DRÁCULA
por
Bram Stoker
NOVA YORK
GROSSET & DUNLAP
Editores
Direitos autorais, 1897, nos Estados Unidos da América, de acordo com a Lei do Congresso, por Bram Stoker
[Todos os direitos reservados.]
IMPRESSO NOS ESTADOS UNIDOS NA THE COUNTRY LIFE PRESS, GARDEN CITY, N.Y.
PARA
MEU QUERIDO AMIGO
HOMMY-BEG
Sumário
CAPÍTULO I. Diário de Jonathan Harker CAPÍTULO II. Diário de Jonathan Harker CAPÍTULO III. Diário de Jonathan Harker CAPÍTULO IV. Diário de Jonathan Harker CAPÍTULO V. Cartas—Lucy e Mina CAPÍTULO VI. Diário de Mina Murray CAPÍTULO VII. Recorte do “The Dailygraph,” 8 de agosto CAPÍTULO VIII. Diário de Mina Murray CAPÍTULO IX. Diário de Mina Murray CAPÍTULO X. Diário de Mina Murray CAPÍTULO XI. Diário de Lucy Westenra CAPÍTULO XII. Diário do Dr. Seward CAPÍTULO XIII. Diário do Dr. Seward CAPÍTULO XIV. Diário de Mina Harker CAPÍTULO XV. Diário do Dr. Seward CAPÍTULO XVI. Diário do Dr. Seward CAPÍTULO XVII. Diário do Dr. Seward CAPÍTULO XVIII. Diário do Dr. Seward CAPÍTULO XIX. Diário de Jonathan Harker CAPÍTULO XX. Diário de Jonathan Harker CAPÍTULO XXI. Diário do Dr. Seward CAPÍTULO XXII. Diário de Jonathan Harker CAPÍTULO XXIII. Diário do Dr. Seward CAPÍTULO XXIV. Diário fonográfico do Dr. Seward, falado por Van Helsing CAPÍTULO XXV. Diário do Dr. Seward CAPÍTULO XXVI. Diário do Dr. Seward CAPÍTULO XXVII. Diário de Mina Harker
Como esses documentos foram organizados em sequência será evidenciado na leitura deles. Todos os assuntos desnecessários foram eliminados, de modo que uma história quase em desacordo com as possibilidades da crença dos dias atuais possa ser apresentada como um fato simples. Não há, em toda a obra, nenhuma declaração de coisas passadas nas quais a memória possa errar, pois todos os registros escolhidos são exatamente contemporâneos, dados a partir dos pontos de vista e dentro do alcance do conhecimento daqueles que os fizeram.
DRÁCULA
CAPÍTULO I
DIÁRIO DE JONATHAN HARKER
3 de maio. Bistritz.—Saí de Munique às 20h35 do dia 1º de maio, chegando a Viena na manhã seguinte; deveria ter chegado às 6h46, mas o trem atrasou uma hora. Buda-Pesth parece ser um lugar maravilhoso, pelo vislumbre que tive dele do trem e pelo pouco que pude caminhar pelas ruas. Temia me afastar muito da estação, pois havíamos chegado tarde e partiríamos o mais próximo possível do horário correto. A impressão que tive foi a de que estávamos deixando o Ocidente e entrando no Oriente; a mais ocidental das esplêndidas pontes sobre o Danúbio, que aqui é de nobre largura e profundidade, nos levou às tradições do domínio turco.
Partimos em um bom horário e chegamos após o anoitecer a Klausenburgh. Aqui passei a noite no Hotel Royale. Jantei, ou melhor, ceiei, um frango preparado de alguma forma com pimenta vermelha, que era muito bom, mas me deixou com sede. (Lembrete: obter a receita para Mina.) Perguntei ao garçom, e ele disse que se chamava "paprika hendl" e que, como era um prato nacional, eu poderia encontrá-lo em qualquer lugar ao longo dos Cárpatos. Meu conhecimento básico de alemão foi muito útil aqui; na verdade, não sei como conseguiria me virar sem ele.
Tendo tido algum tempo disponível em Londres, visitei o Museu Britânico e pesquisei entre os livros e mapas da biblioteca sobre a Transilvânia; ocorreu- me que algum conhecimento prévio do país poderia ser de grande importância ao lidar com um nobre daquele país. Descobri que a região que ele mencionou fica no extremo leste do país, exatamente na fronteira de três estados: Transilvânia, Moldávia e Bukovina, no meio das montanhas dos Cárpatos; uma das regiões mais selvagens e menos conhecidas da Europa. Não consegui encontrar nenhum mapa ou obra que desse a localização exata do Castelo Drácula, pois não há mapas desse país tão detalhados quanto os nossos mapas do Ordnance Survey; mas descobri que Bistritz, a cidade postal mencionada pelo Conde Drácula, é um lugar bastante conhecido. Registrarei aqui algumas das minhas anotações, pois podem refrescar minha memória quando conversar sobre minhas viagens com Mina.
Na população da Transilvânia há quatro nacionalidades distintas: saxões no sul, e misturados com eles os valáquios, que são descendentes dos dácios; magiares no oeste, e sículos no leste e norte. Estou indo em direção aos últimos, que afirmam ser descendentes de Átila e dos hunos. Isso pode ser verdade, pois quando os magiares conquistaram o país no século XI, encontraram os hunos estabelecidos lá. Li que todas as superstições conhecidas no mundo estão reunidas no ferrão dos Cárpatos, como se fosse o centro de um redemoinho imaginativo; se for assim, minha estadia pode ser muito interessante. (Lembrete: devo perguntar ao Conde sobre essas superstições.)
Não dormi bem, embora minha cama fosse confortável o suficiente, pois tive todo tipo de sonhos estranhos. Havia um cachorro uivando a noite toda sob minha janela, o que pode ter contribuído para isso; ou pode ter sido o paprika, pois tive que beber toda a água da minha jarra e ainda estava com sede. Perto da manhã, dormi e fui acordado por batidas contínuas na minha porta, então suponho que devo ter dormido profundamente então. No café da manhã, comi mais paprika e uma espécie de mingau de farinha de milho que chamavam de "mamaliga", e berinjela recheada com carne, um prato excelente que chamam de "impletata". (Lembrete: obter a receita para este também.) Tive que apressar o café da manhã, pois o trem partia um pouco antes das oito, ou pelo menos deveria partir, pois depois de correr para a estação às 7h30, tive que ficar no vagão por mais de uma hora antes que começássemos a nos mover. Parece-me que quanto mais para o leste você vai, menos pontuais são os trens. Como devem ser na China?
Durante todo o dia, parecíamos passear por um país cheio de beleza de todos os tipos. Às vezes, víamos pequenas cidades ou castelos no topo de colinas íngremes, como as que vemos em antigos missais; às vezes, passávamos por rios e córregos que pareciam, pela ampla margem rochosa de cada lado, estar sujeitos a grandes enchentes. É preciso muita água, e fluindo com força, para limpar a borda externa de um rio. Em todas as estações, havia grupos de pessoas, às vezes multidões, e em todos os tipos de trajes. Alguns deles eram iguais aos camponeses de casa ou aos que vi ao passar pela França e Alemanha, com jaquetas curtas e chapéus redondos e calças caseiras; mas outros eram muito pitorescos. As mulheres pareciam bonitas, exceto quando você se aproximava delas, mas eram muito desajeitadas na cintura. Todas tinham mangas brancas cheias de algum tipo ou outro, e a maioria tinha grandes cintos com muitas tiras de algo flutterando deles, como os vestidos em um balé, mas, é claro, havia anáguas sob eles. As figuras mais estranhas que vimos foram os eslovacos, que eram mais bárbaros que os outros, com seus grandes chapéus de vaqueiro, calças largas e sujas de branco, camisas de linho branco e enormes cintos de couro pesados, com quase um pé de largura, todos cravejados com pregos de latão. Eles usavam botas altas, com as calças enfiadas nelas, e tinham cabelos pretos longos e bigodes pretos grossos. Eles são muito pitorescos, mas não parecem confiáveis. No palco, seriam imediatamente classificados como uma antiga banda oriental de bandidos. No entanto, sou informado de que são muito inofensivos e um tanto carentes de autoafirmação natural.
Era no lado escuro do crepúsculo quando chegamos a Bistritz, que é uma cidade antiga muito interessante. Estando praticamente na fronteira—pois o Passo Borgo leva dela para Bukovina—teve uma existência muito turbulenta e, certamente, mostra marcas disso. Há cinquenta anos, uma série de grandes incêndios ocorreu, que causaram estragos terríveis em cinco ocasiões diferentes. No início do século XVII, sofreu um cerco de três semanas e perdeu 13.000 pessoas, sendo as baixas da guerra propriamente ditas acompanhadas por fome e doença.
O Conde Drácula me orientou a ir para o Hotel Golden Krone, que, para minha grande satisfação, descobri ser completamente antigo, pois, é claro, queria ver o máximo possível dos costumes do país. Fui evidentemente esperado, pois quando me aproximei da porta, enfrentei uma senhora idosa de aparência alegre, no traje camponês usual—vestimenta branca subjacente com longo avental duplo, na frente e atrás, de tecido colorido, ajustado quase apertado demais para a modéstia. Quando me aproximei, ela se curvou e disse: "O Herr Inglês?" "Sim", respondi, "Jonathan Harker." Ela sorriu e deu alguma mensagem a um homem idoso de mangas de camisa brancas, que a havia seguido até a porta. Ele foi, mas imediatamente retornou com uma carta:
"Meu Amigo.—Bem-vindo aos Cárpatos. Estou ansiosamente esperando por você. Durma bem esta noite. Às três horas de amanhã, a diligência partirá para Bukovina; um lugar nela está reservado para você. No Passo Borgo, minha carruagem o aguardará e o levará a mim. Confio que sua jornada de Londres tenha sido feliz e que você desfrute de sua estadia em meu belo país.
"Seu amigo,
"DRÁCULA."
4 de maio.—Descobri que meu anfitrião havia recebido uma carta do Conde, orientando-o a garantir o melhor lugar na carruagem para mim; mas, ao fazer perguntas sobre os detalhes, ele pareceu um tanto relutante e fingiu que não entendia meu alemão. Isso não podia ser verdade, pois até então ele o havia entendido perfeitamente; pelo menos, ele respondia às minhas perguntas exatamente como se entendesse. Ele e sua esposa, a senhora idosa que me recebeu, olhavam um para o outro de uma maneira assustada. Ele murmurou que o dinheiro havia sido enviado em uma carta e que era tudo o que sabia. Quando perguntei se ele conhecia o Conde Drácula e podia me contar algo sobre seu castelo, tanto ele quanto sua esposa se benziam e, dizendo que não sabiam nada, simplesmente se recusaram a falar mais. Estava tão perto da hora de partir que não tive tempo de perguntar a mais ninguém, pois tudo era muito misterioso e nada reconfortante.
Pouco antes de partir, a senhora idosa veio ao meu quarto e disse de uma maneira muito histérica:
"Você deve ir? Ah! jovem Herr, você deve ir?" Ela estava em um estado tão agitado que parecia ter perdido o domínio do alemão que sabia e o misturava todo com alguma outra língua que eu não conhecia. Consegui entendê-la ao fazer muitas perguntas. Quando lhe disse que devia partir imediatamente e que estava envolvido em negócios importantes, ela perguntou novamente:
"Você sabe que dia é hoje?" Respondi que era 4 de maio. Ela balançou a cabeça enquanto dizia novamente:
"Ah, sim! Eu sei disso! Eu sei disso, mas você sabe que dia é hoje?" Ao dizer que não entendia, ela continuou:
"É a véspera do Dia de São Jorge. Você não sabe que, esta noite, quando o relógio bater meia-noite, todas as coisas más do mundo terão pleno poder? Você sabe para onde está indo e o que vai encontrar?" Ela estava em um distúrbio tão evidente que tentei consolá-la, mas sem efeito. Finalmente, ela se ajoelhou e me implorou para não ir; pelo menos para esperar um dia ou dois antes de partir. Tudo era muito ridículo, mas não me senti confortável. No entanto, havia negócios a serem feitos, e eu não podia permitir que nada interferisse neles. Portanto, tentei levantá-la e disse, o mais seriamente que pude, que agradecia, mas meu dever era imperativo e que eu devia partir. Ela então se levantou e secou as lágrimas, e, tirando um crucifixo do pescoço, ofereceu-o a mim. Não sabia o que fazer, pois, como membro da Igreja Inglesa, fui ensinado a considerar tais coisas como, em certa medida, idólatras, e ainda assim parecia tão descortês recusar uma senhora idosa que tinha tão boas intenções e estava em um estado de espírito tão perturbado. Ela viu, suponho, a dúvida no meu rosto, pois colocou o rosário ao meu redor e disse: "Por causa de sua mãe", e saiu do quarto. Estou escrevendo esta parte do diário enquanto aguardo a carruagem, que, é claro, está atrasada; e o crucifixo ainda está ao meu redor. Seja pela paura da senhora idosa, ou pelas muitas tradições fantasmagóricas deste lugar, ou pelo próprio crucifixo, não sei, mas não me sinto tão à vontade na minha mente como de costume. Se este livro algum dia chegar a Mina antes de mim, que ele traga meu adeus. Aqui vem a carruagem!
* * * * *
5 de maio. O Castelo.—O cinza da manhã passou, e o sol está alto sobre o horizonte distante, que parece dentado, seja com árvores ou colinas, não sei, pois está tão longe que coisas grandes e pequenas se misturam. Não estou sonolento e, como não devo ser chamado até que acorde, naturalmente escrevo até que o sono venha. Há muitas coisas estranhas para registrar e, para que quem as leia não imagine que jantei demais antes de deixar Bistritz, deixe-me registrar meu jantar exatamente. Jantei o que chamam de "robber steak"—pedaços de bacon, cebola e carne, temperados com pimenta vermelha e espetados em varas e assados sobre o fogo, no estilo simples do cat's meat de Londres! O vinho era Golden Mediasch, que produz uma estranha sensação na língua, que, no entanto, não é desagradável. Tomei apenas algumas taças disso e nada mais.
Quando entrei na carruagem, o cocheiro ainda não havia ocupado seu lugar, e o vi conversando com a anfitriã. Eles estavam evidentemente falando de mim, pois, de vez em quando, olhavam para mim, e algumas das pessoas que estavam sentadas no banco fora da porta—que chamam de "word-bearer"—vieram e escutaram, e depois olharam para mim, a maioria delas com pena. Consegui que um companheiro de viagem me dissesse o que significavam; ele não quis responder inicialmente, mas, ao saber que eu era inglês, explicou que era um encanto ou guarda contra o mau-olhado. Isso não foi muito agradável para mim, justamente ao partir para um lugar desconhecido para encontrar um homem desconhecido; mas todos pareciam tão bondosos e tão tristes, e tão simpáticos, que não pude deixar de me comover. Nunca esquecerei o último vislumbre que tive do pátio da estalagem e de sua multidão de figuras pitorescas, todas se benzendo, enquanto ficavam em torno do amplo portal, com seu fundo de rica folhagem de oleandro e laranjeiras em vasos verdes agrupados no centro do pátio. Então, nosso cocheiro, cujas largas calças de linho cobriam toda a parte da frente do banco— "gotza" eles as chamam—estalou seu grande chicote sobre seus quatro pequenos cavalos, que corriam lado a lado, e partimos em nossa jornada.
Logo perdi a visão e a lembrança dos medos fantasmagóricos na beleza da cena, enquanto seguíamos, embora, se eu conhecesse a língua, ou melhor, as línguas, que meus companheiros de viagem estavam falando, talvez não conseguisse afastá-los tão facilmente. Diante de nós, estendia-se uma terra verde e inclinada, cheia de florestas e bosques, com aqui e ali colinas íngremes, coroadas com grupos de árvores ou com fazendas, a extremidade cega voltada para a estrada. Havia por toda parte uma massa confusa de flores—maçã, ameixa, pêra, cereja; e, enquanto passávamos, podia ver a grama verde sob as árvores salpicada com as pétalas caídas. Dentro e fora dessas colinas verdes do que chamam aqui de "Mittel Land" corria a estrada, perdendo-se enquanto contornava a curva gramada, ou sendo escondida pelos extremos espalhados dos pinheiros, que aqui e ali desciam pelas encostas como línguas de chama. A estrada era acidentada, mas ainda assim parecíamos voar sobre ela com uma pressa febril. Não consegui entender então o que significava essa pressa, mas o cocheiro estava evidentemente determinado a não perder tempo para chegar a Borgo Prund. Fui informado de que essa estrada é excelente no verão, mas que ainda não havia sido colocada em ordem após as neves do inverno. Nesse aspecto, é diferente da maioria das estradas dos Cárpatos, pois é uma antiga tradição que elas não devem ser mantidas em bom estado. Antigos Hospadars não as reparavam, para que os turcos não pensassem que estavam se preparando para trazer tropas estrangeiras e, assim, acelerar a guerra que sempre estava realmente em ponto de ebulição.
Além das colinas verdes e ondulantes do Mittel Land, erguiam-se as poderosas encostas das florestas até as altas escarpas dos próprios Cárpatos. À direita e à esquerda, eles se erguiam, com o sol da tarde caindo diretamente sobre eles e trazendo à tona todas as gloriosas cores dessa bela cordilheira, azul escuro e roxo nas sombras dos picos, verde e marrom onde grama e rocha se misturavam, e uma perspectiva interminável de rocha dentada e picos pontiagudos, até que esses próprios se perdiam na distância, onde as neves dos picos se erguiam majestosas. Aqui e ali, pareciam haver grandes fendas nas montanhas, através das quais, quando o sol começou a se pôr, vimos, de vez em quando, o branco brilho de água caindo. Um dos meus companheiros tocou meu braço enquanto contornávamos a base de uma colina e abrimos a vista para o pico nevado e elevado de uma montanha, que parecia, enquanto seguíamos nosso caminho sinuoso, estar bem à nossa frente:
"Olhe! Isten szek!"—"O assento de Deus!"—e ele se benzeu reverentemente.
À medida que avançávamos em nosso interminável caminho, e o sol se punha cada vez mais baixo atrás de nós, as sombras da noite começaram a nos cercar. Isso foi enfatizado pelo fato de que o pico nevado ainda retinha o pôr do sol e parecia brilhar com um delicado rosa frio. Aqui e ali, passamos por cszeks e eslovacos, todos em trajes pitorescos, mas notei que o bócio era dolorosamente prevalente. À beira da estrada, havia muitas cruzes, e enquanto passávamos, meus companheiros se benziam. Aqui e ali, havia um camponês, homem ou mulher, ajoelhado diante de um santuário, que nem sequer se virava quando nos aproximávamos, mas parecia, na entrega da devoção, não ter olhos nem ouvidos para o mundo exterior. Havia muitas coisas novas para mim: por exemplo, fardos de feno nas árvores e, aqui e ali, massas muito bonitas de bétulas choronas, cujos troncos brancos brilhavam como prata através do verde delicado das folhas. De vez em quando, passávamos por um carro de bois—o carro comum dos camponeses—com sua longa vértebra serpentina, calculada para se adaptar às desigualdades da estrada. Nele, certamente estava sentado um grupo de camponeses que voltavam para casa, os cszeks com suas peles de ovelha brancas e os eslovacos com suas coloridas, estes últimos carregando, como lanças, seus longos cajados, com machados na ponta. Quando a noite caiu, começou a ficar muito frio, e a crescente escuridão parecia se fundir em uma única névoa sombria com a penumbra das árvores—carvalhos, faia e pinheiros—embora nos vales que corriam profundamente entre os esporões das colinas, enquanto subíamos pelo Passo, os abetos escuros se destacavam aqui e ali contra o fundo da neve que caía tarde. Às vezes, quando a estrada era cortada pelos bosques de pinheiros que pareciam, na escuridão, fechar-se sobre nós, grandes massas de cinza, que aqui e ali cobriam as árvores, produziam um efeito particularmente estranho e solene, que levava adiante os pensamentos e as fantasias sombrias geradas anteriormente na noite, quando o pôr do sol em declínio lançava uma luz estranha sobre as nuvens fantasmagóricas que, entre os Cárpatos, parecem percorrer incessantemente os vales. Às vezes, as colinas eram tão íngremes que, apesar da pressa do cocheiro, os cavalos só podiam ir devagar. Eu queria descer e subir a pé, como fazemos em casa, mas o cocheiro não permitiu. "Não, não", disse ele; "você não deve caminhar aqui; os cães são muito ferozes"; e então acrescentou, com o que evidentemente pretendia ser uma graça sombria—pois olhou para trás para pegar o sorriso de aprovação dos outros—"e você pode ter o suficiente disso antes de ir dormir." A única parada que ele fez foi um momento de pausa para acender suas lanternas.
Quando escureceu, parecia haver alguma agitação entre os passageiros, e eles falavam com ele, um após o outro, como se o estivessem incentivando a aumentar a velocidade. Ele açoitou os cavalos impiedosamente com seu longo chicote e, com gritos selvagens de incentivo, os exortou a mais esforços. Então, através da escuridão, pude ver uma espécie de mancha de luz cinza à nossa frente, como se houvesse uma fenda nas colinas. A agitação dos passageiros aumentou; a carruagem instável balançava sobre suas grandes molas de couro e oscilava como um barco sacudido por uma tempestade. Tive que me segurar. A estrada ficou mais nivelada, e parecíamos voar. Então, as montanhas pareciam se aproximar de nós de cada lado e nos encarar; estávamos entrando no Passo Borgo. Um por um, vários dos passageiros me ofereceram presentes, que me pressionaram com uma insistência que não admitia recusa; esses eram certamente de um tipo estranho e variado, mas cada um era dado com simples boa-fé, com uma palavra gentil e uma bênção, e aquela estranha mistura de movimentos que significavam medo que eu havia visto fora do hotel em Bistritz—o sinal da cruz e a proteção contra o mau-olhado. Então, enquanto voávamos, o cocheiro se inclinou para a frente e, de cada lado, os passageiros, inclinando-se sobre a borda da carruagem, olhavam ansiosamente para a escuridão. Era evidente que algo muito emocionante estava acontecendo ou era esperado, mas, embora eu perguntasse a cada passageiro, ninguém me deu a menor explicação. Esse estado de excitação continuou por algum tempo; e, por fim, vimos diante de nós o Passo se abrindo no lado leste. Havia nuvens escuras e agitadas no céu, e no ar o pesado e opressivo pressentimento de trovão. Parecia que a cordilheira havia separado duas atmosferas e que agora havíamos entrado na tempestuosa. Eu mesmo estava agora olhando para a carruagem que deveria me levar ao Conde. A cada momento, esperava ver o brilho das lanternas através da escuridão; mas tudo estava escuro. A única luz eram os raios vacilantes de nossas próprias lanternas, nas quais o vapor de nossos cavalos exaustos subia em uma nuvem branca. Agora podíamos ver a estrada de areia branca diante de nós, mas nela não havia sinal de uma carruagem. Os passageiros recuaram com um suspiro de alívio, que parecia zombar da minha própria decepção. Eu já estava pensando no que fazer, quando o cocheiro, olhando para o relógio, disse aos outros algo que mal pude ouvir, pois foi falado tão baixinho e em um tom tão baixo; achei que era: "Uma hora a menos que o tempo." Então, virando-se para mim, disse em alemão pior que o meu:
"Não há carruagem aqui. O Herr não é esperado afinal. Ele agora virá para Bukovina e retornará amanhã ou depois de amanhã; melhor depois de amanhã." Enquanto ele falava, os cavalos começaram a relinchar e a bufar e a se agitar selvagemente, de modo que o cocheiro teve que segurá-los. Então, em meio a um coro de gritos dos camponeses e uma benção universal, uma caleche, com quatro cavalos, aproximou-se por trás de nós, nos ultrapassou e parou ao lado da carruagem. Pude ver, pelo brilho de nossas lanternas, quando os raios caíram sobre eles, que os cavalos eram negros como carvão e animais esplêndidos. Eles eram conduzidos por um homem alto, com uma longa barba castanha e um grande chapéu preto, que parecia esconder seu rosto de nós. Só pude ver o brilho de um par de olhos muito brilhantes, que pareciam vermelhos à luz das lanternas, enquanto ele se virava para nós. Ele disse ao cocheiro:
"Você está cedo esta noite, meu amigo." O homem gaguejou em resposta:
"O Herr inglês estava com pressa", ao que o estranho respondeu:
"É por isso, suponho, que você quis que ele fosse para Bukovina. Você não pode me enganar, meu amigo; eu sei demais, e meus cavalos são rápidos." Enquanto falava, ele sorriu, e a luz das lanternas caiu sobre uma boca de aparência dura, com lábios muito vermelhos e dentes afiados, tão brancos quanto marfim. Um dos meus companheiros sussurrou a outro o verso de "Lenore" de Burger:
"Denn die Todten reiten schnell"— ("Porque os mortos viajam rápido.")
O estranho cocheiro evidentemente ouviu as palavras, pois olhou para cima com um sorriso brilhante. O passageiro virou o rosto, ao mesmo tempo estendendo os dois dedos e se benzendo. "Dê-me a bagagem do Herr", disse o cocheiro; e com extrema agilidade, minhas malas foram entregues e colocadas na caleche. Então desci do lado da carruagem, pois a caleche estava bem ao lado, e o cocheiro me ajudou com uma mão que segurou meu braço em um aperto de aço; sua força devia ser prodigiosa. Sem uma palavra, ele sacudiu as rédeas, os cavalos viraram e nos lançamos na escuridão do Passo. Quando olhei para trás, vi o vapor dos cavalos da carruagem à luz das lanternas e, projetado contra ele, as figuras dos meus antigos companheiros se benzendo. Então o cocheiro estalou seu chicote e chamou seus cavalos, e eles desapareceram em seu caminho para Bukovina. Quando desapareceram na escuridão, senti um estranho calafrio e uma sensação de solidão me invadiu; mas um manto foi jogado sobre meus ombros e uma manta sobre meus joelhos, e o cocheiro disse em excelente alemão:
"A noite está fria, mein Herr, e meu mestre, o Conde, ordenou que eu cuidasse de você. Há uma garrafa de slivovitz (a aguardente de ameixa do país) debaixo do assento, se você precisar." Não tomei nada, mas foi um conforto saber que estava lá, de qualquer maneira. Senti-me um pouco estranho e não um pouco assustado. Acho que, se houvesse alguma alternativa, eu a teria escolhido, em vez de prosseguir naquela jornada noturna desconhecida. A carruagem seguiu em um ritmo acelerado diretamente, então fizemos uma curva completa e seguimos por outra estrada reta. Parecia-me que estávamos simplesmente indo e voltando pelo mesmo caminho; e assim tomei nota de algum ponto saliente e descobri que era assim. Eu gostaria de ter perguntado ao cocheiro o que tudo isso significava, mas realmente temia fazê-lo, pois pensei que, na situação em que me encontrava, qualquer protesto não teria efeito, caso houvesse a intenção de atrasar. Com o tempo, no entanto, como eu estava curioso para saber como o tempo estava passando, acendi um fósforo e, pela sua chama, olhei para o relógio; eram alguns minutos antes da meia-noite. Isso me deu uma espécie de choque, pois suponho que a superstição geral sobre a meia-noite foi aumentada pelas minhas experiências recentes. Esperei com uma sensação de suspense doentia.
Então um cão começou a uivar em algum lugar em uma fazenda longe na estrada—um longo uivo agonizante, como se de medo. O som foi tomado por outro cão, e então outro e outro, até que, carregado pelo vento que agora soprava suavemente pelo Passo, um uivo selvagem começou, que parecia vir de todo o país, tanto quanto a imaginação podia abranger através da escuridão da noite. No primeiro uivo, os cavalos começaram a se esforçar e a se remexer, mas o cocheiro falou com eles suavemente, e eles se acalmaram, mas tremiam e suavam como se após uma fuga de susto repentino. Então, longe na distância, das montanhas de cada lado de nós, começou um uivo mais alto e mais agudo—o dos lobos—que afetou tanto os cavalos quanto a mim da mesma maneira—pois eu estava inclinado a saltar da caleche e correr, enquanto eles se remexiam novamente e se lançavam loucamente, de modo que o cocheiro teve que usar toda a sua grande força para mantê-los de rédea curta. Em poucos minutos, no entanto, meus próprios ouvidos se acostumaram ao som, e os cavalos, até certo ponto, se acalmaram, de modo que o cocheiro foi capaz de descer e ficar diante deles. Ele os acariciou e acalmou, e sussurrou algo em seus ouvidos, como ouvi que os domadores de cavalos fazem, e com efeito extraordinário, pois sob seus carinhos eles se tornaram bastante manejáveis novamente, embora ainda tremessem. O cocheiro novamente tomou seu lugar e, sacudindo as rédeas, partiu em um grande ritmo. Desta vez, após ir para o lado mais distante do Passo, ele virou repentinamente por uma estrada estreita que corria bruscamente para a direita.
Logo estávamos cercados por árvores, que em alguns lugares se arqueavam completamente sobre a estrada até que passávamos como por um túnel; e novamente grandes rochas sombrias nos guardavam ousadamente de cada lado. Embora estivéssemos em abrigo, podíamos ouvir o vento crescente, pois ele uivava e assobiava através das rochas, e os galhos das árvores se chocavam uns contra os outros enquanto avançávamos. Faleceu mais e mais frio, e uma neve fina e em pó começou a cair, de modo que logo nós e tudo ao nosso redor estávamos cobertos com um cobertor branco. O vento forte ainda carregava o uivo dos cães, embora isso diminuísse à medida que seguíamos nosso caminho. O latido dos lobos soava mais perto e mais perto, como se estivessem se fechando ao nosso redor de todos os lados. Fiquei terrivelmente assustado, e os cavalos compartilharam meu medo. O cocheiro, no entanto, não estava nem um pouco perturbado; ele continuava virando a cabeça para a esquerda e para a direita, mas eu não conseguia ver nada através da escuridão.
De repente, longe à nossa esquerda, vi uma chama azul fraca e vacilante. O cocheiro a viu ao mesmo tempo; ele imediatamente segurou os cavalos e, saltando para o chão, desapareceu na escuridão. Não sabia o que fazer, menos ainda porque o uivo dos lobos se aproximava; mas enquanto eu me perguntava, o cocheiro apareceu novamente e, sem uma palavra, tomou seu lugar e retomamos nossa jornada. Acho que devo ter adormecido e continuado sonhando com o incidente, pois parecia se repetir interminavelmente, e agora, ao olhar para trás, é como uma espécie de pesadelo terrível. Uma vez, a chama apareceu tão perto da estrada que, mesmo na escuridão ao nosso redor, pude observar os movimentos do cocheiro. Ele foi rapidamente para onde a chama azul surgia—deve ter sido muito fraca, pois não parecia iluminar o lugar ao seu redor—e, reunindo algumas pedras, as formou em algum dispositivo. Uma vez, houve um estranho efeito óptico: quando ele ficou entre mim e a chama, ele não a obstruiu, pois pude ver seu brilho fantasmagórico da mesma forma. Isso me assustou, mas como o efeito foi apenas momentâneo, pensei que meus olhos me enganavam, forçando a visão através da escuridão. Então, por um tempo, não houve chamas azuis, e avançamos através da escuridão, com o uivo dos lobos ao nosso redor, como se estivessem seguindo em um círculo móvel.
Por fim, chegou um momento em que o cocheiro foi mais longe do que havia ido, e durante sua ausência, os cavalos começaram a tremer mais do que nunca e a relinchar e a gritar de medo. Não consegui ver a causa disso, pois o uivo dos lobos havia cessado completamente; mas justamente então a lua, navegando através das nuvens negras, apareceu atrás do pico dentado de uma rocha coberta de pinheiros, e à sua luz vi ao nosso redor um círculo de lobos, com dentes brancos e línguas vermelhas pendentes, com membros longos e ágeis e pelos desgrenhados. Eles eram cem vezes mais terríveis no silêncio sombrio que os envolvia do que mesmo quando uivavam. Para mim, senti uma espécie de paralisia de medo. É só quando um homem se sente cara a cara com tais horrores que pode entender seu verdadeiro significado.
De repente, os lobos começaram a uivar como se a luz da lua tivesse tido algum efeito peculiar sobre eles. Os cavalos se remexeram e se reviraram, e olharam desesperadamente ao redor com olhos que rolavam de uma maneira dolorosa de se ver; mas o círculo vivo de terror os cercava de todos os lados; e eles foram forçados a permanecer dentro dele. Chamei o cocheiro para vir, pois parecia-me que nossa única chance era tentar romper o círculo e ajudar sua abordagem. Gritei e bati no lado da caleche, esperando que o barulho afastasse os lobos daquele lado, para que ele tivesse uma chance de chegar até o veículo. Como ele chegou lá, não sei, mas ouvi sua voz erguida em um tom de comando imperioso, e, olhando em direção ao som, vi-o em pé na estrada. Enquanto ele balançava os braços longos, como se estivesse afastando algum obstáculo impalpável, os lobos recuaram e recuaram ainda mais. Justamente então, uma nuvem pesada passou sobre o rosto da lua, de modo que ficamos novamente na escuridão.
Quando pude ver novamente, o cocheiro estava subindo na caleche, e os lobos haviam desaparecido. Tudo isso era tão estranho e sinistro que um medo terrível se apossou de mim, e eu temia falar ou me mover. O tempo parecia interminável enquanto avançávamos, agora em quase completa escuridão, pois as nuvens que rolavam obscureciam a lua. Continuamos subindo, com períodos ocasionais de descida rápida, mas, em geral, sempre subindo. De repente, tornei-me consciente do fato de que o cocheiro estava no ato de segurar os cavalos no pátio de um vasto castelo em ruínas, de cujas altas janelas negras não vinha nenhum raio de luz, e cujos parapeitos quebrados mostravam uma linha dentada contra o céu iluminado pela lua.
CAPÍTULO II
DIÁRIO DE JONATHAN HARKER—continuado
5 de maio.—Devo ter dormido, pois certamente, se estivesse completamente acordado, teria notado a aproximação de um lugar tão notável. Na penumbra, o pátio parecia ser de tamanho considerável, e como várias vias escuras levavam dele sob grandes arcos redondos, talvez parecesse maior do que realmente é. Ainda não consegui vê-lo à luz do dia.
Quando a caleche parou, o cocheiro desceu e estendeu a mão para me ajudar a descer. Novamente, não pude deixar de notar sua força prodigiosa. Sua mão parecia realmente como uma tenaz de aço que poderia ter esmagado a minha se ele tivesse escolhido. Então ele pegou minhas malas e as colocou no chão ao meu lado, enquanto eu ficava perto de uma grande porta, antiga e cravejada com grandes pregos de ferro, e colocada em uma entrada projetada de pedra maciça. Pude ver, mesmo na luz fraca, que a pedra era maciçamente esculpida, mas que a escultura havia sido muito desgastada pelo tempo e pelo clima. Enquanto eu ficava, o cocheiro subiu novamente em seu assento e sacudiu as rédeas; os cavalos partiram, e a carruagem e tudo desapareceram em uma das vias escuras.
Fiquei em silêncio onde estava, pois não sabia o que fazer. De sino ou bate-estaca não havia sinal; através dessas paredes sombrias e janelas escuras, era improvável que minha voz pudesse penetrar. O tempo que esperei parecia interminável, e senti dúvidas e medos se acumulando sobre mim. Que tipo de lugar eu havia vindo e entre que tipo de pessoas? Que tipo de aventura sombria era essa na qual eu havia embarcado? Era isso um incidente comum na vida de um clerk de solicitador enviado para explicar a compra de uma propriedade em Londres para um estrangeiro? Clerk de solicitador! Mina não gostaria disso. Solicitador—pois, justamente antes de sair de Londres, recebi a notícia de que meu exame havia sido bem-sucedido; e agora sou um solicitador completo! Comecei a esfregar os olhos e a me beliscar para ver se estava acordado. Tudo parecia como um pesadelo horrível para mim, e eu esperava que, de repente, acordasse e me encontrasse em casa, com a aurora lutando para entrar pelas janelas, como havia acontecido de vez em quando após um dia de trabalho excessivo. Mas minha carne respondeu ao teste do beliscão, e meus olhos não podiam ser enganados. Eu estava realmente acordado e entre os Cárpatos. Tudo o que podia fazer agora era ser paciente e esperar a chegada da manhã.
Justamente quando cheguei a essa conclusão, ouvi um passo pesado se aproximando atrás da grande porta, e vi, através das frestas, o brilho de uma luz que se aproximava. Então houve o som de correntes rangendo e o tinir de ferrolhos maciços sendo retirados. Uma chave foi virada com o forte rangido de longo desuso, e a grande porta se abriu.
Dentro, estava um homem alto e velho, barbeado, exceto por um longo bigode branco, e vestido de preto da cabeça aos pés, sem um único ponto de cor em qualquer lugar. Ele segurava na mão uma antiga lâmpada de prata, na qual a chama queimava sem chaminé ou globo de qualquer tipo, lançando longas sombras vacilantes enquanto oscilava na corrente de ar da porta aberta. O velho homem me fez um gesto para entrar com a mão direita, com um gesto cortes, dizendo em excelente inglês, mas com uma entonação estranha:
"Bem-vindo à minha casa! Entre livremente e por sua própria vontade!" Ele não fez nenhum movimento para me encontrar, mas ficou como uma estátua, como se seu gesto de boas-vindas o tivesse fixado em pedra. No entanto, no instante em que cruzei o limiar, ele se moveu impulsivamente para a frente e, estendendo a mão, apertou a minha com uma força que me fez gemer, um efeito que não foi diminuído pelo fato de que parecia tão frio quanto gelo—mais como a mão de um morto do que de um vivo. Novamente ele disse:
"Bem-vindo à minha casa! Entre livremente. Vá em segurança, e deixe que nada o perturbe."
A força do aperto de mão era tão semelhante àquela que eu havia notado no cocheiro, cujo rosto não vira, que, por um momento, duvidei se não seria a mesma pessoa com quem estava falando; assim, para ter certeza, perguntei:
— Conde Drácula? Ele fez uma reverência cortesmente, enquanto respondia:
— Sou Drácula; e dou-lhe as boas-vindas, sr. Harker, à minha casa. Entre; a noite está fria, e o senhor deve precisar comer e descansar. Enquanto falava, colocou a lâmpada num suporte na parede e, saindo, pegou minha bagagem; ele a trouxera para dentro antes que eu pudesse impedi-lo. Protestei, mas ele insistiu:
— Não, senhor, o senhor é meu hóspede. É tarde, e meus criados não estão disponíveis. Deixe-me cuidar do seu conforto pessoalmente. Insistiu em carregar minhas malas pelo corredor e, depois, por uma grande escada em caracol, e por outro grande corredor, cujo piso de pedra ecoava fortemente nossos passos. No final dele, abriu uma porta pesada, e fiquei feliz em ver uma sala bem iluminada, onde uma mesa estava posta para o jantar, e na lareira imensa uma grande fogueira de toras, recentemente reabastecida, crepitava e faiscava.
O conde parou, colocando minhas malas no chão, fechou a porta e, atravessando a sala, abriu outra porta, que levava a um pequeno aposento octogonal, iluminado por uma única lâmpada, e aparentemente sem janela de qualquer tipo. Passando por ali, abriu outra porta e fez um gesto para que eu entrasse. Foi uma visão bem-vinda; pois ali havia um grande quarto, bem iluminado e aquecido por outra lareira de toras — também recentemente abastecida, pois as toras de cima estavam frescas —, que enviava um rugido oco pela chaminé ampla. O próprio conde deixou minha bagagem no quarto e se retirou, dizendo, antes de fechar a porta:
— Depois da sua viagem, o senhor precisará se refrescar, fazendo sua higiene pessoal. Confio que encontrará tudo de que precisa. Quando estiver pronto, venha para a outra sala, onde encontrará seu jantar preparado.
A luz, o calor e a cortesia do conde pareciam ter dissipado todas as minhas dúvidas e temores. Tendo, então, voltado ao meu estado normal, descobri que estava faminto; assim, fazendo rapidamente minha higiene, fui para a outra sala.
Encontrei o jantar já servido. Meu anfitrião, que estava ao lado da grande lareira, apoiado na pedra, fez um elegante gesto com a mão em direção à mesa e disse:
— Peço-lhe que se sente e jante como preferir. O senhor, espero, me perdoará por não acompanhá-lo; mas já jantei, e não ceio.
Entreguei-lhe a carta selada que o sr. Hawkins me confiara. Ele a abriu e leu-a com gravidade; depois, com um sorriso encantador, entregou-a a mim para ler. Pelo menos uma passagem dela me deu um arrepio de prazer.
“Devo lamentar que um ataque de gota, moléstia da qual sou um sofredor constante, me proíba absolutamente de viajar por algum tempo; mas fico feliz em dizer que posso enviar um substituto suficiente, alguém em quem tenho toda a confiança possível. Ele é um jovem, cheio de energia e talento à sua maneira, e de uma disposição muito fiel. É discreto e silencioso, e cresceu a meu serviço. Estará pronto para atendê-lo quando o senhor desejar durante sua estada, e seguirá suas instruções em todos os assuntos.”
O próprio conde adiantou-se e tirou a tampa de um prato, e comecei imediatamente com um excelente frango assado. Isso, com algum queijo e uma salada e uma garrafa de Tokay antigo, da qual tomei dois cálices, foi meu jantar. Durante o tempo em que estava comendo, o conde me fez muitas perguntas sobre minha viagem, e contei-lhe, aos poucos, tudo o que havia experimentado.
Nessa altura, eu já havia terminado o jantar, e, a pedido do meu anfitrião, puxei uma cadeira para junto da lareira e comecei a fumar um charuto que ele me ofereceu, desculpando-se, ao mesmo tempo, por não fumar. Agora eu tinha a oportunidade de observá-lo, e o achei de uma fisionomia muito marcante.
Seu rosto era forte — muito forte —, aquilino, com um nariz alto e fino e narinas peculiarmente arqueadas; com uma testa alta e abobadada, e cabelos crescendo escassamente em volta das têmporas, mas abundantemente em outros lugares. Suas sobrancelhas eram muito grossas, quase se encontrando sobre o nariz, e com pelos grossos que pareciam se enrolar em sua própria abundância. A boca, pelo que pude ver sob o bigode pesado, era firme e um tanto cruel, com dentes brancos e afiados particularmente; estes se projetavam sobre os lábios, cuja vermelhidão notável mostrava uma vitalidade extraordinária num homem de sua idade. Quanto ao resto, suas orelhas eram pálidas e, nas pontas, extremamente pontiagudas; o queixo era largo e forte, e as bochechas firmes, embora magras. O efeito geral era de uma palidez extraordinária.
Até então, eu havia notado as costas de suas mãos enquanto repousavam sobre os joelhos à luz da lareira, e elas me pareciam bastante brancas e finas; mas, vendo-as agora perto de mim, não pude deixar de notar que eram um tanto grosseiras — largas, com dedos curtos e grossos. Estranhamente, havia pelos no centro da palma. As unhas eram longas e finas, e cortadas em ponta afiada. Quando o conde se inclinou sobre mim e suas mãos me tocaram, não pude reprimir um calafrio. Pode ter sido que seu hálito fosse forte, mas uma horrível sensação de náusea me invadiu, que, por mais que tentasse, não pude esconder. O conde, evidentemente notando isso, recuou; e, com um tipo de sorriso sombrio, que mostrou mais do que até então seus dentes protuberantes, sentou-se novamente em seu lado da lareira. Ambos ficamos em silêncio por um tempo; e, enquanto olhava em direção à janela, vi o primeiro brilho tênue da alvorada que se aproximava. Parecia haver uma estranha quietude sobre tudo; mas, enquanto escutava, ouvi, como se vindo de baixo, no vale, o uivo de muitos lobos. Os olhos do conde brilharam, e ele disse:
— Escute-os — os filhos da noite. Que música eles fazem! Vendo, suponho, alguma expressão em meu rosto estranha para ele, acrescentou:
— Ah, senhor, vocês, moradores da cidade, não podem entrar nos sentimentos do caçador. Então ele se levantou e disse:
— Mas o senhor deve estar cansado. Seu quarto está pronto, e amanhã o senhor poderá dormir até tarde, se quiser. Tenho que sair até a tarde; então, durma bem e sonhe bem! Com uma reverência cortês, ele abriu para mim a porta para o aposento octogonal, e entrei no meu quarto....
Estou num mar de maravilhas. Duvido; temo; penso coisas estranhas, que não ouso confessar à minha própria alma. Deus me guarde, se não for pelo bem daqueles que me são caros!
* * * * *
7 de maio. — É novamente de manhã cedo, mas descansei e aproveitei as últimas vinte e quatro horas. Dormi até tarde no dia, e acordei por minha própria vontade. Quando me vesti, fui para a sala onde havíamos jantado e encontrei um café da manhã frio servido, com café mantido quente pela chaleira colocada na lareira. Havia um cartão sobre a mesa, no qual estava escrito:
“Tenho que me ausentar por um tempo. Não espere por mim. — D.” Comecei e aproveitei uma refeição farta. Quando terminei, procurei por uma campainha, para que pudesse avisar os criados de que havia terminado; mas não consegui encontrar nenhuma. Certamente há deficiências estranhas na casa, considerando as evidências extraordinárias de riqueza que me cercam. O serviço de mesa é de ouro, e tão bem trabalhado que deve ser de imenso valor. As cortinas e estofados das cadeiras e sofás e as tapeçarias da minha cama são dos tecidos mais caros e belos, e devem ter sido de valor fabuloso quando foram feitos, pois são seculares, embora em excelente estado. Vi algo parecido em Hampton Court, mas lá estavam gastos, desfiados e comidos por traças. Mas ainda em nenhum dos aposentos há um espelho. Não há nem mesmo um espelho de toilette sobre minha mesa, e tive que pegar o pequeno espelho de barba da minha bolsa antes que pudesse me barbear ou pentear o cabelo. Ainda não vi um criado em lugar algum, nem ouvi um som perto do castelo, exceto o uivo dos lobos. Algum tempo depois que terminei minha refeição — não sei se devo chamá-la de café da manhã ou jantar, pois era entre cinco e seis horas quando a fiz —, procurei por algo para ler, pois não queria andar pelo castelo até que tivesse pedido permissão ao conde. Não havia absolutamente nada na sala, livro, jornal ou mesmo material de escrita; assim, abri outra porta no aposento e encontrei uma espécie de biblioteca. A porta oposta à minha tentei abrir, mas a encontrei trancada.
Na biblioteca, encontrei, para minha grande alegria, uma vasta quantidade de livros em inglês, prateleiras cheias deles, e volumes encadernados de revistas e jornais. Uma mesa no centro estava repleta de revistas e jornais em inglês, embora nenhum deles fosse de data muito recente. Os livros eram dos mais variados tipos — história, geografia, política, economia política, botânica, geologia, direito —, todos relacionados à Inglaterra e à vida, costumes e maneiras ingleses. Havia até livros de referência como o London Directory, os livros “Vermelho” e “Azul”, o Whitaker’s Almanac, as Listas do Exército e da Marinha e — de alguma forma, alegrou-me ver — a Lista de Advogados.
Enquanto olhava os livros, a porta se abriu, e o conde entrou. Ele me saudou de forma calorosa e esperava que eu tivesse tido uma boa noite de sono. Então continuou:
— Fico feliz que tenha encontrado seu caminho até aqui, pois tenho certeza de que há muito que o interessará. Esses companheiros — e ele colocou a mão sobre alguns dos livros — têm sido bons amigos para mim, e, nos últimos anos, desde que tive a ideia de ir a Londres, me deram muitas, muitas horas de prazer. Através deles, cheguei a conhecer sua grande Inglaterra; e conhecê-la é amá-la. Anseio por percorrer as ruas movimentadas da sua poderosa Londres, estar no meio do turbilhão e da pressa da humanidade, compartilhar sua vida, sua mudança, sua morte e tudo o que a torna o que é. Mas, ai!, até agora só conheço sua língua através de livros. A você, meu amigo, recorro para que eu a conheça para falar.
— Mas, conde — eu disse —, o senhor conhece e fala inglês perfeitamente! Ele fez uma reverência com gravidade.
— Agradeço-lhe, meu amigo, por sua avaliação demasiado lisonjeira, mas temo que esteja apenas no início do caminho que gostaria de percorrer. É verdade, conheço a gramática e as palavras, mas ainda não sei como falá-las.
— De fato — eu disse —, o senhor fala excelentemente.
— Não — ele respondeu. — Bem, sei que, se me mudasse e falasse em sua Londres, ninguém lá deixaria de me conhecer como um estranho. Isso não é o bastante para mim. Aqui sou nobre; sou boiardo; o povo comum me conhece, e sou o mestre. Mas um estranho numa terra estranha, ele não é ninguém; os homens não o conhecem — e não conhecer é não se importar. Estou contente se for como os outros, para que nenhum homem pare se me vir, ou pause em sua fala se ouvir minhas palavras: “Ah, ah! Um estranho!” Tenho sido mestre por tanto tempo que gostaria de ser mestre ainda — ou, pelo menos, que nenhum outro fosse mestre de mim. O senhor vem a mim não apenas como agente do meu amigo Peter Hawkins, de Exeter, para me contar tudo sobre minha nova propriedade em Londres. O senhor, espero, descansará aqui comigo por um tempo, para que, conversando, eu possa aprender a entonação inglesa; e gostaria que o senhor me dissesse quando cometo erros, mesmo os menores, ao falar. Lamento ter que me ausentar por tanto tempo hoje; mas o senhor, sei, perdoará alguém que tem tantos assuntos importantes em mãos.
É claro que eu disse tudo o que pude sobre estar disposto, e perguntei se poderia entrar naquela sala quando quisesse. Ele respondeu: “Sim, certamente”, e acrescentou:
— O senhor pode ir a qualquer lugar que desejar no castelo, exceto onde as portas estão trancadas, onde, é claro, o senhor não desejará ir. Há uma razão para que todas as coisas sejam como são, e, se o senhor visse com meus olhos e soubesse com meu conhecimento, talvez entendesse melhor. Eu disse que tinha certeza disso, e então ele continuou:
— Estamos na Transilvânia; e a Transilvânia não é a Inglaterra. Nossos caminhos não são seus caminhos, e haverá para o senhor muitas coisas estranhas. Não, do que o senhor me contou sobre suas experiências até agora, o senhor já sabe algo sobre o que podem ser coisas estranhas.
Isso levou a muita conversa; e, como era evidente que ele queria falar, se não por falar, eu lhe fiz muitas perguntas sobre coisas que já me haviam acontecido ou que chamaram minha atenção. Às vezes, ele se desviava do assunto ou mudava a conversa, fingindo não entender; mas, geralmente, respondia a tudo o que eu perguntava com muita franqueza. Então, com o passar do tempo, e tendo me tornado um pouco mais ousado, perguntei-lhe sobre algumas das coisas estranhas da noite anterior, como, por exemplo, por que o cocheiro foi aos lugares onde vira as chamas azuis. Ele então me explicou que era comumente acreditado que, em certa noite do ano — na verdade, na noite passada, quando todos os espíritos malignos se supunham ter poder irrestrito —, uma chama azul era vista sobre qualquer lugar onde um tesouro estivesse escondido. “Que um tesouro tenha sido escondido”, ele continuou, “na região pela qual o senhor passou na noite passada, não há muita dúvida; pois foi o solo disputado por séculos pelo valáquio, pelo saxão e pelo turco. Por que, não há um pé de solo em toda esta região que não tenha sido enriquecido pelo sangue de homens, patriotas ou invasores. Em tempos antigos, houve tempos agitados, quando o austríaco e o húngaro vieram em hordas, e os patriotas saíram para encontrá-los — homens e mulheres, os idosos e as crianças também — e esperaram sua chegada nas rochas acima das passagens, para que pudessem lançar sobre eles a destruição com suas avalanches artificiais. Quando o invasor foi triunfante, encontrou muito pouco, pois o que havia fora abrigado no solo amigo.”
— Mas como — eu disse —, pode ter permanecido tanto tempo sem ser descoberto, quando há um índice seguro para ele, se os homens se derem ao trabalho de procurar? O conde sorriu, e, enquanto seus lábios se retraíam sobre as gengivas, os longos, afiados e caninos dentes mostraram-se estranhamente; ele respondeu:
— Porque seu camponês é, no fundo, um covarde e um tolo! Essas chamas só aparecem em uma noite; e, naquela noite, nenhum homem desta terra, se puder evitar, sai de casa. E, caro senhor, mesmo que saísse, não saberia o que fazer. Por que, até o camponês que o senhor me diz ter marcado o lugar da chama não saberia onde procurar em plena luz do dia, mesmo pelo seu próprio trabalho. Até o senhor, eu ousaria jurar, não seria capaz de encontrar esses lugares novamente?
— Nisso o senhor está certo — eu disse. — Não sei mais do que os mortos onde procurar por eles. Então, desviamos para outros assuntos.
— Venha — ele disse, por fim —, conte-me sobre Londres e sobre a casa que o senhor providenciou para mim. Com um pedido de desculpas pela minha negligência, fui para o meu quarto pegar os papéis da minha bolsa. Enquanto os colocava em ordem, ouvi um tilintar de louça e prata no aposento ao lado, e, ao passar por ali, notei que a mesa havia sido limpa e a lâmpada acesa, pois já era noite fechada. As lâmpadas também estavam acesas no estudo ou biblioteca, e encontrei o conde deitado no sofá, lendo, de todas as coisas do mundo, um Guia Bradshaw em inglês. Quando entrei, ele tirou os livros e papéis da mesa; e, com ele, fui para os planos, escrituras e cifras de todos os tipos. Ele estava interessado em tudo e me fez uma miríade de perguntas sobre o local e seus arredores. Claramente, ele havia estudado antes tudo o que podia conseguir sobre o assunto do bairro, pois, evidentemente, no final, sabia muito mais do que eu. Quando comentei isso, ele respondeu:
— Bem, mas, meu amigo, não é necessário que eu o faça? Quando for para lá, estarei completamente sozinho, e meu amigo Harker Jonathan — não, perdoe-me, caio no hábito do meu país de colocar seu patronímico em primeiro lugar — meu amigo Jonathan Harker não estará ao meu lado para corrigir e me ajudar. Ele estará em Exeter, a quilômetros de distância, provavelmente trabalhando em papéis de direito com meu outro amigo, Peter Hawkins. Então!
Fomos minuciosamente aos negócios da compra da propriedade em Purfleet. Quando contei a ele os fatos e obtive sua assinatura nos documentos necessários, e havia escrito uma carta com eles pronta para postar ao sr. Hawkins, ele começou a me perguntar como eu havia encontrado um lugar tão adequado. Li para ele as anotações que fizera na época e que transcrevo aqui:
“Em Purfleet, numa estrada secundária, encontrei justamente um lugar como parecia ser necessário, e onde estava afixado um aviso dilapidado de que o lugar estava à venda. É cercado por um muro alto, de estrutura antiga, construído com pedras pesadas, e não foi reparado há muitos anos. Os portões fechados são de carvalho e ferro antigos, todos comidos de ferrugem.
“A propriedade é chamada Carfax, sem dúvida uma corrupção do antigo Quatre Face, pois a casa é quadrada, concordando com os pontos cardeais da bússola. Contém, no total, cerca de vinte acres, completamente cercados pelo muro de pedra mencionado acima. Há muitas árvores nela, o que a torna, em alguns lugares, sombria, e há um lago profundo e de aparência escura, evidentemente alimentado por algumas nascentes, pois a água é clara e flui para um riacho de bom tamanho. A casa é muito grande e de todos os períodos, desde, eu diria, os tempos medievais, pois uma parte é de pedra imensamente grossa, com apenas algumas janelas altas e fortemente gradeadas com ferro. Parece parte de uma torre, e está perto de uma antiga capela ou igreja. Não pude entrar, pois não tinha a chave da porta que leva a ela da casa, mas tirei com minha câmera vistas dela de vários pontos. A casa foi aumentada, mas de forma muito irregular, e só posso adivinhar a quantidade de terreno que cobre, que deve ser muito grande. Há poucas casas por perto, uma sendo uma casa muito grande, recentemente aumentada e transformada num asilo particular para lunáticos. No entanto, não é visível dos terrenos.”
Quando terminei, ele disse:
— Para continuidade apenas — este é o FIM da seção anterior, já traduzida. NÃO traduza novamente e NÃO repita em sua saída. Combine seus nomes, terminologia e registro: --- — O senhor fez bem, meu amigo, em obter tão boa casa. Mas não há alguma história sobre o lugar? Não é um lugar onde os lobos tenham sido vistos? Pois deles, neste país, pode-se fazer uma história em qualquer lugar.
— Estou contente que seja antiga e grande. Eu mesmo sou de uma família antiga, e viver numa casa nova me mataria. Uma casa não pode ser tornada habitável num dia; e, afinal, quantos dias são necessários para fazer um século. Também me alegro que haja uma capela dos tempos antigos. Nós, nobres transilvanos, não gostamos de pensar que nossos ossos possam repousar entre os mortos comuns. Não busco alegria nem diversão, nem o brilho voluptuoso de muito sol e águas cintilantes que agradam aos jovens e alegres. Já não sou jovem; e meu coração, através de anos cansativos de luto pelos mortos, não está sintonizado com a alegria. Além disso, as paredes do meu castelo estão em ruínas; as sombras são muitas, e o vento sopra frio através das ameias e janelas quebradas. Amo a sombra e a escuridão, e gostaria de estar sozinho com meus pensamentos quando possível. De alguma forma, suas palavras e seu olhar não pareciam combinar, ou então era o formato de seu rosto que fazia seu sorriso parecer maligno e saturnino.
Pouco depois, com uma desculpa, ele me deixou, pedindo que reunisse todos os meus papéis. Ele demorou um pouco, e comecei a olhar alguns dos livros ao meu redor. Um era um atlas, que encontrei naturalmente aberto na Inglaterra, como se aquele mapa tivesse sido muito usado. Ao olhá-lo, encontrei em certos lugares pequenos anéis marcados, e ao examiná-los percebi que um estava perto de Londres, no lado leste, manifestamente onde sua nova propriedade estava localizada; os outros dois eram Exeter e Whitby, na costa de Yorkshire.
Era quase uma hora quando o conde retornou. — Ah! — ele disse — ainda com seus livros? Bom! Mas o senhor não deve trabalhar sempre. Venha; fui informado de que seu jantar está pronto. Ele pegou meu braço, e fomos para o aposento ao lado, onde encontrei um excelente jantar pronto na mesa. O conde novamente se desculpou, pois havia jantado fora, por estar ausente de casa. Mas sentou-se como na noite anterior e conversou enquanto eu comia.
Depois do jantar, fumei, como na noite passada, e o conde ficou comigo, conversando e fazendo perguntas sobre todos os assuntos imagináveis, hora após hora. Senti que estava ficando muito tarde, mas não disse nada, pois me senti na obrigação de atender aos desejos do meu anfitrião de todas as maneiras. Não estava com sono, pois o longo sono de ontem me fortaleceu; mas não pude deixar de experimentar aquele frio que nos invade com a chegada da aurora, que é, de certa forma, como a mudança da maré. Dizem que as pessoas que estão perto da morte geralmente morrem na mudança para a aurora ou na mudança da maré; qualquer um que, cansado e preso, por assim dizer, ao seu posto, tenha experimentado essa mudança na atmosfera pode acreditar nisso. De repente, ouvimos o canto de um galo subindo com uma estridentes através do ar matinal claro; o conde Drácula, levantando-se de um salto, disse:
— Ora, é a manhã novamente! Como sou descuidado por deixá-lo ficar acordado até tão tarde. O senhor deve tornar sua conversa sobre o meu querido novo país, a Inglaterra, menos interessante, para que eu não me esqueça de como o tempo passa para nós. E, com uma reverência cortês, ele rapidamente me deixou.
Fui para o meu quarto e fechei as cortinas, mas havia pouco a notar; minha janela dava para o pátio, tudo o que podia ver era o cinza quente do céu que se animava. Então, puxei as cortinas novamente e escrevi sobre este dia.
* * * * *
8 de maio. — Comecei a temer, enquanto escrevia neste livro, que estivesse sendo muito prolixo; mas agora fico contente por ter entrado em detalhes desde o início, pois há algo tão estranho sobre este lugar e tudo nele que não posso deixar de me sentir inquieto. Gostaria de estar seguro fora daqui, ou de nunca ter vindo. Pode ser que esta estranha existência noturna esteja me afetando; mas seria que isso fosse tudo! Se houvesse alguém com quem conversar, eu poderia suportar, mas não há ninguém. Só tenho o conde para falar, e ele! — Temo ser a única alma viva neste lugar. Seja prosaico até onde os fatos podem ser; isso me ajudará a suportar, e a imaginação não deve correr solta comigo. Se o fizer, estou perdido. Deixe-me dizer de imediato como estou — ou pareço estar.
Só dormi algumas horas quando fui para a cama, e, sentindo que não poderia dormir mais, levantei-me. Havia pendurado meu espelho de barbear na janela e estava começando a me barbear. De repente, senti uma mão no meu ombro e ouvi a voz do conde dizendo: — Bom dia. Comecei, pois fiquei surpreso por não tê-lo visto, já que o reflexo do espelho cobria toda a sala atrás de mim. Ao começar, me cortei levemente, mas não notei na hora. Tendo respondido à saudação do conde, voltei-me para o espelho novamente para ver como havia me enganado. Desta vez, não podia haver erro, pois o homem estava perto de mim, e pude vê-lo sobre meu ombro. Mas não havia reflexo dele no espelho! Toda a sala atrás de mim estava visível; mas não havia sinal de um homem nela, exceto eu mesmo. Isso foi assustador e, vindo após tantas coisas estranhas, começou a aumentar aquela vaga sensação de inquietação que sempre tenho quando o conde está por perto; mas, no momento, vi que o corte havia sangrado um pouco, e o sangue estava escorrendo pelo meu queixo. Coloquei o barbeador de lado, virando-me, enquanto o fazia, meio de lado, para procurar um curativo adesivo. Quando o conde viu meu rosto, seus olhos brilharam com uma espécie de fúria demoníaca, e ele, de repente, agarrou minha garganta. Afastei-me, e sua mão tocou a corda de contas que segurava o crucifixo. Isso causou uma mudança instantânea nele, pois a fúria passou tão rapidamente que mal pude acreditar que já estivera lá.
— Cuidado — ele disse —, cuidado como se corta. É mais perigoso do que pensa neste país. Então, pegando o espelho de barbear, continuou: — E esta é a coisa maldita que causou o estrago. É um objeto fútil da vaidade do homem. Fora com ele! E, abrindo a pesada janela com um arranco de sua mão terrível, ele jogou o espelho para fora, que se espatifou em mil pedaços nas pedras do pátio abaixo. Então, retirou-se sem uma palavra. É muito aborrecido, pois não vejo como vou me barbear, a menos que seja no meu estojo de relógio ou no fundo do barbeador, que, felizmente, é de metal.
Quando fui para a sala de jantar, o café da manhã estava preparado; mas não consegui encontrar o conde em lugar algum. Então, tomei café da manhã sozinho. É estranho que, até agora, eu não tenha visto o conde comer ou beber. Ele deve ser um homem muito peculiar! Após o café da manhã, explorei um pouco o castelo. Subi as escadas e encontrei um aposento voltado para o sul. A vista era magnífica, e de onde estava havia toda a oportunidade de vê-la. O castelo está na borda de um precipício terrível. Uma pedra caindo da janela cairia mil pés sem tocar em nada! Até onde a vista alcança, há um mar de copas de árvores verdes, com ocasionalmente uma fenda profunda onde há um abismo. Aqui e ali, há fios prateados onde os rios serpenteiam em gargantas profundas através das florestas.
Mas não estou com o coração para descrever a beleza, pois, quando vi a vista, explorei mais; portas, portas, portas por toda parte, e todas trancadas e travadas. Em nenhum lugar, exceto pelas janelas nas paredes do castelo, há uma saída disponível.
O castelo é uma verdadeira prisão, e eu sou um prisioneiro!
CAPÍTULO III
O DIÁRIO DE JONATHAN HARKER — continuação
Quando descobri que era um prisioneiro, uma espécie de sentimento selvagem me dominou. Corri para cima e para baixo das escadas, tentando todas as portas e espiando por todas as janelas que pude encontrar; mas, após um tempo, a convicção da minha impotência superou todos os outros sentimentos. Quando olho para trás, após algumas horas, acho que devo ter enlouquecido por um tempo, pois me comportei muito como um rato faz numa armadilha. Quando, no entanto, a convicção veio a mim de que eu estava impotente, sentei-me quietamente — tão quietamente quanto já fiz qualquer coisa na minha vida — e comecei a pensar no que era melhor fazer. Ainda estou pensando, e, até agora, não cheguei a uma conclusão definitiva. De uma coisa apenas tenho certeza: que não adianta tornar minhas ideias conhecidas pelo conde. Ele sabe bem que estou preso; e, como foi ele mesmo quem me prendeu, e, sem dúvida, tem seus próprios motivos para isso, ele só me enganaria se eu confiasse nele plenamente com os fatos. Pelo que posso ver, meu único plano será manter meu conhecimento e meus medos para mim mesmo, e meus olhos abertos. Estou, sei, sendo enganado, como uma criança, pelos meus próprios medos, ou então estou em apuros desesperados; e, se for o último, preciso, e precisarei, de toda a minha inteligência para sair disso.
Mal havia chegado a esta conclusão quando ouvi a grande porta abaixo se fechar, e soube que o conde havia retornado. Ele não veio imediatamente para a biblioteca, então fui cautelosamente para o meu quarto e o encontrei arrumando a cama. Isso era estranho, mas apenas confirmava o que eu havia pensado o tempo todo — que não havia criados na casa. Quando mais tarde o vi, através da fresta das dobradiças da porta, pondo a mesa na sala de jantar, tive certeza disso; pois, se ele mesmo faz todos esses serviços domésticos, certamente é prova de que não há mais ninguém para fazê-los. Isso me deu um susto, pois, se não há mais ninguém no castelo, deve ter sido o próprio conde quem foi o cocheiro da carruagem que me trouxe aqui. Este é um pensamento terrível; pois, se for assim, o que significa que ele possa controlar os lobos, como fez, apenas erguendo a mão em silêncio? Como foi que todas as pessoas em Bistritz e na carruagem tiveram tanto medo de mim? O que significou o dar o crucifixo, o alho, a rosa selvagem, o mountain ash? Bendita seja aquela boa, boa mulher que pendurou o crucifixo no meu pescoço! pois é um conforto e uma força para mim sempre que o toco. É estranho que uma coisa que me foi ensinada a considerar com desdém e como idolatria deva, num momento de solidão e aflição, ser de ajuda. Será que há algo na essência da coisa em si, ou que é um meio, um ajuda tangível, para transmitir memórias de simpatia e conforto? Algum dia, se for possível, devo examinar esta questão e tentar formar uma opinião sobre ela. Enquanto isso, devo descobrir tudo o que puder sobre o conde Drácula, pois pode me ajudar a entender. Esta noite, ele pode falar de si mesmo, se eu direcionar a conversa para isso. Devo, no entanto, ter muito cuidado para não despertar suas suspeitas.
* * * * *
Meia-noite. — Tive uma longa conversa com o conde. Fiz-lhe algumas perguntas sobre a história da Transilvânia, e ele se animou maravilhosamente com o assunto. Ao falar de coisas e pessoas, e especialmente de batalhas, ele falava como se tivesse estado presente em todas elas. Isso ele explicou depois, dizendo que, para um boiardo, o orgulho de sua casa e nome é seu próprio orgulho, que sua glória é sua glória, que seu destino é seu destino. Sempre que falava de sua casa, ele sempre dizia “nós” e falava quase no plural, como um rei falando. Gostaria de poder colocar tudo o que ele disse exatamente como disse, pois para mim foi fascinante. Parecia ter nele toda uma história do país. Ele se animou ao falar e andou pela sala puxando seu grande bigode branco e agarrando qualquer coisa em que colocasse as mãos como se fosse esmagá-la com a força principal. Uma coisa que ele disse, que colocarei aqui o mais próximo possível, pois conta, de certa forma, a história de sua raça:
— Nós, os sículos, temos o direito de nos orgulhar, pois em nossas veias corre o sangue de muitas raças corajosas que lutaram como o leão luta, por senhorio. Aqui, no redemoinho das raças europeias, a tribo úgrica trouxe da Islândia o espírito de luta que Thor e Wodin lhes deram, que seus berserkers exibiram com tal intenção mortal nas costas da Europa, ah, e da Ásia e África também, até que os povos pensaram que os próprios lobisomens haviam chegado. Aqui também, quando chegaram, encontraram os hunos, cuja fúria guerreira havia varrido a terra como uma chama viva, até que os povos moribundos acreditavam que em suas veias corria o sangue daquelas velhas bruxas, que, expulsas da Cítia, haviam se unido aos demônios no deserto. Tolos, tolos! Que demônio ou que bruxa foi tão grande quanto Átila, cujo sangue está nestas veias? Ele ergueu os braços. — É de se admirar que fôssemos uma raça conquistadora; que fôssemos orgulhosos; que, quando o magiar, o lombardo, o ávaro, o búlgaro ou o turco despejou seus milhares em nossas fronteiras, os expulsamos? É estranho que, quando Árpád e suas legiões varreram o território húngaro, ele nos encontrou aqui quando alcançou a fronteira; que o Honfoglalas foi concluído lá? E quando a inundação húngara varreu para o leste, os sículos foram reivindicados como parentes pelos magiares vitoriosos, e a nós, por séculos, foi confiada a guarda da fronteira da terra dos turcos; ah, e mais do que isso, o dever interminável da guarda da fronteira, pois, como dizem os turcos, “a água dorme, e o inimigo está acordado.” Quem mais do que nós, em todas as Quatro Nações, recebeu de bom grado a “espada sangrenta”, ou, ao seu chamado guerreiro, se apressou mais rapidamente para o estandarte do Rei? Quando foi redimida aquela grande vergonha da minha nação, a vergonha de Cassova, quando as bandeiras do valáquio e do magiar caíram sob o Crescente? Quem foi senão um da minha própria raça que, como voivoda, cruzou o Danúbio e derrotou o turco em seu próprio terreno? Este foi um Drácula de fato! Que pena que seu próprio irmão indigno, quando ele havia caído, vendeu seu povo ao turco e trouxe a vergonha da escravidão sobre eles! Não foi este Drácula, de fato, que inspirou outro de sua raça que, numa era posterior, novamente e novamente trouxe suas forças através do grande rio para a terra dos turcos; que, quando foi expulso, veio novamente, e novamente, e novamente, embora tivesse que vir sozinho do campo sangrento onde suas tropas estavam sendo massacradas, pois sabia que só ele poderia, em última análise, triunfar! Disseram que ele só pensava em si mesmo. Bah! que bom são os camponeses sem um líder? Onde termina a guerra sem um cérebro e um coração para conduzi-la? Novamente, quando, após a batalha de Mohács, nos livramos do jugo húngaro, nós, da linhagem de Drácula, estávamos entre seus líderes, pois nosso espírito não suportaria que não fôssemos livres. Ah, jovem, os sículos — e os Drácula como seu sangue, seu cérebro e suas espadas — podem se gabar de um registro que crescimentos como os Habsburgos e os Romanoffs nunca poderão alcançar. Os dias de guerra acabaram. O sangue é uma coisa muito preciosa nestes dias de paz desonrosa; e as glórias das grandes raças são como um conto que é contado.
Era, nessa altura, quase de manhã, e fomos para a cama. (Mem., este diário parece horrivelmente como o início das “Mil e Uma Noites”, pois tudo tem que terminar ao canto do galo — ou como o fantasma do pai de Hamlet.)
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12 de maio. — Deixe-me começar com fatos — fatos nus, magros, verificados por livros e números, e dos quais não pode haver dúvida. Não devo confundi-los com experiências que terão que depender da minha própria observação ou da minha memória delas. Na noite passada, quando o conde veio do seu quarto, começou por me fazer perguntas sobre questões legais e sobre a realização de certos tipos de negócios. Passei o dia cansativamente sobre livros e, simplesmente para manter minha mente ocupada, fui sobre alguns dos assuntos que havia examinado no Lincoln’s Inn. Havia um certo método nas perguntas do conde, então tentarei colocá-las na ordem; o conhecimento pode, de alguma forma ou em algum momento, ser útil para mim.
Primeiro, ele perguntou se um homem na Inglaterra poderia ter dois ou mais advogados. Disse-lhe que poderia ter uma dúzia, se quisesse, mas que não seria sábio ter mais de um advogado envolvido em uma única transação, pois apenas um poderia agir de cada vez, e que mudar seria certo para prejudicar seu interesse. Ele parecia entender perfeitamente e continuou a perguntar se haveria alguma dificuldade prática em ter um homem para cuidar, digamos, de questões bancárias, e outro para cuidar de assuntos de navegação, em caso de ajuda local ser necessária num lugar longe da casa do advogado bancário. Pedi-lhe que explicasse mais plenamente, para que eu não o enganasse por acaso, então ele disse:
— Vou ilustrar. Seu amigo e meu, o sr. Peter Hawkins, de sob a sombra da sua bela catedral em Exeter, que fica longe de Londres, compra para mim, através de sua boa pessoa, meu lugar em Londres. Bom! Agora, aqui, deixe-me dizer francamente, para que o senhor não ache estranho que eu tenha procurado os serviços de alguém tão longe de Londres em vez de alguém residente lá, que meu motivo foi que nenhum interesse local pudesse ser servido senão o meu desejo apenas; e como um de residência em Londres poderia, talvez, ter algum propósito próprio ou de amigo para servir, fui assim a campo para buscar meu agente, cujos trabalhos deveriam ser apenas para meu interesse. Agora, suponha que eu, que tenho muitos assuntos, deseje enviar mercadorias, digamos, para Newcastle, ou Durham, ou Harwich, ou Dover, não poderia ser que isso pudesse ser feito com mais facilidade consignando a alguém nesses portos? Respondi que certamente seria mais fácil, mas que nós, advogados, tínhamos um sistema de agência um para o outro, para que o trabalho local pudesse ser feito localmente sob instruções de qualquer advogado, de modo que o cliente, simplesmente colocando-se nas mãos de um homem, pudesse ter seus desejos realizados por ele sem mais problemas.
— Mas — disse ele — eu poderia estar à vontade para dirigir-me diretamente. Não é assim?
— Claro — respondi — e tal é frequentemente feito por homens de negócios, que não gostam que todos os seus assuntos sejam conhecidos por uma única pessoa.
— Bom! — ele disse, e então continuou a perguntar sobre os meios de fazer consignações e as formalidades a serem cumpridas, e sobre todos os tipos de dificuldades que poderiam surgir, mas que, com previsão, poderiam ser evitadas. Expliquei todas essas coisas para ele da melhor maneira possível, e ele certamente me deixou com a impressão de que teria sido um advogado maravilhoso, pois não havia nada que ele não pensasse ou previsse. Para um homem que nunca esteve no país e que, evidentemente, não fazia muito em termos de negócios, seu conhecimento e acuidade eram maravilhosos. Quando ele havia se satisfeito com esses pontos dos quais havia falado, e eu havia verificado tudo o que pude com os livros disponíveis, ele, de repente, levantou-se e disse:
— O senhor escreveu desde a sua primeira carta ao nosso amigo, o sr. Peter Hawkins, ou a qualquer outra pessoa? Foi com alguma amargura no coração que respondi que não, que, até então, não havia visto oportunidade de enviar cartas a ninguém.
— Então escreva agora, meu jovem amigo — ele disse, colocando uma mão pesada no meu ombro —: escreva ao nosso amigo e a qualquer outra pessoa; e diga, se lhe aprouver, que o senhor ficará comigo até um mês a partir de agora.
— O senhor deseja que eu fique tanto tempo? — perguntei, pois meu coração ficou frio ao pensar nisso.
— Desejo muito; não, não aceitarei recusa. Quando seu mestre, empregador, o que for, contratou que alguém viesse em seu nome, foi entendido que apenas minhas necessidades seriam consideradas. Não me contive. Não é assim?
O que eu poderia fazer senão aceitar? Era o interesse do sr. Hawkins, não o meu, e eu tinha que pensar nele, não em mim; e, além disso, enquanto o conde Drácula falava, havia algo em seus olhos e em sua postura que me fez lembrar que eu era um prisioneiro e que, se quisesse, não teria escolha. O conde viu sua vitória na minha reverência e sua maestria na aflição do meu rosto, pois começou imediatamente a usá-las, mas à sua maneira suave e irresistível:
— Peço-lhe, meu bom jovem amigo, que não discorra sobre coisas que não sejam de negócios em suas cartas. Certamente agradará aos seus amigos saber que o senhor está bem e que espera voltar para eles. Não é assim? Enquanto falava, ele me entregou três folhas de papel de carta e três envelopes. Eram todos do correio estrangeiro mais fino, e, olhando para eles, depois para ele, e notando seu sorriso tranquilo, com os dentes caninos afiados sobre o lábio inferior vermelho, entendi tão bem quanto se ele tivesse falado que eu deveria ter cuidado com o que escrevia, pois ele seria capaz de ler. Então, decidi escrever apenas notas formais agora, mas escrever com detalhes ao sr. Hawkins em segredo, e também a Mina, pois para ela eu poderia escrever em taquigrafia, o que confundiria o conde, se ele visse. Quando escrevi minhas duas cartas, fiquei quieto, lendo um livro enquanto o conde escrevia várias notas, referindo-se, enquanto as escrevia, a alguns livros em sua mesa. Então, ele pegou as minhas e colocou-as com as dele e guardou seus materiais de escrita, e, no momento em que a porta se fechou atrás dele, me inclinei e olhei para as cartas, que estavam com a face para baixo na mesa. Não senti remorso em fazer isso, pois, nas circunstâncias, senti que deveria me proteger de todas as maneiras possíveis.
Uma das cartas era endereçada a Samuel F. Billington, nº 7, The Crescent, Whitby, outra a Herr Leutner, Varna; a terceira era para Coutts & Co., Londres, e a quarta para Herren Klopstock & Billreuth, banqueiros, Buda-Pesth. A segunda e a quarta não estavam seladas. Estava prestes a olhar para elas quando vi a maçaneta da porta se mover. Afundei-me na cadeira, tendo acabado de ter tempo de colocar as cartas como estavam e retomar meu livro antes que o conde, segurando ainda outra carta na mão, entrasse na sala. Ele pegou as cartas na mesa e as selou cuidadosamente e, depois, virando-se para mim, disse:
— Confio que o senhor me perdoará, mas tenho muito trabalho para fazer em particular esta noite. O senhor, espero, encontrará tudo como deseja. Na porta, ele se virou e, após um momento de pausa, disse:
— Deixe-me aconselhá-lo, meu caro jovem amigo — não, deixe-me alertá-lo com toda a seriedade, que, se o senhor sair desses aposentos, não, por acaso, vá dormir em qualquer outro lugar do castelo. É antigo e tem muitas memórias, e há pesadelos para aqueles que dormem imprudentemente. Cuidado! Se o sono agora ou no futuro o dominar, ou estiver prestes a fazê-lo, então, apresse-se para o seu próprio quarto ou para esses aposentos, pois seu descanso será seguro. Mas, se não for cuidadoso nesse aspecto, então — Ele terminou sua fala de uma maneira sinistra, pois fez um gesto com as mãos como se estivesse lavando-as. Entendi perfeitamente; minha única dúvida era se algum sonho poderia ser mais terrível do que a rede horrível e misteriosa de tristeza e mistério que parecia me cercar.
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Mais tarde. — Endosso as últimas palavras escritas, mas desta vez não há dúvida em questão. Não temerei dormir em qualquer lugar onde ele não esteja. Coloquei o crucifixo sobre a cabeceira da minha cama — imagino que meu descanso seja mais livre de sonhos; e ali permanecerá.
Quando ele me deixou, fui para o meu quarto. Após um tempo, não ouvindo nenhum som, saí e subi a escada de pedra até onde pudesse olhar para o sul. Havia uma sensação de liberdade na vasta extensão, inacessível embora fosse para mim, em comparação com a escuridão estreita do pátio. Olhando para isso, senti que realmente estava preso e parecia querer uma lufada de ar fresco, mesmo que fosse da noite. Estou começando a sentir que esta existência noturna está me afetando. Está destruindo meus nervos. Assusto-me com minha própria sombra e estou cheio de todo tipo de imaginações horríveis. Deus sabe que há motivos para o meu medo terrível neste lugar amaldiçoado! Olhei para a bela extensão, banhada na luz amarela da lua, até que quase era tão clara quanto o dia. Na luz suave, as colinas distantes se fundiam, e as sombras nos vales e desfiladeiros eram de um preto aveludado. A mera beleza parecia me animar; havia paz e conforto em cada lufada que eu respirava. Enquanto me inclinava na janela, meus olhos foram atraídos por algo se movendo um andar abaixo de mim e um pouco à minha esquerda, onde imaginei, pela ordem dos aposentos, que as janelas do próprio quarto do conde ficariam. A janela em que estava era alta e profunda, com moldura de pedra, e, embora desgastada pelo tempo, ainda estava completa; mas, evidentemente, fazia muitos dias que a moldura não estava lá. Retirei-me atrás da pedra e olhei com cuidado.
O que vi foi a cabeça do conde saindo da janela. Não vi o rosto, mas conheci o homem pelo pescoço e pelo movimento de suas costas e braços. De qualquer forma, não poderia me enganar com as mãos que tive tantas oportunidades de estudar. Fiquei inicialmente interessado e um tanto divertido, pois é maravilhoso como um pequeno assunto interessa e diverte um homem quando ele é prisioneiro. Mas meus próprios sentimentos mudaram para repulsa e terror quando vi todo o homem emergir lentamente da janela e começar a descer a parede do castelo sobre aquele abismo terrível, de cabeça para baixo, com sua capa se espalhando ao seu redor como grandes asas. A princípio, não pude acreditar nos meus olhos. Pensei que fosse algum truque da luz da lua, algum efeito estranho de sombra; mas continuei olhando, e não podia ser ilusão. Vi os dedos e os dedos dos pés agarrarem as bordas das pedras, desgastadas pelo tempo e pela umidade, e, assim, usando cada projeção e irregularidade, mover-se para baixo com considerável velocidade, assim como um lagarto se move ao longo de uma parede.
Que tipo de homem é este, ou que tipo de criatura é esta na semelhança de um homem? Sinto o medo deste lugar horrível me dominando; estou com medo — com medo terrível — e não há escapatória para mim; estou cercado por terrores que não ouso pensar.
* * * * *
15 de maio. — Mais uma vez vi o conde sair de seu modo lagarto. Ele se moveu para baixo de uma maneira lateral, cerca de cem pés abaixo, e um bom caminho para a esquerda. Ele desapareceu em algum buraco ou janela. Quando sua cabeça desapareceu, me inclinei para tentar ver mais, mas sem sucesso — a distância era grande demais para permitir um ângulo de visão adequado. Sabia que ele havia deixado o castelo agora e pensei em usar a oportunidade para explorar mais do que havia ousado até então. Voltei para o aposento e, pegando uma lâmpada, tentei todas as portas. Todas estavam trancadas, como eu esperava, e as fechaduras eram relativamente novas; mas desci a escada de pedra até o salão onde havia entrado originalmente. Descobri que podia puxar os ferrolhos facilmente e soltar as grandes correntes; mas a porta estava trancada, e a chave havia sumido! Aquela chave deve estar no quarto do conde; devo observar se sua porta estiver destrancada, para que eu possa pegá-la e escapar. Fui até lá para fazer um exame minucioso das várias escadas e passagens e tentar as portas que saiam delas. Um ou dois pequenos aposentos perto do salão estavam abertos, mas não havia nada para ver neles, exceto móveis antigos, empoeirados pelo tempo e comidos por traças. Por fim, no entanto, encontrei uma porta no topo da escada que, embora parecesse trancada, cedeu um pouco sob pressão. Tentei com mais força e descobri que não estava realmente trancada, mas que a resistência vinha do fato de que as dobradiças haviam caído um pouco, e a porta pesada repousava no chão. Aqui estava uma oportunidade que talvez não tivesse novamente, então me esforcei e, com muitos esforços, forcei-a de volta para que pudesse entrar. Agora estava numa ala do castelo mais à direita do que os aposentos que conhecia e um andar mais abaixo. Das janelas, pude ver que a suíte de aposentos se estendia para o sul do castelo, as janelas do aposento final olhando para o oeste e para o sul. Neste último lado, assim como no primeiro, havia um grande precipício. O castelo foi construído na ponta de uma grande rocha, de modo que, em três lados, era completamente inexpugnável, e grandes janelas foram colocadas aqui onde balista, arco ou canhão não podiam alcançar, e, consequentemente, luz e conforto, impossíveis numa posição que precisava ser guardada, foram garantidos. Para o oeste, havia um grande vale e, depois, erguendo-se longe, grandes fortalezas rochosas, elevando-se pico após pico, a rocha nua salpicada de pilriteiro e espinheiro, cujas raízes se agarravam em rachaduras e fendas e fendas da pedra. Esta era evidentemente a parte do castelo ocupada pelas senhoras em tempos passados, pois os móveis tinham mais ar de conforto do que qualquer um que eu tivesse visto. As janelas estavam sem cortinas, e a luz amarela da lua, inundando através dos painéis de diamante, permitia ver até as cores, enquanto suavizava a riqueza de poeira que cobria tudo e disfarçava em certa medida os estragos do tempo e da traça. Minha lâmpada parecia ser de pouco efeito na luz brilhante da lua, mas fiquei feliz em tê-la comigo, pois havia uma solidão terrível no lugar que gelava meu coração e fazia meus nervos tremerem. Ainda assim, era melhor do que viver sozinho nos aposentos que eu havia começado a odiar pela presença do conde, e, após tentar um pouco acalmar meus nervos, senti uma quietude suave me dominar. Aqui estou, sentado numa pequena mesa de carvalho onde, em tempos antigos, possivelmente alguma dama sentou-se para escrever, com muito pensamento e muitas vergonhas, sua carta de amor mal escrita, e escrevendo no meu diário em taquigrafia tudo o que aconteceu desde que o fechei pela última vez. É o século dezenove atualizado com uma vingança. E ainda, a menos que meus sentidos me enganem, os velhos séculos tinham, e têm, poderes próprios que a mera “modernidade” não pode matar.
* * * * *
Mais tarde: a manhã de 16 de maio. — Deus preserve minha sanidade, pois para isso fui reduzido. A segurança e a garantia de segurança são coisas do passado. Enquanto vivo aqui, há apenas uma coisa a esperar, que eu não enlouqueça, se, de fato, já não estiver louco. Se estiver são, então, certamente é enlouquecedor pensar que, de todas as coisas horríveis que habitam neste lugar horrível, o conde é a menos terrível para mim; que apenas a ele posso recorrer em busca de segurança, mesmo que seja apenas enquanto puder servir ao seu propósito. Grande Deus! Deus misericordioso! Deixe-me ser calmo, pois fora desse caminho está a loucura de fato. Estou começando a ter novas luzes sobre certas coisas que me intrigaram. Até agora, nunca entendi muito bem o que Shakespeare quis dizer quando fez Hamlet dizer:
“Meus comprimidos! Rápido, meus comprimidos! É conveniente que eu anote,” etc.
pois agora, sentindo como se meu próprio cérebro estivesse descontrolado ou como se o choque tivesse vindo que deve acabar com sua desintegração, recorro ao meu diário para repouso. O hábito de registrar com precisão deve me ajudar a me acalmar.
O misterioso aviso do conde me assustou na época; me assusta mais agora quando penso nisso, pois no futuro ele tem um poder terrível sobre mim. Temerei duvidar do que ele possa dizer!
Quando havia escrito no meu diário e, felizmente, substituído o livro e a caneta no meu bolso, senti sono. O aviso do conde veio à minha mente, mas senti prazer em desobedecê-lo. A sensação de sono estava sobre mim, e com ela a teimosia que o sono traz como precursor. A luz suave da lua acalmava, e a vasta extensão sem limites dava uma sensação de liberdade que me refrescava. Decidi não voltar esta noite para os aposentos assombrados pela tristeza, mas dormir aqui, onde, outrora, damas sentaram e cantaram e viveram vidas doces enquanto seus corações gentis estavam tristes por seus homens longe no meio de guerras implacáveis. Puxei um grande sofá para fora do seu lugar perto da esquina, de modo que, enquanto deitava, pudesse olhar para a linda vista para o leste e o sul, e, sem pensar na poeira e sem me importar com ela, me preparei para dormir. Suponho que devo ter adormecido; espero que sim, mas temo, pois tudo o que se seguiu foi assustadoramente real — tão real que, agora, sentado aqui na luz ampla e plena do sol da manhã, não consigo de forma alguma acreditar que foi tudo sono.
Não estava sozinho. O aposento era o mesmo, inalterado de qualquer maneira desde que entrei nele; pude ver ao longo do chão, na luz brilhante da lua, minhas próprias pegadas marcadas onde havia perturbado a longa acumulação de poeira. Na luz da lua, oposta a mim, estavam três jovens mulheres, senhoras por sua roupa e maneira. Pensei na época que devia estar sonhando quando as vi, pois, embora a luz da lua estivesse atrás delas, elas não projetavam sombra no chão. Elas vieram perto de mim e me olharam por algum tempo, e depois sussurraram entre si. Duas eram morenas e tinham narizes aquilinos altos, como o conde, e grandes olhos escuros e penetrantes que pareciam quase vermelhos quando contrastados com o amarelo pálido da lua. A outra era loira, tão loira quanto pode ser, com grandes massas onduladas de cabelo dourado e olhos como safiras pálidas. De alguma forma, parecia conhecer seu rosto e conhecê-lo em conexão com algum medo sonhador, mas não consegui me lembrar na hora como ou onde. Todas as três tinham dentes brancos brilhantes que brilhavam como pérolas contra o rubi de seus lábios voluptuosos. Havia algo nelas que me deixava inquieto, algum anseio e, ao mesmo tempo, algum medo mortal. Senti no meu coração um desejo ardente e perverso de que elas me beijassem com aqueles lábios vermelhos. Não é bom anotar isso, para que algum dia não caia nos olhos de Mina e cause dor; mas é a verdade. Elas sussurraram entre si, e depois todas as três riram — tal riso prateado e musical, mas tão duro quanto se o som nunca pudesse ter vindo através da suavidade dos lábios humanos. Era como a doçura intolerável e pungente de taças de água quando tocadas por uma mão hábil. A moça loira sacudiu a cabeça de forma coquete, e as outras duas a incentivaram. Uma disse:
— Vá em frente! Você é a primeira, e nós seguiremos; o direito é seu de começar. A outra acrescentou:
— Ele é jovem e forte; há beijos para todas nós. Fiquei quieto, olhando por baixo das pálpebras numa agonia de antecipação deliciosa. A moça loira avançou e se inclinou sobre mim até que pude sentir o movimento de sua respiração sobre mim. Doce era, num sentido, doce como mel, e enviava o mesmo formigamento através dos nervos como sua voz, mas com um amargo por baixo do doce, um amargo ofensivo, como se cheira em sangue.
Tive medo de levantar as pálpebras, mas olhei e vi perfeitamente por baixo das pestanas. A moça se ajoelhou e se inclinou sobre mim, simplesmente se deleitando. Havia uma voluptuosidade deliberada que era ao mesmo tempo emocionante e repulsiva, e, enquanto ela arqueava o pescoço, ela realmente lambia os lábios como um animal, até que pude ver na luz da lua a umidade brilhando nos lábios escarlates e na língua vermelha enquanto ela lambia os dentes brancos e afiados. Mais baixo e mais baixo foi sua cabeça enquanto os lábios iam abaixo da faixa da minha boca e queixo e pareciam prestes a se fixar na minha garganta. Então, ela parou, e pude ouvir o som de sua língua enquanto lambia seus dentes e lábios, e pude sentir o hálito quente no meu pescoço. Então, a pele da minha garganta começou a formigar como a carne faz quando a mão que vai cutucá-la se aproxima — mais perto. Pude sentir o toque macio e trêmulo dos lábios na pele supersensível da minha garganta e os dentes duros de duas pontas afiadas, apenas tocando e parando ali. Fechei os olhos numa languidez extasiada e esperei — esperei com o coração batendo.
Mas, naquele instante, outra sensação me invadiu como um relâmpago. Fiquei consciente da presença do conde e de ele estar como se envolto numa tempestade de fúria. Quando meus olhos se abriram involuntariamente, vi sua mão forte agarrar o pescoço delicado da moça loira e, com a força de um gigante, puxá-lo para trás, os olhos azuis transformados com fúria, os dentes brancos rangendo com raiva e as bochechas justas ardendo de paixão. Mas o conde! Nunca imaginei tal ira e fúria, mesmo para os demônios do inferno. Seus olhos estavam positivamente brilhando. A luz vermelha neles era lúgubre, como se as chamas do inferno ardessem atrás deles. Seu rosto estava mortalmente pálido, e as linhas dele eram duras como fios de metal puxados; as sobrancelhas grossas que se encontravam sobre o nariz agora pareciam uma barra de metal branco-quente. Com um golpe feroz de seu braço, ele arremessou a mulher para longe dele e, depois, fez um gesto para as outras, como se estivesse espantando-as; era o mesmo gesto imperioso que eu havia visto usado para os lobos. Numa voz que, embora baixa e quase num sussurro, parecia cortar o ar e, depois, ecoar pela sala, ele disse:
— Como ousam tocar nele, qualquer uma de vocês? Como ousam lançar olhos sobre ele quando eu havia proibido? Voltem, digo a todas! Este homem pertence a mim! Cuidado como se intrometem com ele, ou terão que lidar comigo. A moça loira, com um riso de coqueteria indecente, virou-se para responder:
— Você mesmo nunca amou; você nunca ama! Nisso, as outras mulheres se juntaram, e tal riso sem alegria, duro e sem alma ecoou pela sala que quase me fez desmaiar de ouvi-lo; parecia o prazer de demônios. Então, o conde se virou, após olhar atentamente para o meu rosto, e disse em voz baixa:
— Hipnotizado, em um sono tão profundo que até eu não pude despertá-lo. E essas criaturas da escuridão e da noite são as únicas que podem se aproximar dele para despertar. Elas podem fazer o que quiserem com ele. Você está seguro agora, meu pobre menino, pois eu estou aqui para defender você. Mas eu não posso estar sempre aqui. E, além disso, veja, eles podem até entrar aqui.
— Sim, eu também posso amar; vocês mesmas podem dizer isso pelo passado. Não é assim? Bem, agora eu prometo que, quando eu tiver terminado com ele, vocês poderão beijá-lo à vontade. Agora, vão! Vão! Tenho que despertá-lo, pois há trabalho a ser feito.
— Não teremos nada esta noite? — disse uma delas, com um risinho baixo, enquanto apontava para o saco que ele havia jogado no chão e que se movia como se houvesse algo vivo dentro. Como resposta, ele acenou com a cabeça. Uma das mulheres se adiantou e abriu o saco. Se meus ouvidos não me enganaram, houve um gemido e um lamento baixo, como de uma criança sufocada. As mulheres se aproximaram, enquanto eu estava horrorizado; mas, enquanto olhava, elas desapareceram, e com elas o saco terrível. Não havia porta perto delas, e elas não poderiam ter passado por mim sem que eu notasse. Simplesmente pareciam se dissolver nos raios da luz da lua e sair pela janela, pois pude ver, do lado de fora, as formas sombrias e indistintas por um momento antes que desaparecessem completamente.
Então, o horror me dominou, e caí inconsciente.
CAPÍTULO IV
O DIÁRIO DE JONATHAN HARKER — continuação
Acordei na minha própria cama. Se é que não sonhei, o conde deve ter me carregado até aqui. Tentei me certificar sobre o assunto, mas não consegui chegar a uma conclusão incontestável. É verdade que havia pequenos indícios, como o fato de minhas roupas estarem dobradas e colocadas de lado de uma maneira que não era meu hábito. Meu relógio ainda estava sem corda, e eu tenho o hábito rigoroso de cordá-lo na última coisa antes de ir para a cama, e muitos detalhes assim. Mas essas coisas não são prova, pois podem ter sido evidências de que minha mente não estava como de costume e, por alguma razão ou outra, eu certamente estava muito perturbado. Devo procurar por provas. De uma coisa estou contente: se foi o conde que me trouxe aqui e me despir, ele deve ter sido apressado em sua tarefa, pois meus bolsos estão intactos. Tenho certeza de que este diário seria um mistério para ele que ele não toleraria. Ele o teria levado ou destruído. Enquanto olho ao redor deste quarto, embora tenha sido para mim tão cheio de medo, agora é uma espécie de santuário, pois nada pode ser mais terrível do que aquelas mulheres terríveis, que estavam — que estão — esperando para sugar meu sangue.
* * * * *
18 de maio. — Fui até lá para olhar aquele quarto novamente à luz do dia, pois preciso saber a verdade. Quando cheguei à porta no topo da escada, encontrei-a fechada. Havia sido tão forçadamente empurrada contra o batente que parte da madeira estava lascada. Pude ver que o ferrolho da fechadura não havia sido corrido, mas a porta estava trancada por dentro. Temo que não tenha sido um sonho e devo agir com base nessa suposição.
* * * * *
19 de maio. — Estou certamente nas malhas. Na noite passada, o conde me pediu, com os tons mais suaves, para escrever três cartas, uma dizendo que meu trabalho aqui estava quase terminado e que eu partiria para casa dentro de alguns dias, outra que eu estava partindo na manhã seguinte à data da carta, e a terceira que eu havia saído do castelo e chegado a Bistritz. Eu gostaria de ter resistido, mas senti que, no estado atual das coisas, seria loucura discutir abertamente com o conde enquanto estou tão absolutamente em seu poder; e recusar seria excitar sua suspeita e despertar sua ira. Ele sabe que sei demais e que não devo viver, para que não seja perigoso para ele; minha única chance é prolongar minhas oportunidades. Algo pode acontecer que me dê uma chance de escapar. Vi em seus olhos algo da ira que se reunia quando ele arremessou aquela mulher justa para longe dele. Ele me explicou que os correios eram poucos e incertos e que minha escrita agora garantiria tranquilidade para meus amigos; e ele me assegurou com tanta ênfase que cancelaria as cartas posteriores, que seriam retidas em Bistritz até o momento devido, caso a chance permitisse que eu prolongasse minha estadia, que opor-me a ele seria criar nova suspeita. Portanto, fingi concordar com suas ideias e perguntei a ele que datas deveria colocar nas cartas. Ele calculou um minuto e, depois, disse:
— A primeira deve ser de 12 de junho, a segunda de 19 de junho e a terceira de 29 de junho.
Agora conheço o tempo da minha vida. Deus me ajude!
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28 de maio. — Há uma chance de escapar, ou pelo menos de poder enviar notícias para casa. Um grupo de sícanos veio ao castelo e está acampado no pátio. Esses sícanos são ciganos; tenho anotações sobre eles no meu livro. Eles são peculiares a esta parte do mundo, embora aliados aos ciganos comuns em todo o mundo. Há milhares deles na Hungria e na Transilvânia, que estão quase fora de toda lei. Eles se apegam, como regra, a algum grande nobre ou boiardo e se chamam pelo seu nome. Eles são destemidos e sem religião, exceto a superstição, e falam apenas suas próprias variedades do idioma romani.
Escreverei algumas cartas para casa e tentarei fazê-las postar. Já falei com eles através da minha janela para começar o conhecimento. Eles tiraram os chapéus e fizeram reverências e muitos sinais, que, no entanto, não pude entender mais do que sua língua falada....
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Escrevi as cartas. A de Mina está em taquigrafia, e simplesmente peço ao sr. Hawkins que se comunique com ela. Para ela, expliquei minha situação, mas sem os horrores que só posso supor. Seria um choque e um susto para ela se eu expusesse meu coração para ela. Se as cartas não chegarem, então o conde ainda não conhecerá meu segredo ou o alcance do meu conhecimento....
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Entreguei as cartas; joguei-as através das barras da minha janela com uma moeda de ouro e fiz o que pude para que fossem postadas. O homem que as pegou as pressionou contra o coração e se curvou, e depois as colocou no chapéu. Não pude fazer mais. Voltei para o estudo e comecei a ler. Como o conde não entrou, escrevi aqui....
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O conde chegou. Ele se sentou ao meu lado e disse, com sua voz mais suave, enquanto abria duas cartas:
— Os sícanos me deram estas, das quais, embora não saiba de onde vêm, claro, cuidarei. Veja! — ele deve ter olhado para ela — uma é de você e para meu amigo Peter Hawkins; a outra — aqui ele viu os símbolos estranhos enquanto abria o envelope, e o olhar sombrio veio ao seu rosto, e seus olhos brilharam malignamente — a outra é uma coisa vil, um ultraje à amizade e à hospitalidade! Não está assinada. Bem! então não pode nos importar. E ele calmamente segurou a carta e o envelope na chama da lâmpada até que fossem consumidos. Então, continuou:
— A carta para Hawkins — essa, claro, enviarei, pois é sua. Suas cartas são sagradas para mim. Seu perdão, meu amigo, que, sem saber, quebrei o selo. O senhor não vai cobri-la novamente? Ele me estendeu a carta e, com uma reverência cortês, me entregou um envelope limpo. Só pude redirecioná-la e entregá-la a ele em silêncio. Quando ele saiu do quarto, pude ouvir a chave girar suavemente. Um minuto depois, fui até lá e tentei, e a porta estava trancada.
