente farei."

Com isto, ele suspirou, pegou numa vela, e deu-me a sua companhia até à porta da rua.

CAPÍTULO V. NA CASA DO ADVOGADO

No dia seguinte, Sabbath, 27 de agosto, tive a ocasião que há muito esperava para ouvir alguns dos famosos pregadores de Edimburgo, todos já bem conhecidos por mim pelo relato do Sr. Campbell. Ai de mim! e eu poderia simplesmente ter estado em Essendean, e a ouvir o próprio digno Sr. Campbell! O tumulto dos meus pensamentos, que habitavam continuamente na entrevista com Prestongrange, inibia-me de toda a atenção. De fato, fiquei muito menos impressionado pelo raciocínio dos divinos do que pelo espetáculo da numerosa congregação nas igrejas, semelhante ao que eu imaginava de um teatro ou (na minha disposição de então) de uma sessão de julgamento; acima de tudo na West Kirk, com as suas três galerias, onde entrei na vã esperança de que pudesse ver a Srta. Drummond.

Na segunda-feira, dirigi-me pela primeira vez a um barbeiro, e fiquei muito satisfeito com o resultado. De lá, fui a casa do Advogado, onde os casacos vermelhos dos soldados se mostravam novamente à porta, fazendo um lugar brilhante no pátio. Procurei pela jovem senhora e pelos seus criados: não havia sinal deles. Mas não tardou a ser conduzido ao gabinete ou antecâmara onde passara um tempo tão cansativo no sábado, quando me apercebi da figura alta de James More num canto. Parecia vítima de um mal-estar doloroso, esticando os pés e as mãos, e os seus olhos correndo aqui e ali sem descanso pelas paredes da pequena câmara, o que me recordou com um sentido de pena a situação miserável daquele homem. Suponho que foi em parte isto, e em parte o meu forte e contínuo interesse pela sua filha, que me levou a abordá-lo.

"Bom dia, senhor", disse eu.

"E um bom dia para si, senhor", disse ele.

"Vem cumprir o encontro com Prestongrange?", perguntei.

"Venho, senhor, e rezo para que os seus assuntos com esse cavalheiro sejam mais agradáveis do que os meus", foi a sua resposta.

"Espero pelo menos que os seus sejam breves, pois suponho que passe à minha frente", disse eu.

"Todos passam à minha frente", disse ele, com um encolher de ombros e um gesto para cima das mãos abertas. "Nem sempre foi assim, senhor, mas os tempos mudam. Não era assim quando a espada estava na balança, jovem cavalheiro, e as virtudes do soldado podiam sustentar-se."

Saiu do homem uma espécie de fungadela das Terras Altas que me enfureceu estranhamente.

"Bem, Sr. Macgregor", disse eu, "compreendo que a coisa principal para um soldado é ser silencioso, e a primeira das suas virtudes nunca se queixar."

"O senhor sabe o meu nome, percebo" — ele curvou-se para mim com os braços cruzados — "embora seja um que não devo usar eu próprio. Bem, há uma publicidade — mostrei a minha cara e disse o meu nome demasiadas vezes perante os meus inimigos. Não me devo admirar se ambos forem conhecidos por muitos que eu não conheço."

"Que não conhece de todo, senhor", disse eu, "nem mais ninguém; mas o nome pelo qual sou chamado, se se importa de o ouvir, é Balfour."

"É um bom nome", respondeu ele, civilmente; "há muitas pessoas decentes que o usam. E agora que me lembro, havia um jovem cavalheiro, seu homónimo, que marchou como cirurgião no ano de 45 com o meu batalhão."

"Creio que esse seria um irmão de Balfour de Baith", disse eu, pois já estava preparado para o cirurgião.

"O mesmo, senhor", disse James More. "E desde que fui companheiro de armas do seu parente, deve permitir-me apertar a sua mão."

Apertou-me a mão longa e ternamente, irradiando para mim enquanto o fazia como se tivesse encontrado um irmão.

«Ah!» diz ele, «estes são dias mudados desde que o teu primo e eu ouvíamos as balas assobiar nos nossos ouvidos.»

«Creio que era um primo muito afastado», disse eu, secamente, «e devo dizer-lhe que nunca posei os olhos no homem.»

«Bem, bem», disse ele, «não faz diferença. E tu — não creio que tu próprio tenhas estado fora, senhor — não tenho uma memória clara do teu rosto, que não é um rosto provável de se esquecer.»

«No ano a que se refere, Sr. Macgregor, eu estava a levar pancada na escola da paróquia», disse eu.

«Tão jovem!» exclama ele. «Ah, então nunca serás capaz de pensar no que este encontro significa para mim. Na hora da minha adversidade, e aqui na casa do meu inimigo, encontrar o sangue de um velho companheiro de armas — isso anima-me, Sr. Balfour, como o lamento das gaitas de foles das Terras Altas! Senhor, este é um olhar triste que muitos de nós temos de lançar ao passado: alguns com lágrimas a cair. Vivi no meu próprio país como um rei; a minha espada, as minhas montanhas e a fé dos meus amigos e parentes bastavam-me. Agora jazho num calabouço fétido; e sabe, Sr. Balfour», continuou ele, tomando-me pelo braço e começando a conduzir-me, «sabe, senhor, que me faltam as meras necessidades? A malícia dos meus inimigos sequestrou completamente os meus recursos. Jazho, como sabe, senhor, por uma acusação inventada, da qual sou tão inocente como o senhor. Não se atrevem a levar-me a julgamento e, entretanto, sou mantido nu na minha prisão. Teria desejado que fosse o seu primo que eu tivesse encontrado, ou o próprio irmão dele, Baith. Qualquer um, sei, ter-se-ia regozijado em ajudar-me; ao passo que um estranho comparativo como o senhor...»

Envergonhar-me-ia de pôr por escrito tudo o que ele despejou sobre mim nesta veia mendicante, ou as respostas muito curtas e relutantes que lhe dei. Houve momentos em que fui tentado a tapar-lhe a boca com algum dinheiro trocado; mas se foi por vergonha ou orgulho — se foi por minha causa ou pela de Catriona — se foi porque o achava um pai impróprio para a sua filha, ou porque me sentia ressentido com aquela grosseria de falsidade imediata que se agarrava ao próprio homem — a coisa estava pura e simplesmente fora do meu alcance. E eu continuava a ser engambelado e sermoneado, e continuava a ser marchado de um lado para o outro, três passos e uma volta, naquele pequeno aposento, e já tinha, por meio de respostas muito curtas, altamente enfurecido, embora não desencorajado, o meu mendigo, quando Prestongrange apareceu à porta e me chamou ansiosamente para o seu grande gabinete.

«Tenho compromissos de um momento», disse ele; «e para que não fiques de mãos vazias, vou apresentar-te às minhas três belas filhas, de quem talvez tenhas ouvido falar, pois creio que são mais famosas que o papa. Por aqui.»

Conduziu-me a outra longa sala acima, onde uma senhora velha e seca estava sentada a um bastidor de bordado, e as três jovens mais bonitas (suponho) da Escócia estavam juntas junto a uma janela.

«Este é o meu novo amigo, Sr. Balfour», disse ele, apresentando-me pelo braço, «David, aqui está a minha irmã, a Srta. Grant, que é tão bondosa ao ponto de tomar conta da minha casa, e ficará muito satisfeita se puder ajudar-te. E aqui», diz ele, voltando-se para as três senhoras mais jovens, «aqui estão as minhas três belas filhas. Uma pergunta justa para vós, Sr. Davie: qual das três é a mais favorecida? E aposto que nunca terás a imprudência de propor a resposta honesta de Alan Ramsay!»

Nisto, todas as três, e a velha Srta. Grant também, gritaram contra esta pilhéria, o que (como eu estava familiarizado com os versos a que ele se referia) trouxe vergonha à minha face. Pareceu-me uma citação imperdoável num pai, e fiquei espantado por aquelas senhoras poderem rir mesmo enquanto repreendiam, ou fingiam fazê-lo.

Ao abrigo desta alegria, Prestongrange saiu da câmara, e eu fiquei, como um peixe em terra seca, naquela sociedade muito inadequada. Nunca poderia negar, ao olhar para trás para o que se seguiu, que fui eminentemente estúpido; e devo dizer que as senhoras foram bem treinadas para ter tanta paciência comigo. A tia, de facto, sentou-se perto do seu bordado, apenas olhando de vez em quando e sorrindo; mas as senhoritas, e especialmente a mais velha, que era além disso a mais bonita, pagaram-me uma série de atenções que eu era muito incapaz de retribuir. Era tudo em vão dizer a mim próprio que eu era um jovem de algum valor, bem como de uma boa propriedade, e que não tinha razão para me sentir envergonhado perante estas raparigas, a mais velha não muito mais velha do que eu, e nenhuma delas, com qualquer probabilidade, metade tão instruída. O raciocínio não mudaria o facto; e houve momentos em que a cor subiu ao meu rosto ao pensar que tinha feito a barba nesse dia pela primeira vez.

A conversa decorrendo, com todos os seus esforços, muito pesadamente, a mais velha teve pena do meu jeito desajeitado, sentou-se ao seu instrumento, do qual era uma mestra consumada, e entreteve-me durante algum tempo tocando e cantando, tanto à maneira escocesa como à italiana; isto deixou-me mais à vontade e, lembrando-me da melodia de Alan que ele me tinha ensinado no buraco perto de Carriden, tomei a ousadia de assobiar um compasso ou dois e perguntar se ela conhecia aquilo.

Ela abanou a cabeça. «Nunca ouvi uma nota disso», disse ela. «Assobia-o todo. E agora mais uma vez», acrescentou, depois de eu o ter feito.

Então ela tirou-o no teclado e (para minha surpresa) enriqueceu instantaneamente o mesmo com acordes bem soantes, e cantou, enquanto tocava, com uma expressão muito engraçada e um sotaque carregado —

«Não apanhei eu o ritmo disso? Não é esta a melodia que tu assobiaste?»

«Vês», diz ela, «eu também sei fazer poesia, só que não rima. E depois outra vez:

«Eu sou a Srta. Grant, parente do Advogado: Tu, creio eu, és Dauvit Balfour.»

Disse-lhe o quão espantado estava com o seu génio.

«E como chamas ao nome dela?» perguntou ela.

«Não sei o nome verdadeiro», disse eu. «Chamo-lhe apenas melodia do Alan.»

Ela olhou-me diretamente na cara. «Chamar-lhe-ei melodia do David», disse ela; «embora, se for minimamente parecida com o que o teu homónimo de Israel tocou para Saul, nunca me admiraria que o rei pouco proveito tirasse disso, pois não passa de música melancólica. O teu outro nome não me agrada; por isso, se alguma vez desejares ouvir a tua melodia outra vez, deves pedi-la pelo meu.»

Isto foi dito com um significado que deu um solavanco ao meu coração. «Porquê isso, Srta. Grant?» perguntei.

«Porquê», diz ela, «se alguma vez fores enforcado, vou pôr o teu último discurso de morte e confissão nessa melodia e cantá-lo.»

Isto tornou indubitável que ela estava parcialmente informada da minha história e perigo. Como, ou exatamente quanto, era mais difícil adivinhar. Era claro que ela sabia que havia algo de perigo no nome de Alan, e assim avisou-me para o deixar de fora de qualquer referência; e claro que ela sabia que eu estava sob alguma suspeita criminal. Julguei além disso que a aspereza do seu último discurso (que ela, aliás, seguiu imediatamente com uma peça de música muito ruidosa) era para pôr fim à conversa presente. Fiquei ao lado dela, fingindo ouvir e admirar, mas verdadeiramente levado pelos meus próprios pensamentos. Sempre achei esta jovem uma amante do misterioso; e certamente esta primeira entrevista criou um mistério que estava para além da minha compreensão. Uma coisa aprendi muito mais tarde: as horas de domingo tinham sido bem empregues, o porteiro do banco tinha sido encontrado e interrogado, a minha visita a Charles Stewart tinha sido descoberta, e a dedução feita de que eu estava bastante envolvido com James e Alan, e muito provavelmente numa correspondência contínua com o último. Daí esta dica clara que me foi dada através do cravo.

No meio da peça de música, uma das senhoritas mais novas, que estava numa janela sobre o pátio, gritou às irmãs para virem depressa, pois estava lá «o de olhos cinzentos outra vez». Toda a família acorreu ali de uma vez, e amontoaram-se para espreitar. A janela para onde correram ficava num canto estranho daquela sala, dava para cima da porta de entrada e flanqueava o pátio.

«Venha, Sr. Balfour», gritaram elas, «venha ver. Ela é a criatura mais bonita! Ela anda pelo pátio estes últimos dias, sempre com uns criados miseráveis, e ainda assim parece uma dama.»

Não precisei de olhar; nem olhei duas vezes, nem por muito tempo. Tive medo que ela me pudesse ter visto ali, a olhar para ela daquele câmara de música, ela lá fora, e o pai na mesma casa, talvez a implorar pela vida com lágrimas, e eu próprio acabado de rejeitar as suas petições. Mas mesmo aquele olhar deixou-me numa melhor consideração de mim próprio e muito menos receio das jovens senhoras. Elas eram bonitas, isso estava fora de questão, mas Catriona também era bonita, e tinha um tipo de brilho nela como uma brasa de fogo. Tanto quanto as outras me deprimiam, ela elevava-me. Lembrei-me de que tinha falado facilmente com ela. Se eu não conseguia dar conta do recado com estas belas donzelas, talvez fosse um pouco culpa delas próprias. O meu embaraço começou a misturar-se e a ser aliviado com um sentido de diversão; e quando a tia me sorriu do seu bordado, e as três filhas se vergaram para mim como um bebé, tudo com «ordens do papa» escritas nas faces, houve momentos em que poderia ter encontrado no meu coração vontade de sorrir eu próprio.

Pouco depois, o papa regressou, o mesmo homem gentil, feliz e de fala agradável.

«Agora, raparigas», disse ele, «tenho de levar o Sr. Balfour embora outra vez; mas espero que tenham conseguido persuadi-lo a voltar, onde ficarei sempre satisfeito por encontrá-lo.»

Assim, cada uma fez-me um pequeno elogio de cêntimos, e eu fui levado embora.

Se esta visita à família tinha tido a intenção de suavizar a minha resistência, foi o pior dos fracassos. Eu não era tão asno que não compreendesse a figura pobre que tinha feito, e que as raparigas estariam a bocejar a mandíbula logo que as minhas costas rígidas se virassem. Senti que tinha mostrado quão pouco tinha em mim do que é suave e gracioso; e ansiava por uma oportunidade de provar que tinha algo da outra matéria, a severa e perigosa.

Bem, eu ia ser servido conforme o meu desejo, pois a cena para a qual ele me conduzia era de um caráter diferente.

CAPÍTULO VI. O ANTIGO MESTRE DE LOVAT

Havia um homem à nossa espera no escritório de Prestongrange, de quem não gostei à primeira vista, como não gostamos de um furão ou de uma bicha-cadela. Era amargamente feio, mas parecia muito um cavalheiro; tinha modos contidos, mas capazes de saltos e violências repentinas; e uma voz pequena, que podia soar estridente e perigosa quando ele assim o desejava.

O Advogado apresentou-nos de uma forma familiar e amigável.

«Aqui, Fraser», disse ele, «aqui está o Sr. Balfour de quem falámos. Sr. David, este é o Sr. Simon Fraser, a quem costumávamos chamar por outro título, mas isso é uma canção antiga. O Sr. Fraser tem um recado para si.»

Com isto, afastou-se para as suas estantes de livros e fingiu consultar um volume em quarto na extremidade oposta.

Fiquei assim (num certo sentido) sozinho com talvez a última pessoa no mundo que eu esperava. Não havia dúvida sobre os termos da introdução; este não podia ser outro senão o Mestre de Lovat privado dos seus direitos e chefe do grande clã Fraser. Sabia que ele tinha liderado os seus homens na Rebelião; sabia que a cabeça do seu pai — o meu antigo lorde, aquela raposa cinzenta das montanhas — tinha caído no cepo por essa ofensa, as terras da família tinham sido confiscadas e a sua nobreza banida. Não conseguia conceber o que ele estaria a fazer na casa de Grant; não conseguia conceber que ele tivesse sido chamado à Ordem, tivesse engolido todos os seus princípios e estivesse agora a ganhar o favor do Governo ao ponto de atuar como Advogado-Deputado no homicídio de Appin.

«Bem, Sr. Balfour», disse ele, «o que é isto tudo que oiço sobre si?»

«Não me ficaria bem julgar antecipadamente», disse eu, «mas se o Advogado foi a sua autoridade, ele está plenamente na posse das minhas opiniões.»

«Posso dizer-lhe que estou envolvido no caso Appin», continuou ele; «vou aparecer sob Prestongrange; e pelo meu estudo das premonições posso assegurar-lhe que as suas opiniões são erróneas. A culpa de Breck é manifesta; e o seu testemunho, no qual admite que o viu na colina no preciso momento, certificará o seu enforcamento.»

«Será um pouco difícil enforcá-lo até o apanharem», observei. «E quanto a outros assuntos, deixo-o muito voluntariamente com as suas próprias impressões.»

«O Duque foi informado», continuou ele. «Acabo de vir da Sua Graça, e ele expressou-se perante mim com uma honesta liberdade como o grande nobre que é. Falou de si pelo nome, Sr. Balfour, e declarou a sua gratidão de antemão caso se deixasse levar por aqueles que compreendem os seus próprios interesses e os do país muito melhor do que o senhor. A gratidão não é uma expressão vazia naquela boca: experto-crede. Suponho que saiba alguma coisa do meu nome e clã, e do exemplo condenável e fim lamentado do meu falecido pai, para não falar dos meus próprios erros. Bem, fiz as pazes com esse bom Duque; ele interveio por mim junto do nosso amigo Prestongrange; e aqui estou eu com o pé no estribo outra vez e alguma da responsabilidade partilhada na minha mão de processar os inimigos do Rei George e vingar o recente insulto ousado e descarado a Sua Majestade.»

«Sem dúvida uma posição orgulhosa para o filho do seu pai», digo eu.

Ele abanou as sobrancelhas calvas para mim. «Diverte-se a fazer experiências na ironia, creio eu», disse ele. «Mas estou aqui em serviço, estou aqui para cumprir o meu recado de boa fé, é em vão que pensa em desviar-me. E deixe-me dizer-lhe, para um jovem de espírito e ambição como o senhor, um bom empurrão no início fará mais do que dez anos de trabalho árduo. O empurrão está agora à sua disposição; escolha o que quiser para ser promovido, o Duque velará por si com a disposição afetuosa de um pai.»

«Estou a pensar que me falta a docilidade do filho», digo eu.

«E supõe realmente, senhor, que se há de permitir que toda a política deste país tropece e caia por causa de um rapaz indelicado e potro?» gritou ele. «Isto foi feito um caso de teste, todos os que quiserem prosperar no futuro devem pôr o ombro à roda. Olhe para mim! Supõe que é pelo meu prazer que me coloco na posição altamente invejável de perseguir um homem ao lado de quem desembainhei a espada? A escolha não me foi deixada.»

«Mas creio, senhor, que perdeu o seu direito de escolha quando se misturou com essa rebelião antinatural», comentei. «O meu caso é felizmente diferente; sou um homem verdadeiro e posso olhar quer para o Duque quer para o Rei George na cara sem preocupação.»

«É assim que o vento sopra?» diz ele. «Protesto que caiu no pior tipo de erro. Prestongrange tem sido até agora tão civil (diz-me ele) a ponto de não combater as suas alegações; mas não deve pensar que elas não são vistas com forte suspeita. Diz que é inocente. Meu caro senhor, os factos declaram-no culpado.»

«Estava à espera que chegasse aí», disse eu.

«A prova de Mungo Campbell; a sua fuga após a conclusão do homicídio; o seu longo curso de segredo — meu bom jovem!» disse o Sr. Simon, «aqui há provas suficientes para enforcam um boi, quanto mais um David Balfour! Estarei nesse julgamento; a minha voz será erguida; falarei então muito diferentemente do que faço hoje, e muito menos para sua gratificação, por muito pouco que goste disso agora! Ah, está pálido!» exclama ele. «Encontrei a chave do seu coração impudente. Está pálido, os seus olhos vacilam, Sr. David! Vê a sepultura e a forca mais perto do que tinha imaginado.»

«Confesso uma fraqueza natural», disse eu. «Não acho que seja vergonha. Vergonha...» ia eu a continuar.

«A vergonha espera-o na forca», interrompeu ele.

«Onde apenas estarei igualado ao meu senhor seu pai», disse eu.

«Aha, mas não é assim!» gritou ele, «e ainda não viu o fundo deste negócio. O meu pai sofreu por uma grande causa, e por tratar dos assuntos dos reis. O senhor vai ser enforcado por um homicídio sujo por causa de moedas de cobre. A sua parte pessoal nele, a traiçoeira de manter o pobre miserável em conversa, os seus cúmplices um bando de criados maltrapilhos das Terras Altas. E pode ser demonstrado, meu grande Sr. Balfour — pode ser demonstrado, e será demonstrado, confie em mim que tenho um dedo na torta — pode ser demonstrado, e será demonstrado, que lhe pagaram para o fazer. Acho que consigo ver os olhares percorrerem o tribunal quando eu apresentar as minhas provas, e aparecerá que o senhor, um jovem de educação, deixou-se corromper para este ato chocante por um fato de roupas usadas, uma garrafa de bebidas das Terras Altas, e três xelins e cinco pence e meio em dinheiro de cobre.»

Havia um toque de verdade nestas palavras que me atingiu como um golpe: roupas, uma garrafa de usquebaugh, e três xelins e cinco pence e meio em trocos faziam, de facto, a maior parte do que Alan e eu tínhamos trazido de Auchurn; e vi que algumas das pessoas de James tinham andado a tagarelar nos seus calabouços.

«Vê que sei mais do que imaginava», retomou ele em triunfo. «E quanto a dar esta volta, grande Sr. David, não deve supor que o Governo da Grã-Bretanha e da Irlanda ficará alguma vez preso por falta de provas. Temos homens aqui na prisão que jurarão as suas vidas conforme nós os dirigirmos; conforme eu dirijo, se preferir a frase. Por isso, agora deve adivinhar a sua parte de glória se escolher morrer. Por um lado, vida, vinho, mulheres e um duque para ser o seu guarda-costas: por outro, uma corda no pescoço, e uma forca para fazer chocalhar os seus ossos, e a história mais baixa e vil para transmitir aos seus homónimos no futuro que alguma vez foi contada sobre um assassino contratado. E veja aqui!» gritou ele, com uma voz formidável e estridente, «veja este papel que tiro do meu bolso. Olhe para o nome ali: é o nome do grande David, creio eu, com a tinta quase ainda seca. Pode adivinhar a sua natureza? É o mandado para a sua prisão, que só tenho de tocar nesta campainha ao meu lado para o ter executado no local. Uma vez na Tolbooth por causa deste papel, que Deus o ajude, pois o dado está lançado!»

Nunca poderia negar que fiquei grandemente horrorizado por tanta baixeza, e muito desanimado pela imediação e fealdade do meu perigo. O Sr. Simon já se tinha gloriado das mudanças da minha cor; não tenho dúvidas de que agora não estava mais rosado que a minha camisa; a minha fala, além disso, tremia.

«Há um cavalheiro nesta sala», gritei. «Apelo a ele. Ponho a minha vida e crédito nas suas mãos.»

Prestongrange fechou o livro com um estalo. «Eu bem lho disse, Simon», afirmou; «jogou a sua cartada com tudo o que ela valia, e perdeu. Sr. David», continuou, «quero que acredite que não foi por escolha minha que o submeti a esta prova. Quero que compreenda quão satisfeito estou por ver que a supera com tanto mérito. Talvez não veja bem como, mas é um pequeno serviço prestado a mim próprio. Pois se o nosso amigo aqui tivesse tido mais sucesso do que eu na noite passada, poderia parecer que ele era um melhor juiz dos homens do que eu; poderia parecer que estávamos, o Sr. Simon e eu, em posições completamente trocadas. E sei que o nosso amigo Simon é ambicioso», disse, dando um leve toque no ombro de Fraser. «Quanto a esta peça de teatro, acabou; os meus sentimentos estão muito empenhados a seu favor; e, qualquer que seja a solução que possamos encontrar para este infeliz caso, farei questão de ver que seja adotada com benevolência para consigo.»

Eram palavras muito boas, e eu via, além disso, que havia pouco amor, e talvez uma pitada de genuína má vontade, entre estes dois que se opunham a mim. Apesar de tudo, era inegável que aquela entrevista tinha sido planeada, talvez ensaiada, com o consentimento de ambos; era evidente que os meus adversários estavam determinados a testar-me por todos os meios; e agora (tendo a persuasão, a lisonja e as ameaças sido tentadas em vão), não podia deixar de me perguntar qual seria o seu próximo expediente. Os meus olhos, além disso, ainda estavam perturbados, e os meus joelhos bambos, devido ao sofrimento da recente provação; e não pude fazer mais do que balbuciar a mesma fórmula: «Ponho a minha vida e o meu crédito nas suas mãos.»

«Bem, bem», disse ele, «temos de tentar salvá-los. E, entretanto, regressemos a métodos mais suaves. Não deve guardar qualquer rancor ao meu amigo, o Sr. Simon, que não fez mais do que falar conforme o seu dever. E mesmo que conceba alguma malícia contra mim, que permaneci ao lado e que parecia mais inclinado a dar corda ao jogo, não devo permitir que isso se estenda aos membros inocentes da minha família. Estes estão muito ansiosos por vê-lo mais vezes, e não posso consentir que as minhas jovens se desiludam. Amanhã irão a Hope Park, onde penso que seria muito adequado que fizesse a sua vénia. Passe primeiro por mim, altura em que possivelmente terei algo para o seu conhecimento privado; depois será levado de volta sob a escolta das minhas jovens; e até lá, repita-me a sua promessa de segredo.»

Teria feito melhor se tivesse recusado de imediato, mas, na verdade, estava acima do poder de raciocínio; fiz o que me foi ordenado; despedi-me, não sei como; e quando me vi novamente no pátio, e a porta se fechou atrás de mim, senti-me feliz por me apoiar numa parede da casa e limpar o rosto. Aquela aparição horrível (como lhe posso chamar) do Sr. Simon ecoava na minha memória, como um ruído súbito que continua a soar no ouvido depois de ter terminado. Histórias sobre o pai do homem, sobre a sua falsidade, sobre as suas múltiplas e perpétuas traições, erguiam-se perante mim de tudo o que ouvira e lera, e ligavam-se ao que acabara de presenciar da parte do próprio. Cada vez que me ocorria, a engenhosidade sórdida daquela calúnia que ele propusera pregar no meu caráter assustava-me de novo. O caso do homem na forca, junto a Leith Walk, parecia dificilmente distinguível daquele que eu agora devia considerar como meu. Roubar a uma criança pouco mais do que nada era, certamente, um empreendimento mesquinho para dois homens feitos; mas a minha própria história, tal como ia ser apresentada em tribunal por Simon Fraser, parecia um digno sucessor em todos os aspetos possíveis de sordidez e cobardia.

As vozes de dois dos criados de libré de Prestongrange na soleira da porta trouxeram-me de volta a mim mesmo.

«Toma», disse um, «este bilhete, o mais rápido que puderes, ao capitão.»

«É para aquele celtibero outra vez?», perguntou o outro.

«Parece que sim», respondeu o primeiro. «Ele e Simon andam à procura dele.»

«Acho que Prestongrange enlouqueceu», diz o segundo. «Ainda vamos ver James More a dormir com ele.»

«Bem, não é assunto teu nem meu», disse o primeiro.

E separaram-se, um na sua missão e o outro de volta à casa.

Aquilo parecia o pior possível. Eu mal tinha saído e eles já estavam a mandar chamar James More, a quem eu pensava que o Sr. Simon devia ter apontado quando falava de homens na prisão dispostos a redimir as suas vidas através de todos os extremos. O meu couro cabeludo arrepiou-se e, no instante seguinte, o sangue ferveu-me ao lembrar-me de Catriona. Pobre rapariga! O seu pai arriscava-se a ser enforcado por uma conduta bastante indefensável. O que era ainda mais desagradável, parecia agora que ele estava preparado para salvar a própria pele através da pior das vergonhas e do mais vil e cobarde dos assassínios — assassínio por falso juramento; e, para completar as nossas desgraças, parecia que eu fora escolhido para ser a vítima.

Comecei a caminhar rapidamente e ao acaso, consciente apenas de um desejo de movimento, ar e campo aberto.

CAPÍTULO VII. COMETO UMA FALTA À HONRA

Cheguei, juro que não sei como, aos Lang Dykes. É este um caminho rural que corre pelo lado norte, de frente para a cidade. Dali, podia ver toda a extensão negra desta a estender-se, desde onde o castelo se ergue nos seus rochedos acima do lago, numa longa linha de torres, empenas e chaminés fumegantes, e, àquela vista, o meu coração inchou no peito. A minha juventude, como contei, já estava habituada a perigos; mas tal perigo como aquele cujo rosto eu vira naquela mesma manhã, no meio do que chamam a segurança de uma cidade, abalou-me além da experiência. Perigo de escravatura, perigo de naufrágio, perigo de espada e tiro, a todos tinha resistido sem descrédito; mas o perigo que havia na voz aguda e na face gorda de Simon, propriamente Lord Lovat, intimidou-me por completo.

Sentei-me junto à margem do lago, num lugar onde os juncos entravam na água, e ali mergulhei os pulsos e lavei as têmporas. Se o pudesse ter feito com algum resto de autoestima, teria fugido da minha temerária empresa. Mas (chamem-lhe coragem ou cobardia, e creio que era tanto uma como a outra), decidi que me tinha aventurado para além da possibilidade de uma retirada. Eu tinha enfrentado aqueles homens, continuaria a enfrentá-los; acontecesse o que acontecesse, manter-me-ia fiel à palavra dada.

O sentido da minha própria constância elevou um pouco o meu espírito, mas não muito. No melhor dos casos, havia um lugar gelado à volta do meu coração, e a vida parecia um negócio negro no qual estar envolvido. Por duas almas em particular, a minha pena fluía. Uma era a minha própria, por ser tão desamparado e perdido entre perigos. A outra era a rapariga, a filha de James More. Tinha visto pouco dela; contudo, a minha opinião estava formada e o meu juízo feito. Achava-a uma rapariga de uma honra pura, como a de um homem; achava-a alguém capaz de morrer de desgraça; e agora acreditava que o seu pai estava, naquele momento, a negociar a sua vida vil pela minha. Criou-se um laço nos meus pensamentos entre a rapariga e eu. Tira-a visto antes apenas como uma aparição de beira de estrada, ainda que uma que me agradara estranhamente; via-a agora numa proximidade súbita, como a filha do meu inimigo de sangue e, podia dizer-se, do meu assassino. Refleti que era duro que eu fosse tão atormentado e perseguido todos os meus dias por assuntos de outras pessoas, e não ter qualquer tipo de prazer eu próprio. Conseguia refeições e uma cama para dormir quando as minhas preocupações o permitiam; além disso, a minha riqueza não era de ajuda. Se eu fosse enforcado, os meus dias seriam curtos; se eu não fosse enforcado mas escapasse a este sarilho, poderiam ainda parecer longos antes de terminar com eles. De repente, o seu rosto apareceu na minha memória, da maneira como o vira pela primeira vez, com os lábios entreabertos; perante isso, a fraqueza apoderou-se do meu peito e a força das minhas pernas; e pus-me resolutamente a caminho de Dean. Se eu fosse enforcado amanhã, e era bem certo que poderia muito provavelmente dormir aquela noite numa masmorra, determinei que deveria ouvir e falar mais uma vez com Catriona.

O exercício da caminhada e o pensamento do meu destino fortaleceram-me ainda mais, de modo que comecei a ganhar uma espécie de ânimo. Na aldeia de Dean, onde se situa no fundo de um vale junto ao rio, perguntei pelo caminho a um empregado de um moleiro, que me enviou colina acima, pelo lado mais distante, por um caminho plano, e assim cheguei a uma casinha decente num jardim de relvados e macieiras. O meu coração bateu forte quando entrei pela sebe do jardim, mas caiu muito baixo quando me deparei com uma velha senhora severa e feroz, a caminhar ali com uma touca branca e um chapéu de homem atado por cima dela.

«O que vens procurar aqui?», perguntou ela.

Disse-lhe que procurava a Srta. Drummond.

«E qual pode ser o teu negócio com a Srta. Drummond?», diz ela.

Disse-lhe que a tinha conhecido no sábado passado, tivera a sorte de lhe prestar um serviço trivial e vinha agora a convite da jovem senhora.

«Oh, então és o Saxpence!», gritou ela, com um ar de muito escárnio. «Um belo presente, um belo cavalheiro. E tens algum outro nome e designação, ou foste batizado como Saxpence?», perguntou.

Disse o meu nome.

«Valha-me Deus!», gritou ela. «O Ebenezer teve um filho?»

«Não, minha senhora», disse eu. «Sou filho de Alexander. Sou eu o Laird de Shaws.»

«Vais ter muito trabalho para provar isso», disse ela.

«Percebo que conhece o meu tio», disse eu; «e atrevo-me a dizer que ficará mais satisfeita ao saber que esse assunto está resolvido.»

«E o que te traz aqui atrás da Srta. Drummond?», continuou ela.

«Venho atrás do meu saxpence, minha senhora», disse eu. «É de crer que, sendo sobrinho do meu tio, eu seja um rapaz cuidadoso.»

«Então tens uma centelha de astúcia em ti?», observou a velha senhora, com alguma aprovação. «Pensava que eras apenas um tolo — tu, o teu saxpence, o teu dia de sorte e a tua causa de Balwhidder» — do que fiquei satisfeito ao saber que Catriona não tinha esquecido parte da nossa conversa. «Mas tudo isto é acessório», retomou. «Devo entender que vens aqui cortejar?»

«Essa é certamente uma pergunta um tanto prematura», disse eu. «A moça é jovem, tal como eu, para meu azar. Só a vi uma vez. Não vou negar», acrescentei, decidindo tentar alguma franqueza, «não vou negar que ela me tem andado na cabeça desde que a conheci. Isso é uma coisa; mas seria bem outra, e penso que pareceria um grande tolo, comprometer-me.»

«Vejo que sabes falar», disse a velha senhora. «Louvado seja Deus, e eu também sei! Fui tola o suficiente para tomar conta da filha deste patife: um belo encargo que recebi; mas é meu, e hei de tratá-lo da maneira que eu quiser. Queres dizer-me, Sr. Balfour de Shaws, que casarias com a filha de James More, sendo ele enforcado? Bem, então, onde não há casamento possível, não haverá qualquer tipo de namoro, e fica dito. As raparigas são seres frágeis», acrescentou, com um aceno; «e embora nunca o pensasses ao ver as minhas faces enrugadas, eu própria fui uma rapariga, e uma bem bonita.»

«Lady Allardyce», disse eu, «pois creio que esse seja o seu nome, parece fazer os dois lados da conversa, o que é uma forma muito pobre de chegar a um acordo. Dá-me um golpe bastante direto quando pergunta se eu me casaria, ao pé da forca, com uma jovem que vi apenas uma vez. Já lhe disse que nunca seria tão imprudente a ponto de me comprometer. E, no entanto, vou um pouco mais longe consigo. Se continuar a gostar da rapariga tanto quanto tenho razão para esperar, será algo mais do que o seu pai, ou a própria forca, que nos manterá separados. Quanto à minha família, encontrei-a à beira do caminho como uma moeda perdida! Devo menos que nada ao meu tio e, se algum dia me casar, será para agradar a uma só pessoa: eu próprio.»

«Ouvi este tipo de conversa antes de tu nasceres», disse a Sra. Ogilvy, «o que é talvez a razão pela qual penso tão pouco nela. Há muito a considerar. Este James More é um meu parente, para minha vergonha seja dito. Mas quanto melhor a família, mais homens enforcados ou decapitados, essa tem sido sempre a história da pobre Escócia. E se fosse apenas o enforcamento! Pela minha parte, penso que ficaria mais satisfeita com James na forca, o que seria pelo menos o seu fim. Catrine é uma boa rapariga, e de bom coração, e deixa-se maçar todo o dia por uma velha ranzinza como eu. Mas, vês tu, aí está o ponto fraco. Ela é louca por aquele pai, um pedinte alto, falso e adulador, e é fanática pela Gregara, por nomes proscritos, pelo Rei James e por um monte de disparates. E se pensas que a podes guiar, ver-te-ias muito enganado. Dizes que a viste apenas uma vez...»

«Falei com ela apenas uma vez, devia ter dito», interrompi. «Vi-a novamente esta manhã de uma janela em casa de Prestongrange.»

Isto, atrevo-me a dizer, acrescentei porque soava bem; mas fui devidamente pago pela minha ostentação no regresso.

«O que é isto?», grita a velha senhora, com uma contração súbita do rosto. «Penso que foi na soleira da porta do Advogado que a conheceste primeiro.»

Disse-lhe que sim.

«Hum», disse ela; e depois, subitamente, num tom de censura, «tenho apenas a tua palavra», grita, «quanto a quem e ao que és. Pelo que dizes, és Balfour de Shaws; mas, pelo que sei, podes ser Balfour do sovaco do Diabo. É possível que venhas aqui pelo que dizes, e é igualmente possível que venhas aqui para o diabo saber o quê! Sou Whig o suficiente para ficar quieta e ter mantido as cabeças de todos os meus homens sobre os ombros. Mas não sou Whig o suficiente para ser feita de tola. E digo-te francamente, há demasiada porta de Advogado e janela de Advogado aqui para um homem que vem andar atrás da filha de um Macgregor. Podes dizer isso ao Advogado que te enviou, com o meu carinhoso amor. E beijo a palma da mão para ti, Sr. Balfour», diz ela, acompanhando a ação à palavra; «e uma boa viagem de volta para onde vieste.»

«Se pensa que sou um espião», irrompi, e as palavras ficaram-me presas na garganta. Fiquei ali a olhar para a velha senhora com um olhar assassino por um momento, depois fiz uma vénia e virei as costas.

«Aqui! Valha-me Deus! O rapaz está fora de si!», gritou ela. «Pensas que és um espião? que mais pensaria eu de ti — eu que nada sei sobre ti? Mas vejo que estava enganada; e como não posso lutar, terei de pedir desculpa. Uma bela figura eu faria com uma espada. Sim! sim!», continuou, «não és um mau rapaz à tua maneira; penso que hás de ter alguns vícios redentores. Mas, oh! Davit Balfour, és terrivelmente provinciano. Vais ter de superar isso, rapaz; vais ter de tornar a tua espinha mais flexível e pensar um pouco menos na tua pessoa delicada; e vais ter de tentar descobrir que as mulheres não são granadeiros. Mas isso nunca poderá ser. Até ao teu último dia não saberás mais sobre as mulheres do que eu sobre castrar porcos.»

Nunca tinha sido tratado com tais expressões pela língua de uma dama, sendo as únicas duas damas que conhecera, a Sra. Campbell e a minha mãe, mulheres muito devotas e muito meticulosas; e suponho que o meu espanto deve ter ficado estampado na minha cara, pois a Sra. Ogilvy explodiu subitamente numa crise de riso.

«Valha-me Deus!», gritou ela, lutando com a sua alegria, «tens a cara de madeira mais fina — e tu a casar com a filha de um celtibero das Terras Altas! Davie, meu caro, penso que teremos de arranjar um casamento — se não fosse apenas para ver os rebentos. E agora», continuou ela, «não serve de nada estares aqui a perder tempo, pois a jovem não está em casa, e receio que a velha não seja uma companhia adequada para o filho do teu pai. Além de que não tenho ninguém a não ser eu mesma para zelar pela minha reputação, e já estive tempo demais a sós com um jovem sedutor. E volta noutro dia para o teu saxpence!», gritou ela atrás de mim enquanto partia.

A minha escaramuça com esta desconcertante senhora deu aos meus pensamentos uma ousadia que de outra forma não teriam. Durante dois dias, a imagem de Catriona misturara-se em todas as minhas meditações; ela compunha o seu pano de fundo, de modo que mal desfrutava da minha própria companhia sem um vislumbre dela num canto da minha mente. Mas agora ela estava imediatamente próxima; parecia tocar nela, em quem nunca tocara senão uma vez; deixei-me fluir para ela numa fraqueza feliz, e olhando à volta, para a frente e para trás, via o mundo como um deserto indesejável, onde os homens vão como soldados numa marcha, seguindo o seu dever com a constância que têm, e Catriona ali sozinha para me oferecer algum prazer nos meus dias. Espantei-me comigo mesmo por me poder deter em tais considerações naquele momento de perigo e desgraça; e quando me lembrava da minha juventude, sentia vergonha. Tinha os meus estudos para completar: tinha de ser chamado para algum negócio útil; ainda tinha de fazer a minha parte de serviço num lugar onde todos devem servir; ainda tinha de aprender, conhecer e provar ser um homem; e tinha senso suficiente para corar por já estar tentado por estes prazeres e deveres mais distantes e santos. A minha educação falou-me agudamente; nunca fui criado com bolachas de açúcar, mas com o alimento duro da verdade. Sabia que era completamente inapto para ser marido aquele que não estivesse preparado para ser pai também; e para um rapaz como eu, desempenhar o papel de pai era uma mera zombaria.

Quando estava a meio destes pensamentos e a meio caminho de volta à cidade, vi uma figura a vir ao meu encontro, e a perturbação do meu coração aumentou. Parecia que tinha tudo no mundo para lhe dizer, mas nada para dizer primeiro; e, lembrando-me de quão sem palavras tinha ficado naquela manhã em casa do Advogado, tinha a certeza de que me veria mudo. Mas quando ela se aproximou, os meus medos desapareceram; nem mesmo a consciência do que estivera a pensar privadamente me desconcertou minimamente; e descobri que podia falar com ela tão fácil e racionalmente como poderia com Alan.

«Oh!», gritou ela, «estavas à procura do teu saxpence; conseguiste-o?»

Disse-lhe que não; mas agora que a tinha encontrado, o meu passeio não fora em vão. «Embora já te tenha visto hoje», disse eu, e contei-lhe onde e quando.

«Eu não te vi», disse ela. «Os meus olhos são grandes, mas há melhores que os meus a ver ao longe. Só ouvi cantar na casa.»

«Era a Srta. Grant», disse eu, «a mais velha e a mais bonita.»

«Dizem que são todas bonitas», disse ela.

«Pensam o mesmo de ti, Srta. Drummond», respondi, «e estavam todas a aglomerar-se à janela para te observar.»

«É uma pena que eu seja tão cega», disse ela, «ou poderia tê-las visto também. E estavas na casa? Deves ter passado momentos muito agradáveis com a bela música e as bonitas senhoras.»

«É precisamente aí que te enganas», disse eu; «pois eu estava tão deslocado como um peixe do mar na encosta de uma montanha. A verdade é que estou mais talhado para andar com homens rudes do que com senhoras bonitas.»

«Bem, eu também diria isso, em todo o caso!», disse ela, ao que ambos rimos.

«É uma coisa estranha, agora», disse eu. «Não sinto o menor receio contigo, no entanto, poderia ter fugido das Srta. Grant. E também tive medo da tua prima.»

«Oh, acho que qualquer homem terá medo dela», exclamou ela. «O meu próprio pai tem medo dela.»

O nome do pai trouxe-me a uma paragem. Olhei para ela enquanto caminhava ao meu lado; recordei o homem, e o pouco que sabia e o muito que supunha sobre ele; e, comparando uma coisa com a outra, senti-me como um traidor por estar em silêncio.

«Falando nisso», disse eu, «encontrei o teu pai ainda esta manhã.»

«Encontraste?», gritou ela, com uma voz de alegria que parecia zombar de mim. «Viste James More? Então terás falado com ele?»

«Fiz exatamente isso», disse eu.

Então, creio que as coisas seguiram o pior rumo para mim que era humanamente possível. Ela lançou-me um olhar de mera gratidão. «Ah, obrigada por isso!», diz ela.

«Agradeces-me por muito pouco», disse eu, e depois calei-me. Mas parecia que, quando eu estava a reter tanto, algo pelo menos tinha de sair. «Falei-lhe de forma um tanto rude», disse eu; «não gostei muito dele; falei-lhe de forma um tanto rude, e ele ficou zangado.»

«Acho que pouco tinhas a ver com isso, e menos ainda a contar à filha dele!», exclamou ela. «Mas aqueles que não o amam e prezam, eu não quero conhecer.»

«Ainda me darei ao trabalho de dizer uma palavra», disse eu, começando a tremer. «Talvez nem o teu pai nem eu estejamos nos melhores espíritos em casa de Prestongrange. Atrevo-me a dizer que ambos temos negócios ansiosos lá, pois é uma casa perigosa. Eu também tive pena dele, e falei-lhe primeiro, se ao menos tivesse falado com mais sabedoria. E, por uma coisa, na minha opinião, logo verás que os assuntos dele estão a melhorar.»

«Não será através da tua amizade, estou a pensar», disse ela; «e ele está muito grato pela tua mágoa.»

«Srta. Drummond», gritei eu, «estou sozinho neste mundo.»

«E não me admira nada isso», disse ela.

«Oh, deixa-me falar!», disse eu. «Falarei apenas uma vez, e depois deixar-te-ei, se quiseres, para sempre. Vim este dia na esperança de uma palavra bondosa de que tanto necessito. Sei que o que disse te deve ferir, e sabia-o então. Teria sido fácil falar suavemente, fácil mentir-te; não consegues pensar em como fui tentado a fazer o mesmo? Não consegues ver a verdade do meu coração a brilhar?»

«Acho que há muito trabalho aqui, Sr. Balfour», disse ela. «Acho que nos teremos encontrado apenas uma vez, e podemos separar-nos como gente educada.»

«Oh, deixa-me ter alguém que acredite em mim!», implorei. «Não o suporto de outra forma. O mundo inteiro está mancomunado contra mim. Como hei de atravessar o meu destino terrível? Se não há ninguém para acreditar em mim, não posso fazê-lo. O homem terá de morrer, pois não consigo.»

Ela continuara a olhar em frente, de cabeça erguida; mas às minhas palavras ou ao tom da minha voz, ela parou. «O que é isto que dizes?», perguntou ela. «De que estás a falar?»

«É o meu testemunho que pode salvar uma vida inocente», disse eu, «e eles não me permitem prestá-lo. O que farias tu? Sabes o que é isto, cujo pai jaz em perigo. Abandonarias a pobre alma? Tentaram de tudo comigo. Procuraram subornar-me; ofereceram-me montes e vales. E hoje aquele cão de caça disse-me como eu estava, e até onde iria para me massacrar e desonrar. Hei de ser incluído como cúmplice no homicídio; hei de ter mantido Glenure à conversa por dinheiro e trapos velhos; hei de ser morto e envergonhado. Se é assim que hei de cair, e eu mal um homem — se esta é a história que se há de contar de mim em toda a Escócia — se tu também hás de acreditar nisso, e o meu nome não há de ser nada mais que um escárnio — Catriona, como posso passar por isto? A coisa não é possível; é mais do que um homem tem no coração.»

Despejei as minhas palavras num turbilhão, umas sobre as outras; e quando parei, encontrei-a a olhar para mim com um rosto assustado.

«Glenure! É o homicídio de Appin», disse ela suavemente, mas com uma surpresa muito profunda.

Eu tinha voltado atrás para lhe fazer companhia, e tínhamos chegado agora perto do topo da encosta sobre a aldeia de Dean. A esta palavra, posicionei-me à frente dela como alguém subitamente perturbado.

«Pelo amor de Deus!», gritei, «pelo amor de Deus, o que é isto que fiz?», e levei os punhos às têmporas. «O que me fez fazê-lo? Certamente, estou enfeitiçado para dizer estas coisas!»

«Em nome do céu, o que te aflige agora!», gritou ela.

«Dei a minha palavra de honra», gemi, «dei a minha palavra de honra e agora quebrei-a. Oh, Catriona!»

«Estou a perguntar-te o que é», disse ela; «foram estas coisas que não deverias ter dito? E achas que eu não tenho honra, então? ou que sou alguém que trairia um amigo? Ergo a minha mão direita para ti e juro.»

«Oh, eu sabia que serias verdadeira!», disse eu. «Sou eu — sou eu. Eu que estive esta manhã e os confrontei, que arrisquei antes morrer desonrado na forca do que fazer o mal — e poucas horas depois atiro a minha honra para a beira da estrada numa conversa comum! ‘Há uma coisa clara na nossa entrevista’, diz ele, ‘que posso confiar na tua palavra empenhada.’ Onde está a minha palavra agora? Quem poderia acreditar em mim agora? Tu não poderias acreditar em mim. Caí por completo; o melhor seria morrer!» Tudo isto disse com uma voz chorosa, mas não tinha lágrimas no corpo.

«O meu coração sofre por ti», disse ela, «mas tem a certeza de que és demasiado exigente. Eu não acreditaria em ti, dizes tu? Confiaria em ti para qualquer coisa. E esses homens? Eu não estaria a pensar neles! Homens que andam por aí para te prender e destruir! Fui! Este não é tempo para te encolheres. Olha para cima! Não achas que te estarei a admirar como um grande herói do bem — e tu um rapaz pouco mais velho do que eu? E por teres dito uma palavra a mais ao ouvido de uma amiga, que morreria antes de te trair — fazer tal caso! É uma coisa que ambos temos de esquecer.»

«Catriona», disse eu, olhando para ela, com ar de culpado, «é verdade? Confiarias ainda em mim?»

«Não acreditas nas lágrimas no meu rosto?», gritou ela. «É ao mundo que estou a pensar em relação a ti, Sr. David Balfour. Deixa-os enforcar-te; nunca me esquecerei, envelhecerei e ainda me lembrarei de ti. Acho que é grandioso morrer assim: invejar-te-ei essa forca.»

«E talvez durante todo este tempo eu não passe de uma criança assustada com fantasmas», disse eu. «Talvez eles apenas zombem de mim.»

«É o que tenho de saber», disse ela. «Tenho de ouvir tudo. O mal está feito em todo o caso, e tenho de ouvir tudo.»

Sentei-me à beira do caminho, onde ela ocupou um lugar ao meu lado, e contei-lhe todo esse assunto mais ou menos como o escrevi, omitindo apenas os meus pensamentos sobre os negócios do seu pai.

«Bem», disse ela, quando terminei, «és um herói, certamente, e eu nunca teria pensado tal coisa! E acho que estás em perigo, também. Oh, Simon Fraser! pensar nesse homem! Pela sua vida e pelo dinheiro sujo, andar metido em tal tráfico!» E logo então ela exclamou em voz alta com uma palavra estranha que lhe era comum, e que pertence, creio eu, à sua própria língua. «Minha tortura!», diz ela, «olha para o sol!»

De facto, já mergulhava em direção às montanhas.

Pediu-me que voltasse em breve, deu-me a mão e deixou-me num tumulto de sentimentos alegres. Demorei-me a ir para casa, para o meu alojamento, pois tinha terror de uma detenção imediata; mas jantei numa estalagem e, durante a maior parte daquela noite, caminhei sozinho nos campos de cevada, e tive tal sensação da presença de Catriona que parecia tê-la nos meus braços.

CAPÍTULO VIII. O BRAVO

No dia seguinte, 29 de agosto, cumpri o meu compromisso no gabinete do Advogado num casaco que tinha mandado fazer à minha medida, e que estava acabado de estrear.

«Aha», diz Prestongrange, «estás muito elegante hoje; as minhas meninas hão de ter um belo cavalheiro. Vamos, agradeço-te isso. Agradeço-te isso, Sr. David. Oh, havemos de nos sair muito bem ainda, e acredito que os teus problemas estão quase a terminar.»

«Tem notícias para mim?», gritei eu.

«Para além da antecipação», respondeu ele. «O teu testemunho será, afinal, recebido; e podes ir, se quiseres, na minha companhia para o julgamento, que se realizará em Inverary, quinta-feira, 21 do próximo mês.»

Eu estava demasiado espantado para encontrar palavras.

«Entretanto», continuou ele, «embora não te peça para renovar o teu compromisso, devo advertir-te estritamente para seres reticente. Amanhã a tua inquirição deve ser feita; e fora disso, sabes, penso que quanto menos se disser, mais depressa se remenda.»

«Tentarei ser discreto», disse eu. «Acredito que é ao senhor que devo agradecer por esta misericórdia suprema, e agradeço-lhe profundamente. Depois de ontem, meu senhor, isto é como as portas do Céu. Não consigo acreditar que isto seja verdade.»

«Ah, mas deves tentar arranjar maneira, deves tentar arranjar maneira de acreditar», diz ele, em tom tranquilizador, «e fico muito contente por ouvir o teu reconhecimento de obrigação, pois creio que poderás pagar-me muito em breve» — tossiu — «ou até agora. A questão mudou muito. O teu testemunho, que não te pedirei hoje, alterará sem dúvida o semblante do caso para todos os envolvidos, e isto torna menos delicado para mim entrar contigo numa questão lateral.»

«Meu senhor», interrompi, «desculpe-me por interrompê-lo, mas como foi isto conseguido? Os obstáculos de que me falou no sábado pareciam até a mim ser absolutamente intransponíveis; como foi arranjado?»

«Meu caro Sr. David», disse ele, «nunca daria para eu divulgar (mesmo a ti, como dizes) os conselhos do Governo; e deves contentar-te, se quiseres, com o facto bruto.»

Sorriu-me como um pai enquanto falava, brincando ao mesmo tempo com uma pena nova; pensei que era impossível haver qualquer sombra de engano no homem: no entanto, quando puxou para si uma folha de papel, mergulhou a pena na tinta e começou novamente a dirigir-se a mim, de alguma forma já não estava tão certo, e caí instintivamente numa atitude de defesa.

«Há um ponto em que desejo tocar», começou ele. «Deixei-o propositadamente antes de lado, o que já não precisa de ser necessário. Esta não é, evidentemente, parte do teu exame, que se seguirá por outra mão; este é um interesse privado meu. Dizes que encontraste Alan Breck na colina?»

«Encontrei, meu senhor», disse eu.

«Isto foi imediatamente após o homicídio?»

«Foi.»

«Falaste com ele?»

«Falei.»

«Já o conhecias antes, creio eu?», diz o meu senhor, despreocupadamente.

«Não consigo adivinhar a sua razão para pensar tal, meu senhor», respondi, «mas tal é o facto.»

«E quando te separaste dele novamente?», disse ele.

«Reservo a minha resposta», disse eu. «A questão será colocada nas sessões.»

«Sr. Balfour», disse ele, «não compreendes que tudo isto é sem prejuízo para ti? Prometi-te vida e honra; e, acredita em mim, sei manter a minha palavra. Estás, portanto, livre de toda a ansiedade. Alan, parece, supões que podes proteger; e falas-me da tua gratidão, que creio (se me pressionares) não é imerecida. Há muitas considerações diferentes que apontam todas para o mesmo caminho; e nunca serei persuadido de que não poderias ajudar-nos (se quisesses) a deitar sal na cauda de Alan.»

«Meu senhor», disse eu, «dou-lhe a minha palavra de que nem sequer suspeito onde está Alan.»

Ele fez uma pausa de um suspiro. «Nem como poderia ser encontrado?», perguntou ele.

Sentei-me à sua frente como um tronco de madeira.

«E tanto pela tua gratidão, Sr. David!», observou ele. Novamente houve um silêncio. «Bem», disse ele, levantando-se, «não tenho sorte, e somos um par em propósitos contrários. Não falemos mais disso; receberás aviso de quando, onde e por quem faremos a tua inquirição. E, entretanto, as minhas meninas devem estar à tua espera. Nunca me perdoarão se detiver o seu cavalheiro.»

Às mãos dessas Graças fui consequentemente oferecido, e encontrei-as vestidas para além do que eu pensara possível, e parecendo belas como um ramo de flores.

Ao sairmos das portas, ocorreu uma pequena circunstância que mais tarde pareceu extremamente importante. Ouvi um assobio soar alto e breve como um sinal, e, olhando à volta, avistei por um momento a cabeça ruiva de Neil of the Tom, o filho de Duncan. No momento seguinte, ele tinha desaparecido, nem pude ver sequer a ponta do vestido de Catriona, a quem eu supunha naturalmente que ele estaria a acompanhar então.

Os meus três guardiões levaram-me por Bristo e pelas Bruntsfield Links; de onde um caminho nos levou a Hope Park, um belo jardim, traçado com caminhos de cascalho, equipado com bancos e abrigos de verão, e vigiado por um guarda. O caminho até lá foi um pouco longo; as duas meninas mais novas afetavam um ar de cansaço gentil que me desanimou cruelmente, a mais velha considerava-me com algo que por vezes parecia troça; e embora pensasse que me fiz justiça melhor do que no dia anterior, não foi sem algum esforço. Ao chegarmos ao parque fui lançado num grupo de oito ou dez jovens cavalheiros (alguns deles oficiais com laços, os restantes principalmente advogados) que se aglomeraram para atender essas belezas; e, embora tenha sido apresentado a todos eles com palavras muito boas, parece que fui imediatamente esquecido por todos. Os jovens num grupo são como animais selvagens: atacam ou desprezam um estranho sem cortesia, ou posso dizer, humanidade; e tenho a certeza de que, se estivesse entre babuínos, eles teriam demonstrado tanto de uma como de outra. Alguns dos advogados fingiam ser espirituosos, e alguns dos soldados fingiam ser faladores; e não sabia qual destes extremos me incomodava mais. Todos tinham uma maneira de manusear as suas espadas e as abas dos casacos, pelo que (por pura inveja negra) eu poderia tê-los chutado para fora do parque. Atrevo-me a dizer que, da parte deles, lamentavam profundamente a bela companhia em que eu tinha chegado; e, no geral, cedo fiquei para trás, e caminhei rigidamente na retaguarda de toda aquela alegria com os meus próprios pensamentos.

Desses fui chamado por um dos oficiais, o tenente Hector Duncansby, um rapaz das Terras Altas, desengonçado e de olhar lascivo, perguntando se o meu nome não era «Palfour».

Disse-lhe que era, não muito amavelmente, pois a sua maneira era pouco civil.

«Há, Palfour», diz ele, e depois, repetindo, «Palfour, Palfour!»

«Temo que não goste do meu nome, senhor», digo eu, incomodado comigo mesmo por estar incomodado com um sujeito tão rústico.

«Não», diz ele, «mas estava a pensar.»

«Não lhe aconselharia a fazer disso uma prática, senhor», digo eu. «Sinto-me certo de que não acharia que isso lhe convém.»

«Ouviste dizer onde Alan Grigor encontrou as tenazes?», disse ele.

Perguntei-lhe o que poderia possivelmente querer dizer, e ele respondeu, com uma risada mordaz, que achava que eu devia ter encontrado o atiçador no mesmo sítio e tê-lo engolido.

Não podia haver engano sobre isto, e a minha face ardeu.

«Antes de começar a insultar cavalheiros», disse eu, «acho que aprenderia primeiro a língua inglesa.»

Ele segurou-me pela manga com um aceno e uma piscadela e levou-me calmamente para fora de Hope Park. Mas mal estivemos fora da vista dos transeuntes, o modo da sua fisionomia mudou. «Seu patife das Terras Baixas!», grita ele, e deu-me uma bofetada na mandíbula com o punho fechado.

Paguei-lhe com outra igual ou melhor no retorno; ao que ele deu um pequeno passo atrás e tirou-me o chapéu decorosamente.

«Chega de pancadas, creio eu», diz ele. «Serei o cavalheiro ofendido, pois quem alguma vez ouviu falar de tal insolência como dizer a um cavalheiro que é um oficial do rei que ele não sabe falar o inglês de Deus? Temos espadas aos nossos lados, e aqui está o Parque do Rei à mão. Quer caminhar primeiro, ou deixar-me mostrar-lhe o caminho?»

Retribuí a sua vénia, disse-lhe para ir primeiro, e segui-o. Enquanto ele ia, ouvi-o resmungar para si mesmo sobre o inglês de Deus e a farda do Rei, de modo que eu poderia ter suposto que ele estava seriamente ofendido. Mas a sua maneira no início da nossa entrevista estava lá para o desmentir. Era manifesto que ele tinha vindo preparado para me arranjar uma briga, com ou sem razão; manifesto que eu fui apanhado numa nova artimanha dos meus inimigos; e para mim (consciente como estava das minhas deficiências) manifesto o suficiente que eu seria o único a cair no nosso encontro.

Ao chegarmos àquele deserto rochoso e agreste do Parque do Rei, fui tentado meia dúzia de vezes a pôr-me em fuga e correr, tão relutante estava em mostrar a minha ignorância na esgrima, e tão avesso a morrer ou mesmo a ser ferido. Mas considerei que se a malícia deles chegasse a este ponto, provavelmente não pararia por nada; e que cair pela espada, por muito desajeitadamente que fosse, ainda era uma melhoria em relação à forca. Considerei, além disso, que pela impertinência desprotegida das minhas palavras e pela rapidez do meu golpe, me pus fora de questão; e que, mesmo que corresse, o meu adversário provavelmente perseguir-me-ia e apanhar-me-ia, o que acrescentaria desgraça à minha desventura. De modo que, considerando tudo, continuei a marchar atrás dele, tanto como um homem segue o carrasco, e certamente sem mais esperança.

