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Children of the Whirlwind

by Leroy Scott · in Portuguese

FILHOS DO REDEMOINHO

Por Leroy Scott

CAPÍTULO I

Era um pedaço de rua sem inspiração: estreita, pavimentada com paralelepípedos; quente e barulhenta no verão, exalando uma lama insalubre durante os meses de garoa e lodo de neve no inverno. Naquela tarde de maio, não parecia nada, exceto um ponto de partida para um drama. Mas, convenhamos, os grandes dramas da vida muitas vezes evitam as propriedades esplêndidas e os adereços com os quais o romance convencional os equiparia, tendo seus inícios no ambiente mais improvável; e dali seguem para uma tragédia nobre e consumidora, ou para um glorioso desabrochar de almas. A vida é um composto de contradições — um enigma para o mais sábio de nós: o lírio que ergue sua graciosa pureza pode ter suas raízes em um monturo. O leão morto de Sansão, a apodrecer à beira da estrada, revela-se vez após vez um depósito de mel silvestre. Estamos acostumados demais ao comum e ao óbvio para considerar que a beleza ou o valor possam, após árduo trabalho, brotar daquilo que é feio e sem perspectivas.

Assim, ninguém que olhasse para Maggie Carlisle e Larry Brainard em seus inícios tinha a menor ideia de que tipo de pessoas eles se tornariam ou quais seriam suas histórias.

As casas no trecho da rua tinham todas três andares e eram todas de um vermelho uniforme, encardido e descascado. A casa da Duquesa, do lado esquerdo para quem descia a rua em direção à pequena praça que se agachava ao lado do East River, diferenciava-se das outras apenas pelo fato de que três bolas de ouro manchado balançavam diante dela e penhores não resgatados emanavam um apelo fraco de trás de suas janelas riscadas de sujeira, e também pelo fato de que a personalidade da Duquesa conferia à casa algo de um caráter próprio.

A rua fazia negócios com ela quando precisava de fundos, mas sabia pouco de concreto sobre a Duquesa, exceto que ela era enrugada, curvada, quase sem palavras e aparentemente desprovida de emoções. Mas, é claro, havia rumores. Ela era tão velha e estava há tanto tempo na pequena rua monótona que era tanto uma lenda quanto uma pessoa real. Ninguém sabia exatamente como ela tinha conseguido o apelido de "Duquesa". Havia histórias nebulosas e sem fundamento de que, há muito, muito tempo, ela fora uma figura formosa e real em trajes coloridos, e que seu título lhe fora dado naqueles seus dias de domínio. Também havia uma história vaga de que ela obtivera o nome devido a um antigo gosto pelos romances daquela escritora que publicava suas prolíficas extravagâncias sob o exaltado pseudônimo de "A Duquesa". Havia ainda o rumor de que o título vinha de um antigo suposto hábito da Duquesa de carregar sob seu vestido sem forma um tesouro de joias digno de ser a herança de um ducado. Mas tudo isso eram apenas histórias — nada mais. Lá embaixo, nesta parte de Nova York, apelidos surgem facilmente e, uma vez aplicados, grudam até o fim.

Alguns acreditavam que ela era agora apenas as cinzas de uma mulher, em quem vivia apenas a última centelha tremulante. E alguns acreditavam que, sob aquela aparência monótona e gasta, ardia um grande fogo, que poderia explodir em alguma ocasião. Mas ninguém sabia. Como ela era agora, assim sempre fora, mesmo na memória das pessoas consideradas velhas na vizinhança.

Além do fato de ela administrar uma casa de penhores, que também tinha a reputação de ser um receptador, havia apenas dois ou três outros fatos conhecidos por seus vizinhos. Um era que, num passado distante, houvera uma filha, e que, enquanto ainda era uma menina muito jovem, essa filha desaparecera. Rumores diziam que a Duquesa colocara a filha em um convento e que, mais tarde, a moça se casara; mas a filha nunca mais aparecera na região. Outro fato era que havia um neto, um jovem diabo bonito, que vinha ocasionalmente visitar sua avó, até começar sua estada involuntária em Sing Sing. Outro fato — este o mais conhecido de todos — era que, dois ou três anos antes, uma jovem impudente e obstinada chamada Maggie Carlisle viera morar com ela.

Era uma história bastante escassa. As pessoas se perguntavam e falavam de mistério. Mas talvez o único mistério surgisse do fato de que a Duquesa era o tipo de mulher que nunca se voluntariava a dar informações sobre seus assuntos, e o tipo que até os audaciosamente curiosos hesitam em questionar...

E foi aqui embaixo, nesta rua pouco amável, na casa pouco amável da Duquesa, que o drama de Maggie Carlisle e Larry Brainard começou sua carreira pouco promissora e tempestuosa: pois, embora tivessem pensado pouco nisso, seus antepassados foram semeadores do vento, eles próprios semearam algumas dessas sementes descuidadas e ainda semeariam mais — e haveria a colheita da safra selvagem dessas sementes.

CAPÍTULO II

Quando Maggie entrou no estúdio no terceiro andar da Duquesa, o pintor grande, ruivo e desleixado rugiu suas repreensões para ela. Ela ficou tensa e, no ressentimento de sua orgulhosa juventude, nem sequer ofereceu uma explicação. Acenando para seu pai e Barney Palmer, ela atravessou silenciosamente até a janela e ficou parada, observando com mau humor a única árvore mestiça em frente à casa, descendo a rua estreita e atravessando a pequena praça, em direção à maré negra e turbulenta que corria pelo East River. Aquele pintor era uma besta! Sim, e um tolo!

Mas rapidamente o pintor foi esquecido, e mais uma vez sua mente voltou a Larry — finalmente Larry estava voltando! — apenas para ter o pintor, após um minuto, interrompendo sua imaginação excitada com:

"Qual é o problema com sua língua, Maggie? Geralmente você rebate bem rápido."

Ela se virou, ainda emburrada e silenciosa, e olhou com superioridade cínica para o cavalete. "Nozes" — fora Barney Palmer quem assim rebatizara levemente o pintor quando este montara seu estúdio no sótão acima da casa de penhores seis meses antes — Nozes estava transferindo o rosto calejado e astuto de seu pai, "Velho Jimmie" Carlisle, para a tela com pinceladas rápidas e sem hesitação.

"Pelo amor de Cristo e dos doze apóstolos, incluindo aquele vigarista do Judas", entoou penosamente o Velho Jimmie da cadeira do modelo, "deixe-me descer desta plataforma!"

"Mova-se e eu limparei minha paleta nesse seu colete de Carnaval!" resmungou o pintor grande autocraticamente com a boca cheia de pincéis.

"Oh Deus — e eu estou com uma cãibra nas costas, e meu pescoço adormeceu!" gemeu o Velho Jimmie, inclinando-se para frente sobre sua bengala. "Querida filha" — queixosamente para Maggie — "o que o cavalheiro louco está fazendo comigo?"

"É uma mancha horrível, pai." Maggie falou com desdém, mas com um tom de dúvida. Não era o tipo de quadro que aos dezoito anos se aprende a gostar — ainda assim, o quadro possuía um algo intangível que provocava dúvida quanto à sua qualidade. "Você realmente parece um velho ladrão!"

"Não um ladrão barato?" — esperançoso.

"Não!" explodiu o homem no cavalete com sua voz grave, primeiro tirando os pincéis da boca. "Você é um velho pirata de primeira! — pronto para saquear o subtesouro e depois afundar o velho navio com toda a tripulação a bordo! Uma semelhança viva, falante e ladra!"

"Maggie está certa, e Nozes está certo", interveio Barney Palmer. "É com certeza um quadro podre, e então, novamente, com certeza parece você, Jimmie."

Barney, elegantemente vestido — Barney não conseguia se manter longe dos alfaiates e camiseiros da Broadway com seus designs e esquemas de cores extravagantes —, descartou o assunto insignificante do retrato e retomou o assunto realmente importante que o trouxera até ela.

"Você tem certeza, Maggie, de que a Duquesa não teve notícias de Larry?"

"Se teve, ela não mencionou. Mas por que você não pergunta a ela você mesmo?"

"Eu perguntei, mas ela não disse nada. Você não consegue tirar uma palavra da Duquesa com um pé de cabra, a menos que ela queira falar — e ela nunca quer falar." Ele voltou seus olhos afiados e estreitos para o magro velho. "Isso me deixou intrigado, Jimmie. O prazo de Larry em Sing Sing terminou ontem, e não tivemos um pio dele, e embora ela não fale, tenho certeza de que ele não esteve aqui para ver sua avó."

"Realmente é estranho", concordou o Velho Jimmie. "Mas talvez Larry tenha entrado direto em um jogo novo e esteja jogando sozinho. Ele é rápido no gatilho, o Larry é — e ele tem coragem."

"Bem, seja o que for que esteja mantendo ele, estamos presos até que Larry venha." Barney se virou novamente para Maggie. "Digo, irmã, que tal se vestir com suas roupas de alegria e vir comigo, o seu verdadeiro, a um palácio de jazz, para jantar e mostrar à população o que é dançar de verdade?"

"Não posso, Barney. O Sr. Hunt" — o nome dado ao pintor em seu batismo original — "convidou a Duquesa e eu para jantar aqui em cima. Ele mesmo vai cozinhar."

"Pelo seu bem, espero que ele cozinhe melhor do que pinta." E deslizando em sua cadeira até descansar sobre uma vértebra mais confortável, o elegante Barney acendeu um cigarro com monograma e, com paciência ociosa, girou sua bengala de bambu.

"Você está meia hora atrasada, Maggie", Hunt começou com ela novamente em sua voz retumbante. "Não aguento tal desperdício do meu tempo!"

"E quanto ao meu tempo?" retrucou Maggie, que de fato tinha uma queixa. "Eu deveria ter o dia de folga, mas em vez disso tive que carregar aquela bandeja de cigarros até que a última pessoa no Ritzmore terminasse o almoço. De qualquer forma", ela acrescentou, "não vejo que seu tempo valha tanto quando você o gasta em tais bagunças de tinta como estas."

"Não cabe a você me dizer quanto meu tempo vale!" retrucou Hunt. "Eu te pago — isso é o suficiente para você!... Porque você não estava na hora, enfiei o Velho Jimmie ali para terminar este quadro. Terminarei com o velho degolador em dez minutos. Esteja pronta para ocupar o lugar dele."

"Tudo bem", disse Maggie emburrada.

Apesar de seus rugidos, ela não tinha muito medo do pintor. Enquanto seus pincéis agitavam e riscavam a tela, ela ficava ociosa observando-o. Ele estava com calças largas manchadas de tinta e uma camisa macia cujo colarinho aberto dava um vislumbre de um peito profundo coberto de pelos e cujas mangas arregaçadas revelavam antebraços que pareciam absurdamente grandes para estar mexendo com aqueles bastões finos. Um pé de cabra teria parecido mais em harmonia. Ele era romanticamente velho — todos os trinta e cinco, Maggie supunha; e com seu rosto quadrado e rústico e cabelo ruivo despenteado, ele era decididamente feio. Mas pelo fato de que ele realmente trabalhava — embora, é claro, seu trabalho fosse tolo — e pelo fato de que ele pagava suas contas — ele comprava pouco, mas ninguém conseguia superá-lo nem por um centavo em uma pechincha, nem mesmo a Duquesa — Maggie poderia tê-lo considerado um dos muitos vagabundos que flutuavam sem propósito por aquela região monótona.

Além disso, se não houvesse tantas pessoas estranhas indo e vindo neste bairro — Eads Howe, o milionário andarilho, assistentes sociais, pessoas que enriqueceram e envelheceram em seus negócios e preferiam viver perto deles — Maggie poderia ter olhado para Hunt com mais curiosidade, e até mesmo com suspeita; mas aqui embaixo aceitava-se pessoas estranhas como uma questão natural, o único medo sendo que secretamente pudessem ser policiais ou agentes do governo, o que Maggie e os outros sabiam muito bem que Hunt não era. Quando Hunt alugou este sótão como estúdio, eles aceitaram sua explicação de que o alugara porque era barato e ele não podia pagar mais. Da mesma forma, aceitaram sua explicação de que era mecânico de profissão, que tinha se virado por todo o mundo e possuía um desejo por pintura, que ultimamente trabalhara em várias garagens, que era seu hábito acumular dinheiro até conseguir um pouco e então sair em uma farra de pintura. Todas essas admissões eram indubitavelmente plausíveis, pois suas pinturas pareciam a obra inconfundível de um mecânico de automóveis irresponsável e de mãos calejadas.

Maggie mudou para o outro pé e deu uma olhada casual nas telas que se encostavam nas paredes do estúdio surrado. Lá estava a Duquesa: incrivelmente velha, o rosto uma teia de rugas, os lábios recolhidos sobre gengivas desdentadas e encolhidas, o nariz um bico fino e curvo, os olhos profundos, brilhantes, inescrutáveis, observando; e puxado firmemente sobre o cabelo — nem mesmo Maggie sabia se aquele cabelo era uma peruca ou o da Duquesa — o xale oriental desbotado que era preso sob o queixo e que caía sobre seu peito fino e curvado. Lá estava O'Flaherty, o policial bonachão da ronda. Lá estava o velho relojoeiro ao lado. Lá estava Black Hurley, o notório líder de gangue, que às vezes entrava no distrito como um senhor feudal sujo e maligno. Lá estava um vendedor de carrinho judeu, de barba branca e solidéu. Lá estava uma mãe italiana sentada no meio-fio, os pés na sarjeta, sorrindo para o bebê que mamava faminto em seu seio cheio de leite. E assim por diante. Apenas as coisas comuns e desinteressantes que Maggie via pelo quarteirão. Não havia um único quadro bonito no lote.

Hunt girou a tela do cavalete e a encostou na parede. "Isso será tudo para você, Jimmie. Cai fora e abra espaço para a Maggie. Maggie, faça a mesma pose."

O Velho Jimmie caminhou para frente e olhou para seu retrato enquanto Hunt ajustava um quadro inacabado em seu cavalete. Tinha divertido bastante Jimmie e preenchido seu tempo ocioso posar para o pintor louco; e, incidentalmente, outro quadro dele não lhe faria mal, já que a polícia já tinha todos os quadros que precisava dele na sede. Enquanto olhava para o trabalho de Hunt, o Velho Jimmie riu.

"Digo, Nozes, o que você vai fazer com essa bagunça de tinta?"

"Vou vender para o Museu Metropolitano, seu velho pecador!" rebateu Hunt.

O Velho Jimmie riu da piada. Ele entendia de quadros; isto é, bons quadros. Ele tivera uma mão invisível em mais de uma transação inteligente em que quadros bonitos, supostamente contrabandeados, Gainsboroughs e Romneys e tais (houvera mais lucro para ele em lidar com as falsificações desses mestres particulares), foram colocados, com um ar de grande segredo, nas mãos de diversos cavalheiros recém-ricos que acreditavam estar obtendo obras-primas a preços de barganha através dessa evasão das leis alfandegárias.

"Nozes", riu o Velho Jimmie, "essa porcaria não seria tão engraçada se você não parecesse acreditar que estava realmente pintando."

"Porcaria! Engraçada!" Hunt se virou, uma mão grande fechada em torno do pescoço magro de Jimmie e a outra agarrando seu ombro fino. "Seu avô do diabo e toda sua descendência masculina, você fala assim e eu te jogo pela janela!"

O Velho Jimmie sorriu. O aperto das mãos grandes do pintor, embora poderoso, era leve. Todos sabiam que os rugidos altos do pintor nunca pressagiavam violência. Eles tinham passado a gostar dele, a aceitá-lo quase como um deles; embora, é claro, o desprezassem com piedade divertida por sua imbecilidade em relação às suas pinturas.

"Saia daqui", continuou Hunt, "ou corte todo esse barulho que vem de você ter um cérebro que chocalha. Tenho que trabalhar."

Hunt voltou-se novamente para seu cavalete, e o Velho Jimmie, ainda sorrindo, desceu para uma cadeira, acendeu um charuto e piscou para Barney. Hunt, com o pincel pronto, observou Maggie por um momento.

"Você aí, Maggie", ordenou ele, "queixo um pouco mais alto, algum brilho em seus olhos, mais energia em seu porte — como se estivesse perguntando a todas as damas do Winter Garden, e do Baile de Caridade, e do Concurso Hípico, e àquela gangue de mulheres que bebem chá no Ritzmore para quem você vende cigarros — como se estivesse perguntando a todas elas quem diabos elas pensam que são... Oh Deus, você não pode fazer nada!"

"Estou fazendo o melhor que posso, e pareço mais com essas damas do que você parece um pintor!"

"Cale a boca! Estou te pagando um dólar por hora para posar, não para me responder. E você teria mais respeito pelo meu dinheiro se soubesse o quanto tive que trabalhar para ganhá-lo: carregando um automóvel em cada mão. Lave essa carranca e tente parecer como eu disse... Aí, isso é melhor. Segure."

Ele começou a pintar rapidamente, com olhares rápidos de um lado para o outro entre a tela e Maggie. O vestido de Maggie era apenas a blusa e saia comuns que a balconista e suas irmãs usam; Hunt ordenara assim. Ela estava acima da altura média, com cabelos pretos grossos tingidos com azul sombrio, cílios longos e escuros, sobrancelhas como cimitarras escuras, uma boca cheia e firme, um nariz com a inclinação certa — todos pontos eficazes para Hunt no que ele desejava fazer. Mas o que mais o atraíra e lhe dera a ideia fora seu olhar; dificilmente atrevimento ou impudência — mais uma certeza cínica, madura e desafiadora em si mesma.

Ereta em sua blusa barata, ela olhava para o espaço com um desafio sorridente e confiante a todo o mundo. Hunt estava tentando fazer de seu quadro um retrato verdadeiro — e também fazer dele um símbolo de muitas coisas que ainda estavam tomando forma em sua própria mente: da beleza surgindo da sarjeta para superar a beleza de nascimento mais favorecido, e reinar sobre ela; também de um estrato inferior surgindo e rompendo o estrato superior, tornando-se parte dele, ou assimilando-o, ou conquistando-o. Famílias líderes substituídas por outras famílias, classes substituídas por outras classes, nações substituídas por outras nações — tal era o processo social inevitável — assim liam os registros dos cinquenta ou sessenta séculos desde que a história começou a ser escrita. Oh, ele estava tentando dizer muito neste retrato de uma garota de nascimento comum — até menos que comum — em sua blusa e saia baratas!

E agradava o elemento sardônico na natureza amoral de Hunt que essa Maggie, através de quem ele estava tentando simbolizar tanto, ele sabia ser uma ladra mesquinha: furtos em lojas e assuntos de consequência semelhante. Ela tinha sido cinicamente franca sobre isso com ele; casual, quase orgulhosa. Ter ela uma tendência para tais atividades dificilmente era de se estranhar, tendo o Velho Jimmie como pai, e a Duquesa como senhoria, e tendo como conhecidos cavalheiros como Barney Palmer e este pássaro de prisão que retornava, Larry Brainard.

Mas o crime mesquinho, pensou Hunt, não seria o forte de Maggie se ela desenvolvesse suas possibilidades. Com sua aparência, sua audácia, sua inteligência, ela tinha o necessário para ser uma aventureira magnífica. Enquanto pintava, ele se perguntava o que ela iria fazer, e se tornar; e ele a observava não apenas com o olho de um pintor atento ao presente, mas com uma especulação aguçada sobre o futuro.

CAPÍTULO III

Logo a mente de Hunt mudou para Larry Brainard, a quem Barney Palmer e o Velho Jimmie Carlisle tinham vindo ali ver. Hunt tinha uma mente curiosa sobre tudo e todos; e, criatura barulhenta e intimidadora que era, ele tinha o dom, possuído por poucos, de se intrometer audaciosamente nos assuntos alheios sem despertar ressentimento. Ele estava ansioso para saber a atitude de Maggie em relação a Larry; e falou não tanto para obter conhecimento sobre Larry, mas para atraí-la.

"Esse Larry — que tipo de sujeito ele é, Maggie?" Como na maioria dos artistas, falar não interferia na pintura de Hunt.

Uma cor quente tingiu lentamente as bochechas de Maggie. "Ele é inteligente", disse ela positivamente. "Você já sabe disso. Mas eu era apenas uma menina quando ele foi enviado embora."

Hunt sorriu com a ideia dela sobre sua maturidade atual, implícita em sua última frase. "Mas você morou com a Duquesa por um ano antes de ele ser enviado embora. Você deve ter visto muito dele e chegado a conhecê-lo bem."

"Oh, ele costumava vir de vez em quando para ver sua avó — eu tinha apenas quinze ou dezesseis anos então — apenas uma garota, e ele não prestava muita atenção em mim. Papai pode te dizer melhor o quão esperto ele é."

O Velho Jimmie falou prontamente. Ele sabia que Hunt não era um informante da polícia, e ele gostava do pintor tanto quanto era possível para ele gostar de qualquer homem; então ele não sentiu nenhuma das reservas ou cautela que poderiam tê-lo controlado em outra companhia.

"Pode apostar que Larry é esperto! Tem o cérebro mais rápido de qualquer vigarista no negócio — e ele com apenas uns vinte e sete anos agora. Alguns pensam que eu mesmo sou um sujeito esperto, mas Larry supera tudo em mim. É por isso que estou disposto a deixá-lo ser meu chefe. Ele é uma maravilha em inventar novas manobras, e depois em descobrir novas maneiras seguras de realizá-las."

"Mas a polícia o pegou finalmente", comentou Hunt.

"Sim, mas isso foi apenas porque outro homem estragou sua parte no trabalho."

O belo Barney Palmer estivera inquieto durante o elogio fúnebre do Velho Jimmie. “Oh, o Larry é nota dez, mas ele não é o único que tem ideias de verdade.”

“Hum!” resmungou o Velho Jimmie. “Mas você deve se lembrar que não realizamos nenhuma grande desde que o Larry está na jaula.”

“Isso porque você não quis ouvir nenhuma das minhas ideias!” retrucou Barney. “E eu dei algumas dicas de ouro.”

Mesmo durante o período do reinado ativo de Larry, irritava Barney aceitar outro homem como líder, e irritou-o ainda mais durante o interregno, enquanto Larry era hóspede do Estado. Pois Barney acreditava em sua própria linhagem napoleônica.

“Não se deixe ficar irritado, Barney”, disse o Velho Jimmie de forma apaziguadora. “Você terá muitas chances de testar suas ideias como o cara principal antes de bater as botas. Você sabe que o pessoal queria ficar na moita por um tempo, de qualquer modo. Mas vamos realizar muitas das grandes coisas quando o Larry sair.”

Hunt notara um brilho rápido nos olhos escuros de Maggie enquanto seu pai elogiava o líder ausente. Ele mesmo percebeu de repente uma nova possibilidade.

“Maggie, já pensou em formar uma equipe com o Larry?” perguntou ele, com sua audaciosa perspicácia.

Ela corou e hesitou. Ele não esperou por sua resposta lenta, mas virou-se para o pai dela.

“Jimmie, o Larry já usou mulheres nas suas manobras?”

“Nunca. Sempre que sugeríamos usar uma saia, o Larry dizia categoricamente que não havia nada feito. Esse é um ponto em que ele estava totalmente errado. Nada ajuda tanto, quando o trouxa é um pouco sentimental, quanto uma mulher inteligente e bonita. E o Larry vai acabar concordando com isso. Ele verá o sentido disso, agora que está mais velho e teve dois anos para pensar nas coisas.”

O Velho Jimmie assentiu, exibindo seus dentes amarelos em um sorriso astuto. “Você disse algo há um segundo: Maggie e Larry! Eles formarão uma dupla maravilhosa! Quero dizer que ela trabalhará sob ele com o resto de nós. Venho pensando nisso há muito tempo. Talvez você não tenha adivinhado, mas estamos treinando-a para o papel, e ela está quase pronta. Ela tem a aparência, e podemos vesti-la adequadamente para qualquer trabalho em questão. Oh, o Larry fará grandes coisas com a Maggie!”

Se Hunt sentiu que havia algo cinicamente não paternal nesse pai planejando para a filha uma carreira de crime, ele não deu sinal disso. Sua atenção estava justamente toda em Maggie. Ele viu os olhos dela ficarem ainda mais brilhantes com essas últimas frases de seu pai: brilhantes com a visão da aventura que se aproximava.

“A ideia lhe agrada, Maggie?” perguntou ele.

“Claro. Vai ser ótimo — pois o Larry é uma maravilha!”

Barney Palmer levantou-se de repente, o rosto contorcido de raiva. “Estou farto desse Larry, Larry, Larry! Vamos, Jimmie. Vamos para a cidade.”

O sensato Velho Jimmie viu que Barney estava perto de uma explosão. “Tudo bem, Barney, tudo bem”, disse ele prontamente. “De qualquer modo, não adianta esperar mais. Se o Larry vier, acertaremos com a Duquesa para encontrá-lo amanhã.”

“Então até logo, Maggie”, Barney lançou para ela, e aquele ex-jóquei fanfarrão, jogador e manipulador astuto da confiança de pessoas com dinheiro, cortou as cortinas de estopa puídas com sua bengala de bambu e saiu da sala a passos largos.

“Boa noite, filha”, e o Velho Jimmie atravessou e a beijou. Ela retribuiu o beijo — um beijo superficial. Maggie nunca parara para pensar bem no assunto, mas, por alguma razão, sentia pouco afeto real pelo pai, embora, é claro, admirasse sua astúcia. Talvez sua falta de amor inconsciente se devesse, em parte, ao fato de nunca ter vivido com ele. Desde que se lembrava, ele a colocava em pensões, aqui e ali, como agora a colocava na casa da Duquesa — e só vinha visitá-la em intervalos, às vezes intervalos que se estendiam por meses.

“O Barney é bem a fim de você”, comentou Hunt depois que os dois se foram.

“Eu sei que ele é”, admitiu Maggie de uma maneira prática.

“E ele parece ciumento do Larry — tanto em relação a você quanto em relação ao grupo.”

“Ele acha que pode comandar o grupo tão bem quanto o Larry. O Barney é esperto, sim, e tem muita coragem — mas não é da classe do Larry. Nem por um milhão de milhas!”

Hunt percebeu que essa modelo sua, ousada, desafiadora do mundo e em embrião de beleza, havia idealizado o sobrinho da Duquesa, que voltava para casa, como seu herói especial. Hunt não disse mais nada, mas pintou rapidamente. A noite caíra lá fora, e ele já havia acendido as luzes elétricas há muito tempo. Ele parecia não ser nada exigente nessa questão de luz; não tinha a suposta indispensável luz do norte, e o meio-dia ou a meia-noite eram quase igualmente aptos a encontrá-lo riscando com o pincel ou arranhando com o giz de cera.

Logo a Duquesa entrou. Nenhuma palavra foi dita. A Duquesa, notável por seu domínio do silêncio, afundou-se em uma cadeira, uma imagem curva e encolhida, sem nada aparentemente vivo nela, exceto seus olhos encovados e levemente brilhantes. Vários minutos se passaram, então Hunt levantou a tela do cavalete e encostou-a na parede.

“Por hoje é só, Maggie”, anunciou ele, empurrando o cavalete para o lado. “Duquesa, você e esta criatura selvagem preparem a mesa do banquete enquanto eu me lavo.”

Ele desapareceu em um canto fechado por cortinas de estopa. De dentro, ouviu-se o som de água espirrando e o rugido crepitante de trechos da canção do Toreador em um barítono muito grande e muito ruim.

Maggie estendeu a mão e impediu que a Duquesa se levantasse. “Fique sentada — eu arrumo a mesa.”

Silenciosamente, a Duquesa consentiu. Maggie nunca sentira qualquer ternura por essa mulher estranha e silenciosa com quem vivia há três anos, mas talvez fosse uma indicação de qualidades dentro de Maggie, cuja existência ela mesma nem sequer suspeitava, que ela instintivamente afastasse a velha de tarefas que envolvessem qualquer esforço físico. Maggie agora girou o encosto de um banco de lavanderia para formar um tampo de mesa e, sobre ele, começou a estender uma toalha e arrumar uma mistura de pratos lascados. Enquanto ela se movia rápida e habilidosamente, a Duquesa observando-a com feições imóveis, as duas formavam um par estranhamente contrastante: uma aparentemente esgotada e no fim cinzento da vida, a outra elétrica de vitalidade e exalando a essência das aventuras desconhecidas da vida.

Hunt saiu de entre as cortinas, vestindo o paletó. “Vocês descobrirão que a comida na minha panela térmica superará o Ritz”, gabou-se ele. “O tipo mais tenro e gordo de bezerro cevado para o filho pródigo que retornou.”

Maggie sobressaltou-se. “O filho pródigo! Você quer dizer... o Larry está vindo?”

“Claro”, sorriu Hunt. “É por isso que celebramos.”

Maggie virou-se para a Duquesa. “O Larry está realmente vindo?”

“Sim”, disse a velha.

“Mas... mas por que a incerteza sobre quando ele voltaria? Papai e Barney achavam que ele deveria sair ontem.”

“Apenas um erro que todos cometemos sobre a libertação dele. O tempo dele terminou esta tarde.”

“Mas você disse ao Barney e ao meu pai que não tinha tido notícias dele.”

“Eu tive notícias”, disse a Duquesa em seu tom monótono. “Se eles quiserem vê-lo, podem vê-lo amanhã.”

“Quando... quando ele estará aqui?”

“A qualquer momento”, disse a Duquesa.

Sem uma palavra, Maggie girou e, no momento seguinte, estava em seu quarto no andar de baixo. Ela não sabia o que a impulsionava, mas tinha um desejo frenético de tirar aquela blusa simples e saia e colocar algo que fosse marcante. Ela considerou seu guarda-roupa escasso; seu pai falara recentemente de vestidos e móveis elegantes, mas, até o momento, estes existiam apenas em suas palavras, e os pseudo-vestidos de noite que ela usara em danças de restaurante com Barney, ela sabia serem baratos e ineficazes.

De repente, lembrou-se das coisas que Hunt lhe dera, ou emprestara, na noite de quatro meses antes, quando a levara a um baile de máscaras de artistas — embora, para ela, tivesse sido uma decepção amarga quando Hunt a levara embora antes da revelação das identidades às doze horas. Ela arrancou a blusa e a saia ofensivas, puxou debaixo da cama a caixa de papelão contendo seu traje; e em cinco minutos de mãos frenéticas, a transformação estava completa. Seu cabelo espesso de preto polido estava empilhado no topo da cabeça em um desordem graciosa, e dele pendia uma flor de papel escarlate. Em torno de seu corpo ágil, sobre uma saia de cetim preto, envolvendo-a em suas dobras graciosas, prendia-se um xale espanhol de fundo cor de açafrão com franja longa de seda marrom, e todo florido com marrom, vermelho e azul-pavão, e mantido no lugar por três enormes alfinetes bárbaros cravejados com vidro colorido, um em cada quadril e sobre seu ombro direito, deixando seus ombros lisos nus e livres. Sem mais do que um olhar para obter o efeito apressado, ela subiu para o estúdio.

Hunt assobiou ao vê-la, mas não fez nenhum comentário. Corada, ela olhou de volta para ele desafiadoramente. A Duquesa não deu sinal algum de estar ciente da transformação.

Maggie, com toques animados, tentou melhorar sua arrumação da mesa, trêmula de expectativa e suspense pela proximidade do encontro — cada nervo da audição tenso para captar o primeiro passo na escada. Hunt, observando-a, não podia deixar de se perguntar, caso Larry fosse a pessoa inteligente e impetuosa que fora descrita, qual seria o resultado quando essas duas naturezas se encontrassem e talvez unissem forças.

CAPÍTULO IV

Enquanto os preparativos para o jantar aconteciam no estúdio, lá embaixo Larry virou a esquina e caminhou pela rua estreita em direção à loja de penhores. Ele parou e olhou para dentro antes de entrar; ao fazer isso, estava obedecendo à cautela que era sua por instinto e treinamento.

Debruçado sobre o balcão lá dentro, conversando com o assistente de sua avó, estava Casey, um dos dois policiais à paisana que o prenderam. Larry recuou. Ele não tinha medo de Casey, ou de Gavegan, o parceiro de Casey, ou de toda a força policial, ou do Estado de Nova York; eles não tinham nada contra ele, ele acertara as contas ao cumprir sua pena. Mesmo assim, ele preferia não encontrar Casey naquele momento. Então ele desceu a rua, atravessou a praça calçada ao longo da orla e deslizou pela escuridão entre os caminhões até a ponta do píer. Sob seus pés, o East River espirrava preguiçosamente contra as estacas, mas perto do centro do rio ele podia ver a maré girando para o mar a seis milhas por hora, em direção à grande e sombria Ponte de Manhattan, coroada com sua esplêndida tiara de luzes.

Ele se espreguiçou e respirou fundo o ar quente e livre da primavera. Tinha um gosto bom depois de dois longos anos do ar selado da prisão. Ele teria gostado de tirar a roupa e mergulhar para uma luta vigorosa com a água formigante. Larry sempre sentira prazer em manter seu corpo em forma. Ele não se importava com os ginásios dos clubes dos distritos onde teria sido bem-vindo; neles, havia muita brincadeira bruta e boca suja, e isso sempre fora ofensivo para ele. E, embora sempre parecesse um cavalheiro, ele sabia que o New York Athletic Club e outros clubes semelhantes não eram para ele; eles investigavam um pouco demais a situação social e profissional de um candidato. Então ele se voltara para um clube onde perguntas realmente profundas raramente eram feitas; por anos ele pertencera a uma filial da A.C.M. localizada logo após a Broadway, e jogara handebol e lutara boxe com detetives da cidade atarracados e de pés lentos que lutavam para manter alguma atividade física, e com dramaturgos gordos, e com gerentes teatrais judeus, e com os poucos cristãos autênticos que ocasionalmente apareciam no local e pareciam desconfortáveis nele. Ele gostara desse clube por outra razão; seu senso de humor fora muitas vezes altamente estimulado pelo pensamento de ser um membro da A.C.M.

Tendo esse instinto para o condicionamento físico, ele não se importara muito em ser carregador de carvão durante a maior parte de sua estadia em Sing Sing; melhor isso do que trabalhar nas fábricas de malharia; de modo que agora, embora desnutrido e abaixo do peso, ele estava ativo e com músculos rígidos.

Larry Brainard não poderia ter dito por que, e exatamente quando, ele se voltara para caminhos tortuosos. Ele nunca colocara essa parte de sua vida sob o microscópio. Mas os fatos simples eram que ele se tornara órfão aos quinze anos e escriturário de corretora aos dezenove, após um curso em uma escola de negócios; e que as experiências com vendas fictícias e práticas tão tortuosas e duvidosas de corretores, seu espírito elevado, seu instinto para o prazer, seu desejo por grandes ganhos — isso tudo o arrastara para uma multidão selvagem antes que tivesse idade suficiente para se levar a sério, e o iniciara em uma carreira brilhante de aventuras e ganhos ilegais de dinheiro, em cuja emoção não houvera trégua até sua prisão. Ele nunca pensara em assuntos tão técnicos e altamente acadêmicos como certo e errado até o dia em que Casey e Gavegan lhe colocaram as algemas. Rir, dançar, planejar e dirigir golpes inteligentes, gastar os lucros de forma alegre e luxuosa — desafiar a polícia com outro golpe ousado: isso fora a vida para ele, um jogo que era pura emoção.

E agora, após dois anos nos quais houve tempo de sobra para pensar, sua consciência ainda não o perturbava no que dizia respeito às suas ofensas. Ele acreditava, e estava em grande parte certo nessa crença, que os trouxas que ele passara para trás estavam todos em busca de ganho ilegal e de tirar vantagem astuta de seu suposto eu tolo e de outros enganados. Ele fora inteligente demais para eles, era só isso; em desejo e intenção, eles tinham sido trapaceiros tão grandes quanto ele. Então ele não sentia remorso por suas vítimas; e quanto a qualquer coisa que pudesse ter feito contra aquela entidade impessoal, os estatutos criminais, bem, o período na prisão equilibrara todas essas questões. Assim, agora ele encarava a vida agradavelmente e com uma alma despreocupada.

Larry se afastara do rio escuro e começara a refazer seu caminho, quando viu um homem se aproximando pela escuridão. Larry parou. O homem se aproximou e parou exatamente na frente de Larry. Pelo balanço de seu corpo, Larry reconhecera o homem, e sua própria figura ficou tensa instintivamente.

“O que você está fazendo aqui fora, Brainard?” A voz era imperativa e áspera.

“Mandando beijos para o Brooklyn”, respondeu Larry friamente. “E o que você está fazendo aqui fora, Gavegan?”

“Seguindo você. Eu queria uma palavra em particular com você. Tenho estado bem atrás de você desde que você chegou a Nova York.”

“Eu sabia que você estaria. Você e Casey. Mas você não tem nada contra mim.”

“Eu tive muito contra você antes! — com a ajuda de Casey”, retrucou Gavegan. “E eu terei muito contra você de novo! — agora que sei que você é o cara principal de um grupo esperto. Você vai começar algum jogo tranquilo — mas vou ficar atrás de você a cada minuto. E eu vou te pegar. Essa é a novidade que eu queria te dar.”

“Então!” comentou Larry arrastadamente. “Casey é um cara razoavelmente decente, considerando sua profissão — mas, Gavegan, não entendo como Casey aguenta você como parceiro. E, Gavegan, não vejo por que o Conselho de Saúde permite que você fique pelas ruas — quando a matéria em putrefação causa tanta doença.”

“Nada de atrevimento, jovem!” rosnou Gavegan. Ele deu um passo à frente, pairando sobre Larry. “Você acha que é um falador tão maldito e um planejador tão maldito de esperto — mas aposto que terei você trancado em seis meses.”

A raiva ferveu dentro de Larry. Contra todas as pessoas ligadas à sua prisão, julgamento e encarceramento, ele não tinha ressentimento particular, exceto contra este homem. Ele nunca poderia esquecer a vez em que ele e Gavegan, ele algemado, foram trancados em uma cela à prova de som, e Gavegan lhe deu o terceiro grau — neste caso, um pedaço de mangueira de borracha pesada, aplicado com um braço poderoso na cabeça e nos ombros — em um esforço para fazê-lo dedurar seus confederados. E aquele terceiro grau era apenas uma amostra do material de que Gavegan era feito.

Larry manteve seu desejo sob controle. “Então você aposta que vai me pegar. Eu aceito essa aposta — qualquer valor que você quiser. Eu já tenho um novo jogo preparado, Gavegan. Mais inteligente do que qualquer coisa que já tentei antes.”

“Ah, eu vou te pegar!” Gavegan rosnou novamente.

“Ah, não, você não vai!” E então a velha raiva de Larry contra Gavegan entrou em sua língua e a fez balançar de forma provocadora. “Você não me pegou da última vez; aquilo foi um deslize e delatores da polícia me pegaram. Sozinho, Gavegan, você não conseguiria nada. Seu cérebro está com pneus murchos, e seu motor não funciona, e sua embreagem está quebrada. A única coisa nele que ainda funciona é a buzina. Você tem uma buzina infernal, Gavegan, e ela nunca para de tocar.”

Um rebocador estava se aproximando da doca e, pela sua luz, Larry viu o balanço terrível que o detetive enfurecido iniciou. Larry balançou-se ligeiramente para o lado e, quando Gavegan avançou, o punho direito de Larry atingiu o queixo de Gavegan — atingiu com todo o poder de sua aversão e toda a força de cinco anos em um ginásio da A.C.M. e um ano em uma sala de caldeiras de prisão.

Gavegan caiu, apagado.

Larry olhou por um momento para a figura indistinta e estirada, então virou-se e fez seu caminho para fora do píer e novamente para a porta da loja de penhores. Casey tinha ido embora; ele não podia ver ninguém lá dentro, exceto o Velho Isaac, o assistente.

Larry abriu a porta e entrou. “Olá, Isaac. Onde está a vovó?”

Não é um traço desejável em alguém ligado a uma loja de penhores, que também tem fama de ser um receptador, mostrar surpresa ou curiosidade. Então a resposta de Isaac limitou-se a alguns fatos e uma breve direção.

Imaginando, Larry subiu a escada que se abria da sala de negócios confidenciais atrás da loja de penhores. Era comum o suficiente para sua avó alugar o terceiro andar; mas para um pintor, e um pintor louco — isso parecia estranho. E ainda mais estranho era ela estar jantando com o pintor.

Larry bateu à porta. Uma voz masculina grave lá dentro deu a ordem:

“Seja copeira, Maggie, e veja quem é.”

A porta se abriu e Larry entrou pela metade. Então ele parou e, surpreso, olhou para a corada e brilhante Maggie, esbelta e flexível nas dobras do xale espanhol.

“Ora, Maggie!” exclamou ele, estendendo a mão.

“Larry!”

Ela estava emocionantemente confusa com a admiração surpresa dele. Por um momento, eles ficaram olhando um para o outro, de mãos dadas. As roupas que lhe deram ao sair da prisão eram, claro, atrozes, mas em tudo o mais ele correspondia aos sonhos dela: ágil, bem-construído, bonito, um riso pronto nos lábios e o próprio diabo da ousadia em seus olhos cinza-azulados sorridentes.

“Como você cresceu, Maggie!” disse ele, ainda maravilhado.

“Foi só isso que tive que fazer por dois anos”, retrucou ela.

“Entre, Larry”, disse a Duquesa.

Larry fechou a porta, curvou-se com leve graça como teve que fazer para passar na frente de Maggie, e atravessou até a Duquesa.

“Olá, vovó”, disse ele como se a tivesse visto no dia anterior. Ele estendeu a mão, a esquerda, e ela a tomou em uma garra mumificada. Em toda a sua vida, ele nunca beijara sua avó, nem se lembrava de ter sido beijado por ela.

“Fico feliz que você tenha voltado, Larry.” Ela soltou a mão dele. “O nome do homem é Hunt.”

Larry virou-se para o pintor. Seus olhos risonhos podiam ser afiados; eles estavam penetrantemente afiados agora. E assim eram os olhos de Hunt.

Larry estendeu a mão, novamente a esquerda. “E então você é o pintor?”

“Eles me chamam de pintor”, respondeu Hunt, “mas nenhum deles acredita que eu seja pintor.”

Larry virou-se novamente para Maggie. “E então você é realmente a Maggie! Sem querer ofender” — e havia uma audácia sorridente em seu rosto que teria sido difícil de se ofender — “não vejo como a filha do Velho Jimmie Carlisle conseguiu tamanha beleza sem roubá-la.”

“Bem, então”, retrucou Maggie, “não vejo como você conseguiu sua aparência, a menos que...”

Ela parou e mordeu a língua. Ela estava prestes a retrucar com o contraste entre o rosto de Larry e o de sua avó enrugada de nariz adunco. Todos eles perceberam sua intenção, no entanto.

Larry veio instantaneamente em seu socorro com uma facilidade quase imperceptível.

“Jantar!” exclamou ele, olhando para a miscelânea de pratos na mesa. “Estou convidado?”

“Convidado?” disse Hunt. “Você é o convidado de honra.”

“Então, o convidado de honra poderia pedir o privilégio de se limpar um pouco?” Larry tirou a mão direita do bolso do paletó, onde estivera todo esse tempo, e começou a desenrolar o lenço que enrolara nos nós dos dedos enquanto atravessava o píer.

“Sua mão está doendo muito?” Maggie perguntou ansiosamente.

“Apenas arranhei os nós dos dedos.”

“Como?”

“Eles acabaram encontrando a mandíbula de um tira enquanto ele tentava fazer passes hipnóticos em mim. Ele está voltando a si agora. O oficial Gavegan.”

“Gavegan!” exclamou Hunt. “Você escolheu um osso duro de roer. Jovem, você está começando com o pé direito — uma acusação de agressão a um policial logo no dia em que te soltam da cadeia.”

Larry sorriu. “Gavegan é um canalha, mas ele não vai fazer nenhuma acusação de agressão. Ele afirma ser o campeão de boxe peso-pesado do Departamento de Polícia. Isso daria um belo golpe na sua reputação, não é, se ele admitisse em público que foi nocauteado por um sujeito, de mãos nuas, que deveria estar fraco pela vida na prisão e quarenta libras mais leve? Ele seria alvo de deboche por toda parte. Oh, Gavegan nunca vai soltar um pio.”

“Ele vai acertar as contas de outra maneira”, disse Hunt.

“Suponho que ele vá tentar”, respondeu Larry com indiferença. “Onde fica a sala de primeiros socorros?”

Hunt mostrou-lhe o caminho através das cortinas. Quando ele saiu, Hunt, Maggie e a Duquesa estavam todos ocupados em colocar o jantar sobre a mesa. Ajuda adicional seria apenas uma interferência, então os olhos de Larry vagaram casualmente pelas telas que estavam nas sombras contra as paredes.

“Sr. Hunt”, observou ele, “o senhor parece ter conquistado uma reputação muito real desse tipo no bairro. O velho Isaac lá embaixo me disse que o senhor era louco — disse que o chamavam de ‘Nuts’ — disse que o senhor era o pior pintor que já existiu.”

“É, é o que dizem”, concordou Hunt.

“Eles certamente são horríveis, Larry”, intrometeu-se Maggie, aproximando-se dele. “Papai acha que são piadas, e papai certamente entende de quadros. Dê uma olhada em alguns deles.”

“É, olhe para eles e dê uma boa risada”, convidou Hunt.

Larry levou o retrato da Duquesa para debaixo da lâmpada elétrica oscilante e examinou-o atentamente. Maggie, a seu lado, esperava pelo seu riso; e Hunt observava-o com um olhar de soslaio. Mas Larry não riu. Ele devolveu o quadro silenciosamente, e então examinou o retrato do velho Jimmie — depois o de Maggie — depois o da madona italiana, entronizada em sua calçada. Ele recolocou este último no lugar e caminhou rapidamente até Hunt. Maggie observou esse movimento com espanto.

Larry encarou o grande pintor. Sua figura estava tensa, seus traços endurecidos pela suspeita. Naquele momento, podia-se entender por que ele era às vezes chamado de “Larry, o Terrível”; naquele instante, ele parecia uma explosão devastadora que ainda não havia explodido.

“Qual é o seu jogo aqui, Hunt?” ele exigiu asperamente.

“Meu jogo?” repetiu o grande pintor. “Não estou te entendendo.”

“Sim, você está! Você está aqui posando como um idiota que suja telas!”

“O que há de errado com isso?”

“Apenas isto: esses não são borrões de louco. São quadros de verdade!”

“Eh!” exclamou Hunt. Maggie olhava perplexa para os dois homens.

Hunt falou novamente. “O que diabos você entende de quadros? O velho Jimmie, que dizem ser um tubarão, acha que todas essas coisas são apenas histórias em quadrinhos.”

“Jimmie só acha que um quadro é bom depois que mil agentes de imprensa disseram que é bom”, retrucou Larry. “Estudei na Academia de Design por dois anos, até aprender que nunca conseguiria pintar. Mas entendo de quadros.”

“E você acha que os meus são bons?”

“Não da maneira popular — eles são originais demais. Mas são ótimos. E você é um grande pintor. E eu quero saber…”

“Hurra!” gritou Hunt, jogando um braço entusiasmado em volta de Larry e começando a bater em suas costas. “Oh, rapaz! Oh, rapaz!”

Larry livrou-se dele. “Corta essa. Então você admite que é um grande pintor?”

“Claro que sou um grande pintor!” gritou Hunt. “Quem deveria saber disso melhor do que eu?”

“Então o que um grande pintor está fazendo aqui? Qual é o jogo que você está tentando aplicar, posando como…”

“Escute, filho”, Hunt sorriu. “Você me chamou para o jogo e eu tenho que mostrar as cartas. Só que você nunca deve contar — nem Maggie; a Duquesa não fala, de qualquer maneira. Não há necessidade de te incomodar agora com um monte de detalhes sobre mim. Basta dizer que as pessoas não me pagariam, exceto quando eu fizesse a habitual porcaria bonita; ninguém acreditava nas outras coisas que eu queria fazer. Eu queria ficar longe daquele bando; eu queria fazer estudos reais de pessoas humanas, com sua verdadeira natureza transparecendo. Então eu caí fora. Entende até aqui?”

“Mas por que posar como um idiota aqui?”

“Eu nunca comecei o boato de que era um idiota. As pessoas que olhavam para o meu trabalho e riam começaram essa conversa. Eu não saí gritando que era um grande artista pela boa e velha razão de que, se eu tivesse feito isso, e tivesse sido acreditado, as pessoas que posaram para mim ou não teriam feito isso, ou teriam ficado tão autoconscientes que teriam tentado parecer outra pessoa, e nunca teriam me mostrado quem eram de verdade. Achando que eu era uma piada, elas simplesmente agiam naturalmente. O que, meu jovem, é praticamente tudo o que você precisa saber.”

Maggie observava os dois homens sem fôlego, perplexa com essa nova luz sob a qual Hunt era apresentado, e fascinada pela tensão alerta de seu herói, Larry.

Lentamente, a tensão de Larry se dissipou. “Não sei sobre o resto da sua composição”, disse ele devagar, “mas como pintor você é um monstro.”

“O resto dele também é bom”, intrometeu-se a voz seca e inexpressiva da Duquesa. “O jantar está pronto. Vamos.”

Enquanto se dirigiam para a mesa, Hunt bateu com a mão grande no ombro de Larry. “E pensar”, ele riu, “que foi preciso um vigarista recém-saído de Sing Sing para me descobrir como um grande artista! Você é esperto, Larry — esperto! Maggie, coloque o saca-rolhas em ação e encha os copos com a melhor safra de H2O. Um brinde. Um brinde ao Larry!”

CAPÍTULO V

O jantar era simples: carne ensopada com batatas, cenouras e cebolas, torta e café de verdade. Mas fazia jus à arrogância de Hunt: o chef do Ritz, limitado a um cardápio tão simples, não poderia ter feito melhor. E Larry, após sua comida de prisão, estava jantando como os deuses.

O irreprimível Hunt, tentando ler este novo espécime que entrara sob sua observação, procurou sondar Larry. “Barney Palmer e o velho Jimmie estiveram aqui esta tarde, querendo vê-lo. Eles têm algo grande esperando por você. Suponho que você esteja pronto para pular dentro e fazer acontecer com um estrondo.”

“Eu vou fazer algo acontecer com um estrondo — mas acho que os negócios terão que esperar até que Barney, Jimmie e eu tenhamos uma conversa. Você pode me servir um pouco mais desse ensopado?”

Sua maneira de falar foi um anúncio silencioso para Hunt de que seus planos eram, por enquanto, um assunto encerrado. Hunt sentiu-se frustrado, pois esse aventureiro magro, alerta e muito comentado o intrigava muito; mas ele mudou para outros assuntos e, durante o resto da refeição, falou a maior parte do tempo. A Duquesa ficou em silêncio e, aparentemente, preocupava-se apenas com sua comida. Larry conseguiu falar uma parte justa, mas, na maior parte, sua atenção, exceto pela necessária para comer, estava fixada em Maggie.

Como ela tinha crescido desde a última vez que a vira! Quase uma mulher agora — e destinada a ser uma beldade! E mais do que apenas uma beldade: ela era colorida, vital, nervosa. Antes de ir embora, ele a considerava com algo próximo à afeição negligente de um irmão mais velho. Mas essa coisa que já começava a surgir nele era completamente diferente, e ele sabia disso.

Quanto a Maggie, quando ela olhava para ele, ela corava e seus olhos brilhavam. Larry estava de volta! — o brilhante e ousado Larry. Ela estava ciente de que tinha conseguido surpreender e prender sua atenção. Sim, eles fariam grandes coisas juntos!

Quando o jantar terminou e a louça foi lavada, Larry deu voz a esse novo impulso que tão rapidamente crescera dentro dele.

“O que me diz, Maggie, de uma voltinha?”

“Tudo bem”, respondeu ela ansiosamente.

Eles desceram a escada estreita juntos. No patamar do segundo andar, que continha apenas o quarto de Maggie, o da Duquesa e uma cozinha minúscula, Maggie começou a deixá-lo para trocar de roupa; mas ele segurou seu braço e disse: “Venha.” Eles desceram o lance seguinte e entraram na sala dos fundos atrás da loja de penhores, que a Duquesa usava como uma combinação de sala de estar, escritório e depósito. Em torno desse museu mofado pendiam ou permaneciam jaquetas de marinheiro não resgatadas, roupas de noite masculinas e femininas, banjos, guitarras, violinos, guarda-chuvas e um enorme papagaio verde empalhado sentado em cima do cofre da Duquesa.

“Eu queria conversar, não caminhar”, disse ele. “Vamos ficar aqui.”

Ele pegou as mãos dela e olhou para ela fixamente. Sob a luz amarela do gás, o rosto dela brilhava com excitação para o dele, sua respiração vinha rapidamente.

“Bem, senhor, o que você acha de mim?” ela exigiu. “Eu mudei muito?”

“Mudou? Ora, é mágica, Maggie! Deixei você uma colegial; você é uma mulher agora. E uma maravilha!”

“Você acha?” Ela corou de orgulho e prazer, e uma selvageria de espírito a possuiu e exigiu expressão em ação. Ela soltou a mão esquerda e a passou sobre o ombro de Larry. “Venha — vamos dançar um two-step.”

“Mas, Maggie, eu me esqueci.”

“Venha!”

Instantaneamente, ela o estava arrastando pelo escasso espaço do chão. Mas, depois de um momento, ele parou, protestando.

“Estes sapatos de prisão não foram feitos por seus construtores para tal trabalho. Se você precisa dançar, terá que tirar isso do seu sistema sozinha.”

“Tudo bem!”

Imediatamente, no meio do quarto sombrio, cantarolando a música, ela estava fazendo a dança de Carmen — selvagem, provocante, sedutora. Não era um desempenho notável em qualquer sentido técnico profissional; mas ela tinha uma personalidade vívida; ela era leve, ágil, graciosa, brilhante de cor e espírito.

“Maggie!” ele exclamou, quando ela terminou e parou diante dele, brilhante e ofegante. “Bom! Onde você aprendeu isso?”

“No coro de uma revista de cabaré.”

“É isso que você está fazendo agora, trabalhando em um coro?”

“Não. Barney e papai disseram que um coro não era lugar para mim.” Ela se aproximou. “Oh, Larry, eu tenho tantas coisas para te contar.”

“Continue.”

“Bem” — ela inclinou a cabeça de forma travessa — “eu tenho ido à escola.”

“Indo à escola! Onde?”

“Em muitos lugares. Agora estou indo à escola no Hotel Ritzmore.”

“No Hotel Ritzmore!” Ele olhou para ela, perplexo. “O que você está aprendendo lá?”

“A ser uma dama.” Ela riu do seu crescente espanto. “Uma dama de verdade, Larry”, ela continuou animadamente. “Oh, é uma ideia tão maravilhosa! Papai nunca pareceu pensar muito em mim até a noite em que fui a um baile de máscaras com o Sr. Hunt, e ele e Barney me viram com estas roupas. Eles nunca tinham me visto realmente vestida assim antes; Barney disse que foi revelador. Eles viram como eu poderia ser de grande utilidade para vocês todos. Mas, para ser isso, preciso ser uma dama — uma dama de verdade, que sabe como se comportar e vestir roupas de verdade. É isso que eles estão fazendo agora: fazendo de mim uma dama.”

“Fazendo de você uma dama!” exclamou Larry. “Como?”

“Colocando-me onde eu possa observar damas de verdade e estudá-las. Barney encurtou minha permanência no coro; Barney disse que uma corista nunca aprendia a passar por uma dama. Então, tenho trabalhado em lugares onde as mulheres mais elegantes frequentam. Primeiro em uma chapelaria; depois como camareira de uma modelo na loja de uma modista elegante; sempre observando como as damas se comportam. Agora estou no Ritzmore, e levo uma bandeja de cigarros pelas mesas no almoço, na hora do chá, durante o jantar e durante a ceia depois do teatro. Supõe-se que eu esteja lá para vender cigarros, mas na verdade estou lá para observar como as damas manuseiam seus garfos e facas e se comportam com os homens. Não é tudo terrivelmente esperto?”

“Ora, Maggie!” ele exclamou.

“E logo, quando eu tiver aprendido mais”, ela continuou rapidamente, “vou ter roupas elegantes próprias — e serei uma dama — e sairei deste lugar sombrio, abafado e morto! Não aguento mais ser enterrada aqui por muito mais tempo. E, oh, Larry, eu vou começar a trabalhar com você!”

“O quê?” ele piscou, ainda não entendendo bem.

“Você acha que eu não sou esperta o suficiente? Mas eu sou!” ela protestou. “Eu te digo que aprendi muito. E Barney e papai me deixaram ajudar em um monte de coisas — nada realmente grande ainda, é claro. Eles acham que eu serei uma maravilha. Hoje mesmo papai estava dizendo que você e eu, trabalhando juntos… Ora, o que há de errado, Larry?”

“Você e eu… trabalhando juntos”, ele repetiu lentamente.

“Sim. Você não gosta da ideia?”

Suas mãos agarraram subitamente os ombros nus dela.

“Não tem nada a ver!” ele exclamou, quase selvagemente.

“O que é isso?” ela gritou, assustada.

“Eu te digo que não tem nada a ver!”

“Você… você acha que eu não consigo?”

“Você não consegue! E eu não vou permitir!”

“Por que… por que…”

Olhando fixamente, ela se afastou dele lentamente. O rosto dele, que momentos antes estava sorrindo, agora estava duro e dominante, com decisão. Ela o tinha ouvido ser chamado de “Larry, o Risonho”; e também de “Larry, o Terrível”, cuja vontade despertada ninguém podia resistir. Ele parecia essa última pessoa agora, e ela não conseguia entender.

Mas embora não pudesse entender, seu próprio espírito desafiador surgiu para lutar contra essa oposição inesperada. Ele não acreditava nela — era isso! Ele não achava que ela era capaz de trabalhar com ele! Sua figura jovem enrijeceu-se em um orgulho irritado, e sua mente reunia frases quentes para atirar nele quando a porta da loja de penhores começou a abrir-se rangendo. Instantaneamente, Larry virou-se para ela, relaxado e, no entanto, alerta para qualquer coisa. O velho Jimmie e Barney Palmer entraram.

“Olá, Larry!” gritou o velho homem, atravessando a sala. “Bem-vindo à nossa cidade!”

“Olá, Jimmie. Olá, Barney.” E Larry apertou a mão de seus parceiros de outros tempos.

“Caramba, Larry, é bom ver você!” exclamou o velho de olhos astutos. “Não sabia que você estava de volta até que esbarrei em Gavegan na Broadway. Ele me contou, então Barney e eu viemos correndo para cá te ver. Acredite em mim, Larry, aquele tira está realmente furioso com você!”

Larry ignorou a última frase. “Acham exatamente sensato vocês dois virem aqui?”

“Por que, Larry?”

“Gavegan, Casey, a polícia, podem seguir vocês, pensando que vieram me ver para algum propósito. Aquela turma pode agir por suspeita.”

Jimmie sorriu astutamente. “Um homem pode visitar sua própria filha tantas vezes quantas quiser. Amor de pai, Larry.”

“Entendo; essa será a sua explicação.” Os olhos de Larry tornaram-se aguçados com a nova compreensão. “Eu não tinha pensado nisso antes, Jimmie. Então é por isso que você sempre hospedou Maggie em lugares suspeitos: para que pudesse encontrar seus amigos e ainda ter a desculpa de que tinha vindo encontrar sua filha?”

“Parcialmente isso”, sorriu o velho Jimmie suavemente — talvez suavemente demais. “Suponho que possamos nos sentar.”

Eles o fizeram, Maggie sentando-se um pouco afastada dos homens e observando Larry com olhos indignados e questionadores. Ela ainda não conseguia entender seu comportamento estranho quando ela anunciara sua intenção de trabalhar com ele. Poderia ser, como seu pai dissera, porque ele nunca trabalharia com mulheres — por não confiar nelas? Ela mostraria a ele!

Ela estava tão ocupada com esse espanto que não prestou atenção na conversa sobre a experiência de Larry em Sing Sing e o relato do velho Jimmie sobre o que acontecera entre os amigos de Larry durante sua ausência. Durante essa fofoca, a Duquesa entrou pela escada e, sem dizer uma palavra a ninguém, arrastou-se até sua mesa em um canto e curvou-se silenciosamente sobre suas contas: apenas mais um penhor grotesco e não resgatado neste museu de antiguidades e penhores esquecidos.

Momentos depois, Barney Palmer, que estivera impaciente durante tudo isso, explodiu:

“Ah, vamos cortar essa conversa sobre o que costumava ser e ir direto aos fatos. Jimmie, você vai contar o negócio para o Larry, ou quer que eu faça?”

“Eu vou contar a ele. Escute, Larry.” Maggie aguçou os ouvidos; a conversa era agora importante e empolgante. “Nós planejamos nosso maior jogo de todos. Um jogo de venda de ações; vamos descarregar tudo em um otário, e já temos o otário escolhido. Além de você, Barney e eu, tem Red Hannigan e Jack Rosenfeldt nisso — um bando de primeira, com certeza. E achamos que para a parte feminina vamos incluir Mae Gorham. Ela é esperta e tem um olhar inocente…”

“Mas eu pensei que vocês iam me incluir!” protestou Maggie.

“Maggie será tão boa quanto Mae Gorham”, intrometeu-se Barney.

“Vamos deixar isso passar”, disse o velho Jimmie. “O principal, Larry, é que tudo está pronto. É uma proposta de negócios monstruosa. Estivemos esperando por você; você é tudo o que falta — o cara inteligente para ficar nos bastidores e gerenciar a coisa. Você cuidou do bando por muito tempo, e eles querem que você cuide disso. Porque você é realmente uma maravilha nos negócios, Larry! Ninguém é mais aguçado. Bem, seguramos isso esperando por você há um mês. O que acha de pular dentro logo?”

Todos os três olharam para Larry. Seu rosto magro estava inexpressivo. Ele acendeu um cigarro, levantou-se e encostou-se no cofre da Duquesa, onde estava o papagaio verde e, com o olhar no chão, exalou lentamente a fumaça pelas narinas.

“Bem?” exigiu Barney.

Larry olhou para os dois homens com olhos tranquilos e nivelados. “Obrigado a ambos. É um grande elogio. Mas tive tempo de fazer um pouco de planejamento eu mesmo lá em Sing Sing, e elaborei um jogo que supera este em uma milha.”

“Inferno!” exclamou Barney com nojo furioso. “Jimmie, eu te disse que estávamos perdendo tempo esperando por ele!”

“Espere um segundo, Barney. Se Larry elabourou um jogo melhor, ele vai nos levar para dentro dele. Mas, Larry, como o seu jogo pode superar este?”

“Porque tem mais dinheiro nele. E porque é mais seguro.”

“Seguro! Ah, inferno!” O ciúme e o ódio latentes brilharam nos olhos esverdeados de Barney. “Eu sempre soube que você tinha um lado covarde! Algo seguro! Ah, inferno!”

“Não exploda, Barney. Qual é o novo jogo, Larry?” perguntou o velho.

Larry observou os dois homens firmemente. Ele parecia relutante em falar.

“Bem?” instigou o velho Jimmie. “É algo que você não quer nos contar?”

“Claro que vou deixar vocês participarem, e ficarei feliz em fazê-lo, se vocês quiserem entrar”, respondeu Larry em seu tom nivelado. “Como eu disse, pensei em tudo e é uma ótima proposta. Aqui está o jogo: vou andar na linha.”

Por um momento, todos os três sentaram-se atônitos com essa declaração calma de seu líder. Nada que ele pudesse ter dito poderia ter sido mais inesperado, mais estupefaciente. A Duquesa foi a única que se moveu; ela virou a cabeça e manteve seus olhos encovados em seu neto.

Simultaneamente, os dois homens e Maggie levantaram-se.

“O diabo você diz!” rangeram os dentes de Barney Palmer.

“Larry, você ficou louco?” gritou o velho Jimmie.

Maggie deu um passo mais perto dele. “Vai andar na linha?” perguntou ela incrédula.

“Escutem, todos vocês”, disse Larry calmamente. “Não, Jimmie, eu não fiquei louco. Estou apenas ficando um pouco sensato. Você acabou de dizer que eu era uma maravilha nos negócios, Jimmie. Acho que sou eu mesmo. Pensei em tudo como uma proposta de negócios. Suponha que limpemos cinquenta ou cem mil em um grande negócio. Temos que dividir de várias maneiras, talvez pagar uma grande parte para a polícia por proteção, talvez pagar muitos advogados, e então talvez ser mandado embora por um ano ou vários anos, durante os quais não ganhamos um centavo. Calculei que, ao longo de vários anos, minha renda média era muito pequena. Como homem de negócios, parecia-me que eu estava em um negócio ruim, sem futuro. Então decidi entrar em um novo negócio que tivesse futuro. Esse é o tamanho da coisa.”

“Você está ficando covarde — esse é o tamanho real da coisa!” rosnou Barney Palmer, começando a ir em direção a ele.

“Melhor ser um pouco cuidadoso, Barney”, alertou Larry com a mandíbula tensa.

“Você realmente quer dizer, Larry”, exigiu o velho Jimmie, “que você vai nos abandonar depois de contarmos com você e esperarmos por você por tanto tempo?”

“Sinto muito por tê-los feito esperar, Jimmie. Mas nos separamos definitivamente.” Então Larry acrescentou: “A menos que vocês queiram seguir o meu caminho.”

“O seu caminho! Nunca!” rebateu Barney.

“E você, Jimmie?” inquiriu Larry, com os olhos no rosto inflamado de Barney.

“Não vejo sua proposta. E sou um pássaro velho demais para começar algo novo. Não, obrigado. Vou ficar com o que conheço.”

Suas palavras seguintes, mostrando seus dentes longos e amarelos, foram ditas lentamente, mas eram duras e tinham um fio cortante. “Você tem uma ideia doce do que é andar na linha, Larry: nos abandonar sem um líder, justamente quando mais precisamos de um líder.”

“Se é um líder que vocês querem,” disse Larry, “o Barney serve muito bem. Ele tem a ambição, a energia e a falta de escrúpulos que o ofício exige. Se ele conseguir manter a cabeça no lugar, não vejo por que vocês não deveriam continuar prosperando.”

“Prosperar?” exclamou Barney, com um riso curto e desdenhoso. “Nós vamos dominar a cidade antes que você consiga um emprego de lavador de pratos, Brainard. E não se preocupe com o nosso pessoal; eles já estão fartos da sua cautela excessiva.”

Larry deu de ombros, sem se abalar. “Pois que assim seja. Mas não diga que não avisei quando as coisas ficarem difíceis.” Ele se virou para o velho Jimmie, que observava a cena com um desinteresse estudado. “Jimmie, você é o mais sensato de todos. Aconselhe seu novo comandante a não fazer barulho demais. O silêncio é o melhor amigo de quem vive na sombra.”

Jimmie apenas acenou com a cabeça, seus olhos semicerrados. “Eu apenas sigo a maré, Larry. E a maré mudou.”

“A maré sempre muda,” respondeu Larry, caminhando até a porta. “A diferença é quem sabe nadar e quem se afoga.” Ele fez uma pausa, olhando para Barney, cujas mãos tremiam levemente de raiva contida. “Não tente nada estúpido, Barney. O mundo lá fora é muito maior do que os seus esquemas, e você é apenas um peixe pequeno em um oceano que você ainda nem começou a explorar.”

Barney deu um passo à frente, como se fosse atacar, mas parou ao ver a calma inabalável de Larry. Havia algo no olhar dele — uma frieza de quem já vira o pior e não tinha mais medo — que fez Barney hesitar.

“Vá embora,” disse Larry, com uma tranquilidade que era mais intimidante do que qualquer grito. “O seu tempo aqui acabou, e o meu começa agora.”

Sem dizer mais nada, Jimmie se virou e saiu, com Barney logo atrás, lançando um último olhar carregado de ódio sobre o ombro. Larry ficou parado, ouvindo os passos deles desaparecerem na escada, sentindo, pela primeira vez em anos, o peso de uma liberdade que ele mesmo havia forjado.

A Duchess, que não dissera uma palavra durante todo o confronto, finalmente se mexeu em sua cadeira, o rangido da madeira ecoando no silêncio da loja. “Eles vão voltar,” disse ela, com aquela voz que parecia vir de uma distância infinita. “Pessoas como o Barney não aceitam ser ignoradas.”

“Deixe que voltem,” respondeu Larry, aproximando-se da escrivaninha. “Eles aprenderão, cedo ou tarde, que o jogo mudou.”

Ele olhou para a velha, tentando decifrar o que havia por trás daquela máscara de poeira e desdém. Por um momento, pareceu-lhe que a Duchess o examinava não como um neto, mas como uma peça em um jogo que ela observava há décadas, esperando para ver se ele teria a habilidade necessária para vencer.

“Você acredita mesmo, Larry?” perguntou ela, inclinando a cabeça. “Acredita que pode apagar o que foi?”

“Não apagar,” disse ele, com firmeza. “Transformar. A história é o que fazemos hoje, não o que fizemos ontem.”

Ele se afastou, deixando a Duchess em sua vigilância silenciosa. O caminho à frente era incerto, repleto de sombras e obstáculos que ele ainda não conseguia enxergar claramente, mas, pela primeira vez, ele não sentia necessidade de esconder o que pretendia. Ele tinha um plano, ele tinha determinação e, acima de tudo, tinha a clareza de quem não tinha nada a perder. E, no fundo, ele sabia que a batalha contra o seu passado seria a mais difícil de todas.