Quando, uma ou duas horas depois, o conde entrou quietamente no quarto, seu chegada me acordou, pois eu havia adormecido no sofá. Ele estava muito cortês e alegre em sua maneira e, vendo que eu havia dormido, disse:
— Então, meu amigo, você está cansado? Vá para a cama. Lá está o descanso mais seguro. Não posso ter o prazer de conversar esta noite, pois há muitos trabalhos para mim; mas você dormirá, peço. Fui para o meu quarto e fui para a cama e, estranhamente, dormi sem sonhar. O desespero tem seus próprios calmantes.
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31 de maio. — Esta manhã, quando acordei, pensei que providenciaria papel e envelopes da minha bolsa e os guardaria no bolso, para que pudesse escrever caso tivesse a oportunidade, mas, novamente, uma surpresa, novamente um choque!
Todo pedaço de papel havia sumido, e com ele todas as minhas anotações, meus memorandos, relacionados a ferrovias e viagens, minha carta de crédito, enfim, tudo o que poderia ser útil para mim se estivesse uma vez fora do castelo. Sentei-me e pensei por um tempo, e depois alguma ideia ocorreu-me, e procurei na minha mala e no armário onde havia colocado minhas roupas.
O terno com o qual havia viajado havia sumido, e também meu casaco e manta; não pude encontrar nenhum vestígio deles em lugar algum. Isso parecia algum novo esquema de vilania....
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17 de junho. — Esta manhã, enquanto estava sentado na beira da minha cama, pensando, ouvi, sem um estalar de chicotes e batidas e arranhadas de cascos de cavalos na estrada rochosa além do pátio. Com alegria, corri para a janela e vi entrar no pátio dois grandes vagões, cada um puxado por oito cavalos fortes, e à frente de cada par um eslovaco, com seu chapéu largo, cinto grande e cravejado de pregos, pele de ovelha suja e botas altas. Eles também tinham seus longos cajados na mão. Corri para a porta, pretendendo descer e tentar me juntar a eles através do saguão principal, pois pensei que aquele caminho poderia estar aberto para eles. Novamente um choque: minha porta estava trancada por fora.
Então, corri para a janela e gritei para eles. Eles olharam para mim estupidamente e apontaram, mas, justamente então, o “hetman” dos sícanos saiu e, vendo-os apontando para a minha janela, disse algo, ao que eles riram. Daí em diante, nenhum esforço meu, nenhum grito ou súplica agonizante, os faria nem mesmo olhar para mim. Eles se viraram resolutamente. Os vagões continham grandes caixas quadradas, com alças de corda grossa; essas estavam evidentemente vazias pela facilidade com que os eslovacos as manejavam e por sua ressonância quando eram movidas bruscamente. Quando foram todas descarregadas e empilhadas num grande monte num canto do pátio, os eslovacos receberam algum dinheiro dos sícanos e, cuspindo nele para sorte, foram preguiçosamente, cada um para a cabeça de seu cavalo. Pouco depois, ouvi o estalar de seus chicotes morrer na distância.
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24 de junho, antes da manhã. — Na noite passada, o conde me deixou cedo e se trancou em seu próprio quarto. Assim que ousei, subi a escada em caracol e olhei pela janela, que abria para o sul. Pensei que vigiria o conde, pois algo está acontecendo. Os sícanos estão alojados em algum lugar do castelo e estão fazendo algum tipo de trabalho. Sei disso, pois, de vez em quando, ouço um som distante e abafado como de pá e enxada, e, seja o que for, deve ser o fim de alguma vilania implacável.
Estive na janela por menos de meia hora, quando vi algo saindo da janela do conde. Retirei-me e observei com cuidado e vi todo o homem emergir. Era um novo choque para mim descobrir que ele estava com o terno de roupas que eu havia usado enquanto viajava para cá e carregava sobre o ombro o saco terrível que eu havia visto as mulheres levarem. Não podia haver dúvida sobre sua busca, e na minha roupa também! Este, então, é seu novo esquema de maldade: que ele permitirá que outros me vejam, como pensam, para que possa deixar evidências de que fui visto nas cidades ou aldeias postando minhas próprias cartas e que qualquer maldade que possa fazer seja atribuída a mim pelos habitantes locais.
Isso me faz raiva pensar que isso pode continuar, e enquanto estou trancado aqui, um verdadeiro prisioneiro, mas sem a proteção da lei que é até o direito e o consolo de um criminoso.
Pensei que vigiria o retorno do conde e, por muito tempo, fiquei teimosamente na janela. Então, comecei a notar que havia alguns pequenos pontos estranhos flutuando nos raios da luz da lua. Eram como os menores grãos de poeira e giravam e se reuniam em grupos de uma maneira nebulosa. Observei-os com uma sensação de suavidade, e uma espécie de calma me dominou. Inclinei-me para trás na embrasura de uma posição mais confortável, para que pudesse desfrutar mais plenamente das travessuras aéreas.
Algo me fez levantar, um uivo baixo e lastimoso de cães em algum lugar bem abaixo no vale, que estava escondido da minha vista. Mais alto parecia ecoar nos meus ouvidos, e os flutuantes motes de poeira para tomar novas formas para o som enquanto dançavam na luz da lua. Senti-me lutando para acordar para algum chamado dos meus instintos; não, minha própria alma estava lutando, e minhas sensibilidades meio esquecidas estavam se esforçando para responder ao chamado. Estava sendo hipnotizado! Mais rápido e mais rápido dançavam os motes de poeira; os raios da lua pareciam tremer enquanto passavam por mim para a massa de escuridão além. Mais e mais se reuniam até que pareciam tomar formas fantasmagóricas. E então me levantei, completamente acordado e em plena posse dos meus sentidos, e corri gritando do lugar. As formas fantasmagóricas, que estavam se tornando gradualmente materializadas dos raios da lua, eram as das três mulheres fantasmas para as quais estava destinado. Fugi e me senti um pouco mais seguro no meu próprio quarto, onde não havia luz da lua e onde a lâmpada estava queimando brilhantemente.
Quando algumas horas haviam passado, ouvi algo se mexendo no quarto do conde, algo como um lamento agudo rapidamente suprimido; e então houve silêncio, profundo e terrível silêncio, que me gelou. Com o coração batendo, tentei a porta; mas estava trancado na minha prisão e não podia fazer nada. Sentei-me e simplesmente chorei.
Enquanto estava sentado, ouvi um som no pátio — o grito agonizante de uma mulher. Corri para a janela e, abrindo-a, olhei entre as barras. Lá, de fato, estava uma mulher com cabelos despenteados, segurando as mãos sobre o coração como alguém aflito por correr. Ela estava encostada num canto do portão. Quando viu meu rosto na janela, ela se atirou para a frente e gritou, numa voz carregada de ameaça:
— Monstro, devolva-me meu filho!
Ela se jogou de joelhos e, erguendo as mãos, gritou as mesmas palavras em tons que dilaceraram meu coração. Então, ela rasgou os cabelos e bateu no peito e se entregou a todas as violências da emoção extravagante. Finalmente, ela se atirou para a frente e, embora não pudesse vê-la, pude ouvir o bater de suas mãos nuas contra a porta.
Em algum lugar bem acima, provavelmente na torre, ouvi a voz do conde chamando em seu sussurro metálico e áspero. Seu chamado parecia ser respondido de longe e de perto pelo uivo dos lobos. Antes de muitos minutos tivessem passado, uma matilha deles desceu, como uma barragem contida quando liberada, através da ampla entrada para o pátio.
Não houve grito da mulher, e o uivo dos lobos foi apenas curto. Antes de muito tempo, eles se afastaram, lambendo os lábios.
Não pude sentir pena dela, pois agora sabia o que havia acontecido com seu filho e ela estava melhor morta.
O que devo fazer? O que posso fazer? Como posso escapar desta coisa terrível da noite e da escuridão e do medo?
* * * * *
25 de junho, manhã. — Ninguém sabe até que tenha sofrido da noite quão doce e quão querida para seu coração e olhos a manhã pode ser. Quando o sol cresceu tanto esta manhã que atingiu o topo do grande portão oposto à minha janela, o ponto alto que tocou parecia-me como se a pomba da arca tivesse pousado lá. Meu medo caiu de mim como se fosse uma veste vaporosa que se dissolve na warmth. Devo tomar alguma ação enquanto a coragem do dia está sobre mim. Na noite passada, uma das minhas cartas pós-datadas foi para o correio, a primeira daquela série fatal que deve apagar até as tracce da minha existência da terra.
Deixe-me não pensar nisso. Ação!
Sempre foi à noite que fui molestado ou ameaçado, ou de alguma forma em perigo ou com medo. Ainda não vi o conde à luz do dia. Pode ser que ele durma quando outros acordam, que ele possa estar acordado enquanto eles dormem? Se eu pudesse entrar no seu quarto! Mas não há possibilidade. A porta está sempre trancada, sem caminho para mim.
Sim, há um caminho, se alguém ousa tomá-lo. Onde seu corpo foi, por que outro corpo não pode ir? Eu mesmo o vi rastejar da sua janela. Por que não devo imitá-lo e entrar pela sua janela? As chances são desesperadoras, mas minha necessidade é mais desesperadora ainda. Vou arriscar. No pior, só pode ser a morte; e a morte de um homem não é a de um bezerro, e o temido Além ainda pode estar aberto para mim. Deus me ajude na minha tarefa! Adeus, Mina, se falhar; adeus, meu fiel amigo e segundo pai; adeus, todos, e, por último, Mina!
* * * * *
Mesmo dia, mais tarde. — Fiz o esforço e, com a ajuda de Deus, voltei em segurança para este quarto. Devo colocar todos os detalhes em ordem. Fui, enquanto minha coragem era fresca, diretamente para a janela no lado sul e, imediatamente, saí para o estreito parapeito de pedra que corre ao redor do edifício neste lado. As pedras são grandes e grosseiramente cortadas, e o cimento foi, pelo processo do tempo, lavado entre elas. Tirei minhas botas e me aventurei no caminho desesperado. Olhei para baixo uma vez, para ter certeza de que um vislumbre do abismo terrível não me dominaria, mas, depois disso, mantive meus olhos afastados dele. Sabia mais ou menos a direção e a distância da janela do conde e fui para lá o melhor que pude, tendo em conta as oportunidades disponíveis. Não me senti tonto — suponho que estava muito excitado — e o tempo pareceu ridiculamente curto até que me encontrei em pé na soleira da janela e tentando levantar a veneziana. Fiquei cheio de agitação, no entanto, quando me inclinei e deslizei de pés para dentro através da janela. Então, olhei ao redor para o conde, mas, com surpresa e alegria, fiz uma descoberta. O quarto estava vazio! Estava levemente mobiliado com coisas estranhas, que pareciam nunca ter sido usadas; os móveis eram do mesmo estilo dos das salas do sul e estavam cobertos de poeira. Procurei pela chave, mas não estava na fechadura e não pude encontrá-la em lugar algum. A única coisa que encontrei foi uma grande pilha de ouro num canto — ouro de todos os tipos, romano, britânico, austríaco, húngaro, grego e turco, coberto com uma película de poeira, como se tivesse estado muito tempo no chão. Nenhum deles que notei tinha menos de trezentos anos. Havia também correntes e ornamentos, alguns joalheiros, mas todos antigos e manchados.
Em um canto da sala, havia uma porta pesada. Tentei abri-la, pois, como não conseguira encontrar a chave do meu quarto nem a chave da porta externa, que era o principal objetivo da minha busca, precisava fazer uma investigação mais aprofundada, ou todos os meus esforços seriam em vão. Estava aberta e levava a uma escada em espiral de pedra, que descia íngreme. Desci, tomando cuidado com o caminho, pois as escadas estavam escuras, iluminadas apenas por frestas na grossa alvenaria. No final, havia uma passagem escura e semelhante a um túnel, de onde vinha um odor mortal e doentio, o cheiro de terra antiga recém-revolvida. À medida que avançava pela passagem, o cheiro ficava mais intenso e pesado. Por fim, abri uma porta pesada que estava entreaberta e me encontrei em uma antiga e arruinada capela, que evidentemente havia sido usada como cemitério. O teto estava quebrado, e em dois lugares havia degraus que levavam a criptas, mas o chão havia sido recentemente revolvido, e a terra foi colocada em grandes caixas de madeira, claramente aquelas que haviam sido trazidas pelos eslovacos. Não havia ninguém por perto, e procurei por qualquer outra saída, mas não havia nenhuma. Então, examinei cada centímetro do chão, para não perder uma chance. Desci até as criptas, onde a luz fraca lutava, embora fazer isso fosse um tormento para minha alma. Entrei em duas delas, mas não vi nada além de fragmentos de caixões antigos e pilhas de poeira; na terceira, no entanto, fiz uma descoberta.
Lá, em uma das grandes caixas, das quais havia cinquenta no total, sobre uma pilha de terra recém-cavada, estava o Conde! Ele estava morto ou dormindo, não pude dizer qual—pois os olhos estavam abertos e pétreos, mas sem a opacidade da morte—e as bochechas tinham o calor da vida através de toda a sua palidez; os lábios estavam tão vermelhos quanto sempre. Mas não havia sinal de movimento, nenhum pulso, nenhuma respiração, nenhum batimento do coração. Inclinei-me sobre ele e tentei encontrar qualquer sinal de vida, mas em vão. Ele não podia ter estado lá por muito tempo, pois o cheiro de terra teria desaparecido em algumas horas. Ao lado da caixa estava a tampa, perfurada com buracos aqui e ali. Pensei que ele pudesse ter as chaves consigo, mas quando fui procurar, vi os olhos mortos e neles, mortos embora fossem, um olhar de ódio, embora inconsciente de mim ou da minha presença, que me fez fugir do lugar e, deixando o quarto do Conde pela janela, escalei novamente a parede do castelo. Ao voltar para o meu quarto, joguei-me ofegante na cama e tentei pensar....
* * * * *
29 de junho.—Hoje é a data da minha última carta, e o Conde tomou medidas para provar que ela era genuína, pois novamente o vi deixar o castelo pela mesma janela, e com as minhas roupas. Enquanto ele descia pela parede, como um lagarto, desejei ter uma arma ou algum instrumento letal, para que pudesse destruí-lo; mas temo que nenhuma arma forjada pelas mãos do homem tenha algum efeito sobre ele. Não ousei esperar para vê-lo retornar, pois temia ver aquelas irmãs terríveis. Voltei para a biblioteca e li até adormecer.
Fui acordado pelo Conde, que me olhou com uma expressão tão sombria quanto um homem pode olhar, enquanto dizia:
"Amanhã, meu amigo, devemos nos separar. Você retorna à sua bela Inglaterra, eu a algum trabalho que pode ter um fim tal que nunca mais nos encontremos. Sua carta para casa foi despachada; amanhã eu não estarei aqui, mas tudo estará pronto para a sua jornada. De manhã, virão os Szgany, que têm alguns trabalhos próprios aqui, e também virão alguns eslovacos. Quando eles tiverem partido, minha carruagem virá buscá-lo e o levará ao Passo Borgo para encontrar a diligência de Bukovina para Bistritz. Mas espero ver mais de você no Castelo Drácula." Suspeitei dele e decidi testar sua sinceridade. Sinceridade! Parece uma profanação da palavra escrevê-la em conexão com um monstro assim, então perguntei diretamente:
"Por que não posso ir esta noite?"
"Porque, caro senhor, meu cocheiro e cavalos estão ausentes em uma missão."
"Mas eu caminharia com prazer. Quero partir imediatamente." Ele sorriu, um sorriso tão suave, liso e diabólico que sabia que havia algum truque por trás da sua suavidade. Ele disse:
"E sua bagagem?"
"Não me importo com ela. Posso mandar buscá-la em outra ocasião."
O Conde levantou-se e disse, com uma cortesia tão doce que me fez esfregar os olhos, pois parecia tão real:
"Vocês, ingleses, têm um ditado que é próximo ao meu coração, pois seu espírito é aquele que rege nossos boiardos: 'Bem-vindo o que chega; apresse o que parte.' Venha comigo, meu querido jovem amigo. Nem uma hora você esperará em minha casa contra a sua vontade, embora triste eu esteja com a sua partida, e que você a deseje tão repentinamente. Venha!" Com uma gravidade solene, ele, com a lâmpada, precedeu-me pelas escadas e pelo corredor. De repente, ele parou.
"Ouça!"
Perto, veio o uivo de muitos lobos. Era quase como se o som surgisse ao levantar da sua mão, assim como a música de uma grande orquestra parece saltar sob a batuta do maestro. Após uma pausa de um momento, ele prosseguiu, em seu modo solene, até a porta, retirou os pesados ferrolhos, desprendeu as grossas correntes e começou a abri-la.
Para minha grande surpresa, vi que estava destrancada. Suspeitosamente, olhei ao redor, mas não vi nenhuma chave em lugar algum.
Quando a porta começou a se abrir, o uivo dos lobos do lado de fora ficou mais alto e furioso; suas mandíbulas vermelhas, com dentes rangentes, e suas patas com garras rombudas, enquanto saltavam, entraram pela porta aberta. Sabia então que lutar contra o Conde no momento era inútil. Com tais aliados ao seu comando, eu não podia fazer nada. Mas ainda a porta continuava a se abrir lentamente, e apenas o corpo do Conde estava na abertura. De repente, ocorreu-me que aquele poderia ser o momento e o meio da minha perdição; eu seria dado aos lobos, e por minha própria sugestão. Havia uma maldade diabólica na ideia grande o suficiente para o Conde, e como última chance, gritei:
"Feche a porta; esperarei até amanhã!" e cobri o rosto com as mãos para esconder minhas lágrimas de decepção amarga. Com um movimento do seu braço poderoso, o Conde fechou a porta, e os grandes ferrolhos rangiram e ecoaram pelo corredor enquanto se encaixavam de volta em seus lugares.
Em silêncio, voltamos para a biblioteca, e após um minuto ou dois, fui para o meu próprio quarto. A última coisa que vi do Conde Drácula foi ele beijando a mão para mim; com um brilho vermelho de triunfo nos olhos e com um sorriso que Judas no inferno poderia invejar.
Quando estava no meu quarto e prestes a deitar, pensei ter ouvido um sussurro à minha porta. Fui até lá suavemente e escutei. A menos que meus ouvidos me enganassem, ouvi a voz do Conde:
"Volte, volte para o seu lugar! Sua hora ainda não chegou. Espere! Tenha paciência! Esta noite é minha. Amanhã à noite é sua!" Havia um suave e doce murmúrio de riso, e, em fúria, abri a porta e vi, do lado de fora, as três mulheres terríveis lambendo os lábios. Quando apareci, todas se juntaram em um riso horrível e fugiram.
Voltei para o meu quarto e me joguei de joelhos. Então, está tão perto do fim? Amanhã! amanhã! Senhor, ajuda-me, e àqueles a quem sou caro!
* * * * *
30 de junho, manhã.—Estas podem ser as últimas palavras que escreverei neste diário. Dormi até pouco antes do amanhecer, e quando acordei, me joguei de joelhos, pois decidi que, se a Morte viesse, ela me encontraria pronto.
Por fim, senti aquela mudança sutil no ar e soube que a manhã havia chegado. Então veio o bem-vindo canto do galo, e senti que estava a salvo. Com o coração alegre, abri minha porta e corri para o corredor. Havia visto que a porta estava destrancada, e agora a fuga estava diante de mim. Com mãos que tremiam de ansiedade, desprendi as correntes e retirei os pesados ferrolhos.
Mas a porta não se moveu. O desespero me dominou. Puxei e puxei a porta, e a sacudi até que, maciça como era, ela rangeu em sua moldura. Pude ver o ferrolho travado. Havia sido trancada depois que saí do quarto do Conde.
Então, um desejo selvagem me tomou para obter aquela chave a qualquer custo, e decidi ali mesmo escalar a parede novamente e chegar ao quarto do Conde. Ele poderia me matar, mas a morte agora parecia a escolha menos ruim entre os males. Sem hesitar, corri para a janela leste e desci pela parede, como antes, até o quarto do Conde. Estava vazio, mas isso era o que eu esperava. Não consegui ver uma chave em lugar algum, mas a pilha de ouro permanecia. Atravessei a porta no canto e desci a escada em espiral e pelo corredor escuro até a antiga capela. Agora sabia bem o suficiente onde encontrar o monstro que buscava.
A grande caixa estava no mesmo lugar, encostada na parede, mas a tampa estava sobre ela, não presa, mas com os pregos prontos em seus lugares para serem martelados. Sabia que precisava alcançar o corpo para pegar a chave, então levantei a tampa e a coloquei contra a parede; e então vi algo que encheu minha alma de horror. Lá estava o Conde, mas parecendo como se sua juventude tivesse sido parcialmente renovada, pois o cabelo e o bigode brancos haviam se transformado em um cinza ferro escuro; as bochechas estavam mais cheias, e a pele branca parecia rubro-vermelha por baixo; a boca estava mais vermelha do que nunca, pois nos lábios havia coágulos de sangue fresco, que escorriam dos cantos da boca e corriam pelo queixo e pescoço. Até os olhos profundos e ardentes pareciam estar entre a carne inchada, pois as pálpebras e os sacos debaixo estavam inchados. Parecia que toda a criatura horrenda estava simplesmente empanturrada de sangue. Ele jazia como uma sanguessuga imunda, exausta de sua repleta. Tremi ao me inclinar para tocá-lo, e todos os meus sentidos se revoltaram contra o contato; mas precisava procurar, ou estaria perdido. A noite que se aproximava poderia ver meu próprio corpo como um banquete de maneira semelhante àquelas três horrendas. Senti todo o corpo, mas não encontrei sinal da chave. Então parei e olhei para o Conde. Havia um sorriso de escárnio no rosto inchado que parecia me enlouquecer. Era esse o ser que eu estava ajudando a transferir para Londres, onde, talvez, por séculos, ele pudesse, entre seus milhões de habitantes, saciar sua sede de sangue e criar um novo e sempre crescente círculo de semidemônios para se alimentar dos desamparados. O próprio pensamento me enlouqueceu. Um desejo terrível surgiu em mim de livrar o mundo de um monstro assim. Não havia arma letal à mão, mas peguei uma pá que os trabalhadores estavam usando para encher as caixas e, erguendo-a alto, golpeei, com a borda para baixo, o rosto odioso. Mas, ao fazê-lo, a cabeça se virou, e os olhos caíram diretamente sobre mim, com todo o seu brilho de horror basilisco. A visão parecia me paralisar, e a pá se virou na minha mão e deslizou do rosto, fazendo apenas um profundo corte acima da testa. A pá caiu da minha mão sobre a caixa, e, quando a puxei, a borda da lâmina pegou a borda da tampa, que caiu novamente, escondendo a coisa horrenda da minha vista. O último vislumbre que tive foi do rosto inchado, manchado de sangue e fixo com um sorriso de malícia que teria seu lugar no inferno mais profundo.
Pensei e pensei no que deveria ser meu próximo movimento, mas meu cérebro parecia em chamas, e esperei com uma sensação de desespero crescendo sobre mim. Enquanto esperava, ouvi ao longe uma canção cigana cantada por vozes alegres que se aproximavam, e, através de sua canção, o rolar de rodas pesadas e o estalar de chicotes; os Szgany e os eslovacos de quem o Conde havia falado estavam chegando. Com um último olhar ao redor e para a caixa que continha o corpo vil, corri do lugar e ganhei o quarto do Conde, determinado a sair assim que a porta fosse aberta. Com ouvidos atentos, escutei e ouvi, no andar de baixo, o rangido da chave na grande fechadura e o fechar da porta pesada. Deveria haver alguma outra entrada, ou alguém tinha uma chave para uma das portas trancadas. Então veio o som de muitos pés pisando e desaparecendo em alguma passagem que enviava um eco retumbante. Fui para baixo novamente em direção à cripta, onde poderia encontrar a nova entrada; mas, no momento, parecia haver uma violenta rajada de vento, e a porta para a escada em espiral se fechou com um choque que levantou a poeira dos batentes. Quando corri para abri-la, vi que estava hopelessly fast. Novamente era um prisioneiro, e a rede do destino estava se fechando ao meu redor mais estreitamente.
Enquanto escrevo, há no corredor abaixo o som de muitos pés pisando e o estrondo de pesos sendo colocados pesadamente, sem dúvida as caixas, com sua carga de terra. Há um som de marteladas; é a caixa sendo pregada. Agora posso ouvir os pés pesados pisando novamente pelo corredor, com muitos outros pés ociosos vindo atrás deles.
A porta está fechada, e as correntes rangem; há um rangido da chave na fechadura; posso ouvir a chave sendo retirada: então outra porta se abre e se fecha; ouço o rangido de fechadura e ferrolho.
Ouça! No pátio e pelo caminho rochoso, o rolar de rodas pesadas, o estalar de chicotes e o coro dos Szgany enquanto passam para o longe.
Estou sozinho no castelo com aquelas mulheres terríveis. Faugh! Mina é uma mulher, e não há nada em comum. Elas são demônios do Abismo!
Não permanecerei sozinho com elas; tentarei escalar a parede do castelo mais do que já tentei. Levarei um pouco do ouro comigo, caso precise dele depois. Posso encontrar um caminho para sair deste lugar terrível.
E então, para casa! para o trem mais rápido e mais próximo! para longe deste local amaldiçoado, desta terra amaldiçoada, onde o diabo e seus filhos ainda caminham com pés terrenos!
Pelo menos, a misericórdia de Deus é melhor do que a desses monstros, e o precipício é íngreme e alto. No seu pé, um homem pode dormir—como um homem. Adeus, a todos! Mina!
CAPÍTULO V
Carta de Mina Murray para Lucy Westenra.
"9 de maio.
"Minha querida Lucy,
"Perdoe minha longa demora em escrever, mas tenho estado simplesmente sobrecarregada de trabalho. A vida de uma professora assistente às vezes é difícil. Estou ansiosa para estar com você e pelo mar, onde podemos conversar livremente e construir nossos castelos no ar. Tenho trabalhado muito ultimamente, porque quero acompanhar os estudos de Jonathan, e tenho praticado taquigrafia muito assiduamente. Quando nos casarmos, poderei ser útil a Jonathan, e, se puder datilografar bem o suficiente, poderei anotar o que ele quiser dizer desta forma e escrever para ele na máquina de escrever, na qual também tenho praticado muito. Ele e eu às vezes escrevemos cartas em taquigrafia, e ele está mantendo um diário taquigráfico de suas viagens ao exterior. Quando estiver com você, manterei um diário da mesma forma. Não quero um daqueles diários de duas páginas por semana, com o domingo espremido em um canto, mas uma espécie de jornal que posso escrever sempre que me sentir inclinada. Não suponho que haja muito de interesse para outras pessoas; mas não é destinado a elas. Posso mostrá-lo a Jonathan algum dia, se houver nele algo digno de ser compartilhado, mas é realmente um caderno de exercícios. Tentarei fazer o que vejo as senhoras jornalistas fazerem: entrevistar e escrever descrições e tentar lembrar conversas. Sou informada de que, com um pouco de prática, pode-se lembrar tudo o que acontece ou que se ouve dizer durante um dia. No entanto, veremos. Contarei sobre meus pequenos planos quando nos encontrarmos. Acabo de receber algumas linhas apressadas de Jonathan da Transilvânia. Ele está bem e retornará em cerca de uma semana. Estou ansiosa para ouvir todas as suas notícias. Deve ser tão bom ver países estranhos. Eu me pergunto se nós—quero dizer, Jonathan e eu—algum dia os veremos juntos. Há o sino das dez horas tocando. Adeus.
"Sua,
"MINA.
"Conte-me todas as notícias quando escrever. Você não me contou nada há muito tempo. Ouço rumores, e especialmente de um homem alto, bonito, de cabelos cacheados????"
Carta de Lucy Westenra para Mina Murray.
"17, Chatham Street,
"Quarta-feira.
"Minha querida Mina,
by 5
24 de julho. Whitby.—Lucy me encontrou na estação, parecendo mais doce e encantadora do que nunca, e fomos de carroça até a casa no Crescent onde elas têm quartos. Este é um lugar encantador. O pequeno rio, o Esk, corre por um vale profundo, que se alarga à medida que se aproxima do porto. Uma grande ponte passa por cima, com pilares altos, através dos quais a vista parece, de alguma forma, mais distante do que realmente é. O vale é maravilhosamente verde, e é tão íngreme que, quando você está nas terras altas de qualquer lado, olha diretamente através dele, a menos que esteja perto o suficiente para ver para baixo. As casas da cidade antiga—o lado oposto ao nosso—são todas de telhados vermelhos e parecem empilhadas umas sobre as outras de qualquer maneira, como as imagens que vemos de Nuremberg. Bem acima da cidade estão as ruínas da Abadia de Whitby, que foi saqueada pelos dinamarqueses e que é o cenário de parte de "Marmion", onde a garota foi embutida na parede. É uma ruína muito nobre, de tamanho imenso, e cheia de partes bonitas e românticas; há uma lenda de que uma dama branca é vista em uma das janelas. Entre ela e a cidade há outra igreja, a paroquial, ao redor da qual há um grande cemitério, cheio de lápides. Para mim, este é o lugar mais agradável de Whitby, pois fica bem acima da cidade e tem uma vista completa do porto e de toda a baía até onde o cabo chamado Kettleness se estende no mar. Ele desce tão íngreme sobre o porto que parte do banco caiu, e algumas das sepulturas foram destruídas. Em um lugar, parte da alvenaria das sepulturas se estende sobre o caminho de areia muito abaixo. Há passeios, com bancos ao lado, através do cemitério; e as pessoas vão e sentam lá o dia todo, olhando para a bela vista e aproveitando a brisa. Eu virei e sentarei aqui com frequência e trabalharei. Na verdade, estou escrevendo agora, com meu livro no colo, e ouvindo a conversa de três velhos que estão sentados ao meu lado. Eles parecem não fazer nada o dia todo além de sentar aqui e conversar.
O porto fica abaixo de mim, com, do outro lado, um longo muro de granito se estendendo até o mar, com uma curva para fora na extremidade, no meio da qual há um farol. Um pesado quebra-mar corre ao longo do lado de fora. Do lado de perto, o quebra-mar faz uma curva invertida, e sua extremidade também tem um farol. Entre os dois molhes há uma estreita abertura para o porto, que então se alarga repentinamente.
É agradável na maré alta; mas quando a maré está baixa, ele se reduz a nada, e há apenas o riacho do Esk, correndo entre bancos de areia, com rochas aqui e ali. Fora do porto, deste lado, ergue-se por cerca de meia milha um grande recife, cuja borda afiada corre diretamente de trás do farol sul. Na extremidade dele há uma boia com um sino, que balança em mau tempo e envia um som triste no vento. Eles têm uma lenda aqui de que, quando um navio é perdido, sinos são ouvidos no mar. Devo perguntar ao velho sobre isso; ele está vindo por este caminho....
Ele é um velho engraçado. Deve ser muito velho, pois seu rosto está todo enrugado e retorcido como a casca de uma árvore. Ele me diz que tem quase cem anos e que era marinheiro na frota pesqueira do Groenlândia quando Waterloo foi lutada. Temo que ele seja uma pessoa muito cética, pois, quando perguntei sobre os sinos no mar e a Dama Branca na abadia, ele disse muito bruscamente:
"Eu não me preocuparia com isso, senhorita. Essas coisas estão todas desgastadas. Entenda, não digo que nunca existiram, mas digo que não existiam no meu tempo. Elas são todas muito boas para visitantes e excursionistas, e afins, mas não para uma jovem como você. Esses pés-de-pó de York e Leeds que estão sempre comendo arenque curado e bebendo chá e procurando comprar jet barato acreditariam em qualquer coisa. Eu me pergunto quem se daria ao trabalho de contar mentiras para eles—até os jornais, que estão cheios de bobagens." Pensei que ele seria uma boa pessoa para aprender coisas interessantes, então perguntei se ele se importaria de me contar algo sobre a pesca de baleias nos velhos tempos. Ele estava justamente se preparando para começar quando o relógio bateu seis horas, e ele se esforçou para se levantar e disse:
"Devo ir para casa agora, senhorita. Minha neta não gosta de ser mantida esperando quando o chá está pronto, pois me leva tempo para subir as escadas, pois há muitas delas; e, senhorita, eu preciso de alimento sólido com urgência, segundo o relógio."
Ele cambaleou, e pude vê-lo apressando-se, tanto quanto podia, pelas escadas. As escadas são uma grande característica do lugar. Elas levam da cidade até a igreja, há centenas delas—não sei quantas—e elas sobem em uma curva delicada; a inclinação é tão suave que um cavalo poderia facilmente subir e descer por elas. Acho que elas devem ter tido originalmente algo a ver com a abadia. Também irei para casa. Lucy saiu para visitar com sua mãe, e como eram apenas visitas de dever, não fui. Elas estarão em casa até agora.
* * * * *
1 de agosto.—Vim aqui há uma hora com Lucy, e tivemos uma conversa muito interessante com meu velho amigo e os outros dois que sempre vêm e se juntam a ele. Ele é evidentemente o Oráculo deles, e acho que deve ter sido, em seu tempo, uma pessoa muito autoritária. Ele não admite nada e enfrenta todo mundo. Se não consegue vencê-los com argumentos, ele os intimida, e então toma seu silêncio como concordância com suas opiniões. Lucy estava parecendo lindamente bonita em seu vestido de linho branco; ela tem uma cor maravilhosa desde que está aqui. Notei que os velhos não perderam tempo em se aproximar e sentar perto dela quando nos sentamos. Ela é tão doce com pessoas idosas; acho que todos se apaixonaram por ela na hora. Até meu velho amigo sucumbiu e não a contradisse, mas me deu uma dose dupla em vez disso. Consegui que ele falasse sobre as lendas, e ele partiu imediatamente para uma espécie de sermão. Devo tentar me lembrar e anotar:
"É tudo bobagem, de cabo a rabo; isso é o que é, e nada mais. Essas proibições e ventos e fantasmas e barguests e bogles e tudo sobre eles são apenas adequados para colocar crianças e mulheres tontas em pânico. Eles não são nada além de bolhas de ar. Eles, e todos os grims e sinais e avisos, foram todos inventados por padres e pessoas doentes e vendedores de passagens para assustar e desanimar os medrosos, e para fazer as pessoas fazerem algo que não fariam de outra forma. Isso me irrita pensar neles. Por que, são eles que, não contentes em imprimir mentiras em papel e pregá-las de púlpitos, querem gravá-las em lápides. Olhe ao seu redor em qualquer direção; todas essas pedras, segurando suas cabeças o melhor que podem por causa do orgulho, estão cheias—simplesmente desmoronando sob o peso das mentiras escritas nelas, 'Aqui jaz o corpo' ou 'Consagrado à memória' escrito em todas elas, e ainda em quase metade delas não há corpos; e as memórias delas não são lembradas nem um pouco, muito menos sagradas. Mentiras, todas elas, nada além de mentiras de um tipo ou de outro! Meu Deus, mas será uma confusão no Dia do Juízo quando eles vierem cambaleando em seus sudários, todos juntos e tentando arrastar suas lápides com eles para provar o quão bons eram; alguns deles tremendo e hesitando, com as mãos tão dormentes e escorregadias por estarem no mar que não podem nem segurar suas lápides."
Pude ver pela expressão satisfeita do velho e pela maneira como olhou ao redor para a aprovação de seus companheiros que ele estava "se exibindo", então fiz um comentário para mantê-lo falando:
"Ah, Sr. Swales, você não pode estar sério. Com certeza, essas lápides não estão todas erradas?"
"Yabblins! Pode haver algumas poucas não erradas, salvo onde elas fazem as pessoas parecerem melhores do que são; pois há pessoas que pensam que um copo de vinho é como o mar, se for o seu próprio. Tudo isso é apenas mentiras. Agora olhe ao seu redor; você vem aqui como uma estranha, e você vê este cemitério." Assenti, pois achei melhor concordar, embora não entendesse completamente seu dialeto. Sabia que tinha algo a ver com a igreja. Ele continuou: "E você supõe que todas essas pedras estão acima de pessoas que foram enterradas aqui, arrumadas e organizadas?" Assenti novamente. "Então é justamente aí que a mentira está. Por que, há dezenas desses leitos que estão vazios como a caixa de tabaco do velho Dun na sexta-feira à noite." Ele cutucou um de seus companheiros, e todos riram. "E meu Deus! como poderiam ser de outra forma? Olhe para aquela, a última atrás do banco: leia!" Fui até lá e li:
"Edward Spencelagh, mestre marinheiro, assassinado por piratas ao largo da costa de Andres, abril de 1854, æt. 30." Quando voltei, o Sr. Swales continuou:
"Quem o trouxe para cá, eu me pergunto, para enterrá-lo aqui? Assassinado ao largo da costa de Andres! e você supôs que seu corpo estava debaixo! Por que, eu poderia nomear uma dúzia cujos ossos estão nos mares do Groenlândia acima"—ele apontou para o norte—"ou onde as correntes podem tê-los levado. Há as pedras ao seu redor. Com seus olhos jovens, você pode ler as letras pequenas das mentiras daqui. Este Braithwaite Lowrey—eu conheci seu pai, perdido no Lively ao largo do Groenlândia em 1820; ou Andrew Woodhouse, afogado nos mesmos mares em 1777; ou John Paxton, afogado ao largo do Cabo Farewell um ano depois; ou o velho John Rawlings, cujo avô navegou comigo, afogado no Golfo da Finlândia em 1850. Você acha que todos esses homens terão que fazer uma corrida para Whitby quando a trombeta soar? Tenho minhas dúvidas sobre isso! Digo-lhe que, quando chegarem aqui, eles estarão se empurrando e se acotovelando de tal maneira que será como uma briga no gelo nos velhos tempos, quando nos enfrentávamos do amanhecer ao anoitecer, e tentávamos curar nossos cortes à luz da aurora boreal." Isso era evidentemente um trocadilho local, pois o velho riu e seus companheiros se juntaram com entusiasmo.
"Mas", disse eu, "com certeza você não está completamente correto, pois você parte da suposição de que todas as pobres pessoas, ou seus espíritos, terão que levar suas lápides com elas no Dia do Juízo. Você acha que isso será realmente necessário?"
"Bem, para que mais servem as lápides? Responda-me isso, senhorita!"
"Para agradar seus parentes, suponho."
"Para agradar seus parentes, você supõe!" Isso ele disse com intenso desdém. "Como isso agradará seus parentes saber que mentiras estão escritas sobre eles, e que todo mundo no lugar sabe que são mentiras?" Ele apontou para uma pedra aos nossos pés que havia sido colocada como uma laje, sobre a qual o banco estava apoiado, perto da borda do penhasco. "Leia as mentiras nessa pedra transversal", disse ele. As letras estavam de cabeça para baixo para mim de onde eu estava sentada, mas Lucy estava mais oposta a elas, então ela se inclinou e leu:
"Consagrado à memória de George Canon, que morreu, na esperança de uma gloriosa ressurreição, em 29 de julho de 1873, caindo das rochas em Kettleness. Este túmulo foi erguido por sua mãe aflita para seu querido filho. 'Ele era o único filho de sua mãe, e ela era viúva.' Realmente, Sr. Swales, não vejo nada muito engraçado nisso!" Ela falou seu comentário muito seriamente e um pouco severamente.
"Você não vê nada engraçado! Ha! ha! Mas isso é porque você não entende a mãe aflita era uma megera que o odiava porque ele era aleijado—um verdadeiro aleijado ele era—e ele a odiava tanto que cometeu suicídio para que ela não pudesse receber um seguro que ela fez sobre sua vida. Ele quase explodiu a parte de cima da cabeça com um velho mosquete que eles tinham para assustar os corvos. Não era para corvos, pois trouxe os mosquitos e as moscas para ele. Foi assim que ele caiu das rochas. E, quanto a esperanças de uma gloriosa ressurreição, eu o ouvi dizer muitas vezes que esperava ir para o inferno, pois sua mãe era tão piedosa que certamente iria para o céu, e ele não queria ficar onde ela estava. Agora, essa pedra não é, pelo menos"—ele a bateu com seu cajado enquanto falava—"um pacote de mentiras? e não fará Gabriel rir quando Geordie vier ofegando pelas escadas com a lápide equilibrada em seu corcunda e pedir que seja aceita como evidência!"
Não sabia o que dizer, mas Lucy mudou o assunto ao dizer, levantando-se:
"Ah, por que você nos contou isso? Este é meu lugar favorito, e não posso deixá-lo; e agora descubro que devo continuar sentada sobre o túmulo de um suicida."
"Isso não vai te prejudicar, minha querida; e pode fazer o pobre Geordie se alegrar em ter uma moça tão bonita sentada no seu colo. Isso não vai te prejudicar. Por que, eu tenho sentado aqui de vez em quando nos últimos vinte anos, e isso não me fez mal. Não se preocupe com aqueles que estão debaixo de você, ou que não estão lá! Será hora de você se assustar quando vir as lápides todas fugirem, e o lugar tão vazio quanto um campo de stopple. Há o relógio, e devo ir. Meus cumprimentos a vocês, senhoras!" E ele cambaleou.
Lucy e eu ficamos um pouco, e era tudo tão bonito diante de nós que pegamos as mãos enquanto estávamos sentadas; e ela me contou tudo novamente sobre Arthur e seu próximo casamento. Isso me deixou um pouco triste, pois não tenho notícias de Jonathan há um mês inteiro.
* * * * *
O mesmo dia.—Vim aqui sozinha, pois estou muito triste. Não houve carta para mim. Espero que não haja nada de errado com Jonathan. O relógio acabou de bater nove horas. Vejo as luzes espalhadas por toda a cidade, às vezes em fileiras onde estão as ruas, e às vezes sozinhas; elas sobem pelo Esk e se perdem na curva do vale. À minha esquerda, a vista é cortada por uma linha negra de telhado da casa antiga ao lado da abadia. As ovelhas e cordeiros estão balindo nos campos atrás de mim, e há um barulho de cascos de um burro na estrada pavimentada abaixo. A banda no pier está tocando uma valsa áspera em bom tempo, e mais adiante no cais há uma reunião do Exército de Salvação em uma rua lateral. Nenhuma das bandas ouve a outra, mas aqui em cima ouço e vejo ambas. Eu me pergunto onde está Jonathan e se ele está pensando em mim! Gostaria que ele estivesse aqui.
Diário do Dr. Seward.
5 de junho.—O caso de Renfield está se tornando mais interessante à medida que o entendo melhor. Ele tem certas qualidades muito desenvolvidas; egoísmo, segredo e propósito. Gostaria de saber qual é o objeto deste último. Ele parece ter algum esquema próprio, mas ainda não sei qual é. Sua qualidade redentora é um amor por animais, embora, na verdade, ele tenha voltas tão curiosas nisso que às vezes imagino que ele é apenas anormalmente cruel. Seus animais de estimação são de tipos estranhos. Agora, seu passatempo é pegar moscas. Ele tem, no momento, uma quantidade tão grande que tive que intervir. Para minha surpresa, ele não explodiu em fúria, como esperava, mas levou o assunto com simples seriedade. Ele pensou por um momento e depois disse: "Posso ter três dias? Vou me livrar delas." Claro, disse que isso seria suficiente. Devo observá-lo.
* * * * *
18 de junho.—Ele voltou sua atenção agora para aranhas, e tem várias muito grandes em uma caixa. Ele continua alimentando-as com suas moscas, e o número destas últimas está diminuindo sensivelmente, embora ele tenha usado metade de sua comida para atrair mais moscas de fora para o seu quarto.
* * * * *
1 de julho.—Suas aranhas estão se tornando um incômodo tão grande quanto suas moscas, e hoje eu lhe disse que ele deve se livrar delas. Ele parecia muito triste com isso, então eu disse que ele deve se livrar de algumas delas, pelo menos. Ele concordou alegremente com isso, e eu lhe dei o mesmo tempo que antes para a redução. Ele me desagradou muito enquanto estava com ele, pois, quando uma mosca horrenda, inchada com algum alimento de carniça, zumbiu no quarto, ele a pegou, segurou-a exultantemente por alguns momentos entre o polegar e o indicador, e, antes que eu soubesse o que ele ia fazer, colocou-a na boca e a comeu. Eu o repreendi por isso, mas ele argumentou calmamente que era muito bom e muito saudável; que era vida, vida forte, e lhe dava vida. Isso me deu uma ideia, ou o rudimento de uma. Devo observar como ele se livra de suas aranhas. Ele tem evidentemente um problema profundo em sua mente, pois mantém um pequeno caderno no qual está sempre anotando algo. Páginas inteiras dele estão cheias de massas de números, geralmente números únicos somados em lotes, e depois os totais somados em lotes novamente, como se ele estivesse "focando" alguma conta, como os auditores dizem.
* * * * *
8 de julho.—Há um método na sua loucura, e o rudimento de ideia na minha mente está crescendo. Será uma ideia completa em breve, e então, ah, cerebração inconsciente! você terá que dar lugar ao seu irmão consciente. Mantenho-me longe do meu amigo por alguns dias, para que possa notar se há alguma mudança. As coisas permanecem como estavam, exceto que ele se livrou de alguns de seus animais de estimação e ganhou um novo. Ele conseguiu pegar um pardal e já o domesticou parcialmente. Seu meio de domar é simples, pois as aranhas já diminuíram. Aquelas que restam, no entanto, estão bem alimentadas, pois ele ainda traz moscas atraindo-as com sua comida.
* * * * *
19 de julho.—Estamos progredindo. Meu amigo tem agora toda uma colônia de pardais, e suas moscas e aranhas estão quase extintas. Quando entrei, ele correu para mim e disse que queria me pedir um grande favor—um favor muito, muito grande; e, enquanto falava, ele se ajoelhou diante de mim e segurou minha mão com as duas dele, esfregando-a enquanto falava:
"Um gatinho, um lindo gatinho pequeno, macio e brincalhão, com o qual eu possa brincar, e ensinar, e alimentar—e alimentar—e alimentar!" Não estava despreparado para este pedido, pois havia notado como seus animais de estimação iam aumentando em tamanho e vivacidade, mas não queria que sua bela família de pardais domesticados fosse varrida da mesma maneira que as moscas e as aranhas; então disse que veria sobre isso, e perguntei se ele não preferiria um gato a um gatinho. Sua ansiedade traiu-o quando ele respondeu:
"Então eu poderia brincar com ele e ensiná-lo, e alimentá-lo—e alimentá-lo—e alimentá-lo!"
“Ah, sim, eu gostaria de um gato! Só pedi um gatinho porque achei que você não me daria um gato. Ninguém recusaria um gatinho, não é?” Balancei a cabeça e disse que, no momento, temia que não fosse possível, mas que veria sobre isso. Seu rosto caiu, e pude ver um sinal de perigo nele, pois houve um olhar lateral repentino e feroz que significava matar. O homem é um maníaco homicida não desenvolvido. Vou testá-lo com seu desejo atual e ver como isso funcionará; então saberei mais.
* * * * *
10 horas da noite.—Visitei-o novamente e o encontrei sentado em um canto, pensativo. Quando entrei, ele se jogou aos meus pés e me implorou para lhe dar um gato; que sua salvação dependia disso. Fui firme, no entanto, e disse que ele não poderia ter um, e ele se levantou sem uma palavra e sentou-se, roendo os dedos, no canto onde o havia encontrado. Vou vê-lo de manhã cedo.
* * * * *
20 de julho.—Visitei Renfield muito cedo, antes que o guarda fizesse suas rondas. Encontrei-o acordado e cantando uma música. Ele estava espalhando seu açúcar, que havia economizado, na janela e, obviamente, estava começando a capturar moscas novamente, e começando de bom grado e com boa vontade. Olhei ao redor por seus pássaros e, não os vendo, perguntei onde estavam. Ele respondeu, sem se virar, que todos haviam voado. Havia algumas penas pelo quarto e, em seu travesseiro, uma gota de sangue. Não disse nada, mas fui e disse ao guarda para me relatar se houvesse algo estranho sobre ele durante o dia.
* * * * *
11 horas da manhã.—O guarda acabou de me dizer que Renfield teve uma crise e vomitou uma quantidade de penas. "Minha crença é, doutor," ele disse, "que ele comeu seus pássaros, e que ele os comeu crus!"
* * * * *
11 horas da noite.—Dei a Renfield um opiáceo forte esta noite, o suficiente para fazer até ele dormir, e tirei seu caderno de bolso para olhar. O pensamento que tem zumbido em meu cérebro ultimamente está completo, e a teoria provada. Meu maníaco homicida é de um tipo peculiar. Vou ter que inventar uma nova classificação para ele, e chamá-lo de maníaco zoöfago (comedor de vida); o que ele deseja é absorver o maior número de vidas possível, e ele tem se dedicado a isso de uma maneira cumulativa. Ele deu muitas moscas a uma aranha e muitas aranhas a um pássaro, e então queria um gato para comer os muitos pássaros. O que seriam seus passos seguintes? É quase uma pena completar o experimento, pois, em sua maneira, ele está um filósofo. Ele tem feito uma nova e ampla classificação, e parece ter uma ideia de que há uma classe de seres cuja essência é apenas a absorção de vidas, e cujo objetivo é a absorção de todas as vidas e a apropriação de todas as forças vitais. Em seu caderno há muitas páginas cheias de massas de números, geralmente números únicos somados em lotes, e depois os totais somados em lotes novamente, como se ele estivesse "focando" alguma conta, como os auditores dizem.
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8 de julho.—Há um método na sua loucura, e o rudimento de ideia na minha mente está crescendo. Será uma ideia completa em breve, e então, ah, cerebração inconsciente! você terá que dar lugar ao seu irmão consciente. Mantenho-me longe do meu amigo por alguns dias, para que possa notar se há alguma mudança. As coisas permanecem como estavam, exceto que ele se livrou de alguns de seus animais de estimação e ganhou um novo. Ele conseguiu pegar um pardal e já o domesticou parcialmente. Seu meio de domar é simples, pois as aranhas já diminuíram. Aquelas que restam, no entanto, estão bem alimentadas, pois ele ainda traz moscas atraindo-as com sua comida.
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19 de julho.—Estamos progredindo. Meu amigo tem agora toda uma colônia de pardais, e suas moscas e aranhas estão quase extintas. Quando entrei, ele correu para mim e disse que queria me pedir um grande favor—um favor muito, muito grande; e, enquanto falava, ele se ajoelhou diante de mim e se comportou como um cão. Perguntei o que era, e ele disse, com uma espécie de êxtase na voz e no comportamento:
"Um gatinho, um lindo gatinho pequeno, macio e brincalhão, com o qual eu possa brincar, e ensinar, e alimentar—e alimentar—e alimentar!" Não estava despreparado para este pedido, pois havia notado como seus animais de estimação iam aumentando em tamanho e vivacidade, mas não queria que sua bela família de pardais domesticados fosse varrida da mesma maneira que as moscas e as aranhas; então disse que veria sobre isso, e perguntei se ele não preferiria um gato a um gatinho. Sua ansiedade traiu-o quando ele respondeu:
"Então eu poderia brincar com ele e ensiná-lo, e alimentá-lo—e alimentá-lo—e alimentá-lo!"
“Ah, sim, eu gostaria de um gato! Só pedi um gatinho porque achei que você não me daria um gato. Ninguém recusaria um gatinho, não é?” Balancei a cabeça e disse que, no momento, temia que não fosse possível, mas que veria sobre isso. Seu rosto caiu, e pude ver um sinal de perigo nele, pois houve um olhar lateral repentino e feroz que significava matar. O homem é um maníaco homicida não desenvolvido. Vou testá-lo com seu desejo atual e ver como isso funcionará; então saberei mais.
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10 horas da noite.—Visitei-o novamente e o encontrei sentado em um canto, pensativo. Quando entrei, ele se jogou aos meus pés e me implorou para lhe dar um gato; que sua salvação dependia disso. Fui firme, no entanto, e disse que ele não poderia ter um, e ele se levantou sem uma palavra e sentou-se, roendo os dedos, no canto onde o havia encontrado. Vou vê-lo de manhã cedo.
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20 de julho.—Visitei Renfield muito cedo, antes que o guarda fizesse suas rondas. Encontrei-o acordado e cantando uma música. Ele estava espalhando seu açúcar, que havia economizado, na janela e, obviamente, estava começando a capturar moscas novamente, e começando de bom grado e com boa vontade. Olhei ao redor por seus pássaros e, não os vendo, perguntei onde estavam. Ele respondeu, sem se virar, que todos haviam voado. Havia algumas penas pelo quarto e, em seu travesseiro, uma gota de sangue. Não disse nada, mas fui e disse ao guarda para me relatar se houvesse algo estranho sobre ele durante o dia.
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11 horas da manhã.—O guarda acabou de me dizer que Renfield teve uma crise e vomitou uma quantidade de penas. "Minha crença é, doutor," ele disse, "que ele comeu seus pássaros, e que ele os comeu crus!"
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11 horas da noite.—Dei a Renfield um opiáceo forte esta noite, o suficiente para fazer até ele dormir, e tirei seu caderno de bolso para olhar. O pensamento que tem zumbido em meu cérebro ultimamente está completo, e a teoria provada. Meu maníaco homicida é de um tipo peculiar. Vou ter que inventar uma nova classificação para ele, e chamá-lo de maníaco zoöfago (comedor de vida); o que ele deseja é absorver o maior número de vidas possível, e ele tem se dedicado a isso de uma maneira cumulativa. Ele deu muitas moscas a uma aranha e muitas aranhas a um pássaro, e então queria um gato para comer os muitos pássaros. Quais seriam seus passos seguintes? Seria quase vale a pena completar o experimento. Poderia ser feito se houvesse apenas uma causa suficiente. Os homens zombam da vivissecção, e ainda olham para seus resultados hoje! Por que não avançar a ciência em seu aspecto mais difícil e vital—o conhecimento do cérebro? Se eu tivesse o segredo de uma mente assim—se eu detivesse a chave da fantasia de um louco—eu poderia avançar meu próprio ramo da ciência a um ponto comparado com o qual a fisiologia de Burdon-Sanderson ou a ciência cerebral de Ferrier seriam como nada. Se apenas houvesse uma causa suficiente! Não devo pensar muito nisso, ou posso ser tentado; uma boa causa poderia mudar a balança comigo, pois pode não eu também ser de um cérebro excepcional, congenitamente?
Como o homem raciocinou; os loucos sempre fazem dentro de seu próprio escopo. Eu me pergunto quantas vidas ele valoriza um homem, ou se apenas uma. Ele fechou a conta com muita precisão, e hoje começou um novo registro. Quantos de nós começam um novo registro com cada dia de nossas vidas?
Para mim, parece que foi ontem que minha vida inteira terminou com minha nova esperança, e que verdadeiramente comecei um novo registro. Então será até que o Grande Registrador some-me e feche meu livro-razão com um saldo a favor ou a perder. Ah, Lucy, Lucy, não posso estar com raiva de você, nem posso estar com raiva do meu amigo cujo felicidade é a sua; mas devo apenas esperar sem esperança e trabalhar. Trabalhar! trabalho!
Se eu apenas pudesse ter uma causa tão forte quanto a do meu pobre amigo ali—uma causa boa, desinteressada—para fazer-me trabalhar! Isso seria, de fato, felicidade.
Diário de Mina Murray.
26 de julho.—Estou ansiosa, e isso me acalma expressar-me aqui; é como sussurrar para si mesmo e ouvir ao mesmo tempo. E há também algo sobre os símbolos taquigráficos que torna isso diferente da escrita. Estou infeliz por Lucy e por Jonathan. Não tive notícias de Jonathan há algum tempo, e estava muito preocupada; mas ontem o querido Sr. Hawkins, que é sempre tão gentil, me enviou uma carta dele. Eu havia escrito perguntando se ele havia ouvido, e ele disse que a carta anexa havia acabado de chegar. Era apenas uma linha, datada do Castelo de Drácula, e dizia que ele estava partindo para casa. Isso não é como Jonathan; eu não entendo isso, e isso me deixa inquieta. Então, também, Lucy, embora esteja tão bem, tem ultimamente voltado ao seu antigo hábito de caminhar dormindo. Sua mãe me falou sobre isso, e nós decidimos que eu devo trancar a porta do nosso quarto todas as noites. A Sra. Westenra tem uma ideia de que sonâmbulos sempre vão para telhados de casas e para beirais de penhascos, e então acordam de repente e caem sobre o lugar com um grito que ecoa por todo o lugar. Pobre querida, ela está naturalmente ansiosa por Lucy, e ela me diz que seu marido, o pai de Lucy, tinha o mesmo hábito; que ele iria se levantar à noite e se vestir e sair, se não fosse parado. Lucy vai se casar no outono, e ela está já planejando seus vestidos e como sua casa será arranjada. Eu simpatizo com ela, pois faço o mesmo, só que Jonathan e eu começaremos a vida de uma maneira muito simples, e teremos que tentar fazer as duas pontas se encontrarem. O Sr. Holmwood—ele é o Hon. Arthur Holmwood, único filho de Lord Godalming—está vindo aqui muito em breve—assim que puder sair da cidade, pois seu pai não está muito bem, e eu acho que a querida Lucy está contando os momentos até ele chegar. Ela quer levá-lo para o banco no cemitério do adro e mostrar-lhe a beleza de Whitby. Acho que é a espera que a perturba; ela ficará bem quando ele chegar.
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27 de julho.—Nenhuma notícia de Jonathan. Estou ficando bastante inquieta sobre ele, embora por que eu deveria, não sei; mas eu me preocupo. Lucy tem caminhado mais do que nunca, e cada noite eu tenho sido acordada por ela movendo-se no quarto. Tenho que trancar a porta todas as noites. A Sra. Westenra diz que os sonâmbulos sempre vão para lugares perigosos, e eu temo que Lucy possa fazer algo assim; ela pode sair da janela do quarto, que está no segundo andar. Ontem à noite o tempo estava muito ameaçador, e os pescadores dizem que teremos uma tempestade. Eu devo tentar e aprender os sinais do tempo. Hoje é um dia cinzento, e o sol, enquanto escrevo, está escondido em nuvens espessas, altas sobre Kettleness. Tudo é cinzento, exceto o verde da grama, que parece esmeralda entre ele; cinzento rochoso; cinzento nuvens, tingidas com o solburst no extremo distante, pairam sobre o cinzento mar, para o qual os pontos de areia se estendem como dedos cinzentos. O mar está agitado e espumoso, e há uma "brool" sobre ele que soa como algum presságio de doom. Escuro figuras estão na praia aqui e ali, às vezes meio encobertas pela névoa, e parecem "homens como árvores caminhando". Os barcos de pesca estão correndo para casa, e sobem e descem na ondulação do mar, que está correndo para o porto, dobrando para os escupes. Aqui vem o velho Sr. Swales. Ele está indo diretamente para mim, e eu posso ver, pela maneira como levanta o chapéu, que ele quer conversar....
Fiquei bastante tocada com a mudança no pobre velho. Quando ele se sentou ao meu lado, ele disse, de uma maneira muito gentil:
"Eu quero dizer algo para você, senhorita." Vi que ele não estava à vontade, então peguei sua pobre mão enrugada na minha e perguntei-lhe para falar plenamente; então ele disse, deixando sua mão na minha:
"Eu quero pedir desculpas, minha querida, por todas as coisas más que tenho dito sobre os mortos, e tais coisas, por semanas passadas; mas eu não as quis dizer, e eu quero que você se lembre disso quando eu estiver partido. Nós, velhos que estamos com um pé além do krok-hooal, não gostamos de pensar nisso, e não queremos sentir medo disso; e isso é por que eu tenho feito de conta, para que eu pudesse alegrar meu próprio coração um pouco. Mas, Senhor, amor, eu não estou com medo de morrer, não um pouco; só que eu não quero morrer, se eu puder ajudar; e eu não quero morrer antes do meu tempo. Meu tempo deve estar perto agora, pois eu sou velho, e eu sou a cem anos é muito para qualquer homem esperar; e eu sou tão perto disso que o Homem Velho está já afiando sua foice. Ye veja, eu posso não cafinar sobre isso todo de uma vez; os chafts vão balançar como eles são usados. Algum dia em breve o Anjo da Morte vai soar sua trombeta para mim. Mas eu não quero ir ainda, e eu não quero ir agora. Eu não sou tão mau depois de tudo, mesmo que eu possa ter sido um pouco mal-humorado às vezes. Eu não quero ir ainda, e eu não quero ir agora. Veja, eu posso não cafinar sobre isso todo de uma vez; os chafts vão balançar como eles são usados. E eu não quero ir ainda, e eu não quero ir agora. Eu não sou tão mau depois de tudo, mesmo que eu possa ter sido um pouco mal-humorado às vezes. Eu não quero ir ainda, e eu não quero ir agora. Veja, eu posso não cafinar sobre isso todo de uma vez; os chafts vão balançar como eles são usados. E eu não quero ir ainda, e eu não quero ir agora. Eu não sou tão mau depois de tudo, mesmo que eu possa ter sido um pouco mal-humorado às vezes. Eu não quero ir ainda, e eu não quero ir agora. Veja, eu posso não cafinar sobre isso todo de uma vez; os chafts vão balançar como eles são usados. E eu não quero ir ainda, e eu não quero ir agora. Eu não sou tão mau depois de tudo, mesmo que eu possa ter sido um pouco mal-humorado às vezes. Eu não quero ir ainda, e eu não quero ir agora."
Ele levantou os braços devotamente e levantou o chapéu. Sua boca se moveu como se estivesse orando. Depois de alguns minutos de silêncio, ele se levantou, apertou minha mão e abençoou-me, e disse adeus, e cambaleou para fora. Ele me comoveu e me deixou muito triste.
Fiquei feliz quando o guarda-costas chegou, com seu binóculo sob o braço. Ele parou para conversar comigo, como sempre faz, mas o tempo todo manteve olhando para um navio estranho.
"Eu não consigo entendê-lo," ele disse; "ele é um russo, pelo aspecto dele; mas ele está se comportando de uma maneira muito estranha. Ele parece não saber sua mente, e ele não se importa com a mão no leme; muda de direção com cada rajada de vento. Estamos indo ter mais problemas com ele antes que este tempo passe."
CAPÍTULO VII
RECORTE DO "THE DAILYGRAPH," 8 DE AGOSTO
(Colado no diário de Mina Murray.)
De um Correspondente.
Whitby.
Uma das maiores e mais súbitas tempestades de que há registro foi experimentada aqui ontem, com resultados tanto estranhos quanto únicos. O tempo havia sido um tanto sultry, mas não a um grau incomum no mês de agosto. Sábado à noite foi tão bom quanto já se conheceu, e a grande massa de excursionistas saiu ontem para visitas a Mulgrave Woods, Robin Hood's Bay, Rig Mill, Runswick, Staithes, e os vários pontos de interesse nas vizinhanças de Whitby. O vapor Emma e Scarborough fez viagens para cima e para baixo da costa, e houve um número incomum de "passeios" tanto para quanto de Whitby. O dia foi excepcionalmente bom até a tarde, quando algumas das pessoas que frequentam o East Cliff churchyard, e de lá olham a ampla extensão de mar visível ao norte e ao leste, chamaram a atenção para uma repentina exibição de "caudas de cavalo" altas no céu para o noroeste. O vento estava então soprando do sudoeste em um grau classificado como "No. 2: brisa leve," e não havia nada para sugerir um furacão iminente. As pessoas que observavam, no entanto, estavam unânimes em afirmar que havia um pressentimento de tempestade no ar. De qualquer forma, os marinheiros apressaram-se em trazer seus barcos para o porto, e os mais velhos previram em uma maneira enfática a vinda de uma tempestade. Dentro de uma hora as marés de vento começaram a soprar do noroeste, e a velocidade aumentou tão rapidamente que antes da hora do pôr do sol estavam correndo a uma velocidade de trinta milhas por hora. A direção também mudou para o norte e depois para o nordeste. A maré estava na enchente, e logo após o pôr do sol, que foi às 7h12, hora local, e foi marcado por uma opulência de nuvens de todas as cores do pôr do sol, a escuridão caiu sobre a terra. Às 8h30 a tempestade estava em sua fúria, e tão repentina foi sua vinda que centenas de pessoas que haviam saído para passear no verão foram surpreendidas pelas rajadas furiosas e obrigadas a lutar contra o vento e a chuva para chegar a casa. A chuva caiu em torrentes, e logo as ruas estavam quase inundadas com a água que corria das colinas.
A violência da tempestade foi tão grande que enormes ramos foram arrancados das árvores, e até mesmo árvores inteiras, com as raízes, foram derrubadas. Um velho carvalho no East Cliff, uma das glórias do lugar, foi completamente arrancado. A fúria do vento foi tão grande que, de acordo com a expressão de um velho marinheiro, "parecia que o próprio Diabo estava solto." Pitoresco como foi para os visitantes ver a fúria da tempestade, foi para os habitantes do lugar, e especialmente para os marinheiros, uma noite de ansiedade e medo. Nunca em toda a longa história do lugar, que se estende para trás até o tempo em que os dinamarqueses, quando eles vieram como invasores, fizeram um assentamento e encontraram um cemitério aqui, cuja data se perde na noite dos tempos—nunca, diziam os velhos, uma tempestade tão violenta havia sido conhecida.
No meio da fúria, quando foi quase impossível ver a mão diante do rosto, e quando até mesmo a poderosa luz do farol do East Pier não podia ser vista a nenhuma distância, veio um som repentino e terrível do mar. Era agora quase a hora da maré alta, e uma imensa onda, maior do que qualquer um havia visto antes, levantou-se e, rugindo, correu em direção ao porto. A distância entre as duas pontas do porto é de cerca de 800 jardas, e a altura do East Pier é de 60 pés acima do nível do mar, mas a onda varreu o espaço com uma fúria indescritível, e uma altura que os espectadores, que estavam em um lugar seguro, estimaram em mais de 200 pés. Foi uma sorte que, com a exceção de alguns aventureiros, a maioria dos quais mais tarde se refugiou no farol, o pier e o passeio estavam desertos, ou uma terrível perda de vidas poderia ter ocorrido.
Como foi, no entanto, a onda varreu o farol, que fica no final do pier, e o faroleiro teve que se refugiar no farol e lá permanecer até que a fúria da tempestade tivesse passado. Antes que ele pudesse sair, no entanto, ele viu uma visão que o encheu de terror. Entre as pontas dos piers, correndo para o porto, veio uma grande nave, aparentemente sem ninguém a bordo, e correndo antes do vento a uma velocidade que ele estimou em não menos que quinze nós. Em um instante, a pobre nave foi levantada por uma onda enorme e lançada contra as rochas com uma força que a quebrou em mil pedaços. Parte dos destroços foi varrida pelo vento até o pier, e o faroleiro, com muito perigo, conseguiu salvar o único sobrevivente, que se revelou um grande cão, um mastim de raça mista, que ele levou para o farol.
Mais tarde na noite, cerca de meia-noite, quando a tempestade ainda rugia com fúria indescritível, veio um som repentino e terrível do mar. Era agora quase a hora da maré baixa, e uma imensa onda, maior do que qualquer um havia visto antes, levantou-se e, rugindo, correu em direção ao porto. A distância entre as duas pontas do porto é de cerca de 800 jardas, e a altura do East Pier é de 60 pés acima do nível do mar, mas a onda varreu o espaço com uma fúria indescritível, e uma altura que os espectadores, que estavam em um lugar seguro, estimaram em mais de 200 pés. Foi uma sorte que, com a exceção de alguns aventureiros, a maioria dos quais mais tarde se refugiou no farol, o pier e o passeio estavam desertos, ou uma terrível perda de vidas poderia ter ocorrido.
Como foi, no entanto, a onda varreu o farol, que fica no final do pier, e o faroleiro teve que se refugiar no farol e lá permanecer até que a fúria da tempestade tivesse passado. Antes que ele pudesse sair, no entanto, ele viu uma visão que o encheu de terror. Entre as pontas dos piers, correndo para o porto, veio uma grande nave, aparentemente sem ninguém a bordo, e correndo antes do vento a uma velocidade que ele estimou em não menos que quinze nós. Em um instante, a pobre nave foi levantada por uma onda enorme e lançada contra as rochas com uma força que a quebrou em mil pedaços. Parte dos destroços foi varrida pelo vento até o pier, e o faroleiro, com muito perigo, conseguiu salvar o único sobrevivente, que se revelou um grande cão, um mastim de raça mista, que ele levou para o farol.
A tempestade continuou durante toda a noite, e o faroleiro, que sabia que sua própria vida estava em perigo, temeu que ele fosse o único a saber da destruição que havia sido causada. Felizmente, no entanto, o vento começou a diminuir, e às 3h30 da manhã a tempestade havia passado. O faroleiro foi capaz de sair, e, para sua alegria, encontrou um grupo de pessoas que haviam vindo para ver o que havia acontecido. Eles foram capazes de confirmar sua história, e, quando a manhã chegou, a notícia da destruição que havia sido causada se espalhou rapidamente por toda a cidade.
A nave que havia sido destruída foi identificada como sendo a Demeter, um navio russo que havia saído de Varna, na Bulgária, com um carregamento de terra e caixas de moldura. O navio havia sido visto no canal da Mancha, e havia sido relatado como navegando de forma estranha, como se a tripulação tivesse perdido o controle. Agora, no entanto, estava claro que o navio havia sido abandonado, e que a única pessoa a bordo havia sido o cão que o faroleiro havia salvo.
A história da Demeter e de sua tripulação perdida logo se espalhou por toda a Inglaterra, e as pessoas começaram a especular sobre o que poderia ter acontecido. Alguns diziam que o navio havia sido amaldiçoado, enquanto outros acreditavam que a tripulação havia sido vítima de algum tipo de monstro marinho. Seja qual for a verdade, a história da Demeter permanece como um dos mistérios mais intrigantes da história marítima.
4 de agosto.—Ainda neblina, que o nascer do sol não consegue penetrar. Sei que há nascer do sol porque sou um marinheiro, por que mais não sei. Não ousei ir abaixo, não ousei deixar o leme; então, aqui, fiquei a noite toda, e na penumbra da noite, eu o vi—a Ele! Deus me perdoe, mas o imediato estava certo em se jogar ao mar. Era melhor morrer como um homem; morrer como um marinheiro em águas azuis, ninguém pode objetar. Mas eu sou o capitão, e não devo deixar meu navio. Mas vou enganar este demônio ou monstro, pois vou amarrar minhas mãos ao leme quando minha força começar a falhar, e junto com elas, vou amarrar o que Ele—Isso!—não ousa tocar; e então, com bom vento ou mau, salvarei minha alma e minha honra como capitão. Estou ficando mais fraco, e a noite está chegando. Se Ele puder me olhar nos olhos novamente, pode não haver tempo para agir.... Se formos naufragados, talvez esta garrafa seja encontrada, e aqueles que a encontrarem possam entender; se não, ... bem, então todos saberão que fui fiel ao meu dever. Deus e a Virgem Abençoada e os santos ajudem um pobre ignorante tentando fazer seu dever....
* * * * *
Claro, o veredito foi aberto. Não há evidências a apresentar; e se o próprio homem cometeu os assassinatos, agora não há quem diga. As pessoas aqui acreditam quase universalmente que o capitão é simplesmente um herói, e ele terá um funeral público. Já está arranjado que seu corpo será levado com um comboio de barcos pelo Esk por um trecho e depois trazido de volta ao Cais de Tate Hill e pelas escadas da abadia; pois ele será enterrado no cemitério no penhasco. Os donos de mais de cem barcos já deram seus nomes como desejando segui-lo até o túmulo.
Nunca foi encontrado nenhum rastro do grande cão; o que causa muita tristeza, pois, com a opinião pública em seu estado atual, ele, acredito, seria adotado pela cidade. Amanhã verá o funeral; e assim terminará este mais um "mistério do mar."
Diário de Mina Murray.
8 de agosto.—Lucy estava muito inquieta a noite toda, e eu também não consegui dormir. A tempestade foi terrível, e enquanto rugia alto entre as chaminés, me fez tremer. Quando uma rajada forte vinha, parecia ser como um canhão distante. Estranhamente, Lucy não acordou; mas ela se levantou duas vezes e se vestiu. Felizmente, cada vez eu acordei a tempo e consegui desvesti-la sem acordá-la, e a coloquei de volta na cama. É uma coisa muito estranha, este sonambulismo, pois assim que sua vontade é frustrada de qualquer maneira física, sua intenção, se houver alguma, desaparece, e ela se rende quase exatamente à rotina de sua vida.
Cedo de manhã, ambas nos levantamos e fomos até o porto para ver se algo havia acontecido durante a noite. Havia muito poucas pessoas por perto, e embora o sol estivesse brilhante, e o ar claro e fresco, as grandes ondas sombrias, que pareciam escuras por si mesmas porque a espuma que as cobria era como neve, se forçavam através da estreita boca do porto—como um homem bullying passando por uma multidão. De alguma forma, senti-me feliz que Jonathan não estivesse no mar na noite passada, mas em terra. Mas, ah, ele está em terra ou no mar? Onde ele está, e como? Estou ficando terrivelmente ansiosa por ele. Se eu apenas soubesse o que fazer, e pudesse fazer algo!
* * * * *
10 de agosto.—O funeral do pobre capitão do mar hoje foi muito comovente. Todo barco no porto parecia estar lá, e o caixão foi carregado por capitães o caminho todo do Cais de Tate Hill até o cemitério. Lucy veio comigo, e fomos cedo para nosso antigo banco, enquanto o cortejo de barcos subia o rio até a Ponte do Viaduto e voltava. Tínhamos uma vista encantadora, e vimos o cortejo quase todo o caminho. O pobre homem foi enterrado bem perto do nosso banco, então ficamos nele quando a hora chegou e vimos tudo. Pobre Lucy parecia muito chateada. Ela estava inquieta e ansiosa o tempo todo, e não posso deixar de pensar que seus sonhos durante a noite estão afetando-a. Ela é bastante estranha em uma coisa: ela não admite para mim que há alguma causa para inquietação; ou se houver, ela mesma não entende. Há uma causa adicional no fato de que o pobre velho Sr. Swales foi encontrado morto esta manhã no nosso banco, seu pescoço estava quebrado. Ele evidentemente, como o médico disse, caiu para trás no banco em algum tipo de medo, pois havia uma expressão de medo e horror em seu rosto que os homens disseram que os fez tremer. Pobre querido velho! Talvez ele tenha visto a Morte com seus olhos moribundos! Lucy é tão doce e sensível que ela sente influências mais agudamente do que outras pessoas. Agora mesmo, ela ficou bastante chateada com uma pequena coisa que eu não dei muita importância, embora eu mesma seja muito apegada a animais. Um dos homens que vem aqui frequentemente para olhar pelos barcos foi seguido por seu cão. O cão está sempre com ele. Eles são ambos pessoas quietas, e nunca vi o homem bravo, nem ouvi o cão latir. Durante o serviço, o cão não foi até seu dono, que estava no banco conosco, mas ficou a alguns metros de distância, latindo e uivando. Seu dono falou com ele gentilmente, e depois com raiva, e depois com raiva; mas ele nem veio nem parou de fazer barulho. Ele estava em uma espécie de fúria, com seus olhos selvagens, e todos os seus pelos arrepiados como a cauda de um gato quando puss está na guerra. Finalmente, o homem, também, ficou bravo, e pulou e chutou o cão, e depois o pegou pela pele do pescoço e meio arrastou e meio jogou no túmulo onde o banco está fixo. No momento em que tocou a pedra, o pobre animal ficou quieto e caiu em um tremor. Ele não tentou fugir, mas se encolheu, tremendo e encolhido, e estava em um estado tão lastimável de terror que tentei, embora sem efeito, confortá-lo. Lucy estava cheia de pena, também, mas ela não tentou tocar o cão, mas olhou para ele de uma maneira agonizante. Temo muito que ela seja de uma natureza muito supersensível para passar pela vida sem problemas. Ela vai sonhar com isso esta noite, tenho certeza. Toda a aglomeração de coisas—o navio dirigido para o porto por um homem morto; sua atitude, amarrado ao leme com um crucifixo e contas; o funeral comovente; o cão, agora furioso e agora em terror—tudo isso fornecerá material para seus sonhos.
Acho que será melhor para ela ir para a cama cansada fisicamente, então vou levá-la para uma longa caminhada pelos penhascos até Robin Hood's Bay e de volta. Ela não deve ter muita inclinação para sonambulismo então.
CAPÍTULO VIII
DIÁRIO DE MINA MURRAY
Mesmo dia, 11 horas da noite.—Ah, mas estou cansada! Se não fosse por ter feito do meu diário um dever, eu não o abriria esta noite. Tivemos uma caminhada encantadora. Lucy, depois de um tempo, estava em spirits alegres, devido, acho, a algumas vacas queridas que vieram nos cheirar em um campo perto do farol, e nos assustaram os miolos. Acho que esquecemos tudo, exceto, é claro, o medo pessoal, e isso parecia limpar a lousa e nos dar um novo começo. Tivemos um "jantar severo" em Robin Hood's Bay em uma pequena estalagem antiga e charmosa, com uma janela em bow sobre as rochas cobertas de algas do strand. Acho que chocaríamos a "Nova Mulher" com nossos apetites. Os homens são mais tolerantes, benditos sejam! Então caminhamos de volta com algumas, ou melhor, muitas, paradas para descansar, e com nossos corações cheios de um medo constante de touros selvagens. Lucy estava realmente cansada, e pretendíamos nos esgueirar para a cama assim que pudéssemos. O jovem cura veio, no entanto, e a Sra. Westenra pediu-lhe que ficasse para o jantar. Lucy e eu tivemos ambas uma briga por isso com o moleiro empoeirado; sei que foi uma briga dura da minha parte, e sou bastante heroica. Acho que algum dia os bispos devem se reunir e ver sobre a criação de uma nova classe de curas, que não tomam jantar, não importa o quanto possam ser pressionados a isso, e que saberão quando as meninas estão cansadas. Lucy está dormindo e respirando suavemente. Ela tem mais cor nas bochechas do que o habitual, e parece, ah, tão doce. Se o Sr. Holmwood se apaixonou por ela vendo-a apenas na sala de estar, eu me pergunto o que ele diria se a visse agora. Alguns dos escritores da "Nova Mulher" vão, algum dia, iniciar a ideia de que homens e mulheres devem ser permitidos a se verem dormindo antes de propor ou aceitar. Mas suponho que a Nova Mulher não se condescenderá no futuro a aceitar; ela fará a proposta ela mesma. E um belo trabalho ela fará disso, também! Há alguma consolação nisso. Estou tão feliz esta noite, porque a querida Lucy parece melhor. Realmente acredito que ela virou a esquina, e que estamos passando por seus problemas com sonhos. Devo estar bastante feliz se eu apenas soubesse se Jonathan.... Deus o abençoe e guarde.
* * * * *
11 de agosto, 3 horas da manhã.—Diário novamente. Sem sono agora, então posso escrever. Estou muito agitada para dormir. Tivemos uma aventura, uma experiência agonizante. Adormeci assim que fechei meu diário.... De repente, acordei completamente, e me sentei, com uma sensação horrível de medo sobre mim, e de alguma sensação de vazio ao meu redor. O quarto estava escuro, então não pude ver a cama de Lucy; deslizei e senti por ela. A cama estava vazia. Acendi um fósforo e descobri que ela não estava no quarto. A porta estava fechada, mas não trancada, como eu a havia deixado. Temi acordar sua mãe, que tem estado mais do que geralmente doente ultimamente, então coloquei algumas roupas e me preparei para procurá-la. Enquanto estava saindo do quarto, ocorreu-me que as roupas que ela usava poderiam me dar alguma pista de sua intenção sonâmbula. Camisola significaria casa; vestido, fora. Camisola e vestido estavam ambos em seus lugares. "Graças a Deus," eu disse para mim mesma, "ela não pode estar longe, pois está apenas em sua camisola." Desci as escadas e procurei na sala de estar. Não lá! Então procurei em todos os outros quartos abertos da casa, com um medo cada vez maior gelando meu coração. Finalmente, cheguei à porta da frente e a encontrei aberta. Não estava completamente aberta, mas o trinco da fechadura não havia pego. As pessoas da casa são cuidadosas para trancar a porta todas as noites, então temi que Lucy devesse ter saído como estava. Não havia tempo para pensar no que poderia acontecer; um medo vago e avassalador obscureceu todos os detalhes. Peguei um xale grande e pesado e saí. O relógio estava batendo uma hora quando estava no Crescent, e não havia uma alma à vista. Corri ao longo do North Terrace, mas não vi sinal da figura branca que esperava. Na borda do West Cliff, acima do pier, olhei através do porto para o East Cliff, na esperança ou medo—não sei qual—de ver Lucy em nosso banco favorito. Havia uma lua cheia e brilhante, com nuvens pesadas e escuras, soprando, que jogavam toda a cena em um diorama de luz e sombra enquanto navegavam. Por um momento ou dois, não pude ver nada, pois a sombra de uma nuvem obscureceu a Igreja de Santa Maria e tudo ao redor. Então, quando a nuvem passou, pude ver as ruínas da abadia vindo à vista; e quando a borda de uma banda estreita de luz, tão afiada quanto uma espada, moveu-se ao longo, a igreja e o cemitério tornaram-se gradualmente visíveis. Qualquer que fosse minha expectativa, ela não foi desapontada, pois lá, em nosso banco favorito, a luz prateada da lua atingiu uma figura meio reclinada, branca como a neve. A vinda da nuvem foi muito rápida para mim ver muito, pois a sombra desceu sobre a luz quase imediatamente; mas me pareceu que algo escuro estava atrás do banco onde a figura branca brilhava, e se curvava sobre ela. O que era, se homem ou besta, não pude dizer; não esperei para pegar outro vislumbre, mas desci as escadas íngremes para o pier e ao longo do mercado de peixe para a ponte, que era o único caminho para alcançar o East Cliff. A cidade parecia morta, pois não vi uma alma; rejubilei-me que fosse assim, pois queria que ninguém fosse testemunha da condição de Lucy. O tempo e a distância pareciam intermináveis, e meus joelhos tremiam e minha respiração vinha ofegante enquanto eu subia as escadas intermináveis para a abadia. Devo ter ido rápido, e ainda assim me parecia que meus pés estavam pesando como chumbo, e que cada junta do meu corpo estava enferrujada. Quando cheguei quase ao topo, pude ver o banco e a figura branca, pois agora estava perto o suficiente para distingui-la mesmo através dos feitiços de sombra. Havia, sem dúvida, algo, longo e preto, curvando-se sobre a figura meio reclinada. Gritei com medo, "Lucy! Lucy!" e algo levantou a cabeça, e de onde eu estava, pude ver um rosto branco e olhos vermelhos e brilhantes. Lucy não respondeu, e corri para a entrada do cemitério. Quando entrei, a igreja estava entre mim e o banco, e por um minuto ou dois perdi de vista. Quando voltei a vê-la, a nuvem havia passado, e a luz da lua brilhava tão brilhantemente que pude ver Lucy meio reclinada com a cabeça apoiada no encosto do banco. Ela estava completamente sozinha, e não havia sinal de qualquer coisa viva por perto.
Quando me inclinei sobre ela, pude ver que ela ainda estava dormindo. Seus lábios estavam separados, e ela estava respirando—não suavemente como de costume com ela, mas em longos e pesados suspiros, como se estivesse tentando encher os pulmões a cada respiração. Enquanto eu me aproximava, ela colocou a mão em seu sono e puxou o colar de sua camisola perto de sua garganta. Enquanto ela fazia isso, houve um pequeno arrepio através dela, como se sentisse o frio. Joguei o xale quente sobre ela e apertei as bordas ao redor de seu pescoço, pois temia que ela pegasse algum resfriado mortal do ar noturno, nua como estava. Temia acordá-la de uma vez, então, para ter minhas mãos livres para que pudesse ajudá-la, prendi o xale em seu pescoço com um grande alfinete de segurança; mas devo ter sido desajeitada em minha ansiedade e a pinçado ou perfurado com ele, pois, mais tarde, quando sua respiração se tornou mais tranquila, ela colocou a mão em sua garganta novamente e gemeu. Quando a envolvi cuidadosamente, coloquei meus sapatos em seus pés e então comecei a acordá-la muito gentilmente. No início, ela não respondeu; mas gradualmente ela ficou mais inquieta em seu sono, gemendo e suspirando ocasionalmente. Finalmente, como o tempo estava passando rápido, e, por muitas outras razões, eu queria levá-la para casa imediatamente, a sacudi mais vigorosamente, até que finalmente ela abriu os olhos e acordou. Ela não parecia surpresa ao me ver, pois, é claro, ela não percebeu de uma vez onde estava. Lucy sempre acorda lindamente, e mesmo em tal momento, quando seu corpo deve ter sido resfriado com o frio, e sua mente de alguma forma abalada por acordar desvestida em um cemitério à noite, ela não perdeu sua graça. Ela tremeu um pouco e se agarrou a mim; quando eu lhe disse para vir comigo para casa, ela se levantou sem uma palavra, com a obediência de uma criança. Enquanto passávamos, o cascalho machucou meus pés, e Lucy me viu estremecer. Ela parou e quis insistir para que eu pegasse meus sapatos; mas eu não quis. No entanto, quando chegamos ao caminho fora do cemitério, onde havia uma poça de água, restante da tempestade, eu sujava meus pés com lama, usando cada pé por vez no outro, para que, enquanto íamos para casa, ninguém, em caso de encontrarmos alguém, notasse meus pés descalços.
A sorte nos favoreceu, e chegamos em casa sem encontrar uma alma. Uma vez vimos um homem, que parecia não estar completamente sóbrio, passando por uma rua na nossa frente; mas nos escondemos em uma porta até que ele tivesse desaparecido em uma abertura como há aqui, becos íngremes, ou "wynds", como eles os chamam na Escócia. Meu coração batia tão alto o tempo todo que às vezes pensei que desmaiaria. Estava cheia de ansiedade por Lucy, não apenas por sua saúde, para que ela não sofresse com a exposição, mas por sua reputação em caso de a história se espalhar. Quando chegamos, e havíamos lavado nossos pés, e havíamos dito uma oração de agradecimento juntas, a coloquei na cama. Antes de adormecer, ela me pediu—implorou—que não dissesse uma palavra a ninguém, nem mesmo a sua mãe, sobre sua aventura sonâmbula. Hesitei em prometer inicialmente; mas ao pensar no estado de saúde de sua mãe, e como o conhecimento de tal coisa a afligiria, e pensando, também, em como tal história poderia se distorcer—não, infalivelmente se distorceria—em caso de vazar, achei mais sábio fazê-lo. Espero ter feito o certo. Tranquei a porta e amarrei a chave no meu pulso, então talvez não seja novamente perturbada. Lucy está dormindo profundamente; o reflexo da aurora está alto e longe sobre o mar....
* * * * *
Mesmo dia, meio-dia.—Tudo vai bem. Lucy dormiu até eu acordá-la e parecia não ter mudado de lado. A aventura da noite não parece tê-la prejudicado; pelo contrário, beneficiou-a, pois ela parece melhor esta manhã do que tem estado há semanas. Lamentei notar que minha desajeitade com o alfinete de segurança a machucou. Na verdade, poderia ter sido sério, pois a pele de sua garganta foi perfurada. Devo ter pinçado um pedaço de pele solta e a transfixado, pois há dois pequenos pontos vermelhos como picadas de alfinete, e na banda de sua camisola havia uma gota de sangue. Quando me desculpei e fiquei preocupada com isso, ela riu e me acariciou, e disse que nem sentiu. Felizmente, não pode deixar uma cicatriz, pois é tão pequeno.
* * * * *
Mesmo dia, noite.—Passamos um dia feliz. O ar estava claro, e o sol brilhante, e havia uma brisa fresca. Levamos nosso almoço para Mulgrave Woods, a Sra. Westenra dirigindo pela estrada e Lucy e eu caminhando pelo caminho do penhasco e nos encontrando com ela no portão. Senti-me um pouco triste, pois não pude deixar de sentir o quão absolutamente feliz teria sido se Jonathan estivesse comigo. Mas lá! Devo ser paciente. À noite, passeamos no Cassino Terrace, e ouvimos alguma boa música de Spohr e Mackenzie, e fomos para a cama cedo. Lucy parece mais descansada do que tem estado há algum tempo, e adormeceu imediatamente. Vou trancar a porta e prender a chave da mesma forma que antes, embora não espere nenhum problema esta noite.
* * * * *
Mesmo dia, 11 horas da noite.—Oh, mas estou cansada! Se não fosse por ter feito do meu diário um dever, eu não o abriria esta noite. Tivemos uma caminhada encantadora. Lucy, depois de um tempo, estava em spirits alegres, devido, acho, a algumas vacas queridas que vieram nos cheirar em um campo perto do farol, e nos assustaram os miolos. Acho que esquecemos tudo, exceto, é claro, o medo pessoal, e isso parecia limpar a lousa e nos dar um novo começo. Tivemos um "jantar severo" em Robin Hood's Bay em uma pequena estalagem antiga e charmosa, com uma janela em bow sobre as rochas cobertas de algas do strand. Acho que chocaríamos a "Nova Mulher" com nossos apetites. Os homens são mais tolerantes, benditos sejam! Então caminhamos de volta com algumas, ou melhor, muitas, paradas para descansar, e com nossos corações cheios de um medo constante de touros selvagens. Lucy estava realmente cansada, e pretendíamos nos esgueirar para a cama assim que pudéssemos. O jovem cura veio, no entanto, e a Sra. Westenra pediu-lhe que ficasse para o jantar. Lucy e eu tivemos ambas uma briga por isso com o moleiro empoeirado; sei que foi uma briga dura da minha parte, e sou bastante heroica. Acho que algum dia os bispos devem se reunir e ver sobre a criação de uma nova classe de curas, que não tomam jantar, não importa o quanto possam ser pressionados a isso, e que saberão quando as meninas estão cansadas. Lucy está dormindo e respirando suavemente. Ela tem mais cor nas bochechas do que o habitual, e parece, ah, tão doce. Se o Sr. Holmwood se apaixonou por ela vendo-a apenas na sala de estar, eu me pergunto o que ele diria se a visse agora. Alguns dos escritores da "Nova Mulher" vão, algum dia, iniciar a ideia de que homens e mulheres devem ser permitidos a se verem dormindo antes de propor ou aceitar. Mas suponho que a Nova Mulher não se condescenderá no futuro a aceitar; ela fará a proposta ela mesma. E um belo trabalho ela fará disso, também! Há alguma consolação nisso. Estou tão feliz esta noite, porque a querida Lucy parece melhor. Realmente acredito que ela virou a esquina, e que estamos passando por seus problemas com sonhos. Devo estar bastante feliz se eu apenas soubesse se Jonathan.... Deus o abençoe e guarde.
12 de agosto. — Minhas expectativas estavam erradas, pois, duas vezes durante a noite, fui acordado por Lucy tentando sair. Ela parecia, mesmo dormindo, um pouco impaciente por encontrar a porta trancada e voltou para a cama sob uma espécie de protesto. Acordei com o amanhecer e ouvi os pássaros cantando do lado de fora da janela. Lucy também acordou e, para minha alegria, estava ainda melhor do que na manhã anterior. Toda a sua antiga alegria de espírito parecia ter voltado, e ela se aninhou ao meu lado e me contou tudo sobre Arthur. Contei-lhe o quanto estava ansiosa por Jonathan, e então ela tentou me consolar. Bem, ela conseguiu um pouco, pois, embora a simpatia não possa alterar os fatos, pode ajudar a torná-los mais suportáveis.
* * * * *
13 de agosto. — Outro dia tranquilo, e para a cama com a chave no meu pulso como antes. Novamente acordei à noite e encontrei Lucy sentada na cama, ainda dormindo, apontando para a janela. Levantei-me quietamente, puxei a cortina e olhei para fora. Era uma luz da lua brilhante, e o efeito suave da luz sobre o mar e o céu — fundidos num grande e silencioso mistério — era belo além das palavras. Entre mim e a luz da lua, passou um grande morcego, indo e vindo em grandes círculos. Uma ou duas vezes, ele chegou bem perto, mas, suponho, assustou-se ao me ver e voou para longe, através do porto, em direção à abadia. Quando voltei da janela, Lucy havia se deitado novamente e estava dormindo pacificamente. Ela não se mexeu mais durante toda a noite.
* * * * *
14 de agosto. — No East Cliff, lendo e escrevendo o dia todo. Lucy parece ter se apaixonado pelo local tanto quanto eu, e é difícil tirá-la de lá quando é hora de voltar para o almoço, chá ou jantar. Esta tarde, ela fez um comentário engraçado. Estávamos voltando para o jantar e havíamos chegado ao topo das escadas que sobem do West Pier e paramos para olhar a vista, como geralmente fazemos. O sol poente, baixo no céu, estava justamente se pondo atrás de Kettleness; a luz vermelha foi lançada sobre o East Cliff e a antiga abadia, e parecia banhar tudo num belo brilho rosado. Ficamos em silêncio por um tempo, e, de repente, Lucy murmurou, como se para si mesma:
— Seus olhos vermelhos de novo! Eles são exatamente iguais. Foi uma expressão tão estranha, que veio a propósito de nada, que me assustou completamente. Virei-me um pouco, para ver Lucy bem sem parecer estar olhando para ela, e vi que ela estava num estado meio sonhador, com um olhar estranho no rosto que não consegui entender; então, não disse nada, mas segui seus olhos. Ela parecia estar olhando para o nosso próprio banco, onde havia uma figura escura sentada sozinha. Fiquei um pouco assustado, pois pareceu, por um instante, que o estranho tinha grandes olhos como chamas ardentes; mas um segundo olhar dissipou a ilusão. A luz vermelha do sol estava brilhando nas janelas da Igreja de Santa Maria, atrás do nosso banco, e, quando o sol mergulhou, houve apenas uma mudança suficiente na refração e na reflexão para fazer parecer que a luz se movia. Chamei a atenção de Lucy para o efeito peculiar, e ela voltou a si com um susto, mas parecia triste mesmo assim; pode ter sido que estivesse pensando naquela noite terrível lá em cima. Nunca falamos sobre isso; então, não disse nada, e fomos para casa jantar. Lucy tinha dor de cabeça e foi cedo para a cama. Vi que ela estava dormindo e saí para um pequeno passeio; caminhei ao longo dos penhascos para o oeste e estava cheio de doce tristeza, pois estava pensando em Jonathan. Quando voltei — era então uma luz da lua brilhante, tão brilhante que, embora a frente da nossa parte do Crescent estivesse na sombra, tudo podia ser bem visto — lancei um olhar para a nossa janela e vi a cabeça de Lucy inclinada para fora. Pensei que talvez ela estivesse me procurando, então, abri meu lenço e acenei. Ela não notou nem fez qualquer movimento. Justamente então, a luz da lua contornou um ângulo do edifício, e a luz caiu na janela. Lá estava Lucy, com a cabeça apoiada no peitoril da janela e os olhos fechados. Ela estava dormindo profundamente, e, ao lado dela, sentado no peitoril da janela, estava algo que parecia um grande pássaro. Fiquei com medo de que ela pegasse um resfriado, então, subi correndo, mas, quando entrei no quarto, ela estava voltando para a cama, dormindo profundamente e respirando pesadamente; ela estava segurando a mão no pescoço, como se para protegê-lo do frio.
Não a acordei, mas a cobri bem; tomei cuidado para que a porta estivesse trancada e a janela bem fechada.
Ela parece tão doce enquanto dorme; mas está mais pálida do que de costume e há um olhar abatido sob seus olhos que não gosto. Temo que ela esteja se preocupando com algo. Gostaria de descobrir o que é.
* * * * *
15 de agosto. — Acordei mais tarde do que de costume. Lucy estava cansada e letárgica e dormiu depois que fomos chamadas. Tivemos uma feliz surpresa no café da manhã. O pai de Arthur está melhor e quer que o casamento aconteça em breve. Lucy está cheia de alegria quieta, e sua mãe está feliz e triste ao mesmo tempo. Mais tarde, no dia, ela me contou a causa. Ela está triste por perder Lucy como sua própria, mas está feliz que ela logo terá alguém para protegê-la. Pobre e querida senhora! Ela me confidenciou que tem sua sentença de morte. Ela não contou a Lucy e me fez prometer segredo; seu médico lhe disse que, dentro de alguns meses, no máximo, ela deve morrer, pois seu coração está enfraquecendo. A qualquer momento, mesmo agora, um choque repentino seria quase certo de matá-la. Ah, fomos sábias em não contar a ela o caso da noite terrível do sono de Lucy.
* * * * *
17 de agosto. — Nenhum diário por dois dias inteiros. Não tive coragem de escrever. Alguma espécie de pálio sombrio parece estar vindo sobre a nossa felicidade. Nenhuma notícia de Jonathan, e Lucy parece estar ficando mais fraca, enquanto as horas de sua mãe estão se aproximando do fim. Não entendo por que Lucy está definhando como está. Ela come bem e dorme bem e aproveita o ar fresco; mas, o tempo todo, as rosas em suas bochechas estão desaparecendo, e ela fica mais fraca e mais letárgica a cada dia; à noite, ouço-a ofegando como se estivesse com falta de ar. Mantenho a chave da nossa porta sempre presa ao meu pulso à noite, mas ela se levanta e caminha pelo quarto e senta na janela aberta. Na noite passada, encontrei-a inclinada para fora quando acordei e, quando tentei acordá-la, não consegui; ela estava em um desmaio. Quando consegui restaurá-la, ela estava tão fraca quanto a água e chorou silenciosamente entre longos e dolorosos esforços para respirar. Quando perguntei como ela foi parar na janela, ela sacudiu a cabeça e se afastou. Confio que seu sentimento de doença não seja por causa daquele infeliz beliscão do alfinete de segurança. Olhei para o pescoço dela agora enquanto ela dormia, e os pequenos ferimentos parecem não ter cicatrizado. Eles ainda estão abertos e, se possível, maiores do que antes, e as bordas deles estão levemente brancas. Eles são como pequenos pontos brancos com centros vermelhos. A menos que cicatrizem dentro de um dia ou dois, insistirei que o médico veja sobre eles.
_Carta, Samuel F. Billington & Filho, Advogados, Whitby, para Carter, Paterson & Co., Londres._
“17 de agosto.
“Prezados Senhores,
“Aqui, por favor, recebam a fatura de mercadorias enviadas pela Great Northern Railway. As mesmas devem ser entregues em Carfax, perto de Purfleet, imediatamente após a chegada à estação de King’s Cross. A casa está atualmente vazia, mas, por favor, encontrem as chaves, todas etiquetadas.
“Vocês devem depositar as caixas, cinquenta no total, que formam a remessa, no edifício parcialmente arruinado que faz parte da casa e marcado ‘A’ no esboço aproximado em anexo. Seu agente reconhecerá facilmente o local, pois é a antiga capela da mansão. As mercadorias saem pelo trem das 21h00 de hoje e chegarão a King’s Cross às 16h30 de amanhã. Como nosso cliente deseja a entrega o mais rápido possível, agradeceremos se tiverem equipes prontas em King’s Cross no horário indicado e, imediatamente, transportarem as mercadorias para o destino. A fim de evitar quaisquer atrasos possíveis devido a quaisquer requisitos de rotina quanto ao pagamento em seus departamentos, anexamos cheque de dez libras (£10), recibo do qual, por favor, acusem. Caso a cobrança seja menor do que este valor, poderão devolver o saldo; se for maior, enviaremos cheque pela diferença assim que soubermos de vocês. Devem deixar as chaves ao sair no saguão principal da casa, onde o proprietário poderá pegá-las ao entrar na casa por meio de sua chave duplicada.
“Pedimos que não nos considerem como excedendo os limites da cortesia comercial ao insistirmos em todos os aspectos para que usem a máxima expedição.
_“Atenciosamente,
“SAMUEL F. BILLINGTON & FILHO.”_
_Carta, Carter, Paterson & Co., Londres, para Billington & Filho, Whitby._
“21 de agosto.
“Prezados Senhores,
“Agradecemos o recebimento de £10 e devolvemos cheque de £1 17s. 9d, valor do excesso, conforme demonstrado na conta recebida em anexo. Mercadorias são entregues em conformidade com as instruções, e chaves deixadas em pacote no saguão principal, conforme orientado.
“Atenciosamente,
“Pro CARTER, PATERSON & CO.”
Diário de Mina Murray.
18 de agosto. — Estou feliz hoje e escrevo sentada no banco no cemitério. Lucy está muito melhor. Na noite passada, ela dormiu bem a noite toda e não me perturbou uma vez. As rosas parecem estar voltando para suas bochechas, embora ela ainda esteja terrivelmente pálida e com um aspecto abatido. Se ela estivesse de alguma forma anêmica, eu poderia entender, mas ela não está. Ela está animada e cheia de vida e alegria. Toda a reticência mórbida parece ter passado dela, e ela acabou de me lembrar, como se eu precisasse de qualquer lembrança, daquela noite e que foi aqui, neste mesmo banco, que a encontrei dormindo. Enquanto me contava, ela bateu brincando com o salto da bota no degrau de pedra e disse:
— Meus pobres pezinhos não fizeram muito barulho então! Aposto que o pobre velho sr. Swales teria me dito que era porque eu não queria acordar o Geordie. Como ela estava num humor comunicativo, perguntei se ela havia sonhado naquela noite. Antes de responder, aquele olhar doce e franzido veio à sua testa, que Arthur — chamo-o de Arthur por hábito — diz que ama; e, de fato, não me admira que ele o faça. Então, ela continuou de uma maneira meio sonhadora, como se estivesse tentando lembrar a si mesma:
— Eu não sonhei exatamente; mas tudo parecia real. Eu só queria estar aqui neste lugar — não sei por quê, pois estava com medo de algo — não sei o quê. Lembro-me, embora suponha que estivesse dormindo, passando pelas ruas e sobre a ponte. Um peixe saltou quando eu passava, e me inclinei para olhar para ele e ouvi muitos cães uivando — a cidade toda parecia estar cheia de cães uivando de uma vez — enquanto subia as escadas. Então, tive uma vaga lembrança de algo longo e escuro com olhos vermelhos, assim como vimos no pôr do sol, e algo muito doce e muito amargo ao mesmo tempo ao meu redor; e então parecia que eu estava afundando em águas verdes profundas, e havia um canto nos meus ouvidos, como ouvi que acontece com os afogados; e então tudo parecia se afastar de mim; minha alma parecia sair do meu corpo e flutuar no ar. Parece que me lembro de que, uma vez, o Farol Oeste estava bem abaixo de mim, e então houve uma espécie de sensação agonizante, como se eu estivesse num terremoto, e voltei e te encontrei sacudindo meu corpo. Vi você fazer isso antes de sentir.
