Série Mulheres Eminentes
Editada por John H. Ingram
EMILY BRONTË
Todos os direitos reservados.
EMILY BRONTË
por
A. MARY F. ROBINSON
Segunda Edição.
Londres: W. H. Allen and Co. 13, Waterloo Place 1883.
[Todos os direitos reservados]
Londres: Impresso por W. H. Allen and Co., 13 Waterloo Place. S.W.
SUMÁRIO.
PÁGINA
Introdução 1
CAPÍTULO I. Ascendência 8
CAPÍTULO II. Infância 18
CAPÍTULO III. Cowan's Bridge 28
CAPÍTULO IV. Meninice 40
CAPÍTULO V. Indo para a escola 53
CAPÍTULO VI. Adolescência em Haworth 61
CAPÍTULO VII. Na Rue d'Isabelle 77
CAPÍTULO VIII. Uma retrospectiva 92
CAPÍTULO IX. O chamado 103
CAPÍTULO X. Os prospectos 111
CAPÍTULO XI. A queda de Branwell 116
CAPÍTULO XII. Escrevendo poesia 128
CAPÍTULO XIII. Problemas 144
CAPÍTULO XIV. O Morro dos Ventos Uivantes: sua origem 154
CAPÍTULO XV. O Morro dos Ventos Uivantes: a história 168
CAPÍTULO XVI. 'Shirley' 209
CAPÍTULO XVII. O fim de Branwell 217
CAPÍTULO XVIII. A morte de Emily 223
FIM! 233
* * * * *
LISTA DE FONTES.
1846-56. As obras de Currer, Ellis e Acton Bell.
1857. Vida de Charlotte Brontë. Sra. Gaskell. 1ª e 2ª Edições.
1877. Charlotte Brontë. T. Wemyss Reid.
1877. Nota sobre Charlotte Brontë. A. C. Swinburne.
1881. Três Grandes Inglesas. P. Bayne. Manuscrito de palestra sobre Emily Brontë. T. Wemyss Reid. Manuscrito de notas sobre Emily e Charlotte Brontë. Srta. Ellen Nussey. Manuscrito de cartas de Charlotte e Branwell Brontë.
1879. Reminiscências das Brontë. Srta. E. Nussey.
1870. Cartas não publicadas de Charlotte, Emily e Anne Brontë. Hours at Home.
1846. Cópia anotada dos poemas de Emily Brontë.
1872. Branwell Brontë: no "Mirror". G. S. Phillips.
1879. Retratos do Passado. F. H. Grundy.
1830. Prospecto da Escola para Filhas de Clérigos em Cowan's Bridge.
1850. Prefácio a O Morro dos Ventos Uivantes. Charlotte Brontë.
1850. Notícia biográfica de Ellis e Acton Bell. Charlotte Brontë.
1850. O Morro dos Ventos Uivantes: no "Palladium". Sydney Dobell. Reminiscências pessoais da Sra. Wood, Sra. Ratcliffe, Sra. Brown e Sr. William Wood, de Haworth.
1811-18. Poemas de Patrick Brontë, B.A., Vigário de Haworth.
1879. Haworth: Passado e Presente. J. Horsfall Turner.
* * * * *
EMILY BRONTË.
INTRODUÇÃO.
Existem, talvez, poucos testes de excelência tão seguros quanto o veredito popular sobre uma obra de arte cem anos após a sua realização. É necessário tanto tempo para o balanço e o rebote do gosto, para o despojamento de esplendores vistosos e para permitir que a própria obra de arte forme um público capaz de apreciá-la. Tão maravilhosos fragmentos nos chegam dos elogios elizabetanos; e não podemos deixar de recordar o número de cópias de 'Prometheus Unbound' vendidas durante a vida do poeta. Sabemos bem demais "que mingau John Keats comeu", e recordamos com receio a tartaruga com que tratamos Hobbs e Nobbs no jantar, e quão complacentes os observamos colocar seus louros depois.
Devemos, portanto, a todo custo desconfiar da nossa própria estimativa e da estimativa pública de todos os heróis mortos há menos de cem anos. Ao reivindicarmos um veredito infalível, lembremo-nos de quão estranhamente nossas decisões soam do outro lado da galeria dos sussurros do Tempo. Devemos, portanto, pronunciar-nos apenas sobre Chaucer e Shakespeare, sobre Gower e nosso erudito Ben? Ai de nós! Estamos seguros demais de seus méritos relativos; arriscamos nossas reputações sem escrúpulos, sem ardores de batalha. Reservamos estes para aqueles cujo futuro ainda não está assegurado, para quem uma palavra oportuna ainda pode ser dita, para quem ainda podemos sentir aquele lançamento de entusiasmo possível apenas quando o destino ainda é desconhecido e, enquanto lutamos, imaginamos que a glória de nosso herói está em nossas mãos.
Mas a vitória é alcançada de forma muito gradual. Um gosto é inconscientemente formado para as qualidades necessárias ao próximo desenvolvimento da arte — qualidades que Blake em seu sótão, Millet sem um sou, registraram em obras imortais. Finalmente, quando o tempo está maduro, algum conhecedor vê o quadro, sopra a poeira do livro e imediatamente alardeia sua descoberta. O Sr. Swinburne, por assim dizer, soprou a poeira de 'O Morro dos Ventos Uivantes'; e agora ele ocupa seu lugar adequado na estante onde Coleridge e Webster, Hofmann e Leopardi têm o seu lugar. Até então, algumas linhas corajosas de boas-vindas de Sydney Dobell, um belo verso do Sr. Arnold, uma nota do Sr. Reid, era todo o louvor que havia sido dado ao livro por aqueles em autoridade. Aqui e ali, uma operária têxtil nas fábricas de West Riding lia e relia a cópia esfarrapada da biblioteca circulante; aqui e ali, alguma criança ansiosa, insatisfeita e apaixonada encontrava o livro e o amava, apesar das repreensões, encontrando nele uma imaginação que satisfazia e uma tempestade que limpava o ar; ou algum coração de fibra forte sentia sem estremecer a justiça daquela visão severa de ruína inevitável e herdada, seguindo a criança encontrada ao acaso de um marinheiro estrangeiro e uma mãe de porto. Mas esses leitores não eram muitos; ainda hoje o livro não é popular.
Pois, na verdade, as qualidades que distinguem Emily Brontë não são aquelas que são de primeira necessidade para um romancista. Ela não tem experiência; seu alcance de personagens é estreito e local; ela não tem a atmosfera de humanidade ampla como George Eliot; ela não tem o dom feliz de Jane Austen de nos fazer amar em um livro o que negligenciamos na vida; não reconhecemos nela a verdade humana e a paixão, a amargura de humor serena e infalível, que conferiram a Charlotte Brontë um lugar entre Cervantes e Victor Hugo.
Emily Brontë é de uma classe diferente. Sua imaginação é mais estreita, porém mais intensa; ela vê menos, mas o que vê está absolutamente presente: nenhum escritor descreveu os pântanos, o vento, os céus, com sua fidelidade apaixonada, mas isso é tudo da Natureza que ela descreve. Sua natureza estreita e fervorosa considerava como simples aborrecimento as cenas triviais e personagens tocados com simpatia imortal e humor em 'Villette' e 'Shirley'; o próprio Paul Emanuel lhe parecia apenas um mestre pedante e exigente; mas, por outro lado, para certa classe de mente, não há nada na ficção tão comovente quanto o espetáculo de Heathcliff morrendo de alegria — uma alegria antinatural e irreal — sua natureza de pantera paralisada, aneanti, em um delírio de felicidade visionária.
Apenas uma imaginação do poder mais raro poderia conceber tal desfecho, retribuindo uma vida de ingratidão negra não com horrores comuns, não com frenesi vulgar de Bedlam; mas pela apreensão torturante de uma felicidade nunca totalmente alcançada, sempre logo além da margem da realização. Apenas uma imaginação do toque mais fino e raro, absolutamente segura ao caminhar sobre aquele fio de cabelo que sozinho conecta este mundo com a terra dos sonhos. Poucos atravessaram aquela ponte perigosa com a destemor de Emily Brontë: esse é o seu próprio terreno e lá ela ganha nosso maior louvor; mas coloque-a na terra, peça-lhe que interprete para nós as vidas comuns das pessoas ao redor, ela não consegue dar resposta. O espírito veloz e seguro move-se com o passo desajeitado e hesitante de um pássaro acostumado a planar.
Ela nos diz o que viu; e o que ela viu e o que era incapaz de ver são igualmente característicos. Toda a selvageria daquela charneca, todos os segredos daquelas fazendas solitárias, todas as capacidades da única tragédia de paixão e fraqueza que tocou sua vida solitária, ela divinhou e apropriou; mas não a vida da aldeia a seus pés, não o movimento das fábricas, os tumultos, as súbitas alternâncias de riqueza e pobreza; não a rivalidade incessante entre igreja e capela; e embora West Riding tenha conhecido o protótipo de quase todas as pessoas e quase todos os lugares em 'Jane Eyre' e 'Shirley', nenhum personagem em 'O Morro dos Ventos Uivantes' jamais subiu as colinas ao redor de Haworth.
Digamos que dois estrangeiros tenham passado por Staffordshire, deixando-nos seus relatos do que viram. O primeiro, indo de dia, nos falará da negrura hedionda do país; mas ainda mais, sem dúvida, daquela luta terrível e paciente do homem com o fogo e a escuridão, da coragem sombria daquelas vidas desconhecidas; e ele veria pelo que elas labutam, mulheres com crianças pequenas nos braços; e ele notaria o céu azul além da fumaça, duplamente precioso por tal ambiente horrível. Mas o segundo viajante viajou através da noite; nem miséria nem feiura, nem céu nem crianças, ele viu, apenas uma vasta extensão de negrura cortada por fogos flamejantes, ou aqui e ali queimada a um vermelho baço por fornalhas aquecidas; e diante destes, estranhos trabalhadores, meio nus, quase não humanos, e vermelhos no cintilar saltitante e brilho do fogo. O significado de seu trabalho ele não pôde ver, mas uma fantasmagoria temível e impressionante de chama, negrura e energias ígneas trabalhando na noite envolvente.
Tão diferentemente o país negro deste mundo apareceu para Charlotte, clarividente e compassiva, e para Emily Brontë, uma viajante através das sombras. Cada uma registrou fielmente o que viu, e o lugar era o mesmo, mas quão diferentes as visões! Os óculos do temperamento coloriram o mundo de forma muito diferente para cada observador; e, para entender a visão, nós também deveríamos, por um momento, olhar através do vidro da vidente. Obter algum vislumbre passageiro desse tipo, obter e dar alguma percepção momentânea do caráter de Emily Brontë, foi o objetivo que tentei alcançar neste livro. Que não cumpri meu desejo é talvez inevitável — a tarefa foi deixada por muito tempo. Se fiz alguma coisa, sinto que muito da recompensa é devida aos meus muitos e generosos ajudantes. Entre eles, devo agradecer ao Dr. Ingham, meu gentil anfitrião em Haworth, à Sra. Wood, ao Sr. William Wood, à Sra. Brown e à Sra. Ratcliffe daquela paróquia — todos os quais conheceram a família Brontë, agora extinta; e meus agradecimentos são devidos não menos ao Sr. T. Wemyss Reid, como será visto mais adiante, ao Sr. J. H. Ingram e ao Sr. Biddell, que coletaram muitas informações valiosas em meu benefício; e, acima de tudo, devo gratidão e agradecimento à Srta. Ellen Nussey, sem cuja ajuda generosa meu trabalho teria permanecido o mais ignorante e perdido. A ela, se fosse mais digno, se fosse tudo o que o assunto merece, e ainda assim sem aquelas sombras de melancolia e problema impostas pela natureza da história; a ela, se eu pudesse apenas ter falado do caráter nobre e elevado de Emily Brontë e não das grandes provações de sua vida, eu teria me aventurado a dedicar este estudo. Mas à amiga de Emily, ofereço apenas o que, através dela, aprendi sobre Emily; ela, que sabia tão pouco das vergonhas e tristezas de Branwell, não se preocupa com este, seu triste e necessário registro. Dedico a ela apenas as luzes e o brilho do meu trabalho. Pode ser que eu tenha dado uma parte muito grande às sombras, às múltiplas loucuras e fracassos de Branwell Brontë. No entanto, na vida de Emily Brontë, as influências formadoras foram tão poucas, e os pecados deste irmão amado e errante tiveram uma parte tão grande em determinar a inclinação de seu gênio, que tê-los ignorado teria sido ignorar o choque que transformou a fantasia dos 'Poemas' na tragédia de 'O Morro dos Ventos Uivantes'. Teria sido deixar de contar a paciência, a coragem, o altruísmo que aperfeiçoaram o caráter heroico de Emily Brontë; e tê-la deixado sobrecarregada com a calúnia de ter escolhido inventar os crimes e a violência de seus dramatis personae. Não, ai de mim! Eles eram apenas reflexos da paixão e da tristeza que escureciam seu lar; não foi nenhuma fantasia perversa que levou aquela menina pura e inocente a uma ruminação incessante sobre a força conquistadora do pecado e a supremacia da injustiça.
Ela ruminou sobre o problema noite e dia; ela tomou suas dificuldades apaixonadamente a peito; em meio aos seus pensamentos conturbados, ela escreveu 'O Morro dos Ventos Uivantes'. Do espírito claro que inspira o fim de sua obra, sabemos que a tempestade passou; sabemos que sua próxima tragédia seria menos violenta. Mas nunca a veremos; pois — e é por isso que a maioria de nós se lembra dela — ela morreu subitamente e em silêncio.
Ela morreu antes que uma única palavra de louvor digno chegasse a ela. Ela morreu com sua obra incompreendida e negligenciada. E ainda assim não infeliz. Pois seu lar na charneca lhe era muito caro, os deveres mais humildes e simples eram agradáveis; ela amava suas irmãs com amizade devotada, e tinha muitas pequenas felicidades em sua vida paciente, alegre e altruísta. Quem dera que eu pudesse mostrá-la como ela era! — não a poetisa austera e violenta que, à moda do cuco, usurpou seu lugar; mas corajosa diante do destino e tímida diante do homem; severa consigo mesma, tolerante com todas as coisas fracas e errantes; silenciosa, mas às vezes cintilante com sacadas felizes. Pois representá-la como ela era seria seu monumento mais nobre e adequado.
CAPÍTULO I.
ASCENDÊNCIA.
Emily Brontë nasceu de pais sem qualquer talento peculiar para a literatura. É verdade que as cartas de sua mãe são escritas de forma precisa e bonita. É verdade que seu pai publicou alguns folhetos e poemas religiosos. Mas em nenhum dos casos há qualquer vestígio de dotação literária ou poética. Poucas, na verdade, são as Revistas Paroquiais que não poderiam mostrar, entre seus conteúdos, poemas e artigos muito superiores às efusões fracas e sem caráter do pai das Brontë. O fato parece importante; porque, neste caso, não um membro de uma família, mas toda uma família, é dotada em maior ou menor grau com faculdades não derivadas de nenhum dos pais.
Pois as crianças podem herdar o gênio de pais que eles próprios não são dotados, assim como duas correntes de ar que fluem se unem para formar um líquido com propriedades diferentes de qualquer uma delas; e nunca a biografia é mais valiosa do que quando nos permite perceber por qual combinação de qualidades aliadas, atrito de temperamentos opostos, recorrência de traços ancestrais, a coisa sutil que chamamos de caráter é determinada. Neste caso, uma vez que, como eu disse, toda a família manifestou um brilho não encontrado em nenhum dos pais, tal estudo seria peculiarmente interessante. Mas, infelizmente, a história do pai das crianças e a constituição da mãe das crianças é tudo o que está claro para nossa investigação.
No entanto, mesmo fora desta genealogia muito curta, dois fatores importantes do gênio se declaram — duas heranças potentes e formadoras. De seu pai, Currer, Ellis e Acton derivaram uma forte vontade. De sua mãe, a doença que matou Emily e Anne no auge de sua juventude e tornou Charlotte sempre delicada e doentia. Em ambos os casos, o menino, Patrick Branwell, foi muito ligeiramente afetado; mas ele também morreu jovem, por excessos que sugerem um traço de insanidade em sua constituição.
A insanidade e o gênio situam-se em ambos os lados do consumo, seus anjos piores e melhores. Que ninguém chame de ímpio ou absurdo classificar o maior presente para a humanidade como o resultado ocasional de uma tendência herdada à doença tuberculosa. Existem, é claro, muitas outras causas determinantes; no entanto, é certo que a escrofulose ou tísica herdada pode se manifestar, não nessas doenças, ou não apenas nessas doenças, mas em uma alteração, para melhor ou para pior, da condição da mente. Do mal pode vir o bem, ou um mal pior.
O pai das crianças era um homem nervoso, irritável e violento, que as dotou de uma organização nervosa facilmente perturbada e uma força de volição indomável. As meninas, pelo menos, mostraram ambas as características. Patrick Branwell deve ter sido uma cópia mais fraca, mais brilhante, mais violenta, menos tenaz, menos íntegra de seu pai; e parece não ter sofrido nenhuma modificação da natureza moral paciente e firme de sua mãe. Ela era o modelo que suas filhas copiavam, em diferentes graus, tanto no caráter quanto na saúde. Paixão e vontade seu pai lhes deu. Seu gênio não veio diretamente de nenhum dos pais; mas da constituição de suas naturezas.
Além disso, de ambos os lados, as crianças herdaram um traço celta; e isso é um assunto de importância, significando uma predisposição à superstição, imaginação e horror que é um fio em toda a sua obra. Sua mãe, Maria Branwell, era de uma boa família da classe média da Cornualha, estabelecida há muito tempo como comerciantes em Penzance. Seu pai era filho de um camponês irlandês, Hugh Prunty, estabelecido no norte da Irlanda, mas nativo do sul.
A história do Reverendo Patrick Brontë, B.A. (cujo belo nome grego, encurtado da antiga denominação irlandesa de Bronterre, era tão ingenuamente admirado por seus filhos), é em si uma história notável e interessante.
O Reverendo Patrick Brontë era um dos dez filhos de um pequeno proprietário camponês em Ahaderg, no condado de Down. A família à qual ele pertencia herdou força, boa aparência e alguns escassos acres de solo para cultivo de batata. Eles devem ter sido muito pobres, aqueles dez filhos, muitas vezes famintos, frios e molhados; mas essas influências adversas apenas pareciam fortalecer os nervos de Patrick Prunty e encorajar sua determinação de elevar-se acima de seu ambiente. Ele cresceu um jovem alto e forte, excepcionalmente bonito, com uma cabeça bem formada, perfil regular e belos olhos azuis. Uma maneira vivaz e impressionável mascarava eficazmente um certo egoísmo e rigor de temperamento que se tornaram claros anos depois. Ele parecia um rapaz generoso, rápido e impulsivo. Quando tinha dezesseis anos de idade, Patrick deixou o teto de seu pai decidido a conquistar uma posição para si mesmo. Em Drumgooland, um vilarejo vizinho, ele abriu o que é chamado na Irlanda de escola pública; uma espécie de escola de campo para crianças da aldeia. Ele se manteve em seu ofício por cinco ou seis anos, usando seu lazer para se aperfeiçoar em conhecimento geral, matemática e um pouco de grego e latim.
Seus esforços mereciam ser coroados de sucesso. O Rev. Sr. Tighe, o clérigo da paróquia, ficou tão impressionado com a determinação e habilidade de Patrick Prunty que o aconselhou a tentar a admissão em uma das universidades inglesas; e quando o jovem tinha cerca de vinte e cinco anos, ele foi, com a ajuda do Sr. Tighe, para Cambridge e entrou em St. John's.
Ele deixou a Irlanda em julho de 1802, para nunca mais visitá-la. Ele nunca se importou em olhar novamente para as cenas de sua luta inicial. Ele nunca encontrou meios de revisitar mãe ou lar, amigos ou país. Entre Patrick Brontë, orgulhoso de seu perfil grego e de seu nome grego, o belo estudante de graduação em St. John's, e os nove jovens Pruntys descalços e famintos de Ahaderg, estendia-se uma distância que não poderia ser medida em milhas. Sob seu exterior caloroso e apaixonado, estava escondida uma resolução fixa de se dar bem no mundo; mas, embora frio, o jovem era justo e abnegado, e enquanto sua mãe viveu, ela recebeu vinte libras por ano, poupadas com dificuldade de sua renda estreita.
Patrick Brontë ficou quatro anos em Cambridge; quando saiu, ele havia abandonado seu sotaque irlandês e obtido seu B.A. Ao deixar St. John's, ele foi ordenado para um curato em Essex.
A energia do jovem, do tipo que apenas trabalha para atingir um fim pessoal determinado, havia levado-o longe no caminho do sucesso. Aos vinte anos, mestre de escola em Drumgooland, Patrick Brontë era aos trinta um respeitável clérigo da Igreja da Inglaterra, com uma posição assegurada e um respeitável círculo clerical. Ele estava chegando muito perto do objetivo.
Ele não ficou muito tempo em Essex. Um curato melhor foi oferecido a ele em Hartshead, um pequeno vilarejo entre Huddersfield e Halifax, em Yorkshire. Enquanto estava em Hartshead, o belo e inflamável cura irlandês conheceu Maria Branwell na reitoria de seu tio, perto de Leeds. Não foi a primeira vez que Patrick Brontë se apaixonou; as pessoas da vizinhança costumavam sorrir de sua facilidade para a adoração e pensavam que era parte de seu caráter entusiasta. Elas estavam certas; em sua natureza estranha, a violência e a frieza eram igualmente genuínas, ambas sendo um meio de satisfazer alguma ambição, desejo ou indolência pessoal. Não é um tipo irlandês incomum; autocomplacente, íntegro, honrado, porém com uma inclinação para a sutileza: abstêmio no hábito, mas com acessos de autocomplacência violenta; cortês e impulsivo com estranhos, embora frio com os membros da casa; naturalmente violento, e muitas vezes assumindo a violência como um instrumento de autoridade; egoísta e cumpridor do dever; apaixonado, e desprovido de afeição intensa.
Miss Branwell era precisamente a pequena pessoa por quem era natural que tal homem, um homem que se fez a si mesmo, se apaixonasse. Ela era muito pequena, quieta e gentil, não exatamente bonita, mas elegante e distinta. Era, de fato, uma jovem bem-educada e de boas relações; uma verdadeira Fênix ela deve ter parecido aos olhos de um amante consciente de um passado de Pruntyism e batatas. Ela tinha cerca de vinte e um anos e ele trinta e cinco quando se conheceram no início do verão de 1812. Ficaram noivos em agosto. As cartas da Srta. Branwell revelam uma intensidade tranquila de devoção, uma faculdade de julgamento, uma disposição para perdoar deslizes passageiros que devem ter satisfeito o temperamento absoluto e crítico de seu amante. Sob a devoção e a quietude, no entanto, há a nota de um espírito independente, e o seguinte trecho, com sua capacidade de autossuficiência e desejo de confiar em outrem, lembra curiosamente passagens nos escritos de sua filha Charlotte:--
"Por alguns anos fui perfeitamente dona de mim mesma, sem estar sujeita a controle algum; tão longe disso que minhas irmãs, que são muitos anos mais velhas do que eu, e até mesmo minha querida mãe, costumavam consultar-me em todas as ocasiões de importância, e quase nunca duvidaram da correção das minhas palavras e ações: talvez você esteja pronto para me acusar de vaidade ao mencionar isso, mas deve considerar que não me gabo disso. Muitas vezes senti que é uma desvantagem e, embora, graças a Deus, isso nunca me tenha levado ao erro, ainda assim, em circunstâncias de incerteza e dúvida, senti profundamente a falta de um guia e instrutor."
Anos depois, quando as cartas de Maria Branwell foram entregues às mãos de sua filha Charlotte e da amiga mais querida e fiel dessa filha, as duas jovens sentiram uma pontada aguda de simpatia retrospectiva pela gentil e independente pessoinha que, mesmo antes de seu casamento, teve tempo de perceber que seu guia e instrutor não era o Mentor infalível que ela pensara que ele fosse no início. Cito as palavras da amiga de Charlotte, de maior autoridade e peso neste assunto do que as de qualquer outra pessoa viva, retiradas de um manuscrito que ela colocou à minha disposição:--
"As cartas da Srta. Branwell mostravam que seu noivado, embora não fosse longo, não era tão feliz quanto deveria ter sido. Havia um pathos de apreensão (embora gentilmente expresso) em parte da correspondência de que o Sr. Bronte pudesse esfriar em seu afeto por ela, e os leitores percebiam com certa indignação que houvera uma causa justa para essa apreensão. O Sr. Bronte, com toda a sua força de ferro e poder de vontade, tinha sua fraqueza, e uma que, onde quer que exista, estraga e degrada o caráter -- ele tinha vaidade pessoal. A natureza mais refinada da Srta. Branwell elevou-se acima de tal fraqueza; mas ela sofria ainda mais com as evidências dela naqueles a quem entregara seus afetos e a quem ansiava por admirar em todas as coisas."
No dia 29 de dezembro de 1812, esta pequena senhora desiludida e amorosa casou-se com Patrick Bronte, na casa paroquial de seu tio, perto de Leeds. O jovem casal estabeleceu residência em Hartshead, a paróquia do Sr. Bronte. Três anos depois, mudaram-se, com duas filhinhas, Maria e Elizabeth, para uma paróquia melhor em Thornton. A região ao redor é desolada e sombria; grandes ventos passam varrendo; a jovem Sra. Bronte, cujo marido geralmente sentava-se sozinho em seu escritório, teria sentido falta de seu lar alegre na ensolarada Penzance (sendo delicada e propensa à superstição), não fosse ela uma mulher paciente e que não se queixava, e ela mal tinha tempo para pensar entre seus muitos cuidados com as pequenas vidas que chegavam em profusão e povoavam seu lar em Yorkshire. Em 1816 nasceu Charlotte Bronte. No ano seguinte, Patrick Branwell. Em 1818, Emily Jane. Em 1819, Anne. Então a saúde de sua mãe, delicada e tuberculosa, começou a declinar. Após sete anos de casamento e com seis filhos pequenos, o Sr. e a Sra. Bronte mudaram-se, em 25 de fevereiro de 1820, para sua nova casa na Vigaria de Haworth.
A vila de Haworth ergue-se, íngreme e cinzenta, no lado mais alto de uma colina baixa e abrupta. Tais colinas, mais íngremes do que altas, estão congregadas ao redor, círculo após círculo, até o limite extremo do horizonte. Nem um bosque, nem um rio. Até onde a vista alcança, essas colinas sem árvores, com suas encostas cortadas em campos por muros cinzentos de pedra, com aqui e ali uma vila de pedra cinzenta e aqui e ali um moinho de pedra cinzenta, não apresentam outras cores além do brilho singular da grama verde do país do norte e o cinza enegrecido da pedra. De vez em quando, um riacho de moinho, borbulhante e ruidoso, dá vida à cena. Mas a verdadeira vida, a única beleza do campo, situa-se no topo de todas as colinas, onde o pântano se une ao pântano, de Yorkshire a Lancashire, uma corrente enrolada de lugares selvagens e livres. Brancos de neve no inverno, negros no solstício de verão, é apenas quando a primavera salpica os caules escuros da urze com o verde vívido dos arbustos de mirtilo que brotam, apenas quando no início do outono os pântanos são uma massa zumbinte de púrpura perfumada, que qualquer beleza de tom ilumina a cena. Mas há sempre um encanto nos pântanos para espíritos resistentes e solitários. Entre eles e o céu, nada ousa se interpor. As sombras das nuvens que passam alteram o aspecto do lugar cem vezes ao dia. Cem pequenas nascentes e riachos brotam em seu solo, criando manchas de um verde lívido ao redor de suas nascentes. Cem pássaros de todas as espécies voam e cantam ali. Cotovias cantam; cucos chamam; todas as tribos de pintarroxos e tentilhões gorjeiam nos arbustos; abibes gemem; patos selvagens passam voando; mais melancólicas que tudo, em dias de tempestade, as gaivotas brancas gritam, sopradas para tão longe do interior pela força das ventanias que varrem irresistivelmente os pântanos sem árvores e sem casas. Lá, na primavera, você pode tomar em suas mãos os filhotes fracos e trêmulos dos pássaros; coelhos e caça multiplicam-se nas cavidades. Lá, no outono, as multidões de abelhas, loucas na urze, enviam o som de seu zumbido pela rua da vila. Os ventos, as nuvens, a Natureza e a vida devem ser os amigos daqueles que amam os pântanos.
Mas a jovem Sra. Bronte nunca pôde ir aos pântanos. Ela era frágil e fraca, pobre mulher, quando veio morar na oblonga casa paroquial de pedra cinzenta no topo ventoso da colina. A vila estendia-se logo abaixo de seus pés; mas ela não podia caminhar pela rua íngreme e de pavimentação grosseira, nem pelos pântanos sem trilhas. Ela estava muito doente e fraca; seu marido passava quase todo o seu tempo no escritório, escrevendo seus poemas, seus tratados e seus sermões. Ela não tinha companhias além das crianças. E quando, em poucos meses, descobriu que estava adoecendo de câncer, não suportava ver muito as crianças que teria de deixar tão cedo.
Quem ousaria dizer se aquele casamento foi feliz? A Sra. Gaskell, escrevendo na vida e para os olhos do Sr. Bronte, fala de seu cuidado incansável, sua devoção nas vigílias noturnas. Mas antes que aquela doença fatal fosse declarada, ela deixa cair muitas dicas sobre a solidão da jovem esposa durante os longos e ineficazes estudos de seu marido; sobre seu sofrimento paciente com o temperamento violento dele. Ela não diz, mas podemos supor, com que prazer interior a Sra. Bronte testemunhou seu vestido de seda favorito ser cortado em tiras porque o orgulho de seu marido não escolhia que ela aceitasse um presente; ou observou os sapatos coloridos das crianças serem jogados ao fogo, sem dinheiro em sua bolsa para comprar novos; ou ouviu a censura de seu marido à chegada frequente demais de seus filhos; ou ouviu os disparos de sua pistola nas portas da dependência, o escape necessário de uma paixão que não podia ser expressa em palavras. Ela era paciente, corajosa, solitária e silenciosa. Mas o Sr. Wemyss Reid, que teve facilidades inigualáveis para estudar os documentos dos Bronte, não se sente inibido em falar da "frieza e negligência persistentes" do Sr. Bronte para com sua esposa, de suas tratativas "severas e peremptórias" com ela, do "medo habitual que ela tinha de seu mestre senhorial"; e o manuscrito que citei uma vez já alude à "vontade dura e inflexível que se erguia às vezes em tirania e crueldade". Está dentro do caráter do homem que tudo isso seja verdade. Casada em segurança, a mulher a quem ele fizera amor apaixonado não experimentaria mais de sua ternura impulsiva. Ele a sustentara e cumprira seu dever; o dever dela era estar à mão quando ele precisasse dela. No entanto, uma vez declarada a morte iminente, toda a sua retidão, seu senso de honra, exigiriam que ele fosse cuidadoso com a criatura a quem jurara amar e acalentar, todo o seu egoísmo o obrigaria a tentar preservar a mãe de seis crianças pequenas com menos de sete anos de idade. "Eles mantinham-se muito reservados", diziam as pessoas da vila; e, pelo menos nesta última doença, o marido e a esposa estiveram frequentemente juntos. O amor deles um pelo outro, recém-revivido e prestes a se encerrar, parecia excluir qualquer pensamento sobre as crianças. Ouvimos expressamente que o Sr. Bronte, por desinclinação natural, e a Sra. Bronte, por medo de agitação, viam muito pouco dos pequenos e sérios bebês que conversavam sobre política no "escritório das crianças", ou caminhavam de mãos dadas pelos pântanos vizinhos.