“Foi isso que me fez interessar pela história de Joe Ellison — o desejo dele de livrar seu filho da vida que ele levava; embora eu não soubesse que ele tinha tais ideias até você me contar. Larry, eu mesma não pude sair desta vida; eu era parte dela, eu pertencia a ela. Mas eu me sentia como Joe Ellison, e há mais de quarenta anos tirei sua mãe dela, e sua mãe nunca mais voltou. Isso eu fiz. Depois que ela morreu, me fez mal ver você, tudo o que me restou, começar a seguir pelo caminho torto. Mas eu não tinha controle sobre você; não pude fazer nada. Por isso, estou contente que, finalmente, você vá seguir pelo caminho certo. Estou contente, Larry!”

A emoção que dera à sua voz uma vibração estranha e crescente foi subitamente controlada ou extinta; e ela acrescentou em seu tom habitual, fino e mecânico: “O dinheiro estará pronto para você pela manhã.”

Sobressaltada e envergonhada por esse desabafo de coisas há muito escondidas sob a poeira nas câmaras secretas de seu ser, e desejando evitar o constrangimento adicional dos agradecimentos, a Duchess voltou-se rápida e desajeitadamente para sua escrivaninha, e seu corpo velho e curvado fixou-se sobre seus números. Em um momento, o sempre alerta Hunt já havia tirado o pequeno bloco de papel de desenho que carregava sempre no bolso e, com traços rápidos e ávidos, esboçava o contorno daquela figura curvada e encolhida que havia descido tão rapidamente da emoção ao lugar-comum.

Larry contemplou a Duchess em silêncio e perplexidade. Ele pensava que conhecia sua avó. Estava percebendo agora que talvez não a conhecesse de forma alguma.

CAPÍTULO VIII

Naquela noite, Larry dormiu em um catre montado no estúdio de Hunt. Hunt propusera que Larry considerasse o estúdio seu quartel-general por enquanto, e Larry aceitara. É claro que o catre e a mobília improvisada do estúdio estavam grotescamente aquém do luxo daqueles dias ensolarados em que Larry tinha dinheiro fácil de sobra e era livre para satisfazer seu gosto pelo melhor de tudo; mas as acomodações eram infinitamente mais luxuosas e confortáveis do que seu recente quarto de um por dois metros em Sing Sing, com suas paredes de pedra úmidas e frias.

Havia muitas razões pelas quais a ideia de fazer daquela casa antiga, naquela rua suja, monótona e sem romance, seu lar por enquanto, atraía Larry. Ele se sentia atraído por esse pintor franco, direto e autocrático, e estava curioso a respeito dele. E então, o jeito como sua avó falara, o brilho em seus olhos velhos, despertara nele uma afeição que ele nunca sentira antes. E havia Maggie, com sua beleza sombria surpreendentemente nova, sua admiração por ele que se transformara tão rapidamente em desafio, seu convite para um duelo de propósitos.

Sim, por enquanto, aquela casa velha e suja, naquela rua velha e suja, era exatamente o lugar onde ele preferia estar.

Não era sinal de sabedoria começar sua nova carreira com suas roupas de prisão sem forma; então, no dia seguinte, Larry ficou perambulando pelo estúdio, agindo como criado para tudo, enquanto as roupas em seu baú, que haviam sido guardadas com a Duchess, eram limpas e passadas pelo pequeno alfaiate da rua, e enquanto uma lavadeira, apressada pela Duchess, preparava o resto de sua indumentária para sua estreia. Em sua capacidade de criado, com uma cesta no braço, ele saiu para a pequena rua, onde, com suas roupas surradas, não foi reconhecido por ninguém e encostou-se por um tempo na árvore vira-lata e desnutrida que saudava hesitante a primavera com algumas folhas sem vigor. Ele se banhou no sol quente que parecia glorioso demais para uma rua tão insignificante; encheu os pulmões com o ar picante de maio; sim, era maravilhoso ser livre novamente!

Depois, passeou pela rua em seus afazeres de compras. Divertia-o comprar um quilo e meio de batatas, meio quilo de carne moída e um pacote de macarrão, e contar os centavos de Hunt — lembrando-se daqueles dias em que era uma personalidade para os garçons-chefes, e tinha sua mesa reservada, e com um gesto descuidado de Midas deixava um dólar, ou cinco, ou vinte, de gorjeta.

Quando subiu de volta ao estúdio, observou Hunt trabalhando furiosamente com sua tinta. Hunt rosnava e rugia para ele, e zombava dele; e Larry retrucava com o mesmo tipo de brincadeira verbal, ao estilo dos homens. Logo, uma descontração, se não uma amizade real, começou a se desenvolver na atitude um do outro.

“Sabe de uma coisa”, comentou Larry, de pé com as pernas bem afastadas, contemplando o quadro da mãe italiana entronizada na calçada amamentando seu filho, “se eu estivesse bem arrumado, aposto que poderia levar um pouco desse material por aí e vender por uma boa nota.”

“Huh, ninguém quer esse material!” bufou Hunt. “É bom demais. Vender! Você enlouqueceu, rapaz!”

“Eu posso vender qualquer coisa, meu chapa”, respondeu Larry calmamente. “Tudo o que preciso é de um homem que tenha muito dinheiro e uma disposição moderada para ouvir. Já vendi imagens de uma torre de petróleo em um certificado de ações, com valor exato de nada, pelo preço de uma obra-prima — então acho que poderia vender um quadro de verdade.”

“Ah, cale a boca!”

“O verdadeiro problema com você”, comentou Larry, “é que, embora saiba pintar, como homem de negócios, como promotor de sua própria marca, o bebê que mama naquele quadro é um J. Pierpont Morgan de capacidade multiplicada comparado a—”

“Pare de fazer esse barulho como um idiota!”

Esse passatempo amigável de atirar pedras um no outro foi interrompido pela entrada de Maggie para uma pose agendada, antes de ir para seu trabalho de carregar uma bandeja de cigarros pelo Ritzmore. Ela deu a Hunt um bom-dia agradável, com a gentileza propositalmente enfatizada para tornar mais enfático seu aceno seco para Larry e a fria hostilidade de seu olhar. Durante a hora em que posou, Larry, movendo-se tranquilamente em seus deveres de cozinha, dirigiu-lhe a palavra várias vezes, mas nenhum comentário obteve uma resposta. Ele aceitou as recusas sorrindo, o que a irritou ainda mais.

“Maggie, pegarei minhas roupas de verdade no final da tarde; que tal eu dar uma passada no Ritzmore para uma xícara de chá, e me deixar comprar alguns cigarros e conversar com você quando não estiver ocupada?” perguntou ele quando Hunt terminou com ela.

“Você pode comprar cigarros, mas não terá conversa!” ela rebateu, e com a cabeça erguida e os olhos escuros brilhando em desprezo, passou por ele como um vendaval.

Hunt a observou sair. Quando a porta bateu atrás dela, ele comentou secamente, seus olhos examinando Larry intensamente:

“Nossa jovem rainha não parece muito entusiasmada com você ou seu programa.”

“Certamente não está.”

“Não deixe isso te preocupar, rapaz. Esse é um traço comum de toda a tribo dela; as mulheres simplesmente não conseguem acreditar em um homem!”

Houve uma ênfase e um cinismo neste último comentário que fez Larry olhar para o pintor com cautela. “Você parece saber como é. Não pretendo me intrometer, Hunt, se houver sinais de proibição — mas há uma mulher no seu caso?”

“Claro que há — sempre há uma mulher; essa é outra razão pela qual estou aqui”, respondeu Hunt. “Ela não acreditava em mim — não acreditava que eu pudesse pintar — não acreditava nas coisas que eu queria fazer — então apenas peguei meus brinquedos e saí da existência dela.”

“Esposa?” perguntou Larry.

“Graças a Deus, não!” exclamou Hunt enfaticamente. “Não — ‘Agradeço a quaisquer deuses que existam, sou o capitão da minha alma!’ Oh, ela é legal — boa demais para mim, na verdade”, acrescentou. “Aqui, experimente este tabaco.”

Larry pegou a bolsa que lhe foi atirada e aceitou sem comentários essa mudança brusca de assunto. Mas supôs que aquela mulher no passado da vida de Hunt significava muito mais para o pintor do que Hunt tentava demonstrar ao descartá-la casualmente — e Larry perguntou-se que tipo de mulher ela seria, e qual teria sido a história.

No dia seguinte, barbeado e com suas roupas renovadas — eram elegantes e bem cortadas, embora sóbrias se comparadas às de Barney, e dois anos atrasadas em relação ao estilo do qual as de Barney eram a expressão extrema —, Larry passou por Maggie na escada com um sorriso; ela não retribuiu o sorriso e ele partiu em sua busca. Ele estava bem vestido, tinha dinheiro nos bolsos, tinha um plano, e o ar de liberdade de uma nova vida era doce em suas narinas. Ele ia conseguir!

Era fácil o suficiente, com a mente alerta para o que desejava, e com a mesada generosa da Duchess para pagar pelo que precisava, para Larry encontrar nesta cidade de dez mil institutos que ensinavam métodos de negócios, o artigo específico que atendia às suas necessidades. Ele encontrou esse artigo em um instituto cujo título em letras garrafais nos anúncios dizia: “Nós Fazemos de Você um Executivo de 50.000 dólares”; e o artigo que ele encontrou, mediante o pagamento de uma taxa especial, foi um velho que fora gerente de uma grande corretora até que seu vício crescente em bebida e, mais tarde, em drogas, o tornasse indigno de confiança. Mas o velho Bronson certamente conhecia os fundamentos e as sutilezas do tipo de grande negócio que é honesto, e era um prazer para ele despejar seu conhecimento para uma inteligência aguçada.

Larry, em suas próprias palavras, simplesmente “absorveu tudo”. Sua experiência fora tão ampla e variada que ele agora só precisava ver um osso de fato para quase instantaneamente visualizar em sua totalidade os ictiossauros extintos dos negócios. Durante o dia, ele praticamente consumia o velho Bronson; lia livros áridos noite adentro. Assim, preencheu rapidamente os buracos nas paredes de seu conhecimento e fortaleceu sua base um tanto precária. É claro que percebia que o que estava aprendendo era, em certo sentido, acadêmico; precisava ser testado, desenvolvido e tornado flexível pela experiência; mas, então, muito daquilo tornou-se instantaneamente uma ampliação viva das coisas das quais ele já era mestre.

O velho Bronson estava encantado; nunca tivera um aluno tão apto. “Em menos de nada você será o verdadeiro chefe daquela casa onde você está!” declarou ele orgulhosamente. Larry não vira necessidade de dizer a verdade sobre si mesmo; sua história casual era que estava ali aproveitando um mês de férias concedido por uma firma mítica em Chicago.

A afirmação da Duchess de que seria melhor ele não procurar trabalho imediatamente baseava-se na sabedoria. Larry estava ocupado e interessado, mas ainda não precisava enfrentar a suspeita constante e a hostilidade que geralmente são o destino desencorajador do ex-presidiário que pede uma posição. Nesse período, sua confiança e seu propósito expandiram-se com nova vitalidade.

À medida que os dias movimentados passavam na pequena rua, a camaradagem brincalhona entre Larry e Hunt criava raízes mais profundas. A Duchess não voltou a demonstrar qualquer emoção como a que transparecera nela brevemente quando Larry anunciara seu novo plano; mas, curvada e silenciosa, seguia como uma múmia estranhamente revigorada em seus afazeres. E durante esses dias, ele não voltou a ver Barney ou o Velho Jimmie; soubera que, no dia seguinte à sua conferência com eles, tinham ido para Chicago tratar de um assunto de negócios muito privado.

Ele via Maggie diariamente, mas ela mantinha a mesma atitude em relação a ele. Ele agora estava consciente de que estava apaixonado. Via qualidades esplêndidas nela, a maioria latente. Maggie tinha determinação, disposição, inteligência, coragem e capacidade para simpatia e afeição; ela tinha cabeça, coração e beleza, os ingredientes de uma mulher incomum, se ao menos pudesse ser levada a uma atitude mental diferente. Mas ele percebia que havia pouca chance, de fato, de ele conseguir qualquer alteração nela, muito menos conquistar sua consideração admitida, até que fosse definitivamente um sucesso, até que tivesse provado a si mesmo corretamente. Então, ele aceitava suas recusas com um sorriso e esperava seu momento.

Ele entendia o ponto de vista dela e simpatizava com ela; pois o ponto de vista dela fora, um dia, o seu próprio. Com uma compreensão crescente, ele a via como o produto natural de uma paternidade como a do Velho Jimmie, e do ambiente cínico que o Velho Jimmie lhe proporcionara, no qual o crime era uma questão trivial. A esse respeito, um assunto que o interessara anteriormente começou a ocupar sua especulação cada vez mais. Por toda a sua vida, até recentemente, o Velho Jimmie aparentemente demonstrara pouco mais preocupação com Maggie do que alguém demonstra com uma peça de bagagem que é armazenada em um ou outro depósito — e uma peça de bagagem tão sem valor no caso do Velho Jimmie que sempre fora armazenada nos piores depósitos. O que havia por trás do novo interesse do Velho Jimmie em sua filha?

O Velho Jimmie despertara nos últimos meses para o valor de Maggie como uma proposta de negócio — essa era a resposta de Larry para sua própria pergunta.

Quanto a Maggie, durante esses dias, o simples fato de Larry sorrir para ela e recusar-se a ficar com raiva a irritava ainda mais. Sua raiva dele, a maneira como ele recusara a parceria que ela oferecera e com a qual sonhara tanto tempo, não permitia que seu orgulho e sua autoconfiança considerassem qualquer justificativa para ele entrar em sua mente e argumentar em seu favor. O grande sonho que ela alimentara fora destruído. E, além disso, ele se proclamara um tolo.

Sim, apesar dele e de tudo o que pudesse fazer, ela seguiria o caminho brilhante e emocionante que planejara!

Em justiça a Maggie, deve-se lembrar que, apesar de sua maturidade assumida e sabedoria autoconfiante, ela realmente tinha apenas dezoito anos e talvez ainda não se conhecesse totalmente, e ainda tivesse todo o mundo para aprender. E deve-se lembrar que ela acreditava estar inteiramente certa. Este era um mundo onde a força e a astúcia eram as qualidades que contavam, e todos tentavam enganar seu próximo; e todos que agiam de outra forma eram ou tolos de mente fraca ou impostores que viam em sua hipocrisia o jogo mais inteligente de todos. Vivendo sob a influência do Velho Jimmie, e mais tarde de Barney, e do ambiente em que fora criada, essas crenças tornaram-se sua religião. Ela era completamente ortodoxa e tinha o fervor defensivo e agressivo que é o temperamento da ortodoxia militante.

E assim, mais agudamente do que nunca, porque estava mais determinada do que nunca, Maggie estudava os grupos de homens e mulheres bem vestidos que comiam e dançavam no Ritzmore, entre os quais ela circulava em sua saia curta e elegante, com sua bandeja de cigarros pendurada no pescoço por uma larga fita roxa. Particularmente, ela gostava da multidão que vinha após o teatro, pois só então o traje de noite era permitido no salão de jantar e as pessoas estavam em seu estado mais animado. Ela gostava de observar o famoso casal profissional fazer suas especialidades no brilhante espaço central com os focos de luz ágeis sempre banhando-os; e então assistir aos convidados elegantemente vestidos ocuparem o salão com passos menos praticados e mais humildes. Em breve, ela teria roupas tão elegantes quanto qualquer um deles. Logo, ela seria uma dessas pessoas brilhantes e teria uma vida mais emocionante do que qualquer outra. Muito logo — pois seu aprendizado estava quase no fim!

Barney Palmer, nestes últimos meses, desde que descobrira em Maggie uma estrela que só precisava de treinamento e depois de uma oportunidade, adotara a prática de vir buscar Maggie ocasionalmente quando a uma hora da manhã, a hora de recolher de Nova York, dispersava os que buscavam prazer e encerrava o dia de trabalho de Maggie, ou melhor, seu dia de escolarização intensiva para sua vida maior. Na noite de seu retorno de Chicago, que foi uma semana após sua ruptura com Larry, Barney apresentou-se para levar Maggie para casa. Ele estava com um elegante traje de noite e pediu ao manobrista um táxi; com um ar quase senhorial e, pelo serviço de um gesto de luvas brancas a um motorista, entregou descuidadamente ao manobrista (que, aliás, era um homem mais rico que Barney) uma nota de dólar impecável. Barney estava tentando causar sua melhor impressão.

“Viu muito aquele metido, Larry Brainard?” perguntou ele quando o táxi estava indo para o sul.

Seu tom, que ele tentou tornar meramente depreciativo, transmitia a profunda ira que ele ainda sentia sempre que sua mente voltava a Larry. Maggie reservava para si o privilégio de pensar em Larry exatamente como bem entendesse; mas, sendo o tipo de garota que era, não podia deixar de ser também um pouco coquete.

“Não achei que ele fosse tão metido, Barney”, disse ela com uma voz irritantemente agradável. “Suas roupas de prisão eram ruins, mas agora que ele está vestido corretamente, acho que ele fica muito bem. Você e o papai sempre disseram que ele parecia o perfeito dândi.”

“Veja aqui — ele tem falado com você?” exigiu Barney selvagemente.

“Um pouco. Sim, várias vezes. Na verdade, ele disse bastante coisa naquela noite depois que você tinha ido embora.”

“O que ele disse?”

“Ele disse que não só ia seguir pelo caminho certo, mas” — com sua voz provocante e zombeteira — “ele ia me fazer seguir pelo caminho certo.”

“O que é isso? Me diga exatamente o que ele disse!” exigiu Barney, sua ira subitamente transformando-se em ciúme furioso.

Maggie contou-lhe em detalhes; na verdade, contou a cena com mais detalhes e com maior extensão do que fora a realidade. Também censurou a cena ao omitir sua própria oposição à determinação de Larry. Ela gostava de brincar com Barney, o exercício do poder que ela tinha sobre as paixões de Barney.

“E você aceitou tudo isso!” gritou Barney. A essa altura, eles estavam bem ao sul da cidade. “Escute-me, Maggie: o que eu disse na cara do Larry naquela noite na casa da Duchess ainda está de pé. Acho que ele é um covarde e se voltou contra seus velhos amigos. Digo a você, vou vigiar esse cara!”

“Você não achará difícil vigiá-lo, Barney. Larry nunca se esconde.”

“Oh, eu vou vigiá-lo, pode ter certeza! E você, Maggie — ora, você fala como se tivesse gostado daquele tipo de conversa que ele teve com você!”

“Larry fala bem — e eu gostei, de certa forma.”

“Veja aqui! Você não está se apaixonando por ele? Você não vai deixar ele te fazer seguir pelo caminho certo?”

Maggie certamente não tinha intenção de deixar que tal coisa acontecesse; mas não conseguia controlar suas provocações de tom inocente.

“Como vou saber o que ele vai me fazer fazer? Ele é inteligente e bonito, sabe.”

Barney agarrou seu ombro ferozmente. “Maggie — você está se apaixonando por ele?”

“Como vou saber, quando...”

“Maggie!” Ele a agarrou com mais força, e suas frases caíram ferozmente, rapidamente. “Você não vai fazer nada desse tipo! Se ele seguir pelo caminho certo — se você seguir pelo caminho certo — como ele poderá ajudar você? Ele não pode! E será o seu fim — o fim de todas as grandes coisas sobre as quais falamos. Escute: desde que Larry nos deu o fora, eu assumi as coisas e em breve estarei pronto para realizar algo grande. Só mais alguns dias agora e você estará fora daquela rua suja, e estará com roupas elegantes fazendo um trabalho elegante — e isso significará os melhores restaurantes, teatros, tempos maravilhosos!”

O carro virou na rua estreita e calçada e parou diante da casa da Duchess. Subitamente, Barney a puxou para seus braços.

“E, Maggie, você vai ser minha! Teremos um lugarzinho fantástico, pode apostar! Você sabe que sou louco por você... E, Maggie, eu nem quero que você entre aí onde Larry Brainard está. Vamos dirigir de volta para o norte e começar juntos agora! Hoje à noite!”

Não foi o fato de ele não ter sugerido casamento que mexeu com Maggie: homens e mulheres na classe de Barney viviam juntos, e às vezes eram casados e às vezes não. Era outra coisa, algo de que ela não estava definitivamente consciente: mas ela não sentiu tal emoção momentânea, nenhuma rendição momentânea e atordoante, como sentira na noite em que Larry a segurara de forma semelhante.

“Pare com isso, Barney!” ela ofegou. “Deixe-me ir!” Ela lutou ferozmente, e então se libertou.

“O que há de errado com você?” arfou Barney. “Você é minha, não é?”

“Deixe-me em paz! Vou sair!”

Ela abriu a porta e estava saindo quando ele agarrou sua manga. Mas ela puxou com tanta determinação que segurá-la não significaria nada além de arrancar a manga do casaco. Então ele a soltou e a seguiu pela calçada até a porta da Duchess.

“Qual é a ideia?” ele exigiu, sufocado por um ciúme feroz. “Não é o Larry, afinal? Você não vai deixar que ele faça você andar na linha?”

Ela recuperou a compostura e respondeu em tom de brincadeira:

“Como eu disse, como posso saber o que ele vai me obrigar a fazer?”

Ela o ouviu soltar um suspiro profundo e trêmulo entre os dentes cerrados; mas não pôde ver como seu corpo ficou tenso e como seu rosto se contorceu em uma expressão carrancuda.

“Entenda uma coisa, Maggie: Larry Brainard nunca será capaz de fazer você fazer nada. Você entendeu?”

“Sim, entendi, Barney; boa noite”, disse ela levemente.

E Maggie deslizou pela porta e deixou Barney tremendo na pequena rua.

CAPÍTULO IX

Maggie, ao subir para o seu quarto, mal estava consciente do tom de ameaça na voz de Barney; mas, uma vez na cama, seu tom e suas palavras voltaram a ela e agitaram uma estranha inquietação em sua mente. Barney estava com raiva; Barney era astuto; Barney não pararia diante de nada para alcançar seus objetivos. O que poderia estar por trás de suas palavras ameaçadoras?

Na manhã seguinte, quando ela estava entrando com o leite para o seu café da manhã, encontrou Larry no quarto da Duchess, atrás da loja de penhores. Ele, sorridente, colocou-se exatamente no caminho dela.

“Veja só, Maggie — você nunca vai falar com um sujeito?”

Algo dentro dela surgiu, impelindo-a a contar-lhe sobre a ameaça selvagem, porém não formulada, de Barney. O aviso chegou até sua língua e lá parou, lutando.

Seu olhar estranho e fixo assustou Larry. “Ora, o que houve, Maggie?” ele exclamou.

Mas seu orgulho, sua determinação estabelecida de não ceder a ele de forma alguma e de não ter qualquer negócio com ele, foram mais fortes do que seu impulso; e o aviso que lutava para sair permaneceu não dito.

“Não houve nada”, disse ela, passou por ele e apressou-se escada acima.

Às vezes, durante o dia, enquanto estudava com o Sr. Bronson, Larry pensava no olhar estranho de Maggie. E sua mente estava voltada para isso no final da tarde, quando ele entrou na pequena rua. Mas, ao se aproximar da casa de sua avó, todo esse pensamento foi banido pelo detetive Gavegan, da Secretaria Central, saindo da loja de penhores e bloqueando a porta com seu vulto grande. Havia um propósito sombrio e triunfante nos traços duros de Gavegan, convencido por natureza e treinado para a dominação severa pelo longo exercício como um pequeno autocrata.

“Olá, Gavegan”, Larry o cumprimentou agradavelmente. “Puxa, mas você parece animado! A Duchess lhe deu um empréstimo maior do que você esperava pela medalha Carnegie que você acabou de penhorar?”

“Logo você vai parar com essa sua linha de comédia.” Gavegan passou o braço esquerdo pelo direito de Larry. “Você vem comigo, e é melhor vir quieto.”

Larry enrijeceu. “Ir aonde?”

“À sede.”

“Eu não fiz nada, Gavegan, e você sabe disso! Por que você me quer?”

“Eu e o Chefe tivemos uma pequena conversa sobre você”, disse Gavegan com um sorriso lascivo. “E agora o Chefe quer ter uma pequena conversa pessoal com você. Ele me pediu para pegá-lo e trazê-lo.”

“Eu não fiz nada e não vou!” Larry gritou acalorado.

“Ah, sim, você vai!” Gavegan retirou a mão direita do bolso do paletó, onde estava descansando em prontidão. Na mão, com a correia ao redor do pulso, estava um objeto curto coberto de couro e cheio de chumbo. “Eu tenho minhas ordens, e você virá pacificamente, ou... Mas eu gostaria tanto que você resistisse, porque lhe devo algo pelo soco que você me deu na outra noite.”

Larry, tenso com o desejo de bater, olhou por um momento para o rosto carrancudo do detetive. Gavegan, segurando seu braço direito, com aquele soco destruidor de ossos ansiando por uso imediato, era aparentemente o mestre nas circunstâncias presentes. Mas, antes que a mente rápida de Larry decidisse um curso de ação, a porta da loja de penhores abriu e fechou, e uma voz disse bruscamente:

“Nada de coisas pesadas, Gavegan!” O orador estava agora do lado esquerdo de Larry, um homem de rosto pesado e chapéu coco preto. “Larry, é melhor ser um bom rapaz e vir conosco.”

“Ah, é você, Casey!” disse Larry. “Se você diz que eu tenho que ir, eu vou — porque você é um policial decente, mesmo que tenha o Gavegan como parceiro. Vamos lá. Por que estamos parados aqui?”

O trio seguiu seu caminho para fora da rua estreita e, após cerca de quinze minutos de caminhada pelas vias tortuosas daquela parte da cidade, passaram pela porta de granito da Sede e entraram no escritório do Comissário Adjunto Barlow, Chefe da Delegacia de Detetives. Barlow estava falando ao telefone em um estacato rosnante, e os três homens se sentaram. Após um momento, Barlow bateu o fone no gancho e voltou-se para eles. Ele tinha um rosto cerrado e impetuoso, com olhos pequenos e dominadores. Era seu orgulho dizer que obtinha resultados, que era sua política fazer as pessoas fazerem o que você mandava. Ele não tinha outro código.

“Bem, Brainard”, ele disparou, “aqui está você de novo. O que você está aprontando agora?”

“Vou tentar o jogo limpo, Chefe”, devolveu Larry.

“Não tente usar essa velha conversa fiada comigo!”

“Não é conversa fiada, Chefe. É a coisa real.”

“Pare com isso, eu digo! Você não acha que eu tive um sujeito esperto como você vigiado no minuto em que você chegou na cidade, e tenho você na minha mira desde então? E se você está andando na linha, o que dizer da sessão que você teve com Barney Palmer e o Velho Jimmie Carlisle na própria noite em que você chegou? E eu estou por dentro desse seu blefe de ir para aquele instituto comercial. Então desembucha, Brainard! Eu tenho cada movimento seu coberto!”

“Eu já desembuchei, Chefe”, respondeu Larry, tentando manter a calma diante do jeito intimidador do outro. “Eu disse a Barney e ao Velho Jimmie que tinha acabado com o jogo antigo, e acabado com eles como parceiros no jogo antigo — isso foi tudo o que houve naquela reunião. Estou indo para aquele instituto comercial pela mesma razão que qualquer outra pessoa vai lá — para aprender. Isso é tudo o que há em todo o negócio, Chefe: eu vou andar na linha.”

O Chefe Barlow, curvado para frente, seu maxilar inferior cerrado sobre a ponta de um charuto, observava Larry fixamente com seus olhos miúdos e autocráticos. Barlow era treinado para penetrar no interior das mentes dos homens, e ele reconheceu que Larry falava sério.

“Você quer dizer que acha que vai andar na linha”, observou Barlow lenta e significativamente.

“Eu sei que vou andar na linha”, Larry respondeu calmamente, encontrando diretamente o olhar do Chefe de Detetives.

“Você percebe, jovem”, Barlow continuou no mesmo tom medido e significativo, “que se você vai andar na linha, e como você vai andar na linha, depende muito de mim?”

“Importa-se de deixar isso um pouco mais claro, Chefe?”

“Vou mostrar-lhe parte da minha mão — apenas lembre-se de que estou segurando minhas cartas altas. Não acredito que você vá andar na linha, então começaremos com a premissa de que você não vai andar na linha e trabalharemos a partir daí. Você é esperto, Brainard — eu lhe dou isso; e todos os criminosos de classe confiam em você. É por isso que eu tinha escolhido você para o que eu queria muito antes de você sair da prisão. Brainard, você é sensato o suficiente para saber que algumas das nossas melhores prisões vêm de dicas dadas a nós de dentro. Brainard” — a voz lenta agora se tornara incisiva, obrigatória — “você não vai andar na linha. Você vai acompanhar Barney e o Velho Jimmie e o resto do bando — nós o protegeremos — e você vai nos dar dicas quando algo grande estiver prestes a ser realizado.”

Larry, experiente com métodos policiais embora fosse, mal podia acreditar nessa coisa que estava sendo proposta a ele, Larry Brainard. Mas ele se controlou.

“Se eu entendi bem, Chefe, você está sugerindo que eu me torne um informante da polícia?”

“Exatamente. Nós nunca revelaremos sua identidade. E qualquer coisinha que você fizer por conta própria, nós não o incomodaremos. E, além disso, vamos lhe dar um pouco de dinheiro regularmente, na surdina.”

“E tudo o que você quer que eu faça em troca”, perguntou Larry calmamente, “é entregar meus parceiros?”

“Isso é tudo.”

Larry descobriu que exigia toda a sua força para se controlar; mas ele o fez.

“Existem apenas três pequenas objeções à sua proposta, Chefe.”

“Sim?”

“A primeira é: eu não serei um informante.”

“O quê?”

“E a segunda é: eu não entregaria um parceiro a você, mesmo que eu fosse um criminoso. E a terceira é o que eu disse no começo: não vou ser um criminoso.”

O vulto atarracado e poderoso de Barlow levantou-se ameaçadoramente. Casey também se levantou.

“Eu digo que VOCÊ VAI ser um criminoso!” O punho grande de Barlow caiu sobre sua mesa em um tremendo ponto de exclamação. “E você vai trabalhar para mim exatamente como eu mandar!”

“Eu já lhe dei minha palavra final”, disse Larry.

“Você... você...” Barlow quase engasgou com essa desafio silencioso. Seu rosto ficou vermelho, sua respiração veio em um rosnado trêmulo, seus ombros poderosos se curvaram como se ele estivesse prestes a atacar. Mas ele segurou seus golpes físicos.

“Esse é o seu ultimato?”

“Se você quiser chamar assim — sim.”

“Então aqui está o meu! Eu disse a você que estava segurando minhas cartas altas. Ou você faz o que eu digo e trabalha com Gavegan e Casey, ou você não conseguirá manter um emprego em Nova York! Meus homens cuidarão disso. E aqui está outra carta alta. Você faz o que eu disse, ou eu vou pendurar alguma acusação em você, uma que vá colar, e você voltará para o rio para mais uma temporada! Aí está um ultimato para você pensar a respeito!”

Certamente era. Larry olhou para o rosto duro e fulminante, definido em determinação feroz. Ele sabia que Barlow, como parte de sua política, adorava quebrar o espírito dos criminosos; e ele sabia que nada irritava tanto Barlow quanto a oposição de um homem que ele considerava em seu poder. Perto do Chefe, ele viu o rosto maligno e exultante de Gavegan; Casey, que estava inquieto desde o início da cena, mudou-se para a janela e estava olhando para a Center Street.

Por um momento, Larry não respondeu. Barlow confundiu o silêncio de Larry com hesitação, ou o início de uma inclinação a ceder.

“Você pense nisso na sua cabeça”, continuou Barlow. “Você vai acabar sendo um criminoso de qualquer maneira, então você pode muito bem ser um criminoso da única maneira que é segura para você. Vou ter Gavegan e Casey vigiando você, e se nos próximos dias você não começar a acompanhar Barney e o Velho Jimmie e aquele bando, e se você não me der a palavra de que sua resposta à minha proposta é 'sim', o inferno vai cair sobre você! Agora saia daqui!”

Larry saiu. Ele era lava líquida de raiva por dentro; mas ele tinha tido contato suficiente com o poder policial para saber que não ajudaria em nada permitir uma erupção contra um oficial de polícia enquanto ele estivesse no próprio coração da fortaleza policial.

Ele caminhou de volta para sua própria rua em fúria, sob a qual estava subconscientemente um elemento de inquietação: uma inquietação que teria sido instantaneamente despertada para cautela se ele soubesse que Barney Palmer o seguia há uma hora ou mais em um táxi, e que, do outro lado da rua, da janela do carro, o rosto afiado de Barney o observara entrar na Sede da Polícia e o observara sair.

Chegando em casa, Larry contou brevemente sua experiência na Sede para Hunt e a Duchess. O pintor assobiou; a Duchess piscou e não disse absolutamente nada.

“Maggie estava mais certa do que imaginava quando disse pela primeira vez que você estava enfrentando uma proposta difícil!” exclamou Hunt. “Acredite em mim, rapaz, você está certamente em maus lençóis!”

“Dá para superar a ironia disso!” disse Larry, andando pelo chão. “Um homem quer andar na linha. Seus parceiros pedem para ele ser um criminoso, e ficam bravos porque ele não quer ser um criminoso. A polícia pede para ele ser um criminoso, e o ameaça porque ele não quer ser um criminoso. Que situação!”

“Que situação!” repetiu Hunt. “O que você vai fazer?”

“Fazer?” Larry parou, seu rosto fixo com determinação desafiadora. “Vou continuar fazendo exatamente o que tenho feito! E que todos eles vão para o inferno!”

CAPÍTULO X

Por vários dias, nada parecia estar acontecendo, embora Larry tivesse a sensação de que forças desconhecidas estavam se acumulando em linhas isotérmicas distantes e que o mau tempo estava caindo sobre ele. Durante esses dias, tentando ignorar esse problema informe, ele se entregou com uma determinação mais rígida à sua nova rotina — a rotina com a qual contava para ajudá-lo a entrar no caminho das grandes coisas.

Todos os dias ele via Maggie; às vezes ele estava na companhia dela por uma hora ou mais. Ele tinha a fome natural de um jovem de conversar com uma jovem; e, além disso, é uma tensão severa para um homem viver sob o mesmo teto com a garota que ele ama e não estar em termos de amizade com ela. Mas Maggie mantinha seu distanciamento. Ela falava apenas quando era pressionada, e seu discurso geralmente não passava de um “sim” ou um “não”, ou uma frase rápida de desdém.

Às vezes, Larry tinha a sensação de que, apesar de toda a sua repressão, Maggie teria ficado feliz em ser mais livre com ele. E ele sabia o suficiente sobre a natureza humana para não ficar muito desanimado com a atitude dela. Se ele fosse uma nulidade para ela, ela o teria ignorado. Seus próprios insultos eram a prova de que ele era uma personalidade positiva com significado real na vida dela. E assim, ele aconselhou a si mesmo a ter paciência e aguardar um degelo ou um despertar. Além disso, ele continuava repetindo para si mesmo, haveria pouca chance de efetuar uma conversão nesta jovem ortodoxa militante do cinismo até que ele tivesse provado a solidez de visões contrárias por seu próprio sucesso estabelecido.

E assim os dias passaram. Mas, no quinto dia após sua entrevista com Barlow, as coisas começaram a acontecer. Primeiro de tudo, ele notou em um jornal da manhã que Red Hannigan e Jack Rosenfeldt, membros de seu antigo grupo e sugeridos pelo Velho Jimmie como participantes de seu novo empreendimento proposto, tinham acabado de ser presos por Gavegan e Casey sob a acusação de suposta conexão com a venda de ações de mineração fraudulentas.

Segundo, ao retornar no final da tarde, ele viu parado diante da casa um táxi com um porta-malas ao lado do motorista. No museu mofado de um quarto atrás da loja de penhores, ele encontrou Hunt e a Duchess e o Velho Jimmie e Barney; e também Maggie, descendo a escada, de chapéu e casaco e carregando uma mala. Uma dor aguda latejou através dele quando ele reconheceu o significado do chapéu, casaco e bagagem de Maggie.

“Maggie — você vai embora?” ele exclamou.

“Sim.”

Ela havia parado no pé da escada e, ao vê-lo, ficou um pouco pálida e de olhos arregalados. Mas, em um instante, ela recuperou seu estilo habitual; veio um orgulhoso levantamento de sua cabeça, um clarão de desprezo em seus olhos escuros.

“Finalmente estou deixando esta rua para sempre”, disse ela. “Eu lhe disse que algum dia eu iria para o mundo e faria grandes coisas. O tempo chegou — estou graduada — vou começar o trabalho de verdade. E vou ter sucesso — você verá!”

“Maggie!” ele respirou. Então, impulsivamente, ele começou a ir em direção a ela autoritariamente. “Maggie, eu não vou deixar você fazer nada desse tipo!”

Mas rapidamente Barney interveio entre eles, o Velho Jimmie logo atrás dele.

“Fique fora disso!” Barney disparou para Larry, um brilho avermelhado em seus olhos. “Maggie vai embora e você não pode impedi-la. Você acha que o pai dela vai deixá-la ficar aqui embaixo por mais tempo, onde você pode discursar suas pregações para ela! — e você o tempo todo um informante e um dedo-duro!”

“O que é isso?” gritou Larry.

“Eu chamei você de informante!” repetiu o malignamente exultante Barney, alerta para qualquer movimento por parte do subitamente tenso Larry. “E você é um informante! Eu mesmo não o vi entrar na Sede com Casey e Gavegan, onde você se vendeu para o Chefe Barlow!”

“Ora, seu maldito...”

Mesmo antes de falar, Larry lançou um golpe furioso direto do quadril no rosto contorcido de Barney. Mas Barney esperava exatamente isso, e foi ainda mais rápido. Ele agarrou o pulso de Larry antes que o golpe fosse totalmente desferido e empurrou uma automática de cor opaca no estômago de Larry.

“Comporte-se, seu maldito”, rosnou Barney, “ou eu vou explodir suas entranhas malditas! Não — vá em frente e tente me bater. Eu não gostaria de nada mais do que matá-lo, seu rato, e ter uma boa alegação de legítima defesa!”

Larry deixou suas mãos se abrirem e caírem ao lado do corpo. “Você levou a melhor sobre mim, Barney — mas você é um mentiroso.”

“Pode apostar que levei a melhor sobre você! E não apenas com minha arma. Eu tenho provas de que você é um informante. Todo mundo sabe que você é um informante. E, o que é mais, eles sabem que você é um dedo-duro!”

“Um dedo-duro!” Larry enrijeceu novamente.

“Um informante e um dedo-duro!” Barney praticamente atirou em Larry esses dois epítetos mais desprezados de seu mundo. “Você fez seu trabalho muito bem como informante, e entregou Red Hannigan e Jack Rosenfeldt para a polícia!”

“Você acredita que eu tive alguma coisa a ver com a prisão deles?” exclamou Larry.

Barney riu em seu escárnio.

“Claro que acreditamos”, interveio o Velho Jimmie, seu rosto vincado e astuto agora impiedosamente duro. “E, o que é mais, nós sabemos disso!”

“E, o que é ainda mais”, Barney zombou, “Maggie também acredita nisso!”

Larry voltou-se para Maggie. O rosto dela estava agora tenso, com olhos arregalados.

“Maggie — você acredita nisso?” ele exigiu.

Por um momento, ela não falou nem se moveu. Então, lentamente, ela assentiu.

“Mas, Maggie”, ele protestou, “eu não fiz isso! Barlow pediu que eu fosse um informante, mas eu recusei! Tirando isso, não sei mais sobre isso do que você!”

“Claro que você negaria — estávamos esperando por isso”, zombou Barney. “Jimmie, desperdiçamos tempo demais aqui. Pegue a bolsa de Maggie e vamos embora.”

O Velho Jimmie pegou a mala de Maggie e, passando a mão pelo braço dela, conduziu-a através do quarto. Ela nem sequer se despediu de Hunt ou da Duchess, ou sequer olhou para eles; mas saiu silenciosamente, seu olhar tenso e arregalado apenas em Larry.

Barney recuou atrás deles, sua automática ainda mantida em prontidão. “Estou deixando você sair barato demais, Brainard”, disse ele, o ódio brilhando em seus olhos. “Mas há alguns que não serão tão legais!”

Com isso, ele fechou a porta. Até aquele momento, tanto Hunt quanto a Duchess não tinham dito nada. Agora, a Duchess falou:

“Estou feliz que levaram Maggie embora, Larry. Vi a maneira como você começou a se sentir em relação a ela, e ela não é o tipo certo para você.”

Mas Larry ainda estava muito atordoado pela maneira como Maggie tinha saído de sua vida para dar qualquer resposta.

“Mas há muito do que Barney disse sobre haver alguns que não seriam fáceis com você”, continuou a Duchess. “Essa notícia tinha chegado a mim antes de Barney aparecer. Então, eu deixei isso pronto para você.”

De um bolso de fenda em sua saia larga, a Duchess tirou uma pistola e a entregou a Larry.

“Para que é isso?” Larry perguntou.

“Fui informada de que a ordem foi dada ao bando Ginger Buck para pegar você”, respondeu a Duchess. “Barney tem alguma conexão secreta com os Ginger Bucks. O fato de ele dizer que você era um informante e um dedo-duro não é a única coisa que ele tem contra você; ele tem ciúmes de você por causa de tudo — especialmente Maggie. Então você vai precisar dessa arma.”

“Em que foi que eu caí no meio?” exclamou Hunt. “Uma disputa de Kentucky?”

“É muito fácil entender quando você conhece o código”, explicou Larry sombriamente. “Aqui embaixo, quando um grupo pensa que um de seus membros os entregou, é seu dever estar sempre atento à chance de acabar com ele. Eu devo ser eliminado — é só isso.”

“Diga, rapaz, a vida de um criminoso que anda na linha não parece estar ficando muito mais simples! Por que, homem, você mal ousa sair de casa! O que você vai fazer?”

“Vou cuidar da minha vida, sempre com a agradável antecipação de uma bala nas costas quando algum sujeito achar que é seguro atirar.”

Os três discutiram esse último acontecimento durante o jantar, que fizeram juntos no estúdio de Hunt. Mas, apesar de toda a conversa sobre o perigo, um perigo muito real e próximo, a mente de Larry estava mais em Maggie, que fora assim repentinamente arrancada de sua vida. Ele se lembrou da conversa empolgada e jactanciosa dela na primeira noite. Seu período de aprendizado estava, de fato, terminado; ela agora estava comprometida com sua aventura imaginada de forma rósea, na qual se via como uma dama esplêndida. E com Barney Palmer como sua influência norteadora!...

O jantar havia terminado e Hunt tentava animar Larry com frases como "Coragem, rapaz — você já sabe o pior — não há mais nada que possa acontecer", quando a mentira direta foi dada às suas palavras por passos pesados subindo a escada e o abrir e fechar da porta. Lá estava o policial Casey, ofegante.

Instintivamente, Larry sacou sua pistola. "Casey! O que você está fazendo aqui?"

"Livra-te desse ferro — não sejas apanhado com uma arma", ordenou Casey. "E cai fora. Tens menos de cinco minutos para dar o fora."

"Dar o fora! O que está acontecendo?"

"Não pagaste como o Chefe ordenou, e ele está disposto a te dar exatamente o que disse que daria", disse Casey rapidamente, sua fala interrompida pela respiração ofegante. "Houve um assalto, com agressão que pode ser alterada para tentativa de homicídio, e o Chefe tem três homens que juram que tu és o culpado. É um caso infalível contra ti, Larry — e significará de cinco a dez anos se fores apanhado. Gavegan e eu recebemos a ordem para te prender. Eu passei à frente de Gavegan para te avisar, mas ele está apenas a alguns minutos atrás. Depressa, Larry! Apenas... apenas..."

Casey parou, ofegando por ar.

"Apenas o quê, Casey?"

"Apenas cria-me um álibi, Larry, dando-me uma pancada como fizeste com Gavegan. Para que eu possa dizer que tentei te apanhar, mas foste demasiado rápido e me deixaste inconsciente. Rápido! Mas não demasiado forte — eu sei como fingir desmaio."

Larry entregou a pistola a Hunt. "Casey, és um verdadeiro companheiro! Obrigado!" Ele apertou a mão de Casey, depois relaxou rapidamente o aperto. "Pronto?"

"Fogo", disse Casey.

Larry manteve a mão esquerda aberta perto do maxilar de Casey e impulsionou o punho direito contra a palma da mão com um estalo surdo. Casey desabou no chão e ficou lá, desleixado, com a boca aberta, na simulação perfeita de um homem que foi nocauteado.

Larry virou-se rapidamente. "Vocês dois vão testemunhar que eu dei uma surra no Casey e depois escapei?"

"Claro, testemunharei qualquer coisa em nome de um bom velho como Casey!" gritou Hunt. "Mas despacha-te, rapaz — cai fora!"

A Duquesa estendeu o chapéu de Larry para ele e enfiou no bolso do seu casaco um maço de notas que tirara da sua saia volumosa. "Depressa, Larry — e tem cuidado — pois tu és tudo o que eu tenho."

Impulsivamente, Larry curvou-se e beijou os lábios finos e enrugados da sua avó — o primeiro beijo que ele lhe dera. Depois, virou-se e correu escada abaixo, com Hunt logo atrás dele. Ele apagou a luz na sala dos fundos e chamou o velho Isaac para escurecer a própria loja de penhores. Ele estava saindo com duas forças armadas contra si, a polícia e os seus companheiros, e não tinha desejo algum de ser um alvo fácil para um ou para ambos ao passar por uma porta iluminada.

"Larry, meu filho, tu estás bem!" disse Hunt, apertando a sua mão na escuridão. "Escuta, rapaz: se alguma vez estiveres encurralado e conseguires chegar a um telefone, liga para Plaza nove-duplo-zero-um e diz 'Benvenuto Cellini'."

"Está bem."

"Lembra-te, tens de dizer 'Benvenuto Cellini', e o telefone é Plaza nove-duplo-zero-um. Boa sorte para ti!" Novamente eles apertaram as mãos. Depois, Larry esgueirou-se pela porta escurecida para o que quer que pudesse estar à sua espera.

CAPÍTULO XI

Uma chuva de neblina era rodopiada por um vento temperamental quando Larry saiu para a pequena rua. Em direção ao rio, a única luz de gás brilhava fracamente como uma nebulosa expirante; todas as pequenas lojas estavam fechadas; as luzes das casas brilhavam por trás das janelas cortinadas que a tempestade havia fechado; de modo que a rua era agora um pequeno cânion de sombras incertas.

Larry não precisou pensar para saber que Gavegan estaria fazendo sua aproximação vingativa das regiões do oeste, onde ficava o Quartel-General. Então, mantendo-se nas sombras mais profundas, perto do edifício, Larry seguiu o curso leste da rua, lembrando-se num relance de um esquife que vira amarrado a uma barcaça atracada no cais que se estendia como um dedo indicador a partir da pequena praça. Por enquanto, ele não tinha plano além da necessidade do momento presente, que era a fuga. Se pudesse alcançar aquele esquife sem ser visto e zarpar, ele teria tempo, no breve santuário que o rio negro lhe proporcionaria, para formular o procedimento mais sensato que a sua situação permitia.

Ao aproximar-se daquele brilho abafado de um poste de rua, ele assumiu para si o brilho revelador de um enorme holofote. Mas tinha de ser passado para chegar ao esquife; e com o colarinho levantado, a aba do chapéu puxada para baixo e a cabeça encolhida, ele entrou na esfera tênue de traição, caminhou sob a sua chama de valor irrisório e deslizou em direção às sombras além, seus olhos esforçando-se com a nitidez sobrenatural do caçado em cada degrau e porta à sua frente.

Ele estava prestes a sair da esfera da luz de neblina — a lâmpada estando agora às suas costas ajudava-o — quando viu três figuras vagas espreitando a meia dúzia de passos à sua frente. Seu cérebro registrou essas figuras vagas com a instantaneidade de uma câmera fotográfica ao meio-dia. Eram meras sombras; mas a mais distante das três parecia ser Barney Palmer — ele não tinha certeza; mas quanto à identidade das outras duas não havia dúvida: "Little Mick" e "Lefty Ed", ambos membros de alto escalão nos conselhos dos Ginger Bucks, e cujos serviços como assassinos poderiam ser comprados por cem dólares ou um pacote de cocaína, dependendo do que, no momento, se sentisse maior necessidade.

No exato momento em que viu, Larry virou-se e correu em velocidade máxima rua acima. Dois tiros soaram; Larry não conseguiu dizer se foram disparados por Little Mick, Lefty Ed ou Barney Palmer — isto é, se o terceiro homem era realmente Barney. Novamente dois tiros foram disparados, depois veio o som de pés perseguidores. Felizmente, nenhuma das balas tocou Larry; pois o pistoleiro profissional de Nova Iorque é o maior mau atirador de todo o mundo, e não pode contar com a sua pontaria, a menos que possa obter a sua arma solidamente ancorada contra o seu homem, ou possa esgueirar-se para a retaguarda e abater a sua vítima desprevenida pelas costas.

À medida que Larry se aproximava da loja de penhores com a intenção de escapar através do trecho oeste da rua, ele viu que o velho Isaac tinha acendido as luzes; e ele também viu o policial Gavegan avançando em sua direção. Eles avistaram-se no mesmo instante, e Gavegan soltou um rugido e partiu para cima dele.

Preso entre duas forças opostas, Larry novamente não teve tempo para planejar. Na verdade, não havia nada que ele pudesse planejar, pois apenas um caminho estava aberto para ele. Ele correu para dentro da loja de penhores e para a sala dos fundos. Na mesa da Duquesa, Hunt escrevia a uma velocidade furiosa.

"Estou encurralado, Hunt — Gavegan está vindo", ele ofegou, e subiu as escadas, com Hunt seguindo-o e enfiando seus escritos no bolso. Quando Larry passou pela porta aberta do estúdio, viu Casey sentando-se. "Para o chão com você, Casey! Hunt, trabalhe nele para que ele volte a si — e enrole Gavegan por um tempo se puder."

Com isso, Larry saltou para uma escada no final do pequeno corredor, subiu, desengatou e empurrou o alçapão, arrastou-se pelo telhado e empurrou o alçapão de volta ao lugar.

A sorte, ou melhor, a astúcia bem-intencionada dos amigos lá embaixo, deu a Larry alguns momentos preciosos a mais do que ele contava. Ele mal estava fora no telhado de estanho lubrificado pela chuva, com o alçapão fechado, quando Gavegan veio subindo as escadas e entrou no estúdio. Ao ver Casey deitado, com a cabeça mole nos joelhos de Hunt, e seu rosto frouxo sendo lavado por uma toalha molhada nas mãos de Hunt, Gavegan soltou outro rugido:

"Diabos! Que diabos significa isto?"

"Tentei apanhar Brainard", balbuciou Casey fracamente, "e ele me nocauteou — o mesmo que fez com você, Gavegan."

"Inferno!" bufou Gavegan, sua ira aumentada por essa referência. "Você aí" — para Hunt e a Duquesa — "para onde o Brainard foi? Ele está nesta casa em algum lugar!"

"Não sei", disse Hunt.

"Sim, você sabe! Deixe esse boboca do meu parceiro dormir para se recuperar, e ajude-me a encontrar Brainard ou você sentirá a minha bota!"

O grande pintor levantou-se de frente para o grande detetive e sua mão esquerda agarrou o pulso deste e a direita fechou-se sobre a garganta do detetive exatamente como se fechara sobre a garganta magra do velho Jimmie no dia do retorno de Larry — só que agora não havia nada de brincalhão no laço daquela mão grande. Ele sacudiu Gavegan como poderia ter sacudido um travesseiro, com um polegar empurrando dolorosamente sob a orelha de Gavegan.

"Eu não fiz nada, e essa conversa de valentão não cola comigo!" ele praticamente cuspiu no rosto de Gavegan. "Fale comigo como um cavalheiro e peça desculpas, ou eu vou jogá-lo pela janela e deixar sua cabeça quicar em uma das pedras de calçamento lá embaixo!"

Gavegan engasgou um pedido de desculpas, ao que Hunt o arremessou para longe. O detetive, olhando furiosamente para o outro, afastou cortinas, espreitou nos cantos; depois fez uma busca furiosa e infrutífera nos cômodos de baixo, terminando finalmente na porta de Maggie, que a Duquesa tinha superado e trancado. Quando ele exigiu a chave, a Duquesa contou-lhe sobre a partida de Maggie e que ela levara a chave consigo. Era uma porta sólida, com fechadura e dobradiças fortes; e dois minutos dos ombros de Gavegan batendo foram necessários para que ela cedesse a entrada. Só quando encontrou o quarto vazio é que Gavegan pensou no alçapão e no telhado.

Larry aproveitou bem esses poucos minutos extras que lhe foram concedidos. O que quer que ele fosse fazer, ele percebeu que deveria fazê-lo rapidamente. Não por muito tempo as forças alinhadas contra ele seriam pequenas em número; Gavegan, embora derrotado no início, enviaria um alarme que despertaria a polícia da cidade — e, à sua maneira, os gângsteres fariam o mesmo. Durante suas semanas de liberdade, Larry tinha estudado inconscientemente o layout da vizinhança, com seus velhos instintos em ação. O conhecimento subconsciente assim adquirido foi de valor imediato. Ele correu ao longo dos telhados escorregadios, tendo o cuidado de não tropeçar nas paredes divisórias, e chegou à borda traseira de um telhado onde marcou uma escada de incêndio com um patamar superior incomumente largo. Ele pôde discernir os contornos tênues disso; e pendurando-se na calha, ele desceu para a escada de incêndio, e um momento depois estava no quintal das traseiras; e dois momentos depois, ele estava sobre duas cercas e atravessando uma passagem estreita como uma toca de coelho que ia por baixo de uma casa para a rua atrás da sua.

Ele não parou para reconhecer o terreno. O tempo era a essência da sua segurança, riscos tinham de ser tomados. Ele mergulhou para fora do seu esconderijo — contornou a primeira esquina — contornou a seguinte — e assim teceu o caminho para dentro e para fora, movendo-se para o oeste, até que finalmente, ao virar uma esquina para uma rua iluminada, viu um possível alívio em dois táxis vadios em frente a um pequeno restaurante do East Side, um dos quais estava saindo.

"Táxi!" ele chamou ofegante.

O motorista do carro em movimento virou de volta para o meio-fio e abriu a porta. Mas mesmo quando ele começou a entrar, viu Little Mick e Lefty Ed virarem na rua atrás dele. No entanto, o brilho desta rua não condizia com o anonimato com que a sua arte é mais segura e rentavelmente praticada, então Larry entrou sem que uma bala fosse disparada contra ele.

"Forty-Second Street e Broadway", ele chamou o motorista enquanto fechava a porta.

O carro partiu. Olhando para trás através da pequena janela, ele viu Lefty Ed entrar no outro táxi e viu Little Mick parado no meio-fio. Ele entendeu. Little Mick deveria enviar o alarme, enquanto Lefty deveria seguir o rastro.

Deixe Lefty seguir. Pelo menos Larry agora tinha alguns minutos para considerar algum plano que olhasse além da segurança do momento imediato. Ele estava bem vestido, embora um pouco molhado e sujo; ele tinha dinheiro nos bolsos. O que ele deveria fazer?

Sim, o que ele deveria fazer? Quanto mais ele considerava, mais inelutável sua situação se tornava. A esta altura, Gavegan já tinha enviado seu alarme; dentro de poucos momentos, cada policial de serviço teria instruções para vigiá-lo. Ele poderia escapar por enquanto, pelo menos, desses aliados de seus antigos companheiros, indo para um hotel e alugando um quarto; mas entrar num hotel seria caminhar para a prisão. Por outro lado, ele poderia evitar a polícia se buscasse refúgio num dos seus antigos esconderijos, ou talvez com o velho Bronson; mas então seus companheiros irritados conheciam esses esconderijos, e entrar num deles seria oferecer-se livremente à sua vingança.

Havia outras cidades — mas então como ele chegaria a elas? Ele via Manhattan como o que era para um homem que era um fugitivo da justiça e da injustiça: uma ilha, uma armadilha, com apenas algumas saídas e entradas para seus milhões: duas estações ferroviárias — algumas balsas — algumas pontes — alguns túneis: e em cada uma delas policiais vigiando-o. Ele não podia deixar Nova Iorque. E ainda assim, como em nome de Deus ele ficaria aqui?

Ele pensou em Maggie. Então ela queria a vida de deslumbramento, de excitação, de aventura brilhante, não era? Ele se perguntava como ela gostaria de um pouco da coisa real — como esta?

Ao aproximar-se da Forty-Second Street, ele ainda estava sem um plano definitivo que lhe garantisse segurança, e lá estava Lefty agarrado obstinadamente. Uma ideia surgiu que pelo menos estenderia o seu respiro e lhe daria mais tempo para pensar. Ele abriu a porta do seu táxi e enfiou uma nota de dez dólares na mão instintivamente pronta do seu motorista.

"Fique com o troco — e dê uma volta no Central Park, reduzindo a velocidade naquelas curvas montanhosas do lado oeste."

"Entendido."

O carro entrou no parque no Plaza e acelerou pela estrada brilhante e quase vazia. Larry manteve a vigilância, ora no perseguidor Lefty, ora na melhor chance para a execução da sua ideia — por todo o caminho subindo o lado leste e contornando a curva na extremidade norte. Quando o carro, agora seguindo para o sul, subiu a colina perto da 105ª Rua, em cujo cume há uma curva fechada com árvores altas e suspensas, Larry abriu a porta direita e disse:

"Mostre-me um pouco de velocidade, motorista, assim que passar esta curva!"

"Entendido", respondeu o motorista.

O carro que reduzia a velocidade abraçou o interior da curva fechada, Larry mantendo a porta aberta e esperando o seu momento. No instante em que o táxi fez a curva, o carro de Lefty foi cortado da visão; e nesse instante Larry saltou do estribo, batendo a porta atrás de si, pousou em terra macia e correu para o meio das árvores. Agachado nas sombras, ele viu seu carro acelerar para longe conforme suas ordens, e no momento seguinte viu o carro de Lefty, evidentemente pego de surpresa por esta tentativa óbvia de fuga, saltar para frente em perseguição acirrada.

Larry deslizou mais para dentro das árvores e sentou-se, as costas contra uma árvore. Isto era melhor. Por enquanto, ele estava seguro.

Ele respirou fundo. Então, por um momento, o que ele acabara de passar nesta última hora voltou a ele sob uma luz quase divertida: como algo grotescamente impossível — muito parecido com aquelas perseguições desenfreadas e totalmente irreais que, com pequenas variações de personalidades e figurinos, eram os principais enredos para o drama cinematográfico na sua infância crua. Mas embora parecesse haver uma semelhança, havia uma diferença tremenda. Pois isto era real! Todos estavam falando sério!

Novamente ele pensou em Maggie. O que ela pensaria, qual seria sua atitude, se soubesse a verdade sobre ele? — a verdade sobre aqueles com quem ela andara e a vida em que ela entrara? Ela seria inclinada a ELE, ela o ajudaria?...

Novamente ele pensou no que deveria fazer. Agora que ele comandava uma compostura que não fora sua durante o estresse da sua fuga, ele examinou cada aspecto com maior cuidado. Mas as conclusões da compostura eram as mesmas que as da excitação. Ele não podia ganhar entrada em um dos grandes hotéis e permanecer no seu quarto, não identificado entre seus milhares de estranhos; ele não podia encontrar asilo em um dos seus antigos esconderijos; ele não ousava tentar deixar Manhattan. Ele era um prisioneiro, cujo único privilégio era uma liberdade maior, porém muito incerta.

E essa liberdade estava se tornando profundamente desconfortável. Uma hora tinha passado, o chão em que ele se sentava estava molhado e frio, e o ar neblinoso estava assumindo um parentesco angustiante com o inverno que se fora e estava fazendo assaltos arrepiantes aos seus ossos. Na melhor das hipóteses, ele percebeu, ele não poderia esperar permanecer seguro nesta natureza selvagem cultivada além da luz do dia. Com a chegada da manhã, ele certamente seria a presa dos seus companheiros ou da polícia. E se eles não o expulsassem do seu esconderijo, a simples fome mortal o expulsaria para as ruas abertas. Se ele deveria fazer qualquer coisa, ele deveria fazê-lo enquanto ainda tivesse a proteção moderada da noite.

E então, pela primeira vez, veio-lhe a lembrança da injunção rápida de Hunt, dada a ele na confusão da fuga, quando nenhum pensamento poderia impressionar a superfície superior da sua mente, exceto aqueles do momento imediato. "Se você estiver encurralado, ligue para Plaza nove-duplo-zero-um e diga 'Benvenuto Cellini'."

Larry não tinha ideia do que aquela instrução rápida poderia significar. E a chance parecia tênue e fantástica, mesmo se ele pudesse chegar com segurança a um telefone público. Mas parecia sua única chance.

Ele se levantou e, mantendo-se o máximo que podia nas regiões mais selvagens do parque, e fazendo o máximo uso de sombras quando tinha de atravessar um caminho ou uma estrada, ele seguiu para o sul. Ele se lembrou de uma farmácia na 84ª Rua e Columbus Avenue, peculiarmente adequada ao seu propósito, pois tinha uma entrada lateral na 84ª Rua e ficava numa vizinhança onde policiais eram infrequentes.

A sorte favoreceu-o. Finalmente, ele chegou à 84ª Rua e espreitou por cima do muro. O Central Park West estava praticamente vazio de automóveis, pois os teatros ainda não tinham descarregado suas multidões e nenhum policial estava à vista. Ele saltou o muro; um minuto depois ele estava numa cabine na farmácia, tinha depositado sua moeda no slot e estava pedindo Plaza nove-duplo-zero-um.

"Olá, senhor!" respondeu a voz muito correta de um homem.

"Benvenuto Cellini", disse Larry.

"Mantenha a linha, senhor", disse a voz.

Larry manteve a linha, imaginando. Após um momento, a mesma voz correta perguntou de onde Larry estava falando. Larry deu a informação exata.

"Fique exatamente na cabine e continue falando; diga qualquer coisa que quiser; a linha aqui será mantida aberta", continuou a voz. "Não o manteremos esperando muito, senhor."

A voz cessou. Larry começou a conversar sobre tópicos do dia, sobre amigos inventados e compromissos, sabendo bem que seu fluxo de conversa não estava sendo ouvido, a menos que a Central estivesse "escutando"; e sabendo também que, para qualquer um que olhasse para a porta de vidro da sua cabine, ele estava dando uma aparência nada suspeita de um homem ocupado. E enquanto ele falava, seu espanto crescia. O que estava prestes a acontecer? O que era todo esse negócio de Benvenuto Cellini?

Ele estava falando há quinze minutos ou mais quando a porta de vidro da cabine foi aberta por fora e a voz de um homem comentou:

"Quando terminar, senhor, nós iremos."

A voz era a mesma que ele ouvira na linha. Larry desligou e seguiu o homem pela porta lateral, notando apenas que ele tinha um rosto magro e respeitoso. Na calçada estava uma limusine, cuja porta foi aberta pelo homem para Larry. Larry entrou.

"O senhor está sendo seguido?" perguntou o homem.

"Eu não sei."

"É melhor termos certeza. Se estiver, nós os perderemos, senhor. Vamos parar em algum lugar e trocar nossas placas novamente."

Em vez de entrar no veículo não iluminado com ele, como Larry esperava, o homem fechou a porta, subiu para o assento ao lado do motorista, e o carro disparou para o oeste e virou na Riverside Drive.

Pode-se violar as leis de velocidade em Nova York se se tem velocidade, e se se tem a habilidade de sair impune. Este carro tinha ambas. Nunca antes Larry dirigira tão rapidamente dentro dos limites da cidade de Nova York; ele sabia disto: qualquer táxi que os seguisse ficaria perdido para trás. Na Rua Duzentos e Quarenta e Cinco, o carro entrou no Van Cortland Park e apagou todas as luzes. Dois minutos depois, pararam num trecho escuro de uma das estradas secundárias do parque.

— Pararemos apenas um minuto, senhor, para colocar nossas placas corretas — o homem abriu a porta para explicar.

Dentro de um minuto, eles já haviam partido novamente, agora prosseguindo com mais calma, da maneira descontraída de um carro particular cuidando de seus negócios particulares — embora o interior do carro estivesse discretamente escuro e Larry estivesse discretamente encolhido em um canto. Assim, eles dirigiram pelos Grand Boulevards, atravessaram novamente o rio Harlem e, logo, pararam em frente a um grande prédio de apartamentos na Park Avenue.

O homem abriu a porta. — Entre direto, senhor, como se pertencesse a este lugar. O porteiro e o ascensorista estão avisados.

Eles podiam estar avisados, mas Larry certamente não estava; e ele disparou pelo elevador até o último andar com um espanto crescente. O homem destrancou a porta de um apartamento, levou Larry para dentro, pegou seu chapéu molhado, e então conduziu o atordoado Larry através de um canto de uma sala de estar fracamente iluminada e por outra porta.

— O senhor deve esperar aqui, senhor — disse o homem, e retirou-se silenciosamente.

Larry olhou ao redor. Ele notou apenas alguns detalhes, mas sabia o suficiente sobre as melhores conveniências da vida para perceber que estava na presença de dinheiro e do melhor gosto. Ele notou o fogo de lenha na ampla lareira, as poltronas confortáveis, os tapetes importados no piso brilhante, as estantes de livros que subiam até o teto, uma escrivaninha pitoresca em um canto que parecia pertencer a outro país e outro século, mas que estava perfeitamente à vontade naquela sala.

Sobre a escrivaninha, ele viu uma fotografia em moldura de couro que parecia familiar. Ele atravessou a sala e pegou-a. De fato, era familiar! Era uma fotografia de Hunt: de Hunt, não com as roupas surradas e sem forma que ele usava na casa da Duchess, mas Hunt equipado como poderia estar um homem acostumado a um quarto como aquele — embora, nesta imagem, houvesse o mesmo queixo forte, os mesmos olhos de natureza beligerante, porém boa.

Agora, como e onde aquele pintor pobre e grosseiro se encaixava em...

Mas a pergunta atordoada que Larry fazia foi interrompida por uma voz vinda da porta — a voz espessa de um homem:

— Quem diabos é você?

Larry girou. No batente da porta estava um jovem cavalheiro alto e beligerante de talvez vinte e quatro ou cinco anos, em trajes de noite, com o rosto corado, segurando-se instavelmente no batente.

— Peço perdão — disse Larry.

— E que diabos você está fazendo aqui? — continuou o jovem cavalheiro beligerante.

— Eu lhe ficaria grato se pudesse me dizer — disse Larry.

— Tentando enrolar, é? — declarou o jovem cavalheiro com uma carranca profunda. — Não vai dar. Tem que sair do seu canto e lutar. E eu vou te dar uma surra.

O jovem atravessou o recinto instavelmente até Larry e assumiu uma pose de luta.

— Prepare-se! — ele ordenou.

Esta certamente era uma noite de estranha aventura, pensou Larry. Sua fuga selvagem — sua chegada a este lugar desconhecido — e agora este sujeito confuso decidido a lutar com ele.

— Vamos lutar amanhã — sugeriu Larry, de forma conciliadora.

— Prepare-se! — ordenou o outro. — Se você não sabe o que está fazendo aqui, eu vou te mostrar o que está fazendo aqui!

Mas ele não chegaria a mostrar a Larry, pois, enquanto pronunciava suas últimas palavras, tentando firmar-se em uma posição agachada para desferir um golpe, uma voz soou agudamente vinda da porta — uma voz de mulher:

— Dick!

O jovem virou-se lentamente. Mas Larry a vira primeiro. Ele não teve chance de observá-la, naquele primeiro momento, além de notar que ela era esguia, jovem e vestida de forma requintada, pois ela veio diretamente até eles.

— Dick, você está bêbado de novo! — ela exclamou.

— Errado, maninha — ele corrigiu em um tom ofendido. — É a mesma bebedeira.

— Dick, vá para a cama!

— Ora, maninha...

— Vá para a cama!

O jovem vacilou diante do olhar autoritário dela. — Como você quiser... como você quiser — ele murmurou, e caminhou instavelmente em direção à porta.

A jovem mulher observou-o sair e, então, voltou seu rosto preocupado para Larry. — Sinto muito que Dick tenha se comportado assim com você.

E então, antes que Larry pudesse responder, seu olhar nublado desapareceu. — Então você está aqui finalmente, Sr. Brainard. — Ela estendeu a mão, sorrindo um sorriso que, por alguma mágica, parecia envolvê-lo em uma amizade imediata.

— Sou a Srta. Sherwood. — Ele notou que a mão esguia e afilada tinha quase a força de um aperto de um homem. — Você não precisa me contar nada sobre si mesmo — acrescentou ela —, pois já sei muito — tudo o que preciso saber: sobre você — e sobre Maggie Carlisle. Você vê, uma hora atrás, um mensageiro me trouxe uma longa carta que ele escreveu sobre você. — E ela acenou para a fotografia que Larry ainda segurava.

— Você... você o conhece? — Larry gaguejou.

Ela respondeu com um sorriso caprichoso: — Sim. Ele não é um velho querido, grandioso e tolo? Ele é uma figura tão barulhenta e fanfarrona que eu o chamei de Benvenuto Cellini — embora ele não seja nem mentiroso nem ladrão. Ele deve ter lhe dito como eu o chamava.

