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Complete Short Works of George Meredith

by George Meredith · in Portuguese

FARINA

Por George Meredith

O CLUBE DA ROSA BRANCA

Naqueles tempos vigorosos em que os Kaisers erguiam bem alto a taça dourada de Aachen e bebiam, com o cotovelo apontado para o céu, o vinho de olhos verdes do antigo romance, vivia, a um tiro de arco dos ossos das Onze Mil Virgens e dos Três Santos Reis, um próspero renano, de nome Gottlieb Groschen, ou, como por vezes era enobrecido, Gottlieb von Groschen; não havendo negociante mais abastado que trocasse mercadorias pela glória de sua antiga cidade natal, nem burguês mais honrado que engolisse, imparcialmente, o néctar tinto e branco à sombra da sua própria figueira.

Colinas vinícolas, entre as que mais avidamente bebem o sol no Rheingau, cintilavam na vastidão das posses de Gottlieb; campos de milho abaixo de Colónia; pedreiras de basalto perto de Linz; fontes minerais em Nassau, um legado dos romanos à genialidade e ao empreendimento do primeiro dos comerciantes alemães. Ele poderia ter comprado cada penhasco frequentado por falcões, dono e tudo, da Torre de Hatto até Rheineck. Lore-ley, penteando as suas madeixas amarelas contra a nuvem da noite, contemplava as balsas do velho Gottlieb a deslizarem interminavelmente, ao luar, pelo desfiladeiro de ferro que ela povoa acima de St. Goar. Uma hoste lamentosa eram as esposas dos seus balseiros, ali enviuvadas pela sua música aquática!

Este digno cidadão de Colónia possuía vastas cartas manuscritas do Kaiser endereçadas a ele:

‘Meu caro filho e súbdito bem-nascido, Gottlieb!’ e ele lidava com naturalidade com os mais orgulhosos príncipes do Sagrado Império Germânico. Pois Gottlieb era, num só corpo, um agiota e um homem honesto. Ele investia nas fartas colheitas da usura, sem pressionar as estações com demasiado rigor. ‘Semeio a minha semente no inverno’, dizia ele, ‘e espero colher bom lucro no outono; mas se a colheita for escassa, melhor deixá-la estar e adubar o solo.’

‘A terra velha é a credora mais sábia’, acrescentava; ‘ela nunca espreme o sol, mas apenas toma o que ele lhe pode dar ano após ano, e assim garante um bom juro anual.’

Portanto, quando perguntavam a Gottlieb como havia atingido tal pináculo de fortuna, o velho mercador estreitava o olho no seu canto mais astuto e respondia com ironia: ‘Porque sempre fui um estudioso dos corpos celestes’; uma comunicação que não deixou de tornar os orbes e sistemas objetos de ardente adoração popular em Colónia, onde a ciência era considerada, desde há muito, alquímica, e ainda pode sê-lo.

Raramente o Kaiser podia ir à guerra na Welschland sem antes pedir conselhos sinceros ao seu filho e súbdito bem-nascido, Gottlieb, e alijar os seus cofres. Na verdade, o passatempo imperial teria cessado, e o Kaiser teria definhado, não fosse por ele. Colónia considerava o seu ilustre cidadão algo mais do que humano. Os burgueses tiravam o chapéu quando ele passava; e os garotos malandros, de roupas esfarrapadas, olhavam para ele com um respeito sobrenatural, de queixos caídos, como se uma mina de ouro de grande porte tivesse atravessado o jogo atônito.

Mas, para os jovens de Colónia, ele tinha um título maior de reverência, como pai da bela Margarita, a Rosa Branca da Alemanha; uma donzela nobre, sem par, e uma joia para príncipes.

A devoção destes jovens deveria dar-lhes um nome na cavalaria. Em sua honra, dia e noite, ganhavam entre si nódoas negras e desfilavam com rostos descoloridos, na humilde esperança de que isso fosse agradável aos seus olhos. Os ternos fanáticos andavam em bandos pelo Reno, desafiando viajantes e camponeses, com cajado e caneca, a reconhecer a supremacia da sua senhora. Quem deles viajasse para terras estrangeiras, escrevia para casa gabando-se de quantas vezes a sua cabeça tinha sido partida em nome da bela Margarita; e, se isso acontecia com muita frequência, criava-se um espírito de inveja que o obrigava, ao regressar, a verificar a sua proeza em nada menos que uma vintena dos seus rivais. Não possuir uma cicatriz de beleza, como eram chamadas as feridas recebidas nestes combates intermináveis, tornava-se sinal de inferioridade, de modo que se supunha haver muita mutilação voluntária; e, para evitar esta traição, lavravam-se atas das lutas, declarando que um determinado golpe ou corte glorioso fora honradamente ganho em campo aberto; em que ocasião; e de quem; mantendo cada membro do Clube da Rosa Branca o seu pergaminho particular e, nos dias de festa e feriado, usando-o altivamente no elmo. Os estranhos que entravam em Colónia ficavam espantados com a aparência horrível dos adolescentes e pensavam nunca ter visto uma raça tão feia; mas eram forçados a admitir a bela influência da beleza no comércio, vendo que o consumo de cerveja aumentava quase a cada hora. Toda a Baviera não podia igualar Colónia na quantidade que era eliminada.

Os principais membros do Clube da Rosa Branca eram Berthold Schmidt, filho do rico ourives; Dietrich Schill, filho do seleiro imperial; Heinrich Abt, Franz Endermann e Ernst Geller, filhos de burgueses importantes, cada um dos quais trazia um pergaminho de um côvado no seu gorro, e estava demasiado desfigurado na face para que os homens exigissem uma inspeção do documento. Eram jovens perigosos de encontrar, pois os juramentos, cerimônias e recantações que exigiam de qualquer viajante, abaixo do posto de barão, eram algo que poucos poderiam cumprir satisfatoriamente, se fossem amantes de mulheres que não a bela Margarita, ou maridos leais; e que ninguém, salvo cabeças e estômagos treinados, poderia suportar, por mais varonil que fosse naturalmente. O capitão do Clube era aquele que conseguisse beber mais cerveja sem suspiros intermediários, e cujo rosto contasse o número mais orgulhoso de cortes e mistura de cores. A capitania era muito disputada entre Dietrich Schill e Berthold Schmidt, que, no calor e na constância da disputa, perdiam gradualmente a semelhança com o ser humano. ‘Moeda boa’, orgulhavam-se de refletir, ‘não precisa de cunho.’

Um jovem em Colónia resistia à tirania vigente e escolhia prestar homenagem à beleza à sua própria maneira, e no seu tempo livre. Era Farina, e juramentos foram registrados contra ele sobre barris de cerveja vazios. Um axioma do Clube da Rosa Branca estabelecia que todos deviam estar apaixonados por Margarita, e a consciência do Clube tornava-os triplamente suspeitos daqueles que não eram membros. Tinham o consolo de saber que Farina era pobre, mas diziam que ele era um estudioso das Artes Negras, e de tal pessoa o pior poderia ser razoavelmente temido. Ele poderia enfeitiçar Margarita!

Dietrich Schill foi encarregado pelo Clube de sondar a própria Rosa Branca sobre o tema Farina, e numa tarde, na época da vindima, quando ela se sentava sob os postes quentes das vinhas entre amigas donzelas, comendo uvas maduras, aproximou-se Dietrich, sorridente, chapéu na mão, com o seu pergaminho arrastado atrás de si.

‘Queres?’, disse Margarita, oferecendo-lhe um cacho.

‘Vilão infeliz que sou!’, respondeu Dietrich, gesticulando uma recusa astuta; ‘se eu aceitar um favor, quebro a fé com o Clube.’

‘Quebra-a para me agradar’, disse Margarita, sorrindo maliciosamente.

Dietrich ofegou. Ficou na ponta dos pés para ver se algum membro do Clube estava por perto, e estendeu a mão a meio caminho. Uma risada zombeteira fê-lo recuar como se tivesse sido picado. As uvas caíram. Farina estava aos pés de Margarita, oferecendo-as em troca.

‘Queres?’, disse Margarita, com um tom mais suave e um excesso ligeiro de rubor nas faces.

Farina encostou o cacho púrpura ao peito e apertou-o contra o coração, ainda de joelhos.

A fronte e o colo de Margarita pareciam reflexos do carmesim que ali emanava. Ela sacudiu o rosto para o céu e fingiu rir-se do símbolo. As suas companheiras bateram palmas. Os olhos de Farina ansiaram por ela uma vez, e então ele levantou-se e juntou-se à pilhéria.

A fúria ajudou Dietrich a esquecer o seu embaraço. Tocou Farina no ombro com dois dedos e murmurou roucamente: ‘O Clube nunca permite isso.’

Farina fez uma vénia, como se agradecesse profundamente pelas regras do Clube. ‘Não sou membro, sabem’, disse ele, e caminhou para um assento perto de Margarita.

Dietrich olhou-o com fúria. Como chefe de um Clube, ele entendia o uso de símbolos. Tinha perdido uma oportunidade esplêndida, e Farina tinha-a agarrado. Farina tinha-o roubado.

‘Posso falar com a Senhora Margarita?’, perguntou o chefe da Rosa Branca, com uma voz áspera.

‘Certamente, Dietrich! fala’, disse Margarita.

‘A sós?’, continuou ele.

‘Isso é permitido pelo Clube?’, disse uma das jovens, com um olhar atrevido.

Dietrich não se dignou a responder, mas aguardou a decisão de Margarita. Ela hesitou por um segundo; depois ergueu-se em toda a sua altura diante dele; enfrentou-o firmemente e chamou-o alguns passos pelo caminho das vinhas. Dietrich fez uma vénia e, ao passar por Farina, informou-o de que o Clube lhe exigiria satisfação pela ofensa.

Farina riu-se, mas respondeu: ‘Ouçam, vocês do Clube! Beber cerveja melhorou os vossos modos tanto quanto lutar embelezou os vossos rostos. Continuem; bebam e lutem! Mas lembrem-se de que o Kaiser está a chegar, e com ele vêm homens que não se deixarão intimidar.’

‘Que queres dizer?’, gritou Dietrich, voltando-se bruscamente para o seu inimigo.

‘Não tão alto, amigo’, replicou Farina. ‘Ou queres assustar as donzelas? Quero dizer que o Clube faria melhor em ofender o menos possível e manter os olhos tão abertos quanto puder, se quiser ser útil à Senhora Margarita.’

Dietrich afastou-se com um grunhido.

‘Agora!’, disse Margarita.

Ela batia com o pé. Dietrich tornou-se infiel ao Clube e olhou para ela por mais tempo do que a sua missão justificava. Ela estava radiante como os jardins do pôr do sol das Maçãs de Ouro. As tranças do seu cabelo amarelo estavam presas em coroas, e num dos lados da cabeça um açafrão estava preso com a flor para baixo. Doçura, canção e espírito pendiam como orvalho matinal nos seus lábios manchados de uvas. Ela usava um espartilho escarlate com faixas de veludo preto sobre os ombros. O vestido de menina era de um tecido azul fino e caía curto sobre os seus pés firmes, calçados cuidadosamente com couro branco e fivelas. Havia testemunho nos seus membros e na forma como segurava o pescoço de um dragão amável, mas capaz, pronto, quando despertado, para se eriçar e proteger as Maçãs de Ouro contra todos, exceto o pretendente legítimo. Contudo, o seu lábio inferior e o pequeno queixo branco tinham um pendente sonhador; os seus francos olhos azuis entravam diretamente no interlocutor: o dragão dormia. Era um encanto perigoso. ‘Pois’, diz o minnesinger, ‘que ornamento nos encanta mais numa jovem beleza do que o suave sono de uma força nunca antes chamada, e que ela mesma desconhece! Canta coisas duplas ao coração da cavalaria; seduz-nos e avisa-nos; corteja-nos e ameaça-nos. É como a natureza, brilhando em paz, contudo a mãe da tempestade.’

‘Não há homem’, exclama arrebatadoramente Heinrich von der Jungferweide, ‘que possa resistir ao desejo de ganhar um doce tesouro diante do qual jaz um dragão a dormir. O próprio perigo tagarela promessas.’

Mas o dragão deve realmente dormir, como no caso de Margarita.

‘Um dragão falso, fingindo dormir, destruiu mais virgens do que todos os imperadores pagãos’, diz o velho Hans Aepfelmann de Düsseldorf.

O pé de Margarita batia mais depressa.

‘Fala, Dietrich!’, disse ela.

Dietrich declarou ao Clube que, naquele momento, ele murmurou: ‘Nós amamos-te.’ Margarita ficou feliz por acreditar que ele não tinha falado de si mesmo. Ele informou-a então dos receios nutridos pelo Clube, jurado a vigiá-la e protegê-la, em relação às artes de Farina.

‘E que temeis vós?’, disse Margarita.

‘Tememos, doce senhora, que ele possa estar aliado a Sathanas’, respondeu Dietrich.

‘Verdadeiramente, então’, disse Margarita, ‘de todos os jovens em Colónia, ele é o que menos se parece com o seu confederado.’

Dietrich engoliu em seco e piscou o olho, como um paciente a recuperar, com caretas, de uma poção detestada.

‘Avisamo-la, Fraulein Groschen!’, exclamou ele. ‘Torna-se agora nosso dever garantir que não seja enredada.’

Margarita corou e respondeu: ‘Sois gentis. Mas sou uma donzela cristã e não um sultão pagão, e não preciso de um corpo de guardas bronzeados nos meus calcanhares.’

Dito isto, ela afastou-se para junto das suas companheiras e começou a manchar novamente a sua boca bonita com uvas.

A PALAVRA DA TAPEÇARIA

As belas donzelas querem o seu herói na história. Siegfried era o eleito de Margarita. Ela cantava Siegfried por toda a casa. ‘Oh, os velhos tempos da Alemanha, quando tal herói caminhava!’, cantava ela.

‘E quem ganha Margarita’, pensava Farina, ‘mais feliz que Siegfried, tem nos seus braços Brunhild e Chrimhild juntas!’

Coroando o peito da jovem estava um camafeu, e a habilidade de algum artista astuto da Welschland tinha gravado nele a história de Drachenfels. O seu peito movia a batalha para cima e para baixo.

Este camafeu era uma estrela polar para a masculinidade alemã, mas causava muitas expressões castas de horror da Tia Lisbeth, irmã solteira de Gottlieb, que parecia instintivamente tomar o partido do Dragão. Ela era uma pequena senhora de constituição frágil, com um rosto que denotava o sabor perpétuo de limão, e que reinava na casa do seu irmão quando a boa esposa se tinha ido. A robustez de Margarita estava a começar a alarmar e a chocar o estoque selado de virtude da Tia Lisbeth.

‘Ela tem de ser vigiada, uma madl como aquela’, dizia a Tia Lisbeth. ‘Ursula! que membros ela tem!’

Margarita era vigiada; mas, como a espiã não era nem inimiga nem amiga, nada era descoberto contra ela. Isto não satisfazia a Tia Lisbeth, cuja própria suspeita era a sua melhor testemunha. Ela admitia que Margarita dissimulava bem.

‘Mas’, dizia ela à sobrinha, ‘embora seja bom numa rapariga não ostentar estas malcriações em desaforo, importo-me demasiado contigo para não dizer... Sê o que pareces, minha pequena!’

‘E isso eu sou!’, exclamou Margarita, levantando-se e erguendo-se.

‘Muito bem, minha sobrinha’, guinchou Lisbeth; ‘mas agora que Frau Groschen jaz no campo de Deus, deves-me obediência, lembra-te! Confessaste-te na semana passada?’

‘Do princípio ao fim’, respondeu Margarita.

A Tia Lisbeth fixou uma censura piedosa no camafeu de Margarita.

‘E ainda usas essa coisa?’

‘Por que não?’, disse Margarita.

‘Rapariga! quem te diria para o colocar num tal lugar senão Satanás? Oh, tu, pobre criança perdida! para que os olhos dos jovens ociosos sejam atraídos para lá! e tu te tornes o seu laço para os outros, Margarita! Quem era aquele malabarista errante galês senão o próprio espírito imundo, talvez, tu donzela do pecado! Dizem que ele tem sido visto em Colónia ultimamente. Ele era moreno como Satanás e coxo de uma perna. Bom Mestre no céu, protege-nos! era o próprio Satanás, poderia jurar!’

A Tia Lisbeth persignou-se na fronte e no peito.

Margarita tinha começado a mexer no camafeu, como se para o arrancar; mas o remate da Tia Lisbeth fê-la rir abertamente.

‘Onde não vejo mal, tia, pensarei que está o bom Deus’, respondeu ela; ‘e onde vir que há mal, pensarei que Satanás espreita.’

Um sorriso de desespero azedo passou pela Tia Lisbeth. Ela suspirou e ficou em silêncio, sendo uma daquelas canas muito fracas que são facilmente vencidas e nunca superadas.

‘Continuemos com a Tapeçaria, criança’, disse ela.

Ora, Margarita ambicionava completar uma certa Tapeçaria para apresentação ao Kaiser Heinrich na sua entrada em Colónia após a sua última campanha no turbante Danúbio. O tema era novamente o seu amado Siegfried matando o Dragão em Drachenfels. Sempre que a Tia Lisbeth se entregava a qualquer virgindade amarga, e era superada pela franca donzelice de Margarita, ela estendia esta tapeçaria como uma bandeira de trégua. Estavam a trabalhá-la em partes, por não terem meios de a fazer numa só peça. Margarita tomou Siegfried e a Tia Lisbeth o Dragão. Dividiram o penhasco entre si. Um brilho maroto do Reno em direção a Nonnenwerth já podia ser vislumbrado, com o Canto de Roland pendurado como um sentinela através da ilha cantante, como alguém sobrecarregado por uma longa vigília.

A Tia Lisbeth era uma grande especialista na arte, e tinha ensinado Margarita. A pequena senhora aprendeu-a, com muitas outras matérias medonhas, na família do Palatino da Boêmia. Ela costumava falar dos espectros do Castelo de Hollenbogenblitz enquanto passava os fios. Aqueles eram espectros lúgubres na Boêmia, cheirando a assassinato e ao hálito de carne podre da meia-noite. Pronunciavam ruídos que congelavam o sangue e revelavam visões que eriçavam cabelos de três pés de comprimento; sim, e mantinham-nos eriçados!

Margarita colocou-se num banco junto à janela em arco baixo, e a Tia Lisbeth sentou-se à sua frente. Um sol de fim de tarde iluminava os arcobotantes da Catedral e sombreava os teares do casal pacífico com uma luz temperada. Margarita desenrolou uma amostra embainhada com torções de fios de cores diversas, e logo estava ocupada a passar fios de prata no elmo e nos chifres de Siegfried.

‘Contei-te sobre o administrador, o pobre Kraut, não contei, criança?’, perguntou a Tia Lisbeth, limpando calmamente a garganta.

‘Muitas vezes!’, disse Margarita, e continuou a cantarolar sobre o seu joelho:

‘O seu amor era um Barão, Um Barão tão audaz; Ela amava-o por amor, Ele amava-a por ouro.’

‘Ele teve de ver por si mesmo, e ficar satisfeito’, continuou a Tia Lisbeth; ‘e o Santo Thomas a avisá-lo como exemplo! Pobre Kraut!’

‘Pobre Kraut!’, ecoou Margarita.

‘O Rei amava o vinho, e o Cavaleiro amava o vinho, E amavam o tempo de verão: Poderiam ter-se amado bem, Se não fosse por uma que amavam juntos.’

‘Podes dizer, pobre Kraut, criança!’, disse a Tia Lisbeth. ‘Bem! a face dele era antes disso tão vermelha como a mandíbula deste dragão, e depois disso ele andou sempre tão branco como um ovo de galinha. Isso foi algo maravilhoso!’ ‘Isso foi!’, repetiu Margarita.

‘Oh, o Rei amava a sua esposa legítima, O Cavaleiro, uma senhora sem lei; E dez contra um fizeram uma luta sonora, Sob a floresta sombria.’

‘Cinquenta contra um, criança!’, disse a Tia Lisbeth: ‘Esqueces a história. Fizeram Kraut sentar-se com eles no banquete tagarela, o único mortal ali. As paredes estavam cheias de órbitas oculares sem olhos, mas com fósforo, ardendo azul e húmido.’

‘Esta noite não, tia querida! Assusta-me tanto’, suplicou Margarita, pois viu a dor a chegar.

‘Noite! quando é pleno meio-dia, tu, medrosa! O bom céu tenha piedade de tal como tu! O prato tinha sete pés de comprimento por quatro de largura. Kraut mediu-o com o olhar e nunca o esqueceu. Não ele! Quando a tampa do prato foi levantada, viu-se ali deitado, cozido!’

‘“Não me senti desconfortável então”’, disse Kraut. ‘“Parecia natural.”’

‘A sua face, enquanto jazia ali, diz ele, estava bastante calma, apenas um pouco enrugada e com aspecto de porco. Havia a verruga no seu queixo, e a prega sob a sua pálpebra esquerda. Bem! o Barão cortou. Todos os convidados estavam gananciosos por um pedaço dele. Alguns gritavam por peito; outros por dedos dos pés. Era arrepiante sentar e ouvir isso! A Baronesa disse: “Bochecha!”’

‘Ah!’, gritou Margarita, ‘isso não posso suportar! Não quero ouvir, tia; não quero!’

‘Bochecha!’, reiterou a Tia Lisbeth, acenando para o chão.

Margarita colocou os dedos nos ouvidos.

‘Ainda assim, diz Kraut, mesmo então ele não sentiu nada estranho. Claro que estava horrorizado por estar sentado com espectros, como tu e eu estaríamos; mas o primeiro tremor disso passou. Ele tinha mergulhado no banho de horrores, e lá estava ele. Ouvi dizer que deves pronunciar os nomes da Virgem e da Trindade, espalhando água à tua volta durante três minutos; e se fizeres isto sem interrupção, tudo desaparecerá. Assim dizem. “Oh! querido céu de misericórdia!”, diz Kraut, “o que senti quando o Barão deitou a sua longa faca de caça sobre a minha bochecha esquerda!”’

Aqui a Tia Lisbeth levantou os olhos para se deleitar com o susto de Margarita. Ela ficou muito desagradada ao encontrar a sua sobrinha, com os cotovelos no parapeito da janela e as mãos à volta da cabeça, olhando calmamente para a rua.

Ela disse severamente: ‘Onde aprendeste essa canção que estavas a cantar há pouco, Margarita? Fala, tu, rapariga!’

Margarita riu-se.

‘O tordo, e a cotovia, e o melro, Ensinaram-me a cantar: E oh, que o falcão emprestasse o seu olho, E a águia emprestasse a sua asa.’

‘Não quero ouvir estas canções sem vergonha’, exclamou a Tia Lisbeth.

‘Pois eu veria as terras que eles veem, E estaria onde eles estiveram: Não basta estar a cantar Para sempre em vales invisíveis!’

Ouviu-se uma voz a aplaudi-la. ‘Bom! muito bom! Gorjeia outra vez, Gretelchen! meu passarinho!’

Margarita voltou-se e viu o seu pai na porta. Ela caminhou rapidamente até ele e deu-lhe afetuosamente o seu beijo de encontro. Gottlieb olhou para o elmo de Siegfried.

‘Adivinhei que o trabalho corria bem; cantas tão alegremente hoje, Grete! Muito bonito! E isso é Drachenfels? Ossos das Virgens! que sujeito audaz era Siegfried, e um sortudo, por ter a rapariga mais ajeitada da Deutschland apaixonada por ele. Bem, temos de casar-te com Siegfried afinal, creio eu! Aha? ou alguém tão bom como Siegfried. Por isso, gorjeia, minha querida!’

‘A Tia Lisbeth não aprova as minhas canções’, respondeu Margarita, desenrolando alguns fios de prata.

‘Faz o que o teu pai ordena, rapariga!’, disse a Tia Lisbeth.

‘E fazendo o seu comando, Se eu fizer uma coisa má, Preferiria morrer perante o seu rosto adorável, Do que ser leviana à sua vontade.’

‘Lá está--lá está’, disse a Tia Lisbeth, esticando os dedos; ‘vês, Gottlieb, ao que a excessiva indulgência a leva. Nenhuma outra rapariga na bendita Renânia, e na Boémia também, ousaria dizer tais palavras! --do que--eu não as consigo repetir!--não me peças!--Ela está a tornar-se uma rapariga franca!’

‘Que balada é essa?’, disse Gottlieb, sorrindo.

‘A Balada da Santa Ottilia; e o seu amante foi vendido às trevas. E ela amava-o--amava-o----’

‘Como tu amas Siegfried, minha pequena?’

‘Mais, meu pai; pois ela viu Winkried, e eu nunca vi Siegfried. Ah! se eu tivesse visto Siegfried! Não importa. Ela amava-o; mas amava mais a Virtude. E a Virtude é filha de Deus, e o bom Deus perdoou-lhe por amar Winkried, o filho do Diabo, porque ela amava mais a Virtude, e Ele resgatou-a enquanto ela estava a ser arrastada para baixo--para baixo--para baixo, e estava quase a desmaiar com o cheiro a enxofre--resgatou-a e fê-la ser levada para a Sua Glória, de cabeça e pés, nas asas dos anjos, diante de todos os homens, como uma esperança para as donzelas.’

‘E quando pensei que estava perdida Descobri que estava salva, E fui levada através de nuvens benditas, Onde as bandeiras da bem-aventurança acenavam.’

‘E então pensas que tu, também, te podes apaixonar pelos filhos do Diabo, rapariga?’, foi o comentário da Tia Lisbeth.

‘Olha para o Dragão da Lisbeth, pequeno Coração! é tão parecido!’, disse Margarita ao seu pai.

O velho Gottlieb puxou pelas suas calças e riu-se entre dentes.

‘Ela é a minha rapariga! isso vê-se’, disse ele, dando-lhe palmadinhas, e levantou-se da cadeira, ofegante, para caminhar com dificuldade até ao Dragão. Mas a Tia Lisbeth, com aspereza, virou o Dragão para a parede.

‘Ainda não está terminado, Gottlieb, e não deve ser olhado’, interpôs ela. ‘Vou pedir lenha e tratar de um fogo: estas tardes de Primavera tornam-se frias’: e lá foi a Tia Lisbeth, a choramingar.

Margarita cantou:

‘Eu com as minhas companheiras, Em tumulto e desordem, Estávamos a colher ervas e flores Ao longo da orla da floresta.’

‘A canção da tua mãe, filha do meu coração!’, disse Gottlieb; ‘mas não irrites a boa Lisbeth: ela ama-te!’

‘E pensas que ela me ama? E dirás que é verdade? Oh, e ela aceitar-me-á, Quando eu for cortejar?’

‘Tu corça saltitante! tu pega tagarela!’, disse Gottlieb.

‘Ela terá fitas e berloques, E brilhará como uma manhã de Maio, Quando partirmos para a pequena igreja da colina, O nosso caminho nupcial florido.’

‘Isso terá; e algo mais!’, gritou Gottlieb. ‘Mas, ouve-me, Gretelchen; o Kaiser estará aqui em três dias. Minha querida! se eu não tivesse guardado e acumulado tudo para ti, teria agora os meus pés sobre uma lareira onde até ele poderia aquecer a sua bota. Por isso, prepara os teus melhores vestidos e joias, e sê orgulhosa; orgulhosa como qualquer uma na terra. Uma simples filha de burguês agora, Grete; mas não terminarás assim, minha borboleta, ou não há valor nem inteligência em Gottlieb Groschen!’

‘Três dias!’, exclamou Margarita; ‘e o elmo não está terminado, e as peças da tapeçaria não estão cosidas e unidas, e a água não está sombreada.--Oh! tenho de trabalhar dia e noite.’

‘Criança! não quero trabalho à noite! As tuas bochechas rosadas serão logo sugadas pela luz do azeite, e não parecerás melhor do que as pobres belezas da Corte que usam sebo--para não falar do perigo. Esta casa antiga viu Carlos Magno a abraçar o magistrado-chefe da sua cidade vassala ali ao lado. Alguns juram que ele dormiu nela. Ele não fazia pouco de câmaras mais pequenas do que aquelas em que os nossos Kaisers habitam. Sem tectos de ouro com entalhes nas cornijas, apenas vigas de madeira simples.’

‘Sabe que os homens de grande renome, Eram homens de necessidades simples: Despidos perante o Senhor deitaram-se, E dormiram sobre feitos grandiosos.’

‘Deus sabe que não há como esvaziar o teu armazém de baladas, Grete: tanto se dirá de ti. Sim; os tempos estão a mudar: Estamos a tornar-nos degenerados. Olha para os homens de Linz agora, comparados com o que eram! Teriam deixado os rapazes de Andernach flutuar caules de couve até eles sem uma resposta? E porquê? Tudo porque eles têm medo daquele animal salteador Werner, que obtém redenção de Laach, ali perto da sua fortaleza, sempre que comete um crime que vale a pena pagar. Quanto a mim, a minha madeira e os meus tecidos têm de descer o rio, e são demasiado bons para as nixen sob o Reno, ou pensas que eu lhe reconheceria um tributo, o cão do inferno? Trovões e relâmpagos! se as velhas contas pudessem ser saldadas na pele dele!’

Gottlieb girou um braço, como se estivesse a brandir uma correia, e gemeu sobre a lei e a justiça. Onde é que aquilo ia parar!

Margarita suavizou o tema com um verso:

‘E embora para picar o seu inimigo, Seja doçura para a abelha irritada, A abelha irritada deve estar ocupada, Antes que a doçura da doçura ela colha.’

O frisson astuto da voz da sua filha fez cócegas a Gottlieb. ‘É isso, passarinho! Tu e o provérbio têm razão. Não sei o que é melhor,

‘Melhor colher E manter-se vivo Do que vingança despertar Com aquilo que se toma.’

Um barulho na praça da catedral pôs Gottlieb de pé, junto à janela. Era uma companhia de cavaleiros a brilhar nas suas armaduras. Um trompetista cavalgava ao lado da tropa, e à frente um porta-estandarte, com o peito coberto por uma barba ocre, exibia no alto, para os bons cidadãos de Colónia, três falcões castanhos, com aves nos bicos, sobre um campo azul salpicado de estrelas.

‘Santa Cruz!’, exclamou Gottlieb, com a voz embargada; ‘as armas de Werner! Onde arranjou ele dinheiro para montar os seus homens? Ora, isto é desafiar toda a Colónia na nossa própria cara! Que ele não me visite agora! A ruína fuma no rasto desse rufia. Tenho estado quente e frio alternadamente durante todo o dia.’

Os cavaleiros vieram tilintando descuidadamente pela rua, em grupos dispersos de dois e três, rindo-se uns com os outros e escolhendo as donzelas nas janelas sombreadas pelos telhados com olhares de caçadores. Os bons cidadãos de Colónia não os olhavam favoravelmente. Alguns viraram as costas e bateram as portas rudemente: outros franziram o sobrolho e enfiaram as mãos nos bolsos: não poucos esgueiraram-se para os becos laterais como cães bem açoitados, e fugiram com os joelhos dobrados. Eram, na verdade, tipos de aspeto feroz, estes fiéis servos do Barão salteador Werner, de Werner’s Eck, atrás de Andernach. Couro, aço e pó vestiam-nos da cabeça aos pés; grandes e negros como ursos; olhos de lobo, nariz de raposa. Eles brilhavam valentemente nos raios do sol poente, e Margarita inclinou a sua bela cabeça loura trançada um pouco para a frente sobre o ombro do seu pai para ver todo o comprimento da sombria cavalaria. Um dos membros da tropa não demorou a discernir a jovem beleza. Apontou-a audaciosamente para um camarada, que aprovou o seu apetite e indicou-a a um terceiro. Os outros seguiram o exemplo, e Margarita ficou como que petrificada ao aperceber-se de que todos aqueles olhos famintos estavam a devorar os seus. O velho Gottlieb estava demasiado cheio dos seus próprios medos para pensar nela, e quando ele recolheu a cabeça bastante subitamente, foi com um presságio lúgubre de que o destino de Werner em Colónia era diretamente a casa de Gottlieb Groschen, para propósitos que eram demasiado fáceis de adivinhar.

‘Calças do Diabo!’, murmurou Gottlieb; ‘olha outra vez, Grete, e vê se aquela tropa do inferno bloqueia o caminho lá fora.’

As bochechas de Margarita estavam a transbordar com a rosa ofendida.

‘Não voltarei a olhar para eles, pai.’

Gottlieb ficou a olhar, e depois deu-lhe palmadinhas.

‘Quem me dera ser um homem, pai!’

Gottlieb sorriu e acariciou a barba.

‘Oh! como eu ardo!’

E a rapariga estremeceu visivelmente.

‘Grete! tenta ser o mais mulher possível, e em breve tal escória como esta poderás varrer, como teias de aranha, sem qualquer mal.’

Ele foi sobressaltado por um bater violento na porta da rua, e por um toque de trombeta tão estridente como se os mortos estivessem a ser convocados. A Tia Lisbeth entrou, e flutuou sombriamente pela sala, chorando:

‘Estamos perdidos: eles estão sobre nós! melhor a morte com um alfinete! Nunca será dito de mim; nunca! os monstros!’

Então, advertindo-os a trancar, barrar, fechar e bloquear todos os quartos da casa, a Tia Lisbeth empoleirou-se na extremidade de uma cadeira e inverteu os hábitos da coruja, ficando em silêncio quando imóvel.

‘Não há nada a temer por ti, Lisbeth’, disse Gottlieb, com ênfase descortês.

‘Gottlieb! lembras-te do que aconteceu no cerco de Mainz? e da pobre Marthe Herbstblum, que esperava morrer como era; e da Dama Altknopfchen, e da Frau Kaltblut, e da velha padeira, irmã de Hans Topf, todas elas tão santas como abadessas, e isso não as salvou! e nada salvará de tais devoradores impiedosos.’

Gottlieb já tinha saído, tendo ouvido muitas vezes antes a menção da calamidade vivida por estas mulheres condenadas.

‘Consola-te, bom coração, no meu peito’, disse Margarita, levando Lisbeth para aquele doce ninho de paz e fortaleza.

‘Margarita! isto é obra tua! não disse eu--não os atraias, pois eles enxameiam demasiado cedo sobre nós! E aqui estão eles! e, talvez, em cinco minutos tudo terá terminado!

Herr Je!--O quê, estás a rir! Céus de bondade, a rapariga está encantada!’

Aqui, uma gargalhada zombeteira, acompanhada por um estalo estrondoso na porta, fez tremer toda a casa, e novamente a trombeta rebentou os ouvidos com fúria.

Esta convocatória, que pareceu à Tia Lisbeth definitiva, produziu uma estranha compostura no seu semblante. Ela estava muito pálida, mas estendeu o seu vestido decentemente, como se o medo tivesse partido, e cruzou as mãos sobre os joelhos.

‘A vontade do Senhor lá de cima deve ser feita’, disse ela; ‘é ímpio queixar-se quando somos entregues nas mãos dos Filisteus. Outros foram martirizados, e ainda assim foram aceitáveis.’

A este discurso heroico, acrescentou, com fria energia: ‘Que venham!’

‘Tia’, gritou Margarita, ‘ouço a voz do meu pai com aqueles homens. Tia! não deixarei que ele fique sozinho. Tenho de descer até ele. Tu estarás segura aqui. Virei ter contigo se houver motivo para alarme.’

E apesar do grito de protesto atónito da Tia Lisbeth, ela apressou-se a juntar-se a Gottlieb.

A APOSTA

Antes de Margarita chegar ao patamar das escadas, arrependeu-se da sua pressa e recuou. Envolvida num trovão de juramentos, distinguiu: ‘É a pequena donzela que queremos; vamos saudá-la e partir! ou tapa o teu crânio com algo mais grosso do que o que tens agora, se queres mantê-lo inteiro, feliz pai!’

‘Gottlieb von Groschen sou eu’, respondeu o seu pai, ‘e o Kaiser----’

‘É tão apreciador de uma rapariga bonita como nós! Desce com ela, e chega de balelas! É apenas por um momento, velho Medidas e Balanças!’

‘Digo-vos, patifes, que conheço o vosso mestre, e se não forem punidos por isto, que eu morra um mendigo!’, exclamou Gottlieb, saltando de raiva.

‘Que morras tão rico como um abade! E assim será, se não a trouxeres cá abaixo, pois jurei vê-la; esse é o fim da história, homem!’

‘Também verei se as leis permitem esta vilania!’, gritou Gottlieb. ‘Insultar um cidadão pacífico! na sua própria casa! um amigo do vosso imperador! Gottlieb von Groschen!’

‘Groschen? Somos primos, então! Não fecharias a porta aos teus parentes mais próximos? Relâmpago do Diabo! Não me conheces? Pfennig? Von Pfennig! Este aqui é Heller: aquele é Zwanziger: todos nós Vons, cada alma! Não estás decidido? Isto vai aguçar-te, meu alegre Rei Pança!’

E Margarita ouviu o rufia dar um passo como se tomasse balanço para um golpe. Ela apressou-se a entrar no corredor e, deslizando para a frente do seu pai, disse ao seu agressor:

‘Pediram por mim! Estou aqui!’

O seu rosto estava incolor, e a sua voz parecia sair de entre uma corda apertada. Ela estava de pé com o pé esquerdo um pouco à frente, e todo o seu corpo arquejante e trémulo: os braços cruzados e pressionados com força abaixo do peito: os olhos dilatados num azul forte: a boca branca como cinza. Um brilho estranho, como de um fogo interno reprimido, cintilava sobre ela.

‘O meu nome é Schwartz Thier, e tal é a minha natureza!’, disse o tipo com um sorriso; ‘mas que eu nunca mais prove os lábios de uma rapariga bonita, se eu fizer mal a uma jovem beleza como esta! O trato amigável é o meu plano de vida.’

‘Sai da minha casa, então, tipo, e aqui tens dinheiro para ti’, disse Gottlieb, exibindo um punhado de moedas que tremia de raiva.

‘Pish! dinheiro! quarenta vezes isso não cobriria a minha aposta! E se cobrisse? Não seria eu desonrado? troçado por ser um cobarde? Não, não sou nenhum idiota, e não me deixo enganar. Vou falar com a jovem dama! Silêncio, aí fora! tudo está a correr bem’: isto para os seus camaradas através da porta. ‘Então, minha bela donzela! assim é: Vimo-te à janela, parecendo uma rosa fresca com uma coroa de ouro. Aqui estamos nós, pobres rapazes, que viemos dar as boas-vindas ao Kaiser. Comecei a glorificar-te. “Schwartz Thier!”, diz-me Henker Rothhals, “aposto contigo odds que não ganhas um beijo daquela bela rapariga dentro de vinte minutos, contando a partir do estalo de mãos!” Feito! foi a minha palavra, e batemos as mãos uma na outra. Agora, vês, é direto! Tudo o que quero é não perder o meu dinheiro e ser feito de tolo--deixando de lado aquela boca açucarada que faz a minha salivar’; e ele passou as costas da mão pelas mandíbulas por fazer: ‘Então, vamos! não hesites! nenhum mal para ti, minha beleza, apenas um elogio, e Schwartz Thier é teu amigo e qualquer outra coisa que queiras para sempre depois. Vamos, o tempo está quase a esgotar-se.’

Margarita inclinou-se para o pai por um momento, como se uma doença mortal a tivesse agarrado. Depois, cerrando as mãos e os pés, disse ao ouvido dele: ‘Deixa-me ao meu próprio cuidado; vai, arranja homens para te protegerem’; e ordenou a Schwartz Thier que abrisse a porta de par em par.

Vendo que Gottlieb não a queria deixar, ela juntou as mãos e suplicou-lhe. ‘O bom Deus proteger-me-á! Vou ser mais esperta que estes homens. Olha, meu pai! eles não ousam bater-me na rua: a ti derrubar-te-iam sem piedade. Vai! o que eles ousam numa casa, não ousam na rua.’

Schwartz Thier tinha aberto a porta. À vista de Margarita, a tropa deu um grito.

‘Agora! no degrau da porta, bem à vista, minha formosa! para que eles possam ver que sortudo que sou--e não tenham dúvidas sobre a entrega.’

Margarita olhou para trás. Gottlieb ainda estava lá, cada membro dele a tremer como um pântano sob um calcanhar pesado. Ela correu para ele. ‘Meu pai! tenho um estratagema, vais estragá-lo e entregar-me a este animal? Não podes fazer nada, nada! protege-te e salva-me!’

‘Colónia! em plena luz do dia!’, murmurou Gottlieb, como se a enormidade tivesse prostrado a sua crença nos factos; e moveu-se lentamente para trás.

Margarita caminhou até ao degrau da porta. Schwartz Thier aguardava-a, com o braço em círculo e o seu rosto lascivo inclinado ao nível do da sua vítima. Esta demonstração grosseira de cavalheirismo custou-lhe caro. Enquanto ele fechava suavemente o seu aperto de ferro em torno dela, desfrutando antecipadamente com lábios sombrios as lisonjas do triunfo, Margarita passou por ele através da porta, e já estava a vinte passos além da tropa antes que qualquer um deles pensasse em persegui-la. Ao primeiro som de um casco, Henker Rothhals agarrou a rédea do cavalo do cavaleiro e rugiu: ‘Jogo limpo para uma aposta justa! deixa tudo para o Thier!’ O Thier, quando recuperou do seu espanto, procurou o velho Gottlieb para lhe dar um golpe por trás, como Margarita previra que ele faria. Não o encontrando à mão, o tipo saiu tão rapidamente quanto a sua armadura permitia, e vislumbrou Margarita a fugir rapidamente pela praça da catedral.

‘Apenas cinco minutos, Schwartz Thier!’, cantaram alguns da tropa.

‘O diabo pode fazer o seu trabalho num’, foi a resposta, e Schwartz Thier atirou-se para cima do seu corcel de dorso largo e espetou o belo animal até que ele fez ecoar uma explosão de faíscas da pederneira.

Num minuto, ele parou à frente de Margarita.

‘Então! preferes resolver este negócio na praça.

Bem! minha querida preferida!’ e ele saltou para o seu lado.

O ato da fuga tinha tocado o coração da jovem rapariga com o espírito da fuga. Ela encolheu-se como uma lebre exausta sob o nariz do cão, e cobriu o rosto com as duas mãos. Margarita não era leve em peso, mas Schwartz Thier tinha-a no ar nos seus braços tão facilmente como se tivesse atirado um lenço.

‘Olhem todos, e testemunhem!’, gritou ele, levantando o outro braço.

Henker Rothhals e o resto da tropa olharam, enquanto vinham a trote para a cena, com a frieza de árbitros: mas testemunharam algo diferente do que Schwartz Thier propunha. Foi a visão de um cajado formidável, girando um halo hostil sobre a cabeça do Thier, e descendo sobre ela com tão honesta intenção de o confundir e derrubar, que o Thier sucumbiu à sua força sem discussão, e a praça ecoou o golpe e a queda simultaneamente. Ao mesmo tempo, o portador desta sólida peça de lógica agarrou Margarita e levantou um grito na praça para que todos os homens honrados o apoiassem no resgate de uma donzela das garras de salteadores e violadores. Uma multidão estava a reunir-se, mas parecia considerar o círculo agora formado pelos cavaleiros como de certa forma encantado, pois apenas um, um jovem belo e esguio, avançou e perfilou-se ao lado do estranho.

‘Toma a donzela: eu fico com o cajado’, disse este último, tropeçando nas suas palavras como se estivesse numa terra estrangeira entre raízes antigas e covas de lobos que já tinham abalado alguns dos seus dentes, e o tornaram cauteloso em relação aos restantes.

‘Será a Margarita!’, exclamou o jovem, curvando-se para ela e chamando-a: ‘Margarita! Fraulein Groschen!’

Ela abriu os olhos, estremeceu, e disse: ‘Não tive medo! Estou salva?’

‘Salva enquanto eu tiver vida, e este bom amigo.’

‘Onde está o meu pai?’

‘Não o vi.’

‘E tu--quem és tu? Devo isto a ti?’

‘Oh! não! não! A mim não deves nada.’

Margarita olhou apressadamente à sua volta, e aos seus pés jazia o Thier com o seu elmo de aço brilhando em mossas, e três regatos de sangue a correr pela sua testa manchada. Ela olhou novamente para o jovem, e um rubor de reconhecimento deu vida às suas bochechas.

‘Não te reconheci. Perdoa-me. Farina! que agradecimentos podem recompensar tal coragem! Diz-me! vamos?’

O jovem olhou-a por um instante, mas recuperando-se, fez uma observação rápida e chamou o estranho para seguir e ajudar a dar à jovem donzela uma escolta segura para casa.

‘Nesse momento, Henker Rothhals berrou: ‘O tempo acabou!’ Foi respondido por um coro de concordância da tropa. Eles tinham agido até então pacientemente nos seus papéis de espectadores, imóveis nos seus cavalos. O ataque ao Thier fazia parte da brincadeira, e era uma interferência visível da fortuna a favor de Henker Rothhals. Agora, a comoção geral agitava-os, e os olhos cor de avelã do estranho leram as suas intenções corretamente quando ele levantou o seu formidável cajado em preparação para outro poderoso golpe, desta vez defensivo. Rothhals, e meia dúzia de outros, com um grito de guerra de maldições, esporearam os seus corcéis de uma vez para o atropelar. Eles não tinham calculado o comprimento e a boa vontade da arma do seu antagonista. Mal começaram a mover-se, lá girou ele, roçando as narinas dos seus cavalos com uma precisão que argumentava prática no feito, e derrubando dois, Rothhals entre o número. Ele caiu pesadamente sobre a cabeça, e mostrou sinais de estar tão incapaz de combate como o Thier. Um aplauso irrompeu da multidão, mas foi curto.

O primeiro do seu número foi atingido e estendido no chão por um companheiro da tropa.

Invocando São Jorge, o seu santo padroeiro, o estranho começou sistematicamente a fazer um círculo limpo no seu caminho em frente. Vários dos cavaleiros tentaram um golpe no seu braço com as suas longas espadas de duas mãos, mas os cavalos não podiam ser trazidos uma segunda vez à borda do círculo mágico; e o sangue destes guerreiros estando completamente agitado, eles agora vieram a ele a pé. Na sua raiva, teriam feito um trabalho rápido com os três, apesar da magistratura de Colónia, se não tivessem sido detidos por gritos de ‘Werner! Werner!’

No extremo sudoeste da praça, voltado para o Reno, cavalgava o barão saqueador, em armadura completa, elmo e cota de malha, com um único retentor na sua retaguarda. Tinha aparentemente avistado a zaragata e, ou porque distinguisse os seus próprios homens, ou porque procurasse o seu elemento natural, apressou-se a vir para obter a sua parte nela, que era geralmente a do rei dos animais. O seu primeiro brado foi por Schwartz Thier. Os homens abriram caminho, e ele contemplou o seu homem sem condições de dar respostas militares. Gritou por Henker Rothhals e, de novo, os homens abriram as suas fileiras silenciosamente, exibindo os dois estendidos em direções diversas, com os pés inclinados para um ponto comum. O Barão lançou um olhar furioso; depois arrancou a sua luva de malha e enfiou-a entre os dentes. Um gorgolejo áspero de juramentos foi tudo o que ouviram, e logo surgiu,

«Quem foi?»

Os olhos de Margarita estavam fechados. Abriu-os, fascinada pelo horror. Havia uma mistura sobrenaturalmente horrível e cómica de sons na fúria queixosa de Werner, que era como o ruído de um urso a lamentar-se, subindo desde uma ameaça de peito oco até um lamento bocejante. Nunca na sua vida Margarita tivera um choque de medo tal. O meio suspiro de uma risada quebrou-se nos seus lábios trémulos. Ela olhou fixamente para Werner e estava a cair; mas o braço de Farina agarrou-se instantaneamente à volta da sua cintura. O estranho apanhou a sua risada, alta e sonora.

«Quanto a quem o fez, Sr. Barão», gritou ele, num tom alegre, «fui eu! Como talvez queira saber o porquê — e isso é devido tanto a si como a mim — tudo o que posso dizer é que o Focinho Negro ali estendido recebeu o seu ajuste de contas por se divertir com esta donzela pacífica aqui, sem o seu consentimento — uma ofensa que na minha ilha verde consideram merecedora de um estalo na cabeça como castigo leve, garanto a toda a companhia presente», e fez um aceno brusco à volta. «Quanto ao outro ali, que parece que já teve uma corda ao pescoço e que a mesma se esquivou ao seu dever, ele conta o seu salário por ajudar o diabo nos seus negócios, tal como fará qualquer outro rapaz aqui que goste de vir e tentar.»

O próprio Werner, provavelmente, ter-lhe-ia dado o trabalho que ele queria; mas o seu olho desviara-se um momento sobre Margarita, e o aplauso mal reprimido da multidão ao discurso do estranho falhou em levar a sua ira à ação nesta única vez.

«Quem é a donzela?» perguntou ele em voz alta.

«Fraulein von Groschen», respondeu Farina.

«Von Groschen! Von Groschen! A filha de Gottlieb Groschen? — Canalhas!» rugiu o Barão, voltando-se para os seus homens, e saiu um jorro de lama de juramentos imundos e ameaças, o que levou Henker Rothhals, que abrira os olhos, a fechá-los novamente, como se já tivesse ido para o lugar do calor.

«Apenas empresta-me o teu cajado, amigo», gritou Werner.

«Eu não! Espanca-os com a tua própria madeira», respondeu o estranho, e recuou uma perna.

Werner franziu as sobrancelhas nervosas e parecia dilacerado pelas diferentes marés de puxões da sua ira. Agarrou a crina do seu cavalo e arrancou punhados, até que o esplêndido animal se empinou em agonia.

«Nenhum de vós viverá para ver esta noite, vilões! Vou enforcar-vos, cada filho de uma bruxa! As minhas últimas ordens foram: Mantenham-se sossegados na cidade, vossa ninhada do diabo. Toma isso! E isso!» golpeando-os com a sua espada desembainhada. «Fora daqui, e levem estes dois porcos para fora de vista rapidamente, ou cortarei as suas cabeças e livrar-me-ei deles.»

Esta última ordem surgiu de uma questão política, pois no topo da rua principal havia um brilho da guarda da cidade, marchando com lanças ao ombro.

«Donzela», disse Werner, com uma vénia de touro, «deixa-me conduzir-te até ao teu pai.»

Margarita não respondeu; mas deu a mão a Farina e deu um passo mais perto do estranho.

As sobrancelhas de Werner tornaram-se negras.

«Chega de te ter salvo, bela donzela», murmurou ele roucamente. «A gratidão nunca foi um dom de mulher. Dize ao teu pai que lhe pedirei desculpas pela conduta dos meus homens.»

Ao que, lançando um olhar de desprezo lento em direção à guarda que chegava nos últimos raios do dia, o Barão encolheu os seus ombros enormes a uma altitude que expressava as várias nuances desprezíveis da arrogância feudal, enfiou um braço adornado de couro na cintura e partiu a um passo tranquilo.

«Amen!» exclamou o estranho, apoiando-se no seu cajado. «Há Barões na minha velha terra; mas nunca uma besta bruta com arreios.»

Margarita parou diante dele e pegou-lhe nas duas mãos.

«Virás comigo ter com o meu pai! Ele agradecer-te-á. Eu não posso. Virás?»

Lágrimas e um soluço de alívio brotaram dela.

A guarda da cidade, ao ver as costas formidáveis de Werner voltadas, adotara um passo duplo e chegava agora ofegante, enquanto o estranho se inclinava a sorrir sob um novo fluxo de carícias inocentes. Margarita foi apanhada contra o peito do seu pai.

«Terás vingança por isto, doce pequena», gritou o velho Gottlieb nos intervalos dos seus abraços.

«Não temas, meu pai; eles estão punidos»: e Margarita relatou a história da proeza do estranho, elevando-o a um segundo Siegfried. A guarda deu-lhe vivas, mas não perseguiu o Barão.

O velho Gottlieb, sem hesitação, saudou o campeão estupefato com um beijo em cada face.

«Meu melhor amigo! Salvaste a minha filha da indignidade! Vem connosco para casa, se consegues acreditar que é um lar onde os lobos nos vêm desafiar, arrastando os nossos entes queridos das nossas próprias soleiras. Vem, para que possamos agradecer-te sob um teto, pelo menos. Minha filhinha! Não é ela uma rapariga corajosa?»

«Ela não é menos do que a rosa branca da Alemanha», disse o estranho, com uma boa inclinação de ombros para Margarita.

«Assim é chamada», exclamou Gottlieb; «ela é digna de ser um homem!»

«Os homens seriam os perdedores, então, mais do que poderiam permitir-se», respondeu o estranho, com uma risada sonora.

«Vem, bom amigo», disse Gottlieb; «deves precisar de refresco. Prova que és um verdadeiro herói pelo teu apetite. Como Carlos o Grande disse ao Arcebispo Turpin: “Conquistei o mundo porque a Natureza me deu uma moela; pois em toda a parte o distintivo da sujeição é um estômago pobre.” Vem, todos! Um dia bem terminado, apesar de tudo!»

A SETA DE PRATA

No limiar da casa de Gottlieb, vários dos principais burgueses de Colónia tinham-se agrupado espontaneamente para lhe apresentar condolências. À medida que ele se aproximava, levantaram um alarido de congratulação. Fortes eram as expressões de horror e repugnância pela tropa de Werner com as quais estes excelentes cidadãos vestiam os seus sentimentos ultrajados; pois o insulto a Gottlieb era o insulto de todos. Os impostos do Reno já eram suficientemente provocadores para suportar; mas que a licença destas bandos de salteadores se estendesse aos lares de homens livres e pacíficos, súbditos leais do Imperador, era um sinal de que o mal tinha passado dos picos para as espetadelas, como dizia o ditado, e devia agora ser enfrentado como convinha aos burgueses da antiga Colónia, e por ação conjunta destruído.

«Entrem! Entrem todos!» disse Gottlieb, alargando o seu sorriso para servir aos muitos. «Falaremos sobre isso lá dentro. Entretanto, tenho um herói para vos apresentar: carne e osso! nada de moedas de velhas e sonhos de raparigas jovens: a coisa honesta, e uma raridade, meus mestres. Tudo isso sobre um bom sumo do Reno de acima de Bacharach. Entrem, e sejam bem-vindos, amigos!»

Gottlieb puxou o estranho consigo sob os portais de carvalho entalhados, e os restantes emparelharam-se e entraram reverentemente no seu encalço. Margarita, para compensar esta falta de cortesia, formou-se como a última da procissão. Ela pode ter tido outro motivo, pois aproveitou a ocasião ali para sussurrar algo a Farina, trazendo sol e nuvem ao seu rosto em rubores rápidos. Ele parecia protestar em mímica; mas ela, com uma atitude de silêncio, significou o seu desejo de selar a conversa, e ele abateu-se novamente. No degrau da porta, ela hesitou um momento e baixou a cabeça pensativamente, como se comovida por uma reminiscência. O jovem tinha-se apressado alguns passos. Margarita olhou para ele. Os seus braços estavam esticados ao longo dos flancos, as mãos cerradas e tensionadas desde o pulso. Ele tinha o aspeto de alguém que luta contra a restrição de uma corrente que de repente se solta elo por elo para toda a sua força.

«Farina!» chamou ela; e trouxe-o de volta com uma corrida. «Farina! Não penses que sou ingrata? Não pude dizer ao meu pai na multidão o que fizeste por mim. Ele saberá. Ele agradecer-te-á. Ele não te compreende agora, Farina. Ele compreenderá. Não pareças tão triste. Tanto eu gostaria de te dizer.»

Tanta coisa corria na sua mente, que o seu coração de donzela tornou-se indomável e avisou-a para ter cuidado.

O jovem estava parado como se ouvisse um rouxinol dos velhos bosques, após o primeiro doce esforço da sua voz chegar aos seus ouvidos. Quando ela cessou, ele fixou os olhos nela. Eles já não eram profundos e calmos como lagos de floresta; o azul de brilho terno tremeluzia, como com uma faísca da alma da jovem rapariga, nos raios da lua que então se erguia.

«Oh, Margarita!» disse o jovem, em tons que se afundavam em suspiros: «que sou eu para ganhar os teus agradecimentos, ainda que fosse a minha vida por tal dádiva!»

Ele pegou-lhe na mão, e ela não a retirou. Duas vezes os seus lábios demoraram-se naqueles dedos puros.

«Margarita: perdoas-me: estive tanto tempo sem esperança. Beijei a tua mão, a mais querida dos anjos de Deus!»

Ela reteve suavemente a mão branca cheia na sua pressão.

«Margarita! Pensei que nunca antes da morte teria tido esta bem-aventurança sagrada. Estou recompensado antecipadamente por cada dor que vier antes da morte.»

Ela lançou-lhe um único olhar de uma suavidade confidente que foi para o jovem como o portão aberto do jardim inocente do seu coração.

«Perdoas-me, Margarita? Posso chamar-te minha amada? lutar, esperar, rezar, ter esperança por ti, minha estrela da vida?»

O rosto dela era uma caridade tão doce!

«Meu caro amor! Uma palavra! — ou não digas nada, mas permanece, e não te movas. Tão bela que és! Oh, pudesse eu ajoelhar-me perante ti aqui; adorar-te; venerar esta mão branca para sempre.»

A cor tinha passado das suas faces como um vermelho ocidental feliz, deixando uma palidez rica no céu; e com as suas sobrancelhas claras niveladas para ele, o seu peito a elevar-se cada vez mais rapidamente, ela lutou contra o encanto que estava sobre ela e, finalmente, soltou a mão.

«Tenho de ir. Não posso ficar. Perdoar-te? Quem não poderia orgulhar-se do teu amor! — Adeus!»

Ela virou-se para se afastar, mas hesitou um passo dele, tocando apressadamente o seu peito e cada mão, como se procurasse um broche ou um anel. Depois corou, tirou a seta de prata das tranças douradas apanhadas acima do seu pescoço, estendeu-a para ele e partiu.

Farina agarrou o tesouro e cambaleou para a rua. Meia dúzia de vizinhos estavam agrupados junto à porta.

«Que se passa agora na casa do Mestre Groschen?» perguntou um, enquanto ele se lançava para o meio deles.

«Que se passa?» disse o jovem bêbado de alegria, agarrando-se à palavra, e meditou em arrebatamentos; «Nunca houve tal felicidade! É o paraíso dentro, o exílio fora. Mas que exílio! Uma estrela sempre nos céus para iluminar a estrada e animar o caminho do banido»; e desapertou o seu colete e abraçou a haste fria no seu peito.

«De que estás a falar e a saltitar, companheiro?» exclamou outro: «Não podes responder sobre esses gritos, como um cristão, tu que acabaste de sair da casa? Ora, há gritos agora! É uma mulher. Mil trovões! soa como a voz da Frau Lisbeth. O que lhe estará a acontecer?»

«Talvez ela esteja a arder», sugeriu friamente um entre dois ou três.

«Pena ver a velha casa queimada», observou um.

«Casa! A mulher, homem! a mulher!»

«Ah!» respondeu o outro, um habitante antigo de Colónia, abanando a cabeça, «a casa é mais antiga!»

Farina, agora recuperando os sentidos, ouviu gritos que reconheceu como possíveis no caso da Tia Lisbeth receando a maldade do sexo oposto, e alarmada pela entrada súbita dos numerosos convidados do velho Gottlieb. Para o confirmar, ela logo apareceu e debruçou-se a meio caminho de uma das janelas superiores, chamando desesperadamente pela ajuda de Santa Úrsula. Ele agradeceu à velha senhora no seu coração por lhe dar um pretexto para entrar no Paraíso novamente; mas antes mesmo que o amor o pudesse apressar, Frau Lisbeth foi agarrada e arrastada impiedosamente para fora da vista, e ele e o quarto rosado escureceram juntos.

Farina caminhou duas vezes até ao Reno; outras tantas voltou. Era difícil estar longe dela. Era mais difícil estar perto e não se aproximar. O seu coração inflamou-se de ciúmes do estranho. Tudo ameaçava derrubar a sua pequena mas elevada estrutura de felicidade tão subitamente disparada para os céus. Bastava-lhe lembrar que a sua mão estava na seta de prata, e uma radiância rompeu sobre o seu rosto, e uma calma caiu sobre o seu peito. «Foi uma promessa de fidelidade para comigo», meditou o jovem. «Ela ama-me! Ela não confiaria no seu coração franco para falar. Oh, jovem generosa! que sou eu para ousar esperar por tal prémio? pois nunca poderei ser digno. E ela é alguém que, ao dar o seu coração, dá-o todo. Não a conheço? Como ela parecia adorável ao agradecer ao estranho! O azul dos seus olhos, o azul de luz quente, parecia crescer cheio nas pálpebras que se fechavam, como a gratidão do céu. A sua beleza é maravilhosa. Que admiração, então, se ele a ama? Eu deveria considerá-lo um escudeiro do seu grau. Há escudeiros de nascimento alto e baixo.»

Assim meditou Farina com os braços cruzados e as pernas cruzadas na sombra do quarto de Margarita. Gradualmente, caiu numa espécie de torpor confuso. As casas tornaram-se marcadas com setas de prata. Todo o topo da pedra da Catedral era um brilho, e dança, e vibração delas. No céu, uma confusão atordoante de voos e quedas de setas. Farina via-se ao serviço do Imperador a observar estes sinais, e à espera no dia seguinte de ganhar glória e um nome para Margarita. Glória e o nome agora ganhos, o velho Gottlieb estava prestes a abençoá-los paternalmente, quando uma palmada rude o despertou do delicioso sonho lunar.

«Herói de dia! guarda da casa de noite! Isso conta uma história», disse uma voz alegre.

A lua brilhava pela praça da Catedral e pela rua, e Farina viu o estranho parado, sólido e rosado, diante dele. Foi a princípio levado a ressentir-se de tal tratamento familiar, mas o rosto do estranho era daquela natureza suave e honesta que, como o sol, ganha em toda a parte um reflexo da sua própria bondade.

«Tens razão», respondeu Farina; «assim é!»

«Bons vinhos lá dentro, e uma jovem donzela rara. Ela tem uma garganta como um rouxinol, e mais baladas ao comando do que a carteira de um gaiteiro. Agora, se eu não tivesse uma esposa em casa.»

«Estás casado?» gritou Farina, agarrando a mão do estranho.

«Certamente; e a minha rapariga pode dizer algo por si mesma no que toca a aspetos corajosos, tão bem como a melhor das vossas donzelas alemãs aqui, acredita-me.»

Farina reprimiu uma inclinação para realizar algumas daquelas tropelias que a alegria violenta excita, e depois de correr para longe e voltar, decidiu entregar o seu segredo ao estranho.

«Olha», disse ele num sussurro, que abre as portas privadas de uma confiança.

Mas o estranho repetiu a mesma palavra ainda mais seriamente, e trouxe os olhos de Farina para um par de figuras escuras que se moviam sob a Catedral.

«Algum cordeiro está em risco quando os lobos estão a rondar», acrescentou ele: «Faltam agora duas horas para a meia-noite. Duvido se o nosso dia de trabalho termine até ouvirmos a badalada, amigo.»

«Que interesse tens nas pessoas desta casa para as vigiares assim?» perguntou Farina.

O estranho abafou uma risada na sua barba.

«Uma pergunta estranha, na verdade. Ora, em primeiro lugar, gostamos bem daquilo por que fizemos um bom trabalho. Isso conta para alguma coisa. Em segundo, parti o pão nesta casa. Regista isso no ajuste de contas. Em terceiro; bem! em terceiro, soma tudo junto, e a soma total está ao teu serviço, jovem senhor.»

Farina observou-o de perto. Não havia um ponto no seu rosto para a astúcia se esconder, ou para a suspeita se agarrar. Ele agarrou a mão do estranho.

«Chamaste-me amigo há pouco. Faz-me teu amigo. Olha, eu ia dizer: amo esta donzela! Morreria por ela. Amo-a há muito tempo. Esta noite ela deu-me uma testemunha de que o meu amor não é vão. Sou pobre. Ela é rica. Sou pobre, disse eu, e sinto-me mais rico que o Kaiser com isto que ela me deu! Olha, é o que as nossas raparigas alemãs deslizam no seu cabelo atrás, esta seta de prata!»

«Uma peça muito bonita de uso pagão!» exclamou o estranho.

«Então, eu ia dizer — dize-me, amigo, uma forma de ganhar honra e riqueza rapidamente; não me importa a que risco raro. Só para a riqueza, ou alta baronia, o seu pai a dará!»

O estranho zumbiu no seu bigode numa pausa de piedade fria, tal como os mais velhos assumem quando os jovens falam de conquistar o mundo para as suas amantes: e, na verdade, é uma calma de espírito bem ganha!

«As coisas parecem tão vivas aqui em casa no que toca à donzela, que eu diria, espera um pouco e vigia a tua oportunidade. Mas és um rapaz com coragem: sirvo no exército do Kaiser, sob o meu senhor: o Kaiser estará aqui em três dias. Se estiveres com essa ideia então, duvido pouco que possas conseguir uma boa posição: mas, olha de novo! há uma bebida madura ali. Por Deus, podes ganhar as tuas esporas esta noite mesmo; quem sabe? — Pela vida! há um tipo alto a juntar-se àqueles dois espreitadores.»

«Consegues ver dentro da sombra escura, Sr. Escudeiro?»

«Sim! graças às tuas masmorras da Estíria, onde passei um ano de aprendizagem:

“Aprendi a observar os ratos e camundongos A brincar, sem nunca uma ponta de vela. Eles brincavam tão bem; cantavam tão agradavelmente; Chamaram-me camarada; chamaram-me amigo!”

Assim diz a balada do cativeiro do nosso rei da barba ruiva. Todo o mal tem um bem:

“Quando os nossos dedos dos pés e queixos estão para cima, Plantas venenosas fazem a mais doce taça”

como as velhas resmungam para nós quando estamos doentes. Heigho! quem me dera estar na pequena ilha bem de volta, embora essa fosse apenas a sua canção de boas-vindas para mim, como sou um cristão.»

«Dize-me o teu nome, amigo», disse Farina.

«Guy é o meu nome, jovem: Goshawk é o meu título. Guy o Goshawk! assim me chamavam na minha terra alegre. O chapéu serve quando já não se ajusta. Então eu disparava a seta, e estava sobre o meu inimigo antes que ele pudesse arrepiar uma pena. Agora, qual seria a minha alcunha?

“Uma mudança tão triste, e uma mudança tão má, Poderia fazer tanto cristão como pagão suspirar: A mudança é uma maldição, pois é tudo para pior: A idade rasteja, e a juventude está a voar!”

e assim por diante, com a velha canção. Mas aqui estou eu, e ali está um jogo que quer ser perseguido; por isso vamos apenas começar a farejar um pouco à volta deles.»

Ele atravessou para o outro lado da rua, e Farina seguiu-o para fora do luar. As duas figuras e a mais alta estavam evidentemente a observá-los; pois também mudaram de posição e passaram atrás de um ângulo da Catedral.

«Dize-me como as ruas se cruzam à volta da Catedral, tu conheces a cidade», disse o estranho, estendendo a mão.

Farina traçou com o dedo um mapa rudimentar das ruas na mão do estranho.

«Bom! é assim que o meu senhor sempre marca o campo de batalha, e me faz mostrar-lhe os postos do inimigo. Em frente, por este caminho!»

Ele afastou-se da Catedral, e ambos deslizaram rente aos beirais e às fachadas das casas. Nenhum dos dois falou. Farina sentiu que estava nas mãos de um capitão habilidoso e apenas lamentou a falta de uma arma para colher os frutos da surpresa pretendida; pois julgou claramente que aqueles eram membros do bando de Werner à espreita. Serpentearam por inúmeros cruzamentos de ruas estreitas, com casas de construção irregular, erguidas ou inclinadas com esgares, aqui uma choupana de vigas pitorescas, ali quase um palacete com brasões dourados, mísulas e dispositivos. Lâmpadas de óleo apagadas pendiam a intervalos pelas esquinas, perto de um Cristo pálido num crucifixo. Através das passagens, pendiam acesas. As passagens e ruelas eram demasiado sombrias e estreitas para que a lua, no seu ardor mais intenso, pudesse penetrar; rua abaixo, uma delgada faixa de raios brancos conseguia esgueirar-se: «Em boa consciência», como declaravam os bons cidadãos de Colónia, «o suficiente para aqueles cães pagãos e filhos do pecado que andam por aí quando a própria lâmpada abençoada de Deus se apaga». Assim, quando havia lua, a despesa de óleo era poupada ao tesouro de Colónia, satisfazendo, desse modo, os virtuosos.

Após incessantes ziguezagues aqui e ali, escutando passos e evitando eles próprios uma perseguição que os seus movimentos suspeitos despertavam, chegaram ao Reno. Uma cheia de luz lunar polia o rio cavaleiresco em escamas, placas e anéis cintilantes, enquanto ele corria impetuosamente para o mar, vindo debaixo de rochedos e estandartes de antiga cavalaria e rapina. Ambos saudaram a cena com uma explosão de prazer. O nevoeiro cinzento das planícies no lado sul cintilava deliciosamente à sua vista, vindo daquela multidão sonolenta e da pressão das habitações; mas a glória solene do rio, sem se deter, descuidada, vertendo-se apaixonadamente numa conferência sublime entre ele e o céu para o grande matrimónio das águas, abalou profundamente o coração enamorado de Farina. O jovem não pôde conter as lágrimas, como se uma varinha mágica o tivesse tocado. Tremia de amor; e aquela felicidade delicada que a esperança donzela primeiro nos derrama como uma chuva de prata, quando assume a forma de alguma jovem beleza e nos compromete a sua mão bela e fugaz, abraçou-o ternamente.

Enquanto emergiam para os espaços da lua, uma exclamação do estranho deteve Farina.

— Vês? Ali no cais! É exatamente esse, o mais alto dos três. Lakin! Mas havemos de apanhá-lo.

Envolto num longo manto, com um barrete baixo de ponta e pena, estava a pessoa indicada. Parecia estar a meditar sobre o fluxo da água, alheio a presenças hostis, ou totalmente indiferente a elas. Havia uma majestade na sua altura e no seu porte que tornou o avanço dos dois sobre ele mais cauteloso e respeitoso do que o seu primeiro impulso tinha aconselhado. Não conseguiam ler-lhe as feições, que estavam ocultas atrás de dobras volumosas: tudo, exceto um par de olhos muito estranhos que, mesmo enquanto olhavam diretamente para baixo, pareciam carregados de um líquido ígneo e inquieto.

Os dois estavam perto atrás dele: Guy, o Gavião, preparou-se para um daqueles voos fatais sobre o inimigo que lhe tinham valido o título. Consultou Farina silenciosamente, que assentiu prontamente; mas, no instante seguinte, um grito de angústia escapou ao jovem:

— Perdida! Foi-se! Perdida! Onde está? Onde! A seta! A Seta de Prata! A minha Margarita!

Antes que os ecos da sua voz tivessem cessado de lamentar-se à distância, encontravam-se sozinhos no cais.

OS LÍRIOS DO VALE

— Abriu-se como um morcego! — disse o estranho.

— A sua sombra era vermelha! — disse Farina.

— Partiu como uma seta! — disse o estranho.

— Oh! Penhor do meu jovem amor, como pude perder-te! — exclamou o jovem, e os seus olhos estavam turvos de lágrimas.

Guy, o Gavião, sacudiu os seus cabelos castanhos gravemente.

— Traze-me um homem e eu enfrentá-lo-ei, seja ele quem for, como um homem; mas este sujeito tem um mau odor e maneiras estranhas, que tem! O seu olho ferve-me por toda a espinha e formiga-me nas pontas dos dedos. Jesus, salva-nos!

— Salva-nos! — repetiu Farina, com o eco de uma alma amortecida.

Fizeram o sinal da cruz e purificaram o lugar com jaculatórias sagradas.

— Vi-o finalmente; que seja pela última vez! Essa é a minha oração, em nome da Virgem e da Trindade — disse Guy. — E agora, refaçamos os nossos passos: talvez possamos encontrar essa tua bugiganga, mas não estou apto para trabalhos mortais por esta noite.

Sob o peso do seu encontro sombrio, os dois passaram novamente por detrás da Catedral. Os olhares famintos de Farina devoravam cada pegada do seu rasto. Onde a lua não lhe segurava uma lanterna, ele punha-se de joelhos e tateava à procura do seu tesouro perdido com a impaciente agonia de um avarento, passando a mão lentamente sobre o lancil de pedra e entre os interstícios das pederneiras densamente espalhadas, como um verme de sensibilidade aguda. O desespero tornava-se pesado no seu peito. Em cada viragem invocava algum novo bom santo para o ajudar, e repassava todas as propiciações que a sua imaginação podia sugerir e a sua cultura religiosa inspirar. Pouco depois, chegaram ao início da rua onde Margarita vivia. A lua estava a baixar, e mais pálida, como se tocada por um aviso do amanhecer. Suspiros frios vindos das terras abertas passavam pelos espaços da cidade. Em certas empenas coloridas e fachadas atravessadas por madeira, a luz branca ainda permanecia; mas, na maior parte, as casas estavam veladas pelo crepúsculo, e a casa de Gottlieb confundia-se no crepúsculo com as dos seus vizinhos, apesar da sua maior imponência e da antiga grandeza do seu volume de madeira. Decidiram retomar a sua posição ali novamente, e seguiram em frente, Farina com a cabeça caída, e Guy com o nariz ao ar, como se inquieto com o seu sentido do olfato.

No parapeito da janela de um domicílio bem arranjado havia um vaso de flores, uma construção de barro rudimentar na forma de uma barcaça de rio, onde cresciam alguns lírios do vale que pendiam os seus sinos brancos pelos lados.

O Gavião observou-os com saudade.

— Tenho de cheirar essas flores abençoadas se quiser ser salvo! — e marcou a sua resolução com o cajado.

Movido por esta exclamação, Farina olhou para eles.

— Como parecem um grupo de donzelas a flutuar no vaso da vida! — disse ele.

Guy inspecionou curiosamente Farina e o vaso de flores, encolheu os ombros e, com a ajuda do seu camarada, subiu até ao nível dele, apanhou o prémio e desceu.

— Ali — exclamou ele, entre longas e luxuriosas inalações — isso afasta-o do nariz mais depressa do que qualquer outra coisa, o hálito de uma flor fresca, semelhante a uma rapariga! Eu estava atormentado até agora pelo fedor dos condenados a subir debaixo de mim. Creio que este é o incenso do próprio céu!

E Guy inalou as flores e falou-lhes amorosamente.

— Têm uma doçura melancólica, amigo — disse Farina. — Penso em Fadas sussurrantes, em Elfos e Erls quando o seu odor me invade. Tu não?

— Não, nem espero até que o meu juízo se tenha ido embora — foi a resposta do Gavião. — Na minha opinião, é uma flor honesta, e se eu pudesse prestar um bom serviço à jovem donzela que a colocou ali, estaria a retribuir um bom serviço feito; pois se essa flor não combateu o diabo no meu nariz esta noite, e o venceu, a minha cabeça é uma nêspera!

— Mal sei se, como um cristão devoto, devo ouvir isso, amigo — repreendeu Farina suavemente. — Os lírios são, de facto, emblemas dos santos; mas, então, não são pobres flores da terra, sendo transfigurados, lustrosos e imarcescíveis. Oh, Cruz e Paixão! Com que serenidade prateada a tua glória me envolve, ao contemplar estes belos sinos! Olho para o mar branco dos santos. Estou enamorado da angústia carnal e do martírio. Toda a beleza é aquela usada por rostos de sorriso pálido, nos quais a Esperança se assenta como uma coroa sobre a Tristeza, e o refluxo pálido da vida mortal é o crepúsculo da alegria eterna. Paz incolor! Oh, minha amada! Assim caminhas tu pela minha alma no mar branco sempre à noite, vestida com o caimento direto da tua imaculada roupa de linho virgem; trazendo na mão o lírio, e inclinando a tua face para ele, onde a rosa humana é suavizada para uma flor vermelha e leitosa, os esponsais do céu com a terra; sobre ti, movendo-se contigo, uma grinalda de estrelas de safira, e a solidão da pureza em redor!

— Ah! — suspirou o Gavião, embalando o seu vaso de flores; — a lua dá golpes tão bem como o sol. Por fé, atingido pela lua e atingido por uma donzela ao mesmo tempo! Ele vai pedir a cabeça dele em breve. Esta pitada de monge e menestrel é um sinal certo. Essa é a forma de amar deles nesta terra: todos enlouquecem, de repente. Nunca ouvi tal conversa.

Guy acompanhou estes comentários com um olhar de piedade para o seu companheiro.

— Vamos, Senhor Namorado! Dá-me uma ajuda para devolver o que tomámos ao seu legítimo dono. Pelo sangue! Mas sinto apetite. Este ar noturno atinge-me no peito como um aríete. Pensei ter armazenado umas boas vinte e quatro horas de provisões de salsicha de Vestfália na mesa de jantar do Mestre Groschen. Coisa boa, lavada com vinho superior do Reno; digamos o teu Liebfrauenmilch para o meu gosto; embora, quando o experimentei pela primeira vez, tenha feito caretas como um bobo da corte, e me tenha lembrado de bife assado e cerveja de Gloucester nas minhas orações.

O Gavião estava prestes a repor o vaso de lírios, quando um golpe de um bastão curto, lançado habilmente, atingiu-o no pescoço e levou-o ao chão. Com ele caíram os lírios. Ele olhou para a direita e para a esquerda, e agarrou o vaso de flores partido para um projétil de retorno; mas nenhum inimigo estava à vista para testar a precisão da sua pontaria.

As portas de arco profundo mostravam os seus recessos vazios; as janelas dormiam.

— Será que aquele jovem me enganou? — pensou o escudeiro desapontado, enquanto se apoiava calmamente no braço. Farina não estava em parte alguma.

Guy foi rapidamente tranquilizado.

— Por minha fé, agora! Isso é uma coisa fina! E um bom sujeito! E um pé veloz! Aquele rapaz vai subir! Ele será um escudeiro um dia destes. Olha para ele. Pelas entranhas de a’Becket! É um espetáculo! Preferia ver isso agora do que a mesa de jantar do velho Groschen a gemer novamente com salsichas, e a correr um rio de Rudesheimer! Luta! Darei uma ajuda se houver ocasião; mas tu terás a honra, rapaz, se a puderes conquistar.

Este incitar do cão foi provocado por uma perseguição rua acima, na qual o Gavião viu Farina perseguir e capturar um indivíduo robusto em fuga, que se recusava com todas as suas forças a ser trazido de volta, esforçando-se a cada dois ou três passos na ponta dos pés para se virar contra o impulso que Farina lhe dera no pescoço e nas vestes inferiores.

— Quem diria que o rapaz era tão vigoroso e impetuoso, com o seu rosto suave, olhos azuis e cabelos lisos? Mas um prado verde tem mais dentro do que muitas montanhas negras. Salve, e bem feito! Se eu pudesse sagrar-te cavaleiro, fá-lo-ia: acredita em mim! — e apertou a mão a Farina.

Farina manteve-se modestamente à parte e permitiu que o Gavião enfrentasse o seu prisioneiro.

— Então, Senhor Tímido-no-escuro! Galante Espeta-pelas-costas! Escudeiro Bastão, e Cavaleiro da nobre ordem das Pernas de Mercúrio! Fica apenas à distância em que estavas de mim quando disparaste este instrumento contra a minha cabeça. Pela nossa senhora! Sinto um arranhão para te pagar na mesma moeda, e tens sorte que a moeda seja pequena, ou poderias contar com o mesmo, acredita em mim. Agora, recua!

O Gavião avançou com o bastão, mas o prisioneiro não exibiu hesitação em cumprir, e recuou cerca de quinze metros.

— Suponho que ele adivinha que nunca fiz este truque estúpido antes — ponderou Guy —, ou não seria tão esperto. — Observando que Farina também tinha recuado em linha como guarda, Guy fez-lhe sinal para se afastar mais para a direita, berrando: — Não importa porquê!

— Agora — pensou Guy —, se eu tivesse a certeza de o marcar, faria primeiro a parte do discurso; mas como não tenho — ser atirador de bastões não é uma profissão honrosa em parte alguma — reservarei isso. O patife não vacila. Veremos quanto tempo ele se mantém firme.

O Gavião limpou o pulso, fixou o olhar e balançou o bastão meditativamente de um lado para o outro por uma extremidade. Lançou então do ombro um poderoso golpe para baixo, calmamente, observando-o atingir o prisioneiro no chão, como um boi sob o martelo.

— Um acerto! — disse ele, e alisou o pulso.

Farina ajoelhou-se junto ao corpo e levantou-lhe a cabeça sobre o peito. — Berthold! Berthold! — gritou ele; — nenhum mal maior te acontecerá, homem! Fala!

— Conheces o desgraçado? — disse Guy, aproximando-se.

— É Berthold Schmidt, filho do velho Schmidt, o grande ourives de Colónia.

— São Dunstan não estava ao seu cotovelo desta vez!

— Um rival meu — sussurrou Farina.

— Oho! — e o Gavião soltou um silvo baixo na ponta da língua. — Bem! Como eu teria dito se os seus ouvidos estivessem abertos: a Justiça desferiu o golpe; e um suave. Isto vem de disparar tiros em voo e não se manter de frente. E parece ser tudo o que se pode dizer. Onde vive ele?

Farina apontou para a casa dos Lírios.

— Que me lixem! O cão tem alguma razão do seu lado. Uau! Vive ali? Ele tomou-nos por uns gatunos noturnos. Porque não vir de forma justa e perguntar o meu negócio? Cheirar uma flor não vale um pescoço partido, nem defender as tuas instalações merece um buraco na cabeça. Agora, meu rapaz, vês o que acontece por lidar com golpes de cortar e fugir; e que isto seja um aviso para ti.

Levaram o corpo pela cabeça e pelos pés, e deixaram-no à porta da casa do seu pai. Aqui, a cor voltou-lhe às faces, e limparam os traços de sangue que o manchavam. Guy provou que podia ser terno com um inimigo caído, e Farina com um rival mal-aventurado. Era ver quem podia sugerir os remédios mais sensatos, ou as posturas mais fáceis. Um emprestou um lenço e cuidou dele; o outro correu à fonte da cidade e trouxe-lhe água. Entretanto, a lua tinha descido, e a manhã, cinzenta e sem brilho, olhava para os picos das casas e ao longo das ruas com um olho mais firme. Ambos discerniram agora um grupo de homens, lá longe, em frente à casa de Gottlieb, e alinhados em algum grau de ordem. Toda a sua caridade os abandonou de imediato.

— Apodera-te do bastão — disse Guy: — Vês que pode causar danos. Mais trabalho antes do pequeno-almoço, e uma bela conta devo prestar à minha hospedeira dos Três Santos Reis!

Farina recuperou o pequeno instrumento destrutivo.

— Estou pronto — disse ele. — Mas escuta! Há pouco trabalho para nós ali, suponho. Aqueles são rapazes de Colónia, não grunhidores do mato. É o Clube da Rosa Branca. Sempre demasiado tarde para o serviço.

Vozes cantando um estribilho de caça, popular naquela época, elevaram-se no ar claro da manhã; e gradualmente as palavras tornaram-se distintas.

O Kaiser foi à caça, À caça, tra-ra: Com a sua trompa de caça na manhã que desabrocha, O Kaiser pisou o botão e o espinho: Tra-ra!

E o orvalho treme verde enquanto os cavaleiros se erguem, E mil penas tremem de medo; E uma angústia atinge o coração do veado; Pois o Kaiser saiu para caçar, Tra-ra! Ta, ta, ta, ta, Tra-ra, tra-ra, Ta-ta, tra-ra, tra-ra!

O dono do bastão acordou com estes tons revigorantes e soltou um fraco «Tra-ra!» de resposta.

— Escuta outra vez! — disse Farina, em resposta ao elogio do Gavião, cujo rosto estava coberto de covinhas pela harmonia.

O javali jazia a grunhir, A grunhir, tra-ra! E, boom! vem o Kaiser para me caçar a mim? Ou, piu! o pequeno pássaro que salta na árvore? Tra-ra! Oh pássaro, e javali, e veado, fiquem mansos! Pois uma donzela em flor, ou uma dama em plena maturidade, São a presa mais saborosa, e a caça mais sinuosa, Quando os Kaisers vão à caça, Tra-ra! Ha, ha, ha, ha, Tra-ra, tra-ra, Ha-ha, tra-ra, tra-ra!

As vozes demoraram-se longamente na última nota, e deixaram-na morrer numa cadência de floresta.

— Por Deus! Bem feito. Hurra! Tra-ra, ha-ha, tra-ra! Esse é um truque que não conhecemos metade em casa — disse Guy. — Sinto-me amigável com estes rapazes alemães.

A disposição do Gavião para com os rapazes alemães foi naquele momento duramente testada por uma pancada inteligente no ombro com uma extremidade de carvalho alemão, e uma proclamação de que ele era prisioneiro da mão que dava a saudação, em nome do Clube da Rosa Branca. Seguindo isso, o seu cajado foi-lhe arrancado por uma dúzia de jovens robustos, que não lhe deram tempo para ganhar a sua famosa distância para defesa contra números; e ele e Farina foram marchados imediatamente para o grupo que cantava em frente à casa de Gottlieb Groschen.

AS MISSIVAS

De todos os ocupantes, Gottlieb tinha dormido mais com o dia nas pálpebras, pois Werner pairava como um pesadelo sobre ele. Margarita jazia e sonhava em cor-de-rosa, e se ela tremia no seu sofá de seda almofadado como uma harpa de cordas tensas, e se agitava sonolentamente em pequenos saltos e sobressaltos, era porque um pássaro jazia no seu peito, arquejante e cantando pela noite fora, e que ele não devia ser silenciado, mas musicalmente enunciaria os mais doces pensamentos secretos de uma donzela enfeitiçada pelo amor. A devoção de Farina ela conhecia; a sua ternura ela adivinhava: a sua coragem ela tinha testemunhado naquele dia. A jovem não sentiu mais cedo que podia amar dignamente, do que amou com toda a sua força. Abafada e remota veio a canção de caça debaixo da sua almofada, e despertou curvas sonhadoras e delicadas no seu belo rosto, enquanto ela adelgaçava, mas não afastava o seu sonho. A tia Lisbeth também ouviu a canção, e saiu disparada da sua cama para ver se a porta e a janela estavam protegidas contra o Kaiser libertino. Apesar das suas provações, tinha tido a sua dose de sono; mas sendo possuída por alguma crença mística de donzela de que, em casos de perigo iminente por parte do homem, a cama era uma rocha de refúgio e defesa fortificada, rastejou de volta para lá e deixou o sol nascer sem ela. A voz de Gottlieb não a conseguia despertar para os deveres domésticos que ela adorava realizar com um semblante tão lúgubre. Ouviu-o abrir a sua janela e parlamentar em tons zangados com os músicos lá em baixo.

— Iscos! — resmungou a tia Lisbeth; — está alerta para eles, Gottlieb!

Ele desceu e abriu a porta da rua, ao que a repreensão e o escárnio recomeçaram.

— Deste-lhes vantagem, Gottlieb, meu irmão — queixou-se ela; — e os bons céus só podem dizer o que pode resultar de tal indiscrição.

Um silêncio, combustível com o arrastar de pés na passagem e nas escadas, fez ecoar horrores na cabeça da tia Lisbeth.

— Foi exatamente esse som na ala esquerda de Hollenbogenblitz — disse ela: — só que então era noite e não manhã. Úrsula, preserva-me!

— Ora, Lisbeth! Lisbeth! — gritou Gottlieb lá de baixo. — Desce! São cinco da manhã. Há companhia; e o que havemos de fazer sem a mulher?

— Ah, Gottlieb! Isso é típico dos homens! Não consideram como é diferente para nós! — o que, sendo esta frase misteriosa proferida apenas para si mesma, gozava de um significado que lhe teria sido negado noutro lugar.

A tia Lisbeth vestiu-se e encontrou Margarita a descer. Trocaram o bom-dia de jovem donzela e velha.

— Vai tu primeiro — disse a tia Lisbeth.

Margarita passou à frente alegremente.

— Rapariga! — gritou a tia Lisbeth, — o que é essa coisa no teu cabelo?

— Pedi emprestada a seta da Lieschen, tia. A minha teve um acidente.

— A seta da Lieschen! Um acidente! Agora vou tratar disso depois do pequeno-almoço, Margarita.

— Tra-ra, ta-ta, tra-ra, tra-ra — cantava Margarita.

— O javali jazia a grunhir, A grunhir, tra-ra.

— Um adorno verdadeiro e próprio de uma donzela! Olha para o meu, criança! Uso-o há cinquenta anos. Que eu mereça usá-lo até ser chamada! Oh Margarita! Não brinques com esse símbolo.

— “Oh pássaro, e javali, e veado, fiquem mansos!”

Estou tão feliz, tia.

— Bons tempos para se estar feliz, Margarita.

“Sê feliz na Primavera, doces donzelas todas, Pois o frio do Outono cairá cedo.”

Assim canta o Minnesinger, tia; e

“Uma donzela na folha invernal Espalhará a sua própria doença de dor.”

Adoro os Minnesingers! Queridos, homens de modos doces que são! Tais amantes! E homens de feitos tanto quanto de canção: espada de um lado e harpa do outro. Lutam até ao pôr do sol, e depois afrouxam a armadura para enviar uma balada à sua amada ao luar, cobertos de manchas de batalha como estão, e cansados!

— Que rapariga! Minnesingers! Sim; conheço histórias desses Minnesingers. Vinham ao castelo... Margarita, uma conta da tua cruz está partida. Vou tratar disso. Usa a de pérola até eu consertar esta. Que nunca caias no caminho dos Minnesingers. Não são como a tropa de Werner. Não batem às portas: deslizam para dentro de casa como cobras.

— Lisbeth! Lisbeth! — ouviram Gottlieb a chamar impacientemente.

— Nós viemos, Gottlieb! — e, num murmúrio baixo, Margarita ouviu-a dizer: — Que este dia passe sem problemas e sem vergonha para os piedosos e para os castos.

Margarita conheceu a voz do estranho antes mesmo de abrir a porta e, ao apresentar-se, o herói deu-lhe uma saudação protetora.

— Pode-se ver — disse ele — que são precisos homens melhores do que os de Werner para afastar a rosa daquela face.

Gottlieb apertou a face rosada contra o seu ombro e deu-lhe palmadinhas.

— O que achas, Grete? Tens agora quarenta dos melhores rapazes de Colónia alistados para te proteger e guardar a casa dia e noite. Pronto! O que mais poderia uma Pfalzgrafin pedir agora? E serviço voluntário; tudo a ser pago com um sorriso, que suponho que a minha senhora não lhes negará. Lisbeth, conheces o nosso amigo. Não o temas, boa Lisbeth, e dá-nos o pequeno-almoço. Bem, doce criatura, hás de ter honras reais a serem-te pagas. Garanto que já começaram um bom trabalho ao trancarem aquele vagabundo sonhador e ocioso, Farina...

— Ele? Porquê, meu pai? Como se atreveram! O que é que ele fez?

— Oh, não te sobressaltes, minha donzela de fadas! Uma pequena questão de quebra, querida! Ele tentou entrar no quarto de Cunigonde Schmidt e derrubou o vaso de lírios dela: pelo que Berthold Schmidt o derrubou, e o nosso amigo aqui, por camaradagem, derrubou Berthold. No entanto, o principal culpado foi levado para a prisão pela tua guarda de confiança, e lá que ele se refresque. O próprio Berthold contar-te-á a história: ele virá aqui tomar o pequeno-almoço e receber as tuas ordens, senhora comandante-em-chefe.

O Goshawk manteve o olhar em Margarita. Os seus dentes estavam cravados no lábio inferior e a sua figura inteira tinha um estranho ar de desconforto; ela estava dividida pela raiva.

— Como testemunha do caso, creio que farei uma declaração mais clara, bela donzela — interpôs ele. — Em primeiro lugar, o culpado sou eu. Passámos por baixo da janela da Fraulein Schmidt, e fui eu quem subiu para saudar os lírios. Um rebento deles está no meu elmo, e aqui deixai-me apresentá-los a uma detentora mais digna.

Ele ofereceu as flores com um sorriso, e Margarita aceitou-as, radiante de gratidão.

— O nosso amigo Berthold — continuou ele — achou por bem visar-me com um golpe pelas costas e depois correu a chamar os seus camaradas. Foi apanhado, e pelo meu galante jovem herói, Farina; quanto ao caráter do qual lamento que o vosso respeitado pai e eu tenhamos opiniões divergentes: pois, pela fé de um soldado e homem de bem, ele é o melhor entre os melhores rapazes que já conheci na Alemanha, acreditai em mim. Então, para encurtar a história, a execução foi feita sobre Berthold pela minha mão, por um ato de traição. Ele parece ser uma espécie de capitão de uma das tropas, e não nutre afeição por Farina; pois a versão do caso que ouvistes do vosso pai é uma pequena invenção do próprio Mestre Berthold. Para lhe fazer justiça, ele parecia igualmente disposto a colocar-me sob a pedra fria; mas uma palavra do vosso bom pai mudou o curso; e como pensei que poderia servir o nosso amigo melhor livre do que atrás das grades, aceitei a liberdade. Bah! Tê-la-ia aceite de qualquer maneira, para dizer a verdade, pois as vossas masmorras alemãs são lugares mortais, frios e cheios de ratos. Por isso, não me classifiquem como herói, bela Senhora Margarita, embora a tentação de parecer um aos olhos tão doces estivesse a começar a levar-me pelo mau caminho. E agora, quanto aos nossos negócios nas ruas a esta hora, acreditem no melhor de nós.

— Eu acredito! Eu acredito! — disse Margarita.

— Lisbeth! Lisbeth! — chamou Gottlieb. — Pequeno-almoço, irmãzinha! O nosso campeão está a morrer de fome. Ele pede salsichas, pães de leite, vinho e todas as tuas conservas mais raras. Apressa-te, pois a honra de Colónia está em jogo.

A tia Lisbeth tilintou as chaves para dentro e para fora, e logo essa harmonia atraiu um grupo de criados com travessas de carne de porco, pãezinhos de trigo branco, a perpétua salsicha, leite, vinho, pão de cevada e provisões de iguarias domésticas em profusão, tudo a cintilar sobre prata, realçado por uma toalha de linho imaculada. Gottlieb observou um brilho tão ensolarado no rosto do Goshawk perante este arranjo hospitaleiro que deu a ordem de ataque sem esperar por Berthold, e o seu convidado começou imediatamente a comer, não relaxando os seus esforços durante meia hora inteira pelo relógio da Catedral, evitando a cerveja com um olhar irónico composto de desprezo e arrependimento, e bebendo um brinde bem cheio de vinho do Reno por todos. Margarita estava pensativa: a tia Lisbeth, de guarda. Gottlieb lembrou-se do conselho de Carlos Magno ao Arcebispo Turpin e fez o seu melhor para permanecer na terra como um dos seus senhores dominantes.

— Pobre Berthold! — disse ele. — É um bom rapaz e merece o seu lugar à minha mesa mais vezes. Suponho que o caso do vaso de flores o tenha detido. Vamos beber a ele: hã, Grete?

— Bebam a ele, querido pai! — mas eis que ele aqui está para vos agradecer pessoalmente.

Margarita sentiu uma pontada de pena quando Berthold entrou. As nódoas negras do seu hematoma aprofundavam-se em torno dos olhos e davam-lhes uma luz perversa sempre que estavam fixos intensamente; mas pareciam sinceros; e falavam de um combate no qual ele podia dizer que não se mostrou cobarde e que foi tratado com alguma crueldade. Ela voltou para o Goshawk uma censura muda; contudo, sorriu e amou-o muito quando o viu estender uma mão de boas-vindas e oferecer um copo fraternal a Berthold. O filho do rico ourives estava ocupado a estudar o horóscopo da sua fortuna nos olhos de Margarita; mas quando Margarita dirigiu a sua atenção para Guy, ele virou-se para ele com um olhar de espanto que cedeu perante uma saudação cordial.

— Muito bem, Berthold, meu bravo rapaz! Todos são amigos quando se sentam à mesa — disse Gottlieb. — Em qualquer caso, à minha mesa:

“Um inimigo digno Perdoa o golpe Que lhe foi dado de forma plena e justa”,

diz a canção; e o provérbio acompanha-a com: “Um inimigo generoso é um amigo do lado errado”; e ninguém é culpado disso, exceto a velha Senhora Fortuna. Por isso, agora um brinde a esta jovial reconciliação entre vós. Lisbeth! tens de beber.

A pequena mulher fez uma vénia de melancólica obediência.

— Porque te lançaste e fugiste? — sussurrou Guy a Berthold.

— Porque vocês eram dois contra um.

— Dois contra um, homem! Ora, não tens tal coisa como jogo limpo nesta tua terra? Pensaste que eu me teria aproveitado disso?

— Como poderia eu saber quem eras, ou o que farias? — resmungou Berthold, um tanto amargurado.

— Verdadeiramente não, amigo! Então fugiste para te tornares vinte contra dois? Mas não fiques abatido com o assunto. Eu ia dizer que, embora te tenha tratado de uma maneira correta, talvez tenha sido um pouco severo, considerando a tua juventude: mas um exemplo é tudo; e devo deixar-te saber em confiança, que nunca na minha vida tinha lançado um bastão de malandro; por isso, vês, dei-te todas as hipóteses.

Berthold moveu os lábios em resposta; mas o pensamento da figura de derrota que exibia perante Margarita fez com que ele avaliasse de forma desfavorável as hipóteses que tinham estado a seu favor.

O brinde foi bebido. A tia Lisbeth tocou no copo amarelo esfumaçado com um lábio afetado e fez sinal a Margarita para se retirar.

— A tapeçaria, criança! — disse ela. — Coisas perigosas são ditas depois do terceiro copo, eu sei, Margarita.

— Achas o meu campeão bonito, tia?

— Eu ia falar-te sobre ele, Margarita. Se bem me lembro, ele tem uma beleza rude, na medida do possível. Sim: mas tu, donzela, estás a pensar nele? Já o vi piscar o olho três vezes; e isso, como sabemos, é um hábito daqueles que se venderam. E o que é que a frágil humanidade feminina pode esperar de um animal tão musculado?

— E oh! atar-lhe a armadura, E apressá-lo para o campo; Brindar-lhe numa taça de beijos, O cavaleiro que não cede!

Tenho a certeza de que ele é terno, tia. Repara como ele parece gentil de vez em quando.

— Tu, rapariga! Sim, acredito que ela está perdidamente apaixonada por ele. Terno e gentil! Assim é o urso quando estás fora da sua toca; mas entra nela, donzela, e experimenta! Tu, boa Úrsula, preserva-me de tal destino.

— Não temas, querida tia! Não tenhas medo disso! Além disso, nem sempre são os homens que são maus. Não deves esquecer Dalila, a mulher de Lot, a Pfalzgrafin Jutta e a Baronesa que pediu um pedaço do pobre Kraut. Mas, vamos trabalhar, vamos trabalhar!

Margarita sentou-se diante de Siegfried e contemplou o herói. Pela primeira vez, notou uma semelhança nos seus traços com Farina: o mesmo longo cabelo amarelo espalhado pelos ombros como aquele que fluía debaixo do elmo de Siegfried; os olhos azuis, as sobrancelhas quadradas e os contornos regulares. “Isto é um prodígio”, pensou Margarita. “E Farina! Foi para zelar por mim que ele vagueou pela rua na noite passada, o meu melhor! Não é ele lindo?” e ela olhou mais de perto para Siegfried.

A tia Lisbeth tinha começado o dragão com o seu método habitual e estava logo a vaguear pelos salões esqueléticos do antigo castelo palaciano na Boémia. A língua lanuda do monstro sugeria novos horrores para ela, e se Margarita tivesse ouvido, poderia ter tido boas desculpas para esquecer a condição do seu amante; mas a sua voz apenas servia como uma peça de relojoaria, e a sua mente estava na prisão com Farina. Ela estava há muito a debater como conseguir a sua libertação; e meditou tão profundamente, e exclamou em tantas explosões de impaciência, que a tia Lisbeth sentiu o seu coração a derreter-se pela donzela. “Agora”, disse ela, “essa é uma história bem conhecida sobre a Eleitora Viúva da Baviera, quando veio em visita ao castelo; e, minha querida criança, que sirva de aviso. Terrível, também!” e a pequena mulher estremeceu agradavelmente. “Ela tinha — posso dizer-te isto, Margarita — sim, ela tinha sido falsa para com o seu esposo legítimo. — Tu entendes, donzela; ou, não! tu não entendes: eu entendo apenas parcialmente, atenção. Falsa, digo eu...”

— Falsa — não verdadeira: continua, querida tia — disse Margarita, captando a palavra.

— Acredito que ela sabe tanto quanto eu! — exclamou a tia Lisbeth; “tais são as raparigas hoje em dia. Quando eu era jovem — oh! para uma donzela saber qualquer coisa então — oh! era uma reprovação geral. Ninguém pensava em confessá-lo. Nós corávamos e baixávamos os olhos com a própria ideia. Bem, a Eleitora! ela era... tens de adivinhar. Então ela pediu o seu caldo às onze horas da noite. O que achas que era aquilo? Bem, havia espírito nele: para não falar de noz-moscada, limão e caroços de pêssego. Ela queria que eu me sentasse com ela, mas implorei à minha senhora que me mantivesse longe da mulher malvada: e não era Bertha da Boémia amiga de Hilda da Baviera, podes ter a certeza. Oh! as coisas de que ela falava enquanto bebia o seu caldo.

Isentrude sentava-se com ela e dizia que era medonho! — para além da blasfémia! e que ela parecia uma bruxa da Bíblia, sentada a beber e a praguejar e a olhar fixamente na sua roupa de dormir e na sua touca. Ela estava numa viagem para a Hungria e reclamou a hospitalidade do castelo no caminho para lá. Ambas eram viúvas. Bem, era um quarto para a meia-noite. A Eleitora recuou na sua almofada, como sempre fazia quando terminava a vela. Isentrude cobriu-a, amontoou toros no fogo, envolveu-se no seu roupão e preparou-se para dormir. Era inverno, e o vento uivava às portas, e chocalhava as janelas, e sacudia os tapeçarias — Senhor, ajuda-nos! Lá fora era tudo neve, e nada mais do que floresta; como viste quando vieste ter comigo lá, Gretelchen. Bateram as doze. Isentrude estava a cochilar; mas diz que, após a última badalada, acordou com frio. Um arrepio enevoado pairava no quarto. Ela olhou para a Eleitora, que não se tinha movido. O fogo ardia debilmente e parecia oprimido: Herr Je! — ela pensou ouvir um ruído. Não. Bastante silencioso! Como o céu a preserve, diz ela, o cheiro naquele quarto tornou-se como o de uma sepultura aberta, viscosamente pútrido. Santa Virgem! Desta vez ela teve a certeza de que ouviu um ruído; mas parecia vir de ambos os lados dela. Havia a grande porta que levava ao primeiro patamar e sala de estado; e exatamente em frente, o painel da passagem secreta. Os ruídos pareciam avançar como se fosse passo a passo, e tornavam-se mais altos em cada ouvido enquanto ela permanecia horrorizada no mármore da lareira. Ela olhou para a Eleitora novamente, e os seus olhos estavam bem abertos; mas, apesar de todo o chamamento de Isentrude, ela não acordava. Só de pensar! Agora o ruído aumentou, e era um som regular de pisotear — ranger, pisotear — aproximando-se cada vez mais: Santos da misericórdia! O apartamento estava a sufocar com vapores. Isentrude deu um salto e vestiu-se atrás de uma cortina da cama exatamente quando as duas portas se abriram. Ela conseguia ver através de uma fenda no trabalho tecido, e piscou os olhos que tinha fechado com força ao ouvir o grito das dobradiças da porta — piscou os olhos para ver por um momento — somos criaturas tão pecadoras e curiosas! — O que ela viu então, diz que nunca esquecerá; nem eu! Enquanto ela era uma mulher viva, lá viu os dois príncipes mortos, o Príncipe Palatino da Boémia e o Eleitor da Baviera, em pé, frente a frente ao pé da cama, todos em armadura branca, com espadas desembainhadas, e criados a segurar archotes de pinho. Nenhum deles falou. As suas viseiras estavam baixas; mas ela conheceu-os pelas suas armas e porte: ambos presenças altas e imponentes, bons cavaleiros no seu tempo, e tinham lutado contra o Infiel! Então um deles apontou para a cama, e depois um archote foi baixado, e a luta começou. Isentrude viu as faíscas voarem, e o aço golpeou até ser estilhaçado; mas eles continuaram a lutar, não se importando com as feridas, e fungando de fúria à medida que ficavam mais quentes. Lutaram uma hora inteira. A pobre rapariga estava tão consumida por olhar, que largou a cortina e ficou totalmente exposta entre eles. Então, para se equilibrar, ela descansou a mão na cabeceira da cama; e — pensa no que ela sentiu — uma mão tão fria como o gelo trancou a dela, e não conseguia soltar-se! Naquele instante, um dos príncipes caiu. Era o da Boémia. O da Baviera embainhou a sua espada, acenou com a mão, e os criados pegaram no fantasma abatido, pelos pés e pelos ombros, e levaram-no para a porta da passagem secreta, enquanto o da Baviera caminhava atrás...

— Vergonhoso! — exclamou Margarita. — Vou falar com Berthold quando ele descer. Ouço-o a vir. Ele fará o que eu quiser.

— Chama-lhe terrível, Grete! Terrível foi. Se Berthold quisesse sentar-se e ouvir... Ah! ela foi-se. Uma boa rapariga! e de uma leviandade apenas à superfície.

A tia Lisbeth ouviu a voz de Margarita a dirigir-se rapidamente a Berthold. A sua resposta foi baixa e breve. “Recusa-se a ouvir qualquer coisa do género”, interpretou a tia Lisbeth. Depois, ele parecia estar a suplicar, e Margarita a proferir respostas curtas. “Confio que não seja nada que uma donzela não deva ouvir”, exclamou a pequena dama com um suspiro.

A porta abriu-se e Lieschen estava na entrada.

— Para a Fraulein Margarita — disse ela, segurando uma carta a meio caminho.

— Dá-ma — ordenou a tia Lisbeth.

A mulher hesitou: — É para a Fraulein.

— Dá-ma, digo-te! — e a tia Lisbeth agarrou avidamente o missiva e submeteu-a à prova do tato. Era pesada e continha algo duro. Longas pressões pensativas revelaram a sua forma no papel. Era uma flecha. “Vai!” disse ela à mulher e, uma vez sozinha, começou, como uma abelha, a zumbir à volta dela, e finalmente abriu-a. Continha a Flecha de Prata de Margarita. “A astúcia daquela rapariga!” E a escrita dizia:

“DOCÍSSIMA DONZELA!

“Por esta flecha do nosso noivado, conjuro-te a encontrar-me com toda a pressa fora do portão ocidental, onde, ardendo por revelar-te notícias da maior urgência que não podem ser confiadas ao papel, aguarda agora, peticionando aos santos, o teu

“FARINA.”

A tia Lisbeth colocou a carta e a flecha numa gaveta; trancou-a; e “sempre pensei isso”. Ela subiu as escadas para consultar Gottlieb. Gargalhadas saudaram-na exatamente quando ela levantou o trinco, e ela retirou-se envergonhada.

Não havia tempo a perder. Farina devia ser apanhado em flagrante à espera de Margarita, por Gottlieb ou por ela própria. Gottlieb estava a divertir-se. “Que isto seja um aviso para ti, Gottlieb”, murmurou Lisbeth, enquanto cobria o seu pequeno corpo com a capa de pele de Margarita, e determinou que seria ela a confundir Farina.

Cinco minutos depois, Margarita voltou. A tia Lisbeth tinha ido embora. O dragão ainda carecia de uma ponta na sua língua bifurcada, e um fio de chamas pendia das mandíbulas do monstro. Outra carta foi trazida para a sala por Lieschen.

— Para a tia Lisbeth — disse Margarita, lendo o destinatário. — De quem poderá ser?

— Ela não fica a pressionar sobre as tuas cartas — disse a mulher; e informou Margarita da missiva anterior.

— Dizes que ela tirou uma flecha de dentro? — disse Margarita, com o rosto ardente. — Quem trouxe isto? Diz-me! — e apenas esperando para ouvir que era da mãe de Farina, rasgou a carta e leu:

“QUERIDA LISBETH!

“A tua velha amiga escreve-te; ela que quase não tem olhos para ver as palavras que escreve. Tu sabes que somos uma casa caída, devido ao desagrado do Imperador pelo meu falecido marido. O meu filho, Farina, é o meu único apoio, e retribui-me bem as bênçãos que lhe concedo. Alguns chamam-lhe ocioso: alguns acham-no demasiado sábio. Juro-te, Lisbeth, ele é apenas bom. As suas horas são dedicadas à extração de essências — não a magia negra. Agora ele está em apuros — na prisão. A sombra que destruiu o seu falecido pai ameaça-o. Agora, pela nossa velha amizade, amada Lisbeth! intercede junto de Gottlieb, para que ele possa advogar pelo meu filho perante o Imperador quando ele vier...”

Margarita não leu mais. Foi à janela e viu a sua guarda perfilada lá fora. Colocou um lenço sobre a cabeça e saiu de casa pelo portão do jardim.

O MONGE

A esta altura, o sol estava alto sobre Colónia. Os mercados estavam apinhados de compradores e vendedores, misturados com um enxame de soldados vadios, para cujas naturezas sedentas foram montadas bancas de vinho. Barões e cavaleiros do império, corajosamente montados e seguidos por muitos, entravam a cada hora em Colónia vindos do Sul e do Norte da Alemanha. Aqui, suábios de olhos arregalados e guerreiros de rosto redondo do Reino do Oriente, pavoneavam-se de um lado para o outro, acariciando os cavalos que encontravam, por falta de ocupação para as mãos. Ali, enormes pomeranos, com barbas rígidas e quadradas a sair do queixo, colidiam montanhosamente entre os pacíficos habitantes. Tropas a pé caminhavam de pernas abertas, em calças justas e largas, prontas a beber à saúde de quem quer que fornecesse a melhor qualidade de licor para esse solene brinde, e igualmente prontas a arranjar uma briga com aqueles que não o fizessem. Era uma cena de penas brilhantes, chapéus de abas largas, calças vistosas, placas de aço azuladas e batidas, calções de lã, polainas de couro, insígnias e botas e ombros imperiosos. Margarita estava demasiado apressada na sua mente para ter consciência de uma imprudência; mas os seus membros tremiam e ela instintivamente apressou os passos. Quando se encontrou sob o letreiro dos Três Santos Reis, onde habitava a mãe de Farina, fez uma fervorosa oração de agradecimento e respirou livremente.

— Eu esperava uma mensagem de Lisbeth — disse Frau Farina; — mas tu, bom coração! tu ajudar-nos-ás?

— Tudo o que possa ser feito por mim, eu farei — respondeu Margarita; — mas a sua mãe anseia por vê-lo e eu vim para lhe fazer companhia.

A velha senhora juntou as mãos e chorou.

— Encontrou ele uma amiga tão boa, o meu pobre rapaz! E acredita em mim, querida donzela, ele não é indigno, pois melhor filho nunca viveu, e bom filho, bom em tudo! Certamente iremos vê-lo, mas não como tu estás. Eu vestir-te-ei. Há tais multidões nas ruas: ouvi-as a bater cedo esta manhã. Descansa, querido coração, até eu voltar.

Margarita teve tempo para inspecionar a única sala de estar onde o seu amante vivia. Estava plantada com garrafas, vasos, tubos e cilindros, empilhados no chão, na cadeira e na mesa. Ela não conseguiu suprimir uma ligeira surpresa de medo, pois esta exibição mostrava um lidar com coisas ocultas e uma convocação de espíritos dispersos. Era isto que tornava a sua testa tão pálida e o contorno do seu olho mais escuro do que a juventude deveria permitir! Ela afastou o sentimento e assumiu a sua própria face brilhante quando a Senhora Farina reapareceu, trazendo no braço um hábito de convento e outros trajes. Margarita deixou-se vestir com as túnicas brancas e pretas da negação da vida.

— Eis! — disse a Frau Farina, — e para selar a garantia, contratei um guarda para nos acompanhar. Ele foi gravemente ferido numa luta de rua ontem, e estava alojado aqui abaixo, onde o curei e cuidei dele, e ele é grato, como um homem deve ser — embora eu pouco tenha feito, fazendo o meu melhor — e com ele perto de nós não temos nada a temer.