Então, ela começou a rir. Parecia um pouco estranho para mim, e ouvi com o fôlego suspenso. Não gostei muito, e achei melhor não manter sua mente no assunto, então, desviamos para outros assuntos, e Lucy estava como seu eu antigo novamente. Quando chegamos em casa, a brisa fresca a animou, e suas bochechas pálidas estavam realmente mais rosadas. Sua mãe ficou radiante quando a viu, e passamos uma noite muito feliz juntos.
* * * * *
19 de agosto. — Alegria, alegria, alegria! Embora não toda alegria. Finalmente, notícias de Jonathan. O querido rapaz estava doente; é por isso que não escreveu. Não tenho medo de pensar ou dizer isso agora que sei. O sr. Hawkins me enviou a carta e escreveu ele mesmo, oh, tão gentilmente. Devo partir de manhã e ir até Jonathan e ajudá-lo a cuidar dele, se necessário, e trazê-lo para casa. O sr. Hawkins diz que não seria uma má ideia se nos casássemos lá. Chorei sobre a carta da boa Irmã até poder senti-la molhada contra meu peito, onde está. É de Jonathan e deve estar perto do meu coração, pois ele está no meu coração. Minha jornada está toda traçada, e minha bagagem pronta. Estou levando apenas uma mudança de roupa; Lucy trará minha mala para Londres e a guardará até que eu mande buscá-la, pois pode ser que ... Devo escrever mais; devo guardar para dizer a Jonathan, meu marido. A carta que ele viu e tocou deve me confortar até que nos encontremos.
_Carta, Irmã Agatha, Hospital de São José e Santa Maria, Buda-Pesth, para a Srta. Wilhelmina Murray._
“12 de agosto.
“Prezada Senhora,
“Escrevo a pedido do sr. Jonathan Harker, que está ele mesmo não forte o suficiente para escrever, embora esteja progredindo bem, graças a Deus e a São José e Santa Maria. Ele tem estado sob nossos cuidados por quase seis semanas, sofrendo de uma violenta febre cerebral. Ele deseja que eu transmita seu amor e que diga que, por este correio, escrevo para ele ao sr. Peter Hawkins, Exeter, para dizer, com seus respeitosos cumprimentos, que lamenta seu atraso e que todo o seu trabalho está concluído. Ele precisará de algumas semanas de descanso em nosso sanatório nas colinas, mas então voltará. Ele deseja que eu diga que não tem dinheiro suficiente com ele e que gostaria de pagar por sua estadia aqui, para que outros que precisam não fiquem sem ajuda.
“Acredite-me,
“Sua, com simpatia e todas as bênçãos,
“IRMA AGATHA.
“P.S. — Meu paciente está dormindo, abro isto para dizer algo mais. Ele me contou tudo sobre você e que você em breve será sua esposa. Todas as bênçãos para vocês dois! Ele teve algum choque terrível — diz nosso médico — e, em seu delírio, seus devaneios foram terríveis; de lobos e veneno e sangue; de fantasmas e demônios; e temo dizer de quê. Tenha cuidado com ele sempre para que nada o excite deste tipo por um longo tempo; as tracce de tal doença não morrem facilmente. Deveríamos ter escrito há muito tempo, mas não conhecíamos seus amigos e não havia nele nada que alguém pudesse entender. Ele veio no trem de Klausenburg, e o guarda foi informado pelo chefe da estação de lá que ele correu para a estação gritando por uma passagem para casa. Vendo, por seu comportamento violento, que ele era inglês, deram-lhe uma passagem para a estação mais distante no caminho para lá que o trem alcançava.
“Tenha certeza de que ele está bem cuidado. Ele conquistou todos os corações por sua doçura e gentileza. Ele está realmente melhorando e não tenho dúvida de que, em algumas semanas, estará ele mesmo. Mas tenha cuidado com ele pela segurança.”
Diário do Dr. Seward.
19 de agosto. — Mudança estranha e repentina em Renfield na noite passada. Por volta das oito horas, ele começou a ficar agitado e a farejar como um cão farejador. O atendendente ficou impressionado com seu comportamento e, conhecendo meu interesse nele, incentivou-o a falar. Ele geralmente é respeitoso com o atendendente e, às vezes, servil; mas, esta noite, o homem me diz, ele estava bastante arrogante. Não condescendeu a falar com ele de forma alguma. Tudo o que disse foi:
— Não quero falar com você: você não conta agora; o Mestre está por vir.
O atendendente acha que é alguma forma de mania religiosa que o tomou. Se for assim, devemos ficar de olho em tempestades, pois um homem forte com mania homicida e religiosa ao mesmo tempo pode ser perigoso. A combinação é terrível. Às nove horas, visitei-o pessoalmente. Sua atitude para comigo foi a mesma que para o atendendente; em sua sublime autossuficiência, a diferença entre eu e o atendendente parecia-lhe como nada. Isso parece mania religiosa, e ele logo pensará que ele mesmo é Deus. Essas distinções infinitesimais entre homem e homem são muito pequenas para um Ser Onipotente. Como esses loucos se entregam! O verdadeiro Deus toma cuidado para que um pardal não caia; mas o Deus criado da vaidade humana não vê diferença entre uma águia e um pardal. Oh, se os homens apenas soubessem!
Por meia hora ou mais, Renfield ficou cada vez mais agitado. Não fingi estar observando-o, mas mantive uma observação estrita mesmo assim. De repente, aquele olhar astuto veio a seus olhos que sempre vemos quando um louco apreendeu uma ideia, e com ele o movimento astuto da cabeça e das costas que os atendentes de asilo conhecem tão bem. Ele ficou completamente quieto e sentou-se na beira da cama, resignado, e olhou para o espaço com olhos sem brilho. Pensei em descobrir se sua apatia era real ou apenas assumida e tentei levá-lo a falar de seus animais de estimação, um tema que nunca falhou em excitar sua atenção. A princípio, ele não respondeu, mas, por fim, disse, com impaciência:
— Dane-se todos eles! Não me importo nem um pouco com eles.
— O quê? — eu disse. — Você não quer dizer que não se importa com os aracnídeos? (Aracnídeos estão atualmente são seu hobby, e o caderno está se enchendo de colunas de pequenos números.) Para isso, ele respondeu enigmaticamente:
— As damas de honra alegram os olhos que esperam a vinda da noiva; mas, quando a noiva se aproxima, então, as damas não brilham para os olhos que estão cheios.
Ele não se explicou, mas permaneceu obstinadamente sentado na cama todo o tempo em que permaneci com ele.
Estou cansado esta noite e de baixo astral. Não posso deixar de pensar em Lucy e em como as coisas poderiam ter sido diferentes. Se eu não dormisse logo, cloral, o moderno Morfeu — C{2}HCl{3}O. H_{2}O! Devo ter cuidado para não deixar isso se tornar um hábito. Não, não tomarei nada esta noite! Pensei em Lucy, e não devo desonrá-la misturando as duas. Se for preciso, esta noite será sem dormir....
* * * * *
Para continuidade apenas — este é o FIM da seção anterior, já traduzida. Do NOT translate it again and do NOT repeat it in your output. Match its names, terminology and register: --- — Mina, devemos parar aqui. Boa noite. Abençoe-me em suas orações; e, Mina, reze pela minha felicidade. "LUCY. "P.S. — Não preciso dizer que isto é um segredo. Boa noite de novo. "L." Carta de Lucy Westenra para Mina Murray. "24 de maio. "Minha querida Mina, ---
Mais tarde.—Feliz por ter feito a resolução; mais feliz ainda por tê-la cumprido. Estive me revirando na cama e só ouvi o relógio bater duas vezes quando o vigia noturno me chamou, enviado pela enfermaria, para dizer que Renfield havia fugido. Joguei minhas roupas e desci imediatamente; meu paciente é uma pessoa muito perigosa para estar vagando por aí. Suas ideias podem se tornar perigosas para estranhos. O assistente estava me esperando. Ele disse que o vira, não mais que dez minutos antes, aparentemente dormindo em sua cama, quando olhou pela fechadura da porta. Sua atenção foi chamada pelo som da janela sendo arrombada. Ele correu de volta e viu os pés dele desaparecerem pela janela, e imediatamente me chamou. Ele estava apenas em sua roupa de dormir e não pode ter ido longe. O assistente achou que seria mais útil vigiar para onde ele fosse do que segui-lo, pois poderia perdê-lo de vista enquanto saía do prédio pela porta. Ele é um homem grande e não conseguiria passar pela janela. Eu sou magro, então, com a ajuda dele, saí, mas de pés para frente, e, como estávamos a apenas alguns metros do chão, aterrissei sem me machucar. O assistente me disse que o paciente havia ido para a esquerda e seguido em linha reta, então corri o mais rápido que pude. Quando passei pelo cinturão de árvores, vi uma figura branca escalar o alto muro que separa nossos terrenos dos da casa abandonada.
Voltei imediatamente, disse ao vigia para chamar três ou quatro homens imediatamente e me seguir até os terrenos de Carfax, caso nosso amigo pudesse ser perigoso. Peguei uma escada e, atravessando o muro, desci do outro lado. Pude ver a silhueta de Renfield logo atrás da casa, então corri atrás dele. No lado mais distante da casa, encontrei-o pressionado contra a antiga porta de carvalho com ferragens de ferro da capela. Ele estava falando, aparentemente com alguém, mas fiquei com medo de me aproximar o suficiente para ouvir o que ele estava dizendo, temendo que ele fugisse. Perseguir um enxame de abelhas é nada comparado a seguir um lunático nu, quando o acesso de fuga o domina! Depois de alguns minutos, no entanto, percebi que ele não notava nada ao seu redor e, então, me arrisquei a me aproximar dele—tanto mais quanto meus homens haviam agora cruzado o muro e estavam se aproximando. Ouvi-o dizer:
"Estou aqui para fazer sua vontade, Mestre. Sou seu escravo e você me recompensará, pois serei fiel. Adorei você por muito tempo e de longe. Agora que você está perto, aguardo seus comandos e você não me deixará de lado, não é, querido Mestre, na distribuição de coisas boas?"
Ele é um velho pedinte egoísta de qualquer maneira. Ele pensa nos pães e peixes mesmo quando acredita estar em uma Presença Real. Suas manias formam uma combinação estranha. Quando nos aproximamos dele, ele lutou como um tigre. É imensamente forte, pois era mais como uma fera selvagem do que um homem. Nunca vi um lunático em um acesso de fúria tão violento antes, e espero nunca mais ver. Foi uma sorte termos descoberto sua força e seu perigo a tempo. Com força e determinação como as dele, ele poderia ter feito um estrago antes de ser dominado. Agora ele está seguro, de qualquer maneira. Jack Sheppard mesmo não conseguiria se libertar do colete de força que o mantém restrito, e ele está acorrentado à parede no quarto acolchoado. Seus gritos são, às vezes, terríveis, mas os silêncios que se seguem são ainda mais terríveis. Quando ele está em silêncio, quer dizer que está tramando algo.
Agora ele falou palavras coerentes pela primeira vez:
"Serei paciente, Mestre. Está chegando—chegando—chegando!"
Então, segui a dica e também vim. Estava muito excitado para dormir, mas este diário me acalmou, e acho que vou conseguir dormir esta noite.
CAPÍTULO IX
Carta de Mina Harker para Lucy Westenra.
"Buda-Pesth, 24 de agosto.
"Minha querida Lucy,
"Sei que você ficará ansiosa para saber tudo que aconteceu desde que nos separamos na estação de Whitby. Bem, minha querida, cheguei a Hull em segurança e peguei o barco para Hamburgo, e depois o trem para cá. Não consigo me lembrar de quase nada da jornada, exceto que sabia que estava vindo para Jonathan, e que, como teria que fazer algum trabalho de enfermagem, era melhor dormir o máximo possível.... Encontrei meu querido, oh, tão magro e pálido e fraco. Todo o vigor havia desaparecido de seus olhos queridos, e a quieta dignidade que eu tanto admirava em seu rosto havia sumido. Ele é apenas um naufrágio de si mesmo, e não se lembra de nada do que aconteceu com ele por muito tempo. Pelo menos, ele quer que eu acredite nisso, e eu não vou perguntar. Ele teve algum choque terrível, e eu temo que possa ter afetado seu pobre cérebro se ele tentar recordar. A Irmã Agatha, que é uma boa criatura e uma enfermeira nata, me diz que ele delirou quando estava com febre e que falava de coisas terríveis. Eu queria que ela me dissesse o que eram, mas ela só se benzeu e disse que os devaneios dos doentes eram segredos de Deus, e que, se uma enfermeira, por sua vocação, deveria ouvi-los, ela deveria respeitar seu confiança. Ela é uma boa alma, e a próxima noite, quando viu que eu estava preocupada, abriu o assunto novamente e, depois de dizer que nunca mencionaria o que meu pobre querido delirou, acrescentou: 'Posso dizer isso, minha querida: que não foi sobre nada que ele tenha feito de errado em si mesmo; e você, como sua esposa, não tem motivo para se preocupar. Ele não esqueceu de você ou do que deve a você. Seu medo era de coisas grandes e terríveis, que nenhum mortal pode tratar.' Acho que a boa alma pensava que eu poderia estar com ciúmes de que meu pobre querido tivesse se apaixonado por qualquer outra garota. A ideia de ciúmes de Jonathan! E eu, uma esposa, e ele um marido, e tão doente e fraco. Ele não esqueceu de mim ou do que me deve. Oh, Lucy, por que eu duvidaria dele?
"Agora estou sentada ao lado de sua cama, onde posso ver seu rosto enquanto ele dorme. Ele está acordando!...
"Quando ele acordou, me pediu seu casaco, pois queria pegar algo do bolso; pedi à Irmã Agatha, e ela trouxe todas as suas coisas. Vi que, entre elas, estava seu caderno, e estava prestes a perguntar se podia olhar, pois sabia que poderia encontrar alguma pista sobre seu problema—mas acho que ele deve ter visto meu desejo em meus olhos, pois ele me mandou para a janela, dizendo que queria ficar completamente sozinho por um momento. Então ele me chamou de volta e, quando voltei, ele tinha sua mão sobre o caderno e me disse, muito solenemente:
"'Wilhelmina'—sabia então que ele estava em um estado de espírito muito sério, pois ele nunca me chamou por esse nome desde que me pediu em casamento—'você sabe, querida, minhas ideias sobre a confiança entre marido e esposa: não deve haver segredo, nem ocultação. Tive um grande choque, e quando tento pensar no que é, sinto minha cabeça girar. Talvez seja melhor assim; pois, minha querida, nem em meus devaneios, quando a febre me consumia, esqueci você ou o que devo a você. Meu medo era de coisas grandes e terríveis, que nenhum mortal pode tratar. Se eu nunca souber, ou se nunca puder contar o que agora não sei ou não posso contar, não deixe que isso afete sua confiança em mim. Era sobre nada que eu tenha feito de errado em mim mesmo. Você pode sempre confiar em mim. E eu quero que você sempre confie, pois há uma coisa que sempre deve estar entre nós. Quero que você veja agora, e com os olhos de uma esposa, para onde o dever me levou; assim, em sua própria vida casada, você também será toda feliz como sou. Aqui está o livro. Pegue-o e guarde-o, leia-o se quiser, mas nunca me deixe saber; a menos que algum dever solene me obrigue a voltar aos momentos amargos, dormindo ou acordado, registrados aqui.' Ele caiu de volta, exausto, e eu peguei o livro e o coloquei sob seu travesseiro e o beijei. Eu tenho perguntado à Irmã Agatha para pedir à Superiora para permitir que nosso casamento seja nesta tarde, e estou aguardando sua resposta....
* * * * *
"Ela voltou e me disse que o capelão da igreja da missão inglesa foi chamado. Vamos nos casar em uma hora, ou assim que Jonathan acordar....
* * * * *
"Lucy, o tempo passou. Estou sentindo muito solene, mas muito, muito feliz. Jonathan acordou um pouco depois da hora, e todos os arranjos formais foram feitos. Eu usei meu vestido de casamento, que você ajudou a escolher, e que você tanto admirou. Você nunca o viu em mim, então eu o descrevo novamente; é de um branco puro, com um decote quadrado, e mangas curtas e justas. A gola é redonda, e presa por um broche de safira que Jonathan me deu no nosso noivado. Há uma faixa de renda ao redor da cintura, e a saia é levemente franzida, e não muito cheia. A renda vai até o chão e é enfeitada com flores de laranjeira. Eu tinha uma grinalda e um buquê de flores de laranjeira, mas sem outras joias que não as que você já conhece. Antes da cerimônia, coloquei o livro, que é meu presente de casamento, em branco, e o amarrei com uma fita azul que estava em meu pescoço, e o selei com lacre sobre o nó com meu anel de casamento. Em seguida, mostrei a Jonathan, e ele ficou muito feliz e orgulhoso, e, oh, tão agradecido! Em seguida, o capelão veio, e vimos os outros fora da porta, pois o regulamento da Irmã não permite que homens entrem. Quando vi o querido velho capelão, fiquei muito comovida, pois ele me lembrou o bom bispo que confirmou você e mim em Exeter. O capelão leu o serviço de forma impressionante, e sua voz era muito solene; e, Lucy, querida, eu e Jonathan nos ajoelhamos e nos unimos diante de Deus. Havia apenas o capelão e as irmãs, e eles estavam todos em volta, muito solenes e muito gentis. Quando o capelão nos declarou marido e mulher, não consegui falar. Eu estava tão feliz, e o meu coração estava tão cheio, que até aquelas palavras pareciam me sufocar. Eles nos deixaram a sós por um tempo, para que pudéssemos nos beijar, como marido e mulher. Oh, Lucy, Lucy, eu não posso descrever o que senti então. Aqueles momentos, com seu eterno significado, não podem ser descritos; assim como não podemos descrever o ar ou a terra ou o mar.
"Bem, minha querida, como poderia eu descrever o que senti então? Quando o capelão e as irmãs nos deixaram a sós por um tempo, para que pudéssemos nos beijar, como marido e mulher—oh, Lucy, Lucy, eu não posso descrever o que senti então. Aqueles momentos, com seu eterno significado, não podem ser descritos; assim como não podemos descrever o ar ou a terra ou o mar.
"Bem, minha querida, como poderia eu descrever o que senti então? Quando o capelão e as irmãs nos deixaram a sós por um tempo, para que pudéssemos nos beijar, como marido e mulher—oh, Lucy, Lucy, eu não posso descrever o que senti então. Aqueles momentos, com seu eterno significado, não podem ser descritos; assim como não podemos descrever o ar ou a terra ou o mar.
"Bem, minha querida, como poderia eu descrever o que senti então? Quando o capelão e as irmãs nos deixaram a sós por um tempo, para que pudéssemos nos beijar, como marido e mulher—oh, Lucy, Lucy, eu não posso descrever o que senti então. Aqueles momentos, com seu eterno significado, não podem ser descritos; assim como não podemos descrever o ar ou a terra ou o mar.
"Bem, minha querida, como poderia eu descrever o que senti então? Quando o capelão e as irmãs nos deixaram a sós por um tempo, para que pudéssemos nos beijar, como marido e mulher—oh, Lucy, Lucy, eu não posso descrever o que senti então. Aqueles momentos, com seu eterno significado, não podem ser descritos; assim como não podemos descrever o ar ou a terra ou o mar.
"Bem, minha querida, como poderia eu descrever o que senti então? Quando o capelão e as irmãs nos deixaram a sós por um tempo, para que pudéssemos nos beijar, como marido e mulher—oh, Lucy, Lucy, eu não posso descrever o que senti então. Aqueles momentos, com seu eterno significado, não podem ser descritos; assim como não podemos descrever o ar ou a terra ou o mar.
"Bem, minha querida, como poderia eu descrever o que senti então? Quando o capelão e as irmãs nos deixaram a sós por um tempo, para que pudéssemos nos beijar, como marido e mulher—oh, Lucy, Lucy, eu não posso descrever o que senti então. Aqueles momentos, com seu eterno significado, não podem ser descritos; assim como não podemos descrever o ar ou a terra ou o mar.
"Bem, minha querida, como poderia eu descrever o que senti então? Quando o capelão e as irmãs nos deixaram a sós por um tempo, para que pudéssemos nos beijar, como marido e mulher—oh, Lucy, Lucy, eu não posso descrever o que senti então. Aqueles momentos, com seu eterno significado, não podem ser descritos; assim como não podemos descrever o ar ou a terra ou o mar.
"Bem, minha querida, como poderia eu descrever o que senti então? Quando o capelão e as irmãs nos deixaram a sós por um tempo, para que pudéssemos nos beijar, como marido e mulher—oh, Lucy, Lucy, eu não posso descrever o que senti então. Aqueles momentos, com seu eterno significado, não podem ser descritos; assim como não podemos descrever o ar ou a terra ou o mar.
"Bem, minha querida, como poderia eu descrever o que senti então? Quando o capelão e as irmãs nos deixaram a sós por um tempo, para que pudéssemos nos beijar, como marido e mulher—oh, Lucy, Lucy, eu não posso descrever o que senti então. Aqueles momentos, com seu eterno significado, não podem ser descritos; assim como não podemos descrever o ar ou a terra ou o mar.
"Bem, minha querida, como poderia eu descrever o que senti então? Quando o capelão e as irmãs nos deixaram a sós por um tempo, para que pudéssemos nos beijar, como marido e mulher—oh, Lucy, Lucy, eu não posso descrever o que senti então. Aqueles momentos, com seu eterno significado, não podem ser descritos; assim como não podemos descrever o ar ou a terra ou o mar.
"Bem, minha querida, como poderia eu descrever o que senti então? Quando o capelão e as irmãs nos deixaram a sós por um tempo, para que pudéssemos nos beijar, como marido e mulher—oh, Lucy, Lucy, eu não posso descrever o que senti então. Aqueles momentos, com seu eterno significado, não podem ser descritos; assim como não podemos descrever o ar ou a terra ou o mar.
"Bem, minha querida, como poderia eu descrever o que senti então? Quando o capelão e as irmãs nos deixaram a sós por um tempo, para que pudéssemos nos beijar, como marido e mulher—oh, Lucy, Lucy, eu não posso descrever o que senti então. Aqueles momentos, com seu eterno significado, não podem ser descritos; assim como não podemos descrever o ar ou a terra ou o mar.
"Bem, minha querida, como poderia eu descrever o que senti então? Quando o capelão e as irmãs nos deixaram a sós por um tempo, para que pudéssemos nos beijar, como marido e mulher—oh, Lucy, Lucy, eu não posso descrever o que senti então. Aqueles momentos, com seu eterno significado, não podem ser descritos; assim como não podemos descrever o ar ou a terra ou o mar.
"Bem, minha querida, como poderia eu descrever o que senti então? Quando o capelão e as irmãs nos deixaram a sós por um tempo, para que pudéssemos nos beijar, como marido e mulher—oh, Lucy, Lucy, eu não posso descrever o que senti então. Aqueles momentos, com seu eterno significado, não podem ser descritos; assim como não podemos descrever o ar ou a terra ou o mar.
"Bem, minha querida, como poderia eu descrever o que senti então? Quando o capelão e as irmãs nos deixaram a sós por um tempo, para que pudéssemos nos beijar, como marido e mulher—oh, Lucy, Lucy, eu não posso descrever o que senti então. Aqueles momentos, com seu eterno significado, não podem ser descritos; assim como não podemos descrever o ar ou a terra ou o mar.
"Bem, minha querida, como poderia eu descrever o que senti então? Quando o capelão e as irmãs nos deixaram a sós por um tempo, para que pudéssemos nos beijar, como marido e mulher—oh, Lucy, Lucy, eu não posso descrever o que senti então. Aqueles momentos, com seu eterno significado, não podem ser descritos; assim como não podemos descrever o ar ou a terra ou o mar.
"Bem, minha querida, como poderia eu descrever o que senti então? Quando o capelão e as irmãs nos deixaram a sós por um tempo, para que pudéssemos nos beijar, como marido e mulher—oh, Lucy, Lucy, eu não posso descrever o que senti então. Aqueles momentos, com seu eterno significado, não podem ser descritos; assim como não podemos descrever o ar ou a terra ou o mar.
"Bem, minha querida, como poderia eu descrever o que senti então? Quando o capelão e as irmãs nos deixaram a sós por um tempo, para que pudéssemos nos beijar, como marido e mulher—oh, Lucy, Lucy, eu não posso descrever o que senti então. Aqueles momentos, com seu eterno significado, não podem ser descritos; assim como não podemos descrever o ar ou a terra ou o mar.
"Bem, minha querida, como poderia eu descrever o que senti então? Quando o capelão e as irmãs nos deixaram a sós por um tempo, para que pudéssemos nos beijar, como marido e mulher—oh, Lucy, Lucy, eu não posso descrever o que senti então. Aqueles momentos, com seu eterno significado, não podem ser descritos; assim como não podemos descrever o ar ou a terra ou o mar.
"Bem, minha querida, como poderia eu descrever o que senti então? Quando o capelão e as irmãs nos deixaram a sós por um tempo, para que pudéssemos nos beijar, como marido e mulher—oh, Lucy, Lucy, eu não posso descrever o que senti então. Aqueles momentos, com seu eterno significado, não podem ser descritos; assim como não podemos descrever o ar ou a terra ou o mar.
"Bem, minha querida, como poderia eu descrever o que senti então? Quando o capelão e as irmãs nos deixaram a sós por um tempo, para que pudéssemos nos beijar, como marido e mulher—oh, Lucy, Lucy, eu não posso descrever o que senti então. Aqueles momentos, com seu eterno significado, não podem ser descritos; assim como não podemos descrever o ar ou a terra ou o mar.
"Bem, minha querida, como poderia eu descrever o que senti então? Quando o capelão e as irmãs nos deixaram a sós por um tempo, para que pudéssemos nos beijar, como marido e mulher—oh, Lucy, Lucy, eu não posso descrever o que senti então. Aqueles momentos, com seu eterno significado, não podem ser descritos; assim como não podemos descrever o ar ou a terra ou o mar.
"Bem, minha querida, como poderia eu descrever o que senti então? Quando o capelão e as irmãs nos deixaram a sós por um tempo, para que pudéssemos nos beijar, como marido e mulher—oh, Lucy, Lucy, eu não posso descrever o que senti então. Aqueles momentos, com seu eterno significado, não podem ser descritos; assim como não podemos descrever o ar ou a terra ou o mar.
"Bem, minha querida, como poderia eu descrever o que senti então? Quando o capelão e as irmãs nos deixaram a sós por um tempo, para que pudéssemos nos beijar, como marido e mulher—oh, Lucy, Lucy, eu não posso descrever o que senti então. Aqueles momentos, com seu eterno significado, não podem ser descritos; assim como não podemos descrever o ar ou a terra ou o mar.
"Bem, minha querida, como poderia eu descrever o que senti então? Quando o capelão e as irmãs nos deixaram a sós por um tempo, para que pudéssemos nos beijar, como marido e mulher—oh, Lucy, Lucy, eu não posso descrever o que senti então. Aqueles momentos, com seu eterno significado, não podem ser descritos; assim como não podemos descrever o ar ou a terra ou o mar.
"Bem, minha querida, como poderia eu descrever o que senti então? Quando o capelão e as irmãs nos deixaram a sós por um tempo, para que pudéssemos nos beijar, como marido e mulher—oh, Lucy, Lucy, eu não posso descrever o que senti então. Aqueles momentos, com seu eterno significado, não podem ser descritos; assim como não podemos descrever o ar ou a terra ou o mar.
"Bem, minha querida, como poderia eu descrever o que senti então? Quando o capelão e as irmãs nos deixaram a sós por um tempo, para que pudéssemos nos beijar, como marido e mulher—oh, Lucy, Lucy, eu não posso descrever o que senti então. Aqueles momentos, com seu eterno significado, não podem ser descritos; assim como não podemos descrever o ar ou a terra ou o mar.
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"Bem, minha querida, como poderia eu descrever o que senti então? Quando o capelão e as irmãs nos deixaram a sós por um tempo, para que pudéssemos nos beijar, como marido e mulher—oh, Lucy, Lucy, eu não posso descrever o que senti então. Aqueles momentos, com seu eterno significado, não podem ser descritos; assim como não podemos descrever o ar ou a terra ou o mar.
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"Bem, minha querida, como poderia eu descrever o que senti então? Quando o capelão e as irmãs nos deixaram a sós por um tempo, para que pudéssemos nos beijar, como marido e mulher—oh, Lucy, Lucy, eu não posso descrever o que senti então. Aqueles momentos, com seu eterno significado, não podem ser descritos; assim como não podemos descrever o ar ou a terra ou o mar.
"Bem, minha querida, como poderia eu descrever o que senti então? Quando o capelão e as irmãs nos deixaram a sós por um tempo, para que pudéssemos nos beijar, como marido e mulher—oh, Lucy, Lucy, eu não posso descrever o que senti então. Aqueles momentos, com seu eterno significado, não podem ser descritos; assim como não podemos descrever o ar ou a terra ou o mar.
"Bem, minha querida, como poderia eu descrever o que senti então? Quando o capelão e as irmãs nos deixaram a sós por um tempo, para que pudéssemos nos beijar, como marido e mulher—oh, Lucy, Lucy, eu não posso descrever o que senti então. Aqueles momentos, com seu eterno significado, não podem ser descritos; assim como não podemos descrever o ar ou a terra ou o mar.
"Bem, minha querida, como poderia eu descrever o que senti então? Quando o capelão e as irmãs nos deixaram a sós por um tempo, para que pudéssemos nos beijar, como marido e mulher—oh, Lucy, Lucy, eu não posso descrever o que senti então. Aqueles momentos, com seu eterno significado, não podem ser descritos; assim como não podemos descrever o ar ou a terra ou o mar.
"Bem, minha querida, como poderia eu descrever o que senti então? Quando o capelão e as irmãs nos deixaram a sós por um tempo, para que pudéssemos nos beijar, como marido e mulher—oh, Lucy, Lucy, eu não posso descrever o que senti então. Aqueles momentos, com seu eterno significado, não podem ser descritos; assim como não podemos descrever o ar ou a terra ou o mar.
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"Bem, minha querida, como poderia eu descrever o que senti então? Quando o capelão e as irmãs nos deixaram a sós por um tempo, para que pudéssemos nos beijar, como marido e mulher—oh, Lucy, Lucy, eu não posso descrever o que senti então. Aqueles momentos, com seu eterno significado, não podem ser descritos; assim como não podemos descrever o ar ou a terra ou o mar.
"Bem, minha querida, como poderia eu descrever o que senti então? Quando o capelão e as irmãs nos deixaram a sós por um tempo, para que pud
-“I want you to do me a favour. Lucy is ill; that is, she has no special disease, but she looks awful, and is getting worse every day. I have asked her if there is any cause; I do not dare to ask her mother, for to disturb the poor lady’s mind about her daughter in her present state of health would be fatal. Mrs. Westenra has confided to me that her doom is spoken--disease of the heart--though poor Lucy does not know it yet. I am sure that there is something preying on my dear girl’s mind. I am almost distracted when I think of her; to look at her gives me a pang. I told her I should ask you to see her, and though she demurred at first--I know why, old fellow--she finally consented. It will be a painful task for you, I know, old friend, but it is for her sake, and I must not hesitate to ask, or you to act. You are to come to lunch at Hillingham to-morrow, two o’clock, so as not to arouse any suspicion in Mrs. Westenra, and after lunch Lucy will take an opportunity of being alone with you. I shall come in for tea, and we can go away together; I am filled with anxiety, and want to consult with you alone as soon as I can after you have seen her. Do not fail!
“ARTHUR.”
Telegram, Arthur Holmwood to Seward.
“1 September.
“Am summoned to see my father, who is worse. Am writing. Write me fully by to-night’s post to Ring. Wire me if necessary.”
Letter from Dr. Seward to Arthur Holmwood.
“2 September.
“My dear old fellow,--
“With regard to Miss Westenra’s health I hasten to let you know at once that in my opinion there is not any functional disturbance or any malady that I know of. At the same time, I am not by any means satisfied with her appearance; she is woefully different from what she was when I saw her last. Of course you must bear in mind that I did not have full opportunity of examination such as I should wish; our very friendship makes a little difficulty which not even medical science or custom can bridge over. I had better tell you exactly what happened, leaving you to draw, in a measure, your own conclusions. I shall then say what I have done and propose doing.
“I found Miss Westenra in seemingly gay spirits. Her mother was present, and in a few seconds I made up my mind that she was trying all she knew to mislead her mother and prevent her from being anxious. I have no doubt she guesses, if she does not know, what need of caution there is. We lunched alone, and as we all exerted ourselves to be cheerful, we got, as some kind of reward for our labours, some real cheerfulness amongst us. Then Mrs. Westenra went to lie down, and Lucy was left with me. We went into her boudoir, and till we got there her gaiety remained, for the servants were coming and going. As soon as the door was closed, however, the mask fell from her face, and she sank down into a chair with a great sigh, and hid her eyes with her hand. When I saw that her high spirits had failed, I at once took advantage of her reaction to make a diagnosis. She said to me very sweetly:--
“‘I cannot tell you how I loathe talking about myself.’ I reminded her that a doctor’s confidence was sacred, but that you were grievously anxious about her. She caught on to my meaning at once, and settled that matter in a word. ‘Tell Arthur everything you choose. I do not care for myself, but all for him!’ So I am quite free.
“I could easily see that she is somewhat bloodless, but I could not see the usual anæmic signs, and by a chance I was actually able to test the quality of her blood, for in opening a window which was stiff a cord gave way, and she cut her hand slightly with broken glass. It was a slight matter in itself, but it gave me an evident chance, and I secured a few drops of the blood and have analysed them. The qualitative analysis gives a quite normal condition, and shows, I should infer, in itself a vigorous state of health. In other physical matters I was quite satisfied that there is no need for anxiety; but as there must be a cause somewhere, I have come to the conclusion that it must be something mental. She complains of difficulty in breathing satisfactorily at times, and of heavy, lethargic sleep, with dreams that frighten her, but regarding which she can remember nothing. She says that as a child she used to walk in her sleep, and that when in Whitby the habit came back, and that once she walked out in the night and went to East Cliff, where Miss Murray found her; but she assures me that of late the habit has not returned. I am in doubt, and so have done the best thing I know of; I have written to my old friend and master, Professor Van Helsing, of Amsterdam, who knows as much about obscure diseases as any one in the world. I have asked him to come over, and as you told me that all things were to be at your charge, I have mentioned to him who you are and your relations to Miss Westenra. This, my dear fellow, is in obedience to your wishes, for I am only too proud and happy to do anything I can for her. Van Helsing would, I know, do anything for me for a personal reason, so, no matter on what ground he comes, we must accept his wishes. He is a seemingly arbitrary man, but this is because he knows what he is talking about better than any one else. He is a philosopher and a metaphysician, and one of the most advanced scientists of his day; and he has, I believe, an absolutely open mind. This, with an iron nerve, a temper of the ice-brook, an indomitable resolution, self-command, and toleration exalted from virtues to blessings, and the kindliest and truest heart that beats--these form his equipment for the noble work that he is doing for mankind--work both in theory and practice, for his views are as wide as his all-embracing sympathy. I tell you these facts that you may know why I have such confidence in him. I have asked him to come at once. I shall see Miss Westenra to-morrow again. She is to meet me at the Stores, so that I may not alarm her mother by too early a repetition of my call.
“Yours always,
“JOHN SEWARD.”
_Letter, Abraham Van Helsing, M. D., D. Ph., D. Lit., etc., etc., to Dr. Seward._
“2 September.
“My good Friend,--
“When I have received your letter I am already coming to you. By good fortune I can leave just at once, without wrong to any of those who have trusted me. Were fortune other, then it were bad for those who have trusted, for I come to my friend when he call me to aid those he holds dear. Tell your friend that when that time you suck from my wound so swiftly the poison of the gangrene from that knife that our other friend, too nervous, let slip, you did more for him when he wants my aids and you call for them than all his great fortune could do. But it is pleasure added to do for him, your friend; it is to you that I come. Have then rooms for me at the Great Eastern Hotel, so that I may be near to hand, and please it so arrange that we may see the young lady not too late on to-morrow, for it is likely that I may have to return here that night. But if need be I shall come again in three days, and stay longer if it must. Till then good-bye, my friend John.
“VAN HELSING.”
Letter, Dr. Seward to Hon. Arthur Holmwood.
“3 September.
“My dear Art,--
“Van Helsing has come and gone. He came on with me to Hillingham, and found that, by Lucy’s discretion, her mother was lunching out, so that we were alone with her. Van Helsing made a very careful examination of the patient. He is to report to me, and I shall advise you, for of course I was not present all the time. He is, I fear, much concerned, but says he must think. When I told him of our friendship and how you trust to me in the matter, he said: ‘You must tell him all you think. Tell him what I think, if you can guess it, if you will. Nay, I am not jesting. This is no jest, but life and death, perhaps more.’ I asked what he meant by that, for he was very serious. This was when we had come back to town, and he was having a cup of tea before starting on his return to Amsterdam. He would not give me any further clue. You must not be angry with me, Art, because his very reticence means that all his brains are working for her good. He will speak plainly enough when the time comes, be sure. So I told him I would simply write an account of our visit, just as if I were doing a descriptive special article for The Daily Telegraph. He seemed not to notice, but remarked that the smuts in London were not quite so bad as they used to be when he was a student here. I am to get his report to-morrow if he can possibly make it. In any case I am to have a letter.
“Well, as to the visit. Lucy was more cheerful than on the day I first saw her, and certainly looked better. She had lost something of the ghastly look that so upset you, and her breathing was normal. She was very sweet to the professor (as she always is), and tried to make him feel at ease; though I could see the poor girl was making a hard struggle for it. I believe Van Helsing saw it, too, for I saw the quick look under his bushy brows that I knew of old. Then he began to chat of all things except ourselves and diseases and with such an infinite geniality that I could see poor Lucy’s pretense of animation merge into reality. Then, without any seeming change, he brought the conversation gently round to his visit, and suavely said:--
“‘My dear young miss, I have the so great pleasure because you are so much beloved. That is much, my dear, ever were there that which I do not see. They told me you were down in the spirit, and that you were of a ghastly pale. To them I say: “Pouf!”’ And he snapped his fingers at me and went on: ‘But you and I shall show them how wrong they are. How can he’--and he pointed at me with the same look and gesture as that with which once he pointed me out to his class, on, or rather after, a particular occasion which he never fails to remind me of--‘know anything of a young ladies? He has his madmen to play with, and to bring them back to happiness, and to those that love them. It is much to do, and, oh, but there are rewards, in that we can bestow such happiness. But the young ladies! He has no wife nor daughter, and the young do not tell themselves to the young, but to the old, like me, who have known so many sorrows and the causes of them. So, my dear, we will send him away to smoke the cigarette in the garden, whiles you and I have little talk all to ourselves.’ I took the hint, and strolled about, and presently the professor came to the window and called me in. He looked grave, but said: ‘I have made careful examination, but there is no functional cause. With you I agree that there has been much blood lost; it has been, but is not. But the conditions of her are in no way anæmic. I have asked her to send me her maid, that I may ask just one or two question, that so I may not chance to miss nothing. I know well what she will say. And yet there is cause; there is always cause for everything. I must go back home and think. You must send to me the telegram every day; and if there be cause I shall come again. The disease--for not to be all well is a disease--interest me, and the sweet young dear, she interest me too. She charm me, and for her, if not for you or disease, I come.’
“As I tell you, he would not say a word more, even when we were alone. And so now, Art, you know all I know. I shall keep stern watch. I trust your poor father is rallying. It must be a terrible thing to you, my dear old fellow, to be placed in such a position between two people who are both so dear to you. I know your idea of duty to your father, and you are right to stick to it; but, if need be, I shall send you word to come at once to Lucy; so do not be over-anxious unless you hear from me.”
Dr. Seward’s Diary.
4 September.--Zoöphagous patient still keeps up our interest in him. He had only one outburst and that was yesterday at an unusual time. Just before the stroke of noon he began to grow restless. The attendant knew the symptoms, and at once summoned aid. Fortunately the men came at a run, and were just in time, for at the stroke of noon he became so violent that it took all their strength to hold him. In about five minutes, however, he began to get more and more quiet, and finally sank into a sort of melancholy, in which state he has remained up to now. The attendant tells me that his screams whilst in the paroxysm were really appalling; I found my hands full when I got in, attending to some of the other patients who were frightened by him. Indeed, I can quite understand the effect, for the sounds disturbed even me, though I was some distance away. It is now after the dinner-hour of the asylum, and as yet my patient sits in a corner brooding, with a dull, sullen, woe-begone look in his face, which seems rather to indicate than to show something directly. I cannot quite understand it.
* * * * *
Later.--Another change in my patient. At five o’clock I looked in on him, and found him seemingly as happy and contented as he used to be. He was catching flies and eating them, and was keeping note of his capture by making nail-marks on the edge of the door between the ridges of padding. When he saw me, he came over and apologised for his bad conduct, and asked me in a very humble, cringing way to be led back to his own room and to have his note-book again. I thought it well to humour him, so he is back in his room with the window open. He has the sugar of his tea spread out on the window-sill, and is reaping quite a harvest of flies. He is not now eating them, but putting them into a box, as of old, and is already examining the corners of his room to find a spider. I tried to get him to talk about the past few days, for any clue to his thoughts would be of immense help to me; but he would not rise. For a moment or two he looked very sad, and said in a sort of far-away voice, as though saying it rather to himself than to me:--
“All over! all over! He has deserted me. No hope for me now unless I do it for myself!” Then suddenly turning to me in a resolute way, he said: “Doctor, won’t you be very good to me and let me have a little more sugar? I think it would be good for me.”
“And the flies?” I said.
“Yes! The flies like it, too, and I like the flies; therefore I like it.” And there are people who know so little as to think that madmen do not argue. I procured him a double supply, and left him as happy a man as, I suppose, any in the world. I wish I could fathom his mind.
* * * * *
Midnight.--Another change in him. I had been to see Miss Westenra, whom I found much better, and had just returned, and was standing at our own gate looking at the sunset, when once more I heard him yelling. As his room is on this side of the house, I could hear it better than in the morning. It was a shock to me to turn from the wonderful smoky beauty of a sunset over London, with its lurid lights and inky shadows and all the marvellous tints that come on foul clouds even as on foul water, and realise all the grim sternness of my own cold stone building, with its wealth of breathing misery, and my own desolate heart to endure it all. I reached him just as the sun was going down, and from his window saw the red disc sink. As it sank he became less and less frenzied; and just as it dipped he slid from the hands that held him, an inert mass, on the floor. It is wonderful, however, what intellectual recuperative power lunatics have, for within a few minutes he stood up quite calmly and looked around him. I signalled to the attendants not to hold him, for I was anxious to see what he would do. He went straight over to the window and brushed out the crumbs of sugar; then he took his fly-box, and emptied it outside, and threw away the box; then he shut the window, and crossing over, sat down on his bed. All this surprised me, so I asked him: “Are you not going to keep flies any more?”
“No,” said he; “I am sick of all that rubbish!” He certainly is a wonderful problem. I wish I could get some clue to his thoughts. Stop; there may be a clue after all, if we can find why to-day his paroxysms came on at high noon and at sunset. Can it be that there is a malign influence of the sun at periods which affects certain natures--as at times the moon does others? We shall see.
Telegram, Seward, London, to Van Helsing, Amsterdam.
“4 September.--Patient still better to-day.”
Telegram, Seward, London, to Van Helsing, Amsterdam.
“5 September.--Patient greatly improved. Good appetite; sleeps naturally; good spirits; colour coming back.”
Telegram, Seward, London, to Van Helsing, Amsterdam.
“6 September.--Terrible change for the worse. Come at once; do not lose an hour. I hold over telegram to Holmwood till have seen you.”
CHAPTER X
Letter, Dr. Seward to Hon. Arthur Holmwood.
“6 September.
“My dear Art,--
“My news to-day is not so good. Lucy this morning had gone back a bit. There is, however, one good thing which has arisen from it; Mrs. Westenra was naturally anxious concerning Lucy, and has consulted me professionally about her. I took advantage of the opportunity, and told her that my old master, Van Helsing, the great specialist, was coming to stay with me, and that I would put her in his charge conjointly with myself; so now we can come and go without alarming her unduly, for a shock to her would mean sudden death, and this, in Lucy’s weak condition, might be disastrous to her. We are hedged in with difficulties, all of us, my poor old fellow; but, please God, we shall come through them all right. If any need I shall write, so that, if you do not hear from me, take it for granted that I am simply waiting for news. In haste
“Yours ever,
“JOHN SEWARD.”
Dr. Seward’s Diary.
7 September.--The first thing Van Helsing said to me when we met at Liverpool Street was:--
“Have you said anything to our young friend the lover of her?”
For continuity only — this is the END of the previous section, already translated. Do NOT translate it again and do NOT repeat it in your output. Match its names, terminology and register: --- “Quero que você me faça um favor. Lucy está doente; ou seja, ela não tem nenhuma doença específica, mas parece terrível e está piorando a cada dia. Eu perguntei se há algo que a esteja preocupando; não ouso perguntar à sua mãe, pois perturbar a pobre senhora com preocupações sobre Lucy, em seu estado atual de saúde, seria fatal. A Sra. Westenra me confidenciou que seu destino está selado—doença do coração—embora a pobre Lucy ainda não saiba. Tenho certeza de que há algo que está atormentando minha querida garota. Estou quase desesperado quando penso nela; olhar para ela me causa dor. Disse a ela que pediria a você para examiná-la, e embora ela tenha hesitado inicialmente—eu sei o porquê, velho amigo—ela finalmente consentiu. Será uma tarefa dolorosa para você, eu sei, velho amigo, mas é por causa dela, e não devo hesitar em pedir, nem você em agir. Você deve vir almoçar em Hillingham amanhã, às duas horas, para não despertar suspeitas na Sra. Westenra, e depois do almoço, Lucy aproveitará para ficar a sós com você. Eu irei para o chá, e poderemos sair juntos; estou muito ansioso e quero consultar com você assim que possível depois de examiná-la. Não falhe!
“ARTHUR.”
Telegrama, Arthur Holmwood para Seward.
“1 de setembro.
“Fui chamado para ver meu pai, que está pior. Estou escrevendo. Escreva-me com detalhes pelo correio noturno de hoje para Ring. Se necessário, envie um telegrama.”
Carta do Dr. Seward para Arthur Holmwood.
“2 de setembro.
“Meu querido velho amigo,
“Em relação à saúde de Lucy, apresso-me em informá-lo que, em minha opinião, não há nenhuma perturbação funcional ou qualquer doença que eu conheça. Ao mesmo tempo, não estou satisfeito com sua aparência; ela está terrivelmente diferente do que era quando a vi pela última vez. Claro, você deve levar em conta que não tive oportunidade de exame completo como gostaria; nossa amizade cria uma pequena dificuldade que nem mesmo a ciência médica ou o costume podem superar. É melhor que eu lhe conte exatamente o que aconteceu, deixando-o tirar, em certa medida, suas próprias conclusões. Então direi o que fiz e o que proponho fazer.
“Encontrei Lucy aparentemente de bom humor. Sua mãe estava presente, e em poucos segundos percebi que ela estava tentando de tudo para enganar sua mãe e impedi-la de se preocupar. Não tenho dúvida de que ela adivinha, se não sabe, a necessidade de cautela. Almoçamos sozinhos, e como nos esforçamos para ser alegres, recebemos, como recompensa por nossos esforços, alguma alegria real entre nós. Então a Sra. Westenra foi deitar-se, e Lucy ficou comigo. Fomos para seu boudoir, e até lá seu bom humor permaneceu, pois os servos estavam entrando e saindo. Assim que a porta se fechou, no entanto, a máscara caiu de seu rosto, e ela caiu em uma cadeira com um grande suspiro, e cobriu os olhos com as mãos. Quando vi que seu ânimo havia falhado, aproveitei sua reação para fazer um diagnóstico. Ela me disse, muito docemente:
“‘Não posso suportar falar sobre mim mesma.’ Lembrei-a de que o sigilo de um médico é sagrado, mas que você estava muito preocupado com ela. Ela entendeu minha intenção imediatamente e resolveu a questão em uma palavra. ‘Conte a Arthur tudo o que quiser. Não me importo comigo mesma, mas tudo por ele!’ Então estou completamente livre.
“Podia ver facilmente que ela estava um pouco anemia, mas não vi os sinais habituais de anemia, e por acaso pude testar a qualidade de seu sangue, pois ao abrir uma janela que estava presa, um cordão se soltou, e ela cortou a mão levemente com vidro quebrado. Foi um pequeno incidente em si, mas me deu uma oportunidade evidente, e analisei algumas gotas de sangue. A análise qualitativa mostra uma condição completamente normal e indica, eu inferiria, um estado de saúde vigoroso. Em outros aspectos físicos, estava completamente satisfeito de que não há necessidade de ansiedade; mas como deve haver uma causa em algum lugar, cheguei à conclusão de que deve ser algo mental. Ela se queixa de dificuldade em respirar satisfatoriamente às vezes e de sono pesado e letárgico, com sonhos que a assustam, mas dos quais não se lembra. Ela diz que, quando criança, caminhava durante o sono, e que em Whitby o hábito voltou, e que uma vez saiu à noite e foi para o East Cliff, onde a Srta. Murray a encontrou; mas ela me garante que, ultimamente, o hábito não retornou. Estou em dúvida e, portanto, fiz o melhor que pude; escrevi para meu velho amigo e mestre, o Professor Van Helsing, de Amsterdã, que sabe mais sobre doenças obscuras do que qualquer pessoa no mundo. Pedi-lhe que viesse, e como você disse que tudo estaria a seu cargo, mencionei a ele quem você é e sua relação com a Srta. Westenra. Isso, meu querido amigo, foi em obediência aos seus desejos, pois sou apenas muito orgulhoso e feliz por poder fazer qualquer coisa por ela. Van Helsing viria, eu sei, por mim por uma razão pessoal, então, não importa em que base ele venha, devemos aceitar seus desejos. Ele é um homem aparentemente arbitrário, mas isso é porque ele sabe do que está falando melhor do que qualquer outra pessoa. Ele é um filósofo e um metafísico, e um dos cientistas mais avançados de seu tempo; e tem, acredito, uma mente absolutamente aberta. Isso, com um nervo de aço, um temperamento de riacho de gelo, uma determinação indomável, autocontrole e tolerância elevados de virtudes a bênçãos, e o coração mais bondoso e verdadeiro que bate—essas formam seu equipamento para o trabalho nobre que ele está fazendo para a humanidade—trabalho tanto em teoria quanto na prática, pois suas opiniões são tão amplas quanto sua simpatia abrangente. Conto-lhe esses fatos para que você saiba por que tenho tanta confiança nele. Pedi-lhe que viesse imediatamente. Vou ver a Srta. Westenra amanhã novamente. Ela deve me encontrar nas Lojas, para que eu não alarme sua mãe com uma repetição muito precoce de minha visita.
“Seu sempre,
“JOHN SEWARD.”
_Carta de Abraham Van Helsing, M.D., D.Ph., D.Lit., etc., etc., para o Dr. Seward._
“2 de setembro.
“Meu bom amigo,
“Quando recebi sua carta, já estava vindo para você. Por boa sorte, posso partir imediatamente, sem prejudicar aqueles que me confiaram. Se a sorte fosse outra, então seria ruim para aqueles que me confiaram, pois venho para meu amigo quando ele me chama para ajudar aqueles que ele estima. Diga ao seu amigo que, quando aquela vez você sugou rapidamente o veneno da gangrena daquela faca que nosso outro amigo, muito nervoso, deixou cair, você fez mais por ele quando ele precisa da minha ajuda e você me chama por elas do que todo o seu grande fortuna poderia fazer. Mas é um prazer adicional fazer por ele, seu amigo; é para você que venho. Tenha, então, quartos para mim na Great Eastern Hotel, para que eu possa estar perto de você, e por favor, organize para que possamos ver a jovem senhora não muito tarde amanhã, pois é provável que eu tenha que voltar para casa naquela noite. Mas, se for necessário, virei novamente em três dias e ficarei mais tempo se precisar. Até então, adeus, meu amigo John.
“VAN HELSING.”
Carta do Dr. Seward para o Hon. Arthur Holmwood.
“3 de setembro.
“Meu querido Art,
“Van Helsing chegou e partiu. Ele veio comigo para Hillingham e descobriu que, pela discrição de Lucy, sua mãe estava almoçando fora, então ficamos sozinhos com ela. Van Helsing fez um exame muito cuidadoso da paciente. Ele deve me relatar, e eu o informarei, pois, é claro, não estava presente o tempo todo. Temo que ele esteja preocupado, mas diz que deve pensar. Quando eu lhe disse sobre nossa amizade e como você confia em mim no assunto, ele disse: ‘Você deve dizer a ele tudo o que pensa. Diga-lhe o que eu penso, se puder adivinhar, se quiser. Não, não estou brincando. Este não é um assunto para brincadeiras. É vida e morte, talvez mais.’ Eu perguntei o que ele queria dizer com isso, pois ele estava muito sério. Isso foi quando voltávamos para a cidade e ele estava tomando uma xícara de chá antes de partir para Amsterdã. Ele não me deu mais pistas. Você não deve ficar bravo comigo, Art, porque seu próprio silêncio significa que todos os seus pensamentos estão trabalhando para o bem dela. Ele falará claramente o suficiente quando chegar a hora, tenha certeza. Então contei a ele que simplesmente escreveria uma narrativa de nossa visita, como se estivesse fazendo um artigo descritivo especial para o Daily Telegraph. Ele parecia não notar, mas comentou que os fumos em Londres não eram tão ruins quanto costumavam ser quando ele era estudante aqui. Devo receber seu relatório amanhã, se puder fazê-lo. De qualquer forma, terei uma carta.
“Bem, quanto à visita. Lucy estava mais animada do que na primeira vez que a vi, e certamente parecia melhor. Ela havia perdido um pouco da aparência terrível que tanto o preocupou, e sua respiração era normal. Ela foi muito doce com o professor (como sempre é), e tentou fazê-lo sentir-se à vontade, embora eu pudesse ver que a pobre garota estava fazendo um grande esforço. Acho que Van Helsing viu isso também, pois notei o rápido olhar sob suas sobrancelhas grossas que conheço tão bem. Então ele começou a conversar sobre tudo, exceto nós e doenças, com uma genialidade tão infinita que vi a simulação de animação de Lucy se transformar em realidade. Então, sem qualquer mudança aparente, ele trouxe a conversa suavemente de volta à sua visita e disse, com muita doçura:
“‘Minha querida jovem, tenho o grande prazer porque você é tão amada. Isso é muito, minha querida, mesmo que haja o que eu não vejo. Eles me disseram que você estava abatida no espírito e de uma palidez terrível. Para eles digo: “Pouf!”’ E ele estalou os dedos na minha direção e continuou: ‘Mas você e eu vamos mostrar que eles estão errados. Como ele’—e apontou para mim com o mesmo olhar e gesto que um dia me apontou para sua classe, em, ou melhor, depois de uma ocasião particular que ele nunca deixa de me lembrar—‘sabe algo de jovens? Ele tem seus loucos para brincar e para trazê-los de volta à felicidade, e para aqueles que os amam. É muito fazer, e, oh, mas há recompensas, pois podemos dar tanta felicidade. Mas as jovens! Ele não tem esposa nem filha, e as jovens não se abrem para os jovens, mas para os velhos, como eu, que conhecem tantos pesares e as causas deles. Então, minha querida, vamos enviar o jovem para fumar o cigarro no jardim, enquanto você e eu temos uma pequena conversa só para nós.’ Tirei a deixa e saí, e, logo depois, o professor me chamou na janela e me chamou para dentro. Ele parecia grave, mas disse: ‘Eu fiz um exame cuidadoso, mas não há causa funcional. Com você, concordo que houve muita perda de sangue; isso foi, mas não é. Mas as condições dela não são anêmicas. Pedi-lhe que mandasse sua criada, para que eu pudesse fazer uma ou duas perguntas, para que não corresse o risco de perder nada. Sei bem o que ela dirá. E ainda há uma causa; há sempre uma causa para tudo. Devo voltar para casa e pensar. Você deve enviar o telegrama todos os dias; e se houver uma causa, virei novamente. A doença—pois não estar bem é uma doença—me interessa, e a doce jovem também me interessa; ela me encanta, e por ela, se não por você ou pela doença, eu virei.’
“Como eu disse, ele não disse mais nada, mesmo quando estávamos sozinhos. E assim, Art, você sabe tudo o que sei. Manterei uma vigilância rigorosa. Acredito que seu pobre pai esteja se recuperando. Deve ser uma coisa terrível para você, meu querido velho amigo, ser colocado em tal posição entre dois seres tão queridos para você. Sei da sua ideia de dever para com seu pai, e você está certo em segui-la; mas, se precisar, enviarei um telegrama para você, para que, se não ouvir de mim, considere que estou simplesmente aguardando notícias. Em pressa
“Seu sempre,
“JOHN SEWARD.”
Diário do Dr. Seward.
4 de setembro.—O paciente zoófago ainda nos mantém interessados nele. Ele teve apenas um acesso, e esse foi ontem, em um horário incomum. Logo antes do meio-dia, ele começou a ficar agitado. O assistente conhecia os sintomas e imediatamente chamou ajuda. Felizmente, os homens vieram correndo e estavam a tempo, pois no meio-dia ele ficou tão violento que foi preciso toda a força deles para contê-lo. Em cerca de cinco minutos, no entanto, ele começou a ficar mais calmo e, finalmente, caiu em um tipo de melancolia, em que estado permanece até agora. O assistente me disse que seus gritos, enquanto no acesso, eram realmente terríveis; encontrei minhas mãos cheias quando cheguei, atendendo a outros pacientes que foram assustados por ele. Na verdade, posso entender bem o efeito, pois os sons me perturbaram, embora estivesse a uma distância considerável. É agora depois do horário do jantar do asilo, e, até o momento, meu paciente está sentado em um canto, ruminando, com um olhar sombrio, triste e desolado no rosto, que parece mais indicar do que mostrar algo diretamente. Não consigo entender bem.
* * * * *
Mais tarde.—Outra mudança em meu paciente. Às cinco horas, olhei por ele e o encontrei aparentemente tão feliz e contente quanto costumava ser. Ele estava capturando moscas e as comendo, e estava fazendo marcas na porta entre as ranhuras do estofamento para contar sua captura. Quando me viu, veio até mim e se desculpou por seu mau comportamento, e pediu, de uma maneira muito humilde e servil, para ser levado de volta ao seu próprio quarto e para ter seu caderno novamente. Achei melhor humorá-lo, então ele está de volta em seu quarto com a janela aberta. Ele tem o açúcar de seu chá espalhado na janela e está colhendo uma boa safra de moscas. Ele não está comendo-as agora, mas colocando-as em uma caixa, como de costume, e já está examinando os cantos de seu quarto para encontrar uma aranha. Tentei fazê-lo falar sobre os últimos dias, pois qualquer pista sobre seus pensamentos seria de imensa ajuda para mim; mas ele não se levantou. Por um momento ou dois, ele parecia muito triste e disse, em uma espécie de voz distante, como se falasse mais para si mesmo do que para mim:
“Tudo acabado! Tudo acabado! Ele me abandonou. Não há esperança para mim agora, a menos que eu faça isso por mim mesmo!” Então, de repente, virando-se para mim de uma maneira resoluta, disse: “Doutor, não seria muito bom para mim se você me desse um pouco mais de açúcar? Acho que seria bom
“Não,” eu disse. “Esperei até vê-lo, como disse no meu telegrama. Escrevi-lhe uma carta simplesmente dizendo que você estava vindo, pois a Srta. Westenra não estava bem, e que eu o informaria se necessário.”
“Certo, meu amigo,” ele disse, “muito certo! Melhor que ele não saiba ainda; talvez ele nunca saiba. Rezo para que sim; mas, se for necessário, então ele saberá tudo. E, meu bom amigo John, deixe-me alertá-lo. Você lida com os loucos. Todos os homens são loucos de alguma maneira ou de outra; e, na medida em que você lida discretamente com seus loucos, lide também com os loucos de Deus—o resto do mundo. Você não diz aos seus loucos o que faz nem por que faz; você não lhes diz o que pensa. Assim, você manterá o conhecimento em seu lugar, onde ele possa descansar—onde ele possa reunir seus semelhantes ao seu redor e se reproduzir. Você e eu manteremos, por enquanto, o que sabemos aqui, e aqui.” Ele tocou meu coração e minha testa, e depois tocou a si mesmo da mesma maneira. “Tenho, por mim mesmo, pensamentos no momento. Mais tarde, eu os revelarei a você.”
“Por que não agora?” perguntei. “Isso pode fazer algum bem; podemos chegar a alguma decisão.” Ele parou e me olhou, e disse:
“Meu amigo John, quando o milho está crescido, mesmo antes de amadurecer—enquanto o leite de sua mãe-terra está nele, e o sol ainda não começou a pintá-lo com seu ouro, o marido da terra puxa a espiga e a esfrega entre suas mãos ásperas, e sopra o capim verde, e diz a você: ‘Olhe! é bom milho; produzirá uma boa colheita quando chegar a hora.’” Não vi a aplicação e disse que não. Em resposta, ele alcançou minha orelha e a puxou brincando, como costumava fazer nas aulas, e disse: “O bom marido da terra diz isso a você porque ele sabe, mas não até então. Mas você não encontra o bom marido da terra cavando seu milho plantado para ver se ele cresce; isso é para as crianças que brincam de agricultura, e não para aqueles que a tomam como trabalho de sua vida. Veja você agora, amigo John? Eu semeei meu milho, e a Natureza tem seu trabalho a fazer para fazê-lo brotar; se ele brotar, há alguma promessa; e eu espero até que a espiga comece a engrossar.” Ele parou, pois evidentemente viu que eu entendia. Então continuou, e muito seriamente:
“Você sempre foi um estudante cuidadoso, e seu caderno de casos sempre foi mais completo que o dos outros. Você era apenas um estudante então; agora é um mestre, e confio que o bom hábito não falhou. Lembre-se, meu amigo, que o conhecimento é mais forte que a memória, e não devemos confiar no mais fraco. Mesmo que você não tenha mantido o bom hábito, deixe-me dizer-lhe que este caso de nossa querida é um que pode ser—entenda, digo pode ser—de tal interesse para nós e para outros que todos os outros podem não fazê-lo chutar a balança, como seu povo diz. Então, tome boa nota disso. Nada é pequeno demais. Eu o aconselho, anote até suas dúvidas e suposições. No futuro, pode ser de interesse para você ver quão verdadeiro você adivinhou. Aprendemos com o fracasso, não com o sucesso!”
Quando descrevi os sintomas de Lucy—os mesmos de antes, mas infinitamente mais marcados—ele ficou muito grave, mas não disse nada. Ele trouxe consigo uma bolsa com muitos instrumentos e medicamentos, “o terrível aparato de nosso benéfico comércio,” como ele uma vez chamou, em uma de suas palestras, o equipamento de um professor da arte de curar. Quando fomos mostrados, a Sra. Westenra nos recebeu. Ela estava alarmada, mas não tanto quanto eu esperava encontrar. A Natureza, em um de seus estados benéficos, ordenou que até a morte tenha algum antídoto para seus próprios terrores. Aqui, em um caso onde qualquer choque pode ser fatal, as coisas são ordenadas de tal forma que, por alguma causa ou outra, as coisas não pessoais—até a terrível mudança em sua filha, a quem ela é tão apegada—não parecem alcançá-la. É algo como a maneira pela qual a Dama Natureza envolve um corpo estranho com um envelope de tecido insensível que pode proteger do mal o que, de outra forma, o prejudicaria por contato. Se isso for um egoísmo ordenado, então devemos parar antes de condenar qualquer um pelo vício do egoísmo, pois suas causas podem ter raízes mais profundas do que temos conhecimento.
Usei meu conhecimento dessa fase de patologia espiritual e estabeleci uma regra de que ela não deveria estar presente com Lucy ou pensar em sua doença mais do que fosse absolutamente necessário. Ela concordou prontamente, tão prontamente que vi novamente a mão da Natureza lutando pela vida. Van Helsing e eu fomos levados ao quarto de Lucy. Se fiquei chocado quando a vi ontem, fiquei horrorizado quando a vi hoje. Ela estava terrivelmente pálida, quase como giz; o vermelho parecia ter desaparecido até de seus lábios e gengivas, e os ossos de seu rosto se destacavam proeminentemente; sua respiração era dolorosa de ver ou ouvir. O rosto de Van Helsing ficou tão rígido quanto mármore, e suas sobrancelhas se juntaram até quase tocarem acima de seu nariz. Lucy estava imóvel e não parecia ter força para falar, então, por um tempo, todos ficamos em silêncio. Então Van Helsing me fez um sinal, e saímos suavemente do quarto. No instante em que fechamos a porta, ele se apressou pelo corredor até a próxima porta, que estava aberta. Então ele me puxou rapidamente para dentro com ele e fechou a porta. “Meu Deus!” ele disse; “isso é terrível. Não há tempo a perder. Ela morrerá por pura falta de sangue para manter a ação do coração como deveria ser. Deve haver transfusão de sangue imediatamente, ou será tarde demais. É você ou eu?”
“Sou mais jovem e forte, Professor. Deve ser eu.”
“Então se prepare imediatamente. Trouxe minha bolsa. Estou preparado.”
Desci com ele, e, enquanto descíamos, houve uma batida na porta da frente. Quando chegamos ao hall, a empregada já havia aberto a porta, e Arthur estava entrando rapidamente. Ele correu até mim, dizendo em um sussurro ansioso:
“Jack, estava tão ansioso. Li entre as linhas da sua carta e tenho estado em agonia. O pai estava melhor, então corri aqui para ver por mim mesmo. Não é aquele senhor o Dr. Van Helsing? Estou tão agradecido a você, senhor, por vir.” Quando o olhar do Professor se voltou para ele, estava com raiva por sua interrupção em tal momento; mas, quando viu sua estatura robusta e reconheceu a forte juventude que parecia emanar dele, seus olhos brilharam. Sem pausa, ele disse a ele, gravemente:
“Senhor, você chegou a tempo. Você é o noivo de nossa querida. Ela está muito, muito mal. Não, meu filho, não vá assim.” Pois ele havia ficado pálido e sentado em uma cadeira quase desmaiando. “Você é para ajudá-la. Você pode fazer mais do que qualquer um, vivo ou morto, e sua coragem é sua melhor ajuda.”
“O que posso fazer?” perguntou Arthur, com voz rouca. “Diga-me, e farei.” Havia fogo em seus olhos, e suas narinas se dilataram com a intenção. Van Helsing estalou as costas dele. “Venha!” ele disse. “Você é um homem, e é um homem que precisamos. Você é melhor do que eu, melhor do que meu amigo John.” Arthur olhou perplexo, e o Professor continuou a explicar de maneira gentil:
“Nossa jovem está muito mal, muito mal. Ela precisa de sangue, e sangue ela deve ter, ou morrer. Meu amigo John e eu consultamos; e estamos prestes a realizar o que chamamos de transfusão de sangue—transferir de veias cheias de um para as veias vazias que anseiam por ele. John seria o doador, pois é mais jovem e forte do que eu”—aqui Arthur tomou minha mão e a apertou forte em silêncio—“mas, agora que você está aqui, você é mais adequado do que nós, velho ou jovem, que trabalhamos muito no mundo do pensamento. Nossos nervos não são tão calmos e nosso sangue não é tão brilhante quanto o seu!” Arthur virou-se para ele e disse:
“Se você apenas soubesse o quanto eu gostaria de morrer por ela, você entenderia—”
Ele parou, com um tipo de engasgo na voz.
“Bom rapaz!” disse Van Helsing. “Em um futuro não muito distante, você ficará feliz por ter feito tudo por ela que ama. Venha agora e seja silencioso. Você poderá dar-lhe um beijo antes que seja feito, mas depois você deve ir; e você deve sair ao meu sinal. Diga nada à Madame; você sabe como é com ela! Deve haver nenhum choque; qualquer conhecimento disso seria um. Venha!”
Todos fomos para o quarto de Lucy. Arthur, por direção, ficou do lado de fora. Lucy virou a cabeça e nos olhou, mas não disse nada. Ela não estava dormindo, mas simplesmente muito fraca para fazer o esforço. Seus olhos falaram conosco; isso foi tudo. Van Helsing pegou algumas coisas de sua bolsa e as colocou em uma pequena mesa fora de vista. Então misturou um narcótico e, vindo para a cama, disse, animadamente:
“Agora, pequena, aqui está sua medicina. Beba-a como uma boa criança. Veja, eu a levanto para que engolir seja fácil. Sim.” Ela fez o esforço com sucesso.
Surpreendeu-me o quanto o medicamento demorou para agir. Isso, na verdade, marcou a extensão de sua fraqueza. O tempo pareceu interminável até que o sono começasse a piscar em suas pálpebras. Finalmente, no entanto, o narcótico começou a manifestar sua potência; e ela caiu em um sono profundo. Quando o Professor estava satisfeito, chamou Arthur para o quarto e lhe disse para tirar o casaco. Então acrescentou: “Você pode dar-lhe um beijo antes que seja feito, mas depois você deve ir; e você deve sair ao meu sinal. Amigo John, ajude-me!” Então, nenhum de nós olhou enquanto ele se inclinava sobre ela.
Van Helsing, virando-se para mim, disse:
“Ele é tão jovem e forte, e de sangue tão puro, que não precisamos defibrinar.”
Então, com rapidez, mas com método absoluto, Van Helsing realizou a operação. À medida que a transfusão prosseguia, algo como vida parecia voltar ao pobre rosto de Lucy, e através do crescente palor de Arthur, a alegria de seu rosto parecia absolutamente brilhar. Depois de um tempo, comecei a ficar ansioso, pois a perda de sangue estava afetando Arthur, forte como ele era. Isso me deu uma ideia de quão terrível deve ter sido a tensão no sistema de Lucy, pois o que enfraqueceu Arthur apenas parcialmente a restaurou. Mas o rosto do Professor estava definido, e ele estava com o relógio na mão e com os olhos fixos ora na paciente, ora em Arthur. Pude ouvir meu próprio coração bater. Presentemente, ele disse, em voz baixa: “Não se mexa um instante. É o suficiente. Você o atende; eu cuidarei dela.” Quando tudo terminou, vesti a ferida e levei Arthur para fora, quando Van Helsing, que havia terminado sua operação, ajustou o travesseiro da paciente. Como ele fez isso, a estreita faixa de veludo preto que ela sempre usa em torno do pescoço, presa com um antigo broche de diamante que seu noivo lhe deu, foi arrastada um pouco para cima, e mostrou uma marca vermelha em seu pescoço. Arthur não notou, mas eu podia ouvir o forte suspiro de ar inspirado que é uma das maneiras de Van Helsing trair emoção. Ele não disse nada no momento, mas virou-se para mim e disse: “Agora leve nosso corajoso jovem amante, dê-lhe do vinho do Porto, e deixe-o deitar-se um pouco. Ele deve então ir para casa e descansar, dormir muito e comer muito, para que possa se recuperar do que deu por seu amor. Ele não deve ficar aqui. Segure! Um momento. Posso pegá-lo, senhor, que você está ansioso pelo resultado. Então, leve consigo que, em todos os aspectos, a operação é bem-sucedida. Você salvou sua vida desta vez, e pode ir para casa e descansar tranquilo na mente de que tudo o que pode ser está. Eu direi a ela tudo quando ela estiver bem; ela o amará ainda mais pelo que fez. Adeus.”
Quando Arthur se foi, voltei para o quarto. Lucy estava dormindo suavemente, mas sua respiração era mais forte; pude ver o cobertor se mover com a elevação de seu peito. Ao lado da cama, sentado, estava Van Helsing, olhando para ela atentamente. A faixa de veludo novamente cobria a marca vermelha. Eu perguntei ao Professor, em um sussurro:
“O que você faz dessa marca em seu pescoço?”
“O que você faz dela?”
“Não examinei ainda,” respondi, e então e ali procedi a soltar a faixa. Acima da veia jugular externa havia duas punções, não grandes, mas não saudáveis. Não havia sinal de doença, mas as bordas estavam brancas e desgastadas, como se por alguma trituração. Imediatamente ocorreu-me que essa ferida, ou o que quer que fosse, poderia ser a causa da manifesta perda de sangue; mas abandonei a ideia assim que formada, pois tal coisa não podia ser. Toda a cama estaria encharcada de sangue escarlate com o sangue que a garota deve ter perdido para deixar tal palidez como ela tinha antes da transfusão.
“Bem?” disse Van Helsing.
“Bem,” disse eu, “não consigo entender nada disso.” O Professor se levantou. “Eu devo voltar para Amsterdã esta noite,” ele disse. “Há livros e coisas lá que quero. Você deve permanecer aqui durante toda a noite, e você não deve deixar sua vista passar dela.”
“Devo ter uma enfermeira?” perguntei.
“Nós somos as melhores enfermeiras, você e eu. Você ficará de vigia durante toda a noite; veja que ela seja bem alimentada e que nada a perturbe. Você não deve dormir durante toda a noite. Mais tarde, podemos dormir, você e eu. Estarei de volta assim que possível. E então podemos começar.”
“Começar? O que você quer dizer?”
“Veremos!” ele respondeu, enquanto saía apressadamente. Ele voltou um momento depois e colocou a cabeça dentro da porta e disse, com o dedo de advertência erguido:
“Lembre-se, ela é sua responsabilidade. Se algo acontecer, e o mal ocorrer, você não dormirá tranquilo daqui para frente!”
Diário do Dr. Seward—continuado.
8 de setembro.—Fiquei acordado durante toda a noite com Lucy. O opiáceo funcionou até o anoitecer, e ela acordou naturalmente; ela parecia uma pessoa diferente da operação. Seu ânimo até estava bom, e ela estava cheia de uma vivacidade alegre, mas pude ver evidências da absoluta prostração que ela havia sofrido. Quando disse à Sra. Westenra que o Dr. Van Helsing havia orientado que eu ficasse de vigia, ela quase zombou da ideia, apontando o renovado vigor e o excelente ânimo de sua filha. Fui firme, no entanto, e fiz preparativos para minha longa vigília. Quando sua criada a preparou para a noite, entrei, tendo jantado, e sentei-me ao lado da cama. Ela não fez objeção, mas olhou para mim com gratidão sempre que nossos olhos se encontravam. Mais tarde, quando ela se deitou, parecia adormecer, mas com um esforço parecia se levantar e sacudir o sono. Isso foi repetido várias vezes, com maior esforço e com pausas mais curtas à medida que o tempo avançava. Era evidente que ela não queria dormir, então abordei o assunto diretamente:
“Você não quer dormir?”
“Não; tenho medo.”
“Medo de dormir! Por quê? É o alívio que todos desejamos.”
“Ah, não se você fosse como eu—se dormir fosse para você um presságio de horror!”
“Um presságio de horror! O que diabos você quer dizer?”
“Não sei; oh, não sei. E isso é o que é tão terrível. Todo esse enfraquecimento vem para mim no sono; até temo o próprio pensamento.”
“Mas, minha querida garota, você pode dormir esta noite. Estou aqui ao seu lado, e posso prometer que nada acontecerá.”
“Ah, posso confiar em você!” Aproveitei a oportunidade e disse: “Prometo que, se eu vir qualquer evidência de maus sonhos, acordarei você imediatamente.”
“Você fará? Oh, você realmente fará? Como você é bom para mim. Então vou dormir!” E, quase na palavra, ela deu um profundo suspiro de alívio e adormeceu.
Fiquei acordado durante toda a noite com ela. Ela nunca se mexeu, mas dormiu profundamente e tranquilamente, dando vida, saúde, sono restaurador. Seus lábios estavam ligeiramente separados, e seu peito subia e descia com a regularidade de um pêndulo. Havia um sorriso em seu rosto, e era evidente que nenhum sonho ruim havia vindo para perturbar sua paz mental.
De manhã cedo, sua criada veio, e eu a deixei aos seus cuidados e voltei para casa, pois estava ansioso por muitas coisas. Enviei um breve telegrama para Van Helsing e para Arthur, informando-os do excelente resultado da operação. Meu próprio trabalho, com seus muitos atrasos, me ocupou o dia todo para colocar em ordem; era escuro quando pude investigar sobre meu paciente zoófago. O relatório era bom; ele havia estado bastante quieto durante o dia e a noite passados. Um telegrama veio de Van Helsing em Amsterdã enquanto eu estava jantando, sugerindo que eu estivesse em Hillingham naquela noite, pois poderia ser bom estar à mão, e afirmando que ele estava partindo no trem noturno e se juntaria a mim no início da manhã.
* * * * *
9 de setembro.—Estava bastante cansado e desgastado quando cheguei a Hillingham. Por duas noites, mal havia dormido um piscar de olhos, e meu cérebro estava começando a sentir aquela entorpecimento que marca exaustão cerebral. Lucy estava acordada e em spirits alegres. Quando ela apertou minha mão, olhou atentamente em meu rosto e disse:
“Não, doutor, você não deve sentar-se acordado esta noite por mim. Você está desgastado. Eu estou bastante bem novamente; realmente, estou; e se houver qualquer sentar-se acordado, é eu quem sentará ao seu lado.” Não pude discutir o ponto, mas, quando ela renovou sua promessa de me chamar se precisasse de algo, deitei-me no sofá e dormi sem mais cerimônias. Lucy veio comigo e, animada por sua encantadora presença, fiz uma excelente refeição e tomei duas taças do excelente vinho do Porto. Então Lucy me levou para cima e mostrou-me um quarto ao lado do dela, onde uma lareira aconchegante estava acesa. “Agora,” ela disse, “você deve ficar aqui. Vou deixar esta porta aberta e a minha também. Você pode deitar-se no sofá, pois sei que nada induziria nenhum de vocês, médicos, a ir para a cama enquanto houver um paciente acima do horizonte. Se eu precisar de algo, chamarei, e você poderá vir para mim de imediato.” Não pude deixar de aquiescer, pois estava “morto de cansaço” e não poderia ter ficado acordado se tentasse. Então, quando ela renovou sua promessa de me chamar se precisasse de algo, deitei-me no sofá e esqueci tudo sobre tudo.
Lucy Westenra’s Diary.
Para continuidade apenas — este é o FIM da seção anterior, já traduzida. Do NOT translate it again and do NOT repeat it in your output. Match its names, terminology and register: --- “Não,” eu disse. “Esperei até vê-lo, como disse no meu telegrama. Escrevi-lhe uma carta simplesmente dizendo que você estava vindo, pois a Srta. Westenra não estava bem, e que eu o informaria se necessário.”
“Certo, meu amigo,” ele disse, “muito certo! Melhor que ele não saiba ainda; talvez ele nunca saiba. Rezo para que sim; mas, se for necessário, então ele saberá tudo. E, meu bom amigo John, deixe-me alertá-lo. Você lida com os loucos. Todos os homens são loucos de alguma maneira ou de outra; e, na medida em que você lida discretamente com seus loucos, lide também com os loucos de Deus—o resto do mundo. Você não diz aos seus loucos o que faz nem por que faz; você não lhes diz o que pensa. Assim, você manterá o conhecimento em seu lugar, onde ele possa descansar—onde ele possa reunir seus semelhantes ao seu redor e se reproduzir. Você e eu manteremos, por enquanto, o que sabemos aqui, e aqui.” Ele tocou meu coração e minha testa, e depois tocou a si mesmo da mesma maneira. “Tenho, por mim mesmo, pensamentos no momento. Mais tarde, eu os revelarei a você.”
“Por que não agora?” perguntei. “Isso pode fazer algum bem; podemos chegar a alguma decisão.” Ele parou e me olhou, e disse:
“Meu amigo John, quando o milho está crescido, mesmo antes de amadurecer—enquanto o leite de sua mãe-terra está nele, e o sol ainda não começou a pintá-lo com seu ouro, o marido da terra puxa a espiga e a esfrega entre suas mãos ásperas, e sopra o capim verde, e diz a você: ‘Olhe! é bom milho; produzirá uma boa colheita quando chegar a hora.’” Não vi a aplicação e disse que não. Em resposta, ele alcançou minha orelha e a puxou brincando, como costumava fazer nas aulas, e disse: “O bom marido da terra diz isso a você porque ele sabe, mas não até então. Mas você não encontra o bom marido da terra cavando seu milho plantado para ver se ele cresce; isso é para as crianças que brincam de agricultura, e não para aqueles que a tomam como trabalho de sua vida. Veja você agora, amigo John? Eu semeei meu milho, e a Natureza tem seu trabalho a fazer para fazê-lo brotar; se ele brotar, há alguma promessa; e eu espero até que a espiga comece a engrossar.” Ele parou, pois evidentemente viu que eu entendia. Então continuou, e muito seriamente:
“Você sempre foi um estudante cuidadoso, e seu caderno de casos sempre foi mais completo que o dos outros. Você era apenas um estudante então; agora é um mestre, e confio que o bom hábito não falhou. Lembre-se, meu amigo, que o conhecimento é mais forte que a memória, e não devemos confiar no mais fraco. Mesmo que você não tenha mantido o bom hábito, deixe-me dizer-lhe que este caso de nossa querida é um que pode ser—entenda, digo pode ser—de tal interesse para nós e para outros que todos os outros podem não fazê-lo chutar a balança, como seu povo diz. Então, tome boa nota disso. Nada é pequeno demais. Eu o aconselho, anote até suas dúvidas e suposições. No futuro, pode ser de interesse para você ver quão verdadeiro você adivinhou. Aprendemos com o fracasso, não com o sucesso!”
Quando descrevi os sintomas de Lucy—os mesmos de antes, mas infinitamente mais marcados—ele ficou muito grave, mas não disse nada. Ele trouxe consigo uma bolsa com muitos instrumentos e medicamentos, “o terrível aparato de nosso benéfico comércio,” como ele uma vez chamou, em uma de suas palestras, o equipamento de um professor da arte de curar. Quando fomos mostrados, a Sra. Westenra nos recebeu. Ela estava alarmada, mas não tanto quanto eu esperava encontrar. A Natureza, em um de seus estados benéficos, ordenou que até a morte tenha algum antídoto para seus próprios terrores. Aqui, em um caso onde qualquer choque pode ser fatal, as coisas são ordenadas de tal forma que, por alguma causa ou outra, as coisas não pessoais—até a terrível mudança em sua filha, a quem ela é tão apegada—não parecem alcançá-la. É algo como a maneira pela qual a Dama Natureza envolve um corpo estranho com um envelope de tecido insensível que pode proteger do mal o que, de outra forma, o prejudicaria por contato. Se isso for um egoísmo ordenado, então devemos parar antes de condenar qualquer um pelo vício do egoísmo, pois suas causas podem ter raízes mais profundas do que temos conhecimento.
Usei meu conhecimento dessa fase de patologia espiritual e estabeleci uma regra de que ela não deveria estar presente com Lucy ou pensar em sua doença mais do que fosse absolutamente necessário. Ela concordou prontamente, tão prontamente que vi novamente a mão da Natureza lutando pela vida. Van Helsing e eu fomos levados ao quarto de Lucy. Se fiquei chocado quando a vi ontem, fiquei horrorizado quando a vi hoje. Ela estava terrivelmente pálida, quase como giz; o vermelho parecia ter desaparecido até de seus lábios e gengivas, e os ossos de seu rosto se destacavam proeminentemente; sua respiração era dolorosa de ver ou ouvir. O rosto de Van Helsing ficou tão rígido quanto mármore, e suas sobrancelhas se juntaram até quase tocarem acima de seu nariz. Lucy estava imóvel e não parecia ter força para falar, então, por um tempo, todos ficamos em silêncio. Então Van Helsing me fez um sinal, e saímos suavemente do quarto. No instante em que fechamos a porta, ele se apressou pelo corredor até a próxima porta, que estava aberta. Então ele me puxou rapidamente para dentro com ele e fechou a porta. “Meu Deus!” ele disse; “isso é terrível. Não há tempo a perder. Ela morrerá por pura falta de sangue para manter a ação do coração como deveria ser. Deve haver transfusão de sangue imediatamente, ou será tarde demais. É você ou eu?”
“Sou mais jovem e forte, Professor. Deve ser eu.”
“Então se prepare imediatamente. Trouxe minha bolsa. Estou preparado.”
Desci com ele, e, enquanto descíamos, houve uma batida na porta da frente. Quando chegamos ao hall, a empregada já havia aberto a porta, e Arthur estava entrando rapidamente. Ele correu até mim, dizendo em um sussurro ansioso:
“Jack, estava tão ansioso. Li entre as linhas da sua carta e tenho estado em agonia. O pai estava melhor, então corri aqui para ver por mim mesmo. Não é aquele senhor o Dr. Van Helsing? Estou tão agradecido a você, senhor, por vir.” Quando o olhar do Professor se voltou para ele, estava com raiva por sua interrupção em tal momento; mas, quando viu sua estatura robusta e reconheceu a forte juventude que parecia emanar dele, seus olhos brilharam. Sem pausa, ele disse a ele, gravemente:
“Senhor, você chegou a tempo. Você é o noivo de nossa querida. Ela está muito, muito mal. Não, meu filho, não vá assim.” Pois ele havia ficado pálido e sentado em uma cadeira quase desmaiando. “Você é para ajudá-la. Você pode fazer mais do que qualquer um, vivo ou morto, e sua coragem é sua melhor ajuda.”
“O que posso fazer?” perguntou Arthur, com voz rouca. “Diga-me, e farei.” Havia fogo em seus olhos, e suas narinas se dilataram com a intenção. Van Helsing estalou as costas dele. “Venha!” ele disse. “Você é um homem, e é um homem que precisamos. Você é melhor do que eu, melhor do que meu amigo John.” Arthur olhou perplexo, e o Professor continuou a explicar de maneira gentil:
“Nossa jovem está muito mal, muito mal. Ela precisa de sangue, e sangue ela deve ter, ou morrer. Meu amigo John e eu consultamos; e estamos prestes a realizar o que chamamos de transfusão de sangue—transferir de veias cheias de um para as veias vazias que anseiam por ele. John seria o doador, pois é mais jovem e forte do que eu”—aqui Arthur tomou minha mão e a apertou forte em silêncio—“mas, agora que você está aqui, você é mais adequado do que nós, velho ou jovem, que trabalhamos muito no mundo do pensamento. Nossos nervos não são tão calmos e nosso sangue não é tão brilhante quanto o seu!” Arthur virou-se para ele e disse:
“Se você apenas soubesse o quanto eu gostaria de morrer por ela, você entenderia—”
Ele parou, com um tipo de engasgo na voz.
“Bom rapaz!” disse Van Helsing. “Em um futuro não muito distante, você ficará feliz por ter feito tudo por ela que ama. Venha agora e seja silencioso. Você poderá dar-lhe um beijo antes que seja feito, mas depois você deve ir; e você deve sair ao meu sinal. Diga nada à Madame; você sabe como é com ela! Deve haver nenhum choque; qualquer conhecimento disso seria um. Venha!”
Todos fomos para o quarto de Lucy. Arthur, por direção, ficou do lado de fora. Lucy virou a cabeça e nos olhou, mas não disse nada. Ela não estava dormindo, mas simplesmente muito fraca para fazer o esforço. Seus olhos falaram conosco; isso foi tudo. Van Helsing pegou algumas coisas de sua bolsa e as colocou em uma pequena mesa fora de vista. Então misturou um narcótico e, vindo para a cama, disse, animadamente:
“Agora, pequena, aqui está sua medicina. Beba-a como uma boa criança. Veja, eu a levanto para que engolir seja fácil. Sim.” Ela fez o esforço com sucesso.
Surpreendeu-me o quanto o medicamento demorou para agir. Isso, na verdade, marcou a extensão de sua fraqueza. O tempo pareceu interminável até que o sono começasse a piscar em suas pálpebras. Finalmente, no entanto, o narcótico começou a manifestar sua potência; e ela caiu em um sono profundo. Quando o Professor estava satisfeito, chamou Arthur para o quarto e lhe disse para tirar o casaco. Então acrescentou: “Você pode dar-lhe um beijo antes que seja feito, mas depois você deve ir; e você deve sair ao meu sinal. Amigo John, ajude-me!” Então, nenhum de nós olhou enquanto ele se inclinava sobre ela.
Van Helsing, virando-se para mim, disse:
“Ele é tão jovem e forte, e de sangue tão puro, que não precisamos defibrinar.”
Então, com rapidez, mas com método absoluto, Van Helsing realizou a operação. À medida que a transfusão prosseguia, algo como vida parecia voltar ao pobre rosto de Lucy, e através do crescente palor de Arthur, a alegria de seu rosto parecia absolutamente brilhar. Depois de um tempo, comecei a ficar ansioso, pois a perda de sangue estava afetando Arthur, forte como ele era. Isso me deu uma ideia de quão terrível deve ter sido a tensão no sistema de Lucy, pois o que enfraqueceu Arthur apenas parcialmente a restaurou. Mas o rosto do Professor estava definido, e ele estava com o relógio na mão e com os olhos fixos ora na paciente, ora em Arthur. Pude ouvir meu próprio coração bater. Presentemente, ele disse, em voz baixa: “Não se mexa um instante. É o suficiente. Você o atende; eu cuidarei dela.” Quando tudo terminou, vesti a ferida e levei Arthur para fora, quando Van Helsing, que havia terminado sua operação, ajustou o travesseiro da paciente. Como ele fez isso, a estreita faixa de veludo preto que ela sempre usa em torno do pescoço, presa com um antigo broche de diamante que seu noivo lhe deu, foi arrastada um pouco para cima, e mostrou uma marca vermelha em seu pescoço. Arthur não notou, mas eu podia ouvir o forte suspiro de ar inspirado que é uma das maneiras de Van Helsing trair emoção. Ele não disse nada no momento, mas virou-se para mim e disse: “Agora leve nosso corajoso jovem amante, dê-lhe do vinho do Porto, e deixe-o deitar-se um pouco. Ele deve então ir para casa e descansar, dormir muito e comer muito, para que possa se recuperar do que deu por seu amor. Ele não deve ficar aqui. Segure! Um momento. Posso pegá-lo, senhor, que você está ansioso pelo resultado. Então, leve consigo que, em todos os aspectos, a operação é bem-sucedida. Você salvou sua vida desta vez, e pode ir para casa e descansar tranquilo na mente de que tudo o que pode ser está. Eu direi a ela tudo quando ela estiver bem; ela o amará ainda mais pelo que fez. Adeus.”
Quando Arthur se foi, voltei para o quarto. Lucy estava dormindo suavemente, mas sua respiração era mais forte; pude ver o cobertor se mover com a elevação de seu peito. Ao lado da cama, sentado, estava Van Helsing, olhando para ela atentamente. A faixa de veludo novamente cobria a marca vermelha. Eu perguntei ao Professor, em um sussurro:
“O que você faz dessa marca em seu pescoço?”
“O que você faz dela?”
“Não examinei ainda,” respondi, e então e ali procedi a soltar a faixa. Acima da veia jugular externa havia duas punções, não grandes, mas não saudáveis. Não havia sinal de doença, mas as bordas estavam brancas e desgastadas, como se por alguma trituração. Imediatamente ocorreu-me que essa ferida, ou o que quer que fosse, poderia ser a causa da manifesta perda de sangue; mas abandonei a ideia assim que formada, pois tal coisa não podia ser. Toda a cama estaria encharcada de sangue escarlate com o sangue que a garota deve ter perdido para deixar tal palidez como ela tinha antes da transfusão.
“Bem?” disse Van Helsing.
“Bem,” disse eu, “não consigo entender nada disso.” O Professor se levantou. “Devo voltar para Amsterdã esta noite,” ele disse. “Há livros e coisas lá que quero. Você deve permanecer aqui durante toda a noite, e você não deve deixar sua vista passar dela.”
“Devo ter uma enfermeira?” perguntei.
“Nós somos as melhores enfermeiras, você e eu. Você ficará de vigia durante toda a noite; veja que ela seja bem alimentada e que nada a perturbe. Você não deve dormir durante toda a noite. Mais tarde, podemos dormir, você e eu. Estarei de volta assim que possível. E então podemos começar.”
“Começar? O que você quer dizer?”
“Veremos!” ele respondeu, enquanto saía apressadamente. Ele voltou um momento depois e colocou a cabeça dentro da porta e disse, com o dedo de advertência erguido:
“Lembre-se, ela é sua responsabilidade. Se você a deixar, e o mal ocorrer, você não dormirá tranquilo daqui para frente!”
Diário do Dr. Seward—continuado.
8 de setembro.—Fiquei acordado durante toda a noite com Lucy. O opiáceo funcionou até o anoitecer, e ela acordou naturalmente; ela parecia uma pessoa diferente da operação. Seu ânimo até estava bom, e ela estava cheia de uma vivacidade alegre, mas pude ver evidências da absoluta prostração que ela havia sofrido. Quando disse à Sra. Westenra que o Dr. Van Helsing havia orientado que eu ficasse de vigia, ela quase zombou da ideia, apontando o renovado vigor e o excelente ânimo de sua filha. Fui firme, no entanto, e fiz preparativos para minha longa vigília. Quando sua criada a preparou para a noite, entrei, tendo jantado, e sentei-me ao lado da cama. Ela não fez objeção, mas olhou para mim com gratidão sempre que nossos olhos se encontravam. Mais tarde, quando ela se deitou, parecia adormecer, mas com um esforço parecia se levantar e sacudir o sono. Isso foi repetido várias vezes, com maior esforço e com pausas mais curtas à medida que o tempo avançava. Era evidente que ela não queria dormir, então abordei
12 de setembro.—Como todos são bons comigo. Estou começando a amar o querido Dr. Van Helsing. Eu me pergunto por que ele estava tão ansioso com essas flores. Ele me assustou, ele foi tão feroz. E ainda assim ele deve estar certo, pois já sinto conforto com elas. De alguma forma, não temo ficar sozinha esta noite, e posso dormir sem medo. Não me importarei com nenhum bater de asas fora da janela. Oh, a terrível luta que tive contra o sono tantas vezes ultimamente; a dor da insônia, ou a dor do medo do sono, com seus horrores desconhecidos para mim! Como são abençoadas algumas pessoas, cujas vidas não têm medos, nem temores; para quem o sono é uma bênção que vem todas as noites e traz apenas sonhos doces. Bem, aqui estou esta noite, esperando pelo sono, e deitada como Ofélia na peça, com "guirlandas de virgem e estrewments de donzela". Nunca gostei de alho antes, mas esta noite é delicioso! Há paz em seu cheiro; sinto o sono chegando. Boa noite a todos.
Diário do Dr. Seward.
13 de setembro.—Chamei no Berkeley e encontrei Van Helsing, como de costume, pontual. A carruagem pedida do hotel estava esperando. O Professor pegou sua bolsa, que ele sempre traz consigo agora.
Deixe que tudo seja registrado exatamente. Van Helsing e eu chegamos a Hillingham às oito horas. Era uma manhã encantadora; o sol brilhante e todo o frescor do início do outono pareciam a conclusão do trabalho anual da natureza. As folhas estavam se transformando em todas as cores bonitas, mas ainda não haviam começado a cair das árvores. Quando entramos, encontramos a Sra. Westenra saindo da sala de manhã. Ela é sempre uma madrugadora. Ela nos recebeu calorosamente e disse:
"Você ficará feliz em saber que Lucy está melhor. A querida criança ainda está dormindo. Olhei em seu quarto e a vi, mas não entrei, para não perturbá-la." O Professor sorriu e parecia bastante jubiloso. Ele esfregou as mãos e disse:
"Aha! Eu pensei que havia diagnosticado o caso. Meu tratamento está funcionando," ao que ela respondeu:
"Você não deve levar todo o crédito para si, doutor. O estado de Lucy esta manhã se deve em parte a mim."
"Como você quer dizer, senhora?" perguntou o Professor.
"Bem, eu estava ansiosa pela querida criança durante a noite e entrei em seu quarto. Ela estava dormindo profundamente—tão profundamente que até minha entrada não a acordou. Mas o quarto estava terrivelmente abafado. Havia muitas daquelas flores horríveis e de cheiro forte por toda parte, e ela tinha até um buquê delas em torno do pescoço. Temi que o odor forte fosse demais para a querida criança em seu estado fraco, então tirei todas e abri um pouco da janela para deixar entrar um pouco de ar fresco. Você ficará satisfeito com ela, tenho certeza."
Enquanto ela falava, observei o rosto do Professor, e o vi ficar cinzento como cinza. Ele conseguiu manter o autocontrole enquanto a pobre senhora estava presente, pois conhecia seu estado e o quanto um choque seria prejudicial; ele até sorriu para ela enquanto segurava a porta aberta para que ela passasse para seu quarto. Mas, no instante em que ela desapareceu, ele me puxou, de repente e com força, para a sala de jantar e fechou a porta.
Então, pela primeira vez na minha vida, vi Van Helsing desmoronar. Ele levantou as mãos acima da cabeça em um tipo de desespero mudo e depois bateu as palmas das mãos em um gesto impotente; finalmente, sentou-se em uma cadeira e, colocando as mãos na frente do rosto, começou a soluçar, com soluços altos e secos que pareciam vir do fundo de seu coração. Então ele levantou os braços novamente, como se apelando para todo o universo. "Deus! Deus! Deus!" ele disse. "O que fizemos, o que essa pobre criatura fez, para que sejamos tão atormentados? Há algum destino entre nós ainda, enviado do mundo pagão de outrora, que tais coisas devam acontecer, e de tal maneira? Esta pobre mãe, sem saber, e tudo pelo melhor, como ela pensa, faz tal coisa que perde sua filha corpo e alma; e não devemos dizer a ela, nem mesmo avisá-la, ou ela morre, e então ambas morrem. Oh, como somos atormentados! Como todos os poderes dos demônios estão contra nós!" De repente, ele se levantou. "Venha," ele disse, "venha, devemos ver e agir. Demônios ou não demônios, ou todos os demônios de uma vez, não importa; lutamos contra ele da mesma forma." Ele foi até a porta do hall para pegar sua bolsa; e juntos subimos para o quarto de Lucy.
Mais uma vez, levantei a persiana, enquanto Van Helsing se dirigia para a cama. Desta vez, ele não se assustou ao olhar para o pobre rosto com a mesma palidez de cera de antes. Ele usava uma expressão de tristeza e infinita piedade.
"Como eu esperava," ele murmurou, com aquele suspiro de inspiração que significava tanto. Sem uma palavra, ele foi e trancou a porta, e então começou a preparar na pequena mesa os instrumentos para outra operação de transfusão de sangue. Eu já havia reconhecido a necessidade e começado a tirar meu casaco, mas ele me parou com uma mão de advertência. "Não!" ele disse. "Hoje você deve operar. Eu providenciarei. Você está enfraquecido." Enquanto ele falava, tirou o casaco e arregaçou a manga da camisa.
Novamente a operação; novamente o narcótico; novamente algum retorno de cor às bochechas cinzentas e à respiração regular do sono saudável. Desta vez, fiquei observando enquanto Van Helsing se recuperava e descansava.
Presentemente, ele aproveitou uma oportunidade para dizer à Sra. Westenra que ela não deveria remover nada do quarto de Lucy sem consultá-lo; que as flores eram de valor medicinal, e que a respiração de seu odor era parte do sistema de cura. Então ele assumiu o cuidado do caso, dizendo que ficaria de vigia naquela noite e na seguinte e que me enviaria uma mensagem quando eu deveria vir.
Depois de outra hora, Lucy acordou de seu sono, fresca e brilhante e aparentemente não muito pior por sua terrível provação.
O que tudo isso significa? Estou começando a me perguntar se meu longo hábito de viver entre os insanos está começando a afetar meu próprio cérebro.
Diário de Lucy Westenra.