Então isso explicava a senha de "Benvenuto Cellini"! — Não, ele não explicou nada. Não houve tempo.

— Não sei onde ele está — continuou ela; — por favor, não me diga. Não quero saber até que ele queira que eu saiba.

Larry estivera fazendo uma avaliação rápida dela. Ela tinha talvez trinta anos, era clara, com cabelos castanhos dourados mantidos no lugar por um grande pente de ouro trabalhado, com olhos azul-violeta, vestindo um vestido decotado de chiffon veludo violeta e sapatos de ouro fosco. O instinto de Larry lhe dizia que ali estava uma patrícia, uma sangue-azul: com equilíbrio, com conhecimento de mundo, com um humor caprichoso, com uma compreensão bondosa das pessoas, com aço dentro de si, e com uma prontidão sorridente para quase qualquer situação.

— Acho que ninguém o encontrará — pelo menos por enquanto — continuou sua voz agradavelmente modulada. — Há tantas coisas sobre as quais quero conversar com você. Talvez eu possa ajudar em relação à Maggie. Espero que não se importe que eu fale sobre ela. — Larry não conseguia imaginar ninguém se ofendendo com qualquer coisa que esta aparição brilhante pudesse dizer. — Mas deixaremos nossa conversa para amanhã. É tarde, você está molhado e com frio, e, além disso, minha tia está tendo uma de suas crises e acha que precisa de mim. Judkins cuidará de você. Boa noite.

— Boa noite — disse Larry.

Ela moveu-se graciosamente para fora — quase flutuou, Larry teria dito. No momento seguinte, o homem que fora seu acompanhante estava com ele e conduziu Larry para um quarto espaçoso com banheiro anexo. Dez minutos depois, Judkins saiu, levando as roupas externas de Larry; e outros dez minutos mais tarde, após um banho quente e vestido em pijamas de seda que Judkins providenciara, Larry estava na cama mais macia e fresca que já o acolhera.

Mas o sono não veio para Larry por um longo tempo. Ele ficou deitado, imaginando sobre esta Srta. Sherwood de cabelos dourados e cheia de equilíbrio. Ela era, sem dúvida, a mulher por trás da vida de Hunt. E ele se perguntava sobre Hunt — quem ele realmente era — o que realmente o levara a esse estranho exílio. E ele se perguntava sobre Maggie — o que ela poderia estar fazendo — o que, a partir deste estranho novo ponto de observação, ele poderia fazer por ela e com ela. E ele se perguntava como sua própria situação complexa iria se resolver.

E ainda imaginando, Larry finalmente adormeceu.

CAPÍTULO XII

Quando Larry acordou na manhã seguinte, ele piscou por vários momentos atordoados ao redor de seu quarto, tão diferente de sua cela em Sing Sing e tão diferente do estúdio desordenado de Hunt na casa da Duchess que ele compartilhara, antes de perceber que este quarto grande e arejado e este milagre de cama em que estava deitado eram realidades e não apenas uma continuação de um sonho de riqueza fantástica e lisonjeira para o corpo.

Então sua mente voltou uma página no livro de sua vida e ele ficou deitado considerando os eventos da noite anterior: a cena com Barney, o Velho Jimmie e Maggie, todos eles denunciando-o como um informante da polícia e um delator, e a partida desafiadora de Maggie para iniciar sua carreira tão sonhada como atriz principal e talvez estrela no que ela via como grandes e emocionantes aventuras; sua própria fuga forçada e frenética; seu método estranho de chegar a este esplêndido apartamento; seu encontro com o belo jovem atordoado pela bebida em trajes de noite; seu encontro com a patrícia Srta. Sherwood, vestida de forma requintada, que o recebera com o equilíbrio e a amizade franca de uma rainha democrática, e ordenara imediatamente que ele fosse para a cama.

Estranho, todas essas coisas! Mas eram todas realidades. E, neste novo conjunto de circunstâncias que surgira em uma noite, o que ele deveria fazer?

Ele lembrou que a Srta. Sherwood dissera que ela e ele teriam sua conversa naquela manhã. Ele puxou seu relógio debaixo do travesseiro. Eram mais de nove horas. Ele olhou ao redor em busca de roupas, mas viu apenas um roupão. Então ele se lembrou de Judkins levando embora suas vestes encharcadas pela chuva, com um "Chame por mim quando acordar, senhor".

Larry encontrou um botão de campainha elétrica pendurado sobre a cabeceira de sua cama por um cordão de seda. Ele apertou o botão e esperou. Dentro de dois minutos a porta se abriu e Judkins entrou, carregado de roupas frescas.

— Bom dia, senhor — disse Judkins. — Suas próprias roupas, e algumas camisas e outras coisas que tomei emprestado do Sr. Dick. Como o senhor quer seu banho, senhor — quente ou frio?

— Frio — disse o atordoado Larry.

Judkins desapareceu no grande banheiro de azulejos brancos, houve o som de água espirrando por alguns momentos, depois silêncio, e Judkins reapareceu.

— Seu banho está pronto, senhor. Deixei algumas das navalhas do Sr. Dick. A que horas devo trazer seu café da manhã?

— Em cerca de vinte minutos — disse Larry.

Exatamente vinte minutos depois, Judkins trouxe uma bandeja e colocou-a sobre uma mesa ao lado de uma janela que dava para a Park Avenue. — A Srta. Sherwood pediu-me para dizer que ela o verá na biblioteca às dez horas, senhor — onde o viu ontem à noite — disse Judkins, e silenciosamente partiu.

Recentemente barbeado, formigando pelo banho, com a sensação de estar vestido impecavelmente, embora com roupas parcialmente estranhas, Larry dedicou-se ao café da manhã de toranja, omelete, torrada e café, servido em louça de Sèvres com tampas de prata antiga. Em suas épocas mais prósperas, Larry desfrutara do melhor serviço particular que os melhores hotéis de Nova York tinham para vender; mas o melhor deles fora grosseiro e desleixado comparado a este. Ele comia por um minuto ou dois — depois levantava-se e olhava para si mesmo cuidadosamente vestido no espelho de corpo inteiro — depois olhava de sua janela alta e exclusiva para baixo, para a Park Avenue com seu fluxo de carros carregando confortavelmente seus ocupantes para empregos às dez horas nas ruas Wall ou Broad — e então retornava ao seu café da manhã. Isso era incrível — desconcertante!

Ele estava perto de terminar sua omelete quando uma batida soou em sua porta. Pensando que Judkins havia retornado, ele chamou: — Entre; mas, em vez de Judkins, a porta que se abria admitiu o jovem beligerante com trajes de noite amassados da noite anterior. Agora ele usava um roupão de seda de um azul pavão extravagante, seus pés apareciam descalços em chinelos, seu cabelo ondulado e amarelado tinha o efeito despenteado de uma separação muito recente de um travesseiro. Um cigarro dependia do canto de sua boca.

Larry começou a levantar-se. Mas o jovem interrompeu o movimento com um gesto de imperatividade simulada.

— Permaneça sentado, nobre senhor; eu gostaria de conversar contigo. — Ele atravessou e sentou-se na ponta da mesa de Larry, um pé calçado balançando, e examinou Larry com um olho de avaliação. — Permita-me observar, senhor — continuou ele em seu tom grandioso —, que você parece alguém que poderia ser alguém.

— É isso que você queria me dizer, Sr. Sherwood? — perguntou Larry.

O tom grandioso do outro desapareceu e ele sorriu. — Esqueça o "Sr. Sherwood", ou você me fará sentir que não estou em casa na minha própria casa — ele implorou com melancolia bem-humorada. — Chame-me de Dick. Todos os outros chamam. Isso está decidido. Agora, o motivo desta visita em uma hora tão ímpia. A maninha acabou de estar aqui implicando comigo. Diz que fui rude com você ontem à noite. Suponho que fui. Eu tinha tomado vários do meu estoque particular no início da noite; e vários outros em bares joviais de Manhattan onde a proibição não impediu o fluxo da felicidade, se você souber a senha. O efeito cumulativo você viu e foi a vítima. Peço desculpas, senhor.

— Está tudo bem, Sr...

— Dick foi o que eu disse — interrompeu o outro.

— Dick, então. Está tudo bem. Eu entendo.

— Obrigado. Chamarei você de Velho Capitão Nemo para encurtar. A maninha não me disse seu nome ou nada sobre você, e ela disse que eu não deveria fazer perguntas. Mas o que quer que Isabel faça é geralmente cem por cento correto. Ela disse que eu provavelmente veria muito você, então vou me apresentar. Você aprenderia tudo sobre mim com outra pessoa, de qualquer maneira, então é melhor aprender sobre mim comigo e obter uma declaração imparcial e sem preconceitos. Inteligente da minha parte, não é, chegar na frente deles?

Larry viu-se sorrindo de volta para o rosto ingênuo, irresponsável e infantil. — Suponho que sim.

— Vou disparar o trabalho todo de uma vez. Nome, Richard Livingston Sherwood. Anos, vinte e quatro, mas alega-se que ainda não atingiu a idade da discrição. Um de nossos jovens heróis voadores que ajudou a salvar a França e tornar o mundo seguro para algo ou outro batendo suas asas sobre o álcali sem fim do Texas. Ocupação, fazendeiro cavalheiro.

— Você, um fazendeiro! — exclamou Larry.

— Um fazendeiro cavalheiro — corrigiu Dick. — A diferença entre um fazendeiro e um fazendeiro cavalheiro, Capitão Nemo, é que um fazendeiro cavalheiro não obtém lucro com suas colheitas. Agora, meus amigos dizem que estou perdendo uma quantidade terrível de dinheiro e estou semeando uma colheita terrivelmente grande. E, de acordo com eles, em vez de praticar uma rotação de culturas sensata, sou um fazendeiro tolo de uma cultura só — e minha única cultura é a ave selvagem.

— Entendo — disse Larry.

— É claro que eu faço um pouco de outra coisa por fora. Avocação. Estou no negócio de corretagem. Mas meu principal negócio é cuidar dos interesses Sherwood. Veja bem, minha mãe — o pai morreu dez anos antes dela — minha mãe, sendo louca pela superioridade inata do sexo masculino, deixou-me no controle de praticamente tudo, e faço o melhor que posso por isso, tanto quanto a ocupação mais importante de fazendeiro permite. O que completa a história picante de mim mesmo.

— Sinto muito por não poder retribuir.

— Está tudo bem, Capitão Nemo. Há tempo de sobra — e não faz diferença, de qualquer maneira. — Apesar de sua maneira leve e conversa descuidada, Larry teve a sensação de que Dick o estivera avaliando todo esse tempo; que, na verdade, fazer isso era o verdadeiro propósito da visita atual. Dick levantou-se. — Se você está um pouco carente de trajes, como entendo que esteja, bem, temos quase o mesmo tamanho. Diga a Judkins o que você quer, e faça com que ele lhe dê bastante. Que horas você tem?

— Exatamente dez horas.

— Puxa — hora de um fazendeiro colocar seus macacões e partir para o seu trabalho banhado de orvalho!

— E hora de eu ver sua irmã — disse Larry, levantando-se.

— Venha. Sou um bom senescal, ou mordomo, ou o que você quiser — e vou conduzi-lo à presença de sua alteza.

Um momento depois, Larry foi empurrado pela porta da biblioteca e Dick anunciou em tom solene:

— Senhorita — Mademoiselle — nossa serena, reverenciada e altíssima irmã Isabel, permita-nos apresentar nosso mais novo e mais encantador amigo, Capitão Nemo.

— Dick — exclamou a Srta. Sherwood —, saia daqui e coloque umas roupas!

— Ouça isso! — reclamou Dick. — Ela ainda fala comigo como se eu fosse seu irmãozinho. Da próxima vez, ela vai me mandar lavar atrás das orelhas!

— Saia, e feche a porta depois de você!

A resposta foi a saída majestosa de Dick e o fechamento brusco da porta.

— Dick esteve falando com você sobre si mesmo? — perguntou a Srta. Sherwood.

— Sim.

— O que ele disse?

Larry deu a substância da autobiografia que Dick oferecera voluntariamente.

— Parte disso é mais do que a verdade, parte menos do que a verdade — observou a Srta. Sherwood. — Mas esta manhã era para termos uma conversa real sobre seus assuntos, e vamos ao assunto.

Ela o chamara para uma cadeira ao lado da antiga e pitoresca escrivaninha, e agora estavam sentados face a face. Isabel Sherwood parecia tanto a patrícia acabada quanto na noite anterior, e com aquele humor fácil e caprichoso e a maneira direta da pessoa que tem certeza de si mesma; e, à luz do dia sóbria e desiludida, ela não tinha menos beleza do que parecera ter na iluminação mais suave de seu primeiro encontro. O rosto claro e fresco com seus olhos azul-violeta estava olhando para ele atentamente. Larry percebeu que ela estava olhando para a própria alma dele, e ele sentou-se em silêncio durante esta estimativa que ele reconheceu que ela tinha o direito de fazer.

— O Sr. Hunt me escreveu os fatos principais sobre você, certamente os piores — ela disse finalmente. — Você não precisa me dizer mais nada, se preferir não fazê-lo; mas poderia ser útil se eu soubesse mais detalhes.

Larry sentiu que não havia informação que ele não estivesse disposto a dar a esta mulher de olhos claros e encantadora; e então ele contou a ela tudo o que acontecera desde seu retorno de Sing Sing, incluindo sua paixão por Maggie, a natureza de seu conflito, a partida dela para os caminhos de sua ambição.

— Você certamente está enfrentando muitas propostas difíceis. — A Srta. Sherwood marcou-as nos dedos. — A polícia está atrás de você — seus velhos amigos estão atrás de você — você não ousa ser pego. Você quer se limpar — você quer ter sucesso nos negócios — você quer erradicar as ambições atuais de Maggie e removê-la de suas influências atuais.

— Esse é o total correto — disse Larry.

— Certamente um grande total! De todos eles, qual é o item mais importante?

Larry considerou. — Maggie — ele confessou. — Mas Maggie realmente inclui todos os outros. Para ter qualquer influência sobre ela, devo sair do poder da polícia, devo superar sua crença de que sou um informante e um delator, e devo provar a ela que posso ter sucesso seguindo o caminho reto.

— Exatamente. E todas essas coisas você deve fazer enquanto é um fugitivo escondido.

— Exatamente. Ou então não fazê-las.

— Hm!... A coisa mais urgente, julgo eu, é ter um lugar seguro e permanente para se esconder, e ter um trabalho que possa levar a uma oportunidade de provar que você é um sucesso.

— Sim.

— O aval do Sr. Hunt sobre você seria suficiente, de qualquer forma, e ele deu esse aval — disse a Srta. Sherwood com sua voz uniforme. — Além disso, meu próprio julgamento me leva a acreditar em sua verdade e sua sinceridade. Tenho pensado sobre o assunto desde que o vi ontem à noite. Peço, portanto, que você permaneça aqui, sem nunca sair do apartamento...

— Srta. Sherwood! — ele exclamou.

— E um pouco mais tarde, quando formos para nossa propriedade em Long Island, você terá mais liberdade. Por enquanto, você será, para os empregados e quaisquer outras pessoas que possam vir, o Sr. Brandon, um primo de segundo grau que está hospedado conosco; e sua explicação por nunca se aventurar para fora pode ser que você está se recuperando de uma cirurgia. Talvez você possa pensar em um plano pelo qual, mais tarde, pudesse ocasionalmente sair de casa sem muito risco para si mesmo.

— Sim. O risco vem da polícia e de alguns de meus velhos amigos e dos gângsteres que eles alistaram. Enquanto acreditarem que estou em Nova York, todos estarão à minha procura a cada momento. Se acreditassem que estou fora de Nova York, todos descontinuariam sua vigilância. Se... se... Mas talvez você não se importasse em fazer tanto.

— Continue.

— Você estaria disposta a escrever uma carta para algum amigo em Chicago, solicitando ao amigo que postasse uma carta anexa escrita por mim?

— Certamente.

“Minha caligrafia seria disfarçada — mas uma pessoa que realmente conhece minha escrita penetraria no disfarce tentado e a reconheceria como minha. Minha carta seria endereçada à minha avó, pedindo-lhe que me enviasse a Chicago meus recentes resgates de penhores confiscados. Uma pessoa inteligente lendo a carta teria certeza de que estou pedindo a ela que me envie minhas roupas.”

“Qual é o objetivo disso?”

“Um detalhe da busca da polícia por mim será abrir secretamente, com a ajuda das autoridades postais, toda correspondência endereçada à minha avó. Eles abrirão esta carta sobre minhas roupas no vapor, depois a selarão e deixarão que seja entregue. Mas eles terão descoberto que escapei deles e estou em Chicago. Eles abandonarão a caçada aqui e telegrafarão para a polícia de Chicago. E, claro, a notícia vazará para meus velhos amigos, e eles também pararão de me procurar em Nova York.”

“Entendo.”

“E anexada a outra carta escrita por você, enviarei uma ordem, também para ser postada em Chicago, a um bom amigo meu, pedindo-lhe que vá ao escritório da transportadora, pegue minhas roupas e as guarde até que eu apareça ou mande buscá-las. Quando ele for pedir as roupas, a polícia de Chicago o pegará e encontrará a ordem com ele. Eles não terão nenhuma acusação contra ele, mas terão mais uma prova de que estou em Chicago ou em algum lugar no Centro-Oeste. O efeito será definitivamente transferir a busca para fora de Nova York.”

“Sim, entendo”, repetiu a senhorita Sherwood. “Vá em frente e faça isso; eu o ajudarei. Mas, por enquanto, você tem que permanecer bem aqui no apartamento, como eu disse. E mais tarde, quando achar que as cartas surtiram efeito, você deve usar a máxima cautela.”

“Certamente”, concordou Larry.

“Agora, quanto a você começar nos negócios. Suspeito que meus assuntos estejam em péssimo estado. As coisas foram deixadas para meu irmão, como ele lhe disse. Tenho muitos papéis, todos os tipos de contas, que ele trouxe para mim e está trazendo muitos outros. Não consigo entender nada deles, e acho que meu irmão está tão confuso quanto eu. Acredito que só um especialista pode entendê-los. O Sr. Hunt diz que você tem uma mente muito aguçada para tais assuntos. Gostaria que você assumisse o controle desses papéis e tentasse colocá-los em ordem.”

“Senhorita Sherwood”, disse Larry lentamente, “você conhece meu histórico e, ainda assim, arrisca confiar-me seus negócios?”

“Não é que eu não correria o risco — mas o que quer que haja para roubar, alguém já roubou, ou roubará. Seu trabalho será descobrir roubos ou erros, e evitá-los se puder. Veja que não estou colocando nenhum controle real sobre propriedades passíveis de roubo em suas mãos — ainda não... Bem, o que você me diz?”

“Só posso dizer, senhorita Sherwood, que você é mais do que boa, e que sou mais do que grato, e que farei o meu melhor!”

A senhorita Sherwood observou-o pensativamente por um longo tempo. Então ela disse: “Vou colocar algo mais em suas mãos, pois se você é tão inteligente quanto penso, e se a vida lhe ensinou tanto quanto acredito, creio que você pode me ajudar muito. Meu irmão Dick é selvagem e imprudente. Gostaria que você cuidasse dele e tentasse contê-lo onde puder. Isto é, se isso não for um dever grande demais para você.”

“Isso não é um dever — é um elogio!”

“Então isso será tudo por enquanto. Verei você novamente em uma hora ou duas, quando terei algumas coisas prontas para lhe entregar.”

De volta ao seu quarto, Larry caminhava exultante de um lado para o outro. Ele tinha segurança! E, finalmente, ele tinha uma chance — talvez a chance pela qual ele estava ansiando, através da qual ele acabaria provando ser um sucesso!...

Ele se perguntava ainda mais sobre a senhorita Sherwood. E novamente sobre ela e Hunt. A senhorita Sherwood era inteligente, graciosa, tudo o que um homem poderia querer em uma mulher; e ele supunha que, por trás de suas referências bem-humoradas a Hunt, havia um sentimento profundo pelo grande pintor que vivia quase como um vagabundo no sótão da pequena casa da Duquesa. E Larry sabia que a senhorita Sherwood era a única mulher na vida de Hunt; Hunt tinha dito tanto. Eles eram tudo um para o outro; eles confiavam um no outro. No entanto, havia uma grande brecha entre os dois; evidentemente, sua própria crise forçara a única comunicação que ocorrera entre os dois em meses. Ele se perguntava qual poderia ser essa brecha e qual teria sido sua causa.

E então uma ideia começou a revelar suas possibilidades. Que retorno esplêndido, se, de alguma forma, ele pudesse fazer algo que ajudasse a unir essas duas pessoas que o haviam ajudado!...

Mas, na maior parte do tempo, enquanto esperava que a senhorita Sherwood o chamasse novamente, ele pensava em Maggie. Sim, como ele havia dito à senhorita Sherwood, Maggie era o problema mais importante de sua vida: todos os seus muitos outros problemas eram importantes apenas na medida em que ajudavam ou atrapalhavam a solução de Maggie. Onde ela estava? — o que ela estava fazendo? — como ele, nesta agradável prisão que não ousava deixar, conseguiria superar o desprezo dela por ele, e conseguiria desviá-la daquela carreira perigosa na qual sua orgulhosa e excitada visão jovem via apenas a brilhante e lucrativa aventura do alto romance?

CAPÍTULO XIII

Quando Maggie partiu para sempre da casa da Duquesa com Barney Palmer e seu pai, após a denúncia de Larry pelos três como um informante e alcaguete, ela era a recipiente emocionada de tantas emoções diversificadas quanto frequentemente borbulham e giram em uma jovem ao mesmo tempo. Havia raiva e desprezo por Larry: Larry, que havia jogado fora fracamente uma carreira na qual era um mestre, e que havia somado a esse mal o pior de ser um traidor. Havia a sensação de elevação de que, finalmente, ela havia se formado; que, finalmente, ela estava livre das coisas monótonas e mesquinhas da vida; que, finalmente, ela estava partindo para o grande e brilhante mundo em que tudo acontecia — partindo para o fascinante e desconcertante Desconhecido.

Barney e o velho Jimmie conversavam entre si enquanto o táxi balançava pelas ruas de paralelepípedos, sendo sua conversa, em grande parte, maldições contra Larry Brainard. Mas suas palavras eram sons sem sentido para a silenciosa Maggie, cujas faculdades pulsantes estavam naquele momento fundidas em um esforço excitado para perceber os contornos gloriosos do destino em direção ao qual ela cavalgava. No entanto, quando o táxi virou para Lafayette Place e rolou para o norte, sua curiosidade sobre o desconhecido tornou-se consciente e articulada.

“Para onde estou indo?” ela perguntou.

“Primeiro de tudo, para um hotel agradável e tranquilo.” Foi Barney quem respondeu; de alguma forma, Barney havia naturalmente assumido a posição de líder e, tão naturalmente, seu pai havia recuado para o segundo lugar. “Nós resolvemos tudo, Maggie. Quartos reservados e uma acompanhante esperando por você lá.”

“Uma acompanhante!” exclamou Maggie. “Para quê?”

“Para ensinar a você os pontos refinados das maneiras e para ajudá-la a comprar roupas. Ela é uma mulher elegante, pode acreditar. Eu anunciei e a escolhi entre uma dúzia de candidatas.”

“Barney!” sussurrou Maggie. Ela ficou em silêncio por um momento atordoado, então perguntou: “Exatamente... exatamente o que vou fazer?”

“Ouça, Maggie: vou lhe contar toda a ideia. Eu teria contado antes, mas ela se desenvolveu de forma bastante repentina, e eu não tive uma chance real e, além disso, eu sabia que você adoraria. Jimmie e eu descartamos aquele esquema de venda de ações para sempre — a menos que uma chance fácil para isso surja mais tarde. Nossa grande ideia agora é impulsionar VOCÊ!” Barney acreditava que ainda poderia restar em Maggie alguma admiração oculta por Larry, alguma influência de Larry sobre ela, e erradicar essas completamente pelo brilhantismo do que ele oferecia era o principal propósito de suas palavras rápidas. “Impulsionar você da maneira mais grandiosa possível, Maggie! Uma mulher bonita e inteligente que sabe usar o cérebro, e que tem uma administração inteligente, pode trazer mais dinheiro, e de uma maneira mais segura, do que qualquer dúzia de homens! E eu lhe digo, Maggie, farei de você uma estrela!”

“Barney!... Mas você não me disse exatamente o que vou fazer.”

“A primeira coisa será apenas um teste; ajudará a terminar sua educação. Eu planejei isso, mas não vou te contar até mais tarde. A ideia principal não é usá-la em apenas um jogo, Maggie, mas prepará-la para que você se encaixe em dezenas de jogos — ser boa ano após ano. Uma grande atriz que pode entrar diretamente em qualquer grande papel que surja em seu caminho. É isso que paga! Eu lhe digo, Maggie, não existe outra proposta tão boa e estável na Terra quanto o tipo certo de mulher. E é isso que você vai ser!”

Maggie já tinha ouvido muito desse mesmo papo antes. Naquela época, era vago e tratava de um futuro indefinido. Agora, ela estava deslumbrada demais por esse retrato de eventos próximos que o ansioso Barney estava pintando para ser capaz de fazer qualquer comentário.

“Eu estarei logo atrás de você em tudo, e Jimmie também”, continuou Barney em seu jeito excitante — “mas você será a pessoa lá na frente que realmente concretiza a proposta. E ficaremos com coisas onde a polícia não pode nos tocar. Envolva um homem com dinheiro e posição em um negócio com uma mulher, e ele nunca soltará um pio e virá com pilhas de dinheiro. Centenas de maneiras de fazer isso funcionar. Um ponto forte sobre você, Maggie, é que você não tem ficha criminal. Eu também não tenho, embora a polícia suspeite de mim — mas, como eu disse, ficarei fora do palco o máximo que puder. Eu lhe digo, Maggie, vamos fazer um ótimo trabalho! Ótimo, eu lhe digo!”

Maggie não sentiu repugnância pelo que fora dito e implícito por Barney. Como poderia, quando desde que sua memória começou ela vivera entre pessoas que falavam exatamente essas mesmas coisas? Para Maggie, elas pareciam a ordem natural. Naquele momento, ela estava mais preocupada com uma necessidade fascinante que o empreendimento extravagante de Barney acarretava.

“Mas para fazer algo assim, não vou precisar de roupas?”

“Você vai precisar delas, e você as terá! Você terá um dos trajes mais elegantes que já existiram. Você fará Paris envergonhar-se de si mesma!”

“Não adianta gastar todo o dinheiro nas roupas da Maggie”, interrompeu o velho Jimmie, falando pela primeira vez.

Barney virou-se para ele de forma cáustica, quase selvagem. “Você é um pai dos diabos, não é — contando os centavos da própria filha! Eu lhe disse que isso não era um jogo de amadores, e você concordou com isso — então esqueça a ideia de que está em qualquer negócio de caça-níqueis!”

O velho Jimmie sentiu uma dor física ao pensar em se separar do dinheiro em tal escala. Seus planos anteriores em relação a Maggie nunca tinham contemplado tal extravagância. Mas ele foi silenciado pela força dominante por trás do sarcasmo de Barney.

“A senhorita Grierson — ela é sua acompanhante — sabe o que é o que sobre roupas”, continuou Barney para Maggie. “Aqui está a dica como eu passei para ela. Você é uma órfã do Oeste, com algum dinheiro, que veio a Nova York como minha protegida e de Jimmie, e nós queremos que você aprenda algumas coisas. Para ela e para quaisquer novas pessoas que conhecermos, eu sou seu primo e Jimmie é seu tio. Você entendeu tudo isso direito?”

“Sim”, disse Maggie.

“Você vai usar outro nome. Escolhi Margaret Cameron para você. Podemos te chamar de Maggie e não será uma falha — entendeu? Se algum dos policiais que conhece você tropeçar em você, apenas diga a eles que você largou seu próprio nome para se livrar de sua vida antiga. Eles não podem fazer nada contra você. E diga a eles que você herdou um pouco de dinheiro; é por isso que você está vivendo tão bem. Eles também não podem fazer nada a respeito disso. ... É aqui que descemos. Aluguei uma sala de estar, dois quartos e um banheiro para você aqui. Mas logo vamos mudar você para um hotel mais elegante.”

O táxi parou em frente a um dos hotéis despretensiosos e respeitáveis nos anos trinta, logo após a Quinta Avenida, e Maggie seguiu os dois homens para dentro. Este hotel, de fato, em seu pessoal, seus móveis, sua atmosfera, parecia sóbrio e comum depois do Ritzmore; mas no Ritzmore ela tinha sido apenas uma vendedora de cigarros, uma observadora paga da alegria dos outros. Aqui ela era uma hóspede real — aqui sua grande vida estava começando! O coração de Maggie batia descontroladamente.

Lá em sua sala de estar, Barney apresentou-a à senhorita Grierson, depois partiu com um olhar significativo para o velho Jimmie, dizendo que voltaria em breve e deixando o velho Jimmie para trás. O velho Jimmie retirou-se para um canto, voltou-se para a parte de corridas do Evening Telegram, que, com a seção correspondente do Morning Telegraph, era sua única leitura, e deixou Maggie na companhia da senhorita Grierson.

Maggie estudou esse estranho novo ser, sua “acompanhante” contratada, com uma perspicácia furtiva; e depois de alguns minutos, embora fosse timidamente obediente à maneira de uma órfã sem instrução do Oeste, ela não tinha medo da outra. A senhorita Grierson era uma mulher grande e de costas retas que estava na encosta descendente da meia-idade. Ela era realmente uma “dama”, no sentido autocomiserativo e autoelogioso em que aqueles que se anunciam como tal usam essa palavra. Ela era todas as formas sociais, todas as propriedades. Ela era deferentemente autocrática; sua voz era monotonamente digna e culta; e ela estava cansada, o que ela tinha o direito de estar, pois estava nesse negócio de ser uma tia contratada educada para jovens cruas por mais de um quarto de século.

Para o olhar cansado, mas prático, da senhorita Grierson, aqui estava certamente uma jovem que precisava de muito trabalho para se tornar uma dama. E, embora cansada e incapaz de se emocionar como um velho cavalo, a senhorita Grierson era conscienciosa e faria o seu melhor.

Maggie fez uma rápida avaliação de seu novo lar. Os quartos eram apenas quartos de hotel comuns, mobiliados com a pretensão dingy e atacadista de hotéis de segunda categoria. Mas eles eram a essência do luxo comparados ao seu único quarto na casa da Duquesa, com sua vista para quintais sombrios. Esses quartos a emocionaram. Eles eram sua primeira evidência material de que ela estava agora realmente lançada em sua grande aventura.

Maggie jantou em sua sala de estar com o velho Jimmie e a senhorita Grierson — e desse jantar, medíocre e desleixado, e resfriado pelo seu trânsito de doze andares desde a cozinha, a senhorita Grierson, por meio de uma lição introdutória, fez uma função augusta, quase diagramática em seus detalhes educacionais. Após o jantar, com a ajuda lenta e formal da senhorita Grierson, que consistia principalmente em passagens declamadas de forma impressionante de seu livro particular de decoro, Maggie passou duas horas desempacotando sua mala e baú, e reempacotando seu guarda-roupa escasso nas gavetas da cômoda e da penteadeira; uma tarefa que Maggie, deixada por conta própria, poderia ter completado em dez minutos.

Maggie ainda estava nessa tarefa em seu quarto quando ouviu Barney entrar em sua sala de estar. “Ele escapou”, ela o ouviu dizer em voz baixa para o velho Jimmie.

Ela saiu rapidamente de seu quarto e fechou a porta atrás de si. Algo indefinido começara a pulsar dentro dela de repente.

“Quem escapou, Barney?” ela perguntou em um tom baixo.

Seu olhar fez Barney pensar rápido. Ele era bom em pensar rápido, Barney. Ele decidiu dizer a verdade — ou parte dela.

“Larry Brainard.”

“Escapou do quê?” ela continuou.

“Da polícia. Eles estavam atrás dele por alguma acusação. E alguns de seus amigos estavam atrás dele também. Eles estavam decididos a pegá-lo porque ele tinha delatado Red Hannigan e Jack Rosenfeldt. Ambas as partes estavam cercando-o quase ao mesmo tempo. Mas Larry recebeu uma dica de alguma forma e fez sua fuga.”

“Quando isso aconteceu?”

“Deve ter acontecido pouco tempo depois que todos nós saímos da casa da Duquesa.”

“Mas... mas, Barney... como você soube disso tão cedo?”

“Acabei de encontrar o oficial Gavegan na Broadway e ele me contou”, mentiu Barney. Ele preferia não dizer a ela que estivera no local com Little Mick e Lefty Ed; pois a terceira figura que Larry tinha vislumbrado através das sombras nebulosas tinha sido de fato Barney Palmer. Além disso, Barney preferia não contar que outra participação sutil ele teve nas causas da fuga de Larry.

“Você acha que ele... ele conseguiu fugir em segurança?”

“Seguro por algumas horas. Gavegan me disse que eles o teriam capturado ao meio-dia de amanhã.” Barney estava mais consciente do interesse de Maggie do que a própria Maggie, e novamente desejava destruí-lo ou desviá-lo. “Geralmente, estou a favor do outro lado contra a polícia. Mas desta vez estou totalmente a favor dos policiais. Espero que eles peguem Larry — ele merece. Lembre-se de que ele é um informante e um alcaguete.”

E rapidamente Barney mudou de assunto. “Vamos andando, Jimmie.”

Ele levou Maggie para o corredor, para ter mais certeza de que a senhorita Grierson não ouviria. “Bem, Maggie”, ele se regozijou, “eu não cumpri minha parte até agora no meu acordo de impulsionar você?”

“Sim.”

“Claro que estamos indo devagar no início. É assim que você tem que lidar com grandes negócios — com cuidado. Mas você certamente será um sucesso quando aquela agente funerária lá dentro colocar você vestida com roupas elegantes. Então a cortina subirá para o show real — e vai ser um grande show — e você será o sucesso da peça!”

Com esse incentivo à imaginação de Maggie, Barney a deixou; e o velho Jimmie seguiu, dando furtivamente a Maggie um olhar breve e incerto.

CAPÍTULO XIV

A um quarteirão do hotel, Barney separou-se do velho Jimmie. Por um momento, Barney pensou em seu parceiro. Barney tinha olhos rápidos que eram bem capazes de absorver duas coisas ao mesmo tempo; e enquanto ele vira o brilho excitado que seu discurso final trouxera de volta ao rosto de Maggie, ele também captara aquele rápido olhar de incerteza no rosto magro e astuto do velho Jimmie: um olhar de alguém que está ansioso para seguir em frente, mas se vê frustrado por sua própria ansiedade. Para Barney, era um olhar intrigante e suspeito.

Enquanto Barney seguia em direção a um refúgio de refresco, ele pensou no velho Jimmie — não da maneira que Larry pensara sobre um pai criando sua filha em caminhos tortuosos — mas ele se perguntava que tipo de homem, por baixo de seu jeito astuto, condescendente e apaziguador, o velho Jimmie realmente era, até que ponto se podia confiar nele, se ele estava neste jogo honestamente ou se ele estava jogando algum jogo muito secreto por conta própria. Embora conhecesse e trabalhasse com o velho Jimmie há anos, Barney nunca fora admitido nas câmaras internas do caráter do homem mais velho. Ele sentia que havia quartos escondidos e passagens sinuosas; e disso ele tinha certeza: que o velho Jimmie era astuto e saturnino.

Bem, ele ficaria atento para que o velho Jimmie não passasse a perna em seu humilde servo, Barney Palmer!

Esta era a era da proibição legal, mas até agora Barney não fora severamente incomodado pela ação dos representantes das instituições livres da América em Washington, pois Barney conhecia sua Nova York. Em um ex-saloon na Sexta Avenida, que nominalmente vendia apenas as bebidas sem álcool permitidas pelos sábios da Capital, Barney encostou-se à vontade no bar e comentou: “Dê-me um pouco da coisa real, Tim, e esqueça aquele conta-gotas que o chefe comprou para você na semana passada.” Barney tomou um gole da coisa real, e depois outro gole, na medida de nenhum dos quais um conta-gotas estivera envolvido.

Depois disso, muito animado, ele colocou dois dólares sobre o balcão e seguiu seu caminho. Seu percurso levou o elegante Barney a três dos restaurantes mais alegres na seção da Times Square; e, neles, Barney fez pausas longas o suficiente para falar com algumas festas de ceia após o teatro. Pois esta era a hora em que Barney fazia suas visitas sociais; ele era muito rigoroso consigo mesmo quanto a este ponto. Barney estava, na verdade, se tornando uma figura em ascensão neste círculo particular da sociedade de Nova York, composto por pessoas que tinham ou acreditavam ter um interesse pelo teatro, por mulheres vestidas de forma dispendiosa cujo primeiro plano de suas vidas era muito atraente, mas cujo pano de fundo era, talvez sabiamente, mantido fora da imagem, e por jovens homens endinheirados que se vangloriavam da ideia de que estavam vivendo a vida. Estas visitas sociais de mesa alegre em mesa alegre, nas quais Barney era sempre bem-vindo — pois aqui Barney mostrava apenas suas superfícies mais atraentes, suas facetas mais brilhantes — eram, na verdade, uma parte muito importante dos negócios de Barney.

Um pouco mais tarde, sozinho em uma mesa de canto em um restaurante mais tranquilo, Barney estava comendo sua ceia e fazendo um inventário de suas perspectivas. Ele estava em um estado de espírito muito exultante. O uísque que ele havia bebido dera largas asas à sua autossatisfação; e o que ele agora sorvia de sua xícara de chá — não era chá, pois Barney mantinha os termos adequados com seu garçom ali — esse gole de sua xícara de chá inclinava essas largas asas a um ângulo ainda mais elevado.

Sim, ele certamente tinha conseguido até agora. E Maggie certamente provaria ser uma vencedora. Aquelas mulheres claras com quem ele conversara enquanto se movia de mesa em mesa, ora, seriam menos que pó comparadas a Maggie quando Maggie estivesse enfeitada e pronta e o palco estivesse montado. E tinha sido ele, Barney Palmer, quem fora o primeiro a descobrir as possibilidades latentes de Maggie!

Ele tinha um olho além das meras superfícies, tinha Barney. Ele usara mulheres no passado para realizar muitas de suas transações mais privadas (e o fizera em parte pela razão de que usar mulheres assim era eminentemente “seguro” — isto apesar de sua violenta explosão de desdém zombeteiro contra Larry quando este último falara sobre segurança): algumas delas vigaristas profissionais, algumas atrizes inescrupulosas de baixo nível — mulheres como as que ele acabara de conversar nos restaurantes onde fizera suas breves visitas. Mas tais, ele agora reconhecia, eram bastante BLASEES, um tanto óbvias demais. Eram a rosa desbotada. Mas Maggie era fresca, e uma vez que estivesse devidamente domada, ela seria seu instrumento perfeito. Sim, perfeito!

Os planos de Barney alçaram voo. Algum dia, quando se encaixasse perfeitamente em seus planos, ele iria se casar com Maggie. Foi apenas recentemente que ele vira seus encantos plenos, e ainda mais recentemente que decidira pelo casamento. Essa decisão alterara materialmente certos detalhes da carreira que Barney traçara para si mesmo. Barney considerava o casamento há muito tempo como um ativo para si mesmo; um recurso valioso que ele deveria manter em reserva e não liquidar, ou capitalizar, até que seu próprio mercado estivesse no auge. Ele sabia que era bonito, um excelente dançarino, que tinha o refinamento metropolitano. Ele calculou que, em algum momento, alguma garota rica, talvez do Oeste, que não conhecesse o mundo muito bem, cairia sob o feitiço de seus encantos; e ele se casaria com ela prontamente enquanto ela ainda estivesse apaixonada, antes que ela pudesse aprender demais sobre ele. Tal fora a ideia de Barney de casamento para si mesmo; o que é muito semelhante às ideias mantidas por milhares de cavalheiros, jovens e outros, nesta vasta terra nossa, que não se consideram nem infratores da lei nem aventureiros.

Mas tudo isso mudara agora. Agora era Maggie, embora Maggie, na busca de sua vantagem conjunta, pudesse possivelmente ter que passar primeiro pela cerimônia de casamento com algum outro homem. É claro, um homem muito, muito rico! Barney já tinha esse homem marcado. Ele esperava, contudo, que eles não precisassem ir tão longe quanto o casamento. No entanto, ele estava disposto a esperar sua vez adequada. Como dissera a Maggie, não se pode realizar uma grande coisa com pressa.

Quanto a Larry, ele certamente tinha lidado com aquele assunto de forma esplêndida! Ele certamente tinha colocado um freio no que vinha se desenvolvendo entre Larry e Maggie. E ele pegaria Larry a tempo, também. A rede de arrasto era grande demais e de malha muito estreita para Larry esperar escapar dela. A palavra que ele deixara escapar para aquele idiota Gavegan certamente fizera o serviço! E a maneira indireta pela qual ele denunciara a polícia sobre Red Hannigan e Jack Rosenfeldt e depois fizera seus comparsas pensarem que Larry os entregara — isso foi certamente jogar o jogo também! Jack e Red sairiam facilmente — não havia nada contra eles; mas o velho Barney Palmer certamente usara sua cabeça na maneira como colocara a engrenagem da polícia e do submundo em movimento contra Larry!

Enquanto outros ocupantes do café, particularmente as mulheres, roubavam olhares para o belo, impecavelmente vestido e interessante Barney, Barney tomava mais uma daquelas misturas que o garçom discreto servia em uma xícara de chá. Ele fizera um ótimo trabalho, pode apostar! Nenhum outro homem em Nova York poderia ter feito melhor. Ele certamente iria colocar Maggie no topo! E, ao fazê-lo, ele faria o que era certo por si mesmo.

Tudo parecia perfeito no mundo de Barney....

E enquanto Barney sentava exultando sobre triunfos já alcançados e aqueles inevitavelmente a serem alcançados, Maggie jazia em sua nova cama sonhando sonhos exultantes dela mesma: alheia ao ronco regular que ressoava no cômodo adjacente — pois a excelente Srta. Grierson, embora capaz de manter cada ato seu em forma perfeita enquanto em estado consciente, infelizmente, quando inconsciente, não tinha mais controle sobre o desenrolar de suas funções mortais do que a mais humilde lavadeira. Os voos de fantasia de Maggie circulavam em torno de Larry. Ela sufocava quaisquer desculpas ou anseios insurgentes por ele. Ele merecera o que recebera. Já, ao contrário de suas previsões, ela fizera um tremendo avanço em direção ao seu futuro brilhante. Ela mostraria a ele! Sim, ela mostraria a ele! Oh, mas ela ia fazer coisas!

Mas enquanto ela sonhava assim, moldando um destino magnífico — uma jovem independente, engenheira de si mesma, tão, tão confiante no grande futuro que ela alcançaria através da supremacia de sua própria vontade e de suas próprias habilidades — nenhuma suposição mínima veio à sua mente de que Barney Palmer estava fazendo planos pelos quais sua vontade deveria contar como nada e pelos quais ele deveria ser o mestre de seu destino, e que o furtivo e condescendente Velho Jimmie também estava sonhando um sonho paciente no qual ela deveria ser uma mera peça de xadrez que deveria capturar um jogo há muito acalentado.

E, no entanto, afinal de contas, os sonhos de Maggie, à parte a peculiar reviravolta que a vida lhes dera, eram fundamentalmente apenas os sonhos comuns da juventude: da juventude obstinada e confiante, para quem apenas uma pequena parte do mundo ainda se abrira, que de fato ainda não conhece pela metade sua própria natureza.

CAPÍTULO XV

Nenhuma prisão poderia ter sido mais agradável — isto é, nenhuma prisão da qual Maggie estivesse ausente — do que esta na qual Larry estava agora confinado. Ele tinha livre trânsito pelo apartamento; Dick Sherwood o equipou generosamente com roupas de sua superabundância do que havia de melhor; Judkins e os outros criados tratavam-no como o membro da família que haviam sido informados que ele era; o vivaz Dick, com sua amabilidade de cachorrinho, nunca fazia uma pergunta desconfortável e colocava Larry quase no pé de um companheiro; e a Srta. Sherwood, de sorriso caprichoso, tratava Larry exatamente como teria tratado qualquer cavalheiro bem-educado e, em cada detalhe, cumpria sua promessa de lhe dar uma chance. De fato, em toda a sua vida, Larry nunca vivera tão bem.

Quanto à tia da Srta. Sherwood, uma irmã da mãe da Srta. Sherwood e uma figura de dignidade pálida e distraída, ela se mantinha muito em sua própria sala de estar. Ela era uma recente convertida aos romancistas ingleses mais jovens e era forçada ao seu isolamento pela incrível fecundidade com que eles continuavam a repovoar sua mesa de leitura. Larry, ela aceitou com uma polidez vaga e preocupada, sempre ansiosa para voltar aos personagens mais substanciais de sua última ficção.

Claro, a Srta. Sherwood não fez de Larry um confidente completo. Apesar de toda a sua franqueza sorridente e fácil, ele sabia que havia muitas portas de seu ser que ela nunca destrancava para ele. O que ele via era tão interessante que ele não podia deixar de se interessar pelo restante. Claro, muitos detalhes estavam abertos a ele. Ela era uma excelente esportista; uma dançarina rara; havia muitos homens interessados nela; ela jantava fora quase todas as outras noites em algum evento social florescendo tardiamente em maio (a maioria de seus amigos já estava instalada em suas casas de campo, e ela ainda estava na cidade apenas porque sua propriedade em Long Island estava em desordem devido a um atraso de dois meses na conclusão de alterações causadas por dificuldades trabalhistas); ela estudara besouros; ela tinha um minúsculo viveiro no apartamento e ali ela se sentava estudando seus animais de estimação com um interesse e paciência não diferentes dos do velho Fabre em sua fazenda pedregosa. Além disso, como Larry aprendeu através de suas contas, havia uma creche no East Side cujo déficit inexistente se devia a ela.

Ao todo, ela era uma mulher saudável, normal, inteligente e não autossacrificante que pertencia distintamente ao seu próprio tempo; que dava muito à vida e que tirava muito da vida.

Muitas vezes, Larry desejava que ela falasse de Hunt. Ele estava curioso sobre Hunt, de quem ele pensava diariamente; e tal conversa poderia lhe trazer informações sobre o pintor fanfarrão e de bom coração que estava vivendo como cigano na casa da Duquesa. Mas, à medida que os dias passavam, ela nunca mais mencionou Hunt; nem mesmo para perguntar onde ele estava ou o que estava fazendo. Ela estava aderindo muito estritamente ao comentário que fizera na noite em que Larry chegara ali: “Não quero saber até que ele queira que eu saiba.” E assim Hunt permanecia a mesma imagem incompleta para Larry; o pintor estava indubitavelmente em casa em tais arredores como estes, e ele estava em casa como um vagabundo estridente e trabalhador na casa da Duquesa — mas todos os vastos espaços entre eles eram totalmente em branco, exceto pelas observações esquemáticas que Hunt fizera a respeito de si mesmo.

Larry adivinhara que o orgulho ferido era a razão para o desaparecimento de Hunt do mundo que o conhecera. Mas ele sabia que o orgulho ferido não era o motivo da Srta. Sherwood para não fazer perguntas. Raiva? Não. Ciúme? Não. Algum insulto oferecido a ela? Não. Larry percorreu a categoria de motivos comuns, de acontecimentos possíveis; mas não encontrou nenhum que pudesse reconciliar seu sentimento muito agudo e gentil por Hunt com sua abstinência de todas as perguntas.

Desde seu primeiro dia em seu santuário, Larry passou longas horas todos os dias sobre as contas e documentos que a Srta. Sherwood colocara em suas mãos. Eles eram, de fato, um emaranhado. Originalmente, o patrimônio dos Sherwood consistia em propriedades imobiliárias sólidas. Mas agora que Larry tinha diante de si os registros das posses e das várias transações, ele soube que o caráter da fortuna dos Sherwood se alterara muito. O pai da Srta. Sherwood negligenciara o cuidado deste negócio sóbrio em favor de investimentos especulativos e até mesmo de jogos diretos em ações; e Dick, possuindo este traço de seu pai, e carecendo da experiência de seu pai, tinha especulado e estava especulando ainda mais selvagemente.

Larry acompanhara o mercado desde que estivera em uma corretora quase dez anos antes, então ele sabia quais tinham sido os valores das ações e tinha alguma ideia do que eram agora. Os registros, e algumas das ações que Larry encontrou no cofre, lembravam a reputação do Sherwood mais velho. Ele fora conhecido como um homem espirituoso e audacioso que compraria qualquer coisa ou venderia qualquer coisa; fora várias vezes vitimado por negociantes astutos, alguns deles vigaristas de primeira linha. Estudando estes velhos registros, Larry lembrou que o Sherwood mais velho, uma dúzia de anos antes, perdera cem mil em um negócio de mineração que o Velho Jimmie Carlisle ajudara a manipular.

Larry encontrou centenas e centenas de milhares de ações no cofre que eram apenas papel desperdiçado, e ele encontrou registros de outras centenas de milhares em cofres de depósito que não tinham valor maior. O setor imobiliário, a parte mais sólida e, para os homens da família Sherwood, a menos interessante da fortuna, estava há muito aos cuidados de agentes; e como Larry estava proibido de sair e estudar a condição e o verdadeiro valor dessas posses, ele tinha que depender das avaliações dos livros e dos relatórios e cartas dos agentes. Com base nessas avaliações, ele estimou que algumas posses estavam dando prejuízo, algumas apenas um e meio por cento, e algumas chegando a quinze por cento. Larry encontrou muitas reclamações de inquilinos; algumas cartas ameaçadoras do Departamento de Edificações por falta de fazer as alterações ordenadas para cumprir as novas leis de construção; e algumas cartas de conselho e recomendação bastante superficiais dos próprios agentes.

Da Srta. Sherwood, Larry soube que os agentes eram homens velhos, amigos de seu pai desde a juventude; que ambos tinham feito fortunas confortáveis que não tinham incentivo para aumentar. Larry julgou que não havia desonestidade por parte dos agentes, apenas negligência e uma adesão fácil aos métodos de seus anos anteriores, quando não havia tanta concorrência nem tantas leis de construção. Mesmo assim, Larry julgou que as posses imobiliárias estavam em mau estado.

Larry gostava dos dias e dias deste trabalho, embora quanto mais ele avançava, pior parecia o emaranhado. Era o tipo de trabalho para o qual suas faculdades o adequavam, e esta era sua primeira chance de usar suas faculdades em grandes assuntos de uma maneira honesta. Até agora, seu trabalho era todo diagnóstico; a cura, a construção, não viriam até mais tarde — e talvez a Srta. Sherwood não confiasse nele com tais assuntos. Esta investigação, esta verificação, não envolvia nenhum risco por parte dela, como ela lhe dissera francamente. A outra envolveria: significaria pelo menos um controle parcial da propriedade, o manuseio de fundos.

A Srta. Sherwood teve muitas sessões com ele; ela estava interessada, mas confessou-se impotente nesta compilação e diagnóstico de tantos fatos e números. Dick era pronto o suficiente para relatar suas transações de ações, e ele estava ansioso o suficiente para discutir a provável flutuação desta ou daquela ação; mas quando solicitado a revisar o que Larry fizera, ele recusou categoricamente e com bom humor a “participar de qualquer jogo tão lento e morto”.

“Se minha irmã de cabeça de Salomão está satisfeita com o que você está fazendo, Capitão Nemo, isso é bom o suficiente para mim”, ele dizia. “Então esqueça essa coisa até que eu esteja fora de vista. Abra o jogo, Capitão — o que você acha que o cobre vai fazer?”

“Eu gostaria que você pudesse ser colocado em uma mesa de cirurgia e ter seu traço especulativo removido a faca, Dick. Aquela ação de petróleo que você comprou outro dia — ora, um cego poderia ter visto que era um negócio furado. E você foi liquidado.”

“Oh, os melhores deles embarcam em um negócio ruim de vez em quando.”

“Eu sei. Mas eu tenho tabulado todos os seus negócios até agora, e no total você está muito atrás. É melhor deixar o mercado absolutamente sozinho, Dick, e parar de correr esses grandes riscos.”

“Você tem que correr alguns grandes riscos, Capitão Nemo” — Dick se apegara ao título que conferira levemente a Larry na manhã em que ele chegara para se desculpar — “ou então você nunca fará grandes ganhos. Além disso, eu quero uma chance pelo meu dinheiro. Apenas conseguir dinheiro não é o suficiente. Eu quero um pouco de energia no meu.”

Larry viu que essas conversas sobre a insensatez da especulação que ele estava dando a Dick não eram, por si só, suficientes para efetuar uma mudança em Dick. Meras palavras eram incolores e negativas; algo positivo seria necessário.

Larry hesitou antes de se aventurar em outro assunto que considerava há muito tempo. “Desculpe-me por dizer isso, Dick. Mas um homem que está tentando fazer tanto em termos de negócios quanto você, particularmente desde que é uma especulação clara, não pode se dar ao luxo de ir a shows pós-teatro três vezes por semana e a ceias tardias nas outras quatro noites. Duas ou três horas da manhã não é hora de dormir para um homem de negócios. E aquela bebida contrabandeada que você bebe quando sai não o ajuda em nada. Eu sei que você acha que estou falando como uma tia-avó fossilizada — mas, mesmo assim, é a verdade nua e crua que estou lhe entregando.”

“Claro que é a verdade nua e crua — e você está perfeitamente certo, Capitão Nemo.” Com um sorriso bem-humorado, Dick deu um tapinha em seu ombro. “Mas eu também estou certo, e nada nem ninguém vai me machucar. Tenho que me divertir um pouco, não tenho? Quanto à bebida, estou apenas aproveitando enquanto o sol brilha. Logo não haverá sol — quero dizer, não haverá bebida.”

Larry abandonou o assunto. Em seus velhos tempos sem princípios, sua prática fora muito o que ele sugerira a Dick; o mínimo de bebida possível e o mínimo de noites tardias possível. Ele precisara de toda a sua inteligência o tempo todo. Neste assunto de horas tardias hilariantes, assim como no assunto da especulação, Larry reconheceu que palavras sozinhas, por mais boas que fossem, teriam pouco efeito sobre o Dick que amava o prazer, amigável e simpático. Um evento, alguma grande experiência, seria necessário para detê-lo bruscamente e trazê-lo de volta a si mesmo.

Enquanto Larry se mantinha nesse trabalho árduo, algo estava acontecendo com Larry do qual ele não estava consciente então: algo que era parte do grande desenvolvimento nele que, com o tempo, o levaria para longe. Um vigarista é essencialmente um jogador de “jogo garantido”. Fora a prática de Larry, antes que a lei o derrubasse, estudar cada detalhe de um empreendimento que ele planejava empreender, conhecer a psicologia dos indivíduos com quem ele estava lidando, eliminar toda incerteza perceptível: era isso que tornava quase todos os seus negócios “jogos garantidos”. Despoje um patife inteligente de toda intenção ou inclinação para a patifaria, e deixe todas as suas outras qualidades e práticas intactas e ávidas, e você tem os componentes de um homem de negócios de “jogo garantido”: — um homem que não engana os outros, e que toma cuidado precioso para que cada movimento seu seja sólido e voltado para o futuro. À parte o elemento moral envolvido, a diferença entre os dois é em grande parte uma diferença de porcentagem: digamos, a diferença entre um lucro de mil por cento e um lucro de seis por cento. O elemento de tentar jogar uma “coisa segura” ainda permanece.

Essa transformação de caráter, sob o estímulo de trabalho duro e constante sobre uma coisa emaranhada que continha o germe de grandes possibilidades construtivas para alguém, era o que estava acontecendo inconscientemente com Larry.

CAPÍTULO XVI

Todo esse tempo, Maggie, e o que ele deveria fazer a respeito dela, e como fazê-lo, estava na mente de Larry. Mesmo este trabalho que ele estava fazendo para a Srta. Sherwood, ele estava fazendo também para Maggie, na esperança de que, de alguma maneira invisível, isso pudesse levá-lo a ela e ajudar a levá-la a si mesma. Havia dificuldades suficientes entre eles, Deus sabe; mas, de todas elas, duas estavam sempre se apresentando como as principais: primeiro, ele não ousava ir abertamente vê-la; e, segundo, mesmo se ele ousasse, ele não sabia onde ela estava.

Quando ele estava com os Sherwood há cerca de três semanas, Larry determinou uma medida preliminar. A esta altura, ele sabia que as cartas enviadas de Chicago, de acordo com o plano que ele arranjara com a Srta. Sherwood, tinham tido o efeito contemplado. Ele sabia que supunha-se por seus inimigos que ele estivesse em Chicago ou em algum outro ponto do Oeste, e que Nova York estava desprevenida no que dizia respeito a ele.

Sua medida preliminar era descobrir, se possível, o paradeiro de Maggie. A Duquesa lhe parecia a fonte de informação mais provável. Ele não ousava escrever pedindo-lhe isso, pois tinha certeza de que a correspondência dela ainda estava sendo examinada. O método mais seguro seria visitar a loja de penhores pessoalmente; a polícia, e seus velhos amigos, e os Ginger Bucks esperariam qualquer outra coisa antes de esperarem que ele retornasse à casa de sua avó. Claro, ele deveria usar todas as precauções.

Incidentemente, ele foi levado a este método por seu desejo de ver sua avó e Hunt. Ele tinha uma ou duas ideias que estava ruminando e que diziam respeito ao artista.

Ele escolheu uma noite em que uma chuva constante e ventosa afastava das ruas tudo o que não fosse o tráfego de limusines e o dos mais necessitados. A chuva era uma desculpa para um sobretudo comprido de gola alta, que abotoava debaixo do nariz, um boné puxado até os olhos e um guarda-chuva que o mascarava de qualquer olhar direto. Assim protegido e equipado, ele chegou, após uma corrida de táxi e uma caminhada, à rua de sua avó. Ela parecia tão deserta quanto naquela noite tumultuada em que ele a deixara; e, nesta ocasião, nenhuma figura saltou da cobertura das sombras, atirando e praguejando. Ele havia calculado corretamente e, sem ser molestado, alcançou a porta da casa de penhores, passou pelo inquiridor e solene Isaac e entrou no cômodo dos fundos.

Sua avó estava sentada à sua mesa, examinando as contas em um canto entre suas curiosidades. Hunt, fumando um cachimbo preto, usava sua incansável mão direita para fazer um esboço rápido dela: mais uma daquelas anotações de caráter rápidas, de poucos traços e vívidas, que se espalhavam pelo seu estúdio às centenas. A Duquesa viu Larry primeiro; e ela o cumprimentou da mesma maneira impassível e sem surpresas que na noite em que ele voltara de Sing Sing.

“Boa noite, Larry”, disse ela.

“Boa noite, avó”, ele respondeu.

Hunt levantou-se, derrubando uma cadeira ao fazê-lo, e apertou a mão de Larry. “Olá — eis nosso garoto errante esta noite! Como vai, filho?”

“De primeira, seu velho pintor. E você?”

“Funcionando a todo vapor e levando tudo na maior! Mas diga-me, escute, rapaz: como estão seus amigos policiais e aqueles seus colegas de escola que andam armados?”

“Por enquanto, não os vi.”

“É melhor continuar sem vê-los.” Hunt observou-o atentamente por um momento, depois perguntou bruscamente: “Nunca soube de uma forma ou de outra, mas você usou aquele número de telefone que lhe dei?”

“Sim.”

“A senhorita Sherwood cuidou de você?”

“Sim.”

“Ainda está lá?”

“Sim.”

Novamente Hunt ficou em silêncio por um momento. Larry esperava perguntas sobre a senhorita Sherwood, pois conhecia a natureza do interesse do pintor. Mas Hunt parecia tão determinado a evitar qualquer pergunta pessoal relacionada à senhorita Sherwood quanto ela estivera em relação a perguntas pessoais sobre ele; pois sua próxima observação foi:

“Rapaz, ainda mantendo todos aqueles mandamentos que você escreveu para si mesmo?”

“Até agora, meu chapa.”

“Continue mantendo-os, e escreva mais alguns para si mesmo, e você terá um decálogo novinho em folha. E teremos um pequeno Moisés só nosso. Mas, enquanto isso, filho, qual é a grande ideia de vir aqui?”

“Por uma razão, vim pedir um par de suas pinturas.”

“Minhas pinturas!” Hunt olhou para o outro com desconfiança. “Para que diabos você quer minhas pinturas?”

“Elas podem servir como toalhas se eu conseguir raspar a tinta.”

“Ah, pare com essa palhaçada! Eu perguntei para que você quer minhas pinturas. Me dê uma resposta direta!”

“Tudo bem, aqui está sua resposta direta: eu quero suas pinturas para vendê-las.”

“Vender minhas pinturas! Diga-me, você está tentando dizer algo ainda mais engraçado?”

“Eu as quero para vendê-las. Lembre-se de que uma vez lhe disse que poderia vendê-las — que poderia vender qualquer coisa. Deixe-as comigo e então você verá.”

“Você certamente teria que ser capaz de vender qualquer coisa para vendê-las!” Um brilho desafiador surgira nos olhos de Hunt. “Rapaz, você é tão atrevido que, se tivesse algum dinheiro, eu apostaria cinco mil, com as probabilidades que você quisesse, que você não conseguiria nem DAR uma dessas coisas!”

“Empreste-me cinco mil”, respondeu Larry calmamente, “e eu cobrirei a aposta com o mesmo valor — ficando entendido que devo vender o quadro por um preço não inferior ao mais alto que você já recebeu por uma de suas ‘pinturas bonitas’, que você se deleita em amaldiçoar e que fizeram a sua fortuna. Agora, traga suas pinturas — ou cale a boca!”

O maxilar de Hunt endureceu. “Rapaz, eu aceito essa aposta! E não vou deixar você escapar, também — você terá que pagar! Quais pinturas você quer?”

“Aquela jovem italiana sentada na calçada amamentando seu bebê — e qualquer outra pintura que você queira colocar junto.”

Hunt saiu batendo os pés escada acima. Quando ele estava fora de alcance, a Duquesa comentou calmamente:

“Por que você veio realmente, Larry?”

Larry foi um pouco apanhado de surpresa pela perspicácia de sua avó, mas não tentou evitar a pergunta nem o olhar fixo dos olhos velhos.

“Achei que você pudesse saber onde Maggie está, e vim perguntar.”

“Foi o que pensei.”

“Você sabe onde ela está?”

“Sim.”

“Onde ela está?”

Os olhos velhos ainda estavam fixos nele. “Não sei se deveria lhe contar. Quero que você siga em frente — e quanto menos tiver a ver com Maggie, melhor para você.”

“Eu gostaria de saber, avó.”

A Duquesa ponderou por um longo tempo. “Afinal, você é maior de idade — e você tem que decidir o que é melhor para si mesmo. Vou lhe contar. Maggie esteve aqui outro dia — vestida de forma simples — para pegar algumas cartas que ela havia esquecido de levar e que eu não consegui encontrar. Conversamos. Maggie está morando no Grantham sob o nome de Margaret Cameron. Ela tem uma suíte lá.”

“Uma suíte no Grantham!” exclamou Larry, espantado. “Ora, o Grantham é do mesmo nível do Ritzmore, onde ela costumava trabalhar — ou do Plaza! Uma suíte no Grantham!”

E então Larry deu um sobressalto. “No Grantham — sozinha?”

“Não sozinha, não. Mas não é o que acabou de passar pela sua mente. É uma mulher que está com ela; uma acompanhante contratada. E eles estão fazendo tudo em grande escala.”

“O que a Maggie está tramando?”

“Ela não me contou, exceto para dizer que o plano era grande. Ela estava toda empolgada com isso. Se você quer saber exatamente o que é, pergunte a Barney Palmer e ao Velho Jimmie.”

“Barney e o Velho Jimmie!” exclamou Larry. E então: “Barney e o Velho Jimmie — e uma suíte no Grantham!”

Naquele momento, Hunt desceu a escada, carregando um rolo embrulhado em papel pardo.

“Aqui está, rapaz”, anunciou ele. “Desmontei-as para que a tralha fosse mais fácil de carregar. A mãe italiana que você pediu — a segunda pintura pode ser uma que você gostaria de ter para sua própria galeria particular. Não vou deixar você se safar com seu blefe — e não se esqueça disso!... Duquesa, você não acha que seria melhor ele cair fora antes que Gavegan e seus amáveis amigos percebam a presença dele e estraguem a vizinhança?”

“Sim”, disse a Duquesa. “Boa noite, Larry.”

“Boa noite”, disse ele.

Mecanicamente, ele pegou o rolo de pinturas e deslizou-o para dentro de seu sobretudo; mecanicamente, ele apertou as mãos; mecanicamente, ele saiu da casa de penhores; mecanicamente, ele tomou todas as precauções ao sair da pequena rua sob chuva e ao entrar em um táxi que capturou perto do Cooper Institute. Toda a sua mente estava voltada para o que a Duquesa lhe contara e para uma nova ideia que pulsava, crescendo em um propósito. Maggie, Barney e o Velho Jimmie! Maggie em uma suíte no Grantham!

O que Larry fez agora, ao entrar no táxi, ele teria chamado de inútil e temerário uma hora antes, e em qualquer outra hora seu julgamento poderia tê-lo contido. Mas, justamente agora, ele parecia controlado por uma força maior do que o julgamento sereno — um composto de muitas forças: por um ciúme repentino, por um desejo súbito de proteger Maggie, por um desejo súbito de vê-la. Então, ao entrar no táxi, ele disse:

“O Grantham — rápido!”

CAPÍTULO XVII

O táxi subiu a Quarta Avenida balançando. Mas agora que a decisão estava tomada e ele estava a caminho de Maggie, um pouco do julgamento se reafirmou. Não seria seguro ele entrar abertamente no Grantham com a boca cheia de perguntas. Ele não sabia o número da suíte de Maggie. E Maggie poderia não estar. Então ele revisou seu plano ligeiramente. Ele chamou seu motorista:

“Vá para o Claridge primeiro.”

Cinco minutos depois, o táxi estava na Rua Quarenta e Quatro e Larry estava saindo. A sorte o favoreceu em um fato — ou talvez seu subconsciente tivesse baseado seu plano nisso: eram dez e meia, os teatros ainda mantinham suas multidões, as ruas estavam vazias, os restaurantes estavam praticamente desocupados. Ele estava correndo o risco mínimo.

“Espere por mim”, ordenou ele ao motorista. “Estarei de volta em cinco minutos.”

Em menos da metade do primeiro desses minutos, Larry atingira seu primeiro objetivo: a sala de telefone isolada atrás do grill. Estava desocupada, exceto pela telefonista que olhava enlevada para as páginas tristes, românticas e muito sujas de “St. Elmo”. No momento seguinte, ela estava olhando para outra coisa — uma nota de cinco dólares que Larry deslizara para dentro do livro aberto.

“Isso é para pagar um telefonema; pode ficar com o troco”, disse ele rapidamente. “Você deve falar tudo e dizer exatamente o que eu mandar.”

“Entendido, general”, disse a garota, emergindo com presteza do romance para a realidade. “Pode falar.”

“Ligue para o Hotel Grantham — diga que você é um florista com um pedido para entregar algumas flores diretamente para a senhorita Margaret Cameron — e peça o número da suíte dela — e mantenha a linha aberta.”

A garota obedeceu prontamente. Em menos de um minuto, ela estava relatando a Larry:

“Dizem que é 1141-1142-1143.”

“Pergunte se ela está. Se estiver, chame-a no telefone, diga que é um interurbano chamando, mas que não quer falar com ela a menos que ela esteja sozinha. Entendeu?”

“Com certeza, irmão. Esta não é a primeira vez que ajudo alguém.”

Houve mais tentativas com o plugue da central telefônica, evidente mudança na outra ponta, várias perguntas, e então a garota perguntou: “É a senhorita Margaret Cameron? Senhorita Cameron...” e assim por diante, conforme as instruções de Larry.

A operadora virou-se para Larry: “Ela diz que está sozinha.”

“Diga-lhe para segurar a linha até você conseguir uma conexão melhor — a tempestade estragou terrivelmente as conexões — e mantenha sua própria linha aberta e faça com que ela segure a dela.”

Enquanto Larry saía, ele ouviu suas instruções sendo executadas, enquanto uma mão adepta guardava a nota em segurança dentro de sua blusa. Em dois minutos, seu táxi o deixou no Grantham; e, sabendo que qualquer risco que corresse seria diminuído agindo rapidamente e sem qualquer hesitação suspeita, ele entrou direto e foi para os elevadores, agindo como alguém que tinha negócios ali, sua gola novamente levantada, seu boné puxado para baixo e seu rosto coberto por um lenço que cuidava de um nariz fungante de uma maneira altamente natural.

Com o coração batendo forte, ele chegou sem contratempos às portas numeradas 1141, 1142 e 1143. Instintivamente, ele sabia, de modo geral, como era o apartamento: um conjunto de quartos de vários tipos que o hotel podia alugar individualmente ou juntar e alugar como suíte. Mas qual das três era a entrada principal? Ele não ousou hesitar, pois a menor ação estranha poderia chamar a atenção do atendente do andar no corredor. Então Larry escolheu o meio-termo e pressionou o botão de madrepérola da 1142.