— Bom — disse Margarita, e elas beijaram-se e partiram. O guarda esperava-as lá fora.

— Venham, minha pequena senhora, e convosco a santa irmã! Não são daqui dois passos, e aposto que vos levarei em segurança, tão certo quanto o meu nome é Schwartz Thier! — Eh? A boa irmã está a desfalecer. Olhem só! Eu carrego-a.

Margarita recuperou o seu autocontrolo antes que ele pudesse levar a cabo a sua oferta.

— Apenas nos deixe apressar para lá — arquejou ela.

O Thier caminhou a passos largos e deu-lhes salvo-conduto até à prisão onde Farina estava confinado, sendo perto de um dos fortes exteriores da cidade.

— Agradeça-lhe e dispense-o — sussurrou Margarita.

— Não! Ele esperará — não esperarás, amigo! Não demoraremos, embora seja o meu filho que visito aqui — disse a Frau Farina.

— Até amanhã de manhã, minha pequena senhora! O leão agradeceu àquele que lhe arrancou o espinho da pata, e o Thier pode ser negro, mas não é ingrato, nem uma besta pior que o leão.

Elas entraram nas muralhas e deixaram-no.

Nos primeiros cinco minutos, Schwartz Thier encontrou ocupação para as suas faculdades a fitar as janelas trémulas e de pequenos vidros da vizinhança. Perseverou nisto, depois de toda a novidade se ter esgotado, por um pavor intuitivo do tédio. Não havia nada para ver. Uma velha surgiu uma vez de um sótão e atirou água sobre as pederneiras. Acosado por um crescente pavor do pesadelo imundo de nada ter para fazer, o Thier esforçou-se por estabelecer inteligência amorosa com ela. Ela respondeu com uma projeção indignada do queixo inferior, evanescendo rapidamente. Não lhe restou outro recurso senão amaldiçoá-la com extrema cordialidade. O Thier bateu com a perna direita, e depois com a esquerda, e recordou a velha como uma queixa por mais cinco minutos. Quando ela foi totalmente esquecida, ele bocejou. Outra consorte do momento era necessária, para ser cortejada, objurgada e lamentada. O portão da prisão ficava numa rua isolada. Poucos passageiros passavam, e aqueles que o faziam desviavam-se da figura pesada e de olhar lascivo de malícia preguiçosa que ali vagueava, tão cuidadosamente quanto podiam. O Thier chamou dois ou três. Um pôs-se a correr, outro inclinou-se, sorriu, deu-lhe um bom dia amável e fingiu não ouvir mais nada, tendo negócios urgentes em perspetiva. O Thier era um cão fiel, mas a tentação de trair a sua confiança e persegui-los era imensa. Começou a sentir uma disposição igual para chorar e rugir. Ele cantarolou uma balada —

— Jurei que dela eu teria a vontade, E com ele eu teria o meu caminho: Aprendi a minha besta sobre a colina: Agora, o que diz a minha dama?

Dêem-me a boa e velha besta, afinal, e nada destes trambolhos de soprar e estrondar que nos derrubam mais vezes do que ao nosso homem!

— Uma cruz permanece ainda na floresta, E uma cruz no cemitério cinzento: Minha maldição sobre aquele que teve a sua vontade, E sobre aquele que teve o seu caminho!

Bom começo, mau final! Nem sempre é assim. “Muitas cruzes a besta construiu”, dizem eles. Quem me dera ter a minha agora, para espetar aquela velha, ou alguém. Aposto que ela está a espreitar-me sobre o gablete, ou atrás de alguma fresta. Elas são curiosas, as velhas, malditas sejam! E as jovens, já agora. Nem sinal de uma jovem aqui.

— Quando estou no saque de uma cidade, O que pensam vocês que procuro, aqui e ali? Prata e ouro encho os bolsos com fartura, Mas o doce petisco é a minha rapariga abaixo dos vinte.

Gostaria de estar no saque desta Colónia. Eu farejaria aquela rapariga bonita de que fui enganado ontem. Levem o ouro e a prata, e dêem-me a donzela! O pescoço dela é de prata, e o seu cabelo de ouro. Ah! e as suas faces são rosas, e a sua boca — não digam mais nada! Estou quase a pensar que Werner, o animal faminto, lançou olhos de lobo sobre ela. Dizem que falou dela ontem à noite. Não deixem que ele me frustre. Trovão e raio nele! Devo-lhe uma desfeita. Ele está a começar a esquecer o meu plano de vida.

Um bando de pombos através do topo azul da rua abstraiu o Thier destas reflexões. Ele bocejou após eles em desespero, e começou a espreguiçar-se e a sacudir-se, fazendo ribombar os seus pulmões com sons fortes. Ao lançar os olhos em volta novamente, encontrou os de um monge oposto, fixos nele em silêncio penetrante. O Thier odiava monges como uma besta selvagem evita o fogo; mas agora, até um monge era bem-vindo.

— Olá! — gritou ele.

O monge atravessou até ele.

— Amigo! — disse ele, — o tédio está a ensinar-te a devassidão. Queres aceitar serviço para um trabalho de uma noite, onde o perigo é pouco e a recompensa duradoura?

— Quanto a isso — respondeu o Thier, — o perigo vem-me como a madeira verde ao veado, e bom pagamento nunca foi dado em promessas. Mas estou comprometido pela próxima hora ao género feminino ali dentro. Elas são as minhas mestras; como têm sido de tipos duros antes de mim.

— Eu procurá-las-ei e ganharei o seu consentimento — disse o monge, e assim o deixou.

— Negócio rápido! — pensou o Thier, e ficou mais vivaz. — O Barão não vai precisar de mim esta noite: e que tal se precisar? Deixem-no enforcar-se — embora, se o fizer, será uma pena eu não estar por perto para o ajudar.

Ele caminhou sob a muralha até ao seu limite mais distante. Ao voltar, percebeu o monge no portão.

— Uma mão rápida! — pensou o Thier.

— Não me importunes com perguntas — começou o monge; — mas cala-te e segue-me: as mulheres libertam-te, e com alegria.

— Esse não é o meu plano de vida, agora! Dinheiro adiantado, e então ordena-me — e Schwartz Thier ficou com um pé à frente e a mão estendida.

Um caracol de desprezo escureceu os traços frios do monge.

Ele deslizou uma mão para o lado da sua batina acima do cinto e atirou um saco de moedas.

— Aceita-o, se está em ti perder a maior bênção — gritou ele com desprezo.

O Thier espreitou para dentro do saco e pareceu satisfeito.

— Sigo-te — disse ele; — lidera, bom padre, e estarei no caminho da santidade pela primeira vez desde que a minha mãe se viu livre de mim.

O monge apressou-se rua acima e para dentro do mercado, alheio às posturas e reverências das pessoas, que paravam para olhar para ele e para o seu acompanhante descarnado. Ao atravessarem a praça, Schwartz Thier avistou Henker Rothhals a arrancar de uma banca de vinho a cavalo, e não pôde deixar de o chamar. Antes que o monge tivesse tempo de proferir uma repreensão, estavam imersos num duplo disparo de perguntas e respostas.

— Zás! — gritou o Thier, interrompendo alguma comunicação. — Apanharam-na, apanharam? E lançaram-na através do rio? Estou convosco na minha parte, ou chamem-me ovelha!

Ele acenou com a mão ao monge e, agarrando a rédea do cavalo, saiu a correr ao lado do seu confederado montado, pesadamente calçado como estava.

O monge franziu o sobrolho atrás dele e inchou com um suspiro pesado.

— Foi-se! — exclamou ele, — e o ouro maldito com ele! Bem me avisou uma voz que tal serviço nunca poderia ser comprado!

Ele não parou para lamentar ou arrepender-se, mas voltou em direção à prisão com passos rápidos, murmurando: — Eu com o passe da prisão para dois; porque me deixei iludir por aquele bandido? Não vi o próprio jovem entregue nas minhas mãos ali, aquele que estava com a donzela e a velha mulher?

A CAVALGADA E A CORRIDA

Tarde na tarde, um cavaleiro, na libré da guarda pessoal do Kaiser, cavalgou seco e poeirento para Colónia, com a notícia de que o Kaiser estava no Castelo de Hammerstein, e ordenando a todos os cavaleiros, barões, condes e príncipes convocados que se reunissem e se preparassem para a sua chegada, num certo espaço de terreno baldio a duas léguas de Colónia, dali para avolumar a comitiva da sua entrada triunfal na antiga cidade do seu império.

Guy, o Açor, robusto numa égua flamenga, e um cavalo de carga ao seu lado, pouco depois deixou o hotel dos Três Santos Reis, e trotou até à porta de Gottlieb.

— Montar tendas é agora o meu ofício — disse ele, quando Gottlieb desceu até ele. — O meu senhor está com o Kaiser. Devo dizer adeus por enquanto. A jovem senhora está visível?

— Nem jovem, nem velha, bom amigo — respondeu Gottlieb, com um semblante um tanto perturbado. — Jantei sozinho por falta da vossa companhia. Mensagens secretas vieram, ouvi dizer, para cada uma delas, e ambas estão a passear. Ora, o que pensam disto, depois da cena de ontem? — Lisbeth também!

— Prega do velho texto, Mestre Groschen; “Nunca contes com o género feminino para um ato sensato”. Mas adeus! E digam à Senhora Margarita que levo a mal ela não me ter dado a sua mão de donzela para saudar antes de partir. Os meus mais graves respeitos à Frau Lisbeth. Em breve estarei sentado convosco a beber aquele vosso vinho de primeira, ou a fortuna está totalmente contra mim.

Assim, com um aperto de mão, Guy espetou as esporas na sua besta de flancos redondos, e estava rapidamente fora de Colónia na estrada acidentada.

Ele não foi o primeiro nem o último dos homens de armas a apressar-se para obedecer ao mandato do Kaiser. Uma fila de cavalos e infantes em nós serpenteantes estendia-se ao longo da terra plana, brilhando com cores mais vivas que os prados de primavera que marginavam a sua linha de passagem. Guy, com um aceno para todos e uma saudação para os mais bem-dispostos, empurrou em direção à vanguarda, até que o bloqueio crescente o obrigou a adotar o passo de caracol do grupo de avanço, e deu-lhe trabalho suficiente para evitar que os seus dois cavalos fossem esmagados com a massa. De vez em quando, lançava um olhar atento aos céus, e foi rapidamente confirmado numa opinião que repetidamente ejaculara, que “o acampamento da primeira noite seria uma encharcada”. No Oeste, um banco negro de nuvens estava a apagar o sol antes do seu tempo. A Nordeste brilhavam campos nus de azul levemente tocados por tiras soltas e flocos de vapor carmesim. Os sulcos estavam a tornar-se roxo-escuros, e gradualmente uma escuridão baixa e lamurienta envolveu toda a linha, e abafou o ruído de cascos, juramentos e rodas de carroça num único murmúrio sombrio.

Guy sentia-se muito como um verme cortado, enquanto serpenteava o seu caminho na penumbra, impelido pela retaguarda e reduzido a tatear atrás do corpo principal. Frequente e profundo conselho tirou de um cantil de confiança suspenso no seu cinto. Não era uma reflexão agradável que a chuva cairia antes que ele pudesse construir qualquer tipo de abrigo para cavalo e homem. Ainda mais triste era a necessidade de selecionar o seu posto em terreno estranho, e na escuridão. Ele manteve um olhar ansioso para a lua, e ficou imediatamente regozijado ao contemplar um fogo largo que cintilava feixes ramificados através de um pomar numa colina a leste.

— O meu senhor chama-lhe Deusa — disse Guy, saudoso. — O título é estranho, e mais o estilo destes estrangeiros, mas ela pode tê-lo esta noite, se ela apenas mantiver a tempestade de velar o seu olho brilhante por um par de horas.

Ela levantou-se com um brilho agourento. Derivas de nuvens finas e pálidas lá no alto inclinavam-se para baixo em escadas, puras como prata virgem, para ela subir ao seu assento mais alto no semicírculo rebelde do céu.

— A minha mente está feita! — disse Guy para a parte ouvinte de si mesmo. — Disto eu sairei.

Pelo raio mais claro, ele discernira um caminho estreito que corria numa paralela branca com a rota geral. À custa de deslocar uma milha da cavalhada, ele entrou nele. Uma vala teve de ser tomada, alguns pousios pesados atravessados, e o caminho estava direto à sua frente. Ele começou a zombar do trote lento e da falta de iniciativa que faziam os tipos que deixara brilhar tão pouco em comparação com o Açor, mas uma visão de dois cavaleiros à frente verificou a sua vaidade, e agora, para os ultrapassar, ele incitou a sua égua flamenga gorda com picadas invulgares do calcanhar, que a fizeram lançar-se e mostrar mais garra do que velocidade.

Os alvos desta perseguição ardente não despertaram a princípio para a noção de estarem a ser perseguidos. Ambos cavalgavam com semblantes cobertos por mantos, e pareciam profundamente desatentos ao mundo fora das suas meditações. Mas o Açor não podia ser negado, e à força de alternadamente rugir para eles e censurar as suas duas bestas capengas, ele finalmente despertou o mais jovem dos cavaleiros, que chamou o seu companheiro em voz alta: sem efeito parecia, pois ele teve de repetir o aviso. Guy estava perto deles, quando o jovem exclamou:

— Pai! santo padre! É Satanás em pessoa!

O outro levantou-se e apontou a tremer para um ponto escuro à distância enquanto vociferava:

— Não aqui! não aqui; mas acolá!

Guy reconheceu a voz do primeiro orador, e gritou:

— Esperem! parem um segundo! Esqueceram-se do Açor?

— Nunca! — veio a resposta, — e não te esqueças de Farina!

Esporas e corcéis mais velozes levaram-nos para fora do alcance da audição antes que Guy pudesse lançar outra sílaba. Farina olhou para trás, para ele, arrependido, mas o Monge agora censurava o seu assistente com indignação.

— Tu, fraco! nada menos que tolo! trair o teu nome numa aventura como esta para alma salvar os santos!

Farina sacudiu as suas madeixas para trás, e segurou a sua testa contra a lua. Toda a ira espectral do Monge foi frustrada pela pequena última doce palavra da sua amada, que fazia música nos seus ouvidos sempre que o incómodo soava.

— E nisto — dizem os antigos escritores, — estão os amantes, que amam verdadeiramente, verdadeiramente recompensados pelos seus esforços e dores; nesse amor, pelo qual sofrem, está sempre presente para afastar o sofrimento não nascido do amor: mas os desleais, que não servem o amor fielmente, são uma raça entregue ao que quer que este mundo vil possa infligir-lhes, sem consolação ou conforto da sua senhora, o Amor; a quem, não sacrificando tudo, eles não sabem deleitar-se.

A alma de um amante vive através de cada membro seu na alegria de uma cavalgada ao luar. A tristeza e o luto são doenças lentas que se agacham da brisa, e nutrem as suas naturezas longe de coisas que se movem rapidamente. Um verdadeiro amante não é uma daquelas moscas melancólicas que disparam e se perdem sobre poças lodosas e estagnadas. Ele deve estar no grande ar. Ele deve tocar todas as cordas da vida. A rapidez é o seu êxtase. Nos seus braços largos, ele abraça toda a forma da beleza. Águias são os seus instintos; como pombas são os seus desejos. Então, a bela lua é a própria presença da sua noiva no céu. Assim, por horas, cavalgou Farina numa glória prateada e fugaz; enquanto o Monge, como uma sombra, galopava severo e silencioso ao seu lado. Assim, coroando-os no céu, uma metade era toda amor e luz; uma, escuridão e propósito funesto.

O COMBATE EM DRACHENFELS

Não à terra foi concedida a honra de iniciar a grande batalha daquela noite. Por um raio de luar azulado e expirante, Farina contemplou um vasto reino de trevas a preencher o vazio do Oeste, e a lua foi logo extinta atrás de restos lentos de nuvens de ferro destacadas do volume oscilante da ruína, à medida que pesadamente moía sobre a atmosfera no primeiro lançamento de trovão do movimento.

O coração do jovem era forte, mas ele não podia ver sem pulsações mais rápidas esta manifestação de poder incomensurável, que parecia, com um golpe, ser capaz de destruir a criação e as obras do homem. O aspeto nu da tempestade emprestou terrores à aventura em que ele estava empenhado, e da qual ele não conhecia o objetivo, nem podia prever o desfecho. Agora, não havia nada para iluminar o seu caminho senão tais clarões bifurcados que o relâmpago lhes lançava a intervalos, tocando aqui uma colina com casas agrupadas, atingindo num dia ali uma flor de maio, um pedaço de erva, uma árvore isolada à beira da estrada. De repente, um tremor mais vívido e contínuo de fogo violeta encontrou o seu reflexo na paisagem, e Farina viu o rio Reno abaixo dele.

— Numa noite como esta — pensou ele, — Siegfried lutou e matou o dragão!

Um sopro de luz, como das mandíbulas do dragão derrotado nas suas agonias, deu-lhe a conhecer o país que atravessava. Carmesim sobre a água brilhava a própria rocha assombrada por monstros, e a meio do canal, além, plana e negra até ao rio, estendia-se a Ilha das Freiras em paz claustral.

— Alto! — gritou o Monge, e sinalizou com um assobio peculiar, ao qual parecia estar ofegantemente à espera de uma resposta. Foram imediatamente rodeados por figuras vestidas de túnicas longas e veladas.

— Não é demasiado tarde? — o Monge perguntou-lhes roucamente.

— Ainda uma hora! — foi a resposta, em tons claros e suaves de uma voz feminina.

— Grande força e valor mais que humano sejam meus — exclamou o Monge, desmontando.

Ele passou à parte delas; e elas formaram um círculo, enquanto ele rezava, de joelhos.

Logo ele voltou, e conduziu Farina a um banco, tirando de algum esconderijo um livro e um sino, que deu às mãos do jovem.

— Pela tua alma, nenhuma palavra! — disse o Monge, falando pela garganta enquanto inspirava. — Não! nem em resposta a mim! Sê fiel, e mais que fortuna terrena será tua; pois digo-te, não falharei, tendo graça para sustentar este combate.

Seguidamente, ele iniciou a subida de Drachenfels.

Farina seguiu-o. Ele não tinha pista da missão do Monge, nem da parte que ele próprio desempenharia nela. Tal carga de silêncio acumulou-se no seu espírito questionador, que apenas o grito dos elementos enfurecidos o impediu de deter o Monge e exigir o fim do seu serviço ali. Esse grito era suficiente para gelar o discurso nos próprios lábios de um mortal. Pois mal tinham posto o pé no caminho sinuoso das fragas, quando toda a vingança da tempestade foi lançada contra a montanha. Pedregulhos enormes foram soltos e vieram rolando de cima: árvores arrancadas pelas raízes das fissuras zumbiam nos remoinhos do vento: torrentes de chuva espumavam pelos flancos de ferro da rocha, e voavam em penas brancas contra as breves pausas da escuridão: a montanha elevava-se, tremia e abria uma sucessão de abismos horríveis.

— Há um demónio nisto — pensou Farina. Ele olhou para trás e marcou o rio a espelhar abismos lívidos de nuvem acima do cume da montanha — sim! e no cume uma forma flamejante era espelhada.

Duas mãos nervosas sustiveram o grito na sua boca.

— Não te avisei? — disse a voz rouca do Monge. — Bem posso observar, e pensar por ti como por um cão. Sê tu tão fiel!

Ele entregou um cantil ao jovem e ordenou-lhe que bebesse. Farina bebeu e sentiu-se ricamente revigorado. O Monge então pegou no sino e no livro.

— Apenas meia hora — murmurou ele, — para este combate que há de ecoar através dos séculos.

Benzendo-se, ele subiu desvairadamente. Farina viu-o acenar uma vez para trás, e no instante seguinte ele perdeu-se atrás de uma inclinação do pico mais alto.

O vento que acabara de gritar mil gritos de morte, estava agora terrivelmente mudo, embora Farina pudesse senti-lo a levantar o capuz e o cabelo. No silêncio não natural, o seu ouvido recebeu tons de um hino cantado lá abaixo; ora baixando, ora crescendo; como se as vozes vacilassem entre a prece e a inspiração. Farina agarrou-se a uma saliência de fraga, e fixou os olhos no que se passava na altura.

Lá estava o Monge na sua capa e hábito castanhos, a confrontar — se pudesse confiar nas suas bolas de visão — a figura em brasa do Príncipe das Trevas.

Até agora, nenhum combate mortal ocorrera entre eles. Eles estavam a discutir: irritadamente, era verdade: mas com a primeira deferência mútua de lógicos praticados. Latim e alemão eram alternadamente empregues por ambos. Fazia vibrar o amor fervoroso de Farina pela pátria ouvir o alemão que Satanás falava: mas o seu latim era bom, e o seu domínio sobre essa língua notável; pois, saindo-se mal da discussão, como de costume, ele vingou-se parodiando um dos cânticos da Igreja com um ponto que descompôs o seu adversário, e levou-o a recuar um passo, reclamando apoio contra tal ataque sagaz.

— O uso de uma arma inesperada na guerra é, em si, metade de uma vitória. Induza o seu antagonista a empregá-la como um equivalente a si, e conte em derrotá-lo completamente... — diz a antiga crónica militar.

‘Vinde!’ disse o Demónio com uma pilhéria fácil. ‘Vós conheceis o vosso jogo — eu, o meu! Desejo verdadeiramente que as boas pessoas sejam felizes; dançando, beijando, propagando, o que quiserdes. Estamos perfeitamente de acordo. Não podeis ter nenhuma objeção contra mim, a não ser um velho preconceito tolo — não pessoal, mas de classe; uma antipatia da cogula, pela qual vos perdoo! O que eu encontraria em vós para reclamar — basta-me mencioná-lo, tenho a certeza — é que, talvez, faleis um pouco demais pelo nariz.’

O Monge não caiu na armadilha jocosa ao retorquir no mesmo tom.

‘Rir com o Diabo, e não rireis por mais tempo’, diz o provérbio.

Mantendo-se nas suas próprias armas, o homem santo franziu o sobrolho.

‘Sai, Demónio!’ gritou ele. ‘Para o teu reino lá abaixo! Tens assolado a terra durante um mês, causando pragas, furacões e epidemias dos pecados mortais. Não parlamentes mais! Vai-te embora!’

O Demónio sorriu: os cantos da boca subiram até às orelhas, e os seus olhos deslizaram quase até se tornarem um só.

‘Ainda pelo nariz!’ disse ele com tom de censura.

‘Dou-te Cinco Minutos!’ gritou o Monge.

‘Eu esperava um colóquio mais longo’, suspirou o Demónio, abanando a perna esquerda e brincando com a cauda.

‘Um Minuto!’ exclamou o Monge.

‘Verdadeiramente assim!’ disse o Demónio. ‘Conheço o velho Tempo e os seus hábitos melhor do que vós realmente podeis. Encontramo-nos todos os sábados à noite e comunicamos as nossas melhores piadas. Mantenho um livro delas Lá Embaixo!’

E como se tivesse razões para se lembrar do pavimento dos seus Salões, ele pôs-se em bicos de pés e chicoteou as pernas.

‘Dois Minutos!’

O Demónio acenou em perfeita aquiescência e continuou:

‘Compreendemo-nos um ao outro, ele e eu. Todos os Antigos o fazem. Enquanto ele durar, eu durarei. O que me surpreende é que vós e eu não possamos concordar, tão semelhantes como somos em temperamento, e jogando ambos pelas probabilidades remotas. O meu fracasso é, talvez, uma paixão demasiado grande pelo desporto, ah! Bem, é uma pena que não tenteis viver pelo princípio benevolente. Sou, de facto, gentil para com aqueles que se compadecem da minha condição. Dou-lhes tudo o que querem, ah! Hem! Tente não acreditar em mim agora, ah! Oh!... Não podeis? O que são olhos? Persuadi-vos de que estais a sonhar. Podeis fazer qualquer coisa com uma mente como a vossa, Padre Gregory! E considerai o luxo de me tirar do caminho tão facilmente, como muitos fazem. É a minha melhor sugestão, ah! Geralmente eu próprio dou-lhes um empurrão com a ideia capital — Estais acima de subornos? Eu ia observar...’

‘Três!’

‘Observar que, se vos importais com honras mundanas, posso sufocar-vos com esse tipo de coisas. Várias das vossas pessoas de primeira categoria fizeram um pacto comigo quando estavam no nevoeiro e devem-me uma ninharia. Patronato, chamam-lhe. Eu pesco os altos e os baixos. O demasiado-pouco e o demasiado-muito servem-me melhor do que Belzebu. Um estômago fraco é certamente mais carnalmente virtuoso do que um cheio. Consequentemente, o meu reino está a tornar-se demasiado respeitável. Todos eles têm títulos e opõem-se a serem convidados a mexer no lume sem — Honorável-e-com-Excedente-Brilho-Radiante Baronesa Esta! Admiravelmente-Benigna-de-Olhar-Baixo Alteza Aquela! Interrompe o negócio, especialmente quando tendes de lhes pedir que se fritem, de acordo com as regras... Gostaria de Mainz e do Rheingau?... Não vos importais com a Beleza — Puella, Puellae? Tenho muitas delas, também, lá abaixo. As Belezas Históricas aquecidas num instante. As modernas tornadas famosas entre a manhã e a noite — a Fama é o molho da Beleza. Ou não — eh?’

‘Quatro!’

‘Não tão depressa, se faz favor. Quereis-me fora daqui. Agora, onde está a vossa caridade? Pedis-me para estar sempre a revolver aqueles pobres diabos lá por baixo? Enquanto estou aqui, eles têm um descanso. Não podem achar-vos gentil, Padre Gregory! Quanto ao mal, vedes, não sou mais agradável por estar face a face convosco — embora algumas belas damas se afeiçoem monstruosamente à minha pessoa. O segredo é a quantidade de conversa fiada que consigo comandar: isso faz com que se esqueçam do meu cheiro, que é, confesso, abominável, desagradável para mim mesmo e a minha pior maldição. O vosso tipo, Padre Gregory, é um tanto desagradável nesse aspeto — se me é permitido julgar pelo vosso Legado aqui. Bem, tentai conversa fiada. Elas apaixonar-se-iam desesperadamente por doninhas e gambás se estes fossem dotados de conversa fiada. Ora, elas já se apaixonaram por monges antes! Se por gambás, por que não por monges? E ainda...’

‘Cinco!’

Tendo rugido solenemente este número tremendo, o homem santo levantou os braços para começar o combate.

Farina sentiu os seus nervos picarem de admiração pelo guerreiro fantasmagórico a desafiar o Segundo Poder da Criação naquele topo de montanha solitário. Ele esperava, e estremeceu ao pensar na luta mais terrível até então registada entre as que tiveram lugar entre heróis e os cães do mal: mas o seu espanto foi grande ao ouvir o Demónio, enquanto o Sino estava no ar e o Livro erguido, recuar, gritando: ‘Detém-te!’

‘Eu rendo-me’, disse ele com amargura. ‘Quais os termos?’

‘O afastamento instantâneo de ti da face da terra.’

‘Bom! — Agora’, disse o Demónio, ‘supusestes que eu seria apanhado numa luta? Sem dúvida desejais tornar-vos um santo e ter toda a gente a falar da minha última derrota... Quadros, poemas, procissões, com o Diabo por baixo de tudo! Não. Sois mais do que um adversário para mim.’

‘Silêncio, Escuridão!’ trovejou o Monge, ‘e não penses em vencer o teu vencedor com lisonjas. Vai-te embora!’

E novamente ele ergueu-se na sua ira.

O Demónio puxou a cauda entre as pernas e lançou a extremidade bifurcada, carnuda e trémula por cima do ombro. Ele então acenou alegremente, apontou os pés e afastou-se com passos delicados, dizendo: ‘Espero que nos voltemos a encontrar.’

Sobre isso, ele disparou as suas asas, que eram como as barbatanas do peixe-draco, afiadas em pontas venenosas.

‘Comandos para o vosso povo lá abaixo?’ inquiriu ele, olhando de soslaio com o queixo torto. ‘Rufias desesperados alguns desses de cogula. Estais certos em não os reconhecer.’

Farina contemplou o homem santo sem disposição para deixar o Inimigo interferir mais com ele.

O Demónio foi influenciado por uma reflexão semelhante; pois, dizendo: ‘Colónia é a cidade que a vossa Santidade habita, penso eu?’, ele disparou como um foguete sobre a Renânia, atingindo toda a extensão do rio, e os seus cumes de castelos de barba áspera, saliências de ardósia, fendas de silvas, encostas de vinhas e vales assombrados, com um clarão de enxofre. Frankfurt e o distante Meno viram-no e coraram. A antiga Trier e o Mosela; Heidelberg e o Neckar; Limberg e o Lahn, correram culpados dele. E a artéria veloz destas veias brilhantes, o Reno, desde o seu berço de neve até ao seu fim salgado, cintilou horrores estígios enquanto o Cometa Infernal, saltando sobre Bona, cintilou um minuto ígneo ao longo da face da corrente, e desapareceu, deixando uma costura de chama esfarrapada traçada nos céus da meia-noite.

Farina respirou fundo através dos dentes.

‘O último dele foi terrível’, disse ele, aproximando-se de onde o Monge se ajoelhava e segurava o seu breviário, ‘mas foi vencido facilmente.’

‘Facilmente?’ exclamou o homem santo, ofegante de satisfação: ‘tu, fracote! cabe a ti medir dificuldades ou estimar poderes? Facilmente? tu, mundano! e é assim que os grandes feitos são julgados quando o perigo passa! E o que sou eu senão o humilde instrumento que provocou esta maravilhosa conquista! a pobre ferramenta deste triunfo espantoso! Dirá a espada: Esta é a batalha que venci! Ali o inimigo que derrubei! Curvai-vos perante mim, ó senhores da terra e adoradores de atos poderosos? Não! Antes, a espada é honrada na mão do herói e, se não quebrar, é considerada digna de confiança. Isto, então, este pouco eu posso reivindicar: que fui digno de confiança! Digno de confiança num encontro heroico! Digno de confiança numa batalha com o terror da terra! Oh! mas isto não deve ser dito. Isto é pensar demasiado! Isto é ser mais do que qualquer coisa ainda alcançada pelo homem!’

O santo guerreiro cruzou os braços e curvou suavemente a cabeça.

‘Leva-me às Irmãs’, disse ele. ‘O espírito saiu de mim! Estou fraco, e como uma criança!’

Farina pediu, e obteve, a sua bênção.

‘E com ela os meus agradecimentos!’ disse o Monge. ‘Tu testemunhaste como ele pode ser vencido! Tu contemplaste uma cena que será a glória da Cristandade! Tu presenciaste a desordem da Escuridão perante a voz da Luz! Contudo, não penses muito em mim: considera-me pouco nesta questão! Sou apenas um instrumento! apenas um instrumento! — e novamente, apenas um instrumento!’

Farina puxou os braços do santo combatente sobre os seus ombros e desceu o Drachenfels.

A tempestade era como uma angústia esquecida. Brilhante com esplendor virginal brilhava a lua; e as velhas rochas, acariciadas nos seus raios, ergueram novamente os seus chifres para o céu azul. Toda a folhagem da terra estremeceu como para sacudir um sonho perverso, e arrepiava-se de tempos a tempos, sussurrando sobre velhos medos sossegados e paz presente. O coração do rio acariciava com a imagem da lua nas suas profundezas.

‘Isto é muito para ter conquistado para a terra’, murmurou o Monge. ‘E o que é a vida, ou quem não arriscaria tudo, para arrebatar tal formosura das garras do Demónio, o Arquifoi? Contudo, não eu! não eu! não digas que fui eu quem fez isto!’

Suaves louvores de melodia subiram até eles na fragrância húmida do ar. Era o hino das Irmãs.

‘Que doce!’ murmurou o Monge. ‘Tira-o de mim! para longe com ele!’

Erguendo-se nas costas de Farina, e apoiando os pés nas coxas do jovem, ele gritou em voz alta: ‘Eu ordeno-vos, quem quer que sejais, não canteis este feito perante o imperador! Pelo sopro das vossas narinas; parai! antes de sussurrardes qualquer coisa sobre o combate de São Gregório com Satanás, e a sua vitória, e a maravilha disso, enquanto ele viver; pois ele morreria o humilde monge que é.’

Ele retomou o seu assento, e Farina trouxe-o para o círculo das Irmãs. Aquelas mulheres puras levaram-no e acalmaram-no, lamentando-se e enchendo a noite com tons triunfantes.

Farina ficou de parte.

‘A brisa fala do amanhecer’, disse o Monge; ‘temos de estar em Colónia antes do dia claro.’

Eles montaram a cavalo, e as Irmãs agruparam-se e reverenciaram sob as bênçãos do Monge.

‘Nenhuma palavra sobre isto!’ disse o Monge de forma avisadora. ‘Estamos em silêncio, Padre!’ responderam elas. ‘Rumo a Colónia!’ foi então o seu grito, e ele e Farina voaram dali.

O GAVIÃO LIDER

A manhã estava entre as nuvens cinzentas do leste enquanto cavalgavam sobre o acampamento formado apressadamente para encontrar o Kaiser. Tudo ali era uma confusão. Lutas ferozes por precedência ainda aconteciam nas vizinhanças do terreno da tenda imperial, onde, sob o estandarte da Alemanha, descansavam alguns veteranos da guarda do Kaiser, observando calmamente a confusão. Até à orla da terra cultivada, nada se via além de grupos barulhentos de guerreiros a afirmar as reivindicações superiores dos seus respetivos senhores. Varia e calorosamente disputadas eram estas reivindicações, como testificavam muitos galos vermelhos. Do outro lado daquele ponto onde o campo verde florescia, nem um pé era posto, pois o cuidado do Kaiser pelo agricultor, e o afeto pelas boas colheitas, faziam-se respeitar até no calor daquelas ciumentas rivalidades. Dizia-se dele que ele se teria acampado num pântano, ou instalado em uma catedral, em vez de espezinhar uma folha verde de trigo, ou virar um poste de vinha no império. Daí que a presença do Kaiser Heinrich nunca fosse aclamada como a praga do Egito pelo campesinato, mas bem-vinda como o mês de Maio onde quer que ele fosse.

O Padre Gregory e Farina encontraram-se no centro de um grupo antes de puxarem as rédeas, e um grito surgiu: ‘O bom padre decidirá, e tudo é justo’, seguido por: ‘Acordado! Granizo e tempestade! ele desceu de propósito.’

‘Padre’, disse um, ‘aqui está! Eu digo que vi o próprio Diabo voar do Drachenfels e atirar-se para Colónia. Fritz aqui, e Frankenbauch, viram-no também. Eles jurarão por ele: tal como eu. Trovão do Inferno! juraremos. Aqueles tipos ali hão de querer que foi um clarão de relâmpago, como se eu não o tivesse visto, chifres, cauda e garras, e foi um grande espetáculo, como sou pecador.’

Um choque de vozes, a favor e contra o Diabo, irrompeu sobre esta descrição precisa do espírito Maligno. O Monge afundou o pescoço no peito.

‘Com gosto manteria silêncio sobre isto, meus filhos’, disse ele, com voz suplicante.

‘Falai, Padre’, gritou o primeiro porta-voz, ganhando coragem com os olhares do Monge.

O Padre Gregory pareceu comungar profundamente consigo mesmo. Por fim, levantando a cabeça e murmurando: ‘Tem de ser’, disse em voz alta:

‘Foi verdadeiramente Satanás, ó meus filhos! A ele, esta noite, em combate mortal, encontrei e venci no cume do Drachenfels, perante os olhos deste jovem; e de Satanás eu vos liberto esta noite! um instrumento aqui como em tudo o resto.’

Gritos e um zumbido que se espalhava longe ressoaram no acampamento. Centenas tinham agora visto Satanás a voar do Drachenstein. O Padre Gregory já não podia esperar escapar das multidões importunas que o assediavam por detalhes. O ponto muito contestado agora era a posição exata da cauda de Satanás durante o seu circuito aéreo, antes de descer a Colónia. Chicoteava como a de um leão! Estava empinada, com certeza! Ele meteu-a entre as pernas como um cão de caça! Fez com que ficasse curta como a de um urso pardo! Levou-a ereta como uma lança!

‘Ó meus filhos! terei semeado a dissensão? Não vos dei a paz?’ exclamou o Monge.

Mas eles continuaram a discuti-lo com frenesim crescente.

Farina lançou um olhar sobre o tumulto e viu o seu amigo Guy a acenar seriamente. Ele não teve dificuldade em afastar-se para junto dele, pois os grilhões de todos os olhos estavam apenas no Monge.

O Gavião batia o pé com entusiasmo.

‘Nem um momento a perder, meu rapaz’, disse Guy, agarrando-lhe o braço. ‘Aqui, já tive meia dúzia de lutas por este pedaço de terra. Conheces aquele tipo agachado ali?’

Farina contemplou o Thier à entrada de uma tenda em ruínas. Ele estava a esfregar com pesar uma cabeça partida.

‘Agora’, continuou Guy, ‘montá-lo é o essencial; e depois atrás dos lobos de Werner tão depressa quanto a carne de cavalo nos puder levar. Sem perguntas! Estás comprometido, não estás? E eu, o que sou? Mas isto é vida ou morte, rapaz! Escuta!’

O Gavião sussurrou algo que sugou o sangue das faces de Farina.

‘Olha — qual é o teu nome? Mantém a tua palavra comigo, e terás a tua vingança, e as moedas que prometo, além do interesse do meu senhor por um mestre melhor: mas, despacha-te! não montaremos até estarmos fora da vista da escória infernal com quem te agrupas.’

O Thier levantou-se e cambaleou atrás deles através do acampamento. Não houve dificuldade em montá-lo; os cavalos estavam soltos e a correr pelo campo, ainda não livres dos seus terrores da tempestade da noite anterior.

‘Aqui estamos nós, três bons homens!’ exclamou Guy, quando partiram, e Farina lhe tinha dado apressadamente os pontos principais da sua aventura com o Monge. ‘Três bons homens! Um ajudou a pontapear o diabo: um serviu de aprendiz ao seu membro: e um está pronto para o enfrentar pé a pé em qualquer dia, sendo este último eu mesmo. Não precisamos de mais ninguém, nem que fosse para pescar aquele tesouro de que falas, que está sob o Reno, guardado por não sei quantos vilões astutos. Os cavalos podem ser transportados de barco em Linz, dizes?’

‘Sim, por ali’, resmungou o Thier.

‘Estamos no caminho certo, então!’ disse Guy. ‘Graças a ambos, não durmo há duas noites — nem um segundo, e tenho de o apanhar a caminho — não é a primeira vez.’

O Gavião curvou o corpo e não falou mais. Farina não conseguiu tirar mais uma palavra dele. Pelo domínio que ainda tinha sobre a rédea, o Gavião provou sozinho que era do mundo dos vivos. Schwartz Thier, tornado ou carrancudo ou atordoado pela última cabeça partida que tinha recebido, mantinha os maxilares fechados como se tivessem sido pregados.

Em Linz, os cavalos estavam bem folgados. O Gavião, que tinha estado a ressonar um instante antes, examinou-os atentamente e abanou a sua cabeça calculista.

‘Dá um soco nas costelas desse teu animal’, disse ele a Farina. ‘Ah! nem um metro de fôlego nele. E há o regresso, quando teremos mais para carregar. Bem: este é o dinheiro do meu senhor; mas, pela fé, vai para uma boa causa, e o Mestre Groschen tornará tudo correto, sem dúvida; sem dúvida alguma.’

O Gavião vira alguns animais excelentes nos estábulos do Kaiser’s Krone; mas o estalajadeiro não faria trocas sem um adiantamento de prata. Feito isto, o arranjo foi imediato.

‘Schwartz Thier! — já tenho o teu nome agora’, disse Guy, enquanto atravessavam de barco, ‘tu tens a certeza absoluta de que eles deixaram Colónia com a donzela ontem, não tens?’

‘Ah, deixaram! E ela está no Eck segura o suficiente a esta hora.’

‘E fora do Eck ela sairá esta noite, acredita em mim!’

‘Ou morrerei com ela!’ gritou Farina.

‘Quinze homens no máximo, ele tem, disseste’, continuou Guy.

‘Dois não prestam, cinco fiéis como aço, e o resto indeciso. Pelos céus, um cadeado solto serve-nos; mas dois salvam-nos: para cinco somos um par, atirando o Barão presunçoso para o barulho; o restante vai com a vitória.’

‘Podemos confiar neste tipo?’ sussurrou Farina.

‘Confiar nele!’ rugiu Guy. ‘Ora, eu dei-lhe uma tareia, rapaz; espetei-o e perdoei-lhe. Confiar nele? Confia em mim! Se Werner visse aquele focinho dele a meio quilómetro da sua fortaleza, assava-o vivo.’

Ele baixou a voz: ‘Confiar nele? Não podemos fazer nada sem ele. Tirei-lhe o diabo do corpo logo de manhã. Nenhuma hipótese para a sua Alteza agora. Este Eck de Werner resistiria a um cerco do próprio Kaiser, ouvi dizer. Temos de entrar como doninhas; e sair como pudermos.’

Despedindo a barca de transporte com ordens severas para estarem à espera do meio-dia ao meio-dia, os três saltaram para os seus cavalos frescos.

‘Paramos na primeira aldeia’, disse Guy; ‘temos de abastecer. Como diz o Mestre Groschen: “Nada se faz, Turpin, sem provisões.”’

‘Gavião!’ gritou Farina; ‘tens tempo; diz-me como este negócio foi feito.’

A única resposta foi um ressonar suave, mas decidido, que falava, como uma trombeta voluptuosa, da terra dos sonhos e das suas visões.

Em Sinzig, o Thier colocou a mão na rédea de Guy, com as palavras: ‘Comer aqui’, uma forma de sinal breve, mas eficaz, que despertou o Gavião completamente. O sinal do Trauben recebeu-os. Aqui, salsichas a cheirar a alho, ovos, pão preto e vinho azedo era tudo o que podiam obter. Farina recusou-se a comer e manteve a sua resolução, apesar da repreensão sarcástica de Guy.

‘Escova os animais, então, e dá-lhes água’, disse este último. ‘Fizeste um voto, suponho’, murmurou Guy.

‘É o jeito desses tipos. Nada de encarar as coisas com naturalidade; mas voar alto sempre que há um rasgo no seu céu. O que terá o seu estômago feito para o ofender? Ele vai estar a gritar exatamente quando precisarmos de silêncio. Eu não prestaria a Werner o elogio de ir sem pequeno-almoço por causa dele. Eu não! E tu, Schwartz Thier?’

‘Henker! eu não!’ rosnou o Thier. ‘Ele perderá um mais cedo.’

‘Primeiro arrebata a sua presa, ou ele estará a fazer, Deus nos livre! uma refeição para um Kaiser, o bruto.’

Guy chamou a estalajadeira, pagou a conta e criticou o vinho.

‘Senhor’, disse a estalajadeira, ‘a nossa é apenas uma pobre estalagem, e fazemos o melhor que podemos.’

‘Assim o fazeis’, respondeu o Gavião, suavizado; ‘e eu digo que uma língua civilizada e sorrisos rosados adoçam até o vinho azedo.’

A estalajadeira, uma viúva de verão, corou, e enquanto ele saía da sala, chamou-o de lado.

‘Pensei que fosses um do bando daquele terrível Werner, e eu odeio-o.’

Guy desenganou-a.

‘Ele levou a minha irmã’, continuou ela, ‘e a sua crueldade matou-a. Ele perseguiu-me até durante a vida do meu bom homem. Ontem à noite ele veio aqui a meio da tempestade com uma criatura jovem brilhante como um anjo, e triste...’

‘Ele foi-se, tens a certeza?’ interrompeu Guy.

‘Foi-se! Oh, sim! Assim que a tempestade diminuiu, ele arrastou-a. Oh! a maneira como aquela jovem olhou para mim, e eu sem poder fazer nada por ela.’

‘Ora, que o Senhor te abençoe por uma cristã rosada!’ gritou Guy, e, na sua admiração, passou o braço por ela e selou um beijo sonoro em cada face.

‘Nenhum homem bom defraudado por isso! e que veja o tipo que pense mal disso. Se alguma vez contasse um segredo a uma mulher, contar-te-ia um agora, acredita em mim. Mas nunca o faço, por isso adeus! Nem mais um?’

Tempos apressados mantêm os sentimentos em fermento, e a estalajadeira estava extremamente zangada com Guy e perdoou-o de coração, tudo dentro de um minuto.

— Nem mais um — disse ela, rindo: — mas espere; tenho algo para você.

O Açor hesitou sobre um calcanhar impaciente. Ela estava rapidamente debaixo do seu cotovelo novamente com dois frascos inclinados do seu colo para os braços.

— Aí! Raramente encontro um homem como você; e, quando encontro, gosto de ser lembrada. Este é um vinho verdadeiramente bom, Liebfrauenmilch real, que só dou a clientes escolhidos.

— Bem-vindo seja! — cantou Guy aos olhares matreiros dela; — mas tenho de o pagar.

— Nem um pfennig! — disse a estalajadeira.

— Nem um?

— Nem um! — repetiu ela, com uma batida de pé.

— Noutra moeda, então — disse Guy; e envolvendo-lhe a cintura, que desta vez não recuou, o favorecido Açor registou um pagamento rosado numa boca vermelha muito fresca, recebendo em troca um desconto tão vivo que se sentiu obrigado em consciência a perfazer a soma total uma segunda vez.

— Que homem! — suspirou a estalajadeira, enquanto observava o Açor afastar-se ao longo das margens; — cortês como um cavaleiro, aberto como um escudeiro e gentil como um pajem!

O CANTO DE WERNER

Uma légua atrás de Andernach, e mais dentro do círculo invernal do sol do que Laach, a sua conveniente vizinha monástica, erguia-se o castelo de Werner, o Barão Ladrão. Bem para o Sul, enevoada com a luz da tarde, uma sucessão amarela de dunas estendia-se, expelindo fogo contra o céu azul de um mundo antigo, mas agora morta e estéril de erva. Em redor encontra-se uma planície poeirenta, onde as lâminas verdes da primavera mal espreitam e já ficam sujas de areia e assumem um aspeto envelhecido, de acordo com as colheitas pouco generosas que prometem. A aridez da perspetiva é aliviada de um lado pelos bosques elevados de Laach, através dos quais o sol poente arde vermelho-dourado, e do outro pelo brilho prateado de um estreito riacho sinuoso, orlado de choupos, e visto apenas por uma milha cintilante da sua extensão por todas as colinas sedentas. O Eck, ou Canto, em si, é densamente coberto de madeira, mas de um crescimento atrofiado, e jaz como uma mancha escura na paisagem. Servia, contudo, inteiramente para ocultar o castelo e mascarar cada movimento do cauteloso e terrível mestre. Um olho treinado que avançasse sobre o bosque dificilmente notaria o brilho das torres sobre as folhas mais altas, mas para cada seteira das muralhas jaz exposto todo o circuito da terra. Werner podia governar com um olhar o curso do Reno desde a larga rocha sobre Coblentz até à torre branca de Andernach. Reivindicava essa marcha como o seu direito; mas o Mosela não ficava à distância de uma longa cavalgada, e ele satisfazia a sua sede de rapina principalmente nesse rio, deleitando-se com isso, consequentemente, tanto quanto a sua natureza de ladrão fervia para lá dos limites dos seus privilégios feudais.

Muitas vezes o Barão mantivera a sua posição contra cercos e restrições, proibições e imposições de todo o género. Gabava-se de que nunca houve um cavaleiro num raio de vinte milhas que ele não tivesse derrotado, nem monge do mesmo limite que não estivesse a soldo seu. Esta fanfarronada recebia alguma garantia do seu aumento anual de licença; e a sua astúcia e o seu castelo combinados faziam dele uma praga notável da região, um escândalo para a abadia cuja anuência ele tinha, e uma punição terrível para os agricultores e camponeses mais pobres.

O sol começava a inclinar-se sobre Laach e lançava as sombras das torres da abadia a meio caminho através das águas azuis do lago, quando dois homens com trajes de lavradores emergiram do bosque. Os seus pés mergulhavam pesadamente e as suas cabeças pendiam, enquanto caminhavam ao lado de uma carroça carregada de palha, assobiando uma melodia de estúpida indiferença; mas um ouvinte atento poderia ter ouvido que o veículo pesado carregava uma voz humana a dar-lhes instruções quanto à estrada que deveriam tomar e que tipo de comportamento observar perante certos eventos. A terra estava solitária. Um campónio que passava perguntou se transportavam portagem ou tributo para Werner. Tributo, foram aconselhados a responder, o que o fez encolher os ombros e praguejar enquanto seguia o seu caminho. Ao ouvi-lo, a voz na carroça soltou uma risada sombria. A sua fala seguinte foi com um soldado, que os alcançou e quis saber o que levavam na carroça para Werner. Tributo, responderam, e ganharam o título de "porcos corajosos" pelo seu incómodo.

— Mas de que é feito o prato? — disse o soldado, mexendo na palha com a ponta da sua espada.

— Tributo — veio a resposta.

— Ha! Não frequentaste a escola de Werner — e o soldado desferiu um golpe de espada no mais alto dos dois, enviando um tremor tremendo por todo o seu corpo; mas ele manteve a cabeça no chão e só pareceu trair consciência animal ao encostar o ouvido mais perto da carroça.

— Sangue e tempestade! Vais falar? — gritou o soldado.

— Nunca falo muito; mas se não disseres nada ao Barão — enfiando a mão na palha — aqui está o que é melhor do que falar.

— Bem dito! Eh? Liebfrauenmilch? Ho, ho! uma sangria rara!

Batendo o gargalo do frasco numa roda, o soldado aplicou-o à boca e não cessou de engolir profundamente até que o seu rosto estivesse largo para o céu e a garrafa invertida. Ele então atirou-a para o chão, suspirou e sacudiu-se.

— Notícias raras! O Kaiser chegou: estará em Colónia à noite; mas primeiro tem de ver o Barão, e eu sou o correio com a ordem. Isso é para vos mostrar quão alto ele está na graça do Kaiser. Não pensem em derrubar Werner ainda, nenhum de vocês; atenção, agora!

— Aquele é Blass-Gesell — disse a voz na carroça, enquanto o soldado trotava: acrescentando, "contra nós".

— Faz seis — respondeu o cocheiro.

À vista do Eck, avistaram outro soldado a vir na direção deles. Desta vez o cocheiro foi o primeiro a falar.

— Tributo! Provisões! Pão e vinho para o alto Barão Werner dos seus vassalos de Tonnistein.

— E eu estou de fora! a jejuar como um lobo de inverno — uivou o sujeito.

Ele estava no ato de se dirigir para uma inspeção do conteúdo da carroça, quando um segundo frasco levantado no ar deu uma sopa à sua curiosidade. Este frasco sofreu o destino do anterior.

— Um idiota suábio, não és?

— Sim, desse país — disse o cocheiro. — Talvez o Henker Rothhals esteja com o Barão?

— Para o inferno com ele! Gostaria que ele tivesse o meu trabalho, e eu o dele, de vigiar o pássaro amarelo na sua nova gaiola, até que ela seja tirada esta noite, e depois um copo alegre para o Barão por todos.

O cocheiro desejou-lhe uma viagem afortunada, recomendando-lhe vivamente que contornasse a abadia para oeste e seguisse pelo vale do Ahr, pois havia algo a agitar-se por ali, e resmungando, "Faz cinco outra vez", enquanto punha as rodas em movimento.

— Açor! — disse o seu companheiro visível; — o que dizes agora?

— Digo, abençoada seja aquela viúva!

— Oh! põe-me frente a frente com este maldito Werner rapidamente, meu Deus! — ofegou o jovem.

— Tolo! não é o Werner que queremos — ali está o Thier a falar. Não, não, Schwartz Thier! Confio em ti, sem dúvida; mas o texugo cheira o buraco antes de entrar nele. Somos estranhos e temos permissão para nos enganarmos no caminho.

Deixando a carroça a cargo de Farina, ele abriu caminho através de um denso crescimento de arbustos e mato, e veio agachar-se numa borda precipituosa de rochedo coberto, que comandava uma vista da fortaleza, estendendo-se em redor dela, como se escavada por alguma ação natural, a cerca de um tiro de pedra de distância, e quase ao nível da torre de vigia. A pique de uma bacia circular profunda vestida de madeira, e com o fundo de relva e água borbulhante, erguia-se uma rocha nua manchada de musgo, no cume da qual o castelo se empoleirava firmemente, como um falcão espião. O único meio de acesso era por uma estreita ponte natural de rocha lançada deste pináculo isolado para o continente. Um homem, bem disposto, poderia tê-la mantido contra quarenta.

— O nosso caminho é o melhor — pensou Guy, enquanto meditava em todos os modos de obter entrada. — Cem homens por hora poderiam perder-se a cortar degraus naquela lousa íngreme; e uma vez no topo, só teríamos de ser empurrados para baixo novamente.

Enquanto assim ocupado, ouviu um chamado soado do castelo, e correu de volta para Farina.

— O Thier lidera agora — disse ele, — e quem lidera é capitão. Parece mais fácil sair dali do que entrar. Há uma torre quadrada e uma redonda. Suponho que a donzela esteja na redonda. Agora, rapaz, sem gritar — tu não vens connosco; mas volta para trás pelos cavalos, e tem-nos prontos e frescos naquele prado regado sob o castelo. O caminho para baixo serpenteia facilmente.

— Homem! — gritou Farina, — pelo que me tomas? — vai tu pelos cavalos.

— Não por um tolo — retorquiu Guy, apertando os lábios; — mas agora é a tua vez de provares que és um.

— Contigo, ou sem ti, eu entro naquele castelo!

— Oh! se queres ser servido quente para o banquete do Barão, à vontade.

— Trovão! — rosnou Schwartz Thier, — não se estão a mover?

O Açor chamou Farina de lado.

— Age como te digo, ou vou-me para Colónia.

— Traidor! — murmurou o jovem.

— Jurando isto, que se falharmos, o Barão precisará de um cirurgião mais cedo do que de uma noiva.

— Esse golpe deve ser meu!

O Açor agarrou o músculo do braço de Farina até que o jovem foi forçado a relaxá-lo com dor.

— Poderias enfiar uma faca através de uma parede de madeira de seis polegadas? Duvido que este javali queira um golpe mais duro do que muitos dos melhores homens poderiam dar. Por sangue! obedece, rapaz. Como manteremos aquele sujeito fiel, se ele vir que estamos em desacordo?

— Eu cedo — exclamou Farina com uma descida do peito; — mas se não ouvir nada de ti até à meia-noite — Oh! então não penses que deixarei mais um minuto ao acaso. Adeus! apressa-te! Que o céu te prospere! Ver-la-ás e morrerás sob os seus olhos. Isso pode ser-me negado. O que fiz eu para que me fosse recusado esse último favor?

— Ficaste sem pequeno-almoço e jantar — disse Guy em tons abomináveis.

Um assobio da carroça, seguindo-se ao ruído dos portões do castelo sendo abertos, chamou o Açor, e ele curvou os ombros e caminhou para fazer a sua parte, sem mais uma palavra. Farina olhou para ele e caiu no esconderijo.

A SENHORA DA ÁGUA

— Pássaro dos amantes! Voz da paixão do amor! Rouxinol doce, profundo e de tom desastroso! — canta o antigo minnesinger; — quem, não tendo amado, ao ouvir-te é tocado pela varinha dos mistérios do amor, e anseia por quem não sabe, humilhado pela plenitude do coração; mas quem, ouvindo, já ama, ouve a linguagem que gostaria de falar, mas na qual falha; sente o grande mar sem língua dos seus desejos infinitos agitado para lá do seu peito estreito; é como alguém despido de asas a quem os anjos acenam para as suas casas de prata: e ele inclina-se para ascender a elas, e é zombado pelo seu esforço: então é ele um dos caídos, e dos caídos ele permaneceria, não fosse que as lágrimas o aliviassem, e através das lágrimas fluíssem hastes de joias deixadas cair para ele do céu, preciosas escadas incrustadas com ametista, safira, jaspe misturado, berilo, rosa-rubi, éter do céu corado com o florescer suavizado das Presenças insuportáveis: e eis que as escadas dançam, e tremem, e emboscam as suas pálpebras, e uma segunda vez ele é zombado, aspirando: e após o terceiro desmaio, a Esperança coloca-se diante dele com braços cruzados, e olhos secos das ilusões das lágrimas, dizendo: Tu viste! tu sentiste! a tua força alcançou em ti tão longe! agora nunca morrerei em ti!

— Pois certamente — diz o menestrel, — a Esperança não nasce da terra, ou seria perecível. Conhece-a antes como a descendente daquele abraço com que o amor forte pressiona os céus. Devemos isto à tua música, rouxinol nupcial! E a diferença deste espírito celestial da fantasia sorridente de quem todos se veem mais cedo ou mais tarde abandonados, é a diferença entre o dia pintado com as suas pobres armadilhas ambiciosas, e a noite levantando os seus miríades de círios em redor do trono do eterno, as estrelas proféticas do tempo eterno! E uma morre, e a outra vive; e uma não é lamentada, e a outra caminha em trajes tecidos de pensamento de melancolia divina; os seus ouvidos cheios das pálidas vagas que envolvem esta margem mutável; nos seus olhos uma forma de beleza flutuando vagamente, que ela não alcançará deste lado da água, mas sobre a qual medita para sempre.

— Portanto, continua com as tuas quatro longas notas acarinhadas, que são como o próprio limite onde a exultação e a angústia derretem, encontram-se e são afiadas para um único êxtase, pássaro divisor da morte! Enche os bosques com riso e soluço apaixonados, doce capelão do serviço de casamento de uma alma com o céu! Derrama o teu vinho sagrado de música sobre a escuridão de pés suaves, até que, como um sacerdote do templo mais íntimo, esteja bêbado de belas inteligências!

Assim os antigos menestréis e minnesingers.

Forte e cheio cantaram os rouxinóis naquela noite em que Farina montou guarda junto ao castelo culpado que sepultava a sua amada viva. O castelo parecia ele próprio uma sombra mais densa entre as sombras projetadas pela lua de rocha e árvore. O prado estendia-se como um pátio verde ao pé do castelo. Era de relva esmeralda profunda e exuberante, suavemente misturada com cinzento à luz da lua, e parecendo jaspe. Onde as sombras caíam mais espessas, havia ainda uma névoa de cor. Por toda a parte corria um riacho, e balbuciava consigo mesmo. O açafrão da primavera erguia a cabeça nas ervas húmidas do meio do prado, regozijado com a frescura. As alturas acidentadas pareciam abraçar este único ponto inocente como o seu único tesouro de jardim; e uma margem de aveleiras escondia-o do castelo com o braço de um amante.

— A lua dir-me-á — meditava Farina; — a lua sinalizar-me-á a hora! Quando a lua pairar sobre a torre redonda, saberei que é hora de atacar.

O canto dos rouxinóis era uma pulsação cheia e incessante.

Ia como o clamor de um coração de ramo em ramo. As quatro longas notas, e a curta quinta que conduz àquele jorro apressado de música, gorgolejante e rico de paixão, vinham espessas e constantes debaixo das folhas trémulas.

A princípio, Farina estivera surdo a elas. O seu coração estava na masmorra com Margarita, ou com o Açor nos seus perigos, formando mil planos desesperados, entre os arados em brasa da ação desesperada. Finalmente, sem a sensação de ser cortejado, foi conquistado. A ternura do seu amor então dominou-o.

— Deus não permitirá que aquela bela cabeça sofra dano! — pensou ele, e com o pensamento um peso caiu do seu peito.

Ele percorria os prados e acariciava os três corcéis que pastavam. Involuntariamente, a sua visão cresceu sobre a lua. Ela movia-se tão lentamente. Parecia não se mover de todo. Uma pequena asa de vapor voou em direção a ela; embranqueceu, passou, e a lua estava mais lenta do que antes. Oh! estariam os céus a atrasar a sua marcha para observar esta iniquidade? Repetidamente ele gritou: "Paciência, ainda não é hora!" Ele atirou-se à relva. No momento seguinte, escalou as alturas e espreitava a massa de escuridão que enfrentava o céu. Erguia tal cabeça de ameaça blindada, que o seu coração foi tomado por um tremor, como se tivesse sido atingido. Atrás jaziam espalhadas algumas pequenas estrelas de brilho fraco em campos de safira, e uma mancha de luz amarela estava numa brecha de uma parede.

Ele desceu. O que estava a fazer o Açor? Teria sido traído? Seria certamente agora a hora? Não; a lua ainda não tinha atingido a face do castelo. Ele abriu caminho através da margem de aveleiras entre traças noturnas fugazes, e olhou para cima para medir a distância da lua. Ao fazê-lo, um primeiro toque de prata caiu sobre o sílex grisalho.

— Oh, jovem pássaro do céu nas garras daquele Diabo!

Sons como o ladrar de cães de javali alarmaram-no. Eles ganiram até ao silêncio.

Ele recuou. O prado respirava paz, e cada vez mais os rouxinóis avolumavam as suas notas. Como num círculo encantado de canto palpitante, ele sucumbiu ao langor. O riacho rolava ao lado dele fresco como um bebé, brincando com o luar. Ele inclinou-se sobre ele e, três vezes caprichosamente, mergulhou a mão na clara translucidez.

Seria o seu próprio rosto ali refletido?

Farina inclinou-se perto sobre um remoinho da água. Ele girava com um tumulto estranho, quebrando em linhas e luzes um rosto que não era o seu, nem o da lua; nem era um reflexo. A agitação aumentou. Agora uma grinalda de bolhas coroou a poça, e um puro lírio de água, mas maior, subiu vacilante.

Ele saltou de lado; e sob ele, uma cabeça brilhante, guarnecida com rosas cravejadas, apareceu. Figura de mulher mais bela Farina não tinha visto. O seu rosto tinha o branco lustroso do luar, e toda a sua forma ondulava num vestido de branco-prateado cintilante, maravilhoso de ver. A Senhora da Água sorriu para ele, e transbordava com ondulações e covinhas de beleza límpida. Então, enquanto ele recuava na relva do prado, ela nadou na sua direção e, pegando na sua mão, pressionou-a contra si. Após o toque dela, o jovem já não temia. Ela curvou o dedo e acenou-lhe para continuar. Tudo o que ela fazia era feito com fluidez. O jovem era uma sombra no seu rastro de prata enquanto ela passava como uma onda inofensiva sobre os açafrões fechados; mas os açafrões tremiam e inchavam as suas gargantas de roxo riscado e prata como se fossem goles deliciosos e raros de um vinho. Hálito de violeta, e cardamine, e lírio-do-vale, misturavam-se e esvoaçavam à volta dela. Farina era como um homem a trabalhar o propósito do dia num sonho. Ele podia ver o coração nela translúcido, pendurado como um rubi frio e sujo. Pela pureza da sua natureza, ele sentiu que tal presença só poderia ter vindo para ajudar. Poderia ser a fada guardiã de Margarita!

Passaram a margem de aveleiras e contornaram o rochedo do castelo, banhado pelo riacho e, sob a lua que avançava, de pé num anel de prata barulhenta. O jovem, com os seus olhos ferventes, notou as antigas manchas de tempo e cicatrizes de longo desafio a ganharem cor. Esse mistério de maldade que as torres tinham usado no crepúsculo dissolveu-se, e ele já não suportava a sensação quase envergonhada de pequenez concorrente que o fazia pensar que não havia nada a fazer, exceto morrer, combatendo sozinho tal poder massivo. A lua brilhava calmamente superior, como a destreza dos cavaleiros donzelas; e agora o franzir severo das paredes atingiu a resolução no seu espírito, e fortaleceu-o com o ódio e o desprezo que a verdadeira coragem sente quando confrontada com a fraude e a vilania.

Num bloco caído de lousa, almofadado com rico musgo castanho e manchas de ferrugem, a Senhora da Água sentou-se e apontou a Farina o caminho da lua em direção à torre redonda. Ela não falou, e se os seus lábios se abriram, colocou o seu dedo frio através deles. Então começou a cantarolar uma suave e doce monotonia de canção, vaga e descuidada, muito encantadora de ouvir. Farina não apanhou palavras, nem se a canção era de dias em pó ou em flor, mas a sua mente floresceu com lendas e esplendores tristes de história, enquanto ela cantava no bloco de lousa sob sombras salpicadas junto à água.

Ele tinha ouvido por muito tempo em transe, quando a Senhora da Água silenciou e estendeu um dedo indicador fino para a lua. Ele estava como um ponto sobre a torre redonda. Farina levantou-se com pressa. Ela não o deixou pedir a sua ajuda, mas pegou na sua mão e conduziu-o pela subida íngreme. A meio caminho do castelo, ela descansou. Ali, escondida por tufos de silvas, ela revelou o portal baixo de uma passagem secreta e empurrou-a sem esforço. Ela pausou na entrada, e ele podia vê-la a tremer, parecendo crescer mais alta, até que ela era como uma fonte a brilhar na luz fria. Então ela caiu, como cai um jato moribundo, e encolheu-se para dentro da passagem.

A escuridão, densa com orvalhos da terra, oprimia-lhe os sentidos. Sentia as paredes húmidas a roçarem-lhe de perto. Nem a mais ténue lâmpada, nem qualquer som guiava o caminho, mas a dama seguia como quem sabia por onde ia. Passando por uma masmorra de abóbada baixa, subiram escadas talhadas na rocha e chegaram a uma porta que, obediente ao seu toque, revelou uma câmara fracamente envolta por uma solitária barra de luar. Farina percebeu que estavam acima dos alicerces do castelo. As paredes luziam, pálidas, com armaduras de cavaleiro, golas de malha abertas para cabeças, couraças de aço azul, alabardas e machados de mão, grevas, gládios, lanças de javali e esporas polidas fixas em calcanheiras. Ele agarrou um falcão que pendia isolado, mas a dama deteve-lhe o braço e conduziu-o a outra escadaria de pedra que terminava num tipo de corredor. Ruídos de risadas e de um banquete faustoso assaltaram-no nesse ponto. A Dama da Água inclinou a cabeça, como se notasse uma voz familiar; e então arrastou-o para uma abertura em arco.

Farina contemplou uma cena que, a princípio, o deslumbrou, mas, à medida que ganhava forma, o abateu com consternação. Lá em baixo, ao nível da câmara que deixara, um salão de banquetes tosco brilhava, sob a luz de uma dúzia de archotes, com carne de javali fumegante, carne de veado, jarros de pedra e copos de corno. À cabeceira desta mesa sentava-se Werner, escarlate devido ao banquete furioso, e, à sua direita, Margarita, lívida como uma bela mártir atada à fogueira. Os lacaios de Werner ocupavam toda a extensão do salão, acompanhando em coro os discursos do Barão e bebendo à sua própria saúde quando não havia motivo para outra. Farina viu a sua amada sozinha. Estava vestida como quando se separara dela pela última vez. O querido camafeu repousava no seu peito, mas não arfava orgulhosamente como antigamente. Os seus ombros estavam caídos para a frente, contraindo-lhe o peito enquanto arfava. Teria um ar humilhado, não fosse a frieza marmórea dos seus olhos. Estavam fixos como olhos que veem o caminho da morte através de todos os objetos terrenos.

— Agora, cães! — gritou o Barão. — A saúde da noite! E encham os pulmões, pois não quero ouvir guinchos de gato quando a noiva de Werner é o brinde. Com ou sem a licença de monge, ela é minha. Sim, minha bela! Será tudo acertado pela manhã, nem que eu arraste todos os ratos de Laach até aqui pelo nariz. Trovão! Que não haja desrespeito à noiva de Werner por parte de Papa ou abade. Agora, cantem! Ou esperem! Estes tipos hão de bebê-la primeiro.

Ele esticou-se e atirou um copo de vinho para a direita e para a esquerda atrás de si, e o desespero de Farina enrijeceu-lhe os membros ao reconhecer o Goshawk e Schwartz Thier atados ao chão. As suas barbas já estavam húmidas de libações anteriores feitas da mesma forma, e receberam aquilo com uma imobilidade taciturna; mas Farina julgou observar um rápido vislumbre de encorajamento disparar por baixo das sobrancelhas arqueadas do Goshawk, enquanto Margarita voltava momentaneamente a cabeça na sua direção.

— Lambam os beiços, seus animais, e não digam que Werner não oferece boa comida aos vermes na sua noite de núpcias. Agora — continuou o Barão, tornando-se mais rouco à medida que falava mais alto: — Curto e sonoro, meus cachorros do diabo: Werner e a sua Noiva! E que ela em breve vos dê um jovem barão para vos manter em melhor ordem do que eu posso, como, se ela cumprir o seu dever, fará.

O Barão levantou-se e ergueu o seu braço enorme para liderar o brinde.

— Werner e a sua Noiva!

Nenhuma voz o seguiu. Houve uma súbita indicação de que o apelo seria ecoado; mas quebrou-se e terminou em tons arrastados, como se a porta do salão se tivesse fechado sobre a resposta.

— O que é isto? — rugiu o Barão, com aquela voz de fera enjaulada que Margarita recordava ter ouvido na Praça da Catedral.

Ninguém respondeu.

— Falem! Ou apodrecerão a uma braça dentro da rocha, malditos!

— Herr Baron! — disse Henker Rothhals, de forma impressionante; — a questão é que há algo profano entre nós.

A taça do Barão voou contra a sua cabeça antes mesmo de as palavras serem proferidas.

— Farei uma coisa profana daquele que o disser — e Werner encarou-os, um por um.

— Então eu digo-o, Herr Baron! — prosseguiu Henker Rothhals, limpando o rosto: — O Diabo voltou-se finalmente contra vós. Olhem lá para cima... Ah, já desapareceu; mas onde está o homem sentado deste lado que não o viu?

O Barão deu um salto e ficou de pé sobre a mesa.

— Agora! Algum patife aqui tem o prazer de o dizer?

Algo na curvatura cruel da sua mandíbula ameaçadora silenciou muitos no ato de confirmar a afirmação.

— Saia, Henker Rothhals!

Rothhals deslizou uma faca de caça pela manga e recuou da mesa.

— Besta! — rugiu o Barão. — Eu disse que não derramaria sangue esta noite. Poupei um traidor e um inimigo...

— Olhem outra vez! — disse Rothhals; — algum tipo dirá que não viu nada lá?

Enquanto todas as cabeças, incluindo a de Werner, se dirigiam para a abertura que os observava, Rothhals atirou a sua faca ao Goshawk, sem ser notado.

Desta vez, vieram respostas ao seu desafio, mas não em confirmação. O Barão falou com uma gentileza ofegante.

— Então brincam comigo? Sou perigoso para esse jogo. Lembram-se de Blass-Gesell? Fiz dele uma besta melhor ao enviá-lo a três quartos do caminho para o inferno para julgamento. — A bramar: — Toma isto! — descarregou uma lâmina larga, até então escondida na sua mão direita, diretamente contra Rothhals. Fixou-se-lhe na bochecha e mandíbula, arrancando-lhe um sopro terrível de dor enquanto caía contra a parede.

— Aí têm uma lição para não me contrariarem, crianças! — disse Werner, caminhando com as suas pernas troncudas de um lado para o outro sobre a mesa que estalava, e inchando a sua monstruosa circunferência de peito e abdómen. — Deixem-no ficar aí um pouco, para mostrar o que acontece quando se contraria Werner! Demónios de fogo! Diante da baronesa, ainda por cima! Algo profano está lá? Algo profano na mandíbula dele, penso eu! Deixem-na ficar espetada! Ele está contra a carne, finalmente, não está? Ensinar-vos-ei a favor de quem ele está! Quem fala?

Todos permaneceram em silêncio. Aqueles homens eram animais dominados por um bruto mais poderoso.

Ele apertou a própria garganta e fez a mesa abanar com um salto, enquanto guinchava, mais do que chamava, uma segunda vez: — Quem falou?

Não teve de perguntar novamente. Nesta pausa, enquanto o Barão encarava a sua vítima, uma canção, cantada tão suavemente que parecia remota, mas da qual cada sílaba era claramente arredondada, encheu-lhe os ouvidos e congelou-o na sua postura colérica.

— O sangue dos barões em gelo tornar-se-á, E o seu castelo cairá em ruína, Quando um verdadeiro amante na água mergulhar três vezes, Que corre à volta de Werner's Eck.

— À volta de Werner's Eck a água corre; As avelãs tremem e agitam-se: As paredes que tais sóis felizes ocultaram, São tomadas pelo terramoto da ruína.

— E treme com a ruína, e treme com pesar, Tu, último da raça de Werner! Os corações dos barões estavam frios ao conhecer O abraço da Dama da Água.

— Pois um pecado foi cometido, e uma vergonha forjada, Que a água foi ocultar: E aqueles que pensaram em anulá-la, Não fizeram mais do que espalhá-la.

— Mantém-te pronto, mantém-te pronto para pagar o preço, E mantém a tua alegria nupcial: Uma mão mergulhou na água três vezes, E a Dama da Água aqui está.

O RESGATE

O Goshawk estava de pé. — Agora, rapariga — disse ele a Margarita, — agora é o momento! — Ele pegou-lhe na mão e conduziu-a até à porta. Schwartz Thier fechou-se atrás dela. Nem um homem no salão interveio. A cabeça de Werner movia-se atrás deles, como um cão de guarda; mas estava mudo. A porta abriu-se e Farina entrou. Trazia um feixe de armas debaixo do braço. A visão familiar libertou os sentidos de Werner do encanto. Ele gritou para bloquearem a passagem dos prisioneiros. Os seus homens estavam alinhados como estátuas no salão. Houve um sobressalto entre eles, como se aquele ruído terrível comunicasse um instinto de obediência, mas nada mais. Olharam uns para os outros e permaneceram quietos.

O Goshawk tinha os olhos postos em Werner. — Recua, rapariga! — disse ele a Margarita. Ela pegou numa espada de Farina e respondeu, com lábios brancos e olhos cintilantes: — Eu sei lutar, Goshawk!

— E saberás, se for preciso; mas deixa isso comigo agora — respondeu Guy.

O seu olhar nunca deixou o Barão. De repente, um grito de aço ecoou. Todos se afastaram e os combatentes ficaram frente a frente em terreno limpo. Farina pegou na mão esquerda de Margarita e colocou-a contra a parede entre o Thier e ele próprio. Os homens de Werner estavam bem contentes por deixar o seu senhor resolver o assunto. As palavras ditas por Henker Rothhals, de que o Diabo o abandonara, pareciam nas suas mentes confirmadas pela canção estranha que todos os presentes podiam jurar ter ouvido com os próprios ouvidos. — Deixem-no arriscar e tentar a sua própria sorte — diziam, e encolhiam os ombros. A batalha era entre Guy, como campeão de Margarita, e Werner.

No julgamento de Schwartz Thier, os dois estavam bem equiparados, e ele avaliou as suas diversas qualidades com base numa experiência rigorosa. — Para algo rápido, o Barão, e para um combate duro, o meu novo companheiro! — O resumo de Farina a favor do Goshawk era: — Um coração mais firme, nervos mais duros e uma boa causa. O combate era geralmente observado com um olhar profissional e poucas orações. Margarita, ali, pedia auxílio apenas ao alto e ajoelhava-se perante a Virgem; mas, até nela, o choque das armas e a terrível seriedade do combate mortal despertaram olhos ansiosos. Ela não tinha andado a brincar com heróis nos seus sonhos. Estava tão pronta para apoiar Siegfried no campo carmesim quanto para o tratar na câmara de seda.

Foi bom que um coração de mulher estivesse lá para marcar a graça e a glória da masculinidade num encontro vertical, pé ante pé. Para os outros, era apenas um cálculo de golpes de sorte. Até Farina, na sua ansiedade por ela, via apenas o brilhar e o escurecer da perspetiva de fuga em cada atitude e em cada golpe que ressoava fortemente. Margarita estava possuída por uma exaltação dolorosa. Aos seus olhos, o Barão bestial tomava agora uma forma e um semblante mais nobres; mas o Goshawk assumia o aspeto soberano dos velhos heróis que, perseguidos ou favorecidos pelo céu, mantinham a sua posição, lembrando-se de que matéria eram feitos e quem os criara.

— Nunca — dizem os antigos escritores, com um fervor honroso pelo seu conhecimento dos elementos que compõem o nosso ser, — nunca este privilégio brilhante do combate justo se afaste de nós, nem a vantagem dele deixe de ser aproveitada! Homem contra homem, ou besta, mantendo isoladamente a sua posição, é um arrebatamento para o peito tão belo como aquele que a Beleza, na sua hora mais suave, proporciona. Pois, se a mulher adquire encanto quando definha, tão certamente o homem adquire-o nestes estados ferozes, quando o aço e o ferro cintilam em oposição, e o seu fôlego é fogo, e os seus lábios brancos com o bloqueio da resolução; todas as suas faculdades atadas a um ponto, e as suas energias vivas como a luz do dia para provarem a sua superioridade, de acordo com as leis e sob a bênção da cavalaria.

— Pois todos — continuam eles, para melhorar a comparação, — podem admirar e deliciar-se com vales de flores sob a cúpula azul da paz; mas é apenas o raro coração elevado que compreende, e é engrandecido por, os esplendores terríveis da tempestade, quando nuvem encontra nuvem em céus negros como o sepulcro, e a Glória se senta como uma chama no elmo da Ruína.

Durante algum tempo, os combatentes exibiram a sua destreza, contentando-se com cortes astutos e golpes de espada, nos quais Werner tirou sangue pela primeira vez com uma varredura aguda ao longo da testa do Goshawk. Guy permitira-lhe manter a sua posição na mesa e continuava a lutar contra o seu rosto e pescoço. Agora, ele recuou o corpo a partir da anca e desferiu um golpe circular contra o joelho de Werner, enviando-o em retirada com um bufo de dor. Antes que o Barão pudesse recuperar a sua posição, Guy estava ao seu nível na mesa.

Werner voltou um uivo de censura para os seus homens. Eles não estavam dispostos a apoiá-lo ainda. Todos eles aprovavam a sua batalha pessoal contra o Destino, e nunca o admiraram tanto nem sentiram tanto o seu poder; mas o assunto era excitante, e eles não eram os pilares para sustentar uma casa em queda.

Werner fechou as duas mãos no seu gládio pesado e caiu sobre Guy com uma fúria mais pesada. Estava a tornar-se digno da pequena apreciação feminina que Margarita fora levada a conceder-lhe. A voz da Dama da Água sussurrava no seu coração que o Barão guerreava contra o seu destino, e que isso enobrece todas as almas vivas.

Descobertos, os combatentes engajaram-se, e o elmo era o principal ponto de ataque. Não era possível qualquer desvio de golpes para nenhum deles: aparar ou levar; um passo em falso teria garantido a derrota. Isto também induziu cautela. Ouviu-se muitas vezes um duplo bater de pés, à medida que cada um tinha de recuar por sua vez.

— Não tanto na cabeça, ele aguenta pancada lá a noite toda — disse Henker Rothhals num intervalo de respiração. Os golpes tinham sido trocados de forma bastante equilibrada, mas a cabeça do Barão parecia certamente a menos vulnerável, enquanto Guy exibia várias mossas que sangravam livremente. No entanto, ele parecia, no olhar e no porte, tão fresco como quando começaram, e a arfada calma e regular do seu peito contrastava com os ofegos rápidos de Werner. O seu sorriso, também, renovado cada vez que o Barão parava para respirar, dava ânimo a Margarita. Não era um sorriso de escárnio, mas de total confiança, e afetava ainda mais o seu adversário. À medida que Werner atacava novamente, e a escolha era-lhe sempre deixada, cada expressão do rosto do Goshawk passava para a luz total nos seus olhos largos.

O estilo do Barão era uma fúria imprudente. Não havia nada a estudar nele. Guy tornou-se o principal objeto de especulação. Ele estava evidentemente a tentar exaurir o seu homem.

Ele atacava violentamente, pensavam alguns. Outros julgavam que ele era um batedor aleatório e que não tinha nenhum ponto mortal como objetivo. A opinião de Schwartz Thier era frequentemente manifestada. — Golpe demasiado redondo... cai sobre ele! Corta, não faties!

Guy persistia à sua maneira. Segundo Schwartz Thier, ele atraiu com a sua obstinação o golpe que o atingiu no ombro esquerdo e quase o partiu. Foi um golpe pesado, seguido por um baque surdo. O gume da espada desviou-se na sua omoplata, ou ele teria ficado incapacitado. Mas o triunfo de Werner foi curto e ele não teve tempo de forçar o sucesso. Um dos golpes descendentes do Goshawk quase decepou o seu pulso direito e o sangue jorrou pela mesa. Ele ofegou e pareceu sucumbir, mas ainda se mantinha firme, embora com força enfraquecida. Guy atacou agora. Mantendo os seus golpes redondos, habituou Werner a proteger o corpo e manteve-se tão ativo para a direita e para a esquerda que Werner ficou confuso, perdeu a cautela e cedeu terreno. De repente, o gládio do Goshawk brilhou no ar e cortou diretamente a cabeça de Werner. Foi um golpe tão sagaz contra uma defesa mal formada que o Barão caiu sem uma palavra mesmo no rebordo da mesa, e lá ficou, agarrando-se fracamente com os dedos.

— Quem bloqueia o caminho agora? — gritou Guy.

Ninguém aceitou o desafio. O sucesso vestiu-o de terrores e deu-lhe um tamanho gigante.

— Então, fiquem bem, meus homens alegres todos — disse Guy. — Não guardem rancor por isto. Um pouco de tratamento curará o Barão audaz.

Ele caminhou de forma jovial até à borda da mesa e estendeu o dedo para que Margarita o seguisse. Ela deu um passo em frente. Os homens juntaram as barbas, resmungando. Ela não conseguia avançar. Farina dobrou o cotovelo e apresentou a ponta da espada. Três dos rufiões contestaram agora o caminho com aço nu. Margarita olhou para o Goshawk. Ele sorria, calmamente curioso, enquanto se inclinava sobre a sua espada e lhe dava um aceno de encorajamento. Ela deu outro passo em desafio. Um tipo esticou a mão para a deter. Todo o seu orgulho virginal levantou-se de uma vez. — Que rapariga gloriosa! — murmurou o Goshawk, ao ver o rosto dela brilhar subitamente; ela recuou um passo e desferiu um corte afiado nos nós dos dedos do seu agressor, desafiando-o, ou a qualquer um deles, com olhos duros e brilhantes, maravilhosamente vingativos, a colocar a mão numa virgem pura.

— Tu tens isso, Barenleib! — gritaram os outros, e depois para Margarita: — Olhe, jovem senhora! Nós somos pobres homens e pedimos uma ninharia de resgate, e depois partimos como amigos.

— Nem um ás! — pronunciou o Goshawk do seu posto.

— Dois para um, lembrem-se.

— As probabilidades são nossas — respondeu o Goshawk com confiança.

Alinharam-se em frente à porta do salão. Em vez de aceitar este desafio, Guy caminhou até Werner e colocou o seu inimigo a gemer de comprimento numa postura mais fácil. Depois, levantou Margarita para a mesa e convocou-os com um grito de — Passagem livre! — Eles responderam com um encolher de ombros taciturno e um insulto.

— Schwartz Thier! Rothhals! Farina! Preparem-se e estejam prontos, então — cantou Guy.

Ele mediu o comprimento da sua espada e levantou-a. O Goshawk não subestimara os seus inimigos. Ele sentiu-se tentado a desprezá-los quando notou o alongamento gradual dos seus beiços e globos oculares.

Nenhum deles se moveu. Todos olhavam para ele como se as suas medulas estivessem a congelar de horror.

— O que é isto? — gritou Guy.

Eles sabiam tão pouco quanto ele, mas uma força estava por trás deles, irresistível contra os seus esforços. O carvalho a gemer abriu-se, empurrando-os para a frente, e uma aparição deslizou, suave como a prata pálida da lua. Ela deslizou até ao Barão, colocou os braços em torno dele e cantou para ele. Se a Dama da Água tivesse colocado uma mão de ferro sobre todos aqueles rufiões, não os poderia ter mantido mais presos do que o medo da sua presença. O Goshawk conduziu a sua bela protegida através deles, seguido por Farina, o Thier e Rothhals. Um último vislumbre do salão mostrou-os ainda como esculturas de catedral antiga, a olhar fixamente para a luz branca sobre uma coluna estriada da parede.

A PASSAGEM DO RENO

Baixa entre as dunas morenas atrás da Abadia de Laach, a lua redonda e vermelha caiu. Extensões suaves de amarelo enevoado roubavam através dos vales da Renânia. Os rouxinóis ainda cantavam. Mais e mais perto, a lua veio para os vales silenciosos.

Há um vale atrás do Castelo de Hammerstein, um anel de relvado banhado ao sol, cingido por um riacho de xisto prateado e guardado por quatro colinas de picos altos que descem quatro longas esquinas arborizadas até à base relvada. Aqui, diz-se, os elfos e os homens da terra brincam, dançando em círculos com pés risonhos que engordam o cogumelo. Estariam a cumprir a tradição agora, não fosse o lugar estar ocupado por um grupo robusto de mortais, armados com cajados. Os intrusos estavam sonolentos e jaziam pelas encostas. De vez em quando, dois levantavam-se e ecoavam fortes ecos de carvalho. Novamente, todos estavam calmos como gado a ruminar, e a água branca corria, satisfeita com a tranquilidade.

Pode ser que os elfos tenham preparado travessuras entre eles; pois os golpes de carvalho estavam a tornar-se mais frequentes. Um queixava-se de um pontapé: outro exigia satisfação por um beliscão. — Vai-te embora — arrastava o acusado sonolentamente em ambos os casos, — demasiada cerveja ontem à noite! — Dentro de três minutos, a companhia contava um par de cabeças partidas. O Oriente estava a ganhar ao Ocidente no céu, e o crepúsculo estava a diminuir. Começaram a notar, cada um, a quem tinha dado pauladas. Um ruído de algo em movimento rápido deixou-os alertas. Um corço correu por uma das colinas e disparou pelo relvado. A bela besta ia-se esticando tão rapidamente que era quase indistinguível.

— Sathanas mais uma vez! — murmuraram e juntaram-se.

O nome passou por eles como uma palavra de ordem.

— Não ele desta vez — gritaram os dois recém-chegados, emergindo da folhagem. — Ele está seguro sob Colónia — o que é pior para todos os homens bons que lá vivem! Mas venham! Sigam para o Reno! Há trabalho para nós do outro lado, e trabalho árduo.

— Porquê — responderam vários, — temos o nosso desafio com os rapazes de Leutesdorf e Wied hoje.

— Veem isto? — disse o principal dos outros, apontando para uma rosa branca de marfim esculpida no seu bonete.

— Irmãos! — ele fez a sua voz inchar, — sigam com vontade, pois a Rosa Branca está em perigo!

Imediatamente alinharam e seguiram zelosamente através dos rebentos de arbustos jovens e sobre montes de folhas húmidas e mortas, uma meia hora de luta, quando passaram sob Hammerstein e pararam diante do Reno. O seu líder subiu o rio e, após uma caminhada apressada, parou, desapertou o capuz e despiu-se.

— Agora — disse ele, atando o embrulho às costas, — que me digam o cão que se recusa a seguir o seu líder quando a Rosa Branca está em perigo.

— Viva Dietrich! — gritaram eles. Ele saltou da margem e entrou a vau. Foi logo apoiado pelo resto dos jovens, e todos se lançaram corajosamente em direção ao meio do rio.

Nunca a história ouviu falar de uma Passagem do Reno mais nobre do que esta feita entre Andernach e Hammerstein pelos membros do Clube da Rosa Branca, com o embrulho às costas, para aliviar a Rosa Branca da Alemanha do cativeiro e da vergonha!

Foram levados rio abaixo pela correnteza rápida e chegaram à terra arfantes. Terminada a tarefa de se vestirem, marcharam pela passagem de Tonnistein e beberam profundamente na fonte de águas aprazíveis ali aberta aos viajantes. Ao chegarem às cercanias de Laach, contemplaram dois camponeses amarrados costa com costa contra uma aveleira. Eles os soltaram, mas não conseguiram obter qualquer informação, pois os sujeitos, após um bocejo e uma piscadela, dispararam, calcanhares ao léu, para garantir a liberdade. Às margens do lago, a irmandade avistou um grupo de jovens, a quem saudaram, e foram acolhidos em companhia.

— Onde está Berthold? — perguntou Dietrich.

Ele não estava presente.

— Tanto melhor para a nossa glória, então — disse Dietrich.

Foi aqui seriamente proposto ao capitão se não deveriam parar na abadia e refletir, vendo que um grande trabalho estava por vir.

— Na verdade — disse Dietrich —, morrer de estômago vazio é coisa de pagão, e sangue frio faz uma ferida verde escancarar-se. O Kaiser Conrad deve ser hospitaleiro, e os monges honram os números. Aqui estamos nós, trinta e nove; vamos!

O Oeste estava azul-escuro com a luz declinante. As águas do lago tornavam-se cinzentas com o crepúsculo. A abadia permanecia envolta em sombras. Os jovens já haviam começado a bater às portas do convento quando foram convocados pela voz do Açor montado a cavalo. Para sua confusão, contemplaram a própria Rosa Branca à sua direita. O abatido Dietrich curvou-se diante de sua doce dama.

— Vínhamos em socorro — balbuciou ele.

Uma risada irrompeu do Açor. — Vocês pensaram que a dama estava trancada na despensa fantasmagórica; hein!

Dietrich agarrou sua espada e apertou o cinto.

— O Clube não permite gracejos com a Rosa Branca, Senhor Estranho.

Margarita fez as pazes. — Agradeço a todos vocês, bons amigos. Mas não se desentendam, eu lhes peço, com aqueles que me salvam com risco de suas vidas.

— Nosso serviço é igual — disse o Açor, gesticulando —, apenas acontece de chegarmos antes do Clube, pelo que Farina e eu pedimos sinceramente perdão a toda a irmandade.

— Farina! — exclamou Dietrich. — Então fazemos um prisioneiro em vez de libertar um cativo.

— O que é isso? — disse Guy.

— Tanto assim — respondeu Dietrich. — Ali está um fugitivo de dois senhores: a lei de Colônia e o conquistador de Satanás; e todos os bons cidadãos têm poderes para trazê-lo de volta, vivo ou morto.

— Dietrich! Dietrich! ousa falar assim do homem que me salvou? — gritou Margarita.

Dietrich persistiu sombriamente.

— Então, olhe! — disse a Rosa Branca, corando sob o amanhecer pálido —; ele não, ele não irá com vocês.

Um dos membros do Clube estava prestes a falar com a Rosa Branca — uma violação do privilégio do capitão. Dietrich derrubou-o, sem resistência, ao chão e retomou:

— Tem de ser feito, Beleza de Colônia! o monge, Padre Gregory, está agora sofrendo vergonha e desprezo pela falta desta testemunha fugitiva.

— Basta! Eu vou! — disse Farina.

— Você me deixa? — Margarita lançou um olhar de doce reprovação. O cansaço e a excitação feroz haviam dado uma chama líquida aos seus olhos e uma escuridão cativante ao redor de suas íris que combinava estranhamente com sua juventude viçosa. Suas feições tinham um suave rubor branco. Ela estava menos radiante, mas nunca parecera tão fascinante. Um aspecto de doce languidez humana agarrou-se ao coração do amor e suscitou tumultos.

— É um dever — disse Farina.

— Então vá — ela fez um gesto e estendeu a mão para que ele beijasse. Ele a elevou aos lábios. Isso foi visto por todo o Clube.

Enquanto partiam com Farina, e Guy se preparava para exigir admissão no convento, Dietrich por acaso perguntou como passava a Senhora Lisbeth. Schwartz Thier estava por perto e respondeu, com uma risada, que tinha se esquecido completamente da pequena dama.

— Nós a levamos por engano no seu lugar, senhora! Ela foi uma para gritar! No momento em que foi beijada — muda como um claustro. Nós a beijamos, todos nós, pela diversão. Sem mal algum — sem mal algum! Deveríamos tê-la deixado quando descobrimos que tínhamos a ave velha em vez da jovem, mas contamos com o resgate, veja bem. Ela está em Eck, tagarelando, aposto, como uma noz do ano passado na casca!

— Lisbeth! Lisbeth! pobre Lisbeth; voltaremos para ela. Imediatamente — gritou Margarita.

— Você não — disse Guy.

— Sim! Eu!

— Não! — disse Guy.

— Galante Açor! o melhor dos pássaros, deixe-me ir!

— Sem mim ou Farina, jamais! Vejo que não terei chance com meu senhor agora. Venha, então, venha, bela Irresistível! venham, rapazes. Farina pode viajar de volta sozinho. Vocês terão o renome de resgatar a Senhora Lisbeth.

— Farina! não se esqueça de confortar meu pai — disse Margarita.

Entre a companhia de Margarita e a de Farina, houve pouca disputa na mente do capitão sobre qual escolha fazer. Farina foi autorizado a viajar sozinho para Colônia; e Dietrich, mimado por Margarita e gentilmente provocado por Guy, liderou o Clube das águas de Laach até o castelo do Barão Ladrão.

OS CONTRAGOLPES DE SATHANAS

O monge Gregory caminhava pela estrada principal entre o acampamento imperial e a sofredora Colônia. O sol havia surgido através de distâncias intermináveis de nuvens que o mantinham remoto em uma sucessão de montes que se retiravam e véus mais tênues, reino além de reino, até mostrar-se sem fogo, como um rei fantasma em uma terra fantasma. A cotovia estava no peito da manhã. O camundongo do campo corria ao longo dos sulcos. Orvalhos pendiam vermelhos e cinzentos nos bancos cobertos de ervas e nas árvores da beira da estrada. Por vezes, a narina do bom padre era levantada, e ele batia no peito, recaindo em contemplação dolorosa. Passava algum cidadão de Colônia, a cabeça fantasmagórica afundava no capuz. — Lá vai um corvo negro! — diziam muitos. O monge Gregory ouvia-os e murmurava: — Tu me tens, ó Maligno! tu me tens!

Era meio-dia quando Farina veio descendo do acampamento com barulho.

— Pai — disse ele —, eu te procurei.

— Meu filho! — exclamou o monge Gregory com a mão em sinal de silêncio —, não fizeste bem em me deixar contendendo contra as línguas da dúvida. Não me respondas. A donzela! e que peso ela tinha em tal balança? — Nada mais! Estou punido. Bem diz o antigo provérbio:

“Cuidado com os contragolpes de Sathanas!”

Eu, que pensei tê-lo vencido! A vaidade arruinou-me, neste mundo e no próximo. Sou a vítima do auto-incenso. Ouço os demônios gritando seu coro — “Aqui vem o Monge Gregory, que se autodenominou Conquistador das Trevas!” No acampamento sou desacreditado e um escárnio; na cidade sou cuspido, detestado. Satanás, meu filho, não luta com as garras dianteiras. É com a cauda que ele luta, ó Farina! — Escuta, meu filho! ele entrou em seu reino abaixo através de Colônia, exatamente sob as pedras da Praça da Catedral, e o fedor dele permanece abominavelmente, desafiando as narinas dos santos e dos ímpios igualmente. O Kaiser não pode se aproximar por causa dele; os cidadãos estão ultrajados. Oh! se eu tivesse mantido silêncio com humildade, tê-lo-ia realmente conquistado. Mas ele me deu uma vitória fácil, para me inflar. Não durarei. Agora, resta apenas isto, meu filho; que tu dês testemunho vivo da verdade da minha declaração, assim como eu dou da loucura!

Farina prometeu, diante de todos, proclamar e testemunhar sua vitória em Drachenfels.

— Para que eu não seja classificado como um impostor! — continuou o Monge. — E quão grande deve ser a virtude daqueles que encontram esse espírito sombrio! O valor não serve de nada. Mas se a virtude não estiver em vós, logo estareis inchados até explodir com aquele veneno do diabo, o auto-incenso. Certamente, meu filho, tu és fiel; e por este serviço posso recompensar-te. Segue-me mais uma vez.

Na estrada, encontraram Gottlieb Groschen, apressando-se para o acampamento. O desânimo enrugava a bochecha honesta do velho mercador. Farina puxou as rédeas diante dele.

— Sua filha está segura, digno Mestre Groschen — disse ele.

— Segura? — gritou Gottlieb; — onde ela está, minha Grete?

Farina explicou brevemente. Gottlieb abriu os braços e ia agradecer ao jovem. Ele viu o Padre Gregory e todo o seu corpo contraiu-se de nojo.

— Você está na companhia desse animal pestilento, dessa maldição de Colônia!

— O bom Monge — disse Farina.

— Você está aliado a ele, então, patife! Não espere agradecimentos meus. Colônia, digo eu, está amaldiçoada! Miseráveis intrometidos! não podiam deixar Satanás em paz? Ele não nos feria. Estávamos livres dele. Colônia, digo eu, está amaldiçoada! O inimigo da humanidade é trazido por vocês para ser o inimigo mortal de Colônia.

Dizendo isso, Gottlieb partiu.

— Vês, meu filho — disse o Monge —, eles não raciocinam!

Farina estava abatido. De bom grado, ele, por sua parte, teria deixado a alma do Mal como um errante solto em prol de algum horizonte mais brilhante para sua esperança.

Nenhuma pontada de remorso acompanhou Gottlieb. O Kaiser havia lhe destinado um acampamento e uma guarda de honra para sua família enquanto a imundície enfurecia, e lá Gottlieb deu as boas-vindas a Margarita e à tia Lisbeth no meio-dia após seu encontro com Farina. A Rosa Branca havia descansado em Laach e estava florescendo novamente. Ela e o Açor vinham trotando à frente do Clube pelos bosques de Laach, assustando os cervos com risadas e fazendo a lebre, com as orelhas para trás, disparar por todo o campo. Em vão Dietrich ameaçava Guy com os terrores do Clube; em vão a tia Lisbeth implorava a Margarita que não a deixasse com os lacaios. O alegre casal galopava pelo campo, saltava as valas e pulava os diques, subindo e descendo as margens, alegres como gaviões da manhã, entrando em Andernach a um passo firme; onde descansaram em uma estalagem tão capaz de produzir bom vinho do Reno e do Mosela então como agora. Aqui eles serviram a refeição do meio-dia no jardim para o irado Clube, e os apaziguaram um pouco na chegada com taças do melhor Scharzhofberger. Após uma parada revigorante, três barcos foram alugados. Em sua passagem para o rio, encontraram uma procissão de monges liderada pelo Arcebispo de Andernach, carregando uma pequena figura de Cristo esculpida em abrunheiro e envernizada: dita realizar milagres, e um presente para a boa cidade de dois peregrinos húngaros.

— Estão indo para Colônia? — indagaram os monges.

— Direto rio abaixo! — responderam eles.

— Enviem, então, para cá Gregory, o conquistador das Trevas, para que ele saiba que há gratidão na terra e congratulações por grandes feitos — disseram os monges.

Assim, com genuflexões, os viajantes prosseguiram e entraram nos barcos pela Torre Branca do Arcebispo. Flutuaram sob o Castelo de Hammerstein e Rheineck; Salzig e a confluência do Ahr; Rolandseck e Nonnenwerth; Drachenfels e Bonn; colinas verdes com vinhas jovens; vales ondulando folhagem fresca. Margarita cantava enquanto flutuavam. Cantava baladas antigas que faziam o Açor suspirar pelo lar e afetavam o Clube com um amor delirante pela grandiosa e velha água que os acelerava adiante. A tia Lisbeth não se deixava mover. Apenas ela mantinha a cabeça baixa. Ela não olhava Gottlieb nos olhos enquanto ele a abraçava. Nem a qualquer questionamento ela dava resposta. A partir daquele momento, ela foi caridade para com as mulheres; e a exuberante alegria e familiaridade dos homens para com ela logo tornaram-se gentis e respeitosas. O dragão na tia Lisbeth foi destruído. Ela não se opôs mais ao camafeu de Margarita.

O Açor rapidamente fez as pazes com seu senhor e desfrutou do elogio do Kaiser. Dietrich Schill pensou em desafiá-lo; mas o Clube tinha assuntos mais graves: e este era proferir sentença sobre Berthold Schmidt pelo crime de trair a Rosa Branca nas mãos de Werner. Eles haviam encontrado Berthold em Eck e lá consentiram em deixá-lo permanecer até que o resgate fosse pago pelo seu corpo traidor. Berthold, em sua paixão louca, foi enganado por Werner e, após sua libertação, pelo pagamento do resgate, submeteu-se ao julgamento do Clube, que o condenou a lutar contra todos eles, um por um, e depois suportar o banimento da Renânia; o Açor, por causa de sua irmã, intercedendo perante um tribunal mais severo.

A ENTRADA EM COLÔNIA

Por sete dias o Kaiser Heinrich permaneceu acampado fora de Colônia. Seis vezes em seis dias sucessivos o Kaiser tentou entrar na cidade e foi frustrado.

— Barba de Barbarossa! — disse o Kaiser —, esta é a primeira fortaleza que jamais me resistiu.

Os bispos guerreiros, eleitores, condes palatinos e cavaleiros do Império, todos juravam que não era vergonha não ser páreo para o Demônio.

— Se — disse o reflexivo Kaiser —, temos de sofrer abaixo o que a pobre Colônia está condenada a sofrer agora, vamos, por tudo o que é saboroso, reformar e fazer penitência.

O vento soprando sobre eles vindo de Colônia tornou os cortesãos sérios. Muitos pensaram em suas almas pela primeira vez.

Isto está registrado para a honra do Monge Gregory.

Na sétima manhã, o Kaiser anunciou sua determinação de fazer uma última tentativa.

Era o amanhecer, e um jovem estava diante da tenda do Kaiser, pedindo uma audiência.

Conduzido à presença do Kaiser, o jovem, dizem, conseguiu despertá-lo de sua depressão, pois, corajoso como era, o Kaiser Heinrich temia o desfecho. Imediatamente foi dada a ordem para a cavalaria partir de acordo com o rescrito, retendo o Kaiser Heinrich o jovem à sua mão direita. Mas o jovem havia encontrado ocasião para visitar Gottlieb e Margarita, a cada um dos quais forneceu um frasco, curiosamente moldado e carregado com uma destilação.

Quando a frente da procissão chegou aos portões de Colônia, sintomas de vacilação eram manifestos.

O Kaiser Heinrich ordenou um avanço, a todo custo.

O Conde Palatino Nase, como as velhas crônicas o chamam em seu humor, mas certamente um grande nobre, liderou a vanguarda e avançou pela ponte levadiça.

Hesitação e sinais de horror eram manifestos na assembleia ao redor da pessoa do Kaiser. O Kaiser e o jovem à sua direita estavam alegres. Nem um pouco se curvaram! Vários dos heróicos cavaleiros pediram permissão ao Kaiser para recuar.

— Sigam o Conde Palatino Nase! — dizem que o Kaiser disse.

Grande foi o espanto do povo de Colônia ao ver o Kaiser Heinrich cavalgando com perfeita majestade pela rua principal em direção à Catedral, enquanto à sua direita e esquerda bispos e eleitores caíam incapazes.

O Kaiser avançou até que ao seu lado o jovem cavalgava sozinho.

— Teu nome? — disse o Kaiser.

Ele respondeu: — Um pobre jovem, invencível Kaiser! Farina sou chamado.

— Tua recompensa? — disse o Kaiser.

Ele respondeu: — A mão de uma donzela de Colônia, o mais gracioso Kaiser e mestre!

— Ela é tua! — disse o Kaiser.

O Kaiser Heinrich olhou para trás e, entre uma multidão agarrada aos pomos de suas selas e cambaleando vencida, havia apenas dois eretos, uma donzela e um velho.

— É ela, invencível Kaiser! — continuou Farina, curvando-se profundamente.

— Será arranjado no local — disse o Kaiser.

Uma palavra do Kaiser Heinrich selou a aquiescência de Gottlieb.

Ele disse: — Gracioso Kaiser e mestre! embora tal jovem nunca pudesse, por si só, ter aspirado à posse de uma Groschen, quando o Kaiser intercede por ele, a objeção é como a rocha de Moisés, e as correntes consentem. Verdadeiramente ele prestou um bom serviço a Colônia, e se Margarita, minha filha, puder ser persuadida...

O Kaiser dirigiu-se a ela com suas sobrancelhas flamejantes.

Margarita corou um pronto outono de aquiescência madura e rosada.

— Um casamento registrado lá em cima! — disse o Kaiser, apontando para o alto.

— Eu sou tua — murmurou Margarita, enquanto Farina se aproximava.

— Sele! sele! — disse o Kaiser, de bom humor; — não aceitem consentimento de homem ou donzela sem um selo.

Farina lançou o conteúdo de um frasco ao ar e saudou sua amada nos lábios.

Esta cena ocorreu perto da área carbonizada onde o mais Imundo desceu para seu reino abaixo.

Homens agora percorriam Colônia com frascos, purificando a atmosfera. Tornou-se possível respirar livremente.

— Nós, alemães — disse o Kaiser Heinrich, quando estava novamente cercado por seus cortesãos —, podemos errar se sempre seguirmos o Conde Palatino Nase; mas desta vez fomos bem liderados. Ao que houve risos obsequiosos.

O Conde Palatino alegou uma narina sensível.

— Tu és, temo eu, apenas um mortal tímido — disse o Kaiser.

— Nunca fui encontrado assim no Campo Alemão, Majestade Imperial! — respondeu o Conde Palatino. — Tenho orgulho de que este fedor do Submundo me supere.

— Até isso devemos combater, vês! — exclamou o Kaiser Heinrich; — mas venham todos a um casamento esta noite, e tomem noivas tão logo queiram, todos vocês. Multipliquem-se e nos deem súditos leais em abundância. Conto a prosperidade pelo número de casamentos em meu império!

O Clube da Rosa Branca foi convidado por Gottlieb para o casamento e recebeu o convite com imensa fúria até verem o Kaiser e tal excelente e farta comida alemã presente, quando imediatamente uma batalha surgiu sobre quem deveria honrar mais o evento, e esteve em disputa até o amanhecer: sendo Dietrich Schill o homem, pois ele consumiu salsichas do comprimento de seu braço e vinho suficiente para ter feito flutuar um salmão de St. Goar; o que foi longamente registrado com orgulho em sua família, e agora é desenterrado dentre os antigos e honrosos registros de Colônia.

O Açor foi o padrinho de Farina, e um padrinho muito animado ele foi! A tia Lisbeth sentou-se em um canto, sorrindo fracamente.

— Criança! — disse a pequena dama a Margarita quando se beijaram na despedida —, sua coragem me espanta. Você pensa? Você sabe? Pobre, doce pássaro, entregue de pés e mãos atados!

— Eu o amo! Eu o amo, titia! isso é tudo que sei — disse Margarita: — amo, amo, amo ele!

— O céu a ajude! — exclamou a tia Lisbeth.

— Ore comigo — disse Margarita.

As duas ajoelharam-se ao pé da cama nupcial e fizeram orações muito diferentes, mas com o mesmo fim. Feito isso, a tia Lisbeth ajudou a despir a Rosa Branca e tremeu, contou uma triste anedota nupcial do Castelo, colocou sua mão pequena e enrugada sobre o coração de Margarita e gritou.

— Criança! ele galopa! — ela gritou.

— É a felicidade — disse Margarita, de pé em seus cabelos.

— Que dure apenas! — exclamou a tia Lisbeth.

— Durará, titia! Sou humilde: sou verdadeira; e a bela moça ajuntou o babado de sua camisola.

— Não olhe no espelho — disse Lisbeth; — não esta noite! Olhe, se puder, amanhã.

Ela alisou a Rosa Branca em sua cama, cobriu-a e beijou-a, deixando-a como um botão que espera pela luz do sol.

CONCLUSÃO

A sombra do monge Gregory não foi mais vista em Colônia. Ele entrou no Calendário e ocupa o lugar seguinte ao de São Antônio. Por três séculos sucessivos, as cidades da Renânia vangloriaram-se de suas visitas em carne e osso, e o conquistador das Trevas causou terríveis disputas renanas.

O Infernal de Cauda repetiu seu famoso Contragolpe em Farina. O jovem acordou uma manhã e contemplou armazéns exatamente com o padrão dos seus, exibindo frascos moldados como os seus próprios, e um Farina à direita e à esquerda dele. Em uma semana, eles duplicaram. Um mês quadruplicou-os. Eles aumentaram.

— Fama e Fortuna — refletia Farina —, vêm do homem e do mundo: o Amor vem do céu. Podemos ser dignos e perder a primeira. Não perdemos o amor a menos que sejamos indignos. Querem conhecer o verdadeiro Farina? Procurem por aquele que caminha sob o selo da bem-aventurança; cuja amada é para sempre sua jovem e doce noiva, guiando-o para longe de armadilhas, preparando sua alma com frescor celestial. Não há hipocrisia que possa imitar esse aspecto. Menos ainda, as criaturas dos Malditos! Por isso posso ser conhecido.

Sete anos depois, quando o Açor veio a Colônia para ver velhos amigos e beber um pouco do mais antigo Rudesheimer de Gottlieb, ele foi interceptado por falsos Farinas; e só descobriu o verdadeiro, finalmente, por acaso, nos jardins de música perto do Reno, onde Farina estava sentado, tendo de um lado Margarita e a seus pés três meninos e uma menina, sobre os quais ambos se curvavam amorosamente, como a videira progenitora acariciando seus cachos de uva sob a luz do verão.

O General Ople, com um sorriso de satisfação, comentou que a vida de um homem de bem é, em última análise, um livro aberto para aqueles que possuem a perspicácia de ler as entrelinhas. Lady Camper, por sua vez, sugeriu que a maioria dos livros, uma vez lidos, não merecem uma segunda edição, ao que o General, apanhado de surpresa, concordou com um aceno vigoroso, embora sentisse que a conversa ganhara uma nuance que ele não conseguia perfeitamente acompanhar. O sol brilhava intensamente sobre os jardins de Douro Lodge, e ele sentia-se, pela primeira vez em muito tempo, desafiado a manter a compostura diante de uma inteligência que parecia ter a precisão de um sabre. "A sra. é uma estrategista, Lady Camper", disse ele com um leve toque de galanteria, tentando recuperar o terreno perdido. Ela apenas arqueou a sobrancelha, um gesto que, na mente do General, traduzia-se como uma manobra de flanqueamento. Elizabeth, observando a cena de um canto, sentiu que a paz do seu pequeno refúgio estava prestes a ser perturbada por algo que não era nem totalmente hostil, nem inteiramente benigno. Quando Lady Camper finalmente se retirou, deixando atrás de si o perfume persistente de sândalo e uma sensação de expectação no ar, o General deu um suspiro longo, como um oficial após uma revista inesperada em que, apesar de tudo, o regimento passara no teste.

O General Ople era o herói que defendia uma senhora cujas ares de altivez a faziam ser algo difamada. Ele assegurava a todos que Lady Camper era muito mal compreendida; era uma mulher notabilíssima; era uma senhora das mais afáveis e altamente inteligentes. Construindo seus atributos num clímax esplêndido, declarou que ela era piedosa, caridosa, espirituosa e, verdadeiramente, uma artista extraordinária. Enfatizou particularmente as qualidades artísticas dela, descrevendo seu poder com o pincel, seus esboços em aquarela e, também, algumas caricaturas imensamente inteligentes. Como não falava de mais ninguém, seus amigos ouviram o suficiente sobre Lady Camper, que era tudo, menos uma favorita. Os Pollingtons, os Wilders, os Wardens, os Baerens, os Goslings e outros de seu círculo social falavam de Lady Camper e do General Ople de forma um tanto maliciosa. Eram todos gente da City e admiravam o General, mas lamentavam que ele tivesse se lançado tão abjetamente aos pés de uma senhora tão vermelha de rouge quanto um cartaz de estação ferroviária. O fato de ele não perceber isso mostrava o estado em que se encontrava. A irmã da Sra. Pollington, uma viúva amável, relíquia de um grande armazém da City, chamado Barcop, sentiu-se gelada com a diminuição das atenções dele. Sua desculpa para não aparecer nos chás no jardim era a de que estava compromissado para atender a Lady Camper.

