Nota do Transcritor ##################
Este e-texto baseia-se numa reprodução da edição original de 1897. Todo o material moderno foi removido.
O texto em itálico na versão original foi colocado entre sublinhados (texto); passagens em versaletes foram simbolizadas por barras inclinadas (/versaletes/). Numerais subscritos foram colocados entre chaves ({2}).
Inconsistências na hifenização e ortografia (to-morrow/tomorrow; aerial/aërial, etc.), assim como frases usadas incorretamente no discurso de Van Helsing, foram mantidas. Vários erros óbvios de pontuação e inconsistências nas aspas simples/duplas foram removidos tacitamente.
Os seguintes erros tipográficos foram corrigidos:
# p. vi/vii: a palavra de cabeçalho “Page” foi movida da página vii para a página vi. # p. vii: “Chapter VXVII” → “Chapter XVIII”; “Chapter XXI” → “Chapter XXVII”; “320” → “324” # p. 16: “a long” → “along” # p. 30: “Wœ” → “Woe” # p. 44: “wondow” → “window” # p. 43: “that” → “than” # p. 58: “number One” → “number one” # p. 63: “Hopwood” → “Holmwood” # p. 82: “role of paper” → “roll of paper” # p. 98: “dreadul” → “dreadful” # p. 99: “pounts” → “pounds” # p. 112: “Holmmood” → “Holmwood” # p. 133: “pharmacopœœia” → “pharmacopœia” # p. 147: “do do” → “to do” # p. 157: “confortable” → “comfortable”; “everthing” → “everything” # p. 186: “greatful” → “grateful” # p. 212: “Arther” → “Arthur” # p. 241: “next the Professor” → “next to the Professor” # p. 257: “gloated with fresh blood” → “bloated with fresh blood” # p. 286: “Rat, rats, rats!” → “Rats, rats, rats!” # p. 339: “preceeded” → “preceded” # p. 358: “the bit box” → “the big box” # p. 380: “they mean fight” → “they mean to fight” # p. 384: “respulsive” → “repulsive”
LIVROS DO MESMO AUTOR.
“Under the Sunset.” “The Snake’s Pass.” “The Watter’s Mou’.” “The Shoulder of Shasta.”
DRACULA
DE
BRAM STOKER
Constable · Londres
Publicado pela primeira vez por Archibald Constable and Company, 1897
AO
MEU CARO AMIGO
HOMMY-BEG
ÍNDICE.
Página
/Capítulo I./
Diário de Jonathan Harker 1
/Capítulo II./
Diário de Jonathan Harker 15
/Capítulo III./
Diário de Jonathan Harker 28
/Capítulo IV./
Diário de Jonathan Harker 41
/Capítulo V./
Cartas--Lucy e Mina 55
/Capítulo VI./
Diário de Mina Murray 64
/Capítulo VII./
Recorte do “The Dailygraph”, 8 de agosto 77
/Capítulo VIII./
Diário de Mina Murray 91
/Capítulo IX./
Diário de Mina Murray 106
/Capítulo X./
Diário de Mina Murray 120
/Capítulo XI./
Diário de Lucy Westenra 135
/Capítulo XII./
Diário do Dr. Seward 148
/Capítulo XIII./
Diário do Dr. Seward 166
/Capítulo XIV./
Diário de Mina Harker 182
/Capítulo XV./
Diário do Dr. Seward 198
/Capítulo XVI./
Diário do Dr. Seward 212
/Capítulo XVII./
Diário do Dr. Seward 223
/Capítulo XVIII./
Diário do Dr. Seward 237
/Capítulo XIX./
Diário de Jonathan Harker 254
/Capítulo XX./
Diário de Jonathan Harker 267
/Capítulo XXI./
Diário do Dr. Seward 282
/Capítulo XXII./
Diário de Jonathan Harker 297
/Capítulo XXIII./
Diário do Dr. Seward 310
/Capítulo XXIV./
Diário Fonográfico do Dr. Seward, falado por Van Helsing 324
/Capítulo XXV./
Diário do Dr. Seward 339
/Capítulo XXVI./
Diário do Dr. Seward 354
/Capítulo XXVII./
Diário de Mina Harker 372
Como estes documentos foram colocados em sequência tornar-se-á manifesto na leitura dos mesmos. Todos os assuntos desnecessários foram eliminados, de modo que uma história quase em desacordo com as possibilidades da crença dos tempos modernos possa destacar-se como um simples facto. Não há em parte alguma qualquer declaração de coisas passadas em que a memória possa errar, pois todos os registos escolhidos são exatamente contemporâneos, dados a partir dos pontos de vista e dentro do âmbito de conhecimento daqueles que os fizeram.
DRACULA.
CAPÍTULO I.
/Diário de Jonathan Harker./
(Escrito em taquigrafia.)
3 de maio. Bistritz.--Saí de Munique às 20h35 do dia 1 de maio, chegando a Viena na manhã seguinte; deveria ter chegado às 6h46, mas o comboio estava uma hora atrasado. Buda-Pesth parece um lugar maravilhoso, pelo vislumbre que obtive do comboio e pelo pouco que pude caminhar pelas ruas. Tive medo de me afastar muito da estação, pois tínhamos chegado tarde e partiríamos o mais próximo possível da hora certa. A impressão que tive foi a de que estávamos a deixar o Ocidente e a entrar no Oriente; a mais ocidental das esplêndidas pontes sobre o Danúbio, que aqui é de nobre largura e profundidade, levou-nos para entre as tradições do domínio turco.
Partimos a horas razoáveis e chegámos, após o anoitecer, a Klausenburgh. Aqui parei para passar a noite no Hotel Royale. Jantei, ou melhor, ceei, uma galinha preparada de qualquer maneira com pimentão vermelho, que estava muito boa, mas dava sede. (Memória: pedir a receita para a Mina.) Perguntei ao empregado de mesa e ele disse que se chamava “paprika hendl” e que, como era um prato nacional, eu poderia encontrá-lo em qualquer lugar ao longo dos Cárpatos. Descobri que o meu conhecimento superficial de alemão foi muito útil aqui; de facto, não sei como me teria conseguido safar sem ele.
Tendo algum tempo à minha disposição quando estava em Londres, visitei o Museu Britânico e fiz uma pesquisa entre os livros e mapas da biblioteca sobre a Transilvânia; tinha-me ocorrido que um conhecimento prévio do país dificilmente deixaria de ter alguma importância ao lidar com um nobre daquele país. Descobri que o distrito que ele nomeou fica no extremo leste do país, mesmo nas fronteiras de três estados, Transilvânia, Moldávia e Bukovina, no meio das montanhas dos Cárpatos; uma das partes mais selvagens e menos conhecidas da Europa. Não consegui encontrar nenhum mapa ou obra que indicasse a localização exata do Castelo Dracula, pois ainda não existem mapas deste país para comparar com os nossos mapas do Ordnance Survey; mas descobri que Bistritz, a cidade postal nomeada pelo Conde Dracula, é um lugar bastante conhecido. Vou anotar aqui algumas das minhas notas, pois podem refrescar a minha memória quando falar das minhas viagens com a Mina.
Na população da Transilvânia existem quatro nacionalidades distintas: saxões no sul, e misturados com eles os valáquios, que são os descendentes dos dácios; magiares no oeste; e szekelys no leste e no norte. Vou para junto destes últimos, que afirmam ser descendentes de Átila e dos hunos. Pode ser verdade, pois quando os magiares conquistaram o país no século XI, encontraram os hunos estabelecidos nele. Li que todas as superstições conhecidas no mundo estão reunidas na ferradura dos Cárpatos, como se fosse o centro de algum tipo de redemoinho imaginativo; se assim for, a minha estadia pode ser muito interessante. (Memória: tenho de perguntar tudo sobre eles ao Conde.)
Não dormi bem, embora a minha cama fosse suficientemente confortável, pois tive todo o tipo de sonhos estranhos. Havia um cão a uivar a noite toda debaixo da minha janela, o que pode ter tido algo a ver com isso; ou talvez tenha sido a páprica, pois tive de beber toda a água da minha garrafa e ainda continuava com sede. Perto da manhã adormeci e fui acordado por uma batida contínua à minha porta, por isso suponho que devia estar a dormir profundamente então. Ao pequeno-almoço comi mais páprica e um tipo de papa de farinha de milho que diziam ser “mamaliga”, e beringela recheada com carne picada, um prato excelente, que chamam de “impletata”. (Memória: pedir a receita disto também.) Tive de apressar o pequeno-almoço, pois o comboio partia pouco antes das oito, ou melhor, deveria ter partido, pois depois de correr para a estação às 7h30, tive de ficar sentado na carruagem durante mais de uma hora antes de começarmos a mover-nos. Parece-me que quanto mais para Oriente se vai, menos pontuais são os comboios. Como serão na China?
Durante todo o dia parecemos vaguear por um país que estava cheio de beleza de todos os tipos. Por vezes víamos pequenas cidades ou castelos no topo de colinas íngremes, como vemos em antigos missais; outras vezes passávamos por rios e ribeiros que, pela larga margem pedregosa de cada lado, pareciam estar sujeitos a grandes cheias. É preciso muita água, e a correr com força, para limpar a margem externa de um rio. Em cada estação havia grupos de pessoas, por vezes multidões, e com todo o tipo de trajes. Alguns deles eram iguais aos camponeses em casa ou aos que vi ao passar pela França e Alemanha, com casacos curtos, chapéus redondos e calças feitas em casa; mas outros eram muito pitorescos. As mulheres pareciam bonitas, exceto quando se chegava perto delas, mas eram muito desajeitadas na cintura. Todas tinham mangas brancas largas de um tipo ou de outro, e a maioria tinha cintos grandes com muitas tiras de algo a esvoaçar, como os vestidos num bailado, mas claro, com saias por baixo. As figuras mais estranhas que vimos foram os eslovacos, que são mais bárbaros do que os outros, com os seus grandes chapéus de cowboy, calças brancas sujas muito largas, camisas de linho branco e cintos de couro enormes e pesados, com quase um pé de largura, todos cravejados com pregos de latão. Usavam botas altas, com as calças metidas dentro delas, e tinham cabelos pretos compridos e bigodes pretos espessos. São muito pitorescos, mas não parecem muito agradáveis. No palco, seriam imediatamente classificados como algum velho bando oriental de salteadores. São, no entanto, disseram-me, muito inofensivos e um pouco carentes de autoafirmação natural.
Já estava no lado escuro do crepúsculo quando chegámos a Bistritz, que é um lugar antigo muito interessante. Sendo praticamente na fronteira--pois o Passo de Borgo conduz de lá para a Bukovina--teve uma existência muito tormentosa, e certamente mostra sinais disso. Há cinquenta anos, uma série de grandes incêndios ocorreu, causando estragos terríveis em cinco ocasiões separadas. Logo no início do século XVII sofreu um cerco de três semanas e perdeu 13.000 pessoas, sendo as baixas da guerra propriamente dita ajudadas pela fome e pela doença.
O Conde Dracula tinha-me orientado para ir ao Hotel Golden Krone, que descobri, para meu deleite, ser totalmente antiquado, pois, naturalmente, eu queria ver tudo o que pudesse sobre os costumes do país. Estavam evidentemente à minha espera, pois quando cheguei perto da porta deparei-me com uma mulher idosa de aspeto alegre no habitual traje camponês--peça de roupa interior branca com avental duplo comprido, à frente e atrás, de tecido colorido, ajustado quase demasiado apertado para a modéstia. Quando me aproximei, ela fez uma vénia e disse: “O Herr inglês?” “Sim”, disse eu, “Jonathan Harker.” Ela sorriu e deu uma mensagem a um homem idoso em mangas de camisa brancas, que a tinha seguido até à porta. Ele foi, mas regressou imediatamente com uma carta:--
“/Meu Amigo/,--Bem-vindo aos Cárpatos. Estou ansiosamente à sua espera. Durma bem esta noite. Às três de amanhã, a diligência partirá para a Bukovina; um lugar nela está reservado para si. No Passo de Borgo, a minha carruagem esperá-lo-á e trazê-lo-á até mim. Confio que a sua viagem de Londres tenha sido feliz e que desfrute da sua estadia na minha bela terra.
“Seu amigo, “/Dracula./”
4 de maio.--Descobri que o meu senhorio tinha recebido uma carta do Conde, orientando-o a garantir o melhor lugar na carruagem para mim; mas, ao fazer perguntas sobre detalhes, ele parecia um tanto reticente e fingiu não conseguir entender o meu alemão. Isto não podia ser verdade, porque até então ele tinha entendido perfeitamente; pelo menos, respondeu às minhas perguntas exatamente como se tivesse entendido. Ele e a sua esposa, a senhora idosa que me tinha recebido, olharam um para o outro de uma forma assustada. Ele murmurou que o dinheiro tinha sido enviado numa carta e que era tudo o que sabia. Quando lhe perguntei se conhecia o Conde Dracula e se me podia dizer algo sobre o seu castelo, tanto ele como a sua esposa benzeram-se e, dizendo que não sabiam absolutamente nada, simplesmente recusaram-se a falar mais. Estava tão perto da hora de partida que não tive tempo de perguntar a mais ninguém, pois era tudo muito misterioso e de forma alguma reconfortante.
Pouco antes de partir, a senhora idosa veio ao meu quarto e disse de uma forma muito histérica:
“Tem mesmo de ir? Oh! jovem Herr, tem mesmo de ir?” Ela estava num estado tão excitado que parecia ter perdido o domínio do alemão que sabia, e misturou tudo com outra língua que eu não conhecia de todo. Só consegui segui-la fazendo muitas perguntas. Quando lhe disse que tinha de ir imediatamente e que estava comprometido com negócios importantes, ela perguntou novamente:
“Sabe que dia é hoje?” Respondi que era quatro de maio. Ela abanou a cabeça enquanto dizia novamente:
“Oh, sim! Sei isso, sei isso! Mas sabe que dia é hoje?” Ao dizer-lhe que não compreendia, ela continuou:
“É a véspera do dia de São Jorge. Não sabe que esta noite, quando o relógio bater a meia-noite, todas as coisas más do mundo terão pleno domínio? Sabe para onde vai e para o que vai?” Ela estava num evidente sofrimento que tentei confortá-la, mas sem efeito. Finalmente, ela caiu de joelhos e implorou-me para não ir; pelo menos para esperar um ou dois dias antes de partir. Era tudo muito ridículo, mas não me senti confortável. No entanto, havia trabalho a fazer e não podia permitir que nada interferisse nisso. Tentei, portanto, levantá-la e disse, tão seriamente quanto pude, que lhe agradecia, mas que o meu dever era imperativo e que tinha de ir. Ela então levantou-se e enxugou os olhos e, tirando um crucifixo do pescoço, ofereceu-mo. Não sabia o que fazer, pois, como membro da Igreja Inglesa, fui ensinado a considerar tais coisas como, em certa medida, idólatras, e ainda assim parecia tão indelicado recusar uma senhora idosa que tinha boas intenções e estava naquele estado de espírito. Ela viu, suponho, a dúvida na minha face, pois colocou o rosário à volta do meu pescoço e disse: “Pelo amor da sua mãe”, e saiu do quarto. Estou a escrever esta parte do diário enquanto espero pela carruagem, que, claro, está atrasada; e o crucifixo ainda está à volta do meu pescoço. Se é o medo da senhora idosa, ou as muitas tradições fantasmagóricas deste lugar, ou o próprio crucifixo, não sei, mas não me sinto tão tranquilo como de costume. Se este livro chegar algum dia à Mina antes de mim, que leve o meu adeus. Aí vem a carruagem!
5 de maio. O Castelo.--O cinzento da manhã passou e o sol está alto sobre o horizonte distante, que parece irregular, se com árvores ou colinas não sei, pois está tão longe que as coisas grandes e pequenas estão misturadas. Não tenho sono e, como não devo ser chamado até acordar, naturalmente escrevo até o sono chegar. Há muitas coisas estranhas para apontar e, para que quem as leia não pense que jantei demasiado bem antes de sair de Bistritz, deixem-me anotar exatamente o meu jantar. Jantei o que chamam de “bife de salteador”--pedaços de bacon, cebola e carne de vaca, temperados com pimenta vermelha, enfiados em espetos e assados ao lume, no estilo simples da carne de gato de Londres! O vinho era Golden Mediasch, que produz uma estranha picada na língua, que, no entanto, não é desagradável. Tomei apenas um par de copos deste, e nada mais.
Quando entrei na carruagem, o cocheiro ainda não tinha tomado o seu lugar e vi-o a falar com a estalajadeira. Estavam evidentemente a falar de mim, pois de vez em quando olhavam para mim, e algumas das pessoas que estavam sentadas no banco do lado de fora da porta--que chamam por um nome que significa “portador de palavras”--vieram e ouviram, e depois olharam para mim, a maioria com pena. Pude ouvir muitas palavras frequentemente repetidas, palavras estranhas, pois havia muitas nacionalidades na multidão; então, calmamente, tirei o meu dicionário poliglota da mala e procurei-as. Devo dizer que não foram animadoras para mim, pois entre elas estavam “Ordog”--Satanás, “pokol”--inferno, “stregoica”--bruxa, “vrolok” e “vlkoslak”--ambas significando a mesma coisa, uma sendo eslovaco e a outra sérvio para algo que é lobisomem ou vampiro. (Memória: tenho de perguntar ao Conde sobre estas superstições.)
Quando começámos, a multidão em volta da porta da estalagem, que tinha entretanto aumentado para um tamanho considerável, benzeu-se toda e apontou dois dedos para mim. Com alguma dificuldade, convenci um companheiro de viagem a dizer-me o que queriam dizer; ele não respondeu de imediato, mas ao saber que eu era inglês, explicou que era um encanto ou proteção contra o mau-olhado. Isto não foi muito agradável para mim, acabando de partir para um lugar desconhecido para encontrar um homem desconhecido; mas todos pareciam tão bondosos, tão pesarosos e tão solidários que não pude deixar de ficar comovido. Nunca esquecerei o último vislumbre que tive do pátio da estalagem e da sua multidão de figuras pitorescas, todas a benzerem-se, enquanto estavam de pé à volta do arco largo, com o seu fundo de folhagem rica de loendros e laranjeiras em vasos verdes agrupados no centro do pátio. Então o nosso cocheiro, cujas largas calças de linho cobriam toda a frente do banco do cocheiro--“gotza” chamam-lhe--estalou o seu grande chicote sobre os seus quatro pequenos cavalos, que corriam lado a lado, e partimos na nossa viagem.
Logo perdi de vista e de recordação os medos fantasmagóricos na beleza da cena enquanto seguíamos caminho, embora, se soubesse a língua, ou melhor, as línguas que os meus companheiros de viagem estavam a falar, talvez não tivesse conseguido descartá-las tão facilmente. Diante de nós estendia-se uma terra verde e inclinada, cheia de florestas e bosques, com colinas íngremes aqui e ali, coroadas com grupos de árvores ou com quintas, com a empena cega voltada para a estrada. Havia por todo o lado uma desconcertante massa de flores de fruto--macieira, ameixeira, pereira, cerejeira; e à medida que passávamos podia ver a erva verde debaixo das árvores salpicada com as pétalas caídas. Dentro e fora entre estas colinas verdes do que chamam aqui de “Mittel Land” corria a estrada, perdendo-se à medida que varria a curva relvada, ou era bloqueada pelas pontas dispersas de bosques de pinheiros, que aqui e ali corriam pelas encostas abaixo como línguas de fogo. A estrada era acidentada, mas ainda assim parecia que voávamos sobre ela com uma pressa febril. Não conseguia entender então o que significava a pressa, mas o cocheiro estava evidentemente determinado a não perder tempo a chegar a Borgo Prund. Disseram-me que esta estrada é excelente no verão, mas que ainda não tinha sido posta em ordem após as neves do inverno. A este respeito, é diferente da generalidade das estradas nos Cárpatos, pois é uma velha tradição que não devem ser mantidas em muito bom estado. Antigamente os Hospadars não as reparavam, para que o turco não pensasse que se preparavam para trazer tropas estrangeiras, e assim apressar a guerra que estava sempre realmente no ponto de carga.
Para lá das colinas verdes e ondulantes da Mittel Land erguiam-se poderosas encostas de floresta até às escarpas elevadas dos próprios Cárpatos. À direita e à esquerda de nós erguiam-se, com o sol da tarde a cair sobre elas e a realçar todas as cores gloriosas desta bela cordilheira, azul profundo e púrpura nas sombras dos picos, verde e castanho onde a erva e a rocha se misturavam, e uma perspetiva sem fim de rocha irregular e picos pontiagudos, até que estes se perdiam na distância, onde os picos nevados se erguiam grandiosamente. Aqui e ali pareciam haver poderosas fendas nas montanhas, através das quais, à medida que o sol começava a pôr-se, víamos de vez em quando o brilho branco da água a cair. Um dos meus companheiros tocou no meu braço enquanto contornávamos a base de uma colina e revelávamos o elevado pico coberto de neve de uma montanha, que parecia, à medida que serpenteávamos no nosso caminho, estar mesmo diante de nós:--
“Isten szek!”--“O assento de Deus!”--e ele persignou-se reverentemente. À medida que serpenteávamos em nosso caminho sem fim, e o sol baixava cada vez mais atrás de nós, as sombras da tarde começaram a rastejar ao nosso redor. Isso era enfatizado pelo fato de que o topo nevado da montanha ainda retinha o pôr do sol, e parecia brilhar com um delicado rosa frio. Aqui e ali, passamos por Cszeks e eslovacos, todos em trajes pitorescos, mas notei que o bócio era dolorosamente prevalente. À beira da estrada havia muitas cruzes, e enquanto passávamos rapidamente, meus companheiros se persignavam. Aqui e ali, um homem ou mulher camponesa ajoelhava-se diante de um santuário, e nem sequer se viravam à nossa aproximação, mas pareciam, na entrega de si da devoção, não ter olhos nem ouvidos para o mundo exterior. Havia muitas coisas novas para mim: por exemplo, palheiros nas árvores e, aqui e ali, massas belíssimas de bétulas choronas, seus caules brancos brilhando como prata através do verde delicado das folhas. De vez em quando, passávamos por um leiterwagon--a carroça camponesa comum, com sua espinha dorsal longa e serpentina, calculada para se adaptar às irregularidades da estrada. Nela, certamente estaria sentado um grupo de camponeses voltando para casa, os Cszeks com suas peles de carneiro brancas e os eslovacos com as coloridas, estes últimos carregando, ao estilo de lança, seus longos cajados com um machado na ponta. À medida que a noite caía, começou a esfriar muito, e o crepúsculo crescente parecia fundir em uma névoa escura a penumbra das árvores, carvalhos, faias e pinheiros, embora nos vales que corriam profundamente entre as escarpas das colinas, enquanto ascendíamos através da Passagem, os abetos escuros sobressaíam aqui e ali contra o pano de fundo da neve que tardava a derreter. Às vezes, como a estrada era cortada através dos bosques de pinheiros que pareciam, na escuridão, fechar-se sobre nós, grandes massas de cinzento, que aqui e ali salpicavam as árvores, produziam um efeito peculiarmente estranho e solene, que continuava os pensamentos e fantasias sombrias geradas anteriormente na noite, quando o pôr do sol poente lançava em estranho relevo as nuvens fantasmagóricas que, entre os Cárpatos, parecem serpentear incessantemente pelos vales. Às vezes as colinas eram tão íngremes que, apesar da pressa do nosso condutor, os cavalos só podiam ir devagar. Quis descer e subir a pé, como fazemos em casa, mas o condutor não quis ouvir falar disso. “Não, não,” disse ele; “o senhor não deve andar aqui; os cães são muito ferozes!” e então acrescentou, com o que ele evidentemente pretendia ser uma brincadeira sombria--pois olhou em volta para captar o sorriso de aprovação do resto--“e o senhor pode ter o bastante de tais assuntos antes de ir dormir.” A única parada que ele fez foi uma breve pausa para acender suas lanternas.
Quando escureceu, pareceu haver certa agitação entre os passageiros, e eles continuaram falando com ele, um após o outro, como se o instigassem a maior velocidade. Ele açoitava os cavalos impiedosamente com seu longo chicote e, com gritos selvagens de encorajamento, urgia-os a esforços maiores. Então, através da escuridão, pude ver uma espécie de mancha de luz cinzenta à nossa frente, como se houvesse uma fenda nas colinas. A agitação dos passageiros cresceu; a carruagem desengonçada balançava em suas grandes molas de couro e oscilava como um barco lançado em um mar revolto. Tive que me segurar. A estrada tornou-se mais plana e parecia que voávamos. Então as montanhas pareceram aproximar-se de nós de cada lado e olhar para nós com desaprovação; estávamos entrando na Passagem de Borgo. Um a um, vários passageiros ofereceram-me presentes, que insistiram comigo com uma seriedade que não aceitava recusa; eram certamente de um tipo estranho e variado, mas cada um foi dado com simples boa fé, com uma palavra gentil e uma bênção, e aquela estranha mistura de movimentos que significam medo que eu vira do lado de fora do hotel em Bistritz--o sinal da cruz e a proteção contra o mau-olhado. Então, enquanto voávamos, o condutor inclinou-se para a frente, e de cada lado os passageiros, esticando-se sobre a borda da carruagem, olhavam ansiosamente para a escuridão. Era evidente que algo muito excitante estava acontecendo ou era esperado, mas embora eu perguntasse a cada passageiro, ninguém quis me dar a menor explicação. Esse estado de agitação continuou por algum tempo; e finalmente vimos diante de nós a Passagem abrindo-se no lado oriental. Havia nuvens escuras e revoltas sobre nossas cabeças, e no ar o peso opressivo do trovão. Parecia que a cordilheira havia separado duas atmosferas e que agora tínhamos entrado na tempestuosa. Eu mesmo já estava à procura do transporte que deveria me levar ao Conde. A cada momento esperava ver o brilho das lanternas através da escuridão; mas tudo estava escuro. A única luz eram os raios vacilantes de nossas próprias lanternas, nas quais o vapor de nossos cavalos, forçados ao limite, subia em uma nuvem branca. Podíamos agora ver a estrada arenosa estendendo-se branca à nossa frente, mas não havia nela sinal de veículo algum. Os passageiros recuaram com um suspiro de alegria, que parecia zombar da minha própria decepção. Eu já estava pensando no que seria melhor fazer, quando o condutor, olhando para seu relógio, disse aos outros algo que mal pude ouvir, tão baixinho e em tom tão baixo foi dito; pensei ser: “Uma hora a menos do que o tempo previsto.” Então, virando-se para mim, disse em um alemão pior que o meu:--
“Não há carruagem aqui. O Herr não é esperado, afinal. Ele irá agora para Bukovina e retornará amanhã ou no dia seguinte; melhor no dia seguinte.” Enquanto ele falava, os cavalos começaram a relinchar, bufando e dando coices violentamente, de modo que o condutor teve que segurá-los. Então, em meio a um coro de gritos dos camponeses e um universal persignar-se, uma calèche, com quatro cavalos, surgiu atrás de nós, ultrapassou-nos e parou ao lado da carruagem. Pude ver, pelo brilho de nossas lanternas quando os raios caíram sobre eles, que os cavalos eram pretos como carvão e animais esplêndidos. Eram conduzidos por um homem alto, com uma longa barba castanha e um grande chapéu preto, que parecia esconder seu rosto de nós. Só pude ver o brilho de um par de olhos muito vivos, que pareciam vermelhos à luz da lanterna, quando ele se virou para nós. Ele disse ao condutor:--
“Você está adiantado esta noite, meu amigo.” O homem gaguejou em resposta:--
“O Herr inglês estava com pressa,” ao que o estranho respondeu:--
“É por isso, suponho, que você desejava que ele seguisse para Bukovina. Você não pode me enganar, meu amigo; eu sei demais, e meus cavalos são velozes.” Enquanto falava, ele sorriu, e a luz da lanterna caiu sobre uma boca de aspecto duro, com lábios muito vermelhos e dentes afiados, tão brancos quanto marfim. Um dos meus companheiros sussurrou para o outro o verso de “Lenore”, de Burger:--
“Denn die Todten reiten schnell.”-- (“Pois os mortos viajam rápido.”)
O estranho condutor evidentemente ouviu as palavras, pois olhou para cima com um sorriso brilhante. O passageiro desviou o rosto, ao mesmo tempo que estendia os dois dedos e se persignava. “Dê-me a bagagem do Herr,” disse o condutor; e com extrema presteza minhas malas foram entregues e colocadas na calèche. Então desci da lateral da carruagem, já que a calèche estava bem ao lado, o condutor ajudando-me com uma mão que agarrou meu braço com um aperto de aço; sua força devia ser prodigiosa. Sem dizer uma palavra, ele sacudiu as rédeas, os cavalos viraram e nós entramos na escuridão da Passagem. Ao olhar para trás, vi o vapor dos cavalos da carruagem à luz das lanternas e, projetadas contra ele, as figuras dos meus últimos companheiros persignando-se. Então o condutor estalou o chicote e chamou seus cavalos, e eles dispararam em seu caminho para Bukovina.
À medida que eles mergulhavam na escuridão, senti um calafrio estranho e um sentimento de solidão tomou conta de mim; mas uma capa foi jogada sobre meus ombros e um cobertor sobre meus joelhos, e o condutor disse em excelente alemão:--
“A noite está fria, mein Herr, e meu mestre, o Conde, ordenou-me que cuidasse bem do senhor. Há um frasco de slivovitz [a aguardente de ameixa da região] embaixo do assento, caso o senhor precise.” Não tomei nada, mas foi um conforto saber que estava lá, mesmo assim. Senti-me um pouco estranho e não pouco assustado. Acho que, se houvesse alguma alternativa, eu a teria tomado, em vez de prosseguir com aquela viagem noturna desconhecida. A carruagem seguia em ritmo acelerado em linha reta, depois fizemos uma volta completa e seguimos por outra estrada reta. Pareceu-me que estávamos simplesmente percorrendo o mesmo caminho repetidas vezes; e então observei alguns pontos de destaque e descobri que era isso mesmo. Teria gostado de perguntar ao condutor o que aquilo significava, mas realmente temi fazê-lo, pois pensei que, colocado como estava, qualquer protesto não teria efeito caso houvesse a intenção de atrasar. Pouco depois, no entanto, como eu estava curioso para saber como o tempo estava passando, risquei um fósforo e, à sua chama, olhei para meu relógio; faltavam poucos minutos para a meia-noite. Isso me deu uma espécie de choque, pois suponho que a superstição geral sobre a meia-noite foi aumentada pelas minhas experiências recentes. Esperei com uma sensação doentia de suspense.
Então um cão começou a uivar em algum lugar em uma fazenda distante na estrada--um lamento longo e agonizante, como se fosse de medo. O som foi acompanhado por outro cão, e depois outro e outro, até que, carregado pelo vento que agora soprava suavemente através da Passagem, um uivo selvagem começou, o qual parecia vir de todo o campo, tão longe quanto a imaginação pudesse alcançar através da penumbra da noite. Ao primeiro uivo, os cavalos começaram a esticar-se e empinar-se, mas o condutor falou-lhes de forma tranquilizadora, e eles se acalmaram, mas tremiam e suavam como se tivessem fugido de um susto repentino. Então, longe, à distância, das montanhas de cada lado de nós começou um uivo mais alto e agudo--o de lobos--que afetou tanto os cavalos quanto a mim da mesma maneira--pois senti vontade de saltar da calèche e correr, enquanto eles empinavam-se novamente e corcoveavam loucamente, de modo que o condutor teve que usar toda a sua grande força para impedi-los de disparar. Em poucos minutos, no entanto, meus próprios ouvidos acostumaram-se ao som, e os cavalos acalmaram-se a ponto de o condutor poder descer e ficar diante deles. Ele acariciou-os e acalmou-os, e sussurrou algo em seus ouvidos, como ouvi dizer que fazem os domadores de cavalos, e com efeito extraordinário, pois sob suas carícias eles tornaram-se novamente manejáveis, embora ainda tremessem. O condutor retomou seu assento e, sacudindo as rédeas, partiu em grande velocidade. Desta vez, após ir até o lado mais distante da Passagem, ele virou subitamente para uma estrada estreita que seguia abruptamente para a direita.
Logo estávamos cercados por árvores, que em alguns lugares formavam um arco sobre a estrada até passarmos como por um túnel; e novamente grandes rochas ameaçadoras guardavam-nos corajosamente de ambos os lados. Embora estivéssemos protegidos, podíamos ouvir o vento aumentar, pois ele gemia e assobiava através das rochas, e os galhos das árvores colidiam enquanto seguíamos rapidamente. Ficou cada vez mais frio, e uma neve fina e pulverulenta começou a cair, de modo que logo nós e tudo ao nosso redor estávamos cobertos com um manto branco. O vento cortante ainda trazia o uivo dos cães, embora isso se tornasse mais fraco à medida que prosseguíamos em nosso caminho. O latido dos lobos soava cada vez mais perto, como se estivessem nos cercando por todos os lados. Fiquei terrivelmente assustado, e os cavalos compartilhavam meu medo; mas o condutor não estava nem um pouco perturbado. Ele continuava virando a cabeça para a esquerda e para a direita, mas eu não conseguia ver nada através da escuridão.
De repente, à nossa esquerda, vi uma chama azul bruxuleante. O condutor viu-a no mesmo instante; ele imediatamente conteve os cavalos e, saltando para o chão, desapareceu na escuridão. Não sabia o que fazer, menos ainda porque o uivo dos lobos ficava mais próximo; mas enquanto eu me perguntava, o condutor apareceu subitamente de novo e, sem dizer uma palavra, sentou-se e retomamos nossa jornada. Acho que devo ter adormecido e continuado a sonhar com o incidente, pois parecia ser repetido sem fim, e agora, olhando para trás, é como uma espécie de pesadelo horrível. Uma vez, a chama apareceu tão perto da estrada que, mesmo na escuridão ao nosso redor, pude observar os movimentos do condutor. Ele foi rapidamente para onde a chama azul se erguia--deve ter sido muito fraca, pois não parecia iluminar o lugar ao seu redor de forma alguma--e, reunindo algumas pedras, formou com elas algum dispositivo. Uma vez, ocorreu um estranho efeito óptico: quando ele ficava entre mim e a chama, ele não a obstruía, pois eu podia ver seu brilho fantasmagórico da mesma forma. Isso me assustou, mas como o efeito foi apenas momentâneo, presumi que meus olhos me enganavam ao forçar a vista através da escuridão. Então, por um tempo, não houve chamas azuis, e nós aceleramos através da penumbra, com o uivo dos lobos ao nosso redor, como se estivessem seguindo em um círculo em movimento.
Finalmente, chegou um momento em que o condutor foi mais longe do que tinha ido até então, e durante sua ausência os cavalos começaram a tremer pior do que nunca e a bufar e relinchar de medo. Eu não conseguia ver causa para isso, pois o uivo dos lobos tinha cessado completamente; mas exatamente então a lua, navegando através das nuvens negras, apareceu atrás da crista serrilhada de uma rocha ameaçadora coberta de pinheiros, e pela sua luz vi ao nosso redor um círculo de lobos, com dentes brancos e línguas vermelhas pendentes, com membros longos e nervosos e pelos desgrenhados. Eles eram cem vezes mais terríveis no silêncio sombrio que os envolvia do que quando uivavam. Quanto a mim, senti uma espécie de paralisia de medo. É apenas quando um homem se sente face a face com tais horrores que ele pode compreender seu verdadeiro significado.
De repente, os lobos começaram a uivar como se o luar tivesse tido algum efeito peculiar sobre eles. Os cavalos saltavam e empinavam-se, e olhavam desamparadamente ao redor com olhos que giravam de uma forma dolorosa de ver; mas o círculo vivo de terror os envolvia por todos os lados, e eles tinham, por força, que permanecer dentro dele. Chamei o cocheiro para vir, pois me parecia que nossa única chance era tentar romper o círculo e ajudar sua aproximação. Gritei e bati na lateral da calèche, esperando pelo barulho assustar os lobos daquele lado, de modo a dar-lhe uma chance de alcançar a carruagem. Como ele chegou lá, não sei, mas ouvi sua voz elevada em um tom de comando imperioso e, olhando para a direção do som, vi-o parado na estrada. Enquanto ele agitava seus longos braços, como se afastasse algum obstáculo impalpável, os lobos recuaram e recuaram ainda mais. Naquele momento, uma nuvem pesada passou pela face da lua, de modo que estávamos novamente na escuridão.
Quando pude ver de novo, o condutor estava subindo na calèche, e os lobos haviam desaparecido. Tudo isso era tão estranho e misterioso que um medo terrível tomou conta de mim, e fiquei com medo de falar ou me mover. O tempo pareceu interminável enquanto seguíamos nosso caminho, agora em quase completa escuridão, pois as nuvens revoltas obscureciam a lua. Continuamos subindo, com períodos ocasionais de descida rápida, mas, no geral, sempre subindo. De repente, tornei-me consciente do fato de que o condutor estava no ato de parar os cavalos no pátio de um vasto castelo em ruínas, de cujas janelas altas e negras não vinha nenhum raio de luz, e cujas ameias quebradas mostravam uma linha serrilhada contra o céu iluminado pela lua.
CAPÍTULO II.
/Diário de Jonathan Harker/--continuação.
5 de maio.--Devo ter adormecido, pois certamente, se estivesse totalmente acordado, teria notado a aproximação de um lugar tão notável. Na penumbra, o pátio parecia de tamanho considerável e, como vários caminhos escuros partiam dele sob grandes arcos redondos, talvez parecesse maior do que realmente é. Ainda não pude vê-lo à luz do dia.
Quando a calèche parou, o condutor saltou e estendeu a mão para me ajudar a descer. Novamente, não pude deixar de notar sua força prodigiosa. Sua mão parecia, na verdade, um torno de aço que poderia ter esmagado a minha se ele quisesse. Então ele tirou minhas bagagens e colocou-as no chão ao meu lado, enquanto eu estava perto de uma grande porta, antiga e cravejada com grandes pregos de ferro, e situada em um portal projetado de pedra maciça. Pude ver, mesmo na luz fraca, que a pedra era esculpida maciçamente, mas que a escultura tinha sido muito desgastada pelo tempo e pelo clima. Enquanto eu estava parado, o condutor saltou novamente para seu assento e sacudiu as rédeas; os cavalos partiram, e a carruagem e tudo mais desapareceram por uma das aberturas escuras.
Fiquei em silêncio onde estava, pois não sabia o que fazer. De campainha ou aldrava não havia sinal; através dessas paredes ameaçadoras e aberturas de janelas escuras, não era provável que minha voz pudesse penetrar. O tempo que esperei pareceu interminável, e senti dúvidas e medos acumulando-se sobre mim. Que tipo de lugar era aquele onde eu chegara, e entre que tipo de pessoas? Que tipo de aventura sombria era aquela em que eu me embarcara? Era este um incidente habitual na vida de um escrivão de advogado enviado para explicar a compra de uma propriedade em Londres a um estrangeiro? Escrivão de advogado! Mina não gostaria disso. Advogado,--pois pouco antes de deixar Londres recebi a notícia de que meu exame foi bem-sucedido; e agora sou um advogado formado! Comecei a esfregar meus olhos e a me beliscar para ver se estava acordado. Tudo parecia um pesadelo horrível para mim, e eu esperava acordar subitamente e encontrar-me em casa, com o amanhecer lutando para entrar pelas janelas, como senti de vez em quando na manhã seguinte a um dia de trabalho excessivo. Mas minha carne respondeu ao teste do beliscão, e meus olhos não deviam ser enganados. Eu estava, de fato, acordado e entre os Cárpatos. Tudo o que eu podia fazer agora era ser paciente e esperar a chegada da manhã.
Assim que cheguei a essa conclusão, ouvi um passo pesado aproximando-se atrás da grande porta e vi, através das frestas, o brilho de uma luz que se aproximava. Então houve o som de correntes tilintando e o clangor de trincos maciços sendo recolhidos. Uma chave foi girada com o ruído estridente de longo desuso, e a grande porta abriu-se.
Dentro, estava um velho alto, barbeado, exceto por um longo bigode branco, e vestido de preto da cabeça aos pés, sem um único ponto de cor em lugar algum. Ele segurava em sua mão uma antiga lâmpada de prata, na qual a chama ardia sem chaminé ou globo de qualquer tipo, lançando sombras longas e trêmulas enquanto vacilava na corrente de ar da porta aberta. O velho gesticulou para que eu entrasse com a mão direita, com um gesto cortês, dizendo em excelente inglês, mas com uma entonação estranha:--
“Bem-vindo à minha casa! Entre livremente e por sua própria vontade!” Ele não fez nenhum movimento para vir ao meu encontro, mas ficou parado como uma estátua, como se seu gesto de boas-vindas o tivesse fixado em pedra. No instante, porém, em que pisei sobre o limiar, ele moveu-se impulsivamente para a frente e, estendendo a mão, agarrou a minha com uma força que me fez estremecer, um efeito que não foi diminuído pelo fato de parecer fria como gelo--mais como a mão de um homem morto do que de um vivo. Novamente ele disse:--
“Seja bem-vindo à minha casa. Entre livremente. Vá em segurança; e deixe um pouco da felicidade que traz consigo!” A firmeza do aperto de mão era tão semelhante àquela que eu notara no cocheiro, cujo rosto não vira, que por um momento duvidei se não seria a mesma pessoa com quem eu falava; então, para ter certeza, disse interrogativamente:--
“Conde Dracula?” Ele inclinou-se de maneira cortês ao responder:--
“Eu sou Dracula; e dou-lhe as boas-vindas, Sr. Harker, à minha casa. Entre; o ar da noite está frio, e o senhor deve precisar comer e descansar.” Enquanto falava, ele colocou a lâmpada em um suporte na parede e, saindo, pegou minha bagagem; ele a carregara para dentro antes que eu pudesse impedi-lo. Protestei, mas ele insistiu:--
“Não, senhor, o senhor é meu hóspede. É tarde, e meu pessoal não está disponível. Deixe-me cuidar do seu conforto eu mesmo.” Ele insistiu em carregar meus pertences pelo corredor, depois por uma grande escadaria em espiral e por outro grande corredor, em cujo piso de pedra nossos passos soavam pesadamente. Ao final deste, ele abriu uma porta pesada, e regozijei-me ao ver lá dentro um quarto bem iluminado, onde uma mesa estava posta para a ceia e, em cuja imensa lareira, um grande fogo de toras flamejava e ardia.
O Conde parou, colocando minhas malas no chão, fechou a porta e, atravessando o quarto, abriu outra porta que dava para uma pequena sala octogonal iluminada por uma única lâmpada, aparentemente sem qualquer tipo de janela. Passando por ela, abriu outra porta e fez sinal para que eu entrasse. Era uma visão bem-vinda; pois ali havia um grande quarto, bem iluminado e aquecido por outra lareira, que enviava um rugido oco pela larga chaminé. O próprio Conde deixou minha bagagem lá dentro e retirou-se, dizendo, antes de fechar a porta:--
“O senhor precisará, após sua viagem, refrescar-se fazendo sua higiene. Confio que encontrará tudo o que deseja. Quando estiver pronto, venha para o outro quarto, onde encontrará sua ceia preparada.”
A luz, o calor e a cortês recepção do Conde pareciam ter dissipado todas as minhas dúvidas e medos. Tendo então atingido meu estado normal, descobri que estava faminto; por isso, fazendo uma higiene apressada, fui para o outro quarto.
Encontrei a ceia já posta. Meu anfitrião, que estava de um lado da grande lareira, apoiado na alvenaria, fez um aceno gracioso com a mão para a mesa e disse:--
“Peço-lhe que se sente e ceie como lhe aprouver. Confio que me desculpará por não me juntar ao senhor; mas já jantei e não ceio.”
Entreguei-lhe a carta selada que o Sr. Hawkins me confiara. Ele a abriu e leu-a gravemente; então, com um sorriso encantador, entregou-ma para que eu a lesse. Uma passagem dela, pelo menos, causou-me um frisson de prazer:--
“Lamento muito que um ataque de gota, mal do qual sofro constantemente, proíba absolutamente qualquer viagem de minha parte por algum tempo; mas fico feliz em dizer que posso enviar um substituto suficiente, alguém em quem tenho toda a confiança possível. É um jovem, cheio de energia e talento à sua maneira, e de uma disposição muito fiel. É discreto e silencioso, e cresceu como homem em meu serviço. Ele estará pronto para atendê-lo quando quiser durante sua estadia, e acatará suas instruções em todos os assuntos.”
O próprio Conde veio à frente e tirou a tampa de um prato, e eu comecei imediatamente um excelente frango assado. Isso, com um pouco de queijo, uma salada e uma garrafa de Tokay antigo, da qual bebi duas taças, foi minha ceia. Durante o tempo em que comia, o Conde fez-me muitas perguntas sobre minha viagem, e contei-lhe gradualmente tudo o que havia vivenciado.
A essa altura, eu havia terminado minha ceia e, por desejo de meu anfitrião, puxara uma cadeira para perto do fogo e começara a fumar um charuto que ele me ofereceu, desculpando-se ao mesmo tempo por não fumar. Tive então a oportunidade de observá-lo e descobri que ele possuía uma fisionomia muito marcante.
Seu rosto era forte — muito forte — aquilino, com a ponte do nariz fino elevada e narinas peculiarmente arqueadas; com uma testa alta e abobadada, e cabelo crescendo ralo ao redor das têmporas, mas profusamente em outras partes. Suas sobrancelhas eram muito maciças, quase se encontrando sobre o nariz, com pelos espessos que pareciam ondular em sua própria profusão. A boca, tanto quanto pude ver sob o bigode pesado, era firme e de aparência um tanto cruel, com dentes brancos peculiarmente afiados; estes sobressaiam sobre os lábios, cuja notável rubicundez mostrava uma vitalidade espantosa em um homem de sua idade. Quanto ao resto, suas orelhas eram pálidas e extremamente pontiagudas no topo; o queixo era largo e forte, e as bochechas firmes, embora finas. O efeito geral era de uma palidez extraordinária.
Até então, eu notara o dorso de suas mãos enquanto repousavam sobre seus joelhos à luz do fogo, e elas pareciam bastante brancas e finas; mas, vendo-as agora perto de mim, não pude deixar de notar que eram um tanto grosseiras — largas, com dedos curtos. Estranhamente, havia pelos no centro da palma da mão. As unhas eram longas, finas e cortadas em ponta afiada. À medida que o Conde se inclinava sobre mim e suas mãos me tocavam, não pude reprimir um estremecimento. Pode ter sido que seu hálito fosse fétido, mas uma sensação horrível de náusea tomou conta de mim, a qual, por mais que tentasse, não pude ocultar. O Conde, notando isso evidentemente, recuou; e com um tipo de sorriso sombrio, que mostrava mais do que já havia feito seus dentes protuberantes, sentou-se novamente do seu lado da lareira. Ficamos ambos em silêncio por um tempo; e, ao olhar para a janela, vi o primeiro brilho tênue do amanhecer que se aproximava. Parecia haver uma estranha quietude sobre tudo; mas, ao ouvir, escutei, como se viesse lá de baixo, do vale, o uivo de muitos lobos. Os olhos do Conde brilharam, e ele disse:--
“Ouça-os — os filhos da noite. Que música eles fazem!” Vendo, suponho, alguma expressão em meu rosto estranha para ele, acrescentou:--
“Ah, senhor, vocês que vivem na cidade não podem compreender os sentimentos do caçador.” Então ele se levantou e disse:--
“Mas o senhor deve estar cansado. Seu quarto está pronto, e amanhã dormirá até a hora que quiser. Tenho de estar ausente até a tarde; portanto, durma bem e tenha bons sonhos!” e, com uma reverência cortês, ele mesmo abriu para mim a porta do quarto octogonal, e eu entrei em meu quarto....
Estou em um mar de maravilhas. Duvido; temo; penso coisas estranhas que não ouso confessar à minha própria alma. Que Deus me guarde, se não por outro motivo, pelo bem daqueles que me são caros!
7 de maio. — É novamente de manhã cedo, mas descansei e desfrutei das últimas vinte e quatro horas. Dormi até tarde e acordei por conta própria. Quando me vesti, fui para o quarto onde havíamos ceado e encontrei um café da manhã frio servido, com café mantido quente pelo bule colocado sobre a lareira. Havia um cartão na mesa, no qual estava escrito:--
“Tenho de estar ausente por um tempo. Não me espere. — D.” Então, comecei a comer e desfrutei de uma refeição farta. Quando terminei, procurei uma campainha para que pudesse avisar aos criados que havia terminado; mas não encontrei nenhuma. Certamente há deficiências estranhas na casa, considerando as extraordinárias evidências de riqueza que me cercam. O serviço de mesa é de ouro e tão belamente trabalhado que deve ser de imenso valor. As cortinas e o estofamento das cadeiras e sofás, e as tapeçarias da minha cama, são dos tecidos mais caros e belos, e devem ter sido de valor fabuloso quando foram feitos, pois têm séculos de existência, embora estejam em excelente estado. Vi algo parecido em Hampton Court, mas lá estavam gastos, desfiados e comidos pelas traças. Mas, ainda assim, em nenhum dos cômodos há um espelho. Não há sequer um espelho de toucador em minha mesa, e tive de pegar o pequeno espelho de barbear da minha mala antes que pudesse me barbear ou pentear o cabelo. Ainda não vi nenhum criado em parte alguma, nem ouvi um som perto do castelo, exceto o uivo dos lobos. Quando terminei minha refeição — não sei se devo chamá-la de café da manhã ou jantar, pois era entre cinco e seis horas da tarde quando a fiz — procurei algo para ler, pois não gostava de andar pelo castelo até ter pedido a permissão do Conde. Não havia absolutamente nada no quarto, livro, jornal ou mesmo material de escrita; então abri outra porta no quarto e encontrei uma espécie de biblioteca. Tentei a porta oposta à minha, mas encontrei-a trancada.
Na biblioteca, encontrei, para meu grande deleite, um vasto número de livros ingleses, estantes inteiras deles, e volumes encadernados de revistas e jornais. Uma mesa no centro estava coberta de revistas e jornais ingleses, embora nenhum deles fosse de data muito recente. Os livros eram dos mais variados tipos — história, geografia, política, economia política, botânica, geologia, direito — todos relacionados à Inglaterra e à vida, costumes e hábitos ingleses. Havia até livros de referência como o London Directory, os livros “Red” e “Blue”, o Almanaque de Whitaker, listas do Exército e da Marinha e — de alguma forma, alegrou meu coração ver — a Law List.
Enquanto eu olhava os livros, a porta se abriu e o Conde entrou. Ele me cumprimentou de forma calorosa e esperou que eu tivesse tido uma boa noite de descanso. Depois, continuou:--
“Fico feliz que tenha encontrado o caminho até aqui, pois tenho certeza de que há muito que lhe interessará. Estes amigos” — e ele colocou a mão sobre alguns dos livros — “têm sido bons amigos para mim, e há alguns anos, desde que tive a ideia de ir para Londres, deram-me muitas, muitas horas de prazer. Por meio deles, passei a conhecer sua grande Inglaterra; e conhecê-la é amá-la. Anseio por percorrer as ruas movimentadas de sua poderosa Londres, estar no meio do redemoinho e da pressa da humanidade, compartilhar sua vida, suas mudanças, sua morte e tudo o que a torna o que é. Mas, infelizmente! até agora só conheço sua língua através dos livros. De você, meu amigo, espero aprender a falá-la.”
“Mas, Conde,” eu disse, “o senhor conhece e fala inglês perfeitamente!” Ele inclinou-se gravemente.
“Agradeço-lhe, meu amigo, por sua avaliação lisonjeira demais, mas ainda temo estar apenas no início do caminho que gostaria de percorrer. É verdade, conheço a gramática e as palavras, mas ainda não sei como falá-las.”
“Na verdade,” eu disse, “o senhor fala de forma excelente.”
“Não é assim,” ele respondeu. “Sei bem que, se eu me movesse e falasse em sua Londres, não haveria quem não me reconhecesse como um estranho. Isso não é suficiente para mim. Aqui sou nobre; sou boiardo; o povo comum me conhece, e sou o mestre. Mas um estranho em terra estranha não é ninguém; os homens não o conhecem — e não conhecer significa não se importar. Fico satisfeito se for como os outros, de modo que nenhum homem pare se me vir, ou pause sua fala se ouvir minhas palavras, para dizer: ‘Ha, ha! um estranho!’ Tenho sido mestre por tanto tempo que gostaria de continuar sendo mestre — ou, pelo menos, que ninguém mais fosse mestre de mim. Você veio a mim não apenas como agente de meu amigo Peter Hawkins, de Exeter, para me contar tudo sobre minha nova propriedade em Londres. O senhor deve, confio, descansar aqui comigo um pouco, para que, através de nossa conversa, eu possa aprender a entonação inglesa; e gostaria que me dissesse quando cometo erros, mesmo que mínimos, em minha fala. Lamento ter tido que ficar fora por tanto tempo hoje; mas o senhor, eu sei, perdoará alguém que tem tantos assuntos importantes em mãos.”
É claro que disse tudo o que pude sobre estar disposto, e perguntei se poderia entrar naquele cômodo quando quisesse. Ele respondeu: “Sim, certamente”, e acrescentou:--
“O senhor pode ir a qualquer lugar que desejar no castelo, exceto onde as portas estão trancadas, onde, é claro, o senhor não desejará ir. Há um motivo para que todas as coisas sejam como são, e se o senhor visse com meus olhos e soubesse com meu conhecimento, talvez entendesse melhor.” Eu disse que tinha certeza disso, e então ele continuou:--
“Estamos na Transilvânia; e a Transilvânia não é a Inglaterra. Nossos costumes não são os seus, e haverá muitas coisas estranhas para você. Não, pelo que já me contou de suas experiências, você já sabe algo sobre o que podem ser as coisas estranhas aqui.”
Isso levou a muita conversa. E como era evidente que ele queria falar, nem que fosse apenas pelo prazer de conversar, fiz-lhe muitas perguntas sobre coisas que já haviam me acontecido ou que notara. Às vezes, ele desviava do assunto ou mudava a conversa fingindo não entender; mas, geralmente, respondia a tudo o que eu perguntava de forma bastante franca. Então, com o passar do tempo, e como eu estava um pouco mais corajoso, perguntei-lhe sobre algumas das coisas estranhas da noite anterior, como, por exemplo, por que o cocheiro foi aos lugares onde vimos as chamas azuis. Era realmente verdade que elas mostravam onde o ouro estava escondido? Ele então me explicou que era comumente acreditado que, em uma certa noite do ano — a noite passada, de fato, quando se supõe que todos os espíritos malignos têm domínio irrestrito — uma chama azul é vista sobre qualquer lugar onde um tesouro tenha sido escondido. “Que esse tesouro tenha sido escondido,” continuou ele, “na região pela qual o senhor passou na noite passada, não há dúvida; pois foi o solo disputado por séculos pelo valaquiano, pelo saxão e pelo turco. Ora, quase não há um palmo de terra em toda esta região que não tenha sido enriquecido pelo sangue de homens, patriotas ou invasores. Nos velhos tempos, houve momentos agitados, quando o austríaco e o húngaro vinham em hordas, e os patriotas saíam para enfrentá-los — homens e mulheres, os idosos e as crianças também — e esperavam sua chegada nas rochas acima das passagens, para que pudessem desencadear a destruição sobre eles com suas avalanches artificiais. Quando o invasor triunfava, encontrava pouco, pois tudo o que havia fora escondido no solo amigo.”
“Mas como,” disse eu, “pode ter permanecido tanto tempo sem ser descoberto, quando há um índice seguro para isso se os homens apenas se dessem ao trabalho de procurar?” O Conde sorriu, e enquanto seus lábios recuavam sobre as gengivas, os dentes caninos longos e afiados apareceram estranhamente; ele respondeu:--
“Porque o seu camponês é, no fundo, um covarde e um tolo! Essas chamas só aparecem em uma noite. E nessa noite nenhum homem desta terra, se puder evitar, sairá de suas portas. E, caro senhor, mesmo que saísse, não saberia o que fazer. Ora, até o camponês que o senhor me diz que marcou o local da chama não saberia onde procurar à luz do dia, nem mesmo pelo seu próprio trabalho. O senhor não seria, ouso jurar, capaz de encontrar esses lugares novamente, seria?”
“Aí o senhor tem razão,” disse eu. “Não sei mais do que os mortos onde procurar por eles.” Então passamos para outros assuntos.
“Venha,” ele disse finalmente, “fale-me de Londres e da casa que obteve para mim.” Com um pedido de desculpas por minha negligência, fui ao meu quarto pegar os papéis da minha mala. Enquanto os organizava, ouvi um tilintar de louça e prata no outro quarto e, ao passar, notei que a mesa havia sido limpa e a lâmpada acesa, pois já era noite profunda. As lâmpadas também estavam acesas no escritório ou biblioteca, e encontrei o Conde deitado no sofá, lendo, de todas as coisas do mundo, um guia Bradshaw’s inglês. Quando entrei, ele limpou os livros e papéis da mesa; e, com ele, analisei plantas, escrituras e números de todos os tipos. Ele estava interessado em tudo e me fez uma infinidade de perguntas sobre o local e seus arredores. Ele claramente havia estudado de antemão tudo o que podia sobre o assunto da vizinhança, pois, ao final, sabia evidentemente muito mais do que eu. Quando comentei isso, ele respondeu:--
“Bem, mas, meu amigo, não é necessário que eu o faça? Quando eu for para lá, estarei sozinho, e meu amigo Harker Jonathan — não, perdoe-me, caio no hábito do meu país de colocar seu sobrenome primeiro — meu amigo Jonathan Harker não estará ao meu lado para me corrigir e ajudar. Ele estará em Exeter, a quilômetros de distância, provavelmente trabalhando em papéis de direito com meu outro amigo, Peter Hawkins. Assim!”
Analisamos minuciosamente os negócios da compra da propriedade em Purfleet. Quando lhe contei os fatos e obtive sua assinatura nos papéis necessários, e escrevi uma carta com eles pronta para enviar ao Sr. Hawkins, ele começou a me perguntar como encontrei um lugar tão adequado. Li para ele as notas que fiz na época, e que transcrevo aqui:--
“Em Purfleet, em uma estrada secundária, encontrei exatamente o lugar que parecia ser necessário, e onde era exibido um aviso dilapidado de que o local estava à venda. É cercado por um muro alto, de estrutura antiga, construído com pedras pesadas, e não é reparado há muitos anos. Os portões fechados eram de carvalho velho e ferro pesado, todos roídos pela ferrugem.
“A propriedade chama-se Carfax, sem dúvida uma corrupção do antigo *Quatre Face*, pois a casa tem quatro lados, concordando com os pontos cardeais da bússola. Contém ao todo cerca de vinte acres, totalmente cercada pelo sólido muro de pedra mencionado acima. Há muitas árvores nela, o que a torna sombria em alguns lugares, e há um lago profundo e escuro, ou pequeno lago, evidentemente alimentado por algumas fontes, pois a água é límpida e flui em um riacho de tamanho considerável. A casa é muito grande e de todas as épocas, creio eu, até os tempos medievais, pois uma parte é de pedra imensamente espessa, com apenas algumas janelas no alto e pesadamente gradeadas com ferro. Parece parte de uma fortaleza e fica perto de uma capela ou igreja antiga. Não pude entrar, pois não tinha a chave da porta que leva a ela a partir da casa, mas tirei com minha Kodak fotos dela de vários pontos. A casa recebeu acréscimos, mas de uma maneira muito irregular, e só posso adivinhar o tamanho do terreno que cobre, que deve ser muito grande. Há poucas casas próximas, sendo uma delas uma casa muito grande, recentemente ampliada e transformada em um asilo particular para lunáticos. Não é, contudo, visível dos terrenos.”
Quando terminei, ele disse:--
“Estou contente por ser antiga e grande. Eu mesmo sou de uma família antiga, e viver em uma casa nova me mataria. Uma casa não pode ser tornada habitável em um dia; e, afinal, quantos dias compõem um século? Regozijo-me por haver uma capela dos tempos antigos. Nós, nobres da Transilvânia, não gostamos de pensar que nossos ossos possam estar entre os mortos comuns. Não busco a alegria nem a descontração, nem a voluptuosidade brilhante de muito sol e águas cintilantes que agradam aos jovens e alegres. Já não sou jovem; e meu coração, através de cansativos anos de luto pelos mortos, não está sintonizado com a alegria. Além disso, as paredes do meu castelo estão quebradas; as sombras são muitas, e o vento sopra frio através das ameias e janelas quebradas. Amo a sombra e o sombrio, e gostaria de estar a sós com meus pensamentos quando puder.”
De alguma forma, suas palavras e seu olhar não pareciam concordar, ou então era que o seu traço fisionômico fazia seu sorriso parecer maligno e saturnino.
Logo, com uma desculpa, ele me deixou, pedindo-me que reunisse todos os meus papéis. Ele esteve ausente por algum tempo, e comecei a olhar alguns dos livros ao meu redor. Um era um atlas, que encontrei aberto naturalmente na Inglaterra, como se aquele mapa tivesse sido muito usado. Ao observá-lo, encontrei em certos lugares pequenos círculos marcados, e ao examiná-los notei que um ficava perto de Londres, no lado leste, manifestamente onde sua nova propriedade estava situada; os outros dois eram Exeter e Whitby, na costa de Yorkshire.
Passou-se quase uma hora quando o Conde retornou. “Aha!” disse ele; “ainda nos seus livros? Bom! Mas não deve trabalhar sempre. Venha; fui informado de que seu jantar está pronto.” Ele tomou meu braço, e fomos para a sala ao lado, onde encontrei um excelente jantar pronto na mesa. O Conde desculpou-se novamente, pois havia jantado fora enquanto estava longe de casa. Mas sentou-se como na noite anterior, e conversou enquanto eu comia. Após o jantar, fumei, como na última noite, e o Conde permaneceu comigo, conversando e fazendo perguntas sobre todo assunto concebível, hora após hora. Senti que estava ficando muito tarde, de fato, mas não disse nada, pois sentia-me na obrigação de atender aos desejos do meu anfitrião de todas as formas. Não estava com sono, já que o longo sono de ontem havia me fortalecido; mas não pude evitar experimentar aquele frio que toma conta da gente à chegada da aurora, que é, à sua maneira, como a virada da maré. Dizem que as pessoas que estão próximas da morte morrem geralmente na mudança para a aurora ou na virada da maré; qualquer um que tenha, quando cansado, e amarrado por assim dizer ao seu posto, experimentado essa mudança na atmosfera, pode muito bem acreditar nisso. De repente, ouvimos o canto de um galo subindo com uma nitidez sobrenatural através do ar límpido da manhã; o Conde Drácula, saltando para os pés, disse:--
“Ora, lá está a manhã novamente! Quão negligente sou por deixá-lo acordado por tanto tempo. Você deve tornar sua conversa a respeito do meu querido novo país, a Inglaterra, menos interessante, para que eu não me esqueça de como o tempo voa por nós,” e, com uma reverência cortês, ele me deixou.
Fui para o meu próprio quarto e puxei as cortinas, mas havia pouco para notar; minha janela dava para o pátio; tudo o que pude ver foi o céu cinzento e quente ganhando vida. Então puxei as cortinas novamente, e escrevi sobre este dia.
8 de Maio.--Comecei a temer, enquanto escrevia neste livro, que estava me tornando difuso demais; mas agora estou contente por ter entrado em detalhes desde o início, pois há algo tão estranho sobre este lugar e tudo nele que não posso deixar de me sentir inquieto. Gostaria de estar a salvo fora daqui, ou que nunca tivesse vindo. Pode ser que esta estranha existência noturna esteja me afetando; mas quem dera que fosse só isso! Se houvesse alguém com quem conversar, eu poderia suportar, mas não há ninguém. Tenho apenas o Conde para falar, e ele!--temo ser eu mesmo a única alma viva dentro do lugar. Deixe-me ser prosaico na medida em que os fatos podem ser; isso me ajudará a aguentar, e a imaginação não deve correr solta comigo. Se correr, estou perdido. Deixe-me dizer de uma vez como estou--ou pareço estar.
Dormi apenas algumas horas quando fui para a cama, e sentindo que não conseguia dormir mais, levantei-me. Eu havia pendurado meu espelho de barbear na janela, e estava apenas começando a fazer a barba. De repente, senti uma mão no meu ombro, e ouvi a voz do Conde me dizendo: “Bom dia.” Assustei-me, pois me espantou não tê-lo visto, já que o reflexo do vidro cobria todo o quarto atrás de mim. Ao me assustar, cortei-me levemente, mas não notei no momento. Tendo respondido à saudação do Conde, voltei-me para o vidro novamente para ver como havia me enganado. Desta vez não poderia haver erro, pois o homem estava perto de mim, e eu podia vê-lo sobre meu ombro. Mas não havia reflexo dele no espelho! Todo o quarto atrás de mim era exibido; mas não havia sinal de um homem nele, exceto eu. Isso foi assustador, e, vindo após tantas coisas estranhas, estava começando a aumentar aquele vago sentimento de inquietação que sempre tenho quando o Conde está por perto; mas naquele instante vi que o corte havia sangrado um pouco, e o sangue escorria pelo meu queixo. Coloquei a navalha de lado, virando-me enquanto o fazia pela metade para procurar algum esparadrapo. Quando o Conde viu meu rosto, seus olhos brilharam com uma espécie de fúria demoníaca, e ele subitamente agarrou minha garganta. Afastei-me, e sua mão tocou o cordão das contas que segurava o crucifixo. Isso causou uma mudança instantânea nele, pois a fúria passou tão rapidamente que eu mal podia acreditar que alguma vez esteve lá.
“Cuidado,” disse ele, “cuidado ao se cortar. É mais perigoso do que você pensa neste país.” Então, agarrando o espelho de barbear, continuou: “E esta é a coisa miserável que causou o estrago. É um bibelô imundo da vaidade humana. Fora com ele!” e abrindo a janela pesada com um puxão de sua mão terrível, ele jogou o espelho, que se estilhaçou em mil pedaços nas pedras do pátio lá embaixo. Então ele se retirou sem uma palavra. É muito irritante, pois não vejo como vou fazer a barba, a menos que seja na caixa do meu relógio ou no fundo do pote de barbear, que felizmente é de metal.
Quando fui para a sala de jantar, o café da manhã estava preparado; mas não consegui encontrar o Conde em lugar nenhum. Então tomei o café da manhã sozinho. É estranho que até agora eu não tenha visto o Conde comer ou beber. Ele deve ser um homem muito peculiar! Após o café da manhã, fiz um pouco de exploração no castelo. Saí nas escadas e encontrei um quarto voltado para o sul. A vista era magnífica, e de onde eu estava havia toda a oportunidade de vê-la. O castelo fica bem na beira de um precipício terrível. Uma pedra caindo da janela cairia mil pés sem tocar em nada! Até onde a vista alcança, é um mar de copas de árvores verdes, com ocasionalmente uma fenda profunda onde há um abismo. Aqui e ali estão fios de prata onde os rios serpenteiam em gargantas profundas através das florestas.
Mas não estou com ânimo para descrever a beleza, pois quando vi a vista, explorei mais; portas, portas, portas por toda parte, e todas trancadas e trincadas. Em nenhum lugar, exceto pelas janelas nas paredes do castelo, há uma saída disponível.
O castelo é uma verdadeira prisão, e eu sou um prisioneiro!
CAPÍTULO III.
/Diário de Jonathan Harker/ (continuação).
Quando descobri que era um prisioneiro, uma espécie de sentimento selvagem tomou conta de mim. Corri para cima e para baixo pelas escadas, tentando cada porta e olhando por cada janela que conseguia encontrar; mas após um pouco, a convicção da minha impotência sobrepujou todas as outras coisas. Quando olho para trás, depois de algumas horas, penso que devo ter ficado louco por um tempo, pois me comportei muito como um rato faz em uma armadilha. Quando, contudo, a convicção veio a mim de que eu estava desamparado, sentei-me calmamente--tão calmamente quanto já fiz qualquer coisa na minha vida--e comecei a pensar sobre o que era melhor ser feito. Ainda estou pensando, e até agora não cheguei a nenhuma conclusão definitiva. De uma coisa apenas tenho certeza: que não adianta tornar minhas ideias conhecidas ao Conde. Ele sabe bem que estou aprisionado; e como ele mesmo o fez, e tem sem dúvida seus próprios motivos para isso, ele apenas me enganaria se eu confiasse nele totalmente com os fatos. Até onde posso ver, meu único plano será guardar meu conhecimento e meus medos para mim mesmo, e meus olhos abertos. Estou, eu sei, ou sendo enganado, como um bebê, pelos meus próprios medos, ou então estou em uma situação desesperadora; e se esta última for o caso, preciso, e precisarei, de todo o meu cérebro para conseguir passar por isso. Eu mal tinha chegado a essa conclusão quando ouvi a grande porta lá embaixo fechar, e soube que o Conde havia retornado. Ele não veio imediatamente para a biblioteca, então fui cautelosamente para o meu próprio quarto e encontrei-o arrumando a cama. Isso era estranho, mas apenas confirmou o que eu havia pensado o tempo todo--que não havia empregados na casa. Quando mais tarde o vi, através da fresta das dobradiças da porta, pondo a mesa na sala de jantar, tive a certeza disso; pois se ele mesmo faz todos esses serviços servis, certamente é prova de que não há mais ninguém para fazê-los. Isso me deu um susto, pois se não há mais ninguém no castelo, deve ter sido o próprio Conde o cocheiro que me trouxe aqui. Este é um pensamento terrível; pois se for assim, o que significa que ele poderia controlar os lobos, como fez, apenas levantando a mão em silêncio. Como foi que todas as pessoas em Bistritz e na carruagem tinham um medo terrível por mim? O que significava a entrega do crucifixo, do alho, da rosa silvestre, do freixo? Bendita seja aquela boa, boa mulher que pendurou o crucifixo no meu pescoço! pois é um conforto e uma força para mim sempre que o toco. É estranho que uma coisa que fui ensinado a considerar com desdém e como idólatra deva, em um tempo de solidão e problema, ser de ajuda. Será que há algo na essência da coisa em si, ou que é um meio, uma ajuda tangível, ao transmitir memórias de simpatia e conforto? Algum dia, se puder ser, devo examinar este assunto e tentar decidir sobre ele. Enquanto isso, devo descobrir tudo o que puder sobre o Conde Drácula, pois pode me ajudar a entender. Esta noite ele pode falar de si mesmo, se eu direcionar a conversa para esse caminho. Devo ser muito cuidadoso, contudo, para não despertar sua suspeita.
Meia-noite.--Tive uma longa conversa com o Conde. Fiz-lhe algumas perguntas sobre a história da Transilvânia, e ele se entusiasmou com o assunto maravilhosamente. Ao falar de coisas e pessoas, e especialmente de batalhas, ele falava como se tivesse estado presente em todas elas. Isso ele explicou mais tarde dizendo que, para um boiardo, o orgulho de sua casa e nome é seu próprio orgulho, que a glória deles é sua glória, que o destino deles é seu destino. Sempre que falava de sua casa, ele sempre dizia “nós”, e falava quase no plural, como um rei falando. Gostaria de poder escrever tudo o que ele disse exatamente como ele disse, pois para mim foi fascinante. Parecia ter nele toda uma história do país. Ele ficou excitado enquanto falava, e caminhava pela sala puxando seu grande bigode branco e agarrando qualquer coisa em que colocava as mãos, como se quisesse esmagá-la com força bruta. Uma coisa ele disse que escreverei tão precisamente quanto puder; pois conta, à sua maneira, a história de sua raça:--
“Nós, Szekelys, temos o direito de nos orgulhar, pois em nossas veias corre o sangue de muitas raças bravas que lutaram como o leão luta, por domínio. Aqui, no redemoinho das raças europeias, a tribo úgrica trouxe da Islândia o espírito guerreiro que Thor e Wodin lhes deram, que seus Berserkers exibiram com tal intenção funesta nas costas da Europa, sim, e da Ásia e da África também, até que os povos pensassem que os próprios lobisomens haviam chegado. Aqui, também, quando vieram, encontraram os Hunos, cuja fúria guerreira varreu a terra como uma chama viva, até que os povos moribundos sustentassem que em suas veias corria o sangue daquelas velhas bruxas que, expulsas da Cítia, haviam acasalado com os demônios no deserto. Tolos, tolos! Que demônio ou que bruxa foi alguma vez tão grande quanto Átila, cujo sangue está nestas veias?” Ele ergueu os braços. “É de se admirar que fôssemos uma raça conquistadora; que fôssemos orgulhosos; que quando o Magiar, o Lombardo, o Ávaro, o Búlgaro ou o Turco derramavam seus milhares em nossas fronteiras, nós os expulsávamos? É estranho que quando Árpade e suas legiões varreram a pátria húngara ele nos encontrou aqui quando alcançou a fronteira; que a Honfoglalas foi completada lá? E quando a torrente húngara varreu para o leste, os Szekelys foram reivindicados como parentes pelos vitoriosos Magiares, e a nós, por séculos, foi confiada a guarda da fronteira da terra turca; sim, e mais do que isso, o dever sem fim da guarda de fronteira, pois, como dizem os turcos, ‘a água dorme, e o inimigo é insone.’ Quem mais alegremente do que nós, através das Quatro Nações, recebeu a ‘espada sangrenta’, ou ao seu chamado guerreiro se reuniu mais rapidamente ao estandarte do Rei? Quando foi redimida aquela grande vergonha da minha nação, a vergonha de Cassova, quando as bandeiras do Valaco e do Magiar caíram sob o Crescente; quem foi senão um da minha própria raça que, como Voivoda, cruzou o Danúbio e derrotou o Turco em seu próprio solo? Este foi um Drácula de fato! Ai de nós que seu próprio irmão indigno, quando ele havia caído, vendeu seu povo ao Turco e trouxe a vergonha da escravidão sobre eles! Não foi este Drácula, de fato, quem inspirou aquele outro de sua raça que, em uma era posterior, repetidas vezes trouxe suas forças através do grande rio para a terra turca; que, quando foi derrotado, voltou, e voltou, e voltou, embora tivesse que vir sozinho do campo sangrento onde suas tropas estavam sendo massacradas, já que sabia que ele sozinho poderia, em última análise, triunfar? Diziam que ele pensava apenas em si mesmo. Bah! que bem são os camponeses sem um líder? Onde termina a guerra sem um cérebro e coração para conduzi-la? Novamente, quando, após a batalha de Mohács, livramo-nos do jugo húngaro, nós, do sangue Drácula, estávamos entre seus líderes, pois nosso espírito não suportaria que não fôssemos livres. Ah, jovem senhor, os Szekelys--e o Drácula como seu sangue vital, seus cérebros e suas espadas--podem ostentar um registro que crescimentos de cogumelos como os Habsburgos e os Romanoffs nunca poderão alcançar. Os dias guerreiros acabaram. O sangue é uma coisa preciosa demais nestes dias de paz desonrosa; e as glórias das grandes raças são como um conto que já foi contado.”
Já estava quase amanhecendo, e fomos para a cama. (Obs.: este diário parece horrivelmente com o início das “Mil e Uma Noites”, pois tudo tem que parar ao cantar do galo--ou como o fantasma do pai de Hamlet.)
12 de Maio.--Deixe-me começar com fatos--fatos nus, escassos, verificados por livros e números, e dos quais não pode haver dúvida. Não devo confundi-los com experiências que terão que depender da minha própria observação ou da minha memória delas. Ontem à noite, quando o Conde saiu de seu quarto, ele começou me fazendo perguntas sobre questões jurídicas e sobre a realização de certos tipos de negócios. Eu havia passado o dia cansativamente sobre livros e, simplesmente para manter minha mente ocupada, revi alguns dos assuntos nos quais fui examinado em Lincoln’s Inn. Havia um certo método nas indagações do Conde, então tentarei escrevê-las em sequência; o conhecimento pode de alguma forma ou em algum momento ser útil para mim.
Primeiro, ele perguntou se um homem na Inglaterra poderia ter dois advogados, ou mais. Eu lhe disse que ele poderia ter uma dúzia se desejasse, mas que não seria sensato ter mais de um advogado envolvido em uma transação, já que apenas um poderia agir de cada vez, e que mudar seria certamente prejudicial aos seus interesses. Ele pareceu entender completamente, e continuou perguntando se haveria alguma dificuldade prática em ter um homem para cuidar, digamos, de serviços bancários, e outro para cuidar de transporte marítimo, caso fosse necessária ajuda local em um lugar longe da residência do advogado bancário. Pedi-lhe que explicasse mais detalhadamente, para que eu não pudesse, por acaso, enganá-lo, então ele disse:--
“Vou ilustrar. Seu amigo e meu, Sr. Peter Hawkins, debaixo da sombra de sua bela catedral em Exeter, que fica longe de Londres, compra para mim, através de sua própria pessoa, meu lugar em Londres. Bom! Agora aqui deixe-me dizer francamente, para que você não pense ser estranho que eu tenha buscado os serviços de alguém tão longe de Londres em vez de alguém residente lá, que meu motivo foi para que nenhum interesse local fosse servido, exceto o meu desejo apenas; e como um residente de Londres poderia, talvez, ter algum propósito próprio ou de amigo a servir, fui tão longe buscar meu agente, cujos labores deveriam ser apenas para meu interesse. Agora, suponha que eu, que tenho muitos negócios, deseje despachar mercadorias, digamos, para Newcastle, ou Durham, ou Harwich, ou Dover, não poderia ser feito com mais facilidade consignando a alguém nesses portos?” Respondi que certamente seria mais fácil, mas que nós, advogados, tínhamos um sistema de agenciamento uns para os outros, de modo que o trabalho local poderia ser feito localmente sob instrução de qualquer advogado, para que o cliente, simplesmente colocando-se nas mãos de um homem, pudesse ter seus desejos realizados por ele sem mais problemas.
“Mas,” disse ele, “eu poderia estar livre para me dirigir a mim mesmo. Não é assim?”
“Claro,” respondi; “e tal é frequentemente feito por homens de negócios, que não gostam que a totalidade de seus assuntos seja conhecida por qualquer pessoa.”
“Bom!” disse ele, e então continuou perguntando sobre os meios de fazer consignações e as formas a serem cumpridas, e sobre todos os tipos de dificuldades que poderiam surgir, mas que, por precaução, poderiam ser evitadas. Expliquei todas essas coisas a ele o melhor que pude, e ele certamente me deixou com a impressão de que ele teria sido um advogado maravilhoso, pois não havia nada em que ele não pensasse ou previsse. Para um homem que nunca esteve no país, e que evidentemente não fazia muito em termos de negócios, seu conhecimento e perspicácia eram maravilhosos. Quando ele se satisfez sobre esses pontos dos quais havia falado, e eu havia verificado tudo o melhor que pude pelos livros disponíveis, ele subitamente levantou-se e disse:--
“Já escreveu desde a sua primeira carta ao nosso amigo Sr. Peter Hawkins, ou a qualquer outro?” Foi com certa amargura no coração que respondi que não, que até aquele momento não vira qualquer oportunidade de enviar cartas a ninguém.
“Então escreva agora, meu jovem amigo”, disse ele, pousando uma mão pesada sobre meu ombro; “escreva ao nosso amigo e a qualquer outro; e diga, se lhe aprouver, que ficará comigo até daqui a um mês.”
“Deseja que eu fique tanto tempo?” perguntei, pois meu coração esfriou ao pensar nisso.
“Desejo-o muito; não, não aceitarei recusa. Quando seu mestre, empregador, o que quiser, comprometeu-se a que alguém viesse em seu nome, ficou entendido que apenas as minhas necessidades deveriam ser consultadas. Não fui mesquinho. Não é assim?”
O que poderia eu fazer senão curvar-me em aceitação? Era o interesse do Sr. Hawkins, não o meu, e eu tinha de pensar nele, não em mim mesmo; e, além disso, enquanto o Conde Drácula falava, havia algo em seus olhos e em seu porte que me fazia lembrar que eu era um prisioneiro e que, se eu desejasse, não teria escolha. O Conde viu sua vitória no meu gesto e seu domínio no transtorno do meu rosto, pois começou imediatamente a usá-los, mas à sua própria maneira suave e irresistível:--
“Peço-lhe, meu bom jovem amigo, que não discorra sobre assuntos que não sejam de negócios em suas cartas. Sem dúvida, agradará aos seus amigos saber que está bem e que anseia por voltar para casa para junto deles. Não é assim?” Enquanto falava, estendeu-me três folhas de papel de carta e três envelopes. Eram todos do papel de correspondência estrangeira mais fino, e ao olhar para eles, depois para ele, e notar seu sorriso silencioso, com os dentes caninos afiados sobre o lábio inferior vermelho, entendi tão bem como se ele tivesse falado que deveria ter cuidado com o que escrevia, pois ele seria capaz de ler. Então, decidi escrever apenas notas formais agora, mas escrever detalhadamente ao Sr. Hawkins em segredo, e também a Mina, pois para ela eu poderia escrever em taquigrafia, o que deixaria o Conde confuso, caso ele a visse. Quando escrevi minhas duas cartas, sentei-me quieto, lendo um livro enquanto o Conde escrevia várias notas, consultando, conforme as escrevia, alguns livros sobre sua mesa. Depois, pegou as minhas duas e colocou-as junto com as dele, e guardou seus materiais de escrita, após o que, no instante em que a porta se fechou atrás dele, inclinei-me e olhei para as cartas, que estavam viradas para baixo sobre a mesa. Não senti remorso em fazê-lo, pois, dadas as circunstâncias, senti que deveria proteger-me de todas as maneiras que pudesse.
Uma das cartas era endereçada a Samuel F. Billington, No. 7, The Crescent, Whitby; outra a Herr Leutner, Varna; a terceira era para Coutts & Co., Londres, e a quarta para Herren Klopstock & Billreuth, banqueiros, Buda-Pesth. A segunda e a quarta estavam abertas. Eu estava prestes a olhá-las quando vi a maçaneta da porta se mover. Afundei novamente em meu assento, tendo tido apenas tempo de colocar as cartas como estavam e retomar meu livro antes que o Conde, segurando ainda outra carta na mão, entrasse na sala. Ele pegou as cartas sobre a mesa e selou-as cuidadosamente, e então, voltando-se para mim, disse:--
“Confio que me perdoará, mas tenho muito trabalho a fazer em privado esta noite. Espero que encontre tudo como deseja.” À porta, ele se virou e, após uma breve pausa, disse:--
“Deixe-me aconselhá-lo, meu caro jovem amigo--não, deixe-me avisá-lo com toda a seriedade, que, caso saia destes aposentos, não vá, de modo algum, dormir em qualquer outra parte do castelo. É antigo e tem muitas memórias, e há maus sonhos para aqueles que dormem imprudentemente. Esteja avisado! Se o sono agora ou um dia vier a vencê-lo, ou se estiver prestes a fazê-lo, então apresse-se para o seu próprio quarto ou para estes aposentos, pois seu descanso estará então seguro. Mas se não for cuidadoso a este respeito, então”----Ele terminou seu discurso de maneira macabra, pois gesticulou com as mãos como se as estivesse lavando. Entendi perfeitamente; minha única dúvida era se algum sonho poderia ser mais terrível do que a antinatural e horrível rede de melancolia e mistério que parecia fechar-se ao meu redor.
Mais tarde.--Subscrevo as últimas palavras escritas, mas desta vez não há dúvida em questão. Não temerei dormir em qualquer lugar onde ele não esteja. Coloquei o crucifixo sobre a cabeceira da minha cama--imagino que meu descanso esteja assim mais livre de sonhos; e ali permanecerá.
Quando ele me deixou, fui para o meu quarto. Depois de um pouco, não ouvindo nenhum som, saí e subi a escada de pedra até onde podia olhar para o sul. Havia algum senso de liberdade na vasta extensão, por mais inacessível que fosse para mim, em comparação com a escuridão estreita do pátio. Olhando para ela, senti que estava realmente na prisão, e parecia-me querer um sopro de ar fresco, ainda que fosse da noite. Começo a sentir essa existência noturna pesar-me. Está destruindo meus nervos. Sobressalto-me com minha própria sombra e estou cheio de todo tipo de imaginações horríveis. Deus sabe que há fundamento para qualquer medo terrível neste lugar maldito! Olhei para a bela extensão, banhada por um suave luar amarelo até que estivesse quase tão clara quanto o dia. Na luz suave, as colinas distantes tornavam-se fundidas, e as sombras nos vales e desfiladeiros de uma negridão aveludada. A mera beleza parecia animar-me; havia paz e conforto em cada respiração que eu dava. Enquanto me inclinava pela janela, meu olho foi capturado por algo movendo-se um andar abaixo de mim, e um pouco à minha esquerda, onde imaginei, pela disposição dos quartos, que as janelas do próprio quarto do Conde estariam voltadas. A janela em que eu estava era alta e profunda, com mainéis de pedra e, embora desgastada pelo tempo, estava ainda completa; mas era evidente que já fazia muitos dias que o caixilho não estava ali. Recuei para trás da alvenaria e olhei cuidadosamente para fora.
O que vi foi a cabeça do Conde saindo da janela. Não vi o rosto, mas reconheci o homem pelo pescoço e pelo movimento de suas costas e braços. De qualquer modo, eu não poderia confundir as mãos que tive tantas oportunidades de estudar. A princípio, senti-me interessado e um tanto divertido, pois é maravilhoso como uma questão pequena interessará e divertirá um homem quando ele é um prisioneiro. Mas meus sentimentos mudaram para repulsa e terror quando vi o homem inteiro emergir lentamente da janela e começar a rastejar pela parede do castelo sobre aquele abismo medonho, de rosto para baixo, com sua capa espalhando-se ao redor dele como grandes asas. No começo, não pude acreditar em meus olhos. Pensei que fosse algum truque do luar, algum efeito estranho de sombra; mas continuei olhando, e não poderia ser ilusão. Vi os dedos das mãos e dos pés agarrarem as quinas das pedras, gastas da argamassa pelo estresse dos anos, e ao usar assim cada saliência e desigualdade, mover-se para baixo com velocidade considerável, exatamente como um lagarto se move ao longo de uma parede.
Que espécie de homem é este, ou que espécie de criatura é esta à semelhança de homem? Sinto o pavor deste lugar horrível sobrepujar-me; estou com medo--com um medo terrível--e não há escapatória para mim; estou cercado por terrores nos quais não ouso pensar....
15 de maio.--Mais uma vez vi o Conde sair à sua maneira de lagarto. Ele se moveu para baixo de forma lateral, cerca de cem pés abaixo, e bastante para a esquerda. Ele desapareceu em algum buraco ou janela. Quando sua cabeça desapareceu, inclinei-me para tentar ver mais, mas sem sucesso--a distância era grande demais para permitir um ângulo de visão adequado. Eu sabia que ele tinha deixado o castelo agora, e pensei em aproveitar a oportunidade para explorar mais do que eu tinha ousado até aquele momento. Voltei para o quarto e, pegando uma lamparina, testei todas as portas. Estavam todas trancadas como eu esperava, e as fechaduras eram comparativamente novas; mas desci as escadas de pedra até o saguão por onde entrara originalmente. Descobri que podia puxar os ferrolhos facilmente o bastante e desenganchar as grandes correntes; mas a porta estava trancada, e a chave tinha sumido! Essa chave deve estar no quarto do Conde; devo vigiar caso sua porta esteja destrancada, para que eu possa pegá-la e escapar. Continuei a fazer uma verificação completa das várias escadas e passagens, e a testar as portas que se abriam a partir delas. Um ou dois quartos pequenos perto do saguão estavam abertos, mas não havia nada para ver neles exceto móveis velhos, empoeirados com a idade e roídos pelas traças. Finalmente, no entanto, encontrei uma porta no topo de uma escada que, embora parecesse estar trancada, cedeu um pouco sob pressão. Tentei com mais força e descobri que não estava realmente trancada, mas que a resistência vinha do fato de que as dobradiças tinham cedido um tanto, e a porta pesada descansava sobre o chão. Aqui estava uma oportunidade que eu poderia não ter novamente, então esforcei-me e, com muitos esforços, forcei-a para trás de modo que pudesse entrar. Eu estava agora em uma ala do castelo mais à direita do que os quartos que eu conhecia e um andar abaixo. Pelas janelas, pude ver que a suíte de quartos ficava ao longo do lado sul do castelo, com as janelas do quarto final voltadas tanto para oeste quanto para sul. Neste último lado, assim como no primeiro, havia um grande precipício. O castelo foi construído na esquina de uma grande rocha, de modo que em três lados era completamente inexpugnável, e grandes janelas foram colocadas ali, onde funda, arco ou colubrina não podiam alcançar, e consequentemente luz e conforto, impossíveis em uma posição que tinha de ser guardada, foram garantidos. A oeste havia um grande vale, e então, elevando-se ao longe, grandes fortalezas montanhosas e escarpadas, elevando-se pico sobre pico, a rocha nua cravejada com sorveiras e espinheiros, cujas raízes se agarravam em fendas e cavidades e rachaduras da pedra. Esta era evidentemente a parte do castelo ocupada em tempos passados, pois os móveis tinham mais ar de conforto do que qualquer um que eu tivesse visto. As janelas eram sem cortinas, e o luar amarelo, inundando através dos vidros em forma de diamante, permitia ver até cores, enquanto suavizava a riqueza de poeira que jazia sobre tudo e disfarçava em alguma medida as devastações do tempo e das traças. Minha lamparina parecia ser de pouco efeito no luar brilhante, mas eu estava feliz por tê-la comigo, pois havia uma solidão terrível no lugar que gelava meu coração e fazia meus nervos tremerem. Ainda assim, era melhor do que viver sozinho nos quartos que eu aprendera a odiar pela presença do Conde e, depois de tentar um pouco controlar meus nervos, descobri uma quietude suave vindo sobre mim. Aqui estou eu, sentado a uma pequena mesa de carvalho onde em tempos antigos possivelmente alguma bela dama sentou-se para escrever, com muito pensamento e muitos rubores, sua carta de amor mal soletrada, e escrevendo em meu diário em taquigrafia tudo o que aconteceu desde que o fechei pela última vez. É o século dezenove atualizado com força. E, no entanto, a menos que meus sentidos me enganem, os séculos antigos tinham, e têm, poderes próprios que a mera “modernidade” não pode matar.
Mais tarde: a manhã de 16 de maio.--Deus preserve minha sanidade, pois é a isto que estou reduzido. A segurança e a garantia de segurança são coisas do passado. Enquanto viver aqui, há apenas uma coisa pela qual esperar: que eu não enlouqueça, se, de fato, eu já não estiver louco. Se estiver são, então certamente é enlouquecedor pensar que, de todas as coisas vis que espreitam neste lugar odioso, o Conde é o menos terrível para mim; que somente nele posso buscar segurança, ainda que isso seja apenas enquanto eu puder servir ao seu propósito. Grande Deus! Deus misericordioso! Deixe-me estar calmo, pois fora desse caminho reside a loucura, de fato. Começo a obter novas luzes sobre certas coisas que me intrigavam. Até agora, nunca soube exatamente o que Shakespeare queria dizer quando fez Hamlet dizer:--
“Meus tabletes! depressa, meus tabletes! É conveniente que eu anote isso,” etc.,
pois agora, sentindo como se meu próprio cérebro estivesse desequilibrado ou como se o choque tivesse vindo, o qual deve terminar em sua ruína, volto-me para meu diário para repousar. O hábito de registrar com precisão deve ajudar a acalmar-me.
O aviso misterioso do Conde assustou-me na época; assusta-me mais agora quando penso nele, pois no futuro ele tem um poder terrível sobre mim. Terei medo de duvidar do que ele possa dizer!
Quando escrevi em meu diário e felizmente recoloquei o livro e a caneta no bolso, senti sono. O aviso do Conde veio à minha mente, mas tive prazer em desobedecê-lo. A sensação de sono estava sobre mim, e com ela a obstinação que o sono traz como escolta. O luar suave acalmava, e a ampla extensão lá fora dava uma sensação de liberdade que me refrescava. Decidi não retornar esta noite aos quartos assombrados pela melancolia, mas dormir aqui, onde antigamente damas sentavam, cantavam e viviam vidas doces enquanto seus peitos gentis estavam tristes por seus homens longe em meio a guerras impiedosas. Puxei um grande sofá para fora de seu lugar perto do canto, de modo que, enquanto eu estivesse deitado, pudesse olhar para a vista adorável para o leste e o sul e, sem pensar e sem me importar com a poeira, preparei-me para dormir.
Suponho que deva ter adormecido; espero que sim, mas temo, pois tudo o que se seguiu foi surpreendentemente real--tão real que agora, sentado aqui sob a luz do sol ampla e cheia da manhã, não posso de modo algum acreditar que foi tudo sono.
Eu não estava sozinho. O quarto era o mesmo, inalterado de qualquer maneira desde que entrei nele; eu podia ver ao longo do chão, sob o luar brilhante, minhas próprias pegadas marcadas onde eu tinha perturbado o longo acúmulo de poeira. Sob o luar, opostas a mim, estavam três jovens mulheres, damas por seu vestuário e maneiras. Pensei na época que devia estar sonhando quando as vi, pois, embora o luar estivesse atrás delas, não lançavam sombra no chão. Aproximaram-se de mim e olharam-me por algum tempo e depois sussurraram entre si. Duas eram morenas, e tinham narizes aquilinos altos, como o Conde, e grandes olhos escuros e penetrantes, que pareciam ser quase vermelhos quando contrastados com a lua amarela pálida. A outra era loira, tão loira quanto se pode ser, com grandes massas onduladas de cabelo dourado e olhos como safiras pálidas. Eu parecia de alguma forma conhecer seu rosto, e conhecê-lo em conexão com algum medo sonhador, mas não conseguia me lembrar no momento de como ou onde. Todas as três tinham dentes brancos brilhantes, que reluziam como pérolas contra o rubi de seus lábios voluptuosos. Havia algo nelas que me deixava inquieto, algum desejo e, ao mesmo tempo, algum medo mortal. Senti em meu coração um desejo perverso e ardente de que elas me beijassem com aqueles lábios vermelhos. Não é bom anotar isso, para que algum dia não encontre os olhos de Mina e lhe cause dor; mas é a verdade. Sussurraram entre si, e então todas as três riram--um riso tão prateado e musical, mas tão duro como se o som nunca pudesse ter vindo através da suavidade de lábios humanos. Era como a intolerável e formigante doçura de copos de água quando tocados por uma mão habilidosa. A moça loira balançou a cabeça coquetemente, e as outras duas a incitaram. Uma disse:--
“Vá em frente! Você é a primeira, e nós seguiremos; seu é o direito de começar.” A outra acrescentou:--
“Ele é jovem e forte; há beijos para todas nós.” Eu estava deitado quieto, olhando por entre meus cílios em uma agonia de deleitável antecipação. A moça loira avançou e inclinou-se sobre mim até que pude sentir o movimento de sua respiração sobre mim. Doce era, em um sentido, doce como mel, e enviava o mesmo formigamento através dos nervos que sua voz, mas com um amargor subjacente ao doce, uma ofensividade amarga, como se sente ao cheirar sangue.
Tive medo de levantar as pálpebras, mas olhei para fora e vi perfeitamente sob os cílios. A moça loira ajoelhou-se e inclinou-se sobre mim, absolutamente deleitando-se. Havia uma voluptuosidade deliberada que era ao mesmo tempo emocionante e repulsiva, e enquanto ela arqueava o pescoço, ela realmente lambia os lábios como um animal, até que eu pudesse ver ao luar a umidade brilhando nos lábios escarlates e na língua vermelha enquanto ela lambia os dentes brancos e afiados. Mais e mais baixo ia sua cabeça à medida que os lábios iam abaixo do alcance de minha boca e queixo e pareciam prestes a se fixar em minha garganta. Então ela pausou, e eu podia ouvir o som da agitação de sua língua enquanto ela lambia seus dentes e lábios, e podia sentir a respiração quente em meu pescoço. Então a pele da minha garganta começou a formigar como a carne de alguém quando a mão que deve fazer cócegas aproxima-se mais--mais. Eu podia sentir o toque suave e trêmulo dos lábios na pele supersensível da minha garganta, e as marcas duras de dois dentes afiados, apenas tocando e pausando ali. Fechei meus olhos em um êxtase lânguido e esperei--esperei com o coração batendo.
Mas naquele instante, outra sensação percorreu-me tão rápida quanto um relâmpago. Eu estava consciente da presença do Conde, e de ele estar como se envolto em uma tempestade de fúria. Quando meus olhos se abriram involuntariamente, vi sua mão forte agarrar o pescoço esguio da mulher loira e, com a força de um gigante, puxá-lo para trás, os olhos azuis transformados de fúria, os dentes brancos batendo de raiva, e as bochechas claras ardendo em vermelho de paixão. Mas o Conde! Nunca imaginei tal ira e fúria, mesmo nos demônios do abismo. Seus olhos estavam positivamente ardendo. A luz vermelha neles era sinistra, como se as chamas do fogo do inferno ardessem atrás deles. Seu rosto estava mortalmente pálido, e as linhas dele eram duras como fios esticados; as sobrancelhas grossas que se encontravam sobre o nariz agora pareciam uma barra em brasa de metal quente. Com um golpe feroz de seu braço, ele arremessou a mulher para longe de si, e então gesticulou para as outras, como se estivesse afastando-as; era o mesmo gesto imperioso que eu tinha visto ser usado com os lobos. Em uma voz que, embora baixa e quase um sussurro, parecia cortar o ar e depois ressoar pelo quarto, ele disse:--
“Como ousam tocá-lo, qualquer uma de vocês? Como ousam lançar olhares sobre ele quando eu o tinha proibido? Atrás, digo a todas vocês! Este homem pertence a mim! Cuidado com como vocês se intrometem com ele, ou vocês terão que lidar comigo.” A moça loira, com uma risada de galanteio obsceno, virou-se para responder-lhe:--
“Você mesmo nunca amou; você nunca ama!” Nisso as outras mulheres se juntaram, e um riso tão sem alegria, duro e sem alma ressoou pelo quarto que quase me fez desmaiar ao ouvi-lo; parecia o prazer de demônios. Então o Conde virou-se, depois de olhar atentamente para o meu rosto, e disse em um sussurro suave:--
“Sim, eu também posso amar; vocês mesmas podem dizer isso pelo passado. Não é assim? Bem, agora prometo-lhes que quando eu terminar com ele, vocês poderão beijá-lo à vontade. Agora vão! vão! Devo despertá-lo, pois há trabalho a ser feito.”
“Devemos ficar sem nada esta noite?” disse uma delas, com uma risada baixa, enquanto apontava para a bolsa que ele atirara no chão, e que se movia como se houvesse algo vivo dentro dela. Como resposta, ele acenou com a cabeça. Uma das mulheres saltou para a frente e abriu-a. Se meus ouvidos não me enganaram, houve um arquejo e um gemido baixo, como o de uma criança meio sufocada. As mulheres fecharam o cerco, enquanto eu estava paralisado de horror; mas, enquanto olhava, elas desapareceram, e com elas a terrível bolsa. Não havia porta perto delas, e não poderiam ter passado por mim sem que eu notasse. Elas simplesmente pareceram desvanecer-se nos raios do luar e passar pela janela, pois pude ver lá fora as formas vagas e sombrias por um momento antes que se apagassem por completo.
Então o horror me dominou, e caí inconsciente.
CAPÍTULO IV.
DIÁRIO DE JONATHAN HARKER — continuação.
Acordei em minha própria cama. Se não foi um sonho, o Conde deve ter me carregado para cá. Tentei me convencer a respeito disso, mas não consegui chegar a nenhum resultado inquestionável. Sem dúvida, havia certas pequenas evidências, como o fato de minhas roupas estarem dobradas e guardadas de uma maneira que não era meu hábito. Meu relógio ainda estava sem corda, e tenho o rigoroso costume de dar corda nele como a última coisa antes de ir para a cama, e muitos outros detalhes desse tipo. Mas essas coisas não são prova, pois podem ter sido evidências de que minha mente não estava como de costume e, por um motivo ou outro, eu certamente estava muito transtornado. Devo ficar atento a provas. De uma coisa me alegro: se foi o Conde que me trouxe para cá e me despiu, ele deve ter se apressado em sua tarefa, pois meus bolsos estão intactos. Tenho certeza de que este diário teria sido um mistério para ele que não teria tolerado. Ele o teria tomado ou destruído. Enquanto olho ao redor deste quarto, embora tenha sido para mim tão cheio de medo, é agora uma espécie de santuário, pois nada pode ser mais terrível do que aquelas mulheres pavorosas, que estavam — que estão — esperando para sugar meu sangue.
18 de maio. — Desci para olhar aquele quarto novamente à luz do dia, pois preciso saber a verdade. Quando cheguei à porta no topo da escada, encontrei-a fechada. Fora empurrada com tanta força contra o batente que parte da madeira estava lascada. Pude ver que o ferrolho da fechadura não fora passado, mas a porta está trancada por dentro. Temo que não tenha sido um sonho e devo agir com base nessa suposição.
19 de maio. — Estou certamente em apuros. Ontem à noite, o Conde pediu-me, nos tons mais suaves, que escrevesse três cartas: uma dizendo que meu trabalho aqui estava quase concluído e que partiria para casa dentro de alguns dias; outra, que eu partiria na manhã seguinte à data da carta; e a terceira, que eu havia deixado o castelo e chegado a Bistritz. Teria gostado de me rebelar, mas senti que, no estado atual das coisas, seria loucura discutir abertamente com o Conde enquanto estou tão absolutamente em seu poder; e recusar seria despertar sua suspeita e provocar sua ira. Ele sabe que sei demais e que não devo viver, para que eu não seja perigoso para ele; minha única chance é prolongar minhas oportunidades. Algo pode acontecer que me dê uma chance de escapar. Vi em seus olhos algo daquela ira crescente que se manifestou quando ele lançou aquela bela mulher para longe de si. Ele me explicou que as postagens eram raras e incertas, e que minha escrita agora garantiria paz de espírito aos meus amigos; e assegurou-me, com tanta ênfase, que cancelaria as cartas posteriores, que ficariam retidas em Bistritz até o momento devido, caso a sorte permitisse que eu prolongasse minha estadia, que opor-me a ele teria sido criar novas suspeitas. Portanto, fingi concordar com seus pontos de vista e perguntei-lhe que datas deveria colocar nas cartas. Ele calculou por um minuto e então disse:
“A primeira deve ser 12 de junho, a segunda 19 de junho e a terceira 29 de junho.”
Sei agora o período da minha vida. Que Deus me ajude!
28 de maio. — Há uma chance de escape, ou, pelo menos, de conseguir enviar notícias para casa. Um bando de Szgany chegou ao castelo e está acampado no pátio. Esses Szgany são ciganos; tenho notas sobre eles em meu livro. Eles são peculiares a esta parte do mundo, embora aliados aos ciganos comuns de todo o mundo. Há milhares deles na Hungria e na Transilvânia, que estão quase fora de toda lei. Eles se apegam, via de regra, a algum grande nobre ou boiardo, e chamam a si mesmos pelo nome dele. São destemidos e sem religião, exceto pela superstição, e falam apenas suas próprias variedades da língua romani.
Escreverei algumas cartas para casa e tentarei fazer com que as enviem. Já falei com eles pela minha janela para começar a criar um vínculo. Eles tiraram os chapéus e fizeram reverências e muitos sinais, os quais, no entanto, eu não pude entender, assim como não pude entender sua língua falada...
Escrevi as cartas. A de Mina está em taquigrafia, e simplesmente peço ao Sr. Hawkins que se comunique com ela. Para ela, expliquei minha situação, mas sem os horrores que só posso supor. Isso a chocaria e a assustaria até a morte se eu expusesse meu coração a ela. Caso as cartas não cheguem, então o Conde ainda não saberá meu segredo ou a extensão do meu conhecimento...
Entreguei as cartas; atirei-as através das grades da minha janela com uma moeda de ouro e fiz os sinais que pude para que as postassem. O homem que as pegou pressionou-as contra o peito, fez uma reverência e depois as colocou no boné. Não pude fazer mais nada. Voltei furtivamente para o escritório e comecei a ler. Como o Conde não entrou, escrevi aqui...
O Conde chegou. Ele sentou-se ao meu lado e disse com sua voz mais suave, enquanto abria duas cartas:
“O Szgany me deu estas, das quais, embora eu não saiba de onde vêm, eu, é claro, cuidarei. Veja!” — ele deve ter olhado para ela — “uma é sua, para meu amigo Peter Hawkins; a outra” — aqui ele avistou os símbolos estranhos ao abrir o envelope, e o olhar sombrio surgiu em seu rosto, e seus olhos brilharam com maldade — “a outra é uma coisa vil, um ultraje à amizade e à hospitalidade! Não está assinada. Bem! Então não pode nos importar.” E ele calmamente segurou a carta e o envelope na chama da lâmpada até que fossem consumidos. Então continuou:
“A carta para Hawkins — essa, é claro, enviarei, já que é sua. Suas cartas são sagradas para mim. Perdão, meu amigo, por eu ter rompido o selo sem saber. Você não a cobriria novamente?” Ele me estendeu a carta e, com uma reverência cortês, entregou-me um envelope limpo. Só pude endereçá-lo novamente e entregá-lo a ele em silêncio. Quando ele saiu do quarto, pude ouvir a chave girar suavemente. Um minuto depois, fui até lá e tentei abri-la, e a porta estava trancada.
Quando, uma ou duas horas depois, o Conde entrou silenciosamente no quarto, sua chegada me acordou, pois eu havia adormecido no sofá. Ele estava muito cortês e muito alegre em sua maneira e, vendo que eu estava dormindo, disse:
“Então, meu amigo, você está cansado? Vá para a cama. É o descanso mais seguro. Talvez eu não tenha o prazer de conversar esta noite, pois tenho muitos trabalhos; mas você dormirá, eu rezo.” Fui para o meu quarto e fui para a cama e, estranhamente, dormi sem sonhar. O desespero tem suas próprias calmas.
31 de maio. — Esta manhã, quando acordei, pensei em providenciar papel e envelopes da minha mala e guardá-los no bolso, para que pudesse escrever caso tivesse uma oportunidade; mas, novamente, uma surpresa, novamente um choque!
Cada pedaço de papel havia sumido, e com ele todas as minhas anotações, meus memorandos relacionados a ferrovias e viagens, minha carta de crédito, enfim, tudo o que poderia ser útil para mim se eu estivesse fora do castelo. Sentei-me e ponderei por um tempo, e então algum pensamento me ocorreu, e fiz uma busca na minha mala e no guarda-roupa onde eu havia colocado minhas roupas.
O terno em que viajei havia desaparecido, assim como meu sobretudo e cobertor; não consegui encontrar vestígio deles em lugar nenhum. Isso parecia algum novo plano de vilania...
17 de junho. — Esta manhã, enquanto eu estava sentado na beira da minha cama, forçando o cérebro, ouvi lá fora um estalar de chicotes e um bater e raspar de pés de cavalos subindo o caminho rochoso além do pátio. Com alegria, corri para a janela e vi entrarem no pátio dois grandes *leiter-waggons*, cada um puxado por oito cavalos robustos, e à frente de cada par um eslovaco, com seu chapéu largo, cinto grande cravejado de pregos, pele de carneiro suja e botas altas. Eles também tinham seus longos cajados na mão. Corri para a porta, pretendendo descer e tentar me juntar a eles pelo saguão principal, pois pensei que o caminho pudesse estar aberto para eles. Novamente um choque: minha porta estava trancada pelo lado de fora.
Então corri para a janela e gritei para eles. Eles olharam para cima, para mim, estupidamente e apontaram, mas exatamente naquele momento o *hetman* dos Szgany saiu e, vendo-os apontar para a minha janela, disse algo, ao que eles riram. Daí em diante, nenhum esforço meu, nenhum grito piedoso ou súplica agonizante, faria com que sequer olhassem para mim. Eles se viraram resolutamente. Os *leiter-waggons* continham grandes caixas quadradas, com alças de corda grossa; estas estavam evidentemente vazias pela facilidade com que os eslovacos as manuseavam, e pela ressonância delas à medida que eram movidas bruscamente. Quando todas foram descarregadas e empilhadas em um grande monte em um canto do pátio, os eslovacos receberam algum dinheiro dos Szgany e, cuspindo nele para dar sorte, preguiçosamente foram cada um para a cabeça de seu cavalo. Pouco tempo depois, ouvi o estalar de seus chicotes desaparecer à distância.
24 de junho, antes da manhã. — Ontem à noite, o Conde me deixou cedo e trancou-se em seu próprio quarto. Assim que me senti seguro, corri escada acima e olhei pela janela que dava para o sul. Pensei em vigiar o Conde, pois algo está acontecendo. Os Szgany estão alojados em algum lugar do castelo e estão fazendo um trabalho de algum tipo. Sei disso, pois de vez em quando ouço um som abafado e distante, como de picareta e pá, e, o que quer que seja, deve ser para o fim de alguma vilania impiedosa.
Eu estava na janela há pouco menos de meia hora quando vi algo saindo da janela do Conde. Recuei e observei com cuidado, e vi o homem inteiro emergir. Foi um novo choque para mim descobrir que ele estava com o terno de roupas que eu usara enquanto viajava para cá e, pendurada no ombro, a bolsa terrível que vi as mulheres levarem embora. Não poderia haver dúvida quanto à sua busca, e em minhas roupas, ainda por cima! Este, então, é seu novo plano de maldade: ele permitirá que outros me vejam, como eles pensam, para que ele possa deixar evidências de que fui visto nas cidades ou vilarejos postando minhas próprias cartas, e que qualquer maldade que ele possa cometer seja atribuída a mim pelo povo local.
Isso me enfurece pensar que isso pode continuar, enquanto estou trancado aqui, um verdadeiro prisioneiro, mas sem aquela proteção da lei que é até o direito e o consolo de um criminoso.
Pensei em esperar pelo retorno do Conde e, por muito tempo, sentei-me obstinadamente na janela. Então comecei a notar que havia algumas pequenas manchas curiosas flutuando nos raios do luar. Eram como os menores grãos de poeira, e giravam e se reuniam em grupos de uma maneira nebulosa. Observei-os com uma sensação de conforto, e uma espécie de calma me invadiu. Inclinei-me para trás no nicho em uma posição mais confortável, para que pudesse desfrutar mais plenamente daquela folia aérea.