Contornámos o fim das longas escarpas e entrámos no Hunter’s Bog. Aqui, num pedaço de relvado limpo, o meu adversário desembainhou. Não havia ninguém lá para nos ver a não ser algumas aves; e nenhum recurso para mim a não ser seguir o seu exemplo, e ficar de guarda com o melhor semblante que pudesse exibir. Parece que não foi bom o suficiente para o Sr. Duncansby, que detetou algum defeito nas minhas manobras, parou, olhou para mim fixamente, e veio e foi, e ameaçou-me com a sua lâmina no ar. Como não vira tais procedimentos da parte de Alan, e estava além disso bastante afetado com a proximidade da morte, fiquei completamente confuso, impotente, e poderia ter desejado fugir.

«Que diabo a aflige?», grita o tenente.

E subitamente engajando, ele arrancou a espada da minha mão e enviou-a a voar para longe entre os juncos.

Duas vezes foi repetida esta manobra; e à terceira, quando trouxe de volta a minha arma humilhada, descobri que ele tinha devolvido a sua própria à bainha, e permanecia à minha espera com um rosto de certa irritação, e as mãos fechadas sob o seu gibão.

«Que o diabo me leve se lhe toco!» gritou ele, e perguntou-me amargamente que direito eu tinha de me colocar à frente de «cavalheiros» quando nem sequer sabia distinguir as costas de uma espada da sua frente.

Respondi que isso era culpa da minha educação; e far-me-ia ele a justiça de dizer que lhe tinha dado toda a satisfação que estava, infelizmente, ao meu alcance oferecer, e que me tinha mantido firme como um homem?

«E isso é a verdade», disse ele. «Eu próprio sou muito valente, e corajoso como um leão. Mas manter-se ali — e não sabe nada de esgrima! — da maneira que o fez, declaro que foi algo que me ultrapassou. E lamento o golpe; embora declare que acredito que a sua própria espada era a irmã mais velha, e a minha cabeça ainda zune com ela. E declaro que, se soubesse como era, não teria posto a mão em tal tipo de negócio.»

«Isso é muito bem dito», respondi, «e estou certo de que não se voltará a colocar à frente para ser o ator dos meus inimigos privados.»

«Na verdade, não, Palfour», disse ele; «e penso que fui usado de forma extremamente insuficiente ao ser posto a lutar com uma velha, ou o mesmo que uma criança, o que quer que seja! E direi ao Mestre isso, e lutar com ele, por Deus, ele mesmo!»

«E se soubesse a natureza da querela do Sr. Simon comigo», disse eu, «ficaria ainda mais ofendido por ser envolvido em tais assuntos.»

Ele jurou que bem podia acreditar nisso; que todos os Lovat eram feitos da mesma farinha e o diabo era o moleiro que a moía; depois, apertando-me subitamente a mão, jurou que eu era afinal um rapaz bastante correto, que era uma pena mil vezes lamentável que eu tivesse sido negligenciado, e que, se pudesse encontrar tempo, ele próprio cuidaria de me educar.

«Pode prestar-me um serviço melhor do que aquele que propõe», disse eu; e quando ele perguntou a sua natureza: «Venha comigo a casa de um dos meus inimigos e testemunhe como me portei este dia», disse-lhe. «Esse será o verdadeiro serviço. Pois, embora ele me tenha enviado um adversário galante para o primeiro, o pensamento na mente do Sr. Simon é meramente o homicídio. Haverá um segundo e depois um terceiro; e pelo que viu da minha destreza com o aço frio, pode julgar por si mesmo qual será o resultado provável.»

«E eu próprio não gostaria disso, se não fosse mais homem do que o que você foi!» gritou ele. «Mas farei justiça a si, Palfour. Avante!»

Se eu tinha caminhado lentamente a caminho daquele parque maldito, os meus calcanhares estavam bastante leves no caminho de volta. Marcavam o ritmo de uma áurea e muito boa canção, que é tão antiga como a Bíblia, e cujas palavras são: «*Certamente passou a amargura da morte*». Lembro-me de que estava extremamente sedento, e bebi no poço de Santa Margarida na estrada de descida, e a doçura daquela água excedia qualquer crença. Atravessámos o santuário, subimos a Canongate, entrámos por Netherbow e fomos diretos à porta de Prestongrange, falando enquanto vínhamos e organizando os detalhes do nosso assunto. O lacaio admitiu que o seu patrão estava em casa, mas declarou-o ocupado com outros cavalheiros em negócios muito privados, e a sua porta proibida.

«O meu negócio é apenas para três minutos, e não pode esperar», disse eu. «Pode dizer que não é de modo algum privado, e ficarei até contente por ter algumas testemunhas.»

À medida que o homem partia, bastante relutante, nesta missão, tivemos a ousadia de o seguir até à antecâmara, de onde pude ouvir durante algum tempo o murmúrio de várias vozes na sala interior. A verdade é que eram três à mesma mesa — Prestongrange, Simon Fraser e o Sr. Erskine, Xerife de Perth; e como estavam reunidos em consulta sobre o próprio negócio do homicídio de Appin, ficaram um pouco perturbados com a minha aparição, mas decidiram receber-me.

«Bem, bem, Sr. Balfour, e o que o traz aqui de novo? E quem é este que traz consigo?» diz Prestongrange.

Quanto a Fraser, olhou para a frente, para a mesa.

«Ele está aqui para prestar um pequeno testemunho a meu favor, meu senhor, o qual penso que é muito necessário que ouça», disse eu, e virei-me para Duncansby.

«Só tenho a dizer isto», disse o tenente, «que me coloquei hoje à frente com Palfour em Hunter’s Bog, do que estou agora muito arrependido, e ele portou-se tão bem como um cavalheiro poderia pedir. E tenho grandes respeitos por Palfour», acrescentou ele.

«Agradeço-lhe as suas expressões honestas», disse eu.

Ao que Duncansby fez a sua vénia à companhia e deixou a câmara, como tínhamos acordado antes.

«O que tenho eu a ver com isto?» diz Prestongrange.

«Direi a Vossa Senhoria em duas palavras», disse eu. «Trouxe este cavalheiro, um oficial do Rei, para me fazer tanta justiça. Agora penso que o meu caráter está coberto, e até uma certa data, que Vossa Senhoria pode muito bem fornecer, será completamente em vão despachar contra mim mais oficiais. Não consentirei em abrir caminho à força através da guarnição do castelo.»

As veias incharam na testa de Prestongrange, e ele olhou para mim com fúria.

«Penso que o diabo desatou este cão de rapaz entre as minhas pernas!» gritou ele; e então, voltando-se ferozmente para o seu vizinho: «Isto é parte do seu trabalho, Simon», disse ele. «Espio a sua mão no negócio, e, deixe-me dizer-lhe, ressinto-me disso. É desleal, quando estamos de acordo sobre um expediente, seguir outro no escuro. É desleal comigo. O quê! Deixa-me enviar este rapaz para o local com as minhas próprias filhas! E porque deixei escapar uma palavra para si... Vá lá, senhor, guarde as suas desonras para si próprio!»

Simon estava mortalmente pálido. «Não serei mais uma bola de pontapés entre si e o Duque», exclamou ele. «Ou cheguem a um acordo, ou cheguem a um desacordo, e resolvam-no entre vós. Mas não vou mais buscar e trazer, e receber as vossas instruções contrárias, e ser culpado por ambos. Pois se eu lhe dissesse o que penso de todo o vosso negócio de Hannover, isso faria a sua cabeça zunir.»

Mas o Xerife Erskine tinha preservado a sua calma, e agora interveio suavemente. «E entretanto», diz ele, «penso que deveríamos dizer ao Sr. Balfour que o seu caráter de valor está completamente estabelecido. Pode dormir em paz. Até à data a que teve a bondade de se referir, não será posto à prova mais nenhuma vez.»

A sua frieza trouxe os outros à sua prudência; e apressaram-se, com uma civilidade algo distraída, a despachar-me da casa.

CAPÍTULO IX. A URZE EM CHAMAS

Quando deixei Prestongrange naquela tarde, estava pela primeira vez zangado. O Advogado tinha feito pouco de mim. Tinha fingido que o meu testemunho ia ser recebido e eu próprio respeitado; e nessa mesma hora, não só Simon praticava contra a minha vida pelas mãos do soldado das Terras Altas, mas (como parecia pela sua própria linguagem) o próprio Prestongrange tinha algum plano em operação. Contei os meus inimigos; Prestongrange com toda a autoridade do Rei por trás de si; e o Duque com o poder das Terras Altas Ocidentais; e o interesse Lovat ao seu lado para os ajudar com tão grande força no norte, e todo o clã de antigos espiões e traficantes jacobitas. E quando me lembrei de James More e da cabeça ruiva de Neil, filho de Duncan, pensei que talvez houvesse um quarto na confederação, e o que restava da antiga seita desesperada de salteadores de Rob Roy estaria aliado contra mim com os outros. Uma coisa era necessária — algum amigo forte ou conselheiro sábio. O país devia estar cheio de tais pessoas, tanto capazes como ansiosas por me apoiar, ou Lovat e o Duque e Prestongrange não estariam a farejar por expedientes; e enfurecia-me pensar que eu poderia roçar pelos meus defensores na rua e não ser mais sábio.

E precisamente então (como uma resposta) um cavalheiro roçou por mim enquanto passava, lançou-me um olhar significativo e virou para um beco. Reconheci-o pelo canto do olho — era Stewart, o Escriturário; e, abençoando a minha boa fortuna, virei para o seguir. Assim que entrei no beco, vi-o parado na boca de uma escada, onde me fez um sinal e desapareceu imediatamente. Sete andares acima, lá estava ele novamente numa porta de casa, pela qual olhou para trás depois de termos entrado. A casa estava completamente desmantelada, sem uma peça de mobiliário; na verdade, era uma das quais Stewart tinha o aluguer nas suas mãos.

«Teremos de nos sentar no chão», disse ele; «mas estamos seguros aqui por enquanto, e andava ansioso por vê-lo, Sr. Balfour.»

«Como está Alan?» perguntei.

«Muito bem», disse ele. «Andie apanha-o nas areias de Gillane amanhã, quarta-feira. Ele estava ansioso por se despedir de si, mas com a forma como as coisas estavam a correr, temi que o par de vós estivesse talvez melhor separado. E isso traz-me ao essencial: como corre o seu negócio?»

«Bem», disse eu, «disseram-me apenas esta manhã que o meu testemunho era aceite, e que eu ia viajar para Inverary com o Advogado, nada menos.»

«Ora, vá lá!» gritou Stewart. «Nunca acreditarei nisso.»

«Talvez tenha uma suspeita minha», digo eu, «mas gostaria muito de ouvir as suas razões.»

«Bem, digo-lhe francamente, estou louco de raiva», grita Stewart. «Se a minha mão pudesse derrubar o governo deles, arrancá-la-ia como uma maçã podre. Sou o procurador de Appin e de James of the Glens; e, claro, é meu dever defender o meu parente pela sua vida. Ouça como isto corre comigo, e deixarei o julgamento disso para si. A primeira coisa que eles têm de fazer é livrar-se de Alan. Não podem acusar James como cúmplice até terem acusado Alan primeiro como principal; isso é boa lei: nunca poderiam pôr a carroça à frente dos bois.»

«E como hão de acusar Alan até o poderem apanhar?» digo eu.

«Ah, mas há uma maneira de evitar essa detenção», disse ele. «Boa lei, também. Seria uma coisa bonita se, pela fuga de um malfeitor, outro saísse impune, e o remédio é convocar o principal e colocá-lo fora da lei pela não comparência. Ora, há quatro lugares onde uma pessoa pode ser convocada: na sua casa de habitação; num lugar onde tenha residido quarenta dias; na principal cidade do condado onde habitualmente recorre; ou, por último (se houver motivos para pensar que está fora da Escócia), na cruz de Edimburgo, *e no cais e margem de Leith, por sessenta dias*. O propósito desta última disposição é evidente à vista: sendo que os navios que partem podem ter tempo para levar notícias da transação, e a convocatória ser algo mais do que uma formalidade. Ora, tome o caso de Alan. Ele não tem casa de habitação que eu alguma vez pudesse ouvir falar; ficaria grato se alguém me mostrasse onde ele viveu quarenta dias seguidos desde o ’45; não há condado onde ele recorra, seja habitual ou extraordinariamente; se ele tem um domicílio, o que duvido, deve ser com o seu regimento em França; e se ele ainda não está fora da Escócia (como sabemos e eles suspeitam) deve ser evidente para o mais obtuso que é para lá que ele aponta. Onde, então, e de que maneira deve ele ser convocado? Pergunto-lhe a si, um leigo.»

«Deu as palavras exatas», disse eu. «Aqui na cruz, e no cais e margem de Leith, por sessenta dias.»

«É um advogado escocês mais sensato do que Prestongrange, então!» grita o Escriturário. «Ele mandou convocar Alan uma vez; isso foi no dia vinte e cinco, o dia em que nos encontrámos pela primeira vez. Uma vez, e pronto. E onde? Onde, senão na cruz de Inverary, a principal cidade dos Campbell? Uma palavra ao seu ouvido, Sr. Balfour — eles não estão à procura de Alan.»

«O que quer dizer?» gritei. «Não o procuram?»

«Pelo melhor que posso entender», disse ele. «Não querem encontrá-lo, no meu pobre entender. Eles pensam talvez que ele poderia apresentar uma defesa justa, sobre a qual James, o homem que eles realmente procuram, poderia escapar. Isto não é um caso, vê, é uma conspiração.»

«No entanto, posso dizer-lhe que Prestongrange perguntou por Alan com interesse», disse eu; «embora, quando penso nisso, ele fosse algo fácil de despachar.»

«Veja só!» diz ele. «Mas lá está! Posso estar certo ou errado, isso é adivinhação no melhor dos casos, e deixe-me voltar aos meus factos. Chega aos meus ouvidos que James e as testemunhas — as testemunhas, Sr. Balfour! — jaziam em masmorras fechadas, e acorrentadas ainda por cima, na prisão militar em Fort William; ninguém era autorizado a visitá-los, nem eles a escrever. As testemunhas, Sr. Balfour; ouviu alguma vez igual? Asseguro-lhe, nenhum velho e tortuoso Stewart do bando alguma vez desafiou a lei mais impudentemente. É claramente contra os dois olhos da Lei do Parlamento de 1700, referente a prisões injustas. Não tardou que eu recebesse a notícia e peticionasse ao Lord Justice Clerk. Tenho a palavra dele hoje. Aí tem lei! eis a justiça!»

Ele colocou um papel na minha mão, esse mesmo papel de boca-mole e cara-falsa que foi impresso desde então no panfleto «por um espectador», em favor (como diz o título) da «pobre viúva e cinco filhos» de James.

«Veja», disse Stewart, «ele não se atreveu a recusar-me acesso ao meu cliente, por isso recomenda ao oficial comandante que me deixe entrar. Recomenda! — o Lord Justice Clerk da Escócia recomenda. Não é o propósito de tal linguagem claro? Esperam que o oficial possa ser tão obtuso, ou tão exatamente o oposto, para recusar a recomendação. Eu teria de fazer a viagem de volta entre aqui e Fort William. Seguir-se-ia um novo atraso até obter nova autoridade, e eles teriam desautorizado o oficial — homem militar, notoriamente ignorante da lei, e isso — eu conheço a cantilena. Depois a viagem uma terceira vez; e aí estaríamos nos calcanhares imediatos do julgamento antes de ter recebido a minha primeira instrução. Não tenho razão para chamar a isto uma conspiração?»

«Pode ter essa cor», disse eu.

«E vou continuar a provar-lho completamente», disse ele. «Eles têm o direito de manter James na prisão, no entanto não me podem negar visitá-lo. Não têm o direito de manter as testemunhas; mas serei eu a conseguir vê-las, que deveriam ser tão livres como o próprio Lord Justice Clerk! Veja — leia: Pelo resto, *recusa-se a dar quaisquer ordens aos carcereiros que não são acusados de terem feito algo contrário aos deveres do seu cargo*. Alguma coisa contrária! Senhores! E a Lei de mil e setecentos? Sr. Balfour, isto faz o meu coração explodir; a urze está em chamas dentro do meu ventre.»

«E o inglês claro dessa frase», disse eu, «é que as testemunhas devem continuar na prisão e você não deve vê-las?»

«E não devo vê-las até Inverary, quando o tribunal estiver montado!» grita ele, «e então ouvir Prestongrange sobre *as ansiosas responsabilidades do seu cargo e as grandes facilidades oferecidas à defesa*! Mas vou enganá-los lá, Sr. David. Tenho um plano para emboscar as testemunhas na estrada, e ver se não consigo obter um pouco de justiça do militar notoriamente ignorante da lei que comandará o destacamento.»

Foi realmente assim — foi realmente na beira da estrada perto de Tynedrum, e pela conivência de um oficial militar, que o Sr. Stewart viu pela primeira vez as testemunhas do caso.

«Não há nada que me surpreenda neste negócio», comentei.

«Eu surpreendê-lo-ei antes de acabar!» grita ele. «Vê isto?» — produzindo um impresso ainda húmido da prensa. «Este é o libelo: veja, lá está o nome de Prestongrange na lista de testemunhas, e não encontro palavra sobre qualquer Balfour. Mas aqui não está a questão. Quem pensa que pagou pela impressão deste papel?»

«Suponho que seria provavelmente o Rei Jorge», disse eu.

«Mas acontece que fui eu!» gritou ele. «Não que tenha sido impresso por e para eles próprios, para os Grants e os Erskines, e aquele ladrão da meia-noite, Simon Fraser. Mas poderia eu conseguir uma cópia! Não! Eu devia ir de olhos vendados para a minha defesa; devia ouvir as acusações pela primeira vez no tribunal junto com o júri.»

«Não é isto contra a lei?» perguntei.

«Não posso dizer tanto», respondeu ele. «Foi um favor tão natural e tão constantemente prestado (até este negócio sem precedentes) que a lei nunca o considerou. E agora admire a mão da Providência! Um estranho está na casa de impressão de Fleming, espia uma prova no chão, apanha-a e traz-ma. De todas as coisas, era precisamente este libelo. Pelo que a mandei compor de novo — impressa à custa da defesa: *sumptibus moesti rei*; ouviu alguma vez alguém algo assim? — e aqui está para quem quiser, o grande segredo revelado — todos podem vê-lo agora. Mas como pensa que eu desfrutaria disto, que tenho a vida do meu parente na minha consciência?»

«Na verdade, penso que desfrutaria mal», disse eu.

«E agora vê como é», concluiu ele, «e porque, quando me diz que a sua prova vai ser aceite, eu rio alto na sua cara.»

Agora era a minha vez. Expus-lhe em breve as ameaças e ofertas do Sr. Simon, e todo o incidente do capanga, com a cena subsequente em casa de Prestongrange. Da minha primeira conversa, de acordo com a promessa, não disse nada, nem na verdade era necessário. Durante todo o tempo em que falava, Stewart abanava a cabeça como uma figura mecânica; e assim que a minha voz cessou, ele abriu a boca e deu-me a sua opinião em duas palavras, insistindo fortemente em ambas.

«Desapareça», disse ele.

«Não o entendo», disse eu.

«Então levá-lo-ei lá», disse ele. «Pela minha visão disto, você vai desaparecer de qualquer maneira. Oh, isso está fora de debate. O Advogado, que não está sem alguns resquícios de decência restante, arrancou a sua segurança de vida a Simon e ao Duque. Recusou-se a levá-lo a julgamento, e recusou-se a deixá-lo matar; e aí está a pista para as suas palavras ásperas um contra o outro, pois Simon e o Duque não podem manter a palavra nem com amigos nem com inimigos. Não vai ser julgado, então, e não vai ser assassinado; mas estou em amargo erro se não vai ser raptado e levado como a Lady Grange. Aposte o que quiser — esse era o expediente deles!»

«Faz-me pensar», disse eu, e contei-lhe do assobio e do criado de cabeça ruiva, Neil.

«Onde quer que James More esteja, há um grande patife, nunca seja enganado por isso», disse ele. «O pai dele não era um homem tão mau, embora um pouco do lado errado da lei, e não amigo da minha família, para que eu desperdiçasse o meu fôlego a defendê-lo! Mas quanto a James, ele é um canalha e um velhaco. Gosto da aparência deste Neil de cabeça ruiva tão pouco como você. Parece sinistro: fe! cheira mal. Foi o velho Lovat que geriu o caso de Lady Grange; se o jovem Lovat vai tratar do seu, será tudo em família. Por que está James More na prisão? Pela mesma ofensa: rapto. Os seus homens têm prática no negócio. Ele vai emprestá-los para serem instrumentos de Simon; e a próxima coisa que ouviremos, James terá feito a sua paz, ou então terá escapado; e você estará em Benbecula ou Applecross.»

«Faz um caso forte», admiti.

«E o que quero», retomou ele, «é que desapareças antes que eles consigam deitar-te as mãos. Fica quieto até pouco antes do julgamento e aparece-lhes de surpresa no final, quando menos estiverem à tua espera. Isto é, partindo sempre do princípio, Sr. Balfour, de que o teu testemunho vale tamanho risco e maçada.»

«Vou dizer-lhe uma coisa», disse eu. «Eu vi o assassino e não foi Alan.»

«Então, por Deus, o meu primo está salvo!» exclamou Stewart. «Tens a vida dele na tua língua; e não há tempo, risco ou dinheiro que se deva poupar para te levar ao julgamento.» Esvaziou os bolsos sobre o chão. «Aqui está tudo o que tenho comigo», continuou ele. «Leva-o, vais precisar antes de terminares. Segue direto por este beco, há por lá uma saída para Lang Dykes e, por vontade minha, não voltes a ver Edimburgo até que o alarido passe.»

«Para onde devo ir, então?» indaguei.

«E quem me dera poder dizer-te!» diz ele, «mas todos os lugares para onde eu te pudesse mandar seriam precisamente aqueles onde eles te iriam procurar. Não, tens de te safar sozinho, e que Deus seja o teu guia! Cinco dias antes do julgamento, dezasseis de setembro, envia-me notícias para o King’s Arms em Stirling; e se tiveres conseguido aguentar-te até lá, eu tratarei de que chegues a Inverary.»

«Mais uma coisa», disse eu. «Não posso ver Alan?»

Ele pareceu atrapalhado. «Hech, preferiria que não o fizesses», disse ele. «Mas nunca poderei negar que Alan está extremamente ansioso por isso, e vai passar esta noite junto a Silvermills de propósito. Se tens a certeza de que não és seguido, Sr. Balfour — mas certifica-te bem disso — fica num bom lugar e vigia a tua estrada durante uma hora inteira antes de te arriscares. Seria um caso terrível se tanto tu como ele viessem a falhar!»

CAPÍTULO X. O HOMEM DE CABELO RUIVO

Eram cerca de três e meia quando saí para Lang Dykes. Dean era para onde eu queria ir. Uma vez que Catriona morava lá, e os seus parentes, os Macgregors de Glengyle, pareciam quase certamente estar a trabalhar contra mim, era precisamente um dos poucos lugares de onde me deveria ter mantido afastado; e, sendo um homem muito jovem e começando a estar muito apaixonado, virei o rosto nessa direção sem hesitar. Como escravo da minha consciência e do senso comum, contudo, tomei uma medida de precaução. Ao passar pelo cume de uma pequena elevação na estrada, atirei-me subitamente para o meio da cevada e fiquei à espera. Passado algum tempo, um homem passou que parecia ser um habitante das Terras Altas, mas eu nunca o tinha visto até àquela hora. Pouco depois veio Neil, o de cabelo ruivo. O que passou a seguir foi uma carroça de moleiro, e depois disso nada senão gente do campo, evidentemente. Isto era suficiente para ter feito qualquer pessoa, por mais temerária que fosse, desistir do seu propósito, mas a minha inclinação era demasiado forte no sentido contrário. Argumentei comigo mesmo que, se Neil estava naquela estrada, era a estrada certa para o encontrar, levando diretamente à filha do seu chefe; quanto ao outro habitante das Terras Altas, se eu me deixasse assustar por cada um que visse, dificilmente chegaria a qualquer lado. E, tendo-me dado por satisfeito com este debate desonesto, apressei o passo e cheguei pouco depois das quatro a casa da Sra. Drumond-Ogilvy.

Ambas as senhoras estavam dentro de casa; e ao percebê-las juntas junto à porta aberta, tirei o chapéu e disse: «Aqui veio um rapaz à procura de seis pence», o que pensei que poderia agradar à viúva.

Catriona correu a saudar-me cordialmente e, para minha surpresa, a velha senhora pareceu pouco menos efusiva do que ela própria. Soube muito mais tarde que ela tinha despachado um cavaleiro ao romper do dia para Rankeillor, em Queensferry, a quem sabia ser o agente de Shaws, e tinha então no bolso uma carta desse meu bom amigo, apresentando, sob o aspeto mais favorável, o meu caráter e as minhas perspetivas. Mas se a tivesse lido, dificilmente teria visto mais claramente os seus planos. Talvez eu fosse um simplório do campo; pelo menos, não tanto como ela pensava; e ocorreu até ao meu espírito rústico que ela estava empenhada em forjar um casamento entre a sua prima e um rapaz sem barba que era algo como um senhor de terras em Lothian.

«O Seis Pence faria melhor em tomar o caldo connosco, Catrine», diz ela. «Corre e diz às raparigas.»

E, durante o pouco tempo em que estivemos a sós, ela esforçou-se bastante por me adular; sempre de forma inteligente, sempre com a aparência de uma brincadeira, chamando-me sempre Seis Pence, mas com tal jeito que me deveria antes elevar na minha própria opinião. Quando Catriona regressou, o plano tornou-se, se possível, mais óbvio; e ela exibiu as qualidades da rapariga como um mercador de cavalos com um animal. O meu rosto inflamou-se por ela pensar que eu era tão obtuso. Ora eu imaginava que a rapariga estava a ser mostrada inocentemente, e então teria querido bater na velha megera com um cajado; ora, que talvez estas duas tivessem conspirado para me enredar, e nisso eu sentava-me e olhava para elas como a própria imagem do descontentamento. Por fim, a casamenteira teve um dispositivo melhor, que foi deixar-nos sozinhos. Quando as minhas suspeitas são de alguma forma despertadas, é por vezes um pouco difícil dissipá-las. Mas, embora eu soubesse de que raça ela era, e era uma raça de ladrões, nunca pude olhar para o rosto de Catriona e duvidar dela.

«Não devo perguntar?» diz ela, ansiosamente, no mesmo momento em que ficámos sós.

«Ah, mas hoje posso falar com a consciência tranquila», respondi. «Estou aliviado do meu compromisso e, na verdade (depois do que aconteceu desde a manhã), não o teria renovado se me fosse pedido.»

«Diz-me», disse ela. «O meu primo não tardará muito.»

Então contei-lhe a história do tenente, desde o primeiro passo até ao último, tornando-a o mais divertida que pude, e, na verdade, havia matéria de riso nessa absurdidade.

«E penso que não estarás mais apto para os homens rudes do que para as belas senhoras, afinal!» diz ela, quando terminei. «Mas o que era o teu pai, que não te pôde ensinar a desembainhar a espada! É muito pouco gentil; não ouvi paralelo a isso em ninguém.»

«É, no mínimo, muito inconveniente», disse eu; «e penso que o meu pai (homem honesto!) deve ter estado a sonhar acordado para me ensinar latim em vez disso. Mas vês que faço o melhor que posso, e fico simplesmente de pé como a mulher de Ló e deixo-os bater em mim.»

«Sabes o que me faz sorrir?» disse ela. «Bem, é isto. Sou feita desta maneira, que deveria ter sido um rapaz. Nos meus próprios pensamentos é assim que sou sempre; e continuo a contar a mim mesma sobre esta coisa que há de acontecer e aquela. Depois, chega ao lugar da luta, e ocorre-me que sou apenas uma rapariga, apesar de tudo, e não consigo segurar uma espada ou dar um bom golpe; e então tenho de torcer a minha história, de modo a que a luta pare, e ainda assim eu saia por cima, tal como tu e o tenente; e eu sou o rapaz que faz os belos discursos durante tudo, como o Sr. David Balfour.»

«És uma donzela sanguinária», disse eu.

«Bem, sei que é bom costurar e fiar, e fazer mostruários», disse ela, «mas se não tivesses de fazer mais nada no grande mundo, penso que tu próprio dirás que é um negócio seco; e não é que eu queira matar, penso eu. Alguma vez mataste alguém?»

«Já matei, por acaso. Dois, nada menos, e eu ainda um rapaz que deveria estar na faculdade», disse eu. «Mas, ainda assim, ao olhar para trás, não sinto vergonha disso.»

«Mas como te sentiste, então — depois disso?» perguntou ela.

«Na verdade, sentei-me e chorei como uma criança», disse eu.

«Eu sei isso, também», exclamou ela. «Sinto de onde estas lágrimas deveriam vir. E, de qualquer modo, eu não desejaria matar, apenas ser Catherine Douglas, que enfiou o braço pelos suportes do ferrolho, onde estava partido. Esse é o meu principal herói. Não adorarias morrer assim — pelo teu rei?» perguntou ela.

«Na verdade», disse eu, «a minha afeição pelo meu rei, Deus abençoe aquela cara de macaco, está sob maior controlo; e penso que já vi a morte tão perto de mim hoje, que estou antes ocupado com a noção de viver.»

«Certo», disse ela, «a mente correta de um homem! Só que tens de aprender armas; não gostaria de ter um amigo que não sabe golpear. Mas não terá sido com a espada que mataste esses dois?»

«Na verdade, não», disse eu, «mas com um par de pistolas. E foi uma sorte os homens estarem tão perto de mim, pois sou quase tão hábil com as pistolas como com a espada.»

Então ela arrancou-me a história da nossa batalha na galera, que eu tinha omitido na minha primeira conta dos meus assuntos.

«Sim», disse ela, «és corajoso. E o teu amigo, eu admiro-o e amo-o.»

«Bem, e penso que qualquer um gostaria!» disse eu. «Ele tem os seus defeitos como as outras pessoas; mas é corajoso, fiel e bondoso, que Deus o abençoe! Esse será um dia estranho quando eu me esquecer de Alan.» E o pensamento nele, e no facto de estar na minha escolha falar com ele naquela noite, tinha quase superado o meu espírito.

«E onde estará a minha cabeça, que não contei as minhas novidades!» exclamou ela, e falou de uma carta do seu pai, comunicando que ela o poderia visitar amanhã no castelo para onde fora agora transferido, e que os seus assuntos estavam a melhorar. «Não gostas de ouvir isso», disse ela. «Vais julgar o meu pai e não o conheces?»

«Estou a mil milhas de julgar», respondi. «E dou-te a minha palavra de que me regozijo por saber que o teu coração está aliviado. Se o meu rosto caiu um pouco, como suponho que deva ter acontecido, permitirás que este é um dia bastante mau para composições, e as pessoas no poder são pessoas extremamente más para se fazerem composições. Ainda tenho Simon Fraser extremamente pesado no meu estômago.»

«Ah!» exclamou ela, «não vais comparar estes dois; e deves ter em mente que Prestongrange e James More, o meu pai, são do mesmo sangue.»

«Nunca ouvi dizer tal coisa», disse eu.

«É bastante singular o pouco com que estás familiarizado», disse ela. «Uma parte pode chamar-se Grant, e outra Macgregor, mas são ainda do mesmo clã. São todos filhos de Alpin, de quem, penso eu, o nosso país tem o nome.»

«Que país é esse?» perguntei.

«O meu país e o teu», disse ela.

«Este é o meu dia para descobrir coisas, penso eu», disse eu, «pois sempre pensei que o nome dele era Escócia.»

«Escócia é o nome do que chamas Irlanda», respondeu ela. «Mas o antigo nome verdadeiro e ancestral deste lugar em que temos as solas dos pés, e de que os nossos ossos são feitos, será Alban. Era Alban que lhe chamavam quando os nossos antepassados lutavam por ele contra Roma e Alexandre; e ainda é chamado assim na tua própria língua que esqueces.»

«Na verdade», disse eu, «e isso nunca aprendi!» Pois faltou-me coragem para a confrontar quanto ao macedónio.

«Mas os teus pais e mães falavam-no, uma geração com a outra», disse ela. «E era cantado junto aos berços antes de tu ou eu termos sido sonhados; e o teu nome lembra-o ainda. Ah, se pudesses falar essa língua, encontrar-me-ias outra rapariga. O coração fala nessa língua.»

Tomei uma refeição com as duas senhoras, tudo muito bom, servido em louça fina e antiga, e o vinho excelente, pois parece que a Sra. Ogilvy era rica. A nossa conversa, também, foi agradável o suficiente; mas assim que vi o sol declinar acentuadamente e as sombras estenderem-se, levantei-me para me despedir. Pois a minha mente estava agora decidida a dizer adeus a Alan; e era necessário que eu visse o bosque do encontro e o reconhecesse, à luz do dia. Catriona veio comigo até à porta do jardim.

«É muito tempo até que te veja agora?» perguntou ela.

«Está além do meu julgamento», respondi. «Será muito tempo, pode ser nunca.»

«Pode ser assim», disse ela. «E estás arrependido?»

Inclinei a cabeça, olhando para ela.

«Eu também, de qualquer modo», disse ela. «Vi-te apenas por pouco tempo, mas coloquei-te muito alto. És verdadeiro, és corajoso; com o tempo penso que serás ainda mais homem. Ficarei orgulhosa de ouvir falar disso. Se te saíres pior, se acontecer como tememos — Oh bem! pensa que tens um amigo. Muito depois de estares morto e eu uma velha, estarei a contar aos meus filhos sobre David Balfour, e as minhas lágrimas a correr. Estarei a contar como nos separámos, e o que te disse, e fiz. Deus vá contigo e te guie, *reza a tua pequena amiga*: assim disse — estarei a contar-lhes — e aqui está o que fiz.»

Ela pegou na minha mão e beijou-a. Isto surpreendeu tanto o meu espírito que gritei como alguém ferido. A cor subiu forte ao seu rosto, e ela olhou para mim e assentiu.

«Oh sim, Sr. David», disse ela, «é isso que penso de ti. A cabeça vai com os lábios.»

Eu podia ler no seu rosto um espírito elevado, e uma cavalaria como a de uma criança corajosa; nada além disso. Ela beijou a minha mão, como tinha beijado a do Príncipe Charlie, com uma paixão mais elevada do que o tipo comum de barro tem qualquer sentido. Nada antes me tinha ensinado quão profundamente eu era o seu amante, nem quão longe eu tinha ainda de subir para a fazer pensar em mim com tal carater. Contudo, podia dizer a mim mesmo que tinha avançado algum caminho, e que o seu coração tinha batido e o seu sangue tinha corrido com pensamentos sobre mim.

Depois daquela honra que ela me tinha feito, não podia oferecer mais nenhuma trivialidade. Era até difícil para mim falar; um certo aperto na sua voz tinha batido diretamente à porta das minhas próprias lágrimas.

«Louvo a Deus pela tua bondade, querida», disse eu. «Adeus, minha pequena amiga!» dando-lhe aquele nome que ela tinha dado a si própria; com o qual fiz uma vénia e a deixei.

O meu caminho era pelo vale do rio Leith, em direção a Stockbridge e Silvermills. Um caminho levava ao fundo dele, a água corria e cantava no meio; os raios de sol acima atingiam a partir do oeste entre longas sombras e (à medida que o vale girava) tornavam tudo uma nova cena e um novo mundo a cada esquina. Com Catriona atrás e Alan à minha frente, eu sentia-me como alguém elevado. O lugar, além disso, e a hora, e o falar da água, agradavam-me infinitamente; e detive os meus passos e olhei para a frente e para trás à medida que caminhava. Foi esta a causa, sob a Providência, de eu espiar um pouco atrás de mim uma cabeça ruiva entre alguns arbustos.

A raiva surgiu no meu coração, e virei-me diretamente e caminhei a passo firme para onde tinha vindo. O caminho ficava perto dos arbustos onde eu tinha notado a cabeça. A cobertura chegava à beira da estrada, e à medida que passava, estava todo tenso para encontrar e resistir a um ataque. Tal coisa não aconteceu, passei sem ser incomodado; e com isso o medo aumentou em mim. Ainda era dia, na verdade, mas o lugar era extremamente solitário. Se os meus perseguidores tinham deixado passar aquela ocasião justa, só podia julgar que visavam algo mais do que David Balfour. As vidas de Alan e James pesavam no meu espírito com o peso de dois bois crescidos.

Catriona estava ainda no jardim a passear sozinha.

«Catriona», disse eu, «vês-me de volta.»

«Com um rosto mudado», disse ela.

«Carrego as vidas de dois homens além da minha», disse eu. «Seria um pecado e vergonha não andar com cuidado. Estava em dúvida se fazia bem em vir aqui. Não gostaria nada se fosse por esse meio que fôssemos levados ao mal.»

«Podia dizer-te um que gostaria menos, e gostará pouco o suficiente de te ouvir falar exatamente ao mesmo tempo», exclamou ela. «O que fiz eu, de qualquer modo?»

«Oh, tu, tu não estás sozinha», respondi. «Mas desde que saí, tenho sido seguido novamente, e posso dar-te o nome daquele que me segue. É Neil, filho de Duncan, o teu homem ou do teu pai.»

«Certamente estás enganado aí», disse ela, com um rosto pálido. «Neil está em Edimburgo em recados do meu pai.»

«É o que temo», disse eu, «o último disso. Mas quanto a ele estar em Edimburgo, penso que te posso mostrar outra coisa sobre isso. Certamente tens algum sinal, um sinal de necessidade, tal como o traria em teu auxílio, se ele estivesse em qualquer lugar ao alcance de ouvidos e pernas?»

«Ora, como saberás isso?» diz ela.

«Por meio de um talismã mágico que Deus me deu quando nasci, e o nome por que o chamam é Senso Comum», disse eu. «Obriga-te até ao ponto de fazeres o teu sinal, e eu mostrar-te-ei a cabeça ruiva de Neil.»

Sem dúvida que falei amargo e cortante. O meu coração estava amargo. Culpei-me a mim mesmo e à rapariga e odiei-nos a ambos: a ela pela corja vil de que descendia, a mim mesmo pela minha tolice desenfreada de ter enfiado a cabeça num tal ninho de vespas.

Catriona colocou os dedos nos lábios e assobiou uma vez, com uma nota extremamente clara, forte e ascendente, tão cheia como a de um lavrador. Durante algum tempo ficámos silenciosos; e eu estava prestes a pedir-lhe que repetisse o mesmo, quando ouvi o som de alguém a irromper pelos arbustos abaixo na encosta. Apontei nessa direção com um sorriso, e logo Neil saltou para o jardim. Os seus olhos ardiam, e ele tinha uma faca negra (como lhe chamam no lado das Terras Altas) nua na mão; mas, ao ver-me ao lado da sua senhora, parou como um homem atingido.

«Ele veio ao teu chamado», disse eu; «julga quão perto ele estava de Edimburgo, ou qual era a natureza dos recados do teu pai. Pergunta-lhe a ele mesmo. Se eu tiver de perder a minha vida, ou as vidas daqueles que dependem de mim, por meio do teu clã, deixa-me ir para onde tenho de ir com os olhos abertos.»

Ela dirigiu-se a ele tremulamente em gaélico. Lembrando-me da cortesia ansiosa de Alan nesse particular, poderia ter rido alto de amargura; aqui, certamente, no meio destas suspeitas, era a hora em que ela deveria ter-se mantido pelo inglês.

Duas ou três vezes falaram juntos, e pude perceber que Neil (apesar de toda a sua submissão) era um homem zangado.

Depois ela voltou-se para mim. «Ele jura que não é», disse ela.

«Catriona», disse eu, «acreditas tu mesma no homem?»

Ela fez um gesto como quem torce as mãos.

«Como poderei saber?» exclamou ela.

«Mas tenho de encontrar algum meio para saber», disse eu. «Não posso continuar a andar à deriva na noite escura com as vidas de dois homens à minha cintura! Catriona, tenta pôr-te no meu lugar, como juro a Deus que me esforço por me pôr no teu. Este não é tipo de conversa que deveria ter caído entre mim e ti; não é tipo de conversa; o meu coração está doente com isso. Vê, mantém-no aqui até às duas da manhã, e não me importa. Tenta-o com isso.»

Falaram juntos mais uma vez em gaélico.

«Ele diz que tem um recado do meu pai, James More», disse ela. Estava mais pálida do que nunca e a sua voz vacilou ao dizê-lo.

«Está bastante claro agora», disse eu, «e que Deus perdoe aos ímpios!»

Ela não disse nada a isso, mas continuou a olhar para mim com a mesma face branca.

«Isto é um belo negócio», disse eu de novo. «Hei de cair, então, e esses dois juntamente comigo?»

«Oh, o que hei de fazer?», exclamou ela. «Poderia eu ir contra as ordens do meu pai, ele na prisão, em perigo de vida!»

«Mas talvez estejamos a correr demasiado», disse eu. «Isto também pode ser mentira. Ele pode não ter ordens legítimas; tudo pode ter sido engendrado por Simon, e o teu pai não saber de nada.»

Ela rompeu em choro entre nós os dois; e o meu coração abateu-se-me, pois pensei que esta rapariga estava numa situação terrível.

«Aqui», disse eu, «detém-no apenas por uma hora; e eu arriscar-me-ei, e que Deus te abençoe.»

Ela estendeu-me a mão. «Precisarei de uma boa palavra», soluçou ela.

«A hora completa, então?», disse eu, mantendo a sua mão na minha. «Três vidas dependem disso, minha rapariga!»

«A hora completa!», disse ela, e clamou em voz alta pelo seu Redentor para que a perdoasse.

Achei que não era lugar adequado para mim, e fugi.

CAPÍTULO XI. O BOSQUE JUNTO A SILVERMILLS

Não perdi tempo, mas desci pelo vale e por Stockbridge e Silvermills tão depressa quanto pude. Era o encontro de Alan estar todas as noites entre as doze e as duas «num pedaço de bosque a leste de Silvermills e a sul do canal do moinho do sul». Achei isto bastante fácil, onde crescia numa encosta íngreme, com o canal do moinho a correr veloz e profundo ao longo da sua base; e aqui comecei a caminhar mais devagar e a refletir mais sensatamente sobre o meu emprego. Vi que tinha feito um negócio de tolos com Catriona. Não era de supor que Neil tivesse sido enviado sozinho na sua missão, mas talvez fosse o único homem pertencente a James More; caso em que teria feito tudo o que pudesse para enforcar o pai de Catriona, e nada de minimamente essencial para me ajudar a mim próprio. Para dizer a verdade, não me agradava nenhuma destas ideias. Suponhamos que, ao deter Neil, a rapariga tivesse ajudado a enforcar o seu pai; pensei que ela nunca se perdoaria nesta vida. E suponhamos que havia outros a perseguir-me naquele momento; que espécie de presente trazia eu para Alan? E como me sentiria com isso?

Eu estava junto à extremidade oeste daquele bosque quando estas duas considerações me atingiram como um cassetete. Os meus pés pararam por si mesmos e o meu coração com eles. «Que jogo louco é este que tenho estado a jogar?», pensei; e virei-me instantaneamente nos calcanhares para ir para outro lado.

Isto trouxe-me a face para Silvermills; o caminho passava pela aldeia com uma curva, mas tudo claramente visível; e, fosse Highland ou Lowland, não havia ninguém a mexer-se. Aqui estava a minha vantagem, aqui estava exatamente aquela conjuntura de que Stewart me tinha aconselhado a tirar proveito, e corri ao lado do canal do moinho, contornei para além do canto leste do bosque, enfiei-me pelo meio dele e voltei à orla oeste, de onde podia novamente controlar o caminho e, contudo, permanecer invisível. Novamente estava tudo vazio, e o meu coração começou a subir.

Durante mais de uma hora sentei-me escondido na orla das árvores, e nenhuma lebre ou águia poderia ter mantido uma vigia mais minuciosa. Quando essa hora começou, o sol já se tinha posto, mas o céu ainda estava todo dourado e a luz do dia clara; antes de a hora terminar, tinha caído para um meio-crepúsculo, as imagens e distâncias das coisas misturavam-se, e a observação começou a ser difícil. Durante todo esse tempo, nem um pé de homem tinha vindo do leste de Silvermills, e os poucos que tinham ido para oeste eram gente honesta do campo e as suas mulheres a caminho da cama. Se eu fosse seguido pelos espiões mais astutos da Europa, julguei que estava para lá do curso da natureza que pudessem ter qualquer suspeita de onde eu estava: e indo um pouco mais para dentro do bosque, deitei-me à espera de Alan.

A tensão da minha atenção tinha sido grande, pois eu vigiara não apenas o caminho, mas cada arbusto e campo dentro da minha visão. Isso agora tinha terminado. A lua, que estava no seu primeiro quarto, cintilava um pouco no bosque; à volta havia a quietude do campo; e enquanto ali jazia de costas, nas três ou quatro horas seguintes, tive uma bela ocasião para rever a minha conduta.

Duas coisas tornaram-se claras para mim primeiro: que eu não tinha o direito de ir aquele dia a Dean e (tendo ido lá) não tinha agora o direito de estar deitado onde estava. Isto (onde Alan viria) era precisamente o único bosque em toda a vasta Escócia que estava, por qualquer sentimento correto, vedado a mim; admiti isso, e ainda assim permaneci, maravilhando-me comigo próprio. Pensei na medida com que tinha medido Catriona naquela mesma noite; como tinha falado das duas vidas que carregava e tinha, assim, forçado-a a colocar em risco a do seu pai; e como estava aqui a expô-los novamente, parecia, por capricho. Uma boa consciência é oito partes da coragem. Não mais cedo perdi a estima pelo meu comportamento, do que me pareceu estar desarmado no meio de uma multidão de terrores. De repente, sentei-me. E se fosse agora a Prestongrange, apanhasse-o (como ainda facilmente poderia) antes que ele dormisse, e fizesse uma submissão total? Quem me poderia culpar? Não Stewart, o Escrivão; bastava-me dizer que estava a ser seguido, que desesperava de conseguir escapar, e por isso me rendia. Não Catriona: aqui, também, tinha a minha resposta pronta; que não podia suportar que ela expusesse o seu pai. Assim, num momento, podia deixar de lado todas estas preocupações, que eram, afinal e verdadeiramente, nenhuma das minhas; nadar livre do Assassinato de Appin; sair do alcance de todos os Stewarts e Campbells, de todos os Whigs e Tories da terra; e viver daqui em diante de acordo com a minha própria vontade, e poder desfrutar e melhorar a minha fortuna, e dedicar algumas horas da minha juventude a cortejar Catriona, o que seria certamente uma ocupação mais adequada do que esconder-me, correr e ser seguido como um ladrão caçado, e recomeçar as terríveis misérias da minha fuga com Alan.

A princípio não senti vergonha desta capitulação; apenas me espantei por não ter pensado na coisa e tê-la feito mais cedo; e comecei a indagar sobre as causas da mudança. Tracei-as ao meu abatimento de espírito, que por sua vez à minha recente imprudência, e essa novamente ao pecado comum, antigo, público e desprezado da condescendência consigo mesmo. Instantaneamente o texto veio-me à cabeça: «Como pode Satanás expulsar Satanás?» O quê? (pensei) Eu tinha, por condescendência, pelo seguimento de caminhos agradáveis e pelo engodo de uma donzela, lançado-me totalmente fora da estima pelo meu próprio caráter e colocado em risco as vidas de James e Alan? E eu ia procurar a saída pelo mesmo caminho por onde entrei? Não; o dano que tinha sido causado pela condescendência deve ser curado pela abnegação; a carne que eu tinha mimado deve ser crucificada. Olhei à minha volta para aquele curso que eu menos gostava de seguir: este era deixar o bosque sem esperar para ver Alan e sair novamente sozinho, no escuro e no meio das minhas perplexas e perigosas fortunas.

Tenho tido o maior cuidado em narrar esta passagem das minhas reflexões, porque penso que é de alguma utilidade e pode servir como exemplo para os jovens. Mas há razão (dizem) em plantar couves, e mesmo na ética e na religião, lugar para o senso comum. Estava já perto da hora de Alan, e a lua tinha-se posto. Se eu partisse (como não podia muito decentemente assobiar aos meus espiões para me seguirem) eles poderiam perder-me no escuro e agarrar-se a Alan por engano. Se eu ficasse, poderia, no mínimo, colocar o meu amigo de sobreaviso, o que poderia provar ser a sua mera salvação. Eu tinha aventurado a segurança de outras pessoas num curso de condescendência; tê-los colocado em perigo novamente, e agora por um mero desígnio de penitência, dificilmente teria sido racional. De acordo com isto, mal me tinha levantado do meu lugar, sentei-me novamente, mas já num estado de espírito diferente, maravilhando-me igualmente com a minha fraqueza passada e regozijando-me com a minha compostura presente.

Logo depois veio um estalido no matagal. Colocando a boca perto do chão, assobiei uma nota ou duas da melodia de Alan; uma resposta veio no mesmo tom cauteloso, e logo nos encontrámos no escuro.

«És tu finalmente, Davie?», sussurrou ele.

«Eu mesmo», disse eu.

«Deus, homem, mas eu tenho estado ansioso por te ver!», diz ele. «Tive o mais longo tipo de tempo. Todo o dia, tive a minha morada dentro de um palheiro, onde não conseguia ver as pontas dos meus dez dedos; e depois duas horas a esperar aqui por ti, e tu nunca vinhas! Diabo, e não vens nada cedo, da maneira que está, comigo a zarpar de manhã! De manhã? Que estou eu a dizer? Hoje, quero dizer.»

«Sim, Alan, homem, hoje, com certeza», disse eu. «Já passaram das doze agora, certamente, e tu zarpas hoje. Este será um longo caminho que tens pela tua frente.»

«Teremos uma longa conversa primeiro», disse ele.

«Bem, na verdade, e tenho uma boa parte que será importante que ouças», disse eu.

E contei-lhe o que era necessário, fazendo um pouco de confusão, mas suficientemente claro quando terminei. Ele ouviu-me até ao fim com muito poucas perguntas, rindo aqui e ali como um homem encantado: e o som do seu riso (acima de tudo ali, no escuro, onde nenhum de nós podia ver o outro) era extraordinariamente amigável para o meu coração.

«Sim, Davie, és um caráter estranho», diz ele, quando terminei: «uma criatura estranha, afinal de contas, e não me lembro de encontrar alguém como tu. Quanto à tua história, Prestongrange é um Whig como tu, por isso direi o menos possível dele; e, diabo! Acredito que ele foi o melhor amigo que tiveste, se apenas o pudesses confiar. Mas Simon Fraser e James More são o meu próprio tipo de gado, e dar-lhes-ei o nome que merecem. O grande diabo negro foi pai dos Frasers, toda a gente sabe disso; e quanto aos Gregara, nunca pude suportar o cheiro deles desde que me conseguia pôr de pé sobre dois pés. Sangrei o nariz de um, lembro-me, quando ainda era tão trôpego nas pernas que caí em cima dele. Um homem orgulhoso foi o meu pai nesse dia, Deus o tenha! e penso que tinha motivos para isso. Nunca poderei negar que Robin era algo de um gaiteiro», acrescentou ele; «mas quanto a James More, que o diabo o guie por mim!»

«Uma coisa temos de considerar», disse eu. «Estava Charles Stewart certo ou errado? É apenas a mim que eles procuram, ou aos dois?»

«E qual é a tua própria opinião, tu que és um homem de tanta experiência?», disse ele.

«Ultrapassa-me», disse eu.

«E a mim também», diz Alan. «Acharias que esta rapariga cumpriria a sua palavra contigo?», perguntou ele.

«Acredito que sim», disse eu.

«Bem, não há como saber», disse ele. «E de qualquer modo, isso está terminado e feito: ele estará unido ao resto deles há muito tempo.»

«Quantos acharias que seriam deles?», perguntei.

«Isso depende», disse Alan. «Se fosses apenas tu, eles provavelmente enviariam dois ou três jovens alegres e vivazes, e se pensassem que eu ia aparecer no serviço, atrevo-me a dizer dez ou doze», disse ele.

Não valia a pena, dei uma pequena gargalhada.

«E penso que os teus próprios dois olhos terão visto eu despachar esse número, ou o dobro dele, de perto!», exclama ele.

«Importa menos», disse eu, «porque estou bem livre deles por esta vez.»

«Sem dúvida que essa é a tua opinião», disse ele; «mas eu não ficaria minimamente surpreendido se eles estivessem a espreitar este bosque. Vês, homem David; eles serão gente das Terras Altas. Haverá alguns Frasers, estou a pensar, e alguns dos Gregara; e eu nunca negaria que ambos, e os Gregara em especial, eram pessoas inteligentes e experientes. Um homem sabe pouco até ter conduzido um rebanho de gado (digamos) dez milhas através de um país de planície povoado e os soldados negros talvez nos seus calcanhares. Foi aí que aprendi uma grande parte da minha penetração. E não precisas de me dizer: é melhor que a guerra; que é a segunda melhor, contudo, embora geralmente bastante uma patetice de negócio. Agora, os Gregara têm tido uma prática grandiosa.»

«Sem dúvida que esse é um ramo da educação que foi deixado de lado comigo», disse eu.

«E eu posso ver os sinais disso em ti constantemente», disse Alan. «Mas essa é a coisa estranha sobre vocês, gente do ensino universitário: sois ignorantes, e não podeis ver isso. Ai de mim pelo meu grego e hebraico; mas, homem, eu sei que não os sei — essa é a diferença. Agora, aqui estás tu. Deitas-te sobre o teu ventre um pouco no abrigo deste bosque, e dizes-me que te livraste destes Frasers e Macgregors. Porquê? Porque não os podias ver, dizes tu. Seu cabeça-dura, esse é o seu ganha-pão.»

«Pega no pior disso», disse eu, «e o que devemos fazer?»

«Estou a pensar exatamente nisso», disse ele. «Poderíamos separar-nos. Não seria muito do meu agrado; e além disso, vejo razões contra isso. Primeiro, está agora muito escuro, e é humanamente possível que lhes pudéssemos escapar limpos. Se ficarmos juntos, fazemos apenas uma linha disso; se formos separados, fazemos duas: mais probabilidade de dar de caras com algum desses teus cavalheiros. E depois, segundo, se eles mantiverem o nosso rasto, pode chegar a uma luta, Davie; e então, confesso que ficaria feliz por ter-te ao meu lado, e penso que não ficarias nada mal em ter-me ao teu. Assim, da minha maneira de ver, deveríamos rastejar para fora deste bosque não mais longe do que o interior do próximo minuto, e seguir para leste para Gillane, onde devo encontrar o meu navio. Será como nos velhos tempos enquanto durar, Davie; e (quando chegar a hora) teremos de pensar no que deves fazer. Estou triste por te deixar aqui, sem mim.»

«Vamos com isso, então!», digo eu. «Voltas para onde estavas a parar?»

«Nem pensar!», disse Alan. «Eles foram boa gente para mim, mas penso que ficariam bastante desapontados se vissem a minha cara bonita novamente. Pois (da maneira como as coisas vão) não sou exatamente o que poderias chamar de Hóspede Bem-vindo. O que me torna ainda mais ansioso pela tua companhia, Sr. David Balfour de Shaws, e que te aproveite! Pois, deixando de lado duas conversas aqui no bosque com Charlie Stewart, mal disse preto ou branco desde o dia em que nos separámos em Corstorphine.»

Com o que ele se levantou do seu lugar, e começámos a mover-nos silenciosamente para leste através do bosque.

CAPÍTULO XII. EM MARCHA NOVAMENTE COM ALAN

Seria provavelmente entre a uma e as duas; a lua (como disse) tinha-se posto; um vento bastante forte, carregando uma pesada massa de nuvens, tinha começado subitamente do oeste; e iniciámos o nosso movimento numa noite tão negra quanto qualquer fugitivo ou assassino desejaria. A brancura do caminho guiou-nos para a cidade adormecida de Broughton, depois através de Picardy, e ao lado do meu velho conhecido, a forca dos dois ladrões. Um pouco mais além, fizemos um farol útil, que era uma luz numa janela superior de Lochend. Guiando-nos por isto, mas bastante ao acaso, e com algum pisar da colheita, e tropeçar e cair nas margens, fizemos o nosso caminho através do campo, e chegámos finalmente ao charneca pantanosa e cheia de plantas que chamam Figgate Whins. Aqui, debaixo de um arbusto de tojo, deitámo-nos o resto daquela noite e adormecemos.

O dia chamou-nos por volta das cinco. Era uma manhã linda, o vento oeste forte ainda a soprar com vigor, mas as nuvens todas sopradas para a Europa. Alan já estava sentado e sorrindo para si mesmo. Era a minha primeira visão do meu amigo desde que nos separámos, e olhei para ele com prazer. Ele ainda tinha o mesmo sobretudo grande nas costas; mas (o que era novo) tinha agora um par de meias de bota de malha puxadas acima do joelho. Sem dúvida que estas tinham a intenção de disfarçar; mas, como o dia prometia ser quente, ele fazia uma figura muito inoportuna.

«Bem, Davie», disse ele, «não é esta uma manhã bonita? Eis um dia que parece da maneira que um dia deve ser. Esta é uma grande mudança em relação ao ventre do meu palheiro; e enquanto tu estavas ali a dormir e a ressonar, eu fiz uma coisa que talvez faça muito raramente.»

«E o que foi isso?», disse eu.

«Oh, apenas rezei», disse ele.

«E onde estão os meus cavalheiros, como lhes chamas?», perguntei.

«Deus sabe», diz ele; «e o resumo de tudo é que temos de correr o risco. Levanta as solas dos pés, Davie! Avante, Fortuna, mais uma vez! E uma bela caminhada é provável que tenhamos.»

Assim fomos para leste pela praia do mar, em direção a onde as salinas estavam a fumegar junto à foz do Esk. Sem dúvida que havia um brilho de manhã extraordinariamente bonito sobre Arthur’s Seat e as colinas verdes de Pentland; e a amenidade do dia parecia colocar Alan entre urtigas.

«Sinto-me um tolo», diz ele, «por estar a deixar a Escócia num dia como este. Fica-me na cabeça; talvez gostasse mais de ficar aqui e pendurar-me.»

«Sim, mas não gostarias, Alan», disse eu.

«Não, mas é que a França é um bom lugar também», explicou ele; «mas de certa forma não é a mesma coisa. É mais elegante, acredito, mas não é a Escócia. Gosto muito quando lá estou, homem; no entanto, anseio um pouco pelas turfas escocesas e pelo cheiro a fumo da Escócia.»

«Se isso é tudo de que tens de te queixar, Alan, não é assim tão grande assunto», disse eu.

«E fica-me mal estar a queixar-me, de qualquer forma», disse ele, «e eu acabado de sair daquele palheiro do diabo.»

«E então estavas muito cansado do teu palheiro?», perguntei.

«Cansado não é a palavra para isso», disse ele. «Não sou exatamente um homem que se deixe abater facilmente; mas dou-me melhor com ar fresco e o céu sobre a minha cabeça. Sou como o velho Black Douglas (não era?) que preferia ouvir a cotovia cantar do que o rato chiar. E aquele lugar, vês, Davie — que era um lugar muito adequado para se esconder, como estou disposto a admitir — era breu absoluto do amanhecer ao anoitecer. Houve dias (ou noites, pois como poderia distinguir um do outro?) que me pareceram tão longos como um longo inverno.»

«Como sabias a hora para manter o teu encontro?», perguntei.

«O homem trazia-me a comida e um pouco de brandy, e um resto de vela para comer por ela, por volta das onze», disse ele. «Então, quando tinha engolido um bocado, seria hora de ir para o bosque. Ali deitava-me e ansiava amargamente por ti, Davie», diz ele, pondo a mão no meu ombro, «e adivinhava quando as duas horas teriam passado — a menos que Charlie Stewart viesse e me dissesse no seu relógio — e depois de volta ao maldito palheiro. Não, foi um emprego entediante, e louvado seja o Senhor por eu ter lutado e vencido com ele!»

«O que fazias contigo mesmo?», perguntei.

«Pela minha fé», disse ele, «o melhor que podia! Por vezes jogava aos ossinhos. Sou extraordinariamente jeitoso nos ossinhos, mas é um negócio triste jogar sem ninguém para nos admirar. E por vezes fazia canções.»

«Sobre que eram?», digo eu.

«Oh, sobre o veado e a urze», diz ele, «e sobre os chefes da antiguidade que já lá vão há muito tempo, e simplesmente sobre o que as canções são em geral. E depois, por vezes, fingia que tinha um conjunto de gaitas de foles e que estava a tocar. Toquei umas primaveras magníficas, e achei que as toquei horrivelmente bem; juro, por vezes, que podia ouvir o guinchar delas! Mas o grande assunto é que já acabou.»

Com isto, ele levou-me de volta às minhas aventuras, as quais ouviu de novo, com maior pormenor e extraordinária aprovação, jurando a intervalos que eu era «uma personagem de rapaz bem estranha».

«Portanto, tiveste medo do Sim Fraser?», perguntou ele uma vez.

«Na verdade, tive!», exclamei eu.

«Também eu teria tido, Davie», disse ele. «E esse é, de facto, um homem terrível. Mas é apenas justo dar ao diabo o que é seu: e posso dizer-te que ele é uma pessoa muito respeitável no campo de batalha.»

«É assim tão corajoso?», perguntei eu.

«Corajoso!», disse ele. «Ele é tão corajoso como a minha espada de aço.»

A história do meu duelo deixou-o fora de si.