A porta se abriu e, diante de Larry, estava uma mulher grande, idosa e imponente, em um vestido de noite rigidamente formal — um vestido que, a propósito, fazia parte do equipamento da senhorita Grierson por muitos anos para ajudar jovens inexperientes a dominar a arte de ser uma dama. Larry supôs imediatamente que esta era a “acompanhante contratada” de quem sua avó falara. Em outros tempos, Larry tivera experiência com esse tipo e, antes que a senhorita Grierson pudesse impedi-lo ou fazer uma pergunta, Larry estava na sala e a porta se fechou atrás dele — e ele entrara com a maneira mais fácil, natural e educada que se pudesse imaginar.

“Você estava me esperando?” perguntou Larry com seu sorriso desarmante e totalmente encantador.

Nem a mente nem o corpo da senhorita Grierson estavam preparados para uma ação rápida. Ela foi pega de surpresa, mas não se ofendeu. Então, sem saber o que fazer, recorreu ao item principal de seu estoque, sua dignidade sempre confiável.

“Não posso dizer que estava. Na verdade, senhor, não sei quem você é.”

“A senhorita Cameron sabe — e ela está me esperando”, respondeu Larry agradavelmente. Seus olhos rápidos notaram que aquela era uma sala de estar: um ambiente ornamentado e padronizado que os grandes hotéis parecem encomendar em lotes de cem. “Onde está a senhorita Cameron?”

“No quarto ao lado”, acenando para a porta de comunicação. “Ela está ocupada. Telefonando. Uma chamada interurbana. Tenho quase certeza de que ela não está esperando por você”, continuou a senhorita Grierson, explicando de forma ponderada e elaborada, mas com polidez, pois aquele jovem era bonito, agradável e bem-educado, e poderia ser alguém de real importância. “Teríamos ido ao teatro com jantar depois; mas, devido à indisposição da senhorita Cameron, não fomos ao teatro. Mas ela insistiu em manter o compromisso para o jantar, mudando-o para cá. Além dela e de mim, estarão apenas seu tio, seu primo e apenas um convidado. É por isso que tenho tanta certeza, senhor, de que ela não o está esperando.”

“Mas você vê”, sorriu Larry, “eu sou esse único convidado.”

A senhorita Grierson sacudiu sua transformação cuidadosamente penteada. “Conheci o convidado que está vindo, e certamente não conheci você.”

“Então ela deve ter convidado dois de nós. De qualquer forma, vou apenas falar com ela, e se eu estiver enganado e for indesejado, eu me retirarei.” E antes que a senhorita Grierson pudesse sequer despertar a intenção de intervir ainda mais, este jovem bem-educado sorriu seu sorriso desarmante, curvou-se para ela e passou pela porta, fechando-a atrás de si.

Ele parou, com a maçaneta na mão. Maggie estava de lado para ele, segurando um telefone na mão, seu receptor no ouvido. Ela deveria ter suposto que era a senhorita Grierson quem entrara tão silenciosamente, pois não olhou para trás.

“Sim, ainda estou esperando”, dizia ela impacientemente. “Você nunca consegue essa conexão?”

Larry vira Maggie apenas no terno escuro simples que ela usava para seu trabalho diário de vender cigarros no Ritzmore; e uma vez, na noite de seu retorno de Sing Sing, naquele traje de cigana de palco, que embora eficaz, era barato e improvisado e não a tirava de forma alguma do ambiente da casa antiga e imunda da Duquesa. Mas Larry ficou tão surpreso com essa Maggie transformada que, por um momento, não teria conseguido se mover da porta, mesmo que o desejasse. Ela estava equipada com o mais elegante dos vestidos de noite translúcidos, com a saia curta que era a moda da época, com sapatos de salto alto prateados, seus braços, ombros e colo arredondados estavam nus, seu abundante cabelo preto empilhado no alto com um descuido cuidadoso. O vestido era de cor cereja, e de seu antebraço pendia um grande leque de penas verdes. Em todos os hotéis e teatros de Nova York, dificilmente se encontraria naquela noite uma figura mais marcante em sua juventude fresca e acabada. Larry estremeceu todo; seu coração tentou pulsar loucamente para fora de sua garganta.

Finalmente, ele falou. E tudo o que ele conseguiu dizer foi:

“Maggie.”

Ela girou e o telefone e o receptor quase caíram de suas mãos. Ela empalideceu e olhou para ele, com a boca aberta, seus olhos escuros arregalados.

“La-Larry!” ela sussurrou.

“Maggie!” disse ele novamente.

“La-Larry! Eu pensei que você estivesse em Chicago.”

“Estou aqui agora, Maggie — especialmente para ver você.” Ele não sabia, mas sua voz estava rouca. Ele notou que ela ainda segurava o telefone e o receptor. “Fui eu quem fez aquela chamada interurbana. Mas vim em vez disso. Então você pode desligar.”

Ela obedeceu e colocou o instrumento sobre sua mesinha.

“Larry — onde você esteve todo esse tempo?”

Ele estava consciente o suficiente para notar que havia uma preocupação tensa em sua maneira. Ele se exultou com isso, atravessou o quarto e pegou sua mão.

“Bem aqui em Nova York, Maggie.”

“Escondido?”

“Muito bem escondido.”

“Mas, Larry — você não sabe que é perigoso para você sair? E vir aqui, de todos os lugares?”

“Eu não pude evitar. Eu simplesmente tinha que ver você, Maggie.”

Ele ainda segurava a mão dela, e houve um aperto instintivo dos dedos dela ao redor dos seus. Por um momento — o momento em que seu eu exterior ou mais consciente foi pego de surpresa e esquecido — eles se olharam silenciosa e firmemente, olho no olho.

E então as coisas que a Duquesa dissera voltaram à sua mente, e ele disse:

“Maggie, vim para tirar você de tudo isso. Prepare-se — vamos sair imediatamente.”

Isso quebrou o feitiço. Ela se afastou dele bruscamente, e instantaneamente ela foi a velha Maggie: a Maggie que zombara dele e o desafiara na noite de seu retorno da prisão quando ele anunciara seu novo plano — a Maggie que o tratara como “delator” e “cagueta” na noite em que ela deixara a casa da Duquesa para iniciar essa nova carreira.

“Não, você não vai me tirar daqui!” ela atirou nele. “Eu lhe disse uma vez antes que não seguiria seu caminho! Eu lhe disse que seguiria meu próprio caminho! Isso valia para então, e vale agora, e valerá para sempre!”

O humor mais suave que o tomara de surpresa ao vê-la e o preenchera, agora deu lugar a uma determinação sombria. “Sim, você virá pelo meu caminho — em algum momento, se não agora! E agora, se eu puder fazer você vir!”

Seus olhares em batalha se prenderam um ao outro. Mas agora Larry estava vendo mais do que apenas Maggie. Ele também estava observando o quarto. Era parente próximo do quarto em que ele deixara a senhorita Grierson: ornamentado, indistinto e muito caro. Ele notou uma pequena diferença: um minúsculo corredor que dava para o corredor externo, sua porta interna agora aberta.

Mas a maior diferença era o que ele viu sobre os ombros brancos e suaves de Maggie: uma mesa toda posta com porcelana, vidro e prata, e arrumada para cinco.

“Maggie, que jogo é esse que você está fazendo?” ele exigiu.

“Não é da sua conta!” ela disse ferozmente, mas em um tom baixo — pois ambos estavam instintivamente lembrando da senhorita Grierson no quarto adjacente. E então ela acrescentou orgulhosamente: “Mas é grande! Maior do que qualquer coisa que você já sonhou! E você pode ver que estou conseguindo até agora — e estarei conseguindo no final! Compare com a linha barata sobre a qual você falou. Bah!”

“Escute, Maggie!” Em sua intensidade, ele agarrou seu antebraço nu. “Isso é um mau negócio, e se você tivesse algum juízo, saberia disso! Você não acha que eu entendo o esquema? Barney é seu primo, o Velho Jimmie é seu tio, aquela dama no quarto ao lado e esta suíte e suas roupas elegantes para ajudar a manter as aparências! E sua doença que não a deixou ir ao teatro é apenas uma farsa, para que, não querendo decepcioná-los totalmente, você tivesse uma desculpa para jantar aqui — e assim atrair astutamente alguma pessoa para a armadilha de um relacionamento mais íntimo. É um esquema inteligente e elegante. Maggie, o que é exatamente o seu jogo?”

“Eu não vou lhe contar!”

“Quem é esse homem que está vindo para cá?”

“Eu não vou lhe contar!”

“Ele é o otário que você pretende depenar?”

“Eu não vou lhe contar!”

“Você vai me contar!” ele gritou dominadoramente. “E você vai sair de tudo isso! Você me ouve? Pode parecer bom para você agora. Mas eu lhe digo que só tem um final! E esse é um final podre!”

Ela se livrou de seu aperto punitivo e, ofegante, olhou para ele — seu desafio anterior agora uma fúria egoísta.

“Eu não vou deixar você interferir na minha vida! — seu pregador falso! — seu delator, seu cagueta!” ela atirou nele loucamente. “Delator — cagueta!” ela repetiu. “Eu lhe digo que estou seguindo meu próprio caminho — e é um caminho grande — e lhe digo novamente que nada que você possa dizer ou fazer pode me parar! Se eu pudesse ter meu melhor desejo, tudo o que eu desejaria seria algo para impedir você de sempre interferir — algo para tirar você do meu caminho!”

Ofegante, ela parou. Sua figura tensa, com as mãos fechando e abrindo, expressava o próprio ápice da fúria desafiadora — do desejo de aniquilar — do ódio supremo. Larry ficou pasmo com a própria extensão, a profundidade de sua paixão. E assim eles ficaram, em silêncio, exceto por suas respirações rápidas, olhos fixos em olhos, por vários momentos.

E então uma chave soou na porta externa do pequeno corredor. Instantaneamente, houve uma transformação quase inacreditável em Maggie. De uma fúria imperiosa e incontrolável, ela mudou para uma coisa branca e trêmula.

“Barney!” ela sussurrou; e correu para a porta interna do pequeno corredor, fechou-a e trancou-a.

Ela virou para Larry um rosto que estava lívido de palidez.

“Barney sempre carrega uma pistola”, sussurrou ela.

Eles ouviram a porta externa se fechar com o clique de sua fechadura automática. Agora ouviam a maçaneta da porta interna girar e ser puxada; e então ouviram Barney chamar: “Qual é o problema, Maggie? Deixe-nos entrar.”

Maggie fez um esforço supremo para responder com uma voz controlada:

“Só um minuto. Não estou pronta.”

Então uma segunda voz soou do outro lado da porta:

“Não nos faça esperar muito, Maggie. Por favor!”

Havia uma qualidade distantemente familiar para Larry naquela segunda voz. Mas ele não tentou identificá-la naquele momento: estava preocupado de forma pungente demais com sua própria situação e com a mudança desconcertante em Maggie.

Ela passou a mão pelo braço dele. “Oh, La-Larry, por que você correu um risco desses!” ela murmurou. Seu sussurro era piedoso, trêmulo de susto. “Venha por aqui!” e ela rapidamente o puxou para o quarto onde ele havia encontrado a Srta. Grierson e para a porta pela qual ele havia entrado.

Maggie abriu essa porta. “Eles estão todos no pequeno corredor — não creio que vão ver você”, continuou seu sussurro rápido e agitado. “Não pegue os elevadores neste corredor, eles estão à vista. Há elevadores logo ali na esquina. Pegue-os; são mais seguros. Adeus, Larry — e, oh, Larry, nunca mais corra um risco desses!”

Com isso, ela o empurrou para fora e fechou a porta.

Larry seguiu as instruções dela sobre o elevador; usou as mesmas precauções ao sair que usara ao entrar e, vinte minutos depois, estava de volta ao seu quarto no apartamento Sherwood. Por uma hora ou mais ele ficou imóvel — pensando — pensando: fazendo perguntas a si mesmo, mas em seu estado tumultuado de mente e emoções, incapaz de se fixar em uma pergunta por tempo suficiente para deduzir sua possível resposta.

Que jogo era exatamente aquele em que Maggie estava envolvida? — um jogo que exigia aquele cenário do Grantham, aquela companhia eminentemente respeitável e o traje de Maggie como uma jovem de riqueza óbvia.

De quem era aquela segunda voz vagamente familiar? — aquela voz que ele ainda não conseguia identificar.

Mas o que ele pensava acima de tudo era algo muito diferente. O que causara aquela mudança rápida em Maggie? — de uma fúria que era tanto fogo quanto granito, para aquela garota pálida, trêmula e sussurrante que o levara tão rapidamente para fora de seu perigo.

Para lá e para cá, de um lado para o outro, essas perguntas se alternavam. Perto das duas horas, ele se levantou, a mente ainda absorta, e começou mecanicamente a se despir. Observou então o rolo de pinturas que Hunt lhe dera. Melhor para elas se estivessem esticadas. Mecanicamente, removeu o barbante e o papel. Ali em cima estava a mãe italiana que ele havia pedido. Uma grande pintura — uma pintura verdadeiramente grande. Mecanicamente, ele afastou esta para ver qual era a segunda pintura que Hunt incluíra. Larry deu um grande sobressalto e a mãe italiana foi parar no chão.

A segunda pintura era de Maggie; aquela na qual Hunt estivera trabalhando no dia em que Larry voltara: Maggie em suas roupas simples de trabalho, olhando para o mundo com confiança, conquistadoramente; a pintura na qual Hunt, com o cérebro fervilhando de ideias, tentara expressar a Maggie que era, as muitas Maggies que havia nela e a Maggie que ainda estava por vir.

CAPÍTULO XVIII

Na manhã seguinte, Larry tentou forçar sua mente a se concentrar estritamente nos negócios da Srta. Sherwood. Mas, nesse esforço, ele foi menos de cinquenta por cento eficaz. Sua experiência da noite anterior fora excitante demais, provocativa demais à especulação, envolvida demais com o que ele reconhecia francamente ser o maior interesse de sua vida, para permitir que ele se aplicasse com concentração perfeita e imperturbável à rotina do dia. Constantemente ele via a Maggie transformada no vestido de noite cor de cereja com o leque de plumas verdes — vendo seu cenário elaborado em sua suíte no Grantham — ouvindo aquela voz vagamente familiar, mas inidentificável, do lado de fora de sua porta — relembrando o esforço frenético com que Maggie havia efetuado tão rapidamente sua fuga.

Este último assunto o intrigava muito. Se ela estava tão irritada com ele como declarara, se ela desconfiava tanto dele, por que não o entregara quando o teve à sua mercê? Seria possível que, apesar de suas palavras, ela tivesse um gosto não confessado por ele? Ele não ousava deixar-se acreditar nisso.

Repetidas vezes ele pensava nessa aventura em cujo centro Maggie agora estava, e de cujo resultado bem-sucedido ela se gabara orgulhosamente para ele. Era de fato algo grande, como ela dissera; aquele estabelecimento no Grantham era a prova disso. Larry agora podia perceber as linhas gerais da aventura. Não havia nada de original no que ele percebia; e o plano, até onde ele podia ver, não o teria interessado minimamente como uma criação nova do cérebro se Maggie não fosse sua figura central, e se Barney e o Velho Jimmie não fossem seus agentes diretores. Uma mulher bonita sendo usada como isca para algum homem rico, e sua paixão por ela deveria levá-lo a abrir mão de uma grande quantia de dinheiro: alguma variação dessa ideia antiga, que tem milhares de variações — esse era o plano.

Obviamente, o empreendimento não era direcionado a algum sujeito grosseiro cujo paladar pudesse permitir-lhe engolir qualquer coisa. Se algum item provava essencialmente isso, era o item da acompanhante esmagadoramente respeitável. Maggie estava sendo apresentada como uma moça inocente e respeitável; e a vítima, quem quer que fosse, era o tipo de homem para quem apenas tal tipo de garota teria um apelo irresistível.

E esse homem — quem era ele? Vez após vez ele tentava identificar a voz do homem, com sua qualidade levemente familiar, mas ela continuava a escapar como um sonho que não se consegue recordar bem.

Todo o negócio fazia Larry enfurecer-se dentro de si mesmo. Maggie ser usada dessa maneira! Ele não culpava Maggie, pois a entendia. Além disso, ele a amava. Ela era jovem, orgulhosa, obstinada, fora treinada para considerar tais aventuras como coloridas e legítimas; e não vivera tempo suficiente para que a experiência lhe ensinasse o contrário. Não, Maggie não tinha culpa. Mas o Velho Jimmie! Ele gostaria de torcer o pescoço do Velho Jimmie! Mas então o Velho Jimmie era pai de Maggie; e o mero fato de o Velho Jimmie ser pai de Maggie, ele sabia, protegeria o velho de sua ira, mesmo se ele estivesse livre para sair e agir.

Ele amaldiçoou seu isolamento forçado. Se ao menos estivesse livre para sair e fazer o seu melhor ao ar livre! Mas então, mesmo se estivesse, seus melhores esforços teriam pouca influência sobre Maggie — com ela desprezando-o e desconfiando dele como fazia, e tão determinada a seguir seu próprio caminho.

Certa vez, durante a manhã, ele saiu da biblioteca para o seu quarto e contemplou o retrato de Maggie que Hunt lhe dera na noite anterior: Maggie, autoconfiante, obstinada, uma linda ninguém que encarava o mundo sem pestanejar; uma Maggie que era mil possíveis Maggies. E, enquanto olhava, ele pensava na aposta que fizera com Hunt e em seus próprios planos um tanto desordenados a respeito dela. Ele removeu o retrato de Maggie da companhia da pintura da mãe italiana e escondeu-o em sua cômoda. O que quer que ele pudesse fazer em seu esforço para honrar sua promessa a Hunt, por enquanto ele consideraria o retrato de Maggie como sua propriedade privada. Usar a pintura como havia planejado vagamente, antes de ter sido surpreendido ao descobrir que era o retrato de Maggie, seria passá-la para outra posse onde poderia se tornar pública — onde, por algum acaso, a Maggie da blusa barata de operária poderia ser identificada com a rica Srta. Cameron do Grantham, para grande desconforto de Maggie e possivelmente seu envolvimento com a polícia.

Quando a Srta. Sherwood entrou na biblioteca um pouco mais tarde, Larry tentou tirar Maggie e todos os assuntos pertinentes à sua aventura da noite anterior de sua mente. Ele tinha outros assuntos suficientes que tentava habilmente manejar — por exemplo, a Srta. Sherwood e Hunt; e quando sua conversa de negócios com ela terminou, ele comentou:

“Vi o Sr. Hunt ontem à noite.”

Ele a observou atentamente, mas não pôde detectar nenhum brilho de interesse ao nome de Hunt.

“Você foi até a casa de sua avó?”

“Sim.”

“Esse foi um risco muito grande para você correr”, ela o repreendeu. “Estou feliz que tenha voltado em segurança.”

Apesar da perturbação que Maggie causara em seus pensamentos, parte de seu cérebro tentara fazer planos para promover esse outro objetivo; então, ele agora contou à Srta. Sherwood sobre sua aposta com Hunt e sobre ter trazido um quadro — ele disse “um quadro”. Ele queria despertar o interesse reprimido que um tinha pelo outro; ajudar a construir uma ponte ou fechar o abismo que ele sentia ter se aberto entre eles. Então ele trouxe a pintura da mãe italiana de seu quarto. Ela a examinou criticamente, mas sem sinal de aprovação ou desaprovação.

“O que você acha disso?” ela perguntou.

“É um trabalho notável!” ele disse enfaticamente — desejando poder trazer aquela pintura de Maggie como evidência adicional para apoiar sua opinião.

Ela não fez mais comentários, e cabia a Larry manter a conversa viva. “Qual foi o máximo que o Sr. Hunt já recebeu por uma pintura? Digo, uma dessas que ele xinga como suas 'pinturas bonitinhas'?”

“Creio que cerca de dois mil dólares.”

Essa era parte da informação necessária para o plano de Larry.

“Srta. Sherwood, vou pedir outro favor à senhora. Em relação a uma aposta que fiz com o Sr. Hunt. Quero conversar com um negociante de arte — o melhor que houver. Não posso muito bem ir até ele. A senhora pode conseguir fazer com que ele venha aqui?”

“Facilmente. Conheço o homem ideal para o seu propósito. Vou telefonar, e se ele estiver em Nova York, virá vê-lo esta tarde.”

“Obrigado.”

Ela começou a sair, então voltou. “É melhor terminar seu negócio com ele hoje, se puder. Vamos para o campo amanhã ou depois. Acabei de receber a notícia de que os operários finalmente saíram da casa; embora os jardins, é claro, estejam em mau estado e provavelmente permanecerão assim. Com essa situação trabalhista, é praticamente impossível conseguir homens.”

Larry lembrou-se de outra coisa. “Srta. Sherwood, a senhora se lembra de eu ter mencionado uma vez sobre um homem de quem me tornei amigo na prisão — Joe Ellison?”

“Sim.”

“Eu escrevi para ele, sob um nome falso, é claro, e recebi uma resposta. Ele sairá em poucos dias. Ele terminou com seus velhos hábitos. Sei que ele não gostaria de nada melhor do que um lugar tranquilo para trabalhar, isolado em algum lugar. Tenho certeza de que a senhora pode confiar nele.”

“Vamos arranjar para que ele venha para Cedar Crest. Oh, não pense que estou sendo generosa ou sentimental”, interrompeu ela sorrindo enquanto ele começava a agradecê-la. “Eu ficaria feliz em colocar mais dois ou três ex-detentos para trabalhar em nossa propriedade se pudesse consegui-los. E meus amigos também; eles não conseguem operários de espécie alguma.”

Naquela tarde, o negociante de arte veio. A Srta. Sherwood apresentou Larry a ele como Sr. Brandon, seu primo, e então deixou os dois homens a sós. Larry avaliou o Sr. Graham como um homem astuto que conhecia seu negócio e que gostaria de marcar um triunfo em seu campo particular. Decidiu que o negociante precisava ser tratado com muita franqueza e com um blefe firme que deveria parecer igualmente franco. O segredo do sucesso anterior de Larry fora estabelecer confiança e até entusiasmo em algo que tinha pouco ou nenhum valor. Ao vender uma coisa honesta por um preço honesto, o procedimento inicial e fundamental era o mesmo: estabelecer confiança e, se possível, entusiasmo.

Desde o momento da apresentação, Larry assumiu silenciosamente a postura de um colecionador de arte muito seguro de si; postura esta reforçada pelo cenário da biblioteca Sherwood. Ele sentiu um pouco do antigo entusiasmo de quando sua inteligência era colocada à prova contra outra, mesmo que este fosse um empreendimento estritamente honroso.

“O senhor conhece o trabalho do Sr. Jerome Hunt?” perguntou ele.

“Manuseei praticamente todo o seu trabalho desde que começou a vender”, respondeu o Sr. Graham.

“Eu me referia ao trabalho em sua maneira recente.”

“Ele não tem feito nenhum trabalho recentemente”, corrigiu o Sr. Graham.

“Não?” Larry pegou a mãe italiana que, para esta ocasião, ele havia montado com percevejos em uma prancheta e colocou-a em uma cadeira sob a luz mais vantajosa. “Há uma pequena coisa na maneira recente do Sr. Hunt que comprei recentemente.”

O Sr. Graham examinou a pintura longa e criticamente.

Finalmente, ele comentou:

“Pelo menos é diferente.”

“Diferente e melhor”, disse Larry com sua quietude positiva. “Tão melhor que paguei três mil dólares por ela.”

“Três mil!” O negociante olhou para Larry bruscamente. “Três mil por isso?”

“Sim. E considero que fiz um bom negócio.”

O Sr. Graham ficou em silêncio por vários momentos. Então disse: “Por que razão fui solicitado a vir aqui?”

“Quero que o senhor se encarregue de vender este quadro.”

“Por quanto?”

“Cinco mil dólares.”

“Cinco mil dólares!”

“Vale facilmente cinco mil”, disse Larry calmamente.

“Se o valoriza tanto, por que quer vender?”

“Estou pressionado pela atual escassez de dinheiro. Além disso, consegui uma segunda pintura quando comprei esta. Essa segunda pintura não venderei. O senhor não deverá ter dificuldade em vender esta”, continuou Larry, “se tratar o assunto corretamente. Pense em como as pessoas começaram a falar novamente sobre Gauguin: sobre ele começar a pintar de uma maneira nova lá nas Ilhas Marquesas, sobre ele trocar uma pintura por um móvel ou vendê-la por algumas centenas de francos — pinturas que agora valem uma pequena fortuna cada. Capitalize essa conversa sobre Gauguin; também a conversa sobre o pobre e louco Blakeslie. O senhor tem uma nova sensação. Uma só sua.”

“Não se pode criar uma sensação com uma pintura”, comentou o Sr. Graham secamente.

Essa fora a observação que Larry tentara habilmente extrair do negociante.

“Ora, é verdade!” exclamou ele. E então, como se o pensamento tivesse lhe ocorrido naquele exato momento: “Por que não fazer uma exposição de pinturas feitas em sua nova maneira? Ele tem um estúdio cheio de coisas tão características quanto esta.”

Larry captou o brilho que surgiu nos olhos do negociante. Foi instantaneamente mascarado.

“Tarde demais na primavera para uma mostra de arte. Não poderia organizar uma exposição antes da próxima temporada.”

“Mas por que não fazer uma mostra privada de pré-exposição?” argumentou Larry — “com convites especiais enviados para uma lista pequena e cuidadosamente escolhida, enfatizando bem para eles que você lhes estava oferecendo a chance de uma visão primeira e exclusiva de algo muito notável. A maioria deles se sentirá lisonjeada e virá. E isso começará a conversa e despertará interesse em sua exposição pública no outono. Essa é a ideia!”

Novamente houve o brilho, rapidamente mascarado, nos olhos do negociante. Mas Larry o captou.

“Como sei que este quadro aqui não é apenas um acidente? — o único do tipo que o Sr. Hunt já pintou, ou pintará?” perguntou cautelosamente o Sr. Graham. “Você disse que tinha uma segunda pintura. Posso vê-la?”

Larry hesitou. Mas acreditava que tinha o negociante quase “vendido”; mais um pouco e o Sr. Graham estaria convencido. Então ele trouxe o retrato de Maggie. O negociante olhou-o com um rosto que tentou manter inexpressivo.

“Quanto vale este?” perguntou ele finalmente.

“Não está à venda.”

“Ele trará mais dinheiro do que o outro. É um assunto mais interessante.”

“É por isso que vou mantê-lo”, disse Larry. “Acho que o senhor admitirá, Sr. Graham, que isso prova que o Sr. Hunt não está pintando acidentes agora.”

“Você tem razão.” A máscara caiu subitamente do rosto do Sr. Graham; ele não era mais apenas um negociante de arte; ele era também um entusiasta da arte. “Hunt encontrou algo ousado e novo, e acho que posso promovê-lo. Vou tentar esse esquema que você mencionou. Diga-me onde posso encontrá-lo e eu o verei imediatamente.”

“Esse quadro tem que ser vendido antes que eu lhe dê o endereço dele. Não adianta vê-lo até lá; ele riria de você e não ouviria nada. Ele está magoado com o mundo; acha que o mundo não o entende. Uma venda real seria o único argumento que teria peso para ele.”

“Tudo bem — eu mesmo comprarei o quadro. Hunt e eu tivemos um desentendimento, e eu gostaria que ele tivesse a prova de que acredito nele.” Novamente o Sr. Graham era o negociante de arte. “Embora, é claro, eu não possa pagar os cinco mil que você pede. A nova maneira de Hunt pode pegar, ou pode não pegar. É uma grande aposta.”

“Quanto você pagará?”

“O que você pagou por ele — três mil.”

“Essa é uma queda enorme do que eu esperava. Quando você pode pagar?”

“Enviarei meu cheque por um assistente assim que eu retornar ao meu estabelecimento.”

“Eu lhe disse que estava apertado financeiramente — então o quadro é seu. Enviarei o endereço atual do Sr. Hunt quando receber seu cheque. Faça-o nominal a 'dinheiro'.”

Quando o Sr. Graham se foi com a mãe italiana — era o final da tarde — Larry imaginou se seu plano de tirar Hunt de seu eremitério iria ter sucesso; e imaginou qual seria o resultado, se houvesse algum, sobre o relacionamento entre Hunt e a Srta. Sherwood se Hunt voltasse abertamente ao seu mundo como um sucesso aclamado, e viesse com a atitude mudada em relação a todos e a tudo que o reconhecimento proporciona.

Mas algo faria Larry imaginar ainda mais alguns minutos depois. Dick, aquele habitual acordador tardio, tivera que sair correndo naquela manhã sem falar com ele. Agora, quando ele chegou em casa perto das seis horas, Dick gritou alegremente do corredor:

“Ahoy! Onde você está ancorado, Capitão Nemo?”

Larry não respondeu. Ele sentou-se sobre seus papéis como se estivesse congelado. Ele sabia agora de quem era a voz esquivamente familiar que ouvira do lado de fora da porta de Maggie. Era de Dick Sherwood.

Dick parou lá fora para receber algumas mensagens de Judkins, e a mente de Larry correu febrilmente. Dick Sherwood era a vítima que Maggie, Barney e o Velho Jimmie estavam tentando enganar tão cautelosamente e elaboradamente! Parecia uma coincidência impossível. Mas não, não era impossível, afinal. A rede deles fora espalhada exatamente para tal presa: um jovem, impressionável, amante do prazer, com muito dinheiro e sem amarras ligadas ao seu gasto. Que Barney devesse ter feito sua amizade era facilmente explicado; estabelecer amizade com pessoas como Dick era a especialidade de Barney. O que seria mais natural do que o impetuoso e irresponsável Dick cair nessa armadilha? — ou mesmo que ele tivesse sido escolhido com antecedência como a vítima ideal e atraído para ela?

“Olá, aí!” resmungou Dick, entrando. “Por que você não respondeu ao chamado de um companheiro de navio?”

“Eu o ouvi; mas naquele momento eu estava somando uma coluna de números e sabia que você apareceria.”

Naquele momento Larry notou o retrato de Maggie, olhando para cima da cadeira ao lado dele. Com uma rapidez que ele tentou disfarçar como uma ação mecânica, ele pegou a pintura e enrolou-a, com a face para dentro.

“O que é isso que você tem aí?” exigiu Dick.

“Apenas um pequeno borrão meu.”

“Então você também pinta. O que mais você sabe fazer? Deixe-me dar uma olhada.”

“Está muito ruim. Prefiro deixar você ver outra coisa — embora todas as minhas coisas sejam ruins.”

“Você não faria nada, não é, para alegrar esta hora mais cansativa do dia de um homem de negócios cansado”, reclamou Dick. “Eu realmente fui um homem de negócios hoje, Capitão. Trabalhei como o diabo — ou um anjo — o que quer que trabalhe mais duro.”

Ele acendeu um cigarro e acomodou-se com um suspiro no canto da mesa de Larry. Larry o observou com uma mistura de sentimentos mais estranha e contraditória do que ele jamais pensara conter: solicitude por Dick — ciúme dele — e o instinto de proteger Maggie. Este último pareceu a Larry grotescamente absurdo no instante em que fervilhou nele, mas o instinto estava lá: estaria Dick tratando Maggie bem?

“Como foi o show ontem à noite, Dick?”

“Um lixo!”

“Achei que você tivesse dito que veria 'The Jest'. Ouvi dizer que é uma das melhores coisas dos últimos anos.”

“Oh, acho que o show é bom. Mas a companhia era pobre. Minha companhia, quero dizer. A pessoa que eu queria ver não pôde vir.”

“Espero que você tenha tido uma festa de jantar que compensasse a decepção”, continuou Larry, tentando habilmente levá-lo a falar mais.

“Com certeza tive, Capitão!”

Dick deslizou para uma cadeira ao lado de Larry, pousou a mão no joelho dele e disse em tom mais baixo:

“Capitão, conheci uma garota nova recentemente — e acredite em mim, ela é um espetáculo!”

“É melhor manter distância dessas coristas, Dick.”

“Nunca mais! A última me curou para o resto da vida. Senhorita Cameron — Maggie Cameron, o que acha desse nome? — não é uma garota da Broadway, Capitão. Ela nem sequer é uma garota de Nova York.”

“Não?”

“Ela é de algum lugar do Oeste. O pai era dono de vários grandes ranchos. Ela diz que isso explica sua falta de jeito. Ela, sem jeito? Eu diria que não! Não se criam modos melhores nem aqui em Nova York. E ela é bonita, inteligente e completamente ingênua sobre tudo o que acontece em Nova York. Embora eu deva dizer”, acrescentou Dick, “que não sou muito fã do primo e do tio dela. Encontrei o primo algumas vezes no último ano ou dois pela cidade; ele é daqui. Os dois são o tipo de gente de má índole que aparece em toda boa família. Têm um mérito, porém: não tentam se impor demais a ela.”

“O que sua senhorita Cameron está fazendo em Nova York?”

“Dando uma primeira olhada na cidade antes de ir para algum balneário passar o verão; talvez alugue uma casa de campo em algum lugar.” — aproximando-se mais — “Eu gostaria que o senhor não sentisse que precisa ficar tão preso a este apartamento. Eu gostaria de levá-lo para sair e apresentá-lo a ela.”

Larry conseguia imaginar a cena resultante se essa introdução, proposta tão inocentemente, fosse realizada.

“Acho que, por enquanto, terei que depender dos seus relatos, Dick.”

“Bem, pode acreditar em mim, ela é simplesmente perfeita!”

Foi o estranho instinto de Larry de proteger Maggie que provocou seu comentário seguinte:

“Você não está apenas saindo para se divertir, está, Dick?”

Dick corou. “Nada disso. Ela não é esse tipo de garota. Além disso... acho que é coisa séria, Capitão.”

O olhar honesto nos olhos de Dick, ainda mais do que suas palavras, acalmou o medo de Larry por Maggie. Logo depois, Dick saiu, deixando para Larry mais um problema acrescentado à sua vida. Ele não podia permitir que nada acontecesse a Maggie. Ele não podia permitir que nada acontecesse a Dick. Ele tinha que proteger a cada um; ele tinha que fazer algo. Mas o que poderia fazer?

Sim, este certamente era um problema! Ele caminhou de um lado para o outro no quarto, outra vítima do antigo dilema do dever dividido e antagônico.

CAPÍTULO XIX

Na noite da visita inesperada de Larry a ela no Grantham, Maggie recompôs-se e, auxiliada pela imponente senhorita Grierson, fez o melhor que pôde como anfitriã ingênua para seu pseudo-primo, Barney, e seu pseudo-tio, o velho Jimmie, e para sua presa, Dick Sherwood, a quem eles perseguiam tão cautelosamente. Mas quando Dick partiu, e quando a senhorita Grierson se retirou para permitir que sua protegida tivesse uma pequena visita com seus parentes, Barney foi rápido em demonstrar sua insatisfação.

“O que houve com você hoje à noite, Maggie?” exigiu ele. “Você não atuou como de costume.”

“Se você não gosta do jeito que eu fiz, pode arranjar outra pessoa”, retrucou Maggie.

“Ah, não fique irritada. Se sou eu quem dirige este espetáculo, acho que é meu dever dizer como representar o papel e dizer quando você está colocando em risco o sucesso da peça com uma atuação ruim.”

“Talvez fosse melhor você arranjar outra pessoa para assumir meu papel agora mesmo.”

O tom e o olhar de Maggie eram implacáveis. Barney moveu-se inquieto. Essa era a pior parte de Maggie: ela não aceitava conselhos de ninguém, a menos que o conselho coincidisse com ou fosse uma extensão de seus próprios desejos, e ela estava particularmente temperamental hoje à noite. Ele apressou-se em apaziguá-la.

“Acho que até os melhores de nós têm dias ruins. Está tudo bem, a menos que...” — Barney hesitou, o medo comercial e o ciúme tomando-o de repente — “a menos que o jeito que você agiu hoje à noite signifique que não pretende levar isso até o fim?”

“Por que eu não levaria até o fim?”

“Nenhuma razão. A menos que você tenha agido como agiu hoje à noite porque...” — novamente Barney hesitou; novamente o ciúme o impeliu — “porque você ouviu de alguma forma de Larry Brainard. Você teve notícias de Larry?”

Maggie encontrou seu olhar sem vacilar. Ela tomaria as medidas necessárias pela manhã com a senhorita Grierson para impedir que aquela senhora falasse de forma indiscreta.

“Eu não tive notícias de Larry, e se tivesse, não seria da sua conta, Barney Palmer!”

Ele escolheu ignorar a bofetada verbal da última frase dela. “Não, acho que você não teve notícias de Larry. E acho que nenhum de nós terá notícias dele — não por um bom tempo. Ele certamente se meteu em uma boa enrascada!”

“Com certeza se meteu”, concordou o velho Jimmie.

Maggie não disse nada.

“Parece-me que fisgamos esse jovem Sherwood”, disse o velho Jimmie, que estivera impaciente durante essa discussão infrutífera. “Parece-me que está na hora de decidir exatamente como vamos pegar o dinheiro dele. O que acha, Barney?”

“Há tempo de sobra para isso, Jimmie. Este é um peixe grande, e temos que ter certeza absoluta de que o fisgamos para que ele não consiga escapar. Temos que jogar com segurança aqui; vale a pena esperar, acredite em mim. Além disso, enquanto isso, Maggie está ganhando prática.”

“Parece-me que deveríamos fazer nossa limpa logo. Para que... para que...”

“Escute aqui — você acha que tem algum outro jogo elegante no qual quer usar a Maggie?”

O olhar esquivo do velho Jimmie vacilou diante do brilho nos olhos de Barney.

“Não. Mas ela é minha filha, não é?”

“Sim. Mas quem está no comando aqui?” exigiu Barney. Graças aos céus, o velho Jimmie era uma pessoa que ele não precisava tratar como uma prima-dona!

“Você está.”

“Então cale a boca e me deixe comandar!”

“Você poderia pelo menos dizer se decidiu como vai comandar”, persistiu o velho Jimmie.

“Você vai calar a boca!” disparou Barney.

O velho Jimmie não disse mais nada. E, tendo afirmado sua supremacia sobre pelo menos um dos dois, Barney cedeu e condescendeu em conversar, recostando-se na cadeira com aquela graça autoconsciente que ajudara a torná-lo uma figura de destaque crescente nos restaurantes mais animados de Nova York.

Não fazia parte dos cálculos de Barney, presentes ou futuros, fazer de Maggie a amante de qualquer homem. Não que Barney fosse contido por considerações morais. A coisa era apenas um mau negócio. Tal mulher rende comparativamente pouco; e, o que é pior, se ela quiser, ela fica com tudo para si mesma. E Barney, em sua sabedoria cínica de seu mundo pobre, sabia ainda que o homem comum atraído para essa armadilha, depois que a mulher diz sim, e depois que a primeira frescura perde o brilho, torna-se um mão-de-vaca e resta pouco dinheiro real para qualquer um.

“É assim: uma vez que tenhamos esse pássaro, o Sherwood, fisgado com segurança”, explicou Barney com ares de autoridade, espanando a cinza do cigarro com sua melhor maneira de frequentador de restaurantes, “podemos jogar o jogo de cem maneiras. Mas a proposta de casamento é a melhor aposta, e existem duas formas melhores de conduzir isso.”

“Qual você acha que deveríamos usar, Barney?” indagou o velho Jimmie.

Mas Barney continuou como se o homem mais velho não tivesse feito uma pergunta. “Ambas as formas dependem de Sherwood estar perdidamente apaixonado, e de ele propor e manter a palavra. Na primeira forma, após ser pedido em casamento, Maggie deve desmoronar e confessar que é casada com um homem que não ama e que não a ama. Esse marido provavelmente lhe daria o divórcio, mas ele é um sujeito esperto e está atrás da grana, e se ele sentisse que ela queria se casar novamente com alguém com dinheiro, ele exigiria um preço alto por sua liberdade. Maggie deve confessar ainda que na verdade não tem dinheiro e, portanto, está desamparada. Então Sherwood se oferece para atender aos termos desse marido bruto. Se Sherwood cair nessa, introduzimos um marido de fachada que pega o dinheiro de Sherwood — e será uma bolada! — e esse será o último que Sherwood verá de Maggie.”

O velho Jimmie assentiu. “Quando é feito do jeito certo, isso sempre traz o dinheiro para casa.”

“A única questão é”, continuou Barney, “Maggie consegue sustentar essa história? O que me diz, Maggie? Acha que é boa o suficiente para lidar com uma proposta como essa?”

Olhando o belo Barney diretamente nos olhos, Maggie, por um momento, pensou apenas no desejo dele de controlá-la e no desafio em seu tom. Larry e o apelo que ele lhe fizera foram esquecidos, assim como Dick Sherwood.

“Qualquer coisa que você seja bom o suficiente para inventar, Barney Palmer, acho que sou boa o suficiente para executar”, respondeu ela friamente.

E então: “Qual é a outra maneira?” perguntou ela.

“Coisa velha. Teria que ser um casamento de verdade. Os Sherwood são gente de alto nível, sabe; uma irmã que é alguém importante. Após o casamento, a família descobre a verdade — talvez algo muito pior do que a verdade. A família fica horrorizada. Eles pagam a Maggie uma bolada por uma separação — do mesmo jeito que tantas famílias horrorizadas se livram de noras que não gostam. Qual das maneiras combina mais com você, Maggie?”

Maggie deu de ombros com indiferença. Combinava com seu estado de espírito atual manter sua postura de ser igual a qualquer empreitada.

“Qual você prefere, Barney?” perguntou o velho Jimmie.

“A segunda é mais segura. Mas é mais lenta; e haveria honorários advocatícios que consumiriam nossos lucros; e então, por causa da publicidade, talvez tivéssemos que esperar algum tempo antes de ser seguro usar Maggie novamente. O primeiro plano não é tão complicado, é rápido, e imediatamente temos Maggie livre para usar em outras operações. O primeiro parece a melhor aposta para mim — mas, como eu disse, não precisamos decidir ainda. Podemos deixar que os acontecimentos nos ajudem a tomar a decisão real.”

Barney não acrescentou que uma razão adicional para ele se opor ao segundo plano era que ele não queria Maggie realmente ligada em casamento a nenhum homem. Esse era um relacionamento que suas esperanças reservavam para si mesmo.

O desejo inato de Barney por uma liderança reconhecida novamente clamou por afirmação e o pressionou a dizer:

“Você vê, Maggie, quanto depende de você. Você tem uma chance enorme para uma iniciante. Espero que você se prepare bem a partir de hoje à noite e corresponda às possibilidades do seu papel.”

“Cuide da sua parte, que eu cuido da minha!” foi sua resposta cortante.

Barney ficou momentaneamente perturbado por sua segunda falha em dominar Maggie. “Ah, bem, não vamos brigar”, ele tentou dizer com naturalidade. “Nós nos entendemos, e cada um de nós está tentando ajudar o jogo do outro — esse é o ponto principal.”

Os dois homens partiram, Jimmie sem beijar a filha de boa noite. Isso não causou surpresa a Maggie. Um beijo, não a falta dele, teria sido a coisa que teria causado espanto em Maggie.

Barney saiu satisfeito, no geral, com a maneira como o caso estava progredindo, e com sua gestão dele e de Maggie. Maggie era obstinada, com certeza; mas ele logo tiraria isso dela. Ele estava agora plenamente convencido da solidez de sua explicação para o desempenho ruim de Maggie naquela noite: ela apenas teve um dia ruim.

Quanto a Maggie, depois que eles se foram, ela ficou acordada por muito tempo, pensando — e seus pensamentos voltaram irresistivelmente para Larry. Sua visita fora muito perturbadora. Mas ela não ia deixar que isso afetasse seu objetivo. Se é que algo mudou, ela estava mais determinada do que nunca a ser o que lhe dissera que seria, para provar a ele que não poderia influenciá-la.

Ela tentou tirar Larry da cabeça, mas não conseguiu. Ele era, para ela, tantas perguntas. Como ele escapara? — escapando tanto da polícia quanto dos velhos amigos? Onde ele estava agora? O que ele estava fazendo? E quando e como ele reapareceria e interferiria? — pois Maggie não tinha dúvidas, agora que sabia que ele estava em Nova York, de que ele viria novamente; e novamente tentaria impedi-la.

E havia uma questão que ela não entendia mais do que Larry, e essa era outra de suas perguntas: Por que ela entrara em pânico e ajudara na fuga dele?

Claro, de vez em quando ela pensava em Dick Sherwood. Ela até que gostava de Dick. Mas, até aquele momento, ela o via exatamente como seu esquema de vida o apresentara a ela: como um ingênuo agradável que, em uma peça emocionante na qual ela tinha o papel principal, deveria ser separado de seu dinheiro. Ela sentia certa pena dele; mas isso era trabalho, e sua pena não iria interferir no que ela faria.

Maggie Cameron, neste período de sua vida, não era profundamente introspectiva. Ela não percebia o que, segundo outros padrões, era essa coisa que ela estava fazendo. Ela estava apenas funcionando como fora ensinada a funcionar. E se alguma mudança estava começando nela, ela estava até ali totalmente inconsciente disso.

CAPÍTULO XX

O novo problema de Larry era o dilema mais difícil e delicado de sua vida — essa lealdade dividida: impedir Maggie e os dois homens por trás dela sem revelar a verdade sobre Maggie para Dick, proteger Dick sem trair Maggie. Era certamente uma situação árdua e desconcertante.

Ele não tinha a ideia tola de que poderia mudar Maggie expondo-a. Na melhor das hipóteses, ele apenas a tornaria incapaz de continuar esse curso específico; ele aumentaria sua amargura e hostilidade contra ele. De qualquer forma, de acordo com os resquícios de seu antigo código, isso não seria jogar limpo — especialmente depois que ela ajudou em sua fuga quando ele fora encurralado.

Apenas em um ponto ele estava claro, e nisso ele se tornou mais resoluto a cada hora: o que quer que ele fizesse, deveria fazer com a ideia de um despertar fundamental em Maggie. Apenas impedi-la neste único esquema seria resolver a menor parte de seu problema; Maggie permaneceria inalterada ou, se mudasse, a mudança seria em direção a uma dureza maior, e seu problema principal se tornaria mais difícil de resolver.

Ele considerou muitas maneiras. Pensou em ver Maggie novamente e apelar mais uma vez para ela. Ele vetou isso, não por causa do perigo para si mesmo, mas porque sabia que Maggie não o veria; e se ele invadisse novamente o espaço dela inesperadamente, em seu orgulho obstinado ela não daria ouvidos a nada que ele dissesse. Ele pensou em ver Barney e o velho Jimmie e, de alguma forma, colocar tanto medo de Deus naquele par que eles retirariam Maggie do empreendimento atual; mas, mesmo se tivesse sucesso em tão arriscada empreitada, Maggie ainda permaneceria inalterada. Pensou em mostrar à senhorita Sherwood o retrato escondido de Maggie, contar-lhe tudo e pedir sua ajuda; mas isso ele também vetou, pois parecia uma traição a Maggie.

Ele continuava voltando a um plano: não exatamente um plano, mas a ideia sobre a qual o plano certo poderia ser baseado. Se apenas ele pudesse habilmente, com sua mão permanecendo invisível, colocar Maggie em uma situação onde as circunstâncias apelassem de forma conquistadora para o que ela tinha de melhor, para seu senso de honra latente — essa era a ideia! Mas, por mais que forçasse o cérebro, Larry não conseguia naquele momento desenvolver um plano prático cuja base fosse essa ideia.

Mas, mesmo que Larry tivesse um plano brilhante, dificilmente seria possível ele se dedicar à sua execução, pois dois dias após sua visita a Maggie no Grantham, os Sherwood mudaram-se para sua residência de verão a cerca de sessenta quilômetros da cidade, na Costa Norte de Long Island; e Larry estava tão ocupado com os deveres de rotina pertinentes a essa migração que, no momento, tinha tempo para pouco mais. Cedar Crest era individual, porém típica das residências de verão de melhor classe de Long Island. Era uma longa construção branca de muitas varandas e muitas alas, situada em um penhasco com vista para o estreito, com uma ampla extensão de gramado sedoso, e ao redor, jardins em sua glória de junho, e atrás da casa, algumas centenas de acres de pinheiros rasteiros.

No dia seguinte, de acordo com um plano que fora elaborado entre Larry e a senhorita Sherwood, Joe Ellison apareceu em Cedar Crest e recebeu a casa do jardineiro assistente, que ficava isolada no penhasco a cerca de trezentos metros a leste da casa. Ele era um homem alto, ligeiramente curvado, de cabelos brancos, aparentemente outrora um homem de força física e dominância de caráter e com as marcas exteriores de um cavalheiro, mas agora aparentemente apenas uma sombra do homem vigoroso de seu auge. Na verdade, Joe Ellison quase escapara do maior dos flagelos da prisão, a tuberculose.

As rosas foram entregues aos seus cuidados. Por alguns breves anos, durante o auge de sua prosperidade, ele possuíra uma pequena propriedade em Nova Jersey e, durante esse período, parecera ser o cavalheiro rural. Flores tinham sido seu passatempo; de modo que agora ele não poderia ter tido um trabalho que mais lhe agradasse do que esta guarda das rosas. Para si mesmo, ele não desejava nada melhor do que passar o que restava de sua vida nesta privacidade iluminada pelo sol e em comunhão com as coisas que cresciam.

Ele apertou a mão de Larry quando ficaram sozinhos pela primeira vez na pequena casa. “Obrigado, Larry; não vou esquecer isso”, disse ele. Ele disse pouco mais. Ele não se referiu à sua vida na prisão, ou ao que viera antes dela. Ele nunca perguntara a Larry, mesmo enquanto estavam na prisão juntos, sobre as atividades e associados anteriores de Larry; e ele não fez perguntas agora. Aparentemente, era o desejo daquele homem silencioso que os ossos de seu próprio passado permanecessem enterrados, e deixar intocadas as sepulturas dos erros dos outros.

Uma figura retraída e discreta, ele se estabeleceu rapidamente em seu trabalho. Ele parecia contente, até feliz; e, às vezes, havia um olhar distante e exultante em seus olhos cinzentos. A senhorita Sherwood notou isso em várias ocasiões; isso a intrigava, e ela falou sobre isso com Larry. Larry entendia o que jazia por trás do comportamento de Joe, e como a coisa nunca lhe fora contada como um segredo, ele recontou aquela parte da história de Joe que ele recitara para a Duquesa: de uma criança que fora criada entre pessoas honradas, protegida do conhecimento de que seu pai era um prisioneiro — uma criança que Joe nunca esperava ver e nem sabia como encontrar.

Joe Ellison tornou-se uma figura que tocou profundamente a senhorita Sherwood: contente em se ocupar em sua obscuridade terrena, sempre sonhando e se regozijando com seu único grande pensamento sustentador — que ele dera a seu filho a melhor chance que as circunstâncias permitiam; que ele se removera da vida de seu filho; que em algum lugar desconhecido no mundo, seu filho estava crescendo até a maturidade entre pessoas limpas e saudáveis; que ele nunca esperava se dar a conhecer a seu filho. A situação também comovia Larry profundamente sempre que ele olhava para seu velho amigo, fundindo-se em um companheirismo gentil com a terra.

Mas, enquanto ocupado com novos assuntos em Cedar Crest, Larry estava o tempo todo pensando em Maggie, e particularmente em seu próprio dilema em relação a Maggie e Dick. Mas o plano certo ainda se recusava a tomar forma em seu cérebro. No entanto, um detalhe importante ocorreu-lhe, o qual exigia atenção imediata. Se seu procedimento em relação aos quadros de Hunt tivesse sucesso em tirar o pintor de seu eremitismo, nada era mais provável do que Hunt encontrar inesperadamente Maggie na companhia de Dick Sherwood. Isso poderia ser uma catástrofe para o plano não formado de Larry; tinha que ser evitado, se possível. Tal assunto não poderia ser tratado em uma carta, com a polícia abrindo toda a correspondência que chegava à casa da Duquesa. Então, mais uma vez, ele decidiu por uma visita secreta à casa da Duquesa. Ele calculou que tal visita seria comparativamente sem risco, uma vez que a polícia, Barney Palmer e os gângsteres que Barney colocara em sua trilha ainda acreditavam que ele estivesse em algum lugar do Oeste.

Consequentemente, algumas noites depois de se estabelecerem em Cedar Crest, ele dirigiu até Nova York em um carro esportivo que a senhorita Sherwood colocara à sua disposição e, após as precauções necessárias, entrou no estúdio de Hunt. O quarto estava desmontado, e Hunt sentava-se entre seus pertences empacotados, fumando seu cachimbo.

“Bem, rapaz”, resmungou Hunt depois de terem apertado as mãos, “você vê que me expulsou do meu lar feliz.”

“Então o Sr. Graham foi vê-lo?”

“Sim. E ele me apresentou a sua sugestão sobre uma exposição particular. E eu caí na armadilha. E agora terei de voltar ao convívio das pessoas que costumava conhecer. E vestir boas roupas e adotar um conjunto de boas maneiras padronizadas. Diabos!”

“Você não gosta disso?”

“Suponho que, se a exposição for um sucesso, vou gostar de sorrir para o bando que pensava que eu não sabia pintar. Pode apostar que vou gostar disso! Você, rapaz — suponho que esteja aqui para zombar de mim e tentar cobrar seus cinco mil.”

“Eu nunca zombo por fazer um trabalho tão fácil quanto aquele foi. E não estou aqui para cobrar minha aposta. No que diz respeito a dinheiro, estou aqui para lhe dar um pouco.” E ele entregou a Hunt o cheque nominal a “dinheiro” que o Sr. Graham lhe enviara para a mãe italiana.

“É melhor guardar isso por conta do que lhe devo”, aconselhou Hunt.

“Prefiro que você guarde para mim. E, melhor ainda, prefiro cancelar a aposta em favor de um novo negócio.”

“Qual é a nova proposta para me trapacear?”

“Você precisa de um babá de negócios. Que comissão você paga aos negociantes?”

“Tenho pago quarenta por cento àqueles ladrões.”

“Isso é demais para não fazer nada. Aqui está minha proposta. Dê-me dez por cento para atuar como seu agente pessoal, e garanto que sua porcentagem total em comissões será menor do que a atual, e que seus preços serão dobrados. É claro que não posso fazer muito enquanto a polícia e outros estiverem tão terrivelmente interessados em mim, então, se você aceitar, vamos apenas datar o acordo a partir do momento em que eu for inocentado.”

“Feito, rapaz — e vamos datar o acordo a partir deste exato momento, A.D.” Novamente Hunt apertou a mão de Larry. “Você é nota dez, Larry — e eu não estou lhe dando o suficiente.”

Isso proporcionou a Larry a abertura que ele desejava. “Você pode compensar isso.”

“Como?”

“Ajudando-me com uma proposta minha. Para ir direto ao ponto, trata-se da Maggie.”

“Maggie?”

“Acho que você sabe como me sinto em relação a ela. Ela tem um conjunto errado de ideias, e está fixa nelas — e você sabe como ela é espirituosa. Ela está no mundo agora, tentando aplicar um golpe que ela acha que é grande. Eu sei o que é. Quero impedi-la e mudá-la. Esse é meu grande objetivo — mudá-la. A única maneira de eu interromper neste momento o que ela está fazendo é expondo-a. E pouquíssimas pessoas com um desvio de caráter são corrigidas apenas por serem expostas.”

“Acho que você tem razão, Larry.”

“O que eu quero é uma chance de tentar outro método com a Maggie. Se ela for tratada da maneira certa, acho que pode se tornar uma pessoa muito diferente do que parece ser — algo que pode surpreender a nós dois.”

Hunt assentiu. “Foi por isso que pintei o retrato dela. Desde que a vi pela primeira vez, tenho tido interesse em saber como ela se sairia. Ela poderia se tornar qualquer coisa. Mas onde eu me encaixo nisso?”

“Ela está andando em companhias de alto nível. Ocorreu-me que, quando você voltasse ao seu mundo, poderia encontrá-la e, em sua surpresa, poderia falar com ela de uma maneira que equivaleria em seu efeito a uma exposição intencional. Eu queria deixá-lo em alerta e pedir-lhe que a tratasse como uma estranha.”

“Isso está prometido. Eu não a conhecerei.”

“Não prometa até saber o resto.”

“O que mais há para saber?”

“Quem é o otário que eles estão tentando depenar.” Larry observou o outro atentamente. “Você o conhece. É Dick Sherwood.”

“Dick Sherwood!” explodiu Hunt. “Você tem certeza disso?”

“Eu estava com Maggie na outra noite quando Dick veio jantar com ela; ele não me viu. Além disso, Dick me contou sobre ela.”

“Como eles conseguiram agarrar o Dick?”

“Dick é o tipo de peixe mais fácil para dois homens tão espertos como Barney e o Velho Jimmie quando eles têm uma garota bonita e inteligente como isca, e quando sabem como usá-la. Ele é generoso, impressiona-se facilmente, pensa que é um homem experiente do mundo e é, na verdade, muito crédulo.”

“Eles o fisgaram?”

“Firme e forte. Não será culpa dele se não o pegarem.”

O pintor encarou Larry com um olhar duro. Então perguntou bruscamente:

“Mostrou à senhorita Sherwood aquele quadro da Maggie que eu pintei?”

“Não. Eu tinha meus motivos.”

“O que você vai fazer com ele?”

“Guardá-lo e pagar o seu preço mais alto por ele quando eu tiver o dinheiro.”

“Hum! Disse à senhorita Sherwood o que está acontecendo com o Dick?”

“Não.”

“Por que não?”

“Pensei em fazer isso, depois decidi contra. Pelo mesmo motivo que acabei de lhe dar — que isso poderia levar à exposição, e que a exposição frustraria meus planos.”

“Você parece estar esquecendo que seu plano deixa Dick em perigo. Dick merece alguma consideração.”

“E estou dando a ele”, argumentou Larry. “Estou pensando nele tanto quanto na Maggie. Ou quase tanto. Sua irmã e amigos o tiraram de muitas enrascadas. Ele não é nem um pouco mais sábio ou melhor por esse tipo de ajuda. E não vai adiantar nada para ele ter alguém intervindo para cuidar dele novamente. Ele tem sido um bom amigo para mim, mas é um querido tolo. Quero lidar com isso de modo que ele leve um choque que o faça despertar — faça-o levar suas responsabilidades mais a sério — faça-o capaz de cuidar de si mesmo.”

“Huh!” resmungou Hunt. “Você certamente escolheu algumas tarefas de gente grande para si mesmo: fazer sucesso na vida honesta; superar a polícia e seus velhos comparsas; fazer a Maggie amar os Dez Mandamentos; me lançar no mercado; transformar Dick em um cidadão sensato. Algum outro pequeno item que gostaria de assumir?”

Larry ignorou a ironia da pergunta. “Algumas dessas coisas eu vou fazer”, disse ele com confiança. “E qualquer uma em que eu vir que vou falhar, avisarei as pessoas envolvidas. Mas, voltando à sua promessa: você está disposto a dar sua promessa agora que sabe de todos os fatos?”

Hunt puxou seu cachimbo por um longo momento. Então disse, quase bruscamente:

“Suponho que você tenha adivinhado que Isabel Sherwood é a pessoa mais importante do mundo para mim?”

Isso foi o mais perto que Hunt chegara de dizer que amava a senhorita Sherwood. Larry assentiu.

“Já estou em uma situação ruim lá. Suponha que você escorregue e tudo sobre o Dick dê errado. Qual será minha situação quando ela descobrir que eu sabia de tudo o tempo todo, fiquei parado quieto e deixei as coisas acontecerem? Entende no que estarei me metendo?”

“Entendo”, disse Larry, com o ânimo diminuindo. “E, claro, posso entender sua decisão de não dar sua promessa.”

“Quem disse que eu não daria minha promessa?” exigiu Hunt. “Claro que dou minha promessa! Tudo o que eu disse foi que a previsão do tempo do meu dedão do pé prevê que provavelmente haverá uma tempestade por causa disso — e quero que você use seu cérebro, rapaz, quero que use seu cérebro!”

Ele ergueu sua figura grande e descabelada e apertou a mão de Larry. “Você está bem, Larry — e desejo-lhe sorte! Agora suma daqui antes que Gavegan e Casey apareçam para uma xícara de chá, ou seus velhos amigos comecem a praticar tiro ao alvo com suas armas de quadril. Quero um pouco de sossego para terminar de fazer as malas.”

“E escute, rapaz”, acrescentou ele, enquanto empurrava Larry para fora da porta, “não morra de susto ao me ver quando nos encontrarmos a seguir, pois é provável que eu esteja andando por aí dentro de toda a elegância e vaidade da Quinta Avenida.”

CAPÍTULO XXI

Larry desceu a escada do estúdio de Hunt em um estado de grande euforia. Através da promessa de cooperação de Hunt, ele tinha, pelo menos, começado seu plano ainda não formado em relação a Maggie. De alguma forma, ele elaboraria e levaria adiante o restante.

Então, a previsão de Hunt sobre os problemas que poderiam surgir devido ao seu silêncio voltou à mente de Larry. De fato, aquela era uma situação delicada! — contendo todo tipo de possíveis desastres para si mesmo, bem como para Hunt. Ele teria de ser muito vigilante, muito cuidadoso, ou se veria em circunstâncias piores do que as atuais.

Ao descer para o pequeno quarto dos fundos, sua avó estava sentada sobre suas intermináveis contas, cada uma das quais representava um pequeno lucro para si mesma, algumas um pequeno alívio para muitos, outras uma tragédia para poucos; e muitas das quais estavam em código, pois representavam transações de um caráter que nenhuma casa de penhores, especialmente uma com fama de receptadora, deseja que jamais sejam compreendidas por aqueles intrometidos presunçosos, a polícia. Quando Larry entrara pela primeira vez, ela apenas lhe deu um “boa noite” sem surpresa e permitiu que ele passasse. Mas agora, ao despedir-se e virar para sair, ela disse com sua voz fina e monótona:

“Sente-se por um minuto, Larry. Quero falar com você.”

Larry obedeceu. “Sim, avó.”

Mas a Duquesa não falou de imediato. Ela manteve seus olhos avermelhados e sem piscar fixos nele. Larry esperou pacientemente. Embora ela fosse tão composta, tão contida, Larry a conhecia bem o suficiente para saber que o que se passava em sua mente era algo de profunda importância, pelo menos para ela.

Por fim, ela falou. “Você viu a Maggie naquela noite em que saiu apressado daqui?”

“Sim, avó. Você teve notícias dela desde então? Ou de Barney ou do Velho Jimmie?”

A Duquesa balançou a cabeça. “Você se importa em me contar o que aconteceu naquela noite — e o que a Maggie está fazendo?”

Larry contou-lhe sobre a cena na suíte de Maggie no Grantham, contou sobre o plano em que ela estava envolvida e de seu próprio dilema adicional. A Duquesa aparentemente ignorou este último ponto.

“Exatamente o que eu supunha que ela estivesse fazendo”, disse ela. “E você tentou novamente fazer com que ela desistisse disso?”

“Sim.”

“E ela recusou?”

“Sim.” E ele acrescentou: “Recusou mais enfaticamente do que antes.”

A Duquesa o estudou por um longo momento. Então: “Você não está tentando fazê-la desistir disso apenas porque acha que ela vale a pena ser salva. Você gosta muito dela, Larry?”

“Eu a amo”, admitiu Larry.

“Sinto muito por isso, Larry.” Havia uma emoção real na voz velha agora. “Eu disse a você que você é tudo o que me resta. E agora que você finalmente começou pelo caminho certo, quero que tudo corra bem com você. Tudo! E Maggie nunca ajudará as coisas a correrem bem com você. Seu amor por ela só pode significar miséria e infortúnio. Você não pode mudá-la.”

Larry soltou as perguntas que ele próprio se fizera com tanta frequência nestes últimos dias. “Mas por que o jeito dela mudou tanto quando ela ouviu Barney e os outros? Por que ela me ajudou a escapar?”

“Isso foi porque, lá no fundo, ela realmente ama você. Essa é a pior parte: vocês dois se amam.” A Duquesa balançou a cabeça lentamente. “Vocês dois se amam. Se não fosse por isso, eu não me importaria com o que você tentasse fazer. Mas eu lhe digo novamente, você não pode mudá-la. Ela é muito segura de si. Ela sempre tentará fazer você seguir o caminho dela — e se você não seguir, nunca receberá um sorriso dela. E porque vocês se amam, temo que você ceda e siga o caminho dela. É disso que tenho medo. Você não poderia simplesmente tirá-la da sua vida, Larry?”

Tinha sido um discurso prodigiosamente longo para a Duquesa. E Larry percebeu que a emoção por trás dele era mil vezes maior do que a que aparecia na voz fina da figura curvada e sem gestos.

“Por você, sinto muito, avó. Mas eu não posso.”

“Então é justo lhe dizer, Larry”, disse ela em um tom mais composto que expressava uma finalidade de decisão, “que se houver algo que eu possa fazer para impedir isso, eu farei. Pois ela é ruim para você — com seu espírito obstinado — e as ideias que o Velho Jimmie colocou nela — e o modo como o Velho Jimmie a criou. Eu impedirei as coisas se puder.”

Larry não respondeu. A Duquesa continuou a olhá-lo fixamente por um longo tempo. Ele sabia que ela estava pensando; e ele se perguntava o que se passava por aquela mente velha e astuta, quando ela comentou:

“A propósito, Larry, acabei de me lembrar do que você me contou sobre aquele velho amigo de Sing Sing — Joe Ellison. Você teve notícias dele recentemente?”

“Ele saiu, e está trabalhando onde eu estou.”

“Sim? O que ele está fazendo?”

“Ele está trabalhando lá como jardineiro.”

Novamente ela ficou em silêncio por um espaço, seus olhos encovados fixos em pensamento. Então ela disse:

“Dos vinte aos trinta anos, conheci bem Joe Ellison — melhor do que jamais lhe contei. Ele conhecia sua mãe quando ela era uma menina, Larry. Gostaria que você pedisse a ele para vir me ver. Assim que ele puder.”

Larry prometeu. Sua avó não disse mais nada sobre Maggie e, pouco depois, Larry desejou-lhe boa noite e seguiu seu caminho cauteloso, sempre atento ao perigo, até onde deixara seu carro esportivo, e de lá, em segurança, para Cedar Crest. Mas a Duquesa sentou-se por horas exatamente como ele a deixara, suas contas esquecidas, pensando, pensando, pensando sobre uma possibilidade absolutamente impossível que lhe ocorrera pela primeira vez, fracamente, vários dias antes. Ela não via como a coisa poderia ser; e, no entanto, de alguma forma, poderia ser, pois muitas coisas estranhas aconteciam neste mundo marginal onde ela vivera por tanto tempo. Quando finalmente foi para a cama, dormiu pouco; suas conjecturas agitadas não permitiam o sono. E embora no dia seguinte tenha circulado pela loja aparentemente como de costume, ela continuava a pensar.

Naquela noite, Joe Ellison veio. Eles se encontraram como se tivessem se visto pela última vez apenas ontem.

“Boa noite, Joe.”

“Prazer em vê-la, Duquesa.”

Ela estendeu-lhe uma caixa dos melhores charutos, que comprara para sua chegada, pois lembrara do gosto outrora exigente de Joe Ellison em relação ao tabaco. Ele acendeu um, e eles caíram no silêncio fácil dos velhos amigos, retomando a amizade exatamente de onde ela fora interrompida. Na verdade, Joe Ellison poderia ter sido seu genro não fosse por sua própria atitude firme. Ele conhecera sua filha muito melhor do que suas palavras para Larry na noite anterior haviam indicado. Joe não apenas a conhecera enquanto menina ali, mas muito mais tarde descobriu em que convento ela estava estudando e houve namoros clandestinos apesar das regras e limites do convento — até que a Duquesa soubesse o que estava acontecendo. Ela tivera uma conversa franca e direta com Joe; o romance terminara abruptamente; e, mais tarde, a mãe de Larry casou-se com outro. Mas o romance sufocado não fez diferença na amizade entre a Duquesa e Joe; cada um reconhecia o outro como correto, como essa palavra era compreendida em seu mundo marginal.

Para Joe Ellison, a Duquesa mudara pouco desde vinte e poucos anos atrás. Ela parecia velha mesmo naquela época; embora, quando jovem, ele tivesse conhecido velhos que falavam de sua beleza quando jovem e de como ela reinava entre os espíritos imprudentes daquela época distante. Mas, para a Duquesa, a mudança em Joe Ellison era espantosa. Ela o vira pela última vez por volta dos trinta e cinco anos: cabelos pretos, bonito, cuidadoso com o vestir, físico poderoso, dominante, gênio ardente, destemido diante de qualquer ser vivo, mas com essas qualidades ardentes controladas em uma aparência externa de equanimidade inabalável por seu autocontrole e sua reticência habitual. E agora vê-lo magro, de cabelos brancos, curvado, seu velho fogo aparentemente reduzido a cinzas cinzentas — a Duquesa, que vira muito em suas gerações, ficou quase horrorizada com a transformação.

No início, a Duquesa guiou habilmente a conversa para lugares-comuns.

“Larry me diz que você está trabalhando com ele.”

“Sim”, disse Joe. “Larry tem sido um grande companheiro.”

“O que você vai fazer quando recuperar suas forças?”

“O mesmo que estou fazendo agora — se me permitirem.”

E após uma pausa: “Talvez mais tarde, se eu tivesse o capital necessário, gostaria de começar um pequeno viveiro. Ou então cultivar flores para o mercado.”

“Não vai voltar para a coisa antiga, então?”

Joe balançou a cabeça branca. “Terminei tudo isso. Flores são uma proposta mais interessante.”