Enquanto isso, a jovem mãe ficava mais fraca dia após dia, sofrendo grandes dores e muitas vezes incapaz de se mover. Mas a lamúria nunca passou por seus lábios. Talvez ela não lamentasse. Talvez ela não sofresse por deixar sua vida atormentada, as crianças que via tão raramente, sua dor constante, o marido "não dramático o suficiente em suas percepções para ver o quão miseráveis outros poderiam ser em uma vida que para ele era autossuficiente."[1] Por alguns meses ela ficou imóvel, pedindo às vezes para ser levantada na cama para que pudesse observar a enfermeira limpando a grelha, porque ela o fazia como faziam na Cornualha. Por alguns meses ela sofreu cada vez mais. Em setembro de 1821, ela faleceu.
NOTAS DE RODAPÉ:
[Nota de rodapé 1: Sra. Gaskell.]
CAPÍTULO II.
INFÂNCIA.
Após a morte de sua esposa, a vida do Rev. Sr. Bronte tornou-se ainda mais isolada dos interesses humanos comuns. Ele não era íntimo de seus paroquianos; quase não era mais íntimo de seus filhos. Ele se orgulhava deles quando diziam algo inteligente, pois, apesar de sua tenra idade, sentia naqueles momentos que eram dignos de seu pai; mas sua infância desamparada, sua ignorância indefesa, não faziam apelo ao seu coração. Alguns meses antes da morte de sua esposa, ele começara a jantar sozinho, devido à sua digestão delicada; e ele continuou o hábito, vendo as crianças raramente, exceto no café da manhã e no chá, quando divertia os mais velhos conversando sobre política Tory com eles, e distraía a bebê, Emily, com suas histórias irlandesas de violência e horror. Talvez por causa desse distanciamento, ele sempre teve uma grande influência sobre as crianças; ele não se importava com nenhuma relação mais afetuosa.
Seus dias vazios eram preenchidos com visitas ocasionais a algum doente na vila; com longas caminhadas sozinho pelos pântanos, e com a composição de seu 'Cottage in the Wood' e aqueles sermões grandiloquentes que ainda permanecem na memória de Haworth. Ocasionalmente, um clérigo de uma das vilas vizinhas caminhava até lá para vê-lo; mas, como a Sra. Bronte morrera tão logo após sua chegada a Haworth, suas esposas nunca vinham, e as crianças Bronte não tinham companheiros de brincadeira nas vigarias próximas; nem lhes era permitido associar-se às crianças da vila.
Essa vida de rotina monótona agradava ao Sr. Bronte. Ele trabalhara por muitos anos e agora colhia seu repouso. Não temos mais sinal das energias impacientes de sua juventude. Ele mudara, desenvolver-se-a; exatamente como aquelas criaturas marinhas que, tendo em sua juventude barbatanas, olhos e tentáculos sensíveis, tornam-se, uma vez que encontram seu lugar de descanso, imobilizadas e a ele presas, perdendo um após o outro, a visão, o movimento e até mesmo a sensação, tudo menos a faculdade de aderir.
Enquanto isso, as crianças eram deixadas sozinhas. Para simpatia e diversão, elas só tinham uma à outra; e nunca houve irmão e irmãs mais devotados. Maria, a mais velha, cuidava de todos eles -- ela era uma menina à moda antiga, maternal; frágil e pequena na aparência, com maneiras atenciosas e ternas. Ela era muito cuidadosa com seus cinco pequeninos, essa mãe de sete anos de idade, e nunca parece ter exercido a autoridade um tanto tirânica usualmente exercida por tais jovens guardiãs. De fato, apesar de sua antiguidade, ela mesma era a desleixada da família; era apenas contra suas próprias falhas que ela era severa. Ela deve ter sido uma criaturinha muito envolvente, com suas delinquências infantis e seus cuidados femininos; protegendo sua pequena família com amor gentil e discutindo os debates no Parlamento com seu pai. Charlotte lembrou-se dela até o fim de sua vida com uma afeição apaixonada e apegada, e deixou-nos seu retrato na figura patética de Helen Burns.
Esta criança delicada e de peito fraco de sete anos era a chefe do berçário. Em seguida vinha Elizabeth, menos claramente individualizada na memória de suas irmãs. Ela também trazia em seu minúsculo corpo as sementes da tuberculose fatal. Depois vinha a impetuosa Charlotte, sempre pequena e pálida. Então o ruivo e falante Patrick Branwell. Por último, Emily e Anne, meras bebês, caminhando com dificuldade pelo caminho pavimentado até os pântanos.
Tal família exigia o cuidado mais próximo, a atenção mais exata. Isso era talvez impossível com uma renda de 200 libras por ano, quando a mãe estava deitada no andar de cima morrendo de uma doença que exigia cuidados constantes. Ainda assim, as condições da juventude dos Bronte eram desnecessariamente insalubres. Não se podia evitar que essas crianças delicadas vivessem na colina desolada e varrida pelo vento onde a tuberculose é, ainda hoje, um flagelo; não se podia evitar que sua casa fosse limitada em dois lados pelo cemitério da vila; não se podia evitar que fossem deixadas sem mãe em sua infância; mas nunca, aquém da negligência, crianças delicadas foram menos consideradas.
Os pequeninos, familiarizados com doenças graves na casa, esperavam pouca indulgência. Estavam acostumados a pensar que nada era mais necessário do que se divertirem em silêncio e não incomodarem. A lição aprendida tão cedo permaneceu nas mentes das cinco irmãs por toda a vida. Desde a infância, eram reservadas e boas; apenas Patrick Branwell mostrava às vezes sua independência masculina por uma explosão de travessura natural. Eram as mais quietas das crianças, por natureza e necessidade. Os cômodos na Casa Paroquial de Haworth eram pequenos e poucos. Havia na frente dois salões de tamanho moderado com vista para o jardim, sendo o da direita o escritório do Sr. Bronte, e o maior, oposto, a sala de estar da família. Atrás destes havia uma espécie de despensa vazia e as cozinhas. No primeiro andar, havia um quarto de empregados, onde os dois servos dormiam, sobre as dependências dos fundos; e um quarto sobre cada um dos salões. Entre estes, e acima da passagem de entrada, havia um cômodo minúsculo, mal maior do que um armário de roupas de cama, mal mais largo do que a porta e a moldura da janela que ficavam frente a frente em cada extremidade. Durante os últimos meses da doença da Sra. Bronte, quando se tornou necessário que ela tivesse um quarto só para si, todas as cinco meninas foram colocadas para dormir neste pequeno e ventilado armário, anteriormente o escritório das crianças. Quase não deve ter havido espaço para rastejar entre suas camas. Elas deviam ser muito quietas; pois qualquer brincadeira infantil teria perturbado a mãe moribunda de um lado, e o pai ansioso e irritável do outro. E por toda a casa elas deviam manter a mesma calma silenciosa, uma vez que os cômodos baixos de piso de pedra ecoariam qualquer ruído. Muito provavelmente não eram crianças infelizes, apesar de toda a sua quietude. Desfrutavam da mais absoluta liberdade, a posse mais cara da infância. Quando estavam cansadas de ler os jornais (pareciam não ter livros infantis), ou de discutir os méritos rivais de Bonaparte e do Duque de Wellington, estavam livres para seguir pelo caminho pavimentado sobre os três campos nos fundos, até que o último buraco na última muralha de pedra as deixasse passar para os vastos e solitários pântanos. Lá, em todos os climas, podiam ser encontradas; lá passavam suas horas mais felizes, incontroladas como os pássaros acima delas.
Uma regra parece ter sido feita por seu pai para a gestão dessas crianças precoces com sua carga tuberculosa, com sua mãe morrendo de câncer -- essa única regra feita pelo Sr. Bronte, ainda preservada para nós, é que as crianças não deveriam comer carne. O Rev. Patrick Bronte, B.A., crescera até proporções heroicas à base de batatas; ele não conhecia motivo para que seus filhos tivessem um destino diferente.
As crianças nunca reclamavam; assim a enfermeira da Sra. Bronte contou à Sra. Gaskell:
"Você não teria sabido que havia uma criança na casa, elas eram criaturas tão quietas, silenciosas e boas. Maria se trancava no escritório das crianças com um jornal e era capaz de contar tudo a alguém quando saía; debates no Parlamento, e não sei mais o quê. Ela era como uma mãe para suas irmãs e irmão. Mas nunca houve crianças tão boas. Eu costumava achá-las sem vida, eram tão diferentes de quaisquer crianças que eu já vira. Em parte, atribuí isso a uma mania que o Sr. Bronte tinha de não deixá-las comer carne. Não era por desejo de economizar, pois havia fartura e até desperdício na casa, com jovens criados e sem dona para cuidar deles; mas ele achava que as crianças deveriam ser criadas de forma simples e resistente: então elas não tinham nada além de batatas para o jantar; mas elas nunca pareciam desejar outra coisa. Eram criaturinhas boas. Emily era a mais bonita."
Esta Emily bonita de dois anos de idade não era a alegria constante de nenhuma mãe. Aquela ternura que molda precocemente, aquelas associações recorrentes de amor reverente, devem estar sempre ausentes em suas memórias. Lembrando-se de sua infância mais remota, ela recordaria uma necessidade constante de manter alegrias e tristezas em silêncio, sem deixar que outros ouvissem; ela recordaria o amor igual das crianças umas pelas outras, o amor das únicas cinco crianças que ela conhecia em todo o mundo; os vastos pântanos livres onde ela podia ir como bem entendesse, e onde os coelhos brincavam e a caça do pântano corria e os pássaros selvagens cantavam e voavam.
A morte da Sra. Bronte não pode ter feito grande diferença para nenhum de seus filhos, exceto Maria, que fora sua companheira constante em Thornton; amigável e prestativa como uma menina de seis anos pode ser para a mãe preocupada e delicada de muitos bebês. Emily e Anne mal se lembrariam dela. Charlotte só conseguia lembrar vagamente da imagem de sua mãe brincando com Patrick Branwell em uma tarde de crepúsculo. Um cômodo vazio, uma cessação de negócios habituais, a morte de sua mãe não pode ter significado muito mais do que isso para as crianças mais novas.
Por cerca de um ano, foram deixadas inteiramente por conta própria e ao cuidado grosseiro de servos bondosos e ocupados. Eles criavam peças sobre grandes homens, liam os jornais e adoravam o Duque de Wellington, passeavam pelos pântanos conforme sua própria vontade, não conhecendo e não se importando absolutamente com nenhuma criatura fora das paredes de seu próprio lar. Para essas criaturinhas livres, resistentes e independentes, o Sr. Bronte anunciou certa manhã que sua tia solteira da Cornualha, a irmã mais velha de sua mãe, estava vindo para supervisionar sua educação.
"A Srta. Branwell era uma senhora muito pequena e antiquada. Ela usava toucas grandes o suficiente para meia dúzia da moda atual, e uma frente de cachos castanhos claros sobre a testa. Ela sempre se vestia de seda. Tinha horror ao clima tão ao norte, e aos pisos de pedra na Casa Paroquial.... Ela falava muito de seus tempos de juventude -- as alegrias de sua querida cidade natal Penzance, o clima suave e quente, etc. Ela dava a ideia de que fora uma beldade entre seus próprios conhecidos em casa. Ela tomava rapé de uma caixinha de rapé de ouro muito bonita, que ela às vezes apresentava a você com uma risadinha, como se apreciasse o leve choque de espanto visível em sua expressão.... Ela podia ser muito animada e inteligente, e lançar argumentos contra o Sr. Bronte sem medo."
Assim, a Srta. Ellen Nussey recorda a idosa e recatada Srta. Branwell cerca de dez anos após sua primeira chegada a Yorkshire. Mas sempre se disse a seu respeito que ela mudou muito pouco. O retrato vívido da Srta. Nussey representará com bastante precisão a solteirona de quarenta anos que, por um rigoroso e nobre senso de dever, deixou seu lar agradável no sul para cuidar dos pequenos órfãos que corriam soltos na reitoria de Haworth. É fácil imaginar com que horrorizado espanto tia e sobrinhas devem ter encarado as peculiaridades umas das outras.
Era, sem dúvida, uma vantagem estimável para as crianças ter alguma senhora da família com autoridade sobre elas. Daí em diante, seu tempo não estava mais livre para ser disposto como bem entendessem. Elas recitavam lições para o pai, faziam costura com a tia e aprendiam com ela todos os deveres domésticos. A vantagem teria sido uma bênção se sua tia fosse uma mulher de natureza doce e maternal; mas a mudança da liberdade absoluta para a disciplina de solteirona dela não foi fácil de suportar — um bem amargo, um tônico fortalecedor, porém desagradável, tornando as crianças ainda menos expansivas, ainda mais fechadas e silenciosas. Patrick Branwell era o favorito de sua tia, o travesso, inteligente, brilhante, rebelde e afetuoso Patrick. Depois dele, ela sempre preferiu a doce e gentil bebê Anne, com seus modos meigos e apegados, sua pronta submissão, seus grandes olhos azuis e sua tez clara, rosada e branca. Charlotte, impulsiva, obstinada e comum, e a rude e tenaz Emily não foram feitas para serem suas favoritas. Muitas lutas ferozes de vontades, muitas audiências sombrias de reminiscências excessivamente frívolas devem ter mostrado à tia e às suas sobrinhas a diferença de suas naturezas. Maria, também, a outrora chefe do berçário, deve ter achado a submissão difícil; mas a sua era uma natureza singularmente doce e modesta. De Elizabeth, pouco se recorda.
O Sr. Bronte, agora que as crianças estavam deixando a primeira infância, parece ter sentido certo orgulho delas. Provavelmente, suas lições diárias lhe mostravam o caráter e o talento escondidos sob aqueles semblantes pálidos e graves. Em uma carta à Sra. Gaskell, ele relata exemplos do talento precoce delas. Pais mais apegados ao lar sorrirão com os meios simples, porém teatrais, que ele usou para descobrir o segredo das verdadeiras disposições de seus filhos. Foi uma inspiração característica, digna do criador do antigo nome Bronte. Uma certa simplicidade de confiança em sua própria sutileza confere um sabor picante à maneira de contar a história:
"Ocorre-me agora uma circunstância que talvez valha a pena mencionar. Quando meus filhos eram muito pequenos, quando, tanto quanto me lembro, a mais velha tinha cerca de dez anos e a mais nova quatro, pensando que sabiam mais do que eu havia descoberto, para fazê-las falar com menos timidez, julguei que, se fossem colocadas sob uma espécie de cobertura, eu poderia alcançar meu objetivo; e, por acaso, tendo uma máscara em casa, disse a todas que ficassem de pé e falassem ousadamente debaixo da cobertura da máscara.
"Comecei com a mais nova (Anne, depois Acton Bell) e perguntei o que uma criança como ela mais queria; ela respondeu: 'Idade e experiência'. Perguntei à seguinte (Emily, depois Ellis Bell) o que seria melhor eu fazer com seu irmão Branwell, que às vezes era um menino travesso; ela respondeu: 'Raciocine com ele; e quando ele não quiser ouvir a razão, chicoteie-o'. Perguntei a Branwell qual era a melhor maneira de conhecer a diferença entre o intelecto dos homens e das mulheres; ele respondeu: 'Considerando a diferença entre eles quanto aos seus corpos'. Então perguntei a Charlotte qual era o melhor livro do mundo; ela respondeu: 'A Bíblia'. E qual era o segundo melhor; ela respondeu: 'O livro da Natureza'. Perguntei então à seguinte (Elizabeth, que parece ter levado a sério os ensinamentos da Srta. Branwell) qual era o melhor modo de educação para uma mulher; ela respondeu: 'Aquele que a faria governar bem sua casa'. Por último, perguntei à mais velha qual era o melhor modo de passar o tempo; ela respondeu: 'Aplicando-o na preparação para uma eternidade feliz'. Posso não ter usado precisamente as suas palavras, mas quase o fiz, pois elas deixaram uma impressão profunda e duradoura em minha memória. A substância, contudo, foi exatamente o que afirmei."
O caráter severamente prático da resposta de Emily é um alívio diante da filosofia pouco infantil de Branwell, Maria e da bebê. Uma criança de quatro anos que prefere idade e experiência a uma tortinha e alguns doces deve ser um produto não natural. Mas os Bronte parecem não ter tido infância; discussão ilimitada de debates, longas caminhadas sem qualquer companheiro de brincadeira, a leitura livre de revistas metodistas, este é o alimento de sua infância. Anos depois, quando convidaram algumas crianças da escola para tomar chá, as jovens filhas do clérigo tiveram que pedir aos seus pequenos alunos que as ensinassem a brincar. Foi a primeira vez que se importaram em tentar.
O que sua infância realmente lhes ensinou foi o valor da experiência curiosa de seu pai. Elas aprenderam a falar ousadamente debaixo de uma máscara. Contidas, forçadamente silenciosas, assumindo uma aparência recatada para ocultar seus corações apaixonados, as cinco irmãs nunca expressaram seus pensamentos mais íntimos em olhar, palavra ou gesto. Elas guardavam o lazer no qual não podiam brincar para inventar histórias, dramas e contos de fadas, nos quais cada uma soltava, sem ruído, sem medo de repreensão, as fantasias que nunca tentaram colocar em prática como as outras crianças costumam fazer. Charlotte escreveu contos de heroísmo e aventura. Emily importava-se mais com contos de fadas, fantasias selvagens, não naturais e estranhas, sugeridas sem dúvida em algum grau pelas histórias irlandesas fantasmagóricas de seu pai. Já em seu berçário, a inclinação peculiar de seu gênio tomava forma.
Enquanto isso, a vida exterior regular continuava — o levantar cedo, o tirar o pó e o fazer pudins, as lições ditas ao pai, a porção diária de costura realizada no quarto da Srta. Branwell, porque aquela senhora passava a detestar cada vez mais o piso de pedra da sala de estar. Todos os dias, uma hora era arrebatada para uma caminhada nos pântanos; tempos de paz no verão, quando as meninas levavam sua costura para debaixo dos espinheiros e groselheiras atrofiados no jardim, o som do clique dos tamancos da Srta. Branwell ouvido indistintamente lá dentro. Tempos felizes em que seis crianças, tudo umas para as outras, contavam histórias maravilhosas em vozes baixas para seu próprio encantamento. Então, em uma primavera, a doença na casa; as crianças sofrendo uma complicação de sarampo e coqueluche. Elas nunca mais tiveram tempos tão felizes, pois pensou-se que seria melhor que as duas mais velhas fossem embora após a doença; que recebessem uma mudança de ares em alguma boa escola. O Sr. Bronte fez indagações e ouviu falar de uma instituição estabelecida para filhas de clérigos em Cowan's Bridge, uma vila na estrada principal entre Leeds e Kendal. Após alguma hesitação, as autoridades escolares consentiram em receber as crianças, agora livres de infecção, embora ainda delicadas e precisando de cuidados. Para lá o Sr. Bronte levou Maria e Elizabeth em julho de 1824. Emily e Charlotte seguiram em setembro.
CAPÍTULO III.
COWAN'S BRIDGE.
"Foi no ano de 1823 que a escola para filhas de clérigos foi projetada pela primeira vez. O local era apenas então considerado desejável em si mesmo, e como um lugar que poderia provavelmente ser viável em um dia distante. A menção do mesmo, no entanto, a apenas dois amigos no Sul, tendo encontrado sua calorosa aprovação e uma remessa de 70 libras, uma oportunidade pareceu ser criada para o início do trabalho.
"Com essa quantia em mãos, confiando Naquele a quem pertencem todos os corações e a quem pertencem a prata e o ouro, as instalações em Cowan's Bridge foram adquiridas, os reparos e adições necessários prosseguiram, e a escola foi mobiliada e aberta na primavera de 1824. A despesa total da compra e do equipamento montou a 2333 libras, 17 xelins e 9 pence.
"A escassa provisão de uma grande parcela do clero da Igreja Estabelecida tem sido há muito uma fonte de pesar; e meios muito eficientes foram adotados de várias formas para remediá-la. O único objetivo da Escola para Filhas do Clero é adicionar, em sua medida, a esses meios, colocando uma boa educação feminina ao alcance do clero mais pobre. E por eles a ajuda oportuna assim oferecida tem sido devidamente apreciada. A ansiedade e o trabalho que necessariamente acompanham a gestão de tal instituição têm sido abundantemente recompensados pela gratidão que tem sido manifestada entre os pais das alunas.
"Tem sido uma circunstância muito gratificante que a Escola para Filhas do Clero tenha sido capaz de seguir o projeto de instituições um tanto semelhantes em Londres. Alunas vieram para ela como aprendizes da Corporação dos Filhos do Clero; e também da Escola de Órfãos do Clero, na qual a educação é de natureza limitada e as alunas não têm permissão para permanecer após a idade de dezesseis anos.
"A escola está situada na paróquia de Tunstall, na estrada principal de Leeds para Kendal, entre as quais cidades uma diligência circula diariamente, e a cerca de duas milhas da cidade de Kirkby Lonsdale.
"Cada aluna paga 14 libras por ano (metade adiantada) por vestuário, alojamento, pensão e educação; 1 libra de entrada para a despesa de livros, e 3 libras de entrada para pelissas, vestidos, chapéus, etc., que todas usam iguais. De modo que o primeiro pagamento que uma aluna deve trazer consigo é de 11 libras; e o pagamento semestral subsequente, de 7 libras. Se francês, música ou desenho forem aprendidos, pagam-se 3 libras a mais por ano por cada um deles.
"A educação é dirigida de acordo com as capacidades das alunas e os desejos de seus amigos. Em todos os casos, o grande objetivo em vista é o seu aperfeiçoamento intelectual e religioso; e dar aquela educação simples e útil que melhor possa prepará-las para retornar com respeitabilidade e vantagem aos seus próprios lares; ou para se manterem nas diferentes estações da vida para as quais a Providência possa chamá-las."
... Aqui vem alguma explicação sobre as contas do tesoureiro. Então o relatório recomeça:
"Por mais baixos que sejam os termos, tem sido angustiante descobrir que, em muitos casos, clérigos que se candidataram em nome de suas filhas não puderam usufruir dos benefícios da escola devido à inadequação de seus meios para elevar os pagamentos exigidos.
"O objetivo dos projetistas não será totalmente realizado até que sejam oferecidos os meios de reduzir os termos ainda mais, em casos extremos, a critério do comitê. E ele confia que chegará o tempo em que, seja por legados ou de outra forma, a escola possa ser colocada ao alcance daqueles do clero para quem é especialmente destinada — ou seja, os mais necessitados.
"A escola está aberta a todo o reino. Doadores e assinantes obtêm a primeira atenção na recomendação de alunas; e a única investigação feita nas solicitações de admissão é sobre as circunstâncias realmente necessitadas da candidata.
"Há agora noventa alunas na escola (o número que pode ser acomodado) e várias estão aguardando admissão.
"A escola está sob os cuidados da Sra. Harben, como superintendente, oito professoras e duas subprofessoras.
"A Deus pertence a glória do grau de sucesso que acompanhou este empreendimento, e que superou em muito as expectativas mais otimistas. Mas a expressão de agradecimento muito grato não deve faltar aos muitos benfeitores que tão prontamente e tão generosamente prestaram sua assistência. Eles têm sua recompensa nas orações constantes que são oferecidas de muitos corações agradecidos por todos que apoiam esta instituição."
Assim, excelente e moderadamente, corre o relatório do quarto ano do filantrópico Gymnase Moronval, o evangélico Dotheboys Hall, familiar aos leitores de "Jane Eyre". Quando esses cumprimentos foram impressos, aqueles horrores de fome, crueldade e febre já haviam se concretizado, o que trouxe a morte a muitas crianças e, para as que viveram, uma amarga lembrança de injustiça. As duas irmãs Bronte que sobreviveram aos seus dias de escola trouxeram delas uma profunda desconfiança da bondade humana, uma difícil crença no afeto sincero, não natural aos seus espíritos calorosos e apaixonados. Trouxeram corpos ainda mais debilitados, propensos a doenças; trouxeram a memória de duas queridas irmãs mortas. "A Deus seja a glória", diz o relatório. Em vez disso, rezemos, ao Reverendo William Carus Wilson.
O relatório citado acima foi emitido seis anos depois do outono em que as pequenas Bronte foram enviadas para Cowan's Bridge; não se sabia então em que termos uma daquelas meninas pálidas agradeceria a seus benfeitores, falaria de suas vantagens. Ela falou finalmente, e gerações de leitores consideraram como trapos imundos a retidão daquela instituição, milhares de corações caridosos bateram forte com indignação pela vaidade filantrópica que salvaria sua própria alma pelo sofrimento dos corpos tenros de criancinhas. No entanto, por uma estranha anomalia, este benfeitor ogro, este Brocklehurst, deve ter sido um entusiasta zeloso e abnegado, com toda a sua bondade estragada por um amor imperioso à autoridade, uma vaidade extravagante.
Foi no primeiro ano da escola que as pequenas Bronte deixaram seu lar nos pântanos para Cowan's Bridge. Era natural que, até então, muitas coisas estivessem erradas e causassem atrito na ordem imperfeita da casa; igualmente natural que as crianças não conseguissem encontrar desculpas: pobres prisioneiras confinadas, tremendo e famintas, em um asilo cruel, longe dos amigos e da liberdade.
A escola, longa e baixa, mais parecida com uma casa de fazenda despretensiosa do que com uma instituição, forma dois lados de um retângulo. As janelas dos fundos dão para um jardim plano de cerca de setenta jardas de largura. Parte da casa era originalmente uma casa de campo; a parte mais longa, um moinho de bobinas desativado, antes movido pelo riacho que corre ao lado do jardim úmido e pequeno. O andar térreo foi transformado em salas de aula, os dormitórios ficavam acima, a sala de jantar e a sala das professoras ficavam na casa de campo ao fundo. Todos os cômodos eram pavimentados com pedra, de teto baixo, janelas pequenas; não como são construídos para crianças em crescimento, trabalhando juntas em grandes turmas. Nenhum conselho de administradores permitiria que as crianças mais pobres das nossas ruas de Londres trabalhassem em salas de aula tão mal ventiladas.
O moinho de bobinas, não construído para habitação, era, sem dúvida, defeituoso e insuficiente em drenagem. A situação da casa, escolhida por sua proximidade com o riacho, era úmida e fria, em uma planície desolada e sem abrigo, pitoresca o suficiente no verão com os amieiros verdes debruçados sobre o riacho balbuciante, mas no inverno, amargamente fria. Nesta casa de máquinas desolada, o lugar das rodas e molas expulsas foi ocupado por noventa seres humanos famintos e em crescimento, todos vestidos da mesma forma com as roupas grosseiras e mal ajustadas da caridade, todos ensinados a olhar, falar e pensar da mesma maneira, todos elogiados ou expostos à reprovação conforme se assemelhavam ou divergiam das máquinas cujo lugar ocupavam e cujo movimento regular e irracional era o modelo de sua vida.
Essas crianças deviam, em grande parte, sua excelente educação, sua comida e alojamento miseráveis, aos esforços de um rico clérigo de Willingdon, a vila mais próxima. O Rev. Carus Wilson era uma pessoa importante na vizinhança; uma pessoa a quem se recorria em emergências, que se orgulhava de sua prudência, visão e eficiência em ajudar os outros. Com isso, não menos um homem de desejo real e zeloso de fazer o bem, uma pessoa enérgica e sensível, capaz de ver males e conceber remédios. Ele desejava ajudar: ele não desejava menos que se soubesse que ele havia ajudado. Compadecendo-se das condições miseráveis de muitos de seus colegas de trabalho, ele não descansou até fundar uma escola onde as filhas do clero pobre recebessem uma educação justa a um preço nominal. Quando o dinheiro para a escola foi disponibilizado, a propriedade foi confiada a doze administradores; o Sr. Wilson era um deles. Ele também era tesoureiro e secretário. Quase todo o trabalho, o poder, a supervisão, a autoridade do negócio, ele assumiu para si. Ele não tinha medo do trabalho, e amava o poder. Ele gerenciaria, ele seria o supervisor, ele guiaria, organizaria e aconselharia. Tão certo ele se sentia de sua capacidade de mover todas as engrenagens ele mesmo, que parece ter exercido pouco esforço e menos discernimento ao nomear seus subordinados. A boa sorte lhe enviou uma mulher gentil, sábia e nobre como superintendente; mas as outras professoras eram menos capazes, algumas irritadiças, algumas sem autoridade. A governanta, que deveria ter sido escolhida com o maior cuidado, já que em suas mãos estava toda a gestão e preparação da comida dessas crianças em crescimento, era uma mulher desleixada e perdulária, tirada da cozinha do Sr. Wilson, e em quem ele muito acreditava. No entanto, à porta dela devemos atribuir grande parte da miséria de "Lowood".
Os fundos eram pequenos e um tanto incertos. A honra e a necessidade impunham uma certa economia. O Sr. Wilson contratava a carne, a farinha e o leite, e frequentemente inspecionava ele mesmo os suprimentos. Mas talvez ele não inspecionasse a cozinha. As alunas de "Lowood" tinham muitas histórias para contar sobre leite azedado em panelas sujas; de mingau queimado com fragmentos nojentos nele vindos de utensílios de cozinha sujos; de arroz cozido em água do barril da chuva, com sabor de folhas mortas e poeira do telhado; de carne salgada quando já contaminada pela decomposição; de horríveis tortas de ressurreição feitas de sobras pouco apetitosas e gordura rançosa. A carne, a farinha, o leite e o arroz eram, sem dúvida, bons o suficiente quando o Sr. Wilson os via, mas as pequenas alunas famintas, com sua fome frustrada, não tinham nem a coragem de reclamar, nem a imparcialidade para desculpar. Quanto ao restante, não era fácil reclamar ao Sr. Wilson. Seu evangelismo ácido o levava à mesma conclusão que a avareza de um mestre-escola de Yorkshire menos desinteressado; ele as teria mandado vencer a natureza humana. Sendo um homem muito orgulhoso, ele buscava cultivar a humildade nos outros. As crianças vestiam-se todas da mesma maneira, usando no verão chapéus de palha simples de campo, vestidos brancos aos domingos e nanquim durante a semana; todas usando no inverno vestidos de tecido roxo e pelissas roxas — um vestuário útil e apropriado que não deveria permitir invejas, ciúmes ou lisonjas. Elas não deveriam ser vaidosas, nem deveriam ser gananciosas. Um pedido por comida mais saborosa teria marcado quem pediu com o desprezo duradouro do Rev. William Carus Wilson, administrador, tesoureiro e secretário. Elas deveriam aprender que era errado gostar de coisas bonitas para vestir, coisas gostosas para comer, jogos agradáveis para brincar; essas pequenas alunas levadas metade por caridade. O Sr. Wilson era repelido pelo lado infantil de uma criança; ele o ignorava deliberadamente.