«Pensar nisto!», gritou ele. «Mostrei-te o truque em Corrynakiegh também. E três vezes — três vezes desarmado! É uma desgraça para o meu carácter ter-te ensinado! Vá, levanta-te, tira o teu ferro; não darás um passo além deste lugar na estrada até que possas fazer mais crédito a ti mesmo e a mim.»

«Alan», disse eu, «isto é loucura de solstício. Não é altura para lições de esgrima.»

«Não posso negar isso», admitiu ele. «Mas três vezes, homem! E tu ali parado como um espantalho e a correr para ir buscar a tua própria espada como um cachorrinho com um lenço de bolso! David, este tal Duncansby deve ser algo absolutamente extraordinário! Deve ser extraordinariamente habilidoso. Se tivesse tempo, voltaria atrás imediatamente para experimentar uma rodada com ele eu mesmo. O homem deve ser um magistrado.»

«Seu bobo», disse eu, «esquece-te de que era apenas eu.»

«Não», disse ele, «mas três vezes!»

«Quando tu próprio sabes que sou completamente incompetente», exclamei.

«Bem, nunca ouvi dizer nada igual», disse ele.

«Prometo-te uma coisa, Alan», disse eu. «Da próxima vez que nos encontrarmos, estarei melhor instruído. Não continuarás a carregar a desgraça de um amigo que não sabe atacar.»

«Sim, da próxima vez!», diz ele. «E quando será isso, gostaria de saber?»

«Bem, Alan, também tenho tido alguns pensamentos sobre isso», disse eu; «e o meu plano é este. A minha opinião é ser advogado.»

«Isso é um ofício enfadonho, Davie», diz Alan, «e ainda por cima um ofício de tratantes. Estarias melhor com a casaca de um rei do que com isso.»

«E sem dúvida que essa seria a maneira de nos encontrarmos», exclamei eu. «Mas como tu estarás na casaca do Rei Lewie, e eu estarei na do Rei Geordie, teremos um encontro delicioso.»

«Há algum sentido nisso», admitiu ele.

«Advogado, então, terá de ser», continuei, «e acho que é um ofício mais adequado para um cavalheiro que foi três vezes desarmado. Mas a beleza da coisa é esta: que uma das melhores faculdades para esse tipo de estudos — e aquela onde o meu parente, Pilrig, fez os seus estudos — é a faculdade de Leyden, na Holanda. Ora, o que me dizes, Alan? Não poderia um cadete do Royal Ecossais obter uma licença, atravessar as fronteiras e visitar um estudante em Leyden?»

«Bem, e eu pensaria que poderia!», gritou ele. «Vês, dou-me bem com o meu coronel, o Conde Drummond-Melfort; e, o que é mais importante, tenho um primo meu que é tenente-coronel num regimento dos escoceses-holandeses. Nada poderia ser mais adequado do que conseguir uma licença para ver o Tenente-Coronel Stewart, do regimento de Halkett. E o Lord Melfort, que é um homem de tipo muito científico e escreve livros como César, ficaria sem dúvida muito satisfeito em ter a vantagem das minhas observações.»

«O Lord Melfort é um autor, então?», perguntei, pois, por muito que o Alan pensasse nos soldados, eu pensava mais nos fidalgos que escrevem livros.

«O próprio, Davie», disse ele. «Pensar-se-ia que um coronel teria algo melhor para tratar. Mas o que posso dizer eu, que faço canções?»

«Bem, então», disse eu, «só resta que me dês uma morada para te escrever em França; e assim que chegar a Leyden, enviar-te-ei a minha.»

«O melhor será escrever-me aos cuidados do meu chefe», disse ele, «Charles Stewart, de Ardsheil, Esquire, na cidade de Melons, na Ilha de França. Poderia demorar muito, ou poderia demorar pouco, mas chegaria sempre às minhas mãos no final.»

Comemos um hadoque ao pequeno-almoço em Musselburgh, onde me divertiu imensamente ouvir o Alan. O seu sobretudo e as meias de lã eram extremamente notáveis nesta manhã quente, e talvez alguma sugestão de uma explicação tivesse sido sensata; mas Alan tratou desse assunto como um negócio, ou devo antes dizer, como uma diversão. Envolveu a dona da casa com alguns elogios sobre o salgado dos nossos hadoques; e durante todo o resto da nossa estadia manteve-a a falar sobre uma constipação que tinha apanhado no estômago, relatando gravemente toda a espécie de sintomas e sofrimentos, e ouvindo com uma enorme demonstração de interesse todos os remédios das velhas que ela lhe podia fornecer em troca.

Deixámos Musselburgh antes que a primeira diligência de nove pence de Edimburgo chegasse, pois (como disse Alan) esse era um encontro que podíamos muito bem evitar. O vento, embora ainda forte, era muito ameno, o sol brilhava intensamente e Alan começou a sofrer em proporção. De Prestonpans, levou-me ao lado, até ao campo de Gladsmuir, onde se esforçou muito mais do que o necessário para descrever as etapas da batalha. Daí, ao seu antigo passo cadenciado, viajámos até Cockenzie. Embora estivessem a construir barcos de arenque lá na casa da Sra. Cadell, parecia uma cidade deserta e decadente, cerca de metade cheia de casas em ruínas; mas a taberna estava limpa, e Alan, que agora estava num calor radiante, tinha de se mimar com uma garrafa de cerveja e continuar com a nova estalajadeira com a velha história da constipação no estômago, só que agora os sintomas eram todos diferentes.

Fiquei a ouvir; e veio-me à cabeça que quase nunca o tinha ouvido dirigir três palavras sérias a qualquer mulher, mas estava sempre a gracejar, a zombar e a fazer troça privada delas, e, no entanto, trazia para esse negócio um grau notável de energia e interesse. Algo neste sentido comentei com ele, quando a dona da casa (por acaso) foi chamada.

«O que queres?», diz ele. «Um homem deve sempre pôr o seu melhor pé à frente com o género feminino; deve sempre dar-lhes um pouco de história para as divertir, as pobres cordeirinhas! É o que devias aprender a fazer, David; devias aprender os princípios, é como um ofício. Ora, se esta tivesse sido uma rapariga jovem, ou de qualquer forma bonita, ela nunca teria ouvido falar do meu estômago, Davie. Mas uma vez que são velhas demais para procurar namorados, todas se armam em boticárias. Porquê? O que sei eu? Devem ser apenas a maneira como Deus as fez, suponho. Mas acho que um homem seria um idiota se não desse a sua atenção a isso.»

E aqui, a estalajadeira voltando, ele virou-se de mim como se com impaciência para renovar a sua conversa anterior. A senhora tinha divagado há algum tempo do estômago do Alan para o caso de um cunhado seu em Aberlady, cuja última doença e falecimento ela descrevia com extraordinário comprimento. Por vezes era meramente maçador, por vezes maçador e terrível, pois ela falava com unção. O resultado foi que caí numa profunda meditação, olhando pela janela para a estrada, e mal notando o que via. De repente, se alguém estivesse a olhar, poderia ter-me visto sobressaltar.

«Colocámos uma fomentação nos pés dele», dizia a dona da casa, «e uma pedra quente no ventre, e demos-lhe hissopo e água de poejo, e um bom e limpo bálsamo de enxofre para a tosse...»

«Senhora», digo eu, interrompendo muito calmamente, «há um amigo meu que passou pela casa.»

«É mesmo assim?», responde Alan, como se fosse uma coisa de pouca importância. E depois, «Estava a dizer, mem?», diz ele; e a mulher enfadonha continuou.

Pouco depois, no entanto, ele pagou-lhe com uma moeda de meia coroa, e ela teve de sair para ir buscar o troco.

«Era ele com a cabeça ruiva?», perguntou Alan.

«Acertaste», disse eu.

«O que te disse eu no bosque?», gritou ele. «E, no entanto, é estranho que ele esteja aqui também! Estava sozinho?»

«Completamente sozinho, pelo que pude ver», disse eu.

«Passou?», perguntou ele.

«Direto», disse eu, «e não olhou nem para a direita nem para a esquerda.»

«E isso é ainda mais estranho», disse Alan. «Fica-me na cabeça, Davie, que devíamos estar a mexer-nos. Mas para onde? — que diabo! Isto é como os velhos tempos, realmente», grita ele.

«Há uma grande diferença, no entanto», disse eu, «é que agora temos dinheiro nos bolsos.»

«E outra grande diferença, Sr. Balfour», diz ele, «é que agora temos cães atrás de nós. Estão no rasto; estão em plena caçada, David. É um mau negócio e que se lixe.» E sentou-se a pensar profundamente com um olhar dele que eu conhecia bem.

«Diz-me, estalajadeira», diz ele, quando a dona da casa regressou, «tens uma estrada das traseiras para sair desta taberna?»

Ela disse-lhe que havia e para onde conduzia.

«Então, senhor», diz ele para mim, «penso que esse será o caminho mais curto para nós. E aqui vai um adeus para si, minha brava mulher; e não me esquecerei daquela água de canela.»

Saímos pela horta da mulher, e subimos por um caminho entre campos. Alan olhou atentamente para todos os lados, e vendo que estávamos num pequeno lugar escavado da região, fora da vista dos homens, sentou-se.

«Agora, conselho de guerra, Davie», disse ele. «Mas antes de tudo, uma pequena lição para ti. Supõe que eu tivesse sido como tu, o que teria aquela velha recordado de nós os dois! Apenas que tínhamos saído pelo portão das traseiras. E o que é que ela recorda agora? Um homem fino, alegre, amigável, falador, que sofria do estômago, pobre criatura! e estava realmente preocupado com o cunhado. Oh homem, David, tenta aprender a ter algum tipo de inteligência!»

«Vou tentar, Alan», disse eu.

«E agora, quanto ao da cabeça ruiva», diz ele; «ia depressa ou devagar?»

«A meio caminho», disse eu.

«Sem qualquer tipo de pressa o homem?», perguntou ele.

«Nem um sinal disso», disse eu.

«Nhm!», disse Alan, «parece estranho. Não vimos nada deles esta manhã nos Whins; ele passou por nós, não parece estar à procura, e ainda assim aqui está ele na nossa estrada! Raios, Davie, começo a ter uma noção. Acho que não é a ti que procuram, acho que sou eu; e acho que eles sabem muito bem para onde vão.»

«Eles sabem?», perguntei.

«Acho que o Andie Scougal me vendeu — ele ou o seu companheiro que sabia alguma parte do assunto — ou então o rapaz do escriturário do Charlie, o que também seria uma pena», diz Alan; «e se me pedires apenas a minha convicção privada e íntima, acho que haverá cabeças rachadas nas areias de Gillane.»

«Alan», gritei, «se estiveres minimamente certo, haverá lá gente que chegue e sobre. Não será de grande utilidade rachar cabeças.»

«Seria sempre uma satisfação, no entanto», diz Alan. «Mas espera um pouco; espera um pouco; estou a pensar — e graças a este belo vento do oeste, acredito que ainda tenho uma hipótese. É assim, Davie. Não tenho encontro marcado com este homem Scougal até ao crepúsculo. Mas», diz ele, «se eu conseguir um pouco de vento do oeste, estarei lá muito antes disso», diz ele, «e esperarei por ti atrás da Ilha de Fidra. Ora, se os teus fidalgos conhecem o lugar, conhecem o tempo também. Vês-me a chegar, Davie? Graças ao Johnnie Cope e a outros idiotas de casaca vermelha, deveria conhecer este país como a palma da minha mão; e se estiveres pronto para outra pequena corrida com o Alan Breck, podemos voltar para a costa e chegar à beira-mar novamente por Dirleton. Se o navio estiver lá, tentaremos subir a bordo dele. Se não estiver lá, terei apenas de voltar para o meu enfadonho palheiro. Mas, de qualquer forma, acho que deixaremos os teus fidalgos a assobiar para o ar.»

«Acredito que há alguma hipótese nisso», disse eu. «Vamos lá, Alan!»

CAPÍTULO XIII. AREIAS DE GILLANE

Não tirei partido da pilotagem de Alan como ele tinha feito das suas marchas sob o General Cope; pois mal consigo dizer que caminho seguimos. É a minha desculpa que viajámos extremamente depressa. Alguma parte corremos, outra trotámos, e o resto caminhámos a um ritmo vingador. Duas vezes, enquanto íamos à velocidade máxima, encontrámo-nos com camponeses; mas embora tenhamos tropeçado no primeiro vindo de uma esquina, Alan estava tão pronto como um mosquete carregado.

«Vistes o meu cavalo?», arquejou ele.

«Não, homem, não vi nenhum cavalo hoje», respondeu o camponês.

E Alan poupou tempo para lhe explicar que estávamos a viajar «a cavalo e a pé»; que o nosso animal tinha escapado, e temia-se que tivesse ido para casa, para Linton. Não só isso, mas gastou algum fôlego (do qual não lhe restava muito) para amaldiçoar a sua própria má sorte e a minha estupidez, que dizia ser a causa dela.

«Aqueles que não sabem dizer a verdade», observou ele para mim enquanto continuávamos, «devem estar sempre atentos para deixar uma mentira honesta e prática atrás de si. Se as pessoas não sabem o que estás a fazer, Davie, ficam terrivelmente preocupadas com isso; mas se pensam que sabem, já não se importam nada, tal como eu não me importo com papas de aveia.»

Como tínhamos feito primeiro para o interior, a nossa estrada acabou por ficar quase diretamente para norte; a velha Igreja de Aberlady como um marco à esquerda; à direita, o topo de Berwick Law; e foi assim que atingimos a costa novamente, não longe de Dirleton. De North Berwick para oeste até Gillane Ness corre uma série de quatro pequenas ilhéus, Craiglieth, o Lamb, Fidra e Eyebrough, notáveis pela sua diversidade de tamanho e forma. Fidra é a mais peculiar, sendo um estranho ilhéu cinzento de duas corcovas, tornado mais conspícuo por um pedaço de ruína; e lembro-me que (à medida que nos aproximávamos) através de alguma porta ou janela dessas ruínas, o mar espreitava como o olho de um homem. Sob o abrigo de Fidra há uma boa ancoragem com ventos de oeste, e lá, de muito longe, podíamos ver o Thistle ancorado.

A costa em frente a estes ilhéus é completamente deserta. Aqui não há habitação de homem, e quase nenhuma passagem, ou no máximo de crianças vadias a correr nas suas brincadeiras. Gillane é um pequeno lugar do outro lado do Ness, o povo de Dirleton vai tratar dos seus negócios nos campos do interior, e os de North Berwick direto para a pesca marítima a partir do seu porto; pelo que poucas partes da costa são mais solitárias. Mas lembro-me, enquanto rastejávamos de barriga para aquela multiplicidade de colinas e cavidades, mantendo um olhar atento para todos os lados, e com os corações a martelar nas costelas, havia tal brilho do sol e do mar, tal movimento do vento na erva, e tal bulício de coelhos a saltar e gaivotas a voar, que o deserto me parecia, como um lugar vivo. Sem dúvida que foi em todos os aspetos bem escolhido para um embarque secreto, se o segredo tivesse sido guardado; e mesmo agora que tinha sido descoberto, e o lugar vigiado, conseguimos rastejar despercebidos para a frente das dunas de areia, onde olham diretamente para a praia e para o mar.

Mas aqui o Alan parou completamente.

«Davie», disse ele, «esta é uma passagem arriscada! Enquanto ficarmos aqui estamos seguros; mas não estou nada mais perto do meu navio ou da costa da França. E assim que nos levantarmos e fizermos sinal ao brigue, é outra história. Pois onde estarão os teus fidalgos, achas tu?»

«Talvez ainda não tenham chegado», disse eu. «E mesmo que tenham, há uma coisa clara a nosso favor. Eles estarão todos preparados para nos apanhar, é verdade. Mas terão preparado a nossa chegada pelo leste e aqui estamos nós no seu oeste.»

«Sim», diz Alan, «gostaria que tivéssemos alguma força, e isto fosse uma batalha, tê-los-íamos manobrado lindamente! Mas não é, Davit; e a maneira como é, é um pouco menos inspiradora para Alan Breck. Hesito, Davie.»

«O tempo voa, Alan», disse eu.

«Eu sei disso», disse Alan. «Não sei de mais nada, como diz o povo francês. Mas este é um caso terrível de cara ou coroa. Oh! Se eu pudesse apenas saber onde estavam os teus fidalgos!»

«Alan», disse eu, «isto não é como tu. Tem de ser agora ou nunca.»

«Este não sou eu, quo’ he [disse ele]»,

cantou Alan, com uma cara estranha entre a vergonha e a troça.

«Nem tu nem eu, quo’ he, nem tu nem eu. Uau, não, Johnnie homem! nem tu nem eu.»

E então, de repente, levantou-se completamente onde estava, e com um lenço a esvoaçar na mão direita, marchou para a praia. Eu próprio me levantei, mas fiquei atrás dele, examinando as dunas de areia para leste. A sua aparição não foi notada a princípio: Scougal não o esperava tão cedo, e os meus fidalgos vigiavam do outro lado. Depois, acordaram a bordo do Thistle, e parecia que tinham tudo pronto, pois mal houve um segundo de bulício no convés antes de vermos um esquife contornar a popa e começar a remar vivamente para a costa. Quase no mesmo momento, e talvez a meia milha de distância em direção a Gillane Ness, a figura de um homem apareceu por um instante numa duna de areia, acenando com os braços; e embora tivesse desaparecido novamente num flash, as gaivotas naquela parte continuaram um pouco mais a voar desorientadas.

Alan não tinha visto isto, olhando diretamente para o mar, para o navio e o esquife.

«Tem de ser como tiver de ser!», disse ele, quando lhe contei. «Que bem reme aquele barquinho, ou o meu pescoço terá de suportar um estiramento.»

Aquela parte da praia era longa e plana, e excelente para caminhar quando a maré estava baixa; um pequeno riacho corria sobre ela num lugar para o mar; e as dunas de areia corriam ao longo do cume como a muralha de uma cidade. Nenhum olho nosso podia espiar o que se passava por detrás ali nos cardos, nenhuma pressa nossa podia melhorar a velocidade da vinda do barco: o tempo parou connosco durante aquele período inquietante de espera.

«Há uma coisa que gostaria de saber», diz Alan. «Gostaria de saber as ordens desses fidalgos. Valemos quatrocentas libras os dois: e se eles usassem as armas contra nós, Davie! Conseguiriam um belo disparo do topo daquele longo banco de areia.»

«Moralmente impossível», disse eu. «A questão é que eles não podem ter armas de fogo. Este assunto foi tratado de forma demasiado secreta; pistolas podem ter, mas nunca armas de fogo.»

«Acredito que tenhas razão», diz Alan. «Apesar de tudo, estou um pouco preocupado com aquele barco.»

E estalou os dedos e assobiou para ele como para um cão.

Já íamos talvez a um terço do caminho, e nós próprios já bem junto à orla do mar, de modo que a areia fofa subia pelos meus sapatos. Não havia mais nada a fazer senão esperar, olhar tanto quanto podíamos para o barco que se aproximava sorrateiramente, e tão pouco quanto conseguíamos para a longa e impenetrável frente das dunas, sobre as quais as gaivotas cintilavam e atrás das quais os nossos inimigos estavam, sem dúvida, a organizar-se.

«Este é um lugar bem agradável e fresco para levar um tiro», diz Alan de repente; «e, homem, oxalá eu tivesse a tua coragem!»

«Alan!» exclamei, «que espécie de conversa é essa! Tu és feito de pura coragem; é o próprio caráter do homem, como eu próprio poderia provar se não houvesse mais ninguém.»

«E estarias muito enganado», disse ele. «O que faz a diferença em mim é apenas a minha grande penetração e conhecimento dos assuntos. Mas para uma coragem antiga, fria, obstinada e mortal, não sirvo para segurar a vela ao pé de ti. Olha para nós dois aqui nas areias. Aqui estou eu, a fervilhar para me pôr ao fresco; aqui estás tu (pelo que percebo) em dúvida se não ficarás. Achas que eu poderia fazer isso, ou que o faria? Eu, não! Em primeiro lugar, porque não tenho a coragem e não me atreveria; e, em segundo lugar, porque sou um homem de tanta penetração que preferia ver-te condenado primeiro.»

«É aí que queres chegar, é?» gritei. «Ah, homem Alan, podes enganar as velhas, mas a mim nunca poderás.»

A lembrança da minha tentação na floresta tornou-me forte como o ferro.

«Tenho um encontro a cumprir», continuei. «Estou comprometido com o teu primo Charlie; dei a minha palavra.»

«Bons encontros esses que vais poder cumprir», disse Alan. «Vais faltar ao compromisso uma vez por todas com os fidalgos nas dunas. E para quê?» continuou ele com uma gravidade extremamente ameaçadora. «Diz-me apenas isso, meu rapaz! Vais ser levado como a Lady Grange? Vão enterrar-te um punhal nas entranhas e atirar-te para as dunas? Ou será o contrário, e vão levar-te com James? Serão eles gente de confiança? Enfiaste a cabeça na boca de Sim Fraser e dos outros Whigs?» acrescentou com uma amargura extraordinária.

«Alan», gritei, «são todos patifes e mentirosos, e nisso estou contigo. Mais uma razão para que haja um homem decente numa terra de ladrões! A minha palavra está dada e manter-me-ei nela. Disse há muito à tua parente que não hesitaria perante nenhum risco. Lembras-te disso? — foi na noite em que o Red Colin caiu. Não hesitarei mais, portanto. Aqui fico. Prestongrange prometeu-me a vida: se ele for perjuro, aqui terei de morrer.»

«Aweel aweel», disse Alan.

Durante todo este tempo, não tínhamos visto nem ouvido mais nada dos nossos perseguidores. Na verdade, apanhámo-los desprevenidos; o grupo deles (como viria a saber mais tarde) ainda não tinha chegado ao local; o que havia deles estava espalhado pelas dunas em direção a Gillane. Era toda uma tarefa chamá-los e trazê-los, e o barco estava a ganhar velocidade. Eram, aliás, uns cobardes: apenas uma trela de ladrões de gado das Terras Altas, de vários clãs, sem nenhum cavalheiro presente para os comandar, e quanto mais olhavam para o Alan e para mim na praia, menos (devo supor) gostavam do nosso aspeto.

Quem quer que tivesse traído o Alan, não foi o capitão: ele estava no esquife, a governar e a incitar os seus remadores, como um homem que punha o coração no seu ofício. Já estava perto, e o barco a atracar — já o rosto de Alan tinha ficado vermelho de excitação com a sua libertação, quando os nossos amigos nas dunas, fosse pelo desespero de ver a presa escapar-lhes, ou com alguma esperança de assustar o Andie, soltaram subitamente um grito estridente de várias vozes.

Este som, surgindo do que parecia ser uma costa completamente deserta, foi realmente muito intimidante, e os homens no barco pararam de remar instantaneamente.

«Que raio é isto?» grita o capitão, pois tinha chegado a uma distância de fácil chamada.

«Amigos meus», diz Alan, e começou imediatamente a caminhar pela água rasa em direção ao barco. «Davie», disse ele, fazendo uma pausa, «Davie, não vens? Custa-me deixar-te.»

«Nem pensar», disse eu.

Ele ficou por um segundo onde estava, com a água salgada pelos joelhos, hesitando.

«Quem quer ir para Cupar, tem de ir para Cupar», disse ele e, mergulhando mais fundo até à cintura, foi puxado para o esquife, que se dirigiu imediatamente para o navio.

Fiquei onde ele me tinha deixado, com as mãos atrás das costas; Alan sentou-se com a cabeça virada, a observar-me; e o barco afastou-se suavemente. De repente, faltou pouco para que eu chorasse, e senti-me o rapaz mais abandonado e solitário da Escócia. Com isso, virei as costas ao mar e enfrentei as dunas. Não havia sinal nem som de homem; o sol brilhava sobre a areia molhada e seca, o vento soprava nas dunas, as gaivotas faziam um piar lúgubre. À medida que subia pela praia, os piolhos da areia saltitavam agilmente entre as algas encalhadas. Nem sinal nem som de ninguém naquele lugar de má sorte. E, no entanto, eu sabia que havia gente ali, a observar-me, com algum propósito secreto. Não eram soldados, ou já nos teriam atacado e capturado; sem dúvida eram uns patifes comuns contratados para a minha ruína, talvez para me raptar, talvez para me assassinar diretamente. Pela posição dos envolvidos, a primeira hipótese era a mais provável; pelo que sabia do caráter deles e do seu ardor neste assunto, achava a segunda muito possível; e o sangue gelou-me no coração.

Tive uma ideia louca de soltar a minha espada na bainha; pois, embora estivesse muito mal preparado para me bater como um cavalheiro, lâmina contra lâmina, pensei que poderia causar algum dano num combate ao acaso. Mas percebi a tempo a loucura da resistência. Este era, sem dúvida, o "expediente" conjunto com o qual Prestongrange e Fraser tinham concordado. O primeiro, tinha a certeza, tinha feito algo para garantir a minha vida; o segundo era bem capaz de ter sussurrado algumas sugestões contrárias aos ouvidos de Neil e dos seus companheiros; e, se eu mostrasse aço nu, poderia estar a jogar diretamente nas mãos do meu pior inimigo e a selar o meu próprio destino.

Estes pensamentos levaram-me ao cimo da praia. Lancei um olhar para trás, o barco estava a aproximar-se do brigue, e Alan agitou o seu lenço para uma despedida, à qual respondi com o aceno da minha mão. Mas o próprio Alan encolheu-se e tornou-se algo pequeno à minha vista, comparado com este desafio que jazia à minha frente. Coloquei o chapéu firmemente na cabeça, cerrei os dentes e segui em frente, subindo a face da duna. Foi uma subida difícil, sendo íngreme, e a areia parecia água debaixo dos pés. Mas, finalmente, agarrei-me às longas ervas no topo da elevação e puxei-me para um lugar firme. No mesmo instante, homens moveram-se e levantaram-se aqui e ali, seis ou sete deles, uns patifes de aspeto maltrapilho, cada um com uma adaga na mão. A verdade é que fechei os olhos e rezei. Quando os abri novamente, os patifes tinham-se aproximado um pouco mais, sem fala nem pressa. Cada olho estava fixo nos meus, o que me causou uma estranha sensação pelo seu brilho e pelo medo com que continuavam a aproximar-se de mim. Estendi as mãos vazias; ao que um deles perguntou, com um forte sotaque das Terras Altas, se eu me rendia.

«Sob protesto», disse eu, «se sabe o que isso significa, o que duvido.»

A essa palavra, avançaram todos sobre mim como um bando de pássaros sobre uma carniça, agarraram-me, tiraram-me a espada e todo o dinheiro dos bolsos, ataram-me de pés e mãos com uma corda forte e lançaram-me sobre uma touceira de erva. Ali sentaram-se à volta do seu cativo em parte de um círculo e olharam-no silenciosamente como algo perigoso, talvez um leão ou um tigre prestes a saltar. Pouco depois, esta atenção diminuiu. Aproximaram-se mais, começaram a falar em gaélico e, muito cinicamente, dividiram os meus bens diante dos meus olhos. O meu divertimento, durante esse tempo, foi poder observar do meu lugar o progresso da fuga do meu amigo. Vi o barco chegar ao brigue e ser içado, as velas encherem-se e o navio partir mar adentro atrás das ilhas e por North Berwick.

No espaço de umas duas horas ou mais, mais e mais homens maltrapilhos das Terras Altas continuaram a reunir-se. Neil entre os primeiros, até que o grupo devia somar quase vinte. Com cada nova chegada, havia uma nova rodada de conversa, que soava a queixas e explicações; mas observei uma coisa: nenhum daqueles que chegaram tarde teve qualquer parte na divisão dos meus espólios. A última discussão foi muito violenta e ansiosa, de tal modo que uma vez pensei que iriam brigar; logo a seguir, a companhia separou-se, a maioria regressando para oeste em grupo, e apenas três, Neil e dois outros, permanecendo como sentinelas do prisioneiro.

«Eu poderia nomear alguém que ficaria muito desagradado com o seu trabalho de hoje, Neil Duncanson», disse eu, quando os outros se afastaram.

Ele garantiu-me, em resposta, que eu seria tratado com suavidade, pois sabia que ele era «conhecido da senhora».

Foi toda a nossa conversa, nem mais um filho de homem apareceu naquela parte da costa até que o sol se pôs entre as montanhas das Terras Altas e o crepúsculo começou a escurecer. A essa hora, apercebi-me de um homem longo, magro e ossudo de Lothian, de rosto muito moreno, que vinha em nossa direção por entre as dunas num cavalo de quinta.

«Rapazes», gritou ele, «têm um papel como este?» e segurou um na mão. Neil produziu um segundo, que o recém-chegado estudou através de um par de óculos de armação de chifre e, dizendo que estava tudo certo e que éramos o pessoal que ele procurava, desmontou imediatamente. Fui então colocado no seu lugar, com os pés atados sob a barriga do cavalo, e partimos sob a orientação do homem das Terras Baixas. O seu caminho deve ter sido muito bem escolhido, pois encontrámos apenas um par — um par de namorados — durante todo o percurso, e estes, talvez tomando-nos por contrabandistas, fugiram à nossa aproximação. Estivemos uma vez perto do sopé de Berwick Law no lado sul; noutra, ao passarmos por algumas colinas abertas, avistei as luzes de uma aldeia e a velha torre de uma igreja entre algumas árvores não muito longe, mas longe demais para pedir ajuda, mesmo que tivesse sonhado com isso. Finalmente, chegámos novamente a ouvir o som do mar. Havia luar, embora pouco; e, por ele, pude ver as três enormes torres e as ameias em ruínas de Tantallon, aquele antigo lugar principal dos Red Douglases. O cavalo foi deixado no fundo da vala a pastar, e eu fui conduzido para dentro, e para o pátio, e de lá para o salão de pedra em ruínas. Aqui os meus condutores fizeram um fogo vivo no meio do pavimento, pois havia um frio na noite. As minhas mãos foram soltas, fui colocado junto à parede no fundo, e (tendo o homem das Terras Baixas trazido provisões) foi-me dado pão de aveia e um jarro de conhaque francês. Feito isto, fui deixado mais uma vez sozinho com os meus três homens das Terras Altas. Sentaram-se junto ao fogo a beber e a falar; o vento soprava pelas fendas, espalhava o fumo e as chamas, e cantava no topo das torres; eu podia ouvir o mar sob as falésias e, estando a minha mente tranquilizada quanto à minha vida, e o meu corpo e espírito cansados com os afazeres do dia, virei-me de lado e adormeci.

Não tive meios de adivinhar a que horas fui acordado, apenas que a lua se tinha posto e o fogo estava baixo. Os meus pés estavam agora soltos, e fui levado através das ruínas e descendo a falésia por um caminho precipitado até onde encontrei um barco de pescadores num refúgio das rochas. Fui posto a bordo e começámos a afastar-nos da costa sob um belo céu estrelado.

CAPÍTULO XIV. O BASS

Eu não tinha ideia para onde me levavam; apenas procurava aqui e ali o aparecimento de um navio; e corria-me, entretanto, pela cabeça uma palavra do Ransome — os vinte libras. Se eu fosse exposto uma segunda vez àquele mesmo perigo anterior das plantações, julguei que teria de acabar mal comigo; não havia segundo Alan; e nenhum segundo naufrágio e sobressalente de verga a esperar agora; e via-me a sachar tabaco sob o chicote. O pensamento gelou-me; o ar era cortante sobre a água, as tábuas do barco encharcadas com um orvalho frio: e eu tremia no meu lugar ao lado do timoneiro. Este era o homem sombrio a quem chamei até agora de homem das Terras Baixas; o seu nome era Dale, normalmente chamado de Black Andie. Sentindo o estremecimento do meu tremor, ele entregou-me muito gentilmente um casaco áspero cheio de escamas de peixe, com o qual me alegrei em cobrir-me.

«Agradeço-lhe esta bondade», disse eu, «e tomarei a liberdade de a pagar com um aviso. Assume uma grande responsabilidade neste assunto. O senhor não é como estes ignorantes e bárbaros das Terras Altas, mas sabe qual é a lei e os riscos daqueles que a quebram.»

«Não sou exatamente o que se chamaria um extremista da lei», diz ele, «nos melhores momentos; mas neste negócio, ajo com uma boa garantia.»

«O que vai fazer comigo?» perguntei.

«Nenhum mal», disse ele, «nenhum mal de todo. Vais ter amigos fortes, estou a pensar. Estarás bem ainda.»

Começou a cair uma cor acinzentada sobre a face do mar; pequenas manchas de rosa e vermelho, como brasas de fogo lento, surgiram no leste; e ao mesmo tempo os gansos acordaram e começaram a gritar sobre o topo do Bass. É apenas um penedo de rocha, como toda a gente sabe, mas suficientemente grande para esculpir uma cidade. O mar estava extremamente calmo, mas havia um murmúrio oco a rodear a base do rochedo. Com o romper do amanhecer, pude vê-lo cada vez mais claramente; as falésias retas pintadas com os excrementos das aves marinhas como uma geada matinal, o topo inclinado coberto de relva, o clã de gansos brancos que gritava pelas encostas, e os edifícios pretos e partidos da prisão encostados à beira do mar.

À vista disso, a verdade atingiu-me como um relâmpago.

«É para lá que me levam!» gritei.

«Apenas para o Bass, meu rapaz», disse ele: «Onde os velhos santos estiveram antes de ti, e duvido que tenhas chegado tão legitimamente à tua prisão.»

«Mas ninguém vive lá agora», gritei; «o lugar é há muito uma ruína.»

«Será uma mudança mais agradável para os gansos-patola, então», disse Andie secamente.

À medida que o dia brilhava lentamente, observei na sentina, entre as grandes pedras com que os pescadores lastram os barcos, vários barris e cestos, e uma reserva de combustível. Tudo isto foi descarregado no rochedo. Andie, eu e os meus três homens das Terras Altas (chamo-lhes meus, embora fosse o contrário), desembarcámos com eles. O sol ainda não tinha nascido quando o barco se afastou novamente, o ruído dos remos nos escalmos ecoando nas falésias, e deixou-nos na nossa singular reclusão:

Andie Dale era o Prefeito (como eu lhe chamaria jocosamente) do Bass, sendo ao mesmo tempo o pastor e o guarda-caça daquela pequena e rica propriedade. Tinha de cuidar da dúzia de ovelhas que pastavam e engordavam na relva da parte inclinada, como animais a pastar no telhado de uma catedral. Tinha a seu cargo, além disso, os gansos-patola que pousavam nas falésias; e destas deriva um rendimento extraordinário. Os jovens são uma comida delicada, sendo dois xelins por peça um preço comum, pago de boa vontade pelos epicuristas; até as aves adultas são valiosas pelo seu óleo e penas; e uma parte do estipêndio do ministro de North Berwick é paga até hoje em gansos-patola, o que faz dela (aos olhos de algumas pessoas) uma paróquia cobiçada. Para desempenhar estes vários negócios, bem como para proteger os gansos dos caçadores furtivos, Andie tinha frequentes ocasiões de dormir e passar dias inteiros no rochedo; e encontrámos o homem ali em casa, como um agricultor na sua quinta. Mandando-nos a todos carregar alguns dos pacotes, tarefa na qual me apressei a ajudar, levou-nos por um portão trancado, que era a única entrada para a ilha, e através das ruínas da fortaleza, até à casa do governador. Ali vimos, pelas cinzas na chaminé e por um leito fixo num canto, que era o seu lugar habitual de ocupação.

Esta cama ele ofereceu-me agora, dizendo que supunha que eu me armava em fidalgo.

«A minha condição de fidalgo não tem nada a ver com o lugar onde durmo», disse eu. «Bendigo a Deus por já ter dormido em camas duras antes, e posso fazê-lo de novo com gratidão. Enquanto estiver aqui, Sr. Andie, se esse é o seu nome, farei a minha parte e ocuparei o meu lugar ao lado de todos vocês; e peço-lhe, por outro lado, que me poupe às suas troças, as quais admito que não aprecio.»

Ele resmungou um pouco com este discurso, mas pareceu, após reflexão, aprová-lo. De facto, era um homem sensato e de espírito lúcido, um bom Whig e presbiteriano; lia diariamente uma Bíblia de bolso e era capaz e ansioso por conversar seriamente sobre religião, inclinando-se mais do que um pouco para os extremos dos Cameronianos. A sua moral era de uma cor mais duvidosa. Descobri que estava profundamente metido no contrabando e usava as ruínas de Tantallon como armazém de mercadoria ilícita. Quanto a um fiscal, não creio que valorizasse a vida de um em meio cêntimo. Mas aquela parte da costa de Lothian é até hoje um lugar tão selvagem, e a gente comum de lá um bando tão rude, quanto qualquer outro na Escócia.

Um incidente do meu encarceramento tornou-se memorável por uma consequência que teve muito tempo depois. Havia um navio de guerra estacionado na época no Firth, o Seahorse, do Capitão Palliser. Aconteceu que ele estava em patrulha no mês de setembro, navegando entre Fife e Lothian, e sondando perigos submersos. Cedo, numa bela manhã, foi visto a cerca de duas milhas a leste de nós, onde baixou um bote e pareceu examinar as Wildfire Rocks e o Satan’s Bush, perigos famosos daquela costa. E logo depois, tendo recolhido o seu bote, pôs-se a favor do vento e dirigiu-se diretamente para o Bass. Isto foi muito problemático para Andie e os Highlanders; todo o assunto do meu sequestro fora planeado para ser privado, e aqui, com um capitão da marinha talvez a desembarcar por engano, parecia tornar-se público o suficiente, se não fosse algo pior. Eu estava numa minoria de um, não sou um Alan para enfrentar tantos, e estava longe de ter a certeza de que um navio de guerra era o menos provável de melhorar a minha condição. Considerando tudo isto, dei a Andie a minha palavra de bom comportamento e obediência, e fui levado rapidamente para o cume da rocha, onde todos nos deitámos, à beira da falésia, em diferentes locais de observação e ocultação. O Seahorse seguiu em frente até que pensei que fosse embater, e nós (olhando vertiginosamente para baixo) podíamos ver a guarnição do navio nos seus postos e ouvir o sondador a cantar a sonda. Então, subitamente, virou e disparou uma salva de não sei quantos canhões grandes. A rocha foi abalada pelo trovão do som, o fumo fluiu sobre as nossas cabeças, e os gansos levantaram-se em número além da contagem ou da crença. Ouvir o seu grasnado e ver o cintilar das suas asas causou uma curiosidade inimitável; e suponho que foi atrás deste prazer algo infantil que o Capitão Palliser tinha chegado tão perto do Bass. Havia de pagá-lo caro com o tempo. Durante a sua aproximação, tive a oportunidade de fazer uma observação sobre o cordame daquele navio, pela qual, desde então, sempre o reconheci a milhas de distância; e este foi um meio (sob a Providência) de evitar a um amigo uma grande calamidade, e de infligir ao próprio Capitão Palliser uma desilusão sensível.

Durante todo o tempo da minha estadia na rocha, vivíamos bem. Tínhamos cerveja fraca, aguardente e farinha de aveia, com a qual fazíamos o nosso mingau de manhã e à noite. Por vezes, um barco vinha de Castleton e trazia-nos um quarto de carneiro, pois as ovelhas sobre a rocha não podíamos tocar, sendo estas alimentadas especialmente para o mercado. Os gansos estavam infelizmente fora de época, e deixá-los estar. Nós próprios pescávamos, e ainda mais frequentemente fazíamos os gansos pescar por nós: observando um quando fazia uma captura e espantando-o da sua presa antes que a tivesse engolido.

A natureza estranha deste lugar, e as curiosidades com que abundava, mantinham-me ocupado e divertido. Sendo a fuga impossível, foi-me permitida a minha inteira liberdade, e explorei continuamente a superfície da ilha onde quer que pudesse suportar o pé do homem. O antigo jardim da prisão ainda podia ser observado, com flores e ervas aromáticas a crescer selvagens, e algumas cerejas maduras num arbusto. Um pouco mais abaixo, erguia-se uma capela ou a cela de um eremita; quem a construiu ou nela habitou, ninguém pode saber, e o pensamento da sua idade servia de base para muitas meditações. A prisão, também, onde agora acampava com ladrões de gado das Terras Altas, era um lugar cheio de história, tanto humana como divina. Achei estranho que tantos santos e mártires tivessem passado por ali tão recentemente e não tivessem deixado sequer uma folha das suas Bíblias, ou um nome gravado na parede, enquanto os soldados rudes que montavam guarda nas ameias tinham enchido a vizinhança com os seus mementos — cachimbos de tabaco partidos na maior parte, e isso em surpreendente abundância, mas também botões de metal dos seus casacos. Houve momentos em que pensei que poderia ter ouvido o som piedoso dos salmos vindo das masmorras dos mártires, e visto os soldados a marchar pelas muralhas com os seus cachimbos cintilantes, e o amanhecer a surgir atrás deles vindo do Mar do Norte.

Sem dúvida, foi em grande parte Andie e as suas histórias que puseram estas fantasias na minha cabeça. Ele estava extraordinariamente bem familiarizado com a história da rocha em todos os detalhes, até aos nomes dos soldados rasos, tendo o seu pai servido ali nessa mesma qualidade. Era dotado, além disso, de um génio natural para a narração, de modo que as pessoas pareciam falar e as coisas acontecer diante dos seus olhos. Este dom seu e a minha assiduidade em ouvir trouxeram-nos mais próximos. Não podia honestamente negar que gostava dele; logo vi que ele gostava de mim; e, de facto, desde o início que me tinha proposto conquistar a sua boa vontade. Uma circunstância estranha (a ser contada em breve) concretizou isto além da minha expectativa; mas mesmo nos primeiros dias formámos um par amigável para sermos um prisioneiro e o seu carcereiro.

Eu brincaria com a minha consciência se fingisse que a minha estadia no Bass foi totalmente desagradável. Parecia-me um lugar seguro, como se lá tivesse escapado dos meus problemas. Nenhum mal me seria oferecido; uma impossibilidade material, a rocha e o mar profundo, impedia-me de novas tentativas; sentia que tinha a minha vida a salvo e a minha honra a salvo, e houve momentos em que me permiti saboreá-las como águas roubadas. Noutros momentos, os meus pensamentos eram muito diferentes, recordava quão fortemente me tinha expressado tanto para Rankeillor como para Stewart; refletia que o meu cativeiro no Bass, com vista para grande parte das costas de Fife e Lothian, era algo que seria pensado mais provável de ter inventado do que suportado; e, aos olhos destes dois cavalheiros, pelo menos, eu devia passar por fanfarrão e cobarde. Agora, eu encararia isto com leveza; diria a mim mesmo que, enquanto estivesse bem com Catriona Drummond, a opinião do resto do mundo não passava de luar e água derramada; e daí passaria para aquelas meditações de um amante que são tão deliciosas para si mesmo e que devem sempre parecer tão surpreendentemente ociosas para um leitor. Mas logo o medo apoderar-se-ia de mim de outra forma; seria abalado por um pânico perfeito de autoestima, e estes supostos julgamentos duros pareceriam uma injustiça impossível de ser suportada. Com isso, outra linha de pensamento apresentar-se-ia, e mal tinha começado a preocupar-me com os julgamentos dos homens sobre mim, já era assombrado pela lembrança de James Stewart na sua masmorra e pelas lamentações da sua esposa. Então, de facto, a paixão começou a trabalhar em mim; não me podia perdoar por estar ali ocioso: parecia (se eu fosse um homem de todo) que poderia fugir ou nadar para fora do meu lugar de segurança; e era nesses humores e para divertir os meus autorreproches que me dedicava mais particularmente a ganhar o lado bom de Andie Dale.

Por fim, quando nós dois estávamos sozinhos no cume da rocha numa manhã brilhante, lancei alguma sugestão sobre um suborno. Ele olhou para mim, atirou a cabeça para trás e riu-se alto.

— Sim, o senhor é engraçado, Sr. Dale — disse eu —, mas talvez se lançar um olho sobre aquele papel possa mudar de tom.

Os estúpidos Highlanders não me tinham tirado, na altura da minha captura, nada além de dinheiro vivo, e o papel que agora mostrava a Andie era um recibo da British Linen Company por uma quantia considerável.

Ele leu-o. — Na verdade, e o senhor não está nada mal — disse ele.

— Pensei que isso talvez mudasse as suas opiniões — disse eu.

— Ora! — disse ele. — Mostra-me que pode subornar; mas eu não sou para ser subornado.

— Veremos sobre isso ainda por um bocado — digo eu. — E primeiro, vou mostrar-lhe que sei do que estou a falar. Tem ordens para me deter aqui até depois de quinta-feira, 21 de setembro.

— O senhor também não está totalmente errado — diz Andie. — Devo deixá-lo ir, salvo ordens em contrário, no sábado, dia 23.

Não pude deixar de sentir que havia algo extremamente insidioso neste arranjo. O facto de eu reaparecer precisamente a tempo de ser demasiado tarde lançaria mais descrédito sobre a minha história, se eu estivesse disposto a contar uma; e isto levou-me ao ponto de combate.

— Agora então, Andie, o senhor que conhece o mundo, escute-me e pense enquanto escuta — disse eu. — Sei que há gente importante no negócio, e não tenho dúvidas de que tem os nomes deles para seguir. Eu próprio vi alguns deles desde que este assunto começou, e disse o que tinha a dizer na cara deles também. Mas que tipo de crime seria este que eu cometi? Ou que tipo de processo é este a que fui submetido? Ser detido por algum John-Hielandman maltrapilho a 30 de agosto, levado para um amontoado de pedras velhas que agora não é nem forte nem prisão (fosse o que fosse outrora), mas apenas a casa do guarda-caça do Bass Rock, e libertado novamente, a 23 de setembro, tão secretamente como fui detido pela primeira vez — isso soa a lei para si? Ou soa a justiça? Ou não soa honestamente como uma peça de alguma intriga baixa e suja, da qual as próprias pessoas que se metem nela se envergonham?

— Não posso contradizê-lo, Shaws. Parece muito dissimulado — diz Andie. — E se a gente não fosse bons Whigs sensatos e verdadeiros Presbiterianos, tê-los-ia visto para lá do Jordão e de Jerusalém antes de ter posto a mão nisto.

— O Mestre de Lovat será um bom Whig — digo eu —, e um grande Presbiteriano.

— Não sei nada sobre ele — disse ele. — Não tenho negócios com Lovats.

— Não, será com Prestongrange que estará a lidar — disse eu.

— Ah, mas isso não lhe direi — disse Andie.

— Pouco importa quando eu sei — foi a minha resposta.

— Há apenas uma coisa de que pode estar razoavelmente certo, Shaws — diz Andie. — E é que (tente como quiser) eu não estou a lidar consigo; nem tampouco vou estar — acrescentou ele.

— Bem, Andie, vejo que terei de falar claramente consigo — respondi. E contei-lhe tanto quanto achei necessário dos factos.

Ele ouviu-me com algum interesse sério, e quando terminei, pareceu considerar um pouco consigo mesmo.

— Shaws — disse ele por fim —, serei franco. É uma história estranha, e não muito credível, a maneira como a conta; e estou longe de insinuar que seja outra coisa senão a maneira como o senhor acredita nela. Quanto a si, parece-me um jovem bastante decente. Mas eu, que sou mais velho e mais judicioso, vejo talvez um pouco mais à frente no trabalho do que o senhor pode fazer. E aqui está o assunto claro e simples para si. Não haverá dano para si se o mantiver aqui; longe disso, acho que o senhor ficará muito melhor com isso. Não haverá dano para o país — apenas mais um Hielantman enforcado — Deus sabe, um bom alívio! Por outro lado, seria um dano considerável para mim se o deixasse livre. Por isso, falando como um bom Whig, um amigo honesto para consigo, e um amigo ansioso para mim mesmo, o facto simples é que acho que o senhor terá apenas de ficar aqui com Andie e os gansos-patolas.

— Andie — disse eu, colocando a mão sobre o seu joelho —, este Hielantman é inocente.

— Sim, é uma pena sobre isso — disse ele. — Mas veja, neste mundo, da maneira como Deus o fez, não podemos ter tudo o que queremos.

CAPÍTULO XV. A HISTÓRIA DE TOD LAPRAIK POR BLACK ANDIE

Ainda disse pouco sobre os Highlanders. Eram todos os três seguidores de James More, o que apertava a acusação muito firmemente em redor do pescoço do seu mestre. Todos entendiam uma ou duas palavras de inglês, mas Neil era o único que julgava ter o suficiente para uma conversa geral, na qual (quando ele se lançava) a sua companhia era frequentemente tentada à opinião contrária. Eram criaturas tratáveis e simples; mostravam muito mais cortesia do que se esperaria da sua miséria e da sua aparência grosseira, e tornaram-se espontaneamente como três servos para Andie e para mim.

Vivendo naquele lugar isolado, nas antigas ruínas em ruína de uma prisão, e entre intermináveis sons estranhos do mar e das aves marinhas, pensei perceber neles desde cedo os efeitos do medo supersticioso. Quando não havia nada que fazer, ou se deitavam a dormir, para o que o seu apetite parecia insaciável, ou Neil entretinha os outros com histórias que pareciam sempre de um cariz aterrorizante. Se nenhum destes prazeres estivesse ao alcance — se talvez dois estivessem a dormir e o terceiro não conseguisse encontrar meios de seguir o seu exemplo — eu via-o sentar-se e ouvir e olhar à sua volta numa progressão de inquietação, sobressaltando-se, o rosto a empalidecer, as mãos cerradas, um homem retesado como um arco. A natureza destes medos nunca tive ocasião de descobrir, mas a visão deles era contagiosa, e a natureza do lugar em que estávamos era favorável a alarmes. Não encontro palavra para isso no inglês, mas Andie tinha uma expressão para isso no escocês da qual nunca variava.

— Sim — dizia ele —, é um lugar estranho, o Bass.

É assim que sempre penso nele. Era um lugar estranho à noite, estranho de dia; e estes eram sons estranhos, do chamamento dos gansos-patolas, e do chapinhar do mar e dos ecos da rocha, que pairavam continuamente nos nossos ouvidos. Era assim principalmente em tempo moderado. Quando as ondas eram de alguma forma grandes, rugiam em redor da rocha como trovão e tambores de exércitos, terríveis mas alegres de ouvir; e era nos dias calmos que um homem se podia intimidar a si mesmo por ouvir — não apenas um Highlandman, como várias vezes experimentei em mim mesmo, tantos sons imóveis e ocos assombravam e reverberavam nos pórticos da rocha.

Isto leva-me a uma história que ouvi, e a uma cena em que tomei parte, que mudou completamente os nossos termos de vida, e teve um grande efeito na minha partida. Aconteceu numa noite em que caí numa musa ao lado do lume e (aquele pequeno ar de Alan voltando à minha memória) comecei a assobiar. Uma mão foi colocada sobre o meu braço, e a voz de Neil pediu-me para parar, pois não era "música sensata".

— Não sensata? — perguntei. — Como pode ser isso?

— Não — disse ele; — será feita por um bicho-papão e ela a querer a cabeça no seu corpo.

— Bem — disse eu —, não pode haver bichos-papões aqui, Neil; pois não é provável que se dessem ao trabalho de assustar gansos.

— Sim? — diz Andie, — é isso que pensa disso! Mas posso dizer-lhe que tem havido coisas piores do que bichos-papões aqui.

— O que é pior do que bichos-papões, Andie? — disse eu.

— Bruxos — disse ele. — Ou um bruxo, pelo menos. E essa é uma história estranha, também — acrescentou ele. — E se quiser, eu conto-lha.

Claro que estávamos todos de acordo, e até o Highlander que tinha menos inglês dos três pôs-se a ouvir com toda a sua força.

A História de Tod Lapraik

O meu pai, Tam Dale, paz às suas cinzas, era um rapaz selvagem e fanfarrão nos seus tempos jovens, com pouca sabedoria e pouca graça. Gostava de uma rapariga, gostava de um copo e gostava de uma farra; mas nunca pude ouvir dizer que fosse de grande utilidade para um emprego honesto. De uma coisa para outra, alistou-se por fim como soldado e foi da guarnição deste forte, que foi a primeira forma de qualquer um dos Dales pôr o pé sobre o Bass. Mágoa desse serviço! O governador fabricava a sua própria cerveja; parece que era a pior concebível. A rocha era providenciada da costa com víveres, a coisa era mal gerida, e havia alturas em que tinham de pescar e disparar gansos-patolas para a sua dieta. Para coroar tudo, estes eram os Dias da Perseguição. As câmaras de frio mortal estavam todas ocupadas com santos e mártires, o sal da terra, do qual ela não era digna. E embora Tam Dale carregasse um mosquete ali, um soldado raso, e gostasse de uma rapariga e de um copo, como eu estava a dizer, a mente do homem era mais justa do que a sua posição. Ele tinha vislumbres da glória da igreja; havia alturas em que a sua fúria aumentava ao ver os santos do Senhor mal orientados, e a vergonha cobria-o por estar a segurar uma vela (ou a carregar um mosquete) num negócio tão negro. Havia noites em que ele estava aqui de sentinela, o lugar todo silencioso, as geadas do inverno talvez a rasgar as paredes, e ele ouvia um dos prisioneiros começar um salmo, e os restantes juntarem-se, e os sons abençoados a subir das diferentes câmaras — ou masmorras, preferiria dizer — de modo que este velho rochedo no mar era como uma parte do Céu. A vergonha negra estava na sua alma; os seus pecados elevavam-se perante ele grandes como o Bass, e acima de tudo, esse pecado principal, que ele deveria ter mão em cortar e retalhar a Igreja de Cristo. Mas a verdade é que ele resistiu ao espírito. O dia vinha, havia os companheiros agitados, e as suas boas resoluções partiam.

Naqueles dias, morava sobre o Bass um homem de Deus, Peden o Profeta era o seu nome. Tendes ouvido falar do Profeta Peden. Nunca houve o igual dele desde então, e é uma questão para muitos se alguma vez houve o seu igual antes. Ele era selvagem como uma turfeira, temível de olhar, temível de ouvir, o seu rosto como o dia do juízo final. A voz dele era como a de um ganso-patola e tinia nos ouvidos das pessoas, e as suas palavras como brasas de fogo.

Agora, havia uma rapariga na rocha, e penso que ela tinha pouco para fazer, pois não era lugar para mulheres decentes; mas parece que ela era bonita, e ela e Tam Dale estavam muito bem de acordo. Aconteceu que Peden estava no jardim sozinho a rezar quando Tam e a rapariga passaram; e o que deveria a rapariga fazer senão zombar com risos das devoções do santo? Ele levantou-se e olhou para os dois, e os joelhos de Tam bateram um contra o outro ao olhar dele. Mas quando falou, foi mais em tristeza do que em raiva. — Pobre coisa, pobre coisa! — diz ele, e era para a rapariga que ele olhava —, ouço-te gritar e rir — diz ele —, mas o Senhor tem um tiro fatal preparado para ti, e nesse julgamento surpreendente gritarás apenas uma vez! Pouco depois, ela passeava nas falésias com dois ou três soldados, e era um dia de vento. Veio uma rajada de vento, agarrou-a pelas saias, e lá foi ela com tudo o que tinha. E foi notado pelos soldados que ela deu apenas um grito.

Sem dúvida que este julgamento teve algum peso sobre Tam Dale; mas passou novamente e ele não ficou melhor. Um dia ele estava a discutir com outro soldado. — Diabo me leve! — disse Tam, pois ele era um jurador profano. E lá estava Peden a brilhar para ele, sombrio e triste; Peden com as suas faces compridas e olhos ardentes, a manta enrolada sobre o peito, e a mão estendida com as unhas pretas nas pontas dos dedos — pois ele não tinha cuidado com o corpo. — Fim, fim, pobre homem! — grita ele, — o pobre homem tolo! Diabo me leve, diz ele; e eu vejo o diabo na sua axila. A convicção de culpa e graça entrou em Tam como o mar profundo; ele atirou a pique que estava nas suas mãos — — Não voltarei a pegar em armas contra a causa de Cristo! — diz ele, e foi tão bom quanto a sua palavra. Houve um grande alvoroço no início, mas o governador, vendo-o resolvido, deu-lhe a sua dispensa, e ele foi viver e casar-se em North Berwick, e teve sempre um bom nome com gente honesta desde aquele dia.

Foi no ano de mil setecentos e seis que o Bass passou para as mãos dos Dalrymple, e houve dois homens que procuraram o cargo. Ambos estavam bem qualificados, pois ambos tinham sido soldados na guarnição e conheciam o jeito de lidar com os gansos-patolas, bem como as suas épocas e valores. Além disso, eram ambos — ou ambos pareciam ser — professos fervorosos e homens de conversa afável. O primeiro deles era o próprio Tam Dale, meu pai. O segundo era um tal Lapraik, a quem o povo chamava geralmente de Tod Lapraik, mas se era pelo nome ou pela natureza, nunca pude saber. Pois bem, Tam foi ver Lapraik sobre este negócio e levou-me pela mão, que era eu um petiz a dar os primeiros passos. Tod tinha a sua morada na longa vereda ao norte do adro. É uma vereda escura e estranha, além de que a igreja sempre teve má fama desde os dias de Jaime VI e das bruxarias do diabo ali praticadas quando a Rainha estava nos mares; e quanto à casa de Tod, ficava no extremo mais sombrio e era pouco apreciada por alguns que conheciam o que era melhor. A porta estava apenas encostada naquele dia, e o meu pai e eu entrámos diretamente. Tod era tecelão de profissão; o seu tear ficava no quarto de entrada. Lá estava ele sentado, um homem enorme, gordo e pálido como sebo, com uma espécie de sorriso santo que me fazia ter náuseas. A mão dele movia sempre a lançadeira, mas os olhos estavam cerrados. Chamámo-lo pelo nome, gritámos para o ouvido surdo dele, sacudimo-lo pelo ombro. Sem qualquer resultado! Lá estava ele sentado sobre as suas nalgas, a mover a lançadeira e a sorrir como sebo.

— Deus seja bom para nós — diz Tam Dale — isto não é natural.

Mal tinha ele acabado de dizer a palavra, quando Tod Lapraik voltou a si.

— És tu, Tam? — diz ele. — Ora, homem! Fico contente por te ver. Às vezes caio num espécie de torpor como este — diz ele — é do estômago.

Bem, começaram a conversar sobre o Bass e qual dos dois havia de ficar com a guarda dele, e pouco a pouco chegaram a palavras muito duras e separaram-se com raiva. Lembro-me bem de que, enquanto o meu pai e eu voltávamos para casa, ele repetia vezes sem conta a mesma expressão, o pouco que gostava de Tod Lapraik e dos seus torpores.

— Torpor! — diz ele. — Penso que houve gente queimada por torpores como aquele.

Pois bem, o meu pai obteve o Bass e Tod teve de ficar a ver navios. Ficou lembrado desde então a maneira como ele aceitou a coisa. — Tam — diz ele — levaste a melhor sobre mim mais uma vez, e espero — diz ele — que encontres pelo menos tudo o que esperas no Bass. O que desde então tem sido considerado como expressões notáveis. Por fim, chegou a altura de Tam Dale apanhar os gansos-patolas jovens. Este era um negócio a que ele estava bem habituado, tinha sido um homem das rochas desde rapazinho e não confiava em ninguém a não ser nele próprio. E lá estava ele, pendurado por uma corda e a esbracejar na face da rocha, onde ela é mais alta e mais íngreme. Quatro rapazes cautelosos estavam no topo, segurando a corda e atentos aos seus sinais. Mas onde Tam estava pendurado não havia nada além da rocha, e o mar lá em baixo, e os gansos-patolas a gritar e a voar. Era uma bela manhã de primavera, e Tam assobiava enquanto agarrava os gansos jovens. Muitas vezes o ouvi contar esta experiência, e o suor corria sempre pelo homem.

Aconteceu, veem vocês, que Tam olhou para cima e deu-se conta de um ganso-patola enorme, e o ganso a bicar a corda. Ele achou isto extraordinário e fora dos hábitos da criatura. Lembrou-se de que cordas eram coisas muito macias, e o bico do ganso e o Bass Rock muito duros, e que duzentos pés eram um pouco mais do que ele gostaria de cair.

— Xô! — diz Tam. — Vais-te embora, pássaro! Xô, vai-te embora! — diz ele.

O ganso-patola olhou para baixo, para a cara de Tam, e havia algo de estranho no olho da criatura. Foi apenas aquele olhar que ele lançou e voltou para a corda. Mas agora trabalhava e lutava como uma coisa demente. Nunca houve um ganso-patola feito que trabalhasse como aquele trabalhava; e parecia entender bem o seu serviço, apertando a corda macia entre o seu bico e uma saliência irregular de pedra.

Um frio de medo passou pelo coração de Tam. “Esta coisa não é um pássaro”, pensa ele. Os seus olhos voltaram-se para trás na cabeça e o dia tornou-se negro à sua volta. “Se me dá um torpor aqui”, pensou ele, “é o fim de Tam Dale.” E sinalizou aos rapazes para o puxarem para cima.

E parecia que o ganso-patola entendia sobre sinais. Pois mal foi feito o sinal, ele largou a corda, abriu as asas, grasnou alto, deu uma volta a voar e atirou-se diretamente aos olhos de Tam Dale. Tam tinha uma faca, fez o aço frio brilhar. E parecia que o ganso-patola entendia sobre facas, pois mal o aço brilhou ao sol, ele deu aquele grasnido, mas mais baixo, como alguém desapontado, e fugiu para o outro lado da rocha, e Tam nunca mais o viu. E assim que aquela coisa se foi, a cabeça de Tam caiu sobre o seu ombro, e eles puxaram-no para cima como um cadáver, batendo contra a rocha.