“Sempre que você estiver pronto para começar, Joe, pode ter todo o capital que quiser comigo. E não lhe custará nada. Ou, se preferir pagar, custará o mesmo que em um banco — seis por cento.”

“Obrigado. Vou me lembrar.” Joe Ellison não poderia ter expressado sua gratidão com mais força.

A Duquesa agora guiava cuidadosamente a conversa na direção daquilo em que pensara tão constantemente.

“A propósito, Joe, Larry me contou algo sobre você que eu nunca tinha ouvido antes — que você tinha sido casado e teve um filho.”

“Sim. Você não ouviu porque eu não estava contando a ninguém sobre isso quando aconteceu, e nunca veio a público.”

“Se importa de me contar sobre isso, Joe?”

Ele puxou seu charuto enquanto reunia os fatos; e então fez um dos discursos mais longos que Joe Ellison — “Joe Silencioso”, como alguns de seus amigos o chamavam nos velhos tempos — jamais foi conhecido por proferir. Mas havia uma razão para sua extensão; era um resumo do período mais importante de sua vida.

“Eu tive uma pequena propriedade rural em Jersey por três ou quatro anos. Tudo aconteceu lá. Ninguém me conhecia pelo que eu era; eles me tomaram pelo que pretendi ser, um pequeno capitalista cujos interesses exigiam que eu fizesse viagens ocasionais. Bons vizinhos. Foi lá que conheci minha esposa. Ela era ótima em todos os sentidos. É por isso que mantive toda aquela parte da minha vida longe dos meus comparsas; eu temia que eles pudessem deixar escapar e a verdade estragasse tudo. Minha esposa era órfã, sobrinha da viúva de um corretor que morava lá fora. Ela nunca soube a verdade sobre mim. Ela morreu quando o bebê nasceu. Quando o bebê tinha um ano e meio, meu grande colapso aconteceu, e eu fui para a prisão. Mas nunca fui ligado ao homem que morava em Jersey e que de repente cancelou seu contrato de aluguel e se mudou.”

A Duquesa aproximou-se do cerne de seus pensamentos.

“O bebê era menino ou menina, Joe?”

“Menina.”

A Duquesa não chegou a piscar. “Quantos anos ela teria agora?”

“Dezoito.”

“Qual era o nome dela?”

“Mary — em homenagem à mãe. Mas, claro, ordenei que fosse mudado. Não sei qual é o nome dela agora.”

A Duquesa pressionou mais.

“O que aconteceu com ela, Joe?”

Um brilho começou a surgir nos olhos sombrios de Joe Ellison. “Eu lhe disse que a mãe dela era uma mulher maravilhosa, e ela nunca soube nada de ruim sobre mim. Eu queria que minha filha crescesse como a mãe. Eu queria que ela tivesse uma chance tão boa quanto qualquer uma daquelas boas garotas de Jersey — eu queria que ela nunca conhecesse nenhum do bando que conheci — eu queria que ela nunca tivesse a mancha de saber que seu pai era um vigarista — eu queria que ela nunca soubesse sequer quem era seu pai.”

“Como você conseguiu isso?”

“A mãe dela tinha deixado uma pequena fortuna, cerca de vinte e cinco mil — doze ou quinze centenas por ano. Entreguei o dinheiro e a menina ao meu melhor amigo — e o amigo mais correto que um homem já teve — o único a quem deixei saber sobre minha vida em Jersey. Eu disse a ele o que fazer. Ela era uma menina muito brilhante; com um ano e meio, quando a vi pela última vez, ela já estava falando. Ela deveria ser criada entre pessoas simples e boas — ir a uma boa escola — crescer para ser uma garota simples e boa. E, especialmente, nunca saber nada sobre mim. Ela deveria acreditar que era órfã. E meu amigo fez exatamente como ordenei. Ele me escrevia como ela estava se saindo até cerca de quatro anos atrás, então recebi a notícia de que ele havia morrido e que o fundo fiduciário tinha sido transferido para um escritório de advocacia, embora não me tivessem dado o nome dos advogados. Isso não faz diferença, já que ela está recebendo o dinheiro do mesmo jeito.”

“Qual era o nome do seu amigo, Joe?”

“Jimmie Carlisle.”

A Duquesa tinha certeza de qual seria este nome, mas, mesmo assim, não pôde reprimir um sobressalto.

“Qual é o problema?” perguntou Joe bruscamente. “Você o conhecia?”

— Não naqueles dias — disse a Duquesa, recuperando seu tom sereno. — Embora eu tenha passado a conhecê-lo mais tarde. A propósito — acrescentou casualmente —, Jimmie Carlisle teve filhos?

— Não antes de eu ir embora. Ele nem sequer era casado.

Não restava agora a menor dúvida na mente da Duquesa. Maggie era realmente filha de Joe Ellison.

Joe Ellison continuou, o brilho de seus olhos encovados tornando-se ainda mais exaltado. Ele quase expressava seus pensamentos apenas para si mesmo, pois sua amizade com a Duquesa era tão antiga que a presença dela não representava qualquer inibição. Suas palavras em voz baixa eram quase idênticas em substância ao que Larry havia dito — um resumo do que se tornara sua única grande esperança e sonho, a coisa mais próxima que ele tinha de uma religião.

— Em algum lugar, num bom lugar, minha filha agora está crescendo como a mãe. Limpa de tudo o que eu fui e o que eu conheci. Ela deve ser praticamente uma mulher agora. Não sei onde ela está — não há como eu descobrir. E não quero saber. E não quero que ela jamais saiba sobre mim. Eu nunca quero ser a causa de fazê-la sentir-se desonrada, ou de arrastá-la para baixo, para longe das pessoas a quem ela pertence.

A Duquesa não deu nenhum sinal visível de emoção, mas as fibras de seu coração antigo foram postas a vibrar por aquela voz tensa e grave. Ela teve um impulso momentâneo de contar-lhe a verdade. Mas, naquele momento, a Duquesa estava uma confusão de muitos impulsos conflitantes, e o equilíbrio de suas forças era, por ora, contra a revelação. Portanto, ela não disse nada.

A conversa deles voltou aos lugares-comuns e, pouco depois, Joe Ellison foi embora. A Duquesa permaneceu imóvel em sua escrivaninha, novamente pensando — pensando — pensando; e quando Joe Ellison estava de volta à sua casa de jardineiro em Cedar Crest e adormecido feliz, ela ainda permanecia onde ele a deixara. Durante suas gerações observando a vida por dentro, ela vira a verdade de muitas situações estranhas sobre as quais o mundo soubera apenas os rumores mais selvagens ou as versões mais respeitáveis; mas durante as longas horas da noite, talvez porque o assunto a tocasse tão de perto, esta lhe pareceu a situação mais estranha que já conhecera. Um pai acreditando com a firme convicção de uma certeza estabelecida que sua filha fora criada livre de toda a mancha de sua própria vida, cuidadosamente educada entre as melhores pessoas. Na realidade, a menina fora criada numa atmosfera criminosa, com ideias criminosas implantadas nela como ideias normais, e cuidadosamente treinada em caminhos e ambições criminosas. E nem o pai nem a filha tinham qualquer suspeita da verdade.

De fato, era uma situação estranha! Uma situação carregada de todo tipo de resultados imprevisíveis.

A Duquesa compreendeu agora o desinteresse pouco paternal que o velho Jimmie demonstrara pelo bem-estar comum de Maggie. Não sendo seu pai, ele não se importara. Superficialmente, pelo menos, Jimmie Carlisle devia ter sido um indivíduo muito mais plausível vinte anos antes, para ter conquistado a confiança implícita de Joe Ellison e se tornado seu principal amigo. Ela entendeu uma razão pela qual o velho Jimmie sempre colocara Maggie nos lugares mais baratos e inferiores; sua cobiça oculta vinha, assim, embolsando cerca de mil dólares por ano do dinheiro do fundo fiduciário há mais de dezesseis anos.

Mas havia um problema curioso aqui para o qual a Duquesa não conseguia, naquele momento, ver a resposta. Se Jimmie Carlisle desejava satisfazer sua cobiça e trair seu amigo, por que ele não tinha, desde o início, colocado Maggie em um orfanato onde ela não seria nem encargo nem custo para ele, e assim ter feito uso de cada centavo do fundo fiduciário? Por que ele escolhera mantê-la perto de si e treiná-la cuidadosamente para ser exatamente o que seu pai mais desejara que ela não fosse? Deve ter havido algum motivo na mente furtiva e tortuosa do velho Jimmie que agora talvez permanecesse para sempre um mistério.

Claro que ela via, ou achava que via, a razão para o relato da morte do velho Jimmie a Joe Ellison. Aquele relato fora enviado para evitar uma prestação de contas.

Enquanto ela se sentava durante as horas da noite, a Duquesa, pela primeira vez, sentiu um calor invadi-la por Maggie. Ela via Maggie sob a luz de uma vítima. Se Maggie tivesse sido criada como seu pai planejara, ela poderia agora ser muito bem a garota com quem seu pai sonhava. Mas o velho Jimmie entrara no esquema das coisas. Sim, a audaciosa, obstinada e confiante Maggie, decidida a conquistar o mundo da maneira que o velho Jimmie e, mais tarde, Barney Palmer lhe ensinaram, era realmente apenas uma pobre vítima desencaminhada que deveria ter tido um destino muito diferente.

E agora a Duquesa chegava a um dos maiores problemas de sua vida. O que ela deveria fazer? Considerando os fatos de que Joe Ellison desejava a vida de um recluso e queria evitar toda conversa sobre os velhos tempos, as chances eram de que ele nunca tropeçasse no verdadeiro estado das coisas. Apenas ela e o velho Jimmie conheciam o essencial da situação — e muito provavelmente Jimmie ainda não sabia que o amigo que um dia confiara nele era agora um homem livre. Ela sentia como se segurasse em suas mãos os fios do destino. Deveria contar a verdade?

Ela ponderou longamente. Todas as suas considerações ganhavam peso de acordo com o que ela via como seu possível efeito sobre Larry; pois Larry era a única pessoa que lhe restava e a quem ela amava, e nele estavam fixadas as aspirações destes seus anos finais. Portanto, seus pensamentos e argumentos eram míopes, quase necessariamente especiosos. Ela queria ver a justiça ser feita, é claro. Mas, acima de tudo, ela queria o que fosse melhor para Larry. Se ela contasse a verdade, isso poderia resultar em algum tipo de colapso temporário na atitude de Maggie que a aproximaria de Larry. Isso seria desastroso. Se não desastroso imediatamente, certamente seria no final. Maggie era uma vítima e, sem dúvida, merecia simpatia. Mas outros não deveriam ser sacrificados apenas porque Maggie sofrera uma injúria. Ela estivera tempo demais sob a tutela do velho Jimmie, e os ensinamentos dele eram agora fibras profundas demais de seu próprio ser para que ela mudasse permanentemente. Ela poderia mudar temporariamente sob o impulso de uma revelação emocional; mas certamente voltaria a ser quem era. Não havia dúvida disso.

E a Duquesa deu peso a outras considerações — todas humanas, embora todas, em certa medida, especiosas. Joe Ellison era feliz em seu sonho e seria feliz nele pelo resto de sua vida. Por que contar a verdade e destruir sua preciosa ilusão? — especialmente quando não havia chance de mudar Maggie?

E, além disso, ela se lembrou do temperamento terrível que vivia dentro da conduta composta de Joe Ellison. Os fogos daquele temperamento ainda não podiam estar todos extintos. Se ela contasse a verdade, dissesse que Jimmie Carlisle ainda estava vivo, isso poderia ser apenas tocar no gatilho de uma tragédia devastadora — poderia ser um desastre para todos. Qual seria o uso, quando ninguém teria sido beneficiado?

E assim, na sabedoria de sua cabeça velha e nos emaranhados de seu coração velho, a Duquesa decidiu que nunca contaria. E a essa decisão amorosa e humana ela se apegaria através do estresse dos tempos por vir.

Mas, mesmo enquanto ela decidia assim por uma medida para dar xeque-mate em ambos, Larry caminhava de um lado para o outro em seu quarto em Cedar Crest, finalmente desenvolvendo com entusiasmo o plano esquivo que traria Maggie aos seus sentidos e também para ele; e Maggie, totalmente inconsciente deste novo elemento que entrara como um fator potencial em sua existência, totalmente inconsciente de quão longe ela fora guiada para fora do curso que fora traçado para ela, estava deitada acordada no Grantham após uma festa tardia na qual Dick Sherwood fora seu acompanhante, e exultava orgulhosamente sobre a aparente consumação próxima do plano que mostraria a Larry Brainard quão errado ele estava e que a estabeleceria como a mulher mais inteligente em seu ramo — melhor até do que Barney ou o velho Jimmie acreditavam que ela fosse.

E assim vontades separadas esforçavam-se para dirigir suas próprias vidas e as vidas de outros de acordo com seus próprios planos separados; pouco pensando em que extensão estavam todos enredados em um destino comum; e não pensando de forma alguma na semente adicional que estava sendo semeada para a época da colheita do turbilhão.

CAPÍTULO XXII

Após os muitos dias e noites de Larry de busca fútil em seu cérebro por um plano que estivesse de acordo com sua ideia fundamental para despertar o outro eu insuspeitado de Maggie, o plano, que finalmente lhe veio completo em todos os seus detalhes em um único momento, era tão simples e óbvio que ele se maravilhou por ter estado claramente diante de seus olhos durante todo esse tempo sem que ele jamais o visse. É claro que o plano era perigoso e de resultado duvidoso. Tinha que ser assim, porque envolvia as reações de pessoas de temperamento forte ainda não conhecidas, que não teriam conhecimento prévio do projeto por trás de seu novo relacionamento; e porque seu sucesso ou fracasso, que também poderia significar seu próprio fracasso completo, a perda total de tudo o que ele havia ganhado até então, dependia largamente do rumo dos eventos que ele não podia prever e, portanto, não podia guiar.

Em resumo, seu plano era manejar de tal forma que Maggie fosse recebida na casa dos Sherwood como convidada, que ela recebesse a hospitalidade franca e sem questionamentos (e talvez a amizade) de uma mulher tão graciosa, de alto nível e despretensiosa como a senhorita Sherwood, tão distintamente uma nativa do grande mundo, e não uma imigrante nele. Ser recebida como amiga por aqueles contra quem ela conspirava, ter a amizade generosa e insuspeita da senhorita Sherwood — se algo naquele momento tivesse uma chance de abrir os olhos vendados de Maggie para o mal e o erro do que ela estava envolvida, se algo tivesse uma chance de apelar para as coisas mais finas que ele acreditava existirem não reconhecidas ou reprimidas em Maggie, era isso.

E a melhor parte deste plano, seu efeito seria apenas dentro do próprio ser de Maggie. Ninguém precisaria saber que algo acontecera. Não haveria exposição, nenhuma humilhação.

É claro que havia a grande questão de como levar a senhorita Sherwood a convidar Maggie; e se, de fato, a senhorita Sherwood a convidaria. E havia a questão adicional, enviado o convite, de se Maggie aceitaria.

Larry decidiu manipular seu projeto através de Dick Sherwood. No final daquela tarde, quando Dick, recém-chegado da cidade, passou, como era seu costume antes do jantar, pelo escritório-estudo que fora reservado para o uso de Larry, Larry, após uma abordagem hábil ao seu assunto, continuou:

— E já que fui imposto a você como uma espécie de tio postiço, há algo que eu gostaria de sugerir — se não parecer que estou forçando a entrada em seus assuntos.

— A porta está destrancada e escancarada, Capitão — disse Dick. — Entre e escolha a melhor poltrona.

— Obrigado. Lembra-se de ter me falado sobre uma jovem que você conheceu recentemente? Uma senhorita Maggie... Maggie...

— Senhorita Cameron — lembrou Dick. — É claro que me lembro.

— E lembra-se de me dizer que, desta vez, é algo sério?

— E É algo sério!

— Você não... desculpe-me... pediu a ela em casamento ainda?

— Não. Estava tentando criar coragem.

— É aqui que você tem que me desculpar mais uma vez, Dick — não é da minha conta lhe dizer quais devem ser suas relações com sua família —, mas você contou à sua irmã?

— Não. — Dick hesitou. — Suponho que deveria. Mas eu não tinha pensado nisso... ainda. Você vê... — Novamente Dick hesitou.

— Sim? — incentivou Larry.

— Há os parentes dela... aquele primo e aquele tio. Acho que deve ter sido o meu pensamento neles que me impediu de pensar no que você sugeriu.

— Mas você me disse que eles não interferiram muito, e nunca interfeririam. — Larry pressionou gentilmente seu ponto: — E olhe pelo ângulo de visão da senhorita Cameron. Se é algo sério, e você está se comportando dessa maneira em relação a ela, ela não tem bons motivos para achar estranho que você não a tenha apresentado à sua família?

— Pelo amor de Deus, você tem razão, Capitão! Vou cuidar disso imediatamente.

— É claro, Dick — continuou Larry, tateando cuidadosamente o terreno —, você sabe muito melhor do que eu a maneira adequada de fazer tais coisas... mas você não acha que seria bastante agradável, quando contar à sua irmã, sugerir a ela que convide a senhorita Cameron para vir aqui para uma pequena visita? Se é para elas se conhecerem, eu sei que a senhorita Cameron, ou qualquer garota, consideraria um tributo maior ser recebida em sua própria casa do que meramente se encontrarem em um grande hotel comum.

— Certo novamente, Capitão! Vou falar com Isabel hoje à noite e pedir que envie o convite... só que tenho um compromisso de correr de volta para a cidade para uma pequena festa assim que eu juntar algumas coisas, e passarei a noite no apartamento. Mas cuidarei disso amanhã à noite, com certeza.

— Posso pedir apenas um favor enquanto isso?

— Um favor? Uma dúzia, Capitão!

— Ficarei com os outros onze mais tarde. Por enquanto, peço apenas, já que você não a pediu em casamento, que não... er... se comprometa mais, de forma alguma, com a senhorita Cameron até depois que você tiver contado à sua irmã e até depois que a senhorita Cameron tiver vindo aqui.

— Oh, espere aí! — protestou Dick.

— Estou apenas sugerindo que os assuntos permaneçam *in statu quo* até depois da visita da senhorita Cameron à sua irmã. Isso não é pedir muito de você, Dick... nem pedir por muito tempo.

— Oh, é claro que farei isso, Capitão — resmungou Dick afetuosamente. — Você me deixou em uma posição em que farei quase tudo o que você quiser que eu faça.

Mas Dick não falou com sua irmã na noite seguinte. Na manhã seguinte, chegaram notícias à senhorita Sherwood sobre a doença de uma amiga, e ela e sua tia, leitora de romances, partiram imediatamente para o que se provaria ser uma ausência de uma semana. Mas esse atraso em seu plano não preocupou Larry muito como teria preocupado de outra forma, pois Dick repetiu sua promessa de manter as rédeas curtas consigo mesmo até depois de ter falado com sua irmã. E Larry acreditava que podia confiar na palavra empenhada de Dick.

Durante esta semana de espera e inatividade necessária, Larry concentrou-se em outra fase de seu plano multifacetado: fazer de si mesmo um sucesso comercial. Como foi dito, ele viu sua chance disso no gerenciamento dos assuntos da senhorita Sherwood; e viu isso particularmente em uma ideia que começara a crescer nele desde que se tornara ciente, através de declarações e cartas dos agentes que lhe foram entregues, da extensão das propriedades imobiliárias dos Sherwood e desde que obtivera algum vislumbre de sua condição. Suas incursões anteriores pela cidade lhe haviam gerado um senso de segurança moderada; então ele agora começou a fazer viagens rápidas a Nova York no elegante carro esportivo que a senhorita Sherwood colocara à sua disposição.

Em cada viagem, Larry fazia visitas rápidas a várias das propriedades, até que finalmente cobriu toda a lista que a senhorita Sherwood lhe fornecera através dos agentes. Seu levantamento corroborou sua suposição. A propriedade, em sua maioria prédios de apartamentos e cortiços negligenciados, estava em um estado quase igualmente ruim, quer se olhasse do ponto de vista do saneamento, do conforto ou do retorno financeiro frio. A culpa disso era o fato de que os Sherwood haviam deixado a propriedade inteiramente aos cuidados dos agentes, e os agentes, sendo velhos, antiquados e cansados dos negócios a ponto de estarem quase prontos para se aposentar, haviam deixado a propriedade à própria sorte.

Impulsionado por essas más condições, e até certo ponto pela crise de moradia da época, com seus registros de alguns milhares de famílias sem ter para onde ir e alguns milhares de famílias sendo forçadas, pelo simples bem do abrigo, a pagar duas ou três vezes o que podiam pagar por alguns quartos pobres, e com seus registros de proprietários especuladores, Larry começou a fazer anotações para um plano que pretendia elaborar mais tarde — um plano que ele intitulou tentativamente: “Sugestões para o Desenvolvimento das Propriedades Imobiliárias dos Sherwood”. Larry, sabendo pelos talões de cheques da senhorita Sherwood o que provavelmente a agradaria, deu tanta consideração ao Serviço quanto ao Lucro. A base de seu plano crescente era bons apartamentos com aluguéis justos. Ele via isso como o maior dos serviços públicos na crise atual. Mas o retorno sobre o investimento precisava ser razoável. Larry não acreditava em Caridade, exceto para casos extremos. Ele acreditava, e sua crença nascera de uma ampla experiência com muitos tipos de pessoas, que a Caridade, é claro que em menor extensão, era tão definitivamente uma fonte de mal social quanto a então muito comentada Especulação.

Enquanto isso, ele via seu velho amigo, Joe Ellison, todos os dias; talvez fumando com Ellison em sua casa após ele ter terminado seu dia de trabalho entre as rosas, talvez caminhando ao longo do precipício que pairava sobre o Sound, cujas águas frescas e claras espirravam com preguiça de férias sobre o cascalho. Os dois homens raramente falavam, e nunca sobre o passado. Larry conhecia bem, e compreendia, o desejo profundamente enraizado do homem mais velho de evitar toda conversa que tocasse nos feitos e associados de outros dias; essa era uma parte de sua vida e uma fase da existência que Joe Ellison estava tentando esquecer, e Larry, com seu silêncio, respeitava o desejo de seu amigo.

No dia seguinte à visita de Joe Ellison à Duquesa, Larry recebera um bilhete de sua avó, endereçado, é claro, ao “Sr. Brandon”. Não havia perigo em ela escrever para Larry se tomasse as precauções adequadas: a correspondência endereçada a Cedar Crest não era incomodada pelos funcionários postais e policiais; era apenas a correspondência que chegava à casa da Duquesa que recebia a atenção desses senhores.

O bilhete era um que a Duquesa, após aquela noite de reflexão que tanto abalara seu velho coração, decidira ser uma necessidade se seu plano de nunca contar sobre sua descoberta da verdadeira paternidade de Maggie fosse um sucesso. A maior parte de seu bilhete tratava de uma generalidade com a qual Larry já estava familiarizado: o desejo de Joe de se manter afastado de toda conversa que tocasse nos feitos e nas pessoas de seu passado. E então, em uma última frase que parecia descuidada, a Duquesa compactou o conteúdo cuidadosamente calculado de todo o seu bilhete:

“Pode não ser muito importante — mas evite particularmente mencionar o mero nome de Jimmie Carlisle. Eles costumavam se conhecer, e a relação deles é sobre a coisa mais amarga que Joe Ellison tem a lembrar.”

É claro que ele nunca mencionaria o velho Jimmie Carlisle, Larry disse a si mesmo enquanto destruía o bilhete — nunca adivinhando, ao dar essa resposta natural ao que parecia ser um pedido dos mais naturais, que ele se tornara um parceiro inconsciente no plano da Duquesa, de coração caloroso e cheia de estratagemas.

Havia um detalhe do comportamento de Joe Ellison que despertava a curiosidade leve de Larry. Logo abaixo de um dos jardins de Joe, a mal cem metros de distância, ficava um pedaço de praia e um pavilhão que eram usados em comum pelas famílias das propriedades vizinhas. As garotas e mulheres mais jovens tinham acabado de chegar da escola e da faculdade e, na maré alta, estavam sempre na praia. Nesse período, sempre que estava em Cedar Crest, Larry via Joe, com seu trabalho aparentemente esquecido, olhando fixamente para as jovens figuras espirrando na água em seus trajes de banho brilhantes ou descansando ao redor do pavilhão em seus elegantes vestidos de verão.

Esse interesse fazia Larry se perguntar, embora, certamente, não de forma muito séria. Pois ele nunca teve qualquer palpite de quão profundo era o interesse de Joe. Ele não sabia, não podia saber, que aquela figura alta e fixa, com sua ideia única e absorvente, estava pensando em sua filha. Ele não podia saber que Joe Ellison, emocionalmente exaltado e com um afeto faminto e abnegado que se estendia a todas elas, estava vendo sua filha como exatamente uma garota como uma daquelas — simples, saudável, bem-educada. Ele não podia saber que Joe, de certa forma, percebia sua filha em cada jovem agradável que via.

Maggie olhou para Hunt, atordoada. — Você... você não me reconheceu lá atrás? — perguntou ela, com a voz embargada.

— Reconhecer? — ele soltou uma risada curta e rouca. — Maggie, eu pintava você todo santo dia durante semanas. Eu conheço cada traço do seu rosto melhor do que conheço o meu próprio espelho. Claro que eu sabia quem era você. Mas eu também sabia qual era o jogo.

— O jogo? Que jogo? — A voz dela soou fraca, desprovida de qualquer um dos seus habituais artifícios de altivez.

— Ora, o jogo do nosso amigo Larry. — Hunt inclinou-se para trás, com um brilho divertido nos olhos. — Eu não sei exatamente que tipo de teia ele está tecendo, mas ele me procurou outro dia e deu a entender que, se eu aparecesse aqui e agisse como se você fosse uma estranha perfeita, isso ajudaria em algo que ele chama de "projeto". Ele é um estrategista, esse rapaz. E, para ser honesto, Maggie, você parece muito mais convincente como uma moça da alta sociedade do que como a modelo que costumava frequentar o pardieiro da Duquesa.

Maggie sentiu uma onda de calor subir pelo seu pescoço. A ideia de que Larry Brainard estava por trás daquilo, orquestrando sua presença, seu disfarce e até mesmo o comportamento de Hunt, a deixou em um estado de choque profundo.

— Larry? — ela repetiu. — Por que ele faria isso? Por que ele se daria ao trabalho?

Hunt deu de ombros, observando uma pétala de rosa cair sobre o casaco de flanela. — Larry é um sujeito estranho. Ele tem essa mania de querer consertar as peças do tabuleiro, de tentar fazer com que as pessoas se encaixem em lugares onde, talvez, elas nunca tenham pensado em estar. Talvez ele ache que você merece algo melhor do que o ambiente onde eu te conheci. Ou talvez ele só goste de ver o circo pegar fogo. De qualquer forma, você está indo muito bem. A Srta. Sherwood parece ter caído direitinho.

— Ela é... ela é tão diferente do que eu imaginei — disse Maggie, como se falasse consigo mesma. — Ela não é fria, nem desconfiada. Ela foi tão gentil.

— É aí que mora o perigo, não é? — Hunt sorriu, mas o sorriso não alcançou seus olhos. — Quando as pessoas são cruéis, você sabe exatamente como reagir. Você levanta o queixo, dispara uma resposta afiada e está tudo bem. Mas quando alguém te trata como uma igual... isso é muito mais difícil de sustentar, Maggie. Você começa a se perguntar se não está apenas fingindo, e a mentira começa a pesar nas costas.

Maggie ficou em silêncio, sentindo o peso daquelas palavras. A "aurora boreal" de esperanças de Barney parecia, naquele momento, apenas um brilho falso e efêmero. O que ela sentia não era mais a excitação da vitória, mas um medo crescente de que, ao subir tanto, a queda seria inevitável.

— Você não vai me denunciar, vai? — perguntou ela, com uma nota de vulnerabilidade que raramente permitia que alguém visse.

Hunt levantou-se e ajeitou o casaco. — Eu? De jeito nenhum. Eu sou um artista, Maggie. E, neste momento, acho que você é a obra de arte mais interessante que já vi. Estou curioso para ver como esse quadro termina. Mas, por favor, faça um favor a si mesma: tente não acreditar demais na sua própria mentira. É um caminho escorregadio.

Ele fez uma reverência quase exagerada e, sem esperar por uma resposta, começou a caminhar de volta em direção à casa. Maggie permaneceu sentada no banco rústico, cercada pelas rosas Hiawatha, sentindo-se mais sozinha do que nunca, apesar de estar exatamente onde queria. O "projeto" de Larry era, de fato, uma obra de mestre, mas Maggie começou a suspeitar que, enquanto ela tentava enganar o mundo, era a si mesma que ela estava, pouco a pouco, perdendo.

Ela mal ouvira as suas piadas. Não precisava de lhe fazer perguntas sobre a sua presença ali; a sua naturalidade transmitira-lhe inconscientemente, desde o primeiro instante, que a sua anterior avaliação, meio desdenhosa, estava completamente errada e que ele se encontrava agora no seu elemento natural. A sua primeira pergunta foi direta à causa do seu espanto.

“Não me reconheceu quando me viu pela primeira vez com a Miss Sherwood?”

“Reconheci.”

“Não ficou surpreendido?”

“Não,” respondeu ele com uma monossilabicidade deliberada.

“Por que não?”

“Fui avisado de que provavelmente a encontraria — e aqui.”

“Aqui! Por quem?”

“Por conselho do meu advogado, devo recusar-me a responder.”

“Por que não disse à Miss Sherwood quem eu sou e me desmascarou?”

“Porque me pediram para não dizer.”

“Pedido por quem?”

“Maggie,” disse ele, arrastando as palavras, “parece estar a ter sucesso neste negócio de vigarista, mas acho que teria sido ainda mais brilhante como interrogadora criminal. Contudo, recuso-me a ser interrogado mais tempo. A propósito,” continuou ele, arrastando a voz, “como vão essas almas queridas, Barney e o velho Jimmie?”

Ela ignorou a pergunta dele.

“Por favor! Quem lhe pediu para não contar?”

Houve um brilho súbito de malícia bem-humorada nos olhos dele. “Importa-se que eu fume?”

“Não.”

Ele tirou uma cigarreira de prata e abriu-a. “Vazia!” exclamou. “Desculpe-me enquanto vou buscar algo para fumar à casa. Volto já.”

Sem esperar pela permissão dela, saiu do caramanchão e ela ouviu os seus passos a rangerem no caminho de cascalho. Maggie aguardou o seu regresso num suspense palpitante. A sua situação estava a desenvolver-se para além de tudo o que alguma vez sonhara; tremia com o que poderia acontecer a seguir. Estava tão absorvida pelo seu caos de sentimentos e pensamentos que nem ouviu a humilde sinfonia das centenas de abelhas a extraírem o seu tesouro dos corações dourados das rosas; e não viu, do outro lado do caminho, a vinte metros de distância, a figura alta de Joe Ellison entre as roseiras, com tesouras de poda na mão, com as quais estivera a cortar flores mortas, a observá-la com aquele olhar faminto, admirado e especulativo com que costumava olhar para as jovens na praia.

Pouco depois, ouviu os passos de Hunt a descerem o caminho. Depois, detetou um segundo par. Dick a acompanhá-lo, pensou ela. E então Hunt apareceu diante dela e dizia, com a sua voz grave: “Miss Cameron, permita-me apresentar o meu amigo, o Sr. Brandon.” E depois acrescentou, em voz baixa, sorrindo com o deleite travesso de um rapaz grande que prega uma partida: “Achei melhor passar pelas formalidades de vos apresentar, para que parecesse que se tinham acabado de conhecer.” E, dito isto, partiu.

Maggie levantara-se galvanizada. Por um momento, só conseguiu fitá-lo. Depois, conseguiu pronunciar o seu nome.

“Larry!” sussurrou ela. “Você aqui?”

“Sim.”

Por mais espantada que estivesse, tinha notado instantaneamente a total ausência de espanto por parte de Larry.

“Você... você não está surpreendido por me ver?”

“Não,” disse ele calmamente. “Eu sabia que você estava aqui. E antes disso, sabia que você viria.”

Aquilo era quase demasiado para Maggie. Hunt sabia e Larry sabia; ambos eram pessoas pertencentes à sua vida antiga, ambos as últimas pessoas que esperava encontrar em tais circunstâncias. Ela só conseguia fitá-lo — completamente desconcertada com este encontro.

E, de facto, era um encontro estranhamente diferente da última vez que o vira, no Grantham; estranhamente diferente daqueles encontros anteriores na casa da Duquesa, quando ambos eram ainda larvas por metamorfosear. Agora, ali no caramanchão, pareciam um par de convidados de fim de semana, condizentes com o lugar. Pois, como Maggie notara, Larry, nas suas flanelas bem cortadas, estava tão transformado quanto Hunt.

Foi Larry quem quebrou o silêncio. “Sentamo-nos?”

Ela afundou-se mecanicamente no banco, ainda a fitá-lo.

“O que está a fazer aqui?” conseguiu ela respirar.

“Eu pertenço a este lugar.”

“Pertence aqui?”

“Eu trabalho aqui,” explicou ele. “Chamam-me 'Sr. Brandon', mas a Miss Sherwood sabe exatamente quem eu sou e o que tenho sido.”

“Há quanto tempo está aqui?”

“Desde aquela noite em que Barney e o velho Jimmie a levaram para começar a sua nova carreira — a mesma noite em que fugi daqueles pistoleiros que pensavam que eu era um delator, e de Casey e Gavegan.”

“E durante todo o tempo em que Barney, o meu pai e a polícia pensaram que você estava escondido em algum lugar no Oeste, você esteve com os Sherwood?”

“Sim. E tenho de permanecer escondido até que algo aconteça que me ilibe. Se a polícia ou o Barney e os seus amigos descobrirem onde estou... pode imaginar o que acontecerá.”

Ela assentiu.

“Hunt trouxe-me para cá,” continuou ele a explicar. “Estou a ajudar a tentar organizar melhor os assuntos comerciais dos Sherwood. Mais vale dizer-lhe, Maggie,” acrescentou calmamente, “que Dick Sherwood é um grande amigo meu.”

“Dick Sherwood!” suspirou ela.

“E mais vale dizer-lhe,” continuou, “que, desde aquela noite no Grantham em que ouvi a sua voz, soube que o Dick é o otário que você, o Barney e o velho Jimmie estão a tentar enganar.”

Ela levantou-se a meio, e a sua voz soou agudamente: “Então apanhou-me numa armadilha! Contou-lhes sobre mim?”

“Não.”

“Por que não?”

“Não fale tão alto, ou podemos atrair atenções,” avisou-a ele. “Não contei porque você teve a oportunidade de me denunciar ao Barney naquela noite no Grantham. E você não me denunciou.”

Ela afundou-se lentamente de volta no banco. “É essa a sua única razão?”

“Não,” respondeu ele com sinceridade. “Expor você significaria apenas que você ficaria mais ressentida comigo — e mais ressentida com todos os outros. Não quero isso.”

Ela ponderou isto por um momento. “Então... não vai contar?”

Ele abanou a cabeça. “Não pretendo. Quero que você seja livre para decidir o que vai fazer — embora espere que decida não levar isto que está a fazer até ao fim.”

Ela não respondeu. Larry falara com controlo até agora, mas as suas palavras seguintes irromperam dele.

“Não vê em que situação isso me colocou, Maggie — a tentar ser honesto com os meus amigos, os Sherwood, e a tentar ser honesto com você?”

Novamente ela não respondeu.

“Maggie, você é demasiado boa para o que está a fazer — é tudo um erro terrível!” clamou ele apaixonadamente. Depois lembrou-se de si mesmo e falou com mais compostura. “Oh, eu sei que não vale muito a pena falar consigo agora — enquanto se sente assim sobre si mesma — e enquanto se sente assim sobre mim. Mas você sabe que a amo e que quero casar consigo — quando...” Ele hesitou.

“Quando?” instigou ela, quase involuntariamente.

“Quando você vir as coisas de forma diferente — e quando eu puder andar pelo mundo como um homem livre, não como um fugitivo do Barney, dos seus pistoleiros e da polícia.”

Novamente Maggie ficou em silêncio por um momento. Era como se estivesse a tentar expulsar da mente o que ele dissera sobre amá-la. Verdadeiramente, este encontro era, de facto, diferente dos anteriores. Antes, havia quase invariavelmente uma atitude de desafio, uma disputa, uma briga. Agora, não sentia desejo de brigar.

Finalmente, disse com um esforço para ser aquela pessoa autocontrolada que estabelecera como modelo:

“Parece ter aqui a sua oportunidade de levar a cabo aquilo de que se gabou para mim. Lembre-se de ter sucesso de uma forma honesta.”

“Sim. E terei sucesso — se ao menos me deixarem em paz.” Ele fez uma pausa por um instante. “Mas não tenho ilusões quanto ao presente,” continuou ele calmamente. “Estou em águas calmas por algum tempo; tenho um período de segurança; e estou a aproveitar esta oportunidade para trabalhar arduamente. Mas em breve a polícia, o Barney e os outros saberão onde estou. Então terei de enfrentar essa luta toda de novo — só que da próxima vez será mais difícil.”

Ela foi sobressaltada para uma demonstração de interesse. “Você acha que isso vai mesmo acontecer?”

“É inevitável. Não há como escapar. Se não por outra razão, eu próprio não serei capaz de suportar estar confinado indefinidamente. Algo acontecerá, não sei o quê, que me puxará para o mundo exterior — e então, para mim, o dilúvio!”

Ele fez esta previsão com severidade. Não era um fatalista, mas tinha-lhe ocorrido recentemente que aquilo era inescapável. Quanto a ele, quando chegasse a hora, iria travar a melhor luta que pudesse.

Ele notou o olhar tenso que surgira no rosto de Maggie, e isso levou-o subitamente a inclinar-se para ela e a dizer:

“Maggie, ainda pensa que eu sou um alcaguete e um delator?”

“Eu...”

Ela interrompeu-se. Teve um impulso avassalador de continuar e dizer algo a Larry. Muito. Não tinha consciência do que seria esse "muito". Tinha consciência apenas do impulso. Havia uma agitação demasiado grande dentro dela, nascida da tensão da sua visita à Miss Sherwood e destes encontros inesperados, para que qualquer motivo, impulso ou decisão emergisse para uma supremacia, ainda que breve. E assim, durante este período em que o seu cérebro não funcionava, deixou-se levar pelo ímpeto das forças que determinaram anteriormente a sua direção — o seu orgulho, a sua autoconfiança, a sua ambição, a aliança de fortuna entre ela, o Barney e o velho Jimmie.

Estavam sentados neste silêncio quando passos soaram novamente no cascalho, e uma sombra obscureceu o chão do caramanchão.

“Com licença, Larry,” disse a voz de um homem.

“Com certeza. O que é, Joe?”

Diante de si, Maggie viu o homem alto e magro de fato-macaco, o seu chapéu de abas largas removido revelando o seu cabelo branco, a quem ela notara pouco antes a trabalhar entre as flores. Ele segurava um ramo das melhores colheitas dos abundantes jardins de rosas, com os caules presos em folhas de ácer como proteção temporária contra os espinhos. Fitava Maggie, um respeito e admiração faminta nos seus olhos sombrios.

“Pensei que talvez a jovem apreciasse estas.” Ele estendeu-lhe as rosas. E depois rapidamente, para evitar uma recusa: “Cortei mais do que podemos usar para a casa. E gostaria que a senhorita as tivesse.”

“Obrigada,” e Maggie pegou nas flores.

Por um instante, os seus olhares cruzaram-se. Em todas as circunstâncias externas, o evento era um lugar-comum — este encontro de pai e filha, sem se conhecerem. Era pouco mais do que um lugar-comum para Maggie: apenas um jardineiro alto, de cabelos brancos, a oferecer-lhe rosas respeitosamente. E não era muito mais para Joe Ellison: apenas um tributo evocado pelo seu interesse faminto em cada rapariga de aparência agradável com a idade aproximada da sua filha.

Ao fim do momento, Joe Ellison fez uma vénia e começou a caminhar de volta para os seus canteiros de flores. “Quem é aquele homem?” perguntou Maggie, a fitá-lo enquanto se afastava. “Nunca vi olhos assim.”

“Costumávamos ser camaradas em Sing Sing,” respondeu Larry. Continuou a dar brevemente alguns dos detalhes da história de Joe Ellison, sem nunca imaginar como ele e Maggie estavam enredados nessa história, nem como haveriam de estar envolvidos no seu desenredo. Talvez tivessem sorte nessa ignorância. Dentro dos limites do que eles já sabiam, a vida já continha problemas e complicações suficientes.

Larry acabara de terminar a sua história condensada quando Dick Sherwood apareceu e ordenou que fossem para a varanda tomar chá. Eram apenas cinco: a Miss Sherwood, Maggie, Hunt, Dick e Larry. A Miss Sherwood estava tão graciosa como antes, e aparentemente tomou a maneira tensa de Maggie e as suas confusões ocasionais como prova adicional da sua autenticidade. Dick sorria perante a impressão que ela estava a causar à sua irmã.

Quanto a Maggie, estava a viver o clímax da tensão daquela tarde. E não ousava mostrá-lo. Forçou-se a representar o seu melhor papel, bebendo o seu chá com a mão firme. E o que tornava a sua situação mais difícil era o facto de dois dos presentes, Larry e Hunt, a tratarem com a deferência encantada que poderiam dedicar a uma estranha encantadora, quando uma palavra de qualquer um deles poderia destruir o frágil edifício do seu engano.

Finalmente, terminou, e tudo estava pronto para ela regressar à cidade com Dick. Quando a Miss Sherwood a beijou e lhe pediu calorosamente que voltasse em breve, o restinho do seu controlo parecia estar a escapar-se-lhe — mas ela aguentou. Conseguiu despedir-se de Larry e Hunt à maneira dos seus novos conhecimentos.

“Não é simplesmente esplêndida!” exclamou a Miss Sherwood quando Dick entrou no carro e os dois partiram.

Larry fingiu não ter ouvido. Sentia-se precariamente culpado perante esta mulher que o acolhera. No instante seguinte, tinha esquecido a Miss Sherwood e os seus pensamentos palpitantes estavam todos em Maggie, naquele carro em movimento. Ela tinha ficado profundamente abalada pela experiência daquela tarde, disto ele sabia. Mas qual seria o efeito real sobre ela do seu plano cuidadosamente pensado? Seria tal que a salvaria, a ela e ao Dick? — e, eventualmente, a ganharia para si próprio?

Na presença da Miss Sherwood, Larry tentou comportar-se como se nada tivesse acontecido além da interrupção agradável de um chá informal: mas, sob aquela calma, todos os seus sentidos aguardavam, por assim dizer, sem fôlego, notícias do que acontecera dentro de Maggie, e do que poderia estar a acontecer-lhe.

CAPÍTULO XXV

Quando Maggie se afastou de Cedar Crest no banco baixo do *roadster* ao lado do feliz Dick, sentiu-se mais criminosa do que em qualquer outro momento da sua vida, e uma criminosa que, milagrosamente, estava a escapar de um conjunto de circunstâncias inescapáveis.

Para além do seu alívio por esta fuga, não sabia nestes primeiros minutos o que pensar ou sentir. Acontecera demasiado, e o que acontecera revelara-se tão diferente do que ela esperava, que não conseguia organizar este caos de reações dentro de si mesma e ler o significado da visita daquela tarde. Conseguiu, com um grande esforço, manter sob controlo as extremidades exteriores dos seus sentidos, e assim responder com o "sim" ou "não" ou "de facto" correto quando alguma resposta lhe era exigida pela conversa feliz de Dick.

Perto de Roslyn, saíram da estrada principal para um caminho sombrio e pouco frequentado. Dick manobrou para um lado, debaixo de uma alfarrobeira, e silenciou o motor.

“Por que está a parar?” perguntou ela, sobressaltada.

“Para podermos falar sem que uma máquina impertinente ruja interrupções para nós,” respondeu Dick com uma leviandade forçada. E depois, com uma voz que não conseguia tornar leve: “Quero falar consigo sobre... sobre a minha irmã. Não é ela esplêndida?”

“É!” Não houve hesitação nos seus pensamentos quando Maggie disse isto enfaticamente.

“Estou muito contente por gostar dela. Ela certamente gostou de si. É toda a família que tenho, e como vocês as duas se deram tão bem, espero... espero, Maggie...”

E então Dick mergulhou no assunto, gaguejando, mas com sinceridade. Disse-lhe o quanto a amava, em frases antigas que o seu ardor juvenil tornava vibrantemente novas. Ele amava-a! E se ela casasse com ele, a sua influência fá-lo-ia tomar o rumo que todos os seus amigos lhe tinham aconselhado. Ela torná-lo-ia um homem! E ela podia ver como isso faria a sua irmã feliz. E ele faria o seu melhor para tornar Maggie feliz — o seu melhor absoluto!

A jovem super-aventureira — ela própria usara mentalmente a palavra "aventureira" ao pensar em si mesma, como sendo mais elegante e mentalmente aristocrática do que as palavras mais cruas que Barney, o velho Jimmie e os do seu tipo designavam uma cúmplice feminina — esta jovem super-aventureira, que planeira tudo isto tão habilmente e trabalhara para tal com o melhor do seu cérebro e do seu charme consciente, foi tomada por um novo pânico enquanto ouvia a torrente ansiosa das suas palavras suplicantes, enquanto fitava a agitação sincera daquele rosto franco de olhos azuis. Desejou poder sair do carro e fugir ou desaparecer através do chão do veículo. Pois ela gostava realmente de Dick.

“Eu... eu não sou tão boa como pensa,” sussurrou ela. E então, alguma força insuspeitada dentro dela impeliu-a a dizer: “Dick, se soubesse a verdade...”

Ele agarrou-lhe os ombros. “Eu sei toda a verdade sobre si que quero saber! Você é maravilhosa e eu amo-a! Quer casar comigo? Responda a isso. É tudo o que quero saber!”

Ele detivera a confissão que impulsivamente surgira para os lábios dela. Em silêncio, com os olhos arregalados, a respiração ofegante, ela sentou-se a fitá-lo... E então, da parte do seu cérebro onde estavam guardados os seus propósitos e o ímpeto do seu orgulho e determinação, surgiu a constatação de que ela tinha ganho! Aquilo que Barney e o velho Jimmie tinham preparado e para o que ela trabalhara tão habilmente, fora finalmente alcançado! Só tinha de dizer "sim", e qualquer um daqueles dois planos que Barney delineara poderia ser imediatamente posto em prática — e não poderia haver dúvidas quanto ao sucesso rápido de qualquer um deles. O rosto ansioso e confiante de Dick era a garantia de que não haveria obstrução da parte dele.

Sentiu que, de alguma forma estranha, fora apanhada numa armadilha. Sim, o que tinham trabalhado para conseguir, tinham ganho! E, contudo, neste momento de vitória, como elementos da sua vasta vertigem, Maggie sentiu-se enjoada e envergonhada — sentiu um desejo frenético de fugir de todo o assunto. Pois Maggie, cínica, confiante e com dezoito anos, estava a revelar-se uma aventureira muito pobre.

“Por favor, Maggie” — a voz suplicante dele interrompeu-a — “não me quer responder? Você gosta de mim, não gosta? — você vai casar comigo, não vai?”

“Gosto de si, Dick,” conseguiu ela articular — e foi um ligeiro consolo para ela estar a dizer esta parte da verdade — “mas... mas não posso casar consigo.”

“Maggie!” Foi um grito de dor surpreendida, e a dor na voz dele atingiu-a agudamente. “Pela forma como agiu comigo... eu pensei... eu esperava...” Ele interrompeu bruscamente a acusação que subira aos seus lábios. “Não vou aceitar essa resposta como definitiva, Maggie,” disse ele tenazmente. “Vou dar-lhe mais tempo para pensar — mais tempo para eu tentar. Depois pergunto-lhe novamente.”

Aquilo que motivou a resposta de Maggie foi uma mistura de impulsos: o desejo, e esta oportunidade oferecida, de fugir; e uma ténue reafirmação do ímpeto do seu propósito. Pois, com alguém como Maggie, os propósitos definidos podem parecer ser esmagados, mas a morte é difícil.

“Está bem,” respirou ela rapidamente. “Só, por favor, leve-me de volta o mais depressa que puder. Tenho um jantar com o meu... meu primo, e chegarei muito atrasada.”

Dick levou-a para a cidade num silêncio quase ininterrupto e deixou-a às grandes portas do Grantham, movimentadas por uma dúzia de lacaios em libré púrpura. Ela ficou por um momento a vê-lo afastar-se. Ele era realmente um bom rapaz, o Dick.

Enquanto subia no elevador, pensou num elemento até então esquecido da situação desconcertante daquela tarde. Barney Palmer! E o Barney estava, ela sabia, agora na sua sala de estar, à espera impacientemente pelo seu relato do que ele tinha boas razões para acreditar que provaria ser uma experiência bem-sucedida. Se ela dissesse a verdade — que Dick pedira em casamento, exatamente como tinham planeado que ele fizesse — e ela recusara-o — bem, Barney...!

Parecia apanhada de todos os lados!

Maggie entrou na sua suíte pelo quarto. Queria tempo para reunir o juízo para encontrar Barney. Quando a Miss Grierson lhe disse que o seu primo ainda a esperava para jantar, pediu à sua acompanhante que informasse Barney de que estaria pronta assim que terminasse de se vestir. Desperdiçou todo o tempo que pôde legitimamente a mudar para um vestido de jantar, e quando finalmente entrou na sua sala de estar, era, aos olhos de Barney, a mesma Maggie fria de sempre.

Barney levantou-se quando ela entrou. Estava de casaco de jantar elegante; naqueles dias, Barney usava o que havia de mais elegante que o dinheiro podia obter. Havia uma sombra de impaciência no seu rosto, mas foi instantaneamente dissipada pela beleza composta e de olhar direto de Maggie.

“Como te safaste com a Miss Sherwood?” sussurrou ele avidamente.

“Bem o suficiente para ela me beijar de despedida e implorar que volte.”

“Tenho de te dar o mérito, Maggie! És mesmo uma atriz fantástica — tens muita classe!” Os seus olhos escuros brilhavam ao contemplá-la com meia dúzia de prazeres: admiração pelo que ela era em si mesma — admiração pelo que acabara de alcançar — antecipação de resultados, muitos resultados — antecipação do que ela viria a significar para ele a nível pessoal. “Se consegues enganar uma tipa fina como a Miss Sherwood, consegues enganar qualquer um!” exultou ele. “Assim que terminarmos este trabalho, passaremos de uma grande coisa para outra!”

E então veio a pergunta para a qual Maggie se andava a preparar: “E o Dick Sherwood? Finalmente avançou com aquele pedido de casamento?”

“Não,” respondeu Maggie com firmeza.

“Não? Por que não?” exclamou Barney bruscamente. “Eu pensava que era só isso que o impedia — estar à espera que a irmã te analisasse e desse o seu O.K.?”

Maggie decidira que o seu ar de certeza fria e indiferente era a melhor forma de lidar com esta situação com Barney. Por isso, encolheu os ombros brancos.

“Como posso eu saber o que leva um homem a fazer algo, e o que o impede de o fazer?”

“Mas ele pareceu menos interessado em ti do que antes?” insistiu Barney.

“Não,” respondeu Maggie.

“Então talvez esteja apenas à espera de ganhar coragem. Ele vai pedir-te, claro; não há nada com que nos preocupar. Vamos lá, vamos jantar. Estou a morrer de fome.”

No terraço do Grantham foram excelentemente servidos; pois Barney sabia como pedir um jantar, e conhecia a arte, que é uma mistura alquímica de diplomacia suave e o poder insinuado e o propósito de assassinato, de lidar com chefes de mesa e os seus subautocratas. Não tendo outro assunto em mãos, Barney dedicou-se ao negócio que corria como um núcleo através de todos os seus negócios — cortejar Maggie. E quando Barney desejava ser um cortesão, poucos da sua classe conseguiam dar uma interpretação superficial melhor do papel; e, neste caso em particular, ele tinha a vantagem de estar a falar a sério. Forçou Maggie a provar os acepipes mais caros anunciados na ementa; colocou e retirou galantemente e com muita graça, conforme exigido pelas circunstâncias, o lenço de teia de aranha verde que Maggie trouxera para o terraço como proteção contra os elementos; e quando a levou para a pista de dança, girou-a, saltitou e entrou e saiu com toda a perícia de um mestre da perversão moderna da dança. Barney era realmente bom o suficiente para ter sido um dançarino profissional, se os seus desejos não o tivessem levado para o que lhe parecia ser uma carreira mais emocionante e rentável.

Maggie, para não despertar as suspeitas de Barney, desempenhou o seu papel tão bem como ele o dele. E a maioria dos outros clientes, uma fração das duzentas ou trezentas mil pessoas que mudam constantemente do Sul e do Oeste e que escolhem Nova Iorque como a melhor de todas as estâncias de verão, olhavam para este par elegante com os seus passos intrincados, cronometrados com tal precisão invejável e sem esforço, e acreditavam, entusiasmados, que estavam a contemplar dois espécimes distintos daquilo a que os seus jornais locais insistiam em chamar os Quatrocentos de Nova Iorque.

Maggie voltou ao seu quarto com a sensação de que tinha evitado Barney e os seus numerosos outros dilemas para o presente imediato. O seu pensamento principal nos muitos acontecimentos do dia tinha sido apenas escapar aos seus perigos e dificuldades por um momento; durante todo o tempo, soubera que o seu pensamento real, as suas decisões reais, seriam para uma altura posterior, quando não estivesse tão pressionada pela carga de circunstâncias inesperadas. Esse tempo menos stressante estava agora a começar.

O que deveria ela fazer a seguir? Quais seriam as suas decisões finais? E o que, em todo este estranho fermento, era provável que germinasse como possíveis forças contra ela?

Refletiu sobre estas coisas durante vários dias, durante os quais Dick foi vê-la duas vezes, propôs-lhe casamento duas vezes e foi adiado duas vezes. Tinha sossego agora, e estava na maior parte do tempo sozinha, mas aquela clareza que esperava, aquela rapidez e segurança de propósito que sempre acreditou serem infalivelmente suas, recusava-se a surgir.

Tentou que fosse de outra forma, mas a figura proeminente nas suas meditações era Larry. Larry, que não a expusera nos Sherwood, e cuja influência levara Hunt também a não a expor — Larry, que sem engano estava em pé de igualdade nos Sherwood, onde ela só fora recebida através de truques — Larry, um fugitivo em perigo de tantos inimigos, talvez, afinal, inimigos imerecidos — Larry, que parecia estar a cumprir a sua promessa de alcançar o sucesso através da honestidade — Larry, que lhe voltara a dizer que a amava. Ela gostava de Dick Sherwood — gostava mesmo. Mas Larry — isso era algo diferente.

E assim continuou a pensar, puxada para um lado e para o outro, e incapaz de chegar a uma decisão. Mas, com a maioria das pessoas, quando num estado de tumulto mental agudo, aquilo que tem sido mais definido no passado, o instinto, o hábito de pensamento, o propósito, a tradição, torna-se pelo menos temporariamente o fator dominante através da mera circunstância de ter existido poderosamente antes, através da sua estabilidade comparativa, através da sua semipermanência. E assim com Maggie. Naquela única tarde, ela tinha quase sido ganha contra si mesma pelos trabalhos da diplomacia secreta de Larry. Depois veio a reação natural. E agora, no seu tumulto, na medida em que tinha alguma decisão, era instintivamente seguir em frente na direção em que tinha ido.

Mas no sexto dia da sua incerteza, logo após Dick a ter visitado e ela ter aceitado provisoriamente um convite para Cedar Crest para a tarde seguinte, um perigo que ela tinha meio previsto desde o início explodiu sobre ela sem um momento de aviso. Entrou na sua sala de estar, pouco antes da hora de jantar, na forma dupla de Barney e do Velho Jimmie. Os rostos de ambos eram carrancudos.

“Livra-te dessa governanta paspalha!” rangeu Barney. “Vamos ter uma conversa a sério!”

Maggie dirigiu-se à porta de ligação, enviou Miss Grierson num recado irrelevante e regressou.

“Estás com um aspeto tão agradável como se estivesses a posar para uma fotografia nova, Barney. O que te dá essa expressão doce?”

“Vais deixar-te de piadas de banda desenhada num segundo,” avisou-a Barney. “Vimos ambos o jovem Sherwood há pouco tempo, quando ele saía do Grantham, e ele contou-nos tudo!”

A pilhéria falhou, de facto, a Maggie. “Tudo?” exclamou ela. “O que é tudo?”

“Ele contou-nos que te propôs casamento há quase uma semana, e que tu o recusaste. E mentiste-nos — deixaste-nos sentados à espera, a perder o nosso tempo — e durante todo esse tempo estiveste a enganar-nos!”

Aqueles visitantes do Sul e do Oeste, especialmente as mulheres, que algumas noites antes, no terraço, tinham considerado Barney o cortesão perfeito, não o teriam estimado tanto se o vissem naquele momento. Ele agarrou os pulsos de Maggie, e toda a maldade da sua natureza violenta brilhava nos seus pequenos olhos vivos.

“Maldita sejas!” gritou ele. “Jimmie, ela é tua, e um pai tem o direito de fazer o que bem entender à sua própria filha. Dá-lhe uma tareia se ela não disser a verdade!”

Jimmie aproximou-se dela e arreganhou os dentes amarelos. “Não te dou uma sova desde os quinze anos — mas vou dar-te uma na boca se não falares a verdade!”

“Ouves isso!” rangeu Barney para ela. Ele acreditava que havia justiça na sua ira — como, de facto, havia, à sua maneira. “Pensa no que o Jimmie e eu investimos nisto, em tempo e dinheiro vivo! Demos-te a tua oportunidade, nós fizemos-te! E depois, após trabalho árduo e espera e de termos gasto tanto, e tudo sai exatamente como calculámos, tu vais e desiludes-nos — não apenas a ti mesma, mas a nós e aos nossos direitos! Agora fala a verdade! Diz-nos, por que recusaste o Sherwood quando ele te pediu em casamento? E por que me mentiste sobre ele não te ter pedido?”

Maggie percebeu que estava numa situação desesperada, com aqueles dois olhares inflamados sobre ela. Nunca sentira tão pouco carinho de filha pelo Velho Jimmie como agora, quando olhava para o seu rosto magro, duro e de dentes amarelos. E não tinha ilusões sobre Barney. Ele podia amá-la, como ela sabia que amava; mas isso não seria um travão à sua crueldade se ele se achasse frustrado ou traído.

Nesse preciso momento, o seu telefone começou a tocar. Ela começou a mover-se na sua direção, mas o aperto de Barney deteve-a de imediato.

“Vais responder-me a mim — não a nenhum telefone dos diabos! Deixa tocar!”

A campainha tocou durante um ou dois minutos antes de silenciar o seu clamor estridente. O toque foi, de certa forma, um breve respiro para Maggie, pois deu-lhe tempo adicional para considerar qual deveria ser o seu rumo. Percebeu que não podia deixar Barney acreditar, naquele momento, que ela se tinha voltado contra ele. Recorreu novamente à sua atitude fria e autoconfiante.

“Queres saber porquê? A resposta é simples. Pensei que podia experimentar uma melhoria no nosso plano — algo que me pudesse servir melhor.”

“O que é isso?” exigiu Barney asperamente.

“Uma vez que a Miss Sherwood se deixou enganar por mim tão facilmente, ocorreu-me que ela teria a certeza de se deixar enganar por mim se eu lhe contasse toda a verdade sobre mim própria. Isto é, tudo exceto o nosso esquema para fazer do Dick um otário.”

“Onde queres chegar?”

“Não vês? Se ela me perdoasse por ser o que sou, e acho que ela perdoaria, e com o Dick a gostar de mim como gosta — bem, pareceu-me a melhor coisa para a vossa menina casar com o Dick para sempre.”

“O quê?” Embora a voz de Barney fosse baixa, teve o efeito de um rugido assustado e selvagem. “E mandar-nos à fava?”

“De modo algum. Se eu casasse com o Dick para sempre, pretendia pagar-vos uma quantia fixa, ou então uma quantia regular a cada ano.”

“Não, não vais!” gritou Barney no mesmo rugido abafado.

“Talvez não — ainda não decidi,” disse Maggie calmamente. “Apenas vos estive a dizer, como me pediram, por que fiz o que fiz. Recusei o Dick, e menti-vos, para que pudesse ter mais tempo para pensar sobre o que realmente queria fazer.”

Instintivamente, ela contara com o despertar do ciúme de Barney para o afastar do rasto dos seus pensamentos reais. Teve sucesso.

“Eu digo-te o que vais fazer!” atirou-lhe Barney com mestria feroz. “Não vais concretizar um casamento a sério com nenhum Dick Sherwood! Quando houver um casamento desse tipo, eu serei o homem! E tu vais seguir em frente com o nosso plano antigo! O Dick vai pedir-te outra vez se lhe deres metade de uma oportunidade. E quando ele o fizer, tu dizes 'sim'! Entendido? É isso que vais fazer!”

Não havia segurança em desafiar abertamente Barney. E, na verdade, o que ele ordenara era o que, nas correntes instáveis dos seus pensamentos, o ímpeto constante das suas antigas ambições e propósitos a vinha a empurrar. Por isso ela disse, com a sua voz calma:

“Desperdiças tanta da tua boa energia, Barney, a explodir quando não há nada que exploda. Isso é exatamente o que eu tinha decidido fazer. A Miss Sherwood convidou-me para Cedar Crest amanhã à tarde, e eu vou.”

Barney largou o aperto que mantinha nos pulsos dela, e o olhar sombrio afastou-se lentamente do seu rosto. “Porque é que não contaste isto ao teu parceiro logo de início?” resmungou ele a meio gás. Depois, com um entusiasmo sombrio: “E quando voltares, vais dizer-nos que está tudo resolvido!”

“Claro — se ele me pedir. E agora, suponham que vocês os dois vão embora. Deram-me uma dor de cabeça, e quero descansar.”

“Nós vamos,” disse Barney. “Mas pode haver mais alguns pontos sobre isto que talvez queiramos discutir um pouco mais tarde hoje à noite. Por isso, é melhor descansares tudo o que puderes.”

Mas quando eles foram embora e a deixaram no silêncio da sua suíte pretensiosa e sem caráter, Maggie não descansou. Tinha tomado uma decisão; ia fazer como dissera. Mas ainda havia o mesmo tumulto dentro dela.

Pensou novamente em Larry. Mas não admitia a si própria que o seu verdadeiro motivo para decidir subitamente ir a Cedar Crest no dia seguinte fosse a oportunidade de o ver.

CAPÍTULO XXVI

Durante todos estes dias, Larry aguardou por notícias do resultado da experiência em psicologia que significava tanto para a sua vida. Não esperava ouvir diretamente de Maggie; mas contava saber de imediato por Dick, se não por palavras, então ou por uma rejeição eloquente que proclamaria a recusa de Dick (e o sucesso de Larry) ou por uma alegria efervescente que proclamaria que Maggie o aceitara. Mas o comportamento sóbrio, embora não infeliz, de Dick não anunciava nenhum dos dois a Larry; e o assunto era demasiado pessoal, demasiado delicado, para permitir que Larry perguntasse a Dick o resultado, por muito subtilmente que o pudesse perguntar.

Portanto, Larry só podia esperar — e imaginar. A verdade não ocorreu a Larry; ele não viu que pudesse haver outra alternativa às duas reações possíveis que tinha calculado. Não teve em mente que a obstinação juvenil de Maggie, a sua crença em si mesma e nos seus métodos, eram uma estrutura demasiado sólida para ceder de imediato a um choque moral, por muito sabiamente planeado e por muito forte que fosse. Não manteve na mente, neste momento, que qualquer mudança real numa personagem tão decidida como Maggie, se mudança houvesse, seria precedida e acompanhada por um período turbulento em que ela dificilmente saberia quem era, ou onde estava, ou o que ia fazer — e que, no final desse período, poderia não haver mudança nenhuma.

Na medida em que, naquele momento, Maggie era o seu principal interesse, parecia a Larry, no seu retiro seguro, que estava apenas a ganhar tempo, e a ganhar tempo com pés que estavam freneticamente impacientes. Sentia que não podia suportar muito mais a sua própria inatividade e a sua ignorância sobre o que Maggie estava a fazer e o que lhe estava a acontecer. Não podia permanecer naquele santuário a puxar cordelinhos, e cordelinhos muito longos e frágeis, e cordelinhos que podiam ser os errados, por muito mais tempo. Sentia que simplesmente tinha de sair daquela segurança esplêndida, de volta aos perigos de onde fugira, onde poderia pelo menos ter a vantagem possível de estar no centro dos assuntos de Maggie e lutar por ela mais abertamente e ter uma influência mais direta sobre ela.

Sabia que, mais cedo ou mais tarde, ia pôr a cautela de lado e aparecer subitamente entre os seus inimigos, a menos que algo de caráter definido se desenvolvesse. Mas, durante estes dias lentos e irritantes, manteve-se sob controlo com dificuldade, esperando que as coisas viessem até ele, que não tivesse de ir ao encontro delas.

Tinha trazido o retrato de Maggie feito por Hunt para Cedar Crest no fundo do seu baú, e manteve-o trancado na sua cómoda. Durante estes dias, mais frequentemente do que antes, ele retirava o retrato e, na segurança do seu quarto trancado, contemplava longamente aquela representação perspicaz das suas muitas facetas. Sem dúvida: havia ali uma mulher esplêndida em potencial! E sem dúvida: ele amava aquela mulher profundamente!

Durante estes dias de ignorância, enquanto Maggie lutava na escuridão do seu ser inexplorado, Larry aplicava-se severamente ao negócio para o qual, em circunstâncias mais felizes, se teria dedicado sob a persuasão irresistível da pura alegria. Numa tarde, apresentou à Miss Sherwood um esboço para o seu plano crescente para o desenvolvimento das propriedades Sherwood, com base em boas casas a rendas justas. Descobriu que, apesar da sua generosa dádiva, ela tinha mais ou menos a mesma atitude em relação à Caridade que a sua própria: que a única Caridade sensata, exceto para aqueles temporária ou permanentemente incapacitados ou deficientes, era a oferta de valores honestos por retornos honestos — e isso não era Caridade de todo.

O projeto de reformar o caráter desleixado das propriedades Sherwood, e de aliviar, mesmo que em pequeno grau, a congestão habitacional de Nova Iorque, apelou imediatamente à sua imaginação e ao seu idealismo sensato.

“Um plano esplêndido!” exclamou ela, observando Larry com aqueles olhos sábios e bem-humorados, que agora estavam muito sérios e penetrantes. “Tem trabalhado muito mais do que eu pensava. E se me perdoa a ousadia, tem mais daquela visão sensatamente humana que um grande empreendimento comercial deveria ter do que eu pensava.”

“Obrigado!” disse Larry.

“É um sonho esplêndido,” continuou ela; “mas exigirá trabalho árduo para traduzir esse sonho numa realidade. Precisaremos de arquitetos, construtores, uma despesa inicial avultada, tempo — e uma gestão mais moderna e alerta.”

“Sim, Miss Sherwood.”

Ela não falou por um momento. Os seus olhos penetrantes, que tinham estado fixos nele em reflexão profunda, eram ainda mais penetrantes. Finalmente, disse:

“Isso é algo grande, algo útil. Os agentes atuais desejam ser aliviados dos nossos assuntos assim que eu possa fazer arranjos — e não gostaria de nada melhor do que o Dick deixar o que está a fazer e entrar em algo construtivo e útil como isto. Mas o Dick não pode fazê-lo sozinho; ele é demasiado instável, e demasiado inexperiente para lidar com algumas das práticas comerciais mais desonestas.”

Ela fez uma pausa novamente, ainda a observá-lo com aqueles olhos aguçados, que pareciam estar a avaliá-lo. Finalmente, disse, quase abruptamente:

“Quer assumir o comando disto com o Dick? Ele gosta de si e respeita o seu julgamento; tenho a certeza de que ajudaria a estabilizá-lo. É claro que lhe falta experiência prática, mas pode contratar um homem prático que forneça esse elemento. A experiência prática é um dos artigos mais comuns no mercado; a visão e a iniciativa estão entre as mais raras — e o senhor tem-nas. O que me diz?”

Larry não conseguiu dizer nada de imediato. A rapidez da sua oferta, a dimensão da sua oportunidade, deixaram-no atordoado por um momento. E o seu atordoamento era acrescido pela sua rápida perceção de um elemento completamente diferente envolvido na sua proposta franca. Ele estava agora empenhado no empreendimento de impingir um artigo falso, Maggie, a esta mulher que lhe estava a oferecer a sua confiança total — um empreendimento de ética muito questionável e de resultados muito duvidosos. Se ele aceitasse a sua oferta, e o resultado desse empreendimento fosse um desastre, o que pensaria então a Miss Sherwood dele?

Refugiou-se na evasão. “Não vou tentar dizer-lhe o quanto aprecio a sua proposta, Miss Sherwood. Mas importa-se se eu retiver a minha resposta por agora e refletir sobre isso? De qualquer forma, para fazer tudo o que é necessário, tenho de ser capaz de trabalhar abertamente — e não posso fazer isso até me ver livre dos meus embaraços com a polícia e os meus antigos conhecidos.”

Assim ficou acordado. Miss Sherwood passou a outro assunto. A pré-exposição das pinturas de Hunt tinha aberto no dia anterior.

“Quando esteve na cidade ontem, conseguiu ver a exposição do Sr. Hunt?”