E, a certa altura, o fato de ela não condescender em trocar visitas com o obsequioso General era um tópico fértil em ironia. Mas ela condescendeu. Lady Camper chegou ao portão dele inesperadamente, tocou a campainha e foi deixada entrar como uma visitante comum. Aconteceu que o General estava cuidando do jardim — não a ocupação elegante de podar, ele estava cavando — e, por necessidade, estava sem casaco, e estava suado, empoeirado, apresentável. Da adoração à terra como a mãe das rosas, pode-se passar à presença de uma dama sem purificação; não se pode (ou assim pensava o General) quando se é pego no ato de adorar a mãe das couves. E, embora ele próprio amasse a couve tanto quanto a rosa, e, em seu coração, respeitasse o vegetal ainda mais do que estimava a flor, pois se orgulhava de sua horta, isso não era um segredo para o mundo saber, e ele quase tombou sobre seu próprio eixo quando a notícia da extrema honra que Lady Camper lhe fizera chegou aos seus ouvidos. Meteu os braços apressadamente em sua jaqueta de trabalho, confiando em conseguir escapar para a casa e passar alguns minutos em seu adorno; e com qualquer outra visitante isso poderia ter sido realizado, mas Lady Camper detestava ficar sentada sozinha num aposento. Ela estava no quadrado de gramado quando o General esgueirou-se pelo caminho. Se ela tivesse mantido as costas para ele, ele poderia tê-la contornado como a sombra de um relógio de sol, sem ser detectado. Ela tinha uma audição assustadoramente aguda. Virou-se enquanto ele estava na agonia da hesitação, numa atitude estranha, uma perna em marcha, projetada por um frenético ponta de pé da perna traseira, o momento mais fatal que ela poderia ter escolhido para revelá-lo.

Claro, não havia escolha senão render-se no local.

Ele começou a desperdiçar seu juízo atordoado em profusas desculpas. Lady Camper simplesmente falou do adorável ninho que era o jardim, cheirou as flores, aceitou uma rosa Niel e uma Rohan, uma Cline, uma Falcot e uma La France.

“Uma rosa verdadeiramente bela”, disse ela sobre a última, “apenas cheira a óleo de macassar.”

“Na verdade, nunca me tinha ocorrido, digo, nunca me tinha ocorrido antes”, replicou o General, cheirando-a como se fosse uma pitada de rapé. “Eu dizia, eu sempre...” E ele tacitamente, com o mais absurdo dos sorrisos, pediu permissão para deixar inacabada uma frase que, em si mesma, não era particularmente difícil.

“Eu tenho nariz”, observou Lady Camper.

Como a pessoa de nascimento nobre que era, de acordo com a versão do General Ople sobre a entrevista em sua propriedade, quando ele estava diante dela em seu traje de jardinagem, ela o deixou à vontade, ou esforçou-se para fazê-lo; e se ele sofreu considerável angústia, foi culpa de sua excessiva escrupulosidade quanto ao vestir, à propriedade, à aparência.

Ele conduziu-a, a pedido dela, à horta e ao pequeno pasto, aos estábulos e à cocheira, e depois de volta ao gramado.

“É o lar para um jovem casal”, disse ela.

“Já não sou jovem”, o General curvou-se, com o suspiro peculiar a esta confissão. “Digo, já não sou jovem, mas chamo o lugar de residência de um cavalheiro. Eu dizia, eu...”

“Sim, sim!” Lady Camper sacudiu a cabeça, semicerrando os olhos, com uma contração nas sobrancelhas, como se estivesse com dor.

Ele percebeu uma expressão semelhante sempre que falava de sua residência.

Talvez trouxesse dias mais felizes à lembrança entrar em tal ninho. Talvez tivesse sido um lar desses para um jovem casal quando ela entrara em seu casamento com Sir Scrope Camper, antes de ele herdar seu título e propriedades.

O General não conseguia imaginar o que seria.

Recorreu a outra menção à sua ideia sobre a natureza da residência. Foi quase um paroxismo. Ele determinou não vexar as reminiscências dela novamente; e como essa resolução direcionava sua mente para sua residência, pensando nela como preeminentemente de cavalheiro, sua língua cometeu o erro de repeti-lo, com “apropriada a um cavalheiro” como variação.

Elizabeth estava fora — ele não sabia onde. A empregada informou-lhe que a Srta. Elizabeth estava remando na água.

“Ela está sozinha?” Lady Camper inquiriu dele.

“Imagino que sim”, respondeu o General.

“A pobre criança não tem mãe.”

“Tem sido uma perda triste para ambos, Lady Camper.”

“Sem dúvida. Ela é bonita demais para sair sozinha.”

“Posso confiar nela.”

“Garotas!”

“Ela tem o espírito de um homem.”

“Isso é bom. Ela tem espírito; será testado.”

O General, modestamente, forneceu um ou dois exemplos da coragem dela.

Lady Camper parecia gostar desse tema; ela parecia graciosamente interessada.

“Ainda assim, não deveria permitir que ela saísse sozinha”, disse ela.

“Deposito confiança implícita nela”, disse o General; e Lady Camper desistiu.

Ela propôs caminhar pelas trilhas até a margem do rio, para encontrar Elizabeth voltando.

O General manifestou prontidão, contida pela relutância. Lady Camper dissera-lhe que se opunha a sentar-se sozinha num aposento estranho; depois disso, ele dificilmente poderia deixá-la para subir correndo e trocar de roupa; no entanto, como, trajado como estava, numa jaqueta de trabalho que o alertava para não imaginar como era visto de costas, e mantendo-o constantemente um pouco atrás de Lady Camper, para que ela não fosse incomodada por isso — e ele conhecia o hábito da segunda fila de criticar a primeira — como consentir em enfrentar o mundo exterior em tal estilo, lado a lado com a dama que admirava?

“Vamos”, disse ela; e ele disparou um passo à frente, parecendo alguém que falhou ao disparar.

“Não vem, General?”

Ele avançou mecanicamente.

Nem uma alma os encontrou pelas trilhas, exceto uma criança, a quem Lady Camper deu uma pequena moeda de prata, porque ela era uma pintura.

O ato de caridade afundou no coração do General, como qualquer gesto bonito fará numa cama de cera quente.

Lady Camper surpreendeu-o respondendo aos seus pensamentos. “Não; é para meu próprio prazer.”

Logo ela disse: “Ei-los.”

O General Ople contemplou sua filha à margem do rio no fim da trilha, sob escolta do Sr. Reginald Rolles.

Era outra pintura, e uma agradável. A jovem dama e o jovem cavalheiro usavam chapéus de remo e estavam ambos vestidos de branco, e parados perto ou acabando de virar do outrigger e da leve escada que estavam prestes a deixar aos cuidados de um barqueiro. Elizabeth esticou um dedo com o braço estendido, emitindo direções, que o Sr. Rolles recolheu e formulou ainda mais ao homem, para fins de ênfase; e ele, mais do que Elizabeth, foi o culpado pelo meio sobressalto ao ver as pessoas que se aproximavam.

“Meu sobrinho, deve saber, está destinado a ser um soldado ativo”, disse Lady Camper; “gosto mais desse tipo de soldado.”

O General Ople curvou os ombros diante do elogio pessoal.

Ela retomou. “Seu soldo é uma questão de importância para ele. O senhor está ciente da pequenez do soldo de um subalterno.”

“Eu”, disse o General, “eu digo que sinto meu pobre meio soldo, tendo sido sempre um soldado ativo, muito importante, eu dizia, muito importante para mim!”

“Por que se retirou?”

O interesse dela por ele parecia promissor. Ele respondeu conscienciosamente: “Além dos deveres de General de Brigada, eu não poderia, eu digo que não poderia, ousar aspirar; posso aceitar e executar ordens; recuo diante da responsabilidade!”

“É uma pena”, disse ela, “que o senhor não fosse, como meu sobrinho Reginald, inteiramente dependente de sua profissão.”

Ela deu tamanha ênfase à sua observação que o General, que acabara de expressar uma avaliação muito modesta de suas habilidades, foi incapaz de rejeitar a lisonja de ela presumir que ele era um homem de alguma fortuna. Ele tossiu e disse: “Muito pouca.” O pensamento veio-lhe de que talvez tivesse de fazer uma declaração a ela a seu tempo, e enfatizou: “Muito pouca, na verdade. Suficiente”, assegurou-lhe, “para uma aparência de cavalheiro.”

“Dei-lhe o seu aviso”, foi a réplica inescrutável dela, proferida ao alcance dos ouvidos dos jovens, aos quais, especialmente a Elizabeth, ela foi graciosa. O uniforme de remo da donzela foi elogiado, e seu rubor ensolarado de exercício e exposição.

Lady Camper lamentou que não pudesse abandonar sua sombrinha: “Fico com sardas tão facilmente.”

O General, intrigado com as estranhas palavras dela sobre um aviso, fitou a rosa vermelha artificial na bochecha dela com um ar de profunda abstração.

“Fico com sardas tão facilmente”, ela repetiu, baixando a sombrinha para defender o rosto do escrutínio calculista.

“Eu me queimo e fico morena”, disse Elizabeth.

Lady Camper encostou o botão de uma rosa Falcot na bochecha da jovem, mas provocou fluxos de cor que sobrepujaram a comparação momentânea da pele bronzeada pelo sol com o amarelo escuro rico da rosa em seu aprofundamento interno para o marrom suave.

Reginald esticou a mão para a flor privilegiada, e ela deixou que ele a pegasse; então olhou para o General; mas o General estava olhando, com seu habitual ar de satisfação, para lugar nenhum.

CAPÍTULO III

“Lady Camper não é um enigma comum”, observou o General Ople à sua filha.

Elizabeth tendia a gostar dela, pois, por sugestão dela, o General comprara um par de cavalos, para que ela pudesse cavalgar no parque, acompanhada por seu pai ou pelo pequeno cavalariço. Ainda assim, a grande dama era difícil de ler. Ela testava os recursos da renda dele através de todo tipo de instigação a gastos, aos quais a galanteria dele não podia resistir; ela o encorajava a falar de seus feitos nas armas; ela era amigável, quase afetuosa, e muito generosa nos presentes de frutas, pêssegos, nectarinas, uvas e maravilhas de estufa que ela despejava em sua mesa; mas ela era um enigma em sua evidente insatisfação com ele por algo que ele parecia ter deixado por dizer. E o que poderia ser?

Em sua última entrevista, ela lhe perguntara: “Tem certeza, General, de que não tem mais nada a me dizer?”

E, como ele comentou ao relatar a Elizabeth: “Poder-se-ia realmente ficar tentado a interpretar mal a senhora... Digo, poder-se-ia comprometer-se sem recuperação. Agora, minha querida, o que você acha que ela pretendia?”

Elizabeth estava “ficando morena”, ou corando escuro, como era seu jeito.

Ela respondeu: “Tenho certeza de que o senhor não sabe de nada que a interessaria; nada, a menos que...”

“Bem?” o General a instou.

“Como posso dizer isso, papai?”

“Você realmente não quer dizer...”

“Papai, o que eu poderia querer dizer?”

“Se eu fosse tolo o suficiente!” murmurou ele. “Não, não, sou um velho. Eu dizia, passei da idade da loucura.”

Um dia Elizabeth chegou em casa de seu passeio num estado de espírito pensativo. Ela não tinha, além do que foi mencionado, incitado seu pai a pensar na idade da loucura; mas, voluntariamente ou não, Lady Camper tinha, por um excesso de graciosidade que equivalia a um convite direto; como, por exemplo: “Continuará a reter sua confiança de mim, General?” Ela acrescentou: “Não sou uma pessoa tão difícil.” Esses discursos estimulantes ocorreram na manhã do dia em que Elizabeth sentou-se à mesa dele, após uma longa cavalgada pelo campo, profundamente meditativa.

Uma nota foi entregue ao General Ople, com o pedido de que ele passasse para falar com Lady Camper no decorrer da noite, ou na manhã seguinte. Elizabeth esperou até que ele estivesse com o chapéu posto, então disse: “Papai, em minha cavalgada hoje, encontrei o Sr. Rolles.”

“Fico feliz que tenha tido uma escolta agradável, minha querida.”

“Não pude recusar a companhia dele.”

“Certamente que não. E onde cavalgaram?”

“Para um vale bonito; e lá encontramos...”

“A senhora?”

“Sim.”

“Ela sempre a admira montada.”

“Então o senhor já sabe, papai, caso ela fale sobre isso.”

“E sou obrigado a dizer-lhe, minha filha”, disse o General, “que esta manhã a maneira de Lady Camper comigo foi... se eu fosse um tolo... Digo, esta manhã bati em retirada, mas aparentemente ela... Não vejo saída para isso, supondo que ela...”

“Tenho certeza de que ela o estima, querido papai”, disse Elizabeth. “Você gosta dela, minha querida?” o General inquiriu ansiosamente; “um pouco? — com um pouco de medo dela?”

“Um pouco”, Elizabeth respondeu, “apenas um pouco.”

“Não fique agitada por minha causa.”

“Não, papai; você certamente fará o certo.”

“Mas você está tremendo.”

“Oh! não. Desejo-lhe sucesso.”

O General Ople estava radiante por ser reforçado pelos bons votos de sua filha. Beijou-a para agradecer-lhe. Voltou-se para ela para beijá-la novamente. Ela tinha aliviado muito a dificuldade, pelo menos, de uma posição delicada.

Era exatamente como a natureza imperiosa de Lady Camper convocá-lo à noite para terminar a conversa da manhã, da armadilha visível da qual ele tinha batido uma retirada um tanto precipitada. Mas se sua filha desejava cordialmente que ele tivesse sucesso, e Lady Camper lhe oferecia a coroa dele, ora, então ele só precisava ganhar ânimo, como um bom comandante que tem de passar um rio vadeável na presença do inimigo; uma arrancada, um mergulho, uma ou duas descargas ruidosas, e você está do outro lado, estabelecido na margem oposta. Mas você deve estar certo da vitória, caso contrário, com o rio atrás de si, sua nova posição provavelmente será delicada. Assim, o General entrou na sala de estar de Lady Camper cautelosamente, vigiando a bela inimiga. Ele sabia que era cativante, suas velhas conquistas sussurravam em seus ouvidos, e a recepção dela para com ele quase apontava para um escabelo aos pés dela. Ele poderia ter caído ali imediatamente, se não tivesse se lembrado de uma dica que o Sr. Reginald Rolles dera sobre a surpreendente variabilidade de Lady Camper.

Lady Camper começou.

“General, o senhor fugiu de mim esta manhã. Deixe-me falar. E, a propósito, devo repreendê-lo; não deveria ter deixado para mim. As coisas chegaram agora a um ponto tal que não posso fingir estar cega. Conheço seus sentimentos como pai. A felicidade de sua filha...”

“Minha senhora”, o General interpôs, “tenho a garantia clara dela de que ela, digo, ela está ligada à minha.”

“Deixe-me falar. Jovens dirão qualquer coisa. Bem, eles têm uma certa desculpa para o egoísmo; nós não temos. Estou, em certo grau, ligada ao meu sobrinho; ele é filho de minha irmã.”

“Certamente, minha senhora. Não me colocaria no caminho dele, esteja bem certa disso. Se eu, eu dizia, se não me engano, eu... e ele é, ou tem o potencial para ser um excelente soldado, e é provável que seja um oficial de cavalaria distinto.”

“Ele tem de trilhar seu próprio caminho no mundo, General.”

“Todos os bons soldados têm, minha senhora. E se minha posição não é, após um considerável tempo de serviço, digo, se...”

“Para continuar”, disse Lady Camper: “Nunca gostei de casamentos precoces. Casei-me na adolescência, antes de conhecer os homens. Agora eu os conheço, e agora...”

O General lançou-se à frente: “A honra que nos faz agora: — uma experiência madura vale: — minha querida Lady Camper, eu a admirei: — e sua objeção a casamentos precoces não pode se aplicar a... na verdade, senhora, o vigor, dizem... embora a juventude, é claro... no entanto, os jovens, como observa... e eu tenho, embora talvez minha reputação vá contra isso, eu dizia, eu tenho uma timidez natural com o seu sexo, e sou grisalho, de cabelos brancos, mas felizmente sem uma única enfermidade.”

As sobrancelhas de Lady Camper mostraram um leve desnorteamento. “Estou falando desses jovens, General Ople.”

“Consinto com tudo de antemão, minha querida senhora. Ele deveria ser, digo, o Sr. Rolles deveria ser providenciado.”

“Também ela, General, também Elizabeth.”

“Ela será, ela será, cara senhora. O que tenho, com sua permissão, se... bom céu! Lady Camper, mal sei onde estou. Ela poderia... Não gostaria de perdê-la: a senhora não desejaria isso. Com o tempo, ela... ela tem todas as qualidades de uma boa esposa.”

“Lá, fique aí, e seja inteligível”, disse Lady Camper. “Ela tem todas as qualidades. O dinheiro deveria ser uma delas. Ela tem dinheiro?”

“Oh! minha senhora”, o General exclamou, “não recorreremos à sua bolsa quando chegar a vez dela.”

“Ela tem dez mil libras?”

“Elizabeth? Ela terá, na morte de seu pai... mas quanto à minha renda, é moderada, e suficiente apenas para manter uma aparência de cavalheiro com o devido autorrespeito. Não faço exibição. Digo, não faço exibição. Um casamento rico é a última coisa na terra que eu teria visado. Prefiro a quietude e a aposentadoria. Pessoalmente, quero dizer. Esse é meu gosto pessoal. Mas se a senhora... digo, se acontecesse que a senhora... e, na verdade, não sou alguém que pressiona uma pretensão: mas se ela que me distingue e me honra por acaso fosse rica, tudo o que posso fazer é deixar a riqueza dela à sua disposição, e eu o faço: faço isso sem reservas. Sinto que estou muito confuso, alarmantemente confuso. Sua senhoria merece um superior... confio que não tenha... estou inteiramente à mercê de sua senhoria.”

“O senhor está preparado, se sua filha for pedida em casamento, para estabelecer dez mil libras para ela, General Ople?”

O General recompôs-se. Em seu coração, ele apreciava profundamente a beleza moral da extrema solicitude de Lady Camper em nome do provimento de sua filha; mas ele teria desejado um adiamento dessa e de outras questões materiais pertencentes a um futuro distante até que seu próprio destino estivesse decidido.

Então ele disse: “A generosidade de sua senhoria é muito notável. Digo que é muito notável.”

“Como, meu bom General Ople! como é notável em qualquer grau?” gritou Lady Camper. “Não sou generosa. Não pretendo ser; e certamente não quero que os jovens pensem que sou. Quero ser justa. Presumi que o senhor pretende ser o mesmo. Então, me fará o favor de responder?”

O General sorriu, cativante e intensamente, para mostrar-lhe que a valorizava e que não a deixaria escapar de seus elogios.

“Notável, desta forma, cara senhora, que a senhora pensa no futuro de minha filha mais do que eu. Digo, mais do que o próprio pai dela. Sei que deveria falar com mais calor, sinto-me caloroso. Nunca fui um homem eloquente, e se me toma como um soldado, sou, como sempre estive no serviço, eu dizia, sou Wilson Ople, do grau de General, para ser confiado na execução de ordens; e, senhora, a senhora é Lady Camper, e a senhora me comanda. Não posso ser mais preciso. De fato, é o sentimento da necessidade de manter-me próximo ao assunto que destrói o que eu diria. De fato, sou lamentavelmente incompetente para conduzir meu próprio caso.”

Lady Camper deixou sua cadeira.

“Meu Deus, isso é muito estranho, a menos que eu esteja singularmente em erro”, disse ela.

O General agora adivinhou fracamente que ele poderia estar em erro, da parte dele.

Mas ele tinha queimado seus navios, explodido suas pontes; o retiro não podia ser pensado.

Ele ficou lá, a cabeça curvada e apelando para o perfil dela, como alguém suplicante em perseguição, e muito deferentemente, com uma veemência cortês, implorou primeiro o perdão de sua senhoria por sua presunção, e então a dádiva da mão de sua senhoria.

Quanto à sua linguagem, era a língua do General Ople. Mas seu porte era fino. Se seu cabelo branco cortado como seda falava da idade, sua figura exalava virilidade. Ele era uma pintura, e ela amava pinturas.

Pelo bem dele mesmo, ela implorou que ele parasse. Ela temia ouvir algo sobre ser “um cavalheiro”.

‘Esta é uma ideia nova para mim, meu caro General,’ disse ela. ‘O senhor deve me dar tempo. Pessoas da nossa idade têm de pensar na aptidão. É claro, em certo sentido, estamos ambos livres para fazer o que bem entendermos. Talvez eu possa ser de alguma ajuda ao senhor. Minha preferência é pela independência absoluta. E eu desejava falar de um assunto diferente. Venha ver-me amanhã. Não se magoe se eu decidir que é melhor permanecermos como estamos.’

O General fez uma reverência. Seus esforços, e o tremular da bandeira da bela inimiga, haviam-lhe inspirado um positivo despertar da paixão masculina para conquistar esta fortaleza. Ele disse muito bem: ‘Tenho, então, a felicidade, madame, de ter permissão para esperar até amanhã?’

Ela replicou: ‘Eu não o privaria de um momento de felicidade. Traga bom senso consigo quando vier.’

O General perguntou ansiosamente: ‘Tenho a permissão de sua senhoria para chegar cedo?’

‘Consulte sua felicidade,’ respondeu ela; e se, para o espírito dele, ela parecia retornar ao estado de enigma, foi, no geral, de modo delicioso. Ela lhe devolveu a juventude. Ele contou a Elizabeth naquela noite; ele realmente precisava começar a pensar em casá-la com algum rapaz digno. ‘Embora,’ disse ele, com um ar de embriaguez franca, ‘minha opinião é que os jovens não são tão vivazes quanto os velhos nestes dias, ou eu teria sido sitiado antes de agora.’

A substância exata da entrevista ele se absteve de relatar à sua filha inquisitiva, com uma discrição muito honrosa.

CAPÍTULO IV

Elizabeth veio cavalgando para casa para o café da manhã após um galope ao redor do parque e, passando pelos portões de Lady Camper, recebeu a saudação de sua sombrinha. Lady Camper falou com ela através das grades. Não havia um sinal que indicasse uma mudança ou reviravolta em sua afabilidade de vizinha. Ela comentou, de forma bastante simples, que era hábito de seu sobrinho fazer galopes matinais, e possivelmente Elizabeth poderia tê-lo visto, pois seus aposentos eram próximos; mas ela não exigiu uma resposta. Ela passara uma noite bastante inquieta, disse ela. ‘Como está o General?’

‘Papai deve ter dormido profundamente, pois ele geralmente me chama através da porta quando ouve que estou de pé,’ disse Elizabeth.

Lady Camper assentiu gentilmente e seguiu em frente.

Logo pela manhã, o General Ople estava pronto para a batalha. Suas forças eram a antecipação da vitória, uma higiene cuidadosamente arranjada e um espírito de iniciativa incomum nos domínios da fala; pois ele já não sentia tanto receio de Lady Camper.

‘O senhor dormiu bem?’ indagou ela.

‘Excelentemente, minha senhora.’

‘Sim, sua filha me diz que ela o ouviu, enquanto passava pela sua porta pela manhã para um passeio para encontrar meu sobrinho. O senhor está, presumirei, preparado para os negócios.’

‘Elizabeth?... para encontrar...?’ A impressão do General Ople sobre qualquer coisa estranha à sua emoção era fraca e passou instantaneamente. ‘Preparado! Oh, certamente’; e ele emendou um elogio ao frescor matinal de sua senhoria.

‘Mal pode ser visível,’ respondeu ela; ‘ainda não me pintei.’

‘Sua senhoria procede com sua pintura logo pela manhã?’

‘Rouge. Eu uso rouge.’

‘Ora, veja só! Eu não teria imaginado.’

‘O senhor especulou sobre isso muito abertamente, General. Lembro-me de o senhor tentar ver uma sarda através do rouge; mas a verdade é que sou de uma palidez sobrenatural se não usar rouge, então eu uso. O senhor entende, portanto, que tenho uma compleição artificial. Agora, aos negócios.’

‘Se sua senhoria insiste em chamar isso de negócios. Tenho pouco a oferecer--a mim mesmo!’

‘O senhor tem uma residência de cavalheiro.’

‘É, minha senhora, é. É um bijou.’

‘Ah!’ Lady Camper suspirou desalentada.

‘É um perfeito bijou!’

‘Faça-me o favor, General, de não pronunciar a palavra francesa como se estivesse jurando por algo em inglês, como um soldado de cavalaria.’

O General sobressaltou-se, admitiu que a palavra era francesa e pediu desculpas por sua pronúncia. Sua variabilidade era agora visível sobre um canto do campo de batalha como uma nuvem de tempestade.

‘Os negócios que temos de discutir dizem respeito aos jovens, General.’

‘Sim,’ iluminado por isso, ele assentiu: ‘Sim, cara Lady Camper; é uma parte dos negócios; é uma parte secundária; tem de ser discutida; digo que subscrevo de antemão. Posso dizer que, honrando-a, estimando-a como eu faço, e esperando ardentemente por seu consentimento...’

‘Eles precisam de um lar e de uma renda, General.’

‘Presumo, caríssima senhora, que Elizabeth será bem-vinda em seu lar. Eu certamente nunca expulsarei Reginald do meu.’

Lady Camper jogou a cabeça para trás. ‘Então o senhor ainda não está desperto, ou pratica a arte de dormir de olhos abertos! Agora escute-me. Eu uso rouge, já lhe disse. Gosto de cor e não gosto de ver rugas ou que elas sejam vistas. Portanto, uso rouge. Não espero enganar o mundo tão flagrantemente quanto à minha idade, e a você eu não enganaria por um momento sequer. Tenho setenta anos.’

O efeito desta nobre franqueza sobre o General foi levantá-lo da cadeira em uma postura sentada, como se ele tivesse sido explodido.

O semblante dela estava inexoravelmente imperturbável sob o piscar e fitar alternados dele, que a atraía para perto e a afastava, como um brinquedo misterioso.

‘Mas,’ disse ela, ‘sou uma artista; detesto a aparência de idade extrema, então eu a escondo o melhor que posso. O senhor é muito gentil em concordar com o engano: um engano inocente e, creio, apropriado perante o mundo, embora não para o cavalheiro que me faz a honra de pedir a minha mão. O senhor deseja resolver nossos negócios primeiro. O senhor me estima; presumo que queira dizer tanto quanto os jovens querem dizer quando dizem que amam. Quer? Vamos chegar a um entendimento.’

‘Eu posso,’ o melancólico General arquejou, ‘digo que posso--eu não posso--eu não posso acreditar na sua senhoria...’

‘O senhor tem liberdade para me chamar de Angela.’

‘Ange...’ ele tentou, e envergonhado recaiu. ‘Madame, sim. Obrigado.’

‘Ah,’ gritou Lady Camper, ‘não use essas contrações vulgares da fala decente na minha presença. Eu detesto a palavra “obrigado”. É adequada para fúteis.’

‘Ora, veja só, usei-a a vida toda,’ gemeu o General.

‘Então, pelo restante, que fique entendido que o senhor a renuncia. Para continuar, minha idade é...’

‘Oh, impossível, impossível,’ o General quase chorou; havia realmente uma rachadura em sua voz.

‘Aproximando-se dos setenta. Mas, como o senhor, fico feliz em dizer que não tenho nenhuma enfermidade. Não trago um corpo inválido para uma união que necessita deixar a porta da frente aberta dia e noite para o médico. Minha crença é que eu ainda poderia seguir meu marido em uma campanha, se ele fosse um guerreiro em vez de um pensionista.’

O General estremeceu.

Ele estava prestes a dizer humildemente, ‘Como General de Brigada...’

‘Sim, sim, o senhor quer um oficial comandante, e isso eu vi, e foi isso que me levou a meditar sobre sua proposta,’ interrompeu ela; enquanto ele, estudando-lhe o semblante com afinco, com o aspecto doloroso de um jovem que fustiga uma memória de burro em um exame oral, tentava organizar os sinais da juventude dela contra sua terrível confissão da extremamente antiga, a encolhida ancianidade. Mas, pelo rouge manifesto, manifesto apesar da declaração dela de que ainda não havia procedido com seu pincel naquela manhã, ele teria jogado sua luva para desafiá-la sobre o assunto de sua idade. Ela tinha, na verdade, encantos. Sua boca tinha um charme; seus olhos eram vivazes; sua figura, madura se quiser, era pelo menos cheia e boa; ela permanecia ereta, ela tinha um porte real. Sua exclamação mental foi: ‘Que constituição maravilhosa!’

Por uma falha de polidez, ele repetiu para si mesmo quase em voz alta; ele estava chocantemente nervoso.

‘Sim, tenho saúde melhor do que muitas mulheres mais jovens,’ disse ela. ‘Um cálculo comum me daria vinte bons anos pela frente. Sou viúva, como o senhor sabe. E, a propósito, o senhor tem uma inclinação por viúvas. Não tem? Pensei ter ouvido falar de uma viúva Barcop nesta paróquia. Não proteste. Garanto-lhe que sou estranha ao ciúme. Minha renda...’

O General levantou as mãos.

‘Bem, então,’ disse a senhora calma e contida, ‘antes que eu vá mais longe, posso lhe perguntar, sabendo o que o senhor me forçou a confessar, o senhor ainda está com a mesma opinião quanto ao casamento? E um momento, General. Prometo-lhe mais sinceramente que o fato de o senhor retirar-se um passo não afetará, no que me diz respeito, meus sentimentos de vizinhança e amizade; nem em grau algum. Seremos como éramos?’

Lady Camper estendeu sua mão delicada para ele.

Ele a tomou respeitosamente, inspecionou os dedos aristocráticos e não enrugados, e beijando-os, disse: ‘Eu nunca retiro uma posição, a menos que seja derrotado. Lady Camper, eu...’

‘Meu nome é Angela.’

O General tentou novamente: ele não conseguia pronunciar o nome.

Chamar uma senhora de setenta anos de Angela é difícil por si só. É, ao que parece, três vezes difícil no caminho do namoro.

‘Angela!’ disse ela.

‘Sim. Digo, não há nome feminino mais bonito, cara Lady Camper.’

‘Poupe-me dessa palavra “feminino” enquanto viver. Dirija-se a mim por esse nome, se lhe apraz.’

O General sorriu. O sorriso pretendia ser de propiciação e doçura. Tornou-se um sorriso descarado.

‘A menos que o senhor deseje recuar,’ disse ela.

‘De modo algum. Estou feliz, Lady Camper. Minha vida é sua. Digo, minha vida está devotada a si, cara madame.’

‘Angela!’

General Ople foi ruborizadamente entregue ao nome.

‘Isso bastará,’ disse ela. ‘E como penso ser possível que alguém possa ser admirado demais como artista, devo solicitar que mantenha o meu número de anos em segredo.’

‘Até a morte, madame,’ disse o General.

‘E agora daremos um passeio no jardim, Wilson Ople. E cuidado com uma coisa, para começar, pois o senhor está cheio de ervas daninhas, e pretendo arrancar algumas: nunca chame qualquer lugar de residência de cavalheiro em minha audição, nem deixe chegar aos meus ouvidos que o senhor tem usado a frase em outro lugar. Não expresse espanto. No momento, basta que eu não goste. Mas apenas isto,’ acrescentou Lady Camper, ‘apenas isto se não for sua intenção retirar-se de sua posição.’

‘Madame, minha senhora, eu estava dizendo--hem!--Angela, eu não desejaria retirar-me.’

Lady Camper inclinou-se com certa pressão em seu braço, observando: ‘O senhor tem uma curiosa afeição por antiguidades.’

‘Minha cara senhora, é sua mente; digo, é sua mente: eu estava dizendo, estou apaixonado por sua mente,’ o General esforçou-se para assegurar-lhe, e a si mesmo também.

‘Ou seriam meus poderes como artista?’

‘Sua mente, seus extraordinários poderes de mente.’

‘Bem,’ disse Lady Camper, ‘um veterano General de Brigada é tão boa muleta quanto uma velha avó sem filhos pode ter.’

E como uma muleta, o General Ople, desfilando por seus terrenos com a mulher idosa, viu-se usado e tratado.

A precisão de suas percepções poderia ser questionada. Ele era como um homem atordoado por alguma grande fruta tropical, que responde ao desejo de seus olhos caindo sobre sua cabeça; mas parecia-lhe que ela aumentava em amargura a cada passo que davam, como se determinada a fazê-lo notar suas rugas.

Ele era até tão inconsequente, ou tão pouco reconhecia sua posição, que se opunha em seu coração a ouvir-se chamado de Wilson.

É verdade que ela proferia Wilsonople como se os nomes formassem uma única palavra. E numa segunda ocasião (quando ele se inclinou a sentir-se magoado) ela observou: ‘Temo, Wilsonople, se formos falar claramente, que tu não passes de um tolo.’ Ele, talvez, naturalmente opôs-se a isso. Ele estava, contudo, tonto, e mal sabia.

Ainda assim, mais uma vez, a mulher mágica mudou. Toda a aparência de aspereza e de língua afiada como uma megera desapareceu quando ela disse adeus.

O astrônomo, olhando para a crosta irregular e a escória da lua ampliada através de seu telescópio, e novamente com olhos nus para a lua de brilho suave, quando as cristas das crateras são tênues como traços de sobrancelhas, tem uma alternância aguda de perspectiva semelhante à que mistificou o General Ople.

Mas entre observar um orbe que é apenas variável ao nosso capricho e contemplar uma mulher que muda e treme sempre com o seu próprio, quão vasta a diferença!

E considere que esta mulher está prestes a ser a esposa de alguém! Ele poderia ter acreditado (se não soubesse muito bem que tais coisas não existem) que estava nas mãos de uma bruxa.

O ‘adeus’ de Lady Camper foi perfeitamente belo--um tipo de adeus gentil, cordial, íntimo; acima de tudo, para satisfazer seu desejo atual, foi um adeus digno de uma dama--o adeus de uma mulher delicada e elegante, que mal havia deixado sua ancoragem aos quarenta para velejar pelos cinquenta.

Ai de mim! ele tinha a palavra dela de que ela não tinha menos de setenta anos. E, pior, ela havia revelado sinais muito melancólicos de amargura e velhice assim que ele se jurou a ela, firme e fixo.

‘O caminho está aberto para o senhor recuar,’ foram suas últimas palavras.

‘Meu caminho,’ respondeu ele galantemente, ‘é para frente.’

Ele estava recuando enquanto dizia isso, e algo a provocou a sorrir.

CAPÍTULO V

É uma coisa nobre dizer que seu caminho é para frente, e isso convém a um homem de batalhas. O General Ople era um cavalheiro leal demais para pensar em qualquer outro caminho. Ainda assim, embora não dotado de imaginação, ele não pôde evitar o sentimento de que havia voltado o rosto para o Inverno. Ele viu-se subitamente caminhando direto para o coração do Inverno, e um Inverno cortante. Pois sua senhoria provara ser agudamente cortante. Suas pequenas frases habituais, às quais Lady Camper se opunha, ele não via mal algum. Conversar com ela na privacidade da vida doméstica nunca seria o negócio fluido que é para outros homens. Demandaria vigilância perpétua, saltos, pulos, tropeços e pedidos de desculpas.

Esta não era uma perspectiva agradável.

Por outro lado, ela era sobrinha de um conde. Ela era rica. Ela poderia ser uma excelente amiga para Elizabeth; e ela poderia ser, quando quisesse, tanto dominadora quanto encantadoramente distinta.

Bom! Mas ele era um Oficial General de não mais que cinquenta e cinco anos, em seu pleno vigor, e ela uma mulher de setenta!

A perspectiva era sombria. Parecia uma visão das estepes. Em termos da disciplina que ele deveria esperar, ele poderia ser comparado a um recruta inexperiente, e em seu próprio lar!

No entanto, ela era uma mulher de mente. Alguém se orgulharia dela.

Mas será que ele sabia o pior dela? Um pressentimento terrível, de que ele não sabia o pior dela, rolou um oceano de melancolia sobre o General Ople, expulsando um pensamento solitário na obscuridade, a saber, que ele estava prestes a receber punição por se aposentar do serviço ativo para uma vida de lazer em uma idade comparativamente precoce, quando ainda estava em forma para marchar. E a sombra do pensamento era que ele merecia a punição!

Ele estava em seu jardim com o amanhecer. O exercício rigoroso é o melhor dos opiáceos para reflexões sombrias. O General perturbou sua filha ao oferecer-se para acompanhá-la em seu passeio matinal antes do café da manhã. Ela considerou que isso o cansaria. ‘Não sou um homem de oitenta anos!’ gritou ele. Ele poderia ter desejado que fosse.

Ele liderou o caminho para o parque, onde logo avistaram o jovem Rolles, que conteve seu cavalo e os espionou como um vigia, mas, percebendo que havia sido visto, veio a galope, saudando o General com sincero espanto.

‘E o que diz o mundo, General?’ disse ele. ‘Mas todos aplaudimos seu gosto. Minha tia Angela foi a mulher mais bonita de seu tempo.’

O General murmurou em confusão, ‘Ora, veja só!’ e olhou para o jovem, pensando que ele não poderia ter conhecido o tempo.

‘Está tudo arranjado, meu caro General?’

‘Nada está arranjado, e eu rogo--digo, eu rogo... Saí para tomar ar fresco e andar...’

O General cavalgou freneticamente.

Apesar do ar fresco, ele foi incapaz de comer no café da manhã. Ele estava obrigado, é claro, a apresentar-se a Lady Camper, por mera civilidade, imediatamente após.

E primeiro, quais eram as frases que ele tinha de evitar proferir na presença dela? Ele conseguia lembrar-se apenas da ‘residência de cavalheiro’. E era uma residência de cavalheiro, ele pensou ao despedir-se dela. Era uma, nomeada de forma limpa para condizer com o lugar. Lady Camper é, de fato, uma pessoa muito excêntrica! decidiu ele por sua experiência com ela.

Ele ficou um tanto espantado que o jovem Rolles tivesse falado tão calmamente da inclinação de sua tia para o matrimônio; mas talvez sua idade exata fosse desconhecida para os membros mais jovens de sua família.

Essa ideia o refrescou ao sugerir a natureza extremamente honrosa da confissão desconfortável de Lady Camper.

Ele mesmo tinha uma confissão desconfortável a fazer. Ele teria de falar de sua renda. Ele estava vivendo até o limite dela.

Ela é uma mulher reta, e eu devo ser o mesmo! disse ele, felizmente não à audição dela.

O assunto era desagradável para um homem sensível sobre o tópico de dinheiro, e sentindo que sua prudência havia sido recentemente desviada para manter as aparências.

Lady Camper estava em seu jardim, reclinada sob sua sombrinha. Uma cadeira estava ao lado dela, para a qual, reconhecendo a saudação de seu pretendente, ela o convidou com um gesto.

‘O senhor encontrou meu sobrinho Reginald esta manhã, General?’

‘Curiosamente, no parque, esta manhã, antes do café da manhã, encontrei, sim. Hem! Eu, digo que encontrei. Sua senhoria o viu?’

‘Não. O parque é muito bonito no início da manhã.’

‘Docemente bonito.’

Lady Camper ergueu a cabeça e, com a brandura de uma ditadura assegurada, pronunciou: ‘Nunca diga isso diante de mim.’

‘Eu me submeto, minha senhora,’ disse o homem pobremente fustigado.

‘Por que, naturalmente o senhor se submete. Frases vulgares têm de ser suportadas, exceto quando nossos íntimos são culpados, e então não estamos meramente ofendidos, somos comprometidos por elas. O senhor ainda está com a opinião com a qual me deixou ontem? O senhor está um dia mais velho. Mas eu o aviso, eu também estou.’

‘Sim, minha senhora, nós não podemos, digo que não podemos deter o tempo. Decididamente com a mesma opinião. Exatamente.’

‘Faça-me o favor de nunca dizer “Exatamente”. Meu advogado diz isso. Cheira à City de Londres. E não pareça tão miserável.’

‘Eu, madame? minha cara senhora!’ o General brilhou em um radiância que se apagou instantaneamente.

‘Bem,’ disse ela alegremente, ‘e o senhor está pela velha?’

‘Por Lady Camper.’

‘O senhor é sedutor em suas lisonjas, General. Bem, então, temos de falar de negócios.’

‘Meus assuntos----’ o General Ople estava começando, com a testa perturbada; mas Lady Camper ergueu o dedo.

‘Tocaremos em seus assuntos incidentalmente. Agora escute-me, e não exclame até que eu tenha terminado. O senhor sabe que esses dois jovens têm sussurrado através do muro por alguns meses. Eles têm se encontrado no rio e no parque habitualmente, aparentemente com seu consentimento.’

‘Minha senhora!’

‘Não disse com sua conivência.’

‘Refere-se à minha filha Elizabeth?’

‘E ao meu sobrinho Reginald. Nós os nomeamos, se isso nos adianta. Agora, o fim de tais encontros é o casamento, e quanto mais cedo melhor, se eles devem continuar. Eu preferiria que não o fizessem; não considero bom para jovens soldados casarem-se. Mas se o fazem, é muito certo que seu soldo não sustentará uma família; e em um casamento de dois jovens saudáveis, temos de assumir a existência da família. O senhor permitiu que as coisas fossem tão longe que o rapaz está apaixonado; suponho que a garota também esteja. Ela é uma boa garota. Não me oponho a ela pessoalmente. Mas insisto que um assentamento seja feito sobre ela antes que eu dê ao meu sobrinho um centavo sequer. Escute-me até o fim, pois não gosto de negócios, e ficarei feliz em acabar com essas explicações. Reginald não tem nada de seu. Ele é filho de minha irmã, e eu a amava, e gosto bastante do rapaz. Ele tem atualmente quatrocentas libras por ano da minha parte. Dobrarei esse valor, sob a condição de que o senhor imediatamente transfira dez mil--não menos; e que seja sim ou não!--para ser assentado sobre sua filha e ir para seus filhos, independente do marido--cela va sans dire. Agora o senhor pode falar, General.’

O General falou, com o fôlego tirado das profundezas:

«Dez mil libras! Hem! Dez! Hem, francamente... dez, minha senhora! A renda de um homem... estou totalmente surpreso. Digo, a conduta de Elizabeth... embora, pobre criança! seja natural para ela procurar um companheiro, quero dizer, aceitar um companheiro e um estabelecimento, e Reginald é um rapaz muito promissor... eu estava dizendo, eles saltam sobre mim de uma emboscada, e desejo-lhes toda a felicidade. E ela é uma soldado ardente, e um soldado ela deve desposar. Mas dez mil!»

«É para garantir a felicidade de sua filha, General.»

«Libras! minha senhora. Isso me deixaria bastante aleijado.»

«O senhor teria a minha casa, General; teria a metade, como dizem os advogados, da minha bolsa; teria cavalos, carruagens, criados; não divinho o que mais desejaria ter.»

«Mas, senhora... um pensionista do Governo! Posso olhar para trás, para serviços passados, digo, velhos serviços, e aceito minha posição. Mas, senhora, um pensionista de minha esposa, trazendo quase nada para o patrimônio comum! Temo que meu autorrespeito, eu digo, gostaria...»

«Bem, e o que ele faria, General Ople?»

«Eu estava dizendo, meu autorrespeito como pensionista de minha esposa, minha senhora. Eu não poderia vir a ela de mãos vazias.»

«O senhor espera que eu deva ser a pessoa a destinar dinheiro para sua filha, para salvá-la de infortúnios? Um marido libertino, por exemplo; pois Reginald é jovem, e ninguém pode adivinhar o que farão dele.»

«Sem dúvida, Vossa Senhoria está correta. Poderíamos tentar a ausência para a pobre moça. Não tenho parentes do sexo feminino, mas poderia enviá-la para o litoral, para uma amiga.»

«General Ople, eu o proíbo, se preza pela minha estima, jamais... e repito, eu o proíbo jamais... de afligir meus ouvidos com essa expressão, “amiga!”»

O General piscou em um estado de humildade insurgente.

Esses açoites incessantes não podiam deixar de ferir o mais humilde dos homens; e «amiga», ele tinha certeza, era um termo muito comum, usado, ele tinha certeza, na melhor das sociedades. Ele nunca ouvira Sua Majestade falar em recepções sobre uma amiga, mas tinha plena certeza de que ela tinha uma; e se assim era, qual poderia ser a objeção de seus súditos mencionarem isso como um termo para adequar-se às suas próprias circunstâncias?

Ele estava perturbado e perplexo com o tratamento da velha Lady Camper, e resolveu não chamá-la de Angela, mesmo sob súplica... não naquele dia, pelo menos.

Ela disse: «O senhor não precisará trazer propriedade de qualquer espécie para o patrimônio comum; eu não procuro nem desejo isso. A coisa generosa a fazer seria dar à sua filha tudo o que o senhor tem, e vir para mim.»

«Mas, Lady Camper, se eu me despojar ou reduzir minha renda... um homem à discrição de sua esposa, eu estava dizendo, um homem à mercê de sua esposa...!»

O General Ople foi realmente forçado, por sua dignidade masculina, a fazer este protesto em seu nome. Ele não via como poderia ter escapado de fazê-lo; ele era mais um agente do que um principal. «À mercê de minha esposa», disse ele novamente, mas simplesmente como um arauto proclamando ordens superiores.

As sobrancelhas de Lady Camper estavam coléricas. Um profundo carmesim de sangue superou o rouge, e deu-lhe um aspecto terrível e tempestuoso.

«O congresso agora deixa de reunir-se, e o tratado não está concluído», foi tudo o que ela disse.

Ela se levantou, curvou-se para ele, «Bom dia, General», e virou-lhe as costas.

Ele suspirou. Ele era um homem livre. Mas isso não podia ser negado... qualquer que fosse a idade da dama, ela era uma mulher magnífica em seu porte, e quando parecia zangada, tinha um aspecto de rainha que a elevava acima da contagem do tempo.

Então agora ele sabia que havia algo pior por trás do que ele havia conhecido anteriormente. Ele foi precipitado em chamar aquilo de pior. «Agora», disse ele a si mesmo, «eu sei o pior!»

Nenhum homem deveria dizer isso. Menos ainda, alguém que entrou em relações com uma dama excêntrica.

CAPÍTULO VI

A polidez exigia que o General Ople não parecesse alegrar-se com sua demissão como pretendente, e deveria pelo menos fazer alguma demonstração de manter-se à disposição de uma mente que reconsidera. Ele foi culpado de correr para Londres no dia seguinte, bem cedo, e permanecer ausente até o cair da noite; e fez o mesmo nos dois dias seguintes. Quando se apresentou nos portões da residência de Lady Camper, a notícia surpreendente de que sua senhoria havia partido para o Continente e para o Egito deu-lhe pontadas de remorso, que assumiram uma forma mais definida em algo como um temor de sua constituição triunfante. Ele se absteve de mencionar a idade dela, pois era o mais honrado dos homens, mas um hábito de loquacidade à mesa de chá o impeliu a dizer e repetir uma ideia que o visitara, no sentido de que Lady Camper era uma daquelas mulheres maravilhosas que são comparáveis a generais brilhantes, e defendem-se do cerco do Tempo por vários movimentos agressivos. Temeroso de não ser compreendido, devido à raridade das ocasiões em que o esquadrão plano e agachado de honestos regulares saxões sob seu comando eram chamados a explicar uma ideia, ele reformulou a frase. Mas, como aconteceu que os regulares de seu vocabulário não eram numerosos, e não estavam acostumados a trabalhar sobre pensamentos e imagens, suas repetições tiveram mais sucesso em expor o pedaço de conhecimento que ele havia adquirido recentemente do que em tornar seu significado mais claro. Portanto, não precisamos nos maravilhar que seus conhecidos supusessem que ele tivesse consciência secreta do grau extremo em que Lady Camper era uma veterana.

O General Ople entrou nas alegrias da vizinhança mais uma vez, e passou o Inverno alegremente. Em justiça a ele, no entanto, deve ser dito que à concentração de sua mente em Lady Camper, e não à vida festiva que levava, devia-se sua total ignorância da infelicidade de sua filha. Ela morava com ele, e ainda assim foi em outras casas que ele soube que ela era infeliz. Após sua última entrevista com Lady Camper, ele informara Elizabeth da ruinosa e absurda quantia em dinheiro exigida dele para um assentamento sobre ela e, Elizabeth, como a moça de bom senso que era, respondeu imediatamente: «Não se pode pensar nisso, papai.»

Ele havia falado com Reginald também. O rapaz entrou em um dramático arrancar de cabelos e fúria de passos largos, não ficando mal em um dragão enamorado. Mas ele sustentava que sua tia, embora excêntrica, era uma mulher cordialmente bondosa. Ele parecia sentir, se não sugeria parcialmente, que o General poderia ter aceitado os termos de Lady Camper. O jovem oficial não podia mais ser bem-vindo em Douro Lodge, então o General pagou-lhe uma visita matinal em seus aposentos, e ficou angustiado ao encontrá-lo tomando o café da manhã muito tarde, batendo em ovos que se esquecia de abrir... um dos sinais mais seguros de um jovem absoluta e profundamente apaixonado, como o General sabia por experiência... e cercado por jornais esportivos não cortados das semanas passadas, que datavam do dia em que seu golpe o atingira, tão precisamente quanto o relógio do homem afogado marca seu minuto. Lady Camper havia ido para a Itália, e estava em comunicação com seu sobrinho: Reginald não foi mais explícito. Suas pernas eram muito proeminentes em seu desespero, e seus dedos frequentemente desempenhavam o papel de pentes cegos; consequentemente, o General ficou impressionado com sua paixão por Elizabeth. A moça que, se muitas vezes era meditativa, sempre encontrava seus olhos com um sorriso, e dizia calmamente «Sim, papai», e «Não, papai», dava-lhe pouca preocupação quanto ao estado de seus sentimentos. Ainda assim, todos diziam agora que ela era infeliz. A Sra. Barcop, a viúva, elevou sua voz acima das outras. Tão atenta ela era a Elizabeth que o General recebeu a sugestão gentil de que alguém estava cortejando-o através de sua filha. Ele olhou para a viúva. Ora, ela não tinha muito mais de trinta anos; e era realmente singular... ele poderia ter rido... pensar na Sra. Barcop fazia-o pensar persistentemente em Lady Camper. Isto é, sua fantasia louca revertia da dama de talvez trinta e cinco para a dama de setenta.

Tal, pensou ele, é o gênio em uma mulher! De seus vizinhos em geral, a Sra. Baerens, esposa de um comerciante alemão, uma pianista requintada, era a mais inclinada a levá-lo a falar sobre Lady Camper. Ela era uma mulher gentil e tagarela, e sabia-se que tinha sido governanta antes que seus encantos retirassem o gastronômico Gottfried Baerens de sua devoção ao bem servido clube da Cidade, onde, como ele exclamava (sempre voltando-se carinhosamente para sua esposa enquanto vocalizava o elogio), ele havia encontrado todas as necessidades, todos os luxos, na vida, «como você não pode tê-los fora de Londres... tudo exceto a fêmea!» A Sra. Baerens, uma dama de extração teutônica, distinguia-se como sendo daquele sexo; pelo menos, ela não era masculina. Ela falava com grande respeito de Lady Camper e sua família, e parecia concordar com os elogios do General à constituição de Lady Camper. Ainda assim, ele achava que ela o olhava estranhamente.

Em uma manhã de abril, o General recebeu uma carta com o carimbo postal italiano. Abrindo-a com sua habitual curiosidade calma e feliz, percebeu que era composta de desenhos a caneta e tinta. E, de repente, seu coração afundou como um navio afundado. Ele viu a si mesmo como a vítima de uma caricatura.

O primeiro esboço parecia apenas pitoresco, e ele supôs ser um jogo inteligente de fantasia de algum amigo viajante, ou talvez uma cena real ligeiramente exagerada. Mesmo ao ler, «Uma visão distante da cidade de Wilsonople», ele ficou apenas levemente esclarecido. Seu coração ainda batia com a regularidade adequada. Mas o segundo e o terceiro esboços traíam a mão terrível. A visão distante da cidade de Wilsonople era bela com domos brilhantes, que, na visão próxima seguinte, provaram ser bolhas de sabão, pois um lugar de extrema planície, cingido por fortificações antigas e malucas, era mostrado; e na terceira visão, representando o interior, permanecia como único lugar de habitação, uma guarita.

Desenhado minuciosamente, e, infelizmente, com precisão assustadora, um cavalheiro militar em trajes civis ocupava a guarita. Nenhuma dúvida poderia existir quanto à pessoa que deveria ser.

O General tentou arduamente permanecer incrédulo. Ele se lembrava bem demais de quem o havia chamado de Wilsonople.

Mas aqui estava a coisa extraordinária que o fez percorrer a vizinhança em busca de exclamações: na quarta página estava o contorno de uma mão feminina adorável, segurando uma caneta, como se estivesse sombreando, e sob ela estas palavras: «O que eu digo é, eu digo que acho extremamente pouco feminino.»

Agora, considere os sentimentos do General quando, virando para esta quarta página, tendo estas mesmas palavras em sua boca, como a expressão precisa de seus pensamentos, ele as descobriu escritas!

Um inimigo que antecipa as ações de nossa mente tem uma qualidade do divino maligno que pode muito bem inspirar terror. Os sentidos do General Ople foram atingidos pelo aspecto de uma Deusa lívida, que o penetrou, leu-o por completo, e tinha tanto poder quanto vontade de expô-lo e torná-lo ridículo para sempre.

A adorabilidade da mão, também, de uma maneira perplexa, contestava sua denúncia da conduta dela. Era feminina eminentemente, e envolvia-o em uma mistura confusa do moral e do material, tão grande quanto os jovens sentem quando tentam separá-los, em um de seus frenesis.

Com uma risada pequena e amarga, ele dobrou a carta, colocou-a no bolso do peito e saiu para uma caminhada, principalmente para falar consigo mesmo sobre isso. Mas como isso o absorveu totalmente, ele a mostrou ao reitor, a quem encontrou, e o que o reitor disse não é de importância, pois o General Ople não deu ouvidos a observações, visitando sucessivamente os Pollingtons, os Goslings, os Baerens e outros, por mais cedo que fosse, e os senhores daquelas casas ausentes acumulando tesouros; e para as damas em toda parte ele exibia os esboços que havia recebido, observando que Wilsonople significava ele mesmo; e lá estava ele, disse, apontando para o sujeito de quepe na guarita, feito inequivocamente. A semelhança, de fato, era notável. «Ela é uma mulher de gênio», exclamou, com total melancolia. A Sra. Baerens, com a ajuda de uma lupa, ajudou-o a ler uma linha sob a guarita, que ele tomara por um simples traço trêmulo; dizia: Uma residência de cavalheiro.

«Que olhos ela tem!» exclamou o General; «Digo que é milagroso que olhos ela tem na sua idade de... eu estava dizendo, eu nunca teria conhecido que era escrita.»

Ele suspirou pesadamente. Sua sensibilidade trêmula à caricatura foi aumentada por um certo medo evidente da mão que atingia; o saber que ele estava absolutamente nu para esta mulher, indefeso, aberto à exposição em seus pequenos caprichos, fraquezas, truques, incompetências, no que jazia em seu coração, e nas palavras que viriam à sua língua. Ele se sentia como um homem assombrado.

Tão profundamente ele sentiu o golpe, que as pessoas perguntavam como era possível que ele fosse tão tolo a ponto de dançar por aí ajudando Lady Camper em seus esforços para torná-lo ridículo; ele agia como editor e agente da terrível caricaturista. Na verdade, havia uma razão estranhamente dupla para sua conduta; ele dançava por simpatia, ele tinha o desejo mais intenso por simpatia, mas mais do que isso, ou tanto quanto, ele desejava que os poderes de sua inimiga fossem amplamente apreciados; em primeiro lugar, para que ele pudesse ser desculpado consigo mesmo por se encolher diante deles, e em segundo lugar, porque uma admiração terrível por ela, que deveria ser aprofundada por um sentimento correspondente ao seu redor, ajudava-o a desfrutar de lembranças luxuosas de uma hora em que ele esteve perto de torná-la sua... sua, na santa contemplação abstrata do casamento, sem realizar suas prováveis condições relativas após a cerimônia.

«Digo, essa é a própria imagem da mão de sua senhoria», ele gostava especialmente de comentar, «digo que é uma mão bonita.»

Ele carregava a carta em sua carteira; e começando a imaginar que ela tinha feito o seu pior, pois não conseguia imaginar uma malignidade inventiva capaz de perseguir o tema, ele falava de seu tratamento dele com pesar compassivo, não mal assumido por ser parcialmente sincero.

Duas cartas datadas da França, uma de Dijon, a outra de Fontainebleau, chegaram juntas; e como o General sabia que Lady Camper estava retornando para a Inglaterra, ele esperava que ela estivesse ansiosa para se desculpar com ele. Seus dedos não estavam tão confiantes, pois ele rasgou uma das cartas para abri-la.

A Cidade de Wilsonople era reconhecível imediatamente. Assim como o único habitante.

A risada pequena e amarga do General Ople recorreu, como a tosse de um paciente de peito fraco na mudança de nossos ventos para o leste.

A sombra de uma mulher sem rosto ajoelha-se no chão perto da guarita, chorando. A sombra sem rosto de um jovem a cavalo é vista galopando em direção a um abismo. O único habitante contempla seu rosto e figura largamente substanciais e carnudos em um espelho.

Em seguida, vemos a bandeira da Grã-Bretanha arriada; depois, desfraldada e carregada por uma tropa de sombras até a guarita. O oficial lá dentro diz: «Digo que ficaria muito feliz em carregá-la, mas não posso deixar esta residência de cavalheiro.»

Em seguida, a bandeira é mostrada assaltada por canhões de brinquedo. Várias das sombras estão prostradas. «Eu estava dizendo, asseguro-lhes que nada além desta residência de cavalheiro me impede de liderá-los», diz o galante oficial.

O General Ople tremeu com indignação protestante quando se viu reclinado em uma guarita ampliada, enquanto destacamentos de sombras se apressam até ele para mostrar-lhe a bandeira de seu país arrastando-se no pó; e ele é maliciosamente feito dizer: «Eu detesto responsabilidade. Digo que sou um patriota fervoroso, e muito apegado aos meus confortos, mas evito a responsabilidade.»

A segunda carta continha cenas entre Wilsonople e a Lua.

Ele a trata como sua vizinha, e fala-lhe de seus triunfos sobre o sexo.

Ele solicita que ela o informe se ela é uma «fêmea», para que possa ser triunfada.

Ele passa apressado por sua janela a pé, com a cabeça curvada, exatamente como o General tinha o hábito de caminhar.

Ele dirige um pônei-camundongo furiosamente.

Ele corta uma árvore, para que ela possa espiar.

Então, do ponto de vista da Lua, Wilsonople, um Sileno, é discernido em uma poltrona piscando para um casal com os lábios muito claramente franzidos para que se possa duvidar de suas intenções.

Uma quarta carta chegou, datada de Paris. Esta ilustrava o cortejo de Wilsonople à Lua, e terminava com seu «dizer», de maneira peculiar: «Apesar de sua pintura, eu não poderia ter concebido sua idade como tão enorme.»

Como romper seu noivado com a Dama Lua? Não consentir com nenhum de seus termos!

Pouco acostumado a ler por trás de um véu, a agudeza do sofrimento aguçou a inteligência do General a um ponto que o sustentou em diálogo animado com cada esboço sucessivo, ou flecha envenenada zumbindo para ele a partir do momento em que seus olhos pousavam nela; e aqui estão algumas amostras:

«Wilsonople informa à Lua que ela é "docemente bonita".

«Ele agradece a ela com "agradecimentos" por um belo pedaço de queijo verde lunar.

«Ele aponta para ela, aparentemente dizendo a alguém: "minha amiga".

«Ele espirra "Bijou! bijou! bijou!"»

Eram ninharias, mas atacavam seus hábitos de fala; e ele começou a tornar-se cada vez mais alarmantemente absurdo em cada caricatura nova de sua pessoa.

Ele olhou para si mesmo como a mão da mulher maliciosa o moldara. Era injusto; não era semelhança... e, no entanto, era! Havia um canto de semelhança que fermentava a massa; de agora em diante, ele deve caminhar por aí com esta imagem angustiante de si mesmo diante de seus olhos, em vez do reflexo satisfatório do homem que tinha, e era feliz em pensar que tinha, feito travessuras em seu tempo. Tal fim para um homem conquistador era patético demais.

O General surpreendeu-se falando consigo mesmo em algo mais alto do que um zumbido nas mesas de jantar dos vizinhos. Ele olhou em volta e notou que as pessoas o observavam silenciosamente.

CAPÍTULO VII

O retorno de Lady Camper foi objeto de especulação na vizinhança, pois a maioria das pessoas pensava que ela deixaria de perseguir o General com seus absurdos e injustificáveis esboços a caneta e tinta quando vivessem tão proximamente; e como ele se comportaria era a questão. Aqueles que faziam dele um herói tinham certeza de que ele a trataria com desdém. Outros estavam incertos. Ele fora atingido tão severamente que parecia possível que não demonstrasse muito espírito.

Ele, por sua vez, passara a ter tal pavor do correio, que o retorno de Lady Camper aliviou-o de suas apreensões matinais; e ele a teria perdoado, embora temesse vê-la, se apenas ela tivesse prometido deixá-lo em paz no futuro. Ele temia vê-la, por causa do fornecimento demasiado provável de material novo para a mão de sua senhoria. É claro que ele não podia evitar ser visto por ela, e isso era uma miséria particular. Uma humildade de cavalheiro, ou reserva de aspecto, quando visto, ele esperava, desarmaria sua inimiga. Deveria, pensou ele. Ele suportara coisas inauditas. Nenhum de seus amigos e conhecidos sabia, eles não podiam saber, o que ele havia suportado. Isso lhe causara acessos de gagueira. Destruíra a compostura de seu andar. Elizabeth informara-o de que ele falava consigo mesmo incessantemente, e em voz alta. Ela, pobre criança, parecia pálida também. Ela estava evidentemente ansiosa por ele.

O jovem Rolles, a quem ele encontrara de vez em quando, persistia em elogiar o bom coração de sua tia. Então, talvez, tendo saciado sua vingança, ela pudesse agora estar inclinada à paz, nos termos de uma civilidade distante.

«Sim! pobre Elizabeth!» suspirou o General, em piedade pela decepção da pobre moça; «pobre Elizabeth! ela mal imagina o que seu pai passou. Pobre criança! Digo, ela não tem ideia de meus sofrimentos.»

O General Ople entregou seu cartão nos portões da residência de Lady Camper e escapou para sua residência em um estado de calor espinhoso que exigia a escovação de seu cabelo com escovas duras por vários minutos para confortá-lo e restabelecê-lo.

Ele tinha começado a trabalhar em seu jardim, quando o cartão de Lady Camper foi trazido a ele uma hora após a entrega do seu próprio; uma prontidão agradável, mostrando sinais de arrependimento, e sugerindo ao General instantaneamente alguns sarcasmos agudos sobre as mulheres, que ele encontrara em citações nos jornais e no púlpito, suas duas principais fontes de informação.

Em vez de devolver o cartão à criada, ele o enfiou em seu chapéu e continuou a cavar.

A primeira de uma série de cartas contendo caricaturas realistas descaradas foi-lhe entregue na tarde seguinte. Vieram rápidas e em grande número. Não lhe foi permitido um único dia de graça. Niobe sob as flechas de Diana dificilmente foi atacada de forma tão violenta e mortal. A fatalidade do ataque residia no ridículo dos hábitos diários de um dos homens mais sensíveis, no que dizia respeito à sua aparência pessoal e à opinião do mundo. Ele poderia ter escondido os esboços, mas não poderia ter escondido as nódoas negras, e as pessoas perguntavam perpetuamente ao infeliz General o que ele estava a dizer, pois ele falava consigo mesmo como se estivesse a repetir algo para elas pela décima vez.

— Digo — dizia ele — digo que para uma dama, realmente uma dama educada, sentar-se, como ela deve — eu dizia, ela deve ter-se sentado num sótão para ter a visão correta de mim. E aí podem ver — isto é o que ela fez. Esta é a última, esta é a entrega da tarde. A sua senhoria tem-me corretamente quanto ao traje, mas eu não poderia exibir tal esboço a senhoras.

Uma vista de costas do General era exibida no seu ato de cavar.

— Digo que não poderia permitir que senhoras o vissem — informou ele aos cavalheiros, aos quais era permitido inspecioná-lo livremente.

— Mas vejam, não tenho meio de escapar; estou à mercê dela de manhã à noite — disse o General, com a língua a tremer — a menos que eu fique em casa, dentro de casa; e isso é a morte para mim, ou a menos que eu abandone o lugar, e o meu contrato; e eu vou — digo, não encontrarei em Inglaterra nada parecido com o preço ou as conveniências de tal gent... uma residência que chamariam de adequada para um cavalheiro. Eu chamo-lhe um bi... é, em suma, uma joia. Mas terei de ir embora.

O jovem Rolles ofereceu-se para expostular com a sua tia Angela.

O General disse: — Tha... agradeço-lhe muito. Não gostaria que a sua senhoria supusesse que sou tão suscetível. Mal sei — confessou ele de forma lastimável — o que é correto dizer, e o que não — o que não. Eu-eu-eu nunca sei quando não estou a parecer um tolo. Apresso-me de árvore em árvore para evitar a luz. Estou seriamente afetado no meu apetite. Digo, terei de ir embora.

Reginald deu-lhe a entender que, se ele fugisse, as flechas segui-lo-iam, pois Lady Camper nunca perdoaria a sua fuga, e era perfeitamente capaz de publicar um livro sobre as aventuras de Wilsonople.

Num domingo à tarde, a passear no parque com a filha no braço, o General Ople encontrou o Sr. Rolles. Viu que o jovem e Elizabeth estavam mortalmente pálidos e, como a própria ideia de desgraça dirigia a sua atenção para si mesmo, dirigiu-se a ambos sobre o assunto da sua perseguição, não dando a nenhum deles a oportunidade de falar até que fossem forçados a separar-se.

Um esboço foi a consequência, no qual um Cupido murcho e uma Psique desbotada eram vistos separados por Wilsonople, que os mantinha forçosamente afastados com punhos de polícia, enquanto os suplicava cortês e elegantemente que o ouvissem. — Encontrem-se — diz-lhes ele — tão frequentemente quanto quiserem, na minha companhia, contanto que me ouçam; e o pathos do seu aspeto faz uma exigência faminta por uma audiência simpática.

Ora, isto, e não a série que representava o martírio do casal idoso nas Portas de Douro Lodge, cujas armações rígidas testemunhavam o aperto de uma residência de cavalheiro, este foi o esboço que o General Ople, na sua loucura pela picada persistente do mutuca, distribuiu na festa no relvado da Sra. Pollington. Alguns disseram que ele não deveria ter traído a sua filha; mas é razoável supor que ele não tinha ideia de que a sua filha fosse a Psique. Ou se tinha, era indistinto, devido à violência da sua emoção pessoal. Assumindo que este tenha sido o esboço; entregou-o a duas ou três senhoras, sucessivamente, e foi ouvido a exprimir-se em intervalos nos seguintes fragmentos: — Como quiser, minha senhora, como quiser; ataque, digo ataque; eu suporto; digo que suporto... Se a sua senhoria não perdoa, digo que estou a suportar... Posso enlouquecer, eu dizia que posso enlouquecer, mas enquanto tiver a minha razão, caminho ereto, caminho ereto.

O Sr. Pollington e certos cavalheiros da City, ao ouvirem os renovados monólogos do pobre General, foram tomados por aversão à conduta de Lady Camper e aconselharam vigorosamente uma queixa aos Tribunais.

Ele deu-lhes ouvidos de forma abstrata, mas depois de tirar todo o capítulo das caricaturas (que parecia guardar numa pasta de couro marroquino no bolso do peito), mostrando-lhas, com comentários, e observando: — Haverá mais, tem de haver mais, digo que tenho a certeza de que há coisas que faço que a sua senhoria descobrirá e exporá — ele recusou-se a procurar reparação ou simples proteção; e o espetáculo miserável foi exibido pouco depois deste homem cortês a ouvir a Sra. Barcop sobre o tempo, e a responder em aquiescência: — Está quente. — Se a sua senhoria apenas se abstivesse de cores. Muito quente como diz, senhora — não me queixo de caneta e tinta, mas preferiria escapar às cores. E suponho que também ache que está quente?

A Sra. Barcop fechou os olhos e suspirou sobre os destroços de um belo oficial militar.

Perguntou-lhe: — Qual é a sua objeção às cores?

A sua mão foi ao bolso do peito imediatamente, enquanto dizia: — Não viu? — embora há poucos minutos lhe tivesse mostrado o conteúdo do pacote, incluindo um vislumbre apressado da famosa cena da escavação.

A esta altura, todo o distrito estava em fervente simpatia pelo General Ople. As senhoras não proclamaram, como os seus maridos, o espanto de que um homem permitisse que uma mulher o instigasse a um estado de semi-loucura; mas uma ou duas confessaram aos maridos que era necessária uma grande admiração pelo General Ople para não o desprezar, tanto pela sua suscetibilidade quanto pela sua paciência. Quanto aos homens, sabiam que ele tinha enfrentado as balas em estridente luta de batalha; sabiam que ele tinha suportado privações, não apenas o frio, mas a pura falta de comida e bebida — um horror quase inimaginável para estes corajosos festeiros diários; por isso não podiam olhá-lo com total desprezo; mas a sua falta de sentido era ofensiva, e ainda mais a sua submissão ao açoite de uma mulher. Nenhum deles teria se dignado a senti-lo. Teriam permitido que ela visse que podia picá-los? Tê-la-iam ridicularizado. Ou tê-la-iam arrastado perante um magistrado.

Era um domingo no início do Verão quando o General Ople caminhou para o serviço matinal, desacompanhado por Elizabeth, que estava indisposta. A igreja era daquela ordem considerada e antiquada, com bancos quadrados e surdos, permitindo que a mente se abstraísse do sermão, ou lutasse à vontade com as dificuldades apresentadas pelo pregador, como o General Ople frequentemente fazia, sentindo-se não pouco apaixonado pela sua atitude sincera de lidar com o ponto difícil e parcialmente permitindo que a luta fosse vista.

A Igreja era, além disso, um santuário para ele. Aqui a sua inimiga não vinha. Ele tinha este único refúgio, e quase parecia um homem feliz novamente.

Ele tinha entrado no seu chapéu e saído dele, o que habitualmente fazia de pé, quando quem apareceu a dois metros dele senão Lady Camper. O seu banco estava cheio de pessoas pobres, que fizeram sinais de retirar-se. Ela significou-lhes que se sentassem, depois sentou-se calmamente entre eles, de frente para o General através do corredor.

Durante o sermão, uma voz baixa, aguda em contraste com o monótono do pregador, foi ouvida a repetir estas palavras: — Digo que não tenho certeza se sobreviverei a isto. Um considerável resmungo no mesmo local foi ouvido além disso.

Após o habitual jogo cerimonioso, quando todos estavam livres para se mover, de ninguém gostar de se mover primeiro, Lady Camper e um rapaz da caridade foram as pessoas que tomaram a iniciativa. Mas Lady Camper não conseguia deixar o seu banco, devido ao emperramento da porta. Ela sorriu enquanto com a sua mão bonita tentava duas ou três vezes sacudi-la para abrir. O General Ople caminhou em seu auxílio. Ele puxou a porta, deu a sombra de uma reverência respeitosa, e sem dúvida ele teria se retirado, não fosse Lady Camper, enquanto reconhecia a cortesia, colocar o seu livro de orações nas suas mãos para carregar nos seus calcanhares. Não havia escolha para ele. Ele fez uma espécie de dança escorregadia para trás para buscar o seu chapéu, e seguiu a sua senhoria. Todos os presentes, ansiosos por testemunhar o espetáculo, observavam a passagem de Lady Camper a arrastar o General vítima atrás de si sem um movimento dos membros bem vestidos da congregação, até que um desejo os dominou de ver como Lady Camper se comportaria com o seu peixe quando o tivesse fora do edifício sagrado.

Ninguém poderia ter imaginado tal cena. Lady Camper estava na sua carruagem; o General Ople segurava o seu livro de orações, chapéu na mão, no degrau da carruagem, e parecia estar a torrar perante as barras de uma fornalha; pois enquanto ele ali estava, Lady Camper desenhava rapidamente contornos num pequeno bloco de notas de bolso. Existem cães cuja timidez é posta à prova ao suportar a observação humana e um discurso direto a eles, mesmo por parte dos seus donos; e estes cães simples e queridos abanam a cauda e viram a cabeça de lado vacilantes, como se suplicassem que não os olhasse e lhes falasse tanto. O General Ople, na presença do bloco de notas, era muito parecido com o animal nervoso. Ele teria fugido de bom grado. Ele olhou para ele, e ao redor, e novamente para ele, e para os céus. A crueldade da sua senhoria, e a sua inexplicável submissão a ela, foram testemunhadas pela multidão.

Os amigos do General caminhavam muito devagar. A carruagem de Lady Camper passou veloz, e o General alcançou-os, dirigindo-se a eles e a si mesmo alternadamente. Perguntaram-lhe onde estava Elizabeth, e ele respondeu: — Pobre criança, sim! Dizem-me que ela está pálida, mas não posso acreditar que sou tão perfeitamente, digo tão perfeitamente ridículo, quando me junto às respostas. — Ele tirou meia dúzia de folhas e mostrou-lhes esboços que Lady Camper tinha feito na igreja, caricaturando-o ao sentar-se e ao levantar-se. Ela tinha-os arrancado do livro e apresentado-lhe quando partia. — Eu dizia, o culto no sentido comum será interditado para mim se a sua senhoria..., — disse o General, baralhando lamentavelmente as folhas de esboço de papel nas quais ele figurava.

Ele fez a seguinte confissão estranha ao Sr. e à Sra. Gosling na estrada: — que tinha ido ao seu baú e tirado o seu cinto de espada para medir a sua circunferência, e encontrou-se mais magro do que quando deixou o serviço, o que não tinha sido o caso antes da sua presença na última receção da estação anterior. Portanto, a dedução era óbvia, que Lady Camper o tinha reduzido. Ela tinha-o reduzido tão eficazmente quanto um cerco desgastante.

— Mas por que presta atenção a ela? Por que...! — exclamou o Sr. Gosling, um cavalheiro da City, cuja redondeza teria desviado um tiro de espingarda.

— Permitir que ela o fira tão seriamente! — exclamou a Sra. Gosling.

— Senhora, se ela fosse minha esposa — explicou o General, — eu senti-lo-ia. Digo que é o facto de tudo; sinto-o, se pareço tão extremamente ridículo para um olho humano, para qualquer olho.

— Para o olho de Lady Camper.

Ele admitiu que poderia ser isso. Ele não tinha pensado em atribuir a acuidade da sua dor à imagem miserável que apresentava no olho desta senhora em particular. Não; era realmente verdade, curiosamente verdade: o olho de outra senhora poderia tê-lo transformado numa forma de abóbora, exagerado todas as suas fraquezas cinquenta vezes, e ele, embora não gostando, é claro que não, teria ainda preservado uma certa equanimidade varonil. Como é que Lady Camper tinha tal poder sobre ele? — uma senhora que escondia setenta anos com uma caixa de rouge ou pote de tinta! Era feitiçaria no seu pior caráter. Ele tinha, durante seis meses, às ordens dela, vivido na verdade a vida de uma besta, degradado na sua própria estima; queimado por cada riso que ouvia; correndo, perseguido, alcançado, e como se estivesse marcado ou ferrado, e depois deixado ir para que o processo fosse repetido.

CAPÍTULO VIII

Os nossos jovens bárbaros fazem tudo à sua maneira connosco quando se apaixonam; levam-nos para onde querem, e interessam-nos nos seus desejos, nos seus choros, e naquela fina representação, os seus beijos. Mas quando vemos os nossos veteranos a vacilar para a sua queda, mal consentimos que tenham um desejo; quanto a um beijo, gritamos com eles se os descobrirmos num atalho para o bosque sagrado onde tais coisas são supostas ser feitas pelos veneráveis. E este pedaço de injustiça descarada, para não dizer falta de educação, é inteiramente devido a uma opinião errada de que a Natureza não está nele, como se fosse a nossa estima pela Natureza que nos causasse desrespeitá-los. Eles, na verdade, mostram-na a nós discreta, civilizada, num aspeto moral decente: vistas da vida real, visões do olho da mente, são abertas pelas suas pequenas emoções tocantes; ao passo que aqueles jovens valentões que vêm a berrar connosco e nos agarram pelos sentidos provam claramente ou que não somos melhores do que eles, ou que damos a nossa atenção à Natureza apenas quando ela nos faz ter medo dela. Se nos importássemos com ela, estaríamos de pé e atrás dela reverencialmente nos seus passos mais sóbrios, estudando-a profundamente nos seus passos mais lentos. Ela não lhes ensina nada quando estão a girar. Os nossos instrutores mais próximos, os verdadeiros filósofos — os contadores de histórias, em suma — aprenderão a tempo que a Natureza não é necessariamente sempre a rugir, e assim que o fizerem, pode dizer-se que o mundo está iluminado. Entretanto, na contemplação de um par de suíças brancas a flutuar em torno de um par de bochechas manifestamente pintadas, estejam certos de que a Natureza está lá: não aquela libertina agressiva — mas deixem os jovens divertirem-se. Que o interesse superior das paixões dos idosos seja concedido, e nem uma palavra será dita contra os jovens.

Se, então, a Natureza está lá, como é que ela se tornou ativa? A razão do seu lançamento nesta última aventura é que ela percebeu a pessoa que pode fornecer a virtude conhecida por ela por experiência como estando em falta. Assim, no exemplo mais amplo, muitos que viajaram muito pela estrada, voltam para a adoração da juventude, que perderam. Alguns são pela mundanidade graciosa da inteligência, da qual têm parte suficiente para admirá-la. Alguns são cativados por mãos que podem empunhar a vara, que em dias anteriores escaparam para seu próprio custo. No caso do General Ople, foi em parte as chicotadas dela, em parte a sua penetração; a sua habilidade, que assentava tão bem numa mulher rica, a sua indiferença às maneiras convencionais, que tão bem se ajustava a uma de nascimento nobre, e mais do que tudo, a sua correção das suas pequenas fraquezas e incompetências, apesar do seu desagrado por isso, conquistou-o. Ele começou a sentir uma espécie de prazer roedor nos seus esboços grotescos da sua pessoa; uma tendência para recorrer aos antigos enquanto temia a chegada de novos. Vocês ouvem velhos cavalheiros falarem com carinho do açoite; e eles não estão apegados à dor, mas o instrumento revive o seu sentimento de juventude; e o General Ople meio desfrutava, enquanto encolhia, os contornos anteriores de Lady Camper dele. Pois à distância, a ponta do chicote pode parecer uma carícia carinhosa em vez de um toque picante. Mas esta rendição covarde no seu coração foi repreendida por um orgulho muito digno, que voou para o apoio ao dano que ela tinha feito às suas devoções, e à ofensa ao edifício sagrado. Depois de pensar sobre isso, ele decidiu que devia deixar a sua residência; e como lhe apareceu à luz do dever, ele, com uma angústia não dita, encarregou o agente imobiliário da sua cidade de vender o seu contrato ou alugar a casa mobilada, sem mais delongas.

Da loja do agente imobiliário, ele virou para a farmácia, para um tónico — um procedimento tolo, pois ele tinha recebido força suficiente no golpe que acabara de se dar, mas ele tinha estado a cogitar sobre tónicos recentemente, imaginando certos efeitos valentes deles, com visões de uma felicidade anterior despreocupada que eles provavelmente restaurariam. Então ele solicitou que o tónico fosse forte, e tomou um copo dele ao balcão.

Quinze minutos após a poção, ele avistou a sua casa, e ao contemplá-la, ele poderia tê-la chamado de residência de cavalheiro em voz alta sob as janelas de Lady Camper, a sua insurgência era de tal violência. Ele falava sobre isso incessantemente, mas evitava contar a Elizabeth, como ela parecia pálida, a razão pela qual os seus méritos modestos o tocavam tanto. Ele ansiava pela hora da sua próxima dose, e por uma caricatura para seguir, para que pudesse beber e desafiá-la. Uma caricatura era realmente devida a ele, ele pensava; caso contrário, por que tinha ele abandonado a sua habitação bijou? Lady Camper, no entanto, não enviou nenhuma. Ele teve de esperar quinze dias até que uma viesse, e essa era mais uma semelhança, e uma semelhança bonita, exceto no que dizia respeito a uma certa desordem no seu vestido, que ele sabia ser muito diferente dele. Ainda assim, isso despachou-o para o espelho, para trazer esse verificador de factos em evidência contra o esboço. Enquanto estava sentado lá, ele ouviu a batida da criada à porta, e a estranha inteligência de que a sua filha estava com Lady Camper, e tinha deixado recado de que esperava que ele não se esquecesse do seu compromisso de ir à festa no relvado da Sra. Baerens.

O General saltou para longe do espelho, gritando para a ausente Elizabeth num ataque de raiva tão estranho a ele, que ele retornou apressadamente para ter outro olhar a si mesmo, e exclamou no tom da sua voz: — Digo que atribuo isso a uma indigestão daquele tónico. Ouve? — A criada respondeu fracamente do lado de fora da porta que ouvia, alarmando-o, pois parecia haver confusão em algum lugar. A sua esperança era que ninguém mencionasse o nome de Lady Camper, pois o mero pensamento dela causava um fluxo à sua cabeça. — Acredito que estou prestes a ter um toque de apoplexia — disse ele ao reitor, que o cumprimentou, antes das senhoras, no relvado do Sr. Baerens. Ele disse-o sorrindo, mas querendo algum sinal de simpatia, em vez do sussurro e da mão sem sentido na sua faixa clerical, com a qual o reitor respondeu, ele gritou: — Apoplexia, — e o seu amigo pareceu então entender, e desapareceu entre as senhoras.

Várias delas rodearam o General, e uma perguntou se a série estava a ser continuada. Ele tirou a sua carteira, entregou-lhe a última, e comentou sobre a grosseira injustiça dela; pois, como ele pediu que notassem, a sua senhoria agora o esboçava como uma pessoa desatenta ao seu vestido, e ele pediu-lhes que observassem que ela o tinha desenhado com a gravata solta. — E isso, digo que isso nunca foi conhecido de mim desde que entrei pela primeira vez na sociedade.

As senhoras trocaram olhares de profunda preocupação; pois o facto era que o General tinha vindo sem gravata e sem colarinho, e ele parecia estar inconsciente da circunstância. O reitor tinha-lhes dito que, em resposta a uma dica que ele tinha deixado cair sobre o assunto das gravatas, o General Ople expressou um leve receio de apoplexia; mas a sua observância descuidada ou meramente parcial das leis do abotoamento não podia ter nada a ver com tais medos. Eles significavam, antes, uma desordem da inteligência. Elizabeth foi condenada por deixá-lo andar sozinho. A situação era realmente muito dolorosa, pois uma palavra a um homem tão sensível levá-lo-ia embora em vergonha e para sempre; e ainda assim, deixá-lo desfilar pelo local no estado, comparado com o seu eu natural, de espantalho, e com o hábito terrível de falar sozinho, era uma alternativa horrível. A Sra. Baerens finalmente dirigiu o seu marido sobre o General, a tremer como se observasse as operações de um torpedo; e outras senhoras partilharam a sua ansiedade excessiva, pois o Sr. Baerens tinha o modo e o olhar de artilharia, e nesta ocasião carregava uma sobrecarga de pólvora.

O General inclinou o ouvido para o Sr. Baerens, cujo alemão-inglês e observação repetida, "I am to do it wid delicassy", não ajudaram a sua compreensão; e quando poderia ter ficado esclarecido, ficou petrificado ao ver Lady Camper caminhar no relvado com Elizabeth. A grande dama ficou um momento ao lado da Sra. Baerens; veio diretamente até ele, contemplando-o em silêncio.

Então ela disse: "O seu braço, General Ople", e deu uma volta ao relvado com ele, mal falando.

A pedido dela, ele conduziu-a até à sua carruagem. Ocupou um lugar ao lado dela, obedientemente. Sentiu que estava a ser esboçado, e comportou-se como o boneco plano de uma criança, que salta ao puxar de um fio.

"Onde deixou a sua rapariga, General?"

Antes que pudesse reunir o seu espírito para responder à pergunta, foi-lhe perguntado:

"E o que fez com a sua gravata e o seu colarinho?"

Ele tocou na garganta.

"Estou um pouco nervoso hoje, esqueci-me da Elizabeth", disse ele, enviando os dedos num movimento pontilhado de espanto à volta do pescoço.

Lady Camper sorriu com um humor triunfante nos seus lábios cerrados.

A ausência verificada de gravata e colarinho parecia estar a sufocá-lo.

"Não importa, o senhor esteve lá fora sem eles", disse Lady Camper, "e essa é uma vitória para mim. E pensou na Elizabeth primeiro quando chamei a sua atenção para isso, e essa é uma vitória para o senhor. É uma vitória muito grande. Por favor, não se sinta desanimado, General. Tem um ar de campanha muito elegante. E nada de desculpas, se me faz o favor; gosto do senhor tal como é. Aqui tem a minha mão."

O General Ople compreendeu a última observação dela. Apertou a mão da dama em silêncio, muito nervoso.

"Mas não encolha a cabeça para dentro dos ombros como se houvesse alguma possibilidade de ocultar o que é terrivelmente evidente", disse Lady Camper, eletrizando-o, entre o seu aperto cordial, os seus olhos gentis e a sua linguagem singular. "O senhor omitiu o colarinho. Bem? O colarinho é o toque final fatal no vestuário dos homens; faria até o Apolo parecer burguês."

A mão dela estava na dele: e ao observar o jogo das feições dela, uma centelha entrou no cérebro do General Ople, levando-o, no esquecimento do colarinho e das caricaturas, a exclamar: "Setenta? A sua senhoria disse setenta? Absolutamente impossível! A senhora brinca comigo."

"Falaremos quando estivermos livres deste acompanhamento de rodas de carruagem, General", disse Lady Camper.

"Pedirei permissão para ir buscar a Elizabeth, minha senhora."

"Bem pensado. Vá buscá-la na minha carruagem. E, a propósito, a Sra. Baerens foi a minha antiga professora de música, e é, creio, um ano mais velha do que eu. Ela pode dizer-lhe de que lado dos setenta eu estou."

"Não precisarei de perguntar, minha senhora", disse ele, suspirando.

"Então enviaremos a carruagem para a Elizabeth, e resolveremos isto juntos imediatamente. Estou impaciente; sim, General, impaciente: por quê? — pelo perdão."

"De mim, minha senhora?" O General respirou profundamente.

"De quem mais haveria de ser? Sabe o que é isso? Não creio que saiba. Vocês, ingleses, têm a mais pequena experiência da humanidade. Refiro-me a isto: golpear tão forte que, no final, suavizamos o nosso coração para com a vítima. Bem, essa é a minha fraqueza. E nós, do nosso sangue, não impomos restrições aos golpes que desferimos quando pensamos que são necessários, por isso estamos sempre a exagerar."

O General Ople ajudou Lady Camper a sair da carruagem, que foi imediatamente enviada para buscar Elizabeth.

Ele preparou-se para a ouvir com um sorriso desconexo de atenção aguda.

Ela tinha mudado. Falou de dinheiro. Dez mil libras deviam ser estabelecidas para a sua filha. "E agora", disse ela, "vai lembrar-se de que lhe falta um colarinho."

Ele aquiesceu. Pediu permissão para se retirar por dez minutos.

"O mais simples dos homens! O que é que o cobrirá?" exclamou ela, e ordenando-lhe imperativamente que se sentasse na sala de estar, pegou num dos famosos pares de pistolas na mão, e disse: "Se eu me pusesse numa posição semelhante, e me tornasse decotada também, isso satisfazê-lo-ia? Vê estas armas assassinas. Bem, eu sou uma cobarde. Receio as armas de fogo. Estão ali deitadas para impressionar o mundo, e acredito que o fazem. Impressionaram-no ao senhor. Ora, o senhor nunca pensaria em fingir uma qualidade moral que não possui. Mas, homem tolo e simples que é! Pode dar-se a ares de riqueza, comprar cavalos para esconder a sua nudez, e quando é avaliado pelo padrão do seu rendimento aparente, prefere parecer estar a fazer uma retirada miserável do que comportar-se franca e honestamente. Exagerei um pouco, mas estou perto do alvo."

"A sua senhoria sem coragem!" gritou o General.

"Refresque-se meditando sobre isso", disse ela. "E para lho provar, fiquei contente por alugar esta casa quando soube que ia ter um distinto cavalheiro por vizinho. Não serão admitidas visitas, General Ople, por isso está de garganta descoberta apenas para mim: sente-se calmamente. Um dia, o senhor especulou sobre a pintura nas minhas bochechas durante um minuto e meio: — eu tinha dito que ganhava sardas facilmente. O seu olhar significava que, na verdade, não conseguia detetar uma única sarda por causa da tinta. Perdoei-lhe, ou não perdoei. Mas quando o encontrei, num conhecimento mais próximo, tão indiferente à felicidade da sua filha como tinha sido à reputação dela..."

"A minha filha! A reputação dela! A felicidade dela!"

O General ergueu os olhos sob uma onda, mal proferindo os gritos.

"Tão indiferente à reputação dela, que permitiu que um jovem falasse com ela sobre o muro, e se encontrasse com ela com hora marcada: tão imprudente quanto à felicidade da rapariga, que quando tentei levá-lo a um tratado, em nome dela, não pôde ser arrastado de pensar em si mesmo e no seu próprio assunto. Quando descobri isso, talvez estivesse predisposta a dar-lhe um pouco do que as minhas irmãs costumavam chamar o meu tempero. O senhor não declarou honestamente as proporções do seu rendimento, e fingiu ser fiel à mulher de setenta anos. O mais absurdo! Poderia alguma caricatura minha exceder em grotesco o esboço que o senhor faz de si mesmo? É, contudo, um homem valente e generoso: e suspeito que é mais o engano do que o egoísmo — ou um egoísmo extremo — que o cega. Uma certa quantia tem de possuir para ser um homem. Não gostou da minha pintura, menos ainda gostou da minha sinceridade; ficou irritado com as minhas correções aos seus hábitos de fala; ficou horrorizado com a idade de setenta anos, e foi crédulo — General Ople, escute-me, e lembre-se de que não tem colarinho — foi crédulo quanto à minha afirmação da minha grande idade, ou escolheu sê-lo, ou escolheu parecer sê-lo, porque eu tinha escovado o pelo do seu gato contra o sentido. E então, cheio de si mesmo, não pensando na Elizabeth, mas para se retirar na atitude cavalheiresca do homem fiel à sua palavra para com a velha, apenas insistindo em trazer uma certa independência para o património comum, porque — cito-o! e o senhor não tem colarinho, note — 'não podia estar à mercê da sua esposa', o senhor rompeu com a sua proposta sobre a questão do dinheiro. Onde estava a sua consideração pela Elizabeth então?

"Bem, General, o senhor gostava de pensar em si mesmo, e eu pensei em ajudá-lo. Dei-lhe bastante matéria. Não direi que tencionava realizar uma cura homeopática. Mas se o levo a esquecer o seu colarinho, é ou não é um triunfo?"

"Não", acrescentou Lady Camper, "não é um triunfo para mim, mas é um para o senhor, se quiser tirar o máximo partido disso. A sua culpa tem sido deixar o serviço ativo, General, e amar demasiado o seu conforto. É a falha dos seus compatriotas. O senhor deve conseguir um regimento de milícia, ou uma inspeção de milícia. O senhor é dez vezes mais homem em exercício. Ora, quer dizer-me que se teria importado com aqueles desenhos meus enquanto marchava?"

"Penso que sim, digo que penso que sim", observou o General seriamente.

"Duvido", disse ela. "Mas ao que interessa; aí vem a Elizabeth. Se não tem muito dinheiro para dispensar para ela, de acordo com o seu cálculo prudente, reflita sobre como este dinheiro o enfraqueceu e o reduziu ao nível das pessoas à nossa volta aqui — que são, o quê? Habitantes de residências de cavalheiros, sim! Mas que tipo de criatura? Não têm padrão mental, objetivo moral, cavalheirismo nativo. O senhor estava rapidamente a tornar-se um deles, apenas, felizmente para si, era sensível ao ridículo."

"Elizabeth terá metade do meu dinheiro estabelecido para ela", disse o General; "embora tema que não seja muito. E se eu conseguir encontrar ocupação, minha senhora..."

"Algo mais digno do que isso", disse Lady Camper, desenhando contornos rapidamente na margem de um livro, e ele viu-se a fustigar um pónei; "ou isso", e ele estava a arrancar uma couve; "ou aquilo", e ele estava a fazer uma vénia a três postes vestidos de anáguas.

"A semelhança é exata", gemeu o General Ople.

"Portanto, pode supor que o estudei", disse ela. "Mas não há semelhança real. Ligeiros exageros fazem mais mal à verdade do que violações imprudentes da mesma.

O senhor não se teria importado minimamente com uma caricatura, se não tivesse nutrido a ideia absurda de ser um dos nossos conquistadores. É a própria tragédia da modéstia para um homem como o senhor ter tais noções, meu pobre e querido bom amigo. Os modestos são os mais facilmente inebriados quando provam da vaidade. E reflita se não tem estado inebriado, pois estes jovens têm estado infelizes, e o senhor não o observou, embora um deles estivesse a viver consigo, e seja a criança que ama. Pronto, acabei. Por favor, mostre um bom rosto à Elizabeth."

O General obedeceu tão bem quanto pôde. Sentia-se muito como uma ovelha que saiu da tosquia, e quando libertado, desejava fugir. Mas mal tinha escapado, já sentia o desejo da renovação da operação. "Ela vê-me através, ela vê-me através", ouviu-se dizer para si mesmo, e no final ensinou-se a dizê-lo com uma exultação secreta, pois, como era da parte dela um extraordinário pedaço de perspicácia ver através dele, ocorreu-lhe que, ao reconhecer a verdade disso, fez uma descoberta de novos poderes na natureza humana.

O General Ople estudou Lady Camper diligentemente em busca de novas provas da sua penetração nos mistérios do seu peito; pelo que, como aconteceu que ela estava diligentemente a observar os dois jovens noivos, ele começou a observá-los também, e sentiu prazer na visão. Os seus encontros, as suas despedidas, os seus passeios a cavalo para fora e para casa forneceram-lhe temas de conversa. Em breve tinha o suficiente para falar, e anteriormente, como se lembrava, nunca tinha mantido uma conversa de qualquer extensão com compostura e o sentido beneficente de plenitude. Cinco mil libras, quantia a que Lady Camper reduziu a sua estipulação para o dote de Elizabeth, ele assinou a favor da sua querida rapariga alegremente, e saiu com a confissão à sua senhoria de que doze mil libras bem investidas compunham a sua fortuna. Ela encolheu os ombros; tinha deixado de o puxar para um lado e para o outro, por isso as suas correntes eram agradáveis, e ele disse para si mesmo: "Se alguma vez, a meio da noite, ela precisar de um homem para a defender!" Ele mencionou-o a Reginald, que tinha sido o repositório das lamentações de Elizabeth sobre o seu pai ser deixado só, abandonado, e o jovem concebeu um esquema para fazer tocar o grande sino da sua tia à meia-noite, o que certamente teria levado a um desfecho dramático e ao feliz restabelecimento da nossa ascendência masculina no final desta história. Mas esqueceu-se dele no seu deleite de noivo, até que estava a fazer o seu miserável discurso oficial no pequeno-almoço de casamento, e pôs Elizabeth a pestanejar perante uma lágrima. Quando ela estava no hall pronta a partir, uma grande carrinha foi observada na estrada, junto aos portões de Douro Lodge; e esta, declararam os homens sob custódia, continha os bens e objetos da gente que tinha alugado a casa mobilada por um ano, e que vinha chegar nessa mesma tarde.

"Lembro-me, digo agora que me lembro, que recebi um aviso", disse o General alegremente à sua filha perturbada.

"Mas para onde vai o pai?" a pobre rapariga chorou, quase a soluçar.

"Arranjarei emprego de algum tipo", disse ele. "Eu estava a dizer que quero, preciso, requeiro."

"Está a dizer três vezes o que uma teria bastado", disse Lady Camper, e fez-lhe algumas perguntas, franziu o sobrolho com um sorriso, e ofereceu-lhe alojamento na casa da sua vizinha.

"A sério, querida Tia Angela?" disse Elizabeth.

"Que mais posso fazer, criança? Parece que o expulsei de uma residência de cavalheiro, e tenho de lhe dar uma de dama. É verdade, preferia tê-lo à disposição, mas como sempre desejei um polícia em casa, talvez possa ficar satisfeita com um soldado."

"Mas se a senhora perder a sua reputação, minha senhora?" disse Reginald.

"Então terei de contar com o General para a restaurar."

O General Ople inclinou imediatamente a cabeça sobre os dedos de Lady Camper.

"Uma coisa estranha para acontecer a uma mulher de quarenta e um anos!" disse ela aos seus grandes amigos, e eles submeteram-se com a melhor graça do mundo, enquanto as orelhas do General formigavam até ele se sentir mais jovem do que Reginald. Isto, corriam as suas reflexões, ou seria mais correto dizer valsavam, este é o resultado da pintura! — que se pode acreditar que uma mulher tem qualquer idade quando as suas bochechas estão tingidas!

Quanto a Lady Camper, ela tinha sido levada acidentalmente para além do ridículo do boato de um casamento numa altura da vida tão terrível para ela como a sua ficção de setenta anos tinha sido para o General Ople; resignou-se a deixar as coisas seguirem com a maré. Ela não tinha sido feliz no seu primeiro casamento, tinha abandonado a perseguição de um homem ideal, e tinha encontrado um que era afinável de modo a não ofender os seus ouvidos, propenso a ser sempre um fundo de diversão para o seu humor, bom, impressionável, e acima de tudo, muito pitoresco. Esse é o segredo dela, e de como aconteceu que um homem simples e uma mulher complexa caíram na união após a mais estranha divisão.

A doce Susie partiu para obter o consentimento dos pais, E longo deve ser o debate dos velhos sobre o que isso significou. Ela deixou-os na véspera daquela feliz manhã de maio, Para brilhar como a flor que pende do espinheiro!

Para além do seu valor histórico, a balada é um exemplo para os poetas do nosso tempo, que voam para a Grécia mitológica, ou para um medievalismo fantasioso e mórbido, ou — valha-nos Deus! — para ideias abstratas, à procura de temas para as suas canções, do que pode ser feito para tornar a nossa vida inglesa poeticamente interessante, se apenas colhessem os tesouros que lhes são apresentados à beira do caminho; e sendo a Natureza, agora como então, o passaporte para a popularidade, eles têm a si mesmos a agradecer pela sua escassa influência no coração do povo. Um duque nativo vivo vale cinquenta Febos Apolo para os ingleses, e uma jovem rapariga robusta dos campos, que ascende de um par de baldes ao estado de duquesa, um objeto mais romântico do que legiões das vossas visionárias Isoldas e Guineveres.

CAPÍTULO II

Algum tempo após o casamento, Sua Graça apeou-se nas Wells e deu-se ao trabalho de visitar o Sr. Beamish. Dirigindo-se a esse cavalheiro, para quem não era um estranho, comunicou o propósito da sua visita.

— Senhor, e meu muito bom amigo — disse ele — primeiro deixe-me pedir-lhe que abrande a severidade do seu semblante, pois se estou aqui em violação da sua proibição, irei prontamente partir em conformidade com ela. Poderia, de facto, deplorar a perda da paixão pelo jogo da qual me curou eficazmente. Estava então armado contra uma mais cruel, que não permite intervalo para que um homem faça os seus votos de recuperação!

— A doença que é pura crise, suponho — comentou o Sr. Beamish.

— Que, senhor, quando se apodera de lenha seca, arde até à última lasca. Faz agora — o duque soltou um gemido terno — três anos que tive o capricho de me casar com uma neta!

— De Adão — disse o Sr. Beamish alegremente. — Não havia qualquer impedimento legítimo para a união.

— Infelizmente nenhum. No entanto, não pense que me arrependo. Uma criatura admirável, Sr. Beamish, uma verdadeira divindade! E quanto mais conhecida, mais adorada. Aí reside o infortúnio. Na minha idade, quando os órgãos maiores e menores conspiram para me dizer que sou mortal, a paixão amorosa deve ser recebida como uma calamidade, embora ninguém se quisesse libertar dela para a renovação da juventude. Deve compreender que, com um pequeno despertar para o gosto pela dissipação, ela é o mais inocente dos anjos. Até agora vivemos... Para ela, tem sido um mundo novo. Mas ela começa a achá-lo estreito. Não, não, ela não está cansada da minha companhia. Muito pelo contrário. Mas na sua posição atual, uma inclinação por tais reuniões como as que tem aqui, por exemplo, é como um desejo de apanhar ar: e os hábitos saudáveis da minha duquesa não a acostumaram a estar encerrada. E, enfim, por mais que nos dediquemos, aproxima-se um termo em que o entusiasmo por servir de companheiro de brincadeiras da sua esposa durante todo o dia, correndo à volta de mesas e voando por corredores à frente de um lenço com nós, se desvanece grandemente. Contudo, o receio de uma separação dela manteve-me nestes passatempos por um período considerável, para além do meu gosto por eles. Não que admita fadiga. Tenho, ao que parece, um gosto pela reflexão; estou agora muito disposto a ler e meditar, o que não pode ser feito sem repouso. Acomodo-me e recebo uma bola de lã na cara, e esperam que a devolva. Eu obedeço; e então diria que é um berçário em armas. Seria, de outra forma, o espetáculo deplorável de uma bela jovem a bocejar.

— Terramotos e salitre ameaçam-nos menos terrivelmente — disse o Sr. Beamish.

— Em suma, ela arrancou-me a promessa de que «neste verão visitará as Wells por um mês, e receio não poder quebrar a minha palavra; receio não poder».

— Muito certamente eu não o faria — disse o Sr. Beamish.

O duque soltou um suspiro. — Há razões, razões de família, pelas quais a minha companhia e proteção lhe devem ser negadas aqui. Não tenho desejo... de facto, o meu nome, por enquanto, até ao momento em que ela tenha encontrado o seu lugar... e há sempre um preço a pagar por isso. Ah, Sr. Beamish, as pinturas são nossas quando as compramos e as penduramos; mas quem nos garante a posse de uma bela obra da Natureza? Tenho, ultimamente, refletido muito e seriamente. Sinto-me tentado a ficar do lado dos divinos nos sermões que li; a carne é a habitação de um demónio rebelde.

— A quem nos opomos na medida em que nos libertamos dele — aquiesceu o Sr. Beamish.

— Mas esta mania dos jovens pelo prazer, o eterno prazer, é uma das maravilhas. Não lhes sacia; são insaciáveis.

— Há a catarata e há o precipício. De potentado para potentado, duque — desde que esteja no meu território, entenda-se. No meu caminho para um lugar de culto, uma vez, passei por um puritano, que se queixava de uma borboleta que esvoaçava alegremente ao ar livre, em profanação do Dia de Descanso. «Amigo», disse-lhe eu, «prova-me conclusivamente que não é uma borboleta». O carrancudo não fez mais do que me presentear com o anátema do seu semblante.

— Primo Beamish, a minha queixa sobre estes jovens é que eles perdem o prazer ao persegui-lo. Dei sermões à minha duquesa...

— Ha!

— Tolo, admito — disse o duque. — Mas suponha, agora, que tinha apanhado a sua borboleta, e que não a conseguia deixar ir nem consentia em seguir os seus caprichos. Isso deixa-o num impasse.

— Os jovens — disse o Sr. Beamish — caem sob a minha observação neste meu pobre reino — jovens e velhos. Acho-os prodigiosamente semelhantes no seu amor pelo prazer, diferindo principalmente na sua capacidade de o satisfazer. Essa não é uma observação incomum. Os jovens têm um gume que desejam embotar; os velhos, pelo contrário. O clamor dos jovens pelo prazer é, na verdade — estudei a sua linguagem — um clamor por fardos. Curioso! E os velhos clamam por terem demasiados sobre os ombros: o que não é espantoso. Entre eles fazem um concerto agradável tanto para encantar os ouvidos como para guiar os passos do filósofo, cuja sabedoria reside em evitar os seus trilhos.

— Bom. Mas pedi-lhe um conselho prático e dá-me um ensaio.

— Pela razão, duque, de que propõe um caso que sugere o enforcamento. Menciona duas coisas impossíveis de realizar. A alternativa é uma liga e o poste da cama. Quando chegamos a encruzilhadas e não conseguimos decidir tomar nem a direita nem a esquerda, nem para a frente nem para trás, o índice da placa que nos indicaria o caminho aponta para si mesmo e diz, enfaticamente: Forca.

— Beamish, estou distraído. Se lhe recuso a visita, prevejo dissensões, lágrimas, jogos de bola, brincadeiras, nem um dia de descanso restando-me. Poderia ficar com o espírito do seu puritano, positivamente. Se a permito, uma criatura tão inocente na atmosfera de um lugar como este deve sofrer alguma corrupção. Deve saber que a posição de onde a tirei era... era modesta. Ela era absolutamente um botão-de-ouro dos campos. Teve vários mestres. Ela dança... dança lindamente, poderia dizer que de forma fascinante. E, por isso, ela agora quer exibir os seus dotes: assim são as mulheres!

— Já ouviu falar de Chloe? — disse o Sr. Beamish. — Aí tem um exemplo de uma jovem senhora não corrompida por este lugar — do qual apenas diria que é melhor não ser visitado, mas é melhor provado do que desejado.

— Chloe? Uma dama que dissipou a sua fortuna para resgatar algum tratante ingrato: lembro-me de ter ouvido falar dela. Ela ainda está aqui? E arruinada, naturalmente?

— Na bolsa.

— Isso não pode ser sem a perda da reputação.

— O defensor de Chloe admitirá que ela está exposta aos males da imprevidência. Com mais brilho resplandecem a sua pureza nativa, a sua bondade de coração, a sua confiança. Ela é uma dama cuja exaltação brilha na sua humilhação.

— Ela, vejo, preservou a sua beleza — observou o duque, com um sorriso.

— Apesar do voo das rosas, que não tiveram a paciência do seu coração. É agora o lírio que reina. Então, Chloe ficará encarregada da duquesa durante a sua estadia e, a menos que o próprio demónio interfira, garanto a Sua Graça contra qualquer dano pior do que a experiência; e isso — acrescentou o Sr. Beamish, enquanto o duque levantava os braços perante a palavra terrível — será leve. Ela jogará; ela certamente jogará. Ponha a conta num milhar. Traçamos-lhe um curso de loucuras permissíveis e ela joga para perder o milhar gradualmente, com um efeito tão revelador sobre uma consciência conjugal quanto possamos produzir.

— Um milhar — disse o duque — será realmente barato. Acho agora que tive uma descrição desta bela Chloe, e de um entusiasta; uma morena? Elegante nos modos e de uma boa família proprietária de terras; embora tenha achado por bem ocultar o seu nome. E essa será a nossa dificuldade, primo Beamish.

— Ela foi, sob o meu domínio, a Srta. Martinsward — continuou o Sr. Beamish. — Veio para aqui muito jovem e, de imediato, os seus pretendentes foram uma legião. À maneira das mulheres, escolheu o pior entre eles; e pelo sujeito Caseldy, sacrificou a fortuna que herdara de um tio materno. Para o libertar da prisão, pagou todas as suas dívidas; uma montanha de contas, com os advogados empilhados acima — Pélion sobre Ossa, para citar os nossos poetas. De facto, obedecendo aos ditames de uma alma banhada em generosidade, cometeu a indiscrição de se despir, escandalizando a propriedade. Isto foi imediatamente após ela atingir a maioridade; e foi o golpe fatal nas suas relações com a família. Desde então, honrada até pelos libertinos, vive empobrecida nas Wells. Chamei-lhe Chloe, e homem ou mulher que seja desrespeitoso para com Chloe, faz as malas. De ser a vítima da sua disposição generosa, não a pude salvar; posso protegê-la dos dardos da malícia.

— Ela não tem paixão pelo jogo? — inquiriu o duque.

— Ela nutre uma paixão pelo homem por quem sangrou, com exclusão das outras paixões. Ela vive, e creio poder dizer que é o motivo de se levantar e vestir diariamente, na expectativa do seu advento.

— Ele pode estar morto.

— O cão está vivo. E não deixou de ser o Belo Caseldy, dizem. Entre nós, duque, há matéria para lhe partir o coração. Ele tem sido o Conde Caseldy das mesas de jogo continentais, e é recentemente Sir Martin Caseldy, instalado na propriedade que ela o tornou livre para tomar intacta na morte do pai.

— Pah! um vilão!

— Com uma marca mais negra sobre ele a cada manhã que olha para a sua propriedade, e a deixa definhar! Ela ainda — digo-o para a redenção do nosso sexo — tem ofertas. Os seus encantos incomparáveis de mente e pessoa exercem o império natural da beleza. Mas ela não quer nada deles. Chamo-lhe a Bela Suicida. Ela morreu por amor; e é um fantasma, um bom fantasma, e um fantasma agradável, mas uma aparição, uma vela.

O duque inquietou-se e expressou a esperança de ouvir que ela não tinha uma conversa melancólica; e, novamente, que o assunto do seu discurso não se limitava ao amor e aos amantes, felizes ou infelizes. Ele desejava que a sua duquesa, disse, fosse entretida com tópicos mais alegres: sendo o amor um tema que desejava reservar para si mesmo. — Este mês! — disse ele, agitando-se e gemendo de forma profética. — Quisera que este mês tivesse acabado e que estivéssemos bem purgados dele.

O Sr. Beamish tranquilizou-o. O engenho e a vivacidade de Chloe eram tão famosos que eram considerados medicinais, afirmou; ela era assediada pela sua companhia; compunha e cantava versos improvisados, tocava harpa e cravo divinamente, dedilhava a guitarra e dançava, dançava como a lua prateada sobre as águas do açude do moinho. Concluiu dizendo que ela era humana e sábia, humilde e divertida, virtuosa sem ser um tártaro; a melhor das companhias para Sua Graça, a jovem duquesa. Além disso, comprometeu-se corajosamente a levar a duquesa através do período da sua visita sob um nome que deveria ser tão bom quanto um disfarce para ocultar o de Sua Graça, enquanto lhe dava todas as honras devidas à sua categoria.

— Interpreta estritamente os meus desejos — disse o duque; — todas as honras, o primeiro lugar, e a minha ira sobre homem ou mulher que os contradiga!

— A minha! se lhe aprouver, duque — disse o Sr. Beamish.

— Mil perdões! Deixo-o consigo, primo. Não poderia estar em mãos mais seguras. Estou-lhe profundamente grato. Chloe, então. A propósito, ela tem um respeito decente pela idade?

— Ela é reverentemente inclinada.

— Não é isso. Ela é, perguntaria eu, nenhuma faladora leviana dos encantos e vantagens da juventude?

— Ela tem um jovem admirador a quem chamei Alonzo, a quem quase não nota.

— Nada poderia ser melhor. Alonzo: h'm! Um namorado fiel?

— A vida é a sua árvore, sobre a qual incessantemente esculpe as iniciais da sua amante.

— Ela não deveria ser tão cruel. Lembro-me de mim mesmo antigamente: eu era... Os jovens, quando negligenciados por muito tempo, transferem as suas afeições e tornam-se mais calorosos com a segunda chama do que com a primeira. Ponho-o de sobreaviso. Ele segue-a muito? Estas pinturas e suspiros de amantes nas proximidades da mais inocente das mulheres são contagiosos.

— Sua Graça correrá para casa muito mais cedo.

— Ou fugirá! — que ela me perdoe! Sou como um judeu do Rei João, forçado a emprestar o seu tesouro sem segurança. Que mundo é o nosso! Nada, Beamish, nada desejável terá que não seja cobiçado! Apanhe um prémio e descobrirá que está em guerra com a sua espécie. Tem de estar na defensiva a partir desse momento. Não existe tal coisa como uma procissão pacífica na terra. Que seja uma bela jovem! — Ah!

O Sr. Beamish respondeu de forma encorajadora: — O lutador campeão desafia todos os que vêm enquanto usa o cinturão.

O duque concordou, abatido. — Verdade; ou é desafiado, digamos. Existe alguma história que lhe possamos contar sobre este Alonzo? Poderia deportá-lo durante o mês, meu caro Beamish.

— Não cometo injustiça a menos que com razão suficiente. É um jovem estimável, como mostra a sua devoção a uma mulher sem par. Dotá-la com o seu nome e fortuna é o seu único pensamento.