Um gole de aguardente (da qual ele nunca andava sem) trouxe-o a si, ou ao que restava dele. Ele sentou-se.

— Corre, Geordie, corre para o barco, tem a certeza do barco, homem — corre! — grita ele — ou aquele ganso-patola leva-o embora — diz ele.

Os quatro rapazes olharam uns para os outros e tentaram convencê-lo a ficar quieto. Mas nada satisfazia Tam Dale, até que um deles começou a correr à frente para montar guarda ao barco. Os outros perguntaram se ele queria descer outra vez.

— Não — diz ele — e nem vocês nem eu — diz ele — e assim que eu consiga ficar de pé sobre os meus dois pés, vamos embora desta rocha de Satanás.

Com certeza, não se perdeu tempo, e isso foi demasiado; pois antes de chegarem a North Berwick, Tam estava com uma febre terrível. Ficou de cama todo o verão; e quem foi tão gentil como ir perguntar por ele, senão Tod Lapraik! As pessoas pensaram depois que, cada vez que Tod chegava perto da casa, a febre piorava. Não sei quanto a isso; mas o que sei melhor, foi que esse foi o fim.

Foi por esta altura do ano; o meu avô estava fora na pesca do peixe branco; e como uma criança, tive de ir com ele. Tivemos uma grande pesca, lembro-me, e a forma como o peixe estava trouxe-nos para perto do Bass, onde nos encontrámos com outro barco que pertencia a um homem, Sandie Fletcher, em Castleton. Ele também não morreu há muito, ou poderiam perguntar-lhe a ele próprio. Pois bem, Sandie chamou.

— O que é aquilo no Bass? — diz ele.

— No Bass? — diz o avô.

— Sim — diz Sandie — no lado verde dele.

— Que espécie de coisa? — diz o avô. — Não pode haver nada no Bass a não ser apenas as ovelhas.

— Parece muito um corpo — disse Sandie, que estava mais perto.

— Um corpo! — dizemos nós, e nenhum de nós gostou disso. Pois não havia barco que pudesse ter trazido um homem, e a chave da porta da prisão pendurava-se em casa, na cama de armário do meu pai.

Mantivemos os dois barcos perto para fazer companhia e rastejámos para mais perto. O avô tinha um óculo, pois tinha sido marinheiro e capitão de um lugre, e tinha-o perdido nas areias de Tay. E quando apontámos o óculo para lá, com certeza, lá estava um homem. Ele estava numa dobra da encosta verde, um pouco abaixo da capela, todo sozinho, e saltava e esperneava e dançava como uma rapariga louca num casamento.

— É o Tod — diz o avô, e passou o óculo ao Sandie.

— Sim, é ele — diz Sandie.

— Ou alguém na semelhança dele — diz o avô.

— Pouca é a diferença — disse Sandie. — Diabo ou bruxo, vou experimentar a espingarda nele — disse ele, e trouxe uma espingarda de caça que trazia sempre, pois Sandie era um atirador notavelmente famoso em todo aquele país.

— Sossega a mão, Sandie — diz o avô; — primeiro temos de ver mais claramente — diz ele — ou este pode ser um dia caro para ambos.

— Ora! — diz Sandie — este é o julgamento do Senhor, certamente, e que se lixe — diz ele.

— Talvez sim, talvez não — diz o meu avô, homem digno! — Mas lembras-te do Procurador Fiscal, com quem penso que já te encontraste antes — diz ele.

Isto era demasiado verdadeiro, e Sandie ficou um pouco perturbado. — Pois bem, Edie — diz ele — e qual seria a tua forma de o fazer?

— Ora, exatamente esta — diz o avô. — Deixa-me, a mim que tenho o barco mais rápido, voltar para North Berwick, e tu fica aqui e mantém um olho naquilo. Se eu não conseguir encontrar o Lapraik, junto-me a ti e os dois teremos uma conversa com ele. Mas se o Lapraik estiver em casa, içarei a bandeira no porto, e podes experimentar a tal Coisa com a espingarda.

Pois bem, assim foi acordado entre os dois. Eu era apenas uma criança e subi para o barco do Sandie, onde pensei que veria o melhor do negócio. O meu avô deu ao Sandie um tester de prata para colocar na sua espingarda com os bagos de chumbo, sendo mais mortal contra espectros. E então o barco dele partiu para North Berwick, e o outro ficou onde estava e vigiou a coisa sinistra na encosta.

Todo o tempo que lá ficámos, aquilo saltou e esperneou e saltitou e girou como um pião, e às vezes podíamos ouvi-lo gritar enquanto girava. Já vi raparigas, essas raparigas loucas, que saltavam e dançavam uma noite de inverno, e ainda estavam a saltar e a dançar quando o dia de inverno chegava. Mas haveria gente lá para lhes fazer companhia, e rapazes para as incitar; e esta coisa estava sozinha. E haveria um tocador de rabeca a mexer o cotovelo ao lado da lareira; e esta coisa não tinha música, a não ser o grasnido dos gansos-patolas. E as raparigas eram jovens, com a vida vermelha a latejar e a pulsar nos seus membros; e este era um homem enorme, gordo e seboso, e ele no declínio dos anos. Digam o que quiserem, eu devo dizer o que acredito. Era alegria que estava no coração da criatura, a alegria do inferno, atrevo-me a dizer: alegria de qualquer modo. Muitas vezes perguntei a mim próprio porque é que as bruxas e os bruxos haviam de vender as suas almas (que são as suas posses mais caras) e ser velhas mulheres esfarrapadas e enrugadas ou velhos homens débeis e caducos; e depois lembro-me do Tod Lapraik a dançar todas as horas, sozinho, na glória negra do seu coração. Sem dúvida que ardem muito por isso no inferno, mas têm um grande tempo aqui com isso, de qualquer modo! — e que o Senhor nos perdoe!

Pois bem, no final, vimos a pequena bandeira subir até ao topo do mastro nas rochas do porto. Foi só isso que o Sandie esperou. Ele levantou a espingarda, apontou deliberadamente e puxou o gatilho. Ouviu-se um estrondo e depois um grito lastimável vindo do Bass. E lá estávamos nós a esfregar os olhos e a olhar uns para os outros como gente doida. Pois com o estrondo e o grito, a coisa tinha desaparecido por completo. O sol brilhou, o vento soprou, e ali estava o terreno nu onde a Maravilha tinha estado a saltar e a espernear apenas um segundo antes.

Por todo o caminho para casa, eu rugi e chorei com o terror daquela revelação. As pessoas crescidas não estavam muito melhor; pouco se disse no barco do Sandie, a não ser apenas o nome de Deus; e quando chegámos ao cais, as rochas do porto estavam negras com a gente à nossa espera. Parece que tinham encontrado o Lapraik num dos seus torpores, a mover a lançadeira e a sorrir. Enviaram um rapaz para içar a bandeira, e os outros permaneceram lá na casa do tecelão. Podem ter a certeza de que gostaram pouco daquilo; mas foi um meio de graça para vários que lá estavam parados, rezando para dentro (pois ninguém se atrevia a rezar em voz alta) e olhando para aquela coisa terrível enquanto movia a lançadeira. Então, de repente, e com o tal grito terrível, Tod saltou das suas nádegas e caiu para a frente sobre o tear, um cadáver sangrento.

Quando o cadáver foi examinado, os bagos de chumbo não tinham batido em falso no corpo do bruxo; nem um pingo de chumbo foi encontrado! Mas estava lá o tester de prata do avô no coração de sapo dele.

Andie mal tinha acabado quando ocorreu um assunto muito parvo que teve as suas consequências. Neil, como já disse, era ele próprio um grande narrador. Ouvi dizer desde então que ele conhecia todas as histórias das Terras Altas; e achava-se muito, e era muito considerado pelos outros por causa disso. Ora, a história de Andie lembrou-lhe uma que ele já tinha ouvido.

— Ela já conhece essa história — disse ele. — Ela era a história de Uistean More M’Gillie Phadrig e o Gavar Vore.

— Não é tal coisa — gritou Andie. — É a história do meu pai (agora com Deus) e Tod Lapraik. E o mesmo para a tua barba — diz ele; — e mantém a tua língua dentro dos teus queixos das Terras Altas!

Ao lidar com os habitantes das Terras Altas, verificar-se-á, e foi demonstrado na história, como as coisas correm bem com os gentis das Terras Baixas; mas a coisa parece pouco viável para o povo comum das Terras Baixas. Eu já tinha notado que Andie estava continuamente prestes a discutir com os nossos três MacGregor, e agora, com certeza, estava para acontecer.

— Essas não serão palavras para usar com cavalheiros — diz Neil.

— Cavalheiros! — grita Andie. — Cavalheiros, seu idiota das Terras Altas! Se Deus te desse a graça de te veres da maneira que os outros te veem, vomitarias o teu jantar.

Veio algum tipo de juramento gaélico do Neil, e a faca negra estava na mão dele naquele momento.

Não houve tempo para pensar; e agarrei o habitante das Terras Altas pela perna, derrubei-o e imobilizei-lhe a mão armada antes de saber o que estava a fazer. Os seus camaradas saltaram para o salvar, Andie e eu estávamos sem armas, os três Gregara contra dois. Parecia que estávamos perdidos, quando Neil gritou na sua própria língua, ordenando aos outros que recuassem, e fez a sua submissão a mim da maneira mais abjeta, entregando-me até a sua faca que (após uma repetição das suas promessas) eu lhe devolvi no dia seguinte.

Duas coisas vi claramente: a primeira, que não devia contar muito com o Andie, que se tinha encolhido contra a parede e ali ficado, pálido como a morte, até ao fim do assunto; a segunda, a força da minha própria posição com os habitantes das Terras Altas, que devem ter recebido ordens extraordinárias para serem zelosos com a minha segurança. Mas se pensei que o Andie não se saiu muito bem em coragem, não tive nada a apontar-lhe em relação à gratidão. Não foi tanto que ele me incomodasse com agradecimentos, mas que toda a sua mente e maneira pareciam mudadas; e como ele preservou desde então uma grande timidez dos nossos companheiros, ele e eu estávamos ainda mais constantemente juntos.

CAPÍTULO XVI. A TESTEMUNHA DESAPARECIDA

No dia dezassete, o dia em que estava combinado com o Advogado, tive muita rebelião contra o destino. O pensamento dele à espera no King’s Arms, e do que ele pensaria, e do que diria quando nos encontrássemos, atormentava-me e oprimia-me. A verdade era inacreditável, tanto eu tinha de admitir, e parecia cruelmente duro que eu devesse ser marcado como mentiroso e cobarde, e nunca ter omitido conscientemente o que era possível que eu fizesse. Repeti esta forma de palavras com uma espécie de amargo prazer, e reexaminei sob essa luz os passos do meu comportamento. Parecia que me tinha comportado com James Stewart como um irmão poderia; todo o passado era um quadro do qual eu podia orgulhar-me, e havia apenas o presente a considerar. Eu não podia nadar no mar, nem voar no ar, mas havia sempre o Andie. Eu tinha-lhe feito um serviço, ele gostava de mim; eu tinha uma alavanca ali para trabalhar; se fosse apenas por decência, devia tentar mais uma vez com o Andie.

Era o final da tarde; não havia som em todo o Bass a não ser o bater e o borbulhar de um mar muito calmo; e os meus quatro companheiros estavam todos afastados, os três MacGregor mais alto na rocha, e o Andie com a sua Bíblia num lugar ensolarado entre as ruínas; lá o encontrei num sono profundo, e, assim que ele acordou, apelei a ele com algum fervor de maneira e uma boa mostra de argumento.

— Se eu pensasse que era para fazer bem a ti, Shaws! — disse ele, olhando para mim por cima dos seus óculos.

— É para salvar outro — disse eu, — e para resgatar a minha palavra. O que seria mais bom do que isso? Não te lembras da escritura, Andie? E tu com o Livro no teu colo! Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro?

— Sim — disse ele, — isso é ótimo para ti. Mas onde entro eu nisso? Tenho a minha palavra para resgatar, tal como tu. E o que me estás a pedir para fazer, senão apenas vendê-la a ti por dinheiro?

— Andie! eu pronunciei o nome de dinheiro? — gritei eu.

— Ora, o nome não é nada — disse ele; — a coisa está lá, de qualquer modo. Resume-se apenas nisto; se eu te servir da maneira que propões, perderei o meu sustento. Então é claro que terás de compensar-me, e um pouco mais, pelo teu próprio crédito, digamos. E o que é isso senão apenas um suborno? E se eu tivesse a certeza do suborno! Mas por tudo o que posso saber, está longe disso; e se tu fosses enforcado, onde estaria eu? Não: a coisa não é possível. E vai-te embora como um bom rapaz! e deixa o Andie ler o seu capítulo.

Lembro-me de que, no fundo, fiquei bastante satisfeito com este resultado; e a disposição seguinte em que caí foi uma (quase disse) de gratidão a Prestongrange, que me tinha salvo, desta maneira violenta e ilegal, do meio dos meus perigos, tentações e perplexidades. Mas isto era demasiado frágil e demasiado cobarde para me durar muito, e a lembrança de James começou a suceder-lhe na posse do meu espírito. O dia 21, o dia marcado para o julgamento, passei-o em tal miséria de espírito como raramente me lembro de ter suportado, salvo talvez apenas na Ilha Earraid. Grande parte do tempo fiquei deitado numa encosta entre o sono e a vigília, o meu corpo imóvel, a minha mente cheia de pensamentos violentos. Às vezes dormia, de facto; mas o tribunal de Inverary e o prisioneiro a olhar para todos os lados para encontrar a sua testemunha desaparecida perseguiam-me no sono; e eu acordava outra vez sobressaltado para a escuridão de espírito e angústia de corpo. Achei que o Andie parecia observar-me, mas prestei-lhe pouca atenção. Em verdade, o meu pão era-me amargo, e os meus dias um fardo.

Na manhã seguinte (sexta-feira, 22), um barco veio com provisões, e o Andie colocou um pacote na minha mão. A capa estava sem endereço, mas selada com um selo do Governo. Incluía dois bilhetes. “O Sr. Balfour pode agora ver por si próprio que é demasiado tarde para interferir. A sua conduta será observada e a sua discrição recompensada.” Assim dizia o primeiro, que parecia ser laboriosamente escrito com a mão esquerda. Não havia certamente nada nestas expressões que comprometesse o autor, mesmo que essa pessoa pudesse ser encontrada; o selo, que servia formidavelmente em vez de assinatura, estava aposto numa folha separada na qual não havia qualquer traço de escrita; e tive de confessar que (até ali) os meus adversários sabiam o que estavam a fazer, e digerir da melhor maneira que pude a ameaça que espreitava por baixo da promessa.

Mas o segundo anexo era, de longe, o mais surpreendente. Estava escrito com uma letra de senhora. “O Sr. Dauvit Balfour é informado de que um amigo andava à sua procura e os olhos dela eram cinzentos”, dizia — e parecia um documento tão extraordinário para chegar às minhas mãos em tal momento e sob o selo do Governo, que fiquei estupefacto. Os olhos cinzentos de Catriona brilharam na minha memória. Pensei, com um salto de prazer, que devia ser ela a amiga. Mas quem seria o autor, para ter o seu bilhete assim anexado ao de Prestongrange? E, entre todas as maravilhas, por que se julgou necessário dar-me esta agradável, mas inconsequente, informação sobre o Bass? Quanto ao autor, não consegui pensar em ninguém possível exceto a Srta. Grant. Lembrei-me de que a sua família tinha reparado nos olhos de Catriona e até a tinham identificado pela cor deles; e ela própria tinha o hábito de me falar com uma pronúncia carregada, como forma de menosprezo, suponho, pela minha rusticidade. Não havia dúvida, aliás, de que ela vivia na mesma casa de onde esta carta vinha. Assim, restava apenas um passo a explicar; e era como Prestongrange poderia tê-la autorizado num assunto tão secreto, ou deixar o seu bilhete de aspeto disparatado seguir no mesmo envelope que o dele. Mas até aqui tive um vislumbre. Pois, em primeiro lugar, havia algo de bastante alarmante na jovem, e o papá podia estar mais sob o seu domínio do que eu sabia. E, em segundo lugar, havia a política contínua do homem a ser recordada, de como a sua conduta tinha sido constantemente misturada com carícias, e raramente, no meio de tanta contenda, tinha posto de lado uma máscara de amizade. Ele devia imaginar que a minha prisão me tinha enfurecido. Talvez esta pequena mensagem brincalhona e amigável pretendesse desarmar o meu rancor?

Serei honesto — e penso que o fez. Senti um calor súbito por aquela bela Srta. Grant, por ela se dignar a ter tanto interesse nos meus assuntos. A recordação de Catriona moveu-me, por si só, para conselhos mais brandos e cobardes. Se o Advogado soubesse dela e do nosso conhecimento — se eu o agradasse com alguma daquela “discrição” a que a sua carta apontava — a que não poderia isto levar! Em vão se prepara a rede à vista de qualquer ave, diz a Escritura. Bem, as aves devem ser mais sábias que o povo! Pois pensei que percebi a política e, contudo, alinhei nela.

Eu estava neste estado de espírito, o meu coração a bater, os olhos cinzentos claros diante de mim como duas estrelas, quando Andie interrompeu os meus pensamentos.

“Vejo que recebeu boas notícias”, disse ele.

Dei por ele a olhar curiosamente para a minha cara; com isso, surgiu-me como uma visão de James Stewart e do tribunal de Inverary; e a minha mente virou-se de imediato como uma porta sobre as suas dobradiças. Os julgamentos, refleti, por vezes prolongam-se mais do que se espera. Mesmo que eu chegasse a Inverary demasiado tarde, algo ainda poderia ser tentado no interesse de James — e no do meu próprio caráter, o melhor seria realizado. Num momento, pareceu-me sem pensar, tinha um plano delineado.

“Andie”, disse eu, “continua a ser para amanhã?”

Ele disse-me que nada tinha mudado.

“Disse-se algo sobre a hora?”, perguntei.

Ele disse-me que era para as duas da tarde.

“E sobre o lugar?”, continuei.

“Que lugar?”, diz Andie.

“O lugar onde devo ser desembarcado?”, disse eu.

Ele admitiu que não havia nada sobre isso.

“Muito bem, então”, disse eu, “isso será meu para arranjar. O vento está de leste, o meu caminho fica para oeste: fique com o seu barco, eu alugo-o; vamos subir o Forth todo o dia; e deixe-me às duas horas de amanhã no ponto mais a oeste que pudermos alcançar.”

“Seu rapaz louco!”, gritou ele; “ainda quer tentar chegar a Inverary, afinal!”

“Exatamente, Andie”, digo eu.

“Bem, é difícil de vencer!”, diz ele. “E eu tive uma espécie de pena de si ontem o dia todo”, acrescentou. “Sabe, nunca tive a certeza absoluta até então de qual o caminho que o senhor realmente queria.”

Aqui estava um estímulo para um cavalo coxo!

“Uma palavra ao seu ouvido, Andie”, disse eu. “Este meu plano tem ainda outra vantagem. Podemos deixar estes homens das Terras Altas para trás na rocha, e um dos seus barcos vindo de Castleton pode buscá-los amanhã. Aquele Neil tem um olhar estranho quando olha para si; talvez, se eu estivesse fora da porta, pudesse haver facas outra vez; estes homens são muito rancorosos. E se houver alguma questão, aqui tem a sua desculpa. As nossas vidas estavam em perigo por causa destes selvagens; sendo responsável pela minha segurança, escolheu a parte de me trazer para longe da vizinhança deles e deter-me o resto do tempo a bordo do seu barco: e sabe, Andie?”, digo eu, com um sorriso, “acho que foi uma escolha muito sábia.”

“A verdade é que não tenho apreço por Neil”, diz Andie, “nem ele por mim, penso eu; e eu não gostaria de me ver às voltas com o homem. Tam Anster tratará melhor do assunto com o gado de qualquer maneira.” (Pois este homem, Anster, vinha de Fife, onde o gaélico ainda é falado.) “Sim, sim!”, diz Andie, “o Tam saberá lidar melhor com eles. E, na verdade! Quanto mais penso nisso, menos vejo que seríamos necessários. O lugar — sim, bolas! tinham-se esquecido do lugar. Eh, Shaws, o senhor é um rapaz de cabeça larga quando quer! Além de que lhe devo a vida”, acrescentou, com mais solenidade, e ofereceu-me a mão no negócio.

Após o que, com pouco mais palavras, pusemo-nos subitamente a bordo do barco, largámos e içámos a vela. Os Gregara estavam então ocupados com o pequeno-almoço, pois a cozinha era a sua tarefa habitual; mas, um deles indo até às ameias, a nossa fuga foi observada antes de estarmos a vinte braças da rocha; e os três correram pelas ruínas e pela plataforma de desembarque, como formigas à volta de um ninho partido, chamando e gritando para voltarmos. Estávamos ainda sob o abrigo e a sombra da rocha, que se estendia larga sobre as águas, mas pouco depois saímos quase no mesmo momento para o vento e o sol; a vela encheu-se, o barco inclinou-se até à borda e passámos imediatamente além do alcance das vozes dos homens. A que terrores eles se sujeitaram na rocha, onde estavam agora abandonados sem a presença de qualquer pessoa civilizada ou sequer a proteção de uma Bíblia, não se pode estabelecer limite; nem tinham aguardente para seu consolo, pois até na pressa e no segredo da nossa partida Andie tinha conseguido retirá-la.

O nosso primeiro cuidado foi pôr Anster em terra numa enseada junto às rochas de Glenteithy, para que o resgate dos nossos náufragos pudesse ser devidamente cuidado no dia seguinte. Daí, seguimos para o Firth acima. A brisa, que era então tão animada, diminuiu rapidamente, mas nunca nos falhou totalmente. Todo o dia estivemos em movimento, embora muitas vezes não muito mais do que isso; e já tinha escurecido quando chegámos a Queensferry. Para cumprir a letra do compromisso de Andie (ou o que restava dele), eu devia permanecer a bordo, mas não achei mal comunicar com a costa por escrito. No invólucro de Prestongrange, onde o selo do Governo devia ter surpreendido um pouco o meu correspondente, escrevi, à luz da lanterna do barco, algumas palavras necessárias, a bordo, e Andie levou-as a Rankeillor. Cerca de uma hora depois, voltou com uma bolsa de dinheiro e a garantia de que um bom cavalo estaria selado para mim às duas da tarde em Clackmannan Pool. Feito isto, e com o barco ancorado pela sua âncora de pedra, deitámo-nos a dormir sob a vela.

Estávamos no Pool no dia seguinte muito antes das duas; e não me restava nada senão sentar-me e esperar. Senti pouca prontidão na minha missão. Teria ficado satisfeito com qualquer desculpa aceitável para a abandonar; mas, como não havia nenhuma, a minha inquietação não era menor do que se eu estivesse a correr para algum prazer desejado. Pouco depois da uma, o cavalo estava à beira da água, e eu podia ver um homem a passeá-lo de um lado para o outro até que eu desembarcasse, o que aumentou imensamente a minha impaciência. Andie cronometrou o momento da minha libertação muito bem, mostrando ser um homem de palavra, mas mal servindo os seus empregadores com medida cheia; e cerca de cinquenta segundos depois das duas, eu estava na sela e a todo o galope para Stirling. Pouco mais de uma hora depois, tinha passado aquela cidade e já subia pela margem da Alan Water, quando o tempo mudou para uma pequena tempestade. A chuva cegou-me, o vento quase me derrubou da sela e a primeira escuridão da noite surpreendeu-me num ermo ainda a alguma distância a leste de Balwhidder, sem muita certeza da minha direção e montado num cavalo que começava já a estar cansado.

Na pressa, e para poupar o atraso e o incómodo de um guia, tinha seguido (tanto quanto era possível para qualquer cavaleiro) a linha da minha viagem com Alan. Fiz isto de olhos abertos, prevendo um grande risco nisso, que a tempestade tinha agora tornado realidade. O último sítio onde soube onde estava, penso que deve ter sido por volta de Uam Var; a hora talvez as seis da noite. Ainda devo pensar que foi grande sorte ter chegado por volta das onze ao meu destino, a casa de Duncan Dhu. Onde vagueei no intervalo, talvez o cavalo soubesse dizer. Sei que caímos duas vezes e, uma vez, fui parar acima da sela e levado por um momento numa torrente rugidora. Montada e cavaleiro estavam enlameados até aos olhos.

De Duncan tive notícias do julgamento. Era seguido em todas estas regiões das Terras Altas com interesse religioso; as notícias dele espalharam-se a partir de Inverary tão depressa quanto os homens podiam viajar; e alegrei-me ao saber que, até uma hora tardia daquele sábado, ainda não tinha terminado; e todos começavam a supor que se prolongaria pela segunda-feira. Sob o estímulo desta informação, não me quis sentar para comer; mas, tendo Duncan concordado em ser o meu guia, retomei a estrada a pé, com o pedaço de comida na mão e mastigando enquanto seguia. Duncan trouxe consigo um frasco de usquebaugh e uma lanterna de mão; a qual nos iluminou apenas enquanto pudemos encontrar casas onde a reacender, pois a coisa perdia líquido escandalosamente e apagava-se com cada rajada. Durante a maior parte da noite, caminhámos vendados entre lençóis de chuva, e o dia encontrou-nos sem rumo nas montanhas. Ali perto encontrámos uma cabana junto a um riacho, onde conseguimos uma dentada e uma direção; e, pouco antes do fim do sermão, chegámos às portas da igreja de Inverary.

A chuva tinha lavado um pouco as minhas partes superiores, mas ainda estava enlameado até aos joelhos; eu escorria água; estava tão cansado que mal podia coxear, e a minha cara parecia a de um fantasma. Precisava certamente mais de uma muda de roupa e de uma cama para me deitar do que de todos os benefícios da Cristandade. Apesar de tudo o que (estando convencido de que o ponto principal para mim era tornar-me imediatamente público), entrei na igreja com o sujo Duncan nos meus calcanhares, encontrei um lugar vago e sentei-me.

“Décimo terceiro, meus irmãos, e em parênteses, a própria lei deve ser considerada como um meio de graça”, dizia o ministro, com a voz de quem se deleita em prosseguir um argumento.

O sermão era em inglês por causa da sessão judicial. Os juízes estavam presentes com os seus assistentes armados, as alabardas brilhavam num canto junto à porta, e os bancos estavam apinhados além do costume com a fila de advogados. O texto era em Romanos 5:13 — o ministro era um mestre; e todo aquele capaz auditório — desde Argyle, e os meus Lordes Elchies e Kilkerran, até aos alabardeiros que vinham na sua comitiva — estava submerso, com as sobrancelhas cerradas, numa profunda atenção crítica. O próprio ministro e alguns dos que estavam perto da porta observaram a nossa entrada no momento e esqueceram-na imediatamente; os outros ou não ouviram, ou não queriam ouvir, ou não queriam ser ouvidos; e sentei-me entre os meus amigos e inimigos sem ser notado.

O primeiro que distingui foi Prestongrange. Estava sentado bem à frente, como um cavaleiro ansioso na sela, os lábios movendo-se com deleite, os olhos colados no ministro; a doutrina era claramente do seu agrado. Charles Stewart, por outro lado, estava meio adormecido e parecia perturbado e pálido. Quanto a Simon Fraser, parecia uma mancha, e quase um escândalo, no meio daquela congregação atenta, metendo as mãos nos bolsos, mudando as pernas de posição, limpando a garganta, revirando as sobrancelhas calvas e disparando os olhos para a direita e para a esquerda, ora com um bocejo, ora com um sorriso secreto. Por vezes, também, pegava na Bíblia à sua frente, folheava-a, parecia ler um pouco, folheava-a de novo, e parava e bocejava prodigiosamente: tudo como se fosse por exercício.

No decurso desta inquietude, o seu olhar pousou em mim. Sentou-se um segundo estupefacto, depois arrancou meia folha da Bíblia, rabiscou nela com um lápis e passou-a com uma palavra sussurrada ao seu vizinho próximo. A nota chegou a Prestongrange, que me deu apenas um olhar; daí, viajou para as mãos do Sr. Erskine; daí, novamente para Argyle, onde ele estava sentado entre os outros dois lordes de sessão, e Sua Graça virou-se e fixou-me com um olhar arrogante. O último dos interessados na minha presença foi Charlie Stewart, e ele também começou a escrever a lápis e a passar despachos, nenhum dos quais consegui localizar no seu destino na multidão.

Mas a passagem destas notas tinha despertado a atenção; todos os que estavam no segredo (ou supunham estar) sussurravam informações — os restantes, perguntas; e o próprio ministro parecia bastante desapontado com o alvoroço na igreja e a súbita agitação e murmúrios. A sua voz mudou, hesitou visivelmente, nem voltou a recuperar a facilidade de convicção e os tons cheios da sua fala. Seria um enigma para ele até ao dia da sua morte, por que razão um sermão que tinha corrido com triunfo durante quatro partes, falhou assim na quinta.

Quanto a mim, continuei sentado ali, muito molhado e cansado, e bastante ansioso sobre o que aconteceria a seguir, mas exultante com o meu sucesso.

CAPÍTULO XVII. O MEMORIAL

A última palavra da bênção mal tinha saído da boca do ministro quando Stewart me agarrou pelo braço. Fomos os primeiros a sair da igreja, e ele fez uma expedição tão extraordinária que estávamos a salvo dentro das quatro paredes de uma casa antes que a rua começasse a estar apinhada com a congregação que voltava para casa.

“Ainda vou a tempo?”, perguntei.

“Sim e não”, disse ele. “O caso terminou; o júri está encerrado e terá a bondade de nos fazer saber o seu ponto de vista amanhã de manhã, o mesmo que eu próprio poderia ter dito há três dias, antes de a peça começar. A coisa é pública desde o início. O arguido sabia-o, ‘O senhor pode fazer o que quiser por mim’, sussurrou ele há dois dias. ‘O senhor conhece o meu destino pelo que o Duque de Argyle acabou de dizer ao Sr. Macintosh.’ Oh, tem sido um escândalo!

“O grande Argyle ele foi à frente, Fez os canhões e as armas rugir”,

e o próprio oficial de justiça gritou ‘Cruachan!’ Mas agora que o tenho de volta, nunca perderei a esperança. O carvalho ainda há de superar a murta; ainda havemos de vencer os Campbells na sua própria cidade. Louvado seja Deus por eu ver este dia!”

Ele saltava de entusiasmo, esvaziou as suas malas no chão para que eu pudesse trocar de roupa, e incomodou-me com a sua assistência enquanto eu mudava. O que restava fazer, ou como o deveria fazer, era algo que ele nunca me disse nem, acredito, pensou sequer nisso. “Ainda havemos de vencer os Campbells!” esse era ainda o seu estribilho. E foi forçado a entrar na minha mente como isto, que tinha os exteriores de um processo de lei sóbrio, era na sua essência uma batalha de clãs entre clãs selvagens. Pensei que o meu amigo, o Escrivão, não era dos menos selvagens. Quem, tendo-o visto apenas atrás de um advogado perante o Lord Ordinary ou a seguir uma bola de golfe e a pousar os seus tacos nos campos de Bruntsfield, poderia ter reconhecido a mesma pessoa neste volúvel e violento membro de clã?

Os advogados de James Stewart eram quatro — os Xerifes Brown de Colstoun e Miller, o Sr. Robert Macintosh e o Sr. Stewart, o mais novo de Stewart Hall. Estes tinham combinado jantar com o Escrivão após o sermão, e eu fui muito gentilmente incluído no grupo. Logo que a toalha foi levantada, e a primeira taça muito engenhosamente composta pelo Xerife Miller, caímos no assunto em questão. Fiz uma breve narração da minha captura e cativeiro, e fui então examinado e reexaminado sobre as circunstâncias do homicídio. Lembrar-se-ão de que esta foi a primeira vez que disse o que tinha a dizer, ou que o assunto foi tratado entre advogados; e a consequência foi muito desencorajadora para os outros e (devo confessar) dececionante para mim próprio.

“Resumindo”, disse Colstoun, “o senhor prova que Alan estava no local; ouviu-o proferir ameaças contra Glenure; e embora nos garanta que ele não foi o homem que disparou, deixa uma forte impressão de que estava em conluio com ele, e a consentir, talvez a assistir imediatamente, no ato. Mostra-o, além disso, arriscando a sua própria liberdade, a fomentar ativamente a fuga do criminoso. E o resto do seu testemunho (na medida em que é minimamente material) depende da mera palavra de Alan ou de James, os dois acusados. Em suma, o senhor não quebra, mas apenas prolonga por mais uma personagem, a corrente que liga o nosso cliente ao assassino; e dificilmente preciso de dizer que a introdução de um terceiro cúmplice agrava antes aquela aparência de conspiração que tem sido o nosso tropeço desde o início.”

“Sou da mesma opinião”, disse o Xerife Miller. “Penso que todos podemos estar muito gratos a Prestongrange por tirar uma testemunha muito desconfortável do nosso caminho. E, principalmente, penso que o próprio Sr. Balfour pode estar agradecido. Pois o senhor fala de um terceiro cúmplice, mas o Sr. Balfour (na minha opinião) tem muito a aparência de um quarto.”

“Permitam-me, senhores!”, interveio Stewart, o Escrivão. “Há outra perspetiva. Aqui temos uma testemunha — não importa se material ou não — uma testemunha nesta causa, raptada por aquele bando antigo e sem lei de bandidos dos Macgregors de Glengyle, e sequestrada por quase um mês num buraco de ruínas antigas no Bass. Tragam isso a lume e vejam que lama atiram ao processo! Senhores, este é um conto para fazer o mundo ressoar! Seria estranho, com uma garra destas, se não conseguíssemos espremer um perdão para o meu cliente.”

“E suponhamos que tomássemos a causa do Sr. Balfour amanhã?”, disse Stewart Hall. “Estou muito enganado ou encontraríamos tantos impedimentos lançados no nosso caminho que James teria sido enforcado antes de encontrarmos um tribunal para nos ouvir. Este é um grande escândalo, mas suponho que nenhum de nós se esqueceu de um maior ainda, refiro-me ao assunto da Lady Grange. A mulher estava ainda em cárcere; o meu amigo Sr. Hope de Rankeillor fez o que era humanamente possível; e como se saiu ele? Nunca obteve um mandado! Bem, será o mesmo agora; as mesmas armas serão usadas. Esta é uma cena, cavalheiros, de animosidade de clã. O ódio ao nome que tenho a honra de ostentar, ruge nos altos escalões. Não há nada aqui para ser visto senão puro despeito Campbell e mesquinha intriga Campbell.”

Pode ter a certeza de que isto foi tocar num tópico bem-vindo, e sentei-me durante algum tempo no meio dos meus doutos advogados, quase ensurdecido pela sua conversa, mas extremamente pouco mais esclarecido quanto ao seu teor. O Escrivão foi levado a algumas expressões acaloradas; Colstoun teve de o interromper e corrigir; os restantes juntaram-se em lados diferentes, mas todos bastante ruidosos; o Duque de Argyle foi batido como um cobertor; o Rei George entrou para algumas estocadas de passagem e uma grande dose de defesa bastante elaborada; e havia apenas uma pessoa que parecia ter sido esquecida, e esse era James of the Glens.

Ao longo de tudo isto, o Sr. Miller sentou-se quieto. Era um cavalheiro de idade, um tanto esguio, corado e de olhar cintilante; falava com uma voz suave e rica, com um efeito infinito de astúcia, distribuindo cada palavra da maneira que um ator faz, para dar a maior expressão possível; e mesmo agora, quando estava em silêncio e sentado ali com a peruca de lado, o copo em ambas as mãos, a boca engraçadamente franzida e o queixo para fora, parecia a própria imagem de uma malícia alegre. Era evidente que tinha uma palavra a dizer e esperava pela ocasião oportuna.

Chegou pouco depois. Colstoun tinha terminado um dos seus discursos com alguma expressão sobre o seu dever para com o cliente. O seu irmão xerife ficou satisfeito, suponho, com a transição. Tomou a mesa na sua confiança com um gesto e um olhar.

“Isso sugere-me uma consideração que parece negligenciada”, disse ele. “O interesse do nosso cliente vem certamente antes de tudo, mas o mundo não chega ao fim com James Stewart.” Ao que ele arregalou o olho. “Poderia condescender, exempli gratia, sobre um Sr. George Brown, um Sr. Thomas Miller e um Sr. David Balfour. O Sr. David Balfour tem um fundamento muito bom para uma queixa, e creio, senhores — se a sua história fosse devidamente esclarecida — creio que haveria muitas perucas no verde.”

A mesa inteira virou-se para ele com um movimento comum.

“Devidamente tratada e cuidadosamente esclarecida, a dele é uma história que dificilmente deixaria de ter alguma consequência”, continuou ele. “Toda a administração da justiça, desde o seu oficial mais alto para baixo, seria totalmente desacreditada; e parece-me que eles teriam de ser substituídos.” Parecia brilhar com astúcia ao dizê-lo. “E não preciso de vos apontar que esta causa do Sr. Balfour seria um caso notavelmente belo onde aparecer”, acrescentou.

Bem, lá estavam eles todos lançados noutra lebre; a causa do Sr. Balfour, e que tipo de discursos poderiam ser aí proferidos, e que funcionários poderiam ser assim expulsos, e quem sucederia aos seus cargos. Darei apenas os dois espécimes. Foi proposto abordar Simon Fraser, cujo testemunho, se pudesse ser obtido, provaria certamente ser fatal para Argyle e para Prestongrange. Miller aprovou muito a tentativa. “Temos aqui diante de nós um assado a pingar”, disse ele, “aqui há carne para todos.” E pareceu-me que todos se lambiam. O outro já estava perto do fim. Stewart, o Escrivão, estava fora de si de alegria, sentindo o cheiro da vingança sobre o seu principal inimigo, o Duque.

“Senhores”, gritou ele, carregando o seu copo, “um brinde ao Xerife Miller. As suas capacidades jurídicas são conhecidas por todos. As suas culinárias, esta taça à nossa frente está aqui para falar por elas. Mas quando se trata da política!” — grita ele, e esvazia o copo.

“Sim, mas dificilmente provará ser política no seu sentido, meu amigo”, disse o gratificado Miller. “Uma revolução, se quiser, e creio que lhe posso prometer que os historiadores datarão a partir da causa do Sr. Balfour. Mas devidamente guiada, Sr. Stewart, ternamente guiada, provará ser uma revolução pacífica.”

“E se os malditos Campbells levarem um puxão de orelhas, que me importa?” grita Stewart, batendo com o punho.

Pensar-se-á que eu não fiquei muito satisfeito com tudo isto, embora mal pudesse evitar sorrir perante uma espécie de inocência nestes velhos intrigantes. Mas não era a minha intenção ter sofrido tantas penas para o avanço do Xerife Miller ou para fazer uma revolução no Parlamento; e interpus-me, consequentemente, com a maior simplicidade de modos que pude assumir.

“Tenho de vos agradecer, senhores, pelo vosso conselho”, disse eu. “E agora gostaria, com a vossa licença, de vos colocar duas ou três perguntas. Há uma coisa que ficou um pouco de lado, por exemplo: esta causa fará algum bem ao nosso amigo James of the Glens?”

Pareceram todos um pouco recuados e deram várias respostas, mas concordando praticamente num ponto: que James já não tinha esperança senão na misericórdia do Rei.

“Para prosseguir, então”, disse eu, “fará algum bem à Escócia? Temos um ditado que diz que é um pássaro de mau agouro o que suja o seu próprio ninho. Lembro-me de ouvir que tivemos um motim em Edimburgo quando eu era uma criança de colo, o que deu ocasião à falecida Rainha para chamar este país de bárbaro; e sempre entendi que perdemos mais do que ganhámos com isso. Depois veio o ano de ’Quarenta e cinco, que fez com que se falasse da Escócia por toda a parte; mas nunca ouvi dizer que tivéssemos ganho de alguma forma com o ’Quarenta e cinco. E agora chegamos a esta causa do Sr. Balfour, como lhe chamam. O Xerife Miller diz-nos que os historiadores irão datar a partir dela, e não me admiraria. O meu receio é apenas que a datem como um período de calamidade e opróbrio público.”

O astuto Miller já tinha farejado para onde eu estava a viajar e apressou-se a seguir pelo mesmo caminho. “Colocado de forma incisiva, Sr. Balfour”, diz ele. “Uma observação ponderada, senhor.”

“Temos a seguir de nos perguntar se será bom para o Rei George”, continuei. “O Xerife Miller parece bastante tranquilo quanto a isto; mas duvido que consigam derrubar a casa por baixo dele sem que a Sua Majestade leve uma pancada ou duas, uma das quais poderia facilmente provar ser fatal.”

Dei-lhes uma oportunidade para responder, mas ninguém se voluntariou.

“Daqueles para quem o caso seria rentável”, prossegui, “o Xerife Miller deu-nos os nomes de vários, entre os quais teve a bondade de mencionar o meu. Espero que me perdoe se penso de outra forma. Acredito que não recuei o mínimo que fosse neste assunto enquanto houvesse vida para salvar; mas confesso que me achei extremamente arriscado, e confesso que penso que seria uma pena para um jovem, com alguma ideia de seguir a advocacia, incutir em si mesmo o caráter de um tipo turbulento e faccioso antes mesmo dos vinte anos. Quanto a James, parece — nesta altura dos procedimentos, com a sentença quase pronunciada — que ele não tem esperança senão na misericórdia do Rei. Não poderá, então, a Sua Majestade ser abordada de forma mais direta, os caracteres destes altos funcionários protegidos do público e eu próprio mantido fora de uma posição que creio significar a minha ruína?”

Sentaram-se todos a olhar para os seus copos, e pude ver que achavam a minha atitude em relação ao assunto desagradável. Mas Miller estava pronto para qualquer eventualidade.

“Se me for permitido colocar a noção do meu jovem amigo numa forma mais formal”, diz ele, “entendo que ele propõe que incorporemos o facto do seu sequestro, e talvez alguns pontos do testemunho que estava preparado para oferecer, num memorial à Coroa. Este plano tem elementos de sucesso. É tão provável como qualquer outro (e talvez mais) ajudar o nosso cliente. Talvez Sua Majestade tivesse a bondade de sentir uma certa gratidão a todos os envolvidos em tal memorial, o que poderia ser interpretado como uma expressão de uma lealdade muito delicada; e creio que, na redação do mesmo, este ponto de vista poderia ser apresentado.”

Todos acenaram uns aos outros, não sem suspiros, pois a alternativa anterior era sem dúvida mais do seu agrado.

“Papel, então, Sr. Stewart, se faz favor”, continuou Miller; “e creio que poderia muito adequadamente ser assinado pelos cinco aqui presentes, como procuradores do homem condenado.”

“Não pode fazer mal a nenhum de nós, pelo menos”, diz Colstoun, soltando outro suspiro, pois vira-se a si mesmo como Lord Advocate nos últimos dez minutos.

Ato contínuo, puseram-se, não com muito entusiasmo, a redigir o memorial — um processo durante o qual rapidamente se incendiaram; e eu não tive mais nada a fazer senão sentar-me a observar e responder a uma ou outra pergunta ocasional. O documento estava muito bem expresso; começando com uma recitação dos factos sobre mim, a recompensa oferecida pela minha captura, a minha rendição, a pressão exercida sobre mim; o meu sequestro; e a minha chegada a Inverary a tempo de chegar atrasado; continuando a explicar as razões de lealdade e interesse público pelas quais se acordou em renunciar a qualquer direito de ação; e terminando com um apelo contundente à misericórdia do Rei em nome de James.

Pareceu-me que fui bastante sacrificado, e representado mais sob a luz de um tipo incendiário que o meu bando de advogados tinha refreado com dificuldade de extremos. Mas deixei passar, e fiz apenas uma sugestão: a de que eu fosse descrito como estando pronto para prestar o meu próprio depoimento e apresentar o de outros perante qualquer comissão de inquérito — e a única exigência: a de que me fosse imediatamente fornecida uma cópia.

Colstoun hesitou. “Este é um documento muito confidencial”, disse ele.

“E a minha posição perante Prestongrange é altamente peculiar”, respondi. “Não há dúvida de que devo ter tocado o seu coração na nossa primeira entrevista, de modo que ele tem, desde então, sido consistentemente meu amigo. Se não fosse por ele, senhores, eu estaria agora a morrer ou a aguardar a minha sentença ao lado do pobre James. Pela qual razão escolho comunicar-lhe o facto deste memorial assim que for copiado. Devem considerar também que este passo contribuirá para a minha proteção. Tenho aqui inimigos acostumados a agir com dureza; a Sua Graça está na sua própria terra, Lovat ao seu lado; e se pairar alguma ambiguidade sobre os nossos procedimentos, creio que poderia muito bem acordar na prisão.”

Não encontrando resposta muito pronta a estas considerações, a minha companhia de conselheiros foi finalmente persuadida a consentir, e impôs apenas esta condição: que eu apresentasse o papel a Prestongrange com os cumprimentos expressos de todos os envolvidos.

O Advocate estava no castelo a jantar com a Sua Graça. Pela mão de um dos criados de Colstoun, enviei-lhe um bilhete a pedir uma entrevista e recebi uma convocatória para me encontrar com ele imediatamente numa casa privada da cidade. Aqui encontrei-o sozinho numa câmara; do seu rosto nada se podia colher; contudo, não fui tão pouco observador a ponto de não espiar algumas alabardas no corredor, e não tão estúpido a ponto de não concluir que ele estava preparado para me prender ali mesmo, caso se revelasse aconselhável.

“Então, Sr. David, é você?” disse ele.

“Onde temo não ser muito bem-vindo, milorde”, disse eu. “E gostaria, antes de ir mais longe, de expressar o meu reconhecimento pelos bons ofícios de Vossa Senhoria, mesmo que agora cessem.”

“Já ouvi falar da sua gratidão antes”, respondeu ele secamente, “e creio que dificilmente este será o assunto para o qual me chamou do meu vinho para ouvir. Gostaria também, se fosse a si, de me lembrar de que ainda se encontra numa base muito pantanosa.”

“Agora não, milorde, penso eu”, disse eu; “e se Vossa Senhoria apenas lançar um olho sobre isto, talvez pense como eu.”

Leu-o atentamente até ao fim, franzindo muito a testa; depois voltou a uma parte e a outra que parecia pesar e comparar o efeito. O seu rosto iluminou-se um pouco.

“Isto não é tão mau que não pudesse ser pior”, disse ele; “embora ainda seja provável que pague caro pelo meu conhecimento com o Sr. David Balfour.”

“Mais pela sua indulgência para com esse jovem infeliz, milorde”, disse eu.

Ele continuou a folhear o papel e, durante todo o tempo, o seu ânimo parecia melhorar.

“E a quem devo isto?” perguntou pouco depois. “Outros conselhos devem ter sido discutidos, creio. Quem foi que propôs este método privado? Foi Miller?”

“Milorde, fui eu próprio”, disse eu. “Estes senhores não me mostraram tal consideração, de modo a que eu me negasse a qualquer crédito que possa legitimamente reclamar, ou poupasse-lhes qualquer responsabilidade que devam propriamente assumir. E a pura verdade é que estavam todos a favor de um processo que teria consequências notáveis no Parlamento e provaria ser para eles (numa das suas próprias expressões) um assado a pingar. Antes de eu intervir, creio que estavam a ponto de partilhar os diferentes cargos jurídicos. O nosso amigo Sr. Simon ia ser incluído mediante algum acordo.”

Prestongrange sorriu. “Estes são os nossos amigos”, disse ele. “E quais foram as suas razões para dissentir, Sr. David?”

Disse-lhas sem ocultação, expressando, contudo, com mais força e volume as que diziam respeito ao próprio Prestongrange.

“Não me faz mais do que justiça”, disse ele. “Lutei tanto pelo seu interesse como o senhor lutou contra o meu. E como veio aqui hoje?” perguntou ele. “À medida que o caso se arrastava, comecei a ficar inquieto por ter encurtado tanto o prazo, e esperava até por si amanhã. Mas hoje — nunca sonhei com isso.”

Eu, naturalmente, não ia trair Andie.

“Suspeito que há gado muito cansado na estrada”, disse eu.

“Se eu soubesse que era um salteador desses, teria provado mais tempo de Bass”, diz ele.

“Falando nisso, milorde, devolvo-lhe a sua carta.” E entreguei-lhe o anexo com a letra falsificada.

“Havia também a capa com o selo”, disse ele.

“Não a tenho”, disse eu. “Não trazia sequer um endereço e não poderia comprometer um gato. O segundo anexo tenho-o, e com a sua permissão, desejo mantê-lo.”

Achei que ele vacilou um pouco, mas não disse nada de concreto. “Amanhã”, retomou ele, “o nosso trabalho aqui estará terminado, e seguirei por Glasgow. Teria muito gosto em tê-lo no meu grupo, Sr. David.”

“Milorde...” comecei eu.

“Não nego que será de utilidade para mim”, interrompeu ele. “Desejo até que, quando chegarmos a Edimburgo, se instale em minha casa. Tem amigos muito calorosos nas Senhoritas Grant, que ficarão radiantes por o terem só para si. Se pensa que lhe fui útil, pode assim facilmente pagar-me, e longe de perder, pode colher alguma vantagem pelo caminho. Não é qualquer jovem estranho que é apresentado na sociedade pelo Advogado do Rei.”

Já vezes suficientes (nas nossas breves relações) este cavalheiro tinha feito a minha cabeça andar à roda; sem dúvida que por um momento o fez novamente agora. Aqui estava a velha ficção ainda mantida do meu favor particular junto das suas filhas, uma das quais tinha sido tão boa ao ponto de se rir de mim, enquanto as outras duas mal se tinham dignado a notar o facto da minha existência. E agora eu ia viajar com o meu lorde para Glasgow; ia viver com ele em Edimburgo; ia ser introduzido na sociedade sob a sua proteção! Que ele tivesse tanta boa vontade ao ponto de me perdoar era suficientemente surpreendente; que ele pudesse desejar levar-me e servir-me parecia impossível; e comecei a procurar algum significado ulterior. Um era claro. Se eu me tornasse seu convidado, o arrependimento estava excluído; nunca poderia pensar melhor sobre o meu presente plano e intentar qualquer ação. E, além disso, a minha presença em sua casa não extrairia toda a pungência do memorial? Pois essa queixa não poderia ser muito seriamente considerada, se a pessoa principalmente prejudicada fosse o convidado do funcionário mais incriminado. À medida que pensava nisto, não pude evitar sorrir.

“Isto é da natureza de um contra-ataque ao memorial?” disse eu.

“É astuto, Sr. David”, disse ele, “e não adivinha totalmente errado; o facto será de utilidade para mim na minha defesa. Talvez, contudo, subestime os sentimentos amigáveis, que são perfeitamente genuínos. Tenho um respeito por si, David, misturado com temor”, diz ele, sorrindo.

“Estou mais do que disposto, estou seriamente desejoso de satisfazer os seus desejos”, disse eu. “É o meu plano ser chamado à advocacia, onde o apoio de Vossa Senhoria seria inestimável; e estou, além disso, sinceramente grato a si e à sua família por diferentes marcas de interesse e de indulgência. A dificuldade é esta. Há um ponto em que puxamos para lados opostos. O senhor está a tentar enforcar James Stewart, eu estou a tentar salvá-lo. Na medida em que o meu viajar consigo melhorasse a defesa de Vossa Senhoria, estou às ordens de Vossa Senhoria; mas na medida em que isso ajudasse a enforcar James Stewart, vê-me num impasse.”

Pensei que ele jurou para si mesmo. “Deveria certamente ser chamado; a advocacia é o verdadeiro palco para os seus talentos”, diz ele, amargamente, e depois ficou um tempo em silêncio. “Vou dizer-lhe”, retomou pouco depois, “não há qualquer questão quanto a James Stewart, a favor ou contra; James é um homem morto; a sua vida é dada e tomada — comprada (se gostar mais assim) e vendida; nenhum memorial pode ajudar — nenhuma deserção de um fiel Sr. David pode prejudicá-lo. Sopre alto, sopre baixo, não haverá perdão para James Stewart: e considere isso dito! A questão agora é sobre mim próprio: vou aguentar-me ou cair? e não lhe nego que estou em algum perigo. Mas o Sr. David Balfour considerar-se-á porquê? Não é porque forcei o caso indevidamente contra James; por isso, tenho a certeza da condenação. E não é porque sequestrei o Sr. David numa rocha, embora isso passe por essa cor; mas porque não tomei o caminho fácil e direto, para o qual fui pressionado repetidamente, e enviei o Sr. David para a sua cova ou para a forca. Daí o escândalo — daí este maldito memorial”, batendo com o papel na sua perna. “A minha ternura por si trouxe-me a esta dificuldade. Desejo saber se a sua ternura para com a sua própria consciência é demasiado grande para o deixar ajudar-me a sair dela.”

Não há dúvida de que havia muito de verdade no que ele dizia; se James já não podia ser ajudado, a quem seria mais natural que eu me voltasse para ajudar senão precisamente ao homem à minha frente, que me tinha ajudado tantas vezes, e estava até agora a dar-me um exemplo de paciência? Eu estava, além disso, não apenas cansado, mas a começar a ter vergonha da minha perpétua atitude de suspeita e recusa.

“Se me indicar a hora e o local, estarei pontualmente pronto para acompanhar Vossa Senhoria”, disse eu.

Ele apertou-me a mão. “E creio que as minhas meninas têm algumas notícias para si”, diz ele, dispensando-me.

Saí, vastamente satisfeito por ter feito as pazes, mas um pouco preocupado em consciência; nem pude evitar perguntar-me, enquanto voltava, se, talvez, eu não tinha sido um escrúpulo demasiado bem-intencionado. Mas lá estava o facto de que este era um homem que poderia ter sido meu pai, um homem capaz, um grande dignitário, e alguém que, na hora da minha necessidade, tinha estendido uma mão para me assistir. Estava com melhor humor para desfrutar do resto daquela noite, que passei com os advogados, em excelente companhia sem dúvida, mas talvez com um pouco mais do que a suficiência de ponche: pois, embora tenha ido cedo para a cama, não tenho uma ideia clara de como lá cheguei.

No dia seguinte, da sala privada dos juízes, onde ninguém podia ver-me, ouvi o veredito ser proferido e a sentença ser dada a James. Tenho a certeza de que recordo corretamente as palavras do Duque; e, uma vez que essa famosa passagem se tornou objeto de disputa, talvez seja melhor comemorar a minha versão. Tendo feito referência ao ano de 45, o chefe dos Campbells, sentado como Justice-General no banco, dirigiu-se ao infeliz Stewart diante dele: "Se tivesse sido bem-sucedido nessa rebelião, poderia agora estar a ditar a lei onde a recebeu; nós, que hoje somos os seus juízes, poderíamos ter sido julgados perante um dos seus simulacros de tribunais; e então poderia ter-se saciado com o sangue de qualquer nome ou clã pelo qual tivesse aversão."

"Isto é, na verdade, deixar o gato sair do saco", pensei eu. E essa foi a impressão geral. Era extraordinário como os jovens advogados se apoderaram da frase e a ridicularizaram, e como raramente passava uma refeição sem que alguém entrasse com as palavras: "E então poderia ter-se saciado." Muitas canções foram feitas na altura para a diversão das horas, e estão quase todas esquecidas. Lembro-me de uma que começava:

"De quem queres o sangue, o sangue? É de um nome, ou é de um clã, Ou é de um puro montanhês, Que queres o sangue, o sangue?"

Outra seguia a melodia da minha velha favorita, The House of Airlie, e começava assim:

"Caiu num dia em que Argyle estava no banco, Que lhe serviram um Stewart para o jantar."

E um dos versos dizia:

"Então levantou-se e falou o Duque, e ralhou com o seu cozinheiro, Considero isso uma censura sensata, Que eu jantaria, e saciaria o meu bucho, Com o sangue de qualquer clã da minha aversão."

James foi assassinado tão justamente como se o Duque tivesse pegado numa espingarda e o tivesse caçado. Tanto, é claro, eu sabia: mas outros não sabiam tanto, e ficaram mais afetados pelos elementos de escândalo que vieram a lume no decurso da causa. Um dos principais foi, certamente, esta saída do juiz. Foi superada por outra de um jurado, que interrompeu o meio do discurso de defesa de Coulston com um "Por favor, senhor, seja breve, estamos muito cansados", o que pareceu o excesso da insolência e da simplicidade. Mas alguns dos meus novos amigos advogados ficaram ainda mais desconcertados com uma inovação que desonrou e até viciou o processo. Uma testemunha nunca foi chamada. O seu nome, de facto, estava impresso, onde ainda pode ser visto na quarta página da lista: "James Drummond, vulgo Macgregor, vulgo James More, antigo rendeiro em Inveronachile"; e a sua declaração prévia tinha sido recolhida, como é costume, por escrito. Ele tinha recordado ou inventado (Deus o ajude) matéria que era chumbo nos sapatos de James Stewart, e que eu vi que provavelmente se tornaria asas para os seus próprios. Este testemunho era altamente desejável que chegasse ao conhecimento do júri, sem expor o próprio homem aos perigos do interrogatório cruzado; e a forma como isso foi feito foi uma surpresa para todos. Pois o papel foi passado de mão em mão (como uma curiosidade) no tribunal; passou pela caixa do júri, onde fez o seu trabalho; e desapareceu novamente (como se por acidente) antes de chegar ao advogado do prisioneiro. Isto foi considerado um estratagema muito insidioso; e que o nome de James More estivesse misturado com isso encheu-me de vergonha por Catriona e preocupação por mim mesmo.

No dia seguinte, Prestongrange e eu, com uma companhia considerável, partimos para Glasgow, onde (para minha impaciência) continuámos a demorar algum tempo numa mistura de prazer e negócios. Alojarei com o meu senhor, com quem fui encorajado à familiaridade; tive o meu lugar nos entretenimentos; fui apresentado aos principais convidados; e, no geral, fui mais valorizado do que pensei que convinha à minha posição ou méritos; de modo que, na presença de estranhos, eu corava frequentemente por Prestongrange. Deve admitir-se que a visão que tive do mundo nestes últimos meses era capaz de lançar uma sombra sobre o meu caráter. Conhecera muitos homens, alguns deles líderes em Israel, seja pelo nascimento ou pelos talentos; e quem entre todos eles tinha mostrado mãos limpas? Quanto aos Browns e Millers, tinha visto a sua busca pelo interesse próprio, e nunca mais pude respeitá-los. Prestongrange era o melhor até agora; ele tinha-me salvo, poupado antes, quando outros tinham em mente assassinar-me prontamente; mas o sangue de James estava à sua porta; e pensei que a sua atual dissimulação comigo era algo imperdoável. Que ele fingisse encontrar prazer no meu discurso quase me fez perder a paciência. Eu sentava-me e observava-o com uma espécie de fogo lento de raiva nas entranhas. "Ah, amigo, amigo", pensava eu, "se apenas terminasses este caso do memorial, não me pontapearias nas ruas?" Aqui fiz-lhe, como os eventos provaram, a mais grave injustiça; e penso que ele era, ao mesmo tempo, muito mais sincero e um ator muito mais astuto do que supunha.

Mas eu tinha alguma justificação para a minha incredulidade no comportamento daquele tribunal de jovens advogados que rondavam na esperança de patrocínio. O súbito favor a um rapaz de quem não se ouvira falar anteriormente preocupou-os de início sem medida; mas dois dias não tinham passado antes de me ver rodeado de lisonja e atenção. Eu era o mesmo jovem, e nem melhor nem mais bonito, que eles tinham rejeitado um mês antes; e agora não havia civilidade demasiado fina para mim! O mesmo, digo eu? Não era; e o apelido pelo qual me tratavam pelas costas confirmava-o. Vendo-me tão firme com o Advogado, e persuadidos de que eu iria voar alto e longe, tinham tomado uma palavra do campo de golfe e chamavam-me a "Bola no Tee". Foi-me dito que eu era agora "um deles"; eu ia provar o seu forro macio, eu que já tinha feito a minha própria experiência da aspereza da casca exterior; e um, a quem eu tinha sido apresentado em Hope Park, foi tão audaz que até me lembrou esse encontro. Disse-lhe que não tinha o prazer de me lembrar dele.

"Como," diz ele, "foi a própria Miss Grant quem me apresentou! O meu nome é tal e tal."

"Pode muito bem ser, senhor," disse eu; "mas não guardei memória disso."

Ao que ele desistiu; e no meio do nojo que comumente transbordava o meu espírito, tive um vislumbre de prazer.

Mas não tenho paciência para me deter longamente sobre esse tempo. Quando estava na companhia desses jovens políticos, sentia-me oprimido pela vergonha por mim e pelos meus próprios modos simples, e desprezo por eles e pela sua duplicidade. Dos dois males, pensei que Prestongrange fosse o menor; e enquanto eu era sempre tão rígido como um engomado para com os jovens cavalheiros, fiz uma espécie de dissimulação dos meus sentimentos duros em relação ao Advogado, e fui (nas palavras do velho Mr. Campbell) "flexível para com o senhor". Ele próprio comentou a diferença e pediu-me para ser mais da minha idade e fazer amizade com os meus jovens camaradas.

Disse-lhe que era lento a fazer amigos.