Uma vez nesta sombria, fria e faminta casa de caridade, havia pouca esperança de fuga. Todas as cartas e pacotes eram inspecionados pela superintendente; nenhum amigo das alunas era permitido na escola, exceto para uma curta visita de cerimônia. Mas é provável que Maria e Elizabeth, enviadas antes, não tivessem pensado em avisar suas irmãs menores. Tão desprovidas de toda experiência estavam elas, que provavelmente imaginavam que todas as escolas eram como Cowan's Bridge; tão ansiosas para aprender, que sem dúvida aceitaram voluntariamente o frio, a fome, a hostilidade deliberada que tornaram sua infância ansiosa e velha.
A sorte pesou mais sobre a irmã mais velha, a inteligente, gentil e desleixada Maria. A principal lição ensinada em Cowan's Bridge era o valor da rotina.
Maria, com seus modos descuidados, opiniões prontas, doce e amorosa incapacidade de se tornar uma máquina, Maria estava em desarmonia com todos os princípios de Cowan's Bridge. Ela incorreu no amargo ressentimento de uma das professoras, que buscava todos os meios de humilhar e mortificar a pequena criatura de natureza doce e desamparada. Quando, em setembro, a brilhante e falante Charlotte e a bebê Emily chegaram a Cowan's Bridge, encontraram sua pequena mãe idolatrada, sua Maria, como o alvo, a chacota e a ovelha negra da escola.
As coisas iam melhor para as duas mais novas, Charlotte, uma menina viva e inteligente, e Emily, a mais bonita das irmãzinhas, "uma criança adorável, com menos de cinco anos de idade, a verdadeira protegida da escola".[3] Mas, embora a princípio, sem dúvida, essas duas bebês estivessem satisfeitas com a mudança de cenário e a companhia de outras crianças, o infortúnio estava por vir. Não apenas a detestável escassez de alimento, o simples frio em seus corpos; viram sua irmã mais velha tornar-se mais magra, mais pálida dia após dia, sem que ninguém cuidasse dela, sem qualquer condescendência para com sua fraqueza. A pobre criança, maltratada e malnutrida, adoeceu gravemente sem reclamar; mas, por fim, até as autoridades de Cowan's Bridge perceberam que ela estava morrendo. Mandaram chamar o Sr. Bronte na primavera de 1825. Ele não ouvira falar de sua doença em nenhuma das cartas de suas filhas, devidamente inspecionadas pela supervisora. Não ouvira histórias de comida precária, quartos úmidos, negligência. Ele veio a Cowan's Bridge e viu Maria, sua pequena e inteligente companheira, magra, definhada, moribunda. O pobre pai sentiu um choque terrível. Levou-a para casa consigo, longe das três irmãzinhas que esticavam o pescoço para vê-la partir. Ela foi para casa, em Haworth. Poucos dias depois, morreu.
Poucas semanas após a morte de Maria, quando a primavera tornou Lowood suportável, quando as três irmãzinhas entristecidas já não acordavam à noite por causa do frio, nem caminhavam mais coxas com os pés sangrando, podendo passear sob o sol e colher flores, quando abril deu lugar a maio, uma epidemia de doenças assolou Cowan's Bridge. As meninas, uma a uma, tornaram-se fracas e pesadas; nem as repreensões nem os textos sagrados as despertavam agora; em vez de passar as horas de recreio em jogos ao doce ar da primavera, em vez de colher flores ou correr, essas crianças em crescimento tornaram-se lerdas, flácidas, indolentes. Não havia como estimulá-las ao trabalho ou à brincadeira. A crescente enfermidade entre as meninas tornou até seus insensíveis guardiões ansiosos, enfim. Elizabeth Bronte foi uma das primeiras a sucumbir. Não foi a febre que a afligiu, a misteriosa febre não declarada que pairava sobre a casa; sua tosse frequente, seu espírito valente, sua pele clara apontavam para outro destino. Mandaram-na para casa sob os cuidados de um criado; e antes que o verão tingisse as parcas bordas de flores sobre as sepulturas mais recentes no cemitério de Haworth, Elizabeth Bronte estava morta, para nunca mais sentir fome, frio ou tristeza. Sua difícil vida de dez anos chegara ao fim. A segunda das irmãs Bronte fora vítima do consumo.
A disciplina foi subitamente relaxada para as que permaneceram em Cowan's Bridge. Havia mais para comer, pois havia menos bocas para alimentar; havia mais tempo para brincar e caminhar, pois não havia ninguém para vigiar e conter as crianças ávidas, que brincavam, comiam, gritavam e corriam desenfreadas com uma certa sensação de alívio, embora soubessem que só estavam livres porque a morte estava na casa e a pestilência no ar.
O vale arborizado de Cowan's Bridge era enevoado, insalubre, úmido. As alunas, subnutridas, tolhidas, negligenciadas. Sua estranha indolência e peso tornavam-se cada vez mais fortes com a primavera. De repente, quarenta e cinco das oitenta meninas jaziam doentes de febre tifoide. Muitas foram mandadas para casa apenas para morrer, algumas morreram em Cowan's Bridge. Todos os que podiam, mandavam buscar seus filhos. Entre os poucos que permaneceram no vale que criava a febre, na casa contaminada, onde os odores de pastilhas e remédios se misturavam, mas não conseguiam vencer, o cheiro fraco e nauseabundo da febre e da mortalidade, entre esses poucos abandonados estavam Charlotte e Emily Bronte.
Graças à vida livre e descuidada, ao sol, à nova abundância de comida, as duas crianças não contraíram a infecção. As coisas, de fato, estavam mais brilhantes para elas agora, ou teriam estado, se o espírito indignado naqueles corpos minúsculos pudesse ter perdoado ou esquecido as mortes de suas duas irmãs.
A reforma chegara a Cowan's Bridge e, com passos largos, varrera a antiga ordem das coisas. O local foi declarado insalubre; o vestuário, insuficiente; a água, fétida e salobra. Quando o médico que inspecionou a escola foi convidado a provar a comida diária das alunas, ele a cuspiu. Tudo, absolutamente tudo, deveria ser alterado. Foi um momento de dolorosa e grave humilhação para o Sr. Wilson. Ele não sentira escrúpulos, nem dúvidas; trabalhara muito arduamente, pensava que as coisas iam muito bem. As contas estavam em excelente ordem, a educação, completa e boa, o sistema, elaborado, as meninas realmente pareciam estar adquirindo um espírito manso e tranquilo; e, para citar o prospecto, "o grande objetivo em vista é o seu aprimoramento intelectual e religioso". Então interveio a doença não contabilizada, e a instituição modelo tornou-se sinônimo de reprovação para o condado e para a ordem à qual pertencia. As pessoas, contudo, não foram injustas com o influente e rico tesoureiro, administrador e secretário. Reconheceram sua energia, capacidade financeira e talento para organização. Tudo o que fizeram foi qualificar o rigor de sua gestão. Ele continuou tesoureiro, mas os fundos foram confiados a um comitê. Manteve seu posto de inspetor, mas assistentes foram nomeados para compartilhar suas responsabilidades. A escola foi entregue aos cuidados de uma nova governanta; rações de comida maiores e melhores foram distribuídas. Finalmente, uma subscrição foi iniciada para construir uma casa melhor em um local mais saudável. Quando Charlotte e Emily Bronte foram para casa nas férias de verão, a reforma estava a todo vapor em Cowan's Bridge.
Voltaram para casa, duas das quatro crianças que tinham deixado seu lar feliz seis meses antes. Voltaram para casa para não encontrar a maternal Maria, nem a robusta e paciente Elizabeth. Os passeios nas charnecas, as histórias sob as árvores de espinheiro deveriam, de agora em diante, ficar incompletos. As duas mais velhas daquele pequeno grupo não podiam mais ser encontradas na casa ou no jardim — jaziam silenciosas sob uma grande laje de pedra perto do banco do vigário na igreja. As três irmãzinhas, o único irmãozinho, devem ter pensado frequentemente em suas vizinhas silenciosas quando o sermão era muito longo. Assim, familiarizada desde cedo e vizinha da morte, uma delas pelo menos, a alta e corajosa Emily, cresceu sem pensamentos lúgubres sobre ela, nem sonhos de um céu distante.
Quando as férias acabaram, as duas irmãs voltaram para a escola. Seu pai, estranhamente, não teve medo de enviá-las para aquele lugar fatal. A tia, com suas duas preferidas em casa, não estava excessivamente preocupada. Charlotte e Emily voltaram para Cowan's Bridge. Mas, antes do inverno, elas adoeceram: o ar úmido, o local insalubre (pois, ainda, a nova casa não estava construída) trouxeram à tona a fraqueza de suas constituições. Tendo em vista o destino das irmãs mais velhas, as autoridades avisaram o Sr. Bronte, e as duas crianças voltaram para casa, em Haworth.
NOTAS DE RODAPÉ:
[Nota de rodapé 2: É muito desejado que as alunas usem apenas o uniforme escolar durante as férias.]
[Nota de rodapé 3: Sra. Harben para a Sra. Gaskell.]
CAPÍTULO IV.
INFÂNCIA.
O lar para o qual Charlotte e Emily retornaram não era um lugar muito mais saudável do que aquele que deixaram; mas era o lar. Era ventoso, frio e mal drenado. O Sr. Bronte estava sempre se esforçando para incitar seus paroquianos a melhorar as condições sanitárias do lugar; mas, por muitos anos, seus esforços foram em vão. O povo astuto de Yorkshire hesitava em colocar seu dinheiro debaixo da terra, e era difícil fazê-los acreditar que a causa real das frequentes epidemias e febres em Haworth era algo que pudesse ser curado por um sistema eficaz de drenagem do subsolo. Era mais barato e fácil culpar a Providência. Assim, o pároco pregava em vão. E bem que poderia pregar, pois sua própria casa estava no epicentro do mal.
"Ao sair pelo portão do Parsonage, via-se o galpão de corte dos canteiros de pedra, que estava empilhado com lajes prontas para uso, e aos ouvidos chegava o incessante 'tec, tec' do cinzel de registro enquanto gravava os 'In Memoriams' dos falecidos."
Assim diz o manuscrito da Srta. Nussey. Ela também conta sobre o som constante do sino de finados; sobre os enterros frequentes no cemitério apinhado. Nenhum lar alegre e saudável para crianças sensíveis e delicadas.
"Das janelas do Parsonage, a primeira visão era o canteiro de grama ladeado por um muro, uma ou duas árvores de espinheiro e alguns arbustos e groselheiras que não cresciam. Ao lado destes, ficava o grande e quase circundante cemitério, tão cheio de lápides que quase nenhuma tira de grama podia ser vista nele."
Além disso, as charnecas, as charnecas selvagens, estéreis e desprovidas de árvores, que se estendem por milhas e milhas, alimentando alguns rebanhos de ovelhas da montanha, abrigando alguns coelhos e lebres selvagens, proporcionando um local de nidificação para as aves do céu e, para o uso do homem, nem grãos nem pastagens, mas pedreiras e pilhas de turfa, fumegando sinistramente lá em cima nas noites de outono.
Tal é o lar ao qual Emily Bronte se apegou com o amor apaixonado do suíço por suas montanhas brancas, com uma saudade na ausência que tensionava as próprias fibras da vida. No entanto, sua infância naquele lar sem mãe tinha poucos dos elementos da felicidade infantil, e sua estrita e ocupada vida diária era entristecida pela perda de Maria e Elizabeth, queridas companheiras de brincadeiras nunca esquecidas. Charlotte, agora a mais velha da família, era apenas dois anos mais velha que Emily, mas seu senso de responsabilidade fazia com que parecesse ter uma idade completamente diferente. Era a pequena Anne quem era a companheira de Emily — a delicada, tímida e bonita Anne, a favorita da Srta. Branwell. Anne só conseguia entrar nos estados de espírito mais fáceis ou leves de sua irmã e, ainda assim, era tão querida que Emily nunca buscou outra amiga. Assim, desde a infância, acostumou-se a guardar para si mesma suas confidências sobre seus pensamentos mais profundos e fantasias mais vivas.
Uma vida quieta e regular — varrer carpetes, costurar, tirar o pó pela manhã. Depois, algumas lições necessárias ditas à tia lá em cima; depois, à noite, enquanto o Sr. Bronte escrevia seus sermões no escritório e a Srta. Branwell sentava-se em seu quarto, as quatro crianças, sozinhas na sala de estar, ou sentadas junto ao fogo da cozinha, enquanto Tabby, a criada, movia-se rapidamente, escreviam suas revistas ou criavam suas peças.
Havia ainda muito sobre política nas peças. O Sr. Bronte, que se interessava vivamente pelos assuntos do mundo, sempre contava às crianças as principais notícias públicas do dia e deixava que lessem os jornais e revistas que pudessem encontrar. Assim, os pequenos Brontes tagarelavam sobre o Duque de Wellington quando outras crianças ainda tinham o João e o Pé de Feijão como herói; o Marquês de Douro era seu Príncipe Encantado; seus Yahoos, os católicos; seus gênios maléficos, o Ministério Liberal.
"Nossas peças foram estabelecidas", diz Charlotte, a cronista da família, em sua história do ano de 1829: "'Jovens Homens', junho de 1826; 'Nossos Companheiros', julho de 1827; 'Ilhéus', dezembro de 1827. Estas são nossas três grandes peças que não são mantidas em segredo. As melhores peças de Emily e minhas foram estabelecidas em 1º de dezembro de 1827; as outras, em março de 1828. Melhores peças significam peças secretas; são muito legais. Todas as nossas peças são muito estranhas. Sua natureza não preciso escrever no papel, pois acho que sempre me lembrarei delas. A peça dos 'Jovens Homens' surgiu de alguns soldados de madeira que Branwell tinha; 'Nossos Companheiros', das Fábulas de Esopo; e os 'Ilhéus', de vários eventos que aconteceram. Esboçarei a origem de nossas peças mais explicitamente, se puder. Primeiro, 'Jovens Homens'. Papai comprou para Branwell alguns soldados de madeira em Leeds; quando papai chegou em casa, já era noite, e estávamos na cama, então, na manhã seguinte, Branwell veio à nossa porta" (o quartinho sobre o corredor. Anne dormia com a tia) "com uma caixa de soldados. Emily e eu pulamos da cama, e eu peguei um e exclamei: 'Este é o Duque de Wellington! Este será o Duque.' Quando eu disse isso, Emily também pegou um e disse que seria o dela; quando Anne desceu, ela disse que um seria o dela. O meu era o mais bonito de todos, o mais alto e o mais perfeito em cada detalhe. O de Emily era um sujeito de aparência grave, e nós o chamávamos de 'Gravey'. O de Anne era uma coisinha estranha, muito parecida com ela mesma, e nós o chamávamos de 'Waiting-boy'. Branwell escolheu o seu e o chamou de Bonaparte."
Em outra peça, Emily escolhe Sir Walter Scott, o Sr. Lockhart e Johnny Lockhart como seus representantes; Charlotte, o Duque de Wellington, o Marquês de Douro, o Sr. Abernethy e Christopher North. Esta última personagem era, de fato, de grande importância aos olhos das crianças, pois a Blackwood's Magazine era sua leitura favorita. Nas prateleiras de seu pai havia poucos romances e poucos livros de poesia. O escritório do clérigo orgulhava-se necessariamente de suas obras de teologia e referência; para as crianças, havia apenas os romances selvagens de Southey, os poemas de Sir Walter Scott, deixados por sua mãe da Cornualha, e "algumas revistas metodistas loucas, cheias de milagres, aparições e avisos sobrenaturais, sonhos premonitórios e fanatismo frenético; e as cartas igualmente loucas da Sra. Elizabeth Rowe, dos Mortos para os Vivos", familiares aos leitores de 'Shirley'. Para contrabalançar todo esse romance e terror, as crianças tinham seu interesse por política e pela Blackwood's Magazine, "o periódico mais capaz que existe", diz Charlotte, aos treze anos. Eles também viam o John Bull, "um alto Tory, muito violento, o Leeds Mercury, Leeds Intelligencer, um excelente jornal Tory", e assim se tornaram fanáticos realizados em todas as questões candentes do dia.
A Srta. Branwell certificava-se de que as meninas não carecessem de conhecimentos mais domésticos. Cada uma assumia sua parte no trabalho do dia e aprendia todos os detalhes tão precisamente quanto qualquer donzela alemã em sua escola de culinária. Emily dedicou-se de bom grado até aos trabalhos domésticos mais pesados; ali, ela se sentia capaz e necessária; e, sem dúvida, lá em cima, ouvindo sombriamente as histórias de antigas alegrias da recatada Srta. Branwell, essa garota desajeitada em crescimento ficava feliz em lembrar que também era importante para a casa, apesar de sua introspecção inibida.
As meninas passavam bem o suficiente; mas não o irmão. A falta de propósito brilhante de Branwell, sua alegria celta, seu amor pela diversão e seu coração leve faziam dele o companheiro de brincadeiras mais encantador, mas um encargo muito preocupante. Amigos aconselharam o Sr. Bronte a enviar seu filho para a escola, mas a vaidade peculiar que o fazia moldar a juventude de seus filhos em todos os detalhes à sua própria imagem o proibia de aceitar o conselho. Já que ele se alimentara de batatas, seus filhos não deveriam comer carne. Já que ele crescera em casa como pôde, por que Patrick Branwell deveria ir à escola? Todos os dias, o pai dedicava uma parte de seu tempo a trabalhar com o menino; mas o tempo de um clérigo não é seu próprio, e frequentemente ele era chamado para tratar de negócios paroquiais. Sem dúvida, o Sr. Bronte pensava que essas horas sem tutor eram passadas, como ele as teria passado, na preparação diligente de tarefas difíceis. Mas Branwell, com todo o charme superficial de maneiras de seu pai, carecia da força de vontade subjacente e possuía, sem controle, as tentações à autogratificação, às quais seu pai raramente se rendia, combatendo-as antes por um regime de vida ascético. Essas longas tardes eram passadas, não em trabalho, mas em companhia travessa com os espíritos mais selvagens da aldeia, para quem o "Patrick do Vigário" era o padrão de liderança brilhante em confusões.
Sem dúvida, a admiração deles lisonjeava Branwell, e ele desfrutava da diversão barulhenta que tinham juntos. No entanto, ele não negligenciava totalmente suas irmãs. Charlotte disse que, naquela época, ela o amava como à sua própria alma — uma frase séria naqueles lábios sérios. Mas eram Emily e Branwell que mais significavam um para o outro: irmão brilhante, superficial e exigente; irmã silenciosa, introspectiva e altruísta, mais ansiosa por dar do que por receber. Em janeiro de 1831, Charlotte foi para a escola da Srta. Wooler, em Roe Head, a vinte milhas de distância; e Branwell e Emily foram lançados ainda mais um ao outro em busca de simpatia e entretenimento.
Charlotte ficou um ano e meio na escola e retornou em julho de 1832 para ensinar a Emily e Anne o que havia aprendido em sua ausência; inglês-francês, inglês e desenho era quase tudo o que ela podia ensinar. Felizmente, o gênio não precisa de currículo. No entanto, as irmãs esforçavam-se para extrair o máximo proveito de tais vantagens que apareciam em seu alcance. Todas as manhãs, das nove ao meio-dia e meia, trabalhavam em suas lições; depois, caminhavam juntas pelas charnecas, que começavam a florescer. Essas charnecas conheciam uma Emily diferente da garota quieta de quatorze anos que ajudava nos trabalhos domésticos e aprendia suas lições tão regularmente em casa. Nas charnecas, ela era alegre, brincalhona, quase selvagem. Ela fazia os outros rirem com seus comentários pitorescos e bem-humorados e maneiras gentis. Ela sentia-se completamente em casa lá, pegando os filhotes de pássaros em suas mãos tão suavemente que eles não tinham medo, e contando histórias para eles. Uma figura estranha — alta, esguia, angulosa, com toda a sua estatura ainda por crescer; uma quantidade de cabelos castanhos escuros, olhos avelã profundos e belos que podiam brilhar de paixão, traços um tanto fortes e severos, a boca proeminente e resoluta.
As irmãs, e às vezes Branwell, iam longe nas charnecas; às vezes quatro milhas até Keighley, no vale sobre a crista, invisível das alturas, mas sempre pairado por uma tênue película de fumaça, aparentemente o vapor subindo de algum lago ígneo. As irmãs agora assinavam uma biblioteca circulante em Keighley e se dispunham alegremente a enfrentar a caminhada acidentada de oito milhas pelo prazer de trazer de volta consigo um romance de Scott ou um poema de Southey. Em Keighley, também, compravam seu papel. O livreiro costumava se perguntar como elas conseguiam usar tanto.
Em outros dias, iam por Stanbury Moor até a Cachoeira, um vale romântico na encosta coberta de urze da colina, onde um pequeno riacho goteja sobre grandes pedregulhos e onde nascem algumas bétulas esguias e delicadas, uma maravilha nesta terra estéril. Este era um refúgio favorito de Emily e, de fato, todas amavam o local. Aqui, usariam parte de seu papel, pois ainda mantinham o antigo hábito de escrever histórias e poemas, e adoravam rabiscar ao ar livre. E parte dele usariam no desenho, já que, nessa época, estavam tendo aulas, e Emily e Charlotte eram devotas da arte: Charlotte fazendo cópias com minúcia e exatidão fiel; Emily desenhando animais e naturezas-mortas com muito mais liberdade e certeza no traço. Parte do papel de Charlotte também deve ter sido gasto com cartas. Ela fizera amizades na escola, um evento de grande importância para aquele círculo restrito. Uma dessas amigas, a mais querida, era desconhecida em Haworth. Muitas vezes, Emily e Anne devem ter ouvido relatos sobre a garota bonita, talentosa e animada, favorita em muitos lares, que conquistara o coração de sua irmã tímida e simples. Ela estava, de fato, acostumada a uma vida muito diferente, essa jovem loira, mas sua juventude brilhante e prazeres sociais não a cegaram para o fato de que a estranhamente vestida e antiquada Charlotte Bronte era a pessoa mais notável de seu conhecimento. Ela foi a primeira, fora do lar de Charlotte, a descobrir seu verdadeiro caráter e gênio; e isso em uma idade, em uma posição, em que a maioria das garotas estaria ocupada demais com visões de um futuro feliz para si mesmas para simpatizar com as atividades estranhas, a sensibilidade mórbida, de uma mente como a que Charlotte possuía. Mas, tão cedo, esta garota a amou; e vive ainda, a última a ter uma lembrança íntima dos costumes, pessoas e hábitos da família Bronte.
Em setembro de 1832, Charlotte deixou o lar novamente para uma visita de quinze dias à casa desta querida amiga. Branwell a levou até lá. Ele provavelmente nunca tinha saído de casa antes. Estava em espírito selvagem com a beleza da casa e dos jardins, inspecionando, criticando tudo, despejando um fluxo de comentários, rico em termos de estúdio, tirando vistas em todas as direções da antiga casa ameada e escolhendo "trechos" que gostaria de pintar, encantando toda a família com sua inteligência brilhante e maneiras felizes, quase irlandesas. Enquanto isso, Charlotte observava, tímida e sem brilho. "Eu te deixo no Paraíso!", gritou Branwell, e partiu charneca adentro para criar belas histórias de sua visita para Emily e Anne na sala nua e pequena em Haworth.
A amizade entre as irmãs Bronte e Ellen Nussey, embora florescesse em visitas e cartas, era temperada pela austeridade da vida em Haworth e pela natureza introspectiva de Emily. Charlotte, sempre a mais zelosa guardiã dos laços de afeição da família, esforçava-se para manter essa conexão, compreendendo que, para suas irmãs, o mundo além do presbitério era um território vasto e, por vezes, assustador. Emily, contudo, permanecia ancorada naquelas colinas, onde a sua imaginação, livre de grilhões, tecia as tramas que a tornariam, mais tarde, uma voz inconfundível.
A vida de Emily oscilava entre a execução doméstica, a qual cumpria com uma diligência silenciosa, e os devaneios que a levavam para as charnecas, onde a sua verdadeira essência se revelava. Não havia ali a altivez que os estranhos liam na sua fisionomia reservada, mas sim uma comunhão profunda com o elemento natural. Para ela, o vento, a pedra e a criatura selvagem tinham uma linguagem que o mundo dos homens ignorava ou desprezava. O seu afeto pelos animais, manifestado com uma ternura quase infantil, era o reflexo de uma alma que buscava a honestidade das coisas simples.
Quando a oportunidade de estudar em Roe Head surgiu, a hesitação de Emily era compreensível; para ela, a educação formal não era um convite ao saber, mas um exílio. A sua breve estadia na escola de Miss Wooler, marcada pelo definhamento físico e pela melancolia profunda, provou a Charlotte que a sua irmã não fora feita para o molde da sociedade. O regresso a Haworth não foi uma derrota, mas uma restauração; foi o retorno da criatura ao seu habitat, onde a sua saúde, outrora tão frágil, pôde florescer novamente sob a vastidão do céu de Yorkshire.
Enquanto Branwell, com a sua verve volúvel e o seu charme cativante, seguia o caminho sinuoso que o levava tanto às promessas de grandeza quanto às sombras do "Black Bull", Emily mantinha-se como o eixo de estabilidade da casa. Ela observava a deterioração do irmão não com o julgamento crítico de uma estranha, mas com a tristeza de quem vê uma chama se consumir antes do tempo. As irmãs, na sua união, partilhavam segredos que as paredes do presbitério guardavam zelosamente, alheias ao escrutínio do vilarejo.
Aos poucos, o ritmo das estações ditava o curso dos seus dias: o verão trazia a promessa de liberdade e as caminhadas pelas charnecas; o inverno, o isolamento necessário para o exercício da escrita e da reflexão. Emily, cada vez mais recolhida, tornara-se uma figura quase lendária entre os habitantes locais, um enigma que eles tentavam decifrar com a sua visão limitada. Eles viam apenas a moça estranha, o "espírito solitário"; não compreendiam que, na sua quietude, Emily Bronte estava a construir um universo que, com o tempo, haveria de transcender as fronteiras daquele pequeno mundo e tocar a eternidade.
Um intervalo de felicidade para a solitária Emily; a amiga de Charlotte veio à vigararia de aspecto cinzento e frio, animando aquele lugar sombrio com a sua juventude alegre e o seu semblante doce. O lar com quatro jovens raparigas nele era mais atraente para Branwell do que o sedutor salão do "Black Bull". A lua da colheita naquele ano não pode ter contemplado um encontro mais feliz. "Não seria correcto", diz a sobrevivente daqueles espíritos ávidos, "deixar de passar em revista um registo que deveria ser feito das vidas das irmãs em conjunto, depois dos seus dias de escola, e antes de terem a saúde debilitada pelos seus esforços para se sustentarem, que nesta altura todas tiveram um vislumbre de felicidade e gozo. Estavam a começar a sentir-se conscientes dos seus poderes, eram ricas na companhia umas das outras, a sua saúde era boa, os seus espíritos eram elevados, havia frequentemente alegria e riso; comentavam o que liam; analisavam artigos e também os seus autores; a perfeição da conversa sem restrições e da inteligência iluminava o fim dos dias que passavam demasiado depressa. A marcha vespertina na sala de estar, um hábito constante aprendido na escola, marcava o ritmo com os seus pensamentos e sentimentos, era livre e rápida; marchavam aos pares, Emily e Anne, Charlotte e a sua amiga, com os braços entrelaçados um ao outro à maneira infantil, excepto quando Charlotte, num excesso de espírito, começava por um momento a afastar-se, fazia um pirueta graciosa (embora nunca tivesse aprendido a dançar) e regressava à sua marcha."
Assim passaram as noites e os dias, de forma feliz durante algum tempo. Depois, Charlotte e Anne voltaram para casa da Miss Wooler, e Emily, também, pegou na luva contra a necessidade. Ela não era de um carácter que deixasse que o desagrado de qualquer dever a impedisse de o assumir. Era muito severa nas suas relações consigo mesma, embora terna com os que erravam, e ansiosa por carregar os fardos dos fracos. Não permitia a ninguém, senão a si própria, decidir o que lhe competia fazer. Não podia ver Charlotte a trabalhar e não trabalhar ela própria. Em casa trabalhava, é verdade, mais do que as criadas; mas sentia que era correcto não apenas trabalhar, mas ganhar. Assim, tendo recuperado a sua força natural, deixou Haworth em Setembro, e Charlotte escreve da escola para a sua amiga: "A minha irmã Emily foi para uma situação como professora numa grande escola perto de Halifax. Recebi uma carta dela desde a sua partida; dá um relato aterrador dos seus deveres; trabalho árduo das seis da manhã às onze da noite, com apenas meia hora de exercício pelo meio. Isto é escravatura. Receio que ela nunca aguente."
Aguentou, contudo, todo aquele período; voltou a Haworth para um breve descanso no Natal, e voltou a partir para a vida odiada que levava, labutando entre estranhos. Mas quando a primavera regressou, com a sua fraqueza febril, com a sua beleza e memórias, àquele lugar severo de exílio, ela sucumbiu. A sua saúde quebrou, estilhaçada pela nostalgia longamente resistida. Cansada e mortificada no coração, Emily voltou novamente para procurar vida e felicidade nas charnecas selvagens de Haworth.
NOTAS DE RODAPÉ:
[Nota de rodapé 4: Sra. Gaskell.]
CAPÍTULO VI.
A JUVENTUDE EM HAWORTH.
Os dois anos seguintes passaram-se muito solitariamente para Emily em Haworth; os Bronte eram demasiado pobres para todos ficarem em casa, e uma vez que ficou definitivamente estabelecido que Emily não podia viver fora, ela trabalhava arduamente em casa enquanto as suas irmãs iam para o mundo ganhar o seu pão. Não tinha amigos além das suas irmãs; a distante Anne era a sua única confidente. Fora do seu próprio círculo, a única pessoa que se importava de encontrar era a amiga de Charlotte, Ellen, e, claro, Ellen não vinha a Haworth enquanto Charlotte estava fora. Branwell, também, estava ausente. O seu primeiro compromisso foi como auxiliar numa escola; mas, mortificado pelos sarcasmos dos rapazes sobre o seu cabelo ruivo e a sua "pequenez abatida", abandonou rapidamente a sua situação e regressou a Haworth para confiar a sua vaidade ferida às tenras mercês da rústica e valente Emily, ou para vaguear pela aldeia à procura de consolação mais imediata.