— Percebo; um excelente jovem! Tenho uma inclinação incipiente por este jovem Alonzo. Não deve permitir que a minha duquesa se ria dele. Encoraje-a antes a promover a sua pretensão. A tolice de um jovem não será um mau espetáculo. Chloe, então. Pôs a minha mente em sossego, Beamish, e é apenas mais uma obrigação adicionada à pilha; portanto, se não falo de pagamento, a razão é que sei que não me quer falido.

O resto do colóquio do duque e do Sr. Beamish referiu-se à data da vinda de Sua Graça às Wells, ao alojamento que ela deveria receber e a outros arranjos menores relativos ao seu estado e conforto; observando o duque perpetuamente: — Mas deixo tudo consigo, Beamish — quando já tinha dado instruções precisas a esse respeito, até à especificação dos lojistas, o pasteleiro e o boticário, que deviam equilibrar ou anular um ao outro na natureza oposta dos seus fornecimentos, e o armarinheiro e o joalheiro, com quem ela deveria fazer as suas compras. Pois o duque tinha uma recordação de lojas vertiginosas, e de lojistas vertiginosos também; e foi servindo como um durante um dia que um certo grande nobre alcançou a vitória com uma dama zelosamente guardada, bela como Vénus. — Eu teria desafiado a deusa! — exclamou ele, e diminuiu do seu entusiasmo de forma lamentável, como um instrumento de sopro fraco. — Então aí vê a prudência da escolha das lojas. Mas deixo isso consigo, Beamish. Da mesma forma, o grande comandante militar, tendo feito tudo o que uma previsão cuidadosa pode sugerir para lhe garantir a vitória, entrega-se à Providência, com a esperança de propiciar o inesperado e o sombriamente possível.

CAPÍTULO III

A esplêndida carruagem de seis cavalos, com criados de libré escarlate e verde, levou o Beau Beamish cinco milhas ao longo da estrada num dia ensolarado para encontrar a jovem duquesa no limite do seu território e conduzi-la em cortejo até às Wells. Chloe sentava-se ao lado dele, recebendo conselhos quanto aos seus deveres futuros. Ele era, naquele dia, o beau consumado, suave, mas monárquico, e a sua maneira de falar participava da sua grandeza exterior. — Espia-me o horizonte e avisa-me se, em algum lugar, distingues uma carruagem — disse ele, ao pararem na subida de uma colina de longa descida, onde a estrada poeirenta afundava entre as suas sebes castanhas e rastejava, subindo de cavidades secas salpicadas de juncos para campos de cereais numa altura companheira diretamente à sua frente, a uma distância de cerca de três quartos de milha. Chloe olhou para fora, enquanto o beau levantava passageiramente o chapéu para refrescar e murmurava, com um olhar pela trilha tórrida: — Faz suar os olhos ver!

Pouco depois, Chloe disse: — Agora sopra uma nuvem de pó. Algo se aproxima. Agora distingo cavalos, agora um veículo; e é uma carruagem!

Ordens foram dadas aos batedores para que as trompas fossem tocadas.

Tanto Chloe como Beau Beamish franziram as testas perante as notas desordenadas das trompas triplas, cujo toque produzia um ácido no ar em vez de doçura.

— Dir-se-ia cães de canil que uivam à lua! — disse o beau, estremecendo. — Contudo, como sabe, estes sujeitos foram exercitados. Tive-os num prado durante horas, assados e encharcados, para os livrar da sua cacofonia nativa. Mas eles adoram-na, como adoram bacon e feijão. O gosto musical do nosso povo está na fase do apetite primitivo pelo ruído, e por isso são gulosos.

— Será agradável ouvir à distância — respondeu Chloe.

— Sim, quanto maior a distância, mais agradável é ouvir. Estão a avançar?

— Param. Há um cavalheiro à janela. Agora tira o chapéu.

— Varrido?

Chloe descreveu um semicírculo com a sua grandeza.

As sobrancelhas do beau ergueram-se. — Poderes divinos! — murmurou ele. — Ela é deixada solta de mão em mão, e a meio caminho vem um cavalheiro. Não contámos com os falcões. Então tenho de lidar com um cavalheiro! Significa, minha querida Chloe, que devo incontinenti afetar a paixão se quiser ser o seu par: nada menos.

— Ele voou — disse Chloe.

— Quem ela encontra depois de me encontrar, não me importa — disse o beau, estalando um dedo. — Mas houve um intervalo para danos com uma dama inocente como Eva. Ela está a avançar?

— A carruagem está a trotar colina abaixo. Ele cavalgou de volta. Ela não tem cavaleiro acompanhante.

— Foram dispensados por minha ordem a dez milhas de distância, particularmente para o benefício da horda de cavaleiros, ao que parece. No caso de uma mulher, Chloe, um piscar de olhos é uma omissão de vigilância.

— Esse é um axioma digno do harém do Grande Signor.

— O Grande Signor poderia dar-nos lições proveitosas para lidar com o sexo.

— Desconfie de nós, e é uma declaração de guerra!

— Confie em vós, e a tampa sai do frasco de sais.

— Sr. Beamish, somos mulheres, mas temos almas.

— O caroço na maçã cuja bochecha avermelhada atrai o pequeno Tommy a roubar o pomar é um preservativo tão bom quanto esse.

— Admite que os homens são os nossos inimigos?

— Sustento que eles carregam a bandeira da virtude.

— Oh, Sr. Beamish, vou expirar.

— Proíbo-o durante a minha vida, Chloe, pois desejo morrer acreditando numa mulher.

— Nada de lisonjas para mim à custa das minhas irmãs!

— Então fuja para um eremitério; pois toda a lisonja é à custa de alguém, criança. É um extrato de essência da humanidade! Viver dele, à maneira de algumas pessoas, é mau — é simplesmente canibal. Mas podemos perfumar os nossos lenços com ele, e deveríamos, se quiséssemos acariciar os nossos narizes com um ar. A sociedade, minha Chloe, é um recomeço num nível superior do sistema selvagem; temos de ter os nossos sacrifícios. Como, por exemplo, o que diz de mim ao lado dos nossos fidalgos rústicos de botas?

— Centenas deles, Sr. Beamish!

«Isso é um holocausto de escudeiros reduzidos a fazer incenso para mim, embora não tenha realizado ritos druídicos nem os tenha empacotado em gigantescas costelas de vime. Seja filosófica, mas aceite os seus tributos pessoais. Conceda-nos os nossos também. Tenho a séria intenção de preservar esta jovem duquesa, e espero que a minha tarefa seja severa. Carrego o estandarte supracitado; verdadeiramente e penitencialmente, carrego-o. É um erro do vulgo supor que tudo é dragão nas mandíbulas do dragão.»

«Os homens são as suas presas e garras.»

«Sim, mas a paixão pelo seu hálito de fogo está na mulher. Ela dará o seu salto e terá a sua pirueta, quererá e quererá! E no ponto em que ela quer e não quer, o dragão engole e lá vai ela! No entanto, o negócio é manter a nossa duquesa-botão-de-ouro longe desse mesmo ponto. Ela está perto?»

«Posso vê-la», disse Chloe.

Beau Beamish pediu um esboço dela, e Chloe começou: «Ela é arrebatadora.»

Ao que ele comentou: «Toda a mulher é arrebatadora a quarenta passos, e ainda mais na imaginação.»

«Cabelo castanho-avermelhado lindo, e uma tez deslumbrante de vermelho e branco, emoldurada por uma touca azul.»

«Os seus olhos?»

«Azul derretido.»

«É uma bruxa inglesa!» exclamou o beau, e invocou com compaixão o seu senhor ausente.

As ópticas de Chloe já não eram solicitadas para discernir os traços da bela dama, pois as janelas da carruagem surgiram alinhadas com as do beau no largo planalto da colina. A porta da sua carruagem foi aberta. Ele sentou-se direito, nivelando o seu olhar privilegiado sobre a Duquesa Susan até que ela corou.

«Sim, senhora», disse ele, «não sou o primeiro.»

«Ora, senhor!» disse ela; «quem é o senhor?»

O beau ergueu deliberadamente o chapéu e inclinou-se. «Aquele, senhora, de cuja aproximação o cavalheiro que se despediu de vossa mercê na elevação ali adiante a informou.»

Ela olhou ingenuamente por cima do ombro, e para o beau a descer da sua carruagem. «Um cavalheiro?»

«A cavalo.»

A duquesa pôs a cabeça fora da janela por um impulso de medir a distância entre as duas colinas.

«Nunca!» exclamou ela.

«Por que, senhora, ele não entregou nenhuma mensagem a anunciar-me?» disse o beau, eriçando-se.

«Valha-me Deus! O senhor deve ser o Sr. Beamish», respondeu ela.

Ele pousou o chapéu sobre o peito e convidou-a a deixar a sua carruagem por um lugar ao lado dele. Ela estipulou: «Se o senhor é realmente o Sr. Beamish?» Ele franziu a testa e levantou a cabeça para a convencer; mas ela não se deixou impressionar, e ele recorreu a Chloe para estabelecer a sua identidade. Ao ouvir o nome de Chloe, a duquesa exclamou: «Oh! pronto, chega, pois a Chloe é a minha criada aqui, e sei que é uma dama de nascimento, e vamos ser amigas. Ajude-me a ir ter com a Chloe. E a senhora é a Chloe?» disse ela, após um passo franco de degrau para degrau das carruagens. «E não se importa de ser a minha criada? Parece uma criatura simpática e bondosa. E vejo que é uma dama de nascimento; sei num minuto. É morena, eu sou loira; daremos certo. E diga-me — psiu! — que olhos terrivelmente longos ele tem! Pedir-lhe-ei daqui a pouco o que pensa de mim. Nunca estive nas Wells antes. Céus! A carruagem virou. A que distância ouviremos os sinos a dizer que estou a chegar? Sei que hei de ter sinos. Sr. Beamish, Sr. Beamish! Preciso de conversar com uma mulher, e estou receosa do senhor, sim estou, mas homens e homens vejo-os para conversar com um estalar de dedos, às dúzias, no palácio do meu duque — embora sejam velhos, é verdade — mas uma mulher que seja dama, e bondosa o suficiente para ser a minha criada, ainda não encontrei desde que tive o direito de usar uma coroa. Pronto, segurarei a mão da Chloe, e isso bastará. Dizer-me-ia de imediato, Chloe, se eu não estivesse vestida ao seu gosto; não diria? Quanto a ser faladora, isso é um sinal comigo de que gosto das pessoas. Na verdade, às vezes não sei o que dizer ao meu duque. Sento-me e acho tão engraçado ter um duque em vez de um marido. Está a partir!»

A duquesa riu-se da risada de Chloe. Chloe desculpou-se, mas foi informada pela sua senhora que era isso que ela gostava.

«Durante os primeiros dois anos», retomou ela, «mal conseguia dizer uma sílaba. Gaguejava, ficava vermelha, ansiava por estar no meu quarto a escovar e a encaracolar o cabelo, e estava pronta para fazer vénias a toda a gente. Agora sinto-me perfeitamente à vontade, pois tenho muita coragem — exceto quanto à morte, e sou pior quanto à morte do que era quando era uma pessoa simples com um 'valha-me' de pasmada nos olhos redondos e na boca para um ovo. Pergunto-me por que será? Mas não é a morte horrível? E esqueletos!» A duquesa estremeceu.

«Depende do esqueleto», disse Beau Beamish, que se juntara à conversa. «O seu, senhora, preferiria não encontrar, porque me precipitaria em transportes de lamento pela perda da carne. Encontrei, no entanto, o meu e tive razões para satisfação com a entrevista.»

«O seu próprio esqueleto, senhor!» disse a duquesa admirada e horrorizada.

«Inconfundivelmente o meu. Chamá-la-ei a testemunha através de um relato dele.»

A Duquesa Susan ficou boquiaberta e, «Oh, não!» exclamou ela; mas acrescentou: «É luz do dia, e tenho alguém para dormir perto de mim depois de escurecer»; com o que sorriu para Chloe, que lhe prometeu que não havia motivo para alarme.

«Encontrei o meu cavalheiro quando me dirigia para o meu quarto à noite», disse o beau, «ao longo de um corredor estreito, onde era imperativo que um de nós cedesse a passagem; e, devo confessar, somos todos tão incrivelmente iguais nos nossos ossos, que fiquei preparado para lhe exigir o lugar. Pois, sem dúvida, o sujeito era um obstáculo, e à primeira vista repulsivo. Tomei-o pelo esqueleto de qualquer um, o estandarte da Morte, com o seu crânio a rir, e as costelas numeradas, e os extraordinários pés espalmados — de facto, todo o desajeitado e trémulo rapazola sobre o qual o homem é construído, e por cuja imagem nos seus momentos mais fracos ele é assombrado. Eu tinha, para ser franco, estado a dançar sobre uma ceia com alguns dos nossos mais seletos Espíritos e Belezas. É uma receita para conjurar aparições. Ora bem, penso eu, meu belo sujeito, vou dar-te um encontrão; e sem uma saudação avancei. Senhora, dou-lhe a minha palavra, ele comportou-se exatamente como eu me teria comportado em circunstâncias semelhantes. Retirando-se com uma inclinação da sua estrutura, ele endireita-se e faz-me uma vénia no ponto exato entre a dignidade e o serviço. Eu avanço, ele retira-se, e novamente a vénia, desprovida de servilismo, majestosamente condescendente. Estes, penso eu, são modos reais. Poderia tê-lo tomado pelo Rei das Sombras em pessoa, despido do seu manto. Pela minha alma, ele fez-me corar.»

«E é tudo?» perguntou a duquesa, aliviando-se com um suspiro.

«Ora, senhora», disse o beau, «não vê que ele não poderia ter sido outro senão o meu, que se podia comportar com aquele ar grandioso e graciosidade quando ferido pelo seu parente mais próximo? Ao abrir-me a porta e aceitar a passagem, que eu agora de muito bom grado lhe concedi, reconheci de imediato tanto ele como a repreensão que ele intencionalmente me dera — ou a ceia de vinho sobre a qual eu tinha dançado, talvez devesse dizer — e protesto que, com tal demonstração de suprema boa educação, ele conseguiu transmitir o maior elogio alguma vez recebido pelo homem, a saber, a garantia de que, após o definhar desta mortal vestimenta, ainda serei notado pela urbanidade e elegância. Não, e mais, imortalmente, sem o deslize de que fui culpado quando carreguei o odre de vinho.»

A Duquesa Susan abanou-se para ajudar a sua digestão da anedota.

«Bem, não é uma história tão assustadora, e sei que o senhor é o grande Sr. Beamish», disse ela.

Ele perguntou-lhe se o cavalheiro lhe fizera sinal sobre ele na colina.

«O que pode ele querer dizer com um cavalheiro?» ela voltou-se para Chloe. «O meu duque disse-me que o senhor viria encontrar-me. E o senhor deve proteger-me. E se alguma coisa acontecer, a culpa deve ser sua.»

«Inteiramente», disse o beau. «Manterei, portanto, uma guarda vigilante.»

«Exceto deixar-me livre. Uf! Tenho estado fechada há tanto tempo. Declaro, Chloe, que me sinto como um vestido de gala saído para um feriado, e um pouco com medo de me estragar. Sou uma verdadeira criança, mais do que era quando o meu duque casou comigo. Parecia que entrava e crescia novamente, depois de ter sido elevada à fortuna. E ninguém a quem contar! Imagine isso! Pois não se pode falar com velhos cavalheiros sobre o que se passa no seu coração.»

«Como é com os jovens cavalheiros?» perguntou-lhe o beau.

E ela respondeu: «Eles descobrem-no.»

«Não se a senhora não os ajudar», disse ele.

A Duquesa Susan deixou as pálpebras e o seu olhar baixar, enquanto olhava para ele com a timidez simples de um dos pensamentos da natureza na sua cabeça ao espreitar as pastagens do mundo. Os olhos azuis derretidos e o lábio de cereja faziam uma imagem extremamente vivificante. «Ora, pergunto-me se isso é verdade?» ela transferiu a sua astúcia para a fala.

«Cuidado com os de meia-idade!» exclamou ele.

Ela apelou a Chloe. «E tenho a certeza de que são os mais simpáticos.»

Chloe concordou que eram.

A duquesa mediu Chloe e o beau em conjunto, com uma mente rápida a apreender tudo por que ansiava.

Ela teria prosseguido com o tema agradável se não tivesse sido dirigida a olhar lá para baixo para as torres e telhados das Wells, brilhando sonolentamente numa sesta de sol de Verão à tarde.

Com uma expansão da sua túnica de seda, ela tocou na estrutura do seu cabelo, murmurando para Chloe: «Não suporto aquele pó. Ver-me-á andar com uma armação. Eu consigo. Já o fiz ao som de música lenta até o meu duque bater palmas. Não sou nada sentada comparado com o que sou de pé. Isso é porque ainda não tenho uma linguagem fina. Hei de ter. Parece vir por último. Então, ali está o lugar. E onde é que todas as grandes pessoas se encontram e passeiam...?»

«Elas passeiam onde vê as árvores, senhora», disse Chloe.

«E onde é que as damas se sentam e comem tortas de compota com natas batidas nelas, enquanto os cavalheiros estão de pé e fazem elogios?»

Chloe disse que era numa loja perto da sala da bomba.

A Duquesa Susan olhou para além dos telhados das casas, para além das sebes poeirentas.

«Oh, e aquele pó!» exclamou ela. «Odeio estar fora da moda e ser um espetáculo. Mas adoro o meu próprio cabelo, e tenho tanto, e gosto da cor, e o meu duque também. Apenas, não me deixem ser tocada. Se uma vez começar a corar perante as pessoas, a minha coragem desaparece; o meu canto interior é abafado; e tenho uma verdadeira cotovia a cantar dentro de mim o dia todo, com chuva ou sol — psiu, tudo sobre amor e diversão.»

Chloe sorriu, e a Duquesa Susan disse: «Exatamente como um pássaro, pois não sei o que é.»

Ela esperou que Chloe dissesse que sabia.

Nesse momento, um par de escudeiros montados aproximou-se, e a carruagem parou, enquanto Beau Beamish dava ordens para que os sinos da igreja começassem a tocar, e a banda para se encontrar e preceder a sua carruagem à cabeça da avenida dos banhos: «em honra da chegada de Sua Graça a Duquesa de Dewlap.»

Ele proferiu estas palavras alto para os seus homens, e voltou um olhar fulgurante sobre a duquesa, de modo que durante um minuto ela ficou fascinada e não consultou a sua audição; mas logo caiu num mal-estar; os sinais aumentaram, ela mordeu o lábio, e após respirar curto uma ou duas vezes, «Referia-se a mim, Sr. Beamish?» disse ela.

«Vossa mercê, senhora, é a pessoa a quem nos 'compraz honrar'», respondeu ele.

«Duquesa de quê?» ela contraiu traços inquietos para ouvir.

«Duquesa de Dewlap», disse ele.

«Não é o meu título, senhor.»

«É o seu título no meu território, senhora.»

Ela tornou o seu nariz bonito e o lábio superior feios com um esgar de «Dew...! E entrar naquela cidade perante todas aquelas pessoas como Duquesa de... Oh, não, eu não vou; eu simplesmente não vou! Chame de volta aqueles homens agora, por favor; agora, se lhe apetece. Peço-lhe, Sr. Beamish! Irá ofender-me, senhor. Não vou ser uma caricatura. Irá ofender o meu duque, senhor. Ele morreria antes de ver os meus sentimentos feridos. Aqui está todo o meu prazer estragado. Não vou e não hei de entrar na cidade como duquesa daquele nome estúpido, portanto chame-os de volta, chame-os de volta neste instante. Sei quem sou e o que sou, e sei o que me é devido, eu sei.»

Beau Beamish replicou: «Eu também. Chloe dir-lhe-á que eu sou o senhor aqui.»

«Então eu vou para casa, eu vou. Não serei motivo de riso como uma parva de grande dama. Sou uma verdadeira dama de alta linhagem, e assim aparecerei. O que é uma Duquesa de Dewlap? Mais valia ser Duquesa de Rabo de Vaca, Duquesa de Mopsend. E aquelas pessoas! Mas não serei isso. Não serei alvo de brincadeiras. Vejo-os a olhar! Não, eu sei decidir-me, e peço-lhe que chame de volta os seus homens, ou voltarei para casa.» Ela murmurou: «Ser motivo de chacota — feita parva!»

«A carruagem de Vossa Graça está atrás», disse o beau.

A sua frieza despótica provocou nela um grito e choro: ela repetiu, «Dewlap! Dewlap!» entre soluços; ela abanou os ombros e escondeu o rosto.

«A senhora orgulha-se do seu título, não é, senhora?» disse ele.

«Orgulho.» Ela saiu de dentro das mãos para lhe responder orgulhosamente. «Isso orgulho-me!» quis ela dizer como uma afirmação mais forte.

«Então, marque as minhas palavras», disse ele de forma impressionante; «sou amigo do seu duque, e a senhora está sob a minha responsabilidade aqui. Sou o seu guardião e a senhora é a minha pupila, e só pode entrar na cidade sob a condição de obediência a mim. Agora, marque as minhas palavras, senhora; ninguém pode roubar-lhe o seu verdadeiro nome e título exceto a própria. Mas a senhora está a entrar num lugar onde encontrará mil tentações para o manchar, e talvez perder. Seja avisada, não faça nada que o permita.»

«Então, hei de ter o meu próprio título?» disse ela, aclarando-se.

«Durante o mês da sua visita, é a Duquesa de Dewlap.»

«Eu digo que não hei de ter!»

«Há de ter.»

«Nunca, senhor!»

«Eu ordeno-o.»

Ela atirou-se para a frente, com um lamento, sobre o peito de Chloe. «Não pode fazer algo por mim?» ganiu ela.

«É impossível mover o Sr. Beamish», disse Chloe.

Após uma pausa, composta de soluços e suspiros, a duquesa deixou escapar com uma voz quebrada: «Então tenho a certeza de que acho — acho que preferiria ter encontrado — ter encontrado o seu esqueleto!»

A sua sinceridade igualava o engenho.

Beau Beamish gritou. Ele aplaudiu-a cordialmente e, na bondade genuína de uma admiração que o surpreendeu, permitiu-se a liberdade de tomar e beijar os seus dedos. Ela imaginou que havia outra oportunidade para ela, mas ele franziu o rosto à menção disso.

Sobre estes procedimentos, o som estimulante da banda foi ouvido; simultaneamente, um repique festivo de sinos irrompeu; e uma admoestação da necessidade de esconder o seu desgosto e exibir tanto posição como um semblante perante as pessoas, combinada com a agitação das novas cenas e a música de marcha, baniram o sentido mais agudo de desapontamento da mente da Duquesa Susan; de modo que muito cedo ela se manteve ereta, e ostentou um rosto aberto a toda a maravilha, impressionável como a superfície azul do lago, encrespada aqui e ali por brisas caprichosas contra um sol nivelado.

CAPÍTULO IV

Era um axioma para o Sr. Beamish, o nosso primeiro, se não o nosso único beau filosófico e um cavalheiro de alguma reflexão, que os ingleses sociais exigem um governo tirânico tanto quanto os políticos são capazes de dispensá-lo: e isto ele explicava através de uma exposição do carácter de uma raça possuidora da eminente virtude da autoafirmação individual, que faz com que insistam em bom espaço para os cotovelos onde quer que se reúnam. A sociedade, contudo, não sendo tolerável onde a suavidade do convívio é perturbada por um contínuo acotovelar de flancos, os méritos do cidadão livre neles tornam-se os seus deméritos quando um círculo fraternal é estabelecido, e aqueles que deram um exemplo de civilização demasiado notável numa esfera para exigir elogios, são frequentemente vistos a acotovelar-se na orla esfarrapada da barbárie na outra. Devem, portanto, ser reduzidos a aceitar leis não feitas por eles mesmos, e de uma extrema rigidez.

Aqui também há um perigo acrescido; pois os espíritos galantes que os distinguem no estado de independência podem (ele previa a melancólica experiência de uma era posterior) abandoná-los totalmente na sujeição, e a gloriosa turbulência condizente com o campo da aldeia pode abandoná-los mesmo nos seus antros de associação liberal, caso sejam uma vez totalmente domesticados pela autoridade. A nossa «merrie England» será então a Inglaterra de cara comprida, uma Inglaterra de queixos caídos, como uma cabeça de javali, carregando para fala um limão na boca: boa para se banquetear, talvez; não com ela!

O Sr. Beamish pareceria, de facto, ter previsto o perigo de uma transição que ele só podia vigiar no seu tempo; e, como disse, «vou-me, como vim, num flash»; ele não tinha ascendência nem descendentes: era um génio, sabia-se um solitário, portanto, apesar dos seus esforços para criar os seus semelhantes. Dentro do seu distrito, ele realizou algo, o suficiente para lhe dar fama como um dos pais principescos da nossa civilização doméstica, embora agora pareçamos ter perdido com isso mais do que outrora ganhámos. A perseguição do natural é sempre carregada de perigos duvidosos. Se ele galopa de volta, segundo o provérbio, fá-lo-á à carga: habitualmente galopa para longe, totalmente para longe; e então, para qualquer tipo de animação, a nossa dependência precária é dos cérebros: temos de viver da nossa inteligência, que é ordinariamente menos produtiva do que a terra, e não pode ser remetida em morgadio.

Certa ou erradamente (há diferenças de opinião sobre isso) o Sr. Beamish reprimiu o natural ctónico com uma vara de ferro sob o seu governo. A rapariga indisciplinada e o labrego não tiveram paz até terem dado imitações públicas da dama e do cavalheiro; nem a dama e o cavalheiro tinham o privilégio de ser o que ele chamava «bandeiras livres». Ele podia ser caridoso com a paixão, mas bramia a própria palavra (trazida a fumegar do lago de enxofre) contra aqueles que pretendiam ser descaradamente culpados dos pecados da galanteria. A sua famosa abordagem a uma dama que ameaçava afundar-se, e já atuava como uma embarcação nessa situação: «Então, senhora, ouço dizer que se prepara para se inscrever na antiquíssima ordem?»... (ele nomeou-a) era uma peça de insolência que o envolveu em alguma discórdia com o marido da dama e o «mordomo patife», como ele escolhia chamar à terceira parte nestes assuntos: ainda assim, é reputado por ter salvo a dama.

Além disso, ele atacou a vulgaridade das pessoas de qualidade, e disse a uma dama da moda que se entregava a um marcado esgar de desdém, não melhorando as suas feições, «que teria o prazer de ter a sua garantia de que era o seu rosto que apresentava à humanidade»: uma coisa — graças talvez a ele principalmente — já não possível de proferir. Uma das do sexo perguntando-lhe por que dirigia as suas perseguições particularmente às mulheres: «Porque luto as vossas batalhas», diz ele, «e encontro-vos nas fileiras do inimigo.» Ele tratava-as como traidoras.

Era, contudo, bem apoiado por um sexo que compensa a antipatia pelo seu amigo antes de certa idade com um reconhecimento cordial quando atinge esse período. Uma falange de grandes damas conferia-lhe os terrores do Olimpo para todos, exceto para os nativamente audazes, os truculentos e os insuportavelmente obtusos; e, do meio delas, lançava decretos e raios com bom efeito: não, é claro, sem receber mísseis em troca, e não sem a questão subsequente sobre se o trabalho desse homem era benéfico para o país, ele que, na verdade, domesticava o escudeiro matuto e a sua prole, mas à custa dos seus espíritos animais e do seu dom da palavra; isto é, transformando-os em petrificações. Na operação cirúrgica da traqueotomia, o sucesso do tratamento do paciente depende, cremos, da presteza e habilidade na introdução da traqueia artificial; e pode ser que os nossos infelizes compatriotas, quando cortados da fonte do seu fôlego, não tenham sido habilmente tratados; ou então que exista neles uma oposição física a qualquer coisa artificial, e que deva ser a natureza ou nada. A disputa será deixada onde está.

Ora, aventurar-se a exibir uma bela e jovem Duquesa de Dewlap, com um odor a pastora sobre ela, não obstante a sua arte adquirida de caminhar conformemente num saiote, e exigir plena homenagem de respeito por uma dama que ostentava tal título, que possuía os atrativos inebriantes da maçã pomarada e rosada na árvore junto ao muro da estrada, quando o dono está ausente, era ousado da parte do Sr. Beamish, passando a temeridade; nem ele próprio o teria tentado se não estivesse assegurado do apoio da sua falange de grandes damas. Elas, de facto, após serem admitidas no segredo, tinham estipulado que primeiro deviam inspecionar a leiteira transformada; e a revista não foi desfavorável. A Duquesa Susan saiu dela mais incólume do que o seu duque. Ela estava calada, e o seu andar ensinado e a sua estatura realmente admirável ajudaram-na a apaziguar as críticas do seu sexo; por quem a sua inocência demasiado pronta a corar era louvada, com uma reserva, expressa na observação de que ela era um brinquedo monstruosamente fino para a segunda infância de um duque, e que nunca deveria ter sido deixada voar do seu berçário. A sua modista foi aprovada. O duque era um notório conhecedor dos encantos femininos e trataria, naturalmente, do adorno decoroso da sua pessoa pela melhor das modistas. O seu sorriso era bonito, os seus olhos eram suaves; ela poderia vir a ser boa, se bem guardada durante algum tempo; mas estes méritos da mulher não são os da grande dama, e o seu título era um raio demasiado forte sobre o seu caráter para lhe dar uma hipótese justa perante as suas críticas. Todas, sem exceção, recomendaram pó para o seu cabelo e bochechas. Aquele odor a pastora não poderia ser exorcizado por nenhum outro meio, declararam elas. O seu corar era indecente.

Verdadeiramente, as críticas do sexo inimigo comportaram-se de uma forma a fazer com que os rubores pululassem rosados como os bandos de jovens Amores em torno de Citereia no seu nascimento no mar, quando, alguns subindo e outros descendo, eles esvoaçam como o seu cinto desatado e cortam o ar espessos como pétalas de flores no hálito do verão, tecendo a sua rede para o mundo. A Duquesa Susan podia protestar a sua incapacidade de conter os seus rubores; que a culpa era dos olhos insolentes, e não das suas bochechas singelas. Sim, mas a natureza, se queremos domesticar estes homens, deve ser envolvida e oculta, parcialmente sufocada, absolutamente sufocada quando necessário. A mulher natural não move um pé sem golpear a terra para conjurar a horrível aparição do homem natural, que não é como ela, mas um selvagem canibal. Para ser a luz que guia, é seu dever vestir a névoa de uma ideia, para que possa habitar como uma ideia nas mentes dos homens, muito ténue, muito poderosa, mas abstrusa, inapreensível. Muita sabedoria lhe foi transmitida sobre o assunto, e ela entendeu um pouco, e ecoou oca ao resto, disposta a mostrar total docilidade na medida em que a sua inteligência consentia estar desperta. Ela estava naquela fase da inocência delicada e levemente tingida da autoadmiração, quando as belas jovens que não foram apanhadas para a escola na infância consideram uma mácula serem feitas parecer diferentes do que a abençoada natureza as fez, que as fez belas, e que, portanto, certamente merece ser adorada. As palestras das grandes damas e os conselhos de Chloe não conseguiram persuadi-la a usar a bola de pó. Talvez também, à medida que a timidez a deixava, ela apreciasse a sua distinção no meio delas.

Mas a distinção de uma Duquesa de Dewlap com o cabelo e as bochechas dos nossos campos nativos estava repleta de problemas que ultrapassavam os cálculos do Sr. Beamish. Ele tinha percebido que ela seria atraente; não tinha contado com a homogeneidade dos seus encantos ingleses particulares. Uma beleza em vermelho, branco e azul é a nossa deusa Vénus com a maçã de Paris na mão; e após duas visitas à Pump Room, e um passeio nos trilhos em torno da Assembly House, ela tinha dividido os convidados comuns das Wells tão completamente em homem e mulher na opinião, como a sua mãe Natureza o tinha feito no sexo. E os homens não se calariam; tinham contemplado a sua divindade, e cabia às mulheres sucumbir àquele estado insalubre, tão cheio de trovões. Cavaleiros e escudeiros, militares e rurais, abandonaram a sua lealdade à esquerda e à direita para se dedicarem a esta robusta nova visão, e à sua maneira peculiar, com um View-halloo geral, e um Yoicks, Tally-ho, e lá vamos nós, a galope! Sem exemplo na Inglaterra para a Beleza acender os ardores do faro da raposa, a Duquesa Susan fez mais — ela transformou todos os seus seguidores em cães de caça; eram loucos: poucos dias após a sua entrada, as apostas fervilhavam em torno dela, e havia brigas, ataques alegres ao seu caráter sob a forma de vigorosos encómios, acusações de mentira e, numa ocasião, um golpe de derrubar em público, como se o lugar nunca tivesse conhecido o toque polidor do Sr. Beamish.

Ele ficou em grande perplexidade com aquele golpe. Desencorajando o duelo tanto quanto podia, um caso de espada era, contudo, mais tolerável do que o punho brutal: e, de todos os homens para ser culpado disso, quem teria antecipado o jovem Alonzo, o amante calmo e modesto de Chloe! Era ele. O caso chegou ao Sr. Beamish para sua decisão; ele teve de proferir um julgamento imparcial e, durante algum tempo, durante o exame das provas, sofreu, como nos assegura nas suas Memórias, uma agonia real. Ter de golpear com a espada da Justiça aqueles a quem mais estima é a maior aflição conhecida pelos reis. Ele tê-lo-ia feito: ele merecia reinar. Felizmente, as provas contra o cavalheiro que foi derrubado, o Sr. Ralph Shepster, desculparam o Sr. Augustus Camwell, ou seja, Alonzo, por lidar com ele prontamente para lhe calar a boca.

Este Shepster, um jovem escudeiro rude, "exalando", escreve Beau Beamish sobre ele, "metade do solo, e a outra metade da cidade", tinha envolvido Chloe nas suas observações familiares sobre a Duquesa de Dewlap; e o respeito pessoal que o Sr. Beamish nutria por Chloe aprovava tão fortemente a defesa de Alonzo, que, ao sentenciar, ele realçou a paixão do jovem Alonzo por Chloe, para provar de uma só vez o desinteresse do agressor e a natureza judicial da sentença: que era que o Sr. Ralph Shepster deveria sofrer o banimento, e tinha o direito de exigir reparação. A última parte deste decreto ajudou a efetivar a execução da primeira. Shepster recusou o aço frio, chamando-lhe homicídio, e foi efusivo na lógica da natureza sobre o assunto.

"Porque um homem vem e me derruba, devo ir até ele e pedir-lhe que me atravesse!"

O seu abanar de cabeça significava que ele não era tal pateta. Volúvel e prolífico em ilustrações, como ninguém o é tanto quanto um filho da natureza inspirado a proferir as suas palavras de sabedoria, ele desafiou o mandato e recusou para si próprio a satisfação, até que, da maneira mais estranha possível, voos de penas brancas o assediaram, e ele tornou-se um alvo de perseguição demasiado árduo para a amizade dos seus amigos. Ele fugiu, repetindo a sua história, de que tinha visto a "Duquesa de Beamish", e Chloe a acompanhá-la, num encontro no South Grove, onde um cavalheiro, desconhecido nas Wells, se apresentou às damas aventureiras, e elas caminharam juntas — uma história que terminava com acenos.

O banimento de Shepster foi uma daquelas vitórias da justiça sobre as quais a humanidade poderia ser congratulada se não deixassem comoção atrás de si. Mas, como quando um rapaz foi chicoteado perante os seus camaradas, o medo pode visitá-los, contudo, existe também diabrura na escola; e em toda a parte sobre a terra, um castigo sumário que não limpa o lugar é provável que infete quem nele permanece. Os grandes legisladores, Licurgo, Dracão, Sólon, Beamish, reconhecem pesarosamente que tiveram de recorrer a agentes infernais, depois de terem assim purificado o seu círculo de um ofensor. Os médicos confessam o mesmo sobre os seus fármacos. O agente expulsivo tem de ser, por sua vez, expulso, e é um veneno subtil, que afeta os nossos espíritos. A Duquesa Susan tinha agora o incenso de uma vítima para aumentar os seus encantos; como o galeão espanhol carregado de tesouros por quem, na sua viagem de regresso das águas sul-americanas, os nossos corsários de embarcações ligeiras espreitavam, ela tinha a atração dupla de ser desejável e um inimigo. Vigiá-la conscientemente era um negócio extenuante.

O Sr. Beamish enviou chamar Chloe, e ela veio ter com ele imediatamente. O seu olhar era curioso; ele estudou-o enquanto conversavam. Assim olha alguém que está a observar o voo certeiro de uma flecha, ou as combinações felizes de uma intriga. Dizendo, "Eu não sou um inquisidor, criança", ele aventurou-se em duas ou três modestas inquisições com relação à sua patroa. O título com que tinha disfarçado a Duquesa Susan, confessou arrepender-se como a causa principal da agitação do seu principado. "Ela é cortejada", disse ele, "menos como uma cidadela que agita uma bandeira do que como uma estalagem onde a procura é por lugar para sentar e uma caneca! Estes são os nossos modos. Contudo, devo admitir, uma Duquesa de Dewlap é uma provocação, e o meu desejo exclusivo de proteger o nome do meu senhor está corrigido pelos perigos que cercam a sua dama. Ela é outra coisa do que eu supunha; ela é, esperamos, uma excelente criatura, mas demasiado atraente para que a maioria e a ponte levadiça e as defesas habituais sejam negligenciadas."

Chloe respondeu ao seu interrogatório com um relato pronto da inocência e boa índole da jovem duquesa que apaziguou o Sr. Beamish.

"E tu?", disse ele.

Ela sorriu como resposta.

Aquele sorriso não era o sorriso comum; era um de um êxtase ávido, produzindo enquanto ele contemplava o espasmo de um reflexo inquisitivo dele nos seus lábios. Tal sorriso convida-nos a adivinhar e apressa-nos a adivinhar, avisa-nos que queimamos e acelera a nossa queima, e assim, como um anjo que nos transporta para algum promontório de festa celestial, retira-nos de nós próprios para ver no universo da cor o que a boca tem apenas um discurso pálido para contar. Essa é a linguagem do próprio coração; os anos estão num olhar, como o monte e o vale da terra escura surgem no relâmpago.

Ele conteve-se: mal se atreveu a dizê-lo.

Ela acenou.

"Viste o homem, Chloe?"

O seu sorriso rompeu-se nas linhas duras de um êxtase próximo da dor. "Ele veio; ele está aqui; ele é fiel; ele não me esqueceu. Eu tinha razão. Eu sabia! Eu sabia!"

"Caseldy veio?"

"Ele veio. Não perguntes. Tê-lo! Vê-lo! Sr. Beamish, ele está aqui."

"Finalmente!"

"Cruel!"

"Bem, Caseldy veio, então! Mas agora, amiga Chloe, devias estar ciente de que o homem..."

Ela tapou os ouvidos. Enquanto o fazia, o Sr. Beamish observou uma madeixa de seda espessa a balançar de uma mão. Parte dela estava trançada, e na extremidade superior havia um nó. Assemelhava-se ao início da sua manufactura de um chicote: ela balançava-o de um lado para o outro, permitindo-lhe apanhar e levantar os fios nos seus dedos com o propósito de examinar o seu trabalho. Não havia um elogio especial a fazer, por isso ele largou-o sem comentários.

Os seus rostos tinham expressado o desejo dela de não ouvir nada da parte dele sobre Caseldy e a sua submissão para não dizer nada. A sua felicidade era demasiado grande; ela parecia implorar para se deitar com ela no seu peito, à maneira de uma jovem mãe exausta que recebeu agora pela primeira vez o seu bebé nos braços da ama.

CAPÍTULO V

Humorando Chloe com a sua habitual consideração, o Sr. Beamish absteve-se de lançar uma sombra sobre a sua alegria recém-nascida, e até mesmo, dentro de si próprio, de duvidar da segurança da sua fundação. O regresso de Caseldy às Wells era pelo menos alguma garantia da sua constância, vendo que foi aqui que combinaram encontrar-se quando ele e Chloe se separaram pela última vez. Tudo poderia correr bem, embora não estivesse explicado por que ele não se tinha apresentado mais cedo. Ao mais leve inquérito, a resposta de Chloe era um tremor de felicidade.

Além disso, o Sr. Beamish calculou que Caseldy seria um aliado útil para impor um devido respeito a Sua Graça a Duquesa de Dewlap. Por isso, dirigiu-se alegremente aos aposentos de Caseldy para entregar uma mensagem de boas-vindas, encontrando, no seu caminho para lá, o Sr. Augustus Camwell, com quem teve uma breve conversa, muito para sua admiração da bondade e autocontenção do jovem cavalheiro apaixonado ao falar da melhor sorte de Caseldy e Chloe. O Sr. Camwell parecia apressado.

Caseldy não estava em casa, e o Sr. Beamish dirigiu-se aos aposentos da duquesa. Chloe tinha-a encontrado ausente. Os dois consultaram-se. O Sr. Beamish assumiu um ar sério, até que Chloe mencionou a loja do pasteleiro, pois a Duquesa Susan tinha um gosto por doces; ela adorava uma visita ao pasteleiro, cujas tartes de geleia lhe eram mais queridas do que as suas mais famosas empadas quentes de carneiro. O pasteleiro informou o Sr. Beamish de que a sua Graça tinha estado na sua loja, mais cedo do que o habitual, por acaso, e acompanhada por um cavalheiro de aspeto estrangeiro que usava bigodes. A sua Graça, disse o pasteleiro, tinha comido várias tartes, juntamente com o cavalheiro, que o elogiou por superar o pasteleiro continental. O Sr. Beamish olhou para Chloe. Ele prosseguiu as suas investigações na Pump Room, enquanto ela procurava à volta do café das senhoras. Encontrando-se novamente, caminharam de volta aos aposentos da duquesa, onde uma banda tocava na estrada, por ordem da sua Graça; mas a duquesa estava ausente, e não era vista desde a sua partida matinal.

"Que tipo de caráter atribuirias à senhora Susan de Dewlap, a partir do teu conhecimento pessoal dele?", disse o Sr. Beamish a Chloe, enquanto saíam da porta.

Chloe meditou e disse: "Eu acrescentaria 'bom' à comparação mais cruel que pudesses encontrar para ela."

"Mas aceitando a comparação!" O Sr. Beamish acenou e refletiu sobre a circunstância de estarem muito nas mãos da natureza com a Duquesa Susan, de quem se poderia dizer que o seu caráter era bom, mas ainda mais vivo para as tentações que assolam a estação da Primavera. Ele aliou o adjetivo de Chloe a uma série de epítetos igualmente aplicáveis à natureza e às mulheres, de acordo com as ideias correntes, concluindo: "Conde, chamam ao teu Caseldy nas suas alojamentos. 'O Conde saiu para passear.' Ele é contado fora. Ah! tu farás com que ele abandone esse 'Conde' quando ele te tirar daqui."

"Não fales do tempo além do mês", disse Chloe, tão urgentemente num fôlego rápido que fez com que o Sr. Beamish lançasse um olhar inquisitivo para ela.

Ela respondeu-lhe: "Não é um mês de brilho tanto quanto podemos pedir?"

O dândi bateu os cotovelos complacentemente contra os lados em concórdia filosófica com o seu sentimento.

À tarde, no desfile, foram acompanhados pelo Sr. Camwell, entre grupos de senhoras da moda e os seus acompanhantes, caminhando serenamente, por prescrição médica, para o apetite. Como ele não comentou a ausência da duquesa, o Sr. Beamish aludiu a isso; ao que foi informado de que ela estava pelos prados, e lá estava há algumas horas.

"Não desprotegida", respondeu ele ao Sr. Beamish.

"Aha!", exclamou este; "temos um Argos!", e como a duquesa não estava nas colinas, e os raios do sol eram suaves entre as nuvens, ele concordou com a proposta do seu jovem amigo de que deveriam avançar para a encontrar. Chloe caminhou com eles, mas o seu rosto estava desdenhoso; nos estribos, ela deu a mão ao Sr. Beamish; não dirigiu uma palavra ao Sr. Camwell, e ele sabia o motivo. No entanto, ele manteve o seu ar de resignação militar ao cumprimento do dever, e manteve a cabeça como um cavalheiro incapaz de conceber a ignomínia de ter feito o papel de espião. Chloe afastou-se dele.

A Duquesa Susan distinguia-se atravessando um amplo prado não cortado, tirra-lirraing sob uma cotovia, Caseldy em seu acompanhamento. Ela parou bruscamente e falou com ele; depois avançou, exclamando ingenuamente. "Oh, Sr. Beamish, não é exatamente isto que queria que eu fizesse?"

"Não, senhora", disse ele, "a senhora tinha as minhas ordens em contrário."

"La!", exclamou ela, "pensei que devia correr pelos campos de vez em quando para preservar a minha simplicidade. Sei que me disseram isso, e quem mo disse!"

O Sr. Beamish curvou-se efusivamente à apresentação de Caseldy, cujos dedos ele tocou em sinal da renovação de conhecimento, e com uma gargalhada dirigiu-se à duquesa:

"Senhora, a senhora lembra-me uma história da minha infância. Eu tinha um camarada juvenil da idade mais tenra, de nome Tommy Plumston, e ele gozava do privilégio da intimidade com um garoto componente chamado Jimmy Clungeon, com o qual vagabundo aventureiro, desafiando o interdito da sua mãe contra ele sair de casa por um minuto durante a sua ausência, ele partiu numa excursão pelo distrito, resultando, talvez como consequência da sua completude, nisto, que a uma distância computada em quatro milhas da mansão materna, ele percebeu a sua amada mamã com clareza suficiente para sentir a certeza de que ela também o tinha visto. Tommy consultou Jimmy, e depois saltou em corrida para a sua mamã franzina, e entregou-se nestas palavras singelas, que repito tal como foram proferidas, para lhe dar o sabor do bebé inocente: ele disse, 'Eu frink que frought que ouço você chamar-me, ma! e Jimmy Clungeon, ele frought que frink assim também!' Então, a senhora vê, o par deles estava sob a impressão de que estavam a fazer o correto. Existe uma distinção delicada nos tempos verbais de cada frinking onde o outro frought, o suficiente em si para carimbar a sinceridade sobre a declaração."

Caseldy disse: "A veracidade de um rapaz que possui um amigo chamado Clungeon está acima de qualquer contestação."

A Duquesa Susan abriu os olhos. "Quatro milhas de casa! E o que é que a sua mãe lhe fez?"

"A mamã do Tommy", disse o Sr. Beamish, e com a licença resplandecente do período que continuava ainda em termos toleráveis com a natureza sob o compromisso do decoroso "Oh-fie!", declarou categoricamente a coisa que ela fez.

"Imagino, senhor, que apanhei o vislumbre da sua figura na colina ali, cerca de uma hora ou mais antes", disse Caseldy ao Sr. Camwell.

"Se foi na altura em que o senhor estava a sair daquele bosque, senhor, a sua suposição está correta", disse o jovem cavalheiro.

"O senhor tem vista longa, senhor!"

"Tenho, senhor."

"E eu também."

"E eu", disse Chloe.

"A nossa Chloe distingui-lo-á com precisão a uma milha, e já o fez", observou o Sr. Beamish.

"Uma pessoa adivinha nas pontas dos pés sobre uma suspeita, e se estiver errada passa, e se estiver certa é um milagre", disse ela, e levantou a voz numa canção para abandonar o assunto.

"Sim, sim, Chloe; então tu tinhas uma suspeita, sua marota, no dia em que tivemos o prazer de conhecer a duquesa, tinhas?", insistiu o Sr. Beamish.

A Duquesa Susan interpôs-se. "Que canção bonita! e a senhora a impedi-la, senhor!"

Caseldy pegou na melodia.

"Oh, vocês os dois juntos!", exclamou ela. "Eu adoro ouvir música nos campos; é celestial. Bandas na cidade e vozes nos campos verdes, digo eu! Não poderiam juntar-se à Chloe, Sr.... Conde, senhor, antes de chegarmos ao pé das pessoas, aqui onde está tudo tão agradável e calmo. Música! e o meu coração começa tão a bater pit-a-pat. O senhor canta, Sr. Alonzo?"

"Mal", respondeu o jovem cavalheiro.

— Mas o Conde sabe cantar, e Chloe é um verdadeiro anjo quando canta; não é verdade, querida? — suplicou ela a Chloe, a quem Caseldy dirigiu um prelúdio com uma vénia e um floreado de mão.

A voz de Chloe voou. O rico tom masculino de Caseldy acompanhou-a. A canção era alegre; ele estalava os dedos a intervalos ao estilo estrangeiro, cantando a peito aberto, com notas cheias e um belo abandono, e a mais rápida suscetibilidade às astutas modulações da sua bela companheira, e um olho para o enlevo da Duquesa Susan.

O Sr. Beamish e o Sr. Camwell aplaudiram-nos.

— Nunca sei o que dizer quando estou a transbordar — deixou escapar um suspiro a duquesa. — E ele sabe tocar flauta, Sr. Beamish. Prometeu-me que iria à orquestra tocar um pouco num dos vossos concertos de noite tão agradáveis, e isso será tão bom... Oh!

— Prometeu-lhe, senhora, foi isso que ele fez? — disse o beau. — Foi a caminho dos Wells que ele lho prometeu?

— A caminho dos Wells! — exclamou ela suavemente. — Ora, como poderia alguém prometer-me uma coisa antes mesmo de me ver? Acho isso uma coisa estranha para se pedir a uma pessoa. Não, hoje, enquanto passeávamos; e eu deveria ouvi-lo cantar, disse ele. Ele admira tanto a sua Chloe. Ora, não é de admirar, pois não? Ela sabe fazer tudo; tricotar, coser, cantar, dançar... e falar! Nunca lhe faltam palavras. Ela cria cenas inteiras à tua volta, como um teatro de figuras, digo-lhe eu. E sempre alegre. Não tem um minuto de mau humor; e eu, por vezes, sou um prato de leite azedo que só serve para os porcos.

Com as vossas horas tardias aqui, tenho a certeza de que preciso de estímulo pela manhã, e Chloe canta-me uma das suas canções, e eu digo: "Aí está o meu pássaro!"

O Sr. Beamish acrescentou: — E não se esqueça de que ela tem um coração.

— Bem me parece! — disse a duquesa.

— Um coração, senhora!

— Ora, o que mais haveria de ser?

Nada mais, foi o que o beau, pelo seu semblante, se viu forçado a admitir.

Parecia intrigado com esta filha da natureza de coroa de marquesa; e mais ainda quando ela observou: — O senhor sabe sobre o coração dela, Sr. Beamish.

Ele aquiesceu, pois é claro que sabia da devoção de toda uma vida dela a Caseldy; mas havia malícia no tom dela. Contudo, não esperava que uma mulher com a educação dela tivesse um tom perfeitamente concordante com as circunstâncias. Falando cautelosamente do rosto e da figura elegantes de Caseldy, ficou satisfeito ao ouvir a duquesa dizer: — É o que eu digo à Chloe.

— Bem — disse ele —, devemos considerá-los unidos; eles são um só.

A Duquesa Susan respondeu: — É o que eu lhe digo; ela fará tudo o que o senhor desejar.

Ele repetiu estas palavras com uma interjeição e decidiu, no seu íntimo, que eram meramente tolas. Ela era uma verdadeira pastora por nascimento e natureza, exigindo uma guarda rigorosa sobre os seus encantos devido à sua simplicidade; essa era a sua interpretação do problema; concebera-a à primeira vista dela, e recorria sempre a ela sob a influência dos seus olhos ingénuos, embora as suas teorias sobre homens e mulheres fossem astutas, e aquele cavalheiro, percebido pela Chloe de vista aguçada à janela da carruagem da Duquesa Susan, perturbava-o por vezes. Antecipar habitualmente o simplório numa determinada pessoa é a forma mais segura de ser, por vezes, o enganado, como ele não teria sido o último a avisar um neófito; mas a sabedoria abstrata precisa de uma suspeita não aplacada de grande gume, se quisermos que ela esteja viva para lidar com olhos ingénuos e com a nossa fantasia preconcebida da sua ingenuidade.

— Fala da Chloe para ele? — perguntou ele.

Ela respondeu: — Sim, falo. E ele ama-a tanto! Gosto de o ouvir. Ele é um dos cavalheiros que não me fazem sentir tímida na presença deles.

Recebeu uma pequena lição sobre as virtudes da timidez em preservar o sexo feminino do perigo; após o que, considerando que a dama que não se sente tímida com um determinado cavalheiro não despertou qualquer sentimento, cedeu o seu lugar ao Sr. Camwell e procedeu a aplicar o apalpa-coração a Caseldy.

Esse cavalheiro foi comunicativamente cândido. Chloe tinha-o deixado, e ele relatou como, chamado a Inglaterra e obrigado a resolver um litígio que ameaçava um processo judicial, teve de se abster com pesar de visitar os Wells por uma temporada, não por medo dos atrativos do jogo — tinha subjugado a fragilidade do desejo de jogar —, mas porque considerava seu dever para com a sua Chloe trazer-lhe um semblante sereno, e desejava primeiro estar melhor dos graves incómodos que o assolavam. Por uma razão semelhante, não tinha escrito; desejava banquetear-se com a surpresa dela. — E tive a minha recompensa — disse ele, como se tivesse sido a pessoa principalmente a sofrer através dessa abstinência. — Encontrei... posso dizê-lo ao senhor, Sr. Beamish... amor nos olhos dela. Divina por natureza, ela é uma das imortais, tanto na aparência como na constância.

Referiram-se à Duquesa Susan. Caseldy admitiu relutantemente que seria uma falta de gentileza retirar Chloe do serviço dela durante o curto período que restava da sua estadia nos Wells; e por isso não o propôs, disse ele, pois a duquesa era uma criança, uma inocente, não estúpida de modo algum; mas, é claro, o seu transplante de uma posição inferior para uma elevada colocava-a em desvantagem.

O Sr. Beamish falou das dificuldades do seu posto como guardião, e também do estranho cavalheiro visto à janela da carruagem dela por Chloe.

Caseldy sorriu e disse: — Se houve um... e Chloe é bastante míope... dificilmente podemos esperar que ela o confesse.

— Por que não, senhor, se ela é este pedaço de inocência? — foi levado a perguntar o Sr. Beamish.

— Ela teme-o, senhor — respondeu Caseldy. — Inspirou-lhe um medo extraordinário de si.

— Eu? — disse o beau: tinha sido o seu esforço inspirá-lo, e ele inchou um pouco, mais com alívio pelo pensamento de possuir um poder para controlar a sua delicada pupila do que com a nossa vaidade; ainda assim, seria audacioso dizer que não havia uma dose desta última. Era um homem muito humano; e tinha, como vimos, as suas ideias sobre o efeito da impressão do medo nos corações das mulheres. Algo, em todo o caso, fê-lo esquecer o cavalheiro.

Foram atraídos pelos três que os precediam, por uma vivaz dissensão entre Chloe e o Sr. Camwell.

A Duquesa Susan explicou-o no seu estilo direto: — Ela quer que ele vá para casa, e ele diz que irá, se ela lhe der aquele novelo duplo de seda que ela balança, e ela diz que não dará, peça ele o tempo que quiser; então ele diz que não vai, e eu certamente não vejo por que deveria ir; e ela diz que ele pode ficar, mas que não terá o colar dela, como ela lhe chama. Então o Sr. Camwell tenta agarrá-lo, e Chloe enfurece-se. Céus, como ela sabe franzir o sobrolho! para ele. Ela nunca franze o sobrolho a ninguém senão a ele.

Caseldy tentou a persuasão em nome do Sr. Camwell. Com a boca junto ao ouvido de Chloe, disse: — Dá-lho; deixa o pobre coitado ter a sua lembrança; despacha-o com ela.

— Eu consigo ouvir! E isso é realmente gentil — exclamou a Duquesa Susan.

— Um colar um tanto de rapariguinha de colégio — observou o Sr. Beamish; — mas ele poderia tê-lo, sem a despedida, pois não posso consentir em perder o Alonzo. Não, senhora — acenou ele à duquesa.

Caseldy continuou o seu sussurro: — Não podes pensar em usar uma coisa dessas à volta do pescoço?

— Na verdade — disse Chloe —, penso nisso.

— Ora, que moda tens tu aqui?

— Ainda não é uma moda — disse ela.

— Um círculo de seda não assentará bem em nenhum pendente precioso que eu conheça.

— Um saco de pó não é um pendente muito precioso — disse ela.

— Oh, um memento mori! — exclamou ele.

E ela respondeu: — Sim.

Ele troçou dela pela sua superstição, prosseguindo: — Certamente, meu amor, é uma forma barata de se livrar de um jaloux pestilento e intrusivo. Atira-lho para as mãos como um mittimus.

— A presença dele aflige-te? — perguntou ela.

— Vou admitir que ter sempre o sujeito a perseguir-nos, com o seu olhar abatido, não é agradável. Ele observa-nos agora, porque os meus lábios estão perto da tua face. Ele devia estar ausente; é um a mais. Despacha-o na sua viagem com a lembrança que ele pede.

— Guardo-a para uma viagem minha, que talvez tenha de fazer — disse Chloe.

— Comigo?

— Tu seguirás; não podes deixar de me seguir, Caseldy.

Ele especulou sobre a expressão dela. Ela sorria ternamente. — Estás feliz, Chloe?

— Nunca conheci tamanha felicidade — disse ela. O brilho dos seus olhos confirmou-o.

Ele olhou para a Duquesa Susan, que estava como um girassol ao sol. O seu olhar demorou-se um momento. Os abundantes e resplandecentes encantos jovens dela eram a mais rica fascinação em que um olho como o dele podia habitar. — Isso é bom — disse ele. — Seremos perfeitamente felizes até ao fim do mês. E depois dele? Mas livra-nos do Monsieur le Jeune; atira-lhe essa ninharia; isso eu poupo-lhe. Será uma felicidade para ele, ao custo de um pouco de fio de seda para nós. Além disso, se o mantivermos para curar a sua paixão aqui, não poderia ser... estes rapazes mudam de repente, como os ventos de Albion, de um objeto belo para outro... ao custo da preciosa e simples dama que estás a guardar? Apenas insinuo. Estes dois afetam um ao outro, como se pudesse ser. Ela fala dele. Será como quiseres, mas uma ninharia como essa, minha Chloe, para nos livrarmos de um olho verde!

— Desejas muito que ele se vá embora? — disse ela.

Ele encolheu os ombros. — O sujeito está no nosso caminho.

— Achas que ele é um pouco perigoso para a minha dama inocente?

— Candidamente, acho.

Ela esticou a corda de seda meio trançada nas duas mãos para testar a resistência, deu um segundo nó e guardou-a no bolso.

Imediatamente adotou o seu ar de companheira mais vivaz, personagem na qual ninguém era tão encantadora como Chloe podia ser, pois tornava-se camarada dos homens sem perder o seu estatuto entre damas sábias e doces, e era como um rapaz inteligente e cintivante, a quem os seus superiores admiradores deram a liderança em tiradas, caprichos e lutas; mas, mais agradável que um rapaz, os tons suaves do seu sexo suavizavam o seu espírito folgazão; parecia a representante do seu sexo, para dizer aos mais grosseiros onde se podiam encontrar, como numa ponte sobre a torrente que os separava, alegremente para troca do melhor de ambos, não inflamados e não tentados pelo fogo, contudo com todos os elementos que fazem o fogo arder para animar os seus corações.

— Sorte do homem que ganha para si esse cordial para toda a vida! — disse o Sr. Beamish à Duquesa Susan.

Ela tinha pouca compreensão de frases metafóricas, mas era rápida a ler rostos; e, comparando o entusiasmo no rosto do beau com o olhar de maravilhamento perturbado e arrependimento de Caseldy, teve pena do amante consciente de não ter a maior parte das afeições da sua amada. Quando ele olhou para ela pouco depois, a mulher de coração terno poderia ter chorado de pura compaixão, tão sensível ele se mostrou da preferência de Chloe pelo outro.

CAPÍTULO VI

Nessa noite, a Duquesa Susan jogou na mesa de Faraó e perdeu oitocentas libras, devido ao desespero pela perda de vinte. Após encorajá-la a prosseguir até a esta extremidade, Caseldy deteve-a. Estava a conduzi-la para fora da sala de jogo quando um par de jovens escudeiros da ordem de Shepster, e preparados com vinho, interceptaram-na para apresentar as suas condolências, o que fizeram com gestos exagerados, pretendendo ser uma paródia grosseira da cortesia importada do Continente, e um dedilhar muito doce sobre as variações populares do seu nome cristão, não esquecendo o seu título singular, "a minha adorável, adorável Dewlap!"

Ela estava excitada e atordoada pela sua experiência imediata na transferência de dinheiro, e disse: — Tenho a certeza de que não sei o que querem.

— Sim! — gritavam eles, batendo nos peitos como guitarras, e tentando a postura de quem dedilha o instrumento; — ela sabe. Ela sabe. A bela Susie sabe o que queremos. E um ejacutou, melifluamente, "Oh!", e o outro "Ah!", em flagrante escárnio das formas estrangeiras que produziam em burlesco rústico... um truque autoconfortante e comum do rústico.

Caseldy estava atrás. Empurrou-os e fez-lhes uma vénia. — Senhores, querem mencionar-me o que pretendem?

Disse-o com um olhar que significava aço. Isso arrefeceu-os o suficiente para lhe permitir colocar a duquesa sob a proteção do Sr. Beamish, que entrava de outra sala com Chloe; momento em que o par de galãs rústicos retirou-se para revigorar o seu sangue valente.

O Sr. Beamish vira que havia motivo para gratidão a Caseldy, a quem disse: — Ela perdeu? — e parecia satisfeito ao ouvir o montante da perda, e encarregou Caseldy de escoltar as damas até aos seus aposentos imediatamente, observando: — Adeus, Conde!

— Achara o meu título estrangeiro de utilidade para si aqui, depois de um ou dois combates — foi a resposta.

— Nada de combates, se possível evitar; embora perceba como o sabor do seu título de conde pode espalhar um alarme saudável entre os nossos rurais, que prontamente se atirarão a si com os punhos, mas não apreciam a astuciosa arma fria.

O Sr. Beamish, altivamente, fez uma vénia para a duquesa se retirar.

Caseldy aproveitou a oportunidade, enquanto a ajudava a entrar na liteira, para dizer: — Tentaremos a cartomante por um dia de sorte para nos vingarmos.

Ela respondeu: — Oh, não me fale em jogar outra vez, nunca; estou quase com a bolsa vazia e nunca conheci um lugar tão pecaminoso como este. Sinto que caí numa vala. E lá está o Sr. Beamish, todo empertigado quando me faz uma vénia. Está a fazer a Chloe esperar, senhor.

— Onde estava ela enquanto estávamos na mesa?

— Com certeza estava com o Sr. Beamish.

— Ah! — gemeu ele.

— A pobre alma está em desespero pelas suas perdas desta noite — virou-se ele para dizer a Chloe, afastando-se da duquesa fechada na liteira. — Dá-lhe um choro confortável e algumas máximas morais.

— Dar-lhe-ei — disse ela. — Amas-me, Caseldy?

— Amar-te? Eu? A minha? Que garantia querias ter?

— Nenhuma, querido amigo.

Aqui estava uma mulher facilmente enganada.

Nos corações de certos homens, devido a um desprezo intelectual por tolos fáceis, a compunção em enganar é diminuída pela leveza da sua tarefa; e essa confiança suave que muitas vezes, ainda que passageiramente, levaria os traidores a reconsiderar os encantos da bela alma que estão a abandonar, recomenda a estes cavaleiros armados que persigam com redobrado zelo os caminhos frutíferos da traição. Os seus sentimentos são, além disso, calorosos pela sua presa; e, escolhendo julgar a sua vítima pelo calor presente dos seus sentimentos, podem à vontade ser feridos, até ao ponto de ficarem escandalizados, por uma frieza que não desperta neles uma suspeita. O ciúme teria uma hipótese de prender, pois não é impossível provocá-los de volta à lealdade declarada; mas a pura indiferença tem também um aperto mais forte sobre eles do que uma confiança cega e entorpecida. Eles odeiam o fardo que ela impõe; o aspeto cego é apenas tocante o suficiente para os lembrar do fardo, e odeiam-na por isso, e pela enorme presunção da crença de que estão eternamente ligados a tal imbecil. Ela caminha com os olhos fechados, esperando não tropeçar, e quando tropeça, serei eu o culpado? O homem ferido pergunta-o no decurso do seu raciocínio.

Ele recorre aos méritos da sua vítima, mas apenas com compaixão, e a compaixão é arrefecida pelo pensamento de que ela pode, no fim, atravessar-se no seu caminho para o frustrar. Nisso, é levado a pensar no prémio que ela lhe pode roubar; e quando uma mulher é um obstáculo, a outra brilha desejável como a vida para além da morte; ele tem de a ter; vê-a na tonalidade do seu desejo por ela, e o obstáculo na da sua repulsa. A crueldade não é mais do que o esforço do homem para ganhar o objeto desejado.

Ela não deveria deixar à imaginação dele conceber que, no fim, a cega pode despertar para o frustrar. Melhor seria para ela expulsá-lo, ou deixá-lo saber que ela lutará para o manter. Mas o orgulho de um amor que endureceu na fidelidade do amor nem sempre pode ser sábio à prova.

Caseldy caminhava consideravelmente atrás do par de cadeiras. Viu no caminho o que estava para vir. Os seus dois jovens escudeiros estavam apostados à porta da Duquesa Susan quando ela chegou, e ele recebeu um golpe de um deles ao abrir caminho para ela. Ela puxou a mão dele. — Magoaram-te? — perguntou ela.

— Pensa em mim esta noite a agradecer-lhes e ao céu por isto, minha querida — respondeu ele, com um aperto que iluminou o momento fugaz para acender as horas seguintes.

Chloe tinha aceitado a ajuda de um dos seus carregadores para saltar. Esticou um dedo aos intrusos indisciplinados, gritando severamente: — Há sangue em vós... não vos aproximeis de mim! A mais elevada das arengas não teria sido tão astuta para tocar o espírito deles. Olharam um para o outro ao claro luar. Qual deles tinha sangue nele? Como não estavam ali por sangue, mas por diversão bruta, e algo de que se gabar no dia seguinte, gesticularam de acordo com as primeiras instruções do mestre de dança, por forma de galantaria, e saíram do caminho de Caseldy quando este se colocou ao serviço da sua dama soberana. — Não lhes dês importância, querido — disse ela.

— Não, não — disse ele; e "O que é isto?", e o seu acento rouco e o aperto trémulo no braço dela deixaram-na doente com a sensação de uma morte próxima.

Lá em cima, a Duquesa Susan fez um espetáculo de a abraçar. Ambas tremiam. A duquesa atribuiu o seu estado àqueles homens terríveis. — O que os faz estar assim atrás de mim? — disse ela.

E Chloe disse: — Porque é bela.

— Sou?

— É.

— Sou?

— Muito bela; jovem e bela; bela em botão. Aprenderá a desculpá-los, senhora.

— Mas, Chloe... — A duquesa fechou a boca. De um devaneio lânguido, suspirou: — Suponho que devo ser! O meu duque... oh, não fales dele. Querido homem! ele está na cama e a dormir profundamente muito antes disto. Pergunto-me como veio a deixar-me vir aqui.

Eu chateei-o, eu sei. Sou muito, muito bela, Chloe, de modo a que os homens não se possam conter?

— Muito, senhora.

— Pronto, boa noite. Quero ir para a cama e não posso beijar-te porque continuas a chamar-me senhora, e congelas-me até ao gelo; mas eu amo-te, Chloe.

— Tenho a certeza de que sim.

— Tenho a certeza absoluta. Sei que nunca tenciono mal. Mas como é que se espera que nós, mulheres, nos comportemos, então? Oh, sou infeliz, sou.

— Deve abster-se de jogar.

— É isso! Perdi o meu dinheiro... esqueci-me. E terei de confessá-lo ao meu duque, embora ele me tivesse avisado. Os velhos levantam os dedos... assim! Um dedo: e nunca te esqueces da visão dele, nunca. É um dedo redondo, como a asa de um jarro, e não aponta para ti quando estão a dar lições, e a pele é como um casaco velho nos ombros de um gaffer... ou, Chloe! tal e qual, quando olhas para a unha, uma colcha amarrotada até à cara de um cadáver. Declaro, é tal e qual! Sinto-me como se não me importasse nada de falar de cadáveres esta noite. E o meu dinheiro desapareceu, e não me importo muito. Sou uma rapariga selvagem outra vez, mais bonita do que quando aquele... ele é um querido, bondoso, bom velho nobre, com o seu dedo velho engraçado: "Susan! Susan!" Não sou pior do que as outras. Toda a gente joga aqui; toda a gente superior. Ora, tu já jogaste, Chloe.

— Nunca!

— Ouvi-te dizer que jogaste uma vez, e uma aposta maior foi, disseste, do que qualquer um alguma vez jogou.

— Não dinheiro.

— O que então?

— A minha vida.

— Deus... sim! Compreendo. Compreendo tudo esta noite... os homens também. Então fizeste! Eles não são tão vergonhosamente perversos, Chloe. Porque não consigo ver o mal da natureza humana... se formos discretas, quero dizer. De vez em quando uma dança campestre e um jogo, e para casa para a cama e sonhos. Não há mal nisso, juro. E é por isso que ficaste neste lugar. Gostas dele, Chloe?

— Estou habituada a ele.

— Mas quando estiveres casada com o Conde Caseldy vais-te embora?

— Sim, então.

Disse-o tão sem alegria que a Duquesa Susan acrescentou, com intensa afetividade: — Não és obrigada a casar com ele, querida Chloe.

— Nem ele comigo, senhora.

A duquesa agarrou-a impulsivamente para a beijar, e disse que se despiria, pois desejava ficar sozinha.

Daquela noite em diante, ela foi uma criatura inflamada.

O desaparecimento total do par de heróis que tinha sido o mais recente na conspiração para importunar o seu delicado cargo, deu ao Sr. Beamish uma elevada opinião de Caseldy como assistente numa função como a que exercia. Tinham partido, e nada mais se ouviu a respeito deles. Caseldy limitou as suas observações sobre o assunto à observação de que tinha empregado os melhores meios para se ver livre daquela espécie de indivíduos; e se as suas almas tinham fugido, ou apenas os seus corpos, era algo desconhecido. Mas a duquesa fazia passeios tranquilos com Caseldy a protegê-la, enquanto o Sr. Beamish contava os dias restantes da sua visita com a impaciência de um homem que tem motivos para olhar para o relógio. Pois a Duquesa Susan não era muito manejável agora; tinha acessos de insurgência e dizia claramente que o seu tempo era curto, e que tencionava fazer o que lhe apetecesse, ir onde lhe apetecesse, brincar quando lhe apetecesse, e ser uma mulher independente — se é que ia ser tão cedo levada e enfiada num castelo que não passava de uma liteira maior.

Caseldy protestou que estava tão impotente quanto o beau. Descreveu de forma divertida o incómodo de andar incessantemente atrás dela em todas as direções, e sugeriu que ela devia estar a percorrer o distrito para recuperar o seu "estranho cavalheiro", de quem, ou de um que cavalgara ao lado da sua carruagem durante meio dia na sua viagem para Wells, ela disse ter deixado escapar uma espécie de alusão. Queixou-se da impossibilidade de conseguir uma hora de privacidade com a sua Chloe.

— E eu, habituado a aconselhar-me com ela, vejo-a demasiado pouco — disse o Sr. Beamish. — Em breve não verei nada, e já sinto a minha perda.

Representou o seu caso à Duquesa Susan: — que ela estava sempre a fazer longas viagens e a tirar-lhe Chloe, quando a sua ocupação o impedia de os acompanhar; e como Chloe estava prestes a perder-se para ele para sempre, sentia profundamente a sua ausência.

A duquesa lançou-lhe réplicas enigmáticas: — Pode mudar tudo isso, Sr. Beamish, se quiser, e sabe que pode. Oh, sim, pode. Mas gosta de ser uma borboleta, e quando faz as damas empalidecer, sente-se feliz: e lá ficam elas a definhar por si. Nunca! — Tenho esse orgulho. Posso estar preocupada, mas nunca me deixarei abater pela melancolia e pelo desalento por causa de um homem.

Empertigou-se diante de um espelho, no qual não se refletia nenhum sinal de palidez.

O Sr. Beamish meditou, e achou prudente falar com Caseldy de forma máscula sobre as suspeitas infantis dela, para que ela não perturbasse, por acaso, da mesma maneira a mente do amante.

— Oh, sossegue, meu caro senhor, no que a mim diz respeito — disse Caseldy. — Mas, para lhe dizer a verdade, creio que posso interpretar as insinuações da cremosa lady de forma um pouco diferente e tão claramente quanto. Pela minha parte, prefiro a palidez à compleição rubicunda, e aposto a minha mão direita na fidelidade de Chloe. Qualquer mal que eu tenha a crueldade insensata — desgraça, prefiro chamar-lhe — de causar àquela mulher de mente celestial nos dias que virão, ninguém dirá de mim que fui por um instante culpado da baixeza de duvidar da sua pureza e constância. E, senhor, acrescentarei que poderia confiar perfeitamente também na sua honra.

O Sr. Beamish fez uma vénia. — Faz-me apenas justiça. Mas, diga, que interpretação?

— Ela começou por receá-lo — disse Caseldy, provocando um olhar estupefacto que foi seguido por um franzir de sobrolho. — Ela imagina que a negligencia. Talvez tenha a suspeita feminina de que o faz para a pôr à prova.

O Sr. Beamish citou freneticamente as suas muitas ocupações. — Como posso estar sempre a segui-la? — Depois disse: — Tretas — e dedilhou ternamente os folhos do seu pulso. — Ora, ora — disse ele, — não, não: embora se chegasse a uma luta entre nós, eu poderia, no interesse do meu velho amigo, o seu marido, a quem tenho razões para estimar, interpor uma influência que tornaria o exercício da minha autoridade agradável. Até agora não vi necessidade real disso, e vigio atentamente. O olhar dela esteve sobre o Coronel Poltermore uma ou duas vezes, o dele sobre ela. A mulher é uma rosa em junho, senhor, e perdoo ao mundo inteiro por olhar — e por desejar também. Mas não observei nada de grave.

— Ele faz parte do nosso grupo para o farol amanhã — disse Caseldy. — Ela insistiu que o queria; e pelo menos dar-me-á licença por uma hora.

— Faça-me o serviço de me informar — disse o Sr. Beamish.

Desta forma, comprometeu Caseldy a fornecer-lhe invenções, e preparou-se para as engolir. Era Poltermore e Poltermore, o Coronel aqui, o Coronel ali, até que a perseguição se tornou tão quente que o Sr. Beamish já não conseguia ouvir o zumbido fatigante do jovem Sr. Camwell sobre o seu único tema da duplicidade do noivo de Chloe. Tornou-se da opinião dela e tratou o jovem quase tão friamente como ela. Com o tempo, estava pronto a adivinhar, pela sua própria perspicácia, que o "estranho cavalheiro" não podia ter sido outro senão o Coronel Poltermore. Quando Caseldy o insinuou, o Sr. Beamish disse: — Tenho-o marcado. — Acrescentou, num estilo altamente autossatisfeito: — Com toda a sua formação estrangeira, meu amigo, aprenderá que nós, ingleses, não estamos tão atrás de vós na arte de desvendar uma intriga no escuro. Ao que Caseldy respondeu que o mundo continental pouco tinha para ensinar ao Sr. Beamish.

O pobre Coronel Poltermore, como passou a ser chamado, era claramente uma vítima da súbita afabilidade da Duquesa Susan. A transformação de um rígido oficial militar num ágil Puck, um executor de recados e um acompanhante vivaz, não podia passar despercebida. O primeiro efeito da sua condescendência discriminatória sobre este infeliz cavalheiro foi torná-lo o paladino das suas pretensões à boa criação. Ela tinha-a por natureza, era a grande dama da Natureza, protestava ele perante as damas nobres do círculo em que se movia; e elas admitiam que ela era diferente em todos os aspetos de uma burguesa elevada pelo casamento a um nível elevado: ela não era vulgar. Mas permaneciam duvidosas quanto à perfeita simplicidade de uma jovem que operava tais mudanças nos homens ao ponto de tornar um dos famosos conquistadores do dia o seu agitado humilde servidor. Por graus rápidos, o Coronel tinha caído nesse estado. Quando não estava ao lado dela, marchava sempre com passos rápidos, apressando-se através de salas e descendo ruelas e bosques até que a descobria e se prendia às suas saias. E, curiosamente, o objeto do seu ciúme era o devotado Alonzo! O Sr. Beamish riu-se quando soube disso. A excitação e o ar vertiginoso da senhora, contudo, acusavam Poltermore de um estado de sucesso que exigia ser combatido imediatamente. Houve menção ao enorme desejo da Duquesa Susan de fazer uma visita à popular cartomante da cabana na charneca, e o Sr. Beamish colocou o seu veto na expedição. Ela obedecera-lhe ao abster-se de jogar ultimamente, pelo que ele esperava plenamente que o seu interdito fosse obedecido; e, além disso, a cartomante era uma vigarista, uma falsa astróloga conhecida por ter predito a certas damas sensíveis coisas que elas estavam apenas demasiado desejosas de imaginar como predestinadas por uma indicação extraordinária do curso dos planetas através do zodíaco, levando-as assim a pecar pelo exemplo de conjunções celestiais — um ato de impiedade gratuita. O beau adotou uma posição elevada nas suas objeções à aventura. Contudo, a Duquesa Susan foi. Conduziu até à charneca a uma hora matinal, acompanhada por Chloe, pelo Coronel Poltermore e por Caseldy. Tomaram posteriormente o pequeno-almoço numa estalagem onde se serviam ocasionalmente refeições ciganas para a moda, e estavam de volta às termas assim que o mundo se levantava. A surpresa deles foi, então, prodigiosa quando o Sr. Beamish, interpelando-os em plena assembleia, perguntou se estavam satisfeitos com o relatório das suas fortunas, e ainda mais quando provou positivamente que estava ao corrente das fortunas que tinham sido contadas a cada um deles em privado.

— Você, Coronel Poltermore, terá sorte até ao décimo marco — onde a sua carruagem se virará e ficará coxo para toda a vida.

— Nem tão mau assim — disse o Coronel alegremente, tendo sido informado de algo muito melhor.

— E você, Conde Caseldy, terá tudo a seu favor com boa sorte, depois de cometer um ato de matança, com a penalidade solitária de sofrer uma visita todas as noites do cadáver.

— Fantasma — corrigiu-o Caseldy, sorrindo.

— E Chloe não quis que lhe dissessem a fortuna, porque já a sabia! — O Sr. Beamish lançou-lhe um olhar paternal. — E você, senhora — ele franziu as sobrancelhas para a duquesa —, recebeu a comunicação de que "Tudo por Amor" a fará cair tal como a elevou, a derrubará tal como a ergueu, fornecerá o banquete ao cavalheiro corvo que pertence por direito à águia dourada?

— Nada disso! E não acredito em nenhuma das suas histórias — gritou a duquesa, com o rosto a arder.

— Nega-o, senhora?

— Nego. Nunca houve uma palavra sobre um corvo ou uma águia, disso juro agora.

— Nega que tenha havido alguma vez uma palavra sobre "Tudo por Amor"? Fale, senhora.

— A lengalenga do mágico deles! — murmurou ela, ofendida. — Como se eu ouvisse as suas patetices!

— A Duquesa de Dewlap ousa mentir-me? — disse o Sr. Beamish.

— Esse não é o meu título, e sabe-o bem — retorquiu ela.

— O que é isto? — gritou o beau irritado. — Que trapo é este que veste? — Ele elevou-se e pôs a mão numa orla de renda do vestido matinal dela, rasgou-a furiosamente e enrolou um pedaço à sua volta: e enquanto a duquesa ofegava e tremia perante um ultraje que lhe granjeou a simpatia de todas as senhoras presentes, bem como a defesa dos cavalheiros, ele atirou a renda para o chão e pisou-a, tornando a sua voz grossa inteligível sobre o alarido: — Ouçam o que ela faz! É um crime! Ela usa o material com o amido amarelo de Betty Worcester por imitação de antiguidade! E que quem mais o use o arranque antes que a cidade diga que estamos desonrados — quando vos digo que Betty Worcester foi enforcada em Tyburn ontem de manhã por homicídio!

Houve gritos.

Mal ele terminou de falar, a assembleia começou a dissipar-se; ele estava no centro como um poste a desenrolar serpentinas, no meio de uma confusão de vestidos apressados, cujo som, remoinho e deriva era como o das folhas espalhadas de outono num vento que se levanta em novembro. As tropas de damas partiram para se despojarem dos seus adornos de renda velha de imitação da moda, que as denunciava de certa forma como cúmplices e associadas da sanguinária e odiada infeliz, a Sra. Elizabeth Worcester, a sua benfeitora do dia anterior, agora enforcada e a baloiçar na forca.

As senhoras que não usavam renda de imitação ou qualquer renda de manhã, não ficaram propriamente desagradadas com o beau pela sua exposição das que usavam. Os cavalheiros estavam confundidos com a sua exibição de poder audacioso. Os dois cavalheiros mais próximos de ressentir violentamente a sua brutalidade para com a Duquesa Susan, levaram-na da sala na companhia de Chloe.

— A mulher há de temer-me com bom propósito — disse o Sr. Beamish para si mesmo.

CAPÍTULO VIII

O Sr. Camwell estava na antecâmara quando Chloe passou atrás dos dois apoiantes indignados da Duquesa Susan.

— Estarei junto aos abetos no Monte às oito desta noite — disse ela.

— Estarei lá — respondeu ele.

— Leve o Sr. Beamish para o campo, para que estes cavalheiros possam ter tempo de arrefecer.

Ele prometeu-lhe que seria feito.

Perto da hora do seu compromisso, ele estava sob os abetos, admirando o pôr do sol ao longo da linha ocidental de colinas, e quando Chloe se juntou a ele, falou da beleza da cena.

— Embora nada pareça dizer mais eloquentemente adeus — acrescentou ele, com uma voz decrescente.

— Poderíamos dizê-lo agora, e sermos amigos — respondeu ela.

— Mais tarde do que agora, acha pouco provável que me possa perdoar, Chloe.

— Na verdade, senhor, está a tornar as coisas difíceis para mim.

— Fiquei aqui para vigiar; não por prazer meu — disse ele.

— O Sr. Beamish é um excelente protetor da duquesa.

— Excelente; e é habilmente ensinado a supor que ela o teme muito; e quando ela o ofende, ele faz uma exibição da sua terribilidade de Júpiter, com o efeito numa mulher de espírito natural que viu, e outros tinham previsto, que ela fica exasperada e torna-se imprudente. Dê outro nó no seu fio, Chloe.

Ela desviou o olhar, dizendo: — Não foi o senhor a causa? Estava em conluio com aquele charlatão da charneca, que lhes contou as fortunas esta manhã. Vejo longe, tanto no escuro como na luz.

— Mas não através de uma cortina. Eu estava presente.

— Negócio odioso, odioso, de espião! Causou um grande mal, Sr. Camwell. E como pode conciliar com a sua consciência o facto de desempenhar um papel tão baixo?

— Apenas cumpri o meu dever, cara senhora.

— Finge que é a sua devoção por mim! Poderia sentir-me lisonjeada se não visse uma figura tão abjeta ao meu serviço. Agora restam-me apenas quatro dias do meu mês de felicidade, e o meu pedido é que me deixe desfrutá-los. Imploro-lhe que vá. Muito humildemente, mais seriamente, peço a sua partida. Conceda-mo, e não fique para envenenar os meus últimos dias aqui. Deixe-nos amanhã. Admitirei as suas boas intenções. Dou-lhe a mão em gratidão. Adeus, Sr. Camwell.

Ele pegou-lhe na mão. — Adeus. Prevejo uma separação próxima, e esta mão querida é minha enquanto a tiver nas minhas. Adeus. É uma palavra a ser repetida numa partida como a nossa. Não apagamos a nossa luz com um sopro: deixamo-la desvanecer gradualmente, como aquele pôr do sol.

— Fale assim — disse ela.

— Ah, Chloe, dar a vida! E é a sua felicidade que procurei mais do que o seu favor.

— Acredito; mas não gostei dos meios. Deixa-nos amanhã?

— Parece-me que amanhã é o termo.

O rosto dela nublou-se. — Isso diz-me uma promessa muito incerta.

— Ansiava por um mês de felicidade — significando um mês de ilusão. A ilusão expira esta noite. Acordará para ver o fim dela pela manhã. Nunca olhou para além do mês desde o dia da sua chegada.

— Não seja ele nomeado, suplico-lhe.

— Então consente que outro seja sacrificado para que possa desfrutar do seu estado de deceção por mais uma hora?

— Não estou enganada, senhor. Desejo paz, e anseio por ela, e isso é tudo o que queria ter.

— E faz dela a sua oferenda de paz, a quem se comprometeu a servir! Demasiado certamente os seus olhos estiveram abertos tanto quanto os meus. Nó a nó — observei-a — onde está? — marcou os pontos nesse fio de seda onde a confirmação de uma suspeita justa era demasiado forte para si.

— Fiz isso, e ainda assim continuei alegre? — Ela cedeu ao seu desdém com um "Ah!" involuntário que foi um estremecimento.

— Representou o Coração Leve, senhora, e demasiado bem para me enganar. Entretanto, permitiu que aquela maldade prosseguisse, em vez de ter a sua canção de embalar louca perturbada.

— Na verdade, Sr. Camwell, o senhor presume.

— O tempo, e o meu conhecimento do que ele acarreta, exigem-no e desculpam-no. O senhor e eu, meu único e verdadeiro amor na terra, estamos fora das regras comuns. Estamos entre a vida e a morte.

— Estamos sempre.

— Ouça mais do pregador: Temos-los perto de nós, com a questão: Qual será amanhã. O senhor é a favor de continuar a dormir, mas eu digo que não; nem aquela iniquidade de dupla traição será cometida por causa do seu desejo de ser embalada num berço. Ouça-me. A droga que engoliu para se enganar não suportará o choque que a espera amanhã com a primeira luz. Ouça estes pássaros! Quando cantarem a seguir, estará bem acordada, e de mim, e da adoração e serviço que lhe teria dedicado, não... é um pôr do sol espetral de um dia que nunca deveria ser! — acordada, e a olhar para quê? De volta de uma vilania monstruosa para a desgraçada abandonada que piscou o olho a isso com nós num fio. Conte-os então, e onde estará a sua resposta ao céu? Pedi-lho, para a salvar desses golpes de remorso; sim, terríveis!

— Oh, não!

— Terríveis, digo eu!

— Está enganado, Sr. Camwell. É o meu calmante. Rezo o meu terço nele.

— Veja como uma residência persistente neste lugar tornou uma pagã a alma mais pura entre nós! Tivesse o senhor... mas esse dia não era para me iluminar! Mais adorável nos seus erros que é do que outros pelas suas virtudes, pecou pelo excesso das qualidades que os homens prezam. Oh, tem uma generosidade sem limites, infelizmente entrelaçada com um orgulho tão grande. Aí está a sua falha, essa é a causa da sua miséria. Demasiado generosa! demasiado orgulhosa! Confiou, e não deixará de confiar; jurou amar, nunca protestar, nunca parecer duvidar; é demasiado a sua religião, rara, na verdade. Mas pense naquela criatura inexperiente e demasiado tola que está nos rápidos para a sua destruição. Não é ela — vai gritá-lo amanhã — a sua vítima? Ouve-o dentro de si agora.

— Amigo, meu caro, verdadeiro amigo — disse Chloe na sua voz mais profunda de melodia —, sossegue a sua mente quanto ao amanhã e a ela. A sua segurança está garantida. Aposto a minha vida nisso. Ela não será uma vítima. No pior dos casos, terá apenas aprendido uma lição. Assim, então, adeus! O Oeste pende como uma grinalda de flores sem água, negligenciada pela senhora que adornaram. Lembre-se da cena, e que aqui nos separámos, e que Chloe lhe desejou a felicidade que estava fora do seu poder conceder, porque ela era de outro mundo, com a sua história escrita até ao último traço vermelho antes mesmo de a conhecer. Adeus; desta vez adeus para sempre!

O Sr. Camwell pôs-se no caminho dela. — Olhos cegos, se quiser — disse ele —, mas não ouvirá linguagem cega. Perco a pobre consideração por mim que guardei; odeie-me; melhor odiado por si do que fugir ao meu dever! A sua duquesa parte ao primeiro romper da próxima manhã; chegou a esse ponto. Falo com pleno conhecimento. Questione-a.

Chloe lançou-lhe um desdém hesitante, tanto quanto as pulsações agudas do seu coração o permitiram. — Questiono-o, senhor, como chegou a este pleno conhecimento de que se gaba?

— Tenho-o; deixe que isso baste. Não, serei específico; a carruagem dele está encomendada para a hora que lhe nomeio; a criada dela já está numa estação na estrada da fuga.

— Tem os criados deles a seu soldo?

— Para a mina — a contramina. Devemos revolver a lama para igualar os enganadores. A senhora, madame, escolheu ser delicada ao excesso, e atirou para cima de mim ser bruto, e se quiser, abominável, nos meus meios de a defender. Não é demasiado tarde para salvar a dama, nem demasiado tarde para o trazer ao sentido de honra.

— Não posso pensar que o Coronel Poltermore seja tão desonroso.

— Pobre Coronel Poltermore! O cargo que ele é feito preencher é antigo. Não se envergonha, Chloe?

— Ouvi demasiado — respondeu ela.

— Então, se é do seu agrado, parta.

Ele deu-lhe passagem. Ela passou por ele. Dando dois passos apressados no crepúsculo, parou, segurou-se ao peito e, virando-se penosamente para ele, estendeu os braços e deixou-se agarrar e beijar.

Ao pedir-lhe perdão, o que o seu longo hábito de respeito o forçava a fazer no meio do êxtase e das repetições, ela disse: — Não rouba ninguém.

— Oh — gritou ele —, há uma recompensa, então, para o amor fiel. Mas serei eu o homem que era há um minuto? Tenho-a; abraço-a; e duvido que eu seja eu. Ou será o fantasma de Chloe?

— Ela morreu e visita-o.

— E visitará de novo?

Chloe não conseguia falar devido à languidez.

A intensidade da felicidade que ela proporcionava ao repousar silenciosamente onde estava, encantava os seus sentidos. Mas tão prolongada fora a geada sobre eles, que o seu despertar para o calor era assombrado por especulações sobre o doce sabor desta recompensa pela fidelidade a ele, e o estranho sabor da sua própria infidelidade para consigo mesma. E, ao refletir sobre o frio ato da especulação enquanto um braço forte e uma boca ardente a pressionavam, pensou que os seus sentidos poderiam estar realmente mortos, e ela um fantasma visitando o bom jovem para o seu conforto. Assim sentem os fantasmas, pensou ela, e o que chamamos de felicidade no amor é um encontro entre o êxtase e a conformidade. Outro pensamento atravessou-a como um tiro mortal: "Não é assim com aqueles dois! Com eles será o êxtase encontrando o êxtase; eles tomarão e darão felicidade em porções iguais." Uma pontada de ciúme atravessou o seu corpo. Fez com que a perspicácia disso ajudasse a fortalecer o seu fervor num último aperto dele ao seu seio e, soltando-se gentilmente, disse: "Ninguém é roubado. E agora, querido amigo, prometa-me que não incomodará o Sr. Beamish."

"Chloe", disse ele, "subornou-me?"

"Não desejo que ele seja perturbado."

"A duquesa, já lhe disse..."

"Eu sei. Mas tem a palavra de Chloe de que ela velará pela duquesa e morrerá para a salvar. É um juramento. Ouviu falar de alguns preparativos. Eu digo que eles não levarão a nada: não acontecerá. De fato, meu amigo, estou desperta; vejo tanto quanto você vê. E esses... depois de ter estado onde estive, pode supor que tenho algum arrependimento? Mas ela é o meu encargo querido e peculiar, e se ela corre um risco, confie em mim que não haverá catástrofe; juro-o; por isso, agora, adeus. Ceamos em companhia esta noite. Eles esperarão por alguns versos de Chloe, e ela deve cantar para si mesma por alguns minutos para agitar o leito de onde as suas canções alçam voo; portanto, separar-nos-emos e, por amor a ela, evite-a; não esteja presente à nossa mesa, ou na sala, ou em qualquer lugar ali. Sim, você não rouba ninguém", disse ela, com uma voz que se enroscava nele deliciosamente ao vacilar; "mas creio que posso corar com as recordações, e preferiria tê-lo ausente. Adeus! Não pedirei obediência da sua parte além desta noite. A sua palavra?"

Ele deu-lha num estupor de felicidade, e ela fugiu.

CAPÍTULO IX

Chloe puxou o fio de seda do seu seio, enquanto descia o caminho sombrio através das fúrias, e fez os seus dedos percorrerem-no para contar o número dos nós. "Não tenho o direito de estar viva", disse ela. Sete era o número; sete anos ela aguardara o regresso do seu amante; ela contava a sua idade e completava-a em setes. O fatalismo sustentara-a durante a ausência do seu amante; detinha-a firmemente agora. Por isso tinha sido capaz de dizer: "Ele virá"; e ao dizer: "Ele veio", o seu toque repousou no primeiro nó do fio. Não tinha poder para deslocar os dedos, e a causa do atar do nó atravessou-lhe o cérebro marcada em caracteres de um vermelho baço, legíveis nem para o seu olho nem para a sua compreensão, mas um reavivar da hora que o trouxe ao seu espírito com uma nitidez humana, exceto pela luz do dia: ela tinha a sensação de ter perdido a luz, e de ver talvez mais claramente. Tudo a assegurava de que ela via mais claramente do que os outros; ela via também quando era bom deixar de viver.

O seu era o destino infeliz de alguém dotado de imaginação poética para palpitar com a mulher que a substituía e partilhar o fascínio do homem que enganava. No seu primeiro encontro, na sua presença, ela tinha visto que eles não eram estranhos; compadeceu-se deles por falarem falsamente, e quando jurou frustrar este curso de maldade, foi para salvar uma criatura mais jovem do seu sexo, não por rivalidade. Tratou ambos com uma generosa altivez que superava a gentileza. Tudo o que havia de egoísmo no seu seio resolveu-se no desfrute do seu único mês de ilusão fortemente desejada.

O beijo a que ela se rebaixara não roubava ninguém, nem sequer a pureza do seu corpo, pois quando este nó foi atado ela consignou-se ao seu fim, e tinha-se tornado um saco de pó. Os outros nós no fio apontavam para verificações; este primeiro era uma suspeita, e era o mais precioso, ela sentia que era mais uma certeza; viera do mundo sombrio além de nós, onde tudo é conhecido. A sua crença de que viera de lá era alimentada pelo testemunho, pelo espaço de escuridão em que vivera desde então, esgotando a sua última vitalidade numa simulação de felicidade infantil, que não era outra coisa senão a continuação da sua emoção do momento de amargo-doce agudo — tal como pode ser, o que os condenados lá em baixo alcançam para o seu conhecimento de alegria — quando, no primeiro encontro com o seu amante, a perceção da sua traição para com a alma que nele confiava, disse-lhe que ela tinha vivido, e abriu-lhe o reino prezável da insensibilidade como a sua herança.

Ela fez a sua trágica humildade falar com gratidão à ferida que a matava. "Se não fosse assim, eu não o teria visto", disse ela: — O seu amante não teria vindo ter com ela se não fosse pela sua perseguição a outra mulher.

Ela perdoou-o por ser atraído por aquele belo transplante dos campos: perdoou-a também. "Ele, quando o vi pela primeira vez, era tão belo para mim. Por ele, eu poderia ter feito tanto."

Longe, num salão iluminado do Oeste, a sua família erguia mãos de reprovação. Eram objetos minúsculos, nitidamente discernidos como figuras diminuídas cortadas em aço. O sentimento não podia ser muito quente por eles, eram tão pequenos, e um mar que a afogara corria entre eles; e olhando para lá, ela quase não tinha calor de sentimento, exceto por um rhaiadr branco saltando de uma nuvem quebrada através de rochas ramificadas, onde ela tinha subido e sonhado quando criança. O sonho era então dos dias coloridos por vir; agora ela era mais infantil na sua mente, e observava a água espalhada alargar-se, e provava a espuma, sentada ali bebendo a cena, sem ser perturbada por esperanças como um cordeiro, diferente apenas de uma criança por saber que tinha lançado fora a vida para viajar de volta para a sua casa e ser refrescada. Ela ouvia o seu povo falar; eram palradores intermináveis na queda de água. A verdade estava com eles, e a sabedoria. Como, então, poderia ela pretender ter qualquer direito de viver? Já não tinha nome; era menos viva do que uma lápide. Pois quem era Chloe? A sua família poderia passar pelo túmulo de Chloe sem chorar, sem moralizar. Eles tinham previsto a sua ruína, tinham-na predito, faziam-na soar nas águas, e seguiam em frente para as planícies, contando ao mundo a sua profecia, e tornando o que ainda não fora dito uma coisa mais leve de se fazer.

As lâmpadas numa linha irregularmente pontilhada sob a colina chamavam-na para a sua tarefa de aparecer como a mais alegre das que respiram para o dia e têm pulsações para o amanhã.

CAPÍTULO X

À meia-noite, a grande ceia para celebrar a reconciliação do Sr. Beamish e da Duquesa Susan terminou, e sob um céu suave e claro, as damas, com a sua tagarelice prateada de gratidão pelo entretenimento, agarraram Chloe nos braços para a beijar, tornando natural que os seus cavalheiros exclamassem que Chloe era abençoada acima dos mortais. A duquesa preferia caminhar. Os seus ânimos estavam excitados, e a sua linguagem cheirava à sua origem, mas a soberba beleza carnal da mulher estava em brasa, e gritando: "Declaro que rebentaria num daqueles camarotes — exatamente como se me tivesses metido numa baia!", ela abanava um vento no seu rosto, e espalhava sumptuosamente as suas saias esféricas, assistida pelo vencido e cativo Coronel Poltermore, um cavalheiro manifestamente inclinado a insinuar escorregadelas astutas de discurso para servirem aqui de uma pitada de pólvora, ali de um fósforo. "Sou?", ouviu-se ela dizer. Ela soltou profundos suspiros de peito largo de uma coquete que se tinha habituado a rugir.

De repente, a sua voz atirou: "Como se eu quisesse!" Estas iluminações vívidas dos procedimentos do Coronel eram um pasto para os grupos da retaguarda, compostos por duas damas muito grandiosas, Caseldy, o Sr. Beamish, um lorde e Chloe.

"Seu homem! Oh!", saltou da duquesa. "O que ouço? Não vou ouvir; não posso, não devo, não deveria."

Assim dizia, mas a sua cabeça inclinava-se, ela dava-lhe o seu ouvido tímido e relutante, com total abandono aos sedutores sussurros dele, e o lorde soltou um estrondo de riso. Tinha sido uma ceia de vinho copioso, e as canções que nascem do vinho. A natureza era desculpada pelos nossos naturalistas da meia-noite.

As duas grandes damas, admoestadas pela violência do riso do nobre, reivindicaram o Sr. Beamish para as acompanhar na sua despedida de Chloe e da Duquesa Susan.

Na momentânea troca de casais incidente aos adeus entre uma companhia, a duquesa murmurou a Caseldy:

"Fiz bem?"

Ele elogiou-a pela perfeição na sua representação. "Estou à sua porta às três, lembre-se."

"O meu coração está na boca", disse ela.

O Coronel Poltermore ainda tinha o privilégio de a conduzir os poucos passos seguintes até aos seus alojamentos.

Caseldy caminhava ao lado de Chloe, e silenciosamente, até que disse: "Se ainda não mencionei o assunto..."

"Se é uma alusão a dinheiro, não me deixe ouvi-la esta noite", respondeu ela.

"Só posso dizer que os meus advogados têm instruções. Mas os meus advogados não podem pagá-la com gratidão. Não me julgue ingrato na sua mais dura revisão da minha má conduta. Sempre a estimei acima de todas as mulheres; faço-o, e fá-lo-ei; você está demasiado acima de mim. Receio ser uma composição de má matéria; não ganhei um nome particularmente bom no Continente; começo a conhecer-me, e em comparação consigo, querida Catherine..."

"Fala com Chloe", disse ela. "Catherine é uma pessoa enterrada. Morreu sem dor. Ela é, a esta altura, pó."

O homem arfou o peito. "As mulheres não têm uma ideia das nossas tentações."

"Está desculpado por mim por todos os seus erros, Caseldy. Lembre-se sempre disso."

Ele suspirou profundamente. "Sim, você tem um coração cristão."

Ela respondeu: "Cheguei à conclusão de que é pagão."

"Quanto a mim", retorquiu ele, "sou fatalista. Ao longo da vida vi o meu destino. O que tem de ser, será; não podemos fazer nada."

"Ouvi falar de um que expirou de uma indigestão que antecipou, aliás, proclamou, ao entregar-se ao último bocado desejado", disse Chloe.

"Ele foi levado a isso."

"Por dentro."

Caseldy aquiesceu; a sua inteligência estava nublada, e uma ilustração ainda mais grosseira e grotesca teria ganho um aceno sério e um suspiro da sua parte. "Sim, somos movidos por outras mãos!"

"É agradável pensar assim: e pense nisso amanhã. Fá-lo-á?", disse Chloe.

Ele prometeu-o sinceramente, para a induzir a pensar o mesmo dele.

A separação deles não foi de forma alguma notável. As bonitas formalidades foram executadas à porta, e o par de cavalheiros partiu.

"Ainda está muito escuro", disse a Duquesa Susan, olhando para o céu, e subiu as escadas a correr, e desabou, queixando-se da fraqueza das suas pernas, numa cadeira da antecâmara do seu quarto, onde Chloe dormia. Depois perguntou as horas. Não conseguiu suprimir o seu "Oh!" abafado de palpitações pesadas de minuto a minuto. De repente, saiu a passo acelerado para o seu próprio quarto, dizendo que devia ser o sono que a afetava assim.

O seu quarto tinha uma porta para a sala de estar, e dali, tal como do quarto de Chloe, chegava-se ao patamar das escadas, pois a sala ficava paralela a ambos os quartos de dormir. Ela caminhou por ela e escancarou a janela, mas fechou-a imediatamente; abriu e fechou a porta, e voltou e chamou por Chloe. Queria que lhe lessem. Chloe nomeou certos livros calmantes. A duquesa escolheu um livro de sermões. "Mas somos todos pecadores tão terríveis, é melhor não nos incomodarmos a altas horas da noite." Ela descartou essa sugestão. Chloe propôs livros de poesia. "Só que não os compreendo, exceto sobre cotovias, botões-de-ouro e campos de feno, e isso não é consolo para uma mulher que arde", foi a resposta.

"Está com febre, senhora?", disse Chloe. E a duquesa foi dura com ela: "Sim, senhora, estou."

Ela repreendeu-se a si mesma numa mudança de tom: "Não, Chloe, não com febre, apenas este ar seu aqui é um ar tão excitante, como diz o médico; e fizeram-me beber vinho, e joguei antes da ceia — Oh! o meu dinheiro; costumava dizer que podia conseguir mais, mas agora!", suspirou — "mas há coisas melhores no mundo do que dinheiro. Você sabe disso, não sabe, querida? Diga-me. E quero que seja feliz; isso você descobrirá. Desejo mesmo que todos possamos ser!" Ela chorou, e falou de precisar de um pouco de música para se acalmar.

Chloe estendeu a mão para a sua guitarra. A Duquesa Susan ouviu algumas notas, e chorou que aquilo lhe ia ao coração e a magoava. "Tudo o que gostamos muito tem uma cerca e uma tábua contra intrusos, por causa de tanta gente no mundo", gemeu ela. "Não toque, pouse essa coisa, por favor, querida. Você é a criatura mais inteligente que alguém já conheceu; todos dizem isso. Gostava de... Mulheres adoráveis apanham homens, e mulheres inteligentes mantêm-nos: já ouvi dizer isso neste lugar miserável, e é uma perspetiva agradável para mim, vizinha de uma tola! Sei que sou."

"O duque adora-a, senhora."

"Pobre duque! Deixe-o estar — dormindo tão desconsolado com a boca assim, e aquele queixo de bebé, como se sonhasse com um apito de um tostão. Ele não me devia ter deixado vir para aqui. Fale do Sr. Beamish. Como ele sentirá a sua falta, Chloe!"

"Sentirá", disse Chloe tristemente.

"Se for embora, querida."

"Vou-me embora."

"Por que deveria deixá-lo, Chloe?"

"Tenho de o fazer."

"E o pensamento disso torna-a miserável!"

"Torna."

"Não precisa, tenho a certeza."

Chloe olhou para ela.

A duquesa virou a cabeça. "Por que não pode ser alegre, como foi à mesa da ceia, Chloe? Você abre-se para ele como uma flor quando o sol salta sobre a colina; você levanta-se como uma cotovia nos orvalhos; como eu costumava ser quando não pensava em nada. Oh, o início da manhã; e estou com sono. Que besta me sinto, com a minha grandeza, e o tempo dentro de uma hora ou duas para os pássaros cantarem, e eu pronta para cair. Tenho de ir despir-me."

Ela correu para Chloe, beijou-a apressadamente, declarando que estava morta de cansaço, e dispensou-a. "Não preciso de ajuda, posso despir-me sozinha. Como se Susan Barley não pudesse fazer isso por si mesma! E pode fechar a sua porta, não terei sustos esta noite, estou tão exausta."

"Outro beijo", disse Chloe ternamente.

"Sim, leve-o" — a duquesa encostou a face — "mas estou tão cansada que não sei o que estou a fazer."

"Não pesará na sua consciência", respondeu Chloe, beijando-a calorosamente.

Com essas palavras ela retirou-se, e a duquesa fechou a porta. Trancou-a imediatamente.

"Estou demasiado cansada para saber o que estou a fazer", disse para si mesma, e ficou com os olhos fechados a abraçar certos pensamentos que faziam o seu seio arfar.

Ali estava a cama, ali estava o relógio. Tinha a opção de se deitar e flutuar calmamente para o dia, todo o perigo passado. Pareceu doce por um minuto. Mas logo pareceu uma vida antiga, gasta, de fim de outono, fria, sem objetivo, como algo que tinha fome e era desdentado. A cama propondo um sono inocente repelia-a e levava-a para o relógio. O relógio era terrível: o ponteiro na hora, o dedo seguindo o minuto, comandava-a a mover-se ativamente, e levava-a a meditações gentis sobre a cama. Deitou-se vestida, depois de colocar a sua luz ao lado do relógio, para que pudesse vê-lo à vontade, e considerando necessário que a cama parecesse ter sido usada. Considerando também que deveria ser ouvida a mover-se no processo de se despir, levantou-se da cama para ter a certeza da sua leitura do relógio culpado. Uma hora e vinte minutos! Não tinha mais tempo do que isso: e não era suficiente para as suas várias preparações, embora fosse verdade que a sua criada tinha empacotado e levado uma caixa das coisas principalmente necessárias; mas a duquesa tinha de mudar os seus sapatos e o seu vestido, e brincar às escondidas com as mudanças da sua mente, um prefácio sedativo para qualquer passo fatal entre mulheres da sua compleição, pois assim convidam a indecisão a exaurir os seus escrúpulos, e deixam o sangue seguir o seu caminho. Tendo tão pouco espaço de tempo, pensou que o assunto estava decidido, e com algum alívio atirou-se desesperada sobre a cama, e deitou-se para sempre com o seu duque. Pouco depois, a sua cabeça estava a trabalhar revendo-o severamente, avaliando-o não menos precisamente do que o moralista masculino caridoso para com o seu sexo faria. Deixou a cama, com um salto para escapar ao seu imaginado senhor; e como se o sentisse lá, não se deitou mais. Uma vida calma como aquela era mais insípida para a sua ideia do que um livro grande e ricamente encadernado sem qualquer impressão nas páginas, e sem uma imagem. A sua contemplação dela, contrastada com a vida acenada à sua visão pelo relógio, fez o seu sistema inteiro enfurecer-se; ela ardia por voar. Previdentemente, contudo, ela deu um murro numa almofada, e atirou as cobertas para a devida desordem, para informar o mundo de que os seus membros as tinham aquecido, e que tudo tinha sido impulso da sua parte. Ela procedeu então a despir-se, murmurando para si mesma que podia parar agora, e podia parar agora, a cada passo do avanço para um novo vestir da sua pessoa, e moralizando sobre o seu destino singular, na boca de um observador. "Ela foi disparada repentinamente sobre a cabeça de toda a gente, e repentinamente caiu." Susan sussurrou para si mesma: "Mas foi por amor!" Possuída pelo rosado do amor, terminou o seu negócio, com uma atenção a tudo o que era necessário que era igual a uma perfeita serenidade de espírito. Depois do que não havia nada a fazer, senão sentar-se encolhida numa cadeira, cobrir o rosto e contar os tiquetaques do relógio, que diziam, Sim — não; faz — não faças; voa — fica; voa — voa! Parecia-lhe que ouvia um movimento. Bem podia, com aquele seu terrível coração!

Chloe estava a dormir, em paz a esta altura, pensou ela; e como invejava Chloe! Ela poderia ser tão feliz, se quisesse. Por que não? Mas que tipo de felicidade era aquela? Comparou-a com a do cadáver debaixo da terra, e encolheu-se com desdém.

Susan ficou diante do seu espelho para dar uma vista de olhos na criatura sobre a qual havia toda esta perturbação, e ergueu os braços para um bocejo lânguido, não desprovido de beleza, que se fechou num estremecimento feliz com a sensação dos braços do seu amante terem serpenteado à volta da sua cintura e a terem tomado enquanto ela estava indefesa. Pois certamente eles iriam. Tirou um anel cravejado de joias, presente dele, da sua bolsa, e beijou-o, e pô-lo e tirou-o do dedo, deixando-o posto. Agora podia usá-lo sem medo de perguntas e sobrancelhas virtuosas. Oh, celestial agora — se ao menos faltasse uma hora; e ir atrás de cavalos a galope!

O relógio estava no momento terrível. Hesitou internamente e apressou-se; uma vez os seus pés ficaram colados, e firmemente disse, "Não"; mas o relógio era o seu senhor. O relógio era o seu amante e o seu senhor; e obedecendo-lhe, conseguiu entrar na sala de estar, sob o pretexto de que apenas desejava ver pela janela da frente se o dia estava a chegar.

Quão bem ela conhecia aquela meia-luz do refluxo da onda da escuridão.

Era estranho o suficiente vê-lo mostrar casas que recuperavam a sua solidez do dia findo, em vez de campos imóveis, sebes negras, formas familiares de árvores. As casas não tinham vigília, viam-se apenas a estar ali, e a luz era uma revelação de vazio. O coração de Susan era astuto ao censurar o seu duque pela diferença da cena que contemplava daquela da terra inocente e de peito aberto. Sim, era o amanhecer num lugar perverso que nunca lhe devia ter sido permitido visitar. Mas onde estava ele, a quem ela procurava? Ali! A figura encapuçada de um homem estava na esquina da rua. Era ele. O seu coração gelou; mas os seus membros estavam tensos para se libertarem da casa, e alcançar o ar, respirar, e (conforme os seus pensamentos corriam) desmaiar, bem protegida. Para os seus sentidos, a casa era uma casa em chamas, e gritava por ela para escapar.

Contudo, ela deu passos deliberados, para ter firmeza num quarto sombrio; tateou ao longo da parede e chegou à porta, onde um banco quase a fez tropeçar. Aqui o seu tato falhou, pois embora soubesse que devia estar perto da porta, deparou-se com uma obstrução que não era madeira, e a porta parecia nem fechada nem aberta. Não conseguiu encontrar a maçaneta; algo pendia sobre ela. Pensando friamente, imaginou que a coisa devia ser um vestido ou roupão; pendia pesadamente. Os seus dedos foram sensíveis ao toque da seda; distinguiu um volume pendente, e tateou-o com muito cuidado e mecanicamente, dizendo consigo mesma, na sua ansiedade de passar sem ruído: "Se eu acordasse a pobre Chloe, de todas as pessoas!" O seu alarme era que a porta pudesse ranger. Antes que qualquer outro alarme lhe atingisse o cérebro, a mão com que tateava ficou paralisada, a sua boca abriu-se, a sua garganta espessou, a bola de pó subiu-lhe à garganta, e o esforço para a engolir e obter fôlego impediu-a de especulação aguda enquanto tateava de novo, beliscava, puxava a coisa, pronta a rir, pronta a gritar. Acima da sua cabeça, toda de um lado, a coisa tinha um topo branco e redondo. Poderia ser uma mão sobre a qual o seu toque deslizara? Um braço também! isto era um braço! Ela agarrou-o, imaginando que ele se prendia a ela. Puxou-o para se libertar dele, puxou-o desesperadamente, e uma massa desceu, e um clarão de todos os nervos dilacerados do seu corpo disse-lhe que um cadáver humano estava sobre ela.