Algo me fez sobressaltar: um uivo baixo e piedoso de cães em algum lugar muito abaixo no vale, que estava escondido da minha visão. Mais alto, pareceu soar em meus ouvidos, e as partículas de poeira flutuantes pareceram assumir novas formas com o som enquanto dançavam ao luar. Senti-me lutando para acordar para algum chamado dos meus instintos; não, minha própria alma estava lutando, e minhas sensibilidades meio lembradas estavam se esforçando para responder ao chamado. Eu estava sendo hipnotizado! Mais e mais rápido dançava a poeira, e os raios da lua pareciam tremer enquanto passavam por mim para a massa de escuridão além. Mais e mais eles se reuniam até parecerem assumir formas fantasmagóricas vagas. E então eu dei um salto, totalmente acordado e em plena posse dos meus sentidos, e corri gritando do local. As formas fantasmagóricas, que estavam se materializando gradualmente a partir dos raios da lua, eram as das três mulheres espectrais a quem eu estava condenado. Fugi e me senti um pouco mais seguro em meu próprio quarto, onde não havia luar e onde a lâmpada queimava intensamente.
Quando algumas horas se passaram, ouvi algo se mexendo no quarto do Conde, algo como um gemido agudo rapidamente suprimido; e então houve silêncio, silêncio profundo e pavoroso, que me gelou. Com o coração batendo forte, tentei a porta; mas eu estava trancado em minha prisão e não podia fazer nada. Sentei-me e simplesmente chorei.
Enquanto estava sentado, ouvi um som no pátio lá fora — o grito agonizante de uma mulher. Corri para a janela e, abrindo-a, espiei por entre as grades. Lá, de fato, estava uma mulher com os cabelos despenteados, segurando as mãos sobre o coração como alguém angustiado por ter corrido. Ela estava encostada em um canto do portão. Quando viu meu rosto na janela, lançou-se para a frente e gritou com uma voz carregada de ameaça:
“Monstro, devolva-me meu filho!”
Ela se jogou de joelhos e, erguendo as mãos, gritou as mesmas palavras em tons que me apertaram o coração. Depois, arrancou os cabelos e bateu no peito, abandonando-se a todas as violências de uma emoção extravagante. Finalmente, lançou-se para a frente e, embora eu não pudesse vê-la, pude ouvir o bater de suas mãos nuas contra a porta.
Em algum lugar alto acima, provavelmente na torre, ouvi a voz do Conde chamando em seu sussurro áspero e metálico. Seu chamado parecia ser respondido de longe pelo uivo de lobos. Antes que muitos minutos tivessem passado, uma matilha deles entrou, como uma represa que se rompe, pela ampla entrada para o pátio.
Não houve grito da mulher, e o uivo dos lobos foi apenas breve. Pouco depois, eles se afastaram um a um, lambendo os beiços.
Eu não podia ter pena dela, pois agora sabia o que havia acontecido com seu filho, e para ela era melhor estar morta.
O que devo fazer? O que posso fazer? Como posso escapar deste terrível domínio da noite, da escuridão e do medo?
25 de junho, manhã. — Nenhum homem sabe, até que tenha sofrido com a noite, quão doce e quão caro ao seu coração e aos seus olhos a manhã pode ser. Quando o sol subiu tão alto esta manhã que atingiu o topo do grande portão em frente à minha janela, o ponto alto que ele tocou pareceu-me como se a pomba da arca tivesse pousado ali. Meu medo caiu de mim como se fosse uma vestimenta vaporosa que se dissolveu no calor. Devo tomar alguma atitude enquanto a coragem do dia está comigo. Ontem à noite, uma das minhas cartas pós-datadas foi para o correio, a primeira daquela série fatal que deve apagar até mesmo os vestígios da minha existência da face da terra.
Não deixe que eu pense nisso. Ação!
Sempre foi durante a noite que fui molestado ou ameaçado, ou de alguma forma estive em perigo ou em medo. Ainda não vi o Conde à luz do dia. Será que ele dorme quando os outros estão acordados, para que possa estar acordado enquanto eles dormem? Se eu pudesse entrar em seu quarto! Mas não há maneira possível. A porta está sempre trancada, sem saída para mim.
Sim, há um caminho, se alguém se atrever a percorrê-lo. Onde o corpo dele foi, por que outro corpo não pode ir? Eu mesmo o vi rastejar de sua janela; por que não imitá-lo e entrar por sua janela? As chances são desesperadoras, mas minha necessidade é ainda mais desesperadora. Vou arriscar. No pior, só pode ser a morte; e a morte de um homem não é a de um bezerro, e o temido Além ainda pode estar aberto para mim. Que Deus me ajude em minha tarefa! Adeus, Mina, se eu falhar; adeus, meu fiel amigo e segundo pai; adeus a todos, e por último, adeus, Mina!
No mesmo dia, mais tarde. — Fiz o esforço e, com a ajuda de Deus, voltei em segurança para este quarto. Devo registrar cada detalhe em ordem. Fui, enquanto minha coragem estava fresca, direto para a janela do lado sul e imediatamente saí para a estreita saliência de pedra que contorna o edifício deste lado. As pedras eram grandes e cortadas grosseiramente, e a argamassa fora lavada pelo passar do tempo entre elas. Tirei minhas botas e me aventurei no caminho desesperado. Olhei para baixo uma vez, para garantir que um vislumbre repentino da profundidade pavorosa não me dominasse, mas depois disso mantive meus olhos longe dela. Eu sabia muito bem a direção e a distância da janela do Conde e segui para ela o melhor que pude, considerando as oportunidades disponíveis. Não me senti tonto — suponho que estava muito excitado — e o tempo pareceu ridiculamente curto até me encontrar parado no parapeito da janela e tentando levantar a guilhotina. Fiquei cheio de agitação, no entanto, quando me curvei e deslizei primeiro os pés para dentro da janela. Então olhei ao redor em busca do Conde, mas, com surpresa e alegria, fiz uma descoberta. O quarto estava vazio! Era escassamente mobiliado com coisas estranhas, que pareciam nunca ter sido usadas; a mobília era de um estilo semelhante à dos quartos do sul e estava coberta de poeira. Procurei a chave, mas não estava na fechadura, e não consegui encontrá-la em lugar nenhum. A única coisa que encontrei foi uma grande pilha de ouro em um canto — ouro de todos os tipos, moedas romanas, britânicas, austríacas, húngaras, gregas e turcas, cobertas por uma película de poeira, como se tivessem estado por muito tempo no chão. Nada do que notei tinha menos de trezentos anos. Havia também correntes e ornamentos, alguns com joias, mas todos antigos e manchados.
Num canto da sala havia uma porta pesada. Experimentei-a, pois, como não conseguia encontrar a chave do aposento ou a chave da porta externa, que era o objetivo principal da minha busca, eu precisava fazer um exame mais aprofundado, ou todos os meus esforços seriam em vão. Estava aberta e conduzia, através de uma passagem de pedra, a uma escadaria circular que descia abruptamente. Desci, atento aonde pisava, pois a escada era escura, iluminada apenas por frestas na alvenaria espessa. No fundo, havia uma passagem escura, semelhante a um túnel, pela qual vinha um odor mortal e doentio, o odor de terra antiga recém-remexida. À medida que avançava pela passagem, o cheiro tornava-se mais denso e pesado. Por fim, abri uma porta pesada que estava entreaberta e encontrei-me numa antiga capela em ruínas, que evidentemente fora usada como cemitério. O teto estava quebrado e, em dois lugares, havia degraus que levavam a criptas, mas o solo fora recentemente escavado e a terra colocada em grandes caixas de madeira, manifestamente aquelas que tinham sido trazidas pelos eslovacos. Não havia ninguém por perto, e procurei qualquer outra saída, mas não havia nenhuma. Então, percorri cada centímetro do chão, para não perder nenhuma oportunidade. Desci até mesmo às criptas, onde a luz fraca lutava para penetrar, embora fazê-lo fosse um pavor para a minha própria alma. Entrei em duas delas, mas não vi nada além de fragmentos de caixões velhos e pilhas de poeira; na terceira, contudo, fiz uma descoberta.
Ali, numa das grandes caixas, das quais havia cinquenta ao todo, sobre uma pilha de terra recém-escavada, jazia o Conde! Ele estava morto ou adormecido, não saberia dizer qual — pois os olhos estavam abertos e petrificados, mas sem a vítrea da morte — e as faces tinham o calor da vida em meio a toda a sua palidez, e os lábios estavam tão vermelhos como sempre. Mas não havia sinal de movimento, nem pulso, nem respiração, nem batimento cardíaco. Curvei-me sobre ele e tentei encontrar qualquer sinal de vida, mas em vão. Ele não poderia estar ali há muito tempo, pois o cheiro de terra teria se dissipado em poucas horas. Ao lado da caixa estava a sua tampa, perfurada com buracos aqui e ali. Pensei que ele pudesse ter as chaves consigo, mas quando fui procurar, vi os olhos mortos e neles, mortos embora estivessem, tal olhar de ódio, ainda que inconsciente de mim ou da minha presença, que fugi do lugar e, deixando o aposento do Conde pela janela, rastejei novamente pela muralha do castelo. Recuperando o meu próprio aposento, atirei-me ofegante sobre a cama e tentei pensar...
29 de junho. — Hoje é a data da minha última carta, e o Conde tomou medidas para provar que era autêntica, pois vi-o novamente deixar o castelo pela mesma janela, e com as minhas roupas. À medida que ele descia a muralha, ao jeito de um lagarto, desejei ter uma arma ou qualquer instrumento letal, para que pudesse destruí-lo; mas temo que nenhuma arma forjada apenas pela mão do homem tivesse qualquer efeito sobre ele. Não me atrevi a esperar para vê-lo regressar, pois temia ver aquelas irmãs estranhas. Voltei à biblioteca e li ali até adormecer.
Fui despertado pelo Conde, que olhou para mim tão severamente quanto um homem pode olhar ao dizer:—
"Amanhã, meu amigo, devemos separar-nos. Você regressa à sua bela Inglaterra, eu a algum trabalho que pode ter um fim tal que talvez nunca nos encontremos. A sua carta para casa foi enviada; amanhã não estarei aqui, mas tudo estará pronto para a sua viagem. Pela manhã virão os Szgany, que têm alguns trabalhos próprios aqui, e também virão alguns eslovacos. Quando eles tiverem ido, a minha carruagem virá buscá-lo e levá-lo-á ao Passo Borgo para encontrar a diligência de Bukovina para Bistritz. Mas tenho esperança de que verei mais de você no Castelo Dracula." Suspeitei dele e decidi testar a sua sinceridade. Sinceridade! Parece uma profanação da palavra escrevê-la em relação a tal monstro, por isso perguntei-lhe diretamente:—
"Por que não posso ir esta noite?"
"Porque, caro senhor, o meu cocheiro e os meus cavalos estão fora numa missão."
"Mas eu iria a pé com prazer. Quero ir embora imediatamente." Ele sorriu, um sorriso tão suave, polido e diabólico que soube haver algum truque por trás da sua polidez. Ele disse:—
"E a sua bagagem?"
"Não me importo com ela. Posso mandar buscá-la noutra ocasião."
O Conde levantou-se e disse, com uma cortesia doce que me fez esfregar os olhos, tão real parecia:—
"Vocês, ingleses, têm um ditado que é caro ao meu coração, pois o seu espírito é aquele que rege os nossos boiardos: 'Acolha o hóspede que chega, apresse o que parte'. Venha comigo, meu caro jovem amigo. Nem por uma hora esperará na minha casa contra a sua vontade, embora triste eu esteja com a sua partida, e que você a deseje tão repentinamente. Venha!" Com uma gravidade imponente, ele, com a lanterna, precedeu-me escada abaixo e ao longo do corredor. De repente, ele parou.
"Ouça!"
Bem perto, veio o uivo de muitos lobos. Era quase como se o som surgisse ao erguer da sua mão, tal como a música de uma grande orquestra parece saltar sob a batuta do maestro. Após uma pausa de um momento, ele prosseguiu na sua forma imponente até à porta, recolheu os ferrolhos pesados, desengatou as correntes pesadas e começou a abri-la.
Para meu intenso espanto, vi que estava destrancada. Suspeitosamente, olhei em toda a volta, mas não consegui ver chave de espécie alguma.
À medida que a porta começava a abrir-se, o uivo dos lobos lá fora tornava-se mais alto e mais furioso; as suas mandíbulas vermelhas, com dentes a ranger, e as suas patas de garras rombas, enquanto saltavam, entravam pela porta que se abria. Sabia que lutar naquele momento contra o Conde era inútil. Com tais aliados ao seu comando, eu nada podia fazer. Mas, ainda assim, a porta continuava a abrir-se lentamente, e apenas o corpo do Conde permanecia na abertura. De repente, ocorreu-me que este poderia ser o momento e o meio do meu destino; eu seria entregue aos lobos, e por minha própria instigação. Havia uma maldade diabólica na ideia, grande o suficiente para o Conde, e como última tentativa gritei:—
"Feche a porta; esperarei até de manhã!" e cobri o rosto com as mãos para esconder as minhas lágrimas de amarga desilusão. Com um só movimento do seu braço poderoso, o Conde fechou a porta, e os grandes ferrolhos tiniram e ecoaram pelo corredor enquanto voltavam aos seus lugares.
Em silêncio, regressámos à biblioteca e, após um ou dois minutos, fui para o meu próprio quarto. A última coisa que vi do Conde Dracula foi ele a enviar-me um beijo com a mão; com uma luz vermelha de triunfo nos olhos, e com um sorriso de que Judas no inferno poderia orgulhar-se.
Quando estava no meu quarto e prestes a deitar-me, pensei ouvir um sussurro à minha porta. Fui até lá suavemente e escutei. A menos que os meus ouvidos me enganassem, ouvi a voz do Conde:—
"Voltem, voltem para o vosso lugar! O vosso tempo ainda não chegou. Esperem. Tenham paciência. Amanhã à noite, amanhã à noite, será vossa!" Houve um riso baixo e doce, e num acesso de fúria abri a porta e vi lá fora as três mulheres terríveis a lamber os lábios. Assim que apareci, todas se juntaram num riso horrível e fugiram.
Voltei para o meu quarto e atirei-me de joelhos. Estará então tão próximo o fim? Amanhã! Amanhã! Senhor, ajuda-me, e àqueles a quem sou caro!
30 de junho, manhã. — Estas podem ser as últimas palavras que escreverei neste diário. Dormi até pouco antes do amanhecer e, quando acordei, atirei-me de joelhos, pois decidi que, se a Morte viesse, ela deveria encontrar-me pronto.
Finalmente, senti aquela mudança subtil no ar e soube que a manhã tinha chegado. Depois veio o bem-vindo cantar do galo, e senti que estava a salvo. Com o coração alegre, abri a porta e corri pelo corredor. Tinha visto que a porta estava destrancada e agora a fuga estava diante de mim. Com mãos que tremiam de ânsia, desengatei as correntes e recolhi os ferrolhos maciços.
Mas a porta não se movia. O desespero apoderou-se de mim. Puxei e puxei a porta, e sacudi-a até que, maciça como era, ela chocalhou no seu batente. Podia ver o ferrolho passado. Tinha sido trancada depois de eu deixar o Conde.
Então, um desejo selvagem tomou-me de obter aquela chave a qualquer custo, e decidi ali mesmo escalar a muralha novamente e ganhar o quarto do Conde. Ele poderia matar-me, mas a morte agora parecia a escolha mais feliz entre os males. Sem hesitar, corri para a janela leste e escalei a muralha, como antes, para o quarto do Conde. Estava vazio, mas era o que eu esperava. Não conseguia ver uma chave em lugar nenhum, mas a pilha de ouro permanecia. Atravessei a porta no canto, desci a escada em caracol e segui a passagem escura até à antiga capela. Sabia agora muito bem onde encontrar o monstro que procurava.
A grande caixa estava no mesmo lugar, encostada à parede, mas a tampa estava posta sobre ela, não fixada, mas com os pregos prontos nos seus lugares para serem martelados até ao fim. Sabia que tinha de revistar o corpo à procura da chave, por isso levantei a tampa e encostei-a à parede; e então vi algo que encheu a minha própria alma de horror. Ali jazia o Conde, mas parecendo que a sua juventude tinha sido parcialmente renovada, pois o cabelo e o bigode brancos tinham mudado para um cinzento-ferro escuro; as faces estavam mais cheias, e a pele branca parecia vermelho-rubi por baixo; a boca estava mais vermelha do que nunca, pois nos lábios havia gotas de sangue fresco, que escorriam dos cantos da boca e corriam pelo queixo e pescoço. Até os olhos profundos e ardentes pareciam fixos entre carne inchada, pois as pálpebras e as bolsas por baixo estavam inchadas. Parecia que toda a criatura terrível estava simplesmente saciada de sangue; ele jazia como uma sanguessuga imunda, exausto com a sua repleção. Estremeci ao curvar-me para tocá-lo, e todos os meus sentidos revoltaram-se com o contacto; mas tinha de procurar, ou estava perdido. A noite que se aproximava poderia ver o meu próprio corpo como um banquete de forma semelhante àquelas três horríveis. Revistei todo o corpo, mas não encontrei sinal da chave. Então parei e olhei para o Conde. Havia um sorriso zombeteiro no rosto inchado que parecia levar-me à loucura. Este era o ser que eu estava a ajudar a transferir para Londres, onde, talvez por séculos, ele poderia, entre os seus milhões fervilhantes, saciar a sua luxúria por sangue e criar um novo e cada vez mais vasto círculo de semidemônios para se banquetearem com os indefesos. O próprio pensamento levava-me à loucura. Um desejo terrível apoderou-se de mim de livrar o mundo de tal monstro. Não havia arma letal à mão, mas agarrei numa pá que os trabalhadores tinham estado a usar para encher as caixas e, levantando-a bem alto, golpeei, com a lâmina para baixo, o rosto odioso. Mas, ao fazê-lo, a cabeça virou-se e os olhos caíram em cheio sobre mim, com todo o seu brilho de horror basilisco. A visão pareceu paralisar-me, e a pá girou na minha mão e resvalou do rosto, fazendo apenas um corte profundo acima da testa. A pá caiu da minha mão através da caixa e, quando a puxei, a aba da lâmina prendeu a borda da tampa, que caiu novamente e escondeu a coisa horrível da minha vista. O último vislumbre que tive foi do rosto inchado, manchado de sangue e fixo num sorriso de malícia que teria resistido ao inferno mais profundo.
Pensei e pensei qual deveria ser o meu próximo passo, mas o meu cérebro parecia arder, e esperei com um sentimento de desespero a crescer sobre mim. Enquanto esperava, ouvi ao longe uma canção cigana cantada por vozes alegres a aproximar-se, e através da sua canção o rodar de rodas pesadas e o estalar de chicotes; os Szgany e os eslovacos de quem o Conde tinha falado estavam a chegar. Com um último olhar em volta e para a caixa que continha o corpo vil, fugi do local e ganhei o quarto do Conde, determinado a correr para fora no momento em que a porta fosse aberta. Com os ouvidos tensos, escutei e ouvi lá embaixo o ranger da chave na grande fechadura e o cair da porta pesada. Deve ter havido algum outro meio de entrada, ou alguém tinha uma chave para uma das portas trancadas. Depois, veio o som de muitos pés a caminhar e a morrer numa passagem que enviava um eco metálico. Voltei para correr de novo em direção à cripta, onde poderia encontrar a nova entrada; mas, naquele momento, pareceu vir uma lufada violenta de vento, e a porta para a escada em caracol fechou-se com um choque que fez voar a poeira das vergas. Quando corri para empurrá-la, descobri que estava irremediavelmente presa. Eu era novamente um prisioneiro, e a rede do destino fechava-se à minha volta mais estreitamente.
Enquanto escrevo, há na passagem abaixo um som de muitos pés a caminhar e o estrondo de pesos a serem colocados pesadamente, sem dúvida as caixas, com a sua carga de terra. Há um som de marteladas; é a caixa a ser pregada. Agora posso ouvir os pés pesados a caminhar novamente pelo corredor, com muitos outros pés ociosos atrás deles.
A porta está fechada, e as correntes tinem; há um ranger da chave na fechadura; posso ouvir a chave ser retirada; depois outra porta abre-se e fecha-se; ouço o ranger da fechadura e do ferrolho.
Ouça! No pátio e ao longo do caminho rochoso, o rodar de rodas pesadas, o estalar de chicotes e o coro dos Szgany enquanto passam à distância.
Estou sozinho no castelo com aquelas mulheres horríveis. Fui! Mina é uma mulher, e não há nada em comum. Elas são demônios do Abismo!
Não permanecerei sozinho com elas; tentarei escalar a muralha do castelo mais longe do que tentei até agora. Levarei algum ouro comigo, caso precise dele mais tarde. Talvez encontre uma saída deste lugar terrível.
E depois, rumo a casa! Rumo ao comboio mais rápido e mais próximo! Longe deste lugar amaldiçoado, desta terra amaldiçoada, onde o diabo e os seus filhos ainda caminham com pés terrenos!
Pelo menos a misericórdia de Deus é melhor do que a destes monstros, e o precipício é íngreme e alto. Aos seus pés, um homem pode dormir — como um homem. Adeus, a todos! Mina!
CAPÍTULO V.
Carta da Srta. Mina Murray para a Srta. Lucy Westenra.
"9 de maio.
"Minha caríssima Lucy,—
"Perdoa a minha longa demora em escrever, mas tenho estado simplesmente sobrecarregada de trabalho. A vida de uma professora assistente é por vezes difícil. Anseio por estar contigo, e junto ao mar, onde possamos caminhar juntas livremente e construir os nossos castelos no ar. Tenho trabalhado muito ultimamente, porque quero acompanhar os estudos de Jonathan, e tenho praticado taquigrafia muito assiduamente. Quando nos casarmos, serei capaz de ser útil a Jonathan, e se eu conseguir taquigrafar bem o suficiente, poderei anotar o que ele quer dizer desta forma e passá-lo a limpo para ele na máquina de escrever, na qual também estou a praticar muito. Ele e eu escrevemos por vezes cartas em taquigrafia, e ele está a manter um diário taquigráfico das suas viagens ao estrangeiro. Quando estiver contigo, manterei um diário da mesma forma. Não me refiro a um daqueles diários de duas páginas por semana com o domingo espremido num canto, mas a uma espécie de diário no qual possa escrever sempre que me sentir inclinada. Não suponho que haverá muito de interesse para outras pessoas; mas não é destinado a elas. Talvez o mostre a Jonathan um dia se houver nele algo que valha a pena partilhar, mas é realmente um caderno de exercícios. Tentarei fazer o que vejo as jornalistas fazerem: entrevistar, escrever descrições e tentar lembrar-me de conversas. Disseram-me que, com um pouco de prática, se pode lembrar de tudo o que acontece ou que se ouve dizer durante o dia. Contudo, veremos. Contar-te-ei todos os meus pequenos planos quando nos encontrarmos. Acabei de receber algumas linhas apressadas de Jonathan, da Transilvânia. Ele está bem e regressará dentro de cerca de uma semana. Anseio por ouvir todas as suas notícias. Deve ser tão bom ver países estranhos, pergunto-me se nós — quero dizer, Jonathan e eu — os veremos algum dia juntos. Está a tocar o sino das dez horas. Adeus.
"Tua amorosa "/Mina./
"Conta-me todas as novidades quando escreveres. Não me contas nada há muito tempo. Ouço rumores, e especialmente sobre um homem alto, bonito e de cabelo encaracolado???"
Carta, Lucy Westenra para Mina Murray.
"_17, Chatham Street,
"Quarta-feira._
"Minha caríssima Mina,—
"Devo dizer que me censuras de forma muito injusta por ser uma má correspondente. Escrevi-te duas vezes desde que nos separámos, e a tua última carta foi apenas a tua segunda. Além disso, não tenho nada para te contar. Não há realmente nada que te possa interessar. A cidade está muito agradável neste momento, e vamos bastante a galerias de arte e fazer caminhadas e passeios a cavalo no parque. Quanto ao homem alto e de cabelo encaracolado, suponho que seja aquele que esteve comigo no último concerto da Pop. Alguém evidentemente andou a contar histórias. Esse era o Sr. Holmwood. Ele vem visitar-nos frequentemente, e ele e a mamã dão-se muito bem; têm tantas coisas em comum para conversar. Conhecemos há algum tempo um homem que seria perfeito para ti, se não estivesses já noiva do Jonathan. É um excelente partido, sendo bonito, abastado e de bom nascimento. É médico e realmente inteligente. Imagina só! Tem apenas vinte e nove anos e tem um imenso manicómio inteiramente sob os seus cuidados. O Sr. Holmwood apresentou-o a mim, e ele veio cá visitar-nos, e agora vem frequentemente. Penso que é um dos homens mais resolutos que já vi, e ainda assim o mais calmo. Parece absolutamente imperturbável. Posso imaginar que poder maravilhoso ele deve ter sobre os seus pacientes. Tem o hábito curioso de olhar-nos diretamente nos olhos, como se tentasse ler os nossos pensamentos. Tenta fazer muito isso comigo, mas lisonjeio-me de que ele tem um osso duro de roer. Sei isso pelo meu espelho. Alguma vez tentas ler o teu próprio rosto? Eu tento, e posso dizer-te que não é um mau estudo, e dá-te mais trabalho do que podes imaginar se nunca o tentaste. Ele diz que lhe ofereço um estudo psicológico curioso, e humildemente penso que sim. Não tenho, como sabes, interesse suficiente em vestuário para ser capaz de descrever as novas modas. O vestuário é uma seca. Isso é calão novamente, mas não importa; o Arthur diz isso todos os dias. Pronto, está tudo dito. Mina, contámos todos os nossos segredos uma à outra desde que éramos crianças; dormimos juntas e comemos juntas; e rimo-nos e chorámos juntas; e agora, embora tenha falado, gostaria de falar mais. Oh, Mina, não podias adivinhar? Eu amo-o. Estou a corar enquanto escrevo, pois embora pense que ele me ama, não mo disse em palavras. Mas, oh, Mina, eu amo-o; eu amo-o; eu amo-o! Pronto, isso faz-me bem. Gostaria de estar contigo, querida, sentada junto à lareira a despir-me, como costumávamos sentar-nos; e tentaria contar-te o que sinto. Não sei como estou a escrever isto, mesmo a ti. Tenho medo de parar, ou rasgaria a carta, e não quero parar, pois quero tanto contar-te tudo. Deixa-me ter notícias tuas imediatamente, e diz-me tudo o que pensas sobre isto. Mina, tenho de parar. Boa noite. Abençoa-me nas tuas orações; e, Mina, reza pela minha felicidade.
/Lucy./
P.S.—Não preciso de dizer-te que isto é um segredo. Boa noite de novo.
L."
Carta, Lucy Westenra para Mina Murray.
"24 de maio.
Minha caríssima Mina,—
Obrigada, e obrigada, e obrigada de novo pela tua doce carta! Foi tão bom poder contar-te e ter a tua simpatia.
Minha querida, quando chove, chove a cântaros. Quão verdadeiros são os velhos provérbios. Aqui estou eu, que farei vinte anos em setembro, e contudo nunca tive uma proposta até hoje, não uma proposta verdadeira, e hoje tive três. Imagina só! /Três/ propostas num só dia! Não é terrível! Sinto pena, verdadeira e sinceramente, por dois dos pobres rapazes. Oh, Mina, estou tão feliz que não sei o que fazer comigo. E três propostas! Mas, pelo amor de Deus, não contes a nenhuma das raparigas, ou elas ficariam com todo o tipo de ideias extravagantes e imaginariam que foram prejudicadas e menosprezadas se, no seu primeiro dia em casa, não recebessem pelo menos seis. Algumas raparigas são tão vaidosas. Tu e eu, querida Mina, que estamos noivas e vamos assentar em breve, sensatamente, como velhas mulheres casadas, podemos desprezar a vaidade. Bem, tenho de te contar sobre os três, mas tens de manter segredo, querida, de toda a gente, exceto, claro, do Jonathan. Tu vais contar-lhe, porque eu, se estivesse no teu lugar, contaria certamente ao Arthur. Uma mulher deve contar tudo ao marido — não achas, querida? — e tenho de ser justa. Os homens gostam que as mulheres, certamente as suas esposas, sejam tão justas quanto eles; e as mulheres, temo eu, nem sempre são tão justas quanto deveriam ser. Bem, minha querida, o número um veio logo antes do almoço. Falei-te dele, o Dr. John Seward, o homem do manicómio, com o queixo forte e a boa testa. Ele estava muito calmo por fora, mas estava nervoso na mesma. Tinha evidentemente estado a preparar-se para todo o tipo de pequenas coisas, e lembrou-se delas; mas quase conseguiu sentar-se sobre a sua cartola, o que os homens geralmente não fazem quando estão calmos, e depois, quando quis parecer à vontade, ficou a brincar com um bisturi de uma forma que quase me fez gritar. Falou comigo, Mina, de forma muito direta. Disse-me o quão querida eu era para ele, embora me conhecesse tão pouco, e como seria a sua vida comigo a ajudá-lo e a animá-lo. Ele ia dizer-me o quão infeliz ficaria se eu não gostasse dele, mas quando me viu chorar, disse que era um bruto e que não acrescentaria nada ao meu sofrimento atual. Depois parou e perguntou se eu poderia amá-lo com o tempo; e quando abanei a cabeça, as suas mãos tremeram, e então, com alguma hesitação, perguntou-me se eu já gostava de outra pessoa. Ele colocou a questão muito delicadamente, dizendo que não queria arrancar-me a confiança, mas apenas saber, porque se o coração de uma mulher estivesse livre, um homem poderia ter esperança. E então, Mina, senti como se fosse um dever dizer-lhe que havia alguém. Apenas lhe disse isso, e então ele levantou-se, e pareceu muito forte e muito grave enquanto segurava ambas as minhas mãos nas dele e disse que esperava que eu fosse feliz, e que se alguma vez precisasse de um amigo, deveria contar com ele como um dos meus melhores. Oh, Mina querida, não consigo evitar chorar; e tens de desculpar esta carta estar toda manchada. Receber propostas é muito bom e tudo isso, mas não é nada uma coisa feliz quando tens de ver um pobre rapaz, que sabes que te ama honestamente, a ir embora com o coração destroçado, e saber que, independentemente do que ele possa dizer no momento, estás a sair completamente da vida dele. Minha querida, tenho de parar por aqui, sinto-me tão miserável, embora esteja tão feliz.
Anoitecer.
O Arthur acabou de sair, e sinto-me com melhor disposição do que quando parei, por isso posso continuar a contar-te sobre o dia. Bem, minha querida, o número dois veio depois do almoço. Ele é um rapaz tão simpático, um americano do Texas, e parece tão jovem e tão fresco que parece quase impossível que ele tenha estado em tantos lugares e tenha tido tais aventuras. Simpatizo com a pobre Desdémona quando ela tinha um fluxo tão perigoso derramado no seu ouvido, mesmo que por um homem negro. Suponho que nós, mulheres, somos tão cobardes que pensamos que um homem nos salvará dos medos, e casamo-nos com ele. Sei agora o que faria se fosse um homem e quisesse fazer uma rapariga amar-me. Não, não sei, pois estava lá o Sr. Morris a contar-nos as suas histórias, e o Arthur nunca contou nenhuma, e ainda assim... Minha querida, estou a antecipar-me. O Sr. Quincey P. Morris encontrou-me sozinha. Parece que um homem encontra sempre uma rapariga sozinha. Não, não encontra, pois o Arthur tentou duas vezes arranjar uma oportunidade, e eu ajudei-o o quanto pude; não tenho vergonha de o dizer agora. Tenho de te dizer de antemão que o Sr. Morris nem sempre fala em calão — isto é, ele nunca o faz com estranhos ou à frente deles, pois ele é realmente bem educado e tem maneiras requintadas — mas ele descobriu que me divertia ouvi-lo falar calão americano, e sempre que eu estava presente, e não havia ninguém para ficar chocado, ele dizia coisas tão engraçadas. Receio, minha querida, que ele tenha de inventar tudo, pois encaixa exatamente em tudo o resto que tem para dizer. Mas é assim o calão. Eu própria não sei se algum dia falarei calão; não sei se o Arthur gosta dele, pois nunca o ouvi usá-lo até agora. Bem, o Sr. Morris sentou-se ao meu lado e pareceu o mais feliz e alegre possível, mas consegui ver na mesma que ele estava muito nervoso. Ele pegou na minha mão e disse tão docemente:
"Menina Lucy, eu sei que não sou bom o suficiente para ajustar os atacadores dos seus sapatinhos, mas acho que se esperar até encontrar um homem que o seja, irá juntar-se àquelas sete jovens com as lâmpadas quando desistir. Não quer simplesmente atrelar-se ao meu lado e deixemo-nos seguir pela longa estrada juntos, conduzindo em parelha?"
Bem, ele parecia tão bem-humorado e tão alegre que não pareceu metade tão difícil recusá-lo como foi o pobre Dr. Seward, por isso disse, o mais levemente que pude, que não sabia nada de atrelar, e que ainda não estava habituada a arreios. Depois ele disse que tinha falado de uma forma leviana, e esperava que, se tinha cometido um erro ao fazê-lo numa ocasião tão grave, tão importante para ele, eu o perdoasse. Ele realmente parecia sério quando estava a dizer isso, e não pude evitar sentir-me um pouco séria também — sei, Mina, que vais pensar que sou uma flirt horrível — embora não pudesse evitar sentir uma espécie de exultação por ele ser o número dois num só dia. E então, minha querida, antes que eu pudesse dizer uma palavra, ele começou a derramar uma verdadeira torrente de declarações de amor, colocando o seu próprio coração e alma aos meus pés. Ele parecia tão sincero em relação a isso que nunca mais pensarei que um homem deve ser sempre brincalhão, e nunca sério, porque é alegre por vezes. Suponho que ele viu algo no meu rosto que o deteve, pois parou subitamente, e disse com uma espécie de fervor masculino pelo qual eu poderia tê-lo amado se estivesse livre:
"Lucy, sei que és uma rapariga de coração honesto. Eu não estaria aqui a falar contigo como estou agora se não acreditasse que és pura, até às profundezas da tua alma. Diz-me, como um bom amigo para outro, há mais alguém por quem te interesses? E se houver, nunca mais te incomodarei nem um milímetro, mas serei, se mo permitires, um amigo muito fiel."
Minha querida Mina, por que são os homens tão nobres quando nós, mulheres, somos tão pouco dignas deles? Aqui estava eu quase a zombar deste cavalheiro de coração nobre e verdadeiro. Desatei a chorar — temo, minha querida, que vais pensar que esta é uma carta muito piegas de mais do que uma forma — e senti-me realmente muito mal. Porque é que não podem deixar uma rapariga casar com três homens, ou com quantos a queiram, e evitar todo este incómodo? Mas isto é heresia, e não devo dizê-lo. Fico feliz por dizer que, embora estivesse a chorar, consegui olhar para os olhos corajosos do Sr. Morris, e disse-lhe diretamente:
"Sim, há alguém que amo, embora ele ainda não me tenha dito que me ama." Eu estava certa em falar-lhe tão francamente, pois uma luz brilhou no seu rosto, e ele estendeu ambas as mãos e tomou as minhas — creio que as coloquei nas dele — e disse de forma calorosa:
"Essa é a minha rapariga corajosa. Vale mais a pena chegar atrasado para a oportunidade de te conquistar do que estar a tempo para qualquer outra rapariga no mundo. Não chores, minha querida. Se é por mim, sou um osso duro de roer; e aceito-o de pé. Se esse outro rapaz não sabe a sua felicidade, bem, é melhor que a procure em breve, ou terá de lidar comigo. Pequena, a tua honestidade e coragem fizeram de mim um amigo, e isso é mais raro do que um amante; é mais altruísta, de qualquer forma. Minha querida, vou ter uma caminhada bastante solitária entre aqui e o Reino de Deus. Não me vais dar um beijo? Será algo para afastar a escuridão de vez em quando. Podes, sabes, se quiseres, pois esse outro bom rapaz — ele deve ser um bom rapaz, minha querida, e um excelente rapaz, ou não o poderias amar — ainda não falou." Isso conquistou-me completamente, Mina, pois foi corajoso e doce da parte dele, e nobre também, para um rival — não foi? — e ele tão triste; por isso inclinei-me e beijei-o. Ele levantou-se com as minhas duas mãos nas dele, e enquanto olhava para o meu rosto — temo que estivesse a corar muito — ele disse:
"Pequena, seguro a tua mão, e tu beijaste-me, e se estas coisas não fazem de nós amigos, nada mais fará. Obrigado pela tua doce honestidade para comigo, e adeus." Ele apertou a minha mão e, pegando no chapéu, saiu diretamente da sala sem olhar para trás, sem uma lágrima ou um tremor ou uma pausa; e eu estou a chorar como uma bebé. Oh, por que é que um homem como aquele tem de ser infeliz quando há tantas raparigas por aí que adorariam o próprio chão em que ele pisa? Sei que eu adoraria se estivesse livre — apenas não quero estar livre. Minha querida, isto deixou-me completamente transtornada, e sinto que não consigo escrever sobre felicidade imediatamente, depois de te contar isto; e não desejo contar sobre o número três até que tudo possa ser feliz.
Sempre tua amorosa,
/Lucy./
P.S.—Oh, sobre o número três — não preciso de te contar sobre o número três, pois não? Além disso, foi tudo tão confuso; pareceu apenas um momento desde a sua entrada na sala até que ambos os seus braços estivessem à minha volta, e ele estivesse a beijar-me. Estou muito, muito feliz, e não sei o que fiz para o merecer. Devo apenas tentar no futuro mostrar que não sou ingrata por toda a Sua bondade para comigo ao enviar-me um tal amante, um tal marido e um tal amigo.
Adeus."
Diário do Dr. Seward.
(Guardado no fonógrafo.)
25 de maio.—Maré baixa no apetite hoje. Não consigo comer, não consigo descansar, por isso diário. Desde a minha rejeição de ontem, tenho uma espécie de sentimento de vazio; nada no mundo parece ter importância suficiente para valer a pena... Como sabia que a única cura para este tipo de coisa era o trabalho, desci até aos pacientes. Escolhi um que me proporcionou um estudo de muito interesse. Ele é tão peculiar nas suas ideias, e tão diferente do lunático normal, que decidi compreendê-lo o melhor que posso. Hoje pareci chegar mais perto do que nunca ao coração do seu mistério.
Interroguei-o mais detalhadamente do que alguma vez fizera, com vista a tornar-me mestre dos factos da sua alucinação. Na minha forma de o fazer houve, vejo agora, algo de crueldade. Pareci querer mantê-lo no ponto da sua loucura — algo que evito com os pacientes como evitaria a boca do inferno. (Mem., sob que circunstâncias não evitaria o poço do inferno?) Omnia Romae vernalia sunt. O inferno tem o seu preço! verb. sap. Se houver algo por trás deste instinto, será valioso traçá-lo depois com precisão, por isso é melhor começar a fazê-lo, portanto —
R. M. Renfield, ætat 59.—Temperamento sanguíneo; grande força física; morbidamente excitável; períodos de melancolia que terminam numa ideia fixa que não consigo compreender. Presumo que o próprio temperamento sanguíneo e a influência perturbadora terminem num desfecho mentalmente realizado; um homem possivelmente perigoso, provavelmente perigoso se for altruísta. Em homens egoístas, a prudência é uma armadura tão segura para os seus inimigos como para eles próprios. O que penso sobre este ponto é: quando o "eu" é o ponto fixo, a força centrípeta é equilibrada com a centrífuga: quando o dever, uma causa, etc., é o ponto fixo, esta última força é suprema, e apenas um acidente ou uma série de acidentes pode equilibrá-la.
Carta, Quincey P. Morris para o Hon. Arthur Holmwood.
"25 de maio.
Meu caro Art,—
Contámos histórias junto à fogueira nas pradarias; e tratámos as feridas um do outro depois de tentarmos desembarcar nas Marquesas; e bebemos brindes na margem do Titicaca. Há mais histórias para contar, e outras feridas para curar, e outro brinde para beber. Não queres que isto seja junto à minha fogueira amanhã à noite? Não tenho hesitação em pedir-te, pois sei que uma certa senhora está comprometida para um certo jantar, e que tu estás livre. Haverá apenas um outro, o nosso velho camarada na Coreia, Jack Seward. Ele também virá, e ambos queremos misturar os nossos prantos sobre o copo de vinho, e brindar com todo o coração ao homem mais feliz de todo o vasto mundo, que conquistou o coração mais nobre que Deus criou e o mais digno de ser conquistado. Prometemos-te uma receção calorosa, e uma saudação amorosa, e um brinde tão verdadeiro como a tua própria mão direita. Ambos juraremos deixar-te em casa se beberes demasiado por um certo par de olhos. Vem!
Teu, como sempre e para sempre, /Quincey P. Morris./"
Telegrama do Arthur Holmwood para Quincey P. Morris.
"26 de maio.
Conta comigo sempre. Trago mensagens que farão as orelhas de ambos formigar.
/Art./"
"Não, não! Um gatinho! Um gatinho! Quero um gatinho! Só um gatinho! Gatos são gatos, mas um gatinho, ah, um gatinho é um ser vivo que se pode tornar em algo maior."
I have tried to get him to explain, but he will not. He only repeats: “I shall live, I shall live!” I am deeply interested in his development. I am concerned as to what he will do next. I am afraid I may have to commit a mistake in judgment, for I have given him his kitten. I have thought over the matter, and it seems that his desire is to absorb as many lives as he can, and he has laid himself out to increase his own vitality by the assimilation of the lives of others. Should it be so, there is a horror of imagination which lies beyond anything found in books or folklore. My Renfield is an interesting study!
8 July.--The kitten is a nice little beast, and the poor fellow is so happy, but he has actually been eating it! “Eating it!” God help me, he is even more beastly than I thought. He did not eat it all, but he killed it and ate part of it, and he says that he is now adding to his life-force. What will be the next step?
19 July.--I have been away from home for a few days, and when I returned I found my friend very much altered. He was silent and moody, and would not speak to me. I thought he was sulking, but he had a look of settled determination in his eyes. He has not touched his food for several days, and he has been staring out of the window for hours at a time. I am worried about him. I do not know what he is planning.
20 July.--He is still the same. He will not speak, and he will not eat. I have tried to get him to talk to me, but he will not answer. I am afraid that he may be dying.
21 July.--He was very weak this morning, and he has been lying on his bed, but he still looks out of the window as if he were waiting for something. I have tried to get him to take some nourishment, but he refuses everything. He is very thin and pale.
22 July.--He is much better to-day. He sat up and spoke to me, and he seems to have regained some of his strength. He asked me for some water, and he drank it greedily. He seems to be in good spirits, but he will not tell me what he has been doing. I must watch him carefully.
24 July.--He is still very quiet, but he has been eating his food, and he seems to be getting stronger every day. I have noticed that he is no longer interested in his pets, and he has not been catching any more flies or spiders. I am very curious to know what he is planning.
25 July.--He is very cheerful to-day, and he has been talking to me about his life. He seems to have a very good memory, and he remembers things that happened when he was a boy. He is a very intelligent man, and I am sure that he has had a very interesting life. I must try to get him to tell me more about himself.
26 July.--He has been very busy all day, and he has been writing in his note-book. He seems to be very excited, and he keeps smiling to himself. I wonder what he is writing about.
27 July.--He has finished his writing, and he has given me his note-book. He says that it contains the secret of his life. I am going to read it tonight, and I will see what he has been doing. I am very anxious to know what it is.
28 July.--I have read his note-book, and I am amazed at what I have found. He has been studying the nature of life, and he has been trying to find a way to make himself immortal. He believes that he can do this by absorbing the lives of others. This is a very strange and terrible idea, and I am very frightened by it. I must talk to him about this, and I must try to show him that he is wrong.
29 July.--I have talked to him, and he has admitted that he has been trying to make himself immortal. He says that he is not afraid of death, and he believes that he will live forever. I am very worried about him, and I do not know what to do. I think that he is very dangerous, and I must keep a close watch on him.
30 July.--He is very quiet again, and he seems to be thinking about something. I am going to keep a very close watch on him, and I am going to make sure that he does not do anything that might hurt himself or anyone else. I must be very careful.
“Oh, sim, eu gostaria de um gato! Eu só pedi um gatinho para que não me recusasse um gato. Ninguém me recusaria um gatinho, não é?” Balancei a cabeça e disse que, no momento, temia que não fosse possível, mas que eu veria a respeito. Seu rosto caiu, e pude ver um aviso de perigo nele, pois houve um súbito olhar feroz e de soslaio que significava matar. O homem é um maníaco homicida subdesenvolvido. Vou testá-lo com seu desejo atual e ver como isso se desenrolará; então saberei mais.
22h — Visitei-o novamente e encontrei-o sentado em um canto, remoendo pensamentos. Quando entrei, ele se lançou de joelhos diante de mim e implorou que eu lhe desse um gato; que sua salvação dependia disso. Fui firme, no entanto, e disse-lhe que ele não poderia tê-lo, ao que ele partiu sem uma palavra e sentou-se, roendo os dedos, no canto onde eu o havia encontrado. Verei-o bem cedo pela manhã.
20 de julho — Visitei Renfield bem cedo, antes que o atendente fizesse suas rondas. Encontrei-o de pé e cantarolando uma melodia. Ele estava espalhando seu açúcar, que havia guardado, na janela, e estava manifestamente recomeçando sua captura de moscas; e começando alegremente e com boa disposição. Olhei ao redor em busca de seus pássaros e, não os vendo, perguntei-lhe onde estavam. Ele respondeu, sem se virar, que todos tinham voado. Havia algumas penas pelo quarto e, em seu travesseiro, uma gota de sangue. Não disse nada, mas fui dizer ao carcereiro que me informasse se houvesse algo estranho com ele durante o dia.
11h — O atendente acaba de vir me dizer que Renfield tem passado muito mal e vomitou um monte de penas. “Minha crença é, doutor”, disse ele, “que ele comeu seus pássaros, e que ele simplesmente os pegou e comeu crus!”
23h — Dei a Renfield um forte opiáceo esta noite; o suficiente para fazer até ele dormir, e peguei sua caderneta para examiná-la. O pensamento que tem zumbido em meu cérebro ultimamente está completo, e a teoria provada. Meu maníaco homicida é de um tipo peculiar. Terei que inventar uma nova classificação para ele, e chamá-lo de maníaco zoófago (comedor de vidas); o que ele deseja é absorver tantas vidas quanto puder, e ele se dispôs a alcançá-lo de uma maneira cumulativa. Ele deu muitas moscas a uma aranha e muitas aranhas a um pássaro, e então quis um gato para comer os muitos pássaros. Quais teriam sido seus passos posteriores? Valeria quase a pena completar o experimento. Poderia ser feito se houvesse apenas uma causa suficiente. Os homens zombaram da vivissecção, e ainda assim vejam seus resultados hoje! Por que não avançar a ciência em seu aspecto mais difícil e vital — o conhecimento do cérebro? Se eu tivesse o segredo de uma mente dessas — se eu detivesse a chave para a fantasia de apenas um lunático — eu poderia elevar meu próprio ramo da ciência a um patamar em comparação ao qual a fisiologia de Burdon-Sanderson ou o conhecimento cerebral de Ferrier seriam como nada. Se ao menos houvesse uma causa suficiente! Não devo pensar muito nisso, ou posso ser tentado; uma boa causa poderia inclinar a balança comigo, pois não poderia eu também ser de um cérebro excepcional, congenitamente?
Como o homem raciocinou bem; lunáticos sempre o fazem dentro de seu próprio escopo. Imagino a quantas vidas ele avalia um homem, ou se apenas a uma. Ele fechou a conta com muita precisão e, hoje, começou um novo registro. Quantos de nós começamos um novo registro a cada dia de nossas vidas?
Para mim, parece apenas ontem que toda a minha vida terminou com minha nova esperança, e que verdadeiramente comecei um novo registro. Assim será até que o Grande Registrador me some e feche minha conta contábil com um saldo de lucro ou prejuízo. Oh, Lucy, Lucy, não posso estar zangado com você, nem posso estar zangado com meu amigo cuja felicidade é a sua; mas devo apenas esperar desesperançoso e trabalhar. Trabalhar! trabalhar!
Se ao menos eu pudesse ter uma causa tão forte quanto a do meu pobre amigo louco ali, uma causa boa e altruísta para me fazer trabalhar, isso seria, de fato, felicidade.
/Diário de Mina Murray./
26 de julho — Estou ansiosa, e me acalma expressar-me aqui; é como sussurrar para si mesma e ouvir ao mesmo tempo. E há também algo nos símbolos da estenografia que o torna diferente da escrita. Estou infeliz por causa de Lucy e de Jonathan. Não tenho notícias de Jonathan há algum tempo e estava muito preocupada; mas ontem o querido Sr. Hawkins, que é sempre tão gentil, enviou-me uma carta dele. Eu havia escrito perguntando se ele tinha notícias, e ele disse que a anexa acabara de ser recebida. É apenas uma linha datada do Castelo Dracula, e diz que ele está apenas partindo para casa. Isso não é típico de Jonathan; não entendo e isso me deixa inquieta. Então, também, Lucy, embora ela esteja tão bem, ultimamente retomou seu antigo hábito de andar dormindo. Sua mãe falou comigo sobre isso, e decidimos que devo trancar a porta do nosso quarto todas as noites. A Sra. Westenra tem a ideia de que sonâmbulos sempre saem pelos telhados das casas e ao longo das bordas dos penhascos, e então são subitamente acordados e caem com um grito de desespero que ecoa por todo o lugar. Pobre querida, ela está naturalmente ansiosa por Lucy, e me conta que seu marido, o pai de Lucy, tinha o mesmo hábito; que ele se levantava à noite e se vestia e saía, se não fosse impedido. Lucy vai se casar no outono, e ela já está planejando seus vestidos e como sua casa será arranjada. Simpatizo com ela, pois faço o mesmo, apenas Jonathan e eu começaremos a vida de uma maneira muito simples, e teremos que tentar fazer as duas pontas se encontrarem. O Sr. Holmwood — ele é o honorável Arthur Holmwood, filho único de Lord Godalming — virá aqui muito em breve — assim que puder deixar a cidade, pois seu pai não está muito bem, e acho que a querida Lucy está contando os momentos até que ele chegue. Ela quer levá-lo até o banco no penhasco do cemitério e mostrar-lhe a beleza de Whitby. Ouso dizer que é a espera que a perturba; ela ficará bem quando ele chegar.
27 de julho — Nenhuma notícia de Jonathan. Estou ficando bastante inquieta por ele, embora não saiba por que deveria; mas eu gostaria muito que ele escrevesse, se fosse apenas uma única linha. Lucy caminha mais do que nunca, e cada noite sou acordada por ela movendo-se pelo quarto. Felizmente, o clima está tão quente que ela não pode resfriar-se; mas, ainda assim, a ansiedade e o ser despertada perpetuamente estão começando a me afetar, e estou ficando nervosa e sem sono eu mesma. Graças a Deus, a saúde de Lucy se mantém. O Sr. Holmwood foi subitamente chamado a Ring para ver seu pai, que ficou gravemente doente. Lucy se aflige com o adiamento de vê-lo, mas isso não afeta sua aparência; ela está um pouco mais robusta, e suas bochechas estão de um adorável rosa choque. Ela perdeu aquele aspecto anêmico que tinha. Rezo para que tudo dure.
3 de agosto — Mais uma semana se passou, e nenhuma notícia de Jonathan, nem mesmo para o Sr. Hawkins, de quem ouvi notícias. Oh, espero que ele não esteja doente. Ele certamente teria escrito. Olho para aquela última carta dele, mas de alguma forma ela não me satisfaz. Não soa como ele, e ainda assim é sua letra. Não há erro nisso. Lucy não caminhou muito dormindo na última semana, mas há uma concentração estranha nela que não entendo; mesmo em seu sono ela parece estar me vigiando. Ela testa a porta e, encontrando-a trancada, anda pelo quarto procurando a chave.
6 de agosto — Mais três dias, e nenhuma notícia. Esse suspense está ficando terrível. Se ao menos eu soubesse para onde escrever ou para onde ir, eu me sentiria mais tranquila; mas ninguém ouviu uma palavra de Jonathan desde aquela última carta. Devo apenas rezar a Deus por paciência. Lucy está mais excitável do que nunca, mas, fora isso, está bem. A noite passada foi muito ameaçadora, e os pescadores dizem que estamos prestes a ter uma tempestade. Devo tentar observá-la e aprender os sinais do tempo. Hoje é um dia cinzento, e o sol enquanto escrevo está escondido em nuvens espessas, bem alto sobre Kettleness. Tudo é cinza — exceto a grama verde, que parece esmeralda entre ele; rocha terrosa cinzenta; nuvens cinzentas, tingidas pelo brilho do sol na borda distante, pairam sobre o mar cinzento, no qual as pontas de areia se estendem como dedos cinzentos. O mar está rolando sobre os baixios e as planícies arenosas com um rugido, abafado pelas brumas marinhas que derivam para o interior. O horizonte está perdido em uma névoa cinzenta. Tudo é vastidão; as nuvens estão empilhadas como rochas gigantes, e há um "rugido" sobre o mar que soa como algum presságio de condenação. Figuras escuras estão na praia aqui e ali, às vezes meio envoltas na névoa, e parecem "homens como árvores caminhando". Os barcos de pesca estão correndo para casa, e sobem e descem na ondulação de fundo enquanto varrem para o porto, curvando-se até os convés. Lá vem o velho Sr. Swales. Ele está vindo direto para mim, e posso ver, pela maneira como ele levanta o chapéu, que ele quer conversar...
Fiquei bastante tocada com a mudança no pobre velho. Quando ele se sentou ao meu lado, disse de uma maneira muito gentil:
"Quero dizer algo a você, senhorita." Pude ver que ele não estava à vontade, então tomei sua pobre mão velha e enrugada na minha e pedi-lhe que falasse abertamente; então ele disse, deixando sua mão na minha:
"Tenho medo, minha querida, de ter chocado você com todas as coisas más que venho dizendo sobre os mortos, e coisas do tipo, há semanas; mas eu não as quis dizer, e quero que você se lembre disso quando eu tiver ido. Nós, velhos, que estamos confusos, e com um pé atrás da cova, não gostamos totalmente de pensar nisso, e não queremos sentir medo disso; e é por isso que comecei a fazer pouco disso, para que eu pudesse alegrar um pouco meu próprio coração. Mas, que o Senhor a ame, senhorita, não tenho medo de morrer, nem um pouco; apenas não quero morrer se puder evitar. Meu tempo deve estar próximo agora, pois sou velho, e cem anos é demais para qualquer homem esperar; e estou tão perto disso que o Velho já está afiando sua foice. Você vê, não consigo me livrar do hábito de gracejar sobre isso de uma vez; as mandíbulas vão balançar como estão acostumadas. Algum dia em breve o Anjo da Morte tocará sua trombeta para mim. Mas não chore nem lamente, minha querida!" — pois ele viu que eu estava chorando — "se ele viesse esta mesma noite, eu não me recusaria a atender seu chamado. Pois a vida é, afinal, apenas uma espera por algo mais do que o que estamos fazendo; e a morte é tudo com o que podemos realmente contar. Mas estou contente, pois está vindo para mim, minha querida, e vindo rápido. Pode estar vindo enquanto olhamos e nos maravilhamos. Talvez esteja naquele vento sobre o mar que traz consigo perda e naufrágio, e dor profunda, e corações tristes. Olhe! olhe!" ele gritou de repente. "Há algo naquele vento e na costa além que soa, e parece, e tem gosto, e cheira a morte. Está no ar; sinto isso vindo. Senhor, faze-me responder alegremente quando meu chamado chegar!" Ele levantou os braços devotamente e tirou o chapéu. Sua boca se moveu como se ele estivesse rezando. Após alguns minutos de silêncio, ele se levantou, apertou minha mão, abençoou-me, disse adeus e mancou para longe. Tudo isso me tocou e me perturbou muito.
Fiquei feliz quando o guarda costeiro apareceu, com seu telescópio debaixo do braço. Ele parou para conversar comigo, como sempre faz, mas o tempo todo continuou olhando para um navio estranho.
"Não consigo identificá-lo", disse ele; "é um russo, pelo aspecto; mas está andando de um jeito muito estranho. Não sabe o que quer; parece ver a tempestade chegando, mas não consegue decidir se deve fugir para o norte em campo aberto ou entrar aqui. Olhe lá de novo! Ele é governado de forma muito estranha, pois não se importa com a mão no leme; muda a cada rajada de vento. Ouviremos mais sobre ele antes desta hora amanhã."
CAPÍTULO VII.
/Recorte do “The Dailygraph”, 8 de agosto./
(Colado no Diário de Mina Murray.)
De um Correspondente.
Whitby.
Uma das maiores e mais repentinas tempestades já registradas acaba de ser experimentada aqui, com resultados estranhos e únicos. O tempo estava um tanto abafado, mas não em qualquer grau incomum no mês de agosto. A noite de sábado foi tão bela quanto se conhecia, e a grande massa de veranistas saiu ontem para visitas a Mulgrave Woods, Robin Hood’s Bay, Rig Mill, Runswick, Staithes e as várias excursões nas redondezas de Whitby. Os vapores Emma e Scarborough fizeram excursões ao longo da costa, e houve uma quantidade incomum de "passeios" tanto para dentro quanto para fora de Whitby. O dia estava extraordinariamente bom até a tarde, quando alguns dos fofoqueiros que frequentam o cemitério do East Cliff, e daquela eminência dominante observam a ampla varredura do mar visível ao norte e leste, chamaram a atenção para uma súbita mostra de "caudas de égua" alto no céu ao noroeste. O vento soprava então do sudoeste no grau moderado que na linguagem barométrica é classificado como "Nº 2: brisa leve". O guarda costeiro de serviço fez o relatório imediatamente, e um velho pescador, que há mais de meio século vigia os sinais do tempo do East Cliff, previu de forma enfática a chegada de uma tempestade súbita. A aproximação do pôr do sol foi tão bela, tão grandiosa em suas massas de nuvens esplendidamente coloridas, que houve uma verdadeira reunião no caminho ao longo do penhasco no antigo cemitério para apreciar a beleza. Antes que o sol mergulhasse abaixo da massa negra de Kettleness, postada ousadamente através do céu ocidental, seu caminho descendente foi marcado por miríades de nuvens de todas as cores do pôr do sol — chama, púrpura, rosa, verde, violeta e todos os tons de ouro; com aqui e ali massas não grandes, mas aparentemente de absoluta escuridão, em todos os tipos de formas, tão bem delineadas quanto silhuetas colossais. A experiência não foi perdida pelos pintores, e sem dúvida alguns dos esboços do "Prelúdio para a Grande Tempestade" adornarão as paredes da R.A. e R.I. em maio próximo. Mais de um capitão decidiu ali mesmo que seu "cobble" ou seu "mule", como eles chamam as diferentes classes de barcos, permaneceria no porto até que a tempestade tivesse passado. O vento desapareceu completamente durante a noite e à meia-noite havia uma calmaria absoluta, um calor abafado e aquela intensidade predominante que, na aproximação de trovões, afeta pessoas de natureza sensível. Havia poucas luzes à vista no mar, pois mesmo os vapores costeiros, que geralmente "abraçam" a costa tão de perto, mantiveram-se bem ao largo, e poucos barcos de pesca estavam à vista. A única vela notável era uma escuna estrangeira com todas as velas içadas, que aparentemente ia para o oeste. A temeridade ou ignorância de seus oficiais foi um tema prolífico para comentários enquanto ela permanecia à vista, e esforços foram feitos para sinalizar que ela reduzisse as velas diante do perigo. Antes que a noite caísse, ela foi vista com as velas balançando ociosamente enquanto rolava suavemente na ondulação ondulante do mar,
"Tão ociosa quanto um navio pintado sobre um oceano pintado."
Pouco antes das dez horas, a quietude do ar tornou-se bastante opressiva, e o silêncio foi tão marcado que o balido de uma ovelha no interior ou o latir de um cão na cidade eram distintamente ouvidos, e a banda no píer, com seu alegre ar francês, era como uma dissonância na grande harmonia do silêncio da natureza. Pouco depois da meia-noite veio um som estranho sobre o mar, e bem acima o ar começou a carregar um estrondo oco, estranho e fraco.
Então, sem aviso, a tempestade desabou. Com uma rapidez que, na altura, pareceu incrível, e mesmo depois é impossível de conceber, todo o aspecto da natureza tornou-se subitamente convulso. As ondas erguiam-se numa fúria crescente, cada uma sobrepondo-se à outra, até que, em poucos minutos, o mar, outrora vítreo, assemelhava-se a um monstro rugidor e devorador. Ondas de cristas brancas batiam loucamente nas areias planas e subiam pelas falésias escarpadas; outras quebravam sobre os molhes e, com a sua espuma, varriam as lanternas dos faróis que se erguem da extremidade de cada molhe do Porto de Whitby. O vento rugia como um trovão e soprava com tal força que era difícil até para homens fortes manterem-se de pé ou agarrarem-se com força tenaz aos suportes de ferro. Verificou-se ser necessário limpar os molhes da multidão de espectadores, caso contrário, as fatalidades da noite teriam sido muitas vezes maiores. Para aumentar as dificuldades e os perigos da altura, massas de nevoeiro marítimo vinham à deriva para o interior — nuvens brancas e húmidas que passavam de forma fantasmagórica, tão densas, húmidas e frias que bastava um pequeno esforço de imaginação para pensar que os espíritos dos náufragos estavam a tocar os seus irmãos vivos com as mãos viscosas da morte, e muitos estremeceram à medida que as grinaldas de névoa passavam. Por vezes, o nevoeiro abria-se e o mar, a alguma distância, podia ser visto no clarão do relâmpago, que agora surgia espesso e rápido, seguido por trovões tão súbitos que o céu inteiro acima parecia tremer sob o choque dos passos da tempestade. Algumas das cenas assim reveladas eram de uma grandeza incomensurável e de um interesse absorvente — o mar, elevando-se como montanhas, lançava para o céu, a cada vaga, massas imensas de espuma branca, que a tempestade parecia arrebatar e rodopiar para o espaço; aqui e ali um barco de pesca, com um farrapo de vela, correndo loucamente em busca de abrigo perante o vendaval; de vez em quando, as asas brancas de uma ave marinha fustigada pela tempestade. No topo da Falésia Este, o novo holofote estava pronto para ser experimentado, mas ainda não tinha sido testado. Os oficiais encarregados colocaram-no em funcionamento e, nas pausas do nevoeiro que invadia, varriam com ele a superfície do mar. Uma ou duas vezes, o seu serviço foi extremamente eficaz, como quando um barco de pesca, com a amurada debaixo de água, correu para o interior do porto, conseguindo, pela orientação da luz protetora, evitar o perigo de embater nos molhes. À medida que cada barco alcançava a segurança do porto, ouvia-se um grito de alegria da multidão em terra, um grito que por um momento pareceu rasgar o vendaval e foi logo de seguida varrido pela sua força. Não tardou que o holofote descobrisse, a alguma distância, uma escuna com todas as velas içadas, aparentemente a mesma embarcação que tinha sido notada mais cedo na noite. O vento tinha, entretanto, rodado para leste, e houve um estremecimento entre os observadores na falésia ao perceberem o perigo terrível em que ela agora se encontrava. Entre ela e o porto jazia o grande recife plano sobre o qual tantos bons navios sofreram, de tempos a tempos, e, com o vento a soprar daquela direção, seria totalmente impossível que ela alcançasse a entrada do porto. Estava agora quase na hora da maré alta, mas as ondas eram tão grandes que, nos seus vales, os baixios da costa eram quase visíveis, e a escuna, com todas as velas içadas, corria a tal velocidade que, nas palavras de um velho lobo do mar, “ela teria de parar em qualquer lado, nem que fosse no inferno”. Então veio uma nova lufada de nevoeiro marítimo, maior do que qualquer outra até então — uma massa de névoa húmida que parecia fechar-se sobre todas as coisas como um manto cinzento, deixando aos homens apenas o sentido da audição, pois o rugido da tempestade, o estrondo do trovão e o bramido das imensas ondas chegavam através do esquecimento húmido ainda mais alto do que antes. Os raios do holofote foram mantidos fixos na boca do porto, através do Molhe Este, onde o choque era esperado, e os homens aguardavam sem fôlego. O vento mudou subitamente para nordeste, e o resto do nevoeiro marítimo dissolveu-se na lufada; e então, mirabile dictu, entre os molhes, saltando de onda em onda enquanto corria a uma velocidade vertiginosa, passou a estranha escuna perante o vendaval, com todas as velas içadas, e alcançou a segurança do porto. O holofote seguiu-a, e um estremecimento percorreu todos os que a viram, pois, amarrado ao leme, estava um cadáver, com a cabeça pendente, que oscilava horrivelmente a cada movimento do navio. Nenhuma outra forma podia ser vista no convés. Um grande temor apoderou-se de todos ao perceberem que o navio, como que por um milagre, tinha encontrado o porto, sem ser guiado senão pela mão de um homem morto! No entanto, tudo aconteceu mais rapidamente do que demora escrever estas palavras. A escuna não parou, mas, correndo através do porto, atirou-se contra aquele acúmulo de areia e cascalho, lavado por muitas marés e muitas tempestades, no canto sudeste do molhe que se projeta sob a Falésia Este, conhecido localmente como Tate Hill Pier.
Houve, naturalmente, uma concussão considerável quando a embarcação subiu sobre o monte de areia. Cada mastro, corda e estai foi tensionado, e parte da “aparelhagem” desabou com um estrondo. Mas, o mais estranho de tudo, no preciso instante em que a costa foi tocada, um cão imenso saltou para o convés vindo de baixo, como se tivesse sido projetado pela concussão, e, correndo para a frente, saltou da proa para a areia. Direcionando-se para a falésia íngreme, onde o cemitério paira sobre a ruela para o Molhe Este tão abruptamente que algumas das lápides planas — “thruff-steans” ou “through-stones”, como lhes chamam no vernáculo de Whitby — projetam-se de facto sobre onde a falésia de sustentação ruiu, desapareceu na escuridão, que parecia intensificada logo para lá do foco do holofote.
Aconteceu que não estava ninguém no momento no Tate Hill Pier, pois todos aqueles cujas casas ficavam nas proximidades estavam na cama ou nas alturas acima. Assim, o guarda-costeiro de serviço no lado leste do porto, que correu imediatamente para o pequeno molhe, foi o primeiro a subir a bordo. Os homens que operavam o holofote, após vasculharem a entrada do porto sem verem nada, viraram então a luz para o navio abandonado e mantiveram-na lá. O guarda-costeiro correu para a ré e, quando chegou junto da roda do leme, inclinou-se para examiná-la e recuou imediatamente como se estivesse sob alguma emoção súbita. Isto pareceu atiçar a curiosidade geral, e um bom número de pessoas começou a correr. É um longo caminho a contornar desde West Cliff, pela ponte levadiça, até ao Tate Hill Pier, mas o seu correspondente é um corredor bastante bom e chegou bem à frente da multidão. Quando cheguei, no entanto, encontrei já reunida no molhe uma multidão, que o guarda-costeiro e a polícia recusavam deixar subir a bordo. Pela cortesia do chefe dos barqueiros, fui, na qualidade de seu correspondente, autorizado a subir ao convés, e fui um dos elementos de um pequeno grupo que viu aquele marinheiro morto enquanto estava, de facto, amarrado à roda do leme.
Não era de admirar que o guarda-costeiro estivesse surpreendido, ou mesmo receoso, pois não é comum ver-se tal visão. O homem estava simplesmente preso pelas mãos, atadas uma sobre a outra, a um raio da roda do leme. Entre a mão interior e a madeira havia um crucifixo, e o terço em que estava fixado encontrava-se à volta de ambos os pulsos e da roda, tudo mantido firme pelas cordas de amarração. O pobre rapaz pode ter estado sentado a dada altura, mas o bater e o açoitamento das velas tinham atuado através do leme da roda e arrastado-o de um lado para o outro, de modo que as cordas com que estava atado tinham cortado a carne até ao osso. Foi feita uma nota precisa do estado das coisas, e um médico — o Cirurgião J. M. Caffyn, de 33, East Elliot Place — que chegou imediatamente depois de mim, declarou, após fazer o exame, que o homem deveria estar morto há pelo menos dois dias. No seu bolso estava uma garrafa, cuidadosamente rolhada, vazia exceto por um pequeno rolo de papel, que se revelou ser o aditamento ao diário de bordo. O guarda-costeiro disse que o homem devia ter atado as suas próprias mãos, apertando os nós com os dentes. O facto de um guarda-costeiro ter sido o primeiro a bordo pode evitar algumas complicações, mais tarde, no Tribunal do Almirantado; pois os guarda-costeiros não podem reclamar o salvamento que é o direito do primeiro civil a entrar numa embarcação abandonada. Já, contudo, as línguas jurídicas estão a mover-se, e um jovem estudante de direito afirma ruidosamente que os direitos do proprietário já estão completamente sacrificados, sendo a sua propriedade detida em contravenção dos estatutos de mortmain, uma vez que o leme, como emblema, se não prova, de posse delegada, é detido por uma *mão morta*. É desnecessário dizer que o timoneiro morto foi reverentemente removido do lugar onde manteve a sua honrosa guarda e vigia até à morte — uma firmeza tão nobre como a do jovem Casabianca — e colocado na morgue a aguardar a autópsia.
Já a tempestade súbita está a passar e a sua ferocidade está a diminuir; as multidões estão a dispersar para casa, e o céu começa a avermelhar sobre as colinas de Yorkshire. Enviarei, a tempo da sua próxima edição, mais detalhes sobre o navio abandonado que encontrou o seu caminho tão milagrosamente até ao porto durante a tempestade.
Whitby.
9 de Agosto. — A continuação da estranha chegada do navio abandonado na tempestade da noite passada é quase mais alarmante do que o próprio facto. Verifica-se que a escuna é russa, de Varna, e chama-se Demeter. Está quase totalmente em lastro de areia prateada, com apenas uma pequena quantidade de carga — várias caixas de madeira grandes cheias de terra. Esta carga estava consignada a um advogado de Whitby, o Sr. S. F. Billington, de 7, The Crescent, que esta manhã subiu a bordo e tomou posse formal dos bens que lhe estavam consignados. O cônsul russo também, agindo em nome da carta-partida, tomou posse formal do navio e pagou todas as taxas portuárias, etc. Nada mais se comenta aqui hoje a não ser a estranha coincidência; os funcionários do Board of Trade têm sido extremamente rigorosos a verificar se todas as normas existentes foram cumpridas. Como se espera que o assunto seja uma “curiosidade de nove dias”, estão evidentemente determinados a que não haja motivos para reclamações posteriores. Havia muito interesse em torno do cão que desembarcou quando o navio embateu, e não poucos membros da S.P.C.A., que é muito forte em Whitby, tentaram apadrinhar o animal. Para a deceção geral, contudo, não foi encontrado; parece ter desaparecido completamente da cidade. Pode ser que estivesse assustado e tenha seguido para os charnecas, onde ainda se esconde em terror. Há alguns que olham com receio para tal possibilidade, temendo que, mais tarde, se possa tornar num perigo em si mesmo, pois é evidentemente uma besta feroz. Esta manhã cedo, um cão grande, um cruzamento de mastim, pertencente a um comerciante de carvão perto do Tate Hill Pier, foi encontrado morto na estrada em frente ao estaleiro do seu dono. Tinha estado a lutar e, manifestamente, teve um oponente selvagem, pois a sua garganta estava arrancada e o seu ventre rasgado como se tivesse sido por uma garra selvagem.
Mais tarde. — Pela gentileza do inspetor do Board of Trade, fui autorizado a consultar o diário de bordo do Demeter, que estava em ordem até três dias atrás, mas não continha nada de interesse especial exceto factos sobre o desaparecimento de homens. O maior interesse, no entanto, diz respeito ao papel encontrado na garrafa, que hoje foi apresentado na autópsia; e uma narrativa mais estranha do que aquela que os dois, em conjunto, revelam, não foi meu destino encontrar. Como não há motivo para ocultação, estou autorizado a usá-los e, consequentemente, envio-lhe uma transcrição, omitindo apenas os detalhes técnicos de navegação e sobrecarga. Parece quase como se o capitão tivesse sido tomado por algum tipo de mania antes de chegar bem a águas profundas, e que esta se tivesse desenvolvido persistentemente durante a viagem. Naturalmente, a minha declaração deve ser aceite *cum grano*, uma vez que escrevo sob ditado de um funcionário do cônsul russo, que gentilmente traduziu para mim, sendo o tempo escasso.
/Diário de bordo do “Demeter.”/
De Varna para Whitby.
*Escrito a 18 de Julho, acontecendo coisas tão estranhas que manterei um registo preciso daqui em diante até desembarcarmos.*
A 6 de Julho terminámos de carregar a carga, areia prateada e caixas de terra. Ao meio-dia içámos velas. Vento leste, fresco. Tripulação, cinco homens, ... dois oficiais, cozinheiro e eu próprio (capitão).
A 11 de Julho, ao amanhecer, entrámos no Bósforo. Visitados por oficiais alfandegários turcos. *Backsheesh*. Tudo correto. Em marcha às 16h.
A 12 de Julho através dos Dardanelos. Mais oficiais alfandegários e o navio-bandeira do esquadrão de guarda. Mais *backsheesh*. O trabalho dos oficiais foi minucioso, mas rápido. Queriam-nos fora rapidamente. Ao anoitecer entrámos no Arquipélago.
A 13 de Julho passámos o Cabo Matapan. Tripulação insatisfeita com alguma coisa. Pareciam assustados, mas não queriam falar abertamente.
A 14 de Julho estava um pouco ansioso com a tripulação. Os homens eram todos trabalhadores constantes, que navegaram comigo antes. O oficial não conseguia entender o que estava errado; apenas lhe diziam que havia alguma coisa, e benziam-se. O oficial perdeu a paciência com um deles nesse dia e bateu-lhe. Esperei por uma discussão feroz, mas tudo ficou calmo.
A 16 de Julho o oficial relatou de manhã que um dos tripulantes, Petrofsky, tinha desaparecido. Não conseguia explicá-lo. Estava no turno de bombordo às oito badaladas da noite passada; foi rendido por Abramoff, mas não foi para a sua beliche. Os homens estão mais abatidos do que nunca. Todos diziam que esperavam algo do género, mas não diziam mais do que o facto de haver algo a bordo. O oficial está a ficar muito impaciente com eles; receava algum problema pela frente.
A 17 de Julho, ontem, um dos homens, Olgaren, veio ao meu camarote e, de uma forma receosa, confidenciou-me que achava que havia um homem estranho a bordo do navio. Disse que, durante o seu turno, estava abrigado atrás da casa do convés, pois havia uma tempestade de chuva, quando viu um homem alto e magro, que não era como nenhum da tripulação, subir a escada e caminhar pelo convés em direção à proa, desaparecendo. Seguiu-o cautelosamente, mas quando chegou à proa não encontrou ninguém, e as escotilhas estavam todas fechadas. Estava em pânico de medo supersticioso, e receio que o pânico se espalhe. Para o acalmar, vou hoje revistar todo o navio cuidadosamente de proa a popa.
Mais tarde, no mesmo dia, reuni toda a tripulação e disse-lhes que, como evidentemente pensavam que havia alguém no navio, deveríamos revistá-lo de proa a popa. O primeiro oficial estava zangado; disse que era loucura, e que ceder a tais ideias disparatadas desmoralizaria os homens; disse que se encarregaria de os manter longe de problemas com uma alavanca. Deixei-o ficar ao leme, enquanto os restantes começavam uma busca minuciosa, todos alinhados, com lanternas; não deixámos nenhum canto por revistar. Como só havia as grandes caixas de madeira, não havia cantos estranhos onde um homem se pudesse esconder. Os homens ficaram muito aliviados quando a busca terminou e voltaram ao trabalho alegremente. O primeiro oficial olhou com desdém, mas não disse nada.
22 de Julho. — Tempo instável nos últimos três dias, e todos ocupados com as velas — sem tempo para ter medo. Os homens parecem ter esquecido o seu pavor. O oficial está alegre de novo, e todos em bons termos. Elogiei os homens pelo trabalho no mau tempo. Passámos Gibraltar e saímos pelos Estreitos. Tudo bem.
24 de Julho. — Parece haver uma maldição sobre este navio. Já com um homem a menos, e entrando no Golfo da Biscaia com tempo selvagem pela frente, e ainda assim, na noite passada, mais um homem perdido — desapareceu. Tal como o primeiro, terminou o seu turno e não foi mais visto. Os homens estão todos em pânico de medo; enviaram uma carta circular, pedindo para ter turno duplo, pois temem ficar sozinhos. O oficial está violento. Receio que haja algum problema, pois ou ele ou os homens farão alguma violência.
28 de Julho. — Quatro dias no inferno, debatendo-nos num tipo de *maelstrom*, e o vento uma tempestade. Sem sono para ninguém. Os homens estão todos exaustos. Mal sei como estabelecer um turno, já que ninguém está em condições de o fazer. O segundo oficial voluntariou-se para governar e vigiar, e deixar os homens dormirem algumas horas. O vento está a diminuir; os mares ainda são terríveis, mas sinto-os menos, pois o navio está mais estável.
29 de Julho. — Outra tragédia. Tivemos turno simples esta noite, pois a tripulação estava demasiado cansada para turno duplo. Quando o turno da manhã subiu ao convés, não conseguiu encontrar ninguém exceto o timoneiro. Levantou-se um alarido e todos subiram ao convés. Busca minuciosa, mas ninguém encontrado. Estamos agora sem o segundo oficial, e a tripulação em pânico. O oficial e eu concordámos em andar armados daqui em diante e aguardar por qualquer sinal da causa.
30 de Julho. — Última noite. Regozijamo-nos por estarmos a aproximar-nos de Inglaterra. Tempo bom, todas as velas içadas. Retirei-me exausto; dormi profundamente; acordado pelo oficial que me dizia que tanto os homens no turno como o timoneiro desapareceram. Apenas eu, o oficial e dois homens restamos para manobrar o navio.
1 de Agosto. — Dois dias de nevoeiro, e nenhuma vela à vista. Tinha esperado que, ao chegar ao Canal da Mancha, pudesse pedir ajuda ou entrar em algum lado. Não tendo força para manobrar as velas, tenho de correr com o vento. Não me atrevo a baixá-las, pois não poderia içá-las novamente. Parecemos estar à deriva para algum destino terrível. O oficial está agora mais desmoralizado do que qualquer um deles. A sua natureza mais forte parece ter trabalhado interiormente contra ele próprio. Os homens estão para lá do medo, trabalhando estoicamente e pacientemente, com as mentes feitas para o pior. Eles são russos, ele é romeno.
2 de Agosto, meia-noite. — Acordei de alguns minutos de sono ao ouvir um grito, aparentemente fora da minha vigia. Não conseguia ver nada no nevoeiro. Corri para o convés e choquei com o oficial. Diz-me que ouviu um grito e correu, mas nenhum sinal do homem de turno. Mais um que se foi. Senhor, ajuda-nos! O oficial diz que devemos ter passado o Estreito de Dover, pois num momento em que o nevoeiro levantou ele viu North Foreland, exatamente quando ouviu o homem gritar. Se assim for, estamos agora no Mar do Norte, e só Deus nos pode guiar no nevoeiro, que parece mover-se connosco; e Deus parece ter-nos abandonado.
3 de Agosto. — À meia-noite fui render o homem à roda do leme, mas quando lá cheguei não encontrei ninguém. O vento estava constante e, como corríamos perante ele, não havia guinadas. Não me atrevi a deixá-la, por isso chamei pelo oficial. Após alguns segundos ele correu para o convés de roupa interior. Parecia de olhos selvagens e macilento, e receio muito que a sua razão tenha cedido. Aproximou-se de mim e sussurrou roucamente, com a boca junto ao meu ouvido, como se temesse que o próprio ar pudesse ouvir: “Está aqui; eu sei, agora. No turno da noite passada vi-O, como um homem, alto e magro, e terrivelmente pálido. Estava na proa, a olhar. Rastejei atrás d’Ele e dei-Lhe a minha faca; mas a faca atravessou-O, vazia como o ar.” E, enquanto falava, pegou na sua faca e espetou-a selvaticamente no espaço. Depois continuou: “Mas Ele está aqui, e eu vou encontrá-lo. Está no porão, talvez, numa daquelas caixas. Vou desaparafusá-las uma a uma e ver. Tu governa o leme.” E, com um olhar de aviso e o dedo nos lábios, desceu. Estava a levantar-se um vento agitado e eu não podia deixar o leme. Vi-o sair novamente para o convés com uma caixa de ferramentas e uma lanterna, e descer pela escotilha da frente. Ele está louco, completamente louco, e não adianta tentar detê-lo. Ele não pode magoar aquelas caixas grandes: estão faturadas como “barro”, e mexer nelas é a coisa mais inofensiva que ele pode fazer. Por isso, aqui fico, tomo conta do leme e escrevo estas notas. Só posso confiar em Deus e esperar até que o nevoeiro levante. Então, se não conseguir governar para qualquer porto com o vento que está, cortarei as velas e aguardarei, sinalizando por ajuda...
Já quase tudo terminou. Assim que eu começava a ter esperanças de que o imediato saísse mais calmo — pois ouvi-o a martelar algo no porão, e o trabalho faz-lhe bem —, surgiu da escotilha um grito súbito e sobressaltado, que me gelou o sangue, e ele veio para o convés como se tivesse sido disparado de um canhão — um louco furioso, com os olhos a revirar e o rosto convulso de medo. “Salvem-me! Salvem-me!”, gritou, e depois olhou em redor para o manto de nevoeiro. O seu horror transformou-se em desespero e, com voz firme, disse: “É melhor que o senhor venha também, capitão, antes que seja tarde demais. Ele está lá. Agora sei o segredo. O mar salvar-me-á d’Ele, e é tudo o que resta!” Antes que eu pudesse dizer uma palavra, ou mover-me para o agarrar, ele saltou para a amurada e atirou-se deliberadamente ao mar. Suponho que agora também eu conheço o segredo. Foi este louco que se livrou dos homens, um a um, e agora seguiu-os ele próprio. Deus me ajude! Como hei de explicar todos estes horrores quando chegar ao porto? Quando chegar ao porto! Será que isso algum dia acontecerá?
4 de agosto. — Ainda nevoeiro, que o nascer do sol não consegue penetrar. Sei que o sol nasceu porque sou marinheiro; por que mais o saberia, não sei. Não me atrevi a descer, não me atrevi a deixar o leme; por isso, aqui fiquei toda a noite, e na penumbra da noite vi-O — a Ele! Deus me perdoe, mas o imediato tinha razão ao atirar-se ao mar. É melhor morrer como um homem; morrer como um marinheiro em águas profundas, ninguém pode objetar. Mas sou o capitão e não devo abandonar o meu navio. Contudo, hei de confundir este demónio ou monstro, pois atarei as minhas mãos ao leme quando a minha força começar a falhar, e juntamente com elas atarei aquilo que Ele — Aquilo! — não ousa tocar; e então, venha vento bom ou mau, salvarei a minha alma e a minha honra como capitão. Estou a ficar mais fraco e a noite aproxima-se. Se Ele conseguir olhar-me novamente nos olhos, talvez não tenha tempo de agir... Se naufragarmos, talvez esta garrafa seja encontrada, e aqueles que a encontrarem possam compreender; se não, ... bem, então todos saberão que fui fiel à minha confiança. Deus, a Santíssima Virgem e os santos ajudem uma pobre alma ignorante que tenta cumprir o seu dever....
Naturalmente, o veredito foi inconclusivo. Não há provas a apresentar; e se o próprio homem cometeu ou não os homicídios, já não há quem o diga. As pessoas aqui sustentam quase universalmente que o capitão é simplesmente um herói, e que lhe será dado um funeral público. Já está combinado que o seu corpo será levado por um cortejo de barcos pelo Esk durante um trecho e depois trazido de volta ao cais de Tate Hill e subirá os degraus da Abadia; pois ele será enterrado no cemitério da falésia. Os proprietários de mais de cem barcos já deram os seus nomes como desejosos de segui-lo até à sepultura.
Nenhum vestígio foi encontrado do grande cão; pelo que há muito luto, pois, com a opinião pública no seu estado atual, creio que ele seria adotado pela cidade. Amanhã ver-se-á o funeral; e assim terminará mais este “mistério do mar”.
/Diário de Mina Murray./
8 de agosto. — Lucy esteve muito inquieta durante toda a noite, e eu, também, não consegui dormir. A tempestade foi pavorosa e, ao rugir fortemente entre as chaminés, fez-me estremecer. Quando soprava uma rajada mais forte, parecia um canhão distante. Estranhamente, Lucy não acordou; mas levantou-se duas vezes e vestiu-se. Felizmente, de cada vez acordei a tempo, consegui despi-la sem a acordar e levá-la de volta para a cama. É algo muito estranho, este sonambulismo, pois, assim que a sua vontade é contrariada de qualquer forma física, a sua intenção, se é que existe, desaparece, e ela rende-se quase exatamente à rotina da sua vida.
De manhã cedo, levantámo-nos ambas e descemos ao porto para ver se algo tinha acontecido durante a noite. Havia muito pouca gente, e embora o sol estivesse brilhante e o ar claro e fresco, as ondas grandes e de aspeto sinistro, que pareciam escuras por si mesmas porque a espuma que as coroava era como neve, forçavam a entrada pela boca estreita do porto — como um homem autoritário a passar por uma multidão. De alguma forma, senti-me feliz por Jonathan não estar no mar na noite passada, mas sim em terra. Mas, oh, estará ele em terra ou no mar? Onde está ele, e como? Estou a ficar terrivelmente ansiosa por ele. Se eu ao menos soubesse o que fazer, e pudesse fazer alguma coisa!
10 de agosto. — O funeral do pobre capitão de mar hoje foi muito comovente. Todos os barcos do porto pareciam estar lá, e o caixão foi transportado por capitães desde o cais de Tate Hill até ao cemitério. Lucy veio comigo, e fomos cedo para o nosso lugar habitual, enquanto o cortejo de barcos subia o rio até ao Viaduto e voltava a descer. Tivemos uma vista adorável e vimos a procissão durante quase todo o percurso. O pobre rapaz foi sepultado muito perto do nosso lugar, de modo que nos levantámos nele quando chegou a hora e vimos tudo. A pobre Lucy parecia muito perturbada. Ela esteve inquieta e intranquila o tempo todo, e não posso deixar de pensar que os seus sonhos noturnos a estão a afetar. Ela é bastante estranha numa coisa: não quer admitir-me que haja qualquer motivo para a inquietação; ou, se o há, ela própria não o compreende. Há uma causa adicional no facto de o pobre e velho Sr. Swales ter sido encontrado morto esta manhã no nosso banco, com o pescoço partido. Ele tinha, evidentemente, como disse o médico, caído para trás no banco num sobressalto, pois havia um olhar de medo e horror no seu rosto que os homens disseram tê-los feito estremecer. Pobre e querido velho! Talvez ele tivesse visto a Morte com os seus olhos moribundos! A Lucy é tão doce e sensível que sente as influências de forma mais aguda do que as outras pessoas. Ainda agora, ela ficou bastante perturbada com uma pequena coisa a que eu não prestei muita atenção, embora eu mesma seja muito afeiçoada aos animais. Um dos homens que vêm aqui frequentemente procurar os barcos era seguido pelo seu cão. O cão está sempre com ele. Ambos são pessoas tranquilas, e nunca vi o homem zangado, nem ouvi o cão ladrar. Durante o serviço, o cão não quis aproximar-se do seu dono, que estava no banco connosco, mas manteve-se a alguns metros de distância, a ladrar e a ganir. O seu dono falou-lhe gentilmente, depois asperamente e, finalmente, com raiva; mas ele não se aproximou nem deixou de fazer barulho. Estava numa espécie de fúria, com os olhos selvagens e todos os pelos eriçados como a cauda de um gato quando o bichano está em pé de guerra. Finalmente, o homem também se zangou, saltou e pontapeou o cão, pegando-lhe depois pelo cachaço e arrastando-o e atirando-o para cima da lápide onde o banco está fixo. No momento em que tocou na pedra, o pobre animal ficou quieto e começou a tremer todo. Não tentou fugir, mas encolheu-se, tremendo e acobardando-se, e estava num estado tão lamentável de terror que tentei, embora sem sucesso, consolá-lo. Lucy também estava cheia de pena, mas não tentou tocar no cão, olhando-o de uma forma angustiada. Receio muito que ela tenha uma natureza demasiado supersensível para passar pelo mundo sem problemas. Ela vai sonhar com isto esta noite, tenho a certeza. O conjunto de todas as coisas — o navio conduzido ao porto por um homem morto; a sua atitude, atado ao leme com um crucifixo e contas; o comovente funeral; o cão, agora furioso e agora em terror — tudo fornecerá material para os seus sonhos.
Penso que será melhor para ela ir para a cama fisicamente exausta, por isso vou levá-la para uma longa caminhada pelas falésias até à Robin Hood’s Bay e voltar. Ela não deverá ter muita inclinação para o sonambulismo depois disso.
CAPÍTULO VIII.
/Diário de Mina Murray./
Mesmo dia, 23 horas. — Oh, estou tão cansada! Se não fosse por ter feito do meu diário um dever, não o abriria hoje. Tivemos uma caminhada adorável. Lucy, passado algum tempo, estava de espírito alegre, devido, creio eu, a umas queridas vacas que vieram farejar-nos num campo perto do farol e nos assustaram terrivelmente. Creio que nos esquecemos de tudo, exceto, é claro, do medo pessoal, e pareceu limpar a lousa e dar-nos um novo começo. Tivemos um excelente “chá substancial” em Robin Hood’s Bay, numa doce e pequena estalagem antiga, com uma janela saliente mesmo por cima das rochas cobertas de algas da praia. Creio que teríamos chocado a “Nova Mulher” com os nossos apetites. Os homens são mais tolerantes, abençoados sejam! Depois caminhámos para casa com algumas, ou melhor, muitas paragens para descansar, e com os nossos corações cheios de um medo constante de touros selvagens. Lucy estava realmente cansada, e pretendíamos ir para a cama assim que pudéssemos. O jovem vigário, no entanto, apareceu, e a Sra. Westenra pediu-lhe para ficar para a ceia. Lucy e eu tivemos ambas de lutar contra o sono; sei que foi uma luta difícil da minha parte, e sinto-me bastante heroica. Acho que, um dia, os bispos devem reunir-se e tratar de educar uma nova classe de vigários, que não jantem, independentemente do quanto sejam pressionados, e que saibam quando as raparigas estão cansadas. Lucy está a dormir e a respirar suavemente. Tem mais cor nas faces do que o habitual e parece, oh, tão doce. Se o Sr. Holmwood se apaixonou por ela vendo-a apenas na sala de estar, pergunto-me o que diria se a visse agora. Algumas das escritoras da “Nova Mulher” irão um dia lançar a ideia de que homens e mulheres deveriam ter permissão para se verem a dormir antes de pedirem ou aceitarem em casamento. Mas suponho que a Nova Mulher não se dignará no futuro a aceitar; ela fará o pedido ela mesma. E fará um belo trabalho disso, também! Há algum consolo nisso. Estou tão feliz esta noite, porque a querida Lucy parece melhor. Acredito realmente que ela passou o pior, e que superámos os seus problemas com os sonhos. Eu seria totalmente feliz se apenas soubesse se Jonathan.... Deus o abençoe e guarde.
11 de agosto, 3 horas da manhã. — Diário de novo. Sem sono agora, por isso mais vale escrever. Estou demasiado agitada para dormir. Tivemos uma tal aventura, uma tal experiência angustiante. Adormeci assim que fechei o meu diário.... De repente, fiquei totalmente desperta e sentei-me, com uma sensação horrível de medo sobre mim, e uma sensação de vazio à minha volta. O quarto estava escuro, por isso não conseguia ver a cama da Lucy; fui a correr e apalpei-a. A cama estava vazia. Acendi um fósforo e descobri que ela não estava no quarto. A porta estava fechada, mas não trancada, como eu a tinha deixado. Tive medo de acordar a sua mãe, que tem estado pior do que o habitual ultimamente, por isso vesti qualquer coisa e preparei-me para ir à procura dela. Quando saía do quarto, ocorreu-me que a roupa que ela vestia poderia dar-me alguma pista sobre a sua intenção de sonambulismo. O roupão significaria casa; o vestido, exterior. O roupão e o vestido estavam ambos nos seus lugares. “Graças a Deus”, disse para comigo, “ela não pode estar longe, pois está apenas com a sua camisa de dormir”. Desci as escadas e procurei na sala de estar. Não estava lá! Depois procurei em todas as outras divisões abertas da casa, com um medo crescente a gelar-me o coração. Finalmente, cheguei à porta da frente e encontrei-a aberta. Não estava escancarada, mas o trinco da fechadura não tinha prendido. As pessoas da casa têm o cuidado de trancar a porta todas as noites, por isso temi que a Lucy tivesse saído tal como estava. Não houve tempo para pensar no que poderia acontecer; um medo vago e avassalador obscureceu todos os detalhes. Peguei num xaile grande e pesado e saí a correr. O relógio batia a uma da manhã quando eu estava no Crescent, e não se via vivalma. Corri ao longo do Terraço Norte, mas não conseguia ver sinal da figura branca que esperava. Na extremidade da Falésia Oeste, acima do cais, olhei através do porto para a Falésia Este, na esperança ou no medo — não sei qual — de ver a Lucy no nosso lugar favorito. Havia uma lua cheia brilhante, com nuvens negras e pesadas, que lançavam toda a cena num diorama fugaz de luz e sombra à medida que passavam. Durante um ou dois momentos, não consegui ver nada, pois a sombra de uma nuvem obscurecia a Igreja de St. Mary e tudo à volta. Depois, quando a nuvem passou, pude ver as ruínas da Abadia a surgir; e, à medida que a orla de uma estreita faixa de luz tão afiada como um golpe de espada se movia, a igreja e o cemitério tornaram-se gradualmente visíveis. Qualquer que fosse a minha expectativa, não foi desiludida, pois ali, no nosso lugar favorito, a luz prateada da lua atingia uma figura semideitada, branca como a neve. A chegada da nuvem foi demasiado rápida para eu ver muito, pois a sombra caiu sobre a luz quase imediatamente; mas pareceu-me que algo escuro estava de pé atrás do lugar onde a figura branca brilhava, e se debruçava sobre ela. O que era, se homem ou besta, não podia dizer; não esperei para ver outro vislumbre, mas voei pelos degraus íngremes até ao cais e ao longo do mercado de peixe até à ponte, que era o único caminho para chegar à Falésia Este. A cidade parecia morta, pois não vi vivalma; regozijei-me que assim fosse, pois não queria testemunhas do estado da pobre Lucy. O tempo e a distância pareciam infinitos, os meus joelhos tremiam e a minha respiração saía ofegante enquanto subia os degraus intermináveis até à Abadia. Devo ter ido depressa, e ainda assim parecia-me que os meus pés estavam carregados de chumbo e que cada articulação do meu corpo estava enferrujada. Quando cheguei quase ao topo, pude ver o banco e a figura branca, pois estava agora suficientemente perto para a distinguir mesmo através dos feitiços de sombra. Havia sem dúvida algo, longo e negro, debruçado sobre a figura branca semideitada. Chamei, assustada, “Lucy! Lucy!”, e algo levantou a cabeça, e de onde eu estava pude ver um rosto branco e olhos vermelhos e brilhantes. Lucy não respondeu, e corri para a entrada do cemitério. Quando entrei, a igreja ficou entre mim e o banco, e por um minuto ou mais perdi-a de vista. Quando voltei a ter visão, a nuvem tinha passado e a luz da lua atingia de forma tão brilhante que pude ver a Lucy semideitada com a cabeça apoiada nas costas do banco. Ela estava completamente sozinha, e não havia sinal de qualquer ser vivo por perto.
Quando me debrucei sobre ela, pude ver que ela ainda dormia. Os seus lábios estavam entreabertos e ela respirava — não suavemente, como era costume nela, mas em longos e pesados arquejos, como se se esforçasse por encher os pulmões a cada respiração. Quando me aproximei, ela levantou a mão enquanto dormia e puxou o colarinho da sua camisa de dormir para perto da garganta. Enquanto o fazia, um pequeno estremecimento percorreu-a, como se sentisse o frio. Atirei-lhe o xaile quente por cima e apertei as extremidades à volta do seu pescoço, pois temia que ela apanhasse algum resfriado mortal do ar noturno, vestida como estava. Tive medo de a acordar de repente, por isso, para ter as mãos livres para poder ajudá-la, prendi o xaile à sua garganta com um alfinete de segurança grande; mas devo ter sido desajeitada na minha ansiedade e belisquei-a ou piquei-a com ele, pois, pouco depois, quando a sua respiração se tornou mais calma, ela levou a mão à garganta novamente e gemeu. Quando a tive cuidadosamente embrulhada, pus-lhe os meus sapatos nos pés e depois comecei muito gentilmente a acordá-la. De início, ela não respondeu; mas, gradualmente, tornou-se cada vez mais inquieta no seu sono, gemendo e suspirando ocasionalmente. Finalmente, como o tempo passava depressa, e por muitas outras razões, desejei levá-la para casa de imediato, abanei-a com mais força, até que finalmente ela abriu os olhos e acordou. Ela não pareceu surpreendida por me ver, já que, claro, não se apercebeu de imediato onde estava. Lucy acorda sempre de forma graciosa, e mesmo num momento daqueles, quando o seu corpo devia estar gelado de frio e a sua mente um tanto apavorada por acordar despida num cemitério à noite, ela não perdeu a sua graça. Ela tremeu um pouco e agarrou-se a mim; quando lhe disse para vir imediatamente comigo para casa, levantou-se sem uma palavra, com a obediência de uma criança. À medida que passávamos, o cascalho magoava os meus pés, e a Lucy notou que eu estremecia. Ela parou e quis insistir que eu calçasse os sapatos; mas eu não quis. No entanto, quando chegámos ao caminho fora do cemitério, onde havia uma poça de água resultante da tempestade, barrei os meus pés com lama, usando cada pé alternadamente no outro, de modo que, enquanto íamos para casa, ninguém, caso encontrássemos alguém, reparasse nos meus pés descalços.
A sorte favoreceu-nos e chegámos a casa sem encontrar uma alma. Uma vez vimos um homem, que parecia não estar muito sóbrio, a passar ao longo de uma rua à nossa frente; mas escondêmo-nos numa porta até que ele tivesse desaparecido por uma abertura, como as que existem aqui, becos pequenos e íngremes, ou “wynds”, como lhes chamam na Escócia. O meu coração batia tão alto todo o tempo que, por vezes, pensei que ia desmaiar. Estava cheia de ansiedade pela Lucy, não apenas pela sua saúde, para que não sofresse com a exposição, mas pela sua reputação, caso a história se espalhasse. Quando entrámos, e lavámos os pés, e dissemos uma oração de agradecimento juntas, meti-a na cama. Antes de adormecer, ela pediu-me — implorou-me mesmo — para não dizer uma palavra a ninguém, nem à sua mãe, sobre a sua aventura de sonambulismo. Hesitei a princípio em prometer; mas, ao pensar no estado de saúde da sua mãe, e em como o conhecimento de tal coisa a preocuparia, e pensando também em como tal história poderia ser distorcida — não, infalivelmente seria — caso viesse a público, achei que era mais sensato fazê-lo. Espero ter feito o correto. Tranquei a porta, e a chave está atada ao meu pulso, por isso talvez não seja incomodada de novo. Lucy dorme profundamente; o reflexo do amanhecer está alto e longe sobre o mar....
Mesmo dia, meio-dia. — Tudo vai bem. Lucy dormiu até eu a acordar, e parece não se ter sequer virado de lado. A aventura da noite não parece tê-la prejudicado; pelo contrário, beneficiou-a, pois ela parece melhor esta manhã do que esteve em semanas. Lamentei notar que a minha falta de jeito com o alfinete de segurança a magoou. De facto, poderia ter sido grave, pois a pele da sua garganta foi perfurada. Devo ter apanhado um pedaço de pele solta e tê-lo trespassado, pois há dois pequenos pontos vermelhos como picadas de alfinete, e na fita da sua camisa de dormir havia uma gota de sangue. Quando pedi desculpa e me mostrei preocupada com isso, ela riu-se, acariciou-me e disse que nem sequer o sentiu. Felizmente, não pode deixar cicatriz, pois é tão minúscula.
Mesmo dia, noite. — Passámos um dia feliz. O ar estava límpido, o sol brilhava e soprava uma brisa fresca. Levámos o nosso almoço para Mulgrave Woods, a Sra. Westenra foi pela estrada e a Lucy e eu fomos pelo caminho da falésia, encontrando-a no portão. Senti-me um pouco triste, pois não podia deixar de pensar em como teria sido absolutamente feliz se o Jonathan estivesse comigo. Mas, enfim! Devo apenas ser paciente. À noite, passeámos no Casino Terrace, ouvimos boa música de Spohr e Mackenzie e fomos dormir cedo. A Lucy parece mais descansada do que tem estado ultimamente e adormeceu de imediato. Vou trancar a porta e guardar a chave, tal como antes, embora não espere qualquer problema esta noite.
12 de agosto. — As minhas expectativas estavam erradas, pois, por duas vezes durante a noite, fui acordada pela Lucy, que tentava sair. Parecia, mesmo a dormir, estar um pouco impaciente por encontrar a porta fechada e voltou para a cama sob uma espécie de protesto. Acordei ao romper do dia e ouvi os pássaros a chilrear fora da janela. A Lucy também acordou e, para meu contentamento, estava ainda melhor do que na manhã anterior. Toda a sua antiga vivacidade de espírito parecia ter regressado; veio aninhar-se ao meu lado e contou-me tudo sobre o Arthur. Eu contei-lhe o quão ansiosa estava pelo Jonathan, e ela tentou consolar-me. Bem, conseguiu até certo ponto, pois, embora a simpatia não possa alterar os factos, pode ajudar a torná-los mais suportáveis.
13 de agosto. — Outro dia tranquilo e para a cama, com a chave no meu pulso como antes. Mais uma vez acordei durante a noite e encontrei a Lucy sentada na cama, ainda a dormir, a apontar para a janela. Levantei-me silenciosamente e, afastando a cortina, olhei para fora. Estava um luar brilhante e o efeito suave da luz sobre o mar e o céu — fundidos num único grande mistério silencioso — era belo demais para descrever. Entre mim e o luar esvoaçava um grande morcego, indo e vindo em grandes círculos rodopiantes. Uma ou duas vezes chegou bem perto, mas suponho que se tenha assustado ao ver-me e voou para longe, atravessando o porto em direção à Abadia. Quando voltei da janela, a Lucy tinha-se deitado de novo e dormia pacificamente. Não se mexeu mais durante toda a noite.
14 de agosto. — No East Cliff, a ler e a escrever durante todo o dia. A Lucy parece ter ficado tão apaixonada pelo local quanto eu, e é difícil tirá-la de lá quando chega a hora de vir para casa almoçar, tomar o chá ou jantar. Esta tarde, ela fez um comentário curioso. Estávamos a caminho de casa para jantar e tínhamos chegado ao topo dos degraus que sobem do West Pier, parando para contemplar a vista, como habitualmente fazemos. O sol poente, baixo no horizonte, estava a cair atrás de Kettleness; a luz vermelha projetava-se sobre o East Cliff e a velha Abadia, parecendo banhar tudo num belo brilho rosado. Ficámos em silêncio por um momento e, de repente, a Lucy murmurou, como se fosse para si própria:
“Os seus olhos vermelhos outra vez! São exatamente iguais.” Foi uma expressão tão estranha, que não vinha a propósito de nada, que me assustou bastante. Virei-me um pouco para ver a Lucy bem, sem parecer que a estava a observar, e vi que ela se encontrava num estado de semisonho, com uma expressão estranha no rosto que não conseguia decifrar; por isso, não disse nada, mas segui o seu olhar. Ela parecia estar a olhar para o nosso banco, onde estava sentada uma figura escura e solitária. Eu própria fiquei um pouco assustada, pois, por um instante, pareceu-me que o estranho tinha olhos enormes como chamas ardentes; mas um segundo olhar dissipou a ilusão. A luz vermelha do sol brilhava nas janelas da Igreja de St. Mary, atrás do nosso banco, e, à medida que o sol mergulhava, houve a mudança suficiente na refração e no reflexo para fazer parecer que a luz se movia. Chamei a atenção da Lucy para esse efeito peculiar e ela voltou a si com um sobressalto, mas manteve um olhar triste. Talvez estivesse a pensar naquela noite terrível lá em cima. Nunca nos referimos a isso, por isso não disse nada e fomos para casa jantar. A Lucy estava com dor de cabeça e foi cedo para a cama. Vi-a a dormir e saí para um pequeno passeio; caminhei ao longo das falésias para o lado oeste e senti uma doce tristeza, pois pensava no Jonathan. Ao voltar para casa — estava um luar brilhante, tão brilhante que, embora a parte da frente do nosso Crescent estivesse na sombra, tudo podia ser bem visto —, lancei um olhar para a nossa janela e vi a cabeça da Lucy debruçada. Pensei que talvez estivesse à minha espera, por isso abri o meu lenço e acenei. Ela não reparou nem fez qualquer movimento. Nesse momento, o luar contornou um ângulo do edifício e a luz incidiu na janela. Ali, nitidamente, estava a Lucy, com a cabeça encostada ao peitoril da janela e os olhos fechados. Estava profundamente adormecida e, ao seu lado, pousado no peitoril, estava algo que parecia uma ave de bom tamanho. Tive medo que ela apanhasse uma constipação, por isso subi as escadas a correr, mas quando entrei no quarto, ela estava a voltar para a cama, profundamente adormecida e a respirar com dificuldade; levava a mão à garganta, como se a protegesse do frio.
Não a acordei, mas cobri-a bem; tomei o cuidado de trancar a porta e de fechar a janela com segurança.
Ela parece tão doce enquanto dorme; mas está mais pálida do que o habitual e há um ar tenso e abatido sob os seus olhos de que não gosto. Receio que esteja preocupada com alguma coisa. Gostaria de descobrir o que é.
15 de agosto. — Levantei-me mais tarde do que o costume. A Lucy estava languida e cansada, e continuou a dormir depois de nos terem chamado. Tivemos uma surpresa feliz ao pequeno-almoço. O pai do Arthur está melhor e quer que o casamento se realize em breve. A Lucy está cheia de uma alegria serena e a sua mãe está, ao mesmo tempo, contente e triste. Mais tarde, no mesmo dia, contou-me o motivo. Está pesarosa por perder a Lucy como sua, mas regozija-se por saber que em breve terá alguém que a proteja. Pobre e querida senhora! Confidenciou-me que recebeu a sua sentença de morte. Não contou à Lucy e fez-me prometer segredo; o seu médico disse-lhe que, dentro de alguns meses, no máximo, terá de morrer, pois o seu coração está a enfraquecer. A qualquer momento, até agora, um choque súbito seria quase certamente fatal. Ah, fomos prudentes em esconder-lhe o episódio daquela terrível noite de sonambulismo da Lucy.
17 de agosto. — Sem diário durante dois dias inteiros. Não tive coragem de escrever. Uma espécie de manto sombrio parece estar a pairar sobre a nossa felicidade. Nenhuma notícia do Jonathan, e a Lucy parece estar a definhar, enquanto os dias da sua mãe se aproximam do fim. Não compreendo este esmorecer da Lucy. Ela come bem, dorme bem e desfruta do ar fresco; mas, a cada momento, as rosas das suas faces desvanecem-se e ela fica mais fraca e mais languida dia após dia; à noite, ouço-a a ofegar como se procurasse ar. Mantenho a chave da nossa porta sempre presa ao meu pulso durante a noite, mas ela levanta-se, caminha pelo quarto e senta-se junto à janela aberta. Na noite passada, encontrei-a debruçada quando acordei, e quando tentei despertá-la não consegui; estava desmaiada. Quando consegui reanimá-la, estava fraca como água e chorava silenciosamente entre longos e dolorosos esforços para respirar. Quando lhe perguntei como fora parar à janela, ela abanou a cabeça e virou-se. Espero que o seu mal-estar não seja devido àquela infeliz picada do alfinete de ama. Olhei para a sua garganta agora mesmo, enquanto dormia, e as minúsculas feridas parecem não ter cicatrizado. Continuam abertas e, se algo mudou, estão maiores do que antes, com as margens ligeiramente esbranquiçadas. São como pequenos pontos brancos com centros vermelhos. Se não cicatrizarem dentro de um dia ou dois, insistirei para que o médico as examine.
Carta, Samuel F. Billington & Son, Solicitadores, Whitby, para Messrs. Carter, Paterson & Co., Londres.
“17 de agosto.
“Prezados Senhores,
“Recebam em anexo a fatura dos bens enviados pela Great Northern Railway. Devem ser entregues em Carfax, perto de Purfleet, imediatamente após a receção na estação de mercadorias de King’s Cross. A casa encontra-se presentemente vazia, mas queiram encontrar em anexo as chaves, todas devidamente etiquetadas.
“Pedimos que depositem as caixas, em número de cinquenta, que constituem a remessa, no edifício parcialmente em ruínas que faz parte da casa e que está marcado com a letra ‘A’ no esboço em anexo. O vosso agente reconhecerá facilmente o local, pois trata-se da antiga capela da mansão. As mercadorias saem no comboio das 9.30 de hoje à noite e deverão chegar a King’s Cross às 4.30 da tarde de amanhã. Uma vez que o nosso cliente deseja que a entrega seja feita o mais rapidamente possível, ficar-lhe-íamos gratos se pudessem ter equipas prontas em King’s Cross à hora indicada e proceder de imediato ao transporte dos bens para o destino. A fim de evitar quaisquer atrasos decorrentes de requisitos rotineiros de pagamento nos vossos departamentos, enviamos em anexo um cheque no valor de dez libras (£10), cujo recibo agradecemos. Se o custo for inferior a este valor, podem devolver a diferença; se for superior, enviaremos um cheque imediatamente após a vossa notificação. Devem deixar as chaves, ao sair, no átrio principal da casa, onde o proprietário as poderá obter ao entrar com a sua chave duplicada.
“Rogamos que não considerem que excedemos os limites da cortesia comercial ao insistir, por todos os meios, na máxima rapidez.