Depois foi como tutor privado para uma família em Broughton-in-Furness. Uma carta sua dali enviada para algum espírito afim em Haworth, há muito morto, foi-me emprestada pela cortesia do Sr. William Wood, um dos últimos companheiros de Branwell, em cuja posse permanece a folha rasgada e desbotada. Muito dela é ilegível devido a rasgos acidentais e à excisão propositada de passagens privadas, e parte do que pode ser lido não pode ser citado; tal como é, a carta é valiosa por mostrar que coisas na vida pareciam desejáveis e dignas de serem alcançadas para este irmão, em quem tanto se esperava, da austera Emily, da corajosa Charlotte, da piedosa Anne.
"Broughton-in-Furness, 15 de Março.
"VELHO VALETE DE TRUNFOS,
"Não penses que me esqueci de ti, embora tenha demorado tanto tempo a escrever-te. O meu propósito era enviar-te uma história assim que pudesse encontrar materiais para a fiar. E só agora tive tempo de me virar e saber onde estou.
"Se me visses agora não me conhecerias, e rir-te-ias ao ouvir o carácter que as pessoas me dão. Oh, a falsidade e a hipocrisia deste mundo! Estou instalado numa pequena cidade retirada junto à beira-mar, envolta em colinas arborizadas que se erguem à minha volta, enormes, rochosas e cobertas de nuvens. O meu empregador é um magistrado do condado reformado e grande proprietário de terras, de uma disposição bem cordial e generosa. A sua esposa é uma mulher calma, silenciosa e amável; os seus filhos são dois rapazes finos e espirituosos. O meu senhorio é um cirurgião respeitável, e seis dias em sete tão bêbado como um senhor; a sua esposa é uma alma agitada, faladora e de bom coração; a sua filha--oh! morte e danação! Bem, o que sou eu? isto é, o que eles pensam que eu sou?--um filósofo sóbrio, abstémio, paciente, de coração suave, virtuoso e cavalheiresco, a imagem das boas obras, a casa do tesouro do pensamento justo. As cartas são baralhadas debaixo da toalha de mesa, os copos são empurrados para dentro do armário, se eu entro na sala. Não tomo nem álcool, nem vinho, nem bebidas de malte. Visto-me de preto e sorrio como um santo ou mártir. Todas as senhoras dizem: 'Que bom jovem cavalheiro é o tutor dos Postlethwaite.' Isto é um facto, como sou uma alma viva, e rio-me deles bem confortavelmente; mas é neste humor que pretendo que continuem. Despedi-me por meio ano do velho amigo whisky em Kendal na noite depois de eu [partir]. Havia um grupo de cavalheiros no Royal Hotel; juntei-me a eles e pedi o jantar e 'toddy tão quente como o Inferno'. Pensaram que eu era um médico e puseram-me na cadeira. Dei-lhes alguns brindes dos mais fortes... bebendo-os ao mesmo tempo até que a sala girava e as velas dançavam nos seus olhos. Um era um velho cavalheiro respeitável com cabeça empoada, bochechas rosadas, barriga gorda e dedos com anéis... começou com um discurso, e em dois minutos, mesmo no meio de uma frase grandiosa, parou, abanou a cabeça, olhou loucamente à volta, gaguejou, tossiu, parou de novo, pediu os seus chinelos, e assim o empregado ajudou-o a ir para a cama. Seguidamente, um alto escudeiro irlandês e um nativo da terra de Israel começaram a discutir sobre os seus países, e no calor do argumento descarregaram os seus copos cada um na garganta do seu vizinho, em vez da sua própria. Recomendei bolhas, sangria [aqui ilegível], por isso atirei também o meu copo ao chão e jurei que me juntaria à velha Irlanda. Seguiu-se uma algazarra regular, mas fomos domados finalmente, e encontrei-me na cama na manhã seguinte, com uma garrafa de cerveja preta, um copo e saca-rolhas ao meu lado. Desde então não provei nada mais forte do que leite com água, nem, espero, provarei até regressar no Solstício de Verão, quando veremos isso. Estou a ficar tão gordo como o Príncipe Win em Springhead e tão piedoso como o seu amigo Pastor Winterbottom. A minha mão já não treme: escrevo aos banqueiros em Ulverston com o Sr. Postlethwaite, e sento-me a beber chá e a dizer maledicência com velhas senhoras. Quanto às jovens, tenho uma sentada ao meu lado agora mesmo, de cara clara, olhos azuis, cabelo escuro, com doze doces anos. Ela nem pensa que o Diabo está tão perto dela. Fiquei encantado ao ver a tua nota, velho Escudeiro, mas não compreendo uma frase--talvez saibas o que quero dizer............ .......................... Como estão todos à tua volta? Anseio... [tudo rasgado a seguir] tudo sobre o povo de Haworth. Será que o pequeno Narigudo pensa que me esqueci dele. Não, por Júpiter! nem o Alick também. Enviar-lhe-ei uma lembrança um destes dias. Mas tenho de falar com alguém mais bonito; por isso boa noite, velho rapaz. Escreve directamente, e acredita que sou teu,
"O FILÓSOFO."
A alardeada reforma de Branwell não se manteve por muito tempo. Em breve voltou tão insensível, tão afectuoso, tão vaidoso, tão sem princípios como sempre, para rir e vaguear pela rua íngreme de Haworth. Depois foi para Bradford como retratista, e--tão impressionante é a audácia--conseguiu efectivamente durante alguns meses ganhar a vida ali, embora a sua educação fosse das mais escassas, e, a julgar pelos exemplares ainda guardados em Haworth, o seu talento natural ao nível do do estudante médio em qualquer escola de arte. A sua crina leonina, a sua pose de génio autodidacta, os seus versos na coluna dos poetas do jornal não podiam manter à tona para sempre este retratista autodidacta e perdulário de vinte anos. Em breve houve um fim para a sua pintura ali. Desapareceu de Bradford subitamente, profundamente endividado, e perdeu-se de vista, até que, desanimado, bêbado e consumidor de ópio, voltou para casa e para Emily em Haworth.
Entretanto, a impetuosa Charlotte estava a ficar nervosa e fraca, a gentil Anne tuberculosa e deprimida, no seu trabalho longe de casa; e Emily estava a trabalhar do amanhecer até ao anoitecer com a sua velha criada Tabby para a velha tia que nunca se preocupou com ela, e o velho pai sempre cortês e distante.
Elas conheciam a face da necessidade mais de perto do que a de qualquer amigo, aquelas raparigas Bronte, e o aperto da pobreza era para o seu próprio pé; por isso eram sempre atenciosas para com qualquer um que caísse na mesma situação. Durante as férias de Natal de 1837, a velha Tabby caiu na rua íngreme e escorregadia e partiu a perna. Tinha já quase setenta anos, e podia fazer pouco trabalho; agora o seu acidente deixou-a completamente de parte, deixando Emily, Charlotte e Anne a passar as suas férias de Natal a fazer o trabalho doméstico e a cuidar da inválida. A Miss Branwell, ansiosa por poupar as mãos das raparigas e a carteira do seu cunhado, insistiu que Tabby devia ser enviada para a casa da sua irmã para ser cuidada e que outra criada fosse contratada para a Vigararia. Tabby, representou ela, estava bastante bem de vida, a sua irmã em circunstâncias confortáveis; a cozinha da Vigararia podia fornecer-lhe caldos e geleias em abundância, mas por que desperdiçar o lazer e o escasso património das raparigas numa velha criada competente para se sustentar. O Sr. Bronte foi finalmente persuadido, e a sua decisão dada a conhecer. Mas as raparigas não foram persuadidas. Tabby, afirmaram, era uma da família, e recusaram-se a abandoná-la na doença. Não disseram muito, mas fizeram mais do que dizer--passaram fome. Quando o chá foi servido, as três sentaram-se em silêncio, jejuando. A manhã seguinte encontrou a sua vontade ainda mais forte do que a sua fome--sem pequeno-almoço. Fizeram o trabalho do dia, e o jantar chegou. Ainda assim resistiram, pálidas e abatidas. Então os superiores cederam.
As raparigas ganharam a sua vitória--não um capricho teimoso, mas o direito de fazer um sacrifício generoso e de carregar um fardo honroso.
Aquele Natal, claro, não poderia haver visitas, nem o seguinte. Tabby foi lenta a recuperar; mas não esgotou a paciência das suas amigas.
Dois anos depois, Charlotte escreve à sua antiga colega de escola:--
"21 de Dezembro de 1839.
"Estamos presentemente, e estivemos durante o último mês, bastante ocupadas, pois durante esse espaço de tempo estivemos sem criada, excepto uma menina para fazer recados. A pobre Tabby ficou tão coxa que acabou por ser obrigada a deixar-nos. Está a residir com a sua irmã, numa pequena casa sua, que comprou com as suas próprias poupanças há um ou dois anos. Está muito confortável e não lhe falta nada. Como está perto, vimo-la muito frequentemente. Entretanto, Emily e eu estamos suficientemente ocupadas, como podes supor: eu trato de passar a ferro e mantenho os quartos limpos; Emily trata de cozer o pão e cuida da cozinha. Somos animais tão estranhos que preferimos este modo de arranjo a ter uma cara nova entre nós. Além disso, não desesperamos do regresso da Tabby, e ela não será suplantada por uma estranha na sua ausência. Excitei muito a ira da tia ao queimar a roupa na primeira vez que tentei passar a ferro; mas agora faço melhor. Os sentimentos humanos são coisas estranhas; sou muito mais feliz a polir os fogões, fazer as camas e varrer o chão em casa do que seria vivendo como uma grande senhora noutro lugar qualquer."[5]
O ano de 1840 encontrou Emily, Branwell e Charlotte todos em casa juntos. Desanimado e dissipado como estava, Branwell ainda era uma presença bem-vinda; a sua conversa alegre ainda despertava promessas felizes no agregado familiar ambicioso e amoroso que esperava tudo dele. Os seus erros e falhas perdoavam-nos; pensando, pobres almas, que as fortes paixões que o levaram ao erro denotavam um carácter forte e não uma vontade impotente.
Era ainda em Branwell que depositavam a esperança da fama da família. Os seus poemas, as suas histórias, eram para estas raparigas apenas um meio legítimo de diversão e alívio. O negócio sério das suas vidas era ensinar, cozinhar, limpar; ganhar ou poupar a mera despesa da sua existência. Nenhum sonho de fama literária dava um propósito aos dias tranquilos de Emily Bronte. Charlotte e Branwell, mais impulsivos, mais ambiciosos, tinham enviado o seu trabalho a Southey, a Coleridge, a Wordsworth, em vão, patética esperança de encorajamento, ou reconhecimento. Não assim a mais severa Emily, para quem a expressão era ao mesmo tempo uma necessidade e um pesar. O cérebro de Emily, a escrivaninha trancada de Emily, estes e nada mais conheciam o grau da sua paixão, do seu génio, do seu poder. E contudo, o poder reconhecido teria sido doce para aquele espírito dominante.
Entretanto, a dificuldade imediata era ganhar a vida. Mesmo aquelas raparigas pacientes e corajosas não podiam aceitar o pensamento de uma vida inteira passada em triste trabalho de governanta por Charlotte e Anne, em labuta solitária por Emily, que ficava em casa. Uma saída desta perspectiva odiosa parecia não ser impossível de alcançar. Durante anos foi a esperança mais louca, o sonho acarinhado da autora de 'Wuthering Heights' e da autora de 'Villette'. E qual era esta querida e audaciosa ambição?--manter uma escola para senhoras em Haworth.
Bastante longe, difícil de alcançar, parecia-lhes, este trivial e banal ideal delas. Pois a casa com os seus quatro quartos teria de ser aumentada; pois a educação das raparigas, com o seu anglo-francês e música trôpega, teria de ser adornada pelos dotes necessários. Isto levaria tempo; tempo e dinheiro; dois luxos muito difíceis de obter para as filhas atormentadas do Vigário de Haworth. Elas suspiravam, e paravam subitamente na sua elaboração de planos e redacção de circulares. Parecia tão difícil.
Uma pessoa, de facto, podia ajudá-las. A Miss Branwell tinha poupado da sua anuidade de 50 libras por ano. Tinha uma certa quantia; bastante pequena, mas para Charlotte e Emily parecia tão potente como a varinha mágica. A questão era: arriscaria ela?
Parecia que não. A velha senhora tinha sempre destinado as suas poupanças principalmente ao querido pródigo que trazia o seu nome, e Emily e Charlotte não eram as suas favoritas. As raparigas, de facto, apenas pediam um empréstimo, mas ela duvidava, hesitava, duvidava de novo. Elas eram demasiado orgulhosas para tirar proveito de algo tão relutantemente oferecido; e enquanto a sua conversa era ainda sobre que meios poderiam empregar, enquanto ainda labutavam penosamente através de romances franceses impróprios como "o melhor substituto para a conversação francesa", abandonaram o sonho por enquanto, e Charlotte procurou novamente uma situação. Passou quase um ano antes de a encontrar--um ano feliz, cheio de planos e conversas com Emily e livre de qualquer ansiedade mais premente do que a que a saúde delicada de Anne sempre dava às suas irmãs. Branwell estava fora e a ir bem como chefe de estação em Luddendenfoot, "partira para procurar a sua sorte na capacidade selvagem, errante, aventureira, romântica e de cavaleiro andante de escriturário no Caminho-de-Ferro de Leeds e Manchester". Ellen veio ficar em Haworth no verão; era bastante sociável e animado agora na casa cinzenta nas charnecas; pois, compelido pela falha de saúde, o Sr. Bronte tinha contratado a ajuda de um coadjutor, e o coadjutor de Haworth trazia os seus amigos clericais à volta da casa, para grande desgosto de Emily, e o semi-sentimental tremor da pensativa Anne, que colocava em Charlotte a responsabilidade de falar por todas as três.
Nas férias, quando Anne estava em casa, toda a alegria e gozo da vida regressavam. Havia, além disso, o coadjutor, "bonito, agradável, alegre, bem-humorado, generoso, descuidado, astuto, volúvel e pouco clerical", para adicionar vivacidade à situação. "Ele senta-se defronte de Anne na igreja, suspirando suavemente e olhando de soslaio--e ela está tão quieta, o seu olhar tão abatido; são uma pintura", diz a alegre Charlotte. Este primeiro coadjutor em Haworth estava isento do desprezo liberal de Emily; era um favorito na vigararia, um jovem inteligente, de espírito brilhante e bonito, muito nas boas graças da Miss Branwell. Ele provocava e lisonjeava a velha senhora com tal graciosidade que o tornava sempre certo de uma recepção; de modo que as suas visitas diárias ao estudo do Sr. Bronte eram quase sempre seguidas por uma chamada na sala de estar oposta, quando a Miss Branwell frequentemente deixava o seu retiro no andar de cima e se juntava à animada conversa. Ela presidia sempre à mesa do chá, na qual o coadjutor era um convidado frequente, e as suas sobrinhas mantinham-se bem entretidas durante toda a hora do chá pelas tiradas vivas do coadjutor, desconcertando a velha senhora nos seus pequenos esquemas de controlo sobre as três raparigas espirituosas. Ninguém desfrutava mais da diversão do que a quieta Emily, sempre presente e divertida, "o seu semblante brilhando como sempre fazia quando se divertia", diz-me a Srta. Ellen Nussey. Muitas lendas felizes, demasiado familiares para serem citadas aqui, registam o coração leve e o espírito alegre que Emily levava naqueles dias despreocupados. Histórias tolas e bonitas sobre a sua destemida protecção das outras raparigas contra pretendentes demasiado insistentes. Nunca houve duena tão galante, tão alegre e tão inevitável. Em cumprimento da excelência do seu exterior impetuoso e marcial em tais ocasiões, o pequeno agregado familiar apelidou-a de "O Major", um nome que lhe ficou colado em dias em que o ímpeto e a alegria do seu porte militar estavam tristemente serenados, e apenas a coragem e o coração destemido permaneciam.
No entanto, nestes primeiros dias de 1841, Emily era tão feliz quanto as outras raparigas saudáveis do campo num lar harmonioso. "Ela fazia o que nós fazíamos", diz a Srta. Nussey, "e nunca se ausentava quando podia evitá-lo — a vida neste período devia ter sido doce e agradável para ela." Uma vida igual e sem sobressaltos, na qual as ninharias pareciam de grande importância. Ouvimos falar das pequenas alegrias e aventuras daqueles dias, tão fiel e longamente recordadas, com uma afetuosidade patética. São tão ténues e toda a sua cor desvaneceu, como rosas prensadas, embora uma leve doçura ainda permaneça. Os desastres quando a Srta. Branwell estava rabugenta e sem disposição para receber as suas visitas; a tão esperada emoção de uma caminhada pelos pântanos até Keighley, onde o coadjutor ia dar uma palestra; o alarme e a agitação quando o coadjutor, descobrindo que nenhuma das quatro raparigas tinha recebido um cartão de São Valentim, propôs enviar um a cada uma no próximo dia de São Valentim. "Não, não, as mais velhas nunca permitiriam, e ainda assim seria certamente um acontecimento receber um cartão de São Valentim; mesmo assim, haveria uma tal reprimenda da Srta. Branwell." "Oh, não", disse ele, "irei colocá-los no correio em Bradford." E até Bradford ele caminhou, dez milhas de ida e volta, para que, no memorável 14 de fevereiro, o ansiosamente aguardado carteiro trouxesse quatro cartões de São Valentim, todos em papel delicadamente colorido, todos realçados por um verso de poesia original, tocando nalguma característica agradável de cada destinatária. Que alegria e que comparação de notas! Que fingida e satisfeita indignação! As raparigas determinaram recompensá-lo com um "Rowland para o seu Oliver", e Charlotte escreveu umas rimas cheias de diversão e zombaria que todas as raparigas assinaram — Emily participando em tudo isto com muito espírito e divertimento — e finalmente despachadas em mistério e alegria secreta.
Finalmente, esta brincadeira agradável chegou ao fim. Charlotte anunciou a procura de um lugar e encontrou-o. Enquanto estava fora, recebeu uma carta da Srta. Wooler, oferecendo a Charlotte o trespasse da sua escola em Dewsbury Moor. Era uma oportunidade que não podia ser perdida, embora não seja fácil imaginar que atrativos Emily e Charlotte poderiam oferecer aos seus alunos. Mas era, acima de tudo, necessário criar um lar onde a delicada Anne pudesse estar abrigada, onde a saudosa Emily pudesse ser feliz, onde Charlotte pudesse ter tempo para escrever, onde todas pudessem viver e trabalhar juntas. A oferta da Srta. Wooler foi imediatamente aceite. A Srta. Branwell foi convencida a emprestar às raparigas 100 libras. Não veio qualquer resposta da Srta. Wooler. Então, a ambiciosa Charlotte, a partir do seu posto longe de casa, escreveu à Srta. Branwell em Haworth:
"29 de setembro de 1841.
"Querida Tia,
"Não tive notícias da Srta. Wooler desde que lhe escrevi, dando a entender que aceitaria a sua oferta. Não consigo conjeturar a razão deste longo silêncio, a menos que algum impedimento imprevisto tenha ocorrido na conclusão do negócio. Entretanto, um plano foi sugerido e aprovado pelo Sr. e Sra. ---- e outros, que desejo agora transmitir-lhe. Os meus amigos recomendam, se desejo garantir um sucesso permanente, que adie o início da escola por mais seis meses e que, por todos os meios, tente, de uma forma ou de outra, passar o tempo intermédio numa escola no Continente. Dizem que as escolas em Inglaterra são tão numerosas, a competição tão grande, que sem tal passo para alcançar a superioridade, provavelmente teremos uma luta muito difícil e poderemos fracassar no final. Dizem, além disso, que o empréstimo de 100 libras, que teve a bondade de nos oferecer, talvez não seja todo necessário agora, uma vez que a Srta. Wooler nos emprestará o mobiliário; e que, se a especulação se destina a ser boa e bem-sucedida, metade da soma, pelo menos, deveria ser aplicada da maneira que mencionei, garantindo assim um reembolso mais rápido tanto de juros como de capital.
"Eu não iria para França ou para Paris. Iria para Bruxelas, na Bélgica. O custo da viagem até lá, à taxa de transporte mais cara, seria de 5 libras; o custo de vida lá é pouco mais de metade do que é em Inglaterra, e as facilidades para a educação são iguais ou superiores a qualquer lugar na Europa. Em meio ano poderia adquirir uma familiaridade completa com o francês. Poderia melhorar muito o italiano e até dar um toque no alemão; isto é, desde que a minha saúde continuasse tão boa como está agora...
"Estas são vantagens que se tornariam em real proveito quando começássemos realmente uma escola; e, se Emily pudesse partilhá-las comigo, poderíamos ganhar um lugar no mundo depois, o que nunca conseguiremos fazer agora. Digo Emily em vez de Anne; pois Anne poderia ter a sua vez num período futuro, se a nossa escola resultasse. Sinto-me certa, enquanto escrevo, de que verá a propriedade do que digo. Gosta sempre de usar o seu dinheiro da melhor forma. Não gosta de fazer compras de má qualidade; quando concede um favor, é muitas vezes feito com estilo; e dependa disso, 50 ou 100 libras, assim aplicadas, seriam bem empregues. Naturalmente, não conheço outra amiga no mundo a quem pudesse recorrer sobre este assunto além de si. Sinto uma convicção absoluta de que, se esta vantagem nos fosse permitida, seria a nossa salvação para a vida. O papá talvez pense que é um plano louco e ambicioso; mas quem alguma vez subiu na vida sem ambição? Quando ele deixou a Irlanda para ir para a Universidade de Cambridge, era tão ambicioso como eu sou agora."
Isso era verdade. Deve ter tocado uma corda vibrante no peito do velho. Absorto nas mexericos da paróquia e nos seus 'Cottage Poems', não se preocupando mais com o mundo, mas apenas com as notícias dos jornais sobre ele, ativamente ocioso, vivendo uma vida infrutífera de autoindulgência ascética, o Vigário de Haworth sentia muito orgulho do seu passado enérgico. Ele sempre o tinha erguido perante os seus filhos como um modelo para eles copiarem. O apelo de Charlotte garantiria certamente o pai como aliado da sua causa. A Srta. Branwell, por outro lado, não desejaria demonstrações de ambição nas suas sobrinhas, já demasiado irreprimíveis. Mas ela estava a ficar velha; seria um conforto para ela, afinal, vê-las estabelecidas, e prósperamente estabelecidas, graças à sua generosidade. "Conto consigo, Tia, para nos ajudar. Creio que não recusará", tinha dito Charlotte. Como, de facto, poderia a Srta. Branwell, vivendo no seu lar, ser feliz e recusar?
Contudo, muitas discussões ocorreram antes que a ansiosa Charlotte obtivesse a resposta. Emily, a quem isso dizia respeito tão de perto, deve ter escutado à espera, numa estranha perturbação de esperança e medo. Deixar o lar — ela sabia bem o que isso significava. Desde os seis anos de idade, nunca tinha deixado Yorkshire; mas aqueles meses de cansativa saudade de casa em Roe Head, em Halifax, devem ter corrido de volta à sua memória da forma mais dolorosa. Haworth era saúde, contentamento, a própria possibilidade de existência para esta rapariga. Deixar Haworth por uma cidade estranha além-mar, ver rostos estranhos por toda a parte, ouvir e falar uma língua estranha; a bem-vinda perspetiva de aventura de Charlotte deve ter assumido a forma de um pesadelo para Emily. E por isto ela devia ter esperança; por isto ela devia desejar, suplicar se necessário, e, no mínimo, apoiar. Pois Charlotte dizia que a coisa era essencial para o seu futuro; e em todos os detalhes da gestão, a palavra de Charlotte era lei para as suas irmãs. Mesmo Emily, a independente e indomável Emily, tão resoluta em manter-se em qualquer caminho escolhido, esperava que Charlotte escolhesse a direção nos assuntos práticos.
Finalmente, o consentimento foi obtido, escrito e despachado. A alegre Charlotte deu aviso aos seus empregadores e logo partiu para casa. Havia muito a fazer. "Cartas para escrever para Bruxelas, para Lille e para Londres, muito trabalho para fazer, além de roupas para reparar." Ficou decidido que as irmãs desistiriam da sua oportunidade da escola em Dewsbury Moor, uma vez que o local era baixo e húmido, e não tinha feito bem a Anne. No seu regresso de Bruxelas, iriam montar uma escola nalgum local saudável à beira-mar em East Riding. Burlington era o lugar onde a sua fantasia mais se detinha. Para este belo e saudável local, de frente para o mar, ávidas alunas afluiriam para o benefício da instrução por três filhas de um clérigo, "educadas no estrangeiro" (durante seis meses), falando francês fluente, italiano aperfeiçoado e um toque de alemão. Um programa cintilante de realizações dançava diante dos seus olhos.
Havia, contudo, muitas dificuldades práticas a vencer primeiro. O próprio passo inicial, a escolha de uma escola, era difícil de dar. Charlotte escreve a Ellen:
"20 de janeiro de 1842.
"Esperamos deixar a Inglaterra dentro de cerca de três semanas, mas ainda não temos a certeza quanto ao dia, pois dependerá da conveniência de uma senhora francesa agora em Londres, Madame Marzials, sob cuja escolta navegaremos. O nosso destino mudou. O papá recebeu um relato desfavorável do Sr., ou melhor, da Sra. Jenkins, sobre as escolas francesas em Bruxelas, descrevendo-as como sendo de uma casta inferior em muitos aspetos. Após mais investigações, uma instituição em Lille, no norte de França, foi altamente recomendada por Baptist Noel e outros clérigos, e é para esse lugar que está decidido que vamos. Os termos são de 50 libras por ano para cada aluna, apenas por alojamento e francês; mas será permitido um quarto separado por esta soma; sem esta indulgência, são um pouco mais baixos. Considerei gentil da parte da tia consentir numa soma extra para um quarto separado. Acharemos isso um grande privilégio de muitas formas. Lamento a mudança de Bruxelas para Lille por muitas razões."
Para Charlotte lamentar a mudança era sinal de que um melhoramento estava prestes a ser descoberto. Ela tinha colocado o seu coração em ir para Bruxelas; a Sra. Jenkins redobrou os seus esforços e finalmente descobriu o Pensionnat de Madame Heger na Rue d'Isabelle.
Para lá, como todo o mundo sabe, Charlotte e Emily Brontë, ambas maiores de idade, foram estudar.
"Deixaremos a Inglaterra dentro de cerca de três semanas." As palavras tinham um tom de feliz ousadia nos ouvidos de Charlotte. Desde que, com seis anos de idade, tinha partido sozinha para descobrir a Cidade Dourada, o romance, a descoberta e a aventura eram promessas doces para ela. Muitas vezes tinha desejado ver o mundo; agora vê-lo-ia. Tinha tido sede de conhecimento; aqui está a fonte. Ansiava por acrescentar novas notas àquela gama do caráter humano que ela podia tocar com tão profunda ciência; ela fará uma obra-prima das suas aquisições. Nesta altura, as suas cartas estão cheias de ocupada alegria, dando contas do seu trabalho, fazendo planos, troçando. Tão feliz e esperançosa quanto qualquer jovem mulher que habite na paróquia de Haworth.
Emily é diferente. É ela quem imaginou a rapariga no céu que partiu o seu coração a chorar pela terra, até que os anjos a expulsaram com raiva e a lançaram para o meio da charneca, para acordar lá a soluçar de alegria. Ela não se importava de conhecer pessoas novas; ela detesta estranhos; caminhar com o seu buldogue, Keeper, pelos pântanos é a sua melhor aventura. Aprender coisas novas é muito bom, mas ela valoriza acima de tudo a originalidade e o sabor selvagem e provinciano do seu lar. O que ela ama profunda e fortemente é o seu lar nos pântanos, o seu próprio povo, as criaturas na charneca, os cães que sempre se alimentam das suas mãos, as flores no jardim desolado que só crescem graças ao cuidado infinito que ela lhes dedica. O espinheiro atrofiado sob o qual se senta para escrever os seus poemas é mais belo para ela do que os cedros do Líbano. A cada um e a todos eles ela deve agora dizer adeus. É num tom diferente que ela diz nas suas despedidas: "Deixaremos a Inglaterra dentro de cerca de três semanas."
CAPÍTULO VII.
NA RUE D'ISABELLE.
A Rue d'Isabelle tinha um caráter próprio. Fica abaixo dos seus pés quando se está na Rue Royale, perto da estátua do General Beliard. Quatro lances de escada levam à rua, metade jardim, metade casas antigas, com uma grande mansão quadrada numa extremidade, proprietária do jardim que corre atrás dela e à sua direita. A casa é antiga; uma inscrição em latim mostra que foi dada à grande Guilda dos Besteiros pela Rainha Isabelle nos primeiros anos do século XVII. O jardim é mais antigo; muito antes da Guilda dos Besteiros do Grande Juramento, em deferência ao desejo da Rainha Isabelle, permitir que a rua fosse feita através dele, o jardim tinha sido o seu local de exercício. Ali, a própria Isabelle, um membro da sua ordem, tinha abatido o pássaro. Mas o jardim tinha um passado ainda mais antigo; quando macieiras, pereiras e alamedas de cerejeiras de Bruges, quando canteiros de manjerona e hortelã, de tomilho e manjericão, enchiam o pomar e a horta do Hospital dos Pobres. E o próprio jardim, antes de árvores ou flores serem plantadas, tinha ressoado com o ganido dos cães do Duque, quando, no século XIII, tinha sido a Fosse-aux-chiens. Este jardim histórico, esta mansão, construída por uma rainha para uma grande ordem, pertencia em 1842 a Monsieur e Madame Heger, e era um famoso Pensionnat de Demoiselles.
Lá, o Vigário de Haworth trouxe as suas duas filhas num dia de fevereiro, passou uma noite em Bruxelas e regressou diretamente para a sua antiga casa nos pântanos, tão moderna em comparação com a mansão na Rue d'Isabelle. Uma mudança, de facto, para Emily e Charlotte. Mesmo agora, Bruxelas (a sede do catolicismo muito mais do que a Roma moderna) tem um gosto por espetáculos que recorda os dias medievais. As ruas decoradas com ramos e cobertas de flores, através das quais passam lentamente as procissões da Igreja, crianças vestidas de branco, rapazes como anjos espalhando rosas, porta-estandartes com bandeiras emblematizadas. Coristas de sobrepeliz cantando louvores em latim, acólitos de escarlate balançando incensários, relicários e imagens, diante dos quais o povo se prostra em oração; tudo isto hoje não é uma visão invulgar em Bruxelas, e deve ter sido ainda mais frequente em 1842.