Às quatro menos um quarto de uma manhã de pleno verão, como relata o Sr. Beamish da sua última parte no Conto de Chloe, a voz de uma mulher, em notas pungentes de angústia, ecoou três gritos consecutivos, que foram ouvidos por ele no instante em que saía do seu degrau da frente, em obediência à convocação do jovem Sr. Camwell, entregue dez minutos antes, com grande urgência, pelo lacaio daquele cavalheiro. Ao chegar à rua da casa habitada pela Duquesa Susan, percebeu muitas cabeças de touca de dormir às janelas, e uma janela da casa em questão levantada, mas vazia. A sua primeira impressão acusou o par de cavalheiros, que viu portando espadas desembainhadas em atitude nada amigável, de uma briga feia que provavelmente aterrorizara Sua Graça, ou a sua dama de companhia, uma mulher capaz de gritar, pois estava bem seguro de que não poderia ter sido Chloe, a menos provável do seu sexo de se abandonar ao uso das suas armas, quer em terror ou em perigo. Os antagonistas eram o Sr. Camwell e o Conde Caseldy. Ao aproximar-se deles, o Sr. Camwell embainhou a sua espada, dizendo que o seu trabalho estava feito. Caseldy estava convulso de ira, a tal ponto que tornava o papel de intermediário perigoso. Houve estocadas entre eles, e Caseldy gritou em voz alta que teria o sangue do seu inimigo. A guarda noturna não estava em parte alguma. Logo, porém, certos lojistas e os seus aprendizes ajudaram o Sr. Beamish a manter a paz, apesar da fúria de Caseldy e das provocações — "não fáceis de resistir", diz o cronista — oferecidas por ele ao jovem Camwell. Este último disse ao Sr. Beamish: "Eu sabia que não seria páreo, por isso enviei por si", causando espanto ao seu amigo, na medida em que estava seguro do valor natural do jovem.

O Sr. Beamish estava prestes a proferir uma alocução de repreensão a ambos em partes iguais, estando inteiramente desconfiado de qualquer outra razão para o alarme que não este surto palpável de uma rivalidade que ele teria inclinado a atribuir aos encantos de Chloe, quando a porta da casa se abriu de par em par para que entrassem, e a senhoria da casa, mantendo as mãos unidas em toda a sua extensão, implorou-lhes que corressem para a pobre senhora: "Oh, ela está morta; ela está morta, morta!"

Caseldy correu por ela.

"Como, morta! boa mulher?" perguntou-lhe o Sr. Beamish com muita incredulidade, meio sorrindo.

Ela respondeu entre os seus gemidos: "Morta pelo pescoço; da porta — Oh!"

O jovem Camwell pressionou a testa, com um apelo ao nome do seu Criador. Ao chegarem ao patamar lá em cima, Caseldy saiu da sala de estar.

"Qual?" disse Camwell ao discurso da sua face.

"Ela!" disse o outro.

"A duquesa?" exclamou o Sr. Beamish.

Mas Camwell entrou na sala. Ele não tinha nada a perguntar depois daquela resposta.

A figura estendida ao longo do chão estava coberta com um lençol. O jovem caiu no seu comprimento ao lado dele, e o seu rosto estava para baixo.

O Sr. Beamish relata: "Até hoje, quando escrevo a um intervalo de quinze anos, tenho o frio trágico daquela hora no meu sangue, e contemplo a forma envolta da mais admirável das mulheres, cujo coração foi partido por um homem infiel antes de ela dedicar o seu resto de vida a deter alguém mais fraco do que ela na descida para a perdição. Nisso foi-lhe beneficamente concedido ser do serviço que ela rezou para ser através da sua morte. Ela morreu para salvar. Numa última carta, encontrada na sua almofada de alfinetes, endereçada a mim sob selo de segredo perante as partes principalmente interessadas, ela antecipa toda a confissão da infeliz duquesa. Mais, ela profetiza: 'A duquesa dir-vos-á verdadeiramente que teve o suficiente de amor!' Essas próprias palavras foram-me reiteradas pela pobre senhora diariamente até que o seu senhor chegasse para chefiar o cortejo fúnebre, e ajudar a restabelecer a saúde despedaçada da sua esposa a um estado que a tornasse apta para viajar. Para mim, pelo menos, ela foi constante em repetir: 'Nada mais de amor!' Pelo seu comportamento para com o seu duque, posso julgá-la como tendo sido sincera. Ela falava de sentir os olhos de Chloe a atravessá-la com cada palavra sua que ela recordava. Nem o fim de Chloe foi menos eficaz sobre o traidor. Ele estava no cortejo para a sua sepultura. Não falou com ninguém. Há uma linha do verso com a epígrafe, 'As Minhas Razões para Morrer', que mostra ter ela sido apreensiva em garantir a segurança do Sr. Camwell:

Morro porque o meu coração está morto Para avisar uma alma do pecado morro: Morro para que sangue não seja derramado, etc.

Ela temia que ele estivesse algures na estrada para estragar os fugitivos, e ela conhecia-o, como de facto ele se conhecia, não sendo páreo para alguém treinado nos truques estrangeiros do aço, por mais pronto que estivesse a disputar o caminho do traidor. Ela recorda a petição do Sr. Camwell pelo fio de seda atado no seu pedido de que ele seja cortado da sua garganta e dado a ele."

O Sr. Beamish entrega-se a versos sobre a sepultura de Chloe. São de um caráter que arrefece a emoção. Mas quando encontramos um homem, que é habitualmente da mais rápida suscetibilidade ao ridículo, bem como ao que é adequado, descuidado da exposição, podemos refletir na veracidade do sentimento pelo qual ele é levado a passar a sua própria guarda e vir a público na sua nudez; algo da língua do poeta pode soprar-nos através do seu gaguejar mortal, mesmo que tenhamos de reconhecer que uma citação dispersaria o patos.

Não, o Sr. Tinman não se encontrava na sala de estar, mas sim no seu quarto, no andar de cima, onde o seu cavalete fora instalado em frente à janela, para que a luz da manhã pudesse banhar a sua figura em traje de corte, que ele ainda não tinha coragem de vestir, embora a tivesse contemplado durante grande parte da noite, e que agora, com o auxílio do vidro novo, parecia-lhe possuir a dignidade que ele se esforçava por espelhar na sua própria pessoa. Tinha chegado um novo espelho, um espelho de grande qualidade, que não distorcia a imagem nem provocava aquela estranha sensação de torção que o anterior lhe causara. Era um objeto de soberba clareza, e o Sr. Tinman sentia-se, ao observá-lo, quase perdoado pela sua recente exibição de irritabilidade.

Lá em baixo, na pequena sala de entrada, a Sra. Cavely, a sua irmã, que era uma mulher de hábitos austeros e uma devoção quase religiosa pelos interesses do irmão, recebia o cartão de visita que lhe fora entregue pelo criado de Ned Crummins. Ela olhou para o nome com uma sobrancelha arqueada, uma expressão que, no seu rosto, parecia uma marca de censura permanente. "Van Diemen Smith", leu ela em voz alta, como se o nome lhe trouxesse o eco de um passado que preferiria ver enterrado nas profundezas das colónias.

"Quem será este homem, Martin?" perguntou ela, subindo os degraus com a agilidade de quem tem um dever a cumprir. Encontrou o irmão no momento em que este ensaiava uma vénia, uma manobra que exigia uma precisão técnica que ele ainda não dominava por completo. Ele parou, um pouco ruborizado, e o seu rosto, habitualmente de uma frescura de saxão, assumiu uma tonalidade mais próxima da dos arenques que comprara no dia anterior.

"Um conhecido, Martha. Um conhecido de outros tempos", respondeu ele, tentando recuperar a compostura enquanto se afastava do espelho. "Um homem que, pelo que vejo, não perdeu o hábito de causar desordem por onde passa."

A Sra. Cavely não insistiu, pois conhecia o temperamento do irmão e sabia que, quando ele se encontrava naquele estado de exaltação, a melhor forma de o apaziguar era através de um chá bem quente e de uma conversa sobre os assuntos da Câmara. No entanto, o cartão de visita queimava-lhe os dedos. Havia algo na insolência daquele nome, na brusquidão da visita, que lhe parecia um presságio de perturbação para a paz da casa.

Enquanto isso, na oficina de Crickledon, o Sr. Van Diemen Smith, alheio às preocupações da Sra. Cavely, preparava-se para o seu encontro com o antigo colega de escola. Ele não se sentia minimamente perturbado pelo incidente da noite anterior; pelo contrário, parecia revigorado pela ideia de que, mesmo em Crikswich, a vida pudesse oferecer pequenos obstáculos que exigiam uma mão firme e um espírito determinado. A sua filha, Annette, observava-o com uma mistura de apreensão e orgulho, sabendo que, quando o seu pai decidia que algo deveria ser feito, não havia força na terra capaz de o impedir.

"Veremos, minha querida", dizia ele, enquanto se ajeitava o casaco. "Veremos se o velho Martin ainda recorda como é que se faz frente a um homem que não tem medo de dizer o que pensa. Afinal, a vida é uma série de contendas, e não é um espelho partido que nos vai impedir de seguir em frente."

Crickledon, encostado à sua bancada, observava-os partir com um sorriso contido. Havia algo no ar, uma eletricidade que não vinha apenas da proximidade do mar, mas de uma expectativa silenciosa que parecia ter tomado conta de toda a vizinhança. O Sr. Tinman e o seu traje de corte, o estranho cavalheiro vindo das colónias com o seu nome peculiar, e o espelho que, de alguma forma, unia estes dois destinos — tudo parecia compor uma cena de um drama que estava prestes a desenrolar-se sob o olhar atento e, por vezes, impiedoso dos habitantes de Crikswich.

No meio de uma conversa a respeito do custo do vidro, durante a qual começou a ser percebido pelos habitantes da cidade do Sr. Tinman que havia assunto para risos por um ano ou mais na cena testemunhada por Crummins, se eles adiassem um pouco o seu direito ao riso e o tomassem em doses, Annette induziu o seu pai a sinalizar a Crickledon a sua prontidão para ir ver o alojamento. Mal ele o fez, disse: “O que raio nos fez esperar todo este tempo aqui? Estou com fome, minha querida; quero jantar.”

“Isso é porque tiveste uma desilusão. Eu conheço-te, papá”, disse Annette.

“Sim, é um pouco desanimador quanto ao velho Mart Tinman”, assentiu o seu pai. “Ou então não recuperei do choque de partir aquele vidro, e descarrego nele. Mas, pela minha honra, ele é o meu único amigo em Inglaterra, não tenho um único parente que eu saiba, e vir e encontrar o teu único amigo a fazer de si mesmo um asno, é o suficiente para fazer um homem pensar em comer e beber.”

Annette murmurou com ar de reprovação: “Dificilmente podemos dizer que ele é o nosso único amigo em Inglaterra, papá, podemos?”

“Referes-te àquele jovem? Vais tirar-me o apetite se falares dele. Ele é um estranho. Não acredito que valha um centavo. Ele admite que é o que chama de jornalista.”

Estas últimas observações foram trocadas apressadamente à porta da casa de Crickledon.

“Não parece promissor”, disse o Sr. Smith.

“Não o recomendei”, disse Crickledon.

“Porque raio alugas então o teu alojamento?”

“As pessoas que vêm uma vez, voltam.”

“Oh! Estou em Inglaterra”, suspirou Annette alegremente, sentindo-se em casa com um traço que detetara em Crickledon.

CAPÍTULO III

A história do espelho chiwal estilhaçado e da visita do velho colega de escola de Tinman, acabado de chegar da Austrália, já estava em muitas mesas de pequeno-almoço antes de Tinman ouvir uma palavra sobre o assunto, e quando a ouviu, não teve tempo para tais incidentes, pois estava a ler para a sua irmã viúva Martha, num tom impressionante, num tom de voz toleravelmente alto, e com uma agitação contida que afastava todas as coisas externas da sua mente tão violentamente quanto agitava o seu corpo. Não são as ondas lá fora, mas o motor lá dentro que causa o choque e o tremor ao navio a vapor em mau estado, forçando-o a cortar as ondas e a dispersá-las em espuma; e foi assim que Martin Tinman desvalorizou o ataque externo do cartão de VAN DIEMEN SMITH, e a sua linha escrita a lápis: “Um velho camarada teu, eh, companheiro?” Até a comunicação da Phippun & Co. sobre o vidro chiwal não conseguiu desviá-lo da sua tarefa específica. Era, de facto, um dever público; e o vidro chiwal, embora relacionado com ele, era um negócio privado. Aquele que partiu o vidro, que esse homem pague por ele, pronunciou ele — sem dúvida de forma mais simples, estando à vontade na sua casa, mas com a serenidade de alguém exaltado. Quanto ao nome VAN DIEMEN SMITH, ele não o conhecia, e assim disse a si mesmo, recordando com precisão a identidade do velho camarada que, de entre todos os homens, teria pensado em escrever eh, companheiro?

O Sr. Van Diemen Smith não apresentou o cartão pessoalmente. “No Crickledon’s”, escreveu ele, aparentemente esperando que o meirinho da cidade corresse até ele antes de saber quem era.

Tinman estava demasiado ocupado. Qualquer pessoa consegue ler uma caligrafia simples ou letra de imprensa, mas peça a qualquer pessoa que não seja um Ministro do Gabinete ou um Lorde-em-Espera para ler alto e claro num Palácio, perante um Trono. Oh! A natureza da leitura é distorcida num instante, e como Tinman disse à sua digna irmã: “Eu consigo fazê-lo, mas não posso perder tempo a preparar-me.” Novamente, numa releitura, informou-a: “Devo habituar-me.” Para este propósito, ele tinha vestido o traje na véspera.

A articulação de um inglês impecável era o seu objetivo. A sua irmã Martha sentou-se quase como um vice-rei para receber os seus leais parabéns pelo casamento ilustre, e ela estava pensativa, menos nervosa do que o seu irmão por não ter de falar continuamente, mas um pouco perturbada. Ela também tinha a sua tarefa, e era a de evitar pensar que era ela a Pessoa a quem o seu suplicante irmão se dirigia, enquanto, ao mesmo tempo, assimilava o treino académico e o conhecimento perfeito da dicção e das regras de pronúncia que seriam infalivelmente aplicados a ele na terrível hora da entrega do Discurso. Não era pequena tarefa, além disso, ser obrigada a ouvir até ao fim do Discurso, antes que qualquer palavra de crítica, por mais suave que fosse, fosse permitida. Ela não reclamou exatamente do reinício do ensaio: uma fadiga pode ser suportada quando é uma alegria. O que a irritava era a sua memória falha para os pontos de objeção, como ela os concebia no seu imaginário Alto Assento; pois, na verdade dolorosa, no instante em que o seu irmão terminava, ela perdia completamente a agudeza de ouvido, e com isso a sua recordação: por isso, não havia nada a fazer senão dizer: “Excelente! Perfeitamente inobjetável, querido Martin, perfeitamente:” assim disse ela, e com ênfase; mas a adição da palavra “apenas” estava impressa na sua testa franzida, e todas as faculdades da mente e da natureza de Tinman estando sob tensão naquele momento, ele perguntou-lhe irritado: “O que é agora? Qual é a falha agora?” Ela assegurou-lhe com languidez que não havia falha. “Não é a tua maneira de falar”, disse ele, e o que ele disse era verdade. O seu discernimento era extraordinário; geralmente ele não notava nada.

Não só as suas perceções foram aguçadas pelos preparativos para o dia de grande esplendor: dia de passar também por uma grande fornalha! — ele estava a aprender inglês a um ritmo espantoso para cúmulo. Um dicionário de pronúncia estava aberto na sua mesa. Para ele voava a um sinal de método contrário, e disputas, verificações e triunfos de um lado e do outro sucediam-se entre irmão e irmã. No seu coração, o homem agitado acreditava que a sua irmã era um guia enganador. Ele não ousava dizê-lo, pensava-o, e antes da sua viagem africana pelo dicionário, ele tinha pensado que a sua irmã era infalível nestes pontos. Ele não ousava dizê-lo, porque não conhecia mais ninguém perante quem pudesse praticar, e como era confiança que ele queria acima de tudo — acima de tudo, confiança, e a confiança vem da prática, ele preferia continuar com a sua prática a ter uma certeza absoluta quanto à correção.

Ao meio-dia chegou outro cartão do Sr. Van Diemen Smith com a inscrição: alcunha Phil R.

“Será possível”, perguntou Tinman à sua irmã, “que Philip Ribstone tenha tido a audácia de regressar a este país? Penso”, acrescentou ele, “que faço bem em tratar quem quer que me envie este cartão como um impostor.”

O conselho de Martha foi que ele não deveria prestar atenção ao cartão.

“Estou seriamente ocupado”, disse Tinman. Com um “Agora então, querido”, ele retomou os seus trabalhos.

Mensagens tinham sido trocadas entre Tinman e Phippun; e à tarde, Phippun apareceu para abordar a questão do pagamento do vidro chiwal. Tinha visto o Sr. Van Diemen Smith, achara-o muito estranho, bastante impraticável. Viu-se obrigado a dizer a Tinman que o devia responsabilizar pelo vidro; nem poderia enviar um segundo antes que o pagamento fosse feito pelo primeiro. Parecia realmente que Tinman seria forçado, pela força das circunstâncias, a ir apertar a mão do seu velho amigo. Caso contrário, podia-se ver claramente que o homem podia ir-se embora: podia partir a qualquer minuto, deixando uma disputa legal atrás de si. Por outro lado, supondo que ele tinha vindo a Crikswich para pedir assistência em dinheiro? A amizade é uma coisa boa, e também a hospitalidade, que é algo essencialmente inglês, e consequentemente algo que incumbe a um inglês considerar como seu dever cumprir, mas não a estendemos a indigentes. Mas se um indigente se aproximar tanto de nós ao ponto de nos agarrar, jurando que já foi nosso amigo, como nos livramos dele? Tinman previa que poderia ser uma questão de cinco libras atiradas aos cães, talvez dez, contando com o vidro. Pôs o chapéu, cheio de pressentimentos melancólicos; e eram exatamente cinco e meia da tarde de primavera quando bateu à porta de Crickledon.

Se tivesse olhado para a oficina de Crickledon enquanto passava, teria visto Van Diemen Smith montado numa peça de madeira, a fumar um cachimbo. Van Diemen viu Tinman. Os seus olhos arregalaram-se e lacrimejaram. É um facto vergonhoso registar sobre ele sem perífrase. Na verdade, o homem barbudo era quase uma mulher de coração, e viera das Antípodas a pulsar para dar uma palmada nas costas de Martin Tinman, apertar-lhe a mão, percorrer a Inglaterra com ele, oferecer-lhe bebidas, e falar dos velhos tempos na presença de um regimento de champanhe. Aquele caso do vidro chiwal tinha arrefecido temporariamente o seu entusiasmo. A ausência de uma resposta à sua dupla transmissão de cartões tinha-o ferido; e algo no olhar de Tinman desgostou o seu gosto rude. Mas as características bem conhecidas recordavam os dias da juventude. Tinman era o seu único elo vivo com o país que ele admirava como o conquistador do mundo, e que imaginativamente apreciava como o assento dos prazeres, e ele não conseguia descartar o sentimento de algum amor por Tinman sem perder o contacto com a razão pela qual ansiara tão fervorosamente e viajara tão ofegante para regressar aqui. Nos dias da sua juventude, Van Diemen tinha sido o espírito cordial de Tinman, em quem ele sorvia visões alegres da vida, e um bom brilho honesto de emoção de vez em quando. Se era estranho ou não que o sorvedor estivesse alheio, e o espírito cordial calorosamente reminiscente daqueles tempos, não vamos deter-nos a investigar.

O seu encontro ocorreu na oficina de Crickledon. Tinman foi conduzido pela Sra. Crickledon. A sua voz fez um som de metal na garganta, e o seu ar era o de um homem abotoado até ao palato, enquanto lia do cartão, olhando por cima das pálpebras, “Sr. Van Diemen Smith, creio eu.”

“Phil Ribstone, se preferires”, disse o outro, sem se levantar.

“Oh, ah, de facto!” Tinman tossiu moderadamente.

“Sim, meu caro. Pois é. Parece-te estranho?”

“A mudança de nome”, disse Tinman.

“Mas não a natureza!”

“Ah! Estás há muito em Inglaterra?”

“Tempo para correr até Helmstone, e seguir para aqui. Tiveste sorte nos negócios, ouvi dizer.”

“Obrigado; conforme as coisas correm. Pensas em permanecer em Inglaterra?”

“Tenho de resolver a questão de um vidro que parti ontem à noite.”

“Ah! Ouvi falar disso. Sim, receio que terá de haver um acerto.”

“Pagarei metade do dano. Terás de pagar a tua parte.”

Van Diemen sorriu de forma brejeira.

“Temos de discutir isso”, disse Tinman, sorrindo também, como um doente na cama pode sorrir à piada de um médico; pois ele era, como Crickledon tinha dito dele, não era um tolo em pontos práticos, e a menção de Van Diemen ao pagamento da metade tranquilizou-o quanto à posição do seu velho amigo no mundo, e derreteu-o suavemente. “Jantarás comigo hoje?”

“Não me importo. Tenho uma rapariga. Lembras-te da pequena Netty? Ela está a passear na praia com um jovem chamado Fellingham, cuja amizade fizemos na viagem, e não nos deixou muito tempo sozinhos. Queres que ela venha também? E suponho que tenhas de o convidar a ele. Ele é um homem de jornal; deu a volta ao mundo; viu muita coisa.”

Tinman hesitou. Uma ideia elétrica de colocar xerez a quinze xelins a dúzia na sua mesa em vez do vinho cerimonial a vinte e cinco xelins, ajudou-o a dizer hospitaleiramente: “Oh! ah! sim; qualquer amigo teu.”

“E agora talvez apertes o meu punho”, disse Van Diemen.

“Com prazer”, disse Tinman. “Foi a tua mudança de nome, sabes, Philip.”

“Olha, Martin. Van Diemen Smith era um condenado, e o meu benfeitor. Porque raio ele gostava tanto daquele nome, não te sei dizer; mas o seu desejo final foi que eu o tomasse e o continuasse. Deixou-me a sua fortuna, para que Van Diemen Smith gozasse a vida, como ele nunca gozou, pobre rapaz, quando era vivo. O dinheiro foi obtido honestamente, através de trabalho árduo numa loja. Ele fez o mal uma vez, e arrependeu-se depois. Mas, por Deus!” — Van Diemen levantou-se e trovejou de um peito largo — “o homem era um dos melhores corações que alguma vez bateu. Ele era! E estou orgulhoso dele. Quando ele morreu, voltei os meus pensamentos para a Velha Inglaterra e para ti, Martin.”

“Oh!” disse Tinman; e lembrado pelo modo de falar de Van Diemen que se esperava cordialidade dele, sacudiu os membros para alguma vivacidade, e continuou: “Bem, sim, todos temos de morrer na nossa terra natal se pudermos. Espero que estejas confortável no teu alojamento?”

“Vou dar-te um dos jantares da Sra. Crickledon para provares. Tu és quase o presidente desta cidade, ouvi dizer?”

“Eu sou o meirinho da cidade”, disse o Sr. Tinman.

“Vais à Corte, disseram-me.”

“A nomeação”, respondeu o Sr. Tinman, “será feita em breve. Ainda não tenho um dia marcado.”

Na grande estrada da vida há a Expectativa, e há a Realização, e também há a Inveja. A postura do Sr. Tinman representava a Realização a sombrear a Expectativa, e a banhar-se no vidro da Inveja, enquanto falava do dia marcado. Foi involuntário, e naturalmente evanescente, uma visão momentânea do espírito.

Ele descontraiu-se, e pediu desculpas por agora, para que pudesse ir informar a sua irmã da chegada de convidados.

“Tudo bem. Imagino que nos veremos o suficiente”, disse Van Diemen. E quase antes que o ranger dos saltos de Tinman fosse abafado na estrada fora da oficina, ele fez a pergunta engraçada a Crickledon: “Tu boxas?”

“Eu faço-os”, respondeu Crickledon.

“Porque eu gostaria de experimentar alguma coisa, meu amigo.”

Van Diemen esticou-se e bocejou.

Crickledon recomendou uma caminhada.

“Acho que vou”, disse o outro, e voltou-se bruscamente. “Quanto tempo trabalhas por dia?”

“Geralmente, todas as horas de luz”, respondeu Crickledon; “e sempre até à hora do jantar.”

“Tu és saudável e feliz?”

“Nada de que me queixar.”

“Bom apetite?”

“Bastante regular.”

“Tu nunca tiras férias?”

“Exceto aos domingos.”

“Gostarias de estar a trabalhar então?”

“Não direi isso.”

“Mas ficas contente por te levantares na segunda-feira de manhã?”

“Sente-se mais alegria na oficina.”

“E a carpintaria é a tua alegria?”

“Penso que posso dizer que sim.”

Van Diemen deu uma palmada na coxa. “Ainda há vida na Velha Inglaterra!”

Crickledon observou-o enquanto ele se afastava para a praia para procurar a sua filha, e concebeu que havia um toque de soldado nele.

CAPÍTULO IV

O deleite de Annette Smith na sua Inglaterra natal fazia-a ver beleza e bondade em toda a parte ao seu redor; colocava uma auréola sobre a casa na praia, e fazia-a estremecer na mesa de Tinman quando ouvia o trovão das ondas ali perto. Ela imaginava que tinha sido um jantar muito agradável para o seu pai e para o Sr. Herbert Fellingham — especialmente para este último, que se tinha rido muito; e ficou surpreendida ao ouvi-los ao pequeno-almoço ambos a queixarem-se da sua noite. Em resposta, ela exclamou: “Oh, penso que a situação da casa é tão romântica!”

“A situação do anfitrião é excessivamente romântica”, disse o Sr. Fellingham; “mas penso que o seu vinho é o líquido menos romântico que alguma vez provei.”

“Deve ser isso!” exclamou Van Diemen, perplexo com dores novas na cabeça. “O velho Martin acordou um pouco como o seu antigo eu após o jantar.”

“Ele bebeu moderadamente”, disse o Sr. Fellingham.

“Tenho a certeza de que foste satírico ontem à noite”, disse Annette com ar de reprovação.

“Pelo contrário, disse-lhe que achava que ele estava numa situação romântica.”

“Mas eu tive uma mademoiselle francesa como governanta e um cavalheiro de Oxford como tutor; e sei que aceitaste francês e inglês do Sr. Tinman e da sua irmã que eu não teria aprovado.”

“Netty”, disse Van Diemen, “teve a melhor instrução que o dinheiro pôde obter; e se ela diz que tu foste satírico, podes depender que foste.”

“Oh, nesse caso, claro!” replicou o Sr. Fellingham. “Quem conseguiria evitar?”

Ele julgou-se autorizado a dar largas ao seu espírito perverso e satírico, e falou levemente do caráter acidental da letra H na pronúncia de Tinman; de como, como o chapéu de outra pessoa num vento forte, ela descia sobre a cabeça de outra pessoa, e de como as suas palavras caminhavam por aí perguntando umas às outras quem eram e o que estavam a fazer, dançando juntas loucamente, estalando os dedos à significação; e assim por diante. Ele estava frívolo.

Annette lançou um olhar ao pai, e baixou as pálpebras.

O Sr. Fellingham percebeu que lhe fora ordenado que estivesse de sobreaviso.

Ele deu um passo mais longe na sua diversão; ao que Van Diemen disse, com um cenho franzido, “Se faz favor!”

Nada podia resistir a isso.

“Que se lixe o vinho do velho Mart Tinman!” explodiu Van Diemen na pausa mortal. “A minha cabeça é uma bala. Estou com um temperamento péssimo. Quase não consigo ver. Estou bilioso.”

O Sr. Fellingham aconselhou-o a deitar-se durante uma hora, e ele foi-se embora a resmungar, queixando-se da incredulidade de Mart Tinman quanto à beleza imponente de um lugar na Austrália chamado Gippsland.

Annette confidenciou ao Sr. Fellingham, assim que ficaram sozinhos, a natureza cavalheiresca do seu pai nas suas amizades, e a sua indisposição em ouvir um comentário satírico sobre o seu velho colega de escola, no momento em que compreendia que se tratava de sátira.

Fellingham argumentou: “O homem é uma farsa perfeita. Ele é tão distintamente feito para ser motivo de riso como uma máscara numa pantomima.”

“O papá não pensará assim”, disse Annette; “e disseram ao papá que ele não deve ser motivo de riso como homem de negócios.”

“Prezaste-o por isso?”

“Não sou juíza. Estou demasiado feliz por estar em Inglaterra para ser juíza de qualquer coisa.”

“Não tocaste no vinho dele!”

“Vocês homens atribuem tanta importância ao vinho!”

“Dizem que pós são uma boa coisa depois do vinho do Sr. Tinman”, observou a Sra. Crickledon, que tinha entrado na sala de estar para retirar as coisas do pequeno-almoço.

O Sr. Fellingham soltou uma gargalhada; mas a Sra. Crickledon pediu-lhe que se calasse, pois o Sr. Van Diemen Smith tinha ido deitar a sua pobre cabeça dorida na almofada. Annette correu para cima para falar com o seu pai sobre um médico.

Durante a sua ausência, o Sr. Fellingham recebeu o retrato popular do Sr. Tinman dos lábios da Sra. Crickledon. Subsequentemente, passeou até à oficina do carpinteiro, e esforçou-se por obter uma confirmação do mesmo.

“A minha mulher fala demasiado”, disse Crickledon.

Quando questionado por um cavalheiro, no entanto, era naturalmente obrigado a responder até ao limite do seu conhecimento.

“Que país engraçado é este!” disse o Sr. Fellingham a Annette, no seu passeio para a praia.

Ela implorou-lhe que não se risse de nada inglês.

“Não me rio, garanto-te”, disse ele. “Também amo o país. Mas quando se volta do estrangeiro, e se mergulha na sua vida quotidiana, é difícil reter a figura real do velho país visto de fora, e temos de nos lembrar de meia dúzia de grandes nomes para nos orientarmos. E os ingleses são tão engraçados! O teu pai vem aqui para ver o seu velho amigo, e começa a gabar-se do Gippsland que deixou para trás. Tinman gabar-se-á imediatamente de Helvellyn, e eles atiram montanhas um ao outro até que, na sua primeira noite juntos, há terramoto e rutura — estiveram quase aos murros a certa altura.”

“Oh! certamente que não”, disse Annette. “Não os ouvi. Eles eram bons amigos quando chegaste à sala de estar. Talvez o vinho tenha afetado o pobre papá, se era vinho mau. Oxalá os homens nunca bebessem nenhum. Quão mais felizes seriam.”

“Mas então deixaria de haver reuniões sociais em Inglaterra. O que faríamos?”

“Eu sei que isso é um escárnio; e tu estavas quase tão entusiasmado como eu a bordo do navio”, disse Annette, tristemente.

“Muito verdade. Eu estava. Mas vê que criaturas pitorescas temos ao nosso redor! Tinman a praticar no seu traje de Corte perante o espelho chiwal! E aquele bom rapaz, o carpinteiro, Crickledon, que viveu com o mar diante dele toda a sua vida, e nunca esteve num barco, e confessa que só uma vez foi para o interior, e nunca viu uma bolota!”

“Gostaria de ver uma — de um verdadeiro carvalho inglês”, disse Annette.

“E depois de estar em Inglaterra alguns meses, estarás a suspirar pelo Continente.”

“Nunca!”

— Acredita que ficará bastante satisfeita aqui?

— Tenho a certeza de que ficarei. Que o papá e eu nunca mais sejamos exilados! Não senti isso quando tinha três anos, ao partir para a Austrália; mas agora seria como a morte para mim. Oh! — Annette estremeceu, como se sentisse o frio do exílio.

— Pela minha honra — disse o Sr. Fellingham, tão suavemente quanto podia com o vento contra os dentes —, amo este velho país dez vezes mais pelo seu amor por ele.

— Não é assim que quero que a Inglaterra seja amada — respondeu Annette.

— O amor está nas suas mãos.

Ela pareceu indiferente ao ouvir aquilo.

Ele deveria ter percebido que a forma de a cortejar era agradar à sua obsessão com outra paixão. Podia sentir que isso a enobrecia no abstrato, mas um ressentimento latente contra Tinman, devido ao seu vinho — ao qual continuava a atribuir, com irritação, uma tontura invulgar na cabeça e uma ligeira irascibilidade —, tornava-o urgente no seu desejo de que ela se separasse de Tinman e da sua irmã pela divisão cortante do escárnio.

Annette recusou-se a rir das caricaturas mais risíveis de Tinman. No seu antagonismo, forçou a sua simplicidade ao ponto de dizer que não o achava absurdo. E, supondo que o Sr. Tinman tivesse pedido a viúva titulada, Lady Ray, em casamento, como ouvira dizer, e a outras senhoras, jovens e de meia-idade na vizinhança, por que não o faria, se quisesse casar? Se ele era poupado, certamente tinha o direito de gerir os seus próprios assuntos. O seu receio era que o Sr. Tinman e o seu pai se desentendessem quanto ao pagamento do espelho chiwal partido: isso ela admitiu honestamente, e Fellingham foi tão indiscreto que soltou uma gargalhada, não muito cordial.

Annette achou-o cruelmente satírico; e os pensamentos dele sobre ela reduziram-na à condição de uma rapariga vulgar com olhos expressivos.

Ela teve de regressar para junto do pai. O Sr. Fellingham deu um passeio na relva elástica ao longo das falésias; e “certamente ela é uma rapariga vulgar”, começou por refletir; com um olhar lateral para o facto de as suas meditações serem excitadas pelo envenenamento da sua bílis por Tinman. “Uma rapariga que não consegue ver o absurdo de Tinman deve estar desprovida de inteligência comum.” Passado algum tempo, cheirou deleitado o ar fino e cortante, misto de terra e mar, e caminhou de regresso à cidade no final da tarde, rindo de si mesmo, em desprezo pela sua miserável suscetibilidade a impressões biliosas, e quase odiando verdadeiramente Tinman como a causa da sua fraqueza — à maneira do criminoso que odeia o detetive, talvez. Atribuiu totalmente a Tinman o facto de o caráter de Annette se ter descolorido na sua mente; pois, apesar da frescura física com que regressou à companhia dela, era incapaz de se livrar da ideia de que ela era vulgar; e foi com pesar que reconheceu ter ganho com o seu passeio apenas uma opinião mais elevada sobre si próprio.

O seu pai era vítima de uma enxaqueca e jazia, um homem a gemer, na sua cama, assistido principalmente pela Sra. Crickledon. Annette teve de conduzir o negócio com o Sr. Phippun e o Sr. Tinman quanto ao pagamento do espelho chiwal. Foi incumbida de oferecer metade do preço do espelho da parte do seu pai; mais do que isso, ele não pagaria. Tinman e Phippun sentaram-se com ela na casa de campo de Crickledon, e a Sra. Crickledon trouxe duas mensagens do seu inválido, ambas positivas, no sentido de que lutaria com todas as armas da lei inglesa antes de ceder no seu ponto.

Tinman declarou ser completamente fora de questão que pagasse um centavo. Phippun jurou que, de um ou de outro, haveria de receber o dinheiro.

Annette estava, naturalmente, em profunda aflição, e Fellingham adiou a discussão para o dia seguinte.

Mesmo depois de tal provinha de Tinman, não foi possível induzir Annette a juntar-se ao escárnio privado contra ele. Ela parecia magoada com as piadas cruéis do Sr. Fellingham. Era monstruoso, considerava Fellingham, que ele tivesse de atrair sobre si uma segunda repreensão de Van Diemen Smith, enquanto consultavam, em total acordo, o caso do espelho chiwal.

— Devo dizer-lhe isto, senhor — disse Van Diemen —, gosto de si, mas serei direto e verdadeiro, ou não seria digno do nome de inglês; e gosto realmente de si, ou não lhe teria dado licença para vir aqui ter connosco. Deve respeitar o meu amigo se preza o meu respeito. É isso. É assim. Agora já conhece as minhas condições.

— Receio não poder assinar o tratado — disse Fellingham.

— Há mais — disse Van Diemen. — Sou um homem frio se ouço uma gargalhada e penso que conheço o seu objetivo. Aceitarei o que quiser, exceto o desprezo. Não suporto o desdém. Por isso, compadeço-me de outrem. E agora já sabe.

— Isso trava o jogo da imaginação e impede a libertação de vapor — protestou Fellingham. — Prometo fazer o meu melhor, mas, de todos os homens que conheci na minha vida — Tinman! —, o ridículo! Peço-lhe perdão; mas o burro e o seu espelho! O espelho estava baço! Ele, tão exigente com o seu reflexo no vidro como um poeta com os seus versos! Avançar, recuar, curvar-se; e tamanha profanação da língua inglesa na própria presença! Se eu pensasse que ele ia levar o seu vinho consigo, tê-lo-ia detido por alta traição.

— Escolheu, e sabe do que gosta mais — disse Van Diemen, acentuando as suas palavras — o que produz a pausa embaraçosa, a armadilha da conversação, e por vezes da amizade.

Assim aconteceu que o Sr. Herbert Fellingham regressou a Londres um dia antes do que pretendia, e sem dizer o que tencionava dizer.

CAPÍTULO V

Um mês mais tarde, após uma noite de geada intensa no limiar dos dias mais quentes da primavera, o Sr. Fellingham entrou em Crikswich sob um céu de azul perfeito que estava em brilhante harmonia com as colinas verdes, as falésias brancas e o mar cintilante, e não há dúvida de que foi a beleza diante dos seus olhos que o persuadiu da sua ilusão em ter tomado Annette por uma rapariga vulgar. Viera com um humor meramente curioso para descobrir se ela o era ou não. Quem, a não ser uma rapariga vulgar, se importaria de residir em Crikswich, tinha perguntado a si próprio; e agora estava bem certo de que nenhuma rapariga vulgar teria alguma vez tido a ideia. Requintadamente simples, ela era, certamente; mas isso pode bem ser uma distinção numa jovem cujos olhos são expressivos.

O som de uma serra atraiu-o à oficina de Crickledon, e o carpinteiro laborioso colocou-o rapidamente a par dos acontecimentos.

Crickledon apontou para a casa na praia como o lugar onde o Sr. Van Diemen Smith e a sua filha estavam hospedados.

— Meu Deus! E como é que ele parece? — disse Fellingham.

— A nossa cidade parece assentar-lhe bem, senhor.

— Bem, suponho que não devo dizer mais nada. — Fellingham conteve a língua. — Como resolveram aquele diferendo sobre o espelho chiwal?

— O Sr. Tinman teve de ceder.

— A sério?

— Mas — Crickledon parou o trabalho —, o Sr. Tinman vendeu-lhe um prado.

— Compreendo.

— O Sr. Smith tem andado a comprar uma boa parte de terreno aqui. Dizem-me que está prestes a adquirir Elba. Comprou o Crouch. Ele e o Sr. Tinman andam sempre juntos. Estão em Helmstone agora. Foram a Londres.

— É provável que regressem hoje?

— Com certeza, suponho. O Sr. Tinman tem de estar em Londres amanhã.

Crickledon olhou. Não era homem de parecer astuto, mas havia um canto iluminado no seu olhar que avivou as recordações de Fellingham, e este irrompeu:

— A Mensagem? Quase me tinha esquecido dela. Ainda não acabou? Ele tem praticado muito?

— Não se partiram mais espelhos.

— E como está a sua esposa, Crickledon?

— Está em casa, senhor, pronta para uma conversa, se lhe apetecer experimentá-la.

A Sra. Crickledon revelou-se muito pronta. “Aquele Tinman”, era o seu tema. Ele tinha-lhe levado os inquilinos, e ela sabia os seus objetivos. O Sr. Smith arrependia-se de a ter deixado, ela sabia, embora não se atrevesse a dizê-lo com todas as letras. Ela sabia que a Srta. Smith estava farta até à morte da companhia constante da Sra. Cavely, irmã de Tinman. Ela costumava vir uma vez por dia apenas para escapar à Sra. Cavely, que não se dignava, valha-nos Deus!, a entrar na casa de um aldeão onde não lhe fosse permitido condescender. Felizmente, a Srta. Smith tinha convencido o pai a obter o seu próprio vinho dos mercadores.

— Uma resolução feliz — disse Fellingham; — e uma resolução poupada.

Ouviu ainda que o Sr. Smith tomaria posse do Crouch no próximo mês, e que a Sra. Cavely pairava sobre a Srta. Smith como um milhafre.

— E aquele velho Tinman, velho o suficiente para ser seu pai! — disse a Sra. Crickledon.

Ela lidava com os lampejos que ligam as ideias. Fellingham, embora homem e inglês, era suficientemente nervoso para ver a ligação.

— Terão de consultar a jovem primeiro, minha senhora.

— Se for a um aceno do pai dela, ela curvar-se-á; marque as minhas palavras — disse a Sra. Crickledon, com ênfase. — Ela é uma jovem que pensa pela sua cabeça, mas parte do pai quando se trata de sentimentos. E ele ficou cego de todo por aquele Tinman.

Enquanto falavam, Annette apareceu.

— Vi-o — disse ela a Fellingham; alegre e abertamente, da maneira mais vulgar que existe.

— Vai dar um passeio comigo pela praia? — disse ele.

Ela propôs o campo atrás da cidade, e isso foi tão do seu agrado. Mas não foi um passeio feliz. Ele decidira que a admirava, e a ideia de ter Tinman como rival aborrecia-o. Ele transbordava de ridículo sobre Tinman, e isso era angustiante para Annette, porque, não só via que ele não se controlava perante o seu pai, como ele acendia o seu próprio espírito satírico em oposição aos sentimentos amigáveis do pai para com o seu antigo colega de escola.

— O Sr. Tinman tem sido extremamente hospitaleiro connosco — disse ela, um pouco friamente.

— Posso perguntar-lhe: ele consentiu em receber instruções de etiqueta e pronúncia?

Annette não respondeu.

— Se a prática leva à perfeição, ele deve estar perto do alvo a esta altura.

Ela permaneceu em silêncio.

— Suponho que, na vida doméstica, ele seja tão amável quanto é hospitaleiro, e deve ser uma gratificação diária vê-lo no seu traje de Corte.

— Não o vi no seu traje de Corte.

— Isso é a sua timidez.

— As pessoas falam dessas coisas.

— As pessoas comuns escandalizam os grandes, sobre quem não sabem nada, quer dizer! Tenho a certeza de que isso é verdade, e vivendo em Cortes temos de estar agudamente cientes disso. Mas que céu e mar esplêndidos!

— Não são?

Annette ecoou o seu falso arrebatamento com uma candura que o derreteu.

Ele preparava-se para recuperar o tempo perdido, quando o agitar selvagem de uma sombrinha numa estrada à direita, vindo da cidade, fez com que Annette parasse e dissesse: “Creio que deve ser a Sra. Cavely. Deveríamos ir ao encontro dela.”

Fellingham perguntou porquê.

— Ela é tão dada a passeios — respondeu Annette, com um dente no lábio.

Fellingham achou que ela parecia dada a corridas.

A Sra. Cavely juntou-se a eles, sem fôlego. — Minha querida! O passo a que vais! — gritou ela. — Vi-te a partir. Segui, corri, lancei-me. Tive medo de nunca te apanhar. E perder uma manhã destas de paisagem inglesa!

— Não é celestial?

— Não se pode dizer mais — observou Fellingham, curvando-se.

— Tenho a certeza de que fico muito contente por vê-lo de novo, senhor. Gosta de Crikswich?

— Uma vez visitada, sempre desejada, como Veneza, minha senhora. Posso aventurar-me a perguntar se o Sr. Tinman já apresentou a sua Mensagem?

— Depois de amanhã. A marcação está feita com ele — disse a Sra. Cavely, com um modo mais oficial —, para depois de amanhã. Ele está excitado, como bem pode acreditar. Mas o Sr. Smith é um imenso alívio para ele — a distração que ele queria. Tornámo-nos uma só família, sabe.

— De facto, minha senhora, eu não sabia — disse Fellingham.

A comunicação conferiu um veneno satírico tão grande aos seus comentários seguintes, que Annette resolveu terminar o seu passeio e dispensá-lo por aquele dia.

Ele visitou a casa na praia após a hora do jantar, para ver o Sr. Van Diemen Smith, quando houve literalmente um duelo entre ele e Tinman; pois a contribuição de Van Diemen para a mesa era champanhe, e esse tinha sido bebido, mas o xerez de Tinman permanecia. Tinman insistia para que Fellingham tomasse um copo. Fellingham esquivou-se com uma gravidade irónica que era dolorosamente percetível para Annette. Van Diemen acabou por apoiar a intenção hospitaleira de Tinman e, para espanto de Fellingham, descobriu que tinha sido visto por estes dois homens como estando a recuar timidamente de uma oferta sedutora, durante todo o tempo em que os seus truques de esgrima e estocadas a um deles tinham sido maravilhas de habilidade.

Tinman empurrou o copo para a mão dele.

— Derramou um pouco — disse Fellingham.

— Não fará mal ao tapete — disse Tinman.

— Não fará? — Fellingham fixou o tapete, como se esperasse que uma chama surgisse.

Relatou então a história do magnânimo Alexandre a beber a poção, em desprezo pelo caluniador, para mostrar fé no seu amigo.

— Alexandre — quem foi esse? — disse Tinman, frustrado nas suas recordações históricas pela ausência do apelido.

— General Alexandre — disse Fellingham. — Alexandre Philipson, ou ele declarou que era Joveson; e muito apreciador de vinho. Mas o seu xerez deu cabo dele no fim.

— Ah! então ele bebeu demasiado — disse Tinman.

— Do seu próprio!

Annette admoestou o jovem vingativo dizendo: — Quanto tempo fica em Crikswich, Sr. Fellingham?

Ele tinha-se comportado de forma grosseira. Mas um adversário simultaneamente ofensivo e desamparado provoca brutalidade. Annette evitou prudentemente deixar que o pai percebesse que o ar estava carregado de sátira; e nem ele nem Tinman tinham consciência disso exatamente: contudo, ambos encolheram-se dentro de si mesmos sob a sensação de uma lufada diabólica. Fellingham acompanhou-os e a certos jurados a Londres no dia seguinte.

Sim, se quiser: quando um presidente de câmara visita a Majestade, é uma circunstância importante, e o leitor está à vontade para argumentar longamente que significa mais do que um desejo da parte dele de exibir o seu poder de escrita e o seu poder de leitura: é um conforto para o povo, como uma exibição da sua majestade também; e é um encorajamento para os homens se esforçarem por se tornarem presidentes de câmara, chefes ou homens principais de qualquer espécie; mas uma ênfase no relato — fazê-lo parecer uma circunstância demasiado importante — soprará certamente a insinuação a um povo de espírito político de que a sátira está no ar, e por muito que prezem o privilégio de bater à primeira porta do reino, e de entrar cerimoniosamente para ler os seus escritos, eles, se não estiverem num dos seus humores para a prostração, rir-se-ão. Rir-se-ão do relato.

Tanto maior é a razão para não os satisfazermos em tais períodos; e digo, ai de mim, por qualquer irmão da pena, e um de alguma estima, que preparou o relato dessa apresentação da Mensagem de congratulação pelo Sr. Chefe Tinman, de Crikswich! Herbert Fellingham vingou o seu despeito pessoal em Tinman. Devia ter pensado que isso envolvia outro que não Tinman, isto é, um cargo — com o qual a besta volúvel se regozija por brincar e manusear desdenhosamente de vez em quando, pode pensar-se, como um consolo para o seu orgulho, e uma indemnização por esses caprichos de culto abjeto que recordam fortemente os dias que vemos através dos óculos do Sr. Darwin.

Não devia ter escrito o relato. Isso provocou uma risadinha por toda a Inglaterra. Ele foi tão imprudente que enviou uma cópia do jornal que o continha a Van Diemen Smith. Van Diemen leu-o com satisfação. Tinman também. Ambos elogiaram o talentoso jovem escritor. Mas entregaram o jornal ao Tenente da Guarda Costeira, que perguntou a Tinman se tinha gostado; e começaram a aparecer visitantes em Crikswich, que faziam questão de pedir para ver o homem principal; e depois veio uma publicação cómica, toda ela no tom republicano da época, com a Dignidade Humana como ponto de partida, e o riso asmático residente em velhos trocadilhos a apoiá-lo, em elogio ao relato satírico da famosa Mensagem de congratulação do Chefe de Crikswich.

— Annette — disse Van Diemen à sua filha —, não encorajarás mais aquele tipo do jornal a vir aqui. Ele teve o seu aviso.

CAPÍTULO VI

Uma das lições mais difíceis para os jovens de espírito aprenderem é que boas piadas nem sempre são boa política. Têm de ser pagas, como bons jantares, embora o jantar e a piada pareçam ter sido à custa de outrem. O jovem Fellingham foi tratado com aspereza por Van Diemen Smith, e com alguma reserva fria por Annette: em consequência do que ele a achou mais vulgar do que nunca. Escreveu-lhe uma carta de repreensão brincalhona, seguida de uma que apelava aos seus sentimentos.

Mas ela não respondeu a nenhuma delas. Por isso, as suas visitas a Crikswich chegaram ao fim.

Deve uma rapariga que não tem apreço pela diversão afetar-nos? Os seus olhos expressivos, a sua estranha simplicidade e o seu entusiasmo pela Inglaterra assombravam o Sr. Fellingham; sendo conjurados pelo contraste com o que encontrava à sua volta. Mas deve uma rapariga que nos imporia a tarefa de conter o nosso riso perante Tinman ser muito lamentada? Não poderia haver camaradagem entre nós, pensava Fellingham.

Numa excursão aos Lagos Ingleses, viu o nome de Van Diemen Smith num livro de visitantes, e mudou as suas ideias sobre o assunto da camaradagem. Entre montanhas, ou no mar, ou lendo história, Annette era uma em mil. Aconteceu estar num baile público em Helmstone na época de inverno, e quem senão a própria Annette veio rodopiando diante dele no braço de um oficial! Fellingham não perdeu a sua oportunidade de falar com ela. Ela cumprimentou-o alegremente e, falando com a excitação da dança, pareceu estranha às emoções sérias que ele estava disposto a acalentar. Tinha estado nos Lagos e na Escócia. No verão seguinte ia ao País de Gales. Todas as suas experiências eram deliciosas. Ela era insaciável, mas satisfeita.

— Gostaria de ter estado consigo — disse Fellingham.

— Gostaria que tivesse estado — disse ela.

A Sra. Cavely era a sua acompanhante no baile, e não lhe foi permitido desfrutar de uma conversa prolongada sentado com Annette. O que deveria ele pensar de uma rapariga que podia ser submissa à Sra. Cavely, e dançava com qualquer número de oficiais, e não tinha ideia senão a de correr incessantemente por Inglaterra em busca de prazer? O seu tom ao dizer “Gostaria que tivesse estado” era o dos desejos mais comuns, distintamente, se não propositadamente, diferente da sua própria profundidade melodiosa.

Ela concedeu-lhe uma valsa, e ele falou do seu pai e dos seus caprichos e vagabundagens, sentindo que tinha um gosto positivo por Van Diemen, e disse-o sagazmente.

Os olhos de Annette brilharam. — Então porque nunca o vai visitar? Ele comprou Elba. Mudamo-nos para o Hall depois do Natal. Estamos no Crouch presentemente. O papá terá todo o gosto em recebê-lo. Não sabe que ele nunca esquece um amigo ou quebra uma amizade?

— Sei, e amo-o por isso — disse Fellingham.

Se ele não estava muito enganado, uma leve pressão nos dedos da sua mão esquerda recompensou-o.

Isto determinou-o. Deve observar-se aqui que ele era, por nascimento, superior aos progenitores de Annette, e tal é o sentimento de um melhor sangue que o elogio do seu toque quente era necessário para ele ignorar a distinção.

Duas das suas visitas a Crikswich resultaram simplesmente em entrevistas e conversas com a Sra. Crickledon. Van Diemen e a sua filha estavam em Londres com Tinman e a Sra. Cavely, a comprar mobília para o Elba Hall. A Sra. Crickledon não teve escrúpulos em dizer que a Sra. Cavely queria que o seu irmão habitasse o Hall, embora o Sr. Smith tivesse licitado mais do que ele na compra. Segundo ela, Tinman e o Sr. Smith tinham as suas divergências; pois o Sr. Smith era um cavalheiro muito franco, e sabia-se que tinha chamado nomes a Tinman que nenhum homem de espírito suportaria se não estivesse a conspirar.

Fellingham regressou a Londres, onde deambulou pelas ruas famosas pelos armazéns de mobiliário, na vã esperança de encontrar o novo proprietário de Elba.

Fracassando nesta tentativa, escreveu uma carta de amor a Annette.

Foi a primeira vez. Ela gostava dele. A sua forma de pensar que talvez pudesse amá-lo era através da reflexão de que ninguém se atravessava no caminho. A carta abriu-lhe um mundo, mais vasto do que a Grã-Bretanha.

Fellingham implorou-lhe que, se ela pensasse favoravelmente nele, preparasse o pai para o objetivo da sua visita. Caso contrário, deveria proibir a visita com a menor demora possível e deixá-lo partir.

Uma linha de conduta decidida era imperativa. No entanto, já viu que ela não estava apaixonada. Apenas não estava indisposta a apaixonar-se. E Fellingham estava apenas um pouco aquecido. Agora, repare no que os eventos farão para acender as chamas.

Van Diemen e Tinman, velhos companheiros reunidos e ambos bem-sucedidos na vida, tinham, contudo, como dizia a Sra. Crickledon, as suas diferenças. Começaram com uma oposição às opiniões de Tinman relativamente à despesa das verbas municipais. Tinman estava sempre a querer destiná-las à defesa patriótica das "nossas costas"; ao passo que Van Diemen, apontando com detestação para o esgoto da cidade que fedia através do terreno comum sob a praia, clamava ruidosamente para que ele preservasse as nossas vidas, como ponto de partida. Depois, Van Diemen comprou precipitadamente Elba por uma avaliação elevada, e Tinman esperava, ao aguardar, comprá-la pela sua própria avaliação e vendê-la, por consideração amigável, ao seu amigo mais tarde, por uma consideração amigável. Van Diemen tinha-se juntado à caça. Tinman não conseguia montar a cavalo. Não tinham discutido, mas tinham tido picardias sobre estes e outros assuntos. Van Diemen imaginava que Tinman tinha inveja da sua riqueza. Tinman suspeitava astutamente que Van Diemen desprezava a sua dignidade. Ele sofreu uma perda num empréstimo de dinheiro; e, em vez de ter pena dele, Van Diemen riu-se dele com escárnio por esperar garantias para investimentos a dez por cento. A amargura do aperto para Tinman tornou-o assustadoramente sensível a críticas sobre a sua discrição. Na sua angústia, disse à irmã que estava arruinado, e ela aconselhou-o a casar antes do desastre. Ela estava ciente de que ele exagerava, mas repetiu o conselho. Foi ao ponto de nomear a pessoa. Isto sabe-se porque foi ouvida pela sua criada, uma mexeriqueira da Sra. Crickledon, a posteriormente famosa "Pequena Jane".

Ora, Annette tinha timidamente dado a entender ao pai a natureza da carta de Herbert Fellingham, professando ao mesmo tempo uma perfeita prontidão para se submeter às suas instruções; e o perplexidade do pai era muito grande, pois Annette tinha dramatizado de forma bastante fervorosa as palavras do jovem no baile em Helmstone, o que o tinha agradado agradavelmente e, além disso, ele gostava do jovem. Por outro lado, ele não gostava nada da perspetiva de perder a filha; e teria desejado que ela fosse uma senhora de título. Ele insinuou o seu direito de reclamar uma posição elevada. Annette encolheu-se perante a perspetiva, dizendo: "Nunca me deixe casar com alguém que possa ter vergonha do meu pai!"

"Eu não engoliria isso," disse Van Diemen, mais disposto a favor do pretendente atual.

Annette estava agora a tremer. Ela tinha um pretendente; ele estava a vir. E se ele não viesse, importava? Não muito, exceto para o seu orgulho. E se ele viesse, o que haveria ela de lhe dizer? Sentia-se como uma atriz que pode, em poucos minutos, ser chamada ao palco, sem saber o seu papel. Isto era penosamente diferente do amor, e a pobre rapariga temia que fosse seu dever consciencioso dispensá-lo — muito gentilmente, claro; e talvez, caso ele fosse impetuoso e pitoresco, ceder o suficiente para deixá-lo ter esperança, e assim provocar um feliz adiamento da questão. O seu pai tinha ido a uma cidade vizinha tratar de negócios com o Sr. Tinman. Ele bateu à porta dela à meia-noite; e ela, com medo do que não sabia — principalmente que a Hora da Cena tivesse de alguma forma soado —, saiu para ele a tremer. Ele estava sozinho. Ela achou-se a mais infantil dos mortais ao supor que pudesse ter sido convocada à meia-noite para declarar os seus sentimentos, e quase não reparou na sua depressão sombria. Ele pediu-lhe que lhe desse cinco minutos; depois pediu-lhe um beijo e disse-lhe para ir para a cama dormir. Mas Annette tinha visto que um grande sofrimento presente o apoquentava, e ela não quis ser mandada dormir. Prometeu ouvir pacientemente, suportar tudo, ser corajosa. "São más notícias de casa?" disse ela, falando da velha casa onde não tinha deixado o seu coração, e onde o dinheiro dele estava investido.

"É isto, minha querida Netty," disse Van Diemen, deixando que ela o conduzisse para a sua sala de estar; "teremos de deixar as costas da Inglaterra."

"Então estamos arruinados."

"Não estamos; o velhaco não pode fazer isso. Poderíamos ir para o Continente, ou poderíamos ir para a América; temos dinheiro. Mas não podemos ficar aqui. Não viverei à mercê de ninguém."

"O Continente! América!" exclamou a entusiasta da Inglaterra. "Oh, papá, o senhor gosta tanto de viver em Inglaterra!"

"Não tanto assim, minha querida. Tu gostas, isso eu sei. Mas não vejo como isso se possa resolver. Mart Tinman e eu estivemos de dentes e garras hoje e metade da noite; e ele tirou a máscara, ou ele atirou alguma coisa da minha vista, não sei qual das duas. Derrubei-o."

"Papá!"

"Levantei-o."

"Oh," exclamou Annette, "o Sr. Tinman ficou ferido?"

"Chamou-me Desertor!"

Annette estremeceu.

Ela não sabia o que era aquilo, mas o nome abriu um gabinete de horrores, e ela tocou no pai timidamente, para o assegurar do seu amor constante, e um pouco para se assegurar da sua identidade substancial.

"E eu sou um," Van Diemen fez a confissão ao mais alto volume da sua voz. "Sou um Desertor; estou sujeito a ser marcado a ferro nas costas. E está nas mãos do Mart Tinman fazer com que me levem amanhã de manhã à vista de Crikswich, e tudo o que posso dizer por mim, como homem e britânico, é que não desertei perante o inimigo. Isso juro que nunca teria feito. A morte, se a morte estiver à frente; mas a tua pobre mãe era uma mulher bonita, minha filha, e pronto — não podia continuar a viver nos quartéis e deixá-la desprotegida. Não consigo contar a história a uma jovem. Cem libras caíram-me como legado, em cheio nas minhas mãos vindo do céu aberto, e a tua pobre mãe e eu vimos a nossa oportunidade; consultámo-nos e decidimos arriscar, e eu embarquei com ela e contigo, e atravessámos os mares, primeiro para o naufrágio, finalmente para a fortuna."

Van Diemen riu-se miseravelmente. "Repararam no campo de caça que eu tinha um assento à soldado. Será um assento à soldado, com uma marca nele. Não serei convidado a tomar um assento à soldado em nenhuma das suas mesas novamente. Talvez na do Mart Tinman, por pena, depois de ter cumprido o meu castigo. Falta ainda um ano para terminar os vinte do meu tempo de serviço devido. Ele sabe disso; tem andado a contar; tem-me na mão. Mas o pior chicote de nove pontas para mim é a desgraça. Ser apontado: 'Ali vai o Desertor! Ele era praça nos Carabineiros e desertou.' Ninguém dirá: 'Sim, mas ele agarrou-se à ideia do seu velho colega de escola quando estava no estrangeiro, e voltou amando-o, e confiou nele, e foi enganado.'"

Van Diemen produziu uma tosse espasmódica com um golpe no peito. Annette estava a chorar.

"Pronto, agora vai para a cama," disse ele. "Quem me dera que não soubesses mais do que sabias da nossa fuga quando te meti no navio com a tua pobre mãe; mas és uma jovem agora, e tens de me ajudar a pensar noutra fuga e que bagagem podemos juntar num instante, pois não viverei aqui à mercê do Mart Tinman."

Secando os olhos para chorar novamente, Annette disse, quando conseguiu falar: "Nada o acalmará? Eu ia incomodá-lo com todo o tipo de perguntas tolas, meu pobre e querido papá; mas vejo que posso compreender se tentar. Nada... Ele está tão zangado assim? Não podemos fazer algo para o apaziguar? Ele gosta de dinheiro. Ele... oh, o pensamento de deixar a Inglaterra! Papá, isso vai matá-lo; o senhor coloca todo o seu coração na Inglaterra. Nós poderíamos... eu poderia... não poderia, não acha? — intervir como mediadora. O Sr. Tinman é sempre muito cortês comigo."

A estas palavras de Annette, Van Diemen irrompeu numa curta gargalhada selvagem. "Mas isso está muito longe em segundo plano, Sr. Mart Tinman!" disse ele. "Tu manténs-te no teu jogo, eu sei disso; mas vais encontrar-me já longe, embora deixe um nome a cheirar mal como o teu terreno comum atrás de mim. E," acrescentou ele, como um lembrete gelado, "esse nome é o nome do meu benfeitor. Pobre velho Van Diemen! Ele achou que era um legado seguro a deixar."

"Era; é! Ficaremos; não seremos exilados," disse Annette. "Farei qualquer coisa. Sobre o que foi a discussão, papá?"

"O facto é, minha querida, que eu só queria mostrar-lhe — e baixar-lhe o orgulho — que, pela minha educação australiana, sou mais astuto do que a sua velha terra. Comprei a casa na praia enquanto ele regateava, e depois vendi-lha com um aumento quando a cidade estava a melhorar — só para ele ver. Depois ele explodiu por causa de algo que eu disse sobre a Austrália. Vou limpar o terreno comum. Deixe-o viver no Crouch como meu inquilino se achar que a casa na praia está em perigo."

"Papá, tenho a certeza," repetiu Annette, "tenho a certeza de que tenho influência sobre o Sr. Tinman."

"Estão esses teus lábios a fechar-se com força," disse o pai. "Ouve só, e eles fazem um grande O. O burro! Ele admite que tens influência e oferece-se para ficar calado se tu deres a tua palavra de casar com ele. Não tenho a certeza se ele não disse, dentro de um ano. Disse-lhe para ter cuidado para não ser derrubado outra vez. Mart Tinman para meu genro! Isso é uma inversão das minhas expectativas, tão boa como estar nas antípodas sem uma segunda viagem de regresso! Deixei-o saber que estavas noiva."

Annette olhou para o pai de boca aberta, como ele tinha previsto; agora com uma pequena covinha fria num canto da boca, agora no outro — tal como uma brisa curva o lago de chumbo do inverno aqui e ali. Ela não conseguia colocar o significado dele na sua visão, e procurou, olhando fixamente, entendê-lo melhor; muito como quando alguma senhora solteira solitária, passando para o seu quarto nas horas de escuridão, contempla — diz-nos a tradição que ela contemplou absolutamente o pé de um ladrão debaixo da cama; e eis! ela olha, e, astuciosamente para moderar o seu horror, duvida, mas não pode deixar de acreditar que há uma perna, e um tronco, e uma cabeça, e dois braços terríveis, carregando pistolas, a seguir. Doente, ela palpita; comprime a sua trepidação; tosse, porventura canta um compasso ou dois de uma ária. Olhando para baixo novamente, três vezes horrível é para ela descobrir que não há pé! Pois se tivesse permanecido, poderia ter sido imaginado como uma bota inofensiva e vazia. Mas a retirada tem um significado mortal de vida animal...

Da mesma forma, a nossa Annette atingida percebeu o objeto; assim compreendeu ela gradualmente o facto de ser pedida para noiva de Tinman, e não conseguia acreditar. Ela meio que pressentiu, ela delineou o seu plano de fuga de outra menção isolada a isso. Mas ao comentário do seu pai, com um arrastar de pés, assustado pela sua expressão: "Não ouças o que eu disse, Netty. Não vou pintá-lo mais negro do que ele é" — então Annette teve a certeza de que tinha sido pedida em casamento pelo Sr. Tinman, e imaginou que o pai pudesse ter ponderado na sua mente que existia este meio de manter Tinman calado, calado para sempre, nos seus próprios interesses.

"Não era verdade, quando disse ao Sr. Tinman que eu estava noiva, papá," disse ela.

"Não, eu sei disso. Mart Tinman só meio que insinuou. Vamos lá, digo eu! Onde está o homem solteiro que não gostaria de ter uma rapariga como tu, Netty! Dizem que ele foi rejeitado em todo um circuito de quinze milhas; e ele não é nada má aparência, também — parece fresco e justo. Mas achei que era melhor deixá-lo saber que ele poderia apanhar-me numa desvantagem, mas não a ti. Agora, não penses nisso, meu amor."

"Não se não for necessário, papá," disse Annette; e empregou a sua familiar doçura a persuadi-lo a ir para a cama, como se fosse ele o aflito que precisasse de ser mimado.

CAPÍTULO VII

Debaixo das falésias junto ao mar, viradas a Sul, há assentos quentes no inverno. O sol que brilha ali num dia de geada envolve-o como num manto. Foi aqui que o Sr. Herbert Fellingham encontrou Annette, um bloco de giz para a sua cadeira, e um monte de entulho de giz a defendê-la do hálito de ponta afiada do leste, sombreado de vez em quando na água azul suave, debilmente, como reflexos de um bando de gaivotas.

Dizem que os bebés têm as suas ideias, e por que não as jovens senhoras? Aqueles que escrevem sobre as suas perplexidades em descrições cómicas pelo seu comprimento são cruéis com elas, fazendo-as parecer as mais simples das criaturas da ficção; e a maioria de nós, tenho a certeza, inclinar-se-ia a acreditar nelas se fossem apenas um pouco mais levemente tocadas. Aqueles sentimentos perturbados da nossa jovem senhora das classes confortáveis são dignos de menção. O seu pequeno olho pobre, perscrutando o menos possível como um peixe o intrincado, que ela toma pelo infinito, tem o seu lugar na nossa história, nem nenhum de nós deveria perder o pathos disso se não fosse pelo facto de ser reclamado um espaço tão grande para a exposição. Como está, quase se tem de travar uma batalha para persuadir o mundo de que ela tem pensamentos e sentimentos diretos, e realmente é necessária uma delicadeza sobre-humana ao apresentá-la para que ela possa ser credível. Mesmo assim — estando tanto realizado — os milhares acostumados a capítulos dela quando está na situação de Annette ficarão desapontados com frases curtas, tal como outrora o comedor continental de ostras teria ficado ofendido com a oferta de uma troca de duas vivas por duas dúzias de mortas. Annette estava na grande posição crucial da prosa imaginativa inglesa. Reconheço-o, e que para isto fluem os riachos, daí jorra a cheia. Mas qual era a pura verdade? Ela tinha-se levado a pensar que devia sacrificar-se a Tinman, e as suas evasões com Herbert, manifestadas em truques de frieza alternando com tons de arrependimento, terminaram, como tinham começado, numa misteriosa semi-amargura. Ela mal tinha uma palavra para dizer. Deixe-me intervir novamente para observar que ela não tinha, no momento, nenhuma intenção direta de casar com Tinman. Para o seu espírito, as circunstâncias obrigavam-na a embarcar na ideia de o fazer, e ela via a extremidade numa distância extrema, como aqueles que fazem viagens podem ver a morte por afogamento. Ainda assim, ela tinha embarcado.

"Pelo menos, tenho a sua palavra de que não me detesta?" disse Herbert.

"Oh! não," suspirou ela. Ela gostava dele como os emigrantes gostam da terra que estão a deixar.

"E não prometeu a sua mão?"

"Não," disse ela, mas suspirou ao pensar que, se pudesse ser induzida a prometê-la, não haveria uma palavra sobre deixar a Inglaterra.

"Então, como não está noiva e não me odeia, tenho uma hipótese?" disse ele, no semi-choroso interrogativo de um órgão a fazer uma conclusão apenas com vento.

O oceano enviou uma pequena onda aos pés deles.

"Um dia como este no inverno é mais raro do que um dia de verão," recomeçou Herbert encorajadoramente.

Annette estava a responder: "As pessoas abusam do nosso clima..."

Mas o pensamento de ter de sair para fora deste clima na escuridão do exílio, com o seu pai a sofrer com isso pior do que ela, sobrecarregou-a e trouxe a realidade do seu sofrimento sob a forma de Tinman a nadar perante a sua alma com a velocidade de um poste de telégrafo para a janela do comboio em movimento. Passou assim que foi visto, mas deu-lhe uma sensação desesperada de velocidade.

Ela começou a sentir que isto era a vida a sério.

E Herbert deveria ter sido mais resoluto, mais ardente. Ela precisava de uma vontade forte.

Mas ele não estava nos rápidos da paixão dominadora. Pois embora fosse a um certo ritmo, era pela sua própria impulsão; e temo que tenha de, com muitas desculpas, compará-lo ao patinador — ao patinador no gelo fácil e escorregadio, entenda-se; mas ele conseguia fazer giros enquanto ia, e navegava mais do que avançava; ele tinha cuidado com a sua figuração. Alguns amantes, amantes bem honestos, nunca vão além desta pitoresca fase de patinagem; e algumas senhoras, um bom número num clima enevoado, enganadas pelas suas ocasionais corridas à frente, tomam-nos por navios na própria torrente do amor. Que os tomem, e que a corrida continue. Apenas percebemos que eles estão a patinar; estão a percorrer uma superfície de gelo suave, e podem parar a um sinal, com apenas meio metro de fricção no calcanhar no exterior. Gelo, e não fogo ou água em queda, tem sido o seu meio de progressão.

Se um homem deve ou não desvendar o seu próprio sexo é uma questão completamente diferente. Se formos detetados, não só estamos feitos, mas os nossos contos de amor também. No entanto, não há muita base para ansiedade nesse aspeto. Cada membro da outra parte é cego por conta própria.

Para Annette, a figuração de Herbert era graciosa, mas não a apanhava nem a levava; mal a tocava: Ele falava bem o suficiente para a fazer sentir pena dele, e não calorosamente o suficiente para a fazer esquecer o seu sofrimento por si mesma.

Herbert não conseguia obter nenhuma explicação para a singularidade da conduta dela da parte de Annette, e foi direto ao pai dela, que esteve quase tão inexplicável durante algum tempo. Por fim, disse ele:

"Se está pronto para deixar o país connosco, pode ter o meu consentimento."

"Porquê deixar o país?" perguntou Herbert, em natural espanto.

Van Diemen recusou-se a dizer-lhe.

Mas, vendo o jovem parecer estupefacto e miserável, ele deu uma volta pela sala e disse: "Não roubei," e depois de mais voltas, "Não assassinei." Ele rosnou no seu trote de menagerie dentro das quatro paredes. "Mas estou nas mãos de um homem. Isso satisfaz-te? Dir-me-ás, porque sou rico, para estalar os dedos. Não posso. Tenho sentimentos. Estou no poder dele para me magoar e me desgraçar. É a desgraça — para minha desgraça o digo — que mais temo. Entenderias a minha razão se alguma vez tivesses servido num regimento. Quero dizer, disciplina — se alguma vez tivesses conhecido disciplina — na polícia se quiseres — qualquer coisa — em qualquer lugar onde exista o que costumávamos chamar *spiny de cor*. Quero dizer, na escola. E eu sou," disse Van Diemen, "um idiota de patente dupla D, lorpa, e plano como uma panqueca, e transparente como um vidro de janela. Tu vês através de mim. Qualquer um poderia. Não consigo falar do meu incómodo sem me trair. Que utilidade tenho eu entre vocês, rapazes astutos em Inglaterra?"

Linguagem deste género, em virtude da sua ininteligibilidade, pôs as especulações aguçadas do Sr. Herbert Fellingham a funcionar. Ele foi obrigado a apoiar-se na afirmação de Van Diemen, de que não tinha roubado e não tinha assassinado, para ser confortado pela crença de que ele não era outrora um famoso *bushranger*, ou um gerente de minas em falta, ou qualquer outra coisa que seja marota e australiana.

Ele sentou-se à mesa de jantar em Elba, comendo como o resto da humanidade, e parecendo um mendigo esfomeado durante todo o tempo.

Annette, por piedade da confusão dele, teria feito o seu pai confiar nele. Sugeriu-o dissimuladamente e, a seguir, falou-lhe disso como uma medida prudente, vendo que o Sr. Fellingham poderia descobrir o seu grau exato de responsabilidade. Van Diemen gritou; traiu-se na sua fraqueza como ela nunca teria imaginado. Estava pronto para ir, disse ele — ir de imediato, abandonar Elba, fugir da Velha Inglaterra: o que não podia fazer era deixar os seus compatriotas saberem o que ele era e viver entre eles depois. Declarou que o facto estivera eternamente presente na sua mente, consumindo-o; e Annette lembrou-se da sua bondade para com os artilheiros destacados ao longo da costa a oeste de Crikswich, embora não conseguisse recordar qualquer sinal de remorso. Van Diemen disse: “Temos de nos haver com Martin Tinman; esse tem um ascendente sobre mim, e um basta. Se o meu segredo vazar para um segundo sujeito, duplico os meus riscos.” Não quis ser ensinado a ver como o segundo poderia neutralizar o primeiro. A singularidade da ação do seu caráter sobre a posição dela era que, embora não conhecesse uma alma a quem pudesse desabafar a sua desgraça, e estivesse muito mais isolada do que no seu lar australiano, febre e calafrios percorriam-lhe o sangue na contemplação da necessidade de deixar a Inglaterra.

Profunda, então, foi a sua gratidão para com a querida e boa Sra. Cavely por se ter interposto para mediar entre o seu pai e o Sr. Tinman. E bem podia ela ficar espantada ao ouvir a origem do recente desentendimento entre eles.

“Foi”, disse a Sra. Cavely, “aquele Gippsland”.

Annette exclamou: “O quê?”

“Esse seu Gippsland, minha querida. O seu pai não para de elogiar Gippsland sempre que o meu Martin lhe pede para admirar as belezas da nossa vizinhança. Muitas vezes o Martin chegou a casa a queixar-se disso. Não temos a menor dúvida de que Gippsland seja um lugar muito bonito; mas o meu irmão tem as suas ideias de dignidade, deve saber, e eu só desejo que ele estivesse mais habituado a ser contrariado, pode acreditar. Ele é um cordeiro por natureza. E, como ele diz: ‘Por que subestimar o próprio país?’ Ele não suporta ouvir gabarolices. Pois bem! Eu pergunto-lhe, querida Annette, será ele uma pessoa tão sem importância? Ele pede para ser respeitado, e especialmente pelo seu amigo mais querido. Daí às vias de facto! É o jeito dos homens. Começam por ninharias, bebem, discutem, e um faz o que lamenta, e o outro diz mais do que pretende. Tudo o que o meu Martin deseja é apertar a mão ao seu querido pai, perdoar e esquecer. Para conquistar a sua estima, querida Annette, ele humilhar-se-ia no pó. Não me ajudará a reunir estes dois velhos amigos mais uma vez? É irracional da parte do seu querido papá continuar a gabar-se de Gippsland se ele gosta tanto da Inglaterra, não é? O meu irmão é a parte ofendida aos olhos da lei. Isso é certo. Acha que ele sonha em tirar partido disso? Ele está em casa à espera de que lhe digam que pode visitar o seu pai. Títulos, dignidade, sentimentos feridos, nada disso é nada para ele em comparação com a amizade.”

Annette pensou no golpe que o tinha derrubado e disse a verdade do seu coração ao afirmar: “Ele é muito generoso.”

“Você compreende-o.” A Sra. Cavely apertou-lhe a mão. “Vamos ambas ter com o seu querido pai. Ele pode”, acrescentou ela, não sem um brilho de vivacidade feminina, “elogiar Gippsland acima dos Himalaias para mim. O que o meu Martin reprovava tanto era falar-se de Gippsland quando se mencionava a paisagem do nosso lago. Quanto a mim, sei como os homens adoram gabar-se de coisas que ninguém mais viu.”

As duas senhoras foram em companhia ter com Van Diemen, que se deixou amolecer. Era, contudo, reservado. A sua receção ao Sr. Tinman desagradou à filha. Annette atribuía a mais negra importância a um murro. Na sua mente, aquilo brilhava de forma demoníaca, e o homem que o perdoou subiu um degrau ou dois no sublime. Especialmente por considerar que ele tinha o poder de despedir o seu pai e ela própria da radiante e luminosa Inglaterra antes de ela ter contemplado todas as catedrais e igrejas, as costas marítimas e os locais mencionados na poesia impressa, para não falar da nobreza.

“Papá, não foi tão gentil com o Sr. Tinman como eu esperava”, disse Annette.

“O Mart Tinman tem-me à mercê dele, e far-me-á saber disso”, respondeu o pai sombriamente. “Pode deixar-me em paz com o Comandante-em-chefe. Mas ele vai destruir a minha reputação um dia. Vou andar de cabeça baixa na sociedade, por causa dele.”

Van Diemen imitou a aparência desconsolada de um corpo na forca, num daqueles lampejos rápidos de verossimilhança espontânea que brotam de um horror inato a pintar-se por fora.

“Um desertor!” gemeu ele.

Conseguiu imprimir a terrível natureza do estigma na imaginação de Annette.

O hóspede em Elba estava ocupado a somar o total das suas próprias impressões e a dividi-lo por este e aquele novo acontecimento; pois estava totalmente às escuras. Sentia-se atraído pela misteriosa entrevista da Sra. Cavely com Annette. A visita e partida de Tinman levaram-no a novos cálculos. Annette tornava-se fria e visivelmente perturbada pela sua consciência disso.

Ela esforçou-se por explicar esta variação de humor. “Fomos convidados para jantar na casa da praia amanhã. Eu não teria aceite, mas o papá... parecíamos pensar que era um dever. Naturalmente, o convite estende-se a si. Achamos que não gosta muito de jantar lá. A mesa será posta para si aqui, se preferir.”

Herbert preferiu experimentar a perícia da Sra. Crickledon.

Ora, para uma penetração positiva, a mente prevenida por uma suspeita é inigualável; pois onde não há luz do dia, pelo menos esta anda por aí com uma lanterna. Herbert pediu à Sra. Crickledon que lhe preparasse um jantar e, depois, para dar a cor certa à sua ausência da mesa do Sr. Tinman, partiu para uma caminhada de inverno pelas colinas — um exercício tão estimulante quanto qualquer jovem, obtuso ou perspicaz, pode empreender; excelente para os homens da pena, quer sejam criativos e produzam, ou matem e revejam; bom, portanto, para as tolas ovelhas das letras e para os talhantes. Sentou-se à mesa da Sra. Crickledon às seis e meia. Ela era, como lhe informara anteriormente, uma cozinheira de quarenta libras por ano na época em que foi cortejada por Crickledon. Aquele marido zeloso e devoto fizera a sua primeira excursão ao interior para atravessar as colinas até à grande casa e levá-la como noiva, após a morte do seu patrão, Sir Alfred Pooney, que nunca se teria separado dela em vida; e todos os dias da vida daquele homem ele sujava treze pratos ao jantar, nem mais, nem menos, exatamente esse número, como se acreditasse que havia sorte nisso. E, como dizia Crickledon, era estranho. Mas era sempre um prazer cozinhar para ele. A Sra. Crickledon não suportava cozinhar para um comedor mesquinho. E quando Crickledon disse que nunca tinha visto uma bolota, podia tê-la visto se tivesse olhado à sua volta no grande parque, sob os carvalhos, no dia em que veio para se casar.

“Então é um elogio permanente a si, Sra. Crickledon, que ele não a tenha visto”, disse Herbert.

Comentou, com a sentenciosidade de uma filosofia forçada, que nenhum vinho era melhor do que vinho mau.

A Sra. Crickledon falou de uma garrafa deixada pelos seus inquilinos de verão, que na verdade tinham deixado duas, chamando ao vinho "vinho de inválidos"; ela e o marido tinham aberto uma no aniversário do seu dia de casamento, em outubro. Tinha o sabor de farmácia, concordaram ambos; e, como nenhum amigo deles podia ser tentado para além de um gole, foram aconselhados, porque se chamava tónico, a misturá-lo com a lavagem dos porcos, para que não se perdesse totalmente, mas beneficiasse a constituição do porco. Herbert deu uns golinhos na garrafa restante e, encontrando-se na sociedade superior de um velho Manzanilla, encheu o copo de novo.

“Nada que eu conheça prova tanto a diferença entre gente fina e pessoas pobres como o gosto pelo vinho”, disse a Sra. Crickledon, admirando-o enquanto trazia um prato de costeletas — com o molho Soubise favorito de Sir Alfred Pooney, no qual, corretamente, a cebola deveria ser delicada como a ideia de amor nos pensamentos das donzelas, embora constituísse o elemento de sabor. Algo de tal ditame Sir Alfred Pooney tinha transmitido à sua cozinheira, e ela repetia-o com a elegância fresca de tais ditos doces quando transfundidos através da mente nativa:

“Ele dizia: gosto como se fosse o que chamariam o rubor de uma rapariga jovem a um beijo dado num canto.”

O baronete epicurista tinha o hábito de falar dessa maneira.

Herbert bebeu à memória dele. Estava bem alimentado; não tinha trabalho a fazer e estava exuberante de espírito, como a Sra. Crickledon sabia que os seus compatriotas deviam e estariam naquelas condições. E de repente passou a mão por uma testa tão enrugada e escura que a Sra. Crickledon exclamou: “Coração ou estômago?”

“Oh, não”, disse ele. “Espero estar bem de ambos.”

“Aquele velho Tinman anda metido num dos seus jogos”, observou ela.

“Acha?”

“Ele está a tentar envolver a menina Annette Smith.”

“Puf! Crickledon. Um homem da idade dele não pode estar seriamente a pensar em pedir uma jovem em casamento.”

“Ele é um homem bem conservado. Nunca se meteu em farras. Não tinha farras nele. E ela pode não gostar dele. Mas ouvimos coisas soltas.”

“Que coisas ouviu soltas, Crickledon? Num silêncio profundo pode ouvir-se alfinetes; num alvoroço pode ouvir-se balas de canhão. Mas nunca acredito em mexericos de quem ouve às portas.”

“Ouviram-no dizer ao Sr. Smith”, continuou Crickledon, baixando a voz, “ouviram-no dizer, foi quando estavam a discutir por causa daquela *chiwal* [cerca], e foram um contra o outro com força antes de o Sr. Smith o vencer e ele vender aquele prado ao Sr. Smith; ouviram-no dizer que havia coisa pior do que a deportação para o Sr. Smith se ele apenas levantasse um dedo. Esses Tinman têm temperamentos horríveis. A velha mãe dele morreu maligna, embora fosse uma mulher poupada e nunca devesse um cêntimo a um cristão por uma hora a mais do que o tempo que levava a pagar o dinheiro. E o velho Tinman é exatamente igual.”

“Deportação!” exclamou Herbert. “Isso é um disparate total, Crickledon. Tenho a certeza de que o seu marido lhe diria o mesmo.”

“Foi o meu marido que me trouxe essas palavras”, retorquiu a Sra. Crickledon com algum triunfo. “Ele disse-me, confesso, para manter a boca fechada: mas falar consigo, um amigo do Sr. Smith, não fará mal nenhum. Ele ouviu-os debaixo da bateria, sobre aquele vidro de *chiwal*: ‘E você há de pagar’, diz o Sr. Smith, e ‘Não hei de’, diz o velho Tinman. O Sr. Smith disse que o teria se tivesse de espremer uma confissão no leito de morte de um pecador. Então o velho Tinman dispara: ‘Você!’, diz ele, ‘você’ e gaguejou. ‘Sr. Smith’, disse o meu marido e o senhor nunca viu um homem tão chocado como o meu marido por ter sido obrigado a ouvi-los um contra o outro, o Sr. Smith usou a palavra ‘damn’. ‘Pode rir-se, senhor’.”

“Diz isso tão bem, Crickledon.”

“E então o velho Tinman disse: ‘E um D. para si; e se eu levantar o dedo, é um D. Grande nas suas costas’.”

“E o que disse o Sr. Smith, então?”

“Ele disse, como um homem baleado, diz o meu marido que ele disse: ‘Meu Deus!’”

Herbert Fellingham afastou-se da mesa de um salto.

“Diz-me, Crickledon, o seu marido ouviu realmente isso — exatamente essas palavras? — os tons?”

“O meu marido diz que o ouviu dizer ‘Meu Deus!’, exatamente como um pobre homem baleado ou esfaqueado. Pode falar com o Crickledon, se falar com ele a sós, senhor. Eu digo que o senhor devia saber. Pois reparei que o Sr. Smith desde aquele dia nunca mais me pareceu o mesmo cavalheiro de espírito leve e feliz que era quando o conhecemos pela primeira vez. Ele queria que eu fosse cozinhar para ele em Elba, mas o Crickledon achou que era melhor eu ser independente, e o Sr. Smith disse-me: ‘Talvez tenha razão, Crickledon, pois quem sabe quanto tempo estarei entre vós?’”

Herbert encontrou o consolo do tabaco na loja de Crickledon. De lá, com a história confirmada, caminhou em direção à casa na praia.

CAPÍTULO VIII

A lua estava sobre o mar. Embarcações de cabotagem que tinham entrado na baía para se abrigarem do vento norte jaziam com as suas sombras projetadas em direção à costa na água fria e lisa, quase até ao limite da praia, onde não havia sopro nem som de vento, apenas o sussurrar das pedras.

O jantar da Sra. Crickledon e o estado do seu coração tornavam o jovem Fellingham indiferente a uma atmosfera invernal. Bastava-lhe que a noite estivesse bela. Esticou-se no cascalho, pensando no Manzanilla, em Annette e no sabor fino dado ao tabaco por um ar seco e calmo ao luar — pensando também no seu trabalho, em segundo plano, tanto quanto a lassidão mental o permitia. A ideia de levar Annette a ver a sua primeira peça de teatro quando esta fosse encenada era muito reconfortante. A praia parecia bastante um palco, e o mar uma audiência fantasmagórica, com, se quiser, os cascos pretos dos navios à vela ancorados como representantes dos cais dos jornais. Annette era uma rapariga agradável; se um pouco comum e de origem humilde, ainda assim doce. Que assunto ele poderia fazer do pai dela! "O Desertor" oferecia uma nova complicação. Fellingham esboçou-o rapidamente na fantasia — Van Diemen, como membro do Parlamento da Grã-Bretanha, levado da Câmara dos Comuns para ser marcado a ferro na margem! Que queda magnífica! Temos tão poucas posições intensamente dramáticas na vida real inglesa que o autor meditativo se apaixonou por esta e soltou um real “Ha!” como um monarca a inspecionar a sua tropa bem equipada.

“Aí está você”, disse a voz de Van Diemen; “senti o cheiro do seu cachimbo. Você é um tipo estranho, a estender-se na praia numa noite fria. Deus! Não gosto menos de si por isso. Era pelo romance da lua no meu tempo de rapaz.”

“Onde está Annette?” disse Fellingham, saltando para os pés.

“A minha filha? Está a despedir-se do seu pretendente.”

“O que é isso?” Fellingham ofegou. “Bons céus, Sr. Smith, o que quer dizer?”

“Apanhe o seu cachimbo, meu rapaz. As raparigas escolhem como querem, suponho.”

“O seu pretendente, disse, senhor? O que pode isso significar?”

“Meu caro e bom rapaz, não faça alarido. Vamos todos ficar aqui, e muito contentes por vê-lo de vez em quando. O facto é que eu não devia ter discutido com Mart Tinman como fiz; sou demasiado apimentado por natureza. O facto é que lhe bati, e ele perdoou-me. Eu não teria sido capaz de fazer isso. E acredito que vou ter uma dor de cabeça amanhã; por minha alma, acredito. Mart Tinman queria dar-nos champanhe; mas, pobre velho, bati-lhe e não pude fazer reparações — não vi como; e apertámos as mãos sobre o copo — para o diabo com o copo! — e o fim disto é, Netty — ela não o propôs, mas como eu estou no dele... digo, como lhe tinha batido, ela... foi bastante solene, se nos tivesse visto... ela rompeu em lágrimas, e lá estavam a Sra. Cavely, e o velho Mart, e eu, um tonto — se não sou um vilão!”

Fellingham percebeu um efeito mais do que comum do vinho de Tinman. Tocou no ombro de Van Diemen. “Posso pedir para ouvir exatamente o que aconteceu?”

“Por minha alma, vamos todos viver confortavelmente na Velha Inglaterra, e sem mais discussões nem fugas”, foi a estúpida resposta. “Exceto que eu não exatamente... acho que disse ‘exatamente’? — não me comprometi com o velho Mart como meu... mas ele é um homem sensato; Mart é mais novo do que eu; ele é rico. Ele é eco... ele é eco... sabe — meu Deus! onde estão os meus miolos? — mas ele é honesto... ‘nómico!”

“Um homem económico”, disse Fellingham, com impaciência serena.

“Meu caro senhor, estou-lhe muito grato pela sua assistência”, retorquiu Van Diemen. “Ei-la.”

Annette tinha saído pelo portão no muro de sílex. Ela sobressaltou-se ligeiramente ao ver Herbert, que ela tinha tomado por um guarda-costas, disse ela. Ele fez uma vénia. Manteve a cabeça baixa, espreitando-a de forma intrusiva.

“É o ar com champanhe”, disse Van Diemen, apelando aos pulmões para se limparem e o endireitarem. “Não me senti nada estranho em casa.”

“O ar com o champanhe do Tinman!” disse Fellingham.

“Deve ser como o contacto de dois elementos químicos hostis.”

Annette caminhou mais depressa.

Desceram do cascalho para a faixa de relva de lâminas curtas que contornava o lixo da cidade salgado em direção a Elba. Van Diemen fungou, exclamando: “Serei o padrinho de Mart Tinman neste negócio! Ficará connosco, Sr.... qual é o seu nome próprio? Fique connosco o tempo que quiser. Velhos amigos para mim! A piada é que o Nelson era o meu homem, e ainda assim fui alistar-me na cavalaria. Se fala de substâncias químicas, o velho Mart Tinman era um cobarde que nunca se importou um bocado com o seu país; e não devo dizer uma única sílaba sobre isso... lá fora... Austrália... Gippsland! Então ele foi abaixo, limpo. Muito arrependido pelo que fizemos. Contrito. Penitente.”

“Agora sentimos um pouco o vento”, disse Annette.

Fellingham murmurou: “Permita-me; o seu xaile está a voar solto.”

Ele colocou as mãos nos braços dela e, apertando-a num tremor, disse: “Um sinal! Não é verdade? Uma palavra! Odeia-me?”

“Muito obrigada, mas não tenho frio”, respondeu ela, e ligou-se ao pai.

Van Diemen gritou imediatamente: “Pois somos rapazes alegres! Pois somos rapazes alegres! É o ar com o champanhe. E que me enforquem”, disse ele, ao entrarem nos terrenos de Elba, “se não caminhar sobre a minha propriedade.”

Annette interpôs-se; ficou como um junco no caminho dele.

“Não! Meu Deus! Vou ver por quanto o vendi!” gritou ele. “Sou um proprietário do solo da Velha Inglaterra e não me importo mais com o título de escudeiro do que Napoleão Bonaparty. Mas diga-lhe uma coisa, Sr. Hubbard: a sua mãe nunca ficou tão espantada com o seu cão como o velho Van Diemen ficaria ao ouvir-se chamar escudeiro na Velha Inglaterra. E um condenado ele foi, pois fez mal uma vez, mas trabalhou para a sua redenção. E o cheiro da minha própria propriedade faz-me sentir as pernas novamente. E digo-lhe uma coisa, Sr. Hubbard, como a Netty lhe chama quando fala de si em privado: as ideias de vinho do Mart Tinman são muito parecidas com as suas ideias de cheiros saudáveis, e quando eu for o meirinho de Crikswich, cuidado, ele encontrará dois contra um contra ele no nosso conselho municipal. Amo o meu país, mas que me enforquem se não o purificar...”

Dizendo isto, com o entusiasmo de uma alta resolução, Van Diemen abriu caminho através de um arbusto, e Fellingham disse a Annette:

“Perdi-a?”

“Eu pertenço ao meu pai”, disse ela, contraindo-se e soltando as suas vestes femininas para o seguir na penumbra fria e prateada das matas de inverno.

Van Diemen saiu para um tanque de peixes.

“Aqui estão vocês, jovens!” disse ele ao par. “Por aqui, Fellowman. Estou mais lúcido agora, e é minha crença que tenho dito disparates. Estou inchado de dinheiro e não tenho o coração que uma vez tive. Diga-me, Fellowman, Fellowbird, Hubbard — qual é o seu nome verdadeiro? — imagine uma carpa velha pescada daquele tanque e atirada para o mar. Isso é o exílio! E se a rapariga não se importa, que importa?”

“O Sr. Herbert Fellingham, creio, gostaria de ir para a cama, papá”, disse Annette.

“A Srta. Smith deve estar a sentir frio”, sugeriu Fellingham.

“Salte para dentro de casa”, respondeu Van Diemen, e conduziu-os como um touro.

Annette estava pouco disposta a deixá-los sozinhos na sala de fumo, e, sob o pretexto de desejar ver o seu pai ir para a cama, permaneceu com eles, embora houvesse uma franqueza e um calor de tom invulgares em Herbert que a alarmaram, e com razão. Ele divinava em contornos hediondos o que tinha acontecido. Já não estava a imaginar-se em gelo fácil, mas desesperado com a perspetiva de uma perda para si próprio, e de um destino para Annette, que o atirava da repulsa para a incredulidade, e assim de volta.

Van Diemen implorou-lhe que acendesse o seu cachimbo.

— Não se esqueça, sr. Smith — disse Herbert, ao levantar-se — que a minha oferta de consulta ao General, em seu nome, permanece de pé. A paz de espírito é um artigo de luxo que o senhor não pode comprar, mas que pode muito bem ser assegurado.

— Amanhã, amanhã — murmurou Van Diemen, observando as cinzas do seu cachimbo com um olhar fixo. — A senhora Cavely vai estar aqui pela manhã. Ela tem uma forma de fazer com que a gente se sinta como um criminoso prestes a ser algemado, apenas com o modo como nos cumprimenta.

— Ela não terá essa influência sobre o senhor se estiver armado com a verdade — retorquiu Herbert.

Annette acompanhou-o até à porta. O ar da noite estava agitado, soprando rajadas de sal que chicoteavam as janelas da casa, situada num local exposto do litoral.

— O senhor é muito cruel com ele — disse ela, referindo-se a Tinman.

— Sou apenas um homem a tentar salvar o que lhe é mais caro do naufrágio, Annette. Se a crueldade reside na verdade, então que assim seja.

— Ele é um homem bom — insistiu ela, embora a sua voz vacilasse.

— Ele é um homem que se alimenta da fraqueza alheia. E, por favor, não me peça para ser diplomático quando a sua felicidade está em causa. Amanhã, trarei notícias.

Annette fechou a porta com uma lentidão que denotava o seu conflito interno. Herbert, do lado de fora, no escuro, sentia que o chão sob os seus pés não era a rocha sólida de Crikswich, mas uma fundação que se desintegrava rapidamente. O seu coração, contudo, permanecia firme num propósito: o de não permitir que aquela rapariga fosse sacrificada no altar de um medo infundado.

No interior, o silêncio era pesado, apenas interrompido pelo estalar do fogo que o pai de Annette, na sua agitação, insistia em manter vivo, apesar do calor abafado da sala. Van Diemen não se moveu durante um longo tempo, com os dedos entrelaçados sobre os joelhos, enquanto Annette, imóvel, parecia uma estátua de guarda perante o abismo que se abria entre o passado que o pai ocultava e o futuro que ela, de forma tão incompreensível, abraçara.

“Parece infeliz”, disse Tinman, não alheio ao seu desígnio de dar um susto ao amigo.

“Eu? Não, estou bem”, respondeu Van Diemen. “Estou a pensar em alterações no Hall antes do Verão, para acomodar convidados — se eu ficar por aqui.”

“Suponho que não gostaria de ser separado de Annette.”

“Separado? Não, calculo que não. Quem o faria?”

“Porque eu não gostaria de deixar a minha boa irmã Martha completamente sozinha numa casa tão perto do mar...”

“Por que não vais para o Crouch, homem?”

“Obrigado.”

“Não precisas de agradecimentos se não tirares partido da oferta.”

Estavam à entrada de Elba, para onde o Sr. Tinman se dirigia para ver a sua pretendida. Perguntou se Annette estava em casa e, para seu grande pasmo, ouviu dizer que ela tinha ido a Londres por uma semana.

Dissimulando o despeito que se apoderara dele, adiou o seu desígnio muito fortemente fortificado e disse: “Deve sentir-se solitário.”

Van Diemen informou-o de que seria apenas por uma noite, pois o jovem Fellingham vinha para lhe fazer companhia.

“Às seis horas desta tarde, então”, disse Tinman. “Não somos elegantes no Inverno.”

“Que me enforquem se eu sei quando é que alguma vez fomos!”, retorquiu Van Diemen.

“Vamos lá, contudo, gostaria de o ser. Tens a tua ambição, Philip, como os outros homens.”

“Respeitável e respeitado — essa é a minha ambição, Sr. Mart.”

Tinman deu um sorriso afetado: “Com a tua riqueza!”

“Sim, sou rico — para uma mente contente.”

“Tenho a certeza de que vais aprovar a minha nova colheita”, disse Tinman. “Vem diretamente do Porto, diz-me o meu mercador de vinhos, pela sua palavra.”

“Qual é o preço?”

“Não, não, não. Prova-o primeiro. É um preço um pouco puxado.”

Van Diemen ficou parcialmente tranquilizado com o anúncio. “A que chamas um preço puxado?”

“Bem!... acima de trinta.”

“O dobro disso, e talvez tenhas uma hipótese.”

“Ora”, exclamou Tinman, exasperado, “como pode um homem da Austrália saber alguma coisa sobre preços de vinho do Porto? Não consegues despojar as tuas ideias dos preços dos garimpeiros. Tu próprio és como uma bebida inebriante para os comerciantes da nossa cidade. Achas isso elegante — ha! ha! Atrevo-me a dizer, Philip, que faria o mesmo se estivesse ao teu nível no meu banqueiro. Nem todos podemos ser lordes, nem baronetes.”

Dominando o seu temperamento desta forma inteligente, refreou aquele fugitivo habitual e retirou-se da presença do seu velho amigo para explodir na companhia da solitária Martha.

O comportamento de Annette foi tão amargamente criticado pela irmã como pelo irmão.

“Ela foi ter com aquelas pessoas Fellingham; e pode estar a pensar em deixar-nos mal”, disse a Sra. Cavely.

“Nesse caso, não tenho clemência”, exclamou o seu irmão. “Eu suportei” — ele fez uma vénia com uma humildade espiritual profissional — “como devia, mas pode tornar-se insuportável. Digo que suportei o suficiente; e se o pior acontecer, e eu o entregar às autoridades — digo que não lhe quero mal, mas ele bateu-me. Bateu-me quando era rapaz e bateu-me como homem, e digo que não penso em vingança, mas não o posso ter aqui; e digo que se o expulsar do país de volta para o seu Gippsland!”

Martin Tinman tremia por palavras, provavelmente por aquilo que alimenta as palavras, como é o hábito dos homens coléricos.

“E quê? — o que então?”, disse Martha, com a ternura melíflua da censura fraternal. “Que bem podes esperar de deixar que o temperamento leve a melhor sobre ti, querido?”

Tinman não gostou da recente tendência dela para usurpar a liderança nas suas consultas, e disse, com aspereza: “Este bem, Martha. Teremos o Hall ao meu preço, e seremos as Pessoas Principais aqui. O que”, elevou o tom, “o que ele, um Desertor, não tem o direito de pretender ser. Quais possam ser os teus sentimentos como antiga habitante, não sei, mas sempre admirei as pessoas de Elba Hall, e digo que não gosto de ter um Desertor a esbanjar o dinheiro de um condenado lá — com o seu cozinheiro de quarenta libras por ano, e o seu champanhe a setenta a dúzia. É o luxo de Sodoma e Gomorra.”

“Isso não impede que seja muito agradável jantar lá”, disse a Sra. Cavely; “e será a nossa mesa para sempre, se eu tiver alguma gestão.”

“Referes-te a mim, minha senhora”, troou Tinman.

“De modo algum”, ela murmurou, em doce contraste. “Tu és um homem bonito, Martin, mas não tens olhos tão bonitos como a pessoa a quem me refiro. Nunca me atrevi a sonhar em gerir-te, Martin. Estou a pensar nas pessoas de Elba.”

“Mas por que este tratamento extraordinário para comigo, Martha?”

“Ela é uma criança, a ter a cabeça voltada por esses Fellingham. Mas é honrada; jurou-me que seria honrada.”

“Pensas mesmo que talvez seja melhor dar-lhe um susto?”, perguntou Tinman, ávido.

“Uma espécie de dica; mas muito gentil, Martin. Sê gentil — casual, como se não quisesses dizer isso. Leva-o a falar do seu Gippsland. Depois, se ele te levar a palavras, podes sempre rir-te de volta e dizer que vais a Kew ver o Fernery, e imaginar tudo aquilo, tão alto, em Helvellyn ou nos Downs. Porque” — a Sra. Cavely, no fim dos seus astutos conselhos e advertências, como de costume, soltou o seu caráter natural — “Porque é que aquele homem voltou a Inglaterra, com as suas gabarices sobre Gippsland, não consigo descobrir de maneira nenhuma. É um mistério perfeito.”

“É”, Tinman fez soar a sua voz a uma grande profundidade, reflexivamente. Contente por assumir o papel que ela vinha perpetuamente a assumir ultimamente, estendeu a mão e disse: “Mas pode ter sido ordenado para o nosso bem, Martha.”

“Verdade, querido”, disse ela, com um sentimento sincero de gratidão ao Poder que o tinha conduzido à sua forma de pensar e sentir.

CAPÍTULO XI

Annette tinha ido para a grande metrópole, que arde nas imaginações coloniais como o sol das cidades, e estava prestes a ver um pouco de Londres, sob os excelentes auspícios da sua nova amiga, Mary Fellingham, e um nevoeiro denso. Estava alarmada com a escuridão, com um pouco de medo, também, de Herbert; e estes sentimentos levaram-na a repreender-se por ter deixado o pai.

Ao ouvi-la falar tristemente do pai, Herbert propôs gentilmente descer a Crikswich logo no dia da sua chegada. Ela agradeceu-lhe e deu-lhe um gosto de amargura ao sorrir favoravelmente à sua oferta; mas como ele queria que ela discernisse e tomasse a peito a diferença entre um homem e outro, à luz de um pretendente, deixou-a perceber que lhe custava dores lancinantes partir imediatamente, e deixou-a a remoer no seu exemplo. Mary Fellingham gostava de Annette. Achava-a uma rapariga sensata de sensibilidades incultas, o oposto de milhares; não banal, portanto; e que as sensibilidades estavam a expandir-se via-se na sua gradual falta de vontade para falar do seu noivado com o Sr. Tinman, embora a sua intimidade com Mary aquecesse diariamente. Considerava que estava obrigada a casar com o homem numa data distante, e ainda não sentia infelicidade. Só se sentira inquieta quando tinha de cumprimentar e conversar com o seu pretendente; especialmente quando a jovem senhora de Londres estivera presente. A partida de Herbert aliviou-a do sentido premente de contraste. Elogiou-o perante Mary pela sua extrema bondade para com o seu pai, e, no fundo do seu coração insondável, desejava que o seu pai pudesse apreciá-la ainda mais do que ela própria.

Herbert conduziu até Crikswich durante a noite e parou em casa de Crickledon, onde ouviu dizer que Van Diemen estava a jantar com Tinman.

Crickledon, o carpinteiro, permitiu que certas curvas secas brincassem à volta dos seus lábios como aparas em miniatura ao nome de Tinman; mas Herbert perguntou, “O que é agora?”, em vão, e foi ter com Crickledon, a cozinheira.

Esta união dos dois Crickledons, homem e mulher, era ideal, tal como as mulheres pobres sonham; e os homens fariam o mesmo, se soubessem quão pobres são. Cada um tinha uma profissão, cada um era independente do outro, cada um sustentava a estrutura. Consequentemente, havia respeito mútuo, como entre dois pilares de uma casa. Cada um via os defeitos do outro com uma piscadela de olho ao mundo, e uma troca ocasional de sarcasmo que era tónica, muito fortalecedora para o espírito sem pôr em risco o hábito da afeição. Crickledon, a cozinheira, defendia as suas próprias opiniões e dirigia a conduta pública de Crickledon, o carpinteiro; e se ele se desviasse da linha que ela traçava, ela atribuía-o à natureza humana, para a qual era tolerante. Ele, quando ela não seguia o seu conselho, atribuía-o à natureza das mulheres. Ela nunca disse que era igual ao seu marido; mas o carpinteiro reconhecia orgulhosamente que ela era tão boa como um homem, e suportava as fragilidades depreciativas de tal estatura elevada, ensinando-se a observar uma limpeza de gestão doméstica e geral que lhe dizia que ele certamente não era tão bom como uma mulher. Herbert deliciava-se com eles. A cozinheira regalava o carpinteiro com pratos habilidosos, saborosos e económicos; e o carpinteiro, obediente às suas súplicas, tinha prometido, no caso de lhe sobreviver, que mãos nenhumas senão as dele teriam a feitura do seu caixão. “É tão agradável”, dizia ela, “pensar que o nosso próprio marido vai montar a caixa em que vamos repousar, feita por ele mesmo!” Se tivessem sido um par sequer duvidosamente unido, a antecipação da cozinheira por um caixão confortável, obra do melhor carpinteiro de Inglaterra, tê-los-ia mantido juntos; e o que a alta culinária faz para a cimentação de casais não precisa de ser relatado àqueles que leram um capítulo ou dois da história natural do sexo masculino.

“Crickledon, minha alma querida, o teu marido está em trabalho de parto com um pouco de diversão”, disse-lhe Herbert.

“Ele não se riria alto de Punch, por medo de um processo”, respondeu ela. “Ele nunca se ri abertamente até ir para a cama e trancar a porta; e quando o faz, diz ‘Shiu!’ para mim. Tinman não é oficial de justiça outra vez, ainda não, e de onde vem o seu melhor fato de tribunal de oficial de justiça, podes perguntar. Ele exercita-se nele de vez em quando durante toda a semana, à noite, e por vezes a meio do dia.”

Herbert provocou-a pela credulidade da sua bisbilhotice.

“É a verdade”, declarou ela. “Sei-o pela criada da casa, a pequena Jane, a quem ele paga quatro libras por ano por todo o trabalho da casa: uma pequena esperta com as mãos e com a cabeça; e sabe ler e escrever maravilhosamente; e tem vontade de os deixar se não a promoverem. Ela bateu e entrou enquanto ele estava em pleno esplendor, e a curvar a sua moleirinha perante o seu espelho. E agora ele roda a chave, e uma criança saberia que ele está nisto.”

“Ele não pode ser tal asno!”

“E foi visto à janela do lado do mar. ‘Quem é o vosso Almirante hospedado na casa da praia?’, perguntaram os homens quando chegaram a terra. O meu marido ouviu-o. Tinman tem isso no cérebro. Podia ser curado pelo casamento com uma mulher de cabeça sã, mas em breve quererá andar por aí com pernas de seda se continuar solteiro. Dizem-me que a sua velha mãe aqui tinha um vestido de valor de vinte libras; e a pompa é herdada. Poupe o que poupar, aí está a sua fuga.”

O desprezo de Herbert por Tinman era intenso; era o desprezo dos jovens e ignorantes que vivem nas suas imaginações como pródigos, inconscientes da importância delas como alimento da vida, e de quão necessário é agarrar-se à mais sólida delas para sustento perpétuo quando as insubstanciais desaparecem. O grande acontecimento do seu mandato como oficial de justiça tinha-se tornado o sol do sistema de Tinman. Ele banhava-se nos seus raios. Tencionava ser novamente o orgulhoso oficial, real e distintamente; entretanto, embora não soubesse que os seus dias eram monótonos, gemia sob a monotonia; e, como cavalos de carroça ou de cabriolé, sem se queixarem por norma, mostram a sua visão da natureza do arnês quando têm liberdade para foliar num campo, é possível que a existência fosse tornada tolerável para o homem que trota por alguns minutos de excitação no seu fato de tribunal de oficial de justiça. Para pastar realmente nas nossas recordações, devíamos dramatizá-las. Há, no entanto, apenas o testemunho de uma criada e de um marinheiro para mostrar que Tinman o fazia, e essas são testemunhas que vêm de classes particularmente propensas a exagerar, dadas a aumentar pequenos itens de facto.

Ao chegar ao hall, Herbert encontrou o fogo aceso na sala de fumo, e logo depois de se instalar lá, ouviu a voz de Van Diemen à porta do hall a dar as boas noites a Tinman.

“Graças a Deus! Aí estás tu”, disse Van Diemen, entrando na sala. “Não podia ter esperado tanto. Aquele patife!” virou-se para a porta. “Ele tem-me ameaçado, e depois amaciado. Que se lixe o seu óleo! É combustível. E que se lixe o vinho do Porto que ele está para guardar, como ele lhe chama. ‘Deixa-o para a posteridade’, digo eu. ‘Porquê?’, diz ele. ‘Porque os jovens serão mais capazes de cuidar de si mesmos’, digo eu, e ele insiste numa explicação. Dei-lha. Ele explode como um ninho de vespas. Pode ter dito o que disse em fúria. Pareceu arrependido depois — pobre velho Mart! O patife falou de Horse Guards e de fios telegráficos.”

“Patife, mas mais palerma”, disse Herbert, cheio do seu desprezo. “Desafia-o a fazer o seu pior. O General diz-me que eles teriam todo o gosto em ignorar isso nos Guards, mesmo que tivessem todos os factos. Marcar a ferro está fora de questão.”

“Juro que foi feito no meu tempo”, gritou Van Diemen, todo em fogo.

“Está fora de questão. Poderiam aconselhar-te a deixar Inglaterra por alguns meses. Quanto à sociedade aqui...”

“Se eu partir, parto para sempre. O meu coração está partido. Estou desapontado. Estou enganado no meu amigo. Ele e eu nos velhos tempos! O que lhe aconteceu? O que é que, na terra, muda os homens que ficam em Inglaterra assim? Não pode ser o clima. E mencionaste o meu nome ao General Fellingham?”

“Certamente que não”, disse Herbert. “Mas ouve-me, senhor, um momento. Porque não reunir meia dúzia de amigos da vizinhança e fazer uma confissão completa. Os ingleses gostam desse tipo de masculinidade, e têm a certeza de responder bem a isso.”

“Não podia!”, suspirou Van Diemen. “Não é um sentimento natural que tenho sobre isso — tenho remoído a palavra. Se tenho um pesadelo, vejo Desertor escrito em enxofre na parede negra.”

“Não podes permanecer à mercê dele, e ser intimidado como és. Ele deixa-te doente, senhor. Ele não fará nada, mas continuará a preocupar-te. Eu pará-lo-ia imediatamente. Apanhava o comboio amanhã e arranjava uma apresentação ao Comandante-em-Chefe. Ele é mesmo o homem para ser gentil contigo numa situação como esta. O General conseguiria a apresentação para ti.”

“Isso é mais do meu agrado; mas não, eu não podia”, gemia Van Diemen na sua fraqueza. “O dinheiro tirou-me a masculinidade. Eu não era este tipo de homem anteriormente; nem o era Mart Tinman, o traidor! O mundo inteiro parece mudar para pior, e a Inglaterra não é o que costumava ser.”