“Não,” respondeu ele. “Embora quisesse. Mas sabe que já vi todos os quadros do Sr. Hunt que o Sr. Graham tem na sua galeria. Como foi a inauguração?”

“Cheia de convidados. E como lhes tinham dito que as pinturas eram invulgares e boas, claro que as pessoas estavam entusiasmadas.”

“Que tipo de preços é que o Sr. Graham estava a pedir?”

“Ele não estava a pedir nenhuns. Disse-me que não ia vender nenhuma pintura, nem sequer mencionar um preço, até à exposição pública. Ele está muito entusiasmado. Acha que o Sr. Hunt já está feito — e em grande.”

E então acrescentou, o seu olhar nivelado muito fixo em Larry:

“É claro que o Sr. Hunt é realmente um grande pintor. Mas ele precisava de um abanão para o fazer sair e pintar realmente o seu próprio tipo de coisas. E precisava de alguém como o senhor para o promover comercialmente.”

Quando ela partiu, deixou Larry a pensar: a pensar no que ela dissera, que Hunt “precisava de um abanão para o fazer sair e pintar realmente o seu próprio tipo de coisas”. Escondida por detrás dessa observação, algures, poderia estar a explicação para a rutura entre os dois? Larry começou a vislumbrar uma luz. Era perfeitamente possível que a Srta. Sherwood, de uma forma tão acabada e hábil que Hunt não discernira o seu propósito, tivesse ela própria dado esse abanão ou, pelo menos, contribuído para a sua força. Poderia ter sido tudo diplomacia da parte dela, aplicada astutamente ao homem que ela compreendia e amava. Sim, essa poderia ser a explicação. Sim, talvez ela estivesse a fazer, de uma forma menos penosa, exatamente o que ele tentava fazer com Maggie sob circunstâncias mais stressantes: despertar o melhor nele ao trabalhar indiretamente em reações psicológicas definidas.

Nessa tarde, Hunt apareceu em Cedar Crest e, enquanto lá estava, deu um salto até Larry. O grande pintor, à sua maneira efusiva e juvenil, gabou-se francamente do sucesso da sua exposição. Larry sorriu perante o entusiasmo exuberante do outro. Hunt era um homem que podia gabar-se sem nunca ser ofensivamente egoísta, pois Hunt, somado aos seus outros dotes, tinha o dom divino de ser capaz de rir de si mesmo.

Larry viu ali uma oportunidade para promover aquela outra ambição sua: a aproximação de Hunt e da Srta. Sherwood. E, nesse instante, passou-lhe pela cabeça que as observações aparentemente casuais da Srta. Sherwood sobre Hunt não tinham sido casuais de todo. Talvez tivessem sido cuidadosamente pensadas e ditas com um propósito definido. Talvez a Srta. Sherwood o tivesse nomeado, de forma muito subtil, seu embaixador. Ela era suficientemente inteligente para isso.

— Deixa de declamar essas críticas escritas por ti mesmo sobre a tua superioridade inalcançável — interrompeu Larry. — Se gastas o fôlego assim, vais afogar-te em terra firme. Além disso, acabo de ouvir algo melhor do que esse teu mero ar articulado. Melhor porque vem de uma pessoa no seu juízo.

— Ouviste de quem?

— Da Srta. Sherwood.

— A Srta. Sherwood! O que é que ela disse?

— Que tu és um pintor realmente grande.

— Huh! — bufou Hunt. — Por que é que ela não haveria de dizer isso? Eu provei-o!

— Hunt — disse Larry com calma —, és o maior pintor que alguma vez conheci, mas também tens a distinção de ser o maior de todos os malditos tolos.

— O que é isso, rapaz?

— Tu amas a Srta. Sherwood, não amas? Pelo menos quase mo disseste em palavras, e disseste-mo em ações sonoras cada vez que a viste.

— Bem... e se amo?

— Se tivesses a clareza de visão que há no olho vítreo de uma lagosta cozida fria, verias que ela sente o mesmo por ti.

— Ouve lá, Larry — toda a qualidade ruidosa tinha desaparecido da voz de Hunt, e estava num tom baixo e um pouco trémulo —, não me importo que brinques comigo sobre mim mesmo ou sobre a minha pintura, mas não brinquem comigo sobre algo que seja realmente importante.

— Não estou a brincar. Tenho a certeza de que a Srta. Sherwood sente isso.

— Como é que sabes?

— Tenho um par de olhos que não pertencem a uma lagosta cozida fria. E quando vejo uma coisa, sei que a vejo.

— Estás completamente enganado, Larry. Se tivesses ouvido o que ela me disse há menos de um ano...

— Estás a cansar-me! — interrompeu Larry. — Vocês os dois foram feitos um para o outro. Ela está à espera que te chegues à frente e lhe fales como um homem — e em vez disso amuas na tua tenda e resmungas sobre algo que pensas que ela possa ter pensado ou dito há um ano! És demasiado sensível; és demasiado orgulhoso; tens cérebro a menos. É um milhão para um que, à tua maneira elegante e bem-nascida, te zangaste com ela por algo que provavelmente nunca existiu e que certamente não existe agora. Esquece tudo isso, vai lá direito a ela e pede-lhe!

— Larry, se eu pensasse que havia uma hipótese de estares certo...

— Uma única pergunta provará se estou certo!

Hunt não falou por um momento. — Acho que nunca vi a minha parte nisto tudo da maneira como a pões, Larry. — Ele levantou-se, todo o seu ser subjugado, mas tenso. — Vou voltar para a cidade e pensar em tudo isto.

Larry seguiu-o uma hora depois, empenhado em negócios de rotina da propriedade Sherwood. Perto das sete horas, estava a estudar a atual decrepitude e as possibilidades futuras de uma fila de prédios de apartamentos dos Sherwood no West Side, quando, ao sair de um prédio e começar a entrar noutro, uma mão firme caiu sobre o seu ombro e uma voz observou:

— Então, Larry, estás em Nova Iorque?

Larry deu meia-volta. Por um momento, sentiu a vida abandonar-lhe o corpo. Ao seu lado estava o detetive Casey, que vira pela última vez na noite da sua fuga desenfreada, quando Casey fingira um nocaute para ajudar à fuga de Larry das mãos de Gavegan. Qualquer outro homem ligado aos seus inimigos, Larry tê-lo-ia derrubado e tentado fugir. Mas não Casey.

— Olá, Casey. Bem, suponho que me vais convidar para ir contigo?

— Onde é que ias?

— A este prédio.

— Então vou convidar-me para ir contigo.

Ele empurrou rapidamente Larry à sua frente para o corredor, que estava vazio, uma vez que todos os inquilinos estavam a jantar. Larry lembrou-se da cena no gabinete do comissário adjunto da polícia, Barlow, quando o chefe dos detetives exigira que ele se tornasse um informador a trabalhar sob as ordens de Gavegan e Casey, e do interrogatório e das ameaças, mais do que cumpridas, que se seguiram.

— Vais fazer-me um pequeno questionário privado primeiro, Casey? — perguntou ele. — E depois chamar o Gavegan e levar-me até ao Barlow?

— Não a menos que o Gavegan ou outra pessoa te visse e reconhecesse, o que sei que não aconteceu, já que eu estava a vigiar exatamente isso. E não a menos que tu próprio sintas vontade de visitar a sede.

— Se sinto vontade, é um apetite que estou disposto a fazer esperar.

— Sabes que não te quero apanhar. O meu papel nisto tem sido um trabalho sujo que me foi empurrado. Sabes que eu sei que foste incriminado e traído, e que não te vou levar preso a menos que não consiga evitar.

— Obrigado, Casey. És demasiado íntegro para ter de andar com gente como o Barlow e o Gavegan. Mas se não era para me prenderes, porque me paraste ali na rua?

— Tenho esperado que um dia te encontrasse à vontade. Há algumas coisas que descobri — não importa como — que queria deixar-te para teu próprio bem.

— Força, Casey.

— Primeiro, tenho um pressentimento de que foi o Barney Palmer quem denunciou à polícia o Red Hannigan e o Jack Rosenfeldt, e depois espalhou entre todos os criminosos que tu eras o informador e o bufão.

— Sim, já tinha adivinhado isso.

— Segundo, tenho um pressentimento de que foi mesmo do Barney Palmer que o Barlow tirou a ideia de te obrigar a ser um informador. O Barney é um tipo esperto, tudo bem, e ele calculou o que iria acontecer. Ele sabia que tu ias recusar, e sabia que o Barlow ia abrir o inferno debaixo de ti. O Barney previu certamente cada movimento.

— O quê... o quê... — gaguejou Larry. — Porque, então, o Barney deve ser... — Ele parou, totalmente atónito com a novidade da possibilidade que acabara de surgir na sua mente.

— Tu percebeste, Larry — continuou Casey. — O Barney é um informador da polícia. Tem sido um durante anos. Trabalha diretamente para o Barlow. Não devemos saber nada sobre isso. Ele entregou muitos dos grandes. É por isso que é seguro para o Barney fazer o que bem lhe apetece.

— O Barney um informador da polícia! — repetiu Larry, no torpor do seu espanto.

— Acho que é essa a notícia que eu queria dar-te, Larry, por isso vou seguir o meu caminho. Desejo-te sorte — e, pelo amor de Deus, não te deixes apanhar por nós. Adeus. — E com isto, Casey saiu furtivamente do corredor.

Por um momento, Larry ficou imóvel onde Casey o deixara. Então, um propósito feroz e uma imprudência cautelosa surgiram e tomaram o controlo dele. Tinha sido preciso o que Casey lhe dissera para pôr fim à sua espera e hesitação incómodas. Já não podia permanecer no seu esconderijo, ele próprio a salvo, a tentar salvar Maggie através de um esforço lento e indireto. Chegara agora o momento para métodos muito diferentes. Chegara o momento de sair a descoberto, não correndo, claro, riscos desnecessários, e de resolver as coisas cara a cara com os seus inimigos, que eram também os verdadeiros inimigos de Maggie, embora ela os considerasse seus amigos — para salvar Maggie contra a sua própria vontade, se não a pudesse salvar de outra forma.

E tendo assim decidido, Larry saiu rapidamente do corredor para a rua.

CAPÍTULO XXVII

No passeio, Larry olhou rapidamente à sua volta. A meio do quarteirão, na frente de uma farmácia, havia um sinal azul de telefone. Um minuto depois, estava dentro de uma cabine telefónica na farmácia, pedindo primeiro o Hotel Grantham e depois pedindo à operadora do Grantham para ser ligado à Srta. Maggie Cameron.

Houve uma longa espera. Enquanto esperava pela voz de Maggie, ele ardia de fúria terrível contra Barney Palmer. Para Maggie estar ligada a um criminoso direto, essa ideia já era má o suficiente. Mas para ela estar sob a influência do pior criminoso de todos, um informador, um traidor astuto dos seus próprios amigos — isso era mais do que se podia suportar! Na sua fúria em nome de Maggie, esqueceu por momentos os muitos males que Barney lhe tinha feito a ele próprio. Pensou em planos selvagens, incoerentes, vagamente tremendos. Primeiro, tiraria Maggie de perto de Barney e do Velho Jimmie — de alguma forma. Depois, acertaria contas com aqueles dois — novamente por um "de alguma forma" indefinido.

Presentemente, a voz cansada e impessoal da operadora do Grantham observou contra o seu tímpano: — A Srta. Cameron não atende.

— Peça-lhe para vir ao telefone, por favor — solicitou ele.

Larry, é claro, não podia saber que o seu telefonema fora exatamente o que tinha tocado no quarto de Maggie enquanto Barney e o Velho Jimmie estavam com ela, e que o Barney a tinha proibido severamente de atender. Portanto, não podia saber que qualquer tentativa de apanhar Maggie por telefone naquele momento era inútil.

Quando saiu da cabine, tendo a voz impessoal informado que a Srta. Cameron não estava, foi com a intenção de ligar a Maggie entre as oito e as nove, quando ela provavelmente teria regressado do jantar, onde ele julgava que ela estaria agora. Ele sabia que Dick Sherwood não tinha nenhum compromisso com ela, pois Dick ia estar em Cedar Crest nessa noite, por isso julgou quase certo que Maggie estaria em casa e sozinha mais tarde.

Sem ter mais nada para fazer durante uma hora e meia, lembrou-se de um bilhete que tinha recebido da Duquesa, no correio daquela manhã, pedindo-lhe que fosse vê-la quando estivesse de novo na cidade. Trinta minutos depois, estava na sala familiar atrás da casa de penhores. A Duquesa perguntou-lhe se tinha comido, e perante a sua resposta de que não, e que não lhe apetecia, em vez de prosseguir com o assunto da sua carta, ela murmurou qualquer coisa e entrou na casa de penhores.

Deixou Larry pela razão muito simples de que, agora que o tinha ali, estava incerta sobre o que deveria dizer e até onde deveria ir. Sem o conhecimento de nenhum deles, um fio do drama de Larry e Maggie estava a ser tecido no cérebro e no coração da Duquesa; e a ser tecido com dor para ela, e com muitas dúvidas. É verdade que ela tinha decidido definitivamente, para o bem de Larry, que os factos sobre a ascendência de Maggie nunca deveriam ser conhecidos através dela — e como a única outra pessoa que poderia dizer a verdade era Jimmie Carlisle, e os seus interesses estavam aparentemente todos a favor do silêncio, então seguia-se que a verdade nunca seria conhecida por ninguém. Mas, tendo assim decidido, e decidido definitiva e finalmente, a Duquesa começou a interrogar-se se tinha decidido sabiamente.

Dia e noite, este tinha sido o principal tema do seu pensamento. Poderia estar errada na sua estimativa do caráter de Maggie, e no que ela poderia vir a ser? Poderia estar errada na sua crença de que, dado tempo suficiente, Larry superaria a sua paixão por Maggie? E como estava com tantas dúvidas sobre estes dois pontos, teria ela algum direito, e seria para o melhor, suprimir um facto que poderia influenciar tão gravemente ambos os assuntos? Ela não sabia. O que ela queria era o que fosse melhor para Larry — e assim, na sua dúvida, determinou falar novamente com Larry, esperando que a entrevista pudesse, de alguma forma, substituir a sua incerteza pela estabilidade de propósito.

Presentemente, ela regressou à sala interior e, à sua maneira direta e usando as menos palavras possíveis — o que lhe tinha criado a reputação de uma mulher que nunca falava e que estava cheia de segredos estranhos —, perguntou a Larry o que tinha feito em relação a Maggie. Ele contou-lhe o plano que tinha desenvolvido, a visita de Maggie a Cedar Crest, a sua ignorância sobre as reações de Maggie. A tudo isto, a sua avó não respondeu nem por palavras nem por mudança de expressão. Ele continuou então a contar-lhe o que acabara de saber por Casey sobre as manobras de Barney nos seus infortúnios.

A cabeça velha acenou. — Sim, o Barney é exatamente desse tipo — disse ela no seu tom monótono e plano.

E então ela chegou ao objetivo de o ter mandado chamar. — Como te sentes em relação à Maggie agora?

— O mesmo de antes.

— Tu amas-la?

— Sim — e amá-la-ei sempre — disse ele com firmeza.

Ela ficou em silêncio mais uma vez. Então: — O que vais fazer a seguir?

— Acabar com as coisas entre ela e o Barney e o pai dela. Tirá-la de perto deles.

Ela não fez mais perguntas. Larry estava tão decidido quanto um homem podia estar. Mas será que Maggie valia a pena? — essa era a grande questão ainda sem resposta.

— O que é que querias de mim, avó? — perguntou-lhe ele finalmente.

— Algo que pensei que pudesse ter desenvolvido, mas que não aconteceu.

E assim ela deixou-o ir embora sem lhe dizer. E querendo moldar as coisas para o melhor para ele, estava preocupada com as mesmas dúvidas de antes.

A sua visita à avó não teve significado para Larry, uma vez que ele não tinha qualquer palpite sobre a luta que se passava dentro daquela figura antiga e inescrutável. A visita serviu-lhe apenas para preencher uma hora nervosa e inútil. A sua fúria contra Barney tinha-o possuído de tal forma durante todo aquele tempo que ele não conseguia dar mais do que uma mera superfície da sua mente ao que tinha passado entre a sua avó e ele mesmo. E quando a deixou, a sua fúria pela traição de Barney e o seu desejo impetuoso de arrancar Maggie das suas influências atuais tempestuavam tanto dentro dele que o seu julgamento, geralmente cauteloso, foi levado pelo vento e a imprudência varreu, como um vendaval, o controlo sobre si.

Quando ligou para o Grantham uma segunda vez, às nove horas, a voz de Maggie chegou até ele:

— Olá. Quem fala, por favor?

— Sr. Brandon.

Ele ouviu um "Oh!" afetado do outro lado da linha. — Estou a subir para te ver — disse ele.

— Eu... eu não acho que tu...

— Estarei aí em dez minutos — Larry interrompeu a voz sobressaltada e desligou.

Ele contava que Maggie, depois de ele a ter poupado em Cedar Crest, o recebesse e tratasse, pelo menos, não pior do que um inimigo com quem houvesse uma trégua de meia hora. Com certeza, quando ele tocou à campainha da sua suíte, a própria Maggie admitiu-o na sua sala de estar. Ela estava tensa e pálida, o seu olhar nem amigável nem hostil.

— Não sabes o risco que estás a correr — sussurrou ela quando a porta se fechou — ao vires aqui assim, a descoberto?

— Chegou a altura de correr riscos, Maggie — anunciou ele.

— Mas estavas em segurança onde estavas. Por que correr tais riscos?

— Por tua causa.

— Por minha causa?

— Para te tirar de perto destas pessoas com quem estás ligada. Tirar-te agora.

Noutra altura, isto teria sido o rastilho para uma detonação de desafio da parte dela. Mas agora ela não disse absolutamente nada, e isso já era qualquer coisa.

— Desde que saí a descoberto, tudo vai ser a descoberto. Ouve, Maggie! — O impulso tinha-lhe surgido subitamente, uma vez que o seu plano de despertar Maggie através das suas reações psicológicas tinha aparentemente falhado, de lhe contar tudo. — Ouve, Maggie! Vou pôr todas as minhas cartas na mesa e mostrar-te cada carta que joguei. Foste convidada para ir a Cedar Crest porque eu planeei que fosses. E a razão pela qual planeei que fosses convidada foi que, raciocinei, ser recebida de uma forma tão franca, generosa e desprevenida por uma mulher como a Srta. Sherwood faria com que te sentisses doente com o que estavas a fazer e o abandonarias por tua própria vontade. Mas parece que raciocinei mal.

— Então... estavas tu por detrás disso! — murmurou ela.

— Estava. Embora não pudesse ter feito isso se Dick Sherwood não estivesse honestamente apaixonado por ti. Mas agora acabei com o trabalho às escondidas, acabei com os métodos indiretos. A partir de agora, cada jogada é a descoberto, e é direta ao ponto em tudo. Por isso, prepara-te. Vou tirar-te de perto do Barney e do Velho Jimmie.

A menção destes dois nomes teve um efeito rápido e mágico nela. Mas, em vez de despertar beligerância, despertou uma agitação quase frenética.

— Tens de te ir embora imediatamente, Larry. O Barney e o meu pai estiveram aqui antes do jantar, e acabaram de telefonar a dizer que iam voltar!

— Voltar! Esse é o melhor argumento que poderias dar para eu ficar!

— Mas, Larry... ambos têm chaves, e o Barney anda sempre armado!

— Fico aqui, a menos que venhas comigo. Ouve mais um pouco, Maggie. Pusei todas as cartas na mesa. Sabes o tipo de pessoas com quem estás ligada? Não vou dizer nada sobre o teu pai, pois acho que sabes tudo o que há para saber. Mas o Barney Palmer! Ele é o tipo mais baixo de criminoso que respira. Tem havido muita conversa sobre bufões e informadores da polícia. Bem, o grande bufão, o grande informador, é o Barney Palmer!

— Eu não acredito! — gritou ela involuntariamente.

— É verdade! Tenho a certeza. O Barney queria destruir-me, porque eu tinha decidido deixar o velho jogo e porque ele queria tirar-me do seu caminho contigo. Por isso, ele incriminou-me de tal forma que eu parecia ser um bufão, e pôs os criminosos atrás de mim. E ele deu ao Barlow a ideia de me forçar a ser um informador, e depois incriminar-me quando eu recusasse. Foi o Barney quem arranjou as coisas para que eu tivesse de ir para a cadeia, ou ser baleado, ou fugir. Foi o Barney Palmer quem denunciou o Red Hannigan e o Jack Rosenfeldt, e quem tem denunciado os seus outros comparsas. E é esse o tipo com quem tu te andas a dar!

Ela olhou para ele com uma convicção chocada e hesitante. Ele permaneceu em silêncio para deixar a sua verdade assentar.

Estavam assim, cara a cara, quando uma chave rangeu na porta exterior do pequeno corredor, como na ocasião da primeira visita de Larry ali. E, como nessa ocasião, Maggie saltou rapidamente para a frente e fechou o trinco da porta interior. Depois, voltou-se e agarrou o braço de Larry.

— É o Barney... eu disse-te que ele vinha! — sussurrou ela. — Oh, porque não foste antes? Anda!

Ela tentou arrastá-lo para a porta do seu quarto, por onde o ajudara a escapar uma vez. Mas desta vez ele não se deixou mover.

— Fico aqui — disse ele.

Ouviu-se o som de um esforço inútil para girar a fechadura da porta interior; depois, a voz de Barney chamou: — Qual é o problema, Maggie? Abre a porta.

Maggie, ainda a agarrar o braço resistente de Larry, ficou a ofegar com um olhar de espanto arregalado.

— Abre-lhes a porta, Maggie — sussurrou Larry.

— Não vou fazer isso! — sussurrou ela de volta.

— Abre, ou abro eu — ordenou ele.

Os seus olhares mantiveram-se por mais um momento enquanto Barney sacudia a fechadura. Então, lentamente, vacilantemente, os seus olhos espantados sobre o ombro para ele, Maggie atravessou a sala e destrancou a porta. Barney entrou, com o Velho Jimmie logo atrás.

— Digo-te, Maggie, qual foi a grande ideia de nos manteres... — ele começou num tom resmungão, quando viu Larry logo atrás dela. A sua queixa quebrou-se a meio da respiração; ele parou subitamente e o seu rosto escuro contraiu-se de surpresa.

— Larry Brainard! — exclamou ele finalmente. O Velho Jimmie, subitamente tenso, pestanejou e não disse nada.

— Olá, Barney; olá, Jimmie — cumprimentou Larry os seus antigos aliados, adotando um ar de cordialidade. — Já faz muito tempo que nós os três não nos vemos. Não fiquem aí na porta. Entrem.

Barney era perspicaz o suficiente para ver, embora a atitude de Larry fosse descontraída e o seu tom leve, que os seus olhos estavam brilhantes e duros. Barney avançou um par de passos, alerta para qualquer coisa, e o Velho Jimmie seguiu-o. Maggie observava os três homens, a sua figura juvenil tensa e mal respirando.

— Não sabia que estavas em Nova Iorque — disse Barney.

— Pois bem, aqui estou eu, sem dúvida — retorquiu Larry com a sua cordialidade ameaçadora.

A esta altura, Barney já tinha recuperado da sua surpresa inicial. Sentiu que era altura de afirmar a sua supremacia.

— Como é que vieste parar aqui com a Maggie? — exigiu ele bruscamente.

— Por acaso avistei-a na rua hoje. Segui-a até ao Grantham e, esta noite, resolvi passar por aqui.

O tom de Barney tornou-se mais autoritário, mais desagradável. — Dissemos-te há muito tempo que tínhamos terminado contigo. Então, por que vieste aqui?

— Isso responde-se facilmente, Barney. Da última vez que estivemos todos juntos, tinhas vindo para levar a Maggie. Esta é a mesma cena reproduzida — só que desta vez fui eu quem veio levar a Maggie.

— O que é isso? — retorquiu Barney.

A voz de Larry despojou-se da cordialidade assumida e tornou-se duramente incisiva. — E para convencer a Maggie a vir, tenho-lhe estado a contar o tipo de pássaro que tu és, Barney Palmer! Oh, eu tenho as informações direitas sobre ti! Tenho-lhe estado a dizer como me armaste uma cilada, e como conseguiste armar-ma porque és o informador do Chefe Barlow.

Barney ficou o mais pálido que lhe era possível ficar, e a sua boca descaíu. — O quê... o quê... — gaguejou ele.

— Tenho-lhe estado a dizer que tu és aquele que realmente denunciou o Red Hannigan e o Jack Rosenfeldt.

— És um maldito mentiroso! — explodiu Barney, e instantaneamente, debaixo do seu braço esquerdo, sacou uma automática que encostou ao estômago de Larry. — Retira isso, seu maldito, ou mando-te direto para o inferno!

— Barney!… Larry! — interveio Maggie num susto enjoado.

— Não há nada com que se preocupar, Maggie — disse Larry. Ele olhou de volta para Barney. — Oh, eu sabia que irias sacar de uma arma contra mim em alguma fase do jogo. Mas tu não vais disparar.

— Vais ver, se não retirares o que disseste!

Larry percebeu que o seu sangue quente o tinha levado a um empreendimento de audácia, no qual apenas o blefe e o uso das suas cartas mais altas o poderiam salvar.

— Não penses que fui tão tolo ao ponto de entrar neste lugar sem tomar precauções — disse ele com desprezo. — Tu não vais disparar, Barney, porque, como eu sabia que poderia encontrar-te e que tu sacarias de uma arma, pedi a dois amigos que me revistassem pouco antes de eu subir aqui. Eles testemunharão que eu não estava armado. Eles conhecem-te, e conhecem-te tão bem que conseguirão identificar o objeto na tua mão como sendo a tua arma. Portanto, não importa o que a Maggie e o Jimmie possam testemunhar, o veredito será homicídio a sangue-frio e a cadeira elétrica será o teu fim. E é por isso que sei que não vais disparar. Por isso, podes muito bem guardar a arma.

Barney não falou nem se moveu.

— Eu chamei o teu blefe, Barney — disse Larry asperamente. — Guarda essa arma, ou eu vou tirá-la de ti!

O olhar de Barney vacilou. A pistola desceu da sua posição. Com um movimento rápido como um relâmpago, Larry arrancou-a da mão de Barney.

— Acho que é melhor ficar com ela, afinal — disse ele, enfiando-a num bolso. — Para te manter longe da tentação.

E então, numa voz contida que era gélida de ameaça: — Estou demasiado ocupado para tratar de ti agora, Barney — mas, por Deus, vou acertar contas contigo pela porcaria que me fizeste, e vou expor-te como um informador e um bufo! — Ele virou-se para o Velho Jimmie. — E a única razão pela qual serei brando contigo, Jimmie Carlisle, é porque és o pai da Maggie — embora sejas a coisa mais podre como pai que Deus alguma vez deixou respirar!

O Velho Jimmie encolheu-se ligeiramente perante o olhar fulminante de Larry, e os seus olhos pequenos brilharam com o medo de um rato encurralado. Mas não disse nada.

Larry virou as costas aos dois homens. — Nós acabámos com este bando, Maggie. Põe um chapéu e um casaco, e vamos embora. Podemos mandar buscar as tuas coisas.

— Não vais nada, Maggie — rosnou Barney, antes que Maggie pudesse falar.

O Velho Jimmie fez o seu primeiro movimento positivo desde que entrara na sala. Ele deslocou-se rapidamente para o lado de Maggie e agarrou-a pelo braço.

— Tu és minha filha e ficas comigo! — ordenou ele. — Eu criei-te e tu fazes exatamente o que eu te mando! Não vais com o Larry — ele está a mentir sobre o Barney. Tu ficas comigo!

— Anda, vamos embora, Maggie — repetiu Larry.

— Tu ficas comigo! — repetiu Jimmie.

Assim ordenada e interpelada, Maggie estava atordoada com pensamentos e impulsos contraditórios, enquanto os três homens aguardavam a sua ação. Na verdade, ela não tinha nenhum pensamento claro. Mais tarde, ela nunca soube o que determinou o seu rumo naquele momento de confusão: talvez fosse em parte uma continuação da sua dúvida sobre Larry, talvez em parte apenas puro impulso, talvez o seu sentimento instintivo de que o seu lugar era ao lado do homem que ela acreditava ser o seu pai.

— Sim, eu fico contigo — disse ela ao Velho Jimmie.

— Esse é o sinal para te pores a caminho, Larry Brainard! — atirou Barney triunfante.

Larry percebeu, de repente, que a sua vinda ali não passava de um gesto esplêndido para o qual a sua raiva o tinha incitado. De facto, não restava mais nada a fazer senão pôr-se a caminho.

— Eu disse-te a verdade, Maggie; e vais arrepender-te de não teres vindo — se não te arrependeres agora, então arrepender-te-ás um pouco mais tarde.

Ele virou-se para Barney com um último tiro; não podia deixar o triunfante Barney Palmer com a sua vitória sem mácula. — Disse-te que tinha informações direitas sobre ti, Barney. Aqui tens mais algumas. Sei exatamente qual é o teu jogo e sei exatamente quem é o teu otário. Veremos se consegues levar a melhor — seu bufo! Boa noite a todos.

Com isso, Larry saiu. O Velho Jimmie olhou para o seu sócio com suspeita.

— Como é que é isso, Barney — de seres um informador e um bufo? — exigiu ele.

— Digo-te que é tudo mentira — uma maldita mentira! — gritou Barney com ênfase febril.

— Espero que seja! — suspirou o Velho Jimmie.

Este era um assunto do qual Barney queria fugir. — Maggie — exigiu ele —, é verdade o que o Larry Brainard disse sobre como ele veio aqui? — sobre ele te ter visto na rua e depois ter-te seguido até aqui?

— Como é que eu sei onde ele me viu pela primeira vez?

— Mas esta noite é a primeira vez que o vês?

— É.

— Tens a certeza de que não o tens visto? — exigiu o ciúme rápido de Barney.

— Não tenho.

— Ele disse-te de onde veio? — onde é que ele anda?

— Não.

O Velho Jimmie interrompeu este interrogatório.

— Estás a desperdiçar um tempo precioso a fazer estas perguntas. Barney, tu percebes o facto evidente de que não é bom para ti, nem para nós, que o Larry Brainard esteja de volta a Nova Iorque, a circular como lhe apetece?

— Nem digas nada! — Barney viu que enfrentava uma crise súbita e, perante a necessidade de agir rapidamente, falou sem pensar na Maggie. — Temos de tratar dele imediatamente!

— Dizer ao bando que ele está de volta e deixá-los tratar dele? — sugeriu o Velho Jimmie.

Barney ponderou rapidamente. Se Larry soubesse do seu acordo com a polícia, então talvez o seu segredo estivesse a começar a vazar para outros. Decidiu que, por enquanto, seria mais sensato manter distância desses velhos amigos e aliados.

— Não o bando — a polícia! — disse ele inspirado. — Eles andam atrás dele, de qualquer forma, e estão irritados. Tudo o que temos de fazer é dar-lhes a dica — eles farão o resto! — E então, com a ênfase mais aguda de um plano imediato: — Não queremos perder um minuto. Sei onde o Gavegan anda a esta hora da noite. Vamos!

Com um simples "Boa noite" para a Maggie, os dois homens apressaram-se na sua missão premente. Deixada a sós, Maggie afundou-se numa cadeira e considerou freneticamente os muitos elementos desta nova situação. Gradualmente, dois pensamentos emergiram como dominantes: quer Larry estivesse certo ou errado, ele tinha arriscado sair do seu esconderijo por causa dela — talvez tivesse arriscado tudo o que tinha ganho por causa dela. E agora a polícia ia ser enviada atrás dele, com aquele Gavegan a liderar a matilha.

Talvez o resto do pensamento de Maggie não tenha resultado numa sabedoria fria e madura — pois os seus pensamentos eram as operações de uma mente em pânico. De alguma forma, ela tinha de avisar o Larry desta iminente caçada policial! Sem dúvida, Larry voltaria a Cedar Crest a qualquer momento daquela noite. Uma mensagem devia ser enviada para ele lá. Uma carta era demasiado incerta numa crise daquelas. É claro que ela tinha um convite para ir a Cedar Crest na tarde seguinte, e poderia avisá-lo então — mas isso poderia ser demasiado tarde. Ela não ousava telefonar nem enviar um telegrama — pois isso poderia, de alguma forma, dirigir uma atenção perigosa para o local exato onde Larry estava escondido. Além disso, ela tinha um instinto, a operar inconscientemente muito antes de ela ter qualquer ideia do que iria finalmente fazer, de não deixar que Barney ou o Velho Jimmie descobrissem, ou sequer suspeitassem, que ela tinha avisado o Larry — ainda não.

Parecia não haver nada que ela pudesse fazer. Então ela pensou na Duchess. Essa era a saída! A Duchess saberia de alguma forma como enviar uma mensagem ao Larry.

Cinco minutos depois, no seu fato e chapéu mais simples, Maggie ia num táxi em direção à casa da Duchess — de onde, apenas há alguns meses, ela tinha partido para a sua grande carreira.

CAPÍTULO XXVIII

O Velho Jimmie não gostava de encontrar a polícia mais vezes do que era forçado, por isso escapou-se e permitiu que Barney Palmer tratasse sozinho do assunto de liquidar Larry. Barney encontrou Gavegan exatamente onde contava: a demorar-se no seu jantar tardio no café de um famoso restaurante da Broadway — um favorito de alguns dos detetives e funcionários superiores do Departamento de Polícia — café no qual, em tempos mais felizes agora profundamente chorados, Gavegan tinha tido toda a euforia que queria beber por convite permanente do proprietário, e onde ainda, ocasionalmente, um pouco da velha euforia era levada à mesa de Gavegan num copo ou servida numa sala acima para a qual ele tinha recebido instruções sussurradas para se retirar. O proprietário, nos velhos tempos, gostava de estar bem visto pela polícia; e, embora o seu bar estivesse agora dedicado a bebidas legais — ou pelo menos os oficiais federais prestáveis reportavam que estivesse —, ele ainda gostava de estar bem visto pela polícia.

Gavegan estava numa mesa com um produtor menor de espetáculos musicais, a quem Barney tinha sido de utilidade ocasional no fornecimento do elemento predominante dessa música — a saber, jovens mulheres bem formadas. Barney acenou a Gavegan, conversou por alguns minutos com o seu amigo da comédia musical, durante os quais deu um sinal a Gavegan, e depois atravessou o bar outrora lotado, agora reduzido ao isolamento e ao estatuto humilde de bebidas não alcoólicas, e pediu um ginger ale. Só então reparou em Barlow, chefe da Divisão de Detetives, numa mesa de canto. Barney não deu sinal de reconhecimento e Barlow, após um olhar casual para ele, voltou à sua comida.

Barney, na solidão de uma extremidade do bar, bebia lentamente com uma espécie de indignação contra a sua compra sem efeito. Pouco depois, Gavegan estava ao seu lado, tendo o maior azar nas suas tentativas de acender o seu charuto com uma caixa de fósforos de segurança que se partiam, situada naquela extremidade do bar.

— Bem, o que é? — sussurrou Gavegan pelo canto da boca que não estava ocupado pelo charuto. Ele não olhou para Barney.

— Alguma pista sobre o Larry Brainard ainda? — sussurrou Barney também pelo canto da boca, com o copo nos lábios. Da mesma forma, parecia não reparar no homem ao seu lado.

— Não! Ainda anda pelo Oeste algures. Aqueles idiotas de Chicago não conseguiriam apanhar um criminoso se ele caminhasse pela State Street com um cartaz nas costas!

— Vi o Larry Brainard esta noite.

Gavegan teve dificuldade em manter a sua atitude de não conhecimento do seu companheiro de bar.

— Onde?

— Aqui mesmo, em Nova Iorque.

— O quê! Onde é que o viste?

— A sair do Grantham.

— Quando?

— Quinze minutos atrás.

— Sabes para onde ele foi? — onde é que ele anda? — sabes mais alguma coisa?

— É tudo. Achei que era melhor dar-te a dica o mais rápido que pudesse.

— Desta vez aquele pássaro não escapa! — rosnou Gavegan, ainda num sussurro. — Vinte e quatro horas e ele estará no xadrez!

Finalmente, Gavegan conseguiu obter uma chama de um daqueles irritantes fósforos suecos feitos no Japão. Com o charuto aceso, ele caminhou até à mesa de Barlow. Conversou com o seu Chefe por um momento ou dois e depois saiu. Após um minuto, Barney viu o Chefe Barlow a atravessar em direção ao bar. Barney pareceu não reparar nesse movimento. Barlow também parou ao lado dele para acender um charuto; e, do lado da boca do Chefe, saiu: — Sala 613.

Barlow seguiu em frente. Pouco depois, Barney terminou o enfadonho trabalho de beber e saiu calmamente. Cinco minutos mais tarde, tendo exercido a devida cautela, estava na Sala 613, e a porta estava trancada.

— O que é essa dica que acabaste de dar ao Gavegan sobre o Larry Brainard? — exigiu Barlow.

Barney deu a sua informação, novamente, mas desta vez de forma mais completa. É claro que omitiu qualquer menção à Maggie e ao empreendimento que Larry tentara interromper; fazia parte do entendimento tácito entre os dois que Barlow não deveria ter conhecimento dos negócios profissionais de Barney, a menos que tal conhecimento fosse forçado por eventos ou pessoas fortes demais para serem ignoradas.

— O Brainard deixou cair alguma pista que nos pudesse dar um rasto de onde ele se está a esconder?

Barney lembrou-se de algo que Larry dissera meia hora antes, o que ele considerara mera gabarolice. — Ele disse que sabia que eu tinha um jogo em mãos, e disse que sabia quem era o otário que eu planeava enganar.

— Ele disse quem era o otário?

— Não.

— Se o Larry Brainard realmente sabia, então quem é que ele teria em mente?

Barney hesitou; mas percebeu que esta era uma pergunta que tinha de ser respondida. — O jovem Dick Sherwood, da família rica dos Sherwood — tu sabes.

Barlow não prosseguiu com o assunto. De acordo com o seu acordo com Barney, as atividades privadas deste último não eram da sua conta.

— Vou tratar de ativar a rede; desta vez apanhamos o Brainard — disse Barlow. E depois, com um olhar sombrio para Barney: — Mas o Larry Brainard não é a razão pela qual te chamei aqui, Palmer. Queria falar-te de duas palavras — e dizê-las bem entre os teus olhos.

— Prossiga, Chefe.

— Primeiro, não vales nada para mim há vários meses. Não me deste qualquer valor pelo facto de eu manter os meus homens longe de ti. Não me trouxeste uma única coisa.

— Vamos lá, Chefe — está a esquecer-se do Red Hannigan e do Jack Rosenfeldt.

— Migalhas! Eles estão sob fiança, e quando os seus casos forem a tribunal, eles vencê-los-ão! Além disso, tu não me deste essa dica para me ajudar; deste-ma para poderes arranjar forma de colocar o Larry Brainard em maus lençóis com todos os seus velhos amigos. Fizeste isso para te ajudares a ti próprio. Cala-te! Não tentes negar. Eu sei!

Barney não tentou negar. Barlow continuou:

— E a segunda coisa que quero dizer-te, e dizer-te com firmeza, é esta: tens de trazer algum negócio! A forma fácil como tens levado as coisas faz parecer que te esqueceste de que te tenho onde o cabelo é comprido. Jovem, é melhor lembrares-te de que te tenho bem na mão por causa daquele negócio das ações da Gregory — tu e o Velho Jimmie Carlisle. Tenho todos os documentos num cofre, e tenho três testemunhas a cumprir penas em Sing Sing. Continua a dizer isso a ti próprio! E continua a dizer a ti próprio que, se não colaborares, um dia destes descobrirei subitamente que és a parte culpada naquele caso Gregory, e trarei essas testemunhas que tenho escondidas em Sing Sing.

Barney moveu-se inquieto na sua cadeira. Ele sabia o acordo que fizera e não gostava de pensar nas condições sob as quais era um aventureiro licenciado.

— Não precisa de me pressionar assim, Chefe — protestou ele. — Claro que me lembro de tudo o que disse. E não vai ter motivos para estar irritado por muito mais tempo. Haverá muito movimento.

— Certifica-te de que há! E certifica-te de que não fazes nenhuma asneira. E certifica-te de que não escorregas. Porque se o fizeres, sabes o que te acontecerá. Agora, sai!

Barney saiu, protestando novamente que não seria encontrado em falta. Ele não estava muito perturbado com o que Barlow dissera. De tempos a tempos, tinham de acontecer sessões como aquela, e de tempos a tempos Barlow tinha de libertar vapor.

A missão de Barney estava cumprida. A polícia da cidade estava no rasto de Larry e a sua participação no assunto era e continuaria a ser desconhecida. Até agora, tudo estava bem. Ele não tinha dúvidas da captura precoce de Larry, agora que ele estava de volta a Nova Iorque, agora que toda a força policial tinha sido prontamente avisada e estava no seu encalço, e agora que todas as vias de saída estariam instantaneamente, de facto a esta altura já estavam, sob vigilância e fechadas para ele — e agora que cada refúgio do mundo criminoso era apenas uma armadilha para ele. Não, não havia dúvidas da captura precoce de Larry. Não podia haver. E assim que Larry estivesse preso, as coisas seriam muito melhores. Barlow trataria de garantir que Larry não dissesse coisas indesejáveis, ou pelo menos que tal conversa não fosse ouvida. Não era exatamente agradável ou seguro ter Larry à solta, livre para disparar para as pessoas erradas aquelas coisas sobre o Barney ser um informador e um bufo.

Muito confortado, embora ansioso por notícias da caçada, Barney começou a sua rotina noturna de visitar os restaurantes mais alegres. Negócios são negócios, e um homem sofre quando os negligencia. É verdade, esta era uma proposta interessante que ele tinha em mãos; mas isso logo seria resolvido, e o Empresário Barney desejava estar pronto para avançar para outros empreendimentos.

Entretanto, tinha havido uma sessão entre Maggie e a Duchess. Por volta da altura em que Barney tinha sussurrado as suas notícias a Gavegan, Maggie, sem fôlego devido à sua pressa frenética, embora tivesse feito a viagem num táxi, entrou na sala familiar atrás da casa de penhores.

— Boa noite, Maggie. — A voz era casual, indiferente, embora, naquele momento, não houvesse pessoa que a Duchess, ponderando os seus problemas, mais desejasse ver. — Senta-te. O que se passa?

— A polícia sabe que o Larry está em Nova Iorque e está atrás dele!

— Como sabes?

Rapidamente, Maggie contou os acontecimentos na sua sala de estar, e sobre Barney e o Velho Jimmie terem saído para avisar Gavegan. A Duchess ouviu cada palavra, mas a maior parte das suas faculdades estava concentrada numa reavaliação de Maggie e naquelas perguntas que a tinham preocupado durante toda a noite e por todos aqueles dias. Havia bondade na Maggie? Teria ela razão em continuar a suprimir a verdade sobre a ascendência de Maggie?

— Por que me estás a dizer tudo isto? — perguntou a Duchess, quando Maggie terminou a sua rápida narração.

— Porquê! Não é evidente? Quero que avises o Larry de que a polícia está atrás dele!

— Por que não o fazes tu mesma?

— Vou sair para onde ele está amanhã, mas pode ser demasiado tarde.

Maggie deu as suas outras razões, tais como eram. Os olhos da velha mulher nunca deixaram o rosto corado de Maggie, e ainda assim nunca mostraram qualquer interesse.

— Pensei que estavas ligada ao Barney e ao Velho Jimmie — comentou a Duchess. — Por que vais contra eles nisto e tentas ajudar o Larry?

— Que diferença faz o porquê de eu estar a fazer isto — gritou Maggie com uma impaciência febril —, desde que eu esteja a tentar ajudá-lo a sair desta!

— Não percebes — continuou a voz calma da velha — que o Larry já deve saber, como algo natural, que a polícia e todo o velho bando estão atrás dele?

— Talvez saiba, talvez não. De qualquer forma, ele deve saber com certeza! O grande ponto é: vais dar o recado ao Larry?

Passou um momento e a Duchess não falou. Na verdade, desta vez ela não tinha ouvido a Maggie, tão concentrada estava em tentar ver através dos olhos escuros e ansiosos de Maggie até ao próprio âmago do seu ser.

— Vais dar o recado ao Larry? — repetiu Maggie impacientemente.

A Duchess saiu do seu escritório. Houve um sobressalto súbito dentro dela, mas não transpareceu na sua voz.

— Sim.

— Imediatamente?

— Assim que avisá-lo for de alguma utilidade. E agora é melhor voltares a correr para o teu hotel, se não queres que o Barney e o Old Jimmie suspeitem do que tens andado a fazer. Embora por que razão ainda te queiras manter ligada a esses dois, sabendo o que eles são, é algo que ultrapassa a minha compreensão.

Ela levantou-se. — Espera um minuto — disse ela quando Maggie começou a dirigir-se para a porta. Maggie voltou para trás e, por mais um momento, a Duchess perscrutou silenciosamente o fundo dos olhos de Maggie. Depois, disse de forma breve, quase cortante: — Na tua idade, eu era duas vezes mais bonita do que tu — e duas vezes mais esperta — e jogava um jogo muito semelhante. Olha o que tirei da vida!... Boa noite. — E, abruptamente, a Duchess girou sobre os calcanhares e subiu a escada.

Vinte minutos depois, Maggie estava de volta ao Grantham, a sua ausência não fora notada. Embora estivesse palpitante com o destino de Larry, tinha a satisfação de ter conseguido, com a avó de Larry, o que se tinha proposto alcançar. Ela não sabia, não podia saber, que o que tinha aceitado como a sua conquista era inconsequente comparado com o que tinha sido realmente alcançado pela sua aparição espontânea perante a conturbada Duchess.

CAPÍTULO XXIX

À medida que a Duchess observava os olhos excitados e implorantes de Maggie, tinha-lhe ocorrido na sua mente, cuidadosamente crítica e penosamente hesitante, que havia muito mais de cinquenta por cento de hipóteses de que Larry estivesse certo na sua estimativa sobre Maggie; que a inclinação de Maggie para a aventura criminosa, a sua suprema autoconfiança, toda a sua bravata, não passavam de tendências superficiais, embora fortes, desenvolvidas pelo seu ambiente infeliz; que, dentro daquele invólucro cínico e mundano, existiam os ingredientes vitais e plásticos de uma mulher real.

E assim, a Duchess, há muito perturbada, que para os seus conhecidos sempre parecera tão inexpressiva como o papagaio coberto de pó e comido pelas traças que permanecia com uma altivez mumificada sobre o seu cofre, tinha tomado uma decisão momentosa que enviara pelas suas velhas veias a seiva arrepiante de uma grande crise, de um grande suspense. Ela tentara guiar o destino. Estava agora acabada com tal esforço. Não tinha o direito, devido ao seu amor por Larry, de reter por mais tempo os factos sobre a ascendência de Maggie. Ela ia agora dizer a verdade e deixar que os acontecimentos se desenrolassem como tivessem de se desenrolar.

Mas os acontecimentos — o que iriam ser eles?

Por um momento, a Duchess sentira-se impelida a dizer a verdade diretamente a Maggie. Mas conteve-se a tempo. Todo este assunto era assunto de Larry, e a verdade pertencia-lhe para ser usada como ele bem entendesse. Por isso, quando ela tinha dito a Maggie que daria o recado a Larry, era esta verdade que ela tinha em mente, e apenas de forma muito menor as notícias que Maggie tinha trazido.

Esta era, evidentemente, uma verdade que só podia ser comunicada em segurança por palavra falada. A Duchess compreendeu que Larry já não se atrevia a ir ter com ela e que, portanto, tinha de arranjar forma de ir ter com ele. E ir ter com ele sem revelar o seu paradeiro.

Havia poucas hipóteses de a polícia revistar a sua casa ou incomodá-la muito. Para a mentalidade policial, agora que Larry sabia que se sabia que ele estava em Nova Iorque, a casa de penhores seria, obviamente, o último lugar onde ele procuraria refúgio ou através do qual faria negócios. Não obstante, a Duchess considerou prudente não perder um momento e não negligenciar qualquer cautela possível. Portanto, enquanto Barney ainda estava com o Chefe Barlow e antes de a ordem geral relativa a Larry ter chegado a mais do que as várias esquadras de polícia, a Duchess, de capa, chapéu e véu, saiu de sua casa. Um quarteirão acima na rua vivia o proprietário de dois ou três táxis, sobre o qual a Duchess, que era quase omnisciente no seu próprio mundo, sabia muito que o referido proprietário desejava ardentemente que não fosse conhecido por mais ninguém. Algumas frases com este cavalheiro e, quinze minutos depois, encolhida no canto escurecido de um táxi, ela atravessava a Ponte Queensboro em direção a Long Island na sua missão de libertar um facto cujo efeito ela não podia prever.

Uma hora e meia depois disso, Larry levava-a para um banco na escuridão perfumada do relvado dos Sherwood. Ela tinha telefonado ao "Sr. Brandon" de uma cabina de drogaria em Flushing, e Larry estava à espera dela perto da entrada de Cedar Crest.

— O que a trouxe aqui fora assim, avó? — sussurrou Larry, estupefacto, ao sentar-se ao lado dela.

— Para te dizer que a polícia está à tua procura — sussurrou ela de volta.

— Já sabia disso.

— Sim, eu sabia que saberias.

— Mas como descobriu?

— A Maggie disse-me.

— A Maggie!

— Ela veio ter comigo, contou-me o que tinha acabado de acontecer no seu local, contou-me sobre o Barney correr para ir dar a notícia àquele Gavegan, e implorou-me que te avisasse imediatamente. Ela estava terrivelmente nervosa e perturbada.

— A Maggie fez isso! — ele suspirou. O seu coração saltou com a inesperada preocupação dela por ele. — A Maggie fez isso! — E depois: — Não era preciso; ela deveria saber que eu saberia.

— Foi um tanto tolo, de certa forma — mas a Maggie estava demasiado excitada para usar o raciocínio frio.

A sua avó não falou durante um momento. — O facto de ela perder a cabeça e vir mostra que ela se preocupa contigo, Larry.

Ele não conseguiu responder. Esta era, de facto, a prova mais clara que Maggie dera até então de que possivelmente poderia importar-se.

— A Maggie pode ter perdido a cabeça na sua excitação — conseguiu ele dizer; — mas, avó, não havia razão para a senhora perder a cabeça ao ponto de vir até aqui fora para me avisar sobre a polícia.

— Não vim até aqui fora para te avisar sobre a polícia — respondeu ela. — Vim para te dizer outra coisa.

— Sim?

— Tens a certeza de que te preocupas realmente com a Maggie?

— Disse-lhe isso quando fui ter consigo esta noite.

Embora a Duchess tivesse decidido, o desejo de proteger Larry permanecia tenazmente nela e tornava difícil para o seu amor ciumento correr um risco. — Tens a certeza de que ela poderia tornar-se alguém correto — isto é, sob melhores influências?

— Tenho a certeza, avó. — Ele recordou como, poucas horas antes, no Grantham, a exigência do Old Jimmie de que ela ficasse com ele parecera a força que tinha controlado a sua decisão. — Não haveria dúvida disso se não fosse pelo Old Jimmie, e pelas pessoas entre as quais ele a manteve, e pelas ideias que lhe tem alimentado desde que ela era bebé. Não creio que ela tenha qualquer amor pelo seu pai; mas dizem que o sangue é muito espesso e suponho que, nela, seja apenas o instinto habitual de uma criança de ficar ao lado do pai e fazer o que ele diz. Sim, se ela não fosse contida e reprimida por ter o Old Jimmie como pai, tenho a certeza de que ela estaria bem.

A Duchess sentiu que o momento tinha chegado para ela soltar o seu segredo. Mas, apesar do seu propósito fixo de contar, as suas palavras tiveram de ser forçadas a sair, e foram hesitantes, cruas.

— Jimmie Carlisle — não é o seu pai.

— O quê? — exclamou Larry.

— Não tão alto. Disse que Jimmie Carlisle não é o seu pai.

— Avó!

— O seu pai é Joe Ellison.

— Avó! — Ele agarrou-lhe as mãos. — Por que... por que... — Mas, por um momento, a sua estupefação absoluta paralisou-lhe o discurso. — Tem... tem a certeza disso? — conseguiu ele finalmente dizer.

— Sim. — Ela continuou e contou como a sua suspeita tinha sido despertada, da sua entrevista com Joe Ellison que tinha transformado a suspeita em certeza, da sua teoria dos motivos que tinham levado Jimmie Carlisle a perverter as orientações do homem que tinha tido Jimmie como o seu amigo mais de confiança.

Larry ficou completamente atordoado com este relato do que tinha sido feito. E ficou ainda mais atordoado ao perceber a plenitude do que agora parecia ser as circunstâncias.

— Deus, pensem nisto! — suspirou ele. — A Maggie a tentar ser uma grande aventureira porque foi educada dessa forma, porque pensa que o seu pai quer que ela seja assim — e nunca tendo tido um palpite da verdade! E Joe Ellison a acreditar que a sua filha é uma rapariga simpática e simples, felizmente ignorante da vida da qual ele tentou protegê-la — e nunca tendo tido um palpite da verdade! Que situação! E se eles alguma vez descobrissem...

Ele interrompeu-se, horrorizado com o poder e a magnitude do que via vagamente. Pouco depois, disse numa voz entorpecida e cheia de respeito:

— Eles deveriam saber a verdade. Mas como é que eles vão descobrir?

— Estou a deixar tudo isso para ti, Larry. Maggie e Joe Ellison são assunto teu. Cabe-te a ti decidir o que pensas que é melhor fazer.

Larry ficou em silêncio durante vários momentos. — Sabia disto há algum tempo, avó?

— Há várias semanas.

— Porque não me contou antes?

— Tive medo de que pudesse de alguma forma aproximar-te da Maggie, e eu não queria isso — respondeu ela honestamente. — Agora penso um pouco melhor sobre a Maggie. E tu provaste-me que posso confiar muito mais no teu discernimento. Sim, suponho que essa seja a principal razão pela qual vim até aqui fora contar-te isto: provaste-me que tenho de respeitar o teu discernimento. E, portanto, o que quer que faças — sobre a Maggie ou qualquer outra coisa — será bom para mim.

Ela não esperou por uma resposta, mas levantou-se. A sua voz, que tinha estado carregada de emoção nestes últimos minutos, era agora aquele monótono plano e mecânico a que os habitantes da sua pequena rua estavam acostumados.

— Tenho de voltar para a cidade. Boa noite.

Ele começou a acompanhá-la até ao seu carro, mas ela proibiu-o, dizendo que não ajudaria em nada vê-lo e possivelmente reconhecê-lo pelo motorista do táxi; e assim ela saiu do recinto sozinha. Dentro de mais uma hora e meia, ela foi deixada sem ser vista numa rua lateral obscura em Brooklyn. De lá, fez o seu caminho a pé até ao metro e foi para casa. Se a polícia tivesse notado a sua ausência e a questionasse, ela poderia recusar-se a responder, ou dizer que tinha estado a visitar tardiamente um amigo em Brooklyn.

Larry sentou-se durante muito tempo na noite depois de a sua avó o ter deixado. O que deveria ele fazer com esta informação espantosa colocada à sua disposição? Dizer a Joe Ellison? Ou dizer à Maggie? Ou dizer a ambos? Ou tentar encontrar-se pessoalmente com Jimmie Carlisle e pagar a esse traidor de Joe Ellison e a esse deformador da Maggie a moeda que ele tinha merecido?

Mas, durante horas, a situação em si ainda era demasiado desconcertante nas suas muitas fases para Larry poder pensar de forma concentrada sobre o que deveria ser a sua tentativa de solução. Só quando o amanhecer começou a despertar penosamente, como com um bocejo prolongado, do sombrio Estreito, é que ele foi capaz de manter realmente a sua mente com clareza sobre o problema de que uso deveria fazer destes factos dos quais tinha sido nomeado guardião. Decidiu não contar a Joe Ellison — pelo menos, não lhe contaria ainda. Lembrou-se dos rumores sobre o vulcão reprimido de temperamento de Joe Ellison; se Joe Ellison descobrisse como tinha sido defraudado, todas as forças vitais daquele homem seriam instantaneamente transformadas numa fúria destrutiva e vingativa que não pouparia ninguém e não contaria com nenhum custo. O resultado seria, sem dúvida, uma tragédia, com ninguém a ser muito servido, e com Joe, muito provavelmente, de volta à prisão. Se ele próprio fosse dar ao Old Jimmie o que merecia, a sua ação seria apenas boa pólvora desperdiçada — serviria igualmente para nenhum propósito construtivo. Larry compreendeu que é apenas a natureza humana para um homem injustiçado desejar e tentar a vingança; mas que, na economia da vida, a vingança não tem valor, não serve nenhum propósito; que geralmente apenas torna uma má situação pior.

Um erro tremendo tinha sido cometido aqui, um erro que mostrava uma mente maligna, astuta e paciente. Mas, à medida que Larry via finalmente o assunto, o ponto para a primeira consideração não era a satisfação sem valor de fazer o homem culpado sofrer, mas era tentar restaurar às vítimas alguma parte daquelas coisas preciosas de que tinham sido inconscientemente roubadas.

E então Larry teve o que lhe pareceu uma inspiração: a sua inspiração sendo apenas um pensamento são, e o que a Duchess, embora não lhe tivesse apontado o caminho, tinha pensado que ele faria. Maggie era a pessoa importante nesta situação! — Maggie cuja vida estava apenas a começar, e cuja natureza ele ainda acreditava ser plástica! Não Joe Ellison ou Old Jimmie Carlisle, que tinham quase vivido as suas vidas e cujas naturezas estavam agora definidas no que seriam até ao fim. Ao jogar com os elementos mais finos do caráter de Maggie, ele quase tinha conseguido despertar para a dominância aquela melhor natureza que existia dentro dela. Ele diria em privado a verdade à Maggie, e diria apenas a ela e deixaria o uso desse conhecimento apenas para ela. O choque daquele conhecimento, o efeito das suas revelações sobre ela, juntamente com a responsabilidade do que ela deveria fazer com esta informação, poderiam ser exatamente as forças finais necessárias para fazer com que a Maggie se libertasse de tudo o que tinha sido e se voltasse para tudo o que ele acreditava que ela poderia ser.

Sim, era isso que se devia fazer! E ele fá-lo-ia nas próximas doze horas; pois Dick tinha-lhe dito que a Maggie viria novamente a Cedar Crest na tarde do dia que estava agora a despertar do seu sono. Isto é, ele fá-lo-ia se a polícia ou os aliados dos seus antigos amigos não o localizassem antes de a Maggie vir. Mas disso ele não tinha nenhum medo sério; sabia que tinha feito uma fuga limpa do Grantham, e que a astuta Duchess não tinha deixado nenhum rasto pelo qual aqueles cães de caça do Departamento de Polícia pudessem segui-la.

Larry nem sequer tentou dormir; sabia que seria inútil. De volta ao seu próprio quarto, sentou-se a rever a situação e a sua decisão. Ele sentia-se arrepiado com a sensação do poder tremendo que tinha sido entregue nas suas mãos. Sim, tremendo! Mas quais seriam as reações de Maggie no momento em que ele lhe contasse? — exatamente qual seria o seu caminho depois de ela saber a verdade?

CAPÍTULO XXX

Larry despiu-se, tomou um banho, barbeou-se, vestiu-se novamente e começou a trabalhar. Mas, naquele dia, o máximo que Larry fez foi cumprir distraidamente os movimentos do trabalho. Ele estava completamente cheio com a situação e as suas muitas perguntas, e com o suspense de esperar que a Maggie viesse e de como ele ia arranjar forma de a ver em privado.

O encontro, contudo, não revelou dificuldade; pois a Maggie, que chegou às quatro, tinha vindo principalmente por causa do Larry e ela própria manobrou o encontro. Enquanto estavam na varanda, tendo Dick ido a casa buscar uma nova provisão de cigarros, e a Srta. Sherwood estando numa discussão animada com Hunt, Maggie disse:

— Srta. Sherwood, nunca tive um olhar real para o Estreito a partir da beira do seu penhasco. Importa-se se o Sr. Brandon me mostrar?

— De todo. O chá não será servido durante meia hora, por isso leve o seu tempo. Peça ao Sr. Brandon para lhe mostrar a vista do outro lado daquele antigo banco de rosas; essa é a melhor vista.

Eles caminharam conversando mecanicamente até estarem num banco de jardim atrás do banco de rosas. O banco de rosas era uma coisa bastante lamentável, pois tinha sido colocado neste local exposto por um antigo jardineiro que se tinha esquecido de que os ventos diretos do Estreito são pouco graciosos para as rosas. No entanto, protegia os dois, e estava suficientemente afastado para que tons comuns não chegassem à casa.

— A sua avó deu-lhe o recado sobre a polícia? — perguntou a Maggie com excitação reprimida assim que se sentaram.

— Sim. Ela veio aqui fora por volta da meia-noite.

— Então porque, enquanto ainda tinha tempo, não se afastou mais de Nova Iorque do que isto?

— Se for para ser apanhado, serei apanhado; entretanto, este é um lugar tão seguro como qualquer outro para mim. Além disso, queria ter pelo menos mais uma conversa consigo — depois de algo de novo que a minha avó me contou sobre si.

— Algo de novo sobre mim? — ecoou a Maggie, sobressaltada pelo seu tom grave. — O quê?

— Sobre o seu pai — disse ele, observando de perto o efeito sobre ela das suas revelações.

— O que é que tem o meu pai? O que é que ele tem andado a fazer que eu não sei?

— Você não sabe uma única coisa que o seu pai fez.

— O quê!

— Porque você não sabe quem é o seu pai.

— O quê! — ela arquejou.

— Ouça, Maggie. O que eu vou dizer-lhe pode parecer inacreditável, mas você tem de acreditar, porque é a verdade. Posso ver que você tem provas se quiser provas. Mas pode aceitar o que lhe digo como factos absolutos. Você é, de nascimento, uma pessoa muito diferente do que acredita ser. O seu pai não é Jimmie Carlisle. E a sua mãe...

— Larry! — Ela agarrou-lhe o braço com tensão.

— A sua mãe era de uma boa família. Imagino que algo do tipo da Srta. Sherwood — embora não tão rica e não tendo tal estatuto social. Ela morreu quando você nasceu. Ela nunca soube qual era o negócio do seu pai; ele passava por um cavalheiro do campo. Ele era cerca do mais fino e maior vigarista do seu tempo, e um vigarista honesto, se é que existe tal coisa.

— Larry! — suspirou ela.

— Ele manteve este lado de agricultor cavalheiro da sua vida e o seu casamento inteiramente escondido dos seus conhecidos vigaristas; isto é, de todos exceto um em quem ele confiava como o seu amigo mais leal. Antes de você ter idade suficiente para se lembrar, ele foi apanhado e enviado com uma pena de vinte anos.

— E ele está... ele ainda está na prisão? — sussurrou a Maggie.

Larry não deu atenção à interrupção. — Ele tinha desenvolvido o mais alto tipo de ambição para si. Ele queria que você crescesse como uma mulher simples e fina como a sua mãe — algo como a Srta. Sherwood. Ele não queria que você soubesse alguma vez o tipo de vida que ele tinha conhecido; e ele não queria que você fosse prejudicada pelo conhecimento de que tinha um vigarista como pai. Ele ainda tinha intacta a fortuna da sua mãe, uma pequena fortuna, mas honesta. Por isso, ele colocou você e o dinheiro nas mãos do seu amigo de confiança, com as instruções de que você deveria ser educada como as raparigas das famílias mais finas são educadas, e acreditando ser órfã.

— Esse amigo dele, Larry? — sussurrou ela tensamente.

— Jimmie Carlisle.

— O... oh!

— Não sei quais eram os motivos de Jimmie Carlisle para o que ele fez. Talvez para obter o seu dinheiro, talvez algum rancor contra o seu pai, o qual ele tinha medo de mostrar enquanto o seu pai estava livre, pois o seu pai era sempre o seu mestre. Mas o Old Jimmie educou-a exatamente ao contrário das ordens que recebeu. Se a vingança era o motivo do Old Jimmie, o seu cérebro astuto e cobarde não poderia ter concebido uma vingança mais diabólica, uma que magoaria o seu pai mais. Até há alguns anos, quando foi enviada uma palavra ao seu pai de que o Old Jimmie estava morto, Jimmie escrevia regularmente ao seu pai sobre o sucesso do seu plano, sobre como esplendidamente você se estava a desenvolver e a dar-se com as melhores pessoas. E o seu pai — eu conhecia-o na prisão — acredita agora que você cresceu exatamente no tipo de jovem mulher que ele planeou.

— Larry! — engasgou ela numa voz entorpecida. — Larry!

— O seu pai está agora tão feliz quanto é possível para ele estar, pois ele viveu durante anos e ainda vive na crença de que o seu grande sonho, a única grande coisa que lhe restava fazer, se concretizou: que algures no mundo está a sua filha, transformada numa jovem mulher simpática, simples e saudável, com uma vida limpa e saudável pela frente. E embora ela seja a única coisa em todo o mundo para ele, ele nunca pretende vê-la novamente por medo de que o facto de vê-la possa de alguma forma resultar num acidente que destruiria a sua feliz ignorância. Maggie, consegue conceber o significado tremendo para o seu pai do que ele acredita ter criado? E consegue conceber a diferença tremenda entre o sonho de que ele vive, e a realidade?

Ela estava branca, a olhar fixamente, murcha. Por uma vez, toda a resistência, autoconfiança, bravata, derreteram-se nela, e ela era apenas uma jovem rapariga horrorizada e assustada.

Após um momento, ela conseguiu repetir a pergunta que Larry tinha ignorado: — O meu verdadeiro pai... ainda está na prisão?

— Não, Maggie. Ele saiu há pouco tempo. Está aqui em Cedar Crest.

Ela deu um passo atrás, como se tivesse sido atingida. O rosto, que já estava pálido, tornou-se da cor de cinza.

— Aqui? — sussurrou ela. — Em Cedar Crest?

— Sim. Ele trabalha no jardim. Ele... ele tem sido um dos meus amigos mais próximos aqui.

Ela não disse nada durante um longo silêncio. Parecia estar a tentar assimilar a ideia, a lutar contra o choque da revelação. Por fim, ergueu o olhar para ele com uma intensidade perturbadora.

— Gostarias de ver o teu verdadeiro pai? — perguntou-lhe ele.

— Penso que... gostaria de ter um vislumbre dele — respirou ela.

Larry, pouco antes disto, tinha reparado em Joe Ellison, com as suas jardineiras azuis e chapéu de palha largo, a limpar um canteiro de dálias jovens um pouco mais acima na encosta. Ele pegou agora no braço de Maggie e guiou-a nessa direção.

— Estás a ver aquele homem ali a trabalhar entre as dálias? — o homem que outrora te trouxe um ramo de rosas? Joe Ellison é o seu nome. É o homem de quem tenho estado a falar... o teu pai.

Ele sentiu-a a tremer sob a sua mão por um momento e ouviu a respiração dela sair em arquejos rápidos e espasmódicos. Ele perguntava-se qual seria o efeito nela deste clímax da sua revelação, quando ela sussurrou:

— Achas que... posso falar... com o meu pai?

— Claro. Ele gosta de todas as mulheres jovens. E eu disse-te que ele e eu éramos amigos chegados.

— Então... vamos. — Ela levantou-se, agarrando-se a ele, e puxou-o consigo. A meio caminho de Joe, ela sussurrou: — Por favor, diz tu alguma coisa primeiro. Qualquer coisa.

Ele reconheceu nisto o apelo de alguém cujas faculdades estavam a vacilar. Nunca houve, ali em Cedar Crest, qualquer tentativa de ocultar o passado de Joe Ellison e, no caso de Larry, apenas houve o ocultamento necessário para ajudar a sua evasão dos seus perigos. E assim, Larry comentou, enquanto Joe Ellison tirava o seu chapéu largo do cabelo branco e permanecia de cabeça descoberta diante deles:

— Joe, a menina Cameron sabe quem eu realmente sou e sobre o facto de eu ter estado em Sing Sing; e acabei de lhe contar que fomos amigos lá. Também lhe contei sobre o facto de teres uma filha. Isso interessou-a e ela perguntou-me se não podia falar contigo, por isso trouxe-a.

Larry afastou-se e observou tensamente este encontro entre pai e filha. Joe inclinou-se ligeiramente, com uma graça digna que as jardineiras e mais de quinze anos de prisão não conseguiram retirar a alguém que, durante a sua juventude e meia-idade, fora conhecido como a perfeição do cavalheiro requintado. Os seus olhos cinzentos aqueceram com apreço pela figura jovem diante dele, tal como Larry os vira brilhar ao observar as figuras jovens a divertirem-se no Sound.

— É muito gracioso da parte de uma mulher jovem como a menina, Miss Cameron — disse ele com uma voz de grave cortesia —, interessar-se o suficiente por um velho como eu para querer falar com ele.

Maggie fez o esforço supremo da sua vida para se manter controlada.

— Queria falar consigo por causa de algo que o Sr. Brainard me contou sobre... sobre o facto de o senhor ter uma filha.

Larry sentiu que aquela era uma cena demasiado sagrada para ele se intrometer.

— Importar-se-ia de me desculpar — disse ele; — tenho alguns cálculos que preciso de despachar — e voltou para o banco onde estiveram sentados e fingiu ocupar-se com um bloco de notas de bolso.