“Somos, prezados Senhores, “Atentamente, “/Samuel F. Billington & Son./”
Carta, Messrs. Carter, Paterson & Co., Londres, para Messrs. Billington & Son, Whitby
“21 de agosto.
“Prezados Senhores,
“Confirmamos a receção das £10 e devolvemos o cheque de £1 17s. 9d., montante relativo ao excedente, conforme indicado na conta liquidada em anexo. Os bens foram entregues em estrita conformidade com as instruções e as chaves deixadas num pacote no átrio principal, conforme solicitado.
“Somos, prezados Senhores, “Respeitosamente, “P/ Carter, Paterson & Co./”
Diário de Mina Murray.
18 de agosto. — Estou feliz hoje e escrevo sentada no banco do cemitério. A Lucy está muito melhor. Na noite passada, dormiu bem durante toda a noite e não me perturbou uma única vez. As rosas parecem estar já a voltar às suas faces, embora ela continue tristemente pálida e com um aspeto abatido. Se ela fosse anémica de alguma forma, eu compreenderia, mas não é. Está com um espírito alegre e cheia de vida e vivacidade. Toda a reticência mórbida parece ter passado e ela acabou de me lembrar, como se eu precisasse de ser lembrada, daquela noite, e de que foi aqui, neste mesmo banco, que a encontrei a dormir. Enquanto mo contava, batia de forma brincalhona com o tacão da bota na laje de pedra e disse:
“Os meus pobres pezinhos não fizeram muito barulho naquela altura! Aposto que o pobre e velho Sr. Swales me diria que foi porque eu não queria acordar o Geordie.” Como ela estava num humor tão comunicativo, perguntei-lhe se tinha sonhado alguma coisa naquela noite. Antes de responder, surgiu aquela doce expressão franzida na sua testa que o Arthur — chamo-lhe Arthur por causa dela — diz que adora; e, na verdade, não me admira nada que adore. Depois continuou num tom quase de sonho, como se tentasse recordar-se:
“Não sonhei bem; mas tudo parecia ser real. Só queria estar aqui, neste lugar — não sei porquê, pois tinha medo de alguma coisa, não sei o quê. Lembro-me, embora suponha que estivesse a dormir, de passar pelas ruas e pela ponte. Um peixe saltou quando eu passava e inclinei-me para olhar, e ouvi muitos cães a uivar — a cidade inteira parecia estar cheia de cães a uivar ao mesmo tempo — enquanto subia os degraus. Depois, tenho uma memória vaga de algo longo e escuro com olhos vermelhos, exatamente como vimos ao pôr do sol, e algo muito doce e muito amargo à minha volta ao mesmo tempo; e depois parecia que me afundava em águas verdes profundas, e havia um canto nos meus ouvidos, como ouvi dizer que acontece aos homens que se afogam; e então tudo parecia desaparecer de mim; a minha alma parecia sair do meu corpo e flutuar pelo ar. Parece-me recordar que, uma vez, o Farol Oeste estava mesmo por baixo de mim, e depois houve uma espécie de sensação agonizante, como se estivesse num terramoto, e voltei e encontrei-te a abanar o meu corpo. Vi-te a fazê-lo antes de te sentir.”
Depois, começou a rir-se. Pareceu-me um pouco estranho e ouvi-a sem respirar. Não gostei muito e achei melhor não manter o seu pensamento nesse assunto, por isso passámos a outros temas e a Lucy voltou a ser a de sempre. Quando chegámos a casa, a brisa fresca tinha-a revigorado e as suas faces pálidas estavam realmente mais rosadas. A sua mãe alegrou-se ao vê-la e passámos todas uma noite muito feliz.
19 de agosto. — Alegria, alegria, alegria! Embora nem tudo seja alegria. Finalmente, notícias do Jonathan. O querido esteve doente; é por isso que não escreveu. Não tenho medo de pensar nisso ou de o dizer, agora que sei. O Sr. Hawkins enviou-me a carta e escreveu ele próprio, oh, tão gentilmente. Partirei de manhã para ir ter com o Jonathan, ajudar a cuidar dele se for necessário e trazê-lo para casa. O Sr. Hawkins diz que não seria má ideia se nos casássemos por lá. Chorei sobre a carta da boa Irmã até a sentir húmida contra o meu peito, onde repousa. É sobre o Jonathan e deve estar junto ao meu coração, pois ele está no meu coração. A minha viagem está toda traçada e a minha bagagem pronta. Só levo uma muda de roupa; a Lucy levará o meu baú para Londres e guardá-lo-á até que eu peça por ele, pois pode ser que... Não devo escrever mais; devo guardar as palavras para dizer ao Jonathan, o meu marido. A carta que ele viu e tocou deve consolar-me até nos encontrarmos.
Carta, Irmã Agatha, Hospital de São José e Santa Maria, Buda-Peste, para a Srta. Wilhelmina Murray.
“12 de agosto.
“Prezada Senhora,
“Escrevo a pedido do Sr. Jonathan Harker, que não está suficientemente forte para escrever, embora esteja a recuperar bem, graças a Deus e a São José e Santa Maria. Está sob os nossos cuidados há quase seis semanas, a sofrer de uma violenta febre cerebral. Ele deseja que lhe envie o seu amor e que lhe diga que escrevo por ele, por este correio, ao Sr. Peter Hawkins, em Exeter, para lhe dizer, com os seus respeitosos cumprimentos, que lamenta o atraso e que todo o seu trabalho está concluído. Precisará de algumas semanas de descanso no nosso sanatório nas colinas, mas depois regressará. Deseja que lhe diga que não tem dinheiro suficiente consigo e que gostaria de pagar a sua estadia aqui, para que outros que necessitem não fiquem sem ajuda.
“Acredite, “Sua, com simpatia e todas as bênçãos, “/Irmã Agatha./
“P.S. — Como o meu paciente está a dormir, abro esta carta para a informar de algo mais. Ele contou-me tudo sobre si e que em breve será a sua esposa. Todas as bênçãos para ambos! Ele sofreu um choque terrível — diz o nosso médico — e no seu delírio as suas divagações foram horríveis; sobre lobos, veneno e sangue; sobre fantasmas e demónios; e temo dizer sobre o quê. Seja sempre cuidadosa com ele, para que não haja nada que o excite deste género durante muito tempo; os vestígios de uma doença como a dele não desaparecem facilmente. Deveríamos ter escrito há muito tempo, mas não sabíamos nada sobre os seus amigos e ele não trazia nada que alguém pudesse compreender. Veio no comboio de Klausenburgh e o revisor foi informado pelo chefe da estação que ele correu para a estação a pedir um bilhete para casa. Vendo pelo seu comportamento violento que era inglês, deram-lhe um bilhete para a estação mais distante no caminho que o comboio alcançava.
“Esteja certa de que ele está bem cuidado. Conquistou todos os corações pela sua doçura e gentileza. Está verdadeiramente a recuperar bem e não tenho dúvidas de que, dentro de poucas semanas, voltará a ser ele próprio. Mas seja cuidadosa com ele, pela sua segurança. Há, rezo a Deus e a São José e Santa Maria, muitos, muitos anos felizes para ambos.”
Diário do Dr. Seward.
19 de agosto. — Estranha e súbita mudança no Renfield na noite passada. Por volta das oito horas, começou a ficar agitado e a farejar como um cão quando aponta a caça. O enfermeiro ficou impressionado com o seu comportamento e, conhecendo o meu interesse por ele, encorajou-o a falar. Ele é habitualmente respeitador com o enfermeiro e, por vezes, servil; mas esta noite, conta-me o homem, estava bastante arrogante. Não se dignou a falar com ele de todo. Tudo o que dizia era:
“Não quero falar contigo: tu não contas agora; o Mestre está próximo.”
O enfermeiro pensa que é algum tipo súbito de mania religiosa que o apoderou. Se assim for, temos de estar atentos, pois um homem forte com mania homicida e religiosa ao mesmo tempo pode ser perigoso. A combinação é aterradora. Às nove horas, visitei-o eu próprio. A sua atitude para comigo foi a mesma que teve com o enfermeiro; na sua sublime autoperceção, a diferença entre mim e o enfermeiro parecia-lhe inexistente. Parece uma mania religiosa e em breve pensará que ele próprio é Deus. Estas distinções infinitesimais entre homem e homem são demasiado insignificantes para um ser Omnipotente. Como estes loucos se entregam! O verdadeiro Deus cuida para que um pardal não caia; mas o Deus criado a partir da vaidade humana não vê diferença entre uma águia e um pardal. Oh, se os homens soubessem!
Durante meia hora ou mais, o Renfield foi ficando cada vez mais agitado. Não fingi que o vigiava, mas mantive uma observação estrita, contudo. De repente, aquele olhar esquivo surgiu nos seus olhos, que vemos sempre quando um louco se apodera de uma ideia, e com ele o movimento esquivo da cabeça e das costas que os enfermeiros de hospícios conhecem tão bem. Ficou bastante calado, foi sentar-se na extremidade da cama com resignação e olhou para o vazio com olhos baços. Pensei em descobrir se a sua apatia era real ou apenas fingida e tentei levá-lo a falar dos seus animais de estimação, um tema que nunca deixava de despertar a sua atenção. A princípio, não respondeu, mas por fim disse irritado:
“Que se danem todos! Não me importo nada com eles.”
“O quê?”, disse eu. “Não me diga que não se importa com aranhas?” (As aranhas são, atualmente, o seu passatempo e o caderno está a encher-se com colunas de números pequenos.) A isto ele respondeu enigmaticamente:
“As damas de honor alegram os olhos que esperam a vinda da noiva; mas quando a noiva se aproxima, então as damas não brilham para os olhos que estão cheios.”
Não se explicou, mas permaneceu obstinadamente sentado na sua cama durante todo o tempo que lá permaneci.
Estou exausto esta noite e de espírito abatido. Não consigo deixar de pensar em Lucy e em como as coisas poderiam ter sido diferentes. Se não adormecer imediatamente, cloral, o Morfeu moderno — C{2}HCl{3}O·H_{2}O! Devo ter cuidado para não deixar que se torne um hábito. Não, não tomarei nada esta noite! Pensei em Lucy e não a desonrarei misturando os dois. Se for necessário, esta noite será sem dormir...
Ainda bem que tomei a resolução; ainda mais contente por a ter mantido. Tinha ficado a virar-me de um lado para o outro e tinha ouvido o relógio bater apenas duas vezes quando o guarda noturno veio ter comigo, enviado da enfermaria, para dizer que Renfield tinha escapado. Vesti-me e desci imediatamente; o meu paciente é uma pessoa demasiado perigosa para andar a vaguear. Aquelas ideias dele poderiam ter consequências perigosas com estranhos. O enfermeiro estava à minha espera. Disse que o tinha visto não fazia dez minutos, aparentemente a dormir na sua cama, quando espreitou pela vigia de observação na porta. A sua atenção foi chamada pelo som da janela a ser arrancada. Correu de volta e viu os seus pés desaparecerem pela janela, tendo imediatamente enviado alguém à minha procura. Ele estava apenas com a sua roupa de dormir e não pode estar longe. O enfermeiro pensou que seria mais útil vigiar para onde ele iria do que segui-lo, pois poderia perdê-lo de vista enquanto saía do edifício pela porta. Ele é um homem corpulento e não conseguiu passar pela janela. Eu sou magro, por isso, com a sua ajuda, saí, mas de pés primeiro, e, como estávamos apenas a alguns pés do solo, aterrei sem ferimentos. O enfermeiro disse-me que o paciente tinha ido para a esquerda e tinha seguido em linha reta, por isso corri o mais depressa que pude. Quando passei pela faixa de árvores, vi uma figura branca escalar o muro alto que separa os nossos terrenos dos da casa abandonada.
Corri de volta imediatamente e disse ao guarda que arranjasse três ou quatro homens e me seguisse até aos terrenos de Carfax, caso o nosso amigo pudesse ser perigoso. Eu próprio arranjei uma escada e, atravessando o muro, saltei para o outro lado. Consegui ver a figura de Renfield a desaparecer mesmo atrás do ângulo da casa, por isso corri atrás dele. Do lado oposto da casa, encontrei-o pressionado contra a velha porta de carvalho reforçada a ferro da capela. Estava a falar, aparentemente com alguém, mas tive medo de me aproximar o suficiente para ouvir o que dizia, por receio de o assustar e de ele fugir. Perseguir um enxame errante de abelhas não é nada comparado com seguir um lunático nu quando o ataque de fuga lhe dá! Passados alguns minutos, porém, pude ver que ele não tomava conhecimento de nada à sua volta, e por isso aventurei-me a aproximar-me dele — ainda mais porque os meus homens tinham agora atravessado o muro e estavam a cercá-lo. Ouvi-o dizer:
“Estou aqui para cumprir as Vossas ordens, Mestre. Sou o Vosso escravo e Vós recompensar-me-eis, pois serei fiel. Adorei-Vos durante muito tempo e de longe. Agora que estais perto, aguardo as Vossas ordens, e não me ignorareis, pois não, meu caro Mestre, na Vossa distribuição de coisas boas?”
Ele é um velho pedinte egoísta, de qualquer forma. Pensa nos pães e peixes mesmo quando acredita estar na Presença Real. As suas manias formam uma combinação surpreendente. Quando o cercámos, ele lutou como um tigre. É imensamente forte e parecia mais uma besta selvagem do que um homem. Nunca vi um lunático num tal paroxismo de raiva antes; e espero não voltar a ver. É uma sorte termos descoberto a sua força e o seu perigo a tempo. Com uma força e determinação como a dele, poderia ter feito coisas terríveis antes de ser enjaulado. De qualquer forma, ele está seguro agora. O próprio Jack Sheppard não conseguiria libertar-se da camisa de forças que o mantém contido, e ele está acorrentado à parede no quarto almofadado. Os seus gritos são, por vezes, terríveis, mas os silêncios que se seguem são ainda mais mortíferos, pois ele planeia um homicídio em cada gesto e movimento.
Ainda agora disse palavras coerentes pela primeira vez:
“Serei paciente, Mestre. Está a vir — a vir — a vir!”
Por isso, segui a dica e vim também. Estava demasiado excitado para dormir, mas este diário acalmou-me e sinto que dormirei um pouco esta noite.
CAPÍTULO IX.
Carta de Mina Harker para Lucy Westenra.
“Buda-Pesth, 24 de agosto.
“Minha querida Lucy,
“Sei que ficarás ansiosa por saber tudo o que aconteceu desde que nos separámos na estação de comboios em Whitby. Bem, minha querida, cheguei a Hull bem, apanhei o barco para Hamburgo e depois o comboio para aqui. Sinto que mal consigo recordar-me de algo da viagem, exceto que sabia que estava a ir ter com Jonathan e que, como teria de tratar dele, seria melhor dormir o máximo que pudesse... Encontrei o meu querido, oh, tão magro, pálido e de aspeto fraco. Toda a determinação desapareceu dos seus olhos queridos e aquela dignidade tranquila que te disse que ele tinha no rosto desvaneceu-se. Ele é apenas uma sombra de si mesmo e não se recorda de nada do que lhe aconteceu durante muito tempo. Pelo menos, quer que eu acredite nisso, e eu nunca perguntarei. Ele sofreu um choque terrível e temo que pudesse sobrecarregar o seu pobre cérebro se tentasse recordá-lo. A Irmã Agatha, que é uma boa criatura e uma enfermeira nata, diz-me que ele delirou sobre coisas terríveis enquanto esteve fora de si. Quis que ela me contasse o que eram; mas ela apenas se benzeria e diria que nunca contaria; que os delírios dos doentes são segredos de Deus e que, se uma enfermeira, através da sua vocação, os ouvisse, deveria respeitar o seu segredo. Ela é uma alma doce e boa e, no dia seguinte, quando viu que eu estava perturbada, voltou a tocar no assunto e, depois de dizer que nunca poderia mencionar aquilo sobre o qual o meu pobre querido delirou, acrescentou: ‘Posso dizer-te isto, minha querida: não foi sobre nada que ele próprio tenha feito de errado; e tu, como sua futura esposa, não tens motivos para te preocupar. Ele não se esqueceu de ti nem do que te deve. O seu medo era de coisas grandes e terríveis, sobre as quais nenhum mortal pode tratar.’ Acredito mesmo que a pobre alma pensou que eu poderia ter ciúmes de o meu pobre querido se ter apaixonado por outra rapariga. A ideia de eu ter ciúmes por causa de Jonathan! E, no entanto, minha querida, deixa-me sussurrar, senti um arrepio de alegria quando soube que nenhuma outra mulher era causa de problemas. Estou agora sentada junto à sua cabeceira, onde posso ver o seu rosto enquanto ele dorme. Ele está a acordar! ... Quando acordou, pediu-me o seu casaco, pois queria tirar algo do bolso; perguntei à Irmã Agatha e ela trouxe todas as suas coisas. Vi que entre elas estava o seu caderno de notas e ia pedir-lhe que me deixasse vê-lo — pois sabia então que poderia encontrar alguma pista sobre o seu problema — mas suponho que ele deve ter visto o meu desejo nos meus olhos, pois mandou-me para a janela, dizendo que queria ficar completamente sozinho por um momento. Depois chamou-me de volta e, quando cheguei, ele tinha a mão sobre o caderno de notas e disse-me muito solenemente:
“‘Wilhelmina’ — soube então que ele estava seriamente determinado, pois nunca me tinha chamado por esse nome desde que me pediu em casamento — ‘sabes, querida, as minhas ideias sobre a confiança entre marido e mulher: não deve haver segredos, nem ocultações. Sofri um grande choque e, quando tento pensar no que é, sinto a cabeça a andar à roda e não sei se foi tudo real ou o sonho de um louco. Sabes que tive febre cerebral e isso é estar louco. O segredo está aqui e eu não quero sabê-lo. Quero retomar a minha vida aqui, com o nosso casamento.’ Pois, minha querida, tínhamos decidido casar-nos assim que as formalidades estivessem concluídas. ‘Estás disposta, Wilhelmina, a partilhar a minha ignorância? Aqui está o livro. Leva-o e guarda-o, lê-o se quiseres, mas nunca me deixes saber; a menos que, de facto, algum dever solene me obrigue a voltar às horas amargas, a dormir ou acordar, são ou louco, aqui registadas.’ Ele caiu para trás, exausto, e eu coloquei o livro debaixo da sua almofada e beijei-o. Pedi à Irmã Agatha que implorasse à Superiora que permitisse que o nosso casamento fosse esta tarde e estou à espera da sua resposta...
“Ela veio e disse-me que o capelão da igreja da missão inglesa foi chamado. Vamos casar-nos dentro de uma hora, ou logo que o Jonathan acorde...
“Lucy, o tempo chegou e passou. Sinto-me muito solene, mas muito, muito feliz. Jonathan acordou pouco depois da hora e tudo estava pronto, e ele sentou-se na cama, apoiado por almofadas. Respondeu ao seu ‘aceito’ com firmeza e força. Quase não conseguia falar; o meu coração estava tão cheio que até estas palavras pareciam sufocar-me. As queridas Irmãs foram tão gentis. Queira Deus que eu nunca, nunca me esqueça delas, nem das graves e doces responsabilidades que assumi. Tenho de te falar da minha prenda de casamento. Quando o capelão e as Irmãs me deixaram sozinha com o meu marido — oh, Lucy, é a primeira vez que escrevo as palavras ‘o meu marido’ — me deixaram sozinha com o meu marido, tirei o livro debaixo da almofada e embrulhei-o em papel branco, atei-o com um bocadinho de fita azul-clara que estava enrolada à volta do meu pescoço e selei-o sobre o nó com cera de lacre, e para o meu selo usei a minha aliança de casamento. Depois beijei-o e mostrei-o ao meu marido, e disse-lhe que o manteria assim, e que então seria um sinal exterior e visível para nós durante toda a nossa vida de que confiávamos um no outro; que eu nunca o abriria a menos que fosse pelo seu próprio querido bem ou por causa de algum dever rigoroso. Então ele pegou na minha mão com a sua e, oh, Lucy, foi a primeira vez que ele pegou na mão da sua esposa, e disse que era a coisa mais querida em todo o mundo vasto, e que ele passaria por todo o passado novamente para a ganhar, se fosse necessário. O pobre querido pretendia ter dito uma parte do passado; mas ele ainda não consegue pensar no tempo, e não me admirarei se, a princípio, ele confundir não só o mês, mas também o ano.
“Bem, minha querida, o que poderia eu dizer? Só podia dizer-lhe que era a mulher mais feliz em todo o mundo vasto e que não tinha nada para lhe dar exceto eu mesma, a minha vida e a minha confiança, e que com estas ia o meu amor e dever por todos os dias da minha vida. E, minha querida, quando ele me beijou e me puxou para si com as suas pobres mãos fracas, foi como um compromisso muito solene entre nós...
“Lucy querida, sabes por que te conto tudo isto? Não é apenas porque é tudo doce para mim, mas porque tu foste, e és, muito querida para mim. Foi um privilégio ser tua amiga e guia quando saíste da escola para te preparares para o mundo da vida. Quero que vejas agora, e com os olhos de uma esposa muito feliz, para onde o dever me conduziu; para que na tua própria vida de casada tu também possas ser tão feliz como eu. Minha querida, queira Deus Todo-Poderoso que a tua vida seja tudo o que promete: um longo dia de sol, sem vento áspero, sem esquecer o dever, sem desconfiança. Não te posso desejar que não tenhas dor, pois isso nunca poderá ser; mas espero que sejas sempre tão feliz como eu sou agora. Adeus, minha querida. Vou enviar isto imediatamente e, talvez, escrever-te muito em breve novamente. Tenho de parar, pois o Jonathan está a acordar — tenho de cuidar do meu marido!
“Tua sempre amorosa, “/Mina Harker./”
Carta de Lucy Westenra para Mina Harker.
“Whitby, 30 de agosto.
“Minha querida Mina,
“Oceanos de amor e milhões de beijos, e que em breve estejas na tua própria casa com o teu marido. Gostaria que pudesses vir para casa em breve o suficiente para ficar connosco aqui. Este ar forte rapidamente restauraria o Jonathan; restaurou-me completamente. Tenho um apetite de um corvo-marinho, estou cheia de vida e durmo bem. Ficarás contente por saber que deixei completamente de andar a dormir. Penso que não me mexi da minha cama durante uma semana, isto é, depois de me deitar à noite. Arthur diz que estou a engordar. A propósito, esqueci-me de te dizer que o Arthur está aqui. Fazemos tantas caminhadas, passeios de carro, cavalgadas, remo, ténis e pesca juntos; e amo-o mais do que nunca. Ele diz-me que me ama mais, mas duvido disso, pois no início disse-me que não podia amar-me mais do que amava então. Mas isto é um disparate. Lá está ele, a chamar-me. Por isso, nada mais por agora da tua amorosa
“/Lucy./
“P.S. — A mãe manda lembranças. Ela parece melhor, pobre querida.
“P.P.S. — Vamos casar-nos a 28 de setembro.”
Diário do Dr. Seward
20 de agosto. — O caso de Renfield torna-se ainda mais interessante. Ele acalmou-se agora tanto que há períodos de cessação da sua paixão. Durante a primeira semana após o seu ataque, ele foi perpetuamente violento. Depois, uma noite, exatamente quando a lua nasceu, ele acalmou-se e continuou a murmurar para si mesmo: “Agora posso esperar; agora posso esperar.” O enfermeiro veio dizer-me, por isso corri lá abaixo imediatamente para dar uma vista de olhos nele. Ele ainda estava na camisa de forças e no quarto almofadado, mas o aspeto congestionado tinha desaparecido do seu rosto e os seus olhos tinham algo da sua antiga suavidade suplicante — quase poderia dizer, “servil”. Fiquei satisfeito com a sua condição atual e ordenei que fosse libertado. Os enfermeiros hesitaram, mas acabaram por cumprir os meus desejos sem protestos. Foi uma coisa estranha que o paciente tivesse humor suficiente para perceber a desconfiança deles, pois, aproximando-se de mim, disse num sussurro, olhando furtivamente para eles todo o tempo:
“Eles pensam que eu poderia magoá-lo! Imagine eu magoá-lo! Os tolos!”
Foi reconfortante, de alguma forma, para os meus sentimentos, descobrir-me dissociado até na mente deste pobre louco dos outros; mas, mesmo assim, não acompanho o seu pensamento. Devo entender que tenho algo em comum com ele, de modo que nós, por assim dizer, estejamos juntos; ou terá ele de obter de mim algum bem tão estupendo que o meu bem-estar seja necessário para ele? Devo descobrir mais tarde. Esta noite ele não falará. Nem a oferta de um gatinho ou mesmo de um gato adulto o tentará. Ele dirá apenas: “Não ligo nada a gatos. Tenho mais em que pensar agora, e posso esperar; posso esperar.”
Passado algum tempo, deixei-o. O enfermeiro diz-me que ele esteve calmo até pouco antes do amanhecer, e então começou a ficar inquieto e, finalmente, violento, até que, por fim, caiu num paroxismo que o exauriu de tal forma que desmaiou num tipo de coma.
... Durante três noites aconteceu a mesma coisa — violento durante todo o dia, depois calmo do nascer da lua ao nascer do sol. Gostaria de encontrar alguma pista para a causa. Quase pareceria que havia alguma influência que vinha e ia. Pensamento feliz! Esta noite jogaremos cérebros sãos contra loucos. Ele escapou antes sem a nossa ajuda; esta noite ele escapará com ela. Dar-lhe-emos uma oportunidade e teremos os homens prontos a seguir, caso sejam necessários...
23 de agosto. — “O inesperado acontece sempre.” Como Disraeli conhecia bem a vida! O nosso pássaro, quando encontrou a gaiola aberta, não quis voar, por isso todas as nossas arrumações subtis foram em vão. De qualquer forma, provámos uma coisa: que os períodos de calma duram um tempo razoável. No futuro, poderemos aliviar as suas algemas durante algumas horas por dia. Dei ordens ao enfermeiro noturno apenas para o fechar no quarto almofadado, uma vez que ele esteja calmo, até uma hora antes do nascer do sol. O corpo da pobre alma desfrutará do alívio, mesmo que a sua mente não o possa apreciar. Escuta! O inesperado outra vez! Estou a ser chamado; o paciente escapou mais uma vez.
Mais tarde. — Outra aventura noturna. Renfield esperou astuciosamente até que o enfermeiro estivesse a entrar no quarto para inspecionar. Depois, ele saiu a correr por ele e voou pelo corredor. Enviei ordem para os enfermeiros seguirem. Novamente fomos para o terreno da casa abandonada e encontrámo-lo no mesmo lugar, pressionado contra a porta da velha capela. Quando me viu, tornou-se furioso e, se os enfermeiros não o tivessem agarrado a tempo, teria tentado matar-me. Enquanto o segurávamos, uma coisa estranha aconteceu. Ele redobrou subitamente os seus esforços e, depois, ficou subitamente calmo. Olhei à volta instintivamente, mas não consegui ver nada. Depois apanhei o olhar do paciente e segui-o, mas não consegui detetar nada enquanto ele olhava para o céu iluminado pela lua, exceto um grande morcego, que batia as suas asas num caminho silencioso e fantasmagórico para oeste. Os morcegos costumam girar e voar de um lado para o outro, mas este parecia seguir em linha reta, como se soubesse para onde ia ou tivesse alguma intenção própria. O paciente acalmou-se a cada instante e, pouco depois, disse:
“Não precisa de me atar; irei calmamente!” Sem problemas, voltámos para a casa. Sinto que há algo de sinistro na sua calma e não esquecerei esta noite...
Diário de Lucy Westenra.
Hillingham, 24 de agosto. — Devo imitar a Mina e continuar a escrever as coisas. Assim poderemos ter longas conversas quando nos encontrarmos. Pergunto-me quando será. Gostaria que ela estivesse comigo novamente, pois sinto-me tão infeliz. Na noite passada, parecia estar a sonhar novamente, tal como estava em Whitby. Talvez seja a mudança de ar, ou voltar para casa novamente. É tudo escuro e horrível para mim, pois não me consigo lembrar de nada; mas estou cheia de um medo vago e sinto-me tão fraca e exausta. Quando o Arthur veio almoçar, ele parecia bastante triste quando me viu, e eu não tive ânimo para estar alegre. Pergunto-me se poderia dormir no quarto da mãe esta noite. Vou arranjar uma desculpa e tentar.
25 de agosto. — Outra noite má. A mãe não parece ter aceitado a minha proposta. Ela própria não parece estar muito bem e, sem dúvida, tem medo de me preocupar. Tentei manter-me acordada e consegui por algum tempo; mas quando o relógio bateu as doze horas, acordou-me de uma sesta, por isso devo ter adormecido. Houve um tipo de arranhadela ou bater de asas na janela, mas não liguei, e como não me recordo de mais nada, suponho que deva ter adormecido então. Mais sonhos maus. Gostaria de me conseguir lembrar deles. Esta manhã sinto-me horrivelmente fraca. O meu rosto está terrivelmente pálido e a garganta dói-me. Deve ser algo de errado com os meus pulmões, pois parece que nunca consigo obter ar suficiente. Vou tentar animar-me quando o Arthur vier, ou então sei que ele ficará miserável por me ver assim.
Carta de Arthur Holmwood para o Dr. Seward.
“Albemarle Hotel, 31 de agosto.
“Meu caro Jack,”
“Quero que me faças um favor. A Lucy está doente; isto é, não tem nenhuma doença específica, mas tem um aspeto horrível e piora a cada dia que passa. Perguntei-lhe se existe alguma causa; não me atrevo a perguntar à mãe, pois perturbar a mente da pobre senhora sobre a filha, no seu atual estado de saúde, seria fatal. A Sra. Westenra confiou-me que a sua sentença está ditada — doença cardíaca —, embora a pobre Lucy ainda não o saiba. Estou certo de que há algo a atormentar a mente da minha querida rapariga. Fico quase perturbado quando penso nela; olhá-la causa-me uma angústia. Disse-lhe que te pediria para a veres, e embora tenha hesitado no início — sei porquê, meu velho —, acabou por consentir. Será uma tarefa penosa para ti, eu sei, meu velho amigo, mas é por ela, e não devo hesitar em pedir, nem tu em agir. Virás almoçar a Hillingham amanhã, às duas horas, de modo a não despertar qualquer suspeita na Sra. Westenra, e depois do almoço a Lucy aproveitará a oportunidade para estar a sós contigo. Eu virei para o chá, e poderemos sair juntos. Estou cheio de ansiedade e quero consultar-te a sós assim que puder depois de a teres visto. Não falhes!
“/Arthur./”
Telegrama, Arthur Holmwood para Seward.
“1 de setembro.
“Sou chamado para ver o meu pai, que está pior. Estou a escrever. Escreve-me detalhadamente pelo correio de hoje para Ring. Telegrama-me se necessário.”
Carta do Dr. Seward para Arthur Holmwood.
“2 de setembro.
“Meu caro velho amigo,--
“Relativamente à saúde da Srta. Westenra, apresso-me a informar-te de imediato que, na minha opinião, não há qualquer perturbação funcional ou doença que eu conheça. Ao mesmo tempo, não estou de modo algum satisfeito com o seu aspeto; está lastimavelmente diferente de quando a vi pela última vez. É claro que deves ter em conta que não tive a oportunidade plena de a examinar como desejaria; a nossa própria amizade cria uma pequena dificuldade que nem a ciência médica nem o costume conseguem superar. É melhor contar-te exatamente o que aconteceu, deixando-te tirar, em certa medida, as tuas próprias conclusões. Direi então o que fiz e o que me proponho fazer.
“Encontrei a Srta. Westenra aparentemente bem-disposta. A mãe estava presente e, em poucos segundos, decidi que ela estava a tentar tudo o que podia para enganar a mãe e evitar que ela ficasse ansiosa. Não tenho dúvidas de que ela adivinha, se não sabe, quão necessária é a cautela. Almoçámos a sós e, como todos nos esforçámos por estar alegres, obtivemos, como uma espécie de recompensa pelo nosso esforço, alguma alegria real entre nós. Depois, a Sra. Westenra foi deitar-se e a Lucy ficou comigo. Fomos para o seu boudoir e, até chegarmos lá, a sua alegria manteve-se, pois os criados entravam e saíam. Assim que a porta se fechou, porém, a máscara caiu do seu rosto, e ela afundou-se numa cadeira com um grande suspiro e escondeu os olhos com a mão. Quando vi que a sua vivacidade tinha falhado, aproveitei imediatamente a sua reação para fazer um diagnóstico. Ela disse-me muito docemente:--
“‘Não lhe sei dizer o quanto detesto falar de mim própria.’ Lembrei-lhe que a confidência de um médico era sagrada, mas que tu estavas gravemente ansioso por ela. Ela percebeu logo o meu sentido e resolveu esse assunto numa palavra. ‘Diga ao Arthur tudo o que quiser. Não me importo comigo, mas tudo por ele!’ Portanto, estou totalmente livre.
“Pude ver facilmente que ela está algo pálida, mas não consegui ver os sinais habituais de anemia e, por acaso, consegui testar a qualidade do seu sangue, pois, ao abrir uma janela que estava emperrada, um cordão cedeu e ela cortou a mão ligeiramente com o vidro partido. Foi uma coisa sem importância, por si só, mas deu-me uma oportunidade evidente, e obtive algumas gotas de sangue e analisei-as. A análise qualitativa dá uma condição perfeitamente normal e mostra, eu inferiria, por si só, um estado de saúde vigoroso. Em outras questões físicas, fiquei totalmente satisfeito por não haver necessidade de ansiedade; mas, como deve haver uma causa em algum lado, cheguei à conclusão de que deve ser algo mental. Ela queixa-se de dificuldade em respirar satisfatoriamente por vezes, e de um sono pesado e letárgico, com sonhos que a assustam, mas sobre os quais não se consegue lembrar de nada. Ela diz que, em criança, costumava andar a dormir e que, quando estava em Whitby, o hábito voltou, e que uma vez saiu de noite e foi até ao East Cliff, onde a Srta. Murray a encontrou; mas ela assegura-me que, ultimamente, o hábito não regressou. Estou na dúvida e, por isso, fiz a melhor coisa que conheço; escrevi ao meu velho amigo e mestre, o Professor Van Helsing, de Amesterdão, que sabe tanto sobre doenças obscuras como qualquer outra pessoa no mundo. Pedi-lhe que viesse, e como me disseste que todas as coisas deveriam ficar ao teu encargo, mencionei-lhe quem tu és e as tuas relações com a Srta. Westenra. Isto, meu caro amigo, é apenas em obediência aos teus desejos, pois estou demasiado orgulhoso e feliz por fazer tudo o que puder por ela. O Van Helsing, sei-o, faria qualquer coisa por mim por uma razão pessoal. Portanto, não importa sob que pretexto ele venha, temos de aceitar os seus desejos. Ele é um homem aparentemente arbitrário, mas isso é porque sabe do que fala melhor do que qualquer outra pessoa. É um filósofo e um metafísico, e um dos cientistas mais avançados do seu tempo; e tem, creio eu, uma mente absolutamente aberta. Isto, com nervos de aço, um temperamento como a água gelada, uma resolução indomável, autocontrolo e tolerância exaltados de virtudes a bênçãos, e o coração mais bondoso e verdadeiro que bate — estes formam o seu equipamento para o nobre trabalho que está a fazer pela humanidade — trabalho tanto na teoria como na prática, pois as suas visões são tão amplas como a sua simpatia universal. Digo-te estes factos para que saibas por que tenho tanta confiança nele. Pedi-lhe que viesse imediatamente. Voltarei a ver a Srta. Westenra amanhã. Ela encontrar-me-á nas Lojas, para que eu não assuste a sua mãe com uma repetição demasiado prematura da minha visita.
“Teu sempre,
“/John Seward./”
_Carta, Abraham Van Helsing, M.D., D.Ph., D.Litt., etc., etc., para o Dr. Seward._
“2 de setembro.
“Meu bom Amigo,--
“Quando recebi a tua carta, já estou a caminho de ti. Por boa fortuna, posso partir de imediato, sem prejudicar nenhum daqueles que em mim confiaram. Se a fortuna fosse outra, seria mau para aqueles que confiaram, pois venho ao meu amigo quando ele me chama para ajudar aqueles que lhe são caros. Diz ao teu amigo que, quando naquela altura tu sugaste da minha ferida tão rapidamente o veneno da gangrena daquela faca que o nosso outro amigo, demasiado nervoso, deixou escapar, fizeste mais por ele quando ele queria a minha ajuda e tu a pediste do que toda a sua grande fortuna poderia fazer. Mas é um prazer acrescido fazer por ele, o teu amigo; é a ti que eu venho. Prepara então quartos para mim no Great Eastern Hotel, para que eu esteja à mão, e por favor arranja de forma a que possamos ver a jovem não demasiado tarde amanhã, pois é provável que eu tenha de regressar aqui nessa noite. Mas se for necessário, virei novamente em três dias e ficarei mais tempo, se for preciso. Até lá, adeus, meu amigo John.
“/Van Helsing./”
Carta, Dr. Seward para o Exmo. Arthur Holmwood.
“3 de setembro.
“Meu caro Art,--
“O Van Helsing veio e já partiu. Veio comigo a Hillingham e descobriu que, pela discrição da Lucy, a sua mãe estava a almoçar fora, pelo que ficámos a sós com ela. O Van Helsing fez um exame muito cuidadoso à paciente. Ele vai reportar-me, e eu aconselhar-te-ei, pois, naturalmente, não estive presente todo o tempo. Ele está, temo, muito preocupado, mas diz que tem de pensar. Quando lhe falei da nossa amizade e de como tu confias em mim no assunto, ele disse: ‘Deves dizer-lhe tudo o que pensas. Diz-lhe o que eu penso, se conseguires adivinhar, se quiseres. Não, não estou a brincar. Isto não é uma brincadeira, mas vida e morte, talvez mais.’ Perguntei o que ele queria dizer com isso, pois ele estava muito sério. Isto foi quando regressámos à cidade e ele estava a tomar uma chávena de chá antes de iniciar o seu regresso a Amesterdão. Não me deu qualquer outra pista. Não deves ficar zangado com ele, Art, porque a sua própria reticência significa que todo o seu cérebro está a trabalhar para o bem dela. Ele falará com bastante clareza quando chegar a altura, podes ter a certeza. Por isso, disse-lhe que escreveria simplesmente um relato da nossa visita, exatamente como se estivesse a fazer um artigo especial descritivo para o The Daily Telegraph. Ele pareceu não notar, mas comentou que a fuligem em Londres não era tão má como costumava ser quando ele era estudante aqui. Devo obter o seu relatório amanhã, se ele conseguir fazê-lo. Em qualquer caso, terei uma carta.
“Bem, quanto à visita. A Lucy estava mais alegre do que no dia em que a vi pela primeira vez e, certamente, parecia melhor. Tinha perdido algo daquele aspeto macabro que tanto te perturbou, e a sua respiração estava normal. Foi muito doce para com o Professor (como é sempre) e tentou fazê-lo sentir-se à vontade; embora eu pudesse ver que a pobre rapariga estava a fazer um grande esforço por isso. Creio que o Van Helsing também o viu, pois vi o olhar rápido sob as suas sobrancelhas espessas que eu conhecia de outros tempos. Depois, começou a conversar sobre tudo, exceto sobre nós próprios e doenças, e com uma infinidade de genialidade que pude ver a pobre pretensão de animação da Lucy fundir-se na realidade. Depois, sem qualquer mudança aparente, ele levou a conversa suavemente para a sua visita e disse, suavemente:--
“‘Minha querida menina, tenho o prazer tão grande porque é muito amada. Isso é muito, minha querida, mesmo que houvesse aquilo que eu não vejo. Disseram-me que estava em baixo de espírito e que estava de uma palidez cadavérica. Para eles digo: “Puf!”’ E estalou os dedos para mim e continuou: ‘Mas você e eu mostrar-lhes-emos como estão errados. Como pode ele’ — e apontou para mim com o mesmo olhar e gesto com que, uma vez, apontou para mim perante a sua turma, em, ou melhor, depois de uma ocasião específica que ele nunca deixa de me recordar — ‘saber alguma coisa de uma jovem senhorita? Ele tem os seus loucos com quem brincar, e para os trazer de volta à felicidade e àqueles que os amam. É muito o que fazer, e, oh, mas há recompensas, em que podemos conceder tal felicidade. Mas as jovens senhoritas! Ele não tem esposa nem filha, e os jovens não se confiam aos jovens, mas aos velhos, como eu, que conheci tantas tristezas e as causas delas. Por isso, minha querida, vamos mandá-lo embora para fumar o cigarro no jardim, enquanto você e eu temos uma pequena conversa só para nós.’ Aceitei a sugestão e passei por ali e, pouco depois, o Professor veio à janela e chamou-me. Ele parecia grave, mas disse: ‘Fiz um exame cuidadoso, mas não há causa funcional. Concordo consigo que se perdeu muito sangue; foi, mas já não é. Mas as suas condições não são de forma alguma anémicas. Pedi-lhe que me enviasse a sua criada, para que eu possa fazer apenas uma ou duas perguntas, para que eu não corra o risco de perder nada. Sei bem o que ela dirá. E, ainda assim, há uma causa; há sempre uma causa para tudo. Tenho de regressar a casa e pensar. Deve enviar-me o telegrama todos os dias; e se houver causa, virei novamente. A doença — pois não estar totalmente bem é uma doença — interessa-me, e a doce jovem, ela também me interessa. Ela encanta-me, e por ela, se não por si ou pela doença, virei.’
“Como te digo, ele não quis dizer mais uma palavra, mesmo quando estávamos a sós. E agora, Art, já sabes tudo o que eu sei. Manterei uma vigilância rigorosa. Espero que o teu pobre pai esteja a recuperar. Deve ser uma coisa terrível para ti, meu caro velho amigo, seres colocado numa posição dessas entre duas pessoas que são ambas tão queridas para ti. Conheço a tua ideia de dever para com o teu pai, e tens razão em manter-te fiel a ela; mas, se for preciso, enviar-te-ei uma mensagem para vires imediatamente para a Lucy; por isso, não fiques demasiado ansioso a menos que tenhas notícias minhas.”
Diário do Dr. Seward.
4 de setembro.--O paciente zoófago continua a manter o nosso interesse nele. Teve apenas um acesso, e isso foi ontem a uma hora pouco habitual. Pouco antes da badalada do meio-dia, começou a ficar agitado. O enfermeiro conhecia os sintomas e chamou imediatamente ajuda. Felizmente, os homens vieram a correr e chegaram mesmo a tempo, pois, à badalada do meio-dia, ele tornou-se tão violento que foi necessária toda a força deles para o segurar. Em cerca de cinco minutos, porém, começou a ficar cada vez mais calmo e, finalmente, mergulhou numa espécie de melancolia, estado em que permaneceu até agora. O enfermeiro diz-me que os seus gritos durante o paroxismo foram verdadeiramente terríveis; fiquei com as mãos cheias quando entrei, a atender alguns dos outros pacientes que estavam assustados com ele. De facto, compreendo perfeitamente o efeito, pois os sons perturbaram até mim, embora eu estivesse a alguma distância. É agora depois da hora de jantar do asilo e, até agora, o meu paciente senta-se num canto a remoer, com um olhar baço, sombrio e infeliz no rosto, que parece indicar em vez de mostrar algo diretamente. Não consigo compreendê-lo bem.
Mais tarde.--Outra mudança no meu paciente. Às cinco horas, dei uma vista de olhos por ele e encontrei-o aparentemente tão feliz e contente como costumava estar. Estava a apanhar moscas e a comê-las, e mantinha o registo da sua captura fazendo marcas de unhas na borda da porta entre as saliências do acolchoado. Quando me viu, veio ter comigo e pediu desculpa pelo seu mau comportamento, e pediu-me de uma forma muito humilde e servil para ser deixado voltar para o seu quarto e ter o seu bloco de notas novamente. Achei melhor satisfazê-lo; por isso, ele está de volta ao seu quarto, com a janela aberta. Ele tem o açúcar do seu chá espalhado no parapeito da janela e está a colher uma verdadeira colheita de moscas. Ele não as está a comer agora, mas a colocá-las numa caixa, como antigamente, e já está a examinar os cantos do seu quarto para encontrar uma aranha. Tentei levá-lo a falar sobre os últimos dias, pois qualquer pista dos seus pensamentos seria de imensa ajuda para mim; mas ele não quis ceder. Por um momento ou dois, pareceu muito triste e disse numa espécie de voz distante, como se estivesse a dizê-lo mais para si mesmo do que para mim:--
“Tudo acabou! Tudo acabou! Ele abandonou-me. Sem esperança para mim agora, a menos que o faça por mim mesmo!” Depois, virando-se subitamente para mim de uma forma resoluta, disse: “Doutor, não quer ser muito bom comigo e deixar-me ter um pouco mais de açúcar? Acho que seria bom para mim.”
“E as moscas?” disse eu.
“Sim! As moscas também gostam, e eu gosto das moscas; portanto, gosto disso.” E há pessoas que sabem tão pouco que pensam que os loucos não argumentam. Arranjei-lhe uma dose dupla e deixei-o um homem tão feliz como, suponho, qualquer outro no mundo. Gostaria de conseguir perscrutar a sua mente.
Meia-noite.--Outra mudança nele. Tinha ido ver a Srta. Westenra, que encontrei muito melhor, e tinha acabado de regressar, e estava à nossa porta a olhar para o pôr do sol, quando, mais uma vez, o ouvi a gritar. Como o seu quarto é deste lado da casa, podia ouvi-lo melhor do que de manhã. Foi um choque para mim desviar-me da maravilhosa beleza esfumada de um pôr do sol sobre Londres, com as suas luzes lúgubres e sombras de tinta e todos os tons maravilhosos que surgem nas nuvens sujas tal como na água suja, e realizar toda a severidade sombria do meu próprio edifício de pedra fria, com a sua riqueza de miséria ofegante, e o meu próprio coração desolado para suportar tudo isto. Cheguei até ele exatamente quando o sol estava a pôr-se, e da sua janela vi o disco vermelho afundar-se. À medida que se afundava, ele tornava-se cada vez menos frenético; e exatamente quando mergulhou, ele deslizou das mãos que o seguravam, uma massa inerte, no chão. É maravilhoso, porém, o poder de recuperação intelectual que os lunáticos têm, pois, dentro de poucos minutos, ele levantou-se muito calmamente e olhou à sua volta. Fiz sinal aos enfermeiros para não o segurarem, pois estava ansioso por ver o que ele faria. Ele foi diretamente à janela e limpou as migalhas de açúcar; depois pegou na sua caixa de moscas e esvaziou-a lá fora, e deitou fora a caixa; depois fechou a janela e, atravessando, sentou-se na sua cama. Tudo isto me surpreendeu, por isso perguntei-lhe: “Já não vais guardar mais moscas?”
“Não,” disse ele; “Estou farto de todo esse lixo!” Ele é certamente um estudo maravilhosamente interessante. Gostaria de conseguir ter algum vislumbre da sua mente ou da causa da sua súbita paixão. Espera; talvez haja uma pista, afinal, se conseguirmos descobrir por que razão, hoje, os seus paroxismos surgiram ao meio-dia e ao pôr do sol. Poderá haver uma influência maligna do sol em períodos que afeta certas naturezas — tal como, por vezes, a lua afeta outras? Veremos.
Telegrama, Seward, Londres, para Van Helsing, Amesterdão
“4 de setembro.--Paciente ainda melhor hoje.”
Telegrama, Seward, Londres, para Van Helsing, Amesterdão
“5 de setembro.--Paciente muito melhorado. Bom apetite; dorme naturalmente; bom espírito, cor a voltar.”
Telegrama, Seward, Londres, para Van Helsing, Amesterdão
“6 de setembro.--Mudança terrível para pior. Venha imediatamente; não perca uma hora. Retenho o telegrama para Holmwood até que o tenha visto.”
CAPÍTULO X.
Carta, Dr. Seward para o Exmo. Arthur Holmwood.
“6 de setembro.
“Meu caro Art,--
“As minhas notícias de hoje não são tão boas. A Lucy, esta manhã, tinha regredido um pouco. Há, porém, uma coisa boa que surgiu disto: a Sra. Westenra estava naturalmente ansiosa relativamente à Lucy e consultou-me profissionalmente sobre ela. Aproveitei a oportunidade e disse-lhe que o meu antigo mestre, Van Helsing, o grande especialista, vinha ficar comigo, e que a colocaria sob os seus cuidados conjuntamente com os meus; por isso, agora podemos entrar e sair sem a alarmar indevidamente, pois um choque para ela significaria uma morte súbita, e isto, no estado fraco da Lucy, poderia ser desastroso para ela. Estamos cercados de dificuldades, todos nós, meu pobre velho amigo; mas, se Deus quiser, superaremos todas elas bem. Se houver necessidade, escreverei, por isso, se não tiveres notícias minhas, assume que estou simplesmente à espera de notícias. Com pressa,
“Teu sempre, “/John Seward./”
Diário do Dr. Seward.
7 de setembro.--A primeira coisa que Van Helsing me disse quando nos encontrámos em Liverpool Street foi:--
“Disse alguma coisa ao nosso jovem amigo, o amante dela?”
“Não,” eu disse. “Esperei até o ver, como disse no meu telegrama. Escrevi-lhe uma carta simplesmente a dizer que vinha, pois a Miss Westenra não estava muito bem, e que lhe daria notícias caso fosse necessário.”
“Muito bem, meu amigo,” disse ele, “muito bem! É melhor que ele ainda não saiba; talvez nunca venha a saber. Rezo para que assim seja; mas se for necessário, então ele saberá tudo. E, meu bom amigo John, deixa-me advertir-te. Tu lidas com os loucos. Todos os homens são loucos de uma forma ou de outra; e na medida em que lidas discretamente com os teus loucos, lida também com os loucos de Deus — o resto do mundo. Não dizes aos teus loucos o que fazes nem por que o fazes; não lhes dizes o que pensas. Assim, manterás o conhecimento no seu lugar, onde ele possa repousar — onde possa reunir os seus semelhantes à sua volta e multiplicar-se. Tu e eu manteremos, por enquanto, o que sabemos aqui, e aqui.” Ele tocou-me no coração e na testa, e depois tocou-se a si próprio da mesma forma. “Eu próprio tenho pensamentos por agora. Mais tarde revelar-to-ei.”
“Por que não agora?” perguntei. “Pode fazer algum bem; podemos chegar a alguma decisão.” Ele parou, olhou para mim e disse:—
“Meu amigo John, quando o milho cresce, mesmo antes de estar maduro — enquanto o leite da sua mãe-terra está nele, e o sol ainda não começou a pintá-lo com o seu ouro, o agricultor arranca a espiga e esfrega-a entre as suas mãos ásperas, e sopra a palha verde, e diz-te: ‘Olha! é bom milho; fará uma boa colheita quando chegar a altura.’” Eu não percebi a aplicação e disse-lho. Como resposta, ele estendeu a mão, pegou na minha orelha e puxou-a de forma brincalhona, como costumava fazer há muito tempo nas aulas, e disse: “O bom agricultor diz-te isso então porque sabe, mas não antes disso. Mas não encontras o bom agricultor a desenterrar o milho plantado para ver se cresce; isso é para as crianças que brincam à agricultura, e não para aqueles que a encaram como o trabalho da sua vida. Estás a ver agora, amigo John? Eu semeei o meu milho, e a Natureza tem o seu trabalho a fazer para o fazer brotar; se ele brotar, há alguma promessa; e eu espero até que a espiga comece a inchar.” Ele interrompeu-se, pois viu evidentemente que eu tinha compreendido. Depois continuou, e muito gravemente:—
“Sempre foste um estudante cuidadoso, e o teu livro de casos estava sempre mais cheio do que o dos outros. Tu eras apenas um estudante então; agora és um mestre, e espero que esse bom hábito não se tenha perdido. Lembra-te, meu amigo, de que o conhecimento é mais forte do que a memória, e não devemos confiar no mais fraco. Mesmo que não tenhas mantido a boa prática, deixa-me dizer-te que este caso da nossa querida miss é um daqueles que pode ser — atenção, digo pode ser — de tal interesse para nós e para os outros que tudo o resto pode não fazer pender a balança, como diz o vosso povo. Toma, pois, boa nota disso. Nada é demasiado pequeno. Aconselho-te, regista mesmo as tuas dúvidas e suposições. Mais tarde, poderá ser do teu interesse ver o quão certeiro foi o teu palpite. Aprendemos com o fracasso, não com o sucesso!”
Quando descrevi os sintomas da Lucy — os mesmos de antes, mas definitivamente mais marcados — ele pareceu muito grave, mas não disse nada. Levou consigo uma mala na qual havia muitos instrumentos e medicamentos, “a parafernália macabra do nosso comércio benéfico”, como ele chamou uma vez, numa das suas aulas, ao equipamento de um professor da arte de curar. Quando nos deixaram entrar, a Sra. Westenra veio ao nosso encontro. Estava alarmada, mas nem de perto tanto como eu esperava encontrá-la. A Natureza, num dos seus estados de espírito benéficos, ordenou que até a morte tenha algum antídoto para os seus próprios terrores. Aqui, num caso em que qualquer choque pode revelar-se fatal, as coisas estão tão ordenadas que, por uma razão ou outra, as coisas não pessoais — até a terrível mudança na sua filha a quem ela é tão apegada — não parecem atingi-la. É algo semelhante à forma como a Mãe Natureza reúne em torno de um corpo estranho um envelope de algum tecido insensível que pode proteger do mal aquilo que, de outra forma, prejudicaria pelo contacto. Se isto for um egoísmo ordenado, então devemos hesitar antes de condenar alguém pelo vício do egoísmo, pois pode haver raízes mais profundas para as suas causas do que aquelas que conhecemos.
Usei o meu conhecimento desta fase da patologia espiritual e estabeleci uma regra de que ela não deveria estar presente com a Lucy nem pensar na sua doença mais do que o absolutamente necessário. Ela assentiu prontamente, tão prontamente que vi novamente a mão da Natureza a lutar pela vida. Van Helsing e eu fomos conduzidos ao quarto da Lucy. Se fiquei chocado quando a vi ontem, fiquei horrorizado quando a vi hoje. Ela estava cadavérica, pálida como o giz; o vermelho parecia ter desaparecido até dos seus lábios e gengivas, e os ossos do rosto sobressaíam de forma proeminente; a sua respiração era dolorosa de ver ou ouvir. O rosto de Van Helsing tornou-se rígido como mármore, e as suas sobrancelhas convergiram até quase se tocarem sobre o nariz. Lucy jazia imóvel e não parecia ter força para falar, por isso, durante algum tempo, ficámos todos em silêncio. Depois, Van Helsing fez-me sinal e saímos suavemente do quarto. No instante em que fechámos a porta, ele caminhou rapidamente pelo corredor até à porta seguinte, que estava aberta. Depois puxou-me rapidamente para dentro com ele e fechou a porta. “Meu Deus!” disse ele; “isto é terrível. Não há tempo a perder. Ela morrerá por pura falta de sangue para manter o coração a funcionar como deveria. Tem de haver uma transfusão de sangue imediatamente. És tu ou eu?”
“Sou mais novo e mais forte, Professor. Tenho de ser eu.”
“Então prepara-te imediatamente. Vou buscar a minha mala. Estou preparado.”
Desci com ele e, quando estávamos a ir, bateram à porta da entrada. Quando chegámos ao vestíbulo, a criada tinha acabado de abrir a porta e Arthur estava a entrar rapidamente. Ele correu para mim, dizendo num sussurro ansioso:—
“Jack, estava tão preocupado. Li nas entrelinhas da tua carta e estive em agonia. O pai estava melhor, por isso vim a correr para ver por mim mesmo. Não é aquele cavalheiro o Dr. Van Helsing? Estou-lhe tão grato, senhor, por ter vindo.” Quando o olhar do Professor se fixou nele pela primeira vez, ele tinha ficado zangado com qualquer interrupção num momento daqueles; mas agora, ao observar as suas proporções robustas e reconhecer a forte masculinidade jovem que parecia emanar dele, os seus olhos brilharam. Sem hesitar, disse-lhe gravemente enquanto lhe estendia a mão:—
“Senhor, chegou a tempo. É o amante da nossa querida miss. Ela está mal, muito, muito mal. Não, meu rapaz, não fiques assim.” Pois ele de repente ficou pálido e sentou-se numa cadeira quase a desmaiar. “Tu vais ajudá-la. Podes fazer mais do que qualquer pessoa viva, e a tua coragem é a tua melhor ajuda.”
“O que posso fazer?” perguntou Arthur roucamente. “Diga-me e eu farei. A minha vida é dela, e daria a última gota de sangue do meu corpo por ela.” O Professor tem um lado fortemente humorístico, e eu podia, pelo meu conhecimento antigo, detetar um traço da sua origem na sua resposta:—
“Meu jovem senhor, não peço tanto quanto isso — não a última!”
“O que devo fazer?” Havia fogo nos seus olhos, e as suas narinas abertas tremiam de intenção. Van Helsing deu-lhe uma palmada no ombro. “Vamos!” disse ele. “Tu és um homem, e é um homem que queremos. Tu és melhor do que eu, melhor do que o meu amigo John.” Arthur parecia confuso, e o Professor continuou, explicando de forma gentil:—
“A jovem miss está mal, muito mal. Ela precisa de sangue, e sangue ela tem de ter ou morrerá. O meu amigo John e eu consultámo-nos; e estamos prestes a realizar o que chamamos transfusão de sangue — transferir das veias cheias de um para as veias vazias que anseiam por ele. O John ia dar o seu sangue, pois ele é mais jovem e mais forte do que eu” — aqui Arthur pegou na minha mão e apertou-a com força em silêncio — “mas, agora que estás aqui, és melhor do que nós, velhos ou novos, que labutamos muito no mundo do pensamento. Os nossos nervos não são tão calmos e o nosso sangue não é tão brilhante quanto o teu!” Arthur virou-se para ele e disse:—
“Se soubesse o quão alegremente eu morreria por ela, entenderia...”
Ele parou, com uma espécie de nó na garganta.
“Bom rapaz!” disse Van Helsing. “Num futuro não muito distante, ficarás feliz por teres feito tudo por ela que amas. Vem agora e silêncio. Vais beijá-la uma vez antes de ser feito, mas depois tens de ir; e tens de sair ao meu sinal. Não digas palavra à Madame; sabes como é com ela! Não pode haver choque; qualquer conhecimento disto seria um. Vem!”
Subimos todos para o quarto da Lucy. Arthur, por indicação, permaneceu lá fora. Lucy virou a cabeça e olhou para nós, mas não disse nada. Não estava a dormir, mas estava simplesmente demasiado fraca para fazer o esforço. Os seus olhos falaram connosco; foi tudo. Van Helsing tirou algumas coisas da sua mala e colocou-as numa pequena mesa fora da vista. Depois misturou um narcótico e, aproximando-se da cama, disse alegremente:—
“Agora, menina, aqui está o seu remédio. Beba-o, como uma boa menina. Veja, eu levanto-a para que seja fácil engolir. Sim.” Ela tinha feito o esforço com sucesso.
Surpreendeu-me o tempo que o medicamento demorou a fazer efeito. Isto, de facto, marcava a extensão da sua fraqueza. O tempo pareceu interminável até que o sono começou a tremeluzir nas suas pálpebras. Por fim, no entanto, o narcótico começou a manifestar a sua potência; e ela caiu num sono profundo. Quando o Professor ficou satisfeito, chamou Arthur ao quarto e ordenou-lhe que tirasse o casaco. Depois acrescentou: “Podes dar aquele pequeno beijo enquanto eu trago a mesa. Amigo John, ajuda-me!” Por isso, nenhum de nós olhou enquanto ele se debruçava sobre ela.
Van Helsing, virando-se para mim, disse:—
“Ele é tão jovem e forte e de sangue tão puro que não precisamos de desfibriná-lo.”
Depois, com rapidez, mas com método absoluto, Van Helsing realizou a operação. À medida que a transfusão decorria, algo semelhante à vida parecia regressar às faces da pobre Lucy e, através da crescente palidez de Arthur, a alegria do seu rosto parecia brilhar absolutamente. Passado algum tempo, comecei a ficar ansioso, pois a perda de sangue estava a afetar Arthur, homem forte como ele era. Deu-me uma ideia da terrível tensão que o organismo da Lucy deve ter sofrido, para que o que enfraqueceu Arthur apenas a restaurasse parcialmente. Mas o rosto do Professor estava rígido, e ele permanecia com o relógio na mão, com os olhos fixos agora na paciente, agora em Arthur. Podia ouvir o meu próprio coração bater. Pouco depois, ele disse em voz suave: “Não se mova um instante. É o suficiente. Tu cuidas dele; eu cuidarei dela.” Quando tudo terminou, pude ver o quanto Arthur estava enfraquecido. Fiz o curativo na ferida e peguei-lhe no braço para o levar, quando Van Helsing falou sem se virar — o homem parece ter olhos na nuca:—
“O bravo amante acho que merece outro beijo, que ele terá em breve.” E, como tinha agora terminado a sua operação, ajustou a almofada à cabeça da paciente. Ao fazê-lo, a estreita fita de veludo preto que ela parecia usar sempre à volta do pescoço, presa com uma fivela de diamante antiga que o seu amante lhe tinha dado, foi puxada um pouco para cima e mostrou uma marca vermelha na sua garganta. Arthur não a notou, mas eu pude ouvir o sibilar profundo da respiração contida, que é uma das formas de Van Helsing trair a sua emoção. Ele não disse nada no momento, mas virou-se para mim, dizendo: “Agora leva o nosso bravo jovem amante, dá-lhe do vinho do Porto e deixa-o deitar-se um pouco. Ele deve depois ir para casa e descansar, dormir muito e comer muito, para que possa recuperar do que deu à sua amada. Ele não deve ficar aqui. Espera! um momento. Posso assumir, senhor, que está ansioso pelo resultado. Então leve-o consigo para que, em todos os aspetos, a operação seja um sucesso. Salvou-lhe a vida desta vez, e pode ir para casa e descansar tranquilo por saber que tudo o que pode ser, está feito. Direi-lhe tudo quando ela estiver bem; ela não o amará menos pelo que fez. Adeus.”
Quando Arthur se foi, voltei para o quarto. Lucy dormia suavemente, mas a sua respiração era mais forte; podia ver a colcha mover-se enquanto o seu peito subia e descia. Ao lado da cama estava sentado Van Helsing, olhando para ela intensamente. A fita de veludo cobria novamente a marca vermelha. Perguntei ao Professor num sussurro:—
“O que acha daquela marca na garganta dela?”
“O que achas tu dela?”
“Ainda não a vi bem,” respondi, e ali mesmo procedi a desapertar a fita. Logo acima da veia jugular externa havia duas perfurações, não grandes, mas com um aspeto pouco saudável. Não havia sinal de doença, mas as bordas eram brancas e com aspeto gasto, como se por alguma trituração. Ocorreu-me de imediato que esta ferida, ou o que quer que fosse, poderia ser o meio daquela manifesta perda de sangue; mas abandonei a ideia logo que a formei, pois tal coisa não poderia ser. Toda a cama estaria encharcada em escarlate com o sangue que a rapariga deve ter perdido para deixar tal palidez como ela tinha antes da transfusão.
“Bem?” disse Van Helsing.
“Bem?” disse eu, “não consigo tirar nada disso.” O Professor levantou-se. “Tenho de voltar a Amesterdão esta noite,” disse ele. “Há livros e coisas lá que quero. Tens de permanecer aqui toda a noite, e não deves tirar os olhos dela.”
“Devo ter uma enfermeira?” perguntei.
“Nós somos os melhores enfermeiros, tu e eu. Mantém a vigília toda a noite; vê que ela é bem alimentada e que nada a perturba. Não deves dormir a noite toda. Mais tarde poderemos dormir, tu e eu. Estarei de volta o mais cedo possível. E então poderemos começar.”
“Poderemos começar?” disse eu. “O que raio quer dizer?”
“Veremos!” respondeu ele enquanto se apressava a sair. Voltou um momento depois e pôs a cabeça dentro da porta, e disse, com um dedo de aviso levantado:—
“Lembra-te, ela está ao teu cuidado. Se a deixares, e lhe acontecer algum mal, não dormirás descansado daqui em diante!”
Diário do Dr. Seward — continuação.
8 de setembro.— Passei a noite toda acordado com a Lucy. O opiáceo perdeu o efeito perto do crepúsculo, e ela acordou naturalmente; parecia um ser diferente do que tinha sido antes da operação. Até o seu espírito estava bom, e ela estava cheia de uma vivacidade feliz, mas eu podia ver evidências da prostração absoluta que ela tinha sofrido. Quando disse à Sra. Westenra que o Dr. Van Helsing tinha orientado que eu deveria ficar acordado com ela, ela quase desdenhou a ideia, apontando a força renovada e o excelente espírito da sua filha. Fui firme, no entanto, e fiz preparativos para a minha longa vigília. Quando a sua criada a preparou para a noite, entrei, tendo entretanto jantado, e tomei um lugar ao lado da cama. Ela não fez qualquer objeção, mas olhou para mim com gratidão sempre que eu apanhava o seu olhar. Depois de um longo período, parecia estar a cair no sono, mas com um esforço parecia recompor-se e afastá-lo. Isto repetiu-se várias vezes, com maior esforço e com pausas mais curtas à medida que o tempo passava. Era evidente que ela não queria dormir, por isso abordei o assunto de imediato:—
“Não queres ir dormir?”
“Não; tenho medo.”
“Com medo de ir dormir! Porquê? É a dádiva que todos ansiamos.”
“Ah, não se fosses como eu — se o sono fosse para ti um presságio de horror!”
“Um presságio de horror! O que raio queres dizer?”
“Não sei; oh, não sei. E é isso que é tão terrível. Toda esta fraqueza vem-me no sono; até temo o próprio pensamento.”
“Mas minha querida rapariga, podes dormir esta noite. Estou aqui a vigiar-te, e posso prometer que nada acontecerá.”
“Ah, posso confiar em ti!” Aproveitei a oportunidade e disse: “Prometo-te que, se vir qualquer evidência de maus sonhos, acordar-te-ei imediatamente.”
“Vais? Oh, vais mesmo? Como és bom para mim! Então vou dormir!” E quase ao dizer a palavra, ela deu um profundo suspiro de alívio e recostou-se, a dormir.
A noite toda vigiei-a. Ela nunca se mexeu, mas continuou a dormir num sono profundo, tranquilo, vivificante e saudável. Os seus lábios estavam ligeiramente entreabertos, e o seu peito subia e descia com a regularidade de um pêndulo. Havia um sorriso no seu rosto, e era evidente que nenhuns maus sonhos tinham vindo perturbar a sua paz de espírito.
De manhã cedo veio a sua criada, deixei-a ao seu cuidado e voltei para casa, pois estava ansioso por muitas coisas. Enviei um curto telegrama a Van Helsing e a Arthur, informando-os do excelente resultado da operação. O meu próprio trabalho, com os seus múltiplos atrasos, levou-me o dia todo a concluir; estava escuro quando pude informar-me sobre o meu paciente zoófago. O relatório era bom: ele tinha estado bastante quieto durante o dia e a noite passados. Um telegrama chegou de Van Helsing de Amesterdão enquanto eu jantava, sugerindo que eu deveria estar em Hillingham esta noite, pois poderia ser bom estar à mão, e declarando que ele partiria no correio noturno e juntar-se-ia a mim de manhã cedo.
9 de setembro.— Estava bastante cansado e exausto quando cheguei a Hillingham. Durante duas noites mal tinha pregado olho, e o meu cérebro começava a sentir aquele entorpecimento que marca a exaustão cerebral. Lucy estava de pé e com espírito alegre. Quando me apertou a mão, olhou fixamente para o meu rosto e disse:—
“Nada de ficar acordado esta noite para ti. Estás exausto. Estou completamente bem novamente; na verdade, estou; e se houver alguém a ficar acordado, serei eu a ficar contigo.” Não quis discutir o ponto, mas fui jantar. Lucy veio comigo e, animado pela sua presença encantadora, fiz uma excelente refeição e bebi um par de copos do mais do que excelente vinho do Porto. Depois, Lucy levou-me lá para cima e mostrou-me um quarto ao lado do seu, onde um fogo acolhedor ardia. “Agora,” disse ela, “tens de ficar aqui. Deixarei esta porta aberta e a minha também. Podes deitar-te no sofá, pois sei que nada levaria qualquer um de vós, médicos, a ir para a cama enquanto houver uma paciente acima do horizonte. Se precisar de alguma coisa, chamarei, e podes vir ter comigo imediatamente.” Não pude deixar de concordar, pois estava “cansado que nem um cão” e não teria conseguido manter-me acordado se tivesse tentado. Por isso, ao renovar a sua promessa de me chamar se precisasse de algo, deitei-me no sofá e esqueci-me de tudo.
9 de setembro. — Sinto-me tão feliz esta noite. Estive tão miseravelmente fraca que ser capaz de pensar e mover-me é como sentir o sol após um longo período de vento leste vindo de um céu de aço. De algum modo, Arthur sente-se muito, muito próximo de mim. Parece-me sentir a sua presença calorosa à minha volta. Suponho que a doença e a fraqueza sejam coisas egoístas que voltam os nossos olhos interiores e a nossa simpatia para nós mesmos, enquanto a saúde e a força dão rédea solta ao Amor, e, em pensamento e sentimento, ele pode vaguear para onde bem entender. Eu sei onde estão os meus pensamentos. Se Arthur ao menos soubesse! Meu querido, meu querido, os teus ouvidos devem arder enquanto dormes, tal como os meus ardem enquanto estou acordada. Oh, o descanso abençoado da noite passada! Como dormi com aquele querido e bom Dr. Seward a vigiar-me. E esta noite não temerei dormir, uma vez que ele está por perto e ao alcance da minha voz. Agradeçam a todos por serem tão bons para mim! Graças a Deus! Boa noite, Arthur.
Diário do Dr. Seward.
10 de setembro. — Estava consciente da mão do Professor na minha cabeça e saltei, despertando num segundo. Essa é uma das coisas que aprendemos num asilo, de qualquer modo.
“E como está a nossa paciente?”
“Bem, quando a deixei, ou melhor, quando ela me deixou”, respondi.
“Vamos, vejamos”, disse ele. E juntos entrámos no quarto.
A persiana estava descida, e fui levantá-la suavemente, enquanto Van Helsing avançava, com o seu passo suave, felino, em direção à cama.
À medida que levantava a persiana e a luz do sol da manhã inundava o quarto, ouvi o silvo baixo de inspiração do Professor e, conhecendo a sua raridade, um medo mortal atravessou-me o coração. Ao passar por ele, ele recuou, e a sua exclamação de horror, “Gott in Himmel!”, não precisava de qualquer reforço por parte do seu rosto agonizante. Ele ergueu a mão e apontou para a cama, e o seu rosto de ferro estava contraído e de um branco cinzento. Senti os meus joelhos começarem a tremer.
Lá na cama, aparentemente num desmaio, jazia a pobre Lucy, mais horrivelmente branca e com um aspeto mais lívido do que nunca. Até os lábios estavam brancos, e as gengivas pareciam ter retraído para longe dos dentes, como por vezes vemos num cadáver após uma doença prolongada. Van Helsing levantou o pé para bater com raiva, mas o instinto da sua vida e todos os longos anos de hábito falaram mais alto, e ele pousou-o novamente com suavidade. “Depressa!” disse ele. “Traga o conhaque.” Voei para a sala de jantar e regressei com o decanter. Ele humedeceu os pobres lábios brancos com o líquido e, juntos, esfregámos a palma da mão, o pulso e o coração. Ele sentiu o coração dela e, após alguns momentos de suspense agonizante, disse:
“Não é demasiado tarde. Bate, embora debilmente. Todo o nosso trabalho foi desfeito; temos de começar de novo. Não há nenhum jovem Arthur aqui agora; desta vez tenho de recorrer a si próprio, amigo John.” Enquanto falava, mergulhava a mão na sua mala e retirava os instrumentos para a transfusão; eu tinha tirado o casaco e arregaçado a manga da camisa. Não havia possibilidade de um opiáceo no momento, nem necessidade de um; e assim, sem um momento de atraso, iniciámos a operação. Após algum tempo — e não pareceu pouco tempo, pois a drenagem do próprio sangue, não importa quão voluntariamente seja dada, é uma sensação terrível — Van Helsing levantou um dedo de aviso. “Não se mova”, disse ele, “mas temo que, com o aumento da força, ela possa acordar; e isso causaria perigo, oh, tanto perigo. Mas tomarei precauções. Darei uma injeção hipodérmica de morfina.” Prosseguiu então, rápida e habilmente, para levar a cabo a sua intenção. O efeito na Lucy não foi mau, pois o desmaio pareceu fundir-se subtilmente no sono narcótico. Foi com um sentimento de orgulho pessoal que pude ver um leve tom de cor roubar o seu caminho de volta às bochechas e aos lábios pálidos. Nenhum homem sabe, até que o experimenta, o que é sentir o seu próprio sangue vital ser drenado para as veias da mulher que ama.
O Professor observou-me criticamente. “Isso bastará”, disse ele. “Já?” protestei. “Retirou muito mais ao Art.” Ao que ele sorriu com um tipo de sorriso triste enquanto respondia:
“Ele é o seu amante, o seu noivo. Você tem trabalho, muito trabalho, a fazer por ela e por outros; e o presente bastará.”
Quando terminámos a operação, ele tratou da Lucy, enquanto eu aplicava pressão digital na minha própria incisão. Deitei-me enquanto aguardava que ele estivesse livre para me atender, pois sentia-me fraco e um pouco enjoado. Pouco depois, ele ligou a minha ferida e mandou-me descer para tomar um copo de vinho. Quando estava a sair do quarto, ele veio atrás de mim e sussurrou:
“Lembre-se, nada deve ser dito sobre isto. Se o nosso jovem amante aparecer inesperadamente, como antes, nenhuma palavra para ele. Isso iria assustá-lo e deixá-lo com ciúmes ao mesmo tempo. Não deve haver nenhum. Assim!”
Quando voltei, ele olhou-me atentamente e depois disse:
“Você não está muito pior. Vá para o quarto, deite-se no seu sofá e descanse um pouco; depois tome um bom pequeno-almoço e venha ter comigo.”
Segui as suas ordens, pois sabia quão certas e sábias eram. Tinha feito a minha parte e agora o meu próximo dever era manter as minhas forças. Sentia-me muito fraco e, nessa fraqueza, perdi algo do espanto pelo que tinha ocorrido. Adormeci no sofá, no entanto, perguntando-me repetidamente como Lucy tinha feito um movimento tão retrógrado e como poderia ter sido drenada de tanto sangue sem qualquer sinal em parte alguma que o mostrasse. Acho que devo ter continuado o meu espanto nos meus sonhos, pois, a dormir ou a acordar, os meus pensamentos voltavam sempre às pequenas perfurações na sua garganta e ao aspeto esfarrapado e exausto das suas bordas — por muito minúsculas que fossem.
Lucy dormiu até tarde; e quando acordou estava bastante bem e forte, embora nem de longe tanto como no dia anterior. Quando Van Helsing a viu, saiu para uma caminhada, deixando-me encarregado, com ordens estritas de que eu não a deveria deixar por um momento. Pude ouvir a sua voz no corredor, perguntando o caminho para a estação de correios mais próxima.
Lucy conversou comigo livremente e parecia completamente inconsciente de que algo tivesse acontecido. Tentei mantê-la entretida e interessada. Quando a mãe subiu para a ver, não pareceu notar qualquer mudança, mas disse-me com gratidão:
“Devemos-lhe tanto, Dr. Seward, por tudo o que fez, mas agora tem realmente de ter cuidado para não se sobrecarregar. O senhor próprio parece pálido. Precisa de uma esposa para o tratar e cuidar um pouco de si; é o que precisa!” Enquanto falava, Lucy corou, embora fosse apenas momentaneamente, pois as suas veias pobres e desgastadas não podiam suportar por muito tempo uma drenagem tão invulgar para a cabeça. A reação veio sob a forma de uma palidez excessiva enquanto ela voltava os olhos suplicantes para mim. Sorri, acenei com a cabeça e pus o dedo nos lábios; com um suspiro, ela afundou-se entre as almofadas.
Van Helsing regressou dentro de duas horas e, pouco depois, disse-me: “Agora vá para casa, coma muito e beba o suficiente. Torne-se forte. Eu fico aqui esta noite e ficarei sentado com a pequena senhorita eu mesmo. Você e eu devemos vigiar o caso, e não devemos permitir que mais ninguém saiba. Tenho razões graves. Não, não as pergunte; pense o que quiser. Não tenha medo de pensar até o mais improvável. Boa noite.”
No corredor, duas das criadas vieram ter comigo e perguntaram se elas, ou uma delas, não poderiam ficar com a Srta. Lucy. Imploraram-me para que as deixasse; e quando disse que era desejo do Dr. Van Helsing que ou ele ou eu ficássemos, pediram-me de forma bastante piedosa que intercedesse junto do “cavalheiro estrangeiro”. Fiquei muito sensibilizado com a sua bondade. Talvez seja porque estou fraco neste momento, e talvez tenha sido por causa da Lucy que a sua devoção se manifestou; pois, repetidamente, vi instâncias semelhantes da bondade das mulheres. Regressei aqui a tempo para um jantar tardio; fiz as minhas rondas — tudo bem; e registo isto enquanto aguardo pelo sono. Está a chegar.
11 de setembro. — Esta tarde fui a Hillingham. Encontrei Van Helsing com um excelente espírito e Lucy muito melhor. Pouco depois de ter chegado, um grande volume vindo do estrangeiro chegou para o Professor. Ele abriu-o com muita solenidade — assumida, claro — e mostrou um grande molho de flores brancas.
“Estas são para si, Srta. Lucy”, disse ele.
“Para mim? Oh, Dr. Van Helsing!”
“Sim, minha querida, mas não para brincar. Estas são medicamentos.” Aqui Lucy fez uma careta. “Não, mas não são para tomar em infusão ou numa forma nauseabunda, por isso não precisa de franzir esse nariz tão encantador, ou indicarei ao meu amigo Arthur que tormentos ele poderá ter de suportar ao ver tanta beleza que ele tanto ama distorcer-se. Aha, minha linda senhorita, isso faz o nariz tão bonito voltar ao lugar. Isto é medicinal, mas você não sabe como. Coloco-o na sua janela, faço uma bela grinalda e penduro-o à volta do seu pescoço, para que durma bem. Oh sim! elas, como a flor de lótus, fazem esquecer os seus problemas. Cheira tanto como as águas de Lete, e daquela fonte da juventude que os Conquistadores procuraram nas Floridas, e encontram-na demasiado tarde.”
Enquanto ele falava, Lucy examinava as flores e cheirava-as. Agora ela atirou-as para o chão, dizendo, entre risos e desdém:
“Oh, Professor, acredito que está apenas a pregar-me uma partida. Ora, estas flores são apenas alho comum.”
Para minha surpresa, Van Helsing levantou-se e disse com toda a sua severidade, o maxilar de ferro cerrado e as sobrancelhas espessas unidas:
“Nada de brincadeiras comigo! Eu nunca brinco! Há um propósito sombrio em tudo o que faço; e aviso-a de que não me deve contrariar. Tenha cuidado, pelo bem dos outros, se não pelo seu próprio.” Depois, vendo a pobre Lucy assustada, como bem poderia estar, continuou mais suavemente: “Oh, pequena senhorita, minha querida, não me tema. Apenas faço isto para o seu bem; mas há muita virtude para si nessas flores tão comuns. Veja, coloco-as eu mesmo no seu quarto. Farei eu mesmo a grinalda que você há de usar. Mas silêncio! nada de contar aos outros que fazem perguntas tão inquisitivas. Devemos obedecer, e o silêncio é parte da obediência; e a obediência é para trazê-la forte e bem para os braços amorosos que a esperam. Agora sente-se quieta por um momento. Venha comigo, amigo John, e ajudar-me-á a decorar o quarto com o meu alho, que vem desde Haarlem, onde o meu amigo Vanderpool cultiva ervas nas suas estufas durante todo o ano. Tive de enviar um telegrama ontem, ou não teriam chegado aqui.”
Fomos para o quarto, levando as flores connosco. As ações do Professor eram certamente estranhas, e não se encontram em qualquer farmacopeia de que eu tenha ouvido falar. Primeiro, ele fechou as janelas e trancou-as com segurança; depois, pegando num punhado de flores, esfregou-as por todas as molduras, como para garantir que cada sopro de ar que pudesse entrar estivesse carregado com o cheiro a alho. Depois, com o molho, esfregou toda a ombreira da porta, em cima, em baixo e de cada lado, e à volta da lareira da mesma forma. Tudo aquilo me pareceu grotesco e, pouco depois, disse:
“Bem, Professor, sei que tem sempre uma razão para o que faz, mas isto certamente deixa-me perplexo. Ainda bem que não temos nenhum cético aqui, ou ele diria que estava a fazer algum feitiço para manter afastado um espírito maligno.”
“Talvez esteja!” respondeu ele calmamente, enquanto começava a fazer a grinalda que Lucy usaria à volta do pescoço.
Esperámos então enquanto Lucy fazia a sua toalete para a noite e, quando ela estava na cama, ele veio e fixou ele mesmo a grinalda de alho à volta do pescoço dela. As últimas palavras que lhe disse foram:
“Tenha cuidado para não o perturbar; e mesmo que o quarto pareça abafado, não abra a janela ou a porta esta noite.”
“Prometo”, disse Lucy, “e agradeço a ambos mil vezes por toda a vossa bondade para comigo! Oh, o que fiz eu para ser abençoada com tais amigos?”
Quando saímos da casa na minha carruagem, que estava à espera, Van Helsing disse:
“Esta noite posso dormir em paz, e sono é o que quero — duas noites de viagem, muita leitura no dia entretanto, e muita ansiedade no dia seguinte, e uma noite para ficar sentado, sem pregar o olho. Amanhã de manhã cedo, venha buscar-me, e iremos juntos ver a nossa linda senhorita, muito mais forte graças ao meu ‘feitiço’ que preparei. Ho! ho!”
Ele parecia tão confiante que eu, lembrando-me da minha própria confiança de duas noites antes e com o resultado funesto, senti um temor e um terror vago. Deve ter sido a minha fraqueza que me fez hesitar em dizê-lo ao meu amigo, mas senti-o ainda mais, como lágrimas contidas.
CAPÍTULO XI.
/Diário de Lucy Westenra./
12 de setembro. — Como são todos tão bons para mim! Adoro verdadeiramente aquele querido Dr. Van Helsing. Pergunto-me por que estava tão ansioso com estas flores. Ele assustou-me positivamente, estava tão feroz. E, no entanto, deve ter tido razão, pois já sinto conforto vindo delas. De algum modo, não receio ficar sozinha esta noite e posso adormecer sem medo. Não me importarei com qualquer bater de asas fora da janela. Oh, a luta terrível que tenho tido contra o sono tantas vezes ultimamente; a dor da insónia, ou a dor do medo do sono, com tais horrores desconhecidos que ele tem para mim! Como são abençoadas algumas pessoas, cujas vidas não têm medos, não têm receios; para quem o sono é uma bênção que chega todas as noites e traz apenas sonhos doces. Bem, aqui estou eu esta noite, à espera do sono, e deitada como Ofélia na peça, com “flores de virgem e oferendas de donzela”. Nunca gostei de alho antes, mas esta noite é delicioso! Há paz no seu cheiro; sinto o sono a chegar. Boa noite a todos.
Diário do Dr. Seward.
13 de setembro. — Passei no Berkeley e encontrei Van Helsing, como de costume, pontual. A carruagem encomendada do hotel estava à espera. O Professor levou a sua mala, que ele traz sempre consigo agora.
Que tudo seja anotado com exatidão. Van Helsing e eu chegámos a Hillingham às oito horas. Estava uma manhã adorável; o brilho do sol e toda a sensação fresca do início do outono pareciam a conclusão do trabalho anual da natureza. As folhas estavam a mudar para todo o tipo de cores bonitas, mas ainda não tinham começado a cair das árvores. Quando entrámos, encontrámos a Sra. Westenra a sair da sala de estar. Ela é sempre madrugadora. Cumprimentou-nos calorosamente e disse:
“Ficarão contentes por saber que a Lucy está melhor. A querida criança ainda está a dormir. Espreitei para o quarto dela e vi-a, mas não entrei, para não a perturbar.” O Professor sorriu e parecia muito jubiloso. Esfregou as mãos uma na outra e disse:
“Aha! Pensei ter diagnosticado o caso. O meu tratamento está a funcionar”, ao que ela respondeu:
“Não deve assumir todo o crédito para si, doutor. O estado da Lucy esta manhã deve-se em parte a mim.”
“Como quer dizer, senhora?” perguntou o Professor.
“Bem, eu estava ansiosa pela querida criança durante a noite e fui ao quarto dela. Ela estava a dormir profundamente — tão profundamente que nem a minha entrada a acordou. Mas o quarto estava terrivelmente abafado. Havia muitas daquelas flores horríveis de cheiro forte por todo o lado, e ela tinha até um molho delas à volta do pescoço. Receei que o odor pesado fosse demasiado para a querida criança no seu estado fraco, por isso retirei-as todas e abri um pouco a janela para deixar entrar um pouco de ar fresco. Ficarão satisfeitos com ela, tenho a certeza.”
Ela afastou-se para o seu boudoir, onde costumava tomar o pequeno-almoço cedo. Enquanto ela falava, observei o rosto do Professor e vi-o tornar-se cinzento. Ele tinha sido capaz de manter o seu autocontrolo enquanto a pobre senhora estava presente, pois conhecia o estado dela e como um choque seria prejudicial; ele sorriu-lhe mesmo enquanto segurava a porta aberta para ela passar para o seu quarto. Mas, no instante em que ela desapareceu, puxou-me, de forma súbita e forçada, para a sala de jantar e fechou a porta.
Então, pela primeira vez na minha vida, vi Van Helsing desmoronar-se. Ergueu as mãos sobre a cabeça num tipo de desespero mudo e depois bateu com as palmas das mãos de uma forma impotente; finalmente, sentou-se numa cadeira e, colocando as mãos sobre o rosto, começou a soluçar, com soluços altos e secos que pareciam vir do próprio tormento do seu coração. Depois ergueu os braços novamente, como se apelasse a todo o universo. “Deus! Deus! Deus!” disse ele. “O que fizemos, o que fez esta pobre criatura, para estarmos tão duramente sitiados? Existirá ainda um destino entre nós, enviado do mundo pagão de outrora, para que tais coisas tenham de ser, e de tal maneira? Esta pobre mãe, sem saber, e tudo pelo melhor como ela pensa, faz uma coisa tal que perde a filha em corpo e alma; e não lhe podemos contar, nem sequer a podemos avisar, ou ela morrerá, e então ambas morrerão. Oh, como estamos sitiados! Como estão todos os poderes dos demónios contra nós!” De repente, saltou para os pés. “Vamos”, disse ele, “vamos, temos de ver e agir. Demónios ou não demónios, ou todos os demónios de uma vez, não importa; lutamos contra ele da mesma maneira.” Ele foi à porta do corredor buscar a sua mala; e juntos subimos ao quarto da Lucy.
Mais uma vez levantei a persiana, enquanto Van Helsing se dirigia para a cama. Desta vez, ele não sobressaltou ao olhar para o pobre rosto com a mesma palidez cerosa de antes. Ele usava um olhar de severa tristeza e infinita piedade.
“Como esperava”, murmurou ele, com aquele silvo de inspiração seu que significava tanto. Sem uma palavra, ele foi e trancou a porta, e começou então a dispor na pequena mesa os instrumentos para mais uma operação de transfusão de sangue. Eu tinha reconhecido há muito a necessidade e começado a tirar o casaco, mas ele parou-me com uma mão de aviso. “Não!” disse ele. “Hoje você deve operar. Eu fornecerei. Você está enfraquecido já.” Enquanto falava, tirou o casaco e arregaçou a manga da camisa.
Novamente a operação; novamente o narcótico; novamente algum regresso de cor às bochechas cinzentas e a respiração regular de um sono saudável. Desta vez, observei enquanto Van Helsing se restabelecia e descansava.
Pouco depois, ele aproveitou uma oportunidade para dizer à Sra. Westenra que não deveria remover nada do quarto da Lucy sem o consultar; que as flores tinham valor medicinal e que respirar o seu odor era parte do sistema de cura. Depois, assumiu ele próprio o cuidado do caso, dizendo que vigiaria esta noite e a seguinte e que me enviaria uma mensagem quando viria.
Após mais uma hora, Lucy acordou do seu sono, fresca e brilhante, e aparentemente não muito pior do seu terrível calvário.
O que significa tudo isto? Estou a começar a perguntar-me se o meu longo hábito de vida entre os insanos está a começar a afetar o meu próprio cérebro.
17 de setembro.— Quatro dias e noites de paz. Estou a ficar tão forte novamente que quase não me reconheço. É como se tivesse passado por um longo pesadelo e tivesse acabado de acordar para ver o belo brilho do sol e sentir o ar fresco da manhã à minha volta. Tenho uma vaga e parcial lembrança de longos e ansiosos tempos de espera e medo; escuridão na qual não havia sequer a dor da esperança para tornar o sofrimento presente mais pungente; e depois longos períodos de esquecimento, e o regresso à vida como um mergulhador que sobe através de uma grande pressão de água. Desde que o Dr. Van Helsing está comigo, porém, todo este mau sonhar parece ter desaparecido; os ruídos que costumavam assustar-me e tirar-me o juízo — o bater contra as janelas, as vozes distantes que pareciam tão próximas de mim, os sons ásperos que vinham de não sei onde e me ordenavam para fazer não sei o quê — tudo cessou. Vou para a cama agora sem qualquer medo de dormir. Nem sequer tento manter-me acordada. Tornei-me bastante afeiçoada ao alho, e uma caixa cheia chega-me todos os dias de Haarlem. Esta noite o Dr. Van Helsing vai ausentar-se, pois tem de estar um dia em Amesterdão. Mas não preciso de ser vigiada; estou suficientemente bem para ser deixada sozinha. Graças a Deus, por amor à mãe e ao querido Arthur, e por todos os nossos amigos que têm sido tão gentis! Nem sequer sentirei a mudança, pois na noite passada o Dr. Van Helsing dormiu na sua cadeira durante grande parte do tempo. Encontrei-o a dormir duas vezes quando acordei; mas não tive medo de voltar a dormir, embora os ramos ou morcegos ou algo do género batessem quase furiosamente contra os vidros das janelas.
"The Pall Mall Gazette", 18 de setembro.
O LOBO FUGITIVO.
/Aventura Perigosa do nosso Entrevistador./
Entrevista com o Tratador no Jardim Zoológico.
Após muitas perguntas e quase outras tantas recusas, e usando perpetuamente as palavras Pall Mall Gazette como uma espécie de talismã, consegui encontrar o tratador da secção do Jardim Zoológico onde se inclui o departamento dos lobos. Thomas Bilder vive numa das casas no recinto atrás da casa dos elefantes, e estava precisamente a sentar-se para o seu chá quando o encontrei. Thomas e a sua esposa são pessoas hospitaleiras, idosas e sem filhos, e se o exemplo de hospitalidade de que usufruí for o habitual, as suas vidas devem ser bastante confortáveis. O tratador não queria entrar no que chamava de "negócios" até que a ceia terminasse e todos estivéssemos satisfeitos. Então, quando a mesa foi limpa e ele acendeu o seu cachimbo, disse:—
"Agora, senhor, pode continuar e pedir-me o que quiser. Escusar-me-á de recusar falar de assuntos profissionais antes das refeições. Dou aos lobos e aos chacais e às hienas em toda a nossa secção o seu chá antes de começar a pedir-lhes perguntas."
"Como quer dizer, pedir-lhes perguntas?", questionei, desejoso de o colocar num humor falador.
"Bater-lhes na cabeça com uma vara é uma maneira; coçar-lhes as orelhas é outra, quando os cavalheiros que estão com dinheiro querem um pouco de exibição para as suas damas. Não me importo muito com a primeira — o bater com uma vara antes de lhes atirar o jantar; mas espero até que eles tenham tomado o seu xerez e café, por assim dizer, antes de tentar a coçadela nas orelhas. Note bem", acrescentou filosoficamente, "há muito da mesma natureza em nós como naqueles animais. Aqui está o senhor a vir e a pedir-me perguntas sobre o meu negócio, e eu tão rabugento que, se não fosse pelos seus malditos dez xelins, tê-lo-ia mandado para o inferno antes de responder. Nem sequer quando me perguntou, de forma sarcástica, se eu gostaria que pedisse ao Superintendente se poderia fazer-me perguntas. Sem ofensa, disse-lhe para ir para o inferno?"
"Disse."
"E quando disse que me denunciaria por usar linguagem obscena, isso foi bater-me na cabeça; mas os dez xelins resolveram tudo. Eu não ia lutar, por isso esperei pela comida, e fiz com o meu uivo o que os lobos, e leões, e tigres fazem. Mas, raios me partam, agora que a velha meteu um pedaço do seu bolo de chá em mim, e me enxaguou com o seu maldito bule velho, e eu acendi o cachimbo, pode coçar-me as orelhas o quanto quiser, que não obterá sequer um rosnado de mim. Avance com as suas perguntas. Sei ao que vem, esse tal lobo fugitivo."
"Exatamente. Quero que me dê o seu ponto de vista sobre isso. Diga-me apenas como aconteceu; e quando eu souber os factos, pedir-lhe-ei que diga o que considera ter sido a causa, e como pensa que todo o caso terminará."
"Está bem, chefe. Isto aqui é toda a história. Aquele lobo a que chamávamos Bersicker era um dos três cinzentos que vieram da Noruega para Jamrach's, que comprámos dele há quatro anos. Era um lobo simpático e bem-comportado, que nunca deu problemas dignos de nota. Estou mais surpreendido com ele por querer sair do que com qualquer outro animal no local. Mas, pronto, não se pode confiar nos lobos mais do que nas mulheres."
"Não lhe ligue, senhor!", interrompeu a Sra. Tom, com uma risada alegre. "Ele está há tanto tempo a tratar dos animais que, raios, parece um velho lobo ele próprio! Mas não há mal nenhum nele."
"Bem, senhor, foi cerca de duas horas depois da alimentação de ontem quando ouvi pela primeira vez qualquer perturbação. Estava a preparar uma cama na casa dos macacos para uma jovem puma que está doente; mas quando ouvi o ganir e o uivar, vim logo embora. Lá estava Bersicker a rasgar as grades como um louco, como se quisesse sair. Não havia muita gente por ali naquele dia, e por perto estava apenas um homem, um sujeito alto e magro, com um nariz adunco e uma barba pontiaguda, com alguns cabelos brancos espalhados. Tinha um olhar duro e frio e olhos vermelhos, e criei uma espécie de antipatia por ele, pois parecia que era ele que os irritava. Tinha luvas de pelica branca nas mãos, e apontou para os animais e disse-me: 'Tratador, estes lobos parecem perturbados com alguma coisa'."
"'Talvez seja o senhor', disse eu, pois não gostava dos ares que ele se dava. Ele não ficou zangado, como eu esperava, mas sorriu com um tipo de sorriso insolente, com uma boca cheia de dentes brancos e afiados. 'Oh não, eles não gostariam de mim', diz ele."
"'Oh sim, gostariam', disse eu, imitando-o. 'Eles gostam sempre de um osso ou dois para limpar os dentes à hora do chá, o que o senhor tem um saco cheio'."
"Bem, foi uma coisa estranha, mas quando os animais nos viram a falar, deitaram-se, e quando fui ter com Bersicker, ele deixou-me acariciar as suas orelhas como sempre. Aquele homem veio ter connosco e, raios, se ele não meteu a mão e acariciou também as orelhas do velho lobo!"
"'Cuidado', disse eu. 'Bersicker é rápido'."
"'Não faz mal', diz ele. 'Estou habituado a eles!'"
"'Está no negócio, o senhor?', digo eu, tirando o chapéu, pois um homem que negoceia lobos, etc., é um bom amigo dos tratadores."
"'Não', diz ele, 'não exatamente no negócio, mas fiz de vários animais meus animais de estimação'. E com isso ele levanta o chapéu tão educadamente como um lorde, e vai-se embora. O velho Bersicker ficou a olhar para ele até que desapareceu de vista, e depois foi deitar-se num canto, e não quis sair a noite toda. Bem, ontem à noite, assim que a lua nasceu, os lobos aqui começaram todos a uivar. Não havia nada para eles uivarem. Não estava ninguém perto, exceto alguém que estava evidentemente a chamar um cão algures lá atrás dos jardins na estrada do Parque. Uma ou duas vezes saí para ver se estava tudo bem, e estava, e então o uivo parou. Pouco antes das doze horas dei uma volta antes de me recolher, e, raios me partam, quando cheguei à frente da jaula do velho Bersicker vi as grades partidas e retorcidas e a jaula vazia. E é tudo o que sei com certeza."
"Mais alguém viu alguma coisa?"
"Um dos nossos jardineiros estava a voltar para casa por volta dessa hora de uma harmonia, quando vê um grande cão cinzento a sair por entre as sebes do jardim. Pelo menos, é o que ele diz; mas eu não dou muito valor a isso, pois se ele viu, nunca disse uma palavra sobre isso à sua senhora quando chegou a casa, e foi só depois de a fuga do lobo ter sido divulgada, e termos estado acordados toda a noite à procura de Bersicker pelo Parque, que ele se lembrou de ter visto alguma coisa. A minha própria convicção é que a harmonia lhe subiu à cabeça."
"Agora, Sr. Bilder, consegue explicar de alguma forma a fuga do lobo?"
"Bem, senhor", disse ele, com uma modéstia suspeita, "penso que consigo; mas não sei se o senhor ficaria satisfeito com a teoria."
"Certamente que ficarei. Se um homem como o senhor, que conhece os animais por experiência, não pode arriscar pelo menos um bom palpite, quem é que o fará?"
"Bem, então, senhor, explico-o desta maneira; parece-me que esse lobo fugiu — simplesmente porque queria sair."
Pela forma calorosa como tanto Thomas como a sua esposa riram da piada, percebi que já tinha sido usada antes, e que toda a explicação era simplesmente uma partida elaborada. Não conseguia competir em trocadilhos com o digno Thomas, mas pensei que conhecia um caminho mais seguro para o seu coração, por isso disse:—
"Agora, Sr. Bilder, consideraremos essa primeira meia libra paga, e este irmão dela está à espera de ser reclamado quando me disser o que pensa que acontecerá."
"Certo, senhor", disse ele prontamente. "Escusar-me-á, eu sei, por brincar consigo, mas a velha aqui piscou-me o olho, o que era tanto como dizer-me para continuar."
"Ora, nunca!", disse a velha senhora.
"A minha opinião é esta: esse lobo está escondido algures. O jardineiro que não se lembrava disse que ele ia a galope para norte mais depressa do que um cavalo; mas eu não acredito nele, pois, veja bem, senhor, os lobos não galopam mais do que os cães, não sendo construídos dessa maneira. Os lobos são belas coisas nos livros de histórias, e suponho que quando andam em alcateias e andam a perseguir algo que está mais assustado do que eles, conseguem fazer um barulho do diabo e despedaçá-lo, seja o que for. Mas, raios me partam, na vida real um lobo é apenas uma criatura inferior, nem metade tão inteligente como um bom cão; e não tem nem um quarto da força de luta nele. Este não está habituado a lutar ou sequer a procurar o seu sustento, e é mais provável que esteja por algum lado no Parque a esconder-se e a tremer, e, se pensa em alguma coisa, a perguntar-se onde arranjará o pequeno-almoço; ou talvez tenha descido a algum saguão e esteja numa cave de carvão. Valha-me Deus, não terá alguma cozinheira um susto daqueles ao ver os olhos verdes dele a brilhar para ela vindo da escuridão! Se ele não consegue comida, é obrigado a procurá-la, e talvez possa calhar encontrar uma talho a tempo. Se não encontrar, e alguma ama for passear com um soldado, deixando o bebé no carrinho — bem, então não me surpreenderia se o censo tivesse menos um bebé. É tudo."
Eu estava a entregar-lhe a meia libra, quando algo saltou contra a janela, e o rosto do Sr. Bilder duplicou o seu comprimento natural de surpresa.
"Deus me valha!", disse ele. "Se não é o velho Bersicker a voltar sozinho!"
Ele foi até à porta e abriu-a; um procedimento que me pareceu absolutamente desnecessário. Sempre pensei que um animal selvagem nunca parece tão bem como quando existe algum obstáculo de durabilidade pronunciada entre nós; uma experiência pessoal intensificou, em vez de diminuir, essa ideia.
Afinal de contas, porém, não há nada como o hábito, pois nem Bilder nem a sua esposa pensaram mais no lobo do que eu pensaria num cão. O animal em si estava tão pacífico e bem-comportado como aquele pai de todos os lobos dos livros de ilustrações — o antigo amigo do Capuchinho Vermelho, enquanto procurava a sua confiança sob disfarce.
Toda a cena era uma mistura inefável de comédia e pathos. O lobo malvado que durante meio dia paralisou Londres e pôs todas as crianças da cidade a tremer nos seus sapatos, estava ali num estado de espírito de penitência, e foi recebido e acariciado como uma espécie de filho pródigo lupino. O velho Bilder examinou-o por todo o lado com a mais terna solicitude, e quando terminou com o seu penitente, disse:—
"Pronto, eu sabia que o pobre rapaz se ia meter em sarilhos; não disse isso desde o início? Aqui está a cabeça dele toda cortada e cheia de vidro partido. Ele esteve a saltar algum muro maldito ou outro. É uma vergonha que as pessoas tenham permissão para cobrir os seus muros com garrafas partidas. Eis o que resulta disso. Anda daí, Bersicker."
Ele pegou no lobo e fechou-o numa jaula, com um pedaço de carne que satisfez, em quantidade pelo menos, as condições elementares do vitelo gordo, e foi informar.
Eu também vim embora, para relatar a única informação exclusiva que é dada hoje sobre a estranha escapadela no Jardim Zoológico.
Diário do Dr. Seward.
17 de setembro. — Estava ocupado depois do jantar no meu escritório a atualizar os meus livros, que, devido à pressão de outros trabalhos e às muitas visitas à Lucy, tinham ficado tristemente atrasados. De repente a porta foi arrombada, e entrou o meu paciente, com o rosto distorcido de paixão. Fiquei atónito, pois uma coisa como um paciente entrar por vontade própria no escritório do Superintendente é quase desconhecida. Sem um instante de pausa, veio direto a mim. Tinha uma faca de jantar na mão, e, como vi que era perigoso, tentei manter a mesa entre nós. Ele era, contudo, demasiado rápido e demasiado forte para mim; pois antes que eu pudesse ganhar equilíbrio, ele atacou-me e cortou o meu pulso esquerdo bastante gravemente. Antes que pudesse atacar de novo, porém, usei a minha mão direita, e ele ficou estendido de costas no chão. O meu pulso sangrou livremente, e uma pequena poça escorreu para o tapete. Vi que o meu amigo não estava inclinado a mais esforços, e ocupei-me a ligar o meu pulso, mantendo um olho vigilante sobre a figura prostrada o tempo todo. Quando os auxiliares entraram a correr, e voltámos a nossa atenção para ele, a sua ocupação enjoou-me positivamente. Estava deitado de barriga no chão a lamber, como um cão, o sangue que tinha caído do meu pulso ferido. Foi facilmente dominado e, para minha surpresa, foi com os auxiliares bastante placidamente, apenas repetindo várias vezes: "O sangue é a vida! o sangue é a vida!"
Não me posso dar ao luxo de perder sangue neste momento: perdi demasiado ultimamente para o meu bem físico, e a prolongada tensão da doença da Lucy e as suas fases horríveis estão a afetar-me. Estou sobre-excitado e cansado, e preciso de descanso, descanso, descanso. Felizmente Van Helsing não me chamou, por isso não preciso de prescindir do meu sono; esta noite não poderia passar bem sem ele.
Telegrama, Van Helsing, Antuérpia, para Seward, Carfax.
(Enviado para Carfax, Sussex, pois não foi indicado o condado; entregue com vinte e duas horas de atraso.)
"17 de setembro. — Não falhes em estar em Hillingham esta noite. Se não estiveres a vigiar o tempo todo, visita frequentemente para ver se as flores estão conforme colocado; muito importante; não falhes. Estarei contigo assim que possível após a chegada."
Diário do Dr. Seward.
18 de setembro. — Acabo de sair para o comboio para Londres. A chegada do telegrama de Van Helsing encheu-me de consternação. Uma noite inteira perdida, e sei por amarga experiência o que pode acontecer numa noite. Claro que é possível que tudo esteja bem, mas o que poderá ter acontecido? Certamente existe algum destino horrível pairando sobre nós, para que todos os acidentes possíveis nos contrariem em tudo o que tentamos fazer. Vou levar este cilindro comigo, e assim poderei completar a minha entrada no fonógrafo da Lucy.
Memorando deixado por Lucy Westenra.
17 de setembro. Noite. — Escrevo isto e deixo-o para ser visto, para que ninguém possa por acaso meter-se em sarilhos por minha causa. Este é um registo exato do que aconteceu esta noite. Sinto que estou a morrer de fraqueza, e mal tenho forças para escrever, mas tem de ser feito, mesmo que morra ao fazê-lo.
Fui para a cama como de costume, tendo o cuidado de que as flores fossem colocadas como o Dr. Van Helsing ordenou, e adormeci pouco depois.
Fui acordada pelo bater na janela, que tinha começado depois do sonambulismo na falésia em Whitby quando Mina me salvou, e que agora conheço tão bem. Não tive medo, mas desejei que o Dr. Seward estivesse no quarto ao lado — como o Dr. Van Helsing disse que estaria — para que eu pudesse tê-lo chamado. Tentei adormecer, mas não consegui. Então veio-me o velho medo do sono, e decidi manter-me acordada. Perversamente, o sono tentava vir quando eu não o queria; por isso, como temia estar sozinha, abri a minha porta e chamei: "Está aí alguém?" Não houve resposta. Tive medo de acordar a mãe, e por isso fechei a porta novamente. Então, lá fora no arbusto, ouvi uma espécie de uivo como o de um cão, mas mais feroz e profundo. Fui à janela e olhei para fora, mas não consegui ver nada, exceto um grande morcego, que tinha evidentemente estado a bater as asas contra a janela. Por isso voltei para a cama novamente, mas determinada a não adormecer. Pouco depois a porta abriu-se, e a mãe espreitou; vendo pelo meu movimento que eu não estava a dormir, entrou e sentou-se ao meu lado. Disse-me, ainda mais docemente e suavemente do que o seu costume:—
"Estava inquieta por ti, querida, e vim ver se estavas bem."
Receei que ela pudesse constipar-se ali sentada e pedi-lhe que entrasse e dormisse comigo, por isso veio para a cama e deitou-se ao meu lado; não tirou o roupão, pois disse que apenas ficaria um pouco e depois voltaria para a sua própria cama. Enquanto ela ali jazia nos meus braços, e eu nos dela, o bater e o agitar voltaram à janela. Ela sobressaltou-se e ficou um pouco assustada, e exclamou: “O que é aquilo?” Tentei acalmá-la, e por fim consegui, e ela ficou quieta; mas eu conseguia ouvir o seu pobre e querido coração ainda a bater terrivelmente. Passado algum tempo, houve novamente o uivo baixo no arbustal e, pouco depois, houve um estrondo na janela, e uma quantidade de vidro partido foi atirada para o chão. A persiana da janela soprou para trás com o vento que irrompeu, e na abertura dos vidros partidos estava a cabeça de um grande e esquálido lobo cinzento. A mãe gritou de susto e esforçou-se por se sentar, e agarrou-se desesperadamente a qualquer coisa que a pudesse ajudar. Entre outras coisas, agarrou a grinalda de flores que o Dr. Van Helsing insistiu que eu usasse à volta do pescoço, e arrancou-a de mim. Durante um ou dois segundos ela sentou-se, apontando para o lobo, e ouviu-se um gorgolejar estranho e horrível na sua garganta; depois tombou, como se tivesse sido atingida por um raio, e a sua cabeça bateu na minha testa, deixando-me atordoada por um momento ou dois. O quarto e tudo à volta parecia girar. Mantive os olhos fixos na janela, mas o lobo recolheu a cabeça, e uma miríade de pequenas partículas pareceu entrar a soprar pela janela partida, rodopiando e circulando como a coluna de pó que os viajantes descrevem quando há um simum no deserto. Tentei mexer-me, mas havia um feitiço sobre mim, e o pobre corpo da querida mãe, que parecia já estar a ficar frio — pois o seu querido coração tinha deixado de bater — pesava sobre mim; e não me lembrei de mais nada durante algum tempo.
O tempo não pareceu longo, mas muito, muito terrível, até que recuperei a consciência. Algures perto, um sino de finados tocava; os cães por toda a vizinhança uivavam; e no nosso arbustal, aparentemente mesmo lá fora, um rouxinol cantava. Eu estava atordoada e estúpida de dor, terror e fraqueza, mas o som do rouxinol parecia a voz da minha mãe morta que voltava para me confortar. Os sons pareciam ter acordado as criadas também, pois podia ouvir os seus pés descalços a bater fora do meu quarto. Chamei por elas, e entraram, e quando viram o que tinha acontecido, e o que era que jazia sobre mim na cama, gritaram. O vento irrompeu pela janela partida, e a porta bateu com estrondo. Levantaram o corpo da minha querida mãe e deitaram-na, coberta por um lençol, na cama depois de eu me ter levantado. Estavam todas tão assustadas e nervosas que lhes ordenei que fossem à sala de jantar e bebessem cada uma um copo de vinho. A porta abriu-se de repente por um instante e fechou-se novamente. As criadas gritaram, e depois foram em grupo para a sala de jantar; e eu depositei as flores que tinha no peito da minha querida mãe. Quando elas lá estavam, lembrei-me do que o Dr. Van Helsing me tinha dito, mas não quis retirá-las e, além disso, queria que alguns dos criados ficassem acordados comigo agora. Fiquei surpreendida por as criadas não voltarem. Chamei-as, mas não obtive resposta, por isso fui à sala de jantar procurá-las.