“Deixas que esse homem estrague isso para ti, senhor.” Herbert relatou a história da Sra. Crickledon sobre o Sr. Tinman, acrescentando: “Ele é um asno completo. Eu desafiá-lo-ia. O que eu faria seria deixá-lo saber amanhã de manhã que não tens intenção de o voltar a ver. Golpe por golpe é a coisa que ele requer. Ele estará a rastejar para ti dentro de uma semana.”

“E tu gostarias de casar com Annette”, disse Van Diemen, apreciando, contudo, o conselho, cuja origem e objetivo percebia tão claramente.

“Claro que gostaria”, disse Herbert, mais franco na sua cor do que no seu discurso.

“Não o vejo como marido da minha rapariga.” Van Diemen observava o oco vermelho nas brasas que caíam. “Quando vim pela primeira vez, e o encontrei um homem saudável, suficientemente bem parecido para uns trinta e tal, tê-la-ia dado com prazer, ela a acenar que Sim. Agora todo o meu medo é que ela esteja a falar a sério. Pela minha alma, tive a noção de que o velho Mart era ainda uma espécie de rapaz; a brincar aos homens, sabes. Mas como podes entender? Imaginei que os seus ares e rigidez eram fingidos; pensei que o via a arder verdadeiramente por trás disso. Quem pode dizer? Ele parece ter ciúmes de eu comprar propriedade na sua cidade natal. Alguma coisa o inquieta. Nunca devia ter-lhe batido! Esse é o meu erro, e arrependo-me dele. Bater num amigo! Admiro-me que ele não tenha ido logo para os Horse Guards. Podia tê-lo feito no lugar dele, se descobrisse que não conseguia vencê-lo. Teria tentado pontapés primeiro.”

“Sim, caneladas antes de denunciar”, disse Herbert, espantado quase tanto quanto estava enojado com o inveterado apego sentimental de Van Diemen ao seu velho amigo.

Martin Tinman antecipava coisas boas do susto que tinha dado ao homem depois do jantar. Ele tinha, indubitavelmente, cedido ao temperamento, esquecendo a pura política, que é tão extremamente difícil de praticar. Mas tinha acalmado a besta assustada; tinham apertado as mãos ao partir, e Tinman esperava que a semana da ausência de Annette lhe permitisse moldar o pai dela. A marcação do jovem Fellingham para vir a Elba tinha escapado à memória do Sr. Tinman. Era irritante ver este intruso. “Pelo menos, ele não está com Annette”, disse a Sra. Cavely. “Quanto tempo tem o pai dela para cumprir?”

“Cinco meses”, respondeu Tinman. “Ele teria completado o seu tempo de serviço em cinco meses.”

“E pensar que ele é um homem rico porque desertou”, interveio a Sra. Cavely. “Oh! Considero isso imoral. Ele deveria ser capturado e punido, para ser um exemplo para o bem da sociedade. Se perdes tempo, meu caro Martin, a tua oportunidade desapareceu. Ele está a contorcer-se agora. E se eu pudesse acreditar que ele falou de nós àquele jovem insolente, que não tem um tostão que não venha da sua pena, eu diria, denuncia-o amanhã. Anseio por Elba. Odeio esta casa. Será engolida um dia; sei-o; sonhei com isso. Elba a qualquer custo. Depende disso, Martin, tu tens sido frustrado nas tuas pretensões por causa da casa miserável em que habitas. Entra em Elba como marido daquela rapariga, ou vai para lá para ser dono dela, e as raparigas rastejarão até ti.”

“És uma mulher ridícula, Martha”, disse Tinman, não discordando.

A mistura de uma ideia de dever público com um sentimento de rancor pessoal é um forte incentivo para a perseguição de uma linha de conduta severa; e o brilho do interesse próprio acrescentado não verifica os passos do moralista. No entanto, Tinman conteve-se. Ele amava a paz. Pregava-a, disseminava-a. Numa reunião na cidade, esforçou-se por ganhar a voz de Van Diemen a favor de uma votação para mais fundos para proteger “as nossas margens”. Van Diemen riu-se dele, dizendo-lhe que ele queria uma bateria. “Não”, disse Tinman, “já tive que chegar com soldados.”

“Como assim?”

“Eles poderiam ser mais cautelosos. Digo, poderiam aprender a distinguir os seus amigos dos seus inimigos.”

“É isso, é isso”, disse Van Diemen. “Se disseres muito mais, meu amigo, vais encontrar-me a licitar contra ti na próxima semana pelo Marine Parade e Belle Vue Terrace. Tenho um olho aguçado para a propriedade, e esta cidade está a melhorar.”

“Olha à tua volta antes de especulares em terrenos e propriedades imobiliárias aqui”, retorquiu Tinman.

Van Diemen suportou tanto da parte dele que se perguntava se poderia ser um inglês. O título de Desertor era a sua ferida aberta. Tentou criar o hábito de se estigmatizar com ele na privacidade do seu quarto, e conseguiu estabelecer o hábito de falar sozinho, de tal modo que era ouvido pelos membros da casa, e Annette, no seu regresso, viu-se obrigada a avisá-lo da sua indiscrição. Este desenvolvimento de uma nova fraqueza exasperou-o. Mais para provar a sua coragem através do desafio do que para frustrar a ambição de Tinman de se tornar o principal proprietário de casas em Crikswich, superando-o no leilão para a venda do Marine Parade e do Belle Vue Terrace, Van Diemen fez subir o preço das casas no leilão e, por fim, arrematou o Belle Vue. A disputa foi tão feroz que Annette, em conjunto com a Sra. Cavely, foi chamada a intervir com a sua graça mais doce. “O meu local de nascimento”, disse-lhe Tinman, “é o meu local de nascimento. Tenho orgulho nele; desejo possuir propriedades nele, e o seu pai opõe-se-me. Ele opõe-se-me. Depois diz que o posso ter de volta pelo preço do leilão, depois de ele ter quase duplicado o preço! Suportei — repito que suportei demasiado.”

“As vossas propriedades não houveram de ser iguais a uma só?”, disse a Sra. Cavely, sorrindo de forma maternal de Tinman para Annette.

Ele tentou produzir um olhar carinhoso num rosto contraído e disse: “Sim, vou lembrar-me disso.”

“A Annette abençoá-lo-á com a sua mão querida dentro de um ou dois meses, no máximo”, murmurou a Sra. Cavely, de forma afetuosa.

“Ela fá-lo-á?”, Tinman arqueou o corpo para se curvar perante ela.

“Oh, não posso dizer; não me aflija. Seja amigo do papá”, retomou a rapariga, movendo-se para escapar.

“Isso é o essencial”, disse a Sra. Cavely; e continuou, quando Annette saiu: “O essencial é passar pelos próximos meses, minha querida, e depois estalar os dedos para nós. Martin, eu forçaria aquele homem a vender-lhe o Belle Vue por um preço inferior ao que ele pagou por ele, só para testar o seu poder.”

Tinman não foi tão incisivo. Obteve o Belle Vue pelo preço do leilão, e a sua paixão pela vingança foi inflamada por lhe ter sido concedido como um favor de um amigo.

O estado envenenado da sua mente foi agravado por um vento forte de dezembro que fazia chocalhar as suas janelas e o avisava da sua acumulação de propriedades expostas aos elementos. Tanto ele como a sua irmã atribuíram o seu nervosismo ao comportamento sinistro de Van Diemen. Pois a casa na praia apenas, em tempos longínquos, fora ameaçada pelo mar, e nenhuma casa na Terra estava mais protegida do homem — Netuno, na forma de um guarda-costeiro, sendo pago pelo Governo para patrulhar a zona durante as horas de escuridão. Nunca tinham tido quaisquer receios antes de Van Diemen chegar e os levar a oferecer três vezes o número habitual de jantares a convidados por ano. De facto, antes da chegada de Van Diemen, a casa na praia olhava para Crikswich sem qualquer rival para desafiar a sua antecipada soberania sobre o local, e por alguma razão inexplicável parecia aos seus habitantes ter sido uma residência mais segura e também mais feliz.

Consolaram-se com a proeza de Tinman de comprar privadamente as casas de campo a oeste da cidade, incluindo a loja de Crickledon, que confinava com o Marine Parade. Então, a partir da casa na praia, contemplavam uma fachada inteira da sua propriedade.

Entraram no mês de fevereiro. Não havia mais tempo a perder, “ou acordaremos e descobriremos que aquele homem nos enganou”, disse a Sra. Cavely. Tinman apareceu em Elba para exigir uma entrevista privada com Annette. O seu chapéu foi soprado para dentro do hall quando a porta se abriu para ele, e ele próprio ficou satisfeito por ser abrigado pela porta, tão violento era o vendaval. Annette e o seu pai estavam sentados juntos. Fizeram o cavalheiro noivo esperar muito tempo. Por fim, Van Diemen foi ter com ele e disse: “A Netty ver-te-á, se for preciso. Suponho que não tens assuntos comigo?”

“Não hoje”, respondeu Tinman.

Van Diemen caminhou pela sala de estar com as mãos nos bolsos. “Há uma disparidade de idades”, disse ele, abruptamente, como se desejasse despejar a sua lição enquanto se lembrava dela. “Um homem com mais de quarenta anos casa-se com uma rapariga com menos de vinte, ele tem mais de sessenta antes de ela ter quarenta; ele está a definhar quando ela está apenas madura. Eu nunca deveria ter-lhe batido, eu sei. E você tem um temperamento infernalmente mau às vezes, e a idade não melhora isso, dizem; e ela foi educada ao mais alto nível. Ela é rigorosa com a gramática, e um homem pode não gostar muito disso quando é marido. Veja-a, se for preciso. Mas ela não aceita a ideia; essa é a verdade. Disparidade de idades e incompatibilidade de disposições — o que foi que Fellingham disse? — como dois realejos a tocar melodias diferentes o dia todo numa casa.”

“Não quero ouvir as comparações do Sr. Fellingham”, retorquiu Tinman.

“Oh! Ele não é nada para a rapariga”, disse Van Diemen. “Ela não tolera a ideia de me deixar.”

“Meu caro Philip! Por que deveria ela deixá-lo? Quando temos interesses em comum como uma só família...”

“Ela diz que você tem um temperamento maldito de tão mau.”

Tinman prosseguia amigavelmente: “Quando estivermos unidos...” Mas a acusação terrível feita ao seu temperamento fê-lo parar. “Ardente posso ser. Annette viu que sou perdoador. Sou um cristão. Você provocou-me; você bateu-me.”

“Dou-lhe um par de milhares de libras em dinheiro vivo para desistir do negócio e não incomodar a rapariga”, disse Van Diemen.

“Agora”, respondeu Tinman, “sinto-me ofendido. Gosto de dinheiro, como a maioria dos homens que o fizeram. Você gosta, Philip. Mas não venho cortejar como um indigente. Nem por dez mil; nem por vinte. O dinheiro não pode ser uma compensação para mim pela perda de Annette. Digo que amo a Annette.”

“Porque”, Van Diemen continuou o seu discurso, “você apanhou-nos para esse compromisso, Mart. Você drogou-me com a porcaria que compra por vinho, enquanto a sua irmã se sentava a açucarar e a amolecer a minha rapariga; e ela fez o truque num minuto, apanhando a Netty de surpresa quando eu estava todo coração e nenhuma cabeça; e desde então você pode ter visto a rapariga desviar a cabeça do casamento como os meus bosques do vento.”

“Sr. Van Diemen Smith!”, Tinman ofegou; dominou-se. “Você não me provocará. As minhas apresentações de si nesta vizinhança, o meu patrocínio, provam a minha amizade.”

“Você será um bom velhote, Mart, quando ultrapassar as suas esperanças de ser nomeado cavaleiro.”

“O Sr. Fellingham pode pô-lo contra o meu vinho, Philip. Deixe-me dizer-lhe — eu conheço-o — você não se oporia a ter a sua filha chamada de Lady.”

“Com um marido de pernas finas a saltitar num traje da Corte antes de ir dormir todas as noites, para que não se esqueça de que tipo de sujeito fino ele foi um dia! Você está a ficar magro com isso, Mart, como uma recordação de cinquenta anos.”

“Você nunca me perdoou aquele dia, Philip!”

“Com ciúmes, estou? Pegue no dinheiro, desista da rapariga e veja que amigos seremos. Apoiarei as suas compras, anunciarei as suas vendas. Pagarei a um pintor para o pintar no seu traje da Corte e pendurarei uma cópia sua na minha sala de jantar.”

“A Annette está aqui”, disse Tinman, que estivera a exibir os sinais de insurgência do Etna.

Ele admirava Annette. Só ultimamente Herbert Fellingham fora um admirador tão verdadeiro de Annette como Tinman. Ela parecia sincera e vestia-se sem luxos. Por estas razões, ela era o melhor exemplo de mulher que ele conhecia, e o seu entusiasmo pela Inglaterra tinha o efeito simpático sobre ele de obscurecer o resto do mundo, e de o entusiasmar com a crença tranquilizadora de que ele era abençoado no seu sangue e no seu local de nascimento — pontos que o seu pai, com as suas gabarolices sobre Gippsland, e outras pessoas que falavam de cenas no Continente, por vezes perturbavam na sua mente.

“Annette”, disse ele, “venho pedir para conversar consigo em privado.”

“Se deseja... preferia que não”, respondeu ela.

Tinman levantou a cabeça, como muitas vezes em Helmstone quando alguma empregada de loja ofensiva estava prestes a ouvir a sua sentença.

Ele inclinou-se para ela. “Compreendo. Perante o seu pai, então!”

“Não é um negócio agradável, para mim”, resmungou Van Diemen, franzindo o sobrolho e encolhendo os ombros.

“Vim, Annette, pedir-lhe, suplicar-lhe, implorar — perante uma terceira pessoa — a rir, Philip?”

“Do lado errado da boca, meu amigo. E dir-lhe-ei uma coisa: estamos prestes a enfrentar mares agitados, e não lamento que tenha ficado com a casa na praia, tirando-a das minhas mãos.”

“Por favor, Sr. Tinman, fale de uma vez, se faz favor, e farei o meu melhor. O papá irrita-o.”

“Não, não”, respondeu Tinman.

Ele recomeçou o seu início. Van Diemen interrompeu-o novamente.

“Que se lixe o seu poder sobre mim, como lhe chama. Eh, velho Mart? Sou um Desertor. Pagarei mil libras ao exército britânico, quer me punam ou não. Levem-me amanhã!”

“Papá, és injusto, indelicado.” Annette virou-se para ele em lágrimas.

“Não, não”, disse Tinman, “não o sinto assim. O seu pai compreendeu-me mal, Annette.”

“Tenho a certeza de que compreendeu”, disse ela fervorosamente. “E, Sr. Tinman, prometerei fielmente que, enquanto for bom para o meu querido pai, não serei infiel ao meu compromisso, apenas não me peça para marcar qualquer dia. Seremos amigos tão bons e queridos se consentir nisto. Quer?”

Fazendo uma pausa por um momento, o homem apaixonado desenrolou a sua voz em lamentação: “Oh! Annette, durante quanto tempo me fará esperar?”

“Pronto; vais fazê-la chorar!”, disse Van Diemen. “Agora podes subir, Netty. Por Deus! Mart Tinman, tens uma voz de baixo para assuntos amorosos.”

“Annette”, chamou-a Tinman, e fê-la voltar-se enquanto se retirava. “Tenho de saber o dia antes do fim do inverno. Por favor. Em consideração gentil. Os meus arranjos exigem-no.”

“Deixe a rapariga ir”, disse Van Diemen. “Jante comigo esta noite e dar-lhe-ei um vinho para animar o seu espírito, velho amigo.”

“Obrigado. Quando tiver ordenado o jantar em casa, eu... e o meu vinho combina comigo”, respondeu Tinman.

“Duvido.”

“Você não me provocará, Philip.”

Separaram-se rigidamente.

A Sra. Cavely tinha notícias domésticas desagradáveis para comunicar ao irmão, em troca da sua história de aflição e ira. Dizia respeito à conduta ingrata da sua pequena criada Jane, que, como disse a Sra. Cavely, “instigada por aquela mulher Crickledon”, tinha estado a dar pistas sobre um aumento de salário.

“Ela não ousou falar, mas vi o que ia na mente dela quando partiu um prato e não quis dizer que estava arrependida. Sei que ela vai ter com a Crickledon e fala sobre nós. Ela é uma trabalhadora esforçada, mas não tem coração.”

Tinman estava habituado na sua loja em Helmstone — onde o céu o abençoara com o patrocínio dos ricos, tão visivelmente como os raios de luz sobrenatural são vistos a selecionar as cabeças dos profetas nas ilustrações de livros sagrados baratos — a lidar com trabalhadores esforçados que não têm coração. Antes do pedido de aumento de salário — e ele conhecia os sinais de que estava para vir — o seu método era calcular quanto lhe poderia ser pedido e dividir a soma estimada pelo número 4; o que, como parecia vir de um impulso generoso e não tinha sido solicitado, era frequentemente aceite humildemente, e a trabalhadora esforçada seguia o seu caminho magro e faminto ao seu serviço. O tratamento nem sempre caía bem aos seus empregados homens. Às mulheres, adequava-se; porque elas não gostam de elevar a voz a menos que estejam apaixonadas; e se lhes retira os motivos de temperamento, tira-lhes as palavras — torna-as como galinhas. E como dizia Tinman, “Gratidão, nunca espero!” Por que não? Pela razão de que ele conhecia a natureza humana. Ele podia citar casos chocantes da ingratidão da natureza humana, tal como lhe foi revelado no seu período de posse da loja em Helmstone. Abençoado do alto, a maldade da natureza humana tinha-o, de baixo, demasiadas vezes enxofreado e defumado para que a sua memória fosse vaga; e, embora estivesse sempre pronto a admitir-se um exemplo de que o céu prevalece, ele podia citar casos de empregadas de loja que espalhavam boatos, despedidas e a causar-lhe prejuízos na cidade, que apontavam para ele em pessoa como prova de que os Poderes do Bem e do Mal ainda estavam envolvidos numa disputa infeliz. Testemunhem as Greves! Testemunhem as Revoluções!

“Diga-lhe, quando ela puser a mesa, que lhe aumento, por conta da boa conduta geral, cinco xelins por ano. Acrescente”, disse Tinman, “que não desejo agradecimentos. É pelos seus méritos — para a recompensar; compreende-me, Martha?”

“Perfeitamente; se acha prudente, Martin.”

“Acho. Ela não deve respirar uma sílaba à cozinheira.”

“Ela dirá.”

“Então mantenha os olhos na cozinheira.”

A Sra. Cavely prometeu que o faria. Sentia-se certa de que estava a pagar cinco xelins pela ingratidão; e, portanto, foi com humildade que admitiu o seu erro quando, enquanto o irmão bebia o seu licor acre açucarado após o jantar (em devoção ao decreto do médico, de que ele deveria tomar um par de copos, rigorosamente como um frade que se chicoteia), ela lhe transmitiu o efeito singular do aumento de salário na pequena Jane: “Oh, senhora! E eu nunca lho pedi!” Informou o irmão sobre como a pequena Jane lhe tinha confidenciado que eles eram chamados de “forretas”, e como a pequena Jane tinha jurado que iria — a pequena criatura esforçada! — andar a contar a toda a gente a gentileza deles.

“Sim! Ah!”, Tinman inalou o elogio. “Não, não; não quero ser incensado”, disse ele. “Lembre-se da cozinheira. Tenho”, continuou, meditativo, “raramente visto o meu plano falhar. Mas atenção, aviso os Crickledon para saírem amanhã. Eles são uma praga. Além disso, provavelmente pensarei em construir moradias.”

“Como o vento está terrível!”, exclamou a Sra. Cavely. “Eu daria àquela rapariga Annette mais uma hipótese. Tente por carta.”

Tinman enviou uma carta de negócios a Annette, que trouxe de volta uma resposta vaga e pouco profissional. Dois dias depois, a Sra. Cavely informou o irmão da presença do Sr. Fellingham e da Srta. Mary Fellingham em Crikswich. Sob o seu ditado, ele escreveu uma segunda carta. Desta vez, a resposta veio de Van Diemen:

“Meu CARO MARTIN, — Por favor, não continue a incomodar a minha rapariga. Ela não gosta da ideia de me deixar, e a minha experiência diz-me que eu não poderia viver na mesma casa consigo. Portanto, é isso. Aceite isto como um amigo. Sempre quis ser, e sou,

“Seu amigo,

“PHIL.”

Tinman seguiu diretamente para Elba; isto é, o mais diretamente que o vento permitia às suas pernas caminhar. Van Diemen foi anunciado como estando fora; a Srta. Annette pediu para ser desculpada, sob o pretexto de que não se sentia bem; e Tinman soube de um jantar em Elba naquela noite.

Encontrou o Sr. Fellingham no caminho de carruagens. O jovem londrino presumiu tocar nos assuntos privados de Tinman ao interceder em nome dos Crickledon, que estavam, disse ele, muito abatidos pelo aviso que tinham recebido para deixar a casa e a loja.

“Outra altura”, gritou Tinman. “Não o consigo ouvir com este vento.”

“Entre”, disse Fellingham.

“O dono da casa está ausente”, foi a resposta espirituosa que lhe foi rugida; e Tinman cambaleou para longe, saboreando-a tal como fazia com o seu vinho.

A sua casa abanava. Ele era apoiado pela irmã na garantia de que tinha sido enganado.

O processo que ele supunha ser o pensamento, que era o açoitamento do seu cérebro com cada aguilhão com que uma susceptibilidade natural podia estimular a memória imediata, levou-o a concluir que devia trazer Van Diemen aos seus sentidos, e Annette a correr para ele em busca de misericórdia.

Sentou-se naquela noite em meio ao uivo da tempestade, o vento a assobiar, a água a colidir, as janelas a bater, a praia a arrastar-se desesperadamente, como pelos dedos em forma de estrela-do-mar daquele que está meio submerso.

Mal sabia o que escrevia. O homem estava num estado de terror pessoal, a arder de indignação contra Van Diemen como a causa principal do seu perigo. Pois, para processar a sua perseguição a Annette, ele tinha-se abstido de ir a Helmstone para depositar dinheiro no seu banco lá, e o que era precioso para a vida, bem como a própria vida, estava em perigo por causa daqueles dois — Annette e o seu pai — que, se tivessem sido verdadeiros, se tivessem sido honestos, para não falar de honrados, teriam a esta hora aberto Elba para ele como uma morada firme e segura.

A sua carta foi endereçada, num envelope grande,

“Ao Ajudante-General,

“HORSE GUARDS.”

Mas se alguma vez fosse entregue aos Correios, essa estação de correios teria de ser em Londres; e Tinman deixou a carta na sua secretária até que a manhã trouxesse conselho sobre o amigo de Londres a quem a poderia enviar sob envelope para ser posta, se a levasse tão longe.

Dormir era impossível. A noite negra favorecia os demónios destruidores do naufrágio, e olhando através de uma janela das traseiras sobre o mar, Tinman viu com desalento enormes torres de espuma branca como fantasmas, que viajavam rapidamente ao seu nível, e iluminavam a escuridão enquanto se lançavam em ruína, com um arquejo, através do monte de seixos aos seus pés.

Despiu-se. A sua irmã chamou-o para saber se estavam em perigo. Vestido com o seu roupão, deslizou até à porta dela para lhe vociferar roucamente que não devia assustar os criados; e uma qualidade fina na educação do casal, que os tinha ajudado a prosperar, uma forma de autocontrole, manteve-a quieta nos seus medos trémulos.

Para se distrair, Tinman abriu as gavetas do seu guarda-roupa. O seu traje cintilante estava numa delas. E pensou: “Que mudanças maravilhosas existem no mundo!”, querendo dizer, entre um homem exposto à ira dos elementos e o mesmo indivíduo a ler a partir de velino, naquele traje, num palácio, para o Chefe de todos nós!

A presunção é que ele deve tê-lo feito muitas vezes antes. O facto é estabelecido de que ele o fez naquela noite. A conclusão tirada disso é que isso lhe deve ter dado uma sensação de estabilidade e segurança.

De qualquer modo, que ele vestiu o traje é bastante certo.

Provavelmente foi um trabalho de agrado e graus; um sentir da seda, um experimentar numa perna, depois o ajuste da outra com ela. Oh, vocês, Revolucionários! que não queriam estado, nem cerimónia, e apenas uma ordem de calções! Este homem deve ter sido seduzido em espírito para o esquecimento da tempestade que fustigava o seu vizinho poderoso para um salto maior e mais distante; ele deve ter obtido da contemplação de si mesmo no seu traje aquilo que seria a salvação de todos os homens, especialmente dos seus compatriotas — a imaginação, nomeadamente.

Certo é, como disse, que ele se vestiu com o traje. Cobriu-o com o seu roupão, e deitou-se na sua cama assim trajado, para aguardar a luz do dia seguinte, sendo provavelmente surpreendido pelo sono a atuar sobre a fadiga e os nervos apaziguados e acalmados.

CAPÍTULO XII

Elba situava-se mais abrigada dos ventos de Sudeste sob as encostas da colina do que qualquer outra casa em Crikswich. O vento de Sudeste batia na falésia em direção a uma torre martello e à casa na praia, deixando Elba em repouso, de modo que o pior vento para aquela costa era um dos mais confortáveis para o dono da mansão, e ele olhava da sua janela superior para um mar de giz cinzento quebradiço, açoitado incessantemente pelo vendaval sibilante e sem feições, sem medo de que as suas terras elevadas e muros ficassem abertos na maré alta à devastação da água. Van Diemen não fazia ideia de que a calamidade estava a atuar em terra quando se sentou para o pequeno-almoço. Disse a Herbert que tinha rezado pelos pobres homens no mar na noite passada. Mary Fellingham e Annette estavam ansiosas por terminar o pequeno-almoço e subir a colina para contemplar o mar, e recebendo um aviso de Van Diemen para não irem demasiado perto da falésia, estavam inclinadas a pensar que ele era desnecessariamente receoso por conta delas.

Antes de estarem a meio da refeição, chegaram notícias de grandes brechas nos seixos e água a cobrir o terreno comum. Van Diemen mandou chamar o seu jardineiro-chefe, cujo relatório sobre o estado das coisas lá fora tomou a forma abrangente de profecia; ele previu a queda da cidade.

“Disparate; o que quer dizer, John Scott?”, disse Van Diemen, observando a sua mesa de pequeno-almoço organizada e o homem alternadamente. “Não parece ser o caso, ainda, pois não?”

“A casa na praia não se manterá de pé por mais uma hora, senhor.”

“Quem diz isso?”

“Está agora cortada de terra, e ondas da altura de um mastro por toda a sua volta.”

“Mart Tinman?”, gritou Van Diemen.

Todos sobressaltaram-se; todos se levantaram de um salto; e ouviu-se uma correria em busca de chapéus e capas. Criadas e homens da casa corriam de um lado para o outro, confirmando a notícia da inundação. Alguns em terror pelo destino dos seus parentes, outros agradavelmente excitados, contentes com a catástrofe se esta servisse apenas para matar a monotonia, pois, de qualquer modo, era uma mudança de demónios.

A vista da margem exterior de Elba era de água cobrindo o espaço do terreno comum até às pedras de Marine Parade e Belle Vue. Mas, à distância, não tinha a aparência de água furiosa; as senhoras acharam-na pitoresca, e a casa na praia via-se de pé, firme. Um segundo olhar mostrou a casa completamente isolada; e, enquanto o grupo liderado por Van Diemen circundava apressadamente em direção à cidade, discerniram pesadas cataratas de espuma a derramar-se pelo monte de seixos destruído em ambos os lados da casa.

“Ora, o muro exterior foi levado”, disse Van Diemen. “Estarão eles em perigo real?”, perguntou Annette, com os dentes a bater, e o frio e outros assuntos no seu coração impedindo, por aquele momento, tal calor de simpatia que esperava sentir em breve por eles. Ficou contente ao ouvir o seu pai dizer:

“Oh! Eles estão a salvo a esta altura. Encontrá-los-emos na cidade. E levá-los-emos para dentro e consolá-los-emos. Dez para um que não tomaram o pequeno-almoço. Eles não irão para uma estalagem enquanto eu estiver à mão.”

Ele disparou à frente, seguido de perto por Herbert. As senhoras observaram-nos a falar com os habitantes da cidade à medida que passavam pelas ruas altas, e não auguraram nada de bom do seu aumento de velocidade. Na parte alta da cidade, a água era visível, subindo parte da rua principal, e, atravessando-a, as senhoras foram rapidamente sob a velha igreja, na torre da qual estavam espectadores, através do cemitério para um prado alto que descia para um muro de pedra fixado entre o prado e um banco de erva acima do nível da estrada, onde agora a água salgada batia e lançava alguma espuma. Não menos de cem pessoas estavam neste campo, entre elas Crickledon e a sua mulher. Todos estavam em vigília silenciosa da casa na praia, que ficava a leste do campo, a uma distância talvez de três lanços de pedra. A cena era selvagem. Continuamente as torrentes vertiam através das fendas dos seixos, e a cada momento soava um trovão, e saltava alto uma vaga que cobria a casa e a envolvia em turbilhão.

“Dizem-me que Mart Tinman está na casa”, rugiu Van Diemen para Herbert. Ele ouviu mais informações e bramou: “Não há barco!”

Herbert respondeu: “Deve ser um erro, creio eu; aqui o Crickledon diz que teve um aviso antes do amanhecer e conseguiu mover a maior parte das suas coisas, e as pessoas ali devem ter sido acordadas pelo barulho a tempo de sair.”

“Não consigo ouvir uma palavra do que dizes”; Van Diemen tentou elevar a voz acima do vento. “Disseste um barco? Mas onde?”

Crickledon, o carpinteiro, fez sinal a Herbert. Eles subiram rapidamente o campo.

“As mulheres sentem a sua fraqueza em tempos como estes, meu caro”, disse a Sra. Crickledon a Annette. “Entre as nossas roupas e a nossa cobardia, parece que não somos iguais aos homens quando os ventos são fortes.”

Annette expressou-lhe a esperança de que não tivesse perdido muitos bens. A Sra. Crickledon disse que estava contente por lhe comunicar que estava segurada numa Companhia de Acidentes. “Mas”, disse ela, “lamento por aquele pobre homem Tinman, se vivo estiver, e chegar a terra para encontrar a sua propriedade destruída pela água. Deus te abençoe! Ele não seguraria contra nada menos comum do que fogo; e a minha casa e a oficina do Crickledon são madeiras flutuantes a esta altura; e Marine Parade e Belle Vue têm a partida garantida. E será uma bela receção para ele, o pobre homem, vinda dos seus investimentos.”

Um grito, perante um golpe tremendo de uma onda na casa condenada, elevou-se do campo. A porta das traseiras e a da frente foram derrubadas, e a força da água impeliu um volume redondo através do canal, fazendo tremer as paredes.

“Não aguento isto”, gritou Van Diemen.

Annette chegou tarde demais para o segurar. Ele correu pelo campo. Ela preparava-se para correr atrás, quando a Sra. Crickledon tocou no seu braço e implorou-lhe: “Não interfira com os homens, mas deixe-os seguir os seus juízos quando são épocas de grande perigo, minha querida. Se alguém é culpado sou eu, por lembrar ao meu marido de um barco que foi lançado para um barco salva-vidas aqui, e que não funcionou, e está no abrigo junto ao Crouch — deixado lá, como muitas vezes disse, como se estivesse amuado. Meu Deus!”

Um lençol de linho tinha sido atirado de uma das janelas da casa na praia, e voava solto e a esvoaçar em sinal de aflição.

“Parece que ficaram loucos naquela casa, por terem esperado tanto tempo para se declararem, pobres almas”, disse a Sra. Crickledon, suspirando.

Foi assegurada de todos os lados que sinais tinham sido vistos antes, e alguém afirmou que o cozinheiro do Sr. Tinman, e também a Sra. Cavely, estavam em terra.

“É o seu mobiliário, pobre homem, ao qual ele se agarra: e nada chega tanto ao coração!”, retomou a Sra. Crickledon. “Lá vai a sua roupa de cama!”

O lençol foi redemoinhado e arrancado pelo vento; distendido, dobrado, como um bando de gansos de inverno a mudar letras alfabéticas nas nuvens, disparou para um lado e para o outro, e finalmente estendeu-se sobre as águas que quebravam contra Marine Parade.

“Eles não podem ter pensado que havia perigo positivo em permanecer”, disse Annette.

“O Sr. Tinman estava à espera da companhia de Seguros mais barata”, comentou um homem para a Sra. Crickledon.

“O menos a pagar é ao agente funerário”, respondeu ela, ficando em bicos de pés. “E é de esperar que ele pague mais hoje. Se ao menos aquelas paredes não caíssem e parassem a hipótese de o barco o salvar para mais despesas, o pobre homem! Que barcos estavam na praia ontem à noite, bem altos e sobre a crista como estavam, são tábuas a esta altura e apenas boas para carpinteiros.”

“Metade da nossa cidade está acabada”, disse um velho; e outro seguiu-o num tom piedoso: “Da água viemos e para a água vamos.”

Falavam de antigas invasões do mar, nenhuma tão séria como esta ameaçava ser para eles. A sólida galhardia da casa na praia tinha resistido a vendavais fortes: era uma casa valente. Graças a Deus, não havia barcos de pesca lá fora. Principalmente as pessoas abastadas seriam as vítimas — um caso excecional. Pois é a misteriosa e inexplicada dispensação que: “Na maioria, o céu castiga-nos.”

Um grupo de observadores excitados atraiu o resto do campo para eles. A Sra. Crickledon, na margem da multidão, relatou o que estava a acontecer a Annette e à Srta. Fellingham. Um barco tinha sido lançado da cidade. “Louvado seja o Senhor, não há ninguém senão a guarda costeira nele!”, exclamou ela, e desculpou-se por ter o seu coração no marido.

Annette ficou profundamente grata por o seu pai não estar no barco.

Olharam em redor e viram Herbert ao lado delas. Van Diemen estava na retaguarda, arquejante, e esticando o pescoço para avistar o barco que agora remava rapidamente através de um mar revolto para onde o próprio Tinman era visto, chamando-os loucamente, meio fora de uma das janelas.

“Uma libra para cada um daqueles tipos, e duas se puserem Mart Tinman em terra seco; prometi-o, e eles ganhá-lo-ão. Olhem para aquilo! Depressa, seus patifes!”

A leste, uma parte da casa tinha caído, derretido. Onde ela estava, logo abaixo da linha de seixos, era agora como uma estrutura a definhar num tormentoso recife submerso. Toda a linha estava entregue às ondas.

“Onde está a irmã dele?”, gritou Annette para o seu pai.

“A salvo em terra; e uma das mulheres com ela. Mas Mart Tinman teimou, o tolo! para — pobre rapaz! — salvar os seus papéis e coisas; e não tem cabeça para o fazer, diz-me Martha Cavely. Estão a chegar a ele agora! Conseguiram apanhá-lo! Há outro? Oh! É uma rapariga, que não quis ir e deixá-lo. Vão remar para o campo aqui. Rapazes valentes! — Porra, porque é que os ingleses não estão sempre em perigo! — eh? Se queres vê-los brilhar!”

“É a pequena Jane”, disse a Sra. Crickledon, que tinha sido acompanhada pelo marido e, agora que sabia que ele já não estava em perigo, manteve a mão nele para o conter, apenas por conforto.

O barco manteve-se sob o abrigo dos destroços da casa por um minuto; depois, como se descesse um pequeno rápido, veio sobre uma vaga coroada de espuma, perante vivas dos habitantes da cidade.

“Estão bem”, disse Van Diemen, ofegante como se tivesse um nevoeiro diante dos olhos. “Vão remar para oeste, com o vento, e deixá-lo-ão entre nós. Lembro-me de quando o velho Mart e eu estávamos a banhar-nos uma vez, ele era mais novo do que eu, e não sabia nadar muito, e vi-o a ir ao fundo. Teria sido difícil vê-lo ser levado pelas águas diante dos meus olhos trinta anos depois. Lá vêm eles. Ele está bem. Está de robe!”

A multidão abriu caminho para o Sr. Van Diemen Smith dar as boas-vindas ao seu amigo. Dois dos guardas costeiros saltaram e entregaram-no ao banco seco, enquanto Herbert, Van Diemen e Crickledon o seguraram pela mão e pelo braço, e o içaram para o muro de sílex, preparando a sua descida para o campo. Nesta situação exposta, o vento, cujas partidas são infinitas quando se levanta, agarrou e soprou o robe de Martin Tinman, abrindo-o como duas asas a bater violentamente de cada lado dele, e finalmente sobre a sua cabeça.

Van Diemen voltou um par de olhos planos e estupefactos para Herbert, que lançou um olhar astuto às senhoras. Tinman tinha saltado para baixo. Mas não antes de o mundo, num relance tempestuoso, ter vislumbrado o traje da Corte.

Uma gravidade perfeita saudou-o vindo da multidão.

“A salvo, velho Mart! E contente por poder dizê-lo”, disse Van Diemen.

“Estamos tão felizes”, disse Annette.

“Casa, mobiliário, propriedade, tudo o que possuo!”, exclamou Tinman, a tremer.

“Tretas, homem; precisas de um pequeno-almoço quente. A tua irmã seguiu em frente — para Elba. Vem tu também, velho; e onde está aquela rapariga corajosa que ficou ao lado...”

“Havia uma rapariga?”, disse Tinman.

“Sim, e havia um rapaz que queria ajudar.” Van Diemen apontou para Herbert.

Tinman olhou e perguntou piedosamente: “Examinaram Marine Parade e Belle Vue? Depende da maré!”

“Aqui está a pequena Jane, senhor”, disse a Sra. Crickledon.

“Apresenta-te”, disse Van Diemen à pequena Jane.

A rapariga fazia vénias a Annette, aquando da sua apresentação pela Sra. Crickledon.

“Martin, ficas em minha casa; ficas em Elba até te sentires confortável, e depois terás o Crouch por um ano, sem renda. Eh, Netty?”

Annette concordou: “Tudo o que pudermos fazer, tudo. Nada pode ser demais.”

Van Diemen elogiava a pequena Jane pela sua devoção ao patrão.

“O patrão tem sido tão gentil comigo”, disse a pequena Jane.

“Agora, marchem; está frio”, deu Van Diemen a ordem, e Herbert ficou ao lado de Mary bastante abatido, prevendo que as suas perspetivas em Elba estavam ensombradas.

“Então, Mart, perna esquerda à frente”, Van Diemen enlaçou o braço no do seu amigo.

“Tenho de dar uma vista de olhos”, Tinman soltou-se dele, e lançou um olhar desolado de despedida para o que restava da casa na praia.

“Tens-me a mim, velho Mart; não te esqueças disso”, disse Van Diemen.

O peito de Tinman caiu. “Sim, sim”, respondeu. Estava comovido.

“E disse àqueles tipos que, se te pusessem em terra seco, eles teriam... Eu dar-lhes-ia o dobro do pagamento; e acredito mesmo que ganharam o seu dinheiro.”

“Não acho que esteja muito molhado, estou com frio”, disse Tinman.

“Não podes evitar estar com frio, por isso vamos andando.”

“Mas, Philip!”, Tinman elevou a voz; “Perdi tudo. Tentei salvar um pouco. Trabalhei arduamente, expus a minha vida, e tudo em vão.”

A voz da pequena Jane foi ouvida.

“O que se passa com a criança?”, disse Van Diemen.

Annette aproximou-se dela silenciosamente.

Mas a pequena Jane estava a dirigir-se ao seu patrão.

“Oh! Se faz favor, eu consegui salvar alguma coisa da última vez quando o barco estava à janela, e se faz favor, senhor, todos os embrulhos perderam-se, mas salvei-lhe um corta-papéis, e uma carta Horse Guards, e aqui estão eles, senhor.”

A grata criaturinha tirou a carta quadrada e o corta-papéis do seu peito e estendeu-os ao Sr. Tinman.

Era uma carta de tamanho imponente, com THE HORSE GUARDS muito distintamente inscrito nela na melhor letra redonda de Tinman, para atingir o seu espírito vingativo como positivamente pretendido para transmissão, e dar-lhe visão do seu poder de ferir se lhe aprouvesse; como poderia.

“O quê!”, gritou ele, não compreendendo claramente quanto a devoção dela tinha alcançado por ele.

“Uma carta para o Horse Guards!”, gritou Van Diemen.

“Aqui, dá-ma”, disse o patrão da pequena Jane, e agarrou-a nervosamente.

“O que está nessa carta?”, perguntou Van Diemen. “Deixa-me ver essa carta. Não me digas que é correspondência privada.”

“Meu caro Philip, caro amigo, agradecimentos gentis; não é uma carta”, disse Tinman.

“Não é uma carta! Ora, li o endereço, ‘Horse Guards’. Li-o enquanto passava para as tuas mãos. Agora, meu homem, um olhar sobre essa carta, ou aceita as consequências.”

“Agradecimentos gentis pela tua assistência, querido Philip, de facto! Oh! Isto? Oh! Não é nada.” Ele rasgou-a em metades.

O seu rosto era da cor do mar de inverno, com a marca de giz nele.

“Rasga outra vez, e saberei o que pensar do conteúdo”, Van Diemen franziu o sobrolho. “Deixa-me ver o que disseste. Juraste que o farias, e aí está finalmente, por milagre; mas deixa-me vê-la e eu ignorá-lo-ei, e tu continuarás a ser o meu companheiro de casa. Se não!----”

Tinman continuou a rasgar.

“Enganas-te, enganas-te, estás completamente errado”, disse ele, enquanto prosseguia com desespero a sua tarefa de tornar cada palavra ilegível.

Van Diemen ficou à frente dele; a acumulação de reservas de pequenas ofensas e mesquinharias que tinha sofrido deste homem inchou sob o chicote da exibição conclusiva de traição. Ele parecia tão sombrio que Annette chamou: “Papai!”

“Philip”, disse Tinman. “Philip! O meu melhor amigo!”

“Pooh, és uma pobre criatura. Vem tomar o pequeno-almoço em Elba, e podes dormir no Crouch, e boa noite. Crickledon”, chamou ele ao casal sem teto, “fiquem em Elba até eu vos construir uma oficina.”

Com estas palavras, Van Diemen liderou o caminho, caminhando sozinho. Herbert foi obrigado a caminhar com Tinman.

Mary e Annette vinham atrás, e Mary beliscou o braço de Annette tão bruscamente que ela teria gritado alto se lhe fosse possível sentir dor naquele momento, em vez de uma exultação pessoal, voando loucamente sobre o choque de espanto e horror, como uma ave marinha sobre a espuma.

No primeiro lugar silencioso a que chegaram, Mary murmurou as palavras: “Pequena Jane.”

Annette olhou para a Sra. Crickledon, que encerrava a procissão, levando a pequena Jane pela mão. A pequena Jane caminhava recatadamente, com um rosto plácido. Annette olhou para Tinman. Os seus sentimentos excitados quase chegaram a um grito de riso. Durante horas depois, Mary só tinha de lhe dizer: “Pequena Jane”, para produzir a mesma convulsão. Isso enrolava o seu coração e sentidos numa maré impetuosa, abalava-a com lágrimas ardentes, e parecia-lhe a ideia da mais maravilhosa junção de coisas opostas alguma vez conhecida nesta terra. A jovem senhora envergonhava-se do seu riso; mas estava-lhe profundamente grata, pois nunca uma mente foi tornada tão clara por esse exercício benéfico.

Um homem sábio não desperdiçará o seu riso se puder evitá-lo, antes manterá a agitação do mesmo contida enquanto lhe for possível. O fervilhar do humor envia um espírito vivo à mente, ao passo que o transbordar não passa de um gasto pródigo e da perturbação de uma corrente límpida: pois o elemento cómico é-lhe visível em todas as coisas, desde que mantenha a sua mente carregada com a percepção do mesmo, como ouvi um grande expositor manifestar-se sobre outro assunto; e ele falou com muita verdade. Assim, continuei a observar com a gravidade da própria Natureza, e não pude deixar de imaginar, e com menos do que a nossa habitual obstinação quando imaginamos coisas sobre os humores da Natureza, que a Mãe dos homens contemplava aquela cena com um meio sorriso, de forma diferente da simples observação daquelas vacas a espantar as moscas dos seus flancos na orla do prado ceifado e dos seus choupos, vistos sob o telhado curvo de um largo ramo de carvalho. À exceção desta feliz curva ascendente do ramo, estávamos rodeados por folhagem sem alento; até a penumbra estava quente; os pequenos insetos que servem de alimento aos peixes tentaram um voo e caíram na superfície da água, como se ofegantes. Aqui e ali, um peixe taciturno consentia em apanhá-los, e um círculo espalhava-se, dando notícias de um entusiasmo passado.

Eu tinha escutado o mugido homérico do vigário pelo espaço de um minuto ou mais — o que alguém chamou de o grande rugido e rolar, semelhante ao de uma besta, do hexâmetro da Ilíada: parou como uma corda cortada. Uma das numerosas filhas da sua casa apareceu no arco de rosas brancas no terraço inferior do jardim, e com uma exclamação, ficou petrificada perante o espetáculo extraordinário, e então desatou a rir. Eu tinha até então resistido, mas o riso franco e estrondoso da jovem levou-me com ele, e eu também soltei uma gargalhada, e revelei-me. O vigário, vendo-me, reconheceu a consciência da sua posição absurda com um riso tão alto quanto o meu. Quanto à rapariga travessa, ela desatou numa série de guinchos agudos como vinte pica-paus, gritando: "Mamã, mamã, pareces estar no Jordão!"

O vigário limpou a garganta de forma admoestadora, pois era evidente que a menina Alice estava a ofender a sua mãe, e presumo que ele achasse que já bastava um membro da família tê-lo feito.

"Sairás do Jordão?" gritei eu.

"Estou suficientemente batizada com a água", disse o homem impotente...

"Na verdade, Sr. Amble", observou a sua esposa, "pode dar lições a uma mulher por não aproveitar ao máximo as circunstâncias; espero que tenha em mente que é o senhor quem é irreverente. Não posso suportar isto por mais tempo. Merece o ridículo do Sr. Pollingray."

A isto, interpus-me: "Peço-lhe, minha senhora, não imagine que tem da minha parte algo que não seja simpatia." — mas enquanto protestava, de boca aberta, a terrível menina Alice arrancou-me o riso sem remorsos.

"Estiveram a experimentar o barco novo do Frank, Sr. Pollingray, e viraram-no. Oh! oh!" e novamente houve o coro dos pica-paus.

"Alice, desejo que vás imediatamente buscar o John, o jardineiro", disse a mãe zangada.

"Mamã, não me consigo mexer; espera um minuto, só um minuto. O John foi tratar dos gerânios. Oh! não olhes tão resignado, papá; vais matar-me! Mamã, vem e dá-me a mão. Oh! oh!"

A jovem colocou as mãos na cintura e remexeu o corpo como uma possuída.

"Porque não entram pela casa dos barcos?" perguntou ela quando dominou o seu ataque.

"Ah!" disse o vigário. Contemplei-o atingido por este novo pensamento.

"Como é absolutamente absurdo, Sr. Amble!" exclamou a sua esposa, "quando sabe que a casa dos barcos está trancada, e que o barco estava sob o cais quando me persuadiu a entrar nele."

Ao ouvir esta explicação do acidente, Alice entregou-se a uma emoção ingovernável.

"Vês, minha querida", dirigiu-se o vigário à esposa, "ela nada pode fazer; é inútil. Se alguma vez nos é aconselhada paciência, é quando os acidentes nos acontecem, pois então, como não somos responsáveis, sabemos que estamos noutras mãos, e é nosso dever ser comparativamente passivos. Talvez eu possa dizer que em qualquer dificuldade, a paciência é um colete de salvação. Rogo-lhe que continue paciente."

"Sr. Amble, vou considerá-lo um tolo", disse a esposa, com um aceno de mais do que ênfase.

"Minha querida, só tens de decidir", foi a resposta mansa.

A esta altura, a menina Alice tinha derrotado de tal forma o demónio do riso que se pôde aventurar a chamar a sua mãe para perto da margem e estender uma mão salvadora. A Sra. Amble caminhou até estar ao alcance, seguida pelo marido. Foram feitos arranjos para que Alice puxasse e o vigário empurrasse; ambos de acordo com as estipulações da Sra. Amble, pois mesmo na sua extrema impotência ela afetava o governo e a soberania. Infelizmente, no momento decisivo, aconteceu-me (e admito que foi mais do que uma inadvertência da minha parte, foi uma coisa muito mal pensada) aconteceu-me, digo eu, gritar — e o facto de me ter abstido de citar Voltaire é algo a meu favor:

"Como é que, diabo, conseguiram cair aí dentro?"

Não pode haver contestação de opinião de que eu poderia ter esperado com a minha curiosidade, e possivelmente pode dizer-se com alguma justificação que fui a causa direta do comportamento inigualável do meu amigo; mas poderia um homem mortal adivinhar que, no próprio ato de assistir ao regresso da sua esposa a terra firme, e enquanto ela estava — se me permitem — modestamente nas suas mãos, ele se voltaria com uma citação que o comparava ao velho Palinuro, permitindo ao mesmo tempo que a sua digna e admirável carga se afundasse mais e se espalhasse em excesso sobre a superfície da água, até que a vantagem da ajuda da filha lhe fosse perdida; contemplei as consequências da minha indiscrição, consternado. Teria travado o absurdo Virgiliano, mas em desprezo pela minha mão levantada e cabeça virada, e indiferente ao facto de que a sua esposa estava então literalmente dependente dele, o vigário declamou (e o efeito encharcante produzido pelo Latim numa senhora em tal estação, pode ser imaginado):

Vix primos inopina quies laxaverat artus, Et super incumbens, cum puppis parte revulsa Cumque gubernaclo liquidas projecit in undas.

Não é fácil, quando não se está familiarizado com a língua, retorquir ao Latim, mesmo quando a tentativa de o fazer é feita em Inglês. Muito poucos, mesmo dos ouvidos incultos, podem tolerar tal vitupério de anticlímax como o Inglês depois de um Latim sonante. A Sra. Amble conteve aqueles sentimentos que a sua língua vernácula poderia ter expressado. Ouvi apenas um gemido que veio dela enquanto jazia amontoada indistintamente nos braços do seu marido.

"Não — praecipitem! felizmente", observou ainda o meu insensato amigo, e riu alegremente enquanto fortificava a sua afirmação com uma série de negativos. "Não, não"; de uma forma peculiar a ele. "Não, não. Se plantar os meus cabelos grisalhos em algum lado, será em terra firme: não. Mas, agora, minha querida; regressou ao seu dever; ora, estás outra vez em baixo. Vamos: um, dois, e para cima."

Ele estava a levantar um peso morto. A paixão pelo discurso sarcástico estava manifestamente em guerra com a prudência comum no seio da Sra. Amble; a prudência, no entanto, venceu-a. Lançou-lhe um olhar daqueles que tornam o matrimónio terrível nos sonhos dos solteiros, e depois, unindo a sua energia à assistência dada, fez um daqueles saltos insensatos da metade superior do corpo, que atingem o olho filosófico com a futilidade de um esforço que não surge de uma base sólida. Devido à falta de concerto entre eles, a força impulsiva do vigário esgotou-se quando a da sua esposa entrou em jogo. Alice agarrou a mãe corajosamente. O vigário teve força suficiente para travar a descida da esposa; mas Alice (ela gaba-se dos seus músculos) não teve força na outra direção — e não é de admirar. Há poucas jovens que conseguiriam puxar catorze pedras diretamente para cima de um cais.

A Sra. Amble permaneceu em suspense entre os dois.

"Oh, Sr. Pollingray, se estivesse apenas deste lado para nos ajudar", exclamou a menina Alice muito piedosamente, embora eu pudesse ver que ela estava meio louca com a luta interna do riso pelos pais e pela preocupação com eles.

"Agora, puxa, Alice", gritou o vigário.

"Não, ainda não", gritou a Sra. Amble; "estou a afundar-me."

"Puxa, Alice."

"Agora, Mamã."

"Oh!"

"Empurra, Papá."

"Estou a descer."

"Para cima, minha senhora; Jane; mulher, para cima."

"Suavemente, Papá: Abraão, não vou."

"Minha querida, mas tens de ir."

"E aquele homem ali à frente."

"O quê, Pollingray? Ele tem cinquenta anos."

Encontrei-me a caminhar indignado pelo caminho. Mesmo agora protesto que o meu amigo foi culpado de maus modos, embora eu o desculpe de tudo; eu desculpo, passo por cima da ordem; mas porquê — o que justifica um homem gritar a idade de outro? Que propósito serve? Suponho que o vigário quisesse tranquilizar a sua esposa, com base no princípio (ouvi-o enunciá-lo) de que os sexos se fundem aos cinquenta — pelo que ele quer dizer, devo presumir, que algo que pode ser bom ou mau, e é geralmente tolo — claro, admiro e respeito a modéstia e o pudor tanto quanto qualquer homem — algo se foi: um reconhecimento dos limites da divisão. Há, se isso é uma questão lamentável, uma perda de certos dos nossos truques de juventude aos cinquenta. Deixámos de corar facilmente: e deixe-me pedir-lhe que defina um rubor. É uma verdade involuntária ou uma mentira ingénua? Sei que isto soará como a linguagem de um homem não pouco invejoso dos seus pares juvenis. Só posso deixar às pessoas de juízo correto considerar se um homem saudável no seu auge, que tem o suficiente, e não é amaldiçoado pela ambição, precisa de ter inveja de qualquer alma viva.

Um grito da menina Alice deteve os meus passos em retirada. O vigário estava a cambalear para apoiar a metade respirante da sua parceira enquanto ela recuperava o equilíbrio no leito do rio. O seu esforço para escalar o cais tinha falhado. Felizmente, neste momento avistei o barco do Mestre Frank, que tinha flutuado, com o fundo para cima, contra um banco de lama projetado de miosótis. Consegui alcançá-lo e endireitá-lo, e tendo garantido um dos remos, remei até ao resgate; embora não antes de ter arrancado uma flor, movido por um motivo que não consigo explicar. O vigário segurou o barco firmemente contra o cais, enquanto eu, sob o risco iminente de me juntar a eles (não esquecerei a expressão combinada dos olhos em retirada da menina Alice e os cantos maliciosos da sua boca) içava a senhora para dentro, e o rio com ela. Do assento do barco, ela ficou suficientemente alta para projetar o passo em direção a terra sem perigo. Quando ela lá colocou o pé, todos assumimos uma atitude de respeito atento, e o vigário, que conseguia voar sobre a calamidade como uma andorinha de tempo bom, reconheceu o regresso da sua esposa ao elemento com uma série de "sins" apologéticos e tosses curtas.

"Isso forneceria um bom concerto para os poetas", observou ele. "Uma partida, uma separação de amantes; 'mesmo como um corpo arrancado da água', ou 'da água colhido'; eh? o que achas — 'assim eu choro em torno dela, lacrimoso no seu rasto', um excelente —"

Mas a mulher ultrajada, pingando em grave desconforto acima dele, fez um gesto peremptório.

"Sr. Amble, virá a terra imediatamente, suportei a sua estupidez por tempo suficiente. Insisto que se lembre, senhor, de que tem uma família dependente de si. Outros homens podem cometer estas loucuras."

Este foi um golpe contra mim próprio, um solteiro que a senhora nunca persuadiu a sonhar em renunciar à sua liberdade.

"Minha querida, já vou", disse o vigário.

"Então, venha de uma vez, ou pensarei que é idiota", retorquiu a esposa.

"Tenho estado a esforçar-me", o vigário dirigiu-se agora a mim, "por provar através de uma demonstração prática que as mulheres são capazes de tanta filosofia quanto os homens, sob qualquer revolução súbita e aflitiva de circunstâncias."

"E se tiver uma insolação, será castigado justamente, e não ficarei triste, Sr. Amble."

"Já vou, minha querida Jane. Por favor, corre para dentro de casa e muda de roupa."

"Não até que o veja fora da água, senhor."

"Estás a perder a calma, meu amor."

"O senhor faria um santo perder a calma, Sr. Amble."

"Houve santas, minha querida", respondeu o vigário suavemente; e dirigiu-se a mim ainda: "Até este ponto, asseguro-lhe, Pollingray, nenhuma conduta poderia ter sido mais exemplar do que a da Sra. Amble. Eu tinha-a colocado no barco — um bom barco, um barco excelente — mas ao entrar eu próprio, virámo-nos. O primeiro impulso de uma mulher comum teria sido o de censurar e repreender; mas a Sra. Amble sucumbiu apenas ao primeiro impulso. Descobrindo que todo o esforço sem ajuda para subir a margem era infrutífero, ela concordou em esperar pacientemente e tirar o melhor proveito das circunstâncias; e ela fê-lo; e aprendeu a desfrutar. Há tutano em todos os ossos. Minha querida. Jane, nunca te admirei tanto. Testei-a, Pollingray, em metafísica. Falei-lhe da ópera que ouvimos pela última vez, penso que há cinquenta anos. E como é menos suportável para uma mulher ser paciente na tribulação — a honra é maior, quando ela supera a provação carnal. De tal forma", o vigário assumiu um ar suave de abnegação de honra, "que estou disposto a considerar qualquer filósofo masculino nosso superior; quando encontrar um, ha, ha — quando encontrar um. O sol pulcher! Estou pronto a cantar que o dia tem sido glorioso, até agora. Pulcher ille dies."

A Sra. Amble apelou a mim. "Alguém não juraria que ele está louco ao vê-lo de pé com a água pela cintura e o sol na sua cabeça careca? Estou reduzida a implorar-lhe que não — embora não tenha família própria — não o encoraje. É divertido para si. Por favor, reflita que tal loucura é demasiado frequentemente fatal. Obrigue-o a vir a terra."

A lógica do apelo era sem dúvida distintamente visível na mente da senhora, embora não estivesse formulada com precisão. Vi que estava marcado para ser o bode expiatório do dia, e humildemente continuei a merecer o bem, apesar disso. À força de simples sinais e acenos de afirmativa, e uma propulsão constante do braço do meu amigo, puxei-o para o barco, e daí projetei-o até ao nível com a sua esposa, que talvez se tivesse dignado a compreender que era melhor evitar o bloqueio da sua mente divergente com qualquer observação durante a passagem, e permaneceu em silêncio. Assim que ele se estabeleceu de pé, ela puxou-o para longe.

"O chapéu do seu papá", chamou ela, brilhando para a sua filha, e subiu a relva para os caminhos com treliças de rosas que levavam ao alto até à casa do vigário. Atrás das rosas, o casal choroso desapareceu. A última coisa que vi do meu amigo foi uma palmada na sua cabeça num vão esforço para agarrar uma das ideias fugazes semeadas nele pela rápida passagem dos objetos diante da sua visão, e sacudidas para fora dele pela pressa anormal. O Rev. Abraão Amble tinha sido senhor da sua esposa na água, mas a sua vez tinha acabado. Ele tinha evidentemente desfrutado imenso, e eu agora entendia porque é que ele tinha escolhido prolongá-lo tanto quanto possível. As suas personagens excêntricas não são incomumente amadoras de pequenos artifícios. Há horas de vingança mesmo para homens dominados pelas mulheres.

Encontrei-me a suspirar pela condição escravizada de cada Benedito do meu conhecimento, quando o pensamento veio como uma surpresa que eu estava sozinho com Alice. A bela e agradável donzela fez uma descida inteligente para o barco, e tendo-se sentado, começou a girar o remo no escamô, e disse: "Sente-se disposto a juntar-se a mim na procura do outro remo e do chapéu do papá, Sr. Pollingray?" Sugeri: "Não ficará com os pés molhados? Não consegui esvaziar toda a água do barco."

"Oh!" gritou ela, com um movimento da cabeça; "pés molhados nunca magoam os jovens."

Havia matéria para uma lição admoestadora nisto. Deixe-me confessar que estava prestes a dá-la, quando ela acrescentou: "Mas Sr. Pollingray, receio mesmo que os seus pés estejam molhados! Teve de entrar na água quando endireitou o barco."

A minha resposta foi saltar para o lado dela com tanta agilidade quanto pude combinar com uma discrição adequada. A embarcação amadora balançou ameaçadoramente, e encontrei-me agarrado pela e a agarrar a bela donzela, até que, por muita sorte, fomos estabilizados e preservados do mesmo infortúnio que tinha acontecido aos seus pais. Ela riu-se e corou, e cambaleámos afastando-nos.

"Teria falado de metafísica comigo na água, Sr. Pollingray?"

Alice foi aqui culpada de um daqueles tipos de discursos inocentes e maliciosos que cheiram mais fortemente a Eva; embora, claro, a Eva nos seus melhores dias.

Peguei nas cordas do leme para dirigir contra o remar do seu único remo, e fui Adão o suficiente para responder à tentação: "Talvez tivesse ficado grato pela sua caridosa interpretação de que se tratava de metafísica."

Ela riu-se coloquialmente, para preencher uma pausa. Não tinha sido coquetismo: meramente a mulher inconscientemente em jogo. Um homem é obrigado a lembrar-se da antiguidade dos seus anos quando isto ocorre, pois um veterano de noventa anos e um jovem libertino esgotado estarão igualmente sujeitos a isso se não evitarem a sociedade do sexo oposto. A minha longa saúde robusta e perfeita autoconfiança tendem aparentemente a dar-me momentos descuidados, ou a deixar-me aberto a impressões inconstantes. De facto, há momentos em que temo ter o coração de um rapaz, e certamente nada mais calamitoso pode ser concebido, supondo que alguma vez, por um instante, consiga o domínio completo da minha cabeça. Este é o perigo de um homem que viveu sobriamente. Nunca saberemos quando estamos seguros? Estou, ao refletir sobre isso, positivamente preparado para dizer que se não há tolo como o que chamam de velho tolo (e um homem no seu auge, que pode ser ridicularizado, é o velho tolo do mundo), há sabedoria na teoria da juventude selvagem, e chegarei à maneira de pensar do meu sobrinho: isto é, até onde o Mestre Charles, pelas suas ações, representa o seu pensamento. Serei, em todo o caso, mais leniente no meu juízo sobre ele, e menos severo nas minhas alocuções, pois não terei texto de onde pregar.

Apanhámos o chapéu e o remo numa das pequenas baías lamacentas do nosso rio castanho, formando um anfiteatro para ratos-de-água e drapeado com grandes folhas de bardana, flores de urtiga, cravinas e outras ervas para as quais a culta jovem deu os nomes botânicos. Foi agradável ouvi-la falar com a autoridade total do conhecimento absoluto do seu assunto. Ela tem inteligência. Ela é decididamente demasiado boa para Charles, a menos que ele mude o seu método de vida.

"Vamos remar mais?" perguntou ela, preparando os braços para usar o par de remos.

"Tem-me em seu poder", disse eu, e ela começou a remar. A sua forma é extremamente graciosa; fiquei encantado com o ocasional apertar dos seus lábios enquanto exercia os seus músculos, enquanto intervalos me falava da sua corrida com um dos seus irmãos mais novos e orgulhosos, a quem ela tinha vencido. Acredito que é apenas quando estão a usar esforço físico que os olhos das jovens raparigas têm total simplicidade — a simplicidade da natureza em oposição àquela outra simplicidade artificial que elas aprendem com as suas governantas, as suas mães, e a admiração dos tolos. Pureza atraente, ou o agradável brilho da falta de compreensão de qualquer coisa que é considerada imprópria num mundo perverso, e é sem dúvida muito útil, não é do meu agrado. As raparigas francesas, em regra, não podem competir com as nossas inglesas nas graças mais puras. Elas são apenas incomparáveis quando, como mulheres, recorrem à arte.

Alice podia olhar para mim enquanto remava, sem pensar que fosse necessário forçar um sorriso, ou falar, ou rir e ser tola. Senti-me em relação à rapariga como um camarada.

É um prazer inesperado e uma vantagem para um homem da minha idade, ao observar a natureza feminina, ver essa ausência de artifício que nos leva a crer, por um momento, que o mundo não é senão um lugar onde se pode ser genuinamente natural. Alice possui essa qualidade. Ela não se sente obrigada a exibir uma fachada de sabedoria ou a esconder-se atrás de modos afetados. Há algo de refrescante, quase como um ar da manhã antes de o sol subir demais, na maneira como ela encara as coisas. Se ela vier para Dayton, como a Elizabeth deseja, teremos o campo aberto para ver se essa espontaneidade é algo que se mantém sob o escrutínio da convivência diária. Acredito que a rapariga tem um bom fundo. Charles, com a sua impulsividade, talvez não saiba apreciar o valor de uma disposição tão serena, mas eu sei. E, além disso, a ideia de a ter por perto, ocupada com os seus interesses e com a sua alegria musical, trará uma nova energia à casa. A solidão é um hábito, mas, como todos os hábitos, pode ser quebrada.

Evelina é diferente. Mais contida, mais atenta às convenções. Talvez seja essa a educação que a maioria dos pais procura, mas, para mim, falta-lhe aquele toque de audácia que torna a existência interessante. Elas são, em suma, o reflexo do que o mundo espera de uma mulher da sua classe. E, no entanto, fico a perguntar-me: será que, se tivessem a liberdade de escolha, seriam tão diferentes de como as vemos? A mente de uma jovem é um livro de páginas ainda não viradas, e a tentação de tentar ler o que está escrito naquelas linhas invisíveis é, temo eu, a ocupação de um homem que já não tem mais nada de urgente para fazer. Mas, se entro no Parlamento, as minhas atenções serão, por necessidade, dirigidas para outros horizontes. O que, talvez, seja o melhor para todos.

Amanhã irei ver os cavalos. O exercício é o melhor antídoto para a introspecção excessiva. Se um homem se perde nos seus próprios pensamentos, acaba por perder a capacidade de agir. E a ação é, afinal, o que nos distingue dos que apenas observam a vida passar. Estou decidido. Dayton será o meu centro de operações, e Alice, com o seu riso e a sua juventude, será a prova de que a vida, mesmo quando nos aproximamos da idade em que as sombras se alongam, ainda pode oferecer momentos de uma clareza deliciosa. Não há mal em apreciar o belo, desde que saibamos que o belo não nos pertence, apenas nos visita. E, se for apenas uma visita, tratarei de ser o melhor dos anfitriões.

Entretanto, as preocupações com o condado exigem a minha presença em locais onde a política não é uma distração, mas um dever. O Amble será o meu guia, e Elizabeth, com a sua sabedoria caseira, assegurar-se-á de que não me esqueço das regras da etiqueta social. É curioso como a vida se organiza quando decidimos seguir um rumo, em vez de deixar que o rumo nos guie. Sinto-me, pela primeira vez em muito tempo, com o propósito firme. Se o riso de Alice for um prelúdio para dias mais leves, então que assim seja. Afinal, a seriedade excessiva é apenas uma forma diferente de vaidade. E eu já tive a minha dose de vaidade por uma vida inteira.

Amanhece, e o rio estará calmo. A água, que ontem impelia o barco para longe do nosso destino, estará hoje serena, à espera de ser percorrida. Irei sozinho, pois há momentos em que um homem precisa de medir a sua própria força contra a corrente, sem espectadores, sem o riso de ninguém, apenas o silêncio da manhã e a promessa de um dia que não é, em nada, semelhante ao de ontem. O passado é um país que já visitei; o futuro, esse, ainda tenho de o conquistar. E, com essa certeza, sigo para o novo dia.

Não teria desafiado Maquiavel; mas não teria encontrado o florentino com pesar. Sinto o mesmo deleite agudo pela destreza intelectual. Em alguns pontos, a minha irmã não é um mau adversário para mim. Ela consegue vencer-me sete jogos em doze no xadrez; mas os cinco que ganho são sucessivos, pois então estou desperto. Existe a arte natural e a arte artificial, e a última vence a primeira. Felizmente para nós, as mulheres são estranhas a esta última. Tiveram de tirar uma máscara antes de terem recebido a instrução; assim, quando estão armadas desse modo, sabemos o que enfrentamos e quais as armas a utilizar.

Alice, se é que é uma boa esgrimista, esperará encontrar em mim o comum cavalheiro inglês. Vi-a na pia batismal! É inconcebível. Ela imaginará que é, pelo menos, dez vezes mais subtil do que eu. Quando eu obtiver o domínio — é pouco provável que isso me torne o mestre. O que pode acontecer é que a natureza da rapariga se revele, sob a luz dura da intimidade, vulgar. Farei com que Charles se ausente por seis semanas; assim, haverá tempo suficiente para a prova. Não o verei até que ele regresse. Se por acaso eu tivesse vindo mais cedo para o ver e ele aludisse a ela, teria tido a minha consciência do seu lado, e isso é o que um homem escrupuloso tem o cuidado de evitar.

Pergunto-me se os meus amigos me imaginam como o mesmo homem que conheceram como Gilbert Pollingray há um mês? Vejo a mudança, sinto a mudança; mas não tenho retrospetiva, nem remorso, nem perspetiva de futuro, nem sentimento: nenhum pelos outros, muito pouco por mim mesmo. Dizem-me que estou a perder a fluência como conversador de mesa. Agora, sinto mais sabor num riso prateado do que num espírito condimentado. E este é o homem que conhece as mulheres, e é demasiado modesto para dar uma opinião decidida sobre qualquer um dos seus méritos. Por mais que me perscrute, não consigo dizer quando a mudança começou, ou em que consiste a mudança, ou o que há de errado comigo, ou que encanto existe na pessoa que causa o transtorno. Ela é o homólogo de dezenas de raparigas; viva, de olhos castanhos, cabelos castanhos, malcriada — não é demasiado severo dizê-lo — ligeiramente malcriada; semieducada, se é perspicaz, não me atrevo a opinar. Ela é, sem dúvida, a última que eu ou outra pessoa teríamos escolhido como aquela que me causaria este mal absoluto. Não a conheço, e creio que não me interessa conhecê-la, e estou sedento pela hora em que a estudarei. Não será isto ter o veneno de uma picada no sangue? A ira de Vénus não é uma fábula. Eu era um leitor ávido e desprezava o sexo na minha juventude, antes de as propriedades da família me terem caído nas mãos; desde então, admirei o sexo de forma lúdica; brinquei com uma paixão e não li quase nada, a não ser por diversão: a sua raiva não é uma fábula. Pode interpretar-se muitos contos míticos pelos factos que jazem no nosso próprio sangue. As minhas emoções permaneceram totalmente adormecidas em ligações sentimentais. Suponho que me gabei de ter matado o Pitão, e o Cupido tocou-me com uma flecha. Confio na minha própria perícia, e não na sua misericórdia, para evitar uma segunda da sua aljava. Compreenderei esta rapariga, mesmo que tenha de me submeter a uma estreita intimidade com ela durante seis meses. Não há dúvida quanto à elegância dos seus movimentos. Charles pode muito bem fazer a sua digressão e deixar-nos vê-lo novamente no próximo ano. Sim, os seus movimentos são (ou serão) graciosos. Daqui a um ano, ela terá adquirido os tons mais plenos e a poesia da feminilidade. Talvez então, também, o seu sorriso perdure em vez de cintilar. Conheci mulheres infinitamente mais encantadoras do que ela. Uma, conheci! Mas deixemo-la. Louise e eu dissemos adeus há muito tempo.

CAPÍTULO IV

ELA

Vejam-me instalada na Dayton Manor House, e trazida aqui com o propósito expresso (assim escreveu-me Charles) de ser estudada, para que se veja se sou digna de ser, numa futura e augusta ocasião — possivelmente — um membro (oh, tanto para murmurar!) desta grande família. Se o soubesse quando deixava casa, teria cancelado o atar das minhas malas. Se me permitem, eu faço o empacotamento, e não o atar. Devo praticar ser educada, ou acabarei por horrorizar estas boas pessoas.

Estou mortalmente ofendida. Estou muito, muito zangada. Vou mostrar o meu temperamento. Na verdade, já o mostrei. O Sr. Pollingray deve pensar, e pensa, que sou uma gansa. Caro senhor, e creio que tem razão. Se alguém pretende adivinhar como, tenho nomes apropriados para essa pessoa. Sou uma parva, uma macaca, e note que me chamo a mim própria estas coisas más porque mereço pior. Sou leviana, creio que sou insensível. Charles está fora e não sofro angústias. A verdade é que me julgava excessivamente penetrante, e era a minha vaidade a olhar-se num espelho. Vi algo que respondia aos meus acenos e saudações e... mas estou envergonhada, e tão penitente que poderia começar a fazer uma coleção de escaravelhos. Não consigo levantar a cabeça.

O Sr. Pollingray é um homem tão diferente daquele que eu tinha imaginado! O que esse era, esqueci-o agora por completo. Lembro-me demasiado claramente do que a miserável adivinhadora era. Estive três semanas em Dayton, e se as minhas irmãs me reconhecerem quando voltar à vigararia, não são virgens insensatas. Quanto a mim, sei que odiarei sempre a Sra. Romer Pattlecombe, e que sou injusta para com a boa mulher, mas odeio-a, e penso que as histórias são chocantes, e pergunto-me intensamente o que terá sido aquilo em que pude encontrar motivo para rir. Nunca mais rirei durante muitos anos. Talvez, quando for uma velha, possa. Desejaria que esse tempo já tivesse chegado. Todas as pessoas jovens parecem-me tão desamparadamente tolas. Sou uma delas por enquanto, e não tenho esperança de poder parecer outra coisa. Os jovens são uma multidão — um cardume de peixe miúdo. Os seus mais velhos são a elite do mundo.

Na manhã do dia em que deveria deixar casa para Dayton, uma distância de oito milhas, olhei pela janela enquanto me vestia — por volta das sete e meia — e vi o cavalariço do Sr. Pollingray a cavalo, conduzindo para cima e para baixo pelo caminho um adorável pequeno pónei preto, redondo e gordo, que fez o meu coração dar um salto imenso de desejo por estar sobre ele e partir através das charnecas. E então a criada veio à minha porta com uma carta:

«O Sr. Pollingray, em retribuição pelo seu comportamento atencioso e por lhe ter poupado trabalho oficialmente, pede à sua afilhada que aceite o pequeno animal que a acompanha: altura 14 mãos, idade 3 anos e meio; caça, é de pé firme e provavelmente será o melhor saltador do condado.»

Voei escadas abaixo. Corri para fora de casa e até ao meu tesouro, beijei-lhe o focinho e acariciei-lhe a crina. Não conseguia afastar os meus dedos dele. Os cavalos são tão parecidos com as melhores e mais belas mulheres quando os acariciamos. Demonstram tanto o seu prazer por serem mimados. Curvam os pescoços, levantam as patas e parecem orgulhosos. Aceitam o seu elogio como se fosse luz solar e são adoráveis nele. Beijei a minha beleza, espreitando a sua pele manchada de preto, que é como a charneca de Allingborough ao crepúsculo. O cheiro da sua nova sela e do couro do freio era mais doce do que um jardim para mim. O homem entregou-me um chicote de montaria grande com cabo de prata. Desejei saltar para cima dele e cavalgar até à meia-noite.

Depois, a mamã e o papá saíram e leram o bilhete e olharam para o meu adorável pónei, e as minhas irmãs viram-no e beijaram-me, pois não são raparigas invejosas. A coisa mais angustiante era que não tínhamos um hábito de montaria na família. Eu estava pronta para usar qualquer tipo de coisa. Teria montado como um espantalho em vez de não montar de todo. Mas a mamã deu-me a promessa de que em dois dias um hábito de montaria seria enviado para Dayton, e tive de deixar que o meu animal de estimação fosse levado de volta de onde veio. Não tive vida até estar a segui-lo. Poderia ter acreditado que ele era um príncipe das fadas que me tinha enfeitiçado. Chamei-lhe Príncipe Leboo, porque era preto e bom. Perdoo qualquer pessoa que fale sobre o primeiro amor depois do que tem sido a minha experiência com o Príncipe Leboo.

O que o papá pensou da oferta, não sei, mas sei muito bem o que a mamã pensou: e, quanto a mim, pensei em tudo, não incluindo distintamente isso, pois não poderia supor tal egoísmo num homem tão generoso como o Sr. Pollingray. Mas cheguei a Dayton num estado de orgulho arrogante, que conferia segurança, se não desembaraço, aos meus modos. Agradeci ao Sr. Pollingray calorosamente, mas de uma forma que o deixasse ver que se tratava de uma questão de um cavalo entre nós. «O senhor dá, eu registo os agradecimentos, e ponto final.»

«Ele acha-me uma tola! Uma tola!»

«O meu hábito», disse eu, «vem a seguir a mim. Espero que possamos fazer algumas cavalgadas juntos.»

«Muitas», respondeu o Sr. Pollingray, e a sua vénia inflou-me com ideias da minha própria condescendência.

E porque a Srta. Pollingray (Rainha Isabel, como ele lhe chama) parecia meio triste, eu li isso...! Não escrevo o que li que aquilo significava.

Eis a maior tola de toda a criação feminina conduzida pela casa pelo Sr. Pollingray. Ele mostrou-me os quadros da família.

«Não sou entendida em quadros, Sr. Pollingray.»

«Aprenderá a ver os méritos destes.»

«Temo que não, ainda que os estudasse durante anos.»

«Pode ter essa oportunidade.»

«Oh! Isso é mais do que posso esperar.»

«Desenvolverá inteligência sobre tais assuntos a seu tempo.»

Um golpe surdo e distante atingiu-me com esta observação; mas não lhe dei atenção.

Ele levou-me pelos jardins e pelos terrenos. O Grande John Methlyn Pollingray plantou aquelas árvores e projetou a casa, e o jardim de flores ainda fala da sua tarefa; mas ele não é o meu mestre e, consequentemente, não pude partilhar a veneração dos seus três bisnetos por ele. Há altos bosques de abetos e de faias, e um longo prado estreito e ascendente entre eles, através do qual um ribeiro cai em cascatas contínuas. É o tipo de cenário que amo, pois tem uma grandeza florestal e um isolamento que me leva a pensar e faz de mim uma rapariga melhor. Mas o que eu disse foi: «Sim, é o lugar, acima de todos os outros, para vir e instalar-se para o entardecer dos nossos dias.»

«Não conseguiria adaptar-se a ele agora?» disse o Sr. Pollingray.

«Agora?» A expressão do meu rosto deve ter sido um retrato.

«Sente-se obrigada a recusar tal residência na manhã dos seus dias?»

Ele insistiu em olhar para mim enquanto falava, e senti-me como algo que se torna escarlate.

Estou convencida de que ele viu através de mim, enquanto o seu rosto era de latão polido. O meu autodomínio regressou, pois o meu orgulho não se dissiparia imediatamente.

«Por favor, leve-me às cavalariças», implorei; e lá senti-me em casa. Lá vi o meu Príncipe Leboo e dei-lhe mil carícias.

«Ele já me conhece», disse eu.

«Então ele está alguns graus à minha frente», disse o Sr. Pollingray.

Não será a dissecação fria do caráter de alguém um procedimento cruel? E penso, também, que uma forma de hospitalidade como esta, pela qual sou convidada a ser analisada com calma, é ao mesmo tempo mesquinha e vil. Fui tratada com amabilidade e estou grata, mas continuo a dizer (ainda que possa ter melhorado com isso) que é injusto.

Para prosseguir: chegou a hora do jantar. A atmosfera da sua própria casa parece favorecer o Sr. Pollingray como certos solos e locais favorecem outros. Ele entrou na sala de jantar entre nós com as mãos atrás das costas, conversando connosco a ambas de forma tão fácil e suave, alegre — natural e agradavelmente — inimitável por qualquer jovem! Dificilmente se sente a mudança de sala. Éramos apenas três à mesa, mas não faltou entretenimento. O Sr. Pollingray é um anfitrião admirável; ele fala o suficiente e ajuda-nos a falar. O que me conforta é que lhe dá um prazer real ver um apetite saudável. Os jovens, sei-o com certeza, nunca gostam inteiramente que sejamos tão humanos. Ah! Qual deles terá razão? Não gostaria de perder a fé na nossa essência mais nobre que o Charles tem. Mas, será mais nobre? Alguém que viveu mais tempo no mundo deveria saber melhor, e o Sr. Pollingray aprova a naturalidade em tudo. Tenho visto através dos olhos de Charles há vários meses; tão implicitamente que fico tímida quando sonho em confiar no juízo de outro. É, contudo, um facto que não sou inteiramente natural com o Charles.

Todos os dias o Sr. Pollingray veste-se a rigor para o jantar, em deferência pela irmã. Se os jovens tivessem estes bons hábitos, ganhariam o nosso respeito e perderiam a sua própria autoestima menos cedo.

Depois do jantar, cantei. Depois, o Sr. Pollingray leu-nos um ensaio divertido e retirou-se para a sua biblioteca. A Srta. Pollingray sentou-se e falou-me do irmão e do sobrinho — para quem é que o Sr. Pollingray está a começar a receber visitas e a entrar na sociedade. A carta que recebi posteriormente de Charles explicou o «receber visitas». Eu não conseguia compreendê-lo na altura.

«A casa esteve fechada durante anos, ou raramente habitada por nós durante mais de um mês por ano. O Sr. Pollingray prefere a França. Todas as suas associações, posso dizer as suas simpatias, estão em França. Ultimamente parece ter mudado um pouco; mas da Normandia à Turíngia e ao Delfinado — tínhamos um lar triangular por lá. De facto, ainda o temos. Nunca tenho a certeza do meu irmão.»

Enquanto a Srta. Pollingray falava, os meus olhos estavam fixos num desenho a giz de Vidal, levemente colorido, de uma senhora estrangeira — poderia jurar que era francesa — jovem, bem rapariga, duvido que a sua idade fosse maior que a minha.

«Ela é bonita, não é?» disse a Srta. Pollingray.

«É quase bela», exclamei, e a Srta. Pollingray, vendo a minha curiosidade, teve a bondade de não me manter em suspenso.

«Essa é a Marquise de Mazardouin — nascida Louise de Riverolles. Verá outros retratos dela na casa. Este é o mais juvenil deles, se excetuar um que a representa bebé e que ostenta as suas iniciais.»

Lembrei-me de ter notado uma semelhança de traços em alguns dos retratos nas diferentes salas. O meu desejo de os olhar novamente era como um jato repentino de chama dentro de mim. Não havia hipótese de os ver até de manhã; por isso, prometendo a mim mesma sonhar com o rosto que tinha diante de mim, adormeci durante uma conversa com a minha anfitriã, até ter os olhos, o cabelo e o contorno geral da senhora francesa gravados com precisão, como esperava, na minha mente. Mal estava a caminho da cama, tudo se desvanecera. O tormento de tentar conjurar aquele rosto era inconcebível. Deitei-me, debati-me, virei-me para a direita e para a esquerda, e espantei o meu sono; mas, pouco a pouco, os meus pensamentos voltaram ao Sr. Pollingray e então, como tinta simpática exposta ao calor, vi-a novamente; mas vividamente, como ela devia estar quando posava para o artista. O cabelo era naturalmente encrespado, ondulando três vezes sobre a testa e escovado bem para trás das têmporas, mostrando as pequenas orelhas, e atado num nó frouxo atrás. As suas sobrancelhas eram espessas e escuras, mas suaves; sobrancelhas fluidas; muito mais encantadoras, a meu ver, do que qualquer arco desenhado a lápis. Olhos escuros, e cheios, não proeminentes. Encontro pouca expressão de sentimento interior em olhos muito proeminentes. Pelo contrário, parecem ter uma dependência de peixe no olhar sobre o que está fora, e mostram profundidades de peixe, se é que as têm. Por exemplo, os meus olhos são bastante proeminentes, e sou apenas a pequena tola — mas a senhora francesa é o meu tema. Madame la Marquise, os vossos olhos são mais doces para mim do que os celestiais. Nunca vi tamanha candura e inocência não afetada em olhos antes. Aceitai o elogio da pauvre Anglaise. Fizestes maldades com eles? O esboço delicado de Vidal fez-vos justiça? Os vossos lábios e queixo e o vosso pescoço repousam todos em tanta graça juvenil, que se algum dia tiver a sorte de vos ver, não envelhecereis para mim!

Dormi e sonhei com ela.

De manhã, senti-me certa de que ela tinha dito muitas vezes: «Mon cher Gilbert», ao Sr. Pollingray. Terá ele alguma vez dito: «Ma chère Louise»? Ele poderia ter dito: «Ma bien aimée!», pois era um rosto para ser amado.

A minha mudança de sentimento em relação a ele data dessa manhã. Ele tinha-me parecido, anteriormente, um homem muito mais velho. Percebi nele agora uma juventude para lá do mero vigor do corpo. Não conseguia separá-lo dos meus sonhos da noite. Ele insiste em tratar-me pelos termos da nossa relação «oficial», como se fizesse disso um princípio do nosso convívio.

«Bem, e o seu padrinho deve congratulá-la por ter tido um descanso tranquilo?», foi a sua saudação.

Respondi estupidamente: «Oh, sim, obrigada», e teria dado mundos pela coragem de responder em francês, mas desconfiava do meu sotaque. Ao pequeno-almoço, a oportunidade, ou melhor, o pretexto para uma tentativa, foi oferecida. O seu criado francês, François, serve-o ao pequeno-almoço. O Sr. Pollingray e a sua irmã pediram coisas na língua francesa e, como se temesse alguma quebra de civilidade, o Sr. Pollingray perguntou-me se eu sabia francês.

«Sim, sei; isto é, compreendo-o», gaguejei. «Allons, nous parlerons français», disse ele. Mas balancei a cabeça e permaneci como uma muda tola.

Fui induzida, perto do fim da refeição, a dizer algumas palavras em francês. Estava completamente envergonhada. O Sr. Pollingray adquiriu a maneira francesa de protestar que se é quase perfeita na fala. Sei quão absurdo deve ter soado. Mas senti a sua amabilidade, e no meu coração agradeci-lhe humildemente. Acredito agora que uma residência em França não deteriora um inglês. O Sr. Pollingray, quando na sua própria casa, tem as melhores qualidades dos dois países. Ele é alegre, e, sim, enquanto ele faz um estudo de mim, eu estou a fazer um estudo dele. Qual de nós dois conhecerá o outro primeiro? Ele era amigo de faculdade do papá — o júnior do papá, claro, e infinitamente mais júnior do papá agora. Observo essa fraqueza nele, quero dizer, o seu apego à juventude, cada vez menos; mas vejo-a, não posso estar totalmente enganada. A verdade é que começo a sentir que não me posso aventurar a desconfiar do meu juízo infalível, ou não terei confiança alguma em mim própria.

Depois do pequeno-almoço, fui entregue à Srta. Pollingray, com a indicação de que não o veria até ao jantar.

«O Gilbert está ansioso por cultivar a companhia dos seus vizinhos ingleses, agora que, como supõe, realmente se estabeleceu entre eles», comentou ela comigo. «Na sua idade, o desejo de ser útil é quase uma doença. Mas ele acarinha os pobres, e isso é mais do que uma ocupação, é uma virtude.»

A sua fala tornou-se ocasionalmente francesa na construção das frases.

«Mais oui», disse eu timidamente, e estando sozinha com ela, não fui repelida pelo seu sorriso, especialmente porque ela me encorajou a continuar.

«Vou ver um monde de franceses aqui em setembro», disse-me ela. Portanto, a minha história há de completar-se ou continuar em setembro. Não consegui que a Srta. Pollingray me dissesse claramente se Madame la Marquise será uma das convidadas. Mas sei que ela não é viúva. Nesse caso, tem marido. Nesse caso, qual é a história das suas relações com o Sr. Pollingray? Tem de haver alguma história. Ele certamente não teria tantos retratos dela pela casa (e viajam com ele onde quer que vá) se ela fosse para ele apenas um rosto adorável. Não consigo compreender. Eram visitantes frequentes, constantes, das propriedades um do outro em França; sempre juntos. Talvez um homem da idade do Sr. Pollingray, ou talvez M. le Marquis — e aqui perco-me. Os hábitos franceses são tão diferentes dos nossos. De uma coisa estou certa: não se pode fazer qualquer acusação contra o meu inglês. Leio uma retidão perfeita no seu rosto. Lançaria âncora junto dele. Ele deve ter tido uma infelicidade terrível.

A mamã cumpriu a sua promessa ao enviar o meu hábito de montaria e chapéu pontualmente, mas eu tinha ido muito além de todos os desejos que formara quando saí de casa, e temia, a meio, o meu passeio a cavalo com o Sr. Pollingray. Isso foi antes de ter recebido a carta do Charles, informando-me do objeto do meu convite aqui. Preciso por vezes de um orgulho mórbido para me manter à altura do trabalho. Suponho que montei de forma adequada, pois o Sr. Pollingray elogiou a minha postura no cavalo. Sei que sei montar, ou sentir o «ímpeto de um cavalo como o meu» — como ele lhe chama. Contudo, ele nunca poderia ter tido uma companhia mais aborrecida. A minha conversa era toda feita de sim e não, como se caminhasse com um par de muletas como uma miserável coxa. Senti-me humilhada e vexada. Durante todo o tempo, tentava conduzir o assunto para a dama francesa, e não conseguia começar com uma única pergunta. Ele parece ter realmente cancelado o passado em todos os aspetos, exceto o de me chamar afilhada. A sua conversa era sobre os pobres ingleses, e a vegetação, e a bondade do papá para com as suas velhas senhoras na paróquia de Ickleworth, e defeitos na minha educação admitidos por mim, mas com poucas probabilidades de me restaurar no meu estado de depressão. O passeio foi lindo. Percorremos a extensão de uma crista de doze milhas entre Ickleworth e Hillford, sobre charnecas elevadas, com vistas imensas de ambos os lados, e através de bosques de faias, bosques de carvalhos, e vales cobertos de tojo e colinas salpicadas de zimbros e teixos — antigos locais de piquenique meus, mas o entusiasmo renovado do Sr. Pollingray pela paisagem fez com que parecessem novos e estranhos. Regresso pelo vale.

No dia seguinte, a Srta. Pollingray juntou-se a nós, usando um feutre gris e pluma verde, o que parecia extremamente estranho até nos habituarmos. O seu cabelo tem madeixas grisalhas marcadas, e isso, e o nariz da Rainha Isabel, e o feutre gris! — mas ela é tão bondosa que eu nem consegui sorrir no meu íntimo. É singular que o Sr. Pollingray, que é apenas três anos mais novo do que ela, pareça pelo menos vinte anos mais novo — no mínimo. O seu bigode e barba são da cor de um feixe de milho, e os seus olhos azuis a brilhar por cima deles lembram-me o verão. Isso descreve-o. Ele é o verão, e ainda não caiu no seu outono. A Srta. Pollingray ajudou-me a falar um pouco. Tentou conter o entusiasmo do irmão pela nossa paisagem e exaltou o paysage francês. Ele riu-se dela, pois quando estavam em França era ela quem costumava dizer: «Não há nada aqui como em Inglaterra!» A Srta. Tola cavalgou entre eles atenta ao tilintar dos guizos na sua touca: «Sim» e «Não» ao comando de qualquer pessoa, fora e dentro de época.

Obrigada, Charles, pela tua carta! Começava a achar o meu convite para Dayton inexplicável, quando essa carta chegou. Não posso deixar de considerar uma baixeza indigna atrair uma rapariga para a estudar sem a avisar. Subi para o meu quarto depois de a ter lido e escrevi em resposta até o sino do pequeno-almoço tocar. Retomei a minha ocupação uma hora depois e escrevi até à uma da tarde. Ao todo, quinze páginas de escrita, que dobrei cuidadosamente e enderecei ao Charles; selei o envelope, selo-o e destruí-o. Fui para a cama. «Não, não vou montar hoje, tenho uma dor de cabeça!» Repeti isto cerca de meia dúzia de vezes para ninguém que batia à porta, e quando finalmente alguém bateu, tentei repeti-lo uma vez, mas tendo a mensagem de que o Sr. Pollingray desejava particularmente a minha companhia num passeio, levantei-me submissamente e chorei. Esta humilhação tornou o meu temperamento feroz. O Sr. Pollingray observou o meu rosto e apontou-o no seu caderno. «Uma disposição selvagem», ou, não, «Uma pequena rebelde indomada»; pois ele tem esperanças em mim. Teve a crueldade de o dizer.

— O que sou, permanecerei — disse eu.

Ele informou-me de que era perfeitamente natural para mim pensar assim; e, ao responder-lhe que as pessoas deviam conhecer-se melhor a si mesmas: «Na minha idade, talvez», disse ele, e acrescentou: «Não posso falar muito confiantemente sobre o meu conhecimento de mim mesmo.»

— Então faz de nós algo que não passa de marionetas, Sr. Pollingray.

— Se perdemos uma aprendizagem precoce do hábito do autodomínio, ma filleule.

— Merci, mon parrain.

Ele riu-se. O meu francês, suponho eu.

Determinei que, se ele queria estudar-me, eu ajudá-lo-ia.

— Posso dominar-me quando escolho, mas é apenas quando escolho.

Isto pareceu-me um discurso bastante razoável, até o ver à procura de algo que se seguisse, como explicação, e ao analisar o meu significado, vi que era temperamento, e tornando-me mais zangada, continuei:

— O tipo de jovens que tem esse domínio maravilhoso sobre si mesmos não é o mais agradável.

— Não — disse ele —; eles dececionam-nos. Esperamos loucura dos jovens.

Fechei os lábios. O Príncipe Leboo sabia que tinha de ir, e um bom galope reconciliou-me com as circunstâncias. Depois fui posta a saltar pequenos tojos e valas, o que ninguém pode fingir fazer sem uma aparência razoável de alegria; pois, enquanto se corre o risco de uma queda, é-se compelido a parecer alegre e feliz, pelo menos, eu sou. Cair franzindo o sobrolho nunca resultará. Não tive nenhuma queda. O meu galante Leboo fez o meu coração saltar de amor por ele, embora pedras de moinho estivessem atadas a ele. Posso ficar vexada quando começo, mas logo cavalgo para longe de um mau temperamento. E ele é meu! Sou certamente inconstante para com o Charles, pois penso no Leboo cinquenta vezes mais. Além disso, ainda não existe noivado entre o Charles e mim. Tenho primeiro de ser aprovada como digna pelo Sr. e pela Srta. Pollingray: dois pares de olhos e ouvidos, sobre os quais vejo uma coruja solenemente aveludada sentada, a estudar os seus relatórios sobre mim. É uma provação muito cruel a que se submete qualquer jovem inexperiente. Foi concebida duramente e está a ser executada impiedosamente. Queixar-me-ia mais alto — em gritos — se pudesse dizer que era infeliz; mas todas as noites olho pela minha janela antes de ir para a cama e vejo as longas quedas do rio infante através do prado, e os bosques escuros a parecerem encerrar a casa de qualquer dano: sonho com o antigo habitante, os seus antepassados, e as quantidades e quantidades de primaveras em que as flores silvestres floresceram naqueles bosques e os rouxinóis cantaram lá. E sinto que nunca haverá um lar para mim como Dayton.

CAPÍTULO V

ELE

Durante vinte anos da minha vida, abracei o fantasma da mulher mais bela que alguma vez respirou. Submeti-me aos seus caprichos, adorei os seus pés, tenho, creio eu, fortalecido os seus princípios. Fiz tudo na minha devoção, exceto adotar a sua fé religiosa. E, como confiei há algum tempo, despertei para perceber que esses vinte anos foram um período de mero passatempo sentimental, perfeitamente inútil, infrutífero, a menos que, como é possível, me tenha salvado de outras loucuras. Mas foi uma loucura em si mesma. Pode a natureza de alguém ser demasiado constante? A questão de saber se uma pitada de frivolidade pode não ser uma salvaguarda já me surgiu muitas vezes. A verdade, devo aprender a pensar, é que a minha capacidade mental não está à altura da minha apreensão ideal ou sentimental e da minha tenacidade inata de apego. Caí num dos poços de um homem bem-intencionado, mas ocioso. O mundo desacredita a existência do platonismo puro no amor. Eu próprio mal consigo olhar para trás, para esses vinte anos de servilismo amoroso, com uma compreensão plena do papel que tenho desempenhado neles. E, no entanto, não abriria mão voluntariamente da exultante admiração de Louise pela minha constância: tão pouco voluntariamente quanto teria arriscado a sua pureza. Agarro-me ao passado como a algo em que mereci bem, embora mal esteja satisfeito com ele. De acordo com as nossas noções inglesas, conheço o meu nome. As noções inglesas, contudo, não devem ser aceites em todos os assuntos, tal como a declaração direta de um facto não o desenvolverá em todas as suas vertentes. Quando a nossa sociedade inglesa tiver avançado para uma civilização elevada, será menos expansiva a denunciar as estupidezes mais elevadas. Entre nós, grande parte do julgamento social de Bodge sobre as relações entre homens e mulheres é a opinião estereotipada da terra. Existe o ditame aqui para um homem que adora uma mulher que é possuída por um marido. Se ele a adorou durante muito tempo, e soube que era preferido por ela na inocência de coração; se ele resolveu o problema de ser o senhor do seu peito, sem vilmente tentar degradá-la a ser sua amante; os epítetos para o caracterizar no nosso vernáculo serão provavelmente tanto menos lisonjeiros. Politicamente, somos o povo mais autoconsciente da terra, e socialmente, os animais mais francos. O terrorismo das nossas leis sociais é eminentemente útil, pois sem ele, animais tão francos como nós poderíamos cair em maus excessos. Julgo mais pela prova abstrata do que pelos exemplos que as nossas belas matronas dão aos estrangeiros espantados quando estão no estrangeiro.

Louise escreve que o seu marido está paralisado. O Marquês de Mazardouin está finalmente a provar da sua mortalidade. Recordo-me do dia em que ele casou com ela. Ela diz que ele se entregou ao conselho sacerdotal, e, como uma mulher, ela elogia-o por isso. É a única coisa que não fiz para a agradar. Ela antecipa o seu falecimento. Se ela ficasse livre — o que então? O meu coração não bate mais depressa com o pensamento. Há vinte anos sobre ele, e constituem um grande fardo. Mas tenho o desejo de que ela venha ter connosco. A velha loucura poderia resgatar-me da nova. Não que eu seja mais perseguido pelo medo de que estou em perigo iminente aqui. Estabeleci um domínio adequado sobre a minha jovem. «Nous avons changé de rôle». Alice está submetida; ri-se debilmente, está a tornar-se consciente — um facto a lamentar, se eu desejasse verificar o crescimento da criatura. Existe uma vasta capacidade na rapariga. Ela claramente não centrou os seus afetos no Charles, de modo que a consciência de um homem poderia estar tranquila se — se ele escolhesse ignorar o que é devido à decência. Mas, por que, quando eu o contesto, me curvo à opinião do mundo sobre a disparidade de idades entre marido e mulher? Conheço inúmeros casos de um marido velho a fazer uma mulher jovem feliz. O meu amigo, Dr. Galliot, casou-se com a sua pupila, e ele teve a melhor esposa de qualquer homem do meu conhecimento. Ela tem publicado os seus manuscritos eruditos desde a sua morte. Esse é um caso extremo, pois ele era quarenta e cinco anos mais velho do que ela, e estava careca no altar. O velho General Althorpe casou-se com Julia Dahoop, e, não fosse o seu ciúme absurdo dela, poderia ser citado como prova de que os cálculos ordinários não devem ser um jugo no pescoço de alguém que procura seriamente casar com uma companheira adequada, embora tarde na vida. Mas, o que são cinquenta anos? Marcam o auge da existência de um homem saudável. Ele já viu o mundo a essa altura, pode decidir, e estabelecer-se, e é virtualmente mais elegível — para usar a frase de gíria dos mexeriqueiros — do que um homem jovem, mesmo para uma rapariga jovem. E não poderá uma recompensa bela e fresca ser justamente reclamada como a coroa de uma carreira virtuosa?

Digo tudo isto, contudo o meu sentimento real é como se eu estivesse careca como o Dr. Galliot e ciumento como o General Althorpe. Pois, com o meu conhecimento profundo de mim mesmo, se eu fosse como qualquer um deles, não me teria oferecido à mercê de uma mulher jovem, ou do mundo. Nem, tal como sou e sei que sou, me ofereceria à mercê de Alice Amble. Quando a minha afilhada entrou pela primeira vez em Dayton, ela tinha algumas ideias singularmente audazes. Essas perceções femininas jovens e vivas e imaginações indomadas são coisas desesperadas de enfrentar. Não há nada fora do seu alcance. A nossa segurança contra elas reside no facto de estarem sempre a ver demasiado, e a imaginar demasiado selvaticamente; de modo que, com uma pequena ajuda da nossa parte, podem ser ensinadas a desconfiar de si mesmas; e quando uma vez tiverem desconfiado de si mesmas, não precisamos depois de as temer: a sua vitalidade sobrenatural desapareceu. Imagino a minha bonita Alice neste estado agora. Ela deixa-nos amanhã. No outono tê-la-emos connosco novamente, e Louise examiná-la-á compassivamente. Desejo que se encontrem. Dificilmente será justo para a rapariga inglesa, mas, se eu me colocar na brecha entre elas, convocarei uma quantidade não pequena de sentimento compatriota adormecido. A contemplação do contraste, também, pode salvar-me de ambas: como o asno da lógica com os dois fardos de feno de cada lado dele.

CAPÍTULO VI

ELA

Estou em casa. Nunca houve ninguém que se sentisse tão estranha no seu lar. Não faz um mês que deixei as minhas irmãs, e dificilmente me lembro de as conhecer. Todas elas, e até o papá, parecem estar a pensar em coisas tão mesquinhas. Queixam-se de que não lhes conto nada. O que tenho para contar? O meu Príncipe! o meu próprio Leboo, se eu pudesse deitar-me na baia contigo, então sentir-me-ia completamente feliz! Isto é, se pudesse adormecer. Evelina declara que não estamos a oito milhas de Dayton. Parece-me que estou a oito milhões de milhas de distância, e passarei toda a minha vida a viajar ao longo de uma estrada cansativa para lá chegar novamente apenas por um longo dia de sol. E poderia chover quando lá chegasse, afinal! O meu problema ninguém o conhece. Ninguém conhece nada!

Na noite anterior à minha partida, a Srta. Pollingray deu-me a honra de me acompanhar até ao meu quarto. Falou-me de forma inquisitiva sobre o Charles; mas não exigiu respostas comprometedoras. Ela não é a favor de casamentos precoces, por isso deseja apenas saber em que pé estamos: o de amigos. Assegurei-lhe que éramos simplesmente amigos. «É a base mais firme de um apego», disse ela; e não pareci apressada.

Mas alcancei o meu objetivo. Levei-a a falar da bela Marquesa. Este é o conto. O Sr. Pollingray, quando era um homem muito jovem, e comparativamente pobre, foi a França com boas apresentações, e lá viu e apaixonou-se por Louise de Riverolles. Ela correspondeu à sua paixão. Se ele tivesse consentido em abjurar a sua religião e adorar com ela, Madame de Riverolles, a sua mãe, teria ouvido as suas súplicas. Mas Gilbert foi firme. O Sr. Pollingray, quero dizer, recusou-se a abandonar a sua fé. A mãe dela, consequentemente, não interferiu, e o Monsieur de Riverolles, o seu pai, deu-a ao Marquês de Marzardouin, um jovem nobre libertino, imensamente rico, e chocantemente dissipado. E ela casou com ele. Não, não consigo compreender as raparigas francesas. Faça eu o que fizer, é bastante incompreensível para mim como a Louise, amando outro, pôde sofrer ao ser enfeitada com galas nupciais e ir ao altar e prestar os votos matrimoniais. Nem se a perdição tivesse ameaçado eu me teria submetido. Tenho a sensação de que o Sr. Pollingray devia ter mostrado pelo menos um ano de ressentimento por tal conduta; e ainda assim admiro-o pelo seu perdão generoso e imediato para com ela. Foi paternal. Ela foi casada aos dezasseis anos. O seu perdão foi o fruto dos seus poucos anos de senioridade, disse a Srta. Pollingray, cuja opinião sobre a Marquesa não consigo apurar. De qualquer modo, têm sido amigos verdadeiros e calorosos desde então, trocando constantemente visitas. É por isso que o Sr. Pollingray tem sido mais francês do que inglês durante esses longos anos.

A Srta. Pollingray concluiu perguntando-me o que pensava da história. Eu disse: «É muito estranho; os hábitos franceses são tão diferentes dos nossos. Atrevo-me a dizer... espero..., talvez... de facto, o Sr. Pollingray parece feliz agora.» A ideia que ela deve ter da minha inteligência é que é da ordem das alunas de escola — um recetáculo perfeito para impressões indefinidas.

— Ah! — disse ela. — O Gilbert já queimou o seu coração até às cinzas a esta altura.

Dormi com essa frase no meu cérebro. De manhã, levantei-me e vesti-me, a sonhar. Quando estava a rodar o puxador da minha porta para descer para o pequeno-almoço, subitamente voltei-me num ataque de lágrimas. Era tão piedoso pensar que ele tivesse esperado por ela vinte anos num sofrimento lento, o seu coração a queimar-se, sem uma recriminação ou uma queixa. Vi-o, ainda o vejo, como um mártir.

— Algumas pessoas — disse a Srta. Pollingray — permitiram-se pensar mal da dedicação assídua do meu irmão a uma mulher casada. Não há uma mancha no seu caráter, ou no da pessoa a quem o Gilbert amou.

Acreditaria nisso contra a calúnia. Apegava-me à minha crença nele se estivesse a afogar-me.

Considero que esses vinte anos não são nada, se ele escolhe que o sejam. Ele tem vivido embalsamado numa afeição santa. Não é de admirar que se considere ainda jovem. Tem o direito de sentir que o seu futuro está à sua frente.

Nenhuma quantidade de lavagem faria com que as manchas desaparecessem das minhas horríveis pálpebras vermelhas. Escorreguei para o meu lugar à mesa do pequeno-almoço, sem saber que uma das criadas tinha deixado cair uma carta do Charles na minha mão, e que eu a tinha aberto e a segurava aberta. A carta, como descobri depois, dizia-me que o Charles recebeu uma ordem do seu tio para ir à propriedade do Sr. Pollingray em Dauphiny a negócios. Não lamento que eles tenham suposto que eu era estúpida o suficiente para chorar com o pensamento de o Charles atravessar o Canal. Eles imaginaram-no, eu sei; pois, pouco depois, a Srta. Pollingray sussurrou: «Les absents n’auront pas tort, cette fois, n’est-ce-pas?» E o Sr. Pollingray foi cruelmente gentil: um ar de «Eu não me intrometeria em tais emoções»; e eu aumentei as suas ilusões tanto quanto pude: não havia outra maneira de explicar o meu rosto de pantomima. Por que haveria ele de imaginar que eu sofria tão terrivelmente? Ele falou com uma alegria excitada destinada a aliviar-me, é claro, mas não havia justificação para ele me considerar uma espécie de rapariga de balada apaixonada e melancólica. Fez com que ele adotasse também uma maneira — como lhe chamar, não consigo pensar: respeito terno, consideração frígida, qualquer coisa que acompanha e pertence ao aperto da sua mão com as pontas dos dedos. Ele disse adeus tão ternamente que eu teria beijado a sua manga. O esforço para me conter tornou-me como um pingente de gelo. Oh! adeus, mon parrain!

ASTRAEA: E o Sr. Arden?

LYRA: O Sr. Arden é o terceiro. O tio Homeware disse-me que o terceiro é sempre o de sorte, ou o de azar, conforme a vontade da senhora. Ele tem um olhar que nos faz sentir que a nossa defesa é um vidro muito fino.

ASTRAEA: Um vidro que ele se recusa a partir.

LYRA: Talvez porque goste da transparência. Mas, minha querida, se o Sr. Arden é o terceiro, isso significa que ele está sob a proteção da tua estranha estratégia. O que é que ele quer, afinal?

ASTRAEA: A mesma coisa que os outros, Lyra. Quer que eu admita que a minha "viuvagem dedicada" é uma ficção. Quer que eu me torne, como diz o Professor Spiral, um membro da "multidão que se aglomera" nos altares.

LYRA: E o que lhe dizes tu?

ASTRAEA: Digo-lhe que a minha vida é um capítulo que não precisa de um segundo volume. Digo-lhe que o Professor Spiral tem razão, ainda que a sua voz me irrite. A dignidade de uma mulher não está na sua capacidade de substituição, mas na sua constância.

LYRA: Constância! Astraea, és jovem demais para seres um monumento. Um monumento é o que se coloca sobre o túmulo de alguém, não o que se torna o túmulo de si próprio enquanto ainda respira.

ASTRAEA: Não me censures. Preferias que eu fosse como tu, que te escondes pelos caminhos para não seres encontrada pelo marido?

LYRA: Prefiro ser uma fugitiva a ser uma estátua. Pelo menos, a fuga mantém-me viva. O teu Professor Spiral não te quer viva, ele quer-te como um exemplo de virtude petrificada para enfeitar o seu jardim de ideias.

ASTRAEA: Talvez. Mas o Sr. Arden... ele não fala como o Professor. Ele não se serve de orações. Ele apenas observa, e a sua observação é mais perigosa do que qualquer discurso.

LYRA: Ah! O perigo tem o seu encanto, não é? Vamos, o almoço deve estar servido, e o teu admirador estará lá, à espera de uma palavra que tu, na tua "dedicada" sabedoria, lhe vais negar.

ASTRAEA: Vamos. Mas, por favor, não deixes que o Pluriel te encontre. Não suportaria ver a tua liberdade ser capturada hoje.

LYRA: Se ele aparecer, direi que estou a aprender contigo a arte de ser uma viúva. Ele não saberia o que fazer com uma mulher que não se deixa possuir nem pelo afeto nem pelo hábito.

ASTRAEA: Eu não partilho dessa opinião. Ele é o menos respeitoso quanto aos sentimentos que nutro. Por favor, poupa-me à menção do seu nome, tal como fazes com o do teu marido. Ele possui aquela vaidade lamentável nos homens, que os leva a pensar que uma mulher tem necessariamente de ser suscetível à declaração da mera existência da sua paixão. Ele está além de qualquer argumento. É-lhe impossível conceber que uma mulher tenha uma mente superior às condições do seu sexo. Uma mulher, segundo ele, não pode ter nenhum ideal de vida, exceto como uma bola para ser lançada ao ar e apanhada numa taça. Deixa-o de lado... Nós, criaturas, estamos condenadas ao casamento e, se o evitamos, somos uma espécie de aleijadas. Ele é grosseiramente terreno na sua visão sobre nós. Somos incapazes de dar um passo em pensamento ou ato a menos que nos submetamos a ter um marido. Esse é o seu raciocínio. Natureza! Natureza! Tenho de ouvir falar da Natureza! Devemos estar acima da Natureza, digo-lhe eu, ou estaremos muito abaixo dela. Ele é classificado entre os nossos jovens inteligentes; e pode ser divertido. Até aí ele passa no teste; e tem uma voz agradável. Atrevo-me a dizer que é o bom tipo de rapaz do tio Homeware. As raparigas gostam dele. Por que não fixa ele a sua atenção numa delas? Por que em mim? Desperdiçamos o nosso tempo a falar dele... O segredo é que ele não tem reverência. O casamento que ele vangloria é um mero arranjo conveniente para dois viverem juntos sob o comando da natureza. A reverência pelo estado do matrimónio é-lhe desconhecida. Como explicar o meu sentimento? Sou levada ao silêncio. Deixa de falar dele... Ele é o joguete da sua eloquência — a sua paixão, chama-lhe ele. Só tenho de me confiar a ele e... serei uma das mulheres casadas do mundo! As palavras são inúteis. Como hei de fazê-lo ver que sou eu quem respeita o estado do matrimónio ao recusar; e não ele, ao solicitar perpetuamente. Uma vez casada, casada para sempre. Viúva é apenas um termo. Quando as mulheres impuserem o seu valor contra ele, como eu fiz, serão mais estimadas. Resisti e venci. Lamento não partilhar da opinião do teu favorito.

LYRA: O meu?

ASTRAEA: Falaste dele com entusiasmo.

LYRA: Com entusiasmo, foi?

ASTRAEA: Não és culpada, minha querida: ele tem um jeito cativante.

LYRA: Considero-o um jovem varonil, bastante esperto; bonito também.

ASTRAEA: Oh, ele tem boa aparência.

LYRA: E juízo, segundo dizem.

ASTRAEA: Para o trabalho do mundo, sim.

LYRA: Não romântico.

ASTRAEA: Ideias românticas são para sonhadoras que sorriem tolamente.