O mercado de flores ao ar livre, com cravos, lírios altos e delicadas rosas d'amour, enchendo a pitoresca praça medieval diante da bela e antiga fachada do Hôtel de Ville. Ste.-Gudule com as suas torres e arcos; a Montagne de la Cour (quase tão íngreme como a rua de Haworth), as suas janelas brilhando à noite com joias; o pequeno e adorável parque, os seus grandes ulmeiros a começar a ganhar folhas, as suas estátuas a rebentar das suas bainhas de palha de inverno; as galerias de pinturas antigas, as suas paredes uma glória sóbria de cores, azuis profundos como uma noite de verão, vermelhos ricos, dourados acastanhados, verdes muito vívidos.
Tudo isto deveria ter feito uma impressão nas duas raparigas caseiras de Yorkshire; e Charlotte, de facto, percebeu algo da sua beleza e estranheza. Mas Emily, por um amargo sentido de exílio, por uma natural estreiteza de espírito, rebelou-se contra tudo isto como um insulto à memória do seu lar — ela ansiava, desesperada e inutilmente, por Haworth. As duas Brontë eram muito diferentes das estudantes belgas no Pensionnat de Madame Heger. Eram, por um lado, ridiculamente velhas para estarem na escola — vinte e quatro e vinte e seis anos — e pareciam sentir a sua posição; a sua fala era tensa e estranha; todos os "romances franceses céticos, perversos e imorais, mais de quarenta deles, o melhor substituto para a conversação francesa que se pode encontrar", que as raparigas tinham estudado com tanta singularidade de propósito, não tinham curado a amplitude do seu sotaque nem os idiomas artificiais do seu francês de Yorkshire. Monsieur Heger, de facto, considerava que elas não sabiam francês de todo. Os seus modos, mesmo entre inglesas, eram rígidos e afetados; a expansão calorosa, vulgar e genial das suas colegas belgas deve tê-las feito parecer tão sem vida como marionetas. O seu vestuário — Haworth permitira-se maravilhar com a falta de jeito daquelas espantosas mangas de carneiro (o capricho preferido de Emily dentro e fora de moda), com a flacidez mal cortada daquelas saias, desajeitadas o suficiente na redonda e pequena Charlotte, mas uma verdadeira caricatura de medievalismo na figura alta, fina e delgada de Emily. Elas sabiam que não estavam no seu elemento e mantinham-se próximas uma da outra, raramente falando. No entanto, Monsieur Heger, observando pacientemente, sentiu a presença de um estranho poder sob aqueles exteriores desajeitados.
Um homem pequeno e estranho de muita penetração, este professor francês. "Homme de zèle et de conscience, il possède à un haut degré l'éloquence du bon sens et du coeur." Feroz e despótico na exigência de obediência, mas terno de coração, magnânimo e tirânico, absurdamente vaidoso e absolutamente altruísta. A escola da sua esposa era um reino para ele; ele trouxe para ela uma energia, um zelo, uma faculdade de administração digna de governar um reino. Foi com o deleite de um botânico descobrindo uma planta rara no seu jardim, de um político detetando um futuro estadista no seu berçário, que ele percebeu a faculdade invulgar que elevava as suas duas alunas inglesas acima das suas colegas. Observou-as silenciosamente durante algumas semanas. Quando teve a certeza, adiantou-se e, por assim dizer, reivindicou-as para si.
Charlotte aceitou de imediato o jugo. Tudo o que ele a punha a fazer, ela esforçava-se por realizar; ela seguia as suas linhas de pensamento; ela adotou o estilo que ele recomendava; ela dava-lhe em troca de todos os seus esforços a obediência mais incansável, a compreensão afetuosa de uma grande inteligência. Ela escreve a Ellen sobre o seu prazer em aprender e servir: "É muito natural para mim submeter-me, muito antinatural comandar."
Não assim com Emily. As qualidades que a sua irmã compreendia e aceitava, irritavam-na imensamente. O autoritarismo em pequenas coisas, a irritabilidade, a vigilância do fogoso pequeno professor de retórica eram totalmente desagradáveis para ela. Ela contradizia as suas teorias na cara dele; ela fazia as suas lições bem, mas como ela escolhia fazê-las. Ela era tão indomável, feroz, inapaziguável, como Charlotte era pronta e submissa. E, no entanto, foi Emily quem teve a maior parte da admiração de Monsieur Heger. Egoísta e exigente, ele a considerava, ela que nunca cedia ao seu petulante e inofensivo egoísmo, que nunca se rendia à sua benevolente tirania; mas ele dava-lhe crédito por poderes lógicos, por uma capacidade de argumentação invulgar num homem, e rara, de facto, numa mulher. Ela, e não Charlotte, era o génio aos olhos dele, embora ele se queixasse de que a sua vontade obstinada a tornava surda a toda a razão, quando a sua própria determinação, ou o seu próprio sentido de justiça, estava em causa. Ele imaginou que ela poderia ser uma grande historiadora, foi o que disse à Sra. Gaskell. "A sua faculdade de imaginação era tal, as suas visões de cenas e personagens teriam sido tão vívidas e expressas tão poderosamente, e apoiadas por tal exibição de argumentos, que teriam dominado o leitor, fossem quais fossem as suas opiniões anteriores ou a sua perceção mais fria da verdade. Ela deveria ter sido um homem: uma grande navegadora!" exclamou o pequeno e entusiasta retórico de pele escura. "A sua razão poderosa teria deduzido novas esferas de descoberta a partir do conhecimento das antigas; e a sua vontade forte e imperiosa nunca teria sido intimidada pela oposição ou dificuldade; nunca teria cedido senão com a vida!"
No entanto, nunca foram amigos; embora Monsieur Heger pudesse falar tão bem de Emily numa altura, recorde-se, em que eram os elogios a Charlotte que eram procurados, quando o génio de Emily era tomado como um duende lunático de potência de pesadelo. Ele e ela eram, ambos, demasiado imperiosos, demasiado independentes, demasiado obstinados. Um par de espadas, nenhuma das quais poderia servir para embainhar a outra.
Aquele tempo em Bruxelas foi desperdiçado para Emily. As personagens triviais que Charlotte tornou imortais apenas a irritavam. As novas impressões que deram outro alcance à visão de Charlotte não eram nada para ela. Tudo o que era grandioso, notável e apaixonado sob a superfície daquele convencional Pensionnat de Demoiselles era invisível para Emily. Apesar do seu génio, ela era muito dura e limitada.
Pobre rapariga, sentia saudades de casa. Tudo aquilo não era nada para ela, menos que um sonho, aquele lugar onde vivia. O entusiasmo de Charlotte pela sua nova vida, a sua ânsia de agradar ao seu mestre, era uma fraqueza desprezível para aquele coração amargurado. Ela ria-se quando encontrava a sua irmã mais velha a tentar arranjar os seus vestidos caseiros ao gosto francês, e caminhava silenciosamente pelas grandes salas de aula com uma satisfação feroz nas suas próprias mangas feias, no corte de Haworth das suas saias. Raramente dirigia a palavra a quem quer que fosse; apenas por vezes discutia com Monsieur Heger, talvez secretamente contente por ter a oportunidade de chocar Charlotte. Se saíam para o chá, ela sentava-se imóvel na cadeira, respondendo "Sim" e "Não"; inerte, miserável, com o coração cheio de lágrimas. Quando o seu trabalho terminava, caminhava no antigo jardim dos Cross-bowmen, debaixo das árvores, apoiada no braço da sua irmã mais baixa, pálida, silenciosa — uma figura alta e curvada. Frequentemente não dizia nada. Charlotte, também, era muito proveitosamente silenciosa; sob os seus olhos, 'Villette' estava a ganhar forma. Mas Emily não pensava em Bruxelas. Sonhava com Haworth.
Um poema que escreveu nesta altura pode ser apropriadamente citado aqui. Foi, diz-nos Charlotte, "composto ao crepúsculo, na sala de aula, quando o lazer da hora de recreio da noite trazia de volta, em maré cheia, os pensamentos de casa:"
"Um pouco mais, um pouco mais, A tarefa cansativa é posta de parte, E posso cantar e posso sorrir Da mesma forma, enquanto tenho férias.
"Para onde irás, meu coração acossado-- Que pensamento, que cena te convida agora? Que lugar, perto ou longe, Tem descanso para ti, minha testa cansada?
"Existe um lugar entre colinas áridas, Onde o inverno uiva e a chuva fustiga; Mas, se a tempestade lúgubre gela, Há uma luz que aquece de novo.
"A casa é velha, as árvores estão nuas, Sem lua, a cúpula do crepúsculo curva-se acima, Mas o que na terra é tão querido-- Tão ansiado--como a lareira de casa?
"O pássaro mudo sentado na pedra, O musgo escuro a gotejar da parede, O espinheiro esquelético, os caminhos cobertos de erva, Amo-os; como os amo a todos!
"E, enquanto meditava, a sala nua, A luz do fogo alheia esmoreceu; E do meio da escuridão sombria Passei para o dia brilhante e sem nuvens.
"Um pequeno e solitário caminho verde, Que se abria para um largo terreno comum; Uma cadeia distante, lúgubre, ténue e azul De montanhas que circundam todos os lados:
"Um céu tão querido, uma terra tão calma, Um ar tão doce, tão suave, tão silencioso; E--aprofundando ainda o encanto onírico-- Ovelhas selvagens do pântano a pastar por toda a parte.
"Era essa a cena, eu conhecia-a bem; Eu conhecia o traçado do caminho relvado, Que, serpenteando sobre cada ondulação, Marcava os trilhos das ovelhas errantes.
"Poderia eu ter demorado apenas uma hora, Teria bem valido uma semana de labuta; Mas a verdade baniu o poder da fantasia, O constrangimento e a tarefa pesada impõem-se.
"Mesmo quando estava com o olhar arrebatado, Absorta em felicidade tão profunda e querida, A minha hora de descanso tinha passado, E o trabalho, o cativeiro, o cuidado regressaram."
Charlotte, entretanto, escreve com bom ânimo, até mesmo com grande alegria, à sua amiga: "Penso que nunca sou infeliz, a minha vida atual é tão deliciosa, tão agradável, comparada com a de uma governanta. O meu tempo, constantemente ocupado, passa demasiado depressa. Até agora, tanto Emily como eu temos gozado de boa saúde e, por isso, temos conseguido trabalhar bem. Há um indivíduo de quem ainda não falei — Monsieur Heger, o marido de Madame. É professor de retórica — um homem poderoso no que toca à mente, mas muito colérico e irritável em termos de temperamento — um ser pequeno, negro e feio, com um rosto que varia de expressão; por vezes empresta os traços de um gato vadio insano, por vezes os de uma hiena delirante, ocasionalmente — mas muito raramente — descarta estes atrativos perigosos e assume um ar não cem vezes afastado do que chamariam de suave e cavalheiresco. Ele está muito zangado comigo neste momento, porque escrevi uma tradução que decidiu estigmatizar como 'peu correct'. Não mo disse, mas escreveu as palavras na margem do meu livro e perguntou, em frase breve e severa, como acontecia que as minhas composições fossem sempre melhores do que as minhas traduções? acrescentando que a coisa lhe parecia inexplicável."
O leitor já terá reconhecido no pequeno professor de retórica, negro, feio e colérico, o único herói absolutamente natural de um romance feminino, a adorada e caprichosa figura do imortal Monsieur Paul Emanuel.
"Ele e Emily," acrescenta Charlotte, "não se dão nada bem um com o outro. Emily trabalha como um cavalo, e tem tido grandes dificuldades com que lidar, muito maiores do que as que eu tive."
Emily trabalhava de facto arduamente. Estava lá para trabalhar e, até ter aprendido uma certa quantidade, a sua consciência não lhe permitiria regressar a Haworth. Foi pela querida liberdade que ela trabalhou. Começou o alemão, um estudo favorito em anos posteriores, e com algum propósito, uma vez que o estilo de Hoffmann deixou a sua marca na autora de 'Wuthering Heights'. Trabalhou arduamente na música; e em meio ano a colegial tropeçante tornou-se uma musicista brilhante e proficiente. Diz-se que a sua forma de tocar era singularmente precisa, vívida e cheia de fogo. O francês, também, tanto na gramática como na literatura, era um estudo constante.
Monsieur Heger reconheceu o facto de que, ao lidar com as Brontë, não tinha de fazer as concessões habituais à inexperiência subdesenvolvida de uma colegial. Eram mulheres de inteligência madura e notável. O método que adotou ao ensiná-las foi mais o de um professor universitário do que o que é habitualmente usado num pensionnat. Escolhia alguma obra-prima do estilo francês, alguma passagem de eloquência ou retrato, lia-lha com uma breve lição sobre as suas qualidades distintivas, apontando o que era exagerado, o que era apto, o que era falso, o que era subtil na conceção do autor ou no seu modo de a expressar. Eram então dispensadas para fazer uma composição semelhante, sem a ajuda de gramática ou dicionário, aproveitando tanto quanto possível as nuances de estilo e as peculiaridades de método do escritor escolhido como modelo da hora. Desta forma, as raparigas familiarizaram-se intimamente com a técnica literária dos melhores mestres franceses. Para Charlotte, as lições foram de valor incalculável, aperfeiçoando nela aquele estilo claro e preciso que torna o seu melhor trabalho nunca cansativo, nunca antiquado. Mas o próprio pensamento de imitar alguém, especialmente de imitar qualquer escritor francês, era repulsivo para Emily, "rústica por completo, pantaneira, selvagem e nodosa como uma raiz de urze."[7] Quando Monsieur Heger lhes explicou o seu plano, "Emily falou primeiro; e disse que não via qualquer benefício a derivar dele; e que ao adotá-lo perderiam toda a originalidade de pensamento e expressão. Teria entrado numa discussão sobre o assunto, mas para isso Monsieur Heger não tinha tempo. Charlotte falou então; ela também duvidava do sucesso do plano; mas seguiria o conselho de Monsieur Heger, porque era obrigada a obedecer-lhe enquanto fosse sua aluna."[8] Charlotte encontrou rapidamente um grande prazer neste tipo de composição literária, contudo o devoir de Emily era o melhor. Estão, infelizmente, já não para ser vistos, já não sob a guarda de um guardião tão cortês e orgulhoso como aquele com que a Sra. Gaskell teve de lidar; mas ela e Monsieur Heger expressaram ambos a sua opinião de que em génio, imaginação, poder e força de linguagem, Emily era a superior das duas irmãs.
Tão grande era a personalidade desta jovem inglesa enérgica, silenciosa, meditativa e mal vestida, que todos os que a conheciam reconheciam nela o génio que demoravam a perceber na sua irmã mais sociável e veemente. Madame Heger, a mundana e fria surveillante de Villette, confessou a força singular de uma natureza muito antipática à sua própria. Contudo, Emily não tinha companheiras; a única pessoa de quem ouvimos falar, mesmo nos termos mais negativos de amizade, é uma das professoras, uma certa Mademoiselle Marie, "talentosa e original, mas de maneiras repulsivas e arbitrárias, que tornaram toda a escola, exceto Emily e eu, os seus inimigos mais acérrimos." Não menos arbitrária e repulsiva parecia a própria pobre Emily, um ramo de urze púrpura em discórdia com aqueles brilhantes e suaves gerânios e lobélias; Emily, de quem todos os amigos sobreviventes exaltam o altruísmo silencioso e constante, o espírito genial pronto a ajudar, o afeto tímido mas fiel. Ela estava tão completamente hors de son assiette que até as suas virtudes estavam deslocadas.
Havia sempre uma coisa que ela podia fazer, uma coisa tão natural como a respiração para Emily — o trabalho determinado. Nesse envolvimento misericordioso, ela podia esquecer o seu cansaço angustiante e a estranheza desconcertante das coisas; cada lição conquistada era mais um passo dado na longa estrada para casa. E os dias permitiam um amplo espaço para o trabalho, embora este fosse sustentado por uma dieta um tanto escassa.
Contando com internas e externas, a escola de Madame Heger contava mais de cem alunas. Estas estavam divididas em três turmas; a segunda, onde as Brontë estavam, continha sessenta estudantes. Na última fila, lado a lado, absortas e quietas, sentavam-se Emily e Charlotte. Pouco depois de se levantarem, as pensionnaires recebiam o seu leve pequeno-almoço belga de café e pãezinhos. Depois, das nove ao meio-dia, estudavam. Três mestras e sete professores estavam contratados para tomar conta das diferentes turmas. Ao meio-dia, um almoço de pão e fruta; depois, um passeio na alameda verde, Charlotte e Emily sempre a caminhar juntas. Da uma às duas, trabalhos manuais; das duas às quatro, lições novamente. Depois, o jantar: a única refeição sólida do dia. Das cinco às seis, a hora era livre, a hora de meditação de Emily. Das seis às sete, a terrível lecture pieuse, odiosa ao espírito protestante das Brontë. Às oito, um jantar de pãezinhos e água; depois, orações, e para a cama.
O quarto onde dormiam era um longo dormitório escolar. Depois de tudo, não conseguiram o luxo, tão desejado, de um quarto separado. Mas as suas duas camas estavam sozinhas juntas na extremidade, veladas por cortinas brancas; discretas e recolhidas como elas próprias. Aqui, após o árduo trabalho do dia, dormiam. No sono, já não se é um exilado.
Mas muitas vezes Emily não dormia. A dor antiga e bem conhecida, a insónia, o desejo, começavam novamente a relaxar as próprias fibras do seu coração. "Seguiu-se o mesmo sofrimento e conflito, intensificado pelo forte repúdio do seu espírito reto, herético e inglês pela gentil jesuiteria do sistema estrangeiro e romano. Mais uma vez ela parecia estar a afundar-se, mas desta vez recuperou através da pura força de vontade: com remorso interior e vergonha olhou para o seu fracasso anterior e resolveu conquistar, mas a vitória custou-lhe caro. Nunca foi feliz até levar o seu conhecimento arduamente conquistado de volta à remota aldeia inglesa, à antiga casa paroquial e aos desolados montes de Yorkshire."[9]
Mas ainda não, ainda não, esta felicidade! A oportunidade que tinha sido tão arduamente conquistada não devia ser desperdiçada antes de se ter tirado o máximo proveito dela. E ela não estava totalmente sozinha. Charlotte estava lá. O sucesso que teve no seu trabalho deve ter ajudado um pouco a tornar o seu lar estrangeiro tolerável para ela. Em breve sabia o suficiente de música para dar lições às alunas mais novas. Depois o alemão, custando-lhe a ela e a Charlotte dez francos extra por mês, assim como muito estudo rigoroso e luta. Charlotte escreve no verão: "Emily está a fazer progressos rápidos em francês, alemão, música e desenho. Monsieur e Madame Heger começam a reconhecer as partes valiosas do seu caráter sob as suas singularidades."
Era duvidoso, mesmo, se regressariam a casa em setembro. Madame Heger fez uma proposta às suas duas alunas inglesas para ficarem, sem pagar, mas sem salário, por meio ano. Ela despediria a sua professora de inglês, cujo lugar Charlotte ocuparia. Emily ensinaria música às alunas mais novas. A proposta era gentil e seria vantajosa para as irmãs.
Charlotte declarou-se inclinada a aceitá-la. "Tenho sido feliz em Bruxelas," afirmou. E Emily, embora ela, de facto, não fosse feliz, reconheceu o benefício a derivar de um período mais longo de estudo. Seis meses, afinal, era um pouco curto para ganhar um conhecimento profundo de francês, com italiano e alemão, quando se acrescentam a estes conhecimentos música e desenho, nos quais Emily trabalhava com vontade. Além disso, não podia falhar novamente, não podia voltar para Haworth deixando Charlotte para trás; nem podia estragar o futuro de Charlotte persuadindo-a a rejeitar os termos de Madame Heger. Assim, ambas as irmãs concordaram em ficar em Bruxelas. Não estavam totalmente sem amigos lá; duas senhoritas Taylor, colegas de escola e queridas amigas de Charlotte, estavam na escola no Chateau de Kokleberg, logo fora das barreiras. Os leitores de 'Shirley' conhecem-nas como Rose e Jessie Yorke. As Brontë encontravam-nas frequentemente, quase todas as semanas, em casa de uns primos dos Taylor, que viviam na cidade. Mas este divertimento, agradável para Charlotte, era meramente um aborrecimento acrescido para Emily. Ela sentava-se rígida e silenciosa, incapaz de dizer uma palavra, desejando estar em algum lugar à vontade. A Sra. Jenkins, também, tinha começado por convidá-las a passar os seus domingos com ela; mas Emily nunca dizia uma palavra, e Charlotte, embora por vezes ficasse excitada e falasse bem e veementemente, nunca se aventurava numa opinião até que tivesse rodado gradualmente na sua cadeira com as costas para a pessoa a quem se dirigia. Eram tão tímidas, tão rústicas, que a Sra. Jenkins deixou de as convidar, sentindo que elas não gostavam de recusar, e não achavam prazer nenhum em vir. Charlotte, de facto, ainda tinha os Taylor, os seus primos, e a família de um médico que vivia na cidade, cuja filha era aluna e amiga dela. Charlotte, também, tinha Madame Heger e o seu admirado professor de retórica; mas Emily não tinha amigos exceto a sua irmã.
No entanto, ficou decidido que ficariam. As grandes férias começaram a 15 de agosto e, como a viagem para Yorkshire custava tanto, e como estavam ansiosas por trabalhar, as irmãs Brontë passaram as suas férias na Rue d'Isabelle. Além delas, apenas seis ou oito internas permaneceram. Todos os seus amigos estavam fora de férias; mas elas trabalharam arduamente, preparando as suas lições para os mestres que, sem férias como elas, tinham ficado para trás na branca, poeirenta, abrasadora e abafada Bruxelas, para dar lições à escassa turma no pensionnat de Madame Heger.
Assim passaram as lúgubres seis semanas. Em outubro o período recomeçou, as alunas voltaram, novas alunas foram admitidas, Monsieur Heger estava mais gesticulante, veemente e autoritário do que o habitual, e Madame, à sua maneira silenciosa, não estava menos ocupada. A vida e a juventude encheram as salas vazias. As irmãs Brontë, tristes o suficiente, na verdade, pois a sua amiga Martha Taylor tinha morrido subitamente no Chateau de Kokleberg, eram, apesar disso, capazes de se sentirem numa posição mais natural para mulheres da sua idade. Charlotte, doravante, por ordem de Monsieur Heger, "Mademoiselle Charlotte", era a nova professora de inglês; Emily, a assistente de música. Mas, em meados de outubro, no primeiro ímpeto do seu emprego, veio uma súbita convocatória para Haworth. A Srta. Branwell estava muito doente. Imediatamente as duas raparigas, que lhe deviam tanto, que, não fosse a sua generosidade, nunca poderiam ter estado tão longe em tempo de necessidade, decidiram ir para casa. Comunicaram a sua determinação a Monsieur e Madame Heger, que, suficientemente generosos para colocar o dever das raparigas acima da sua própria conveniência, apoiaram-nas no seu curso. Fizeram apressadamente as malas, reservaram lugares via Antuérpia para Londres e prepararam-se para partir. No último momento, com os baús feitos, no início da manhã, o carteiro veio. Trouxe outra carta de Haworth. A sua tia tinha morrido.
Tanto maior a necessidade de se apressarem para casa. O seu pai, deixado sem a sua companheira de vinte anos, para cuidar da sua casa, para lhe ler à noite, para discutir com ele em pé de igualdade, o seu pai estaria solitário e angustiado. Doravante, uma das suas filhas teria de ficar com ele. Anne estava numa excelente situação; deveriam pedir-lhe que a deixasse? E o que dizer agora da escola, a escola em Burlington? Havia muito sobre o que aconselhar e considerar; tinham de se apressar para casa. Assim, sabendo o pior, o seu futuro pendurado sem forma e solto diante dos seus olhos, iniciaram a sua lúgubre viagem sem saber se ou quando poderiam regressar.
NOTAS DE RODAPÉ:
[Nota 7: C. Brontë.]
[Nota 8: Sra. Gaskell.]
[Nota 9: C. Brontë. Memórias das suas irmãs.]
CAPÍTULO VIII.
UM RETROSPETO.
"Pobre, brilhante, alegre, temperamental, melancólica, loucamente excitável, miserável Brontë! Nenhuma história regista as tuas muitas lutas pelo bem — a tua inteligência, brilho, atratividade, ânsia por excitação — todas as qualidades que te tornavam uma 'boa companhia' e te arrastaram para uma sepultura prematura."
Assim exclama o Sr. Francis H. Grundy, recordando o companheiro de folias dos seus primeiros anos, a criatura meio insana e deplorável que o ópio e a aguardente tinham feito do inteligente Branwell aos vinte e dois anos. Regressado de Bradford, o seu sistema nervoso devastado pelos fumos do ópio, ele tinha vindo a vaguear por Haworth até que o seu pai, teimoso como era, percebeu o facto óbvio de que cada dia de ócio levava o seu único filho mais irremediavelmente para o abismo da ruína. Finalmente, exerceu a sua influência para encontrar algum trabalho para Branwell, e obteve para o seu rapaz imprudente, fantasioso e mórbido o posto de chefe de estação num pequeno lugar à beira da estrada, Luddendenfoot por nome, na ferrovia de Lancashire e Yorkshire. Para lá foi ele alguns meses antes de Charlotte e Emily partirem para Bruxelas. Foi lá que o Sr. Grundy o conheceu; um chefe de estação original.
"Se uma posição tivesse sido escolhida para esta estranha criatura com o propósito expresso de a levar vários passos para o mau caminho, teria sido esta. A linha tinha acabado de ser aberta. A estação era uma cabana de madeira tosca, e não havia aldeia por perto. Sozinho nas terras selvagens de Yorkshire, com poucos livros, pouco que fazer, sem perspetivas e com um salário miserável, sem sociedade compatível com o seu melhor gosto, mas com muitos fabricantes selvagens, folgazões, obstinados e semieducados, que o acolheriam nas suas casas e beberiam com ele tantas vezes quanto ele quisesse ir, o que poderia este homem mórbido, que não suportava estar sozinho, fazer?"[10]
O que Branwell fazia sempre, em suma, era o que lhe era mais fácil fazer. Bebia até se tornar violento, quando não bebia até ficar sentimental. Deixava o porteiro na estação a tratar dos livros, e ia-se embora por dias "na bebida" com os seus amigos e companheiros de farra. Por esta altura, o Sr. Grundy, então engenheiro em Halifax, encontrou a pobre criatura solitária e meio demente, e por um tempo as coisas correram um pouco melhor.
A bebida e a desordem não tinham embelezado o querido, risonho e belo rapaz de Haworth, de crina fulva. Eis o seu retrato tal como apareceu ao seu amigo nesta altura:
"Ele era insignificante de tamanho — um dos seus tormentos de vida. Tinha uma massa de cabelo ruivo, que usava escovado bem alto da testa — para ajudar à sua altura, imagino — uma testa grande, irregular e intelectual, quase metade do tamanho de todo o contorno facial; olhos pequenos e penetrantes, encovados e ainda mais escondidos pelos óculos que nunca removia; nariz proeminente, mas traços inferiores fracos. Tinha um olhar cabisbaixo, que nunca variava, exceto por um relance momentâneo a longos intervalos. Pequeno e magro de pessoa, era o oposto de atraente à primeira vista."
Contudo, este pedaço de humanidade insignificante e de olhos encovados tinha um feitiço para aqueles que o ouviam falar. Não havia assunto, moral, intelectual ou filosófico, demasiado remoto ou demasiado profundo para ele o medir num momento, com o fio de prumo falacioso da sua vaidade brilhante. Falava durante horas: era eloquente, convincente, quase nobre; e depois acompanhava o seu público até à taberna mais próxima.
"Por vezes íamos de charrete até Haworth (doze milhas) e visitávamos o seu pessoal. Ele estava lá no seu melhor, e era eloquente e divertido, embora por vezes irrompesse em lágrimas quando regressava, e jurasse que pretendia corrigir-se. Acredito, contudo, que ele estava meio louco e não conseguia controlar-se."[11]
Assim devem os seus amigos pensar com benevolência. Louco; se temores e fantasias assombrosas e mórbidas conjuradas por drogas venenosas e nunca dissipadas; se uma vontade prostrada sob o jugo de hábitos impuros; se uma constituição propensa a perturbações nervosas e arruinada por excessos precoces; se tais coisas, forçando-o por pressão diária impercetível a escolher as coisas que detestava, a ser a coisa que temia, a representar um papel abominável para a sua alma; se tal estranhamento e falsificação do verdadeiro eu de um homem pode contar como demência, o desafortunado e inútil rapaz estava louco.
Deveria tê-lo mortificado, ao regressar a casa, ser recebido com tanta bondade, ser alvo de tantas esperanças por parte daqueles que o tinham perdoado amplamente, e que nem sonhavam que uma hipoteca tão pesada fora, desde então, lançada sobre o seu perdão; ter falado com a recatada e bonita senhora idosa que se privava de tudo, todos os dias, para poupar uma herança para ele; observar a piedosa e gentil Anne, em cujos sonhos os pecados contra os quais ela rezava nunca tinham entrado; pior de tudo, a visão do seu pai, respeitável e bem conservado, honrado por toda a paróquia, bem-sucedido, colocado pela sua própria vontade severa e contínua muito acima dos assaltos da tentação, embora possuindo um temperamento singularmente semelhante ao daquele filho mórbido e passional.
Assim, ele chorava ao ir para casa; chorava pela sua queda e, talvez mais sinceramente, pela curta duração da sua contrição. Depois, as longas noites a sós com os seus pensamentos, naquele lugar solitário, faziam-no temer o arrependimento, temer a Deus, a si próprio, a noite, tudo. Ele bebia.
Tinha ataques de um orgulho contrário. "Ele orgulhava-se do seu nome, da sua força e das suas capacidades." Orgulhoso do seu nome! Escreveu um poema sobre ele, "Bronte", um elogio a Nelson, que obteve a aprovação condescendente de Leigh Hunt, da Srta. Martineau e de outros a quem, a seu pedido especial, foi submetido. Teria ele ouvido falar da sua dúzia de tias e tios, os Prunty de Ahaderg? Ou, se não, com que sensações o Vigário de Haworth terá ouvido este alarde e triunfo sobre as glórias do seu antigo nome?
Branwell tinha também ataques de paixão, a repetição das excentricidades do seu pai. "Vi-o enterrar o punho fechado nos painéis de uma porta — parecia acalmá-lo." O lado áspero da sua natureza tinha rédea solta e, talvez, granjeou-lhe algum respeito negado à sua inteligência, na sociedade em que era principalmente inserido. Por algum tempo, a companhia do Sr. Grundy serviu para o resgatar de um abandono total à devassidão. Mas, no meio desta melhoria, veio o desastre. Como semeou, colheu.
Aquelas longas ausências, bebendo nas casas dos seus amigos, tinham sido aproveitadas pelo outro habitante da estação em Luddendenfoot. O bagageiro fora deixado para tratar da contabilidade e, seguindo o exemplo do seu mestre, procurou o seu próprio divertimento antes do ganho dos patrões. Deve ter ganho um bom dinheiro com aquelas escapadelas de Branwell, pois, alguns meses depois de o Vigário de Haworth ter conseguido a nomeação do seu filho, quando os livros foram submetidos à sua habitual verificação, descobriram-se sérios desfalques. Foi instaurado um inquérito, que trouxe à luz o método peculiar de Branwell de gerir a estação. O rapaz, em si, não foi suspeito de roubo propriamente dito; mas tão contínua, tão flagrante fora a sua negligência, tão irremediável a causa, que foi sumariamente despedido do serviço da companhia e enviado para casa, em profunda desgraça, para Haworth.