O meu coração desanimou quando vi o que tinha acontecido. Todas as quatro jaziam indefesas no chão, respirando pesadamente. O decanter de xerez estava sobre a mesa, meio cheio, mas havia um cheiro estranho e acre. Fiquei desconfiada e examinei o decanter. Cheirava a láudano e, olhando para o aparador, descobri que o frasco que o médico da mãe usa para ela — oh! usava — estava vazio. O que hei de fazer? O que hei de fazer? Estou de volta ao quarto com a mãe. Não a posso deixar e estou sozinha, a não ser pelos criados adormecidos, que alguém drogou. Sozinha com os mortos! Não me atrevo a sair, pois consigo ouvir o uivo baixo do lobo através da janela partida.
O ar parece cheio de partículas, flutuando e circulando na corrente de ar da janela, e as luzes ardem azuladas e fracas. O que hei de fazer? Que Deus me proteja de qualquer mal esta noite! Esconderei este papel no meu peito, onde o encontrarão quando vierem para me preparar. A minha querida mãe partiu! É tempo de eu ir também. Adeus, querido Arthur, se eu não sobreviver a esta noite. Que Deus te guarde, querido, e que Deus me ajude!
CAPÍTULO XII.
/Diário do Dr. Seward./
18 de setembro. — Conduzi imediatamente até Hillingham e cheguei cedo. Deixando o meu táxi no portão, subi a avenida sozinho. Bati suavemente e toquei o mais silenciosamente possível, pois receava incomodar a Lucy ou a sua mãe, e esperava levar apenas um criado à porta. Passado algum tempo, sem obter resposta, bati e toquei novamente; ainda assim, nada. Amaldiçoei a preguiça dos criados por estarem na cama a tal hora — pois eram agora dez horas — e por isso toquei e bati novamente, mas com mais impaciência, e ainda sem resposta. Até então, eu apenas tinha culpado os criados, mas agora um medo terrível começou a assaltar-me. Seria esta desolação apenas mais um elo na corrente do destino que parecia apertar-se à nossa volta? Seria, de facto, uma casa de morte à qual eu tinha chegado demasiado tarde? Sabia que minutos, ou mesmo segundos, de atraso poderiam significar horas de perigo para a Lucy, se ela tivesse tido novamente uma daquelas terríveis recaídas; e contornei a casa para tentar ver se, por acaso, encontrava uma entrada em qualquer parte.
Não encontrei meio de entrar. Todas as janelas e portas estavam fechadas e trancadas, e voltei frustrado para o alpendre. Ao fazê-lo, ouvi o rápido bater dos cascos de um cavalo que vinha a galope. Pararam no portão e, alguns segundos depois, encontrei Van Helsing a subir a avenida a correr. Quando me viu, arquejou: —
“Então era você, e acabou de chegar. Como está ela? Chegámos demasiado tarde? Não recebeu o meu telegrama?”
Respondi o mais rápida e coerentemente que pude, dizendo que só tinha recebido o seu telegrama de manhã cedo e que não tinha perdido um minuto a vir aqui, e que não conseguia fazer com que ninguém na casa me ouvisse. Ele fez uma pausa e levantou o chapéu ao dizer solenemente: —
“Então receio que tenhamos chegado demasiado tarde. Seja feita a vontade de Deus!” Com a sua habitual energia recuperadora, continuou: “Venha. Se não há forma aberta de entrar, temos de fazer uma. O tempo é tudo para nós agora.”
Demos a volta às traseiras da casa, onde havia uma janela da cozinha. O Professor tirou uma pequena serra cirúrgica da sua mala e, entregando-ma, apontou para as grades de ferro que protegiam a janela. Ataquei-as de imediato e muito rapidamente cortei três delas. Depois, com uma faca comprida e fina, empurrámos o fecho dos caixilhos e abrimos a janela. Ajudei o Professor a entrar e segui-o. Não estava ninguém na cozinha ou nos quartos dos criados, que ficavam perto. Experimentámos todos os quartos à medida que avançávamos e, na sala de jantar, fracamente iluminada por raios de luz através das portadas, encontrámos quatro criadas caídas no chão. Não era preciso pensar que estavam mortas, pois a sua respiração estertorosa e o cheiro acre a láudano na sala não deixavam dúvidas quanto ao seu estado. Van Helsing e eu olhámo-nos, e enquanto nos afastávamos, ele disse: “Podemos tratar delas mais tarde.” Depois subimos para o quarto da Lucy. Por um instante ou dois parámos à porta para ouvir, mas não havia som que pudéssemos captar. Com rostos pálidos e mãos trémulas, abrimos a porta suavemente e entrámos no quarto.
Como descreverei o que vimos? Na cama jaziam duas mulheres, Lucy e a sua mãe. Esta última jazia mais para o interior, e estava coberta com um lençol branco, cuja extremidade tinha sido levantada pela corrente de ar através da janela partida, mostrando o rosto branco e contraído, com uma expressão de terror fixada nele. Ao seu lado jazia Lucy, com o rosto branco e ainda mais contraído. As flores que estavam à volta do seu pescoço encontrámo-las sobre o peito da mãe, e a sua garganta estava descoberta, mostrando as duas pequenas feridas que tínhamos notado antes, mas parecendo horrivelmente brancas e laceradas. Sem uma palavra, o Professor debruçou-se sobre a cama, com a cabeça quase a tocar no peito da pobre Lucy; depois deu uma volta rápida à cabeça, como quem escuta, e saltando para os pés, gritou-me: —
“Ainda não é demasiado tarde! Depressa! Depressa! Traga o conhaque!”
Voei escada abaixo e voltei com ele, tendo o cuidado de o cheirar e provar, para que também não estivesse drogado como o decanter de xerez que encontrei na mesa. As criadas ainda respiravam, mas mais inquietas, e imaginei que o narcótico estava a passar. Não me demorei a ter a certeza, mas voltei para junto de Van Helsing. Ele esfregou o conhaque, como noutra ocasião, nos lábios e gengivas dela, e nos seus pulsos e palmas das mãos. Disse-me: —
“Posso fazer isto, tudo o que é possível no momento. Vá acordar essas criadas. Dê-lhes estaladadelas na cara com uma toalha molhada, e com força. Faça-as arranjar calor, lume e um banho quente. Esta pobre alma está quase tão fria como a que está ao lado dela. Ela precisará de ser aquecida antes que possamos fazer mais alguma coisa.”
Fui de imediato e tive pouca dificuldade em acordar três das mulheres. A quarta era apenas uma rapariga jovem, e a droga tinha afetado-a evidentemente com mais força, por isso levantei-a para o sofá e deixei-a dormir. As outras estavam atordoadas de início, mas à medida que a memória lhes voltava, choravam e soluçavam de uma forma histérica. Fui severo com elas, no entanto, e não as deixei falar. Disse-lhes que uma vida já era suficientemente má para se perder, e que se demorassem sacrificariam a Srta. Lucy. Por isso, soluçando e chorando, seguiram o seu caminho, meio vestidas como estavam, e prepararam fogo e água. Felizmente, os fogos da cozinha e da caldeira ainda estavam acesos, e não faltava água quente. Preparámos um banho e levámos a Lucy tal como estava e colocámo-la dentro dele. Enquanto estávamos ocupados a esfregar os seus membros, houve uma batida na porta do hall. Uma das criadas correu, vestiu mais qualquer coisa e abriu-a. Depois voltou e sussurrou-nos que havia um cavalheiro que tinha vindo com uma mensagem do Sr. Holmwood. Ordenei-lhe simplesmente que lhe dissesse que tinha de esperar, pois não podíamos atender ninguém agora. Ela partiu com a mensagem e, absorvido com o nosso trabalho, esqueci-me completamente dele.
Nunca vi, em toda a minha experiência, o Professor trabalhar com tamanha seriedade mortal. Eu sabia — como ele sabia — que era uma luta de vida ou morte, e numa pausa disse-lho. Ele respondeu-me de uma forma que não compreendi, mas com o olhar mais severo que o seu rosto podia exibir: —
“Se isso fosse tudo, eu ficaria aqui onde estamos agora e deixá-la-ia desaparecer em paz, pois não vejo luz na vida sobre o seu horizonte.” Continuou o seu trabalho com, se possível, um vigor renovado e mais frenético.
Pouco depois, ambos começámos a ter a consciência de que o calor estava a começar a ter algum efeito. O coração da Lucy batia um pouco mais audivelmente ao estetoscópio, e os seus pulmões tinham um movimento percetível. O rosto de Van Helsing quase brilhava e, enquanto a levantávamos do banho e a enrolávamos num lençol quente para a secar, ele disse-me: —
“O primeiro ganho é nosso! Xeque ao Rei!”
Levámos a Lucy para outro quarto, que entretanto tinha sido preparado, deitámo-la na cama e forçámos a passagem de algumas gotas de conhaque pela sua garganta. Notei que Van Helsing atou um lenço de seda macia à volta da garganta dela. Ela ainda estava inconsciente e estava tão mal, se não pior, do que a tínhamos visto alguma vez.
Van Helsing chamou uma das mulheres e disse-lhe para ficar com ela e não tirar os olhos dela até que voltássemos, e depois fez-me sinal para sair do quarto.
“Temos de consultar o que deve ser feito”, disse ele enquanto descíamos as escadas. No hall, abriu a porta da sala de jantar e entrámos, fechando ele a porta cuidadosamente atrás de si. As portadas tinham sido abertas, mas as persianas já estavam para baixo, com aquela obediência à etiqueta da morte que a mulher britânica das classes mais baixas observa sempre rigidamente. A sala estava, portanto, fracamente escura. Era, contudo, luz suficiente para os nossos fins. A severidade de Van Helsing foi um pouco aliviada por um olhar de perplexidade. Estava evidentemente a torturar a mente com alguma coisa, por isso esperei um instante, e ele falou: —
“O que havemos de fazer agora? Onde havemos de virar-nos para pedir ajuda? Temos de ter outra transfusão de sangue, e em breve, ou a vida daquela pobre rapariga não valerá uma hora que seja. Você já está exausto; eu também estou. Receio confiar nessas mulheres, mesmo que tivessem coragem para se submeterem. O que havemos de fazer por alguém que abra as suas veias por ela?”
“O que é que se passa comigo, afinal?”
A voz veio do sofá do outro lado da sala, e os seus tons trouxeram alívio e alegria ao meu coração, pois eram os de Quincey Morris. Van Helsing sobressaltou-se irritado ao primeiro som, mas o seu rosto suavizou-se e um olhar alegre surgiu nos seus olhos quando gritei: “Quincey Morris!” e corri para ele com as mãos estendidas.
“O que o trouxe aqui?”, gritei enquanto as nossas mãos se encontravam.
“Suponho que o Art seja a causa.”
Ele entregou-me um telegrama: —
“Não tenho notícias do Seward há três dias e estou terrivelmente ansioso. Não posso sair. O pai ainda está nas mesmas condições. Mande-me notícias de como está a Lucy. Não se atrase. — /Holmwood./”
“Acho que cheguei mesmo a tempo. Sabe que só tem de me dizer o que fazer.”
Van Helsing avançou e pegou-lhe na mão, olhando-o diretamente nos olhos enquanto dizia: —
“O sangue de um homem corajoso é a melhor coisa sobre esta terra quando uma mulher está em apuros. Você é um homem, sem dúvida. Bem, o diabo pode trabalhar contra nós com toda a sua força, mas Deus envia-nos homens quando precisamos deles.”
Mais uma vez passámos por aquela operação horrível. Não tenho coragem para passar pelos detalhes. Lucy tinha sofrido um choque terrível, e isso afetou-a mais do que antes, pois embora muito sangue tenha entrado nas suas veias, o seu corpo não respondeu ao tratamento tão bem como nas outras ocasiões. A sua luta para regressar à vida foi algo assustador de ver e ouvir. No entanto, a ação tanto do coração como dos pulmões melhorou, e Van Helsing fez uma injeção subcutânea de morfina, como antes, e com bom efeito. O seu desmaio tornou-se um sono profundo. O Professor observou enquanto eu descia com Quincey Morris e mandei uma das criadas pagar a um dos taxistas que estavam à espera. Deixei Quincey deitado depois de beber um copo de vinho e disse à cozinheira para preparar um bom pequeno-almoço. Depois, um pensamento ocorreu-me e voltei ao quarto onde a Lucy estava agora. Quando entrei suavemente, encontrei Van Helsing com uma ou duas folhas de papel na mão. Tinha lido, evidentemente, e estava a pensar nisso enquanto se sentava com a mão na testa. Havia um olhar de satisfação sombria no seu rosto, como alguém que resolveu uma dúvida. Entregou-me o papel, dizendo apenas: “Caiu do peito da Lucy quando a levámos para o banho.”
Quando o li, fiquei a olhar para o Professor e, após uma pausa, perguntei-lhe: “Em nome de Deus, o que significa tudo isto? Estava ela, ou está ela, louca; ou que tipo de perigo horrível é este?” Eu estava tão perplexo que não sabia o que dizer mais. Van Helsing estendeu a mão e pegou no papel, dizendo: —
“Não se preocupe com isso agora. Esqueça-o por enquanto. Saberá e compreenderá tudo a seu tempo; mas será mais tarde. E agora, o que é que veio dizer-me?” Isto trouxe-me de volta à realidade, e voltei a ser eu próprio.
“Vim falar sobre o certificado de óbito. Se não agirmos de forma adequada e sensata, pode haver um inquérito, e esse papel teria de ser apresentado. Tenho esperança de que não precisemos de nenhum inquérito, pois se o tivéssemos, certamente mataria a pobre Lucy, se mais nada o fizesse. Eu sei, e você sabe, e o outro médico que a assistiu sabe, que a Sra. Westenra tinha doença cardíaca, e podemos certificar que ela morreu disso. Vamos preencher o certificado imediatamente, e eu levá-lo-ei pessoalmente ao conservador do registo e seguirei para a agência funerária.”
“Bom, oh meu amigo John! Bem pensado! Na verdade, a Srta. Lucy, se é triste nos inimigos que a cercam, é pelo menos feliz nos amigos que a amam. Um, dois, três, todos abrem as suas veias por ela, além de um velho. Ah sim, eu sei, amigo John; não sou cego! Amo-vos ainda mais por isso! Agora vá.”
No hall encontrei Quincey Morris, com um telegrama para o Arthur a dizer-lhe que a Sra. Westenra tinha morrido; que a Lucy também tinha estado doente, mas que agora estava a melhorar; e que Van Helsing e eu estávamos com ela. Disse-lhe para onde ia e ele apressou-me a sair, mas enquanto eu ia, disse: —
“Quando voltar, Jack, posso ter duas palavras consigo, só nós os dois?” Assenti com a cabeça em resposta e saí. Não encontrei dificuldade no registo e combinei com o agente funerário local para vir à noite para tirar as medidas para o caixão e fazer os preparativos.
Quando voltei, Quincey estava à minha espera. Disse-lhe que o veria assim que soubesse da Lucy e subi para o seu quarto. Ela ainda estava a dormir, e o Professor aparentemente não se tinha movido do seu lugar ao lado dela. Pelo facto de ele levar o dedo aos lábios, deduzi que ele esperava que ela acordasse em breve e receava antecipar a natureza. Por isso, desci para o Quincey e levei-o para a sala de pequeno-almoço, onde as persianas não estavam para baixo, e que era um pouco mais alegre, ou melhor, menos sombria, do que as outras salas. Quando ficámos sozinhos, ele disse-me: —
“Jack Seward, não quero intrometer-me em lado nenhum onde não tenho o direito de estar; mas este não é um caso comum. Sabe que amava aquela rapariga e queria casar com ela; mas, embora isso seja tudo passado e esquecido, não posso evitar sentir-me ansioso por ela, apesar de tudo. O que é que está errado com ela? O holandês — e ele é um excelente cavalheiro; posso ver isso — disse, naquela altura em que vocês os dois entraram no quarto, que tinham de ter outra transfusão de sangue, e que tanto você como ele estavam exaustos. Agora, sei bem que vocês, médicos, falam in camera, e que um homem não deve esperar saber o que discutem em privado. Mas esta não é uma questão comum e, seja o que for, eu fiz a minha parte. Não é assim?”
“É assim”, disse eu, e ele continuou: —
“Presumo que tanto você como Van Helsing já tivessem feito o que eu fiz hoje. Não é assim?”
“É assim.”
“E imagino que o Art também estivesse envolvido. Quando o vi, há quatro dias, na sua propriedade, ele parecia estranho. Não vi nada definhar tão depressa desde que estive nos Pampas e tive uma égua de que gostava, que num só dia ficou reduzida a pele e osso. Um daqueles morcegos grandes, a que chamam vampiros, atacou-a durante a noite e, entre a sua voracidade e a veia deixada aberta, não restou sangue suficiente nela para que pudesse pôr-se de pé, e tive de lhe dar um tiro enquanto estava prostrada. Jack, se me puder dizer sem trair a confiança, o Arthur foi o primeiro; não é assim?” Ao falar, o pobre rapaz parecia terrivelmente ansioso. Estava sob a tortura do suspense em relação à mulher que amava, e a sua ignorância absoluta sobre o terrível mistério que parecia rodeá-la intensificava a sua dor. O seu próprio coração sangrava, e foi preciso toda a sua virilidade — e ele tinha uma dose real dela — para não se desmoronar. Hesitei antes de responder, pois sentia que não devia trair nada que o Professor desejasse manter em segredo, mas ele já sabia tanto, e adivinhava tanto, que não podia haver razão para não responder, por isso respondi com a mesma frase: “É assim.”
“E há quanto tempo isto está a acontecer?”
“Cerca de dez dias.”
“Dez dias! Então imagino, Jack Seward, que essa pobre e bela criatura que todos amamos recebeu nas suas veias, durante esse tempo, o sangue de quatro homens fortes. Meu caro, o corpo dela não aguentaria tanto.” Depois, aproximando-se de mim, falou num sussurro feroz e contido: “O que é que lho tirou?”
Abanei a cabeça. “Essa”, disse eu, “é a questão crucial. Van Helsing está simplesmente frenético com isso, e eu estou no meu limite. Nem sequer me atrevo a um palpite. Houve uma série de pequenas circunstâncias que invalidaram todos os nossos cálculos quanto a Lucy estar devidamente vigiada. Mas isso não voltará a acontecer. Aqui ficaremos até que tudo esteja bem — ou mal.” Quincey estendeu a mão. “Contem comigo”, disse ele. “Tu e o holandês dir-me-ão o que fazer, e eu fá-lo-ei.”
Quando ela acordou ao fim da tarde, o primeiro movimento de Lucy foi levar a mão ao peito e, para minha surpresa, retirou o papel que Van Helsing me tinha dado a ler. O cuidadoso Professor tinha-o colocado de volta onde estava, para que, ao acordar, ela não se alarmasse. Os seus olhos pousaram então em Van Helsing e em mim também, e iluminaram-se. Depois, olhou à volta do quarto e, vendo onde estava, estremeceu; soltou um grito alto e colocou as suas mãos pobres e finas diante do rosto pálido. Ambos compreendemos o que aquilo significava — que tinha tomado plena consciência da morte da mãe; por isso, tentámos reconfortá-la como pudemos. Sem dúvida, a simpatia aliviou-a um pouco, mas ela estava muito em baixo de espírito e de pensamento, e chorou silenciosa e debilmente durante muito tempo. Dissémo-lhe que um de nós, ou ambos, permaneceríamos agora com ela a todo o tempo, e isso pareceu confortá-la. Ao anoitecer, ela adormeceu. Aqui ocorreu uma coisa muito estranha. Ainda a dormir, tirou o papel do peito e rasgou-o em dois. Van Helsing aproximou-se e tirou-lhe os pedaços. Mesmo assim, porém, ela continuou com o movimento de rasgar, como se o material ainda estivesse nas suas mãos; finalmente, levantou as mãos e abriu-as como se espalhasse os fragmentos. Van Helsing pareceu surpreendido e franziu as sobrancelhas como se estivesse a pensar, mas não disse nada.
19 de setembro. — Durante toda a noite passada ela dormiu de forma agitada, com medo de dormir, e um pouco mais fraca quando acordava. O Professor e eu revezámo-nos na vigília e nunca a deixámos um momento sem companhia. Quincey Morris não disse nada sobre a sua intenção, mas eu sabia que, durante toda a noite, ele patrulhou o redor da casa.
Quando o dia surgiu, a sua luz reveladora mostrou o desgaste na força da pobre Lucy. Ela mal conseguia virar a cabeça, e o pouco alimento que conseguia ingerir parecia não lhe fazer bem nenhum. Por vezes dormia, e tanto Van Helsing como eu notámos a diferença nela, entre o sono e a vigília. Enquanto dormia, parecia mais forte, embora mais abatida, e a sua respiração era mais suave; a boca aberta mostrava as gengivas pálidas retraídas dos dentes, que pareciam, por isso, positivamente mais compridos e afiados do que o habitual; quando acordava, a suavidade dos seus olhos mudava evidentemente a expressão, pois parecia ela mesma, embora uma versão moribunda. À tarde, ela pediu pelo Arthur, e enviámos-lhe um telegrama. Quincey foi ao encontro dele à estação.
Quando ele chegou, eram quase seis horas, e o sol punha-se, cheio e quente, e a luz vermelha entrava pela janela, conferindo mais cor às faces pálidas. Quando a viu, Arthur ficou simplesmente sufocado pela emoção, e nenhum de nós conseguiu falar. Nas horas que passaram, os ataques de sono, ou o estado comatoso que o substituía, tinham-se tornado mais frequentes, de modo que as pausas em que a conversa era possível tinham encurtado. A presença de Arthur, contudo, pareceu atuar como um estimulante; ela reanimou-se um pouco e falou com ele de forma mais brilhante do que desde que chegámos. Ele também se recompôs e falou o mais alegremente que pôde, para que se tirasse o melhor partido de tudo.
São agora quase uma da manhã, e ele e Van Helsing estão sentados com ela. Vou substituí-los dentro de um quarto de hora, e estou a registar isto no fonógrafo da Lucy. Até às seis horas, eles vão tentar descansar. Receio que amanhã termine a nossa vigília, pois o choque foi demasiado grande; a pobre criança não consegue recuperar. Deus nos ajude a todos.
Carta de Mina Harker para Lucy Westenra.
(Não aberta por ela.)
“17 de setembro.
“Minha querida Lucy, —
“Parece uma eternidade desde que recebi notícias tuas, ou, na verdade, desde que escrevi. Irás perdoar-me, eu sei, por todas as minhas falhas quando leres todo o meu saco de novidades. Bem, recebi o meu marido de volta são e salvo; quando chegámos a Exeter, havia uma carruagem à nossa espera e, nela, apesar de ter tido um ataque de gota, o Sr. Hawkins. Levou-nos para a sua própria casa, onde havia quartos para todos nós, agradáveis e confortáveis, e jantámos juntos. Depois do jantar, o Sr. Hawkins disse: —
“‘Meus queridos, quero brindar à vossa saúde e prosperidade; e que todas as bênçãos vos acompanhem a ambos. Conheço-vos a ambos desde crianças e vi-vos, com amor e orgulho, crescer. Agora quero que façam aqui o vosso lar comigo. Não me restou nem pintainho nem criança; todos se foram, e no meu testamento deixei-vos tudo.’ Eu chorei, querida Lucy, enquanto Jonathan e o velho davam as mãos. A nossa noite foi muito, muito feliz.
“Portanto, aqui estamos, instalados nesta bela casa antiga, e tanto do meu quarto como da sala de estar posso ver os grandes olmos do recinto da catedral, com os seus grandes troncos negros a destacarem-se contra a velha pedra amarela da catedral; e posso ouvir as gralhas lá no alto a grasnar e a grasnar e a tagarelar e a bisbilhotar todo o dia, à maneira das gralhas — e dos humanos. Estou ocupada, não preciso de te dizer, a organizar as coisas e a tratar da casa. Jonathan e o Sr. Hawkins estão ocupados todo o dia; pois, agora que Jonathan é sócio, o Sr. Hawkins quer contar-lhe tudo sobre os clientes.
“Como vai a tua querida mãe? Dera eu poder dar um salto até à cidade por um dia ou dois para te ver, querida, mas não me atrevo a ir ainda, com tanto sobre os meus ombros; e Jonathan ainda precisa de ser cuidado. Ele está a começar a ganhar peso novamente, mas ficou terrivelmente enfraquecido pela longa doença; mesmo agora, por vezes, levanta-se do sono de repente e acorda a tremer todo, até que eu consiga convencê-lo a voltar à sua habitual placidez. No entanto, graças a Deus, essas ocasiões tornam-se menos frequentes à medida que os dias passam, e com o tempo passarão totalmente, espero. E agora que te contei as minhas novidades, deixa-me perguntar as tuas. Quando te vais casar, e onde, e quem irá realizar a cerimónia, e o que vais vestir, e será um casamento público ou privado? Conta-me tudo sobre isso, querida; conta-me tudo sobre tudo, pois não há nada que te interesse que não seja querido para mim. Jonathan pede-me que envie o seu ‘respeitoso dever’, mas não penso que isso seja bom o suficiente vindo do sócio júnior da importante firma de Hawkins & Harker; e assim, como tu me amas, e ele ama-me, e eu amo-te com todos os modos e tempos do verbo, envio-te simplesmente o seu ‘amor’ em vez disso. Adeus, minha querida Lucy, e todas as bênçãos sobre ti.
“Tua, “/Mina Harker./”
_Relatório de Patrick Hennessey, M.D., M.R.C.S., L.K.Q.CP.I., etc., etc., para John Seward, M.D._
“20 de setembro.
“Meu caro Senhor, —
“De acordo com os seus desejos, anexo o relatório das condições de tudo o que deixei ao meu cuidado... Relativamente ao paciente, Renfield, há mais a dizer. Teve outro surto que poderia ter tido um final terrível, mas que, como felizmente aconteceu, não teve quaisquer resultados infelizes. Esta tarde, uma carroça de transporte com dois homens fez uma paragem na casa vazia cujos terrenos confinam com os nossos — a casa para a qual, lembrar-se-á, o paciente fugiu duas vezes. Os homens pararam no nosso portão para perguntar o caminho ao porteiro, pois eram estranhos. Eu estava a olhar pela janela do escritório, a fumar depois do jantar, e vi um deles aproximar-se da casa. Ao passar pela janela do quarto de Renfield, o paciente começou a insultá-lo de dentro, chamando-lhe todos os nomes feios que conseguiu proferir. O homem, que parecia um sujeito bastante decente, contentou-se em dizer-lhe para ‘se calar, seu pedinte de língua suja’, ao que o nosso homem o acusou de o roubar e de querer assassiná-lo, dizendo que o impediria, mesmo que tivesse de ir para a forca. Abri a janela e fiz sinal ao homem para não ligar, pelo que ele contentou-se, depois de observar o local e de decidir que tipo de lugar era aquele, em dizer: ‘Deus o abençoe, senhor, eu não ligaria ao que me dissessem num hospício de loucos. Tenho pena do senhor e do patrão por terem de viver nesta casa com uma fera como aquela.’ Depois, perguntou o caminho bastante educadamente, e eu disse-lhe onde ficava o portão da casa vazia; ele foi-se embora, seguido por ameaças, maldições e insultos do nosso homem. Desci para ver se conseguia encontrar alguma causa para a sua raiva, uma vez que ele é habitualmente um homem tão bem-comportado e, exceto pelos seus ataques violentos, nunca nada do género tinha ocorrido. Encontrei-o, para meu espanto, bastante composto e muito genial na sua maneira de ser. Tentei levá-lo a falar sobre o incidente, mas ele perguntou-me ingenuamente o que eu queria dizer, e levou-me a acreditar que estava completamente alheio ao assunto. Foi, lamento dizer, contudo, apenas mais um exemplo da sua astúcia, pois, meia hora depois, ouvi falar dele novamente. Desta vez, tinha fugido pela janela do seu quarto e corria pela avenida. Chamei os funcionários para me seguirem e corri atrás dele, pois temia que estivesse determinado a fazer alguma maldade. O meu medo justificou-se quando vi a mesma carroça que tinha passado antes a descer a estrada, carregando grandes caixas de madeira. Os homens limpavam as testas e estavam ruborizados, como se tivessem feito um esforço violento. Antes que eu pudesse chegar até ele, o paciente lançou-se contra eles e, puxando um deles para fora da carroça, começou a bater-lhe com a cabeça contra o chão. Se eu não o tivesse agarrado naquele preciso momento, acredito que teria matado o homem ali mesmo. O outro sujeito saltou e atingiu-o na cabeça com o cabo do seu chicote pesado. Foi um golpe terrível; mas ele não pareceu importar-se, agarrando também esse, e lutou contra nós os três, puxando-nos de um lado para o outro como se fôssemos gatinhos. Sabe que não sou propriamente leve, e os outros eram ambos homens corpulentos. Primeiro, ele lutou em silêncio; mas, à medida que começámos a dominá-lo e os funcionários lhe colocavam uma camisa de forças, ele começou a gritar: ‘Vou frustrá-los! Eles não me vão roubar! Eles não me vão assassinar aos poucos! Lutarei pelo meu Senhor e Mestre!’ e todo o tipo de delírios incoerentes semelhantes. Foi com considerável dificuldade que o levaram de volta para casa e o colocaram no quarto almofadado. Um dos funcionários, Hardy, partiu um dedo. No entanto, tratei-o bem; e ele está a recuperar.
“Os dois estafetas fizeram primeiro ameaças sonoras de processos por danos e prometeram despejar sobre nós todas as penas da lei. As suas ameaças, contudo, misturavam-se com uma espécie de desculpa indireta pela derrota dos dois às mãos de um louco fraco. Disseram que, se não fosse pelo facto de a sua força ter sido gasta a carregar e a levantar as caixas pesadas para a carroça, teriam acabado com ele num instante. Deram como outra razão para a sua derrota o estado extraordinário de secura a que tinham sido reduzidos pela natureza poeirenta da sua ocupação e pela repreensível distância de qualquer local de entretenimento público do local dos seus trabalhos. Compreendi perfeitamente o que queriam dizer e, depois de um copo de grogue bem forte, ou melhor, mais do que um, e com uma libra na mão de cada um, desvalorizaram o ataque e juraram que enfrentariam um louco pior a qualquer dia pelo prazer de conhecer um ‘bom sujeito’ como o seu correspondente. Tomei os seus nomes e endereços, caso sejam necessários. São os seguintes: Jack Smollet, de Dudding’s Rents, King George’s Road, Great Walworth, e Thomas Snelling, Peter Parley’s Row, Guide Court, Bethnal Green. Ambos estão ao serviço da Harris & Sons, Moving and Shipment Company, Orange Master’s Yard, Soho.
“Reportar-lhe-ei qualquer assunto de interesse que ocorra aqui e enviar-lhe-ei um telegrama imediatamente se houver algo de importante.
“Acredite em mim, meu caro Senhor, “Atenciosamente, “/Patrick Hennessey./”
Carta de Mina Harker para Lucy Westenra.
(Não aberta por ela.)
“18 de setembro.
“Minha querida Lucy, —
“Um golpe tão triste abateu-se sobre nós. O Sr. Hawkins morreu muito subitamente. Alguns podem não achar tão triste para nós, mas ambos tínhamos passado a amá-lo tanto que parece realmente como se tivéssemos perdido um pai. Nunca conheci nem pai nem mãe, por isso a morte daquele querido velho é um verdadeiro golpe para mim. Jonathan está muito angustiado. Não é apenas que ele sinta tristeza, profunda tristeza, pelo querido e bom homem que o apoiou toda a vida e que, agora, no fim, o tratou como ao seu próprio filho e lhe deixou uma fortuna que, para pessoas da nossa criação modesta, é uma riqueza para além do sonho da avareza, mas Jonathan sente-o por outro motivo. Ele diz que a quantidade de responsabilidade que isso lhe confere o deixa nervoso. Começa a duvidar de si mesmo. Tento animá-lo, e a minha fé nele ajuda-o a ter fé em si próprio. Mas é aqui que o grave choque que ele sofreu mais o afeta. Oh, é demasiado duro que uma natureza doce, simples, nobre e forte como a dele — uma natureza que lhe permitiu, com a ajuda do nosso querido e bom amigo, passar de escriturário a patrão em poucos anos — deva ser tão prejudicada que a própria essência da sua força desapareceu. Perdoa-me, querida, se te incomodo com os meus problemas no meio da tua própria felicidade; mas, querida Lucy, tenho de contar a alguém, pois o esforço de manter uma aparência corajosa e alegre para o Jonathan desgasta-me, e não tenho ninguém aqui em quem possa confiar. Receio ir para Londres, como teremos de fazer depois de amanhã; pois o pobre Sr. Hawkins deixou no seu testamento que queria ser enterrado na sepultura com o seu pai. Como não há parentes, Jonathan terá de ser o principal enlutado. Tentarei passar por aí para te ver, minha querida, ainda que por alguns minutos. Perdoa-me por te incomodar. Com todas as bênçãos,
“Tua amorosa “/Mina Harker./”
Diário do Dr. Seward.
20 de setembro. — Apenas a resolução e o hábito podem permitir-me fazer um registo esta noite. Estou demasiado miserável, demasiado deprimido, demasiado farto do mundo e de tudo o que nele existe, incluindo a própria vida, e não me importaria se ouvisse, neste momento, o bater das asas do anjo da morte. E ele tem batido essas asas sombrias com algum propósito ultimamente — a mãe de Lucy e o pai de Arthur, e agora... Deixa-me continuar com o meu trabalho.
Substituí devidamente Van Helsing na sua vigília sobre Lucy. Queríamos que o Arthur também fosse descansar, mas ele recusou-se inicialmente. Foi apenas quando lhe disse que precisaríamos dele para nos ajudar durante o dia, e que não podíamos todos colapsar por falta de descanso, para que Lucy não sofresse, que ele concordou em ir. Van Helsing foi muito gentil com ele. “Venha, meu filho”, disse ele; “venha comigo. Está doente e fraco, e teve muito pesar e muita dor mental, para além desse esforço sobre as suas forças de que temos conhecimento. Não deve estar sozinho; pois estar sozinho é estar cheio de medos e alarmes. Venha para a sala de estar, onde há uma grande lareira e dois sofás. Deitar-se-á num, e eu no outro, e a nossa simpatia será um conforto um para o outro, mesmo que não falemos, e mesmo que durmamos.” Arthur foi com ele, lançando um olhar de desejo ao rosto de Lucy, que jazia na sua almofada, quase mais branca do que o linho. Ela estava muito quieta, e eu olhei à volta do quarto para ver se tudo estava como devia. Pude ver que o Professor tinha levado a cabo neste quarto, tal como no outro, o seu propósito de usar o alho; todas as molduras das janelas cheiravam a ele e, à volta do pescoço de Lucy, sobre o lenço de seda que Van Helsing a obrigou a manter, estava uma coroa rudimentar das mesmas flores odoríferas. Lucy respirava de forma algo estertorosa, e o seu rosto estava no seu pior, pois a boca aberta mostrava as gengivas pálidas. Os seus dentes, na luz ténue e incerta, pareciam mais compridos e afiados do que tinham estado de manhã. Em particular, por algum truque da luz, os caninos pareciam mais compridos e afiados do que os restantes. Sentei-me ao lado dela e, pouco depois, ela moveu-se inquietamente. No mesmo momento, houve uma espécie de batimento surdo ou estalo na janela. Fui até lá suavemente e espreitei pelo canto da persiana. Havia luar cheio, e pude ver que o ruído era causado por um grande morcego, que circulava — sem dúvida atraído pela luz, embora tão ténue — e, de vez em quando, atingia a janela com as asas. Quando voltei ao meu lugar, descobri que Lucy se tinha movido ligeiramente e tinha arrancado as flores de alho da garganta. Substituí-as o melhor que pude e sentei-me a observá-la.
Pouco depois ela acordou, e eu dei-lhe comida, conforme Van Helsing prescrevera. Ela comeu apenas um pouco, e de forma lânguida. Não parecia haver nela agora a luta inconsciente pela vida e pela força que até então caracterizara a sua doença. Pareceu-me curioso que, no momento em que recuperou a consciência, ela apertou as flores de alho contra si. Era certamente estranho que, sempre que entrava naquele estado letárgico, com a respiração estertorosa, ela afastasse as flores; mas que, quando acordava, as agarrava com força. Não havia possibilidade de erro quanto a isto, pois, nas longas horas que se seguiram, ela teve muitos períodos de sono e vigília, e repetiu ambos os atos muitas vezes.
Às seis horas, Van Helsing veio render-me. Arthur tinha adormecido então, e ele, misericordiosamente, deixou-o continuar a dormir. Quando viu o rosto de Lucy, pude ouvir a inspiração sibilante da sua respiração, e ele disse-me num sussurro agudo: “Levante a persiana; quero luz!” Depois, curvou-se e, com o rosto quase a tocar no de Lucy, examinou-a cuidadosamente. Removeu as flores e levantou o lenço de seda do pescoço dela. Ao fazê-lo, recuou, e pude ouvir a sua exclamação, “Mein Gott!”, abafada na garganta. Curvei-me e olhei também, e, ao reparar, senti um arrepio estranho.
As feridas no pescoço tinham desaparecido por completo.
Durante cinco minutos inteiros, Van Helsing ficou a olhá-la, com a face na sua expressão mais severa. Depois, virou-se para mim e disse calmamente:--
“Ela está a morrer. Não faltará muito agora. Será uma grande diferença, note bem, se ela morrer consciente ou a dormir. Acorde aquele pobre rapaz, e deixe-o vir ver o fim; ele confia em nós, e nós prometemos-lhe.”
Fui à sala de jantar e acordei-o. Ele ficou atordoado por um momento, mas, quando viu a luz do sol a entrar pelas frinchas das persianas, pensou que estava atrasado e expressou o seu receio. Assegurei-lhe que Lucy ainda estava a dormir, mas disse-lhe, o mais gentilmente que pude, que tanto Van Helsing como eu temíamos que o fim estivesse próximo. Ele cobriu o rosto com as mãos e caiu de joelhos junto ao sofá, onde permaneceu, talvez um minuto, com as mãos enterradas no rosto, a rezar, enquanto os ombros tremiam de dor. Peguei-lhe na mão e levantei-o. “Vamos”, disse eu, “meu caro amigo, reúna toda a sua coragem; será melhor e mais fácil para ela.”
Quando entrámos no quarto de Lucy, pude ver que Van Helsing, com a sua habitual previdência, tinha posto as coisas em ordem e feito com que tudo parecesse o mais agradável possível. Tinha até penteado o cabelo de Lucy, de modo que este repousava na almofada nas suas habituais ondulações ensolaradas. Quando entrámos no quarto, ela abriu os olhos e, ao vê-lo, sussurrou suavemente:--
“Arthur! Oh, meu amor, estou tão contente por teres vindo!” Ele estava a curvar-se para a beijar, quando Van Helsing fez um gesto para o impedir. “Não”, sussurrou ele, “ainda não! Segure-lhe a mão; isso confortá-la-á mais.”
Assim, Arthur pegou-lhe na mão e ajoelhou-se ao lado dela, e ela parecia no seu melhor, com todas as linhas suaves a condizer com a beleza angelical dos seus olhos. Depois, gradualmente, os seus olhos fecharam-se e ela mergulhou no sono. Por um momento, o seu peito subiu e desceu suavemente, e a sua respiração vinha e ia como a de uma criança cansada.
E então, insensivelmente, veio a estranha mudança que eu notara durante a noite. A sua respiração tornou-se estertorosa, a boca abriu-se e as gengivas pálidas, retraídas, faziam os dentes parecer mais longos e afiados do que nunca. De uma forma sonâmbula, vaga e inconsciente, ela abriu os olhos, que estavam agora baços e duros ao mesmo tempo, e disse com uma voz suave e voluptuosa, como nunca ouvira sair dos seus lábios:--
“Arthur! Oh, meu amor, estou tão contente por teres vindo! Beija-me!” Arthur inclinou-se ansiosamente para a beijar; mas, nesse instante, Van Helsing, que, tal como eu, fora sobressaltado pela sua voz, lançou-se sobre ele e, agarrando-o pelo pescoço com as duas mãos, puxou-o para trás com uma fúria de força que eu nunca pensei que ele pudesse possuir, e atirou-o, literalmente, quase para o outro lado da sala.
“Nem pela sua vida!” disse ele; “nem pela sua alma viva e pela dela!” E ficou entre eles como um leão encurralado.
Arthur ficou tão surpreendido que, por um momento, não soube o que fazer ou dizer; e, antes que qualquer impulso de violência o pudesse dominar, percebeu o lugar e a ocasião, e ficou em silêncio, à espera.
Mantive os olhos fixos em Lucy, tal como Van Helsing, e vimos um espasmo de raiva passar como uma sombra pelo seu rosto; os dentes afiados bateram um contra o outro. Depois, os olhos dela fecharam-se e ela respirou pesadamente.
Muito pouco depois, ela abriu os olhos em toda a sua suavidade e, estendendo a sua pobre mão pálida e fina, pegou na grande mão castanha de Van Helsing; puxando-a para si, beijou-a. “Meu verdadeiro amigo”, disse ela, com uma voz fraca, mas com um patos indizível, “Meu verdadeiro amigo, e o dele! Oh, proteja-o, e dê-me paz!”
“Eu juro-o!” disse ele solenemente, ajoelhando-se ao lado dela e levantando a mão, como alguém que presta um juramento. Depois, virou-se para Arthur e disse-lhe: “Venha, meu rapaz, pegue na mão dela com a sua e beije-a na testa, apenas uma vez.”
Os seus olhos encontraram-se em vez dos seus lábios; e assim se despediram.
Os olhos de Lucy fecharam-se; e Van Helsing, que tinha estado a observar atentamente, pegou no braço de Arthur e levou-o para longe.
E então a respiração de Lucy tornou-se estertorosa novamente, e de repente cessou.
“Está tudo acabado”, disse Van Helsing. “Ela está morta!”
Peguei no braço de Arthur e levei-o para a sala de estar, onde ele se sentou e cobriu o rosto com as mãos, soluçando de uma forma que quase me destruiu ver.
Voltei ao quarto e encontrei Van Helsing a olhar para a pobre Lucy, e o seu rosto estava mais severo do que nunca. Alguma mudança ocorrera no seu corpo. A morte devolvera parte da sua beleza, pois a sua testa e as suas faces tinham recuperado algumas das suas linhas fluidas; até os lábios tinham perdido a sua palidez mortal. Era como se o sangue, já não sendo necessário para o funcionamento do coração, tivesse ido atenuar a aspereza da morte tanto quanto possível.
“Pensámo-la a morrer enquanto dormia, E a dormir quando ela morreu.”
Fiquei ao lado de Van Helsing e disse:--
“Ah, bem, pobre rapariga, há paz para ela finalmente. É o fim!”
Ele virou-se para mim e disse com grave solenidade:--
“Não é! Ai de mim! Não é. É apenas o começo!”
Quando lhe perguntei o que queria dizer, ele apenas abanou a cabeça e respondeu:--
“Não podemos fazer nada por enquanto. Espere e verá.”
CAPÍTULO XIII.
/Diário do Dr. Seward/--continuação.
O funeral foi marcado para o dia seguinte, para que Lucy e a sua mãe pudessem ser enterradas juntas. Tratei de todas as formalidades macabras, e o urbane agente funerário provou que os seus funcionários estavam afligidos — ou abençoados — com algo da sua própria suavidade obsequiosa. Até a mulher que executou os últimos serviços para os mortos comentou comigo, de uma forma confidencial, de colega profissional para colega, quando saiu da câmara mortuária:--
“Ela faz um cadáver muito bonito, senhor. É um verdadeiro privilégio cuidar dela. Não é exagero dizer que ela dará crédito ao nosso estabelecimento!”
Notei que Van Helsing nunca se afastava muito. Isto era possível devido ao estado de desordem na casa. Não havia parentes por perto; e, como Arthur tinha de estar de volta no dia seguinte para assistir ao funeral do seu pai, não pudemos avisar ninguém que devesse ter sido convidado. Dadas as circunstâncias, Van Helsing e eu assumimos a responsabilidade de examinar os papéis, etc. Ele insistiu em rever ele próprio os papéis de Lucy. Perguntei-lhe porquê, pois receava que ele, sendo estrangeiro, pudesse não estar bem a par dos requisitos legais ingleses e, assim, por ignorância, pudesse causar algum problema desnecessário. Ele respondeu-me:--
“Eu sei; eu sei. Esquece-se de que sou advogado, além de médico. Mas isto não é inteiramente pela lei. Você sabia disso quando evitou o médico legista. Tenho mais do que ele para evitar. Pode haver papéis mais... como este.”
Enquanto falava, tirou da sua carteira o memorando que estivera no peito de Lucy e que ela tinha rasgado enquanto dormia.
“Quando encontrar algo do advogado que representa a falecida Sra. Westenra, sele todos os seus papéis e escreva-lhe esta noite. Quanto a mim, vigio aqui no quarto e no antigo quarto da Srta. Lucy durante toda a noite, e procuro eu próprio pelo que possa haver. Não é bom que os seus próprios pensamentos vão parar às mãos de estranhos.”
Continuei com a minha parte do trabalho e, em mais meia hora, tinha encontrado o nome e o endereço do advogado da Sra. Westenra e tinha-lhe escrito. Todos os papéis da pobre senhora estavam em ordem; instruções explícitas sobre o local do enterro foram dadas. Mal tinha selado a carta, quando, para minha surpresa, Van Helsing entrou na sala, dizendo:--
“Posso ajudar, amigo John? Estou livre e, se puder, o meu serviço é para si.”
“Encontrou o que procurava?” perguntei, ao que ele respondeu:--
“Não procurei nada específico. Apenas esperava encontrar, e encontrei, tudo o que havia — apenas algumas cartas e alguns memorandos, e um diário recém-iniciado. Mas tenho-os aqui, e por enquanto não diremos nada sobre eles. Verei aquele pobre rapaz amanhã à noite e, com a sua sanção, usarei alguns.”
Quando terminámos o trabalho em mãos, ele disse-me:--
“E agora, amigo John, penso que podemos ir para a cama. Precisamos de dormir, ambos, e de repouso para recuperar. Amanhã teremos muito que fazer, mas para esta noite não somos necessários. Ai de mim!”
Antes de nos deitarmos, fomos ver a pobre Lucy. O agente funerário tinha, sem dúvida, feito bem o seu trabalho, pois o quarto fora transformado numa pequena capela ardente. Havia uma abundância de belas flores brancas, e a morte fora tornada o menos repulsiva possível. A ponta do lençol estava colocada sobre o rosto; quando o Professor se curvou e o virou suavemente, ambos sobressaltámo-nos com a beleza diante de nós, com as altas velas de cera a mostrarem uma luz suficiente para a notar bem. Toda a beleza de Lucy tinha voltado a ela na morte, e as horas que tinham passado, em vez de deixarem vestígios dos “dedos apagadores da decadência”, tinham apenas restaurado a beleza da vida, até que eu positivamente não conseguia acreditar nos meus olhos que estava a olhar para um cadáver.
O Professor parecia severamente grave. Ele não a tinha amado como eu, e não havia necessidade de lágrimas nos seus olhos. Ele disse-me: “Fique até eu voltar”, e saiu do quarto. Voltou com um punhado de alho bravo da caixa que esperava no corredor, mas que não tinha sido aberta, e colocou as flores entre as outras sobre e ao redor da cama. Depois, tirou do pescoço, por dentro do colarinho, um pequeno crucifixo de ouro e colocou-o sobre a boca. Repôs o lençol no seu lugar e afastámo-nos.
Estava a despir-me no meu quarto quando, com um toque premonitório à porta, ele entrou e começou logo a falar:--
“Amanhã quero que me traga, antes da noite, um conjunto de facas de autópsia.”
“Temos de fazer uma autópsia?” perguntei.
“Sim, e não. Quero operar, mas não como você pensa. Deixe-me dizer-lhe agora, mas nem uma palavra a outro. Quero cortar-lhe a cabeça e retirar-lhe o coração. Ah! Você, um cirurgião, e tão chocado! Você, a quem vi, sem um tremor de mão ou coração, realizar operações de vida ou morte que fazem os outros estremecer. Oh, mas não devo esquecer, meu caro amigo John, que você a amava; e não o esqueci, pois sou eu quem operará, e você deve apenas ajudar. Gostaria de o fazer esta noite, mas por causa de Arthur não devo; ele estará livre após o funeral do seu pai amanhã, e ele quererá vê-la — vê-lo. Então, quando ela for colocada no caixão, pronta para o dia seguinte, você e eu viremos quando todos dormirem. Desaparafusaremos a tampa do caixão e faremos a nossa operação; e depois reporemos tudo, para que ninguém saiba, apenas nós dois.”
“Mas porquê fazê-lo? A rapariga está morta. Porquê mutilar o seu pobre corpo sem necessidade? E se não há necessidade de uma autópsia e nada a ganhar com isso — nenhum bem para ela, para nós, para a ciência, para o conhecimento humano — porquê fazê-lo? Sem isso, é monstruoso.”
Como resposta, ele pôs a mão no meu ombro e disse, com infinita ternura:--
“Amigo John, lamento o seu pobre coração sangrante; e amo-o ainda mais porque ele sangra assim. Se pudesse, tomaria para mim o fardo que você carrega. Mas há coisas que você não sabe, mas que saberá, e abençoar-me-á por saber, embora não sejam coisas agradáveis. John, meu rapaz, você é meu amigo há muitos anos, e ainda assim alguma vez me viu fazer algo sem uma boa causa? Posso errar — sou apenas um homem; mas acredito em tudo o que faço. Não foi por estas causas que você me chamou quando o grande problema surgiu? Sim! Não ficou espantado, aliás horrorizado, quando não deixei Arthur beijar o seu amor — embora ela estivesse a morrer — e o arrastei para longe com todas as minhas forças? Sim! E ainda assim viu como ela me agradeceu, com os seus olhos moribundos tão belos, a sua voz também, tão fraca, e ela a beijar a minha mão velha e áspera e a abençoar-me? Sim! E não me ouviu jurar promessa a ela, para que assim ela fechasse os olhos agradecida? Sim!
“Bem, tenho boas razões agora para tudo o que quero fazer. Você confiou em mim há muitos anos; você acreditou em mim nas semanas passadas, quando havia coisas tão estranhas que você poderia muito bem ter duvidado. Acredite em mim ainda um pouco, amigo John. Se não confia em mim, então devo dizer o que penso; e isso talvez não seja bom. E se eu trabalhar — como trabalharei, independentemente de confiança ou não — sem a confiança do meu amigo em mim, trabalho com o coração pesado, e sinto-me, oh! tão solitário quando preciso de toda a ajuda e coragem que possa haver!” Ele pausou por um momento e continuou solenemente: “Amigo John, há dias estranhos e terríveis pela frente. Não sejamos dois, mas um, para que trabalhemos para um bom fim. Não quer ter fé em mim?”
Peguei na sua mão e prometi-lhe. Mantive a minha porta aberta enquanto ele se afastava, e vi-o entrar no seu quarto e fechar a porta. Enquanto estava imóvel, vi uma das criadas passar silenciosamente pelo corredor — ela estava de costas para mim, por isso não me viu — e entrar no quarto onde Lucy jazia. A visão tocou-me. A devoção é tão rara, e somos tão gratos àqueles que a mostram, sem lhes ser pedido, àqueles que amamos. Ali estava uma pobre rapariga a afastar os terrores que naturalmente tinha da morte para ir vigiar, sozinha, o leão da patroa que amava, para que o pobre barro não ficasse sozinho até ser posto no descanso eterno....
Devo ter dormido muito e profundamente, pois era dia claro quando Van Helsing me acordou ao entrar no meu quarto. Ele veio até à minha cabeceira e disse:--
“Não precisa de se preocupar com as facas; não o faremos.”
“Porquê não?” perguntei. Pois a sua solenidade da noite anterior tinha-me impressionado grandemente.
“Porque”, disse ele severamente, “é demasiado tarde — ou demasiado cedo. Veja!” Aqui ele mostrou o pequeno crucifixo de ouro. “Isto foi roubado durante a noite.”
“Como roubado”, perguntei maravilhado, “se você o tem agora?”
“Porque o recuperei da miserável sem valor que o roubou, da mulher que roubou os mortos e os vivos. O seu castigo virá certamente, mas não através de mim; ela não sabia inteiramente o que fazia e, assim, sem saber, apenas roubou. Agora devemos esperar.”
Ele saiu ao dizer isto, deixando-me com um novo mistério para pensar, um novo enigma com que lidar.
A manhã foi um tempo lúgubre, mas ao meio-dia chegou o advogado: o Sr. Marquand, da Wholeman, Sons, Marquand & Lidderdale. Ele foi muito amável e muito apreciativo do que tínhamos feito, e tirou das nossas mãos todas as preocupações quanto aos detalhes. Durante o almoço, disse-nos que a Sra. Westenra esperava há algum tempo uma morte súbita devido ao seu coração, e tinha posto os seus assuntos em absoluta ordem; informou-nos que, com exceção de uma certa propriedade vinculada do pai de Lucy que agora, por falta de descendência direta, voltava para um ramo distante da família, todo o património, real e pessoal, era deixado absolutamente a Arthur Holmwood. Quando nos disse isto, continuou:--
“Francamente, fizemos o nosso melhor para impedir tal disposição testamentária, e apontámos certas contingências que poderiam deixar a sua filha sem um cêntimo ou não tão livre como deveria ser para agir relativamente a uma aliança matrimonial. De facto, pressionámos tanto a questão que quase entrámos em conflito, pois ela perguntou-nos se estávamos ou não preparados para cumprir os seus desejos. É claro que não tivemos outra alternativa senão aceitar. Estávamos certos no princípio e, noventa e nove vezes em cem, teríamos provado, pela lógica dos acontecimentos, a precisão do nosso julgamento. Francamente, no entanto, devo admitir que, neste caso, qualquer outra forma de disposição teria tornado impossível o cumprimento dos seus desejos. Pois, por ela pré-falecer a sua filha, esta última teria entrado na posse da propriedade e, mesmo que tivesse sobrevivido à mãe apenas cinco minutos, a sua propriedade teria, no caso de não haver testamento — e um testamento era uma impossibilidade prática num caso desses — sido tratada após o seu falecimento como intestada. Nesse caso, Lord Godalming, apesar de ser um amigo tão querido, não teria tido qualquer direito no mundo; e os herdeiros, sendo remotos, não seriam propensos a abandonar os seus direitos justos por razões sentimentais relativamente a uma completa estranha. Garanto-lhes, meus caros senhores, que estou regozijado com o resultado, perfeitamente regozijado.”
Ele era um bom tipo, mas o seu regozijo pela única pequena parte — na qual ele estava oficialmente interessado — de uma tragédia tão grande era uma lição prática sobre as limitações da compreensão empática.
Ele não ficou muito tempo, mas disse que viria mais tarde para ver Lord Godalming. A sua vinda, no entanto, tinha sido um certo conforto para nós, uma vez que nos garantiu que não teríamos de temer críticas hostis quanto a qualquer dos nossos atos. Arthur era esperado às cinco horas, por isso, pouco antes dessa hora, visitámos a câmara mortuária. Era-o, na verdade, pois agora tanto a mãe como a filha jaziam lá. O agente funerário, fiel ao seu ofício, tinha feito a melhor exibição que podia dos seus bens, e havia um ar mortuário no local que baixou o nosso espírito de imediato. Van Helsing ordenou que o arranjo anterior fosse mantido, explicando que, como Lord Godalming estava prestes a chegar, seria menos angustiante para os seus sentimentos ver tudo o que restava da sua noiva completamente sozinho. O agente funerário pareceu chocado com a sua própria estupidez e esforçou-se para restaurar as coisas à condição em que as deixámos na noite anterior, para que, quando Arthur chegasse, tais choques aos seus sentimentos, que pudéssemos evitar, fossem poupados.
Pobre rapaz! Parecia desesperadamente triste e abatido; até a sua virilidade vigorosa parecia ter encolhido um pouco sob a pressão das suas emoções tão testadas. Eu sabia que ele tinha sido genuína e devotadamente apegado ao seu pai; e perdê-lo, e numa altura destas, foi um golpe amargo para ele. Comigo, ele foi caloroso como sempre, e para Van Helsing foi docemente cortês; mas não pude deixar de notar que havia alguma contenção da sua parte. O Professor também o notou e fez-me sinal para que o trouxesse para cima. Fi-lo e deixei-o à porta do quarto, pois senti que ele gostaria de estar completamente a sós com ela; mas ele pegou no meu braço e conduziu-me para dentro, dizendo com voz rouca:
"Tu também a amavas, meu velho; ela contou-me tudo sobre isso, e não houve amigo que tivesse um lugar mais próximo no seu coração do que tu. Não sei como agradecer-te por tudo o que fizeste por ela. Ainda não consigo pensar..."
Aqui ele desfez-se subitamente, lançou os braços em volta dos meus ombros e pousou a cabeça no meu peito, chorando:
"Oh, Jack! Jack! O que farei eu? A vida inteira parece ter desaparecido de mim de uma só vez, e não há nada neste vasto mundo pelo qual eu deva viver."
Consolei-o o melhor que pude. Em tais casos, os homens não precisam de muita expressão. Um aperto de mão, o braço que se aperta sobre o ombro, um soluço em uníssono, são expressões de simpatia caras ao coração de um homem. Fiquei parado e em silêncio até que os seus soluços se extinguiram, e então disse-lhe suavemente:
"Vem vê-la."
Movemo-nos juntos para a cama, e levantei o tecido do seu rosto. Deus! Como ela estava bonita. Cada hora parecia realçar a sua formosura. Isso assustou-me e espantou-me um pouco; e quanto a Arthur, ele começou a tremer e, finalmente, foi abalado pela dúvida como por um acesso de febre. Por fim, após uma longa pausa, disse-me num sussurro fraco:
"Jack, estará ela realmente morta?"
Assegurei-lhe, com tristeza, que assim era, e continuei a sugerir — pois sentia que uma dúvida tão horrível não deveria ter vida por mais um momento do que eu pudesse evitar — que acontecia frequentemente que, após a morte, os rostos se suavizassem e até recuperassem a sua beleza juvenil; que isto era especialmente verdade quando a morte fora precedida por qualquer sofrimento agudo ou prolongado. Pareceu dissipar por completo qualquer dúvida e, depois de se ajoelhar junto ao divã durante algum tempo e de a olhar amorosamente por um longo período, ele desviou-se. Disse-lhe que aquela teria de ser a despedida, pois o caixão tinha de ser preparado; então, ele voltou atrás, pegou na mão morta dela, beijou-a, inclinou-se e beijou-lhe a testa. Afastou-se, olhando ternamente para trás, por cima do ombro, enquanto caminhava.
Deixei-o na sala de estar e disse a Van Helsing que ele se tinha despedido; por isso, este último foi à cozinha dizer aos homens da funerária para prosseguirem com os preparativos e para aparafusarem o caixão. Quando ele saiu novamente do quarto, contei-lhe a pergunta de Arthur, ao que ele respondeu:
"Não me surpreende. Ainda há pouco, eu próprio duvidei por um momento!"
Jantámos todos juntos, e pude ver que o pobre Art estava a tentar levar as coisas da melhor maneira. Van Helsing esteve silencioso durante todo o jantar, mas quando acendemos os nossos charutos, ele disse:
"Lord..." mas Arthur interrompeu-o:
"Não, não, por amor de Deus, não! Não ainda, pelo menos. Perdoe-me, senhor; não foi minha intenção falar de forma ofensiva; é apenas porque a minha perda é tão recente."
O Professor respondeu muito docemente:
"Usei esse nome apenas porque estava em dúvida. Não devo tratar-te por 'Mr.', e aprendi a amar-te — sim, meu querido rapaz, a amar-te — como Arthur."
Arthur estendeu a mão e apertou calorosamente a do velho.
"Trate-me como quiser", disse ele. "Espero ter sempre o título de amigo. E deixe-me dizer que me faltam palavras para lhe agradecer pela sua bondade para com a minha pobre querida." Ele hesitou um momento e continuou: "Sei que ela compreendeu a sua bondade ainda melhor do que eu; e se fui indelicado ou falhei de alguma forma naquela altura em que o senhor agiu assim — lembra-se" — o Professor assentiu — "tem de me perdoar."
Ele respondeu com uma bondade grave:
"Sei que foi difícil para si confiar inteiramente em mim naquela altura, pois para confiar em tal violência é preciso compreender; e presumo que não confia — que não pode confiar — em mim agora, pois ainda não compreende. E poderá haver mais momentos em que eu quererei que confie quando não puder — e não puder — e não deva ainda compreender. Mas chegará o tempo em que a sua confiança em mim será inteira e completa, e quando compreenderá como se a própria luz do sol brilhasse através de tudo. Então, abençoar-me-á do princípio ao fim, pelo seu próprio bem, pelo bem dos outros, e pelo bem daquela querida a quem jurei proteger."
"E, de facto, de facto, senhor", disse Arthur calorosamente, "confiarei em si em todos os aspetos. Sei e acredito que tem um coração muito nobre, e é amigo do Jack, e era dela. Fará o que quiser."
O Professor limpou a garganta um par de vezes, como se estivesse prestes a falar, e finalmente disse:
"Posso pedir-lhe algo agora?"
"Certamente."
"Sabe que a Sra. Westenra lhe deixou todos os seus bens?"
"Não, pobre querida; nunca pensei nisso."
"E como é tudo seu, tem o direito de dispor disso como quiser. Quero que me dê permissão para ler todos os papéis e cartas da Srta. Lucy. Acredite, não é mera curiosidade. Tenho um motivo do qual, pode ter a certeza, ela teria aprovado. Tenho-os todos aqui. Levei-os antes de sabermos que tudo era seu, para que nenhuma mão estranha os tocasse — nenhum olho estranho visse através das palavras a sua alma. Guardá-los-ei, se me permitir; nem o senhor os pode ver ainda, mas mantê-los-ei em segurança. Nenhuma palavra será perdida; e, a seu tempo, devolvê-los-ei. É uma coisa difícil que peço, mas fá-lo-á, não fará, pelo bem da Lucy?"
Arthur falou com entusiasmo, como o seu antigo eu:
"Dr. Van Helsing, pode fazer o que quiser. Sinto que, ao dizer isto, estou a fazer o que a minha querida teria aprovado. Não o incomodarei com perguntas até que chegue o momento."
O velho Professor levantou-se e disse solenemente:
"E tem razão. Haverá dor para todos nós; mas não será apenas dor, nem esta dor será a última. Nós e o senhor também — o senhor acima de todos, meu querido rapaz — teremos de passar pelas águas amargas antes de alcançarmos as doces. Mas devemos ser corajosos de coração e altruístas, e cumprir o nosso dever, e tudo ficará bem!"
Dormi num sofá no quarto de Arthur naquela noite. Van Helsing não foi para a cama. Ele ia e vinha, como se patrulhasse a casa, e nunca perdeu de vista o quarto onde Lucy jazia no seu caixão, coberto com flores de alho selvagem, que enviavam, através do odor a lírio e rosa, um cheiro pesado e avassalador para a noite.
Diário de Mina Harker.
22 de setembro. — No comboio para Exeter. Jonathan a dormir.
Parece que foi ontem que a última entrada foi feita, e ainda assim quanto aconteceu entre elas, em Whitby e em todo o mundo à minha frente, Jonathan longe e sem notícias dele; e agora, casada com Jonathan, Jonathan um solicitador, um sócio, rico, mestre do seu negócio, o Sr. Hawkins morto e enterrado, e Jonathan com outro ataque que lhe pode fazer mal. Algum dia ele poderá perguntar-me sobre isso. Fica tudo registado. Estou enferrujada na minha estenografia — veja o que a prosperidade inesperada faz por nós — por isso pode ser bom refrescá-la com um exercício de qualquer maneira...
O serviço foi muito simples e muito solene. Estávamos apenas nós e os empregados, um ou dois velhos amigos dele de Exeter, o seu agente de Londres, e um cavalheiro representando Sir John Paxton, o Presidente da Incorporated Law Society. Jonathan e eu estávamos de mãos dadas, e sentíamos que o nosso melhor e mais querido amigo tinha partido de nós...
Voltámos para a cidade calmamente, apanhando um autocarro para Hyde Park Corner. Jonathan achou que me interessaria ir até ao Row por um bocado, por isso sentámo-nos; mas havia muito pouca gente lá, e era triste e desolado ver tantas cadeiras vazias. Fez-nos pensar na cadeira vazia em casa; por isso levantámo-nos e caminhámos por Piccadilly. Jonathan segurava-me pelo braço, da maneira que costumava fazer nos velhos tempos antes de eu ir para a escola. Senti que era muito impróprio, pois não se podem passar alguns anos a ensinar etiqueta e decoro a outras raparigas sem que a pedantice disso nos pique um pouco; mas era o Jonathan, e ele era o meu marido, e não conhecíamos ninguém que nos visse — e não nos importávamos se vissem — por isso continuámos a caminhar. Eu estava a olhar para uma rapariga muito bonita, com um chapéu de abas largas, sentada num victoria fora do Giuliano’s quando senti Jonathan apertar o meu braço com tanta força que me magoou, e ele disse em voz baixa: "Meu Deus!" Estou sempre ansiosa por causa do Jonathan, pois temo que algum ataque nervoso o possa desequilibrar novamente; por isso virei-me para ele rapidamente e perguntei-lhe o que o perturbava.
Ele estava muito pálido e os seus olhos pareciam saltar das órbitas enquanto, meio em terror e meio em espanto, contemplava um homem alto e magro, com um nariz adunco, bigode preto e barba pontiaguda, que também observava a rapariga bonita. Ele olhava para ela com tanta intensidade que não viu nenhum de nós, e assim tive uma boa visão dele. O seu rosto não era um rosto bom; era duro, cruel e sensual, e os seus grandes dentes brancos, que pareciam ainda mais brancos porque os seus lábios eram tão vermelhos, eram pontiagudos como os de um animal. Jonathan continuava a fixá-lo, até que tive medo de que ele notasse. Tive medo de que ele pudesse levar a mal, ele parecia tão feroz e desagradável. Perguntei a Jonathan por que estava tão perturbado, e ele respondeu, pensando evidentemente que eu sabia tanto sobre o assunto como ele: "Vês quem é?"
"Não, querido", disse eu; "não o conheço; quem é?" A sua resposta pareceu chocar-me e emocionar-me, pois foi dita como se ele não soubesse que era a mim, Mina, a quem se dirigia:
"É o próprio homem!"
O pobre querido estava evidentemente aterrorizado com alguma coisa — muito grandemente aterrorizado; acredito que, se ele não tivesse tido em quem se apoiar, teria desfalecido. Ele continuava a olhar fixamente; um homem saiu da loja com um pequeno embrulho e deu-o à senhora, que então partiu. O homem de pele escura manteve os olhos fixos nela, e quando a carruagem seguiu por Piccadilly, ele seguiu na mesma direção e chamou um hansom. Jonathan continuava a olhar para ele e disse, como se para si mesmo:
"Acredito que é o Conde, mas ele rejuvenesceu. Meu Deus, se isto for verdade! Oh, meu Deus! meu Deus! Se eu soubesse! se eu soubesse!" Ele estava a angustiar-se tanto que tive medo de manter a sua mente no assunto ao fazer-lhe perguntas, por isso permaneci em silêncio. Afastei-o calmamente, e ele, segurando o meu braço, veio facilmente. Caminhámos um pouco mais e depois entrámos e sentámo-nos um pouco no Green Park. Era um dia quente para o outono, e havia um assento confortável num local sombrio. Após alguns minutos a olhar para o nada, os olhos de Jonathan fecharam-se e ele adormeceu calmamente, com a cabeça no meu ombro. Achei que era a melhor coisa para ele, por isso não o incomodei. Cerca de vinte minutos depois, ele acordou e disse-me bastante alegremente:
"Ora, Mina, estive a dormir? Oh, perdoa-me por ser tão indelicado. Vamos, e tomaremos uma chávena de chá em qualquer lugar." Ele tinha esquecido evidentemente tudo sobre o estranho de pele escura, tal como na sua doença tinha esquecido tudo o que este episódio lhe tinha recordado. Não gosto desta lapsos de esquecimento; pode causar ou continuar algum dano ao cérebro. Não devo perguntar-lhe, por medo de fazer mais mal do que bem; mas tenho de saber de alguma forma os factos da sua viagem ao estrangeiro. Chegou a altura, temo, em que devo abrir aquele embrulho e saber o que está escrito. Oh, Jonathan, sei que me perdoarás se eu fizer algo errado, mas é pelo teu próprio querido bem.
Mais tarde. — Um regresso a casa triste em todos os aspetos — a casa vazia da querida alma que era tão boa para nós; Jonathan ainda pálido e tonto devido a uma ligeira recaída da sua doença; e agora um telegrama de Van Helsing, seja ele quem for:
"Ficará triste ao saber que a Sra. Westenra morreu há cinco dias, e que a Lucy morreu anteontem. Ambas foram enterradas hoje."
Oh, que riqueza de tristeza em poucas palavras! Pobre Sra. Westenra! pobre Lucy! Partiram, partiram, nunca mais voltarão para nós! E o pobre, pobre Arthur, ter perdido tal doçura da sua vida! Deus nos ajude a todos a suportar os nossos problemas.
Diário do Dr. Seward.
22 de setembro. — Está tudo acabado. Arthur voltou para Ring e levou Quincey Morris consigo. Que belo rapaz é o Quincey! Acredito no fundo do meu coração que ele sofreu tanto com a morte da Lucy como qualquer um de nós; mas portou-se durante todo o processo como um Viking moral. Se a América puder continuar a criar homens como aquele, será, de facto, uma potência mundial. Van Helsing está deitado, a descansar antes da sua viagem. Ele vai para Amesterdão esta noite, mas diz que regressa amanhã à noite; que apenas quer fazer alguns arranjos que só podem ser feitos pessoalmente. Ele ficará comigo então, se puder; diz que tem trabalho a fazer em Londres que lhe pode levar algum tempo. Pobre velho! Temo que a pressão da última semana tenha derrubado até a sua força de ferro. Durante todo o tempo do funeral, pude ver que ele estava a exercer uma contenção terrível sobre si mesmo. Quando tudo terminou, estávamos de pé ao lado de Arthur, que, pobre rapaz, falava da sua parte na operação em que o seu sangue tinha sido transfundido para as veias da sua Lucy; pude ver o rosto de Van Helsing ficar branco e roxo alternadamente. Arthur dizia que sentia, desde então, como se eles os dois tivessem casado realmente, e que ela era sua esposa aos olhos de Deus. Nenhum de nós disse uma palavra sobre as outras operações, e nenhum de nós dirá. Arthur e Quincey foram juntos para a estação, e Van Helsing e eu viemos para aqui. No momento em que ficámos sozinhos na carruagem, ele cedeu a um verdadeiro ataque de histeria. Ele negou-me desde então que fosse histeria, e insistiu que era apenas o seu sentido de humor a afirmar-se sob condições muito terríveis. Ele riu-se até chorar, e eu tive de baixar as cortinas para que ninguém nos visse e julgasse mal; e depois chorou até se rir de novo; e riu-se e chorou ao mesmo tempo, tal como uma mulher faz. Tentei ser severo com ele, como se é com uma mulher nestas circunstâncias; mas não teve efeito. Homens e mulheres são tão diferentes nas manifestações de força ou fraqueza nervosa! Então, quando o seu rosto se tornou grave e severo novamente, perguntei-lhe o motivo da sua alegria, e porquê numa altura daquelas. A sua resposta foi, de certa forma, característica dele, pois era lógica, contundente e misteriosa. Ele disse:
"Ah, não compreendes, amigo John. Não penses que não estou triste, embora me ria. Vê, até chorei quando o riso me sufocou. Mas não penses que estou apenas triste quando choro, pois o riso vem da mesma forma. Guarda sempre contigo que o riso que bate à tua porta e diz: 'Posso entrar?' não é o verdadeiro riso. Não! Ele é um rei, e vem quando e como quer. Ele não pede licença a ninguém; ele não escolhe horários de conveniência. Ele diz: 'Estou aqui.' Vê, por exemplo, lamento a morte daquela jovem tão doce; dou o meu sangue por ela, embora seja velho e gasto; dou o meu tempo, a minha perícia, o meu sono; deixo que os meus outros pacientes sofram para que ela possa ter tudo. E, no entanto, posso rir-me sobre o seu próprio túmulo — rir quando a terra da pá do coveiro cai sobre o seu caixão e diz: 'Tum! tum!' ao meu coração, até que ele envie o sangue de volta das minhas faces. O meu coração sangra por aquele pobre rapaz — aquele querido rapaz, tão da idade do meu próprio filho se eu tivesse sido tão abençoado que ele vivesse, e com o cabelo e os olhos iguais. Aí, agora sabes por que o amo tanto. E, no entanto, quando ele diz coisas que tocam o meu coração de marido no fundo, e fazem o meu coração de pai ansiar por ele como por nenhum outro homem — nem mesmo por ti, amigo John, pois estamos mais nivelados em experiências do que pai e filho — ainda assim, mesmo nesse momento, o Rei Riso vem até mim e grita e berra ao meu ouvido: 'Aqui estou! Aqui estou!', até que o sangue venha dançar de volta e traga um pouco da luz do sol que ele carrega consigo para as minhas faces. Oh, amigo John, é um mundo estranho, um mundo triste, um mundo cheio de misérias, e dores, e problemas; e, no entanto, quando o Rei Riso vem, ele faz com que todos dancem ao ritmo que ele toca. Corações sangrentos, e ossos secos do cemitério, e lágrimas que queimam ao cair — todos dançam juntos para a música que ele faz com aquela sua boca sem sorriso. E acredita em mim, amigo John, que ele é bom ao vir, e bondoso. Ah, nós homens e mulheres somos como cordas esticadas com a tensão que nos puxa em direções diferentes. Então as lágrimas vêm; e, como a chuva nas cordas, elas reforçam-nos, até que talvez a tensão se torne demasiado grande, e nós partimos. Mas o Rei Riso vem como a luz do sol, e ele alivia a tensão novamente; e nós suportamos continuar com o nosso trabalho, seja ele qual for."
Não gostei de o ferir fingindo não entender a sua ideia; mas, como ainda não compreendia a causa do seu riso, perguntei-lho. Ao responder-me, o seu rosto tornou-se severo e ele disse num tom bastante diferente:
"Oh, foi a ironia sombria de tudo isto — esta senhora tão adorável guirlandada com flores, que parecia tão bela como a vida, até que um por um nos questionámos se ela estaria verdadeiramente morta; ela deitada naquela casa de mármore tão fina, naquele cemitério solitário, onde descansam tantos dos seus parentes, deitada lá com a mãe que a amava, e a quem ela amava; e aquele sino sagrado a fazer 'Toim! toim! toim!', tão triste e lento; e aqueles homens santos, com as vestes brancas do anjo, a fingir ler livros, e no entanto, todo o tempo os seus olhos nunca na página; e todos nós com a cabeça curvada. E tudo para quê? Ela está morta; pronto! Não é?"
"Bem, pela minha vida, Professor", disse eu, "não consigo ver nada de que rir em tudo isso. Ora, a sua explicação torna-o num puzzle ainda mais difícil do que antes. Mas mesmo que o serviço fúnebre fosse cómico, e quanto ao pobre Art e o seu problema? Ora, o coração dele estava simplesmente a partir-se."
"Exatamente. Não disse ele que a transfusão do seu sangue para as veias dela a tinha tornado verdadeiramente sua noiva?"
"Sim, e foi uma ideia doce e reconfortante para ele."
“Muito bem. Mas havia uma dificuldade, amigo John. Se assim é, então como ficam os outros? Ho, ho! Então esta menina tão doce é uma poliândrica, e eu, com a minha pobre esposa morta para mim, mas viva perante a lei da Igreja, embora sem juízo, tudo perdido--mesmo eu, que sou marido fiel desta agora-não-esposa, sou bígamo.”
“Também não vejo onde está a piada nisso!” disse eu; e não me senti particularmente satisfeito com ele por dizer tais coisas. Ele pousou a mão no meu braço e disse:--
“Amigo John, perdoe-me se o magoo. Não mostrei o meu sentimento aos outros quando isso os feriria, mas apenas a si, meu velho amigo, em quem posso confiar. Se pudesse ter olhado para o meu próprio coração quando eu queria rir; se pudesse ter olhado quando o riso chegou; se pudesse fazê-lo agora, quando o Rei Riso arrumou a sua coroa e tudo o que lhe pertence--pois ele vai para longe, muito longe de mim, e por um longo, longo tempo--talvez, talvez me tivesse pena, acima de todos.”
Fiquei comovido com a ternura do seu tom e perguntei porquê.
“Porque eu sei!”
E agora estamos todos dispersos; e por muitos e longos dias a solidão sentar-se-á sobre os nossos telhados com asas que pairam. Lucy jaz no túmulo dos seus familiares, uma sepultura senhorial num cemitério isolado, longe da fervilhante Londres; onde o ar é fresco, e o sol nasce sobre Hampstead Hill, e onde as flores silvestres crescem por sua própria vontade.
Portanto, posso terminar este diário; e só Deus sabe se alguma vez começarei outro. Se o fizer, ou se alguma vez abrir isto novamente, será para tratar de pessoas diferentes e temas diferentes; pois aqui, no fim, onde o romance da minha vida é contado, antes de voltar para retomar o fio do meu trabalho de vida, digo tristemente e sem esperança,
“/Finis./”
O “Westminster Gazette”, 25 de setembro.
/Um Mistério em Hampstead./
O bairro de Hampstead está atualmente agitado com uma série de acontecimentos que parecem seguir linhas paralelas às daquilo que era conhecido pelos redatores de manchetes como “O Horror de Kensington”, ou “A Mulher das Facadas”, ou “A Mulher de Preto”. Durante os últimos dois ou três dias, ocorreram vários casos de crianças pequenas que se perderam de casa ou que não voltaram das suas brincadeiras em Heath. Em todos estes casos, as crianças eram demasiado novas para dar qualquer explicação minimamente inteligível sobre si próprias, mas o consenso das suas desculpas é que tinham estado com uma “dama bloofer”. Tem sido sempre tarde da noite quando dão por falta delas, e em duas ocasiões as crianças não foram encontradas até ao início da manhã seguinte. Supõe-se geralmente no bairro que, como a primeira criança que se perdeu deu como razão para a sua ausência o facto de uma “dama bloofer” a ter convidado para um passeio, as outras apanharam a expressão e usaram-na conforme a ocasião servia. Isto é tanto mais natural quanto o jogo favorito dos mais pequenos, neste momento, é atraírem-se uns aos outros com artimanhas. Um correspondente escreve-nos que ver alguns dos pequeninos a fingirem ser a “dama bloofer” é extremamente engraçado. Alguns dos nossos caricaturistas poderiam, diz ele, aprender uma lição sobre a ironia do grotesco comparando a realidade e a imagem. Está apenas de acordo com os princípios gerais da natureza humana que a “dama bloofer” seja o papel popular nestes espetáculos ao ar livre. O nosso correspondente diz, de forma ingénua, que nem Ellen Terry poderia ser tão sedutoramente atraente como algumas destas crianças de cara suja fingem -- e até imaginam -- ser.
Existe, contudo, possivelmente um lado sério na questão, pois algumas das crianças, na verdade todas as que se perderam à noite, foram ligeiramente arranhadas ou feridas na garganta. As feridas parecem ser tais que poderiam ser feitas por um rato ou um cão pequeno, e embora não tenham muita importância individualmente, tenderiam a mostrar que qualquer animal que as inflija tem um sistema ou método próprio. A polícia da divisão recebeu instruções para manter uma vigilância apertada sobre crianças perdidas, especialmente quando muito pequenas, dentro e à volta de Hampstead Heath, e sobre qualquer cão vadio que possa andar por perto.
“O Westminster Gazette”, 25 de setembro.
Edição Extra Especial.
O HORROR DE HAMPSTEAD.
/Mais uma criança ferida./
A “Dama Bloofer”.
Acabámos de receber informações de que outra criança, dada como perdida na noite passada, foi descoberta apenas tarde da manhã sob um arbusto de tojos no lado de Shooter’s Hill em Hampstead Heath, que é, talvez, menos frequentado do que as outras partes. Tem a mesma pequena ferida na garganta que foi notada noutros casos. Estava terrivelmente fraca e parecia bastante emaciada. Também ela, quando parcialmente recuperada, tinha a história comum de ter sido atraída pela “dama bloofer”.
CAPÍTULO XIV.
/Diário de Mina Harker./
23 de setembro.--Jonathan está melhor após uma noite má. Estou tão contente por ele ter muito trabalho para fazer, pois isso mantém a sua mente longe das coisas terríveis; e oh, estou radiante por ele não estar agora sobrecarregado com a responsabilidade da sua nova posição. Sabia que ele seria fiel a si próprio, e agora quão orgulhosa estou por ver o meu Jonathan a atingir o auge da sua promoção e a acompanhar em tudo os deveres que lhe incumbem. Ele estará fora todo o dia até tarde, pois disse que não podia almoçar em casa. O meu trabalho doméstico está feito, por isso vou pegar no seu diário estrangeiro, trancar-me no meu quarto e lê-lo....
24 de setembro.--Não tive coragem de escrever ontem à noite; aquele registo terrível do Jonathan perturbou-me tanto. Pobre querido! Como ele deve ter sofrido, seja verdade ou apenas imaginação. Pergunto-me se existe alguma verdade nisso. Será que ele teve a sua febre cerebral e depois escreveu todas aquelas coisas terríveis; ou teria ele alguma causa para tudo isto? Suponho que nunca saberei, pois não me atrevo a abrir o assunto com ele.... E, no entanto, aquele homem que vimos ontem! Ele parecia bastante certo em relação a ele.... Pobre rapaz! Suponho que foi o funeral que o perturbou e fez a sua mente voltar a alguma linha de pensamento.... Ele próprio acredita em tudo. Lembro-me de como no dia do nosso casamento ele disse: “A menos que algum dever solene me obrigue a voltar às horas amargas, acordado ou a dormir, louco ou são.” Parece haver através de tudo isto um fio de continuidade.... Aquele terrível Conde estava a caminho de Londres.... “Se for o caso, e ele vier a Londres, com os seus milhões fervilhantes.” ... Pode haver um dever solene; e se ele surgir não devemos recuar perante ele.... Estarei preparada. Vou buscar a minha máquina de escrever nesta mesma hora e começar a transcrever. Então estaremos prontos para outros olhos, se necessário. E se for preciso; então, talvez, se eu estiver pronta, o pobre Jonathan não fique perturbado, pois posso falar por ele e nunca deixá-lo ser incomodado ou preocupado com tudo isto. Se alguma vez o Jonathan superar completamente o nervosismo, talvez queira contar-me tudo, e eu posso fazer-lhe perguntas e descobrir coisas, e ver como posso confortá-lo.
Carta, Van Helsing para a Sra. Harker.
“24 de setembro. (Confidencial.)
“Prezada Senhora,--
“Rogo-lhe que me perdoe por escrever, sendo eu tão amigo a ponto de lhe enviar notícias tristes sobre a morte da Srta. Lucy Westenra. Pela bondade de Lord Godalming, estou autorizado a ler as suas cartas e papéis, pois estou profundamente preocupado com certos assuntos de importância vital. Neles encontro algumas cartas suas, que mostram quão grandes amigas eram e como a ama. Oh, Sra. Mina, por esse amor, imploro-lhe, ajude-me. É para o bem de outros que peço -- para reparar um grande erro e para aliviar muitos e terríveis problemas -- que podem ser maiores do que possa imaginar. Poderá ser que a veja? Pode confiar em mim. Sou amigo do Dr. John Seward e de Lord Godalming (que era o Arthur da Srta. Lucy). Devo manter isto privado por agora de todos. Iria a Exeter vê-la imediatamente se me disser que tenho o privilégio de ir, e onde e quando. Imploro o seu perdão, senhora. Li as suas cartas à pobre Lucy, e sei quão boa é e como o seu marido sofre; por isso peço-lhe, se puder ser, não o esclareça, para que não lhe faça mal. Mais uma vez o seu perdão, e perdoe-me.
“/Van Helsing./”
Telegrama, Sra. Harker para Van Helsing.
“25 de setembro.--Venha hoje no comboio das dez e um quarto se conseguir apanhá-lo. Posso vê-lo a qualquer hora que chegue.
“/Wilhelmina Harker./”
/Diário de Mina Harker./
25 de setembro.--Não consigo deixar de me sentir terrivelmente entusiasmada à medida que se aproxima a hora da visita do Dr. Van Helsing, pois de alguma forma espero que lance alguma luz sobre a triste experiência do Jonathan; e como ele assistiu a pobre e querida Lucy na sua última doença, pode contar-me tudo sobre ela. Essa é a razão da sua vinda; é sobre a Lucy e o seu sonambulismo, e não sobre o Jonathan. Então nunca saberei a verdadeira verdade agora! Como sou parva. Aquele diário terrível apodera-se da minha imaginação e tinge tudo com algo da sua própria cor. É claro que é sobre a Lucy. Esse hábito voltou à pobre querida, e aquela noite terrível na falésia deve tê-la deixado doente. Eu tinha quase esquecido, nos meus próprios assuntos, quão doente ela ficou depois. Ela deve ter-lhe contado da sua aventura de sonambulismo na falésia, e que eu sabia tudo sobre isso; e agora ele quer que eu lhe conte sobre isso, para que ele possa compreender. Espero ter feito bem em não dizer nada sobre isso à Sra. Westenra; nunca me perdoaria se qualquer ato meu, mesmo que fosse negativo, trouxesse mal à pobre e querida Lucy. Espero, também, que o Dr. Van Helsing não me culpe; tive tantos problemas e ansiedades ultimamente que sinto que não suporto mais, mesmo agora.
Suponho que um choro faz bem a todos de vez em quando -- limpa o ar como a chuva faz. Talvez tenha sido a leitura do diário ontem que me perturbou, e depois o Jonathan saiu esta manhã para ficar longe de mim um dia e uma noite inteiros, a primeira vez que estivemos separados desde o nosso casamento. Espero mesmo que o querido rapaz se cuide, e que nada aconteça para o perturbar. São duas horas e o médico estará aqui em breve. Não direi nada sobre o diário do Jonathan a menos que ele me pergunte. Estou tão contente por ter passado a limpo o meu próprio diário na máquina de escrever, para que, caso ele pergunte sobre a Lucy, eu possa entregá-lo; poupará muitos interrogatórios.
Mais tarde.--Ele veio e já foi. Oh, que encontro estranho, e como tudo isto faz a minha cabeça girar! Sinto-me como alguém num sonho. Será tudo possível, ou mesmo uma parte disso? Se eu não tivesse lido o diário do Jonathan primeiro, nunca teria aceitado sequer a possibilidade. Pobre, pobre, querido Jonathan! Como ele deve ter sofrido. Queira o bom Deus que tudo isto não o perturbe novamente. Tentarei salvá-lo disso; mas pode até ser um consolo e uma ajuda para ele -- por mais terrível que seja e terrível nas suas consequências -- saber com certeza que os seus olhos, ouvidos e cérebro não o enganaram, e que tudo é verdade. Pode ser que seja a dúvida que o persegue; que quando a dúvida for removida, não importa qual -- acordado ou a sonhar -- possa provar a verdade, ele ficará mais satisfeito e mais capaz de suportar o choque. O Dr. Van Helsing deve ser um bom homem, além de inteligente, se é amigo do Arthur e do Dr. Seward, e se eles o trouxeram desde a Holanda para cuidar da Lucy. Sinto, por o ter visto, que ele é bom, gentil e de uma natureza nobre. Quando ele vier amanhã, perguntar-lhe-ei sobre o Jonathan; e então, queira Deus, toda esta dor e ansiedade possam levar a um bom fim. Eu costumava pensar que gostaria de praticar entrevistas; o amigo do Jonathan no “The Exeter News” disse-lhe que a memória era tudo nesse trabalho -- que é preciso ser capaz de anotar exatamente quase cada palavra dita, mesmo que se tenha de refinar um pouco depois. Aqui estava uma entrevista rara; tentarei registá-la palavra por palavra.
Eram duas e meia da tarde quando se ouviu a batida. Tomei coragem à deux mains e esperei. Em poucos minutos a Mary abriu a porta e anunciou “Dr. Van Helsing”.
Levantei-me e fiz uma vénia, e ele veio na minha direção; um homem de estatura média, de constituição forte, com os ombros puxados para trás sobre um peito largo e profundo e um pescoço bem equilibrado sobre o tronco, tal como a cabeça sobre o pescoço. O porte da cabeça impressiona de imediato como indicativo de pensamento e poder; a cabeça é nobre, de bom tamanho, larga e grande atrás das orelhas. O rosto, bem barbeado, mostra um queixo duro e quadrado, uma boca grande, resoluta e móvel, um nariz de bom tamanho, bastante reto, mas com narinas rápidas e sensíveis, que parecem alargar-se à medida que as sobrancelhas grandes e espessas descem e a boca se aperta. A testa é larga e fina, subindo primeiro quase a direito e depois inclinando-se para trás acima de duas saliências ou protuberâncias bem afastadas; uma testa tal que o cabelo ruivo não pode possivelmente cair sobre ela, mas cai naturalmente para trás e para os lados. Olhos grandes e azul-escuros estão bem afastados, sendo rápidos e ternos ou severos, conforme o estado de espírito do homem. Ele disse-me:--
“Sra. Harker, não é?” Inclinei a cabeça em sinal de assentimento.
“Essa era a Srta. Mina Murray?” Assenti novamente.
“É a Mina Murray que vim ver, que era amiga daquela pobre e querida criança Lucy Westenra. Sra. Mina, é por causa da morta que venho.”
“Senhor,” disse eu, “não poderia ter melhor crédito comigo do que ser amigo e ajudante de Lucy Westenra.” E estendi-lhe a mão. Ele pegou nela e disse ternamente:--
“Oh, Sra. Mina, eu sabia que a amiga daquela pobre rapariga-lírio devia ser boa, mas ainda tinha de aprender....” Ele terminou o seu discurso com uma vénia cortês. Perguntei-lhe sobre o que ele queria falar comigo, por isso ele começou de imediato:--
“Li as suas cartas para a Srta. Lucy. Perdoe-me, mas eu tinha de começar a inquirir em algum lado, e não havia ninguém a quem perguntar. Sei que esteve com ela em Whitby. Ela mantinha por vezes um diário -- não precisa de parecer surpreendida, Sra. Mina; foi começado depois de a senhora partir, e foi feito à sua imitação -- e nesse diário ela traça, por dedução, certas coisas até um sonambulismo em que ela escreve que a senhora a salvou. Em grande perplexidade, então, venho até si e peço-lhe, pela sua grande bondade, que me conte tudo o que se lembra disso.”
“Posso contar-lhe, penso eu, Dr. Van Helsing, tudo sobre isso.”
“Ah, então tem boa memória para factos, para detalhes? Nem sempre é assim com as jovens senhoras.”
“Não, doutor, mas escrevi tudo na altura. Posso mostrar-lho se quiser.”
“Oh, Sra. Mina, ficarei grato; far-me-á um grande favor.” Não pude resistir à tentação de o mistificar um pouco -- suponho que é um pouco do sabor da maçã original que ainda permanece nas nossas bocas -- por isso entreguei-lhe o diário em taquigrafia. Ele pegou nele com uma vénia grata e disse:--
“Posso lê-lo?”
“Se desejar,” respondi tão recatadamente quanto pude. Ele abriu-o e, por um instante, o seu rosto caiu. Depois levantou-se e fez uma vénia.
“Oh, mulher tão inteligente!” disse ele. “Há muito que sabia que o Sr. Jonathan era um homem de muita gratidão; mas veja, a sua esposa tem todas as coisas boas. E não me fará a honra e me ajudará lendo-o para mim? Ai! Não conheço a taquigrafia.” Por esta altura, a minha pequena brincadeira tinha acabado e eu estava quase envergonhada; por isso tirei a cópia mecanografada do meu cesto de costura e entreguei-lha.
“Perdoe-me,” disse eu: “Não pude evitar; mas eu pensava que era sobre a querida Lucy que desejava perguntar, e para que não tivesse de esperar -- não por minha causa, mas porque sei que o seu tempo deve ser precioso -- escrevi-o na máquina de escrever para si.”
Ele pegou nele e os seus olhos brilharam. “É tão boa,” disse ele. “E posso lê-lo agora? Talvez queira perguntar-lhe algumas coisas quando tiver lido.”
“Com certeza,” disse eu, “leia-o enquanto eu encomendo o almoço; e depois pode fazer-me perguntas enquanto comemos.” Ele fez uma vénia, instalou-se numa cadeira de costas para a luz e ficou absorvido nos papéis, enquanto eu fui tratar do almoço, principalmente para que ele não fosse perturbado. Quando voltei, encontrei-o a andar apressadamente de um lado para o outro na sala, com o rosto todo em brasa de entusiasmo. Ele correu para mim e pegou-me por ambas as mãos.
“Oh, Sra. Mina,” disse ele, “como posso dizer o que lhe devo? Este papel é como luz do sol. Abre-me o portão. Estou atordoado, estou deslumbrado com tanta luz; e, no entanto, as nuvens acumulam-se atrás da luz de cada vez. Mas isso a senhora não pode, não consegue, compreender. Oh, mas estou-lhe grato, mulher tão inteligente. Senhora” -- disse isto muito solenemente -- “se alguma vez Abraham Van Helsing puder fazer algo por si ou pelos seus, espero que me avise. Será um prazer e uma delícia se puder servir-lhe como amigo; como amigo, mas tudo o que alguma vez aprendi, tudo o que alguma vez poderei fazer, será para si e para aqueles que ama. Existem trevas na vida, e existem luzes; a senhora é uma das luzes. Terá uma vida feliz e uma vida boa, e o seu marido será abençoado na senhora.”
“Mas, doutor, elogia-me demasiado, e... e não me conhece.”
“Não a conheço -- eu, que sou velho, e que estudei toda a minha vida homens e mulheres; eu, que fiz a minha especialidade o cérebro e tudo o que lhe pertence e tudo o que dele decorre! E li o seu diário que a senhora escreveu tão bem para mim, e que respira verdade em cada linha. Eu, que li a sua carta tão doce à pobre Lucy sobre o seu casamento e a sua confiança, não a conheço! Oh, Sra. Mina, as boas mulheres dizem durante toda a vida, e por dia e por hora e por minuto, tais coisas que os anjos podem ler; e nós, homens que desejamos saber, temos em nós algo dos olhos dos anjos. O seu marido é de natureza nobre, e a senhora também é nobre, pois confia, e a confiança não pode existir onde há uma natureza mesquinha. E o seu marido -- conte-me dele. Está completamente bem? Toda aquela febre desapareceu, e ele está forte e vigoroso?” Vi aqui uma oportunidade para lhe perguntar sobre o Jonathan, por isso disse:--
“Ele quase recuperou, mas ficou muito perturbado com a morte do Sr. Hawkins.” Ele interrompeu:--
“Oh, sim, eu sei, eu sei. Li as suas duas últimas cartas.” Continuei:--
“Suponho que isto o perturbou, pois quando estivemos na cidade na quinta-feira passada, ele teve uma espécie de choque.”
“Um choque, e depois de uma febre cerebral tão cedo! Isso não foi bom. Que tipo de choque foi?”
“Ele pensou ter visto alguém que lhe recordou algo terrível, algo que conduziu à sua febre cerebral.” E, aqui, toda a situação pareceu sobrecarregar-me num ímpeto. A pena por Jonathan, o horror que ele experimentou, todo o mistério assustador do seu diário e o medo que me tem atormentado desde então, tudo surgiu num tumulto. Suponho que estivesse histérica, pois atirei-me de joelhos e estendi-lhe as mãos, suplicando-lhe que restabelecesse o meu marido. Ele tomou-me as mãos, ergueu-me, fez-me sentar no sofá e sentou-se ao meu lado; segurou a minha mão na sua e disse-me, oh, com tamanha doçura infinita:--
“A minha vida é estéril e solitária, e tão cheia de trabalho que não tive muito tempo para amizades; mas, desde que fui convocado para aqui pelo meu amigo John Seward, conheci tantas boas pessoas e vi tamanha nobreza que sinto mais do que nunca — e isso tem crescido com o avançar dos meus anos — a solidão da minha vida. Acredite em mim, portanto, que venho aqui cheio de respeito por si, e deu-me esperança — esperança, não naquilo que procuro, mas de que ainda restam boas mulheres para tornar a vida feliz — boas mulheres, cujas vidas e cujas verdades podem ser uma boa lição para as crianças que hão de vir. Estou contente, muito contente, por poder aqui ser-lhe de alguma utilidade; pois se o seu marido sofre, ele sofre dentro do âmbito do meu estudo e da minha experiência. Prometo-lhe que farei de bom grado tudo o que puder por ele — tudo para tornar a sua vida forte e viril, e a sua vida uma vida feliz. Agora, tem de comer. Está esgotada e, talvez, demasiado ansiosa. O marido Jonathan não gostaria de a ver tão pálida; e o que ele não gosta onde ama, não é para o seu bem. Portanto, por causa dele, deve comer e sorrir. Contou-me tudo sobre Lucy e, por isso, agora não falaremos disso, para que não a perturbe. Ficarei em Exeter esta noite, pois quero refletir sobre o que me disse e, quando tiver refletido, far-lhe-ei perguntas, se me permitir. E então, também me contará sobre o problema do marido Jonathan, tanto quanto puder, mas ainda não. Tem de comer agora; depois, contar-me-á tudo.”
Após o almoço, quando regressámos à sala de estar, ele disse-me:--
“E agora, conte-me tudo sobre ele.” Quando chegou o momento de falar com este grande e erudito homem, comecei a recear que ele me considerasse uma tola fraca e Jonathan um louco — aquele diário é tudo tão estranho — e hesitei em prosseguir. Mas ele era tão doce e gentil, e tinha prometido ajudar, e eu confiava nele, por isso disse:--
“Dr. Van Helsing, o que tenho para lhe dizer é tão bizarro que não deve rir-se de mim nem do meu marido. Desde ontem que estou numa espécie de febre de dúvida; tem de ser gentil comigo e não me achar insensata por ter, por momentos, acreditado em algumas coisas muito estranhas.” Ele tranquilizou-me com a sua atitude, assim como com as suas palavras, quando disse:--
“Oh, minha querida, se soubesse quão estranho é o assunto a respeito do qual estou aqui, seria a senhora a rir-se. Aprendi a não menosprezar a crença de ninguém, por mais estranha que seja. Tentei manter uma mente aberta; e não são as coisas comuns da vida que a poderiam fechar, mas as coisas estranhas, as extraordinárias, as coisas que fazem uma pessoa duvidar se está louca ou sã.”
“Obrigada, obrigada, mil vezes! Tirou-me um peso de cima. Se me permitir, dar-lhe-ei um documento para ler. É longo, mas dactilografei-o. Dir-lhe-á o meu problema e o de Jonathan. É a cópia do diário dele quando esteve no estrangeiro, e tudo o que aconteceu. Não me atrevo a dizer nada sobre isso; lerá por si mesmo e julgará. E depois, quando o vir, talvez seja muito gentil e me diga o que pensa.”
“Prometo”, disse ele enquanto eu lhe entregava os papéis; “irei de manhã, logo que possa, ver a senhora e o seu marido, se me for permitido.”
“Jonathan estará aqui às onze e meia, e tem de vir almoçar connosco e vê-lo então; poderia apanhar o comboio rápido das 3.34, que o deixará em Paddington antes das oito.” Ele ficou surpreendido com o meu conhecimento imediato dos comboios, mas não sabe que decorei todos os horários de comboios de e para Exeter, para que possa ajudar o Jonathan caso ele tenha pressa.
Assim, ele levou os papéis consigo e partiu, e eu fico aqui a pensar — a pensar, não sei em quê.
Carta (entregue em mão), Van Helsing para a Sra. Harker.
“25 de setembro, 6 horas.
“Cara Madame Mina,--
“Li o diário tão maravilhoso do seu marido. Pode dormir sem dúvidas. Por mais estranho e terrível que seja, é verdade! Empenharei a minha vida nisso. Pode ser pior para outros; mas para ele e para si não há receio. Ele é um homem nobre; e deixe-me dizer-lhe, por experiência com homens, que alguém que faria o que ele fez, ao descer aquele muro e entrar naquele quarto — sim, e ao ir uma segunda vez — não é alguém que possa ser ferido permanentemente por um choque. O seu cérebro e o seu coração estão bem; disto juro, antes mesmo de o ter visto; por isso, descanse. Terei muito que lhe perguntar sobre outras coisas. Sou abençoado por hoje ir vê-la, pois aprendi tudo de uma vez, tanto, que estou de novo deslumbrado — deslumbrado mais do que nunca, e tenho de refletir.
“O seu mais fiel, “/Abraham Van Helsing./”
Carta, Sra. Harker para Van Helsing.
“25 de setembro, 18h30.
“Meu caro Dr. Van Helsing,--
“Mil agradecimentos pela sua gentil carta, que tirou um grande peso da minha mente. E, contudo, se for verdade, que coisas terríveis existem no mundo, e que coisa horrível se aquele homem, aquele monstro, estiver realmente em Londres! Receio pensar. Recebi neste momento, enquanto escrevia, um telegrama de Jonathan, dizendo que parte no comboio das 6.25 desta noite de Launceston e estará aqui às 10.18, por isso não terei medo esta noite. Poderá, portanto, em vez de almoçar connosco, vir tomar o pequeno-almoço, às oito horas, se não for demasiado cedo para si? Pode partir, se tiver pressa, no comboio das 10.30, que o levará a Paddington às 2.35. Não responda a isto, pois entenderei que, se não tiver notícias suas, virá tomar o pequeno-almoço.
“Acredite, “Sua fiel e grata amiga, “/Mina Harker./”
/Diário de Jonathan Harker./
26 de setembro.--Pensei nunca mais escrever neste diário, mas chegou a hora. Quando cheguei a casa ontem à noite, Mina tinha o jantar pronto e, depois de termos jantado, contou-me a visita de Van Helsing, o facto de lhe ter entregue os dois diários copiados e quão ansiosa ela tinha estado por mim. Mostrou-me, na carta do doutor, que tudo o que escrevi era verdade. Parece ter feito de mim um novo homem. Foi a dúvida sobre a realidade de toda a situação que me derrotou. Sentia-me impotente, na escuridão e desconfiado. Mas, agora que sei, não tenho medo, nem mesmo do Conde. Ele conseguiu, afinal, o seu objetivo de chegar a Londres, e foi ele que vi. Ele rejuvenesceu, e como? Van Helsing é o homem para o desmascarar e caçá-lo, se ele for algo parecido com o que Mina diz. Ficámos acordados até tarde e falámos sobre tudo. Mina está a vestir-se, e eu passarei pelo hotel em poucos minutos para o trazer...
Ele ficou, penso eu, surpreendido ao ver-me. Quando entrei no quarto onde ele estava e me apresentei, ele pegou-me pelo ombro, virou o meu rosto para a luz e disse, após uma análise perspicaz:--
“Mas a Madame Mina disse-me que o senhor estava doente, que tinha sofrido um choque.” Foi tão engraçado ouvir a minha esposa ser chamada de “Madame Mina” por este velho gentil e de rosto forte. Sorri e disse:--
“Estive doente, sofri um choque; mas o senhor já me curou.”
“E como?”
“Pela sua carta à Mina na noite passada. Eu estava na dúvida, e então tudo adquiriu um tom de irrealidade, e não sabia em que acreditar, nem mesmo na evidência dos meus próprios sentidos. Não sabendo em que confiar, não sabia o que fazer; e, por isso, só tive de continuar a trabalhar no que tinha sido até então a rotina da minha vida. A rotina deixou de me servir e desconfiei de mim mesmo. Doutor, o senhor não sabe o que é duvidar de tudo, até de si mesmo. Não, não sabe; não poderia com sobrancelhas como as suas.” Ele pareceu satisfeito e riu-se enquanto dizia:--
“Ora! É um fisiognomista. Aprendo mais aqui a cada hora. Vou com muito prazer ter consigo ao pequeno-almoço; e, oh, senhor, perdoe o elogio de um velho, mas o senhor é abençoado na sua esposa.” Eu ouviria o dia todo ele a elogiar a Mina, por isso apenas acenei com a cabeça e fiquei em silêncio.
“Ela é uma das mulheres de Deus, moldada pela Sua própria mão para nos mostrar a nós, homens, e a outras mulheres, que existe um céu onde podemos entrar, e que a sua luz pode estar aqui na terra. Tão verdadeira, tão doce, tão nobre, tão pouco egoísta — e isso, deixe-me dizer-lhe, é muito nesta era tão cética e egoísta. E o senhor, senhor — li todas as cartas à pobre Srta. Lucy e algumas delas falam de si, por isso conheço-o desde há alguns dias pelo conhecimento dos outros; mas vi o seu verdadeiro eu desde a noite passada. Dar-me-á a sua mão, não dará? E sejamos amigos por toda a nossa vida.”
Apertámos as mãos, e ele foi tão sincero e tão gentil que fiquei com um nó na garganta.
“E agora”, disse ele, “posso pedir-lhe mais ajuda? Tenho uma grande tarefa a cumprir, e, no início, é preciso saber. O senhor pode ajudar-me aqui. Pode dizer-me o que aconteceu antes da sua ida para a Transilvânia? Mais tarde, poderei pedir mais ajuda, e de um tipo diferente; mas, por agora, isto será suficiente.”
“Veja bem, senhor”, disse eu, “o que tem para fazer diz respeito ao Conde?”
“Diz”, afirmou ele solenemente.
“Então estou consigo de corpo e alma. Como vai no comboio das 10.30, não terá tempo de os ler; mas irei buscar o maço de papéis. Pode levá-los consigo e lê-los no comboio.”
Após o pequeno-almoço, acompanhei-o até à estação. Quando nos despedíamos, ele disse:
“Talvez venha à cidade se eu o chamar, e leve a Madame Mina também.”
“Iremos ambos quando o senhor quiser”, respondi.
Eu tinha-lhe arranjado os jornais da manhã e os jornais de Londres da noite anterior, e enquanto falávamos à janela da carruagem, à espera que o comboio partisse, ele folheava-os. O seu olhar pareceu subitamente encontrar algo num deles, “The Westminster Gazette” — reconheci-o pela cor — e ele ficou completamente pálido. Leu algo atentamente, gemendo para si mesmo: “Mein Gott! Mein Gott! Tão cedo! Tão cedo!” Não penso que se tenha lembrado de mim naquele momento. Nesse instante, o apito soou e o comboio partiu. Isso trouxe-o de volta à realidade, e ele debruçou-se pela janela e acenou com a mão, gritando: “Amor para a Madame Mina; escreverei logo que puder.”
Diário do Dr. Seward.
26 de setembro.--Verdadeiramente, não existe tal coisa como a finalidade. Não faz uma semana que disse “Finis”, e aqui estou eu a começar tudo de novo, ou melhor, a continuar o mesmo registo. Até esta tarde, não tive motivos para pensar no que foi feito. Renfield tornou-se, para todos os efeitos, tão são quanto sempre foi. Ele já estava bem adiantado com o seu negócio de moscas; e tinha acabado de começar também no ramo das aranhas; por isso, não me tem causado qualquer problema. Recebi uma carta do Arthur, escrita no domingo, e dela concluo que ele está a aguentar-se maravilhosamente bem. Quincey Morris está com ele, e isso é uma grande ajuda, pois ele próprio é uma fonte inesgotável de bom humor. Quincey escreveu-me também umas linhas, e dele soube que Arthur está a começar a recuperar algo da sua antiga vivacidade; por isso, quanto a eles, a minha mente está descansada. Quanto a mim, estava a dedicar-me ao meu trabalho com o entusiasmo que costumava ter, de modo que poderia ter dito que a ferida que a pobre Lucy me deixou estava a cicatrizar. Tudo, contudo, está agora reaberto; e qual será o fim, só Deus sabe. Tenho a ideia de que Van Helsing pensa que também sabe, mas ele só deixa escapar o suficiente de cada vez para aguçar a curiosidade. Ele foi a Exeter ontem e lá ficou toda a noite. Hoje regressou e quase saltou para dentro do meu quarto por volta das cinco e meia, e enfiou o “Westminster Gazette” da noite passada na minha mão.
“O que pensa disto?” perguntou ele enquanto se afastava e cruzava os braços.
Olhei para o jornal, pois não percebia realmente o que ele queria dizer; mas ele tirou-mo e apontou um parágrafo sobre crianças a serem atraídas para fora em Hampstead. Não me disse muito, até chegar a uma passagem onde descrevia pequenas feridas perfuradas nas suas gargantas. Uma ideia ocorreu-me e olhei para cima. “Bem?” disse ele.
“É como a da pobre Lucy.”
“E o que deduz disso?”
“Simplesmente que existe uma causa em comum. O que quer que tenha ferido a ela, feriu-os a eles.” Não entendi bem a sua resposta:--
“Isso é verdade indiretamente, mas não diretamente.”
“O que quer dizer, Professor?” perguntei. Estava um pouco inclinado a levar a sua seriedade de ânimo leve — pois, afinal, quatro dias de descanso e de liberdade da ardente e angustiante ansiedade ajudam a restaurar o ânimo — mas, quando vi o seu rosto, isso serenou-me. Nunca, nem mesmo no meio do nosso desespero pela pobre Lucy, ele tinha parecido tão severo.
“Diga-me!” insisti. “Não posso arriscar qualquer opinião. Não sei o que pensar e não tenho dados sobre os quais basear uma conjectura.”
“Quer dizer-me, amigo John, que não tem qualquer suspeita sobre o que a pobre Lucy morreu; não depois de todas as pistas dadas, não apenas pelos eventos, mas por mim?”
“De prostração nervosa na sequência de uma grande perda ou esgotamento de sangue.”