Enquanto Larry falava e se afastava, Maggie tinha estado a avaliar rapidamente o seu pai. Os seus olhos cinzentos eram diretos, ao contrário da furtividade de Jimmie; a sua boca tinha uma gentileza firme, ao contrário da astúcia enrugada de Jimmie; o seu porte era ereto, autoconfiante, ao contrário do porte curvo e arrastado de Jimmie. Maggie não sentiu nenhum amor de filha nascido subitamente por este estranho que era o seu pai. O tumulto da sua descoberta enchia-a demasiado para permitir uma afeição plena; mas ela sentiu-se arrepiada com a noção da vasta diferença entre o seu suposto pai e este, o seu verdadeiro pai.

Entretanto, o seu pai tinha falado. Joe teria sido mais reservado com homens ou com mulheres mais velhas; mas, com esta rapariga, tão semelhante ao tipo de rapariga com quem ele há muito sonhava, a sua reserva desvaneceu-se sem resistência e, no seu lugar, surgiu um desejo de falar com esta criatura bela que vinha do mundo que a grande casa branca representava.

— Tenho uma filha, sim — disse ele. — Mas Larry... o Sr. Brainard, talvez devesse dizer... provavelmente já lhe contou tudo o que há para contar.

— Gostaria de ouvir da sua boca, por favor... se não se importar.

— Na verdade, não há muito para contar — disse ele. — A menina sabe o que eu fui e o que aconteceu. Quando fui para a prisão, a minha filha era demasiado nova para se lembrar de mim... menos de dois anos de idade. Eu não queria que ela fosse atraída para o tipo de vida que tinha sido a minha, ou que fosse o tipo de mulher em que uma rapariga se torna quando entra nessa vida. E não queria que ela tivesse de carregar o estigma e o obstáculo de saber, e de o mundo saber, que o seu pai era um condenado. A menina não pode compreender totalmente, Miss Cameron, mas talvez possa compreender um pouco quão envergonhada se sentiria, que obstáculo seria, se o seu pai fosse um condenado. Eu tinha um bom amigo em quem podia confiar. Por isso, entreguei a minha filha a ele, para ser criada sem qualquer conhecimento da minha existência e com todas as vantagens razoáveis que uma boa rapariga deveria ter. Acho que é tudo, Miss Cameron.

— Esse amigo... qual era o seu nome?

— Carlisle... Jimmie Carlisle. Mas o nome dele nunca poderia significar nada para a menina. Além disso, ele já morreu.

Maggie forçou-se a continuar.

— O seu plano... resultou bem? E o senhor... o senhor é feliz?

— Sim. — Na atmosfera simpática que a presença daquela jovem rapariga criava para ele, as emoções de Joe fluíram em palavras mais livremente do que nunca na companhia de um ser humano. Embora ele estivesse a responder-lhe, o que ele estava realmente a fazer era apenas deixar que o seu coração usasse a sua voz há muito silenciosa, expressar o seu sonho e crença exultantes.

— Algures no mundo... não sei onde, e não quero saber... a minha filha cresceu agora e tornou-se uma mulher jovem, sã e esplêndida! — disse ele com uma voz vibrante. O facto de remoer na solidão durante tanto tempo o seu plano cuidadoso, que ele acreditava não poder falhar, tinha tornado o perspicaz Joe Ellison menos desconfiado quanto a ele do que de outra forma seria... talvez o tivesse tornado um pouco tolo sobre este único assunto. — Salvei a minha filha de toda a sujidade que ela poderia ter conhecido, e que a poderia ter manchado, e até arrastado para baixo se eu não tivesse concebido a tempo o meu plano para a proteger. E, claro, sou feliz! — exultou ele. — Fiz a melhor coisa que era possível para mim fazer, a coisa que eu mais queria fazer! Em vez do que ela poderia ter sido, tenho como filha uma rapariga tão boa como a menina... mais ou menos da sua idade... embora, claro, ela não tenha o seu dinheiro, a sua posição social e, naturalmente, não exatamente as vantagens que a menina teve. Claro que sou feliz!

— O senhor... o senhor tem a certeza de que ela é tudo isso?

Novamente, as suas palavras foram tanto uma declaração em voz alta para si mesmo do seu sonho constante como foram uma resposta direta a Maggie.

— Claro! Havia dinheiro suficiente... o plano estava nas mãos de um amigo que sabia como lidar com tal coisa... ela nunca conheceu nada além dos melhores ambientes... e até ela ter catorze anos, eu recebia relatórios regulares sobre quão maravilhosamente ela estava a progredir. A menina vê, o meu amigo fez com que ela fosse legalmente adotada por uma família esplêndida, por isso não há dúvida de que tudo correu pelo melhor.

— E o senhor — Maggie forçou-se a continuar — nunca quer vê-la?

— Claro que quero. Mas, logo no início, arranjei as coisas de modo a que não pudesse; de modo a que nem sequer soubesse onde ela está. Removi a tentação de mim próprio, percebe? Não percebe os possíveis resultados se eu tentasse vê-la? Algo poderia acontecer que traria a verdade à luz, e isso arruinaria a sua felicidade, a sua carreira. Não percebe?

Os seus olhos cinzentos, brilhantes com o seu grande sonho, estavam fixos intensamente em Maggie; e, ainda assim, ela sentia que eles estavam a contemplar muito além dela, uma outra rapariga... a sua rapariga.

— Eu... eu... — ela engoli em seco, oscilou e teria caído se ele não tivesse sido rápido a agarrar-lhe o braço.

— Sente-se mal, menina? — perguntou ele ansiosamente.

— Eu... eu tenho estado — gaguejou ela, tentando recuperar o controlo das suas faculdades. — É... é isso... e o facto de não comer... e estar de pé neste sol quente. Muito obrigada pelo que me contou. Eu... eu é melhor voltar.

— Eu ajudo-a. — E, muito gentilmente, com uma mão firme sob um braço, ele escoltou-a até ao banco onde Larry se sentava a rabiscar nadas. Depois, levantou o chapéu e regressou às suas dálias.

— Então? — perguntou Larry quando ficaram sozinhos.

— Não suporto ficar aqui a falar com estas pessoas — respondeu ela num sussurro agonizado. — Preciso de sair daqui rapidamente, para que possa pensar.

— Posso ir contigo?

— Não, Larry... tenho de ficar sozinha. Por favor, Larry, por favor entra na casa e arranja maneira de simular uma mensagem telefónica para mim, chamando-me de volta a Nova Iorque imediatamente.

— Está bem. — E Larry apressou-se a ir embora. Ela sentou-se, pálida, a respirar rapidamente, todo o seu ser cerrado, a olhar fixamente para o Sound. Cinco minutos depois, Larry estava de volta.

— Está tudo arranjado, Maggie. Disse às pessoas; elas lamentam que tenhas de ir. E o Dick está a preparar o carro dele.

Ela voltou os olhos para ele. Ele nunca tinha visto neles tal olhar. Estavam febris, com um horror atordoado e aterrorizado. Ela agarrou o braço dele.

— Tens de prometer nunca contar ao meu pai sobre mim!

— Não contarei. A não ser que seja obrigado.

— Mas não deves! Nunca! — gritou ela desesperadamente. — Ele pensa que eu sou... Oh, não percebes? Se ele soubesse quem eu realmente sou, isso matá-lo-ia. Ele tem de manter o seu sonho. Pelo bem dele, ele nunca deve descobrir, ele deve continuar a pensar em mim exatamente da mesma forma. Agora, percebes?

Larry assentiu lentamente.

As suas palavras seguintes foram embotadamente vibrantes com um temor devastado.

— E isso significa que nunca posso tê-lo como meu pai! Nunca! E eu penso... que... gostaria de tê-lo como pai! Não percebes?

Novamente, Larry assentiu. Nesta fase inteiramente nova dela, uma rapariga de rosto pálido, devastada e a tremer, Larry sentiu uma simpatia pungente por ela, semelhante à qual nunca formigara através dele nos seus estados de conquista. De facto, a situação de Maggie estava a abrir-se para grandes problemas humanos tais como nem ele nem ninguém mais tinha previsto!

— Aí vem o Dick — sussurrou ela. — Tenho de fazer o meu melhor para me manter controlada. Adeus, Larry.

Um minuto depois, com Larry logo atrás dela, ela atravessava o relvado no braço de Dick, explicando a sua fraqueza e palidez pela tontura repentina que a acometera em consequência de não comer e de estar ao sol quente.

CAPÍTULO XXXI

Larry ficou muito mais profundamente comovido desta vez, quando Maggie partiu com Dick, do que naquela ocasião anterior em que tinha tentado brincar com destreza com as suas reações psicológicas. Agora ele sabia que o próprio mundo dela estava abalado; que a sua alma estava atordoada e a vacilar; que ela estava a lutar com todas as suas forças por uma breve compostura exterior.

Ele amava-a há meses, mas nunca a amou tanto como nesta hora, em que todas as suas defesas artificiais tinham sido derrubadas e ela tinha sido apenas uma rapariga confusa e agonizante, com exatamente as emoções e os primeiros pensamentos que qualquer outra rapariga normal teria tido nas mesmas circunstâncias. O seu grande desejo tinha sido estar com ela, consolá-la, ajudá-la; mas ele percebeu que ela tinha tido razão no seu instinto de ficar sozinha por um tempo, para tentar compreender tudo, para tentar pensar na sua saída.

Quando Maggie ficou fora de vista, ele desculpou-se por não tomar o chá, deixou Hunt e Miss Sherwood na varanda e procurou o seu escritório. Mas, embora tivesse negligenciado o seu trabalho durante todo o dia, ele agora não lhe deu atenção. Sentou-se à sua secretária e pensou em Maggie: tentou pensar no que ela iria fazer. A sua situação era tão complicada com grandes elementos que ela teria de gerir, que ele não podia prever qual seria o seu curso. Era uma situação terrível para uma mulher jovem, que era, afinal, apenas uma rapariga muito jovem, enfrentar sozinha. Mas não havia nada para ele a não ser esperar por notícias dela. E ela nem sequer tinha dito que o deixaria saber algo.

Enquanto ele considerava estes assuntos, levantou-se e percorreu a sala. Uma vez, ele parou numa janela francesa que dava para uma varanda lateral e tinha visto abaixo de si, a poucos metros de distância, Joe Ellison, cujo interesse pelas suas flores estabelecia o seu dia de trabalho do nascer ao pôr do sol. Joe Ellison estivera a arrancar pequenas ervas daninhas que se atreviam a tentar começar num jardim de rosas. A mente de Larry deteve-se um momento em Joe. Ali, pelo menos, estava um homem contente: alguém que, acontecesse o que acontecesse, permaneceria na ignorância de eventos possivelmente grandes que lhe diriam respeito intimamente. Então, Larry deixou a janela e regressou aos seus pensamentos sobre Maggie.

Mas os pensamentos de Larry não permaneceriam exclusivamente com Maggie por muito tempo. Pouco depois das seis, Judkins entrou e anunciou que um homem estava à porta com uma mensagem. O homem tinha recusado entrar, dizendo que era apenas um mensageiro e que estava com pressa; e tinha recusado dar a Judkins a mensagem, dizendo que era verbal. Pensando que alguma palavra tinha chegado da sua avó, ou possivelmente até de Maggie, Larry foi para a varanda. À espera dele estava um homem indistinto que ele não conhecia.

— Sr. Brandon, senhor? — perguntou o homem.

— Sim. Tem uma mensagem para mim?

Antes que o homem pudesse responder, ouviu-se um grito vindo do arbusto para além da entrada:

— Agarrem-no, Smith! É ele!

Instantaneamente, os braços de aço de Smith envolveram Larry, prendendo os seus cotovelos aos lados, e um homem saiu do arbusto e apressou-se em direção à casa. Instintivamente, Larry começou a lutar, mas parou ao reconhecer o homem que subia os degraus. Era Gavegan. Larry percebeu que tinha sido astuciosamente apanhado, que a resistência não serviria de nada, e no momento seguinte as algemas estavam nos seus pulsos.

— Bem, Brainard — regozijou-se Gavegan —, apanhámo-lo finalmente!

— Assim parece, Gavegan.

— Pensou que era muito esperto, mas acho que sabe agora que não vale nada!

— Oh, eu sabia quão esperto o senhor é, Gavegan — respondeu Larry secamente —, e que me apanharia mais cedo ou mais tarde se eu andasse por aqui.

Na verdade, a captura de Larry, que foi tão pouco espetacular como a sua fuga fora extenuante, foi consequência de esperteza nenhuma. Larry tinha dito a Barney Palmer na noite anterior que sabia quem era o alvo de Barney; e Barney tinha passado esta informação ao Chefe Barlow. "Siga todas as pistas; a sorte pode estar consigo e uma das pistas pode revelar o que deseja": — isto é, em substância, uma regra não escrita de procedimento de rotina que efetua aquelas magníficas resoluções policiais que são apresentadas como mais misteriosas do que o mistério original — pois é bom que o público acredite que os seus oficiais de polícia são invariavelmente mais espertos do que os seus criminosos. Barlow tinha feito algum pensamento de rotina: se Larry Brainard sabia que Dick Sherwood era o alvo, então vigiar Dick Sherwood poderia possivelmente revelar o paradeiro de Larry Brainard. Barlow tinha passado esta dica a Gavegan. Gavegan tinha resmungado para si mesmo que era apenas uma chance de mil para uma; mas a sorte esteve com ele, e o seu tiro longo tinha ganho.

Miss Sherwood, com Hunt atrás dela, tinha sido atraída pelo som das vozes para o lado da varanda onde estavam os quatro homens.

— O que está a fazer? — exigiu ela agora bruscamente a Gavegan.

— Não gosto de causar qualquer cena desagradável, Miss Sherwood, mas tenho de lhe dizer que este tal Brandon é um criminoso bem conhecido. — Gavegan gostava de poucas coisas mais do que de surpreender as pessoas com factos desagradáveis. — O seu verdadeiro nome é Brainard; ele já cumpriu pena e agora é procurado pela polícia de Nova Iorque por um trabalho difícil que realizou.

— Eu sabia tudo isso há muito tempo — disse Miss Sherwood.

— Eh... o quê? — gaguejou Gavegan.

— O Sr. Brainard contou-me tudo isso na primeira vez que o vi.

— Olá, Gavegan — disse Hunt, adiantando-se.

— Bem, serei eu... se não é aquele louco... — Novamente, a capacidade de se expressar de forma coerente e com contenção falhou a Gavegan. — Se não é aquele pintor que vivia lá na casa da Duquesa!

— Correto, Gavegan... como um detetive deveria ser sempre. E Larry Brainard era então, e é agora, meu amigo.

Miss Sherwood voltou a falar bruscamente.

— Sr. Gavegan... se esse é o seu nome... por favor, tire essas coisas tolas dos pulsos do Sr. Brainard.

Gavegan tinha sido enganado na sua oportunidade de criar uma sensação. Esse desconforto talvez o tenha tornado ainda mais obstinado do que era por natureza.

— Lamento, senhorita, mas ele está acusado de ter cometido um crime e é um fugitivo da justiça, e não posso.

— Eu serei a sua fiança. Tire-as.

— Lamento recusar-lhe novamente, senhorita. Mas ele é um homem perigoso... já escapou uma vez antes. As minhas ordens são para não correr riscos que lhe deem outra hipótese de fuga.

Miss Sherwood voltou-se para Larry.

— Vou à cidade consigo, e o Sr. Hunt também. Vou certificar-me de que consegue fiança e um bom advogado.

— Obrigado, Miss Sherwood — disse Larry. — Gavegan, acho que estamos prontos para partir.

— Ainda não, Brainard. Lamento, Miss Sherwood, mas temos um mandado de busca para a sua propriedade. Só queremos dar uma vista de olhos no quarto que o Brainard usou. Não se sabe que tipo de coisas criminosas ele tem feito. E para tornar o mandado de busca válido, pedi que fosse emitido neste condado e trouxe um oficial do condado para o cumprir. Mostre-o à senhora, Smith.

— Não tenho qualquer desejo de o ver, Sr. Gavegan. Tenho mais interesse em observá-lo enquanto vasculha as minhas coisas. — E, dando a Gavegan um olhar que fez um rubor invulgar subir pelo pescoço grosso daquele oficial e avermelhar a sua face quadrada, ela liderou o caminho para o escritório de Larry. — Este é o quarto onde o Sr. Brainard trabalha — disse ela. — Através daquela porta está o seu quarto de dormir. Tudo aqui, exceto o vestuário dele, é minha propriedade. Vou responsabilizá-lo rigidamente por qualquer desordem que possa criar ou qualquer dano que possa fazer. Agora pode prosseguir.

— Dê-me todas as suas chaves, Brainard — engasgou Gavegan.

Larry entregou-as. Com Miss Sherwood, Hunt e Larry a observar silenciosamente, os dois homens começaram o seu exame. Começaram com os papéis na secretária de Larry e nas suas gavetas; e, em toda a sua vida, Gavegan nunca tinha sido tão cauteloso numa busca como o era agora, com os olhos azuis de Miss Sherwood friamente postos nele. Abriram armários, examinaram os seus conteúdos, sacudiram livros, examinaram as costas de quadros, levantaram tapetes; depois passaram para o quarto de dormir de Larry. Miss Sherwood não fez qualquer movimento para seguir os oficiais para aquele apartamento mais íntimo, e os outros dois observadores permaneceram com ela.

Passou um minuto. Então Gavegan reentrou, um olhar intrigado e meio triunfante na sua face vermelha, segurando um quadrado de tela coberto de tinta.

— Encontrei esta coisa na cómoda do Brainard. O que raio... quero dizer, o que é que isto está aqui a fazer?

Não houve um instante de dúvida sobre o que era a coisa. Larry sobressaltou-se, e Hunt sobressaltou-se, e Miss Sherwood sobressaltou-se. Mas foi Miss Sherwood quem falou primeiro.

— Ora, é um retrato da Miss Cameron, em traje! E pintado pelo Sr. Hunt! — Em espanto, ela voltou-se primeiro para Larry e depois para Hunt. — Quando pintaram o retrato dela, quando nem sequer conheceram a Miss Cameron até a conhecerem aqui? E, Sr. Brainard, como é que o senhor possui o retrato da Miss Cameron?

Foi Gavegan quem interveio prontamente, e não qualquer um dos dois homens subitamente desconcertados. E Gavegan sentiu instantaneamente na situação uma oportunidade de se vingar da humilhação que a sua autoestima acabara de sofrer.

— Miss Cameron, nada! O seu verdadeiro nome é Maggie Carlisle, e ela costumava viver numa pocilga de casa de penhores no East Side, gerida pela avó do Brainard. O Brainard conhecia-a lá, e o Sr. Hunt também.

— Mas... mas... — arquejou Miss Sherwood — ela tem vindo aqui como Maggie Cameron!

— Digo-lhe que a sua Maggie Cameron é Maggie Carlisle! — disse Gavegan, regozijando-se. — Conheço-a há anos. O seu pai é o velho Jimmie Carlisle, um criminoso notório. E ela está metida agora mesmo com o seu pai e alguns outros num jogo sujo. E o Brainard aqui costumava estar apaixonado por ela, e provavelmente ainda está, e se ele a deixou vir aqui, sem lhe dizer quem ela é... bem, acho que sabe a resposta. Não lhe disse, senhorita, que se me dessem uma oportunidade eu encontraria algo contra este tipo Brainard!

O rosto da senhorita Sherwood estava pálido, mas marcado por uma acusação severa que apenas aguardava o momento de proferir um julgamento rápido. “Sr. Hunt, é verdade que a senhorita Cameron é esta Maggie Carlisle a quem o oficial se refere, e que o senhor sabia disso todo este tempo?”

“Sim...” começou o pintor.

“Não o culpe, senhorita Sherwood”, interrompeu Larry. “Ele não lhe contou porque eu implorei que não o fizesse, como um favor a mim. Culpe-me por tudo.”

O julgamento dela sobre Hunt foi proferido com uma frieza definitiva, com os olhos fixos nos de Hunt: “Quaisquer que tenham sido os motivos do Sr. Hunt, considero-o irrevogavelmente culpado.”

Ela virou-se para Larry. O rosto que ele vira apenas em momentos de gentileza estava tão inflexivelmente severo quanto o de um promotor público.

“Vamos chegar ao fundo disto, Sr. Brainard. O senhor também sabia desde o início que esta senhorita Cameron era, na verdade, a Maggie Carlisle de quem este oficial fala?”

“Sim.”

“E o senhor sabia desde o início que ela era filha deste criminoso notório, o velho Jimmie Carlisle?”

O impulso surgiu em Larry de contar a verdade recém-aprendida sobre Maggie. Mas ele lembrou-se da proibição de Maggie de que a verdade nunca deveria ser revelada. Ele conteve sua revelação bem a tempo.

“Sim.”

“E é verdade que a própria Maggie Carlisle é o que se conhece como uma vigarista? — ou que teve inclinações ou planos desonestos?”

“É assim, senhorita Sherwood...”

“Uma resposta direta, por favor!”

“Sim.”

“E é verdade, como este oficial sugeriu, que o senhor mesmo estava apaixonado por ela?”

“Sim.”

“O senhor está ciente da paixão do meu irmão por ela? Que ele a pediu em casamento?”

“Sim.”

A voz dela soou agora ainda mais terrível para Larry. “Eu o acolhi para lhe dar uma oportunidade. E seu pagamento foi que, sabendo de todas essas coisas, você permaneceu em silêncio e deixou que eu e meu irmão fôssemos enganados por uma operação fraudulenta. E quem sabe, já que admite amar a moça, se você não tem sido um parceiro na conspiração desde o início!”

“Essa é exatamente a ideia, senhorita!” intrometeu-se Gavegan.

Larry previra muitas possíveis viradas erradas que seu plano poderia tomar, mas ficou horrorizado com a total falta de expectativa do desastre real. E, ainda assim, reconheceu que as evidências justificavam o julgamento da senhorita Sherwood sobre ele. Tudo o fazia parecer um ingrato e um vigarista.

Por um momento, Larry ficou tão sobrecarregado que não tentou falar. E como, por uma vez, Gavegan estava contente apenas em saborear seu triunfo, houve um silêncio tenso na sala até que a senhorita Sherwood dissesse, com a voz fria de um juiz após um júri ter proferido um veredito de culpado:

“Claro, se o senhor acha que há algo que possa dizer em sua defesa, Sr. Brainard, agora tem a chance de fazê-lo.”

“Tenho muito a dizer, mas não posso culpá-la se se recusar a acreditar na maior parte disso”, disse Larry desesperadamente, lutando pelo que parecia ser sua última chance. “Eu amava Maggie Carlisle. Acreditava que ela tinha qualidades esplêndidas. Apenas ela era dominada pelas ideias distorcidas que o velho Jimmie Carlisle plantara nela. Eu queria erradicar essas ideias distorcidas e fazer com que suas boas qualidades fossem as dominantes. Mas ela não acreditava em mim. Achava-me um tolo, um informante da polícia, um dedo-duro. Então tive que desaparecer; a senhorita sabe tudo sobre isso. Não foi até eu estar com vocês por várias semanas que descobri que ela estava sendo usada em um esquema fraudulento contra Dick.”

“Pensei em contar a você ou a Dick. Mas meu maior interesse era despertar aquela pessoa melhor que eu acreditava existir nela; e eu sabia que o resultado certo de eu expô-la a você seria eu perder a última gota de influência que tinha sobre ela, e ela passar direto para outro empreendimento de caráter semelhante. Então, surgiu-me a ideia de que, se eu não a expusesse, mas fizesse com que ela fosse recebida com toda cortesia por suas pretendidas vítimas, o efeito sobre ela seria que ela sentiria uma repulsa pelo que estava fazendo e voltaria a si. Contei isso ao Sr. Hunt; é por isso que ele concordou em não entregá-la. E outro ponto, embora francamente isso não fosse tão importante para mim: pareceu-me que um choque forte e direto poderia ser exatamente o que era necessário para fazer Dick levar a vida mais a sério, e vi neste caso uma chance para Dick receber exatamente o choque de que precisava.”

“É só isso, senhorita Sherwood. Exceto que vi sinais que me fazem acreditar que o que eu imaginei que aconteceria com Maggie Carlisle começou a acontecer com ela.”

“Bobagem!” bufou Gavegan.

“Sei que parte do que ele diz é verdade”, intrometeu-se Hunt.

A senhorita Sherwood ignorou Hunt e seu comentário. O olhar de ira contida que ela mantinha sobre Larry não mudou. Larry reconheceu que sua declaração soara extremamente implausível. A senhorita Sherwood, em sua indignação, considerou apenas que sua bondade fora traída, sua hospitalidade ultrajada, e que aqueles que ela aceitara como amigos tentaram enganar sua família da pior maneira que ela poderia conceber; e ela falou de acordo.

“Se é o melhor que o Sr. Brainard tem a dizer em sua defesa, Sr. Gavegan, pode levá-lo consigo, e sem qualquer interferência da minha parte. Peço apenas que o tire da casa imediatamente.”

Com isso, ela saiu da sala, sem olhar novamente para Hunt ou para Larry. Por um breve espaço de tempo houve silêncio, enquanto Gavegan deixava seu triunfo alimentar-se prazerosamente da visão de seu prisioneiro.

Este breve silêncio foi quebrado por um som baixo e estranho, como um grito humano rapidamente reprimido, que pareceu vir de fora das janelas francesas.

“O que foi isso?” perguntou Larry rapidamente.

“Não ouvi nada”, disse Gavegan, cujos sentidos estavam completamente concentrados em seu triunfo.

“Eu ouvi”, disse Hunt. “Na varanda.”

“Vamos ver. Fique de olho nele...” disse ao oficial do condado; e Gavegan seguiu Hunt até as janelas francesas e olhou para fora. “Ninguém na varanda, e ninguém à vista”, relatou ele. “Vocês devem ter sonhado.”

Ele voltou e encarou Larry. “Acho que você admitirá, Brainard, que eu o peguei de vez desta vez.”

“Então suponho que devamos partir para a Sede”, respondeu Larry.

Hunt aproximou-se do lado de Larry. “Vou apenas seguir atrás de vocês, Larry. De qualquer forma, este não parece ser um lugar para mim.”

Poucos minutos depois, Larry estava em um carro ao lado de Gavegan, acelerando para longe de Cedar Crest em direção à cidade. Os pensamentos de Larry eram os mais sombrios que ele tivera desde que saíra de Sing Sing meses antes com seu grande sonho. Tudo com que ele contava dera errado. Ele estava nas mãos da polícia, e sabia quão implacável a polícia seria. Ele incorrera na hostilidade da senhorita Sherwood e perdera o que parecia ser uma oportunidade substancial de iniciar sua carreira como um homem honesto. O único item de seu grande plano em que ele não parecia ter falhado completamente era Maggie. E ele não sabia o que Maggie faria.

CAPÍTULO XXXII

Quando Maggie partiu com Dick de Cedar Crest — isso foi uma hora antes de Gavegan descer sobre Larry e duas horas antes de ele partir triunfante com seu cativo — ela era a criatura jovem mais atordoada e desiludida que já partira confiante para conquistar o mundo. Coragem, confiança, rapidez de espírito, todas as qualidades das quais se orgulhara, haviam agora desaparecido completamente, e ela era apenas uma figura pálida e flácida que queria fugir: uma figura fraca na qual giravam pensamentos quase espasmodicamente poderosos demais para que um receptáculo tão enfraquecido não fosse estilhaçado sob sua tensão selvagem: pensamentos sobre seu pai real, descoberto de forma surpreendente — sobre como ela era a própria contradição do sonho de seu pai — sobre Larry — sobre o astuto Jimmie Carlisle, a quem até aquele dia ela acreditara ser seu pai — sobre Barney Palmer.

Tão agitada estava ela com esses pensamentos giratórios que não percebeu que Dick havia parado o carro na beira da estrada verde até que ele pegasse sua mão e começasse a falar. O feliz, falador e pouco observador Dick não notara nada de incomum nela, além de uma palidez que ela explicara como sendo devida a nada mais que uma tontura temporária. E assim, pela segunda vez, Dick derramou seu amor por ela e pediu que se casassem.

“Não, Dick — por favor!” ela o interrompeu. “Não posso me casar com você! Nunca!”

“O quê!” gritou o atônito Dick. “Maggie — por que não?”

“Eu não posso. Isso é final. E não me faça falar com você agora, Dick — por favor! Eu não posso!”

O rosto dele, tão fresco e feliz um momento antes, tornou-se cinzento e marcado pela dor. Mas ele silenciosamente manobrou o carro de volta para a estrada.

Ela o esqueceu completamente diante do que estava acontecendo dentro dela. Enquanto seguiam viagem, ela forçou-se a pensar no que deveria fazer. Via-se como vítima de muito, e culpada de muito. E então a inspiração veio sobre ela, ou talvez fosse apenas um alto frenesi de desespero, e ela viu que a responsabilidade por toda a situação recaía apenas sobre ela; viu como seu dever, o papel que lhe fora atribuído, tentar desembaraçar sozinha essa situação complicada, tentar medir justiça para cada um.

Primeiro de tudo, como ela dissera a Larry, o sonho de seu pai sobre ela deveria permanecer intacto. O que quer que ela fizesse, não deveria fazer nada que pudesse ser um golpe duro na concepção de sua filha, que eram as raízes, o tronco e os ramos floridos de sua felicidade atual... E então veio uma inspiração real! Ela, com o tempo, transformar-se-ia na garota que ele acreditava que ela era — tornaria o sonho dele a verdade! Ela se livraria do velho Jimmie e de Barney — cortaria laços com tudo relacionado à sua vida anterior — desapareceria e viveria por um ou dois anos no tipo de ambiente em que ele acreditava tê-la colocado — e reapareceria para reivindicá-lo como seu pai! E, pelo próprio bem dele, ele nunca deveria saber a verdade. Mais dois anos e ele teria a realidade, onde agora ele só tinha o sonho!

Mas antes que ela estivesse livre para iniciar esse plano, antes que pudesse desaparecer do conhecimento de todos que a conheceram, havia um grande dever para com Larry Brainard que ela precisava cumprir. Ele era caçado pela polícia, era caçado por seus antigos comparsas. E ele estava nessa situação fundamentalmente por causa dela. Portanto, era seu dever primordial limpar o nome de Larry Brainard.

Sim, ela faria isso primeiro! De alguma forma!...

Ela estava considerando esse problema de como limparia Larry, que tentara despertá-la, que a protegera, que a amava, quando Dick diminuiu a velocidade do carro em frente ao Grantham e a ajudou a descer. Enquanto ele dizia um adeus contido e entrava novamente no carro, um impulso surgiu nela — um impulso dessa Maggie diferente, cujo nascimento estava sendo acompanhado por emoções e decisões tão desconcertantes.

“Dick, você não gostaria de subir por apenas um pouco?”

Três minutos depois, eles estavam na sala de estar dela. Com o boné na mão, Dick aguardou as palavras dela na miséria do silêncio. O olhar dela estava tenso, mas direto.

“Lá na estrada, Dick, você me perguntou por que eu não poderia me casar com você. Convidei-o para subir aqui para lhe contar.”

“Sim?” ele perguntou sem ânimo.

“Uma razão é que, embora eu goste de você, não gosto de você dessa maneira. A razão mais importante para você é que eu sou uma farsa.”

“Uma farsa!” ele exclamou incrédulo.

Surgira-lhe, enquanto saía do carro, que o lugar para começar sua nova vida era começar certo, ou terminar certo, com Dick. “Uma farsa”, repetiu ela — “uma impostora. Não existe Maggie Cameron. Não nasci de nenhuma boa família do Oeste. Não tenho dinheiro. Sempre vivi em Nova York — a maior parte do tempo na parte baixa do East Side. Eu costumava trabalhar em uma chapelaria na Quinta Avenida. Até três meses atrás, eu vendia cigarros em um dos grandes hotéis.”

“O que tem isso!” gritou Dick.

“Essa é a parte mais agradável do que tenho a lhe dizer”, ela continuou implacavelmente. “Meus supostos parentes, Jimmie Carlisle e Barney Palmer, não são parentes de forma alguma, mas dois espertos vigaristas. Eu tenho estado com eles, trabalhando em um esquema que eles armaram. Tudo o que pareci ser, tudo o que fiz, até este apartamento caro, tudo foi parte desse esquema. A ideia desse esquema era enganar algum homem rico e tirar dele muito dinheiro — através de eu explorar suas suscetibilidades.”

“Maggie!” ele ofegou.

“Mais concretamente, a ideia era enganar algum homem rico para que se apaixonasse por mim, levá-lo a pedir-me em casamento, e então fazer com que eu confessasse que já era casada, mas com um homem que me daria o divórcio se fosse pago o suficiente. O homem rico então faria um trato com meu suposto marido, pagaria muito dinheiro — após o que Barney, o velho Jimmie e eu desapareceríamos com nossos lucros.”

“Maggie!” ele repetiu, estupefato com seu espanto incrédulo. Mas o olhar inabalável que ela mantinha sobre ele convenceu-o de que ela dizia a verdade. “Então, se esse era o seu jogo, por que está me contando agora? Por que não disse 'sim' quando propus há uma semana? Eu teria caído no jogo; você teria tido sucesso.”

Não até aquele momento Maggie percebeu a verdade completa; não até então ela percebeu a influência sólida que Larry Brainard fora nos bastidores de sua vida durante todos esses meses.

“Não levei isso adiante por causa de Larry Brainard.”

“Larry Brainard!” Seu espanto aumentou. “Você conhece Larry Brainard, então?”

“Conheço-o há vários anos.”

“E você tem frequentado, e ele tem fingido que não te conhece! Claro que eu sabia o que Larry Brainard foi. Mas ele também está nisto?”

“Não. Ele é exatamente o que você pensa que ele é. Desde o início, ele tem tentado me manter fora disso. Ele estava por trás de minha vinda à sua casa; ele me disse isso. A razão dele para me levar para lá foi sua crença de que ser tratada por você e sua irmã como fui me faria envergonhar-me de mim mesma e me faria querer desistir do que estava fazendo. E eu acho — acho que ele estava certo — em parte.”

“E Larry — ele é a razão pela qual você está me contando agora?”

“Acho que sim. Mas há outras razões.” Fazendo uma confissão completa embora estivesse, ela sentiu que não ousava confiar em Dick com o segredo de seu pai. “Eu... eu queria esclarecer as coisas na medida em que eu era responsável. Essa é uma razão pela qual estou lhe contando. Havia a chance de você descobrir algum dia que Larry me conhecia e suspeitar dele; eu queria que você soubesse a verdade do que ele realmente fizera. E eu queria dizer-lhe a verdade sobre mim mesma, para que você me desprezasse e me esquecesse, em vez de talvez carregar delírios românticos sobre mim depois que eu tivesse ido. E há outra razão. Eu gostaria de lhe dizer — pois você tem sido tudo o que há de bom para mim — se isso não o ofender.”

“Continue”, disse ele com a voz rouca.

“Barney Palmer escolheu você como vítima — você não sabia que estava sendo escolhido — porque ele disse que você era um alvo fácil. Que você levava as coisas exatamente pelo que pretendiam ser, e não se importava com o que fazia com seu dinheiro. Que você nunca se estabeleceria como uma pessoa responsável. Estou lhe contando tudo isso, Dick, porque não quero que você seja o que Barney disse.”

Dick caiu em uma cadeira, finalmente derrotado por essa revelação cumulativa. Ele enterrou o rosto nas mãos e sua respiração ofegante era convulsiva com soluços não ditos. Maggie olhou para baixo, para o jovem rapaz, com pena, remorso e um reconhecimento crescente do sofrimento generalizado que ela causara.

“Pensar que tudo isso foi uma terrível encenação!” ele finalmente gemeu. “Que durante todo esse tempo fui visto apenas como um jovem tolo que sempre permaneceria um tolo!”

Maggie, em seu senso de culpa, estava impotente para dar qualquer resposta que suavizasse sua agonia; e por um tempo nenhum dos dois falou.

Logo Dick levantou-se de repente. Seu rosto ainda estava marcado pelo sofrimento, mas de alguma forma parecia ter envelhecido sem perder sua juventude. Havia um novo brilho de determinação no olhar direto que ele mantinha sobre Maggie.

“Você diz que nunca me amou?” ele exigiu.

Ela balançou a cabeça. “Mas eu lhe disse que sempre gostei de você.”

“O que Larry Brainard está fazendo, o que ele continuou fazendo por você — isso significa que ele a ama, não é?” ele continuou.

“Ele me disse isso.”

“E você o ama?”

“Que diferença isso faz? — já que vou embora assim que conseguir esclarecer tudo pelo que sou total ou parcialmente responsável.”

“Se Larry Brainard a conhece há muito tempo, então como ficam Barney Palmer e Jimmie Carlisle?”

“Eles me conhecem há tanto tempo, ou mais.”

“Então vocês devem ter se conhecido todos?”

“Sim. Anos atrás, Larry trabalhou com Barney e Jimmie Carlisle.”

“Qual era a atitude daqueles dois em relação a Larry, quando ele estava tentando impedi-los fazendo você desistir do plano?”

“Eles o odiavam. Eles são a causa — especialmente Barney — de todos os problemas de Larry com a polícia e com a velha turma da qual ele se afastou. Tentar limpar o nome de Larry, esse é o dever mais importante que vou tentar cumprir.”

“E é aí que você tem que me deixar ajudá-la!” Dick gritou com energia repentina. “Larry tem sido um grande amigo para mim — ele tentou me colocar no caminho certo — e eu lhe devo muito. E eu gostaria de uma chance de mostrar a esse Barney Palmer que não vou continuar sendo o tolo eterno que ele achou que eu era!”

Maggie ficou surpresa com essa rápida transformação. “Ora... ora, Dick!” ela sussurrou.

“Qual é o seu plano para limpar o nome de Larry?”

“Eu não tinha chegado a ter um plano claro. Eu apenas tinha percebido que precisava haver um plano. Mas, já que eles chamaram a polícia para Larry, ocorreu-me que a ideia por trás de qualquer plano seria a polícia capturar realmente Barney e Jimmie Carlisle — tirá-los do caminho de Larry.”

“É isso!” Dick Sherwood tinha uma mente que, dada um estímulo interessante, podia trabalhar rapidamente; e trabalhou rapidamente agora. “Eles estavam planejando me enganar. Vamos usar esse plano que você descreveu para mim — use-o esta noite. Você pode contar a eles alguma história que fará com que uma ação imediata pareça necessária e todos nos reuniremos esta noite. Eu farei minha parte direitinho — não se preocupe comigo! Virei com um maço de dinheiro que conseguirei em algum lugar, e será dinheiro marcado. Quando for passado — bingo! — um par de detetives que teremos colocado para observar o procedimento aparecerá e capturará os dois!”

Ela foi surpreendida pela ideia dele, a própria vítima, após sua confissão, juntar-se a ela. “Ora, Dick” — ela gaguejou — “pensar que você se ofereceu para fazer tal coisa!”

“Devo isso a Larry Brainard”, declarou ele. “E... e devo isso ao seu desejo de ajudar a colocá-lo no caminho certo. Bem, o que você acha do meu plano?”

Já que ele parecia ansioso para se envolver nele, parecia para ela algo totalmente maravilhoso, e ela disse isso a ele. Eles discutiram detalhes por vários minutos, pois havia muito a ser feito e tudo precisava ser feito com a maior destreza. Ficou acordado que ele viria às dez horas, quando o palco estaria todo montado.

Enquanto ele saía para cuidar de sua parte na encenação, uma ideia de precaução passou pela mente de Maggie.

“É melhor me telefonar logo antes de vir. Algo pode ter acontecido para mudar nossos planos.”

“Tudo bem — eu telefonarei. Apenas mantenha a calma.”

Com isso, ele saiu apressadamente. Por volta da hora em que ele partiu, Larry estava deixando Cedar Crest algemado ao lado do corpulento e triunfante Gavegan, acreditando que o poder que ele tentara exercer agora chegara efetivamente ao fim. Ele estava fora daquilo. Em seu desânimo, não lhe foi dado ver que a maior coisa que ele poderia fazer já estava feita; que ele pusera em movimento toda a maquinaria do que ocorrera e do que estava prestes a ocorrer; que todas as figuras na ação do drama subsequente daquela noite iriam agir como haviam de agir principalmente devido a instigações que partiram dele.

CAPÍTULO XXXIII

A partida de Dick deixou Maggie a pensar sozinha sobre uma interação complexa e possivelmente perigosa de personagens, na qual ela se escalara para o papel principal, que poderia se revelar um papel sacrificial para ela. Ela percebeu rapidamente que o plano de Dick, por mais inteligente que pudesse ser, acarretaria, no duvidoso evento de seu sucesso, apenas um dos vários acontecimentos que precisavam ocorrer se ela quisesse limpar sua ficha antes de seu desaparecimento.

O plano de Dick era bom; mas apenas se livraria de Barney e do Velho Jimmie. Apenas livraria Larry do perigo que eles representavam; seria apenas uma vingança contra eles pelo mal que haviam feito. E, afinal, a vingança ajudava um homem muito pouco. Ainda restaria, mesmo na eventualidade do sucesso do plano de Dick, o perigo constante para Larry vindo da perseguição policial, instigada pela determinação vingativa do Chefe Barlow de enviar Larry de volta à prisão por sua recusa em ser um informante; e o perigo constante de seus antigos amigos que o caçavam com ódio mortal como um delator.

De alguma forma, se ela quisesse consertar as coisas para Larry, ela precisava manobrar os acontecimentos daquela noite de tal maneira que eliminasse para sempre as perseguições de Barlow, e eliminasse para sempre o perigo para Larry por parte de seus amigos e dos mercenários deles, devido ao desejo de vingança contra um suposto traidor.

Maggie pensou rapidamente, elaborando o plano de Dick. Mas o que Maggie fez não foi tanto o resultado de um pensamento sóbrio, mas sim da inspiração de uma jovem desesperada e muito pressionada; mas então, afinal, o que chamamos de inspiração é apenas o pensamento engrenado a uma velocidade incrivelmente alta. Primeiro de tudo, ela se livrou daquela supernumerária de raciocínio lento e impressionante, a Srta. Grierson, que poderia arruinar completamente a delicada ação do palco com uma entrada digna no momento errado e com a deixa errada. Em seguida, ela telefonou para o Chefe Barlow na Sede da Polícia. Felizmente para ela, Barlow ainda estava lá; pois uma disputa acrimoniosa, então em curso e ocupando muito espaço na imprensa, entre ele e a promotoria, estava mantendo-o até tarde em sua mesa, apesar das mais autocráticas e agradáveis de todas as exigências, as de sua hora de jantar. A ele, Maggie deu um nome falso e disse que tinha informações da maior importância para comunicar imediatamente; ao que ele rosnou de volta que ela poderia dar a informação se fosse até lá imediatamente.

Em seguida, ela telefonou para Barney, que estivera esperando perto de um telefone à espera de notícias sobre o resultado de sua segunda visita à casa de Dick Sherwood. A Barney ela disse que tinha as maiores notícias possíveis — notícias que exigiriam ação imediata — e que ele deveria estar em sua suíte às nove horas, preparado para desempenhar sua parte imediatamente na grande proposta que acabara de se desenvolver, e que ele deveria avisar ao Velho Jimmie para segui-lo em poucos minutos.

Em quinze minutos, um táxi a levara à Sede da Polícia e ela estava no escritório onde, três meses antes, Larry fora interrogado após sua recusa da licença para roubar e trapacear sob a condição de que se tornasse um informante da polícia. Barlow, que estava sozinho na sala, olhou para cima com uma carranca de um relatório secreto que obtivera sobre as atividades dos detetives no escritório do Promotor Público. Embora Maggie fosse bonita e estivesse vestida com elegância, Barlow não se levantou nem removeu o grande charuto que vinha roendo violentamente. É a tradição do Departamento de Polícia, o artigo mais profundamente respeitado de sua religião, que uma mulher vista na Sede da Polícia não pode, de forma alguma, ser uma dama.

— Bem, o que você tem a dizer? — ele resmungou, sem sequer pedir que ela se sentasse.

Foi subitamente um impulso de Maggie — nascido talvez de uma memória inconsciente do que Larry sofrera — infligir a si mesma a maior humilhação. Então ela disse:

— Vim aqui para me oferecer como informante.

— O quê? — exclamou Barlow, surpreso. Não era frequente que uma dama elegante — que é claro não poderia ser elegante (ele não sabia quem Maggie era) — entrasse voluntariamente em seu escritório com tal proposta.

— Posso lhe dar algumas informações reais sobre um grande jogo que está sendo preparado. De fato, posso arranjar para que você esteja presente quando o jogo for realizado, e você pode efetuar as prisões.

— Quem são as pessoas? — ele perguntou bruscamente.

Maggie sabia que seria fatal mencionar Barney ou o Velho Jimmie, se aquela história sobre a proteção de Barlow contivesse alguma verdade. Novamente a inspiração, ou o pensamento incrivelmente rápido, veio em seu auxílio, e com um toque seguro ela tocou em um dos nervos mais sensíveis e responsivos de Barlow.

— Larry Brainard está por trás de tudo. Ele tem feito muitas coisas às escondidas nestes últimos meses. É aqui que você pode pegar todo o grupo dele.

— Larry Brainard!

Maggie ainda não sabia o que acontecera com Larry, e Gavegan negligenciara telefonar ao seu Chefe sobre a prisão. Mesmo que Gavegan o tivesse feito, a maneira ampla e vaga como Maggie expusera a situação teria despertado a curiosidade de Barlow.

— Tudo bem. Vou colocar alguns dos meus bons homens no caso. Onde devo enviá-los?

— Alguns dos seus bons homens não servirão. Eu quero apenas um dos seus bons homens — e esse homem é você mesmo.

— Eu! — rosnou Barlow. — Que tipo de gerente de loja você acha que eu sou? Estou ocupado demais!

— Ocupado demais para assumir o comando pessoal, e obter o crédito pessoal, por um dos maiores casos que já passou por este escritório?

Maggie tentara apenas excitar a vaidade dele. Mas, sem saber, ela também apelara para algo mais nele: sua preocupação muito profunda com as atividades hostis do escritório do Promotor Público. Se aquela moça dissesse a verdade, então aqui poderia estar sua chance de demonstrar tal devoção ao dever a ponto de revelar um caso tão sensacional que faria essa investigação do escritório do Promotor Público parecer ao público uma perseguição ímpia e faria o envergonhado Promotor, que era muito sensível à opinião pública, pensar que seria mais sensato abandonar todo o assunto.

— Como sei que você não está tentando me enganar? — ou me tirar do caminho de algo maior? — ou me trair?

— Eu estarei lá o tempo todo, e se você não gostar da forma como a coisa se desenvolve, pode me prender. Suponho que você tenha algum tipo de lei, com uma punição severa, sobre conspiração contra um oficial.

— Bem — me dê todos os detalhes e me diga onde devo ir — ele cedeu sem cortesia.

— Eu já lhe disse tudo o que vou dizer. Todos os "detalhes" importantes você obterá em primeira mão ao estar presente quando a coisa acontecer. O lugar para vir é o Hotel Grantham — quarto onze e quarenta e dois — às oito e meia em ponto.

A isso Barlow concordou de má vontade. Ele poderia ter exultado interiormente, mas não teria demonstrado nenhuma amabilidade exterior se um comitê de cidadãos lhe entregasse uma recompensa de um milhão de dólares e um testemunho gravado de seus serviços sem precedentes. Barlow não sabia como agradecer a ninguém.

Cinco minutos depois de deixar a Sede, Maggie estava na sala dos fundos da loja de penhores da Duchess, que seu planejamento rápido fixara como a próxima estação em que deveria parar. Ela não perdeu um momento para ir direto ao ponto com a Duchess.

— Red Hannigan é realmente o mais importante dos velhos amigos de Larry que estão atrás dele, não é? — ela perguntou.

— Sim — de certa forma. Quero dizer, entre aqueles que honestamente pensam que Larry se tornou um informante e delator. Ele confiava em Larry mais do que em qualquer outra pessoa — e agora ele odeia Larry mais do que qualquer outra pessoa. É natural, já que ele passou dois meses em Tombs antes de conseguir fiança — porque ele acha que Larry o delatou.

— Como ele está com o grupo dele?

— Ninguém acima dele. Todos eles aceitariam a palavra dele para qualquer coisa.

— Você pode encontrá-lo imediatamente? — Maggie prosseguiu sem fôlego.

Aquela era uma pergunta trivial para se fazer à Duchess; já que todas as notícias de seu mundo sombrio chegavam aos seus ouvidos de alguma maneira rápida e obscura.

— Sim. Se for necessário.

— É terrivelmente necessário! Se eu não puder encontrá-lo, a coisa toda pode falhar!

— Que coisa? — exigiu a Duchess.

— Tudo poderia parecer impossivelmente tolo! — gritou a excitada e desesperada Maggie. — Você poderia me dizer isso — e me desencorajar — e eu simplesmente preciso seguir em frente! Sinto-me um pouco como — como um malabarista que está tentando pela primeira vez manter várias coisas novas no ar ao mesmo tempo. Mas acho que há uma chance de eu ter sucesso! Vou lhe dizer apenas uma coisa. Tudo tem a ver com Larry. Acho que posso ajudar Larry.

— Vou buscar Red Hannigan — disse a Duchess brevemente. — O que você quer com ele?

— Peça para ele vir ao Hotel Grantham — quarto onze e quarenta e dois — às oito e quinze em ponto!

— Ele estará lá — disse a Duchess.

Seguiu-se uma viagem de táxi vertiginosa de volta ao Grantham, e uma troca rápida para seu vestido de noite mais atraente (ela não teve nem um pensamento sobre o jantar) para desempenhar seu papel ousado no drama que ela estava escrevendo excitadamente em sua mente e para o qual acabara de contratar seu elenco. Ela estava em chamas com um suspense terrível: os outros atores desempenhariam seus papéis como ela pretendia que desempenhassem? — seu drama complicado teria o final que ela esperava?

Se ela estivesse em um estado de espírito mais composto e prático, esta peça que ela estava encenando teria parecido o mais grosseiro e impossível melodrama — uma coisa absurda e perigosa demais para ela se arriscar. Mas Maggie estava vivendo naquele momento um dos períodos mais altos de sua vida; ela pouco se importava com o que acontecesse com ela. E são exatamente esses estados de espírito que transformam e elevam o que de outra forma seria absurdo ao nobremente sério; que transforma o impossível no possível; assim como um estado de espírito ou mente exaltado é, ou era, a diferença primária entre Hamlet, ou Macbeth, ou Lear, e qualquer um dos esquecidos melodramas da Bowery de uma geração que já se foi.

Ela estava vestida há talvez dez minutos nervosos quando a campainha tocou. Ela admitiu um homem de meia-idade, baixo, ereto, bem vestido, com um rosto magro e lábios finos, e um olhar frio, duro e conservador: um homem do tipo que você vê às dezenas nos melhores hotéis de Nova York, e ao vê-los você pensa, se pensa neles, que ali está o astuto presidente de algum banco de tamanho razoável que não deixará um cliente pegar um dólar emprestado além de seu crédito estabelecido, ou que ali está o poder astuto, porém discreto, por trás de alguma grande indústria do Meio-Oeste.

— Sou Hannigan — anunciou ele brevemente. — Sei que você é a garota do Velho Jimmie Carlisle. A Duchess me disse que você me queria para algo grande. Qual é a ideia?

— Você quer pegar Larry Brainard, não quer? — ou quem quer que tenha sido que o delatou?

Houve um brilho momentâneo nos olhos cinzentos e duros. — Quero.

— É por isso que você está aqui. Em pouco mais de uma hora, se você ficar quieto em segundo plano, terá o que quer.

— Você tem um lugar elegante aqui. O que vai acontecer?

— Não é o que eu possa lhe dizer que vai ajudá-lo. É o que você ouvir e vir.

— Tudo bem — disse o homem de lábios finos. — Vou pular as perguntas, já que a Duchess me disse para fazer o que você mandasse. Ela é correta, mesmo que tenha um neto que é um informante. Suponho que devo ficar fora de vista durante o que quer que aconteça?

— Sim.

No quarto havia dois armários espaçosos, como não é infrequente na melhor classe de hotéis modernos; e tinham sido esses dois armários que haviam sido o ponto de partida prático do desenvolvimento de Maggie para a proposta de Dick Sherwood. Para um deles, ela levou Hannigan.

— Você ficará fora de vista aqui, e ouvirá cada palavra.

Ele entrou, e ela fechou a porta. Ela também tomou a precaução de trancá-la. Ela desejava que Hannigan ouvisse, mas não desejava nenhum contratempo como Hannigan explodindo e arruinando sua peça quando ela tivesse atingido apenas o meio de sua ação necessária.

Barlow veio prontamente às oito e meia. Ele trouxe notícias que por alguns momentos quase arruinaram completamente a estrutura delicadamente equilibrada de Maggie.

— Eu sei quem você é agora — disse ele bruscamente. — E parte do seu jogo está frio antes mesmo de você começar.

— Por quê? — Que parte?

— Logo depois que você saiu da Sede, o Oficial Gavegan apareceu. Ele trouxe esse Larry Brainard a reboque — ele o pegara em Long Island.

Este anúncio atordoou Maggie; por um momento, fez todo o seu planejamento árduo parecer ter perdido seu propósito. Em sua condição normal, ela poderia ter desistido ou traído sua real intenção. Mas agora, em seu estado superexcitado, no qual sentia que estava lutando desesperadamente pelos outros, ela estava agindo muito acima de sua capacidade habitual; e estava tomando decisões tão rápidas que mal pareciam proceder de um pensamento consciente. Então Barlow, observador vigilante de rostos como ele era, não viu nada de incomum em sua expressão ou maneira.

— O que você fez com ele? — ela perguntou.

— Deixei-o com Gavegan — e com Casey, que acabara de chegar. Junto com Brainard estava um figurão chamado Hunt, xingando de raiva. Ele estava bufando por aí sobre ser amigo da maioria dos magistrados, e jurou que tiraria Brainard sob fiança em uma hora. Mas o que ele faz não faz diferença para mim. Sua proposta me parece totalmente fria, já que eu já peguei Brainard, e o peguei direito. Eu não teria me incomodado em vir aqui se não fosse por algo que você deixou escapar sobre os amigos com quem ele poderia ter trabalhado nestes últimos meses.

— É exatamente isso — ela o interrompeu. — Eu nunca pensei que você pegaria Larry Brainard aqui. Como poderia, quando, se você me conhece como diz, você também sabe que ele e eu estamos em campos diferentes — estamos lutando um contra o outro? O que vai acontecer aqui é algo que lhe mostrará as pessoas com quem Larry Brainard se envolveu — que trará para você as pessoas que você quer.

— Mas o que vai acontecer? — Barlow exigiu.

A isso Maggie respondeu de forma muito semelhante à que usara com Hannigan alguns minutos antes. — Eu lhe disse lá na Sede que tudo o que é importante você aprenderá ao estar presente quando a coisa realmente acontecer. O que eu digo não conta muito — pode não ser verdade. É o que você vê e ouve por si mesmo quando as coisas começam a acontecer. Você deve esperar aqui dentro. Ela o levou ao segundo armário grande e abriu a porta.

— Veja bem — exigiu ele —, você está armando algo para mim?

— Como posso, em um grande hotel como este? E mesmo que eu tentasse, você certamente me faria pagar por isso mais tarde. Além disso, você tem uma arma. Por favor, entre rápido; estou esperando as pessoas aqui a qualquer minuto. E não faça um som que possa despertar suas suspeitas e arruinar tudo.

Ele entrou, e ela fechou a porta. Tão cuidadosamente que ele não ouviu, ela trancou a porta; não mais do que no caso de Hannigan, ela não queria que Barlow entrasse atrapalhando em uma cena antes que ela tivesse atingido seu clímax.

Tudo estava agora pronto para a cortina subir. Tremendo por toda parte, ela esperou por Barney Palmer, cuja entrada deveria abrir seu drama. Ela olhou para seu relógio de pulso que deixara sobre a pequena mesa de escrita laqueada. Nove horas menos dez. Mais dez minutos para esperar. Ela sentia muito mais suspense do que qualquer jovem dramaturgo na noite de estreia de sua primeira peça. Pois ela era mais do que apenas dramaturga. Em sua determinação desesperada e exausta, Maggie assumira para si o papel supermortal de *dea ex machina*. E naqueles momentos de espera tensa, Maggie, que tão febrilmente detestava tudo o que fora, não tinha certeza se conseguiria ter sucesso em seu papel de deusa vinda da máquina.

Às nove menos cinco, houve uma campainha. Ela deu um pequeno pulo com o som. Aquele era Barney. Embora, geralmente, quando Barney vinha, ele usasse a chave que sua suposta prima querida, e a possibilidade discutida de eles estarem fora e assim fazê-lo esperar desconfortavelmente, o senso de propriedade da Srta. Grierson tinha se flexibilizado o suficiente para permitir que ele possuísse. A verdade era, é claro, que Barney desejava a chave para que pudesse ter conferências mais privadas com Maggie, a qualquer momento que a necessidade exigisse, sem que a estoicamente conscienciosa Srta. Grierson jamais soubesse o que acontecera e, portanto, fosse incapaz de dar um depoimento perigoso.

Maggie atravessou e abriu a porta. Mas em vez de Barney Palmer, foi Larry quem entrou. Ele fechou rapidamente a porta atrás de si.

— Larry! — ela gritou, assustada. — Por que... por que, eu pensei que a polícia tivesse você!

— Eles tinham. Mas Hunt estava comigo, e ele conseguiu um magistrado que teria dado a Hunt de presente o Tombs e a Sede da Polícia se ele os possuísse.

— Então você está sob fiança?

— Saí há uns dez minutos. Hunt não tinha nenhuma propriedade que pudesse oferecer como garantia, então ele telefonou para minha avó. Ela apareceu com um braço cheio de escrituras. Ora, ela deve possuir tantas propriedades em Nova York quanto o patrimônio Astor.

— Larry, estou tão feliz! — E então, lembrando-se do que, de acordo com seu plano, deveria começar a acontecer a qualquer momento, ela exclamou consternada: — Mas, Larry, oh, por que você veio aqui agora!

— Eu queria saber — você entende — o que você tinha decidido fazer depois de saber sobre seu pai. E eu queria lhe dizer que, apesar de todas as minhas grandes promessas para você, parece que falhei em todas elas. Item um, a polícia me pegou. Item dois, já que a polícia me pegou, meus velhos amigos também muito provavelmente me pegarão. Item três, quando fui preso em Cedar Crest, a Srta. Sherwood soube que eu conhecia você desde o início e acredita que eu fazia parte de uma conspiração para limpar a família; então ela me dispensou — e eu perdi o que acreditava ser minha grande chance de me dar bem. Então, você vê, Maggie, parece que você estava certa quando previu que eu falharia em tudo o que disse que faria.

— Larry... a Srta. Sherwood acredita nisso! — ela suspirou. E então ela se lembrou novamente, e agarrou o braço dele com energia repentina. — Larry, você não deve ficar aqui!

— Por que não?

Sua resposta foi quase idêntica à que ela dera na noite anterior. — Porque Barney Palmer pode estar aqui no próximo minuto!

A resposta dele foi, em sentido, também idêntica. — Então eu vou ficar bem aqui. Não há ninguém que eu queira ver tanto quanto Barney Palmer. E desta vez eu vou acertar as contas com ele!

Maggie estava consternada com essa reviravolta inesperada que não estava no manuscrito mental de sua peça de forma alguma — que na verdade ameaçava tirar sua peça de suas mãos. — Por favor, vá embora, Larry! — ela gritou desesperadamente. — E por favor me dê uma chance! Você vai estragar tudo se ficar!

— Eu vou ficar bem aqui — foi a resposta sombria dele.

Ela percebeu que não havia como mudá-lo. Ela vislumbrou a porta de um armário atrás dele e agarrou a chance de salvar pelo menos um fragmento de seu drama.

— Fique, então, mas, Larry, por favor me dê uma chance de fazer o que eu quero fazer! Por favor! — A essa altura, ela o arrastara pelo quarto e começara a destrancar o armário. — Apenas espere aqui dentro — e fique quieto! Por favor!

Ele pegou a chave das mãos trêmulas dela, destrancou a porta e enfiou a chave no bolso. — Tudo bem — eu lhe darei sua chance — ele prometeu.

Ele entrou pela porta e a fechou sobre si mesmo, sepultando-se na escuridão. No momento seguinte, o brilho de uma lanterna de bolso estava em seu rosto, cegando-o.

— Larry Brainard! — rangeu uma voz baixa na escuridão.

Larry não conseguia ver nada, mas não havia como confundir aquela voz. “Red Hannigan!”, exclamou ele.

“Sim — seu maldito delator! E eu vou acabar com você aqui mesmo!”

A luz apagou-se com um clique, e um par de mãos magras quase se fechou na traqueia de Larry. Mas Larry agarrou os pulsos do homem mais velho com uma força que o outro não conseguiu romper. Houve uma breve luta na escuridão do armário, então o homem mais franzino ficou imóvel com os pulsos algemados pelas mãos de Larry.

“Evidentemente você não está armado, Red, ou não teria tentado isso”, comentou Larry. “De qualquer forma, você não teria conseguido escapar impune de um assassinato em um grande hotel, quer tivesse me estrangulado ou atirado em mim. Não o culpo por estar furioso comigo, Red — só que você me interpretou totalmente mal. Mas você e eu estamos evidentemente aqui com o mesmo propósito: ficar a par de algo que vai acontecer lá fora no quarto. O que me diz, Red? — vamos suspender as hostilidades por enquanto. Você me tem onde pode me seguir, e pode me pegar a qualquer momento.”

“Pode apostar que vou te pegar!”, declarou Hannigan. E então, após mais algumas palavras, um armistício foi acordado entre os dois homens no armário e, silenciosos e tensos, eles permaneceram no escuro aguardando o que quer que fosse acontecer.

Lá fora, Maggie, aquela dramaturga amadora que tentara tão desesperadamente prearranjar os eventos, aquela inexperiente deusa *ex machina*, permanecia em um pânico de medo e suspense como jamais conhecera.

CAPÍTULO XXXIV

Mas quando a chave de Barney deslizou na porta e Barney, em um elegante paletó de jantar, entrou, Maggie voltou a ser ela mesma. Na verdade, ela estava melhor do que ela mesma, pois correu para apoiá-la aquele poder adicional pelo qual ela acabara de desesperar, que leva algumas pessoas através de uma hora de crise, e que pode ocasionalmente elevar um ator acima de si mesmo quando a fortuna lhe dá um papel difícil, porém esplêndido, que é a grande oportunidade de sua carreira.

E Maggie mostrava aos olhos que estava melhor que o seu melhor, pois Barney exclamou no instante em que estava ao seu lado: “Caramba, Maggie, você parece a Rainha de Sabá, quem quer que tenha sido aquela madame! Qualquer sujeito se apaixonaria por você hoje à noite — e se apaixonaria tão forte que quebraria, ou iria à falência!”

Mas Barney estava impaciente demais para esperar qualquer resposta. “O que há por trás do chamado urgente que você enviou? Algo quebrou ainda?”

“Algo grande! Mas sente-se. Há muito para contar. E devo contar rápido — antes que meu” — ela não conseguiu forçar-se a dizer “pai” — “antes que o Velho Jimmie venha, e Dick.”

“Então o Dick está vindo?”

“Sim. As coisas tomaram um rumo tal que tudo acontece esta noite. Mas sente-se, e eu lhe contarei tudo.”

Ela notara que a porta atrás da qual Larry estava, e para a qual ele capturara a chave, estava aberta por meio centímetro. Não parecia mais suspeito do que qualquer porta de armário que por acidente tivesse se soltado da tranca, mas, por manobras habilidosas, Maggie conseguiu fazer com que Barney se sentasse à mesa de costas para ambos os armários.

“Manda ver, Maggie”, ele instou.

O plano que se desenvolvera rapidamente a partir da ideia de Dick Sherwood exigia que ela dissesse muito do que era verdade e muito do que não era, e exigia que ela jogasse com cada faculdade e cada atração que possuía sobre a tremenda vaidade de Barney e sobre sua admiração ciumenta por ela. Ela tinha que fazê-lo acreditar mais nela como companheira do que nunca; ela tinha que fazê-lo querê-la mais como mulher do que nunca. E, naquele momento, ela se sentiu arrepiantemente à altura desse papel de vampira que seu senso de justiça superestimulado a obrigara a assumir.

“As coisas foram ótimas”, ela começou, falando de forma concisa, mas tentando não perder, nesta brevidade ansiosa, o efeito convincente de que ela seria a completa senhora de qualquer empreendimento ao qual cedesse seu interesse. “Dick Sherwood me pediu em casamento novamente, e desta vez eu disse ‘sim’. Vi que ele estava pronto para qualquer coisa, então tomei algumas rédeas em minhas mãos. Tive que fazê-lo, pois vi que precisávamos agir rápido, mesmo sob o risco de perder um pouco do valor máximo com que contávamos. Você vê, percebi o perigo para nós no surgimento repentino de Larry Brainard, e ele saber, como nos disse que sabia, quem é o otário que temos enrolado. Qualquer coisa poderia acontecer, a qualquer minuto, por parte de Larry Brainard, que arruinaria tudo. Então raciocinei que tínhamos que cobrar rápido ou correr o risco de nunca receber um centavo.”

“Que cabeça você tem, Maggie”, ele disse admirado. “Mantenha o pé no acelerador.”

“O que fiz foi apenas a execução do plano que você decidira — claro, executando-o mais rápido, e com algumas pequenas mudanças que a situação urgente exigia. Depois que ele me pediu em casamento, eu desmoronei, conforme o cronograma, e confessei que o enganara na medida em que já era casada. Casada com um homem que eu não amava, e que não me amava, mas que era um sovina e que não me deixaria ir a menos que visse muito dinheiro nisso para ele. E contei a Dick todo o resto da história, exatamente como tínhamos planejado.”

“Ótimo trabalho, Maggie! Como ele reagiu?”

“Exatamente como imaginamos que ele faria. Ele teve pena de mim; isso não mudou em nada os sentimentos dele por mim. Ele compraria meu marido — daria a ele qualquer preço que ele quisesse — e, apenas para que eu não tivesse que me sentir presa a tal homem um minuto a mais do que o necessário, ele faria um acordo com ele imediatamente e pagaria parte do dinheiro na hora. Hoje à noite, se ele pudesse entrar em contato com meu marido. E então, Barney, já que tínhamos que agir rápido e não havia tempo para trazer outro homem que eu pudesse passar como meu marido, confessei a ele que era casada com você.”

“Comigo!”, exclamou Barney.

“E ele está vindo para cá em menos de uma hora, com dinheiro de verdade nos bolsos, para ver se consegue fechar um negócio com você.”

“Comigo!”, exclamou novamente o assustado Barney. Seus olhos miúdos brilhavam para ela ardentemente. “Caramba, sabe que eu gostaria que fosse verdade que sou casado com você, Maggie! Se fosse, pode apostar que dinheiro nenhum conseguiria te arrancar de mim!”

“Bem, aí está todo o esquema, Barney. Cabe a você ser meu ganancioso, negociante e desamoroso marido por cerca de uma hora.”

“Eu não tinha pensado em mim nesse papel”, ele objetou. “Eu tinha imaginado que traríamos um novo homem para ser o marido. É muito perigoso para mim, depois de enrolar Dick todo esse tempo e então de repente entrar em cena como seu marido — e receber o dinheiro.”

“Perigoso!” Havia um desprezo repentino em sua voz e em seus olhos. “Então você é esse tipo de homem, Barney — medroso! E com medo depois de eu dizer a Dick que você era meu marido, e ele engolir a história sem uma suspeita! Bem, neste exato momento é que cancelamos este negócio — e qualquer outro negócio!”

“Oh, não seja tão rápida com esse seu temperamento, Maggie! Eu apenas disse que era perigoso. É claro que farei isso.”

E então Barney perguntou, com uma astúcia que tentou esconder: “Mas por que você me pediu para fazer o Velho Jimmie aparecer aqui logo depois de mim? Não precisamos dele.”

“O que há por trás de você dizer isso, Barney?”, ela exigiu bruscamente.

Ele se contorceu um pouco, então falou a verdade. “Você não ama muito seu pai, e ele não a ama muito — eu sei disso. Ele não precisa saber exatamente quanto tiramos de Sherwood; se ele não estivesse aqui, teria que aceitar nossa palavra sobre o que conseguimos e diríamos a ele que conseguimos muito pouco. Então o dinheiro real seria dividido cinquenta por cinquenta apenas entre você e eu.”

“Posso não amar meu pai, mas ele está nisto na mesma base que você, ou estou fora”, ela declarou. “Achei que você pudesse sugerir algo assim; esse é um dos motivos pelos quais pedi para você fazer com que ele viesse. Outro motivo — e isso é algo que esqueci de lhe contar há pouco — quando desmoronei e confessei tudo a Dick Sherwood, eu disse a Dick que o Velho Jimmie era na verdade meu guardião; e ambos concordamos que ele deveria estar presente como testemunha de qualquer acordo, e para proteger meus interesses. Ainda outro motivo é que, como tivemos que trabalhar tão rápido, o que fazer era dividir o dinheiro na hora de três maneiras, e então cada um de nós disparar em uma direção diferente hoje à noite antes que qualquer má sorte tivesse a chance de aparecer. Na verdade, Barney, este momento presente é quando você e eu dizemos nossos adeus.”