Chegou a casa não só em desgraça, mas doente. Nunca tendo sido forte, a sua constituição estava perturbada e quebrada pelos seus excessos; contudo, estranhamente, a tuberculose, que levou tão prematuramente as filhas mais dotadas e de princípios mais sólidos da casa, a tuberculose, que poderia ter sido originada pela vida viciosa que este jovem levara, não reclamou o seu corpo. O caráter da mãe e a sua doença descenderam apenas para as filhas. Branwell herdou o temperamento violento, as paixões fortes e a fraqueza nervosa do pai, sem a força de vontade e a fibra moral que tornavam o pai notável. Provavelmente, este rapaz brilhante, fraco, superficial e egoísta reproduziu com precisão suficiente as características de algum Prunty de outrora; pois Patrick Branwell era tão distintamente um irlandês como se a sua infância tivesse sido passada na cabana do seu avô em Ahaderg.
Chegou a casa e encontrou as suas irmãs todas fora. Anne na sua situação como governanta. Emily e Charlotte na Rue d'Isabelle. Ninguém, portanto, para controlar os seus hábitos, exceto a recatada senhora idosa, que ficava cada dia mais fraca, e que passava quase todo o seu tempo no seu quarto para evitar os pavimentos de pedra do rés-do-chão; e o pai, que não gostava de companhia, fazia as suas refeições sozinho por medo de indigestão e achava necessário passar o tempo seguinte em perfeito silêncio. A maior parte do dia estava, portanto, à disposição incontrolada e não supervisionada de Branwell.
Fazendo-lhe justiça, ele parece ter feito o esforço possível para encontrar um novo local de trabalho, o que envolveu escrever cartas ao seu amigo Grundy, e provavelmente a outros, a pedir emprego. Mas a sua ofensa tinha sido demasiado flagrante para ser perdoada. O Sr. Grundy parece ter aconselhado o infeliz jovem a procurar abrigo na Igreja, onde a influência do seu pai e dos parentes da sua mãe o poderiam ajudar; mas, como Branwell disse, ele não tinha uma única qualificação, "salvo, talvez, a hipocrisia". Os filhos de pastores raramente têm uma grande consideração pela Igreja. A energia, a abnegação e a resistência que um clérigo deveria possuir não estavam, certamente, na linha de Branwell. Além disso, como poderia ele tirar o seu diploma? Montgomery, ao que parece, recomendou-lhe que experimentasse a literatura. "Tudo muito bem, mas tenho pouca consideração por mim próprio e um grande desejo de atividade. Diz que escreve com sentimentos semelhantes àqueles com que me deixou pela última vez; não os guarde por mais tempo. Confio que estou algo mudado, ou não valeria um pensamento; e, embora nada pudesse dar-me os seus espíritos exuberantes e um exterior correspondente, posso, no vestir e na aparência, emular algo semelhante a uma decência comum. E agora, onde quer que os anos vindouros possam levar — às neves da Gronelândia ou às areias da África — confio, etc. 9 de junho de 1842."[12]
É duvidoso, a julgar pelas cartas e versos de Branwell, que algo muito melhor do que o 'Cottage in the Wood' do seu pai tivesse resultado de ele seguir o conselho de James Montgomery. Fluidez fácil, muitas vezes no limiar da tolice, com aqui e ali um toque brilhante e feliz, com aqui e ali um travo do hinário convencional e da entoação do púlpito — tais efusões fracas e sem caráter são tudo o que resta do pseudogênio dominado pela paixão de Haworth. O verdadeiro génio é, talvez, raramente de um temperamento tão vistoso.
Pobre Branwell! Era necessária maior força que a sua para recuperar desse primeiro passo em falso para a ruína. Ele não consegue ajudar-se a si mesmo e não encontra ninguém para o ajudar; apela novamente ao Sr. Grundy (numa carta que deve, por evidência interna, ter sido escrita por esta altura, embora um ano diferente e impossível esteja impresso no seu cabeçalho):--
"CARO SENHOR,
"Não consigo evitar a tentação de alegrar os meus ânimos rabiscando-lhe algumas linhas enquanto me sento aqui sozinho, estando toda a família na igreja — o único ocupante de uma antiga reitoria entre colinas solitárias, que provavelmente nunca ouvirá o apito de uma locomotiva até que eu esteja na minha sepultura.
"Após experimentar, desde o meu regresso a casa, dor e doença extremas, com uma depressão mental pior do que qualquer uma delas, adquiri finalmente saúde, força e sanidade mental, muito superiores, confio, a qualquer coisa mostrada por aquele destroço miserável que costumava conhecer sob o meu nome. Posso agora falar alegremente e desfrutar da companhia de outro sem o estímulo de seis copos de uísque. Posso escrever, pensar e agir com alguma aproximação aparente de resolução, e só preciso de um motivo para o esforço para ser mais feliz do que fui durante anos. Mas sinto que a minha recuperação de quase uma insanidade é retardada por não ter nada a ouvir, exceto o vento a gemer entre as chaminés velhas e freixos mais velhos — nada a olhar, exceto colinas de urze, percorridas quando a vida tinha tudo a esperar e nada a lamentar comigo — ninguém com quem falar, exceto velhos gregos e romanos rabugentos que são pó há cinco [sic] mil anos. E, contudo, esta vida calma, pelo seu contraste, faz com que o ano passado em Luddendenfoot pareça um pesadelo, pois prefiro dar a minha mão a passar novamente pelo descuido rastejante, pela devassidão maligna, mas fria, pela determinação em descobrir até onde a mente poderia levar o corpo sem que ambos fossem atirados para o inferno, o que marcou demasiado frequentemente a minha conduta quando lá estive, perdido como estava para tudo o que realmente gostava, e procurando alívio na indulgência de sentimentos que formam a mancha mais negra do meu caráter.
"Contudo, ainda me resta algo que me pode ser útil. Mas não devo permanecer demasiado tempo na solidão, pois o mundo esquece rapidamente aqueles que lhe disseram 'adeus'. A quietude é uma cura excelente, mas nenhum medicamento deve ser continuado após a recuperação do paciente, por isso estou prestes, embora envergonhado pelo negócio, a importuná-lo por respostas para ----.
"Desculpe o incómodo que estou a causar a alguém de cuja bondade não tenho direito, e pelos cujos serviços não estou a oferecer qualquer retorno exceto gratidão e agradecimento, que já lhe são devidos. Dê os meus sinceros cumprimentos ao Sr. Stephenson. Uma ou duas palavras para mostrar que não se esqueceu totalmente de mim irão agradar-me imensamente,
"Seu, etc."
Ai, nenhuma mão amiga resgatou o desgraçado que se afundava das areias movediças da sensualidade ociosa que lentamente o engoliu! No entanto, nesta altura, poderia ter havido esperança, se ele tivesse sido mantido longe do mal. Libertar-se a si mesmo, não podia. O seu "grande desejo de atividade" parece ter tido de ficar suspenso durante alguns meses, pois a 25 de outubro ele ainda está em Haworth. Escreve então ao Sr. Grundy novamente. A carta traz-nos até ao momento em que — na manhã sombria — Charlotte e Emily partiram na sua viagem para casa; revela-nos quanto sofrimento real e imerecido deve ter estado a ocorrer lado a lado com as misérias sem propósito de Branwell na cinzenta e antiga reitoria em Haworth. A boa e metódica tia solteira — que durante vinte anos tinha dado o melhor do seu coração a este sobrinho alegre e afetuoso — tinha descido até à beira da sepultura, tendo esperado o suficiente para ver a falácia irremediável de todos os seus sonhos para ele, todo o seu afeto. Branwell, que era realmente de coração terno, deve ter ficado sóbrio então.
Ele escreve ao Sr. Grundy num tom sincero e viril:--
"MEU CARO SENHOR,
"Não há qualquer mal-entendido. Tive uma longa assistência no leito de morte do Rev. Sr. Weightman, um dos meus amigos mais queridos, e agora estou a assistir no leito de morte da minha Tia, que foi durante vinte anos como a minha mãe. Espero que morra dentro de algumas horas.
"Como as minhas irmãs estão longe de casa, tive muito em mente, e estas coisas devem servir como desculpa para o que nunca foi pretendido como negligência da sua amizade para connosco.
"Eu pretendia não só ter-lhe escrito, mas também ao Rev. James Martineau, reconhecendo grata e sinceramente a receção da sua crítica mais gentil e verdadeira — pelo menos no conselho, embora demasiado generosa no louvor — mas uma cerimónia triste deve, temo, ser realizada primeiro. Dê os meus mais sinceros respeitos ao Sr. Stephenson e desculpe este rabisco; os meus olhos estão demasiado nublados pela tristeza para ver bem. Acredite em mim, o seu não muito feliz, mas obrigado amigo e servidor,
"P. B. BRONTE."
Mas só três dias depois chegou o fim. Por essa altura, Anne estava em casa para cuidar da mulher que a tinha acolhido, ainda criança, no seu amor e a tinha mantido sempre lá. Anne tinha vivido sempre alegremente com a Srta. Branwell; o seu espírito mais abatido não se ressentia das opressões ocasionais, das pequenas tiranias, que revoltavam Charlotte e silenciavam Emily. E, por fim, todo o constante autossacrifício daqueles vinte anos, passados por causa delas num país estranho e odiado, brilharia, e ainda mais cativaria a sofredora para aqueles que tinham de a perder.
A 29 de outubro, Branwell escreve novamente ao seu amigo:--
"MEU CARO SENHOR,
"Como não quero perder um amigo verdadeiro, escrevo em desaprovação do tom da sua carta. A morte apenas me tornou negligente da sua bondade, e tive ultimamente tanta experiência com ela, que a sua irmã não me culparia agora por me entregar a visões sombrias, quer deste mundo, quer de outro. Estou incoerente, receio, mas estive acordado duas noites a testemunhar um sofrimento tão agonizante que não desejaria que o meu pior inimigo suportasse; e perdi agora o orgulho e o mentor de todos os dias felizes ligados à minha infância. Sofri tal tristeza desde que o vi pela última vez em Haworth, que já não me importo se estivesse a lutar na Índia, ou ---- pois, quando a mente está deprimida, o perigo é a cura mais eficaz."
A Srta. Branwell estava morta. Tudo tinha acabado: foi enterrada numa manhã de terça-feira, antes de Charlotte e Emily, tendo viajado noite e dia, chegarem a casa. Encontraram o Sr. Bronte e Anne sentados juntos, chorando silenciosamente a presença habitual que já não voltaria a ser conhecida. Branwell não estava lá. Era a primeira vez que veria as suas irmãs desde a sua grande desgraça; não pôde esperar em casa para as receber.
O testamento da Srta. Branwell teve de ser tornado público. A pequena propriedade que ela tinha poupado do seu rendimento frugal foi toda deixada às suas três sobrinhas. Branwell tinha sido o seu favorito, o único filho, chamado pelo seu nome; mas a sua desgraça tinha-a ferido demasiado profundamente. Ele não foi sequer mencionado no seu testamento.
NOTAS DE RODAPÉ:
[Nota de rodapé 10: 'Pictures of the Past.' F. H. Grundy.]
[Nota de rodapé 11: 'Pictures of the Past.']
[Nota de rodapé 12: 'Pictures of the Past.']
CAPÍTULO IX.
O RECOLHIMENTO.
Subitamente chamadas do que parecia ser o dever, com todas as suas perspetivas de futuro arruinadas, as três irmãs encontraram-se novamente juntas em Haworth. Não podia haver dúvida agora sobre a manutenção de uma escola em Burlington; se existisse, teria de ser em Haworth, onde o seu pai poderia viver com elas. Os legados da Srta. Branwell proporcionariam amplamente as alterações necessárias na casa; a questão perante elas era se deveriam começar imediatamente essas alterações, ou se, antes de tudo, garantiriam uma educação superior para si mesmas.
Em todo o caso, alguém teria de ficar em casa para tratar da casa para o Sr. Bronte. Emily voluntariou-se rapidamente para ser essa pessoa. A sua oferta foi bem-vinda para todas; ela era a governanta mais experiente. Anne tinha uma situação confortável, que poderia retomar no fim das férias de Natal, e Charlotte estava ansiosa por regressar a Bruxelas.
Seria certamente vantajoso para a sua escola, aquele sonho acalentado agora tão provável de se tornar realidade, que as raparigas fossem capazes de ensinar alemão, e que pelo menos uma delas falasse francês com fluência e correção. O Monsieur Heger escreveu ao Sr. Bronte quando Charlotte e Emily partiram, apontando quanto mais estáveis e duradouras as suas vantagens se tornariam, se pudessem continuar por mais um ano em Bruxelas. "Num ano", diz ele, "cada uma das suas filhas estaria completamente preparada para o futuro; cada uma delas estava a adquirir ao mesmo tempo instrução e a ciência para instruir. A Mademoiselle Emily tem estado a aprender piano, a receber lições do melhor mestre que temos em Bruxelas, e já tinha as suas pequenas alunas; ela estava, portanto, a perder ao mesmo tempo um resto de ignorância e um outro, mais embaraçoso ainda, de timidez. A Mademoiselle Charlotte estava a começar a dar lições de francês e estava a adquirir aquela segurança e 'aplomb' tão necessários a uma professora. Mais um ano, no máximo, e o trabalho estaria concluído, e concluído bem."
Emily, como sabemos, recusou a tentação. Uma vez em Haworth, não podia ser induzida, por oferta de quaisquer vantagens, a deixar a sua charneca natal. Por outro lado, Charlotte não desejava nada melhor. A dela era uma natureza muito capaz de afeto, de gratidão, de sentimento. Teria sido um corte doloroso para ela romper tão subitamente com a sua vida atarefada e calma na antiga mansão, na Rue d'Isabelle. Quase impercetivelmente, tinha-se tornado muito amiga do lugar. Mary Taylor tinha partido, é verdade, e a brilhante e cativante Martha dormia lá também, demasiado profundamente para a ouvir, no cemitério protestante. Mas na estrangeira, herética e distante Bruxelas, havia memórias a chamar pela pequena, direta e simples mulher de Yorkshire. Ela não podia deixar de ouvir. O professor de cariz sombrio, de coração terno e fogoso, por quem ela sentia a reverente e ansiosa amizade que as raparigas intelectuais dão frequentemente a um homem muito mais velho do que elas; a família do médico; até a Madame Beck; até as alunas belgas — ela gostaria de as ver a todas novamente. Talvez não se apercebesse de quão diferente um lugar Bruxelas pareceria sem a sua irmã. E seria certamente uma vantagem para a escola que ela soubesse alemão. Por estas e muitas outras razões, Charlotte decidiu renunciar a um salário de 50 libras por ano que lhe era oferecido em Inglaterra, e aceitar o de 16 libras que ganharia em Bruxelas.
Assim foi determinado que, no fim das férias de Natal, as três irmãs seriam novamente divididas. Mas primeiro estiveram quase três meses juntas.
Branwell estava em casa. Ainda em Haworth, isso era um prazer e não um fardo. As suas irmãs nunca o viram no seu pior estado; o seu veemente arrependimento trazia convicção aos seus corações. Elas ainda esperavam pelo seu futuro, ainda diziam umas às outras que os homens eram diferentes das mulheres, e que tais paixões fortes denotavam uma natureza que, se uma vez direcionada corretamente, seria apaixonadamente correta. Elas não sentiam a miserável moleza da sua fibra moral; não sabiam que os fracos escorregam quando tentam manter-se de pé e não conseguem marchar eretos. Eram simultaneamente demasiado ternas e demasiado duras com o seu irmão, porque não conseguiam reconhecer que mera e pobre criatura era este seu génio errante.
Assim, quando o primeiro choque passou, a família reunida estava muito satisfeita. Levemente, naturalmente, como uma folha de outono, a velha tia tinha caído da família, as suas longas tarefas terminadas; e elas — embora a amassem e chorassem — estavam mais livres pela sua partida. Não havia agora restrição nas suas ações, nas suas opiniões; eram donas da sua própria casa. Foi um Natal feliz, embora não livre de encargos. As irmãs, separadas por tanto tempo, tinham muita experiência para trocar, muitos planos para fazer. Tinham de revisitar os seus antigos refúgios nas charnecas, agora brancas com a neve. Havia caminhadas até à biblioteca em Keighley para os livros que tinham sido adicionados durante a sua ausência. Ellen veio a Haworth. Então, no fim de janeiro de 1843, Anne regressou aos seus deveres e Charlotte partiu sozinha para Bruxelas.
Emily foi deixada para trás com Branwell; mas não por muito tempo. Deve ter sido por esta altura que o infeliz jovem obteve um lugar como tutor na casa onde Anne era governanta. Parecia uma ligação muito afortunada; a família era bem conhecida pela sua posição respeitável, vinha de uma linhagem eminente em boas obras, e as irmãs podiam muito bem acreditar que, sob a influência gentil de Anne e auspícios tão favoráveis, o seu irmão seria conduzido ao caminho dos justos.
A vida em Haworth seguiu o seu curso, com a sua quietude habitual, mas agora ensombrada pelo que as irmãs chamavam de "o problema de Branwell". Havia algo de sinistro na forma como a sorte parecia sempre escapar-lhe por entre os dedos, ou talvez na forma como ele próprio a afastava. Anne, voltando para casa após o término do seu contrato, trazia consigo uma melancolia que não era apenas cansaço. As conversas entre as três irmãs, outrora tão vivas e cheias de projetos literários, tornaram-se contidas, habitadas por pausas longas e olhares que evitavam o foco direto.
Emily, por sua vez, mantinha-se como o baluarte daquela casa. Não procurava consolação fora das suas paredes de pedra. Quando a tormenta soprava das charnecas, ela via nela não uma ameaça, mas uma companhia, um eco da sua própria natureza indomável. Era nessa altura que a escrita se tornava o seu refúgio, um exercício febril levado a cabo à luz das velas, enquanto a casa dormia e o pai, na sala contígua, mergulhava cada vez mais na sua própria escuridão solitária.
Charlotte, sempre a mais inquieta, a mais inclinada a medir o mundo com a régua da sua própria ambição, sentia o peso da estagnação. Ela olhava para os seus manuscritos, para as cartas que vinham de Bruxelas, e para o irmão, cuja deterioração era agora impossível de ocultar. Branwell, que outrora prometera ser o orgulho da família, tornara-se o seu segredo mais doloroso, um espectro que rondava a mesa de jantar e que, com a sua presença volátil, ameaçava desmoronar o precário equilíbrio que elas tanto se esforçavam por manter.
O outono trouxe chuvas persistentes que transformaram os caminhos em lama e isolaram ainda mais a casa paroquial. Nesses dias, a comunicação com o exterior resumia-se a breves notas e à esperança de que o correio trouxesse algum alento. Mas as notícias raramente eram boas. O declínio de Branwell acelerou-se de forma trágica; as suas ausências tornaram-se mais frequentes e, quando voltava, o seu estado de desagregação física e mental era uma ferida aberta para as suas irmãs.
Emily observava tudo com olhos vigilantes, mas pouco dizia. A sua compaixão não se expressava em palavras melosas, mas na constância com que preparava as refeições, na forma como se certificava de que Keeper não fosse importunado e no seu esforço silencioso para que a dignidade da casa não se perdesse no caos que o irmão trazia consigo. Ela entendia, talvez melhor do que ninguém, que aquela vida, embora restrita, era a única que lhes pertencia, e que a força para a suportar tinha de vir de dentro, do núcleo inabalável da sua própria vontade.
Ele tinha sido enviado para casa um dia ou dois antes, aparentemente para umas férias. Ele deve ter sabido que alguma descoberta tinha sido finalmente feita; deve ter sentido que nunca mais voltaria. Anne, também, deve ter tido alguns receios; contudo, o pior ainda não era conhecido. Emily, pelo menos, não podia adivinhá-lo. Não durou muito esta trégua com a desonra pública. No próprio dia do regresso de Charlotte, chegara uma carta para Branwell do seu empregador. Tudo tinha sido descoberto. Esta carta ordenava a Branwell que nunca mais visse a mãe das crianças sob os seus cuidados, que nunca pusesse os pés na sua casa, que nunca lhe escrevesse nem lhe falasse. Branwell, que a amava apaixonadamente, não tinha naquele momento qualquer pensamento para a vergonha, a negra desonra que trouxera à casa de seu pai. Ele enfureceu-se, delirou, jurou que não podia viver sem ela; depois, protestou contra ela por permanecer com o marido. Então, rezou para que o homem doente morresse depressa; eles seriam ainda felizes. Ah, ele nunca mais a veria!
Uma cena estranha no silencioso salão de uma casa paroquial rural, esta angústia de um amor culpado, estas reviravoltas de um êxtase vergonhoso para um desespero vergonhoso. Branwell delirava, delirante, agonizante; e o pai cego ouvia, doente de coração, talvez com remorsos; e a gentil irmã ouvia, estremecendo, como se visse o inferno aberto aos seus pés. Emily ouvia também, indignada com a traição, horrorizada com a vergonha; mas com uma imensa piedade no seu peito feroz e amoroso.
Para esta cena entrou Charlotte.
Charlotte, com o seu veemente sentido de justiça; Charlotte, com a sua robusta indignação; quando ela, finalmente, compreendeu toda a paixão culpada e corrompida que tinha destruído dois lares, ela afastou-se com algo no seu coração subitamente endurecido, morto. Era o seu amor apaixonado por este irmão vergonhoso e errante, outrora tão querido para ela como a sua própria alma. Contudo, ela foi muito paciente. Escreve a uma amiga calmamente e sem demasiado desdém:--
"Tivemos um trabalho triste com Branwell. Ele não pensava em nada além de atordoar ou afogar a sua agonia de espírito" (de que maneira, o leitor já sabe) "ninguém nesta casa podia ter descanso, e finalmente fomos obrigados a enviá-lo para fora de casa por uma semana, com alguém para cuidar dele. Ele escreveu-me esta manhã, expressando algum sentido de contrição... mas enquanto ele permanecer em casa, mal me atrevo a esperar paz na casa. Todas nós, temo, devemos preparar-nos para uma estação de angústia e inquietação."[16]
Um tempo cansativo e sem esperança. Branwell voltou, melhor de corpo, mas de modo nenhum mais santo de espírito. A sua única esperança era que o seu inimigo morresse, morresse depressa, e que as coisas pudessem ser como tinham sido antes. Nenhum pensamento de arrependimento. O pouco dinheiro que tinha, gastava-o em gin ou ópio, qualquer coisa para amortecer a recordação. Uma mulher ainda vive em Haworth, que costumava ajudar nas tarefas domésticas no "Black Bull". Ela ainda se lembra de como, de manhã cedo, pálido, de olhos vermelhos, ele entrava na passagem da estalagem, com a sua bela vénia e o movimento de braço do chapéu levantado, com o seu sorriso cortês e um pronto "Bom dia, Anne!". Então, virava-se para o balcão e, tateando nos bolsos à procura do pouco dinheiro que pudesse ter -- seis pence, oito pence, dez pence, conforme o caso -- pedia tanto gin e sentava-se ali a beber até que tudo acabasse, depois continuava a sentar-se ali em silêncio; ou, por vezes, falava apaixonadamente da mulher que amava, da sua beleza, doçura, de como ansiava por vê-la de novo; ele adorava falar dela até para um cão; falava dela durante horas ao seu cão. Contudo -- para que não tenhamos pena deste desespero real -- lancemos um olhar sobre uma das cartas deste homem. Como podia tamanha fraqueza vulgar, tal sentimentalismo corrupto e repugnante, tal penitência lacrimosa ao estilo de Micawber, sentir ainda tanto! Não é uma tarefa fácil julgar uma miséria demasiado perversa para a piedade, demasiado sincera para o desprezo absoluto.
É novamente ao Sr. Grundy que ele escreve:--
"Desde que apertei a sua mão pela última vez em Halifax, há dois verões, a minha vida, até há pouco tempo, tem sido uma de aparente felicidade e indulgência. Perguntará -- 'Por que se queixa então?' Só posso responder mostrando a corrente subterrânea de angústia que levou o meu barco a um remoinho, apesar das ondas de superfície da vida que pareciam flutuar-me para a paz. Numa carta iniciada na primavera de 1843" (sic; 1845?) "e nunca terminada devido a ataques incessantes de doença, tentei dizer-lhe que era tutor do filho de um cavalheiro rico cuja esposa é irmã da esposa de ----, um deputado, e prima de Lord ----. Esta senhora (embora o seu marido me detestasse) mostrou-me um grau de bondade que, quando eu estava profundamente triste um dia com a conduta do seu marido, amadureceu em declarações de sentimentos mais do que comuns. A minha admiração pelos seus atributos mentais e pessoais, o meu conhecimento da sua sinceridade altruísta, o seu temperamento doce e o seu cuidado incansável pelos outros, com um retorno não correspondido onde mais deveria ter sido dado... embora ela seja dezassete anos mais velha do que eu, tudo se combinou para um apego da minha parte, e levou a reciprocidades que eu pouco tinha esperado. Há três meses recebi uma carta furiosa do meu empregador, ameaçando disparar sobre mim se eu regressasse das minhas férias que estava a passar em casa; e cartas da sua criada e do seu médico informaram-me da explosão, apenas travada pela sua firme coragem e resolução de que, qualquer que fosse o mal que lhe viesse, nenhum deveria vir a mim.... Tenho estado deitado durante nove longas semanas, completamente despedaçado de corpo e abatido de espírito. A probabilidade de ela se tornar livre para me dar a si mesma e à sua propriedade nunca surgiu para afastar a perspetiva do seu declínio sob a sua atual dor. Temia, também, o naufrágio da minha mente e do meu corpo, que -- Deus sabe -- durante uma vida curta têm sido muito severamente testados. Onze noites contínuas de horror sem sono reduziram-me quase à cegueira, e sendo levado para o País de Gales para recuperar, a doce paisagem, o mar, o som da música causaram-me ataques de angústia indescritível. Dirá: 'Que tolo!' Mas se soubesse as muitas causas que tenho para a tristeza, que nem posso sugerir aqui, talvez tivesse pena além de culpar. A pedido gentil do Sr. Macaulay e do Sr. Baines, esforcei-me por despertar a minha mente escrevendo algo digno de ser lido, mas realmente não o consigo fazer. Naturalmente desprezará o autor de tudo isto. Só posso responder que o autor faz o mesmo e não desejaria viver, se não esperasse que o trabalho e a mudança possam ainda restaurá-lo.
"Pedindo desculpa sinceramente pelo que parece um egoísmo lamuriento, e mal me atrevendo a sugerir dias em que, na sua companhia, eu podia por vezes afundar os pensamentos que 'me lembram dias que se foram', receio 'partidos para nunca mais voltar', permaneço, etc."[17]
Infeliz Branwell! Alguma consolação ele retira na sua máxima dor do facto de a senhora do seu amor poder empregar a sua própria criada e médico para escrever cartas ao seu amante exilado. É claro que o seu orgulho é gratificado por esta associação irregular com um lorde. Ele pode dar-se ao luxo de esperar, estupefacto com bebida e drogas, até que chegue aquele tempo feliz em que possa avançar e reclamar "a si mesma e à sua propriedade", doravante Branwell Bronte, Esq., J.P., e uma pessoa de posição no condado. Tal futuro paradisíaco amanhece acima deste purgatório atual de dores e confusão.
Essa frase relativa a "si mesma e à sua propriedade" é peculiarmente apocalíptica. Lança uma luz bastante nova sobre um facto que, no tempo da Sra. Gaskell, era considerado como prova de que alguns restos de consciência ainda se agitavam dentro deste miserável sujeito. Alguns meses após o seu despedimento, perto do fim deste infeliz ano de 1845, ele encontrou esta senhora em Harrogate por marcação. Diz-se que ela propôs uma fuga juntos, pronta a perder toda a sua grandeza. Foi Branwell quem aconselhou paciência e um pouco mais de espera. Talvez, embora ela mesma fosse querida, "embora dezassete anos mais velha do que eu", "ela mesma e a sua propriedade" fossem estimavelmente mais queridas.
E, no entanto, ele falava a sério, ainda era uma questão de vida ou morte, de céu ou inferno, para ele. Se não a pudesse ter, não teria nada. Ele arruinaria a si mesmo e a todos que pudesse. Mais provavelmente, nesta fúria de desespero vão, alguma criança apaixonada que grita, e bate, e rasga, convulsa porque não pode ter a lua.
Não admira que a frieza de Charlotte, agravada pelo ultraje contínuo por parte de Branwell, se tenha tornado gradualmente desprezo e silêncio. Na proporção em que ela se tinha regozijado neste irmão, esperado tudo por ele, encolheu-se agora dele, amargamente fria de coração.
"Começo a temer", diz ela, a outrora ambiciosa irmã, "que ele se tenha tornado incapaz de ocupar qualquer posição respeitável na vida." Ela não pode pedir a Ellen que a venha ver, porque ele está na casa. "E enquanto ele estiver aqui, não virás. Estou mais confirmada nessa resolução quanto mais vejo dele. Gostaria de poder dizer uma palavra a teu favor sobre ele, mas não posso. Manterei a minha língua."[18]
Durante algum tempo esperou que a crise passasse, e que então -- não importa quão humildemente, quanto mais obscuramente melhor -- ele ganhasse pelo menos o pão honesto fora de casa. Tal não era a sua intenção. Professou estar demasiado doente para deixar Haworth; e doente, sem dúvida, estava ele pelo consumo contínuo de ópio e bebida diária de tragos. Ele manteve-se nos seus quartos confortáveis, no "Black Bull" logo ali do outro lado do cemitério, alheio ao desconforto que causava aos outros. "Branwell não oferece perspetiva de esperança", diz Charlotte, novamente. "Como podemos estar mais confortáveis enquanto Branwell fica em casa e degenera em vez de melhorar? Foi sugerido que ele seria recebido novamente onde esteve anteriormente destacado se se comportasse de forma mais constante, mas ele recusa-se a fazer o esforço. Ele não quer trabalhar, e em casa é um dreno em todos os recursos, um impedimento a toda a felicidade. Mas não vale a pena queixar-se----"
Pouco vale, na verdade; contudo, mais uma vez, ela forçou-se a fazer o esforço sem esperança, após mais um surto habitual do homem que estava a beber até à loucura e à ruína. Ela escreve em março de 1846 à sua amiga e conforto, Ellen:--
"Fui ao quarto onde estava Branwell, para falar com ele, cerca de uma hora depois de ter chegado a casa; foi um trabalho muito forçado dirigir-me a ele. Poderia ter-me poupado ao trabalho, pois ele não prestou atenção e não deu resposta; ele estava estupefacto. Os meus receios não foram vãos. Ouço dizer que ele conseguiu uma libra enquanto estive fora, sob o pretexto de pagar uma dívida urgente; ele foi imediatamente e trocou-a num estabelecimento público, e empregou-a como era de esperar..., concluiu o seu relato dizendo que ele era um 'ser sem esperança'. É demasiado verdade. No seu estado atual, é quase impossível ficar no quarto onde ele está."[19]
Deve ser por essa altura que ela desistiu para sempre de exortações ou queixas sobre este assunto. "Manterei a minha língua", tinha dito ela, e cumpriu a sua palavra. Durante mais de dois anos, manteve um silêncio total para ele; vivendo sob o mesmo teto, testemunhando dia após dia a sua degradação cada vez mais profunda, nenhuma sílaba cruzou os seus lábios para ele. Como não podia (pelo bem daqueles que amava e podia confortar) recusar o toque e a presença repugnante e diária do pecado, ela suportou-o, mas não teria comunhão com ele. Ela não tinha poder sobre isso, e isso nenhum sobre ela. Ela olhava sem falar; aquele homem estava morto para ela.