"Vou retirar a palavra," disse ele. "Mas existe tal coisa como um bom dia, Mr. David. Estes são os mesmos jovens com quem vais passar os teus dias e atravessar a vida: a tua reserva tem um ar de arrogância; e, a menos que possas assumir um pouco mais de leveza de maneiras, temo que encontrarás dificuldades no caminho."

"Será um mau trabalho tentar fazer uma bolsa de seda da orelha de uma porca," disse eu.

Na manhã de 1 de outubro fui acordado pelo barulho de um estafeta; e chegando à janela quase antes de ele ter desmontado, vi que o mensageiro tinha cavalgado arduamente. Pouco tempo depois fui chamado a Prestongrange, onde ele estava sentado na sua bata e barrete, com as cartas à volta.

"Mr. David," acrescentou ele, "tenho uma notícia para si. Diz respeito a alguns amigos seus, de quem por vezes penso que se envergonha um pouco, pois nunca referiu a sua existência."

Suponho que corei.

"Vejo que compreende, pois faz o sinal de resposta," disse ele. "E devo felicitá-lo pelo seu excelente gosto em beleza. Mas sabe, Mr. David? Esta parece-me uma rapariga muito empreendedora. Ela aparece por todo o lado. O Governo da Escócia parece incapaz de prosseguir por causa da Mistress Katrine Drummond, o que foi um pouco o caso (não há muito tempo) com um certo Mr. David Balfour. Não deveriam estes fazer um bom par? A sua primeira intromissão na política — mas não lhe devo contar essa história, as autoridades decidiram que a ouvirá de outra forma e de um narrador mais vivo. Este novo exemplo é, contudo, mais sério; e receio ter de o alarmar com a notícia de que ela está agora na prisão."

Eu exclamei.

"Sim," disse ele, "a pequena dama está na prisão. Mas não quero que desespere. A menos que você (com os seus amigos e memoriais) provoque a minha queda, ela não sofrerá nada."

"Mas o que é que ela fez? Qual é a sua ofensa?" gritei.

"Poderia ser quase interpretado como alta traição," respondeu ele, "pois ela arrombou o Castelo do rei em Edimburgo."

"A senhora é muito minha amiga," disse eu. "Sei que não me ridicularizaria se a coisa fosse séria."

"E, no entanto, é séria num sentido," disse ele; "pois esta trapaceira de Katrine — ou Cateran, como lhe podemos chamar — pôs de novo à solta no mundo aquele caráter muito duvidoso, o seu papá."

Aqui estava uma das minhas previsões justificada: James More estava mais uma vez em liberdade. Ele tinha emprestado os seus homens para me manter prisioneiro; tinha voluntariado o seu testemunho no caso de Appin, e o mesmo (não importa por que subterfúgio) tinha sido empregado para influenciar o júri. Agora vinha a sua recompensa, e ele estava livre. Poderia agradar às autoridades dar a isto a cor de uma fuga; mas eu sabia melhor — sabia que tinha de ser o cumprimento de um pacto. O mesmo curso de pensamento aliviou-me do menor alarme por Catriona. Ela poderia ser considerada como tendo quebrado a prisão pelo seu pai; ela própria poderia ter acreditado nisso. Mas a mão principal em todo o negócio foi a de Prestongrange; e eu tinha a certeza de que, longe de a deixar sofrer punição, ele não permitiria sequer que ela fosse julgada. Ao que saiu de mim a exclamação não muito política:

"Ah! Eu estava à espera disso!"

"Você tem, por vezes, uma grande dose de discrição, também!" diz Prestongrange.

"E o que pretende o meu senhor significar com isso?" perguntei.

"Estava apenas a maravilhar-me," respondeu ele, "que, sendo tão inteligente a ponto de tirar estas inferências, não seja inteligente o suficiente para as guardar para si mesmo. Mas penso que gostaria de ouvir os detalhes do assunto. Recebi duas versões: e a menos oficial é a mais completa e muito mais divertida, vinda da pena viva da minha filha mais velha. 'Aqui está toda a cidade a zumbir com um belo trabalho,' escreve ela, 'e o que tornaria a coisa mais notável (se fosse apenas conhecida) é que a malfeitora é uma protegida de sua senhoria, meu papá. Tenho a certeza de que o seu coração está demasiado empenhado no seu dever (se não fosse por outra coisa) para se ter esquecido dos Olhos Cinzentos. O que faz ela, senão arranjar um chapéu de abas largas com as abas abertas, um sobretudo comprido e peludo de homem, e um grande lenço; arregaçar as saias até Deus sabe onde, calçar dois pares de meias de lã sobre as pernas, pegar num par de sapatos remendados na mão, e partir para o Castelo! Aqui ela faz-se passar por um sapateiro ao serviço de James More, e consegue ser admitida na sua cela, o tenente (que parece ter estado cheio de galhofa) a troçar entre os seus soldados do sobretudo do sapateiro. De repente, ouvem uma discussão e o som de golpes lá dentro. Sai o sapateiro a correr, o seu casaco a voar, as abas do chapéu a baterem-lhe na cara, e o tenente e os soldados troçam dele enquanto ele foge. Não se riram com tanta vontade na vez seguinte que tiveram ocasião de visitar a cela e encontraram ninguém menos que uma rapariga alta, bonita, de olhos cinzentos, com vestes femininas! Quanto ao sapateiro, ele estava "sobre as colinas além de Dumblane," e pensa-se que a pobre Escócia terá de se consolar sem ele. Bebi a saúde de Catriona esta noite em público. De facto, toda a cidade admira-a; e penso que os galãs usariam pedaços das suas ligas nas botoeiras se apenas pudessem obtê-los. Eu teria ido visitá-la na prisão também, mas lembrei-me a tempo de que era filha do papá; por isso escrevi-lhe um bilhete em vez disso, que confiei ao fiel Doig, e espero que admita que posso ser política quando quero. O mesmo palerma fiel deve enviar esta carta pelo estafeta juntamente com as dos sábios, para que possa ouvir o Tom Tolo na companhia de Salomão. Falando em palermas, diga ao Dauvit Balfour. Gostaria de ver a cara dele ao pensar numa rapariga de pernas compridas em tal apuro; para não falar das leviandades da sua filha afetuosa, e sua respeitosa amiga.' Assim assina a minha malandra!" continuou Prestongrange. "E veja, Mr. David, é bem verdade o que lhe digo, que as minhas filhas o consideram com a mais afetuosa brincadeira."

"O palerma está muito agradecido," disse eu.

"E não foi isto feito de forma elegante!" continuou ele. "Não é esta donzela das Terras Altas uma espécie de heroína?"

"Sempre tive a certeza de que ela tinha um grande coração," disse eu. "E aposto que ela não adivinhou nada... Mas peço perdão, isto é pisar em assuntos proibidos."

"Eu apostaria que ela não adivinhou," respondeu ele, bastante abertamente. "Eu apostaria que ela pensava que estava a voar diretamente na cara do Rei George."

A recordação de Catriona e o pensamento de ela estar em cativeiro moveram-me estranhamente. Pude ver que até Prestongrange admirava, e não podia conter os seus lábios de sorrir quando considerava o seu comportamento. Quanto à Miss Grant, apesar do seu mau hábito de troça, a sua admiração brilhava claramente. Uma espécie de calor invadiu-me.

"Eu não sou filha de vossa senhoria..." comecei.

"Que eu saiba!" interrompeu ele, sorrindo.

"Falo como um tolo," disse eu; "ou melhor, comecei mal. Seria sem dúvida imprudente da parte da Mistress Grant ir ter com ela à prisão; mas quanto a mim, penso que pareceria um amigo de coração fraco se não corresse para lá imediatamente."

"So-ho, Mr. David," diz ele; "pensava que você e eu tínhamos um pacto?"

"Meu senhor," disse eu, "quando fiz esse pacto, estava bastante afetado pela sua bondade, mas nunca poderei negar que fui movido além disso pelo meu próprio interesse. Havia busca de interesse próprio no meu coração, e sinto vergonha disso agora. Pode ser pela segurança de vossa senhoria dizer que este incómodo Davie Balfour é seu amigo e companheiro de casa. Diga-o então; nunca o contradirei. Mas quanto ao seu patrocínio, devolvo-o todo. Peço apenas uma coisa — deixe-me ir e dê-me um passe para a ver na sua prisão."

Ele olhou para mim com um olhar duro. "Coloca a carroça à frente dos bois, penso eu," diz ele. "Aquilo que eu tinha dado era uma porção do meu apreço, que a sua natureza ingrata não parece ter notado. Mas quanto ao meu patrocínio, não é dado, nem (para ser exato) foi ainda oferecido." Ele hesitou um pouco. "E aviso-o, você não se conhece a si mesmo," acrescentou. "A juventude é uma estação apressada; pensará melhor sobre tudo isto dentro de um ano."

"Bem, e eu gostaria de ser esse tipo de juventude!" exclamei. "Vi demasiado da outra parte nestes jovens advogados que bajulam a vossa senhoria e que até se dão ao trabalho de me bajular. E vi-o também nos mais velhos. Estão todos por fins ocultos, todo o clã deles! É isto que me faz parecer duvidar do apreço de vossa senhoria. Porque pensaria eu que vossa senhoria gostaria de mim? Mas vós próprio dissestes-me que tinhas interesse!"

Parei nisto, confuso por ter ido tão longe; ele observava-me com um rosto insondável.

"Meu senhor, peço o seu perdão," retomei. "Não tenho nada nas minhas bochechas senão uma língua rude de campo. Penso que seria apenas decente se eu fosse ver a minha amiga no seu cativeiro; mas devo-lhe a minha vida — nunca me esquecerei disso; e se é para o bem de vossa senhoria, aqui ficarei. Isso é apenas gratidão."

"Isto poderia ter sido alcançado em menos palavras," diz Prestongrange severamente. "É fácil, e é por vezes gracioso, dizer um simples 'sim' escocês."

"Ah, mas, meu senhor, penso que ainda não me compreende inteiramente!" exclamei. "Por si, pela minha vida salva, e pela bondade que diz ter por mim — por estas coisas, eu consinto; mas não por qualquer bem que possa vir para mim mesmo. Se eu me afastar quando esta jovem donzela está no seu julgamento, é uma coisa pela qual não serei de modo algum beneficiado; perderei com isso, nunca ganharei. Preferiria naufragar completamente do que construir sobre essa fundação."

Ele esteve um minuto sério, depois sorriu. "Lembras-me o homem com o nariz comprido," disse ele; "se fosses ver a lua por um telescópio, verias David Balfour lá! Mas terás a tua forma de o ver. Pedir-te-ei um serviço, e depois libertar-te-ei: Os meus funcionários estão sobrecarregados; sê tão bom de me copiar estas poucas páginas, e quando isso estiver feito, desejar-te-ei boa sorte! Nunca me encarregaria da consciência do Mr. David; e se pudesses lançar alguma parte dela (enquanto passas) num pântano de musgo, descobririas que montarias muito mais facilmente sem ela."

"Talvez não exatamente na mesma direção, no entanto, meu senhor!" digo eu.

"E tu terás a última palavra, também!" grita ele alegremente.

De facto, ele tinha alguma causa para alegria, tendo agora encontrado os meios para atingir o seu propósito. Para diminuir o peso do memorial, ou para ter uma resposta mais pronta à mão, ele desejava que eu aparecesse publicamente no caráter do seu íntimo. Mas se eu aparecesse com a mesma publicidade como um visitante de Catriona na sua prisão, o mundo dificilmente se conteria de tirar conclusões, e a verdadeira natureza da fuga de James More tornar-se-ia evidente para todos. Este era o pequeno problema que eu lhe tinha colocado de repente, e ao qual ele tinha respondido tão prontamente. Eu ia ser preso em Glasgow por aquele trabalho de cópia, o que, por simples decência exterior, eu não poderia bem recusar; e durante essas horas de trabalho, Catriona foi secretamente libertada. Sinto vergonha de escrever sobre este homem que me carregou com tantas bondades. Ele foi gentil comigo como qualquer pai, contudo eu sempre o achei tão falso como um sino rachado.

O copiar foi uma tarefa fastidiosa, tanto mais quanto percebi muito cedo que não havia qualquer tipo de urgência nos assuntos tratados, e comecei bem cedo a considerar o meu emprego um pretexto. Mal terminei, montei a cavalo, aproveitei o que restava do dia da melhor forma e, sendo finalmente apanhado pela noite, dormi numa casa junto ao Almond-Water. Estava novamente na sela antes do dia amanhecer, e as bancas de Edimburgo estavam apenas a abrir quando entrei a trote pelo West Bow e parei um cavalo a fumegar à porta do meu senhor Advogado. Tinha uma palavra escrita para Doig, o homem de confiança do meu senhor, que se supunha estar a par de todos os seus segredos — um homenzinho digno e simples, todo ele gordura, rapé e presunção. Encontrei-o já na sua secretária e já salpicado de maccabaw, na mesma antecâmara onde me encontrei com James More. Leu o bilhete escrupulosamente de ponta a ponta, como um capítulo da sua Bíblia.

— H’m — diz ele; — vens um pouco atrasado, Sr. Balfour. O pássaro voou — deixámo-la sair.

— A Srta. Drummond está em liberdade? — exclamei.

— Achy! — disse ele. — Para que a havemos de manter, sabes? Fazer um alarido por causa da rapariga não teria agradado a ninguém.

— E onde estará ela agora? — pergunto eu.

— Deus sabe! — diz Doig, com um encolher de ombros.

— Deve ter ido para casa da Lady Allardyce, creio eu — disse eu.

— Deve ser isso — disse ele.

— Então irei direto para lá — digo eu.

— Mas vais comer qualquer coisa antes de ires? — disse ele.

— Nem comer nem beber — disse eu. — Tomei um bom gole de leite em Ratho.

— Aweel, aweel — diz Doig. — Mas podes deixar o teu cavalo aqui e as tuas malas, pois parece que vamos ter a tua estadia.

— Na, na — disse eu. — A égua do Tamson nunca seria a coisa certa para mim neste dia, de todos os dias.

Como Doig falava de forma algo aberta, fui levado por imitação a um sotaque muito mais campestre do que normalmente tinha o cuidado de afetar — muito mais aberto, na verdade, do que o escrevi aqui; e senti-me ainda mais envergonhado quando outra voz se juntou atrás de mim com um fragmento de uma balada:

— “Ide selar-me o belo negro, Ide selar cedo e fazei-o pronto Pois descerei o Gatehope-slack, E tudo para ver a minha bela dama.”

A jovem senhora, quando me virei para ela, estava com um vestido de manhã, e as mãos escondidas no mesmo, como se quisesse manter-me à distância. Contudo, não pude deixar de pensar que havia bondade no olhar com que me via.

— Os meus melhores respeitos, Mistress Grant — disse eu, fazendo uma vénia.

— O mesmo para si, Sr. David — respondeu ela com uma profunda cortesia. — E peço-lhe que se lembre de um velho e bolorento provérbio, que comida e missa nunca impediram ninguém. A missa não lhe posso oferecer, pois somos todos bons protestantes. Mas a comida, essa insisto. E não me admiraria se pudesse encontrar algo para o seu ouvido privado que valesse a pena a paragem.

— Mistress Grant — disse eu —, creio que já lhe sou devedor por algumas palavras alegres — e penso que também foram gentis — num pedaço de papel sem assinatura.

— Papel sem assinatura? — diz ela, e fez uma careta divertida, que era também maravilhosamente bela, como alguém que tenta lembrar-se.

— Ou então estou muito enganado — continuei. — Mas, com certeza, teremos tempo para falar sobre isso, uma vez que o seu pai é tão bondoso ao fazer-me, por algum tempo, o seu hóspede; e o tonto pede-lhe, neste momento, apenas o favor da sua liberdade.

— Atribui a si mesmo nomes duros — disse ela.

— O Sr. Doig e eu ficaríamos contentes por aceitar nomes mais duros da sua pena inteligente — digo eu.

— Mais uma vez tenho de admirar a discrição de todos os homens — respondeu ela. — Mas se não quer comer, vá-se embora imediatamente; voltará mais cedo, pois vai numa missão de tolo. Vá-se embora, Sr. David — continuou ela, abrindo a porta.

— “Ele saltou para o seu belo cinzento, Cavalgou pelo caminho certo e pronto Creio que não parou nem hesitou, Pois procurava a sua bela dama.”

Não esperei para ser mandado duas vezes e fiz justiça à citação da Srta. Grant no caminho para Dean.

A velha Lady Allardyce caminhava ali sozinha no jardim, com o seu chapéu e touca, e apoiando-se num cajado de madeira preta com montagem de prata. Ao desmontar do meu cavalo e aproximar-me dela com saudações, pude ver o sangue subir-lhe ao rosto e a sua cabeça erguer-se no ar como o que eu imaginava serem as imperatrizes.

— O que o traz à minha humilde porta? — gritou ela, falando alto e anasalada. — Não a posso trancar. Os varões da minha casa estão mortos e enterrados; não tenho nem filho nem marido para defender o portão por mim; qualquer mendigo pode puxar-me pela barba — e uma barba existe, e isso é o pior de tudo! — acrescentou, em parte para si mesma.

Fiquei extremamente perturbado com esta receção, e a última observação, que parecia a de uma mulher louca, deixou-me quase sem fala.

— Vejo que caí no seu desagrado, senhora — disse eu. — No entanto, serei ainda tão ousado ao ponto de perguntar pela Mistress Drummond.

Ela examinou-me com um olhar ardente, os lábios apertados em vinte rugas, a mão a tremer no seu cajado. — Isto supera tudo! — gritou ela. — Vens a mim perguntar por ela? Aprouvesse a Deus que eu soubesse!

— Ela não está aqui? — gritei.

Ela levantou o queixo, deu um passo e soltou um grito para mim, de tal modo que recuei incontinenti.

— Fora com a tua garganta mentirosa! — gritou ela. — O quê! Vens perguntar-me a mim! Ela está na cadeia, onde a levaste — é tudo o que há a dizer. E de todos os seres que alguma vez vi de calças, pensar que tinha de ser tu! Seu tratante de madeira, se me restasse um varão na minha linhagem, faria com que te dessem uma carga de pancada até que gritasses.

Pensei que não era bom demorar-me mais naquele lugar, porque notei que a sua fúria estava a aumentar. Quando me virei para o poste dos cavalos, ela até me seguiu; e não tenho vergonha de confessar que me fui embora com um estribo calçado e a lutar pelo outro.

Como não conhecia mais nenhum lugar onde pudesse levar as minhas investigações, não me restava senão regressar a casa do Advogado. Fui bem recebido pelas quatro senhoras, que estavam agora juntas em companhia, e tive de dar as notícias de Prestongrange e o que se dizia no oeste, com o maior comprimento possível e com grande fadiga para mim próprio; enquanto, durante todo o tempo, aquela jovem senhora, com quem tanto desejava estar novamente a sós, observava-me de forma irónica e parecia encontrar prazer em ver a minha impaciência. Por fim, depois de ter suportado uma refeição com elas e ter chegado quase ao ponto de pedir uma entrevista longe da sua tia, ela foi colocar-se junto da estante de música e, escolhendo uma melodia, cantou com um tom agudo: — “Aquele que não quer quando pode, quando quiser terá o não.” Mas este foi o fim das suas rigores e, pouco depois, dando uma desculpa qualquer da qual não me recordo, levou-me em privado para a biblioteca do seu pai. Não devo deixar de dizer que ela estava vestida a rigor e parecia extraordinariamente bonita.

— Agora, Sr. David, sente-se aqui e vamos ter uma conversa franca — disse ela. — Pois tenho muito para lhe contar e parece, além disso, que fui grosseiramente injusta para com o seu bom gosto.

— De que maneira, Mistress Grant? — perguntei. — Confio que nunca pareci faltar ao devido respeito.

— Serei a sua fiadora, Sr. David — disse ela. — O seu respeito, quer para consigo mesmo quer para com os seus pobres vizinhos, tem sido sempre e muito afortunadamente inimitável. Mas isso não vem ao caso. Recebeu um bilhete meu? — perguntou ela.

— Fui tão ousado ao ponto de o supor por inferência — disse eu —, e foi uma consideração bondosa.

— Deve tê-lo surpreendido prodigiosamente — disse ela. — Mas comecemos pelo início. Talvez não se tenha esquecido de um dia em que foi tão gentil ao ponto de escoltar três senhoritas muito aborrecidas até Hope Park? Tenho menos motivos para me esquecer disso, porque foi tão particularmente prestável ao ponto de me introduzir a alguns dos princípios da gramática latina, uma coisa que se gravou profundamente na minha gratidão.

— Receio ter sido tristemente pedante — disse eu, tomado de confusão com a memória. — Apenas tem de considerar que estou bastante desacostumado com a sociedade de senhoras.

— Direi então menos sobre a gramática — respondeu ela. — Mas como veio a desertar do seu encargo? “Ele atirou-a para fora, borda fora, a sua querida Annie!” — ela cantarolou; — e a sua querida Annie e as suas duas irmãs tiveram de se arrastar para casa sozinhas como um bando de gansos verdes! Parece que regressou a casa do meu papá, onde se mostrou excessivamente marcial, e depois para reinos desconhecidos, com um olho (ao que parece) no Bass Rock; sendo os gansos-patolas talvez mais do seu agrado do que as belas raparigas.

Através de toda esta ironia, havia algo de indulgente no olhar da senhora que me fez supor que poderiam vir coisas melhores.

— Tira prazer em atormentar-me — disse eu —, e eu sou um joguete muito insignificante; mas deixe-me pedir-lhe que seja mais misericordiosa. Neste momento, há apenas uma coisa que me importa ouvir, e serão notícias de Catriona.

— Chama-a por esse nome na presença dela, Sr. Balfour? — perguntou ela.

— Na verdade, não tenho muita certeza — gaguejei.

— Eu não o faria em caso algum perante estranhos — disse a Srta. Grant. — E porque está tão imerso nos assuntos desta jovem senhora?

— Ouvi dizer que ela estava na prisão — disse eu.

— Bem, e agora ouve que ela está fora dela — respondeu ela —, e o que mais quereria? Ela não precisa de mais nenhum defensor.

— Eu posso ter uma necessidade maior dela, senhora — disse eu.

— Vamos, isto é melhor! — diz a Srta. Grant. — Mas olhe-me bem de frente; não sou eu mais bela do que ela?

— Seria o último a negá-lo — disse eu. — Não há par para si em toda a Escócia.

— Bem, aqui tem a escolha entre as duas à sua mão, e tem de falar da outra — disse ela. — Este nunca é o caminho para agradar às senhoras, Sr. Balfour.

— Mas, senhora — disse eu —, há certamente outras coisas para além da mera beleza.

— Com o que devo entender que não sou melhor do que deveria ser, talvez? — perguntou ela.

— Com o que se dignará entender que sou como o galo no estrume do livro de fábulas — disse eu. — Vejo a bela joia — e gosto muito de a ver também — mas tenho mais necessidade do grão de milho.

— Bravissimo! — gritou ela. — Eis uma palavra bem dita finalmente, e recompensá-lo-ei por isso com a minha história. Nessa mesma noite da sua deserção, cheguei tarde de casa de uma amiga — onde fui excessivamente admirada, pensei o que pensasse —, e o que ouço senão que uma rapariga num xaile de tartan desejava falar comigo? Estava lá há uma hora ou mais, disse a criada, e ela chorava enquanto esperava. Fui ter com ela diretamente; ela levantou-se quando entrei, e reconheci-a num olhar. “Olhos Cinzentos!”, digo para comigo, mas fui mais sábia do que deixar transparecer. “Será a Srta. Grant, afinal?”, diz ela, levantando-se e olhando para mim de forma dura e piedosa. “Sim, era verdade o que ele dizia, tu és bonita em todo o caso.” — “A maneira como Deus me fez, minha querida, eu disse, mas ficaria muito grata se me pudesses dizer o que te trouxe aqui a tal hora da noite.” — “Senhora, disse ela, somos parentes, descendemos ambas do sangue dos filhos de Alpin.” — “Minha querida, respondi eu, não penso mais em Alpin ou nos seus filhos do que num pé de couve. Tens um argumento melhor nessas lágrimas no teu belo rosto.” E nesse momento fui tão fraca que a beijei, que é o que você gostaria imensamente de fazer, e aposto que nunca encontrará coragem para tal. Digo que fui fraca, pois não sabia mais dela do que o exterior; mas foi o golpe mais sábio que poderia ter desferido. Ela tem uma natureza muito firme e corajosa, mas penso que tem sido pouco tratada com ternura; e com essa carícia (embora, para dizer a verdade, tenha sido dada de forma leve) o seu coração entregou-se-me. Nunca trairei os segredos do meu sexo, Sr. Davie; nunca lhe direi a maneira como ela me envolveu à volta do dedo, porque é a mesma que usará para o envolver a si. Sim, é uma bela rapariga! Ela é limpa como a água da nascente da colina.

— Ela é mesmo! — exclamei.

— Bem, então ela contou-me as suas preocupações — continuou a Srta. Grant —, e em que hesitação estava acerca do seu papá, e que aflição acerca de si próprio, com muito pouca causa, e em que perplexidade se tinha encontrado depois de você ter ido embora. “E depois lembrei-me finalmente, diz ela, que éramos parentes, e que o Sr. David lhe deveria ter dado o nome da mais bela das belas, e eu pensava para comigo: ‘Se ela é tão bonita, será boa em todo o caso’; e tirei os pés de lá.” Foi nessa altura que o perdoei, Sr. Davie. Quando estava na minha companhia, parecia estar sobre brasas: por todos os sinais, se alguma vez vi um jovem que quisesse ir-se embora, era você, e eu e as minhas duas irmãs éramos as senhoras de quem você estava tão desejoso de se ir embora; e agora parecia que me tinha dado alguma atenção na passagem, e foi tão gentil ao ponto de comentar os meus atrativos! A partir dessa hora pode datar a nossa amizade, e comecei a pensar com ternura na gramática latina.

— Terá muitas horas para troçar de mim — disse eu; — e penso, além disso, que se faz injustiça a si própria. Penso que foi Catriona quem virou o seu coração na minha direção. Ela é demasiado simples para perceber, como você, a rigidez do seu amigo.

— Não gostaria de apostar nisso, Sr. David — disse ela. — As raparigas têm olhos claros. Mas, pelo menos, ela é inteiramente sua amiga, como eu estava para ver. Levei-a ao seu senhorio, meu papá; e a sua Advocacia, estando numa fase favorável de clarete, foi tão bondosa ao ponto de nos receber às duas. “Aqui está a Olhos Cinzentos que o tem ensurdecido estes dias passados”, disse eu, “ela veio provar que falámos a verdade, e coloco a rapariga mais bonita nos três Lothians aos seus pés” — fazendo uma reserva papista de mim mesma. Ela adaptou a sua ação às minhas palavras: caiu de joelhos perante ele — não gostaria de jurar que ele não viu duas dela, o que sem dúvida tornou o seu apelo mais irresistível, pois vocês são todos um bando de maometanos — contou-lhe o que tinha passado naquela noite, e como tinha impedido o homem do seu pai de o seguir, e em que situação estava acerca do seu pai, e em que agitação por si próprio; e implorou a chorar pelas vidas de ambos (nenhuma das quais estava em perigo), até que juro que fiquei orgulhosa do meu sexo porque foi feito tão graciosamente, e envergonhada por causa da pequenez da ocasião. Ela não tinha ido longe, asseguro-lhe, antes que o Advogado estivesse totalmente sóbrio, ao ver a sua política íntima desfeita por uma jovem rapariga e descoberta à mais indisciplinada das suas filhas. Mas nós tratámos dele, as duas, e resolvemos esse assunto. Devidamente gerido — e isso significa gerido por mim — não há ninguém que se compare ao meu papá.

— Ele tem sido um bom homem para mim — disse eu.

— Bem, ele foi um bom homem para Katrine, e eu estava lá para garantir — disse ela.

— E ela implorou por mim? — digo eu.

— Fê-lo, e de forma muito comovente — disse a Srta. Grant. — Não gostaria de lhe dizer o que ela disse — já o acho suficientemente vaidoso.

— Que Deus a recompense por isso! — gritei.

— Com o Sr. David Balfour, suponho? — diz ela.

— Faz-me demasiada injustiça no final! — gritei. — Tremeria só de pensar nela em mãos tão duras. Acha que me atreveria, porque ela implorou pela minha vida? Ela faria isso por um cachorrinho recém-nascido! Tive mais do que isso para me erguer, se você ao menos soubesse. Ela beijou esta minha mão. Sim, mas beijou. E porquê? Porque pensou que eu estava a desempenhar um papel corajoso e poderia estar a caminhar para a minha morte. Não foi por mim — mas não preciso de lhe contar isso a si, que não consegue olhar para mim sem rir. Foi pelo amor do que ela pensava ser bravura. Creio que não há ninguém, exceto eu e o pobre Príncipe Charlie, que teve essa honra. Não era isto fazer de mim um deus? e não pensa que o meu coração tremeria quando me lembro disso?

— Eu rio-me de si um bom bocado, e muito mais do que é inteiramente civil — disse ela; — mas dir-lhe-ei uma coisa: se lhe falar assim, tem algumas ténues possibilidades.

— Eu? — gritei. — Nunca me atreveria. Posso falar consigo, Mistress Grant, porque é uma questão de indiferença o que pensa de mim. Mas ela? Nem pensar! — disse eu.

— Acho que tem os pés maiores de toda a grande Escócia — diz ela.

— Na verdade, não são muito pequenos — disse eu, olhando para baixo.

— Ah, pobre Catriona! — grita a Mistress Grant.

E eu só podia olhar para ela; pois embora veja agora muito bem ao que ela queria chegar (e talvez alguma justificação para o mesmo), nunca fui rápido a perceber nessas conversas fúteis.

— Ah bem, Sr. David — disse ela —, vai muito contra a minha consciência, mas vejo que terei de ser o seu porta-voz. Ela saberá que você veio ter com ela logo após a notícia da sua prisão; ela saberá que não quis parar para comer; e da nossa conversa ela saberá apenas aquilo que eu considerar conveniente para uma donzela da sua idade e inexperiência. Acredite em mim, será dessa forma muito melhor servido do que se servisse a si próprio, pois manterei os pés grandes longe do prato.

— Sabe onde ela está, então? — exclamei.

— Isso sei, Sr. David, e nunca direi — disse ela.

— Porquê isso? — perguntei.

— Bem — disse ela —, sou uma boa amiga, como em breve descobrirá; e a principal daquelas de quem sou amiga é o meu papá. Asseguro-lhe que nunca me aquecerá nem me derreterá disso, por isso pode poupar-me os seus olhares de carneiro mal morto; e adeus à sua David-Balfouridade por agora.

— Mas ainda há uma coisa mais — gritei. — Há uma coisa que tem de ser travada, sendo pura ruína para ela, e para mim também.

— Bem — disse ela —, seja breve; já gastei metade do dia consigo.

— A minha Lady Allardyce acredita — comecei —, ela supõe, ela pensa que eu a ratei.

A cor subiu ao rosto da Srta. Grant, de tal modo que, a princípio, fiquei bastante envergonhado por encontrar o seu ouvido tão delicado, até que me ocorreu que ela lutava antes com o riso, uma noção na qual fui totalmente confirmado pelo tremor da sua voz enquanto respondia:

— Assumirei a defesa da sua reputação — disse ela. — Pode deixá-la nas minhas mãos.

E com isso ela retirou-se da biblioteca.

Durante cerca de dois meses permaneci como hóspede na família de Prestongrange, onde aprimorei o meu conhecimento sobre a magistratura, a advocacia e a flor da sociedade de Edimburgo. Não devem supor que a minha educação foi negligenciada; pelo contrário, mantive-me extremamente ocupado. Estudei francês, de modo a estar mais preparado para ir a Leyden; dediquei-me à esgrima e trabalhei arduamente, por vezes três horas por dia, com notável progresso; por sugestão da minha prima, Pilrig, que era uma musicista apta, fui colocado numa aula de canto; e, por ordens da minha Srta. Grant, numa de dança, na qual devo dizer que me mostrei longe de ser ornamental. Contudo, todos tiveram a bondade de dizer que isso me conferiu um porte um pouco mais distinto; e não há dúvida de que aprendi a manejar as abas do meu casaco e a espada com mais destreza, e a estar de pé numa sala como se ela me pertencesse. As minhas roupas foram todas seriamente reajustadas; e a circunstância mais trivial, tal como onde deveria prender o cabelo ou a cor da minha fita, era debatida entre as três senhoritas como algo de peso. De uma maneira ou de outra, sem dúvida melhorei bastante na aparência e adquiri um ar de modéstia que teria surpreendido as boas gentes de Essendean.

As duas senhoritas mais novas estavam muito dispostas a discutir qualquer ponto do meu vestuário, porque isso estava na linha dos seus principais pensamentos. Não posso dizer que parecessem de qualquer outra forma conscientes da minha presença; e, embora sempre mais do que educadas, com uma espécie de cordialidade fria, não podiam esconder o quanto eu as aborrecia. Quanto à tia, era uma mulher maravilhosamente calma; e creio que me dedicava mais ou menos a mesma atenção que dispensava ao resto da família, o que era bem pouca. A filha mais velha e o próprio Advogado eram, assim, os meus principais amigos, e a nossa familiaridade aumentou muito devido a um prazer que partilhávamos. Antes de o tribunal se reunir, passámos um ou dois dias na casa de Grange, vivendo de forma muito nobre com uma mesa aberta, e foi aqui que nós os três começámos a cavalgar juntos pelos campos, um hábito depois mantido em Edimburgo, tanto quanto os contínuos negócios do Advogado permitiam. Quando estávamos bem dispostos pelo vigor do exercício, pelas dificuldades do caminho ou pelos acidentes de mau tempo, a minha timidez desaparecia por completo; esquecíamos que éramos estranhos e, não sendo necessário falar, as palavras fluíam mais naturalmente. Foi então que eles obtiveram de mim a minha história, pouco a pouco, desde o momento em que deixei Essendean, com a minha viagem e batalha no Covenant, as andanças pela charneca, etc.; e do interesse que encontraram nas minhas aventuras surgiu a circunstância de um passeio que fizemos um pouco mais tarde, num dia em que os tribunais não estavam reunidos, e sobre o qual falarei com um pouco mais de detalhe.

Montámos a cavalo cedo e passámos primeiro pela casa de Shaws, onde ela permanecia sem fumo num grande campo de geada branca, pois ainda era cedo no dia. Aqui, Prestongrange desmontou, deu-me o seu cavalo e seguiu sozinho para visitar o meu tio. Lembro-me de que o meu coração inchou de amargura ao ver aquela casa despojada e ao pensar no velho avarento sentado a tremer dentro da cozinha fria!

— Ali está o meu lar — disse eu; — e a minha família.

— Pobre David Balfour! — disse a Srta. Grant.

O que se passou durante a visita, nunca soube; mas seria, sem dúvida, pouco agradável para Ebenezer, pois quando o Advogado saiu novamente, o seu rosto estava sombrio.

— Creio que em breve será o senhor de fato, Sr. Davie — diz ele, voltando-se ligeiramente com um pé no estribo.

— Nunca fingirei tristeza — disse eu; e, para dizer a verdade, durante a sua ausência a Srta. Grant e eu tínhamos estado a embelezar o lugar na imaginação com plantações, canteiros e um terraço — tal como, desde então, realizei na prática.

Dali seguimos para Queensferry, onde Rankeillor nos deu uma boa receção, estando, na verdade, fora de si de contentamento por receber tão grande visitante. Aqui, o Advogado teve a bondade despretensiosa de analisar minuciosamente os meus assuntos, sentando-se talvez duas horas com o Escrivão no seu escritório e expressando (foi o que me disseram) uma grande estima por mim e preocupação com a minha sorte. Para passar este tempo, a Srta. Grant, eu e o jovem Rankeillor tomámos um barco e atravessámos o Hope até Limekilns. Rankeillor tornou-se muito ridículo (e, pensei, ofensivo) com a sua admiração pela jovem, e para meu espanto (só que é uma fraqueza tão comum do sexo dela) ela parecia, se é que alguma coisa, estar um pouco gratificada. Uma utilidade teve: pois, quando chegámos ao outro lado, ela ordenou-lhe que tomasse conta do barco, enquanto ela e eu seguíamos um pouco mais longe até à taberna. Isto foi ideia dela, pois tinha ficado cativada com o meu relato sobre Alison Hastie e desejava ver a rapariga pessoalmente. Encontrámo-la uma vez mais sozinha — na verdade, creio que o pai trabalhava o dia todo nos campos — e ela fez uma vénia respeitosa à gente nobre e à bela jovem de casaco de montar.

— É esta toda a receção que vou receber? — disse eu, estendendo a mão. — E não tens mais memória dos velhos amigos?

— Vale-me Deus! Quem é este? — exclamou ela, e depois: — Pela verdade de Deus, é o rapaz do avental!

— O próprio — digo eu.

— Muitas vezes pensei em ti e no teu amigo, e estou feliz por ver-te com os teus trajes finos — exclamou ela. — Embora eu soubesse que tinhas ido para junto dos teus pela grande prenda que me enviaste e pela qual te agradeço de todo o coração.

— Pronto — disse a Srta. Grant para mim —, vai lá para fora, como um bom rapaz. Não vim aqui para ficar parada a servir de candeeiro; somos ela e eu que temos de conversar.

Suponho que ela tenha ficado dez minutos na casa, mas quando saiu observei duas coisas — que os seus olhos estavam avermelhados e que um broche de prata tinha desaparecido do seu peito. Isto afetou-me muito.

— Nunca a vi tão bem adornada — disse eu.

— Oh, Davie, homem, não sejas um parvo pomposo! — disse ela, e mostrou-se mais cortante do que o habitual comigo durante o resto do dia.

Perto da hora de acender as luzes, voltámos desta excursão.

Durante um bom tempo, não ouvi mais nada sobre Catriona — a minha Srta. Grant permanecia totalmente impenetrável, tapando-me a boca com gracejos. Finalmente, num dia em que ela regressou de um passeio e me encontrou sozinho na sala a estudar francês, achei que havia algo de invulgar no seu semblante; a cor acentuada, os olhos a brilhar intensamente e um sorriso contido que ela mordiscava enquanto me olhava. Parecia, na verdade, o próprio espírito da malícia e, caminhando vivamente pela sala, cedo me envolveu numa espécie de discussão por nada e (pelo menos) sem que houvesse qualquer intenção da minha parte. Eu era como Cristão no pântano — quanto mais tentava sair para o lado, mais fundo me via envolvido; até que, por fim, ouvi-a declarar, com muita paixão, que não aceitaria aquela resposta de ninguém e que eu deveria pôr-me de joelhos para pedir perdão.

A falta de motivo para toda aquela agitação revoltou-me. — Não disse nada a que se possa objetar propriamente — disse eu —, e quanto aos meus joelhos, essa é uma atitude que reservo para Deus.

— E como uma deusa devo ser servida! — exclamou ela, sacudindo os seus caracóis castanhos para mim e com uma cor brilhante. — Todo o homem que chegar ao alcance das minhas saias tratar-me-á assim!

— Irei tão longe a ponto de pedir o seu perdão por uma questão de conveniência, embora jure que não sei porquê — respondi. — Mas para estas posturas de teatro, pode ir ter com outros.

— Oh, Davie! — disse ela. — Nem que eu lhe pedisse?

Pensei que estava a discutir com uma mulher, o que é o mesmo que dizer uma criança, e isso sobre um ponto puramente formal.

— Acho uma coisa infantil — disse eu —, não digna de você pedir, nem de mim conceder. No entanto, também não a recusarei — disse eu; — e a mancha, se alguma existir, fica consigo. E, dito isto, ajoelhei-me solenemente.

— Pronto! — exclamou ela. — Aí está a posição adequada, é aí que eu manobrava para o trazer. — E então, subitamente: — Apanha — disse ela, atirou-me um bilhete dobrado e correu para fora da sala, a rir.

O bilhete não tinha lugar nem data. "Caro Sr. David", começava ele, "recebo notícias suas continuamente pela minha prima, a Srta. Grant, e é um ouvir agradável. Estou muito bem, num bom lugar, entre boa gente, mas forçada a ser bastante reservada, embora tenha esperança de que, finalmente, possamos encontrar-nos outra vez. Todas as suas amizades foram-me contadas pela minha querida prima, que nos ama a ambos. Ela ordena-me que lhe envie este escrito e supervisiona o mesmo. Pedirei que cumpra todas as suas ordens e despeço-me, sua afetuosa amiga, Catriona Macgregor-Drummond. P.S. — Não irá ver o meu primo, Allardyce?"

Não considero a menos brava das minhas campanhas (como dizem os soldados) o facto de ter feito como aqui me era ordenado e ido diretamente à casa junto a Dean. Mas a velha senhora estava agora completamente mudada e maleável como uma luva. Por que meios a Srta. Grant tinha conseguido isto, nunca pude adivinhar; tenho a certeza, pelo menos, de que ela não se atrevia a aparecer abertamente no assunto, pois o seu pai estava profundamente comprometido nele. Foi ele, na verdade, quem persuadiu Catriona a partir, ou melhor, a não regressar para casa do seu primo, colocando-a em vez disso com uma família de Gregorys — gente decente, totalmente à disposição do Advogado, e em quem ela poderia ter mais confiança por serem do seu próprio clã e família. Estes mantiveram-na em segredo até que tudo estivesse pronto, aqueceram-na e ajudaram-na a tentar o resgate do pai e, depois de ser libertada da prisão, receberam-na novamente na mesma discrição. Assim, Prestongrange obteve e usou o seu instrumento; nem escapou a menor palavra do seu conhecimento com a filha de James More. Houve algum murmúrio, é claro, sobre a fuga daquela pessoa desacreditada; mas o Governo respondeu com uma demonstração de rigor, um dos guardas da cela foi açoitado, o tenente da guarda (o meu pobre amigo Duncansby) foi rebaixado da sua patente e, quanto a Catriona, todos estavam bem satisfeitos que a sua falta fosse ignorada em silêncio.

Nunca consegui convencer a Srta. Grant a levar uma resposta de volta. — Não — dizia ela, quando eu insistia —, não vou meter os pés grandes no prato. Isto era mais difícil de suportar, pois eu sabia que ela via a minha pequena amiga muitas vezes por semana e levava-lhe as minhas notícias sempre que (como ela dizia) eu "me tinha comportado". Finalmente, ela brindou-me com o que chamou de indulgência, e que eu achei mais uma provocação. Ela era, certamente, uma amiga forte, quase violenta, de todos os que gostava, entre os quais se destacava uma velha senhora frágil, muito cega e muito espirituosa, que morava no topo de um prédio alto num beco estreito, com um ninho de pintarroxos numa gaiola, e rodeada todo o dia por visitantes. A Srta. Grant gostava muito de me levar lá e de me pôr a entreter a sua amiga com a narrativa dos meus infortúnios: e a Srta. Tibbie Ramsay (esse era o seu nome) era particularmente gentil e contou-me muitas coisas que valiam a pena saber sobre os velhos tempos e os assuntos passados na Escócia. Devo dizer que da janela do seu quarto, e a menos de um metro de distância, tal é a estreiteza daquele beco, era possível olhar para uma abertura gradeada que iluminava a escadaria da casa oposta.

Aqui, sob algum pretexto, a Srta. Grant deixou-me um dia sozinho com a Srta. Ramsay. Lembro-me de pensar que aquela senhora estava desatenta e como que preocupada. Eu estava, além disso, muito desconfortável, pois a janela, ao contrário do costume, tinha ficado aberta e o dia estava frio. De repente, a voz da Srta. Grant soou nos meus ouvidos como se viesse de longe.

— Aqui, Shaws! — gritou ela. — Espreita pela janela e vê o que te trouxe.

Acho que foi a visão mais bonita que alguma vez contemplei. O fundo do beco estava todo em sombra clara onde um homem podia ver distintamente, as paredes muito pretas e sujas; e lá, na abertura gradeada, vi dois rostos a sorrir para mim — o da Srta. Grant e o de Catriona.

— Pronto! — diz a Srta. Grant. — Eu queria que ela te visse com os teus trajes finos, como a rapariga de Limekilns. Queria que ela visse o que eu podia fazer de ti, quando me dedicava ao trabalho a sério!

Veio-me à ideia que ela tinha estado mais do que habitualmente exigente naquele dia com o meu vestuário; e penso que parte do mesmo cuidado tinha sido dispensado a Catriona. Para uma senhora tão alegre e sensata, a Srta. Grant estava certamente maravilhosamente ocupada com trapos.

— Catriona! — foi tudo o que consegui articular.

Quanto a ela, não disse absolutamente nada, apenas acenou com a mão e sorriu-me, sendo subitamente levada de novo para longe da abertura.

Essa visão não se perdeu sem que eu corresse para a porta da casa, onde descobri que estava trancado; voltei então para a Srta. Ramsay, a pedir a chave, mas podia tão bem ter pedido à rocha do castelo. Ela tinha dado a sua palavra, disse ela, e eu devia ser um bom rapaz. Era impossível arrombar a porta, mesmo que fosse correto; era impossível saltar pela janela, estando sete andares acima do solo. Tudo o que podia fazer era esticar-me pelo beco e vigiar o seu reaparecimento pela escada. Era pouco para ver, não sendo mais do que o topo das suas duas cabeças, cada uma sobre um ridículo rolo de saias, como um par de almofadas de alfinetes. Nem Catriona olhou para cima para se despedir; sendo impedida (como ouvi mais tarde) pela Srta. Grant, que lhe disse que as pessoas nunca eram vistas de forma menos vantajosa do que de cima para baixo.

No caminho para casa, assim que fui libertado, censurei a Srta. Grant pela sua crueldade.

— Lamento que tenhas ficado desapontado — diz ela, recatadamente. — Pela minha parte, fiquei muito contente. Parecias melhor do que eu temia; parecias — se isso não te fizer ficar vaidoso — um jovem muito bonito quando apareceste na janela. Tens de te lembrar que ela não podia ver os teus pés — diz ela, com a maneira de quem me tranquiliza.

— Oh! — exclamei eu. — Deixe os meus pés em paz — não são maiores que os dos meus vizinhos.

— São até menores que os de alguns — disse ela —, mas falo por parábolas como um profeta hebreu.

— Maravilha-me pouco que por vezes fossem apedrejados! — digo eu. — Mas, rapariga miserável, como pudeste fazer isso? Por que te haverias de importar em atormentar-me por um momento?

— O amor é como as pessoas — diz ela; — precisa de alguma espécie de sustento.

— Oh, Barbara, deixa-me vê-la devidamente! — implorei. — Tu podes — vês-la quando queres; deixa-me ter meia hora.

— Quem é que está a gerir este caso de amor? Tu! Ou eu? — perguntou ela e, como eu continuava a pressioná-la com as minhas instâncias, recorreu a um expediente mortal: o de imitar o tom da minha voz quando chamava por Catriona pelo nome; com o qual, na verdade, me manteve sob submissão durante alguns dias seguintes.

Nunca se ouviu a menor palavra sobre o memorial, ou pelo menos nada chegou aos meus ouvidos. Prestongrange e a sua graça, o Lorde Presidente, podem ter ouvido falar dele (pelo que sei) nos lados mais surdos das suas cabeças; mantiveram-no para si, pelo menos — o público não soube de nada; e, com o passar do tempo, a 8 de novembro, e no meio de uma tempestade prodigiosa de vento e chuva, o pobre James of the Glens foi devidamente enforcado em Lettermore, junto a Ballachulish.

Eis, pois, o desfecho final da minha política! Homens inocentes pereceram antes de James, e é provável que continuem a perecer (apesar de toda a nossa sabedoria) até ao fim dos tempos. E até ao fim dos tempos, os jovens (que ainda não estão habituados à duplicidade da vida e dos homens) lutarão como eu lutei, farão resoluções heroicas e correrão grandes riscos; e o curso dos acontecimentos empurrá-los-á para um lado e seguirá como um exército em marcha. James foi enforcado; e aqui estava eu, a viver na casa de Prestongrange e grato a ele pela sua atenção paternal. Ele foi enforcado; e eis! Quando encontrei o Sr. Simon na rua, senti vontade de tirar o meu chapéu para ele como um bom rapazinho diante do seu mestre-escola. Tinha sido enforcado por fraude e violência, e o mundo continuava o seu curso, e não havia um centavo de diferença; e os vilões daquela horrível conspiração eram pais de família decentes, gentis e respeitáveis, que iam à igreja e tomavam o sacramento!

Mas eu tinha tido a minha visão daquele negócio detestável a que chamam política — tinha-o visto por trás, quando não é mais do que ossos e escuridão; e fiquei curado para toda a vida de quaisquer tentações para participar nele novamente. Um caminho simples, tranquilo e privado era aquele por onde eu ambicionava andar, onde pudesse manter a minha cabeça longe de perigos e a minha consciência fora do caminho da tentação. Pois, numa retrospetiva, parecia que não tinha feito nada de tão grandioso, afinal; mas, com a maior quantidade possível de discursos pomposos e preparação, não tinha realizado nada.

No dia 25 do mesmo mês, foi anunciado que um navio partiria de Leith; e fui subitamente aconselhado a preparar as minhas malas para Leyden. A Prestongrange, é claro, nada podia dizer; pois já tinha estado muito tempo a viver à custa da sua casa e da sua mesa. Mas com a sua filha fui mais aberto, lamentando o meu destino por ser enviado para fora do país e garantindo-lhe que, a menos que ela me levasse a despedir-me de Catriona, eu recusar-me-ia à última hora.

— Não te dei eu o meu conselho? — perguntou ela.

— Sei que deu — disse eu —, e sei o quanto lhe estou grato, e que devo obedecer às suas ordens. Mas tem de confessar que é, por vezes, uma rapariga demasiado alegre para se confiar inteiramente.

— Vou dizer-te, então — disse ela. — Esteja a bordo às nove horas da manhã; o navio não parte antes da uma; mantenha o seu barco ao lado; e se não ficar satisfeito com as minhas despedidas quando eu as enviar, pode voltar a terra e procurar Katrine por si mesmo.

Como não podia tirar mais nada dela, contentei-me com isso.

Chegou finalmente o dia em que ela e eu nos separaríamos. Tínhamos sido extremamente íntimos e familiares; eu estava muito em dívida para com ela; e a maneira como nos separaríamos era algo que me tirava o sono, tal como as gorjetas que eu deveria dar aos criados domésticos. Sabia que ela me considerava demasiado acanhado e desejava elevar-me na sua opinião a esse respeito. Além disso, depois de tanto carinho demonstrado e (creio eu) sentido por ambos os lados, teria parecido frio ser de alguma forma rígido. Assim, ganhei coragem e preparei as minhas palavras, e na última oportunidade que tivemos de estar a sós, pedi bastante corajosamente para ter permissão de a saudar na despedida.

— Esquece-se estranhamente de si, Sr. Balfour — disse ela. — Não me lembro de lhe ter dado qualquer direito de presumir sobre a nossa amizade.

Fiquei diante dela como um relógio parado, e não sabia o que pensar, muito menos o que dizer, quando de repente ela passou os braços pelo meu pescoço e beijou-me com a melhor vontade do mundo.

«Inimitável criança!» exclamou ela. «Pensavas que eu deixaria que nos despedíssemos como estranhos? Porque nunca consigo manter a seriedade contigo durante cinco minutos seguidos, não deves imaginar que não te estimo muito: sou toda amor e riso, cada vez que lanço um olhar sobre ti! E agora dar-te-ei um conselho para concluir a tua educação, de que precisarás antes de muito tempo. Nunca peças nada às mulheres. Elas estão condenadas a responder "Não"; Deus nunca criou a rapariga que pudesse resistir à tentação. Supõe-se, pelos teólogos, ser a maldição de Eva: porque ela não o disse quando o diabo lhe ofereceu a maçã, as suas filhas não sabem dizer outra coisa.»

«Uma vez que estou prestes a perder a minha bela professora», comecei eu.

«Isto é, de facto, galante», diz ela, fazendo uma vénia.

«Gostaria de fazer uma única pergunta», continuei. «Posso pedir a uma rapariga que se case comigo?»

«Pensas que não a poderias desposar sem isso!» perguntou ela. «Ou então levá-la a oferecer-se?»

«Vê-se que não consegues ser séria», disse eu.

«Serei muito séria numa coisa, David», disse ela: «Serei sempre tua amiga.»

Quando cheguei ao meu cavalo na manhã seguinte, as quatro senhoras estavam todas à mesma janela de onde outrora tínhamos olhado para Catriona, e todas choraram o adeus e acenaram com os seus lenços de bolso enquanto eu me afastava. Uma das quatro eu sabia que estava verdadeiramente triste; e, ao pensar nisso, e em como eu tinha chegado à porta há três meses pela primeira vez, a tristeza e a gratidão criaram uma confusão na minha mente.

PARTE II. PAI E FILHA

CAPÍTULO XXI. A VIAGEM PARA A HOLANDA

O navio encontrava-se fundeado por uma única âncora, bem fora do cais de Leith, de modo que todos nós, passageiros, tínhamos de chegar até ele por meio de escaleres. Isto foi muito pouco trabalhoso, pela razão de que o dia estava de uma calma plana, muito gélido e nublado, e com um nevoeiro baixo e mutável sobre a água. O corpo da embarcação estava, assim, totalmente oculto à medida que me aproximava, mas os seus mastros altos erguiam-se, altos e brilhantes, sob um sol como o cintilar de um fogo. Revelou ser um mercante muito espaçoso e cómodo, mas algo rombo na proa, e carregado extraordinariamente fundo com sal, salmão salgado e finas meias de linho branco para os holandeses. Ao subir a bordo, o capitão deu-me as boas-vindas — um tal Sang (de Lesmahago, creio eu), um homem do mar muito cordial e amigável, mas, naquele momento, um tanto atarefado. Nenhum dos outros passageiros tinha ainda aparecido, pelo que fui deixado a caminhar pelo convés, a observar a paisagem e a interrogar-me bastante sobre quais seriam essas despedidas que me tinham prometido.

Toda Edimburgo e as colinas de Pentland reluziam acima de mim numa espécie de brilho enevoado, por vezes sobreposto por manchas de nuvens; de Leith não se viam mais do que os topos das chaminés, e, na superfície da água, onde o nevoeiro [24] jazia, nada de nada. Disto fui subitamente consciente por um som de remos a remar, e pouco depois (como se saísse do fumo de um incêndio) um barco surgiu. Sentado na popa estava um homem grave, bem abafado contra o frio, e ao seu lado uma figura alta, bonita e terna de uma donzela que fez o meu coração parar. Mal tive tempo de recuperar o fôlego e estar pronto para a encontrar, enquanto ela subia ao convés, sorrindo, e fazendo a minha melhor vénia, que era agora vastamente mais refinada do que alguns meses antes, quando a fiz pela primeira vez à senhora. Sem dúvida que ambos estávamos muito mudados: ela parecia ter crescido como uma árvore jovem e formosa. Tinha agora uma espécie de recato gracioso que lhe assentava bem, como alguém que se estimava mais e era verdadeiramente mulher; e, por outro lado, a mão do mesmo mágico tinha trabalhado em ambos, e a Srta. Grant tinha-nos tornado a ambos galantes, se é que ela só podia tornar bonita a uma.

O mesmo grito, em palavras não muito diferentes, veio de ambos nós, que o outro tinha vindo em cumprimento para se despedir, e então percebemos num ápice que iríamos viajar juntos.

«Oh, por que razão a Baby não me terá dito!» exclamou ela; e depois lembrou-se de uma carta que lhe tinham dado, com a condição de não a abrir até estar bem a bordo. Lá dentro havia um anexo para mim, e dizia o seguinte:

«Caro Davie, — O que pensas da minha despedida? E o que dizes sobre a tua companheira de viagem? Beijaste, ou perguntaste? Eu estava prestes a assinar aqui, mas isso deixaria o propósito da minha pergunta duvidoso, e, no meu próprio caso, sei a resposta. Por isso, preenche aqui com bons conselhos. Não sejas demasiado tímido, [25] e, pelo amor de Deus, não tentes ser demasiado atrevido; nada te prejudica mais. Sou

«A tua afetuosa amiga e governanta, «Barbara Grant.»

Escrevi uma palavra de resposta e cumprimento numa folha do meu bloco de notas, coloquei-a com outro bilhete de Catriona, selei tudo com o meu novo sinete das armas dos Balfour, e despachei-o pela mão do criado de Prestongrange que ainda esperava no meu barco.

Depois tivemos tempo de olhar um para o outro com mais calma, o que não tínhamos feito antes de (por um impulso comum) nos cumprimentarmos novamente.

«Catriona?» disse eu. Parecia que aquela era a primeira e a última palavra da minha eloquência.

«Estás contente por me ver de novo?» diz ela.

«E penso que essa é uma palavra vã», disse eu. «Somos amigos profundos demais para usar palavras em tais ninharias.»

«Não é ela a rapariga de todo o mundo?» exclamou ela de novo. «Nunca conheci tal rapariga, tão honesta e tão bonita.»

«E, contudo, ela não se importava mais com Alpin do que com um talo de couve», disse eu.

«Ah, ela dirá isso mesmo!» exclama Catriona. «No entanto, foi pelo nome e pelo sangue nobre e gentil que ela me acolheu e foi tão boa para mim.»

«Bem, eu dir-te-ei por que foi», disse eu. «Existem todo o tipo de rostos de pessoas neste mundo. Há o rosto da Barbara, que todos devem olhar e admirar, e achar que ela é uma rapariga fina, corajosa e alegre. E depois há o teu rosto, que é muito diferente — nunca soube quão diferente até hoje. Não te consegues ver a ti própria, e é por isso que não compreendes; mas foi pelo amor ao teu rosto que ela te acolheu e foi tão boa para ti. E toda a gente no mundo faria o mesmo.»

«Toda a gente?» diz ela.

«Cada alma viva!» disse eu.

«Ah, então, será por isso que os soldados no castelo me acolheram!» exclamou ela.

«A Barbara tem-te ensinado a prender-me», disse eu.

«Ela ter-me-á ensinado mais do que isso, de qualquer modo. Ter-me-á ensinado muito sobre o Sr. David — todo o mal dele, e um pouco que não era assim tão mau, de vez em quando», disse ela, sorrindo. «Ela ter-me-á dito tudo o que havia sobre o Sr. David, apenas que ele viajaria neste mesmo navio. E por que vais tu?»

Contei-lhe.

«Ah, bem», disse ela, «estaremos alguns dias em companhia e depois (suponho) adeus para sempre! Vou encontrar o meu pai num lugar chamado Helvoetsluys, e de lá para a França, para sermos exilados ao lado do nosso chefe.»

Não pude dizer mais do que apenas «Oh!», o nome de James More secando sempre a minha própria voz.

Ela foi rápida a percebê-lo, e a adivinhar uma parte do meu pensamento.

«Há uma coisa que devo dizer em primeiro lugar, Sr. David», disse ela. «Penso que dois dos meus parentes não se comportaram contigo de todo muito bem. E um deles é James More, o meu pai, e o outro é o Laird de Prestongrange. Prestongrange terá falado por si, ou a sua filha no lugar dele. Mas quanto a James More, o meu pai, tenho isto a dizer: ele jazia acorrentado numa prisão; é um soldado simples e honesto e um simples cavalheiro das Terras Altas; o que eles queriam, ele nunca o poderia adivinhar; mas se ele tivesse compreendido que seria algum prejuízo para um jovem cavalheiro como tu, ele teria morrido primeiro. E, pelo bem de todas as vossas amizades, pedir-te-ei que perdoes ao meu pai e à minha família por esse mesmo erro.»

«Catriona», disse eu, «o que foi esse erro, não me interessa saber. Só sei uma coisa — que foste a Prestongrange e suplicaste pela minha vida de joelhos. Oh, sei muito bem que foi pelo teu pai que foste, mas quando lá estiveste, suplicaste também por mim. É uma coisa de que não consigo falar. Há duas coisas em que não consigo pensar comigo mesmo: uma são as tuas boas palavras quando te chamaste minha pequena amiga, e a outra é que suplicaste pela minha vida. Nunca mais falemos, nós os dois, de perdão ou ofensa.»

Ficámos depois disso em silêncio, Catriona a olhar para o convés e eu para ela; e, antes que houvesse mais conversa, tendo surgido um pouco de vento do noroeste, começaram a desfraldar as velas e a içar a âncora.

Havia seis passageiros além de nós dois, o que fazia da cabine uma cabine cheia. Três eram mercadores sólidos de Leith, Kirkcaldy e Dundee, todos empenhados na mesma aventura na Alta Alemanha. Um era um holandês que regressava; os restantes eram dignas esposas de mercadores, a cuja guarda Catriona foi recomendada. A Sra. Gebbie (pois esse era o seu nome) estava, por muita sorte, fortemente incomodada pelo mar, e jazia dia e noite de costas. Éramos, além disso, as únicas criaturas minimamente jovens a bordo do Rose, exceto um rapaz de cara pálida que fazia o meu antigo trabalho de atender à mesa; e aconteceu que Catriona e eu ficámos quase inteiramente entregues a nós próprios. Tínhamos os lugares próximos um do outro à mesa, onde eu a servia com extraordinário prazer. No convés, fiz-lhe um lugar macio com a minha capa; e, sendo o tempo singularmente bom para aquela estação, com dias e noites claros e gélidos, um vento constante e suave, e quase nem uma vela solta durante toda a travessia do Mar do Norte, sentávamo-nos lá (caminhando apenas de vez em quando para nos aquecermos) desde o primeiro raio de sol até às oito ou nove da noite sob as estrelas claras. Os mercadores ou o Capitão Sang olhavam por vezes e sorriam para nós, ou diziam uma ou duas palavras alegres e passavam por nós; mas na maior parte do tempo estavam absortos em arenques, chintzes e linho, ou em cálculos sobre a lentidão da passagem, e deixavam-nos com as nossas preocupações, que eram muito pouco importantes para qualquer um que não nós próprios.