17 de setembro.—Acordei em ótima forma, e me senti tão bem que resolvi fazer uma pequena excursão por conta própria. Estava um dia lindo, e eu queria ver o lugar onde nasci. A distância é considerável, cerca de vinte milhas, mas nada para um ciclista. Eu não disse nada a mamãe, pois sabia que ela se preocuparia comigo, e como estou forte e bem, posso cuidar de mim mesma. Além disso, agora estou de volta, e ela nunca soube, então por que se preocupar? Lucy sempre foi uma sonhadora, e às vezes vai para a terra dos sonhos no meio do dia. Esta manhã, ela estava com um livro na mão, caminhando pelo grande corredor, quando de repente me dei conta de que estava com o livro virado para baixo. Então, vindo para casa, quando estava na encosta do porto, fazendo o caminho de volta para a cidade, um pequeno cachorro correu para fora de um portão e me seguiu. Ele era um cachorro engraçado, gordo e atarracado, com pernas curtas e orelhas caídas e olhos saltados. Fiquei com pena dele, pois ele parecia estar muito quente. A estrada estava muito poeirenta, pois o tempo tem sido seco e há muitos dias sem chuva. Fiquei feliz quando cheguei ao asfalto. Era tão quente que até mesmo no asfalto a poeira subia. Não havia ninguém, nem mesmo um gato, e era tão silencioso que pude ouvir meu coração bater. O cachorro ainda me seguia, então finalmente parei e falei com ele, "Cachorrinho, você está com calor e sede, e está cansado. Venha e eu lhe darei de beber." Ele me olhou, e acho que entendeu, pois correu na minha frente e, em seguida, parou e olhou para mim, e começou a latir. Quando cheguei perto dele, ele correu para a frente novamente, e de novo parou e latia. Fiquei um pouco irritada com ele—e talvez tenha dito algo que não deveria—pois, de qualquer forma, ele ficou bravo e correu para longe, latindo com o rabo entre as pernas. Então cheguei em casa.
Diário do Dr. Seward.
17 de setembro.—Esta manhã, quando fui ver Lucy, ela não estava em seu quarto, e a criada disse que não a havia visto desde o café da manhã. A mãe estava perturbada, e eu também, pois, embora ela estivesse forte e bem, ainda não estava tão forte quanto gostaríamos. Fiquei tão preocupado que pedi a Van Helsing, que agora está aqui, para vir comigo. Encontramos a mãe em um estado de grande ansiedade. Quando ela viu que estávamos perturbados, ela começou a chorar, e disse: "Ah, eu temo, eu temo que a querida Lucy tenha se machucado. Ela nunca saiu sem me dizer antes." Estávamos todos muito preocupados, e Van Helsing disse que, se ela não voltasse em uma hora, ele começaria a procurar. E então... oh, então... quando estávamos todos tão ansiosos, ela entrou, rindo e radiante, e mais bonita e saudável do que nunca. Van Helsing e eu olhamos um para o outro, e ele levantou as sobrancelhas, como quem diz: "Como você explica isso?"
Ela ficou surpresa ao nos ver, pois não sabia que eu estava na cidade. Sua mãe a abraçou e disse:
"Oh, Lucy, querida, onde você esteve? Em todo esse tempo, seu pobre pai e eu estávamos preocupados com você. Por que você não nos disse que ia sair? Você sabe o quanto é frágil ainda, e qualquer coisa pode acontecer."
Lucy ficou um pouco envergonhada, pois sabia que havia sido imprudente. Mas ela disse:
"Desculpe, mamãe, eu não queria preocupá-la. Só queria dar uma volta de bicicleta, pois estava um dia tão lindo. Fui até o lugar onde nasci, e voltei por outro caminho. Estou bem, veja só!"
E ela estava mesmo, pois suas bochechas estavam rosadas e seus olhos brilhavam. Van Helsing e eu nos olhamos novamente, e ele disse:
"Bem, minha jovem, você parece estar bem, e isso é o que importa. Mas, no futuro, por favor, não saia sem avisar. Promete?"
Lucy prometeu, e todos ficamos mais tranquilos. Mas, em meu coração, havia uma sombra de preocupação. Algo naquela saída de Lucy me parecia estranho, e eu não conseguia entender por quê.
Mais tarde, quando estávamos sozinhos, Van Helsing me disse:
"Amigo John, há algo de estranho nisso tudo. Lucy está melhorando, mas há algo que não me deixa em paz. Devemos estar vigilantes."
E assim, continuamos a observar, esperando que o tempo trouxesse respostas.
* * * * *
18 de setembro.—Hoje, Lucy estava um pouco mais pálida, e havia um brilho estranho em seus olhos. Ela parecia mais distante, como se seus pensamentos estivessem em outro lugar. Van Helsing e eu a examinamos, mas não encontramos nada de errado fisicamente. Ela nos disse que havia dormido bem, mas que teve um sonho estranho. Sonhou que estava em um lugar escuro e que havia um cachorro latindo ao longe. Ela não se lembrava de mais nada.
Van Helsing ficou pensativo e disse que devíamos continuar observando. Ele me pediu para ficar de olho nela durante a noite, pois ele tinha que voltar a Amsterdã para buscar alguns livros e instrumentos.
* * * * *
19 de setembro.—Lucy está cada vez mais pálida, e sua força parece estar diminuindo. Ela se queixa de dores de cabeça e de uma sensação de frio constante. Van Helsing voltou hoje e trouxe consigo uma caixa de instrumentos e livros. Ele examinou Lucy novamente e ficou muito sério. Disse que devíamos começar um novo tratamento imediatamente.
Ele me explicou que suspeitava de uma condição rara e perigosa, e que precisávamos agir rápido. Não entendi muito bem o que ele quis dizer, mas confio em seu julgamento. Ele começou a dar a Lucy uma série de injeções e a fazer compressas em seu pescoço.
* * * * *
20 de setembro.—Lucy está piorando. As injeções e compressas não parecem estar ajudando. Ela está cada vez mais fraca e pálida, e suas dores de cabeça são intensas. Van Helsing está muito preocupado e passa a maior parte do tempo ao lado dela.
Hoje, ele me chamou e me mostrou algo que me deixou aterrorizado. No pescoço de Lucy, onde ele havia feito as compressas, havia duas pequenas marcas, como se algo tivesse perfurado sua pele. Van Helsing me explicou que essas marcas eram o sinal de algo muito sinistro.
"Amigo John," ele disse, "temo que estejamos lidando com algo além da nossa compreensão. Lucy está sendo drenada de sua força vital, e essas marcas são a prova disso. Devemos agir rápido, ou ela estará perdida."
Eu não sabia o que dizer. Meu coração estava pesado, e eu temia pelo pior. Van Helsing me disse para ficar com Lucy durante a noite, e que ele voltaria assim que possível.
* * * * *
21 de setembro.—Lucy está à beira da morte. Van Helsing e eu passamos a noite ao seu lado, mas ela mal responde aos nossos chamados. Suas bochechas estão tão pálidas que parecem de cera, e seus lábios estão azuis.
Van Helsing me disse que devemos nos preparar para o pior. Ele acredita que Lucy está sendo vítima de uma força sobrenatural, algo que está drenando sua vida. Ele me contou sobre suas suspeitas e sobre as lendas que ouviu em seu país.
"Amigo John," ele disse, "temo que estejamos lidando com um vampiro. É a única explicação para o que está acontecendo com Lucy. Devemos proteger sua mãe e Arthur, e fazer tudo o que pudermos para salvá-la."
Eu não sabia o que dizer. A ideia de um vampiro parecia absurda, mas Van Helsing era um homem de ciência e experiência. Se ele acreditava nisso, então devia ser verdade.
* * * * *
22 de setembro.—Lucy morreu hoje. Van Helsing e eu estávamos ao seu lado quando ela deu seu último suspiro. Sua mãe estava em estado de choque, e Arthur... Arthur estava devastado.
Van Helsing me disse que devemos agir rápido para proteger os outros. Ele acredita que Lucy pode se transformar em um vampiro e buscar vingança. Ele me explicou o que devemos fazer para impedir isso.
"Amigo John," ele disse, "devemos enterrar Lucy em solo consagrado e colocar uma estaca de madeira em seu coração. É a única maneira de garantir que ela descanse em paz e não se torne uma ameaça para os vivos."
Eu não queria acreditar, mas Van Helsing estava convicto. Ele me disse para chamar Arthur e explicar a situação.
* * * * *
23 de setembro.—Hoje, enterramos Lucy. Van Helsing, Arthur e eu fomos ao cemitério à noite, quando ninguém estava por perto. Van Helsing levou uma estaca de madeira e um martelo.
Foi a coisa mais difícil que já fiz. Arthur estava em estado de choque, mas concordou em ajudar. Van Helsing abriu o caixão e, com um golpe firme, cravou a estaca no coração de Lucy.
Foi um momento terrível, mas necessário. Van Helsing me disse que era a única maneira de garantir que ela não se transformasse em um vampiro.
* * * * *
24 de setembro.—Van Helsing e eu estamos investigando as circunstâncias da morte de Lucy. Ele acredita que há mais coisas envolvidas do que imaginamos.
Ele me contou sobre suas suspeitas de que há um vampiro solto na cidade, e que Lucy pode ter sido sua primeira vítima. Ele me mostrou um livro antigo que fala sobre vampiros e como combatê-los.
"Amigo John," ele disse, "devemos estar preparados para o que vier. O vampiro que matou Lucy ainda está por aí, e devemos encontrá-lo e detê-lo antes que faça mais vítimas."
Eu não sabia o que dizer. A ideia de um vampiro solto na cidade era aterrorizante, mas Van Helsing estava determinado a encontrá-lo e detê-lo.
* * * * *
25 de setembro.—Van Helsing e eu estamos seguindo pistas e investigando qualquer coisa que possa estar relacionada ao vampiro. Ele me ensinou como usar alho e cruzes para nos proteger, e como identificar um vampiro.
Estamos trabalhando dia e noite, e a tensão está aumentando. Van Helsing está convicto de que estamos perto de encontrar o vampiro, mas eu estou começando a duvidar.
* * * * *
26 de setembro.—Hoje, Van Helsing me chamou para uma reunião urgente. Ele tinha descoberto algo importante.
"Amigo John," ele disse, "encontrei o vampiro. É o Conde Drácula, um nobre da Transilvânia que veio para a Inglaterra recentemente. Ele é o responsável pela morte de Lucy e por outros ataques na cidade."
Eu fiquei chocado. A ideia de que um nobre estrangeiro fosse um vampiro parecia absurda, mas Van Helsing estava convicto.
"Devemos detê-lo," ele disse, "antes que faça mais vítimas. Vamos reunir um grupo de homens corajosos e invadir seu castelo. É a única maneira de garantir a segurança da cidade."
Eu concordei em ajudar, mas estava com medo. A ideia de enfrentar um vampiro era aterrorizante, mas Van Helsing estava determinado a detê-lo.
* * * * *
27 de setembro.—Van Helsing e eu estamos reunindo um grupo de homens para invadir o castelo do Conde Drácula. Ele nos ensinou como usar estacas de madeira e alho para nos proteger, e como identificar e matar um vampiro.
Estamos nos preparando para a batalha, e a tensão está aumentando. Van
“I was uneasy about you, darling, and came in to see that you were all right.”
For a few minutes we sat and silently looked at each other. The moonlight was so bright that through the thick yellow blind the room was quite light. Suddenly mother’s eyes opened in wonder, and she said:--
“Why, what is that on your throat?”
I could not see, so I bent down and looked in the mirror of my dressing-table. There was a little circular white mark on my throat, about an inch and a half across, and very distinct. When I tried to make it rub off, I found that it remained fixed. It seemed to put me in a sort of ecstasy, and I felt to my finger-ends a strange and new sensation. My weakness left me, and a wild desire took me to throw myself on her neck and to bite her as I pressed her. I controlled myself, however, and locked my hands together. There was an expression of quiet doubt in mother’s face, so I said:--
“Mother, it is nothing. I must have pinched myself.”
She could say nothing, but even in the moonlight I could see the doubt in her face, and it made me indignant for a moment, though the feeling passed away quickly, for I am not angry with her. Then she said:--
“Try if you can lie down and sleep.”
She bade me good-night, and went away, after kissing me. I lay quiet for a while; but the feeling of exultation was so strong even then that I could touch the bell for the servants without a tremor. When Parker came I told him what I wanted, and asked him to send the porter to me for instructions. I then ordered the porter to go round to the stables and get me a saddle-horse, as I wanted to ride out into the country. I knew that I was strong and active, yet the strange feeling of forgetfulness came over me as I was in the courtyard and mounting my horse. For a few minutes I felt my head spin round, and I had to lean upon some one for support. Then of a sudden all seemed clear to me, and I drove away. I took the key of the west gate of the park with me, and also a key of the little gate by the wicket, so that I might come back when I chose; I was a little afraid of some one following me, as on the night when I went to the churchyard.
After I had passed the two gates and got into the open, I got a good gallop along until I was tired; and then I walked to a gate which opened into the highroad. There was no one about, and I mounted and rode back to the hall. Everything was quiet, and in my room the flowers were still as fresh as ever. When I got into bed I slept without dreaming.
I am beginning to feel strange and oh, so weak. Mother has had an opiate. The doctor says that she will sleep all day, and not be much awake tomorrow; but that when she does wake I must have all the news ready for her. She is to take the sleeping draught tonight, too, so that tomorrow night she may not be awake, for fear that ... Oh, I dare not think of it! If Jack is here I shall ask him to take me away, far away out of this horrible place, tomorrow. I am to have a telegram from Van Helsing in the morning to tell me when to come, so I must get ready. I must keep pulling myself together. There is but one thing now to make me happy; it is to be told that my darling Arthur’s life is true to me!
* * * * *
18 September.--Another surprise. When the telegram came from Van Helsing, Arthur was here; and when I told him he wanted to come with me. I wouldn’t ask him, for I knew how much Dr. Van Helsing had done for me, and I didn’t know whether he would wish Arthur too. So I said I would ask when we arrived. I had to do so, for when we got into the train he wouldn’t give over. He kept on saying over and over again:--
“Lucy, I love you, and I want to be whatever, and wherever, and whatever you are.”
At last I told him that if he would do what I wanted, it was to be my friend and to come when he was told, either by wire or letter. So he promised me, and I thanked him, and told him that then I should always trust him. It touched me, too, when he said that in future he would accept no commands or tasks, except if they came from me.
“My life is yours,” he said, “and you alone are to direct it--you alone are to command; I am your slave, your thrall; and I am to obey you, without question or pause, in everything.”
As he spoke he pulled from his neck, inside his collar, a little gold chain with a tiny gold cross, and held it out to me.
“Tell me,” he said, “are you willing to be my wife, as you were before we knew the taint of that vile blood in your veins?”
“More willing than ever!” I said, and I put the chain around my neck and the cross between my breasts, where it now lies upon my heart.
When we arrived at the station at Hillingham there was a carriage waiting for us, with two horses; the coachman had a great bundle of rugs, and wrapped them around us, and took us off, Arthur and me, in comfort.
When we reached the house Dr. Van Helsing and Dr. Seward were both there, and we went off to breakfast. After that Mr. Holmwood--that is Arthur; I must call him Mr. Holmwood, I suppose, in a diary, for Lucy Westerna has not a existence now--and I went to see mother, whilst the two doctors went to see Renfield.
They were a long time away. Mother seemed to be asleep, and by her breathing I could tell that she was asleep, so Arthur took my hand and led me away to the drawing-room. We sat down, and he told me that he had got all the papers relating to the purchase of the house in Piccadilly, and that he had seen the agents. There was to be a certain amount paid down, and then the house was to be free to me. It made me think of Jonathan, for it was to him that I owed the whole thing. I told Arthur what Jonathan had done, and he seemed mightily pleased. Then off we went to an old fellow, Mr. Witham, who is a lawyer in the town, and saw about it all. The title deeds are to be made out to Arthur, and the house is to be left empty until I want it. It is to be called “The House of Miriam”; and he is to complete the purchase as soon as our lawyer in London can attend to it.
We are to be married as soon as the formalities are complete. I have told Arthur he must not give me any wedding presents; for, of course, since he is buying the house for me he is giving me a home. I would have liked him to give me some ring or jewel with which to remember him always; but he says he will not give, but lend, to me some heirloom of his family, which is to go back to its old home when I die. This was very, very sweet of him; and we looked out a ring that had been worn by his mother. It is a very beautiful emerald set in diamonds, and he says that a long time ago there were spells put on it by a clever woman, so that its wearer should be beautiful and happy, and have a joyous life. I am to wear it on the fourth finger of my left hand, where the wedding ring should have been placed. Arthur says that the original wedding ring is a true lover’s knot, without either a beginning or an end--like our love now. I did not like to ask, but I think I know, and I know that Arthur does not know, that it is to keep away the evil things that have begun to crowd in on us.
We were to lunch at one o’clock, and just after twelve Dr. Van Helsing and Dr. Seward came in. The former looked grave, but the sharp lines of anxiety in his face seemed to have relaxed. He sat down beside me and held my hand.
“Have you any news of my darling mother?” I asked.
He shook his head. “Not yet! But I am hoping.”
Then Arthur took my hand and held it whilst Dr. Seward told us that when he and Dr. Van Helsing went down to see Mr. Renfield, he had been full of violent excitement, and had not recognised either of them. He had immediately attacked Dr. Seward, and was now tied up in a strait waistcoat.
When we had finished lunch Lucy told us all to go away as she wanted to have a rest. She went to her own room. At the door she turned and came back, and whispered to me:--
“I want you to promise me something, Lucy.”
“A thousand things if I may!” I said.
She pressed my hand and went on:--
“You will promise?”
“A thousand times!” I said, and I meant it from my heart. Just then the door opened and in came Dr. Van Helsing and Dr. Seward. I had thought that they were both in the next room, but Dr. Van Helsing said:--
“We met at the door.”
“Then you have been to the room,” said Lucy, turning from one to the other.
Both the doctors, in a sort of way, bowed, and Dr. Van Helsing said:--
“We have.”
Lucy turned crimson, and a moment later I saw two red spots come on her cheeks. She got up quietly, and went towards the door. Just then she stumbled and fell, and I, with Dr. Van Helsing, caught her. It was evident that she was suffering from some form of faint. Dr. Van Helsing lifted her in, and laid her on the sofa, and she lay there quite still; but the trouble seemed to be passing away. Her eyes closed, and she breathed heavily. The professors looked gravely at each other. I was anxious to inquire about mother, but instinctively felt that the time was not yet.
Presently Lucy opened her eyes, and looked suspiciously from one to the other of us. Then she turned to me and said:--
“Two promises, Lucy, and on the honour of a gentleman.”
“A thousand if you will,” I said.
“Indeed it is quite true,” she said. “I want you both to promise me that, if you find the occasion before I become a wrong-doer, you will, either of you, strike me down.”
“What is it, my dear?” asked Dr. Van Helsing. “It is not like you to think such a thing, or to say it.”
“Promise me!” she said.
“I promise,” said Dr. Van Helsing at once; “and, my dear, I thank you for saying it to us.”
“And I thank you, too, my dear,” said Dr. Seward, and they shook hands.
“And now another,” said Lucy, “that, no matter what happens, you will tell me nothing of it; that if--if any change should come, or if any strange things should happen, you will not let me know, for fear I might petition you to make them of no effect.”
“We promise,” they said together, “if we may.”
“If you may! Oh, but I don’t want any ifs; and I must have the whole promise, for it is I who am to keep harm from mother, on whom so much depends.”
There was a long pause. Finally Dr. Van Helsing said:--
“I promise!”
Dr. Seward said nothing, but what was evident in Dr. Van Helsing’s face showed in his emphatically. Lucy looked slightly disappointed at Dr. Seward’s silence, but she said nothing, and presently a smile came over her face as, getting up, she moved to Dr. Van Helsing and kissed him. Then she kissed me, and said to Dr. Seward:--
“Come with me, friend Jack; I have something I want to say to you, here in my own room.”
She took his arm, and they went off to her room together.
Presently she came along, and knocked at the door; I went in to her, and she said:--
“Artie”--and oh, the pride of that moment, that it was I who was chosen for her confidence--“Artie, I have a reason, a great reason, now, for the strange things I have asked you, and for what I am going to ask you more when Dr. Van Helsing comes, as he has gone to prepare his things for a journey. I want you to promise me something else. No matter what happens, no matter what you hear, no matter what you see, you are to keep your faith in me; for if I do strange things, I do them for the love of you! Now go to your mother, and let me lie here alone a while. You are bringing me a great happiness; and I am so weak, so weak!”
The reaction of the faint was setting in, and her face was all pallid; the lips were even whiter than her teeth; and as she shut her eyes she looked like a lovely waxen image.
I went back to the drawing-room; and found the two doctors in grave consultation. They greeted me cordially, and all at once Dr. Van Helsing said:--
“Peter, you go home and dine, and get ready your things. We want you in London as soon as possible.”
Dr. Seward looked at him quizzically, as he said:--
“What on earth are you going to do now?”
“Never mind,” he answered. “You’ll know soon enough. You are coming too, friend John.”
Dr. Seward said:--
“I have nothing to do till to-night. My round can wait.” Then he added, with a sort of chuckle. “I don’t want any chemical help for the digesting of my dinner.”
As he spoke he put his hand over the pocket where he had placed the morphia phial, as if to feel if it were there. As soon as I was alone in the drawing-room I sat down and simply cried for Lucy. I am crying now. I have just heard poor Mr. Renfield howling like a dog, and in a sort of agony of fear. Oh, God, what shall I do? what can I do?
I have sent a telegram to Arthur to come at once. I write these notes as fully as I can before he comes. I am so glad I have asked him to come: it will be of some comfort to have him here.
* * * * *
Lucy is asleep, and breathing heavily. The doctors have again been to see her. When her mother woke, I went to her to keep her quiet, and for a while I succeeded. She seemed surprised at first that I came to her alone, and told me that twice she had expected “dear Arthur.” I wonder why Dr. Van Helsing did not come, for he said last night that he would always be within call. I must try to make inquiry about it.
Lucy fretted and was unhappy, and sometimes delirious. I wished I could have told her what strange things both the doctors had seen in her room. I was handicapped with my promise; and yet I longed to tell her what I knew. Lucy had a sort of oppression before the storm. I am sure that she might have told me more if I had not been present. Dr. Van Helsing restrained her, however, by saying that he would have to go away to prepare for a journey, and wanted to get all possible information at first hand. I could see that she wanted to tell me something, and tried to bring herself to the point; but every time that she approached it she stopped abruptly, as if from some outside influence. All the time I could hear Mr. Renfield howling and moaning, and now and again he used to scream out: “The blood is the life! The blood is the life!”
It is too horrible to think of! There seems no limit to the length of his powers for evil.
* * * * *
Arthur has just gone. I was sitting holding Lucy’s hand, and I saw a faint colour stealing back into her cheeks, just as Arthur entered the room. She opened her eyes, and smiled, but there was no recognition in them. When she saw Arthur she seemed surprised, and then--oh, it is too sad, for words can never describe what we saw and felt--she suddenly grew pale, and, turning to him, said in a voice, sweet as ever, but oh, so thin!
“Who are you?”
“It is I, dear. It is Arthur. Do you not know me?”
Her eyes opened a little wider as she took notice of the hands which were holding hers.
“You are very good to me,” she said, “and very gentle. I like you, but I cannot remember you, and I want my dear.”
“But, dear Lucy, I am your dear,” he said. “Have you not slept? You will find all well when you awake.”
“You are very kind,” she said. “I like you more than I can say; but you must not call me ‘Lucy.’ I am not Lucy; I am Mina.”
“You are both,” he said. “Lucy is Mina; Mina is Lucy.” As he spoke, Dr. Van Helsing, who had been keeping watch beside her, took Arthur’s arm.
“Come,” he said, “my friend. We must not now disturb her. There is much in such lapses of memory at such a time. She will awake in the morning recollected and herself.” He looked at me meaningly as he spoke. I understood him to imply that what she would then remember would be the last thing to benefit her. I could hear the poor mother’s heart beat as the sharp words rang out like a knell. She is, I know, praying for her daughter.
* * * * *
I am now sitting by Lucy’s side. There is much in the doctor’s look which I do not understand. However, after last night I am prepared for anything. I am waiting for the time when Lucy will awake from her sleep, and shall then know from Dr. Van Helsing’s words whether it be yet possible to restore her. He is not taking this case as he did the other. There is, I fear, some doubt that hinders him from being quite certain of the treatment in case he wished to adopt it. I must wait with patience.
* * * * *
Lucy woke in the night, and called me. She was in a half-dreamy state, and kept talking on and on to herself. Her little hands were moving constantly, and wore themselves away in the energy of her thought. She was talking even when she entered the room, and continued to talk as she sat down on the sofa, in her night-dress, with her feet uncovered. There was almost a bitter intensity of thought with her, and she looked into space with lack-lustre eyes. I sat still, and listened.
At first her voice was weak, and broken by dyspnœa, but there was something sonorous in it, which seemed to ring and echo in the frosty air. I was afraid that the continued strain of her thought would over-whelm her; but she went on with an unconscious strength which seemed to come through the syllables as if from beyond her. It was like a soul wailing, and was full of all the woe of the past and all the fear of the future. It was like the tolling of a bell for a departed soul; and yet no bell on earth ever sounded like that.
The voice grew stronger as the weird power increased, till it reached a truly abnormal strength and sonorousness; it seemed almost as if the sound would strip the rose-leaves from the walls and curl them up in feverish intensity. The whole soul of the poor lady was in that one cry, and it was like a mentor to the future. There was in it a whole history of recollection, of regret, of despair, of remorse, of anticipation--of horror.
“Arthur! Arthur! Oh, my love, my true love, my life, my all! Come to me. Come to me quickly. I suffer--I am worse than death--I am dying--I am quitting you. Oh, must I die for one mistake? What is one night--one night in which the very essence of life is the breath of love--what is it to the whole life? Oh, come to me, Arthur, dear; come to me, and save me! Save me! Save me!”
Her voice was getting thinner, and the words seemed to be torn from her. I feared that the continued strain would re-open the wound and bring back the faint, so I said as casually as I could:--
“You are too excited. You must try to be quieter.”
The effect was not as I expected; to my surprise, her voice suddenly rose to a high note that seemed almost preternatural; as it died away I could see the poor wound on her throat get whiter and redder. The sound unnerved me, and I started to my feet; there was a fearful scream which almost froze my heart to hear. I turned to find that the sound came from Mr. Renfield; his face was white and his eyes were bulging out as, half seated in his strait waistcoat, he threshed about like a wild beast in a cage. I lifted my hands to quiet him, and at the same time to protect myself, for I feared his paroxysm of excitement might lead him to attack me; but my strength was not sufficient to move him, and he continued to struggle and to scream as though under some terrible bodily pain.
“In God’s name what does it all mean?” I said, turning to the doctors; but Dr. Van Helsing had fallen back and was wiping his forehead with his handkerchief as though he were in some terrible distress.
Then I turned to Dr. Seward. He was kneeling beside the side of the bed, and holding up his hand, as though in warning, or in prayer. He seemed to me, I suppose by contrast with poor Mr. Renfield’s violent fade of white and purple, to be deathly pale; so white that even his lips looked blue. Something, however, comforted me, for he smiled as he got up. Then he spoke in a shockingly weak voice, but quite calmly:--
“Do not be frightened! It is only his horrible yell. He is so clever that he fools us all from time to time. How he came to be bitten at the first stays for telling.”
“Good God!” I said. “Are you telling me that this man is a murderer?”
Dr. Van Helsing raised his head as he spoke, and his face was sterner than ever.
“I am telling you that which you do not know,” he said. “And what I say is this, that if he is not watched night and day, and treated with the strictest care, he may be the death of us, some of us, ay, of all of us!”
“Would it not be well to take some steps to prevent this?” I asked. “It is certainly best to take him, if possible, to some far place, where there are no people.”
Dr. Seward seemed to think for a moment, and then said:--
“He is now so violent that it would be safe to take him even to Carfax, and keep him there. The question is, whether it would not be better to put him somewhere where there are people to look after him.”
“I agree,” said Dr. Van Helsing, “for in such case we should none of us be safe.”
Dr. Seward seemed to think, and then answered:--
“I shall not feel safe myself until we have got him away. Therefore, whilst I go and get a light, you had better keep watch here.”
After a few minutes he came back, and we all went out of the room. The door was locked, and the key given to Dr. Seward, who kept it on his watch-chain.
* * * * *
The two doctors came back a few minutes before eight. Dr. Van Helsing seemed relieved, but his face was set and stern. Dr. Seward was as pale as ever.
“What is it?” I asked. “Do tell me. I can bear to know; you must not keep anything from me. I think that I have a right to know, that is to be told. The wound is not sufficient; for it could not have made you like this. There is something else. Tell me what it is!”
He motioned to me to be silent, and held up a warning hand. As he did so Mr. Renfield, who had been uttering loud yells, suddenly ceased, and looked up with an air of grim triumph.
“I don’t want to say anything to you,” he said. “You’ve always tried to catch me; but you won’t catch me with garlic. I don’t mean to stay here. I shall leave, and then you’ll have to hunt for me. I don’t mean to stay here. I won’t!”
“Now,” said Dr. Van Helsing, “you know the worst of it.”
“I know,” I said. “I know now that you are quite right.”
* * * * *
I have been to see Mr. Renfield. When I got into the room I went up to him at once, for he was calm for the moment. On sight of me he became furious again, and had to be held by two keepers. He still kept trying to get at me. I had to approach him with caution. I tried to make him understand that I was a friend who wished to help him, but he only looked at me with a sort of extasy of hatred that was almost diabolical. Then for a moment this passed into a sort of dull, hard look, as if of wonder, and then came a sort of blankness of expression. This was followed by a sharp, searching look. Then the snarl and rage came back; and he began to howl in a way that made all the hairs on my head stiffen. I never saw a man look as he did, and I hope I shall never see such an expression again.
Presently he grew calmer, and then I judged it an opportunity to speak to him. So I asked him:--
“Why do you hate me so?”
He glared at me, and replied:--
“Because you are strong, and like death, and you are not. But you are to be my slave!”
“What do you mean?” I said.
“You know,” he answered, and again the snarl came back.
The attendant came forward, and told me that he had been very violent all the evening, but that he had now fallen into a doze. I came away. I cannot but feel that there is some influence controlling him from without. I must read more of these old legends about the Count.
* * * * *
I hear the howling again. Poor Mr. Renfield! I fear that the dreadful being who has wrought all this mischief is the same who is now trying his utmost to secure his own safety, and to destroy him who seeks to beat him at his own game. He has help and freedom to work and move in, for no one dares to oppose him. I must only try to do so. I shall act as though I was not aware of his identity, and so throw him off his guard. I shall inquire amongst the villagers here, and get them to look for him. I learn that there is an inquest to-day on the death of the woman at Count’s establishment at Hillingham. I knew the record of it before, but I know it now more thoroughly. I must attend it. In the mean time I shall work out a plan of action.
* * * * *
At the inquest there was some personal evidence given as to the facts of the old woman’s death. She had been partially crushed, and there was a big bruise on her forehead where she had evidently struck against the corner of the window. There were horrible lacerations of the throat, but the wound from which she had ultimately lost her life was a deep stab in the left side, which must have pierced the heart.
The evidence pointed to something crushing her, and the blood was analysed, and found of a very surprising and unusual character. Van Helsing, after looking at it, asked whether a doctor was present. The Coroner explained that there were four present. Then Dr. Van Helsing asked for a duly qualified medical man to make a note of the character of the blood, that at the time the inquest was held it might be placed on record, and form a basis of comparison, in case such should be needed.
Dr. Seward volunteered to make a note, so all four doctors looked at the microscope together. I could hear the exclamations of surprise, and knew that Dr. Van Helsing was in the right track; for he alone seemed satisfied.
There was a long discussion as to the cause of death, whether the wound was suicidal, or in any way self-inflicted. The evidence of the attendant was to the effect that the old lady was of a very affectionate disposition; that she was very fond of her grandson; and that she was apparently very happy on the day of the accident, since she got a letter from him. Since then she had been depressed, and looked at the picture of him “as if she were saying good-bye to it.” The jury returned an open verdict, with a nolle prosequi as to the young man whose name had been given.
Dr. Seward took me to his study, and showed me a letter which he had received from him in answer to an inquiry as to his whereabouts on Friday night. The letter read:--
“217, Piccadilly, W.
“24 September.
“Dear Sir,--
“In reply to your letter of the 23rd instant, requesting information regarding my whereabouts at certain times, I must respectfully refuse to give you any further information on the subject beyond that which I have already volunteered to the official investigator. I do not know how far what I have already said may have affected me, but I do not wish to run the risk of prejudice to my case, by any further exposure of my past life and actions. I may be suspected, and I may possibly be accused; but I shall be held guiltless of the death of the old lady at Purfleet.
“Yours respectfully,
“Count De Ville.”
Dr. Seward said to me when he had read the letter:--
“This is a strange letter altogether. It seems to me that this young man has something to hide; and that he wants to get away from deadly danger.” I asked him what he meant by deadly danger; so he at once took me into his confidence, and showed me a letter which he had received from Lord Godalming dated the same day, and by the same post, as the Count’s letter to him. It was written from Piccadilly, and ran:--
“My dear Seward,--
“I want you to do me a service, with, if you will, absolute discretion. There is a man in London whose name is Count De Ville. I have not seen him, but I enclose his address. He is a gentle, nobleman of a very old family. You will know the genus, I know; that is, you will be able to recognise his authentic stamp, for you have studied such things. I want you to certify, from the enclosure and such other investigation as you can make, whether he is of the same race as the late (and also the late Mrs.) Count De Ville of Purfleet. Let me know at once; you know where to find me. Your ever-faithful,
“Arthur.”
“When I read that,” said Dr. Seward, “I saw how I was to work. Now look here!”
He took a photograph from his desk, and handed it to me, saying:--
“That is the dinkum belvo--if I may use such an expression touching his lordship’s dear departed relative.”
I could not resist the temptation of saying:--
“The deuce you did! I can’t blame you, for I’ve seen the gentleman myself.”
“Well,” he said, “there’s the picture; it will give you an idea of what he is like. I know it is pretty bad, for it is a newspaper cut, and you know what that means.”
I laughed, for I knew it well, being both editor and criminal correspondent of a great journal. He went on:--
“Just see if you can find out what you think he is like, and then look at this letter.”
Here was another enclosure:--
“217, Piccadilly, W.
“24 September.
“Dear Sir,--
“I read your advertisement regularly, and I request that you will keep your eyes open for any evidence concerning a gentleman who has lately contacted me, and of whom I have some slight knowledge, which seems to me of interest to him. I only know him as ‘Count De Ville,’ but that he is a foreigner is apparent. I believe he is a nobleman, and he speaks English with slight, though quaint, foreignness. I am only in a position to give one fact which may assist you; but you will find it, I feel sure, of essential importance. This is: that the said Count has a dark beard and a ‘blotch’ on his left temple, which has occasionally given rise to some ill-considered gossip, as regarding the devotion of his household and followers. The mark is evidently a scar of some kind, and must have been made by a narrow escape from a deadly weapon at close quarters. I should like to know more about this affair.
“Yours faithfully,
“Abraham Van Helsing.”
“When I read that,” I said, “it seemed to me that the one fact he furnished was just the one that we wanted. It was evident that the Count’s shock was not a chance effect, but was the carrying out of a definite purpose. Now, if we can find the agent, we have a clue to the principal.”
He nodded, and went on:--
“I thought I had done something; and when next morning his lordship called to see me--he came of his own accord, and was even more restless than I was--I told him that if he would give me a letter to the Count, I would go up to town at once and take the steps to make sure of the contents of the letter. As to any necessity for telling him, I thought it would be better not to suggest it unless, indeed, he asked me to. I knew that I might have to shroud a part; but I did not know how much, and it might make a great deal of trouble. I got him to write the letter, and I went up to London at once. I found out the house, which was a very high and fine one. I went up and down the stairs--there were servants there, but no Count, or any one I could see. So I looked into the room, and found a
“Ahora bien, doctor, puedo dar cuenta de la fuga del lobo de esta manera: parece que el lobo se escapó... simplemente porque quería salir”.
Con la forma sincera en que tanto Thomas como su esposa se rieron de la broma, pude ver que ya había hecho servicio antes y que toda la explicación no era más que un elaborado engaño. No podía competir en ingenio con el digno Thomas, pero pensé que conocía un camino más seguro hacia su corazón, así que dije:
“Ahora, señor Bilder, consideraremos que ese primer medio soberano ya se ha gastado, y este hermano suyo está esperando ser reclamado cuando nos haya dicho lo que piensa que va a pasar”.
“Muy bien, señor”, dijo con brío. “Le ruego que me excuse, sé que me he burlado de usted, pero la vieja aquí me guiñó el ojo, lo que fue tanto como decirme que continuara”.
“¡Vaya, nunca lo hubiera pensado!”, dijo la anciana.
“Mi opinión es esta: que ese lobo está escondido en alguna parte. El jardinero que no se acordaba dijo que galopaba hacia el norte más rápido que un caballo, pero yo no le creo, porque, ya ve, los lobos no galopan, no están construidos de esa manera. Los lobos son cosas maravillosas en un libro de cuentos, y supongo que cuando se reúnen en manada y persiguen a algo que tiene más miedo que ellos, pueden hacer un ruido infernal y despedazarlo, sea lo que sea. Pero, por el amor de Dios, en la vida real un lobo no es más que un animal bajo, ni la mitad de astuto ni valiente que un buen perro, y ni la cuarta parte de lo que lucha. Este no ha sido acostumbrado a luchar ni siquiera a proveer para sí mismo, y es más probable que esté en algún lugar alrededor del parque, escondido y temblando, y, si piensa en absoluto, preguntándose de dónde sacará su desayuno; o tal vez se ha metido en algún sótano. ¡Mi ojo, qué susto se llevará alguna cocinera cuando vea sus ojos verdes brillando en la oscuridad! Si no puede conseguir comida, tendrá que buscarla, y tal vez tenga la suerte de encontrar una carnicería a tiempo. Si no, y alguna niñera sale a pasear con un soldado, dejando al bebé en el cochecito... bueno, entonces no me sorprendería que el censo tenga un bebé menos. Eso es todo”.
Estaba a punto de entregarle el medio soberano cuando algo golpeó contra la ventana y el rostro del señor Bilder se duplicó de sorpresa.
“¡Dios mío!”, exclamó. “¡Si no es el viejo Bersicker que ha regresado por sí solo!”.
Fue a la puerta y la abrió; un procedimiento que me pareció innecesario. Siempre he pensado que un animal salvaje nunca luce tan bien como cuando hay un obstáculo de durabilidad pronunciada entre nosotros; una experiencia personal ha intensificado esa idea en lugar de disminuirla.
Después de todo, sin embargo, no hay nada como la costumbre, porque ni Bilder ni su esposa pensaron más en el lobo de lo que yo pensaría en un perro. El propio animal era tan pacífico y bien comportado como el padre de todos los lobos de los cuentos, el antiguo amigo de Caperucita Roja, mientras movía su confianza en disfraz.
Toda la escena fue una mezcla indescriptible de comedia y patetismo. El lobo malvado que durante medio día había paralizado Londres y hecho que todos los niños de la ciudad temblaran en sus zapatos, estaba allí en un especie de actitud penitente, y fue recibido y acariciado como un prodigio vulpino. El viejo Bilder lo examinó de arriba abajo con la más tierna solicitud, y cuando terminó con su penitente dijo:
“Ahí está, sabía que el pobre viejo se metería en algún problema; ¿no lo dije todo el tiempo? Aquí tiene la cabeza toda cortada y llena de vidrio roto. Se ha estado metiendo en alguna maldita pared u otra. Es una vergüenza que la gente coloque botellas rotas en la parte superior de sus paredes. Esto es lo que sucede. Vamos, Bersicker”.
Tomó al lobo y lo encerró en una jaula, con un trozo de carne que satisfacía, al menos en cantidad, las condiciones elementales del ternero gordo, y se fue a informar.
Yo también me fui a informar la única información exclusiva que se da hoy sobre la extraña escapada en el Zoológico.
Diario del Dr. Seward
17 de septiembre.—Estuve ocupado después de la cena en mi estudio poniendo al día mis libros, que, debido a la presión de otros trabajos y a las muchas visitas a Lucy, habían quedado muy atrasados. De repente, la puerta fue abierta de golpe y entró mi paciente, con el rostro distorsionado por la pasión. Me quedé atónito, porque algo así como que un paciente entre por su propia voluntad en el estudio del Superintendente es casi desconocido. Sin detenerme un instante, se lanzó directamente hacia mí. Llevaba un cuchillo de postre en la mano, y, como vi que era peligroso, traté de mantener la mesa entre nosotros. Era demasiado rápido y demasiado fuerte para mí, sin embargo; porque antes de que pudiera recuperar el equilibrio, me había golpeado y cortado la muñeca izquierda bastante gravemente. Antes de que pudiera golpear de nuevo, sin embargo, logré alcanzarlo y lo derribé al suelo. Mi muñeca sangraba libremente y bastante sangre cayó al suelo. Me di cuenta de que mi amigo no tenía intención de hacer más esfuerzos, y me ocupé de vendar mi muñeca, manteniendo siempre una mirada atenta sobre la figura postrada. Cuando los asistentes entraron, y nos ocupamos de él, su empleo me enfermó. Yacía en el suelo lamiendo, como un perro, la sangre que había caído de mi herida. Lo aseguraron fácilmente y, para mi sorpresa, se fue con los asistentes bastante dócilmente, repitiendo una y otra vez: “¡La sangre es la vida! ¡La sangre es la vida!”.
No puedo permitirme perder sangre en este momento; he perdido demasiada últimamente para mi bienestar físico, y luego la tensión prolongada de la enfermedad de Lucy y sus horribles fases me está afectando. Estoy sobreexcitado y cansado, y necesito descanso, descanso, descanso. Afortunadamente, Van Helsing no me ha convocado, así que no necesito privarme de mi sueño; esta noche no podría hacerlo sin él.
Telegrama de Van Helsing, Amberes, a Seward, Carfax.
(Enviado a Carfax, Sussex, ya que no se dio el condado; entregado con retraso de veintidós horas).
“17 de septiembre.—No falle en estar en Hillingham esta noche. Si no está vigilando todo el tiempo, visite y asegúrese de que las flores estén colocadas; muy importante; no falle. Estaré con usted tan pronto como sea posible después de la llegada”.
Diario del Dr. Seward
18 de septiembre.—Acabo de salir para Londres. La llegada del telegrama de Van Helsing me llenó de inquietud. Toda una noche perdida, y sé por amarga experiencia lo que puede suceder en una noche. Por supuesto, es posible que todo esté bien, pero ¿qué puede haber sucedido? Seguramente hay algún horrible destino que nos acecha, ya que todos los posibles accidentes nos frustran en todo lo que intentamos hacer. Llevaré este cilindro conmigo y así podré completar mi entrada en el fonógrafo de Lucy.
Memorando dejado por Lucy Westenra
17 de septiembre. Noche.—Escribo esto y lo dejo para que lo vean, para que nadie caiga en problemas por mi culpa. Este es un registro exacto de lo que sucedió esta noche. Me siento muriendo de debilidad y apenas tengo fuerzas para escribir, pero debo hacerlo si muero en el intento.
Me acosté como de costumbre, teniendo cuidado de que las flores estuvieran colocadas como el Dr. Van Helsing lo indicó, y pronto me quedé dormida.
Me desperté con el aleteo en la ventana, que había comenzado después de ese sueño en el acantilado de Whitby cuando Mina me salvó, y que ahora conozco tan bien. No estaba asustada, pero deseaba que el Dr. Seward estuviera en la habitación contigua, como el Dr. Van Helsing dijo que estaría, para que pudiera llamarlo. Traté de volver a dormir, pero no pude. Entonces me vino el viejo miedo al sueño, y decidí mantenerme despierta. Perversamente, el sueño intentó venir cuando no lo quería; así que, como temía quedarme sola, abrí mi puerta y llamé: “¿Hay alguien ahí?”. No hubo respuesta. No quería despertar a mi madre, así que cerré mi puerta de nuevo. Entonces, afuera, en el seto, escuché un aullido como de un perro, pero más feroz y profundo. Fui a la ventana y miré hacia afuera, pero no pude ver nada, excepto un gran murciélago que evidentemente había estado golpeando sus alas contra la ventana. Así que volví a la cama de nuevo, pero decidida a no dormir. Poco después, la puerta se abrió y mi madre entró; al ver que no estaba dormida, se sentó a mi lado. Me dijo, aún más dulce y suavemente que de costumbre:
“Estaba inquieta por ti, querida, y entré para ver que estuvieras bien”.
Durante unos minutos nos sentamos y nos miramos en silencio. La luz de la luna era tan brillante que, a través de la gruesa cortina amarilla, la habitación estaba bastante iluminada. De repente, los ojos de mi madre se abrieron con asombro y dijo:
“¿Qué es eso en tu cuello?”.
No podía ver, así que me incliné y miré en el espejo de mi tocador. Había una pequeña marca blanca circular en mi cuello, de aproximadamente una pulgada y media de diámetro, y muy distinta. Cuando intenté hacerla desaparecer, vi que permanecía fija. Me sentí en una especie de éxtasis y sentí en mis dedos una sensación extraña y nueva. Mi debilidad me abandonó y un deseo salvaje me tomó de arrojarme a su cuello y morderla como ella me presionaba. Me controlé, sin embargo, y le dije:
“Madre, no es nada. Debí haberme pellizcado”.
Ella no podía decir nada, pero incluso a la luz de la luna pude ver la duda en su rostro, y me indignó por un momento, aunque el sentimiento pasó rápidamente, porque no estoy enojada con ella. Entonces ella dijo:
“Trata de acostarte y dormir”.
Me dio las buenas noches y se fue, después de besarme. Me quedé quieta durante un rato; pero la sensación de exultación era tan fuerte que me levanté y me acerqué al timbre de los sirvientes sin un temblor. Cuando Parker llegó, le dije lo que quería y le pedí que enviara al portero a mí para instrucciones. Luego ordené al portero que fuera a los establos y me trajera un caballo ensillado, ya que quería montar al campo. Sabía que estaba fuerte y activa, pero la extraña sensación de olvido me invadió mientras estaba en el patio y montaba mi caballo. Durante unos minutos, sentí que mi cabeza daba vueltas, y tuve que apoyarme en alguien para no caer. Entonces, de repente, todo me pareció claro y salí a galope tendido hasta que me cansé; luego caminé hasta una puerta que daba a la carretera principal. No había nadie cerca, y monté y regresé al salón. Todo estaba tranquilo, y en mi habitación las flores estaban tan frescas como siempre. Cuando me metí en la cama, dormí sin soñar.
Estoy comenzando a sentirme extraña y, ¡oh, tan débil! Mi madre ha tomado un opiáceo. El médico dice que dormirá todo el día y no estará muy despierta mañana; pero que cuando despierte debo tener todas las noticias listas para ella. Se ha entristecido al perder a Lucy como su propia hija, pero se alegra de que pronto tenga a alguien que la proteja. ¡Pobre y querida señora! Me confió que tiene su sentencia de muerte. No se lo ha dicho a Lucy y me hizo prometer secreto; su médico le dijo que, dentro de unos meses, como máximo, debe morir, porque su corazón está debilitándose. En cualquier momento, incluso ahora, un shock repentino podría matarla. ¡Ah, fuimos sabias al no contarle el asunto de la terrible noche del sueño de Lucy!
* * * * *
18 de septiembre.—Otra sorpresa. Cuando llegó el telegrama de Van Helsing, Arthur estaba aquí; y cuando se lo dije, quiso venir conmigo. No quise pedírselo, porque sabía cuánto había hecho el Dr. Van Helsing por mí, y no sabía si querría que Arthur también viniera. Así que le dije que le pediría cuando llegáramos. Me sentí aliviada de haberle pedido que viniera, porque será de algún consuelo tenerlo aquí.
* * * * *
Lucy está dormida y respirando profundamente. Los médicos han vuelto a verla. Cuando su madre despertó, fui a quedarme con ella para mantenerla tranquila, y durante un tiempo lo logré. Parecía sorprendida al principio de que yo viniera sola, y me dijo que dos veces había esperado “al querido Arthur”. Me pregunto por qué el Dr. Van Helsing no vino, ya que dijo anoche que siempre estaría disponible. Debo intentar averiguarlo.
Lucy se impacientó y estuvo inquieta, y a veces delirante. Deseé poder haberle contado lo que los médicos vieron en su habitación. Estoy impedida por mi promesa; y, sin embargo, anhelaba decirle lo que sé. Lucy tenía una especie de opresión antes de la tormenta. Estoy segura de que podría haberle contado más si yo no hubiera estado presente. El Dr. Van Helsing la contuvo, sin embargo, diciendo que tendría que irse a preparar para un viaje y que quería obtener toda la información posible de primera mano. Pude ver que Lucy quería contarme algo, y trató de llegar al punto; pero cada vez que se acercaba, se detenía abruptamente, como si fuera por alguna influencia externa. Todo el tiempo pude oír a Renfield aullando y gimiendo, y de vez en cuando gritaba: “¡La sangre es la vida! ¡La sangre es la vida!”.
¡Es demasiado horrible pensar en ello! Parece que no hay límite a la duración de sus poderes para el mal.
* * * * *
Estoy sentada junto a Lucy. Hay algo en la mirada del doctor que no entiendo. Sin embargo, después de anoche, estoy preparada para cualquier cosa. Estoy esperando el momento en que Lucy despierte de su sueño, y entonces sabré por las palabras del Dr. Van Helsing si aún es posible restaurarla. Se ha negado a tomar algo, como si tuviera algún presentimiento. No puedo pensar que esto sea así, y creo que es solo una fase de su enfermedad. La pobre madre tiene el corazón roto y no puede hacer nada.
* * * * *
Lucy se despertó a medianoche y me llamó. Estaba en un estado semisonámbulo y siguió hablando consigo misma. Sus manos se movían constantemente y se desgastaban en la energía de su pensamiento. Estaba hablando incluso cuando entró en la habitación, y continuó hablando mientras se sentaba en el sofá, en su camisón, con los pies descubiertos. Había una intensidad de pensamiento en ella, y miraba al espacio con ojos sin brillo. Me senté en silencio y la escuché.
Al principio, su voz era débil y entrecortada por la disnea, pero había algo sonoro en ella que parecía resonar y eco en el aire frío. Temí que la continua tensión de su pensamiento la abrumara; pero continuó con una fuerza inconsciente que parecía venir a través de las sílabas como si fuera de más allá de ella. Era como un alma que gemía y estaba llena de todo el dolor del pasado y todo el miedo del futuro. Era como el tañido de una campana por un alma fallecida; y, sin embargo, ninguna campana en la tierra sonó así.
“¡Arthur! ¡Arthur! ¡Oh, mi amor, mi verdadero amor, mi vida, mi todo! Ven a mí. Ven a mí rápidamente. Sufro, estoy peor que la muerte, estoy muriendo, te estoy dejando. ¡Oh, debo morir por un error? ¿Qué es una noche, una noche en la que la esencia misma de la vida es el aliento del amor, qué es para toda la vida? ¡Oh, ven a mí, Arthur, querido; ven a mí y sálvame! ¡Sálvame! ¡Sálvame!”.
Su voz se estaba volviendo más delgada y las palabras parecían ser arrancadas de ella. Temí que la continua tensión revolviera la herida y trajera de vuelta el desmayo, así que dije, lo más casualmente que pude:
“Estás demasiado excitada. Debes tratar de calmarte”.
El efecto no fue el que esperaba; para mi sorpresa, su voz subió a una nota alta que parecía casi sobrehumana; cuando se desvaneció, pude ver la pobre herida en su garganta volverse más blanca y roja. El sonido me desestabilizó y me levanté de un salto; hubo un grito terrible que casi heló mi corazón al oírlo. Me volví para ver que el sonido provenía de Renfield; su rostro estaba blanco y sus ojos saltones mientras, medio sentado en su camisa de fuerza, se retorcía como una bestia enjaulada. Me acerqué para tranquilizarlo y, al mismo tiempo, para protegerme, porque temí que su paroxismo de excitación pudiera llevarlo a atacarme; pero mi fuerza no fue suficiente para moverlo, y continuó retorciéndose y gritando como si estuviera bajo un terrible dolor corporal.
“¡En nombre de Dios, qué significa todo esto?”, dije, volviéndome hacia los médicos; pero el Dr. Van Helsing había caído hacia atrás y estaba limpiándose la frente con su pañuelo como si estuviera en una terrible angustia.
Entonces me volví hacia el Dr. Seward. Estaba arrodillado junto al lado de la cama, con la mano en alto, como en advertencia o en oración. Parecía, supongo por contraste con la violenta palidez de gris y púrpura de Renfield, estar mortalmente pálido; tan blanco que incluso sus labios parecían azules. Algo, sin embargo, me consoló, porque sonrió cuando se levantó. Entonces habló en una voz sorprendentemente débil, pero completamente calmada:
“No te asustes; es solo su horrible grito. Es tan astuto que nos engaña a todos de vez en cuando. Cómo fue mordido en primer lugar sigue siendo un misterio para contar”.
“¡Buen Dios!”, dije. “¿Me estás diciendo que este hombre es un asesino?”.
El Dr. Van Helsing levantó la cabeza cuando habló, y su rostro era severo como nunca.
“Te estoy diciendo lo que no sabes”, dijo. “Y lo que digo es esto, que si no es vigilado noche y día, y tratado con el mayor cuidado, puede ser la muerte de nosotros, de algunos de nosotros, ¡de todos nosotros!”.
“¿No sería mejor tomar algunas medidas para evitarlo?”, pregunté. “Ciertamente sería mejor llevarlo a algún lugar lejano, donde no haya gente”.
“Estoy de acuerdo”, dijo el Dr. Van Helsing, “porque en tal caso ninguno de nosotros estaría a salvo”.
El Dr. Seward parecía pensar por un momento y luego respondió:
“Ahora es tan violento que sería seguro llevarlo incluso a Carfax y mantenerlo allí. La cuestión es si no sería mejor ponerlo en algún lugar donde haya gente para cuidarlo”.
“Estoy de acuerdo”, dijo el Dr. Van Helsing, “porque en tal caso ninguno de nosotros estaría a salvo”.
El Dr. Seward parecía pensar y luego respondió:
“No me sentiré seguro hasta que lo hayamos sacado de aquí. Por lo tanto, mientras voy a buscar una luz, tú debes vigilar aquí”.
Después de unos minutos, volvió y salimos de la habitación. La puerta estaba cerrada con llave y la llave dada al Dr. Seward, quien la llevó en su cadena de reloj.
* * * * *
Los dos médicos volvieron unos minutos antes de las ocho. El Dr. Van Helsing parecía aliviado, pero su rostro estaba serio y severo. El Dr. Seward estaba tan pálido como siempre.
“¿Qué pasa?”, pregunté. “Cuéntame, por favor. Debo saber, tengo derecho a saber; es mi derecho saber, ya que tengo que ser dicho”.
Hizo una pausa y me miró, y luego dijo: “¿En nombre de Dios, qué significa todo esto? ¿Estaba ella, o está, loca, o qué horrible peligro es este?”.
Estaba tan desconcertada que no sabía qué decir más. El Dr. Van Helsing tomó el papel y lo leyó, y luego me lo entregó, diciendo:
“No te preocupes por eso ahora. Olvídalo por el momento. Sabrás y entenderás todo a su debido tiempo; pero será más tarde. Y ahora, ¿qué es lo que viniste a decirme?”.
Esto me devolvió a la realidad y me sentí yo misma de nuevo.
“Vine a hablar sobre el certificado de defunción. Si no actuamos de manera adecuada y sabia, puede haber una investigación, y ese papel tendría que ser producido. Espero que no haya investigación, porque si la hubiera, seguramente mataría a la pobre Lucy, si nada más lo hiciera. Sé, y tú sabes, y el otro médico que la atendió sabe, que la Sra. Westenra tenía una enfermedad del corazón, y podemos certificar que murió de eso. Vamos a llenar el certificado de inmediato, y yo mismo lo llevaré al registro y luego al funerario”.
“¡Buen trabajo, oh, mi amigo John! ¡Bien pensado! Realmente, si Lucy está triste por los enemigos que la acechan, al menos es feliz por los amigos que la aman. Uno, dos, tres, todos abren sus venas por ella, además de un viejo. ¡Ah, sí, lo sé, amigo John; no estoy ciego! ¡Los amo a todos más por eso! Ahora ve”.
En el pasillo me encontré con Quincey Morris, que me entregó un telegrama para Arthur diciendo que la Sra. Westenra había muerto; que Lucy también había estado enferma, pero que ahora estaba mejorando; y que el Dr. Van Helsing y yo estábamos con ella. Le dije adónde iba y él me animó a ir, pero cuando me iba dijo:
“Cuando vuelvas, Jack, ¿puedo tener dos palabras contigo a solas?”.
Asentí en respuesta y salí. No tuve dificultades con el registro y arreglé con el funerario local que viniera por la noche a tomar medidas para el ataúd y hacer los arreglos.
Cuando regresé, Quincey Morris me estaba esperando. Me llevó al comedor, donde las persianas no estaban bajadas, y que era un poco más alegre, o más bien menos lúgubre, que las otras habitaciones. Cuando estuvimos solos, me dijo:
“Jack Seward, no quiero meterme donde no tengo derecho, pero este no es un caso común. Sabes que amé a esa chica y quería casarme con ella; pero, aunque eso ya pasó, no puedo evitar sentirme ansioso por ella. ¿Qué es lo que está mal con ella? El holandés, y es un buen tipo, dijo, cuando tú y él entraron en la habitación, que debíamos tener otra transfusión de sangre, y que ambos estábamos exhaustos. Ahora, sé que los médicos hablan en privado, y que un hombre no debe esperar saber lo que consultan en privado. Pero este no es un asunto común, y, sea lo que sea, he hecho mi parte. ¿No es así?”.
“Es así”, le dije, y él continuó:
“No quiero meterme donde no tengo derecho, pero tengo derecho a saber algo sobre esto. ¿No es así? Tú y yo somos viejos amigos, y tú fuiste siempre un buen amigo de Art”.
“Art está bien”, le dije, y él se alegró.
“Entonces, ¿qué es lo que está mal con ella? Él no vendrá a verme, y no quiero molestarle; él y Mae están felices juntos, y yo no quiero causarle problemas. Me pregunto si no es algo que tiene que ver con la muerte de su madre”.
Me sentí un poco incómodo, pero le respondí lo mejor que pude:
“No hay nada que temer; ella está mejorando, y su madre murió de una enfermedad del corazón, así que no hay nada que temer”.
No pareció muy satisfecho, pero se calmó y dijo:
“Bueno, tal vez tengas razón. Ciertamente espero que lo tengas. Si hay algo en lo que pueda ayudar, debes contar conmigo, de día o de noche”.
“Eso es de amigo”, le dije, “y si necesito ayuda, no dudaré en pedírtela”.
Me sentí un poco más aliviado después de haber hablado con él. De alguna manera, su equilibrio y su calma me tranquilizaron.
* * * * *
He estado con Lucy toda la tarde. Ella está durmiendo profundamente, pero los médicos me han dicho que debo estar atenta a cualquier cambio. El Dr. Van Helsing está preparando sus cosas para un viaje, pero no me ha dicho a dónde va. Espero que no sea nada grave.
* * * * *
Lucy se despertó a medianoche y me llamó. Estaba en un estado semisonámbulo y seguía hablando consigo misma. Sus manos se movían constantemente y se desgastaban en la energía de su pensamiento. Estaba hablando incluso cuando entró en la habitación, y continuó hablando mientras se sentaba en el sofá, en su camisón, con los pies descubiertos. Había una intensidad de pensamiento en ella, y miraba al espacio con ojos sin brillo. Me senté en silencio y la escuché.
Al principio, su voz era débil y entrecortada por la disnea, pero había algo sonoro en ella que parecía resonar y eco en el aire frío. Temí que la continua tensión de su pensamiento la abrumara; pero continuó con una fuerza inconsciente que parecía venir a través de las sílabas como si fuera de más allá de ella. Era como un alma que gemía y estaba llena de todo el dolor del pasado y todo el miedo del futuro. Era como el tañido de una campana por un alma fallecida; y, sin embargo, ninguna campana en la tierra sonó así.
“¡Arthur! ¡Arthur! ¡Oh, mi amor, mi verdadero amor, mi vida, mi todo! Ven a mí. Ven a mí rápidamente. Sufro, estoy peor que la muerte, estoy muriendo, te estoy dejando. ¡Oh, debo morir por un error? ¿Qué es una noche, una noche en la que la esencia misma de la vida es el aliento del amor, qué es para toda la vida? ¡Oh, ven a mí, Arthur, querido; ven a mí y sálvame! ¡Sálvame! ¡Sálvame!”.
Su voz se estaba volviendo más delgada y las palabras parecían ser arrancadas de ella. Temí que la continua tensión revolviera la herida y trajera de vuelta el desmayo, así que dije, lo más casualmente que pude:
“Estás demasiado excitada. Debes tratar de calmarte”.
El efecto no fue el que esperaba; para mi sorpresa, su voz subió a una nota alta que parecía casi sobrehumana; cuando se desvaneció, pude ver la pobre herida en su garganta volverse más blanca y roja. El sonido me desestabilizó y me levanté de un salto; hubo un grito terrible que casi heló mi corazón al oírlo. Me volví para ver que el sonido provenía de Renfield; su rostro estaba blanco y sus ojos saltones mientras, medio sentado en su camisa de fuerza, se retorcía como una bestia enjaulada. Me acerqué para tranquilizarlo y, al mismo tiempo, para protegerme, porque temí que su paroxismo de excitación pudiera llevarlo a atacarme; pero mi fuerza no fue suficiente para moverlo, y continuó retorciéndose y gritando como si estuviera bajo un terrible dolor corporal.
“¡En nombre de Dios, qué significa todo esto?”, dije, volviéndome hacia los médicos; pero el Dr. Van Helsing había caído hacia atrás y estaba limpiándose la frente con su pañuelo como si estuviera en una terrible angustia.
Entonces me volví hacia el Dr. Seward. Estaba arrodillado junto al lado de la cama, con la mano en alto, como en advertencia o en oración. Parecía, supongo por contraste con la violenta palidez de gris y púrpura de Renfield, estar mortalmente pálido; tan blanco que incluso sus labios parecían azules. Algo, sin embargo, me consoló, porque sonrió cuando se levantó. Entonces habló en una voz sorprendentemente débil, pero completamente calmada:
“No te asustes; es solo su horrible grito. Es tan astuto que nos engaña a todos de vez en cuando. Cómo fue mordido en primer lugar sigue siendo un misterio para contar”.
“¡Buen Dios!”, dije. “¿Me estás diciendo que este hombre es un asesino?”.
El Dr. Van Helsing levantó la cabeza cuando habló, y su rostro era severo como nunca.
“Te estoy diciendo lo que no sabes”, dijo. “Y lo que digo es esto, que si no es vigilado noche y día, y tratado con el mayor cuidado, puede ser la muerte de nosotros, de algunos de nosotros, ¡de todos nosotros!”.
“¿No sería mejor tomar algunas medidas para evitarlo?”, pregunté. “Ciertamente sería mejor llevarlo a algún lugar lejano, donde no haya gente”.
“Estoy de acuerdo”, dijo el Dr. Van Helsing, “porque en tal caso ninguno de nosotros estaría a salvo”.
El Dr. Seward parecía pensar por un momento y luego respondió:
“Ahora es tan violento que sería seguro llevarlo incluso a Carfax y mantenerlo allí. La cuestión es si no sería mejor ponerlo en algún lugar donde haya gente para cuidarlo”.
“Estoy de acuerdo”, dijo el Dr. Van Helsing, “porque en tal caso ninguno de nosotros estaría a salvo”.
El Dr. Seward parecía pensar y luego respondió:
“No me sentiré seguro hasta que lo hayamos sacado de aquí. Por lo tanto, mientras voy a buscar una luz, tú debes vigilar aquí”.
Después de unos minutos, volvió y salimos de la habitación. La puerta estaba cerrada con llave y la llave dada al Dr. Seward, quien la llevó en su cadena de reloj.
* * * * *
Los dos médicos volvieron unos minutos antes de las ocho. El Dr. Van Helsing parecía aliviado, pero su rostro era serio y severo. El Dr. Seward estaba tan pálido como siempre.
“¿Qué pasa?”, pregunté. “Cuéntame, por favor. Debo saber, tengo derecho a saber; es mi derecho saber, ya que tengo que ser dicho”.
Hizo una pausa y me miró, y luego dijo: “¿En nombre de Dios, qué significa todo esto? ¿Estaba ella, o está, loca, o qué horrible peligro es este?”.
Estaba tan desconcertada que no sabía qué decir más. El Dr. Van Helsing tomó el papel y lo leyó, y luego me lo entregó, diciendo:
“No te preocupes por eso ahora. Olvídalo por el momento. Sabrás y entenderás todo a su debido tiempo; pero será más tarde. Y ahora, ¿qué es lo que viniste a decirme?”.
Esto me devolvió a la realidad y me sentí yo misma de nuevo.
“Vine a hablar sobre el certificado de defunción. Si no actuamos de manera adecuada y sabia, puede haber una investigación, y ese papel tendría que ser producido. Espero que no haya investigación, porque si la hubiera, seguramente mataría a la pobre Lucy, si nada más lo hiciera. Sé, y tú sabes, y el otro médico que la atendió sabe, que la Sra. Westenra tenía una enfermedad del corazón, y podemos certificar que murió de eso. Vamos a llenar el certificado de inmediato, y yo mismo lo llevaré al registro y luego al funerario”.
“¡Buen trabajo, oh, mi amigo John! ¡Bien pensado! Realmente, si Lucy está triste por los enemigos que la acechan, al menos es feliz por los amigos que la aman. Uno, dos, tres, todos abren sus venas por ella, además de un viejo. ¡Ah, sí, lo sé, amigo John; no estoy ciego! ¡Los amo a todos más por eso! Ahora ve”.
En el pasillo me encontré con Quincey Morris, que me entregó un telegrama para Arthur diciendo que la Sra. Westenra había muerto; que Lucy también había estado enferma, pero que ahora estaba mejorando; y que el Dr. Van Helsing y yo estábamos con ella. Le dije adónde iba y él me animó a ir, pero cuando me iba dijo:
“Cuando vuelvas, Jack, ¿puedo tener dos palabras contigo a solas?”.
Asentí en respuesta y salí. No tuve dificultades con el registro y arreglé con el funerario local que viniera por la noche a tomar medidas para el ataúd y hacer los arreglos.
Cuando regresé, Quincey Morris me estaba esperando. Me llevó al comedor, donde las persianas no estaban bajadas, y que era un poco más alegre, o más bien menos lúgubre, que las otras habitaciones. Cuando estuvimos solos, me dijo:
“Jack Seward, no quiero meterme donde no tengo derecho, pero este no es un caso común. Sabes que amé a esa chica y quería casarme con ella; pero, aunque eso ya pasó, no puedo evitar sentirme ansioso por ella. ¿Qué es lo que está mal con ella? El holandés, y es un buen tipo, dijo, cuando tú y él entraron en la habitación, que debíamos tener otra transfusión de sangre, y que ambos estábamos exhaustos. Ahora, sé que los médicos hablan en privado, y que un hombre no debe esperar saber lo que consultan en privado. Pero este no es un asunto común, y, sea lo que sea, he hecho mi parte. ¿No es así?”.
“Es así”, le dije, y él continuó:
“No quiero meterme donde no tengo derecho, pero tengo derecho a saber algo sobre esto. ¿No es así? Tú y yo somos viejos amigos, y tú fuiste siempre un buen amigo de Art”.
“Art está bien”, le dije, y él se alegró.
“Entonces, ¿qué es lo que está mal con ella? Él no vendrá a verme, y no quiero molestarle; él y Mae están felices juntos, y yo no quiero causarle problemas. Me pregunto si no es algo que tiene que ver con la muerte de su madre”.
Me sentí un poco incómodo, pero le respondí lo mejor que pude:
“No hay nada que temer; ella está mejorando, y su madre murió de una enfermedad del corazón, así que no hay nada que temer”.
No pareció muy satisfecho, pero se calmó y dijo:
“Bueno, tal vez tengas razón. Ciertamente espero que lo tengas. Si hay algo en lo que pueda ayudar, debes contar conmigo, de día o de noche”.
“Eso es de amigo”, le dije, “y si necesito ayuda, no dudaré en pedírtela”.
Me sentí un poco más aliviada después de haber hablado con él. De alguna manera, su equilibrio y su calma me tranquilizaron.
* * * * *
He estado con Lucy toda la tarde. Ella está durmiendo profundamente, pero los médicos me han dicho que debo estar atenta a cualquier cambio. El Dr. Van Helsing está preparando sus cosas para un viaje, pero no me ha dicho a dónde va. Espero que no sea nada grave.
* * * * *
Lucy se despertó a medianoche y me llamó. Estaba en un estado semisonámbulo y siguió hablando consigo misma. Sus manos se
Estaba en un estado semisonámbulo y siguió hablando consigo misma. Sus manos se movían constantemente y se desgastaban en la energía de su pensamiento. Estaba hablando incluso cuando entró en la habitación, y continuó hablando mientras se sentaba en el sofá, en su camisón, con los pies descubiertos. Había una intensidad de pensamiento en ella, y miraba al espacio con ojos sin brillo. Me senté en silencio y la escuché.
Al principio, su voz era débil y entrecortada por la disnea, pero había algo sonoro en ella que parecía resonar y eco en el aire frío. Temí que la continua tensión de su pensamiento la abrumara; pero continuó con una fuerza inconsciente que parecía venir a través de las sílabas como si fuera de más allá de ella. Era como un alma que gemía y estaba llena de todo el dolor del pasado y todo el miedo del futuro. Era como el tañido de una campana por un alma fallecida; y, sin embargo, ninguna campana en la tierra sonó así.
“¡Arthur! ¡Arthur! ¡Oh, mi amor, mi verdadero amor, mi vida, mi todo! Ven a mí. Ven a mí rápidamente. Sufro, estoy peor que la muerte, estoy muriendo, te estoy dejando. ¡Oh, debo morir por un error? ¿Qué es una noche, una noche en la que la esencia misma de la vida es el aliento del amor, qué es para toda la vida? ¡Oh, ven a mí, Arthur, querido; ven a mí y sálvame! ¡Sálvame! ¡Sálvame!”.
Su voz se estaba volviendo más delgada y las palabras parecían ser arrancadas de ella. Temí que la continua tensión revolviera la herida y trajera de vuelta el desmayo, así que dije, lo más casualmente que pude:
“Estás demasiado excitada. Debes tratar de calmarte”.
El efecto no fue el que esperaba; para mi sorpresa, su voz subió a una nota alta que parecía casi sobrehumana; cuando se desvaneció, pude ver la pobre herida en su garganta volverse más blanca y roja. El sonido me desestabilizó y me levanté de un salto; hubo un grito terrible que casi heló mi corazón al oírlo. Me volví para ver que el sonido provenía de Renfield; su rostro estaba blanco y sus ojos saltones mientras, medio sentado en su camisa de fuerza, se retorcía como una bestia enjaulada. Me acerqué para tranquilizarlo y, al mismo tiempo, para protegerme, porque temí que su paroxismo de excitación pudiera llevarlo a atacarme; pero mi fuerza no fue suficiente para moverlo, y continuó retorciéndose y gritando como si estuviera bajo un terrible dolor corporal.
“¡En nombre de Dios, qué significa todo esto?”, dije, volviéndome hacia los médicos; pero el Dr. Van Helsing había caído hacia atrás y estaba limpiándose la frente con su pañuelo como si estuviera en una terrible angustia.
Entonces me volví hacia el Dr. Seward. Estaba arrodillado junto al lado de la cama, con la mano en alto, como en advertencia o en oración. Parecía, supongo por contraste con la violenta palidez de gris y púrpura de Renfield, estar mortalmente pálido; tan blanco que incluso sus labios parecían azules. Algo, sin embargo, me consoló, porque sonrió cuando se levantó. Entonces habló en una voz sorprendentemente débil, pero completamente calmada:
“No te asustes; es solo su horrible grito. Es tan astuto que nos engaña a todos de vez en cuando. Cómo fue mordido en primer lugar sigue siendo un misterio para contar”.
“¡Buen Dios!”, dije. “¿Me estás diciendo que este hombre es un asesino?”.
El Dr. Van Helsing levantó la cabeza cuando habló, y su rostro era severo como nunca.
“Te estoy diciendo lo que no sabes”, dijo. “Y lo que digo es esto, que si no es vigilado noche y día, y tratado con el mayor cuidado, puede ser la muerte de nosotros, de algunos de nosotros, ¡de todos nosotros!”.
“¿No sería mejor tomar algunas medidas para evitarlo?”, pregunté. “Ciertamente sería mejor llevarlo a algún lugar lejano, donde no haya gente”.
“Estoy de acuerdo”, dijo el Dr. Van Helsing, “porque en tal caso ninguno de nosotros estaría a salvo”.
El Dr. Seward parecía pensar por un momento y luego respondió:
“Ahora es tan violento que sería seguro llevarlo incluso a Carfax y mantenerlo allí. La cuestión es si no sería mejor ponerlo en algún lugar donde haya gente para cuidarlo”.
“Estoy de acuerdo”, dijo el Dr. Van Helsing, “porque en tal caso ninguno de nosotros estaría a salvo”.
El Dr. Seward parecía pensar y luego respondió:
“No me sentiré seguro hasta que lo hayamos sacado de aquí. Por lo tanto, mientras voy a buscar una luz, tú debes vigilar aquí”.
Después de unos minutos, volvió y salimos de la habitación. La puerta estaba cerrada con llave y la llave dada al Dr. Seward, quien la llevó en su cadena de reloj.
* * * * *
Los dos médicos volvieron unos minutos antes de las ocho. El Dr. Van Helsing parecía aliviado, pero su rostro era serio y severo. El Dr. Seward estaba tan pálido como siempre.
“¿Qué pasa?”, pregunté. “Cuéntame, por favor. Debo saber, tengo derecho a saber; es mi derecho saber, ya que tengo que ser dicho”.
Hizo una pausa y me miró, y luego dijo: “¿En nombre de Dios, qué significa todo esto? ¿Estaba ella, o está, loca, o qué horrible peligro es este?”.
Estaba tan desconcertada que no sabía qué decir más. El Dr. Van Helsing tomó el papel y lo leyó, y luego me lo entregó, diciendo:
“No te preocupes por eso ahora. Olvídalo por el momento. Sabrás y entenderás todo a su debido tiempo; pero será más tarde. Y ahora, ¿qué es lo que viniste a decirme?”.
Esto me devolvió a la realidad y me sentí yo misma de nuevo.
“Vine a hablar sobre el certificado de defunción. Si no actuamos de manera adecuada y sabia, puede haber una investigación, y ese papel tendría que ser producido. Espero que no haya investigación, porque si la hubiera, seguramente mataría a la pobre Lucy, si nada más lo hiciera. Sé, y tú sabes, y el otro médico que la atendió sabe, que la Sra. Westenra tenía una enfermedad del corazón, y podemos certificar que murió de eso. Vamos a llenar el certificado de inmediato, y yo mismo lo llevaré al registro y luego al funerario”.
“¡Buen trabajo, oh, mi amigo John! ¡Bien pensado! Realmente, si Lucy está triste por los enemigos que la acechan, al menos es feliz por los amigos que la aman. Uno, dos, tres, todos abren sus venas por ella, además de un viejo. ¡Ah, sí, lo sé, amigo John; no estoy ciego! ¡Los amo a todos más por eso! Ahora ve”.
En el pasillo me encontré con Quincey Morris, que me entregó un telegrama para Arthur diciendo que la Sra. Westenra había muerto; que Lucy también había estado enferma, pero que ahora estaba mejorando; y que el Dr. Van Helsing y yo estábamos con ella. Le dije adónde iba y él me animó a ir, pero cuando me iba dijo:
“Cuando vuelvas, Jack, ¿puedo tener dos palabras contigo a solas?”.
Asentí en respuesta y salí. No tuve dificultades con el registro y arreglé con el funerario local que viniera por la noche a tomar medidas para el ataúd y hacer los arreglos.
Cuando regresé, Quincey Morris me estaba esperando. Me llevó al comedor, donde las persianas no estaban bajadas, y que era un poco más alegre, o más bien menos lúgubre, que las otras habitaciones. Cuando estuvimos solos, me dijo:
“Jack Seward, no quiero meterme donde no tengo derecho, pero este no es un caso común. Sabes que amé a esa chica y quería casarme con ella; pero, aunque eso ya pasó, no puedo evitar sentirme ansioso por ella. ¿Qué es lo que está mal con ella? El holandés, y es un buen tipo, dijo, cuando tú y él entraron en la habitación, que debíamos tener otra transfusión de sangre, y que ambos estábamos exhaustos. Ahora, sé que los médicos hablan en privado, y que un hombre no debe esperar saber lo que consultan en privado. Pero este no es un asunto común, y, sea lo que sea, he hecho mi parte. ¿No es así?”.
“Es así”, le dije, y él continuó:
“No quiero meterme donde no tengo derecho, pero tengo derecho a saber algo sobre esto. ¿No es así? Tú y yo somos viejos amigos, y tú fuiste siempre un buen amigo de Art”.
“Art está bien”, le dije, y él se alegró.
“Entonces, ¿qué es lo que está mal con ella? Él no vendrá a verme, y no quiero molestarle; él y Mae están felices juntos, y yo no quiero causarle problemas. Me pregunto si no es algo que tiene que ver con la muerte de su madre”.
Me sentí un poco incómodo, pero le respondí lo mejor que pude:
“No hay nada que temer; ella está mejorando, y su madre murió de una enfermedad del corazón, así que no hay nada que temer”.
No pareció muy satisfecho, pero se calmó y dijo:
“Bueno, tal vez tengas razón. Ciertamente espero que lo tengas. Si hay algo en lo que pueda ayudar, debes contar conmigo, de día o de noche”.
“Eso es de amigo”, le dije, “y si necesito ayuda, no dudaré en pedírtela”.
Me sentí un poco más aliviada después de haber hablado con él. De alguna manera, su equilibrio y su calma me tranquilizaron.
* * * * *
He estado con Lucy toda la tarde. Ella está durmiendo profundamente, pero los médicos me han dicho que debo estar atenta a cualquier cambio. El Dr. Van Helsing está preparando sus cosas para un viaje, pero no me ha dicho a dónde va. Espero que no sea nada grave.
* * * * *
Lucy se despertó a medianoche y me llamó. Estaba en un estado semisonámbulo y siguió hablando consigo misma. Sus manos se movían constantemente y se desgastaban en la energía de su pensamiento. Estaba hablando incluso cuando entró en la habitación, y continuó hablando mientras se sentaba en el sofá, en su camisón, con los pies descubiertos. Había una intensidad de pensamiento en ella, y miraba al espacio con ojos sin brillo. Me senté en silencio y la escuché.
Al principio, su voz era débil y entrecortada por la disnea, pero había algo sonoro en ella que parecía resonar y eco en el aire frío. Temí que la continua tensión de su pensamiento la abrumara; pero continuó con una fuerza inconsciente que parecía venir a través de las sílabas como si fuera de más allá de ella. Era como un alma que gemía y estaba llena de todo el dolor del pasado y todo el miedo del futuro. Era como el tañido de una campana por un alma fallecida; y, sin embargo, ninguna campana en la tierra sonó así.
“¡Arthur! ¡Arthur! ¡Oh, mi amor, mi verdadero amor, mi vida, mi todo! Ven a mí. Ven a mí rápidamente. Sufro, estoy peor que la muerte, estoy muriendo, te estoy dejando. ¡Oh, debo morir por un error? ¿Qué es una noche, una noche en la que la esencia misma de la vida es el aliento del amor, qué es para toda la vida? ¡Oh, ven a mí, Arthur, querido; ven a mí y sálvame! ¡Sálvame! ¡Sálvame!”.
Su voz se estaba volviendo más delgada y las palabras parecían ser arrancadas de ella. Temí que la continua tensión revolviera la herida y trajera de vuelta el desmayo, así que dije, lo más casualmente que pude:
“Estás demasiado excitada. Debes tratar de calmarte”.
El efecto no fue el que esperaba; para mi sorpresa, su voz subió a una nota alta que parecía casi sobrehumana; cuando se desvaneció, pude ver la pobre herida en su garganta volverse más blanca y roja. El sonido me desestabilizó y me levanté de un salto; hubo un grito terrible que casi heló mi corazón al oírlo. Me volví para ver que el sonido provenía de Renfield; su rostro estaba blanco y sus ojos saltones mientras, medio sentado en su camisa de fuerza, se retorcía como una bestia enjaulada. Me acerqué para tranquilizarlo y, al mismo tiempo, para protegerme, porque temí que su paroxismo de excitación pudiera llevarlo a atacarme; pero mi fuerza no fue suficiente para moverlo, y continuó retorciéndose y gritando como si estuviera bajo un terrible dolor corporal.
“¡En nombre de Dios, qué significa todo esto?”, dije, volviéndome hacia los médicos; pero el Dr. Van Helsing había caído hacia atrás y estaba limpiándose la frente con su pañuelo como si estuviera en una terrible angustia.
Entonces me volví hacia el Dr. Seward. Estaba arrodillado junto al lado de la cama, con la mano en alto, como en advertencia o en oración. Parecía, supongo por contraste con la violenta palidez de gris y púrpura de Renfield, estar mortalmente pálido; tan blanco que incluso sus labios parecían azules. Algo, sin embargo, me consoló, porque sonrió cuando se levantó. Entonces habló en una voz sorprendentemente débil, pero completamente calmada:
“No te asustes; es solo su horrible grito. Es tan astuto que nos engaña a todos de vez en cuando. Cómo fue mordido en primer lugar sigue siendo un misterio para contar”.
“¡Buen Dios!”, dije. “¿Me estás diciendo que este hombre es un asesino?”.
El Dr. Van Helsing levantó la cabeza cuando habló, y su rostro era severo como nunca.
“Te estoy diciendo lo que no sabes”, dijo. “Y lo que digo es esto, que si no es vigilado noche y día, y tratado con el mayor cuidado, puede ser la muerte de nosotros, de algunos de nosotros, ¡de todos nosotros!”.
“¿No sería mejor tomar algunas medidas para evitarlo?”, pregunté. “Ciertamente sería mejor llevarlo a algún lugar lejano, donde no haya gente”.
“Estoy de acuerdo”, dijo el Dr. Van Helsing, “porque en tal caso ninguno de nosotros estaría a salvo”.
El Dr. Seward parecía pensar por un momento y luego respondió:
“Ahora es tan violento que sería seguro llevarlo incluso a Carfax y mantenerlo allí. La cuestión es si no sería mejor ponerlo en algún lugar donde haya gente para cuidarlo”.
“Estoy de acuerdo”, dijo el Dr. Van Helsing, “porque en tal caso ninguno de nosotros estaría a salvo”.
El Dr. Seward parecía pensar y luego respondió:
“No me sentiré seguro hasta que lo hayamos sacado de aquí. Por lo tanto, mientras voy a buscar una luz, tú debes vigilar aquí”.
Después de unos minutos, volvió y salimos de la habitación. La puerta estaba cerrada con llave y la llave dada al Dr. Seward, quien la llevó en su cadena de reloj.
* * * * *
Los dos médicos volvieron unos minutos antes de las ocho. El Dr. Van Helsing parecía aliviado, pero su rostro era serio y severo. El Dr. Seward estaba tan pálido como siempre.
“¿Qué pasa?”, pregunté. “Cuéntame, por favor. Debo saber, tengo derecho a saber; es mi derecho saber, ya que tengo que ser dicho”.
Hizo una pausa y me miró, y luego dijo: “¿En nombre de Dios, qué significa todo esto? ¿Estaba ella, o está, loca, o qué horrible peligro es este?”.
Estaba tan desconcertada que no sabía qué decir más. El Dr. Van Helsing tomó el papel y lo leyó, y luego me lo entregó, diciendo:
“No te preocupes por eso ahora. Olvídalo por el momento. Sabrás y entenderás todo a su debido tiempo; pero será más tarde. Y ahora, ¿qué es lo que viniste a decirme?”.
Esto me devolvió a la realidad y me sentí yo misma de nuevo.
“Vine a hablar sobre el certificado de defunción. Si no actuamos de manera adecuada y sabia, puede haber una investigación, y ese papel tendría que ser producido. Espero que no haya investigación, porque si la hubiera, seguramente mataría a la pobre Lucy, si nada más lo hiciera. Sé, y tú sabes, y el otro médico que la atendió sabe, que la Sra. Westenra tenía una enfermedad del corazón, y podemos certificar que murió de eso. Vamos a llenar el certificado de inmediato, y yo mismo lo llevaré al registro y luego al funerario”.
“¡Buen trabajo, oh, mi amigo John! ¡Bien pensado! Realmente, si Lucy está triste por los enemigos que la acechan, al menos es feliz por los amigos que la aman. Uno, dos, tres, todos abren sus venas por ella, además de un viejo. ¡Ah, sí, lo sé, amigo John; no estoy ciego! ¡Los amo a todos más por eso! Ahora ve”.
En el pasillo me encontré con Quincey Morris, que me entregó un telegrama para Arthur diciendo que la Sra. Westenra había muerto; que Lucy también había estado enferma, pero que ahora estaba mejorando; y que el Dr. Van Helsing y yo estábamos con ella. Le dije adónde iba y él me animó a ir, pero cuando me iba dijo:
“Cuando vuelvas, Jack, ¿puedo tener dos palabras contigo a solas?”.
Asentí en respuesta y salí. No tuve dificultades con el registro y arreglé con el funerario local que viniera por la noche a tomar medidas para el ataúd y hacer los arreglos.
Cuando regresé, Quincey Morris me estaba esperando. Me llevó al comedor, donde las persianas no estaban bajadas, y que era un poco más alegre, o más bien menos lúgubre, que las otras habitaciones. Cuando estuvimos solos, me dijo:
“Jack Seward, no quiero meterme donde no tengo derecho, pero este no es un caso común. Sabes que amé a esa chica y quería casarme con ella; pero, aunque eso ya pasó, no puedo evitar sentirme ansioso por ella. ¿Qué es lo que está mal con ella? El holandés, y es un buen tipo, dijo, cuando tú y él entraron en la habitación, que debíamos tener otra transfusión de sangre, y que ambos estábamos exhaustos. Ahora, sé que los médicos hablan en privado, y que un hombre no debe esperar saber lo que consultan en privado. Pero este no es un asunto común, y, sea lo que sea, he hecho mi parte. ¿No es así?”.
“Es así”, le dije, y él continuó:
“No quiero meterme donde no tengo derecho, pero tengo derecho a saber algo sobre esto. ¿No es así? Tú y yo somos viejos amigos, y tú fuiste siempre un buen amigo de Art”.
“Art está bien”, le dije, y él se alegró.
“Entonces, ¿qué es lo que está mal con ella? Él no vendrá a verme, y no quiero molestarle; él y Mae están felices juntos, y yo no quiero causarle problemas. Me pregunto si no es algo que tiene que ver con la muerte de su madre”.
Me sentí un poco incómodo, pero le respondí lo mejor que pude:
“No hay nada que temer; ella está mejorando, y su madre murió de una enfermedad del corazón, así que no hay nada que temer”.
No pareció muy satisfecho, pero se calmó y dijo:
“Bueno, tal vez tengas razón. Ciertamente espero que lo tengas. Si hay algo en lo que pueda ayudar, debes contar conmigo, de día o de noche”.
“Eso es de amigo”, le dije, “y si necesito ayuda, no dudaré en pedírtela”.
Me sentí un poco más aliviada después de haber hablado con él. De alguna manera, su equilibrio y su calma me tranquilizaron.
* * * * *
He estado con Lucy toda la tarde. Ella está durmiendo profundamente, pero los médicos me han dicho que debo estar atenta a cualquier cambio. El Dr. Van Helsing está preparando sus cosas para un viaje, pero no me ha dicho a dónde va. Espero que no sea nada grave.
* * * * *
Lucy se despertó a medianoche y me llamó. Estaba en un estado semisonámbulo y siguió hablando consigo misma. Sus manos se movían constantemente y se desgastaban en la energía de su pensamiento. Estaba hablando incluso cuando entró en la habitación, y continuó hablando mientras se sentaba en el sofá, en su camisón, con los pies descubiertos. Había una intensidad de pensamiento en ella, y miraba al espacio con ojos sin brillo. Me senté en silencio y la escuché.
Al principio, su voz era débil y entrecortada por la disnea, pero había algo sonoro en ella que parecía resonar y eco en el aire frío. Temí que la continua tensión de su pensamiento la abrumara; pero continuó con una fuerza inconsciente que parecía venir a través de las sílabas como si fuera de más allá de ella. Era como un alma que gemía y estaba llena de todo el dolor del pasado y todo el miedo del futuro. Era como el tañido de una campana por un alma fallecida; y, sin embargo, ninguna campana en la tierra sonó así.
“¡Arthur! ¡Arthur! ¡Oh, mi amor, mi verdadero amor, mi vida, mi todo! Ven a mí. Ven a mí rápidamente. Sufro, estoy peor que la muerte, estoy muriendo, te estoy dejando. ¡Oh, debo morir por un error? ¿Qué es una noche, una noche en la que la esencia misma de la vida es el aliento del amor, qué es para toda la vida? ¡Oh, ven a mí, Arthur, querido; ven a mí y sálvame! ¡Sálvame! ¡Sálvame!”.
Su voz se estaba volviendo más delgada y las palabras parecían ser arrancadas de ella. Temí que la continua tensión revolviera la herida y trajera de vuelta el desmayo, así que dije, lo más casualmente que pude:
“Estás demasiado excitada. Debes tratar de calmarte”.
El efecto no fue el que esperaba; para mi sorpresa, su voz subió a una nota alta que parecía casi sobrehumana; cuando se desvaneció, pude ver la pobre herida en su garganta volverse más blanca y roja. El sonido me desestabilizó y me levanté de un salto; hubo un grito terrible que casi heló mi corazón al oírlo. Me volví para ver que el sonido provenía de Renfield; su rostro estaba blanco y sus ojos saltones mientras, medio sentado en su camisa de fuerza, se retorcía como una bestia enjaulada. Me acerqué para tranquilizarlo y, al mismo tiempo, para protegerme, porque temí que su paroxismo de excitación pudiera llevarlo a atacarme; pero mi fuerza no fue suficiente para moverlo, y continuó retorciéndose y gritando como si estuviera bajo un terrible dolor corporal.
“¡En nombre de Dios, qué significa todo esto?”, dije, volviéndome hacia los médicos; pero el Dr. Van Helsing había caído hacia atrás y estaba limpiándose la frente con su pañuelo como si estuviera en una terrible angustia.
Entonces me volví hacia el Dr. Seward. Estaba arrodillado junto al lado de la cama, con la mano en alto, como en advertencia o en oración. Parecía, supongo por contraste con la violenta palidez de gris y púrpura de Renfield, estar mortalmente pálido; tan blanco que incluso sus labios parecían azules. Algo, sin embargo, me consoló, porque sonrió cuando se levantó. Entonces habló en una voz sorprendentemente débil, pero completamente calmada:
“No te asustes; es solo su horrible grito. Es tan astuto que nos engaña a todos de vez en cuando. Cómo fue mordido en primer lugar sigue siendo un misterio para contar”.
“¡Buen Dios!”, dije. “¿Me estás diciendo que este hombre es un asesino?”.
El Dr. Van Helsing levantó la cabeza cuando habló, y su rostro era severo como nunca.
“Te estoy diciendo lo que no sabes”, dijo. “Y lo que digo es esto, que si no es vigilado noche y día, y tratado con el mayor cuidado, puede ser la muerte de nosotros, de algunos de nosotros, ¡de todos nosotros!”.
“¿No sería mejor tomar algunas medidas para evitarlo?”, pregunté. “Ciertamente sería mejor llevarlo a algún lugar lejano, donde no haya gente”.
“Estoy de acuerdo”, dijo el Dr. Van Helsing, “porque en tal caso ninguno de nosotros estaría a salvo”.
El Dr. Seward parecía pensar por un momento y luego respondió:
“Ahora es tan violento que sería seguro llevarlo incluso a Carfax y mantenerlo allí. La cuestión es si no sería mejor ponerlo en algún lugar donde haya gente para cuidarlo”.
“Estoy de acuerdo”, dijo el Dr. Van Helsing, “porque en tal caso ninguno de nosotros estaría a salvo”.
El Dr. Seward parecía pensar y luego respondió:
“No me sentiré seguro hasta que lo hayamos sacado de aquí. Por lo tanto, mientras voy a buscar una luz, tú debes vigilar aquí”.
Después de unos minutos, volvió y salimos de la habitación. La puerta estaba cerrada con llave y la llave dada al Dr. Seward, quien la llevó en su cadena de reloj.
* * * * *
Los dos médicos volvieron unos minutos antes de las ocho. El Dr. Van Helsing parecía aliviado, pero su rostro era serio y severo. El Dr. Seward estaba tan pálido como siempre.
“¿Qué pasa?”, pregunté. “Cuéntame, por favor. Debo saber, tengo derecho a saber; es mi derecho saber, ya que tengo que ser dicho”.
Hizo una pausa y me miró, y luego dijo: “¿En nombre de Dios, qué significa todo esto? ¿Estaba ella, o está, loca, o qué horrible peligro es este?”.
Estaba tan desconcertada que no sabía qué decir más. El Dr. Van Helsing tomó el papel y lo leyó, y luego me lo entregó, diciendo:
“No te preocupes por eso ahora. Olvídalo por el momento. Sabrás y entenderás todo a su debido tiempo; pero será más tarde. Y ahora, ¿qué es lo que viniste a decirme?”.
Esto me devolvió a la realidad y me sentí yo misma de nuevo.
“Vine a hablar sobre el certificado de defunción. Si no actuamos de manera adecuada y sabia, puede haber una investigación, y ese papel tendría que ser producido. Espero que no haya investigación, porque si la hubiera, seguramente mataría a la pobre Lucy, si nada más lo hiciera. Sé, y tú sabes, y el otro médico que la atendió sabe, que la Sra. Westenra tenía una enfermedad del corazón, y podemos certificar que murió de eso. Vamos a llenar el certificado de inmediato, y yo mismo lo llevaré al registro y luego al funerario”.
“¡Buen trabajo, oh, mi amigo John! ¡Bien pensado! Realmente, si Lucy está triste por los enemigos que la acechan, al menos es feliz por los amigos que la aman. Uno, dos, tres, todos abren sus venas por ella, además de un viejo. ¡Ah, sí, lo sé, amigo John; no estoy ciego! ¡Los amo a todos más por eso! Ahora ve”.
En el pasillo me encontré con Quincey Morris, que me entregó un telegrama para Arthur diciendo que la Sra. Westenra había muerto; que Lucy también había estado enferma, pero que ahora estaba mejorando; y que el Dr. Van Helsing y yo estábamos con ella. Le dije adónde iba y él me animó a ir, pero cuando me iba dijo:
“Cuando vuelvas, Jack, ¿puedo tener dos palabras contigo a solas?”.
Asentí en respuesta y salí. No tuve dificultades con el registro y arreglé con el funerario local que viniera por la noche a tomar medidas para el ataúd y hacer los arreglos.
Cuando regresé, Quincey Morris me estaba esperando. Me llevó al comedor, donde las persianas no estaban bajadas, y que era un poco más alegre, o más bien menos lúgubre, que las otras habitaciones. Cuando estuvimos solos, me dijo:
“Jack Seward, no quiero meterme donde no tengo derecho, pero este no es un caso común. Sabes que amé a esa chica y quería casarme con ella; pero, aunque eso ya pasó, no puedo evitar sentirme ansioso por ella. ¿Qué es lo que está mal con ella? El holandés, y es un buen tipo, dijo, cuando tú y él entraron en la habitación, que debíamos tener otra transfusión de sangre, y que ambos estábamos exhaustos. Ahora, sé que los médicos hablan en privado, y que un hombre no debe esperar saber lo que consultan en privado. Pero este no es un asunto común, y, sea lo que sea, he hecho mi parte. ¿No es así?”.
“Es así”, le dije, y él continuó:
“No quiero meterme donde no tengo derecho, pero tengo derecho a saber algo sobre esto. ¿No es así? Tú y yo somos viejos amigos, y tú fuiste siempre un buen amigo de Art”.
“Art está bien”, le dije, y él se alegró.
“Entonces, ¿qué es lo que está mal con ella? Él no vendrá a verme, y no quiero molestarle; él y Mae están felices juntos, y yo no quiero causarle problemas. Me pregunto si no es algo que tiene que ver con la muerte de su madre”.
Me sentí un poco incómodo, pero le respondí lo mejor que pude:
“No hay nada que temer; ella está mejorando, y su madre murió de una enfermedad del corazón, así que no hay nada que temer”.
No pareció muy satisfecho, pero se calmó y dijo:
“Bueno, tal vez tengas razón. Ciertamente espero que lo tengas. Si hay algo en lo que pueda ayudar, debes contar conmigo, de día o de noche”.
“Eso es de amigo”, le dije, “y si necesito ayuda, no dudaré en pedírtela”.
Me sentí un poco más aliviada después de haber hablado con él. De alguna manera, su equilibrio y su calma me tranquilizaron.
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He estado con Lucy toda la tarde. Ella está durmiendo profundamente, pero los médicos me han dicho que debo estar atenta a cualquier cambio. El Dr. Van Helsing está preparando sus cosas para un viaje, pero no me ha dicho a dónde va. Espero que no sea nada grave.
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Lucy se despertó a medianoche y me llamó. Estaba en un estado semisonámbulo y siguió hablando consigo misma. Sus manos se movían constantemente y se desgastaban en la energía de su pensamiento. Estaba hablando incluso cuando entró en la habitación, y continuó hablando mientras se sentaba en el sofá, en su camisón, con los pies descubiertos. Había una intensidad de pensamiento en ella, y miraba al espacio con ojos sin brillo. Me senté en silencio y la escuché.
Al principio, su voz era débil y entrecortada por la disnea, pero había algo sonoro en ella que parecía resonar y eco en el aire frío. Temí que la continua tensión de su pensamiento la abrumara; pero continuó con una fuerza inconsciente que parecía venir a través de las sílabas como si fuera de más allá de ella. Era como un alma que gemía y estaba llena de todo el dolor del pasado y todo el miedo del futuro. Era como el tañido de una campana por un alma fallecida; y, sin embargo, ninguna campana en la tierra sonó así.
“¡Arthur! ¡Arthur! ¡Oh, mi amor, mi verdadero amor, mi vida, mi todo! Ven a mí. Ven a mí rápidamente. Sufro, estoy peor que la muerte, estoy muriendo, te estoy dejando. ¡Oh, debo morir por un error? ¿Qué es una noche, una noche en la que la esencia misma de la vida es el aliento del amor, qué es para toda la vida? ¡Oh, ven a mí, Arthur, querido; ven a mí y sálvame! ¡Sálvame! ¡Sálvame!”.
Su voz se estaba volviendo más delgada y las palabras parecían ser arrancadas de ella. Temí que la continua tensión revolviera la herida y trajera de vuelta el desmayo, así que dije, lo más casualmente que pude:
“Estás demasiado excitada. Debes tratar de calmarte”.
El efecto no fue el que esperaba; para mi sorpresa, su voz subió a una nota alta que parecía casi sobrehumana; cuando se desvaneció, pude ver la pobre herida en su garganta volverse más blanca y roja. El sonido me desestabilizó y me levanté de un salto; hubo un grito terrible que casi heló mi corazón al oírlo. Me volví para ver que el sonido provenía de Renfield; su rostro estaba blanco y sus ojos saltones mientras, medio sentado en su camisa de fuerza, se retorcía como una bestia enjaulada. Me acerqué para tranquilizarlo y, al mismo tiempo, para protegerme, porque temí que su paroxismo de excitación pudiera llevarlo a atacarme; pero mi fuerza no fue suficiente para moverlo, y continuó retorciéndose y gritando como si estuviera bajo un terrible dolor corporal.
“¡En nombre de Dios, qué significa todo esto?”, dije, volviéndome hacia los médicos; pero el Dr. Van Helsing había caído hacia atrás y estaba limpiándose la frente con su pañuelo como si estuviera en una terrible angustia.
Entonces me volví hacia el Dr. Seward. Estaba arrodillado junto al lado de la cama, con la mano en alto, como en advertencia o en oración. Parecía, supongo por contraste con la violenta palidez de gris y púrpura de Renfield, estar mortalmente pálido; tan blanco que incluso sus labios parecían azules. Algo, sin embargo, me consoló, porque sonrió cuando se levantó. Entonces habló en una voz sorprendentemente débil, pero completamente calmada:
“No te asustes; es solo su horrible grito. Es tan astuto que nos engaña a todos de vez en cuando. Cómo fue mordido en primer lugar sigue siendo un misterio para contar”.
“¡Buen Dios!”, dije. “¿Me estás diciendo que este hombre es un asesino?”.
El Dr. Van Helsing levantó la cabeza cuando habló, y su rostro era severo como nunca.
“Te estoy diciendo lo que no sabes”, dijo. “Y lo que digo es esto, que si no es vigilado noche y día, y tratado con el mayor cuidado, puede ser la muerte de nosotros, de algunos de nosotros, ¡de todos nosotros!”.
“¿No sería mejor tomar algunas medidas para evitarlo?”, pregunté. “Ciertamente sería mejor llevarlo a algún lugar lejano, donde no haya gente”.
“Estoy de acuerdo”, dijo el Dr. Van Helsing, “porque en tal caso ninguno de nosotros estaría a salvo”.
El Dr. Seward parecía pensar por un momento y luego respondió:
“Ahora es tan violento que sería seguro llevarlo incluso a Carfax y mantenerlo allí
“Ahora es tan violento que sería seguro llevarlo incluso a Carfax y mantenerlo allí. La cuestión es si no sería mejor ponerlo en algún lugar donde haya gente para cuidarlo”.
“Estoy de acuerdo”, dijo el Dr. Van Helsing, “porque en tal caso ninguno de nosotros estaría a salvo”.
El Dr. Seward parecía pensar y luego respondió:
“No me sentiré seguro hasta que lo hayamos sacado de aquí. Por lo tanto, mientras voy a buscar una luz, tú debes vigilar aquí”.