Ele esqueceu seu esquema de fraudar o Velho Jimmie na preocupação muito maior despertada pelas últimas palavras dela. Ele se inclinou sobre a mesa e tentou pegar a mão dela, uma tentativa que ela habilmente frustrou.

“Mas escute, Maggie”, ele perguntou com uma ânsia rouca, “você e eu vamos ter um entendimento para nos juntarmos em breve, não vamos? Você sabe o que quero dizer — pertencer um ao outro. Você sabe como me sinto em relação a você!”

Este era o ponto principal para o qual Maggie estava manobrando. Diante dela estava a cena mais difícil das muitas que ela planejara, do sucesso de cuja gestão parecia depender o sucesso de tudo. Por dentro, ela estava palpitante com a tensão e o suspense de tudo isso; mas sobre Barney ela mantinha olhos frios e avaliadores. Nessa compostura esplêndida, seu afastamento momentâneo dele, ela parecia a Barney mais bonita, mais desejável, mais indispensável do que em qualquer momento desde que descobrira, lá na casa da Duquesa, que Maggie era um achado.

“Claro que sei exatamente o que você quer dizer, Barney”, ela respondeu com deliberação, encantadoramente sedutora em seu ar de superioridade. “Sei há muito tempo que você e eu teríamos que ter uma conversa real. Você está pronto para uma conversa direta agora?”

“Tão direta quanto você puder falar!”

“Provavelmente vou me apaixonar por algum homem e me casar com ele. Toda mulher faz isso. Mas se eu me casar, será porque o amo. Mas meu casamento com um homem não significa que vou entrar em negócios com ele. Não vou misturar amor com negócios — não a menos que o homem seja o tipo certo de homem. Claro, seria melhor se o homem com quem eu me casasse e o homem que eu aceitasse como sócio fossem a mesma pessoa — mas não vou correr riscos. Você me entende até aqui.”

“Com certeza. E cada palavra que você disse prova que sua cabeça não é apenas algo para parecer bonita. Deixe-me adiantar isso para você logo no início — eu sou o tipo certo de homem!”

“É exatamente isso que quero descobrir”, ela continuou, com sua deliberação, com o ar de estar segura no mais alto nível. “Sei agora o que posso fazer. Eu provei isso. Agora vou seguir em frente, realizando grandes coisas. Você uma vez me disse que eu tinha potencial para ser a melhor de todas — e agora sei que posso ser. Sei que tenho que me unir a um homem, e o homem tem que ser tão bom em seu caminho quanto eu sou no meu. Bem aí é onde tenho dúvidas sobre você. Eu disse que ia falar direto — e estou entregando a você direto. Não sei o quão bom você é.”

“Você quer dizer que acha que não sou grande o suficiente para trabalhar com você?”

“Quero dizer exatamente o que disse. Disse que não sabia realmente o quão bom você é, e que não ia me unir a nenhum homem que não fosse o melhor no ramo. Você deu pistas aqui e ali de muitas coisas grandes que realizou e de quão forte você era em certos lugares onde compensava ser forte — mas eu realmente sei muito pouco sobre você, Barney. Este trabalho atual não exigiu que você fizesse nada de especial, e todo o trabalho realmente difícil eu mesma fiz. Claro, sei que você é um bom dançarino, e esperto com as damas, e sabe como escolher um otário e enrolá-lo. Mas isso é tudo o que sei. E há centenas de homens que são bons nessas coisas. O homem com quem eu me unir tem que ser bom em muitas outras coisas — e eu tenho que saber que ele é bom!”

“Bom em que outras coisas, Maggie?”, ele perguntou com uma ânsia reprimida.

“Ele tem que ser bom em realizar todos os tipos de situações. Não me importa como ele faz. Tão esperto em realizar as coisas que ninguém nunca adivinha que ele é o homem que as fez. E ele tem que ser capaz de me dar proteção. Você sabe o que quero dizer. Uma mulher no jogo em que vou entrar está absolutamente acabada, no que diz respeito a fazer qualquer coisa grande, no minuto em que ganha uma ficha policial. Tenho que ter um homem capaz de ficar entre mim e a polícia. E tenho que saber por desempenhos passados que o homem pode fazer essas coisas. Apenas palavras grandes sobre o que ele pode fazer, ou pistas sobre o que ele já fez, não valem um centavo para mim. Isso é negócio puro e duro que estou falando, Barney, e não quero ferir seus sentimentos quando lhe digo que você não está à altura do homem que preciso.”

Tinha sido difícil para Barney se controlar até que ela terminasse. Para começar, ele tinha a coceira constante do homem vaidoso de contar suas proezas, sua aversão ao anonimato de sua esperteza injustamente atribuída a algum outro homem. E então Maggie jogara com ele ainda mais habilmente do que imaginava.

“Sou exatamente o homem que você precisa em todos os sentidos!”, ele explodiu.

“Essas são apenas palavras”, ela disse calmamente. “Eu disse que precisava de algo mais do que meras palavras.”

“Sou muito próximo do Chefe Barlow!”

“Você tem que ser mais explícito.”

Barney estava agora todo empolgação. “Você não entende o que isso significa? Nunca fui preso uma única vez, e ainda assim tenho realizado coisas o tempo todo! E, no entanto, veja como Larry Brainard, que o grupo achava tão esperto, foi pego e mandado embora. Acho que você sabe a resposta!”

“Novamente, Barney, tenho que pedir que seja mais explícito.”

“Então a resposta é que todo esse tempo tenho trabalhado com um entendimento com Barlow. Acho que isso é explícito!”

“Você quer dizer”, ela disse em sua voz fria, “que você tem sido um delator para Barlow?”

“Claro! — embora eu não goste da palavra. Essa é a única maneira segura de permanecer firme no jogo — um entendimento com a polícia. Tudo o que se precisa fazer é, de vez em quando, dar uma dica à polícia sobre algum idiota de criminoso: claro, você tem que ser esperto o suficiente para não deixar ninguém adivinhar seu jogo.”

“Isso não me parece um ponto tão forte a seu favor”, ela disse pensativamente.

“Mas você não entende a ideia? Sou tão forte com Barlow que posso escapar de qualquer coisa que eu quiser. Isso significa que posso lhe dar a proteção policial de que você acabou de falar. Entendeu?”

“Sim, entendo.” Novamente ela falou pensativamente. “Mas eu lhe disse que tinha que ser provado. Você deve ter feito algumas coisas muito grandes para ter conseguido tal posição com Barlow. Por exemplo?”

“Eu poderia escrever um livro para você!” Ele riu em seu orgulho excitado. “Você pede um exemplo. Eu mal conseguia me conter há pouco quando você disse que praticamente tinha realizado o negócio atual sozinha, e que eu não tinha feito quase nada. Ora, Maggie, eu fiz apenas uma pequena coisa esperta sem a qual não poderia ter havido negócio algum.”

“O quê?”

“Você admitirá que nada teria sido seguro com Larry Brainard determinado a se intrometer no que você fez?”

“Sim.”

“Bem, eu sou o carinha que resolveu Larry Brainard para que ele não machucasse ninguém!”

“Você fez isso?” Pela primeira vez Maggie mostrou o que parecia ser um interesse vivo. “Como?”

“Como? Você dirá que foi esperto quando aprender como. E você dirá que sou o homem que você quer, nesse ponto de ser capaz de realizar uma situação para que ninguém nunca adivinhe que sou o homem que a fez. Você admitirá que colocar Larry Brainard fora de combate, para que ele ficasse fora, foi certamente um trabalho difícil — pois embora eu não goste dele, admito que Larry é um pássaro muito sábio. Uma coisa que fiz foi sugerir a Barlow que ele forçasse Larry a se tornar um delator da polícia. Eu sabia que Larry recusaria, e calculei tudo o resto exatamente como aconteceu. Eu lhe pergunto, não foi realizar algo esperto?”

“Certamente foi esperto!”, admirou-se Maggie.

“Espere! Isso é apenas metade. Para acabar com Larry de forma que ele não tivesse chance, eu tive que acabar com ele não apenas com os policiais, mas também com seus comparsas. Então dei a dica a Barlow sobre o jogo que Red Hannigan e Jack Rosenfeldt estavam fazendo e—”

“Então Larry Brainard realmente não fez isso?”

“Não; eu fiz! Escute — há mais nisso. Espalhei a notícia, para que parecesse um vazamento do Departamento de Polícia, que foi Larry quem delatou Red Hannigan e Jack Rosenfeldt. Será que seus velhos amigos começaram a caçar Larry? Ora, se começaram! Se é que posso dizer, esse foi um trabalho esperto!”

“Foi maravilhoso!”, concordou Maggie.

“E ainda há mais, Maggie! Você se lembra daquela acusação de assalto e tentativa de assassinato de um sujeito de Chicago que a polícia está tentando imputar a Larry? Eu realizei isso! Sou a parte que estava metida nisso. Eu estava tentando realizar um pequeno trabalho esperto por conta própria; mas algo deu errado exatamente quando eu achava que estava limpando o otário, e eu tive que ser rude com aquele sujeito de Chicago para conseguir escapar dele. Corri direto para Barlow e disse que ali estava a chance de prender algo em Larry. Barlow aceitou minha dica. Meu pé pode ter escorregado no trabalho original, mas minha cabeça certamente agiu rápido, e você tem que admitir que transformei um fracasso aparente em algo maior do que o sucesso teria sido. E isso certamente é progredir!”

“Certamente é!”

“E agora, Maggie” — Barney pressionou-a ansiosamente — “eu lhe mostrei que sou exatamente o tipo que você disse que um homem tinha que ser para você se unir a ele. Eu lhe mostrei que posso garantir sua proteção policial. E eu lhe mostrei que sou capaz de realizar situações espertas sem que ninguém nunca adivinhe que sou a parte que as realizou. Eu me encaixo em todas as suas especificações! Que tal acertarmos agora mesmo nos juntarmos em algum lugar — Toronto é a melhor aposta — digamos três dias depois que fizermos nossa fuga após a limpeza desta noite? Vamos ser rápidos com isso, Maggie — antes que o Velho Jimmie venha. Ele deve chegar a qualquer minuto agora!”

“Não é ele na porta agora?”, ofegou Maggie.

Ambos esperaram intensamente por um momento. Mas, embora ela fingisse, o interesse de Maggie não estava na porta externa. Sua atenção estava fixada, como estivera com um medo doentio neste último minuto, naquela fresta de meio centímetro na porta do armário atrás de Barney. Por que ela, em sua urgência consternada, permitira que Larry se apossasse daquela chave do armário? — quando seu plano fora manter Hannigan, assim como Barlow, forçosamente nos bastidores até que ela tivesse encenado sua peça? Ela agora esperava quase contra toda esperança que Hannigan não irrompesse e arruinasse o que ainda estava por vir. Já que aquela porta infelizmente tinha que estar destrancada, sua única chance lhe fora dada pela presença de Larry. Talvez Larry pudesse perceber as coisas maiores pelas quais ela estava se esforçando e, de alguma forma, restringir Hannigan.

Esses pensamentos foram apenas um instante passando por seu cérebro. Os olhos de Barney voltaram da porta externa para o rosto dela. “Ainda não é o Velho Jimmie.”

“Não”, disseram seus lábios. Mas seu cérebro dizia, já que a fresta ainda permanecia de meio centímetro, “Larry entende — ele está segurando Red Hannigan!”

Barney retornou rapidamente ao seu encargo. “Que tal Toronto, Maggie — digamos exatamente setenta e duas horas a partir de agora — o Hotel Royal Brunswick?”

“Toronto,” repetiu Maggie, com a voz embargada por um tremor que Barney, em sua pressa, interpretou como emoção. “Sim, se estivermos ambos lá.”

“E quanto ao dinheiro de Sherwood?” ele insistiu. “O plano ainda é o mesmo — o acordo final nesta noite?”

“Sim,” disse ela, “se cada um de nós sentir o mesmo em relação ao outro quando esta noite terminar.”

“Maggie!” ele gritou. “Maggie!” Desta vez, quando ele agarrou sua mão com exultação, ela não ousou recusar. E ela sentiu uma aversão adicional pela carícia de Barney porque sabia que Larry era testemunha dela.

De fato, era difícil para Larry, ao ver a mão de Maggie nas palmas excessivamente ávidas de Barney, manter-se sob controle; e fazer isso além de manter sob controle o pequeno e trêmulo Red Hannigan, cujo colarinho e cujo pulso direito ele vinha segurando nos últimos três minutos. Pois Larry, como Maggie esperava, havia vagamente apreendido algo do plano dela, e sentia-se vinculado pela promessa que ela arrancara dele, de deixá-la seguir com o que quer que ela tivesse em andamento; embora ele não tivesse ideia da extensão do plano dela e, naturalmente, não pudesse saber da intenção de sua mente sobrecarregada de dar ao seu plano o toque final no que equivalia à sua própria autodestruição, e no seu desaparecimento total do conhecimento de todos que a conheciam.

Passou-se mais um minuto; então Larry ouviu três toques peculiares da campainha da porta externa — um sinal óbvio. Maggie atendeu ao chamado, e Larry viu o Velho Jimmie entrar. Seguiu-se uma conferência rápida e compacta entre os três, cuja substância foi o relato do Velho Jimmie sobre os desdobramentos contra Dick Sherwood que Maggie contara um pouco antes a Barney, juntamente com instruções ao Velho Jimmie sobre seu novo papel como guardião de Maggie. Pareceu a Larry que ele captou sinais de inquietação em Jimmie, mas a tudo o homem mais velho balançou a cabeça afirmativamente.

Logo houve um toque alto. “É o Dick!” exclamou Barney em um sussurro. “E muito ansioso, também — mostra isso ao chegar antes do horário que você marcou! Deixe-o entrar, Maggie.”

Maggie foi surpreendida pelo toque, embora não o demonstrasse. Ela pensou rapidamente. Ela pedira definitivamente a Dick que telefonasse antes de vir. Por que ele não telefonara? Talvez algo tivesse acontecido para impedi-lo, ou talvez uma ideia lhe tivesse ocorrido pela qual o plano deles pudesse ser melhorado sem uma mensagem telefônica. Em ambos os casos, ela e Dick poderiam ter que improvisar e astutamente captar deixa lançadas um ao outro, como atores experientes às vezes fazem sem que o público jamais saiba que um hiato na peça foi habilmente coberto.

Maggie levantou-se. “Ambos entendem o que devem fazer?”

Ambos sussurraram “sim”. Larry observou Maggie começar a atravessar a sala, sua figura inteira tremendo de suspense sobre o que aconteceria quando Dick entrasse. Ele tinha certeza absoluta de que havia mais ali do que aparentava, certeza absoluta de que Maggie não pretendia que o negócio com Dick funcionasse como ela descrevera. O que Maggie poderia estar tramando? ele perguntou a si mesmo em um assombro febril, e não conseguiu encontrar resposta. Pois, naturalmente, Larry não tinha conhecimento daquele fato importantíssimo: que Maggie fizera, de fato, uma confissão a Dick — não a confissão fraudulenta sobre a qual ela falara a Barney —, mas uma confissão honesta e completa, e que, consequentemente, ela e Dick estavam trabalhando em cooperação.

De sua fresta, Larry não conseguia ver a porta externa com clareza. Mas, depois que ela abriu a porta, ele viu Maggie recuar com um grito inarticulado, seu rosto subitamente empalidecido de susto atônito. E então Larry experimentou uma das maiores surpresas de sua vida — uma surpresa tão desconcertante que ele quase soltou o aperto sobre Red Hannigan. Pois, em vez de Dick, entrou na sala a figura alta e de cabelos brancos de Joe Ellison, e o rosto magro e empalidecido pela prisão de Joe estava trêmulo com um propósito devastador. Como, em nome de Deus, Joe fora parar ali? — e o que aquele olhar terrível pressagiava?

Mas a surpresa de Larry não passava de uma emoção imperturbável comparada ao efeito do aparecimento de seu pai, com seu rosto terrível, sobre Maggie. A vida pareceu subitamente abandonar a ela. Ela percebeu que a peça inteligente que construíra tão rapidamente, e com a qual contara para limpar o emaranhado pelo qual era em parte responsável, e para trazê-la de volta a tempo como a aparente realização do sonho de um pai feliz e não desiludido — ela percebeu que sua pobre e brilhante peça chegara a um fim instantâneo antes mesmo de ter começado, e que o controle dos eventos passara para outras mãos.

CAPÍTULO XXXV

À entrada de Joe Ellison em vez do esperado Dick, Barney e o Velho Jimmie saltaram da mesa em espanto. Joe passou por Maggie, mal notando a filha, e encarou os dois homens.

“Acho que você me conhece, Jimmie Carlisle!” disse Joe com um controle de tom aterrorizante. “O companheiro em quem confiei — o companheiro a quem entreguei tudo — o companheiro que me traiu de todas as formas!”

“Joe Ellison!” arquejou Jimmie, subitamente tão cadavérico quanto um morto. “Eu... eu não sabia que você estava solto.”

“Estou solto, com certeza. Mas provavelmente voltarei para dentro pelo que vou fazer com você! E você aí” — voltando-se para Barney — “você está vestido o suficiente como um dançarino profissional para ser o Barney Palmer de quem ouvi falar!”

“Que negócio é esse seu de quem sou eu?” Barney tentou bravatear. “Talvez você não se importe em se apresentar.”

“Eu sou o homem que vai acertar as contas com você e com o Velho Jimmie Carlisle! Essa apresentação é suficiente? Se não, então sou Joe Ellison, o pai desta garota aqui que vocês chamam de Maggie Carlisle e Maggie Cameron, que vocês dois transformaram em uma criminosa.”

“Sua filha!” exclamou Barney em estupefação. “Ora, ela é de Jimmie Carlisle...”

“Ele sempre a apresentou como tal; isso eu descobri. Fale, Jimmie Carlisle! De quem é a filha que você transformou em uma criminosa?”

“Sua filha, Joe,” gaguejou o Velho Jimmie. “Mas sobre eu tê-la transformado em uma criminosa... você... você está totalmente enganado aí.”

“Então ela não é uma criminosa, e você não a transformou em uma?” exigiu Joe com a calma de uma dinamite não explodida cujo pavio está faiscando. “Eu deixei para você cerca de mil e duzentos ou mil e quinhentos por ano para criá-la — como uma garota decente e respeitável. Isso dá vinte e cinco ou trinta por semana. Se ela não é uma criminosa, como pode, com vinte e cinco por semana, ter todas as roupas elegantes em que a vi, e viver em uma suíte como esta que custa de vinte e cinco a cinquenta por dia? E se ela não é uma criminosa, por que está envolvida com dois criminosos como vocês? E se ela não é uma criminosa, por que está em um jogo para enganar o jovem Dick Sherwood?”

Os dois homens estremeceram e murcharam diante dessas perguntas incisivas. “Mas... mas, Joe,” gaguejou o Velho Jimmie, “você perdeu a cabeça. Ela não está em nenhum jogo desses. Ela nunca nem ouviu falar de nenhum Dick Sherwood.”

“Corte suas mentiras, Jimmie Carlisle!” ordenou Joe asperamente. “Nós quatro temos algo melhor a fazer aqui do que desperdiçar tempo com mentiras. E só para provar a você que suas mentiras serão inúteis, vou colocar todas as minhas cartas na mesa. Desde que saí, tenho trabalhado para os Sherwoods. Larry Brainard trabalhava lá antes de mim e conseguiu meu emprego. Vi esta garota aqui — minha filha que você transformou em uma criminosa — lá duas vezes. Dick Sherwood deveria estar apaixonado por ela. No final desta tarde, alguns policiais foram à casa dos Sherwoods e prenderam Larry Brainard. Eu estava trabalhando do lado de fora, ouvi o que estava acontecendo e me arrastei até a varanda. O oficial Gavegan, que estava no comando, encontrou uma pintura entre as coisas de Larry Brainard. A Srta. Sherwood disse que era um retrato da Srta. Maggie Cameron que estivera visitando o local, e pude ver que era. O oficial Gavegan disse que era um retrato de Maggie Carlisle, filha de Jimmie Carlisle, e que ela era uma criminosa. Larry Brainard, encurralado, teve que admitir que Gavegan estava certo. Adivinhei imediatamente quem era Maggie Carlisle, já que ela tinha exatamente a idade que minha menina teria e já que você nunca teve filhos. E foi assim, Jimmie Carlisle, parado ali do lado de fora da janela,” concluiu a voz terrível de Joe Ellison, “que descobri pela primeira vez que o bebê que confiei a você para ser criado corretamente, e que eu acreditava estar agora feliz em algum lugar como uma garota legal e decente, você na verdade criou como sua própria filha e treinou para ser uma criminosa!”

O Velho Jimmie recuou diante dos olhos flamejantes de Joe; sua boca abriu-se espasmódica, mas nenhuma palavra saiu dela. Houve um silêncio estupendo na sala. Dentro do armário, Larry agora entendia aquele som baixo e estranho que ouvira na varanda dos Sherwoods e que Gavegan e Hunt investigaram. Tinha sido o grito contido de Joe Ellison quando ele descobrira a verdade — a diferença entre seus sonhos e a realidade. Ele não conseguia imaginar o que aquele momento fora para Joe: o conhecimento rápido e inacreditável que parecia estar despedaçando seu próprio ser.

Larry teve um impulso de sair para o lado de Joe. Mas, assim como um pouco antes ele sentira que a cena pertencia a Maggie, agora ele sentia que aquela situação, a maior da vida de Joe, pertencia definitivamente a Joe, era quase sagradamente propriedade de Joe. Ele também sentia que estava prestes a aprender muitas coisas que o haviam intrigado. Portanto, ele se conteve, ao mesmo tempo que mantinha seu aperto sobre Red Hannigan.

Durante esse momento de silêncio, enquanto Larry se perguntava o que iria acontecer, seus olhos também captaram a figura de Maggie, todos os seus poderes de ação e expressão ainda paralisados por uma consternação terrível. Ele entendia, pelo menos em parte, pelo que ela estava passando. Ele sabia isso do plano dela: que ela pretendia se desligar de alguma forma de Barney e do Velho Jimmie, e que pretendia que seu pai continuasse a acalentar o sonho que fora sua felicidade por tanto tempo. E agora seu pai a encontrara na companhia de Barney e do Velho Jimmie, em uma situação cuja circunstância superficial era tal que o faria acreditar no pior a respeito dela!

Joe virou-se para o bem-vestido Barney. “Vou pegar você primeiro, seu falso elegante, porque estou guardando Jimmie Carlisle para o final!” continuou a voz trituradora de Joe. “Vou torcer seu pescoço maldito pelo que você ajudou a fazer com minha garota, mas se quiser dizer algo antes, diga.”

A resposta de Barney foi um movimento rápido de sua mão direita em direção à axila esquerda. Mas Barney Palmer, como quase todos da sua espécie, era um pistoleiro muito medíocre; e ele não tinha conhecimento da reputação de rapidez magistral que fora de Joe Ellison vinte anos antes. Antes que sua compacta automática estivesse devidamente fora do coldre sob sua axila, ela estava nas mãos de Joe Ellison.

“Eu avaliei você como esse tipo de rato e estava observando você,” continuou Joe com a mesma crueza terrível. “Não vou atirar em você, a menos que me obrigue. Vou torcer esse seu pescocinho bonito. Mas, primeiro, diga o que tiver para dizer em sua defesa!”

“Eu não tive nada a ver com esse negócio,” disse Barney, tentando afetar uma postura ousada.

“Você mente! Sei que, neste jogo contra Dick Sherwood, no qual você usou minha garota, você era o verdadeiro líder!”

“Bem... mesmo que eu tenha usado sua garota, só a usei do jeito que a encontrei.”

“Você mente de novo! Sei como sua espécie trabalha: colocando astuciosamente ideias criminosas nas mentes das garotas e excitando sua imaginação, para que trabalhem com vocês. Seu caso está encerrado.” Ele se virou para seu antigo amigo. “O que você tem a dizer em sua defesa, Jimmie Carlisle?”

O Velho Jimmie acreditou que sua última hora chegara. Ele mostrou algo da coragem desafiadora, quase maníaca, de um covarde que percebe que não pode mais recuar.

“O que eu tenho a dizer, Joe Ellison,” ele rosnou em uma raiva repentina que expôs seus dentes amarelos, “é que finalmente estou quites com você!”

“Quites comigo? Por quê?”

“Pela maneira como você me traiu em mil novecentos e um naquele negócio dos Gordon. Você nunca me deu um centavo — disse que a coisa tinha fracassado — mas eu sei que houve um grande saque!”

“Eu disse a verdade. Aquela coisa dos Gordon foi um fracasso.”

“É aí que você mente! Foi uma bolada! E eu sabia que você estava me enganando sobre minha parte em outros negócios!”

“Você está totalmente errado, Jimmie Carlisle. Mas se você pensava isso, por que não resolveu isso comigo na época?”

“Porque eu sabia que você mentiria! Você era um falador melhor do que eu, e como nosso grupo sempre ficava do seu lado, eu sabia que não teria chance então. Mas raciocinei que, se eu ficasse quieto e continuasse sendo seu amigo, eu teria minha chance de me vingar se esperasse um pouco. Esperei — e certamente tive minha chance!”

“Continue, Jimmie Carlisle!”

E o Velho Jimmie continuou — um Velho Jimmie surpreendentemente diferente, seu mal contido agora liberado em um triunfo trêmulo e maligno; continuou com a exultação febril de uma mente distorcida e pervertida que ruminou por muito tempo sobre uma injustiça imaginada, que ruminou gananciosamente e por muito tempo em particular sobre sua vingança, e que finalmente teve sua chance de se regozijar abertamente.

“Quando você foi mandado embora, Joe Ellison, e entregou sua filha para mim com aquelas ordens sobre garantir que ela fosse criada como uma garota decente, comecei a ver a grande chance que eu estava esperando. Perguntei a mim mesmo: Qual é a coisa mais querida no mundo para Joe Ellison? A resposta foi: essa ideia que ele tinha sobre sua filha. Perguntei a mim mesmo: Qual é a maior maneira de me vingar de Joe Ellison? A resposta foi: fazer Joe Ellison acreditar todo o tempo em que estivesse na cadeia que sua filha estava crescendo do jeito que ele queria, e ainda assim criá-la exatamente como a coisa que ele não queria que ela fosse. E foi exatamente isso que eu fiz!”

“Você... fez... tal coisa?” ofegou Joe Ellison, quase incrédulo.

“Foi exatamente isso que eu fiz!” continuou o Velho Jimmie, com satisfação. “Foi fácil. Ninguém sabia que você tinha uma filha, então eu a apresentei como minha própria filha de um casamento sobre o qual eu não contara a ninguém. Vi que ela sempre viveu entre criminosos, olhava para as coisas como os criminosos olham e cresceu sem outro pensamento a não ser ser uma criminosa. Eu nunca tive a ideia de usá-la, até que ela começou a parecer uma ótima executante neste último ano; e então minha ideia, não importando o que Barney Palmer pudesse ter planejado, foi usá-la apenas em alguns truques. Minha ideia principal sempre foi, quando você saísse com sua grande ideia do que sua filha tinha se tornado, que você de repente a visse, a conhecesse como sua filha e soubesse que ela era uma criminosa. Esse golpe em você era a grande coisa para mim — o que eu planejei e pelo que esperei. Eu não esperava que a revelação acontecesse assim; eu não esperava ser pego nela quando acontecesse. Mas já que aconteceu, bem... Aí está sua filha, Joe Ellison! Olhe para ela! Olhe para o que eu a transformei! Acho que estou quites, com certeza!”

“Meu Deus!” ofegou Joe Ellison, encarando o rosto magro retorcido com malignidade triunfante. “Eu não pensei que pudesse existir um homem assim!”

Ele lentamente se virou para Maggie. Esse foi o primeiro reconhecimento direto que ele fizera dela desde sua entrada.

“Não suponho que você possa adivinhar o que o fato de você ser o que é significou para mim,” ele começou em um tom entorpecido que se tornou acusadoramente áspero à medida que continuava. “Mas eu pensaria que uma filha minha, com tal mãe, teria tido mais senso instintivo do que ter entrado em tal jogo com tal par de criminosos!”

“É verdade... eu tenho sido o que você pensa de mim... eu entrei nessa coisa contra Dick Sherwood,” Maggie respondeu com uma voz que a princípio vacilava, depois tropeçou rapidamente em sua ânsia de despejar todos os fatos. “Mas... mas Larry Brainard continuou insistindo comigo... e finalmente me fez ver o caminho errado que eu estava tomando. E então, esta tarde, antes de falar com você, Larry me disse que você era meu verdadeiro pai. Quando descobri a verdade — como fui enganada e impedida de ser outra coisa — como eu era o oposto exato do que você queria que eu fosse e acreditava que eu era — senti sobre isso quase exatamente o que você sente. Eu... eu decidi limpar imediatamente todo o mal pelo qual eu era responsável... e então desaparecer de tal forma que você nunca teria seu sonho a meu respeito estragado. E então... e então esta tarde, depois que saí de Cedar Crest, confessei toda a verdade a Dick Sherwood — sobre nosso plano de enganá-lo. E como o rapaz realmente esplêndido que ele é, Dick Sherwood se ofereceu para me ajudar a acertar as coisas que eu queria acertar. Particularmente, para inocentar Larry Brainard. E então, o fato de eu estar aqui como você me encontra é parte de um plano entre Dick Sherwood e eu. É realmente uma armadilha. Uma armadilha para pegar Barney Palmer e Jimmie Carlisle.”

“Uma armadilha!” ejaculam esses dois em uníssono assustado.

“Como uma armadilha?” exigiu seu pai, sem que um pingo da dureza acusatória tivesse desaparecido de sua voz.

“Nosso plano contra Dick Sherwood era fazê-lo me pedir em casamento, depois eu confessaria que já era casada com um tipo de homem desprezível que eu não amava — a ideia sendo que Dick estaria apaixonado o suficiente para pagar uma grande quantia a um marido de fachada, e nós três desapareceríamos assim que conseguíssemos o dinheiro de Dick. Dick se ofereceu para seguir com o plano como Barney Palmer e Jimmie Carlisle o tinham moldado — seguir com ele esta noite — e então, depois que o dinheiro tivesse passado, teríamos um caso criminal contra eles. Ao lembrá-lo de que Larry Brainard sabia exatamente o que estávamos tramando e poderia estragar tudo se não agíssemos imediatamente, fiz com que Barney Palmer chegasse ao ponto em que ele posaria como meu marido e pegaria o dinheiro. Dick Sherwood viria um pouco mais tarde, depois que ele primeiro me telefonasse, com um grande maço de dinheiro marcado.”

Houve exclamações gaguejadas de Barney e do Velho Jimmie, que foram interrompidas pela incisividade dominante das palavras de Joe Ellison à sua filha:

“Acho que você está mentindo para mim! Além disso, mesmo que esteja dizendo a verdade, é uma maneira bonita que você escolheu para limpar as coisas! Não vê que, ao deixar Dick Sherwood vir aqui e desempenhar tal papel, você teria certeza absoluta de envolvê-lo e a sua família em uma história policial suja que os jornais de todo o país explorariam como uma sensação? É evidente para qualquer um que essa não é uma maneira que alguém que quisesse corrigir as coisas usaria Dick Sherwood. E é por isso que acho que você está mentindo!”

“Eu tinha pensado nisso — você tem razão,” disse Maggie. “E por isso eu não ia fazer. Ele ia me telefonar — bem por volta desta hora — e quando ele ligasse, eu ia fingir a mensagem dele. Eu ia dizer a Barney Palmer e ao Velho Jimmie que Dick tinha acabado de telefonar dizendo que não viria, porque um dos dois tinha acabado de vender a ele uma dica por dez mil dólares de que este era um jogo sujo. Achei que isso teria iniciado uma briga entre os dois; eles suspeitam um do outro, de qualquer maneira. Cada um teria acusado o outro, e em sua briga eles provavelmente teriam deixado escapar um monte de verdades que teriam denunciado completamente um ao outro.”

— Não é um plano nada mau — comentou Joe Ellison. Ele tentou perscrutar profundamente a filha por um momento, seu rosto inflamado não relaxando nem em sua dureza, nem em sua desconfiança dela. — Mas, já que você é a vigarista esperta que sei que realmente é pelo seu trabalho com Dick Sherwood, e já que Jimmie Carlisle diz que o treinou para ser uma vigarista, acredito que tudo o que você me disse é apenas algo que você inventou astutamente no calor do momento... apenas um monte de mentiras.

— Mas... mas...

Ela interrompeu diante da dúvida dura e acusatória do rosto pálido dele. Por uma fração de momento, ninguém falou. Então a campainha do telefone começou a tocar.

— Dick! — suspirou Maggie, e partiu em direção ao telefone.

— Fique exatamente onde está! — ordenou seu pai. — Eu mesmo atenderei esse telefone e verei se você está mentindo para mim sobre Dick Sherwood!... Não, faremos isso juntos. Segurarei o receptor e ouvirei o que ele diz. Você fará o falar e responderá exatamente o que eu lhe disser, e manterá sua mão bem firme sobre o bocal enquanto eu estiver lhe dando minhas ordens. Vocês dois — para Barney e o Velho Jimmie, com um movimento significativo da automática de Barney — é melhor se comportarem enquanto este assunto de telefone estiver acontecendo.

No momento seguinte, Larry estava ouvindo, ou melhor, testemunhando a conversa telefônica mais estranha de sua experiência. Maggie segurava o transmissor, e Joe estava com o receptor nos ouvidos, cobrindo sombriamente os dois homens com a automática. Maggie obedientemente manteve a palma da mão firme sobre o bocal durante as breves instruções sussurradas de Joe, e ninguém na sala exceto Joe, nem mesmo Maggie, tinha a menor ideia do que estava realmente passando pelos fios.

O que Larry ouviu não foi mais do que uma dúzia das palavras mais comuns do mundo, transformadas nas palavras mais absorventes do idioma. Joe ordenou a Maggie que respondesse com "alô" em seu tom habitual, o que ela fez, e Joe, após uma expressão de surpresa com as primeiras palavras que vieram pelo fio, ouviu com o rosto imóvel por quatro ou cinco segundos. Então ele assentiu imperativamente para Maggie e ela colocou a mão sobre o bocal.

— Pergunte a ele quanto, e quando ele queria que fosse pago — ordenou ele.

— Quanto, e quando ele quer que seja pago? — repetiu Maggie.

Novamente Joe ouviu por vários momentos; e então ordenou como antes: "Diga 'Sim'."

— Sim — disse Maggie.

Outro período de espera, e Joe ordenou: "Diga: 'Tenho um plano muito melhor que substitui o antigo'."

— Tenho um plano muito melhor que substitui o antigo.

Houve ainda outro período de espera, então Joe comandou: "Diga a ele que ele realmente não deve e diga adeus rápido."

— Você realmente não deve! Adeus!

No instante em que seu "Adeus" saiu de sua boca, Joe bateu o receptor no gancho e ficou observando a ofegante Maggie. Seu rosto pálido e severo não estava tão rígido quanto antes. Logo ele falou: — Sei agora que você estava realmente farta do que tentava fazer... que você tinha realmente rompido com esses dois... que você tinha realmente confessado a Dick, e agora está tudo certo com ele.

A palavra "Pai!" lutou sufocadamente em direção aos seus lábios. Mas ela apenas disse:

— Estou feliz... que você saiba.

— E você foi astuta naquele palpite que deu sobre o que um desses dois faria. — Joe voltou para Barney e o Velho Jimmie. — Vocês dois devem ter ficado terrivelmente assustados, por causa de Larry Brainard, de que seu jogo estava entrando em colapso de repente, e cada um deve ter tentado agarrar um pedaço para si antes de fugir.

— Do que você está falando? — exigiu Barney asperamente.

— Talvez eu esteja falando de você. Mas mais particularmente sobre Jimmie Carlisle. Pois agora mesmo Dick Sherwood disse, quando telefonou, que há uma ou duas horas Jimmie Carlisle o procurou, insinuou que ia perder muito dinheiro a menos que fosse devidamente aconselhado, e se ofereceu para lhe dar certas informações valiosas por cinco mil em dinheiro.

Barney virou-se para seu parceiro. — Seu ladrão maldito! — rosnou ele, tenso como se estivesse prestes a saltar sobre o outro.

O Velho Jimmie, ficando palidamente esverdeado, encolheu-se para longe de Barney, cada expressão sua proclamando sua culpa. Então Maggie recuperou sua voz:

— E quase ao mesmo tempo em que Barney tentava trair Jimmie Carlisle, Barney me propôs que, depois que conseguíssemos o dinheiro de Dick Sherwood, diríamos a Jimmie Carlisle que conseguimos muito pouco, e dividiríamos o dinheiro real meio a meio entre nós dois.

— Seu ladrão maldito! — rosnou o Velho Jimmie de volta para seu parceiro.

No momento seguinte, Barney e o Velho Jimmie estavam um sobre o outro, golpeando descontroladamente, arranhando. Mas no momento seguinte, Joe Ellison, sua raiva reprimida agora solta, e com a superforça de sua fúria suprema, tinha separado os dois.

— Vocês não fazem isso um com o outro... esse trabalho pertence a mim! — gritou ele. Seu braço direito lançou Barney para trás, de modo que ele cambaleou sobre si mesmo e estatelou-se no chão. Joe agarrou o colarinho do Velho Jimmie, e sua mão direita torceu dolorosamente o braço de Jimmie. — E eu acabo com você primeiro, Jimmie Carlisle, pelo que fez a mim e à minha filha! Se não fosse por Larry Brainard, você, Jimmie Carlisle, teria tido sucesso em seu esquema de transformar minha filha em uma vigarista! Eu gostaria de lhe dar mil anos de agonia, seu rato maldito... mas isso está além de mim! — Sua mão direita mudou rapidamente do braço do Velho Jimmie para sua garganta. — Mas eu vou arrancar a vida desse seu rato! — a vida de seu demônio mentiroso e traiçoeiro!

O Velho Jimmie contorceu-se e revirou-se com aqueles longos dedos presos impiedosamente em torno de sua garganta, seus olhos revirando e sua boca escancarada com gritos sem voz. Ele estava, de fato, sendo sacudido como um rato poderia ser sacudido.

— Não! — Não! — gritou a frenética Maggie, e começou a agarrar seu pai para puxá-lo. Mas ela foi detida por ter seu braço capturado por Barney.

— Deixe o Jimmie sofrer! — disse ele ferozmente para ela, e a jogou para o canto mais distante da sala. E, sombriamente exultante com o que parecia ser a condenação do Velho Jimmie, ele partiu para a porta para fazer sua própria fuga.

Até o momento da erupção de Joe Ellison, Larry sentira-se obrigado a permanecer um mero espectador onde estava: por mais que o tempo lhe parecesse longo, de fato fora menos de meia hora. Ele sentira-se ligado no início pela sua promessa a Maggie de deixá-la executar seu plano; e ligado depois pelo seu sentimento de que esta situação pertencia a Joe Ellison. Mas agora essa crise rápida dissolvia todas essas obrigações. Ele saltou de seu armário para tomar sua parte no drama que se desenrolava tão rapidamente.

CAPÍTULO XXXVI

Larry alcançou e girou Barney Palmer exatamente quando a mão do fugitivo Barney estava na maçaneta da porta externa.

— Não, você não vai, Barney Palmer! — gritou ele. — Você fica bem aqui!

Assustado como Barney estava por essa aparição de seu maior inimigo, ele não perdeu tempo precioso com meras palavras. Ele desferiu um golpe vicioso em Larry, destinado a remover essa barreira à sua liberdade. Mas o experiente Larry deixou que ele passasse de raspão por seu antebraço, e com a necessidade de uma conclusão instantânea, enviou um terrível direto ao queixo de Barney. Barney cambaleou para trás, caiu em um monte amassado e ficou imóvel.

Poupando apenas a fração de um segundo para ver que Barney estava momentaneamente fora de combate, Larry saltou sobre Joe Ellison e tentou quebrar as presas mortais que Joe mantinha sobre o Velho Jimmie.

— Pare, Joe... pare! — gritou ele peremptoriamente. — Matar Jimmie Carlisle não vai ajudar em nada!

Sem relaxar suas presas, Joe virou-se para esse interferente.

— Larry Brainard! Como você entrou aqui?

— Tenho estado aqui o tempo todo. Mas, Joe... não mate Jimmie Carlisle!

— Fique de fora... isso é problema meu! — Joe respondeu ferozmente. — Se você esteve aqui o tempo todo, então você sabe o que ele fez comigo, e o que ele fez com minha filha! Você sabe que ele merece ter o pescoço quebrado... e eu vou quebrá-lo!

Larry percebeu que o senso de ferimento tremendo de Joe o tornara por um momento um louco em sua raiva. Apenas o apelo mais poderoso tinha uma chance de trazê-lo de volta à sanidade.

— Escute, Joe... escute! — gritou ele desesperadamente, esforçando-se para conter a força furiosa do outro de seu propósito destrutivo. — Depois do que aconteceu, todos são obrigados a saber que Maggie é sua filha! Entenda isso, Joe? — todos saberão que Maggie é sua filha! Não vai ajudar você ser acusado de assassinato. E pense nisto, Joe... o que vai fazer com sua filha ter o pai como um assassino?

— O que é isso? — perguntou Joe Ellison atordoado.

Larry viu que seu ponto tinha penetrado na razão do outro. Então ele avançou, repetindo o que tinha dito.

— Entenda isso, Joe? — todos saberão agora que Maggie é sua filha! Você simplesmente não pode evitar que eles saibam disso agora! Lembre-se de como por mais de quinze anos você tentou fazer o melhor que pôde por ela! Você agora quer fazer a pior coisa que pode fazer? A pior coisa que você pode fazer por Maggie é tornar seu pai um assassino!

— Acho que isso está certo, Larry — disse ele roucamente. — Obrigado.

Ele empurrou o meio estrangulado Jimmie Carlisle para longe de si. — Você terá o que merece de outra maneira! — disse ele sombriamente.

O Velho Jimmie, cambaleante, agarrou o encosto de uma cadeira para se apoiar. Ele sentiu ternamente sua garganta e piscou para Larry, Joe e Maggie. Ele não tentou dizer nada. Enquanto isso, Barney recuperara a consciência, lutara para se levantar e estava parado perto do Velho Jimmie. O reconhecimento de que eram compartilhadores da derrota servira para restaurar algo do sentimento de aliança entre os dois.

— Bem, de qualquer forma, Larry Brainard — rosnou Barney, — você não teve nada a ver com isso!

Foi Joe Ellison quem respondeu. — Larry Brainard teve tudo a ver com a realização disso. Ele esteve vencendo vocês o tempo todo desde o início, embora você possa não ter sabido. E embora ele parecesse estar fora das coisas nas últimas horas, ele foi o poder real por trás de tudo o que aconteceu até este minuto. Então não se engane... Larry Brainard venceu você em todos os pontos!

Um sentimento de triunfo brilhou dentro de Larry com isso. Houve um tempo em que ele quis a satisfação animal que viria de dar punição física violenta a esses dois... particularmente a Barney. Mas ele não tinha desejo agora por tal vingança vazia.

— Bem, acho que você não tem nada contra mim — Barney rosnou para eles, — então vou indo. É melhor vir também, Jimmie.

Enquanto ele falava, uma figura tinha se movido do armário de Larry com o silêncio de uma sombra rápida. Sua mão fina agarrou o ombro de Barney.

— Acho que tenho algo contra você! — disse ela.

Barney girou. — Red Hannigan! — ele arquejou.

— Sim, Red Hannigan! — seu dedo-duro... seu delator! — disse Red Hannigan. — Ouvi você se gabar de ser dedo-duro de Barlow, e ouvi tudo o mais de que você se gabou para a filha de Joe Ellison. Eu acabaria com você agora mesmo se estivesse com minha arma e se tivesse qualquer chance de fuga. Mas cuidarei de você, e a gangue cuidará de você, até você morrer... o mesmo que você fez conosco atrás de Larry Brainard! Não importa o que mais aconteça com você, você sempre terá isso como algo extra esperando por você! E quando chegar a hora, pegaremos você!

Tão silenciosamente quanto tinha aparecido do armário, tão silenciosamente ele se deixou sair da sala. As feições sombrias de Barney tinham desbotado para um branco pastoso enquanto Hannigan falava, e agora a mão que tentava levar um lenço aos lábios tremia tanto que ele mal conseguia encontrar o rosto. Pois ninguém sabia tão bem quanto Barney Palmer quão inescapável era essa coisa que estaria pairando sobre ele até o fim de seus dias.

Antes que alguém na sala pudesse falar, veio um forte martelar de dentro da porta do armário que Larry e Red Hannigan não tinham ocupado. — Oh, eu tinha esquecido completamente! — exclamou Maggie... e de fato ela tinha esquecido tudo o que não estava imediatamente ligado à situação.

...a porta, e Barlow saiu.

— Chefe Barlow! — exclamou o espantado Larry, e todos os outros homens olharam para o Chefe de Detetives com igual surpresa.

— Ele é parte da minha armação — explicou Maggie para todos. — Eu queria que tanto a polícia quanto os velhos amigos de Larry soubessem a verdade em primeira mão... e o limpassem antes que eu fosse embora.

— Não foi aquele Red Hannigan que acabou de falar? — foram as primeiras palavras de Barlow.

— Sim — disse Larry.

Barney, e o Velho Jimmie também, tinham se animado com a aparição de Barlow, como se fosse um auxílio que chegara bem a tempo. Mas Barlow voltou para Barney um olhar policial frio.

— Ouvi você se gabar de que era meu dedo-duro. Isso é mentira.

— Por que... por que... Chefe... — gaguejou Barney. Ele tinha contado com ajuda aqui, onde existiam relações mutuamente vantajosas há tanto tempo.

— Ouvi você dizer que tinha minha proteção. Isso é outra mentira. Você dedurou algumas pessoas, mas eu nunca lhe dei nada.

Barney arquejou com isso. Ele sabia, como todos na sala também sabiam, que Barlow estava mentindo. Mas Barlow detinha todas as cartas. Político policial rude e implacável que era, ele fazia do seu negócio sempre manter as cartas mais altas. Tão doente de alma quanto um homem pode ser, Barney percebeu que Barlow estava fazendo exatamente o que Barlow sempre fazia... estava mudando para o lado que tinha mais provas e que provaria ser mais vantajoso para ele. E Barney percebeu que estava sofrendo o destino designado de todos os delatores que são descobertos por seus colegas criminosos como sendo delatores. Tais informantes não têm mais utilidade, e de acordo com o código policial, eles devem receber punição tão severa a ponto de dissipar qualquer crença doentia por parte do público de que poderia ter havido qualquer aliança entre os dois.

— Usei esta jovem que parece ter sido filha de Jimmie Carlisle e agora parece ser filha deste veterano Joe Ellison, para um pouco de detetive particular por minha própria conta — continuou Barlow... pois era o instinto do homem reivindicar a concepção e a liderança de qualquer ideia em cujo desenvolvimento ele tivesse uma parte. Ele falou em um tom brusco... como não deveria, já que estava se dirigindo a um público que ele agrupava apenas como um monte de vigaristas? — Através deste pequeno truque que fiz esta noite, descobri suas artimanhas, Barney Palmer. E as suas também, Jimmie Carlisle. E vou prender vocês dois.

Isso era demais para Barney Palmer. Mesmo sabendo que sua posição como dedo-duro, que era conhecido por ser dedo-duro, estava sem esperança alguma, ele se despedaçou completamente.

— Pelo amor de Deus, Chefe — ele explodiu freneticamente, — você não vai me tratar assim! Você poderia me tirar disso facilmente! Pense em tudo o que fiz por você! Pelo amor de Deus, Chefe... pelo amor de Deus...

— Calado! — ordenou Barlow, fechando um grande punho.

Sufocadamente, Barney obedeceu. O Velho Jimmie, covarde que era, e faltando-lhe inteiramente a qualidade de valentão de Barney, aceitou a situação com a calma trêmula de alguém para quem o pior aconteceu com frequência. — Calado — repetiu Barlow, — e coloque na cabeça que vou levar vocês dois.

— Levar por causa deste caso Sherwood? — perguntou Larry.

— A coisa mais certa que você conhece. Tenho todas as evidências que preciso.

— Mas... — Larry estava começando a protestar, quando a campainha tocou novamente. Maggie abriu a porta, e entraram a Srta. Sherwood, com Hunt logo atrás dela, e Dick logo atrás dele, e Casey e Gavegan seguindo esses três. Todos na sala ficaram surpresos com esta invasão, com a única exceção de Joe Ellison.

— Quando o Sr. Dick falou ao telefone sobre sua vinda — disse ele para a Srta. Sherwood, — pedi que não o fizesse.

Barlow foi rápido em falar, e a mudança repentina em sua voz teria sido surpreendente para aqueles que não sabem como os pequenos grandes homens do Departamento de Polícia, e outros pequenos grandes homens, podem alterar seus tons. Ele tinha reconhecido a Srta. Sherwood imediatamente, como faria qualquer outra pessoa familiarizada com a influente Nova York.

— Srta. Sherwood, acredito — disse ele, tentando uma leve reverência.

— Sim. Embora eu tema que não tenha o prazer de conhecê-lo.

— Delegado Barlow, chefe do Departamento de Detetives do Departamento de Polícia — informou ele a ela. — Inteiramente ao seu dispor.

— O que está acontecendo aqui exatamente? — ela questionou. — Sei uma parte do que aconteceu — ela estava se dirigindo particularmente a Maggie e Larry — pois Dick me telefonou por volta das sete, e vim direto para a cidade. Ele me contou tudo o que sabia... o que lançou uma luz diferente sobre muitos eventos... e Dick telefonou por volta das nove que eu viria. Mas algo mais parece ter acontecido.

— Srta. Sherwood, é como... — começou Barlow.

— Só um segundo, Chefe — Larry interrompeu. Larry sabia que história sensacional seria esta conforme se desenvolvera... e sabia de antemão exatamente como seria aproveitada e explorada pelos jornais. E Larry não queria publicidade desagradável para seus amigos (três naquela sala estavam tentando um recomeço na vida), nem para aqueles que tinham sido seus amigos. — Chefe, você quer fazer uma prisão sob uma acusação que envolverá todas as pessoas nesta sala em uma história sensacional? É claro que sei que a maioria de nós aqui não tem peso para você. Mas por que arrastar a Srta. Sherwood, que é inocente em todos os sentidos, para uma história criminal que servirá para baratear ela e todas as pessoas decentes envolvidas? Além disso, só pode ser uma acusação de conspiração, e há mais do que uma probabilidade de que você não consiga provar seu caso. Então por que fazer uma prisão que arrastará a Srta. Sherwood?

Barlow tinha uma mente que funcionava com rapidez surpreendente em assuntos relacionados ao seu próprio interesse. Ele percebeu no instante como poderia contar para ele no futuro se estivesse em uma posição de pedir um favor a uma pessoa da posição da Srta. Sherwood; e ele falou sem hesitação:

— Não sei nada sobre este assunto Sherwood. Se alguém me perguntar, não receberá uma palavra.

Houve um alívio rápido nos rostos de Barney e do Velho Jimmie; para serem instantaneamente dissipados pela próxima declaração do Chefe Barlow, que seguiu a última com apenas uma pausa para respirar:

— A coisa principal que queremos é guardar esses dois vigaristas. — Ele virou-se para Barney e o Velho Jimmie. — Acabei de saber que vocês dois são os pássaros que eu quero para aquele negócio de ações Gregory. Peguei vocês legal nessa. Isso vai segurar vocês cem vezes mais firme do que qualquer acusação de conspiração. Casey, Gavegan... tirem esses dois vigaristas daqui.

No momento seguinte, Casey e Gavegan tinham algemas nos prisioneiros e estavam levando-os para fora.

— Bom para você, Larry — Casey sussurrou calorosamente enquanto passava com Barney. — Eu sabia que você ia ganhar, embora pudesse ser um jogo de entradas extras!

Na porta, Barlow pausou. — Espero que tenha feito tudo certo, Srta. Sherwood?

— Sim... até onde eu sei, Sr. Barlow.

Novamente Barlow começou a sair, e novamente virou. — E você, Brainard — disse ele, um tanto relutante, — acho que não precisa se preocupar com aquela acusação contra você. Será retirada.

E com isso Barlow seguiu seus homens e seus prisioneiros para fora da sala.

Então, por um momento, houve silêncio. Como Larry viu e sentiu aquele momento, foi um momento tão grande que as palavras apenas fariam um fracasso vacilante ao tentar expressá-lo. Ele mesmo estava subitamente livre de todas as nuvens e de todos os perigos. Ele tinha tido sucesso no que estava tentando fazer com Maggie. Um pai e uma filha estavam se encontrando, cada um sabendo de seu relacionamento, pela primeira vez. Havia tanto para ser dito, entre todos eles, que só poderia ser dito à medida que as almas relaxavam e se conheciam.

Era tão tenso, um momento tão estupendo que rapidamente teria se tornado estranho e anticlimático, não fosse pelo tato da Srta. Sherwood.

— Sr. Brainard — começou ela, de maneira sorridente e direta, com um toque de trivialidade enérgica que ajudou a aliviar a tensão —, quero pedir desculpas pelo modo como o tratei no final desta tarde. Como eu disse, acabei de conversar com Dick e ele me contou tudo — exceto algumas coisas que talvez todos tenhamos de contar uns aos outros mais tarde. Eu estava inteiramente errada, e o senhor estava inteiramente certo. E a maneira como conduziu as coisas parece ter dado a Dick exatamente aquele choque que o senhor disse ser necessário para despertá-lo a ser o homem que ele é capaz de ser. Tenho certeza de que todos nós o parabenizamos.

Ela não deu a Larry chance de responder. Sabia do perigo, em uma crise emocional como esta, de qualquer hesitação. Por isso, continuou no seu tom enérgico de autoridade cativante.

— Acho que todos nós passamos por coisas demais para conversar. Vocês virão todos direto para minha casa comigo. O Sr. Brainard e o Sr. Ellison moram lá, eu sou a patroa deles, e eles têm de vir. E a senhorita também tem de vir, Srta. Ellison, se não quiser me ofender. Não aceitarei um "não". Além disso, seu lugar é perto de seu pai. Vista o que tem no corpo; em meio minuto pode colocar o suficiente em uma bolsa para durar até amanhã. Amanhã mandaremos buscar o resto de suas coisas — o que quer que queira — e enviaremos um bilhete para sua Srta. Grierson, pagando-lhe o que for devido. A senhorita e seu pai irão em meu carro — concluiu ela —, o Sr. Brainard e Dick irão no carro de Dick, e o Sr. Hunt me levará.

E como ela ordenou, assim foi feito.

Por quinze minutos — talvez meia hora — depois que se afastou do Hotel Grantham, houve silêncio absoluto na limusine da Srta. Sherwood, que ela havia designado para Maggie e seu pai. Maggie estava perto do colapso emocional pelo que havia passado; e agora estava sentada encolhida em um canto, longe da sombra escura no outro canto que era seu pai recém-descoberto, que se importara tanto com ela que tentara apagar de sua mente todo o conhecimento de sua existência. Ela queria dizer algo — fazer algo; estava dilacerada por uma fome pungente. Mas estava tão cheia de desejos pulsantes e medos que era impotente para expressar qualquer uma das milhões de coisas dentro de si.

E assim eles seguiram, sombras escuras, com quase metade da largura do banco profundamente acolchoado entre eles. Assim eles haviam percorrido a Jackson Avenue, quase chegando a Flushing, quando o silêncio foi quebrado pelas primeiras palavras da jornada. Eram palavras roucas, cheias de saudade e com medo do próprio som, e foram ditas pelo pai de Maggie.

— Eu... eu não sei como chamá-la. Maggie... servirá?

— Sim — ela sussurrou.

— Eu... eu não sou grande coisa — a voz rouca aventurou-se; — mas o que você disse sobre ir embora... por minha causa... você acha que precisa fazer isso?

— Eu... fiz uma confusão tão grande comigo mesma — ela soluçou.

— Outras pessoas foram as culpadas — disse ele. — E, de tudo isso, acho que você vai ser o que... o que eu sonhei que você fosse. E... e...

Houve outro silêncio sufocante. — Sim? — ela instigou.

— Eu queria ficar fora de sua vida... por sua causa — continuou ele, com sua voz tensa e reprimida. — Mas... mas se você não se envergonha de mim agora que sabe de tudo... — na escuridão, sua mão tateante fechou-se sobre a dela — ...eu gostaria que você não... fosse embora de mim, Maggie.

E então a coisa agitada e incoerente dentro dela, que estivera lutando para se expressar nesta última meia hora, subitamente encontrou sua voz em uma única palavra:

— Pai! — ela gritou, e lançou seus braços ao redor do pescoço dele.

— Maggie! — soluçou ele, apertando-a contra si.

Por todo o caminho até Cedar Crest eles não disseram mais uma palavra; apenas se agarraram um ao outro na escuridão, soluçando — o primeiro abraço milagroso de um pai e uma filha que haviam encontrado aquilo que cada um nunca esperara ter.

CAPÍTULO XXXVII

Eram dez da manhã seguinte em Cedar Crest, e Larry Brainard sentava-se em seu escritório, revisando mecanicamente seus números e planos para o projeto habitacional Sherwood.

Para Larry, as tempestades das últimas semanas, e o turbilhão da noite passada, haviam se dissipado. Havia silêncio na casa, e através das janelas abertas ele podia vislumbrar o amplo gramado quase cantando em seu verde banhado pelo sol, e mais adiante podia vislumbrar o Sound brilhando placidamente. Uma vez, por talvez dez minutos, ele viu a figura de macacão e chapéu de palha de Joe Ellison, ocupado como de costume entre as flores. Ele forçou os olhos em busca de um vislumbre de Maggie, mas olhou em vão.

Apesar de tudo o que acontecera no Grantham na noite anterior, Larry estava justamente agora se sentindo inquieto e bastante desamparado. Seu café da manhã fora levado ao seu quarto, e ele não vira um único membro do grupo da noite passada no Grantham desde que todos se separaram conforme as ordens da Srta. Sherwood e partiram; isto é, ele não vira realmente ninguém, exceto Dick.

Dick apertara sua mão quando ele escorregara para o lado de Dick no banco baixo do roadster. — Você é um cara legal, Capitão Nemo! — só que vou ser atrevido o suficiente para chamá-lo de Larry daqui em diante — dissera Dick. — Se você me permitir, você e eu vamos ser companheiros.

Ele era um cara legal, aquele Dick. Dick Sherwood era um puro-sangue.

E havia outra questão que o agradara. A Duquesa ligara para ele naquela manhã, parabenizara-o em termos tão breves que soavam superficiais, mas que Larry percebeu conterem todo o coração de sua avó, e dissera que queria que ele assumisse o cuidado de todas as suas casas — aquelas que ela dera como fiança por ele. Quando ele poderia ir vê-la sobre isso?... Ele compreendia essa avó, aparentemente poeirenta, curvada e inarticulada, como não compreendera antes. Considerando o que fora sua vida, ela também era uma pessoa de ouro.

Mas, apesar de tudo isso, Larry estava solitário — faminto de solidão — e muito em dúvida. A Srta. Sherwood falara com ele de forma justa na noite anterior — ainda assim, ele realmente não sabia exatamente qual era sua posição com ela. E então... Maggie. Era isso que significava mais para ele justamente agora. É verdade, Maggie emergira a salvo através de perigos externos e internos; e levá-la a tal segurança como a que agora era dela fora sua principal preocupação nestes meses. Ele queria vê-la, falar com ela. Mas não sabia qual seria a atitude dela para com ele agora. Não sabia como começar a procurá-la. Não tinha nem certeza de onde ela passara a noite. Ele queria vê-la, mas estava pulsando de medo de vê-la. Ela não seria hostil, ele sabia ao menos isso; mas ela poderia não amá-lo; e, na melhor das hipóteses, um encontro seria constrangedor, com um abismo tão largo em suas vidas a ser superado...

Ele estava meditando assim quando houve uma batida forte em sua porta. Sem esperar por seu convite para entrar, a porta foi aberta de um solavanco, e Hunt entrou a passos largos, deixando a porta escancarada atrás de si. Seu rosto era apenas um grande sorriso excitado. Ele deu um tapa nas costas de Larry, que quase o derrubou, e depois o puxou de volta ao equilíbrio segurando uma mão com as duas suas, e quase a arrancou.

— Larry, meu filho — explodiu o grande pintor —, eu acabei de fazer isso! E fiz exatamente como você me ordenou! Esqueci que a Srta. Sherwood e eu tínhamos tido um desentendimento e, conforme suas ordens, caminhei direto até ela e perguntei. E Larry, seu malandro, você estava certo! Ela disse "sim"!

— Você tem sorte, meu velho! — exclamou Larry, retribuindo calorosamente o aperto do pintor.

— E, Larry, isso não é tudo. Você me disse que eu tinha a clareza de visão de uma lagosta cozida fria — disse que eu era o maior tolo que já teve cérebro suficiente para não pintar com a ponta errada de um guarda-chuva. Fez-me algum pequeno elogio como esse.

— Algo assim — concordou Larry.

— Bem, Larry, meu velho, você estava certo de novo! Fui um tolo pior do que tudo o que você disse. Fui mais cego do que um daqueles crânios envernizados que algumas pessoas de estômago forte usam como peso de papel. Depois que ela disse "sim", ela me contou a história real de por que havíamos nos desentendido. E adivinhe por que foi?

— Você não quer que eu adivinhe. Você quer me contar. Então, manda ver.

— Larry, nós, homens, nunca saberemos quão espertas as mulheres realmente são! — Hunt balançou a cabeça com ênfase impressionante. — Nem como elas entendem nossa natureza — as mulheres espertas — nem o quão bem sabem como nos manipular. Ela confessou que nossa briga foi, por parte dela, cuidadosamente planejada desde o início com um resultado definido em vista. Ela me disse que sempre acreditou que eu era um grande pintor, se eu apenas me libertasse das coisas bonitas que as pessoas queriam e pelas quais me pagavam tanto. O problema, como ela via, era me fazer cortar o vínculo com tanto dinheiro fácil e me dedicar inteiramente ao trabalho de verdade. A única maneira que ela viu foi me dizer que eu não conseguia pintar nada que valesse a pena, e dizer isso de forma tão direta que me fizesse acreditar que ela acreditava nisso — e assim me deixar tão bravo que eu chutasse tudo e fosse embora para provar a ela que eu podia, droga, pintar! Eu certamente fiquei irritado — saí de fininho, jurando que iria mostrar a ela — e, bem, você sabe o resto! Diga-me agora, você consegue pensar em algo mais esperto do que a maneira como ela me manipulou?

— É exatamente o que eu esperaria da Srta. Sherwood — comentou Larry.

— Com licença — disse uma voz atrás deles. — Achei a porta aberta; posso entrar?

Ambos os homens se viraram rapidamente. Entrando estava a Srta. Sherwood.

— Isabel! — exclamou o feliz pintor. — Eu estava justamente contando ao Larry aqui... você sabe!

O tom da Srta. Sherwood tentou ser severo, e ela tentou não sorrir — e conseguiu ser apenas ela mesma.

— Vim tratar de negócios com o Sr. Brainard. E vou ficar para tratar de negócios com o Sr. Brainard. Mas darei a ele cinco segundos para cumprimentos — contanto que, ao final dos cinco segundos, o Sr. Hunt saia da sala.

Larry parabenizou os dois; parabenizou-os tão calorosamente quanto sentia que sua posição, ainda duvidosa nesta companhia, justificava. Ao final dos cinco segundos, Hunt estava fechando a porta atrás de si.

— Eu sempre o amei — e quero agradecer a você, Sr. Brainard — disse ela com sua simplicidade direta. E, antes que Larry pudesse responder de qualquer maneira, ela mudou de assunto.

— Eu realmente vim vê-lo a negócios, Sr. Brainard. Espero ter deixado minha atitude para com o senhor clara o suficiente ontem à noite. Se não deixei, permita-me dizer agora que acho que o senhor se saiu bem em todos os aspectos — e que confio no senhor em todos os aspectos. O que eu desejava especialmente dizer agora — continuou ela de forma enérgica, sem dar a Larry chance de gaguejar seu agradecimento —, é que desejo prosseguir sem qualquer demora com sua proposta para desenvolver as propriedades Sherwood na cidade de Nova York, que discutimos há algum tempo. Uma objeção anterior que o senhor levantou agora foi removida: o senhor está livre de culpa e livre para trabalhar abertamente. Quero que assuma a responsabilidade pelos assuntos, com Dick trabalhando ao seu lado. Acho que será a grande chance de Dick. Conversei com ele sobre isso esta manhã, e ele está ansioso pelo arranjo. Espero que o senhor não vá recusar a oferta desta vez.

— Eu não posso... não uma oferta como essa — disse Larry, com a voz rouca. — Mas, Srta. Sherwood, eu não esperava...

— Então está decidido — interrompeu ela com seu tom enérgico. — Haverá muitos detalhes, mas teremos bastante tempo para discuti-los mais tarde. — Ela se levantou. — Há algumas mudanças aqui em Cedar Crest que quero que comecem imediatamente e que quero que o senhor supervisione. Se não se importar, vamos dar uma olhada nas coisas agora.

Ele a seguiu ao longo das trilhas curvas e cascalhadas. Ela dirigiu-se em direção ao penhasco, mas ele não fazia ideia de onde ela estava o levando, até que uma curva fechada os trouxe quase sobre a pequena casa que nestas últimas semanas fora o lar de Joe Ellison.

— É aqui que começamos nossas mudanças — disse a prática Srta. Sherwood. — A porta está aberta, então podemos entrar direto.

Eles entraram em uma minúscula entrada e, de lá, em uma pequena sala de estar. O quarto estava cheio de flores cortadas, mas Larry nem sequer as viu. Pois, assim que entraram, Maggie levantou-se, sobressaltada, de uma cadeira, e, mais pálida do que estivera antes em toda a sua vida, olhou para ele como se quisesse fugir. Ela estava tremendo, esguia, em um vestido de linho de linhas muito simples e graciosas. Era o vestido da Srta. Sherwood, embora Larry não soubesse disso; já fora decidido que todos aqueles vestidos chamativos do Grantham nunca mais seriam usados.

Mais uma vez a Srta. Sherwood veio em socorro de uma situação estupenda, assim como seu tato salvara uma situação grande demais para palavras na noite anterior.

— É claro que vocês dois agora percebem que sou uma fraude — que os juntei por meio de um truque vil. Tendo admitido tanto, vamos prosseguir. — Ela se voltou para Larry. — Maggie — concordamos que eu a chame assim — Maggie ficou comigo ontem à noite. Há duas camas no meu quarto. Mas não dormimos muito. Principalmente conversamos. Se há algo que Maggie não me contou sobre si mesma, não consigo imaginar o que resta contar. Segundo ela mesma, ela é terrível. Mas isso cabe a nós julgar; pessoalmente, não acredito nela. Ela confessou que realmente o amava, mas que, depois da maneira como o tratara, é claro que não era digna de você. O que, é claro, é apenas bobagem de moça. Suponho que o senhor, Sr. Brainard, esteja pensando algo do tipo a respeito de si mesmo. É igualmente bobagem. Vocês dois se amam — ambos passaram por muito — nada de importância agora se coloca entre vocês — então não desperdicem nenhuma de suas vidas curtas demais para se unirem.

Ela respirou fundo e continuou. — É melhor o senhor saber, Sr. Brainard, que Maggie vai morar comigo por enquanto — que, é claro, ela será um peso muito grande para mim — e será um grande favor para mim se o senhor se casar com ela logo e a tirar das minhas mãos. — E então a voz, que tentara se manter enérgica e uniforme, vacilou com um soluço súbito. — Pelo amor de Deus, queridos filhos — não sejam tolos!

E com isso ela se foi.

Por um instante, Larry continuou a olhar para a figura esguia e trêmula de Maggie. Mas algo que se aproximava de um milagre — um milagre muito humano — acabara de acontecer. Todas aquelas dúvidas, medos, indecisões, desejos não expressos, agonias de autodepreciação, que poderiam ter atrasado seu entendimento e felicidade por semanas e meses, foram varridos para o nada pela gentileza incisiva da Srta. Sherwood. Em um minuto, ela dissera tudo o que eles poderiam ter dito em meses; não havia mais nada a dizer. Não restava nada do passado para discutir. Diante deles estava apenas o fato daquele momento imediato, e o futuro.

Tremendo, silenciosamente, Larry atravessou até aquela figura trêmula e silenciosa de branco. Ela não recuou. Tremendo, ele pegou as mãos dela e olhou para dentro de seus olhos escuros. Eles estavam agora cheios de lágrimas, mas encontraram os dele diretamente, não escondendo nada. O olhar nos olhos dela respondeu a tudo o que ele desejava saber justamente então, pois ele a puxou para perto em seus braços. Sem palavras, mas com um soluço agudo e convulsivo, ela lançou seus braços ao redor do pescoço dele — e assim abraçados, sacudidos por soluços agudos, eles ficaram enquanto os minutos passavam, sem que uma única palavra fosse dita. E foi assim que esses dois, ambos filhos da tempestade, finalmente se uniram...

Pouco depois, Joe Ellison teve a chance de entrar sem suspeitas na sala. Vendo o que viu, ele saiu silenciosamente na ponta dos pés. Havia uma cadeira de jardim logo do lado de fora de sua porta. Nela ele se afundou e deixou seu rosto fino cair entre as mãos. Sua figura tremia e lágrimas quentes queimavam através de seus dedos. Pois seu coração lhe dizia que seu grande sonho finalmente se tornara realidade.

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