Anne, em quem a fibra da indignação era menos forte, seguiu menos severamente a esteira da sua irmã.
"Ela tinha", diz Charlotte nas suas 'Memórias', "no decurso da sua vida, sido chamada a contemplar, de perto e durante muito tempo, os efeitos terríveis de talentos mal utilizados e faculdades abusadas; a sua era naturalmente uma natureza sensível, reservada e deprimida; o que ela viu penetrou profundamente na sua mente; fez-lhe mal."
O espetáculo deste mal, vindo imerecido a uma criatura tão querida, frágil e inocente, absorveu toda a piedade de Charlotte. Não restava nenhuma para Branwell.
Mas havia um coração de mulher suficientemente forte na sua compaixão para suportar os desgostos diários, as fraquezas, os pecados da vida de Branwell, e ainda persistir na ajuda e no afeto. Noite após noite, quando o Sr. Bronte estava na cama, quando Anne e Charlotte tinham subido para o seu quarto, Emily ainda se mantinha acordada, à espera. Ela tinha muitas vezes de esperar muito tempo na casa silenciosa antes que o passo cambaleante, o juramento murmurado, a mão atrapalhada na porta, a levassem a despertar dos seus pensamentos tristes e a levantar-se para deixar entrar o pródigo, e conduzi-lo em segurança para o seu descanso. Mas ela nunca se cansou na sua bondade. Naquele lar silencioso, era a silenciosa Emily que tinha sempre uma palavra de alento para Branwell; era Emily que ainda se lembrava que ele era o seu irmão, sem que essa lembrança congelasse o seu coração até à dormência. Ela ainda esperava ganhá-lo de volta através do amor; e a própria força e sinceridade da sua paixão culpada (um horror e pecado adicional aos olhos das suas irmãs) era um apelo a Emily, sempre solidária com sentimentos violentos. Assim foi ela quem, mais do que as outras, se tornou familiarizada com a agonia, e as dúvidas, e a vergonha daquela alma atormentada; e se, no seu pouco conhecimento do mundo, ela imaginou tais paixões arrebatadas como naturais, não é sobre ela, certamente, que a culpa da sua piedade será lançada.
À medida que o tempo passava e Branwell piorava e se tornava mais selvagem, foi bom para a observadora solitária que ela fosse forte. Finalmente, ele adoeceu e contentava-se em ir para a cama cedo e deitar-se ali meio estupefacto com ópio e bebida. Numa dessas noites, estando o pai e Branwell na cama, as irmãs subiram para dormir. Emily tinha ido primeiro para o pequeno quarto da passagem onde ainda dormia, quando Charlotte, passando pela porta entreaberta de Branwell, viu um estranho clarão brilhante lá dentro.
"Oh, Emily!" gritou ela, "a casa está a arder!"
Emily saiu, com os dedos nos lábios. Tinha-se lembrado do grande horror do pai pelo fogo; era o único medo de um homem corajoso; ele não queria cortinas de musselina, nem vestidos leves na sua casa. Ela saiu silenciosamente e viu a chama; depois, muito branca e determinada, correu do seu quarto escadas abaixo para a passagem, onde todas as noites baldes cheios de água permaneciam. Um em cada mão, ela subiu as escadas. Anne, Charlotte, a jovem criada, encolhendo-se contra a parede, amontoavam-se em horror espantado -- Emily continuou diretamente e entrou no quarto em chamas. Em pouco tempo a luz brilhante deixou de arder. Felizmente, a chama não tinha atingido a madeira: Branwell embriagado, virando-se na cama, deve ter derrubado a luz sobre os seus lençóis, pois eles e a cama estavam todos a arder, e ele inconsciente no meio quando Emily entrou, tal como Jane Eyre encontrou o Sr. Rochester. Mas não era com uma criatura humana razoável e agradecida que Emily tinha de lidar. Após alguns longos momentos, aqueles que ainda estavam na passagem viram-na sair cambaleando, branca, com as roupas chamuscadas, transportando meio aos braços, meio arrastando, o seu irmão embriagado. Colocou-o na sua cama e retirou a luz; depois, assegurando às raparigas histéricas que não poderia haver mais perigo, pediu-lhes que fossem descansar -- mas onde ela dormiu naquela noite, ninguém se lembra agora.
Deve ser muito pouco tempo depois disto que Branwell começou a dormir no quarto do seu pai. O velho, suficientemente corajoso, e concebendo que a sua presença pudesse ser alguma ligeira restrição às fúrias bêbadas do seu infeliz filho, persistiu nesta disposição, embora muitas vezes as raparigas lhe implorassem que a abandonasse, sabendo bem que risco de vida ele corria. Frequentemente, Branwell declarava que ou ele ou o seu pai deveriam estar mortos antes da manhã; e bem poderia acontecer que, no seu delírio insensato, ele assassinasse o velho cego.
"As irmãs ouviam frequentemente o disparo de uma pistola no meio da noite, até que o olho vigilante e o ouvido atento se tornavam pesados e baços com a tensão perpétua sobre os seus nervos. De manhã, o jovem Bronte passeava, dizendo com uma incontinência de fala de bêbado: 'O pobre velho e eu tivemos uma noite terrível. Ele faz o seu melhor -- o pobre velho! -- mas acabou-se para mim'" (choramingando) "'é culpa dela, culpa dela.'"[20]
E num tal progresso fatal, dois anos passaram-se, trazendo o sofrimento naquela casa cada vez mais baixo, cada vez mais profundo, afundando dia após dia de mal a pior.
NOTAS DE RODAPÉ:
[Nota de rodapé 16: Sra. Gaskell.]
[Nota de rodapé 17: 'Pictures of the Past.']
[Nota de rodapé 18: Sra. Gaskell.]
[Nota de rodapé 19: Sra. Gaskell.]
[Nota de rodapé 20: Sra. Gaskell.]
CAPÍTULO XII.
ESCREVENDO POESIA.
Enquanto as mãos de Emily Bronte estavam cheias de trabalho trivial, enquanto o seu coração estava enterrado com o seu fardo de vergonha e tristeza, não pensem que a sua mente estava mais descansada. Ela tinha usado sempre o seu tempo livre para estudar ou criar; e a melancolia da existência tornava esta vida interior sua duplamente preciosa agora. Existe uma pequena cópia dos 'Poemas' de Ellis, Currer e Acton Bell, que era de Emily, marcada com o seu nome e com a data de cada poema cuidadosamente escrita sob o seu título, na sua escrita apertada e arrumada. Tem sido de grande utilidade para mim na classificação da ordem destes poemas, principalmente hinos à imaginação, a "Consoladora" de Emily, o seu "Amor de Fada"; implorando-lhe que acenda tal luz na alma que as nuvens baças dos céus terrenos possam parecer de escassa importância.
A luz que deveria ser acesa era, de facto, de um brilho sobrenatural; uma chama debaixo da terra; uma chama de relâmpago dos céus; um farol de aviso terrível. Embora tanto não seja evidente nestes primeiros poemas, brilhando com fogos-fátuos fantásticos, delicadezas de fadas, ou ardendo tão solenemente e pálidos como velas acesas à luz do dia em torno de um esquife, ainda assim, em qualquer forma, "a luz que nunca esteve no mar ou na terra", o estranho brilho transfigurador da imaginação, está presente ali.
Ninguém na casa viu alguma vez que coisas Emily escrevia nos momentos de pausa da sua confeção de pastéis, nessas breves sentadas sob as groselheiras, nessas longas e solitárias vigílias pelo seu irmão bêbado. Ela não escrevia para ser lida, mas apenas para aliviar um coração sobrecarregado. "Um dia", escreve Charlotte em 1850, recordando o passado próximo e desaparecido, "um dia no outono de 1845, deparei acidentalmente com um volume manuscrito de versos na caligrafia da minha irmã Emily. Naturalmente, não fiquei surpreendida, sabendo que ela podia escrever e escrevia versos. Olhei para ele, e algo mais do que surpresa apoderou-se de mim -- uma profunda convicção de que estas não eram efusões comuns, de modo algum como a poesia que as mulheres escrevem geralmente. Pensei nelas como condensadas e concisas, vigorosas e genuínas. Para o meu ouvido, tinham também uma música peculiar, selvagem, melancólica e elevadora."
Muito verdade; estes poemas com o seu excedente de imaginação, a sua música instintiva e justeza irregular de forma, a sua impressionabilidade arrebatadora, efeitos de paisagem, as suas escassas alusões a dogmas ou a homens pérfidos, não são, de facto, de modo algum como a poesia que as mulheres escrevem geralmente. A mão que pintou esta única linha,
"A lua baça lutando no céu,"
deveria ter apertado a mão de Coleridge. A voz poderia ter cantado em concerto com Blake que cantou este único pedaço de uma canção:
"A esperança era apenas uma amiga tímida; Ela sentava-se fora da toca gradeada, Observando como o meu destino tenderia, Tal como homens de coração egoísta.
"Ela era cruel no seu medo; Através das barras, num dia sombrio, Olhei para fora para a ver ali, E ela virou o seu rosto!"
Se o poema tivesse terminado aqui, teria sido perfeito, mas este e muitos outros versos possuem a incerteza de conclusão que geralmente marca os primeiros trabalhos. Frequentemente incoerentes também, as imagens de um sonho sucedem-se rapidamente sem uma conexão lógica; contudo, quase não são prejudicadas pela incoerência, uma vez que o efeito que procuram produzir não é uma emoção, não é uma convicção, mas uma impressão de beleza, ou horror, ou êxtase. Os contornos incertos são banhados por um vago ar dourado de imaginação, e são-nos mostrados com o toque mágico de um Coleridge, de um Leopardi — o toque que confere um estado de espírito, uma cena, quase sem um detalhe óbvio de qualquer um deles. Podemos não compreender o propósito da canção, mas compreendemos o sentimento que a provocou, tal como, ao terminar a leitura de 'Kubla Khan', permanece na nossa mente, não a visão pictórica do palácio ou da bailarina, mas uma participação pessoal na fantasia exaltada de Coleridge, um despertar de devaneio, uma impressão.
Leia este poema, escrito em outubro de 1845 —
"O FILÓSOFO.
"Basta de pensamento, filósofo, Demasiado tempo tens sonhado Sem luz, nesta câmara lúgubre, Enquanto o sol de verão está a brilhar! Alma que varre o espaço, que refrão triste Conclui de novo as tuas meditações?
"Oh, pelo tempo em que dormirei Sem identidade, E nunca me importarei como a chuva pode encharcar, Ou a neve me pode cobrir! Nenhum céu prometido, estes desejos selvagens Poderiam todos, ou metade, cumprir; Nenhum inferno ameaçado, com fogos inextinguíveis, Domar esta vontade inextinguível!
"Assim disse eu, e ainda digo o mesmo; Ainda, até à minha morte, direi — Três deuses, dentro desta pequena estrutura, Estão em guerra dia e noite; O céu não os poderia conter a todos, e ainda assim Todos eles estão contidos em mim, E devem ser meus até que eu esqueça A minha entidade presente! Oh, pelo tempo, quando no meu peito As suas lutas findarão! Oh, pelo dia, quando eu descansarei, E nunca mais sofrerei!
"Vi um espírito, de pé, homem, Onde tu estás — há uma hora, E à volta dos seus pés três rios corriam, De igual profundidade, e igual fluxo — Um riacho dourado, e um como sangue, E um parecia ser de safira; Mas, onde se juntavam no seu fluxo triplo Caía num mar de tinta. O espírito enviou o seu olhar ofuscante Através da noite sombria daquele oceano, Depois, acendendo tudo, com um clarão súbito, O profundo alegre cintilou amplo e brilhante — Branco como o sol, muito, muito mais belo, Do que as suas fontes divididas eram!
"E até por esse espírito, vidente, Tenho vigiado e procurado a minha vida inteira; Procurei-o no céu, inferno, terra e ar — Uma busca sem fim, e sempre errada! Se eu tivesse visto o seu olho glorioso Uma vez iluminar as nuvens que me confundem, Nunca teria erguido este grito cobarde De deixar de pensar, e deixar de ser; Nunca teria chamado o esquecimento de abençoado, Nem, estendendo mãos ávidas para a morte, Implorado para trocar por um descanso insensato Esta alma senciente, este fôlego vivo —
"Oh, deixa-me morrer — para que poder e vontade A sua cruel contenda possam fechar; E o bem conquistado, e o mal conquistador Sejam perdidos num só repouso!"
Alguma semelhança de coerência pode, sem dúvida, ser dada a este poema ao fazer com que as três primeiras e a última estrofes sejam ditas pelo questionador, e a quarta pelo filósofo. Mesmo assim, o tema tem pouco encanto. O que nos interessa é a energia surpreendente com que as imagens sucessivas são projetadas, o tom sincero do verso, a imaginação que investe todas as suas mudanças. O homem e o filósofo são apenas a maquinaria desajeitada da lanterna mágica, quanto mais fora de vista, melhor.
"Bem conquistado e mal conquistador!" Um pensamento que deve ter surgido muitas vezes na mente de Emily durante este ano e os que se seguiram. Um pensamento sombrio, suficientemente estranho na filha de um pároco rural; um destino destinado a ter um grande resultado na sua obra.
Destas visões que constituem a maior metade da contribuição de Emily para o pequeno livro, nenhuma tem uma graça mais misteriosa do que este devaneio de 5 de março de 1844, exemplificado aqui por alguns versos arrebatados do seu cenário de forma bastante rude: —
"Numa encosta ensolarada, sozinha eu jazia Uma tarde de verão; Era o tempo de casamento de maio Com o seu jovem amante, junho.
* * * * *
"As árvores ondulavam as suas cristas plumosas, Os pássaros alegres gorjeavam claramente; E eu, de todos os convidados do casamento, Era a única melancólica ali.
* * * * *
"Agora, se foi realmente assim, Nunca pude ter a certeza, Mas como num acesso de mágoa rabugenta, Estendi-me na charneca,
"Milhares e milhares de fogos cintilantes Pareciam acender-se no ar; Milhares e milhares de liras prateadas Ressoavam longe e perto:
"Pensei, o próprio fôlego que eu respirava Estava cheio de faíscas divinas, E todo o meu leito de urze estava entrelaçado Por esse brilho celestial!
"E, enquanto a vasta terra ecoava À sua estranha menestralia, Os pequenos espíritos cintilantes cantavam, Ou pareciam cantar, para mim."
* * * * *
O que cantaram é, de facto, de pouca importância — uma melodia do vago sentimento panteísta comum sempre aos poetas, mas a sua maneira de representar a pequena sinfonia aérea é encantadora. Recorda o brilho de fada das charnecas ao pôr do sol, quando o sol, deslizando por trás de uma colina ocidental, flui em raios nivelados para uma crista oposta, dourando com ouro pálido a relva desbotada cor de fulvo; emaranhada na película de ervas lilases que semeiam, espalhada, como a flor numa uva, sobre toda a charneca; cintilando nas bordas estaladiças das flores de urze, branco puro, cor de rosa selvagem, matizado de concha, púrpura; enfatizando cada esporão cinzento-esverdeado do sub-bosque de líquen terrestre; atingindo cada ramo salpicado de escarlate e de botões brancos de urze: um efeito iridescente, cintilante e dançante de flores brancas, cor-de-rosa e púrpuras; de flor lilás, de botões e ramos cinzento-esverdeados e branco-acinzentados, todos movendo-se e dançando juntos na brisa no topo da colina. Citei aquela noite ventosa num verso —
"A lua baça lutando no céu."
Aqui está outro verso para mostrar quão bem ela vigiava da janela larga do seu quarto os céus cinzentos que se estendiam longe acima das charnecas negras que se estendiam longe —
"E oh, quão devagar aquela estrela de olhos atentos Tem seguido o cinzento frio; O quê, ainda a vigiar! quão muito longe A manhã jaz de distância."
Tais toques diretos e vitais recordam passagens bem conhecidas de 'O Monte dos Vendavais': as imagens de Catharine sobre as charnecas; aquela alusão requintada aos sinos da Capela de Gimmerton, que não se ouvem nas charnecas no verão quando as árvores estão com folhas, mas sempre ouvidos em Wuthering Heights nos dias calmos que se seguem a um grande degelo ou a uma estação de chuva constante.
Mas não, infelizmente! em tal fantasia, em tal intimidade amorosa com a natureza, poderia grande parte dos dias tristes de Emily ser passada. Nem estava na sua natureza que todos os seus sonhos fossem alegres. As melhores canções, as mais particularmente suas, são todas de desafio e luto, estados de espírito tão naturais para ela que parece quase não precisar da intervenção de palavras na sua confissão. A música selvagem, melancólica e edificante de que Charlotte fala sabiamente é forte o suficiente para mover os nossos próprios corações à tristeza em versos como os seguintes, coisas que não nos tocariam de todo se fossem escritas em prosa; que não têm nota pessoal. Contudo, escuta —
"Morte! que atingiste quando eu estava mais confiante Na minha fé certa de alegria por vir — Atinge de novo, dividindo o ramo murcho do Tempo Da raiz fresca da Eternidade!
"Folhas, no ramo do Tempo, cresciam brilhantemente, Cheias de seiva, e cheias de orvalho prateado; Pássaros sob o seu abrigo reuniam-se à noite; Diariamente à volta das suas flores as abelhas selvagens voavam.
"A tristeza passou, e colheu a flor dourada."
Solene, assombrosa com uma paixão infinitamente além das meras palavras, da mera imagem; porque, de alguma forma maravilhosa, a própria música do verso impressiona, lembra-nos, declara as santas perdas inevitáveis da morte.
Um poema ainda mais belo é 'Lembrança', escrito dois anos mais tarde, em março de 1845; aqui as palavras e o pensamento são dignos da música e do estado de espírito. Tem uma paixão vital; embora dificilmente possa ser uma paixão pessoal, uma vez que, "quinze invernos selvagens" antes de 1845, Emily Brontë era uma rapariga de doze anos de idade, sem companhia, exceto pelas irmãs ainda vivas, Branwell, a sua tia e os criados da vigararia. Aqui, como noutros lugares no presente volume, o instinto criativo revela-se ao imaginar emoções e não personagens. O artista forneceu a paixão do amante.
"Fria na terra — e a neve profunda empilhada sobre ti, Longe, longe removida, fria na sepultura lúgubre! Terei eu esquecido, meu único Amor, de te amar, Separada finalmente pela onda que tudo separa do Tempo?
"Agora, quando sozinha, não pairam mais os meus pensamentos Sobre as montanhas, naquela margem norte, Descansando as suas asas onde a urze e as folhas de feto cobrem O teu nobre coração para sempre, para todo o sempre?
"Fria na terra — e quinze invernos selvagens, Daquelas colinas castanhas, derreteram-se em primavera: Fiel, de facto, é o espírito que se lembra Depois de tais anos de mudança e sofrimento!
"Doce Amor da juventude, perdoa, se eu te esquecer, Enquanto a maré do mundo me arrasta; Outros desejos e outras esperanças me cercam, Esperanças que obscurecem, mas não te podem fazer mal.
"Nenhuma luz posterior iluminou o meu céu, Nenhuma segunda manhã brilhou alguma vez para mim; Toda a felicidade da minha vida foi dada da tua vida querida, Toda a felicidade da minha vida está na sepultura contigo.
"Mas, quando os dias de sonhos dourados tinham perecido, E até o Desespero era impotente para destruir, Então aprendi como a existência podia ser acarinhada, Fortalecida, e alimentada sem a ajuda da alegria.
"Então reprimi as lágrimas de paixão inútil — Desmamei a minha jovem alma de ansiar pela tua; Neguei severamente o seu desejo ardente de apressar-se Para aquele túmulo já mais do que meu.
"E, ainda assim, não ouso deixá-la definhar, Não ouso entregar-me à dor arrebatadora da memória; Uma vez bebendo profundamente dessa angústia divinal, Como poderia eu procurar o mundo vazio novamente?"
Melhor ainda, de uma excelência padrão, é um pequeno poema, que, por algum impulso tímido de avestruz, Emily escolheu chamar
"O VELHO ESTOICO.
"Riquezas que mantenho em leve estima; E o Amor que rio com desprezo; E a luxúria da fama era apenas um sonho Que desapareceu com a manhã:
"E se eu rezo, a única oração Que move os meus lábios por mim É, 'Deixa o coração que agora carrego, E dá-me liberdade!'
"Sim, à medida que os meus dias velozes se aproximam da sua meta, É tudo o que imploro; Na vida e na morte, uma alma sem correntes, Com coragem para suportar."
Ao longo do livro reconhece-se a capacidade de produzir algo mais belo e bastante diferente do que aqui é produzido; reconhece-se tanto, mas não o autor de 'O Monte dos Vendavais'. Grandes impressões de humor e paisagem revelam um temperamento artístico notavelmente recetivo; o movimento esplêndido e vigoroso das linhas mostra que o artista é um poeta. Então estamos num beco sem saída. Não há qualquer pista sobre que tipo de poeta — demasiado reservada para ser consistentemente lírica, não há provas suficientes da faculdade dramática para nos ajudar a encontrar o rasto verdadeiro. Tudo o que podemos dizer é que temos diante de nós uma mente capaz de ilusões muito completas e reais, assombrada pela imaginação, sempre fantástica, e frequentemente terrível; um temperamento reservado, destemido e pensativo; um caráter de grande força e rugosidade, extremamente tenaz das impressões. Devemos chamar o Monsieur Taine e o seu Milieu para explicar 'O Monte dos Vendavais'.
Este primeiro volume revela uma imaginação avassaladora que ainda não atingiu a sua saída adequada. É doloroso, ao ler estes primeiros poemas, sentir quão implacável e horrível essa forte imaginação era muitas vezes, ainda não direcionada para nenhuma linha propositada. Por vezes, de facto, fantasias doces vinham a Emily, mas frequentemente eram visões de masmorras negras, cenas de morte, e separação sem esperança, de loucura e agonia.
"Assim estava eu, no sol glorioso do Céu, E no brilho do Inferno; O meu espírito bebeu um tom misturado, De canção de serafim, e gemido de demónio; O que a minha alma suportou, a minha alma apenas Dentro de si mesma pode contar!"
É doloroso, de facto, pensar que os arredores desta imaginação violenta, com a sua inclinação para o caprichoso e o aterrorizante, eram a solidão, a tristeza, o companheirismo forçado com a degradação; uma vida tão amarga, durante muito tempo, e feita tão amarga através da culpa de outro, que Emily acolheu as suas fantasias, mesmo as mais sombrias, como uma saída feliz da realidade.
"Oh, terrível é o travão — intensa a agonia — Quando o ouvido começa a ouvir, e o olho começa a ver; Quando o pulso começa a pulsar, o cérebro a pensar de novo, A alma a sentir a carne, e a carne a sentir a corrente."
Tais foram os versos que Charlotte descobriu num dia de outono de 1845, que a surpreenderam, com boa razão, pela sua originalidade e música. Emily não ficou satisfeita com o que, aos seus olhos, tão ciumentos da sua liberdade, deve ter parecido uma interferência deliberada com a sua propriedade. "A minha irmã Emily", continua Charlotte, "não era uma pessoa de caráter demonstrativo, nem alguém nas reentrâncias da mente e sentimentos da qual mesmo aqueles mais próximos e mais queridos a ela poderiam intrudir sem licença; levou horas a reconciliá-la com a descoberta que eu tinha feito, e dias para a persuadir de que tais poemas mereciam publicação. Sabia, contudo, que uma mente como a dela não podia estar sem alguma faísca latente de ambição honrosa, e recusei-me a ser desencorajada nas minhas tentativas de abanar essa faísca para a chama.
"Entretanto, a minha irmã mais nova produziu silenciosamente algumas das suas próprias composições, insinuando que, uma vez que as de Emily me tinham dado prazer, eu poderia gostar de olhar para algumas das suas. Eu não podia deixar de ser uma juíza parcial, mas achei que estes versos, também, tinham uma doce e sincera mágoa própria."
Apenas uma juíza parcial poderia encontrar algo de muito para elogiar nos versos triviais da gentil Anne. Se o livro tivesse um índice de primeiros versos, que crítica mordaz ao conteúdo seria!
"Doces são os teus sons, bardo celestial." "Descansarei-me nesta ramada abrigada." "Oh, estou muito cansada, embora as lágrimas já não fluam."
De tais começos prevemos claramente o bathos sem esperança do fim. Pobre criança, as suas mágoas reais e profundas, expressas em frases tão gastas e mal ajustadas, são tão pouco tocantes quanto a beleza de uma vendedora de loja de Londres sob os adornos prontos a vestir e descartados da sua rouparia de segunda mão.
Charlotte, contudo, conhecendo a mágoa real, a mansidão real que as inspirou, não de forma não natural colocou nos versos triviais a mágoa das circunstâncias da escritora. Na verdade, os seus próprios poemas não são tais que justificariam qualquer grande rigor de crítica. Eles são frequentemente, como poemas, realmente inferiores aos de Anne, a sua maneira de arrastar um conto ou uma moral no final de uma lírica tendo um efeito bastante cómico; contudo, no todo, a sua parte do livro distingue-a claramente como uma raconteuse eloquente e imaginativa, ao mesmo tempo que lhe nega o menor rebento, a menor folha, daquela grinalda de louros sem flores que Emily poderia reivindicar. Mas naquela altura a diferença não era tão claramente distinguível; embora Charlotte sempre sentisse e admitisse a superioridade da sua irmã a este respeito, não era reconhecida como de um tipo que ofuscasse completamente os seus próprios pequenos contos em verso, e ofuscasse completamente as efusões piedosas de Anne.
Um pacote de manuscritos foi selecionado, um pequeno pacote escrito em três mãos diferentes e assinado por três nomes. As irmãs não desejavam revelar a sua identidade; decidiram por um pseudónimo, e escolheram o comum apelido do norte do país de Bell. Não desejavam ser conhecidas como mulheres: "tínhamos uma vaga impressão de que as autoras estão sujeitas a ser vistas com preconceitos;" contudo, a sua honra fastidiosa impedia-as de usar uma máscara para a qual não tinham garantia; para satisfazer ambos os escrúpulos, assumiram nomes que poderiam igualmente pertencer a um homem ou a uma mulher. Na parte de Yorkshire onde viviam, as crianças são frequentemente batizadas com nomes de família; sobre as lojas viam "Sunderland Akroyd", variado por "Pighills Sunderland", com quase nenhum John ou James para lhes fazer companhia. Portanto, não havia nada de estranho para elas na moda tão engenhosamente virada para os seus próprios usos. Ellis velou Emily; Currer, Charlotte; Acton, Anne. O primeiro e o último são nomes bastante comuns — uma Srta. Currer que era uma das subscritoras da Ponte de Cowan pode ter sugerido o seu pseudónimo a Charlotte. Finalmente, cada detalhe foi discutido, decidido, e o pacote enviado para Londres para tentar a sua sorte no mundo: —
"Trazer a público o nosso pequeno livro foi um trabalho árduo. Como era de esperar, nem nós nem os nossos poemas eram de todo desejados; mas para isto tínhamos sido preparadas desde o início; embora inexperientes nós próprias, tínhamos lido a experiência dos outros. O grande enigma residia na dificuldade de obter respostas de qualquer tipo dos editores a quem nos candidatávamos. Sendo muito importunada por este obstáculo, aventurei-me a recorrer aos Srs. Chambers de Edimburgo por uma palavra de conselho: podem ter esquecido a circunstância, mas eu não; pois deles recebi uma resposta breve e comercial, mas civil e sensata, na qual agimos, e finalmente fizemos um caminho."[21]
Em última análise, as três irmãs encontraram um editor que aceitaria o trabalho mediante comissão; uma resposta favorável veio dos Srs. Aylott & Jones, de Paternoster Row, que estimaram a despesa do livro em trinta guinéus. Era muito para as três irmãs dispensarem dos seus rendimentos, mas estavam ansiosas por imprimir, ansiosas por fazer sacrifícios, como se de alguma forma vaga vissem já o objetivo glorioso. Mas, por agora, havia negócios a fazer. Compraram um dos numerosos pequenos manuais que estão sempre à venda para mostrar à pobre e vaidosa traça da autoria amadora como menos queimar as suas asas — pequenos livros mais ansiosamente comprados e lidos do que qualquer um daqueles que trazem ao mundo. Tal guia de editor, destinado a ambiciosos rapazes de escola, as Brontë compraram e estudaram tão ansiosamente quanto eles. No final de fevereiro tudo estava resolvido, o tipo decidido, o dinheiro enviado, os impressores em trabalho. A cópia de Emily Brontë está datada de 7 de maio de 1846.
Que ânsia ao desatar do pacote em que essas primeiras cópias chegaram! Que desapontamento, mesclado com êxtase, ao ler o seu próprio verso, inalterado, ainda que em letra de forma! Uma experiência não tão comum então como agora; ser poetisa naqueles dias tinha uma certa distinção, e as três irmãs devem ter esperado ansiosamente por uma saudação. Os poemas tinham sido enviados para muitas revistas: Colburne's, Bentley's, Hood's, Jerrold's, Blackwood's, o seu ídolo inicial; para a Edinburgh Review, Tait's Edinburgh Magazine, a Dublin University Magazine; para a Athenaeum, a Literary Gazette, o Critic, e para o _Daily News, o Times, e para o jornal Britannia_. Certamente de algum lado ouviriam tal palavra autêntica de aviso ou boas-vindas que confirmasse de uma vez as suas esperanças ou os seus desesperos. Tinham-se habituado à espera; mas tiveram de esperar muito. Finalmente, a 4 de julho, a Athenaeum reviu o seu livro num pequeno parágrafo, e é notável que, embora em tais críticas dos poemas como apareceram após a publicação de 'Jane Eyre', seja sempre o "fino sentido da natureza" de Currer Bell, o "intelecto amadurecido e mão magistral" de Currer Bell, que ganha todo o louvor; ainda assim, nesta nota inicial, o crítico ainda não cego percebeu a quem a palma é devida. Ellis Bell ele coloca primeiro dos três supostos irmãos, nomeando-o "um espírito fino e peculiar com um evidente poder de asa que pode atingir alturas não aqui tentadas." Ao lado dele, o crítico classifica Currer, finalmente Anne. Quase nenhuma outra nota viram.