No início, tínhamos muito para dizer, e considerávamo-nos bastante espirituosos; e eu esforçava-me um pouco por ser o galã, e ela (acredito) por desempenhar o papel de jovem senhora experiente. Mas logo nos tornámos mais francos um com o outro. Deixei de lado o meu inglês elevado e cortado (o pouco que restava dele) e esqueci-me de fazer as minhas vénias e mesuras de Edimburgo; ela, do seu lado, caiu numa espécie de amável familiaridade; e vivíamos juntos como os da mesma família, apenas (do meu lado) com uma emoção mais profunda. Por volta da mesma altura, o fundo parecia ter caído da nossa conversa, e nenhum de nós estava menos satisfeito por isso. Por vezes ela contava-me contos de velhas, dos quais tinha uma variedade maravilhosa, muitos deles do meu amigo Niel, o ruivo. Ela contava-os muito bem, e eram contos infantis suficientemente bonitos; mas o prazer para mim estava no som da sua voz, e no pensamento de que ela estava a contar e eu a ouvir. Por vezes, de novo, sentávamo-nos inteiramente em silêncio, sem comunicar sequer com um olhar, e provando prazer suficiente na doçura daquela proximidade. Falo aqui apenas por mim. Sobre o que estava na mente da donzela, não tenho a certeza de que alguma vez me tenha perguntado; e sobre o que estava na minha própria, tinha medo de considerar. Não preciso de fazer segredo disso agora, nem para mim mesmo, nem para o leitor; eu estava totalmente apaixonado. Ela vinha entre mim e o sol. Ela tinha crescido subitamente mais alta, como digo, mas com um crescimento saudável; parecia toda saúde, leveza e espírito corajoso; e pensei que ela caminhava como um jovem veado, e estava de pé como uma bétula nas montanhas. Bastava-me sentar perto dela no convés; e declaro que mal dediquei dois pensamentos ao futuro, e estava tão contente com o que desfrutava então que nunca me dei ao trabalho de imaginar qualquer passo seguinte; a menos, talvez, que por vezes fosse tentado a tomar a sua mão na minha e mantê-la lá. Mas eu era demasiado como um avarento das alegrias que tinha, e não arriscaria nada num jogo.

O que dizíamos era geralmente sobre nós mesmos ou um sobre o outro, de modo que, se alguém tivesse tido o trabalho de nos ouvir, teria suposto que éramos as pessoas mais egoístas do mundo. Aconteceu um dia, quando estávamos nesta prática, que entrámos num discurso sobre amigos e amizade, e penso agora que estávamos a navegar muito perto do vento. Dissemos que coisa fina era a amizade, e quão pouco tínhamos adivinhado sobre ela, e como ela tornava a vida algo novo, e mil coisas encobertas do mesmo género que terão sido ditas, desde a fundação do mundo, por jovens na mesma situação. Depois comentámos a estranheza da circunstância de os amigos se unirem no início como se estivessem lá pela primeira vez, e, contudo, cada um ter estado vivo há um bom tempo, perdendo tempo com outras pessoas.

«Não é muito o que tenho feito», disse ela, «e poderia contar-te cinco quintos disso em duas ou três palavras. Sou apenas uma rapariga, e o que pode acontecer a uma rapariga, de qualquer forma? Mas fui com o clã no ano 45. Os homens marcharam com espadas e armas de fogo, e alguns deles em brigadas no mesmo conjunto de tartan; eles não foram atrasados na marcha, posso dizer-te. E havia cavalheiros das Terras Baixas, com os seus rendeiros montados e trombetas a soar, e havia um grande estrondo de gaitas de foles de guerra. Eu montava um pequeno cavalo das Terras Altas à mão direita do meu pai, James More, e do próprio Glengyle. E aqui está uma coisa fina de que me lembro, que Glengyle beijou-me no rosto, porque (diz ele) "minha parente, és a única dama do clã que saiu", e eu uma pequena donzela de talvez doze anos de idade! Vi o Príncipe Charlie também, e os olhos azuis dele; ele era realmente bonito! Tive a mão dele para beijar em frente ao exército. Oh, bem, esses foram os bons dias, mas é tudo como um sonho que vi e depois acordei. Correu da maneira que sabes muito bem; e esses foram os piores dias de todos, quando os soldados de casaco vermelho estavam fora, e o meu pai e tios jaziam na colina, e eu tinha de lhes levar a comida no meio da noite, ou ao curto vislumbre do dia quando os galos cantam. Sim, caminhei na noite, muitas vezes, e o meu coração grande em mim pelo terror da escuridão. É uma coisa estranha, nunca terei sido incomodada por um bicho-papão; mas dizem que uma donzela anda segura. Depois houve o casamento do meu tio, e esse foi um caso terrível acima de tudo. Jean Kay era o nome dessa mulher; e ela teve-me no quarto com ela naquela noite em Inversnaid, a noite em que a tirámos dos seus amigos da maneira velha e antiga. Ela queria e não queria; ela estava por casar com o Rob num minuto, e no seguinte ela não queria nada dele. Nunca terei visto tal criatura de mulher inútil; certamente tudo o que havia nela lhe diria sim ou não. Bem, ela era viúva; e nunca consigo pensar numa viúva como uma boa mulher.»

«Catriona!» digo eu, «como concluis isso?»

«Não sei», disse ela; «estou apenas a contar-te a aparência no meu coração. E depois casar com um homem novo! Fi! Mas essa era ela; e ela casou-se de novo com o meu Tio Robin, e andou com ele um tempo pela igreja e pelo mercado; e depois cansou-se, ou então os amigos dela agarraram-na e convenceram-na, ou talvez ela se sentisse envergonhada; ao menos, ela fugiu, e voltou para o seu povo, e disse que a tínhamos prendido no lago, e nunca te contarei tudo o que foi. Nunca pensei muito bem de quaisquer fêmeas desde aquele dia. E assim, no fim, o meu pai, James More, foi lançado na prisão, e tu sabes o resto tão bem como eu.»

«E ao longo de tudo não tiveste amigos?» disse eu.

«Não», disse ela; «fui bastante próxima com duas ou três raparigas nas encostas, mas não para chamar de amigos.»

«Bem, a minha é uma história simples», disse eu. «Nunca tive um amigo em meu nome até te encontrar.»

«E aquele bravo Sr. Stewart?» perguntou ela.

«Oh, sim, estava a esquecê-lo», disse eu. «Mas ele é um homem, e isso é muito diferente.»

«Eu pensaria que sim», disse ela. «Oh, sim, é bastante diferente.»

«E depois houve um outro», disse eu. «Uma vez pensei que tinha um amigo, mas revelou-se uma desilusão.»

Ela perguntou-me quem era.

«Era um ele, então», disse eu. «Éramos os dois melhores rapazes na escola do meu pai, e pensávamos que nos amávamos profundamente. Bem, o tempo chegou em que ele foi para Glasgow para a casa de um mercador, que era o seu primo em segundo grau uma vez afastado; e escreveu-me duas ou três vezes pelo transportador; e depois encontrou novos amigos, e eu podia escrever até me cansar, ele não prestava atenção. Eh, Catriona, levei muito tempo a perdoar ao mundo. Não há nada mais amargo do que perder um amigo imaginário.»

Depois ela começou a interrogar-me de perto sobre a aparência e o caráter dele, pois cada um de nós estava muito preocupado com tudo o que tocava o outro; até que finalmente, numa hora muito má, lembrei-me das cartas dele e fui buscar o pacote da cabine.

«Aqui estão as cartas dele», disse eu, «e todas as cartas que alguma vez recebi. Esse será o último que poderei contar de mim mesmo; tu sabes o resto [26] tão bem como eu.»

«Deixar-me-ás lê-las, então?» diz ela.

Disse-lhe que, se ela se desse ao trabalho; e ela pediu-me para ir embora e ela lê-las-ia de uma ponta à outra. Agora, neste pacote que lhe entreguei, estavam guardadas juntas não só todas as cartas do meu falso amigo, mas uma ou duas do Sr. Campbell quando ele estava na cidade na Assembleia, e para completar o rol de tudo o que alguma vez me foi escrito, a pequena palavra de Catriona, e as duas que recebi da Srta. Grant, uma quando estava no Bass e outra a bordo daquele navio. Mas destas últimas não tive lembrança particular no momento.

Eu estava naquele estado de sujeição ao pensamento da minha amiga em que não importava o que eu fizesse, nem quase se eu estava na sua presença ou fora dela; eu a apanhara como uma espécie de febre nobre que vivia continuamente no meu peito, de noite e de dia, e estivesse eu acordado ou a dormir. Assim aconteceu que, depois de ter ido para a parte da frente do navio, onde a proa larga chapinhava nas ondas, eu não tinha tanta pressa de voltar como poderiam imaginar; antes, prolonguei a minha ausência como uma variedade de prazer. Não creio ser, por natureza, um grande epicurista; e até então, chegara tão pouca parcela de prazer ao meu caminho que talvez pudesse ser desculpado por me deter nele excessivamente.

Quando voltei a ela, tive uma impressão fraca e dolorosa, como de uma fivela que se soltara, tão friamente ela devolveu o pacote.

— Você as leu? — disse eu; e achei que a minha voz não soava de todo natural, pois eu revolvia na minha mente o que poderia afligi-la.

— Você pretendia que eu lesse tudo? — perguntou ela.

Disse-lhe que "sim", com a voz caída.

— A última delas também? — disse ela.

Eu sabia onde estávamos agora; contudo, também não lhe mentiria. — Dei-as todas sem reflexão tardia — disse eu —, pois supus que você as leria. Não vejo mal algum em nenhuma delas.

— Eu serei feita de forma diferente — disse ela. — Agradeço a Deus por ser feita de forma diferente. Não era uma carta adequada para me ser mostrada. Não era adequada para ser escrita.

— Creio que está a falar da sua própria amiga, Barbara Grant? — disse eu.

— Não haverá nada tão amargo como perder uma amiga imaginária — disse ela, citando a minha própria expressão.

— Creio que é, por vezes, a amizade que era imaginária! — exclamei. — Que tipo de justiça chama você a isto, culpar-me por algumas palavras que uma idiota de uma rapariga extravagante escreveu num pedaço de papel? Você mesma sabe com que respeito me tenho comportado — e o farei sempre.

— Contudo, você mostraria essa mesma carta! — diz ela. — Não quero tais amigos. Posso passar muito bem, Sr. Balfour, sem ela — ou sem você.

— Esta é a sua bela gratidão! — digo eu.

— Estou-lhe muito obrigada — disse ela. — Pedir-lhe-ei que leve embora as suas... cartas. — Ela pareceu engasgar-se com a palavra, de modo que soou como um juramento.

— Você nunca pedirá duas vezes — disse eu; apanhei aquele molho, caminhei um pouco para a frente e atirei-os o mais longe possível ao mar. Por muito pouco mais, poderia ter-me atirado eu mesmo atrás deles.

O resto do dia caminhei de um lado para o outro, furioso. Poucos nomes eram tão maus que eu não lhos desse em pensamento antes de o sol se pôr. Tudo o que ouvira sobre o orgulho das Terras Altas parecia totalmente superado; que uma rapariga (mal crescida) se pudesse ressentir de uma alusão tão trivial, e vinda da sua amiga mais próxima, de quem ela quase me cansara de tanto elogiar! Tive pensamentos amargos, agudos e duros sobre ela, como os de um rapaz zangado. Se eu a tivesse beijado de facto (pensei), talvez ela tivesse levado isso muito bem; e só porque tinha sido escrito, e com uma pitada de pilhéria, ela teve de se enfurecer nesta paixão ridícula. Pareceu-me haver uma falta de penetração no sexo feminino, para fazer os anjos chorarem sobre o caso dos pobres homens.

Estávamos lado a lado novamente ao jantar, e que mudança havia ali! Ela estava como leite coalhado para mim; o seu rosto era como o de uma boneca de madeira; eu poderia tê-la indiferentemente espancado ou rastejado aos seus pés, mas ela não me deu a menor ocasião para fazer qualquer uma das coisas. Mal terminada a refeição, ela tratou de atender a Sra. Gebbie, o que creio ter negligenciado um pouco até então. Mas ela compensaria o tempo perdido e, no que restava da viagem, foi extraordinariamente assídua com a velha senhora, e no convés começou a fazer muito mais do que eu achava sensato do Capitão Sang. Não que o Capitão não parecesse um homem digno e paternal; mas eu odiava vê-la na menor familiaridade com quem quer que fosse, exceto comigo.

Ao todo, ela era tão rápida a evitar-me, e tão constante a manter-se rodeada de outros, que eu tive de observar por muito tempo antes de poder encontrar a minha oportunidade; e, depois de encontrada, não tirei grande proveito dela, como agora ouvirão.

— Não faço ideia de como ofendi — disse eu; — não deveria, então, estar além do perdão. Oh, tente se pode perdoar-me.

— Não tenho perdão a dar — disse ela; e as palavras pareciam sair da sua garganta como berlindes. — Ficar-lhe-ei muito obrigada por todas as suas amizades. — E fez-me uma oitava parte de uma cortesia.

Mas eu tinha-me preparado de antemão para dizer mais, e eu ia dizê-lo também.

— Há uma coisa — disse eu. — Se choquei a sua particularidade ao mostrar aquela carta, isso não pode tocar à Srta. Grant. Ela não escreveu para você, mas para um rapaz pobre, comum e ordinário, que poderia ter tido mais juízo do que mostrá-la. Se você me vai culpar...

— Aconselho-o a não dizer mais nada sobre essa rapariga, de todo o modo! — disse Catriona. — É dela que eu nunca olharei o caminho, nem que ela estivesse a morrer. — Ela afastou-se de mim, e de repente voltou. — Jurará que não terá mais nada a tratar com ela? — gritou ela.

— De facto, e eu nunca serei tão injusto, então — disse eu; — nem tão ingrato.

E agora fui eu que me afastei.

CAPÍTULO XXII. HELVOETSLUYS

O tempo, no fim, piorou consideravelmente; o vento cantava nos estais, o mar inchava mais alto, e o navio começou a esforçar-se e a clamar por entre as ondas. O canto do sondador nas correntes mal cessava agora, pois ziguezagueávamos por entre baixios. Cerca das nove da manhã, num rasgo de sol invernal entre dois aguaceiros de granizo, tive o meu primeiro vislumbre da Holanda — uma linha de moinhos de vento a girar na brisa. Foi, aliás, o meu primeiro conhecimento destes engenhos disparatados, que me deram uma sensação próxima de viagem ao estrangeiro e de um novo mundo e vida. Lançámos âncora cerca das onze e meia, fora do porto de Helvoetsluys, num lugar onde o mar por vezes quebrava e o navio arfava de forma escandalosa. Podem ter a certeza de que estávamos todos no convés, exceto a Sra. Gebbie, alguns de nós em capas, outros envolvidos nas oleadas do navio, todos agarrados por cordas, e a gracejar tanto quanto podíamos imitar os velhos marinheiros.

De repente, um barco, que era armado como um caranguejo, chegou cautelosamente ao lado, e o seu capitão chamou o nosso mestre em holandês. Daí o Capitão Sang virou-se, muito perturbado, para Catriona; e o resto de nós, amontoando-nos, a natureza da dificuldade tornou-se clara para todos. O Rose destinava-se ao porto de Roterdão, onde os outros passageiros estavam numa grande impaciência para chegar, tendo em conta uma carruagem prevista para partir nessa mesma noite na direção da Alta Alemanha. Isto, com o atual meio vendaval de vento, o capitão (se não se perdesse tempo) declarou-se ainda capaz de salvar. Ora, James More tinha marcado encontro em Helvoet com a sua filha, e o capitão tinha-se comprometido a passar diante do porto e colocá-la (de acordo com o costume) num barco de terra. Lá estava o barco, de facto, e aqui estava Catriona pronta: mas tanto o nosso mestre como o patrão do barco hesitavam quanto ao risco, e o primeiro não estava com disposição para atrasar-se.

— O seu pai — disse ele — ficaria muito pouco satisfeito se nós lhe partíssemos uma perna, Srta. Drummond, quanto mais afogá-la. Siga o meu caminho — diz ele — e venha connosco para Roterdão. Pode conseguir passagem pelo Maes num barco à vela até Brill, e daí novamente, por um lugar numa carruagem de molas, de volta a Helvoet.

Mas Catriona não queria saber de mudança. Ela parecia pálida enquanto contemplava o rebentar dos borrifos, os mares verdes que por vezes se derramavam no castelo de proa, e o salto e mergulho perpétuo do barco por entre as ondas; mas ela manteve-se firme nas ordens do seu pai. "O meu pai, James More, tê-lo-á arranjado assim", foi a sua primeira palavra e a última. Achei muito ocioso e, na verdade, extravagante da parte da rapariga ser tão literal e opor-se a tanto conselho bondoso; mas o facto é que ela tinha uma razão muito boa, se no-la quisesse ter dito. Barcos à vela e carruagens de molas são coisas excelentes; apenas o uso delas deve ser pago primeiro, e tudo o que ela possuía no mundo eram apenas dois xelins e um penny e meio esterlinos. Assim aconteceu que capitão e passageiros, não sabendo da sua miséria — e sendo ela demasiado orgulhosa para lhes contar — falaram em vão.

— Mas você não conhece francês e nem holandês também — disse um.

— É muito verdade — diz ela —, mas desde o ano 46 há tantos escoceses honestos no estrangeiro que passarei muito bem. Agradeço-lhe.

Havia uma certa simplicidade campestre nisto que fez alguns rir, outros parecerem mais pesarosos, e o Sr. Gebbie cair de imediato num acesso de raiva. Creio que ele sabia que era seu dever (tendo a sua esposa aceite a responsabilidade da rapariga) ter ido a terra com ela e visto que estava a salvo: nada o teria induzido a fazê-lo, uma vez que teria envolvido a perda da sua carruagem; e penso que compensou isso na sua consciência com o volume da sua voz. Pelo menos, ele irrompeu contra o Capitão Sang, furioso e dizendo que a coisa era uma desgraça; que era mera morte tentar deixar o navio, e, de qualquer modo, não podíamos lançar uma donzela inocente num barco cheio de pescadores holandeses nojentos, e deixá-la ao seu destino. Eu pensava algo semelhante; levei o imediato para um lado, combinei com ele enviar os meus baús por barco de carga para uma morada que eu tinha em Leiden, e levantei-me e sinalizei aos pescadores.

— Irei a terra com a jovem, Capitão Sang — disse eu. — É tudo o mesmo o caminho que faço para Leiden; — e saltei ao mesmo tempo para o barco, o que não consegui com tanta elegância, acabando por cair com dois dos pescadores no porão.

Do barco, o assunto parecia ainda mais precário do que do navio, este erguia-se tão alto sobre nós, oscilava tão rapidamente, e ameaçava-nos tão perpetuamente com o seu mergulhar e passar sobre o cabo da âncora. Comecei a pensar que tinha feito um negócio de tolo, que era simplesmente impossível que Catriona fosse colocada a bordo comigo, e que eu estava condenado a ser deixado em terra em Helvoet sozinho e sem esperança de qualquer recompensa além do prazer de abraçar James More, se eu quisesse. Mas isto era contar sem a coragem da rapariga. Ela tinha-me visto saltar com muito pouca aparência (por muita que fosse a realidade) de hesitação; de facto, ela não haveria de ser batida pelo seu amigo descartado. Ergueu-se nas amuradas e segurou-se num estai, o vento soprando nas suas anáguas, o que tornava o empreendimento mais perigoso, e dava-nos um pouco mais de visão das suas meias do que seria considerado elegante nas cidades. Não se perdeu um minuto, e mal se deu tempo para que alguém interferisse, caso desejassem o mesmo. Levantei-me do outro lado e estendi os braços; o navio balançou sobre nós, o patrão manobrou o seu barco mais para perto do que era talvez totalmente seguro, e Catriona saltou para o ar. Tive a sorte de a apanhar, e os pescadores, apoiando-nos prontamente, escapámos a uma queda. Ela agarrou-se a mim um momento com muita força, respirando rápida e profundamente; daí (ela ainda agarrada a mim com ambas as mãos) fomos passados para trás para os nossos lugares pelo timoneiro; e o Capitão Sang e toda a tripulação e passageiros, a aplaudir e a gritar despedidas, o barco foi virado para a terra.

Assim que Catriona voltou um pouco a si, soltou-me de repente, mas não disse palavra. Eu também não; e, na verdade, o assobio do vento e o rebentar dos borrifos não davam tempo para discursos; e a nossa tripulação não só trabalhou excessivamente como avançou extremamente pouco, de modo que o Rose tinha içado a sua âncora e já partira antes de nos aproximarmos da boca do porto.

Mal estávamos em águas calmas quando o patrão, de acordo com o seu bestial costume holandês, parou o barco e exigiu-nos o pagamento. Dois florins foi a exigência do homem — entre três e quatro xelins em dinheiro inglês — para cada passageiro. Mas a isto Catriona começou a gritar com uma grande dose de agitação. Ela tinha perguntado ao Capitão Sang, disse ela, e o preço era apenas um xelim inglês. — Você pensa que eu teria vindo a bordo sem perguntar primeiro? — grita ela. O patrão repreendeu-a de volta numa linguagem onde os juramentos eram ingleses e o resto puro holandês; até que finalmente (vendo-a perto das lágrimas) deslizei privadamente na mão do patife seis xelins, momento em que ele foi suficientemente prestável para receber dela o outro xelim sem mais queixas. Sem dúvida, fiquei bastante irritado e envergonhado. Gosto de ver as pessoas poupadas, mas não com tanta paixão; e atrevo-me a dizer que seria de forma bastante fria que lhe perguntei, à medida que o barco avançava de novo para a terra, onde era o lugar em que ela tinha encontro com o seu pai.

— Ele deve ser procurado na casa de um Sprott, um honesto mercador escocês — diz ela; e depois, no mesmo fôlego: — Desejo agradecer-lhe muito; você é um amigo valente para mim.

— Será tempo suficiente quando eu a entregar ao seu pai — disse eu, mal pensando que falava tão verdade. — Posso contar-lhe uma bela história de uma filha leal.

— Oh, não penso que serei uma rapariga leal, de todo o modo — gritou ela, com uma grande dose de dor na expressão. — Não penso que o meu coração seja verdadeiro.

— Contudo, há muito poucos que teriam feito aquele salto, e tudo para obedecer às ordens de um pai — observei.

— Não posso permitir que pense isso de mim — gritou ela novamente. — Quando você tinha feito o mesmo, como poderia eu ficar para trás? E, de qualquer modo, essa não foi a única razão. — Momento em que, com o rosto a arder, contou-me a pura verdade sobre a sua pobreza.

— Deus nos guie! — gritei eu. — Que tipo de procedimento disparatado é este, deixar-se lançar no continente europeu com uma bolsa vazia? Considero-o dificilmente decente — mal decente! — gritei.

— Você esquece-se de que James More, o meu pai, é um cavalheiro pobre — disse ela. — Ele é um exilado caçado.

— Mas penso que nem todos os seus amigos são exilados caçados — exclamei. — E foi justo para com aqueles que se preocupam consigo? Foi justo para comigo? Foi justo para com a Srta. Grant, que a aconselhou a ir e ficaria furiosa se soubesse disso? Foi sequer justo para com estas pessoas Gregory com quem vivia, e que a trataram amorosamente? É uma bênção que você tenha caído nas minhas mãos! Suponha que o seu pai era impedido por um acidente, o que seria de si aqui, e você sozinha num lugar estranho? O pensamento da coisa assusta-me — disse eu.

— Terei mentido a todos eles — respondeu ela. — Terei dito a todos que tinha bastante. Disse-lhe a ela também. Não podia rebaixar James More perante eles.

Descobri mais tarde que ela deve tê-lo rebaixado até ao pó, pois a mentira era originalmente do pai, não da filha, e ela estava assim obrigada a persistir nela pela reputação do homem. Mas, na altura, eu ignorava isto, e o simples pensamento da sua miséria e dos perigos em que ela deve ter caído tinha-me transtornado quase além da razão.

— Bem, bem, bem — disse eu —, você terá de aprender a ter mais juízo.

Deixei as suas malas por um momento numa estalagem na costa, onde consegui uma indicação para a casa de Sprott no meu novo francês, e caminhámos até lá — era um pouco longe — observando o lugar com espanto à medida que seguíamos. De facto, havia muito para os escoceses admirarem: canais e árvores misturados com as casas; as casas, cada uma dentro de si, de um belo tijolo vermelho, da cor de uma rosa, com degraus e bancos de mármore azul à face de cada porta, e toda a cidade tão limpa que se poderia ter jantado no pavimento. Sprott estava lá dentro, sobre os seus livros de contabilidade, numa sala baixa, muito arrumada e limpa, e decorada com porcelana e quadros, e um globo da terra numa armação de latão. Era um homem de queixos grandes, ruivo, vigoroso, com um ar duro e tortuoso; e não nos deu a cortesia de nos oferecer um assento.

— James More Macgregor está agora em Helvoet, senhor? — digo eu.

— Não conheço ninguém por esse nome — diz ele, de forma impaciente.

— Já que é tão particular — digo eu —, alterarei a minha pergunta e perguntar-lhe-ei onde devemos encontrar em Helvoet um James Drummond, aliás Macgregor, aliás James More, antigo inquilino em Inveronachile?

— Senhor — diz ele —, ele pode estar no Inferno, pelo que sei, e, da minha parte, desejo que estivesse.

— A jovem é filha desse cavalheiro, senhor — disse eu —, perante a qual, penso que concordará comigo, não é muito apropriado discutir o seu caráter.

— Não tenho nada a ver nem com ele, nem com ela, nem com você! — grita ele com a sua voz grosseira.

— Com a sua licença, Sr. Sprott — disse eu —, esta jovem veio da Escócia à procura dele e, por qualquer erro, foi-lhe dado o nome da sua casa como indicação. Um erro parece ter sido, mas penso que isto coloca tanto você como eu — que sou apenas o seu companheiro de viagem por acidente — sob uma forte obrigação de ajudar a nossa compatriota.

— Você vai-me deixar louco? — grita ele. — Digo-lhe que não conheço nada e não me importo, nem com ele nem com a sua linhagem. Digo-lhe que o homem me deve dinheiro.

— Isso pode muito bem ser, senhor — disse eu, que estava agora bastante mais zangado do que ele. — Pelo menos, não lhe devo nada; a jovem está sob a minha proteção; e eu não estou nada acostumado a estas maneiras, nem minimamente contente com elas.

Ao dizer isto, e sem pensar particularmente no que fazia, dei um passo ou dois mais perto da sua mesa; atingindo, assim, por mera boa sorte, o único argumento que poderia afetar o homem. O sangue deixou o seu rosto vigoroso.

— Pelo amor de Deus, não seja apressado, senhor! — gritou ele. — Estou verdadeiramente desejoso de não ser ofensivo. Mas você sabe, senhor, eu sou como uma série de velhos bondosos, honestos e alegres — o meu ladrar é pior que a minha mordida. Ao ouvir-me, você poderia às vezes imaginar que eu era um pouco duro; mas não, não! É um velho bondoso de coração, Sandie Sprott! E você nunca poderia imaginar o incómodo e a maçada que este homem tem sido para mim.

— Muito bem, senhor — disse eu. — Então farei essa liberdade com a sua bondade de o incomodar com as suas últimas notícias do Sr. Drummond.

— De nada, senhor! — disse ele. — Quanto à jovem senhorita (meus respeitos a ela!), ele simplesmente terá se esquecido completamente dela. Eu conheço o homem, veja bem; já perdi dinheiro por causa dele antes. Ele não pensa em ninguém a não ser em si mesmo; clã, rei ou filha, se ele puder encher a barriga, daria a todos eles um pontapé! Sim, ou ao seu correspondente também. Pois há um sentido no qual se pode quase dizer que sou seu correspondente. O fato é que estamos empregados juntos em um negócio, e acho que vai acabar sendo um negócio caro para Sandie Sprott. O homem é tão meu sócio, e dou-lhe minha palavra de honra de que não sei nada sobre onde ele está. Ele poderia estar vindo para Helvoet; ele poderia chegar aqui amanhã, poderia não vir por um ano; eu não me surpreenderia com nada — ou apenas com uma coisa, que é se ele me pagasse o meu dinheiro. Vê como estou em relação a isso; e é claro que não é muito provável que eu me meta com a jovem senhorita, como o senhor a chama. Ela não pode ficar aqui, isso é uma coisa certa. Ora, senhor, sou um homem sozinho! Se eu a acolhesse, é altamente possível que aquele bicho-do-mato tentasse me obrigar a casar com ela quando aparecesse.

— Chega desta conversa — disse eu. — Levarei a jovem senhorita para amigos melhores. Dê-me pena, tinta e papel, e deixarei aqui para James More o endereço do meu correspondente em Leyden. Ele pode indagar comigo onde deve procurar sua filha.

Escrevi este recado e selei-o; enquanto eu fazia isso, Sprott, por iniciativa própria, fez uma oferta bem-vinda de se encarregar da bagagem da Srta. Drummond, e até enviar um carregador para buscá-la na estalagem. Adiantei-lhe um ou dois dólares para cobrir as despesas, e ele me deu um recibo por escrito da quantia.

Ao que (dando eu o braço a Catriona) deixamos a casa desse canalha detestável. Ela não disse palavra alguma durante todo o tempo, deixando-me julgar e falar em seu lugar; eu, por minha parte, tomei o cuidado de não a embaraçar com um olhar; e mesmo agora, embora meu coração ainda ardesse dentro de mim de vergonha e raiva, fiz questão de parecer bastante tranquilo.

— Agora — disse eu —, vamos voltar àquela mesma estalagem onde sabem falar francês, comer um pedaço de jantar e perguntar sobre conduções para Roterdã. Não ficarei tranquilo enquanto não a tiver a salvo novamente nas mãos da Sra. Gebbie.

— Suponho que terá de ser assim — disse Catriona —, embora, quem quer que fique contente, não creio que será ela. E lembro-lhe mais uma vez que tenho apenas um xelim e três baubees.

— E apenas mais uma vez — disse eu —, lembro-lhe que foi uma bênção eu ter vindo com você.

— O que mais eu estaria pensando todo esse tempo? — diz ela, e achei que ela pesou um pouco em meu braço. — É você quem é o bom amigo para mim.

CAPÍTULO XXIII. VIAGENS NA HOLANDA

O rattel-waggon, que é uma espécie de carroça longa equipada com bancos, levou-nos em quatro horas de viagem até a grande cidade de Roterdã. Já passava muito da escuridão, mas as ruas estavam bastante iluminadas e repletas de personagens de aparência selvagem e estranha — hebreus barbudos, homens negros e hordas de cortesãs, adornadas de forma bastante indecente com roupas finas e parando os marinheiros pelas próprias mangas; o clamor das conversas ao nosso redor fazia nossas cabeças girar; e o que era mais inesperado de tudo, parecia que não estávamos mais impressionados com todos esses estrangeiros do que eles conosco. Fiz a melhor cara que pude, pelo bem da moça e pelo meu próprio crédito; mas a verdade é que me sentia como uma ovelha perdida, e meu coração batia no peito de ansiedade. Uma ou duas vezes indaguei sobre o porto ou o ancoradouro do navio Rose: mas ou caí sobre alguém que falava apenas holandês, ou meu próprio francês me faltou. Tentando uma rua ao acaso, deparei-me com uma viela de casas iluminadas, as portas e janelas apinhadas de mulheres pintadas de aparência decadente; estas nos empurraram e zombaram de nós enquanto passávamos, e eu fiquei grato por não entendermos nada de sua língua. Um pouco depois, saímos para um espaço aberto ao longo do porto.

— Agora nos safaremos — grito eu, assim que avistei os mastros. — Vamos caminhar aqui pelo porto. Com certeza encontraremos alguém que fale inglês e, na melhor das hipóteses, poderemos encontrar aquele mesmo navio.

Fizemos a segunda melhor coisa, como aconteceu; pois, por volta das nove da noite, em quem iríamos esbarrar senão no Capitão Sang? Ele nos contou que tinham feito a viagem no tempo mais incrivelmente curto, o vento soprando forte até chegarem ao porto; motivo pelo qual seus passageiros já tinham partido para suas viagens seguintes. Era impossível perseguir os Gebbie até a Alta Alemanha, e não tínhamos outro conhecido a quem recorrer senão o próprio Capitão Sang. Foi ainda mais gratificante encontrar o homem amigável e desejoso de ajudar. Fez parecer um assunto simples encontrar uma boa família de mercadores, onde Catriona pudesse se hospedar até que o Rose estivesse carregado; declarou que então a levaria alegremente de volta a Leith de graça e a veria a salvo nas mãos do Sr. Gregory; e, nesse meio tempo, levou-nos a uma casa de pasto tardia para a refeição de que precisávamos. Ele parecia extremamente amigável, como digo, mas o que me surpreendeu muito, um tanto turbulento também; e a causa disso logo apareceria. Pois, na casa de pasto, pedindo vinho do Reno e bebendo-o profundamente, ele logo ficou inominavelmente bêbado. Nesse estado, como é comum a todos os homens, mas especialmente aos de seu ofício rude, o pouco senso ou boas maneiras que possuía o abandonaram; e ele se comportou de forma tão escandalosa com a jovem senhorita, gracejando da maneira mais desrespeitosa sobre a figura que ela fizera no parapeito do navio, que não tive outro recurso senão levá-la embora subitamente.

Ela saiu da casa de pasto agarrada a mim fortemente. — Leve-me embora, David — disse ela. — Fique comigo. Não tenho medo com você.

— E não tem motivo, minha pequena amiga! — exclamei, e teria encontrado em meu coração vontade de chorar.

— Para onde você vai me levar? — disse ela novamente. — Não me deixe, de qualquer maneira — nunca me deixe.

— Para onde estou levando você? — digo eu, parando, pois eu estava seguindo em frente na mais absoluta cegueira. — Devo parar e pensar. Mas não vou deixá-la, Catriona; que o Senhor faça comigo, e ainda mais, se eu falhar ou a incomodar.

Ela se encolheu contra mim como resposta.

— Aqui — disse eu — é o lugar mais tranquilo em que estivemos até agora neste enxame movimentado de cidade. Vamos nos sentar aqui sob aquela árvore e considerar nosso curso.

Aquela árvore (que não esquecerei tão cedo) ficava bem perto da beira do porto. Estava uma noite escura como breu, mas havia luzes nas casas e, mais perto, nos navios silenciosos; havia um brilho da cidade de um lado, e um zumbido pairava sobre ela de milhares de pessoas andando e conversando; do outro, estava escuro e a água borbulhava nas margens. Estendi meu manto sobre uma pedra de construção e a fiz sentar ali; ela teria mantido sua mão sobre mim, pois ainda tremia com os insultos recentes; mas eu queria pensar com clareza, soltei-me e andei de um lado para o outro diante dela, ao modo do que chamamos de caminhada de contrabandista, forçando meu cérebro por qualquer remédio. Pelo curso desses pensamentos dispersos, fui levado subitamente face a face com a lembrança de que, no calor e na pressa de nossa partida, deixei o Capitão Sang pagar a conta na casa de pasto. Com isso comecei a rir alto, pois achei que o homem foi bem servido; e ao mesmo tempo, por um movimento instintivo, levei a mão ao bolso onde estava meu dinheiro. Suponho que tenha sido na viela onde as mulheres nos empurraram; mas só há uma coisa certa: minha bolsa tinha desaparecido.

— Você terá pensado em algo bom — disse ela, observando-me parar.

No aperto em que estávamos, minha mente tornou-se subitamente clara como um vidro de luneta, e vi que não havia escolha de métodos. Eu não tinha um doit de moeda, mas em minha carteira ainda tinha minha carta para o mercador de Leyden; e agora só havia um jeito de chegar a Leyden, e era caminhar sobre nossos próprios pés.

— Catriona — disse eu —, sei que você é corajosa e acredito que é forte — acha que conseguiria caminhar trinta milhas em uma estrada plana? Achamos, creio eu, quase dois terços disso, mas essa era minha noção da distância.

— David — disse ela —, se você apenas ficar perto, irei a qualquer lugar e farei qualquer coisa. A coragem do meu coração, está toda quebrada. Não me deixe neste país horrível sozinha, e farei tudo o mais.

— Pode começar agora e marchar a noite toda? — disse eu.

— Farei tudo o que você me pedir — disse ela —, e nunca lhe perguntarei por quê. Tenho sido uma moça má e ingrata para você; e faça o que quiser comigo agora! E acho que a Srta. Barbara Grant é a melhor senhora do mundo — acrescentou ela —, e não vejo por que ela lhe negaria qualquer coisa, de qualquer maneira.

Isso foi grego e hebraico para mim; mas eu tinha outras questões a considerar, e a primeira delas era sair daquela cidade pela estrada de Leyden. Provou ser um problema cruel; e pode ter sido uma ou duas da manhã antes de o resolvermos. Uma vez além das casas, não havia nem lua nem estrelas para nos guiar; apenas a brancura do caminho no meio e a escuridão de um beco em ambos os lados. A caminhada foi, além disso, tornada extraordinariamente difícil por uma geada negra pura que caiu subitamente nas primeiras horas e transformou aquela estrada em um longo escorregador.

— Bem, Catriona — disse eu —, aqui estamos nós como os filhos do rei e as filhas das velhas esposas em seus contos das Terras Altas. Logo estaremos atravessando os ‘sete Bens, os sete vales e os sete pântanos das montanhas’ — que era um ditado comum ou refrão naqueles contos dela que tinham ficado em minha memória.

— Ah — diz ela —, mas aqui não há vales ou montanhas! Embora eu nunca negue que as árvores e alguns dos lugares planos por aqui sejam muito bonitos. Mas nosso país é o melhor, ainda assim.

— Quem dera pudéssemos dizer o mesmo do nosso próprio povo — digo eu, recordando Sprott e Sang, e talvez o próprio James More.

— Nunca reclamarei do país do meu amigo — disse ela, e falou com um sotaque tão peculiar que me pareceu ver a expressão em seu rosto.

Prendi a respiração bruscamente e quase caí (pelos meus esforços) no gelo negro.

— Não sei o que você pensa, Catriona — disse eu, quando me recuperei um pouco —, mas este foi o melhor dia até agora! Acho vergonhoso dizer isso, quando você encontrou tais infortúnios e desfavores; mas para mim, foi o melhor dia até agora.

— Foi um bom dia quando você me mostrou tanto amor — disse ela.

— E ainda assim acho vergonhoso ser feliz também — continuei —, e você aqui na estrada na noite escura.

— Onde, no grande mundo, eu estaria senão aqui? — exclamou ela. — Estou pensando que estou mais segura onde estou com você.

— Estou totalmente perdoado, então? — perguntei.

— Você não vai me perdoar por aquela vez, a ponto de não levá-la à boca novamente? — ela gritou. — Não há nada neste coração para você além de agradecimentos. Mas serei honesta também — acrescentou, com uma espécie de rapidez —, e nunca poderei perdoar aquela garota.

— É a Srta. Grant de novo? — disse eu. — Você mesma disse que ela era a melhor senhora do mundo.

— Assim ela será, de fato! — diz Catriona. — Mas nunca a perdoarei por tudo isso. Nunca, nunca a perdoarei, e que eu não ouça mais falar dela.

— Bem — disse eu —, isso supera tudo o que já chegou ao meu conhecimento; e me pergunto como você pode se entregar a tais caprichos infantis. Aqui está uma jovem que foi a melhor amiga do mundo para nós dois, que nos ensinou a nos vestirmos e, de certa forma, como nos comportarmos, como qualquer um pode ver quem nos conheceu antes e depois.

Mas Catriona parou firmemente no meio da estrada.

— É deste jeito — disse ela. — Ou você continuará falando dela, e eu voltarei para aquela cidade, e que aconteça o que Deus quiser! Ou então você me fará a gentileza de falar de outras coisas.

Fiquei a pessoa mais perplexa deste mundo; mas lembrei-me de que ela dependia inteiramente da minha ajuda, de que era do sexo frágil e não muito mais que uma criança, e cabia a mim ser sensato pelos dois.

— Minha querida moça — disse eu —, não consigo entender nada disso; mas Deus me livre de fazer qualquer coisa para deixá-la perturbada. Quanto a falar da Srta. Grant, não tenho esse desejo, e acredito que foi você mesma quem começou. Meu único objetivo (se é que a confrontei) foi para seu próprio aprimoramento, pois odeio a própria aparência da injustiça. Não que eu não queira que você tenha um bom orgulho e uma delicadeza feminina agradável; eles lhe caem bem; mas aqui você os mostra em excesso.

— Bem, então, terminou? — disse ela.

— Terminei — disse eu.

— Uma coisa muito boa — disse ela, e seguimos em frente novamente, mas agora em silêncio.

Era um trabalho assustador caminhar na noite densa, contemplando apenas sombras e não ouvindo nada além de nossos próprios passos. No início, acredito que nossos corações queimavam um contra o outro com uma boa dose de inimizade; mas a escuridão e o frio, e o silêncio, que apenas os galos às vezes interrompiam, ou às vezes os cães de fazenda, logo tinham trazido nosso orgulho ao pó; e por mim, especificamente, eu teria saltado em qualquer abertura decente para falar.

Antes que o dia amanhecesse, veio uma chuva morna, e a geada foi toda apagada de sob nossos pés. Peguei meu manto para ela e tentei cobri-la com o mesmo; ela me pediu, um tanto impacientemente, que o guardasse.

— De fato, não farei tal coisa — disse eu. — Aqui estou eu, um rapaz grande e feio que já viu todo tipo de tempo, e aqui está você, uma donzela tenra e bonita! Minha querida, não me colocaria em vergonha?

Sem mais palavras, ela deixou que eu a cobrisse; o que, enquanto eu fazia na escuridão, deixei minha mão descansar um momento em seu ombro, quase como um abraço.

— Você deve tentar ser mais paciente com seu amigo — disse eu.

Achei que ela pareceu inclinar-se o mínimo possível contra o meu peito, ou talvez fosse apenas imaginação.

— Não haverá fim para sua bondade — disse ela.

E seguimos em frente novamente em silêncio; mas agora tudo estava mudado; e a felicidade que havia em meu coração era como um fogo em uma grande chaminé.

A chuva passou antes do dia; era apenas uma manhã úmida quando chegamos à cidade de Delft. As casas de frontões vermelhos faziam uma bela exibição de cada lado de um canal; as criadas estavam fora, limpando e esfregando as próprias pedras na via pública; a fumaça subia de cem cozinhas; e ocorreu-me fortemente que era hora de quebrar nosso jejum.

— Catriona — disse eu —, acredito que você ainda tem um xelim e três baubees?

— Você está querendo? — disse ela, e passou-me sua bolsa. — Estou desejando que fossem cinco libras! Para que você vai querer?

— E por que estivemos caminhando a noite toda, como um par de egípcios errantes! — digo eu. — Apenas porque fui roubado de minha bolsa e tudo o que possuía naquela cidade azarada de Roterdã. Vou lhe contar agora, porque acho que o pior já passou, mas ainda temos uma boa caminhada pela frente até chegarmos onde está meu dinheiro, e se você não comprasse um pedaço de pão para mim, eu estaria propenso a passar fome.

Ela olhou para mim com olhos arregalados. Com a luz do novo dia, ela estava toda suja e pálida de cansaço, de modo que meu coração doeu por ela. Mas quanto a ela, ela começou a rir.

— Meu tormento! somos mendigos então! — ela gritou. — Você também? Oh, eu poderia ter desejado essa mesma coisa! E estou feliz em comprar seu café da manhã. Mas seria agradável se eu tivesse que dançar para conseguir uma refeição para você! Pois acredito que eles não estão muito familiarizados com nosso modo de dançar por aqui, e poderiam estar pagando pela curiosidade dessa visão.

Eu poderia tê-la beijado por essa palavra, não com a mente de um amante, mas num calor de admiração. Pois sempre aquece um homem ver uma mulher corajosa.

Conseguimos um pouco de leite de uma camponesa que acabara de chegar à cidade, e, em uma padaria, um pedaço de pão excelente, quente e cheiroso, que comemos na estrada enquanto seguíamos. Aquela estrada de Delft para Haia tem apenas cinco milhas de uma bela avenida sombreada por árvores, um canal de um lado, do outro excelentes pastagens de gado. Era agradável aqui, de fato.

— E agora, Davie — disse ela —, o que você fará comigo, de qualquer maneira?

— É o que temos de discutir — disse eu —, e quanto mais cedo, melhor. Posso conseguir dinheiro em Leyden; isso será tudo bem. Mas o problema é como dispor de você até que seu pai venha. Achei ontem à noite que você parecia um pouco relutante em se separar de mim?

— Será mais do que parecer então — disse ela.

— Você é uma donzela muito jovem — disse eu —, e eu sou apenas um rapaz muito jovem. Esta é uma grande dificuldade. De que maneira vamos administrar? A menos, na verdade, que você pudesse passar por minha irmã?

— E por que não? — disse ela, — se você me deixasse!

— Quem me dera que você fosse, de fato — exclamei. — Eu seria um homem fino se tivesse tal irmã. Mas o problema é que você é Catriona Drummond.

— E agora serei Catriona Balfour — disse ela. — E quem vai saber? Eles são todos gente estranha aqui.

— Se você acha que isso serviria — digo eu. — Confesso que me preocupa. Eu gostaria muito mal se a aconselhasse de qualquer maneira errada.

— David, não tenho amigo aqui senão você — disse ela.

— A verdade pura é que sou muito jovem para ser seu amigo — disse eu. — Sou muito jovem para aconselhá-la, ou você para ser aconselhada. Não vejo o que mais podemos fazer, e ainda assim devo avisá-la.

— Não terei escolha — disse ela. — Meu pai James More não me tratou muito bem, e não é a primeira vez, sou lançada em suas mãos como um saco de farinha de cevada, e não tenho nada mais em que pensar senão no seu prazer. Se você me quiser, muito bem. Se não quiser — ela virou-se e tocou com a mão em meu braço — David, estou com medo — disse ela.

— Não, mas devo avisá-la — comecei; e então ponderei que eu era o portador da bolsa, e que não cairia bem parecer demasiado grosseiro. — Catriona — disse eu —, não me entenda mal: estou apenas tentando cumprir meu dever para com você, rapariga! Eis-me aqui, partindo sozinho para esta cidade estranha, para ser um estudante solitário; e eis que surge esta oportunidade de você viver comigo um pouco, e ser como minha irmã; você certamente pode entender, minha querida, que eu adoraria ter você comigo?

— Bem, e aqui estou eu — disse ela. — Então isso está logo resolvido.

Sei que tinha o dever de ter falado com mais clareza. Sei que esta foi uma grande mancha no meu caráter, pela qual tive sorte de não pagar mais caro. Mas eu me lembrava de quão facilmente a sua delicadeza havia sido sobressaltada com uma menção a beijá-la na carta de Barbara; agora que ela dependia de mim, como poderia eu ser mais audaz? Além disso, a verdade é que não conseguia ver outro método viável para me livrar dela. E ouso dizer que a inclinação me puxava muito fortemente.

Um pouco além de Haia, ela começou a mancar muito e fez o restante da distância com bastante dificuldade. Duas vezes teve de descansar à beira do caminho, o que fez com belas desculpas, chamando a si mesma de vergonha para as Terras Altas e para a raça de onde vinha, e nada mais do que um estorvo para mim. Era sua desculpa, disse ela, que não estava muito acostumada a caminhar calçada. Eu teria querido que ela tirasse os sapatos e as meias e fosse descalça. Mas ela me apontou que as mulheres daquele país, mesmo nas estradas rurais, pareciam estar todas calçadas.

— Não devo desonrar meu irmão — disse ela, e estava muito alegre com tudo isso, embora seu rosto contasse histórias sobre ela.

Há um jardim naquela cidade para a qual estávamos destinados, forrado por baixo com areia limpa, as árvores encontrando-se acima, algumas delas podadas, outras pregadas, e todo o lugar embelezado com aléias e caramanchões. Aqui deixei Catriona e segui sozinho para encontrar meu correspondente. Lá, saquei do meu crédito e pedi para ser recomendado a algum alojamento decente e retirado. Como a minha bagagem ainda não chegara, disse-lhe que supunha que precisaria da sua garantia junto às pessoas da casa; e expliquei que, como minha irmã viera por um tempo para cuidar da casa comigo, eu precisaria de dois quartos. Isso estava tudo muito bem; mas o problema era que o Sr. Balfour, na sua carta de recomendação, condescendera em muitos detalhes, e nunca uma palavra sobre qualquer irmã no caso. Pude ver que meu holandês estava extremamente desconfiado; e observando-me sobre as bordas de um grande par de óculos — ele era um sujeito pobre e frágil, que me lembrava um coelho doente — começou a me questionar de perto.

Aqui entrei em pânico. Suponha que ele aceite minha história (penso eu), suponha que ele convide minha irmã para sua casa, e que eu a leve. Terei um belo novelo emaranhado para desenrolar, e posso acabar desonrando tanto a rapariga quanto a mim mesmo. Imediatamente comecei a expor apressadamente a ele o caráter de minha irmã. Ela era de disposição tímida, ao que parecia, e ficava extremamente receosa de encontrar estranhos, de modo que a deixara naquele momento sentada em um lugar público sozinha. E então, tendo sido lançado no fluxo da falsidade, tive de fazer como todo o resto do mundo na mesma circunstância, e mergulhar mais fundo do que era qualquer serviço; acrescentando alguns detalhes inteiramente desnecessários sobre a saúde frágil e o retiro da Srta. Balfour durante a infância. No meio do que acordei para o sentido do meu comportamento, e virei um rubor só.

O velho cavalheiro não foi tão enganado a ponto de não descobrir uma disposição de se livrar de mim. Mas ele era, antes de tudo, um homem de negócios; e sabendo que meu dinheiro era bom o suficiente, independentemente de como pudesse ser minha conduta, ele foi bastante prestativo ao enviar seu filho para ser meu guia e garantia no assunto do alojamento. Isso implicou a minha apresentação do jovem a Catriona. A pobre e bela criança estava muito recuperada do descanso, parecia e comportava-se com perfeição, e pegou no meu braço e deu-me o nome de irmão mais facilmente do que eu poderia responder-lhe. Mas houve um infortúnio: pensando em ajudar, ela foi bastante comunicativa com meu holandês. E não pude deixar de refletir que a Srta. Balfour tinha, de repente, superado sua timidez. E havia outra coisa, a diferença da nossa fala. Eu tinha a língua dos Países Baixos e arrastava as minhas palavras; ela tinha uma voz de colina, falava com algo de sotaque inglês, apenas muito mais delicioso, e dificilmente era digna de ser chamada de diaconisa no ofício de falar a gramática inglesa; de modo que, como irmão e irmã, formávamos um par muito desigual. Mas o jovem holandês era um sujeito pesado, sem espírito suficiente no ventre para notar a sua beleza, pelo que o desprezei. E assim que encontrou um teto para nossas cabeças, deixou-nos sozinhos, o que foi o maior serviço dos dois.

CAPÍTULO XXIV. A HISTÓRIA COMPLETA DE UM EXEMPLAR DE HEINECCIUS

O lugar encontrado ficava na parte superior de uma casa voltada para um canal. Tínhamos dois quartos, o segundo acessado a partir do primeiro; cada um tinha uma chaminé construída para fora no chão, à maneira holandesa; e sendo adjacentes, cada um tinha a mesma vista da janela do topo de uma árvore abaixo de nós num pequeno pátio, de um pedaço do canal, e de casas na arquitetura holandesa e uma torre de igreja no lado oposto. Um conjunto completo de sinos pendia naquela torre e fazia música deliciosa; e quando havia algum sol, brilhava diretamente em nossos dois quartos. De uma taberna próxima, tínhamos boas refeições enviadas.

Na primeira noite, estávamos ambos bastante cansados, e ela extremamente. Houve pouca conversa entre nós, e eu a despachei para a cama assim que ela comeu. A primeira coisa pela manhã foi escrever para Sprott para que suas malas fossem enviadas, juntamente com uma linha para Alan no seu chefe; e mandei despachar, e seu café da manhã estava pronto, antes que eu a acordasse. Fiquei um pouco envergonhado quando ela saiu com sua única vestimenta, e a lama da estrada em suas meias. Pelas inquirições que fiz, parecia que alguns dias deveriam passar antes que suas malas pudessem chegar a Leiden, e era claramente necessário que ela tivesse uma muda de roupa. Ela não queria, a princípio, que eu tivesse essa despesa; mas lembrei-lhe que ela era agora a irmã de um homem rico e devia aparecer adequadamente no papel, e não tínhamos chegado ao segundo mercador antes que ela estivesse inteiramente encantada com o espírito da coisa, e seus olhos brilhando. Deu-me prazer vê-la tão inocente e completa neste prazer. O que era mais extraordinário era a paixão na qual caí eu mesmo; nunca estando satisfeito por ter comprado o suficiente ou algo bom o suficiente, e nunca cansado de contemplá-la em diferentes trajes. De fato, comecei a entender um pouco da imersão da Srta. Grant no interesse das roupas; pois a verdade é que, quando se tem a base de uma pessoa bela para adornar, todo o negócio torna-se belo. Os chintzes holandeses, devo dizer, eram extraordinariamente baratos e finos; mas eu teria vergonha de registrar o que paguei pelas meias dela. No geral, gastei uma quantia tão grande neste prazer (como posso chamar) que tive vergonha por um bom tempo de gastar mais; e, como compensação, deixei nossos quartos bastante nus. Se tivéssemos camas, se Catriona estivesse um pouco elegante, e eu tivesse luz para vê-la, estávamos ricamente acomodados para mim.

Ao fim desta comercialização, fiquei feliz em deixá-la à porta com todas as nossas compras e sair para uma longa caminhada sozinho, na qual ler uma lição a mim mesmo. Eis que eu tinha tomado sob meu teto, e tão bem quanto sob meu seio, uma jovem rapariga extremamente bela, e cuja inocência era o seu perigo. Minha conversa com o velho holandês, e as mentiras às quais fui constrangido, já me tinham dado uma noção de como minha conduta devia parecer aos outros; e agora, após a forte admiração que eu acabara de experimentar e a imoderação com que continuara minhas vãs compras, comecei a pensar nisso eu mesmo como algo muito arriscado. Ponderei, se eu tivesse uma irmã de fato, se a exporia assim; então, julgando o caso demasiado problemático, variei minha pergunta para esta, se eu confiaria assim Catriona nas mãos de qualquer outro ser cristão; a resposta à qual fez meu rosto queimar. Mais causa, uma vez que eu tinha sido enganado e tinha enganado a rapariga para uma situação indevida, para que eu me comportasse nela com escrupulosa delicadeza. Ela dependia de mim inteiramente para seu pão e abrigo; caso eu alarmasse sua delicadeza, ela não teria recuo. Além disso, eu era seu anfitrião e seu protetor; e quanto mais irregularmente eu tinha caído nessas posições, menos desculpa para mim se eu lucrasse com as mesmas para promover até mesmo a mais honesta pretensão; pois com as oportunidades que eu desfrutava, e que nenhum pai sensato teria permitido por um momento, até mesmo a mais honesta pretensão seria injusta. Vi que devia ser extremamente reservado em minhas relações; e ainda assim não demasiado; pois se eu não tinha direito algum a aparecer como pretendente, devia ainda aparecer continuamente, e se possível agradavelmente, na de anfitrião. Era claro que eu precisaria de muito tato e conduta, talvez mais do que meus anos permitiam. Mas eu tinha me precipitado onde os anjos poderiam ter temido pisar, e não havia saída dessa posição a não ser comportando-me corretamente enquanto estivesse nela. Fiz um conjunto de regras para minha orientação; rezei por força para ser capaz de observá-las, e como uma ajuda mais humana para o mesmo fim, comprei um livro de estudo sobre direito. Sendo isto tudo que eu podia pensar, relaxei dessas graves considerações; pelo que minha mente borbulhou de uma vez em uma efervescência de espíritos agradáveis, e foi como alguém caminhando no ar que me voltei para casa. Enquanto pensava naquele nome de lar, e recordava a imagem daquela figura esperando por mim entre quatro paredes, meu coração batia no meu peito.

Meus problemas começaram com meu retorno. Ela correu para me cumprimentar com um prazer óbvio e comovente. Ela estava vestida, além disso, inteiramente com as roupas novas que eu comprara para ela; parecia nelas além de qualquer expressão bem; e teve de caminhar e fazer-me reverências para exibi-las e ser admirada. Tenho certeza de que o fiz com uma graça ruim, pois pensei que teria engasgado com as palavras.

— Bem — disse ela —, se você não vai se importar com minhas roupas bonitas, veja o que eu fiz com nossos dois quartos. — E ela mostrou-me o lugar tudo muito bem varrido, e os fogos brilhando nas duas chaminés.

Fiquei feliz com a chance de parecer um pouco mais severo do que realmente me sentia. — Catriona — disse eu —, estou muito descontente com você, e nunca mais deve colocar a mão no meu quarto. Um de nós dois deve ter a regra enquanto estamos aqui juntos; é mais adequado que seja eu, que sou tanto o homem quanto o mais velho; e dou-lhe isso como minha ordem.

Ela fez-me uma de suas reverências; as quais eram extraordinariamente cativantes. — Se você vai ser rabugento — disse ela —, devo fazer belos modos para você, Davie. Serei muito obediente, como deveria ser quando cada ponto em tudo o que há de mim pertence a você. Mas você não vai ser muito rabugento também, porque agora eu não tenho ninguém mais.

Isso atingiu-me fortemente, e apressei-me, numa espécie de penitência, a apagar todo o bom efeito do meu último discurso. Nesta direção o progresso era mais fácil, sendo descida; ela conduziu-me adiante, sorrindo; à vista dela, no brilho do fogo e com seus belos acenos e olhares, meu coração derreteu-se completamente. Fizemos nossa refeição com infinita alegria e ternura; e os dois pareciam estar misturados em um só, de modo que nosso próprio riso soava como uma bondade.

No meio do que acordei para melhores recordações, fiz uma palavra de desculpa manca, e coloquei-me grosseiramente aos meus estudos. Era um livro substancial e instrutivo que eu tinha comprado, do falecido Dr. Heineccius, no qual eu deveria fazer uma grande leitura nestes próximos dias, e muitas vezes muito feliz por não ter ninguém para me questionar sobre o que eu lia. Pareceu-me que ela mordeu o lábio um pouco para mim, e isso me cortou. De fato, deixou-a inteiramente solitária, tanto mais que ela era muito pouco leitora, e nunca teve um livro. Mas o que eu devia fazer?

Assim, o resto da noite passou-se quase sem fala.

Eu poderia ter me espancado. Eu não conseguia ficar na minha cama naquela noite por raiva e arrependimento, mas caminhava de um lado para o outro com meus pés descalços até quase perecer, pois a chaminé se apagara e a geada era intensa. O pensamento dela no quarto ao lado, o pensamento de que ela poderia até me ouvir enquanto eu andava, a lembrança da minha grosseria e que eu deveria continuar a praticar o mesmo curso ingrato ou ser desonrado, deixou-me fora da minha razão. Fiquei como um homem entre Cila e Caríbdis: O que ela deve pensar de mim? era meu único pensamento que me amolecia continuamente em fraqueza. O que será de nós? o outro que me endurecia novamente para a resolução. Esta foi minha primeira noite de vigília e conselhos divididos, dos quais eu deveria passar muitos, caminhando como um louco, às vezes chorando como um menino infantil, às vezes rezando (eu gostaria de esperar) como um cristão.

Mas rezar não é muito difícil, e o obstáculo vem na prática. Na sua presença, e acima de tudo se eu permitisse qualquer início de familiaridade, descobri que tinha muito pouco controle sobre o que deveria seguir. Mas sentar-me o dia todo no mesmo quarto com ela, e fingir estar ocupado com Heineccius, superou minhas forças. De modo que caí em vez disso no expediente de me ausentar tanto quanto podia; participando de aulas e sentando-me lá regularmente, muitas vezes com pouca atenção, o teste do qual descobri outro dia em um caderno daquele período, onde eu tinha deixado de seguir uma palestra edificante e realmente rabisquei no meu livro alguns versos muito ruins, embora a latinitade seja um pouco melhor do que pensei que poderia ter alcançado. O mal deste curso era infelizmente quase tão grande quanto sua vantagem. Tive menos tempo de provação, mas acredito, enquanto o tempo durou, fui provado mais extremamente. Pois ela, sendo deixada tanto à solidão, vinha saudar meu retorno com um fervor crescente que quase me dominou. Estas ofertas amigáveis eu deveria rejeitar barbaramente; e minha rejeição às vezes feria-a tão cruelmente que eu devia ceder e procurar compensá-la com bondade. De modo que nosso tempo passava em altos e baixos, brigas e decepções, sobre os quais eu quase poderia dizer (se pode ser dito com reverência) que eu estava crucificado.