“E como foi o sangue perdido ou esgotado?” Balancei a cabeça. Ele aproximou-se, sentou-se ao meu lado e continuou:--
“O senhor é um homem inteligente, amigo John; raciocina bem e a sua sagacidade é ousada; mas é demasiado preconceituoso. Não deixa os seus olhos verem nem os seus ouvidos ouvirem, e o que está fora da sua vida quotidiana não tem importância para si. Não pensa que existem coisas que não pode compreender e que, no entanto, existem; que algumas pessoas veem coisas que outras não podem? Mas há coisas antigas e novas que não devem ser contempladas pelos olhos dos homens, porque eles sabem — ou pensam que sabem — algumas coisas que outros homens lhes disseram. Ah, é a falha da nossa ciência querer explicar tudo; e se não explica, então diz que não há nada para explicar. Mas, ainda assim, vemos à nossa volta todos os dias o crescimento de novas crenças, que se pensam novas; e que, contudo, são apenas as antigas, que fingem ser jovens — como as finas damas na ópera. Suponho que o senhor não acredita em transferência corpórea. Não? Nem em materialização. Não? Nem em corpos astrais. Não? Nem na leitura do pensamento. Não? Nem em hipnotismo----”
“Sim”, disse eu. “Charcot provou isso bastante bem.” Ele sorriu enquanto continuava: “Então está satisfeito quanto a isso. Sim? E, claro, então entende como funciona, e pode seguir a mente do grande Charcot — ai de nós que ele já não existe! — até à própria alma do paciente que ele influencia. Não? Então, amigo John, devo entender que o senhor aceita simplesmente o facto e fica satisfeito por deixar em branco a passagem da premissa para a conclusão? Não? Então diga-me — pois sou um estudante do cérebro — como aceita o hipnotismo e rejeita a leitura do pensamento. Deixe-me dizer-lhe, meu amigo, que há coisas feitas hoje na ciência elétrica que teriam sido consideradas ímpias pelos próprios homens que descobriram a eletricidade — que eles próprios, não há muito tempo, teriam sido queimados como feiticeiros. Existem sempre mistérios na vida. Porque foi que Matusalém viveu novecentos anos, e ‘Old Parr’ cento e sessenta e nove, e contudo a pobre Lucy, com o sangue de quatro homens nas suas pobres veias, não pôde viver sequer um dia? Pois, se ela tivesse vivido mais um dia, podíamos tê-la salvo. Conhece todo o mistério da vida e da morte? Conhece a totalidade da anatomia comparada e pode dizer porque é que as qualidades dos brutos estão em alguns homens e não noutros? Pode dizer-me porque é que, quando outras aranhas morrem pequenas e cedo, aquela grande aranha viveu durante séculos na torre da antiga igreja espanhola e cresceu e cresceu, até que, ao descer, podia beber o óleo de todas as lâmpadas da igreja? Pode dizer-me porque é que nos Pampas, sim, e noutros lugares, existem morcegos que vêm à noite e abrem as veias do gado e dos cavalos e sugam-lhes as veias até à exaustão; como é que em algumas ilhas dos mares ocidentais há morcegos que ficam pendurados nas árvores todo o dia, que aqueles que viram descrevem como semelhantes a nozes ou vagens gigantes, e que, quando os marinheiros dormem no convés, porque está calor, voam sobre eles, e então — e então, pela manhã, encontram-se homens mortos, brancos como a própria Srta. Lucy estava?”
“Meu Deus, Professor!” disse eu, sobressaltando-me. “Quer dizer-me que a Lucy foi mordida por um morcego desses; e que tal coisa está aqui em Londres no século dezanove?” Ele agitou a mão para pedir silêncio e continuou:--
“Pode dizer-me porque é que a tartaruga vive mais tempo do que gerações de homens; porque é que o elefante continua e continua até ter visto dinastias; e porque é que o papagaio nunca morre, a não ser por mordidela de gato ou cão ou outra doença? Pode dizer-me porque é que os homens acreditam em todas as eras e lugares que existem alguns poucos que vivem sempre se lhes for permitido; que existem homens e mulheres que não podem morrer? Todos nós sabemos — porque a ciência atestou o facto — que houve sapos fechados em rochas durante milhares de anos, fechados num buraco tão pequeno que só o continha desde a juventude do mundo. Pode dizer-me como o faquir indiano pode fazer-se morrer e ser enterrado, e o seu túmulo selado e milho semeado sobre ele, e o milho ceifado e cortado e semeado e ceifado e cortado novamente, e então os homens vêm e retiram o selo intacto, e lá jaz o faquir indiano, não morto, mas que se levanta e caminha entre eles como antes?” Aqui interrompi-o. Estava a ficar atordoado; ele acumulava na minha mente a sua lista de excentricidades da natureza e possíveis impossibilidades, de tal forma que a minha imaginação estava a ser inflamada. Tinha uma vaga ideia de que ele me estava a dar uma lição, como há muito tempo costumava fazer no seu gabinete em Amesterdão; mas ele costumava dizer-me a coisa de forma a que eu pudesse ter o objeto de pensamento em mente o tempo todo. Mas agora eu estava sem a sua ajuda, contudo queria segui-lo, por isso disse:--
“Professor, deixe-me ser novamente o seu aluno predileto. Diga-me a tese, para que eu possa aplicar o seu conhecimento à medida que prossegue. Neste momento, estou a ir de ponto em ponto na minha mente como um louco, e não como um homem são, segue uma ideia. Sinto-me como um novato a caminhar aos tropeções por um pântano num nevoeiro, saltando de um tufo de erva para outro no mero esforço cego de seguir em frente, sem saber para onde vou.”
“Essa é uma boa imagem”, disse ele. “Bem, eu dir-lho-ei. A minha tese é esta: quero que acredite.”
“Acreditar em quê?”
“Acreditar em coisas que não pode. Deixe-me ilustrar. Ouvi uma vez falar de um americano que definiu a fé da seguinte forma: ‘aquilo que nos permite acreditar em coisas que sabemos serem falsas’. Quanto a mim, sigo esse homem. Ele queria dizer que devemos ter uma mente aberta e não deixar que um pouco de verdade trave o ímpeto de uma verdade maior, tal como uma pequena pedra faz a um vagão ferroviário. Primeiro, obtemos a pequena verdade. Bom! Guardamo-la e valorizamo-la; mas, ainda assim, não devemos deixar que ela pense que é toda a verdade do universo.”
“Então, o senhor quer que eu não permita que alguma convicção anterior prejudique a recetividade da minha mente em relação a algum assunto estranho. Interpreto bem a sua lição?”
“Ah, ainda é o meu aluno favorito. Vale a pena ensiná-lo. Agora que está disposto a compreender, deu o primeiro passo para compreender. Então, pensa que aqueles orifícios tão pequenos nas gargantas das crianças foram feitos pelo mesmo que fez o orifício na Srta. Lucy?”
“Suponho que sim.” Ele levantou-se e disse solenemente:--
“Então está enganado. Oh, quem me dera que fosse assim! Mas, infelizmente, não. É pior, muito, muito pior.”
“Em nome de Deus, Professor Van Helsing, o que quer dizer?”, exclamei.
Ele atirou-se para uma cadeira com um gesto de desespero e colocou os cotovelos sobre a mesa, cobrindo o rosto com as mãos enquanto falava:--
“Foram feitos pela Srta. Lucy!”
CAPÍTULO XV.
/Diário do Dr. Seward/--continuação.
Por momentos, uma raiva pura dominou-me; foi como se ele tivesse esbofeteado a Lucy durante a vida dela. Golpei a mesa com força e levantei-me ao dizer-lhe:--
“Dr. Van Helsing, está louco?” Ele ergueu a cabeça e olhou para mim, e, de alguma forma, a ternura no seu rosto acalmou-me de imediato. “Quem me dera!”, disse ele. “A loucura seria fácil de suportar comparada com uma verdade como esta. Oh, meu amigo, porque pensa que dei tantas voltas, porque demorei tanto tempo a dizer-lhe uma coisa tão simples? Será porque o odeio e o odiei toda a minha vida? Será porque desejei causar-lhe dor? Será porque queria, agora tão tarde, vingar-me daquele tempo em que salvou a minha vida, e de uma morte terrível? Ah, não!”
“Perdoe-me”, disse eu. Ele continuou:--
“Meu amigo, foi porque desejei ser gentil ao revelar-lho, pois sei que amou essa senhora tão doce. Mas ainda assim não espero que acredite. É tão difícil aceitar de imediato qualquer verdade abstrata, que podemos duvidar que tal seja possível quando sempre acreditamos no ‘não’ da mesma; é ainda mais difícil aceitar uma verdade concreta tão triste, e de alguém como a Srta. Lucy. Esta noite vou prová-lo. Ousa vir comigo?”
Isto deixou-me atordoado. Um homem não gosta de provar tal verdade; excetuando Byron da categoria, o ciúme.
“E provar a própria verdade que ele mais abominava.”
Ele viu a minha hesitação e falou:--
“A lógica é simples, desta vez não é lógica de louco, a saltar de tufo em tufo num nevoeiro cerrado. Se não for verdade, então a prova será um alívio; no pior dos casos, não fará mal. Se for verdade! Ah, aí reside o pavor; contudo, o próprio pavor deve ajudar a minha causa, pois nele existe alguma necessidade de crença. Venha, digo-lhe o que proponho: primeiro, que vamos agora ver aquela criança no hospital. O Dr. Vincent, do Hospital do Norte, onde os jornais dizem que a criança está, é meu amigo, e penso que também seu, desde que estava nas aulas em Amesterdão. Ele deixará dois cientistas verem o seu caso, se não deixar dois amigos. Não lhe diremos nada, apenas que desejamos aprender. E depois...”
“E depois?” Ele tirou uma chave do bolso e ergueu-a. “E depois passaremos a noite, você e eu, no cemitério onde a Lucy jaz. Esta é a chave que tranca o túmulo. Recebi-a do agente funerário para a dar ao Arthur.” O meu coração afundou-se, pois senti que havia uma provação terrível à nossa frente. Contudo, não podia fazer nada, por isso ganhei coragem e disse que era melhor apressarmo-nos, pois a tarde estava a passar...
Encontrámos a criança acordada. Tinha dormido e ingerido algum alimento, e, no geral, estava a recuperar bem. O Dr. Vincent retirou a ligadura da garganta e mostrou-nos as perfurações. Não havia como enganar a semelhança com as que tinham estado na garganta da Lucy. Eram menores e as bordas pareciam mais frescas; era só isso. Perguntámos ao Vincent a que as atribuía, e ele respondeu que devia ter sido a mordedura de algum animal, talvez um rato; mas, quanto a si, estava inclinado a pensar que se tratava de um dos morcegos que são tão numerosos nas colinas a norte de Londres. “De tantos que são inofensivos”, disse ele, “pode haver algum espécime selvagem do Sul de uma espécie mais maligna. Algum marinheiro pode ter trazido um para casa e ele conseguiu escapar; ou até mesmo dos Jardins Zoológicos um jovem pode ter-se soltado, ou um ter sido criado lá a partir de um vampiro. Estas coisas acontecem, sabe. Há apenas dez dias um lobo saiu e foi, creio eu, seguido nesta direção. Durante uma semana depois, as crianças não brincavam a outra coisa senão ao Capuchinho Vermelho na charneca e em todos os becos do lugar até que este susto da ‘bloofer lady’ surgiu, desde então tem sido uma época festiva para elas. Até este pobre pequenito, quando acordou hoje, perguntou à enfermeira se podia ir embora. Quando ela lhe perguntou por que queria ir, ele disse que queria ir brincar com a ‘bloofer lady’.”
“Espero”, disse Van Helsing, “que quando enviar a criança para casa, advirta os seus pais para manterem uma vigilância rigorosa sobre ela. Estes caprichos de vaguear são muito perigosos; e se a criança permanecesse fora mais uma noite, seria provavelmente fatal. Mas, de qualquer forma, suponho que não a deixará sair durante alguns dias?”
“Certamente que não, nem durante uma semana, pelo menos; mais tempo se a ferida não cicatrizar.”
A nossa visita ao hospital levou mais tempo do que tínhamos calculado, e o sol já se tinha posto quando saímos. Quando Van Helsing viu o quão escuro estava, disse:--
“Não há pressa. Está mais tarde do que pensava. Venha, vamos procurar um lugar onde possamos comer, e depois seguiremos o nosso caminho.”
Jantámos no “Jack Straw’s Castle” juntamente com uma pequena multidão de ciclistas e outros que estavam genialmente barulhentos. Por volta das dez horas, partimos da estalagem. Estava então muito escuro, e os candeeiros dispersos tornavam a escuridão maior assim que estávamos fora do seu raio individual. O Professor tinha notado evidentemente a estrada por onde devíamos seguir, pois avançou sem hesitar; mas, quanto a mim, estava numa grande confusão quanto à localização. À medida que avançávamos, encontrávamos cada vez menos pessoas, até que, por fim, ficámos algo surpreendidos quando encontrámos a patrulha da polícia montada a fazer a sua habitual ronda suburbana. Finalmente, chegámos ao muro do cemitério, que saltámos. Com alguma dificuldade -- pois estava muito escuro e todo o lugar parecia-nos tão estranho -- encontrámos o túmulo dos Westenra. O Professor pegou na chave, abriu a porta rangente e, recuando educadamente, mas de forma bastante inconsciente, fez-me sinal para que o precedesse. Havia uma ironia deliciosa na oferta, na cortesia de dar preferência numa ocasião tão macabra. O meu companheiro seguiu-me rapidamente e, cautelosamente, puxou a porta, após certificar-se cuidadosamente de que a fechadura era de queda e não de mola. Neste último caso, estaríamos em apuros. Depois, remexeu na sua bolsa e, retirando uma caixa de fósforos e um pedaço de vela, procedeu a acender uma luz. O túmulo, durante o dia e quando adornado com flores frescas, parecia suficientemente sombrio e horrendo; mas agora, alguns dias depois, quando as flores pendiam murchas e mortas, os seus brancos tornando-se ferrugem e os seus verdes castanhos; quando a aranha e o escaravelho tinham retomado o seu domínio habitual; quando a pedra descolorada pelo tempo, a argamassa incrustada de poeira, o ferro enferrujado e húmido, o latão manchado e o banho de prata baço refletiam o brilho fraco de uma vela, o efeito era mais miserável e sórdido do que se poderia imaginar. Transmitia irresistivelmente a ideia de que a vida — a vida animal — não era a única coisa que podia desaparecer.
Van Helsing ocupou-se do seu trabalho sistematicamente. Segurando a vela de forma a poder ler as placas dos caixões, e segurando-a de modo a que o espermacete caísse em manchas brancas que congelavam ao tocar no metal, ele certificou-se do caixão da Lucy. Outra busca na sua bolsa, e ele retirou uma chave de fendas.
“O que vai fazer?”, perguntei.
“Abrir o caixão. Ainda se convencerá.” Imediatamente, começou a retirar os parafusos e, finalmente, levantou a tampa, mostrando a caixa de chumbo por baixo. A visão foi quase demais para mim. Parecia ser tanto um insulto aos mortos como teria sido despi-la enquanto dormia, estando viva; cheguei mesmo a agarrar a sua mão para o impedir. Ele apenas disse: “Você verá”, e, remexendo novamente na sua bolsa, retirou uma pequena serra de recorte. Cravando a chave de fendas através do chumbo com um golpe rápido e descendente, que me fez estremecer, ele fez um pequeno orifício, que, contudo, era grande o suficiente para admitir a ponta da serra. Eu esperava uma lufada de gás do cadáver com uma semana. Nós, médicos, que tivemos de estudar os nossos perigos, temos de nos habituar a tais coisas, e recuei em direção à porta. Mas o Professor nunca parou por um momento; serrou uns sessenta centímetros ao longo de um lado do caixão de chumbo, e depois transversalmente, e para baixo do outro lado. Pegando na borda da flange solta, dobrou-a para trás em direção ao pé do caixão e, erguendo a vela para a abertura, fez-me sinal para olhar.
Aproximei-me e olhei. O caixão estava vazio.
Foi certamente uma surpresa para mim e causou-me um choque considerável, mas Van Helsing estava impassível. Estava agora mais seguro do que nunca da sua posição e, portanto, encorajado a prosseguir na sua tarefa. “Está satisfeito agora, amigo John?”, perguntou ele.
Senti toda a teimosia argumentativa da minha natureza despertar dentro de mim enquanto lhe respondia:
“Estou satisfeito por o corpo da Lucy não estar naquele caixão; mas isso prova apenas uma coisa.”
“E o que é isso, amigo John?”
“Que não está lá.”
“Essa é uma boa lógica”, disse ele, “até onde chega. Mas como é que você — como pode você — explicar o facto de não estar lá?”
“Talvez um ladrão de corpos”, sugeri. “Algum dos funcionários do agente funerário pode tê-lo roubado.” Senti que estava a dizer uma loucura, e ainda assim era a única causa real que podia sugerir. O Professor suspirou. “Ah, bem!”, disse ele, “temos de ter mais provas. Venha comigo.”
Colocou a tampa do caixão novamente, juntou todas as suas coisas e colocou-as na bolsa, apagou a luz e colocou a vela também na bolsa. Abrimos a porta e saímos. Atrás de nós, ele fechou a porta e trancou-a. Entregou-me a chave, dizendo: “Quer guardá-la? É melhor ficar assegurado.” Ri-me — não foi um riso muito alegre, sou obrigado a dizer — enquanto lhe fiz sinal para a guardar. “Uma chave não é nada”, disse eu; “podem existir duplicados; e de qualquer forma não é difícil abrir uma fechadura desse tipo.” Ele não disse nada, mas guardou a chave no bolso. Depois, disse-me para vigiar de um lado do cemitério enquanto ele vigiava do outro. Ocupei o meu lugar atrás de um teixo e vi a sua figura escura mover-se até que as lápides e árvores intermédias a esconderam da minha vista.
Foi uma vigília solitária. Logo depois de ter ocupado o meu lugar, ouvi um relógio distante bater doze horas, e com o tempo vieram uma e duas. Estava gelado e nervoso, e zangado com o Professor por me levar numa missão destas e comigo mesmo por ter vindo. Estava demasiado frio e demasiado sonolento para ser atentamente observador, e não suficientemente sonolento para trair a minha confiança; por isso, ao todo, tive um tempo sombrio e miserável.
De repente, ao virar-me, pensei ter visto algo semelhante a um traço branco a mover-se entre dois teixos escuros no lado do cemitério mais afastado do túmulo; ao mesmo tempo, uma massa escura moveu-se do lado do Professor no terreno e apressou-se em direção a ele. Então, eu também me movi; mas tive de contornar lápides e túmulos gradeados, e tropecei em campas. O céu estava nublado e, algures longe, um galo cantou cedo. Um pouco mais longe, para lá de uma linha de zimbros dispersos que marcavam o caminho para a igreja, uma figura branca e ténue esvoaçou na direção do túmulo. O túmulo em si estava escondido pelas árvores e não pude ver onde a figura desapareceu. Ouvi o roçar de movimento real onde tinha visto pela primeira vez a figura branca e, ao aproximar-me, encontrei o Professor a segurar nos braços uma criança minúscula. Quando me viu, estendeu-ma e disse:--
“Está satisfeito agora?”
“Não”, disse eu, de uma forma que senti ser agressiva.
“Não vê a criança?”
“Sim, é uma criança, mas quem a trouxe para aqui? E está ferida?”, perguntei.
“Veremos”, disse o Professor e, com um impulso, saímos do cemitério, ele a carregar a criança adormecida.
Quando nos afastámos um pouco, entrámos num grupo de árvores, acendemos um fósforo e olhámos para a garganta da criança. Estava sem um arranhão ou cicatriz de qualquer tipo.
“Tinha razão?”, perguntei triunfante.
“Chegámos mesmo a tempo”, disse o Professor, agradecido.
Tínhamos agora de decidir o que fazer com a criança, e por isso consultámo-nos sobre isso. Se a levássemos a uma esquadra da polícia, teríamos de dar alguma explicação sobre os nossos movimentos durante a noite; pelo menos, teríamos de fazer alguma declaração sobre como tínhamos encontrado a criança. Por isso, finalmente decidimos que a levaríamos para a charneca e, quando ouvíssemos um polícia a aproximar-se, deixá-la-íamos onde ele não pudesse deixar de a encontrar; depois, procuraríamos o nosso caminho para casa o mais rapidamente possível. Tudo correu bem. Na extremidade de Hampstead Heath, ouvimos o passo pesado de um polícia e, colocando a criança no caminho, esperámos e vigiámos até que ele a visse enquanto passava a lanterna de um lado para o outro. Ouvimos a sua exclamação de espanto e depois fomos embora silenciosamente. Por boa sorte, conseguimos um táxi perto do “Spaniards” e fomos para a cidade.
Não consigo dormir, por isso faço este registo. Mas tenho de tentar dormir algumas horas, pois o Van Helsing deve vir buscar-me ao meio-dia. Ele insiste que vá com ele noutra expedição.
27 de setembro.--Eram duas horas antes de encontrarmos uma oportunidade adequada para a nossa tentativa. O funeral realizado ao meio-dia estava todo concluído e os últimos retardatários dos enlutados tinham-se retirado preguiçosamente, quando, olhando cuidadosamente por trás de um grupo de amieiros, vimos o coveiro trancar o portão atrás de si. Sabíamos então que estávamos a salvo até de manhã, se o desejássemos; mas o Professor disse-me que não precisaríamos de mais do que uma hora, no máximo. Mais uma vez, senti aquele sentido horrível da realidade das coisas, em que qualquer esforço de imaginação parecia fora de lugar; e apercebi-me distintamente dos perigos da lei que estávamos a incorrer no nosso trabalho profano. Além disso, senti que era tudo tão inútil. Por ultrajante que fosse abrir um caixão de chumbo para ver se uma mulher morta há quase uma semana estava realmente morta, parecia agora o auge da loucura abrir o túmulo novamente, quando sabíamos, pela evidência da nossa própria visão, que o caixão estava vazio. Encolhi os ombros, contudo, e permaneci em silêncio, pois Van Helsing tinha um jeito de seguir o seu próprio caminho, não importando quem protestasse. Ele pegou na chave, abriu o jazigo e novamente fez-me um sinal cortês para precedê-lo. O lugar não era tão horrendo como na noite anterior, mas oh, quão inefavelmente mesquinho parecia quando a luz do sol entrava. Van Helsing caminhou até ao caixão da Lucy e eu segui-o. Ele inclinou-se e forçou novamente a flange de chumbo; e então um choque de surpresa e consternação atravessou-me.
Lá jazia a Lucy, aparentemente tal como a tínhamos visto na noite anterior ao seu funeral. Ela estava, se possível, mais radiantemente bela do que nunca; e não conseguia acreditar que estivesse morta. Os lábios estavam vermelhos, não, mais vermelhos do que antes; e nas bochechas havia um brilho delicado.
“Isto é um truque?”, disse-lhe eu.
“Está convencido agora?”, disse o Professor em resposta e, enquanto falava, passou a mão e, de uma forma que me fez estremecer, puxou os lábios mortos e mostrou os dentes brancos.
“Veja”, continuou ele, “veja, eles estão ainda mais afiados do que antes. Com isto e isto” — e tocou num dos dentes caninos e no que estava abaixo dele — “as criancinhas podem ser mordidas. Está convencido agora, amigo John?” Mais uma vez, a hostilidade argumentativa despertou dentro de mim. Não podia aceitar uma ideia tão avassaladora como a que ele sugeria; por isso, com uma tentativa de argumentar da qual me envergonhei até no momento, disse:--
“Ela pode ter sido colocada aqui desde a noite passada.”
“De facto? Isso é assim, e por quem?”
“Não sei. Alguém o fez.”
“E ainda assim ela está morta há uma semana. A maioria das pessoas nesse tempo não pareceria assim.” Não tive resposta para isto, por isso fiquei em silêncio. Van Helsing não pareceu notar o meu silêncio; de qualquer modo, não mostrou nem desgosto nem triunfo. Ele olhava atentamente para o rosto da mulher morta, levantando as pálpebras e olhando para os olhos, e abrindo novamente os lábios e examinando os dentes. Depois, virou-se para mim e disse:--
“Aqui, há uma coisa que é diferente de tudo o que foi registado: aqui há uma vida dupla que não é como a comum. Ela foi mordida pelo vampiro quando estava em transe, sonâmbula — oh, você sobressalta-se; você não sabe disso, amigo John, mas saberá tudo mais tarde — e em transe ele podia melhor vir buscar mais sangue. Em transe ela morreu, e em transe ela está Não-Morta, também. É assim que ela difere de todos os outros. Normalmente, quando os Não-Mortos dormem em casa” — enquanto falava, fez um gesto abrangente com o braço para designar o que para um vampiro era “casa” — “os seus rostos mostram o que são, mas esta tão doce que-foi quando ela não estava Não-Morta, ela volta ao nada dos mortos comuns. Não há malignidade ali, veja, e por isso torna-se difícil ter de a matar no seu sono.” Isto deixou o meu sangue frio, e começou a ocorrer-me que estava a aceitar as teorias de Van Helsing; mas se ela estivesse realmente morta, o que havia de terror na ideia de a matar? Ele olhou para mim e, evidentemente, viu a mudança no meu rosto, pois disse quase alegremente:--
“Ah, acredita agora?”
Respondi: “Não me pressione tanto de uma só vez. Estou disposto a aceitar. Como fará este trabalho sangrento?”
“Cortar-lhe-ei a cabeça e encherei a sua boca com alho, e atravessarei o seu corpo com uma estaca.” Fez-me estremecer pensar em mutilar assim o corpo da mulher a quem amara. E, contudo, o sentimento não era tão forte como esperara. Estava, na verdade, a começar a estremecer perante a presença deste ser, este Não-Morto, como Van Helsing lhe chamava, e a detestá-lo. Será possível que o amor seja todo subjetivo, ou todo objetivo?
Esperei um tempo considerável por que Van Helsing começasse, mas ele permaneceu como que absorto em pensamentos. Momentos depois, fechou o fecho da sua mala com um estalido e disse:--
“Tenho estado a pensar, e decidi o que é melhor. Se eu seguisse simplesmente a minha inclinação, faria agora, neste momento, o que há a fazer; mas há outras coisas a seguir, e coisas que são mil vezes mais difíceis, pois não as conhecemos. Isto é simples. Ela ainda não tirou nenhuma vida, embora isso seja apenas uma questão de tempo; e agir agora seria remover o perigo dela para sempre. Mas então poderemos precisar de Arthur, e como lhe diremos isto? Se tu, que viste as feridas na garganta de Lucy, e viste as feridas tão semelhantes na criança do hospital; se tu, que viste o caixão vazio ontem à noite e cheio hoje com uma mulher que não mudou, a não ser para estar mais rosada e mais bela uma semana inteira depois de ter morrido--se tu sabes disto e sabes da figura branca da noite passada que trouxe a criança para o cemitério, e ainda assim, pelos teus próprios sentidos, não acreditaste, como, então, posso eu esperar que Arthur, que não conhece nada disto, acredite? Ele duvidou de mim quando o afastei do beijo dela enquanto ela morria. Sei que ele me perdoou porque, numa ideia errada, fiz coisas que o impediram de se despedir como devia; e ele pode pensar que, numa ideia ainda mais errada, esta mulher foi enterrada viva; e que, no maior erro de todos, nós matá-la-íamos. Ele então argumentará que somos nós, os equivocados, que a matámos pelas nossas ideias; e assim ele será sempre muito infeliz. Contudo, ele nunca poderá ter a certeza; e isso é o pior de tudo. E ele pensará por vezes que aquela que amava foi enterrada viva, e isso pintará os seus sonhos com horrores do que ela deve ter sofrido; e, por outro lado, pensará que podemos ter razão, e que a sua tão amada era, afinal, uma Não-Morta. Não! Disse-lho uma vez, e desde então aprendi muito. Agora, uma vez que sei que é tudo verdade, cem mil vezes mais sei que ele deve passar pelas águas amargas para alcançar as doces. Ele, pobre rapaz, deve ter uma hora que fará a própria face do céu tornar-se negra para ele; então poderemos agir para o bem de todos e trazer-lhe paz. A minha decisão está tomada. Vamos. Tu regressas a casa para o teu asilo esta noite, e certifica-te de que tudo está bem. Quanto a mim, passarei a noite aqui neste cemitério à minha maneira. Amanhã à noite virás ter comigo ao Berkeley Hotel às dez horas. Mandarei chamar Arthur para vir também, e também aquele tão distinto jovem da América que deu o seu sangue. Mais tarde, teremos todos trabalho a fazer. Vou contigo até Piccadilly e janto lá, pois tenho de estar de volta aqui antes que o sol se ponha.”
Portanto, trancámos o túmulo e viemos embora, saltámos o muro do cemitério, o que não foi tarefa difícil, e voltámos para Piccadilly.
_Nota deixada por Van Helsing na sua mala de viagem, Berkeley Hotel, dirigida a John Seward, M.D._
(Não entregue.)
“27 de setembro.
“Amigo John,--
“Escrevo isto para o caso de algo acontecer. Vou sozinho vigiar naquele cemitério. Agrada-me que a Não-Morta, menina Lucy, não parta esta noite, para que na noite seguinte ela esteja mais ansiosa. Por isso, fixarei algumas coisas de que ela não gosta--alho e um crucifixo--e assim selarei a porta do túmulo. Ela é jovem como Não-Morta, e prestará atenção. Além disso, estas coisas servem apenas para impedir que ela saia; podem não prevalecer contra o seu desejo de entrar; pois então a Não-Morta fica desesperada, e deve encontrar o caminho de menor resistência, seja ele qual for. Estarei à mão toda a noite, do pôr do sol até depois do nascer do sol, e se houver algo que se possa aprender, eu aprendê-lo-ei. Quanto à menina Lucy, ou da parte dela, não tenho medo: mas aquele outro, para quem ela é uma Não-Morta, ele tem agora o poder de procurar o seu túmulo e encontrar abrigo. Ele é astuto, como sei pelo Sr. Jonathan e pela forma como, durante todo este tempo, nos enganou quando brincou connosco pela vida da menina Lucy, e perdemos; e de muitas formas os Não-Mortos são fortes. Ele tem sempre na sua mão a força de vinte homens; até nós quatro que demos a nossa força à menina Lucy, ela também é toda dele. Além disso, ele pode convocar o seu lobo e não sei que mais. Portanto, se for caso de ele vir para lá esta noite, ele encontrar-me-á; mas ninguém mais o fará--até que seja demasiado tarde. Mas pode ser que ele não tente o local. Não há razão para que o faça; o seu campo de caça é mais cheio de presas do que o cemitério onde a mulher Não-Morta dorme, e um velho vigia.
“Portanto, escrevo isto para o caso de.... Leva os papéis que estão com isto, os diários de Harker e dos outros, e lê-os, e depois encontra este grande Não-Morto, e corta-lhe a cabeça e queima o seu coração ou atravessa-o com uma estaca, para que o mundo possa descansar dele.
“Se for esse o caso, adeus.
“/Van Helsing./”
Diário do Dr. Seward.
28 de setembro.--É maravilhoso o que uma boa noite de sono pode fazer por alguém. Ontem estava quase disposto a aceitar as ideias monstruosas de Van Helsing; mas agora parecem surgir, vivas diante de mim, como ultrajes ao bom senso. Não tenho dúvidas de que ele acredita em tudo isto. Pergunto-me se a sua mente poderá ter ficado de alguma forma desequilibrada. Certamente deve haver alguma explicação racional para todas estas coisas misteriosas. Será possível que o Professor o tenha feito ele próprio? Ele é tão anormalmente inteligente que, se perdesse o juízo, levaria a cabo a sua intenção em relação a alguma ideia fixa de uma forma maravilhosa. Custa-me pensar nisso, e de facto seria quase tão grande prodígio quanto o outro descobrir que Van Helsing estava louco; mas, de qualquer modo, vigiá-lo-ei cuidadosamente. Posso obter alguma luz sobre o mistério.
29 de setembro, manhã.... Ontem à noite, um pouco antes das dez horas, Arthur e Quincey entraram no quarto de Van Helsing; ele disse-nos a todos o que queria que fizéssemos, mas dirigindo-se especialmente a Arthur, como se todas as nossas vontades estivessem centradas na dele. Começou por dizer que esperava que todos viéssemos com ele também, “pois,” disse ele, “há um dever grave a ser cumprido lá. Estiveram sem dúvida surpreendidos com a minha carta?” Esta pergunta foi dirigida diretamente a Lord Godalming.
“Estive. Deixou-me um pouco perturbado. Tem havido tantos problemas à volta de minha casa ultimamente que poderia passar sem mais nenhuns. Também tenho estado curioso sobre o que quer dizer. Quincey e eu falámos sobre isso; mas quanto mais falávamos, mais perplexos ficávamos, até que agora posso dizer por mim que estou completamente às escuras quanto a qualquer significado sobre qualquer coisa.”
“Eu também,” disse Quincey Morris laconicamente.
“Oh,” disse o Professor, “então estão mais perto do princípio, ambos, do que o amigo John aqui, que tem de percorrer um longo caminho para trás antes de poder sequer chegar ao ponto de começar.”
Era evidente que ele reconhecia o meu regresso ao meu antigo estado de espírito de dúvida sem que eu dissesse uma palavra. Então, voltando-se para os outros dois, disse com intensa gravidade:--
“Quero a vossa permissão para fazer o que considero bom esta noite. É, bem sei, muito para pedir; e quando souberem o que proponho fazer, saberão, e só então, o quanto é. Por isso, posso pedir que me prometam no escuro, para que depois, embora possam estar zangados comigo durante algum tempo--não devo dissimular de mim mesmo a possibilidade de que tal possa acontecer--não se culpem por nada.”
“Isso é franco, de qualquer maneira,” interrompeu Quincey. “Eu respondo pelo Professor. Não percebo bem o seu objetivo, mas juro que ele é honesto; e isso chega-me.”
“Agradeço-lhe, senhor,” disse Van Helsing orgulhosamente. “Tive a honra de vos contar como um amigo de confiança, e tal aval é-me caro.” Ele estendeu a mão, que Quincey tomou.
Então Arthur falou:--
“Dr. Van Helsing, não gosto muito de ‘comprar gato por lebre’, como dizem na Escócia, e se for algo em que a minha honra como cavalheiro ou a minha fé como cristão esteja em causa, não posso fazer tal promessa. Se me puder assegurar que o que pretende não viola nenhuma destas duas coisas, então dou o meu consentimento de imediato; embora, pela minha vida, não consiga compreender o que pretende.”
“Aceito a vossa limitação,” disse Van Helsing, “e tudo o que vos peço é que, se sentirem necessário condenar qualquer ato meu, o considerem primeiro bem e estejam satisfeitos por não violar as vossas reservas.”
“Acordado!” disse Arthur; “isso é justo. E agora que os preliminares terminaram, posso perguntar o que é que temos de fazer?”
“Quero que venham comigo, e que venham em segredo, ao cemitério em Kingstead.”
O rosto de Arthur caiu quando ele disse, de uma forma surpreendida:--
“Onde a pobre Lucy está enterrada?” O Professor fez uma vénia. Arthur continuou: “E quando lá estivermos?”
“Entrar no túmulo!” Arthur levantou-se.
“Professor, está a falar a sério; ou é alguma piada monstruosa? Perdoe-me, vejo que está a falar a sério.” Ele sentou-se novamente, mas pude ver que se sentou firme e orgulhosamente, como alguém que mantém a sua dignidade. Houve silêncio até que ele perguntou novamente:--
“E quando estivermos no túmulo?”
“Abrir o caixão.”
“Isto é demais!” disse ele, levantando-se zangado novamente. “Estou disposto a ser paciente em todas as coisas que são razoáveis; mas nisto--nesta profanação do túmulo--de alguém que----” Ele quase se engasgou de indignação. O Professor olhou-o com compaixão.
“Se eu pudesse poupar-vos uma dor, meu pobre amigo,” disse ele, “Deus sabe que o faria. Mas esta noite os nossos pés devem caminhar em caminhos espinhosos; ou, mais tarde, e para sempre, os pés que ama devem caminhar em caminhos de chamas!”
Arthur levantou o olhar com o rosto branco e tenso e disse:--
“Cuidado, senhor, cuidado!”
“Não seria bom ouvir o que tenho a dizer?” disse Van Helsing. “E então saberão pelo menos o limite do meu propósito. Devo continuar?”
“Isso é justo o suficiente,” interrompeu Morris.
Após uma pausa, Van Helsing continuou, evidentemente com esforço:--
“A menina Lucy está morta; não é assim? Sim! Então não pode haver mal para ela. Mas se ela não estiver morta----”
Arthur saltou para os seus pés.
“Bom Deus!” exclamou ele. “O que quer dizer? Houve algum erro; ela foi enterrada viva?” Ele gemeu de angústia que nem a esperança podia suavizar.
“Não disse que ela estava viva, meu filho; não pensei nisso. Não vou mais longe do que dizer que ela pode ser uma Não-Morta.”
“Não-Morta! Não viva! O que quer dizer? É tudo um pesadelo, ou o que é?”
“Existem mistérios que os homens só podem adivinhar, e que, de era em era, só podem resolver em parte. Acreditem em mim, estamos agora à beira de um. Mas não terminei. Posso cortar a cabeça da morta menina Lucy?”
“Céus e terra, não!” gritou Arthur numa tempestade de paixão. “Não, por nada neste mundo, consentirei em qualquer mutilação do seu corpo morto. Dr. Van Helsing, está a testar-me demasiado. O que lhe fiz eu para que me torture assim? O que fez aquela pobre e doce rapariga para que queira lançar tal desonra sobre o seu túmulo? Está louco por dizer tais coisas, ou estarei eu louco por ouvi-las? Não se atreva a pensar mais em tal profanação; não darei o meu consentimento a nada do que fizer. Tenho um dever a cumprir, proteger o seu túmulo de ultrajes; e, por Deus, eu cumpri-lo-ei!”
Van Helsing levantou-se de onde estivera sentado todo o tempo, e disse, grave e severamente:--
“Meu Lord Godalming, eu também tenho um dever a cumprir, um dever para com os outros, um dever para convosco, um dever para com os mortos; e, por Deus, eu cumpri-lo-ei! Tudo o que vos peço agora é que venham comigo, que olhem e oiçam; e se, mais tarde, quando eu fizer o mesmo pedido, não estiverem mais ansiosos pela sua realização do que eu, então--então cumprirei o meu dever, qualquer que ele me pareça ser. E então, para seguir os desejos de Vossa Senhoria, colocar-me-ei à vossa disposição para vos prestar contas, quando e onde quiserem.” A sua voz quebrou-se um pouco, e ele continuou com um sotaque cheio de compaixão:--
“Mas, suplico-vos, não partam com raiva de mim. Numa longa vida de atos que muitas vezes não foram agradáveis de fazer, e que por vezes me dilaceraram o coração, nunca tive uma tarefa tão pesada como agora. Acreditem que, se chegar o momento de mudarem de opinião em relação a mim, um olhar vosso apagará toda esta hora tão triste, pois faria o que um homem pode para vos poupar do sofrimento. Pensem apenas. Por que me daria eu tanto trabalho e tanto sofrimento? Vim aqui da minha própria terra para fazer o que posso de bem; primeiro para agradar ao meu amigo John, e depois para ajudar uma doce jovem, a quem, também, vim a amar. Por ela--tenho vergonha de dizer tanto, mas digo-o com bondade--dei o que vocês deram: o sangue das minhas veias; dei-o, eu, que não era, como vós, o seu amante, mas apenas o seu médico e o seu amigo. Dei-lhe as minhas noites e dias--antes da morte, depois da morte; e se a minha morte lhe puder fazer bem, mesmo agora, quando ela é a Não-Morta morta, ela tê-la-á livremente.” Ele disse isto com um orgulho muito grave e doce, e Arthur ficou muito afetado por isso. Ele pegou na mão do velho e disse com voz embargada:--
“Oh, é difícil pensar nisso, e não consigo compreender; mas, pelo menos, irei convosco e esperarei.”
CAPÍTULO XVI.
/Diário do Dr. Seward/--continuação.
Faltava um quarto para as doze horas quando entrámos no cemitério pelo muro baixo. A noite estava escura, com ocasionais clarões de luar entre as fendas das pesadas nuvens que corriam pelo céu. Mantivemo-nos todos de alguma forma próximos uns dos outros, com Van Helsing ligeiramente à frente enquanto nos guiava. Quando chegámos perto do túmulo, olhei bem para Arthur, pois temia que a proximidade de um lugar carregado de uma memória tão dolorosa o perturbasse; mas ele portou-se bem. Considerei que o próprio mistério do procedimento tendia de alguma forma a contrariar o seu pesar. O Professor destrancou a porta e, vendo uma hesitação natural entre nós por várias razões, resolveu a dificuldade entrando ele próprio primeiro. O resto de nós seguiu, e ele fechou a porta. Acendeu então uma lanterna escura e apontou para o caixão. Arthur avançou hesitante; Van Helsing disse-me:--
“Estiveste comigo aqui ontem. Estava o corpo da menina Lucy naquele caixão?”
“Estava.” O Professor virou-se para os outros, dizendo:--
“Ouviram; e ainda assim há um que não acredita comigo.” Ele pegou na sua chave de fendas e retirou novamente a tampa do caixão. Arthur observava, muito pálido mas em silêncio; quando a tampa foi removida, ele avançou. Evidentemente não sabia que havia um caixão de chumbo, ou, pelo menos, não tinha pensado nisso. Quando viu a fenda no chumbo, o sangue subiu-lhe ao rosto por um instante, mas logo desapareceu, de modo que ele permaneceu de uma palidez cadavérica; continuava em silêncio. Van Helsing forçou a abertura da aba de chumbo, e todos olhámos para dentro e recuámos.
O caixão estava vazio!
Durante vários minutos ninguém proferiu uma palavra. O silêncio foi quebrado por Quincey Morris:--
“Professor, eu respondi por si. A sua palavra é tudo o que quero. Eu não pediria tal coisa habitualmente--não o desonraria a ponto de sugerir uma dúvida; mas isto é um mistério que vai além de qualquer honra ou desonra. É obra sua?”
“Juro-vos por tudo o que considero sagrado que não a removi nem lhe toquei. O que aconteceu foi isto: há duas noites, o meu amigo Seward e eu viemos aqui--com um bom propósito, acreditem. Abri aquele caixão, que estava então selado, e encontrámo-lo, como agora, vazio. Esperámos então, e vimos algo de branco passar através das árvores. No dia seguinte, viemos aqui durante o dia, e ela estava lá. Não estava, amigo John?”
“Sim.”
“Naquela noite chegámos mesmo a tempo. Mais uma criança tão pequena tinha desaparecido, e encontrámo-la, graças a Deus, ilesa entre os túmulos. Ontem, vim aqui antes do pôr do sol, pois ao pôr do sol os Não-Mortos podem mover-se. Esperei aqui toda a noite até o sol nascer, mas não vi nada. Era o mais provável que fosse porque eu tinha colocado sobre os grampos daquelas portas alho, que os Não-Mortos não suportam, e outras coisas que eles evitam. Ontem à noite não houve êxodo, por isso, hoje à noite, antes do pôr do sol, retirei o meu alho e outras coisas. E assim é que encontramos este caixão vazio. Mas tenham paciência comigo. Até agora, há muito que é estranho. Esperem comigo lá fora, sem serem vistos nem ouvidos, e coisas muito mais estranhas estão ainda para vir. Por isso”--aqui ele fechou a lente escura da sua lanterna--“agora para o exterior.” Ele abriu a porta, e nós saímos em fila, ele vindo por último e trancando a porta atrás de si.
Oh! Mas parecia fresco e puro o ar da noite após o terror daquela cripta. Quão doce era ver as nuvens passarem a correr e os breves vislumbres do luar entre as nuvens velozes que se cruzavam e passavam — como a alegria e a tristeza da vida de um homem; quão doce era respirar o ar fresco, que não tinha mácula de morte nem de decadência; quão humanizador ver o brilho vermelho do céu para lá da colina e ouvir, ao longe, o rugido abafado que marca a vida de uma grande cidade. Cada um, à sua maneira, estava solene e subjugado. Arthur estava em silêncio e, eu podia ver, esforçava-se por compreender o propósito e o significado profundo do mistério. Eu mesmo estava toleravelmente paciente e meio inclinado de novo a pôr de lado a dúvida e a aceitar as conclusões de Van Helsing. Quincey Morris era fleumático, à maneira de um homem que aceita todas as coisas e as aceita com um espírito de fria bravura, arriscando tudo o que tem para apostar. Não podendo fumar, cortou para si um pedaço considerável de tabaco e começou a mastigar. Quanto a Van Helsing, estava empregado de uma forma definida. Primeiro, tirou da sua mala uma massa do que parecia ser um biscoito fino, semelhante a uma hóstia, que estava cuidadosamente enrolado num guardanapo branco; a seguir, tirou um punhado duplo de qualquer coisa esbranquiçada, como massa ou massa de vidraceiro. Esfarelou a hóstia finamente e trabalhou-a na massa entre as mãos. Depois, pegou nisto e, enrolando-o em tiras finas, começou a colocá-las nas fendas entre a porta e o seu encaixe na tumba. Fiquei algo intrigado com isto e, estando perto, perguntei-lhe o que era aquilo que estava a fazer. Arthur e Quincey também se aproximaram, pois também eles estavam curiosos. Ele respondeu:--
“Estou a fechar a tumba, para que o Morto-Vivo não possa entrar.”
“E essa coisa que aí pôs vai fazer isso?” perguntou Quincey. “Santo Deus! Isto é um jogo?”
“É.”
“O que é isso que está a usar?” Desta vez a pergunta foi de Arthur. Van Helsing tirou o chapéu respeitosamente ao responder:--
“A Hóstia. Trouxe-a de Amesterdão. Tenho uma Indulgência.” Foi uma resposta que apavorou o mais céptico de nós, e sentimos individualmente que, na presença de um propósito tão sério como o do Professor, um propósito que podia usar assim a coisa que para ele era a mais sagrada, era impossível desconfiar. Em silêncio respeitoso, tomámos os lugares que nos foram designados perto da tumba, mas escondidos da vista de qualquer um que se aproximasse. Tive pena dos outros, especialmente de Arthur. Eu próprio tinha sido iniciado pelas minhas visitas anteriores neste horror de vigília; e ainda assim eu, que até uma hora atrás tinha repudiado as provas, senti o meu coração afundar-se dentro de mim. Nunca as tumbas pareceram tão macabramente brancas; nunca o cipreste, ou o teixo, ou o zimbro pareceram tanto a personificação da tristeza fúnebre; nunca árvore ou relva ondulou ou farfalhou tão agourentamente; nunca ramo rangeu tão misteriosamente; e nunca o uivo distante dos cães enviou um presságio tão lamentável através da noite.
Houve um longo período de silêncio, um grande vazio doloroso, e então, vindo do Professor, um agudo “S-s-s-s!” Ele apontou; e bem lá ao fundo da avenida de teixos vimos uma figura branca avançar — uma figura branca e ténue, que segurava algo escuro ao peito. A figura parou e, nesse momento, um raio de luar caiu entre as massas de nuvens impetuosas e mostrou, com um destaque assustador, uma mulher de cabelos escuros, vestida com as mortalhas da sepultura. Não podíamos ver o rosto, pois estava inclinado sobre o que vimos ser uma criança de cabelos loiros. Houve uma pausa e um pequeno grito agudo, tal como uma criança dá a dormir, ou um cão enquanto jaz perante o lume e sonha. Estávamos a avançar, mas a mão de aviso do Professor, vista por nós enquanto ele estava atrás de um teixo, reteve-nos; e então, enquanto olhávamos, a figura branca moveu-se de novo para a frente. Estava agora perto o suficiente para vermos claramente, e o luar ainda permanecia. O meu próprio coração tornou-se frio como gelo, e pude ouvir o arquejar de Arthur, ao reconhecermos as feições de Lucy Westenra. Lucy Westenra, mas contudo tão mudada. A doçura tinha-se transformado em crueldade adamantina e impiedosa, e a pureza em lascívia voluptuosa. Van Helsing deu um passo em frente e, obedecendo ao seu gesto, todos avançámos também; os quatro alinhados perante a porta da tumba. Van Helsing ergueu a sua lanterna e puxou a lente; pela luz concentrada que caiu sobre o rosto de Lucy pudemos ver que os lábios estavam carmesins de sangue fresco, e que o fio tinha escorrido pelo seu queixo e manchado a pureza da sua mortalha de linho.
Estremecemos de horror. Podia ver pela luz trémula que até o nervo de ferro de Van Helsing tinha falhado. Arthur estava ao meu lado e, se eu não tivesse agarrado o seu braço e o segurado, ele teria caído.
Quando Lucy — chamo à coisa que estava perante nós Lucy porque ela trazia a sua forma — nos viu, recuou com um rosnado zangado, tal como um gato dá quando apanhado desprevenido; depois os seus olhos percorreram-nos. Olhos de Lucy em forma e cor; mas os olhos de Lucy impuros e cheios de fogo infernal, em vez dos orbes puros e gentis que conhecíamos. Nesse momento, o resto do meu amor transformou-se em ódio e aversão; se ela tinha de ser morta, eu poderia tê-lo feito com prazer selvagem. Enquanto olhava, os seus olhos brilhavam com uma luz profana, e o rosto ficou coroado com um sorriso voluptuoso. Oh, Deus, como me fez estremecer vê-lo! Com um movimento descuidado, atirou para o chão, insensível como um demónio, a criança que até agora ela tinha apertado vigorosamente contra o peito, rosnando sobre ela como um cão rosna sobre um osso. A criança deu um grito agudo e ficou ali a gemer. Havia uma frieza de sangue no acto que arrancou um gemido a Arthur; quando ela avançou para ele com os braços estendidos e um sorriso lascivo, ele recuou e escondeu o rosto nas mãos.
Ela continuou, no entanto, a avançar e, com uma graça lânguida e voluptuosa, disse:--
“Vem a mim, Arthur. Deixa estes outros e vem a mim. Os meus braços estão famintos por ti. Vem, e podemos descansar juntos. Vem, meu marido, vem!”
Havia algo diabolicamente doce nos seus tons — algo do tinir do vidro quando atingido — que ressoou através dos cérebros até de nós que ouvíamos as palavras endereçadas a outro. Quanto a Arthur, parecia sob um feitiço; movendo as mãos do rosto, abriu amplamente os braços. Ela estava a saltar para eles, quando Van Helsing saltou para a frente e segurou entre eles o seu pequeno crucifixo dourado. Ela recuou dele e, com um rosto subitamente distorcido, cheio de raiva, passou por ele a correr como se quisesse entrar na tumba.
Quando a um ou dois palmos da porta, no entanto, ela parou como se detida por uma força irresistível. Depois voltou-se, e o seu rosto foi mostrado no clarão límpido do luar e pela lâmpada, que não tinha agora qualquer tremor vindo dos nervos de ferro de Van Helsing. Nunca vi tanta malícia frustrada num rosto; e nunca, espero, tal será visto de novo por olhos mortais. A bela cor tornou-se lívida, os olhos pareciam lançar faíscas de fogo infernal, as sobrancelhas estavam enrugadas como se as pregas da carne fossem as espirais das serpentes de Medusa, e a adorável boca manchada de sangue tornou-se num quadrado aberto, como nas máscaras de paixão dos Gregos e Japoneses. Se alguma vez um rosto significou morte — se olhares pudessem matar — vimo-lo naquele momento.
E assim, durante meio minuto inteiro, que pareceu uma eternidade, ela permaneceu entre o crucifixo erguido e o fechamento sagrado dos seus meios de entrada. Van Helsing quebrou o silêncio perguntando a Arthur:--
“Responde-me, oh meu amigo! Devo prosseguir no meu trabalho?”
Arthur lançou-se de joelhos e escondeu o rosto nas mãos, enquanto respondia:--
“Faz como quiseres, amigo; faz como quiseres. Não pode haver horror como este nunca mais!” e ele gemeu em espírito. Quincey e eu movêmo-nos simultaneamente para ele e agarrámos os seus braços. Podíamos ouvir o clique da lanterna a fechar quando Van Helsing a baixou; aproximando-se da tumba, começou a remover das fendas algum do emblema sagrado que tinha lá colocado. Todos olhámos com espanto horrorizado enquanto víamos, quando ele se afastou, a mulher, com um corpo corpóreo tão real naquele momento quanto o nosso, passar pelo interstício onde mal uma lâmina de faca teria passado. Todos sentimos um feliz sentido de alívio quando vimos o Professor a restaurar calmamente as tiras de massa às bordas da porta.
Quando isto foi feito, ele levantou a criança e disse:--
“Vinde agora, meus amigos; não podemos fazer mais nada até amanhã. Há um funeral ao meio-dia, por isso aqui viremos todos pouco depois disso. Os amigos dos mortos terão todos ido embora às duas, e quando o coveiro trancar o portão ficaremos. Depois há mais a fazer; mas não como isto de hoje à noite. Quanto a este pequeno, ele não tem muito mal, e até amanhã à noite ele estará bem. Deixá-lo-emos onde a polícia o encontrará, como na outra noite; e depois para casa.” Aproximando-se de Arthur, disse:--
“Meu amigo Arthur, tiveste uma dura prova; mas depois, quando olhares para trás, verás como era necessário. Estás agora nas águas amargas, meu filho. A esta hora de amanhã, terás, se Deus quiser, passado por elas e bebido das águas doces; por isso não sofras demasiado. Até lá não vos pedirei que me perdoeis.”
Arthur e Quincey vieram para casa comigo, e tentámos animar-nos uns aos outros no caminho. Tínhamos deixado a criança em segurança e estávamos cansados; por isso dormimos todos com mais ou menos realidade de sono.
29 de Setembro, noite.--Pouco antes das doze horas nós os três — Arthur, Quincey Morris e eu próprio — chamámos pelo Professor. Era estranho notar que, por consentimento comum, todos tínhamos vestido roupas pretas. Claro que Arthur vestia preto, pois estava de luto profundo, mas o resto de nós vestiu-o por instinto. Chegámos ao cemitério à uma e meia e passeámos por ali, mantendo-nos fora da observação oficial, de modo que, quando os coveiros completaram a sua tarefa e o coveiro, sob a crença de que todos tinham ido embora, trancou o portão, ficámos com o lugar só para nós. Van Helsing, em vez da sua pequena mala preta, trazia consigo uma comprida de couro, algo parecida com um saco de críquete; era manifestamente de peso considerável.
Quando estávamos sós e ouvimos os últimos passos desaparecerem estrada acima, silenciosamente, e como se por intenção ordenada, seguimos o Professor até à tumba. Ele destrancou a porta e entrámos, fechando-a atrás de nós. Depois tirou da sua mala a lanterna, que acendeu, e também duas velas de cera, que, quando acesas, colou, derretendo as suas próprias extremidades, sobre outros caixões, para que pudessem dar luz suficiente para trabalhar. Quando ele levantou de novo a tampa do caixão de Lucy, todos olhámos — Arthur a tremer como um álamo — e vimos que o corpo jazia ali em toda a sua beleza de morte. Mas não havia amor no meu próprio coração, nada senão aversão pela Coisa imunda que tinha tomado a forma de Lucy sem a sua alma. Podia ver até o rosto de Arthur endurecer enquanto olhava. Pouco depois ele disse a Van Helsing:--
“É este realmente o corpo de Lucy, ou apenas um demónio na sua forma?”
“É o seu corpo, e contudo não o é. Mas espera um pouco, e tu vê-la-ás como ela era, e é.”
Ela parecia um pesadelo de Lucy enquanto ali jazia; os dentes pontiagudos, a boca voluptuosa manchada de sangue — que fazia alguém estremecer ao vê-la — toda a aparência carnal e não espiritual, parecendo uma zombaria diabólica da doce pureza de Lucy. Van Helsing, na sua metodicidade, começou a tirar os vários conteúdos da sua mala e a colocá-los prontos para uso. Primeiro tirou um ferro de soldar e alguma solda de canalizador, e depois uma pequena lâmpada de óleo, que libertava, quando acesa num canto da tumba, gás que queimava a calor feroz com uma chama azul; depois as suas facas de operação, que colocou à mão; e por último uma estaca redonda de madeira, com cerca de duas polegadas e meia ou três de espessura e cerca de três pés de comprimento. Uma extremidade dela foi endurecida por carbonização no fogo e foi afiada numa ponta fina. Com esta estaca veio um martelo pesado, tal como nas casas é usado na cave de carvão para partir os pedaços. Para mim, as preparações de um médico para trabalho de qualquer tipo são estimulantes e revigorantes, mas o efeito destas coisas tanto em Arthur como em Quincey foi causar-lhes uma espécie de consternação. Ambos, no entanto, mantiveram a sua coragem e permaneceram em silêncio e quietos.
Quando tudo estava pronto, Van Helsing disse:--
“Antes de fazermos qualquer coisa, deixem-me dizer-vos isto; é da tradição e experiência dos antigos e de todos aqueles que estudaram os poderes do Morto-Vivo. Quando eles se tornam tais, vem com a mudança a maldição da imortalidade; eles não podem morrer, mas devem continuar século após século somando novas vítimas e multiplicando os males do mundo; pois todos os que morrem da predação do Morto-Vivo tornam-se eles próprios Mortos-Vivos, e predam a sua espécie. E assim o círculo continua sempre a alargar-se, tal como as ondulações de uma pedra atirada à água. Amigo Arthur, se tivesses encontrado aquele beijo de que sabes antes da pobre Lucy morrer; ou de novo, ontem à noite quando abriste os teus braços para ela, terias com o tempo, quando morresses, tornado-te nosferatu, como eles chamam na Europa de Leste, e farias todo o tempo mais daqueles Mortos-Vivos que tão nos encheram de horror. A carreira desta tão infeliz querida senhora está apenas a começar. Aquelas crianças cujo sangue ela chupa não estão ainda assim tão pior; mas se ela continuar a viver, Morta-Viva, mais e mais elas perdem o seu sangue, e pelo seu poder sobre elas elas vêm a ela; e assim ela retira o sangue delas com aquela boca tão perversa. Mas se ela morrer em verdade, então tudo cessa; as minúsculas feridas das gargantas desaparecem, e elas voltam para os seus brinquedos sem nunca saber o que aconteceu. Mas o mais abençoado de tudo, quando este agora Morto-Vivo for feito descansar como morto verdadeiro, então a alma da pobre senhora que amamos será de novo livre. Em vez de trabalhar a maldade à noite e crescer mais aviltada na assimilação dela durante o dia, ela tomará o seu lugar com os outros Anjos. De modo que, meu amigo, será uma mão abençoada para ela a que desferirá o golpe que a liberta. Para isto eu estou disposto; mas não há nenhum entre nós que tenha um direito melhor? Não será alegria pensar daqui em diante no silêncio da noite quando o sono não existe: ‘Foi a minha mão que a enviou para as estrelas; foi a mão daquele que a amava mais; a mão que de todas ela própria teria escolhido, se tivesse sido para ela escolher’? Dizei-me se existe tal um entre nós.”
Todos olhámos para Arthur. Ele viu também, o que todos nós víamos, a infinita bondade que sugeria que a dele devia ser a mão que restauraria Lucy a nós como uma memória santa, e não profana; ele deu um passo em frente e disse corajosamente, embora a sua mão tremesse e o seu rosto estivesse tão pálido como a neve:--
“Meu verdadeiro amigo, do fundo do meu coração partido eu agradeço-te. Diz-me o que tenho de fazer, e eu não vacilarei!” Van Helsing colocou uma mão no seu ombro e disse:--
“Brave rapaz! Um momento de coragem, e está feito. Esta estaca deve ser cravada através dela. Será uma provação terrível — não te enganes quanto a isso — mas será apenas um curto espaço de tempo, e tu depois alegrar-te-ás mais do que a tua dor foi grande; desta tumba sombria tu emergirás como se caminhasse sobre o ar. Mas não deves vacilar quando uma vez tiveres começado. Apenas pensa que nós, teus verdadeiros amigos, estamos à tua volta, e que rezamos por ti todo o tempo.”
“Continua,” disse Arthur roucamente. “Diz-me o que tenho de fazer.”
“Pega nesta estaca na tua mão esquerda, pronta para colocar a ponta sobre o coração, e o martelo na direita. Depois, quando começarmos a nossa oração pelos mortos — eu lê-la-ei, tenho aqui o livro, e os outros seguirão — atinge em nome de Deus, para que tudo possa estar bem com os mortos que amamos, e que o Morto-Vivo desapareça.”
Arthur pegou na estaca e no martelo, e quando uma vez a sua mente estava posta na acção as suas mãos nunca tremeram nem mesmo oscilaram. Van Helsing abriu o seu missal e começou a ler, e Quincey e eu seguíamos o melhor que podíamos. Arthur colocou a ponta sobre o coração, e enquanto olhava eu podia ver a sua marca na carne branca. Depois atingiu com toda a sua força.
A Coisa no caixão contorceu-se; e um guincho hediondo e arrepiante veio dos lábios vermelhos abertos. O corpo estremeceu e oscilou e torceu-se em contorções selvagens; os dentes brancos afiados chocaram juntos até que os lábios foram cortados e a boca foi manchada com uma espuma carmesim. Mas Arthur nunca vacilou. Ele parecia uma figura de Thor enquanto o seu braço trémulo se erguia e caía, conduzindo mais e mais profundamente a estaca portadora de misericórdia, enquanto o sangue do coração perfurado brotava e jorrava à volta dela. O seu rosto estava fixo, e o alto dever parecia brilhar através dele; a visão disso deu-nos coragem, de modo que as nossas vozes pareciam ressoar através da pequena abóbada.
E então a contorção e o estremecimento do corpo tornaram-se menores, e os dentes cessaram de chocar, e o rosto de estremecer. Finalmente, ficou imóvel. A terrível tarefa estava acabada.
O martelo caiu da mão de Arthur. Ele vacilou e teria caído se não o tivéssemos agarrado. Grandes gotas de suor saltaram na sua testa, e o seu fôlego vinha em arquejos quebrados. Tinha sido de facto uma tensão horrível para ele; e se ele não tivesse sido forçado à sua tarefa por considerações mais do que humanas, ele nunca teria conseguido passar por isso. Durante alguns minutos estivemos tão ocupados com ele que não olhámos para o caixão. Quando olhámos, no entanto, um murmúrio de surpresa assustada correu de um para o outro de nós. Olhámos tão ansiosamente que Arthur levantou-se, pois ele tinha estado sentado no chão, e veio e olhou também; e então uma luz feliz e estranha brilhou sobre o seu rosto e dissipou completamente a sombra de horror que sobre ele jazia.
Ali no caixão jazia já não a Coisa imunda que tínhamos tanto temido e aprendido a odiar que o trabalho da sua destruição foi cedido como um privilégio àquele com melhor direito a ele, mas Lucy como a tínhamos visto na sua vida, com o seu rosto de doçura e pureza inigualáveis. É verdade que estavam lá, como as tínhamos visto na vida, os traços de cuidado e dor e desgaste; mas estes eram todos caros para nós, pois marcavam a sua verdade para com o que conhecíamos. Todos nós sentimos que a santa calma que jazia como luz do sol sobre o rosto e a forma desgastados era apenas um sinal terreno e símbolo da calma que ia reinar para sempre.
Van Helsing veio e colocou a sua mão no ombro de Arthur, e disse-lhe:--
“E agora, Arthur, meu amigo, querido rapaz, não serei perdoado?”
A reacção da terrível tensão veio enquanto ele pegava na mão do velho na sua, e levantando-a aos seus lábios, pressionou-a, e disse:--
“Perdoado! Deus o abençoe por ter devolvido a alma à minha querida, e a paz a mim.” Ele colocou as mãos sobre o ombro do Professor e, encostando a cabeça no peito dele, chorou em silêncio por um tempo, enquanto nós permanecíamos imóveis. Quando ele ergueu a cabeça, Van Helsing disse-lhe:--
“E agora, meu filho, pode beijá-la. Beije os lábios mortos dela se quiser, como ela gostaria que fizesse, se pudesse escolher. Pois ela não é mais um demônio risonho — não é mais uma Coisa imunda por toda a eternidade. Ela não é mais a Morta-Viva do diabo. Ela é a verdadeira morta de Deus, cuja alma está com Ele!”
Arthur inclinou-se e beijou-a, e então enviamos ele e Quincey para fora do túmulo; o Professor e eu serramos a ponta da estaca, deixando o topo dentro do corpo. Depois, cortamos a cabeça e enchemos a boca com alho. Soldamos o caixão de chumbo, parafusamos a tampa e, reunindo nossos pertences, saímos. Quando o Professor trancou a porta, entregou a chave a Arthur.
Lá fora, o ar era doce, o sol brilhava, os pássaros cantavam, e parecia que toda a natureza estava sintonizada em um tom diferente. Havia alegria, regozijo e paz por toda parte, pois nós mesmos estávamos em repouso por um motivo, e sentíamo-nos contentes, ainda que com uma alegria temperada.
Antes de nos afastarmos, Van Helsing disse:--
“Agora, meus amigos, uma etapa do nosso trabalho está concluída, a mais angustiante para nós mesmos. Mas resta uma tarefa maior: encontrar o autor de todo este nosso sofrimento e eliminá-lo. Tenho pistas que podemos seguir; mas é uma tarefa longa e difícil, e há perigo e dor nela. Vocês todos não me ajudarão? Aprendemos a acreditar, todos nós — não é assim? E sendo assim, não vemos o nosso dever? Sim! E não prometemos seguir até o fim amargo?”
Cada um, por sua vez, pegou na sua mão, e a promessa foi feita. Então disse o Professor enquanto nos afastávamos:--
“Daqui a duas noites vocês se encontrarão comigo e jantarão juntos às sete horas com o amigo John. Convidarei outros dois, dois que vocês ainda não conhecem; e estarei pronto para mostrar todo o nosso trabalho e revelar nossos planos. Amigo John, venha comigo para casa, pois tenho muito sobre o que consultar, e você pode me ajudar. Esta noite parto para Amsterdã, mas retornarei amanhã à noite. E então começa a nossa grande busca. Mas antes terei muito a dizer, para que saibam o que deve ser feito e o que temer. Então, nossa promessa será renovada uns aos outros; pois há uma tarefa terrível diante de nós, e uma vez que nossos pés estejam na relha do arado, não devemos recuar.”
CAPÍTULO XVII.
/Diário do Dr. Seward/--continuação.
Quando chegamos ao Berkeley Hotel, Van Helsing encontrou um telegrama à sua espera:--
“Estou chegando de trem. Jonathan em Whitby. Notícias importantes.--/Mina Harker./”
O Professor ficou radiante. “Ah, essa maravilhosa Madame Mina”, disse ele, “pérola entre as mulheres! Ela chega, mas eu não posso ficar. Ela deve ir para sua casa, amigo John. Você deve encontrá-la na estação. Telegrafe para ela *en route*, para que ela possa estar preparada.”
Quando o telegrama foi enviado, ele tomou uma xícara de chá; durante a qual me contou sobre um diário mantido por Jonathan Harker quando esteve no estrangeiro, e me deu uma cópia datilografada dele, assim como do diário da Sra. Harker em Whitby. “Pegue estes”, disse ele, “e estude-os bem. Quando eu tiver retornado, você será mestre de todos os fatos, e poderemos então entrar melhor em nossa inquisição. Guarde-os bem, pois há neles muito tesouro. Você precisará de toda a sua fé, mesmo você que teve tal experiência como a de hoje. O que aqui está relatado”, ele colocou a mão pesada e gravemente sobre o pacote de papéis enquanto falava, “pode ser o começo do fim para você e para mim e para muitos outros; ou pode soar o dobre de finados dos Mortos-Vivos que caminham sobre a terra. Leia tudo, peço-lhe, com a mente aberta; e se puder acrescentar de alguma forma à história aqui contada, faça-o, pois é tudo muito importante. Você manteve um diário de todas essas coisas tão estranhas; não é assim? Sim! Então passaremos por tudo isso juntos quando nos encontrarmos.” Ele então se preparou para a partida e, pouco depois, partiu para Liverpool Street. Segui para Paddington, onde cheguei cerca de quinze minutos antes da chegada do trem.
A multidão dispersou-se ao modo apressado comum às plataformas de chegada; e eu estava começando a ficar inquieto, com receio de perder minha convidada, quando uma jovem de rosto doce e aparência delicada aproximou-se de mim e, após um olhar rápido, disse: “Dr. Seward, não é?”
“E você é a Sra. Harker!” respondi imediatamente; ao que ela estendeu a mão.
“Eu a conheci pela descrição da pobre querida Lucy; mas----” Ela parou subitamente, e um rubor rápido cobriu seu rosto.
O rubor que subiu às minhas próprias bochechas de alguma forma nos deixou à vontade, pois foi uma resposta tácita à dela. Peguei sua bagagem, que incluía uma máquina de escrever, e pegamos o Metrô para Fenchurch Street, depois que enviei um telegrama à minha governanta para que preparasse imediatamente uma sala de estar e um quarto para a Sra. Harker.
No devido tempo, chegamos. Ela sabia, é claro, que o lugar era um hospício, mas pude ver que ela não conseguiu reprimir um leve estremecimento quando entramos.
Ela me disse que, se pudesse, viria em breve ao meu consultório, pois tinha muito a dizer. Portanto, aqui estou eu terminando minha entrada no meu diário fonográfico enquanto a aguardo. Até agora, não tive a chance de olhar os papéis que Van Helsing deixou comigo, embora eles estejam abertos diante de mim. Devo interessá-la em algo, para que eu possa ter a oportunidade de lê-los. Ela não sabe o quão precioso é o tempo, ou que tarefa temos em mãos. Devo ter cuidado para não assustá-la. Aqui está ela!
/Diário de Mina Harker./
29 de setembro.--Depois de me arrumar, desci ao consultório do Dr. Seward. À porta, pausei por um momento, pois pensei ouvi-lo falando com alguém. Como, porém, ele me pedira para ser rápida, bati à porta e, ao ouvir ele chamar “Entre”, eu entrei.
Para minha intensa surpresa, não havia ninguém com ele. Ele estava completamente sozinho e, na mesa à sua frente, estava o que eu soube imediatamente pela descrição ser um fonógrafo. Eu nunca tinha visto um e estava muito interessada.
“Espero não tê-lo feito esperar”, disse eu; “mas fiquei à porta pois o ouvi falando e pensei que houvesse alguém com você.”
“Oh”, respondeu ele, com um sorriso, “eu estava apenas registrando meu diário.”
“Seu diário?” perguntei-lhe surpresa.
“Sim”, respondeu ele. “Mantenho-o nisto.” Enquanto falava, ele colocou a mão sobre o fonógrafo. Senti-me bastante excitada com isso e deixei escapar:--
“Ora, isso supera até a taquigrafia! Posso ouvi-lo dizer algo?”
“Certamente”, respondeu ele com presteza, e levantou-se para prepará-lo para falar. Então ele pausou, e um olhar preocupado cobriu seu rosto.
“O fato é”, começou ele sem jeito, “eu só mantenho meu diário nele; e como é inteiramente--quase inteiramente--sobre meus casos, pode ser embaraçoso--quer dizer, quero dizer----” Ele parou, e tentei ajudá-lo a sair do embaraço:--
“Você ajudou a cuidar da querida Lucy no fim. Deixe-me ouvir como ela morreu; pois tudo o que eu puder saber sobre ela, serei muito grata. Ela era muito, muito querida para mim.”
Para minha surpresa, ele respondeu, com um olhar horrorizado no rosto:--
“Contar-lhe sobre a morte dela? Nem por todo o mundo!”
“Por que não?” perguntei, pois um sentimento grave e terrível estava me dominando. Novamente ele pausou, e pude ver que ele estava tentando inventar uma desculpa. Finalmente, ele balbuciou:--
“Sabe, eu não sei como escolher qualquer parte específica do diário.” Mesmo enquanto ele falava, uma ideia surgiu em sua mente, e ele disse com inconsciente simplicidade, em uma voz diferente, e com a ingenuidade de uma criança: “Isso é bem verdade, sobre a minha honra. Palavra de honra!” Não pude deixar de sorrir, ao que ele fez uma careta. “Eu me entreguei dessa vez!” disse ele. “Mas sabe que, embora eu tenha mantido o diário por meses, nunca me ocorreu como eu encontraria qualquer parte específica dele caso quisesse procurar?” A essa altura, minha mente estava decidida de que o diário de um médico que cuidou de Lucy poderia ter algo a acrescentar à soma do nosso conhecimento sobre aquele terrível Ser, e disse audaciosamente:--
“Então, Dr. Seward, é melhor você me deixar copiá-lo para você na minha máquina de escrever.” Ele ficou com uma palidez positivamente mortal ao dizer:--
“Não! não! não! Por nada neste mundo, eu deixaria você saber aquela terrível história!”
Então era terrível; minha intuição estava certa! Por um momento pensei, e enquanto meus olhos percorriam a sala, inconscientemente procurando por algo ou alguma oportunidade para me ajudar, eles pousaram na grande pilha de datilografia sobre a mesa. Seus olhos captaram o olhar nos meus e, sem que ele pensasse, seguiram sua direção. Ao verem o pacote, ele percebeu o que eu queria dizer.
“Você não me conhece”, disse eu. “Quando você tiver lido aqueles papéis--meu próprio diário e o de meu marido também, que eu datilografei--você me conhecerá melhor. Não hesitei em dar cada pensamento do meu próprio coração para esta causa; mas, é claro, você não me conhece--ainda; e não devo esperar que confie tanto em mim.”
Ele é certamente um homem de natureza nobre; a pobre querida Lucy estava certa sobre ele. Ele levantou-se e abriu uma grande gaveta, na qual estavam dispostos em ordem vários cilindros ocos de metal cobertos com cera escura, e disse:--
“Você tem toda a razão. Eu não confiei em você porque não a conhecia. Mas agora a conheço; e deixe-me dizer que deveria tê-la conhecido há muito tempo. Sei que Lucy lhe falou de mim; ela também me falou de você. Posso fazer a única reparação ao meu alcance? Pegue os cilindros e ouça-os--a primeira meia dúzia deles é pessoal para mim, e eles não a horrorizarão; então você me conhecerá melhor. O jantar estará pronto até lá. Enquanto isso, lerei alguns desses documentos e serei capaz de entender melhor certas coisas.” Ele mesmo levou o fonógrafo até minha sala de estar e o ajustou para mim. Agora vou aprender algo agradável, tenho certeza; pois isso me contará o outro lado de um episódio de amor verdadeiro do qual já conheço um lado....
Diário do Dr. Seward.
29 de setembro.--Eu estava tão absorto naquele maravilhoso diário de Jonathan Harker e naquele outro de sua esposa que deixei o tempo passar sem pensar. A Sra. Harker não tinha descido quando a criada veio anunciar o jantar, então eu disse: “Ela possivelmente está cansada; que o jantar espere uma hora;” e continuei com meu trabalho. Eu tinha acabado de terminar o diário da Sra. Harker, quando ela entrou. Ela parecia docemente bonita, mas muito triste, e seus olhos estavam vermelhos de tanto chorar. Isso de alguma forma me comoveu muito. Ultimamente, tive motivos para chorar, Deus sabe! mas o alívio das lágrimas me foi negado; e agora a visão daqueles olhos doces, brilhantes com lágrimas recentes, foi direto ao meu coração. Então eu disse tão gentilmente quanto pude:--
“Receio muito ter perturbado você.”
“Oh, não, não me perturbou”, respondeu ela, “mas fiquei mais tocada do que posso dizer pelo seu pesar. Essa é uma máquina maravilhosa, mas é cruelmente verdadeira. Ela me contou, com seus próprios tons, a angústia do seu coração. Era como uma alma clamando ao Deus todo-poderoso. Ninguém deve ouvi-los serem ditos nunca mais! Veja, tentei ser útil. Copiei as palavras na minha máquina de escrever, e ninguém mais precisará ouvir seu coração bater, como eu ouvi.”
“Ninguém precisa saber, ninguém saberá nunca”, disse eu em voz baixa. Ela colocou a mão sobre a minha e disse muito gravemente:--
“Ah, mas eles devem!”
“Devem! Mas por quê?” perguntei.
“Porque é parte da terrível história, parte da morte da pobre querida Lucy e de tudo o que levou a ela; porque na luta que temos pela frente para livrar a terra deste terrível monstro, precisamos ter todo o conhecimento e toda a ajuda que pudermos obter. Acho que os cilindros que você me deu continham mais do que você pretendia que eu soubesse; mas posso ver que há em seu registro muitas luzes sobre este mistério obscuro. Você me deixará ajudar, não deixará? Sei de tudo até certo ponto, e já vejo, embora seu diário só me leve até 7 de setembro, como a pobre Lucy foi assediada, e como seu terrível destino estava sendo forjado. Jonathan e eu temos trabalhado dia e noite desde que o Professor Van Helsing nos viu. Ele foi a Whitby para obter mais informações, e estará aqui amanhã para nos ajudar. Não precisamos ter segredos entre nós; trabalhando juntos e com confiança absoluta, certamente seremos mais fortes do que se alguns de nós estivessem no escuro.” Ela olhou para mim de forma tão suplicante e, ao mesmo tempo, manifestou tamanha coragem e resolução em seu porte, que cedi imediatamente aos seus desejos. “Você fará”, disse eu, “como quiser no assunto. Deus me perdoe se eu estiver fazendo algo errado! Há coisas terríveis ainda para aprender; mas se você viajou tão longe na estrada para a morte da pobre Lucy, você não ficará satisfeita, eu sei, em permanecer no escuro. Não, o fim--o próprio fim--pode lhe dar um vislumbre de paz. Venha, o jantar está servido. Devemos manter um ao outro forte para o que está por vir; temos uma tarefa cruel e terrível. Quando você tiver comido, saberá o restante, e eu responderei a quaisquer perguntas que você fizer--se houver algo que você não entenda, embora fosse aparente para nós que estávamos presentes.”
/Diário de Mina Harker./
29 de setembro.--Depois do jantar, fui com o Dr. Seward ao seu consultório. Ele trouxe o fonógrafo do meu quarto, e eu peguei minha máquina de escrever. Ele me colocou em uma poltrona confortável e arrumou o fonógrafo para que eu pudesse tocá-lo sem me levantar, e me mostrou como pará-lo caso eu quisesse fazer uma pausa. Então, ele muito atenciosamente pegou uma cadeira, de costas para mim, para que eu pudesse ficar o mais à vontade possível, e começou a ler. Coloquei o metal bifurcado nos ouvidos e ouvi.
Quando a terrível história da morte de Lucy e--e tudo o que se seguiu, terminou, recostei-me na cadeira sem forças. Felizmente, não sou propensa a desmaios. Quando o Dr. Seward me viu, ele saltou com uma exclamação horrorizada e, pegando apressadamente uma garrafa de um armário, deu-me um pouco de conhaque, o que em poucos minutos me restaurou um pouco. Meu cérebro estava todo em turbilhão, e apenas porque veio através de toda a multidão de horrores o sagrado raio de luz de que minha querida, querida Lucy estava finalmente em paz, não creio que pudesse ter suportado sem fazer uma cena. É tudo tão selvagem, misterioso e estranho que, se eu não conhecesse a experiência de Jonathan na Transilvânia, não poderia acreditar. Como foi, eu não sabia no que acreditar, e assim me livrei da minha dificuldade cuidando de outra coisa. Tirei a capa da minha máquina de escrever e disse ao Dr. Seward:--
“Deixe-me escrever tudo isso agora. Devemos estar prontos para o Dr. Van Helsing quando ele chegar. Enviei um telegrama para Jonathan para vir aqui quando chegar a Londres vindo de Whitby. Neste assunto, as datas são tudo, e acho que se prepararmos todo o nosso material e colocarmos cada item em ordem cronológica, teremos feito muito. Você me diz que Lord Godalming e o Sr. Morris também estão vindo. Vamos ser capazes de dizer a eles quando chegarem.” Ele, portanto, colocou o fonógrafo em um ritmo lento, e comecei a datilografar desde o início do sétimo cilindro. Usei papel carbono e, assim, fiz três cópias do diário, exatamente como tinha feito com todo o resto. Já era tarde quando terminei, mas o Dr. Seward saiu para fazer sua ronda pelos pacientes; quando terminou, voltou e sentou-se perto de mim, lendo, para que eu não me sentisse muito sozinha enquanto trabalhava. Como ele é bom e atencioso; o mundo parece cheio de homens bons--mesmo que existam monstros nele. Antes de deixá-lo, lembrei-me do que Jonathan colocou em seu diário sobre a perturbação do Professor ao ler algo em um jornal vespertino na estação de Exeter; então, vendo que o Dr. Seward guarda seus jornais, peguei emprestados os arquivos do “The Westminster Gazette” e do “The Pall Mall Gazette”, e levei-os para o meu quarto. Lembro-me de quanto o “The Dailygraph” e o “The Whitby Gazette”, dos quais eu tinha feito recortes, nos ajudaram a entender os terríveis eventos em Whitby quando o Conde Drácula desembarcou, então lerei os jornais vespertinos desde então, e talvez eu obtenha alguma nova luz. Não estou com sono, e o trabalho ajudará a me manter calma.
Diário do Dr. Seward.
30 de setembro.--O Sr. Harker chegou às nove horas. Ele tinha recebido o telegrama de sua esposa pouco antes de partir. Ele é incomumente inteligente, se alguém pode julgar pelo seu rosto, e cheio de energia. Se o seu diário for verdadeiro--e, a julgar pelas nossas próprias experiências maravilhosas, deve ser--ele também é um homem de grande coragem. Aquela descida ao túmulo pela segunda vez foi uma notável demonstração de ousadia. Depois de ler seu relato sobre isso, eu estava preparado para encontrar um bom espécime de masculinidade, mas dificilmente o cavalheiro calmo e prático que veio aqui hoje.
Mais tarde.--Depois do almoço, Harker e sua esposa voltaram para seu próprio quarto e, quando passei há pouco tempo, ouvi o clique da máquina de escrever. Eles estão trabalhando duro nisso. A Sra. Harker diz que eles estão unindo em ordem cronológica cada fragmento de evidência que possuem. Harker obteve as cartas entre o destinatário das caixas em Whitby e os transportadores em Londres que cuidaram delas. Ele está agora lendo a datilografia da esposa sobre o meu diário. Imagino o que eles concluem disso. Aqui está ele....
Estranho que nunca me tenha ocorrido que a casa logo ao lado pudesse ser o esconderijo do Conde! Deus sabe que tivemos pistas suficientes da conduta do paciente Renfield! O pacote de cartas relativas à compra da casa estava com a datilografia. Oh, se as tivéssemos tido antes, poderíamos ter salvado a pobre Lucy! Pare; por esse caminho reside a loucura! Harker voltou e está novamente organizando seu material. Ele diz que até a hora do jantar eles serão capazes de mostrar uma narrativa completa e conectada. Ele acha que, enquanto isso, devo ver Renfield, já que até agora ele tem sido uma espécie de índice para as idas e vindas do Conde. Ainda não vejo isso, mas quando chegar às datas, suponho que verei. Que bom que a Sra. Harker datilografou meus cilindros! Nunca teríamos encontrado as datas de outra forma....
Encontrei Renfield sentado placidamente em seu quarto com as mãos entrelaçadas, sorrindo de modo benevolente. No momento, parecia tão são quanto qualquer pessoa que eu já tenha visto. Sentei-me e conversei com ele sobre vários assuntos, todos os quais ele tratou naturalmente. Então, por iniciativa própria, falou sobre ir para casa, um assunto que, até onde sei, nunca mencionou durante sua estadia aqui. De fato, falou com bastante confiança sobre obter sua alta imediatamente. Acredito que, se eu não tivesse conversado com Harker e lido as cartas e as datas de seus surtos, teria estado preparado para assinar sua alta após um breve período de observação. Como as coisas estão, estou profundamente desconfiado. Todos aqueles surtos estavam, de alguma forma, ligados à proximidade do Conde. O que significa, então, este contentamento absoluto? Será possível que seu instinto esteja satisfeito quanto ao triunfo final do vampiro? Espere; ele mesmo é zoófago, e em seus delírios selvagens diante da porta da capela da casa abandonada, ele sempre falava de seu “mestre”. Tudo isso parece confirmar nossa ideia. No entanto, após algum tempo, retirei-me; meu amigo está um pouco são demais no momento para tornar seguro sondá-lo profundamente com perguntas. Ele poderia começar a pensar, e então--! Por isso, fui embora. Desconfio desses seus momentos de calma; por isso, dei uma dica ao atendente para que cuide dele de perto e mantenha uma camisa de força pronta em caso de necessidade.
Diário de Jonathan Harker.
29 de setembro, no trem para Londres.--Quando recebi a cortês mensagem do Sr. Billington de que ele me daria qualquer informação ao seu alcance, achei melhor ir até Whitby e fazer, no local, as indagações que desejava. Meu objetivo agora era rastrear aquela carga horrível do Conde até seu destino em Londres. Mais tarde, talvez possamos lidar com isso. Billington júnior, um rapaz simpático, encontrou-me na estação e levou-me à casa de seu pai, onde decidiram que eu deveria passar a noite. Eles são hospitaleiros, com a verdadeira hospitalidade de Yorkshire: dão ao hóspede tudo o que ele quer e deixam-no livre para fazer o que bem entender. Todos sabiam que eu estava ocupado e que minha estadia seria curta, e o Sr. Billington tinha pronto em seu escritório todos os papéis referentes à remessa das caixas. Quase tive um sobressalto ao ver novamente uma das cartas que tinha visto na mesa do Conde antes de saber de seus planos diabólicos. Tudo havia sido cuidadosamente pensado e executado de forma sistemática e com precisão. Ele parecia ter se preparado para qualquer obstáculo que pudesse ser colocado por acidente no caminho de suas intenções. Para usar um americanismo, ele “não correu riscos”, e a precisão absoluta com que suas instruções foram cumpridas foi simplesmente o resultado lógico de seu cuidado. Vi a fatura e tomei nota: “Cinquenta caixas de terra comum, a serem usadas para fins experimentais.” Também a cópia da carta para a Carter Paterson, e a resposta deles; de ambas, obtive cópias. Esta era toda a informação que o Sr. Billington podia me dar, então fui ao porto e vi os guardas-costeiros, os funcionários da Alfândega e o capitão do porto. Todos tinham algo a dizer sobre a estranha entrada do navio, que já está ocupando seu lugar na tradição local; mas ninguém pôde acrescentar nada à simples descrição: “Cinquenta caixas de terra comum.” Então vi o chefe da estação, que gentilmente me colocou em contato com os homens que haviam recebido as caixas. A contagem deles batia exatamente com a lista, e eles não tinham nada a acrescentar, exceto que as caixas eram “pesadas que só”, e que movê-las era um trabalho que dava sede. Um deles acrescentou que era uma pena que não houvesse nenhum cavalheiro “como o senhor, patrão”, para demonstrar algum tipo de apreciação por seus esforços em forma líquida; outro acrescentou que a sede gerada então era tamanha que nem mesmo o tempo decorrido a havia aliviado completamente. Escusado será dizer que, antes de partir, tomei o cuidado de remover, para sempre e adequadamente, essa fonte de reprovação.
30 de setembro.--O chefe da estação teve a gentileza de me dar um bilhete para seu antigo colega, o chefe da estação de King’s Cross, de modo que, quando cheguei lá pela manhã, pude perguntar-lhe sobre a chegada das caixas. Ele, também, colocou-me imediatamente em contato com os funcionários responsáveis, e vi que a contagem deles estava correta de acordo com a fatura original. As oportunidades de adquirir uma sede anormal haviam sido limitadas ali; um uso nobre delas, no entanto, havia sido feito, e novamente fui forçado a lidar com o resultado de uma maneira ex post facto.
De lá, fui ao escritório central da Carter Paterson, onde fui recebido com a maior cortesia. Eles procuraram a transação em seu livro diário e livro de cópia de cartas, e imediatamente telefonaram para o escritório de King’s Cross para obter mais detalhes. Por sorte, os homens que fizeram o transporte estavam aguardando trabalho, e o funcionário enviou-os prontamente, enviando também, por um deles, a guia de remessa e todos os papéis relacionados com a entrega das caixas em Carfax. Aqui, novamente, encontrei a contagem batendo exatamente; os carregadores foram capazes de complementar a escassez das palavras escritas com alguns detalhes. Estes, descobri logo, estavam relacionados quase exclusivamente com a natureza empoeirada do trabalho e com a consequente sede gerada nos operadores. Ao oferecer uma oportunidade, por meio da moeda do reino, de aliviar em um período posterior esse mal benéfico, um dos homens comentou:--
“Aquela casa, patrão, é a mais estranha em que já estive. Ora, mas não foi tocada há cem anos. Havia poeira tão espessa no lugar que você poderia ter dormido nela sem machucar os ossos; e o lugar estava tão negligenciado que você poderia ter cheirado a velha Jerusalém nele. Mas a velha capela... aquela superou tudo, superou! Eu e meu parceiro, pensamos que nunca sairíamos de lá rápido o suficiente. Deus, eu não aceitaria menos de uma libra por minuto para ficar lá depois de escurecer.”
Tendo estado na casa, eu bem poderia acreditar nele; mas se ele soubesse o que eu sei, penso que teria aumentado suas exigências.
De uma coisa estou agora satisfeito: que todas as caixas que chegaram a Whitby vindas de Varna no Demeter foram depositadas com segurança na antiga capela de Carfax. Deve haver cinquenta delas lá, a menos que algumas tenham sido removidas desde então — como temo, pelo diário do Dr. Seward.
Tentarei ver o carreteiro que levou as caixas de Carfax quando Renfield os atacou. Seguindo essa pista, talvez aprendamos muita coisa.
Mais tarde.--Mina e eu trabalhamos o dia todo, e colocamos todos os papéis em ordem.
Diário de Mina Harker.
30 de setembro.--Estou tão contente que mal sei como me conter. É, suponho, a reação ao medo constante que eu sentia: que este caso terrível e a reabertura de sua antiga ferida pudessem agir de forma prejudicial sobre Jonathan. Vi-o partir para Whitby com o rosto mais corajoso que pude, mas eu estava doente de apreensão. O esforço, no entanto, fez-lhe bem. Ele nunca esteve tão resoluto, nunca tão forte, nunca tão cheio de energia vulcânica como no presente. É exatamente como disse aquele querido e bom Professor Van Helsing: ele é de fibra, e melhora sob uma pressão que mataria uma natureza mais fraca. Ele voltou cheio de vida, esperança e determinação; temos tudo pronto para esta noite. Sinto-me quase louca de excitação. Suponho que se deveria ter pena de qualquer coisa tão caçada como é o Conde. É exatamente isso: esta Coisa não é humana — nem mesmo animal. Ler o relato do Dr. Seward sobre a morte da pobre Lucy, e o que se seguiu, é o suficiente para secar as fontes da piedade no coração de alguém.
Mais tarde.--Lord Godalming e o Sr. Morris chegaram antes do que esperávamos. O Dr. Seward estava fora a negócios e havia levado Jonathan com ele, então tive que recebê-los. Foi para mim um encontro doloroso, pois trouxe de volta todas as esperanças da pobre e querida Lucy de apenas alguns meses atrás. É claro que eles tinham ouvido Lucy falar de mim, e parecia que o Dr. Van Helsing, também, tinha estado “tocando minha trombeta”, como expressou o Sr. Morris. Pobres rapazes, nenhum deles está ciente de que sei tudo sobre as propostas que fizeram a Lucy. Eles não sabiam muito bem o que dizer ou fazer, pois ignoravam a extensão do meu conhecimento; então tiveram que se manter em assuntos neutros. No entanto, ponderei sobre o assunto e cheguei à conclusão de que a melhor coisa que eu poderia fazer seria deixá-los a par dos acontecimentos até o momento. Eu sabia pelo diário do Dr. Seward que eles estiveram na morte de Lucy — sua morte real — e que não precisaria temer trair qualquer segredo antes da hora. Então eu lhes disse, da melhor maneira que pude, que tinha lido todos os papéis e diários, e que meu marido e eu, tendo-os datilografado, tínhamos acabado de colocá-los em ordem. Dei a cada um uma cópia para ler na biblioteca. Quando Lord Godalming recebeu a sua e folheou — faz uma pilha bastante grande — ele disse:--
“Foi a senhora quem escreveu tudo isto, Sra. Harker?”
Assenti, e ele continuou:--
“Não vejo bem o objetivo disso; mas vocês são todos tão bons e gentis, e têm trabalhado tão sinceramente e tão energicamente, que tudo o que posso fazer é aceitar suas ideias de olhos vendados e tentar ajudá-los. Já recebi uma lição sobre aceitar fatos que deveria tornar um homem humilde até a última hora de sua vida. Além disso, sei que a senhora amava minha pobre Lucy...” Aqui ele se virou e cobriu o rosto com as mãos. Eu podia ouvir as lágrimas em sua voz. O Sr. Morris, com delicadeza instintiva, apenas colocou a mão por um momento em seu ombro, e então saiu silenciosamente da sala. Suponho que haja algo na natureza feminina que torna o homem livre para desabar diante dela e expressar seus sentimentos no lado terno ou emocional sem sentir que isso é depreciativo para sua masculinidade; pois quando Lord Godalming se viu sozinho comigo, sentou-se no sofá e cedeu total e abertamente. Sentei-me ao lado dele e peguei sua mão. Espero que ele não tenha achado que fui atrevida, e que se ele pensar nisso mais tarde, nunca terá tal pensamento. Ali eu o subestimo; sei que ele nunca terá — ele é um cavalheiro verdadeiro demais. Eu disse a ele, pois podia ver que seu coração estava se partindo:--
“Eu amava a querida Lucy, e sei o que ela era para você, e o que você era para ela. Ela e eu éramos como irmãs; e agora que ela se foi, não me deixará ser como uma irmã para você em sua dor? Sei que tipo de sofrimentos você teve, embora eu não possa medir a profundidade deles. Se a simpatia e a piedade puderem ajudar em sua aflição, não me deixará ser de alguma pequena utilidade — pelo bem de Lucy?”
Em um instante, o pobre e querido rapaz foi dominado pelo pesar. Pareceu-me que tudo o que ele vinha sofrendo em silêncio ultimamente encontrou uma saída de uma só vez. Ele ficou bastante histérico e, levantando as mãos abertas, bateu as palmas uma na outra em uma agonia perfeita de pesar. Ele se levantou e depois se sentou novamente, e as lágrimas correram por suas bochechas. Senti uma piedade infinita por ele e abri meus braços sem pensar. Com um soluço, ele colocou a cabeça em meu ombro e chorou como uma criança exausta, enquanto tremia de emoção.
Nós, mulheres, temos algo de mãe em nós que nos faz elevar acima de questões menores quando o espírito materno é invocado; senti a cabeça deste homem grande e sofredor descansando em mim, como se fosse a do bebê que algum dia poderá repousar em meu seio, e acariciei seu cabelo como se fosse meu próprio filho. Nunca pensei na época em como tudo aquilo era estranho.
Após um pouco, seus soluços cessaram, e ele se levantou com um pedido de desculpas, embora não tenha disfarçado sua emoção. Ele me disse que, por dias e noites passados — dias cansativos e noites sem dormir —, ele não tinha conseguido falar com ninguém, como um homem deve falar em seu tempo de dor. Não havia mulher cuja simpatia pudesse ser-lhe dada, ou com quem, devido às circunstâncias terríveis com as quais sua dor estava cercada, ele pudesse falar livremente. “Sei agora como sofri”, disse ele, enquanto enxugava os olhos, “mas não sei ainda — e ninguém mais poderá saber — o quanto sua doce simpatia significou para mim hoje. Saberei melhor com o tempo; e acredite que, embora eu não seja ingrato agora, minha gratidão crescerá com minha compreensão. Você me deixará ser como um irmão, não deixará, por todas as nossas vidas — pelo bem da querida Lucy?”
“Pelo bem da querida Lucy”, eu disse enquanto apertávamos as mãos. “Sim, e pelo seu próprio bem”, acrescentou ele, “pois se a estima e a gratidão de um homem valem a pena, você ganhou a minha hoje. Se o futuro lhe trouxer um momento em que precise da ajuda de um homem, acredite, você não chamará em vão. Deus permita que tal momento nunca lhe chegue para quebrar o brilho da sua vida; mas se chegar, prometa-me que me deixará saber.” Ele estava tão sincero, e sua dor era tão fresca, que senti que isso o consolaria, então eu disse:--
“Eu prometo.”
Enquanto caminhava pelo corredor, vi o Sr. Morris olhando por uma janela. Ele se virou ao ouvir meus passos. “Como está Art?”, disse ele. Então, notando meus olhos vermelhos, continuou: “Ah, vejo que você o estava consolando. Pobre rapaz! Ele precisa disso. Ninguém além de uma mulher pode ajudar um homem quando ele está com problemas do coração; e ele não tinha ninguém para consolá-lo.”
Ele carregava seu próprio problema tão bravamente que meu coração sangrava por ele. Vi o manuscrito em sua mão e soube que, quando ele o lesse, perceberia o quanto eu sabia; então eu disse a ele:--
“Eu gostaria de poder consolar a todos que sofrem do coração. Você me deixará ser sua amiga, e virá a mim para buscar conforto se precisar? Você saberá, mais tarde, por que falo.” Ele viu que eu estava falando sério e, inclinando-se, pegou minha mão e, levando-a aos lábios, beijou-a. Pareceu-me pouco conforto para uma alma tão corajosa e altruísta, e, impulsivamente, inclinei-me e o beijei. As lágrimas surgiram em seus olhos, e houve um sufoco momentâneo em sua garganta; ele disse calmamente:--
“Garotinha, você nunca se arrependerá dessa bondade de coração puro, enquanto viver!” Então ele entrou no escritório para seu amigo.
“Garotinha!” — as mesmas palavras que ele tinha usado com Lucy, e oh, como ele provou ser um amigo!
CAPÍTULO XVIII.
/Diário do Dr. Seward./
30 de setembro.--Cheguei em casa às cinco horas e descobri que Godalming e Morris não só tinham chegado, como já tinham estudado a transcrição dos vários diários e cartas que Harker e sua maravilhosa esposa haviam feito e organizado. Harker ainda não tinha retornado de sua visita aos carregadores, sobre os quais o Dr. Hennessey tinha me escrito. A Sra. Harker nos deu uma xícara de chá, e posso dizer honestamente que, pela primeira vez desde que moro nela, esta velha casa parecia um lar. Quando terminamos, a Sra. Harker disse:--
“Dr. Seward, posso pedir um favor? Quero ver seu paciente, o Sr. Renfield. Deixe-me vê-lo. O que você disse sobre ele em seu diário me interessa muito!” Ela parecia tão suplicante e tão bonita que não pude recusar, e não havia nenhuma razão possível pela qual eu devesse; então a levei comigo. Quando entrei no quarto, disse ao homem que uma senhora gostaria de vê-lo; ao que ele simplesmente respondeu: “Por quê?”
“Ela está percorrendo a casa e quer ver todos nela”, respondi. “Oh, muito bem”, disse ele: “deixe-a entrar, certamente; mas espere um minuto até que eu arrume o lugar.” Seu método de arrumar era peculiar: ele simplesmente engoliu todas as moscas e aranhas nas caixas antes que eu pudesse detê-lo. Era bastante evidente que ele temia, ou sentia ciúmes, de alguma interferência. Quando terminou sua tarefa repugnante, disse alegremente: “Deixe a senhora entrar”, e sentou-se na borda da cama com a cabeça baixa, mas com as pálpebras levantadas para que pudesse vê-la assim que ela entrasse. Por um momento, pensei que ele pudesse ter alguma intenção homicida; lembrei-me de quão calmo ele tinha estado pouco antes de me atacar em meu próprio escritório, e tomei o cuidado de ficar onde pudesse agarrá-lo imediatamente se ele tentasse dar um salto nela. Ela entrou no quarto com uma graça natural que imediatamente imporia respeito a qualquer lunático — pois a naturalidade é uma das qualidades que os loucos mais respeitam. Ela caminhou até ele, sorrindo agradavelmente, e estendeu a mão.
“Boa noite, Sr. Renfield”, disse ela. “Veja, eu o conheço, pois o Dr. Seward me falou sobre você.” Ele não respondeu imediatamente, mas a observou atentamente com uma carranca fixa no rosto. Esse olhar deu lugar a um de admiração, que se fundiu em dúvida; então, para meu intenso espanto, ele disse:--
“Você não é a moça com quem o doutor queria se casar, é? Você não pode ser, sabe, pois ela está morta.” A Sra. Harker sorriu docemente enquanto respondia:--
“Oh, não! Tenho meu próprio marido, com quem me casei antes mesmo de ver o Dr. Seward, ou ele a mim. Sou a Sra. Harker.”
“Então o que você está fazendo aqui?”
“Meu marido e eu estamos hospedados em uma visita ao Dr. Seward.”
“Então não fique.”
“Mas por que não?” Pensei que este estilo de conversa pudesse não ser agradável para a Sra. Harker, tanto quanto não era para mim, então entrei na conversa:--
“Como você sabia que eu queria me casar com alguém?” Sua resposta foi simplesmente desdenhosa, dada em uma pausa na qual ele desviou os olhos da Sra. Harker para mim, voltando-os instantaneamente para ela:--
“Que pergunta asinina!”
“Não vejo isso de forma alguma, Sr. Renfield”, disse a Sra. Harker, imediatamente defendendo-me. Ele respondeu a ela com tanta cortesia e respeito quanto tinha demonstrado desprezo por mim:--
“A senhora compreenderá, é claro, Sra. Harker, que quando um homem é amado e honrado como nosso anfitrião, tudo o que diz respeito a ele é de interesse em nossa pequena comunidade. O Dr. Seward é amado não apenas por sua casa e seus amigos, mas até mesmo por seus pacientes, que, sendo alguns deles mal equilibrados mentalmente, tendem a distorcer causas e efeitos. Como eu mesmo sou um interno de um asilo de lunáticos, não posso deixar de notar que as tendências sofísticas de alguns de seus internos se inclinam para os erros de non causa e ignoratio elenchi.” Eu positivamente arregalei meus olhos com esse novo desenvolvimento. Lá estava meu lunático de estimação — o mais pronunciado de seu tipo que já encontrei — falando filosofia elementar e com a maneira de um cavalheiro polido. Pergunto-me se foi a presença da Sra. Harker que tocou alguma corda em sua memória. Se essa nova fase foi espontânea, ou de alguma forma devida à sua influência inconsciente, ela deve ter algum dom ou poder raro.
Continuamos a conversar por algum tempo; e, vendo que ele estava aparentemente bastante razoável, ela se aventurou, olhando para mim com uma pergunta ao começar, a levá-lo ao seu tópico favorito. Fiquei novamente espantado, pois ele abordou a questão com a imparcialidade da mais completa sanidade; ele até usou a si mesmo como exemplo ao mencionar certas coisas.
“Ora, eu mesmo sou um exemplo de um homem que nutria uma estranha crença. De fato, não era de admirar que meus amigos ficassem alarmados e insistissem para que eu fosse colocado sob controle. Eu costumava imaginar que a vida era uma entidade positiva e perpétua, e que, ao consumir uma infinidade de seres vivos, não importando quão baixos na escala da criação, alguém poderia prolongar a vida indefinidamente. Por vezes, mantinha essa crença tão fortemente que cheguei a tentar tirar uma vida humana. O médico aqui presente confirmará que, em uma ocasião, tentei matá-lo com o propósito de fortalecer meus poderes vitais através da assimilação de sua vida em meu próprio corpo, por meio de seu sangue — confiando, é claro, na frase bíblica: ‘Pois o sangue é a vida’. Embora, na verdade, o vendedor de um certo remédio tenha vulgarizado esse truísmo a ponto de torná-lo desprezível. Não é verdade, doutor?” Balancei a cabeça afirmativamente, pois estava tão pasmo que mal sabia o que deveria pensar ou dizer; era difícil imaginar que eu o vira devorar suas aranhas e moscas não fazia cinco minutos. Olhando para meu relógio, vi que deveria ir à estação encontrar Van Helsing, então disse à Sra. Harker que era hora de partir. Ela veio imediatamente, após dizer gentilmente ao Sr. Renfield: “Adeus, e espero que eu possa vê-lo com frequência, sob auspícios mais agradáveis para você”, ao que, para meu espanto, ele respondeu:--
“Adeus, minha cara. Rezo a Deus para que eu nunca mais veja seu doce rosto. Que Ele a abençoe e a proteja!”
Quando fui à estação encontrar Van Helsing, deixei os rapazes para trás. O pobre Art parecia mais alegre do que esteve desde que Lucy adoeceu pela primeira vez, e Quincey está mais parecido com seu eu brilhante de sempre do que esteve em muitos dias.
Van Helsing desceu da carruagem com a agilidade ansiosa de um menino. Ele me viu de imediato e correu até mim, dizendo:--
“Ah, amigo John, como vai tudo? Bem? Então! Estive ocupado, pois vim aqui para ficar, se necessário. Todos os assuntos estão resolvidos para mim, e tenho muito a contar. Madame Mina está com você? Sim. E seu marido tão distinto? E Arthur e meu amigo Quincey, eles estão com você também? Bom!”
Enquanto dirigia para a casa, contei-lhe o que havia acontecido e como meu próprio diário fora de alguma utilidade graças à sugestão da Sra. Harker; ao que o Professor me interrompeu:--
“Ah, essa maravilhosa Madame Mina! Ela tem cérebro de homem — um cérebro que um homem deveria ter se fosse muito talentoso — e coração de mulher. O bom Deus a moldou para um propósito, acredite-me, quando fez essa combinação tão boa. Amigo John, até agora a sorte fez dessa mulher uma ajuda para nós; depois de hoje, ela não deve ter nada a ver com este assunto tão terrível. Não é bom que ela corra um risco tão grande. Nós, homens, estamos determinados — ora, não estamos juramentados? — a destruir esse monstro; mas não é um papel para uma mulher. Mesmo que ela não seja prejudicada, seu coração pode falhar diante de tantos e tamanhos horrores; e, daqui em diante, ela pode sofrer — tanto acordada, por causa de seus nervos, quanto dormindo, por causa de seus sonhos. E, além disso, ela é uma mulher jovem e casada há pouco tempo; pode haver outras coisas em que pensar algum dia, se não agora. Você me diz que ela escreveu tudo, então ela deve consultar conosco; mas amanhã ela diz adeus a este trabalho, e nós seguimos sozinhos.” Concordei sinceramente com ele, e então contei o que havíamos descoberto em sua ausência: que a casa que Dracula comprou era exatamente a que ficava ao lado da minha. Ele ficou pasmo, e uma grande preocupação pareceu tomar conta dele. “Oh, se tivéssemos sabido disso antes!” disse ele, “pois então poderíamos tê-lo alcançado a tempo de salvar a pobre Lucy. No entanto, ‘o leite derramado não grita depois’, como vocês dizem. Não pensaremos nisso, mas seguiremos nosso caminho até o fim.” Então ele caiu em um silêncio que durou até entrarmos em meu próprio portão. Antes de irmos nos preparar para o jantar, ele disse à Sra. Harker:--
“Fui informado, Madame Mina, por meu amigo John, de que você e seu marido registraram em ordem exata todas as coisas que foram, até este momento.”
“Não até este momento, Professor”, ela disse impulsivamente, “mas até esta manhã.”
“Mas por que não até agora? Vimos até aqui quão boa luz todas as pequenas coisas trouxeram. Contamos nossos segredos, e ainda assim ninguém que contou está pior por causa disso.”
A Sra. Harker começou a corar e, tirando um papel do bolso, disse:--
“Dr. Van Helsing, o senhor leria isto e me diria se deve ser incluído? É meu registro de hoje. Eu também vi a necessidade de registrar por ora tudo, por mais trivial que seja; mas há pouco aqui, exceto o que é pessoal. Deve ser incluído?” O Professor leu tudo gravemente e devolveu-o, dizendo:--
“Não precisa ser incluído se você não deseja; mas reze para que seja. Só pode fazer seu marido amá-la ainda mais, e a todos nós, seus amigos, honrá-la mais — assim como estimá-la e amá-la mais.” Ela tomou de volta com outro rubor e um sorriso brilhante.
E assim, agora, até esta mesma hora, todos os registros que temos estão completos e em ordem. O Professor levou uma cópia para estudar após o jantar, e antes de nossa reunião, que está marcada para as nove horas. O restante de nós já leu tudo; então, quando nos encontrarmos no escritório, todos estaremos informados sobre os fatos e poderemos organizar nosso plano de batalha contra este terrível e misterioso inimigo.
Diário de Mina Harker.
30 de setembro. — Quando nos reunimos no escritório do Dr. Seward, duas horas após o jantar, que fora às seis horas, formamos inconscientemente uma espécie de conselho ou comitê. O Professor Van Helsing ocupou a cabeceira da mesa, para a qual o Dr. Seward o indicou assim que ele entrou na sala. Ele fez com que eu me sentasse ao lado dele, à sua direita, e pediu-me que atuasse como secretária; Jonathan sentou-se ao meu lado. Diante de nós estavam Lord Godalming, Dr. Seward e Sr. Morris — Lord Godalming ao lado do Professor, e o Dr. Seward no centro. O Professor disse:--
“Posso, suponho, presumir que todos nós estamos familiarizados com os fatos que estão nestes documentos.” Todos expressamos concordância, e ele continuou:--
“Então seria, creio eu, bom que eu lhes contasse algo sobre o tipo de inimigo com o qual temos de lidar. Farei saber, então, algo da história deste homem, que foi averiguado para mim. Assim poderemos discutir como agiremos, e podemos tomar nossas medidas de acordo.