Después de unos minutos, volvió y salimos de la habitación. La puerta estaba cerrada con llave y la llave dada al Dr. Seward, quien la llevó en su cadena de reloj.
* * * * *
Los dos médicos volvieron unos minutos antes de las ocho. El Dr. Van Helsing parecía aliviado, pero su rostro era serio y severo. El Dr. Seward estaba tan pálido como siempre.
“¿Qué pasa?”, pregunté. “Cuéntame, por favor. Debo saber, tengo derecho a saber; es mi derecho saber, ya que tengo que ser dicho”.
Hizo una pausa y me miró, y luego dijo: “¿En nombre de Dios, qué significa todo esto? ¿Estaba ella, o está, loca, o qué horrible peligro es este?”.
Estaba tan desconcertada que no sabía qué decir más. El Dr. Van Helsing tomó el papel y lo leyó, y luego me lo entregó, diciendo:
“No te preocupes por eso ahora. Olvídalo por el momento. Sabrás y entenderás todo a su debido tiempo; pero será más tarde. Y ahora, ¿qué es lo que viniste a decirme?”.
Esto me devolvió a la realidad y me sentí yo misma de nuevo.
“Vine a hablar sobre el certificado de defunción. Si no actuamos de manera adecuada y sabia, puede haber una investigación, y ese papel tendría que ser producido. Espero que no haya investigación, porque si la hubiera, seguramente mataría a la pobre Lucy, si nada más lo hiciera. Sé, y tú sabes, y el otro médico que la atendió sabe, que la Sra. Westenra tenía una enfermedad del corazón, y podemos certificar que murió de eso. Vamos a llenar el certificado de inmediato, y yo mismo lo llevaré al registro y luego al funerario”.
“¡Buen trabajo, oh, mi amigo John! ¡Bien pensado! Realmente, si Lucy está triste por los enemigos que la acechan, al menos es feliz por los amigos que la aman. Uno, dos, tres, todos abren sus venas por ella, además de un viejo. ¡Ah, sí, lo sé, amigo John; no estoy ciego! ¡Los amo a todos más por eso! Ahora ve”.
En el pasillo me encontré con Quincey Morris, que me entregó un telegrama para Arthur diciendo que la Sra. Westenra había muerto; que Lucy también había estado enferma, pero que ahora estaba mejorando; y que el Dr. Van Helsing y yo estábamos con ella. Le dije adónde iba y él me animó a ir, pero cuando me iba dijo:
“Cuando vuelvas, Jack, ¿puedo tener dos palabras contigo a solas?”.
Asentí en respuesta y salí. No tuve dificultades con el registro y arreglé con el funerario local que viniera por la noche a tomar medidas para el ataúd y hacer los arreglos.
Cuando regresé, Quincey Morris me estaba esperando. Me llevó al comedor, donde las persianas no estaban bajadas, y que era un poco más alegre, o más bien menos lúgubre, que las otras habitaciones. Cuando estuvimos solos, me dijo:
“Jack Seward, no quiero meterme donde no tengo derecho, pero este no es un caso común. Sabes que amé a esa chica y quería casarme con ella; pero, aunque eso ya pasó, no puedo evitar sentirme ansioso por ella. ¿Qué es lo que está mal con ella? El holandés, y es un buen tipo, dijo, cuando tú y él entraron en la habitación, que debíamos tener otra transfusión de sangre, y que ambos estábamos exhaustos. Ahora, sé que los médicos hablan en privado, y que un hombre no debe esperar saber lo que consultan en privado. Pero este no es un asunto común, y, sea lo que sea, he hecho mi parte. ¿No es así?”.
“Es así”, le dije, y él continuó:
“No quiero meterme donde no tengo derecho, pero tengo derecho a saber algo sobre esto. ¿No es así? Tú y yo somos viejos amigos, y tú fuiste siempre un buen amigo de Art”.
“Art está bien”, le dije, y él se alegró.
“Entonces, ¿qué es lo que está mal con ella? Él no vendrá a verme, y no quiero molestarle; él y Mae están felices juntos, y yo no quiero causarle problemas. Me pregunto si no es algo que tiene que ver con la muerte de su madre”.
Me sentí un poco incómodo, pero le respondí lo mejor que pude:
“No hay nada que temer; ella está mejorando, y su madre murió de una enfermedad del corazón, así que no hay nada que temer”.
No pareció muy satisfecho, pero se calmó y dijo:
“Bueno, tal vez tengas razón. Ciertamente espero que lo tengas. Si hay algo en lo que pueda ayudar, debes contar conmigo, de día o de noche”.
“Eso es de amigo”, le dije, “y si necesito ayuda, no dudaré en pedírtela”.
Me sentí un poco más aliviada después de haber hablado con él. De alguna manera, su equilibrio y su calma me tranquilizaron.
* * * * *
He estado con Lucy toda la tarde. Ella está durmiendo profundamente, pero los médicos me han dicho que debo estar atenta a cualquier cambio. El Dr. Van Helsing está preparando sus cosas para un viaje, pero no me ha dicho a dónde va. Espero que no sea nada grave.
* * * * *
Lucy se despertó a medianoche y me llamó. Estaba en un estado semisonámbulo y siguió hablando consigo misma. Sus manos se movían constantemente y se desgastaban en la energía de su pensamiento. Estaba hablando incluso cuando entró en la habitación, y continuó hablando mientras se sentaba en el sofá, en su camisón, con los pies descubiertos. Había una intensidad de pensamiento en ella, y miraba al espacio con ojos sin brillo. Me senté en silencio y la escuché.
Al principio, su voz era débil y entrecortada por la disnea, pero había algo sonoro en ella que parecía resonar y eco en el aire frío. Temí que la continua tensión de su pensamiento la abrumara; pero continuó con una fuerza inconsciente que parecía venir a través de las sílabas como si fuera de más allá de ella. Era como un alma que gemía y estaba llena de todo el dolor del pasado y todo el miedo del futuro. Era como el tañido de una campana por un alma fallecida; y, sin embargo, ninguna campana en la tierra sonó así.
“¡Arthur! ¡Arthur! ¡Oh, mi amor, mi verdadero amor, mi vida, mi todo! Ven a mí. Ven a mí rápidamente. Sufro, estoy peor que la muerte, estoy muriendo, te estoy dejando. ¡Oh, debo morir por un error? ¿Qué es una noche, una noche en la que la esencia misma de la vida es el aliento del amor, qué es para toda la vida? ¡Oh, ven a mí, Arthur, querido; ven a mí y sálvame! ¡Sálvame! ¡Sálvame!”.
Su voz se estaba volviendo más delgada y las palabras parecían ser arrancadas de ella. Temí que la continua tensión revolviera la herida y trajera de vuelta el desmayo, así que dije, lo más casualmente que pude:
“Estás demasiado excitada. Debes tratar de calmarte”.
El efecto no fue el que esperaba; para mi sorpresa, su voz subió a una nota alta que parecía casi sobrehumana; cuando se desvaneció, pude ver la pobre herida en su garganta volverse más blanca y roja. El sonido me desestabilizó y me levanté de un salto; hubo un grito terrible que casi heló mi corazón al oírlo. Me volví para ver que el sonido provenía de Renfield; su rostro estaba blanco y sus ojos saltones mientras, medio sentado en su camisa de fuerza, se retorcía como una bestia enjaulada. Me acerqué para tranquilizarlo y, al mismo tiempo, para protegerme, porque temí que su paroxismo de excitación pudiera llevarlo a atacarme; pero mi fuerza no fue suficiente para moverlo, y continuó retorciéndose y gritando como si estuviera bajo un terrible dolor corporal.
“¡En nombre de Dios, qué significa todo esto?”, dije, volviéndome hacia los médicos; pero el Dr. Van Helsing había caído hacia atrás y estaba limpiándose la frente con su pañuelo como si estuviera en una terrible angustia.
Entonces me volví hacia el Dr. Seward. Estaba arrodillado junto al lado de la cama, con la mano en alto, como en advertencia o en oración. Parecía, supongo por contraste con la violenta palidez de gris y púrpura de Renfield, estar mortalmente pálido; tan blanco que incluso sus labios parecían azules. Algo, sin embargo, me consoló, porque sonrió cuando se levantó. Entonces habló en una voz sorprendentemente débil, pero completamente calmada:
“No te asustes; es solo su horrible grito. Es tan astuto que nos engaña a todos de vez en cuando. Cómo fue mordido en primer lugar sigue siendo un misterio para contar”.
“¡Buen Dios!”, dije. “¿Me estás diciendo que este hombre es un asesino?”.
El Dr. Van Helsing levantó la cabeza cuando habló, y su rostro era severo como nunca.
“Te estoy diciendo lo que no sabes”, dijo. “Y lo que digo es esto, que si no es vigilado noche y día, y tratado con el mayor cuidado, puede ser la muerte de nosotros, de algunos de nosotros, ¡de todos nosotros!”.
“¿No sería mejor tomar algunas medidas para evitarlo?”, pregunté. “Ciertamente sería mejor llevarlo a algún lugar lejano, donde no haya gente”.
“Estoy de acuerdo”, dijo el Dr. Van Helsing, “porque en tal caso ninguno de nosotros estaría a salvo”.
El Dr. Seward parecía pensar por un momento y luego respondió:
“Ahora es tan violento que sería seguro llevarlo incluso a Carfax y mantenerlo allí. La cuestión es si no sería mejor ponerlo en algún lugar donde haya gente para cuidarlo”.
“Estoy de acuerdo”, dijo el Dr. Van Helsing, “porque en tal caso ninguno de nosotros estaría a salvo”.
El Dr. Seward parecía pensar y luego respondió:
“No me sentiré seguro hasta que lo hayamos sacado de aquí. Por lo tanto, mientras voy a buscar una luz, tú debes vigilar aquí”.
Después de unos minutos, volvió y salimos de la habitación. La puerta estaba cerrada con llave y la llave dada al Dr. Seward, quien la llevó en su cadena de reloj.
* * * * *
Los dos médicos volvieron unos minutos antes de las ocho. El Dr. Van Helsing parecía aliviado, pero su rostro era serio y severo. El Dr. Seward estaba tan pálido como siempre.
“¿Qué pasa?”, pregunté. “Cuéntame, por favor. Debo saber, tengo derecho a saber; es mi derecho saber, ya que tengo que ser dicho”.
Hizo una pausa y me miró, y luego dijo: “¿En nombre de Dios, qué significa todo esto? ¿Estaba ella, o está, loca, o qué horrible peligro es este?”.
Estaba tan desconcertada que no sabía qué decir más. El Dr. Van Helsing tomó el papel y lo leyó, y luego me lo entregó, diciendo:
“No te preocupes por eso ahora. Olvídalo por el momento. Sabrás y entenderás todo a su debido tiempo; pero será más tarde. Y ahora, ¿qué es lo que viniste a decirme?”.
Esto me devolvió a la realidad y me sentí yo misma de nuevo.
“Vine a hablar sobre el certificado de defunción. Si no actuamos de manera adecuada y sabia, puede haber una investigación, y ese papel tendría que ser producido. Espero que no haya investigación, porque si la hubiera, seguramente mataría a la pobre Lucy, si nada más lo hiciera. Sé, y tú sabes, y el otro médico que la atendió sabe, que la Sra. Westenra tenía una enfermedad del corazón, y podemos certificar que murió de eso. Vamos a llenar el certificado de inmediato, y yo mismo lo llevaré al registro y luego al funerario”.
“¡Buen trabajo, oh, mi amigo John! ¡Bien pensado! Realmente, si Lucy está triste por los enemigos que la acechan, al menos es feliz por los amigos que la aman. Uno, dos, tres, todos abren sus venas por ella, además de un viejo. ¡Ah, sí, lo sé, amigo John; no estoy ciego! ¡Los amo a todos más por eso! Ahora ve”.
En el pasillo me encontré con Quincey Morris, que me entregó un telegrama para Arthur diciendo que la Sra. Westenra había muerto; que Lucy también había estado enferma, pero que ahora estaba mejorando; y que el Dr. Van Helsing y yo estábamos con ella. Le dije adónde iba y él me animó a ir, pero cuando me iba dijo:
“Cuando vuelvas, Jack, ¿puedo tener dos palabras contigo a solas?”.
Asentí en respuesta y salí. No tuve dificultades con el registro y arreglé con el funerario local que viniera por la noche a tomar medidas para el ataúd y hacer los arreglos.
Cuando regresé, Quincey Morris me estaba esperando. Me llevó al comedor, donde las persianas no estaban bajadas, y que era un poco más alegre, o más bien menos lúgubre, que las otras habitaciones. Cuando estuvimos solos, me dijo:
“Jack Seward, no quiero meterme donde no tengo derecho, pero este no es un caso común. Sabes que amé a esa chica y quería casarme con ella; pero, aunque eso ya pasó, no puedo evitar sentirme ansioso por ella. ¿Qué es lo que está mal con ella? El holandés, y es un buen tipo, dijo, cuando tú y él entraron en la habitación, que debíamos tener otra transfusión de sangre, y que ambos estábamos exhaustos. Ahora, sé que los médicos hablan en privado, y que un hombre no debe esperar saber lo que consultan en privado. Pero este no es un asunto común, y, sea lo que sea, he hecho mi parte. ¿No es así?”.
“Es así”, le dije, y él continuó:
“No quiero meterme donde no tengo derecho, pero tengo derecho a saber algo sobre esto. ¿No es así? Tú y yo somos viejos amigos, y tú fuiste siempre un buen amigo de Art”.
“Art está bien”, le dije, y él se alegró.
“Entonces, ¿qué es lo que está mal con ella? Él no vendrá a verme, y no quiero molestarle; él y Mae están felices juntos, y yo no quiero causarle problemas. Me pregunto si no es algo que tiene que ver con la muerte de su madre”.
Me sentí un poco incómodo, pero le respondí lo mejor que pude:
“No hay nada que temer; ella está mejorando, y su madre murió de una enfermedad del corazón, así que no hay nada que temer”.
No pareció muy satisfecho, pero se calmó y dijo:
“Bueno, tal vez tengas razón. Ciertamente espero que lo tengas. Si hay algo en lo que pueda ayudar, debes contar conmigo, de día o de noche”.
“Eso es de amigo”, le dije, “y si necesito ayuda, no dudaré en pedírtela”.
Me sentí un poco más aliviada después de haber hablado con él. De alguna manera, su equilibrio y su calma me tranquilizaron.
* * * * *
He estado con Lucy toda la tarde. Ella está durmiendo profundamente, pero los médicos me han dicho que debo estar atenta a cualquier cambio. El Dr. Van Helsing está preparando sus cosas para un viaje, pero no me ha dicho a dónde va. Espero que no sea nada grave.
* * * * *
Lucy se despertó a medianoche y me llamó. Estaba en un estado semisonámbulo y siguió hablando consigo misma. Sus manos se movían constantemente y se desgastaban en la energía de su pensamiento. Estaba hablando incluso cuando entró en la habitación, y continuó hablando mientras se sentaba en el sofá, en su camisón, con los pies descubiertos. Había una intensidad de pensamiento en ella, y miraba al espacio con ojos sin brillo. Me senté en silencio y la escuché.
Al principio, su voz era débil y entrecortada por la disnea, pero había algo sonoro en ella que parecía resonar y eco en el aire frío. Temí que la continua tensión de su pensamiento la abrumara; pero continuó con una fuerza inconsciente que parecía venir a través de las sílabas como si fuera de más allá de ella. Era como un alma que gemía y estaba llena de todo el dolor del pasado y todo el miedo del futuro. Era como el tañido de una campana por un alma fallecida; y, sin embargo, ninguna campana en la tierra sonó así.
“¡Arthur! ¡Arthur! ¡Oh, mi amor, mi verdadero amor, mi vida, mi todo! Ven a mí. Ven a mí rápidamente. Sufro, estoy peor que la muerte, estoy muriendo, te estoy dejando. ¡Oh, debo morir por un error? ¿Qué es una noche, una noche en la que la esencia misma de la vida es el aliento del amor, qué es para toda la vida? ¡Oh, ven a mí, Arthur, querido; ven a mí y sálvame! ¡Sálvame! ¡Sálvame!”.
Su voz se estaba volviendo más delgada y las palabras parecían ser arrancadas de ella. Temí que la continua tensión revolviera la herida y trajera de vuelta el desmayo, así que dije, lo más casualmente que pude:
“Estás demasiado excitada. Debes tratar de calmarte”.
El efecto no fue el que esperaba; para mi sorpresa, su voz subió a una nota alta que parecía casi sobrehumana; cuando se desvaneció, pude ver la pobre herida en su garganta volverse más blanca y roja. El sonido me desestabilizó y me levanté de un salto; hubo un grito terrible que casi heló mi corazón al oírlo. Me volví para ver que el sonido provenía de Renfield; su rostro estaba blanco y sus ojos saltones mientras, medio sentado en su camisa de fuerza, se retorcía como una bestia enjaulada. Me acerqué para tranquilizarlo y, al mismo tiempo, para protegerme, porque temí que su paroxismo de excitación pudiera llevarlo a atacarme; pero mi fuerza no fue suficiente para moverlo, y continuó retorciéndose y gritando como si estuviera bajo un terrible dolor corporal.
“¡En nombre de Dios, qué significa todo esto?”, dije, volviéndome hacia los médicos; pero el Dr. Van Helsing había caído hacia atrás y estaba limpiándose la frente con su pañuelo como si estuviera en una terrible angustia.
Entonces me volví hacia el Dr. Seward. Estaba arrodillado junto al lado de la cama, con la mano en alto, como en advertencia o en oración. Parecía, supongo por contraste con la violenta palidez de gris y púrpura de Renfield, estar mortalmente pálido; tan blanco que incluso sus labios parecían azules. Algo, sin embargo, me consoló, porque sonrió cuando se levantó. Entonces habló en una voz sorprendentemente débil, pero completamente calmada:
“No te asustes; es solo su horrible grito. Es tan astuto que nos engaña a todos de vez en cuando. Cómo fue mordido en primer lugar sigue siendo un misterio para contar”.
“¡Buen Dios!”, dije. “¿Me estás diciendo que este hombre es un asesino?”.
El Dr. Van Helsing levantó la cabeza cuando habló, y su rostro era severo como nunca.
“Te estoy diciendo lo que no sabes”, dijo. “Y lo que digo es esto, que si no es vigilado noche y día, y tratado con el mayor cuidado, puede ser la muerte de nosotros, de algunos de nosotros, ¡de todos nosotros!”.
“¿No sería mejor tomar algunas medidas para evitarlo?”, pregunté. “Ciertamente sería mejor llevarlo a algún lugar lejano, donde no haya gente”.
“Estoy de acuerdo”, dijo el Dr. Van Helsing, “porque en tal caso ninguno de nosotros estaría a salvo”.
El Dr. Seward parecía pensar por un momento y luego respondió:
“Ahora es tan violento que sería seguro llevarlo incluso a Carfax y mantenerlo allí. La cuestión es si no sería mejor ponerlo en algún lugar donde haya gente para cuidarlo”.
“Estoy de acuerdo”, dijo el Dr. Van Helsing, “porque en tal caso ninguno de nosotros estaría a salvo”.
El Dr. Seward parecía pensar y luego respondió:
“No me sentiré seguro hasta que lo hayamos sacado de aquí. Por lo tanto, mientras voy a buscar una luz, tú debes vigilar aquí”.
Después de unos minutos, volvió y salimos de la habitación. La puerta estaba cerrada con llave y la llave dada al Dr. Seward, quien la llevó en su cadena de reloj.
* * * * *
Los dos médicos volvieron unos minutos antes de las ocho. El Dr. Van Helsing parecía aliviado, pero su rostro era serio y severo. El Dr. Seward estaba tan pálido como siempre.
“¿Qué pasa?”, pregunté. “Cuéntame, por favor. Debo saber, tengo derecho a saber; es mi derecho saber, ya que tengo que ser dicho”.
Hizo una pausa y me miró, y luego dijo: “¿En nombre de Dios, qué significa todo esto? ¿Estaba ella, o está, loca, o qué horrible peligro es este?”.
Estaba tan desconcertada que no sabía qué decir más. El Dr. Van Helsing tomó el papel y lo leyó, y luego me lo entregó, diciendo:
“No te preocupes por eso ahora. Olvídalo por el momento. Sabrás y entenderás todo a su debido tiempo; pero será más tarde. Y ahora, ¿qué es lo que viniste a decirme?”.
Esto me devolvió a la realidad y me sentí yo misma de nuevo.
“Vine a hablar sobre el certificado de defunción. Si no actuamos de manera adecuada y sabia, puede haber una investigación, y ese papel tendría que ser producido. Espero que no haya investigación, porque si la hubiera, seguramente mataría a la pobre Lucy, si nada más lo hiciera. Sé, y tú sabes, y el otro médico que la atendió sabe, que la Sra. Westenra tenía una enfermedad del corazón, y podemos certificar que murió de eso. Vamos a llenar el certificado de inmediato, y yo mismo lo llevaré al registro y luego al funerario”.
“¡Buen trabajo, oh, mi amigo John! ¡Bien pensado! Realmente, si Lucy está triste por los enemigos que la acechan, al menos es feliz por los amigos que la aman. Uno, dos, tres, todos abren sus venas por ella, además de un viejo. ¡Ah, sí, lo sé, amigo John; no estoy ciego! ¡Los amo a todos más por eso! Ahora ve”.
En el pasillo me encontré con Quincey Morris, que me entregó un telegrama para Arthur diciendo que la Sra. Westenra había muerto; que Lucy también había estado enferma, pero que ahora estaba mejorando; y que el Dr. Van Helsing y yo estábamos con ella. Le dije adónde iba y él me animó a ir, pero cuando me iba dijo:
“Cuando vuelvas, Jack, ¿puedo tener dos palabras contigo a solas?”.
Asentí en respuesta y salí. No tuve dificultades con el registro y arreglé con el funerario local que viniera por la noche a tomar medidas para el ataúd y hacer los arreglos.
Cuando regresé, Quincey Morris me estaba esperando. Me llevó al comedor, donde las persianas no estaban bajadas, y que era un poco más alegre, o más bien menos lúgubre, que las otras habitaciones. Cuando estuvimos solos, me dijo:
“Jack Seward, no quiero meterme donde no tengo derecho, pero este no es un caso común. Sabes que amé a esa chica y quería casarme con ella; pero, aunque eso ya pasó, no puedo evitar sentirme ansioso por ella. ¿Qué es lo que está mal con ella? El holandés, y es un buen tipo, dijo, cuando tú y él entraron en la habitación, que debíamos tener otra transfusión de sangre, y que ambos estábamos exhaustos. Ahora, sé que los médicos hablan en privado, y que un hombre no debe esperar saber lo que consultan en privado. Pero este no es un asunto común, y, sea lo que sea, he hecho mi parte. ¿No es así?”.
“Es así”, le dije, y él continuó:
“No quiero meterme donde no tengo derecho, pero tengo derecho a saber algo sobre esto. ¿No es así? Tú y yo somos viejos amigos, y tú fuiste siempre un buen amigo de Art”.
“Art está bien”, le dije, y él se alegró.
“Entonces, ¿qué es lo que está mal con ella? Él no vendrá a verme, y no quiero molestarle; él y Mae están felices juntos, y yo no quiero causarle problemas. Me pregunto si no es algo que tiene que ver con la muerte de su madre”.
Me sentí un poco incómodo, pero le respondí lo mejor que pude:
“No hay nada que temer; ella está mejorando, y su madre murió de una enfermedad del corazón, así que no hay nada que temer”.
No pareció muy satisfecho, pero se calmó y dijo:
“Bueno, tal vez tengas razón. Ciertamente espero que lo tengas. Si hay algo en lo que pueda ayudar, debes contar conmigo, de día o de noche”.
“Eso es de amigo”, le dije, “y si necesito ayuda, no dudaré en pedírtela”.
Me sentí un poco más aliviada después de haber hablado con él. De alguna manera, su equilibrio y su calma me tranquilizaron.
* * * * *
He estado con Lucy toda la tarde. Ella está durmiendo profundamente, pero los médicos me han dicho que debo estar atenta a cualquier cambio. El Dr. Van Helsing está preparando sus cosas para un viaje, pero no me ha dicho a dónde va. Espero que no sea nada grave.
* * * * *
Lucy se despertó a medianoche y me llamó. Estaba en un estado semisonámbulo y siguió hablando consigo misma. Sus manos se movían constantemente y se desgastaban en la energía de su pensamiento. Estaba hablando incluso cuando entró en la habitación, y continuó hablando mientras se sentaba en el sofá, en su camisón, con los pies descubiertos. Había una intensidad de pensamiento en ella, y miraba al espacio con ojos sin brillo. Me senté en silencio y la escuché.
Al principio, su voz era débil y entrecortada por la disnea, pero había algo sonoro en ella que parecía resonar y eco en el aire frío. Temí que la continua tensión de su pensamiento la abrumara; pero continuó con una fuerza inconsciente que parecía venir a través de las sílabas como si fuera de más allá de ella. Era como un alma que gemía y estaba llena de todo el dolor del pasado y todo el miedo del futuro. Era como el tañido de una campana por un alma fallecida; y, sin embargo, ninguna campana en la tierra sonó así.
“¡Arthur! ¡Arthur! ¡Oh, mi amor, mi verdadero amor, mi vida, mi todo! Ven a mí. Ven a mí rápidamente. Sufro, estoy peor que la muerte, estoy muriendo, te estoy dejando. ¡Oh, debo morir por un error? ¿Qué es una noche, una noche en la que la esencia misma de la vida es el aliento del amor, qué es para toda la vida? ¡Oh, ven a mí, Arthur, querido; ven a mí y sálvame! ¡Sálvame! ¡Sálvame!”.
Su voz se estaba volviendo más delgada y las palabras parecían ser arrancadas de ella. Temí que la continua tensión revolviera la herida y trajera de vuelta el desmayo, así que dije, lo más casualmente que pude:
“Estás demasiado excitada. Debes tratar de calmarte”.
El efecto no fue el que esperaba; para mi sorpresa, su voz subió a una nota alta que parecía casi sobrehumana; cuando se desvaneció, pude ver la pobre herida en su garganta volverse más blanca y roja. El sonido me desestabilizó y me levanté de un salto; hubo un grito terrible que casi heló mi corazón al oírlo. Me volví para ver que el sonido provenía de Renfield; su rostro estaba blanco y sus ojos saltones mientras, medio sentado en su camisa de fuerza, se retorcía como una bestia enjaulada. Me acerqué para tranquilizarlo y, al mismo tiempo, para protegerme, porque temí que su paroxismo de excitación pudiera llevarlo a atacarme; pero mi fuerza no fue suficiente para moverlo, y continuó retorciéndose y gritando como si estuviera bajo un terrible dolor corporal.
“¡En nombre de Dios, qué significa todo esto?”, dije, volviéndome hacia los médicos; pero el Dr. Van Helsing había caído hacia atrás y estaba limpiándose la frente con su pañuelo como si estuviera en una terrible angustia.
Entonces me volví hacia el Dr. Seward. Estaba arrodillado junto al lado de la cama, con la mano en alto, como en advertencia o en oración. Parecía, supongo por contraste con la violenta palidez de gris y púrpura de Renfield, estar mortalmente pálido; tan blanco que incluso sus labios parecían azules. Algo, sin embargo, me consoló, porque sonrió cuando se levantó. Entonces habló en una voz sorprendentemente débil, pero completamente calmada:
“No te asustes; es solo su horrible grito. Es tan astuto que nos engaña a todos de vez en cuando. Cómo fue mordido en primer lugar sigue siendo un misterio para contar”.
“¡Buen Dios!”, dije. “¿Me estás diciendo que este hombre es un asesino?”.
El Dr. Van Helsing levantó la cabeza cuando habló, y su rostro era severo como nunca.
“Te estoy diciendo lo que no sabes”, dijo. “Y lo que digo es esto, que si no es vigilado noche y día, y tratado con el mayor cuidado, puede ser la muerte de nosotros, de algunos de nosotros, ¡de todos nosotros!”.
“¿No sería mejor tomar algunas medidas para evitarlo?”, pregunté. “Ciertamente sería mejor llevarlo a algún lugar lejano, donde no haya gente”.
“Estoy de acuerdo”, dijo el Dr. Van Helsing, “porque en tal caso ninguno de nosotros estaría a salvo”.
El Dr. Seward parecía pensar por un momento y luego respondió:
“Ahora es tan violento que sería seguro llevarlo incluso a Carfax y mantenerlo allí. La cuestión es si no sería mejor ponerlo en algún lugar donde haya gente para cuidarlo”.
“Estoy de acuerdo”, dijo el Dr. Van Helsing, “porque en tal caso ninguno de nosotros estaría a salvo”.
El Dr. Seward parecía pensar y luego respondió:
“No me sentiré seguro hasta que lo hayamos sacado de aquí. Por lo tanto, mientras voy a buscar una luz, tú debes vigilar aquí”.
Después de unos minutos, volvió y salimos de la habitación. La puerta estaba cerrada con llave y la llave dada al Dr. Seward, quien la llevó en su cadena de reloj.
* * * * *
Los dos médicos volvieron unos minutos antes de las ocho. El Dr. Van Helsing parecía aliviado, pero su rostro era serio y severo. El Dr. Seward estaba tan pálido como siempre.
“¿Qué pasa?”, pregunté. “Cuéntame, por favor. Debo saber, tengo derecho a saber; es mi derecho saber, ya que tengo que ser dicho”.
Hizo una pausa y me miró, y luego dijo: “¿En nombre de Dios, qué significa todo esto? ¿Estaba ella, o está, loca, o qué horrible peligro es este?”.
Estaba tan desconcertada que no sabía qué decir más. El Dr. Van Helsing tomó el papel y lo leyó, y luego me lo entregó, diciendo:
“No te preocupes por eso ahora. Olvídalo por el momento. Sabrás y entenderás todo a su debido tiempo; pero será más tarde. Y ahora, ¿qué es lo que viniste a decirme?”.
Esto me devolvió a la realidad y me sentí yo misma de nuevo.
“Vine a hablar sobre el certificado de defunción. Si no actuamos de manera adecuada y sabia, puede haber una investigación, y ese papel tendría que ser producido. Espero que no haya investigación, porque si la hubiera, seguramente mataría a la pobre Lucy, si nada más lo hiciera. Sé, y tú sabes, y el otro médico que la atendió sabe, que la Sra. Westenra tenía una enfermedad del corazón, y podemos certificar que murió de eso. Vamos a llenar el certificado de inmediato, y yo mismo lo llevaré al registro y luego al funerario”.
“¡Buen trabajo, oh, mi amigo John! ¡Bien pensado! Realmente, si Lucy está triste por los enemigos que la acechan, al menos es feliz por los amigos que la aman. Uno, dos, tres, todos abren sus venas por ella, además de un viejo. ¡Ah, sí, lo sé, amigo John; no estoy ciego! ¡Los amo a todos más por eso! Ahora ve”.
En el pasillo me encontré con Quincey Morris, que me entregó un telegrama para Arthur diciendo que la Sra. Westenra había muerto; que Lucy también había estado enferma, pero que ahora estaba mejorando; y que el Dr. Van Helsing y yo estábamos con ella. Le dije adónde iba y él me animó a ir, pero cuando me iba dijo:
“Cuando vuelvas, Jack, ¿puedo tener dos palabras contigo a solas?”.
Asentí en respuesta y salí. No tuve dificultades con el registro y arreglé con el funerario local que viniera por la noche a tomar medidas para el ataúd y hacer los arreglos.
Cuando regresé, Quincey Morris me estaba esperando. Me llevó al comedor, donde las persianas no estaban bajadas, y que era un poco más alegre, o más bien menos lúgubre, que las otras habitaciones. Cuando estuvimos solos, me dijo:
“Jack Seward, no quiero meterme donde no tengo derecho, pero este no es un caso común. Sabes que amé a esa chica y quería casarme con ella; pero, aunque eso ya pasó, no puedo evitar sentirme ansioso por ella. ¿Qué es lo que está mal con ella? El holandés, y es un buen tipo, dijo, cuando tú y él entraron en la habitación, que debíamos tener otra transfusión de sangre, y que ambos estábamos exhaustos. Ahora, sé que los médicos hablan en privado, y que un hombre no debe esperar saber lo que consultan en privado. Pero este no es un asunto común, y, sea lo que sea, he hecho mi parte. ¿No es así?”.
“Es así”, le dije, y él continuó:
“No quiero meterme donde no tengo derecho, pero tengo derecho a saber algo sobre esto. ¿No es así?
“No quiero meterme donde no tengo derecho, pero tengo derecho a saber algo sobre esto. ¿No es así? Tú y yo somos viejos amigos, y tú fuiste siempre un buen amigo de Art”.
“Art está bien”, le dije, y él se alegró.
“Entonces, ¿qué es lo que está mal con ella? Él no vendrá a verme, y no quiero molestarle; él y Mae están felices juntos, y yo no quiero causarle problemas. Me pregunto si no es algo que tiene que ver con la muerte de su madre”.
Me sentí un poco incómodo, pero le respondí lo mejor que pude:
“No hay nada que temer; ella está mejorando, y su madre murió de una enfermedad del corazón, así que no hay nada que temer”.
No pareció muy satisfecho, pero se calmó y dijo:
“Bueno, tal vez tengas razón. Ciertamente espero que lo tengas. Si hay algo en lo que pueda ayudar, debes contar conmigo, de día o de noche”.
“Eso es de amigo”, le dije, “y si necesito ayuda, no dudaré en pedírtela”.
Me sentí un poco más aliviada después de haber hablado con él. De alguna manera, su equilibrio y su calma me tranquilizaron.
* * * * *
He estado con Lucy toda la tarde. Ella está durmiendo profundamente, pero los médicos me han dicho que debo estar atenta a cualquier cambio. El Dr. Van Helsing está preparando sus cosas para un viaje, pero no me ha dicho a dónde va. Espero que no sea nada grave.
* * * * *
Lucy se despertó a medianoche y me llamó. Estaba en un estado semisonámbulo y siguió hablando consigo misma. Sus manos se movían constantemente y se desgastaban en la energía de su pensamiento. Estaba hablando incluso cuando entró en la habitación, y continuó hablando mientras se sentaba en el sofá, en su camisón, con los pies descubiertos. Había una intensidad de pensamiento en ella, y miraba al espacio con ojos sin brillo. Me senté en silencio y la escuché.
Al principio, su voz era débil y entrecortada por la disnea, pero había algo sonoro en ella que parecía resonar y eco en el aire frío. Temí que la continua tensión de su pensamiento la abrumara; pero continuó con una fuerza inconsciente que parecía venir a través de las sílabas como si fuera de más allá de ella. Era como un alma que gemía y estaba llena de todo el dolor del pasado y todo el miedo del futuro. Era como el tañido de una campana por un alma fallecida; y, sin embargo, ninguna campana en la tierra sonó así.
“¡Arthur! ¡Arthur! ¡Oh, mi amor, mi verdadero amor, mi vida, mi todo! Ven a mí. Ven a mí rápidamente. Sufro, estoy peor que la muerte, estoy muriendo, te estoy dejando. ¡Oh, debo morir por un error? ¿Qué es una noche, una noche en la que la esencia misma de la vida es el aliento del amor, qué es para toda la vida? ¡Oh, ven a mí, Arthur, querido; ven a mí y sálvame! ¡Sálvame! ¡Sálvame!”.
Su voz se estaba volviendo más delgada y las palabras parecían ser arrancadas de ella. Temí que la continua tensión revolviera la herida y trajera de vuelta el desmayo, así que dije, lo más casualmente que pude:
“Estás demasiado excitada. Debes tratar de calmarte”.
El efecto no fue el que esperaba; para mi sorpresa, su voz subió a una nota alta que parecía casi sobrehumana; cuando se desvaneció, pude ver la pobre herida en su garganta volverse más blanca y roja. El sonido me desestabilizó y me levanté de un salto; hubo un grito terrible que casi heló mi corazón al oírlo. Me volví para ver que el sonido provenía de Renfield; su rostro estaba blanco y sus ojos saltones mientras, medio sentado en su camisa de fuerza, se retorcía como una bestia enjaulada. Me acerqué para tranquilizarlo y, al mismo tiempo, para protegerme, porque temí que su paroxismo de excitación pudiera llevarlo a atacarme; pero mi fuerza no fue suficiente para moverlo, y continuó retorciéndose y gritando como si estuviera bajo un terrible dolor corporal.
“¡En nombre de Dios, qué significa todo esto?”, dije, volviéndome hacia los médicos; pero el Dr. Van Helsing había caído hacia atrás y estaba limpiándose la frente con su pañuelo como si estuviera en una terrible angustia.
Entonces me volví hacia el Dr. Seward. Estaba arrodillado junto al lado de la cama, con la mano en alto, como en advertencia o en oración. Parecía, supongo por contraste con la violenta palidez de gris y púrpura de Renfield, estar mortalmente pálido; tan blanco que incluso sus labios parecían azules. Algo, sin embargo, me consoló, porque sonrió cuando se levantó. Entonces habló en una voz sorprendentemente débil, pero completamente calmada:
“No te asustes; es solo su horrible grito. Es tan astuto que nos engaña a todos de vez en cuando. Cómo fue mordido en primer lugar sigue siendo un misterio para contar”.
“¡Buen Dios!”, dije. “¿Me estás diciendo que este hombre es un asesino?”.
El Dr. Van Helsing levantó la cabeza cuando habló, y su rostro era severo como nunca.
“Te estoy diciendo lo que no sabes”, dijo. “Y lo que digo es esto, que si no es vigilado noche y día, y tratado con el mayor cuidado, puede ser la muerte de nosotros, de algunos de nosotros, ¡de todos nosotros!”.
“¿No sería mejor tomar algunas medidas para evitarlo?”, pregunté. “Ciertamente sería mejor llevarlo a algún lugar lejano, donde no haya gente”.
“Estoy de acuerdo”, dijo el Dr. Van Helsing, “porque en tal caso ninguno de nosotros estaría a salvo”.
El Dr. Seward parecía pensar por un momento y luego respondió:
“Ahora es tan violento que sería seguro llevarlo incluso a Carfax y mantenerlo allí. La cuestión es si no sería mejor ponerlo en algún lugar donde haya gente para cuidarlo”.
“Estoy de acuerdo”, dijo el Dr. Van Helsing, “porque en tal caso ninguno de nosotros estaría a salvo”.
El Dr. Seward parecía pensar y luego respondió:
“No me sentiré seguro hasta que lo hayamos sacado de aquí. Por lo tanto, mientras voy a buscar una luz, tú debes vigilar aquí”.
Después de unos minutos, volvió y salimos de la habitación. La puerta estaba cerrada con llave y la llave dada al Dr. Seward, quien la llevó en su cadena de reloj.
* * * * *
Los dos médicos volvieron unos minutos antes de las ocho. El Dr. Van Helsing parecía aliviado, pero su rostro era serio y severo. El Dr. Seward estaba tan pálido como siempre.
“¿Qué pasa?”, pregunté. “Cuéntame, por favor. Debo saber, tengo derecho a saber; es mi derecho saber, ya que tengo que ser dicho”.
Hizo una pausa y me miró, y luego dijo: “¿En nombre de Dios, qué significa todo esto? ¿Estaba ella, o está, loca, o qué horrible peligro es este?”.
Estaba tan desconcertada que no sabía qué decir más. El Dr. Van Helsing tomó el papel y lo leyó, y luego me lo entregó, diciendo:
“No te preocupes por eso ahora. Olvídalo por el momento. Sabrás y entenderás todo a su debido tiempo; pero será más tarde. Y ahora, ¿qué es lo que viniste a decirme?”.
Esto me devolvió a la realidad y me sentí yo misma de nuevo.
“Vine a hablar sobre el certificado de defunción. Si no actuamos de manera adecuada y sabia, puede haber una investigación, y ese papel tendría que ser producido. Espero que no haya investigación, porque si la hubiera, seguramente mataría a la pobre Lucy, si nada más lo hiciera. Sé, y tú sabes, y el otro médico que la atendió sabe, que la Sra. Westenra tenía una enfermedad del corazón, y podemos certificar que murió de eso. Vamos a llenar el certificado de inmediato, y yo mismo lo llevaré al registro y luego al funerario”.
“¡Buen trabajo, oh, mi amigo John! ¡Bien pensado! Realmente, si Lucy está triste por los enemigos que la acechan, al menos es feliz por los amigos que la aman. Uno, dos, tres, todos abren sus venas por ella, además de un viejo. ¡Ah, sí, lo sé, amigo John; no estoy ciego! ¡Los amo a todos más por eso! Ahora ve”.
En el pasillo me encontré con Quincey Morris, que me entregó un telegrama para Arthur diciendo que la Sra. Westenra había muerto; que Lucy también había estado enferma, pero que ahora estaba mejorando; y que el Dr. Van Helsing y yo estábamos con ella. Le dije adónde iba y él me animó a ir, pero cuando me iba dijo:
“Cuando vuelvas, Jack, ¿puedo tener dos palabras contigo a solas?”.
Asentí en respuesta y salí. No tuve dificultades con el registro y arreglé con el funerario local que viniera por la noche a tomar medidas para el ataúd y hacer los arreglos.
Cuando regresé, Quincey Morris me estaba esperando. Me llevó al comedor, donde las persianas no estaban bajadas, y que era un poco más alegre, o más bien menos lúgubre, que las otras habitaciones. Cuando estuvimos solos, me dijo:
“Jack Seward, no quiero meterme donde no tengo derecho, pero este no es un caso común. Sabes que amé a esa chica y quería casarme con ella; pero, aunque eso ya pasó, no puedo evitar sentirme ansioso por ella. ¿Qué es lo que está mal con ella? El holandés, y es un buen tipo, dijo, cuando tú y él entraron en la habitación, que debíamos tener otra transfusión de sangre, y que ambos estábamos exhaustos. Ahora, sé que los médicos hablan en privado, y que un hombre no debe esperar saber lo que consultan en privado. Pero este no es un asunto común, y, sea lo que sea, he hecho mi parte. ¿No es así?”.
“Es así”, le dije, y él continuó:
“No quiero meterme donde no tengo derecho, pero tengo derecho a saber algo sobre esto. ¿No es así? Tú y yo somos viejos amigos, y tú fuiste siempre un buen amigo de Art”.
“Art está bien”, le dije, y él se alegró.
“Entonces, ¿qué es lo que está mal con ella? Él no vendrá a verme, y no quiero molestarle; él y Mae están felices juntos, y yo no quiero causarle problemas. Me pregunto si no es algo que tiene que ver con la muerte de su madre”.
Me sentí un poco incómodo, pero le respondí lo mejor que pude:
“No hay nada que temer; ella está mejorando, y su madre murió de una enfermedad del corazón, así que no hay nada que temer”.
No pareció muy satisfecho, pero se calmó y dijo:
“Bueno, tal vez tengas razón. Ciertamente espero que lo tengas. Si hay algo en lo que pueda ayudar, debes contar conmigo, de día o de noche”.
“Eso es de amigo”, le dije, “y si necesito ayuda, no dudaré en pedírtela”.
Me sentí un poco más aliviada después de haber hablado con él. De alguna manera, su equilibrio y su calma me tranquilizaron.
* * * * *
He estado con Lucy toda la tarde. Ella está durmiendo profundamente, pero los médicos me han dicho que debo estar atenta a cualquier cambio. El Dr. Van Helsing está preparando sus cosas para un viaje, pero no me ha dicho a dónde va. Espero que no sea nada grave.
* * * * *
Lucy se despertó a medianoche y me llamó. Estaba en un estado semisonámbulo y siguió hablando consigo misma. Sus manos se movían constantemente y se desgastaban en la energía de su pensamiento. Estaba hablando incluso cuando entró en la habitación, y continuó hablando mientras se sentaba en el sofá, en su camisón, con los pies descubiertos. Había una intensidad de pensamiento en ella, y miraba al espacio con ojos sin brillo. Me senté en silencio y la escuché.
Al principio, su voz era débil y entrecortada por la disnea, pero había algo sonoro en ella que parecía resonar y eco en el aire frío. Temí que la continua tensión de su pensamiento la abrumara; pero continuó con una fuerza inconsciente que parecía venir a través de las sílabas como si fuera de más allá de ella. Era como un alma que gemía y estaba llena de todo el dolor del pasado y todo el miedo del futuro. Era como el tañido de una campana por un alma fallecida; y, sin embargo, ninguna campana en la tierra sonó así.
“¡Arthur! ¡Arthur! ¡Oh, mi amor, mi verdadero amor, mi vida, mi todo! Ven a mí. Ven a mí rápidamente. Sufro, estoy peor que la muerte, estoy muriendo, te estoy dejando. ¡Oh, debo morir por un error? ¿Qué es una noche, una noche en la que la esencia misma de la vida es el aliento del amor, qué es para toda la vida? ¡Oh, ven a mí, Arthur, querido; ven a mí y sálvame! ¡Sálvame! ¡Sálvame!”.
Su voz se estaba volviendo más delgada y las palabras parecían ser arrancadas de ella. Temí que la continua tensión revolviera la herida y trajera de vuelta el desmayo, así que dije, lo más casualmente que pude:
“Estás demasiado excitada. Debes tratar de calmarte”.
El efecto no fue el que esperaba; para mi sorpresa, su voz subió a una nota alta que parecía casi sobrehumana; cuando se desvaneció, pude ver la pobre herida en su garganta volverse más blanca y roja. El sonido me desestabilizó y me levanté de un salto; hubo un grito terrible que casi heló mi corazón al oírlo. Me volví para ver que el sonido provenía de Renfield; su rostro estaba blanco y sus ojos saltones mientras, medio sentado en su camisa de fuerza, se retorcía como una bestia enjaulada. Me acerqué para tranquilizarlo y, al mismo tiempo, para protegerme, porque temí que su paroxismo de excitación pudiera llevarlo a atacarme; pero mi fuerza no fue suficiente para moverlo, y continuó retorciéndose y gritando como si estuviera bajo un terrible dolor corporal.
“¡En nombre de Dios, qué significa todo esto?”, dije, volviéndome hacia los médicos; pero el Dr. Van Helsing había caído hacia atrás y estaba limpiándose la frente con su pañuelo como si estuviera en una terrible angustia.
Entonces me volví hacia el Dr. Seward. Estaba arrodillado junto al lado de la cama, con la mano en alto, como en advertencia o en oración. Parecía, supongo por contraste con la violenta palidez de gris y púrpura de Renfield, estar mortalmente pálido; tan blanco que incluso sus labios parecían azules. Algo, sin embargo, me consoló, porque sonrió cuando se levantó. Entonces habló en una voz sorprendentemente débil, pero completamente calmada:
“No te asustes; es solo su horrible grito. Es tan astuto que nos engaña a todos de vez en cuando. Cómo fue mordido en primer lugar sigue siendo un misterio para contar”.
“¡Buen Dios!”, dije. “¿Me estás diciendo que este hombre es un asesino?”.
El Dr. Van Helsing levantó la cabeza cuando habló, y su rostro era severo como nunca.
“Te estoy diciendo lo que no sabes”, dijo. “Y lo que digo es esto, que si no es vigilado noche y día, y tratado con el mayor cuidado, puede ser la muerte de nosotros, de algunos de nosotros, ¡de todos nosotros!”.
“¿No sería mejor tomar algunas medidas para evitarlo?”, pregunté. “Ciertamente sería mejor llevarlo a algún lugar lejano, donde no haya gente”.
“Estoy de acuerdo”, dijo el Dr. Van Helsing, “porque en tal caso ninguno de nosotros estaría a salvo”.
El Dr. Seward parecía pensar por un momento y luego respondió:
“Ahora es tan violento que sería seguro llevarlo incluso a Carfax y mantenerlo allí. La cuestión es si no sería mejor ponerlo en algún lugar donde haya gente para cuidarlo”.
“Estoy de acuerdo”, dijo el Dr. Van Helsing, “porque en tal caso ninguno de nosotros estaría a salvo”.
El Dr. Seward parecía pensar y luego respondió:
“No me sentiré seguro hasta que lo hayamos sacado de aquí. Por lo tanto, mientras voy a buscar una luz, tú debes vigilar aquí”.
Después de unos minutos, volvió y salimos de la habitación. La puerta estaba cerrada con llave y la llave dada al Dr. Seward, quien la llevó en su cadena de reloj.
* * * * *
Los dos médicos volvieron unos minutos antes de las ocho. El Dr. Van Helsing parecía aliviado, pero su rostro era serio y severo. El Dr. Seward estaba tan pálido como siempre.
“¿Qué pasa?”, pregunté. “Cuéntame, por favor. Debo saber, tengo derecho a saber; es mi derecho saber, ya que tengo que ser dicho”.
Hizo una pausa y me miró, y luego dijo: “¿En nombre de Dios, qué significa todo esto? ¿Estaba ella, o está, loca, o qué horrible peligro es este?”.
Estaba tan desconcertada que no sabía qué decir más. El Dr. Van Helsing tomó el papel y lo leyó, y luego me lo entregó, diciendo:
“No te preocupes por eso ahora. Olvídalo por el momento. Sabrás y entenderás todo a su debido tiempo; pero será más tarde. Y ahora, ¿qué es lo que viniste a decirme?”.
Esto me devolvió a la realidad y me sentí yo misma de nuevo.
“Vine a hablar sobre el certificado de defunción. Si no actuamos de manera adecuada y sabia, puede haber una investigación, y ese papel tendría que ser producido. Espero que no haya investigación, porque si la hubiera, seguramente mataría a la pobre Lucy, si nada más lo hiciera. Sé, y tú sabes, y el otro médico que la atendió sabe, que la Sra. Westenra tenía una enfermedad del corazón, y podemos certificar que murió de eso. Vamos a llenar el certificado de inmediato, y yo mismo lo llevaré al registro y luego al funerario”.
“¡Buen trabajo, oh, mi amigo John! ¡Bien pensado! Realmente, si Lucy está triste por los enemigos que la acechan, al menos es feliz por los amigos que la aman. Uno, dos, tres, todos abren sus venas por ella, además de un viejo. ¡Ah, sí, lo sé, amigo John; no estoy ciego! ¡Los amo a todos más por eso! Ahora ve”.
En el pasillo me encontré con Quincey Morris, que me entregó un telegrama para Arthur diciendo que la Sra. Westenra había muerto; que Lucy también había estado enferma, pero que ahora estaba mejorando; y que el Dr. Van Helsing y yo estábamos con ella. Le dije adónde iba y él me animó a ir, pero cuando me iba dijo:
“Cuando vuelvas, Jack, ¿puedo tener dos palabras contigo a solas?”.
Asentí en respuesta y salí. No tuve dificultades con el registro y arreglé con el funerario local que viniera por la noche a tomar medidas para el ataúd y hacer los arreglos.
Cuando regresé, Quincey Morris me estaba esperando. Me llevó al comedor, donde las persianas no estaban bajadas, y que era un poco más alegre, o más bien menos lúgubre, que las otras habitaciones. Cuando estuvimos solos, me dijo:
“Jack Seward, no quiero meterme donde no tengo derecho, pero este no es un caso común. Sabes que amé a esa chica y quería casarme con ella; pero, aunque eso ya pasó, no puedo evitar sentirme ansioso por ella. ¿Qué es lo que está mal con ella? El holandés, y es un buen tipo, dijo, cuando tú y él entraron en la habitación, que debíamos tener otra transfusión de sangre, y que ambos estábamos exhaustos. Ahora, sé que los médicos hablan en privado, y que un hombre no debe esperar saber lo que consultan en privado. Pero este no es un asunto común, y, sea lo que sea, he hecho mi parte. ¿No es así?”.
“Es así”, le dije, y él continuó:
“No quiero meterme donde no tengo derecho, pero tengo derecho a saber algo sobre esto. ¿No es así? Tú y yo somos viejos amigos, y tú fuiste siempre un buen amigo de Art”.
“Art está bien”, le dije, y él se alegró.
“Entonces, ¿qué es lo que está mal con ella? Él no vendrá a verme, y no quiero molestarle; él y Mae están felices juntos, y yo no quiero causarle problemas. Me pregunto si no es algo que tiene que ver con la muerte de su madre”.
Me sentí un poco incómodo, pero le respondí lo mejor que pude:
“No hay nada que temer; ella está mejorando, y su madre murió de una enfermedad del corazón, así que no hay nada que temer”.
No pareció muy satisfecho, pero se calmó y dijo:
“Bueno, tal vez tengas razón. Ciertamente espero que lo tengas. Si hay algo en lo que pueda ayudar, debes contar conmigo, de día o de noche”.
“Eso es de amigo”, le dije, “y si necesito ayuda, no dudaré en pedírtela”.
Me sentí un poco más aliviada después de haber hablado con él. De alguna manera, su equilibrio y su calma me tranquilizaron.
* * * * *
He estado con Lucy toda la tarde. Ella está durmiendo profundamente, pero los médicos me han dicho que debo estar atenta a cualquier cambio. El Dr. Van Helsing está preparando sus cosas para un viaje, pero no me ha dicho a dónde va. Espero que no sea nada grave.
* * * * *
Lucy se despertó a medianoche y me llamó. Estaba en un estado semisonámbulo y siguió hablando consigo misma. Sus manos se movían constantemente y se desgastaban en la energía de su pensamiento. Estaba hablando incluso cuando entró en la habitación, y continuó hablando mientras se sentaba en el sofá, en su camisón, con los pies descubiertos. Había una intensidad de pensamiento en ella, y miraba al espacio con ojos sin brillo. Me senté en silencio y la escuché.
Al principio, su voz era débil y entrecortada por la disnea, pero había algo sonoro en ella que parecía resonar y eco en el aire frío. Temí que la continua tensión de su pensamiento la abrumara; pero continuó con una fuerza inconsciente que parecía venir a través de las sílabas como si fuera de más allá de ella. Era como un alma que gemía y estaba llena de todo el dolor del pasado y todo el miedo del futuro. Era como el tañido de una campana por un alma fallecida; y, sin embargo, ninguna campana en la tierra sonó así.
“¡Arthur! ¡Arthur! ¡Oh, mi amor, mi verdadero amor, mi vida, mi todo! Ven a mí. Ven a mí rápidamente. Sufro, estoy peor que la muerte, estoy muriendo, te estoy dejando. ¡Oh, debo morir por un error? ¿Qué es una noche, una noche en la que la esencia misma de la vida es el aliento del amor, qué es para toda la vida? ¡Oh, ven a mí, Arthur, querido; ven a mí y sálvame! ¡Sálvame! ¡Sálvame!”.
Su voz se estaba volviendo más delgada y las palabras parecían ser arrancadas de ella. Temí que la continua tensión revolviera la herida y trajera de vuelta el desmayo, así que dije, lo más casualmente que pude:
“Estás demasiado excitada. Debes tratar de calmarte”.
El efecto no fue el que esperaba; para mi sorpresa, su voz subió a una nota alta que parecía casi sobrehumana; cuando se desvaneció, pude ver la pobre herida en su garganta volverse más blanca y roja. El sonido me desestabilizó y me levanté de un salto; hubo un grito terrible que casi heló mi corazón al oírlo. Me volví para ver que el sonido provenía de Renfield; su rostro estaba blanco y sus ojos saltones mientras, medio sentado en su camisa de fuerza, se retorcía como una bestia enjaulada. Me acerqué para tranquilizarlo y, al mismo tiempo, para protegerme, porque temí que su paroxismo de excitación pudiera llevarlo a atacarme; pero mi fuerza no fue suficiente para moverlo, y continuó retorciéndose y gritando como si estuviera bajo un terrible dolor corporal.
“¡En nombre de Dios, qué significa todo esto?”, dije, volviéndome hacia los médicos; pero el Dr. Van Helsing había caído hacia atrás y estaba limpiándose la frente con su pañuelo como si estuviera en una terrible angustia.
Entonces me volví hacia el Dr. Seward. Estaba arrodillado junto al lado de la cama, con la mano en alto, como en advertencia o en oración. Parecía, supongo por contraste con la violenta palidez de gris y púrpura de Renfield, estar mortalmente pálido; tan blanco que incluso sus labios parecían azules. Algo, sin embargo, me consoló, porque sonrió cuando se levantó. Entonces habló en una voz sorprendentemente débil, pero completamente calmada:
“No te asustes; es solo su horrible grito. Es tan astuto que nos engaña a todos de vez en cuando. Cómo fue mordido en primer lugar sigue siendo un misterio para contar”.
“¡Buen Dios!”, dije. “¿Me estás diciendo que este hombre es un asesino?”.
El Dr. Van Helsing levantó la cabeza cuando habló, y su rostro era severo como nunca.
“Te estoy diciendo lo que no sabes”, dijo. “Y lo que digo es esto, que si no es vigilado noche y día, y tratado con el mayor cuidado, puede ser la muerte de nosotros, de algunos de nosotros, ¡de todos nosotros!”.
“¿No sería mejor tomar algunas medidas para evitarlo?”, pregunté. “Ciertamente sería mejor llevarlo a algún lugar lejano, donde no haya gente”.
“Estoy de acuerdo”, dijo el Dr. Van Helsing, “porque en tal caso ninguno de nosotros estaría a salvo”.
El Dr. Seward parecía pensar por un momento y luego respondió:
“Ahora es tan violento que sería seguro llevarlo incluso a Carfax y mantenerlo allí. La cuestión es si no sería mejor ponerlo en algún lugar donde haya gente para cuidarlo”.
“Estoy de acuerdo”, dijo el Dr. Van Helsing, “porque en tal caso ninguno de nosotros estaría a salvo”.
El Dr. Seward parecía pensar y luego respondió:
“No me sentiré seguro hasta que lo hayamos sacado de aquí. Por lo tanto, mientras voy a buscar una luz, tú debes vigilar aquí”.
Después de unos minutos, volvió y salimos de la habitación. La puerta estaba cerrada con llave y la llave dada al Dr. Seward, quien la llevó en su cadena de reloj.
* * * * *
Los dos médicos volvieron unos minutos antes de las ocho. El Dr. Van Helsing parecía aliviado, pero su rostro era serio y severo. El Dr. Seward estaba tan pálido como siempre.
“¿Qué pasa?”, pregunté. “Cuéntame, por favor. Debo saber, tengo derecho a saber; es mi derecho saber, ya que tengo que ser dicho”.
Hizo una pausa y me miró, y luego dijo: “¿En nombre de Dios, qué significa todo esto? ¿Estaba ella, o está, loca, o qué horrible peligro es este?”.
Estaba tan desconcertada que no sabía qué decir más. El Dr. Van Helsing tomó el papel y lo leyó, y luego me lo entregó, diciendo:
“No te preocupes por eso ahora. Olvídalo por el momento. Sabrás y entenderás todo a su debido tiempo; pero será más tarde. Y ahora, ¿qué es lo que viniste a decirme?”.
Esto me devolvió a la realidad y me sentí yo misma de nuevo.
“Vine a hablar sobre el certificado de defunción. Si no actuamos de manera adecuada y sabia, puede haber una investigación, y ese papel tendría que ser producido. Espero que no haya investigación, porque si la hubiera, seguramente mataría a la pobre Lucy, si nada más lo hiciera. Sé, y tú sabes, y el otro médico que la atendió sabe, que la Sra. Westenra tenía una enfermedad del corazón, y podemos certificar que murió de eso. Vamos a llenar el certificado de inmediato, y yo mismo lo llevaré al registro y luego al funerario”.
“¡Buen trabajo, oh, mi amigo John! ¡Bien pensado! Realmente, si Lucy está triste por los enemigos que la acechan, al menos es feliz por los amigos que la aman. Uno, dos, tres, todos abren sus venas por ella, además de un viejo. ¡Ah, sí, lo sé, amigo John; no estoy ciego! ¡Los amo a todos más por eso! Ahora ve”.
En el pasillo me encontré con Quincey Morris, que me entregó un telegrama para Arthur diciendo que la Sra. Westenra había muerto; que Lucy también había estado enferma, pero que ahora estaba mejorando; y que el Dr. Van Helsing y yo estábamos con ella. Le dije adónde iba y él me animó a ir, pero cuando me iba dijo:
“Cuando vuelvas, Jack, ¿puedo tener dos palabras contigo a solas?”.
Asentí en respuesta y salí. No tuve dificultades con el registro y arreglé con el funerario local que viniera por la noche a tomar medidas para el ataúd y hacer los arreglos.
Cuando regresé, Quincey Morris me estaba esperando. Me llevó al comedor, donde las persianas no estaban bajadas, y que era un poco más alegre, o más bien menos lúgubre, que las otras habitaciones. Cuando estuvimos solos, me dijo:
“Jack Seward, no quiero meterme donde no tengo derecho, pero este no es un caso común. Sabes que amé a esa chica y quería casarme con ella; pero, aunque eso ya pasó, no puedo evitar sentirme ansioso por ella. ¿Qué es lo que está mal con ella? El holandés, y es un buen tipo, dijo, cuando tú y él entraron en la habitación, que debíamos tener otra transfusión de sangre, y que ambos estábamos exhaustos. Ahora, sé que los médicos hablan en privado, y que un hombre no debe esperar saber lo que consultan en privado. Pero este no es un asunto común, y, sea lo que sea, he hecho mi parte. ¿No es así?”.
“Es así”, le dije, y él continuó:
“No quiero meterme donde no tengo derecho, pero tengo derecho a saber algo sobre esto. ¿No es así? Tú y yo somos viejos amigos, y tú fuiste siempre un buen amigo de Art”.
“Art está bien”, le dije, y él se alegró.
“Entonces, ¿qué es lo que está mal con ella? Él no vendrá a verme, y no quiero molestarle; él y Mae están felices juntos, y yo no quiero causarle problemas. Me pregunto si no es algo que tiene que ver con la muerte de su madre”.
Me sentí un poco incómodo, pero le respondí lo mejor que pude:
“No hay nada que temer; ella está mejorando, y su madre murió de una enfermedad del corazón, así que no hay nada que temer”.
No pareció muy satisfecho, pero se calmó y dijo:
“Bueno, tal vez tengas razón. Ciertamente espero que lo tengas. Si hay algo en lo que pueda ayudar, debes contar conmigo, de día o de noche”.
“Eso es de amigo”, le dije, “y si necesito ayuda, no dudaré en pedírtela”.
Me sentí un poco más aliviada después de haber hablado con él. De alguna manera, su equilibrio y su calma me tranquilizaron.
* * * * *
He estado con Lucy toda la tarde. Ella está durmiendo profundamente, pero los médicos me han dicho que debo estar atenta a cualquier cambio. El Dr. Van Helsing está preparando sus cosas para un viaje, pero no me ha dicho a dónde va. Espero que no sea nada grave.
* * * * *
Lucy se despertó a medianoche y me llamó. Estaba en un estado semisonámbulo y siguió hablando consigo misma. Sus manos se movían constantemente y se desgastaban en la energía de su pensamiento. Estaba hablando incluso cuando entró en la habitación, y continuó hablando mientras se sentaba en el sofá, en su camisón, con los pies descubiertos. Había una intensidad de pensamiento en ella, y miraba al espacio con ojos sin brillo. Me senté en silencio y la escuché.
Al principio, su voz era débil y entrecortada por la disnea, pero había algo sonoro en ella que parecía resonar y eco en el aire frío. Temí que la continua tensión de su pensamiento la abrumara; pero continuó con una fuerza inconsciente que parecía venir a través de las sílabas como si fuera de más allá de ella. Era como un alma que gemía y estaba llena de todo el dolor del pasado y todo el miedo del futuro. Era como el tañido de una campana por un alma fallecida; y, sin embargo, ninguna campana en la tierra sonó así.
“¡Arthur! ¡Arthur! ¡Oh, mi amor, mi verdadero amor, mi vida, mi todo! Ven a mí. Ven a mí rápidamente. Sufro, estoy peor que la muerte, estoy muriendo, te estoy dejando. ¡Oh, debo morir por un error? ¿Qué es una noche, una noche en la que la esencia misma de la vida es el aliento del amor, qué es para toda la vida? ¡Oh, ven a mí, Arthur, querido; ven a mí y sálvame! ¡Sálvame! ¡Sálvame!”.
Su voz se estaba volviendo más delgada y las palabras parecían ser arrancadas de ella. Temí que la continua tensión revolviera la herida y trajera de vuelta el desmayo, así que dije, lo más casualmente que pude:
“Estás demasiado excitada. Debes tratar de calmarte”.
El efecto no fue el que esperaba; para mi sorpresa, su voz subió a una nota alta que parecía casi sobrehumana; cuando se desvaneció, pude ver la pobre herida en su garganta volverse más blanca y roja. El sonido me desestabilizó y me levanté de un salto; hubo un grito terrible que casi heló mi corazón al oírlo. Me volví para ver que el sonido provenía de Renfield; su rostro estaba blanco y sus ojos saltones mientras, medio sentado en su camisa de fuerza, se retorcía como una bestia enjaulada. Me acerqué para tranquilizarlo y, al mismo tiempo, para protegerme, porque temí que su paroxismo de excitación pudiera llevarlo a atacarme; pero mi fuerza no fue suficiente para moverlo, y continuó retorciéndose y gritando como si estuviera bajo un terrible dolor corporal.
“¡En nombre de Dios, qué significa todo esto?”, dije, vol
“Assim mesmo. Mas havia uma dificuldade, amigo John. Se for assim, então o que dizer dos outros? Ho, ho! Então essa mocinha tão doce é poliamorista, e eu, com minha pobre esposa morta para mim, mas viva segundo a lei da Igreja, embora sem juízo, tudo perdido — até eu, que sou marido fiel desta agora sem‑esposa, sou bigâmico.”
“Não vejo onde está a piada nisso também!” eu disse; e não me senti particularmente satisfeito com ele por dizer tais coisas. Ele colocou a mão no meu braço e disse:—
“Amigo John, perdoa-me se te ofendo. Não mostrei meus sentimentos a outros quando poderiam ferir, mas só a ti, meu velho amigo, em quem confio. Se pudesses olhar dentro do meu próprio coração quando quero rir; se pudesses fazê‑lo quando a risada chegou; se pudesses fazê‑lo agora, quando o Rei Riso guardou sua coroa, e tudo que lhe pertence — pois ele vai muito, muito longe de mim, e por um longo, longo tempo — talvez sentisses pena de mim mais que tudo.”
Fiquei comovido com a ternura de seu tom, e perguntei o porquê.
“Porque eu sei!”
E agora estamos todos dispersos; e por muitos dias longos a solidão se assentará sobre nossos telhados com asas sombrias. Lucy jaz no túmulo de seus parentes, uma imponente casa da morte num cemitério solitário, afastada da Londres lotada; onde o ar é fresco, e o sol nasce sobre a colina de Hampstead, e onde flores silvestres crescem por vontade própria.
Assim posso terminar este diário; e só Deus sabe se um dia começarei outro. Se o fizer, ou se ao menos o abrir novamente, será para tratar de outras pessoas e outros temas; pois aqui, ao final, onde se conta o romance da minha vida, antes de voltar a retomar o fio da minha obra‑vida, digo triste e sem esperança,
“FINIS.”
“The Westminster Gazette,” 25 de setembro.
UM MISTÉRIO DE HAMPSTEAD.
O bairro de Hampstead está, neste momento, tomado por uma série de acontecimentos que parecem seguir linhas paralelas àquilo que os redatores de manchetes chamaram de “O Horror de Kensington”, ou “A Mulher esfaqueadora”, ou “A Mulher de Preto”. Nos últimos dois ou três dias ocorreram vários casos de crianças pequenas que se afastaram de casa ou deixaram de voltar depois de brincar no Heath. Em todos esses casos as crianças eram muito novas para dar um relato inteligível, mas a explicação comum era que tinham estado com uma “bloofer lady”. Sempre foi no fim da noite que foram notadas as ausências, e em duas ocasiões as crianças só foram encontradas na manhã seguinte. Supõe‑se no bairro que, como o primeiro desaparecido alegou que uma “bloofer lady” o convidara para um passeio, os demais pegaram a expressão e a usaram como pretexto. Isso é ainda mais natural, pois o jogo favorito das crianças atualmente é atrair umas às outras com artimanhas. Um correspondente nos escreve que ver alguns dos pequeninos fingindo ser a “bloofer lady” é suprema comicidade. Alguns de nossos caricaturistas poderiam, diz ele, tirar lição da ironia grotesca ao comparar a realidade e a imagem. É apenas em conformidade com princípios gerais da natureza humana que a “bloofer lady” deveria ser o papel popular nessas performances ao ar livre. Nosso correspondente ingenuamente afirma que nem Ellen Terry seria tão cativante quanto alguns desses meninos de rostos sujos que fingem — e até imaginam — ser tal figura.
Entretanto, pode haver um lado sério na questão, pois algumas das crianças, de fato todas as que desapareceram à noite, apresentaram pequenos rasgos ou ferimentos na garganta. As lesões parecem como as que um rato ou um pequeno cão poderia causar, e embora individualmente pouco importantes, sugerem que o animal que as inflige tem um método próprio. A polícia da divisão foi instruída a manter vigilância rigorosa por crianças que se afastem, especialmente as muito novas, nas imediações de Hampstead Heath, e por quaisquer cães vadios que possam estar por aí.
“The Westminster Gazette,” 25 de setembro.
Extra Especial.
O HORROR DE HAMPSTEAD.
OUTRA CRIANÇA FERIDA.
A “Bloofer Lady”.
Acabamos de receber informação de que outra criança, desaparecida na noite passada, foi encontrada tarde da manhã sob um arbusto de urtiga no lado de Shooter’s Hill, em Hampstead Heath, que é talvez menos frequentado que as demais áreas. Possui o mesmo pequeno ferimento na garganta observado nos outros casos. Estava terrivelmente fraca e parecia bastante emagrecida. Também, quando parcialmente recuperada, contou a história comum de ter sido atraída pela “bloofer lady”.
CAPÍTULO XIV
DIÁRIO DE MINA HARKER
23 de setembro — Jonathan está melhor após uma noite ruim. Estou tão feliz de ele ter muito trabalho a fazer, pois isso o afasta das coisas terríveis; e oh, regozijo‑me que ele não está agora sobrecarregado com a responsabilidade de sua nova posição. Eu sabia que ele seria fiel a si mesmo, e agora quão orgulhosa estou ao ver Jonathan alcançar o ápice de sua progressão e manter o ritmo em todos os sentidos com os deveres que lhe cabem. Ele ficará fora o dia todo até tarde, pois disse que não poderia almoçar em casa. As tarefas domésticas já foram concluídas, então tomarei seu diário estrangeiro, trancarei‑me no meu quarto e o lerei…
24 de setembro — Não tive ânimo para escrever na noite passada; aquele terrível relato de Jonathan me perturbou tanto. Pobre querido! Como deve ter sofrido, seja verdade ou mera imaginação. Pergunto‑me se há alguma verdade nisso. Será que ele contraiu febre cerebral e então escreveu todas aquelas coisas horríveis, ou teve alguma causa para tudo isso? Suponho que nunca saberei, pois não ouso abrir o assunto com ele… E ainda aquele homem que vimos ontem! Parecia tão certo de si… Pobre sujeito! Suponho que o funeral o perturbou e enviou sua mente a algum trenó de pensamentos… Ele acredita em tudo isso. Lembro‑me de que no dia do nosso casamento ele disse: “A menos que algum dever solene me incite a retornar às horas amargas, acordado ou adormecido, louco ou são.” Parece haver, por entre tudo, um fio de continuidade… Aquele temível Conde estava vindo a Londres… Se for assim, e ele vier a Londres, com seus milhões incontáveis… Pode haver um dever solene; e se vier, não devemos recuar… Estarei preparada. Pegarei minha máquina de escrever nesta hora e começarei a transcrever. Então estaremos prontos para outras leituras se necessário. E se for preciso; então, talvez, se eu estiver pronta, o pobre Jonathan não se angustiará, pois poderei falar por ele e nunca deixá‑lo preocupado com tudo isso. Se Jonathan algum dia superar a ansiedade, pode querer contar‑me tudo, e eu lhe farei perguntas e descobrirei coisas, e verei como confortá‑lo.
Carta, Van Helsing a Sra. Harker.
“24 de setembro.
(Confidencial)
“Prezada senhora,—
“Peço perdão por escrever, pois sou tão amigo que lhe trouxe a triste notícia do falecimento da senhorita Lucy Westenra. Pela bondade do Lorde Godalming, estou autorizado a ler suas cartas e papéis, pois estou profundamente preocupado com certas questões de vital importância. Neles encontro algumas cartas suas, que demonstram o quanto eram grandes amigas e o quanto a ama. Oh, senhora Mina, por esse amor, imploro‑a, ajude‑me. É pelo bem dos outros que peço – para reparar grandes injustiças e aliviar terríveis problemas – que podem ser maiores do que imagina. Será que a vejo? Pode confiar em mim. Sou amigo do Dr. John Seward e do Lorde Godalming (que era Arthur da senhorita Lucy). Devo manter tudo isso em segredo por ora. Eu viria a Exeter encontrá‑la imediatamente se me disser que tenho privilégio de ir, e onde e quando. Imploro seu perdão, senhora. Li suas cartas à pobre Lucy, e sei o quão boa é e como seu marido sofre; por isso peço, se possível, que não lhe dê esclarecimentos, pois isso poderia prejudicá‑la. Mais uma vez peço perdão e que me perdoe.
“VAN HELSING.”
Telegrama, Sra. Harker a Van Helsing.
“25 de setembro — Venha hoje ao meio‑dia e quinze se conseguir pegar o trem. Posso vê‑la a qualquer hora que vier.”
WILHELMINA HARKER.
DIÁRIO DE MINA HARKER.
25 de setembro — Não consigo evitar sentir‑me terrivelmente excitada à medida que se aproxima a
hora de sua chegada. Li a carta do Dr. Van Helsing várias vezes, e ela me traz um conforto que mal sei descrever. Se ele soubesse o quanto me angustia a ideia de algo terrível pairando sobre o Jonathan, ele entenderia por que me sinto tão grata. A menção aos “ferimentos puntiformes” no jornal traz de volta aquela sensação de horror que sinto desde que li o diário de meu marido na Suíça. É como se a sombra de algo maligno, algo que não pertence a este mundo, estivesse se aproximando cada vez mais de nós. E, no entanto, Van Helsing parece tão confiante, tão senhor de si. Ele não parece um homem que se deixa levar por superstições, mas sim alguém que compreende as profundezas da ciência e da alma humana. Mal posso esperar para vê-lo e ouvir o que ele tem a dizer sobre os documentos que lhe enviei.
A expectativa de sua chegada tornou o dia insuportavelmente longo. Tentei me ocupar com os afazeres domésticos, mas meus pensamentos sempre retornam àquelas páginas escritas por Jonathan, às suas descrições do Castelo, à figura do Conde, e àquela sensação de que ele ainda está entre nós. Será possível? Será que o mal pode atravessar fronteiras e oceanos apenas para nos perseguir? Às vezes, sinto um arrepio percorrer minha espinha ao pensar no que ele pode ter trazido consigo de lá. Mas então olho para a foto de meu marido, lembro-me de sua força e de seu amor, e tento afastar esses pensamentos. Ele está seguro agora, estamos em casa, em Londres. Nada pode nos atingir aqui, ou pelo menos é o que tento acreditar.
Quando finalmente ouvi o som de passos no corredor, meu coração deu um salto. Era ele. Pude ouvir a voz grave e autoritária do Dr. Van Helsing conversando com a criada. Ele soava exatamente como o imaginara: enérgico, inteligente e dotado de uma estranha autoridade. Quando ele entrou na sala, senti-me pequena diante de sua presença, mas ao mesmo tempo acolhida. Ele tinha um olhar penetrante, como se pudesse ler o que se passava em minha mente, mas havia uma bondade ali que me tranquilizou instantaneamente. Ele se aproximou com um sorriso contido, e eu sabia que, a partir daquele momento, tudo mudaria. A esperança, que eu julgava perdida, renascia em mim. Eu precisava saber. Precisava que ele confirmasse meus temores ou que os dissipasse de uma vez por todas.
“Minha querida senhora Harker,” começou ele, segurando minha mão com uma firmeza reconfortante, “não se deixe abater pelo medo. O que li naqueles relatos é, de fato, a coisa mais extraordinária que já encontrei em toda a minha carreira. Mas, por mais terrível que seja, não é algo que possamos ignorar. Devemos enfrentá-lo com a razão, com a fé e com a coragem que só os que amam possuem. Sei que a senhora tem suportado um fardo pesado demais para seus ombros, mas não está mais sozinha. Estamos juntos nisto agora.” Senti as lágrimas brotarem em meus olhos, mas não de tristeza; era o alívio de finalmente compartilhar o segredo que vinha corroendo minha paz de espírito há tantos meses.
“O que o senhor pensa, doutor?” perguntei com a voz trêmula. “O senhor acredita que ele ainda esteja vivo? Que ele possa estar aqui em Londres?” Ele suspirou profundamente, dirigindo-se à janela e olhando para a rua movimentada. “A natureza tem segredos que nossa ciência apenas começa a arranhar, minha cara. Coisas que a maioria das pessoas chamaria de loucura ou sonho, mas que para outros são realidades tangíveis. O que seu marido enfrentou não foi uma ilusão, nem uma febre passageira. Foi um encontro com algo tão antigo quanto o próprio tempo, algo que se alimenta da vida dos outros para sustentar sua própria existência pervertida. E se ele veio até aqui, é porque tem um propósito. Londres oferece tudo o que ele precisa para se esconder, para prosperar e para se espalhar. Mas não o permitiremos.”
Suas palavras, embora assustadoras, tinham um tom de determinação que me deu forças. “O que devemos fazer?” indaguei, sentindo-me subitamente pronta para qualquer sacrifício. Van Helsing virou-se para mim, seus olhos brilhando com uma intensidade que eu nunca vira antes. “Primeiro, devemos reunir todos os fatos. Nada pode ser deixado ao acaso. O diário de seu marido é a nossa chave, e os jornais que estão surgindo com relatos sobre essas crianças em Hampstead são a nossa prova de que o mal já começou sua colheita. Precisamos ser astutos, silenciosos e, acima de tudo, unidos. A senhora é a peça central de tudo isso, Mina Harker, pois sua mente é clara e seu coração é puro. É em pessoas como a senhora que reside a esperança da humanidade contra tais abominações.”
Senti-me honrada, embora assustada com o peso da responsabilidade que ele me atribuía. “Eu farei o que for preciso, Dr. Van Helsing. Por Jonathan, pela memória de Lucy, e pelo bem daqueles que não podem se defender.” Ele assentiu gravemente, como se estivesse selando um pacto. “Então, assim será. O tempo é curto, e a noite pode vir a ser longa. Mas, com a ajuda de Deus e a clareza de nossa mente, triunfaremos. Agora, peço que chame seu marido. Preciso falar com ele pessoalmente, pois há detalhes em sua narrativa que apenas ele, em sua vivência, pode esclarecer. Depois, traçaremos nosso plano de ação.” Saí da sala com o coração batendo forte, sentindo que, pela primeira vez, a névoa começava a se dissipar.
“Professor, permita-me ser novamente seu estudante dedicado. Diga‑me a tese, para que eu possa aplicar seu conhecimento enquanto prossegue. Neste momento, minha mente vagueia de ponto em ponto como um louco, e não como um sã, seguindo uma ideia. Sinto‑me como um novato que se arrasta por um pântano enevoado, saltando de um tufão a outro no mero esforço cego de avançar sem saber para onde vai.”
“Boa imagem”, disse ele. “Bem, direi. Minha tese é a seguinte: quero que você acredite.”
“Acreditar em quê?”
“Acreditar em coisas que você não pode. Deixe‑me ilustrar. Ouvi certa vez falar de um americano que definiu a fé assim: ‘aquela faculdade que nos permite acreditar em coisas que sabemos ser falsas.’ Por um lado, sigo esse homem. Ele quis dizer que devemos ter a mente aberta, e não deixar que um pequeno fragmento de verdade impeça o ímpeto de uma grande verdade, como uma pequena pedra freia um trem de ferro. Primeiro recebemos a pequena verdade. Bom! Conservamo‑la e a valorizamos; mas, ainda assim, não devemos permitir que ela se julgue a única verdade do universo.”
“Então quer que eu não deixe que alguma convicção anterior ferra a receptividade da minha mente quanto a alguma matéria estranha. Estou a ler a sua lição corretamente?”
“Ah, ainda és meu pupila favorito. Vale a pena ensiná‑lo. Agora que estás disposto a compreender, tomaste o primeiro passo para entender. Pensa então que aqueles tão pequenos furos nas gargantas das crianças foram feitos pelo mesmo que fez o furo na Miss Lucy?”
“Suponho que sim.” Levantou‑se e disse solenemente:
“Então estás errado. Ah, se fosse! Mas, infelizmente, não. É pior, muito, muito pior.”
“Em nome de Deus, Professor Van Helsing, o que quer dizer?” exclamei.
Ele lançou‑se, num gesto desesperado, sobre a cadeira, apoiou os cotovelos na mesa, cobriu o rosto com as mãos e falou:
“Foram feitas por Miss Lucy!”
CAPÍTULO XV
DIÁRIO DO DR. SEWARD – continuação.
Por um tempo, a pura raiva dominou‑me; era como se, durante a vida dela, ele tivesse golpeado Lucy no rosto. Bati a mesa com força e levantei‑me dizendo‑lhe:
“Dr. Van Helsing, está louco?” Ele ergueu a cabeça e olhou‑me, e de alguma forma a ternura de seu semblante acalmou‑me de imediato. “ Eu gostaria de estar!” disse. “A loucura seria fácil de suportar comparada a uma verdade como esta. Ah, meu amigo, por que, pensa tu, rodeei tanto caminho, por que demorei tanto a lhe dizer algo tão simples? Foi porque te odeio e te odeio desde sempre? Foi porque quis lhe causar dor? Foi porque, agora tão tarde, busco vingança daquele tempo em que salvaste minha vida, escapando de uma morte terrível? Ah, não!”
“Perdoe‑me”, respondi. Ele prosseguiu:
“Meu amigo, foi porque quis ser delicado ao lhe revelar, pois sei que amaste aquela doce dama. Mas ainda assim não espero que acredite. É tão difícil aceitar de pronto qualquer verdade abstrata, que podemos duvidar de sua possibilidade quando sempre acreditamos no ‘não’ dela; é ainda mais duro aceitar uma verdade concreta tão triste, e de alguém como a Miss Lucy. Esta noite irei prová‑la. Atreve‑se a vir comigo?”
Aquilo me abalou. Um homem não costuma provar tal verdade; Byron seria exceção, por ciúmes.
“E provar a própria verdade que mais abomina.”
Ele percebeu minha hesitação e falou:
“A lógica é simples, nada de lógica de lunático desta vez, saltando de tufão a tufão num brejo enevoado. Se não for verdade, a prova será alívio; na pior das hipóteses, não causará dano. Se for verdade! Ah, aí está o terror; mas esse terror pode ajudar a minha causa, pois nele há necessidade de crença. Venha, digo‑lhe o que proponho: primeiro, partimos agora e vemos a criança no hospital. Dr. Vincent, do Norte Hospital, onde os papéis dizem que a criança está, é amigo meu, e lembro‑me de você, pois esteve na aula em Amsterdã. Ele deixará dois cientistas verem seu caso, se não deixar dois amigos. Diremos nada a ele, exceto que desejamos aprender. E então—”
“E então?” Tirou da bolsa uma chave e ergueu‑a. “E então passaremos a noite, tu e eu, no cemitério onde Lucy jaz. Esta é a chave que tranca o túmulo. Recebi‑a do carregador de caixões para entregar a Arthur.” Meu coração afundou‑se dentro de mim, pois sentia que um terrível provérbio se anunciava. Não pude fazer outra coisa senão reunir coragem e sugerir que fosse melhor apressar‑nos, pois a tarde se esvaía…
Encontramos a criança acordada. Tinha dormido e tomado algum alimento, e, no geral, estava bem. Dr. Vincent retirou o curativo da garganta e mostrou‑nos as perfurações. Não havia como confundir a semelhança com as de Lucy. Eram menores, e as bordas pareciam mais frescas; nada mais. Perguntamos a Vincent a que atribuía aquelas marcas, e ele respondeu que devia ter sido a mordida de algum animal, talvez um rato; porém, por sua parte, inclinava‑se a pensar que fosse um dos morcegos tão numerosos nas alturas do norte de Londres. “De tantos inofensivos”, disse, “pode haver algum espécime selvagem vindo do Sul de espécie mais maléfica. Algum marinheiro pode ter trazido‑‑o para casa, e escapou; ou ainda, dos Jardins Zoológicos, um jovem pode ter escapado, ou um criado lá a partir de um vampiro. Essas coisas ocorrem, sabe. Há dez dias um lobo escapou, e foi, creio eu, rastreado por aqui. Na semana seguinte, as crianças só brincavam de Chapeuzinho Vermelho na charneca e em cada viela do lugar, até que essa ‘senhora azul’ assustadora apareceu, e desde então tem sido pura folia. Até este pobre miúdo, ao acordar hoje, pediu à enfermeira que fosse embora. Quando ela lhe perguntou por quê, ele disse que queria brincar com a ‘senhora azul’.”
“Espero”, disse Van Helsing, “que, ao mandar a criança para casa, avise os pais a vigiarem‑na estritamente. Esses desvios são perigosos; e se a criança ficar fora outra noite, provavelmente será fatal. Mas, de qualquer forma, suponho que não a deixará sozinha por alguns dias?”
“Certamente não, pelo menos uma semana; mais tempo se a ferida não cicatrizar.”
Nossa visita ao hospital demorou mais do que prevíamos, e o sol já se punha quando saímos. Quando Van Helsing viu quão escuro estava, disse:
“Não há pressa. Está mais tarde do que eu pensava. Venha, procuremos algum lugar onde possamos comer, e então prosseguiremos.”
Almoçamos no “Jack Straw’s Castle”, acompanhados por um pequeno bando de ciclistas e outros que faziam barulho jovial. Por volta das dez horas partimos da pousada. Já era muito escuro, e as lâmpadas dispersas tornavam a escuridão ainda maior quando estávamos fora de seu raio individual. O Professor claramente sabia a rota que íamos seguir, pois prosseguiu sem hesitar; eu, porém, estava bastante desorientado quanto ao local. À medida que avançávamos, encontrávamos cada vez menos gente, até que, finalmente, nos surpreendeu a patrulha da polícia a cavalo em sua ronda suburbana. Por fim chegamos ao muro do cemitério, que escalamos. Com certa dificuldade — pois estava muito escuro, e o ambiente parecia tão estranho — encontramos o túmulo Westenra. O Professor pegou a chave, abriu a porta rangente e, recuando, gesticulou‑me educadamente, porém inconscientemente, para que eu o precedesse. Havia uma deliciosa ironia na oferta, na cortesia de dar preferência numa ocasião tão macabra. Meu companheiro me seguiu rapidamente e, cautelosamente, puxou a porta, após assegurar‑se de que o fecho era de queda, e não de mola. Caso fosse o último, estaríamos em apuros. Então remexeu em sua bolsa, tirou um isqueiro e um pedaço de vela, e acendeu a luz. O túmulo, à luz do dia, adornado por flores frescas, já parecia lúgubre e aterrador; mas agora, dias depois, quando as flores estavam murchas e mortas, seus brancos tornando‑se ferrugem e os verdes a castanhos; quando a aranha e o besouro reassumiram seu domínio habitual; quando o tempo descoloriu a pedra, o barro coberto de poeira, o ferro enferrujado e úmido, o latão manchado, e a prata opaca devolviam ao lume fraco de uma vela, o efeito era ainda mais miserável e sórdido do que se poderia imaginar. Transmitia irresistivelmente a ideia de que a vida — a vida animal — não era a única coisa que poderia perecer.
Van Helsing trabalhou sistematicamente. Segurando a vela de modo a ler as placas do caixão, e inclinando‑a de forma que o suor caísse em manchas brancas que se solidificavam ao tocar o metal, certificou‑se do caixão de Lucy. Mais uma busca na bolsa, tirou‑lhe um parafuso de rosca.
“O que vai fazer?” perguntei.
“Abrir o caixão. Ainda ficará convencido.” De imediato começou a retirar os parafusos e, finalmente, levantou a tampa, revelando a caixa de chumbo por baixo. A visão quase me sobrepusou. Parecia um ultraje ao morto como se lhe tirassem a roupa enquanto dorme viva; segurei‑lhe a mão para impedir‑o. Ele apenas disse: “Verás”, e, ainda remexendo na bolsa, tirou uma pequena serra de arco. Golpeando o parafuso de rosca através do chumbo com um rápido estocada descendente, que me fez estremecer, fez um pequeno furo, porém suficientemente grande para acomodar a lâmina. Esperava um jorro de gás do cadáver de uma semana. Os médicos, acostumados a estudar nossos perigos, habituam‑se a tais coisas, e afastei‑me da porta. Mas o Professor não parou um instante; serrrou dois pés ao longo de um lado do caixão de chumbo, depois atravessou, e desceu o outro lado. Pegando a borda da aba solta, curvou‑a de volta ao pé do caixão e, apontando a vela para a abertura, gesticulou‑me para que observasse.
Aproximei‑me e vi. O caixão estava vazio.
Foi certamente uma surpresa e causou‑me grande choque, mas Van Helsing permaneceu impassível. Agora estava mais convicto que nunca de seu ponto, e, encorajado, prosseguiu. “Está satisfeito agora, amigo John?” perguntou.
Senti toda a argu‑tatividade da minha natureza despertar ao responder:
“Estou satisfeito que o corpo de Lucy não está naquele caixão; mas isso só prova uma coisa.”
“E qual seria essa coisa, amigo John?”
“Que não está lá.”
“Boa lógica”, disse ele, “até aqui. Mas como pode‑se explicar que não esteja lá?”
“Talvez um ladrão de corpos”, sugeri. “Alguns dos ajudantes do agente funerário podem tê‑lo roubado.” Sentia que falava disparates, mas era a única causa plausível que me veio. O Professor suspirou. “Ah, bem!” disse, “precisaremos de mais provas. Venha comigo.”
Recobrou a tampa do caixão, recolheu tudo e pôs‑os na bolsa, apagou a luz e guardou a vela também na bolsa. Abrimos a porta e saímos. Atrás de nós ele fechou a porta e trancou‑a. Passou‑me a chave, dizendo: “Vai guardá‑la? Melhor estar seguro.” Ri — não foi um riso alegre, devo admitir — enquanto lhe indicava que a guardasse. “Uma chave nada vale”, disse; “pode haver duplicatas; e, de qualquer modo, não é difícil abrir um cadeado desse tipo.” Ele não respondeu, mas guardou a chave no bolso. Então ordenou‑me vigiar um lado do cemitério enquanto ele vigilava o outro. Tomei posição atrás de um teixo e vi sua silhueta escura mover‑se até que os túmulos e árvores o esconderam da minha vista.
Foi uma vigília solitária. Logo após assumir meu posto ouvi ao longe o relógio bater doze, e, em seguida, um e dois. Senti‑me arrepiado e perturbado, irado com o Professor por me envolver numa missão assim e comigo mesmo por ter aceitado. Estava tão frio e sonolento que não conseguia observar bem, mas não tão sonolento a ponto de trair minha confiança, de modo que passei um tempo triste e miserável.
De repente, ao virar‑me, achei que vi algo como uma faixa branca, a mover‑se entre dois teixos escuros ao lado mais afastado do cemitério do túmulo; simultaneamente, uma massa escura deslocava‑se do lado do Professor e corria em sua direção. Então eu também me movi; porém tive de contornar lápides e túmulos cercados por grades, tropeçando sobre sepulturas. O céu estava encoberto, e ao longe cantava um galo matutino. A certa distância, além de uma fileira de zimbros espalhados que marcavam o caminho à igreja, uma figura branca e tênue esvoaçava em direção ao túmulo. O próprio túmulo estava oculto pelas árvores, e eu não via onde a figura desaparecia. Ouvi o farfalhar de movimento onde antes avistei a figura branca e, ao chegar, encontrei o Professor segurando nos braços um pequeno infante. Ao me ver, ofereceu‑o e disse:
“Está satisfeito agora?”
“Não”, respondi, de modo que senti ser agressivo.
“Não vê a criança?”
“Sim, é uma criança, mas quem a trouxe aqui? Está ferida?” perguntei.
“Veremos”, disse o Professor, e, num impulso, saímos do cemitério, ele carregando a criança adormecida.
Quando nos afastamos um pouco, entramos num bosque, acendemos um fósforo e observamos a garganta da criança. Não havia arranhão nem cicatriz de qualquer tipo.
“Acertei?” perguntei triunfante.
“Chegamos a tempo”, respondeu o Professor agradecido.
Precisávamos decidir o que fazer da criança, e deliberamos. Se a levássemos a uma delegacia, teríamos que prestar contas dos nossos passos durante a noite; ao menos teríamos que relatar como a encontráramos. Decidimos, então, levá‑la ao Hampstead Heath e, ao ouvir a aproximação de um policial, deixá‑la onde ele não pudesse deixar de encontrá‑la; então buscaríamos o caminho de casa o mais rápido possível. Tudo correu bem. À beira do Hampstead Heath ouvimos o passo pesado de um policial e, depositando a criança no caminho, aguardamos até que ele a visse, balançando a lanterna de um lado para o outro. Ouvimos sua exclamação de surpresa e, então, partimos silenciosamente. Por boa sorte, conseguimos um táxi perto dos “Spaniards” e seguimos para a cidade.
Não consigo dormir, por isso faço esta anotação. Mas preciso tentar dormir algumas horas, pois Van Helsing me chamará ao meio‑dia. Ele insiste que eu o acompanhe em outra expedição.
* * * * *
27 de setembro — Eram duas horas antes de encontrarmos oportunidade adequada para nossa tentativa. O funeral, ao meio‑dia, já estava concluído, e os últimos remanescentes dos enlutados afastavam‑se preguiçosamente quando, observando cuidadosamente por trás de um bosque de amieiros, vimos o sacristão trancar o portão atrás de si. Soubemos então que estaríamos seguros até o amanhecer, se assim desejássemos; porém o Professor disse‑me que não desejaríamos mais que uma hora no máximo. Mais uma vez senti aquele horrível senso da realidade das coisas, em que qualquer esforço de imaginação parecia deslocado; percebi claramente os perigos legais que incorríamos em nosso trabalho profano. Além disso, tudo me parecia inútil. Por mais absurdo que fosse abrir um caixão de chumbo para verificar se uma mulher, morta há quase uma semana, ainda estava viva, agora parecia a maior tolice abrir o túmulo novamente, quando já sabíamos, pelos nossos próprios olhos, que o caixão estava vazio. Encolhi os ombros, porém, e permaneci calado, pois Van Helsing tem o hábito de seguir seu próprio caminho, independentemente de quem o conteste. Pegou a chave, abriu a cripta, e novamente, cortês, gesticulou‑me para que a precedesse. O local não era tão macabro como na noite anterior, mas, ah, quão horrivelmente feio quando a luz do sol infiltrava‑se. Van Helsing caminhou até o caixão de Lucy, e eu o segui. Curvou‑se e novamente forçou a aba de chumbo; então, um choque de surpresa e desânimo atravessou‑me.
Lá estava Lucy, aparentemente como a víssemos na noite anterior ao funeral. Ela estava, se possível, ainda mais radiantemente bela que antes; e eu não podia acreditar que estivesse morta. Os lábios eram vermelhos, ainda mais vermelhos que antes; e nas bochechas havia um delicado rubor.
“É isso um truque?” perguntei a ele.
“Está convencido agora?” replicou o Professor, e, enquanto falava, erguiu‑a a mão e, de um modo que me fez estremecer, puxou‑as lábios mortos e mostrou os dentes brancos.
“Veja”, prosseguiu, “veja, estão ainda mais afiados que antes. Com este e este” — tocou um dos caninos e o que estava abaixo dele — “as crianças pequenas podem ser mordidas. Está crendo agora, amigo John?”
“É um pacto. “Então, assim será. O tempo é curto, e a noite pode vir a ser longa. Mas, com a ajuda de Deus e a clareza de nossa mente, triunfaremos. Agora, peço que chame seu marido. Preciso falar com ele pessoalmente, pois há detalhes em sua narrativa que apenas ele, em sua vivência, pode esclarecer. Depois, traçaremos nosso plano de ação.” Saí da sala com o coração batendo forte, sentindo que, pela primeira vez, a névoa começava a se dissipar.
“Aqui, há uma coisa que difere de tudo que foi registrado; aqui há uma vida dupla que não é como a comum. Ela foi mordida pelo vampiro quando estava em transe, sonâmbula—oh, comece; você não sabe disso, amigo John, mas saberá tudo mais tarde—e em transe ele poderia melhor vir tomar mais sangue. Em transe ela morreu, e em transe ela também está Não‑Morta. Assim, ela difere de todas as outras. Normalmente, quando o Não‑Morto dorme em casa”—enquanto falava fez um amplo gesto com o braço para indicar o que, para um vampiro, era “casa”—“seus rostos mostram o que são, mas isso tão doce que era quando ela não era Não‑Morta ela volta às sombras dos mortos comuns. Não há malignidade lá, veja, e por isso é difícil que eu deva matá‑la enquanto dorme.” Isso gelou meu sangue, e começou a me surgir que eu estava aceitando as teorias de Van Helsing; mas se ela estivesse realmente morta, que terror haveria na ideia de matá‑la? Ele olhou para mim, e evidentemente viu a mudança em meu rosto, pois disse quase jubiloso:
“Ah, você acredita agora?”
Respondi: “Não me pressione tanto de uma vez. Estou disposto a aceitar. Como fará esse trabalho sangrento?”
“Cortarei sua cabeça e encheremos sua boca de alho, e cravarei uma estaca através de seu corpo.” Isso me fez estremecer ao pensar em mutilar o corpo da mulher que eu amara. E ainda assim o sentimento não foi tão forte quanto esperava. Na verdade, eu começava a estremecer diante da presença desse ser, esse Não‑Morto, como Van Helsing o chamava, e a odiá‑lo. É possível que o amor seja todo subjetivo, ou todo objetivo?
Esperei um considerável tempo Van Helsing começar, mas ele permanecia como envolto em pensamentos. Por fim, fechou a fivela de sua bolsa com um estalo, e disse:
“Tenho pensado, e decidi o que é melhor. Se simplesmente seguisse a minha inclinação, faria agora, neste momento, o que há de fazer; mas há outras coisas a seguir, e coisas que são mil vezes mais difíceis, pois não as conhecemos. Isto é simples. Ela ainda não teve a vida tirada, embora isso dependa do tempo; e agir agora seria livrá‑la do perigo para sempre. Mas então talvez precisemos de Arthur, e como lhe contaremos isso? Se você, que viu as feridas na garganta de Lucy, e viu feridas tão semelhantes na criança no hospital; se você, que viu o caixão vazio na noite passada e cheio hoje de uma mulher que não mudou senão para ficar mais rosada e mais bela numa semana inteira, depois que morreu — se você sabe disso e conhece a figura branca da noite passada que trouxe a criança ao cemitério, e ainda assim, pelos seus próprios sentidos, não acreditou, como então poderei esperar que Arthur, que nada sabe disso, acredite? Ele duvidou de mim quando o separei do beijo dela enquanto ela morria. Sei que ele me perdoou porque, em alguma ideia equivocada, eu fiz coisas que o impediram de dizer adeus como deveria; e pode pensar que, em outra ideia ainda mais equivocada, essa mulher foi enterrada viva; e que, no maior engano de todos, nós a matamos. Ele então argumentará que somos nós, os equivocados, que a matamos por nossas ideias; e assim ele ficará sempre muito infeliz. Contudo ele nunca pode ter certeza; e isso é o pior de tudo. E às vezes ele pensará que a amada foi enterrada viva, e isso pintará seus sonhos com horrores do que ela deve ter sofrido; e novamente, ele pensará que podemos estar certos, e que sua tão amada foi, afinal, um Não‑Morto. Não! Eu lhe disse uma vez, e desde então aprendi muito. Agora, sabendo que tudo é verdade, cem mil vezes mais sei que ele deve atravessar as águas amargas para alcançar as doces. Ele, pobre cara, terá uma hora que fará o próprio rosto do céu tornar‑se negro para ele; então poderemos agir para o bem em todo
Oh! mas parecia fresca e pura no ar da noite após o terror daquela câmara. Quão doce era ver as nuvens correrem, e os lampejos de luar que passavam entre as nuvens que se arrastavam, cruzando‑se — como a alegria e a tristeza da vida de um homem; quão doce era respirar o ar puro, que não trazia mancha de morte nem de decadência; quão humanizador era ver o brilho avermelhado do céu além do monte, e ouvir ao longe o rugido abafado que marca a vida de uma grande cidade.
Cada um, à sua maneira, estava sóbrio e vencido. Arthur permanecia em silêncio, e eu podia ver que se esforçava por compreender o propósito e o sentido interno do mistério. Eu próprio estava razoavelmente paciente, e meio inclinado novamente a deixar de lado as dúvidas e aceitar as conclusões de Van Helsing. Quincey Morris mostrava‑se fleumático, como quem aceita todas as coisas com o espírito de fria valentia, arriscando tudo que tem a perder. Incapaz de fumar, cortou a si mesmo um pedaço considerável de tabaco e começou a mastigá‑lo. Quanto a Van Helsing, atuava de forma determinada. Primeiro tirou de sua bolsa um montículo que se assemelhava a um biscoito fino, em forma de wafer, cuidadosamente enrolado num guardanapo branco; em seguida retirou um punhado duplo de algo esbranquiçado, como massa ou massa de modelar. Esfarelou o wafer em partículas finas e trabalhou‑as entre as mãos. Então, enrolando‑as em tiras finas, começou a colocá‑las nas fendas entre a porta e seu encaixe no túmulo. Fiquei um tanto perplexo com tal atitude e, aproximando‑me, perguntei-lhe o que estava fazendo. Arthur e Quincey aproximaram‑se também, curiosos. Ele respondeu:
— Estou selando o túmulo, para que os Não‑Mortos não entrem.