LYRA: As amazonas repudiam-nas.

ASTRAEA: Ri-te de mim. Passo metade do meu tempo a rir de mim mesma. Recuperaria o meu orgulho se pudesse decidir-me por um passo. Sou forte para resistir; não tenho força para me mover.

LYRA: Vejo a esfinge do Egito!

ASTRAEA: E, durante todo este tempo, sou uma fábrica de pólvora neste silencioso círculo de Sabbath do velho mundo, de almas queridas e boas, com as suas interjeições estereotipadas e orquestra de entusiasmos; as suas delicadezas afuniladas: o regozijo que sentem na sua concordância comum sobre todas as coisas criadas. Para eles, é repousante. A mim, impele-me a fugir dos quartos, cadeiras, camas e casas. Mal durmo um par de horas. Depois, para o ar da manhã cedo, para fora com os pássaros; não conheço outro prazer.

LYRA: Trabalho hospitalar como variação: civil ou militar. O primeiro envolve o cirurgião da casa; o segundo, o tenente grato.

ASTRAEA: Não se uma mulher puder resistir... Vou para lá com armadura de prova.

LYRA: O que diz a Dama?

ASTRAEA: Suspira por mim! Apenas um pouco enlouquecedor de ouvir.

LYRA: Quando sentimos que temos a força de gigantes e somos mandadas sentar e sorrir! Devias soltar alguns dos nossos velhos juramentos inocentes de jardim com ela — "Cravo! Dama!" Isso costumava fazê-la dançar no assento. — "Mas, querida Dama, é um impulso tão natural para as mulheres terem esse alívio como para os homens; e o natural acaba por sair, begónia! Ele sai!" Percorríamos o livro de Botânica à procura de objurgas diabólicas. Acredito mesmo que a nossa má conduta causou que fôssemos entregues ao bom homem no altar como o corretivo certo. E tu eras a pior infratora.

ASTRAEA: Fui? Poderia sê-lo agora, embora seja uma criatura tão mudada.

LYRA: Tu desfrutas dos estudos com o teu Spiral, vamos!

ASTRAEA: O professor Spiral é o único cavalheiro honesto aqui. Ele presta homenagem aos meus princípios. Nunca fui incomodada por ele: sem dicas tolas ou olhares de lado — sabes, o cão perante o osso proibido.

LYRA: Um grande orador.

ASTRAEA: Ele é. Tu fixas-te no menor dos seus dons. Ele é intelectual e moralmente superior.

LYRA: Elogios desse tipo fazem-me inclinar a preferir os seus inferiores. Ele devorou com sofreguidão os teus sopros de incenso. Eu tossi e raspei o cascalho; completamente em vão; ele batia a pedir mais e mais.

ASTRAEA: O professor Spiral é um pensador; é um sábio. Ele dá às mulheres o que lhes é devido.

LYRA: E ele é solteiro também — ou consequentemente.

ASTRAEA: Se quiseres, podes ser tão brincalhona comigo como a Lyra dos nossos tempos de donzela costumava ser. Minha querida, minha querida, como estou feliz por te ter aqui! Lembras-me que outrora tive um coração. Ele baterá de novo contigo ao meu lado, e contarei contigo para proteção. Um pedido novo da minha parte. Contra o incómodo, quero dizer. Isso alterou completamente o meu caráter. Às vezes tenho medo de pensar no que fui, para não começar subitamente a brincar, a fazer piruetas e a gritar "Cravo!". Aí está a campainha. Não devemos chegar tarde quando o professor se digna a sentar-se para as refeições.

LYRA: Isso soa saudavelmente no professor.

ASTRAEA: Braço dado, minha Lyra.

LYRA: O Pluriel ainda não!

(Entram na casa, e o tempo muda para a noite do mesmo dia. A cena ainda é o jardim.)

CENA VI

ASTRAEA, ARDEN

ASTRAEA: Perdoa-me se não te ouço bem.

ARDEN: Nem sequer pensarei que és bárbara.

ASTRAEA: Sou. Sou o objeto da caça.

ARDEN: Então o caçador vasculha o bosque, e não tu.

ASTRAEA: A qualquer instante sou forçada a correr, Ou a virar-me na minha defesa: como posso ser Outra coisa senão bárbara? Tu és a causa.

ARDEN: Não: o céu que te fez bela é a causa.

ASTRAEA: Dize, a terra, que te deu instintos. Traz-me para baixo Aos instintos! Quando por acaso falo um pouco Com o nosso professor, apareces à pressa, A pleno grito para avistar de novo a lebre perdida. Longe, ideias! Tudo o que é mais divino voa! Tenho de ter em mente quão jovem tu és.

ARDEN: Só tens de olhar para mim quatro anos, Em vez de quarenta!

ASTRAEA: Senhor?

ARDEN: Eis a minha desventura! E pior que isso, jovem, amo como um homem jovem. Se pudesse extinguir o fogo, talvez pudesse ocultar A juventude que tanto te ofende.

ASTRAEA: Gostaria que o fizesses. Gostaria sinceramente.

ARDEN: Impossível. Eu ardo.

ASTRAEA: Não devias arder.

ARDEN: É mais do que eu. É fogo. Domina a vontade. Não dirias que não devia se conhecesses o fogo. Ele apodera-se. Devora.

ASTRAEA: Madeira seca.

ARDEN: Frio engenho! Quão fria consegues ser! Mas sê fria, pois doce Tens de ser. E os teus olhos são meus: com eles Vejo-me a mim mesmo: indigno de usurpar O lugar que ocupo por um momento. Enquanto olho Tenho a minha felicidade.

ASTRAEA: Devias olhar mais alto.

ARDEN: Através de ti para o mais alto. Só através de ti! Através de ti O alvo que posso alcançar torna-se visível, E tenho força para sonhar em conquistá-lo. Tu és o arco que impele a flecha: tu O vidro que traz a distância para perto. O meu mundo É luminoso através de ti, puramente celestial, Mas pende na folha exterior da rosa, Não junto ao seu coração. Astraea! Minha própria amada!

ASTRAEA: Podemos ser excelentes amigos. E eu tenho defeitos.

ARDEN: Nomeia-os: estou faminto por mais para amar.

ASTRAEA: Hesito muito constantemente: não tenho Nenhuma fixidez de sentimento ou de visão. Não tenho coragem: posso muitas vezes sonhar Em ousar: quando acordo, estou em pavor. Sou inconstante como uma borboleta, E rasa como um riacho com pequenos peixes! Estranhos peixinhos, que tentam a rede do rapazinho, Mas a um toque mergulham a direito! Sou de qualquer um, E de ninguém! Sou vaidosa. O elogio da minha beleza aloja-se nos meus ouvidos. A cotovia sobe aos círculos com ele; o rouxinol Soluça sangrando; as flores balançam; eu poderia acreditar Num poeta, ainda que ele me elogiasse na cara.

ARDEN: Nunca um poeta teve uma fonte tão divina Para beber!

ASTRAEA: Dei-te mais para amar?

ARDEN: Mais! Deste-me a tua mente interior, Onde a consciência nas vestes da Justiça dispara Luz tão serenamente viva que, nessa luz, Infantes justos, "eu, recém-criminoso da terra", Como diz o teu amigo Osier, poderiam mostrar alguma mancha. Serafins poderiam! Mais para amar? Oh! estes caros defeitos Levam-te a mim como tropas de raparigas a rir Com grinaldas. Todo o medo é que tu brinques, Fingindo-os.

ASTRAEA: Com que propósito?

ARDEN: Posso adivinhar?

ASTRAEA: Penso que és tu quem tem a nota do brincalhão. A minha audição é aguda e, quando falas, Duas vozes tocam, embora fales fervorosamente. A tua citação de Osier soa mal. Cuidado! Por que estiveste ausente do nosso ponto de encontro Esta manhã?

ARDEN: Estava a caminho, e encontrei O teu tio Homeware.

ASTRAEA: Ah!

ARDEN: Ele ama-te.

ASTRAEA: Ele ama-me: ele nunca compreendeu. Ele ama-me como uma criatura do rebanho; Um pouco mais branca do que algumas outras. Sim; ele ama-me, como os homens amam; não para elevar; Não para ter fé; não para espiritualizar. Para ele, sou uma mulher e uma viúva, Uma do rebanho, sem marca exceto por um ferro. Ele disse-o! — Tu confessas! Aprendeste A partilhar o seu erro, errando fatalmente.

ARDEN: Por conselho de quem fui ter com ele?

ASTRAEA: De quem? Perseguição que parecia incessante: perseguição. Além disso, mudei desde então: mudo; mudo; É demasiado verdade que mudo. Eu poderia estimar-te Melhor se mudasses. E se tivesses ouvido As nobres palavras esta manhã da boca Do nosso professor, mudado estarias, ou elevado Acima de pensamentos de amor, conversa de amor, chama e agitação, Tão alto quanto neves eternas. O que disse ele mais, O meu tio Homeware?

ARDEN: Que não eras livre: E que ele nos aconselhou a usar o nosso engenho.

ASTRAEA: Mas sou livre! Livre para ser sempre livre! A minha liberdade mantém-me livre! Ele aconselhou-nos? Não sou uma na conspiração. Não planeio nenhuma discórdia com a minha vida presente. Quem o faz, não posso olhar como meu amigo. Não és livre? Conheces-me pouco. Se estivesse acorrentada, Pela liberdade venderia a liberdade Àquele que me ajudasse a uma hora de libertação. Mas tendo perfeita liberdade...

ARDEN: Não.

ASTRAEA: Bom senhor, Tu travas-me?

ARDEN: Perfeita liberdade?

ASTRAEA: Perfeita!

ARDEN: Não!

ASTRAEA: Estou acordada? O que me cega?

ARDEN: Filamentos Os mais esguios alguma vez tecidos sobre um cérebro Das névoas do cérebro, pelo pequeno espírito chamado Fantasia. Um sopro espalhá-los-ia; mas esse único sopro Tem de vir da animação. Quando o coração É como um mar congelado, o cérebro tece teias.

ASTRAEA: É muito singular! Compreendo. Traduzes habilmente. Ouço em verso A prosa do meu tio Homeware. Ele tem estas noções. Os velhos presumem ler-nos.

ARDEN: Os jovens podem. Tu contemplas um ideal que te reflete. Preciso dizer bela? Contudo, reflete Menos beleza do que a dama que eu amo Respira, irradia. Olha para ti mesma em mim. Que mal há em contemplar? Tu és esta flor. Tu és aquele espírito. Mas o espírito alimentado Com a substância da flor retira todo o seu florescer! E onde, nos espíritos, está o florescer da flor?

ASTRAEA: É muito singular. Tens um tom Completamente mudado.

ARDEN: Tu desejaste uma mudança. Para te mostrar como Eu te leio...

ASTRAEA: Oh! não, não. Significa dissecção. Nunca ouvi falar de ler o caráter Que não significasse dissecção. Poupa-me disso. Sou obstinada, violenta, caprichosa, fraca, Enrolada numa teia da minha própria roca, Uma contempladora de estrelas, uma fita ao vento...

ARDEN: Uma bandeira ao vento! E a mim tu conduzes, E conduzirás! Pelo menos, sigo até vencer.

ASTRAEA: Abstém-te, eu suplico-te.

ARDEN: Já tive A tua mão na minha.

ASTRAEA: Uma vez.

ARDEN: Uma vez! Uma vez; uma vez, estava o coração vivo, Saltando para quebrar o gelo. Oh! uma vez, foi um sim Que riu do Maio geado como o regresso da primavera. Dize que estás aterrorizada: não ousas derreter. Gostas de mim; poderias amar-me; mas ousar, Exige mais do que coragem. Veneração, amigos, Auto-adoração, que é muitas vezes desconfiança de si mesma, Bloqueiam-te o bom caminho, e fazem de um sonho Uma fortaleza e uma prisão.

ASTRAEA: Mudado! Tu mudaste De facto. Quando audaciosamente agarraste a minha mão Pareceu um capricho juvenil, feito de forma juvenil. Maravilhei-me com a escolha do Professor Spiral De ti como exemplo, e a nossa esperança. Agora tornas-te perigoso. Deves ter pensado, E algumas coisas verdadeiras dizes — exceto "aterrorizada". Pode ser lisonjeiro para o doce amor-próprio Considerar-me aterrorizada. — É a minha própria alma, O meu coração, a minha mente, tudo o que tenho por mais sagrado, Não o medo dos outros, que me manda andar afastada. Quem me aterroriza? Quem poderia? Amigos? Nunca! O mundo? Tão pouco. Aterrorizada!

ARDEN: Perdoa-me.

ASTRAEA: Eu poderia responder, Respeita-me. Se eu amasse, Se eu pudesse ser tão infiel a ponto de amar, Achas que não preferiria apregoar A minha vergonha para penitência do que deixar amigos viverem Iludidos por uma imagem de alguém votada Ao sobre-humano, que se tornou o escárnio comum Das coisas demasiado humanas no coração.

ARDEN: Declararias o teu amor?

ASTRAEA: Eu disse, a minha vergonha. A mulher que é a viúva está enredada, Apanhada nas armadilhas! Fora com as viúvas! — Oh! Ouço homens a gritar isso.

ARDEN: Mas vergonha não há Para mim em amar: portanto, posso levar Os teus amigos a testemunhar? dizer-lhes que o meu orgulho Está no amor por ti?

ASTRAEA: Isso logo trará O silêncio que deveria estar entre nós dois, E mais cedo me dará paz.

ARDEN: E tu consentes?

ASTRAEA: Pelo bem da paz e do silêncio, consinto. Deves ser avisado de que irás cruelmente Perturbá-los. Mas é melhor. Deves ser avisado de que A tua súplica será sem esperança. Mas é melhor. Tens o meu pleno consentimento. Pesa bem os teus atos, Não podes descansar onde lançaste este raio. Põe isso no coração, e serás acarinhado, prezado, Entre eles: são senhoras estimáveis, As mais calorosas das amigas; embora possas pensar que elas voam Demasiado alto para a tua medida de estrito senso (E como pupilo do meu tio Homeware, senhor, Em mundanidade, tu o és), têm mentes justas: Uma vez que as conheças, e o teu banimento importunará. Eu não correria tais riscos. Vais ofender, Quase ultrajá-las; e perturbar Como elas não mereceram de ti. Mas eu, Considerando que não sou nada na balança Que tu equilibras, plena e necessariamente Consinto. Quando tiveres pesado isso, deixa-me ouvir. O meu tio Homeware caminha por aqui à pressa. Temos estado a falar longamente, e à vista de todos!

SCENE VII

ASTRAEA, ARDEN, HOMEWARE

HOMEWARE: Astraea, criança! Tu, Arden, afasta-te. Sim, se ela fosse donzela poderias falar primeiro, Mas sendo viúva tem de encontrar a sua língua. Astraea, eles esperam-te. Declara o facto Assim que fores questionada, sem medo. Abre a batalha com artilharia.

ASTRAEA: O que se passa, tio Homeware?

HOMEWARE (fazendo de raposa): O quê? Ora, observámos os teus belos preliminares Das janelas durante metade da noite. Agora corre para dentro. A paciência deles esgotou-se e, como eu disse, Desmonta e dispara fogo imediatamente. As tuas tias Virginia e Winifred, Com Lady Oldlace, são as senadoras, A Dama para os Cães. Elas usam sobrancelhas terríveis, Mas não te assustes, minha doce pintainha, E diz-lhes que o tio Homeware apoia a tua escolha, Por advogado e por padres! pelo altar, fonte, E testamento!

ASTRAEA: A minha escolha! O que escolhi eu?

HOMEWARE: Ela pergunta? Ouves, Arden? — o quê e a quem!

ARDEN: Certamente, senhor!... céus! tens tu...

HOMEWARE: Certamente a velha raposa, Em tudo o que li, é mais sábia do que a jovem: E se há um jogo para a raposa jogar, A velha raposa joga mais astuciosamente.

ASTRAEA: Por que raposa? Oh! tio, Fazes o meu coração bater com o teu mistério; Nunca amei enigmas. Por que se sentam elas À minha espera, e com um olhar terrível?

HOMEWARE: É relatado de um povo antigo Que adorava ídolos, que num dia O seu ídolo caiu perante eles no chão...

ASTRAEA: Alguma vez houve um conto tão ridículo!

HOMEWARE: Para pedir contas aos fogos assistentes Os seus anciãos sentaram-se imediatamente...

ASTRAEA: Não há nenhuma oração Que te mova, tio Homeware?

HOMEWARE: Afilhada, Este cavalheiro propus-te Como marido.

ASTRAEA: Arden! Estamos perdidos.

ARDEN: Astraea! Apoia-o! Embora eu não soubesse do seu desígnio, Coloca-me no meio do céu. Quem dera fosse Não tu, mas eu a suportar o choque. Meu amor! Estamos perdidos, gritas; juntas-me a ti, perdidos! A verdade salta do teu coração: e deixa-a brilhar Para nos guiar no nosso brilhante dia de batalha E vitória.

ASTRAEA: Quem me traiu!

HOMEWARE: Quem traiu? A tua voz, os teus olhos, o teu véu, a tua faca e garfo; A tua adoração decuplicada da tua viuvez; Como aquele que vê que tem de entregar a bandeira, Abraça-a jurando! afogando-se em palha. Para ser razoável: enviaste este cavalheiro Remetendo-o para mim...

ASTRAEA: E isso é falso. Tudo é falso. Conspiraram. Estou desgraçada. Mas hás de aprender que julgaste erroneamente. Não sou a criatura frágil que concebes. Entre a tua visão do objetivo da vida, e a deles Que presentemente me questionarão, agarro-me À deles como luz: e a tua considero-a um covil Onde as almas não podem ter crescimento.

HOMEWARE: Mas quando tocámos O ponto dos apertos de mão, era justamente o momento De pensar em laços de casamento?

ASTRAEA: Arden, adeus!

(Ela corre para dentro de casa.)

SCENE VIII

ARDEN, HOMEWARE

ARDEN: Adeus! disse ela. Com ela, essa palavra é final.

HOMEWARE: Estranho! como os jovens soprando palavras como nuvens Em ventos, ora justos, ora sujos, e conforme lhes apraz Deveriam ainda ligar os Fados a eles.

ARDEN: Ela está ferida. Ferida na alma!

HOMEWARE: Quanto mais rápido o nosso sucesso: pois aquém Disso, estas damas, que sentem tudo, Não sentem nada.

ARDEN: A tua intenção foi bondosa, Caro senhor, mas arruinaste-me.

HOMEWARE: Boa noite. (Saindo.)

ARDEN: Contudo, ela disse, estamos perdidos, na sua surpresa.

HOMEWARE: Bom dia. (Voltando.)

ARDEN: Suponho que estou obrigado (Se pudesse ver por que deveria estar contente!) A agradecer-te, senhor.

HOMEWARE: Olha com firmeza mas não dês agradecimentos. Encontrei a minha rapariga a descer a estrada Da coqueteria imprudente, e bloqueei-lhe o caminho. Ou ela salta a barreira, ou tem de voltar atrás. Isso significa que ela casa contigo, ou diz adeus. (Saindo novamente.)

ARDEN: Agora ela está entre elas. (Olhando para a janela.)

HOMEWARE: Agora ela vê a sua mente.

ARDEN: É o meu destino que ela decide agora!

HOMEWARE: Há agora suspense na terra e à volta das esferas.

ARDEN: Ela é minha agora: minha! ou estou condenado a ir.

HOMEWARE: A aliança de casamento, ou a mala de viagem agora!

ARDEN: Ri-te como quiseres, ar! Não tenho vergonha De amar e possuí-lo.

HOMEWARE: Assim mostram os sintomas. Corretamente, jovem, e provando uma boa linhagem. Promovê-lo é um dever para com a humanidade E eu dei o meu empurrão, Mas recorda: A antiga Ílion não foi conquistada num dia. (Ele entra na casa.)

ARDEN: Dez anos! Se eu puder conquistá-la no fim!

CORTINA

Uma grande oração pode ser um sedativo Um devoto do sexo masculino está a um centímetro de um milagre Acima da Natureza, digo-lhe, ou estaremos muito abaixo Como em toda grande oratória! A chave dela é o pathos De volta do altar para descobrir que ela se acorrentou Cupido com as asas cortadas é um parasita destrutivo O excesso de um mérito é um crime capital na moralidade A ideia dele de casamento é a de tomar a mulher sob custódia Sou um instrumento discordante, não vibro facilmente Gosto dele, gosto dele, claro, mas quero respirar Eu, que respeito o estado do matrimônio ao recusá-lo O amor e a guerra foram comparados — ambos exigem estratégia Paz, eu rezo, para a esposa assombrada pelo marido Período da sua vida em que um homem se torna vorazmente constante Presunção lastimável nos homens Regozijando-se no seu acordo comum Auto-adoração, que é frequentemente auto-desconfiança Suspeita de todos os jovens e da maioria das mulheres jovens O seu ídolo atirado perante eles no chão Se eu estivesse acorrentada, pela liberdade eu venderia a liberdade Mulher descendo do seu ideal para a grosseira realidade do homem A tua devoção anseia por uma troca enorme

PROSA DIVERSA

CONTEÚDO:

INTRODUÇÃO A "OS QUATRO JORGES" DE W. M. THACKERAY UMA PAUSA NA CONTENDA. CONCESSÃO AO CELTA. LESLIE STEPHEN. CORRESPONDÊNCIA DO TEATRO DE GUERRA NA ITÁLIA CARTAS ESCRITAS AO ‘MORNING POST’ DO TEATRO DE GUERRA NA ITÁLIA.

INTRODUÇÃO A "OS QUATRO JORGES" DE W. M. THACKERAY

WILLIAM MAKEPEACE THACKERAY nasceu em Calcutá, a 18 de julho de 1811, o único filho de Richmond e Anne Thackeray. Recebeu a maior parte da sua educação na Charterhouse, como sabemos para nosso proveito. De lá passou para Cambridge, permanecendo lá de fevereiro de 1829 até algum momento de 1830. A julgar pelas citações e alusões, o seu clássico favorito era Horácio, o eleito do século dezoito, e geralmente a voz da sua filosofia num país próspero. A sua viagem da Índia deu-lhe a visão de Napoleão na ilha rochosa. Na sua juventude, fez a sua vénia respeitosamente a Goethe de Weimar; o que não impediu a sua mão de deixar a sua marca na fragilidade de Werther.

Foi construído com uma natureza extremamente impressionável e um comando de bom senso. Era, além disso, um observador calmo, possuindo "a colheita de um olhar tranquilo". Desta combinação com o fluxo de assuntos trazidos a julgamento na sua mente, veio o humor prevalecente, a disposição forçada para a sátira, a singular pilhéria crítica, notável nas suas obras. As suas paródias, mesmo aquelas levadas ao burlesco, são uma expressão de crítica e são mais eficazes do que o método sério, embora raramente ultrapassem a linha da justiça. Os "Novels by Eminent Hands" não pervertem os originais que exageram. "Sieyes um abade, agora um feroz guarda-costas", estica a face do folgazão romancista irlandês sem o desfigurar; e o misterioso visitante da mansão palaciana em Holywell Street indica possibilidades na imaginação oriental do eminente estadista que se curvou para conquistar o facto através da ficção. A atitude de Thackeray nos seus grandes romances é a do conferencista compostamente urbano, ao nível de um público selecionado, seguro de interessar, acima das exigências de excitar. O movimento lento da narrativa tem uma graça de estilo a encantar como a dança do Minueto da Corte: é a limpidez de Addison temperada com o sal de um vernáculo vigoroso; e tal é a verosimilhança e o diálogo que poderiam parecer ser ouvidos das bocas de oradores vivos. Quando, desta forma, as personagens de "Vanity Fair" tinham crescido, o seu autor foi corretamente apreciado como um dos criadores na nossa literatura, ele tomou imediatamente o lugar que irá reter. Com este grande livro e com "Esmond" e "The Newcomes", deu um nome eminente, singular e amado à ficção inglesa.

Acusações de cinismo são comuns contra todos os satíricos, Thackeray teve de as suportar. O mundo social que ele observava não lhe mostrava heróis, apenas aqui e ali uma alma simples e boa pela qual ele tinha afeição da maneira não histérica de um pai inglês a dar palmadinhas na cabeça de um filho. Descreveu o seu mundo como um observador preciso o via, ele não podia ser desonesto. Nem uma página dos seus livros revela malevolência ou um escárnio pela humanidade. Foi levado à tarefa satírica pelas cenas à sua volta. Deve haver o moralista no satírico se a sátira deve atingir. O golpe é enfraquecido e a arte violada quando ele vem para a frente. Mas ele estará sempre a pressionar para a frente, e Thackeray conteve-o tanto quanto possível, à maneira de um agente da autoridade bem-humorado. Thackeray pode ter parecido cínico aos devotos por impedi-lo de ocupar um lugar no púlpito entre congregações de muitos pecadores convictos. Que o moralista o teria ocupado e trovejado se ele nos tivesse presenteado com o Quarto dos Jorges, vemos quando lemos a sua rejeição das solicitações de uma personagem tão sedutora para a vara satírica.

Sendo ele próprio uma das mais varonis e bondosas criaturas humanas, foi o amor pela sua arte que o expôs à má interpretação. Prestou um serviço valioso no seu tempo. Se os maus modos que ele flagelou estão agora diminuídos em certo grau, pagamos uma dívida ao lembrar que lhe devemos muito, e se o que parece incurável permanece connosco, uma leitura continuada das suas obras ajudará, pelo menos, a combatê-lo.

UMA PAUSA NA CONTENDA--1886

A nossa "Eriniad", ou balada épica do enfranchisamento da ilha irmã, está a encerrar a sua primeira parte para o cantor, e com tal resultado como aqueles ingleses que têm algum conhecimento dos seus pares previram. Existem razões suficientes pelas quais os Tories devem sempre ser capazes de se manter unidos, mas que lhes seja dado o crédito da coesão e subordinação ao controlo. Embora trabalhando para os seus próprios fins, ganharam a estima dos seus aliados, o que contará para eles nas lutas que se seguirão. Os seus líderes parecem ter visto o que não foi distintamente percetível para o partido oposto — que a ruptura dos Liberais significa a deserção dos antigos Whigs em permanência, anunciando o estabelecimento de uma força poderosa contra o Radicalismo, com um lema capital para o país. Eles têm astúcia tática. Se parecem um pouco orgulhosos demais da sua vitória, é meramente porque, como lhes convém, não olham para a frente. Regozijar-se com a conquista de um dia, sem ter visões claras do amanhã, é pueril o suficiente. Qualquer vitória Tory, pode dizer-se, é pouco mais do que uma pausa na contenda, a menos que o jogo Radical seja jogado "para frustrar os Whigs", e os Tories estão agora firmemente ligados pela sua incorporação destes últimos a absterem-se dos saltos violentos e das mudanças de direção do período Derby-Disraeli. Estão tão fortemente pesados pela nova combinação que o seu "Jack-in-the-box", Lord Randolph, terá de permanecer como um sentinela comum em serviço, e medir o seu tamanho natural. Devem, na suposição da sua entrada no cargo, mesmo para satisfazer os seus próprios constituintes, produzir um plano. A sua maioria na Câmara comanda-o.

Até este ponto, então, o Sr. Gladstone não foi derrotado. A questão incendiada por ele nunca será extinta até que a matéria combustível tenha virado cinzas. Mas, pessoalmente, ele encontra uma resposta dura. Os Tories podem muito bem erguer hurras sobre isso. Os Radicais têm de o admitir, e apontar as razões disso. Entre os inimigos de um homem e os seus amigos surge uma pintura áspera do seu caráter, não sem uma semelhança com o resumo final, embora falte o toque histórico justamente delicado em certas características. De um lado, é abusado como o "poder de um só homem"; louvado do outro pela sua maravilhosa intuição da vontade popular. Pode-se acreditar que ele dificilmente deseja marchar ditatorialmente, e com certeza a sua política egípcia foi de passo a passo uma má leitura da vontade do povo inglês. Ele partiu para esta campanha, com o dedo do Egito não ineficazmente apontado contra ele uma segunda vez. Contudo, ele lê o seu povo inglês; ele tem, também, a tendência fatal para a produção de Projetos de Lei à maneira de Júpiter grávido de Minerva. Ele percebeu a necessidade, e a questão da necessidade; definiu claramente o que deve vir, e, com um motivo mais elevado do que a vaidade de que os seus inimigos o acusam, embora não com um conselho tão alto como a Sabedoria ao seu ouvido, pôs-se a trabalhar nisso sozinho, produziu todo o Projeto de Lei sozinho, e depois entregou-o ao seu Gabinete para digerir, demasiado apaixonado pela coisa que ele tinha posto e incubado para permitir qualquer desmembramento sério da sua estrutura. Daí a ruptura. Ele trabalhou para o futuro, produziu um Projeto de Lei para o futuro, e está naufragado no presente. Provavelmente, ele não pode trabalhar de outra maneira a não ser pelo impulso do seu entusiasmo, solitariamente. É uma maneira de tornar os homens excessivamente apaixonados pelas suas criações. A consequência é provável que seja que a Irlanda obterá a sua medida completa de justiça para aplacar os seus anseios mais cedo do que teria obtido tanto do Gabinete Liberal unido, mas a um custo tanto para ela quanto para a Inglaterra. Entretanto, teremos uma Câmara dos Comuns incapaz de conduzir os negócios públicos; os comerciantes a quem o "Times" endereçou péticas condolências pela perda da sua estação perderão mais do que uma; e ser-nos-á feito sentir que temos um inimigo no nosso meio, até que um povo, lento a pensar, tenha tomado conselho da sua generosidade nativa para confiar na raça mais generosa da terra.

CONCESSÃO AO CELTA--1886

As coisas estão calmas fora de um formigueiro até que o pau tenha sido empurrado para dentro dele. O Projeto de Lei do Sr. Gladstone para ajudar ao governo mais sensato da Irlanda trouxe os nossos cidadãos ocupados para fora da escombreira no topo, em enxames contrários, e qualquer que seja a crítica contra um Projeto de Lei que lida rudemente com muitos interesses sensíveis, pergunta-se se algo menos violentamente impressionante teria despertado a Inglaterra laboriosa para levar esta questão finalmente à mente, como um assunto para resolução. O líder Liberal levou-a a bom termo; e gratuitamente, à maneira de um demagogo pedestre, pensam alguns; certamente para o desconforto dos confortáveis e dos ocupados com miopia, que preferem continuar a viver com uma doença no corpo em vez de serem perturbados. Eles podem, vemos, pronunciar um negativo eleitoral positivo; no entanto, até eles, após os oitenta e poucos anos da nossa perplexidade doméstica, na presença dos oitenta e poucos membros comprometidos com o "Home Rule", foram movidos a inquéritos excitados relativamente a medidas — aquém do odioso Projeto de Lei. Quanto sofremos por cheirar o vão incenso dessa palavra "prático", que é desprezo pela previsão! Muitas das medidas agora propostas em resposta ao clamor inquieto por elas, como uma alternativa melhor à correção pela força das armas, são sensatas e justas. Há dez anos, ou num período mais recente antes do triunfo do Sr. Parnell no número dos seus seguidores, teriam formado uma base para o apaziguamento da terra perturbada. A instituição de conselhos distritais, a abolição do detestado Castelo, algo como o estabelecimento de uma residência Real em Dublin, teriam começado bem o trabalho. Material e sentimentalmente, eram os passos certos a tomar. São agora propostos demasiado tarde. São vistos como pequenas concessões, insuficientes e vexatórias. Os elementos inferiores e superiores na população estão fundidos pelo entusiasmo de homens que se encontram marchando em corpo total numa estrada, sob uma bandeira, nos calcanhares de um líder de confiança; e não serão mais alimentados com sopas. Pequenas concessões são sinais de fraqueza para os insatisfeitos; picam um apetite, não fecham brechas. Se o nosso objetivo é, como ouvimos dizer, apaziguar os irlandeses, teremos de lhes dar o Parlamento que o seu líder exige. Poderia ter sido muito menos; pode ser levado a um delírio, talvez a uma luta desesperada, por ainda mais. As nações pagam preços sibilinos por falta de previsão. Os termos do Sr. Parnell estão incorporados no Projeto de Lei do Sr. Gladstone, ao qual ele e o seu bando subscreveram. O único ponto para ele é o Parlamento estatutário, para que a Irlanda possa governar-se civilmente; e, de pé perante o mundo como representante do seu país, ele endereça uma audiência aplaudidora quando cita o fracasso total da Inglaterra em fazer esse negócio de governo, como pelo menos uma razão lógica para a reivindicação. A Inglaterra confessadamente falhou; o mundo diz isso, o país admite-o. Falhámos, e não porque o chamado Saxão seja incapaz de compreender o Celta, mas devido ao nosso sistema, suficientemente adequado para nós, de governo por Partido, que coloca perpetuamente uma mão instável nas rédeas, e convida o clamor que tem de acalmar. Os irlandeses — os ingleses também em algum grau — foram ensinados que o rugido, nas suas várias formas, é o truque para abrir os ouvidos dos Ministros. Encorajámo-los, irritando-os a praticá-lo, até que se tornou um hábito, uma profissão hereditária com eles. Os Ministros, por sua vez, adotaram defensivamente as artes do engodo, variadas por um exercício da polícia. Habituámo-nos a períodos de febre irlandesa. À exaustão que se seguia chamámos tranquilidade, e esperámos que desse fruto. Mas não plantámos. O Partido no poder dirigiu a sua atenção para o que estava no topo e era urgente — para aquilo que os pontapeava. Embora estivéssemos a viver, por consentimento comum, com uma doença no corpo, eruptiva a intervalos, um desfiguramento nacional sempre um perigo, a ideia ministerial de a deter para o fim da cura limitava-se, antes da passagem do bem-intencionado Projeto de Lei de Terras do Sr. Gladstone, ao envio ocasional de comissões; e, enfim, vemos através da História a malária irlandesa tratada como uma forma de gota constitucional britânica. O Parlamento tocou nos irlandeses apenas quando os irlandeses estavam ativos como um vírus. As nossas alternâncias posteriores de adulação e repressão têm uma semelhança dolorosa com o ataque nervoso de cavaleiros raquíticos compondo com os seus destinos para que possam manter os seus lugares. A adulação era tola, se um fim estava à vista; a repressão ineficiente. Para reprimir eficientemente temos de sufocar uma consciência que nos acusa de antiga injustiça, e esquecer que jurámos liberdade. Os gritos que temos estado a ouvir por Cromwell ou por Bismarck provam a existência de uma fação impaciente no nosso meio mais apta a usar as coleiras desses mestres que invocam do que a deixar um voto na urna eleitoral. Quanto aos políticos proeminentes que deslocaram os seus rivais parcialmente com base numa implícita aprovação desses gritos, veremos como eles iluminam os conselhos de um povo governante. Eles são mais sábios do que os cães que ladram. Cromwell e Bismarck são grandes nomes; mas a perseguição da Irlanda não a resolveu, e germanizar uma Posnânia e chamar-lhe paz encontrará eco apenas na língua alemã. Posnânia é o erro de uma mente mestre demasiado dada a martelar obstáculos. Ele tem, contudo, o martelo. Pode ser imaginado em mãos inglesas? O exemplar mais bravo para lidar com monstruosas tarefas políticas é Cavour, e ele não teria sugerido o método de ferro ou a baioneta para uma pacificação. Cavour desafiou o debate; ele tinha fé no intelecto ativo, e essa é a coisa pela qual devem rezar os estadistas que querem registar sucessos permanentes. Os irlandeses, é verdade, não conduzem um argumento friamente. O Sr. Parnell e os seus oitenta e cinco não encontraram o líder Conservador e os seus seguidores nos Comuns com a gravidade de disputantes platónicos. Mas eles têm uma posição lógica, equivalente ao melhor dos argumentos. Eles são representantes, diriam, de um país admitidamente mal governado por nós; e aceitaram o Projeto de Lei do Ministro derrotado como final. As suas disposições são os seus termos de paz. Oferecem, em troca dessa dádiva, tirar o fardo sob o qual gememos das nossas mãos. Se respondermos que os achamos insinceros, acusamos estes três vezes acreditados representantes do povo irlandês de serem hipócritas e conspiradores astutos; e muitos na Inglaterra, afetados pelas armas que eles usaram para chegar à sua força atual, pensam-no; esquecidos de que a nossa obtusidade aos seus constantes apelos os forçou para as mudanças mais extremas de agitação. No entanto, dificilmente será negado que estes homens amam a Irlanda; e não se mostraram pelos seus atos como insanos. Supô-los a conspirar para a separação indica uma suspeita de que eles não têm corações nem cabeças. Para a Irlanda, a separação é ruína imediata. Provaria ser uma navegação muito curta para estes conspiradores antes que o navio se afundasse. A necessidade vital da União para ambos os países, obviamente para o mais fraco dos dois, é conhecida por eles; e a menos que retomemos a nossa exasperação do homem selvagem que o Celta pode ser feito por tal processo, não temos razões racionais para tratá-lo, ou negociar com ele, como um louco. Ele tem, além das suas paixões, um senso perspicaz; e as suas paixões podem ser corretamente direcionadas pela atração benevolente. Esta é uma linguagem ridicularizada pelo inimigo vitorioso; diz contudo o que o mundo, e até a perturbada América, pensa do Celta irlandês. Mais disto agora do nosso lado do Canal seria útil. A noção de que ele odeia os ingleses vem do seu febril roçar contra o arnês da Inglaterra, e quando sujeito às suas febres, ele é desenfreado nos seus gritos e atos. Isso pertence à natureza dele. Claro, se não temos crença nas virtudes da amizade e confiança — nenhuma em relação ao irlandês — mostramos-lhe o seu lugar, e desafiamos o resultado. Pois a única alternativa é o antagonismo distinto, uma forma de guerra. O Projeto de Lei do Sr. Gladstone trouxe-nos a essa linha definida. Tendo a Irlanda dado a sua adesão a ele, jurando que o faz de boa fé, e que não aceitará uma quantidade menor, a paz só pode ser obtida pela nossa confiança nos irlandeses; confiamos neles ou esmagamo-los. Caminhos intermédios são apenas a continuação das nossas feias atrapalhações em terrenos pantanosos; e, duvidosa como vemos a escolha de ambos os lados, um passo decisivo para a direita ou para a esquerda não nos mostrará ao mundo tão enlameados, a nós próprios tão miseravelmente ineficientes, como parecemos nesta sessão de um novo Parlamento. Com os seus oitenta e cinco, para além das operações externas legais ou não, o Sr. Parnell pode agir como uma espécie de lombriga na Câmara. Que os jornalistas observem e croniquem os eventos: se o Sr. Gladstone tiver humor, eles notarão ainda um sorriso peculiar na sua boca fechada de vez em quando, quando o corpo alienígena dentro da Câmara, do qual, pelo bem da sua dignidade e capacidade de conduzir os seus assuntos, ele a teria aliviado até ao dia de uma inteligência mais calorosa entre irlandeses e ingleses, paralisa os nossos negócios de maquinaria. Um corpo coerente e bem gerido no meio dos grupos líquidos fará sentir que a Irlanda é uma nação, embora naturalmente dependente como deve ser. Temos de lidar com forças na política, e a grande maioria dos Nacionalistas irlandeses na Irlanda fez deles uma força.

Sem dúvida, o Sr. Matthew Arnold tem razão nos seus receios quanto aos perigos que podemos temer de uma Câmara dos Comuns em Dublin. As declarações e as teorias novas ou ultra poderiam quase ser redigidas com antecedência. Pela minha parte, anteciparia um perigo maior na atitude familiar da imprensa e do público metropolitanos ingleses perante uma experiência de que não gostam e que tendem a recear: os comentários cínicos, as citações entre aspas, o encolher de ombros compadecido, a ironia fria, a zombaria crua, o rosnar de ameaça, o estalido agudo, as gargalhadas. Aos franceses da Jovem República, não apreciados no momento como ofensivos, foram traduzidas algumas destas insignificâncias descuidadas e sentiram-se picados. Favorecemos a Alemanha com elas de vez em quando, antes de a Alemanha se tornar a primeira potência na Europa. Antes de a América se ter revelado como a maior entre os gigantes que não se desfazem, teve ela, como os americanos lembram de forma perdoadora, sem mencioná-la, uma série de estaladas de chicote. É bom aprender boas maneiras sem que nos sejam impostas. Existem várias formas de boicotar a experiência. No entanto, quando a experiência for tentada, considerando que o nosso bem-estar depende de que ela não falhe, tal como nós falhámos, deveríamos preparar-nos para iniciá-la cordialmente, assisti-la cordialmente. Mentes políticas ponderadas consideram a medida como um passo atrás; contudo, concebendo apenas uma perspectiva de que uma medida aceite pelos Home Rulers possivelmente permitirá aos irlandeses e ingleses caminhar juntos, parece valer mais a pena o risco do que seguir um caminho de discórdia sem perspectivas! Tudo o que fazemos ou nos abstemos de fazer tem agora os seus perigos evidentes, e este, sendo iminente, pode parecer o maior deles; mas se uma ponderação das condições o dita, e a consciência o aprova, o procedimento mais sensato é fazer a experiência do não experimentado. A nossa perspectiva era sobrenaturalmente negra, com um enorme aumento de perigos quando o originador da nossa espécie surgiu audazmente da postura de "quatre pattes". Consideramos que não perdemos com a sua temeridade. Em estados de dúvida sob elementos impulsionadores, o instinto que aponta para uma ação corajosa é, além de ser o mais varonil, presumivelmente o correto.

LESLIE STEPHEN--1904

Quando aquele nobre grupo de pedestres eruditos e alegres, os Sunday Tramps, estava em marcha, com Leslie Stephen a liderá-los, havia uma conversa que teria feito da presença de um estenógrafo um benefício para o país. Uma pausa ocorria com o exame do relógio e do mapa do Ordnance Survey do líder sob o sol poente, e dava-se espaço para a corrida através do campo para apanhar o final de um comboio que oferecia jantar em Londres, à custa de uma corrida através de sebes, sobre valas e companheiros, passando por avisos contra invasores, sob a suspeita de serem tomados por depredadores mais sérios em fuga. O chefe dos Tramps tinha um olho calculador maravilhoso na observação das distâncias e da natureza do terreno, como provou pela sua descoberta de passagens inexploradas nos Alpes superiores, e não tinha piedade pelos seguidores ofegantes. Muitas vezes disse deste estudante de toda a vida e mente filosófica que ele tinha em si o potencial de um grande capitão militar. Ele não teria sido contrário à profissão das armas se tivesse sido capturado cedo para o serviço, apesar da sua abominação pelo derramamento de sangue. Ele tinha uma coragem elevada e calma, não se perturbava numa posição duvidosa e tomava confiantemente o caminho de saída que concebia ser o melhor. Não temos de lamentar que ele tenha sido desviado dos caminhos de um soldado, embora a Inglaterra, como o país tem aprendido ultimamente, não possa gabar-se de muitos de uniforme que tenham capacidade para a liderança. O seu trabalho na literatura será revisto pelo seu tenente de Tramps, um dos mais capazes escritores! --[Frederic W. Maitland.]-- A memória disso permanece connosco, como sendo a crítica mais profunda e sóbria que tivemos no nosso tempo. O único ferrão nela era uma ironia humorística inofensiva que de vez em quando surgia para rolar, como um filhote peludo, ou a ondulação ocasional num lago em tempo cinzento. Não nos resta nada semelhante.

Poder-se-ia facilmente cair no poço do panegírico através de uma enumeração das suas qualidades, pessoais e literárias. Não estaria fora de harmonia com o temperamento e as características de uma mente tão equânime. Ele, o equânime, quer na condenação quer no elogio. A nossa perda de tal homem é grande, pois o trabalho estava no seu cérebro, e a mão esteve ativa até perto do momento em que a sua respiração cessou. A perda para os seus amigos só pode ser substituída por uma imaginação que o conjure ao lado deles. Essa não será uma tarefa difícil para aqueles que o conheceram suficientemente bem para ver a sua visão das coisas como elas são, e reviver a sua expressão dela. Com eles ele viverá, apesar da palavra adeus.

CORRESPONDÊNCIA DO TEATRO DE GUERRA EM ITÁLIA

CARTAS ESCRITAS AO MORNING POST DO TEATRO DE GUERRA EM ITÁLIA DO NOSSO PRÓPRIO CORRESPONDENTE

FERRARA, 22 de junho de 1866.

Antes que esta carta chegue a Londres, os canhões terão despertado tanto o eco do antigo rio Pó como do clássico Mincio. A totalidade das tropas, cerca de 110.000 homens, com os quais Cialdini pretende forçar a passagem do rio primeiro mencionado, já está concentrada ao longo da margem direita do Pó, aguardando ansiosamente que a última hora de amanhã soe e que a ordem para a ação seja dada. O telégrafo já terá informado os seus leitores de que, de acordo com a intimação enviada pelo General Lamarmora na noite de terça-feira ao quartel-general austríaco, os três dias fixados pela mensagem do general antes de começar as hostilidades expirarão às doze horas do dia 23 de junho.

O quartel-general de Cialdini está estabelecido nesta cidade desde a manhã de quarta-feira, e o famoso general, em quem o quarto corpo que ele comanda, e toda a nação, tem tanta confiança, concentrou a totalidade das suas forças num compasso comparativamente estreito e está pronto para a ação. Acredito, portanto, que até amanhã a margem direita do Pó estará ligada ao continente do Polesine por várias pontes de barcos, que permitirão ao corps d'armée de Cialdini atravessar o rio e, como todos aqui esperam, atravessá-lo apesar de qualquer defesa que os austríacos possam fazer.

A caminho desta cidade antiga, na noite passada, encontrei o General Cadogan e dois oficiais superiores prussianos, que a esta hora devem ter chegado ao quartel-general de Vítor Manuel em Cremona; se não, terão sido transferidos para outro lugar, mais à frente, em direção à linha do Mincio, na qual, segundo as aparências, o primeiro, segundo e terceiro corpos d'armée italianos parecem destinados a operar. O general inglês e os dois oficiais prussianos acima mencionados devem seguir o estado-maior do rei, o primeiro como comissário inglês, o superior em patente dos outros dois na mesma qualidade.

Disseram-me aqui que, antes de deixar Bolonha, Cialdini realizou um conselho geral dos comandantes das sete divisões das quais é formado o seu poderoso corps d'armée, e que lhes disse que, apesar das forças que o inimigo concentrou na margem esquerda do Pó, entre o ponto que enfrenta Stellata e Rovigo, o rio deve ser atravessado pelas suas tropas, independentemente do sacrifício que esta importante operação exija. Cialdini é um homem que sabe cumprir a sua palavra e, por esta razão, não tenho dúvidas de que fará o que já se decidiu realizar. Estou, portanto, confiante de que, antes que dois ou três dias tenham passado, estes 110.000 soldados italianos, ou uma grande parte deles, terão pisado, para os italianos, a terra sagrada da Venécia.

Uma vez o rio Pó atravessado pelo corps d'armée de Cialdini, ele entrará audazmente no Polesine e tornar-se-á senhor da estrada que conduz por Rovigo em direção a Este e Pádua. Um olhar sobre o mapa mostrará aos seus leitores como, a cerca de trinta ou quarenta quilómetros da cidade primeiro mencionada, uma cadeia de colinas, chamada Colli Euganei, se estende desde o último esporão dos Alpes Julianos, nas proximidades de Vicenza, descendo suavemente em direção ao mar. Como esta linha oferece boas posições para contestar o avanço de um exército que atravesse o Pó em Lago Scuro, ou em qualquer outro ponto não longe dele, é de supor que os austríacos se posicionarão ali, e eu não ficaria nada surpreendido se a primeira batalha de Cialdini, se aceite pelo inimigo, ocorresse dentro daquele terreno comparativamente estreito que fica entre Montagnana, Este, Terradura, Abano e Pádua. É impossível supor que o corps d'armée de Cialdini, sendo tão grande, esteja destinado a atravessar o Pó apenas num ponto do rio abaixo do seu curso: é extremamente provável que parte dele o atravesse em algum ponto acima, entre Revere e Stellata, onde o rio é, em dois ou três casos, apenas de 450 metros de largura. Se o general italiano for bem-sucedido -- protegido como estará pelo fogo tremendo da poderosa artilharia de que dispõe -- nestas duas operações, os austríacos que defendem a linha dos Colli Euganei poderiam ser facilmente flanqueados pelas tropas italianas, que teriam atravessado o rio abaixo de Lago Scuro. Naturalmente, estas são meras suposições, pois ninguém, como pode imaginar, exceto o rei, o próprio Cialdini, Lamarmora, Pettiti e Menabrea, está ao corrente do plano da campanha vindoura. Havia um rumor hoje no quartel-general de Cialdini de que os austríacos se tinham reunido em grande número no Polesine, e especialmente em Rovigo, uma pequena cidade que fortificaram fortemente ultimamente, com um aparente desígnio de opor-se à travessia do Pó, se Cialdini tentasse fazê-lo em ou perto de Lago Scuro. Existem em redor de Rovigo grandes extensões de pântanos e campos cortados por valas e riachos, os quais, embora devido à secura da estação não possam ser, como se acreditava geralmente há duas semanas, facilmente inundados, ainda assim poderiam bem ajudar as operações que os austríacos podem empreender para travar o avanço do quarto corpo d'armée italiano. A resistência ao empreendimento de Cialdini pode ser, por parte dos austríacos, muito forte, mas estou quase certo de que será superada pelo ardor das tropas italianas e pela perícia do seu ilustre líder.

Como lhe disse acima, a declaração de guerra foi entregue a um major austríaco para transmissão ao Conde Stancowick, o governador austríaco de Mântua, na noite do dia 19, pelo Coronel Bariola, subchefe do estado-maior general, que era acompanhado pelo Duque Luigi de Sant' Arpino, o marido da amável viúva de Lord Burghersh. O duque é o filho mais velho do Príncipe San Teodoro, um dos mais ricos nobres de Nápoles. Apesar da sua elevada posição e dos seus laços familiares, o Duque de Sant' Arpino, que é bem conhecido na sociedade elegante de Londres, alistou-se como voluntário no exército italiano e foi nomeado oficial ajudante do General Lamarmora. A escolha de tal cavalheiro para a missão de que estou a falar foi aparentemente feita com intenção, a fim de mostrar aos austríacos que a nobreza napolitana está tão interessada no movimento nacional como as classes média e baixa do Reino, outrora tão terrivelmente mal governado pelos Bourbons. O Duque de Sant' Arpino não é o único nobre napolitano que se alistou no exército italiano desde que a guerra com a Áustria rebentou. A fim de lhe mostrar a importância que deve ser dada a este pronunciamiento dos nobres napolitanos, permita-me dar-lhe aqui uma pequena lista dos nomes daqueles que se alistaram como soldados rasos nos regimentos de cavalaria do exército regular: O Duque de Policastro; o Conde de Savignano Guevara, o filho mais velho do Duque de Bovino; o Duque d'Ozia d'Angri, que tinha emigrado em 1860 e regressou a Nápoles há seis meses; Marquês Rivadebro Serra; Marquês Pisicelli, cuja família tinha deixado Nápoles em 1860 por devoção a Francisco II; dois Carraciolos, da família histórica da qual brotou o infeliz almirante napolitano com este nome, cuja cabeça Lord Nelson teria feito melhor em não ter sacrificado à crueldade da Rainha Carolina; Príncipe Carini, o representante de uma família ilustre da Sicília, um sobrinho do Marquês del Vasto; e Pescara, um descendente daquele grande general de Carlos V, a quem o orgulhoso Francisco I de França foi obrigado a render-se e entregar a sua espada na batalha de Pavia. Além destes nobres napolitanos que se alistaram ultimamente como soldados rasos, o exército italiano agora acampado nas margens do Pó e do Mincio pode gabar-se de dois Colonnas, um príncipe de Somma, dois Barões Renzi, um Acquaviva, do Duque de Atri, dois Capeces, dois Príncipes Buttera, etc. Para voltar à missão do Coronel Bariola e do Duque de Sant' Arpino, acrescentarei alguns detalhes que me foram contados esta manhã por um cavalheiro que deixou Cremona ontem à noite, e que os obteve de uma fonte fiável. O mensageiro do General Lamarmora tinha sido instruído a seguir de Cremona para a pequena aldeia de Le Grazie, que, na linha do Mincio, marca a fronteira austríaca e italiana.

Na margem direita do Lago de Mântua, no ano de 1340, erguia-se uma pequena capela contendo uma pintura milagrosa da Madonna, chamada pelo povo da localidade 'Santa Maria delle Grazie'. Os barqueiros e pescadores do Mincio, que tinham sido, como diziam, salvos frequentemente de morte certa pela Madonna -- tão famosa naqueles dias como a moderna Senhora de Rimini, celebrada pelo feito surpreendente de piscar os olhos -- determinaram erguer-lhe uma morada mais digna.

Daí surgiu o Santuario delle Grazie. Aqui, como em Loretto e outras localidades santas de Itália, realiza-se uma feira na qual, entre um grande número de coisas mundanas, rosários, imagens sagradas e outros objetos milagrosos são vendidos, e diz-se que bênçãos espantosas são asseguradas pelo custo mais insignificante. Gozando o Santuario della Madonna delle Grazie de uma reputação espalhada, os mudos, surdos, cegos e coxos -- em suma, pessoas aflitas com todo o tipo de enfermidades -- reúnem-se ali durante a feira, e não faltam mesmo nos outros dias do ano. A igreja de Le Grazie é uma das mais curiosas de Itália. Não que haja algo de notável na sua arquitetura, pois é uma estrutura gótica italiana do estilo mais simples. Mas a parte ornamental do interior é muito peculiar. As paredes do edifício estão cobertas com uma fila dupla de estátuas de cera, em tamanho real, representando uma hoste de guerreiros, cardeais, bispos, reis e papas, que -- como diz a história -- pretenderam ter recebido alguma graça maravilhosa durante a sua existência terrena. Entre a grande galeria de personagens ilustres, não são poucos os indivíduos mais humildes cuja história é fielmente contada (se escolher acreditar nela) pelas inscrições pintadas abaixo. Há até um condenado que, no momento de ser enforcado, implorou socorro à omnipotente Madonna, pelo que a trave da forca quebrou instantaneamente e o digno indivíduo foi restaurado à sociedade -- um benefício muito duvidoso, afinal. Ao chegarem o Coronel Bariola e o Duque de Sant' Arpino a este lugar, que fica apenas a cinco milhas de distância de Mântua, a sua carruagem foi naturalmente parada pelo comissário da polícia austríaca, cujo dever era vigiar a fronteira. Tendo-lhe dito que tinham um despacho para entregar ou ao governador militar de Mântua ou a algum oficial enviado por ele para o receber, o comissário despachou imediatamente um gendarme montado para Mântua. Duas horas mal tinham passado quando uma carruagem entrou na aldeia de Le Grazie, da qual um major austríaco de infantaria saiu e apressou-se para uma cabana de madeira onde os dois oficiais italianos esperavam. O Coronel Bariola, que foi treinado na escola militar austríaca de Viller Nashstad, e deixou regularmente o serviço austríaco em 1848, informou o major recém-chegado da sua missão, que era a de entregar o despacho selado ao general no comando de Mântua e receber por ele um recibo regular. O despacho era endereçado ao Arquiduque Alberto, comandante-em-chefe do exército austríaco do Sul, aos cuidados do governador de Mântua. Depois de o major ter entregue o recibo, os três mensageiros entraram numa conversa cortês, durante a qual o Coronel Bariola aproveitou uma oportunidade de apresentar o duque, sublinhando propositadamente o facto de ele pertencer a uma das mais ilustres famílias de Nápoles. Aconteceu que o major austríaco também tinha sido treinado na mesma escola onde o Coronel Bariola foi educado -- uma circunstância da qual foi lembrado pelo próprio oficial austríaco. Três horas mal tinham passado da chegada dos dois mensageiros de guerra italianos a Le Grazie, na fronteira austríaca, quando já estavam a caminho de volta ao quartel-general de Cremona, onde durante a noite o rumor era corrente de que um telegrama tinha sido recebido por Lamarmora de Verona, no qual o Arquiduque Alberto aceitava o desafio. Vítor Manuel, que vi em Bolonha ontem, chegou a Cremona de manhã às duas horas, mas a esta hora o quartel-general de Sua Majestade deve ter-se deslocado mais para a frente, na direção do Oglio. Eu não ficaria nada surpreendido se o quartel-general italiano estivesse estabelecido amanhã quer em Piubega ou Gazzoldo, se não mesmo em Goito, uma aldeia, como sabe, que marca a fronteira italiano-austríaca no Mincio. A totalidade do primeiro, segundo e terceiro corpos d'armée italianos está a esta hora concentrada dentro daquele espaço comparativamente estreito que fica entre a posição de Castiglione, Delle Stiviere, Lorrato e Desenzano, no Lago de Garda, e Solferino de um lado; Piubega, Gazzoldo, Sacca, Goito e Castellucchio do outro. Estarão estes três corpos d'armée destinados a atacar quando ouvirem o rugido da artilharia de Cialdini na margem direita do Pó? Estarão destinados a forçar a passagem do Mincio quer em Goito ou em Borghetto? ou estão destinados a investir Verona, tomar Peschiera e cercar Mântua? Isto é mais do que lhe posso dizer, pois, repito, as intenções dos líderes italianos estão envolvidas num véu que ninguém -- austríacos incluídos -- foi até agora capaz de penetrar. Uma coisa, contudo, é certa, e é esta: que assim que o relógio de Vítor Manuel marcar o último minuto da septuagésima segunda hora fixada pela declaração entregue em Le Grazie na quarta-feira pelo Coronel Bariola ao major austríaco, a bela terra onde Virgílio nasceu e Tasso foi aprisionado será envolvida por uma espessa nuvem do fumo de centenas e centenas de canhões. Esperemos que Deus esteja a favor do direito e da justiça, que, nesta iminente e feroz luta, está indubitavelmente do lado italiano.

CREMONA, 30 de junho de 1866.

O telégrafo já o terá informado da concentração do exército italiano, cujo quartel-general foi transferido desde terça-feira de Redondesco para Piadena, tendo o rei escolhido a villa adjacente de Cigognolo para a sua residência. Os movimentos de concentração do exército real começaram na manhã do dia 27, isto é, três dias após o sangrento fait d’armes do dia 24, que, narrado e comentado de diversas maneiras conforme os interesses e paixões dos narradores, permanece ainda para muitas pessoas um mistério. No final desta carta, verá que cito uma pequena frase com a qual um major austríaco, agora prisioneiro de guerra, descreveu os resultados da feroz luta travada além do Mincio. Este oficial é um dos poucos sobreviventes de um regimento de voluntários austríacos, ulanos, dos quais ele próprio comandava dois esquadrões. A declaração feita por este oficial foi cabalmente explícita e transmite a ideia exata do valor demonstrado pelos italianos naquele combate terrível. Aqueles que se inclinam a sobreavaliar as vantagens obtidas pelos austríacos no último domingo não devem esquecer que, se Lamarmora tivesse considerado apropriado persistir em manter as posições de Valeggio, Volta e Goito, os austríacos não o poderiam ter impedido. Parece que o general-em-chefe austríaco partilhava desta opinião, pois, depois de o seu exército ter conquistado, com terríveis sacrifícios, as posições de Monte Vento e Custozza, não pareceu, nem de facto os austríacos deram então quaisquer sinais, que pretendessem adotar um sistema de guerra mais ativo. É dever de um comandante assegurar que, após uma vitória, o fruto da mesma não se perca, e é por esta razão que o inimigo é perseguido e molestado, e não lhe é concedido tempo para se reorganizar. Nada disto aconteceu após o dia 24 — nada foi feito pelos austríacos para assegurar tais resultados. A fronteira que separa os dois domínios é agora a mesma que era na véspera da declaração de guerra. Em Goito, em Monzambano e nas outras aldeias da fronteira extrema, as autoridades italianas continuam a cumprir as suas funções. Nada mudou nesses locais, se excetuarmos o facto de que, de vez em quando, um destacamento de cavalaria austríaco faz a sua aparição repentina, com o único objetivo de vigiar os movimentos do exército italiano. Um destes grupos, formado por quatro esquadrões do regimento de hussardos de Wurtemberg, tendo avançado às seis horas desta manhã na margem direita do Mincio, encontrou o quarto esquadrão dos lanceiros italianos de Foggia e foi repelido, sendo forçado a retirar em desordem na direção de Goito e Rivolta. Neste encontro desigual, os lanceiros italianos distinguiram-se muito, fizeram alguns prisioneiros entre os hussardos austríacos e mataram alguns outros, entre os quais um oficial. O mesmo estado de coisas prevalece em Rivottella, uma pequena aldeia nas margens do Lago de Garda, a cerca de quatro milhas de distância das fortificações mais avançadas de Peschiera. Ali, como noutros locais, alguns destacamentos austríacos avançaram com o objetivo de vigiar os movimentos dos garibaldinos, que ocupam o terreno montanhoso que, a partir de Castiglione, Eseuta e Cartel Venzago, se estende até Lonato, Salo e Desenzano, e até aos passos de montanha de Caffaro. No último local mencionado, os garibaldinos entraram em confronto com os austríacos na manhã do dia 28, e os primeiros levaram a melhor na refrega. Se o fait d’armes do dia 24, ou a batalha de Custozza, como o Arquiduque Albrecht lhe chama, tivesse sido uma grande vitória para os austríacos, por que motivo deveria o exército imperial permanecer em tal inação? A única conclusão a que devemos chegar é simplesmente esta: que as perdas austríacas foram tais que levaram o comandante-em-chefe do exército a agir prudentemente na defensiva. Somos agora informados de que as cargas de cavalaria que os lanceiros austríacos e os hussardos húngaros tiveram de sustentar perto de Villafranca, no dia 24, com os cavaleiros italianos dos regimentos de Aosta e Alessandria, foram tão fatais para os primeiros que uma divisão inteira da cavalaria do Kaiser terá de ser reorganizada antes de poder ser novamente levada para o campo.

O regimento de hussardos de Haller e dois de ulanos voluntários foram quase destruídos naquela carga terrível. Para lhe dar uma ideia deste encontro de cavalaria, basta dizer que o Coronel Vandoni, à frente do regimento de Aosta que comanda, carregou catorze vezes durante o curto período de quatro horas. Os ulanos voluntários do regimento do Kaiser já tinham desistido da ideia de romper o quadrado formado pelo batalhão, no centro do qual se encontrava o Príncipe Humberto de Saboia, quando foram subitamente carregados e literalmente feitos em pedaços pela cavalaria ligeira de Alessandria, apesar das longas lanças que transportavam. Esta arma e o uniforme largo que usam fazem-nos assemelhar aos cossacos do Don. Há uma circunstância que, se não estou em erro, ainda não foi publicada pelos jornais, e é esta. Houve um combate no dia 25 num local a norte de Roverbella, entre o regimento italiano de cavalaria de Novara e um regimento de hussardos húngaros, cujo nome é desconhecido. Este regimento foi tão completamente derrotado pelos italianos que foi perseguido até Villafranca e teve dois esquadrões postos hors de combat, enquanto o regimento de Novara perdeu apenas vinte e quatro homens montados. Penso que é correto mencionar isto, pois prova que, no dia seguinte ao sangrento caso do dia 24, o exército italiano ainda tinha um regimento de cavalaria a operar em Villafranca, uma aldeia que ficava a uma distância de quinze quilómetros da fronteira italiana. Um relatório, que é muito creditado aqui, explica como o exército italiano não obteve as vantagens que poderia ter obtido da ação do dia 24. Parece que as ordens emitidas pelo quartel-general italiano durante a noite anterior, e especialmente as instruções verbais dadas por Lamarmora e Pettiti aos oficiais do estado-maior dos diferentes corpos de exército, foram ou esquecidas ou mal compreendidas por esses oficiais. As enviadas a Durando, o comandante do primeiro corpo, parecem ter sido as seguintes: que ele deveria ter marchado na direção de Castelnuovo, sem, contudo, tomar parte na ação. Durando, afirma-se geralmente, tinha aderido estritamente às ordens enviadas do quartel-general, mas parece que o General Cerale as compreendeu demasiado literalmente. Tendo recebido a ordem de marchar sobre Castelnuovo, e encontrando a aldeia fortemente defendida pelos austríacos, que receberam a sua divisão com um fogo tremendo, ele envolveu-se imediatamente na ação em vez de recuar sobre a reserva do primeiro corpo e aguardar novas instruções. Se tal foi realmente o caso, é evidente que Cerale pensou que a ordem de marcha que recebera implicava que ele devia atacar e tomar posse de Castelnuovo, caso esta aldeia, como de facto estava, já tivesse sido ocupada pelo inimigo. Ao mencionar este facto, sinto-me obrigado a observar que o escrevo sob a mais completa reserva, pois lamentaria profundamente acusar o General Cerale de ter compreendido mal uma ordem tão importante.

Vejo que um dos seus contemporâneos de destaque acredita que seria impossível para o rei ou Lamarmora dizer que resultado esperavam da sua tentativa mal concebida e pior executada. O resultado que esperavam é, creio eu, suficientemente claro; queriam romper o quadrilátero e fazer a sua junção com Cialdini, que estava pronto a atravessar o Po durante a noite do dia 24. Que a tentativa foi mal concebida e pior executada, nem o seu contemporâneo nem o público em geral têm, por enquanto, o direito de concluir, pois ninguém conhece ainda, senão imperfeitamente, os detalhes da terrível luta. O que é certo, contudo, é que o General Durando, percebendo que a divisão Cerale estava perdida, fez tudo o que pôde para ajudá-la. Fracassando nisto, virou-se para os seus dois ajudantes de campo e disse-lhes friamente:

'Agora, senhores, é tempo de se retirarem, pois tenho um dever a cumprir que é estritamente pessoal — o dever de morrer.' Ao dizer estas palavras, galopou para a frente e colocou-se a cerca de vinte passos de um batalhão de atiradores austríacos que subiam a colina. Em menos de cinco minutos, o seu cavalo foi morto sob ele, e ele foi ferido na mão direita. Dificilmente preciso acrescentar que os seus ajudantes de campo não hesitaram em partilhar o destino de Durando. Seguiram bravamente o seu general, e um, o Marquês Corbetta, foi ferido na perna; o outro, o Conde Esengrini, teve o seu cavalo abatido sob si. Visitei Durando, que está agora em Milão, anteontem. Embora fosse um estranho para ele, recebeu-me de imediato e, falando da ação do dia 24, apenas disse: 'Tenho a satisfação de ter cumprido o meu dever. Aguardo tranquilamente o julgamento da história.'

Assumindo, para fins de argumentação, que o General Cerale compreendeu mal as ordens que recebera e que, ao precipitar o seu movimento, arrastou para o mesmo erro todo o corpo de Durando — assumindo, digo eu, que esta seja a versão correta, pode facilmente explicar o facto de que nenhuma das duas partes contendentes está ainda em posição de descrever claramente a ação do dia 24. Por que motivo nenhuma das duas exibiu e trouxe para a ação a totalidade das forças que poderiam ter tido à sua disposição? Por que tantos confrontos parciais a uma grande distância uns dos outros? Numa palavra, por que essa falta de unidade, que, na minha opinião, constituiu a característica primordial daquela sangrenta luta? Posso estar muito enganado, mas sou da opinião de que nem o general-em-chefe italiano nem o Arquiduque austríaco entretinham, na noite do dia 23, a ideia de travar uma batalha no dia 24. Aí, e apenas aí, reside todo o mistério do caso. A total falta de unidade de ação por parte dos italianos assegurou aos austríacos, não a vitória, mas a oportunidade de tornar impossível a tentativa de Lamarmora de romper o quadrilátero. Isto ninguém pode negar; mas, por outro lado, se o exército italiano falhou em atingir o seu objetivo, o fracasso — devido à bravura demonstrada tanto pelos soldados como pelos generais — esteve longe de ser desastroso ou irreparável. Os italianos lutaram das três horas da manhã até às nove da noite como leões, mostrando aos seus inimigos e à Europa que sabem como defender o seu país e que são dignos da nobre empresa que empreenderam.

Mas deixe-me agora registar um dos episódios marcantes daquele dia memorável. Eram cinco horas da tarde quando o General Bixio, cuja divisão ocupava uma posição elevada não longe de Villafranca, foi atacado por três fortes brigadas austríacas, que tinham desembocado ao mesmo tempo de três estradas diferentes, apoiadas por numerosa artilharia. Um oficial do estado-maior austríaco, acenando um lenço branco, foi visto a galopar em direção à frente da posição de Bixio e, uma vez na presença deste general, ordenou-lhe que se rendesse. Aqueles que não estão pessoalmente familiarizados com Bixio não podem formar uma ideia da impressão que esta exigência audaciosa deve ter causado nele. Disseram-me que, ao ouvir a palavra 'render-se', o seu rosto ficou subitamente pálido, depois corou como púrpura e, lançando um olhar ao mensageiro austríaco, disse: 'Major, se se atrever a pronunciar mais uma vez a palavra render-se na minha presença, digo-lhe — e Bixio cumpre sempre a sua palavra — que o mandarei fuzilar imediatamente.' O oficial austríaco mal tinha chegado ao general que o tinha enviado quando Bixio, movendo rapidamente a sua divisão, caiu com tal impetuosidade sobre a coluna austríaca, que subia a colina, que eles foram lançados em tumulto para o vale, causando a maior confusão entre a sua reserva. O próprio Bixio liderou os seus homens e, com os seus ajudantes de campo, Cavaliere Filippo Fermi, Conde Martini e Coronel Malenchini, todos toscanos, carregou efetivamente contra o inimigo. Disseram-me que, ao ouvir este episódio, Garibaldi disse: 'Não estou nada surpreendido, pois Bixio é o melhor general que criei.' Uma vez repelido o inimigo, foi ordenado a Bixio que manobrasse de forma a cobrir o movimento de recuo do exército, que se retirava de forma ordenada e lenta para o Mincio. Apoiado pela cooperação da cavalaria pesada, comandada pelo General Conde de Sonnaz, Bixio cobriu a retirada e, durante a noite, ocupou Goito, posição que manteve até à noite do dia 27.

Em consequência do movimento de concentração do exército italiano que mencionei no início desta carta, o quarto corpo de exército (de Cialdini) ainda mantém a linha do Po. Se fui corretamente informado, o decreto para a formação do quarto corpo de exército foi assinado pelo rei ontem. Este corpo é o de Garibaldi, e tem cerca de 40.000 homens. Um oficial que regressou há pouco de Milão disse-me esta manhã que teve a oportunidade de falar com os prisioneiros austríacos enviados de Milão para a fortaleza de Finestrelle, no Piemonte. Entre eles estava um oficial de um regimento de ulanos, que tinha toda a aparência de pertencer a alguma família aristocrática da Polónia austríaca. Tendo sido questionado se pensava que a Áustria tinha realmente ganho a batalha do dia 24, respondeu: 'Não sei se as ilusões do exército austríaco vão ao ponto de o induzir a acreditar que obteve uma vitória — eu não acredito nisso. Aquele que ama a Áustria não pode, contudo, desejar que ela obtenha tais vitórias, pois são vitórias de Pirro!'

Existe em Verona algum elemento nos conselhos de guerra austríacos que não compreendemos, mas que confere às suas operações nesta fase atual da campanha um caráter tão incerto e vacilante como o que possuía durante a campanha de 1859. Na sexta-feira estão ainda além do Mincio, e no sábado a sua pequena frota no Lago de Garda navega até Desenzano e abre fogo contra esta cidade indefesa e a sua estação ferroviária, enquanto dois batalhões de atiradores tiroleses ocupam o edifício. No domingo retiram-se, mas ontem, cedo, atravessam o Mincio, em Goito e Monzambano, e começam a lançar duas pontes sobre o mesmo rio, entre o último local mencionado e os moinhos de Volta. Ao mesmo tempo, erguem baterias em Goito, Torrione e Valeggio, empurrando os seus grupos de reconhecimento de hussardos até Medole, Castiglione delle Stiviere e Montechiara, sendo este último local a apenas vinte milhas de distância de Brescia. Antes de esta notícia me chegar aqui esta manhã, eu estava mais inclinado a acreditar que estavam a brincar às escondidas, na esperança de que os líderes do exército italiano fossem tentados pelo jogo e repetissem, pela segunda vez, o ataque demasiado precipitado ao quadrilátero. Esta notícia, que recebi de uma fonte fiável, mudou, contudo, a minha opinião anterior, e começo a acreditar que o Arquiduque austríaco tomou realmente a decisão de sair das fortalezas do quadrilátero e pretende, de facto, começar a guerra nos próprios campos de batalha onde o seu primo imperial foi derrotado em 24 de junho de 1859. Pode ser que os desastres parciais sofridos por Benedek na Alemanha tenham determinado o governo austríaco a ordenar um sistema de guerra mais ativo contra a Itália ou, como é geralmente acreditado aqui, que a organização do comissariado não fosse suficientemente perfeita no exército que o Arquiduque Alberto comanda para permitir uma ação mais ativa e ofensiva. Seja como for, o facto é que as notícias recebidas aqui de várias partes da Alta Lombardia parecem indicar, por parte dos austríacos, a intenção de atacar os seus adversários.

Ontem, enquanto a pacífica aldeia de Gazzoldo — a cinco milhas italianas de Goito — ainda estava mergulhada no silêncio da noite, foi ocupada por 400 hussardos, para grande consternação das pessoas que foram despertadas do seu sono pelo galope dos seus visitantes inesperados. O sindaco, ou presidente da câmara da aldeia, que é o farmacêutico do local, foi, ouvi dizer, levado à força da sua casa e forçado a escoltar os austríacos na estrada que conduz a Piubega e Redondesco. Este digno magistrado, que aparentemente não estava dotado de coragem suficiente para ser pelo menos meio herói, ficou tão assustado que adoeceu e ainda se encontra numa condição muito precária. Estas incursões nem sempre são realizadas com impunidade, pois, na noite passada, não longe de Guidizzuolo, dois esquadrões de cavalaria ligeira italiana — os Cavalleggieri di Lucca, se fui corretamente informado — numa curva repentina da estrada que conduz da última aldeia mencionada para Cerlongo, encontraram-se quase face a face com quatro esquadrões de ulanos. Os italianos, sem contar os seus inimigos, espetaram as esporas nos cavalos e caíram como um trovão sobre os austríacos que, após um combate que durou mais de meia hora, foram postos em fuga, deixando no terreno quinze homens hors de combat, além de doze prisioneiros.

Enquanto escaramuças deste tipo decorrem no terreno plano da Lombardia que se estende entre o Mincio e o Chiese, uma ação mais decisiva foi adotada pelo corpo austríaco que está aquartelado no Tirol italiano e na Valtellina. Há poucos dias, acreditava-se geralmente que a missão deste corpo era apenas opor-se a Garibaldi caso ele tentasse forçar esses passos alpinos. Mas agora ouvimos subitamente que os austríacos já são senhores de Caffaro, Bagolino, Riccomassino e Turano, pontos que estão a fortificar. Este facto explica os últimos movimentos feitos por Garibaldi nessa direção. Mas enquanto os austríacos estão a concentrar as suas tropas nos Alpes tiroleses, a revolução espalha-se rapidamente nas montanhas mais a sul do Friuli e de Cadorre, ameaçando assim o flanco e a retaguarda do seu exército na Venécia. Este movimento revolucionário pode ainda não ter assumido grandes proporções, mas, como é o efeito de um plano proposto de antemão, pode tornar-se verdadeiramente imponente, tanto mais que as fileiras desses patriotas italianos são diariamente engrossadas por numerosos desertores e homens refratários dos regimentos venezianos do exército austríaco.

Embora o corpo principal dos austríacos pareça estar ainda concentrado entre Peschiera e Verona, não me admiraria se atravessassem o Mincio hoje ou amanhã, com o objetivo de ocupar as colinas de Volta, Cavriana e Solferino, que, tanto pela sua posição como pela natureza do terreno, são, por si só, verdadeiras fortalezas. Supondo que o exército italiano decida pela ação — e há todas as razões para acreditar que esse será o caso — não é improvável que, tal como já tivemos uma segunda batalha em Custozza, possamos ter uma segunda em Solferino.

Que no quartel-general italiano algo foi decidido que pode apressar o movimento de avanço do exército, infiro do facto de que os comissários militares estrangeiros no quartel-general italiano, que, após o dia 24 de junho, tinham ido passar o ócio da sua vida de campo em Cremona, fizeram subitamente a sua aparição em Torre Malamberti, uma villa pertencente ao Marquês Araldi, onde está aquartelado o estado-maior de Lamarmora. Um evento ainda mais importante é a presença do Barão Ricasoli, que encontrei ontem à noite ao vir para aqui. O Presidente do Conselho vinha de Florença e, depois de parar algumas horas na villa de Cicognolo, onde Vítor Manuel e a casa real estão hospedados, dirigiu-se a Torre Malamberti para conferenciar com o General Lamarmora e o Conde Pettiti. A presença do barão no quartel-general é um incidente demasiado importante para ser ignorado por pessoas cuja tarefa é a de vigiar o curso dos acontecimentos neste país. E deve ter-se em conta que, a caminho do quartel-general, o Barão Ricasoli parou algumas horas em Bolonha, onde teve uma longa entrevista com Cialdini. Nem isto é tudo; pois o facto mais importante que tenho a relatar hoje é que, enquanto escrevo (cinco horas da manhã), três corpos do exército italiano estão a atravessar o Oglio em diferentes pontos — todos os três agindo em conjunto e prontos para qualquer ocorrência. Este reconnaissance en force pode, como vê, transformar-se numa batalha regular caso os austríacos tenham atravessado o Mincio com o corpo principal do seu exército durante o curso da noite passada. Vê que o ar à minha volta cheira o suficiente a pólvora para justificar a expectativa de acontecimentos que provavelmente exercerão uma grande influência sobre a causa do direito e da justiça — a causa da Itália.

MARCARIA, 3 de julho, à noite.

O guia de Murray poupar-me-á o trabalho de vos descrever como é este pequeno e sujo buraco de Marcaria. O rio Oglio corre diretamente para sul, não longe da aldeia, e corta a estrada que de Bozzolo conduz a Mântua. Fica a cerca de sete milhas de Castellucchio, uma vila que, desde a paz de Villafranca, marcava a fronteira italiana na Baixa Lombardia. Em direção a este último local marchou esta manhã a décima primeira divisão dos italianos, sob o comando do general Angioletti, há apenas um mês Ministro da Marinha no gabinete de Lamarmora. A divisão de Angioletti, do segundo corpo, deveria, em caso de ataque, ser apoiada pela quarta e pela oitava, que tinham atravessado o Oglio em Gazzuolo quatro horas antes de a décima primeira ter partido do local de onde agora vos escrevo. Duas outras divisões moveram-se também numa linha oblíqua a partir do curso superior do rio acima mencionado, atravessaram-no numa ponte de barcos e foram incumbidas de manter as suas comunicações com a de Angioletti pela esquerda, enquanto a oitava e a quarta teriam formado a sua direita. Estas cinco divisões constituíam a vanguarda do corpo principal do exército italiano. Não estou em condições de vos dizer a linha exata que o exército, assim avançando a partir do Oglio, seguiu, mas disseram-me que, a fim de evitar a possibilidade de repetir os erros que ocorreram na ação do dia 24, os três corps d’armée foram dirigidos para marchar de tal maneira que lhes permitisse apresentar uma massa compacta caso encontrassem o inimigo. Contrariamente a todas as expectativas, a divisão de Angioletti pôde entrar e ocupar Castellucchio sem disparar um tiro. Quando a sua vanguarda chegou à aldeia de Ospedaletto, foi informada de que os austríacos tinham deixado Castellucchio durante a noite, deixando apenas alguns hussardos que, por sua vez, se retiraram para Mântua assim que viram a cavalaria que Angioletti tinha enviado para reconhecer tanto o campo como o burgo de Castellucchio.

Acabam de chegar notícias de que o general Angioletti conseguiu levar os seus postos avançados até Rivolta, na sua esquerda, e ainda mais à frente na sua frente, em direção a Curtalone. Embora a distância de Rivolta a Goito seja de apenas cinco milhas, disseram-me que Angioletti não conseguiu verificar se os austríacos tinham atravessado o Mincio em força.

Que papel desempenharão Cialdini e Garibaldi na grande luta, ninguém pode dizer. É certo, contudo, que estes dois líderes populares não ficarão inativos e que uma batalha, se for travada, assumirá as proporções de um massacre quase inaudito.

QUARTEL-GENERAL DO EXÉRCITO ITALIANO, TORRE MALAMBERTI, 7 de julho de 1866.

Enquanto o imperador austríaco se lança aos pés do governante da França — quase ia escrever o árbitro da Europa —, a Itália e o seu bravo exército parecem rejeitar com desdém a ideia de obter a Venécia como um presente de uma potência neutra. Não pode haver dúvida de que o sentimento existente desde o anúncio da proposta austríaca pelo Moniteur é de espanto, e até mesmo de indignação no que diz respeito à própria Itália. Não se ouve nada além de expressões deste tipo em qualquer cidade italiana em que se esteja, e o exército italiano está naturalmente ansioso por que não se diga que abandona a sua tarefa quando os austríacos dizem tê-lo derrotado, sem provar que também os pode derrotar. Existem elevadas considerações de honra que nenhum soldado ou general pensaria jamais em pôr de parte por razões humanitárias ou políticas, e com estas considerações o exército italiano está em total acordo desde 24 de junho. A forma, também, como o Kaiser escolheu desistir do ponto longamente contestado, ignorando a Itália e reconhecendo a França como parte na questão veneziana, criou grande indignação entre os italianos, cujos jornais declaram, todos eles, que um novo insulto foi oferecido ao país. Este é o estado da opinião pública aqui, e a menos que as maiores vantagens sejam obtidas por um armistício prematuro e um tratado de paz apressado, é provável que continue o mesmo, não para a total segurança da ordem pública na Itália. Como seria de esperar, todos os olhares se voltam para a Villa Pallavicini, a duas milhas daqui, onde o rei deve decidir sobre aceitar ou rejeitar o conselho do imperador francês, decisões estas que são ambas carregadas de dificuldades consideráveis e de não pouco perigo. O rei terá procurado o conselho dos seus ministros, além de que o da Prússia terá sido pedido e provavelmente dado. O assunto poderá ser decidido de uma forma ou de outra em muito pouco tempo, ou poderá arrastar-se por dias para dar tempo a que a ansiedade e os receios públicos sejam dissipados e se acalmem. Entretanto, parece que o rei e os seus generais decidiram não aceitar o presente. Um ataque à tête-de-pont de Borgoforte, no lado direito do Pó, começou no dia 5, às três e meia da manhã, sob a direção imediata do general Cialdini. O corpo atacante foi o do Duque de Mignano. Durante todo o dia de ontem, o canhão foi ouvido em Torre Malamberti, tal como o foi também esta manhã, entre as dez e as onze horas. Borgoforte é uma fortaleza no lado esquerdo do Pó, lançando uma ponte sobre este rio, cuja extremidade direita é encabeçada por uma forte tête-de-pont, o objeto do presente ataque. Pode dizer-se que esta obra pertence ao quadrilátero, pois é apenas uma parte avançada da fortaleza de Mântua, que, apoiando-se na sua retaguarda, está ligada a Borgoforte por uma estrada militar apoiada no lado de Mântua pela fortaleza de Pietolo. A distância entre Mântua e Borgoforte é de apenas onze quilómetros. A tête-de-pont é lançada sobre o Pó; a sua estrutura é de data recente e consiste numa parte central e em duas alas, chamadas Rocchetta e Bocca di Ganda, respetivamente. A eclusa aqui existente está encerrada na obra da Rocchetta.

Desde que vos escrevi a minha última carta, Garibaldi viu-se obrigado a desistir da ideia de tomar posse de Bagolino, Sant’ Antonio e Monte Suello, após um combate que durou quatro horas, vendo que tinha de lidar com uma brigada austríaca inteira, apoiada por ulanos, atiradores de elite (quase um batalhão) e doze peças de artilharia. Estas posições foram subsequentemente abandonadas pelo inimigo e ocupadas pelos voluntários de Garibaldi. Nesta contenda, o general recebeu um ligeiro ferimento na perna esquerda, cuja natureza, contudo, é tão insignificante que poucos dias serão suficientes para lhe permitir retomar as funções ativas. Parece que o armamento dos austríacos se revelou muito superior ao dos garibaldinos, cujas armas fizeram um serviço muito mau. A perda destes últimos ascendeu a cerca de 100 mortos e 200 feridos, números nos quais os oficiais aparecem em grande proporção, devido ao facto de terem estado sempre à frente dos seus homens, lutando, carregando e encorajando os seus camaradas do princípio ao fim. O capitão ajudante-major Battino, anteriormente do exército regular, morreu, atingido por três balas, enquanto investia contra os austríacos com o primeiro regimento. Ao abandonar a linha do Caffaro, que tinham reocupado após o encontro de Lodrone — em consequência do qual os garibaldinos tiveram de recuar devido à concentração que se seguiu à batalha de Custoza —, os austríacos retiraram-se para a fortaleza de Lardara, entre as montanhas Stabolfes e Tenara, cobrindo a rota para Tione e Trento, no Tirol italiano. O terceiro regimento de voluntários sofreu mais, uma vez que duas das suas companhias tiveram de suportar o peso do terrível fogo austríaco mantido a partir de posições formidáveis. Outro combate estava a ocorrer quase ao mesmo tempo no Val Camonica, isto é, a norte do Caffaro e de Rocca d’Anfo, o point d’appui de Garibaldi. Este encontro foi sustentado nas mesmas proporções, perdendo os italianos um dos seus mais bravos e melhores oficiais na pessoa do major Castellini, um milanês, comandante do segundo batalhão de bersaglieri lombardos. Embora estes e o batalhão do major Caldesi tivessem de recuar de Vezza, uma posição forte foi tomada perto de Edolo, enquanto na retaguarda um regimento manteve Breno em segurança.

Embora ainda no quartel-general há apenas dois dias, o barão Ricasoli foi subitamente chamado por telegrama de Florença e, segundo ouvi, acaba de chegar. Isto deve-se indubitavelmente às novas complicações, especialmente porque, num conselho de ministros presidido pelo barão, foi tomada uma votação, cuja natureza é ainda desconhecida, sobre o estado atual dos assuntos. Como bem sabeis em Inglaterra, a Itália tem grande confiança em Ricasoli, cuja conduta, sempre longe de ser obsequiosa para com o imperador francês, agradou à nação. Considera-se que ele é neste momento o homem certo no lugar certo, e com o grande conhecimento que possui da Itália e dos italianos, e com a cooperação de um homem honesto como o general Lamarmora, pode dizer-se que a Itália está segura, tanto contra amigos como contra inimigos.

Pelo que vi esta manhã, voltando da frente, presumo que algo, e talvez algo de novo, será tentado amanhã. Até agora, o armistício proposto não teve qualquer efeito sobre as disposições no quartel-general e não travou a voz do canhão. No meio de rumores, de esperanças e receios, o desejo da Itália de prosseguir com a guerra tem sido até agora mantido pelos seus líderes de confiança.

QUARTEL-GENERAL DO PRIMEIRO CORPO DE EXÉRCITO,

PIADENA, 8 de julho de 1866.

Ao começar a escrever-vos, não se pode ter dúvidas de que algum movimento está não apenas em contemplação no quartel-general, mas está realmente previsto para ocorrer hoje, e que provavelmente se revelará contra as posições austríacas em Borgoforte, na margem esquerda do Pó. Até este momento, a tête-de-pont no lado direito do rio tinha sido atacada apenas pelos canhões do general Duque de Mignano. Seria agora, pelo contrário, uma questão de cortar as comunicações entre Borgoforte e Mântua, ocupando a parte baixa do país em torno desta última fortaleza, avançando sobre os Valli Veronesi e contornando o quadrilátero para a Venécia. Enquanto, pois, aguardamos mais notícias para nos dizerem se este plano foi posto em execução e se será prosseguido, sem pensar na existência de Mântua e Borgoforte nos seus flancos, um grande facto já está verificado: o de que o armistício proposto pelo imperador Napoleão não foi aceite e que a guerra deve continuar. Os austríacos podem fechar-se nas suas fortalezas, ou podem até ser tão prestáveis a ponto de deixar ao rei a posse incontestada das mesmas, recuando na mesma linha em que os seus oponentes avançam; a perseguição, se não a luta, a guerra, se não a batalha, será levada a cabo pelos italianos. Em Torre Malamberti, onde fica o quartel-general, não se viam senão oficiais generais ontem, apressando-se em todas as direções. Encontrei o rei, os generais Brignone, Gavone, Valfrè e Menabrea a poucos minutos uns dos outros, e o príncipe Amadeus, que recuperou inteiramente do seu ferimento, tinha sido chamado por telegrama e chegará a Cremona hoje. Não se pode obter informação precisa relativamente às intenções dos austríacos, mas é de esperar para o exército italiano, e para o crédito dos seus generais, que se saiba mais sobre eles agora do que se sabia na véspera do famoso dia 24 de junho e na própria manhã dele. O heroísmo dos italianos nesse dia memorável supera qualquer ideia possível que se possa formar, tal como superou também todas as expectativas do país. Deixai-me relatar-vos alguns de entre muitos factos heroicos que apenas vêm a lume quando se tem a ocasião de falar com aqueles que foram testemunhas oculares deles, uma vez que não são objeto de ordens regimentais magnificadas ou, ainda, de honras bem merecidas. Os soldados italianos parecem pensar que o exército apenas fez o seu dever e que, onde quer que os italianos lutem, mostrarão sempre igual valor e firmeza. O capitão Biraghi, de Milão, pertencente ao estado-maior, tendo no meio da batalha recebido uma ordem do general Lamarmora para o general Durando, seguia com toda a velocidade possível em direção ao primeiro corpo de exército, que recuava lentamente perante as forças superiores do inimigo e perante o número grandemente superior das suas armas, quando, sob uma autêntica chuva de metralha, foi de repente confrontado por um oficial austríaco de cavalaria que estava à espera do ordenança italiano. O austríaco dispara o seu revólver contra Biraghi e fere-o no braço. Nada intimidado, Biraghi investe contra ele e fá-lo recuar; depois, perseguindo-o, derruba-o da sela, mas tem o seu próprio cavalo abatido debaixo de si. Biraghi desembaraça-se, mata o seu antagonista e salta para o cavalo deste último. Este, contudo, é também derrubado num momento por uma bala de canhão, de modo que o galante capitão tem de voltar a pé, a sangrar e quase incapaz de andar. Falando de heroísmo, de resistência inimitável e força de alma, o que pensais de um homem que tem o braço inteiramente arrancado por uma granada e, ainda assim, mantém-se no seu cavalo, firme como uma rocha, e continua a dirigir a sua bateria até que a hemorragia — e a hemorragia apenas — o derruba finalmente, morto! Tal foi o caso com um napolitano — o major Abate, da artilharia — e o seu nome vale a glória de um exército inteiro, de uma guerra inteira; e pode apenas encontrar um companheiro digno no de um oficial do décimo oitavo batalhão de bersaglieri, que, investindo contra um porta-bandeira austríaco, arranca o estandarte das mãos dele com a mão esquerda, vê-a ser cortada rente por um oficial austríaco que estava perto e imediatamente agarra-o com a direita, até que os seus próprios soldados o carregam com o seu troféu! Não soa isto como a história grega repetida — não parece que os bravos homens da antiguidade tivessem renascido e os velhos factos renovados para contar do heroísmo italiano? Outro bersagliere — um toscano, de nome Orlandi Matteo, pertencente àquele heroico quinto batalhão que lutou contra brigadas, regimentos e batalhões inteiros, perdendo 11 dos seus 16 oficiais e cerca de 300 dos seus 600 homens —, Orlandi já estava ferido quando, percebendo uma bandeira austríaca, faz um grande esforço, investe contra o oficial, mata-o, toma a bandeira e, quase a morrer, entrega-a ao seu tenente. Está agora numa enfermaria do Hospital San Domenico em Bréscia, e todos os que souberam da sua bravura esperarão sinceramente que ele possa sobreviver para ser apontado como um dos muitos que se cobriram de fama naquele dia. Se é triste ler sobre a morte encontrada no campo por tantos soldados patriotas e bravos, é mais triste ainda saber que não poucos deles foram barbaramente mortos pelo inimigo, e mortos, ainda por cima, quando estavam inofensivos, pois jaziam feridos no chão. O coronel siciliano Stalella, genro do senador Castagnetto e um homem corajoso entre os mais corajosos dos homens, foi atingido na perna por uma bala e derrubado do seu cavalo enquanto incitava os seus homens a repelir os austríacos, que em grandes massas pressionavam a sua coluna reduzida. Embora em retirada, o regimento enviou alguns dos seus homens para o retirar, mas assim que ele foi colocado numa maca, teve de ser pousado, pois dez ou doze ulanos vinham a galope, obrigando os homens a esconderem-se num arbusto. Quando os ulanos chegaram perto do coronel e viram-no deitado em agonia, todos cravaram as suas lanças no corpo dele.

Não será isto uma crueldade gratuita — uma crueldade até inaudita, crueldade que nenhum selvagem possui? Ainda assim, estes são factos, e ninguém se atreverá jamais a negá-los a partir de Verona e de Viena, pois são tão conhecidos como foi sabido e visto que os ulanos e muitos dos soldados austríacos estavam embriagados quando começaram a lutar, e que, ao sair dos comboios, estavam munidos das suas rações e de rum, e que lutaram sem as suas mochilas. Esta é a verdade, e nada além dela foi afirmado, para honra dos italianos, seja para desgraça ou crédito dos seus inimigos; de modo que, enquanto negam que maltratam os prisioneiros austríacos, estão prontos a declarar que os seus são bem tratados em Verona, sem pensar em caluniar e difamar como fizeram os jornais de Viena.

Esta manhã, o príncipe Amadeus chegou a Cremona, onde recebeu uma receção muito espontânea e calorosa por parte da população e da Guarda Nacional. Prosseguiu imediatamente pelo caminho mais curto para o quartel-general, de modo que o seu desejo de estar de novo na frente quando algo fosse feito foi concretizado. Este bravo jovem e o seu digno irmão, o príncipe Humbert, ganharam o aplauso de toda a Itália, que se orgulha justamente de contar o seu rei e os seus príncipes entre os primeiros no campo.

Acabo de saber de uma fonte muito fiável que os austríacos minaram a ponte de Borghetto no Mincio, de modo que, caso seja explodida, as únicas duas, as de Goito e de Borghetto, seriam destruídas e os italianos obrigados a fazer outras provisórias. Ouço também que as cidades venezianas estão sem qualquer guarnição e que, muito provavelmente, todas as forças estão concentradas em duas linhas, uma de Peschiera a Custoza e a outra atrás do Ádige.

Sabereis provavelmente a esta altura que a guarnição de Viena tinha sido enviada a Praga no dia 3. As notícias que recebemos da Prússia são, no geral, encorajadoras, na medida em que o tão temido armistício foi repelido pelo rei Guilherme. Algumas pessoas aqui pensam que a França não será demasiado dura com a Itália por manter a sua palavra com o seu aliado, e que o peso da ira ou desaprovação francesa terá de ser suportado pela Prússia. Isto é o menos que ela pode esperar, como sabeis!

É provável que amanhã vos possa escrever mais sobre a guerra ítalo-austríaca de 1866.

GONZAGA, 9 de julho de 1866.

Escrevo-vos de uma villa, a apenas uma milha de distância de Gonzaga, pertencente à família dos condes Arrivabene de Mântua. Os proprietários nunca mais nela entraram desde 1848, e é apenas o acaso da guerra que os levou a ver a sua bela sede da Aldegatta, para nunca mais, espera-se para eles, ser abandonada de novo. É, como vedes, ‘Mutatum ab illo.’ Seguiram, pois, em frente os patriotas exilados! Seguirá em frente a nação que os possui! O desejo de todos os que são forçados a ficar para trás é que o exército, que os voluntários, que a frota, cooperem todos e que, todos eles, desembarquem em solo veneziano para procurar uma grande batalha, para devolver ao exército a fama que merece e ao país a honra que possui. O rei é chamado a manter a palavra nobremente dada de vingar Novara e, com ela, a nova proposta austríaca insultuosa. Tudo, diz-se, está pronto. Tem-se dito que o exército é numeroso; se ser numeroso e bravo significa merecer a vitória, deixai que os generais italianos provem o que os soldados italianos valem. Se eles lutarem, o país apoiá-los-á com a mais audaz das resoluções — o país aceitará uma discussão sempre que o Governo, tendo dispersado todos os receios, proclamar que a guerra deve ser continuada até que a vitória seja inscrita no escudo da Itália.

Como não estou longe de Borgoforte, sou capaz de aprender mais do que a mera voz do canhão me pode dizer, e por isso dar-vos-ei alguns detalhes da ação contra a tête-de-pont, que começou, como vos disse numa das minhas cartas anteriores, no dia 4. Em Borgoforte havia cerca de 1500 austríacos e, na noite de 5 para 6, mantiveram, a partir das suas quatro obras fortificadas, um fogo suficientemente bem sustentado, cujo objetivo era impedir o inimigo de posicionar as suas peças. Este fogo, contudo, não causou qualquer dano, e os italianos conseguiram montar as suas baterias. Logo no dia 6, o fogo começou ao longo de toda a linha, tendo os canhões italianos de 16 libras sido os primeiros a abrir fogo. A direita italiana era comandada pelo Coronel Mattei, a esquerda pelo Coronel Bangoni, que fez um excelente trabalho, enquanto a outra ala não teve tanto sucesso. As peças mais pesadas ainda não tinham chegado, devido a um daqueles incidentes sempre certos de acontecer quando menos se esperam, de modo que os canhões de 40 libras não puderam ser postos a tiro contra os fortes até mais tarde no dia. O dano causado às obras não foi grande por enquanto, mas ainda assim ganhou-se a vantagem de testar a força das posições do inimigo e encontrar o caminho certo para as atacar. Os artilheiros trabalharam com grande vigor e só foram obrigados a desistir por uma ordem inesperada que chegou por volta das duas da tarde, vinda do General Cialdini. O ataque foi, contudo, retomado no dia seguinte, e a condição dos fortes de Monteggiana e Rochetta pode ser considerada precária. Como sinal dos tempos, e mais especialmente da justa impaciência que prevalece na Itália sobre a direção geral dos movimentos do exército, pode não ser sem importância notar que a imprensa italiana começou a clamar contra a escuridão em que tudo está envolto, enquanto o tempo já decorrido desde 24 de junho fala claramente de inação. Observa-se que o amargo presente feito pela Áustria das províncias venezianas, e a suspeita oferta de mediação pela França, deveriam ter encontrado a Itália em condições muito diferentes, tanto no que diz respeito à sua posição política como militar. A Itália está, pelo contrário, exatamente no mesmo estado em que estava quando o Arquiduque Alberto telegrafou para Viena a dizer que um grande sucesso tinha sido obtido sobre o exército italiano. Estes são factos e, por mais fortes e dignas de respeito que possam ser as razões, não há dúvida de que ocorreu um atraso extraordinário no retomar das hostilidades, e que, neste momento, as operações projetadas são perfeitamente misteriosas. Algo é revelado de tempos a tempos, o que só serve para tornar a subsequente ausência de notícias cada vez mais intrigante. Por enquanto, a primeira relação oficial do infeliz combate de 24 de junho foi publicada e é, consequentemente, ansiosamente examinada e estudada de perto. É uma observação geral que não é necessário grande conhecimento militar para perceber que foi depositada confiança excessiva em supostos factos, e que a indulgência em especulações e ideias causou o desperdício de tanto sangue precioso. A prudência que caracteriza os movimentos subsequentes dos austríacos pode ter sido causada pelos efeitos dos preparativos dos seus oponentes, mas os comandantes italianos deveriam ter evitado a responsabilidade de dar ao inimigo a opção de se mover.

É claro que, para remediar as coisas, a expressão de gritos generosos e patrióticos não é suficiente, e que deve ser demonstrado que o vigor do corpo não é de todo ultrapassado pelo vigor da mente. É também claro que muitas vidas poderiam ter sido poupadas se tivesse havido maiores provas de inteligência por parte daqueles que dirigiram o movimento.

A situação é ainda muito grave. Tal armistício, como o que o General von Gablenz pôde humilhar-se o suficiente para pedir aos prussianos, foi recusado, mas outro, que o Imperador dos Franceses os aconselhou a aceitar, poderia, em última análise, tornar-se um facto. Para a Itália, a questão puramente veneziana poderia então também ser resolvida, enquanto a italiana, a questão nacional, a questão de direito e honra que o exército tanto preza, ainda permaneceria por resolver.

GONZAGA, 12 de julho de 1866.

Diz-se geralmente que viajar é problemático, mas viajar com e através de brigadas, divisões e corpos de exército, posso certificar que é mais do que habitualmente agradável. Não é que os oficiais italianos ou os soldados italianos estejam de alguma forma dispostos a colocar obstáculos no vosso caminho; mas eles, infelizmente para vós, têm consigo as inevitáveis carroças com os inevitáveis carroceiros, ambos os quais são suficientes para fazer gelar o vosso sangue, ainda que o barómetro esteja muito alto. Entre a sua indolência, o seu número e o pó que faziam, pensei realmente que me deixariam louco antes de chegar a Casalmaggiore no meu caminho desde Torre Malamberti. Parti daquele lugar às três da manhã, com um tempo maravilhoso, que, fiel à tradição, me acompanhou durante toda a minha viagem. Passando por San Giovanni in Croce, para onde o quartel-general do General Pianell tinha sido transferido, virei à direita na direção do Pó e comecei a ter uma ideia do tipo de viagem penosa que teria de fazer até Casalmaggiore. De ambos os lados do caminho, alguns regimentos pertencentes à divisão de retaguarda ainda estavam acampados, e, ao passar, foi muito interessante ver quão ocupados estavam a cozinhar o seu ‘rancio’, a polir as suas armas e a aproveitar o seu tempo da melhor forma. Os oficiais permaneciam por ali, descontraídos, a olhar e a fitar-me, supondo, como pensei, que eu viajava com algum papel no destino do seu país. Aqui e ali, alguns soldados que tinham acabado de deixar os hospitais de Brescia e Milão dirigiam-se para os seus corpos e apertavam a mão aos seus camaradas, de quem apenas a doença ou a fortuna da guerra os tinham feito separar. Pareciam felizes por ver a sua velha tenda, o seu velho tambor, o seu velho sargento de bandeira, e também a bandeira que tinham levado para a batalha e que, a qualquer preço, não tinham permitido que fosse tomada. Posso afirmar aqui, en passant, que nada menos que seis bandeiras foram tomadas ao inimigo na primeira parte do dia de Custozza, e foram posteriormente abandonadas na retirada, enquanto dos italianos apenas uma foi perdida por um regimento durante alguns minutos, tendo sido rapidamente retomada. Este facto deveria ser suficiente por si só para estabelecer a bravura com que os soldados lutaram no dia 24, e a bravura com que lutarão se, como ardentemente desejam, uma nova ocasião lhes for dada.

Enquanto encontrava apenas tropas, quer marchando ou acampando na estrada, tudo corria bem, mas em breve vi-me misturado com uma linha interminável de carroças e semelhantes, formando o comboio militar e civil do exército em movimento. Foi então que foi necessária tanta paciência para evitar saltar da carruagem e castigar os carrettieri, pois persistiam em não me dar passagem, sendo tão mudos aos meus apelos como uma pedra. Quando terminava com um, tinha de lidar com outro, e encontramo-los todos tão obstinados e egoístas como são de uma ponta à outra do mundo, quer seja na estrada de Casalmaggiore ou em High Holborn. De tempos a tempos, as coisas pareciam correr bem e pensava-me livre de mais problemas, mas rapidamente descobria o meu erro, quando uma enorme carroça de munições entrava de chofre no meu caminho, quando uma roda se emaranhava com outra, e o imperturbável Signor Carrettiere evidentemente deliciava-se com uma nova oportunidade para paragem, inação, indolência e sono. Cheguei rapidamente à conclusão de que a Itália não seria livre quando os austríacos tivessem sido expulsos, pois um outro e mais formidável inimigo — um inimigo da sociedade e do conforto, dos homens e dos cavalos, da humanidade em geral — teria ainda de ser batido, expulso, aniquilado, sob a forma do carrettiere. Se o empregais, ele rouba-vos cinquenta vezes; se quereis que conduza rapidamente, ele tem a certeza de impedir o animal de andar de todo; se, pior do que tudo, nunca pensais nele, ou acabastes de ser saqueados por ele, ele não se moverá um centímetro para vos obrigar. Certamente o cólera não é a única pestilência com que um país pode ser visitado; e, se Cialdini fosse alguma vez a Viena, poderia vingar Novara e o Spielberg levando consigo os carrettieri de todo o exército.

Finalmente Casalmaggiore apareceu, e, quando a boa fortuna e os carroceiros permitiram, cheguei lá. Já era tempo! Nenhum Jacob blindado poderia ter resistido a mais duas milhas de viagem em tal companhia. Em Casalmaggiore segui por outro caminho. Havia, felizmente, duas estradas, e não foi necessária a mais leve razão ou o menor argumento para me fazer escolher aquela que o meu cauchemar não tinha escolhido. Eles estavam a atravessar o rio em Casalmaggiore. Eu fui, naturalmente, com o mesmo propósito, para outro lugar. Qualquer lugar era suficientemente bom — assim pensava, pelo menos, então. Novas aventuras, novas misérias esperavam-me — algum carrettiere ou outro, adivinhando que eu não era amigo dele, nem de todo o grupo, tinha-me lançado a jattatura.

Desci na Colombina, após quatro horas de viagem, para dar tempo aos cavalos de descansar um pouco. O Albergo della Colombina foi uma grande desilusão, pois não havia lá nada que se pudesse comer. Decidi esperar o mais pacientemente possível, mas de forma bem diferente de alguns oficiais de cavalaria, que, todos cobertos de pó e evidentemente tão famintos e sedentos quanto podiam estar, começaram a praguejar a seu bel-prazer. Numa hora, foram trazidos alguns ovos e algum salame, uma espécie de salsicha, que foram rapidamente consumidos. Um jovem tenente do trigésimo regimento de infantaria da brigada de Pisa tomou o seu lugar à frente, e em breve estávamos envolvidos em conversa. Ele tinha estado no meio e na pior parte da batalha de Custozza, e escapara de ser feito prisioneiro pelo que parecia um milagre. Contou-me como, quando o seu regimento avançou para a posição de Monte Croce, que ele descreveu praticamente como tendo a forma de um pudim inglês, foram alvejados por baterias tanto nos flancos como na frente. O tenente acrescentou, contudo, com algum desprezo, que nem sequer se curvaram perante eles, como parece ser o costume — isto é, deitar-se no chão —, pois os austríacos estavam a disparar muito mal. O fogo cruzado tornou-se, contudo, tão tremendo que teve de ser dada uma ordem para se manterem rente à estrada para evitar serem aniquilados. O assalto foi dado, toda a linha de posições foi tomada, e mantida por horas, até que a regra infalível de três para um, apoiada por baterias, metralha e granadas, os obrigou a retirar, o que fizeram lentamente e em ordem. Foi então que o seu comandante de brigada, o Major-General Rey de Villarey, que, embora nativo de Mentone, preferira permanecer com o seu rei a passar para os franceses após a cessão, virando-se para o filho, que era também o seu ajudante de ordens, disse no seu dialeto: ‘Agora, meu filho, temos de morrer ambos’, e com um toque de esporas estava rapidamente à frente da linha e na colina, onde três balas o atingiram quase ao mesmo tempo, morto. O cavalo do seu filho caiu enquanto o seguia, e a sua vida foi poupada. O meu tenente, neste momento, estava tão vencido pela fome e fadiga que caiu, e pensou-se que estivesse morto. Não estava, contudo, e teve vida suficiente para ouvir, depois de o combate terminar, os Jagers austríacos passarem e voltarem a retirar para as suas posições originais, onde a sua infantaria estava deitada, sem sonhar por um momento em perseguir os italianos. Quatro dos seus soldados — todos napolitanos — ouviu-os vir à sua procura, enquanto as balas ainda sibilavam por todo o lado; e, assim que lhes fez um sinal, aproximaram-se e levaram-no aos ombros de volta para onde estava o que restava do regimento. É altamente louvável para a unidade italiana ouvir um velho oficial piemontês elogiar os recrutas das novas províncias, e o tenente deliciava-se ao relatar que outro napolitano estava no combate ao lado dele, disparando o mais rápido que podia, quando, tendo uma granada explodido perto dele, lançou-lhe um olhar desdenhoso e nem sequer tentou salvar-se da jattatura.

O galante tenente teve infelizmente de partir, por fim, e fui privado de muitos relatos interessantes e da companhia de um homem corajoso. Parti, portanto, para Viadana, onde tencionava atravessar o Pó, cuja margem esquerda a estrada seguia agora paralelamente ao curso. Em Viadana, contudo, não encontrei ponte, pois os militares tinham demolido o que existia apenas no dia anterior, e assim tive de procurar informações. Enquanto caminhava sob os pórticos que se encontram em quase todas as aldeias desta vizinhança, fui surpreendido pela visão de uma antiga e bela peça de arte — pois assim o era — um espelho veneziano de Murano. Pendia na parede dentro da loja do negociante de tecidos da aldeia e foi prontamente mostrado pelo proprietário, que não escondeu o orgulho que tinha em possuí-lo. Era um daqueles espelhos que raramente se encontram agora, que outrora eram tão abundantes nos antigos castelos e palácios dos príncipes. Parecia tão profundo e verdadeiro, e a moldura dourada era tão leve, e de tal pureza e elegância, que foi necessária toda a minha resolução para evitar comprá-lo, embora um negócio não tivesse sido efetuado muito facilmente. O espelho, contudo, teve de ser abandonado, pois Dosalo, o ponto mais próximo para atravessar o Pó, ainda estava a sete milhas de distância. A esta altura, o sol estava com toda a sua força, e o calor não era de modo algum agradável. Depois havia o pó também, como se os carrettieri tivessem estado a passar às centenas, de modo que o calor era quase insuportável. Finalmente, a balsa de Dosalo foi alcançada, a estrada que conduzia a ela foi tomada, e a carruagem, pensei, iria ser imediatamente embarcada, quando se descobriu que uma manada de bois tinha a precedência; e assim tive de esperar. Isto, debaixo de tal sol, numa praia sem sombra, e com a perspetiva de ter de ficar lá pelo menos duas horas, não era de modo algum agradável. Levou três quartos de hora a colocar os bois no barco, levou meia hora a levá-los para a outra margem, e outra hora para ter a balsa de volta. O panorama da praia era esplêndido, o Pó aparecia com todo o poderio das suas águas, e ao olhar com a luneta para os bois e árvores na outra margem, pareciam estar vestidos com todas as cores do arco-íris, e como se pertencessem a outro mundo. Vários camponeses esperavam pelo barco perto de mim, falando sobre a guerra e os austríacos, e jurando que, se possível, aniquilariam alguns destes últimos. Dei-lhes a luneta para olharem, e imaginei que nunca tinham visto uma antes, pois acharam altamente maravilhoso descobrir que horas eram na Torre de Luzzara, a três milhas em linha reta do outro lado. O revólver também era objeto de grande admiração, e continuavam a virá-lo, a apalpá-lo e a fitá-lo, como se não conseguissem perceber de que maneira as munições eram colocadas. Um destes camponeses, contudo, estava a fazer-se importante perante os outros e, uma vez no assunto de história, relatou a todos os que quisessem ouvir como tinha estado em Santa Helena, que ficava bem no meio de Moscovo, onde estava tanto frio que o seu nariz se tinha tornado tão grande quanto a sua cabeça. O pobre homem estava evidentemente a misturar o conto de uma noite com o da seguinte, um conto provavelmente ouvido do velho Sindaco, que é ao mesmo tempo o mestre-escola, o notário e a mais alta autoridade municipal do lugar.

Parti finalmente na balsa com eles. Enquanto cruzávamos, começaram a falar dos padres, e estavam todos de acordo, para o dizer da forma mais suave, em pensar extremamente pouco deles, e só diferiam quanto ao castigo que gostariam que sofressem.