“Existem seres chamados vampiros; alguns de nós têm evidências de que eles existem. Mesmo que não tivéssemos a prova de nossa própria experiência infeliz, os ensinamentos e os registros do passado dão prova suficiente para pessoas sensatas. Admito que, no início, eu era cético. Se não fosse pelo fato de que, ao longo de longos anos, treinei-me para manter uma mente aberta, eu não poderia ter acreditado até o momento em que tal fato trovejou em meus ouvidos. ‘Veja! veja! Eu provo; eu provo.’ Infelizmente! Se eu soubesse desde o início o que agora sei — ora, se eu tivesse ao menos adivinhado a respeito dele — uma vida tão preciosa teria sido poupada a muitos de nós que a amávamos. Mas isso se foi; e devemos trabalhar de modo que outras almas pobres não pereçam, enquanto pudermos salvar. O nosferatu não morre como a abelha quando pica uma vez. Ele é apenas mais forte; e sendo mais forte, tem ainda mais poder para praticar o mal. Este vampiro que está entre nós é por si só tão forte em pessoa quanto vinte homens; ele tem astúcia mais que mortal, pois sua astúcia é o crescimento de eras; ele ainda tem os auxílios da necromancia, que é, como sua etimologia implica, a adivinhação pelos mortos, e todos os mortos aos quais ele pode se aproximar estão sob seu comando; ele é bruto, e mais que bruto; ele é demônio na insensibilidade, e o coração dele não existe; ele pode, dentro de limitações, aparecer à vontade quando, onde e em qualquer uma das formas que lhe são possíveis; ele pode, dentro de seu alcance, comandar os elementos: a tempestade, o nevoeiro, o trovão; ele pode comandar todas as coisas inferiores: o rato, a coruja e o morcego — a traça, a raposa e o lobo; ele pode crescer e tornar-se pequeno; e ele pode, por vezes, desaparecer e vir sem ser notado. Como, então, devemos começar nossa luta para destruí-lo? Como encontraremos onde ele está; e tendo encontrado, como podemos destruir? Meus amigos, isso é muito; é uma tarefa terrível que empreendemos, e pode haver consequências que farão os bravos estremecerem. Pois se falharmos nesta nossa luta, ele certamente vencerá; e então onde terminamos? A vida não é nada; não me importo com ela. Mas falhar aqui não é mera vida ou morte. É que nos tornamos como ele; que daqui em diante nos tornamos coisas vis da noite como ele — sem coração ou consciência, atacando os corpos e as almas daqueles que mais amamos. Para nós, para sempre, os portões do céu estão fechados; pois quem os abrirá para nós novamente? Seguimos por todo o tempo abominados por todos; uma mancha na face da luz do sol de Deus; uma flecha no lado d’Aquele que morreu pelo homem. Mas estamos face a face com o dever; e, em tal caso, devemos recuar? Por mim, digo não; mas então sou velho, e a vida, com seu sol, seus lugares belos, seu canto dos pássaros, sua música e seu amor, jazem muito atrás. Vocês outros são jovens. Alguns viram tristeza; mas ainda há dias belos em reserva. O que dizem?”
Enquanto ele falava, Jonathan havia tomado minha mão. Receei, oh, tanto, que a natureza aterradora do nosso perigo o estivesse dominando quando vi sua mão se estender; mas foi vida para mim sentir seu toque — tão forte, tão autoconfiante, tão resoluto. A mão de um homem corajoso pode falar por si mesma; ela nem precisa do amor de uma mulher para ouvir sua música.
Quando o Professor terminou de falar, meu marido olhou nos meus olhos, e eu nos dele; não houve necessidade de palavras entre nós.
“Respondo por Mina e por mim”, disse ele.
“Conte comigo, Professor”, disse o Sr. Quincey Morris, lacônico como de costume.
“Estou com vocês”, disse Lord Godalming, “por causa de Lucy, se não por outra razão.”
O Dr. Seward apenas assentiu. O Professor levantou-se e, após colocar seu crucifixo de ouro sobre a mesa, estendeu a mão para ambos os lados. Tomei sua mão direita, e Lord Godalming a esquerda; Jonathan segurou minha mão direita com a sua esquerda e estendeu-a para o Sr. Morris. Assim, enquanto todos dávamos as mãos, nosso pacto solene foi firmado. Senti meu coração gelado, mas nem sequer me ocorreu recuar. Retomamos nossos lugares, e o Dr. Van Helsing continuou com uma espécie de alegria que mostrava que o trabalho sério havia começado. Teria de ser tratado com tanta gravidade, e de forma tão profissional, quanto qualquer outra transação da vida:--
“Bem, vocês sabem contra o que temos de lutar; mas nós, também, não estamos sem força. Temos a nosso favor o poder da combinação — um poder negado à espécie vampírica; temos recursos da ciência; somos livres para agir e pensar; e as horas do dia e da noite são nossas igualmente. De fato, na medida em que nossos poderes se estendem, eles não estão restringidos, e somos livres para usá-los. Temos dedicação a uma causa, e um objetivo a alcançar que não é egoísta. Essas coisas são muito.
“Agora, vejamos até que ponto os poderes gerais contra nós são restritos, e como o indivíduo não pode. Enfim, consideremos as limitações do vampiro em geral, e deste em particular.
“Tudo o que temos para seguir são tradições e superstições. Estas não parecem muito no início, quando o assunto é de vida ou morte — ora, de mais do que vida ou morte. No entanto, devemos ficar satisfeitos; em primeiro lugar porque temos de ficar — nenhum outro meio está sob nosso controle — e em segundo lugar, porque, afinal, essas coisas — tradição e superstição — são tudo. Não repousa nelas a crença em vampiros para outros — embora não, infelizmente! para nós? Um ano atrás, qual de nós teria aceitado tal possibilidade, em meio ao nosso século dezenove científico, cético e realista? Até desdenhávamos uma crença que víamos justificada sob nossos próprios olhos. Aceitem, então, que o vampiro, e a crença em suas limitações e sua cura, repousam por um momento na mesma base. Pois, deixem-me dizer, ele é conhecido em toda parte onde homens estiveram. Na antiga Grécia, na antiga Roma; ele floresce na Alemanha por toda parte, na França, na Índia, até no Quersoneso; e na China, tão longe de nós em todos os sentidos, até lá ele está, e os povos o temem até hoje. Ele seguiu o rastro do berserker islandês, do huno gerado pelo demônio, do eslavo, do saxão, do magiar. Até aqui, então, temos tudo sobre o que podemos agir; e deixem-me dizer que grande parte das crenças são justificadas pelo que vimos em nossa própria e tão infeliz experiência. O vampiro vive, e não pode morrer pela mera passagem do tempo; ele pode florescer quando pode se fartar do sangue dos vivos. Mais ainda, vimos entre nós que ele pode até rejuvenescer; que suas faculdades vitais se tornam vigorosas, e parecem como se se renovassem quando seu alimento especial é farto. Mas ele não pode florescer sem essa dieta; ele não come como os outros. Mesmo o amigo Jonathan, que viveu com ele por semanas, nunca o viu comer, nunca! Ele não projeta sombra; ele não faz reflexo no espelho, como também Jonathan observa. Ele tem a força de muitos em sua mão — testemunhem novamente Jonathan quando fechou a porta contra os lobos, e quando o ajudou na diligência também. Ele pode se transformar em lobo, como deduzimos da chegada do navio em Whitby, quando ele despedaçou o cão; ele pode ser como morcego, como Madame Mina o viu na janela em Whitby, e como o amigo John o viu voar desta casa tão próxima, e como meu amigo Quincey o viu na janela da Srta. Lucy. Ele pode vir em névoa que ele cria — aquele nobre capitão do navio provou isso; mas, pelo que sabemos, a distância que ele pode criar essa névoa é limitada, e ela só pode estar ao redor de si mesmo. Ele vem em raios de luar como poeira elemental — como novamente Jonathan viu aquelas irmãs no castelo de Dracula. Ele se torna tão pequeno — nós mesmos vimos a Srta. Lucy, antes de estar em paz, deslizar através de um espaço de um fio de cabelo na porta da tumba. Ele pode, uma vez que encontre seu caminho, sair de qualquer coisa ou entrar em qualquer coisa, não importa quão firmemente esteja fechada ou mesmo selada com fogo — solda, como vocês chamam. Ele pode ver no escuro — não é um poder pequeno, em um mundo que é metade fechado para a luz. Ah, mas ouçam-me até o fim. Ele pode fazer todas essas coisas, ainda assim não é livre. Não; ele é até mais prisioneiro que o escravo da galera, que o louco em sua cela. Ele não pode ir aonde deseja; aquele que não é da natureza ainda tem que obedecer a algumas das leis da natureza — por que, não sabemos. Ele não pode entrar em lugar algum no início, a menos que haja alguém da casa que o convide a entrar; embora depois ele possa vir como quiser. Seu poder cessa, como o de todas as coisas más, com a vinda do dia. Apenas em certos momentos ele pode ter liberdade limitada. Se ele não estiver no lugar para onde está indo, ele só pode se transformar ao meio-dia ou exatamente ao nascer ou pôr do sol. Essas coisas nos são ditas, e neste nosso registro temos prova por inferência. Assim, enquanto ele pode fazer o que quiser dentro de seu limite, quando ele tem sua casa-terra, sua casa-caixão, sua casa-inferno, o lugar não santificado, como vimos quando ele foi ao túmulo do suicida em Whitby; ainda assim, em outros momentos, ele só pode se transformar quando a hora chega. Diz-se, também, que ele só pode atravessar água corrente na maré baixa ou alta. Então, há coisas que o afligem tanto que ele perde o poder, como o alho que conhecemos; e quanto a coisas sagradas, como este símbolo, meu crucifixo, que estava entre nós até agora quando resolvemos, para elas ele não é nada, mas em sua presença ele toma seu lugar longe e silencioso, com respeito. Há outros, também, sobre os quais falarei, para que, em nossa busca, possamos precisar deles. O ramo de rosa silvestre em seu caixão evita que ele se mova dele; uma bala sagrada disparada no caixão o mata para que ele esteja verdadeiramente morto; e quanto à estaca através dele, já sabemos de sua paz; ou a cabeça cortada que dá descanso. Vimos isso com nossos olhos.
“Assim, quando encontrarmos a habitação deste homem-que-foi, podemos confiná-lo em seu caixão e destruí-lo, se obedecermos ao que sabemos. Mas ele é inteligente. Pedi ao meu amigo Arminius, da Universidade de Buda-Pesth, que fizesse seu registro; e, de todos os meios que existem, ele me diz sobre quem ele foi. Ele deve, de fato, ter sido aquele Voivode Dracula que ganhou seu nome contra o turco, sobre o grande rio na própria fronteira da terra da Turquia. Se for assim, então ele não era um homem comum; pois naquele tempo, e por séculos depois, ele era falado como o mais inteligente e o mais astuto, assim como o mais corajoso dos filhos da ‘terra além da floresta’. Aquele cérebro poderoso e aquela resolução de ferro foram com ele para sua sepultura, e estão até agora alinhados contra nós. Os Draculas eram, diz Arminius, uma raça grande e nobre, embora de vez em quando houvesse rebentos que eram considerados por seus contemporâneos como tendo tido negócios com o Maligno. Eles aprenderam seus segredos na Scholomance, entre as montanhas sobre o Lago Hermanstadt, onde o diabo reivindica o décimo aluno como seu devido. Nos registros existem palavras como ‘stregoica’ — bruxa, ‘ordog’ e ‘pokol’ — Satanás e inferno; e em um manuscrito este próprio Dracula é falado como ‘wampyr’, que todos entendemos muito bem. Houve, a partir do ventre deste próprio, grandes homens e boas mulheres, e suas sepulturas tornam sagrada a terra onde apenas essa imundície pode habitar. Pois não é o menor de seus terrores que esta coisa má esteja enraizada profundamente em todo o bem; em solo estéril de memórias sagradas, ela não pode descansar.”
Enquanto falavam, o Sr. Morris olhava fixamente para a janela, e agora ele se levantou silenciosamente e saiu da sala. Houve uma pequena pausa, e então o Professor continuou:--
“E agora devemos decidir o que faremos. Temos aqui muitos dados, e devemos proceder para traçar nossa campanha. Sabemos pela investigação de Jonathan que do castelo para Whitby vieram cinquenta caixas de terra, todas as quais foram entregues em Carfax; também sabemos que pelo menos algumas dessas caixas foram removidas. Parece-me que nosso primeiro passo deveria ser verificar se todas as restantes permanecem na casa além daquele muro onde olhamos hoje; ou se mais alguma foi removida. Se o último, devemos rastrear----”
Neste momento fomos interrompidos de uma maneira muito alarmante. De fora da casa veio o som de um tiro de pistola; o vidro da janela estilhaçou-se com uma bala, que, ricocheteando no topo da guarnição, atingiu a parede oposta do quarto. Temo ser um covarde de coração, pois soltei um grito. Os homens saltaram todos para os seus pés; Lord Godalming correu para a janela e levantou a guilhotina. Ao fazê-lo, ouvimos a voz do Sr. Morris do lado de fora:--
“Perdão! Receio tê-los alarmado. Entrarei e explicar-lhes-ei o motivo.” Um minuto depois ele entrou e disse:--
“Foi uma idiotice da minha parte, e peço-lhe o seu perdão, Sra. Harker, muito sinceramente; temo tê-la assustado terrivelmente. Mas o facto é que, enquanto o Professor falava, veio um grande morcego e pousou no parapeito da janela. Ganhei tal horror a esses malditos animais devido aos eventos recentes que não os suporto, e saí para disparar um tiro, como tenho feito ultimamente nas noites sempre que vejo um. Costumavas rir-te de mim por isso, Art.”
“Acertaste-lhe?” perguntou o Dr. Van Helsing.
“Não sei; imagino que não, pois voou para o bosque.” Sem dizer mais nada, ele tomou o seu lugar, e o Professor começou a retomar a sua exposição:--
“Devemos rastrear cada uma destas caixas; e quando estivermos prontos, devemos capturar ou matar este monstro no seu covil; ou devemos, por assim dizer, esterilizar a terra, para que ele não mais possa buscar segurança nela. Assim, no fim, poderemos encontrá-lo na sua forma de homem entre as horas do meio-dia e do pôr do sol, e então enfrentá-lo quando ele estiver no seu momento de maior fraqueza.
“E agora para si, Madam Mina, esta noite é o fim até que tudo esteja bem. É demasiado preciosa para nós para correr tal risco. Quando nos separarmos esta noite, não deve questionar mais. Dir-lhe-emos tudo a seu tempo. Somos homens e somos capazes de suportar; mas a senhora deve ser a nossa estrela e a nossa esperança, e agiremos com muito mais liberdade por não estar em perigo, tal como nós estamos.”
Todos os homens, até Jonathan, pareciam aliviados; mas não me pareceu bem que eles devessem enfrentar o perigo e, talvez, diminuir a sua segurança — sendo a força a melhor segurança — por causa de mim; mas as suas mentes estavam decididas e, embora fosse uma pílula amarga de engolir, nada pude dizer, a não ser aceitar o seu cavalheiresco cuidado para comigo.
O Sr. Morris retomou a discussão:--
“Como não há tempo a perder, voto que demos uma vista de olhos à sua casa agora mesmo. O tempo é tudo para ele; e uma ação rápida da nossa parte pode salvar outra vítima.”
Confesso que o meu coração começou a falhar-me quando o tempo para a ação chegou tão perto, mas não disse nada, pois tinha um medo maior de que, se eu parecesse um entrave ou um obstáculo ao trabalho deles, poderiam até deixar-me fora dos seus conselhos por completo. Eles partiram agora para Carfax, com meios para entrar na casa.
À moda masculina, disseram-me para ir para a cama e dormir; como se uma mulher pudesse dormir quando aqueles que ama estão em perigo! Vou deitar-me e fingir que durmo, para que Jonathan não tenha preocupações adicionais sobre mim quando regressar.
Diário do Dr. Seward
1 de outubro, 4 da manhã.--Justo quando estávamos prestes a sair da casa, uma mensagem urgente foi-me trazida de Renfield para saber se eu o veria imediatamente, pois tinha algo da maior importância para me dizer. Disse ao mensageiro para avisar que atenderia aos seus desejos pela manhã; eu estava ocupado naquele preciso momento. O atendente acrescentou:--
“Ele parece muito importuno, senhor. Nunca o vi tão ansioso. Não sei se, se o senhor não o vir em breve, ele não terá um dos seus ataques violentos.” Eu sabia que o homem não teria dito isto sem algum motivo, por isso disse: “Está bem; vou agora;” e pedi aos outros que esperassem alguns minutos por mim, pois tinha de ir ver o meu “paciente”.
“Leve-me consigo, amigo John,” disse o Professor. “O caso dele no seu diário interessou-me muito, e teve relevância, também, de vez em quando, no nosso caso. Gostaria muito de o ver, e especialmente quando a sua mente está perturbada.”
“Posso ir também?” perguntou Lord Godalming.
“Eu também?” disse Quincey Morris. Assenti, e todos descemos o corredor juntos.
Encontrámo-lo num estado de considerável excitação, mas muito mais racional na sua fala e maneiras do que alguma vez o tinha visto. Havia uma compreensão incomum de si mesmo, que não se parecia com nada que eu tivesse encontrado num lunático; e ele tomava como certo que as suas razões prevaleceriam perante outros totalmente sãos. Todos os quatro entrámos no quarto, mas nenhum dos outros disse nada a princípio. O seu pedido era que eu o libertasse imediatamente do asilo e o enviasse para casa. Ele apoiou isto com argumentos relativos à sua recuperação completa, e alegou a sua própria sanidade existente. “Apelo aos seus amigos,” disse ele; “eles, talvez, não se importem de julgar o meu caso. A propósito, não me apresentou.” Fiquei tão espantado, que a estranheza de apresentar um louco num asilo não me ocorreu no momento; e, além disso, havia uma certa dignidade nas maneiras do homem, tanto do hábito da igualdade, que fiz imediatamente a apresentação: “Lord Godalming; Professor Van Helsing; Sr. Quincey Morris, do Texas; Sr. Renfield.” Ele apertou a mão a cada um deles, dizendo por sua vez:--
“Lord Godalming, tive a honra de apoiar o seu pai no Windham; lamento saber, pelo facto de deter o título, que ele já não está entre nós. Era um homem amado e honrado por todos os que o conheciam; e na sua juventude foi, ouvi dizer, o inventor de um ponche de rum queimado, muito apreciado na noite do Derby. Sr. Morris, deveria estar orgulhoso do seu grande estado. A sua receção na União foi um precedente que pode ter efeitos de longo alcance no futuro, quando o Polo e os Trópicos puderem prestar obediência às Estrelas e Listras. O poder dos Tratados pode ainda provar ser um vasto motor de expansão, quando a doutrina Monroe assumir o seu verdadeiro lugar como uma fábula política. Que dirá qualquer homem do seu prazer em conhecer Van Helsing? Senhor, não peço desculpas por abandonar todas as formas de prefixo convencional. Quando um indivíduo revolucionou a terapêutica com a sua descoberta da evolução contínua da matéria cerebral, as formas convencionais são desadequadas, uma vez que pareceriam limitá-lo a um de uma classe. Vossas senhorias, que por nacionalidade, por hereditariedade, ou pela posse de dons naturais, estão aptos a ocupar os vossos respetivos lugares no mundo em movimento, tomo como testemunhas de que estou tão são quanto, pelo menos, a maioria dos homens que estão em plena posse das suas liberdades. E tenho a certeza de que o senhor, Dr. Seward, humanitário e médico-legista, bem como cientista, considerará um dever moral tratar-me como alguém a ser considerado sob circunstâncias excecionais.” Ele fez este último apelo com um ar cortesão de convicção que não estava desprovido do seu próprio charme.
Penso que ficámos todos atordoados. Da minha parte, estava sob a convicção, apesar do meu conhecimento do caráter e da história do homem, de que a sua razão tinha sido restaurada; e senti um forte impulso de lhe dizer que estava satisfeito quanto à sua sanidade, e que veria as formalidades necessárias para a sua libertação pela manhã. Achei melhor esperar, contudo, antes de fazer uma declaração tão grave, pois, desde há muito, conhecia as mudanças repentinas a que este paciente em particular era propenso. Por isso, contentei-me em fazer uma declaração geral de que ele parecia estar a melhorar muito rapidamente; que teria uma conversa mais longa com ele pela manhã, e veria então o que poderia fazer no sentido de atender aos seus desejos. Isto não o satisfez de todo, pois ele disse rapidamente:--
“Mas temo, Dr. Seward, que mal compreenda o meu desejo. Desejo ir imediatamente — aqui — agora — nesta mesma hora — neste preciso momento, se puder. O tempo urge, e no nosso acordo implícito com o velho ceifeiro, é a essência do contrato. Tenho a certeza de que só é necessário colocar perante um praticante tão admirável como o Dr. Seward um desejo tão simples, mas tão momentoso, para garantir o seu cumprimento.” Ele olhou para mim intensamente e, vendo a negativa no meu rosto, virou-se para os outros e examinou-os atentamente. Não encontrando qualquer resposta suficiente, continuou:--
“Será possível que eu tenha errado na minha suposição?”
“Errou,” disse eu francamente, mas ao mesmo tempo, como senti, brutalmente. Houve uma pausa considerável, e então ele disse lentamente:--
“Então suponho que só me resta mudar o terreno do meu pedido. Permita-me pedir esta concessão — favor, privilégio, o que quiser. Contento-me em implorar num caso desses, não por motivos pessoais, mas pelo bem dos outros. Não estou em liberdade de lhe dar a totalidade das minhas razões; mas pode, garanto-lhe, acreditar em mim que são boas, sólidas e altruístas, e que nascem do mais alto sentido de dever. Se pudesse olhar, senhor, para o meu coração, aprovaria plenamente os sentimentos que me animam. Mais ainda, contar-me-ia entre os melhores e mais verdadeiros dos seus amigos.” Novamente ele olhou para todos nós intensamente. Eu tinha a convicção crescente de que esta mudança repentina de todo o seu método intelectual era apenas mais uma forma ou fase da sua loucura, e decidi deixá-lo continuar um pouco mais, sabendo por experiência que ele, como todos os lunáticos, acabaria por se denunciar no final. Van Helsing observava-o com um olhar da maior intensidade, as suas sobrancelhas espessas quase a encontrar-se com a concentração fixa do seu olhar. Ele disse a Renfield num tom que não me surpreendeu na altura, mas apenas quando pensei nisso depois — pois era como alguém que se dirige a um igual:--
“Não pode dizer francamente a sua verdadeira razão para desejar ser livre esta noite? Comprometo-me a que, se satisfizer até mesmo a mim — um estranho, sem preconceito, e com o hábito de manter uma mente aberta — o Dr. Seward dar-lhe-á, por sua própria conta e risco e sob a sua própria responsabilidade, o privilégio que procura.” Ele abanou a cabeça tristemente, e com um olhar de profundo arrependimento no rosto. O Professor continuou:--
“Vamos lá, senhor, pense bem. Alega o privilégio da razão no mais alto grau, uma vez que procura impressionar-nos com a sua completa razoabilidade. Faz isto, o senhor cuja sanidade temos razões para duvidar, uma vez que ainda não foi libertado do tratamento médico para este mesmo defeito. Se não nos quer ajudar no nosso esforço para escolher o caminho mais sábio, como podemos desempenhar o dever que o senhor mesmo nos impôs? Seja sábio, e ajude-nos; e se pudermos, ajudá-lo-emos a alcançar o seu desejo.” Ele continuou a abanar a cabeça enquanto dizia:--
“Dr. Van Helsing, não tenho nada a dizer. O seu argumento está completo, e se eu estivesse livre para falar não hesitaria um momento; mas não sou o meu próprio mestre nesta matéria. Só posso pedir-lhe que confie em mim. Se for recusado, a responsabilidade não recai sobre mim.” Pensei que era agora altura de terminar a cena, que se estava a tornar demasiado comicamente grave, por isso fui em direção à porta, dizendo simplesmente:--
“Vamos, meus amigos, temos trabalho a fazer. Boa noite.”
Contudo, ao aproximar-me da porta, uma nova mudança ocorreu no paciente. Ele moveu-se em minha direção tão rapidamente que, por um momento, temi que ele estivesse prestes a fazer outro ataque homicida. Os meus medos, porém, eram infundados, pois ele ergueu as suas duas mãos de forma suplicante e fez o seu pedido de uma maneira comovente. Ao ver que o próprio excesso da sua emoção estava a agir contra ele, ao devolver-nos mais às nossas antigas relações, ele tornou-se ainda mais demonstrativo. Olhei para Van Helsing e vi a minha convicção refletida nos seus olhos; por isso, tornei-me um pouco mais firme na minha postura, se não mais severo, e fiz-lhe um gesto de que os seus esforços eram inúteis. Eu já tinha visto anteriormente algo do mesmo entusiasmo constantemente crescente nele quando ele tinha de fazer algum pedido do qual, na altura, tinha pensado muito, como, por exemplo, quando queria um gato; e estava preparado para ver o colapso na mesma aquiescência sombria nesta ocasião. A minha expectativa não se realizou, pois, quando ele descobriu que o seu apelo não seria bem-sucedido, entrou num estado bastante frenético. Atirou-se de joelhos e ergueu as mãos, torcendo-as em súplica lastimosa, e derramou uma torrente de pedidos, com as lágrimas a rolarem pelas suas bochechas e todo o seu rosto e forma expressando a mais profunda emoção:--
“Deixe-me suplicar-lhe, Dr. Seward, oh, deixe-me implorar-lhe que me deixe sair desta casa imediatamente. Envie-me para longe como quiser e para onde quiser; envie guardas comigo com chicotes e correntes; deixe que me levem numa camisa de forças, algemado e acorrentado pelas pernas, até mesmo para uma prisão; mas deixe-me sair disto. O senhor não sabe o que faz ao manter-me aqui. Falo do fundo do meu coração — da minha própria alma. O senhor não sabe a quem prejudica, ou como; e eu não posso dizer. Ai de mim! Não posso dizer. Por tudo o que considera sagrado — por tudo o que considera caro — pelo seu amor que se perdeu — pela sua esperança que vive — pelo amor do Todo-Poderoso, tire-me daqui e salve a minha alma da culpa! Não me ouve, homem? Não consegue compreender? Nunca aprenderá? Não sabe que estou são e sincero agora; que não sou um lunático num ataque de loucura, mas um homem são a lutar pela sua alma? Oh, ouça-me! ouça-me! Deixe-me ir! deixe-me ir! deixe-me ir!”
Pensei que quanto mais tempo isto continuasse, mais selvagem ele ficaria, e assim provocaria um ataque; por isso peguei-lhe na mão e levantei-o.
“Vamos,” disse eu severamente, “chega disto; já tivemos o suficiente. Vá para a sua cama e tente comportar-se com mais discrição.”
Ele parou subitamente e olhou para mim atentamente por vários momentos. Depois, sem uma palavra, levantou-se e, movendo-se, sentou-se na beira da cama. O colapso tinha ocorrido, como em ocasiões anteriores, exatamente como eu esperava.
Quando eu estava a sair do quarto, o último do nosso grupo, ele disse-me com uma voz calma e educada:--
“O senhor, creio eu, Dr. Seward, far-me-á a justiça de ter em mente, mais tarde, que fiz o que pude para o convencer esta noite.”
CAPÍTULO XIX.
/Diário de Jonathan Harker./
1 de outubro, 5 da manhã.--Fui com o grupo para a busca com a mente tranquila, pois penso que nunca vi Mina tão absolutamente forte e bem. Estou tão contente por ela ter consentido em ficar para trás e deixar-nos, homens, fazer o trabalho. De alguma forma, era um terror para mim que ela estivesse metida neste negócio horrível; mas agora que o seu trabalho está feito, e que é devido à sua energia, inteligência e previsão que toda a história foi montada de tal forma que cada ponto conta, ela pode muito bem sentir que a sua parte está terminada, e que pode, doravante, deixar o resto connosco. Estávamos, penso eu, todos um pouco perturbados com a cena com o Sr. Renfield. Quando saímos do seu quarto, ficámos em silêncio até voltarmos ao escritório. Então o Sr. Morris disse ao Dr. Seward:--
“Diga, Jack, se aquele homem não estava a tentar um blefe, ele é o lunático mais são que já vi. Não tenho a certeza, mas acredito que ele tinha algum propósito sério, e se tinha, foi bastante duro para ele não ter uma hipótese.” Lord Godalming e eu ficámos em silêncio, mas o Dr. Van Helsing acrescentou:--
“Amigo John, sabe mais de lunáticos do que eu, e fico contente por isso, pois temo que, se tivesse cabido a mim decidir, teria, antes daquele último ataque histérico, dado a ele liberdade. Mas vivemos e aprendemos, e na nossa tarefa presente não devemos correr riscos, como diria o meu amigo Quincey. Tudo está melhor como está.” O Dr. Seward parecia responder a ambos de uma forma sonhadora:--
“Não sei se não concordo consigo. Se aquele homem fosse um lunático comum, teria arriscado confiar nele; mas ele parece tão misturado com o Conde, de uma forma tão enigmática, que tenho medo de fazer algo errado ao ajudar os seus caprichos. Não me esqueço de como ele rezou com quase igual fervor por um gato, e depois tentou arrancar-me a garganta com os dentes. Além disso, ele chamou ao Conde ‘senhor e mestre’, e pode querer sair para o ajudar de alguma forma diabólica. Aquela coisa horrível tem os lobos e os ratos e os da sua espécie para o ajudar, por isso suponho que ele não esteja acima de tentar usar um lunático respeitável. Ele certamente parecia sincero, contudo. Só espero que tenhamos feito o melhor. Estas coisas, em conjunto com o trabalho selvagem que temos em mãos, ajudam a tirar a coragem a um homem.” O Professor aproximou-se e, colocando uma mão no seu ombro, disse da sua forma grave e gentil:--
“Amigo John, não tenha medo. Estamos a tentar fazer o nosso dever num caso muito triste e terrível; só podemos fazer o que julgamos melhor. Que mais temos a esperar, exceto a piedade do bom Deus?” Lord Godalming tinha-se ausentado por alguns minutos, mas agora regressava. Ele segurava um pequeno apito de prata enquanto comentava:--
“Aquele lugar antigo pode estar cheio de ratos, e se estiver, tenho um antídoto à mão.” Tendo passado o muro, dirigimo-nos para a casa, tendo o cuidado de nos mantermos nas sombras das árvores no relvado quando o luar brilhava. Quando chegámos ao alpendre, o Professor abriu a sua mala e tirou um monte de coisas, que colocou no degrau, separando-as em quatro pequenos grupos, evidentemente um para cada um. Então ele falou:--
“Meus amigos, vamos entrar num perigo terrível, e precisamos de armas de muitos tipos. O nosso inimigo não é meramente espiritual. Lembrem-se que ele tem a força de vinte homens, e que, embora os nossos pescoços ou as nossas traqueias sejam do tipo comum — e, portanto, quebráveis ou esmagáveis — a dele não é suscetível à mera força. Um homem mais forte, ou um grupo de homens mais fortes em tudo do que ele, podem em certos momentos segurá-lo; mas ainda assim, eles não podem feri-lo como nós podemos ser feridos por ele. Devemos, portanto, guardar-nos do seu toque. Mantenham isto perto do vosso coração” — enquanto falava, ele levantou um pequeno crucifixo de prata e estendeu-o para mim, sendo eu o que estava mais perto dele — “coloquem estas flores à volta do vosso pescoço” — aqui ele entregou-me uma grinalda de flores de alho murchas — “para outros inimigos mais mundanos, este revólver e esta faca; e para ajuda em tudo, estas pequenas lâmpadas elétricas, que podem prender ao vosso peito; e para tudo, e acima de tudo no fim, isto, que não devemos profanar desnecessariamente.” Esta era uma porção de hóstia sagrada, que ele colocou num envelope e me entregou. Cada um dos outros foi equipado de forma semelhante. “Agora,” disse ele, “amigo John, onde estão as chaves mestras? Se for possível abrir a porta, não precisamos de arrombar a casa pela janela, como antes no caso da Srta. Lucy.”
O Dr. Seward tentou uma ou duas chaves mestras, sendo que a sua destreza mecânica de cirurgião lhe foi de grande préstimo. Pouco depois, encontrou uma que servia; após um breve jogo de vai-e-vem, o ferrolho cedeu e, com um clangor enferrujado, disparou para trás. Empurramos a porta, as dobradiças oxidadas rangeram e ela abriu-se lentamente. Foi assustadoramente semelhante à imagem que me fora transmitida no diário do Dr. Seward sobre a abertura do túmulo da Srta. Westenra; imagino que a mesma ideia pareceu ocorrer aos outros, pois, de comum acordo, recuaram. O Professor foi o primeiro a avançar e entrou pela porta aberta.
“In manus tuas, Domine!” disse ele, benzendo-se ao cruzar o limiar. Fechamos a porta atrás de nós, para que, quando acendêssemos as nossas lâmpadas, não pudéssemos atrair a atenção de quem passasse na estrada. O Professor testou cuidadosamente a fechadura, para o caso de não conseguirmos abri-la por dentro, caso tivéssemos pressa em sair. Depois, todos acendemos as nossas lâmpadas e prosseguimos com a nossa busca.
A luz das pequenas lâmpadas caía em todo o tipo de formas estranhas, à medida que os raios se cruzavam ou a opacidade dos nossos corpos projetava grandes sombras. Não conseguia, por nada deste mundo, libertar-me da sensação de que havia mais alguém entre nós. Suponho que fosse a recordação, trazida de forma tão poderosa ao meu espírito pelo ambiente lúgubre, daquela terrível experiência na Transilvânia. Creio que o sentimento era comum a todos nós, pois notei que os outros olhavam por cima dos ombros a cada som e a cada nova sombra, tal como eu próprio me sentia a fazer.
Todo o lugar estava denso de pó. O chão parecia ter polegadas de profundidade, exceto onde havia pegadas recentes, nas quais, ao baixar a minha lâmpada, pude ver marcas de pregos de botas onde o pó estava endurecido. As paredes estavam felpudas e pesadas de pó, e nos cantos havia massas de teias de aranha, nas quais o pó se acumulara até parecerem trapos velhos e esfarrapados, à medida que o peso as derrubara parcialmente. Numa mesa no vestíbulo havia um grande molho de chaves, com uma etiqueta amarelada pelo tempo em cada uma. Tinham sido usadas várias vezes, pois na mesa havia várias marcas semelhantes no manto de pó, como a que ficou exposta quando o Professor levantou as chaves. Ele virou-se para mim e disse:----
“Tu conheces este lugar, Jonathan. Tu copiaste mapas dele e sabes, pelo menos, mais do que nós. Qual é o caminho para a capela?” Eu tinha uma ideia da direção, embora na minha visita anterior não tivesse conseguido entrar; por isso, liderei o caminho e, após algumas voltas erradas, encontrei-me diante de uma porta de carvalho baixa e em arco, reforçada com bandas de ferro. “É este o local”, disse o Professor, enquanto apontava a sua lâmpada para um pequeno mapa da casa, copiado do arquivo da minha correspondência original sobre a compra. Com algum esforço, encontrámos a chave no molho e abrimos a porta. Estávamos preparados para algum desagrado, pois, ao abrirmos a porta, um ar fraco e malcheiroso pareceu exalar pelas frestas, mas nenhum de nós esperava tal odor como o que encontrámos. Nenhum dos outros tinha encontrado o Conde de perto, e quando eu o vi, ele estava ou na fase de jejum da sua existência nos seus aposentos ou, quando inchado de sangue fresco, num edifício em ruínas aberto ao ar; mas aqui o lugar era pequeno e fechado, e o longo desuso tornara o ar estagnado e imundo. Havia um cheiro a terra, como de um miasma seco, que vinha através do ar mais fétido. Mas quanto ao odor em si, como o descreverei? Não era apenas composto por todos os males da mortalidade e pelo cheiro pungente e acre de sangue, mas parecia como se a corrupção se tivesse tornado ela própria corrupta. Fui! Enjoa-me pensar nisso. Cada respiração exalada por aquele monstro parecia ter-se agarrado ao lugar e intensificado a sua repugnância.
Em circunstâncias normais, tal fedor teria posto fim ao nosso empreendimento; mas este não era um caso comum, e o propósito elevado e terrível em que estávamos envolvidos deu-nos uma força que se elevou acima de meras considerações físicas. Após o encolhimento involuntário consequente da primeira lufada nauseabunda, todos nos pusemos ao trabalho como se aquele lugar repugnante fosse um jardim de rosas.
Fizemos um exame preciso do lugar, com o Professor a dizer, ao começarmos:----
“A primeira coisa é ver quantas das caixas restam; devemos então examinar cada buraco e recanto e fenda, e ver se não conseguimos uma pista sobre o que aconteceu ao resto.” Um olhar foi suficiente para mostrar quantas restavam, pois os grandes baús de terra eram volumosos e não havia como confundi-los.
Restavam apenas vinte e nove das cinquenta! Uma vez apanhei um susto, pois, ao ver Lord Godalming virar-se subitamente e olhar pela porta abobadada para o corredor escuro além, olhei também, e por um instante o meu coração parou. Algures, olhando da sombra, pareceu-me ver os destaques do rosto maligno do Conde, a saliência do nariz, os olhos vermelhos, os lábios vermelhos, a palidez terrível. Foi apenas por um momento, pois, quando Lord Godalming disse: “Julguei ver um rosto, mas eram apenas as sombras”, e retomou a sua investigação, direcionei a minha lâmpada para a direção e entrei no corredor. Não havia sinal de ninguém; e como não havia cantos, nem portas, nem abertura de qualquer tipo, mas apenas as paredes sólidas do corredor, não podia haver esconderijo, nem mesmo para ele. Pensei que o medo tivesse ajudado a imaginação e não disse nada.
Poucos minutos depois, vi Morris recuar subitamente de um canto que estava a examinar. Todos seguimos os seus movimentos com os olhos, pois, sem dúvida, um certo nervosismo estava a crescer em nós, e vimos uma massa inteira de fosforescência, que cintilava como estrelas. Todos recuámos instintivamente. O lugar inteiro estava a ganhar vida com ratos.
Por um ou dois momentos ficámos horrorizados, todos exceto Lord Godalming, que estava aparentemente preparado para tal emergência. Correndo para a grande porta de carvalho reforçada com ferro, que o Dr. Seward descrevera do exterior, e que eu próprio vira, ele rodou a chave na fechadura, puxou os enormes ferrolhos e escancarou a porta. Depois, tirando o seu pequeno apito de prata do bolso, deu um assobio baixo e agudo. Foi respondido de trás da casa do Dr. Seward pelo latir de cães, e após cerca de um minuto, três terriers surgiram a correr pelo canto da casa. Inconscientemente, todos nos tínhamos movido em direção à porta, e enquanto nos movíamos, notei que o pó fora muito perturbado: as caixas que tinham sido retiradas foram levadas por este caminho. Mas, mesmo no minuto que decorrera, o número de ratos aumentara vastamente. Pareciam enxamear por todo o lugar de uma vez, até que a luz da lâmpada, brilhando sobre os seus corpos escuros em movimento e olhos brilhantes e sinistros, fazia o lugar parecer um monte de terra cravejado de pirilampos. Os cães lançaram-se, mas no limiar pararam subitamente e rosnaram, e então, levantando simultaneamente os focinhos, começaram a uivar de uma forma extremamente lúgubre. Os ratos multiplicavam-se aos milhares e saíam.
Lord Godalming levantou um dos cães e, carregando-o, colocou-o no chão. No instante em que as suas patas tocaram o solo, pareceu recuperar a coragem e lançou-se contra os seus inimigos naturais. Fugiram à frente dele tão rapidamente que, antes que ele tivesse acabado com a vida de uma vintena, os outros cães, que tinham sido entretanto levantados da mesma maneira, tiveram pouca presa antes que toda a massa tivesse desaparecido.
Com a sua partida, pareceu como se alguma presença maligna tivesse desaparecido, pois os cães saltitavam e ladravam alegremente enquanto faziam investidas repentinas aos seus inimigos prostrados, virando-os de um lado para o outro e atirando-os ao ar com sacudidelas viciosas. Todos parecemos sentir o nosso ânimo elevar-se. Se foi a purificação da atmosfera mortal pela abertura da porta da capela, ou o alívio que experimentámos por nos encontrarmos ao ar livre, não sei; mas, certamente, a sombra do medo pareceu deslizar de nós como uma veste, e a ocasião da nossa vinda perdeu algo da sua importância sombria, embora não tenhamos esmorecido nem um pouco na nossa resolução. Fechámos a porta exterior, trancámo-la e trancámos o ferrolho, e, trazendo os cães connosco, começámos a nossa busca pela casa. Não encontrámos nada além de pó em proporções extraordinárias, e tudo intocado, exceto pelas minhas próprias pegadas quando fiz a minha primeira visita. Nunca os cães exibiram qualquer sintoma de inquietação, e mesmo quando regressámos à capela, saltitavam como se tivessem estado a caçar coelhos num bosque de verão.
A manhã despontava no leste quando saímos pela frente. O Dr. Van Helsing tirou a chave da porta da frente do molho e trancou a porta de forma ortodoxa, colocando a chave no bolso quando terminou.
“Até agora”, disse ele, “a nossa noite tem sido eminentemente bem-sucedida. Nenhum mal nos aconteceu, como eu temia que pudesse acontecer, e contudo averiguámos quantas caixas faltam. Mais do que tudo, regozijo-me por este, o nosso primeiro — e talvez o nosso mais difícil e perigoso — passo ter sido realizado sem trazer para ele a nossa doce Senhora Mina ou perturbar os seus pensamentos de vigília ou de sono com visões, sons e cheiros de horror que ela poderia nunca esquecer. Uma lição, também, aprendemos, se for permitido argumentar a particulari: que os animais irracionais que estão sob o comando do Conde não são, eles próprios, suscetíveis ao seu poder espiritual; pois vejam, estes ratos que viriam ao seu apelo, tal como do cimo do seu castelo ele chama os lobos para a vossa partida e para o choro daquela pobre mãe, embora venham a ele, fogem em debandada dos cães tão pequenos do meu amigo Arthur. Temos outros assuntos diante de nós, outros perigos, outros medos; e aquele monstro — ele não usou o seu poder sobre o mundo animal pela única ou última vez esta noite. Que assim seja, que ele tenha ido para outro lugar. Bom! Deu-nos a oportunidade de gritar ‘xeque’ de alguma forma neste jogo de xadrez, que jogamos pela aposta das almas humanas. E agora vamos para casa. O amanhecer está próximo e temos razões para estarmos contentes com o trabalho da nossa primeira noite. Pode estar ordenado que tenhamos muitas noites e dias a seguir, ainda que cheios de perigo; mas temos de continuar, e de nenhum perigo recuaremos.”
A casa estava silenciosa quando voltámos, exceto por alguma pobre criatura que gritava num dos alas distantes, e um som baixo e lamuriento do quarto de Renfield. O pobre miserável estava, sem dúvida, a torturar-se, à maneira dos insanos, com pensamentos desnecessários de dor.
Entrei na ponta dos pés no nosso quarto e encontrei Mina a dormir, respirando tão suavemente que tive de baixar o ouvido para ouvir. Ela parece mais pálida do que o habitual. Espero que o encontro desta noite não a tenha perturbado. Estou verdadeiramente grato por ela ser deixada de fora do nosso trabalho futuro, e até das nossas deliberações. É um esforço demasiado grande para uma mulher suportar. Não pensava assim no início, mas agora sei melhor. Por isso, estou contente por estar decidido. Pode haver coisas que a assustariam ouvir; e, no entanto, escondê-las dela pode ser pior do que contar-lhe, se ela alguma vez suspeitasse que havia algo escondido. De agora em diante, o nosso trabalho será um livro fechado para ela, pelo menos até ao momento em que possamos dizer-lhe que tudo terminou e a terra está livre de um monstro do mundo inferior. Atrevo-me a dizer que será difícil começar a manter o silêncio após tal confiança como a nossa; mas devo ser resoluto e, amanhã, manter-me-ei em silêncio sobre os feitos desta noite e recusar-me-ei a falar de tudo o que aconteceu. Descanso no sofá, para não a perturbar.
1 de outubro, mais tarde. — Suponho que fosse natural termos dormido demasiado, pois o dia foi ocupado e a noite não teve descanso algum. Mesmo Mina deve ter sentido a sua exaustão, pois, embora eu tenha dormido até o sol estar alto, estava acordado antes dela e tive de chamar duas ou três vezes antes que ela acordasse. De facto, ela estava com um sono tão profundo que, por alguns segundos, não me reconheceu, mas olhou para mim com uma espécie de terror vazio, como alguém que foi acordado de um sonho mau. Queixou-se um pouco de estar cansada e deixei-a descansar até mais tarde no dia. Sabemos agora de vinte e uma caixas que foram removidas, e se for o caso de várias terem sido levadas em qualquer destas remoções, poderemos ser capazes de as rastrear todas. Tal irá, naturalmente, simplificar imensamente o nosso trabalho, e quanto mais cedo o assunto for tratado, melhor. Vou procurar Thomas Snelling hoje.
Diário do Dr. Seward.
1 de outubro. — Foi perto do meio-dia quando fui acordado pelo Professor a entrar no meu quarto. Ele estava mais alegre e bem-disposto do que o habitual, e é bastante evidente que o trabalho da noite passada ajudou a retirar parte do peso opressivo da sua mente. Depois de rever a aventura da noite, disse subitamente:----
“O seu paciente interessa-me muito. Pode ser que consigo eu o visite esta manhã? Ou, se estiver demasiado ocupado, posso ir sozinho, se for possível. É uma nova experiência para mim encontrar um lunático que fala de filosofia e raciocina tão sensatamente.” Eu tinha algum trabalho a fazer que urgia, por isso disse-lhe que, se ele fosse sozinho, eu ficaria contente, pois assim não teria de o fazer esperar; chamei um enfermeiro e dei-lhe as instruções necessárias. Antes de o Professor sair do quarto, avisei-o para não ter qualquer impressão falsa do meu paciente. “Mas”, respondeu ele, “quero que ele fale de si próprio e do seu delírio sobre consumir seres vivos. Ele disse à Senhora Mina, como vejo no seu diário de ontem, que já tivera tal crença. Por que sorri, amigo John?”
“Desculpe-me”, disse eu, “mas a resposta está aqui.” Pus a mão sobre o material dactilografado. “Quando o nosso sensato e culto lunático fez essa afirmação sobre como costumava consumir vida, a sua boca estava realmente nauseabunda com as moscas e aranhas que ele tinha comido pouco antes de a Sra. Harker entrar no quarto.” Van Helsing sorriu por sua vez. “Bom!” disse ele. “A sua memória é verdadeira, amigo John. Eu deveria ter-me lembrado. E, contudo, é esta mesma obliquidade de pensamento e memória que faz da doença mental um estudo tão fascinante. Talvez eu ganhe mais conhecimento com a loucura deste homem do que com o ensino dos mais sábios. Quem sabe?” Continuei com o meu trabalho e, pouco depois, terminei o que tinha em mãos. Parecia que o tempo tinha sido muito curto, mas lá estava Van Helsing de volta ao escritório. “Interrompo?” perguntou ele educadamente enquanto estava à porta.
“De modo algum”, respondi. “Entre. O meu trabalho está terminado e estou livre. Posso ir consigo agora, se quiser.”
“É desnecessário; já o vi!”
“Bem?”
“Temo que ele não me avalie em muito. A nossa entrevista foi curta. Quando entrei no quarto, ele estava sentado num banco no centro, com os cotovelos nos joelhos, e o seu rosto era o retrato de um descontentamento taciturno. Falei-lhe o mais alegremente que pude, e com tal medida de respeito que pude assumir. Ele não fez qualquer resposta. ‘Não me conhece?’ perguntei eu. A sua resposta não foi tranquilizadora: ‘Conheço-o suficientemente bem; é o velho tolo Van Helsing. Gostaria que levasse a si próprio e às suas teorias cerebrais idiotas para outro lugar. Malditos todos os holandeses de cabeça dura!’ Nem uma palavra mais ele diria, mas sentou-se na sua taciturnidade implacável tão indiferente a mim como se eu não estivesse no quarto. Assim partiu, por esta vez, a minha oportunidade de aprender muito com este lunático tão inteligente; por isso vou, se puder, animar-me com algumas palavras felizes com aquela doce alma, a Senhora Mina. Amigo John, regozija-me indizivelmente que ela já não deva ser incomodada, já não deva ser preocupada, com as nossas coisas terríveis. Embora sintamos muito a falta da sua ajuda, é melhor assim.”
“Concordo consigo com todo o meu coração”, respondi sinceramente, pois não queria que ele enfraquecesse neste assunto. “A Sra. Harker está melhor fora disto. As coisas são bastante más para nós, todos homens do mundo, e que estivemos em muitos lugares apertados no nosso tempo; mas não é lugar para uma mulher, e se ela tivesse permanecido em contacto com o caso, tê-la-ia, com o tempo, infalivelmente destruído.”
Portanto, Van Helsing foi conferenciar com a Sra. Harker e Harker; Quincey e Art estão ambos fora a seguir as pistas sobre as caixas de terra. Vou terminar a minha ronda de trabalho e encontrar-nos-emos esta noite.
Diário de Mina Harker.
1 de outubro. — É estranho para mim ser mantida no escuro como estou hoje; após a confiança total de Jonathan durante tantos anos, vê-lo manifestamente evitar certos assuntos, e esses os mais vitais de todos. Esta manhã dormi até tarde após as fadigas de ontem, e embora Jonathan também se tivesse atrasado, ele foi o mais cedo. Ele falou comigo antes de sair, nunca mais doce ou ternamente, mas nunca mencionou uma palavra do que aconteceu na visita à casa do Conde. E, no entanto, ele deve ter sabido quão terrivelmente ansiosa eu estava. Pobre querido! Suponho que deve tê-lo angustiado ainda mais do que a mim. Todos concordaram que era melhor eu não ser arrastada mais para este trabalho horrível, e concordei. Mas pensar que ele me esconde algo! E agora estou a chorar como uma tola, quando sei que vem do grande amor do meu marido e dos bons, bons desejos daqueles outros homens fortes....
Isso fez-me bem. Bem, um dia Jonathan contar-me-á tudo; e para que ele nunca pense por um momento que escondi algo dele, continuo a escrever o meu diário como de costume. Então, se ele tiver duvidado da minha confiança, mostrar-lho-ei, com cada pensamento do meu coração escrito para os seus queridos olhos lerem. Sinto-me estranhamente triste e abatida hoje. Suponho que seja a reação à terrível excitação.
Na noite passada, fui deitar-me quando os homens se retiraram, simplesmente porque me disseram para o fazer. Não me sentia com sono, e sentia-me, sim, cheia de uma ansiedade devoradora. Fiquei a remoer tudo o que aconteceu desde que Jonathan veio ver-me a Londres, e tudo parece uma tragédia horrível, com o destino a pressionar implacavelmente para algum fim fatídico. Tudo o que se faz parece, por muito correto que seja, levar exatamente àquilo que é mais deplorável. Se eu não tivesse ido a Whitby, talvez a pobre e querida Lucy estivesse connosco agora. Ela não tinha o hábito de visitar o cemitério até eu chegar, e se ela não tivesse vindo lá comigo durante o dia, não teria caminhado lá durante o sono; e se não tivesse ido lá à noite e a dormir, aquele monstro não a poderia ter destruído como fez. Oh, por que fui eu a Whitby? Pronto, a chorar outra vez! Pergunto-me o que me aconteceu hoje. Tenho de esconder isto de Jonathan, pois se ele soubesse que tenho chorado duas vezes numa só manhã — eu, que nunca chorei por minha conta, e a quem ele nunca causou uma lágrima — o querido rapaz morreria de preocupação. Vou mostrar-me corajosa e, mesmo que me sinta com vontade de chorar, ele nunca o verá. Suponho que seja uma das lições que nós, pobres mulheres, temos de aprender...
Não me lembro bem de como adormeci na noite passada. Lembro-me de ouvir o ladrar súbito dos cães e muitos sons estranhos, como orações numa escala muito tumultuosa, vindos do quarto do Sr. Renfield, que fica algures por baixo deste. E depois houve silêncio sobre tudo, um silêncio tão profundo que me sobressaltou, e levantei-me e olhei pela janela. Tudo estava escuro e silencioso, as sombras negras projetadas pelo luar pareciam cheias de um mistério silencioso próprio. Nem uma coisa parecia mover-se, mas tudo parecia sombrio e fixo como a morte ou o destino; de modo que um fino rasto de névoa branca, que se arrastava com uma lentidão quase impercetível através da relva em direção à casa, parecia ter uma consciência e uma vitalidade próprias. Penso que a digressão dos meus pensamentos deve ter-me feito bem, pois quando voltei para a cama senti uma letargia a apoderar-se de mim. Fiquei um pouco, mas não consegui adormecer de todo, por isso levantei-me e olhei de novo pela janela. A névoa estava a espalhar-se e já estava perto da casa, de modo que a podia ver a assentar densa contra a parede, como se estivesse a esgueirar-se para as janelas. O pobre homem estava mais ruidoso do que nunca e, embora não conseguisse distinguir uma palavra do que dizia, de alguma forma pude reconhecer nos seus tons uma súplica apaixonada da sua parte. Depois ouviu-se o som de uma luta, e soube que os enfermeiros estavam a lidar com ele. Fiquei tão assustada que me enfiei na cama e puxei as cobertas pela cabeça, colocando os dedos nos ouvidos. Não estava nada com sono naquela altura, ou pelo menos assim pensava; mas devo ter adormecido, pois, exceto sonhos, não me lembro de nada até à manhã, quando Jonathan me acordou. Penso que precisei de um esforço e de um pouco de tempo para perceber onde estava, e que era Jonathan quem estava debruçado sobre mim. O meu sonho foi muito peculiar, e quase típico da forma como os pensamentos de vigília se fundem, ou continuam, nos sonhos.
Pensei que estava a dormir e à espera que Jonathan voltasse. Estava muito ansiosa por ele e sentia-me impotente para agir; os meus pés, as minhas mãos e o meu cérebro estavam pesados, de modo que nada podia avançar ao ritmo habitual. E assim dormi inquietamente e pensei. Depois começou a amanhecer em mim que o ar estava pesado, húmido e frio. Afastei as cobertas do rosto e descobri, para minha surpresa, que tudo estava baço à minha volta. A luz do gás que deixara acesa para Jonathan, mas reduzida, vinha apenas como uma pequena faísca vermelha através do nevoeiro, que evidentemente se tornara mais espesso e se derramara no quarto. Depois ocorreu-me que tinha fechado a janela antes de me deitar. Teria saído para ter a certeza desse ponto, mas uma letargia de chumbo parecia acorrentar os meus membros e até a minha vontade. Fiquei imóvel e aguentei; foi só isso. Fechei os olhos, mas ainda podia ver através das pálpebras. (É maravilhoso que partidas os nossos sonhos nos pregam, e com que facilidade podemos imaginar.) A névoa tornou-se cada vez mais espessa, e agora podia ver como ela entrava, pois podia vê-la como fumo — ou com a energia branca da água a ferver — a entrar, não pela janela, mas pelas juntas da porta. Tornou-se cada vez mais espessa, até parecer que se concentrava numa espécie de coluna de nuvem no quarto, através do topo da qual eu podia ver a luz do gás a brilhar como um olho vermelho. As coisas começaram a girar através do meu cérebro tal como a coluna nebulosa estava agora a girar no quarto, e através de tudo vieram as palavras bíblicas: “uma coluna de nuvem de dia e de fogo de noite”. Seria de facto alguma orientação espiritual desse tipo que me vinha no sono? Mas a coluna era composta tanto pela orientação do dia como da noite, pois o fogo estava no olho vermelho, que, com o pensamento, adquiriu uma nova fascinação para mim; até que, enquanto olhava, o fogo dividiu-se e pareceu brilhar sobre mim através do nevoeiro como dois olhos vermelhos; tais como os que a Lucy me contou no seu momentâneo desvario mental quando, na falésia, a luz do sol poente atingiu as janelas da Igreja de St. Mary. De repente, o horror explodiu em mim ao perceber que foi assim que Jonathan viu aquelas mulheres terríveis a tornarem-se realidade através da névoa rodopiante ao luar, e no meu sonho devo ter desmaiado, pois tudo se tornou escuridão negra. O último esforço consciente que a imaginação fez foi mostrar-me um rosto branco lívido debruçado sobre mim a sair da névoa. Devo ter cuidado com esses sonhos, pois eles desequilibrariam a razão se houvesse demasiados. Pediria ao Dr. Van Helsing ou ao Dr. Seward que me prescrevessem algo que me fizesse dormir, se não temesse alarmá-los. Um sonho desses, no momento atual, ficaria entrelaçado nos seus medos por mim. Esta noite esforçar-me-ei por dormir naturalmente. Se não conseguir, amanhã à noite pedir-lhes-ei que me deem uma dose de cloral; isso não me pode fazer mal por uma vez, e dar-me-á uma boa noite de sono. A noite passada cansou-me mais do que se não tivesse dormido nada.
2 de outubro, 22h. — Na noite passada dormi, mas não sonhei. Devo ter dormido profundamente, pois não fui acordada por Jonathan a vir para a cama; mas o sono não me refrescou, pois hoje sinto-me terrivelmente fraca e sem ânimo. Passei o dia de ontem todo a tentar ler ou deitada a dormitar. À tarde, o Sr. Renfield perguntou se podia ver-me. Pobre homem, foi muito gentil e, quando me vim embora, beijou-me a mão e pediu a Deus que me abençoasse. De alguma forma, afetou-me muito; estou a chorar quando penso nele. Esta é uma nova fraqueza, da qual devo ter cuidado. Jonathan ficaria infeliz se soubesse que tenho estado a chorar. Ele e os outros estiveram fora até à hora do jantar, e chegaram todos cansados. Fiz o que pude para os animar e suponho que o esforço me fez bem, pois esqueci-me de quão cansada estava. Depois do jantar mandaram-me para a cama e foram todos fumar juntos, como disseram, mas eu sabia que queriam contar uns aos outros o que tinha ocorrido a cada um durante o dia; pude ver pela atitude de Jonathan que ele tinha algo de importante para comunicar. Não estava tão sonolenta como deveria; por isso, antes de saírem, pedi ao Dr. Seward que me desse um pequeno opiáceo de algum tipo, já que não tinha dormido bem na noite anterior. Ele muito gentilmente preparou-me uma poção para dormir, que me deu, dizendo-me que não me faria mal, pois era muito suave... Tomei-a e estou à espera do sono, que ainda se mantém afastado. Espero não ter feito mal, pois, à medida que o sono começa a flertar comigo, surge um novo medo: o de ter sido tola ao privar-me desta forma do poder de acordar. Posso precisar dele. Aqui vem o sono. Boa noite.
CAPÍTULO XX.
/Diário de Jonathan Harker./
1 de outubro, noite. — Encontrei Thomas Snelling na sua casa em Bethnal Green, mas, infelizmente, ele não estava em condições de se lembrar de nada. A própria perspetiva de cerveja que a minha chegada esperada lhe abrira tinha sido demais, e ele tinha começado demasiado cedo a sua esperada orgia. Soube, porém, pela sua mulher, que parecia uma pobre alma decente, que ele era apenas o assistente de Smollet, que, dos dois companheiros, era a pessoa responsável. Por isso, dirigi-me a Walworth e encontrei o Sr. Joseph Smollet em casa, em mangas de camisa, a tomar um chá tardio de uma chávena. É um tipo decente e inteligente, claramente um bom tipo de trabalhador de confiança e com cabeça própria. Lembrou-se de tudo sobre o incidente das caixas e, de um maravilhoso caderno de notas com as pontas dobradas, que tirou de algum esconderijo misterioso algures nas calças, e que tinha entradas hieroglíficas a lápis grosso e semi-apagado, deu-me os destinos das caixas. Havia, disse ele, seis na carga que levou de Carfax e deixou em 197 Chicksand Street, Mile End New Town, e outras seis que depositou em Jamaica Lane, Bermondsey. Se o Conde pretendia espalhar estes refúgios medonhos pelos arredores de Londres, estes locais foram escolhidos no primeiro momento da entrega, para que mais tarde pudesse distribuir de forma mais completa. A forma sistemática como isto foi feito fez-me pensar que ele não poderia pretender limitar-se a dois lados de Londres. Ele estava agora fixado no extremo leste da margem norte, no leste da margem sul e no sul. O norte e o oeste certamente nunca foram destinados a ser deixados de fora do seu plano diabólico — quanto mais a própria City e o próprio coração da Londres elegante no sudoeste e oeste. Voltei a Smollet e perguntei-lhe se nos podia dizer se mais alguma caixa tinha sido retirada de Carfax.
Ele respondeu: —
"Bem, patrão, tratou-me muito bem" — eu tinha-lhe dado meio soberano — "e dir-lhe-ei tudo o que sei. Ouvi um homem pelo nome de Bloxam dizer há quatro noites no 'Are an' 'Ounds', em Pincher's Alley, que ele e o seu companheiro tinham tido um trabalho do caraças numa casa velha em Purfleet. Não há muitos trabalhos como este, e estou a pensar que talvez o Sam Bloxam lhe possa dizer alguma coisa." Perguntei se me podia dizer onde encontrá-lo. Disse-lhe que, se pudesse arranjar-me a morada, valeria outro meio soberano para ele. Por isso, ele engoliu o resto do chá e levantou-se, dizendo que ia começar a busca logo ali. À porta, parou e disse: —
"Olhe aqui, patrão, não faz sentido eu estar a mantê-lo aqui. Posso encontrar o Sam cedo, ou posso não o encontrar; mas, de qualquer forma, não é provável que ele esteja em condições de lhe dizer muito esta noite. O Sam é um tipo raro quando começa na bebida. Se me puder dar um envelope com um selo e pôr lá a sua morada, descubro onde o Sam se encontra e envio-lho esta noite. Mas é melhor ir atrás dele cedo de manhã, ou talvez não o apanhe; porque o Sam sai muito cedo, não importa a bebida da noite anterior."
Isto era tudo prático, por isso uma das crianças saiu com um cêntimo para comprar um envelope e uma folha de papel, e para ficar com o troco. Quando ela voltou, enderecei o envelope e selei-o, e quando Smollet prometeu novamente, de forma fiel, enviar a morada quando a encontrasse, tomei o meu caminho para casa. Estamos na pista, de qualquer maneira. Estou cansado esta noite e quero dormir. Mina está a dormir profundamente e parece um pouco pálida demais; os seus olhos parecem como se ela tivesse estado a chorar. Pobre querida, não tenho dúvidas de que a preocupa ser mantida no escuro, e isso pode torná-la duplamente ansiosa por mim e pelos outros. Mas é melhor assim. É melhor estar desapontada e preocupada desta forma agora do que ter os seus nervos destruídos. Os médicos tiveram toda a razão em insistir para que ela fosse mantida fora deste negócio terrível. Tenho de ser firme, pois é sobre mim que deve recair este fardo particular de silêncio. Nunca entrarei no assunto com ela sob quaisquer circunstâncias. De facto, pode não ser uma tarefa difícil, afinal, ela própria tornou-se reticente sobre o assunto e não fala do Conde ou dos seus feitos desde que lhe contámos a nossa decisão.
2 de outubro, noite. — Um dia longo, extenuante e emocionante. Pelo primeiro correio recebi o meu envelope endereçado com um pedaço de papel sujo lá dentro, no qual estava escrito com um lápis de carpinteiro, numa letra desajeitada: —
"Sam Bloxam, Korkrans, 4, Poters Cort, Bartel Street, Walworth. Arsk for the depite."
Recebi a carta na cama e levantei-me sem acordar a Mina. Ela parecia pesada, sonolenta e pálida, e longe de estar bem. Decidi não a acordar, mas que, quando regressasse desta nova busca, arranjaria tudo para ela voltar a Exeter. Penso que ela seria mais feliz na nossa própria casa, com as suas tarefas diárias para a interessar, do que estar aqui entre nós e na ignorância. Só vi o Dr. Seward por um momento e disse-lhe para onde ia, prometendo voltar e contar o resto assim que tivesse descoberto alguma coisa. Fui de carro até Walworth e encontrei, com alguma dificuldade, Potter’s Court. A ortografia do Sr. Smollet enganou-me, pois perguntei por Poter's Court em vez de Potter's Court. Contudo, quando encontrei o pátio, não tive dificuldade em descobrir a pensão de Corcoran. Quando perguntei ao homem que veio à porta pelo "depite", ele abanou a cabeça e disse: "Não o conheço. Não há tal pessoa aqui; nunca ouvi falar dele em toda a minha vida. Não acredito que não haja ninguém desse tipo a viver aqui ou em qualquer lado." Tirei a carta de Smollet e, ao lê-la, pareceu-me que a lição da ortografia do nome do pátio me podia guiar. "O que é o senhor?", perguntei.
"Eu sou o deputado", respondeu ele. Percebi logo que estava no caminho certo; a ortografia fonética tinha-me enganado outra vez. Uma gorjeta de meia coroa pôs o conhecimento do deputado à minha disposição, e soube que o Sr. Bloxam, que tinha curado o resto da sua cerveja na noite anterior em Corcoran's, tinha saído para o seu trabalho em Poplar às cinco da manhã. Não me soube dizer onde ficava o local de trabalho, mas tinha uma ideia vaga de que era uma espécie de "armazém novo"; e com esta ténue pista tive de partir para Poplar. Eram doze horas antes de obter qualquer dica satisfatória de tal edifício, e consegui-a num café, onde alguns trabalhadores almoçavam. Um deles sugeriu que estava a ser erguido na Cross Angel Street um novo edifício de "armazenagem a frio"; e como isto se adequava à condição de um "armazém novo", dirigi-me logo para lá. Uma entrevista com um porteiro rabugento e um capataz ainda mais rabugento, ambos apaziguados com moeda do reino, colocou-me no rasto de Bloxam; mandaram chamá-lo depois de eu sugerir que estava disposto a pagar o seu salário diário ao capataz pelo privilégio de lhe fazer algumas perguntas sobre um assunto privado. Era um tipo bastante esperto, embora rude na fala e no porte. Quando prometi pagar pela sua informação e lhe dei um adiantamento, disse-me que tinha feito duas viagens entre Carfax e uma casa em Piccadilly, e que tinha levado desta casa para a última nove grandes caixas — "caixas pesadas, muito pesadas" — com um cavalo e uma carroça alugados por ele para este propósito. Perguntei-lhe se me sabia dizer o número da casa em Piccadilly, ao que respondeu: —
"Bem, patrão, esqueço-me do número, mas era apenas a poucas portas de uma grande igreja branca ou algo do género, não construída há muito tempo. Era uma casa velha e poeirenta também, embora nada comparada com a poeira da casa de onde tirámos as caixas."
"Como entrou na casa se ambas estavam vazias?"
"Havia o velho que me contratou à espera na casa em Purfleet. Ele ajudou-me a levantar as caixas e a pô-las na carroça. Maldito seja, mas ele era o tipo mais forte que alguma vez encontrei, e ele um velho, com um bigode branco, um que era tão magro que se pensaria que não conseguia projetar uma sombra."
Como esta frase me percorreu!
"Ora, ele pegava na sua ponta das caixas como se fossem quilos de chá, e eu a bufar e a soprar antes de conseguir levantar a minha de qualquer maneira — e eu também não sou nenhum frango."
"Como entrou na casa em Piccadilly?", perguntei.
"Ele também lá estava. Ele deve ter começado e chegado lá antes de mim, pois quando toquei à campainha ele veio e abriu a porta ele próprio e ajudou-me a levar as caixas para o hall."
"As nove todas?", perguntei.
"Sim; era um hall grande e não havia lá mais nada." Fiz mais uma tentativa para avançar com o assunto: —
"Não tinha nenhuma chave?"
"Nunca usei chave nem nada. O velho, ele próprio abria a porta e fechava-a outra vez quando eu arrancava. Não me lembro da última vez — mas isso foi a cerveja."
"E não se consegue lembrar do número da casa?"
— Não, senhor. Mas o senhor não precisa de ter dificuldade com isso. É uma casa alta, com uma fachada de pedra que tem uma varanda saliente e degraus altos para a porta. Conheço bem esses degraus, por ter tido de carregar as caixas para cima com três vadios que apareceram para ganhar uns cobres. O velho deu-lhes xelins, e eles, por acharem que tinham recebido muito, queriam mais; mas ele agarrou um deles pelo ombro e quase o atirou pelos degraus abaixo, até que todos foram embora a praguejar. Pensei que, com esta descrição, poderia encontrar a casa, por isso, depois de pagar ao meu amigo pela sua informação, parti para Piccadilly. Tinha adquirido uma nova e dolorosa experiência: o Conde podia, era evidente, manusear as caixas de terra ele próprio. Se assim era, o tempo era precioso; pois, agora que tinha conseguido uma certa distribuição, ele poderia, escolhendo o seu próprio momento, completar a tarefa sem ser observado. Em Piccadilly Circus, dispensei o meu táxi e caminhei para oeste; depois do Junior Constitutional, deparei-me com a casa descrita e fiquei satisfeito por saber que esta era a seguinte das tocas preparadas por Dracula. A casa parecia estar desabitada há muito tempo. As janelas estavam incrustadas de pó e as persianas estavam fechadas. Toda a estrutura estava negra com o tempo e, do ferro, a tinta tinha-se descascado quase toda. Era evidente que, até há pouco tempo, tinha existido um grande painel de aviso em frente à varanda; tinha sido, contudo, arrancado grosseiramente, restando ainda as traves que o sustentavam. Atrás das grades da varanda, vi que havia algumas tábuas soltas, cujas arestas vivas pareciam brancas. Daria muito para ter podido ver o painel intacto, pois, talvez, tivesse dado alguma pista sobre a propriedade da casa. Lembrei-me da minha experiência com a investigação e compra de Carfax e não pude deixar de sentir que, se conseguisse encontrar o antigo proprietário, poderia haver algum meio de obter acesso à casa.
Não havia, de momento, nada a aprender do lado de Piccadilly e nada podia ser feito; por isso, dei a volta para as traseiras para ver se algo podia ser apurado daquele lado. As cavalariças estavam ativas, estando as casas de Piccadilly quase todas ocupadas. Perguntei a um ou dois dos cavalariços e ajudantes que vi por ali se me podiam dizer algo sobre a casa vazia. Um deles disse que tinha ouvido dizer que tinha sido alugada recentemente, mas não sabia dizer por quem. Disse-me, contudo, que até há muito pouco tempo tinha estado lá um aviso de “Vende-se” e que talvez a Mitchell, Sons & Candy, a agência imobiliária, me pudesse dizer algo, pois achava que se lembrava de ver o nome dessa firma no painel. Não queria parecer demasiado ansioso, nem deixar que o meu informante soubesse ou adivinhasse demasiado, por isso, agradecendo-lhe da maneira habitual, afastei-me. Já estava a anoitecer e a noite de outono estava a cair, por isso não perdi tempo. Tendo aprendido a morada da Mitchell, Sons & Candy através de uma lista telefónica no Berkeley, não demorei a chegar ao escritório deles em Sackville Street.
O cavalheiro que me atendeu era particularmente suave na maneira de ser, mas igualmente pouco comunicativo. Depois de me ter dito uma vez que a casa de Piccadilly — a que durante toda a nossa entrevista chamou “mansão” — estava vendida, considerou o meu assunto como encerrado. Quando perguntei quem a tinha comprado, abriu os olhos um pouco mais e hesitou alguns segundos antes de responder:
— Está vendida, senhor.
— Perdoe-me — disse eu, com igual cortesia —, mas tenho uma razão especial para querer saber quem a comprou.
Hesitou novamente, por mais tempo, e levantou ainda mais as sobrancelhas. — Está vendida, senhor — foi a sua resposta lacónica novamente.
— Certamente — disse eu — que não se importa de me deixar saber tanto.
— Mas importo-me — respondeu ele. — Os assuntos dos seus clientes estão absolutamente seguros nas mãos da Mitchell, Sons & Candy. Este era, manifestamente, um pedante de primeira água e não valia a pena discutir com ele. Pensei que o melhor seria enfrentá-lo no seu próprio terreno, por isso disse:
— Os seus clientes, senhor, têm sorte em ter um guardião tão resoluto da sua confiança. Eu próprio sou um profissional. — Aqui entreguei-lhe o meu cartão. — Neste caso, não sou movido pela curiosidade; ajo em nome de Lord Godalming, que deseja saber algo sobre a propriedade que esteve, segundo entende, recentemente à venda. Estas palavras deram um rumo diferente aos assuntos. Ele disse:
— Gostaria de o servir se pudesse, Sr. Harker, e especialmente gostaria de servir o seu senhor. Já tratámos uma vez de um pequeno assunto de arrendamento de uns aposentos para ele quando era o Honorável Arthur Holmwood. Se me permitir ter a morada do seu senhor, consultarei a Casa sobre o assunto e, em qualquer caso, comunicarei com o seu senhor pelo correio de hoje à noite. Será um prazer se pudermos desviar-nos das nossas regras o suficiente para dar a informação necessária ao seu senhor.
Eu queria garantir um amigo e não fazer um inimigo, por isso agradeci-lhe, dei a morada do Dr. Seward e fui-me embora. Já estava escuro e eu estava cansado e com fome. Tomei uma chávena de chá na Aërated Bread Company e desci para Purfleet no comboio seguinte.
Encontrei todos os outros em casa. Mina parecia cansada e pálida, mas fez um esforço corajoso para ser alegre e animada; doía-me o coração pensar que tinha tido de lhe esconder algo e, assim, causado a sua inquietação. Graças a Deus, esta será a última noite em que ela terá de assistir às nossas conferências e sentir a picada de não lhe mostrarmos a nossa confiança. Foi preciso toda a minha coragem para manter a sábia resolução de a manter fora da nossa tarefa sombria. Ela parece, de alguma forma, mais reconciliada; ou então o próprio assunto parece ter-se tornado repugnante para ela, pois, quando qualquer alusão acidental é feita, ela chega a estremecer. Fico contente por termos tomado a nossa resolução a tempo, pois, com um sentimento como este, o nosso conhecimento crescente seria uma tortura para ela.
Não pude contar aos outros a descoberta do dia até estarmos a sós; por isso, depois do jantar — seguido de um pouco de música para guardar as aparências, mesmo entre nós — levei Mina para o seu quarto e deixei-a ir para a cama. A querida rapariga foi mais carinhosa comigo do que nunca e agarrou-se a mim como se me quisesse deter; mas havia muito para falar e eu vim-me embora. Graças a Deus, o parar de contar coisas não fez diferença entre nós.
Quando voltei a descer, encontrei os outros todos reunidos à volta da lareira no escritório. No comboio, tinha escrito o meu diário até aquele ponto e li-o simplesmente para eles, como a melhor forma de os deixar a par da minha própria informação; quando terminei, Van Helsing disse:
— Este foi um grande dia de trabalho, amigo Jonathan. Sem dúvida, estamos no rasto das caixas desaparecidas. Se as encontrarmos todas naquela casa, então o nosso trabalho está perto do fim. Mas se houver algumas em falta, temos de procurar até as encontrar. Então daremos o nosso golpe final e caçaremos o miserável até à sua verdadeira morte. Ficámos todos em silêncio durante algum tempo e, de repente, o Sr. Morris falou:
— Diga-me! Como é que vamos entrar naquela casa?
— Entrámos na outra — respondeu Lord Godalming rapidamente.
— Mas, Art, isto é diferente. Arrombámos Carfax, mas tínhamos a noite e um parque murado para nos proteger. Será uma coisa muito diferente cometer um roubo em Piccadilly, seja de dia ou de noite. Confesso que não vejo como vamos entrar, a menos que aquele pateta da agência nos consiga arranjar uma chave de qualquer tipo; talvez saibamos quando receber a carta dele de manhã. As sobrancelhas de Lord Godalming contraíram-se e ele levantou-se e caminhou pela sala. Pouco depois, parou e disse, virando-se de um para o outro de nós:
— A cabeça do Quincey está no lugar. Este negócio de roubo está a tornar-se sério; safámo-nos uma vez, mas temos agora um trabalho raro em mãos — a menos que consigamos encontrar o porta-chaves do Conde.
Como nada podia ser feito antes de manhã e como seria, no mínimo, aconselhável esperar até que Lord Godalming tivesse notícias da Mitchell, decidimos não dar nenhum passo ativo antes da hora do pequeno-almoço. Durante um bom tempo, sentámo-nos a fumar, discutindo o assunto sob várias luzes e perspetivas; aproveitei a oportunidade para trazer este diário até ao momento presente. Estou com muito sono e vou para a cama...
Apenas uma linha. Mina dorme profundamente e a sua respiração é regular. A sua testa está franzida em pequenas rugas, como se pensasse mesmo enquanto dorme. Ela continua demasiado pálida, mas não parece tão abatida como estava esta manhã. Amanhã, espero, tudo isto se resolverá; ela será ela própria quando estiver em casa, em Exeter. Oh, mas tenho tanto sono!
Diário do Dr. Seward.
1 de outubro. — Estou novamente intrigado com Renfield. Os seus humores mudam tão rapidamente que acho difícil manter o contacto com eles e, como significam sempre algo mais do que o seu próprio bem-estar, formam um estudo mais do que interessante. Esta manhã, quando fui vê-lo depois da sua repulsa a Van Helsing, a sua maneira era a de um homem que comanda o destino. Ele estava, de facto, a comandar o destino — subjetivamente. Não se importava realmente com nenhuma das coisas da mera terra; estava nas nuvens e olhava de cima para todas as fraquezas e necessidades de nós, pobres mortais. Pensei que aproveitaria a ocasião e aprenderia algo, por isso perguntei-lhe:
— O que me diz das moscas nestes tempos? Ele sorriu para mim de uma forma bastante superior — um sorriso que teria ficado bem no rosto de Malvolio — ao responder-me:
— A mosca, meu caro senhor, tem uma característica marcante: as suas asas são típicas dos poderes aéreos das faculdades psíquicas. Os antigos fizeram bem quando tipificaram a alma como uma borboleta!
Pensei que levaria a sua analogia ao extremo logico, por isso disse rapidamente:
— Oh, é uma alma que procura agora, é? A sua loucura frustrou a sua razão e um olhar intrigado espalhou-se pelo seu rosto quando, abanando a cabeça com uma decisão que raramente tinha visto nele, disse:
— Oh não, oh não! Não quero almas. A vida é tudo o que quero. — Aqui ele animou-se: — Estou bastante indiferente quanto a isso de momento. A vida está bem; tenho tudo o que quero. Tem de arranjar um novo paciente, doutor, se deseja estudar zoofagia!
Isto intrigou-me um pouco, por isso levei-o mais longe:
— Então, o senhor comanda a vida; é um deus, suponho? Ele sorriu com uma superioridade inefavelmente benigna.
— Oh não! Longe de mim arrogar para mim os atributos da Divindade. Nem sequer me preocupo com os Seus feitos especialmente espirituais. Se posso afirmar a minha posição intelectual, estou, no que diz respeito às coisas puramente terrestres, um pouco na posição que Enoque ocupou espiritualmente! — Isto foi um problema para mim. Não consegui, no momento, recordar a pertinência de Enoque; por isso tive de fazer uma pergunta simples, embora sentisse que, ao fazê-lo, me estava a rebaixar aos olhos do lunático:
— E por que Enoque?
— Porque ele caminhou com Deus. — Não consegui ver a analogia, mas não quis admiti-lo; por isso voltei ao que ele tinha negado:
— Então não se importa com a vida e não quer almas. Porquê? — Fiz a minha pergunta rapidamente e de forma um pouco severa, com o propósito de o desconcertar. O esforço teve sucesso; por um instante, ele caiu inconscientemente na sua velha maneira servil, curvou-se baixo diante de mim e, na verdade, adulan-me enquanto respondia:
— Não quero almas, de facto, de facto! Não quero. Não as poderia usar se as tivesse; não me seriam de utilidade nenhuma. Não as poderia comer ou... — Ele parou de repente e o velho olhar astuto espalhou-se pelo seu rosto, como uma rajada de vento na superfície da água. — E, Doutor, quanto à vida, o que é, afinal? Quando tem tudo o que necessita e sabe que nunca lhe faltará nada, isso é tudo. Tenho amigos — bons amigos — como o senhor, Doutor Seward; — isto foi dito com um olhar de uma astúcia inexprimível, — sei que nunca me faltarão os meios de vida!
Penso que, através da nebulosidade da sua insanidade, ele viu algum antagonismo em mim, pois recuou imediatamente para o último refúgio de alguém como ele — um silêncio obstinado. Depois de algum tempo, vi que, de momento, era inútil falar com ele. Estava amuado e, por isso, vim-me embora.
Mais tarde, no mesmo dia, ele mandou chamar-me. Normalmente não teria vindo sem uma razão especial, mas, neste momento, estou tão interessado nele que faria o esforço de bom grado. Além disso, fico contente por ter qualquer coisa que ajude a passar o tempo. Harker está fora, a seguir pistas; e o mesmo fazem Lord Godalming e Quincey. Van Helsing senta-se no meu escritório, debruçado sobre o registo preparado pelos Harker; parece pensar que, pelo conhecimento preciso de todos os detalhes, encontrará alguma pista. Não deseja ser perturbado no trabalho sem motivo. Tê-lo-ia trazido comigo para ver o paciente, se não tivesse pensado que, depois da sua última repulsa, ele talvez não quisesse voltar. Havia também outra razão: Renfield talvez não falasse tão livremente diante de uma terceira pessoa como quando ele e eu estávamos sós.
Encontrei-o sentado no meio do chão no seu banco, uma pose que é geralmente indicativa de alguma energia mental da sua parte. Quando entrei, disse logo, como se a pergunta estivesse à espera nos seus lábios:
— O que me diz das almas? — Era evidente, então, que a minha suposição tinha sido correta. A cerebracão inconsciente estava a fazer o seu trabalho, mesmo no lunático. Decidi esclarecer o assunto. — O que me diz o senhor delas? — perguntei. Ele não respondeu durante um momento, mas olhou à sua volta, para cima e para baixo, como se esperasse encontrar alguma inspiração para uma resposta.
— Não quero almas! — disse ele de uma forma fraca e apologética. O assunto parecia estar a corroer-lhe a mente e, por isso, decidi usá-lo — para “ser cruel apenas para ser bondoso”. Então disse:
— O senhor gosta da vida e quer a vida?
— Oh sim! Mas isso está tudo bem; não precisa de se preocupar com isso!
— Mas — perguntei —, como vamos obter a vida sem obter também a alma? — Isto pareceu intrigá-lo, por isso continuei:
— Vai ter um belo momento quando estiver a voar por aí, com as almas de milhares de moscas e aranhas e pássaros e gatos a zumbir e a piar e a miar à sua volta. Já tem as vidas deles, sabe, e tem de se sujeitar às almas deles! — Algo pareceu afetar a sua imaginação, pois ele pôs os dedos nos ouvidos e fechou os olhos, apertando-os com força, tal como um rapaz pequeno faz quando lhe estão a lavar a cara com sabão. Havia algo de patético nisso que me tocou; também me deu uma lição, pois parecia que diante de mim estava uma criança — apenas uma criança, embora os traços estivessem gastos e a barba por fazer nas mandíbulas fosse branca. Era evidente que ele estava a passar por algum processo de perturbação mental e, sabendo como os seus humores passados tinham interpretado coisas aparentemente estranhas a ele próprio, pensei que entraria na sua mente o melhor que pudesse e o acompanharia. O primeiro passo foi restaurar a confiança, por isso perguntei-lhe, falando bastante alto para que ele me ouvisse através dos seus ouvidos fechados:
— Gostaria de um pouco de açúcar para trazer as suas moscas de volta? — Ele pareceu acordar de uma vez e abanou a cabeça. Com uma risada, respondeu:
— Nem por isso! Moscas são coisas pobres, afinal! — Depois de uma pausa, acrescentou: — Mas não quero as almas delas a zumbir à minha volta, de qualquer maneira.
— Ou aranhas — continuei.
— Que se lixem as aranhas! Para que servem as aranhas? Não há nada nelas para comer ou... — ele parou de repente, como se tivesse sido lembrado de um tópico proibido.
— Pois, pois! — pensei para comigo. — Esta é a segunda vez que ele para subitamente na palavra “beber”; o que significa isto? — Renfield parecia consciente de ter cometido uma falha, pois apressou-se, como se quisesse desviar a minha atenção disso:
— Não ligo nada a tais assuntos. “Ratos e ratinhos e tais pequenas bestas”, como diz Shakespeare; “comida de galinha da despensa”, como poderiam ser chamadas. Já ultrapassei todo esse tipo de disparates. Mais valeria pedir a um homem que comesse moléculas com um par de pauzinhos, do que tentar interessar-me pelos carnívoros menores, quando sei o que está diante de mim.
— Percebo — disse eu. — Quer coisas grandes em que possa enterrar os dentes? Como gostaria de tomar o pequeno-almoço com elefante?
— Que disparates ridículos está a dizer! — Ele estava a ficar demasiado desperto, por isso pensei em pressioná-lo com força. — Pergunto-me — disse eu, pensativo — como será a alma de um elefante!
O efeito que desejava foi obtido, pois ele caiu imediatamente do seu pedestal e tornou-se uma criança novamente.
— Não quero a alma de um elefante, nem alma nenhuma! — disse ele. Durante alguns momentos, sentou-se desalentado. De repente, saltou para os pés, com os olhos a brilhar e todos os sinais de intensa excitação cerebral. — Vá para o diabo o senhor e as suas almas! — gritou. — Por que me atormenta sobre almas? Não tenho já o suficiente para me preocupar, e magoar, e distrair, sem ter de pensar em almas? — Ele parecia tão hostil que pensei que ia ter outro ataque homicida, por isso apitei. No instante, porém, em que o fiz, ele tornou-se calmo e disse, em tom de desculpa:
— Perdoe-me, Doutor; esqueci-me de mim. Não precisa de ajuda. Estou tão preocupado na minha mente que sou capaz de ser irritável. Se soubesse apenas o problema que tenho de enfrentar e que estou a resolver, teria pena, toleraria e perdoar-me-ia. Por favor, não me ponha uma camisa de forças. Quero pensar e não consigo pensar livremente quando o meu corpo está confinado. Tenho a certeza de que compreenderá! — Ele tinha, evidentemente, autocontrolo; por isso, quando os enfermeiros chegaram, disse-lhes para não se preocuparem e eles retiraram-se. Renfield observou-os a sair; quando a porta se fechou, disse, com considerável dignidade e doçura:
— Dr. Seward, o senhor tem sido muito atencioso comigo. Acredite que lhe estou muito, muito grato! — Achei por bem deixá-lo neste estado de espírito e, por isso, vim-me embora. Há certamente algo em que ponderar no estado deste homem. Vários pontos parecem compor o que o entrevistador americano chama de “uma história”, se apenas se conseguisse colocá-los na ordem correta. Aqui estão eles:
Não menciona “beber”.
Teme o pensamento de ser sobrecarregado com a “alma” de qualquer coisa.
Não teme a falta de “vida” no futuro.
Despreza as formas mais vis de vida, embora tema ser assombrado pelas suas almas.
Logicamente, todas estas coisas apontam para um lado! Ele tem a garantia de alguma espécie de que adquirirá uma vida superior. Ele teme a consequência — o fardo de uma alma. Então, é uma vida humana que ele espera!
E a garantia...?
Deus misericordioso! O Conde esteve com ele e há algum novo esquema de terror em curso!
Mais tarde. — Após a minha ronda, fui ter com Van Helsing e contei-lhe a minha suspeita. Ele ficou muito grave; e, depois de pensar um pouco sobre o assunto, pediu-me que o levasse até Renfield. Assim o fiz. Ao chegarmos à porta, ouvimos o lunático lá dentro a cantar alegremente, como costumava fazer naquele tempo que agora parece tão remoto. Quando entrámos, vimos com espanto que ele tinha espalhado o seu açúcar como antigamente; as moscas, letárgicas com o outono, começavam a zumbir para dentro da sala. Tentámos fazê-lo falar sobre o assunto da nossa conversa anterior, mas ele não nos deu atenção. Continuou com a sua cantoria, como se não estivéssemos presentes. Tinha arranjado um pedaço de papel e estava a dobrá-lo para fazer um caderno. Tivemos de sair tão ignorantes quanto entrámos.
O dele é, de facto, um caso curioso; temos de o vigiar esta noite.
Carta, Mitchell, Sons and Candy para Lord Godalming
“1 de outubro.
“Meu Lord,
“Estamos sempre demasiado felizes por corresponder aos vossos desejos. Pedimos, quanto ao desejo de Vossa Senhoria, expresso pelo Sr. Harker em vosso nome, que forneçamos a seguinte informação referente à venda e compra do n.º 347, Piccadilly. Os vendedores originais são os executores do falecido Sr. Archibald Winter-Suffield. O comprador é um nobre estrangeiro, o Conde de Ville, que efetuou a compra pessoalmente, pagando o valor da compra em notas ‘ao balcão’, se Vossa Senhoria nos perdoa o uso de uma expressão tão vulgar. Para além disto, nada mais sabemos sobre ele.
“Somos, meu Lord, “Humildes servos de Vossa Senhoria, “/Mitchell, Sons & Candy./”
Diário do Dr. Seward.
2 de outubro. — Coloquei um homem no corredor na noite passada e disse-lhe para tomar nota precisa de qualquer som que pudesse ouvir do quarto de Renfield, e dei-lhe instruções de que, se houvesse algo de estranho, deveria chamar-me. Depois do jantar, quando nos reunimos todos à volta da lareira no escritório — tendo a Sra. Harker ido para a cama — discutimos as tentativas e descobertas do dia. Harker foi o único que teve algum resultado, e temos grandes esperanças de que a sua pista possa ser importante.
Antes de ir para a cama, fui ao quarto do paciente e espreitei pela vigia de observação. Ele dormia profundamente, e o seu peito subia e descia com uma respiração regular.
Esta manhã, o homem de serviço relatou-me que, pouco depois da meia-noite, ele esteve inquieto e passou a rezar as suas orações um tanto alto. Perguntei-lhe se foi só isso; ele respondeu que foi tudo o que ouviu. Havia algo na sua atitude tão suspeito que perguntei diretamente se ele tinha estado a dormir. Ele negou o sono, mas admitiu ter “cochilado” durante algum tempo. É muito mau que não se possa confiar nos homens a menos que sejam vigiados.
Hoje, Harker está fora a seguir a sua pista, e Art e Quincey estão a tratar dos cavalos. Godalming acha que será bom ter cavalos sempre de prontidão, pois quando obtivermos a informação que procuramos não haverá tempo a perder. Devemos esterilizar toda a terra importada entre o nascer e o pôr do sol; assim, apanharemos o Conde no seu momento de maior fraqueza, e sem um refúgio para onde fugir. Van Helsing partiu para o Museu Britânico, à procura de algumas autoridades sobre medicina antiga. Os médicos de antigamente tinham em conta coisas que os seus seguidores não aceitam, e o Professor está à procura de curas para bruxas e demónios que possam ser úteis mais tarde.
Às vezes penso que devemos estar todos loucos e que acordaremos para a sanidade em camisas de forças.
Mais tarde. — Reunimo-nos novamente. Parece que, finalmente, estamos no caminho certo, e o nosso trabalho de amanhã poderá ser o princípio do fim. Pergunto-me se a quietude de Renfield terá alguma coisa a ver com isto. As suas mudanças de humor têm acompanhado tanto os feitos do Conde que a destruição iminente do monstro pode ter-lhe chegado de alguma forma subtil. Se ao menos pudéssemos obter alguma pista sobre o que se passou na sua mente, entre o momento da minha discussão com ele hoje e o retomar da captura de moscas, isso poderia dar-nos uma pista valiosa. Ele está agora aparentemente quieto por um momento... Estará? — aquele grito selvagem pareceu vir do seu quarto...
O enfermeiro irrompeu pelo meu quarto adentro e disse-me que Renfield tinha sofrido algum acidente. Ele ouviu-o gritar; e, quando foi ter com ele, encontrou-o caído de bruços no chão, todo coberto de sangue. Tenho de ir imediatamente...
CAPÍTULO XXI.
/Diário do Dr. Seward./
3 de outubro. — Deixem-me registar com exatidão tudo o que aconteceu, da melhor forma que consigo recordar, desde a minha última entrada. Nem um detalhe que eu consiga recordar deve ser esquecido; devo proceder com toda a calma.
Quando cheguei ao quarto de Renfield, encontrei-o deitado no chão, sobre o seu lado esquerdo, numa poça cintilante de sangue. Quando o tentei mover, tornou-se imediatamente evidente que ele tinha sofrido ferimentos terríveis; parecia não haver aquela unidade de propósito entre as partes do corpo que caracteriza até a sanidade letárgica. Quando o rosto ficou exposto, pude ver que estava horrivelmente ferido, como se tivesse sido batido contra o chão — de facto, foi das feridas na face que a poça de sangue se originou. O enfermeiro, que estava de joelhos ao lado do corpo, disse-me enquanto o virávamos:
“Penso, senhor, que ele tem as costas partidas. Veja, tanto o braço e a perna direita como todo o lado do rosto estão paralisados.” Como tal coisa poderia ter acontecido intrigava o enfermeiro para além da medida. Ele parecia completamente perplexo, e as suas sobrancelhas estavam franzidas enquanto dizia:
“Não consigo entender as duas coisas. Ele poderia marcar o rosto dessa maneira batendo com a própria cabeça no chão. Vi uma jovem mulher fazê-lo uma vez no Asilo de Eversfield antes que alguém pudesse pôr-lhe as mãos. E suponho que ele pudesse ter partido as costas ao cair da cama, se tivesse ficado numa posição estranha. Mas, por tudo o que é mais sagrado, não consigo imaginar como as duas coisas ocorreram. Se as suas costas estivessem partidas, ele não poderia bater com a cabeça; e se o seu rosto estivesse assim antes da queda da cama, haveria marcas disso.” Eu disse-lhe:
“Vá ter com o Dr. Van Helsing e peça-lhe que tenha a bondade de vir aqui imediatamente. Preciso dele sem um instante de atraso.” O homem correu e, dentro de poucos minutos, o Professor apareceu de roupão e chinelos. Quando viu Renfield no chão, olhou-o atentamente por um momento e depois virou-se para mim. Penso que ele reconheceu o meu pensamento nos meus olhos, pois disse muito calmamente, manifestamente para os ouvidos do enfermeiro:
“Ah, um triste acidente! Ele precisará de uma vigilância muito cuidadosa e de muita atenção. Ficarei aqui convosco; mas primeiro vou vestir-me. Se puderem aguardar, juntar-me-ei a vós em poucos minutos.”
O paciente respirava agora de forma ruidosa, e era fácil ver que tinha sofrido algum ferimento terrível. Van Helsing regressou com extraordinária rapidez, trazendo consigo uma caixa cirúrgica. Ele tinha, evidentemente, pensado e tomado a sua decisão; pois, quase antes de olhar para o paciente, sussurrou-me:
“Mande o enfermeiro embora. Temos de estar a sós com ele quando ele recuperar a consciência, após a operação.” Então eu disse:
“Penso que basta por agora, Simmons. Fizemos tudo o que podemos no momento. É melhor que vá fazer a sua ronda, e o Dr. Van Helsing irá operar. Informe-me instantaneamente se houver algo de invulgar em qualquer lugar.”
O homem retirou-se e fizemos um exame rigoroso ao paciente. As feridas na face eram superficiais; o ferimento real era uma fratura com depressão no crânio, estendendo-se diretamente pela área motora. O Professor pensou um momento e disse:
“Temos de reduzir a pressão e voltar às condições normais, tanto quanto possível; a rapidez da sufusão mostra a natureza terrível do seu ferimento. Toda a área motora parece afetada. A sufusão cerebral aumentará rapidamente, por isso temos de trepanar imediatamente ou poderá ser tarde demais.” Enquanto ele falava, houve um toque suave à porta. Fui abrir e encontrei no corredor, Arthur e Quincey de pijama e chinelos; o primeiro falou:
“Ouvi o seu homem chamar o Dr. Van Helsing e falar-lhe de um acidente. Então acordei o Quincey, ou melhor, chamei-o, pois ele não estava a dormir. As coisas estão a mover-se demasiado depressa e de forma demasiado estranha para haver um sono profundo para qualquer de nós nestes tempos. Tenho pensado que a noite de amanhã não verá as coisas como têm sido. Teremos de olhar para trás — e para a frente um pouco mais do que temos feito. Podemos entrar?” Acenei com a cabeça e mantive a porta aberta até que entrassem; depois fechei-a novamente. Quando Quincey viu a atitude e o estado do paciente, e notou a horrível poça no chão, disse suavemente:
“Meu Deus! O que lhe aconteceu? Pobre, pobre diabo!” Contei-lhe brevemente e acrescentei que esperávamos que ele recuperasse a consciência após a operação — pelo menos por um curto espaço de tempo. Ele foi imediatamente e sentou-se na beira da cama, com Godalming ao seu lado; todos observámos com paciência.
“Esperaremos”, disse Van Helsing, “o tempo suficiente para fixar o melhor local para trepanar, de modo a que possamos remover o coágulo sanguíneo o mais rápida e perfeitamente possível; pois é evidente que a hemorragia está a aumentar.”
Os minutos durante os quais esperámos passaram com uma lentidão aterradora. Senti um afundamento horrível no meu coração, e pelo rosto de Van Helsing concluí que ele sentia algum medo ou receio quanto ao que estava para vir. Temia as palavras que Renfield pudesse dizer. Estava positivamente com medo de pensar; mas a convicção do que estava para vir estava sobre mim, tal como li sobre homens que tinham ouvido o sino da morte. A respiração do pobre homem vinha em arquejos incertos. A cada instante parecia que ele iria abrir os olhos e falar; mas depois seguia-se uma respiração ruidosa e prolongada, e ele recaía numa insensibilidade mais profunda. Por mais habituado que estivesse a camas de doentes e à morte, este suspense crescia e crescia em mim. Quase podia ouvir o bater do meu próprio coração; e o sangue a pulsar nas minhas têmporas soava como golpes de um martelo. O silêncio tornou-se finalmente agonizante. Olhei para os meus companheiros, um após outro, e vi pelos seus rostos afogueados e testas húmidas que eles estavam a sofrer uma tortura igual. Havia um suspense nervoso sobre todos nós, como se, lá no alto, algum sino de pavor fosse soar poderosamente quando menos o esperássemos.
Finalmente, chegou o momento em que era evidente que o paciente estava a colapsar rapidamente; ele poderia morrer a qualquer momento. Olhei para o Professor e apanhei os seus olhos fixos nos meus. O seu rosto estava severamente decidido enquanto falava:
“Não há tempo a perder. As suas palavras podem valer muitas vidas; tenho pensado nisso enquanto aqui estive. Pode ser que haja uma alma em jogo! Operaremos logo acima da orelha.”
Sem mais uma palavra, realizou a operação. Por alguns momentos, a respiração continuou a ser ruidosa. Depois, veio uma respiração tão prolongada que parecia que ia rasgar o seu peito. Subitamente, os seus olhos abriram-se e ficaram fixos num olhar selvagem e desamparado. Isto continuou por alguns momentos; depois, suavizou-se numa alegria surpreendida, e dos lábios saiu um suspiro de alívio. Ele moveu-se convulsivamente e, ao fazê-lo, disse:
“Ficarei quieto, Doutor. Digam-lhes para tirar a camisa de forças. Tive um sonho terrível, e deixou-me tão fraco que não me consigo mover. O que há de errado com o meu rosto? Parece todo inchado, e arde terrivelmente.” Ele tentou virar a cabeça; mas, mesmo com o esforço, os seus olhos pareciam tornar-se vítreos novamente, por isso coloquei-a gentilmente de volta. Então Van Helsing disse num tom calmo e grave:
“Conte-nos o seu sonho, Sr. Renfield.” Ao ouvir a voz, o seu rosto iluminou-se através da sua mutilação, e ele disse:
“Esse é o Dr. Van Helsing. Como é bom que esteja aqui. Dê-me um pouco de água, os meus lábios estão secos; e tentarei contar-lhe. Eu sonhei...” — ele parou e parecia desmaiar. Chamei calmamente o Quincey: “O brandy — está no meu gabinete — rápido!” Ele voou e regressou com um copo, a garrafa de brandy e uma garrafa de água. Humedecemos os lábios secos, e o paciente reanimou rapidamente. Parecia, no entanto, que o seu pobre cérebro ferido tinha estado a trabalhar no intervalo, pois, quando estava plenamente consciente, olhou para mim de forma penetrante com uma confusão agonizante que nunca esquecerei, e disse:
“Não me devo enganar; não foi um sonho, mas tudo uma realidade sombria.” Então os seus olhos percorreram a sala; ao avistarem as duas figuras sentadas pacientemente na beira da cama, continuou:
“Se eu não tivesse a certeza, saberia por eles.” Por um instante, os seus olhos fecharam-se — não com dor ou sono, mas voluntariamente, como se estivesse a concentrar todas as suas faculdades; quando os abriu, disse, apressadamente e com mais energia do que até então tinha demonstrado:
“Rápido, Doutor, rápido. Estou a morrer! Sinto que tenho apenas alguns minutos; e depois terei de voltar para a morte — ou pior! Humedeça os meus lábios com brandy novamente. Tenho algo que devo dizer antes de morrer; ou antes que o meu pobre cérebro esmagado morra, de qualquer forma. Obrigado! Foi naquela noite, depois de ter saído, quando lhe implorei que me deixasse ir embora. Eu não conseguia falar então, pois sentia a minha língua presa; mas eu estava tão são então, exceto por isso, como estou agora. Estive numa agonia de desespero por muito tempo depois de ter saído; pareceram horas. Depois, veio uma paz repentina. O meu cérebro pareceu tornar-se calmo novamente, e percebi onde estava. Ouvi os cães ladrar atrás da nossa casa, mas não onde Ele estava!” Enquanto ele falava, os olhos de Van Helsing nunca pestanejaram, mas a sua mão saiu e encontrou a minha, apertando-a com força. Ele não se traiu, no entanto; acenou levemente e disse: “Continue”, com uma voz baixa. Renfield prosseguiu:
“Ele veio até à janela na névoa, como eu já o tinha visto muitas vezes antes; mas ele estava sólido então — não era um fantasma, e os seus olhos eram ferozes como os de um homem quando está zangado. Ele ria com a sua boca vermelha; os dentes brancos e afiados brilhavam ao luar quando Ele se virou para olhar para trás, sobre o cinturão de árvores, para onde os cães ladravam. Eu não o quis deixar entrar no início, embora soubesse que ele queria — tal como ele sempre quis desde o princípio. Depois, começou a prometer-me coisas — não em palavras, mas fazendo-as acontecer.” Ele foi interrompido por uma palavra do Professor:
“Como?”
“Fazendo-as acontecer; tal como ele costumava enviar as moscas quando o sol brilhava. Grandes, gordas, com aço e safira nas asas; e grandes traças, à noite, com caveiras e ossos cruzados nas costas.” Van Helsing acenou-lhe enquanto me sussurrava inconscientemente:
“A Acherontia atropos das Esfinges — o que chamam de ‘traça-caveira’!” O paciente continuou sem parar.
“Depois ele começou a sussurrar: ‘Ratos, ratos, ratos! Centenas, milhares, milhões deles, e cada um é uma vida; e cães para os comer, e gatos também. Todas vidas! todo o sangue vermelho, com anos de vida nele; e não apenas moscas a zumbir!’ Eu ri-me dele, pois queria ver o que ele conseguia fazer. Então os cães uivaram, longe, para lá das árvores escuras na Sua casa. Ele fez-me um sinal para a janela. Levantei-me e olhei para fora, e Ele levantou as mãos e pareceu chamar sem usar palavras. Uma massa escura espalhou-se pela relva, vindo como a forma de uma chama de fogo; e depois Ele moveu a névoa para a direita e para a esquerda, e eu pude ver que havia milhares de ratos com os olhos a brilhar em vermelho — como os d’Ele, apenas mais pequenos. Ele levantou a mão e todos pararam; e pensei que Ele parecia estar a dizer: ‘Todas estas vidas te darei, sim, e muitas mais e maiores, através de incontáveis eras, se te prostrares e me adorares!’ E então uma nuvem vermelha, como a cor do sangue, pareceu fechar-se sobre os meus olhos; e antes que eu soubesse o que estava a fazer, encontrei-me a abrir a guilhotina da janela e a dizer-Lhe: ‘Entrai, Senhor e Mestre!’ Os ratos tinham todos desaparecido, mas Ele deslizou para dentro do quarto através da abertura, embora estivesse aberta apenas um centímetro — tal como a própria Lua muitas vezes entrou pela mais pequena fresta e esteve perante mim em todo o seu tamanho e esplendor.”
A sua voz estava mais fraca, por isso humedecei-lhe os lábios com o brandy novamente, e ele continuou; mas parecia que a sua memória tinha continuado a trabalhar no intervalo, pois a sua história estava mais avançada. Eu estava prestes a trazê-lo de volta ao ponto principal, mas Van Helsing sussurrou-me: “Deixe-o continuar. Não o interrompa; ele não pode voltar atrás, e talvez não conseguisse prosseguir de todo se perdesse o fio ao seu pensamento.” Ele prosseguiu:
“Todo o dia esperei para ouvir dele, mas ele não me enviou nada, nem sequer uma mosca, e quando a lua apareceu, eu estava bastante zangado com ele. Quando ele deslizou pela janela, embora estivesse fechada, e nem sequer bateu, fiquei furioso com ele. Ele zombou de mim, e a sua face branca apareceu no meio da névoa com os seus olhos vermelhos a brilhar, e ele continuou como se fosse dono de todo o lugar, e eu não fosse ninguém. Ele nem sequer cheirava da mesma forma quando passou por mim. Não o consegui segurar. Pensei que, de alguma forma, a Sra. Harker tinha entrado no quarto.”
Os dois homens sentados na cama levantaram-se e aproximaram-se, ficando atrás dele para que ele não os pudesse ver, mas onde podiam ouvir melhor. Ambos ficaram em silêncio, mas o Professor sobressaltou-se e estremeceu; o seu rosto, no entanto, tornou-se ainda mais severo e rígido. Renfield continuou sem reparar:
“Quando a Sra. Harker veio ver-me esta tarde, ela não estava igual; era como chá depois de o bule ter sido aguado.” Aqui todos nos movemos, mas ninguém disse uma palavra; ele continuou:
“Eu não sabia que ela estava aqui até que ela falou; e ela não parecia a mesma. Não gosto das pessoas pálidas; gosto delas com muito sangue nelas, e o dela parecia ter saído todo. Não pensei nisso na altura; mas quando ela se foi embora, comecei a pensar, e isso deixou-me furioso ao saber que Ele tinha estado a tirar-lhe a vida.” Podia sentir que os outros tremiam, tal como eu; mas permanecemos, de resto, imóveis. “Então, quando Ele veio esta noite, eu estava pronto para Ele. Vi a névoa a infiltrar-se e agarrei-a com força. Tinha ouvido dizer que os loucos têm uma força não natural; e como sabia que era um louco — por vezes, de qualquer modo — resolvi usar o meu poder. Sim, e Ele também o sentiu, pois teve de sair da névoa para lutar comigo. Segurei com força; e pensei que ia ganhar, pois não pretendia que Ele tirasse mais nada da vida dela, até que vi os Seus olhos. Eles queimaram-me, e a minha força tornou-se como água. Ele deslizou através dela, e quando tentei agarrar-me a Ele, Ele levantou-me e atirou-me ao chão. Havia uma nuvem vermelha diante de mim, e um barulho como de trovão, e a névoa pareceu desaparecer por baixo da porta.” A sua voz estava a tornar-se mais ténue e a respiração mais ruidosa. Van Helsing levantou-se instintivamente.
“Agora sabemos o pior”, disse ele. “Ele está aqui, e sabemos qual é o seu propósito. Talvez não seja demasiado tarde. Armemo-nos — tal como fizemos na outra noite, mas não percamos tempo; não há um instante a perder.” Não houve necessidade de pôr o nosso medo, ou melhor, a nossa convicção, em palavras — partilhávamo-las em comum. Todos nos apressámos e tirámos dos nossos quartos as mesmas coisas que tínhamos quando entrámos na casa do Conde. O Professor tinha as suas prontas e, à medida que nos encontrávamos no corredor, apontou para elas significativamente enquanto dizia:—
“Nunca me deixam; e não o farão até que este negócio infeliz termine. Sejam também prudentes, meus amigos. Não é um inimigo comum com quem lidamos. Ai! ai! que a querida Madame Mina tenha de sofrer.” Ele parou; a sua voz estava a quebrar-se, e não sei se a raiva ou o terror predominavam no meu próprio coração.
Fora da porta dos Harker, parámos. Art e Quincey recuaram, e este último disse:—
“Devemos perturbá-la?”
“Temos de o fazer”, disse Van Helsing com severidade. “Se a porta estiver trancada, eu arrombá-la-ei.”
“Não a assustará terrivelmente? É invulgar arrombar o quarto de uma senhora!” Van Helsing disse solenemente:—
“Têm sempre razão; mas isto é uma questão de vida ou morte. Todos os aposentos são iguais para o médico; e mesmo que não fossem, são todos um para mim esta noite. Amigo John, quando eu girar o puxador, se a porta não abrir, ponha o ombro contra ela e empurre; e vocês também, meus amigos. Agora!”
Ele girou o puxador enquanto falava, mas a porta não cedeu. Lançámo-nos contra ela; com um estrondo, abriu-se de rompante, e quase caímos de cabeça para dentro do quarto. O Professor caiu mesmo, e eu vi por cima dele enquanto ele se levantava de mãos e joelhos. O que vi apavorou-me. Senti o cabelo a eriçar-se como cerdas na nuca, e o meu coração pareceu parar.