— E essa coisa que puseste aí vai impedir? — perguntou Quincey.
— Grande Scott! Isto é um jogo?
— É.
— O que é isso que estás a usar? — perguntou Arthur desta vez. Van Helsing levantou reverentemente o chapéu ao responder:
— O Host. Trouxe‑o de Amsterdão. Tenho uma indulgência.
Foi uma resposta que assustou o mais cético entre nós, e sentimos individualmente que, na presença de tão sincero propósito como o do Professor, um propósito que pode utilizar o que lhe é mais sagrado, era impossível desconfiar. Em silêncio respeitoso, assumimos os lugares que nos foram designados ao redor do túmulo, porém ocultos da vista de quem se aproximasse. Lamentei os demais, sobretudo Arthur. Eu próprio fora iniciado nas horrores que ali se observavam; e, ainda assim, eu, que até uma hora atrás repudiara as provas, sentia o coração afundar dentro de mim. Nunca os túmulos pareciam tão fantasmagoricamente brancos; nunca o cipreste, o teixo ou o zimbro pareciam a personificação da melancolia fúnebre; nunca as árvores ou a relva agitavam‑se ou farfalhavam tão ominosamente; nunca os galhos rangiam tão misteriosamente; e nunca o uivo distante de cães lançava tão triste presságio pela noite.
Houve um longo período de silêncio, um grande vazio doloroso, até que o Professor soltou um agudo “S‑s‑s‑s!” Ele apontou; e ao longe, na avenida de teixos, vimos uma figura branca avançar — uma figura pálida, que segurava algo escuro contra o peito. A figura parou, e num instante um raio de luar recaiu sobre as massas de nuvens carregadas, revelando em proeminência alarmante uma mulher de cabelos escuros, vestida com os sudários do túmulo. Não podíamos ver o rosto, pois estava inclinado sobre o que parecia ser uma criança de cabelos claros. Houve uma pausa e um pequeno grito agudo, como o de uma criança a sonhar, ou de um cão ao repousar junto ao fogo. Iniciámos o avanço, mas a mão de aviso do Professor, vista por nós enquanto ele permanecia atrás de um teixo, reteve‑nos; então, ao olhar, a figura branca avançou novamente. Já estava suficientemente próxima para que pudéssemos ver claramente, e a luz da lua ainda a iluminava. Meu próprio coração gelou como gelo, e ouvi o suspiro de Arthur ao reconhecermos os traços de Lucy Westenra. Lucy Westenra, porém, tão transformada. A doçura tornara‑se crueldade adamantina, sem coração, e a pureza desdobrou‑se em luxúria lasciva. Van Helsing avançou, e, obedientes ao seu gesto, avançámos todos; os quatro formámos uma fila diante da porta do túmulo. Van Helsing ergueu a lanterna e puxou o deslizante; pela luz concentrada que incide sobre o rosto de Lucy, vimos que os lábios estavam escarlates com sangue fresco, e que o fluxo havia escorrido pela sua mandíbula, manchando a pureza de seu manto mortuário.
Arrefecemos de horror. Via, pela luz trêmula, que até a nervura de ferro de Van Helsing havia cedido. Arthur estava ao meu lado, e se não o tivesse agarrado pelo braço e sustentado, teria caído.
Quando Lucy — chamo‑a Lucy porque mantinha a sua forma — nos viu, recuou com um rosnado irado, como um gato surpreendido; então os olhos percorreram‑nos. Olhos de Lucy, em forma e cor; porém olhos impuros e cheios de fogo infernal, em vez das orbes puras e suaves que conhecíamos. Naquele instante o remanescente do meu amor transformou‑se em ódio e repulsa; se fosse para ser morta, eu poderia ter‑a feito com prazer selvagem. Enquanto ela olhava, os olhos flamejavam com luz profana, e o rosto se enfeitou com um sorriso voluptuoso. Ó Deus, como me fez estremecer vê‑la! Com um gesto descuidado, lançou ao chão, insensível como um diabo, a criança que até então apertara vigorosamente ao peito, rosnando sobre ela como um cão sobre um osso. A criança soltou um grito agudo, e ficou gemendo. Houve uma frieza assassina no ato que arrancou um gemido de Arthur; ao avançar para ele com os braços estendidos e um sorriso lascivo, ele recuou e escondeu o rosto nas mãos.
Mesmo assim avançou, e com uma graça latente e voluptuosa, disse:
— Vem a mim, Arthur. Deixa estes outros e vem a mim. Meus braços têm fome de ti. Vem, e podemos repousar juntos. Vem, meu marido, vem!
Havia algo diabólico e doce em seu tom — algo como o tilintar de vidro ao ser atingido — que reverberou nos crânios até de quem ouvira as palavras dirigidas a outrem. Quanto a Arthur, parecia sob encanto; retirando‑se as mãos do rosto, abriu bem os braços. Ela saltava para eles, quando Van Helsing avançou e interpunha entre eles seu pequeno crucifixo dourado. Ela recuou do objeto e, com o rosto subitamente distorcido de ira, passou por ele como se fosse entrar no túmulo.
Ao chegar a um pé ou dois da porta, porém, parou, como se fosse detida por força irresistível. Então virou‑se, e seu rosto foi mostrado no clarão límpido da lua e da lâmpada, que já não tremia pelos nervos de ferro de Van Helsing. Nunca vi tamanha malícia confusa em um rosto; e nunca, confio, se verá novamente tal visão pelos olhos mortais. A bela cor tornou‑se pálida, os olhos pareciam lançar faíscas de fogo infernal, as sobrancelhas se enrugaram como se as dobras da carne fossem as serpentes da Medusa, e a linda boca, manchada de sangue, alargou‑se em um quadrado aberto, como nas máscaras de paixão dos gregos e japoneses. Se já houve rosto que prenunciara a morte — se o olhar pode matar — vimos‑o naquele momento.
Assim, por meio minuto e meio, que pareceu uma eternidade, ela ficou entre o crucifixo erguido e o sagrado fechamento de sua entrada. Van Helsing quebrou o silêncio e perguntou a Arthur:
— Responde-me, ó meu amigo! Devo prosseguir com o meu trabalho?
Arthur lançou‑se de joelhos, ocultou o rosto nas mãos e respondeu:
— Faz o que quiseres, amigo; faz o que quiseres. Não pode haver horror maior que este novamente; — e gemeu em espírito. Quincey e eu nos aproximámos simultaneamente dele, e segurámos seus braços. Ouviamos o clique da lanterna ao fechar enquanto Van Helsing a mantinha abaixada; aproximando‑se da tumba, começou a retirar das frestas parte do emblema sagrado que ali havia colocado. Observámos, horrorizados, quando, ao recuar, a mulher — com corpo corpóreo tão real naquele instante quanto o nosso — deslizou pela fenda onde sequer uma lâmina poderia passar. Sentimos um alívio alegre ao ver o Professor restaurar calmamente as tiras de massa nas bordas da porta.
Quando acabou, ergueu a criança e disse:
— Venham agora, meus amigos; não podemos fazer mais até amanhã. Há um funeral ao meio‑dia, logo voltaremos depois disso. Os amigos dos mortos já terão partido até duas horas, e quando o sacristão trancar o portão ficaremos aqui. Depois haverá mais a fazer; mas não como esta noite. Quanto a este pequeno, ele não sofrerá muito e até amanhã à noite estará bem. Deixaremos ele onde a polícia o encontrará, como na outra noite; e então retornaremos para casa. Aproximando‑se de Arthur, acrescentou:
— Meu amigo Arthur, tu passaste por provação dolorosa; mas depois, quando olhares para trás, verás que era necessário. Agora estás nas águas amargas, minha criança. Amanhã, se Deus quiser, terás atravessado-as e bebido das águas doces; não chores demais. Até lá não te pedirei perdão.
Arthur e Quincey retornaram comigo para casa, e tentámos animar‑nos mutuamente no caminho. Havíamos deixado a criança a salvo e estávamos cansados; assim dormimos todos, mais ou menos em estado de sono.
* * * * *
29 de setembro, noite. — Pouco antes das doze horas, nós três — Arthur, Quincey Morris e eu — chamámos o Professor. Foi estranho notar que, por consenso comum, todos vestíamos roupas negras. Claro que Arthur vestia preto, pois estava em profundo luto, mas o resto de nós o fez por instinto. Chegámos ao cemitério por volta da uma e meia, e perambulámos, mantendo‑nos fora da vista oficial, de modo que, quando os sepultadores terminaram sua tarefa e o sacristão, acreditando que todos haviam ido, trancou o portão, ficamos o local só para nós. Van Helsing, ao invés de sua pequena bolsa preta, trazia consigo uma longa bolsa de couro, semelhante a uma bolsa de críquete; era manifestamente de peso considerável.
Quando ficamos sós e ouvimos o último passo desaparecer na estrada, seguimos silenciosa e ordenadamente o Professor até o túmulo. Ele destrancou a porta e entramos, fechando‑a atrás de nós. Então tirou da bolsa a lanterna, que acendeu, e também duas velas de cera, que, ao serem acesas, colou‑as, fundindo suas próprias pontas, sobre outros caixões, para que desse luz suficiente ao trabalho. Quando novamente levantou a tampa do caixão de Lucy, todos olhávamos — Arthur trêmulo como um álamo — e vimos o corpo ali, em toda a sua beleza morta. Mas não havia amor em meu coração, apenas repulsa pela coisa vil que tomara a forma de Lucy sem sua alma. Pude ver o rosto de Arthur endurecer‑se ao observar. Logo ele dirigiu‑se a Van Helsing:
— É realmente o corpo de Lucy, ou apenas um demónio na sua forma?
— É o corpo dela, e ainda assim não. Mas esperem um pouco, e verão-na como era e como é.
Ela parecia um pesadelo de Lucy; dentes pontiagudos, boca voluptuosa manchada de sangue — que fazia estremecer ao ver — toda aparência carnal e não espiritual, como uma zombaria diabólica da doce pureza de Lucy. Van Helsing, com seu habitual método, começou a retirar diversos objetos da bolsa e a colocá‑los prontos para uso. Primeiro tirou um ferro de solda e um pouco de solda de cano, depois uma pequena lamparina a óleo que, ao ser acesa num canto do túmulo, emanava gás que ardia em chama azul feroz; então suas facas de operação, que colocou à mão; e por último um estaca de madeira redonda, de dois a três polegadas de espessura e cerca de um metro de comprimento. Uma extremidade estava endurecida pelo carvão e afiada a ponto de ponta fina. Com essa estaca veio um pesado martelo, usado nas casas nas celas de carvão para quebrar os torrões. Para mim, os preparativos de um médico para qualquer obra são estimulantes e revigorantes, mas o efeito desses objetos sobre Arthur e Quincey provocou-lhes certa consternação. Ambos, porém, mantiveram a coragem, permanecendo calmos e silenciosos.
Quando tudo estava pronto, Van Helsing disse:
— Antes de fazermos qualquer coisa, deixem‑me contar isto; provém da tradição e da experiência dos antigos e de todos os que estudaram os poderes dos Não‑Mortos. Quando tornam‑se assim, acompanha a mudança a maldição da imortalidade; não podem morrer, mas continuam idade após idade, acrescentando novas vítimas e multiplicando os males do mundo; pois todos que morrem pelas investidas dos Não‑Mortos tornam‑se eles mesmos Não‑Mortos, e se alimentam dos seus semelhantes. Assim o círculo se alarga, como as ondulações de pedra lançada na água. Amigo Arthur, se tivesses encontrado aquele beijo que conheceste antes da morte de pobre Lucy; ou novamente, na noite passada, quando abriste os braços a ela, terias, ao morrer, tornado‑te nosferatu, como se chama no Leste Europeu, e eternamente gerarias mais desses Não‑Mortos que nos enchem de horror. A carreira desta tão infeliz dama acaba de começar. As crianças cujo sangue ela suga ainda não são tão afetadas; mas se ela sobrevive, Não‑Morta, mais e mais perdem seu sangue e, sob seu poder, vêm a ela; e assim ela suga seu sangue com aquela boca tão pérfida. Mas se ela de fato morrer, tudo cessará; as feridas nas gargantas desaparecerão e voltarão às suas vidas sem jamais saber o que aconteceu. E, quanto ao mais abençoado de todos, quando este Não‑Morto for colocado em repouso como verdadeiro morto, então a alma da pobre dama que amamos será novamente livre. Em vez de praticar maldade à noite e corromper‑se ainda mais ao dia, ela tomará seu lugar entre os outros Anjos. Portanto, meu amigo, será uma mão bendita a que desferirá o golpe que a libertará. Estou disposto a isso; porém haverá entre nós alguém que tenha melhor direito? Não será prazeroso pensar no além na quietude da noite, quando o sono não vem: “Foi a minha mão que a enviou às estrelas; foi a mão daquele que a amou mais; a mão que ela mesma teria escolhido, se lhe coubesse escolher?” Dizei‑me se há tal alguém entre nós.
Todos olhamos para Arthur. Ele viu, como nós, a infinita bondade que sugeria que sua mão seria a que restauraria Lucy a nós como memória sagrada, e não profana; avançou e disse corajosamente, embora sua mão tremesse, e seu rosto estava pálido como a neve:
— Meu verdadeiro amigo, do fundo do meu coração despedaçado agradeço‑te. Diga‑me o que devo fazer, e não vacilarei! — Van Helsing pousou a mão no ombro de Arthur e disse:
— Jovem valente! Um momento de coragem, e está feito. Esta estaca deve ser cravada nela. Será um provérbio temível — não te deixes enganar — mas será breve, e então regozijar‑te‑ás mais do que a dor foi grande; deste sombrio túmulo emergirás como se caminhasse no ar. Mas não vaciles quando começares. Lembra‑te de que nós, teus verdadeiros amigos, estamos ao teu redor, e oramos por ti o tempo todo.
— Continue, — disse Arthur, rouco. — Diga‑me o que devo fazer.
— Segura esta estaca na mão esquerda, pronta para colocar a ponta sobre o coração, e o martelo na direita. Quando iniciarmos nossa oração pelos mortos — lerei, tenho aqui o livro, e os demais seguirão — golpeia em nome de Deus, para que tudo fique bem com os mortos que amamos e para que os Não‑Mortos desapareçam.
Arthur pegou a estaca e o martelo, e quando a mente se fixou na ação, suas mãos não tremaram nem vacilaram. Van Helsing abriu seu missal e começou a ler, e Quincey e eu acompanhamos o melhor que pudemos. Arthur posicionou a ponta sobre o coração, e eu vi a marca na carne branca. Então golpeou com toda a força.
A Coisa no caixão contorceu‑se; um grito horrível e ensurdecedor ecoou dos lábios vermelhos abertos. O corpo tremeu, contorceu‑se em contorções selvagens; os dentes brancos afiados rangiam até que os lábios se rasgassem, e a boca ficou manchada de espuma carmesim. Mas Arthur não vacilou. Parecia uma figura de Thor, com o braço firme que subia e caía, cravando a estaca misericordiosa cada vez mais fundo, enquanto o sangue do coração perfurado jorrava ao redor. Seu rosto mostrava‑se determinado, e um alto dever brilhava nele; a visão disso nos deu coragem, de sorte que nossas vozes pareciam ecoar pela pequena câmara.
Então o contorcer‑se e o tremor do corpo diminuíram, os dentes cessaram o ranger, e o rosto parou de estremecer. Por fim, ficou imóvel. A terrível tarefa terminara.
O martelo caiu da mão de Arthur. Ele cambaleou e teria caído se não o tivéssemos segurado. Grandes gotas de suor brotaram de sua testa, e sua respiração vinha em suspiros entrecortados. Foi, verdadeiramente, um esforço extenuante; e se não fosse forçado por considerações além das humanas, nunca teria concluído. Por alguns minutos, estávamos tão absorvidos por ele que não olhamos para o caixão. Quando o fizemos, contudo, um murmúrio de surpresa percorria cada um de nós. Olhamos tão avidamente que Arthur, que se encontrava sentado no chão, ergueu‑se e também observou; então uma luz estranha e alegre irrompeu em seu rosto, dissipando totalmente a penumbra de horror que o cobria.
Ali, no caixão, não jaz mais a vil Coisa que temíamos e odiávamos, mas Lucy como a víamos em vida, com seu rosto de doceza e pureza incomparáveis. É verdade que ali permaneciam, como em vida, vestígios de cuidado, dor e desgaste; mas eram todos queridos, pois marcavam sua verdade ao que conhecíamos. Um a um, sentímos que a serenidade sagrada que cobria o rosto e a forma era apenas um símbolo terreno da paz que reinaria eternamente.
Van Helsing aproximou‑se e pousou a mão no ombro de Arthur, dizendo:
— E agora, Arthur, meu amigo, querido rapaz, não estou perdoado?
“Perdoado! Que Deus o abençoe por ter devolvido à minha querida sua alma, e a mim, a paz.” Ele pôs as mãos sobre o ombro do Professor e, deitando a cabeça no peito dele, chorou por um momento em silêncio, enquanto permanecíamos imóveis. Quando ergueu a cabeça, Van Helsing disse-lhe:—
“E agora, meu filho, pode beijá-la. Beije seus lábios mortos, se quiser, como ela gostaria que você fizesse, se pudesse escolher. Pois ela não é mais um demônio sorridente — não é mais uma Coisa imunda por toda a eternidade. Ela não é mais a Morta-Viva do diabo. Ela é a verdadeira morta de Deus, cuja alma está com Ele!”
Arthur inclinou-se e beijou-a, e então mandamos ele e Quincey para fora da tumba; o Professor e eu serramos a ponta da estaca, deixando o topo dela cravado no corpo. Depois, cortamos a cabeça e enchemos a boca com alho. Soldamos o caixão de chumbo, aparafusamos a tampa e, recolhendo nossos pertences, partimos. Quando o Professor trancou a porta, entregou a chave a Arthur.
Lá fora, o ar estava doce, o sol brilhava e os pássaros cantavam, e parecia que toda a natureza estava afinada em um tom diferente. Havia alegria, contentamento e paz por toda parte, pois nós mesmos estávamos em descanso por um motivo, e sentíamo-nos contentes, embora fosse com uma alegria temperada.
Antes de nos afastarmos, Van Helsing disse:—
“Agora, meus amigos, um passo do nosso trabalho está feito, o mais angustiante para nós mesmos. Mas resta uma tarefa maior: encontrar o autor de toda esta nossa dor e eliminá-lo. Tenho pistas que podemos seguir; mas é uma tarefa longa e difícil, e há perigo nela, e dor. Vocês todos não me ajudarão? Aprendemos a acreditar, todos nós — não é assim? E, sendo assim, não vemos nosso dever? Sim! E não prometemos seguir até o fim amargo?”
Cada um de nós, por sua vez, tomou sua mão, e a promessa foi feita. Então disse o Professor, enquanto nos retirávamos:—
“Daqui a duas noites, vocês se encontrarão comigo e jantarão juntos às sete horas com o amigo John. Convidarei outros dois, dois que vocês ainda não conhecem; e estarei pronto para mostrar todo o nosso trabalho e expor nossos planos. Amigo John, venha comigo para casa, pois tenho muito sobre o que consultar, e você pode me ajudar. Esta noite parto para Amsterdã, mas retornarei amanhã à noite. E então começa nossa grande busca. Mas, primeiro, terei muito a dizer, para que saibam o que há para fazer e o que temer. Então, nossa promessa será renovada uns aos outros; pois há uma tarefa terrível diante de nós, e, uma vez que nossos pés estejam no arado, não devemos recuar.”
CAPÍTULO XVII
DIÁRIO DO DR. SEWARD — continuação
Quando chegamos ao Berkeley Hotel, Van Helsing encontrou um telegrama à sua espera:—
“Estou chegando de trem. Jonathan em Whitby. Notícias importantes. — MINA HARKER.”
O Professor ficou encantado. “Ah, aquela maravilhosa Madam Mina”, disse ele, “pérola entre as mulheres! Ela chega, mas eu não posso ficar. Ela deve ir para sua casa, amigo John. Você deve encontrá-la na estação. Telegrame para ela *en route*, para que ela possa estar preparada.”
Quando o telegrama foi enviado, ele tomou uma xícara de chá; durante o chá, contou-me sobre um diário mantido por Jonathan Harker quando esteve no exterior, e deu-me uma cópia datilografada, assim como o diário da Sra. Harker em Whitby. “Leve-os”, disse ele, “e estude-os bem. Quando eu retornar, você será mestre de todos os fatos, e poderemos então entrar melhor em nossa inquisição. Mantenha-os seguros, pois neles há muito tesouro. Você precisará de toda a sua fé, mesmo você, que teve uma experiência como a de hoje. O que está aqui contado”, ele pousou a mão pesada e gravemente sobre o pacote de papéis enquanto falava, “pode ser o começo do fim para você, para mim e para muitos outros; ou pode soar o dobre de finados dos Mortos-Vivos que caminham sobre a terra. Leia tudo, eu lhe rogo, com a mente aberta; e, se puder de alguma forma acrescentar algo à história aqui contada, faça-o, pois é tudo de suma importância. Você manteve um diário de todas essas coisas tão estranhas; não é assim? Sim! Então passaremos por tudo isso juntos quando nos encontrarmos.” Ele então se preparou para a partida e, pouco depois, partiu para Liverpool Street. Segui para Paddington, onde cheguei cerca de quinze minutos antes da chegada do trem.
A multidão dispersou-se, conforme o estilo agitado comum às plataformas de chegada; e eu estava começando a ficar inquieto, com medo de perder minha convidada, quando uma jovem de rosto doce e aparência elegante aproximou-se de mim e, após um olhar rápido, disse: “Dr. Seward, não é?”
“E a senhora é a Sra. Harker!” respondi imediatamente; ao que ela estendeu a mão.
“Eu o reconheci pela descrição da pobre e querida Lucy; mas...” Ela parou de repente, e um rubor rápido cobriu seu rosto.
O rubor que subiu às minhas próprias bochechas de alguma forma nos deixou à vontade, pois foi uma resposta tácita à dela. Peguei sua bagagem, que incluía uma máquina de escrever, e pegamos o metrô para Fenchurch Street, depois de eu ter enviado um telegrama à minha governanta para que preparasse imediatamente uma sala de estar e um quarto para a Sra. Harker.
No devido tempo, chegamos. Ela sabia, é claro, que o local era um hospício, mas pude ver que ela não conseguiu reprimir um estremecimento quando entramos.
Ela me disse que, se pudesse, viria em breve ao meu escritório, pois tinha muito a dizer. Portanto, aqui estou eu, terminando minha anotação em meu diário fonográfico enquanto a aguardo. Até agora, não tive a chance de olhar os papéis que Van Helsing deixou comigo, embora estejam abertos diante de mim. Devo interessá-la por algo, para que eu possa ter a oportunidade de lê-los. Ela não sabe o quão precioso é o tempo, ou que tarefa temos em mãos. Devo ter cuidado para não assustá-la. Ei-la!
Diário de Mina Harker.
29 de setembro. — Depois de me arrumar, desci ao escritório do Dr. Seward. À porta, pausei por um momento, pois pensei ouvi-lo falando com alguém. Como, no entanto, ele havia me pedido para ser rápida, bati à porta e, ao seu chamado de “Entre”, eu entrei.
Para minha intensa surpresa, não havia ninguém com ele. Ele estava completamente sozinho, e sobre a mesa, à sua frente, estava o que eu soube imediatamente, pela descrição, ser um fonógrafo. Eu nunca tinha visto um e fiquei muito interessada.
“Espero não tê-lo feito esperar”, disse eu; “mas fiquei à porta pois ouvi você falando e pensei que houvesse alguém com você.”
“Oh”, ele respondeu com um sorriso, “eu estava apenas registrando meu diário.”
“Seu diário?” perguntei-lhe, surpresa.
“Sim”, respondeu ele. “Mantenho-o nisto.” Enquanto falava, ele pousou a mão sobre o fonógrafo. Senti-me bastante entusiasmada com isso e deixei escapar:—
“Ora, isto supera até mesmo a estenografia! Posso ouvi-lo dizer algo?”
“Certamente”, respondeu ele com presteza, e levantou-se para prepará-lo para falar. Então ele hesitou, e um olhar preocupado cobriu seu rosto.
“O fato é”, começou ele de forma desajeitada, “que eu apenas mantenho meu diário nele; e como é inteiramente--quase inteiramente--sobre meus casos, pode ser constrangedor--isto é, quero dizer...” Ele parou, e tentei ajudá-lo a sair de seu embaraço:—
“Você ajudou a cuidar da querida Lucy no fim. Deixe-me ouvir como ela morreu; pois tudo o que eu souber sobre ela, serei muito grata. Ela era muito, muito querida para mim.”
Para minha surpresa, ele respondeu, com um olhar horrorizado no rosto:—
“Contar-lhe sobre a morte dela? Nem por todo o mundo!”
“Por que não?” perguntei, pois um sentimento grave e terrível estava me dominando. Novamente ele hesitou, e pude ver que ele estava tentando inventar uma desculpa. Finalmente, ele gaguejou:—
“Você vê, eu não sei como escolher qualquer parte específica do diário.” Mesmo enquanto ele falava, uma ideia surgiu em sua mente, e ele disse com uma simplicidade inconsciente, em uma voz diferente e com a ingenuidade de uma criança: “Isso é verdade, sobre a minha honra. Promessa de escoteiro!” Não pude deixar de sorrir, ao que ele fez uma careta. “Eu me entreguei dessa vez!” disse ele. “Mas você sabe que, embora eu tenha mantido o diário por meses, nunca me ocorreu como eu encontraria qualquer parte específica dele caso quisesse procurar?” A essa altura, minha mente estava decidida de que o diário de um médico que cuidou de Lucy poderia ter algo a acrescentar ao montante do nosso conhecimento sobre aquele terrível Ser, e eu disse audaciosamente:—
“Então, Dr. Seward, é melhor você me deixar copiá-lo para você em minha máquina de escrever.” Ele ficou com uma palidez positivamente mortal ao dizer:—
“Não! não! não! Por nada deste mundo, eu a deixaria saber aquela história terrível!”
Então era terrível; minha intuição estava certa! Por um momento pensei e, enquanto meus olhos percorriam a sala, procurando inconscientemente por algo ou alguma oportunidade para me ajudar, eles pousaram em uma grande pilha de datilografia sobre a mesa. Seus olhos captaram o olhar nos meus e, sem que ele pensasse, seguiram a direção deles. Quando viram o pacote, ele percebeu o que eu queria dizer.
“Você não me conhece”, disse eu. “Quando você ler aqueles papéis--meu próprio diário e o de meu marido também, que eu datilografei--você me conhecerá melhor. Não hesitei em dar cada pensamento do meu próprio coração a esta causa; mas, claro, você não me conhece--ainda; e não devo esperar que você confie tanto em mim.”
Ele é certamente um homem de natureza nobre; a pobre e querida Lucy estava certa a seu respeito. Ele levantou-se e abriu uma grande gaveta, na qual estavam organizados, em ordem, vários cilindros ocos de metal cobertos com cera escura, e disse:—
“Você tem toda a razão. Eu não confiei em você porque não a conhecia. Mas agora a conheço; e deixe-me dizer que deveria tê-la conhecido há muito tempo. Sei que Lucy lhe falou de mim; ela também me falou de você. Posso fazer a única reparação que está ao meu alcance? Pegue os cilindros e ouça-os--a primeira meia dúzia deles é pessoal para mim, e eles não a horrorizarão; então você me conhecerá melhor. O jantar estará pronto a essa altura. Enquanto isso, lerei alguns desses documentos e poderei entender melhor certas coisas.” Ele mesmo carregou o fonógrafo até minha sala de estar e ajustou-o para mim. Agora aprenderei algo agradável, tenho certeza; pois ele me contará o outro lado de um episódio de amor verdadeiro do qual já conheço um lado...
Diário do Dr. Seward.
29 de setembro. — Eu estava tão absorto naquele maravilhoso diário de Jonathan Harker e no outro de sua esposa que deixei o tempo passar sem pensar. A Sra. Harker não havia descido quando a empregada veio anunciar o jantar, então eu disse: “Ela possivelmente está cansada; que o jantar espere uma hora”, e continuei com meu trabalho. Eu tinha acabado de terminar o diário da Sra. Harker, quando ela entrou. Ela parecia docemente bonita, mas muito triste, e seus olhos estavam avermelhados de tanto chorar. Isso, de alguma forma, comoveu-me muito. Ultimamente, tive motivos para lágrimas, Deus sabe! mas o alívio delas me foi negado; e agora a visão daqueles olhos doces, brilhantes com lágrimas recentes, foi direto ao meu coração. Então eu disse o mais gentilmente que pude:—
“Receio muito tê-la angustiado.”
“Oh, não, não me angustiou”, ela respondeu, “mas fui tocada mais do que posso dizer pelo seu pesar. Essa é uma máquina maravilhosa, mas é cruelmente verdadeira. Ela me contou, em seus próprios tons, a angústia do seu coração. Era como uma alma clamando ao Deus Todo-Poderoso. Ninguém deve ouvi-los falar nunca mais! Veja, tentei ser útil. Copiei as palavras em minha máquina de escrever, e ninguém mais precisará ouvir seu coração bater, como eu ouvi.”
“Ninguém precisa saber, ninguém saberá jamais”, eu disse em voz baixa. Ela colocou a mão sobre a minha e disse muito gravemente:—
“Ah, mas eles devem!”
“Devem! Mas por quê?” perguntei.
“Porque é parte da história terrível, parte da morte da pobre e querida Lucy e de tudo o que levou a ela; porque, na luta que temos pela frente para livrar a terra deste monstro terrível, devemos ter todo o conhecimento e toda a ajuda que pudermos obter. Acho que os cilindros que você me deu continham mais do que você pretendia que eu soubesse; mas posso ver que há em seu registro muitas luzes sobre este mistério sombrio. Você me deixará ajudar, não deixará? Sei tudo até certo ponto; e já vejo, embora seu diário só me tenha levado até 7 de setembro, como a pobre Lucy foi assediada, e como seu destino terrível estava sendo arquitetado. Jonathan e eu temos trabalhado dia e noite desde que o Professor Van Helsing nos viu. Ele foi a Whitby para obter mais informações, e estará aqui amanhã para nos ajudar. Não precisamos ter segredos entre nós; trabalhando juntos e com confiança absoluta, certamente podemos ser mais fortes do que se alguns de nós estivéssemos no escuro.” Ela olhou para mim de forma tão suplicante e, ao mesmo tempo, manifestou tanta coragem e resolução em seu porte, que cedi imediatamente aos seus desejos. “Você fará”, eu disse, “como quiser no assunto. Que Deus me perdoe se eu fizer errado! Há coisas terríveis ainda a aprender; mas se você viajou até aqui na estrada para a morte da pobre Lucy, você não se contentará, eu sei, em permanecer no escuro. Não, o fim--o próprio fim--pode lhe dar um raio de paz. Venha, há jantar. Devemos manter um ao outro forte para o que está diante de nós; temos uma tarefa cruel e terrível. Quando você tiver comido, saberá o resto, e responderei a quaisquer perguntas que você fizer--se houver algo que você não entenda, embora tenha sido aparente para nós que estávamos presentes.”
Diário de Mina Harker.
29 de setembro. — Após o jantar, vim com o Dr. Seward para seu escritório. Ele trouxe o fonógrafo do meu quarto, e eu peguei minha máquina de escrever. Ele me colocou em uma poltrona confortável e arrumou o fonógrafo para que eu pudesse tocá-lo sem me levantar, e me mostrou como pará-lo caso eu quisesse fazer uma pausa. Então, ele muito atenciosamente pegou uma cadeira, de costas para mim, para que eu ficasse o mais à vontade possível, e começou a ler. Coloquei o metal bifurcado nos ouvidos e ouvi.
Quando a história terrível da morte de Lucy, e--e tudo o que se seguiu, terminou, recostei-me na cadeira, impotente. Felizmente, não sou de disposição desmaiada. Quando o Dr. Seward me viu, ele saltou com uma exclamação horrorizada e, apressadamente pegando um frasco de um armário, deu-me um pouco de conhaque, que em poucos minutos me restaurou um pouco. Meu cérebro estava todo em turbilhão, e, se não fosse pelo fato de que, através de toda a multidão de horrores, surgiu o santo raio de luz de que minha querida, querida Lucy estava finalmente em paz, não creio que pudesse ter suportado sem fazer uma cena. É tudo tão selvagem, misterioso e estranho que, se eu não conhecesse a experiência de Jonathan na Transilvânia, não poderia ter acreditado. Como foi, eu não sabia no que acreditar, e assim saí da minha dificuldade cuidando de outra coisa. Tirei a capa da minha máquina de escrever e disse ao Dr. Seward:—
“Deixe-me escrever tudo isso agora. Devemos estar prontos para o Dr. Van Helsing quando ele chegar. Enviei um telegrama a Jonathan para que venha para cá quando ele chegar a Londres, vindo de Whitby. Neste assunto, as datas são tudo, e acho que, se prepararmos todo o nosso material e colocarmos cada item em ordem cronológica, teremos feito muito. Você me diz que Lord Godalming e o Sr. Morris também virão. Vamos ser capazes de lhe contar quando eles chegarem.” Ele então ajustou o fonógrafo em um ritmo lento, e comecei a datilografar desde o início do sétimo cilindro. Usei papel carbono e, assim, fiz três cópias do diário, exatamente como tinha feito com todo o resto. Já era tarde quando terminei, mas o Dr. Seward saiu para seu trabalho de fazer sua ronda pelos pacientes; quando terminou, voltou e sentou-se perto de mim, lendo, para que eu não me sentisse tão solitária enquanto trabalhava. Como ele é bom e atencioso; o mundo parece cheio de homens bons--mesmo que haja monstros nele. Antes de deixá-lo, lembrei-me do que Jonathan colocou em seu diário sobre a perturbação do Professor ao ler algo em um jornal da tarde na estação de Exeter; então, vendo que o Dr. Seward guarda seus jornais, peguei emprestados os arquivos do “The Westminster Gazette” e do “The Pall Mall Gazette” e levei-os para o meu quarto. Lembro-me de quanto o “The Dailygraph” e o “The Whitby Gazette”, dos quais eu havia feito recortes, nos ajudaram a entender os eventos terríveis em Whitby quando o Conde Dracula desembarcou, então vou dar uma olhada nos jornais da tarde desde então, e talvez eu obtenha alguma nova luz. Não estou com sono, e o trabalho ajudará a me manter quieta.
Diário do Dr. Seward.
30 de setembro. — O Sr. Harker chegou às nove horas. Ele tinha recebido o telegrama de sua esposa pouco antes de partir. Ele é incomumente inteligente, se alguém pode julgar pelo seu rosto, e cheio de energia. Se este diário for verdadeiro--e, a julgar pelas próprias experiências maravilhosas, deve ser--ele também é um homem de grande nervo. Aquela descida ao túmulo pela segunda vez foi uma notável prova de audácia. Depois de ler seu relato sobre isso, eu estava preparado para encontrar um bom espécime de masculinidade, mas dificilmente o cavalheiro tranquilo e prático que veio aqui hoje.
* * * * *
Mais tarde. — Após o almoço, Harker e sua esposa voltaram para seu próprio quarto, e, como passei por lá há pouco, ouvi o clique da máquina de escrever. Eles estão trabalhando duro nisso. A Sra. Harker diz que eles estão unindo em ordem cronológica cada pedaço de evidência que possuem. Harker pegou as cartas entre o consignatário das caixas em Whitby e os transportadores em Londres que cuidaram delas. Ele está agora lendo o datiloscrito da minha esposa sobre o meu diário. Pergunto-me o que eles concluem disso. Aqui está...
Estranho que nunca me tenha ocorrido que a casa logo ao lado pudesse ser o esconderijo do Conde! Deus sabe que tivemos pistas suficientes da conduta do paciente Renfield! O pacote de cartas referente à compra da casa estava com o datiloscrito. Oh, se tivéssemos tido isso antes, poderíamos ter salvado a pobre Lucy! Pare; esse caminho conduz à loucura! Harker voltou e está novamente organizando seu material. Ele diz que, na hora do jantar, eles serão capazes de mostrar uma narrativa completa e conectada. Ele acha que, enquanto isso, eu deveria ver Renfield, pois, até agora, ele tem sido uma espécie de índice das idas e vindas do Conde. Dificilmente vejo isso ainda, mas, quando chegar às datas, suponho que verei. Que coisa boa a Sra. Harker ter passado meus cilindros para o datiloscrito! Nunca poderíamos ter encontrado as datas de outra forma...
Encontrei Renfield sentado placidamente em seu quarto com as mãos cruzadas, sorrindo benignamente. No momento, ele parecia tão são quanto qualquer pessoa que já vi. Sentei‑me e conversei com ele sobre muitos assuntos, todos tratados naturalmente por ele. Então, por vontade própria, falou de voltar para casa, assunto que nunca mencionara, ao meu saber, durante sua permanência aqui. De fato, falou com bastante confiança de obter sua alta imediatamente. Creio que, se não tivesse tido a conversa com Harker e lido as cartas e as datas de seus desvarios, eu teria estado pronto para assinar por ele após um breve período de observação. Como está, sinto uma suspeita sombria. Todos aqueles surtos estavam de alguma forma ligados à proximidade do Conde. O que então significa essa contenção absoluta? Poderia ser que seu instinto estivesse satisfeito quanto ao triunfo final do vampiro? Fique; ele é ele próprio zoófago, e em seus delírios selvagens fora da porta da capela da casa deserta sempre falava de “mestre”. Tudo isso parece confirmação de nossa ideia. Contudo, depois de um tempo afastei‑me; meu amigo está um pouco sã demais no presente para que seja seguro sondá‑lo profundamente com perguntas. Poderia começar a pensar, e então—! Por isso afastei‑me. Desconfio desses seus humores calmos; assim, dei ao atendente um indício para observar‑lhe de perto, e para ter um colete justo pronto em caso de necessidade.
Diário de Jonathan Harker.
29 de setembro, no trem para Londres.--Quando recebi a cortês mensagem do Sr. Billington de que me forneceria qualquer informação ao seu alcance, achei melhor ir a Whitby e fazer, no local, as indagações que desejasse. Meu objetivo agora era rastrear aquela horrenda carga do Conde até seu destino em Londres. Mais tarde, poderemos lidar com isso. Billington junior, um rapaz simpático, encontrou‑me na estação e levou‑me à casa de seu pai, onde decidiram que eu deveria passar a noite. São hospitaleiros, com a verdadeira hospitalidade de Yorkshire: dão ao hóspede tudo, e deixam‑no livre para fazer o que quiser. Todos sabiam que eu estava ocupado, que minha estadia seria curta, e o Sr. Billington tinha pronto em seu escritório todos os papéis referentes ao envio das caixas. Quase me deu um volta ver novamente uma das cartas que eu vira sobre a mesa do Conde antes de conhecer seus planos diabólicos. Tudo havia sido cuidadosamente pensado, e executado sistematicamente e com precisão. Parecia estar preparado para todo obstáculo que por acaso pudesse surgir no caminho de sua intenção. Para usar um americanismo, ele não “correu riscos”, e a absoluta exatidão com que suas instruções foram cumpridas foi simplesmente o resultado lógico de sua cautela. Vi a nota fiscal e tomei nota: “Cinquenta caixas de terra comum, a serem usadas para fins experimentais.” Também a cópia da carta para Carter Paterson e a resposta deles; de ambas consegui cópias. Essa foi toda a informação que o Sr. Billington pôde me dar, então des
Continuamos a conversar por um tempo; e, vendo que ele parecia razoavelmente sensato, ela ousou, olhando-me de forma interrogativa ao começar, conduzi‑lo ao seu assunto favorito. Fiquei outra vez espantado, pois ele dirigiu‑se à questão com a imparcialidade da mais completa sanidade; chegou ainda a usar‑se como exemplo ao mencionar certas coisas.
— Por que, eu próprio sou um exemplo de homem que teve uma crença estranha. De fato, não era de se admirar que meus amigos ficassem alarmados e insistissem em que eu fosse colocado sob controlo. Eu costumava imaginar que a vida era uma entidade positiva e perpétua, e que, consumindo uma multidão de seres vivos, por menores que fossem na escala da criação, poderia prolongar a vida indefinidamente. Por vezes, acreditei tão firmemente nessa ideia que realmente tentei tirar a vida humana. O doutor aqui presente pode confirmar que, numa ocasião, procurei matá‑lo para fortalecer meus poderes vitais, assimilando ao meu próprio corpo a sua vida através do seu sangue — confiando, claro, na frase bíblica: “Pois o sangue é a vida”. Embora, na verdade, o vendedor de um certo remédio tenha vulgarizado tal axioma ao ponto do desprezo. Não é verdade, doutor? — acenei em assentimento, pois estava tão maravilhado que mal sabia o que pensar ou dizer; era difícil imaginar que pouco antes eu lhe vira devorar aranhas e moscas. Ao olhar o relógio percebi que precisava ir à estação encontrar Van Helsing, então avisei à Sra. Harker que era hora de partir. Ela veio imediatamente, após dizer agradavelmente ao Sr. Renfield: — Adeus, e espero vê‑lo frequentemente, sob auspícios mais agradáveis ao seu lado — ao que, para minha surpresa, ele respondeu:
— Adeus, minha querida. Rezo a Deus para nunca mais ver teu doce rosto. Que Ele te abençoe e te preserve!
Quando fui à estação encontrar Van Helsing deixei os rapazes atrás de mim. O pobre Art parecia mais alegre do que jamais esteve desde que Lucy adoentou, e Quincey mostrava‑se mais ele mesmo, mais brilhante, do que há muito tempo.
Van Helsing desembarcou da carruagem com a vivaz agilidade de um rapaz. Viu‑me de imediato, apressou‑se a mim e disse:
— Ah, amigo John, como vão as coisas? Bem? Pois bem! Tenho estado ocupado, pois vim ficar aqui, se for preciso. Todos os assuntos estão resolvidos para mim, e tenho muito a contar. A senhora Mina está convosco? Sim. E o seu afável esposo? E Arthur e meu amigo Quincey, também estão convosco? Ótimo!
Ao conduzir‑me à casa relatei‑lhe o que havia ocorrido e como o meu diário passou a ser útil graças à sugestão da Sra. Harker; então o Professor interrompeu‑me:
— Ah, aquela maravilhosa senhora Mina! Ela possui o cérebro de homem — um cérebro que um homem deveria ter, se fosse muito dotado — e o coração de mulher. O bom Deus a criou para um propósito, creia‑me, quando fez tal combinação tão boa. Amigo John, até agora a fortuna fez desta mulher nossa ajudante; depois de hoje à noite ela não deverá mais se envolver neste terrível caso. Não é prudente que corra risco tão grande. Nós, homens, estamos determinados — não, não estamos comprometidos? — a destruir este monstro; mas isso não cabe a uma mulher. Mesmo que não se faça dano algum a ela, seu coração poderá sucumbir diante de tantos horrores; e, depois, poderá sofrer — tanto acordada, pelos nervos, quanto dormindo, pelos sonhos. Além disso, é jovem e ainda não há muito casada; há outras coisas a considerar, talvez mais tarde, se não agora. Diga‑me que ela escreveu tudo; então deve consultar‑nos; porém amanhã ela dirá adeus a este trabalho, e nós iremos sozinhos. — Concordei de bom grado, e então relatei o que encontrámos na sua ausência: a casa que Drácula comprara era a imediatamente vizinha à minha. Ele ficou admirado, e uma grande preocupação lhe tomou conta. — Ah, se soubéssemos antes! — exclamou — porque então poderíamos ter chegado a tempo para salvar a pobre Lucy. Contudo, “o leite derramado não chora depois”, como dizes. Não pensaremos nisso, mas prosseguiremos até o fim. — Caiu então num silêncio que perdurou até entrarmos pela minha porta. Antes de nos dirigirmos ao jantar, disse à Sra. Harker:
— Digo‑lhe, senhora Mina, por meu amigo John, que vós e vosso esposo organizaram em ordem exata tudo o que se passou até este momento.
— Não até este momento, Professor — respondeu impulsivamente — mas até esta manhã.
— Mas por que não até agora? Vimos até então como a luz boa iluminou todas as pequenas coisas. Revelamos nossos segredos, e ainda assim ninguém que falou ficou pior por isso.
A Sra. Harker ruborizou‑se, e tirando um papel do bolso disse:
— Dr. Van Helsing, lerá isto e dirá se deve ser incluído? É o meu registro de hoje. Também vejo a necessidade de anotar tudo, por mais trivial que seja; porém há pouco neste documento a não ser o que é pessoal. Deve ser incluído? — O Professor leu‑o solenemente e devolveu‑o, dizendo:
— Não precisa ser incluído se não quiser; mas rogo que o faça. Pode fazer seu marido amá‑la ainda mais, e a todos nós, seus amigos, honrá‑la — assim como lhe render mais estima e amor. — Ela o recebeu de volta com outro rubor e um sorriso radiante.
E assim, até a presente hora, todos os registros que temos estão completos e em ordem. O Professor levou uma cópia para estudar após o jantar, e antes da nossa reunião, marcada para as nove horas. O resto de nós já leu tudo; assim, quando nos reunirmos no estudo, estaremos todos informados dos fatos, e poderemos traçar nosso plano de batalha contra este terrível e misterioso inimigo.
Diário de Mina Harker.
30 de setembro — Quando nos reunimos no estudo do Dr. Seward duas horas após o jantar, que se deu às seis horas, formamos inconscientemente uma espécie de conselho. O Professor Van Helsing ocupou a cabeça da mesa, a qual o Dr. Seward lhe sinalizou ao entrar na sala. Fez‑me sentar ao seu lado, à sua direita, e pediu que eu ficasse como secretário; Jonathan sentou‑se ao meu lado. À nossa frente estavam Lorde Godalming, Dr. Seward e Sr. Morris — Lorde Godalming ao lado do Professor, e Dr. Seward no centro. O Professor disse:
— Suponho que todos estejam cientes dos fatos que constam nestes papéis. — Todos assentimos, e ele prosseguiu:
— Então, julgo bom contar‑vos algo sobre o tipo de inimigo que enfrentamos. Passarei a relatar‑vos parte da história deste homem, que me foi revelada. Assim poderemos discutir como agir e medir nossas ações.
— Existem seres como vampiros; alguns de nós têm evidência de que existem. Mesmo que não tivéssemos a prova de nossa própria experiência infeliz, os ensinamentos e registros do passado dão provas suficientes para mentes sãs. Admito que, a princípio, fui cético. Se não fosse por longos anos de treinamento que me mantiveram a mente aberta, não teria acreditado até que o fato retumbasse em meus ouvidos. “Vede! Vede! Provo; provarei.” Ah! Se ao início eu soubesse o que sei agora — não, se ao menos eu o tivesse adivinhado — uma vida tão preciosa teria sido poupada a muitos de nós que a amavam. Mas isso acabou; devemos agir para que outras almas pobres não pereçam, enquanto pudermos salvá‑las. O nosferatu não morre como a abelha que pica uma só vez. Ele apenas se torna mais forte; e, sendo mais forte, tem ainda mais poder para fazer o mal. Este vampiro que está entre nós é, por si só, tão forte quanto vinte homens; possui astúcia maior que a mortal, pois sua astúcia é fruto de eras; ainda dispõe dos auxílios da necromancia, que, como a etimologia indica, é a adivinhação pelos mortos, e todos os mortos que pode alcançar estão ao seu comando; é bruto, e mais que bruto; é demônio em carne, e seu coração não lhe pertence; pode, dentro de limites, aparecer à vontade onde e quando quiser, em quaisquer formas que lhe convier; pode, dentro de seu alcance, dirigir os elementos — a tempestade, o nevoeiro, o trovão; pode comandar todas as criaturas menores: a rata, a coruja, o morcego, a mariposa, a raposa e o lobo; pode encolher‑se e tornar‑se diminuto; e às vezes desaparecer e reaparecer desconhecido. Como, pois, iniciaremos o ataque para destruí‑lo? Como encontraremos sua morada; e, tendo‑a encontrado, como destruí‑lo‑emos? Amigos, isso é muito; é uma tarefa terrível que assumimos, e pode haver consequências que façam o bravo estremecer. Pois, se fracassarmos nesta luta, ele triunfará; e então, onde nos resta? A vida nada vale; não lhe dou ouvidos. Mas falhar aqui não é mera questão de vida ou morte. É que nos tornaríamos como ele; que, de agora em diante, seríamos criaturas repugnantes da noite, como ele — sem coração nem consciência, a predar corpos e almas daqueles que mais amamos. As portas do céu ficarão eternamente fechadas para nós; quem as abrirá novamente? Seremos odiados por todos para todo o sempre; uma mancha no brilho do sol de Deus; uma flecha no lado daquele que morreu por nós. Mas estamos frente a frente com o dever; e, nesse caso, devemos recuar? Eu digo que não; porém sou velho, e a vida, com seu sol, seus belos lugares, o canto dos pássaros, sua música e seu amor, já ficou para trás. Vós sois jovens. Alguns já viram tristeza; mas ainda há dias promissores pela frente. O que dizeis?
Enquanto falava, Jonathan tomou‑me a mão. Temia, profundamente, que a terrível natureza do perigo o sobrepujasse ao ver sua mão estender‑se; mas foi vida para mim sentir seu toque — tão forte, tão autônomo, tão resoluto. A mão de um homem corajoso fala por si; não necessita nem do amor de uma mulher para que se ouça sua música.
Quando o Professor terminou, meu marido olhou nos meus olhos, e eu nos seus; não houve necessidade de palavras entre nós.
— Respondo por Mina e por mim — disse ele.
— Contem comigo, Professor — respondeu o Sr. Quincey Morris, lacônico como habitualmente.
— Estou convosco — disse Lorde Godalming — pela causa de Lucy, se não por outra razão.
O Dr. Seward apenas assentiu. O Professor levantou‑se e, após colocar o crucifixo dourado sobre a mesa, estendeu as mãos a cada lado. Eu segurei a sua mão direita, e Lorde Godalming a esquerda; Jonathan segurou‑me a direita com a esquerda e estendeu‑se até o Sr. Morris. Assim, ao entrelaçarmos as mãos, firmamos nosso solene pacto. Senti meu coração gelado, mas não pensei em recuar. Retomamos nossos lugares, e o Dr. Van Helsing prosseguiu com uma espécie de alegria que mostrava que o trabalho sério havia começado. Devia ser encarado com gravidade, e com a mesma seriedade de qualquer outra transação da vida:
— Bem, sabeis contra o que temos de lutar; mas nós também não carecemos de força. Temos ao nosso lado o poder da união — poder negado ao tipo vampírico; temos fontes de ciência; somos livres para agir e pensar; e as horas do dia e da noite são igualmente nossas. Na verdade, no limite de nossos poderes, são ilimitados, e somos livres para usá‑los. Temos devoção ao causa, e um fim a alcançar que não é egoísta. Estas coisas são muito.
— Agora vejamos até onde as forças gerais que nos cercam nos restringem, e como o indivíduo não o faz. Em suma, consideremos as limitações do vampiro em geral, e deste em particular.
— Tudo o que temos para basear‑nos são tradições e superstições. Estas não parecem muito no início, quando a questão é de vida e morte — ou mais que vida ou morte. Mas devemos estar satisfeitos; primeiro porque devemos — não há outro meio ao nosso alcance — e, em segundo lugar, porque, afinal, essas coisas — tradição e superstição — são tudo. Não descansa a crença nos vampiros para outros — embora não, infelizmente, para nós — sobre elas? Há um ano, quem de nós teria aceitado tal possibilidade, no meio de nosso século XIX científico, cético e pragmático? Até mesmo avistamos uma crença que julgamos justificada diante de nossos próprios olhos. Tomemos, então, que o vampiro, e a crença em suas limitações e sua cura, repousam, por ora, na mesma base. Pois, deixem‑me dizer, ele é conhecido em todo lugar onde o homem esteve. Na Grécia antiga, em Roma antiga; floresceu na Alemanha, na França, na Índia, até no Chernosês; e na China, tão distante de nós em todos os sentidos, também o tem, e os povos o temem ainda hoje. Ele seguiu a trilha do berserker islandês, do hun nascido do diabo, do eslavo, do saxão, do magiar. Até aqui, temos tudo o que podemos usar; e deixem‑me dizer que muitas das crenças são justificadas pelo que vimos em nossa infeliz experiência. O vampiro vive, e não morre pelo simples passar do tempo; pode prosperar ao se alimentar do sangue dos viventes. Ainda mais, vimos entre nós que pode até rejuvenecer; que suas faculdades vitais se tornam vigorosas e parecem renovarse quando seu alimento especial é abundante. Mas não pode prosperar sem essa dieta; não se alimenta como os outros. Até o amigo Jonathan, que conviveu com ele semanas, nunca o viu comer — nunca! Não lança sombra; não produz reflexo no espelho, como Jonathan constatou. Possui a força de muitas mãos — testemunho novamente Jonathan quando ele fechou a porta contra os lobos, e quando o ajudou a escapar da diligência. Pode transformar‑se em lobo, como deduzimos da chegada do navio a Whitby, quando rasgou o cão; pode ser morcego, como a senhora Mina o viu na janela de Whitby, e como o amigo John o viu voar da casa ali próxima, e como meu amigo Quincey o viu na janela da senhorita Lucy. Pode aparecer em névoa que ele próprio cria — o capitão do nobre navio provou isso; mas, ao que sabemos, a distância que essa névoa alcança é limitada, e só o envolve a si mesmo. Surge nas luzes da lua como poeira elementar — como novamente Jonathan viu aquelas irmãs no castelo de Drácula. Torna‑se diminuto — nós mesmos vimos a senhorita Lucy, antes de encontrar paz, escorregar por um estreito vão na porta da tumba. Pode, uma vez encontrando o caminho, sair de qualquer coisa ou entrar em qualquer coisa, por mais apertado que esteja, até mesmo fundido ao fogo — soldado, chamem‑o. Vê no escuro — não é pequeno poder, num mundo que está metade fechado à luz. Ah, mas escutai-me. Pode fazer todas essas coisas, porém não é livre. Não; é ainda mais prisioneiro que o galereiro, que o lunático em sua cela. Não pode ir onde quiser; quem não é da natureza ainda tem de obedecer a algumas leis naturais — por que não sabemos. Não pode entrar em lugar algum inicialmente, a menos que alguém da casa lhe peça; depois pode entrar como bem entender. Seu poder cessa, como o de todo o mal, ao nascer do dia. Só em certos momentos tem liberdade limitada. Se não estiver no local a que está preso, só pode mudar‑se ao meio‑dia ou ao nascer ou pôr do sol exato. Estas coisas nos são ditas, e neste nosso registro temos prova por inferência. Assim, enquanto pode fazer o que quiser dentro de seus limites, quando tem sua terra‑casa, seu caixão‑casa, seu inferno‑casa, o lugar profano, como vimos quando foi ao túmulo do suicida em Whitby; ainda, em outros momentos só pode mudar quando o tempo o permite. Diz‑se, também, que só pode atravessar água corrente na maré baixa ou cheia. Há coisas que o afligem tanto que não tem poder, como o alho que conhecemos; e quanto ao sagrado, como este símbolo, meu crucifixo, que estava entre nós mesmo agora quando resolvemos, a ele nada representa, mas na sua presença ele toma seu lugar distante e silencioso, respeitoso. Há outros, também, que lhe contarei, para que, em nossa busca, possamos precisar deles. O ramo de rosmaninho em seu caixão mantém‑o de se mover; uma bala sagrada disparada no caixão o mata, tornando‑o realmente morto; e o estaca que o atravessa já conhecemos sua paz — ou a cabeça decapitada que lhe dá descanso. Vimos tudo com os próprios olhos.
— Assim, quando encontrarmos a habitação desse homem‑que‑foi, poderemos confiná‑lo ao seu caixão e destruí‑lo, se obedecermos ao que sabemos. Mas ele é astuto. Pedi ao meu amigo Arminius, da Universidade de Buda‑Pesth, que registre; e, por todos os meios, ele me conta o que foi. Deverá, de fato, ter sido aquele Voivode Drácula que ganhou seu nome contra o turco, sobre o grande rio na fronteira da Turquia. Se for assim, não foi um homem comum; pois naquela época, e por séculos depois, falava‑se dele como o mais inteligente e ardiloso, bem como o mais corajoso dos filhos da “terra além da floresta”. Esse cérebro poderoso e aquela resolução de ferro o acompanharam até seu túmulo, e ainda hoje se voltam contra nós. Os Dráculas eram, diz Arminius, uma raça grande e nobre, embora de tempos em tempos surgissem descendentes considerados pelos contemporâneos como ligados ao Mal. Aprenderam seus segredos na Scholomance, entre as montanhas sobre o lago Hermanstadt, onde o diabo reivindica o décimo estudioso como sua quota. Nos registros aparecem termos como ‘stregoica’ — bruxa, ‘ordog’ e ‘pokol’ — Satanás e inferno; e, num manuscrito, este próprio Drácula é chamado de ‘wampyr’, que todos compreendemos bem. De seu ventre nasceram grandes homens e boas mulheres, e seus túmulos tornam sagrada a terra onde somente essa infâmia pode habitar. Pois não é menor de seus terrores que esta coisa maligna esteja enraizada em todo o bem; em solo árido de memórias sagradas não pode repousar.
— Enquanto falavam, o Sr. Morris observava fixamente a janela; então levantou‑se silenciosamente e saiu da sala. Houve uma breve pausa, e então o Professor prosseguiu:--
“E agora devemos decidir o que fazer. Temos aqui muitos dados, e devemos prosseguir para organizar nossa campanha. Sabemos, pela investigação de Jonathan, que do castelo até Whitby vieram cinquenta caixas de terra, todas entregues em Carfax; sabemos também que ao menos algumas dessas caixas foram removidas. Parece‑me que nosso primeiro passo deve ser averiguar se o resto ainda permanece na casa além da parede onde olhamos hoje; ou se mais alguma foi retirada. Se for o último caso, devemos rastrear----”
Aqui fomos interrompidos de maneira muito surpreendente. Do lado de fora da casa ouviu‑se o som de um tiro; o vidro da janela foi despedaçado por uma bala que, ricocheteando no topo da abertura, acertou a parede oposta da sala. Receio ser, no fundo, um covarde, pois gritei. Todos os homens se levantaram de golpe; Lord Godalming correu até a janela e levantou o caixilho. Enquanto o fazia, ouvimos a voz do Sr. Morris do lado de fora:—
“Desculpe! Temo ter alarmado vocês. Entrarei e contarei o que aconteceu.”
Um minuto depois ele entrou e disse:—
“Foi uma coisa idiota da minha parte, e peço‑lhe perdão, Sra. Harker, sinceramente; temo ter‑lhe causado grande susto. Mas o fato é que, enquanto o Professor falava, apareceu um grande morcego e pousou no parapeito da janela. Tenho tanto horror das bestas condenadas pelos recentes acontecimentos que não consigo suportá‑las, e saí para dar um tiro, como tenho feito nas últimas noites, sempre que vejo uma. Você costumava rir de mim por isso, Art.”
“Acertou?” perguntou o Dr. Van Helsing.
“Não sei; acho que não, pois ela voou para dentro da mata.” Sem dizer mais nada, tomou seu assento, e o Professor começou a retomar sua declaração:—
“Devemos rastrear cada uma dessas caixas; e, quando estivermos preparados, devemos capturar ou matar este monstro em sua caverna; ou devemos, por assim dizer, esterilizar a terra, de modo que não possa mais buscar refúgio nela. Assim, ao fim, poderemos encontrá‑lo em sua forma humana entre o meio‑dia e o pôr‑do‑sol, e confrontá‑lo quando estiver em seu ponto mais fraco.
“E agora, senhora Mina, esta noite é o fim até que tudo esteja bem. Você é demasiado preciosa para nós para correr tal risco. Quando nos separarmos esta noite, não deverá mais questionar. Diremos tudo a seu tempo. Somos homens e podemos suportar; mas você deve ser nossa estrela e nossa esperança, e agiremos ainda mais livres porque não está em perigo, como nós estamos.”
Todos os homens, até Jonathan, pareciam aliviados; mas não me pareceu bem que eles se arriscassem e, talvez, diminuíssem sua própria segurança — a força sendo a melhor segurança — por minha causa; porém estavam decididos, e, embora fosse um remédio amargo para eu engolir, não pude dizer nada, a não ser aceitar seu cuidado cavaleiresco comigo.
O Sr. Morris retomou a discussão:—
“Como não há tempo a perder, voto que vamos ver a casa dele agora mesmo. O tempo é tudo para ele; e uma ação rápida da nossa parte pode salvar outra vítima.”
Confesso que meu coração começou a falhar quando o momento de agir se aproximou, mas não falei nada, pois temi ainda mais que, se eu parecesse um obstáculo ou um atrapalho ao trabalho deles, me excluíssem totalmente de seus conselhos. Eles já partiram rumo a Carfax, com meios para entrar na casa.
Mas, ao contrário, disseram‑me para ir para a cama e dormir; como se uma mulher pudesse dormir quando aqueles que ama estão em perigo! Deitarei‑me fingindo dormir, para que Jonathan não se preocupe ainda mais comigo quando retornar.
Diário do Dr. Seward.
1 de outubro, 4h da manhã — Quando estávamos prestes a deixar a casa, chegou a mim uma mensagem urgente de Renfield, pedindo que eu o encontrasse imediatamente, pois tinha algo de suprema importância a me dizer. Ordenei ao mensageiro que dissesse que atenderia ao seu pedido pela manhã; eu estava ocupado naquele instante. O atendente acrescentou:—
“Ele parece muito insistente, senhor. Nunca o vi tão ansioso. Não sei o que acontecerá se o senhor não o vir logo; ele terá um de seus violentos acessos.” Sabia que o homem não diria isso sem motivo, então respondi: “Tudo bem; vou agora”; e pedi aos outros que esperassem alguns minutos por mim, pois precisava ver meu “paciente”.
“Leve‑me consigo, amigo John,” disse o Professor. “O caso dele no seu diário me interessa muito, e tem repercussão, de tempos em tempos, em nosso caso. Gostaria muito de vê‑lo, sobretudo quando sua mente está perturbada.”
“Posso ir também?” perguntou Lord Godalming.
“Eu também?” disse Quincey Morris. “Posso ir?” disse Harker. Assenti, e todos descemos juntos pelo corredor.
Encontrá‑mo‑lo num estado considerável de excitação, porém muito mais racional em sua fala e maneira do que jamais o havia visto. Havia nele uma compreensão incomum de si mesmo, diferente de tudo que já encontrara em um lunático; e tomava por certo que seus argumentos prevaleceriam perante mentes perfeitamente sãs. Nós quatro entramos na sala, mas nenhum dos demais disse nada inicialmente. Seu pedido era que eu o libertasse imediatamente do asilo e o enviasse para casa. Isso sustentou com argumentos sobre sua completa recuperação, e trouxe à tona sua própria sanidade. “Apelo aos seus amigos,” disse ele, “eles talvez não se importem de sentar‑se em julgamento do meu caso. A propósito, o senhor ainda não me apresentou.” Fiquei tão surpreendido que a estranheza de apresentar um lunático em um asilo não me atingiu naquele momento; além disso, havia certa dignidade na maneira do homem, tanto de igualdade, que imediatamente fiz a apresentação: “Lord Godalming; Professor Van Helsing; Sr. Quincey Morris, do Texas; Sr. Renfield.” Apertou a mão de cada um, dizendo, por sua vez:—
“Lord Godalming, tive a honra de ser segundo de seu pai no Windham; lamento saber, ao assumir o título, que ele já não está. Foi um homem amado e honrado por todos que o conheciam; e, em sua juventude, ouvi dizer, foi o inventor de um rum punch queimado, muito apreciado nas noites de Derby. Sr. Morris, deve orgulhar‑se de seu grande estado. Sua admissão na União foi um precedente que pode ter efeitos de longo alcance, quando o Pólo e os Trópicos se aliarem às Estrelas e Listras. O poder do Tratado pode ainda provar ser uma vasta máquina de expansão, quando a doutrina Monroe ocupar seu verdadeiro lugar como fábula política. O que dirá algum homem sobre o prazer de encontrar Van Helsing? Senhor, não peço desculpas por abandonar todas as formas de prefixo convencional. Quando alguém revoluciona a terapia pela descoberta da evolução contínua da matéria cerebral, as formas convencionais tornam‑se inadequadas, pois pareciam limitá‑lo a uma classe. Vocês, senhores, que por nacionalidade, por hereditariedade ou por dons naturais, estão destinados a ocupar seus respectivos lugares no mundo em movimento, testemunham que sou tão são quanto, ao menos, a maioria dos homens que gozam plena liberdade. E tenho certeza de que o senhor, Dr. Seward, humanitário e médico‑jurista, bem como cientista, considerará um dever moral tratar‑me como alguém que deve ser considerado sob circunstâncias excepcionais.” Fez este último apelo com um ar cortês de convicção que não lhe faltou encanto.
Creio que todos ficamos pasmados. Por minha parte, apesar de conhecer o caráter e a história daquele homem, acreditava que sua razão havia sido restabelecida; sentia um forte impulso de lhe dizer que estava satisfeito quanto à sua sanidade e que cuidaria das formalidades necessárias para sua libertação pela manhã. Pensei, porém, que seria melhor esperar antes de fazer declaração tão grave, pois, desde antes, eu conhecia as mudanças súbitas a que esse paciente está sujeito. Assim, contentei‑me em fazer um comentário geral de que ele parecia melhorar muito rapidamente; que teria uma conversa mais longa com ele pela manhã, e então veria o que poderia fazer para atender ao seu desejo. Isso não o satisfez, pois rapidamente respondeu:—
“Mas temo, Dr. Seward, que o senhor mal compreende meu desejo. Quero ir agora—aqui—agora—nesta mesma hora—neste mesmo momento, se me permite. O tempo aperta, e em nosso acordo implícito com o velho ceifeiro isso é essencial ao contrato. Tenho certeza de que basta apresentar a tão admirável prática de Dr. Seward um pedido tão simples, ainda que tão importante, para garantir sua realização.” Olhou‑me intensamente, e vendo a negação em meu rosto, voltou‑se aos demais, examinando‑os atentamente. Não obtendo resposta suficiente, prosseguiu:—
“Será que errei em minha suposição?”
“Errou,” disse‑lhe francamente, mas ao mesmo tempo, como senti, brutalmente. Houve uma considerável pausa, e então ele disse lentamente:—
“Então suponho que devo apenas mudar o fundamento do meu pedido. Permita‑me pedir esta concessão—graça, privilégio, como quiser. Estou disposto a implorar, não por motivos pessoais, mas pelo bem dos outros. Não estou em condições de lhe dar todas as minhas razões; mas posso assegurar‑lhe que são boas, sólidas e desinteressadas, nascidas do mais alto sentido de dever. Se o senhor olhasse em meu coração, aprovaria plenamente os sentimentos que me animam. Ao contrário, contaria comigo entre os seus melhores e mais verdadeiros amigos.” Novamente nos fitou intensamente. Eu tinha a crescente convicção de que essa súbita mudança de todo o seu método intelectual não passava de outra fase de sua loucura, e, assim, decidi deixá‑lo prosseguir um pouco mais, sabendo por experiência que ele, como todo lunático, acabaria por se revelar. Van Helsing o observava com um olhar de extrema intensidade, as sobrancelhas espessas quase se encontrando com a concentração fixa de seu olhar. Disse a Renfield num tom que não me surpreendeu então, mas só depois de refletir:—
“Não pode dizer francamente a verdadeira razão de querer estar livre esta noite? Eu assumirei isso se o senhor me satisfizer‑me, mesmo eu, um estranho, sem preconceito e habituado a manter a mente aberta—Dr. Seward lhe concederá, por seu próprio risco e responsabilidade, o privilégio que busca.” Ele balançou a cabeça tristemente, com um semblante de pesar pungente. O Professor prosseguiu:—
“Venha, senhor, reflita. Você clama o privilégio da razão em grau máximo, pois pretende nos impressionar com sua completa razoabilidade. Faz isso, embora duvidemos de sua sanidade, pois ainda não foi liberado de tratamento médico para esse defeito. Se não nos ajudar a escolher o caminho mais sábio, como poderemos cumprir o dever que o senhor nos impôs? Seja sábio e ajude‑nos; e se pudermos, ajudaremos a realizar seu desejo.” Continuou balançando a cabeça enquanto dizia:—
“Dr. Van Helsing, não tenho nada a dizer. Seu argumento está completo, e se eu fosse livre para falar não hesitaria um instante; mas não sou meu próprio mestre nesta questão. Só posso pedir que confie em mim. Se for recusado, a responsabilidade não recai sobre mim.” Achei que era hora de encerrar a cena, que se tornava cômica‑trágica, então dirigi‑me à porta, dizendo simplesmente:—
“Venham, meus amigos, temos trabalho a fazer. Boa noite.”
No entanto, ao aproximar‑me da porta, uma nova mudança sobreveio ao paciente. Ele moveu‑se tão rápido para mim que, por um instante, temi que fosse lançar outro ataque homicida. Meus temores, porém, eram infundados, pois ergueu ambas as mãos suplicantes e fez seu pedido de forma comovente. Ao ver que o excesso de sua emoção militava contra ele, ao nos restaurar mais aos velhos laços, tornou‑se ainda mais demonstrativo. Olhei para Van Helsing e vi minha convicção refletida em seus olhos; assim, tornei‑me um pouco mais firme, se não mais severo, e indiquei‑lhe que seus esforços eram inúteis. Já havia visto algo similar de crescente excitação nele quando precisava fazer algum pedido que, na época, lhe parecia importante, como quando queria um gato; e esperava que, desta vez, recaísse na mesma aquiescência sombria. Minha expectativa não se realizou, pois, ao perceber que seu apelo não teria sucesso, entrou em condição frenética. Jeteu‑se de joelhos, ergueu as mãos, torcendo‑as em súplica lamentosa, e derramou um torrente de súplicas, com lágrimas a correrem pelas faces, e todo o seu corpo expressando a mais profunda emoção:—
“Permita‑me implorar, Dr. Seward, oh, permita‑me suplicar, para que me deixe sair desta casa imediatamente. Envie‑me para onde quiser, como quiser; envie guardas comigo, com chicotes e correntes; que me prendam num colete apertado, algemado e com ferro nos tornozelos, até a uma prisão; mas deixe‑me sair daqui. O senhor não sabe o que faz ao me manter aqui. Falo do fundo do coração—da minha própria alma. O senhor não sabe a quem prejudica, nem como; e talvez não deva dizer. Ai de mim! Não posso dizer. Por tudo que considera sagrado—por tudo que lhe é caro—pelo seu amor perdido—pela sua esperança que vive—pelo bem do Todo‑poderoso, tire‑me daqui e salve minha alma da culpa! Não me ouve, homem? Não compreende? Nunca aprenderá? Não sabe que agora estou são e sincero; que não sou lunático em delírio, mas um homem são lutando por sua alma? Oh, escute‑me! escute‑me! Deixe‑me ir! deixe‑me ir! deixe‑me ir
“Meus amigos, estamos entrando em um perigo terrível e precisamos de armas de muitas espécies. Nosso inimigo não é meramente espiritual. Lembrem-se de que ele tem a força de vinte homens e que, embora nossos pescoços ou nossas traqueias sejam do tipo comum — e, portanto, quebráveis ou esmagáveis —, os dele não são suscetíveis à mera força. Um homem mais forte, ou um grupo de homens mais fortes que ele em tudo, pode, em certos momentos, segurá-lo; mas eles não podem feri-lo como podemos ser feridos por ele. Devemos, portanto, guardar-nos de seu toque. Mantenham isto perto do coração” — enquanto falava, ele ergueu um pequeno crucifixo de prata e o estendeu para mim, sendo eu quem estava mais próximo dele — “coloquem estas flores em torno de seus pescoços” — aqui ele me entregou uma guirlanda de flores de alho murchas — “para outros inimigos mais mundanos, este revólver e esta faca; e para auxílio em tudo, estas pequenas lâmpadas elétricas, que vocês podem prender ao peito; e para tudo, e acima de tudo no final, isto, que não devemos profanar sem necessidade.” Tratava-se de uma porção da Hóstia Sagrada, a qual ele colocou em um envelope e me entregou. Cada um dos outros foi equipado da mesma maneira. “Agora”, disse ele, “amigo John, onde estão as gazuas? Se pudermos abrir a porta, não precisamos invadir a casa pela janela, como antes na casa da Srta. Lucy.”
O Dr. Seward tentou uma ou duas gazuas, sua destreza mecânica de cirurgião servindo-lhe bem. Logo conseguiu uma que servia; após um pouco de jogo para frente e para trás, o ferrolho cedeu e, com um clangor enferrujado, disparou para trás. Empurramos a porta, as dobradiças enferrujadas rangeram, e ela se abriu lentamente. Foi assustadoramente semelhante à imagem transmitida a mim no diário do Dr. Seward sobre a abertura do túmulo da Srta. Westenra; imagino que a mesma ideia pareceu ocorrer aos outros, pois, em uníssono, recuaram. O Professor foi o primeiro a avançar e entrou pela porta aberta.
“In manus tuas, Domine!”, disse ele, benzendo-se ao passar pelo umbral. Fechamos a porta atrás de nós, para que, quando acendêssemos nossas lâmpadas, não atraíssemos a atenção da estrada. O Professor testou cuidadosamente a fechadura, para que não fôssemos incapazes de abri-la por dentro caso precisássemos sair com pressa. Então, todos acendemos nossas lâmpadas e prosseguimos com nossa busca.
A luz das pequenas lâmpadas caía em todo tipo de formas estranhas, conforme os raios se cruzavam ou a opacidade de nossos corpos projetava grandes sombras. Eu não conseguia, por nada deste mundo, livrar-me da sensação de que havia mais alguém entre nós. Suponho que fosse a lembrança, trazida de forma tão poderosa à minha mente pelo cenário sombrio, daquela terrível experiência na Transilvânia. Acho que o sentimento era comum a todos nós, pois notei que os outros continuavam olhando por cima dos ombros a cada som e a cada nova sombra, exatamente como eu me sentia fazendo.
O lugar inteiro estava espesso de pó. O chão parecia ter centímetros de profundidade, exceto onde havia pegadas recentes, nas quais, ao abaixar minha lâmpada, pude ver marcas de tachões onde o pó estava rachado. As paredes estavam felpudas e pesadas de poeira, e nos cantos havia massas de teias de aranha, sobre as quais o pó se acumulara até parecerem velhos trapos esfarrapados, à medida que o peso as derrubara parcialmente. Sobre uma mesa no saguão havia um grande molho de chaves, com uma etiqueta amarelada pelo tempo em cada uma. Tinham sido usadas várias vezes, pois na mesa havia várias marcas semelhantes no cobertor de poeira, parecidas com aquela exposta quando o Professor as levantou. Ele virou-se para mim e disse:
“Você conhece este lugar, Jonathan. Você copiou mapas dele, e você o conhece pelo menos mais do que nós. Qual é o caminho para a capela?” Eu tinha uma ideia da direção, embora em minha visita anterior não tivesse conseguido admissão a ela; então, liderei o caminho e, após algumas voltas erradas, encontrei-me diante de uma porta de carvalho baixa e arqueada, reforçada com faixas de ferro. “Este é o local”, disse o Professor enquanto direcionava sua lâmpada para um pequeno mapa da casa, copiado do arquivo da minha correspondência original sobre a compra. Com um pouco de dificuldade, encontramos a chave no molho e abrimos a porta. Estávamos preparados para algum desconforto, pois, ao abrirmos a porta, um ar tênue e malcheiroso pareceu exalar pelas frestas, mas nenhum de nós esperava tal odor como o que encontramos. Nenhum dos outros tinha encontrado o Conde de perto, e quando eu o vi, ele estava ou no estágio de jejum de sua existência em seus aposentos, ou, quando estava saciado de sangue fresco, em um edifício em ruínas aberto ao ar; mas aqui o lugar era pequeno e fechado, e o longo desuso tornara o ar estagnado e imundo. Havia um cheiro de terra, como de algum miasma seco, que vinha através do ar mais fétido. Mas, quanto ao odor em si, como o descreverei? Não era apenas que fosse composto de todos os males da mortalidade e com o cheiro pungente e acre de sangue, mas parecia como se a corrupção tivesse se tornado ela mesma corrupta. Fui! Isso me enoja só de pensar. Cada respiração exalada por aquele monstro parecia ter se agarrado ao lugar e intensificado sua repugnância.
Sob circunstâncias comuns, tal fedor teria dado fim ao nosso empreendimento; mas este não era um caso comum, e o elevado e terrível propósito no qual estávamos envolvidos nos deu uma força que se elevou acima de considerações meramente físicas. Após o recuo involuntário consequente da primeira lufada nauseante, todos nós começamos nosso trabalho como se aquele lugar repugnante fosse um jardim de rosas.
Fizemos um exame preciso do lugar, com o Professor dizendo ao começarmos:
“A primeira coisa é ver quantas das caixas restam; devemos então examinar cada buraco e canto e fenda e ver se não conseguimos alguma pista sobre o que aconteceu com o restante.” Um olhar foi suficiente para mostrar quantos restavam, pois os grandes baús de terra eram volumosos, e não havia como confundi-los.
Restavam apenas vinte e nove dos cinquenta! Uma vez levei um susto, pois, vendo Lord Godalming virar-se subitamente e olhar pela porta abobadada para o corredor escuro à frente, olhei também, e por um instante meu coração parou. Em algum lugar, espreitando da sombra, pareceu-me ver os pontos de luz do rosto maligno do Conde, a crista do nariz, os olhos vermelhos, os lábios vermelhos, a palidez terrível. Foi apenas por um momento, pois, enquanto Lord Godalming dizia: “Achei que vi um rosto, mas eram apenas as sombras”, e retomava sua investigação, apontei minha lâmpada na direção e entrei no corredor. Não havia sinal de ninguém; e como não havia cantos, nem portas, nem abertura de qualquer tipo, apenas as paredes sólidas do corredor, não poderia haver esconderijo nem mesmo para ele. Presumi que o medo ajudara a imaginação e não disse nada.
Poucos minutos depois, vi Morris recuar subitamente de um canto que ele estava examinando. Todos seguimos seus movimentos com os olhos, pois, sem dúvida, um certo nervosismo estava crescendo em nós, e vimos toda uma massa de fosforescência, que cintilava como estrelas. Todos instintivamente recuamos. O lugar inteiro estava ganhando vida com ratos.
Por um ou dois momentos ficamos horrorizados, todos exceto Lord Godalming, que aparentemente estava preparado para tal emergência. Correndo para a grande porta de carvalho com ferragens, que o Dr. Seward descrevera de fora, e que eu mesmo vira, ele girou a chave na fechadura, puxou os enormes ferrolhos e abriu a porta. Então, tirando seu pequeno apito de prata do bolso, ele deu um chamado baixo e agudo. Foi respondido de trás da casa do Dr. Seward pelo latido de cães, e após cerca de um minuto, três terriers vieram correndo ao redor da esquina da casa. Inconscientemente, todos nos movemos em direção à porta, e enquanto nos movíamos, notei que o pó fora muito perturbado: as caixas que haviam sido retiradas foram levadas por este caminho. Mas, mesmo no minuto que se passou, o número de ratos havia aumentado vastamente. Eles pareciam enxamear pelo lugar de uma só vez, até que a luz da lâmpada, brilhando sobre seus corpos escuros em movimento e olhos brilhantes e sinistros, fez o lugar parecer um banco de terra cravejado de vaga-lumes. Os cães avançaram, mas no umbral pararam subitamente e rosnaram, e então, levantando os narizes simultaneamente, começaram a uivar de maneira lúgubre. Os ratos se multiplicavam aos milhares, e nós saímos.
Lord Godalming levantou um dos cães e, carregando-o para dentro, colocou-o no chão. No instante em que suas patas tocaram o solo, ele pareceu recuperar a coragem e avançou contra seus inimigos naturais. Eles fugiram diante dele tão rapidamente que, antes que ele tivesse tirado a vida de uma vintena, os outros cães, que a essa altura já haviam sido levantados da mesma maneira, tiveram pouca presa antes que toda a massa tivesse desaparecido.
Com a partida deles, parecia que alguma presença maligna tinha se retirado, pois os cães corriam e latiam alegremente enquanto faziam investidas repentinas contra seus inimigos prostrados, virando-os de um lado para o outro e lançando-os ao ar com sacudidelas viciosas. Todos nós parecemos sentir nossos ânimos se elevarem. Se foi a purificação da atmosfera mortal pela abertura da porta da capela, ou o alívio que experimentamos ao nos encontrarmos ao ar livre, não sei; mas certamente a sombra do pavor pareceu deslizar de nós como uma túnica, e a ocasião da nossa vinda perdeu um pouco de seu significado sombrio, embora não tenhamos diminuído em nada nossa resolução. Fechamos a porta externa e a trancamos com ferrolhos e chave, e trazendo os cães conosco, começamos nossa busca pela casa. Não encontramos nada além de poeira em proporções extraordinárias, e tudo intocado, exceto pelas minhas próprias pegadas quando fiz minha primeira visita. Nunca, em momento algum, os cães exibiram qualquer sintoma de inquietação, e mesmo quando retornamos à capela, eles corriam como se estivessem caçando coelhos em um bosque de verão.
A manhã despertava no leste quando emergimos pela frente. O Dr. Van Helsing tirou a chave da porta do saguão do molho e trancou a porta de maneira ortodoxa, colocando a chave no bolso quando terminou.
“Até agora”, disse ele, “nossa noite foi eminentemente bem-sucedida. Nenhum mal nos aconteceu como eu temia que pudesse, e ainda assim verificamos quantas caixas faltam. Mais do que tudo, regozijo-me que este, nosso primeiro — e talvez nosso mais difícil e perigoso — passo tenha sido realizado sem trazer para dentro disso nossa doce Madame Mina ou perturbar seus pensamentos ao acordar ou ao dormir com visões, sons e cheiros de horror que ela talvez nunca esqueça. Uma lição, também, aprendemos, se for permitido argumentar a particulari: que os animais irracionais que estão sob o comando do Conde não são, eles mesmos, suscetíveis ao seu poder espiritual; pois olhem, estes ratos que vinham ao seu chamado, assim como do topo de seu castelo ele convoca os lobos para a sua partida e para o choro daquela pobre mãe, embora venham até ele, fogem em debandada dos cães tão pequenos do meu amigo Arthur. Temos outros assuntos diante de nós, outros perigos, outros medos; e aquele monstro — ele não usou seu poder sobre o mundo animal pela única ou última vez esta noite. Que assim seja se ele foi para outro lugar. Bom! Isso nos deu oportunidade de gritar ‘xeque’ de algumas maneiras neste jogo de xadrez, que jogamos pela aposta de almas humanas. E agora vamos para casa. O amanhecer está próximo, e temos motivos para estarmos contentes com nosso primeiro trabalho da noite. Pode estar ordenado que tenhamos muitas noites e dias a seguir, se bem que cheios de perigo; mas devemos prosseguir, e diante de nenhum perigo recuaremos.”
A casa estava silenciosa quando voltamos, exceto por alguma pobre criatura que gritava em uma das alas distantes, e um som baixo e lamurioso vindo do quarto de Renfield. O pobre desgraçado estava sem dúvida torturando a si mesmo, à maneira dos insanos, com pensamentos desnecessários de dor.
Entrei na ponta dos pés em nosso próprio quarto e encontrei Mina dormindo, respirando tão suavemente que tive que encostar meu ouvido para ouvir. Ela parece mais pálida que o habitual. Espero que o encontro desta noite não a tenha perturbado. Estou verdadeiramente grato por ela ser deixada de fora do nosso trabalho futuro, e até mesmo das nossas deliberações. É um fardo grande demais para uma mulher suportar. Eu não pensava assim no início, mas agora sei melhor. Portanto, estou feliz que esteja decidido. Pode haver coisas que a assustariam ao ouvir; e ainda assim, escondê-las dela pode ser pior do que contar-lhe, se ela suspeitasse que havia qualquer ocultação. Daqui em diante, nosso trabalho deve ser um livro fechado para ela, pelo menos até o momento em que possamos dizer-lhe que tudo está terminado, e a terra livre de um monstro do mundo inferior. Arrisco dizer que será difícil começar a manter silêncio após tal confiança como a nossa; mas devo ser resoluto, e amanhã manterei segredo sobre os acontecimentos desta noite, e me recusarei a falar de qualquer coisa que tenha acontecido. Descanso no sofá, para não perturbá-la.
* * * * *
1 de outubro, mais tarde. — Suponho que fosse natural que todos nós tivéssemos dormido demais, pois o dia foi ocupado, e a noite não teve descanso algum. Até Mina deve ter sentido seu esgotamento, pois, embora eu tenha dormido até o sol estar alto, estava acordado antes dela, e tive que chamar duas ou três vezes antes que ela despertasse. De fato, ela estava em um sono tão profundo que, por alguns segundos, não me reconheceu, mas olhou para mim com uma espécie de terror vazio, como alguém que foi acordado de um sonho ruim. Ela reclamou um pouco de estar cansada, e eu a deixei descansar até mais tarde no dia. Agora sabemos de vinte e uma caixas que foram removidas, e se for o caso de várias terem sido levadas em qualquer dessas remoções, talvez possamos rastrear todas elas. Isso, é claro, simplificará imensamente nosso trabalho, e quanto mais cedo o assunto for tratado, melhor. Vou procurar Thomas Snelling hoje.
Diário do Dr. Seward.
1 de outubro. — Já passava do meio-dia quando fui acordado pelo Professor entrando em meu quarto. Ele estava mais alegre e animado do que o habitual, e é bastante evidente que o trabalho da noite passada ajudou a tirar parte do peso opressor de sua mente. Após repassar a aventura da noite, ele disse de repente:
“Seu paciente me interessa muito. Pode ser que com você eu o visite esta manhã? Ou se você está muito ocupado, posso ir sozinho, se for o caso. É uma nova experiência para mim encontrar um lunático que fale de filosofia e raciocine tão sensatamente.” Eu tinha algum trabalho a fazer que era urgente, então disse a ele que, se ele fosse sozinho, eu ficaria contente, pois assim não precisaria mantê-lo esperando; então chamei um atendente e dei a ele as instruções necessárias. Antes que o Professor saísse do quarto, adverti-o contra criar qualquer impressão falsa do meu paciente. “Mas”, respondeu ele, “quero que ele fale de si mesmo e de seu delírio sobre consumir seres vivos. Ele disse à Madame Mina, como vejo no seu diário de ontem, que uma vez teve tal crença. Por que você sorri, amigo John?”
“Desculpe-me”, eu disse, “mas a resposta está aqui.” Coloquei minha mão sobre o material datilografado. “Quando nosso são e erudito lunático fez aquela afirmação sobre como costumava consumir a vida, sua boca estava realmente nauseante com as moscas e aranhas que ele tinha comido logo antes de a Sra. Harker entrar no quarto.” Van Helsing sorriu por sua vez. “Bom!”, disse ele. “Sua memória é verdadeira, amigo John. Eu deveria ter me lembrado. E ainda assim, é essa própria obliquidade de pensamento e memória que torna a doença mental um estudo tão fascinante. Talvez eu possa ganhar mais conhecimento com a loucura deste louco do que com o ensinamento dos mais sábios. Quem sabe?” Continuei meu trabalho e, pouco tempo depois, terminei o que tinha em mãos. Parecia que o tempo tinha sido muito curto, mas lá estava Van Helsing de volta ao escritório. “Interrompo?”, perguntou ele educadamente enquanto estava à porta.
“De modo algum”, respondi. “Entre. Meu trabalho terminou e estou livre. Posso ir com você agora, se quiser.”
“É desnecessário; eu o vi!”
“Bem?”
“Temo que ele não me avalie muito. Nossa entrevista foi curta. Quando entrei em seu quarto, ele estava sentado em um banquinho no centro, com os cotovelos nos joelhos, e seu rosto era o retrato do descontentamento taciturno. Falei com ele tão alegremente quanto pude, e com tal medida de respeito que pude assumir. Ele não fez resposta alguma. ‘Você não me conhece?’, perguntei. Sua resposta não foi tranquilizadora: ‘Eu o conheço bem o suficiente; você é o velho tolo Van Helsing. Gostaria que você levasse a si mesmo e suas teorias cerebrais idiotas para outro lugar. Malditos sejam todos os holandeses de cabeça dura!’ Nem uma palavra a mais ele quis dizer, mas permaneceu em seu implacável descontentamento, tão indiferente a mim como se eu não estivesse na sala. Assim partiu, desta vez, minha chance de aprender muito com este lunático tão inteligente; então irei, se puder, alegrar-me com algumas palavras felizes com aquela alma doce, Madame Mina. Amigo John, alegra-me imensamente que ela não seja mais incomodada, não seja mais preocupada com nossas coisas terríveis. Embora sentiremos muita falta de sua ajuda, é melhor assim.”
“Concordo com você de todo o coração”, respondi seriamente, pois não queria que ele enfraquecesse neste assunto. “A Sra. Harker está melhor fora disso. As coisas já são bastante ruins para nós, todos homens do mundo, que já estivemos em muitas situações difíceis em nosso tempo; mas não é lugar para uma mulher, e se ela tivesse permanecido em contato com o caso, teria, com o tempo, infalivelmente destruído-a.”
Então, Van Helsing foi conferenciar com a Sra. Harker e Harker; Quincey e Art estão todos fora seguindo as pistas quanto às caixas de terra. Terminarei minha rodada de trabalho e nos encontraremos à noite.
Diário de Mina Harker.
1 de outubro. — É estranho para mim ser mantida no escuro como estou hoje; após a total confiança de Jonathan por tantos anos, vê-lo manifestamente evitar certos assuntos, e esses os mais vitais de todos. Esta manhã dormi até tarde após as fadigas de ontem, e embora Jonathan estivesse atrasado também, ele foi o mais cedo. Ele falou comigo antes de sair, nunca tão doce ou ternamente, mas ele nunca mencionou uma palavra do que aconteceu na visita à casa do Conde. E ainda assim ele deve ter sabido o quão terrivelmente ansiosa eu estava. Pobre querido! Suponho que deve tê-lo perturbado ainda mais do que a mim. Todos concordaram que era melhor que eu não fosse arrastada mais para este trabalho horrível, e eu aquiesci. Mas pensar que ele esconde algo de mim! E agora estou chorando como uma tola, quando sei que vem do grande amor do meu marido e dos bons, bons desejos daqueles outros homens fortes.
Isso me fez bem. Bem, algum dia Jonathan me contará tudo; e para que jamais ele pense, ainda que por um instante, que eu ocultei algo dele, continuo a manter meu diário como de costume. Assim, se ele tem receio de minha confiança, mostrarei a ele, com cada pensamento de meu coração anotado para seus queridos olhos lerem. Sinto-me estranhamente triste e abatida hoje. Suponho que seja a reação ao terrível entusiasmo.
Na noite passada fui para a cama quando os homens já haviam ido, simplesmente porque me mandaram. Não sentia sono, e sentia-me cheia de ansiedade devoradora. Continuei a refletir sobre tudo que aconteceu desde que Jonathan veio me ver em Londres, e tudo parece uma horrível tragédia, com o destino pressionando inexoravelmente para algum fim predestinado. Tudo o que se faz parece, por mais correto que seja, provocar a própria coisa que mais se deplora. Se eu não tivesse ido a Whitby, talvez a pobre querida Lucy ainda estivesse conosco. Ela não havia começado a visitar o cemitério até que eu chegasse, e se não a tivesse acompanhado durante o dia, não teria caminhado lá enquanto dormia; e se não fosse ao cemitério à noite, adormecida, aquele monstro não teria a destruído como fez. Ah, por que eu fui a Whitby? Lá agora, chorando outra vez! Pergunto-me o que me sobreveio hoje. Devo esconder isso de Jonathan, pois se ele soubesse que chorei duas vezes numa manhã — eu, que nunca chorei por conta própria, e a quem ele nunca fez derramar uma lágrima — o querido companheiro desfaleceria de aflição. Porei um rosto corajoso, e se me sentir lacrimejante, ele jamais verá. Suponho que seja uma das lições que nós, pobres mulheres, devemos aprender…
Não consigo lembrar exatamente como adormeci na noite passada. Recordo-me de ouvir o repentino latido dos cães e muitos sons estranhos, como preces em uma escala muito tumultuada, vindos do quarto do Sr. Renfield, que está em algum lugar abaixo daqui. Então houve um silêncio absoluto, tão profundo que me assustou, e levantei-me para olhar pela janela. Tudo estava escuro e silencioso, as sombras negras lançadas pela luz da lua parecendo carregadas de um mistério silencioso próprio. Nada se mexia, tudo parecia sombrio e fixo como a morte ou o destino; então uma fina faixa de névoa branca, que avançava com lentidão quase imperceptível sobre a relva em direção à casa, parecia possuir própria consciência e vitalidade. Creio que a digressão de meus pensamentos me fez bem, pois ao voltar para a cama senti uma letargia a me envolver. Deitei-me um pouco, mas não consegui dormir plenamente, então levantei-me e olhei novamente pela janela. A névoa espalhava‑se, aproximando‑se da casa, de modo que a via espessa contra a parede, como se subisse até às janelas. O pobre homem falava mais alto que nunca, e embora eu não distinguisse palavra alguma, reconheci em seu tom um apelo apaixonado. Então ouvi o som de uma luta, e soube que os atendentes o estavam contornando. Fiquei tão assustada que me enrolei na cama, puxei as roupas sobre a cabeça e coloquei os dedos nos ouvidos. Não estava então sonolenta, ao menos assim pensei; mas devo ter adormecido, pois, salvo pelos sonhos, não lembro de nada até a manhã, quando Jonathan me despertou. Acho que levei um esforço e algum tempo para perceber onde estava, e que foi Jonathan quem se curvou sobre mim. Meu sonho foi muito peculiar, quase típico da forma como pensamentos despertos se mesclam ou continuam nos sonhos.
Pensei que estava dormindo, à espera de Jonathan voltar. Sentia‑me muito ansiosa por ele, impotente para agir; meus pés, minhas mãos e meu cérebro estavam pesados, de modo que nada avançava no ritmo usual. Assim, dormi inquieta e refleti. Então começou a clarear que o ar era pesado, úmido e frio. Retirei as roupas do rosto e, para minha surpresa, tudo ao redor estava escurecido. A luz a gás que eu deixara acesa para Jonathan, mas atenuada, surgia apenas como uma pequena faísca vermelha através da névoa, que evidentemente se tornara mais densa e invadia o quarto. Lembrei‑me então de que havia fechado a janela antes de ir para a cama. Teria saído para confirmar, mas uma letargia de chumbo parecia algemar meus membros e até minha vontade. Permaneci imóvel e suportei; foi tudo. Fechei os olhos, mas ainda via através das pálpebras. (É maravilhoso os truques que nossos sonhos nos pregam, e quão convenientemente podemos imaginar.) A névoa espessava‑se cada vez mais e percebi como entrava, como fumaça — ou como a energia branca da água fervente — derramando‑se, não pela janela, mas pelas junções da porta. Tornou‑se tão densa que pareceu concentrar‑se em uma espécie de coluna de nuvem no quarto, cujo topo me permitia ver a luz do gás brilhar como um olho vermelho. Ideias giravam em minha mente enquanto a coluna nublada girava no aposento, e por todo lado surgiam as palavras das Escrituras: “uma coluna de nuvem de dia e de fogo de noite.” Seria, de fato, orientação espiritual que se apresentava em meu sono? Mas a coluna era composta tanto de dia quanto de noite, pois o fogo estava no olho vermelho, que, ao pensar nisso, ganhou nova fascinação para mim; então, ao observar, o fogo se dividiu e pareceu brilhar sobre mim através da névoa como dois olhos vermelhos, semelhantes àqueles que Lucy me descreveu em seu fugaz devaneio mental quando, no penhasco, a luz moribunda do sol atingiu as janelas da Igreja de Santa Maria. De repente, o horror irrompeu em mim ao perceber que foi assim que Jonathan viu aquelas terríveis mulheres tomando forma na realidade através da névoa girante ao luar, e no meu sonho devo ter desmaiado, pois tudo se transformou em escuridão negra. O último esforço consciente da imaginação foi mostrar‑me um rosto branco, lividamente pálido, curvando‑se sobre mim saindo da névoa. Devo tomar cuidado com tais sonhos, pois poderiam desalojar a razão se fossem em excesso. Procuraria o Dr. Van Helsing ou o Dr. Seward para me receitar algo que me fizesse dormir, porém temo alarmá‑los. Um sonho assim, no presente, seria entrelaçado nos temores que têm por mim. Esta noite esforçar‑me‑ei para dormir naturalmente. Se não conseguir, amanhã à noite os farei dar‑me uma dose de clorofórmio; isso não pode me fazer mal, ao menos uma vez, e me proporcionará um bom sono. A noite passada cansou‑me mais do que se eu não tivesse dormido de todo.
* * * * *
2 de outubro, 22h – Na noite passada dormi, mas não sonhei. Devo ter dormido profundamente, pois não fui despertada por Jonathan ao ir para a cama; porém o sono não me renovou, pois hoje sinto‑me terrivelmente fraca e sem ânimo. Passei o dia inteiro tentando ler ou cochilando deitada. À tarde, o Sr. Renfield pediu para me ver. Pobre homem, foi muito gentil, e ao me despedir beijou‑me a mão e desejou que Deus me abençoasse. De alguma forma isso me afetou profundamente; choro quando penso nele. Essa é uma nova fraqueza, da qual devo cuidar. Jonathan ficaria miserável se soubesse que chorei. Ele e os demais permaneceram fora até a hora do jantar, e todos retornaram cansados. Fiz o que pude para animá‑los, e suponho que o esforço me fez bem, pois esqueci o quanto estava cansada. Após o jantar enviaram‑me para a cama, e todos foram fumar juntos, como disseram, mas eu sabia que queriam contar uns aos outros o que lhes ocorrera durante o dia; percebi, pela postura de Jonathan, que ele tinha algo importante a comunicar. Não estava tão sonolenta quanto deveria; então, antes que se retirassem, pedi ao Dr. Seward que me desse um pequeno opioide, pois na noite anterior não dormira bem. Ele muito amavelmente preparou‑me um elixir para dormir, que me entregou, dizendo que não me faria mal, pois era muito suave… Tomei‑o e aguardo o sono, que ainda se mantém distante. Espero não ter agido errado, pois, à medida que o sono começa a me acariciar, surge um novo medo: ter sido insensata ao privar‑me do poder de estar acordada. Talvez eu queria isso. Eis que o sono chega. Boa noite.
CAPÍTULO XX
JORNAL DE JONATHAN HARKER
1 de outubro, à noite – Encontrei Thomas Snelling em sua casa em Bethnal Green, mas, infelizmente, ele não se encontrava em condição de lembrar de nada. A simples perspectiva da cerveja que minha chegada esperada lhe oferecera mostrou‑se demais, e ele já havia iniciado cedo sua esperada devassidão. Contudo, aprendi por sua esposa, que parecia ser uma alma decente e pobre, que ele era apenas o assistente de Smollet, sendo este dos dois companheiros o responsável. Parti então para Walworth e encontrei o Sr. Joseph Smollet em casa, de camisa arregaçada, tomando um chá tardio de um pires. É um sujeito decente, inteligente, claramente um bom e confiável trabalhador, e possui um chapéu próprio. Lembrou‑se de tudo acerca do incidente das caixas e, de um maravilhoso caderno de orelhas de cachorro que tirou de algum receptáculo misterioso próximo ao bolso de suas calças, contendo entradas hieroglíficas em lápis grosso, meio apagado, forneceu‑me os destinos das caixas. Havia, disse ele, seis na carga que tirou de Carfax e deixou no número 197 da Chicksand Street, Mile End New Town, e outras seis que depositou em Jamaica Lane, Bermondsey. Se então o Conde pretendia espalhar esses seus terríveis refúgios por Londres, esses lugares foram escolhidos como primeira entrega, para que depois ele pudesse distribuir de forma mais ampla. O modo sistemático como isso foi feito fez-me pensar que ele não pretendia limitar‑se a duas faces de Londres. Estava agora focado no extremo leste da margem norte, no leste da margem sul e no sul. O norte e o oeste certamente jamais foram deixados de fora de seu plano diabólico — quanto mais a própria Cidade e o coração da Londres da moda no sudoeste e oeste. Voltei a Smollet e perguntei se poderia nos dizer se outras caixas haviam sido retiradas de Carfax.
Ele respondeu:
“Bem, senhor, tratou‑me muito bem” — eu lhe dei meia coroa — “e vou contar‑lhe tudo o que sei. Ouvi um homem chamado Bloxam dizer, há quatro noites, nos ‘Are an’ ‘Ounds, em Pincher’s Alley, como ele e seu companheiro tiveram um raro trabalho empoeirado numa velha casa em Purfect. Não há muitos trabalhos assim por aqui, e acho que talvez Sam Bloxam possa lhe dizer algo.” Perguntei se poderia indicar onde encontrá‑lo. Disse‑lhe que se conseguisse o endereço lhe pagaria outra meia coroa. Assim, ele engoliu o resto do chá, levantou‑se e disse que iniciaria a busca ali mesmo. Na porta parou e disse:
“Olhe aqui, senhor, não há sentido eu ficar aqui com o senhor. Posso encontrar Sam logo, ou não; mas de qualquer forma ele não está disposto a lhe dizer muito esta noite. Sam é raro quando começa a beber. Se puder me dar um envelope com selo e colocar seu endereço, descobrirei onde Sam está e lhe enviarei à noite. Mas será melhor que o procure logo de manhã, ou talvez não o pegue; pois Sam sai cedo, não importa a bebida da noite anterior.”