A base do meu problema era a extraordinária inocência de Catriona, na qual eu não estava tanto surpreso quanto preenchido de piedade e admiração. Ela parecia não ter pensamento sobre nossa posição, nenhum sentido das minhas lutas; acolhia qualquer marca da minha fraqueza com alegria responsiva; e quando eu era levado novamente às minhas trincheiras, nem sempre dissimulava seu desgosto. Houve vezes em que pensei comigo mesmo: "Se ela estivesse apaixonada e quisesse me pegar, dificilmente se comportaria de outra forma"; e então eu cairia novamente em admiração pela simplicidade da mulher, de quem eu sentia (nesses momentos) que não era digno de ser descendente.

Houve um ponto em particular sobre o qual nossa guerra girava, e de todas as coisas, esta era a questão de suas roupas. Minha bagagem logo me seguiu de Roterdão, e a dela de Helvoet. Ela tinha agora, por assim dizer, dois guarda-roupas; e começou a ser entendido entre nós (eu nunca poderia dizer como) que quando ela estava amigável, ela usaria minhas roupas, e quando não, as dela. Era pretendido como uma ofensa, e (por assim dizer) a renúncia de sua gratidão; e eu senti isso no meu seio, mas geralmente fui mais sábio do que parecer ter observado a circunstância.

Uma vez, de fato, fui traído a uma infantilidade maior que a dela; aconteceu desta maneira. Ao meu retorno das aulas, pensando nela devotamente com muito amor e uma boa dose de aborrecimento, o aborrecimento começou a desaparecer da minha mente; e espiando em uma janela uma daquelas flores forçadas, das quais os holandeses são tão habilidosos no artifício, cedi a um impulso e comprei-a para Catriona. Não sei o nome daquela flor, mas era da cor rosa, e pensei que ela admiraria a mesma, e levei-a para casa para ela com um coração maravilhosamente suave. Eu a tinha deixado com minhas roupas, e quando voltei para encontrá-la toda mudada e com um rosto correspondente, lancei apenas um olhar para ela da cabeça aos pés, rangi os dentes, abri a janela, e joguei minha flor no pátio, e então (entre raiva e prudência) eu mesmo fora daquele quarto novamente, do qual bati a porta ao sair.

Na escada íngreme, quase caí, e isso trouxe-me a mim mesmo, de modo que comecei imediatamente a ver a tolice da minha conduta. Fui, não para a rua como pretendera, mas para o pátio da casa, que era sempre um lugar solitário, e onde vi minha flor (que me custara vastamente mais do que valia) pendurada na árvore sem folhas. Fiquei ao lado do canal, e olhei para o gelo. Pessoas do campo passavam em seus patins, e eu as invejava. Eu não conseguia ver saída para a enrascada em que estava, nem sequer voltar para o quarto que acabara de deixar. Nenhuma dúvida estava na minha mente, exceto que eu tinha agora traído o segredo dos meus sentimentos; e para piorar as coisas, eu tinha mostrado ao mesmo tempo (e isso com uma infeliz infantilidade) incivilidade para com minha convidada indefesa.

Suponho que ela deva ter me visto da janela aberta. Não me pareceu que eu tivesse ficado lá muito tempo antes de ouvir o estalar de passos na neve congelada, e virando-me um tanto irritado (pois eu não estava com espírito para ser interrompido) vi Catriona aproximando-se. Ela estava toda mudada novamente, com as meias bordadas.

— Não vamos ter nossa caminhada hoje? — disse ela.

Eu estava olhando para ela em um labirinto. — Onde está seu broche? — digo eu.

Ela levou a mão ao seio e corou profundamente. — Devo ter esquecido — disse ela. — Vou correr lá em cima para buscá-lo rápido, e então certamente poderemos ter nossa caminhada?

Havia uma nota de súplica naquele último que me fez cambalear; eu não tinha nem palavras nem voz para pronunciá-las; não pude fazer mais do que acenar com a cabeça como resposta; e no momento em que ela me deixou, subi na árvore e recuperei minha flor, que, ao seu retorno, ofereci-lhe.

— Comprei para você, Catriona — disse eu.

Ela fixou-a no meio do seu seio com o broche, eu poderia ter pensado ternamente.

— Não ficou melhor pelo meu manejo — disse eu novamente, e corei.

— Não gostarei menos disso, pode ter certeza — disse ela.

Não conversamos muito naquele dia; ela parecia um pouco reservada, embora não de modo hostil. Quanto a mim, durante todo o tempo da nossa caminhada, e depois que voltamos para casa, e eu a vi colocar minha flor em um vaso com água, eu pensava comigo mesmo em como as mulheres eram um enigma. Eu pensava, num momento, que era a coisa mais estúpida do mundo ela não ter percebido meu amor; e no seguinte, que ela certamente o percebera há muito tempo e (sendo uma moça sensata com o fino instinto feminino da conveniência) ocultara seu conhecimento.

Fazíamos nossa caminhada diariamente. Nas ruas, sentia-me mais seguro; relaxava um pouco em minha cautela; e, além do mais, não havia nenhum Heineccius. Isso tornava esses períodos não apenas um alívio para mim, mas um prazer particular para minha pobre criança. Quando eu voltava na hora marcada, geralmente a encontrava já vestida e brilhando de expectativa. Ela prolongava a duração dos passeios ao extremo, parecendo temer (assim como eu) a hora do retorno; e quase não há campo ou margem de rio perto de Leyden, quase não há rua ou viela ali, onde não tenhamos demorado. Fora disso, eu a proibia de sair de nossos aposentos; isso pelo medo de que encontrasse algum conhecido, o que tornaria nossa posição muito difícil. Pela mesma apreensão, eu nunca permitia que ela fosse à igreja, nem mesmo eu ia; mas dava um jeito de realizar o culto privadamente em nosso próprio quarto — espero que com uma mente honesta, mas tenho certeza de que com um espírito muito dividido. De fato, quase nada me afetava mais do que ajoelhar-me assim, sozinho com ela diante de Deus, como marido e mulher.

Certo dia, nevava pesadamente. Eu pensava não ser possível que nos aventurássemos a sair, e surpreendi-me ao encontrá-la à minha espera, pronta e vestida.

— Não vou ficar sem minha caminhada — exclamou ela. — Você nunca é um bom rapaz, Davie, dentro de casa; nunca vou me importar com você a não ser ao ar livre. Acho que nós dois faríamos melhor em virar egípcios e morar à beira da estrada.

Aquela foi a melhor caminhada de todas; ela se manteve perto de mim na neve que caía; ela batia e derretia sobre nós, e as gotas ficavam em suas bochechas brilhantes como lágrimas e corriam para sua boca sorridente. A força parecia vir sobre mim com aquela visão, como a de um gigante; pensei que poderia tê-la tomado nos braços e corrido com ela para os confins da terra; e conversamos durante todo aquele tempo com uma liberdade e uma doçura inacreditáveis.

Já era noite escura quando chegamos à porta da casa. Ela apertou meu braço contra o seu peito. — Obrigada gentilmente por essas boas horas — disse ela, com um tom profundo na voz.

A preocupação em que caí instantaneamente com essa fala colocou-me, com a mesma rapidez, em guarda; e não tínhamos acabado de entrar no quarto e acender a luz quando ela se deparou com o semblante antigo, severo e obstinado do estudante de Heineccius. Sem dúvida, ela ficou mais magoada do que o habitual; e, quanto a mim, achei mais difícil do que nunca manter qualquer distanciamento. Mesmo durante a refeição, mal me atrevi a descontrair ou levantar os olhos para ela; e, assim que terminou, voltei ao meu livro civil, com mais abstração aparente e menos entendimento do que antes. Parecia-me, enquanto lia, que podia ouvir meu coração bater como um relógio de oito dias. Por mais que fingisse estudar, parte da minha visão ainda se derramava para além do livro sobre Catriona. Ela sentava-se no chão ao lado do meu grande baú, e a lareira iluminava-a, brilhando e piscando sobre ela, fazendo-a brilhar e escurecer através de uma maravilha de tons finos. Agora ela olhava para o fogo, e depois novamente para mim; e, a esse gesto, eu era lançado em um terror de mim mesmo e virava as páginas de Heineccius como um homem procurando o texto na igreja.

De repente, ela chamou em voz alta. — Oh, por que meu pai não vem? — gritou ela, e caiu imediatamente em uma tempestade de lágrimas.

Saltei, joguei Heineccius direto no fogo, corri para o seu lado e lancei um braço em torno de seu corpo soluçante.

Ela me afastou bruscamente. — Você não ama seu amigo — diz ela. — Eu poderia ser tão feliz também, se você me deixasse! — E então: — Oh, o que terei feito para que você me odeie tanto?

— Odiar você! — grito eu, e a segurei com firmeza. — Sua cega, não consegue ver um pouco em meu miserável coração? Você não acha que, quando sento ali lendo esse livro tolo que acabei de queimar, e que vá para o inferno, eu não penso nem por um instante em qualquer coisa aflita além de você mesma? Noite após noite, eu poderia ter chorado por vê-la sentada ali sozinha. E o que eu deveria fazer? Você está aqui sob minha honra; quer me punir por isso? É por isso que você desprezaria um servo amoroso?

Ao ouvir isso, com um pequeno movimento súbito, ela se aproximou de mim. Levantei seu rosto para o meu, beijei-o, e ela curvou a fronte sobre meu peito, abraçando-me com força. Vi tudo num turbilhão como um homem embriagado. Então, ouvi sua voz soar muito pequena e abafada em minhas roupas.

— Você a beijou de verdade? — perguntou ela.

Passou por mim uma onda de surpresa tão grande que fiquei todo trêmulo.

— Srta. Grant? — gritei, em total desordem. — Sim, pedi a ela que me beijasse na despedida, o que ela fez.

— Ah, bem! — disse ela. — Você me beijou também, de qualquer modo.

Com a estranheza e a doçura daquelas palavras, vi onde tínhamos caído; levantei-me e coloquei-a de pé.

— Isso não vai dar certo — disse eu. — Isso nunca, nunca vai dar certo. Oh, Catrine, Catrine! — Então houve uma pausa na qual fui impedido de dizer qualquer coisa. E então: — Vá para sua cama — disse eu. — Vá para sua cama e deixe-me.

Ela virou-se para me obedecer como uma criança e, quando percebi, tinha parado na própria soleira da porta.

— Boa noite, Davie! — disse ela.

— E oh, boa noite, meu amor! — gritei, com um grande estouro da minha alma, e puxei-a para mim novamente, de tal forma que parecia que eu a quebraria. No momento seguinte, empurrei-a para fora do quarto, fechei a porta até com violência e fiquei sozinho.

O leite estava derramado agora, a palavra tinha sido dita e a verdade revelada. Eu tinha me esgueirado como um homem sem confiança para o afeto da pobre moça; ela estava em minha mão como qualquer coisa frágil e inocente para ser moldada ou destruída; e que arma de defesa me restava? Parecia um símbolo que Heineccius, minha antiga proteção, tivesse sido agora queimado. Arrependi-me, mas não pude encontrar em meu coração forças para me culpar por aquele grande fracasso. Não parecia possível ter resistido à audácia de sua inocência ou àquela última tentação de seu pranto. E tudo o que eu tinha para me desculpar só fazia meu pecado parecer maior — foi contra uma natureza tão indefesa, e com tais vantagens de posição, que eu parecia ter agido de má-fé.

O que seria de nós agora? Parecia que não podíamos mais morar no mesmo lugar. Mas para onde eu deveria ir? Ou ela? Sem escolha ou culpa nossa, a vida conspirou para nos enclausurar naquele lugar estreito. Tive um pensamento louco de casar-me imediatamente; e, no momento seguinte, afastei-o com repulsa. Ela era uma criança, não podia conhecer seu próprio coração; eu tinha surpreendido sua fraqueza, eu nunca deveria continuar a construir sobre essa surpresa; eu devia mantê-la não apenas livre de repreensão, mas tão livre quanto ela tinha vindo a mim.

Sentei-me diante do fogo, refleti, arrependi-me e quebrei a cabeça em vão por qualquer meio de fuga. Por volta das duas da manhã, restavam três brasas vermelhas e a casa e toda a cidade estavam dormindo, quando percebi um pequeno som de choro no quarto ao lado. Ela pensava que eu dormia, a pobre alma; ela lamentava sua fraqueza — e o que talvez (que Deus a ajude!) ela chamava de sua audácia — e, na calada da noite, consolava-se com lágrimas. Sentimentos ternos e amargos, amor, penitência e piedade lutavam em minha alma; parecia que eu estava sob a obrigação de curar aquele choro.

— Oh, tente me perdoar! — gritei. — Tente, tente me perdoar. Vamos esquecer tudo isso, vamos tentar ver se não conseguimos esquecer!

Não veio nenhuma resposta, mas o soluço cessou. Fiquei um longo tempo com as mãos ainda juntas como as mantivera ao falar; então o frio da noite apoderou-se de mim com um tremor, e creio que minha razão despertou.

— Você não consegue dar um jeito nisso, Davie — penso eu. — Vá para a cama como um rapaz sensato e veja se consegue dormir. Amanhã você poderá ver o seu caminho.

CAPÍTULO XXV. O RETORNO DE JAMES MORE

Fui chamado na manhã seguinte, saindo de um sono tardio e conturbado, por uma batida em minha porta, corri para abri-la e quase desmaiei com a contrariedade dos meus sentimentos, em sua maioria dolorosos; pois, na soleira, com um casaco rude e um chapéu extraordinariamente grande de abas largas, estava James More.

Eu deveria ter ficado feliz, talvez sem mistura, pois havia um sentido em que o homem vinha como uma resposta a uma prece. Eu vinha dizendo até a exaustão que Catriona e eu devíamos nos separar, e procurando até ficar com dor de cabeça por qualquer meio possível de separação. Eis que os meios vieram a mim sobre duas pernas, e a alegria era o último dos meus pensamentos. Deve-se considerar, no entanto, que, mesmo que o peso do futuro fosse retirado de mim com a chegada do homem, o presente surgia ainda mais negro e ameaçador; de modo que, quando estive diante dele pela primeira vez de camisa e calções, acredito que dei um salto para trás como uma pessoa baleada.

— Ah — disse ele. — Eu o encontrei, Sr. Balfour. — E ofereceu-me sua mão grande e fina, a qual (recuperando ao mesmo tempo meu posto na porta, como se tivesse alguma ideia de resistência) tomei-lhe com hesitação. — É uma circunstância notável como nossos assuntos parecem se misturar — continuou ele. — Devo-lhe um pedido de desculpas por uma intrusão infortunada nos seus, na qual me deixei enredar pela minha confiança naquela falsa face, Prestongrange; sinto vergonha de confessar a você que algum dia confiei em um advogado. — Ele encolheu os ombros com um ar muito francês. — Mas, na verdade, o homem é muito persuasivo — diz ele. — E agora parece que você se ocupou generosamente com o assunto da minha filha, para cuja direção fui remetido a você.

— Acho, senhor — disse eu, com um ar muito penoso — que será necessário que nós dois tenhamos uma explicação.

— Há algo errado? — perguntou ele. — Meu agente, o Sr. Sprott...

— Pelo amor de Deus, modere sua voz! — gritei. — Ela não deve ouvir até que tenhamos tido uma explicação.

— Ela está neste lugar? — exclama ele.

— Aquela é a porta do seu quarto — disse eu.

— Você está aqui sozinho com ela? — perguntou ele.

— E com quem mais eu teria conseguido ficar conosco? — grito eu.

Farei a ele a justiça de admitir que empalideceu.

— Isso é muito incomum — disse ele. — Esta é uma circunstância muito incomum. Você tem razão, devemos ter uma explicação.

Dizendo isso, passou por mim, e devo admitir que o velho patife alto pareceu naquele momento extraordinariamente digno. Ele teve, pela primeira vez, a visão do meu quarto, que examinei (posso dizer) com seus olhos. Um pouco do sol da manhã brilhava através do vidro da janela e o mostrava; minha cama, meus baús e bacia de lavagem, com alguma desordem em minhas roupas, e a lareira apagada, faziam o único mobiliário; sem dúvida, parecia nu e frio, e o lugar mais inadequado e miserável concebível para abrigar uma jovem dama. Ao mesmo tempo, veio à minha mente a lembrança das roupas que eu tinha comprado para ela; e pensei que esse contraste de pobreza e prodigalidade tinha uma má aparência.

Ele olhou por todo o quarto procurando um assento e, não encontrando nada mais adequado, exceto minha cama, tomou um lugar na borda dela; onde, depois que fechei a porta, não pude evitar juntar-me a ele. Pois, independentemente de como essa entrevista extraordinária terminasse, ela deveria passar, se possível, sem acordar Catriona; e a única coisa necessária era que nos sentássemos perto e falássemos baixo. Mas mal posso descrever o par que formávamos; ele em seu grande sobretudo que a frieza do meu quarto tornava extremamente adequado; eu tremendo em minha camisa e calções; ele com muito ar de juiz; e eu (seja lá o que parecesse) com muito sentimento de um homem que ouviu a última trombeta.

— Bem? — diz ele.

E — Bem — comecei, mas descobri que não conseguia ir mais longe.

— Você me diz que ela está aqui? — disse ele novamente, mas agora com uma pitada de impaciência que pareceu me fortalecer.

— Ela está nesta casa — disse eu — e eu sabia que a circunstância seria chamada de incomum. Mas você deve considerar quão muito incomum todo o negócio foi desde o início. Eis uma jovem dama desembarcada na costa da Europa com dois xelins e um centavo e meio. Ela é dirigida àquele homem Sprott em Helvoet. Ouço você chamá-lo de seu agente. Tudo o que posso dizer é que ele não podia fazer nada além de amaldiçoar e jurar à mera menção do seu nome, e eu tive que pagá-lo do meu próprio bolso apenas para receber a custódia de seus pertences. Você fala de circunstâncias incomuns, Sr. Drummond, se esse é o nome que prefere. Eis uma circunstância, se quiser, à qual foi uma barbárie tê-la exposto.

— Mas isso é o que não consigo entender de forma alguma — disse James. — Minha filha foi colocada sob os cuidados de algumas pessoas responsáveis, cujos nomes esqueci.

— Gebbie era o nome — disse eu; — e não há dúvida de que o Sr. Gebbie deveria ter desembarcado com ela em Helvoet. Mas ele não o fez, Sr. Drummond; e acho que você deveria agradecer a Deus que eu estava lá para me oferecer em seu lugar.

— Terei uma palavra a dizer ao Sr. Gebbie em breve — disse ele. — Quanto a você, acho que poderia ter ocorrido que você era um pouco jovem para tal posto.

— Mas a escolha não era entre mim e outra pessoa, era entre mim e ninguém — gritei. — Ninguém se ofereceu em meu lugar, e devo dizer que acho que você demonstra um grau muito pequeno de gratidão a mim que o fiz.

— Vou esperar até entender um pouco mais a minha obrigação — diz ele.

— De fato, e acho que ela encara você de frente, então — disse eu. — Sua filha foi abandonada, ela foi simplesmente jogada no meio da Europa, com quase dois xelins, e não duas palavras de qualquer língua falada lá: devo dizer, um belo negócio! Eu a trouxe para este lugar. Dei-lhe o nome e a ternura devidos a uma irmã. Tudo isso não aconteceu sem despesas, mas isso mal preciso mencionar. Foram serviços devidos ao caráter da jovem, que respeito; e acho que seria um belo negócio também se eu tivesse que cantar seus louvores ao seu pai.

— Você é um homem jovem — começou ele.

— É o que ouço você me dizer — disse eu, com bastante calor.

— Você é um homem muito jovem — repetiu ele — ou teria entendido o significado do passo.

— Acho que você fala muito à vontade — gritei. — O que mais eu deveria fazer? É um fato que eu poderia ter contratado alguma mulher decente e pobre para ser uma terceira entre nós, e declaro que nunca pensei nisso até este momento! Mas onde eu a encontraria, que sou um estrangeiro? E deixe-me apontar à sua observação, Sr. Drummond, que isso teria me custado dinheiro do meu próprio bolso. Pois aqui é exatamente a que ponto chegamos, que tive que pagar caro pela sua negligência; e só existe uma história para isso, apenas que você foi tão desamoroso e tão descuidado a ponto de ter perdido sua filha.

— Aquele que vive em uma casa de vidro não deve atirar pedras — diz ele; — e terminaremos de investigar o comportamento da Srta. Drummond antes de passarmos a julgar seu pai.

— Mas não serei enredado em tal atitude — disse eu. — O caráter da Srta. Drummond está muito acima de qualquer investigação, como o pai dela deveria saber. O meu também, e estou lhe dizendo isso. Existem apenas dois caminhos abertos. O primeiro é expressar sua gratidão a mim como um cavalheiro ao outro, e não dizer mais nada. O outro (se você é tão difícil a ponto de ainda estar insatisfeito) é pagar-me o que gastei e acabar com isso.

Ele pareceu me acalmar com uma mão no ar. — Lá, lá — disse ele. — Você vai rápido demais, você vai rápido demais, Sr. Balfour. É uma coisa boa que aprendi a ser mais paciente. E acredito que você esquece que ainda tenho que ver minha filha.

Comecei a ficar um pouco aliviado com essa fala e com uma mudança na maneira do homem que notei nele assim que o nome do dinheiro caiu entre nós.

— Eu pensava que seria mais adequado — se você me desculpar a simplicidade da minha vestimenta em sua presença — que eu saísse e o deixasse encontrá-la sozinho? — disse eu.

— O que eu esperaria de suas mãos! — diz ele; e não havia dúvida de que ele disse isso educadamente.

Achei isso cada vez melhor e, enquanto começava a vestir minhas meias, lembrando-me da mendicância insolente do homem em Prestongrange, decidi perseguir o que parecia ser minha vitória.

— Se você tem alguma intenção de ficar algum tempo em Leyden — disse eu —, este quarto está muito à sua disposição, e posso facilmente encontrar outro para mim: dessa maneira, teremos a menor quantidade de mudança possível, havendo apenas um para trocar.

— Por que, senhor — disse ele, estufando o peito — não sinto vergonha de uma pobreza que adquiri a serviço do meu rei; não faço segredo de que meus assuntos estão bastante complicados; e, por um momento, seria até impossível para mim empreender uma viagem.

— Até que você tenha ocasião de se comunicar com seus amigos — disse eu —, talvez pudesse ser conveniente para você (como é claro que seria honroso para mim) se você se considerasse sob a luz de meu convidado?

— Senhor — disse ele —, quando uma oferta é feita francamente, acho que me honro mais ao imitar essa franqueza. Sua mão, Sr. David; você tem o caráter que mais respeito; você é um daqueles de quem um cavalheiro pode aceitar um favor e nada mais. Sou um velho soldado — continuou ele, olhando com um ar de desgosto ao redor do meu quarto —, e você não precisa temer que eu me torne um fardo. Já comi muitas vezes na beira de um dique, bebi da vala e não tive outro teto além da chuva.

“Devo lhe dizer”, disse eu, “que nossos cafés da manhã são trazidos costumeiramente por esta hora da manhã. Proponho que eu vá agora à taverna e peça que adicionem um lugar para o senhor e atrasem a refeição cerca de uma hora, o que lhe dará um intervalo para encontrar sua filha.”

Pareceu-me que suas narinas se agitaram com isso. “Oh, uma hora?”, diz ele. “Isso é talvez supérfluo. Meia hora, Sr. David, ou digamos vinte minutos; ficarei muito bem com isso. E, a propósito”, acrescenta ele, detendo-me pelo casaco, “o que o senhor bebe pela manhã, seja cerveja ou vinho?”

“Para ser franco com o senhor”, digo eu, “não bebo nada além de água pura e fria.”

“Tut-tut”, diz ele, “isso é uma verdadeira destruição para o estômago, aceite a palavra de um velho soldado. Nosso espírito nacional em casa é talvez o mais inteiramente saudável; mas, como isso não é acessível, Reno ou um vinho branco da Borgonha serão a melhor alternativa.”

“Farei questão de garantir que o senhor seja servido”, disse eu.

“Ora, muito bem”, disse ele, “e ainda faremos um homem do senhor, Sr. David.”

A esta altura, mal posso dizer que eu estivesse prestando atenção nele, além de um pensamento estranho sobre o tipo de sogro que ele provavelmente se revelaria; e todas as minhas preocupações se centravam na moça, sua filha, a quem decidi transmitir algum aviso sobre seu visitante. Dei um passo até a porta, portanto, e gritei através dos painéis, batendo neles ao mesmo tempo: “Srta. Drummond, aqui está seu pai que finalmente chegou.”

Com isso, saí para cumprir minha tarefa, tendo (com duas palavras) prejudicado extraordinariamente meus assuntos.

CAPÍTULO XXVI. O TRIO

Se eu devia ser tão culpado, ou talvez antes digno de pena, devo deixar que outros julguem. Minha perspicácia (da qual também possuo uma boa dose) não parece ser tão grande com as damas. Sem dúvida, no momento em que a despertei, eu pensava muito no efeito sobre James More; e da mesma forma, quando retornei e estávamos todos sentados para o café da manhã, continuei a me comportar com a jovem com deferência e distanciamento; como ainda penso ter sido o mais sensato. Seu pai levantara dúvidas sobre a inocência de nossa amizade; e estas, era minha primeira tarefa dissipar. Mas há um tipo de desculpa para Catriona também. Compartilháramos uma cena de certa ternura e paixão, e dado e recebido carícias: eu a afastara de mim com violência; eu a chamara em voz alta na noite, de um quarto para o outro; ela passara horas de vigília e choro; e não se deve supor que eu estivesse ausente dos pensamentos em seu travesseiro. Após isso, ser despertada, com uma formalidade inabitual, sob o nome de Srta. Drummond, e ser tratada dali em diante com uma grande dose de distanciamento e respeito, levou-a inteiramente ao erro quanto aos meus sentimentos particulares; e ela ficou, de fato, tão incrivelmente enganada a ponto de me imaginar arrependido e tentando me afastar!

O problema entre nós parece ter sido este: que enquanto eu (desde que pus os olhos em seu grande chapéu) pensava apenas em James More, seu retorno e suspeitas, ela dava tão pouco valor a isso que posso dizer que mal os notou, e todas as suas preocupações e ações diziam respeito ao que acontecera entre nós na noite anterior. Isso se explica em parte pela inocência e audácia de seu caráter; e em parte porque James More, tendo se saído tão mal em sua entrevista comigo, ou tendo a boca fechada pelo meu convite, não lhe disse uma palavra sobre o assunto. No café da manhã, portanto, logo apareceu que estávamos em direções opostas. Eu esperava encontrá-la com roupas suas: encontrei-a (como se seu pai fosse esquecido) vestindo algumas das melhores que comprei para ela, e nas quais ela sabia (ou pensava) que eu a admirava. Eu esperava vê-la imitar minha afetação de distanciamento e ser muito precisa e formal; em vez disso, encontrei-a corada e com ar selvagem, com olhos extraordinariamente brilhantes e uma expressão dolorosa e variável, chamando-me pelo nome com uma espécie de apelo de ternura, e referindo-se e deferindo aos meus pensamentos e desejos como uma esposa ansiosa ou suspeita.

Mas isso não durou muito. Ao vê-la tão descuidada de seus próprios interesses, que eu pusera em risco e agora tentava recuperar, redobrei minha própria frieza a modo de lição para a moça. Quanto mais ela se aproximava, mais eu me afastava; quanto mais ela traía a proximidade de nossa intimidade, mais pontualmente civil eu me tornava, até que mesmo seu pai (se não estivesse tão absorto em comer) poderia ter observado a oposição. No meio disso, de repente, ela mudou completamente, e eu disse a mim mesmo, com um grande alívio, que ela finalmente entendera a dica.

O dia todo estive em minhas aulas ou em busca de minha nova hospedagem; e embora a hora de nosso passeio costumeiro pesasse miseravelmente sobre mim, não posso dizer que não estivesse feliz, no geral, por encontrar meu caminho livre, a moça novamente sob a guarda apropriada, o pai satisfeito ou pelo menos aquiescente, e eu livre para perseguir meu amor com honra. No jantar, como em todas as nossas refeições, foi James More quem falou. Sem dúvida, ele falava bem, se alguém pudesse acreditar nele. Mas falarei dele mais extensamente em breve. Terminada a refeição, ele se levantou, pegou seu sobretudo e, olhando (como pensei) para mim, observou que tinha negócios na rua. Tomei isso como um sinal de que eu também deveria ir, e levantei-me; ao que a moça, que mal me cumprimentara na entrada, voltou seus olhos para mim, bem abertos, com um olhar que me ordenava ficar. Fiquei entre eles como um peixe fora d'água, voltando-me de um para o outro; nenhum parecia me observar, ela olhando para o chão, ele abotoando o casaco: o que aumentou vastamente meu embaraço. Essa aparência de indiferença argumentava, da parte dela, uma grande dose de raiva muito próxima de explodir. Da parte dele, achei horrivelmente alarmante; tive certeza de que havia uma tempestade se formando ali; e considerando isso como o principal perigo, voltei-me para ele e coloquei-me (por assim dizer) nas mãos do homem.

“Posso fazer algo pelo senhor, Sr. Drummond?”, digo eu.

Ele abafou um bocejo, que novamente tomei por duplicidade. “Ora, Sr. David”, disse ele, “já que o senhor é tão prestativo ao propor isso, poderia me mostrar o caminho para uma certa taverna” (da qual ele deu o nome) “onde espero encontrar alguns velhos companheiros de armas.”

Não havia mais nada a dizer, e peguei meu chapéu e manto para lhe fazer companhia.

“E quanto a você”, diz ele à filha, “é melhor você ir para sua cama. Chegarei tarde em casa, e *cedo para a cama e cedo para levantar, fazem as lindas moças terem olhos brilhantes*.”

Com isso, ele a beijou com muita ternura e me conduziu à frente dele para fora da porta. Isso foi feito (pensei que de propósito) de modo que fosse quase impossível haver qualquer saudação de despedida; mas notei que ela não olhou para mim, e atribuí isso ao terror de James More.

Havia uma certa distância até aquela taverna. Ele falou todo o caminho sobre assuntos que não me interessavam minimamente, e à porta dispensou-me com modos vazios. De lá, caminhei para minha nova hospedagem, onde eu não tinha sequer uma chaminé para me manter aquecido, e nenhuma companhia além de meus próprios pensamentos. Estes ainda estavam bastante brilhantes; eu não cheguei a sonhar que Catriona estava contra mim; achei que éramos como pessoas comprometidas; achei que estivéramos próximos demais e falado calorosamente demais para sermos separados, menos ainda pelo que eram apenas passos em uma política muito necessária. E minha principal preocupação era apenas o tipo de sogro que eu estava ganhando, que não era de forma alguma o que eu teria escolhido: e a questão de quão cedo eu deveria falar com ele, o que era um ponto delicado em vários aspectos. Em primeiro lugar, quando pensei em quão jovem eu era, corei todo e quase tive vontade de desistir; apenas que, se eu os deixasse partir de Leyden sem explicação, eu poderia perdê-la completamente. E, em segundo lugar, havia nossa situação muito irregular a ser levada em conta, e a medida bastante escassa de satisfação que eu dera a James More naquela manhã. Concluí, no geral, que o atraso não prejudicaria nada, mas também não me atrasaria muito; e fui para minha cama fria com o coração cheio.

No dia seguinte, como James More parecia um pouco queixoso a respeito do meu quarto, ofereci-me para trazer mais mobília; e, chegando à tarde, com carregadores trazendo cadeiras e mesas, encontrei a moça mais uma vez entregue a si mesma. Ela me cumprimentou civilmente ao entrar, mas retirou-se imediatamente para seu próprio quarto, do qual fechou a porta. Fiz minha disposição e paguei e dispensei os homens para que ela pudesse ouvi-los partir, quando supus que ela sairia imediatamente para falar comigo. Esperei ainda um pouco, então bati em sua porta.

“Catriona!”, disse eu.

A porta foi aberta tão rapidamente, antes mesmo de eu terminar a palavra, que pensei que ela devia estar parada atrás dela ouvindo. Ela permaneceu ali no intervalo, bem quieta; mas tinha um olhar a que não posso dar nome, como alguém em um problema amargo.

“Não teremos nosso passeio hoje também?”, falhei eu.

“Agradeço-lhe”, disse ela. “Não me importarei muito em caminhar, agora que meu pai voltou para casa.”

“Mas acho que ele mesmo saiu e a deixou aqui sozinha”, disse eu.

“E você acha que isso foi dito muito gentilmente?”, ela perguntou.

“Não foi dito com maldade”, respondi. “O que a aflige, Catriona? O que lhe fiz para que se voltasse contra mim assim?”

“Não me volto contra você de forma alguma”, disse ela, falando com muito cuidado. “Serei sempre grata ao meu amigo que foi bom para mim; serei sempre sua amiga em tudo o que puder. Mas agora que meu pai James More voltou, há uma diferença a ser feita, e acho que há coisas ditas e feitas que seria melhor esquecer. Mas serei sempre sua amiga em tudo o que puder, e se isso não for tudo que... se não for tanto... Não que você vá se importar! Mas eu não gostaria que pensasse mal de mim. Era verdade o que você me disse, que eu era jovem demais para ser aconselhada, e espero que se lembre de que eu era apenas uma criança. Não gostaria de perder sua amizade, de qualquer maneira.”

Ela começou isso muito pálida; mas, antes de terminar, o sangue estava em seu rosto como escarlate, de modo que não apenas suas palavras, mas seu rosto e o tremor de suas mãos, suplicavam-me que fosse gentil. Vi, pela primeira vez, quão errado eu estivera ao colocar a criança naquela posição, onde ela fora enredada em um momento de fraqueza, e agora estava diante de mim como uma pessoa envergonhada.

“Srta. Drummond”, disse eu, e travei, e fiz o mesmo começo mais uma vez, “gostaria que pudesse ver meu coração”, gritei. “Você leria lá que meu respeito permanece inalterado. Se fosse possível, eu diria que aumentou. Este é apenas o resultado do erro que cometemos; e tinha que acontecer; e quanto menos falarmos disso agora, melhor. De toda a nossa vida aqui, prometo-lhe que jamais passará pelos meus lábios; gostaria de prometer-lhe também que jamais pensarei nisso, mas é uma memória que me será sempre cara. E quanto a um amigo, você tem um aqui que morreria por você.”

“Agradeço-lhe”, disse ela.

Ficamos um tempo em silêncio, e minha dor por mim mesmo começou a levar a melhor; pois aqui estavam todos os meus sonhos desmoronando tristemente, e meu amor perdido, e eu novamente sozinho no mundo como no início.

“Bem”, disse eu, “seremos amigos sempre, isso é uma coisa certa. Mas isto é uma espécie de despedida, também: é uma espécie de despedida, afinal; conhecerei sempre a Srta. Drummond, mas esta é uma despedida da minha Catriona.”

Olhei para ela; mal posso dizer que a vi, mas ela pareceu crescer e brilhar em meus olhos; e com isso suponho que devo ter perdido a cabeça, pois chamei seu nome novamente e dei um passo em sua direção com as mãos estendidas.

Ela recuou como uma pessoa atingida, seu rosto flamejou; mas o sangue não subiu mais rápido às suas bochechas do que fluiu de volta ao meu próprio coração, ao vê-lo, com penitência e preocupação. Não encontrei palavras para me desculpar, mas curvei-me profundamente diante dela e segui meu caminho para fora da casa com a morte em meu peito.

Acho que foram cerca de cinco dias que se seguiram sem qualquer mudança. Eu a via quase nunca, exceto nas refeições, e então, é claro, na companhia de James More. Se ficávamos sozinhos nem que fosse por um momento, eu fazia o meu dever de me comportar ainda mais distante e multiplicar atenções respeitosas, tendo sempre em minha mente aquela imagem da moça encolhendo-se e flamejando em um rubor, e em meu coração mais pena dela do que eu poderia descrever em palavras. Eu sentia pena suficiente de mim mesmo, não preciso insistir nisso, tendo caído de todo o meu comprimento e mais do que toda a minha altura em poucos segundos; mas, na verdade, eu sentia quase tanta pena da moça, e pena suficiente para mal ficar zangado com ela, exceto em lampejos. Sua súplica era boa; ela fora colocada em uma posição injusta; se ela se enganara e me enganara, não era mais do que se poderia esperar.

E, por outro lado, ela estava agora muito sozinha. Seu pai, quando estava por perto, era um pai bastante carinhoso; mas era muito facilmente levado por seus negócios e prazeres, negligenciava-a sem remorso ou comentário, passava suas noites em tavernas quando tinha dinheiro, o que era mais frequente do que eu poderia explicar; e, mesmo no decorrer desses poucos dias, falhou uma vez em comparecer a uma refeição, que Catriona e eu fomos finalmente obrigados a compartilhar sem ele. Era a refeição noturna, e saí imediatamente após ter comido, observando que supunha que ela preferiria estar sozinha; ao que ela concordou e (estranho como possa parecer) eu acreditei nela completamente. De fato, eu me considerava apenas um obstáculo para a moça, e um lembrete de um momento de fraqueza que ela agora detestava pensar. Então ela devia sentar-se sozinha naquela sala onde ela e eu fôramos tão alegres, e sob o brilho daquela chaminé cuja luz brilhou sobre nossos muitos momentos difíceis e ternos. Lá ela devia sentar-se sozinha, e pensar em si mesma como uma donzela que oferecera de forma pouco recatada seus afetos e tivera os mesmos rejeitados. E, enquanto isso, eu ficaria sozinho em algum outro lugar, lendo para mim mesmo (sempre que fosse tentado a ficar zangado) lições sobre a fragilidade humana e a delicadeza feminina. E, ao todo, suponho que nunca houve dois pobres tolos que se fizeram mais infelizes em um equívoco maior.

Quanto a James, ele não prestava tanta atenção a nós, ou a qualquer coisa na natureza, exceto seu bolso, sua barriga e sua própria fala tagarela. Antes de doze horas passarem, ele me pedira um pequeno empréstimo; antes de trinta, pedira um segundo e fora recusado. Dinheiro e recusa ele aceitou com o mesmo tipo de alta e boa índole. De fato, ele tinha uma aparência externa de magnanimidade que era muito adequada para impor a uma filha; e a luz em que ele era constantemente apresentado em sua conversa, e a presença refinada do homem e seus grandes modos, combinavam de forma bastante harmoniosa. De modo que um homem que não tivesse negócios com ele, e ou muita pouca penetração ou uma dose furiosa de preconceito, poderia quase ter sido enganado. Para mim, após minhas duas primeiras entrevistas, ele era tão claro quanto a luz do dia; vi que ele era perfeitamente egoísta, com uma perfeita inocência nisso; e eu ouvia sua conversa arrogante (sobre armas, e "um velho soldado", e "um pobre cavalheiro das Terras Altas", e "a força do meu país e meus amigos") como poderia ouvir o balbucio de um papagaio.

O estranho é que imagino que ele acreditava em parte disso, ou o fazia às vezes; acho que ele era tão falso por completo que mal sabia quando estava mentindo; e, por um lado, seus momentos de abatimento deviam ser inteiramente genuínos. Havia momentos em que ele seria a criatura mais silenciosa, afetuosa e apegada possível, segurando a mão de Catriona como um grande bebê, e implorando-me para não partir se eu tivesse algum amor por ele; do qual, na verdade, eu não tinha nenhum, mas todo o mais por sua filha. Ele insistia e até nos suplicava para entretê-lo com nossa conversa, uma coisa muito difícil no estado de nossas relações; e novamente irrompia em arrependimentos lamentáveis por sua própria terra e amigos, ou em cantorias em gaélico.

“Esta é uma das melodias melancólicas da minha terra natal”, ele dizia. “O senhor pode achar estranho ver um soldado chorar, e na verdade é para torná-lo um amigo próximo”, diz ele. “Mas as notas deste canto estão em meu sangue, e as palavras saem do meu coração. E quando me lembro das minhas montanhas vermelhas e dos pássaros selvagens chamando lá, e das bravas correntes de água correndo, eu dificilmente sentiria vergonha de chorar diante dos meus inimigos.” Então ele cantava novamente, e traduzia para mim pedaços da canção, com muita dificuldade e muito desprezo expresso contra a língua inglesa. “Diz aqui”, ele dizia, “que o sol se pôs, e a batalha chegou ao fim, e os bravos chefes foram derrotados. E conta aqui como as estrelas os veem fugindo para países estranhos ou deitados mortos na montanha vermelha; e eles nunca mais gritarão o chamado da batalha ou lavarão seus pés nos riachos do vale. Mas se o senhor tivesse apenas um pouco desta língua, choraria também porque as palavras dela estão além de toda expressão, e é mera zombaria dizer-lhe isso em inglês.”

Bem, pensei que havia uma boa dose de zombaria no negócio, de uma forma ou de outra; e ainda assim, havia algum sentimento também, pelo qual eu o odiava, acho, pior de tudo. E costumava me cortar até a alma ver Catriona tão preocupada com o velho patife, e chorando ela mesma ao vê-lo chorar, quando eu tinha certeza de que metade de sua angústia fluía de sua bebedeira na noite anterior em alguma taverna. Houve momentos em que fui tentado a lhe emprestar uma boa quantia e ver o fim dele de uma vez por todas; mas isso teria sido ver o fim de Catriona também, para o qual eu mal estava preparado; e, além disso, ia contra minha consciência desperdiçar meu bom dinheiro em alguém que era tão pouco marido.

Creio que foi por volta do quinto dia, e sei ao menos que James estava em um de seus acessos de melancolia, quando recebi três cartas. A primeira era de Alan, oferecendo-se para visitar-me em Leyden; as outras duas eram da Escócia e motivadas pelo mesmo assunto, que era a morte de meu tio e minha completa ascensão aos meus direitos. A de Rankeillor era, naturalmente, sob um ponto de vista puramente comercial; a da senhorita Grant era como ela mesma, um pouco mais espirituosa do que sensata, cheia de censuras a mim por não ter escrito (embora, como eu poderia escrever com tais notícias?) e de gracejos sobre Catriona, o que me feria profundamente ler na sua própria presença.

Pois foi, naturalmente, em meus próprios aposentos que as encontrei ao chegar para o jantar, de modo que fui surpreendido com minhas notícias no primeiro momento em que as li. Isso proporcionou uma distração bem-vinda para nós três, nem qualquer um poderia ter previsto as consequências funestas que se seguiram. Foi um acaso que trouxe as três cartas no mesmo dia, e que as entregou em minhas mãos no mesmo aposento com James More; e de todos os eventos que fluíram desse acaso, e que eu poderia ter evitado se tivesse mantido minha língua, a verdade é que eles já estavam preordenados antes que Agrícola viesse à Escócia ou que Abraão partisse em suas viagens.

A primeira que abri foi, naturalmente, a de Alan; e o que seria mais natural do que eu comentar sobre seu plano de visitar-me? Mas notei que James sentou-se com um ar de atenção imediata.

“Não é esse o Alan Breck que era suspeito do incidente em Appin?”, ele inquiriu.

Disse-lhe que “sim”, era o mesmo; e ele me reteve por algum tempo de minhas outras cartas, perguntando sobre nossa amizade, sobre o modo de vida de Alan na França, do qual eu sabia muito pouco, e, além disso, sobre sua visita tal como proposta.

“Todos nós, gente proscrita, andamos um pouco juntos”, explicou ele, “e, além disso, conheço o cavalheiro: e embora sua linhagem não seja das melhores, e na verdade ele não tenha verdadeiro direito de usar o nome de Stewart, ele era muito admirado nos dias de Drummossie. Ele agiu lá como um soldado; se alguns que não precisam ser nomeados tivessem agido tão bem, o desfecho não precisaria ser tão melancólico de recordar. Houve dois que fizeram o seu melhor naquele dia, e isso cria um vínculo entre nós dois”, diz ele.

Mal pude conter o impulso de mostrar-lhe a língua, e quase desejei que Alan estivesse ali para ter inquirido um pouco mais sobre aquela menção ao seu nascimento. Embora, como me dizem, o mesmo não fosse, de fato, inteiramente regular.

Enquanto isso, eu abrira a da senhorita Grant e não pude conter uma exclamação.

“Catriona”, exclamei, esquecendo-me, pela primeira vez desde que seu pai chegara, de tratá-la por um título, “entrei finalmente em meu reino, sou de fato o senhor de Shaws — meu tio morreu enfim.”

Ela bateu as palmas, saltando de seu assento. No momento seguinte, deve ter passado por ambos ao mesmo tempo a pouca causa de alegria que restava a qualquer um de nós, e ficamos ali parados, um defronte ao outro, olhando-nos tristemente.

Mas James mostrou-se um hipócrita pronto. “Minha filha”, diz ele, “é assim que meu primo lhe ensinou a se comportar? O senhor David perdeu um novo amigo, e deveríamos primeiro oferecer nossas condolências pelo seu luto.”

“Na verdade, senhor”, disse eu, voltando-me para ele com uma espécie de raiva, “não posso fazer tais caras de pesar. Sua morte é a notícia mais alegre que já recebi.”

“É a filosofia de um bom soldado”, diz James. “É o caminho da carne, todos devemos ir, todos devemos ir. E se o cavalheiro estava tão longe de seu agrado, ora, muito bem! Mas podemos pelo menos parabenizá-lo por sua ascensão às suas propriedades.”

“Nem posso dizer isso também”, respondi, com o mesmo calor. “É uma boa propriedade; o que importa isso a um homem solitário que já tem o suficiente? Eu já tinha uma boa renda antes, em minha frugalidade; e, tirando a morte do homem — o que me gratifica, vergonha para mim que devo confessar isso! — não vejo como alguém possa ser beneficiado por essa mudança.”

“Ora, ora”, disse ele, “você está mais afetado do que deixa transparecer, ou nunca se faria de tão solitário. Aqui estão três cartas; isso significa três que lhe desejam o bem; e eu poderia nomear mais dois, aqui neste mesmo recinto. Não o conheço há muito tempo, mas Catriona, quando estamos a sós, nunca termina de cantar seus louvores.”

Ela olhou para ele, um pouco agitada com aquilo; e ele desviou-se de imediato para outro assunto, a extensão de minha propriedade, sobre a qual (durante a maior parte do tempo do jantar) ele continuou a discorrer com interesse. Mas foi em vão que ele dissimulou; ele havia tocado no assunto com mão pesada demais: e eu sabia o que esperar. O jantar mal fora comido quando ele claramente revelou seus desígnios. Lembrou Catriona de um recado e pediu que ela cuidasse disso. “Não vejo por que você deveria demorar além de uma hora”, acrescentou ele, “e o amigo David terá a gentileza de me fazer companhia até que você retorne.” Ela apressou-se em obedecê-lo sem palavras. Não sei se ela entendeu, acredito que não; mas eu estava completamente satisfeito e sentei-me, fortalecendo minha mente para o que viria a seguir.

A porta mal se fechara atrás dela quando o homem recostou-se em sua cadeira e dirigiu-se a mim com uma boa afetação de naturalidade. Apenas uma coisa o traía, e era seu rosto; que de repente brilhava por toda parte com pequenas gotas de suor.

“Estou bastante contente por ter uma palavra a sós com você”, diz ele, “porque em nossa primeira entrevista houve algumas expressões que você compreendeu mal e eu há muito pretendia corrigi-lo. Minha filha está acima de qualquer dúvida. Assim como você, e eu faria valer isso com minha espada contra todos os que a contestassem. Mas, meu caro David, este mundo é um lugar censor — como quem saberia melhor do que eu, que tenho vivido desde os dias de meu falecido pai, que Deus o tenha!, em uma perfeita torrente de calúnias? Temos de encarar isso; você e eu temos de considerar isso; temos de considerar isso.” E ele balançava a cabeça como um ministro em um púlpito.

“Com que propósito, senhor Drummond?”, disse eu. “Ficar-lhe-ia grato se chegasse ao ponto.”

“Sim, sim”, disse ele, rindo, “como seu caráter, de fato! E o que mais admiro nele. Mas o ponto, meu caro colega, está às vezes em um detalhe delicado.” Ele encheu uma taça de vinho. “Embora, entre você e eu, que somos amigos tão próximos, isso não precise nos incomodar por muito tempo. O ponto, não preciso dizer, é minha filha. E a primeira coisa é que não tenho em mente culpa alguma a atribuir a você. Nas circunstâncias infelizes, o que mais você poderia fazer? De fato, não sei dizer.”

“Agradeço-lhe por isso”, disse eu, bastante em guarda.

“Eu, além disso, estudei seu caráter”, continuou ele; “seus talentos são razoáveis; você parece ter uma competência moderada, o que não faz mal; e, somando uma coisa à outra, estou muito feliz em anunciar-lhe que decidi pela segunda das duas vias abertas.”

“Receio ser obtuso”, disse eu. “Que vias são essas?”

Ele franziu as sobrancelhas para mim de forma formidável e descruzou as pernas. “Ora, senhor”, diz ele, “acho que não preciso descrevê-las a um cavalheiro de sua condição; ou que eu corte sua garganta, ou que você se case com minha filha.”

“Você se dá ao trabalho de ser bastante direto, enfim”, disse eu.

“E acredito que tenho sido direto desde o início!”, exclama ele com estridência. “Sou um pai zeloso, senhor Balfour; mas, graças a Deus, um homem paciente e ponderado. Há muitos pais, senhor, que o teriam arrastado de imediato ou para o altar ou para o campo. Minha estima pelo seu caráter...”

“Senhor Drummond”, interrompi, “se você tem qualquer estima por mim, peço-lhe que modere sua voz. É totalmente desnecessário vociferar contra um cavalheiro que está no mesmo recinto que você e lhe dedica sua melhor atenção.”

“Ora, muito verdade”, diz ele, com uma mudança imediata. “E você deve desculpar as agitações de um pai.”

“Compreendo-o, então” — continuei, pois não darei atenção à sua outra alternativa, que talvez tenha sido uma pena que você tenha deixado escapar —, “entendo que você prefere me oferecer encorajamento caso eu deseje pedir a mão de sua filha?”

“Não é possível expressar melhor o meu significado”, disse ele, “e vejo que nos daremos bem.”

“Isso ainda resta ver”, disse eu. “Mas faço questão de não esconder que nutro pela dama a que se refere a mais terna afeição, e não poderia imaginar, nem em sonho, melhor fortuna do que tê-la.”

“Eu tinha certeza disso, senti-me seguro quanto a você, David”, ele exclamou, e estendeu-me a mão.

Eu a afastei. “Você vai rápido demais, senhor Drummond”, disse eu. “Há condições a serem estabelecidas; e há uma dificuldade no caminho, a qual não vejo inteiramente como contornaremos. Eu lhe disse que, do meu lado, não há objeção ao casamento, mas tenho bons motivos para acreditar que haverá muita da parte da jovem.”

“Isso tudo é irrelevante”, diz ele. “Eu me responsabilizarei pela aceitação dela.”

“Acho que você esquece, senhor Drummond”, disse eu, “que, mesmo ao lidar comigo, você se deixou levar por duas ou três expressões desagradáveis. Não permitirei que nada semelhante seja empregado com a jovem. Estou aqui para falar e pensar por nós dois; e deixo-o entender que não permitiria que uma esposa me fosse imposta, da mesma forma que não permitiria que um marido fosse imposto à jovem.”

Ele sentou-se e encarou-me como alguém em dúvida e com um bocado de temperamento.

“Então esse será o caminho”, concluí. “Casarei com a senhorita Drummond, e com alegria, se ela estiver inteiramente disposta. Mas se houver a menor relutância, como tenho motivos para temer... casar com ela, jamais casarei.”

“Bem, bem”, disse ele, “isso é um assunto pequeno. Assim que ela retornar, sondarei um pouco, e espero tranquilizá-lo...”

Mas eu interrompi novamente. “Nem um dedo seu, senhor Drummond, ou eu desisto, e você pode procurar um marido para sua filha em outro lugar”, disse eu. “Sou eu quem deve ser o único negociador e o único juiz. Satisfar-me-ei exatamente; e ninguém mais se intrometerá de forma alguma — você, o menos de todos.”

“Por minha palavra, senhor!”, ele exclamou, “e quem é você para ser o juiz?”

“O noivo, creio eu”, disse eu.

“Isso é tergiversar”, ele gritou. “Você vira as costas para o fato. A moça, minha filha, não tem mais escolha a exercer. Sua reputação está perdida.”

“E peço-lhe perdão”, disse eu, “mas enquanto este assunto permanecer entre ela, você e eu, isso não é verdade.”

“Que segurança tenho eu!”, ele gritou. “Devo deixar a reputação de minha filha depender de um acaso?”

“Você deveria ter pensado em tudo isso há muito tempo”, disse eu, “antes de ter sido tão mal orientado a ponto de perdê-la; e não depois, quando é tarde demais. Recuso-me a me considerar de qualquer forma responsável por sua negligência, e não serei intimidado por nenhum homem vivo. Minha mente está decidida e, aconteça o que acontecer, não me desviarei dela nem um fio de cabelo. Você e eu ficaremos aqui em companhia até o retorno dela: após o que, sem uma palavra ou olhar seu, ela e eu sairemos novamente para conversar. Se ela puder me satisfazer de que está disposta a este passo, eu então o darei; e se ela não puder, não o darei.”

Ele saltou da cadeira como um homem picado. “Posso perceber sua manobra”, ele gritou; “você trabalharia nela para que ela recuse!”

“Talvez sim, talvez não”, disse eu. “É assim que será, de qualquer modo.”

“E se eu recusar?”, grita ele.

“Então, senhor Drummond, teremos de recorrer ao corte de gargantas”, disse eu.

Com o tamanho do homem, seu grande comprimento de braço, no qual ele quase rivalizava com seu pai, e sua reputada habilidade com armas, não usei essa palavra sem trepidação, sem mencionar o fato de que ele era o pai de Catriona. Mas eu poderia ter poupado a mim mesmo de alarmes. Pela simplicidade de minha hospedagem — ele não parece ter notado os vestidos de sua filha, que eram, de fato, todos igualmente novos para ele — e pelo fato de eu ter me mostrado avesso a emprestar dinheiro, ele havia adotado uma forte ideia de minha pobreza. A notícia repentina de minha propriedade convenceu-o de seu erro, e ele deu apenas um salto nessa nova empreitada, à qual estava agora tão apegado que acredito que teria sofrido qualquer coisa antes de cair na alternativa de lutar.

Por mais algum tempo ele continuou a discutir comigo, até que encontrei uma palavra que o silenciou.

“Se o vejo tão avesso a me deixar ver a dama a sós”, disse eu, “devo supor que você tem bons motivos para pensar que estou certo quanto à relutância dela.”

Ele balbuciou algum tipo de desculpa.

“Mas tudo isso é muito exaustivo para ambos os nossos temperamentos”, acrescentou eu, “e acho que faríamos melhor em manter um silêncio judicioso.”

O que fizemos até que a moça retornou, e suponho que teríamos feito um papel muito ridículo se houvesse alguém ali para nos observar.

CAPÍTULO XXVIII. NO QUAL FICO SOZINHO

Abri a porta para Catriona e a parei no limiar.

“Seu pai deseja que façamos nossa caminhada”, disse eu.

Ela olhou para James More, que assentiu, e a isso, como um soldado treinado, ela se voltou para ir comigo.

Tomamos um de nossos caminhos antigos, por onde havíamos andado frequentemente juntos, e onde fomos mais felizes do que posso dizer no passado. Vim meio passo atrás, de modo que pudesse observá-la sem ser notado. O bater de seus pequenos sapatos no caminho soava extraordinariamente belo e triste; e pensei que fosse um momento estranho, eu estar tão perto de ambos os fins dele ao mesmo tempo, e caminhar no meio, entre dois destinos, e não poder dizer se estava ouvindo aqueles passos pela última vez, ou se o som deles deveria ir e vir comigo até que a morte nos separasse.

Ela evitou até olhar para mim, apenas caminhava à frente, como alguém que tinha um palpite do que estava por vir. Vi que precisava falar logo, antes que minha coragem se esgotasse, mas não sabia por onde começar. Nesta situação dolorosa, quando a moça estava praticamente forçada a meus braços e já havia implorado minha tolerância, qualquer excesso de pressão teria parecido indecente; contudo, evitá-lo totalmente teria uma aparência muito fria. Entre esses extremos, fiquei desamparado e poderia ter mordido os dedos; de modo que, quando finalmente consegui falar, pode-se dizer que falei ao acaso.

“Catriona”, disse eu, “estou em uma situação muito dolorosa; ou melhor, ambos estamos; e eu ficaria muito grato se você prometesse deixar-me falar até o fim, e não me interromper até que eu tenha terminado.”

Ela me prometeu isso simplesmente.

“Bem”, disse eu, “isso que tenho a dizer é muito difícil, e sei muito bem que não tenho o direito de dizê-lo. Depois do que passou entre nós na última sexta-feira, não tenho qualquer direito. Ficamos tão enredados (e tudo por minha culpa) que sei muito bem que o mínimo que eu poderia fazer era apenas calar a boca, que era o que eu pretendia plenamente, e não havia nada mais distante de meus pensamentos do que incomodá-la novamente. Mas, minha cara, tornou-se simplesmente necessário, e não há outro jeito. Veja, esta minha propriedade veio a mim, o que faz de mim um pretendente um pouco melhor; e o... o assunto não teria exatamente a mesma aparência ridícula que teria antes. Além disso, supõe-se que nossos assuntos ficaram tão enredados (como eu dizia) que seria melhor deixá-los como estão. Em minha opinião, esta parte da coisa é vastamente exagerada, e se eu fosse você não perderia dois pensamentos nisso. Apenas é justo que eu mencione o mesmo, porque não há dúvida de que tem alguma influência sobre James More. Então, penso que não éramos tão infelizes quando morávamos juntos nesta cidade antes. Acho que nos demos muito bem. Se você olhasse para trás, minha cara...”

“Não olharei nem para trás nem para a frente”, ela interrompeu. “Diga-me uma coisa: isso é coisa de meu pai?”

“Ele aprova”, disse eu. “Ele aprovou que eu pedisse sua mão em casamento”, e ia continuar com um pouco mais de apelo aos seus sentimentos; mas ela não me notou e interrompeu-me no meio.

“Ele disse a você!”, ela gritou. “Não faz sentido negar, você mesmo disse que não havia nada mais distante de seus pensamentos. Ele disse a você.”

“Ele falou disso primeiro, se é isso que você quer dizer”, comecei.

Ela caminhava cada vez mais rápido e olhava fixamente à sua frente; mas a isso ela fez um pequeno ruído na garganta, e pensei que ela correria.

“Sem o qual”, continuei, “após o que você disse na sexta-feira passada, eu nunca teria sido tão incômodo a ponto de fazer o pedido. Mas quando ele praticamente me pediu, o que eu deveria fazer?”

Ela parou e virou-se para mim.

“Bem, está recusado de qualquer maneira”, ela gritou, “e haverá um fim para isso.”

E ela começou novamente a caminhar.

“Suponho que não poderia esperar nada melhor”, disse eu, “mas acho que você poderia tentar ser um pouco gentil comigo pelo fim disso. Não vejo por que você deveria ser áspera. Eu a amei muito bem, Catriona — não há mal em chamá-la assim pela última vez. Fiz o melhor que pude, ainda estou tentando o mesmo, e apenas vexado por não poder fazer melhor. É uma coisa estranha para mim que você possa ter qualquer prazer em ser dura comigo.”

“Não estou pensando em você”, ela disse, “estou pensando naquele homem, meu pai.”

“Bem, e dessa forma também!”, disse eu. “Posso ser útil a você dessa forma também; terei de ser. É muito necessário, minha cara, que nos aconselhemos sobre seu pai; pois, da maneira como essa conversa foi, James More será um homem irado.”

Ela parou novamente. “É porque estou desonrada?”, ela perguntou.

“É o que ele está pensando”, respondi, “mas já lhe disse para não dar importância a isso.”

“Para mim dará tudo na mesma”, ela gritou. “Prefiro ser desonrada!”

Não sabia muito bem o que responder e fiquei em silêncio.

Parecia haver algo trabalhando em seu peito após aquele último grito; logo ela explodiu: “E qual é o significado de tudo isso? Por que toda essa vergonha é lançada sobre minha cabeça? Como você pôde ousar, David Balfour?”

“Minha cara”, disse eu, “o que mais eu deveria fazer?”

“Não sou sua cara”, ela disse, “e desafio você a continuar me chamando por essas palavras.”

“Não estou pensando em minhas palavras”, disse eu. “Meu coração sangra por você, senhorita Drummond. O que quer que eu diga, esteja certa de que tenho pena de sua difícil situação. Mas há apenas uma coisa que eu gostaria que você considerasse, se fosse apenas pelo tempo necessário para discuti-la calmamente; pois haverá um alvoroço quando nós dois chegarmos em casa. Acredite na minha palavra, precisaremos nós dois para que este assunto termine em paz.”

“Sim”, disse ela. Surgiu uma mancha vermelha em cada uma de suas faces. “Ele pretendia lutar contra você?”, disse ela.

“Bem, ele pretendia, sim”, disse eu.

Ela deu uma risada de um tipo terrível. “De qualquer forma, está completo!”, ela gritou. E então, voltando-se para mim: “Meu pai e eu somos um belo par”, disse ela, “mas agradeço ao bom Deus por haver alguém pior do que nós. Agradeço ao bom Deus por ter me permitido vê-lo assim. Nunca será feita a moça que não o despreze.”

Eu havia suportado bastante coisa com paciência, mas aquilo passou dos limites.