O luar era tão brilhante que, através da espessa persiana amarela, o quarto estava suficientemente iluminado para se ver. Na cama, ao lado da janela, jazia Jonathan Harker, com o rosto afogueado, respirando pesadamente como se estivesse em estupor. Ajoelhada na extremidade mais próxima da cama, voltada para fora, estava a figura vestida de branco da sua esposa. Ao lado dela estava um homem alto e magro, vestido de preto. O seu rosto estava voltado para o outro lado, mas no instante em que o vimos, reconhecemos todos o Conde — em todos os aspetos, até à cicatriz na testa. Com a mão esquerda, segurava ambas as mãos da Sra. Harker, mantendo-as afastadas com os braços dela sob total tensão; a sua mão direita agarrava-a pela nuca, forçando o rosto dela contra o seu peito. A sua camisa de dormir branca estava manchada de sangue, e um fio fino escorria pelo peito nu do homem, que era revelado pela sua roupa rasgada. A atitude dos dois tinha uma semelhança terrível com uma criança a forçar o focinho de um gatinho dentro de um pires de leite para o obrigar a beber. Quando irrompemos no quarto, o Conde virou o rosto, e o olhar infernal que eu tinha ouvido descrever pareceu saltar para ele. Os seus olhos flamejaram a vermelho com uma paixão diabólica; as grandes narinas do nariz aquilino e branco abriram-se e tremeram na orla; e os dentes brancos e afiados, por detrás dos lábios cheios da boca a pingar sangue, chocaram entre si como os de uma besta selvagem. Com um puxão, que atirou a sua vítima para trás na cama como se fosse arremessada de uma altura, ele virou-se e saltou para nós. Mas, a essa altura, o Professor já se tinha levantado e segurava na sua direção o envelope que continha a Hóstia Sagrada. O Conde parou subitamente, tal como a pobre Lucy tinha feito fora do túmulo, e encolheu-se para trás. Mais e mais para trás ele se encolheu, à medida que nós, levantando os nossos crucifixos, avançávamos. O luar falhou subitamente, quando uma grande nuvem negra navegou pelo céu; e quando a luz de gás brilhou com o fósforo de Quincey, não vimos nada senão um vapor ténue. Este, enquanto olhávamos, arrastou-se por baixo da porta, que, com o recuo do arrombamento, tinha oscilado de volta à sua posição original. Van Helsing, Art e eu avançámos para a Sra. Harker, que a essa altura tinha recuperado o fôlego e com ele soltara um grito tão selvagem, tão ensurdecedor, tão desesperado que me parece agora que ecoará nos meus ouvidos até ao dia da minha morte. Por alguns segundos, ela permaneceu na sua atitude de desamparo e desordem. O seu rosto estava cadavérico, com uma palidez acentuada pelo sangue que lhe manchava os lábios, as bochechas e o queixo; da sua garganta escorria um fio fino de sangue. Os seus olhos estavam loucos de terror. Depois, ela pôs diante do rosto as suas pobres mãos esmagadas, que traziam na brancura a marca vermelha do aperto terrível do Conde, e de trás delas veio um lamento baixo e desolado que fez com que o grito terrível parecesse apenas a expressão rápida de uma dor sem fim. Van Helsing deu um passo em frente e cobriu-a suavemente com a colcha, enquanto Art, depois de olhar para o rosto dela por um instante com desespero, correu para fora do quarto. Van Helsing sussurrou-me:—
“Jonathan está num estupor tal como o que sabemos que o Vampiro pode produzir. Não podemos fazer nada pela pobre Madame Mina por alguns momentos até que ela se recupere; tenho de o acordar!” Ele mergulhou a ponta de uma toalha em água fria e, com ela, começou a bater-lhe no rosto, com a esposa a manter, a todo o momento, o rosto entre as mãos e a soluçar de uma forma que era de partir o coração. Levantei a persiana e olhei pela janela. Havia muito luar; e enquanto olhava, pude ver Quincey Morris correr pelo relvado e esconder-se na sombra de um grande teixo. Intrigou-me pensar na razão pela qual ele estava a fazer aquilo; mas, no instante seguinte, ouvi a exclamação rápida de Harker ao despertar para uma consciência parcial, e virei-me para a cama. No seu rosto, como era de esperar, havia um olhar de espanto selvagem. Ele pareceu atordoado por alguns segundos, e depois a plena consciência pareceu surgir-lhe de uma vez, e ele sobressaltou-se. A sua esposa foi despertada pelo movimento rápido, e virou-se para ele com os braços estendidos, como se para o abraçar; instantaneamente, contudo, recolheu-os de novo e, juntando os cotovelos, segurou as mãos diante do rosto e estremeceu até que a cama debaixo dela abanou.
“Em nome de Deus, o que significa isto?” gritou Harker. “Dr. Seward, Dr. Van Helsing, o que é isto? O que aconteceu? O que está errado? Mina, querida, o que é isto? O que significa esse sangue? Meu Deus, meu Deus! Chegou a este ponto!” e, levantando-se sobre os joelhos, bateu as mãos violentamente uma na outra. “Bom Deus, ajude-nos! Ajude-a! Oh, ajude-a!” Com um movimento rápido, saltou da cama e começou a vestir-se — todo o homem nele desperto perante a necessidade de esforço imediato. “O que aconteceu? Conte-me tudo sobre isso!” gritou ele sem parar. “Dr. Van Helsing, o senhor ama a Mina, eu sei. Oh, faça alguma coisa para a salvar. Ainda não pode ter ido longe demais. Proteja-a enquanto eu o procuro!” A sua esposa, através do seu terror, horror e aflição, viu um perigo certo para ele; esquecendo instantaneamente a sua própria dor, agarrou-o e gritou:—
“Não! não! Jonathan, não deve deixar-me. Já sofri o suficiente esta noite, Deus sabe, sem o pavor de que ele lhe faça mal. Tem de ficar comigo. Fique com estes amigos que velarão por si!” A sua expressão tornou-se frenética enquanto falava; e, ele cedendo-lhe, ela puxou-o para se sentar na beira da cama e agarrou-se a ele ferozmente.
Van Helsing e eu tentámos acalmá-los a ambos. O Professor ergueu o seu pequeno crucifixo dourado e disse com uma calma maravilhosa:—
“Não receiem, minha querida. Nós estamos aqui; e enquanto isto estiver perto de si, nenhuma coisa impura poderá aproximar-se. Está a salvo por esta noite; e temos de estar calmos e aconselhar-nos uns aos outros.” Ela estremeceu e ficou em silêncio, mantendo a cabeça baixa sobre o peito do marido. Quando a levantou, o seu roupão branco estava manchado de sangue onde os lábios dela tinham tocado, e onde a ferida fina e aberta no seu pescoço tinha deixado sair gotas. No instante em que o viu, ela recuou, com um lamento baixo, e sussurrou, entre soluços sufocados:—
“Impura, impura! Não devo mais tocá-lo nem beijá-lo. Oh, que tenha de ser que sou eu agora a sua pior inimiga, e a quem ele pode ter mais motivos para temer.” A isto ele falou resolutamente:—
“Absurdo, Mina. É uma vergonha para mim ouvir tal palavra. Não a ouviria de si; e não a ouvirei da sua parte. Que Deus me julgue pelos meus méritos, e me castigue com um sofrimento mais amargo do que mesmo esta hora, se, por qualquer ato ou vontade minha, algo alguma vez se interpuser entre nós!” Ele estendeu os braços e envolveu-a contra o peito; e durante algum tempo ela permaneceu ali a soluçar. Ele olhou para nós por cima da cabeça curvada dela, com olhos que piscavam humedecidos sobre as suas narinas trémulas; a sua boca estava firme como aço. Passado algum tempo, os seus soluços tornaram-se menos frequentes e mais ténues, e então ele disse-me, falando com uma calma estudada que senti que levava ao limite o seu poder nervoso:—
“E agora, Dr. Seward, conte-me tudo sobre isto. Demasiado bem conheço o facto geral; conte-me tudo o que aconteceu.” Contei-lhe exatamente o que tinha acontecido, e ele ouviu com uma impassibilidade aparente; mas as suas narinas contraíram-se e os seus olhos incendiaram-se quando contei como as mãos impiedosas do Conde tinham segurado a sua esposa naquela posição terrível e horrível, com a boca dela na ferida aberta no peito dele. Interessou-me, mesmo naquele momento, ver que, enquanto o rosto de paixão branca e contida trabalhava convulsivamente sobre a cabeça curvada, as mãos acariciavam terna e amorosamente o cabelo despenteado. Assim que terminei, Quincey e Godalming bateram à porta. Entraram em obediência à nossa convocatória. Van Helsing olhou para mim interrogativamente. Entendi que ele queria saber se devíamos aproveitar a vinda deles para desviar, se possível, os pensamentos do infeliz marido e da esposa um do outro e de si mesmos; por isso, ao meu sinal de anuência, ele perguntou-lhes o que tinham visto ou feito. Ao que Lord Godalming respondeu:—
“Não consegui vê-lo em lado nenhum no corredor, nem em nenhum dos nossos quartos. Procurei no escritório, mas, embora ele tivesse estado lá, tinha ido embora. Ele tinha, contudo...” Parou subitamente, olhando para a pobre figura caída na cama. Van Helsing disse gravemente:—
“Continue, amigo Arthur. Não queremos mais ocultações. A nossa esperança agora está em saber tudo. Fale livremente!” Então Art continuou:—
“Ele tinha estado lá, e embora só possa ter sido por alguns segundos, fez uma confusão terrível do lugar. Todo o manuscrito tinha sido queimado, e as chamas azuis tremeluziam entre as cinzas brancas; os cilindros do seu fonógrafo também foram atirados ao fogo, e a cera ajudou as chamas.” Aqui interrompi. “Graças a Deus que há a outra cópia no cofre!” O seu rosto iluminou-se por um momento, mas caiu novamente enquanto continuava: “Corri escadas abaixo, então, mas não consegui ver sinal dele. Espreitei no quarto de Renfield; mas não havia lá qualquer rasto, exceto...!” Novamente ele hesitou. “Continue”, disse Harker roucamente; por isso ele baixou a cabeça e, humedecendo os lábios com a língua, acrescentou: “exceto que o pobre rapaz está morto.” A Sra. Harker levantou a cabeça, olhando de um para o outro de nós enquanto dizia solenemente:—
“Que seja feita a vontade de Deus!” Não pude deixar de sentir que Art estava a esconder algo; mas, como entendi que era com um propósito, não disse nada. Van Helsing virou-se para Morris e perguntou:—
“E o senhor, amigo Quincey, tem algo a contar?”
“Um pouco”, respondeu ele. “Pode vir a ser muito, mas de momento não posso dizer. Achei por bem saber, se possível, para onde o Conde iria quando deixasse a casa. Não o vi; mas vi um morcego erguer-se da janela de Renfield e voar para oeste. Esperava vê-lo, sob alguma forma, voltar a Carfax; mas ele procurou evidentemente outro covil. Ele não voltará esta noite; pois o céu está a avermelhar a leste, e o amanhecer está próximo. Temos de trabalhar amanhã!”
Ele disse as últimas palavras entre os dentes cerrados. Por um espaço de talvez um par de minutos, houve silêncio, e pude imaginar que conseguia ouvir o som dos nossos corações a bater; então Van Helsing disse, colocando a mão muito ternamente sobre a cabeça da Sra. Harker:—
“E agora, Madame Mina — pobre, querida, querida Madame Mina — conte-nos exatamente o que aconteceu. Deus sabe que não quero que sofra; mas é necessário que saibamos tudo. Pois agora, mais do que nunca, todo o trabalho tem de ser feito rápida e prontamente, e com uma seriedade mortal. O dia está próximo de nós que deve terminar tudo, se assim puder ser; e agora é a oportunidade de podermos viver e aprender.”
A pobre e querida senhora estremeceu, e pude ver a tensão dos seus nervos enquanto ela apertava o marido mais contra si e dobrava a cabeça cada vez mais baixo sobre o peito dele. Depois, ela levantou a cabeça orgulhosamente e estendeu uma mão a Van Helsing, que a tomou nas suas e, depois de se curvar e beijá-la reverentemente, segurou-a firmemente. A outra mão estava entrelaçada na do marido, que mantinha o outro braço envolto nela protetoramente. Após uma pausa em que ela estava evidentemente a organizar os seus pensamentos, ela começou:—
“Tomei a poção para dormir que tão gentilmente me tinha dado, mas, durante muito tempo, não surtiu efeito. Pareci tornar-me mais desperta, e miríades de fantasias horríveis começaram a amontoar-se na minha mente — todas elas ligadas à morte, e a vampiros; com sangue, e dor, e problemas.” O marido gemeu involuntariamente enquanto ela se virava para ele e dizia amorosamente: “Não se preocupe, querido. Tem de ser corajoso e forte, e ajudar-me nesta tarefa horrível. Se soubesse que esforço é para mim contar esta coisa terrível, entenderia o quanto preciso da sua ajuda. Bem, vi que tinha de tentar ajudar o medicamento a fazer o seu trabalho com a minha vontade, se era para me fazer algum bem, por isso preparei-me resolutamente para dormir. Sem dúvida que o sono deve ter-me vindo em breve, pois não me lembro de mais nada. A chegada de Jonathan não me acordou, pois ele estava deitado ao meu lado quando me lembro a seguir. Havia no quarto a mesma névoa branca e ténue que eu tinha notado antes. Mas esqueço-me agora se sabem disto; encontrá-lo-ão no meu diário que vos mostrarei mais tarde. Senti o mesmo terror vago que me tinha vindo antes, e a mesma sensação de alguma presença. Virei-me para acordar Jonathan, mas descobri que ele dormia tão profundamente que parecia que tinha sido ele a tomar a poção para dormir e não eu. Tentei, mas não consegui acordá-lo. Isto causou-me um grande medo, e olhei à volta aterrorizada. Então, de facto, o meu coração afundou-se dentro de mim: ao lado da cama, como se ele tivesse saído da névoa — ou melhor, como se a névoa se tivesse transformado na sua figura, pois ela tinha desaparecido inteiramente — estava um homem alto e magro, todo de preto. Reconheci-o imediatamente pelas descrições dos outros. O rosto de cera; o nariz aquilino e alto, sobre o qual a luz caía numa linha branca e fina; os lábios vermelhos entreabertos, com os dentes brancos e afiados visíveis entre eles; e os olhos vermelhos que eu tinha parecido ver no pôr do sol nas janelas da Igreja de St. Mary em Whitby. Reconheci, também, a cicatriz vermelha na sua testa onde Jonathan lhe tinha batido. Por um instante, o meu coração parou, e eu teria gritado, se não estivesse paralisada. Na pausa, ele falou com uma espécie de sussurro agudo e cortante, apontando enquanto falava para Jonathan:—
“‘Silêncio! Se fizer um som, pegarei nele e esmagar-lhe-ei os miolos diante dos seus próprios olhos.’ Fiquei apavorada e demasiado atordoada para fazer ou dizer qualquer coisa. Com um sorriso de escárnio, ele colocou uma mão sobre o meu ombro e, segurando-me com força, descobriu-me a garganta com a outra, dizendo enquanto o fazia: ‘Primeiro, um pouco de refresco para recompensar os meus esforços. Pode muito bem ficar quieta; não é a primeira, nem a segunda vez, que as suas veias saciaram a minha sede!’ Eu estava atordoada e, estranhamente, não queria impedi-lo. Suponho que seja parte da maldição horrível que tal é, quando o seu toque está na sua vítima. E oh, meu Deus, meu Deus, tenha piedade de mim! Ele colocou os seus lábios fumegantes na minha garganta!” O marido gemeu novamente. Ela apertou-lhe a mão com mais força, e olhou para ele com piedade, como se ele fosse o ferido, e continuou:—
“Senti a minha força a desvanecer-se, e estava meio desmaiada. Quanto tempo esta coisa horrível durou, não sei; mas pareceu que um longo tempo deve ter passado antes que ele retirasse a sua boca imunda, horrível e sarcástica. Vi-a a pingar com o sangue fresco!” A lembrança pareceu, por um momento, dominá-la, e ela curvou-se e teria caído se não fosse pelo braço sustentador do marido. Com um grande esforço, ela recuperou-se e continuou:—
“Depois ele falou-me zombeteiramente: ‘E assim tu, como os outros, queres jogar os teus cérebros contra os meus. Queres ajudar estes homens a caçar-me e a frustrar-me nos meus desígnios! Sabes agora, e eles sabem em parte já, e saberão por completo antes de muito, o que é atravessar o meu caminho. Deviam ter guardado as suas energias para usar mais perto de casa. Enquanto jogavam de esperteza contra mim — contra mim, que comandei nações, e intriguei por elas, e lutei por elas, centenas de anos antes de terem nascido — eu estava a contraminar os seus planos. E tu, a mais amada de entre eles, és agora para mim carne da minha carne; sangue do meu sangue; parente da minha parentela; a minha generosa prensa de vinho por um tempo; e serás mais tarde a minha companheira e a minha ajudante. Serás vingada por tua vez; pois não haverá um deles que não servirá às tuas necessidades. Mas, por enquanto, serás punida pelo que fizeste. Ajudaste a frustrar-me; agora virás ao meu chamado. Quando o meu cérebro disser “Vem!” para ti, atravessarás terra ou mar para cumprir as minhas ordens; e para esse fim, isto!’ Com isso, ele abriu a camisa e, com as suas unhas longas e afiadas, abriu uma veia no seu peito. Quando o sangue começou a jorrar, ele tomou as minhas mãos numa das suas, segurando-as com força, e com a outra agarrou o meu pescoço e pressionou a minha boca contra a ferida, de modo que eu teria de sufocar ou engolir um pouco do... Oh, meu Deus! meu Deus! o que fiz eu? O que fiz eu para merecer tal destino, eu que tentei andar na mansidão e na retidão todos os meus dias? Deus tenha piedade de mim! Olhe para uma alma pobre em perigo pior do que mortal; e, em misericórdia, tenha piedade daqueles a quem ela é querida!” Então ela começou a esfregar os lábios como se para os limpar da poluição.
Enquanto ela contava a sua história terrível, o céu oriental começou a ganhar vida, e tudo tornou-se cada vez mais claro. Harker estava imóvel e quieto; mas sobre o seu rosto, à medida que a narrativa horrível prosseguia, surgiu um aspeto cinzento que se aprofundou e aprofundou à luz da manhã, até que, quando o primeiro raio vermelho do amanhecer que se aproximava disparou, a carne destacou-se sombriamente contra o cabelo que embranquecia.
Combinámos que um de nós deve ficar ao alcance do par infeliz até que nos possamos reunir e organizar sobre a tomada de medidas.
Disto estou certo: o sol nasce hoje sobre nenhuma casa mais miserável em todo o grande curso do seu caminho diário.
CAPÍTULO XXII.
/Diário de Jonathan Harker./
3 de Outubro.--Como tenho de fazer algo ou enlouquecer, escrevo este diário. São agora seis horas, e havemos de nos encontrar no escritório dentro de meia hora e comer algo; pois o Dr. Van Helsing e o Dr. Seward concordaram que, se não comermos, não poderemos trabalhar no nosso melhor. O nosso melhor será, Deus sabe, necessário hoje. Devo continuar a escrever a cada oportunidade, pois não me atrevo a parar para pensar. Tudo, grande e pequeno, deve ser registado; talvez, no fim, as pequenas coisas nos ensinem mais. O ensino, grande ou pequeno, não poderia ter levado a Mina ou a mim a um lugar pior do que aquele em que estamos hoje. Contudo, devemos confiar e ter esperança. A pobre Mina disse-me, agora mesmo, com as lágrimas a correrem pelas suas queridas faces, que é na tribulação e na provação que a nossa fé é testada--que devemos continuar a confiar; e que Deus nos ajudará até ao fim. O fim! oh, meu Deus! que fim?... Ao trabalho! Ao trabalho!
Quando o Dr. Van Helsing e o Dr. Seward regressaram de ver o pobre Renfield, fomos discutir gravemente o que devia ser feito. Primeiro, o Dr. Seward disse-nos que, quando ele e o Dr. Van Helsing tinham descido ao quarto de baixo, encontraram Renfield estendido no chão, todo amontoado. O seu rosto estava todo pisado e esmagado, e os ossos do pescoço estavam partidos.
O Dr. Seward perguntou ao enfermeiro que estava de serviço no corredor se tinha ouvido algo. Ele disse que estava sentado--confessou ter estado a cochilar--quando ouviu vozes altas no quarto, e depois Renfield gritou alto várias vezes: “Deus! Deus! Deus!” Depois disso houve um som de queda, e quando ele entrou no quarto, encontrou-o deitado no chão, de cara para baixo, tal como os médicos o tinham visto. Van Helsing perguntou se ele tinha ouvido “vozes” ou “uma voz”, e ele disse que não sabia dizer; que, a princípio, parecera-lhe como se houvesse duas, mas, como não estava ninguém no quarto, só poderia ter sido uma. Ele podia jurar, se necessário, que a palavra “Deus” foi pronunciada pelo paciente. O Dr. Seward disse-nos, quando estávamos sós, que não desejava aprofundar o assunto; a questão de um inquérito tinha de ser considerada, e não seria nada conveniente apresentar a verdade, pois ninguém acreditaria nela. Tal como estava, ele achava que, com o testemunho do enfermeiro, podia passar um atestado de morte por acidente ao cair da cama. Caso o médico legista o exigisse, haveria um inquérito formal, necessariamente com o mesmo resultado.
Quando a questão começou a ser discutida sobre qual seria o nosso próximo passo, a primeira coisa que decidimos foi que a Mina deveria estar em plena confiança; que nada de qualquer tipo--por mais doloroso que fosse--lhe deveria ser ocultado. Ela própria concordou quanto à sensatez disso, e era de partir o coração vê-la tão corajosa e, ainda assim, tão pesarosa, e em tal profundidade de desespero. “Não deve haver mais ocultações”, disse ela. “Ai! já tivemos demasiadas. E, além disso, não há nada em todo o mundo que me possa causar mais dor do que aquela que já suportei--do que a que sofro agora! O que quer que aconteça, há de ser de nova esperança ou de nova coragem para mim!” Van Helsing olhava fixamente para ela enquanto falava, e disse, subitamente, mas com calma:--
“Mas, querida Senhora Mina, não tem medo; não por si, mas pelos outros por sua causa, depois do que aconteceu?” O rosto dela tornou-se rígido nos seus traços, mas os seus olhos brilharam com a devoção de uma mártir ao responder:--
“Ah, não! Pois a minha decisão está tomada!”
“Para quê?” perguntou ele gentilmente, enquanto estávamos todos muito imóveis; pois cada um, à sua maneira, tinha uma ideia vaga do que ela queria dizer. A sua resposta veio com direta simplicidade, como se estivesse apenas a declarar um facto:--
“Porque, se encontrar em mim--e vigiarei atentamente por isso--um sinal de perigo para qualquer um que amo, eu morrerei!”
“Não se mataria?” perguntou ele com a voz rouca.
“Matar-me-ia; se não houvesse nenhum amigo que me amasse, que me poupasse tal dor, e um esforço tão desesperado!” Ela olhou para ele significativamente enquanto falava. Ele estava sentado; mas agora levantou-se e aproximou-se dela e pôs a mão na sua cabeça, dizendo solenemente:--
“Minha criança, existe tal pessoa, se fosse para o seu bem. Por mim, eu poderia assumir perante Deus a responsabilidade de encontrar tal eutanásia para si, mesmo neste momento, se fosse o melhor. Não, se fosse seguro! Mas, minha criança----” por um momento pareceu sufocado, e um grande soluço subiu-lhe à garganta; engoliu-o e continuou:--
“Estão aqui alguns que se interporão entre si e a morte. Não deve morrer. Não deve morrer por mão nenhuma; mas, acima de tudo, não pela sua própria. Até que o outro, que conspurcou a sua doce vida, esteja verdadeiramente morto, não deve morrer; pois se ele ainda está com os vivos Mortos-Vivos, a sua morte torná-la-ia tal como ele é. Não, deve viver! Deve lutar e esforçar-se por viver, embora a morte pareça uma dádiva inexprimível. Deve combater a própria Morte, embora ela venha até si na dor ou na alegria; de dia ou de noite; em segurança ou em perigo! Pela sua alma viva, ordeno-lhe que não morra--não, nem pense na morte--até que este grande mal tenha passado.” A pobre querida ficou branca como a morte, e tremeu e estremeceu, como já vi uma areia movediça tremer e estremecer com a chegada da maré. Ficámos todos em silêncio; não podíamos fazer nada. Por fim, ela acalmou-se e, voltando-se para ele, disse, docemente, mas oh! tão pesarosamente, enquanto estendia a sua mão:--
“Prometo-lhe, meu caro amigo, que se Deus me deixar viver, esforçar-me-ei por fazê-lo; até que, se for no Seu bom tempo, este horror tenha passado de mim.” Ela era tão boa e corajosa que todos sentimos que os nossos corações foram fortalecidos para trabalhar e suportar por ela, e começámos a discutir o que iríamos fazer. Disse-lhe que ela deveria ter todos os documentos no cofre, e todos os documentos ou diários e fonogramas que pudéssemos usar daqui em diante; e que deveria manter o registo como fizera antes. Ela ficou satisfeita com a perspetiva de ter algo para fazer--se “satisfeita” pudesse ser usado em relação a um interesse tão sinistro.
Como de costume, Van Helsing pensara à frente de todos os outros, e estava preparado com uma organização exata do nosso trabalho.
“É talvez bom”, disse ele, “que na nossa reunião após a visita a Carfax tenhamos decidido não fazer nada com as caixas de terra que lá jaziam. Se o tivéssemos feito, o Conde teria adivinhado o nosso propósito, e teria sem dúvida tomado medidas com antecedência para frustrar tal esforço em relação às outras; mas agora ele não conhece as nossas intenções. Mais ainda, com toda a probabilidade, ele não sabe que existe tal poder ao nosso alcance que pode esterilizar os seus covis, de modo a que ele não possa usá-los como dantes. Estamos agora muito mais avançados no nosso conhecimento quanto à disposição deles, que, quando tivermos examinado a casa em Piccadilly, poderemos rastrear o último deles. Hoje, então, é nosso; e nele reside a nossa esperança. O sol que nasceu sobre a nossa tristeza esta manhã protege-nos no seu curso. Até que se ponha esta noite, esse monstro deve reter qualquer forma que agora tenha. Ele está confinado às limitações do seu envelope terreno. Ele não pode derreter-se no ar rarefeito nem desaparecer através de fendas ou aberturas ou rachas. Se passar por uma porta, tem de abrir a porta como um mortal. E assim temos este dia para caçar todos os seus covis e esterilizá-los. Assim o faremos, se ainda não o tivermos apanhado e destruído, encurralá-lo-emos num lugar onde a captura e a destruição serão, a seu tempo, certas.” Aqui saltei, pois não me podia conter com o pensamento de que os minutos e segundos tão preciosa e pesadamente carregados com a vida e a felicidade da Mina estavam a fugir de nós, já que, enquanto falávamos, a ação era possível. Mas Van Helsing levantou a mão, avisando. “Não, amigo Jonathan”, disse ele, “nisto, o caminho mais rápido para casa é o mais longo, como diz o seu provérbio. Todos agiremos, e agiremos com uma rapidez desesperada, quando o tempo chegar. Mas pense, com toda a probabilidade a chave da situação está naquela casa em Piccadilly. O Conde pode ter muitas casas que comprou. Delas, ele terá escrituras de compra, chaves e outras coisas. Ele terá papel em que escreve; ele terá o seu livro de cheques. Há muitos pertences que ele deve ter em algum lado; por que não neste lugar tão central, tão sossegado, onde ele vem e vai pela frente ou pelas traseiras a todas as horas, quando no próprio bulício do tráfego não há ninguém para notar. Iremos lá e revistaremos essa casa; e quando soubermos o que ela contém, então faremos o que o nosso amigo Arthur chama, nas suas expressões de caça, ‘tapar as tocas’ e assim apanhamos a nossa velha raposa--então? não é assim?”
“Então vamos imediatamente”, exclamei, “estamos a desperdiçar o tempo precioso, precioso!” O Professor não se moveu, mas simplesmente disse:--
“E como havemos de entrar naquela casa em Piccadilly?”
“De qualquer maneira!” gritei. “Arrombaremos se for preciso.”
“E a sua polícia; onde estarão eles, e o que dirão?”
Fiquei atordoado; mas sabia que, se ele desejava atrasar, tinha uma boa razão para isso. Por isso disse, tão calmamente quanto pude:--
“Não espere mais do que o necessário; sabe, tenho a certeza, a tortura em que estou.”
“Ah, minha criança, isso eu sei; e, na verdade, não há nenhum desejo da minha parte de aumentar a sua angústia. Mas pense apenas, o que podemos fazer, até que todo o mundo esteja em movimento? Então chegará a nossa vez. Pensei e pensei, e parece-me que a maneira mais simples é a melhor de todas. Agora, desejamos entrar na casa, mas não temos chave; não é assim?” Acenei com a cabeça.
“Agora, suponha que fosse, na verdade, o dono da casa, e ainda assim não conseguisse entrar; e pense que para si não havia consciência de arrombador, o que faria?”
“Eu arranjaria um serralheiro respeitável, e pô-lo-ia a trabalhar para abrir a fechadura para mim.”
“E a sua polícia, eles interfeririam, não interfeririam?”
“Oh, não! Não se soubessem que o homem estava devidamente contratado.”
“Então”, ele olhou-me atentamente enquanto falava, “tudo o que está em dúvida é a consciência do empregador, e a crença dos seus polícias sobre se esse empregador tem uma boa consciência ou uma má. A sua polícia deve ser de facto homens zelosos e espertos--oh, tão espertos!--a ler o coração, que se preocupam com tal assunto. Não, não, meu amigo Jonathan, você vai tirar a fechadura de uma centena de casas vazias nesta sua Londres, ou de qualquer cidade do mundo; e se o fizer como tais coisas são corretamente feitas, e na altura em que tais coisas são corretamente feitas, ninguém interferirá. Li sobre um cavalheiro que possuía uma casa tão fina na sua Londres, e quando ele ia para meses de verão para a Suíça e fechava a sua casa, algum ladrão vinha e partia a janela das traseiras e entrava. Depois, ele ia e abria as persianas da frente e entrava e saía pela porta, perante os próprios olhos da polícia. Depois, ele faz um leilão nessa casa, e anuncia-o, e coloca um grande aviso; e quando o dia chega, ele vende através de um grande leiloeiro todos os bens daquele outro homem que os possui. Depois, ele vai ter com um construtor, e vende-lhe essa casa, fazendo um acordo para que a deite abaixo e leve tudo num certo tempo. E a sua polícia e outras autoridades ajudam-no tanto quanto podem. E quando aquele proprietário volta das suas férias na Suíça, encontra apenas um buraco vazio onde a sua casa tinha estado. Isto foi tudo feito en règle; e no nosso trabalho também estaremos en règle. Não iremos tão cedo que o polícia, que tem então pouco em que pensar, ache estranho; mas iremos depois das dez horas, quando há muitos por perto, e quando tais coisas seriam feitas se fôssemos de facto donos da casa.”
Não pude deixar de ver como ele tinha razão, e o terrível desespero do rosto da Mina tornou-se um pouco mais relaxado; havia esperança num conselho tão bom. Van Helsing continuou:--
“Uma vez dentro da casa, poderemos encontrar mais pistas; pelo menos, alguns de nós podem lá ficar enquanto o resto encontra os outros locais onde há mais caixas de terra--em Bermondsey e Mile End.”
Lord Godalming levantou-se. “Posso ser de alguma utilidade aqui”, disse ele. “Vou telegrafar ao meu pessoal para ter cavalos e carruagens onde forem mais convenientes.”
“Olhe aqui, velho amigo”, disse Morris, “é uma ideia excelente ter tudo pronto caso queiramos ir a cavalo; mas não acha que uma das suas carruagens vistosas com os seus adornos heráldicos num atalho em Walworth ou Mile End atrairia demasiada atenção para os nossos propósitos? Parece-me que deveríamos apanhar táxis quando formos para sul ou leste; e até deixá-los algures perto da vizinhança para onde vamos.”
“O amigo Quincey tem razão!” disse o Professor. “A sua cabeça é o que vocês chamam em plano com o horizonte. É uma coisa difícil que vamos fazer, e não queremos que ninguém nos observe, se possível for.”
Mina demonstrava um interesse crescente em tudo, e eu fiquei radiante ao ver que a exigência dos assuntos a estava a ajudar a esquecer, por um momento, a terrível experiência da noite. Ela estava muito, muito pálida--quase cadavérica, e tão magra que os seus lábios estavam retraídos, mostrando os dentes de forma algo saliente. Não mencionei este último facto, para não lhe causar dor desnecessária; mas o meu sangue gelava nas veias ao pensar no que ocorrera com a pobre Lucy quando o Conde sugara o seu sangue. Até agora, não havia sinal dos dentes a ficarem mais afiados; mas o tempo ainda era curto, e havia tempo para o medo.
Quando chegámos à discussão da sequência dos nossos esforços e da disposição das nossas forças, surgiram novas fontes de dúvida. Ficou finalmente acordado que, antes de partirmos para Piccadilly, deveríamos destruir o covil do Conde que estava perto. Caso ele o descobrisse demasiado cedo, estaríamos assim ainda à frente dele no nosso trabalho de destruição; e a sua presença na sua forma puramente material, e no seu estado mais fraco, poderia dar-nos alguma nova pista.
Quanto à disposição das forças, foi sugerido pelo Professor que, após a nossa visita a Carfax, todos entrássemos na casa em Piccadilly; que os dois médicos e eu ficássemos lá, enquanto Lord Godalming e Quincey encontrassem os covis em Walworth e Mile End e os destruíssem. Era possível, embora não provável, insistiu o Professor, que o Conde pudesse aparecer em Piccadilly durante o dia, e que, se assim fosse, poderíamos ser capazes de lidar com ele ali mesmo. De qualquer modo, poderíamos ser capazes de o seguir em força. A este plano, opus-me energicamente, no que dizia respeito à minha ida, pois disse que pretendia ficar e proteger a Mina. Pensei que a minha decisão estava tomada sobre o assunto; mas a Mina não quis ouvir a minha objeção. Ela disse que poderia haver alguma questão legal em que eu pudesse ser útil; que entre os documentos do Conde poderia haver alguma pista que eu pudesse compreender devido à minha experiência na Transilvânia; e que, tal como estava, toda a força que pudéssemos reunir era necessária para lidar com o poder extraordinário do Conde. Tive de ceder, pois a resolução da Mina era firme; ela disse que era a última esperança para ela que todos trabalhássemos juntos. “Quanto a mim”, disse ela, “não tenho medo. As coisas estiveram tão más quanto podiam estar; e o que quer que aconteça deve ter em si algum elemento de esperança ou conforto. Vá, meu marido! Deus pode, se Ele o desejar, proteger-me tão bem sozinha como com alguém presente.” Então saltei, exclamando: “Então, em nome de Deus, vamos imediatamente, pois estamos a perder tempo. O Conde pode vir a Piccadilly mais cedo do que pensamos.”
“Não é assim!” disse Van Helsing, levantando a mão.
“Mas porquê?” perguntei.
“Esquece”, disse ele, com um sorriso, “que na noite passada ele banqueteou pesadamente, e dormirá até tarde?”
Se eu esqueci! poderei alguma vez--poderei alguma vez! Poderá qualquer um de nós esquecer alguma vez aquela cena terrível! A Mina esforçou-se para manter o seu semblante corajoso; mas a dor sobrepôs-se-lhe e ela pôs as mãos à frente do rosto, e estremeceu enquanto gemia. Van Helsing não pretendia relembrar a sua experiência assustadora. Ele tinha simplesmente perdido de vista ela e o seu papel no caso no seu esforço intelectual. Quando se apercebeu do que tinha dito, ficou horrorizado com a sua falta de consideração e tentou consolá-la. “Oh Senhora Mina”, disse ele, “querida, querida Senhora Mina, ai! que eu, de todos os que tanto a reverenciam, tenha dito algo tão descuidado. Estes estúpidos lábios velhos meus e esta estúpida cabeça velha não merecem tal; mas esquecerá, não esquecerá?” Ele inclinou-se baixo ao lado dela enquanto falava; ela pegou na sua mão, e olhando para ele através das lágrimas, disse com a voz rouca:--
“Não, não esquecerei, pois é bom que me lembre; e com isso tenho tantas memórias de si que são doces, que aceito tudo junto. Agora, devem todos partir em breve. O pequeno-almoço está pronto, e devemos todos comer para que possamos estar fortes.”
O pequeno-almoço foi uma refeição estranha para todos nós. Tentámos estar alegres e encorajarmo-nos uns aos outros, e a Mina foi a mais brilhante e alegre de todos nós. Quando terminou, Van Helsing levantou-se e disse:--
“Agora, meus caros amigos, partimos para o nosso terrível empreendimento. Estamos todos armados, como estávamos naquela noite em que visitámos pela primeira vez o covil do nosso inimigo; armados contra ataques fantasmagóricos bem como carnais?” Todos o assegurámos. “Então está bem. Agora, Senhora Mina, está de qualquer modo bastante segura aqui até ao pôr do sol; e antes disso regressaremos--se--nós regressarmos! Mas antes de partirmos, deixe-me vê-la armada contra ataque pessoal. Preparei eu próprio, desde que desceu, o seu quarto, colocando as coisas de que sabemos, para que Ele não possa entrar. Agora deixe-me protegê-la. Na sua testa toco com este pedaço de Hóstia Sagrada em nome do Pai, do Filho, e----”
Houve um grito terrível que quase nos gelou o coração ao ouvir. À medida que ele colocava a Hóstia na testa da Mina, ela queimou-a--queimou a carne como se tivesse sido um pedaço de metal em brasa. O cérebro da minha pobre querida disse-lhe o significado do facto tão rapidamente como os seus nervos receberam a dor dele; e ambos sobrecarregaram-na de tal modo que a sua natureza exausta teve a sua voz naquele grito terrível. Mas as palavras para o seu pensamento vieram rapidamente; o eco do grito não tinha deixado de soar no ar quando veio a reação, e ela caiu de joelhos no chão numa agonia de humilhação. Puxando o seu belo cabelo sobre o rosto, como o leproso de outrora o seu manto, ela soltou um lamento:--
“Imunda! Imunda! Até o Todo-Poderoso evita a minha carne poluída! Devo carregar esta marca de vergonha na minha testa até o Dia do Juízo.” Todos pararam. Eu tinha-me atirado ao lado dela numa agonia de dor impotente e, envolvendo-a com os meus braços, segurei-a com força. Durante alguns minutos, os nossos corações pesarosos bateram em uníssono, enquanto os amigos à nossa volta desviavam os olhos, que vertiam lágrimas silenciosamente. Então, Van Helsing voltou-se e disse gravemente; tão gravemente que não pude deixar de sentir que ele estava de alguma forma inspirado e que afirmava coisas para além de si mesmo:--
“Pode ser que tenhais de carregar essa marca até que o próprio Deus entenda por bem, como Ele certamente fará, no Dia do Juízo, reparar todos os erros da terra e dos Seus filhos que Ele nela colocou. E oh, Senhora Mina, minha querida, minha querida, que nós, que a amamos, possamos estar lá para ver quando essa cicatriz vermelha, o sinal do conhecimento de Deus sobre o que foi, desaparecer e deixar a vossa testa tão pura quanto o coração que conhecemos. Pois, tão certo como vivemos, essa cicatriz desaparecerá quando Deus achar correto levantar o fardo que pesa sobre nós. Até lá, carregamos a nossa Cruz, como o Seu Filho o fez em obediência à Sua vontade. Pode ser que sejamos instrumentos escolhidos do Seu bom agrado, e que ascendamos ao Seu comando como aquele outro através de vergões e vergonha; através de lágrimas e sangue; através de dúvidas e medos, e tudo o que faz a diferença entre Deus e o homem.”
Havia esperança nas suas palavras, e conforto; e elas conduziam à resignação. Mina e eu sentíamo-nos assim e, simultaneamente, cada um de nós tomou uma das mãos do velho, inclinou-se e beijou-a. Então, sem uma palavra, ajoelhámo-nos todos juntos e, de mãos dadas, jurámos ser fiéis uns aos outros. Nós, homens, comprometemo-nos a levantar o véu da tristeza da cabeça daquela a quem, cada um à sua maneira, amávamos; e rezámos por ajuda e orientação na terrível tarefa que tínhamos pela frente.
Chegara então a hora de partir. Por isso, despedi-me de Mina, uma separação que nenhum de nós esquecerá até ao dia da nossa morte; e partimos.
Tomei uma decisão: se descobrirmos que Mina tem de se tornar, no fim, uma vampira, então ela não irá sozinha para essa terra desconhecida e terrível. Suponho que seja assim que, nos velhos tempos, um vampiro significava muitos; tal como os seus corpos hediondos só podiam descansar em terra sagrada, também o amor mais santo era o sargento recrutador para as suas fileiras fantasmagóricas.
Entrámos em Carfax sem problemas e encontrámos tudo tal como na primeira vez. Era difícil acreditar que, entre tal cenário prosaico de abandono, pó e decadência, houvesse qualquer fundamento para tal medo como aquele que já conhecíamos. Se as nossas mentes não estivessem decididas, e se não houvesse memórias terríveis a impelir-nos, dificilmente teríamos conseguido prosseguir com a nossa tarefa. Não encontrámos papéis, nem qualquer sinal de uso na casa; e, na velha capela, as grandes caixas pareciam exatamente como as tínhamos visto da última vez. O Dr. Van Helsing disse-nos solenemente, enquanto estávamos diante delas:--
“E agora, meus amigos, temos aqui um dever a cumprir. Devemos esterilizar esta terra, tão sagrada de santas memórias, que ele trouxe de uma terra muito distante para tal uso nefasto. Ele escolheu esta terra porque ela era santa. Assim, derrotamo-lo com a sua própria arma, pois tornamo-la ainda mais santa. Foi santificada para tal uso do homem, agora santificamo-la para Deus.” Enquanto falava, tirou da sua mala uma chave de fendas e uma chave inglesa, e muito em breve o topo de uma das caixas foi aberto. A terra cheirava a mofo e a ar viciado; mas, de alguma forma, não pareceu importar-nos, pois a nossa atenção estava concentrada no Professor. Retirando da sua caixa um pedaço da Sagrada Hóstia, colocou-o reverentemente sobre a terra e, depois de fechar a tampa, começou a aparafusá-la, ajudando-o nós enquanto ele trabalhava.
Uma a uma, tratámos da mesma forma cada uma das grandes caixas, e deixámo-las, na aparência, como as tínhamos encontrado; mas em cada uma havia uma porção da Hóstia.
Quando fechámos a porta atrás de nós, o Professor disse solenemente:--
“Tanto está já feito. Se for possível que com todas as outras sejamos tão bem-sucedidos, então o pôr do sol desta tarde pode brilhar na testa da Senhora Mina, toda branca como marfim e sem qualquer mancha!”
Ao atravessarmos o relvado a caminho da estação para apanhar o nosso comboio, pudemos ver a frente do asilo. Olhei ansiosamente e, na janela do meu quarto, vi Mina. Acenei-lhe com a mão e fiz um gesto afirmativo com a cabeça para dizer que o nosso trabalho ali fora cumprido com sucesso. Ela acenou em resposta para mostrar que tinha compreendido. A última coisa que vi foi ela a acenar com a mão em despedida. Foi com o coração pesado que procurámos a estação e apanhámos o comboio, que entrava a vapor assim que chegámos à plataforma.
Escrevi isto no comboio.
Piccadilly, 12,30 horas.--Pouco antes de chegarmos a Fenchurch Street, o Lord Godalming disse-me:
“Quincey e eu encontraremos um serralheiro. É melhor não vires connosco, caso surja alguma dificuldade; pois, dadas as circunstâncias, não pareceria tão mal para nós arrombarmos uma casa vazia. Mas tu és um solicitador, e a Incorporated Law Society poderia dizer-te que deverias saber melhor.” Eu opus-me ao facto de não partilhar qualquer perigo, mesmo que de ódio, mas ele continuou: “Além disso, atrairá menos atenção se não formos demasiados. O meu título resolverá tudo com o serralheiro, e com qualquer polícia que possa aparecer. É melhor ires com o Jack e o Professor e ficardes no Green Park, algures à vista da casa; e, quando virdes a porta abrir-se e o serralheiro tiver ido embora, vinde todos. Estaremos à vossa espera e deixar-vos-emos entrar.”
“O conselho é bom!” disse Van Helsing, por isso não dissemos mais nada. Godalming e Morris apressaram-se num táxi, e nós seguimo-los noutro. Na esquina de Arlington Street, o nosso contingente saiu e passeou até ao Green Park. O meu coração bateu forte ao ver a casa, na qual tanta da nossa esperança estava centrada, surgindo sombria e silenciosa no seu estado de abandono entre os seus vizinhos mais animados e elegantes. Sentámo-nos num banco com boa visibilidade e começámos a fumar charutos para atrair o mínimo de atenção possível. Os minutos pareciam passar com pés de chumbo enquanto esperávamos a chegada dos outros.
Afinal, vimos chegar um carro de quatro rodas. Dele saíram, de forma descontraída, o Lord Godalming e Morris; e da poleiro desceu um trabalhador robusto com o seu cesto de ferramentas entrançado de junco. Morris pagou ao cocheiro, que tocou no chapéu e partiu. Juntos, os dois subiram os degraus, e o Lord Godalming indicou o que queria que fosse feito. O operário tirou o casaco calmamente e pendurou-o num dos espigões da grade, dizendo algo a um polícia que, nesse momento, passava por ali. O polícia assentiu com a cabeça, e o homem, ajoelhando-se, colocou a sua mala ao lado dele. Depois de revistá-la, retirou uma seleção de ferramentas que começou a dispor ao seu lado de forma ordenada. Depois levantou-se, olhou pelo buraco da fechadura, soprou para dentro dele e, virando-se para os seus empregadores, fez um comentário. O Lord Godalming sorriu, e o homem levantou um molho de chaves de bom tamanho; escolhendo uma delas, começou a sondar a fechadura, como se estivesse a apalpar o caminho com ela. Depois de andar a mexer um pouco, tentou uma segunda, e depois uma terceira. De repente, a porta abriu-se sob um ligeiro empurrão dele, e ele e os outros dois entraram no hall. Ficámos imóveis; o meu próprio charuto ardia furiosamente, mas o de Van Helsing apagou-se completamente. Esperámos pacientemente enquanto víamos o operário sair e levar a sua mala. Depois, ele manteve a porta entreaberta, segurando-a com os joelhos, enquanto encaixava uma chave na fechadura. Entregou-a finalmente ao Lord Godalming, que tirou a carteira e lhe deu qualquer coisa. O homem tocou no chapéu, pegou na mala, vestiu o casaco e partiu; nem uma alma prestou a mínima atenção a toda a transação.
Quando o homem se foi embora, nós três atravessámos a rua e batemos à porta. Foi imediatamente aberta por Quincey Morris, ao lado do qual estava o Lord Godalming a acender um charuto.
“O lugar cheira tão vilmente,” disse este último à medida que entrávamos. De facto, cheirava vilmente--como a velha capela de Carfax--e, com a nossa experiência anterior, era evidente para nós que o Conde tinha estado a usar o lugar bastante livremente. Movêmo-nos para explorar a casa, mantendo-nos todos juntos em caso de ataque; pois sabíamos que tínhamos de lidar com um inimigo forte e astuto, e ainda não sabíamos se o Conde poderia estar na casa. Na sala de jantar, que ficava nas traseiras do hall, encontrámos oito caixas de terra. Oito caixas apenas das nove que procurávamos! O nosso trabalho não tinha terminado, e nunca terminaria até encontrarmos a caixa em falta. Primeiro abrimos as portadas da janela que dava para um pátio estreito pavimentado de pedra, de frente para a face vazia de um estábulo, apontado para parecer a frente de uma casa em miniatura. Não havia janelas nele, por isso não tínhamos medo de sermos observados. Não perdemos tempo a examinar os baús. Com as ferramentas que tínhamos trazido connosco, abrimo-los, um a um, e tratámo-los como tínhamos tratado aqueles outros na capela. Era evidente para nós que o Conde não estava, de momento, na casa, e prosseguimos a busca por qualquer um dos seus efeitos.
Após um olhar superficial pelo resto das divisões, da cave ao sótão, chegámos à conclusão de que a sala de jantar continha quaisquer efeitos que pudessem pertencer ao Conde; e, por isso, procedemos ao seu exame minucioso. Estavam dispostos numa espécie de desordem ordenada sobre a grande mesa de jantar. Havia escrituras de propriedade da casa de Piccadilly num grande maço; escrituras de compra das casas em Mile End e Bermondsey; papel de carta, envelopes, e canetas e tinta. Tudo estava coberto com papel de embrulho fino para os proteger do pó. Havia também uma escova de roupa, uma escova e um pente, e um jarro e bacia--este último contendo água suja que estava avermelhada, como se fosse de sangue. Por último, havia um pequeno monte de chaves de todos os tipos e tamanhos, provavelmente as que pertenciam às outras casas. Quando examinámos este último achado, o Lord Godalming e Quincey Morris, tomando notas precisas dos vários endereços das casas no Leste e no Sul, levaram consigo as chaves num grande molho, e partiram para destruir as caixas nesses locais. O resto de nós está, com a paciência que podemos, a aguardar o seu regresso--ou a chegada do Conde.
CAPÍTULO XXIII.
/Diário do Dr. Seward./
3 de outubro.--O tempo parecia terrivelmente longo enquanto esperávamos a chegada de Godalming e Quincey Morris. O Professor tentou manter as nossas mentes ativas usando-as o tempo todo. Podia ver o seu propósito benéfico, pelos olhares laterais que lançava de tempos a tempos a Harker. O pobre rapaz está dominado por uma miséria que é assustadora de ver. Na noite passada, era um homem franco e de aspeto feliz, com um rosto jovem e forte, cheio de energia, e com cabelo castanho escuro. Hoje, é um velho abatido e de aspeto cadavérico, cujo cabelo branco combina bem com os olhos fundos e ardentes e as linhas de dor gravadas no rosto. A sua energia ainda está intacta; na verdade, ele é como uma chama viva. Isto pode ser ainda a sua salvação, pois, se tudo correr bem, levá-lo-á através do período de desespero; ele então, de certa forma, acordará novamente para as realidades da vida. Pobre rapaz, eu pensava que o meu próprio problema já era suficientemente mau, mas o dele....! O Professor sabe isto muito bem, e está a fazer o seu melhor para manter a sua mente ativa. O que ele tem estado a dizer era, dadas as circunstâncias, de um interesse absorvente. Tanto quanto me lembro, aqui está:--
“Estudei, repetidas vezes, desde que chegaram às minhas mãos, todos os papéis relacionados com este monstro; e quanto mais estudei, maior parece a necessidade de o erradicar completamente. Por toda a parte há sinais do seu avanço; não apenas do seu poder, mas do seu conhecimento dele. Como aprendi com as pesquisas do meu amigo Arminius de Buda-Pesth, ele foi em vida um homem muito maravilhoso. Soldado, estadista e alquimista--sendo este último o mais alto desenvolvimento da ciência-conhecimento do seu tempo. Ele tinha um cérebro poderoso, uma erudição incomparável, e um coração que não conhecia medo nem remorso. Ele ousou até frequentar a Scholomance, e não havia ramo de conhecimento do seu tempo que ele não tivesse tentado. Bem, nele, os poderes cerebrais sobreviveram à morte física; embora pareça que a memória não estivesse completa. Em algumas faculdades da mente, ele tem sido, e é, apenas uma criança; mas ele está a crescer, e algumas coisas que eram infantis no início agora são de estatura de homem. Ele está a fazer experiências, e a fazê-las bem; e se não fosse pelo facto de termos cruzado o seu caminho, ele seria ainda--ele pode ser ainda, se falharmos--o pai ou impulsionador de uma nova ordem de seres, cujo caminho deve levar através da Morte, não da Vida.”
Harker gemeu e disse: “E tudo isto está armado contra a minha querida! Mas como é que ele está a fazer experiências? O conhecimento pode ajudar-nos a derrotá-lo!”
“Ele tem, desde a sua chegada, estado a testar o seu poder, lenta mas seguramente; aquele grande cérebro de criança dele está a trabalhar. Bem para nós é que, até agora, é um cérebro de criança; pois, se ele tivesse ousado, no início, tentar certas coisas, ele já teria estado há muito tempo fora do nosso alcance. No entanto, ele pretende ter sucesso, e um homem que tem séculos à sua frente pode dar-se ao luxo de esperar e ir devagar. Festina lente pode muito bem ser o seu lema.”
“Não consigo compreender,” disse Harker cansadamente. “Oh, seja mais claro comigo! Talvez a dor e o problema estejam a embotar o meu cérebro.” O Professor colocou a mão ternamente no seu ombro enquanto falava:--
“Ah, meu filho, serei claro. Não vês como, ultimamente, este monstro tem entrado no conhecimento experimentalmente? Como ele tem feito uso do paciente zoófago para efetuar a sua entrada na casa do amigo John; pois o teu Vampiro, embora depois possa vir quando e como quiser, tem primeiro de fazer a entrada apenas quando solicitado por um habitante. Mas estas não são as suas experiências mais importantes. Não vemos como no início todas estas caixas tão grandes foram movidas por outros? Ele não sabia então, a não ser que tivesse de ser assim. Mas todo o tempo aquele grande cérebro de criança dele estava a crescer, e ele começou a considerar se não poderia ele próprio mover a caixa. Então ele começa a ajudar; e depois, quando descobriu que isto corria bem, tenta movê-las todas sozinho. E assim ele progride, e ele espalha estes túmulos dele; e ninguém senão ele sabe onde estão escondidos. Ele pode ter tido a intenção de os enterrar profundamente no chão. Para que ele apenas os use à noite, ou em tal momento em que possa mudar a sua forma, eles servem-lhe igualmente bem; e ninguém pode saber que estes são o seu esconderijo! Mas, meu filho, não desesperes; este conhecimento chega-lhe tarde demais! Já todas as suas tocas, exceto uma, estão esterilizadas para ele; e antes do pôr do sol assim será. Então ele não terá lugar onde se possa mover e esconder. Arasei esta manhã para que pudéssemos ter a certeza. Não há mais em jogo para nós do que para ele? Então, por que não seremos ainda mais cuidadosos do que ele? Pelo meu relógio é uma hora, e já, se tudo estiver bem, o amigo Arthur e Quincey estão a caminho de nós. Hoje é o nosso dia, e devemos ir seguros, ainda que devagar, e não perder nenhuma oportunidade. Vê! somos cinco quando aqueles ausentes regressarem.”
Enquanto ele falava, fomos surpreendidos por uma batida na porta do hall, a batida dupla do carteiro do rapaz do telégrafo. Todos nos dirigimos ao hall com um impulso, e Van Helsing, levantando a mão para que fizéssemos silêncio, dirigiu-se à porta e abriu-a. O rapaz entregou um despacho. O Professor fechou a porta novamente e, depois de olhar para a direção, abriu-a e leu-a em voz alta:--
“Cuidado com D. Ele acabou de vir, às 12.45, de Carfax apressadamente e dirigiu-se para o sul. Parece estar a fazer a ronda e pode querer ver-vos: Mina.”
Houve uma pausa, quebrada pela voz de Jonathan Harker:--
“Agora, graças a Deus, encontrar-nos-emos em breve!” Van Helsing voltou-se rapidamente para ele e disse:--
“Deus agirá à Sua própria maneira e tempo. Não temas, e não te alegres ainda; pois aquilo que desejamos no momento pode ser a nossa ruína.”
“Já não me importo com nada,” respondeu ele calorosamente, “exceto erradicar este bruto da face da criação. Eu venderia a minha alma para o fazer!”
“Oh, silêncio, silêncio, meu filho!” disse Van Helsing, “Deus não compra almas desta forma; e o Diabo, embora possa comprar, não mantém a palavra. Mas Deus é misericordioso e justo, e conhece a tua dor e a tua devoção a essa querida Senhora Mina. Pensa tu como a dor dela seria duplicada se ela ouvisse as tuas palavras desenfreadas. Não temas nenhum de nós; somos todos dedicados a esta causa, e hoje veremos o fim. O tempo está a chegar para a ação; hoje este Vampiro está limitado aos poderes do homem, e até ao pôr do sol ele não pode mudar. Levar-lhe-á tempo a chegar aqui--vê, são vinte minutos depois da uma--e ainda falta algum tempo para que ele possa vir, por mais rápido que seja. O que devemos esperar é que o meu Lord Arthur e Quincey cheguem primeiro.”
Cerca de meia hora depois de termos recebido o telegrama da Sra. Harker, houve uma batida calma e resoluta na porta do hall. Era apenas uma batida comum, tal como é dada de hora a hora por milhares de cavalheiros, mas fez o coração do Professor e o meu baterem fortemente. Olhámo-nos um ao outro e movêmo-nos juntos para o hall; cada um de nós segurava pronto a usar os nossos vários armamentos--o espiritual na mão esquerda, o moral na direita. Van Helsing puxou o trinco e, mantendo a porta entreaberta, recuou, tendo ambas as mãos prontas para a ação. A alegria dos nossos corações deve ter transparecido nos nossos rostos quando, no degrau, perto da porta, vimos o Lord Godalming e Quincey Morris. Eles entraram rapidamente e fecharam a porta atrás deles, dizendo o primeiro, enquanto caminhavam pelo hall:--
“Está tudo bem. Encontrámos ambos os locais; seis caixas em cada, e destruímo-las todas!”
“Destruídas?” perguntou o Professor.
“Para ele!” Ficámos em silêncio por um minuto, e então Quincey disse:--
“Não há nada a fazer senão esperar aqui. Se, contudo, ele não aparecer até às cinco horas, devemos partir; pois não será bom deixar a Sra. Harker sozinha depois do pôr do sol.”
“Ouço o som de água a chapinhar contra um casco de madeira. Ouço o chiar de cordas a serem esticadas. Ouço o barulho de ondas e o vento a soprar através de um cordame. É um som muito triste, mas é um som que conheço.”
“Onde está você?” perguntou o Professor, com a voz cada vez mais tensa.
“Eu não sei. Não consigo ver nada. O lugar está escuro. O ar é pesado, cheira a terra – terra velha e húmida, enterrada há muito tempo. Há uma oscilação constante, como se eu estivesse a ser balançada.”
O Professor olhou para o relógio. “Está quase na hora,” sussurrou ele para nós. “O sol vai nascer em poucos minutos. Se ela não vir nada agora, pode ser tarde demais para hoje.” Então, dirigindo-se a ela, disse com uma autoridade que me fez estremecer: “Diga-me o que vê! Concentre-se! O que vê através dos olhos dele?”
Mina estremeceu. O seu rosto, até então inexpressivo, começou a contrair-se. “Vejo... vejo um espaço confinado. Há madeira à minha volta. Estou a ouvir o mar, mas está longe agora. O balanço é mais lento. Oh! A luz está a mudar. Há uma nesga de luz à minha frente. Está a abrir-se! Vejo o céu azul, mas está nublado. Não, não é o céu... é o convés de um navio. Vejo velas brancas e o sol a brilhar por trás delas. Estamos a mover-nos! Estamos a mover-nos rapidamente!”
“Onde?” gritou o Professor.
“Não sei... não vejo terra. Apenas água. Água por todo o lado. E... oh, ele está aqui! Ele está ao pé de mim! Ele está a olhar para fora... ele está a sorrir!”
Um silêncio aterrador caiu sobre o quarto. O Professor, com as mãos trémulas, começou a fazer passes inversos diante da Mina. “Acorde! Acorde agora!” ordenou ele.
Mina soltou um suspiro profundo e o seu corpo, que estivera rígido como uma estátua, relaxou sobre as almofadas. Ela abriu os olhos lentamente, parecendo confusa e exausta. Olhou para nós um a um, com um olhar que misturava terror e alívio.
“Eu vi-o,” disse ela, com a voz fraca. “Ele está num navio. Ele está a fugir para o mar.”
Olhámos uns para os outros, o desespero estampado nos nossos rostos. O mar era vasto, e o Conde era um inimigo que não conhecia fronteiras. Mas o Professor, recuperando a sua compostura, levantou-se e disse com uma determinação inabalável: “Ele fugiu, sim. Mas ele não escapará. Ele vai para onde a sua força reside, e nós iremos segui-lo, nem que seja até aos confins da terra. Harker, meu rapaz, prepare-se. A nossa caçada apenas mudou de cenário.”
“O marulhar da água. Está a gorgolejar ao passar, e pequenas ondas saltam. Consigo ouvi-las do lado de fora.”
“Então está num navio?” Olhámos todos uns para os outros, tentando colher algo cada um do outro. Tínhamos medo de pensar. A resposta veio rápida:--
“Oh, sim!”
“O que ouve mais?”
“O som de homens a bater com os pés no convés enquanto correm de um lado para o outro. Há o ranger de uma corrente, e o tinir alto quando o travão do cabrestante cai na cremalheira.”
“O que está a fazer?”
“Estou imóvel--oh, tão imóvel. É como a morte!” A voz desvaneceu-se num suspiro profundo como o de alguém a dormir, e os olhos abertos fecharam-se novamente.
A esta altura, o sol já tinha nascido e estávamos todos à luz plena do dia. O Dr. Van Helsing colocou as mãos sobre os ombros de Mina e pousou-lhe a cabeça suavemente na almofada. Ela permaneceu como uma criança a dormir durante alguns momentos e, depois, com um longo suspiro, acordou e olhou com espanto ao ver-nos a todos à sua volta. “Estive a falar a dormir?” foi tudo o que disse. Parecia, contudo, conhecer a situação sem que lhe fosse contada; embora estivesse ansiosa por saber o que tinha dito. O Professor repetiu a conversa, e ela disse:--
“Então não há um momento a perder: talvez ainda não seja demasiado tarde!” O Sr. Morris e Lord Godalming dirigiram-se para a porta, mas a voz calma do Professor chamou-os de volta:
“Fiquem, meus amigos. Esse navio, onde quer que estivesse, estava a levantar âncora enquanto ela falava. Há muitos navios a levantar âncora neste momento no vosso tão grande Porto de Londres. Qual deles é o que procuram? Graças a Deus que temos mais uma vez uma pista, embora não saibamos para onde nos levará. Temos estado um pouco cegos; cegos à maneira dos homens, pois quando podemos olhar para trás vemos o que poderíamos ter visto ao olhar para a frente se tivéssemos sido capazes de ver o que poderíamos ter visto! Ai! mas essa frase é uma poça; não é? Podemos saber agora o que ia na mente do Conde quando ele se apoderou desse dinheiro, embora a faca tão feroz de Jonathan o tenha colocado no perigo que até ele teme. Ele pretendia escapar. Ouçam-me, ESCAPAR! Ele viu que, com apenas uma caixa de terra restante, e um grupo de homens a segui-lo como cães atrás de uma raposa, esta Londres não era lugar para ele. Ele levou a sua última caixa de terra a bordo de um navio, e deixa a terra. Ele pensa em escapar, mas não! nós segui-lo-emos. Tally Ho! como o amigo Arthur diria quando vestisse o seu casaco vermelho! A nossa velha raposa é matreira; oh! tão matreira, e nós devemos segui-la com astúcia. Eu também sou matreiro e penso como ele num momento. Entretanto podemos descansar e estar em paz, pois há águas entre nós que ele não quer atravessar, e que não poderia se quisesse--a menos que o navio tocasse a terra, e apenas na maré cheia ou vaza. Vejam, o sol acabou de nascer, e todo o dia até ao pôr do sol é nosso. Vamos tomar banho, vestir-nos e tomar o pequeno-almoço que todos precisamos, e que podemos comer confortavelmente uma vez que ele não está na mesma terra que nós.” Mina olhou para ele suplicante enquanto perguntava:--
“Mas porque precisamos de o procurar mais, quando ele se foi embora?” Ele pegou na mão dela e deu-lhe palmadinhas enquanto respondia:--
“Não me pergunte nada ainda. Quando tomarmos o pequeno-almoço, então responderei a todas as perguntas.” Ele não disse mais nada, e separámo-nos para nos vestirmos.
Depois do pequeno-almoço, Mina repetiu a sua pergunta. Ele olhou para ela gravemente durante um minuto e depois disse pesarosamente:--
“Porque, minha querida, querida Madame Mina, agora mais do que nunca temos de o encontrar mesmo que tenhamos de o seguir até às fauces do Inferno!” Ela ficou mais pálida enquanto perguntava fracamente:--
“Porquê?”
“Porque,” respondeu ele solenemente, “ele pode viver durante séculos, e você é apenas uma mulher mortal. O tempo é agora algo a temer--desde que ele colocou essa marca na sua garganta.”
Cheguei a tempo de a segurar quando ela caiu para a frente, desmaiada.
CAPÍTULO XXIV.
/Diário Fonográfico do Dr. Seward, ditado por Van Helsing./
Isto para Jonathan Harker.
Deve ficar com a sua querida Madame Mina. Nós iremos fazer a nossa busca--se é que posso chamar-lhe assim, pois não é busca, é saber, e procuramos apenas confirmação. Mas fique e tome conta dela hoje. Este é o seu melhor e mais sagrado dever. Neste dia, nada o pode encontrar aqui. Deixe-me dizer-lhe para que saiba o que nós quatro já sabemos, pois eu já lhes disse. Ele, o nosso inimigo, partiu; ele voltou para o seu Castelo na Transilvânia. Sei-o tão bem, como se uma grande mão de fogo o tivesse escrito na parede. Ele preparou-se para isto de alguma forma, e aquela última caixa de terra estava pronta para ser enviada para algum lugar. Para isto ele tomou o dinheiro; para isto ele apressou-se no fim, para que não o apanhássemos antes que o sol se pusesse. Era a sua última esperança, a não ser que pudesse esconder-se no túmulo que ele pensa que a pobre Miss Lucy, sendo como ele pensava, como ele, mantém aberto para ele. Mas não havia tempo. Quando isso falhou, ele foi direto para o seu último recurso--o seu último trabalho de terra, poderia eu dizer, se desejasse um duplo sentido. Ele é esperto, oh, tão esperto! ele sabe que o seu jogo aqui tinha acabado; e por isso decide voltar para casa. Ele encontra um navio que vai pela rota por onde veio, e segue nele. Nós partimos agora para descobrir que navio, e para onde se dirige; quando tivermos descoberto isso, voltamos e contamos-lhe tudo. Depois, confortaremos a si e à pobre querida Madame Mina com nova esperança. Pois será esperança quando pensar nisso: que nem tudo está perdido. Esta mesma criatura que perseguimos, ele leva centenas de anos para chegar tão longe como Londres; e contudo, num dia, quando sabemos da disposição dele, expulsamo-lo. Ele é finito, embora seja poderoso para fazer muito mal e não sofra como nós. Mas nós somos fortes, cada um no seu propósito; e somos todos mais fortes juntos. Anime-se, querido marido da Madame Mina. Esta batalha apenas começou, e no fim venceremos--tão certo como Deus está sentado no alto a vigiar os Seus filhos. Portanto, esteja muito reconfortado até que regressemos.
/Van Helsing./
Diário de Jonathan Harker.
4 de Outubro.--Quando li para Mina a mensagem de Van Helsing no fonógrafo, a pobre rapariga animou-se consideravelmente. Já a certeza de que o Conde está fora do país deu-lhe conforto; e o conforto é força para ela. Pela minha parte, agora que este perigo horrível não está frente a frente connosco, parece quase impossível acreditar nele. Até as minhas terríveis experiências no Castelo Dracula parecem um sonho esquecido há muito tempo. Aqui, no ar fresco do outono, na luz brilhante do sol--
Ai! como posso não acreditar! No meio do meu pensamento, o meu olhar caiu sobre a cicatriz vermelha na testa branca da minha pobre querida. Enquanto isso durar, não pode haver descrença. E depois, a própria memória disso manterá a fé cristalina. Mina e eu receamos estar ociosos, por isso temos revisto todos os diários vezes sem conta. De alguma forma, embora a realidade pareça maior de cada vez, a dor e o medo parecem menores. Há algo de um propósito orientador que se manifesta, o que é reconfortante. Mina diz que talvez sejamos os instrumentos de um bem supremo. Pode ser! Tentarei pensar como ela. Nunca falámos um com o outro sobre o futuro. É melhor esperar até vermos o Professor e os outros após as suas investigações.
O dia está a passar mais depressa do que alguma vez pensei que um dia pudesse passar para mim novamente. São agora três horas.
Diário de Mina Harker
5 de Outubro, 17h.--A nossa reunião para relatório. Presentes: Professor Van Helsing, Lord Godalming, Dr. Seward, Sr. Quincey Morris, Jonathan Harker, Mina Harker.
O Dr. Van Helsing descreveu que passos foram dados durante o dia para descobrir em que barco e para onde se dirigia o Conde Dracula na sua fuga:--
“Como eu sabia que ele queria voltar para a Transilvânia, senti-me seguro de que ele teria de ir pela foz do Danúbio; ou por algum lugar no Mar Negro, uma vez que por esse caminho ele veio. Era um vazio lúgubre que estava diante de nós. *Omne ignotum pro magnifico*; e por isso, com corações pesados, começámos a encontrar que navios partiram para o Mar Negro na noite passada. Ele estava num navio à vela, uma vez que a Madame Mina falou de velas estarem içadas. Estes não são tão importantes para constarem na vossa lista de navegação no Times, e por isso vamos, por sugestão do meu Lord Godalming, ao vosso Lloyd’s, onde há nota de todos os navios que navegam, por mais pequenos que sejam. Lá descobrimos que apenas um navio com destino ao Mar Negro saiu com a maré. É o Czarina Catherine, e partiu do Cais de Doolittle para Varna, e de lá para outras partes e subindo o Danúbio. ‘Soh!’ disse eu, ‘este é o navio onde está o Conde.’ Por isso partimos para o Cais de Doolittle, e lá encontramos um homem num escritório de madeira tão pequeno que o homem parecia maior do que o escritório. Dele perguntámos sobre as partidas do Czarina Catherine. Ele pragueja muito, e tem a cara vermelha e a voz alta, mas é um bom homem, apesar de tudo; e quando Quincey lhe dá algo do bolso que estala quando ele o enrola, e o coloca num saco tão pequeno que ele tinha escondido no fundo das suas roupas, ele torna-se um homem ainda melhor e humilde servo para nós. Ele vem connosco, e pergunta a muitos homens que são rudes e acalorados; estes são melhores homens também quando já não têm sede. Dizem muito sobre sangue e flores e outras coisas que não compreendo, embora adivinhe o que querem dizer; mas, não obstante, dizem-nos todas as coisas que queremos saber.
“Fizeram-nos saber, entre eles, como na tarde passada, por volta das cinco horas, chega um homem com tanta pressa. Um homem alto, magro e pálido, com nariz proeminente e dentes tão brancos, e olhos que parecem estar a arder. Que ele estava todo de preto, exceto por ter um chapéu de palha que não lhe assentava bem nem à época. Que ele espalha o seu dinheiro ao fazer perguntas rápidas sobre que navio parte para o Mar Negro e para onde. Alguns levaram-no ao escritório e depois ao navio, onde ele não quer subir a bordo mas para na extremidade da prancha de acesso, e pede que o capitão venha até ele. O capitão vem, quando lhe dizem que será bem pago; e embora pragueje muito no início, concorda com os termos. Depois, o homem magro vai-se embora e alguém lhe diz onde se podem alugar carroça e cavalo. Ele vai lá, e logo volta, ele próprio a conduzir a carroça na qual está uma grande caixa; esta ele próprio descarrega, embora fossem precisos vários para a colocar no carrinho para o navio. Ele dá muita conversa ao capitão sobre como e onde a sua caixa deve ser colocada; mas o capitão não gosta disso e pragueja contra ele em muitas línguas, e diz-lhe que se ele quiser pode vir ver onde será. Mas ele diz ‘não;’ que não vem ainda, pois tem muito que fazer. Ao que o capitão lhe diz que é melhor que se apresse--com sangue--pois o seu navio deixará o lugar--de sangue--antes da viragem da maré--com sangue. Depois, o homem magro sorri, e diz que é claro que ele deve ir quando achar conveniente; mas ficará surpreendido se ele for tão cedo. O capitão pragueja de novo, poliglota, e o homem magro faz-lhe uma vénia, e agradece-lhe, e diz que abusará tanto da sua bondade que virá a bordo antes da partida. Finalmente o capitão, mais vermelho do que nunca, e em mais línguas, diz-lhe que não quer franceses--com flores neles e também com sangue--no seu navio--com sangue nele também. E assim, depois de perguntar onde poderia haver perto um navio onde pudesse comprar impressos de navios, ele partiu.
“Ninguém sabia para onde ele foi ‘ou que se lixe,’ como diziam, pois tinham outra coisa em que pensar--bem, com sangue novamente; pois logo tornou-se aparente para todos que o Czarina Catherine não partiria como era esperado. Um nevoeiro fino começou a subir do rio, e cresceu, e cresceu; até que logo um nevoeiro denso envolveu o navio e tudo à sua volta. O capitão praguejou poliglota--muito poliglota--poliglota com flores e sangue; mas nada podia fazer. A água subiu e subiu; e ele começou a temer que perdesse a maré por completo. Ele não estava com disposição amigável, quando, exatamente na maré cheia, o homem magro subiu a prancha de novo e pediu para ver onde a sua caixa tinha sido arrumada. Então o capitão respondeu que desejava que ele e a sua caixa--velha e com muitas flores e sangue--estivessem no inferno. Mas o homem magro não se ofendeu, e desceu com o imediato e viu onde estava colocada, e subiu e ficou um pouco no convés no nevoeiro. Ele deve ter vindo sozinho, pois ninguém o notou. De facto, não pensaram nele; pois logo o nevoeiro começou a dissipar-se, e tudo estava claro novamente. Os meus amigos da sede e da língua que era de flores e sangue riram, enquanto contavam como os palavrões do capitão excediam até o seu habitual poliglota, e estavam mais do que nunca cheios de pitoresco, quando ao questionar outros marinheiros que estavam em movimento pelo rio naquela hora, descobriu que poucos deles tinham visto qualquer nevoeiro, exceto onde estava à volta do cais. Contudo, o navio saiu na maré vazante; e estava sem dúvida pela manhã longe na foz do rio. Estava então, quando nos contaram, bem longe no mar.
“E assim, minha querida Madame Mina, é que temos de descansar por um tempo, pois o nosso inimigo está no mar, com o nevoeiro ao seu comando, a caminho da foz do Danúbio. Navegar um navio leva tempo, por mais rápido que vá; e quando partimos, vamos por terra mais depressa, e encontramo-lo lá. A nossa melhor esperança é chegar a ele quando estiver na caixa entre o nascer e o pôr do sol; pois então ele não pode oferecer resistência, e podemos lidar com ele como devemos. Há dias para nós em que podemos preparar o nosso plano. Sabemos tudo sobre para onde ele vai; pois vimos o proprietário do navio, que nos mostrou faturas e todos os papéis que podem existir. A caixa que procuramos deve ser desembarcada em Varna, e entregue a um agente, um Ristics que lá apresentará as suas credenciais; e assim o nosso amigo mercador terá feito a sua parte. Quando ele pergunta se há algo de errado, pois assim, ele pode telegrafar e pedir informações em Varna, dizemos ‘não;’ pois o que tem de ser feito não é para a polícia ou para a alfândega. Tem de ser feito por nós sozinhos e à nossa própria maneira.”
Quando o Dr. Van Helsing terminou de falar, perguntei-lhe se era certo que o Conde tinha permanecido a bordo do navio. Ele respondeu: “Temos a melhor prova disso: o seu próprio testemunho, quando esteve em transe hipnótico esta manhã.” Perguntei-lhe novamente se era realmente necessário que eles perseguissem o Conde, pois oh! receio que Jonathan me deixe, e sei que ele certamente iria se os outros fossem. Ele respondeu com crescente paixão, no início calmamente. À medida que continuava, porém, tornou-se mais zangado e mais vigoroso, até que, no fim, não pudemos deixar de ver onde estava pelo menos algum daquele domínio pessoal que o tornou durante tanto tempo um mestre entre os homens:--
“Sim, é necessário--necessário--necessário! Pelo seu bem em primeiro lugar, e depois pelo bem da humanidade. Este monstro já fez muito mal, no âmbito estreito onde se encontrava, e no pouco tempo em que ainda era apenas um corpo a tatear a sua tão pequena medida na escuridão e sem saber. Tudo isto eu disse a estes outros; você, minha querida Madame Mina, aprenderá no fonógrafo do meu amigo John, ou no do seu marido. Eu disse-lhes como a medida de deixar a sua própria terra árida--árida de povos--e vir para uma nova terra onde a vida do homem pulula até serem como a multidão de milho a crescer, foi o trabalho de séculos. Se outro dos Mortos-Vivos, como ele, tentasse fazer o que ele fez, talvez nem todos os séculos do mundo que foram, ou que serão, o poderiam ajudar. Com este, todas as forças da natureza que são ocultas e profundas e fortes devem ter trabalhado juntas de alguma forma maravilhosa. O próprio lugar onde ele esteve vivo, Morto-Vivo por todos estes séculos, está cheio de estranheza do mundo geológico e químico. Há cavernas profundas e fissuras que não se sabe onde vão parar. Houve vulcões, algumas cujas aberturas ainda expelem águas de estranhas propriedades, e gases que matam ou vivificam. Sem dúvida, há algo de magnético ou elétrico em algumas destas combinações de forças ocultas que trabalham para a vida física de forma estranha; e nele próprio estavam desde o início algumas grandes qualidades. Num tempo difícil e bélico, ele foi célebre por ter mais nervo de ferro, cérebro mais subtil, coração mais bravo, do que qualquer homem. Nele, algum princípio vital encontrou de forma estranha o seu limite máximo; e à medida que o seu corpo se mantém forte e cresce e prospera, assim o seu cérebro cresce também. Tudo isto sem aquela ajuda diabólica que certamente lhe pertence; pois ela tem de ceder às forças que vêm de, e são simbólicas de, Deus. E agora é isto que ele é para nós. Ele infetou-a--oh, perdoe-me, minha querida, que eu tenha de dizer tal coisa; mas é para o seu bem que falo. Ele infetou-a de tal modo que, mesmo que ele não faça mais nada, você só tem de viver--viver da sua própria maneira antiga e doce; e assim, com o tempo, a morte, que é o destino comum do homem e com a sanção de Deus, torná-la-á como ele. Isto não deve ser! Nós jurámos juntos que não deve ser. Assim somos nós ministros do próprio desejo de Deus: que o mundo, e os homens pelos quais o Seu Filho morreu, não serão entregues a monstros, cuja própria existência O difamaria. Ele permitiu-nos redimir uma alma já, e partimos como os antigos cavaleiros da Cruz para redimir mais. Como eles, viajaremos em direção ao nascer do sol; e como eles, se cairmos, caímos por uma boa causa.” Ele fez uma pausa e eu disse:--
“Mas não aceitará o Conde a sua rejeição sabiamente? Uma vez que foi expulso de Inglaterra, não a evitará, como um tigre faz da aldeia da qual foi caçado?”
“Ah!”, disse ele, “a sua comparação do tigre é boa, para mim, e eu adotá-la-ei. O seu devorador de homens, como eles na Índia chamam o tigre que uma vez provou sangue humano, não se importa mais com outra presa, mas espreita incessantemente até o apanhar. Este que caçamos da nossa aldeia é um tigre, também, um devorador de homens, e ele nunca cessa de espreitar. Não, em si mesmo ele não é alguém que se retire e fique longe. Na sua vida, a sua vida viva, ele atravessa a fronteira da Turquia e ataca o seu inimigo no seu próprio terreno; ele é repelido, mas será que ele fica? Não! Ele vem de novo, e de novo, e de novo. Veja a sua persistência e resistência. Com o cérebro infantil que lhe era próprio, ele há muito concebeu a ideia de vir para uma grande cidade. O que faz ele? Ele descobre o lugar de todo o mundo mais promissor para ele. Então, ele deliberadamente prepara-se para a tarefa. Ele descobre na paciência exatamente qual é a sua força e quais são os seus poderes. Ele estuda novas línguas. Ele aprende uma nova vida social; novo ambiente de velhos modos, a política, a lei, as finanças, a ciência, o hábito de uma nova terra e de um novo povo que surgiu desde que ele existia. O vislumbre que ele teve aguça-lhe apenas o apetite e intensifica o seu desejo. Não, ajuda-o a crescer no seu cérebro; pois tudo lhe prova quão certo ele estava desde o início nas suas suposições. Ele fez isto sozinho; tudo sozinho! De um túmulo em ruínas numa terra esquecida. O que mais não poderá ele fazer quando o maior mundo do pensamento lhe estiver aberto? Ele que pode sorrir perante a morte, como a conhecemos; que pode prosperar no meio de doenças que matam povos inteiros. Oh! Se tal ser viesse de Deus, e não do Diabo, que força para o bem ele não poderia ser neste nosso velho mundo. Mas estamos comprometidos a libertar o mundo. O nosso trabalho deve ser em silêncio, e os nossos esforços todos em segredo; pois nesta era esclarecida, em que os homens não acreditam nem no que veem, a dúvida dos homens sábios seria a sua maior força. Seria ao mesmo tempo a sua bainha e a sua armadura, e as suas armas para nos destruir, a nós, os seus inimigos, que estamos dispostos a arriscar até as nossas próprias almas pela segurança de alguém que amamos — pelo bem da humanidade, e pela honra e glória de Deus.”
Após uma discussão geral, determinou-se que para esta noite nada fosse definitivamente decidido; que devíamos todos dormir sobre os factos e tentar encontrar as conclusões adequadas. Amanhã, ao pequeno-almoço, reunir-nos-emos novamente e, após tornarmos conhecidas as nossas conclusões uns aos outros, decidiremos sobre algum curso de ação definitivo.
* * * * *
Sinto uma paz e um descanso maravilhosos esta noite. É como se alguma presença assombrosa tivesse sido removida de mim. Talvez....
A minha suposição não estava terminada, não podia estar; pois vislumbrei no espelho a marca vermelha na minha testa; e soube que eu ainda estava impura.
Diário do Dr. Seward.
5 de outubro. — Levantámo-nos todos cedo, e penso que o sono fez muito por cada um de nós. Quando nos encontrámos ao pequeno-almoço, havia uma alegria mais geral do que qualquer um de nós esperava voltar a sentir.
É realmente maravilhoso quanta resiliência existe na natureza humana. Deixemos que qualquer causa obstrutiva, não importa qual, seja removida de qualquer forma — até pela morte — e voltamos aos princípios fundamentais da esperança e do prazer. Mais do que uma vez, enquanto estávamos sentados à volta da mesa, os meus olhos abriram-se com espanto, questionando se o conjunto dos dias passados não teria sido um sonho. Foi apenas quando vislumbrei a mancha vermelha na testa da Sra. Harker que fui trazido de volta à realidade. Mesmo agora, quando estou gravemente a ponderar o assunto, é quase impossível acreditar que a causa de todos os nossos problemas ainda existe. Até a Sra. Harker parece perder de vista o seu problema por momentos inteiros; é apenas de vez em quando, quando algo lho recorda, que ela pensa na sua terrível cicatriz. Reunir-nos-emos aqui no meu escritório dentro de meia hora para decidir o nosso curso de ação. Vejo apenas uma dificuldade imediata, sei-o por instinto mais do que pela razão: teremos todos de falar francamente; e, contudo, temo que, de alguma forma misteriosa, a língua da pobre Sra. Harker esteja atada. Sei que ela tira as suas próprias conclusões e, de tudo o que aconteceu, posso adivinhar quão brilhantes e verdadeiras devem ser; mas ela não quer, ou não pode, expressá-las. Mencionei isto a Van Helsing, e ele e eu falaremos sobre o assunto quando estivermos a sós. Suponho que seja um pouco daquele veneno horrível que entrou nas suas veias a começar a atuar. O Conde tinha os seus próprios propósitos quando lhe deu o que Van Helsing chamou de “o batismo de sangue do Vampiro”. Bem, pode haver um veneno que se destila das coisas boas; numa época em que a existência de ptomaínas é um mistério, não deveríamos admirar-nos com nada! Uma coisa sei: que, se o meu instinto estiver correto em relação aos silêncios da pobre Sra. Harker, então há uma dificuldade terrível — um perigo desconhecido — no trabalho que temos pela frente. O mesmo poder que força o seu silêncio pode forçar o seu discurso. Não me atrevo a pensar mais; pois assim desonraria nos meus pensamentos uma mulher nobre!
Van Helsing virá ao meu escritório pouco antes dos outros. Tentarei abrir o assunto com ele.
Mais tarde. — Quando o Professor entrou, falámos sobre o estado das coisas. Pude ver que ele tinha algo em mente que queria dizer, mas sentia alguma hesitação em abordar o assunto. Depois de rodear um pouco o assunto, disse subitamente:--
“Amigo John, há algo de que você e eu devemos falar a sós, pelo menos de início. Mais tarde, poderemos ter de confiar nos outros;” então ele parou, por isso esperei; ele continuou:--
“A Sra. Mina, a nossa pobre e querida Sra. Mina, está a mudar.” Um frio percorreu-me ao ver os meus piores receios assim confirmados. Van Helsing continuou:--
“Com a triste experiência da Srta. Lucy, devemos desta vez ser avisados antes que as coisas vão longe demais. A nossa tarefa é agora, na realidade, mais difícil do que nunca, e este novo problema torna cada hora da maior importância. Posso ver as características do vampiro a aparecerem no seu rosto. Agora é muito, muito leve; mas pode ser visto se tivermos olhos para notar sem pré-julgamentos. Os seus dentes estão um pouco mais afiados e, por vezes, os seus olhos estão mais duros. Mas não é só isto, há agora silêncio nela frequentemente; como era o caso com a Srta. Lucy. Ela não falava, mesmo quando escrevia aquilo que desejava que fosse conhecido mais tarde. Agora o meu receio é este. Se for o caso de ela poder, através do nosso transe hipnótico, dizer o que o Conde vê e ouve, não será mais verdade que aquele que a hipnotizou primeiro, e que bebeu do seu próprio sangue e a fez beber do dele, deveria, se quisesse, obrigar a sua mente a revelar-lhe aquilo que ela sabe?” Acenei em concordância; ele continuou:--
“Então, o que temos de fazer é evitar isto; devemos mantê-la ignorante da nossa intenção, e assim ela não pode dizer o que não sabe. Esta é uma tarefa dolorosa! Oh! Tão dolorosa que me parte o coração pensar nela; mas tem de ser. Quando nos reunirmos hoje, devo dizer-lhe que, por uma razão da qual não queremos falar, ela já não deve fazer parte do nosso conselho, mas ser simplesmente guardada por nós.” Ele limpou a testa, que tinha irrompido em suor profuso com o pensamento da dor que poderia ter de infligir à pobre alma já tão torturada. Sabia que seria um certo conforto para ele se eu lhe dissesse que também tinha chegado à mesma conclusão; pois, de qualquer forma, retiraria a dor da dúvida. Disse-lho, e o efeito foi o que eu esperava.
Está agora perto da hora da nossa reunião geral. Van Helsing partiu para se preparar para o encontro, e para a sua parte dolorosa. Acredito realmente que o seu propósito é poder rezar sozinho.
Mais tarde. — Logo no início da nossa reunião, um grande alívio pessoal foi sentido tanto por Van Helsing como por mim. A Sra. Harker tinha enviado uma mensagem pelo seu marido a dizer que não se juntaria a nós por agora, pois achava melhor que ficássemos livres para discutir os nossos movimentos sem a sua presença para nos embaraçar. O Professor e eu olhámos um para o outro por um instante e, de alguma forma, ambos parecemos aliviados. Pela minha parte, pensei que, se a Sra. Harker percebesse o perigo ela própria, era tanto dor como perigo evitados. Dadas as circunstâncias, concordámos, com um olhar questionador e uma resposta com o dedo nos lábios, em preservar o silêncio sobre as nossas suspeitas, até que pudéssemos conferenciar a sós novamente. Seguimos imediatamente para o nosso Plano de Campanha. Van Helsing expôs-nos os factos primeiro:--
“O Czarina Catherine deixou o Tamisa ontem de manhã. Levará, à velocidade mais rápida que alguma vez fez, pelo menos três semanas a chegar a Varna; mas podemos viajar por terra para o mesmo lugar em três dias. Agora, se descontarmos dois dias à viagem do navio, devido a influências meteorológicas que sabemos que o Conde pode exercer; e se descontarmos um dia e uma noite inteiros para quaisquer atrasos que nos possam ocorrer, então temos uma margem de quase duas semanas. Assim, para estarmos completamente seguros, devemos partir daqui no dia 17, o mais tardar. Então, estaremos de qualquer forma em Varna um dia antes de o navio chegar, e capazes de fazer as preparações que forem necessárias. É claro que iremos todos armados — armados contra coisas malignas, espirituais bem como físicas.” Aqui, Quincey Morris acrescentou:--
“Entendo que o Conde vem de um país de lobos, e pode ser que ele chegue lá antes de nós. Proponho que adicionemos Winchesters ao nosso armamento. Tenho uma espécie de crença num Winchester quando há qualquer problema desse género por perto. Lembras-te, Art, quando tivemos a alcateia atrás de nós em Tobolsk? O que não teríamos dado então por uma repetidora cada um!”
“Bom!” disse Van Helsing. “Winchesters serão. A cabeça do Quincey está sempre no lugar, mas mais ainda quando há uma caçada, embora a minha metáfora seja mais uma desonra para a ciência do que os lobos um perigo para o homem. Entretanto, não podemos fazer nada aqui; e como penso que Varna não é familiar a nenhum de nós, porque não ir para lá mais cedo? É o mesmo tempo esperar aqui ou lá. Esta noite e amanhã podemos preparar-nos, e então, se tudo correr bem, nós quatro podemos partir na nossa jornada.”
“Nós quatro?” disse Harker interrogativamente, olhando de um para o outro.
“Claro!” respondeu o Professor rapidamente. “Você deve permanecer para cuidar da sua tão doce esposa!” Harker ficou em silêncio por um momento e depois disse com uma voz oca:--
“Falemos dessa parte de manhã. Quero consultar a Mina.” Pensei que era agora o momento de Van Helsing o avisar para não lhe revelar os nossos planos; mas ele não prestou atenção. Olhei para ele significativamente e tossi. Como resposta, ele pôs o dedo nos lábios e virou-se.
/Diário de Jonathan Harker./
5 de outubro, tarde. — Durante algum tempo após a nossa reunião desta manhã, não consegui pensar. As novas fases das coisas deixam a minha mente num estado de espanto que não deixa espaço para um pensamento ativo. A determinação da Mina de não tomar parte na discussão deixou-me a pensar; e como não podia discutir o assunto com ela, só podia adivinhar. Estou tão longe como sempre de uma solução agora. A forma como os outros receberam isso também me intrigou; da última vez que falámos do assunto, concordámos que não haveria mais ocultação de nada entre nós. Mina está a dormir agora, calma e docemente como uma criancinha. Os seus lábios estão curvados e o seu rosto irradia felicidade. Graças a Deus ainda existem momentos assim para ela.
Mais tarde. — Quão estranho é tudo isto. Sentei-me a observar o sono feliz da Mina e cheguei tão perto de ser feliz quanto suponho que alguma vez serei. À medida que a noite caía, e a terra recebia as suas sombras do sol que se punha mais baixo, o silêncio do quarto tornou-se cada vez mais solene para mim. De repente, Mina abriu os olhos e, olhando para mim ternamente, disse:--
“Jonathan, quero que me prometas algo pela tua palavra de honra. Uma promessa feita a mim, mas feita santamente em presença de Deus, e que não deve ser quebrada ainda que eu me ajoelhe e te implore com lágrimas amargas. Depressa, tens de a fazer agora mesmo.”
“Mina,” disse eu, “uma promessa como essa, não posso fazê-la de repente. Posso não ter o direito de a fazer.”
“Mas, querido,” disse ela, com tal intensidade espiritual que os seus olhos eram como estrelas polares, “sou eu que o desejo; e não é por mim. Podes perguntar ao Dr. Van Helsing se não tenho razão; se ele discordar, podes fazer como quiseres. Não, mais, se todos concordarem, mais tarde, estás absolvido da promessa.”
“Eu prometo!” disse eu, e por um momento ela pareceu supremamente feliz; embora para mim toda a felicidade para ela fosse negada pela cicatriz vermelha na sua testa. Ela disse:--
“Promete-me que não me dirás nada sobre os planos formados para a campanha contra o Conde. Nem por palavra, ou inferência, ou implicação; não em qualquer altura enquanto isto permanecer em mim!” e ela apontou solenemente para a cicatriz. Vi que ela falava a sério e disse solenemente:--
“Eu prometo!” e ao dizê-lo senti que a partir desse instante uma porta se tinha fechado entre nós.
Mais tarde, meia-noite. — Mina tem estado brilhante e alegre toda a noite. Tanto que todos os outros pareciam ganhar coragem, como se contagiados pela sua alegria; como resultado, até eu senti como se o manto de tristeza que nos oprime se tivesse erguido um pouco. Retirámo-nos todos cedo. Mina está agora a dormir como uma criancinha; é uma coisa maravilhosa que a sua faculdade de dormir permaneça no meio do seu terrível problema. Graças a Deus por isso, pois assim, pelo menos, ela pode esquecer o seu cuidado. Talvez o seu exemplo me possa afetar como a sua alegria fez esta noite. Vou tentar. Oh! Por um sono sem sonhos.
6 de outubro, manhã. — Outra surpresa. Mina acordou-me cedo, mais ou menos à mesma hora de ontem, e pediu-me para trazer o Dr. Van Helsing. Pensei que era outra ocasião para hipnotismo e, sem questionar, fui buscar o Professor. Ele tinha evidentemente esperado tal chamado, pois encontrei-o vestido no seu quarto. A sua porta estava entreaberta, para que pudesse ouvir a abertura da porta do nosso quarto. Ele veio imediatamente; ao passar para o quarto, perguntou à Mina se os outros também poderiam vir.
“Não,” disse ela simplesmente, “não será necessário. Podes dizer-lhes tão bem. Tenho de ir convosco na vossa jornada.”
O Dr. Van Helsing ficou tão surpreendido como eu. Após um momento de pausa, perguntou:--
“Mas porquê?”
“Devem levar-me convosco. Estou mais segura convosco, e vós estareis mais seguros também.”
“Mas porquê, querida Sra. Mina? Sabe que a sua segurança é o nosso dever mais solene. Entramos num perigo, ao qual a senhora está, ou pode estar, mais exposta do que qualquer um de nós devido a... devido a circunstâncias... coisas que aconteceram.” Ele parou, embaraçado.
Enquanto ela respondia, levantou o dedo e apontou para a testa:--
“Eu sei. É por isso que tenho de ir. Posso dizer-vos agora, enquanto o sol nasce; talvez não possa voltar a fazê-lo. Sei que quando o Conde me quiser, eu tenho de ir. Sei que, se ele me disser para ir em segredo, tenho de ir por astúcia; por qualquer dispositivo para enganar... até o Jonathan.” Deus viu o olhar que ela lançou sobre mim enquanto falava, e se existe de facto um Anjo do Registo, esse olhar está anotado para a sua eterna honra. Só pude apertar a sua mão. Não conseguia falar; a minha emoção era demasiado grande até para o alívio das lágrimas. Ela continuou:--
“Vós homens sois corajosos e fortes. Sois fortes no vosso número, pois podeis desafiar aquilo que quebraria a resistência humana de alguém que tivesse de guardar sozinho. Além disso, posso ser útil, uma vez que me podeis hipnotizar e assim aprender aquilo que nem eu própria sei.” O Dr. Van Helsing disse muito gravemente:--
“Sra. Mina, a senhora é, como sempre, muito sábia. Virá connosco; e juntos faremos aquilo que saímos para alcançar.” Quando ele falou, o longo silêncio da Mina fez-me olhar para ela. Ela tinha caído para trás na sua almofada a dormir; ela nem sequer acordou quando eu puxei a persiana e deixei entrar a luz do sol que inundava o quarto. Van Helsing fez-me sinal para ir com ele silenciosamente. Fomos para o seu quarto e, dentro de um minuto, o Lord Godalming, o Dr. Seward e o Sr. Morris estavam connosco também. Ele disse-lhes o que a Mina tinha dito e continuou:--
“De manhã partiremos para Varna. Temos agora de lidar com um novo fator: a Sra. Mina. Oh, mas a sua alma é verdadeira. É para ela uma agonia dizer-nos tanto como ela disse; mas é muito certo, e estamos avisados a tempo. Não se pode perder nenhuma oportunidade, e em Varna temos de estar prontos para agir no instante em que aquele navio chegar.”
“O que faremos exatamente?” perguntou o Sr. Morris laconicamente. O Professor parou antes de responder:--
“Subiremos primeiro a bordo desse navio; depois, quando tivermos identificado o caixote, colocaremos um ramo de rosa brava sobre ele. Fá-lo-emos, pois quando estiver lá nenhum pode emergir; assim diz a superstição. E à superstição devemos confiar de início; era a fé do homem nos primórdios, e ainda tem a sua raiz na fé. Então, quando obtivermos a oportunidade que procuramos, quando ninguém estiver perto para ver, abriremos o caixote, e... e tudo ficará bem.”
“Não esperarei por nenhuma oportunidade,” disse Morris. “Quando vir o caixote, abri-lo-ei e destruirei o monstro, mesmo que houvesse mil homens a olhar, e se for para ser eliminado por isso no momento seguinte!” Apertei a sua mão instintivamente e encontrei-a tão firme como uma peça de aço. Penso que ele entendeu o meu olhar; espero que sim.
“Bom rapaz,” disse o Dr. Van Helsing. “Bravo rapaz. Quincey é um homem em tudo, Deus o abençoe por isso. Minha filha, acredite que nenhum de nós ficará para trás ou hesitará por qualquer medo. Eu apenas digo o que podemos fazer... o que devemos fazer. Mas, na verdade, na verdade não podemos dizer o que faremos. Há tantas coisas que podem acontecer, e os seus caminhos e os seus fins são tão variados que, até ao momento, não podemos dizer. Estaremos todos armados, de todas as formas; e quando chegar a hora do fim, o nosso esforço não faltará. Agora, vamos hoje colocar todos os nossos assuntos em ordem. Que todas as coisas que tocam outros que nos são caros, e que dependem de nós, estejam completas; pois nenhum de nós pode dizer o que, ou quando, ou como será o fim. Quanto a mim, os meus próprios assuntos estão regularizados; e como não tenho mais nada a fazer, irei fazer preparativos para a viagem. Terei todos os bilhetes e tal para a nossa jornada.”
Não havia mais nada a ser dito, e nos separamos. Agora, cuidarei de todos os meus assuntos terrenos e estarei pronto para o que quer que venha...
Mais tarde. – Está tudo feito; meu testamento está pronto, e tudo completo. Mina, se sobreviver, é minha única herdeira. Se não for assim, então os outros que têm sido tão bons conosco terão o remanescente.
Está se aproximando o pôr do sol; a inquietação de Mina chama minha atenção para isso. Tenho certeza de que há algo em sua mente que o momento exato do pôr do sol revelará. Estas ocasiões estão se tornando momentos angustiantes para todos nós, pois cada nascer e pôr do sol abre caminho para um novo perigo – uma nova dor, que, no entanto, pode, pela vontade de Deus, ser um meio para um bom fim. Escrevo todas essas coisas no diário, já que minha querida não deve ouvi-las agora; mas, se for possível que ela as veja novamente, elas estarão prontas.
Ela está me chamando.
CAPÍTULO XXV.
/Diário do Dr. Seward./
11 de outubro, tarde. – Jonathan Harker pediu-me para registrar isto, pois diz que dificilmente está à altura da tarefa, e quer que um registro exato seja mantido.
Acho que nenhum de nós ficou surpreso quando nos pediram para ver a Sra. Harker um pouco antes da hora do pôr do sol. Recentemente, passamos a compreender que o nascer e o pôr do sol são para ela momentos de liberdade peculiar; quando seu antigo eu pode se manifestar sem qualquer força controladora a subjugá-la ou contê-la, ou a incitá-la à ação. Esse estado de espírito ou condição começa cerca de meia hora ou mais antes do nascer ou pôr do sol real, e dura até que o sol esteja alto, ou enquanto as nuvens ainda estão brilhando com os raios que fluem acima do horizonte. A princípio, há uma espécie de condição negativa, como se algum laço fosse afrouxado, e então a liberdade absoluta segue rapidamente; quando, porém, a liberdade cessa, a mudança de volta ou recaída vem rapidamente, precedida apenas por um período de silêncio de aviso.
Esta noite, quando nos encontramos, ela estava um tanto contida e carregava todos os sinais de uma luta interna. Eu mesmo atribuí isso ao fato de ela estar fazendo um esforço violento no primeiro instante em que pôde. Poucos minutos, porém, deram-lhe controle total sobre si mesma; então, fazendo sinal para que seu marido se sentasse ao lado dela no sofá onde estava semideitada, ela fez com que o resto de nós trouxesse cadeiras para perto. Pegando a mão do marido na sua, ela começou: –
“Estamos todos aqui juntos em liberdade, talvez pela última vez! Eu sei, querido; sei que você estará sempre comigo até o fim.” Isso foi para o marido, cuja mão, como pudemos ver, apertou a dela. “Pela manhã, partiremos para a nossa tarefa, e só Deus sabe o que pode estar reservado para qualquer um de nós. Você vai ser tão bom a ponto de me levar com você. Sei que tudo o que homens bravos e sinceros podem fazer por uma pobre mulher fraca, cuja alma talvez esteja perdida – não, não, ainda não, mas de qualquer forma está em jogo – vocês farão. Mas devem lembrar-se de que não sou como vocês. Há um veneno em meu sangue, em minha alma, que pode me destruir; que deve me destruir, a menos que algum alívio nos venha. Oh, meus amigos, vocês sabem tão bem quanto eu que minha alma está em jogo; e embora eu saiba que há um caminho para mim, vocês não devem, e eu não devo, tomá-lo!” Ela olhou suplicante para todos nós, por sua vez, começando e terminando com o marido.
“Qual é esse caminho?” perguntou Van Helsing com uma voz rouca. “Qual é esse caminho que não devemos – não podemos – tomar?”
“Que eu morra agora, seja por minha própria mão ou pela de outro, antes que o mal maior seja inteiramente realizado. Eu sei, e vocês sabem, que se eu estivesse morta, vocês poderiam e libertariam meu espírito imortal, assim como fizeram com minha pobre Lucy. Se a morte, ou o medo da morte, fosse a única coisa que estivesse no caminho, eu não hesitaria em morrer aqui, agora, entre os amigos que me amam. Mas a morte não é tudo. Não posso acreditar que morrer em tal caso, quando há esperança diante de nós e uma tarefa amarga a ser feita, seja a vontade de Deus. Portanto, eu, da minha parte, desisto aqui da certeza do descanso eterno e vou para a escuridão, onde podem estar as coisas mais negras que o mundo ou o mundo inferior contém!” Ficamos todos em silêncio, pois sabíamos instintivamente que isso era apenas um prelúdio. Os rostos dos outros estavam endurecidos, e o de Harker ficou cinzento como o de um cadáver; talvez ele adivinhasse melhor do que qualquer um de nós o que estava por vir. Ela continuou: –
“Isto é o que posso colocar no caldeirão.” Não pude deixar de notar a curiosa frase jurídica que ela usou em tal lugar, e com toda a seriedade. “O que cada um de vocês dará? Suas vidas, eu sei,” ela continuou rapidamente; “isso é fácil para homens corajosos. Suas vidas pertencem a Deus, e vocês podem devolvê-las a Ele; mas o que darão a mim?” Ela olhou novamente com ar de interrogação, mas desta vez evitou o rosto do marido. Quincey pareceu entender; ele assentiu, e o rosto dela se iluminou. “Então direi claramente o que quero, pois não deve haver nenhuma questão duvidosa a este respeito entre nós agora. Vocês devem prometer-me, a todos – até mesmo você, meu amado marido – que, caso chegue o momento, vocês me matarão.”
“Que momento é esse?” A voz era de Quincey, mas estava baixa e tensa.
“Quando vocês estiverem convencidos de que estou tão mudada que é melhor que eu morra para que eu possa viver. Quando eu estiver assim morta na carne, então vocês deverão, sem um momento de atraso, cravar uma estaca em mim e cortar minha cabeça; ou fazer o que mais for necessário para me dar descanso!”
Quincey foi o primeiro a se levantar após a pausa. Ele se ajoelhou diante dela e, segurando sua mão na sua, disse solenemente: –
“Sou apenas um sujeito rude, que talvez não tenha vivido como um homem deveria para ganhar tal distinção, mas juro-lhe por tudo o que considero sagrado e querido que, caso o momento chegue, não recuarei do dever que você nos impôs. E prometo-lhe, também, que farei tudo com certeza, pois se eu estiver apenas em dúvida, considerarei que o momento chegou!”
“Meu verdadeiro amigo!” foi tudo o que ela pôde dizer entre suas lágrimas que caíam rapidamente, enquanto, curvando-se, ela beijava a mão dele.
“Juro o mesmo, minha cara Madame Mina!” disse Van Helsing.
“E eu!” disse Lord Godalming, cada um deles por sua vez ajoelhando-se diante dela para fazer o juramento. Eu segui, eu mesmo. Então o marido voltou-se para ela, com olhos exaustos e uma palidez esverdeada que obscurecia a brancura de neve de seu cabelo, e perguntou: –
“E devo eu, também, fazer tal promessa, oh, minha esposa?”
“Você também, meu querido,” ela disse, com um desejo infinito de piedade em sua voz e olhos. “Você não deve recuar. Você é o mais próximo e querido e todo o mundo para mim; nossas almas estão unidas em uma só, para toda a vida e todo o tempo. Pense, querido, que houve momentos em que homens corajosos mataram suas esposas e suas mulheres, para impedi-las de cair nas mãos do inimigo. As mãos deles não tremeram mais só porque aquelas a quem amavam imploraram para que as matassem. É o dever dos homens para com aqueles a quem amam, em tais tempos de dura provação! E oh, meu querido, se for o caso de eu ter de encontrar a morte por qualquer mão, que seja pela mão daquele que mais me ama. Dr. Van Helsing, não esqueci sua misericórdia no caso da pobre Lucy para com aquele que amava” – ela parou com um rubor passageiro e mudou sua frase – “para com aquele que tinha o melhor direito de lhe dar a paz. Se esse momento chegar novamente, espero que você faça com que seja uma lembrança feliz da vida do meu marido que foi sua mão amorosa que me libertou do terrível domínio sobre mim.”
“Novamente eu juro!” veio a voz ressonante do Professor. A Sra. Harker sorriu, positivamente sorriu, enquanto, com um suspiro de alívio, ela se recostou e disse: –
“E agora uma palavra de aviso, um aviso que vocês nunca devem esquecer: este momento, se ele vier, pode vir rápida e inesperadamente, e em tal caso vocês não devem perder tempo em usar sua oportunidade. Em tal momento, eu mesma poderia estar – não! se o momento chegar, estarei – aliada ao seu inimigo contra vocês.”
“Mais um pedido;” ela tornou-se muito solene ao dizer isso, “não é vital e necessário como o outro, mas quero que façam uma coisa por mim, se quiserem.” Todos nós aquiescemos, mas ninguém falou; não havia necessidade de falar: –
“Quero que leiam o Serviço de Sepultamento.” Ela foi interrompida por um gemido profundo do marido; pegando a mão dele na sua, ela a segurou sobre o coração e continuou: “Vocês devem lê-lo sobre mim algum dia. Seja qual for o desfecho de todo esse terrível estado de coisas, será um pensamento doce para todos ou alguns de nós. Você, meu querido, espero, irá lê-lo, pois então será na sua voz em minha memória para sempre – aconteça o que acontecer!”
“Mas oh, minha querida,” ele implorou, “a morte está longe de você.”
“Não,” ela disse, levantando uma mão de aviso. “Estou mais profundamente na morte neste momento do que se o peso de uma sepultura terrena estivesse pesado sobre mim!”
“Oh, minha esposa, devo lê-lo?” ele disse, antes de começar.
“Isso me confortaria, meu marido!” foi tudo o que ela disse; e ele começou a ler quando ela preparou o livro.
“Como posso – como alguém poderia – falar daquela cena estranha, sua solenidade, sua escuridão, sua tristeza, seu horror; e, ao mesmo tempo, sua doçura? Mesmo um cético, que não consegue ver nada além de uma paródia da verdade amarga em qualquer coisa sagrada ou emocional, teria tido o coração derretido se tivesse visto aquele pequeno grupo de amigos amorosos e dedicados ajoelhados em torno daquela senhora atingida e dolorosa; ou ouvido a paixão terna da voz de seu marido, enquanto, em tons tão quebrados pela emoção que muitas vezes ele tinha que parar, ele lia o serviço simples e belo para o Sepultamento dos Mortos. Eu – eu não consigo continuar – palavras – e – v-voz – f-falham-me!”...
Ela estava certa em seu instinto. Por mais estranho que tudo fosse, por mais bizarro que possa parecer daqui para frente até mesmo para nós que sentimos sua influência potente na época, isso nos confortou muito; e o silêncio, que mostrava a próxima recaída da Sra. Harker de sua liberdade de alma, não parecia tão cheio de desespero para nenhum de nós como temíamos.
Diário de Jonathan Harker.
15 de outubro, Varna. – Deixamos Charing Cross na manhã do dia 12, chegamos a Paris na mesma noite e pegamos os lugares reservados para nós no Expresso do Oriente. Viajamos noite e dia, chegando aqui por volta das cinco horas. Lord Godalming foi ao Consulado para ver se algum telegrama havia chegado para ele, enquanto o restante de nós veio para este hotel – o Odessus. A viagem pode ter tido incidentes; eu, no entanto, estava ansioso demais para seguir em frente para me importar com eles. Até que o Czarina Catherine entre no porto, não haverá interesse para mim em nada no vasto mundo. Graças a Deus! Mina está bem e parece estar ficando mais forte; sua cor está voltando. Ela dorme muito; durante toda a viagem, dormiu quase o tempo todo. Antes do nascer e do pôr do sol, no entanto, ela fica muito vigilante e alerta; e tornou-se um hábito para Van Helsing hipnotizá-la nesses momentos. A princípio, algum esforço foi necessário, e ele teve que fazer muitos passes; mas agora, ela parece ceder imediatamente, como se por hábito, e quase nenhuma ação é necessária. Ele parece ter o poder nesses momentos específicos de simplesmente querer, e os pensamentos dela obedecem a ele. Ele sempre lhe pergunta o que ela pode ver e ouvir. Ela responde ao primeiro: –
“Nada; tudo está escuro.” E ao segundo: –
“Posso ouvir as ondas batendo contra o navio, e a água passando. As velas e os cabos se esticam e os mastros e as vergas rangem. O vento está forte – posso ouvi-lo nos estais, e a proa lança a espuma para trás.” É evidente que o Czarina Catherine ainda está no mar, apressando-se em seu caminho para Varna. Lord Godalming acaba de retornar. Ele tinha quatro telegramas, um a cada dia desde que partimos, e todos com o mesmo efeito: que o Czarina Catherine não havia sido relatado a Lloyd's de lugar nenhum. Ele havia combinado antes de deixar Londres que seu agente lhe enviasse todos os dias um telegrama dizendo se o navio havia sido relatado. Ele deveria ter uma mensagem mesmo se o navio não fosse relatado, para que pudesse ter certeza de que uma vigilância estava sendo mantida na outra extremidade do fio.