Isso tudo era prático, então uma das crianças saiu com uma moeda para comprar um envelope e uma folha de papel, guardando o troco. Quando voltou, enderecei o envelope e carimbei‑o, e, quando Smollet prometeu novamente postar o endereço ao encontrá‑lo, segui para casa. Estamos no caminho, de qualquer forma. Estou cansada esta noite e quero dormir. Mina está profundamente adormecida, mas parece um pouco pálida demais; seus olhos parecem como se ela tivesse chorado. Pobre querida, não tenho dúvida de que isso a aflige estar no escuro, e pode torná‑la ainda mais ansiosa quanto a mim e aos demais. Mas assim é melhor. É preferível estar decepcionada e preocupada agora do que ter seu nervo quebrado. Os médicos estavam corretos ao insistir que fosse mantida afastada desse negócio terrível. Devo ser firme, pois sobre mim recai este particular fardo de silêncio. Nunca abordarei o assunto com ela sob qualquer circunstância. Na verdade, pode não ser tarefa difícil, pois ela mesma tornou‑se reticente sobre o tema e não falou do Conde ou de seus feitos desde que lhe contamos nossa decisão.
* * * * *
2 de outubro, à noite – Um dia longo, penoso e excitante. Pela primeira correspondência recebi meu envelope direcionado com um pedaço sujo de papel anexo, no qual havia escrito, com lápis de carpinteiro e letra espalhafatosa:
“Sam Bloxam, Korkrans, 4, Poters Cort, Bartel Street, Walworth. Arsk for the depite.”
Peguei a carta na cama e levantei‑me sem acordar Mina. Ela parecia pesada, sonolenta e pálida, longe de estar bem. Decidi não despertá‑la, mas que, ao retornar desta nova busca, organizaria seu retorno a Exeter. Creio que estaria mais feliz em nossa própria casa, com tarefas diárias que a ocupem, do que aqui entre nós, na ignorância. Só vi o Dr. Seward por um instante, e lhe informei para onde me dirigia, prometendo voltar e relatar o resto assim que descobrisse algo. Dirigi‑me a Walworth e, com alguma dificuldade, encontrei Potter’s Court. A ortografia de Smollet me iludiu, pois perguntei por Poter’s Court em vez de Potter’s Court. Contudo, ao encontrar a rua, não tive dificuldade em localizar a pensão de Corcoran. Quando perguntei ao homem que atendeu a porta pelo “depite”, ele balançou a cabeça e disse: “Não o conheço. Não há tal pessoa aqui; nunca ouvi falar dele em todos os meus dias. Não acredito que exista alguém assim por aqui ou em qualquer lugar.” Retirei a carta de Smollet e, ao lê‑la, percebi que a lição da ortografia do nome da rua poderia orientar‑me. “O que é você?” perguntei.
“Sou o depity,” respondeu ele. Vi de imediato que estava no caminho certo; a ortografia fonética novamente me enganara. Uma gorjeta de meia coroa pôs o conhecimento do deputado à minha disposição, e soube que o Sr. Bloxam, que havia passado a noite anterior dormindo os restos de sua cerveja na pensão de Corcoran, partiu para o trabalho em Poplar às cinco horas da manhã. Não pôde dizer‑me onde ficava o local de trabalho, mas tinha vaga ideia de que era algum tipo de “armazém de nova tecnologia”; com essa pista tenuemente apertada, dirigi‑me a Poplar. Só às doze horas obtive alguma pista satisfatória sobre tal edifício, e isso foi em um café onde alguns operários jantavam. Um deles sugeriu que na Cross Angel Street estava sendo erguido um novo “cold storage”; e, como isso se ajustava à condição de “armazém de nova tecnologia”, fui imediatamente lá. Uma entrevista com um porteiro hostil e um capataz ainda mais hostil, ambos apaziguados com a moeda do reino, trouxe‑me ao rastro de Bloxam; ele foi chamado a mim ao sugerir que eu estava disposto a pagar o salário diário ao seu capataz para ter o privilégio de lhe fazer algumas perguntas sobre assunto privado. Era um sujeito suficientemente esperto, embora rude de fala e porte. Quando prometi pagar por sua informação e lhe entreguei um adiantamento, contou‑me que fez duas viagens entre Carfax e uma casa em Piccadilly, e transportou dessa casa para a outra nove grandes caixas — “as principais pesadas” — com um cavalo e carroça que havia contratado para tal fim. Perguntei-lhe se poderia dizer‑me o número da casa em Piccadilly, ao que respondeu:
“Bem, senhor, esqueci o número, mas ficava apenas a algumas portas de uma grande igreja branca ou algo do tipo, não muito antiga. Também era uma casa velha e empo
“Não, senhor. Mas não precisa ter dificuldade com isso. É um homem alto com uma pedra na frente e um arco nele, e um homem alto sobe até a porta. Eu conheço esses degraus, tive que carregar as caixas com três sapateiros que vêm rondar para ganhar um cobre. O velho senhor dá a eles moedas, e vendo que eles tinham tanto, queriam mais; mas ele agarrou um deles pelo ombro e estava prestes a lançá‑lo escada abaixo, até que todos eles se foram xingando.” Pensei que com essa descrição poderia encontrar a casa, então, tendo pago ao meu amigo pela informação, parti para Piccadilly. Eu havia adquirido uma nova experiência dolorosa; o Conde, evidentemente, podia manusear as caixas‑terra ele mesmo. Se assim, o tempo era precioso; pois, agora que ele havia conseguido certa quantidade de distribuição, poderia, escolhendo seu próprio tempo, concluir a tarefa despercebido. No Piccadilly Circus deixei o táxi e caminhei para o oeste; além do Junior Constitutional deparei‑me com a casa descrita, e fiquei satisfeito que era a próxima das tocas arranjadas por Drácula. A casa parecia ter ficado muito tempo desocupada. As janelas estavam cobertas de pó, e as persianas estavam levantadas. Toda a estrutura estava escurecida pelo tempo, e da ferro a tinta havia em grande parte se descascado. Era evidente que até pouco antes houvera um grande quadro‑de‑avisos na frente da varanda; porém fora grosseiramente arrancado, restando ainda as travessas que o sustentavam. Por trás dos corrimões da varanda vi que havia algumas tábuas soltas, cujas bordas cruas pareciam brancas. Eu daria muito para ter visto o quadro‑de‑avisos intacto, pois talvez desse alguma pista sobre a propriedade da casa. Lembrei‑me da minha experiência na investigação e compra de Carfax, e não pude deixar de sentir que, se conseguisse encontrar o antigo proprietário, poderia descobrir algum meio de acessar a casa.
No momento nada se podia aprender do lado de Piccadilly, e nada se podia fazer; então dei a volta pelos fundos para ver se algo poderia ser apanhado desse quadrante. Os pátios estavam ativos, as casas de Piccadilly estavam em sua maioria ocupadas. Perguntei a um ou dois dos criados e ajudantes que vi por ali se poderiam me dizer algo sobre a casa vazia. Um deles disse que soube que ela fora tomada recentemente, mas não sabia de quem. Contou‑me, porém, que até muito recentemente havia um quadro‑de‑avisos de “À Venda” afixado, e que talvez Mitchell, Sons, & Candy, os agentes imobiliários, pudessem dizer algo, pois achava lembrar de ter visto o nome daquela firma no quadro. Não queria parecer demasiado ansioso, nem deixar meu informante saber ou adivinhar demais, assim, agradecendo‑o da maneira usual, afastei‑me. Já anoitecia, e a noite de outono se aproximava, de modo que não perdi tempo. Tendo aprendido o endereço da Mitchell, Sons, & Candy num diretório do Berkeley, fui logo ao escritório deles na Sackville Street.
O cavalheiro que me recebeu era particularmente afável no modo, mas comunicativo em igual proporção. Tendo‑me dito uma vez que a casa de Piccadilly — que ao longo de nossa entrevista ele chamava de “mansão” — fora vendida, considerou meu assunto concluído. Quando perguntei quem a havia comprado, abriu os olhos ainda mais, e hesitou alguns segundos antes de responder:
“Está vendida, senhor.”
“Desculpe‑me”, disse eu, com igual cortesia, “mas tenho um motivo especial para saber quem a comprou.”
Novamente ele hesitou mais, e arqueou ainda mais as sobrancelhas. “Está vendida, senhor”, repetiu sua resposta lacônica.
“Certamente”, dissedi, “não se importa de me dizer tanto assim.”
“Mas eu me importo”, respondeu ele. “Os assuntos de seus clientes estão absolutamente seguros nas mãos de Mitchell, Sons, & Candy.” Isto era manifestamente um príncipio da primeira água, e não adiantava discutir com ele. Pensei que seria melhor encontrá‑lo em seu próprio terreno, então falei:
“Seus clientes, senhor, têm a felicidade de ter tão resoluto guardião de sua confiança. Eu próprio sou um homem profissional.” Entreguei‑lhe meu cartão. “Neste caso não sou motivado pela curiosidade; atuo em nome do Lord Godalming, que deseja saber algo da propriedade que, ao que parece, esteve recentemente à venda.” Estas palavras mudaram o tom dos assuntos. Ele disse:
“Gostaria de lhe ser útil se pudesse, Sr. Harker, e sobretudo gostaria de ser útil ao seu senhor. Uma vez arranjamos um pequeno assunto de locação de alguns quartos para ele quando era o Honrável Arthur Holmwood. Se me conceder o endereço de sua senhoria, consultarei a Casa sobre o assunto, e, em qualquer caso, comunicarei com sua senhoria por correio desta noite. Será um prazer se pudermos desviar um pouco nossas regras para dar a informação requerida a seu senhor.”
Queria assegurar um amigo, e não fazer inimigo, então agradeci, dei o endereço do Dr. Seward e me retirei. Já escurecia, eu estava cansado e faminto. Peguei uma chávena de chá na Aërated Bread Company e desci para Purfleet no próximo trem.
Encontrei todos os outros em casa. Mina parecia cansada e pálida, mas fez um esforço galante para estar alegre e vivaz; apertou‑me o coração ao pensar que eu teria tido que esconder algo dela, provocando‑lhe inquietação. Graças a Deus, esta será a última noite em que ela observa nossas conferências, sentindo o ferir da nossa falta de confiança. Foi preciso toda a minha coragem para manter a sábia resolução de mantê‑la fora de nossa tarefa sombria. Ela parece de algum modo mais reconciliada; ou então o próprio assunto parece ter se tornado repugnante para ela, pois quando se faz qualquer alusão acidental, ela realmente estremece. Alegro‑me que tenhamos tomado nossa resolução a tempo, pois com tal sentimento, nosso crescente conhecimento seria tortura para ela.
Não pude contar aos outros a descoberta do dia até estarmos sós; assim, após o jantar — seguido de um pouco de música para salvar as aparências até entre nós — levei Mina ao seu quarto e deixei‑a ir para a cama. A querida menina estava mais carinhosa comigo do que nunca, agarrando‑se a mim como se quisesse me segurar; mas havia muito a ser tratado e fui embora. Graças a Deus, o cessar de contar coisas não fez diferença entre nós.
Quando voltei desci novamente e encontrei os outros reunidos ao redor do fogo no escritório. No trem eu havia escrito meu diário até então, e simplesmente o li para eles como melhor meio de pô‑los a par das minhas informações; quando terminei Van Helsing disse:
“Este tem sido um grande dia de trabalho, amigo Jonathan. Sem dúvida estamos no rastro das caixas perdidas. Se as encontrarmos todas naquela casa, então nosso trabalho está perto do fim. Mas se houver alguma faltando, devemos procurar até encontrá‑las. Então faremos nosso golpe final, e caçaremos o miserável até sua morte real.” Ficamos todos em silêncio um pouco e, de repente, o Sr. Morris falou:
“Diga! como vamos entrar naquela casa?”
“Entramos na outra”, respondeu o Lord Godalming rapidamente.
“Mas, Art, isto é diferente. Arrombamos a casa em Carfax, mas tínhamos noite e um parque murado que nos protegia. Será algo muito diferente fazer um arrombamento em Piccadilly, seja de dia ou de noite. Confesso que não vejo como entraremos a menos que aquele agente pateta nos encontre uma chave de algum tipo; talvez saibamos quando receber a carta dele pela manhã.” As sobrancelhas de Lord Godalming se contraíram, levantou‑se e andou pela sala. Por fim parou e disse, voltando‑se de um para outro:
“A cabeça de Quincey está nivelada. Este negócio de arrombamento está ficando sério; já entramos uma vez, tudo bem; mas agora temos um trabalho raro nas mãos — a menos que encontremos a cesta de chaves do Conde.”
Como nada podia ser bem feito antes da manhã, e como seria ao menos aconselhável esperar até Lord Godalming ouvir de Mitchell’s, decidimos não dar nenhum passo ativo antes do café da manhã. Por um bom tempo ficamos sentados a fumar, discutindo o assunto sob vários ângulos; aproveitei a oportunidade de trazer este diário bem ao momento. Estou muito sonolento e irei para a cama....
Só uma linha. Mina dorme profundamente e sua respiração é regular. Sua testa está franzida em pequenas rugas, como se pensasse mesmo dormindo. Ainda está muito pálida, mas não parece tão abatida como estava esta manhã. Amanhã, espero, tudo se curará; ela será ela mesma em casa em Exeter. Oh, mas estou sonolento!
1 de outubro — — Estou novamente perplexo quanto a Renfield. Seus humores mudam tão rapidamente que me é difícil acompanhá‑los, e como sempre significam algo mais que seu próprio bem‑estar, constituem um estudo mais que interessante. Esta manhã, quando fui vê‑lo após sua repulsa a Van Helsing, seu modo era o de um homem que comanda o destino. Ele era, de fato, comandando o destino — subjetivamente. Não se importava realmente com as coisas da mera terra; estava nas nuvens e olhava abaixo para todas as fraquezas e necessidades de nós, pobres mortais. Pensei que melhoraria a ocasião e aprenderia algo, então perguntei‑lhe:
“O que dizem as moscas nestes tempos?” Ele sorriu‑me de maneira bastante superior — sorriso que teria ficado ao rosto de Malvolio — ao responder‑me:
“A mosca, meu caro senhor, tem uma característica marcante; suas asas são típicas dos poderes aéreos das faculdades psíquicas. Os antigos fizeram bem ao tipificar a alma como uma borboleta!”
Pensei empurrar sua analogia ao máximo lógico, então disse rapidamente:
“Ah, é a alma que procura agora, não é?” Sua loucura frustrou sua razão, e um olhar perplexo espalhou‑se pelo rosto enquanto, balançando a cabeça com uma decisão que raramente lhe vi, ele disse:
“Ah, não, não! Não quero almas. A vida é tudo o que quero.” Aqui ele se animou; “Estou bastante indiferente a isso no momento. A vida está bem; tenho tudo o que quero. Você deve encontrar um novo paciente, doutor, se quiser estudar a zoofagia!”
Isso me intrigou um pouco, então insisti:
“Então você comanda a vida; você é um deus, suponho?” Ele sorriu com uma superioridade inefavelmente benigna.
“Ah não! Longe esteja de mim arrogante‑me aos atributos da Divindade. Não me preocupo nem nas ações especialmente espirituais Dele. Se posso declarar minha posição intelectual, sou, no que concerne às coisas puramente terrestres, algo na posição que Enoque ocupava espiritualmente!” Isso foi um enigma para mim. Não consegui lembrar, naquele instante, da pertinência de Enoque; então tive de fazer uma pergunta simples, embora sentisse que ao fazê‑la me rebaixava aos olhos do lunático:
“E por que Enoque?”
“Porque ele andou com Deus.” Não via a analogia, mas não queria admitir; então retornei ao que ele havia negado:
“Então você não se importa com a vida e não quer almas. Por quê, então?” Lançei a pergunta rapidamente e de modo um tanto severo, a propósito de perturbá‑lo. O esforço teve sucesso; por um instante ele recuou inconscientemente ao seu antigo modo servil, curvou‑se diante de mim, e realmente bajulou‑me ao responder:
“Não quero nenhuma alma, de fato, de fato! Não quero. Não poderia usá‑las se as tivesse; não me serviriam de modo algum. Não poderia comê‑las ou—” Ele parou subitamente e o velho olhar astuto espalhou‑se sobre o rosto, como um sopro de vento sobre a superfície da água
Mais tarde — fui depois da minha ronda a Van Helsing e contei‑lhe a minha suspeita. Ele ficou muito sério; e, depois de refletir sobre o assunto por um tempo, pediu‑me que o levasse a Renfield. Fiz‑o. Quando chegámos à porta ouvimos o lunático cantar alegremente, como costumava fazer no tempo que agora parece tão distante. Ao entrar, vimos, maravilhados, que ele havia espalhado o açúcar como antes; as moscas, letárgicas com o outono, começavam a zunir para dentro da sala. Tentámos fazê‑lo falar do assunto da nossa conversa anterior, mas ele recusou‑nos. Continuou a cantar, como se não estivéssemos presentes. Tinha um pedaço de papel e dobrava‑o num caderninho. Saímos tão ignorantes quanto entrámos.
Este é, de facto, um caso curioso; devemos observá‑lo esta noite.
Letter, Mitchell, Sons and Candy to Lord Godalming.
1 de outubro.
“Meu Senhor,
“Estamos, a todo momento, demasiadamente felizes em atender aos vossos desejos. Rogamos, com referência ao desejo de Vossa Senhoria, expresso pelo Sr. Harker em seu nome, que forneçamos as seguintes informações acerca da venda e compra do nº 347, Piccadilly. Os vendedores originais são os executores do falecido Sr. Archibald Winter‑Suffield. O comprador é um nobre estrangeiro, Conde de Ville, que efetuou a compra pessoalmente pagando o preço em notas ‘sobre o balcão’, se Vossa Senhoria nos perdoar por usar expressão tão vulgar. Além disso, nada sabemos mais sobre ele.
“Somos, meu senhor,
“Os humildes servos de Vossa Senhoria,
“MITCHELL, SONS & CANDY.”
Diário do Dr. Seward.
2 de outubro — coloquei ontem à noite um homem no corredor e ordenei‑lhe que registrasse com precisão qualquer som que pudesse ouvir do quarto de Renfield, instruindo‑o a chamar‑me caso houvesse algo estranho. Após o jantar, quando todos nos reunimos ao redor do fogo no salão — a Sra. Harker já havia ido para a cama — debatemos as tentativas e descobertas do dia. Harker foi o único a obter algum resultado, e nutrimos grande esperança de que a sua pista seja importante.
Antes de me retirar, passei pelo quarto do paciente e olhei através da armadilha de observação. Ele dormia profundamente, e o seu coração subia e descia com respiração regular.
Na manhã seguinte, o homem de plantão relatou‑me que, pouco depois da meia‑noite, estava agitado e repetia suas orações em voz alta. Perguntei‑lhe se era só isso; respondeu que era tudo o que ouvia. Havia algo no seu modo de agir que me pareceu suspeito, e perguntei‑lhe diretamente se havia dormido. Ele negou ter dormido, mas admitiu ter “coçado” por um tempo. É triste que os homens não possam ser confiáveis a menos que sejam vigiados.
Hoje Harker está fora seguindo a sua pista, e Art e Quincey cuidam dos cavalos. Godalming acha prudente manter os cavalos sempre prontos, pois, quando obtivermos a informação que buscamos, não haverá tempo a perder. Devemos esterilizar toda a terra importada entre o nascer e o pôr‑do‑sol; assim pegaremos o Conde em seu ponto mais fraco, sem refúgio ao qual fugir. Van Helsing está a caminho do British Museum, pesquisando algumas autoridades sobre medicina antiga. Os velhos médicos consideravam coisas que os seus seguidores não aceitam, e o Professor procura curas de bruxas e demônios que possam nos ser úteis mais tarde.
Por vezes penso que todos nós devemos estar loucos e que despertaremos para a sanidade em casacos de cintura apertada.
* * * * *
Mais tarde — reencontramo‑nos. Parece que finalmente estamos no caminho certo, e o nosso trabalho de amanhã pode ser o início do fim. Pergunto‑me se o silêncio de Renfield tem algo a ver com isto. Os seus humores têm tão seguido as ações do Conde que a iminente destruição do monstro pode ser-lhe repassada de forma sutil. Se pudéssemos obter alguma pista do que passou na sua mente, entre o momento da minha discussão com ele hoje e o seu retorno à captura de moscas, poderia nos fornecer uma valiosa pista. Ele está agora aparentemente quieto por um tempo… Será? — aquele grito selvagem pareceu vir do seu quarto…
* * * * *
O atendente irrompeu em meu quarto e contou‑me que Renfield havia sofrido algum acidente. Ouvi‑o gritar; e, ao chegar até ele, encontrou‑o deitado de bruços no chão, todo coberto de sangue. Preciso ir imediatamente…
CAPÍTULO XXI
DIÁRIO DO DR. SEWARD
3 de outubro — Permitam‑me relatar com exatidão tudo o que ocorreu, na medida em que me lembro, desde a última anotação. Nenhum detalhe que eu recorde deve ser esquecido; com plena tranquilidade devo prosseguir.
Ao chegar ao quarto de Renfield, encontrei‑o deitado no chão, de lado esquerdo, numa poça cintilante de sangue. Quando tentei movê‑lo, ficou imediatamente evidente que havia sofrido graves ferimentos; não havia aquela unidade de propósito entre as partes do corpo que caracteriza até a sanidade letárgica. Com o rosto exposto, pude ver que estava horrivelmente contuso, como se tivesse sido batido contra o chão — de fato, a poça de sangue se originou das lesões faciais. O atendente, ajoelhado ao lado do corpo, disse‑me enquanto o virávamos:
“Acho, senhor, que a sua coluna está quebrada. Veja, tanto o braço direito quanto a perna direita e todo o lado do rosto estão paralizados.” Como tal coisa pôde acontecer deixou o atendente perplexo. Parecia totalmente atônito, e as sobrancelhas se franziram enquanto dizia:
“Não consigo compreender as duas coisas. Ele poderia ter marcado o rosto assim batendo a própria cabeça no chão. Vi uma jovem fazer isso uma vez no Asilo Eversfield antes que alguém pudesse tocá‑la. E suponho que ele poderia ter quebrado o pescoço ao cair da cama, se entrou numa posição incômoda. Mas, por minha vida, não consigo imaginar como as duas coisas ocorreram. Se a coluna estivesse quebrada, não poderia bater a cabeça; e se o rosto já estivesse assim antes da queda da cama, haveria marcas.” Respondi‑lhe:
“Vá ao Dr. Van Helsing e peça‑lhe que venha aqui imediatamente. Quero‑o sem demora alguma.” O homem correu, e, em poucos
“Sabemos o pior agora”, disse ele. “Ele está aqui e conhecemos seu propósito. Pode não ser tarde demais. Vamos nos armar — como estávamos na outra noite — mas não perder tempo; não há um instante a desperdiçar.” Não foi preciso colocar nosso medo, nem mesmo nossa convicção, em palavras — partilhávamos‑as em comum. Apressei‑nos e tomamos de nossos quartos as mesmas coisas que tínhamos ao entrar na casa do Conde. O Professor já as tinha preparado e, ao encontrarmo‑nos no corredor, apontou‑as com veemência, dizendo:
“Eles nunca me deixam; e não o farão enquanto este negócio infeliz não acabar. Sejam prudentes também, meus amigos. Não lidamos com um inimigo comum. Ai de mim! ai de mim! que a querida senhora Mina sofra!” Interrompeu‑se; a voz quebrava‑se, e não sei se a fúria ou o terror predominavam em meu coração.
Do lado da porta dos Harker, pausamos. Art e Quincey recuaram, e este último disse:
“Devemos perturbá‑la?”
“Devemos”, respondeu Van Helsing, severo. “Se a porta estiver trancada, eu a arrebentarei.”
“Não a assustaremos terrivelmente? Não é costume arrombar o quarto de uma dama!”
Van Helsing, solenemente, declarou: “Estais sempre corretos; mas isto é vida ou morte. Todas as câmaras são iguais ao doutor; e ainda que não fossem, hoje à noite são uma só para mim. Amigo John, ao girar a maçaneta, se a porta não abrir, empurre‑a com o ombro; e vós também, meus amigos. Agora!”
Girou‑a a maçaneta enquanto falava, porém a porta não cedeu. Jogamo‑nos contra ela; com um estrondo rompeu‑se, e quase caímos de cabeça no interior. O Professor realmente caiu; ao vê‑lo levantar‑se de mãos e joelhos, fiquei horrorizado. Meu cabelo eriçou‑se como pêlos no dorso do pescoço, e o coração pareceu parar.
A luz da lua era tão intensa que, através da espessa cortina amarela, o quarto se tornara suficientemente iluminado para ver. Na cama junto à janela jazia Jonathan Harker, o rosto ruborizado e a respiração pesada, como se estivesse em estupor. Ajoelhada na borda mais próxima da cama, voltada para fora, estava a figura vestida de branco de sua esposa. Ao seu lado, erguia‑se um homem alto e magro, trajado de negro. Seu rosto estava virado de nós, mas, ao avistá‑lo, reconhecemos de imediato o Conde — em todos os detalhes, inclusive a cicatriz na testa. Com a mão esquerda segurava ambas as mãos de Sra. Harker, mantendo‑as afastadas com os braços em tensão plena; com a direita agarrava‑a pela nuca, pressionando seu rosto contra o peito. Seu vestido noturno branco estava manchado de sangue, e um fio fino escorria pelo peito nu do homem, revelado pela abertura de sua roupa rasgada. A postura dos dois lembrava terrivelmente uma criança forçando o focinho de um gatinho a um prato de leite para fazê‑lo beber. Quando irrompemos no quarto, o Conde girou‑o rosto, e o olhar infernal que ouvi dizer descrito pareceu saltar para ele. Os olhos ardiam em vermelho, com paixão demoníaca; as grandes narinas do nariz aquilino branco abriram‑se amplamente e tremiam na borda; os dentes brancos e afiados, por trás dos lábios cheios de sangue, rangiam como os de uma fera selvagem. Com um movimento brusco, que arremessou sua vítima de volta sobre a cama como se a lançasse de altura, girou‑se e saltou contra nós. Contudo, já recobrou os pés, e segurava em direção ao Conde o envelope que continha a Hóstia Sagrada. O Conde parou subitamente, como a pobre Lucy fora do túmulo, e recuou. Retrocedeu cada vez mais, enquanto nós, erguendo nossos crucifixos, avançávamos. A luz da lua desapareceu de repente, quando uma grande nuvem negra cruzou o céu; e quando a lâmpada a gás se acendeu sob a cerâmica de Quincey, só vimos uma tênue névoa. Esta, ao que parecia, escapava por debaixo da porta, que, ao recuar do arrombamento, havia retornado à sua posição original. Van Helsing, Art e eu avançamos até Sra. Harker, que naquele instante havia tomado fôlego e, com isso, soltado um grito tão selvagem, tão agudo, tão desolado, que me parece que ecoará em meus ouvidos até o dia da minha morte. Por alguns segundos permaneceu em sua postura indefesa e desarrumada. O rosto estava pálido, com um tom que se acentuava pelo sangue que manchava lábios, bochechas e queixo; da garganta escorria um fino fio de sangue; seus olhos estavam loucos de terror. Então colocou diante do rosto as mãos esmagadas, que, sobre o branco, exibiam a marca vermelha da terrível pressão do Conde, e de trás delas surgiu um lamento baixo e desolado que fez o grito terrível parecer apenas a expressão rápida de uma dor infinita. Van Helsing avançou e cobriu suavemente seu corpo com o lençol, enquanto Art, após lançar um olhar desesperado ao rosto dela por um instante, saiu do quarto. Van Helsing sussurrou a mim:
“Jonathan está em um estupor tal como sabemos que o Vampiro pode provocar. Não podemos fazer nada com a pobre senhora Mina por alguns momentos até que ela recupere a si mesma; preciso despertá‑lo!” Mergulhou a ponta de uma toalha em água fria e, com ela, começou a açoitar-lhe o rosto; sua esposa, o tempo todo, segurava o rosto entre as mãos, soluçando de maneira comovente. Levantei a cortina e olhei pela janela. Havia muita luz lunar; ao observar, vi Quincey Morris cruzar o gramado e se esconder à sombra de um grande teixo. Perguntei‑me por que ele fazia isso; mas, no instante, ouvi a rápida exclamação de Harker ao despertar parcialmente, e virando‑se para a cama. Em seu rosto, como seria de se esperar, havia um olhar de espanto selvagem. Pareceu atordoado por alguns segundos, e então a plena consciência pareceu-lhe invadir de golpe, e ele saltou. Sua esposa, despertada pelo movimento rápido, voltou‑se para ele com os braços estendidos, como para abraçá‑lo; instantaneamente, porém, recolheu‑os, juntou os cotovelos e segurou as mãos diante do rosto, estremecendo até que a cama sob ela tremesse.
— Em nome de Deus, o que isso significa? — exclamou Harker. — Dr. Seward, Dr. Van Helsing, o que é isso? O que aconteceu? O que há de errado? Mina, querida, o que é? O que esse sangue significa? Meu Deus, meu Deus! chegou a isto! — e, erguendo‑se até os joelhos, bateu as mãos freneticamente. — Deus bom, ajuda‑nos! ajuda‑a! oh, ajuda‑a! — Com um rápido gesto, pulou da cama e começou a puxar suas roupas, o homem inteiro despertado para a necessidade de esforço imediato. — O que aconteceu? Diga‑me tudo! — bradou sem pausa. — Dr. Van Helsing, você ama Mina, eu sei. Oh, faça algo para salvá‑la. Não pode ter ido tão longe ainda. Proteja‑a enquanto eu a procuro! — Sua esposa, entre terror, horror e aflição, viu-lhe algum perigo certo: esquecendo‑se instantaneamente de sua própria dor, agarrou‑o e gritou:
— Não! não! Jonathan, não me deixes. Sofri o suficiente esta noite, Deus sabe, sem o medo de que ele lhe faça mal. Precisas ficar comigo. Fica com estes amigos que te vigiarão! — Seu semblante tornou‑se frenético ao falar; ele cedeu a ela, e ela puxou‑o para sentar‑se ao lado da cama, agarrando‑o ferozmente.
Van Helsing e eu tentamos acalmá‑los ambos. O Professor ergueu seu pequeno crucifixo dourado e disse, com incrível serenidade:
— Não temas, minha querida. Estamos aqui; e enquanto isso estiver próximo de ti, nada vil pode aproximar‑se. Estás a salvo esta noite; e devemos manter a calma e deliberar juntos. — Ela estremeceu e ficou em silêncio, apoiando a cabeça no peito do marido. Quando a ergueu, a túnica noturna branca dele estava manchada de sangue onde seus lábios a tinham tocado, e onde a ferida aberta no pescoço havia pingado. No instante em que a viu, recuou, soltando um lamento baixo, e sussurrou, entre soluços sufocados:
— Impura, impura! Não devo tocá‑lo nem beijá‑lo mais. Ah, que seja eu agora sua maior inimiga, e que ele tenha mais motivos para temer‑me. — A isso ele respondeu resoluto:
— Disparate, Mina. É uma vergonha ouvir tal palavra. Não a ouviria de ti; nem a ouvirei de ti. Que Deus me julgue pelos meus méritos, e me castigue com sofrimento ainda mais amargo que a própria hora, se por algum ato ou vontade minha algo vier a nos separar! — Estendeu os braços e a envolveu ao peito; por um tempo permaneceu chorando ali. Olhou‑nos por sobre a cabeça curvada, com olhos que piscavam úmidos sobre as narinas trêmulas; a boca firme como aço. Depois de um tempo, seus soluços tornaram‑se menos frequentes e mais suaves, e então ele me disse, falando com uma calma estudada que pareceu pôr à prova seu nervo ao máximo:
— E agora, Dr. Seward, conte‑me tudo. Conheço bem o fato amplo; diga‑me tudo o que aconteceu. — Relatei‑lhe exatamente o que se passou, e ele ouviu com aparente impassibilidade; porém, suas narinas estremeceram e os olhos ardiam ao eu descrever como as mãos implacáveis do Conde seguraram sua esposa naquela posição terrível e horrenda, com a boca junto à ferida aberta em seu peito. Interessou‑me, mesmo naquele instante, ver que, enquanto o rosto pálido da paixão se contraía sobre a cabeça curvada, as mãos carinhosamente acariciavam o cabelo despenteado. Assim que terminei, Quincey e Godalming bateram à porta. Entraram obedecendo ao nosso chamado. Van Helsing lançou‑me um olhar interrogativo. Entendi que ele se referia a aproveitar a chegada deles para, se possível, desviar os pensamentos do marido e da esposa infelizes um do outro e de si mesmos; então, assentindo, ele lhes perguntou o que haviam visto ou feito. O Lorde Godalming respondeu:
— Não o vi em nenhum corredor, nem em nenhum de nossos quartos. Procurei no escritório, mas, embora lá houvesse estado, já se fora. Contudo— — Interrompeu‑se de repente, olhando para a figura abatida na cama. Van Helsing, gravemente, disse:
— Continue, amigo Arthur. Não queremos mais ocultações aqui. Nossa esperança agora reside em conhecer tudo. Fale livremente! — Assim, Art prosseguiu:
— Ele esteve ali, e embora só por alguns segundos, fez grande estrago no lugar. Todo o manuscrito fora queimado, e as chamas azuis tremulavam entre as cinzas brancas; os cilindros do seu fonógrafo também foram lançados ao fogo, e a cera ajudou as chamas. — Interrompi‑o. — Graças a Deus há outra cópia no cofre! — Seu rosto iluminou‑se por um momento, mas escureceu novamente ao prosseguir: — Desci então ao andar de baixo, mas não vi nenhum sinal… — (continua) — Ele fez uma pausa. — Continue, — disse Harker, rouco; então abaixou a cabeça, humedecendo os lábios com a língua, e acrescentou: — exceto que o pobre homem está morto. — Sra. Harker ergueu a cabeça, olhando de um para o outro, e disse solenemente:
— Que se faça a vontade de Deus! — Sentia que Art retinha algo; mas, pressupondo que fosse por um propósito, não comentei. Van Helsing virou‑se para Morris e perguntou:
— E você, amigo Quincey, tem algo a dizer?
— Um pouco — respondeu — Pode chegar a muito, porém, por ora, não consigo dizer. Achei útil saber, se possível, para onde o Conde iria ao deixar a casa. Não o vi; porém vi um morcego levantar‑se da janela de Renfield e voar para o oeste. Esperava‑o em alguma forma retornar a Carfax; mas evidentemente buscava outro covil. Não voltará esta noite; o céu ao leste está vermelhando e o amanhecer se aproxima. Devemos trabalhar amanhã! — Falou entre dentes cerrados. Por alguns minutos houve silêncio, e parecia ouvir‑se o bater dos nossos corações; então Van Helsing, colocando a mão ternamente sobre a cabeça da Sra. Harker, disse:
— E agora, senhora Mina — pobre, querida, querida senhora Mina — conte‑nos exatamente o que ocorreu. Deus sabe que não desejo que sofra; porém é preciso que saibamos tudo. Agora, mais que nunca, o trabalho deve ser rápido e incisivo, e com mortal seriedade. O dia que deverá pôr fim a tudo está próximo, se assim puder ser; e agora é a chance de vivermos e aprendermos. — A pobre senhora estremeceu, e pude ver a tensão de seus nervos ao apertar o marido mais perto e inclinar a cabeça cada vez mais sobre o peito dele. Levantou‑se orgulhosa, estendeu a mão a Van Helsing, que a tomou, e, após inclinar‑se e beijá‑la reverentemente, segurou‑a firmemente. A outra mão permaneceu entrelaçada à do marido, que a abraçava protetoramente. Após uma pausa, em que ordenava seus pensamentos, começou:
— Tomei a dose adormecedora que me deu tão bondosamente, mas demorou a fazer efeito. Parecia‑me ficar mais desperta, e miríades de horríveis fantasias invadiram minha mente — todas ligadas à morte, aos vampiros, ao sangue, à dor, ao sofrimento. — Seu marido gemeu involuntariamente ao eu virar‑me para ele e dizer carinhosamente: — Não te preocupes, querido. Deves ser corajoso e forte, e ajudar‑me nesta tarefa horrenda. Se soubesses o esforço que faço para contar isso, compreenderias o quanto preciso da tua ajuda. Bem, vi que devo tentar ajudar o remédio a cumprir seu efeito com minha vontade, se fosse para me beneficiar, então resolvi firmemente dormir. Certamente o sono veio logo, pois não me lembro mais. A chegada de Jonathan não me despertou, pois ainda estava ao meu lado quando me lembro novamente. Ainda havia naquele quarto a mesma névoa branca e fina que antes notara. Mas esqueço agora se sabes disso; encontrarás no meu diário, que lhe mostrarei depois. Sentia o mesmo terror vago que antes me afligira e a mesma sensação de presença. Tentei despertar Jonathan, mas ele dormia tão profundamente que parecia ele quem havia tomado a dose, não eu. Tentei, mas não o acordei. Isso me causou grande medo, e olhei ao redor aterrorizada. Então, realmente, meu coração afundou dentro de mim: ao lado da cama, como se ele tivesse emergido da névoa — ou melhor, como se a névoa se tornasse sua figura, pois desaparecera totalmente — estava um homem alto, magro, todo de preto. Reconheci‑o de imediato pela descrição dos outros: o rosto de cera; o alto nariz aquilino, que a luz delineava em linha branca fina; os lábios vermelhos entreabertos, exibindo dentes brancos e afiados; e os olhos rubros que, ao entardecer, eu teria visto nas janelas da Igreja de Santa Maria, em Whitby. Também reconheci a cicatriz vermelha na testa, onde Jonathan o ferira. Por um instante o coração parou, e eu teria gritado, se não fosse por estar paralizada. Na pausa, ele falou num sussurro cortante, apontando a Jonathan:
— Silêncio! Se fizeres qualquer som, levarei‑te e despedaçarei teu cérebro diante dos teus próprios olhos. — Fiquei horrorizada, confusa demais para agir ou falar. Com um sorriso zombeteiro, pôs‑se a mão no meu ombro e, segurando‑me firmemente, ergueu a outra ao meu pescoço, dizendo: — Primeiro, um pequeno
3 de outubro. — Como preciso fazer alguma coisa ou enlouquecer, escrevo este diário. Já são seis horas, e vamos nos reunir no escritório em meia hora para comer algo; pois o Dr. Van Helsing e o Dr. Seward concordaram que, se não comermos, não poderemos trabalhar da melhor forma. O nosso melhor será, Deus sabe, necessário hoje. Devo continuar escrevendo a cada oportunidade, pois não me atrevo a parar para pensar. Tudo, grande ou pequeno, deve ser registrado; talvez, no final, as pequenas coisas possam nos ensinar mais. O ensinamento, grande ou pequeno, não poderia ter levado Mina ou a mim a nenhum lugar pior do que aquele em que estamos hoje. No entanto, devemos confiar e ter esperança. A pobre Mina disse-me agora mesmo, com as lágrimas correndo por suas queridas faces, que é na dificuldade e na provação que nossa fé é testada — que devemos continuar confiando; e que Deus nos ajudará até o fim. O fim! Oh, meu Deus! Que fim?... Ao trabalho! Ao trabalho!
Quando o Dr. Van Helsing e o Dr. Seward voltaram de ver o pobre Renfield, discutimos seriamente o que deveria ser feito. Primeiro, o Dr. Seward nos contou que, quando ele e o Dr. Van Helsing desceram ao quarto de baixo, encontraram Renfield caído no chão, todo amontoado. Seu rosto estava todo machucado e esmagado, e os ossos do pescoço estavam quebrados.
O Dr. Seward perguntou ao atendente que estava de serviço no corredor se ele tinha ouvido alguma coisa. Ele disse que estava sentado — confessou ter cochilado um pouco — quando ouviu vozes altas no quarto, e então Renfield gritou várias vezes em voz alta: “Deus! Deus! Deus!” Depois disso, houve um som de queda, e quando ele entrou no quarto, encontrou-o caído no chão, de bruços, exatamente como os médicos o tinham visto. Van Helsing perguntou se ele tinha ouvido “vozes” ou “uma voz”, e ele disse que não poderia afirmar; que, a princípio, parecera-lhe que havia duas, mas como não havia ninguém no quarto, só poderia ser uma. Ele poderia jurar, se necessário, que a palavra “Deus” foi dita pelo paciente. O Dr. Seward nos disse, quando estávamos a sós, que não desejava se aprofundar na questão; a possibilidade de um inquérito precisava ser considerada, e não seria nada bom apresentar a verdade, pois ninguém acreditaria nela. Tal como estava, ele achava que, pelo depoimento do atendente, poderia fornecer um atestado de óbito por acidente ao cair da cama. Caso o legista exigisse, haveria um inquérito formal, necessariamente com o mesmo resultado.
Quando a questão começou a ser discutida sobre qual seria nosso próximo passo, a primeira coisa que decidimos foi que Mina deveria estar a par de tudo; que nada de qualquer espécie — por mais doloroso que fosse — deveria ser escondido dela. Ela mesma concordou quanto à sensatez disso, e era de partir o coração vê-la tão corajosa e, contudo, tão triste, e em tal profundidade de desespero. “Não deve haver ocultação”, disse ela. “Ai! Já tivemos demais. E, além disso, não há nada no mundo que possa me causar mais dor do que a que já suportei — do que a que sofro agora! O que quer que aconteça, deve ser de nova esperança ou de nova coragem para mim!” Van Helsing olhava para ela fixamente enquanto ela falava, e disse, subitamente, mas com calma:
“Mas, querida Madame Mina, você não tem medo; não por você mesma, mas pelos outros por sua causa, depois do que aconteceu?” O rosto dela endureceu em suas linhas, mas seus olhos brilharam com a devoção de uma mártir ao responder:
“Ah, não! Pois minha mente está decidida!”
“Para quê?”, perguntou ele gentilmente, enquanto todos nós estávamos muito quietos; pois cada um, à sua maneira, tinha uma ideia vaga do que ela queria dizer. Sua resposta veio com uma simplicidade direta, como se ela estivesse apenas declarando um fato:
“Porque se eu encontrar em mim mesma — e estarei atenta a isso — um sinal de dano a qualquer um que eu ame, eu morrerei!”
“Você não se mataria?”, perguntou ele, roucamente.
“Eu o faria; se não houvesse amigo que me amasse, que me poupasse tal dor e tal esforço desesperado!” Ela olhou para ele com significado enquanto falava. Ele estava sentado; mas agora se levantou, aproximou-se dela e colocou a mão sobre sua cabeça enquanto dizia solenemente:
“Minha filha, existe alguém assim, se fosse para o seu bem. Por mim mesmo, eu poderia considerar perante Deus encontrar tal eutanásia para você, mesmo neste momento, se fosse o melhor. Não, se fosse seguro! Mas, minha filha...” Por um momento ele pareceu sufocado, e um grande soluço subiu em sua garganta; ele o engoliu e continuou:
“Há aqui alguns que se interporiam entre você e a morte. Você não deve morrer. Você não deve morrer pelas mãos de ninguém; mas, sobretudo, não pelas suas próprias. Até que o outro, que manchou sua vida doce, esteja verdadeiramente morto, você não deve morrer; pois se ele ainda estiver com os vivos Mortos-Vivos, sua morte a tornaria exatamente como ele é. Não, você deve viver! Você deve lutar e se esforçar para viver, embora a morte pareça um benefício inefável. Você deve lutar contra a própria Morte, venha ela a você na dor ou na alegria; pelo dia ou pela noite; em segurança ou em perigo! Em sua alma viva, eu a ordeno que não morra — não, nem pense na morte — até que este grande mal tenha passado.” A pobre querida ficou branca como a morte, e chacoalhou e tremeu, como vi uma areia movediça chacoalhar e tremer com a chegada da maré. Ficamos todos em silêncio; não podíamos fazer nada. Por fim, ela ficou mais calma e, voltando-se para ele, disse, docemente, mas oh! tão tristemente, enquanto estendia a mão:
“Prometo-lhe, meu caro amigo, que se Deus permitir que eu viva, me esforçarei para fazê-lo; até que, se for no Seu bom tempo, este horror tenha passado de mim.” Ela era tão boa e corajosa que todos sentimos que nossos corações foram fortalecidos para trabalhar e suportar por ela, e começamos a discutir o que faríamos. Disse-lhe que ela teria todos os papéis no cofre, e todos os papéis ou diários e fonógrafos que pudéssemos usar daqui para frente; e que deveria manter o registro como havia feito antes. Ela ficou satisfeita com a perspectiva de ter algo a fazer — se “satisfeita” pudesse ser usado em conexão com um interesse tão sombrio.
Como de costume, Van Helsing havia pensado à frente de todos os outros e estava preparado com uma organização exata de nosso trabalho.
“Talvez seja bom”, disse ele, “que em nossa reunião após nossa visita a Carfax tenhamos decidido não fazer nada com as caixas de terra que lá estavam. Se o tivéssemos feito, o Conde teria adivinhado nosso propósito e, sem dúvida, teria tomado medidas antecipadas para frustrar tal esforço em relação às outras; mas agora ele não conhece nossas intenções. Mais ainda, com toda probabilidade, ele não sabe que existe em nós um poder capaz de esterilizar seus covis, de modo que ele não possa usá-los como outrora. Estamos agora muito mais avançados em nosso conhecimento sobre sua disposição de modo que, quando tivermos examinado a casa em Piccadilly, poderemos rastrear o último deles. Hoje, então, é nosso; e nele reside nossa esperança. O sol que nasceu sobre nossa tristeza esta manhã nos guarda em seu curso. Até que ele se ponha hoje à noite, aquele monstro deve reter qualquer forma que ele agora tenha. Ele está confinado às limitações de seu envelope terreno. Ele não pode se dissolver no ar rarefeito nem desaparecer através de rachaduras, frestas ou fendas. Se ele passar por uma porta, deve abri-la como um mortal. E assim temos este dia para caçar todos os seus covis e esterilizá-los. Assim, se ainda não o pegamos e destruímos, nós o encurralaremos em algum lugar onde a captura e a destruição sejam, a seu tempo, certas.” Aqui eu me levantei, pois não pude me conter ao pensar que os minutos e segundos tão preciosamente carregados com a vida e a felicidade de Mina estavam voando de nós, já que, enquanto falávamos, a ação era impossível. Mas Van Helsing ergueu a mão em sinal de advertência. “Não, amigo Jonathan”, disse ele, “nisso, o caminho mais rápido para casa é o mais longo, como diz seu provérbio. Todos agiremos, e agiremos com uma rapidez desesperada, quando chegar a hora. Mas pense, com toda a probabilidade, a chave da situação está naquela casa em Piccadilly. O Conde pode ter muitas casas que comprou. Delas, ele terá escrituras de compra, chaves e outras coisas. Ele terá papel em que escreve; ele terá seu livro de cheques. Há muitos pertences que ele deve ter em algum lugar; por que não neste lugar tão central, tão silencioso, onde ele entra e sai pela frente ou pelos fundos a qualquer hora, quando no próprio vasto do tráfego não há ninguém para notar. Iremos lá e revistaremos aquela casa; e quando soubermos o que ela contém, então faremos o que nosso amigo Arthur chama, em suas frases de caça, de ‘bloquear as tocas’, e assim caçaremos nossa velha raposa — então? não é?”
“Então vamos imediatamente”, gritei, “estamos desperdiçando o precioso, precioso tempo!” O Professor não se moveu, mas apenas disse:
“E como vamos entrar naquela casa em Piccadilly?”
“De qualquer jeito!”, gritei. “Arrombaremos, se for preciso.”
“E seus policiais; onde eles estarão, e o que dirão?”
Fiquei atordoado; mas sabia que se ele desejava atrasar, tinha um bom motivo para isso. Então disse, tão calmamente quanto pude:
“Não espere mais do que o necessário; você sabe, tenho certeza, que tortura estou vivendo.”
“Ah, meu filho, isso eu sei; e, na verdade, não tenho desejo algum de aumentar sua angústia. Mas apenas pense, o que podemos fazer, até que todo o mundo esteja em movimento. Então chegará nossa vez. Tenho pensado e pensado, e parece-me que o caminho mais simples é o melhor de todos. Agora queremos entrar na casa, mas não temos a chave; não é assim?” Eu balancei a cabeça.
“Agora suponha que você fosse, na verdade, o proprietário daquela casa, e ainda assim não pudesse entrar; e pense que não houvesse em você consciência de arrombador, o que você faria?”
“Eu chamaria um chaveiro respeitável e o colocaria para trabalhar para abrir a fechadura para mim.”
“E seus policiais, eles interfeririam, não interfeririam?”
“Ah, não! Não se soubessem que o homem estava devidamente empregado.”
“Então”, ele olhou para mim tão intensamente quanto falou, “tudo o que está em dúvida é a consciência do empregador e a crença de seus policiais quanto a se esse empregador tem uma boa consciência ou uma má. Seus policiais devem ser homens zelosos e inteligentes — oh, tão inteligentes! — na leitura do coração, para que se preocupem com tal assunto. Não, não, meu amigo Jonathan, você vá tirar a fechadura de cem casas vazias nesta sua Londres, ou de qualquer cidade do mundo; e se você fizer isso como tais coisas são feitas corretamente, e no momento em que tais coisas são feitas corretamente, ninguém interferirá. Li sobre um cavalheiro que possuía uma casa tão fina em Londres, e quando ele foi por meses de verão para a Suíça e trancou sua casa, algum ladrão veio e quebrou a janela dos fundos e entrou. Então ele foi e abriu as venezianas da frente e entrou e saiu pela porta, diante dos próprios olhos da polícia. Então ele fez um leilão naquela casa, e anunciou-o, e colocou um grande cartaz; e quando o dia chegou, ele vendeu através de um grande leiloeiro todos os bens daquele outro homem que os possuía. Então ele foi a um construtor, e vendeu-lhe aquela casa, fazendo um acordo de que ele a derrubaria e levaria tudo embora dentro de um certo prazo. E seus policiais e outras autoridades o ajudam o máximo que podem. E quando aquele proprietário volta de suas férias na Suíça, ele encontra apenas um buraco vazio onde sua casa estivera. Tudo isso foi feito en règle; e em nosso trabalho nós também estaremos en règle. Não iremos tão cedo a ponto de os policiais, que têm pouca coisa em que pensar, acharem estranho; mas iremos depois das dez horas, quando há muitos por perto, e tais coisas seriam feitas se fôssemos, de fato, os proprietários da casa.”
Não pude deixar de ver como ele estava certo e o terrível desespero do rosto de Mina relaxou um pensamento; havia esperança em tão bom conselho. Van Helsing continuou:
“Uma vez dentro daquela casa, podemos encontrar mais pistas; de qualquer forma, alguns de nós podem permanecer lá enquanto o restante encontra os outros lugares onde há mais caixas de terra — em Bermondsey e Mile End.”
Lord Godalming levantou-se. “Posso ser de alguma utilidade aqui”, disse ele. “Vou telegrafar para o meu pessoal para que tenham cavalos e carruagens onde forem mais convenientes.”
“Olha aqui, velho amigo”, disse Morris, “é uma ideia excelente ter tudo pronto caso queiramos cavalgar; mas você não acha que uma de suas carruagens elegantes com seus adornos heráldicos em um beco de Walworth ou Mile End atrairia atenção demais para nossos propósitos? Parece-me que deveríamos pegar táxis quando formos para o sul ou para o leste; e até deixá-los em algum lugar perto do bairro para onde vamos.”
“O amigo Quincey está certo!”, disse o Professor. “Sua cabeça é o que vocês chamam de estar em plano com o horizonte. É uma coisa difícil que vamos fazer, e não queremos que ninguém nos observe, se possível.”
Mina começou a interessar-se cada vez mais por tudo, e fiquei radiante ao ver que a exigência dos assuntos estava ajudando-a a esquecer por um tempo a terrível experiência da noite. Ela estava muito, muito pálida — quase cadavérica, e tão magra que seus lábios estavam retraídos, mostrando seus dentes com certa proeminência. Não mencionei este último detalhe, para não lhe causar dor desnecessária; mas isso fez meu sangue gelar nas veias ao pensar no que ocorrera com a pobre Lucy quando o Conde sugou seu sangue. Até o momento, não havia sinal de que os dentes estivessem ficando mais afiados; mas o tempo ainda era curto, e havia tempo para o medo.
Quando chegamos à discussão da sequência de nossos esforços e da disposição de nossas forças, surgiram novas fontes de dúvida. Foi finalmente acordado que, antes de partir para Piccadilly, destruiríamos o covil do Conde ali perto. Caso ele descobrisse cedo demais, estaríamos ainda à frente dele em nosso trabalho de destruição; e sua presença em sua forma puramente material, e em seu estado mais fraco, poderia nos dar alguma nova pista.
Quanto à disposição das forças, foi sugerido pelo Professor que, após nossa visita a Carfax, todos entrássemos na casa em Piccadilly; que os dois médicos e eu permanecêssemos lá, enquanto Lord Godalming e Quincey encontrassem os covis em Walworth e Mile End e os destruíssem. Era possível, se não provável, insistiu o Professor, que o Conde aparecesse em Piccadilly durante o dia, e que, se assim fosse, poderíamos ser capazes de enfrentá-lo ali mesmo. De qualquer forma, poderíamos ser capazes de segui-lo em força. A este plano, opus-me veementemente, e no que dizia respeito a mim, pois disse que pretendia ficar e proteger Mina, pensei que minha mente estava decidida sobre o assunto; mas Mina não quis ouvir minha objeção. Ela disse que poderia haver alguma questão legal na qual eu pudesse ser útil; que entre os papéis do Conde poderia haver alguma pista que eu pudesse entender a partir de minha experiência na Transilvânia; e que, sendo assim, toda a força que pudéssemos reunir era necessária para enfrentar o extraordinário poder do Conde. Tive que ceder, pois a resolução de Mina era firme; ela disse que era a última esperança para ela que trabalhássemos todos juntos. “Quanto a mim”, disse ela, “não tenho medo. As coisas têm sido tão ruins quanto poderiam ser; e o que quer que aconteça deve ter em si algum elemento de esperança ou conforto. Vá, meu marido! Deus pode, se Ele desejar, guardar-me tão bem sozinha quanto com qualquer um presente.” Então levantei-me gritando: “Então, em nome de Deus, vamos imediatamente, pois estamos perdendo tempo. O Conde pode chegar a Piccadilly mais cedo do que pensamos.”
“Não é assim!”, disse Van Helsing, erguendo a mão.
“Mas por quê?”, perguntei.
“Você esquece”, disse ele, com um sorriso real, “que na noite passada ele banqueteou pesadamente, e dormirá até tarde?”
Se eu esqueci! Esquecerei algum dia — posso algum dia! Algum de nós poderá esquecer aquela cena terrível! Mina lutou arduamente para manter seu semblante corajoso; mas a dor a dominou e ela colocou as mãos diante do rosto, e estremeceu enquanto gemia. Van Helsing não pretendia relembrar sua experiência terrível. Ele simplesmente perdera de vista ela e sua parte no caso em seu esforço intelectual. Quando percebeu o que disse, ficou horrorizado com sua falta de tato e tentou confortá-la. “Oh, Madame Mina”, disse ele, “querida, querida Madame Mina, ai! que eu, entre todos os que tanto a reverencio, tenha dito algo tão esquecido. Estes meus estúpidos lábios velhos e esta minha estúpida cabeça velha não merecem isso; mas você vai esquecer, não vai?” Ele se inclinou perto dela enquanto falava; ela pegou sua mão e, olhando para ele através de suas lágrimas, disse roucamente:
“Não, não esquecerei, pois é bom que eu me lembre; e com isso tenho tanto na memória sobre você que é doce, que aceito tudo junto. Agora, todos vocês devem partir logo. O café da manhã está pronto, e todos devemos comer para que possamos ser fortes.”
O café da manhã foi uma refeição estranha para todos nós. Tentamos ser alegres e encorajar uns aos outros, e Mina foi a mais brilhante e alegre de todos nós. Quando terminou, Van Helsing levantou-se e disse:
“Agora, meus caros amigos, partimos para nosso terrível empreendimento. Estamos todos armados, como estávamos naquela noite em que visitamos pela primeira vez o covil de nosso inimigo; armados contra ataques fantasmagóricos, bem como carnais?” Todos o asseguramos. “Então está bem. Agora, Madame Mina, você está de qualquer forma bem segura aqui até o pôr do sol; e antes disso retornaremos — se... Retornaremos! Mas antes de partirmos, deixe-me vê-la armada contra ataques pessoais. Eu mesmo, desde que você desceu, preparei seu quarto colocando coisas das quais sabemos, para que Ele não possa entrar. Agora deixe-me protegê-la. Em sua testa, toco este pedaço de Hóstia Sagrada em nome do Pai, do Filho e...”
Houve um grito terrível que quase congelou nossos corações ao ouvir. Enquanto ele colocava a Hóstia na testa de Mina, ela a chamuscou — queimou a carne como se fosse um pedaço de metal em brasa. O cérebro da minha pobre querida lhe dissera o significado do fato tão rapidamente quanto seus nervos receberam a dor dele; e os dois a dominaram tanto que sua natureza sobrecarregada teve voz naquele grito pavoroso. Mas as palavras para seu pensamento vieram rapidamente; o eco do grito não havia parado de soar no ar quando veio a reação, e ela caiu de joelhos no chão em uma agonia de humilhação. Puxando seu belo cabelo sobre o rosto, como o leproso de outrora seu manto, ela lamentou:
“Imunda! Imunda! Até o Todo-Poderoso evita minha carne poluída! Devo carregar esta marca de vergonha em minha testa até o Dia do Juízo.” Todos pararam. Eu me atirara ao lado dela em uma agonia de desamparo e dor, e, envolvendo-a com meus braços, segurei-a com força. Por alguns minutos nossos corações pesarosos bateram juntos, enquanto os amigos ao nosso redor desviavam os olhos que derramavam lágrimas silenciosas. Então Van Helsing virou-se e disse gravemente; tão gravemente que não pude deixar de sentir que ele estava de alguma forma inspirado, e que declarava coisas fora de si mesmo:--
“Pode ser que você tenha de carregar essa marca até que Deus mesmo julgue conveniente, como Ele certamente o fará, no Dia do Juízo, para reparar todos os erros da terra e de Seus filhos que nela colocou. E oh, Madame Mina, minha querida, minha querida, que nós que a amamos possamos estar lá para ver, quando essa cicatriz vermelha, o sinal do conhecimento de Deus sobre o que foi, desaparecer, e deixar sua testa tão pura quanto o coração que conhecemos. Pois tão certo quanto vivemos, essa cicatriz desaparecerá quando Deus vir que é justo levantar o fardo que pesa sobre nós. Até lá, carregamos nossa Cruz, como Seu Filho fez em obediência à Sua Vontade. Pode ser que sejamos instrumentos escolhidos do Seu bom agrado, e que ascendamos ao Seu chamado como aquele outro através de açoites e vergonha; através de lágrimas e sangue; através de dúvidas e medos, e tudo o que faz a diferença entre Deus e o homem.”
Havia esperança em suas palavras, e conforto; e elas induziam à resignação. Mina e eu sentimos o mesmo, e simultaneamente cada um de nós tomou uma das mãos do velho, curvou-se e beijou-a. Então, sem uma palavra, ajoelhamo-nos todos juntos e, todos de mãos dadas, juramos ser fiéis uns aos outros. Nós, homens, comprometemo-nos a erguer o véu da tristeza da cabeça daquela a quem, cada um à sua maneira, amávamos; e oramos por ajuda e orientação na tarefa terrível que jazia diante de nós.
Era então hora de partir. Por isso, despedi-me de Mina, uma separação que nenhum de nós esquecerá até o dia da nossa morte; e partimos.
Quanto a uma coisa, tomei minha decisão: se descobrirmos que Mina deve ser uma vampira no fim, então ela não irá para aquela terra desconhecida e terrível sozinha. Suponho que seja assim que nos velhos tempos um vampiro significava muitos; assim como seus corpos hediondos só podiam descansar em terra sagrada, o amor mais santo era o sargento recrutador para suas fileiras macabras.
Entramos em Carfax sem problemas e achamos tudo como na primeira ocasião. Era difícil acreditar que, entre arredores tão prosaicos de negligência, poeira e decadência, houvesse algum fundamento para tal medo como o que já conhecíamos. Se nossas mentes não estivessem decididas, e se não houvesse memórias terríveis a nos incitar, dificilmente teríamos prosseguido com nossa tarefa. Não encontramos papéis, ou qualquer sinal de uso na casa; e na antiga capela as grandes caixas pareciam exatamente como as tínhamos visto por último. O Dr. Van Helsing disse-nos solenemente enquanto estávamos diante delas:--
“E agora, meus amigos, temos um dever aqui a cumprir. Devemos esterilizar esta terra, tão sagrada de santas memórias, que ele trouxe de uma terra muito distante para tal uso nefasto. Ele escolheu esta terra porque ela era sagrada. Assim, derrotamo-lo com sua própria arma, pois tornamo-la ainda mais sagrada. Ela foi santificada para tal uso do homem, agora nós a santificamos para Deus.” Enquanto falava, ele tirou de sua bolsa uma chave de fenda e uma chave inglesa, e muito em breve o topo de uma das caixas foi aberto. A terra cheirava a mofo e a ar fechado; mas, de alguma forma, não pareceu nos importar, pois nossa atenção estava concentrada no Professor. Tirando de sua caixa um pedaço da Sagrada Hóstia, ele a colocou reverentemente sobre a terra e, fechando a tampa, começou a parafusá-la, nós auxiliando-o enquanto ele trabalhava.
Uma por uma, tratamos da mesma maneira cada uma das grandes caixas, e as deixamos como as havíamos encontrado, em aparência; mas em cada uma havia uma porção da Hóstia.
Quando fechamos a porta atrás de nós, o Professor disse solenemente:--
“Tanto já está feito. Se for possível que com todos os outros possamos ser tão bem-sucedidos, então o pôr do sol desta noite poderá brilhar na testa de Madame Mina toda branca como marfim e sem nenhuma mancha!”
Enquanto cruzávamos o gramado a caminho da estação para pegar nosso trem, podíamos ver a frente do hospício. Olhei ansiosamente e, na janela do meu próprio quarto, vi Mina. Acenei para ela com a mão e balancei a cabeça para dizer que nosso trabalho ali tinha sido concluído com sucesso. Ela assentiu em resposta para mostrar que entendia. A última coisa que vi, ela estava acenando com a mão em despedida. Foi com o coração pesado que procuramos a estação e pegamos o trem por pouco, que entrava na estação enquanto chegávamos à plataforma.
Escrevi isto no trem.
* * * * *
Piccadilly, 12:30 horas.--Pouco antes de chegarmos a Fenchurch Street, Lord Godalming disse-me:--
“Quincey e eu encontraremos um chaveiro. É melhor você não vir conosco caso haja alguma dificuldade; pois, nas circunstâncias, não pareceria tão ruim para nós arrombarmos uma casa vazia. Mas você é um advogado e a Incorporated Law Society poderia dizer que você deveria saber o que faz.” Eu ponderei sobre o fato de não compartilhar qualquer perigo, mesmo de oprobrio, mas ele continuou: “Além disso, atrairá menos atenção se não formos muitos. Meu título resolverá tudo com o chaveiro, e com qualquer policial que possa aparecer. É melhor você ir com Jack e o Professor e ficar no Green Park, em algum lugar à vista da casa; e quando vir a porta aberta e o chaveiro tiver ido embora, venham todos. Estaremos à sua espera e os deixaremos entrar.”
“O conselho é bom!” disse Van Helsing, então não dissemos mais nada. Godalming e Morris apressaram-se em um táxi, nós seguindo em outro. Na esquina da Arlington Street nosso grupo saiu e passeou pelo Green Park. Meu coração batia ao ver a casa na qual tanta esperança nossa estava centrada, surgindo sombria e silenciosa em sua condição deserta entre seus vizinhos mais animados e elegantes. Sentamo-nos em um banco com boa visão e começamos a fumar charutos para atrair o mínimo de atenção possível. Os minutos pareciam passar com pés de chumbo enquanto esperávamos a chegada dos outros.
Por fim, vimos um táxi chegar. Dele, de maneira descontraída, desceram Lord Godalming e Morris; e da boleia desceu um operário troncudo com sua cesta de ferramentas trançada de junco. Morris pagou o cocheiro, que tocou o chapéu e partiu. Juntos, os dois subiram os degraus, e Lord Godalming apontou o que queria que fosse feito. O operário tirou o casaco calmamente e pendurou-o em um dos espetos da grade, dizendo algo a um policial que, naquele momento, passava por ali. O policial assentiu em aquiescência, e o homem, ajoelhando-se, colocou sua bolsa ao lado dele. Depois de revistá-la, ele tirou uma seleção de ferramentas que dispôs ao seu lado de maneira ordenada. Então ele se levantou, olhou para a fechadura, soprou dentro dela e, virando-se para seus patrões, fez algum comentário. Lord Godalming sorriu, e o homem levantou um molho de chaves de bom tamanho; selecionando uma delas, começou a sondar a fechadura, como se tateasse o caminho com ela. Depois de mexer um pouco, tentou uma segunda, e depois uma terceira. De repente, a porta abriu-se sob um leve empurrão dele, e ele e os outros dois entraram no saguão. Ficamos quietos; meu próprio charuto ardia furiosamente, mas o de Van Helsing esfriou completamente. Esperamos pacientemente enquanto víamos o operário sair e trazer sua bolsa. Depois, ele manteve a porta parcialmente aberta, estabilizando-a com os joelhos, enquanto ajustava uma chave na fechadura. Esta ele finalmente entregou a Lord Godalming, que tirou sua carteira e lhe deu algo. O homem tocou o chapéu, pegou sua bolsa, vestiu o casaco e partiu; ninguém prestou a menor atenção a toda a transação.
Quando o homem realmente se foi, nós três atravessamos a rua e batemos à porta. Ela foi imediatamente aberta por Quincey Morris, ao lado de quem estava Lord Godalming acendendo um charuto.
“O lugar cheira tão vilmente”, disse o último enquanto entrávamos. De fato, cheirava vilmente--como a antiga capela em Carfax--e, com nossa experiência anterior, era claro para nós que o Conde vinha usando o lugar com bastante liberdade. Movemo-nos para explorar a casa, mantendo-nos todos juntos em caso de ataque; pois sabíamos que tínhamos um inimigo forte e astuto com quem lidar, e até o momento não sabíamos se o Conde poderia estar na casa. Na sala de jantar, que ficava nos fundos do saguão, encontramos oito caixas de terra. Apenas oito caixas das nove que procurávamos! Nosso trabalho não estava terminado, e nunca estaria até que tivéssemos encontrado a caixa perdida. Primeiro abrimos as persianas da janela que dava para um pátio estreito de lajes de pedra, para a face vazia de um estábulo, apontada para parecer a frente de uma casa em miniatura. Não havia janelas nele, por isso não tínhamos medo de ser vistos. Não perdemos tempo examinando os baús. Com as ferramentas que trouxemos conosco, abrimo-los, um por um, e tratamo-los como havíamos tratado aqueles outros na antiga capela. Era evidente para nós que o Conde não estava no momento na casa, e procedemos à busca por quaisquer de seus pertences.
Após um olhar superficial ao resto dos cômodos, do porão ao sótão, chegamos à conclusão de que a sala de jantar continha quaisquer pertences que pudessem pertencer ao Conde; e assim passamos a examiná-los minuciosamente. Eles jaziam em uma espécie de desordem ordenada sobre a grande mesa da sala de jantar. Havia escrituras da casa de Piccadilly em um grande maço; escrituras de compra das casas em Mile End e Bermondsey; papel de carta, envelopes, penas e tinta. Tudo estava coberto com papel de seda fino para protegê-lo do pó. Havia também uma escova de roupas, uma escova e pente, e um jarro e bacia--este último contendo água suja que estava avermelhada como se fosse sangue. Por último, havia uma pequena pilha de chaves de todos os tipos e tamanhos, provavelmente aquelas pertencentes às outras casas. Quando examinamos este último achado, Lord Godalming e Quincey Morris, tomando notas precisas dos vários endereços das casas no Leste e no Sul, levaram consigo as chaves em um grande molho e partiram para destruir as caixas nesses locais. O restante de nós está, com a paciência que podemos, esperando seu retorno--ou a chegada do Conde.
CAPÍTULO XXIII
DIÁRIO DO DR. SEWARD
3 de outubro.--O tempo parecia terrivelmente longo enquanto esperávamos a chegada de Godalming e Quincey Morris. O Professor tentou manter nossas mentes ativas usando-as o tempo todo. Eu podia ver seu propósito beneficente, pelos olhares laterais que ele lançava de tempos em tempos para Harker. O pobre rapaz está sobrecarregado por uma miséria que é terrível de ver. Ontem à noite, ele era um homem franco, de aparência feliz, com rosto jovem e forte, cheio de energia e cabelos castanhos escuros. Hoje, ele é um homem velho, abatido e exausto, cujos cabelos brancos combinam bem com os olhos fundos e ardentes e as linhas escritas pelo pesar em seu rosto. Sua energia ainda está intacta; de fato, ele é como uma chama viva. Esta pode ser ainda sua salvação, pois, se tudo correr bem, isso o ajudará a atravessar o período de desespero; ele então, de certa forma, despertará novamente para as realidades da vida. Pobre rapaz, pensei que meu próprio problema fosse ruim o suficiente, mas o dele....! O Professor sabe disso muito bem e está fazendo o possível para manter sua mente ativa. O que ele vinha dizendo era, nas circunstâncias, de interesse absorvente. Tão bem quanto me lembro, aqui está:--
“Estudei, repetidas vezes desde que caíram em minhas mãos, todos os papéis relativos a este monstro; e quanto mais estudei, maior parece a necessidade de erradicá-lo completamente. Por toda parte há sinais de seu avanço; não apenas de seu poder, mas de seu conhecimento sobre ele. Como aprendi com as pesquisas de meu amigo Arminus de Buda-Peste, ele foi em vida um homem maravilhoso. Soldado, estadista e alquimista--este último era o mais alto desenvolvimento do conhecimento científico de seu tempo. Ele tinha um cérebro poderoso, um saber incomparável e um coração que não conhecia medo nem remorso. Ele ousou até mesmo frequentar a Scholomance, e não houve ramo do conhecimento de seu tempo que ele não tenha tentado. Bem, nele, os poderes cerebrais sobreviveram à morte física; embora pareça que a memória não estava de todo completa. Em algumas faculdades da mente ele foi, e é, apenas uma criança; mas ele está crescendo, e algumas coisas que eram infantis no início agora são de estatura adulta. Ele está experimentando, e fazendo isso bem; e se não fosse pelo fato de termos cruzado seu caminho, ele ainda seria--ele pode ser ainda, se falharmos--o pai ou promotor de uma nova ordem de seres, cujo caminho deve levar através da Morte, não da Vida.”
Harker gemeu e disse: “E tudo isso está armado contra minha querida! Mas como ele está experimentando? O conhecimento pode nos ajudar a derrotá-lo!”
“Ele tem, desde sua chegada, tentado seu poder, lenta mas seguramente; aquele grande cérebro infantil dele está funcionando. Bem para nós, é, até agora, um cérebro infantil; pois se ele tivesse ousado, no início, tentar certas coisas, ele há muito teria estado além do nosso poder. No entanto, ele pretende ter sucesso, e um homem que tem séculos diante de si pode se dar ao luxo de esperar e ir devagar. Festina lente pode muito bem ser seu lema.”
“Não consigo entender”, disse Harker cansado. “Oh, seja mais claro comigo! Talvez a tristeza e o sofrimento estejam embotando meu cérebro.”
O Professor colocou a mão carinhosamente em seu ombro enquanto falava:--
“Ah, meu filho, serei claro. Você não vê como, ultimamente, este monstro tem se infiltrado no conhecimento experimentalmente? Como ele tem feito uso do paciente zoófago para efetuar sua entrada na casa do amigo John? Pois seu Vampiro, embora em tudo depois ele possa vir quando e como quiser, deve, no início, fazer entrada apenas quando solicitado por um habitante. Mas esses não são seus experimentos mais importantes. Não vemos como, no início, todas essas grandes caixas foram movidas por outros? Ele não sabia então, a não ser que devesse ser assim. Mas todo o tempo aquele grande cérebro infantil dele estava crescendo, e ele começou a considerar se não poderia mover a caixa ele mesmo. Então ele começou a ajudar; e então, quando descobriu que isso estava certo, ele tentou movê-las todas sozinho. E assim ele progride, e ele espalha essas sepulturas dele; e ninguém além dele sabe onde elas estão escondidas. Ele pode ter pretendido enterrá-las fundo no chão. De modo que, se ele apenas as usa na noite, ou em tal momento em que possa mudar sua forma, elas lhe servem igualmente bem; e ninguém pode saber que estes são seus esconderijos! Mas, meu filho, não se desespere; este conhecimento chega a ele tarde demais! Já todos os seus covis, exceto um, foram esterilizados para ele; e antes do pôr do sol isso será assim. Então ele não terá lugar onde possa se mover e se esconder. Eu demorei esta manhã para que pudéssemos ter certeza. Não há mais em jogo para nós do que para ele? Então, por que não seríamos ainda mais cuidadosos do que ele? Pelo meu relógio, é uma hora, e já, se tudo estiver bem, o amigo Arthur e Quincey estão a caminho de nós. Hoje é nosso dia, e devemos ir com segurança, ainda que devagar, e não perder nenhuma chance. Veja! Somos cinco quando aqueles ausentes retornarem.”
Enquanto ele falava, fomos surpreendidos por uma batida na porta do saguão, a batida dupla de carteiro do menino do telégrafo. Todos nós nos movemos para o saguão com um só impulso, e Van Helsing, levantando a mão para nos pedir silêncio, caminhou até a porta e abriu-a. O menino entregou um despacho. O Professor fechou a porta novamente e, depois de olhar para o endereço, abriu-a e leu em voz alta.
“Cuidado com D. Ele acabou de sair, 12:45, de Carfax apressadamente e dirigiu-se para o Sul. Ele parece estar fazendo a ronda e pode querer vê-los: Mina.”
Houve uma pausa, quebrada pela voz de Jonathan Harker:--
“Agora, graças a Deus, logo nos encontraremos!” Van Helsing virou-se para ele rapidamente e disse:--
“Deus agirá à Sua maneira e no Seu tempo. Não tenha medo, e não se alegre ainda; pois o que desejamos no momento pode ser nossa ruína.”
“Não me importo com nada agora”, respondeu ele calorosamente, “exceto erradicar este bruto da face da criação. Eu venderia minha alma para fazê-lo!”
“Oh, cale-se, cale-se, meu filho!” disse Van Helsing. “Deus não compra almas desta forma; e o Diabo, embora possa comprar, não mantém a fé. Mas Deus é misericordioso e justo, e conhece sua dor e sua devoção àquela querida Madame Mina. Pense em como a dor dela seria dobrada se ela ouvisse suas palavras selvagens. Não tenha medo de nenhum de nós, estamos todos devotados a esta causa, e hoje verá o fim. O tempo de agir está chegando; hoje este Vampiro está limitado aos poderes do homem, e até o pôr do sol ele não pode mudar. Levará tempo para ele chegar aqui--veja, são vinte minutos passados da uma--e ainda há algum tempo antes que ele possa vir até aqui, por mais rápido que seja. O que devemos esperar é que meu Lorde Arthur e Quincey cheguem primeiro.”
Cerca de meia hora depois de termos recebido o telegrama da Sra. Harker, houve uma batida calma e resoluta na porta do saguão. Era apenas uma batida comum, como a dada de hora em hora por milhares de cavalheiros, mas fez o coração do Professor e o meu baterem alto. Olhamos um para o outro e juntos nos movemos para o saguão; cada um de nós estava pronto para usar nossos vários armamentos--o espiritual na mão esquerda, o mortal na direita. Van Helsing puxou a tranca e, mantendo a porta entreaberta, recuou, tendo ambas as mãos prontas para a ação. A alegria de nossos corações deve ter aparecido em nossos rostos quando no degrau, perto da porta, vimos Lord Godalming e Quincey Morris. Eles entraram rapidamente e fecharam a porta atrás de si, o primeiro dizendo, enquanto se moviam pelo saguão:--
“Está tudo certo. Encontramos ambos os lugares; seis caixas em cada um e destruímos todas elas!”
“Destruíram?” perguntou o Professor.
“Para ele!” Ficamos em silêncio por um minuto, e então Quincey disse:--
“Não há nada a fazer senão esperar aqui. Se, no entanto, ele não aparecer às cinco horas, devemos partir; pois não será bom deixar a Sra. Harker sozinha após o pôr do sol.”
“Ele estará aqui em breve,” disse Van Helsing, que consultava seu bolso‑livro. “Nota bene, no telegrama da Senhora ele foi ao sul de Carfax, o que significa que tentou atravessar o rio, e só poderia fazê‑lo na maré baixa, o que deve ser antes da uma hora. O fato de ter ido ao sul tem significado para nós. Por ora ele é apenas suspeito; e partiu de Carfax primeiro para o lugar onde menos suspeitaria de interferência. Você deve ter chegado a Bermondsey pouco tempo antes dele. O fato de ainda não estar aqui mostra que foi para Mile End em seguida. Isso lhe tomou algum tempo; pois teria de ser transportado através do rio de alguma forma. Acreditem, amigos, não teremos muito que esperar agora. Devemos ter pronto algum plano de ataque, para não desperdiçar nenhuma oportunidade. Silêncio, não há tempo. Preparem suas armas! Estejam prontos!” Ele levantou a mão em gesto de alerta enquanto falava, pois todos nós ouvimos uma chave ser suavemente inserida na fechadura da porta do salão.
Não pude deixar de admirar, mesmo naquele momento, a forma como um espírito dominante se impôs. Em todas as nossas expedições de caça e aventuras pelos cantos do mundo, Quincey Morris fora sempre quem organizava o plano de ação, e Arthur e eu estávamos habituados a obedecê‑lo implicitamente. Agora, o velho hábito pareceu ser renovado instintivamente. Com um rápido olhar ao redor da sala, ele de imediato expôs nosso plano de ataque e, sem dizer palavra, com um gesto, colocou cada um de nós em posição. Van Helsing, Harker e eu ficávamos logo atrás da porta, de modo que, quando fosse aberta, o Professor poderia guardá‑la enquanto nós dois nos posicionávamos entre o intruso e a porta. Godalming atrás e Quincey à frente permaneciam fora de vista, prontos para mover‑se à frente da janela. Esperamos numa tensão que fazia os segundos passarem com lentidão de pesadelo. Passos lentos e cuidadosos ecoavam no corredor; o Conde evidentemente estava preparado para alguma surpresa – ao menos temia‑a.
De repente, com um único salto, ele irrom
rompeu pela porta, mas o Professor estava preparado. Ele ergueu a Hóstia Sagrada e, ao vê-la, o Conde parou bruscamente. O horror que surgiu em seu rosto foi terrível de contemplar, pois indicava um medo que ia além da morte. Ele recuou, mas Quincey e Godalming pularam da sua posição de ocultamento e, com um movimento rápido, fecharam a porta e trancaram-na. O Conde girou, como um animal encurralado, e, ao ver a janela, lançou-se para ela, mas antes que pudesse quebrá-la, Jonathan e eu nos lançamos sobre ele. Ele era tão forte como sempre, mas o Professor, com o seu ar de autoridade, avançou, e novamente o Conde recuou, enquanto nós o mantínhamos sob controle. Ele olhou para nós com um ódio que parecia incendiar todo o ambiente, e então, com um rugido, transformou-se em uma névoa que, através das frestas da porta, escapou para o corredor. O Professor abriu a porta imediatamente, mas o corredor estava vazio. Ele correu para a janela e olhou para baixo, mas não havia sinal de movimento. Ele voltou para nós, com o rosto grave, e disse:
— Ele escapou, mas apenas por pouco. Ele não pode mais voltar aqui. A nossa presença aqui, a força da nossa união e a nossa vigilância, tornaram este local um refúgio que ele não pode violar. Mas o perigo não terminou; ele apenas mudou de forma e de lugar. Devemos agora, mais do que nunca, manter a nossa guarda, pois ele é astuto e não descansará enquanto não encontrar uma nova forma de nos atingir.
Nós nos entreolhamos, sentindo o peso daquelas palavras. A nossa luta, que pensávamos estar perto do fim, apenas começava uma nova fase. O Conde estava lá fora, na escuridão, e nós éramos os únicos que sabiam a sua verdadeira natureza. A noite caiu, e nos reunimos em torno da mesa, examinando os nossos planos, decididos a não deixar que o mal triunfasse. Mina, apesar de sua palidez, mostrava uma coragem que nos inspirava a todos. Ela sabia, talvez melhor do que qualquer um de nós, o que estava em jogo, e a sua determinação era a nossa maior força.
O dia seguinte trouxe um novo fôlego. As nossas investigações prosseguiram, e cada pista, por menor que fosse, era examinada com o máximo cuidado. Estávamos decididos a cercá-lo, a não lhe dar trégua, a persegui-lo até aos confins da terra, se fosse necessário. O Professor, com a sua sabedoria e a sua inabalável fé, era o nosso guia, e nós, seguindo as suas instruções, agíamos como uma só mente e um só coração. O Conde podia ser poderoso, mas a nossa causa era justa, e acreditávamos piamente que, com a ajuda de Deus, o mal seria finalmente derrotado. A esperança, embora frágil, começou a florescer em nossos peitos, e a determinação de vencer nos dava forças para enfrentar qualquer desafio que pudesse surgir.
“Aha!” exclamou ele, “a tua comparação do tigre serve-me bem, e eu a adotarei. O teu devorador de homens, como chamam na Índia o tigre que já provou o sangue do humano, já não se interessa pela outra presa, mas ronda incessantemente até capturá‑la. Isto que caçamos da nossa aldeia é também um tigre, um devorador de homens, que nunca deixa de rondar. Não, ele não é alguém que se retire e permaneça distante. Em sua vida, atravessando a fronteira da Turquia, ataca o inimigo em solo próprio; é recapturado, mas não fica? Não! Volta, mais e mais. Observa a sua persistência e resistência. Com a mentalidade infantil que lhe foi dada, há muito concebeu a ideia de chegar a uma grande cidade. O que faz? Descobre o lugar do mundo que mais lhe promete. Então deliberadamente se prepara para a tarefa. Descobre, na paciência, quão forte é, e quais são os seus poderes. Estuda novas línguas. Aprende nova vida social; novo ambiente de antigos caminhos, a política, a lei, as finanças, a ciência, o hábito de uma terra nova e de um povo novo que surgiram desde que ele foi. O vislumbre que teve aguçou o seu apetite e inflamou o seu desejo. Não, isso o ajuda a crescer em inteligência; pois tudo lhe prova quão certo estava, no princípio, em suas suposições. Fez tudo isso sozinho; todo sozinho! de uma tumba ruína em terra esquecida. O que mais poderá fazer quando o maior mundo do pensamento lhe está aberto? Ele, que pode sorrir à morte, como o conhecemos; que pode prosperar no meio de doenças que exterminam povos inteiros. Ah, se tal alguém viesse de Deus, e não do Diabo, que força para o bem não seria ele neste nosso velho mundo. Mas estamos empenhados em libertar o mundo. Nosso labor deve ser silente, e nossos esforços, todos em segredo; pois nesta era iluminada, quando os homens não acreditam nem ao que veem, a dúvida dos sábios seria a sua maior força. Seria ao mesmo tempo a sua bainha e a sua armadura, e as suas armas para nos destruir, a nós, inimigos, que estamos dispostos a arriscar até as próprias almas pela segurança de quem amamos — pelo bem da humanidade, e pela honra e glória de Deus.
Depois de uma discussão geral determinou‑se que, para esta noite, nada ficou definitivamente decidido; que todos nós deveríamos dormir sobre os fatos e tentar pensar nas conclusões adequadas. Amanhã, ao pequeno‑almoço, encontrarmo‑nos‑emos novamente e, depois de tornarmos as nossas conclusões conhecidas uns aos outros, decidiremos um curso de ação definido.
* * * * *
Sinto uma paz maravilhosa e descanso nesta noite. É como se alguma presença assombrosa tivesse sido removida de mim. Talvez …
Meu raciocínio não se havia concluído, não podia estar concluído; pois vi no espelho a marca vermelha na minha testa e soube que ainda estava impuro.
Diário do Dr. Seward.
5 de outubro — Levantámo‑nos cedo, e penso que o sono fez muito por cada um de nós. Quando nos reunimos ao pequeno‑almoço matinal havia mais alegria geral do que qualquer um de nós jamais esperara experienciar novamente.
É realmente admirável quanta resiliência existe na natureza humana. Que qualquer causa que obstrua, não importa qual, seja removida de qualquer modo — até por morte — e voltamos aos primeiros princípios de esperança e prazer. Mais de uma vez, enquanto estávamos sentados à mesa, meus olhos abriram‑se em admiração, perguntando‑se se os últimos dias não tinham sido um sonho. Só ao avistar a mancha vermelha na testa da Sra. Harker fui trazido de volta à realidade. Mesmo agora, ao ponderar gravemente sobre a questão, é quase impossível perceber que a causa de todos os nossos problemas ainda persiste. Até a Sra. Harker parece perder de vista o seu tormento por longos períodos; só de vez em quando algo lhe recorda e ela pensa na terrível cicatriz. Devemos encontrar‑nos aqui no meu estudo dentro de meia hora para decidir nosso rumo. Vejo apenas uma dificuldade imediata, reconheço‑a por instinto mais que por razão: todos teremos de falar francamente; e ainda temo que, de modo misterioso, a língua da pobre Sra. Harker esteja atada. Sei que ela forma conclusões por si mesma e, de tudo o que aconteceu, posso imaginar quão brilhantes e verdadeiras são; porém ela não as expressará, ou não pode. Mencionei isso a Van Helsing, e ele e eu debatemos o assunto a sós. Suponto que seja algum veneno horrendo que penetrou em suas veias e começou a agir. O Conde tinha seus próprios propósitos ao lhe dar o que Van Helsing chamou de “baptismo vampírico de sangue”. Bem, pode haver um veneno que se destila de coisas boas; numa era em que a existência de ptomainas ainda é um mistério, não devemos nos surpreender com nada! Uma coisa sei: se o meu instinto for verdadeiro quanto ao silêncio da pobre Sra. Harker, então há uma terrível dificuldade — um perigo desconhecido — no trabalho que nos aguarda. O mesmo poder que a obriga ao silêncio pode obrigá‑la a falar. Não ouso pensar mais; pois assim desonraria, em meus pensamentos, uma nobre mulher!
Van Helsing virá ao meu estudo um pouco antes dos outros. Tentarei abrir o assunto com ele.
* * * * *
Depois — Quando o Professor entrou, debatemos o estado das coisas. Pude ver que havia algo em sua mente que desejava dizer, mas sentia alguma hesitação em abordar o tema. Após rodeios, disse subitamente:
— “Amigo John, há algo que tu e eu devemos conversar a sós, pelo menos primeiro. Mais tarde, talvez tenhamos de incluir os outros em nossa confiança.” Então parou; esperei; prosseguiu:
— “Madame Mina, nossa pobre, querida Mina está mudando.” Um frio percorria-me ao ver meus piores temores confirmados. Van Helsing continuou:
— “Com a triste experiência da senhorita Lucy, devemos, desta vez, ser advertidos antes que as coisas avancem demais. Nossa tarefa agora, na realidade, é mais difícil que nunca, e este novo problema torna cada hora de extrema importância. Vejo nas feições dela as características do vampiro. É agora apenas muito, muito sutil; mas cabe ver se temos olhos para notar sem pré‑julgar. Seus dentes são mais afiados, e às vezes seus olhos são mais duros. Mas isso não é tudo; há também o silêncio que a acompanha agora frequentemente; assim como ocorria com a senhorita Lucy. Ela não falava, mesmo ao escrever o que desejava que fosse conhecido depois. Agora, meu temor é o seguinte: se ela, por nosso transe hipnótico, puder contar o que o Conde vê e ouve, não seria ainda mais verdadeiro que quem a hipnotizou primeiro, e quem bebeu de seu sangue e lhe fez beber o seu, deva, se quiser, compelir sua mente a revelar-lhe o que ela sabe?” Acenei em concordância; prosseguiu:
— “Então, o que devemos fazer é impedir isso; devemos mantê‑la ignorante de nossa intenção, de modo que não possa dizer o que não sabe. Esta é uma tarefa dolorosa! Oh, tão dolorosa que me parte o coração ao pensar nisso; mas deve ser feita. Quando hoje nos encontrarmos, devo dizer‑lhe que, por razões que não revelaremos, não deverá mais fazer parte de nosso conselho, mas será simplesmente guardada por nós.” Limpou a testa, que transpirava profusamente ao pensar na dor que poderia infligir à pobre alma já tão torturada. Soube que lhe seria algum consolo se lhe dissesse que eu também havia chegado à mesma conclusão; ao menos isso tiraria a dor da dúvida. Falei‑lhe, e o efeito foi como eu esperava.
Agora aproximamo‑nos da hora de nossa reunião geral. Van Helsing retirou‑se para preparar o encontro, e a parte dolorosa dele. Creio verdadeiramente que seu propósito é poder rezar a sós.
* * * * *
Depois — No início da nossa reunião sentiu‑se um grande alívio pessoal tanto em Van Helsing quanto em mim. A Sra. Harker enviou, por seu marido, uma mensagem dizendo que não se juntaria a nós naquele momento, pois achava melhor que fôssemos livres para discutir nossos movimentos sem sua presença a nos constranger. O Professor e eu nos entreolhamos por um instante, e de algum modo ambos parecemos aliviados. Por minha parte, pensei que, se a Sra. Harker percebesse o perigo por si mesma, isso seria tanto dor quanto perigo evitado. Nas circunstâncias, concordamos, com um olhar interrogativo e resposta, dedo sobre o lábio, em preservar o silêncio sobre nossas suspeitas, até que pudéssemos novamente confabular a sós. Partimos então para o nosso Plano de Campanha. Van Helsing expôs os fatos primeiro:
— “A czarina Catarina deixou o Tâmisa ontem de manhã. Levará, na velocidade mais rápida que já fez, pelo menos três semanas para alcançar Varna; mas nós podemos viajar por terra até o mesmo lugar em três dias. Agora, se subtrairmos dois dias da viagem marítima, devido às influências climáticas que sabemos que o Conde pode provocar; e se acrescentarmos um dia e uma noite a possíveis atrasos, teremos uma margem de quase duas semanas. Assim, para ficarmos bem seguros, devemos partir daqui até o dia 17, no máximo. Então, certamente chegaremos a Varna um dia antes da nave, e poderemos fazer as preparações necessárias. Evidentemente, iremos armados — armados contra o mal, tanto espiritual quanto físico.” Quincey Morris acrescentou:
— “Entendo que o Conde vem de uma terra de lobos, e pode ser que ele chegue antes de nós. Proponho que acrescentemos Winchester ao nosso armamento. Tenho certa fé nas Winchester quando há algum problema desse tipo. Lembras‑te, Art, quando a matilha nos perseguiu em Tobolsk? O que não daríamos então por um repetidor por pessoa!”
— “Bom!” exclamou Van Helsing, “serão Winchester. A cabeça de Quincey está sempre no nível, sobretudo quando há caça; a metáfora seria mais uma desonra à ciência do que os lobos são perigo ao homem. Enquanto isso, nada podemos fazer aqui; e como penso que Varna não é familiar a nenhum de nós, por que não ir lá mais depressa? Esperar aqui é tão longo quanto lá. Hoje à noite e amanhã podemos preparar‑nos, e então, se tudo correr bem, nós quatro partiremos em jornada.”
— “Nós quatro?” indagou Harker, olhando de um para outro.
— “Claro!” respondeu o Professor rapidamente, “você deve permanecer para cuidar de sua tão doce esposa!” Harker ficou em silêncio por um tempo e então disse, com voz oca:
— “Falaremos disso pela manhã. Quero consultar Mina.” Pensei que era o momento de Van Helsing adverti‑lo para não revelar nossos planos a ela; porém ele não deu atenção. Olhei‑o significativamente e tossei. Em resposta, ele pôs o dedo nos lábios e se virou.
Jornal de Jonathan Harker.
5 de outubro, tarde — Por algum tempo após a nossa reunião desta manhã não consegui pensar. As novas fases das coisas deixam-me num estado de admiração que não permite espaço para pensamento ativo. A determinação de Mina de não participar da discussão fez‑me refletir; e como não pude argumentar o assunto com ela, só lhe resta imaginar. Estou tão longe de uma solução agora. A forma como os outros reagiram também me intrigou; da última vez que falamos sobre o assunto concordamos que não haveria mais ocultação entre nós. Mina dorme agora, calma e doce como uma criança. Seus lábios curvam‑se e seu rosto radia felicidade. Graças a Deus, ainda há momentos assim para ela.
* * * * *
Depois — Quão estranho tudo é. Sentei‑me observando o sono feliz de Mina e alcancei a proximidade da felicidade que suponho nunca mais atingirei. À medida que a noite avançava e a terra tomava suas sombras do sol que se punha mais baixo, o silêncio da sala tornava‑se cada vez mais solene para mim. De repente Mina abriu os olhos e, olhando‑me ternamente, disse:
— “Jonathan, quero que me prometas algo sob tua palavra de honra. Uma promessa feita a mim, mas feita sagrada aos ouvidos de Deus, e que não será quebrada ainda que eu caia de joelhos e te implore com lágrimas amargas. Rápido, deves fazê‑la agora.”
— “Mina,” respondi, “uma promessa assim não posso fazer imediatamente. Talvez não tenha direito a fazê‑la.”
— “Mas, querido,” ela disse, com tal intensidade espiritual que seus olhos eram como estrelas do norte, “sou eu quem a deseja; e não é por mim. Pode perguntar ao Dr. Van Helsing se não estou certa; se ele discordar, faça o que quiser. Na verdade, se todos concordarem depois, você ficará absolvido da promessa.”
— “Prometo!” respondi, e por um momento ela pareceu suprema‑mente feliz; embora para mim toda a felicidade dela fosse negada pela cicatriz vermelha na testa. Ela disse:
— “Promete‑me que não me contarás nada dos planos formados para a campanha contra o Conde. Nem por palavra, nem por insinuação, nem por implicação; nunca, enquanto isso permanecer comigo!” e apontou solenemente para a cicatriz. Vi que falava em sério, e eu respondi solenemente:
— “Prometo!” e ao dizer isso senti que, a partir daquele instante, uma porta se fechou entre nós.
* * * * *
Depois, à meia‑noite — Mina esteve luminosa e alegre a noite toda. Tanto que todos os demais pareceram ganhar coragem, como se infectados em parte pela sua alegria; como resultado, até eu mesmo sentia que o manto de melancolia que nos pesa era um pouco aliviado. Retiramo‑nos cedo. Mina agora dorme como uma criança; é maravilhoso que sua capacidade de dormir permaneça assim, mesmo em meio ao seu terrível tormento. Graças a Deus por isso, pois assim ao menos pode esquecer suas preocupações. Talvez seu exemplo possa me influenciar como sua alegria influenciou esta noite. Tentarei. Ah! Por um sono sem sonhos.
* * * * *
6 de outubro, manhã — Mais uma surpresa. Mina despertou‑me cedo, quase ao mesmo tempo de ontem, e pediu que trouxesse o Dr. Van Helsing. Pensei que fosse outra ocasião para hipnose, e sem hesitar fui buscar o Professor. Evidentemente ele esperava tal chamada, pois o encontrei já vestido em seu quarto. Sua porta estava entreaberta, de modo que ele pôde ouvir a abertura da porta do nosso quarto. Veio de imediato; ao entrar, perguntou a Mina se os outros também viriam.
— “Não,” respondeu ela simplesmente, “não será necessário. Você pode dizer‑lhes da mesma forma. Devo ir contigo na tua jornada.”
O Dr. Van Helsing ficou tão surpreendido quanto eu. Após uma breve pausa, indagou:
— “Mas por quê?”
— “Deves levar‑me contigo. Estou mais segura ao teu lado, e tu estarás mais seguro também.”
— “Mas por quê, querida Madame Mina? Sabes que a tua segurança é o nosso dever mais solene. Vamos a perigo, ao qual tu és, ou podes ser, mais vulnerável que qualquer um de nós, por circunstâncias que temos enfrentado.” Ele fez uma pausa, embaraçado.
Ela, apontando o dedo para a testa, respondeu:
— “Eu sei. Por isso devo ir. Posso dizer‑te agora, enquanto o sol nasce; talvez não possa mais. Sei que, quando o Conde me quiser, devo ir. Sei que, se ele me mandar vir secretamente, devo ir por qualquer artifício para enganar — até Jonathan.” Deus viu o olhar que me dirigiu ao falar, e se houver um Anjo Registrador, esse olhar está anotado para a sua honra eterna. Só pude segurar a sua mão. Não consegui falar; a emoção era grande demais até para as lágrimas. Continuou:
— “Vocês, homens, sois valentes e fortes. Sois fortes em número, pois podeis desafiar aquilo que quebraria a resistência humana de quem tem de guardar‑se só. Além disso, posso ser útil, pois podereis hipnotizar‑me e aprender o que nem eu mesma sei.” O Dr. Van Helsing disse gravemente:
— “Madame Mina, como sempre, és muito sábia. Virás conosco; e juntos faremos o que nos propomos a alcançar.” Quando terminou, o longo silêncio de Mina fez‑me olhar para ela. Ela recostou‑se no travesseiro adormecida; nem ao levantar as cortinas e deixar entrar a luz solar que inundava o quarto despertou. Van Helsing fez um gesto para eu o seguir silenciosamente. Fomos ao seu quarto e, em menos de um minuto, o Lorde Godalming, o Dr. Seward e o Sr. Morris juntaram‑se a nós. Ele contou‑les o que Mina dissera e prosseguiu:
— “De manhã partiremos para Varna. Agora devemos lidar com um novo fator: Madame Mina. Ah, mas a sua alma é verdadeira. Para ela é uma agonia dizer tudo o que fez; mas é o mais correto, e somos avisados a tempo. Não pode haver perda de oportunidade, e em Varna devemos estar prontos para agir no instante em que o navio chegar.”
— “O que faremos exatamente?” perguntou Morris laconicamente. O Professor fez uma pausa antes de responder:
— “Em primeiro lugar abordaremos o navio; então, quando identificarmos a caixa, colocaremos um ramo de rosa silvestre sobre ela. Isso a prenderemos, pois, segundo a superstição, ninguém poderá emergir; assim, confiamos na superstição primeiro; foi a fé do homem nos primórdios, e tem sua raiz ainda hoje. Depois, quando surgir a oportunidade que buscamos, quando ninguém estiver perto para ver, abriremos a caixa, e — e tudo ficará bem.”
— “Não esperarei por oportunidade alguma,” disse Morris. “Quando vir a caixa, abrirei‑a e destruirei o monstro, ainda que mil homens me observem, e se eu for eliminado por isso no próximo instante!” Agarrei sua mão instintivamente e achei‑a tão firme quanto aço. Creio que ele entendeu o meu olhar; espero que sim.
“Bom rapaz,” disse o Dr. Van Helsing. “Rapaz corajoso. Quincey é um homem completo. Que Deus o abençoe por isso. Minha filha, acredite em mim, nenhum de nós ficará para trás ou hesitará por qualquer medo. Eu apenas digo o que podemos fazer — o que devemos fazer. Mas, na verdade, na verdade não podemos dizer o que faremos. Há tantas coisas que podem acontecer, e seus caminhos e fins são tão variados que, até o momento, não podemos dizer. Estaremos todos armados, de todas as formas; e quando o tempo para o fim chegar, nosso esforço não faltará. Agora, vamos hoje colocar todos os nossos assuntos em ordem. Que todas as coisas que tocam outros que nos são caros, e que de nós dependem, estejam completas; pois nenhum de nós pode dizer o que, ou quando, ou como, o fim pode ser. Quanto a mim, meus próprios assuntos estão regulados; e como não tenho mais nada a fazer, irei fazer os preparativos para a viagem. Terei todas as passagens e tudo o mais para nossa jornada.”
Não havia mais nada a ser dito, e nos separamos. Agora vou ajustar todos os meus assuntos terrenos, e estar pronto para o que quer que venha....
* * * * *
Mais tarde. — Está tudo feito; meu testamento está pronto, e tudo completo. Mina, se sobreviver, é minha única herdeira. Se não for assim, então os outros que têm sido tão bons para nós terão o restante.
Está agora chegando o pôr do sol; a inquietação de Mina chama minha atenção para isso. Tenho certeza de que há algo em sua mente que o momento exato do pôr do sol revelará. Estas ocasiões estão se tornando momentos angustiantes para todos nós, pois cada nascer e pôr do sol abre algum novo perigo — alguma nova dor, que, no entanto, pode, pela vontade de Deus, ser um meio para um bom fim. Escrevo todas essas coisas no diário, já que minha querida não deve ouvi-las agora; mas se for possível que ela as veja novamente, elas estarão prontas.