“Você não tem o direito de falar comigo desse jeito”, disse eu. “O que eu fiz a não ser ser bom para você, ou tentar ser? E aqui está minha recompensa! Oh, é demais.”

Ela continuou me olhando com um sorriso odioso. “Covarde!”, disse ela.

“A palavra em sua garganta e na de seu pai!”, gritei. “Eu o desafiei hoje mesmo em seu interesse. Desafiarei-o novamente, o fedorento doninha; pouco me importa qual de nós deva cair! Vamos”, disse eu, “de volta à casa conosco; que acabemos com isso, que eu acabe com toda a sua corja das Terras Altas! Você verá o que pensa quando eu estiver morto.”

Ela balançou a cabeça para mim com aquele mesmo sorriso pelo qual eu poderia tê-la golpeado.

“Oh, sorria!”, gritei. “Eu vi seu belo pai sorrir do lado errado hoje. Não que eu queira dizer que ele estava com medo, é claro”, adicionei apressadamente, “mas ele preferiu o outro caminho.”

“O que é isso?”, ela perguntou.

“Quando me ofereci para sacar contra ele”, disse eu.

“Você se ofereceu para sacar contra James More!”, ela gritou.

“E fiz isso”, disse eu, “e o achei bastante recuado, ou como estaríamos aqui?”

“Há um significado nisso”, disse ela. “O que você quer dizer?”

“Ele deveria fazer com que você me aceitasse”, respondi, “e eu não permitiria isso. Eu disse que você deveria ser livre, e eu precisava falar com você a sós; pouco supus que seria uma conversa como esta! ‘E se eu recusar?’, disse ele. — ‘Então terá de se chegar ao corte de garganta’, digo eu, ‘pois não permitirei mais que um marido seja imposto a essa jovem dama do que permitiria que uma esposa fosse imposta a mim mesmo’. Estas foram minhas palavras, foram palavras de um amigo; belamente as paguei! Agora você me recusou por sua própria e clara vontade, e não vive pai nas Terras Altas, ou fora delas, que possa forçar este casamento. Verei que seus desejos sejam respeitados; farei disso o meu negócio, como fiz durante todo o tempo. Mas acho que você poderia ter a decência de demonstrar alguma gratidão. Na verdade, pensei que você me conhecesse melhor! Não me comportei muito bem com você, mas isso foi fraqueza. E me considerar um covarde, e um covarde como esse — oh, minha moça, esse foi o golpe final!”

“Davie, como eu poderia adivinhar?”, ela gritou. “Oh, este é um negócio terrível! Eu e os meus” — ela deu um tipo de grito miserável ao dizer a palavra — “eu e os meus não somos dignos de falar com você. Oh, eu poderia estar me ajoelhando diante de você na rua, eu poderia estar beijando suas mãos por perdão!”

“Guardarei os beijos que já recebi de você”, gritei. “Guardarei os que eu queria e que tinham algum valor; não serei beijado em penitência.”

“O que você pode estar pensando dessa moça miserável?”, diz ela.

“O que estou tentando lhe dizer todo este tempo!”, disse eu, “que é melhor você me deixar em paz, a quem você não pode fazer mais infeliz se tentasse, e voltar sua atenção para James More, seu pai, com quem você provavelmente terá um novelo estranho para desenrolar.”

“Oh, que eu tenha de ir para o mundo sozinha com um homem desses!”, ela gritou, e pareceu conter-se com um grande esforço. “Mas não se preocupe mais com isso”, disse ela. “Ele não sabe que tipo de natureza há em meu coração. Ele me pagará caro por este dia; caro, caro, ele pagará.”

Ela se virou e começou a ir para casa, e eu a acompanhei. Ao que ela parou.

“Eu irei sozinha”, disse ela. “É sozinha que devo vê-lo.”

Por algum tempo, enfureci-me pelas ruas e disse a mim mesmo que era o rapaz mais maltratado da cristandade. A raiva me sufocava; estava tudo muito bem para eu respirar fundo; parecia que não havia ar suficiente em Leyden para me suprir, e pensei que teria explodido como um homem no fundo do mar. Parei e ri de mim mesmo em uma esquina por um minuto, rindo alto, de modo que um transeunte olhou para mim, o que me trouxe de volta a mim mesmo.

“Bem”, pensei, “fui um tolo, um bobalhão e um ingênuo por tempo demais. Estava na hora de acabar. Aqui está uma boa lição para não ter nada a ver com esse sexo maldito, que foi a ruína do homem no princípio e o será até o fim. Deus sabe que eu era feliz o suficiente antes mesmo de vê-la; Deus sabe que posso ser feliz o suficiente novamente quando tiver visto o último dela.”

Isso me pareceu o principal: vê-los partir. Refleti sobre a ideia ferozmente; e logo deslizei, em um tipo de malevolência, para considerar quão mal eles provavelmente passariam quando Davie Balfour não estivesse mais por perto para ser sua vaca leiteira; ao que, para minha própria grande surpresa, a disposição da minha mente virou de cabeça para baixo. Eu ainda estava com raiva; eu ainda a odiava; e, no entanto, pensei que devia a mim mesmo que ela não sofresse nada.

Isso me levou de volta para casa imediatamente, onde encontrei as malas tiradas e prontas, presas perto da porta, e o pai e a filha com todas as marcas de uma recente discordância. Catriona estava como uma boneca de madeira; James More respirava com dificuldade, seu rosto estava salpicado de manchas brancas e seu nariz estava para um lado. Assim que entrei, a moça olhou para ele com um olhar firme, claro e escuro que poderia ter sido seguido por um golpe. Foi uma sugestão que era mais desdenhosa do que um comando, e fiquei surpreso ao ver James More aceitá-la. Era evidente que ele havia levado uma bronca de mestre; e pude ver que devia haver mais do diabo na moça do que eu havia imaginado, e mais bom humor no homem do que eu lhe havia dado crédito.

Ele começou, pelo menos, chamando-me de Sr. Balfour, e falando claramente a partir de uma lição; mas não foi muito longe, pois, ao primeiro inchaço pomposo de sua voz, Catriona interrompeu.

“Direi a você o que James More quer dizer”, disse ela. “Ele quer dizer que viemos até você, como mendigos, e não nos comportamos muito bem com você, e temos vergonha de nossa ingratidão e mau comportamento. Agora queremos ir embora e ser esquecidos; e meu pai deve ter guiado seus pertences tão mal, que não podemos nem mesmo fazer isso a menos que você nos dê mais alguma esmola. Pois é isso que somos, de qualquer forma, mendigos e parasitas.”

“Com sua licença, senhorita Drummond”, disse eu, “devo falar com seu pai sozinho.”

Ela foi para seu próprio quarto e fechou a porta, sem uma palavra ou um olhar.

“Você deve desculpá-la, Sr. Balfour”, diz James More. “Ela não tem delicadeza.”

“Não estou aqui para discutir isso com você”, disse eu, “mas para me ver livre de vocês. E para esse fim, devo falar de sua posição. Agora, Sr. Drummond, acompanhei o curso de seus negócios mais de perto do que você esperava. Sei que você tinha dinheiro próprio quando estava pegando o meu emprestado. Sei que você teve mais desde que esteve aqui em Leyden, embora tenha escondido isso até mesmo de sua filha.”

“Peço-lhe que tenha cuidado. Não suportarei mais provocações”, ele explodiu. “Estou farto dela e de você. Que tipo de negócio maldito é este de ser pai! Ouvi expressões usadas contra mim—” Ali ele interrompeu. “Senhor, este é o coração de um soldado e de um pai”, continuou ele, colocando a mão sobre o peito, “ultrajado em ambos os caracteres — e peço-lhe que tenha cuidado.”

“Se você tivesse me deixado terminar”, digo eu, “teria descoberto que falei para sua vantagem.”

“Meu caro amigo”, ele gritou, “eu sabia que poderia ter confiado na generosidade do seu caráter.”

“Homem! Você vai me deixar falar?”, disse eu. “O fato é que não consigo descobrir se você é rico ou pobre. Mas é minha ideia que seus recursos, assim como são misteriosos em sua fonte, são algo insuficientes em quantidade; e eu não escolho que sua filha passe privações. Se eu ousasse falar com ela mesma, você pode ter certeza de que nunca sonharia em confiar isso a você; porque conheço você como a palma da minha mão, e toda sua conversa fanfarrona é tanto vento para mim. No entanto, acredito que, à sua maneira, você ainda se importa um pouco com sua filha; e devo apenas me contentar com essa base de confiança, tal como ela é.”

Mediante o que, combinei com ele que ele se comunicaria comigo, quanto ao seu paradeiro e ao bem-estar de Catriona, em consideração ao que eu lhe serviria um pequeno estipêndio.

Ele ouviu o negócio com uma grande dose de avidez; e quando terminou, “Meu caro amigo, meu caro filho”, ele gritou, “isso é mais parecido com você do que qualquer coisa até agora! Servirei você com a fidelidade de um soldado—”

“Não me deixe ouvir mais nada disso!”, digo eu. “Você me levou a esse ponto em que o simples nome de soldado me dá náuseas. Nosso trato está resolvido; estou agora saindo e retornarei em meia hora, quando espero encontrar meus aposentos purgados de vocês.”

Dei a eles uma boa medida de tempo; meu único medo era que eu pudesse ver Catriona novamente, porque lágrimas e fraqueza estavam prontas em meu coração, e eu apreciava minha raiva como uma peça de dignidade. Talvez uma hora se passou; o sol havia se posto, um pequeno fiapo de uma lua nova seguia-o através de um pôr do sol escarlate; já havia estrelas no leste, e em meus aposentos, quando finalmente entrei, a noite estava azul. Acendi uma vela e examinei os cômodos; no primeiro não restava nada que despertasse uma memória daqueles que se foram; mas no segundo, em um canto do chão, avistei uma pequena pilha que trouxe meu coração à boca. Ela havia deixado para trás, em sua partida, tudo o que ela jamais teve de mim. Foi o golpe que senti mais profundamente, talvez porque fosse o último; e caí sobre aquela pilha de roupas e me comportei de forma mais tola do que me importa contar.

Tarde da noite, sob um frio rigoroso, e com meus dentes batendo, recuperei parte da minha masculinidade e considerei comigo mesmo. A visão daqueles pobres vestidos e fitas, e suas camisas, e as meias bordadas, não era suportável; e se eu quisesse recuperar alguma constância de mente, vi que deveria me livrar deles antes da manhã. Meu primeiro pensamento foi fazer uma fogueira e queimá-los; mas minha disposição sempre foi oposta ao desperdício, por um lado; e, por outro, ter queimado essas coisas que ela havia usado tão perto de seu corpo parecia ser uma crueldade. Havia um armário de canto naquele quarto; ali determinei guardá-los. O que fiz, e tornou-se um negócio longo, dobrando-os com muito pouca habilidade, na verdade, mas com mais cuidado; e, às vezes, soltando-os com minhas lágrimas. Todo o coração havia saído de mim, eu estava exausto como se tivesse corrido milhas, e dolorido como alguém espancado; quando, enquanto eu dobrava um lenço que ela usava frequentemente no pescoço, observei que havia um canto cortado cuidadosamente dele. Era um lenço de uma tonalidade muito bonita, sobre a qual eu frequentemente comentava; e uma vez que ela o usava, lembro-me de ter dito a ela (em tom de brincadeira) que ela usava minhas cores. Veio um brilho de esperança e como uma maré de doçura em meu peito; e no momento seguinte fui mergulhado de volta em um novo desespero. Pois lá estava o canto amassado em um nó e jogado sozinho em outra parte do chão.

Mas quando argumentei comigo mesmo, tornei-me mais esperançoso. Ela havia cortado aquele canto em algum capricho infantil que era manifestamente terno; que ela o tivesse jogado fora novamente era pouco para se admirar; e eu estava inclinado a insistir mais no primeiro do que no segundo, e a ficar mais satisfeito por ela ter concebido a ideia daquela lembrança, do que preocupado por ela tê-lo jogado fora em uma hora de ressentimento natural.

CAPÍTULO XXIX. NÓS NOS ENCONTRAMOS EM DUNKERQUE

No geral, então, não fiquei tão miserável nos dias seguintes, mas tive muitos momentos esperançosos e felizes; entreguei-me com uma boa dose de constância aos meus estudos; e consegui suportar o tempo até que Alan chegasse, ou que eu pudesse ter notícias de Catriona por meio de James More. Tive ao todo três cartas no tempo de nossa separação. Uma foi para anunciar sua chegada à cidade de Dunkerque, na França, de onde James pouco depois partiu sozinho em uma missão privada. Esta era para a Inglaterra e para ver Lord Holderness; e sempre foi um pensamento amargo que meu bom dinheiro ajudou a pagar as despesas da mesma. Mas é preciso ter uma colher longa para jantar com o diabo, ou com James More também. Durante essa ausência, o tempo deveria vencer para outra carta; e como a carta era a condição de seu estipêndio, ele foi cuidadoso o suficiente para prepará-la de antemão e deixá-la com Catriona para ser despachada. O fato de nossa correspondência despertou suas suspeitas, e ele não tinha acabado de partir quando ela rompeu o selo. O que recebi começou, consequentemente, com a escrita de James More:

“Meu caro senhor, — Seu estimado favor chegou às mãos devidamente, e tenho de reconhecer o anexo de acordo com o combinado. Será tudo fielmente gasto com minha filha, que está bem e deseja ser lembrada ao seu caro amigo. Encontro-a em uma disposição um tanto melancólica, mas confio na misericórdia de Deus para vê-la restabelecida. Nossa maneira de viver é muito solitária, mas nos consolamos com as melodias melancólicas de nossas montanhas nativas, e caminhando pela margem do mar que fica ao lado da Escócia. Foram dias melhores para mim quando eu jazia com cinco feridas em meu corpo no campo de Gladsmuir. Encontrei emprego aqui no haras de um nobre francês, onde minha experiência é valorizada. Mas, meu caro senhor, os salários são tão excessivamente inadequados que eu teria vergonha de mencioná-los, o que torna suas remessas mais necessárias para o conforto de minha filha, embora eu suponha que a visão de velhos amigos seria ainda melhor.

“Meu caro senhor, “Seu afetuoso e obediente servidor, “James Macgregor Drummond.”

Abaixo, começou novamente com a caligrafia de Catriona:—

“Não acredite nele, é tudo mentiras juntas, — C. M. D.”

Não apenas ela adicionou este pós-escrito, mas acho que ela deve ter chegado perto de suprimir a carta; pois ela veio muito tempo depois da data, e foi seguida de perto pela terceira. No tempo entre elas, Alan havia chegado e feito outra vida para mim com sua conversa alegre; eu havia sido apresentado ao seu primo dos escoceses-holandeses, um homem que bebia mais do que eu poderia ter pensado ser possível e não era de outra forma interessante; eu havia sido entretido com muitos jantares joviais e dei alguns, tudo sem grande mudança em minha tristeza; e nós dois (por quem quero dizer Alan e eu mesmo, e não o primo de forma alguma) discutimos bastante a natureza de minhas relações com James More e sua filha. Eu era naturalmente hesitante em dar detalhes; e essa disposição não foi de forma alguma diminuída pela natureza do comentário de Alan sobre os que eu dei.

“Não consigo entender nada disso”, ele dizia, “mas fica na minha mente que você se fez de bobo. Há poucas pessoas que tiveram mais experiência do que Alan Breck: e nunca me lembro de ter ouvido falar de uma moça como essa sua. Do jeito que você conta, a coisa é totalmente impossível. Você deve ter feito uma confusão terrível com o negócio, David.”

“Há momentos em que sou da mesma opinião”, disse eu.

“A coisa estranha é que você parece ter um tipo de fantasia por ela também!”, disse Alan.

“Do maior tipo, Alan”, disse eu, “e acho que levarei isso comigo para o túmulo.”

“Bem, você me vence, de qualquer forma!”, ele concluía.

Mostrei-lhe a carta com o pós-escrito de Catriona. “E aqui novamente!”, ele gritou. “Impossível negar um tipo de decência a essa Catriona, e bom senso também! Quanto a James More, o homem é vazio como um tambor; ele é apenas um ventre e um monte de palavras; embora eu nunca possa negar que ele lutou razoavelmente bem em Gladsmuir, e é verdade o que ele diz aqui sobre as cinco feridas. Mas a perda dele é que o homem é vazio.”

“Você vê, Alan”, disse eu, “vai contra o meu instinto deixar a moça em mãos tão ruins.”

“Você não poderia encontrar piores”, ele admitiu. “Mas o que você vai fazer com isso? É assim sobre um homem e uma mulher, você vê, Davie: As mulheres não têm nenhum tipo de razão. Ou elas gostam do homem, e então tudo vai bem; ou então elas simplesmente o detestam, e você pode poupar seu fôlego — você não pode fazer nada. Existem apenas os dois grupos delas — aquelas que venderiam seus casacos por você, e aquelas que nunca olham para a estrada em que você está. Isso é tudo o que existe para as mulheres; e você parece ser um tolo tal que não consegue distinguir uma da outra.”

“Bem, e receio que isso seja verdade para mim”, disse eu.

“E ainda assim não há nada mais fácil!”, gritou Alan. “Eu poderia facilmente lhe ensinar a ciência da coisa; mas você me parece ter nascido cego, e é aí que a dificuldade entra.”

“E você não pode me ajudar?”, perguntei, “você que é tão inteligente no comércio?”

“Você vê, David, eu não estava aqui”, disse ele. “Sou como um oficial de campo que não tem ninguém além de cegos como batedores e exploradores; e o que ele saberia? Mas fica na minha mente que você deve ter feito algum tipo de trapalhada; e se eu fosse você, tentaria com ela novamente.”

“Você faria isso, homem Alan?”, disse eu.

“Eu faria”, diz ele.

A terceira carta chegou às minhas mãos enquanto estávamos imersos em tal conversa: e ver-se-á como caiu a propósito da ocasião. James professou estar um tanto preocupado com a saúde de sua filha, que acredito nunca ter estado melhor; abundou em expressões gentis para mim mesmo; e finalmente propôs que eu os visitasse em Dunkerque.

“Agora desfrutará da companhia do meu velho camarada, o Sr. Stewart”, escreveu ele. “Por que não acompanhá-lo em parte do seu retorno à França? Tenho algo muito particular para os ouvidos do Sr. Stewart; e, de qualquer modo, ficaria contente em encontrar um antigo companheiro de armas e um homem tão destemido quanto ele. Quanto a você, meu caro senhor, minha filha e eu ficaríamos orgulhosos de receber nosso benfeitor, a quem consideramos como um irmão e um filho. O nobre francês provou ser uma pessoa de uma avareza de caráter das mais vis, e fui forçado a deixar o haras. Consequentemente, encontrar-nos-á um pouco mal alojados na estalagem de um homem chamado Bazin, nas dunas; mas a situação é mais fresca, e não duvido que possamos passar alguns dias muito agradáveis, quando o Sr. Stewart e eu pudermos recordar nossos serviços, e você e minha filha divertirem-se de uma maneira mais adequada à sua idade. Rogo, ao menos, que o Sr. Stewart venha até aqui; meus negócios com ele abrem uma porta muito ampla.”

“O que esse homem quer comigo?”, exclamou Alan, quando terminou de ler. “O que ele quer de você é bem claro — é dinheiro. Mas o que ele pode querer com Alan Breck?”

“Oh, deve ser apenas uma desculpa”, disse eu. “Ele ainda insiste neste casamento, que desejo de todo o coração que possamos concretizar. E ele pede por você porque pensa que eu seria menos propenso a vir se não o trouxesse.”

“Bem, quem me dera saber”, diz Alan. “Ele e eu nunca fomos lá muito amigos; costumávamos rosnar um para o outro como um par de gaiteiros. ‘Algo para meus ouvidos’, disse ele! Talvez eu tenha algo para o traseiro dele, antes de terminarmos com isso. Pelo céu, acho que seria uma espécie de divertimento ir ver o que ele anda tramando! Além do mais, eu poderia ver sua donzela então. O que me diz, Davie? Você cavalgará com Alan?”

Pode ter certeza de que não recuei, e, estando a licença de Alan chegando ao fim, partimos prontamente para esta aventura conjunta.

Estava quase escuro em um dia de janeiro quando finalmente cavalgamos até a cidade de Dunkirk. Deixamos nossos cavalos no posto e encontramos um guia para a estalagem de Bazin, que ficava além das muralhas. A noite já havia caído por completo, de modo que fomos os últimos a deixar aquela fortaleza, e ouvimos os portões se fecharem atrás de nós enquanto passávamos pela ponte. Do outro lado, havia um subúrbio iluminado, que atravessamos por um tempo, depois viramos em uma viela escura e, logo, nos vimos caminhando na noite por entre areia profunda, onde podíamos ouvir o bramido do mar. Viajamos dessa forma por algum tempo, seguindo nosso condutor principalmente pelo som de sua voz; e eu já começava a pensar que ele talvez estivesse nos enganando, quando chegamos ao topo de uma pequena colina e surgiu da escuridão uma luz fraca em uma janela.

“Voilà l’auberge à Bazin”, diz o guia.

Alan lambeu os beiços. “Um lugar estranhamente solitário”, disse ele, e, pelo seu tom, achei que ele não estava totalmente satisfeito.

Pouco depois, estávamos no andar térreo daquela casa, que era toda em um único cômodo, com uma escada que levava aos quartos ao lado, bancos e mesas junto à parede, o fogão de cozinha em uma extremidade e prateleiras de garrafas e o alçapão da adega na outra. Ali, Bazin, que era um homem grande e de má aparência, nos disse que o cavalheiro escocês tinha saído para algum lugar que ele desconhecia, mas que a jovem senhora estava lá em cima, e ele a chamaria para nós.

Tirei do peito aquele lenço que faltava um canto e o amarrei ao redor do pescoço. Eu podia ouvir meu coração bater; e, com Alan dando tapinhas em meu ombro com algumas de suas expressões engraçadas, mal pude me conter para não dizer uma palavra áspera. Mas o tempo de espera não foi longo. Ouvi seus passos passarem lá em cima e a vi na escada. Ela desceu muito calmamente e me cumprimentou com um rosto pálido e uma certa aparência de seriedade, ou inquietação, em seu modo de agir que me deixou extremamente desconcertado.

“Meu pai, James More, estará aqui em breve. Ele ficará muito satisfeito em vê-lo”, disse ela. E então, de repente, seu rosto corou, seus olhos brilharam, o discurso parou em seus lábios; e tive certeza de que ela havia observado o lenço. Foi apenas por um instante que ela ficou perturbada; mas pareceu-me que foi com uma nova animação que ela se voltou para dar as boas-vindas a Alan. “E o senhor deve ser seu amigo, Alan Breck?”, exclamou ela. “Muitas são as dúzias de vezes que o ouvi falar do senhor; e já o amo por toda a sua bravura e bondade.”

“Bem, bem”, diz Alan, segurando a mão dela na sua e observando-a, “então esta é a jovem senhora, afinal de contas! David, você é um péssimo descritor.”

Não sei se algum dia o ouvi falar tão diretamente aos corações das pessoas; o som de sua voz era como uma canção.

“O quê? Ele esteve me descrevendo?”, ela exclamou.

“Mal falou de outra coisa desde que saí da França!”, diz ele, “além de um pequeno vislumbre certa noite na Escócia, em um bosque perto de Silvermills. Mas anime-se, minha cara! Você é mais bonita do que ele disse. E agora, uma coisa é certa: você e eu seremos um par de amigos. Sou uma espécie de lacaio para o Davie aqui; sou como um cão em seus calcanhares; e, o que quer que ele aprecie, eu também tenho de apreciar — e, pelos santos ferros! eles têm de apreciar a mim! Então agora você pode ver onde se situa com Alan Breck, e verá que dificilmente sairá perdendo na transação. Ele não é muito bonito, minha cara, mas é leal àqueles que ama.”

“Agradeço de todo o coração pelas suas boas palavras”, disse ela. “Tenho tal honra por um homem bravo e honesto que não encontro nada com que responder.”

Usando da liberdade dos viajantes, dispensamos esperar por James More e nos sentamos para comer, nós três. Alan fez Catriona sentar-se ao seu lado e atender às suas vontades: ele a fez beber primeiro do seu copo, cercou-a com contínuas gentilezas galantes e, no entanto, nunca me deu a menor ocasião para sentir ciúmes; e ele manteve a conversa tão bem sob seu controle, e em um tom tão alegre, que nem ela nem eu nos lembramos de ficar embaraçados. Se alguém nos visse ali, teria suposto que Alan era o velho amigo e eu o estranho. De fato, muitas vezes tive motivos para amar e admirar o homem, mas nunca o amei ou admirei tanto quanto naquela noite; e não pude deixar de notar (o que às vezes eu estava em perigo de esquecer) que ele não apenas tinha muita experiência de vida, mas, à sua maneira, uma grande dose de habilidade natural também. Quanto a Catriona, ela parecia completamente arrebatada; sua risada era como um toque de sinos, seu rosto alegre como uma manhã de maio; e confesso que, embora estivesse muito satisfeito, também me sentia um pouco triste e me achava um personagem monótono e insensível em comparação ao meu amigo, e muito inapto para entrar na vida de uma jovem donzela e talvez derrubar sua alegria.

Mas se esse parecia ser o meu papel, descobri que pelo menos não estava sozinho nele; pois, com James More retornando de repente, a garota transformou-se em uma peça de pedra. Durante o resto daquela noite, até que ela deu uma desculpa e se retirou para o quarto, fiquei de olho nela sem parar; e posso testemunhar que ela nunca sorriu, mal falou e olhava quase sempre para a mesa à sua frente. De modo que eu realmente me maravilhava ao ver tanta devoção (como costumava ser) transformada na própria doença do ódio.

Sobre James More, é desnecessário dizer muito; você já conhece o homem, o que havia para saber sobre ele; e estou cansado de escrever suas mentiras. Basta dizer que ele bebeu muito e nos contou muito pouco que tivesse qualquer propósito possível. Quanto ao assunto com Alan, isso ficaria reservado para o dia seguinte e para sua audiência privada.

Foi mais fácil adiar, porque Alan e eu estávamos bastante cansados com quatro dias de cavalgada e não ficamos muito tempo depois de Catriona.

Logo estávamos sozinhos em um quarto onde teríamos que nos arranjar com uma única cama. Alan olhou para mim com um sorriso estranho.

“Seu grande asno!”, disse ele.

“O que quer dizer com isso?”, exclamei.

“Quer dizer? O que eu quero dizer! É extraordinário, homem David”, diz ele, “que você seja tão mortalmente estúpido.”

Mais uma vez, implorei que ele falasse abertamente.

“Bem, é isto”, disse ele. “Eu lhe disse que havia dois tipos de mulheres — aquelas que venderiam suas camisas por você, e as outras. Experimente você mesmo, meu belo rapaz! Mas o que é esse lenço no seu pescoço?”

Eu lhe contei.

“Eu pensei que fosse algo por aí”, disse ele.

E não diria mais uma palavra, embora eu o tenha sitiado por muito tempo com importunações.

CAPÍTULO XXX. A CARTA DO NAVIO

A luz do dia nos mostrou quão solitária a estalagem estava situada. Ficava claramente perto do mar, embora fora de qualquer vista dele, e cercada por todos os lados por colinas de areia escoriadas. Havia, de fato, apenas uma coisa na natureza de uma paisagem, onde se destacavam sobre uma colina as duas velas de um moinho de vento, como as orelhas de um asno, mas com o asno completamente escondido. Era estranho (depois que o vento aumentou, pois no início estava uma calmaria total) ver o girar e o seguir uma da outra dessas grandes velas atrás do montículo. Quase nenhuma estrada passava por ali; mas uma série de caminhos de pedestres percorria as dunas em todas as direções até a porta do Sr. Bazin. A verdade é que ele era um homem de muitos ofícios, nenhum deles honesto, e a posição de sua estalagem era a melhor parte de seu sustento. Contrabandistas a frequentavam; agentes políticos e pessoas banidas que atravessavam a água vinham ali aguardar suas passagens; e ouso dizer que havia coisas piores por trás, pois uma família inteira poderia ter sido chacinada naquela casa e ninguém saberia.

Dormi pouco e mal. Muito antes de amanhecer, eu havia escapado de perto do meu companheiro de quarto e estava me aquecendo junto ao fogo ou caminhando de um lado para o outro diante da porta. O amanhecer surgiu muito sombrio; mas pouco depois, levantou-se um vento vindo do oeste, que rompeu as nuvens, deixou passar o sol e pôs o moinho a girar. Havia algo de primavera no brilho do sol, ou talvez estivesse em meu coração; e o surgimento das grandes velas, uma após a outra, de trás da colina, distraía-me imensamente. Às vezes, eu podia ouvir um ranger da maquinaria; e por volta das oito e meia do dia, pensei que este lugar deserto e sombrio era como um paraíso.

Apesar de tudo, à medida que o dia avançava e ninguém se aproximava, comecei a sentir uma inquietação que mal conseguia explicar. Parecia que havia problemas à vista; as velas do moinho de vento, conforme subiam e desciam sobre a colina, eram como pessoas espiando; e, fora de qualquer fantasia, era certamente uma vizinhança e uma casa estranhas para uma jovem senhora ser levada a morar.

No café da manhã, que tomamos tarde, era evidente que James More estava em algum perigo ou perplexidade; evidente que Alan estava atento ao mesmo e o observava de perto; e essa aparência de duplicidade de um lado, e vigilância do outro, mantinha-me sobre brasas. A refeição mal havia terminado quando James começou a fazer desculpas. Ele tinha um compromisso de natureza privada na cidade (era com o nobre francês, ele me disse), e nós deveríamos desculpá-lo até cerca do meio-dia. Enquanto isso, ele levou sua filha para o extremo oposto da sala, onde parecia falar de forma bastante séria e ela ouvir com muita inclinação.

“Estou me importando cada vez menos com esse homem James”, disse Alan. “Há algo de errado com o homem James, e eu não me surpreenderia se Alan Breck desse uma olhada nele hoje. Eu gostaria muito de ver aquele nobre francês, Davie; e ouso dizer que você poderia encontrar um emprego para si mesmo, e isso seria perguntar à moça por algumas notícias sobre o seu caso. Apenas diga a ela claramente — diga a ela que você é um grande asno desde o início; e então, se eu fosse você, e pudesse fazê-lo naturalmente, eu apenas insinuaria a ela que estava em algum tipo de perigo; todas as mulheres gostam disso.”

“Eu não posso mentir, Alan, não posso fazer isso naturalmente”, digo eu, zombando dele.

“Tanto pior para você!”, diz ele. “Então você pode dizer a ela que eu recomendei; isso a fará rir; e não me surpreenderia se essa fosse a segunda melhor opção. Mas olhe para os dois! Se eu não me sentisse tão certo sobre a moça, e que ela estava muito satisfeita e próxima de Alan, eu pensaria que havia algum tipo de hocus-pocus em torno de você.”

“E ela está tão satisfeita com você, então, Alan?”, perguntei.

“Ela pensa muito em mim”, diz ele. “E eu não sou como você: eu sou alguém que sabe. Ela pensa mesmo — ela pensa muito em Alan. E, verdade seja dita! Estou pensando muito nele também; e, com sua permissão, Shaws, vou dar uma voltinha entre as dunas, para que eu possa ver por onde James vai.”

Um após o outro, eles foram, até que fiquei sozinho ao lado da mesa do café da manhã; James para Dunkirk, Alan seguindo-o, Catriona subindo as escadas para seu próprio quarto. Eu podia entender muito bem como ela evitava ficar sozinha comigo; no entanto, não estava melhor satisfeito com isso por causa disso, e concentrei minha mente em encurralá-la para uma entrevista antes que os homens retornassem. Em suma, o melhor me pareceu fazer como Alan. Se eu estivesse fora de vista entre as colinas de areia, a bela manhã a atrairia para fora; e uma vez que eu a tivesse ao ar livre, eu poderia me dar por satisfeito.

Dito e feito; e não demorei muito sob a proteção de um montículo antes que ela aparecesse na porta da estalagem, olhasse para lá e para cá e (não vendo ninguém) partisse por um caminho que levava diretamente ao mar, e pelo qual a segui. Eu não tinha pressa em tornar minha presença conhecida; quanto mais longe ela fosse, mais tempo eu teria para ouvir minha súplica; e, sendo o solo todo arenoso, era fácil segui-la sem ser ouvido. O caminho subiu e chegou finalmente ao topo de uma colina. De lá, tive uma imagem, pela primeira vez, de que desolação de deserto em que aquela estalagem estava escondida; onde não havia nenhum homem para ser visto, nem qualquer casa de homem, exceto apenas a de Bazin e o moinho de vento. Um pouco mais adiante, o mar apareceu e dois ou três navios nele, bonitos como um desenho. Um deles estava extremamente perto para ser uma embarcação tão grande; e senti um choque de nova suspeita quando reconheci o estilo do Seahorse. O que um navio inglês estaria fazendo tão perto da França? Por que Alan foi levado para sua vizinhança, e em um lugar tão distante de qualquer esperança de resgate? E teria sido por acidente, ou por desígnio, que a filha de James More caminharia naquele dia para a beira-mar?

Logo saí atrás dela, na frente das colinas de areia e acima da praia. Era ali longa e solitária; com um barco de navio de guerra puxado para cima, mais ou menos no meio da paisagem, e um oficial encarregado, caminhando pela areia como alguém que esperava. Sentei-me onde a grama áspera me cobria bastante e observei o que aconteceria. Catriona foi direto ao barco; o oficial a encontrou com gentilezas; eles trocaram dez palavras; vi uma carta mudando de mãos; e lá estava Catriona voltando. Ao mesmo tempo, como se esse fosse todo o seu negócio no Continente, o barco se afastou e foi em direção ao Seahorse. Mas observei o oficial permanecer para trás e desaparecer entre as dunas.

Gostei pouco do negócio; e quanto mais considerava, menos gostava. Seria Alan que o oficial estava procurando? Ou Catriona? Ela se aproximou com a cabeça baixa, olhando constantemente para a areia, e formava uma imagem tão terna que eu não podia suportar duvidar de sua inocência. Em seguida, ela levantou o rosto e me reconheceu; pareceu hesitar e depois continuou, mas mais lentamente, e achei que com uma cor diferente. E, a esse pensamento, tudo o mais que estava em meu peito — medos, suspeitas, o cuidado com a vida do meu amigo — foi completamente engolido; e me levantei e fiquei esperando por ela em uma embriaguez de esperança.

Eu lhe dei “bom dia” enquanto ela se aproximava, o que ela retribuiu com bastante compostura.

“Você me perdoará por tê-la seguido?”, disse eu.

“Eu sei que você sempre tem boas intenções”, ela respondeu; e então, com um pequeno desabafo, “mas por que você continua enviando dinheiro para aquele homem! Isso não deve ser.”

“Eu nunca enviei para ele”, disse eu, “mas para você, como bem sabe.”

“E você não tem o direito de enviá-lo para nenhum de nós”, disse ela. “David, não é certo.”

“Não é, é tudo errado”, disse eu, “e rezo a Deus para que ajude este sujeito monótono (se for de todo possível) a consertar isso. Catriona, esta não é uma vida para você levar; e peço perdão pela palavra, mas aquele homem não é um pai apto para cuidar de você.”

“Não fale dele, nem sequer isso!”, foi seu grito.

“E não preciso mais falar dele; não é nele que estou pensando, oh, tenha certeza disso!”, digo eu. “Penso em uma única coisa. Estou sozinho agora há muito tempo em Leiden; e quando eu estava estudando, ainda pensava nisso. Depois Alan veio, e fui entre soldados aos seus grandes jantares; e ainda tinha o mesmo pensamento. E era o mesmo antes, quando a tinha ali ao meu lado. Catriona, você vê este lenço no meu pescoço! Você cortou um canto dele uma vez e depois o jogou fora. Eles são suas cores agora; eu os uso em meu coração. Minha querida, não posso ficar sem você. Oh, tente me suportar!”

Passei à frente dela para interceptar seu caminho.

“Tente me suportar”, eu estava dizendo, “tente me aguentar um pouco.”

Ainda assim, ela não disse palavra, e um medo começou a surgir em mim como um medo da morte.

“Catriona”, gritei, olhando fixamente para ela, “é um erro novamente? Estou completamente perdido?”

Ela levantou o rosto para mim, ofegante.

“Você me quer, Davie, verdadeiramente?”, disse ela, e mal pude ouvi-la dizer.

“Eu quero”, disse eu. “Oh, certamente você sabe disso — eu quero.”

“Não me resta nada para dar ou guardar”, disse ela. “Eu fui toda sua desde o primeiro dia, se você tivesse aceitado o presente de mim!”, ela disse.

Isso foi no cume de uma colina; o lugar era ventoso e visível, podíamos ser vistos ali até do navio inglês; mas eu me ajoelhei diante dela na areia, abracei seus joelhos e irrompi naquela tempestade de choro que pensei que me quebraria. Todo pensamento foi totalmente vencido de minha mente pela veemência da minha perturbação. Eu não sabia onde estava. Tinha esquecido por que estava feliz; apenas sabia que ela se inclinou, e senti que ela me acariciou contra seu rosto e seio, e ouvi suas palavras em meio a um turbilhão.

“Davie”, dizia ela, “Oh, Davie, é isso que pensas de mim! É verdade que te importavas com a pobre de mim! Oh, Davie, Davie!”

Com isso ela também chorou, e nossas lágrimas se misturaram em uma perfeita felicidade.

Pode ter sido dez da manhã antes que eu chegasse a uma percepção clara de que mercê havia me acontecido; e, sentado diante dela, com suas mãos nas minhas, contemplei seu rosto e ri alto de prazer como uma criança, e a chamei por nomes tolos e gentis. Nunca vi lugar que parecesse tão bonito quanto aquelas colinas de areia perto de Dunquerque; e as velas do moinho de vento, enquanto oscilavam sobre o morro, eram como uma melodia musical.

Não sei quanto tempo mais poderíamos ter continuado a esquecer tudo o mais, além de nós mesmos, se eu não tivesse tropeçado em uma referência ao seu pai, que nos trouxe à realidade.

“Minha pequena amiga”, eu a chamava repetidamente, regozijando-me em evocar o passado pelo som disso, e em olhar para ela, e em estar um pouco distante — “Minha pequena amiga, agora tu és minha inteiramente; minha para sempre, minha pequena amiga e não mais daquele homem, de forma alguma.”

Houve uma palidez súbita em seu rosto, ela arrancou suas mãos das minhas.

“Davie, tira-me de perto dele!” ela gritou. “Há algo errado; ele não é verdadeiro. Haverá algo errado; tenho um terror terrível aqui no meu coração. O que ele vai querer, afinal, com aquele navio do Rei? O que estas palavras dirão?” E ela estendeu a carta. “Minha mente me adverte, será algum mal para Alan. Abre-a, Davie — abre-a e vê.”

Eu a tomei, olhei para ela e balancei a cabeça.

“Não”, disse eu, “isso vai contra mim, não posso abrir a carta de um homem.”

“Não para salvar teu amigo?” ela gritou.

“Não sei dizer”, disse eu. “Acho que não. Se eu apenas tivesse certeza!”

“E tu só tens que romper o selo!” disse ela.

“Eu sei disso”, disse eu, “mas a coisa vai contra mim.”

“Dá-a aqui”, disse ela, “e eu mesma a abrirei.”

“Nem tu também”, disse eu. “Tu menos que ninguém. Diz respeito ao teu pai, e à sua honra, querida, da qual ambos estamos duvidando. Sem dúvida, o lugar é perigoso, e o navio inglês estando aqui, e teu pai tendo notícias dele, e aquele oficial que ficou em terra. Ele não estaria sozinho também; deve haver mais junto com ele; atrevo-me a dizer que estamos sendo espionados neste minuto. Sim, sem dúvida, a carta deveria ser aberta; mas, de alguma forma, nem por ti nem por mim.”

Eu estava mais ou menos por aí, e meu espírito muito sobrecarregado com um senso de perigo e inimigos ocultos, quando avistei Alan, que voltava de seguir James e caminhava sozinho entre as dunas. Ele estava com seu casaco de soldado, é claro, e muito elegante; mas não pude evitar de estremecer ao pensar em quão pouco aquela jaqueta o valeria, se ele fosse pego e jogado em um esquife, e levado a bordo do Seahorse, um desertor, um rebelde e, agora, um assassino condenado.

“Lá”, disse eu, “lá está o homem que tem o melhor direito de abri-la: ou não, como ele achar melhor.”

Com o que chamei seu nome, e ambos nos levantamos para sermos um alvo para ele.

“Se for assim — se for mais desgraça — conseguirás suportar?” ela perguntou, olhando para mim com um olho ardente.

“Fizeram-me uma pergunta parecida quando eu a tinha visto apenas uma vez”, disse eu. “O que pensas que respondi? Que se eu gostasse de ti como pensava que gostava — e oh, mas gosto de ti ainda mais! — eu me casaria contigo aos pés da forca dele.”

O sangue subiu ao rosto dela; ela veio para perto e pressionou-se contra mim, segurando minha mão: e foi assim que aguardamos Alan.

Ele veio com um de seus sorrisos estranhos. “O que eu estava te dizendo, David?” diz ele.

“Há um tempo para todas as coisas, Alan”, disse eu, “e este tempo é sério. Como te saíste? Podes falar abertamente diante desta nossa amiga.”

“Estive em uma missão de tolo”, disse ele.

“Duvido que tenhamos feito melhor que tu, então”, disse eu; “e, pelo menos, aqui há uma grande quantidade de matéria sobre a qual deves julgar. Vês aquilo?” continuei, apontando para o navio. “Aquele é o Seahorse, Capitão Palliser.”

“Eu deveria conhecê-lo, também”, diz Alan. “Tive trabalho suficiente com ele quando estava estacionado no Forth. Mas o que aflige o homem para vir tão perto?”

“Eu te direi por que ele veio aqui primeiro”, disse eu. “Foi para trazer esta carta para James More. Por que ele para aqui agora que ela foi entregue, sobre o que provavelmente é, por que há um oficial escondido nas dunas, e se é provável ou não que ele esteja sozinho — eu preferiria que tu considerasses por ti mesmo.”

“Uma carta para James More?” disse ele.

“A mesma”, disse eu.

“Bem, e eu posso te dizer mais do que isso”, disse Alan. “Pois na última noite, quando estavas em sono profundo, ouvi o homem coluindo com alguém em francês, e então a porta daquela estalagem sendo aberta e fechada.”

“Alan!” gritei eu, “tu dormiste a noite toda, e eu estou aqui para provar isso.”

“Sim, mas eu nunca confiaria em Alan, esteja ele dormindo ou acordado!” diz ele. “Mas o negócio parece ruim. Vamos ver a carta.”

Eu a entreguei a ele.

“Catriona”, disse ele, “tens que me desculpar, minha querida; mas não há nada menos do que meus belos ossos no lançamento disso, e terei que romper este selo.”

“É meu desejo”, disse Catriona.

Ele a abriu, passou os olhos por ela e jogou a mão para o ar.

“O porco fedorento!” diz ele, e enfiou o papel no bolso. “Aqui, vamos juntar nossas coisas. Este lugar é morte certa para mim.” E começou a caminhar em direção à estalagem.

Foi Catriona quem falou primeiro. “Ele te vendeu?” perguntou ela.

“Vendeu-me, minha querida”, disse Alan. “Mas graças a ti e a Davie, ainda conseguirei enganá-lo. Apenas deixa-me alcançar meu cavalo”, acrescentou.

“Catriona deve vir conosco”, disse eu. “Ela não pode ter mais contato com aquele homem. Ela e eu vamos nos casar.” Ao que ela apertou minha mão contra seu lado.

“Estais nisso?” diz Alan, olhando para trás. “O melhor dia de trabalho que qualquer um de vós já fez! E sou obrigado a dizer, minha querida, vós fazeis um casal realmente lindo.”

O caminho que ele seguia nos trouxe para perto do moinho de vento, onde percebi um homem de calças de marinheiro, que parecia estar espionando de trás dele. Apenas, é claro, nós o pegamos pela retaguarda.

“Veja, Alan!”

“Silêncio!” disse ele, “isso é assunto meu.”

O homem estava, sem dúvida, um pouco ensurdecido pelo barulho do moinho, e chegamos perto antes que ele notasse. Então ele se virou, e vimos que era um sujeito grande com um rosto cor de mogno.

“Acho, senhor”, diz Alan, “que o senhor fala inglês?”

“Non, monsieur”, diz ele, com um sotaque incrivelmente ruim.

“Non, monsieur”, grita Alan, zombando dele. “É assim que eles te ensinam francês no Seahorse? Teu grande e gordo patife, aqui está uma bota escocesa para as tuas nádegas inglesas!”

E saltando sobre ele antes que pudesse escapar, ele desferiu no homem um chute que o jogou sobre o nariz. Então ele ficou de pé, com um sorriso selvagem, e observou-o lutar para ficar de pé e correr para as dunas de areia.

“Mas já é hora de eu estar livre destas dunas vazias!” disse Alan; e continuou seu caminho a toda velocidade, e nós ainda o seguindo, para a porta dos fundos da estalagem de Bazin.

Aconteceu que, ao entrarmos por uma porta, demos de cara com James More entrando pela outra.

“Aqui!” disse eu para Catriona, “rápido! lá para cima, faça suas malas; esta não é uma cena adequada para ti.”

Enquanto isso, James e Alan tinham se encontrado no meio da longa sala. Ela passou perto deles para chegar às escadas; e depois que subiu um pouco, eu a vi virar e olhar para eles novamente, embora sem parar. De fato, valia a pena olhar para eles. Alan usava, ao se encontrarem, uma de suas melhores aparências de cortesia e amizade, mas com algo eminentemente guerreiro, de modo que James cheirou perigo vindo do homem, como as pessoas cheiram fogo em uma casa, e ficou preparado para acidentes.

O tempo apertava. A situação de Alan naquele lugar solitário, e seus inimigos ao redor, poderia ter intimidado César. Não causou mudança nele; e foi com seu antigo espírito de zombaria e brincadeira que ele começou a entrevista.

“Um bom dia para ti novamente, Sr. Drummond”, disse ele. “Sobre o que seria esse teu negócio?”

“Ora, sendo a coisa privada, e uma história um tanto longa”, diz James, “acho que pode esperar muito bem até que tenhamos comido.”

“Não tenho tanta certeza disso”, disse Alan. “Fica na minha mente que é agora ou nunca; pois o fato é que eu e o Sr. Balfour aqui recebemos uma mensagem, e estamos pensando na estrada.”

Vi uma pequena surpresa nos olhos de James; mas ele se manteve firme.

“Tenho apenas uma palavra a dizer para te curar disso”, disse ele, “e é o nome do meu negócio.”

“Dize-a então”, diz Alan. “Ora! quem se importa com Davie?”

“É um assunto que faria de ambos homens ricos”, disse James.

“Dizes-me isso?” grita Alan.

“Digo, senhor”, disse James. “O fato puro e simples é que se trata do Tesouro de Cluny.”

“Não!” gritou Alan. “Tens notícias disso?”

“Eu conheço o lugar, Sr. Stewart, e posso te levar até lá”, disse James.

“Isso supera tudo!” diz Alan. “Bem, e estou contente por ter vindo a Dunquerque. E então este era o teu negócio, era? Metade para cada um, estou pensando?”

“Esse é o negócio, senhor”, disse James.

“Bem, bem”, disse Alan; e então no mesmo tom de interesse infantil, “não tem nada a ver com o Seahorse, então?” ele perguntou.

“Com o quê?” diz James.

“Ou com o rapaz cujo traseiro acabei de chutar atrás daquele moinho de vento?” continuou Alan. “Cala-te, homem! acaba com tuas mentiras! Tenho a carta de Palliser aqui na minha bolsa. Acabou para ti, James More. Nunca mais poderás mostrar a cara diante de gente decente.”

James foi pego de surpresa. Ficou um segundo, imóvel e branco, depois inchou com uma raiva viva.

“Falais assim comigo, seu bastardo?” ele rugiu.

“Teu porco vesgo!” gritou Alan, e deu-lhe uma bofetada sonora na boca, e no próximo piscar de olhos suas lâminas se chocaram.

Ao primeiro som do aço nu, instintivamente saltei para trás da colisão. No momento seguinte, vi James aparar um golpe tão de perto que pensei que ele tivesse sido morto; e iluminou-se em minha mente que este era o pai da moça, e de certa forma quase meu próprio, e saquei e corri para separá-los.

“Fica para trás, Davie! Estás louco! Maldito sejas, fica para trás!” rugiu Alan. “Que teu sangue caia sobre tua própria cabeça, então!”

Eu derrubei suas lâminas duas vezes. Fui jogado cambaleando contra a parede; voltei para o meio deles. Eles não prestaram atenção em mim, investindo um contra o outro como duas fúrias. Nunca consigo pensar em como evitei ser esfaqueado eu mesmo ou esfaquear um desses dois Rodomontes, e a coisa toda girou ao meu redor como um pedaço de sonho; no meio do qual ouvi um grande grito da escada, e Catriona saltou diante de seu pai. No mesmo momento, a ponta da minha espada encontrou algo cedendo. Ela voltou para mim avermelhada. Vi o sangue fluir no lenço da moça, e fiquei enjoado.

“Vais matá-lo diante dos meus olhos, e eu sendo sua filha, afinal!” ela gritou.

“Minha querida, acabei com ele”, disse Alan, e foi sentar-se em uma mesa, com os braços cruzados e a espada nua na mão.

Por um tempo ela ficou diante do homem, ofegante, com olhos grandes, então girou subitamente e o encarou.

“Vai embora!” foi sua palavra, “leva tua vergonha para longe da minha vista; deixa-me com gente limpa. Sou uma filha de Alpin! Vergonha dos filhos de Alpin, vai embora!”

Foi dito com tanta paixão que me despertou do horror da minha própria espada ensanguentada. Os dois ficaram frente a frente, ela com a mancha vermelha no lenço, ele branco como um trapo. Eu o conhecia bem o suficiente — sabia que devia tê-lo atingido na parte mais sensível de sua alma; mas ele se entregou a um ar de bravata.

“Ora”, diz ele, embainhando sua espada, embora ainda com um olho brilhante em Alan, “se esta briga acabou, vou apenas pegar minha mala—”

“Nenhuma mala sai deste lugar a não ser comigo”, diz Alan.

“Senhor!” grita James.

“James More”, diz Alan, “esta tua filha vai se casar com meu amigo Davie, por conta do que deixo que te vás com o corpo são. Mas aceita meu conselho e tira esse corpo do caminho do perigo ou será tarde demais. Por menos que suponhas, há limites para meu temperamento.”

“Maldito sejas, senhor, mas meu dinheiro está lá!” disse James.

“Estou aborrecido com isso também”, diz Alan, com seu rosto engraçado, “mas agora, vês, é meu.” E então, com mais gravidade: “Seja aconselhado, James More, deixa esta casa.”

James pareceu hesitar por um momento em sua mente; mas é de se pensar que ele teve o suficiente da esgrima de Alan, pois subitamente tirou o chapéu para nós e (com um rosto como um dos condenados) nos deu adeus em uma série. Com o que ele se foi.

Ao mesmo tempo, um feitiço foi retirado de mim.

“Catriona”, gritei, “fui eu — foi minha espada. Oh, estás muito ferida?”

“Eu sei, Davie, estou te amando pela dor disso; foi feito defendendo aquele homem mau, meu pai.” Ela disse, e mostrou-me um arranhão sangrento, “vê, tu me fizeste um homem agora. Carregarei uma ferida como um velho soldado.”

A alegria de que ela estivesse tão pouco ferida, e o amor por sua natureza corajosa, me apoiaram. Eu a abracei, beijei a ferida.

“E vou ficar de fora dos beijos, eu que nunca perdi uma chance?” diz Alan; e me empurrando e pegando Catriona por cada ombro, “Minha querida”, ele disse, “és uma verdadeira filha de Alpin. Por todos os relatos, ele era um homem muito bom, e ele pode muito bem estar orgulhoso de ti. Se eu algum dia me casasse, é a semente de ti que eu estaria procurando para uma mãe para meus filhos. E eu carrego um nome de rei e digo a verdade.”

Ele disse isso com um calor sério de admiração que foi mel para a moça e, através dela, para mim. Pareceu nos limpar de todas as desgraças de James More. E no momento seguinte ele era apenas ele mesmo novamente.

“E agora, com vossa licença, meus queridos”, disse ele, “isto é tudo muito bonito; mas Alan Breck estará um pouquinho mais perto da forca do que ele gostaria; e Deus! acho que este é um ótimo lugar para se deixar.”

A palavra nos lembrou de alguma sabedoria. Alan correu escada acima e voltou com nossas bolsas de sela e a mala de James More; eu peguei o fardo de Catriona onde ela o deixara cair na escada; e estávamos saindo daquela casa perigosa, quando Bazin bloqueou o caminho com gritos e gesticulações. Ele tinha se escondido debaixo de uma mesa quando as espadas foram desembainhadas, mas agora era corajoso como um leão. Havia sua conta para ser paga, havia uma cadeira quebrada, Alan tinha se sentado entre suas coisas de jantar, James More tinha fugido.

“Aqui”, gritei, “paga-te a ti mesmo”, e joguei-lhe alguns Luíses de ouro; pois pensei que não era hora de fazer contas.

Ele saltou sobre aquele dinheiro, passamos por ele e corremos para o aberto. Em três lados da casa havia marinheiros apressando-se e fechando o cerco; um pouco mais perto de nós James More acenou com o chapéu como se para apressá-los; e logo atrás dele, como uma pessoa tola levantando as mãos, estavam as velas do moinho de vento girando.

Alan deu apenas um olhar e começou a correr. Ele carregava um grande peso na mala de James More; mas acho que ele preferiria perder a vida a jogar fora aquele espólio que era sua vingança; e ele corria de tal forma que fiquei aflito para segui-lo, e maravilhei-me e exultei ao ver a moça saltando ao meu lado.

Assim que aparecemos, eles abandonaram todo o disfarce do outro lado; e os marinheiros nos perseguiram com gritos. Tínhamos uma vantagem de uns duzentos metros, e eles eram apenas marinheiros de pernas tortas, afinal, que não poderiam esperar nos superar em tal exercício. Suponho que estivessem armados, mas não queriam usar suas pistolas em solo francês. E assim que percebi que não apenas mantivemos nossa vantagem, mas nos distanciamos um pouco, comecei a me sentir bastante tranquilo quanto ao resultado. Apesar de tudo, foi um trabalho quente e rápido, enquanto durou; Dunquerque ainda estava longe; e quando saltamos sobre um morro e encontramos uma companhia da guarnição marchando do outro lado em alguma manobra, pude muito bem entender a palavra que Alan tinha.

Ele parou de correr imediatamente; e limpando a testa, “Eles são um povo muito bonito, a nação francesa”, diz ele.

CONCLUSÃO

Não demorou muito para que estivéssemos seguros dentro das muralhas de Dunquerque, quando realizamos um conselho de guerra muito necessário sobre nossa posição. Tínhamos tirado uma filha de seu pai à ponta da espada; qualquer juiz a devolveria a ele imediatamente, e com toda probabilidade jogaria a mim e a Alan na cadeia; e embora tivéssemos um argumento a nosso favor na carta do Capitão Palliser, nem Catriona nem eu estávamos muito dispostos a usá-la em público. Por todos os motivos, parecia mais prudente levar a moça a Paris às mãos de seu próprio chefe, Macgregor de Bohaldie, que estaria muito disposto a ajudar sua parenta, por um lado, e nada ansioso por desonrar James por outro.

Fizemos uma viagem lenta, pois Catriona não era tão boa na montaria quanto na corrida, e mal tinha se sentado na sela desde o 'Quarenta e cinco. Mas conseguimos chegar lá, alcançamos Paris cedo em uma manhã de sábado e fomos com toda pressa, sob a orientação de Alan, encontrar Bohaldie. Ele estava bem hospedado e vivia em bom estilo, tendo uma pensão do Fundo Escocês, bem como meios privados; cumprimentou Catriona como alguém de sua própria casa, e parecia ao todo muito civilizado e discreto, mas não particularmente aberto. Perguntamos sobre as notícias de James More. “Pobre James!” disse ele, e balançou a cabeça e sorriu, de modo que pensei que ele sabia mais do que pretendia dizer. Então mostramos a ele a carta de Palliser, e ele fez uma cara longa com aquilo.

“Pobre James!” disse ele novamente. “Bem, há pessoas piores do que James More, também. Mas isso é terrivelmente ruim. Ora, ora, ele deve ter se esquecido completamente! Esta é uma carta muito indesejável. Mas, apesar de tudo, senhores, não vejo por que iríamos querer torná-la pública. É um pássaro ruim que suja seu próprio ninho, e somos todos escoceses e todos das Terras Altas.”

Sobre isso todos concordamos, exceto talvez Alan; e ainda mais sobre a questão do nosso casamento, que Bohaldie tomou em suas próprias mãos, como se não tivesse havido tal pessoa como James More, e entregou Catriona com maneiras muito gentis e cumprimentos agradáveis em francês. Não foi até que tudo acabou, e nossas saúdes foram brindadas, que ele nos disse que James estava naquela cidade, para onde ele nos tinha precedido alguns dias, e onde agora jazia doente, e prestes a morrer. Pensei ver pelo rosto de minha esposa para onde sua inclinação apontava.

“E vamos vê-lo, então”, disse eu.

“Se é do seu agrado”, disse Catriona. Aqueles eram os primeiros dias.

Ele estava hospedado no mesmo bairro da cidade que seu chefe, em uma grande casa na esquina; e fomos guiados até o sótão onde ele jazia pelo som de uma gaita de foles das Terras Altas. Parecia que ele acabara de tomar emprestado um conjunto de Bohaldie para distrair sua doença; embora não fosse um tocador tão habilidoso quanto seu irmão Rob, ele tirava boa música daquele tipo; e era estranho observar o povo francês se aglomerando nas escadas, e alguns deles rindo. Ele jazia estendido em um catre. Ao primeiro olhar, percebi que ele estava em seus últimos momentos; e, sem dúvida, aquele era um lugar estranho para ele morrer. Mas, ainda hoje, vejo que mal consigo pensar em seu fim com paciência. Sem dúvida, Bohaldie o havia preparado; ele parecia saber que estávamos casados, cumprimentou-nos pelo evento e nos deu uma bênção como um patriarca.

“Nunca fui compreendido”, disse ele. “Perdoo a ambos sem hesitação”; após o que ele falou exatamente à sua maneira antiga, teve a gentileza de tocar uma ou duas melodias em sua gaita e pediu emprestada uma pequena quantia antes que eu partisse.

Não consegui encontrar nem um vestígio de vergonha em qualquer parte de seu comportamento; mas ele era grandioso no perdão; parecia sempre algo novo para ele. Creio que ele me perdoou cada vez que nos encontramos; e quando, após uns quatro dias, ele faleceu em uma espécie de odor de santidade afetuosa, eu poderia ter arrancado meus cabelos de exasperação. Mandei enterrá-lo; mas o que colocar em sua lápide estava totalmente além de mim, até que finalmente considerei que a data ficaria melhor sozinha.

Achei mais prudente abandonar todos os pensamentos sobre Leyden, onde havíamos aparecido uma vez como irmão e irmã, e certamente pareceria estranho retornar em uma nova condição. A Escócia serviria para nós; e para lá, depois de ter recuperado o que havia deixado para trás, navegamos em um navio dos Países Baixos.

E agora, senhorita Barbara Balfour (para colocar as damas primeiro), e senhor Alan Balfour, o jovem de Shaws, aqui está a história trazida finalmente ao fim. Muitas das pessoas que dela participaram, vocês descobrirão (se bem entenderem) que já viram e com quem falaram. Alison Hastie, em Limekilns, foi a moça que balançou seu berço quando vocês eram pequenos demais para saber disso, e passeou com vocês pelo parque quando já estavam maiores. Aquela dama muito fina e importante que é a xará da senhorita Barbara não é outra senão a mesma senhorita Grant que fez tanto de bobo David Balfour na casa do Lord Advocate. E pergunto-me se vocês se lembram de um cavalheiro pequeno, magro e animado, de peruca simples e sobretudo, que veio a Shaws muito tarde em uma noite escura, e a quem vocês foram acordados de suas camas e levados ao salão de jantar para serem apresentados, pelo nome de Sr. Jamieson? Ou será que Alan se esqueceu do que fez a pedido do Sr. Jamieson — um ato dos mais desleais — pelo qual, pela letra da lei, ele poderia ser enforcado — nada menos que beber à saúde do rei do outro lado da água? Eram feitos estranhos em uma boa casa Whig! Mas o Sr. Jamieson é um homem privilegiado, e poderia pôr fogo no meu celeiro de milho; e o nome pelo qual o conhecem agora na França é o Chevalier Stewart.

Quanto a Davie e Catriona, eu os observarei bem de perto nos próximos dias, para ver se são ousados o suficiente para rir do papai e da mamãe. É verdade que não fomos tão sábios quanto poderíamos ter sido, e criamos uma grande tristeza a partir do nada; mas vocês descobrirão, conforme crescerem, que até a astuta senhorita Barbara, e até o valente senhor Alan, não serão muito mais sábios que seus pais. Pois a vida do homem neste nosso mundo é um negócio engraçado. Falam dos anjos chorando; mas acho que eles devem estar mais frequentemente segurando as laterais ao observar; e havia uma coisa que decidi fazer quando comecei esta longa história, e era contar tudo exatamente como aconteceu.

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