Do lado onde desembarcámos jaziam montes de barris de munições para o corpo que sitiava Borgoforte. Outros eram transportados em carroças pelos meus amigos os carrettieri, dos quais estava decretado que eu não estaria livre por algum tempo. Ao entrar em Guastalla encontrei apenas alguns oficiais de artilharia, evidentemente encarregados daquilo que tínhamos visto ser transportado ao longo da rota. Guastalla é uma pequena cidade asseada, muito orgulhosa da sua estátua do Duque Ferrante Gonzaga, e a Croce Rossa é uma pequena estalagem asseada, que pode orgulhar-se de um jovem empregado esperto, que descobriu realmente que, como eu queria seguir para Luzzara, a algumas milhas de distância, era melhor parar até à manhã seguinte. Não aceitei o seu conselho e em breve estava sob a porta de Luzzara, um lugar muito asseado, outrora uma das muitas possessões onde os Gonzagas tinham uma corte, um palácio e um castelo. As armas sobre o arco ainda podem ser vistas, e não seriam dignas de qualquer atenção não fosse um notável trabalho de terracota representando uma coroa de pinheiros e folhas de pinheiro num maravilhoso estado de conservação. O todo é tão artisticamente arranjado e tão natural, que se poderia acreditar ser uma das obras de Luca della Robbia. Luzzara tem também uma grande torre, que eu tinha visto à distância desde Dosalo, e o único albergo do lugar proporciona-vos um excelente jantar italiano. O vinho poderia agradar a um dos maiores admiradores de xerez, e se não vos dão camas de penas, as camas são pelo menos limpas, como os próprios quartos. Aqui, como estava a ficar demasiado escuro, decidi parar, uma decisão que me deu a ocasião de ver um dos pores do sol mais belos que alguma vez vi. Ao olhar do albergo, podia ver uma gradação de cores, do vermelho púrpura ao mais profundo azul-marinho, elevando-se como uma tenda imensa a partir do verde escuro das árvores e dos campos, aqui e ali pontuados por pequenas casas brancas, com os seus telhados vermelhos, enquanto, à frente, a Torre de Luzzara se erguia majestosamente no crepúsculo. À medida que a hora avançava, as cores aprofundavam-se e a extremidade inferior da imensa cortina desaparecia gradualmente, enquanto as estrelas e os planetas começavam a brilhar lá no alto. Um camponês cantava num campo próximo, e os sinos de uma igreja tocavam à distância. Ambos pareciam harmonizar-se maravilhosamente. Era uma cena de grande encanto.

Às quatro da manhã estava de pé, e pouco depois na estrada para Reggiolo, e depois para Gonzaga. Aqui a vegetação torna-se mais luxuriante, e cada polegada de terra contribui para a imensa vastidão do todo. A natureza está aqui em plena perfeição, e como até o fio telegráfico pende descontraído de árvore em árvore, em vez de estar espetado em postes, sentis que o aspeto romântico do lugar é demasiado belo para ser invadido. Tudo é paz, beleza e felicidade, tudo vos revela que estais em Itália.

Em Gonzaga, que há apenas alguns dias pertencia aos austríacos, o tricolor italiano está em todas as janelas. À medida que os antigos mestres se retiravam, os novos avançavam; e quando um destacamento de lanceiros de Monferrato entrou na velha cidade-castelo, a alegria dos habitantes parecia estar quase a roçar o delírio. Os lanceiros partiram em breve, contudo. A bandeira apenas permanece.

11 de julho.

Cialdini começou a atravessar o Pó no dia 8, e cruzou em três pontos, i.e., Carbonara, Carbonarola e Follonica. Começando às três horas da manhã, tinha terminado de cruzar nas duas primeiras pontes de barcas por volta da meia-noite do dia 9. A ponte erguida em Follonica estava ainda intacta até às sete da manhã do dia 10, mas as tropas e o comboio militar e civil que restava seguiram o Pó sem cruzar para Stellata, na suposta direção de Ponte Lagoscura.

Ontem, às sete horas da manhã e até às onze, ouviram-se tiros aqui, na direção de Legnano, creio eu que em direção ao Ádige. O tiroteio foi intenso e de tal natureza que levava a crer que se havia travado uma batalha. Talvez os austríacos tenham esperado por Cialdini sob Legnano, ou tenham disputado a travessia do Ádige. Rovigo foi abandonada pelos austríacos na noite de 9 para 10. Eles explodiram as fortalezas de Rovigo e Boara, destruíram a cabeça de ponte sobre o Ádige e queimaram todas as pontes. Podem agora procurar manter-se pelo lado esquerdo deste rio até Legnano, de modo a ficarem sob a proteção do quadrilátero; nesse caso, se Cialdini conseguir atravessar o rio a tempo, o choque seria quase inevitável e seria a razão do tiroteio de ontem. Podem também seguir por caminho de ferro para Pádua, onde teriam Cialdini entre eles e o quadrilátero. Em todo o caso, se este general for rápido, ou se eles não forem rápidos demais para ele, de acordo com possíveis instruções, uma colisão é difícil de evitar.

O barão Ricasoli partiu de Florença para o acampamento, e correm todo o tipo de rumores quanto ao estado atual das negociações, uma vez que elas parecem existir inequivocamente. As opiniões estão, creio eu, divididas nos altos conselhos da Coroa, e o país continua ansioso por saber o resultado deste estado de coisas. Uma vitória esplêndida de Cialdini poderia, neste momento, resolver muitas dificuldades. Tal como está, a guerra é levada a cabo em toda a parte, exceto por mar, pois as forças de Garibaldi avançam lentamente no Tirol italiano, enquanto os austríacos as esperam atrás das muralhas de Landaro e Ampola. Os postos avançados dos garibaldinos estavam, pelas últimas notícias, perto de Darso.

As notícias da Prússia continuam contraditórias; enquanto a imprensa italiana é unânime em pedir, com o país, que Cialdini avance, encontre o inimigo, combata-o e derrote-o, se possível. Os desejos da Itália estão inteiramente com ele.

NOALE, PERTO DE TREVISO, 17 de julho de 1866.

De Lusia segui a divisão do general Medici até Motta, onde a deixei, não sem pesar, contudo, pois melhores companheiros não poderiam ser facilmente encontrados, tão amáveis eram os oficiais e joviais os homens. Estão agora acampados em redor de Pádua e marcharão amanhã para Treviso, onde a Cavalaria Ligeira italiana já chegou, se julgar pelo facto de terem deixado Noale no dia 15. Pela direita, ouço dizer que os postos avançados avançaram até Mira, no Brenta, a vinte quilómetros da própria Veneza, e que o primeiro corpo de exército deve concentrar-se em frente a Chioggia. Este corpo marchou de Ferrara diretamente para Rovigo, que o movimento de avanço do quarto corpo de exército, ou de Cialdini, deixara vazio de soldados. O general Pianell continua encarregado dele, e o major-general Cadalini, anteriormente à frente da brigada de Siena, substitui-o no comando da sua antiga divisão. O general Pianell tem sob o seu comando o galante príncipe Amadeu, que recuperou totalmente do ferimento no peito e de quem a brigada de granadeiros lombardos está tão orgulhosa como sempre. Não poderiam desejar um comandante mais habilidoso, um melhor oficial superior e um soldado mais valente. Assim, as tropas que combateram a 24 de junho são mantidas na segunda linha, enquanto as divisões ainda frescas sob Cialdini marcham primeiro, tão depressa quanto podem. Isto, contudo, é de pouca utilidade. Os postos avançados italianos no Piave ainda não o atravessaram, pela razão de que devem manter as distâncias com os seus regimentos, mas fá-lo-ão assim que estes se aproximarem do rio. Se não fosse pelo facto de isto ser sempre feito na guerra regular, poderiam percorrer o país para além do Piave por muitas milhas sem sequer ver a sombra de um austríaco. Para o simples soldado raso, que não sabe de imbróglios diplomáticos e de considerações políticas, este recuo súbito significa um retrocesso quase tão súbito, porque se lembra de que esta manobra precedeu ambos os ataques a Solferino e a Custozza pelos austríacos. Para o oficial, no entanto, não significa outra coisa senão um desejo fixo de não enfrentar mais o exército italiano, e por isso é para ele uma fonte de desapontamento e desânimo. Ele não suporta pensar que outra batalha é improvável, e pode ser desculpado se não estiver de melhor humor ao falar deste assunto. Este é o caso não só dos oficiais, mas dos voluntários, que deixaram as suas casas e o conforto da sua vida doméstica, não para desfilar em revistas, mas para serem enviados contra o inimigo. Há centenas deles no exército regular — na cavalaria, especialmente, e os Lanceiros de Aosta e o regimento de Guias são compostos por metade deles. Se os ouvir, não deveria haver a menor dúvida ou hesitação quanto a atravessar o Isonzo e marchar sobre Viena. Que o Céu veja os seus desejos cumpridos, pois, a menos que seja esmagada pela força bruta, a Itália está perfeitamente decidida a levar a guerra para o país do inimigo.

As decisões do governo francês são esperadas aqui com grande ansiedade, e não são poucos os homens que as preveem como desfavoráveis à Itália. Ainda assim, é difícil para todos acreditar que o imperador francês levará as coisas aos extremos e aumentará as muitas dificuldades que a Europa já tem de enfrentar.

Hoje correu um boato na mesa de refeitório de que os austríacos tinham abandonado Legnano, uma das quatro fortalezas do quadrilátero. Não deposito muita fé nisso neste momento, mas não é improvável, pois podemos esperar muitas coisas estranhas do governo de Viena. Teria sido muito melhor para eles, uma vez que o arquiduque Alberto falou em termos elogiosos do rei, dos seus filhos e dos seus soldados, ao relatar a ação do dia 24, terem negociado diretamente com a Itália, assegurando assim a paz, e talvez a amizade, dela. Mas os homens que governaram tão despoticamente durante anos sobre os súbditos italianos não conseguem reconciliar-se com a ideia de que a Itália se ergueu finalmente como uma nação, e aproveitam até sorrateiramente uma oportunidade para atirar novos insultos à sua face. Pode ver-se facilmente que o velho espírito ainda luta pelo império; que o velho desprezo ainda tenta fazer pouco dos italianos; e que as velhas ideias de Metternich ainda são carinhosamente mantidas. Não merece isto outra lição? Não precisa isto de outra Sadowa para se aquietar para sempre? Sim; e cabe à Itália fazê-lo. Se assim for, deixem apenas o exército de Cialdini em paz, e o dia pode estar próximo em que o rei possa dizer ao país que a tarefa foi cumprida.

Uma conversa sobre o estado atual dos assuntos políticos, e sobre a posição peculiar da Itália, é o único assunto digno de nota numa carta do acampamento. Tudo o resto está parado, e os movimentos do belo exército de que Cialdini dispõe agora, cerca de 150.000 homens, já não estão cheios de interesse. Podem, talvez, ter algum no que diz respeito a um ataque a Veneza, porque os soldados austríacos ainda a guarnecem e serão obrigados a lutar se forem assaltados. Espera-se, se for esse o caso, que a bela rainha do Adriático seja poupada a uma cena de devastação, e que não se encontre nenhum novo Haynau para renovar os feitos de Bréscia e Vicenza.

O rei ainda não chegou, e parece provável que não venha durante algum tempo, até que chegue de facto o dia para as tropas italianas fazerem a sua entrada triunfal na cidade dos Doges.

O calor continua intenso, e isto explica a lentidão no avanço. Até agora não apareceu nenhuma doença, e há que esperar que as tropas se mantenham saudáveis, pois a doença testa o moral muito mais do que meia dúzia de Custozzas.

P.S. — Eu tinha acabado de escrever quando um oficial entrou precipitadamente na estalagem onde estou hospedado e disse-me que tinha acabado de ouvir que uma patrulha italiana tinha encontrado uma austríaca na estrada de saída da aldeia e a derrotara. Isto pode ou não ser verdade, mas foi muito curioso ver quão encantados todos estavam com a ideia de que os tinham encontrado finalmente. Não se importavam muito com o resultado do confronto, que, como disse, foi relatado como tendo sido favorável. Tudo com que se importavam era estarem perto do inimigo. Não se pode desesperar de um exército que é animado por tais espíritos. Pensar-se-ia, pela alegria que ilumina a face dos soldados que se encontram por aí agora, que uma vitória tinha sido anunciada para as armas italianas.

DOLO, PERTO DE VENEZA, 20 de julho de 1866.

Regressei de Noale a Pádua ontem à noite e, tarde da noite, recebi o aviso no meu alojamento de que se ouviam canhões na direção de Veneza. Estava então negro como no inferno de Dante, e chovia e soprava com violência — uma daquelas tempestades italianas que parecem acordar todos os elementos terrenos e celestiais da criação. Não havia outra escolha senão montar a cavalo e tentar seguir para a frente. Ninguém que não o tenha tentado pode imaginar o trabalho que é encontrar o caminho ao longo de uma estrada na qual um corpo de exército inteiro marcha com um enorme material de guerra numa noite de breu. Isto, contudo, é o que o seu correspondente especial foi obrigado a fazer. Felizmente, mal tinha avançado até Ponte di Brenta quando me cruzei com um oficial do estado-maior de Cialdini, que ia para o mesmo destino, a saber, Dolo. À medida que avançávamos pela estrada sob uma chuva contínua, os nossos olhos por vezes deslumbrados pelos clarões brilhantes como serpentes do relâmpago, encontrámos algum batalhão ou esquadrão, que avançava cuidadosamente, pois era impossível para eles, tal como para nós, distinguir entre a estrada e as valas que a ladeiam, pois todos os marcos, tão familiares aos nossos guias durante o dia, estavam num nivelamento morto de escuridão. Foi assim que o meu companheiro e eu, depois de tropeçar em valas e sair delas, depois de bater com as cabeças dos nossos cavalos contra um carro de munições, ou contra um grupo de soldados abrigados sob alguma árvore grande, nos encontrámos, após três horas de cavalgada, nesta aldeia de Dolo. A esta altura, a tempestade tinha diminuído muito na sua violência, e o trovão era apenas ouvido fracamente de vez em quando a tal distância que nos permitia ouvir distintamente o rugido dos canhões. Os nossos cavalos mal conseguiam passar pela lama preta e pegajosa, na qual o pó branco e sufocante dos dias anteriores se tinha transformado por uma noite de chuva. Nós, no entanto, fizemo-nos ao caminho para a reitoria da aldeia, pois já tínhamos decidido subir à torre da igreja para obter uma vista da paisagem circundante e ouvir melhor os canhões, se possível. Após algumas palavras trocadas com o sacristão — um italiano convicto, como nos disse ser — subimos a escada da torre da igreja. Uma vez na plataforma de madeira, pudemos ouvir mais distintamente o estrondo dos canhões, que soava como as salvas de um grande navio. Seriam os canhões da frota de Persano, há muito inativa, a atacar alguns dos fortes avançados de Brondolo ou de Chioggia? Seriam os canhões de algum navio de guerra austríaco que tinha enfrentado um couraçado italiano; ou seriam os do ‘Affondatore’, que deixou o Tamisa há apenas um mês, a atacar Trieste? Para dizer a verdade, embora tenhamos esperado pacientemente duas longas horas na torre da igreja de Dolo, quando eu e o meu companheiro descemos, não estávamos em posição de resolver nenhum destes problemas. Pensámos, no entanto, então, e ainda pensamos, que eram os canhões da frota italiana que tinham atacado um forte austríaco.

CIVITAVECCHIA, 22 de julho de 1866.

Desde a partida deste porto do antigo navio-hospital ‘Gregeois’, há cerca de um ano, nenhum navio de guerra francês tinha estado estacionado em Civitavecchia; mas na manhã de quarta-feira o vapor ‘Catinat’, com 180 homens, lançou âncora no porto, e o comandante, imediatamente ao desembarcar, apanhou o comboio para Roma e colocou-se em comunicação com o embaixador francês. Não tenho conhecimento de se o governo pontifício tinha solicitado este navio, ou se o envio foi uma atenção espontânea por parte do imperador francês, mas, de qualquer modo, a sua chegada provou ser uma fonte de prazer para Sua Santidade, pois não se sabe o que pode acontecer em tempos conturbados como o presente, e é sempre bom ter uma retirada assegurada.

Ontem foi notificado neste porto, bem como em Nápoles, que as chegadas de Marselha estariam, até nova ordem, sujeitas a uma quarentena de quinze dias em consequência de o cólera ter feito a sua aparição neste último local. Um navio à vela que chegou de Marselha no decurso do dia teve de desembarcar a mercadoria que trazia para Civitavecchia para barcaças ao largo do lazareto, onde a bandeira amarela foi içada sobre elas. Este navio deixou Marselha cinco dias antes do anúncio da quarentena, enquanto o ‘Prince Napoleon’, da Companhia de Valéry, navio a vapor de passageiros e mercadorias, que deixou Marselha apenas um dia antes do seu anúncio, foi admitido esta manhã a livre prática. Poucos viajantes virão aqui por mar agora.

MARSELHA, 24 de julho.

Acostumados como temos estado ultimamente na Itália a boletins quase de hora a hora do progresso das hostilidades, é uma condição difícil ser subitamente privado de toda a inteligência ao encontrar-se a bordo de um navio a vapor durante trinta e seis horas sem tocar em qualquer porto, como foi o meu caso ao vir para aqui de Civitavecchia a bordo do ‘Prince Napoleon’. Mas, embora os telegramas faltassem, as discussões sobre o curso dos acontecimentos eram abundantes a bordo entre os passageiros que tinham embarcado em Nápoles e Civitavecchia, compreendendo um grupo numeroso de padres franceses e belgas que regressavam de uma peregrinação a Roma, bem abastecidos com rosários e terços abençoados pelo Papa e fac-símiles das correntes de São Pedro. Não foi demonstrada muita simpatia pela causa italiana por estes senhores ou pelos poucos viajantes franceses e alemães que, com três ou quatro napolitanos, formavam a sociedade do convés; e o nosso capitão corso não se esforçou por esconder o seu desprezo pelos procedimentos dilatórios da frota italiana em Ancona. Sabemos que o ministro prussiano, M. d’Usedom, tem feito recentemente vigorosos protestos em Ferrara contra a lentidão com que as forças navais e militares italianas estavam a proceder, enquanto os seus aliados, os prussianos, já estavam perto das portas de Viena; e a conversa de um cavalheiro prussiano a bordo do nosso navio, que estava ligado àquela embaixada, indicava claramente o desapontamento sentido em Berlim com a natureza bastante ineficaz da diversão feita na Venécia e na costa da Ístria pelo exército e marinha de Vítor Emanuel. Ele até atribuiu ao seu ministro uma expressão não muito lisonjeira, quer para as perspetivas futuras da Itália resultantes da sua aliança com a Prússia, quer para a fidelidade desta última em cumprir os seus termos. Não sei se este cavalheiro pretendia que a sua anedota fosse tomada cum grano salis, mas certamente entendi que ele disse que tinha deplorado perante o ministro a falta de vigor e a ausência de sucesso acompanhando as operações dos aliados italianos da Prússia, quando Sua Excelência respondeu: ‘C’est bien vrai. Ils nous ont trompés; mais que voulez-vous y faire maintenant? Nous aurons le temps de les faire égorger après.’

É difícil supor que pudesse existir uma intenção preconcebida por parte da Prússia de retribuir os sacrifícios até então feitos, embora sem um acompanhamento muito brilhante de sucesso, pelo governo italiano em apoio à aliança, fazendo os seus próprios termos separados com a Áustria e deixando a Itália posteriormente exposta à vingança desta última, mas tal seria certamente a inferência a tirar da conversa recém-citada.

Foi apenas ao chegar ao porto de Marselha, no entanto, que a plena inimizade da maioria dos meus companheiros de viagem para com a Itália e os italianos se manifestou. Um marinheiro, o primeiro homem que veio a bordo antes de desembarcarmos, foi imediatamente abordado em busca de notícias, e ele deu-as como sendo, de facto, nada menos que a destruição, mais ou menos completa, da frota italiana pela dos austríacos. Com esta inteligência espantosa, o prussiano explodiu num grito de indignação. ‘Tolos! Cabeças-duras! Miseráveis! Derrotados no mar por uma força inferior! É essa a forma como pretendem reconquistar Veneza à força de armas? Se algum dia recuperarem a Venécia, será através do sangue dos nossos brandeburgueses e pomeranianos, e não do seu próprio.’ Durante esta tirada, um pequeno belga idoso de preto, com a corrente de São Pedro na casa do botão como se fosse uma corrente de relógio, saltou para comunicar as notícias gratificantes a um grupo dos seus companheiros de viagem eclesiásticos, gritando em êxtase:

‘Rosses, Messieurs! Ces blagueurs d’Italiens ont été rosses par mer, comme ils avaient été rosses par terre.’ Ao que os reverendos senhores se congratularam com acenos, piscadelas de olhos e sorrisos, e vários apertos de mão fervorosos. As mesmas demonstrações teriam sido, sem dúvida, feitas pelos passageiros napolitanos se pertencessem à fação bourbónica, mas por acaso eram comerciantes honestos com caixas de coral e lava para o mercado de Paris, e por isso limitaram-se a ficar em silêncio e atónitos com as notícias fatais, com os olhos e a boca o mais abertos possível. Mal cheguei ao meu hotel, indaguei pelo último jornal de Paris, quando me entregaram o France, e obtive confirmação, em certo grau, do desastre da frota italiana narrado pelo marinheiro, embora não exatamente nas mesmas proporções formidáveis.

Antes de deixar o assunto dos meus companheiros de viagem a bordo do ‘Prince Napoleon’, devo mencionar uma anedota que me foi relatada, a respeito do estado do banditismo, por um cavalheiro russo ou alemão, que me disse estar estabelecido em Nápoles. Queixava-se dos perigos que encontrava ocasionalmente ao atravessar numa diligência de Nápoles para Foggia em negócios; e depois, falando da audácia dos bandidos em geral, disse-me que no ano passado viu com os seus próprios olhos, em plena luz do dia, dois bandidos a passear pelas ruas de Nápoles com mensagens de indivíduos capturados para os seus parentes, mencionando as somas que tinham sido exigidas para os seus resgates. Estavam desarmados e com trajes comuns de camponeses, e sempre que chegavam a uma das casas para as quais estavam endereçados para este fim, paravam e abriam um lenço que um deles trazia na mão, e tiravam uma orelha, examinando se o bilhete nela correspondia ao endereço da casa ou ao nome do residente. Havia seis orelhas, todas etiquetadas com os nomes dos proprietários originais no lenço, que eram gradualmente distribuídas às suas famílias em Nápoles para estimular o pronto pagamento dos resgates exigidos. Ao indagar como era que a polícia não tomava conhecimento de tais operações descaradas, o meu informante disse-me que, antes da chegada destes emissários bandidos à cidade, o chefe escrevia sempre às autoridades policiais alertando-as contra a interferência com eles, pois os mensageiros eram sempre seguidos por espiões à paisana pertencentes ao bando que relatariam imediatamente qualquer moléstia que pudessem encontrar no desempenho da sua missão delicada, e o resultado infalível de tal moléstia seria primeiro o assassínio de todos os reféns mantidos para resgate; e depois, a execução sumária de vários membros da gendarmaria e força policial capturados em vários confrontos pelos bandidos, e mantidos como prisioneiros de guerra.

Tal audácia pareceria incrível se não tivéssemos ouvido e lido tantos casos semelhantes ultimamente.

Um benefício muito duvidoso

Os americanos recordam-se de forma perdoadora, sem mencionar

Como lhes convém, eles não olham para o futuro

Acusações de cinismo são comuns contra todos os satiristas

O quarto dos Georges

Aqui e ali uma alma puramente boa a quem ele era afetuoso

Imagens sagradas e outros objetos milagrosos são vendidos

É bom aprender modos sem que nos sejam impostos

Homens excessivamente apaixonados pelas suas criações

Tem de haver o moralista no satirista para que a sátira atinja o seu propósito

Nem uma página dos seus livros revela malevolência ou um escárnio

Concessões mesquinhas são sinais de fraqueza para os insatisfeitos

Estadista que se rebaixou para conquistar o facto através da ficção

O mundo social que ele observava não lhe mostrava heróis

A exaustão que se seguiu chamámo-la tranquilidade

A prolação de gritos generosos e patrióticos não é suficiente

Nós confiamos neles ou esmagamo-los

Habituámo-nos a períodos de febre irlandesa

SOBRE A IDEIA DA COMÉDIA E OS USOS DO ESPÍRITO CÓMICO {1}

[Este texto eletrónico foi preparado a partir da edição de 1897 da Archibald Constable and Company por David Price, e-mail [email protected]]

Boas Comédias são produções tão raras que, não obstante a riqueza da nossa literatura no elemento Cómico, não nos ocuparia muito tempo percorrer a lista inglesa. Se forem submetidas ao teste que proponho, Comédias muito reputadas serão consideradas indignas do seu estatuto, como as damas da Corte de Artur quando foram reduzidas à provação do manto.

Existem razões claras pelas quais o poeta Cómico não é uma aparição frequente; e porque é que o grande poeta Cómico permanece sem um par. É necessária uma sociedade de homens e mulheres cultivados, na qual as ideias sejam correntes e as perceções rápidas, para que ele possa ser suprido com matéria e um público. O semibarbarismo de comunidades meramente levianas e períodos emocionais febris repelem-no; bem como um estado de desigualdade social marcada entre os sexos; nem pode ser compreendido aquele cuja ocupação é dirigir-se à mente onde não existe um grau moderado de atividade intelectual.

Além disso, tocar e inflamar a mente através do riso exige mais do que vivacidade, exige uma delicadeza muito subtil. Esse deve ser um dom inato no poeta Cómico. A substância com que ele lida mostrar-lhe-á uma exibição surpreendente da mão do tintureiro, se ele não o possuir. As pessoas estão dispostas a entregar-se a golpes espirituosos nas costas, no peito e nos lados; todos, exceto na cabeça: e é aí que ele aponta. Ele deve ser subtil para penetrar. Uma agudeza correspondente deve existir para o acolher. A necessidade das duas condições explicará como é que o contamos durante séculos no singular.

‘C’est une etrange entreprise que celle de faire rire les honnetes gens,’ diz Molière; e a dificuldade do empreendimento não pode ser sobrestimada.

Depois, novamente, ele é cercado por inimigos à direita e à esquerda, de um caráter desconhecido para o poeta trágico e lírico, ou mesmo para os filósofos.

Temos neste mundo homens a quem Rabelais chamaria agelastos; isto é, não-ridentes; homens que são, a esse respeito, como corpos mortos que, se os picarmos, não sangram. A velha pedra cinzenta que terminou a sua peregrinação da rocha até ao vale é tão fácil de ser posta a rolar de volta quanto estes homens a rir. Nenhuma colisão de circunstâncias na nossa carreira mortal faz faiscar uma luz para eles. É apenas um passo de ser agelástico para misogelástico, e o [texto grego que não pode ser reproduzido], o odiador do riso, aprende logo a dignificar a sua aversão como uma objeção de moralidade.

Temos outra classe de homens, que se comprazem em considerar-se antagonistas dos anteriores, e a quem podemos chamar hipergelastos; os risonhos excessivos, sempre a rir, que são como badalos de um sino, que podem ser tocados por uma brisa, uma careta; que estão tão frouxamente montados que uma piscadela os fará tremer.

‘... C’est n’estimer rien qu’estioner tout le monde,’

e rir de tudo é não ter qualquer apreciação do Cómico da Comédia.

Nenhuma destas divisões distintas de não-ridentes e sobre-ridentes seria entretida pela leitura de The Rape of the Lock, ou por assistir a uma representação de Le Tartuffe. Em relação ao palco, tomaram na nossa terra a forma e o título de Puritano e Bacanaliano. Pois, embora o palco já não seja um ofensor público, e Shakespeare tenha sido revivido nele, para lhe conferir nobreza, ainda não o elevámos inteiramente acima da contenda destes dois partidos. A nossa fala sobre o tema da Comédia parecerá quase um procedimento libertino para um, enquanto o outro pensará que falar dela seriamente nos coloca num contraste violento com o sujeito.

A Comédia, temos de admitir, nunca foi uma das mais honradas das Musas. Ela foi na sua origem, aquém do massacre, a expressão mais ruidosa da pequena civilização dos homens. A luz de Atena sobre a cabeça de Aquiles ilumina o nascimento da Tragédia Grega. Mas a Comédia entrou aos gritos sob a proteção divina do Filho da Ânfora de Vinho, como Dioniso é feito proclamar-se por Aristófanes. O nosso segundo Carlos foi o patrono, de igual benignidade, da nossa Comédia de Costumes, que começou de forma semelhante como um desempenho combativo, sob uma licença para ridicularizar e ultrajar o Puritano, e foi aqui e ali Bacanaliana para lá do exemplo Aristofânico: pior, na medida em que uma licenciosidade cínica é mais abominável do que a sujidade franca. Um francês eminente julga, pela qualidade de parte do material dragado para o riso de homens e mulheres que assistiram a uma peça Cómica Ateniense, que eles poderiam ter tido pouca delicadeza noutros assuntos quando tinham tão pouca na sua escolha de entretenimento. Talvez ele não faça suficiente concessão para a licença regulamentada de falar francamente, própria da festa do deus, e reivindicada pelo poeta Cómico como o seu direito inalienável, ou para o facto de que era um festival numa época de licença, numa cidade habituada a dar ouvidos à mais ousada expressão de ambos os lados de um caso. Seja como for, não pode haver dúvida de que os homens e mulheres que assistiram à representação de Country Wife, de Wycherley, já não se enrubesciam. A nossa tenacidade de impressões nacionais fez com que a palavra teatro, desde então, estimulasse o sistema nervoso Puritano como um instrumento satânico; tal como se conheceram Anti-Papistas, para os quais Smithfield era refulgente de um fumo sinistro, como se tivessem uma recordação mais recente do local do que os rebanhos a mugir. O Puritanismo hereditário, em relação ao palco, é encontrado, até aos dias de hoje, em muitas famílias de todo destituídas de piedade arrogante. Subsidiu completamente como um poder na profissão da moralidade; mas é um erro supor que esteja extinto, e também injusto esquecer que teve outrora boas razões para odiar, evitar e repreender os nossos espetáculos públicos.

Encontrar-nos-emos mais ou menos onde o espírito Cómico nos colocaria, se nos posicionássemos a uma distância média entre os oponentes inveterados e os defensores de tambor-e-flauta da Comédia: ‘Comme un point fixe fait remarquer l’emportement des autres,’ como diz Pascal. E se houvesse mais nesta posição, o génio Cómico floresceria.

A nossa ideia inglesa de uma Comédia de Costumes poderia ser imaginada na pessoa de uma rapariga rústica e desleixada -- digamos Hoyden, a filha de Sir Tunbelly Clumsy, que, quando em casa, ‘nunca desobedeceu ao pai exceto no consumo de groselhas verdes’ -- transformando-se numa senhora da Cidade envernizada; com uma gargalhada ruidosa e um passo afetado; a antepassada louca de uma descendente inexplicavelmente caída. Ela agita-se prodigiosamente e é pontualmente elegante no seu discurso, sempre em alvoroço para escapar ao Tédio, tal como dizem que os cães nas margens do Nilo bebem no rio a correr para evitar o crocodilo. Se o monstro a apanha, como por vezes acontece, ela chicoteia-o até à espuma, de modo que aqueles que conhecem o Tédio apenas como uma coisa pesada, não o reconhecerão sob aquela forma leve e aérea.

Quando ela se divertiu ao longo dos seus cinco Atos para o surpreender com a informação de que o Sr. Aimwell é convertido por uma morte súbita no mundo fora das cenas em Lord Aimwell, e pode casar com a dama à luz do dia, é um crédito da sua natureza vivaz que ela não antecipe que a chame de Farsa. Cinco é dignidade com uma cauda de vestido; enquanto um, dois ou três Atos seriam saias curtas, e degradantes. Foi dado conselho aos chefes de família de que deveriam seguir o tiro contra um ladrão no escuro atirando-lhe a pistola logo atrás, para que, se a bala falhar, a arma possa atingir e assegurar ao patife que ele a recebeu. O ponto do seu engenho é, desta forma, suplementado pelo matraquear da sua língua, e eficazmente, de acordo com o testemunho dos seus admiradores. O seu engenho é de uma vez só, como o vapor numa máquina, a força motriz e o apito de aviso do seu curso precipitado; e desvanece-se como o rasto de vapor quando ela atingiu o seu terminal, nunca incomodando os cérebros depois; um mérito que partilha com o bom vinho, para alegria dos Bacanalianos. Quanto a este engenho, é guerreiro. Nas mãos mais hábeis, é como a espada do cavalheiro no Mall, rápida a saltar fora à menor provocação, e para um ofício semelhante -- ferir. Comumente a sua atitude é inteiramente pugilística; dois punhos rombos a trocar golpes e a contra-atacar. Quando inofensivo, como quando ocorre a palavra ‘tolo’, ou alusões ao estado de marido, tem o som do estalar da varinha do arlequim sobre o palhaço, e é na mesma medida estimulante. Acredite que o riso ocioso e vazio é a mais desejável das recreações, e a Comédia significativa parecerá pálida e superficial em comparação. A nossa ideia popular seria atingida pelo grupo esculpido do Riso a segurar ambos os lados, enquanto a Comédia esmurra, a título de cócegas. Quanto a um significado, ela sustenta que não contribui para a folia: seria o mesmo que carregar canhões num iate de corrida. A moralidade é uma duena a ser contornada. Esta era a visão da Comédia inglesa de um ensaísta sagaz, que dizia que o fim de uma Comédia seria frequentemente o início de uma Tragédia, se o pano subisse novamente sobre os intérpretes. Naqueles velhos tempos, a modéstia feminina era protegida por um leque, atrás do qual, e era de uma largura semicircular conveniente, as senhoras presentes no teatro retiravam-se a um sinal de decoro, para espreitar, sub-repticiamente de viés, ou com a opção de espreitar assim, através de um orifício de olho delicadamente franjado no arco que eclipsava.

‘Ego limis specto sic per flabellum clanculum.’-TERENCE.

Esse leque é a bandeira e o símbolo da sociedade que nos dá a nossa chamada Comédia de Costumes, ou Comédia dos costumes dos habitantes das ilhas do Mar do Sul sob verniz citadino; e quanto à ideia Cómica, vazia como a máscara sem a face por trás dela.

Elia, cujo humor se deleitava em lançar um galeão de paradoxo e fazê-lo navegar o mais longe que pudesse, lamenta a extinção da nossa Comédia artificial, como um poeta a suspirar sobre o esplendor desaparecido da barca do Nilo de Cleópatra; e a sobriedade do seu apelo por uma causa condenada até na sua época à penitenciária é um efeito novo do ridículo. Quando o realismo daquelas ‘personagens fictícias meio acreditadas’, como ele lhes chama, deixara de impressionar, eram companhia censurável, impossíveis de acariciar como marionetas. Os seus artifícios estão espantosamente nus, e têm agora o efeito de uma face pintada vista, depois de horas quentes de dança, à luz da manhã. Como puderam as Lurewells e as Plyants ser alguma vez elogiadas pela engenhosidade na maldade? Críticos, aparentemente sóbrios e de alta reputação, erguiam as suas vigarices superficiais para o mundo admirar. Estas Lurewells, Plyants, Pinchwifes, Fondlewifes, Miss Prue, Peggy, Hoyden, todas elas exceto a encantadora Milamant, estão mortas como as roupas do ano passado no guarda-roupa de uma dama da moda, e teria de ser uma Abigail excecionalmente abandonada do nosso período que olharia para elas com o desejo de aparecer à sua semelhança. Se o espetáculo de marionetas de Punch e Judy inspira os nossos garotos de rua a recorrerem instantaneamente aos punhos numa disputa, à maneira de cada um dos atores naquele entretenimento público que se apodera do pau, é algo questionável: foi sugerido; e moralistas irados traçaram o gosto nacional por contos de crime ao cheiro de sangue nas nossas cantigas de embalar. Será, de qualquer modo, dificilmente questionável que é pouco saudável para homens e mulheres verem-se como são, se não são melhores do que deveriam ser: e não se importarão, quando tiverem melhorado nos costumes, de se verem como outrora foram. Isso é o que vem do realismo na arte Cómica; e não é capricho público, mas a consequência de um estado em melhoria. {2} O mesmo se pode dizer de uma exposição imoral do realismo de uma sociedade vulgar.

Os franceses fazem uma distinção crítica em ce qui remue de ce qui émeut -- aquilo que agita daquilo que toca com emoção. Na comédia realista é um remuage incessante -- nenhuma calma, meramente figuras agitadas e nenhum pensamento. Excetuando Way of the World de Congreve, que falhou no palco, não havia nada para manter a nossa comédia viva pelos seus méritos; nem, com todo o seu realismo, retratismo verdadeiro, nem muito divertimento citável, nem ideia; nem sal nem alma.

Os franceses têm uma escola de comédia solene para a qual podem voar para renovação sempre que dela se afastaram; e o facto de terem tal escola é a principal razão pela qual, como assinalou John Stuart Mill, conhecem homens e mulheres com mais precisão do que nós. Molière seguiu o preceito Horaciano, observar os costumes da sua época e dar às suas personagens a cor que lhes convinha no momento. Ele não pintou num realismo bruto. Agarrou as suas personagens firmemente para o propósito central da peça, carimbou-as na ideia, e ao elevar e suavizar ligeiramente o objeto de estudo (como no caso do ex-Huguenote, Duque de Montausier, {3} para o estudo do Misantropo, e, segundo St. Simon, o Abade Roquette para Tartuffe), generalizou sobre ele de modo a torná-lo permanentemente humano. Conceda-se que é natural para criaturas humanas viverem em sociedade, e Alceste é uma marca imperecível de uma, embora seja desenhado em contorno leve, sem qualquer coloração humana forçosa. A nossa escola inglesa não imaginou claramente a sociedade; e da mente pairando acima de homens e mulheres congregados, não imaginou nada. Os críticos que a elogiam pela sua franqueza, e por trazer as situações para perto de nós, como dizem admirados, não podem deixar de desaprovar a comédia de Molière, que apela à mente individual para perceber e participar no social. Temos tragédias esplêndidas, temos as mais belas peças poéticas, e temos comédias literárias agradáveis de ler, e ocasionalmente de ver representadas. Por comédias literárias, refiro-me a comédias de inspiração clássica, retiradas principalmente de Menandro e da Nova Comédia Grega através de Terêncio; ou então comédias da conceção pessoal do poeta, que não tiveram modelo na vida, e são exageros humorísticos, felizes ou não. Estas são as comédias de Ben Jonson, Massinger e Fletcher. O Justice Greedy de Massinger podemos todos nós referir a um tipo, ‘forrado com capão gordo’ que existiu e existirá; e ele seria cómico, como Panurgo é cómico, mas só um Rabelais poderia pô-lo em movimento com animação real. Provavelmente Justice Greedy seria cómico para o público de uma banca de campo e para alguns dos nossos amigos. Se perdemos o nosso gosto juvenil pela apresentação de personagens montadas para se ajustarem a um tipo, achamos difícil montar o mecanismo de um sorriso civil à sua enumeração dos seus pratos. Algo do mesmo se pode dizer de Bobadil, jurando ‘pelo pé de Faraó’; com uma reserva, pois ele é feito para se mover mais depressa, e para agir. O cómico de Jonson é uma excogitação de estudioso do cómico; o de Massinger, de um moralista.

Shakespeare é uma fonte de personagens que estão saturadas com o espírito cómico; com mais do que chamaremos vida-de-sangue do que se encontra em qualquer lugar fora de Shakespeare; e são deste mundo, mas são do mundo alargado ao nosso abraço pela imaginação, e pela grande imaginação poética. São, por assim dizer -- ponho-o para adequar a minha comparação presente -- criaturas dos bosques e ermos, não em cidades muralhadas, não agrupadas e tonificadas para perseguir uma exibição cómica do mundo mais estreito da sociedade. Jaques, Falstaff e o seu regimento, a tropa variada de Palhaços, Malvolio, Sir Hugh Evans e Fluellen -- maravilhosos Galeses! -- Benedick e Beatrice, Dogberry, e o resto, são assuntos de um estudo especial no poeticamente cómico.

A sua Comédia de imbróglio incrível pertence à secção literária. Pode-se conceber que existiu uma semelhança natural entre ele e Menandro, tanto no esquema como no estilo das suas peças mais leves. Se Shakespeare tivesse vivido num período posterior e menos emocional, menos heroico da nossa história, poderia ter-se voltado para a pintura de costumes bem como da humanidade. Eurípides provavelmente teria, no tempo de Menandro, quando Atenas estava escravizada mas próspera, emprestado a sua mão à composição de comédia romântica. Ele certamente inspirou aquele génio fino.

Politicamente é contabilizado um infortúnio para a França que os seus nobres se amontoassem na Corte de Luís Quatorze. Foi uma dádiva para o poeta cómico. Ele tinha aquele mundo vivo de mercúrio das paixões dos animálculos, as enormes pretensões, os absurdos plácidos, sob os seus olhos em plena atividade; charlatães vociferantes e papalvos a morder o isco, hipócritas, fingidores, extravagantes, pedantes, senhoras cor-de-rosa e gramáticos loucos, marqueses a fazer sonetos, amantes de voo alto, criadas de mente simples, entrelaçando-se como num tear, ruidosas como numa feira. Um círculo simplesmente burguês não o fornecerá, pois a classe média deve ter o brilhante, leviano e independente estrato superior como espora e padrão; de outra forma é provável que seja interiormente aborrecido tanto quanto exteriormente correto. Contudo, embora o Rei fosse benevolente para com Molière, não é à Corte Francesa que estamos em dívida pelos seus inigualáveis estudos da humanidade em sociedade. Para o divertimento da Corte foram escritos os balés e farsas, que são mais caros à classe rabugenta superior, tal como à classe rabugenta inferior, do que a comédia intelectual. A burguesia francesa de Paris era suficientemente perspicaz e esclarecida pela educação para acolher grandes obras como Le Tartuffe, Les Femmes Savantes e Le Misanthrope, obras que foram empreendimentos arriscados para a inteligência popular, grandes navios para lançar em correntes que corriam para baixios. O Tartuffe apareceu à vista como o navio de um inimigo; ofendeu, não Dieu mais les devots, como o Príncipe de Condé explicou ao Rei sobre a cabala levantada contra ele.

As Femmes Savantes é um exemplo capital dos usos da comédia em ensinar o mundo a compreender o que o aflige. A farsa das Precieuses ridicularizou e pôs fim ao monstruoso jargão romântico tornado popular por certos romances famosos. A comédia das Femmes Savantes expôs o absurdo posterior e menos aparente, mas mais finamente cómico, de um purismo excessivo na gramática e dicção, e a tendência para ser idiota na precisão. Os franceses tinham sentido o fardo deste novo disparate; mas tiveram de ver a comédia várias vezes antes de serem consolados no seu sofrimento ao ver a causa dele exposta.

O Misantropo foi ainda mais friamente recebido. Molière pensou que estava morto. ‘Não posso melhorá-lo, e certamente nunca o farei,’ disse ele. É um dos títulos franceses à honra que esta comédia quintessencial da oposição de Alceste e Celimene tenha sido finalmente compreendida e aplaudida. Em todos os países a classe média apresenta o público que, lutando com o mundo, e com um bom pé na luta, conhece melhor o mundo. Pode ser a mais egoísta, mas essa é uma questão que nos leva a sofismas. Homens e mulheres cultivados, que não retiram apenas a nata da vida, e estão ligados aos deveres, mas escapam aos golpes mais duros, fazem observadores agudos e equilibrados. Molière é o seu poeta.

Desta classe na Inglaterra, um grande grupo, nem puritano nem bacante, tem uma objeção sentimental a encarar o estudo do mundo real. Assumem um desdém por ele quando as suas verdades parecem humilhantes: quando os factos não lhes são imediatamente impostos, adotam o orgulho da incredulidade. Vivem numa atmosfera nebulosa que supõem ser a ideal. Suportarão a escrita humorística, talvez a aprovem, se esta se misturar com o pathos para abalar e elevar os sentimentos. Aprovam a Sátira porque, tal como o bico do abutre, cheira a carniça, que eles não são. Mas da Comédia têm um pavor tremendo, pois a Comédia envolve-os com a miserável multidão do mundo, amontoa-os connosco todos numa assimilação ignóbil, e não pode ser usada por nenhuma variedade exaltada como um açoite e uma vassoura. Aliás, ser uma variedade exaltada é ficar sob o olhar calmo e curioso do espírito Cómico, e ser sondado por aquilo que se é. Vêem-se homens entre eles, e muitas mulheres cultivadas. Pode distingui-los por uma frase favorita: "Certamente não somos tão maus!" e pela observação: "Se essa é a natureza humana, que nos livrem dela!", como se isso fosse possível: mas, no Paraíso peculiar das pessoas obstinadas que não querem ver, a exclamação assume a graça salvadora.

Contudo, se lhes perguntar se não gostam de bom senso, juram que não. E se questionar mulheres cultivadas se lhes agrada serem vistas a mover-se num nível intelectual com os homens, responderão que sim; muitas delas reivindicam a situação. Ora, a Comédia é a fonte do bom senso; não menos perfeitamente sã por causa do brilho: e a Comédia eleva as mulheres a uma posição que lhes oferece liberdade para o seu engenho, como normalmente o demonstram, quando o possuem, do lado do bom senso. Quanto mais elevada a Comédia, mais proeminente é o papel que nelas desfrutam. Dorine, em Tartuffe, é o senso comum encarnado, embora palpavelmente uma criada. Celimene é a dona incontestável do mesmo atributo em O Misantropo; mais sábia como mulher do que Alceste como homem. Em Way of the World, de Congreve, Millamant eclipsa Mirabel, a figura masculina mais vivaz da comédia inglesa.

Mas essas duas mulheres arrebatadoras, tão copiosas e tão requintadas no discurso, que esgrimem com os homens e ultrapassam a sua guarda, são desalmadas! Não será preferível ser a bela idiota, a beleza passiva, o adorável pacote de caprichos, muito feminina, muito simpática, da ficção romântica e sentimental? As nossas mulheres são ensinadas a pensar assim. A Agnes de L'École des Femmes deveria ser uma lição para os homens. As heroínas da Comédia são como mulheres do mundo, não necessariamente desalmadas por serem clarividentes: parecem-no aos criados sentimentalmente apenas pela razão de usarem o seu engenho e não serem vasos errantes a clamar por um capitão ou um piloto. A Comédia é uma exibição da sua batalha com os homens, e a dos homens com elas: e como os dois, por mais divergentes que sejam, olham ambos para um objeto, a saber, a Vida, a semelhança gradual das suas impressões deve conduzi-los a alguma semelhança. O poeta Cómico atreve-se a mostrar-nos homens e mulheres a chegar a esta semelhança mútua; ele é de opinião que, quando se aproximam na vida social, as suas mentes tornam-se mais parecidas; tal como o filósofo discerne a semelhança entre o rapaz e a rapariga, até que a rapariga é levada para o berçário. Filósofo e poeta Cómico são primos no olhar que lançam sobre a vida: e são igualmente impopulares junto dos nossos obstinados ingleses da região nebulosa e do ideal que não deve ser perturbado.

Assim, por falta de instrução na ideia Cómica, perdemos um grande público entre a nossa classe média cultivada que deveríamos esperar que apoiasse a Comédia. O sentimentalista é tão avesso quanto o Puritano e o Bacante.

As nossas tradições são infelizes. O gosto público está com os risonhos ociosos e continua inclinado a segui-los. Pode demonstrar-se, através de uma análise de The Plain Dealer, de Wycherley, uma adaptação grosseira em prosa de O Misantropo, atulhada de pedaços de realismo num tema vulgarizado para atingir o alvo do apetite inglês, que temos nela a nota tónica da Comédia do nosso palco. É Molière travestido, com o casco no pé e pelos na ponta pontiaguda da orelha. E quão difícil é para os escritores desenvencilharem-se de más tradições é notável quando encontramos Goldsmith, que tinha um grave domínio do Cómico na narrativa, a produzir uma farsa elegante para uma Comédia; e Fielding, que era um mestre do Cómico tanto na narrativa como no diálogo, nem sequer a aproximar-se do apresentável na farsa.

Estas más tradições da Comédia afetam-nos não só no palco, mas na nossa literatura, e podem ser rastreadas até à nossa vida social. São a base das pesadas moralizações que nos cansam, sobre a Vida como uma Comédia, e a Comédia como uma meretriz, quando escritores populares, conscientes da fadiga na criatividade, desejam ser contundentes num cinismo da moda: perversões da ideia de vida e do devido apreço pela sociedade que arrebatámos à brutalidade e que gostaríamos de elevar. Imagens de stock desta descrição são aceites pelos tímidos e pelos sensíveis, assim como pelos saturninos, muito seriamente; pois poucos olham à volta com os seus próprios olhos, menos ainda têm o hábito de pensar por si próprios. A Vida, sabemos demasiado bem, não é uma Comédia, mas algo estranhamente misturado; nem a Comédia é uma máscara vil. A importação corrompida de França foi nociva; um entretenimento nobre estragado para satisfazer o gosto miserável de uma era vil; e as imitações posteriores, parcialmente drenadas do seu veneno e tornadas decorosas, tornaram-se cansativas, apesar da sua diversão, na recorrente repetição das mesmas situações, devido à ausência de estudo original e vigor de conceção. A cena v do ato 2 de O Misantropo, devido, sem dúvida, ao facto de não produzirmos matéria para estudo original, é repetida sucessivamente por Wycherley, Congreve e Sheridan, e como é de segunda mão, temos a coisa feita cinicamente — ou esse é o tom; à maneira dos "criados das traseiras". A Comédia assim tratada pode ser aceite como uma versão do entendimento mundano comum da nossa vida social; pelo menos, de acordo com os ditames atuais a seu respeito. Os epigramas podem ser feitos; mas é pouco instrutivo, tendendo antes a prestar um desserviço. A Comédia justamente tratada, como se encontra em Molière, a quem tratámos de forma tão palhaça, a Comédia de Molière não lança qualquer reflexo infame sobre a vida. É profundamente concebida, em primeiro lugar, e por isso não pode ser impura. Medite sobre essa afirmação. Nunca homem nenhum brandiu um açoite tão estridente sobre o vício, mas o seu consumado autocontrolo não é abalado enquanto o administra. Tartuffe e Harpagon, na verdade, são feitos cada um para açoitar a si mesmo e à sua classe, os falsos pietistas e os insanamente cobiçosos. Molière apenas os colocou em movimento. Despe a Loucura até à pele, exibe a impostura da criatura e contenta-se em oferecer-lhe melhor vestuário, com a lição que Chrysale lê a Philaminte e Belise. Ele concebe puramente e escreve puramente, na linguagem mais simples, o mais simples verso francês. A fonte do seu engenho é a razão clara: é uma fonte desse solo; e brota para vindicar a razão, o senso comum, a retidão e a justiça; nunca para um propósito vão. O engenho é de tal espírito abrangente que inspira um trocadilho com significado e interesse. A sua moral não pende como uma cauda, nem prega a partir de uma personagem que incessantemente lança um olhar ao público, como em peças francesas realistas recentes: mas está no coração da sua obra, latejando com cada pulsação de uma estrutura orgânica. Se a Vida é comparada à comédia de Molière, não há escândalo na comparação.

Way of the World, de Congreve, é uma exceção às nossas outras comédias, incluindo a sua própria, em virtude do notável brilho da escrita e da figura de Millamant. A comédia não tem qualquer ideia nela, para além da gasta ideia de que é assim que o mundo gira; e termina com a descoberta cansada de um documento num momento conveniente para a descida do pano. Um enredo era uma reflexão tardia para Congreve. Com a ajuda de um vilão de madeira (Maskwell) marcado como Forca para o olho mais plano, ele consegue uma espécie de enredo em The Double Dealer. O seu Way of the World poderia chamar-se A Conquista de uma Coquete da Cidade, e Millamant é um retrato perfeito de uma coquete, tanto na sua resistência a Mirabel e na maneira da sua rendição, como também na sua língua. O engenho aqui não é tão saliente como em certas passagens de Love for Love, onde Valentine finge loucura ou retorque o pai, ou a Sra. Frail regozija-se com a inocuidade das feridas para a virtude de uma mulher, se ela "as mantiver longe do ar". Em The Way of the World, parece menos preparado na esperteza e é mais difundido no estilo mais característico dos oradores. Aqui, contudo, como noutros lugares, o seu famoso engenho é como um esgrimista valentão, que não se envergonha de armar ciladas para a sua exibição, transparentemente petulante pela ligação entre certas palavras comuns e o paiol de pólvora das inconveniências a serem disparadas. Compare o engenho de Congreve com o de Molière. O do primeiro é uma lâmina de Toledo, afiada e maravilhosamente flexível para aço; feita para o duelo, inquieta na bainha, sendo tão bonita fora dela. Para brilhar, tem de ter um adversário. O engenho de Molière é como um riacho corrente, com inúmeras luzes frescas sobre ele a cada curva do bosque através do qual a sua tarefa é encontrar o caminho. Não corre em busca de obstruções para fazer barulho com elas; mas quando folhas mortas e substâncias mais vis são amontoadas ao longo do curso, o seu canto natural é intensificado. Sem esforço, e sem clarões deslumbrantes de realização, é pleno de cura, o engenho da boa educação, o engenho da sabedoria.

"O humor genuíno e o verdadeiro engenho", diz Landor, "requerem uma mente sã e capaz, que é sempre grave. Rabelais e La Fontaine são registados pelos seus compatriotas como tendo sido reveurs. Poucos homens foram mais graves do que Pascal. Poucos homens foram mais espirituosos."

Aplicar a citação de um cérebro tão grande como o de Pascal ao nosso compatriota seria injusto. Congreve tinha uma certa sanidade mental; de capacidade, no sentido pretendido por Landor, tinha pouca. Julgando-o pelo seu engenho, ele executou alguns golpes felizes, e tomando-o por genuíno, é um engenho de superfície, nem subindo de uma profundidade nem fluindo de uma nascente.

"On voit qu’il se travaille à dire de bons mots."

Ele conduz a pobre palavra gasta, "tolo", tão cruelmente para o mercado do engenho como qualquer dos seus concorrentes. Eis um exemplo, que tem sido erguido para elogio:

WITWOUD: Ele trouxe-me uma carta do tolo do meu irmão, etc. etc.

MIRABEL: Um tolo, e seu irmão, Witwoud?

WITWOUD: Sim, sim, meu meio-irmão. Ele é meu meio-irmão; não mais próximo, sobre a minha honra.

MIRABEL: Então é possível que ele possa ser apenas meio tolo.

Por preparação evidente. Este é um tipo de engenho que se lembra de ter ouvido na escola, de um brilhante forasteiro; talvez de ter sido culpado de o dizer, um pouco mais tarde. Era, sem dúvida, um fogo de artifício intelectual para o escudeiro rústico, que veio a Londres para ir ao teatro e aprender maneiras.

Onde Congreve supera todos os seus rivais ingleses é na sua força literária e numa concisão de estilo peculiar a ele. Ele tinha um julgamento correto, um ouvido correto, prontidão de ilustração dentro de um leque estreito, em instantâneos do óbvio sobre o óbvio, e uma linguagem copiosa. Ele atinge o meio-termo de um estilo fino e natural no diálogo. É ao mesmo tempo preciso e volúvel. Se alguma vez pensou sobre estilo, reconhecê-lo-á como uma realização assinalável. Nisto ele é um clássico e é digno de dançar um compasso com Molière. The Way of the World pode ser lido correntemente à primeira vista, tão certos são os acentos do significado enfático de atingir o olho, pela força da nitidez e do polimento astuto das sentenças. Não tem de olhar para além delas antes de se confiar a ele; ele levá-lo-á em segurança. Sheridan imitou-o, mas esteve longe de o superar. O fluxo da linguagem de peixeira de boudoir na Lady Wishfort não tem par pelo vigor e pela pontaria da língua. Gira ao longo com um toque final, como a voz da Natureza em fúria, e é, de facto, a eloquência picante da peixeira elevada.

Millamant é uma heroína admirável, quase adorável. É um rasgo de génio num escritor fazer com que a maneira de falar de uma mulher a retrate. Sente-se a sua presença em cada linha do que ela diz. As estipulações com o seu amante em vista do casamento, a delicadeza da sua dama requintada, e as fáceis evasivas da dama requintada à indelicadeza, os ares de coquete e o brincar com a irresolução, que numa criada comum seria timidez, até que ela se submete a "minguar numa esposa", como ela diz, formam um retrato que vive na moldura, e está em harmonia com a descrição de Mirabel sobre ela:

"Ei-la que vem, por fé, a velas cheias, com o leque aberto, as bandeiras desfraldadas e um cardume de tolos por escolta."

E, após uma entrevista:

"Pensar em ti! Pensar num turbilhão, ainda que fosse dentro de um turbilhão, seria um caso de contemplação mais estável, uma verdadeira tranquilidade de mente e de mansão."

Há um pitoresco, como o de Millamant e de mais ninguém, na sua voz, quando é encorajada a aceitar Mirabel pela Sra. Fainall, que tem a "certeza de que ela tem uma queda por ele":

MILLAMANT: Tenho? Acho que tenho — e o homem horrível parece que pensa o mesmo, etc. etc.

Ouvem-se os tons e vê-se o esboço e a cor de toda a cena ao lê-la.

Celimene está atrás de Millamant em vivacidade. Um ar de capricho fascinante paira sobre as graças desta heroína Cómica, como o jogo de conversação vivo de uma boca bela.

Mas em engenho ela não é rival de Celimene. O que ela profere acrescenta ao seu feitiço pessoal, e não é memorável por mais nada. Ela é um retrato cintilante e um tipo das senhoras superiores que não pensam, não daquelas que o fazem. Representando uma classe, portanto, é uma classe inferior, na proporção em que uma das mulheres aristocráticas de corpo inteiro de Gainsborough está abaixo da impressionabilidade permanente de uma bela cabeça veneziana.

Millamant, lado a lado com Celimene, é um exemplo de quão longe a pintura realista de uma personagem pode ser levada para ganhar o nosso favor; e de onde fica aquém. Celimene é a mente de uma mulher em movimento, armada com um engenho ingovernável; com olhos claros e perspicazes para o mundo, e um conhecimento muito distinto de que ela pertence ao mundo e está mais à vontade nele. Ela sente-se atraída por Alceste pela sua estima pela honestidade dele; ela não pode evitar ver onde o bom senso do homem está doente.

Rousseau, na sua carta a D'Alembert sobre o assunto de O Misantropo, discute a personagem de Alceste como se Molière a tivesse apresentado como um exemplo absoluto de misantropia; ao passo que Alceste é apenas um misantropo do círculo em que se encontra colocado: ele tem uma fé comovente na virtude que reside no campo e um amor crítico pela doce simplicidade. Nem é ele a pessoa principal da comédia à qual dá o nome. Ele é apenas passivamente cómico. Celimene é o espírito ativo. Enquanto ele denuncia e vitupera, a prova é imposta a ela de tirar o melhor partido dele e controlar-se, tanto quanto uma mulher espirituosa, ansiosamente cortejada, pode fazer. Ao apreciá-lo, ela confessa praticamente a sua imperfeição, e está mais disposta a encontrar-se com ele a meio caminho do que ele a curvar-se um centímetro: apenas ela é une âme de vingt ans, o mundo é agradável, e se as moscas douradas da Corte são tolas, os fanáticos intransigentes também têm os seus traços ridículos. Pode ela abandonar a vida que eles tornam agradável para ela, por um homem que não quer ser guiado pelo senso comum da sua classe; e que insiste em mergulhar num extremo — equivalente ao suicídio aos seus olhos — para evitar outro? Essa é a questão cómica de O Misantropo. Porque não continuará ele a misturar-se com o mundo suavemente, apaziguado pela lisonja da sua preferência secreta e realmente sincera por ele, e tomando a sua vingança na sátira do mesmo, como ela faz a partir do seu próprio padrão não muito elevado, e fará daqui a pouco a partir do dele, mais exaltado?

Celimene é o mundanismo: Alceste é o não-mundanismo. Não implica exatamente altruísmo; e isso é percebido pela sua cabeça sagaz. Ainda assim, ele é uma figura muito incomum no seu círculo, e ela estima-o, l'homme aux rubans verts, "que por vezes diverte, mas mais frequentemente a irrita horrivelmente", como ela pode dizer dele quando a sua língua satírica está em movimento. Infelizmente, a alma de verdade nele, que conquista a sua estima, recusa-se a ser domada, ou silenciosa, ou desconfiada, e é o obstáculo perpétuo ao seu bom entendimento. Ele é aquela pessoa melancólica, o crítico de toda a gente exceto de si próprio; intensamente sensível às falhas dos outros, ferido por elas; apaixonado pela sua própria inquestionável honestidade e pelo seu ideal da forma mais simples de vida que lhe convém: qualidades que constituem o satirista. Ele é um Jean Jacques da Corte. A sua proposta a Celimene, quando a perdoa, de que ela deveria segui-lo na fuga da humanidade, e o seu frenesim de detestação por ela à recusa, estão inteiramente no espírito de Jean Jacques. Ele é uma criatura impraticável de uma virtude inestimável; mas Celimene pode sentir que fugir com ele para o deserto: isto é, da Corte para o campo

"Où d'être homme d'honneur on ait la liberté,"

ela provavelmente encontrar-se-á companheira de um satirista faminto, como aquela pobre princesa que fugiu com o criado, e quando ambos estavam com fome na floresta, foi ordenada a dar-lhe carne. Ela é uma fieffée coquete, regozijando-se no seu engenho e nos seus encantos, e distinguida pela sua inclinação por Alceste no meio dos seus muitos outros amantes; apenas ela acha difícil cortá-los — que mulher com uma comitiva não acha? — e quando a exposição do seu engenho travesso a colocou sob a repreensão deles, ela fará o máximo que puder: dará a sua mão à honestidade, mas não pode abandonar completamente o mundanismo. Ela seria imprudente se o fizesse.

A fábula é ténue. Os nossos engenhosos criadores de enredos não veriam qualquer indicação de vida nos contornos. A vida da comédia está na ideia. Tal como com o canto da cotovia fora de vista, tem de amar o pássaro para estar atento ao canto, assim neste voo mais alto da Musa Cómica, tem de amar a Comédia pura calorosamente para compreender O Misantropo: tem de ser recetivo à ideia de Comédia. E para amar a Comédia tem de conhecer o mundo real e conhecer homens e mulheres suficientemente bem para não esperar demasiado deles, embora possa ainda esperar pelo bem.

Menandro escreveu uma comédia chamada Misogynes, dita como a mais célebre das suas obras. Este misógino é um homem casado, segundo o fragmento que sobreviveu, e é um odiador de mulheres por ódio à sua esposa. Ele generaliza sobre elas a partir do exemplo deste lamentável apêndice da sua fortuna, e parece ter levado a pior na disputa com ela, o que é como o resultado na realidade, no mundo polido. Parece também tê-lo merecido, o que pode ser tão fiel à cópia. Mas não somos capazes de dizer se a esposa era uma boa voz do seu sexo: ou até que ponto Menandro, neste caso, elevou a ideia de mulher do lodo em que fora mergulhada pelos poetas cómicos, ou melhor, dramaturgos satíricos, do período médio da Comédia Grega que o precedeu e à Nova Comédia, que dedicavam a sua argúcia principalmente ao abuso, e para variar, ao elogio de senhoras extramuros de fama conspícua. Menandro idealizou-as sem intencionalmente elevar. Satirizou uma certa Thaïs, e a sua Thaïs do Eunuchus de Terêncio não é profissionalmente atraente nem repelente; o seu retrato das duas Andrianas, Chrysis e a sua irmã, não tem paralelo em ternura. Mas a condição das mulheres honestas no seu tempo não permitia a liberdade de ação e a esgrima dialética de uma Celimene, e consequentemente está abaixo da nossa marca da Comédia pura.

Sainte-Beuve conjura o fantasma de Menandro, dizendo: Por amor de mim, amai Terêncio. É através do amor por Terêncio que os modernos são capazes de amar Menandro; e o que se preservou de Terêncio não nos deu aparentemente o melhor do amigo de Epicuro. [Texto grego que não pode ser reproduzido] o amante tomado de horror, e [Texto grego] a donzela tosquiada das suas madeixas, têm um som promissor para cenas de ciúme e uma exibição demasiado autoritária de autoridade senhorial, levando a arrependimentos, do tipo conhecido pelos homens intemperantes que imaginavam estar a lutar com o mais fraco, como indicam os fragmentos.

Das seis comédias de Terêncio, quatro derivam de Menandro; duas, a Hecyra e a Phormio, de Apolodoro. Estas duas são inferiores em ação cómica e na doçura peculiar de Menandro à Andria, aos Adelphi, ao Heautontimorumenus e ao Eunuchus: mas Phormio é um parasita convivial mais arrojado e divertido do que o Gnatho da comédia mencionada por último. Houve numerosos rivais de quem quase nada sabemos — exceto pelas citações de Ateneu e Plutarco, e os gramáticos gregos que os citavam para apoiar um ditame — neste como nos períodos precedentes da comédia em Atenas, pois as peças de Menandro contam-se por muitas dezenas, e foram coroadas pelo prémio apenas oito vezes. O poeta favorito dos críticos, na Grécia como em Roma, foi Menandro; e se alguns dos seus rivais aqui e ali o superaram em força cómica, e o ultrapassaram na competição por uma adequação à ocasião que anteriormente, da mesma forma, privara o génio de Aristófanes da sua devida recompensa em As Nuvens e As Aves, a sua posição como chefe dos poetas cómicos da sua era era incontestada. Plutarco, muito desnecessariamente, arrasta Aristófanes para uma comparação com ele, para confusão do poeta mais velho. Os seus objetivos, a matéria de que tratavam, e os tempos, eram bastante díspares. Mas não é de admirar que Plutarco, escrevendo quando a beleza ateniense do estilo era o deleite dos seus patronos, devesse classificar Menandro no mais alto nível. Em que grau de fidelidade Terêncio copiou Menandro, se, como afirma da passagem nos Adelphi retirada de Dífilo, verbum de verbo nas cenas mais amáveis — a descrição das últimas palavras da Andriana moribunda, e do seu funeral, por exemplo — permanece conjetural. Para nós, Terêncio partilha com o seu mestre o louvor de uma amenidade que é como a fala Elysiana, equável e sempre graciosa; como o rosto da irmã mais nova da Andriana:

‘Adeo modesto, adeo venusto, ut nihil supra.’

O célebre ‘flens quam familiariter’, do qual a tradução mais próxima se baseia irremediavelmente numa prosa áspera, para expressar a confidente tristeza de uma jovem que perdeu a sua irmã e amiga mais querida, e apenas lhe resta o seu amante; ‘ela virou-se e lançou-se no seu seio, chorando como se estivesse em casa’: isto o nosso instinto diz-nos que deve ser grego, ainda que dificilmente mais fino em grego. Certas linhas de Terêncio, comparadas com os fragmentos originais, mostram que ele os embelezou; mas o seu gosto era demasiado requintado para que pudesse fazer outra coisa senão dedicar o seu génio à tradução honesta de peças como a acima referida. Menandro, então; com ele, através da afinidade da simpatia, Terêncio; e Shakespeare e Molière têm esta bela translucidez de linguagem: e o estudo dos poetas cómicos poderia ser recomendado, se apenas por isso.

Um destino singular e funesto abateu-se sobre os escritos de Menandro. O que temos dele em Terêncio foi escolhido provavelmente para agradar aos romanos cultivados; e é uma peça romântica com uma intriga cómica, obtida em dois casos, a Andria e o Eunuchus, ao juntar um par dos seus originais num só. Os títulos de certas peças perdidas indicam o caráter cómico iluminador; um Autopiedade, um Autocastigador, um Homem de Temperamento Difícil, um Supersticioso, um Incrédulo, etc., apontam para temas domésticos sugestivos.

Terêncio enviou manuscritos de traduções da Grécia, que naufragaram; ele, que poderia ter restaurado o tesouro, morreu no caminho de volta. Os zelotas de Bizâncio completaram a obra de destruição. Assim, temos as quatro comédias de Terêncio, numerando seis de Menandro, com alguns esboços de enredos — um deles, o Thesaurus, introduz um avarento, que gostaríamos de contrastar com Harpagon — e uma multidão de pequenos fragmentos de cunho sentencioso, aptos para citação. Resta o suficiente para fazer sentir a sua grandeza.

Sem desvalorizar outros escritores de Comédia, creio que se pode dizer que Menandro e Molière permanecem sozinhos, especialmente como poetas cómicos dos sentimentos e da ideia. Em cada um deles há uma conceção do Cómico que refina até à dor, como no Menedemus do Heautontimorumenus, e no Misantropo. Menandro e Molière deram os principais tipos à Comédia até agora. O Micio e Demea dos Adelphi, com as suas visões opostas da gestão adequada da juventude, ainda estão vivos; os Sganarelles e Arnolphes da Ecole des Maris e da Ecole des Femmes, não estão todos enterrados. Tartuffe é o pai dos hipócritas; Orgon dos ingénuos; Thraso, dos fanfarrões; Alceste dos "Manlys"; Davus e Syrus dos criados intrigantes, os Scapins e Figaros. Senhoras que pairam nos reinos do Rosa-Choque, cuja linguagem veste as penas abanantes da presunção intelectual, são rastreáveis até Philaminte e Belise das Femmes Savantes: e as mulheres espirituosas e mordazes têm a língua de Celimene. A razão é que estes dois poetas idealizaram sobre a vida: a fundação dos seus tipos é real e viva, mas pintaram com força espiritual, que é o sólido na Arte.

As conceções idealistas da Comédia dão amplitude e oportunidades de audácia ao génio Cómico, e ajudam a resolver as dificuldades que cria. Como, por exemplo, garantirá um público que um ingénuo evidente e monstruoso é realmente enganado sem ser um tolo absoluto? Em Le Tartuffe, a nota da alta Comédia soa quando Orgon, no seu regresso a casa, ouve falar do apetite excelente do seu ídolo. "Le pauvre homme!", exclama ele. Dizem-lhe que a esposa do seu peito esteve indisposta. "Et Tartuffe?", pergunta ele, impaciente por ouvir falar dele, a sua mente inundada pelo pensamento de Tartuffe, louco de ternura, e novamente ele cantarola: "Le pauvre homme!". É o grito de uma mãe de deleite piedoso perante o relato de uma ama sobre as proezas de voracidade animal jovem do seu filho querido. Após este golpe de mestre do Cómico, não só se acredita na prepossessão rosada de Orgon, como se partilha com ele por simpatia cómica, e se pode ouvir com nada mais do que um tremor nos músculos do riso a instância que ele dá da sublime humanidade de Tartuffe:

‘Un rien presque suffit pour le scandaliser, Jusque-le, qu’il se vint l’autre jour accuser D’avoir pris une puce en faisant sa priere, Et de l’avoir tuee avec trop de colere.’

E tê-la matado demasiado furiosamente! Traduzir Molière é como cantarolar uma ária que se ouviu executada por um violinista exímio dos tons puros sem floreados.

Orgon, despertando para encontrar outro ingénuo em Madame Pernelle, incrédulo das revelações que finalmente abriram os seus próprios olhos ensandecidos, é uma cena do duplo Cómico, vivificada pelo feitiço previamente lançado sobre a mente. Aí sentimos o poder da criação do poeta; e na luz viva daquela viragem súbita, a humanidade é mais viva do que qualquer obra realista a pode tornar.

A Comédia italiana dá muitas pistas para um Tartuffe; mas podem ser encontradas em Boccaccio, assim como na Mandragola de Maquiavel. O Frate Timoteo desta peça é apenas um frade muito oleoso, ajudando complacente uma intriga com sofismas eclesiásticos (para usar a palavra mais suave) por pagamento. Frate Timoteo tem uma pose sacerdotal italiana requintada.

DONNA: Credete voi, che’l Turco passi questo anno in Italia?

F. TIM.: Se voi non fate orazione, si.

A arrogância e unuosidade sacerdotais, e as trapaças e casuísmos, não podem ser pintadas sem descobrirmos uma semelhança na longa galeria italiana. Goldoni esboçou os costumes venezianos da decadência da República com um lápis francês, e foi um Scribe italiano em estilo.

O palco espanhol é mais rico em Comédias como a que forneceu a ideia do Menteur a Corneille. Mas deve forçar-se a acreditar que este mentiroso não está a forçar a sua veia quando empilha mentira sobre mentira. Não há toque precedente para ganhar a mente para a credulidade. A Comédia espanhola é geralmente de contorno nítido, como de esqueletos; em movimento rápido, como de marionetas. A Comédia poderia ser interpretada por uma tropa do corps de ballet; e na recordação da leitura, resolve-se num arrastar animado de pés. É, de facto, algo diferente da verdadeira ideia de Comédia. Onde os sexos estão separados, homens e mulheres crescem, como os portugueses lhe chamam, esfaimados um do outro, famintos; e todos os elementos trágicos estão no palco. Don Juan é uma personagem cómica que envia almas a voar: nem o humor de partir uma dúzia de corações de mulheres concilia a Musa Cómica com o derramamento de sangue.

As tentativas alemãs de Comédia lembram vividamente a imagem de Heine do seu país na dança de Atta Troll. Lessing tentou a sua mão nisto, com um efeito sóbrio sobre os leitores. A intenção de produzir o efeito inverso é apenas visível, e nisto, tal como as graças robustas do pobre velho Urso dos Pirenéus a equilibrar-se e rodopiar na sua pata traseira direita e esquerda, consiste a diversão. Jean Paul Richter dá a melhor edição do Cómico alemão no contraste de Siebenkas com a sua Lenette. Uma luz do Cómico existe em Goethe; o suficiente para completar a figura esplêndida do homem, mas nada mais.

O riso literário alemão, como os despertares cronometrados do seu Barbarossa nas cavidades de Untersberg, é infrequente, e bastante monstruoso — nunca um riso de homens e mulheres em concerto. Vem de fantasia abstrata não refinada, grotesca ou sombria, ou grosseira, como os humores peculiares dos seus pequenos seres da terra. Riso espiritual ainda não alcançaram: o sentimentalismo intercepta-os no voo. Aqui e ali um Volkslied ou Marchen mostra uma aptidão nacional para o riso animal vigoroso; e vemos que a literatura se baseia nisso, o que é promissor até aqui; mas para desfrutá-lo, para entrar na filosofia do Sorriso Largo, que parece hesitar entre o crânio e o embrião, e atinge a sua perfeição em amplitude do puxar de dois dedos quadrados nos cantos da boca, deve-se ter a ajuda do "bom vinho do Reno", e ser de sangue alemão não misturado além disso. Esta pesadez triplo-holandesa do espírito Cómico é por si só exclusiva da ideia de Comédia, e a voz pobre permitida às mulheres na vida doméstica alemã explicará a ausência de diálogos cómicos que reflitam sobre a vida nessa terra. Falarei disto novamente na segunda secção desta palestra.

Para leste, tem o silêncio total da Comédia entre um povo intensamente suscetível ao riso, como as Mil e Uma Noites testemunharão. Onde o véu está sobre o rosto das mulheres, não pode haver sociedade, sem a qual os sentidos são bárbaros e o espírito Cómico é levado para as sarjetas da grosseria para saciar a sua sede. Os árabes, a este respeito, são piores do que os italianos — muito piores do que os alemães; exatamente na medida em que o seu sistema de tratar as mulheres é pior.

O Sr. Saint-Marc Girardin, o excelente ensaísta francês e mestre do estilo crítico, conta uma conversa que teve uma vez com um cavalheiro árabe sobre o tópico da gestão diferente destas criaturas difíceis no Oriente e no Ocidente: e o árabe falou em louvor de muitos bons resultados da maior liberdade gozada pelas senhoras ocidentais, e o charme de conversar com elas. Foi questionado sobre por que razão os seus compatriotas não tomavam medidas para lhes conceder algo desse tipo de liberdade. Ele saltou para fora da sua individualidade num abrir e fechar de olhos, e entrou nos sentimentos da sua raça, respondendo, do pináculo de uma presunção esplêndida, com humildade afetada de maneiras: "VÓS podeis olhar para elas sem perturbação — mas NÓS!"... E após esta interjeição profundamente cómica, ele acrescentou, em tons profundos: "O próprio rosto de uma mulher!". O nosso representante de noções temperadas consentiu recatadamente que o orgulho de inflamabilidade do árabe devesse insistir no pudor do véu como o meio civilizador da sua raça.

Houve diversão em Bagdad. Mas nunca haverá civilização onde a Comédia não seja possível; e isso vem de algum grau de igualdade social dos sexos. Não estou a citar o árabe para exortar e perturbar o Oriente sonolento; mais para que as mulheres cultivadas reconheçam que a Musa Cómica é uma das suas melhores amigas. São cegas aos seus interesses ao engrossarem as fileiras dos sentimentalistas. Que olhem com a sua visão mais clara para o estrangeiro e para casa. Verão que onde não têm liberdade social, a Comédia está ausente: onde são escravas domésticas, a forma da Comédia é primitiva: onde são toleravelmente independentes, mas não cultivadas, o melodrama excitante toma o seu lugar e uma versão sentimental delas. Contudo, o Cómico virá ao de cima, como saberiam se ouvissem algumas das conversas privadas de homens cujas mentes não são dirigidas pela Musa Cómica: como o homem sentimental, para seu espanto, saberia igualmente, se pudesse receber uma lição de forma semelhante. Mas onde as mulheres estão a caminho de um pé de igualdade com os homens, em realizações e em liberdade — naquilo que conquistaram para si mesmas, e no que lhes foi concedido por uma civilização justa — aí, e apenas à espera de serem transplantadas da vida para o palco, ou o romance, ou o poema, a Comédia pura floresce, e é, como as ajudaria a ser, o mais doce dos divertimentos, a mais sábia das companheiras deliciosas.

Agora, para olhar à nossa volta nos tempos atuais, creio que será reconhecido que, ao negligenciar o cultivo da ideia Cómica, estamos a perder a ajuda de um auxiliar poderoso. Vê a Loucura a deslizar perpetuamente para novas formas numa sociedade possuidora de riqueza e lazer, com muitos caprichos, muitas doenças estranhas e médicos estranhos. Abundância de senso comum existe no mundo para a empurrar de volta quando ela pretende o império. Mas o primogénito do senso comum, o Cómico vigilante, que é o génio do riso pensativo, que a extinguiria prontamente no início, não está a servir como um advogado público.

Terá notado a disposição do senso comum, sob pressão de alguma peça pertinaz de leviandade, para se tornar impaciente e zangado. Isso é um sinal da ausência, ou pelo menos da dormência, da ideia Cómica. Pois a Loucura é a presa natural do Cómico, conhecida por ela em todas as suas transformações, em cada disfarce; e é com o deleite saltitante do falcão sobre a garça, do cão atrás da raposa, que ele lhe dá caça, nunca se irritando, nunca se cansando, seguro de a ter, não lhe permitindo descanso.

O desprezo é um sentimento que não pode ser entretido pela inteligência cómica. O que é senão uma desculpa para ser ociosamente mentalizado, ou pessoalmente altivo, ou confortavelmente estreito, não perfeitamente humano? Se não fingimos quando dizemos que desprezamos a Loucura, fechamos o cérebro. Há uma atitude desdenhosa na presença da Loucura, participando da tolice para a perceção Cómica: e a raiva não é muito menos tola do que o desdém. A luta que temos de conduzir é essência contra essência. Que ninguém duvide do desfecho quando esta emanação do que é mais firme em nós é lançada para derrubar a filha da Desrazão e do Sentimentalismo: sendo tal a ascendência da Loucura, quando é respeitável.

O nosso sistema moderno de a combater é demasiado longo na defensiva, e conduzido demasiado penosamente com motores concretos de guerra no ataque. Ela tem tempo para se colocar atrás de entrincheiramentos. Está pronta para suportar um cerco, antes que o homem de ciência pesadamente armado e o escritor do artigo principal ou ensaio elaborado tenham preparado as suas grandes armas. Deve recordar-se que ela tem encantos para a multidão; e uma multidão inglesa, vendo-a travar uma luta galante, estará meio apaixonada por ela, certamente disposta a emprestar-lhe um aplauso. Subscrições benevolentes ajudam-na a contratar o seu próprio homem de ciência, o seu próprio órgão na Imprensa. Se, em última análise, ela for expulsa e derrubada, pode esticar um dedo para lacunas nas nossas fileiras. Pode dizer que comandou um exército e seduziu homens, que pensávamos ser homens sóbrios e seguros, para agirem como seus tenentes. Aprendemos bastante sombriamente, depois de ela ter feito brilhar a sua lanterna, que temos no nosso meio homens capazes e homens com mentes para quem não há estrela polar na navegação intelectual. A Comédia, ou o elemento Cómico, é o específico para o veneno da ilusão enquanto a Loucura passa do estado de vapor para forma substancial.

Oh, por um sopro de Aristófanes, Rabelais, Voltaire, Cervantes, Fielding, Molière! Estes são espíritos que, se os conhece bem, virão quando chamar. Achara que a própria invocação deles atua sobre si como um ar renovador — o Sudoeste vindo do mar, ou um grito nos Alpes.

Ninguém presumiria dizer que somos deficientes em piadistas. Eles abundam, e a organização que dirige a sua maquinaria para dispará-los na esteira do artigo principal e do sentimento popular é boa.

Mas o Cómico difere deles ao dirigir-se aos espíritos para o riso; e os espíritos lentos precisam de algum treino para responder a ele, seja na vida pública ou privada, e particularmente quando os sentimentos estão excitados.

O sentido do Cómico é muito embotado por hábitos de trocadilhos e de usar frases humorísticas: o truque de empregar polissílabos johnsonianos para tratar do infinitamente pequeno. E pode realmente ser humorístico, de um género, ainda assim perderá o ponto ao dar muitas voltas à sua volta.

Um certo Duque Pasquier francês morreu, há alguns anos, com uma idade muito avançada. Tinha sido o venerável Duque Pasquier nos seus últimos anos até ao período da sua morte. Havia um boato sobre o Duque Pasquier de que ele era um homem de egoísmo profundo. Daí surgiu um argumento, e foi calorosamente sustentado, sobre o egoísmo excessivo daqueles que, num mundo de problemas, e apelos à ação, e deveres inumeráveis, poupam as suas forças em prol de continuar a viver. Será possível, argumentava-se, para um coração verdadeiramente generoso continuar a bater até à idade de cem anos? O Duque Pasquier não estava sem os seus defensores, que o comparavam ao carvalho da floresta — uma comparação venerável.

A discussão foi conduzida de ambos os lados com espírito e seriedade, aliviada aqui e ali por toques brejeiros de um lúdico polissilábico, lembrando a busca séria de diversão por parte de rapazes traquinas que têm a certeza de estarem fora do olhar do seu mestre e, de vez em quando, se permitem imitá-lo. E bem se poderia supor que a ideia Cômica estivesse adormecida, sem os observar! Resolveu-se finalmente nisto: ou o Duque Pasquier era um escândalo para a nossa humanidade ao agarrar-se à vida por tanto tempo, ou honrava-a com uma resistência tão vigorosa ao inimigo. Como alguém que se enredou num labirinto e se sente feliz por sair novamente pela entrada, o argumento correu a concluir-se com o seu início.

Agora, imagine um mestre do Cômico a tratar este tema, e particularmente o argumento sobre ele. Imagine uma comédia aristofânica d'O CENTENÁRIO, com louvores corais à morte heroica prematura e outros tantos à obstinada vitalidade, e o poeta a rir-se do coro; e a grande questão para disputa em diálogo, quanto à idade exata em que um homem deve morrer, até ao minuto idêntico, para que possa preservar o respeito dos seus pares, seguida de uma tentativa sistemática de fazer uma medição precisa em linhas paralelas, com um fio de corda resistente por uma parte e uma série de bocejos pela outra, do poder do veterano em suportar a vida, e da nossa capacidade de o suportar, com um puxão tremendo de ambos os lados.

Não iluminaria a visão Cômica da discussão a ela mesma e aos disputantes como um relâmpago? Há questões, assim como pessoas, que só o Cômico pode tocar adequadamente.

Aristófanes teria provavelmente coroado a árvore antiga com a observação consoladora à linha esquálida de herdeiros de longa data do Centenário, de que eles vivem para ver a bem-aventurança de provir de uma linhagem forte. Os dardos do seu ridículo teriam sido apontados principalmente aos disputantes. Pois o único fundamento do argumento era o caráter do velho, e não são precisos sofistas para demonstrar que podemos muito cedo ter excesso de uma coisa má. Um Centenário não provoca necessariamente a ideia Cômica, nem o cadáver de um duque. Ela não é provocada na ordem da natureza, até atrairmos a sua atenção penetrante para alguma circunstância com a qual misturámos os nossos interesses privados ou a nossa ofuscação especulativa. A estupidez, insensível ao Cômico, tem o privilégio de o despertar; e colocar um dedo estúpido em assuntos da vida humana é o método mais seguro de estabelecer comunicações elétricas com uma bateria de riso — onde a ideia Cômica é predominante.

Mas se a ideia Cômica prevalecesse entre nós, e tivéssemos um Aristófanes para a aguçar e dar asas, estaríamos a respirar o ar de Atenas. Os prosadores que agora se descarregam sobre nós como fontes públicas seriam interrompidos na rua e deixados a piscar os olhos, mudos como marcos de correio, com cartas enfiadas nas suas bocas. Livrar-nos-íamos do íncubo, o nosso terrível familiar — por alguns chamado tédio — a quem é a nossa atual humilhação estar apenas vivos o suficiente para detestar, nunca rápidos o suficiente para frustrar. Haveria uma perceção helénica brilhante, positiva e clara dos factos. Os vapores da Insensatez e do Sentimentalismo seriam soprados para longe antes que fossem produtivos. Onde estariam o Pessimista e o Otimista? Teriam, em qualquer caso, uma audiência diminuída. No entanto, possivelmente, a mudança de déspotas, da obtusidade bondosa e antiga para a inteligência cortante, que é por natureza impiedosa, seria mais do que poderíamos suportar. A rutura do elo entre pessoas estúpidas, que consiste no acordo fraternal de que algo é demasiado inteligente para elas, e um tiro para além do seu alcance, não deve ser considerada levianamente; pois, por mais ténue que o elo pareça, é equivalente a um cimento que forma um betão de coesão densa, muito desejável na estima do estadista.

Um Aristófanes político, tirando partido da sua licença báquica lírica, revelou-se demasiado para a Atenas política. Eu não pediria que ele fosse revivido, mas que a luz viva de um espírito como o dele pudesse estar connosco para incidir de vez em quando sobre os assuntos públicos, temas públicos, para os fazer girar mais rapidamente.

Ele odiava com o fervor do político o sofista que corrompia a simplicidade de pensamento, o poeta que destruía a pureza do estilo, o demagogo, o ‘monstro de dentes de serra’, que, na sua conceção, enganava a multidão, e manteve a sua posição contra eles pela força do riso, até que multas, o corte da sua licença Cômica no coro, e, finalmente, a ruína de Atenas, que já não podia suportar a despesa do coro, o lançaram totalmente para o diálogo e o submeteram à lei. Após a catástrofe, o poeta, que sempre olhara para trás, para os homens de Maratona e Salamina, deve ter sentido que a previra; e que ele foi sábio quando defendeu a paz, e ridicularizou a presunção militar e a velha criatura capciosa Demus, podemos admitir. Ele tinha o dom do bom senso do poeta Cômico — que nem sempre inclui inteligência política; contudo, a sua tendência política elevou-o acima da inclinação da Comédia Antiga para a farsa ruidosa. Ele abusou de Sócrates, mas Xenofonte, o discípulo de Sócrates, pela sua retórica treinada, salvou os Dez Mil. Aristófanes poderia dizer que se as suas advertências tivessem sido seguidas, não teria existido tal expedição mercenária grega sob o comando de Ciro. Atenas, contudo, estava num deslizamento de terra, a cair; ninguém a podia deter. Olhar para trás, defender os velhos tempos, era um conservadorismo muito natural, e infrutífero. A aloé tinha florescido. Esteja certo ou errado na sua política e nas suas críticas, e tendo em mente os instrumentos que tocava e o público que tinha de conquistar, existe uma ideia nas suas comédias: é a Ideia de Boa Cidadania.

Não é provável que ele seja revivido. Ele permanece, tal como Shakespeare, um inalcançável. Swift diz dele, com uma risada carinhosa:

‘Mas quanto ao Cômico Aristófanes, O cão demasiado espirituoso e demasiado profano é.’

Aristófanes era ‘profano’, sob direção satírica, ao contrário dos seus rivais Crátino, Frínico, Ameipsias, Eupolis e outros, se formos acreditar nele, que na sua extraordinária Feira de Donnybrook dos dias da Comédia, espancavam-se uns aos outros e a todos os outros com absoluta cordialidade, como ele fazia, mas visavam caça pequena e arrastavam mulheres específicas, o que ele não fazia. Ele é um agregado de muitos homens, todos de uma certa grandeza. Podemos construir uma conceção dos seus poderes se montarmos Rabelais sobre Hudibras, elevá-lo com a musicalidade de Shelley, dar-lhe uma veia de Heinrich Heine e cobri-lo com o manto do Anti-Jacobino, adicionando (para que possa haver algum irlandês nele) uma pitada de Grattan, antes de ele estar em movimento.

Mas tais esforços para conceber um grande homem pela incorporação de menores são vãos e clamam por desculpa. Supondo Wilkes como protagonista num país constantemente a mergulhar na guerra sob algum Lamaco emplumado, com inimigos a incendiarem periodicamente a terra até às portas de Londres, e um Samuel Foote, de génio prodigioso, a atacá-lo com ridículo, penso que isso dá uma ideia do conflito travado por Aristófanes. Este careca risonho, como ele próprio se chama, era um panfletário titânico, usando o riso como sua arma política; um riso sem escrúpulos, o riso de Hércules. Ele estava preparado com espírito, como com o alho que diz dar aos galos de briga, para os fazer lutar melhor. E era um poeta lírico de delicadeza aérea, com a canção caseira de um poeta nacional alegre, e um poeta de tal sentimento que a máscara cômica é, por vezes, não mais larga do que um pano num rosto para mostrar os traços sérios da nossa semelhança comum. Ele não deve ser revivido; mas se o seu método fosse estudado, algum do fogo nele chegaria até nós, e nós poderíamos ser revividos.

Tomando-os genericamente, o público inglês sente mais simpatia por esta comédia aristofânica primitiva, na qual o cómico é coroado pelo grotesco, a ironia pontiaguda pelo espírito, e a sátira é uma espada nua. Eles têm a base do Cômico neles: uma estima pelo bom senso. Eles detestam cordialmente o seu oposto. Têm uma risada rica, embora não seja o gros rire do gaulês que atira gros sel, nem a risada mentalmente digestiva do francês polido. E se têm agora, como um monarca com uma trupe de anões, demasiados bobos a pontapear o dicionário, para lhes permitir refletir que são estúpidos, ocasionalmente, como o monarca pensativo que se surpreende com uma ideia de uma ideia sua, eles parecem sê-lo. E são propensos a olhar-se ao espelho. Têm de ver que algo os aflige. Quanto mesmo a ordem superior deles suportará, sem um pensamento defensivo, quando a pessoa que os aflige está protegida da sátira, lemos nas Memórias de uma Época Anterior, onde a anfitriã vulgarmente tirânica de uma grande casa de receção baralhava os convidados e jogava com eles como um baralho de cartas, com a sua estimativa exata da força de cada um impressa neles: e ainda assim esta casa continuou a ser a mais popular de Inglaterra; nem a senhora apareceu alguma vez na imprensa ou nos palcos como o tipo cômico que ela era.

Tem sido sugerido que eles ainda não compreenderam espiritualmente o significado de viver em sociedade; pois quem são mais alegres, mais vivos de espírito, nos campos, e como exploradores, colonizadores, homens da fronteira? Eles são felizes em exercícios duros, e também em repouso completo. A condição intermédia, quando são chamados a falar uns com os outros, sobre outros assuntos que não os de negócios ou os seus hobbies, revela-os a usar um ar curioso de vacuidade, como se fosse a cavidade de um olho em falta. O Cômico está perpetuamente a surgir na vida social, e oprime-os por não ser percebido.

Assim, num jantar, um dos convidados, que por acaso se inscreveu numa Companhia Funerária, implora educadamente aos outros que inscrevam os seus nomes como acionistas, explanando as vantagens que lhes adviriam no caso da sua muito possível morte próxima, a salubridade do local, a aptidão do solo para um rápido consumo dos seus restos mortais, etc.; e eles bebem tristeza do homem incongruente, e concebem indigestão, não o vendo sob uma luz nitidamente definida, que os incitaria a provar o cómico dele. Ou menciona-se que um membro recém-eleito do nosso Parlamento celebra a sua chegada à eminência com a publicação de um livro sobre tarifas de táxi, dedicado a uma querida parente falecida, e o comentário sobre isso é a palavra ‘De facto’. Mas, apenas para um contraste, vire-se para uma cena não incomum de ontem no campo de caça, onde um jovem cavaleiro brilhante, tendo partido a clavícula, trota para longe muito pouco depois, contra a interdição médica, meio montado em talas, para o encontro mais distante da sua vizinhança, seguro de escapar ao seu médico, que é a primeira pessoa com quem se encontra. ‘Vim aqui propositadamente para o evitar’, diz o paciente. ‘Vim aqui propositadamente para cuidar de si’, diz o médico. Partem, e chegam a um riacho cheio. O paciente salta-o admiravelmente: o médico cai lá dentro. Todo o campo está vivo com o mais sincero gosto por cada incidente e cada luz cruzada sobre ele; e seria considerado estúpido o homem que não tivesse a sua palavra a dizer sobre isso quando voltasse a cavalo para casa.

Na nossa literatura de prosa, tivemos escritores Cômicos encantadores. Além de Fielding e Goldsmith, há a Sr.ª Austen, cujas Emma e Sr. Elton poderiam caminhar diretamente para uma comédia, se o enredo fosse arranjado para eles. Os romances negligenciados de Galt têm algumas personagens e traços de comédia perspicaz. Na nossa literatura poética, o cómico é delicado e gracioso acima do toque do italiano e do francês. Geralmente, porém, os ingleses de eleição destacam-se na sátira, e são nobres humoristas. A disposição nacional é para o golpe duro, com um propósito moral para o sancionar; ou para uma cordialidade rosada, por vezes larmoyante, não viril na sua inclinação para a ternura, e com uma atração singular pela cabeça-dura, para a decorar com orelhas de burro e as mais belas auréolas silvestres. Mas o Cômico é um espírito diferente.

Pode estimar a sua capacidade de perceção Cômica sendo capaz de detetar o ridículo daqueles que ama, sem os amar menos: e mais ainda por ser capaz de ver a si próprio um tanto ridículo em olhos queridos, e aceitar a correção que a imagem deles de si propõe.

Cada um de um casal afetuoso pode estar disposto, como dizemos, a morrer pelo outro, mas indisposto a proferir a palavra agradável no momento certo; mas se o espírito fosse suficientemente rápido para eles perceberem que estão numa situação cômica, como os casais afetuosos devem estar quando discutem, eles não esperariam pela lua ou pelo almanaque, ou por uma Dorina, para trazer de volta a maré alta de sentimentos ternos, para que pudessem juntar mãos e lábios.

Se deteta o ridículo, e a sua benevolência é arrefecida por ele, está a escorregar para o aperto da Sátira.

Se em vez de cair em cima da pessoa ridícula com uma vara satírica, para a fazer contorcer e gritar alto, prefere picá-la sob uma semi-carícia, pela qual ela deverá, na sua angústia, ficar na dúvida se algo a magoou de facto, é um motor de Ironia.

Se ri à volta dele, o tomba, o faz rebolar, lhe dá uma palmada e deixa cair uma lágrima sobre ele, admite a semelhança dele consigo e a sua com a do seu vizinho, poupa-o tão pouco quanto evita, tem pena dele tanto quanto expõe, é um espírito de Humor que o move.

O Cômico, que é o espírito percetivo e governante, despertando e dando mira a estes poderes de riso, não deve ser confundido com eles: ele envolve uma forma mais ténue deles, diferindo da sátira, por não conduzir agudamente para as sensibilidades trémulas, e do humor, por não as confortar e as aconchegar, ou por não indicar uma gama mais ampla do que a deste mundo agitado para elas.

O Jonathan Wild de Fielding apresenta um caso desta distinção peculiar, quando esse homem de eminente grandeza comenta sobre a injustiça de um julgamento no qual a condenação foi provocada por doze homens do partido oposto; pois não é satírico, não é humorístico; contudo, é imensamente cômico ouvir um vilão culpado protestar que o seu próprio ‘partido’ deveria ter voz na Lei. Abre uma avenida para a raciocinação dos vilões. E o Cômico não é cancelado mesmo que suponhamos que Jonathan esteja a dar largas ao seu humor. Posso ter sonhado isto ou ter-me sido sugerido, pois ao referir-me a Jonathan Wild, não o encontro.

Aplique o caso ao homem de espírito profundo, que está sempre certo da sua condenação pelo partido oposto, e então deixa de ser cômico e será satírico.

O olhar de Fielding sobre Richardson é essencialmente cômico. O seu método de corrigir o escritor sentimental é uma mistura do cômico e do humorístico. Parson Adams é uma criação de humor. Mas tanto a conceção como a apresentação de Alceste e de Tartuffe, de Celimene e Philaminte, são puramente cômicas, dirigidas ao intelecto: não há humor nelas, e elas refrescam o intelecto que aguçam para detetar a sua comédia, pela força do contraste que oferecem entre si mesmas e o mundo mais sábio à sua volta; isto é, a sociedade, ou aquele ajuntamento de mentes de onde o espírito Cômico tem a sua origem.

Byron tinha poderes esplêndidos de humor, e a sátira mais poética de que temos exemplo, fundindo-se por vezes numa ironia dura. Ele não tinha um forte sentido cômico, ou não teria tomado uma posição antissocial, que é diretamente oposta ao Cômico; e na sua filosofia, julgada pelos filósofos, ele é uma figura cômica, devido a esta deficiência. ‘So bald er philosophirt ist er ein Kind’, diz Goethe dele. Carlyle vê-o sob esta luz cômica, trata-o da maneira humorística.

O Sátiro é um agente moral, muitas vezes um lixeiro social, trabalhando num armazenamento de bílis.

O Irónico é uma coisa ou outra, conforme o seu capricho. A ironia é o humor da sátira; pode ser selvagem como em Swift, com um objeto moral, ou serena, como em Gibbon, com um objeto malicioso. A ironia presunçosa que se inquieta para ser vista, e a ironia que lança olhares, para que não se confunda a sua intenção, são falhas no esforço satírico que pretende os tesouros da ambiguidade.

O Humorista de ordem média é um risonho refrescante, dando tom aos sentimentos e por vezes permitindo que os sentimentos sejam demais para ele. Mas o humorista de ordem elevada tem um abraço de contrastes para além do alcance do poeta Cômico.

O coração e a mente riem-se de D. Quixote, e ainda assim pondera-se sobre ele. A justaposição do cavaleiro e do escudeiro é uma conceção Cômica, a oposição das suas naturezas é o mais humorístico. São tão diferentes como os dois hemisférios no tempo de Colombo, contudo tocam-se e estão ligados num só pelo riso. Os grandes objetivos e constantes contratempos do cavaleiro, a sua valência cavalheiresca exercida em objetos absurdos, o seu bom senso ao longo da estrada da mais louca das expedições; a compaixão que ele arranca do escárnio, e a figura admirável que preserva enquanto caminha através do freneticamente grotesco e burlesco que o ataca, estão nos mais elevados estados de humor, fundindo o sentimento Trágico com a narrativa Cômica.

O golpe do grande humorista é mundial, com luzes de Tragédia no seu riso.

Tomando um grande vivo, embora não criativo, humorista para guiar a nossa descrição: o crânio de Yorick está nas suas mãos nas nossas estações de festival; ele vê visões do homem primitivo a saltitar preposteramente sob as vestes magníficas da cerimónia. As nossas almas devem estar em chamas quando usamos a solenidade, se não quisermos pressionar o seu nervo mais astuto. O finito e o infinito brilham de um para o outro com ele, emprestando-lhe um pensamento de dois gumes que espreita de entre as suas linhas mais pacíficas por momentos, como a lanterna do vigilante de incêndios às janelas, a fazer as rondas à noite. O comportamento e os desempenhos dos homens em sociedade são para ele, pela comparação vívida com a sua mortalidade, mais grotescos do que respeitáveis. Mas pergunte a si mesmo: é ele sempre de confiança quanto à justiça? Ele voará direto como a águia emissária de volta a Júpiter ao verdadeiro Herói. Ele também fará uma descida rápida e determinada sobre o homem da sua escolha deliberada, que não conseguimos distinguir como um verdadeiro. Este vasto poder seu, construído a partir dos sentimentos e do intelecto em união, carece frequentemente de proporção e de discrição. Os humoristas que tocam na História ou na Sociedade são dados a ser caprichosos. Eles são, como no caso de Sterne, dados a ser sentimentais; pois, com eles, os sentimentos são primários, como com os cantores. A Comédia, por outro lado, é uma interpretação da mente geral, e é por essa razão, por necessidade, mantida sob restrição. Os franceses colocam ênfase marcada em mesure et gout, e admitem o quanto devem a Molière por os conduzir numa justiça simples e bom gosto. Nós podemos ensinar-lhes muitas coisas; eles podem ensinar-nos nisto.

A comédia é um jogo da mente. A ausência da mente nela a transforma em farsa, em uma pantomima, em uma piada grosseira. A comédia não é uma coisa que se faz com o corpo ou com as emoções, mas com o intelecto, e é o intelecto que, por sua vez, a julga. O espírito cômico não é para ser sentido com as entranhas, mas pensado com a cabeça. Se você não consegue pensar sobre a sua risada, você não está rindo com o espírito cômico. Se a sua risada é um espasmo, é apenas um reflexo, uma reação física, um sinal de que algo o atingiu, mas não de que você compreendeu. A compreensão é o requisito básico da comédia. É por isso que, para rir comicamente, é preciso primeiro ser capaz de pensar calmamente, sem se deixar levar pelo ímpeto do momento ou pela paixão do instante. É um exercício de distanciamento, uma observação que se faz de um ponto fixo, um lugar de onde se pode enxergar o todo sem se perder nas partes. Quando você ri comicamente, você está, na verdade, reconhecendo uma verdade intelectual; você está afirmando que a sua razão prevaleceu sobre a sua reação imediata. É uma forma de civilidade que nos permite suportar a insensatez dos nossos semelhantes sem perdermos a nossa própria sanidade. É, talvez, a forma mais alta de inteligência social que o ser humano já conseguiu desenvolver.

Não sei se a mosca no âmbar tem qualquer utilidade particular, mas a ideia Cômica contida em uma comédia torna-a mais geralmente perceptível e portátil, e isso é uma vantagem. Há um benefício para os homens em absorver as lições da Comédia em congregações, pois isso vivifica o espírito; e, para os escritores, é benéfico, pois eles devem ter um esquema claro, e mesmo que não tenham uma ideia a apresentar, devem provar que fizeram o público sentar-se diante deles antes do ato de sentar-se para ver o quadro. E escrever para o palco seria um corretivo para um estilo acadêmico demasiado incrustado, no qual alguns grandes homens caem por vezes. Mantém os escritores menores em um plano definido, e na língua inglesa. Muitos deles agora a inchar um mercado pletórico, na composição de romances, em fábricas de trocadilhos e no jornalismo; ligados à maquinaria que força matéria perecível sobre um público que engole vorazmente e geme; poderiam, com incentivo, estar dedicando-se ao estudo da arte na literatura. Os nossos críticos parecem fascinados pela singularidade do nosso público, como o mundo fica quando o nosso jardim zoológico recebe uma nova importação de magnitude, e o apetite das criaturas é reverentemente consultado. Eles estipulam a popularidade de um escritor antes de fazerem muito mais do que assumir a posição de árbitros para registrar o seu fracasso ou sucesso. Ora, o porco fornece o mais popular dos pratos, mas não é tido como o mais honrado dos animais, a menos que o seja pelo camponês. O nosso público poderia certamente ser levado a experimentar outra carne, talvez mais fina. Tem bom gosto para a canção. Poderia ser ensinado com a mesma justiça, no geral, e tanto mais cedo quanto a visão do camponês sobre o banquete deixar de ser a humilde visão dos nossos críticos literários, a estender esta capacidade de escolha delicada na direção da matéria que desperta o riso.

Notas de rodapé:

{1} Uma palestra proferida na London Institution, 1º de fevereiro de 1877.

{2} O realismo na escrita é levado a tal extremo em THE OLD BACHELOR, que marido e mulher usam epítetos conjugais imbecis um com o outro.

{3} Tallemant des Reaux, no seu retrato cru do Duque, mostra a fundação do caráter de Alceste.

{4} Ver Tom Jones, livro viii, capítulo I, para a opinião de Fielding sobre a nossa Comédia. Mas ele coloca-a de forma simples; não como um exercício no bathos quase filosófico.

{5} Femmes Savantes:

BELISE: Veux-tu toute la vie offenser la grammaire?

MARTINE: Qui parle d’offenser grand’mere ni grand-pere?’

O trocadilho é proferido com toda a sinceridade, da boca de uma rústica.

{6} Maskwell parece ter sido esculpido no modelo de Iago, como pela mão de um garoto empreendedor. Ele apostrofa a sua ‘invenção’ repetidamente. ‘Graças à minha invenção.’ Ele chega a uma invenção, ao dizer: ‘Foi o meu cérebro ou a Providência? não importa qual.’ Não importa qual, mas não foi o seu cérebro.

{7} Imaginary Conversations: Alfieri e o judeu Salomon.

{8} Terêncio não agradou aos rudes velhos romanos conservadores; eles gostavam mais de Plauto, e a menção recorrente do vetus poeta nos seus prólogos, que o atormentava com a visão crítica e ranzinza das suas produções, tem no fim um efeito cômico sobre o leitor.

{9} A exclamação de Lady Booby, quando Joseph se defende: ‘A VOSSA VIRTUDE! Nunca sobreviverei a ela!’ etc., é outro exemplo.--Joseph Andrews. Também a de Miss Mathews na sua narrativa a Booth: ‘Mas tais são as amizades das mulheres.’--Amelia.

MARCADORES DO EDITOR DO ETEXT PARA AS OBRAS CURTAS DE MEREDITH:

Um homem sábio não desperdiçará o seu riso se puder evitá-lo Uma mulher sente-se ofendida se você não lhe confia os seus planos Um inimigo generoso é um amigo do lado errado Um benefício muito duvidoso Uma grande oração pode ser um sedativo Um devoto masculino está a um centímetro de um milagre Acima da Natureza, digo-lhe, ou ficaremos muito abaixo O adversário que é ao mesmo tempo ofensivo e indefeso provoca brutalidade Todos são amigos que se sentam à mesa Toda a lisonja é à custa de alguém Os americanos recordam perdoadamente, sem mencionar Como lhes convém, não olham para a frente Como em toda a grande oratória! A chave dela é o pathos De volta do altar para descobrir que se acorrentou a si mesma Seja o que parece ser, minha pequena Seja filosófico, mas aceite as suas dívidas pessoais A cama era uma rocha de refúgio e defesa fortificada Mas deixo isso para si Pode acreditar que uma mulher tem qualquer idade quando as suas bochechas estão pintadas Faz com que seja popularmente pesado As acusações de cinismo são comuns contra todos os sátiristas A língua civil e os sorrisos rosados adoçam até o vinho azedo O Cupido com asas cortadas é um parasita destrutivo Coisas perigosas são ditas depois do terceiro copo Distinguido pelo facto de não se deixar provocar Desconfie de nós, e é uma declaração de guerra Comportamento excêntrico em ninharias Por toda parte o distintivo da sujeição é um estômago pobre O excesso de um mérito é um crime capital na moralidade Excitado, contente com a catástrofe se esta apenas matasse a monotonia Rosto que denota o gosto perpétuo do limão Quarto dos Georges Geralmente ele não notava nada Cavalheiro num bom estado de preservação Boas piadas nem sempre são boa política A gratidão nunca foi um dom de uma mulher A felicidade no amor é uma combinação entre êxtase e consentimento Aqui e ali uma alma simples e boa pela qual ele era afetuoso A sua ideia de casamento é a tomada da mulher sob custódia Imagens sagradas e outros objetos milagrosos são vendidos Eu, que respeito o estado de casamento ao recusar Faço questão de nunca recomendar a minha própria casa Gosto dele, gosto dele, claro, mas quero respirar Sou um instrumento discordante, não vibro facilmente Se não falo de pagamento Impartindo o coro habitual de sins à sua própria mente Em todas as dificuldades, a paciência é um colete salva-vidas Indulgentes no seu privilégio de pensar o que queriam Diz-se que as crianças têm as suas ideias, e por que não as jovens senhoras? Desprezo intelectual por dupes fáceis Convide a indecisão a esgotar os seus escrúpulos Não é um mês de brilho tanto quanto podemos pedir? Era mais difícil estar perto e não junto É bom aprender modos sem que nos sejam impostos Sabia que o meu amigo era um dos homens mais distraídos Empreste-lhe a sua própria generosidade Amor e guerra foram comparados--Ambos exigem estratégia Amando nesta terra: todos eles enlouquecem, de imediato Os homens adoram gabar-se de coisas que ninguém mais viu Homens excessivamente apaixonados pelas suas criações Os modestos são os que mais facilmente se embriagam quando bebem da vaidade Tem de haver o moralista no sátirista se a sátira deve atingir A natureza não é necessariamente sempre rugidora Impertinentemente australiana e canguru Nunca conte com o género feminino para um ato sábio Nenhuma lisonja para mim à custa das minhas irmãs Nem uma página dos seus livros revela malevolência ou um escárnio Não apaixonada--Ela apenas não estava indisposta a apaixonar-se Nada de desejável terá que não seja cobiçado Apenas para ser descrito na língua dos leiloeiros Paz, eu rezo, para a mulher assombrada pelo marido Período da sua vida em que um homem se torna demasiado vorazmente constante Concessões mesquinhas são sinais de fraqueza para os insatisfeitos Conceito lamentável nos homens Apetite primitivo pelo ruído Rapto de esquecimento Regozijando-se por terem o seu acordo comum Respeitava mais o vegetal do que estimava a flor Ricos e pobres está tudo bem, se eu for rico e tu fores pobre Autoincenso Autoadoração, que é muitas vezes autodesconfiança Ela parece honesta, e isso é o máximo que podemos esperar das raparigas Ela procurou, olhando com atenção, entendê-lo melhor Ela poderia tornar-se boa, se bem guardada por algum tempo Ela começou a sentir que isto era a vida a sério Ela lidava com os lampejos que conectam ideias Sinal de que o mal tinha chegado de picadelas a empurrões Assim são julgados os grandes feitos quando o perigo passa (tão fácil) Sono suave de uma força nunca antes chamada Poupe-me essa palavra "fêmea" enquanto viver Estadista que se curvou para conquistar o facto através da ficção Aquecendo-se ao sol no vidro da Inveja Suspeita de todos os jovens e da maioria das jovens A suspeita era a sua melhor testemunha Doce tesouro diante do qual jaz um dragão a dormir Dizendo-lhe qualquer coisa, ela faz meia cara em antecipação Aquilo que a boa culinária faz para a cimentação dos casais O intrincado, que ela toma pelo infinito O mundo social que ele olhou não lhe mostrou heróis A alternativa é uma liga e o poste da cama A exaustão que se seguiu chamamos de tranquilidade A brandura de uma ditadura assegurada O seu ídolo lançado diante deles no chão Perdem o seu prazer ao persegui-lo Esta mania dos jovens pelo prazer, prazer eterno Atirou-o da repulsa para a incredulidade, e assim de volta Duas estradas principais pelas quais os pobres pecadores chegam a uma consciência A expressão de gritos generosos e patrióticos não é suficiente Habituamo-nos a períodos de febre irlandesa Gostamos bem daquilo pelo que fizemos um bom trabalho Confiamos neles ou esmagamo-los Juncos fracos que são facilmente vencidos e nunca superados Um estômago fraco é certamente mais carnalmente virtuoso do que um cheio Se eu estivesse acorrentado, Pela liberdade venderia a liberdade Quando vemos os nossos veteranos a cambalear para a sua queda Quando terminar de rir com ela, pode rir dela Ganha em toda a parte um reflexo da sua própria bondade Espíritos, que são ordinariamente menos produtivos do que a terra Mulher descendo do seu ideal para a realidade grosseira do homem A sua devoção anseia por uma troca enorme

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