Ela está me chamando.
CAPÍTULO XXV
DIÁRIO DO DR. SEWARD
11 de outubro, Noite. — Jonathan Harker pediu-me para anotar isto, pois diz que dificilmente está à altura da tarefa, e ele quer que um registro exato seja mantido.
Acho que nenhum de nós ficou surpreso quando nos pediram para ver a Sra. Harker um pouco antes do momento do pôr do sol. Ultimamente, passamos a entender que o nascer e o pôr do sol são para ela momentos de liberdade peculiar; quando seu antigo eu pode se manifestar sem qualquer força controladora a subjugá-la ou contê-la, ou a incitá-la à ação. Esse humor ou condição começa cerca de meia hora ou mais antes do nascer ou pôr do sol real, e dura até que o sol esteja alto, ou enquanto as nuvens ainda estão brilhando com os raios que fluem acima do horizonte. A princípio, há uma espécie de condição negativa, como se algum laço estivesse frouxo, e então a liberdade absoluta segue rapidamente; quando, porém, a liberdade cessa, a mudança de volta ou recaída vem rapidamente, precedida apenas por um período de silêncio de advertência.
Esta noite, quando nos encontramos, ela estava um tanto contida e carregava todos os sinais de uma luta interna. Eu mesmo atribuí isso ao fato de ela fazer um esforço violento no primeiro instante que pôde. Pouquíssimos minutos, porém, deram-lhe controle completo sobre si mesma; então, fazendo sinal para que seu marido se sentasse ao lado dela no sofá onde ela estava meio reclinada, ela fez com que o restante de nós trouxesse cadeiras para perto. Tomando a mão de seu marido na sua, começou:
“Estamos todos aqui juntos em liberdade, talvez pela última vez! Eu sei, querido; eu sei que você sempre estará comigo até o fim.” Isso foi para seu marido, cuja mão, como pudemos ver, apertou-se sobre a dela. “Pela manhã, saímos para nossa tarefa, e só Deus sabe o que pode estar reservado para qualquer um de nós. Você vai ser tão bom para mim a ponto de me levar com você. Sei que tudo o que homens corajosos e sinceros podem fazer por uma pobre mulher fraca, cuja alma talvez esteja perdida — não, não, ainda não, mas está de qualquer forma em jogo — vocês farão. Mas vocês devem lembrar que não sou como vocês. Há um veneno em meu sangue, em minha alma, que pode me destruir; que deve me destruir, a menos que algum alívio venha a nós. Oh, meus amigos, vocês sabem tão bem quanto eu que minha alma está em jogo; e embora eu saiba que há uma saída para mim, vocês não devem, e eu não devo, tomá-la!” Ela olhou suplicante para todos nós, um por um, começando e terminando com seu marido.
“Qual é essa saída?” perguntou Van Helsing com uma voz rouca. “Qual é essa saída que não devemos — não podemos — tomar?”
“Que eu morra agora, seja por minha própria mão ou pela de outro, antes que o mal maior seja inteiramente consumado. Eu sei, e vocês sabem, que se eu estivesse morta, vocês poderiam e libertariam meu espírito imortal, assim como fizeram com a minha pobre Lucy. Se a morte, ou o medo da morte, fosse a única coisa que estivesse no caminho, eu não recuaria em morrer aqui, agora, em meio aos amigos que me amam. Mas a morte não é tudo. Não posso acreditar que morrer em tal caso, quando há esperança diante de nós e uma tarefa amarga a ser cumprida, seja a vontade de Deus. Portanto, eu, da minha parte, renuncio aqui à certeza do descanso eterno, e vou para a escuridão onde podem estar as coisas mais negras que o mundo ou o mundo inferior guardam!” Ficamos todos em silêncio, pois sabíamos instintivamente que isso era apenas um prelúdio. Os rostos dos outros estavam endurecidos e o de Harker tornou-se cinzento como cinzas; talvez ele tenha adivinhado melhor do que qualquer um de nós o que estava por vir. Ela continuou:
“Isto é o que posso dar para o montante.” Não pude deixar de notar a curiosa frase jurídica que ela usou em tal lugar, e com toda seriedade. “O que cada um de vocês dará? Suas vidas, eu sei,” ela continuou rapidamente, “isso é fácil para homens corajosos. Suas vidas são de Deus, e vocês podem devolvê-las a Ele; mas o que vocês darão a mim?” Ela olhou novamente de forma questionadora, mas desta vez evitou o rosto do marido. Quincey pareceu entender; ele assentiu, e o rosto dela se iluminou. “Então direi claramente o que quero, pois não deve haver assunto duvidoso nesta conexão entre nós agora. Vocês devem me prometer, um por um — até você, meu amado marido — que, se chegar o momento, vocês me matarão.”
“Que momento é esse?” A voz era de Quincey, mas era baixa e tensa.
“Quando vocês estiverem convencidos de que estou tão mudada que é melhor que eu morra do que eu viva. Quando eu estiver assim morta na carne, então vocês, sem um momento de atraso, cravarão uma estaca em mim e cortarão minha cabeça; ou farão qualquer outra coisa que seja necessária para me dar descanso!”
Quincey foi o primeiro a se levantar após a pausa. Ele se ajoelhou diante dela e, tomando sua mão na sua, disse solenemente:
“Sou apenas um sujeito rude, que talvez não tenha vivido como um homem deveria para ganhar tal distinção, mas juro para você, por tudo o que considero sagrado e caro, que, se o momento chegar, não recuarei do dever que você nos impôs. E prometo a você, também, que tornarei tudo certo, pois se eu estiver apenas na dúvida, considerarei que o momento chegou!”
“Meu verdadeiro amigo!” foi tudo o que ela conseguiu dizer em meio a suas lágrimas que caíam rapidamente, enquanto, curvando-se, ela beijava a mão dele.
“Juro o mesmo, minha querida Madame Mina!” disse Van Helsing.
“E eu!” disse Lord Godalming, cada um deles por sua vez ajoelhando-se diante dela para fazer o juramento. Eu segui, eu mesmo. Então seu marido voltou-se para ela, com olhos pálidos e uma palidez esverdeada que subduzia a brancura nívea de seu cabelo, e perguntou:
“E devo eu, também, fazer tal promessa, oh, minha esposa?”
“Você também, meu mais querido,” ela disse, com infinita angústia de piedade em sua voz e olhos. “Você não deve recuar. Você é o mais próximo e mais querido e todo o mundo para mim; nossas almas estão entrelaçadas em uma só, por toda a vida e todo o tempo. Pense, querido, que houve momentos em que homens corajosos mataram suas esposas e suas mulheres, para impedi-las de cair nas mãos do inimigo. Suas mãos não vacilaram mais porque aquelas que eles amavam imploravam que eles as matassem. É o dever dos homens para com aqueles a quem amam, em tais momentos de dura provação! E oh, meu querido, se for para ser que eu deva encontrar a morte por qualquer mão, que seja pela mão daquele que mais me ama. Dr. Van Helsing, não esqueci sua misericórdia no caso da pobre Lucy para com aquele que a amava” — ela parou com um rubor passageiro, e mudou sua frase — “para com aquele que tinha o melhor direito de lhe dar paz. Se esse momento chegar novamente, espero que você faça disso uma memória feliz da vida do meu marido que foi sua mão amorosa que me libertou do terrível domínio sobre mim.”
“Novamente eu juro!” veio a voz ressonante do Professor. A Sra. Harker sorriu, positivamente sorriu, enquanto, com um suspiro de alívio, ela se recostou e disse:
“E agora uma palavra de advertência, uma advertência que vocês nunca devem esquecer: este momento, se ele chegar, pode chegar de forma rápida e inesperada, e em tal caso vocês não devem perder tempo em usar sua oportunidade. Em tal momento, eu mesma poderia estar — não! se o momento chegar, estarei — aliada ao seu inimigo contra vocês.”
“Mais um pedido;” ela tornou-se muito solene ao dizer isso, “não é vital e necessário como o outro, mas quero que vocês façam uma coisa por mim, se quiserem.” Todos nós aquiescemos, mas ninguém falou; não havia necessidade de falar:
“Quero que vocês leiam o Serviço Fúnebre.” Ela foi interrompida por um profundo gemido de seu marido; tomando a mão dele na sua, ela a segurou sobre seu coração e continuou: “Vocês devem lê-lo sobre mim algum dia. Qualquer que seja o resultado de todo esse temível estado de coisas, será um pensamento doce para todos ou alguns de nós. Você, meu mais querido, espero que o leia, pois então será na sua voz em minha memória para sempre — aconteça o que acontecer!”
“Mas oh, minha querida,” ele suplicou, “a morte está longe de você.”
“Não,” ela disse, erguendo uma mão de advertência. “Estou mais profundamente na morte neste momento do que se o peso de um túmulo terreno estivesse pesado sobre mim!”
“Oh, minha esposa, devo eu lê-lo?” ele disse, antes de começar.
“Isso me confortaria, meu marido!” foi tudo o que ela disse; e ele começou a ler quando ela preparou o livro.
“Como posso — como alguém poderia — contar aquela cena estranha, sua solenidade, sua penumbra, sua tristeza, seu horror; e, com tudo isso, sua doçura. Até um cético, que não consegue ver nada além de uma paródia da amarga verdade em qualquer coisa sagrada ou emocional, teria se derretido até o coração se tivesse visto aquele pequeno grupo de amigos amorosos e devotados ajoelhados ao redor daquela senhora atingida e triste; ou ouvido a terna paixão da voz de seu marido, enquanto, em tons tão quebrados pela emoção que muitas vezes ele tinha que parar, ele lia o simples e belo serviço do Sepultamento dos Mortos. Eu — eu não posso continuar — palavras — e — v-voz — f-falham-me!”
* * * * *
Ela estava certa em seu instinto. Estranho como tudo isso era, bizarro como possa parecer daqui em diante até mesmo para nós que sentimos sua potente influência na época, isso nos confortou muito; e o silêncio, que mostrava a próxima recaída da Sra. Harker de sua liberdade de alma, não pareceu tão cheio de desespero para nenhum de nós como tínhamos temido.
Diário de Jonathan Harker.
15 de outubro, Varna. — Deixamos Charing Cross na manhã do dia 12, chegamos a Paris na mesma noite e pegamos os lugares reservados para nós no Expresso do Oriente. Viajamos noite e dia, chegando aqui por volta das cinco horas. Lord Godalming foi ao Consulado ver se algum telegrama havia chegado para ele, enquanto o resto de nós veio para este hotel — “o Odesus”. A jornada pode ter tido incidentes; eu estava, no entanto, muito ansioso para seguir em frente, para me importar com eles. Até que o Czarina Catherine entre no porto, não haverá interesse para mim em nada no vasto mundo. Graças a Deus! Mina está bem, e parece estar ficando mais forte; sua cor está voltando. Ela dorme muito; durante toda a viagem, ela dormiu quase o tempo todo. Antes do nascer e do pôr do sol, no entanto, ela está muito desperta e alerta; e tornou-se um hábito para Van Helsing hipnotizá-la nesses momentos. A princípio, algum esforço foi necessário, e ele teve que fazer muitos passes; mas agora, ela parece ceder imediatamente, como se por hábito, e quase nenhuma ação é necessária. Ele parece ter poder nesses momentos particulares para simplesmente querer, e os pensamentos dela obedecem a ele. Ele sempre pergunta a ela o que ela pode ver e ouvir. Ela responde ao primeiro:
“Nada; tudo está escuro.” E ao segundo:
“Posso ouvir as ondas batendo contra o navio, e a água correndo ao lado. As lonas e cordames esticam e os mastros e vergas rangem. O vento é forte — posso ouvi-lo nos estais, e a proa lança a espuma para trás.” É evidente que o Czarina Catherine ainda está no mar, apressando-se em seu caminho para Varna. Lord Godalming acabou de retornar. Ele tinha quatro telegramas, um a cada dia desde que partimos, e todos com o mesmo efeito: que o Czarina Catherine não havia sido relatado ao Lloyd’s de lugar nenhum. Ele havia arranjado antes de deixar Londres que seu agente lhe enviasse todos os dias um telegrama dizendo se o navio havia sido relatado. Ele deveria ter uma mensagem mesmo se o navio não fosse relatado, para que pudesse ter certeza de que uma vigilância estava sendo mantida na outra extremidade do fio.
Jantamos e fomos dormir cedo. Amanhã vamos ver o Vice-Cônsul, e arranjar, se pudermos, sobre entrar no navio assim que ele chegar. Van Helsing diz que nossa chance será entrar no barco entre o nascer e o pôr do sol. O Conde, mesmo que tome a forma de um morcego, não pode atravessar a água corrente por sua própria vontade, e assim não pode deixar o navio. Como ele não ousa mudar para a forma de homem sem suspeita — que ele evidentemente deseja evitar — ele deve permanecer na caixa. Se, então, pudermos entrar no navio após o nascer do sol, ele estará à nossa mercê; pois podemos abrir a caixa e garantir a captura dele, como fizemos com a pobre Lucy, antes que ele acorde. Que misericórdia ele receberá de nós não contará muito. Achamos que não teremos muitos problemas com funcionários ou marinheiros. Graças a Deus! este é o país onde o suborno pode fazer qualquer coisa, e estamos bem supridos de dinheiro. Só precisamos ter certeza de que o navio não pode entrar no porto entre o pôr do sol e o nascer do sol sem sermos avisados, e estaremos seguros. O Juiz Moneybag resolverá este caso, eu acho!
* * * * *
16 de outubro. — O relato de Mina ainda é o mesmo: ondas batendo e água correndo, escuridão e ventos favoráveis. Estamos evidentemente a tempo, e quando soubermos do Czarina Catherine estaremos prontos. Como ele deve passar pelos Dardanelos, certamente teremos algum relato.
* * * * *
17 de outubro. — Tudo está praticamente bem resolvido agora, creio eu, para dar as boas-vindas ao Conde em seu retorno de sua turnê. Godalming disse aos armadores que imaginava que a caixa enviada a bordo pudesse conter algo roubado de um amigo dele, e obteve um meio consentimento de que ele poderia abri-la por sua própria conta e risco. O proprietário deu-lhe um papel dizendo ao Capitão para lhe dar todas as facilidades para fazer o que quisesse a bordo do navio, e também uma autorização semelhante ao seu agente em Varna. Vimos o agente, que ficou muito impressionado com a maneira gentil de Godalming para com ele, e estamos todos satisfeitos de que tudo o que ele puder fazer para ajudar nossos desejos será feito. Já arranjamos o que fazer caso consigamos abrir a caixa. Se o Conde estiver lá, Van Helsing e Seward cortarão sua cabeça imediatamente e cravarão uma estaca em seu coração. Morris e Godalming e eu impediremos qualquer interferência, mesmo que tenhamos que usar as armas que teremos prontas. O Professor diz que se pudermos tratar o corpo do Conde dessa maneira, ele logo cairá em pó. Em tal caso, não haveria evidência contra nós, caso alguma suspeita de assassinato fosse levantada. Mas mesmo que não fosse, nós nos sustentaríamos ou cairíamos por nosso ato, e talvez algum dia este próprio roteiro possa ser uma evidência para se interpor entre alguns de nós e uma corda. Por mim, eu aceitaria a chance com muita gratidão se ela surgisse. Pretendemos não deixar pedra sobre pedra para cumprir nossa intenção. Arrumamos com certos funcionários que, no instante em que o Czarina Catherine for visto, seremos informados por um mensageiro especial.
* * * * *
24 de outubro. — Uma semana inteira de espera. Telegramas diários para Godalming, mas apenas a mesma história: “Ainda não relatado.” A resposta hipnótica matinal e noturna de Mina é inalterada: ondas batendo, água correndo e mastros rangendo.
Telegrama, 24 de outubro.
_Rufus Smith, Lloyd’s, Londres, para Lord Godalming, aos cuidados do Vice-Cônsul de S. M. B., Varna._
“Czarina Catherine relatado esta manhã vindo dos Dardanelos.”
Diário do Dr. Seward.
25 de outubro. — Como sinto falta do meu fonógrafo! Escrever diário com uma caneta é irritante para mim; mas Van Helsing diz que devo. Estávamos todos loucos de excitação ontem quando Godalming recebeu seu telegrama do Lloyd’s. Sei agora o que os homens sentem na batalha quando o chamado para a ação é ouvido. A Sra. Harker, sozinha em nosso grupo, não mostrou sinais de emoção. Afinal, não é estranho que ela não tenha mostrado; pois tivemos o cuidado especial de não deixá-la saber de nada, e todos nós tentamos não mostrar qualquer excitação quando estávamos em sua presença. Nos velhos tempos, ela, tenho certeza, teria notado, não importa o quanto pudéssemos ter tentado esconder; mas, desta forma, ela mudou muito durante as últimas três semanas. A letargia cresce sobre ela, e embora pareça forte e bem, e esteja recuperando um pouco de sua cor, Van Helsing e eu não estamos satisfeitos. Falamos dela frequentemente; não dissemos, porém, uma palavra aos outros. Isso partiria o coração do pobre Harker — certamente seus nervos — se ele soubesse que tínhamos sequer uma suspeita sobre o assunto. Van Helsing examina, ele me diz, seus dentes muito cuidadosamente, enquanto ela está na condição hipnótica, pois ele diz que, enquanto eles não começarem a afiar, não há perigo ativo de uma mudança nela. Se essa mudança ocorrer, seria necessário tomar medidas!... Ambos sabemos quais seriam essas medidas, embora não mencionemos nossos pensamentos um ao outro. Nenhum de nós recuaria da tarefa — por mais terrível que seja contemplá-la. “Eutanásia” é uma palavra excelente e reconfortante! Sou grato a quem quer que a tenha inventado.
São apenas cerca de 24 horas de navegação dos Dardanelos até aqui, na velocidade com que o Czarina Catherine veio de Londres. Ele deve, portanto, chegar em algum momento da manhã; mas como ele não pode possivelmente chegar antes disso, estamos todos prestes a nos retirar cedo. Vamos nos levantar à uma hora, para estarmos prontos.
25 de outubro, meio-dia. — Nenhuma notícia ainda da chegada do navio. O relatório hipnótico da Sra. Harker esta manhã foi o mesmo de sempre, por isso é possível que tenhamos notícias a qualquer momento. Nós, homens, estamos todos em uma febre de excitação, exceto Harker, que está calmo; suas mãos estão frias como gelo, e há uma hora encontrei-o amolando o fio da grande faca Ghoorka que ele agora sempre carrega consigo. Será um péssimo presságio para o Conde se o fio desse “Kukri” tocar um dia a sua garganta, impulsionado por aquela mão severa e gelada!
Van Helsing e eu ficamos um pouco alarmados com a Sra. Harker hoje. Por volta do meio-dia, ela entrou em uma espécie de letargia que não nos agradou; embora mantivéssemos silêncio para os outros, nenhum de nós estava feliz com isso. Ela esteve inquieta a manhã toda, de modo que, a princípio, ficamos contentes em saber que ela estava dormindo. Quando, porém, seu marido mencionou casualmente que ela dormia tão profundamente que ele não conseguia acordá-la, fomos ao seu quarto para verificar por nós mesmos. Ela respirava naturalmente e parecia tão bem e em paz que concordamos que o sono era melhor para ela do que qualquer outra coisa. Pobre moça, ela tem tanto para esquecer que não é de se admirar que o sono, se lhe traz o esquecimento, lhe faça bem.
* * * * *
Mais tarde. — Nossa opinião estava justificada, pois, quando após um sono revigorante de algumas horas ela acordou, parecia mais brilhante e melhor do que estivera em dias. Ao pôr do sol, ela fez o habitual relatório hipnótico. Onde quer que esteja no Mar Negro, o Conde está correndo para o seu destino. Para a sua perdição, espero!
* * * * *
26 de outubro. — Mais um dia e nenhuma notícia do Czarina Catherine. Ele deveria estar aqui a esta altura. Que ele ainda está viajando em algum lugar é evidente, pois o relatório hipnótico da Sra. Harker ao nascer do sol foi o mesmo. É possível que a embarcação esteja parada, às vezes, por causa do nevoeiro; alguns dos vapores que chegaram ontem à noite relataram bancos de nevoeiro tanto ao norte quanto ao sul do porto. Devemos continuar nossa vigília, pois o navio pode ser sinalizado a qualquer momento.
* * * * *
27 de outubro, meio-dia. — Muito estranho; nenhuma notícia ainda do navio que aguardamos. A Sra. Harker relatou ontem à noite e esta manhã, como de costume: “ondas batendo e água corrente”, embora tenha acrescentado que “as ondas estavam muito fracas”. Os telegramas de Londres foram os mesmos: “nenhum relatório adicional”. Van Helsing está terrivelmente ansioso e me disse agora há pouco que teme que o Conde esteja escapando de nós. Ele acrescentou significativamente:
“Não gostei daquela letargia da Madame Mina. Almas e memórias podem fazer coisas estranhas durante o transe.” Eu estava prestes a perguntar-lhe mais, mas Harker entrou naquele momento, e ele levantou uma mão em sinal de advertência. Devemos tentar hoje à noite, ao pôr do sol, fazê-la falar mais plenamente quando em seu estado hipnótico.
* * * * *
28 de outubro. — Telegrama. *Rufus Smith, Londres, para Lord Godalming, aos cuidados do Vice-Cônsul de S. M. B., Varna.*
“Czarina Catherine relatado entrando em Galatz às uma hora de hoje.”
Diário do Dr. Seward.
28 de outubro. — Quando o telegrama chegou anunciando a chegada em Galatz, não creio que tenha sido um choque tão grande para nenhum de nós como se poderia esperar. É verdade, não sabíamos de onde, ou como, ou quando o raio cairia; mas creio que todos esperávamos que algo estranho acontecesse. O atraso da chegada em Varna nos deixou individualmente satisfeitos de que as coisas não seriam exatamente como esperávamos; apenas esperávamos para saber onde a mudança ocorreria. Não obstante, foi uma surpresa. Suponho que a natureza trabalhe sobre uma base tão esperançosa que acreditamos, contra nós mesmos, que as coisas serão como deveriam ser, e não como deveríamos saber que serão. O transcendentalismo é um farol para os anjos, mesmo que seja um fogo-fátuo para o homem. Foi uma experiência estranha e todos a assimilamos de forma diferente. Van Helsing levantou a mão acima da cabeça por um momento, como se estivesse em protesto contra o Todo-Poderoso; mas não disse uma palavra e, em poucos segundos, levantou-se com o rosto severamente contraído. Lord Godalming ficou muito pálido e sentou-se respirando pesadamente. Eu mesmo estava meio atordoado e olhei com espanto de um para o outro. Quincey Morris apertou o cinto com aquele movimento rápido que eu conhecia tão bem; em nossos velhos tempos de errância, significava “ação”. A Sra. Harker ficou mortalmente branca, de modo que a cicatriz em sua testa parecia queimar, mas ela cruzou as mãos humildemente e olhou para cima em oração. Harker sorriu — sorriu mesmo — o sorriso sombrio e amargo de quem não tem esperança; mas, ao mesmo tempo, sua ação desmentia suas palavras, pois suas mãos buscavam instintivamente o cabo da grande faca Kukri e ali repousavam. “Quando parte o próximo trem para Galatz?”, disse Van Helsing para todos nós.
“Às 6:30 da manhã seguinte!” Todos saltamos, pois a resposta veio da Sra. Harker.
“Como diabos você sabe?”, disse Art.
“Vocês esquecem — ou talvez não saibam, embora Jonathan saiba e o Dr. Van Helsing também — que eu sou a fanática por trens. Em casa, em Exeter, eu sempre costumava organizar os horários, para ser útil ao meu marido. Achei tão útil às vezes que sempre estudo os horários agora. Eu sabia que, se algo nos levasse ao Castelo Dracula, iríamos por Galatz, ou pelo menos por Bucareste, então aprendi os horários com muito cuidado. Infelizmente não há muitos para aprender, já que o único trem de amanhã parte como eu disse.”
“Mulher maravilhosa!”, murmurou o Professor.
“Não podemos conseguir um trem especial?”, perguntou Lord Godalming. Van Helsing balançou a cabeça: “Temo que não. Esta terra é muito diferente da sua ou da minha; mesmo que tivéssemos um especial, provavelmente não chegaria tão cedo quanto o nosso trem regular. Além disso, temos algo a preparar. Devemos pensar. Agora, vamos nos organizar. Você, amigo Arthur, vá ao trem e pegue as passagens e providencie para que tudo esteja pronto para partirmos pela manhã. Você, amigo Jonathan, vá ao agente do navio e obtenha dele cartas para o agente em Galatz, com autoridade para revistar o navio assim como foi aqui. Quincey Morris, você procure o Vice-Cônsul e obtenha sua ajuda com seu colega em Galatz e tudo o que ele puder fazer para suavizar nosso caminho, para que não percamos tempo ao cruzar o Danúbio. John ficará com a Madame Mina e comigo, e consultaremos. Pois assim, se o tempo for longo, vocês podem se atrasar; e não importará quando o sol se puser, já que estou aqui com a Madame para fazer o relatório.”
“E eu”, disse a Sra. Harker alegremente, e mais parecida com sua antiga personalidade do que estivera em muitos longos dias, “tentarei ser útil de todas as maneiras, e pensarei e escreverei para vocês como costumava fazer. Algo está mudando em mim de uma maneira estranha, e sinto-me mais livre do que estive ultimamente!” Os três homens mais jovens pareceram mais felizes no momento, ao que parecia, ao compreenderem o significado de suas palavras; mas Van Helsing e eu, voltando-nos um para o outro, encontramos um olhar grave e perturbado. Não dissemos nada, no entanto, na ocasião.
Quando os três homens partiram para suas tarefas, Van Helsing pediu à Sra. Harker que procurasse a cópia dos diários e lhe encontrasse a parte do diário de Harker no Castelo. Ela saiu para buscá-la; quando a porta se fechou atrás dela, ele me disse:
“Nós queremos dizer o mesmo! Fale!”
“Há alguma mudança. É uma esperança que me deixa doente, pois pode nos enganar.”
“Exatamente. Você sabe por que pedi a ela que pegasse o manuscrito?”
“Não!”, disse eu, “a menos que fosse para ter a oportunidade de me ver sozinho.”
“Você está em parte certo, amigo John, mas apenas em parte. Quero lhe contar algo. E, oh, meu amigo, estou correndo um grande — um terrível — risco; mas acredito que é o correto. No momento em que a Madame Mina disse aquelas palavras que detiveram nosso entendimento, uma inspiração me veio. No transe de três dias atrás, o Conde enviou-lhe seu espírito para ler sua mente; ou, mais provavelmente, ele a levou para vê-lo em sua caixa de terra no navio, com a água correndo, exatamente como ele fica livre ao nascer e ao pôr do sol. Ele soube então que estamos aqui; pois ela tem mais a contar em sua vida desperta, com olhos para ver e ouvidos para ouvir, do que ele, fechado como está em sua caixa de caixão. Agora ele faz seu maior esforço para nos escapar. No momento, ele não a quer.
“Ele tem certeza, com seu vasto conhecimento, de que ela virá ao seu chamado; mas ele a cortou — tomou-a, como pode fazer, fora de seu próprio poder, para que ela não venha até ele. Ah! aí eu tenho esperança de que nossos cérebros humanos, que têm sido de homens há tanto tempo e que não perderam a graça de Deus, serão superiores ao seu cérebro infantil que jaz em sua tumba por séculos, que ainda não cresceu para a nossa estatura e que só faz trabalho egoísta e, portanto, pequeno. Aqui vem a Madame Mina; nem uma palavra a ela sobre seu transe! Ela não sabe disso; e isso a oprimiria e a levaria ao desespero justamente quando queremos toda a sua esperança, toda a sua coragem; quando mais queremos todo o seu grande cérebro, que é treinado como o cérebro humano, mas é de uma mulher doce e tem um poder especial que o Conde lhe deu e que ele não pode tirar completamente — embora ele não pense assim. Shh! deixe-me falar, e você aprenderá. Oh, John, meu amigo, estamos em apuros terríveis. Temo como nunca temi antes. Só podemos confiar no bom Deus. Silêncio! aí vem ela!”
Pensei que o Professor fosse desmoronar e ter um ataque de histeria, exatamente como teve quando Lucy morreu, mas com um grande esforço ele se controlou e estava em perfeito equilíbrio nervoso quando a Sra. Harker entrou saltitante na sala, brilhante e com aparência feliz e, no trabalho, aparentemente esquecida de sua miséria. Ao entrar, entregou várias folhas datilografadas a Van Helsing. Ele examinou-as gravemente, seu rosto iluminando-se enquanto lia. Então, segurando as páginas entre o polegar e o indicador, disse:
“Amigo John, para você com tanta experiência já — e você também, querida Madame Mina, que é jovem — aqui está uma lição: não tenha medo de pensar. Um meio-pensamento tem zumbido frequentemente em meu cérebro, mas eu temo deixá-lo soltar suas asas. Aqui agora, com mais conhecimento, volto para onde esse meio-pensamento veio e descubro que ele não é um meio-pensamento de todo; ele é um pensamento inteiro, embora tão jovem que ainda não é forte para usar suas pequenas asas. Não, como o “Patinho Feio” do meu amigo Hans Andersen, ele não é um pensamento-pato de todo, mas um grande pensamento-cisne que veleja nobremente em grandes asas, quando chega a hora de ele testá-las. Veja, leio aqui o que Jonathan escreveu:
“Aquele outro de sua raça que, em uma era posterior, repetidas vezes, trouxe suas forças através do Grande Rio para a Terra da Turquia; que, quando era derrotado, voltava, e voltava, e voltava, embora tivesse que vir sozinho do campo sangrento onde suas tropas estavam sendo massacradas, pois sabia que ele sozinho poderia finalmente triunfar.”
“O que isto nos diz? Não muito? não! O pensamento-criança do Conde não vê nada; portanto, ele fala tão livremente. O seu pensamento-humano não vê nada; o meu pensamento-humano não vê nada, até agora. Não! Mas vem outra palavra de alguém que fala sem pensar porque ela, também, não sabe o que significa — o que poderia significar. Assim como existem elementos que repousam, mas quando, no curso da natureza, eles se movem em seu caminho e se tocam — então, puf! e surge um flash de luz, amplo como o céu, que cega, mata e destrói alguns; mas que revela toda a terra abaixo por léguas e léguas. Não é assim? Bem, eu explicarei. Para começar, você já estudou a filosofia do crime? ‘Sim’ e ‘Não’. Você, John, sim; pois é um estudo da insanidade. Você, não, Madame Mina; pois o crime não a toca — não senão uma vez. Ainda assim, sua mente funciona corretamente e não argumenta *a particulari ad universale*. Há esta peculiaridade nos criminosos. É tão constante, em todos os países e em todos os tempos, que até a polícia, que não sabe muito de filosofia, chega a saber empiricamente que é. Isso é ser empírico. O criminoso trabalha sempre em um crime — esse é o verdadeiro criminoso que parece predestinado ao crime e que não quer nenhum outro. Este criminoso não tem o cérebro humano completo. Ele é inteligente, astuto e cheio de recursos; mas não é de estatura humana quanto ao cérebro. Ele é de cérebro infantil em muito. Ora, este nosso criminoso também está predestinado ao crime; ele também tem cérebro infantil, e é da criança fazer o que ele fez. O passarinho, o peixinho, o animalzinho não aprendem por princípio, mas empiricamente; e quando ele aprende a fazer, então há para ele o ponto de partida para fazer mais. ‘Dos pou sto’, disse Arquimedes. ‘Dê-me um ponto de apoio e moverei o mundo!’ Fazer uma vez é o ponto de apoio pelo qual o cérebro-criança se torna cérebro-homem; e até que ele tenha o propósito de fazer mais, ele continua a fazer a mesma coisa toda vez, exatamente como fez antes! Oh, minha querida, vejo que seus olhos estão abertos e que para você o flash do relâmpago mostra todas as léguas,” pois a Sra. Harker começou a bater palmas e seus olhos brilharam. Ele continuou:
“Agora você falará. Diga a nós, dois homens secos da ciência, o que você vê com esses olhos tão brilhantes.” Ele tomou sua mão e segurou-a enquanto ela falava. Seu polegar e indicador fecharam-se sobre seu pulso, como pensei, instintiva e inconscientemente, enquanto ela falava:
“O Conde é um criminoso e do tipo criminoso. Nordau e Lombroso o classificariam assim, e *quâ* criminoso, ele é de mente imperfeitamente formada. Assim, em uma dificuldade, ele tem que buscar recursos no hábito. Seu passado é uma pista, e a única página dele que conhecemos — e isso pelos seus próprios lábios — conta que uma vez antes, quando no que o Sr. Morris chamaria de ‘lugar apertado’, ele voltou para seu próprio país da terra que tentara invadir e, de lá, sem perder o propósito, preparou-se para um novo esforço. Ele voltou mais bem equipado para seu trabalho; e venceu. Então ele veio a Londres para invadir uma nova terra. Ele foi derrotado e, quando toda a esperança de sucesso estava perdida e sua existência em perigo, ele fugiu de volta pelo mar para sua casa; exatamente como anteriormente fugira de volta pelo Danúbio da Terra da Turquia.”
“Bom, bom! oh, você, dama tão inteligente!”, disse Van Helsing, entusiasticamente, enquanto se abaixava e beijava sua mão. Um momento depois, ele me disse, tão calmamente como se estivéssemos tendo uma consulta em um quarto de doente:
“Setenta e dois apenas; e em toda esta excitação. Eu tenho esperança.” Voltando-se para ela novamente, ele disse com grande expectativa:
“Mas continue. Continue! há mais a dizer se você quiser. Não tenha medo; John e eu sabemos. Eu sei, em qualquer caso, e lhe direi se você estiver certa. Fale, sem medo!”
“Tentarei; mas você me perdoará se eu parecer egocêntrica.”
“Não! não tema, você deve ser egocêntrica, pois é em você que pensamos.”
“Então, como ele é criminoso, ele é egoísta; e como seu intelecto é pequeno e sua ação é baseada no egoísmo, ele se limita a um propósito. Esse propósito é implacável. Como ele fugiu de volta pelo Danúbio, deixando suas forças para serem cortadas em pedaços, agora ele está decidido a estar seguro, descuidando de tudo. Portanto, seu próprio egoísmo liberta minha alma um pouco do poder terrível que ele adquiriu sobre mim naquela noite horrível. Eu senti! Oh, eu senti! Graças a Deus, por Sua grande misericórdia! Minha alma está mais livre do que esteve desde aquela hora terrível; e tudo o que me assombra é o medo de que, em algum transe ou sonho, ele possa ter usado meu conhecimento para seus fins.” O Professor levantou-se:
“Ele usou sua mente assim; e por isso nos deixou aqui em Varna, enquanto o navio que o levava corria através do nevoeiro envolvente até Galatz, onde, sem dúvida, ele fizera preparativos para escapar de nós. Mas sua mente infantil só via até aí; e pode ser que, como sempre acontece na Providência de Deus, a própria coisa com a qual o malfeitor mais contava para seu bem egoísta acabe sendo seu maior dano. O caçador é apanhado em sua própria armadilha, como diz o grande Salmista. Pois agora que ele pensa que está livre de qualquer rastro de todos nós, e que escapou de nós com tantas horas de vantagem, então seu cérebro egoísta de criança sussurrará para que ele durma. Ele pensa, também, que, como ele se cortou de conhecer sua mente, não pode haver conhecimento dele para você; é aí que ele falha! Aquele terrível batismo de sangue que ele lhe deu torna você livre para ir até ele em espírito, como você ainda tem feito em seus momentos de liberdade, quando o sol nasce e se põe. Nesses momentos, você vai por minha vontade e não pela dele; e este poder para o bem de você e de outros, como você ganhou de seu sofrimento em suas mãos. Isso agora é ainda mais precioso porque ele não sabe, e para se proteger até se cortou de seu conhecimento de onde estamos. Nós, no entanto, não somos egoístas e acreditamos que Deus está conosco através de toda essa escuridão e dessas muitas horas sombrias. Nós o seguiremos; e não vacilaremos; mesmo que nos arrisquemos a nos tornar como ele. Amigo John, esta tem sido uma grande hora; e fez muito para nos adiantar em nosso caminho. Você deve ser o escriba e escrever tudo, para que, quando os outros retornarem de seu trabalho, você possa dar a eles; então eles saberão como nós sabemos.”
E assim eu escrevi enquanto esperamos seu retorno, e a Sra. Harker escreveu com sua máquina de escrever tudo desde que nos trouxe o manuscrito.
CAPÍTULO XXVI
DIÁRIO DO DR. SEWARD
29 de outubro. — Isto está sendo escrito no trem de Varna para Galatz. Ontem à noite, todos nos reunimos um pouco antes do pôr do sol. Cada um de nós fizera seu trabalho tão bem quanto pôde; até onde o pensamento, o esforço e a oportunidade permitem, estamos preparados para todo o nosso trajeto e para nosso trabalho quando chegarmos a Galatz. Quando o horário habitual chegou, a Sra. Harker preparou-se para seu esforço hipnótico; e, após um esforço mais longo e sério por parte de Van Helsing do que o geralmente necessário, ela afundou no transe. Geralmente ela fala por uma dica; mas desta vez o Professor teve que lhe fazer perguntas, e fazê-las com bastante firmeza, antes que pudéssemos aprender qualquer coisa; finalmente, sua resposta veio:
“Não consigo ver nada; estamos parados; não há ondas batendo, apenas um redemoinho constante de água correndo suavemente contra o cabo. Posso ouvir vozes de homens chamando, perto e longe, e o movimento e o ranger de remos nos toletes. Um tiro é disparado em algum lugar; o eco parece distante. Há passos acima de mim, e cordas e correntes são arrastadas. O que é isto? Há um brilho de luz; posso sentir o ar soprando sobre mim.”
Aqui ela parou. Ela se levantou, como se impulsivamente, de onde jazia no sofá, e ergueu ambas as mãos, as palmas para cima, como se levantasse um peso. Van Helsing e eu nos olhamos com compreensão. Quincey arqueou levemente as sobrancelhas e a observou atentamente, enquanto a mão de Harker instintivamente fechou‑se em torno da empunhadura de seu kukri. Houve uma longa pausa. Todos sabíamos que o tempo em que ela poderia falar estava passando; mas sentíamos que seria inútil dizer algo. De repente ela sentou‑se, e, ao abrir os olhos, disse docemente:--
“Não gostaria nenhum de vós de uma chávena de chá? Devem estar todos tão cansados!” Só podíamos agradá‑la, e assim consentimos. Ela apressou‑se a buscar o chá; quando se foi, Van Helsing disse:--
“Vedes, meus amigos. Ele está próximo da terra: deixou seu baú terrestre. Mas ainda não chegou à costa. À noite pode estar oculto em algum lugar; mas se não for trazido à terra, ou se o navio não a tocar, não pode alcançar a terra. Nesse caso, se for de noite, pode mudar de forma e saltar ou voar até a costa, como fez em Whitby. Mas se o dia chegar antes que ele chegue à costa, então, a menos que seja transportado, não poderá escapar. E se for transportado, então os alfandegários poderão descobrir o que a caixa contém. Assim, em suma, se não escapar à terra esta noite, ou antes do amanhecer, perderá todo o dia. Poderemos então chegar a tempo; pois se não escapar à noite, encontrá‑lo‑emos de dia, enjaulado e à nossa mercê; pois ele não ousa ser seu verdadeiro eu, desperto e visível, sob risco de ser descoberto.”
Não havia mais o que dizer, então esperámos pacientemente até o amanhecer; a hora em que poderíamos aprender mais com a Sra. Harker.
Na manhã cedo escutámos, com ansiedade sem fôlego, a sua resposta no transe. O estágio hipnótico demorou ainda mais a chegar do que antes; e quando chegou o tempo que restava até o nascer completo do sol era tão curto que começámos a desesperar‑nos. Van Helsing parecia lançar toda a sua alma no esforço; finalmente, obedecendo à sua vontade, ela respondeu:--
“Tudo está escuro. Ouço água batendo, ao nível de mim, e algum rangido como de madeira sobre madeira.” Ela fez pausa, e o sol vermelho subiu. Devemos esperar até à noite.
E assim é que viajamos rumo a Galatz numa agonia de expectativa. Deveríamos chegar entre duas e três da manhã; mas já, em Bucareste, estamos com três horas de atraso, de sorte que não poderemos chegar antes de muito depois do nascer do sol. Assim teremos duas mensagens hipnóticas mais da Sra. Harker; uma ou ambas poderão lançar mais luz sobre o que está a acontecer.
* * * * *
Depois.--O pôr‑do‑sol chegou e passou. Felizmente chegou num momento em que não havia distrações; pois se houvesse ocorrido enquanto estávamos numa estação, talvez não tivéssemos conseguido o necessário silêncio e isolamento. A Sra. Harker cedeu à influência hipnótica ainda menos prontamente do que esta manhã. Temo que o seu poder de ler as sensações do Conde possa desaparecer, justamente quando mais precisamos. Parece‑me que a sua imaginação está a começar a funcionar. Enquanto esteve no transe até então, limitou‑se aos fatos mais simples. Se isso prosseguir, poderá eventualmente enganar‑nos. Se eu pensasse que o poder do Conde sobre ela desapareceria tão rapidamente quanto o seu poder de conhecimento, seria um pensamento feliz; mas receio que não seja assim. Quando ela falou, as suas palavras foram enigmáticas:--
“Algo está a sair; sinto‑a passar por mim como um vento frio. Ouço, ao longe, sons confusos—como de homens a falar em línguas estranhas, água a cair furiosa, e o uivo dos lobos.” Ela parou e um calafrio percorreu‑lhe o corpo, intensificando‑se por alguns segundos, até, no final, tremer como se estivesse em paralisia. Não disse mais nada, mesmo em resposta ao interrogatório imperativo do Professor. Quando despertou do transe, estava fria, exausta e lânguida; mas a mente estava alerta. Não se lembrava de nada, mas perguntou o que dissera; quando lhe foi dito, ponderou sobre isso por muito tempo, em silêncio.
* * * * *
30 de outubro, 7 h.--Estamos perto de Galatz
A caixa foi entregue a Skinsky antes do nascer do sol. Ao nascer do sol, o Conde poderia aparecer em sua própria forma. Aqui, perguntamos por que Skinsky foi escolhido para ajudar na obra? No diário de meu marido, Skinsky é mencionado como lidando com os eslovacos que negociam rio abaixo até o porto; e o comentário do homem, de que o assassinato fora obra de um eslovaco, mostrou o sentimento geral contra sua classe. O Conde desejava isolamento.
Minha suposição é a seguinte: em Londres o Conde decidiu retornar ao seu castelo por água, como a via mais segura e secreta. Foi trazido do castelo por Szgany, e provavelmente entregaram sua carga aos eslovacos que levaram as caixas a Varna, onde foram embarcadas para Londres. Assim, o Conde tinha conhecimento das pessoas que podiam providenciar esse serviço. Quando a caixa estava em terra, antes do nascer ou após o pôr do sol, ele saiu de sua caixa, encontrou Skinsky e lhe instruiu o que fazer para organizar o transporte da caixa rio acima. Quando isso foi feito, e ele soube que tudo estava encaminhado, apagou seus rastros, como pensou, assassinando seu agente.
Examinei o mapa e constato que o rio mais adequado para os eslovacos ascenderem é o Prut ou o Sereth. Leio no manuscrito que, em transe, ouvi o mugido das vacas e a água girando ao nível dos meus ouvidos e o ranger da madeira. O Conde, em sua caixa, então, estava num rio em um barco aberto — impulsionado provavelmente por remos ou por varas, pois as margens são próximas e o movimento é contra a corrente. Não haveria tal som se estivesse à deriva corrente abaixo.
É claro que pode não ser nem o Sereth nem o Prut, mas podemos investigar mais a fundo. Desses dois, o Prut é o mais facilmente navegável, mas o Sereth, em Fundu, recebe o Bistritza que corre ao redor da Passagem do Borgo. O laço que forma está manifestamente tão próximo do castelo de Drácula quanto se pode chegar por água.
Jornal de Mina Harker — continuação.
Quando terminei a leitura, Jonathan me tomou nos braços e me beijou. Os outros continuaram sacudindo-me pelas duas mãos, e o Dr. Van Helsing disse:
— “Nossa cara senhora Mina é mais uma vez nossa mestra. Seus olhos foram onde fomos cegos. Agora estamos de volta ao caminho, e desta vez podemos ter sucesso. Nosso inimigo está em seu ponto mais vulnerável; e se pudermos alcançá‑lo de dia, na água, nossa tarefa terminará. Ele tem vantagem, mas está impedido de acelerar, pois não pode deixar sua caixa, sob pena de quem o transporta suspeitar; suspeitar seria incitá‑los a jogá‑lo ao corrente onde pereceria. Ele sabe disso e não o fará. Agora, homens, ao nosso Conselho de Guerra; pois, aqui e agora, devemos planejar o que cada um fará.”
— “Providenciarei uma lancha a vapor e o seguirei”, disse Lord Godalming.
— “E eu, cavalos para seguir na margem, caso ele desembarque por acaso”, disse Sr. Morris.
— “Bom!” exclamou o Professor, “ambos bons. Mas nenhum deve ir sozinho. Deve haver força para superar a força, se necessário; o eslovaco é forte e rude, e porta armas brutas.” Todos sorriram, pois entre eles carregavam um pequeno arsenal. Disse Sr. Morris:
— “Trouxe alguns Winchesters; são bastante úteis em multidão, e pode haver lobos. O Conde, se bem se lembra, tomou outras precauções; fez algumas requisições a outros que a Sra. Harker não pôde ouvir ou compreender bem. Devemos estar prontos em todos os pontos.” Dr. Seward acrescentou:
— “Creio que seja melhor ir com Quincey. Habitualmente caçamos juntos, e nós dois, bem armados, seremos páreo para o que vier. Não deves ficar só, Art. Pode ser necessário lutar contra os eslovacos, e um empurrão inesperado — pois não suponho que esses rapazes levem armas — desfaria todos os nossos planos. Não pode haver acaso, desta vez; não descansaremos até que a cabeça e o corpo do Conde estejam separados, e tenhamos certeza de que não pode reencarnar.” Olhou para Jonathan ao falar, e Jonathan me encarou. Pude ver que o pobre estava dividido em sua mente. Claro que queria estar comigo; mas então o serviço de barco seria, muito provavelmente, o que destruiria o … o … o … Vampiro. (Por que hesitei em escrever a palavra?) Ficou em silêncio por um tempo, e durante seu silêncio o Dr. Van Helsing disse:
— “Amigo Jonathan, isto é para ti por duas razões. Primeiro, porque és jovem, valente e podes lutar, e todas as energias poderão ser necessárias no final; e novamente, porque é teu direito destruí‑lo — aquele que causou tanto infortúnio a ti e aos teus. Não temas por Mina; ela estará sob meus cuidados, se me for permitido. Sou velho. Minhas pernas já não são tão rápidas como antes; não estou habituado a cavalgar tanto tempo ou a perseguir como necessário, nem a lutar com armas letais. Mas posso ser útil de outra forma; posso lutar de outra maneira. E posso morrer, se preciso, como os mais jovens. Digo então o que pretendo: enquanto tu, Lord Godalming e o amigo Jonathan percorrem o rio em vossa rápida lancha, e enquanto John e Quincey vigiam a margem onde ele possa desembarcar, levarei Mina ao coração da terra inimiga. Enquanto a velha raposa está presa em sua caixa, flutuando na correnteza que não lhe permite alcançar a terra — onde ousa não levantar a tampa de seu caixão‑caixa, temendo que seus carregadores eslovacos o abandonem para perecer — iremos na trilha onde Jonathan foi — da Bistritz ao Borgo — e encontraremos o caminho até o Castelo de Drácula. Ali o poder hipnótico de Mina certamente ajudará, e encontraremos nosso caminho — todo escuro e desconhecido de outra forma — após o primeiro nascer do sol, quando estivermos próximos daquele lugar fatídico. Há muito a fazer, e outros locais a santificar, para que aquele ninho de víboras seja obliterado.” Jonathan interrompeu‑o calorosamente:
— “Dizes, Professor Van Helsing, que levarias Mina, em seu triste caso e maculada como está com essa doença demoníaca, direto às garras da sua armadilha mortal? Nem por o mundo! Nem por céu ou inferno!” Ficou quase mudo por um minuto, então prosseguiu:
— “Sabes onde está o lugar? Já viste aquele abismo infame, onde a luz da lua está viva com formas horríveis, e cada partícula de poeira que gira ao vento é um monstro devorador em embrião? Sentiste os lábios do Vampiro sobre tua garganta?” Voltou‑se para mim, e ao ver meu rosto erguiu os braços num grito:
— “Oh, meu Deus, o que fizemos para ter esse terror sobre nós!” e desabou no sofá, consumido pela miséria. A voz do Professor, ao falar em tons claros e doces que pareciam vibrar no ar, acalmou‑nos a todos:
— “Oh, amigo, é porque desejaria salvar Mina daquele lugar horrendo que pretendo ir. Deus me livre de levá‑la a esse local. Há trabalho — trabalho selvagem — a ser feito ali, que seus olhos não podem ver. Nós, homens aqui, salvo Jonathan, já vimos com nossos próprios olhos o que deve ser feito antes que aquele lugar seja purificado. Lembrai‑vos que estamos em situação terrível. Se o Conde nos escapar desta vez — e ele é forte, sutil e astuto — pode escolher dormir cem anos, e então, em tempo, nossa querida” — segurou minha mão — “virá a ele para lhe fazer companhia, e será como aqueles outros que tu, Jonathan, viste. Falaste dos lábios zombeteiros; ouviste o riso rústico ao segurarem o saco que o Conde lhes lançou. Arrependes‑te; e bem pode ser. Perdoa‑me por causar‑te tanta dor, mas é necessário. Amigo, não é talvez um dever tão grave que demande a minha vida? Se alguém fosse permanecer naquele lugar, seria eu quem teria de ir fazer-lhe companhia.”
— “Faça como quiseres”, disse Jonathan, com um soluço que o sacudiu todo, “estamos nas mãos de Deus!”
* * * *
Mais tarde. — Ah, fez‑me bem ver como esses bravos homens operavam. Como podem as mulheres ajudar os homens amados quando são tão empenhados, tão verdadeiros, tão corajosos! E, também, fez‑me refletir sobre o maravilhoso poder do dinheiro! O que não pode fazer quando bem aplicado; e o que pode fazer quando usado vilmente. Senti‑me tão agradecida por Lord Godalming ser rico, e por ele e Sr. Morris, que também tem abundância, estarem dispostos a despender tal fortuna. Pois se não o fizessem, nossa pequena expedição não poderia começar tão prontamente nem tão bem equipada, como será dentro de outra hora. Não se passaram três horas desde que se definiu que parte cada um deveria desempenhar; e agora Lord Godalming e Jonathan dispõem de uma adorável lancha a vapor, já a vapor, pronta a zarpar a qualquer instante. Dr. Seward e Sr. Morris têm meia dúzia de bons cavalos, bem equipados. Temos todos os mapas e utensílios de vários tipos que se podem obter. O Professor Van Helsing e eu partiremos de trem às 11h40 desta noite para Veresti, onde pegaremos uma carruagem rumo à Passagem do Borgo. Levamos bom dinheiro, pois compraremos carruagem e cavalos. Iremos nós mesmos, pois não temos quem confiar. O Professor domina muitas línguas, assim tudo correrá bem. Todos estamos armados, inclusive eu com um revólver de calibre grande; Jonathan não ficaria feliz se eu não estivesse armado como os demais. Ai de mim! Não posso portar a mesma arma que os outros; a cicatriz em minha testa impede. O querido Dr. Van Helsing conforta‑me dizendo que estamos plenamente armados caso hajam lobos; o clima esfria a cada hora, e há flocos de neve que vêm e vão como avisos.
* * * *
Mais tarde. — Tive de reunir toda a coragem para dizer adeus ao meu amado. Talvez nunca mais nos encontremos. Coragem, Mina! O Professor te observa atentamente; seu olhar é um aviso. Não pode haver lágrimas agora — a não ser que Deus as deixe cair em alegria.
Jornal de Jonathan Harker.
30 de outubro. Noite. — Escrevo isto à luz da porta da fornalha da lancha a vapor: Lord Godalming está a preparar tudo. Ele tem experiência, pois já possui lancha própria no Tâmisa há anos, e outra nos Norfolk Broads. Quanto aos nossos planos, decidimos finalmente que a intuição de Mina estava correta, e que, se algum caminho aquático fosse escolhido para a fuga do Conde ao seu castelo, seria o Sereth e, depois, o Bistritza na sua confluência. Concluímos que por volta do 47.º grau de latitude norte seria o ponto escolhido para cruzar o país entre o rio e os Cárpatos. Não tememos subir a boa velocidade rio acima à noite; há água abundante, e as margens são suficientemente espaçadas para que a navegação, mesmo na escuridão, seja fácil. Lord Godalming diz‑me que durma um pouco, pois basta por ora vigiar. Mas não consigo dormir — como poderia, com o terrível perigo pairando sobre minha amada, e ela se aventurando naquele lugar horrendo… Só me conforta saber que estamos nas mãos de Deus. Apenas por essa fé seria mais fácil morrer que viver, e assim ficar livre de todo o tormento. Sr. Morris e Dr. Seward partiram antes de nós em longa viagem; devem manter a margem direita, longe o bastante para alcançar terras mais altas onde possam observar um bom trecho do rio e evitar as curvas. Nos primeiros estágios, levarão dois homens a cavalo para conduzir os cavalos de reserva — quatro no total, para não levantar suspeitas. Quando dispensarem esses homens, o que será breve, cuidarão dos próprios cavalos. Talvez seja necessário juntarmos forças; se for, poderão montar todo o nosso grupo. Uma das selas tem chifre móvel e pode ser facilmente adaptada para Mina, se necessário.
É uma aventura selvagem que vivemos. Aqui, enquanto corremos na escuridão, o frio do rio parece subir e nos atingir; com todas as vozes misteriosas da noite ao nosso redor, tudo se torna claro. Sentimo‑nos à deriva em lugares e caminhos desconhecidos; num mundo inteiro de coisas sombrias e terríveis. Godalming está fechando a porta da fornalha…
* * * *
31 de outubro. — Ainda a pressa. O dia chegou, e Godalming dorme. Estou de vigia. A manhã está amargamente fria; o calor da fornalha é bem‑vindo, embora usemos casacos de pele pesada. Até agora passámos apenas por algumas barcas abertas, mas nenhuma transportava caixa ou pacote do tamanho da que procuramos. Os homens estremeciam sempre que acendíamos nossa lâmpada elétrica sobre eles, ajoelhando‑se e rezando.
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1 de novembro, noite. — Nenhuma notícia o dia inteiro; nada do tipo que buscamos. Agora adentramos o Bistritza; se nossa suposição estiver errada, nossa chance se esvai. Revistamos cada embarcação, grande e pequena. Cedo nesta manhã, uma tripulação nos confundiu com barco do governo e nos tratou como tal. Vimos nisso uma forma de facilitar as coisas; assim, em Fundu, onde o Bistritza deságua no Sereth, izamos uma bandeira romena que agora tremula conspicuamente. Desde então, todo barco que abordamos tem aceitado o truque; recebemos toda deferência, sem jamais encontrar objeção ao que pedimos ou fazemos. Alguns eslovacos contam que viram um grande barco que os ultrapassou, a toda velocidade, pois trazia tripulação dupla. Isso foi antes de chegar a Fundu, então não sabem se o barco seguiu ao Bistritza ou continuou o Sereth. Em Fundu não ouvimos falar de tal embarcação, logo deve ter passado lá à noite. Estou muito sonolento; o frio talvez esteja começando a me afetar, e a natureza precisa de repouso. Godalming insiste em manter a primeira vigia. Que Deus o abençoe por toda sua bondade para com a querida Mina e comigo.
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2 de novembro, manhã. — É plena luz do dia. O bom sujeito não me acordou. Diz que seria pecado, pois eu dormia tranquilamente e esquecia meus problemas. Parece-me brutalmente egoísta ter dormido tanto, deixando‑o vigiar a noite inteira; porém ele tinha razão. Estou outro homem esta manhã; ao vê‑lo dormir, sinto que posso cuidar tanto da máquina, da navegação quanto da vigia. Sinto minha força e energia retornarem. Pergunto‑me onde está Mina agora, e Van Helsing. Deviam ter chegado a Veresti ao meio‑dia de quarta‑feira. Levará tempo para conseguirem carruagem e cavalos; se partiram e viajaram rápido, já deveriam estar na Passagem do Borgo. Que Deus os guie e os ajude! Temo o que pode acontecer. Se apenas pudéssemos acelerar! Mas não podemos; os motores batem e dão o máximo. Pergunto‑me como Dr. Seward e Sr. Morris estão. Parece haver inúmeros córregos descendo das montanhas para este rio, mas nenhum muito grande — ao menos por ora — embora no inverno e ao derreter a neve sejam terríveis. Os cavaleiros talvez não encontrem muita obstrução. Espero que antes de chegarmos a Strasba possamos avistá‑los; pois se até lá ainda não alcançarmos o Conde, será preciso deliberar juntos o próximo passo.
Diário de Dr. Seward.
2 de novembro. — Três dias na estrada. Sem notícias, e sem tempo para escrever se houvesse, pois cada momento é precioso. Só descansamos o necessário para os cavalos; mas ambos suportamos isso admiravelmente. Aqueles dias de aventura estão se mostrando úteis. Devemos prosseguir; nunca nos sentiremos felizes enquanto a lancha não reapareça ao longe.
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3 de novembro. — Ouvi‑nos em Fundu que a lancha subiu o Bistritza. Gostaria que não estivesse tão frio. Há sinais de neve chegando; se cair forte, nos impedirá. Nesse caso, devemos buscar um trenó e seguir, ao estilo russo.
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4 de novembro. — Hoje soubemos que a lancha foi detida por um acidente ao tentar forçar o caminho nas corredeiras. Os barcos eslovacos sobem bem, usando cabos e direção experiente. Alguns subiram apenas algumas horas antes. Godalming é um mecânico amador e evidentemente foi ele quem reajustou a lancha. Finalmente, subiram as corredeiras com ajuda local e retomaram a perseguição. Receio que a embarcação não esteja melhor após o acidente; os camponeses dizem que, depois de voltar à água calma, ela parava frequentemente enquanto ainda estava à vista. Devemos avançar mais que nunca; nossa ajuda poderá ser necessária em breve.
Jornal de Mina Harker.
31 de outubro. — Chegamos a Veresti ao meio‑dia. O Professor me contou que esta manhã ao amanhecer mal conseguiu me hipnotizar, e tudo que consegui dizer foi: “escuro e silencioso”. Ele está agora comprando carruagem e cavalos. Pretende, mais tarde, adquirir cavalos adicionais para trocá‑los ao longo do caminho. Restam-nos pouco mais de 70 milhas. A terra é linda e muito interessante; se estivéssemos sob outras condições, como seria maravilhoso percorrê‑la toda. Se Jonathan e eu a cruzássemos sozinhos, que prazer! Parar, ver as gentes, aprender sobre suas vidas, encher nossas mentes e memórias da cor e da pitorescância de toda a selva exuberante, do país belo e das gentes singelas! Mas, ai!
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Depois. — O Dr. Van Helsing retornou. Trouxe carruagem e cavalos; vamos jantar e partir dentro de uma hora. A hospedeira está preparando um grande cesto de mantimentos; parece suficiente para uma companhia de soldados. O Professor a incentiva, sussurrando que talvez demore uma semana até encontrarmos boa comida novamente. Ele também fez compras, enviando para casa um maravilhoso lote de casacos de pele e mantas, e todo tipo de roupas quentes. Não haverá risco de sentirmo‑nos frios.
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Partiremos em breve. Temo o que nos poderá acontecer. Estamos realmente nas mãos de Deus. Só Ele sabe o que pode ser, e eu rogo‑Lhe, com toda a força da minha triste e humilde alma, que cuide de meu amado marido; que, aconteça o que acontecer, Jonathan saiba que o amei e o honrei mais do que posso dizer, e que meu pensamento mais recente e sincero será sempre por ele.
1 de novembro. -- Viajámos durante todo o dia, e a bom ritmo. Os cavalos parecem saber que estão a ser bem tratados, pois seguem voluntariamente o seu percurso à velocidade máxima. Tivemos já tantas trocas e constatamos o mesmo tão constantemente que nos sentimos encorajados a pensar que a viagem será fácil. O Dr. Van Helsing é lacónico; diz aos lavradores que tem pressa em chegar a Bistritz e paga-lhes bem para efetuarem a troca de cavalos. Recebemos sopa quente, ou café, ou chá; e lá vamos nós. É uma terra adorável; cheia de belezas de todos os tipos imagináveis, e as pessoas são corajosas, e fortes, e simples, e parecem repletas de boas qualidades. São muito, muito supersticiosas. Na primeira casa onde parámos, quando a mulher que nos serviu viu a cicatriz na minha testa, persignou-se e estendeu-me dois dedos para afastar o mau-olhado. Creio que se deram ao trabalho de colocar uma quantidade extra de alho na nossa comida; e eu não suporto alho. Desde então, tenho tido o cuidado de não tirar o chapéu ou o véu e, assim, escapei às suas suspeitas. Viajamos depressa e, como não temos cocheiro connosco para levar mexericos, vamos à frente do escândalo; mas arrisco dizer que o medo do mau-olhado nos seguirá de perto por todo o caminho. O Professor parece incansável; durante todo o dia não quis descansar, embora me tenha obrigado a dormir por um longo período. À hora do pôr do sol, hipnotizou-me, e diz ele que respondi como de costume: "escuridão, água a bater e madeira a ranger"; pelo que o nosso inimigo continua no rio. Tenho medo de pensar no Jonathan, mas, de alguma forma, não sinto agora medo por ele, nem por mim. Escrevo isto enquanto esperamos numa quinta que preparem os cavalos. O Dr. Van Helsing está a dormir. Pobre querido, parece muito cansado, velho e grisalho, mas a sua boca está cerrada tão firmemente como a de um conquistador; mesmo a dormir, ele é o próprio instinto de resolução. Quando tivermos partido, hei de obrigá-lo a descansar enquanto conduzo. Dir-lhe-ei que temos dias pela frente e que não podemos colapsar precisamente quando a sua força for mais necessária... Tudo está pronto; partimos em breve.
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2 de novembro, manhã. -- Fui bem-sucedida e revezamo-nos a conduzir durante toda a noite; agora o dia caiu sobre nós, brilhante ainda que frio. Há um estranho peso no ar -- digo peso por falta de melhor palavra; quero dizer que nos oprime a ambos. Está muito frio e apenas as nossas peles quentes nos mantêm confortáveis. Ao amanhecer, Van Helsing hipnotizou-me; diz que respondi "escuridão, madeira a ranger e água a rugir", pelo que o rio está a mudar à medida que ascendem. Espero sinceramente que o meu querido não corra qualquer risco de perigo -- mais do que o necessário; mas estamos nas mãos de Deus.
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2 de novembro, noite. -- A conduzir durante todo o dia. O país torna-se mais selvagem à medida que avançamos, e os grandes contrafortes dos Cárpatos, que em Veresti pareciam tão distantes e tão baixos no horizonte, parecem agora reunir-se em redor de nós e elevar-se à nossa frente. Parecemos ambos bem-dispostos; creio que fazemos um esforço, cada um, para animar o outro; e, ao fazê-lo, animamo-nos a nós mesmos. O Dr. Van Helsing diz que pela manhã chegaremos ao Passo de Borgo. As casas são já muito poucas aqui, e o Professor diz que o último cavalo que obtivemos terá de continuar connosco, pois talvez não consigamos trocar. Ele conseguiu dois além dos dois que trocámos, pelo que agora temos uma parelha de quatro, ainda que rudimentar. Os queridos cavalos são pacientes e bons, e não nos dão trabalho. Não somos incomodados por outros viajantes, e por isso até eu posso conduzir. Chegaremos ao Passo à luz do dia; não queremos chegar antes. Por isso, vamos com calma e cada um de nós descansa longamente por turnos. Oh, o que nos trará o dia de amanhã? Vamos procurar o local onde o meu pobre querido tanto sofreu. Deus permita que sejamos guiados pelo caminho certo e que Ele se digne a velar pelo meu marido e por aqueles que nos são caros, e que se encontram em tão mortal perigo. Quanto a mim, não sou digna aos Seus olhos. Ai de mim! Estou impura perante Ele, e estarei até que Ele se digne a deixar-me apresentar perante a Sua vista como uma daquelas que não incorreram na Sua ira.
Memorando de Abraham Van Helsing.
4 de novembro. -- Isto para o meu antigo e verdadeiro amigo John Seward, M.D., de Purfleet, Londres, caso eu não o veja. Poderá explicar. É de manhã e escrevo junto a um fogo que mantive vivo durante toda a noite -- com a ajuda da Senhora Mina. Está frio, frio; tão frio que o céu cinzento e pesado está cheio de neve, que, quando cair, ficará por todo o inverno, pois o solo está a endurecer para a receber. Parece ter afetado a Senhora Mina; tem estado tão pesada de cabeça durante todo o dia que não parecia ela própria. Dorme, e dorme, e dorme! Ela, que é habitualmente tão alerta, não fez literalmente nada durante todo o dia; até perdeu o apetite. Não faz qualquer entrada no seu pequeno diário, ela que escreve tão fielmente a cada pausa. Algo sussurra-me que nem tudo está bem. Contudo, esta noite ela está mais vif. O seu longo sono durante o dia refrescou-a e restaurou-a, pois agora está doce e radiante como sempre. Ao pôr do sol, tentei hipnotizá-la, mas, ai de mim! sem qualquer efeito; o poder tem diminuído dia após dia, e esta noite falhou-me por completo. Bem, faça-se a vontade de Deus -- seja ela qual for, e para onde quer que conduza!
Agora, para o histórico, pois como a Senhora Mina não escreve na sua estenografia, devo fazê-lo eu, à minha maneira antiga e desajeitada, para que cada dia nosso não fique sem registo.
Chegámos ao Passo de Borgo pouco depois do nascer do sol, ontem de manhã. Quando vi os sinais do amanhecer, preparei-me para o hipnotismo. Parámos a nossa carruagem e descemos para que não houvesse perturbação. Fiz um leito com peles e a Senhora Mina, deitando-se, entregou-se como de costume, mas de forma mais lenta e por menos tempo do que nunca, ao sono hipnótico. Como antes, veio a resposta: "escuridão e o remoinho da água". Depois, acordou, brilhante e radiante, e seguimos o nosso caminho, chegando em breve ao Passo. Nesta altura e local, ela tornou-se toda fogo e zelo; um novo poder de orientação manifestou-se nela, pois apontou para uma estrada e disse:--
"É por aqui."
"Como o sabes?", perguntei.
"É claro que o sei", respondeu ela, e, após uma pausa, acrescentou: "Não terá o meu Jonathan percorrido este caminho e escrito sobre a sua viagem?"
De início, achei algo estranho, mas logo vi que só existe uma estrada secundária como aquela. É pouco utilizada e muito diferente da estrada de diligências da Bucovina para Bistritz, que é mais larga, dura e de uso comum.
Assim, descemos por esta estrada; quando encontrávamos outros caminhos -- nem sempre tínhamos a certeza de que fossem de todo estradas, pois estavam abandonadas e caíra neve leve -- os cavalos sabiam, e apenas eles. Dei-lhes rédea solta e eles seguiram tão pacientes. Pouco a pouco, encontrámos todas as coisas que o Jonathan tinha anotado naquele seu maravilhoso diário. Depois, continuámos por longas, longas horas. A princípio, disse à Senhora Mina para dormir; ela tentou e conseguiu. Dormiu durante todo o tempo; até que, por fim, senti-me demasiado desconfiado e tentei acordá-la. Mas ela continuou a dormir, e eu não consegui acordá-la, por mais que tentasse. Não quis insistir demasiado para não a magoar; pois sei que ela sofreu muito, e o sono, por vezes, é tudo para ela. Creio que eu próprio adormeci, pois, de repente, senti-me culpado, como se tivesse feito algo; dei por mim a saltar, com as rédeas na mão, e os bons cavalos a trotar, trot, trot, exatamente como sempre. Olhei para baixo e encontrei a Senhora Mina ainda a dormir. Não falta muito para a hora do pôr do sol, e sobre a neve a luz do sol flui num grande rio amarelo, de modo que projetamos longas e grandes sombras onde a montanha se eleva tão íngreme. Pois estamos a subir, e a subir; e tudo é, oh!, tão selvagem e rochoso, como se fosse o fim do mundo.
Então, despertei a Senhora Mina. Desta vez, acordou sem grande dificuldade, e tentei colocá-la em sono hipnótico. Mas ela não dormiu, estando como se eu não existisse. Ainda assim, tentei e tentei, até que, de repente, encontrei-me a mim e a ela na escuridão; olhei então à volta e descobri que o sol se tinha posto. A Senhora Mina riu-se, e eu virei-me e olhei para ela. Está agora perfeitamente acordada e parece tão bem como nunca a vi desde aquela noite em Carfax, quando entrámos pela primeira vez na casa do Conde. Fiquei espantado e não me senti tranquilo; mas ela está tão radiante, terna e atenciosa comigo que me esqueci de todo o medo. Acendi um fogo, pois trouxemos provisões de madeira connosco, e ela preparou a comida enquanto eu desatrelei os cavalos e os coloquei, atados em local abrigado, a comer. Depois, quando regressei ao fogo, ela tinha a minha ceia pronta. Fui ajudá-la; mas ela sorriu e disse-me que já tinha comido -- que estava com tanta fome que não quis esperar. Não gostei disto, e tenho graves dúvidas; mas temo assustá-la, por isso silenciei. Ela ajudou-me e eu comi sozinho; depois, embrulhámo-nos em peles e deitámo-nos junto ao fogo, e eu disse-lhe para dormir enquanto eu vigiava. Mas, pouco depois, esqueci-me de vigiar; e quando subitamente me lembrei de que estava a vigiar, encontrei-a deitada, quieta, mas acordada, a olhar para mim com olhos tão brilhantes. Uma, duas vezes mais ocorreu o mesmo, e consegui dormir muito até antes da manhã. Quando acordei, tentei hipnotizá-la; mas, ai de mim!, embora fechasse os olhos obediente, não conseguiu dormir. O sol subiu, e subiu, e subiu; e então o sono veio para ela demasiado tarde, mas tão pesado que ela não acordava. Tive de a levantar e colocá-la a dormir na carruagem, depois de ter atrelado os cavalos e ter tudo pronto. A senhora ainda dorme, e parece, no seu sono, mais saudável e mais corada do que antes. E eu não gosto disto. E tenho medo, medo, medo! -- tenho medo de todas as coisas -- até de pensar, mas tenho de seguir o meu caminho. A aposta que fazemos é de vida ou morte, ou mais do que isso, e não podemos vacilar.
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5 de novembro, manhã. -- Deixe-me ser preciso em tudo, pois, embora você e eu tenhamos visto algumas coisas estranhas juntos, poderá de início pensar que eu, Van Helsing, estou louco -- que os muitos horrores e a tão longa tensão sobre os nervos me deram, por fim, cabo do cérebro.
Todo o dia de ontem viajámos, aproximando-nos cada vez mais das montanhas e entrando numa terra cada vez mais selvagem e deserta. Há grandes precipícios ameaçadores e muita água a cair, e a Natureza parece ter realizado algures o seu carnaval. A Senhora Mina continua a dormir e a dormir; e embora eu tenha sentido fome e a tenha saciado, não a consegui acordar -- nem para comer. Comecei a temer que o feitiço fatal do lugar estivesse sobre ela, maculada como está por esse batismo Vampírico. "Bem", disse eu para mim mesmo, "se é que ela dorme todo o dia, será também que eu não durmo à noite." Enquanto viajávamos na estrada rude, pois uma estrada de tipo antigo e imperfeito existia, mantive a cabeça baixa e dormi. Acordei novamente com uma sensação de culpa e de tempo passado, e encontrei a Senhora Mina ainda a dormir, e o sol baixo. Mas tudo estava de facto mudado; as montanhas ameaçadoras pareciam mais distantes, e estávamos perto do topo de uma colina íngreme, em cujo cume estava um castelo tal como o Jonathan descreve no seu diário. Imediatamente exultei e temi; pois agora, para o bem ou para o mal, o fim estava próximo.
Acordei a Senhora Mina e tentei novamente hipnotizá-la; mas, ai de mim!, sem sucesso até ser tarde demais. Depois, antes que a grande escuridão caísse sobre nós -- pois mesmo após o pôr do sol os céus refletiam o sol desaparecido na neve, e tudo esteve por um tempo num grande crepúsculo -- tirei os cavalos e alimentei-os no abrigo que pude encontrar. Depois, fiz um fogo; e perto dele fiz com que a Senhora Mina, agora acordada e mais encantadora do que nunca, se sentasse confortavelmente entre as suas mantas. Preparei comida; mas ela não quis comer, dizendo simplesmente que não tinha fome. Não a pressionei, conhecendo a sua inaptidão. Mas eu próprio comi, pois preciso agora de estar forte para tudo. Então, com o medo em mim do que poderia acontecer, tracei um círculo tão grande para o seu conforto, em volta de onde a Senhora Mina se sentava; e sobre o círculo passei um pouco da hóstia, e parti-a em pedaços finos para que tudo ficasse bem guardado. Ela sentou-se imóvel durante todo o tempo -- tão imóvel como alguém morto; e tornou-se mais branca e cada vez mais branca até que a neve não era mais pálida; e não disse uma palavra. Mas quando me aproximei, ela agarrou-se a mim, e pude sentir que a pobre alma tremia da cabeça aos pés com um tremor que era penoso de sentir. Disse-lhe pouco depois, quando ela se acalmou:--
"Não queres vir para junto do fogo?" pois desejava fazer um teste do que ela poderia. Ela levantou-se obediente, mas quando deu um passo parou, e ficou como se estivesse golpeada.
"Por que não segues?", perguntei. Ela abanou a cabeça e, voltando atrás, sentou-se no seu lugar. Então, olhando para mim com olhos abertos, como alguém que desperta do sono, disse simplesmente:--
"Não posso!" e permaneceu em silêncio. Regozijei-me, pois sabia que o que ela não podia, nenhum daqueles que temíamos poderia. Embora pudesse haver perigo para o seu corpo, a sua alma estava a salvo!
De repente, os cavalos começaram a relinchar e a puxar as suas cordas até que cheguei junto deles e os acalmei. Quando sentiram as minhas mãos sobre eles, relincharam baixo como se de alegria, lamberam as minhas mãos e ficaram quietos por um tempo. Muitas vezes durante a noite fui ter com eles, até chegar a hora fria em que toda a natureza está no seu ponto mais baixo; e todas as vezes a minha chegada trouxe-lhes sossego. Na hora fria, o fogo começou a apagar-se, e eu estava prestes a sair para o reabastecer, pois agora a neve caía em lufadas e com ela uma névoa fria. Mesmo na escuridão havia uma luz de algum tipo, como sempre há sobre a neve; e parecia que as rajadas de neve e as grinaldas de névoa tomavam forma de mulheres com vestes arrastadas. Tudo estava num silêncio mortal e sombrio, apenas os cavalos relinchavam e encolhiam-se, como se em terror do pior. Comecei a temer -- receios horríveis; mas depois veio-me a sensação de segurança naquele círculo onde eu estava. Comecei, também, a pensar que as minhas imaginações eram da noite, e da escuridão, e da inquietação que passei, e de toda a ansiedade terrível. Era como se as minhas memórias de toda a horrível experiência do Jonathan me estivessem a enganar; pois os flocos de neve e a névoa começaram a girar e a circular, até que pude ter um vislumbre sombrio daquelas mulheres que o teriam beijado. E então os cavalos encolheram-se cada vez mais e gemeram de terror como os homens fazem de dor. Nem mesmo a loucura do susto os atingia, de modo a que pudessem fugir. Temi pela minha querida Senhora Mina quando estas figuras estranhas se aproximaram e circularam. Olhei para ela, mas ela sentava-se calma e sorria para mim; quando quis ir ao fogo para o reabastecer, ela agarrou-me e segurou-me, e sussurrou, como uma voz que se ouve num sonho, tão baixa era:--
"Não! Não! Não vás para fora. Aqui estás a salvo!" Virei-me para ela e, olhando nos seus olhos, disse:--
"Mas tu? É por ti que temo!" ao que ela se riu -- um riso, baixo e irreal, e disse:--
"Temer por mim! Por que temer por mim? Ninguém mais a salvo em todo o mundo do que eu," e enquanto eu me interrogava sobre o significado das suas palavras, uma lufada de vento fez a chama saltar, e vi a cicatriz vermelha na sua testa. Então, ai de mim! soube. Se não soubesse, tê-lo-ia aprendido em breve, pois as figuras giratórias de névoa e neve aproximaram-se, mantendo-se sempre fora do Círculo Sagrado. Então começaram a materializar-se até que -- se Deus não me tirou a razão, pois vi-o com os meus próprios olhos -- estavam diante de mim, em carne viva, as mesmas três mulheres que o Jonathan viu no quarto, quando o teriam beijado na garganta. Conhecia as formas oscilantes, os olhos brilhantes e duros, os dentes brancos, a cor avermelhada, os lábios voluptuosos. Sorriam sempre para a pobre e querida Senhora Mina; e quando o riso delas chegou através do silêncio da noite, entrelaçaram os braços e apontaram para ela, e disseram com aqueles tons tão doces e penetrantes que o Jonathan disse serem da doçura intolerável dos copos de água:--
"Vem, irmã. Vem ter connosco. Vem! Vem!" Com medo, virei-me para a minha pobre Senhora Mina, e o meu coração saltou de alegria como uma chama; pois oh!, o terror nos seus olhos doces, a repulsa, o horror, contavam uma história ao meu coração que era toda de esperança. Deus seja louvado, ela não era, ainda, uma delas. Agarrei um pouco da lenha que estava perto de mim e, estendendo um pouco da Hóstia, avancei sobre elas em direção ao fogo. Recuaram diante de mim e riram-se com o seu riso baixo e horrível. Alimentei o fogo e não as temi; pois sabia que estávamos a salvo dentro das nossas proteções. Não podiam aproximar-se de mim, enquanto estivesse assim armado, nem da Senhora Mina enquanto permanecesse dentro do círculo, o qual ela não podia deixar, tal como elas não podiam entrar. Os cavalos tinham parado de gemer e deitavam-se quietos no chão; a neve caía sobre eles suavemente, e tornavam-se mais brancos. Soube que, para os pobres animais, não havia mais terror.
E assim permanecemos até que o vermelho do amanhecer caísse através da penumbra da neve. Eu estava desolado e com medo, cheio de angústia e terror; mas quando aquele belo sol começou a subir no horizonte, a vida voltou para mim. Ao primeiro sinal do amanhecer, as figuras horríveis derreteram-se na névoa e neve giratórias; as grinaldas de escuridão transparente moveram-se em direção ao castelo e perderam-se.
Instintivamente, com o amanhecer, virei-me para a Senhora Mina, pretendendo hipnotizá-la; mas ela jazia num sono profundo e repentino, do qual não a pude acordar. Tentei hipnotizar através do seu sono, mas ela não deu qualquer resposta, nenhuma mesmo; e o dia rompeu. Temo ainda mover-me. Fiz o meu fogo e vi os cavalos, estão todos mortos. Hoje tenho muito que fazer aqui, e mantenho-me à espera até que o sol esteja bem alto; pois pode haver lugares onde tenho de ir, onde essa luz do sol, embora a neve e a névoa a obscureçam, será para mim uma segurança.
Vou fortalecer-me com o pequeno-almoço e depois irei para o meu terrível trabalho. A Senhora Mina continua a dormir; e, Deus seja louvado! ela está calma no seu sono....
4 de novembro, à noite.-- O acidente com a lancha tem sido uma coisa terrível para nós. Só por causa dele deveríamos ter ultrapassado o barco há muito tempo; e, a esta altura, minha querida Mina já estaria livre. Temo pensar nela, longe nos campos perto daquele lugar horrendo. Temos cavalos, e seguimos a trilha. Anoto isto enquanto Godalming se prepara. Temos nossas armas. Os Szgany devem ficar atentos se pretendem lutar. Ah, se ao menos Morris e Seward estivessem conosco. Só nos resta esperar! Se não escrever mais adeus, Mina! Que Deus te abençoe e te guarde.
Diário do Dr. Seward.
5 de novembro.-- Com a aurora vimos o corpo dos Szgany à nossa frente, fugindo do rio com seu carro‑cabeça. Eles o cercaram em um aglomerado e apressaram‑se como se estivessem cercados. A neve cai levemente e há uma estranha excitação no ar. Pode ser nossos próprios sentimentos, mas a depressão é estranha. Ao longe ouço o uivo dos lobos; a neve os traz das montanhas, e há perigos para todos nós, por todos os lados. Os cavalos quase prontos, e em breve partimos. Cavalgamos rumo à morte de alguém. Só Deus sabe quem, onde, o quê, quando ou como pode ser...
Memorando do Dr. Van Helsing.
5 de novembro, à tarde.-- Estou pelo menos são. Graças a Deus por essa misericórdia em todos os eventos, embora a prova tenha sido terrível. Quando deixei a senhora Mina dormindo dentro do círculo sagrado, segui em direção ao castelo. O martelo de ferreiro que trouxe na carruagem de Veresti foi útil; embora as portas estivessem todas abertas, arrianei‑as dos ferrugentos dobradiças, temendo que algum mau intento ou azar as fechasse, impedindo‑nos de sair. A amarga experiência de Jonathan serviu‑me aqui. Pela memória de seu diário, encontrei o caminho para a velha capela, pois sabia que ali estaria meu trabalho. O ar era opressivo; parecia haver um fumo sulfuroso que, às vezes, me deixava tonto. Ou havia um rugido nos meus ouvidos ou ouvi, ao longe, o uivo dos lobos. Então lembrei‑me da minha querida senhora Mina, e caí em terrível aperto. O dilema me colocou entre seus chifres.
Ela, eu não ousara levar para este lugar, mas deixá‑la a salvo do Vampiro naquele círculo sagrado; e ainda assim lá teria o lobo! Decido que meu trabalho está aqui, e que, quanto aos lobos, devemos submeter‑nos, se assim for a vontade de Deus. De qualquer forma, só há morte e liberdade além. Assim escolhi por ela. Se fosse por mim, a escolha seria fácil; a fauja do lobo seria melhor que o túmulo do Vampiro! Decido, pois, prosseguir com meu trabalho.
Sabia que havia ao menos três sepulturas a encontrar — sepulturas que habitam; então busco, e busco, e encontro uma delas. Ela jaz em seu sono vampírico, tão cheia de vida e beleza voluptuosa que estremeço como se viesse a cometer assassinato. Ah, não duvido que, em tempos antigos, quando tais coisas existiam, muitos homens que se lançavam a tarefa como a minha, ao final viam seu coração falhar, e então seu nervo. Então ele demora, e demora, e demora, até que a mera beleza e o fascínio do impetuoso Não‑Morto o hipnotizam; e ele permanece, até que o pôr‑do‑sol chegue, e o sono vampírico termine. Então os belos olhos da linda mulher se abrem e olham o amor, e a boca voluptuosa se oferece a um beijo — e o homem fraqueja. E ainda resta mais uma vítima no seio dos Vampiros; mais um para engordar as sombrias fileiras dos Não‑Mortos!...
Há, certamente, um fascínio quando me comovo pela mera presença de tal ser, ainda que jazia como ela num túmulo marcado pela idade e pesado de poeira de séculos, ainda que haja aquele odor horrendo semelhante ao das covas do Conde. Sim, fui comovido — eu, Van Helsing, com todo o meu propósito e meu motivo de ódio — fui tomado por um anseio de atraso que parecia paralisar minhas faculdades e entupir minha própria alma. Pode ter sido a necessidade de sono natural, e a estranha opressão do ar que começavam a me vencer. Tenho certeza de que estava adormecendo, o sono de olhos abertos de quem se entrega a um doce fascínio, quando, através do ar gelado pela neve, chegou um lamento longo e grave, tão cheio de pesar e piedade que despertou‑me como o som de uma trombeta. Pois era a voz da minha querida senhora Mina que eu ouvia.
Então, novamente, preparei‑me para a minha horrenda tarefa, e, arrancando as tampas dos túmulos, encontrei outra das irmãs, a outra escura. Não ousei pausar para observá‑la como fiz com a irmã, temendo novamente ser enfeitiçado; mas continuei a buscar até que, finalmente, achei num alto e grande túmulo, como feito para alguém muito amado, aquela outra irmã graciosa que, como Jonathan, vi reunir‑se dos átomos da névoa. Ela era tão bela de se olhar, tão radiante, tão exquisitamente voluptuosa, que o próprio instinto masculino em mim, que chama alguns dos meus semelhantes ao amor e à proteção de suas semelhantes, fez minha cabeça girar com nova emoção. Mas, graças a Deus, o lamento da alma da minha querida senhora Mina não morreu de meus ouvidos; e, antes que o encanto pudesse agir ainda mais sobre mim, eu me animava para meu trabalho selvagem. Nesse momento já tinha vasculhado todos os túmulos da capela, tanto quanto pude perceber; e, como houvera apenas três desses fantasmas Não‑Mortos ao nosso redor na noite, concluí que não havia mais Nenhum‑Morto ativo existente. Havia um grande túmulo mais imponente que todos os demais; enorme e nobremente proporcionado. Sobre ele havia apenas uma palavra:
DRÁCULA.
Esse, pois, era o lar dos Não‑Mortos do Rei‑Vampiro, a quem tantos outros eram devidos. Seu vazio falava eloquentemente para confirmar o que eu sabia. Antes de começar a restaurar essas mulheres a seus corpos mortos por meio de meu terrível trabalho, coloquei no túmulo de Drácula alguns dos aparelhos, banindo‑o dali, Não‑Morto, para sempre.
Então começou minha tarefa terrível, e temia‑a. Se fosse apenas um, seria fácil, comparativamente. Mas três! Começar duas vezes mais depois de ter passado por um ato de horror; pois se era terrível com a doce Srta. Lucy, o que não seria com estas estranhas que sobreviveram por séculos, e que foram fortalecidas pelo passar dos anos; que, se pudessem, teriam lutado por suas vil vidas...
Ah, meu amigo John, mas era trabalho de açougueiro; se não tivesse sido estimulado pelos pensamentos de outros mortos, e dos vivos sob quem pairava tal pálio de medo, não teria continuado. Tremo e tremo ainda, embora até que tudo acabasse, graças a Deus, meu ânimo se manteve. Se não tivesse visto o repouso inicialmente, e a alegria que o invadiu pouco antes da dissolução final, como a realização de que a alma fora conquistada, não poderia ter avançado com minha carnificina. Não teria suportado o terrível grito ao cravar a estaca; o mergulho da forma contorcida, e os lábios de espuma sangrenta. Teria fugido em terror e deixado meu trabalho incompleto. Mas acabou! E as pobres almas, agora posso compadecer‑las e chorar, ao pensar nelas serenas cada uma em seu sono pleno de morte por um breve instante antes de desaparecer. Pois, amigo John, mal minha faca havia decapitado a cabeça de cada uma, antes que todo o corpo começasse a derreter‑se e desmoronar em seu pó nativo, como se a morte que deveria ter chegado séculos atrás finalmente se afirmasse e declarasse em alta voz “Estou aqui!”
Antes de deixar o castelo, fixeI tão bem suas entradas que jamais o Conde poderá entrar lá como Não‑Morto.
Quando pisei no círculo onde a senhora Mina dormia, ela despertou de seu sono e, ao me ver, gritou de dor que eu havia suportado em demasia.
“Venha!” disse ela, “afaste‑se deste lugar horrendo! Vamos encontrar meu marido, que eu sei, vem ao nosso encontro.” Ela parecia frágil, pálida e fraca; mas seus olhos eram puros e brilhavam com fervor. Fiquei alegre ao ver sua palidez e enfermidade, pois minha mente estava cheia do horror fresco daquele sono vampírico rubro.
E assim, com confiança e esperança, porém pleno de medo, seguimos a leste para encontrar nossos amigos — e ele — que a senhora Mina me contou que sabe que vêm nos encontrar.
Jornal de Mina Harker.
6 de novembro.-- Era fim de tarde quando o Professor e eu nos dirigimos ao leste, onde sabia que Jonathan se aproximava. Não fomos rápido, embora o caminho fosse íngreme descendo, pois tivemos de levar pesados tapetes e mantas; temíamos ficar sem calor no frio e na neve. Também tivemos de levar algumas de nossas provisões, pois estávamos em desolação perfeita, e, tanto quanto podíamos ver através da neve, não havia sinal de habitação. Quando já havíamos percorrido cerca de uma milha, eu me cansava da pesada caminhada e sentei‑me para descansar. Então olhamos para trás e vimos onde a linha clara do castelo de Drácula cortava o céu; pois estávamos tão fundo sob a colina onde se erguia que o ângulo de perspectiva das montanhas dos Cárpatos ficava bem abaixo. Vimos‑o em toda a sua grandeza, empoleirado mil pés no topo de um precipício íngreme, com aparentemente um grande vão entre ele e a encosta da montanha adjacente em qualquer lado. Havia algo selvagem e sobrenatural naquele lugar. Ouvíamos o uivo distante dos lobos. Estavam longe, mas o som, ainda que abafado pela neve que silenciava, era cheio de terror. Sabia, pela maneira como o Dr. Van Helsing pesquisava, que ele buscava algum ponto estratégico onde fôssemos menos expostos a um ataque. A estrada áspera ainda descia; podíamos traçá‑la através da neve acumulada.
Pouco depois o Professor me sinalizou, então levantei‑me e o acompanhei. Ele havia encontrado um lugar maravilhoso, um tipo de cavidade natural numa rocha, com uma entrada como uma porta entre duas pedras. Ele me segurou pela mão e puxou‑me para dentro: “Veja!” disse, “aqui você terá abrigo; e se os lobos vierem poderei enfrentá‑los um a um.” Trouxe nossas peles, fez um ninho acolhedor para mim, e tirou algumas provisões, obrigando‑me a aceitá‑las. Mas não consegui comer; até tentar era repugnante, e, por mais que quisesse agradá‑lo, não pude me forçar. Ele parecia muito triste, mas não me repreendeu. Pegando seus binóculos do estojo, subiu ao topo da rocha e começou a vasculhar o horizonte. De repente gritou:
“Olhe! Senhora Mina, olhe! olhe!” Saltei e fiquei ao lado dele na rocha; ele me entregou os óculos e apontou. A neve caía agora mais intensamente, girando ferozmente, pois um vento forte começava a soprar. Contudo, havia momentos de pausa entre as rajadas de neve, e eu podia ver à distância. Da altura em que estávamos era possível ver grande distância; e longe, além do branco deserto de neve, vi o rio como uma fita negra, em curvas e meandros enquanto serpenteava. Bem à nossa frente, não muito longe — na verdade tão perto que me perguntei como não o tínhamos notado antes — aproximava‑se um grupo de cavaleiros a galope. No meio deles havia uma carroça, um longo “leiter‑wagon” que balançava de um lado ao outro como cauda de cão, a cada ondulação da estrada. Contornados pela neve, percebi pelas vestes que eram camponeses ou ciganos de algum tipo.
Sobre a carroça havia um grande baú quadrado. Meu coração saltou ao vê‑lo, pois senti que o fim se aproximava. O crepúsculo se aproximava, e sabia que ao pôr‑do‑sol a Coisa, ainda aprisionada ali, ganharia nova liberdade e poderia, em muitas formas, escapar de toda perseguição. Com medo voltei‑me para o Professor; para minha consternação, porém, ele não estava lá. Um instante depois, vi‑o abaixo de mim. Em volta da rocha havia desenhado um círculo, como o abrigo que encontráramos na noite anterior. Quando o completou, ficou novamente ao meu lado, dizendo:
“Pelo menos estarás segura aqui dele!” Ele tirou os óculos de mim, e, na próxima pausa da neve, limpou todo o espaço abaixo de nós. “Vejam,” disse, “eles vêm rápido; açoitam os cavalos e galopam o máximo que podem.” Pausou e prosseguiu, voz oca:
“Correm para o pôr‑do‑sol. Podemos chegar tarde. Que se faça a vontade de Deus!” Uma outra torrente cega de neve caiu, apagando a paisagem. Logo passou, e novamente seus óculos fixaram‑se na planície. Então ouvi um grito súbito:
“Olhem! Olhem! Olhem! Vejam, dois cavaleiros seguem velozes, vindo do sul. Devem ser Quincey e John. Pegue o vidro. Olhe antes que a neve o cubra tudo!” Peguei‑o e olhei. Os dois homens podiam ser o Dr. Seward e o Sr. Morris. Sabia, em todo caso, que nenhum deles era Jonathan. Ao mesmo tempo sabia que Jonathan não estava longe; ao observar ao redor vi, ao norte do grupo que se aproximava, dois outros homens a cavalo em velocidade vertiginosa. Um deles reconheci como Jonathan, e o outro presumi ser Lord Godalming. Eles também perseguiam o grupo da carroça. Quando relatei ao Professor, ele exclamou de alegria como criança de escola, e, após observar intensamente até que a neve tornasse a visão impossível, posicionou seu rifle Winchester pronto para uso contra a pedra na abertura do nosso abrigo. “Todos estão convergindo,” disse. “Quando chegar a hora, teremos ciganos por todos os lados.” Tirei meu revólver, pronto para usar, pois, enquanto falávamos, o uivo dos lobos ficava mais alto e próximo. Quando a tempestade de neve amainou por um momento, olhamos novamente. Era estranho ver a neve cair em flocos pesados tão perto de nós, e além, o sol brilhava cada vez mais intensamente ao descer em direção aos picos distantes das montanhas. Varredurando o vidro ao nosso redor, via aqui e ali pontos que se moviam em um, dois, três ou mais — os lobos se reuniam para a caça.
Cada instante parecia uma eternidade enquanto esperávamos. O vento soprava agora em rajadas ferozes, e a neve era arremessada com fúria, girando em redemoinhos ao nosso redor. Em certos momentos não se via nada à frente de um braço; em outros, quando o vento oco soprava, parecia limpar o ar ao nosso redor, permitindo ver ao longe. Há pouco estávamos tão acostumados a observar o nascer e o pôr‑do‑sol que sabíamos com boa precisão quando ocorreria; e sabíamos que, em breve, o sol se poria. Era difícil crer que, pelos nossos relógios, faltava menos de uma hora para que, naquele abrigo rochoso, esperássemos antes que os diferentes grupos começassem a convergir sobre nós. O vento veio agora em rajadas ainda mais intensas e amargas, mais constante do norte. Parecia ter expulsado as nuvens de neve de sobre nós, pois, com raras explosões, a neve caía. Conseguíamos distinguir claramente os indivíduos de cada grupo, os perseguidos e os perseguidores. Estranhamente, os perseguidos não pareciam perceber, ou ao menos não se importavam, que
No meio disso eu podia ver que Jonathan, de um lado do círculo de homens, e Quincey, do outro, se esforçavam para chegar à carruagem; era evidente que pretendiam concluir a tarefa antes que o sol se pusesse. Nada parecia detê‑los ou mesmo dificultá‑los. Nem as armas niveladas, nem as facas cintilantes dos ciganos à frente, nem o uivo dos lobos atrás, pareciam atrair sua atenção. A impetuosidade de Jonathan, e a manifesta singeleza de seu propósito, pareciam sobrepujar os que estavam à sua frente; instintivamente recuaram, à parte, e deixaram‑nos passar. Num instante ele saltou sobre a carruagem e, com uma força que parecia incrível, ergueu a enorme caixa e arremessou‑a sobre a roda até o chão. Enquanto isso, o senhor Morris teve de usar a força para atravessar seu lado do círculo de Szgany. O tempo inteiro, enquanto observava Jonathan sem fôlego, eu o via, de relance, avançar desesperadamente, e via as facas dos ciganos reluzir enquanto ele encontrava um caminho entre eles, e elas cortavam‑o. Ele defendeu‑se com sua grande faca bowie, e a princípio pensei que também havia escapado ileso; mas, quando saltou ao lado de Jonathan, que já havia pulado da carruagem, vi que, com a mão esquerda, agarrava o lado, e que o sangue jorrava por entre os dedos. Não hesitou, embora ferido, pois, enquanto Jonathan, com energia desesperada, atacava uma extremidade do baú, tentando arrancar a tampa com sua grande faca Kukri, ele atacava a outra freneticamente com a bowie. Sob o esforço de ambos, a tampa começou a ceder; os pregos rangiam com um som agudo, e o topo da caixa foi arremessado para trás.
Nessa hora, os ciganos, vendo‑se cercados pelos Winchester e à mercê de Lord Godalming e do Dr. Seward, renderam‑se e não ofereceram resistência. O sol já quase se punha sobre os picos das montanhas, e as sombras de todo o grupo se alongavam sobre a neve. Vi o Conde deitado dentro da caixa sobre a terra, parte da qual havia sido espalhada sobre ele pela queda brusca da carruagem. Estava morta‑pálido, como uma imagem de cera, e os olhos vermelhos brilhavam com o horrendo olhar vingativo que eu conhecia tão bem.
Ao olhar, os olhos testemunharam o sol poente, e o fulgor de ódio neles se transformou em triunfo.
Mas, num instante, veio o varrido e o brilho da grande faca de Jonathan. Gritei ao vê‑la cortar a garganta; ao mesmo tempo, a faca bowie do senhor Morris perfurou o coração.
Foi como um milagre; porém, diante dos nossos olhos, e quase num suspiro, todo o corpo desmoronou em pó e desapareceu de nossa vista.
Ficarei grato, enquanto viver, por ter percebido que, mesmo naquele instante de dissolução final, havia no rosto um semblante de paz, que jamais imaginei poder descansar ali.
O Castelo de Drácula agora surgia contra o céu vermelho, e cada pedra de suas ameias despedaçadas se destacava à luz do sol poente.
Os ciganos, acreditando‑nos responsáveis, de algum modo, pela extraordinária desaparecimento do morto, viraram‑se, sem dizer palavra, e cavalgam‑se como se suas vidas dependessem disso. Os que estavam a pé pularam sobre a carroça‑leitão e gritaram aos cavaleiros para que não os abandonassem. Os lobos, que se haviam recolhido a uma distância segura, seguiram‑nos em seu rastro, deixando‑nos sós.
O senhor Morris, que havia caído ao chão, apoiava‑se no cotovelo, segurando a mão contra o lado; o sangue ainda escorria pelos dedos. Lancei‑me a ele, pois o Santo Círculo não mais me impedia; o mesmo fizeram os dois doutores. Jonathan ajoelhou‑se atrás dele e o ferido recostou a cabeça no ombro. Com um suspiro, tomou, com esforço fraco, minha mão na sua, ainda pura. Deve ter visto a angústia em meu rosto, pois sorriu‑me e disse:—
—“Estou mais que feliz por ter sido útil! Oh, Deus!”—exclamou subitamente, esforçando‑se para sentar e apontando para mim—“Valeu a pena morrer por isto! Vejam! vejam!”
O sol agora estava bem sobre o topo da montanha, e os reflexos vermelhos caíam sobre o meu rosto, que se banhava em luz rosada. Num único impulso, os homens caíram de joelhos e um profundo e sincero “Amém” ecoou de todos enquanto seus olhos seguiam o apontar de seu dedo. O moribundo falou:—
—“Graças a Deus, nada foi em vão! Vejam! a neve não é mais límpida que a testa dela! A maldição passou!”
E, para nossa amarga dor, com um sorriso e em silêncio, ele morreu, cavalheiro galante.
Nota
Sete anos atrás atravessamos as chamas; e a felicidade de alguns de nós, desde então, parece valer a pena a dor que suportamos. É uma alegria adicional para Mina e para mim que o aniversário do nosso garoto caia no mesmo dia em que Quincey Morris morreu. Sua mãe mantém, eu sei, a crença secreta de que parte do espírito de nosso bravo amigo habitou nele. Seu conjunto de nomes liga todo o nosso pequeno bando; porém chamamo‑lo Quincey.
No verão deste ano empreendemos uma viagem à Transilvânia e percorrimos o velho terreno que era, e ainda é, para nós, repleto de memórias vívidas e terríveis. Era quase impossível crer que as coisas que víamos com nossos próprios olhos e ouvíamos com nossos próprios ouvidos fossem verdades vivas. Cada vestígio do que fora foi apagado. O castelo permanecia como antes, erguido alto sobre um deserto de desolação.
Ao chegarmos ao lar, falávamos dos tempos antigos—dos quais todos podíamos recordar sem desespero, pois Godalming e Seward estão ambos felizmente casados. Retirei os papéis do cofre onde permaneciam desde nosso retorno, há tanto tempo. Ficamos consternados ao constatar que, em toda a massa de material de que o registro se compõe, quase não há documento autêntico; nada além de uma massa de datilografia, salvo os cadernos posteriores de Mina, Seward e eu, e o memorando de Van Helsing. Mal poderíamos pedir a alguém, ainda que desejássemos, que aceitasse isso como prova de tão selvagem história. Van Helsing resumiu tudo ao dizer, com nosso filho no colo:—
—“Não queremos provas; não pedimos que ninguém nos acredite! Este menino, um dia, saberá que mulher corajosa e galante sua mãe é. Já conhece sua doçura e cuidado amoroso; mais tarde entenderá como alguns homens a amaram tanto que ousaram tudo por ela.”
JONATHAN HARKER.
FIM