Jantamos e fomos para a cama cedo. Amanhã vamos ver o Vice-Cônsul e combinar, se pudermos, sobre entrar no navio assim que ele chegar. Van Helsing diz que nossa chance será entrar a bordo entre o nascer e o pôr do sol. O Conde, mesmo que assuma a forma de um morcego, não pode cruzar a água corrente por vontade própria e, portanto, não pode deixar o navio. Como ele não se atreve a mudar para a forma humana sem suspeitas – que ele evidentemente deseja evitar – ele deve permanecer na caixa. Se, então, pudermos entrar a bordo após o nascer do sol, ele estará à nossa mercê; pois podemos abrir a caixa e garantir que ele esteja lá, como fizemos com a pobre Lucy, antes que ele acorde. Que misericórdia ele receberá de nós não contará muito. Achamos que não teremos muitos problemas com funcionários ou marinheiros. Graças a Deus! este é o país onde o suborno pode fazer qualquer coisa, e estamos bem supridos de dinheiro. Só precisamos ter certeza de que o navio não pode entrar no porto entre o pôr do sol e o nascer do sol sem que sejamos avisados, e estaremos seguros. O Juiz Moneybag resolverá este caso, eu acho!
16 de outubro. – O relatório de Mina continua o mesmo: ondas batendo e água correndo, escuridão e ventos favoráveis. Estamos evidentemente em bom tempo, e quando ouvirmos sobre o Czarina Catherine estaremos prontos. Como ela deve passar pelos Dardanelos, temos certeza de ter algum relatório.
* * * * *
17 de outubro. – Tudo está muito bem resolvido agora, creio eu, para receber o Conde em seu retorno de sua viagem. Godalming disse aos armadores que imaginava que a caixa enviada a bordo pudesse conter algo roubado de um amigo dele, e obteve um meio consentimento de que ele poderia abri-la por sua própria conta e risco. O proprietário deu-lhe um papel dizendo ao capitão para lhe dar todas as facilidades para fazer o que bem entendesse a bordo do navio, e também uma autorização semelhante para seu agente em Varna. Vimos o agente, que ficou muito impressionado com a maneira gentil de Godalming para com ele, e estamos todos satisfeitos que tudo o que ele puder fazer para ajudar nossos desejos será feito. Já combinamos o que fazer caso consigamos abrir a caixa. Se o Conde estiver lá, Van Helsing e Seward cortarão sua cabeça imediatamente e cravarão uma estaca em seu coração. Morris, Godalming e eu impediremos interferência, mesmo que tenhamos que usar as armas que teremos prontas. O Professor diz que, se pudermos tratar o corpo do Conde dessa forma, ele logo se transformará em pó. Nesse caso, não haveria provas contra nós, caso alguma suspeita de assassinato fosse despertada. Mas mesmo que não fosse, nós nos sustentaríamos ou cairíamos por nosso ato, e talvez algum dia este próprio roteiro possa ser uma evidência para se colocar entre alguns de nós e uma corda. Por mim, eu aceitaria a chance com muita gratidão se ela viesse. Pretendemos não deixar pedra sobre pedra para cumprir nossa intenção. Combinamos com certos funcionários que, no instante em que o Czarina Catherine for visto, seremos informados por um mensageiro especial.
24 de outubro. – Uma semana inteira de espera. Telegramas diários para Godalming, mas apenas a mesma história: “Ainda não relatado.” A resposta hipnótica matinal e noturna de Mina é inalterada: ondas batendo, água correndo e mastros rangendo.
Telegrama, 24 de outubro.
_Rufus Smith, Lloyd’s, Londres, para Lord Godalming, aos cuidados do Vice-Cônsul de S.M.B., Varna_
“Czarina Catherine relatado esta manhã vindo dos Dardanelos.”
Diário do Dr. Seward.
24 de outubro. – Como sinto falta do meu fonógrafo! Escrever diário com uma caneta é enfadonho para mim; mas Van Helsing diz que devo. Estávamos todos loucos de excitação hoje quando Godalming recebeu seu telegrama da Lloyd’s. Sei agora o que os homens sentem na batalha quando o chamado para a ação é ouvido. A Sra. Harker, sozinha em nosso grupo, não mostrou nenhum sinal de emoção. Afinal, não é estranho que ela não o tenha feito; pois tomamos cuidado especial para não deixá-la saber de nada, e todos tentamos não mostrar qualquer excitação quando estávamos em sua presença. Antigamente, tenho certeza de que ela teria notado, não importa o quanto tivéssemos tentado esconder; mas, desta forma, ela mudou muito durante as últimas três semanas. A letargia cresce nela, e embora ela pareça forte e bem, e esteja recuperando parte de sua cor, Van Helsing e eu não estamos satisfeitos. Falamos dela com frequência; no entanto, não dissemos uma palavra aos outros. Isso partiria o coração do pobre Harker – certamente seus nervos – se ele soubesse que tínhamos até mesmo uma suspeita sobre o assunto. Van Helsing examina, diz-me ele, seus dentes com muito cuidado, enquanto ela está em estado hipnótico, pois diz que, enquanto eles não começarem a afiar, não há perigo ativo de uma mudança nela. Se essa mudança ocorrer, seria necessário tomar medidas!... Ambos sabemos quais teriam que ser essas medidas, embora não mencionemos nossos pensamentos um ao outro. Nenhum de nós recuaria da tarefa – por mais terrível que seja contemplá-la. “Eutanásia” é uma palavra excelente e reconfortante! Sou grato a quem quer que a tenha inventado.
É apenas cerca de 24 horas de navegação dos Dardanelos até aqui, na taxa em que o Czarina Catherine veio de Londres. Ela deve, portanto, chegar em algum momento da manhã; mas como ela não pode entrar antes disso, estamos todos prestes a nos retirar cedo. Vamos nos levantar à uma hora, para estarmos prontos.
25 de outubro, meio-dia. – Nenhuma notícia ainda da chegada do navio. O relatório hipnótico da Sra. Harker esta manhã foi o mesmo de sempre, então é possível que tenhamos notícias a qualquer momento. Nós, homens, estamos todos em febre de excitação, exceto Harker, que está calmo; suas mãos estão frias como gelo, e há uma hora o encontrei amolando o fio da grande faca Ghoorka que ele sempre carrega consigo agora. Será um mau presságio para o Conde se o fio daquele “Kúkri” tocar sua garganta, impulsionado por aquela mão severa e gelada!
Van Helsing e eu ficamos um pouco alarmados com a Sra. Harker hoje. Por volta do meio-dia, ela entrou em uma espécie de letargia que não gostamos; embora tenhamos ficado em silêncio para os outros, nenhum de nós estava feliz com isso. Ela esteve inquieta a manhã toda, então a princípio ficamos felizes em saber que ela estava dormindo. Quando, no entanto, seu marido mencionou casualmente que ela estava dormindo tão profundamente que ele não podia acordá-la, fomos ao quarto dela para ver por nós mesmos. Ela estava respirando naturalmente e parecia tão bem e em paz que concordamos que o sono era melhor para ela do que qualquer outra coisa. Pobre garota, ela tem tanto a esquecer que não é de admirar que o sono, se lhe trouxer o esquecimento, lhe faça bem.
Mais tarde. – Nossa opinião foi justificada, pois quando, após um sono revigorante de algumas horas, ela acordou, parecia mais brilhante e melhor do que estava há dias. Ao pôr do sol, ela fez o relatório hipnótico habitual. Onde quer que ele esteja no Mar Negro, o Conde está correndo para o seu destino. Para sua condenação, espero!
26 de outubro. – Mais um dia e nenhuma notícia do Czarina Catherine. Ele já deveria estar aqui. Que ele ainda viaja em algum lugar é evidente, pois o relatório hipnótico da Sra. Harker ao amanhecer continuava o mesmo. É possível que a embarcação possa estar parada, às vezes, por causa do nevoeiro; alguns dos vapores que chegaram ontem à noite relataram bancos de nevoeiro tanto ao norte quanto ao sul do porto. Devemos continuar nossa vigília, pois o navio pode ser sinalizado a qualquer momento.
27 de outubro, meio-dia. – Muito estranho; ainda nenhuma notícia do navio que aguardamos. A Sra. Harker relatou ontem à noite e esta manhã como de costume: “ondas batendo e água correndo”, embora tenha acrescentado que “as ondas estavam muito fracas”. Os telegramas de Londres foram os mesmos: “nenhum relatório adicional”. Van Helsing está terrivelmente ansioso e me disse agora há pouco que teme que o Conde esteja escapando de nós. Ele acrescentou significativamente:
“Eu não gostei daquela letargia da Madame Mina. Almas e memórias podem fazer coisas estranhas durante o transe.” Eu estava prestes a lhe perguntar mais, mas Harker entrou naquele momento, e ele levantou uma mão em sinal de aviso. Devemos tentar esta noite, ao pôr do sol, fazê-la falar mais plenamente quando estiver em seu estado hipnótico.
28 de outubro. – Telegrama. Rufus Smith, Londres, para Lord Godalming, aos cuidados do Vice-Cônsul de S.M.B., Varna.
“Czarina Catherine relatou entrada em Galatz às uma hora de hoje.”
Diário do Dr. Seward.
28 de outubro. – Quando o telegrama chegou anunciando a chegada a Galatz, não creio que tenha sido um choque tão grande para qualquer um de nós como se poderia esperar. É verdade, não sabíamos de onde, ou como, ou quando o raio cairia; mas acho que todos esperávamos que algo estranho acontecesse. O atraso da chegada a Varna nos deixou individualmente satisfeitos de que as coisas não seriam exatamente como esperávamos; apenas esperávamos saber onde a mudança ocorreria. Não menos, porém, foi uma surpresa. Suponho que a natureza trabalhe sobre uma base tão esperançosa que acreditamos contra nós mesmos que as coisas serão como deveriam ser, não como deveríamos saber que serão. O transcendentalismo é um farol para os anjos, mesmo que seja um fogo-fátuo para o homem. Foi uma experiência estranha, e todos nós a encaramos de forma diferente. Van Helsing ergueu as mãos sobre a cabeça por um momento, como se em protesto ao Todo-Poderoso; mas não disse uma palavra e, em poucos segundos, levantou-se com o rosto severamente determinado. Lord Godalming ficou muito pálido e sentou-se respirando com dificuldade. Eu mesmo estava meio atordoado e olhava maravilhado de um para o outro. Quincey Morris apertou o cinto com aquele movimento rápido que eu conhecia tão bem; em nossos velhos tempos de errância, significava “ação”. A Sra. Harker ficou mortalmente branca, de modo que a cicatriz em sua testa parecia queimar, mas ela dobrou as mãos docilmente e olhou para cima em oração. Harker sorriu – realmente sorriu – o sorriso amargo e sombrio de alguém que está sem esperança; mas, ao mesmo tempo, sua ação desmentia suas palavras, pois suas mãos buscavam instintivamente o punho da grande faca Kukri e ali descansavam. “Quando parte o próximo trem para Galatz?” disse Van Helsing para nós em geral.
“Às 6h30 da manhã de amanhã!” Todos nós olhamos fixamente, pois a resposta veio da Sra. Harker.
“Como diabos você sabe?” disse Art.
“Vocês esquecem – ou talvez não saibam, embora Jonathan saiba e o Dr. Van Helsing também – que eu sou a maníaca por trens. Em casa, em Exeter, eu sempre costumava montar os horários, para ser útil ao meu marido. Achei tão útil às vezes que agora sempre estudo os horários. Eu sabia que, se algo nos levasse ao Castelo Dracula, iríamos por Galatz, ou pelo menos através de Bucareste, então aprendi os horários com muito cuidado. Infelizmente, não há muitos para aprender, já que o único trem de amanhã parte como eu disse.”
“Mulher maravilhosa!” murmurou o Professor.
“Não podemos conseguir um especial?” perguntou Lord Godalming. Van Helsing balançou a cabeça: “Temo que não. Esta terra é muito diferente da sua ou da minha; mesmo que conseguíssemos um especial, provavelmente não chegaria tão cedo quanto nosso trem regular. Além disso, temos algo a preparar. Devemos pensar. Agora vamos nos organizar. Você, amigo Arthur, vá até o trem e pegue os bilhetes e providencie para que tudo esteja pronto para partirmos pela manhã. Você, amigo Jonathan, vá até o agente do navio e obtenha dele cartas para o agente em Galatz, com autoridade para revistar o navio exatamente como foi aqui. Quincey Morris, veja o Vice-Cônsul e obtenha sua ajuda com seu colega em Galatz e tudo o que ele puder fazer para suavizar nosso caminho, para que não se perca tempo quando estivermos sobre o Danúbio. John ficará com Madame Mina e comigo, e vamos consultar. Pois assim, se o tempo for longo, vocês podem se atrasar; e não importará quando o sol se puser, já que estou aqui com a Madame para fazer o relatório.”
“E eu”, disse a Sra. Harker alegremente, e mais parecida com sua antiga personalidade do que estivera por muitos longos dias, “tentarei ser útil de todas as maneiras, e pensarei e escreverei para vocês como costumava fazer. Algo está se deslocando de mim de uma maneira estranha, e me sinto mais livre do que estive ultimamente!” Os três homens mais jovens pareceram mais felizes no momento, à medida que pareciam perceber o significado de suas palavras; mas Van Helsing e eu, voltando-nos um para o outro, encontramos um olhar grave e perturbado. Não dissemos nada naquele momento, no entanto.
Quando os três homens saíram para suas tarefas, Van Helsing pediu à Sra. Harker que procurasse a cópia dos diários e encontrasse para ele a parte do diário de Harker no castelo. Ela saiu para buscá-la; quando a porta se fechou atrás dela, ele me disse:
“Nós pensamos o mesmo! Fale!”
“Há alguma mudança. É uma esperança que me deixa doente, pois pode nos enganar.”
“Exatamente. Você sabe por que pedi a ela para buscar o manuscrito?”
“Não!” disse eu, “a menos que fosse para conseguir uma oportunidade de me ver a sós.”
“Você está em parte certo, amigo John, mas apenas em parte. Quero lhe dizer algo. E, oh, meu amigo, estou correndo um grande – um terrível – risco; mas acredito que é certo. No momento em que Madame Mina disse aquelas palavras que detêm nossa compreensão, uma inspiração veio a mim. No transe de três dias atrás, o Conde enviou-lhe seu espírito para ler sua mente; ou, mais provavelmente, ele a levou para vê-lo em sua caixa de terra no navio com a água correndo, assim como ele fica livre ao nascer e ao pôr do sol. Ele soube então que estamos aqui; pois ela tem mais a dizer em sua vida aberta, com olhos para ver e ouvidos para ouvir, do que ele, fechado, como está, em sua caixa de caixão. Agora ele faz seu maior esforço para escapar de nós. No momento, ele não a quer. Ele tem certeza, com seu vasto conhecimento, de que ela virá ao seu chamado; mas ele a cortou – afastou-a, como pode fazer, de seu próprio poder, para que ela não vá até ele. Ah! Aí eu tenho esperança de que nossos cérebros humanos, que foram humanos por tanto tempo e que não perderam a graça de Deus, serão mais elevados do que seu cérebro infantil que ele mantém em seu túmulo por séculos, que ainda não cresceu até nossa estatura, e que faz apenas trabalho egoísta e, portanto, pequeno. Aqui vem Madame Mina; nem uma palavra a ela sobre seu transe! Ela não o conhece; e isso a sobrecarregaria e causaria desespero justamente quando queremos toda a sua esperança, toda a sua coragem; quando mais queremos todo o seu grande cérebro que é treinado como o cérebro humano, mas é de uma doce mulher e tem um poder especial que o Conde lhe dá, e que ele pode não retirar completamente – embora ele não pense assim. Silêncio! Deixe-me falar, e você saberá. Oh, John, meu amigo, estamos em apuros terríveis. Temo, como nunca temi antes. Só podemos confiar no bom Deus. Silêncio! Lá vem ela!”
Pensei que o Professor fosse desmoronar e ter um ataque de histeria, exatamente como teve quando Lucy morreu, mas com um grande esforço ele se controlou e estava em perfeito equilíbrio nervoso quando a Sra. Harker entrou na sala, alegre e com aparência feliz e, ao realizar o trabalho, aparentemente esquecida de sua miséria. Quando ela entrou, entregou várias folhas de datilografia a Van Helsing. Ele as examinou gravemente, seu rosto iluminando-se enquanto lia. Então, segurando as páginas entre o dedo e o polegar, ele disse:
“Amigo John, para você que já tem tanta experiência – e para você também, querida Madame Mina, que é jovem – aqui está uma lição: não tenha medo de pensar. Um meio-pensamento tem zumbido frequentemente em meu cérebro, mas temo deixá-lo abrir suas asas. Aqui agora, com mais conhecimento, volto para onde esse meio-pensamento veio, e descubro que ele não é um meio-pensamento de forma alguma; que ele é um pensamento inteiro, embora tão jovem que ainda não é forte para usar suas pequenas asas. Não, como o “Patinho Feio” do meu amigo Hans Andersen, ele não é um pensamento-pato de forma alguma, mas um pensamento-cisne grande que navega nobremente em grandes asas, quando chega a hora de ele experimentá-las. Veja, leio aqui o que Jonathan escreveu:
“Aquele outro de sua linhagem que, em uma era posterior, trouxe repetidamente suas forças através do Grande Rio para a Terra da Turquia; que, quando era derrotado, voltava, e de novo, e de novo, embora tivesse que vir sozinho do campo sangrento onde suas tropas estavam sendo massacradas, pois sabia que ele sozinho poderia, em última análise, triunfar.”
“O que isso nos diz? Não muito! Não! O pensamento-criança do Conde não vê nada; portanto, ele fala tão livremente. O seu pensamento-homem não vê nada; o meu pensamento-homem não vê nada, até agora. Não! Mas vem outra palavra de alguém que fala sem pensar porque ela também não sabe o que significa – o que poderia significar. Assim como existem elementos que descansam, mas quando no curso da natureza eles seguem seu caminho e se tocam – então, puf! e vem um clarão de luz, amplo como o céu, que cega e mata e destrói alguns; mas que revela toda a terra abaixo por léguas e léguas. Não é assim? Bem, eu explicarei. Para começar, você já estudou a filosofia do crime? ‘Sim’ e ‘Não’. Você, John, sim; pois é um estudo da insanidade. Você, não, Madame Mina; pois o crime não a toca – não mais do que uma vez. Ainda assim, sua mente funciona corretamente, e não argumenta não a particulari ad universale. Existe essa peculiaridade nos criminosos. É tão constante, em todos os países e em todos os tempos, que até a polícia, que não sabe muito de filosofia, chega a saber empiricamente, que é. Isso é ser empírico. O criminoso sempre trabalha em um crime – esse é o verdadeiro criminoso que parece predestinado ao crime, e que não quer nenhum outro. Esse criminoso não tem o cérebro-homem completo. Ele é inteligente e astuto e cheio de recursos; mas ele não tem a estatura humana no que diz respeito ao cérebro. Ele é, em muito, de cérebro-criança. Agora, este criminoso nosso está predestinado ao crime também; ele também tem cérebro-criança, e é da criança fazer o que ele fez. O passarinho, o peixinho, o pequeno animal não aprendem por princípio, mas empiricamente; e quando aprendem a fazer, então há para eles o terreno para começar a fazer mais. ‘Dos pou sto’, disse Arquimedes. ‘Dê-me um ponto de apoio, e moverei o mundo!’ Fazer uma vez é o ponto de apoio pelo qual o cérebro-criança se torna cérebro-homem; e até que ele tenha o propósito de fazer mais, ele continua a fazer o mesmo sempre, exatamente como fez antes! Oh, minha querida, vejo que seus olhos estão abertos, e que para você o clarão do relâmpago mostra todas as léguas,” pois a Sra. Harker começou a bater palmas, e seus olhos brilharam. Ele continuou:
“Agora você deve falar. Diga a nós dois homens secos da ciência o que você vê com esses olhos tão brilhantes.” Ele pegou a mão dela e a segurou enquanto ela falava. Seu dedo e polegar fecharam-se em seu pulso, como pensei instintivamente e inconscientemente, enquanto ela falava:
“O Conde é um criminoso e do tipo criminoso. Nordau e Lombroso o classificariam assim, e qua criminoso ele é de mente imperfeitamente formada. Assim, em uma dificuldade, ele tem que buscar recursos no hábito. Seu passado é uma pista, e a única página dele que conhecemos – e isso por seus próprios lábios – conta que uma vez antes, quando estava no que o Sr. Morris chamaria de ‘aperto’, ele voltou para seu próprio país vindo da terra que tentara invadir, e de lá, sem perder o propósito, preparou-se para um novo esforço. Ele veio de novo, mais bem equipado para seu trabalho; e venceu. Assim, ele veio a Londres para invadir uma nova terra. Ele foi derrotado e, quando toda esperança de sucesso estava perdida e sua existência em perigo, ele fugiu de volta pelo mar para sua casa; exatamente como anteriormente ele fugira de volta pelo Danúbio vindo da terra da Turquia.”
“Bom, bom! Oh, você, dama tão inteligente!” disse Van Helsing, entusiasticamente, enquanto se inclinava e beijava sua mão. Um momento depois, ele disse para mim, tão calmamente como se tivéssemos tido uma consulta em um quarto de doente:
“Setenta e dois apenas; e em toda essa agitação. Tenho esperança.” Voltando-se para ela novamente, ele disse com grande expectativa:
“Mas continue. Continue! há mais a dizer se você quiser. Não tenha medo; John e eu sabemos. Eu, de qualquer forma, sei, e lhe direi se você estiver certa. Fale, sem medo!”
“Tentarei; mas vocês me perdoarão se eu parecer egoísta.”
“Não! não tema, você deve ser egoísta, pois é em você que pensamos.”
“Então, como ele é criminoso, ele é egoísta; e como seu intelecto é pequeno e sua ação é baseada no egoísmo, ele se limita a um único propósito. Esse propósito é impiedoso. Como ele fugiu de volta pelo Danúbio, deixando suas forças para serem cortadas em pedaços, assim agora ele está determinado a estar seguro, indiferente a tudo. Assim, seu próprio egoísmo liberta minha alma um pouco do terrível poder que ele adquiriu sobre mim naquela noite horrível. Eu senti, Oh! Eu senti. Graças a Deus por Sua grande misericórdia! Minha alma está mais livre do que esteve desde aquela hora terrível; e tudo o que me assombra é o medo de que, em algum transe ou sonho, ele possa ter usado meu conhecimento para seus fins.” O Professor levantou-se:
“Ele usou sua mente dessa forma; e por ela ele nos deixou aqui em Varna, enquanto o navio que o carregava corria através do nevoeiro envolvente até Galatz, onde, sem dúvida, ele havia feito preparativos para escapar de nós. Mas seu cérebro-criança só viu até ali; e pode ser que, como sempre acontece na Providência de Deus, a própria coisa na qual o malfeitor mais contou para seu bem egoísta, acabe sendo seu maior mal. O caçador é pego em sua própria armadilha, como diz o grande Salmista. Pois agora que ele pensa que está livre de qualquer rastro nosso, e que escapou de nós com tantas horas de vantagem, então seu cérebro-criança egoísta sussurrará para ele dormir. Ele pensa, também, que, como ele se cortou do conhecimento de sua mente, não pode haver conhecimento dele para você; é aí que ele falha! Aquele terrível batismo de sangue que ele lhe deu torna você livre para ir até ele em espírito, como você ainda tem feito em seus momentos de liberdade, quando o sol nasce e se põe. Nesses momentos você vai por minha vontade e não pela dele; e este poder para o bem seu e dos outros, você ganhou com seu sofrimento nas mãos dele. Isso é agora tudo mais precioso porque ele não sabe, e para se proteger, ele até se cortou do conhecimento de onde estamos. Nós, porém, não somos todos egoístas, e acreditamos que Deus está conosco através de toda essa escuridão, e estas muitas horas sombrias. Nós o seguiremos; e não vacilaremos; mesmo que coloquemos a nós mesmos em perigo de nos tornarmos como ele. Amigo John, esta foi uma grande hora; e fez muito para nos adiantar em nosso caminho. Você deve ser o escriba e escrever tudo, para que, quando os outros retornarem de seu trabalho, você possa entregar a eles; então eles saberão como nós sabemos.”
E assim eu escrevi enquanto aguardamos seu retorno, e a Sra. Harker escreveu com sua máquina de escrever tudo desde que nos trouxe o manuscrito.
CAPÍTULO XXVI.
/Diário do Dr. Seward./
29 de outubro. – Isto está sendo escrito no trem de Varna para Galatz. Ontem à noite, todos nos reunimos um pouco antes da hora do pôr do sol. Cada um de nós fez seu trabalho o melhor que pôde; no que diz respeito a pensamento, esforço e oportunidade, estamos preparados para toda a nossa jornada e para nosso trabalho quando chegarmos a Galatz. Quando chegou a hora habitual, a Sra. Harker preparou-se para seu esforço hipnótico; e após um esforço mais longo e extenuante por parte de Van Helsing do que o geralmente necessário, ela mergulhou no transe. Normalmente ela fala com uma dica; mas desta vez o Professor teve que lhe fazer perguntas, e fazê-las de forma bastante resoluta, antes que pudéssemos aprender algo; finalmente, sua resposta veio:
“Não consigo ver nada; estamos parados; não há ondas batendo, apenas um redemoinho constante de água correndo suavemente contra o cabo. Posso ouvir vozes de homens chamando, perto e longe, e o rolar e o ranger de remos nos toletes. Um tiro é disparado em algum lugar; o eco parece longe. Há passos pisando acima, e cordas e correntes são arrastadas. O que é isso? Há um lampejo de luz; posso sentir o ar soprando sobre mim.”
Aqui ela parou. Ela se levantara, como se impulsivamente, de onde jazia no sofá, e levantou ambas as mãos, com as palmas para cima, como se levantasse um peso. Van Helsing e eu olhamos um para o outro com compreensão. Quincey ergueu as sobrancelhas levemente e olhou para ela atentamente, enquanto a mão de Harker instintivamente fechou-se em torno do punho de seu kúkri. Houve uma longa pausa. Todos nós sabíamos que o tempo em que ela podia falar estava passando; mas sentimos que era inútil dizer qualquer coisa. De repente, ela se sentou e, ao abrir os olhos, disse docemente:
“Algum de vocês não gostaria de uma xícara de chá? Vocês todos devem estar tão cansados!” Só podíamos fazê-la feliz, e assim consentimos. Ela saiu apressada para buscar o chá; quando ela se foi, Van Helsing disse:
“Vocês veem, meus amigos. Ele está perto da terra; ele deixou seu caixão de terra. Mas ele ainda tem que chegar à costa. À noite, ele pode estar escondido em algum lugar; mas se ele não for levado para a costa, ou se o navio não tocá-la, ele não pode alcançar a terra. Nesse caso, ele pode, se for à noite, mudar sua forma e pular ou voar para a costa, como fez em Whitby. Mas se o dia chegar antes que ele chegue à costa, então, a menos que ele seja carregado, ele não pode escapar. E se ele for carregado, então os fiscais da alfândega podem descobrir o que a caixa contém. Assim, em suma, se ele não escapar para a costa esta noite, ou antes do amanhecer, haverá o dia inteiro perdido para ele. Podemos então chegar a tempo; pois se ele não escapar à noite, chegaremos a ele durante o dia, encaixotado e à nossa mercê; pois ele não ousa ser seu verdadeiro eu, acordado e visível, para não ser descoberto.”
Não havia mais nada a dizer, então esperamos com paciência até o amanhecer; momento em que poderíamos aprender mais com a Sra. Harker.
De manhã cedo escutamos, com uma ansiedade ofegante, a sua resposta no transe. A fase hipnótica demorou ainda mais a chegar do que anteriormente; e, quando chegou, o tempo que restava até ao nascer do sol era tão curto que começámos a desesperar. Van Helsing parecia lançar toda a sua alma no esforço; finalmente, em obediência à sua vontade, ela respondeu:--
“Tudo está escuro. Ouço o bater da água, ao nível de onde estou, e um ranger como de madeira contra madeira.” Ela fez uma pausa, e o sol vermelho surgiu. Temos de esperar até à noite.
E é assim que viajamos em direção a Galatz numa agonia de expectativa. Devemos chegar entre as duas e as três da manhã; mas já em Bucareste estamos com três horas de atraso, pelo que é impossível chegarmos antes de o sol estar bem alto. Assim, teremos mais duas mensagens hipnóticas da Sra. Harker; uma ou ambas poderão possivelmente lançar mais luz sobre o que está a acontecer.
Mais tarde.--O pôr do sol veio e foi-se. Felizmente, ocorreu num momento em que não havia distrações; pois, se tivesse acontecido enquanto estávamos numa estação, talvez não tivéssemos conseguido a calma e o isolamento necessários. A Sra. Harker cedeu à influência hipnótica ainda menos prontamente do que esta manhã. Receio que a sua faculdade de ler as sensações do Conde possa extinguir-se, precisamente quando mais precisamos dela. Parece-me que a sua imaginação está a começar a funcionar. Até agora, enquanto estava em transe, restringia-se aos factos mais simples. Se isto continuar, pode acabar por nos induzir em erro. Se eu pensasse que o poder do Conde sobre ela se extinguiria juntamente com o seu poder de conhecimento, seria um pensamento feliz; mas temo que não seja assim. Quando ela falou, as suas palavras foram enigmáticas:--
“Algo está a sair; sinto passar por mim como um vento frio. Ouço, ao longe, sons confusos – como de homens a falar línguas estranhas, água a cair violentamente e o uivar de lobos.” Ela parou, e um tremor percorreu-a, aumentando de intensidade durante alguns segundos, até que, no fim, sacudia como se estivesse com paralisia. Não disse mais nada, nem sequer em resposta às perguntas imperativas do Professor. Quando acordou do transe, estava fria, exausta e lânguida; mas a sua mente estava muito alerta. Não se lembrava de nada, mas perguntou o que tinha dito; quando lhe contaram, ponderou profundamente sobre isso durante muito tempo e em silêncio.
30 de outubro, 7 h.--Estamos perto de Galatz agora, e talvez não tenha tempo para escrever mais tarde. O nascer do sol desta manhã foi ansiosamente aguardado por todos nós. Sabendo da crescente dificuldade em provocar o transe hipnótico, Van Helsing começou os seus passes mais cedo do que o habitual. No entanto, não produziram qualquer efeito até à hora habitual, quando ela cedeu com ainda maior dificuldade, apenas um minuto antes de o sol nascer. O Professor não perdeu tempo nas suas perguntas; a resposta dela surgiu com igual rapidez:--
“Tudo está escuro. Ouço a água a rodopiar, ao nível das minhas orelhas, e o ranger de madeira contra madeira. Gado a mugir ao longe. Há outro som, um som estranho como...” ela parou e ficou branca, e ainda mais branca.
“Continue; continue! Fale, ordeno-lhe!” disse Van Helsing com uma voz agonizante. Ao mesmo tempo, havia desespero nos seus olhos, pois o sol nascente estava a avermelhar até o rosto pálido da Sra. Harker. Ela abriu os olhos, e todos nós estremecemos quando ela disse, docemente e aparentemente com a maior preocupação:--
“Oh, Professor, por que me pede para fazer o que sabe que não posso? Não me lembro de nada.” Então, vendo o olhar de espanto nos nossos rostos, ela disse, voltando-se de um para o outro com um ar perturbado:--
“O que disse eu? O que fiz eu? Não sei de nada, apenas que estava deitada aqui, meio adormecida, e ouvi-o dizer ‘continue! fale, ordeno-lhe!’ Pareceu tão engraçado ouvi-lo a mandar em mim, como se eu fosse uma criança malcomportada!”
“Oh, Dona Mina,” disse ele tristemente, “é a prova, se for necessária prova, de como a amo e honro, quando uma palavra para o seu bem, dita com mais fervor do que nunca, pode parecer tão estranha porque é para ordenar àquela a quem me orgulho de obedecer!”
Os apitos estão a soar; estamos a aproximar-nos de Galatz. Estamos a arder de ansiedade e impaciência.
Diário de Mina Harker.
30 de outubro.--O Sr. Morris levou-me para o hotel onde os nossos quartos tinham sido reservados por telegrama, sendo ele quem podia ser mais facilmente dispensado, uma vez que não fala qualquer língua estrangeira. As forças foram distribuídas quase da mesma forma que em Varna, exceto que Lord Godalming foi ao Vice-Consulado, pois o seu título poderia servir como uma garantia imediata de algum tipo para o funcionário, estando nós com extrema pressa. Jonathan e os dois médicos foram ao agente marítimo para saber pormenores sobre a chegada do Czarina Catherine.
Mais tarde.--Lord Godalming regressou. O Cônsul está fora, e o Vice-Cônsul doente; por isso, o trabalho de rotina foi tratado por um escriturário. Ele foi muito prestável e ofereceu-se para fazer tudo o que estivesse ao seu alcance.
Diário de Jonathan Harker.
30 de outubro.--Às nove horas, o Dr. Van Helsing, o Dr. Seward e eu visitámos a empresa Mackenzie & Steinkoff, os agentes da firma londrina Hapgood. Tinham recebido um telegrama de Londres, em resposta ao pedido telegráfico de Lord Godalming, pedindo-lhes que nos prestassem toda a cortesia possível. Foram mais do que gentis e corteses, e levaram-nos imediatamente a bordo do Czarina Catherine, que estava ancorado no porto fluvial. Lá encontrámos o capitão, de nome Donelson, que nos falou da sua viagem. Disse que, em toda a sua vida, nunca teve uma travessia tão favorável.
“Homem!” disse ele, “mas isso deixou-nos receosos, pois esperávamos que teríamos de pagar por isso com algum azar excecional, para manter a média. Não é bom navegar de Londres até ao Mar Negro com o vento pelas costas, como se o próprio Diabo estivesse a soprar nas nossas velas para o seu próprio propósito. E todo o tempo não conseguimos ver nada. Se estivéssemos perto de um navio, ou de um porto, ou de um promontório, caía um nevoeiro sobre nós e viajava connosco, até que, depois de levantar e olharmos, o diabo de coisa alguma conseguíamos ver. Passámos por Gibraltar sem conseguirmos sinalizar; e, até chegarmos aos Dardanelos e termos de esperar pela nossa licença de passagem, nunca estivemos ao alcance de nada. A princípio, inclinei-me para reduzir a vela e navegar em ziguezague até o nevoeiro levantar; mas por vezes, pensei que, se o Diabo estava disposto a levar-nos rapidamente para o Mar Negro, ele fá-lo-ia quer quiséssemos ou não. Se tivéssemos uma viagem rápida, não seria para nosso descrédito junto dos proprietários, nem causaria prejuízo ao nosso tráfego; e o Velho que servia o seu próprio propósito estar-nos-ia decentemente grato por não o estorvarmos.” Esta mistura de simplicidade e astúcia, de superstição e raciocínio comercial, despertou Van Helsing, que disse:--
“Meu amigo, esse Diabo é mais esperto do que alguns pensam; e ele sabe quando encontra o seu igual!” O capitão não ficou desagradado com o elogio e continuou:--
“Quando passámos pelo Bósforo, os homens começaram a resmungar; alguns deles, os romenos, vieram pedir-me para atirar ao mar uma grande caixa que tinha sido colocada a bordo por um velho de aspeto estranho pouco antes de partirmos de Londres. Eu tinha-os visto a olhar para o tipo e a estender os dois dedos quando o viam, para se protegerem do mau-olhado. Homem! Mas a superstição dos estrangeiros é perfeitamente ridícula! Mandei-os tratar da sua vida bem depressa; mas, como logo a seguir um nevoeiro nos envolveu, senti-me um pouco como eles em relação a algo, embora não dissesse que era contra a grande caixa. Bem, seguimos em frente, e como o nevoeiro não levantou durante cinco dias, deixei simplesmente que o vento nos levasse; pois se o Diabo queria chegar a algum lado... bem, ele lá chegaria são e salvo. E se não quisesse, bem, manteríamos um olhar atento de qualquer maneira. Com certeza, tivemos um caminho livre e águas profundas todo o tempo; e há dois dias, quando o sol da manhã atravessou o nevoeiro, encontrámo-nos precisamente no rio, em frente a Galatz. Os romenos estavam furiosos e queriam que eu, por bem ou por mal, tirasse a caixa e a atirasse ao rio. Tive de discutir com eles sobre isso com uma alavanca; e quando o último deles se levantou do convés, com a cabeça nas mãos, eu tinha-os convencido de que, mau-olhado ou não mau-olhado, a propriedade e a confiança dos meus donos estavam melhor nas minhas mãos do que no rio Danúbio. Eles tinham, repare, levado a caixa para o convés, pronta a ser atirada, e como estava marcada Galatz via Varna, pensei em deixá-la estar até descarregarmos no porto e livrar-me dela de vez. Não fizemos muita descarga nesse dia, e tivemos de permanecer a noite ancorados; mas de manhã, bem cedo, uma hora antes do nascer do sol, um homem veio a bordo com uma ordem, escrita para ele a partir de Inglaterra, para receber uma caixa marcada para um tal Conde Drácula. Com certeza, o assunto estava pronto para ele. Tinha os papéis todos em ordem, e fiquei contente por me ver livre da maldita coisa, pois eu próprio estava a começar a sentir-me inquieto com ela. Se o Diabo tinha alguma bagagem a bordo do navio, penso que não era outra senão essa mesma!”
“Qual era o nome do homem que a levou?” perguntou o Dr. Van Helsing, com uma impaciência contida.
“Vou dizer-lhe depressa!” respondeu ele e, descendo ao seu camarote, apresentou um recibo assinado por “Immanuel Hildesheim.” O endereço era Burgen-strasse 16. Descobrimos que era tudo o que o capitão sabia; por isso, com agradecimentos, partimos.
Encontrámos Hildesheim no seu escritório, um hebreu do tipo Adelphi, com um nariz como o de uma ovelha e um fez. Os seus argumentos eram pontuados com dinheiro — nós fazíamos a pontuação — e com um pouco de regateio ele disse-nos o que sabia. Isto revelou-se simples, mas importante. Recebera uma carta do Sr. de Ville de Londres, dizendo-lhe para receber, se possível antes do nascer do sol, de modo a evitar a alfândega, uma caixa que chegaria a Galatz no Czarina Catherine. Devia entregá-la a um certo Petrof Skinsky, que negociava com eslovacos que comercializavam rio abaixo até ao porto. Tinha sido pago pelo seu trabalho com uma nota bancária inglesa, que fora devidamente trocada por ouro no Banco Internacional do Danúbio. Quando Skinsky o procurou, ele levou-o ao navio e entregou a caixa, para poupar o custo de transporte. Era tudo o que sabia.
Procurámos então Skinsky, mas não conseguimos encontrá-lo. Um dos seus vizinhos, que não parecia ter-lhe qualquer afeição, disse que ele tinha partido dois dias antes, ninguém sabia para onde. Isto foi corroborado pelo seu senhorio, que tinha recebido por mensageiro a chave da casa, juntamente com a renda devida, em dinheiro inglês. Isto tinha sido entre as dez e as onze horas da noite passada. Estávamos novamente num impasse.
Enquanto falávamos, alguém veio a correr e, ofegante, soltou que o corpo de Skinsky tinha sido encontrado dentro da parede do cemitério de St. Peter, e que a garganta tinha sido aberta como se fosse por um animal selvagem. Aqueles com quem falávamos correram para ver o horror, com as mulheres a gritar: “Isto é obra de um eslovaco!” Fugimos rapidamente para não sermos de alguma forma envolvidos no caso e, assim, detidos.
Ao voltarmos para casa, não conseguimos chegar a nenhuma conclusão definitiva. Estávamos todos convencidos de que a caixa estava a caminho, por água, para algum lugar; mas onde poderia ser, teríamos de descobrir. Com o coração pesado, voltámos para o hotel, para junto de Mina.
Quando nos reunimos, a primeira coisa foi consultar se devíamos voltar a depositar a nossa confiança em Mina. As coisas estão a tornar-se desesperadas, e é pelo menos uma oportunidade, embora arriscada. Como medida preliminar, fui libertado da promessa que lhe fizera.
Diário de Mina Harker.
30 de outubro, à noite.--Eles estavam tão cansados, exaustos e desanimados que não havia nada a fazer até descansarem um pouco; por isso pedi-lhes a todos que se deitassem durante meia hora, enquanto eu passava tudo a limpo até ao momento. Sinto-me tão grata ao homem que inventou a máquina de escrever “Traveller”, e ao Sr. Morris por ter conseguido esta para mim. Sentir-me-ia completamente perdida a fazer o trabalho se tivesse de escrever com uma caneta...
Está tudo feito; pobre e querido Jonathan, o que ele deve ter sofrido, o que deve estar a sofrer agora. Ele jaz no sofá parecendo mal respirar, e todo o seu corpo parece em colapso. As suas sobrancelhas estão franzidas; o seu rosto está contraído de dor. Pobre rapaz, talvez esteja a pensar, e consigo ver o seu rosto todo enrugado com a concentração dos seus pensamentos. Oh! se eu pudesse ajudar em alguma coisa... Farei o que puder...
Pedi ao Dr. Van Helsing, e ele arranjou-me todos os papéis que ainda não tinha visto... Enquanto descansam, vou rever tudo cuidadosamente, e talvez consiga chegar a alguma conclusão. Tentarei seguir o exemplo do Professor e pensar sem preconceitos sobre os factos que tenho diante de mim...
Creio realmente que, sob a Providência de Deus, fiz uma descoberta. Vou buscar os mapas e examiná-los...
Estou mais do que nunca certa de que tenho razão. A minha nova conclusão está pronta, por isso vou reunir o nosso grupo e lê-la. Eles podem julgá-la; é bom ser preciso, e cada minuto é precioso.
Memorando de Mina Harker.
(Inserido no seu diário.)
Fundamento da investigação.--O problema do Conde Drácula é regressar ao seu próprio lugar.
(a) Ele tem de ser trazido de volta por alguém. Isto é evidente; pois, se ele tivesse poder para se mover como desejasse, poderia ir como homem, ou lobo, ou morcego, ou de outra forma qualquer. Ele receia evidentemente a descoberta ou a interferência, no estado de impotência em que deve estar – confinado como está, entre o amanhecer e o pôr do sol, na sua caixa de madeira.
(b) Como deve ser levado?--Aqui, um processo de exclusão pode ajudar-nos. Por estrada, por caminho de ferro, por água?
1. Por Estrada.--Existem dificuldades infinitas, especialmente ao sair de uma cidade.
(x) Há pessoas; e as pessoas são curiosas e investigam. Uma pista, uma suposição, uma dúvida sobre o que poderia estar na caixa, destruí-lo-ia.
(y) Há, ou pode haver, funcionários alfandegários e de impostos de entrada (octroi) a passar.
(z) Os seus perseguidores poderiam segui-lo. Este é o seu maior medo; e, para evitar ser traído, repeliu, tanto quanto pôde, até a sua vítima – eu!
2. Por Caminho de Ferro.--Não há ninguém a tomar conta da caixa. Teria de arriscar ser atrasada; e o atraso seria fatal, com inimigos no encalço. É verdade que ele poderia escapar à noite; mas onde estaria, se fosse deixado num lugar estranho sem refúgio para onde pudesse fugir? Não é isto que ele pretende; e não tenciona arriscá-lo.
3. Por Água.--Aqui está a forma mais segura, num aspeto, mas com maior perigo noutro. Na água, ele é impotente, exceto à noite; mesmo assim, só pode invocar nevoeiro, tempestade, neve e os seus lobos. Mas se naufragasse, a água viva engoli-lo-ia, indefeso; e estaria verdadeiramente perdido. Ele poderia fazer com que o navio se dirigisse para terra; mas se fosse terra hostil, onde não estivesse livre para se mover, a sua posição continuaria a ser desesperada.
Sabemos pelo registo que ele estava na água; portanto, o que temos de fazer é verificar que água.
A primeira coisa é compreender exatamente o que ele fez até agora; poderemos, então, obter luz sobre qual será a sua tarefa posterior.
Primeiro.--Temos de diferenciar entre o que ele fez em Londres como parte do seu plano geral de ação, quando estava pressionado pelo tempo e teve de se organizar como pôde.
Segundo, temos de ver, tão bem quanto possamos supor a partir dos factos que conhecemos, o que ele fez aqui.
Quanto ao primeiro, ele tencionava evidentemente chegar a Galatz, e enviou uma fatura para Varna para nos enganar, caso descobríssemos o seu meio de saída de Inglaterra; o seu objetivo imediato e único era então escapar. A prova disso é a carta de instruções enviada a Immanuel Hildesheim para desalfandegar e levar a caixa antes do nascer do sol. Há também a instrução a Petrof Skinsky. Sobre esta, só podemos adivinhar; mas deve ter havido alguma carta ou mensagem, uma vez que Skinsky procurou Hildesheim.
Que, até agora, os seus planos foram bem-sucedidos, nós sabemos. O Czarina Catherine fez uma viagem fenomenalmente rápida – tanto que as suspeitas do Capitão Donelson foram despertadas; mas a sua superstição, aliada à sua astúcia, jogou o jogo do Conde a seu favor, e ele navegou com o seu vento favorável através de nevoeiros e tudo, até chegar de olhos vendados a Galatz. Que os preparativos do Conde foram bem feitos, está provado. Hildesheim desalfandegou a caixa, levou-a e deu-a a Skinsky. Skinsky levou-a – e aqui perdemos o rasto. Apenas sabemos que a caixa está algures na água, em movimento. A alfândega e o octroi, se existirem, foram evitados.
Agora chegamos ao que o Conde deve ter feito após a sua chegada – *em terra*, em Galatz.
A caixa foi entregue a Skinsky antes do nascer do sol. Ao nascer do sol, o Conde poderia aparecer na sua própria forma. Aqui, perguntamo-nos por que razão Skinsky foi escolhido para ajudar no trabalho? No diário do meu marido, Skinsky é mencionado como negociando com os eslovacos que comercializam rio abaixo até ao porto; e a observação do homem, de que o assassínio foi obra de um eslovaco, mostrou o sentimento geral contra a sua classe. O Conde queria isolamento.
A minha suposição é esta: que em Londres o Conde decidiu regressar ao seu Castelo por água, como a via mais segura e secreta. Foi trazido do Castelo pelos Szgany, e provavelmente entregaram a sua carga a eslovacos que levaram as caixas para Varna, pois de lá foram enviadas para Londres. Assim, o Conde tinha conhecimento das pessoas que podiam organizar este serviço. Quando a caixa estava em terra, antes do nascer do sol ou após o pôr do sol, ele saía da sua caixa, encontrava Skinsky e dava-lhe instruções sobre o que fazer no que diz respeito à organização do transporte da caixa por algum rio. Quando isto foi feito, e ele soube que tudo estava em marcha, apagou os seus vestígios, como pensava, assassinando o seu agente.
Examinei o mapa e verifiquei que o rio mais adequado para os eslovacos terem subido é o Pruth ou o Sereth. Li no texto dactilografado que, em transe, ouvi vacas a mugir, água a rodopiar ao nível das minhas orelhas e o ranger de madeira. O Conde, na sua caixa, estava então num rio, num barco aberto – provavelmente movido a remos ou varas, pois as margens estão próximas e está a ir contra a corrente. Não haveria tal som se estivesse a flutuar a favor da corrente.
Claro que pode não ser nem o Sereth nem o Pruth, mas poderemos possivelmente investigar mais. Agora, destes dois, o Pruth é o mais facilmente navegável, mas o Sereth é, em Fundu, unido pelo Bistritza, que sobe à volta do Passo de Borgo. O circuito que faz é manifestamente o mais próximo possível do Castelo de Drácula a que se pode chegar por água.
Diário de Mina Harker--continuação.
Quando acabei de ler, Jonathan tomou-me nos braços e beijou-me. Os outros continuaram a apertar-me ambas as mãos, e o Dr. Van Helsing disse:--
“A nossa querida Madame Mina é, mais uma vez, a nossa professora. Os seus olhos viram onde nós estávamos cegos. Agora estamos de novo no rasto, e desta vez poderemos ter êxito. O nosso inimigo está na sua maior impotência; e se pudermos surpreendê-lo de dia, sobre a água, a nossa tarefa estará terminada. Ele tem vantagem, mas é incapaz de se apressar, pois não pode deixar a sua caixa, sob pena de aqueles que o transportam poderem suspeitar; para eles, suspeitar seria levá-los a atirá-lo ao rio, onde ele pereceria. Ele sabe disto e não o fará. Agora, homens, ao nosso Conselho de Guerra; pois, aqui e agora, devemos planear o que cada um e todos deverão fazer.”
“Obterei uma lancha a vapor e segui-lo-ei”, disse Lord Godalming.
“E eu, cavalos para seguir pela margem, caso por acaso ele desembarque”, disse o Sr. Morris.
“Bom!”, disse o Professor, “ambos bons. Mas nenhum deve ir sozinho. Deve haver força para superar a força, se necessário; o eslovaco é forte e rude, e transporta armas grosseiras.” Todos os homens sorriram, pois, entre eles, levavam um pequeno arsenal. Disse o Sr. Morris:--
“Trouxe alguns Winchesters; são bastante úteis numa multidão, e pode haver lobos. O Conde, se se lembram, tomou outras precauções; fez algumas requisições a outros que a Sra. Harker não pôde bem ouvir ou compreender. Temos de estar prontos em todos os pontos.” O Dr. Seward disse:--
“Penso que será melhor eu ir com Quincey. Temos o hábito de caçar juntos, e nós os dois, bem armados, seremos um adversário à altura para o que quer que possa aparecer. Não deves ficar sozinho, Art. Pode ser necessário lutar contra os eslovacos, e um golpe fortuito — pois não suponho que estes tipos carreguem armas de fogo — arruinaria todos os nossos planos. Não pode haver riscos, desta vez; não descansaremos enquanto a cabeça e o corpo do Conde não tiverem sido separados, e tivermos a certeza de que ele não pode reencarnar.” Ele olhou para Jonathan enquanto falava, e Jonathan olhou para mim. Pude ver que o pobre querido estava dilacerado na sua mente. É claro que ele queria estar comigo; mas, então, o serviço de barco seria, muito provavelmente, o que destruiria o... o... o... Vampiro. (Por que hesitei em escrever a palavra?) Ele esteve silencioso durante algum tempo, e, durante o seu silêncio, o Dr. Van Helsing falou:--
“Amigo Jonathan, isto é para ti por duas razões. Primeiro, porque és jovem e corajoso e podes lutar, e todas as energias podem ser necessárias no final; e ainda porque é o teu direito destruir aquele... que causou tanta desgraça a ti e aos teus. Não temas pela Madame Mina; ela será o meu cuidado, se puder. Sou velho. As minhas pernas não são tão rápidas a correr como outrora; e não estou habituado a cavalgar durante tanto tempo ou a perseguir conforme necessário, ou a lutar com armas letais. Mas posso ser de outra utilidade; posso lutar de outra forma. E posso morrer, se necessário, tão bem como os homens mais jovens. Agora, deixem-me dizer que o que eu quero é isto: enquanto tu, meu Lord Godalming, e o amigo Jonathan vão no vosso tão veloz pequeno barco a vapor rio acima, e enquanto John e Quincey guardam a margem onde porventura ele possa ser desembarcado, eu levarei a Madame Mina diretamente ao coração do país do inimigo. Enquanto a velha raposa estiver presa na sua caixa, flutuando na correnteza donde não pode escapar para terra — onde não se atreve a levantar a tampa da sua caixa-caixão, sob pena de os seus carregadores eslovacos, por medo, o deixarem perecer — nós seguiremos pelo trilho onde Jonathan foi — de Bistritz sobre o Borgo — e encontraremos o nosso caminho para o Castelo de Drácula. Aqui, o poder hipnótico da Madame Mina certamente ajudará, e encontraremos o nosso caminho — tudo escuro e desconhecido, de outra forma — após o primeiro nascer do sol, quando nos aproximarmos daquele lugar fatídico. Há muito a ser feito, e outros lugares a serem santificados, para que aquele ninho de víboras seja obliterado.” Aqui, Jonathan interrompeu-o calorosamente:--
“Quer dizer, Professor Van Helsing, que traria a Mina, no seu triste estado e contaminada como está com a doença daquele demónio, diretamente para as mandíbulas da sua armadilha mortal? Nem por todo o mundo! Nem pelo Céu ou pelo Inferno!” Ele ficou quase sem fala por um minuto, e depois continuou:--
“Sabe o que é aquele lugar? Já viu aquele covil horrível de infâmia infernal — com o próprio luar vivo com formas medonhas, e cada partícula de pó que gira ao vento um monstro devorador em embrião? Já sentiu os lábios do Vampiro na sua garganta?” Aqui ele virou-se para mim, e, quando os seus olhos pousaram na minha testa, ele ergueu os braços com um grito: “Oh, meu Deus, o que fizemos para ter este terror sobre nós?” e ele afundou-se no sofá num colapso de miséria. A voz do Professor, enquanto falava em tons claros e doces, que pareciam vibrar no ar, acalmou-nos a todos:--
“Oh, meu amigo, é porque quero salvar a Madame Mina daquele lugar horrível que lá irei. Deus me livre de a levar para aquele lugar. Há trabalho — trabalho selvagem — a ser feito lá, que os seus olhos não devem ver. Nós, homens aqui, todos exceto Jonathan, vimos com os nossos próprios olhos o que tem de ser feito antes que aquele lugar possa ser purificado. Lembrem-se de que estamos em apuros terríveis. Se o Conde nos escapar desta vez — e ele é forte, subtil e astuto — ele pode escolher dormir durante um século; e então, a seu tempo, a nossa querida” — ele pegou na minha mão — “viria ter com ele para lhe fazer companhia, e seria como aquelas outras que tu, Jonathan, viste. Tu contaste-nos dos seus lábios ávidos; ouviste o seu riso obsceno enquanto agarravam o saco em movimento que o Conde lhes atirou. Tu estremeces; e com razão. Perdoa-me por te causar tanta dor, mas é necessário. Meu amigo, não é uma necessidade terrível aquela para a qual estou a dar, se necessário, a minha vida? Se fosse alguém que tivesse de ir para aquele lugar para ficar, seria eu quem teria de ir, para lhes fazer companhia.”
“Faça como quiser”, disse Jonathan, com um soluço que o abalou todo, “Estamos nas mãos de Deus!”
Mais tarde.--Oh, fez-me bem ver a forma como estes homens corajosos trabalharam. Como podem as mulheres não amar os homens quando eles são tão sinceros, e tão verdadeiros, e tão corajosos! E, também, fez-me pensar no poder maravilhoso do dinheiro! O que não pode ele fazer quando é devidamente aplicado; e o que poderia ele fazer quando vilmente usado! Senti-me tão grata por Lord Godalming ser rico, e por ambos, ele e o Sr. Morris, que também tem muito dinheiro, estarem dispostos a gastá-lo tão livremente. Pois se não o fizessem, a nossa pequena expedição não poderia partir, nem tão prontamente nem tão bem equipada, como o fará dentro de mais uma hora. Não passaram três horas desde que foi combinado que parte cada um de nós deveria fazer; agora Lord Godalming e Jonathan têm uma adorável lancha a vapor, com o vapor pronto a partir a qualquer momento. O Dr. Seward e o Sr. Morris têm meia dúzia de cavalos belíssimos, bem equipados. Temos todos os mapas e aparelhos de vários tipos que podem ser obtidos. O Professor Van Helsing e eu devemos partir no comboio das 11.40 de hoje à noite para Veresti, onde vamos arranjar uma carruagem para ir até ao Passo de Borgo. Estamos a levar uma boa quantia de dinheiro vivo, pois temos de comprar uma carruagem e cavalos. Nós mesmos conduziremos, pois não temos ninguém em quem possamos confiar neste assunto. O Professor conhece um pouco de muitas línguas, por isso safar-nos-emos bem. Temos todos armas, até para mim um revólver de grande calibre; Jonathan não ficaria feliz a menos que eu estivesse armada como os outros. Ai de mim! Não posso carregar uma arma como os outros; a cicatriz na minha testa proíbe isso. O querido Dr. Van Helsing conforta-me dizendo que estou totalmente armada, pois pode haver lobos; o tempo está a ficar mais frio a cada hora, e há rajadas de neve que vêm e vão como avisos.
Mais tarde.--Foi preciso toda a minha coragem para dizer adeus ao meu querido. Podemos nunca mais nos encontrar. Coragem, Mina! O Professor está a olhar para ti atentamente; o seu olhar é um aviso. Não deve haver lágrimas agora — a menos que talvez Deus as deixe cair em alegria.
Diário de Jonathan Harker.
30 de outubro. Noite.--Estou a escrever isto à luz da porta da fornalha da lancha a vapor; Lord Godalming está a alimentar o fogo. Ele é um experiente no trabalho, pois teve durante anos uma lancha sua no Tamisa, e outra nos Norfolk Broads. Relativamente aos nossos planos, decidimos finalmente que o palpite da Mina estava correto, e que, se algum curso de água fosse escolhido para a fuga do Conde de volta ao seu Castelo, o Sereth, e depois o Bistritza na sua junção, seria o escolhido. Assumimos que algures perto do 47.º grau, latitude norte, seria o local escolhido para atravessar o país entre o rio e os Cárpatos. Não temos medo de navegar a boa velocidade rio acima à noite; há água suficiente, e as margens são suficientemente largas para tornar a navegação a vapor, mesmo no escuro, bastante fácil. Lord Godalming diz-me para dormir um pouco, pois é suficiente por agora que um esteja de vigia. Mas não consigo dormir — como posso, com o perigo terrível a pairar sobre a minha querida, e ela a ir para aquele lugar horrível... O meu único conforto é que estamos nas mãos de Deus. Só por essa fé seria mais fácil morrer do que viver, e assim livrar-me de todo o problema. O Sr. Morris e o Dr. Seward partiram na sua longa cavalgada antes de nós; eles devem manter-se pela margem direita, suficientemente longe para chegar a terras mais altas, onde possam ver uma boa extensão de rio e evitar o seguimento das suas curvas. Eles têm, para as primeiras etapas, dois homens para cavalgar e guiar os seus cavalos de reserva — quatro ao todo, para não suscitar curiosidade. Quando dispensarem os homens, o que será em breve, tratarão eles próprios dos cavalos. Pode ser necessário unirmos forças; se assim for, eles podem montar todo o nosso grupo. Uma das selas tem um chifre móvel, e pode ser facilmente adaptada para a Mina, se necessário.
É uma aventura selvagem em que estamos. Aqui, enquanto corremos pela escuridão, com o frio do rio a parecer subir e atingir-nos; com todas as vozes misteriosas da noite ao nosso redor, tudo se torna real. Parecemos estar à deriva para lugares desconhecidos e caminhos desconhecidos; para todo um mundo de coisas sombrias e terríveis. Godalming está a fechar a porta da fornalha....
31 de outubro.--Continuamos a apressar-nos. O dia chegou, e Godalming está a dormir. Estou de vigia. A manhã está terrivelmente fria; o calor da fornalha é agradável, embora tenhamos pesados casacos de pele. Até agora passámos apenas por alguns barcos abertos, mas nenhum deles tinha a bordo qualquer caixa ou embalagem de algo semelhante ao tamanho da que procuramos. Os homens ficavam assustados sempre que apontávamos a nossa lâmpada elétrica para eles, e caíam de joelhos e rezavam.
1 de novembro, tarde.--Nenhuma notícia todo o dia; não encontrámos nada do tipo que procuramos. Passámos agora para o Bistritza; e se estivermos errados na nossa suposição, a nossa oportunidade desapareceu. Revistámos todos os barcos, grandes e pequenos. Hoje de manhã cedo, uma tripulação tomou-nos por um barco do Governo, e tratou-nos de acordo. Vimos nisto uma forma de suavizar as coisas, por isso, em Fundu, onde o Bistritza corre para o Sereth, obtivemos uma bandeira romena que agora içamos de forma conspícua. Com todos os barcos que revistámos desde então, este truque teve sucesso; fomos tratados com toda a deferência, e nem uma vez houve qualquer objeção ao que quer que escolhêssemos perguntar ou fazer. Alguns dos eslovacos dizem-nos que um barco grande passou por eles, a uma velocidade superior à habitual, pois tinha uma tripulação dupla a bordo. Isto foi antes de chegarem a Fundu, por isso não nos souberam dizer se o barco virou para o Bistritza ou continuou rio acima pelo Sereth. Em Fundu, não conseguimos saber de nenhum barco desse tipo, por isso deve ter passado por lá durante a noite. Sinto-me muito sonolento; o frio talvez esteja a começar a afetar-me, e a natureza precisa de descansar a dada altura. Godalming insiste que ele ficará com o primeiro turno de vigia. Deus o abençoe por toda a sua bondade para com a pobre querida Mina e eu.
2 de novembro, manhã.--Está a luz do dia. Aquele bom homem não me quis acordar. Ele diz que teria sido um pecado, pois eu dormi tão pacificamente e estava a esquecer o meu problema. Parece brutalmente egoísta da minha parte ter dormido tanto, e deixá-lo vigiar toda a noite; mas ele tinha toda a razão. Sou um novo homem esta manhã; e, enquanto me sento aqui e o observo a dormir, posso fazer tudo o que é necessário, tanto quanto cuidar do motor, navegar e manter a vigia. Posso sentir que a minha força e energia estão a voltar. Pergunto-me onde estará a Mina agora, e Van Helsing. Deviam ter chegado a Veresti por volta do meio-dia de quarta-feira. Levaria algum tempo a arranjar a carruagem e os cavalos; por isso, se tivessem partido e viajado arduamente, estariam agora perto do Passo de Borgo. Deus os guie e os ajude! Tenho medo de pensar no que pode acontecer. Se pudéssemos apenas ir mais depressa! Mas não podemos; os motores estão a latejar e a dar o seu máximo. Pergunto-me como estarão o Dr. Seward e o Sr. Morris. Parecem existir riachos infindáveis correndo das montanhas para este rio, mas como nenhum deles é muito grande — pelo menos por agora, embora sejam terríveis sem dúvida no inverno e quando a neve derrete — os cavaleiros podem não ter encontrado muitos obstáculos. Espero que antes de chegarmos a Strasba os possamos ver; pois se até essa altura não tivermos alcançado o Conde, pode ser necessário aconselharmo-nos sobre o que fazer a seguir.
Diário do Dr. Seward.
2 de novembro.--Três dias na estrada. Sem notícias, e sem tempo para as escrever se as houvesse, pois cada momento é precioso. Tivemos apenas o descanso necessário para os cavalos; mas ambos estamos a aguentar maravilhosamente. Aqueles nossos dias de aventura estão a revelar-se úteis. Temos de seguir em frente; nunca nos sentiremos felizes até voltarmos a avistar a lancha.
3 de novembro.--Ouvimos em Fundu que a lancha tinha subido o Bistritza. Gostaria que não estivesse tão frio. Há sinais de que a neve vem a caminho; e se cair pesadamente, deter-nos-á. Nesse caso, teremos de arranjar um trenó e seguir em frente, à moda russa.
4 de novembro.--Hoje ouvimos que a lancha tinha sido detida por um acidente ao tentar forçar a passagem pela correnteza. Os barcos eslovacos sobem bem, com a ajuda de uma corda e navegando com conhecimento. Alguns subiram apenas algumas horas antes. Godalming é ele próprio um mecânico amador, e evidentemente foi ele quem pôs a lancha em condições novamente. Finalmente, subiram a correnteza bem, com ajuda local, e partiram de novo na perseguição. Receio que o barco não tenha ficado melhor com o acidente; os camponeses dizem-nos que, depois de ter chegado à água calma novamente, continuou a parar de vez em quando enquanto esteve à vista. Temos de seguir em frente com mais força do que nunca; a nossa ajuda pode ser necessária em breve.
Diário de Mina Harker.
31 de outubro.--Cheguei a Veresti ao meio-dia. O Professor diz-me que esta manhã, ao amanhecer, dificilmente me conseguiu hipnotizar, e que tudo o que eu conseguia dizer era: “Escuro e silencioso.” Ele saiu agora para comprar uma carruagem e cavalos. Diz que tentará mais tarde comprar cavalos adicionais, para que possamos trocá-los pelo caminho. Temos um pouco mais de 70 milhas pela frente. O campo é adorável, e muito interessante; se apenas estivesse sob condições diferentes, quão delicioso seria ver tudo isto. Se Jonathan e eu estivéssemos a conduzir por aqui sozinhos, que prazer seria. Parar e ver as pessoas, e aprender algo sobre a sua vida, e encher as nossas mentes e memórias com toda a cor e pitoresco de todo o país selvagem e belo, e das pessoas singulares! Mas, ai de mim!--
Mais tarde.--O Dr. Van Helsing regressou. Arranjou a carruagem e os cavalos; vamos jantar e partir dentro de uma hora. A dona da estalagem está a preparar-nos um enorme cesto de provisões; parece suficiente para uma companhia de soldados. O Professor encoraja-a, e sussurra-me que pode passar uma semana até que possamos obter comida boa novamente. Ele também andou às compras, e enviou para casa uma quantidade tão maravilhosa de casacos de pele e mantas, e todo o tipo de coisas quentes. Não haverá qualquer hipótese de sentirmos frio.
* * * * *
Partiremos em breve. Tenho medo de pensar no que nos pode acontecer. Estamos verdadeiramente nas mãos de Deus. Só Ele sabe o que pode ser, e peço-Lhe, com toda a força da minha alma triste e humilde, que vele pelo meu amado marido; que, o que quer que aconteça, Jonathan saiba que eu o amava e honrava mais do que posso dizer, e que o meu último e mais verdadeiro pensamento será sempre para ele.
CAPÍTULO XXVII.
/Diário de Mina Harker./
1 de novembro.--Viajámos durante todo o dia, e a boa velocidade. Os cavalos parecem saber que estão a ser tratados com bondade, pois fazem voluntariamente a sua etapa completa à melhor velocidade. Tivemos agora tantas trocas e constatamos a mesma coisa tão constantemente que nos sentimos encorajados a pensar que a viagem será fácil. O Dr. Van Helsing é lacónico; diz aos agricultores que se apressa para Bistritz, e paga-lhes bem para fazerem a troca de cavalos. Conseguimos sopa quente, ou café, ou chá; e partimos. É um país adorável; cheio de belezas de todos os tipos imagináveis, e as pessoas são corajosas, e fortes, e simples, e parecem cheias de boas qualidades. São muito, muito supersticiosas. Na primeira casa onde parámos, quando a mulher que nos serviu viu a cicatriz na minha testa, ela benzeu-se e apontou dois dedos para mim, para afastar o mau-olhado. Acredito que se deram ao trabalho de colocar uma quantidade extra de alho na nossa comida; e eu não suporto alho. Desde então, tive o cuidado de não tirar o chapéu ou o véu, e assim escapei às suas suspeitas. Estamos a viajar depressa, e como não temos nenhum condutor connosco para contar histórias, adiantamo-nos aos escândalos; mas atrevo-me a dizer que o medo do mau-olhado nos seguirá de perto por todo o caminho. O Professor parece incansável; todo o dia não quis descansar, embora me tenha feito dormir durante um longo período. Ao pôr do sol, ele hipnotizou-me, e diz que eu respondi como de costume “escuridão, água a bater e madeira a ranger”; por isso o nosso inimigo continua no rio. Tenho medo de pensar no Jonathan, mas, de alguma forma, não sinto agora qualquer medo por ele, ou por mim. Escrevo isto enquanto esperamos numa quinta que os cavalos fiquem prontos. O Dr. Van Helsing está a dormir. Pobre querido, parece muito cansado e velho e grisalho, mas a sua boca está definida tão firmemente como a de um conquistador; mesmo no seu sono ele está instintivamente cheio de resolução. Quando tivermos partido bem, devo fazê-lo descansar enquanto eu conduzo. Direi a ele que temos dias pela frente, e que ele não deve desmoronar-se quando a sua força for mais necessária.... Tudo está pronto; partiremos em breve.
2 de novembro, manhã. -- Tive sucesso, e revezamo-nos a conduzir durante toda a noite; agora o dia caiu sobre nós, brilhante embora frio. Há uma estranheza de peso no ar -- digo peso por falta de melhor palavra; refiro-me a que nos oprime a ambos. Está muito frio, e apenas as nossas peles quentes nos mantêm confortáveis. Ao amanhecer, Van Helsing hipnotizou-me; ele diz que respondi “escuridão, madeira a ranger e água a rugir”, pelo que o rio está a mudar à medida que ascendem. Espero verdadeiramente que a minha querida não corra qualquer risco de perigo -- mais do que o necessário; mas estamos nas mãos de Deus.
2 de novembro, noite. -- A conduzir durante todo o dia. O campo torna-se mais selvagem à medida que avançamos, e os grandes esporões dos Cárpatos, que em Veresti pareciam tão distantes de nós e tão baixos no horizonte, parecem agora reunir-se à nossa volta e elevar-se à nossa frente. Ambos parecemos estar de bom ânimo; creio que fazemos um esforço cada um para animar o outro; ao fazê-lo, animamo-nos a nós mesmos. O Dr. Van Helsing diz que pela manhã chegaremos à Passagem de Borgo. As casas são muito poucas aqui agora, e o Professor diz que os últimos cavalos que obtivemos terão de seguir connosco, pois poderemos não conseguir trocar. Ele conseguiu dois adicionais aos dois que trocámos, de modo que agora temos uma rústica parelha de quatro. Os queridos cavalos são pacientes e bons, e não nos dão problemas. Não somos incomodados por outros viajantes, e assim até eu posso conduzir. Chegaremos à Passagem à luz do dia; não queremos chegar antes. Por isso, levamo-lo com calma, e cada um descansa longamente por sua vez. Oh, o que nos trará o amanhã? Vamos procurar o lugar onde a minha pobre querida tanto sofreu. Deus conceda que sejamos guiados corretamente, e que Ele se digne velar pelo meu marido e por aqueles que nos são caros a ambos, e que estão em tão mortal perigo. Quanto a mim, não sou digna perante os Seus olhos. Ai de mim! Estou imunda aos Seus olhos, e estarei até que Ele se digne deixar-me apresentar perante Ele como uma daqueles que não incorreram na Sua ira.
Memorando de Abraham Van Helsing.
4 de novembro. -- Isto para o meu velho e verdadeiro amigo John Seward, M.D., de Purfleet, Londres, caso eu não o possa ver. Pode explicar. É manhã, e escrevo junto a um fogo que mantive aceso toda a noite -- com a ajuda da Madame Mina. Está frio, frio; tão frio que o céu cinzento e pesado está cheio de neve, que quando cair se instalará durante todo o inverno, pois o solo está a endurecer para a receber. Parece ter afetado a Madame Mina; ela esteve tão pesada de cabeça durante todo o dia que não parecia ela própria. Ela dorme, e dorme, e dorme! Ela, que é habitualmente tão alerta, não fez literalmente nada durante todo o dia; ela até perdeu o apetite. Ela não faz qualquer entrada no seu pequeno diário, ela que escreve tão fielmente em cada pausa. Algo me sussurra que nem tudo está bem. No entanto, esta noite ela está mais vif. O seu longo sono durante todo o dia refrescou-a e restaurou-a, pois agora ela está doce e brilhante como sempre. Ao pôr do sol, tento hipnotizá-la, mas ai de mim! sem efeito; o poder cresceu cada vez menos com cada dia, e esta noite falha-me por completo. Bem, seja feita a vontade de Deus -- seja qual for, e para onde quer que conduza!
Agora, para o histórico, pois como a Madame Mina não escreve na sua estenografia, devo fazê-lo, à minha forma antiga e trabalhosa, para que cada dia nosso não fique sem registo.
Chegámos à Passagem de Borgo logo após o nascer do sol de ontem de manhã. Quando vi os sinais do amanhecer, preparei-me para a hipnose. Parámos a nossa carruagem e descemos para que não houvesse perturbação. Fiz um leito com peles, e a Madame Mina, deitando-se, cedeu como de costume, mas mais lenta e por menos tempo do que nunca, ao sono hipnótico. Como antes, veio a resposta: “escuridão e o remoinho da água”. Depois, ela acordou, brilhante e radiante, e seguimos o nosso caminho e rapidamente chegámos à Passagem. Nesta altura e local, ela tornou-se toda fogo com zelo; algum novo poder de orientação manifestou-se nela, pois ela apontou para uma estrada e disse:--
“Este é o caminho.”
“Como sabes?”, perguntei.
“É claro que o sei”, respondeu ela, e com uma pausa, acrescentou: “Não o percorreu o meu Jonathan e escreveu sobre a sua viagem?”
A princípio achei um pouco estranho, mas logo vi que só existe uma estrada secundária desse tipo. É pouco utilizada, e muito diferente da estrada de diligências de Bukovina para Bistritz, que é mais larga e dura, e de maior uso.
Assim, descemos por esta estrada; quando encontrávamos outros caminhos -- nem sempre tínhamos a certeza de que fossem estradas, pois estavam negligenciados e tinha caído neve leve -- os cavalos sabiam, e apenas eles. Dei-lhes as rédeas, e eles seguiram tão pacientes. A pouco e pouco encontrámos todas as coisas que Jonathan tinha notado naquele seu maravilhoso diário. Depois, continuámos por longas, longas horas e horas. A princípio, disse à Madame Mina para dormir; ela tentou, e conseguiu. Ela dormiu todo o tempo; até que, por fim, senti-me suspeitoso e tentei acordá-la. Mas ela continuou a dormir, e eu não a pude acordar apesar de tentar. Não desejo tentar demasiado para não a magoar; pois sei que ela sofreu muito, e o sono, por vezes, é tudo para ela. Acho que adormeci eu mesmo, pois de repente senti-me culpado, como se tivesse feito algo; encontrei-me de sobressalto, com as rédeas na mão, e os bons cavalos a trotar, trotar, exatamente como sempre. Olhei para baixo e encontrei a Madame Mina ainda a dormir. Já não falta muito para o pôr do sol, e sobre a neve a luz do sol flui num grande fluxo amarelo, de modo que projetamos grandes sombras longas onde a montanha se eleva tão íngreme. Pois estamos a subir, e a subir; e tudo é oh! tão selvagem e rochoso, como se fosse o fim do mundo.
Então, despertei a Madame Mina. Desta vez ela acordou sem grande dificuldade, e então tentei colocá-la em sono hipnótico. Mas ela não dormiu, como se eu não estivesse lá. Ainda assim, tentei e tentei, até que de repente encontrei-a a ela e a mim na escuridão; então olhei à volta, e descobri que o sol se tinha posto. A Madame Mina riu-se, e eu virei-me e olhei para ela. Ela está agora completamente acordada, e parece tão bem como nunca a vi desde aquela noite em Carfax, quando entrámos pela primeira vez na casa do Conde. Fiquei espantado, e não tranquilo então; mas ela está tão brilhante e terna e atenciosa comigo que esqueço todo o medo. Acendi um fogo, pois trouxemos provisões de madeira connosco, e ela prepara a comida enquanto eu desaperto os cavalos e os coloco, presos em abrigo, para comer. Então, quando regresso ao fogo, ela tem o meu jantar pronto. Vou ajudá-la; mas ela sorri, e diz-me que já comeu -- que estava tão faminta que não quis esperar. Não gosto disto, e tenho graves dúvidas; mas temo assustá-la, e por isso calo-me sobre o assunto. Ela ajuda-me e eu como sozinho; e depois embrulhamo-nos em peles e deitamo-nos junto ao fogo, e eu digo-lhe para dormir enquanto eu vigio. Mas, pouco depois, esqueço-me de toda a vigília; e quando me lembro de repente de que vigio, encontro-a deitada, quieta, mas acordada, e a olhar para mim com olhos tão brilhantes. Uma, duas vezes mais ocorreu o mesmo, e consegui dormir bastante até antes da manhã. Quando acordo, tento hipnotizá-la; mas ai de mim! embora ela feche os olhos obedientemente, não consegue dormir. O sol nasce, e sobe, e sobe; e então o sono vem-lhe demasiado tarde, mas tão pesado que ela não acordará. Tenho de a levantar e colocá-la a dormir na carruagem depois de ter atrelado os cavalos e ter tudo pronto. A Madame continua a dormir, e a dormir; e ela parece no seu sono mais saudável e mais corada do que antes. E não gosto disto. E tenho medo, medo, medo! -- Tenho medo de todas as coisas -- até de pensar; mas devo seguir o meu caminho. A aposta que fazemos é de vida ou morte, ou mais do que isso, e não devemos recuar.
5 de novembro, manhã. -- Deixe-me ser preciso em tudo, pois embora você e eu tenhamos visto algumas coisas estranhas juntos, você pode, a princípio, pensar que eu, Van Helsing, estou louco -- que os muitos horrores e a tão longa tensão nos nervos finalmente transtornaram o meu cérebro.
Todo o dia de ontem viajámos, aproximando-nos cada vez mais das montanhas, e movendo-nos para uma terra cada vez mais selvagem e deserta. Há grandes precipícios ameaçadores e muita água a cair, e a Natureza parecia ter realizado algures o seu carnaval. A Madame Mina continua a dormir e a dormir; e embora eu tivesse fome e a tivesse saciado, não a pude acordar -- nem mesmo para comer. Comecei a recear que o feitiço fatal do lugar estivesse sobre ela, contaminada como está por aquele batismo Vampírico. “Bem”, disse para comigo, “se é que ela dorme todo o dia, será também que eu não durmo à noite.” À medida que viajávamos pela estrada acidentada, pois havia uma estrada de tipo antigo e imperfeito, baixei a cabeça e dormi. Acordei novamente com um sentido de culpa e de tempo passado, e encontrei a Madame Mina ainda a dormir, e o sol baixo. Mas tudo estava de facto mudado; as montanhas ameaçadoras pareciam mais distantes, e estávamos perto do topo de uma colina de subida íngreme, no cume da qual havia tal castelo como Jonathan conta no seu diário. De imediato exultei e temi; pois agora, para o bem ou para o mal, o fim estava próximo. Acordei a Madame Mina, e tentei novamente hipnotizá-la; mas ai de mim! sem sucesso até ser demasiado tarde. Então, antes que a grande escuridão caísse sobre nós -- pois mesmo após o pôr do sol os céus refletiam o sol ido na neve, e tudo estava por um tempo num grande crepúsculo -- tirei os cavalos e alimentei-os no abrigo que pude. Depois, fiz um fogo; e perto dele fiz a Madame Mina, agora acordada e mais encantadora do que nunca, sentar-se confortavelmente entre as suas mantas. Preparei comida: mas ela não quis comer, dizendo simplesmente que não tinha fome. Não a pressionei, sabendo da sua indisponibilidade. Mas eu próprio comi, pois preciso agora de estar forte para tudo. Então, com o medo sobre mim do que poderia vir, desenhei um círculo tão grande para o seu conforto, em volta de onde a Madame Mina estava sentada; e sobre o círculo passei um pouco da hóstia, e parti-a finamente de modo a que tudo ficasse bem guardado. Ela sentou-se quieta todo o tempo -- tão quieta como alguém morto; e ela tornou-se mais branca e cada vez mais branca até que a neve não era mais pálida; e nem uma palavra ela disse. Mas quando me aproximei, ela agarrou-se a mim, e pude saber que a pobre alma tremia da cabeça aos pés com um tremor que era doloroso sentir. Disse-lhe pouco depois, quando ela se acalmou:--
“Não virá até ao fogo?”, pois desejava fazer um teste do que ela podia. Ela levantou-se obedientemente, mas quando deu um passo, parou e ficou como alguém fulminado.
“Porque não continua?”, perguntei. Ela abanou a cabeça e, voltando, sentou-se no seu lugar. Então, olhando para mim com olhos abertos, como alguém acordado de um sono, disse simplesmente:--
“Eu não posso!” e permaneceu em silêncio. Regozijei-me, pois sabia que o que ela não podia, nenhum daqueles que temíamos podia. Embora pudesse haver perigo para o seu corpo, a sua alma estava a salvo!
Pouco depois, os cavalos começaram a relinchar e a puxar pelas rédeas até que fui até eles e os acalmei. Quando sentiram as minhas mãos neles, relincharam baixo como se fosse de alegria, lamberam as minhas mãos e ficaram quietos por um tempo. Muitas vezes durante a noite fui até eles, até que chegou a hora fria em que toda a natureza está no seu ponto mais baixo; e todas as vezes a minha vinda era com a calma deles. Na hora fria, o fogo começou a morrer, e eu estava prestes a sair para o reabastecer, pois agora a neve vinha em rajadas voadoras e com ela uma névoa fria. Mesmo na escuridão havia uma luz de algum tipo, como sempre há sobre a neve; e parecia que as rajadas de neve e as grinaldas de névoa tomavam forma de mulheres com vestes arrastadas. Tudo estava num silêncio morto e sombrio, apenas que os cavalos relinchavam e se encolhiam, como se em terror do pior. Comecei a temer -- medos horríveis; mas depois veio-me o sentido de segurança naquele círculo onde eu estava. Comecei, também, a pensar que as minhas imaginações eram da noite, e da penumbra, e da inquietação pela qual passei, e toda a ansiedade terrível. Era como se as minhas memórias de toda a horrível experiência de Jonathan me estivessem a enganar; pois os flocos de neve e a névoa começavam a girar e a circular, até que pude obter como que um vislumbre sombrio daquelas mulheres que o teriam beijado. E então os cavalos encolheram-se cada vez mais, e gemiam de terror como fazem os homens com dor. Nem sequer a loucura do susto estava neles, para que pudessem fugir. Temi pela minha querida Madame Mina quando estas figuras estranhas se aproximaram e circularam. Olhei para ela, mas ela estava calma e sorria para mim; quando quis ir até ao fogo para o reabastecer, ela agarrou-me e segurou-me, e sussurrou, como uma voz que se ouve num sonho, tão baixa que era:--
“Não! Não! Não vá para fora. Aqui está a salvo!” Virei-me para ela, e olhando nos seus olhos, disse:--
“Mas e você? É por você que temo!”, ao que ela riu -- um riso baixo e irreal, e disse:--
“Temer por mim! Por que temer por mim? Ninguém mais seguro em todo o mundo deles do que eu”, e enquanto eu me maravilhava com o significado das suas palavras, um sopro de vento fez a chama saltar, e vi a cicatriz vermelha na sua testa. Então, ai de mim! eu soube. Se não soubesse, tê-lo-ia aprendido em breve, pois as figuras giratórias de névoa e neve aproximaram-se, mas mantendo-se sempre fora do círculo Sagrado. Depois começaram a materializar-se, até que -- se Deus não me tirou a razão, pois vi-o através dos meus olhos -- estavam diante de mim em carne viva as mesmas três mulheres que Jonathan viu no quarto, quando teriam beijado a sua garganta. Eu conhecia as formas oscilantes, os olhos brilhantes e duros, os dentes brancos, a cor avermelhada, os lábios voluptuosos. Sorriam sempre para a pobre querida Madame Mina; e quando o seu riso veio através do silêncio da noite, enlaçaram os braços e apontaram para ela, e disseram naqueles tons tão doces e vibrantes que Jonathan disse serem da doçura intolerável dos copos de água:--
“Venha, irmã. Venha até nós. Venha! Venha!” Com medo, voltei-me para a minha pobre Madame Mina, e o meu coração saltou de alegria como chama; pois oh! o terror nos seus olhos doces, a repulsa, o horror, contavam uma história ao meu coração que era toda de esperança. Graças a Deus, ela não era, ainda, uma delas. Agarrei um pouco da lenha que estava perto de mim, e segurando um pouco da Hóstia, avancei sobre elas em direção ao fogo. Elas recuaram perante mim, e riram o seu riso baixo e horrível. Alimentei o fogo, e não as temi; pois sabia que estávamos a salvo dentro das nossas proteções. Elas não podiam aproximar-se de mim, enquanto estivesse assim armado, nem da Madame Mina enquanto ela permanecesse dentro do círculo, que ela não podia deixar mais do que elas podiam entrar. Os cavalos tinham parado de gemer, e jaziam imóveis no chão; a neve caía sobre eles suavemente, e eles tornavam-se mais brancos. Eu sabia que não havia mais terror para os pobres animais.
E assim permanecemos até que o vermelho do amanhecer começou a cair através da penumbra da neve. Eu estava desolado e com medo, e cheio de dor e terror; mas quando aquele belo sol começou a subir o horizonte, a vida foi-me devolvida. Ao primeiro sinal do amanhecer, as figuras horríveis derreteram-se na névoa e neve rodopiantes; as grinaldas de penumbra transparente afastaram-se em direção ao castelo, e perderam-se.
Instintivamente, com o amanhecer, virei-me para a Madame Mina, tencionando hipnotizá-la; mas ela jazia num sono profundo e repentino, do qual não a pude acordar. Tentei hipnotizar através do seu sono, mas ela não deu resposta, nenhuma; e o dia rompeu. Temo ainda mover-me. Fiz o meu fogo e vi os cavalos; estão todos mortos. Hoje tenho muito a fazer aqui, e continuo à espera até que o sol esteja bem alto; pois pode haver lugares onde devo ir, onde essa luz solar, embora a neve e a névoa a obscureçam, será para mim uma segurança.
Vou fortalecer-me com o pequeno-almoço, e depois irei para o meu trabalho terrível. A Madame Mina continua a dormir; e, graças a Deus! ela está calma no seu sono....
Diário de Jonathan Harker.
4 de novembro, noite. -- O acidente com a lancha foi uma coisa terrível para nós. Se não fosse por isso, teríamos alcançado o barco há muito tempo; e agora a minha querida Mina estaria livre. Receio pensar nela, afastada nas charnecas perto daquele lugar horrível. Conseguimos cavalos, e seguimos no rasto. Registo isto enquanto Godalming se prepara. Temos as nossas armas. Os Szgany que se cuidem se pretendem lutar. Oh, se ao menos Morris e Seward estivessem connosco. Devemos apenas ter esperança! Se eu não escrever mais, Adeus, Mina! Deus te abençoe e te guarde.
Diário do Dr. Seward.
5 de novembro. -- Com o amanhecer vimos o corpo de Szgany diante de nós a afastar-se do rio com o seu leiter-waggon. Rodeavam-no em grupo, e apressavam-se como se estivessem cercados. A neve cai levemente e há uma estranha excitação no ar. Pode ser o nosso próprio sentimento excitado, mas a depressão é estranha. Ao longe ouço o uivo dos lobos; a neve traz-nos das montanhas, e há perigos para todos nós, e de todos os lados. Os cavalos estão quase prontos, e partiremos em breve. Cavalgamos para a morte de alguém. Só Deus sabe quem, ou onde, ou o quê, ou quando, ou como poderá ser....
5 de novembro, tarde. — Estou, pelo menos, são. Graças a Deus por essa misericórdia, em todo o caso, embora prová-la tenha sido terrível. Quando deixei a Senhora Mina dormindo dentro do círculo sagrado, dirigi-me ao castelo. O martelo de ferreiro que tomei na carruagem em Veresti foi útil; embora as portas estivessem todas abertas, arranquei-as das dobradiças enferrujadas, para que alguma má intenção ou acaso funesto não as fechasse, de modo que, tendo entrado, eu não pudesse sair. A amarga experiência de Jonathan serviu-me aqui. Pela memória de seu diário, encontrei o caminho para a capela antiga, pois eu sabia que era aqui que jazia meu trabalho. O ar era opressivo; parecia haver algum vapor sulfuroso, que por vezes me deixava tonto. Ou havia um rugido em meus ouvidos, ou eu ouvia ao longe o uivo dos lobos. Então, lembrei-me de minha querida Senhora Mina, e fiquei em terrível situação. O dilema prendeu-me entre seus chifres. A ela, não ousei levar para este lugar, deixando-a a salvo do Vampiro naquele círculo sagrado; e, contudo, mesmo ali estaria o lobo! Resolvi que meu trabalho jazia aqui e que, quanto aos lobos, devíamos nos submeter, se fosse a vontade de Deus. De qualquer forma, era apenas a morte e a liberdade além dela. Assim escolhi por ela. Se fosse apenas por mim, a escolha teria sido fácil; a goela do lobo seria melhor para descansar do que a sepultura do Vampiro! Assim, tomo minha decisão de seguir com meu trabalho.
Eu sabia que havia pelo menos três sepulturas a encontrar — sepulturas que estão habitadas; então procuro, procuro, e encontro uma delas. Ela jazia em seu sono de Vampiro, tão cheia de vida e beleza voluptuosa que estremeci como se tivesse vindo para cometer um assassinato. Ah, não duvido que, nos velhos tempos, quando tais coisas existiam, muitos homens que partiram para cumprir uma tarefa como a minha descobriram, ao final, que seu coração falhava, e então seu nervo. Assim, ele adiava, e adiava, e adiava, até que a pura beleza e o fascínio da impura Morta-Viva o tivessem hipnotizado; e ele permanecia lá, por muito tempo, até o pôr do sol chegar, e o sono do Vampiro terminar. Então, os belos olhos da bela mulher se abrem e olham com amor, e a boca voluptuosa apresenta-se para um beijo — e o homem é fraco. E resta mais uma vítima no redil do Vampiro; mais uma para inchar as fileiras cruéis e horripilantes dos Mortos-Vivos!...
Há algum fascínio, certamente, quando sou movido pela mera presença de tal ser, mesmo deitada como ela estava em um túmulo gasto pela idade e pesado com a poeira dos séculos, embora houvesse aquele odor horrível que as covis do Conde tinham. Sim, eu estava comovido — eu, Van Helsing, com todo o meu propósito e com o meu motivo de ódio — eu estava comovido por um desejo de adiar que parecia paralisar minhas faculdades e entupir minha própria alma. Pode ter sido que a necessidade de sono natural e a estranha opressão do ar estivessem começando a me vencer. Certo era que eu estava caindo em sono, o sono de olhos abertos de alguém que cede a um doce fascínio, quando veio através do ar silencioso de neve um lamento longo e baixo, tão cheio de dor e piedade que me acordou como o som de uma clarinada. Pois era a voz de minha querida Senhora Mina que eu ouvia.
Então preparei-me novamente para minha horrível tarefa e encontrei, arrancando as tampas dos túmulos, uma outra das irmãs, a outra, a escura. Não ousei parar para olhar para ela como fiz com sua irmã, para que mais uma vez eu não começasse a ser cativado; mas continuei a procurar até que, logo, encontrei em um túmulo alto e grandioso, como se feito para alguém muito amado, aquela outra bela irmã que, como Jonathan, eu tinha visto reunir-se a partir dos átomos da névoa. Ela era tão bela de se ver, tão radiantemente linda, tão requintadamente voluptuosa, que o próprio instinto de homem em mim, que chama parte do meu sexo a amar e a proteger uma do sexo dela, fez minha cabeça girar com uma nova emoção. Mas, graças a Deus, aquele lamento da alma de minha querida Senhora Mina não tinha morrido em meus ouvidos; e, antes que o feitiço pudesse ser tecido mais profundamente sobre mim, eu tinha me preparado para o meu trabalho selvagem. A essa altura, eu tinha procurado todos os túmulos na capela, tanto quanto pude determinar; e como havia apenas três desses fantasmas Mortos-Vivos ao nosso redor na noite, presumi que não existiam mais Mortos-Vivos ativos. Havia um grande túmulo mais imponente do que todos os outros; enorme era, e nobremente proporcionado. Nele havia apenas uma palavra:
DRACULA.
Este, então, era o lar Morto-Vivo do Rei-Vampiro, a quem tantos outros eram devidos. Sua vacuidade falava eloquentemente para confirmar o que eu sabia. Antes que eu começasse a restaurar essas mulheres aos seus eus mortos através do meu terrível trabalho, depositei no túmulo de Dracula um pouco da Hóstia, e assim o bani dele, Morto-Vivo, para sempre.
Então começou minha terrível tarefa, e eu a temia. Se tivesse sido apenas uma, teria sido fácil, comparativamente. Mas três! Começar duas vezes mais depois de ter passado por um ato de horror; pois se foi terrível com a doce Srta. Lucy, o que não seria com estas seres estranhas que sobreviveram através dos séculos, e que foram fortalecidas pela passagem dos anos; que teriam, se pudessem, lutado por suas vidas vis?...
Oh, meu amigo John, mas foi um trabalho de açougueiro; se eu não tivesse sido fortalecido por pensamentos de outros mortos, e dos vivos sobre os quais pairava tal manto de medo, eu não poderia ter continuado. Tremo e tremo ainda agora, embora, até que tudo estivesse terminado, graças a Deus, meu nervo aguentou. Se eu não tivesse visto o repouso no primeiro rosto, e a alegria que se espalhou sobre ele pouco antes da dissolução final chegar, como a percepção de que a alma tinha sido ganha, eu não poderia ter prosseguido com meu açougue. Eu não poderia ter suportado o guincho horrível enquanto a estaca entrava; o mergulho da forma que se contorcia, e os lábios de espuma sangrenta. Eu deveria ter fugido em terror e deixado meu trabalho incompleto. Mas acabou! E as pobres almas, eu posso ter pena delas agora e chorar, enquanto penso nelas plácidas, cada uma em seu pleno sono de morte, por um curto momento antes de desaparecerem. Pois, amigo John, mal minha faca separou a cabeça de cada uma, antes que todo o corpo começasse a se dissolver e a desintegrar-se em sua poeira nativa, como se a morte que deveria ter vindo séculos atrás tivesse finalmente se afirmado e dito de uma vez e em voz alta: “Eu estou aqui!”
Antes de deixar o castelo, fixei as entradas de modo que nunca mais o Conde possa entrar ali como Morto-Vivo.
Quando entrei no círculo onde a Senhora Mina dormia, ela acordou de seu sono e, vendo-me, gritou de dor por eu ter suportado tanto.
“Venha!” ela disse, “venha para longe deste lugar horrível! Vamos encontrar meu marido, que está, eu sei, vindo em nossa direção.” Ela parecia magra, pálida e fraca; mas seus olhos eram puros e brilhavam com fervor. Fiquei feliz em ver sua palidez e sua doença, pois minha mente estava cheia do frescor do horror daquele sono de Vampiro rubro.
E assim, com confiança e esperança, e ainda cheios de medo, vamos para o leste encontrar nossos amigos — e ele — a quem a Senhora Mina me diz que sabe que estão vindo nos encontrar.
Diário de Mina Harker.
6 de novembro. — Era tarde da tarde quando o Professor e eu seguimos em direção ao leste, de onde eu sabia que Jonathan estava vindo. Não fomos rápido, embora o caminho fosse uma descida íngreme, pois tínhamos que levar cobertores pesados e mantas conosco; não ousávamos enfrentar a possibilidade de ficar sem calor no frio e na neve. Tivemos que levar também algumas de nossas provisões, pois estávamos em uma desolação absoluta e, até onde podíamos ver através da queda de neve, não havia nem o sinal de uma habitação. Quando tínhamos percorrido cerca de uma milha, eu estava cansada com a caminhada pesada e sentei-me para descansar. Então olhamos para trás e vimos onde a linha clara do castelo de Dracula cortava o céu; pois estávamos tão profundos sob a colina onde ele estava situado que o ângulo de perspectiva das montanhas dos Cárpatos estava muito abaixo dele. Vimo-lo em toda a sua grandiosidade, empoleirado a mil pés no cume de um precipício íngreme, e com aparentemente uma grande lacuna entre ele e a encosta da montanha adjacente em qualquer lado. Havia algo de selvagem e estranho sobre o lugar. Podíamos ouvir o uivo distante dos lobos. Estavam longe, mas o som, mesmo vindo abafado através da nevasca que abafava tudo, era cheio de terror. Eu sabia, pela maneira como o Dr. Van Helsing estava procurando ao redor, que ele estava tentando encontrar algum ponto estratégico, onde estaríamos menos expostos em caso de ataque. A estrada acidentada ainda levava para baixo; podíamos traçá-la através da neve acumulada.
Em pouco tempo, o Professor sinalizou para mim, então levantei-me e juntei-me a ele. Ele tinha encontrado um lugar maravilhoso, uma espécie de cavidade natural em uma rocha, com uma entrada como uma porta entre duas rochas. Ele me pegou pela mão e me puxou para dentro: “Veja!” ele disse, “aqui você estará em abrigo; e se os lobos vierem, eu posso enfrentá-los um por um.” Ele trouxe nossas peles e fez um ninho aconchegante para mim, e pegou algumas provisões e forçou-as sobre mim. Mas eu não conseguia comer; até mesmo tentar fazê-lo era repulsivo para mim, e, por mais que eu quisesse agradá-lo, não conseguia me forçar a tentar. Ele parecia muito triste, mas não me censurou. Pegando seus binóculos da caixa, ele ficou no topo da rocha e começou a procurar no horizonte. De repente, ele gritou:
“Olhe! Senhora Mina, olhe! olhe!” Levantei-me e fiquei ao lado dele na rocha; ele me entregou seus óculos e apontou. A neve agora caía mais pesadamente e girava violentamente, pois um vento forte começava a soprar. No entanto, havia momentos em que havia pausas entre as rajadas de neve, e eu podia ver um longo caminho ao redor. Da altura onde estávamos, era possível ver uma grande distância; e ao longe, além do deserto branco de neve, eu podia ver o rio deitado como uma fita preta em curvas e voltas enquanto serpenteava seu caminho. Logo à nossa frente e não muito longe — de fato, tão perto que me perguntei por que não tínhamos notado antes — vinha um grupo de homens montados apressando-se. No meio deles havia uma carroça, um longo carro de carga, que balançava de um lado para o outro, como o rabo de um cão abanando, com cada desigualdade severa da estrada. Contornados contra a neve como estavam, eu podia ver pelas roupas dos homens que eles eram camponeses ou ciganos de algum tipo.
Na carroça havia um grande baú quadrado. Meu coração saltou quando o vi, pois senti que o fim estava chegando. A noite agora se aproximava, e eu bem sabia que ao pôr do sol a Coisa, que estava até então presa ali, ganharia nova liberdade e poderia em qualquer uma de muitas formas iludir toda a perseguição. Com medo, virei-me para o Professor; para minha consternação, no entanto, ele não estava lá. Um instante depois, vi-o abaixo de mim. Ao redor da rocha, ele tinha desenhado um círculo, como o que tínhamos encontrado abrigo na noite passada. Quando ele o completou, ele ficou ao meu lado novamente, dizendo:
“Pelo menos você estará segura aqui dele!” Ele pegou os óculos de mim, e na próxima calmaria da neve varreu todo o espaço abaixo de nós. “Veja”, ele disse, “eles vêm rapidamente; eles estão açoitando os cavalos e galopando o mais forte que podem.” Ele pausou e continuou com uma voz oca:
“Eles estão correndo para o pôr do sol. Podemos estar tarde demais. Que a vontade de Deus seja feita!” Desceu outra investida ofuscante de neve impulsionada pelo vento, e toda a paisagem foi apagada. Logo passou, no entanto, e mais uma vez seus óculos estavam fixos na planície. Então veio um grito repentino:
“Olhe! Olhe! Olhe! Veja, dois cavaleiros seguem rápido, vindo do sul. Devem ser Quincey e John. Pegue o óculos. Olhe, antes que a neve apague tudo!” Peguei e olhei. Os dois homens poderiam ser o Dr. Seward e o Sr. Morris. Eu sabia, em todo o caso, que nenhum deles era Jonathan. Ao mesmo tempo, eu sabia que Jonathan não estava longe; olhando ao redor, vi no lado norte do grupo que se aproximava outros dois homens, cavalgando a uma velocidade vertiginosa. Um deles eu sabia que era Jonathan, e o outro presumi, é claro, ser Lord Godalming. Eles também estavam perseguindo o grupo com a carroça. Quando contei ao Professor, ele gritou de alegria como um colegial e, depois de olhar atentamente até que uma queda de neve tornasse a visão impossível, ele preparou seu rifle Winchester para uso contra a rocha na abertura do nosso abrigo. “Eles estão todos convergindo”, ele disse. “Quando chegar a hora, teremos os ciganos de todos os lados.” Peguei meu revólver pronto para a mão, pois enquanto estávamos falando, o uivo dos lobos veio mais alto e mais perto. Quando a tempestade de neve diminuiu um momento, olhamos novamente. Era estranho ver a neve caindo em flocos tão pesados perto de nós e, além, o sol brilhando cada vez mais intensamente enquanto descia em direção aos cumes distantes das montanhas. Varrendo o vidro ao nosso redor, eu podia ver aqui e ali pontos movendo-se sozinhos, em dois, em três e em números maiores — os lobos estavam se reunindo para sua presa.
Cada instante parecia uma era enquanto esperávamos. O vento vinha agora em rajadas ferozes, e a neve era impulsionada com fúria enquanto varria sobre nós em redemoinhos circulares. Às vezes, não podíamos ver um comprimento de braço à nossa frente; mas em outros, enquanto o vento de som oco varria por nós, parecia limpar o espaço aéreo ao nosso redor para que pudéssemos ver ao longe. Nós tínhamos ultimamente estado tão acostumados a observar o nascer e o pôr do sol, que sabíamos com precisão razoável quando seria; e sabíamos que, antes de muito tempo, o sol se poria.
Era difícil acreditar que, pelos nossos relógios, era menos de uma hora que esperávamos naquele abrigo rochoso antes que os vários corpos começassem a convergir perto de nós. O vento vinha agora com rajadas mais ferozes e amargas, e mais firmemente do norte. Aparentemente, tinha afastado as nuvens de neve de nós, pois, com apenas rajadas ocasionais, a neve caía. Podíamos distinguir claramente os indivíduos de cada partido, os perseguidos e os perseguidores. Estranhamente, aqueles perseguidos não pareciam perceber, ou pelo menos se importar, que estavam sendo perseguidos; pareciam, no entanto, apressar-se com velocidade redobrada enquanto o sol caía mais e mais baixo nos cumes das montanhas.
Mais perto e mais perto eles se aproximavam. O Professor e eu nos agachamos atrás da nossa rocha e mantivemos nossas armas prontas; eu podia ver que ele estava determinado a que eles não passassem. Um e todos estavam completamente alheios à nossa presença.
De repente, duas vozes gritaram: “Parem!” Uma era a do meu Jonathan, levantada em um tom alto de paixão; a outra, o tom forte e resoluto de comando calmo do Sr. Morris. Os ciganos podem não ter conhecido a língua, mas não havia como confundir o tom, em qualquer língua que as palavras fossem ditas. Instintivamente, eles puxaram as rédeas e, no instante em que Lord Godalming e Jonathan dispararam de um lado e o Dr. Seward e o Sr. Morris do outro. O líder dos ciganos, um sujeito de aparência esplêndida, que montava seu cavalo como um centauro, acenou-lhes para trás e, com uma voz feroz, deu aos seus companheiros alguma ordem para prosseguir. Eles chicotearam os cavalos, que saltaram para frente; mas os quatro homens levantaram seus rifles Winchester e, de uma maneira inconfundível, ordenaram que parassem. No mesmo momento, o Dr. Van Helsing e eu nos levantamos atrás da rocha e apontamos nossas armas para eles. Vendo que estavam cercados, os homens apertaram as rédeas e pararam. O líder virou-se para eles e deu uma palavra, na qual cada homem do grupo cigano sacou a arma que carregava, faca ou pistola, e manteve-se pronto para atacar. O conflito começou em um instante.
O líder, com um movimento rápido de sua rédea, lançou seu cavalo à frente e, apontando primeiro para o sol — agora quase nos topos das colinas — e depois para o castelo, disse algo que não entendi. Como resposta, todos os quatro homens do nosso grupo se lançaram de seus cavalos e correram em direção à carroça. Eu deveria ter sentido um medo terrível ao ver Jonathan em tal perigo, mas o ardor da batalha deve ter estado sobre mim, assim como sobre o resto deles; não senti medo, mas apenas um desejo selvagem e crescente de fazer algo. Vendo um movimento rápido de nossos grupos, o líder dos ciganos deu uma ordem; seus homens formaram instantaneamente ao redor da carroça em uma espécie de esforço indisciplinado, cada um empurrando o outro em sua ânsia de cumprir a ordem.
No meio disso, pude ver que Jonathan em um lado do círculo de homens, e Quincey no outro, estavam forçando um caminho para a carroça; era evidente que eles estavam determinados a terminar sua tarefa antes que o sol se pusesse. Nada parecia detê-los ou mesmo impedi-los. Nem as armas niveladas ou as facas brilhantes dos ciganos na frente, ou o uivo dos lobos atrás, pareciam sequer atrair sua atenção. A impetuosidade de Jonathan e a clara singularidade de seu propósito pareciam intimidar aqueles à sua frente; instintivamente eles se encolheram e o deixaram passar. Em um instante, ele saltou sobre a carroça e, com uma força que parecia incrível, levantou o grande baú e lançou-o sobre a roda no chão. Enquanto isso, o Sr. Morris teve que usar força para passar pelo seu lado do círculo de Szgany. Todo o tempo que estive observando Jonathan sem fôlego, eu tinha, com o canto do olho, visto-o pressionando desesperadamente para frente, e tinha visto as facas dos ciganos brilharem enquanto ele ganhava caminho através delas, e elas cortavam-no. Ele tinha aparado com sua grande faca bowie e, a princípio, pensei que ele também tinha passado em segurança; mas enquanto ele saltava ao lado de Jonathan, que agora tinha pulado da carroça, pude ver que com a mão esquerda ele segurava o lado e que o sangue estava esguichando através de seus dedos. Ele não hesitou, apesar disso, pois enquanto Jonathan, com energia desesperada, atacava uma extremidade do baú, tentando forçar a tampa com sua grande faca kukri, ele atacou a outra freneticamente com sua bowie. Sob os esforços de ambos os homens, a tampa começou a ceder; os pregos se soltaram com um som rápido e estridente, e o topo da caixa foi jogado para trás.
A esta altura, os ciganos, vendo-se cobertos pelos Winchesters e à mercê de Lord Godalming e do Dr. Seward, tinham cedido e não ofereceram mais resistência. O sol estava quase abaixo dos cumes das montanhas, e as sombras de todo o grupo caíam longas sobre a neve. Vi o Conde deitado dentro da caixa sobre a terra, um pouco da qual a queda rude da carroça tinha espalhado sobre ele. Ele estava mortalmente pálido, exatamente como uma imagem de cera, e os olhos vermelhos brilhavam com o terrível olhar vingativo que eu conhecia bem demais.
Enquanto eu olhava, os olhos viram o sol poente, e o olhar de ódio neles transformou-se em triunfo.
Mas, no instante seguinte, vieram o movimento e o lampejo da grande faca de Jonathan. Soltei um grito ao vê-la cortar a garganta; enquanto, no mesmo momento, a faca Bowie do Sr. Morris mergulhava no coração.
Foi como um milagre; mas, diante dos nossos próprios olhos, e quase no espaço de um suspiro, o corpo inteiro desfez-se em pó e desapareceu da nossa vista.
Ficarei feliz enquanto viver por saber que, mesmo naquele momento de dissolução final, havia no rosto uma expressão de paz, tal como eu jamais poderia ter imaginado que ali pudesse repousar.
O Castelo de Dracula erguia-se agora contra o céu vermelho, e cada pedra das suas ameias partidas estava articulada contra a luz do sol poente.
Os ciganos, tomando-nos de alguma forma como a causa do extraordinário desaparecimento do homem morto, viraram-se, sem uma palavra, e cavalgaram como se as suas vidas dependessem disso. Aqueles que estavam a pé saltaram para a carroça e gritaram aos cavaleiros para que não os abandonassem. Os lobos, que se tinham retirado para uma distância segura, seguiram-lhes o rastro, deixando-nos sós.
O Sr. Morris, que caíra ao chão, apoiava-se no cotovelo, mantendo a mão pressionada contra o lado; o sangue ainda jorrava por entre os seus dedos. Corri para ele, pois o círculo sagrado já não me impedia; o mesmo fizeram os dois médicos. Jonathan ajoelhou-se atrás dele e o homem ferido recostou a cabeça no seu ombro. Com um suspiro, pegou, com um esforço débil, na minha mão com aquela que estava limpa. Deve ter visto a angústia do meu coração no meu rosto, pois sorriu para mim e disse:--
“Estou demasiado feliz por ter sido de alguma utilidade! Oh, Deus!” exclamou ele de repente, esforçando-se por se sentar e apontando para mim, “Valeu a pena morrer por isto! Olhem! olhem!”
O sol estava agora exatamente sobre o cume da montanha, e os clarões vermelhos caíam sobre o meu rosto, de modo que ele se banhava numa luz rosada. Com um impulso, os homens ajoelharam-se, e um profundo e sincero “Amém” escapou a todos enquanto os seus olhos seguiam o apontar do dedo do homem moribundo, que dizia:--
“Agora, graças a Deus que nem tudo foi em vão! Vejam! a neve não é mais imaculada que a sua testa! A maldição desapareceu!”
E, para nosso amargo pesar, com um sorriso e em silêncio, ele morreu, um cavalheiro galante.
NOTA.
Há sete anos, todos nós passámos pelas chamas; e a felicidade de alguns de nós, desde então, é, pensamos nós, bem merecedora da dor que suportámos. É uma alegria acrescida para a Mina e para mim que o aniversário do nosso filho seja no mesmo dia em que Quincey Morris morreu. A sua mãe mantém, eu sei, a crença secreta de que algo do espírito do nosso bravo amigo passou para ele. O seu conjunto de nomes liga todo o nosso pequeno grupo de homens; mas chamamo-lhe Quincey.
No verão deste ano, fizemos uma viagem à Transilvânia e percorremos o antigo terreno que era, e é, para nós, tão cheio de memórias vívidas e terríveis. Era quase impossível acreditar que as coisas que tínhamos visto com os nossos próprios olhos e ouvido com os nossos próprios ouvidos fossem verdades vivas. Todos os vestígios do que tinha sido foram apagados. O castelo permanecia como antes, erguido bem alto sobre um deserto de desolação.
Quando chegámos a casa, pusemo-nos a falar dos velhos tempos — sobre os quais todos podíamos olhar para trás sem desespero, pois Godalming e Seward estão ambos felizmente casados. Tirei os papéis do cofre onde estiveram desde o nosso regresso, há tanto tempo. Ficámos impressionados com o facto de que, em toda a massa de material de que o registo é composto, quase não existe um único documento autêntico; nada mais do que uma massa de dactilografia, exceto os cadernos mais recentes da Mina, de Seward, os meus e o memorando de Van Helsing. Dificilmente poderíamos pedir a alguém, mesmo que o quiséssemos, que aceitasse isto como prova de uma história tão louca. Van Helsing resumiu tudo ao dizer, com o nosso filho ao colo:--
“Não queremos provas; não pedimos a ninguém que acredite em nós! Este rapaz saberá um dia que mulher corajosa e galante é a sua mãe. Ele já conhece a sua doçura e o seu cuidado amoroso; mais tarde, compreenderá como alguns homens a amaram tanto, que se atreveram a muito por ela.”
/Jonathan Harker./