O pequeno livro foi evidentemente um fracasso; tinha caído nado-morto da imprensa. Estariam todas as suas esperanças destinadas a morrer assim que nascessem? Pelo menos resolveram não ser tão cedo frustradas, e já, no meio do seu desapontamento, começaram a traçar os enredos dos romances que iriam escrever. Como o nosso exército, ganharam as suas batalhas por nunca admitirem que foram vencidas.
Guardaram tudo para si, este desapontamento, estas resoluções. Quando o carteiro curioso perguntou ao Sr. Brontë se ele sabia quem era aquele Sr. Currer Bell para quem tantas cartas vinham sempre, o velho cavalheiro respondeu com um sentido de autoridade, "Meu bom homem, não existe tal pessoa na paróquia;" e quando, em ocasiões raras, Branwell entrava na sala onde elas escreviam, nenhuma palavra era dita do trabalho que estava em curso. Nem mesmo para a irmã Ellen, tão próxima de todos os seus corações, foi feita qualquer confissão da maneira como passavam o seu tempo.
"Não fizemos nada (que valha a pena mencionar) desde que você esteve aqui", diz a conscienciosa Anne. Contudo, a amiga tirou as suas conclusões. Por volta dessa época, ela veio hospedar-se em Haworth e, por vezes (um pouco divertida com a reticência delas), provocava-as com as suas suspeitas, para espanto e alarme de Charlotte. Certa vez, por essa altura, quando passeavam juntas pela charneca, uma mudança súbita e uma luz surgiram no céu.
"Olhem", disse Charlotte; e as quatro raparigas olharam para cima e viram três sóis a brilhar nitidamente sobre as suas cabeças. Ficaram por um momento em silêncio a contemplar o belo parélio; Charlotte, a sua amiga e Anne agruparam-se, Emily um pouco mais acima, de pé num outeiro coberto de urzes. "Essas são vocês!" disse finalmente Ellen. "Vocês são os três sóis." "Silêncio!" exclamou Charlotte, indignada com o disparate demasiado perspicaz da sua amiga; mas, enquanto Ellen, com as suas suspeitas confirmadas pela veemência de Charlotte, baixava novamente os olhos para a terra, olhou por um momento para Emily. Ela continuava de pé no seu outeiro, calma, satisfeita; e, à volta dos seus lábios, pairava um sorriso muito suave e feliz. Ela não estava zangada, a independente Emily. Tinha gostado do pequeno comentário.
NOTAS DE RODAPÉ:
[Nota de rodapé 21: 'Memoir.' C. B.]
CAPÍTULO XIII.
PERTURBAÇÕES.
Enquanto Emily Brontë se esforçava por criar um mundo de fantasia e romance natural ao seu espírito apaixonado, a existência real e quotidiana na qual tinha de trabalhar e suportar tornava-se dia após dia mais ansiosa e perturbada. Uma vida quase insuportável, ao recordá-la, sufocada pela tragédia vulgar das mágoas de Branwell, pelos cuidados sórdidos que as suas dívidas acarretavam, pela ansiedade desgastante que vigiava a cegueira iminente do velho Sr. Brontë. Estes meses de 1846, durante os quais, recordemos, Emily escrevia 'Wuthering Heights', devem ter sido os mais pesados e lúgubres dos seus dias; foi durante o seu curso cansativo que ela finalmente percebeu quão irremediavelmente sem esperança, quão insensível ao bem, deveria ser o resto da vida do seu irmão.
Pois, enquanto o futuro lhe foi deixado, Branwell nunca atingiu o limite da degradação. Bebia para afogar a mágoa, para entorpecer a memória e o voo do tempo; foi longe, mas não longe demais para retroceder quando raiasse o dia que o chamaria de volta à prosperidade e à felicidade. Ele ainda era, embora pervertido e aviltado, capaz de se reformar e suscetível a influências sagradas. Não tinha finalmente abandonado a bondade e a honra; estavam apenas momentaneamente postas de lado, como anéis retirados para um trabalho pesado; em breve, voltaria a colocá-los.
Subitamente, o futuro foi-lhe retirado. Certa manhã, cerca de seis meses após o seu despedimento, chegou uma carta para Branwell a anunciar a morte do seu antigo patrão. Tudo o que ele sempre esperara jazia aos seus pés — o homem bom e injustiçado estava morto. A sua esposa, a sua riqueza, deveriam agora tornar Branwell feliz. Uma nova vida, ganha pelo pecado e pelo ódio, deveria começar; uma nova vida boa, honrosa e feliz. Estava na natureza de Branwell alegrar-se quando a paz e a honra lhe chegavam, embora não fizesse esforço algum para as alcançar, e nesta manhã ele estava muito feliz.
"Ele dançou quase pelo cemitério como se estivesse fora de si; ele gostava tanto daquela mulher", diz o meu informador.
Na manhã seguinte, levantou-se, vestiu-se com cuidado e preparou-se para uma viagem, mas, antes mesmo de ter partido de Haworth, dois homens chegaram a cavalo à aldeia, à pressa. Mandaram chamar Branwell e, quando ele chegou, num grande estado de agitação, um dos cavaleiros desmontou e entrou com ele no "Black Bull". Dirigiram-se à sala castanha da estalagem, a alegre sala apainelada onde Branwell tantas vezes dominara os seus companheiros de farra a partir da sua grande cadeira de três cantos. Passado algum tempo, o mensageiro levantou-se e saiu; e aqueles que estavam na estalagem julgaram ouvir um ruído estranho na sala — um balido como o de um vitelo. No entanto, sendo pessoas ocupadas, não entraram para ver se algo tinha acontecido e, em meio à multidão das suas tarefas, o som desvaneceu-se dos seus ouvidos e da sua memória. Horas depois, a rapariga jovem que ajudava nos trabalhos domésticos da estalagem, a Anne que ainda se lembra das saudações fluentes de Branwell, teve ocasião de entrar na sala. Entrou e encontrou-o no chão, com um aspeto mudado e terrível. Tinha caído num tipo de ataque de estupor. Depois daquele dia, ele foi um ser alterado.
A mensagem que ouvira mudara o curso da sua vida. Não era a convocatória que esperava, mas uma súplica da mulher que amava para não se aproximar dela, para não a tentar para a ruína; se ela o visse uma vez, o cuidado dos seus filhos, a confiança das suas fortunas, tudo estaria perdido. Ela implorou-lhe que se mantivesse afastada; ansiosa, talvez, nesta solidão repentina da morte, por recuperar o passado, ou, por alguma superstição terna, tornada menos disposta a trair os mortos do que os vivos; ou, talvez, apenas desejosa de reter a todo o custo a categoria, o estatuto, as honras a que estava habituada. Seja como for, Branwell viu-se esquecido.
"Oh, terrível coração de mulher, Que num dia esquece o que o homem recorda, Esquecendo-o com isso."
Depois daquele dia, ele foi diferente. Desesperou e bebeu até à morte, bebendo até à sepultura e ao esquecimento, deuses do seu Sábado, e pedindo emprestado um prazer transitório a juros temíveis. Mas, para um homem assim, a tentação suprema é o gozo: tem de ser tido, ainda que a vida e o céu se percam. E enquanto ele se embriagava, "e por todo o seu comportamento dava indicações de um gozo intenso",[22] o seu velho pai tornou-se completamente cego, Anne dia após dia mais delicada e curta de fôlego, a ambiciosa Charlotte definhava como uma águia numa gaiola, e Emily, ao escrever 'Wuthering Heights', considerava afetados aqueles que achavam a história mais terrível do que a vida.
Foi ela quem mais viu o seu irmão abandonado, pois Anne apenas podia estremecer perante o seu pecado, e Charlotte estava demasiado indignada para ter piedade. Mas Emily, a mulher austera e caridosa, que não se poupava a qualquer sofrimento, que adorava transportar ternamente as aves de ninho de asas partidas nas suas mãos trabalhadoras, Emily não se sentia revoltada pela sua fraqueza. Hei de desprezar o veado pela sua rapidez tímida em fugir, ou a lebre porque não consegue morrer bravamente, ou zombar da agonia de morte do lobo porque a besta é descarnada e imunda de se ver? pergunta ela a si mesma num dos poucos poemas pessoais que nos deixou. Não! Um não enfático; pois Emily Brontë tinha um lugar no seu coração para todos os filhos selvagens da natureza, e desprezá-los pelos seus instintos naturais era-lhe impossível. E assim aconteceu que ela deixou de se indignar com as loucuras de Branwell; decidiu aceitar com uma mágoa sem raiva os seus vícios naturais. Tudo o que restava do seu desdém pronto era uma paciência extrema que não esperava reforma, não pedia melhoria; a paciência que tinha para a lebre e o lobo, seres desprezíveis e cheios de maldade, mas não por escolha própria; a paciência do desespero aquiescente e sem esperança.
A piedade de Branwell era toda para si mesmo. Ele não poupou a casa piedosa forçada à contaminação dos seus maus hábitos. "Nada acontece em Haworth", diz Charlotte; "nada, pelo menos, de um tipo agradável. Um pequeno incidente ocorreu há cerca de uma semana para nos picar para a vida; mas, se lhe der tanto prazer ouvir como a nós testemunhar, dificilmente me agradecerá por mencionar o assunto. Foi apenas a chegada de um oficial de justiça numa visita a Branwell, convidando-o a pagar as suas dívidas ou a fazer uma viagem até York. Naturalmente, as suas dívidas tiveram de ser pagas. Não é agradável perder dinheiro, vez após vez, desta forma; mas qual é a utilidade de insistir nesses assuntos. Não o tornará melhor."[23]
As reprovações apenas endureciam o seu coração e faziam-no sentir-se mais do que nunca abusado pelas circunstâncias e pelo destino. "Por vezes",[24] diz o Sr. Phillips, "ele queixava-se da forma como era tratado em casa e, como exemplo, relatou o seguinte:
"'Uma das raparigas da escola dominical, por quem ele e toda a sua casa tinham muito interesse, ficou muito doente, e receavam que ela não sobrevivesse.
"'Fui ver a pobre criaturinha', disse ele, 'sentei-me com ela meia hora e li-lhe um salmo e um hino a seu pedido. Senti muita vontade de rezar com ela também', acrescentou, com a voz a tremer de emoção, 'mas, como vê, eu não era suficientemente bom. Como me atreveria a rezar por outra pessoa, eu que quase me esquecera de como rezar por mim mesmo? Saí com o coração pesado, pois tinha a certeza de que ela morreria, e fui direto para casa, onde caí em melancólicas reflexões. Queria que alguém me animasse. Muitas vezes quero; mas nenhuma palavra gentil chega aos meus ouvidos, muito menos ao meu coração. Charlotte observou a minha depressão e perguntou o que me afligia. Então contei-lhe. Ela olhou para mim com um olhar que nunca esquecerei, se viver até aos cem anos — o que nunca viverei. Não era nada parecido com ela. Feriu-me, como se alguém me tivesse desferido um golpe na boca. Envolvia tantas coisas. Era um olhar dúbio. Percorreu-me, questionando e examinando, como se eu fosse uma besta selvagem. Dizia: 'Enganaram-me os ouvidos ou ouvi algo?' E depois veio a expressão dolorosa e desconcertada que era pior do que tudo. Dizia: 'Pergunto-me se isso é verdade?' Mas, ao sair da sala, pareceu acusar-se de me ter tratado mal, sorriu-me gentilmente e disse: 'Ela é a minha pequena aluna e irei vê-la.' Não respondi uma palavra. Estava demasiado destroçado. Quando ela se foi, vim aqui para o 'Black Bull' e passei lá a noite em puro desgosto e desespero. Porque não podiam dar-me algum crédito quando eu estava a tentar ser bom?'"
Desta forma, o verão de 1846 arrastava-se, bastante penosamente, com economias acrescidas no lar já frugal, para que as dívidas de Branwell pudessem ser honradamente pagas, com medos crescentes pelo pai, sobre quem a dispepsia e a cegueira lançavam mãos pesadas. Já não conseguia ler; ele, o grande caminhante que adorava passear sozinho, mal conseguia tatear o caminho; tudo o que lhe restava de visão era a capacidade de reconhecer figuras bem conhecidas que estivessem sob uma luz forte. No entanto, continuou a pregar; de pé, cinzento e sem visão no púlpito, proferindo as palavras (forçosamente não estudadas) que lhe vinham aos lábios. Ele próprio, na sua velhice pesarosa e resistência austera, um sermão nobilíssimo e compreensível.
O seu espírito estava muito deprimido; pois agora já não podia esquecer-se nos seus estudos solitários, já não podia caminhar sozinho pelas charnecas livres quando o problema invadia a casa estreita lá em baixo. Vivia agora, por necessidade, em relação íntima com as suas filhas; dependia delas. E agora conheceu a natureza heroica das suas filhas e viu o trabalho penoso e mesquinho das suas vidas, e quão dignamente o transformaram numa graça ao suportá-lo. E agora viu claramente o temperamento vaidoso, dependente e apaixonado do seu filho, e soube como, pela falta de treino, a planta tinha sido arruinada e arrastada na lama, a qual poderia ter florescido belamente e dado bons frutos se tivesse sido estacada e apoiada; o pobre objeto de espaldeira que não conseguia suster-se sozinho. A Némesis visitara a sua casa. Sentiu as consequências do seu egoísmo, da sua arrogância, do seu isolamento frio, e amargamente, amargamente lamentou-se.
A catarata crescia mês a mês, um véu espesso que apagava o mundo; e mês a mês o velho cego sentava-se pensativo e cansado durante todo o dia sobre a ruína do seu querido filho, pois sempre amara Branwell mais do que a todos, e deitava-se à noite à escuta dos seus passos; enquanto, lá em baixo, sozinha, a sua filha vigiava tão cansadamente pelo regresso do pródigo.
As três raparigas observavam e desejavam ajudar. Tudo o que podiam fazer, faziam, sendo Charlotte a constante ajudante e companheira do seu pai; mas tudo o que podiam fazer era pouco. Não se queriam conformar em vê-lo afundar-se na cegueira. Ocuparam-se a recolher as informações que podiam obter acerca de operações às cataratas e os nomes de oculistas. Mas, por enquanto, nada havia a fazer senão esperar e suportar; pois até elas, com o seu conhecimento limitado, podiam dizer que os olhos do seu pai ainda não estavam prontos para a faca do cirurgião.
Entretanto, trabalhavam em segredo nos seus romances. Assim que os poemas foram enviados, e mesmo quando se tornou evidente que esse empreendimento também falhara, as irmãs decidiram tentar ganhar o sustento escrevendo. Já não podiam deixar a sua casa, sendo o pai indefeso e Branwell pior do que indefeso; contudo, com despesas sempre crescentes e sem ganhos, era difícil conseguir a mera sobrevivência. O futuro, também, era incerto; se o caso do pai se revelasse desesperado, se ele ficasse completamente cego, doente, incapaz de trabalhar, seriam, de facto, desabrigadas. Com tal presságio sombrio nos seus corações, com tal necessidade severa e impelente a ordenar-lhes que se esforçassem e se esforçassem sempre mais, como um nadador contrariado se esforça pela terra, estas três irmãs começaram o seu trabalho. Duas delas, mais tarde, seriam conhecidas em todo o mundo, seriam influências para todos os tempos vindouros e, uma nova glória no mundo não conhecida antes dos seus dias, formariam "com a Sra. Browning, a trindade perfeita da fama feminina inglesa."[25] Mas com pouco pensamento disto, pesada e muito cansadamente, iniciaram o seu empreendimento.
Todas as noites, quando a costura era arrumada, a escrita começava; as três irmãs, sentadas à volta da mesa, ou mais frequentemente marchando à volta da sala como nos seus dias de escola, mantinham conselho solene sobre o progresso do seu trabalho. A divisão dos capítulos, a nomeação das personagens, o progresso dos eventos, era então decidido, para que cada uma desse uma mão ao trabalho da outra. Depois, feitas tais deliberações, o papel era retirado e as notas casuais do dia corrigidas e escritas a limpo; e, durante uma hora ou mais, não havia som senão o arranhar das penas no papel e o lamento rajado do vento lá fora.
Tal trabalho metódico faz um progresso rápido. Em poucos meses, cada irmã tinha um romance completado. Charlotte, um estudo grave e calado da vida e carácter belgas, 'The Professor'; Anne, um relato meticuloso das provações de uma governanta, que intitulou 'Agnes Grey'. A história de Emily era muito diferente e menos perceptivelmente entrelaçada com a sua própria experiência. Todos conhecemos pelo menos o nome de 'Wuthering Heights'.
Os romances foram enviados e, a princípio, pareceram ainda menos suscetíveis de sucesso do que a escola tinha sido, ou o livro de versos. Editor após editor rejeitou-os; então, pensando que talvez não fosse astuto enviar os três romances de uma vez, uma vez que o insucesso de um poderia prejudicar todos, as irmãs enviaram-nos separadamente para tentar a sua sorte. Mas sempre com o mesmo resultado — mês após mês, chegava a rejeição.
Em casa, os assuntos continuavam não menos desencorajadores. Branwell, frequentemente acamado com ataques violentos de doença, o Sr. Brontë tornando-se mais completamente cego. Finalmente, no fim de julho, Emily e Charlotte partiram para Manchester para consultar um oculista. Lá ouviram falar do Sr. Wilson como o melhor, e a ele foram; mas apenas para descobrir que nenhuma opinião decisiva podia ser dada até que os olhos do seu pai tivessem sido examinados. No entanto, não desanimadas, regressaram a Haworth; pois, pelo menos, tinham descoberto um médico e tinham a certeza de que, mesmo na idade avançada do seu pai, uma operação poderia ser bem-sucedida. Portanto, no fim de agosto, Charlotte, que era a principal companheira do seu pai e a mais fácil de dispensar de casa, levou o velho Sr. Brontë a Manchester. O Sr. Wilson declarou os seus olhos prontos para a operação, e o velho e a sua filha foram para um alojamento durante um mês. "Pergunto-me como é que a Emily e a Anne se vão arranjar em casa com o Branwell", diz Charlotte, habituada a ser a guia e líder daquele pequeno agregado familiar.
Dificilmente, sem dúvida; pois Anne estava pouco apta agora para lutar contra o destino. Nunca se tinha recuperado completamente da miséria prolongada da sua estadia com Branwell naquela casa fatal que arruinaria o seu futuro e seria arruinada por eles. Ela tornava-se cada vez mais fraca, aquela "pequenina gentil", tão terna, tão pouco adaptada ao seu caminho de vida rude e sombrio. Emily observava com o coração destroçado; o problema envolvia-a por todos os lados; o seu pai cego em Manchester; o seu irmão a beber até à morte em casa; a sua irmã a falhar, a empalidecer dia após dia; e, de vez em quando, chegava uma carta a anunciar que tal e tal firma de editores não tinha uso para 'Agnes Grey' e 'Wuthering Heights'.
Charlotte em Manchester não se saía muito melhor. 'The Professor' tinha-lhe sido devolvido no próprio dia da operação do seu pai, quando (suportando este golpe não falado da melhor forma que podia) teve de ficar na sala enquanto a catarata era removida dos seus olhos. O exercício torna a coragem forte; naquela noite, quando o seu pai, no seu quarto escurecido, já não podia falar nem ser falado, nessa mesma noite ela começou 'Jane Eyre'.
Isto foi ser mais corajosa do que a corajosa Emily, que nada nos deixou, a não ser alguns versos, escritos mais tarde do que 'Wuthering Heights'. Mas em Haworth havia trabalho e de sobra para cada instante dos dias ocupados, e Charlotte, em Manchester, achava o seu lazer não habituado e o seu confinamento desocupado muito lúgubres.
Perto do fim de setembro, o Sr. Brontë foi declarado num bom caminho para a recuperação, e ele e Charlotte partiram para Haworth. Foi um feliz regresso a casa, pois as coisas tinham prosperado melhor do que Charlotte ousara esperar durante as últimas semanas da sua ausência. Todos os dias o velho tornava-se mais forte, e pouco a pouco a sua visão voltava. Podia ver o glorioso púrpura das charnecas, as charnecas de Emily, não menos amadas na sua feminilidade pesarosa do que no seu tempo de juventude feliz e desenfreada. Podia ver os rostos das suas filhas e a mudança miserável nas feições de Branwell. Começou a ser capaz de ler um pouco, muito pouco de cada vez, e em novembro estava suficientemente recuperado para assumir todo o dever dos três serviços de domingo por si próprio.
Não muito tempo depois desta época, três membros daquele agregado familiar calmo foram ainda mais reconfortados ao saber que 'Agnes Grey' e 'Wuthering Heights' tinham encontrado aceitação nas mãos de um editor. Aceitação; mas sob termos empobrecedores. Ainda assim, por muito, estavam gratos. Escrever e enterrar sem ler as coisas que se escreveram é tocar música num piano mudo. Quem toca, desejaria ser ouvido.
NOTAS DE RODAPÉ:
[Nota de rodapé 22: George Searle Phillips.]
[Nota de rodapé 23: Sra. Gaskell.]
[Nota de rodapé 24: 'Branwell Brontë.' G. S. Phillips.]
[Nota de rodapé 25: A. C. Swinburne. 'Note on Charlotte Brontë.']
CAPÍTULO XIV.
'WUTHERING HEIGHTS:' A SUA ORIGEM.
Uma velha casa paroquial cinzenta situada entre sepulturas, remota do mundo no seu topo de colina batido pelo vento, à volta os cumes vizinhos selvagens com charnecas; um lugar solitário entre freixos quase mortos e espinheiros atrofiados, o mundo cortado de um lado pelas filas silenciosas dos mortos cerrados, e distanciado do outro por extensões de urze de quilómetros de comprimento: tal, sabemos, era o lar de Emily Brontë.
Um pai velho, cego, desiludido, outrora propenso a uma violência extraordinária de temperamento, mas agora tornado calado com a idade, mostrando a sua deceção com a vida através de um cinismo melancólico que era bastante sincero; duas irmãs, ambas amadas, uma, inflamada de génio e rápida no sentimento, escondendo o seu entusiasmo sob o comportamento frio da ex-governante, mal-sucedida e não reconhecida; a outra mais gentil, mais querida, mais justa, morrendo lentamente, centímetro a centímetro, da vizinhança corrosiva do vício. Um irmão, pouco menos querido, de propósito bebendo até à morte por uma paixão furiosa e contrariada por uma amante que ele não podia desposar: estes eram os membros do agregado familiar de Emily Brontë.
Ela própria conhecemo-la: inexperiente, corajosa, apaixonada e cheia de piedade. Seria de estranhar que ela resumisse a vida numa linha amarga? —
"O bem conquistado e o mal conquistador."
As suas próprias circunstâncias provavam a veracidade do axioma, e de outras vidas ela pouco conhecimento tinha. A quem deveria perguntar? À gentil Ellen que parecia ser de outro mundo, e que ainda assim tinha abundantes problemas próprios? Aos coadjutores que ela desprezava pela sua estreiteza pedante? Às pessoas da aldeia, das quais nada sabia, exceto quando a doença, o mal ou a morte a convocavam às suas casas para prestar ajuda e proteção? A sua vida proporcionara apenas uma visão do mundo, e ela não conseguia compreender que existiam outras que não tinha visto.
"Sou obrigada a confessar", diz Charlotte, "que ela mal tinha mais conhecimento prático dos camponeses entre os quais vivia do que uma freira tem das pessoas do campo que passam pelos portões do seu convento. A disposição da minha irmã não era naturalmente gregária; as circunstâncias favoreceram e fomentaram a sua tendência para o isolamento; exceto para ir à igreja, ou para dar um passeio nas colinas, raramente cruzava o limiar de casa. Embora o seu sentimento pelas pessoas ao seu redor fosse benevolente, nunca procurou o convívio com elas, nem, salvo raríssimas exceções, alguma vez o experimentou; e, contudo, ela conhecia-as, conhecia os seus costumes, a sua linguagem, as histórias das suas famílias; podia ouvir falar delas com interesse e falar sobre elas com detalhes minuciosos, gráficos e precisos; mas com elas raramente trocava uma palavra. Daqui resultou que aquilo que a sua mente reuniu do real acerca delas ficou demasiado exclusivamente confinado àqueles traços trágicos e terríveis dos quais, ao escutar os anais secretos de cada vizinhança rude, a memória é por vezes compelida a receber a marca. A sua imaginação, que era um espírito mais sombrio do que ensolarado, mais poderoso do que brincalhão, encontrou em tais traços materiais a partir dos quais forjou criações como Heathcliff, como Earnshaw, como Catharine. Tendo formado estes seres, ela não sabia o que tinha feito. Se os auditores da sua obra, quando lida em manuscrito, estremeciam sob a influência esmagadora de naturezas tão implacáveis e inexoráveis — de espíritos tão perdidos e caídos; se se queixavam de que o simples ouvir de certas cenas vívidas e temerosas bania o sono à noite e perturbava a paz mental durante o dia, Ellis Bell perguntar-se-ia o que se queria dizer e suspeitaria de afetação por parte do queixoso. Se ela tivesse vivido, a sua mente teria crescido por si mesma como uma árvore forte — mais alta e mais reta, mais ampla — e os seus frutos amadurecidos teriam alcançado uma maturação mais suave e um florescimento mais ensolarado; mas sobre essa mente só o tempo e a experiência poderiam trabalhar, à influência de outros intelectos ela não era suscetível."[26]
No entanto, nenhum ser humano é totalmente livre, nenhum é totalmente independente do meio que o rodeia. E Emily Brontë, menos do que qualquer outro, poderia reivindicar tal imunidade. Podemos, com dificuldade, imaginar que ela fosse uma herdeira próspera, amando e sendo amada, de espírito elevado e até um tanto moleca; mas com a sua fantasia cavalheiresca informada por um esplendor gracioso todo seu, podemos imaginar Emily Brontë como Shirley Keeldar, mas dificilmente como Shirley Keeldar a escrever 'O Monte dos Vendavais'. Emily Brontë, longe das suas charnecas, da sua solidão, da sua pobreza, da sua disciplina, do seu convívio com o génio, a violência e a degradação, teria tomado outra cor, tal como as hortênsias crescem ora vermelhas, ora azuis, segundo a natureza do solo. Não foi a sua falta de conhecimento do mundo que fez com que o romance que escreveu se tornasse 'O Monte dos Vendavais', não foi a sua inexperiência, mas sim a sua experiência, limitada e perversa, de facto, e especializada por um temperamento singularíssimo, mas próxima e muito real. A sua imaginação foi tão inspirada pelas circunstâncias da sua vida quanto a de Anne quando escreveu 'A Inquilina de Wildfell Hall', ou a de Charlotte na sua obra-prima 'Villette'; mas, como em cada caso a imaginação era de uma qualidade diferente, a experiência, atuando sobre ela, produziu um resultado distinto e diferente; um resultado obtido não menos pela contrariedade do que pela harmonia das circunstâncias. Pois o que nos rodeia afeta-nos de duas formas; sutil e permanentemente, tingindo-nos por completo como o vinho tinge a água, ou, por alguma vizinhança violenta de força antipática, enviando-nos numa tangente o mais longe possível da presença antagónica que tão detestavelmente nos cerca. O facto de Charlotte Brontë conhecer principalmente clérigos é em grande parte responsável por 'Shirley', esse elogio satírico à Igreja e apoteose dos professores da escola dominical. Mas Emily, vivendo nesta mesma atmosfera clerical evangelística, sente repulsa, forçada ao outro extremo; e, enquanto abriga as suas verdadeiras opiniões de si mesma sob o termo abrangente de "Igreja Ampla", não encontramos nos seus escritos crença tão forte quanto a crença no uso presente e na glória da vida; amor tão grande quanto o seu amor pela terra — a terra, a mãe e o túmulo; não uma afirmação de imortalidade, mas uma certeza profunda de repouso. Não há nota tão frequentemente tocada em toda a sua obra, e tocada com tal variedade de ênfase, como esta: que o bem pelo bem é desejável, o mal pelo mal é detestável, e que para o justo e o injusto, igualmente, há repouso na sepultura.
Esta silenciosa filha de clérigo, ouvindo sempre falar mal dos Dissidentes, tornou-se, portanto, por pura coragem e justiça revoltada, ela própria uma dissidente. Uma dissidente em mais de um sentido. Nunca houve uma natureza mais sensível às estupidezes e à estreiteza da opinião convencional, uma natureza mais propensa a ser encontrada nas fileiras da oposição; e, com tal natureza, a indignação é a força que mais frequentemente liberta o portão da fala. O impulso de revelar erros e sofrimentos como eles realmente são é avassaladoramente forte; embora a revelação em si seja imperfeita. O que, então, revelaria esta inexperiente filha de um pároco de Yorkshire? A dessemelhança da vida com as imagens autorizadas da vida; a força do mal, apenas conquistável pelo processo de lenta rotação da natureza que não admite a duração eterna do perverso; as lições sombrias e temerosas da hereditariedade; a suficiência do finito para o finito, da vida para a vida, sem outra recompensa senão a que a conduta da vida cumpre para aquele que vive; o parentesco de penetração total das coisas vivas, o ramo de urze, a cotovia que canta, a criança confiante, o tirano implacável; e, não menos importante, não menos para ela já na sua sombra, a paz certa e universal da morte.
Um estranho evangelho para tal pregadora; mas uma fé para sempre enfatizada e mais profundamente enraizada na mente de Emily pela sua incapacidade de se conformar com o ensino rígido e pragmático, com o preconceito estreito, dos calvinistas de Haworth. No entanto, este próprio calvinismo influenciou as suas ideias, esta doutrina que ela tão apaixonadamente rejeitou, chamando-se a si mesma discípula do tolerante e pensativo Frederick Maurice, e escrevendo, desafiando as suas chamas e gritos, as mais reconfortantes consolações para a mortalidade de que me recordo na nossa língua.
Contudo, tão dual é a natureza da força do ambiente, esta fé antagónica, repelindo-a para o extremo rebote da crença, não a enviou para fora dela antes que ela tivesse assimilado alguns dos seus princípios mais severos. Desta doutrina de recompensa e punição ela aprendeu que para cada tendência maligna não controlada existe uma expiação terrível; embora ela não a tenha colocado, na verdade, nas chamas do inferno, mas nos instintos pervertidos dos nossos próprios filhos. Teorias terríveis de pecado incurável condenado e perda predestinada advertiram-na de que um tronco maligno só gerará contaminação: os filhos dos loucos devem estar sujeitos à loucura; os filhos dos depravados, inclinados à depravação; a semente da planta venenosa brota para destruir e arruinar, apenas para ser superada pelo desenraizamento e esterilização, ou pela enxertia criteriosa, pelo treino paciente de muitos anos.
Assim, o preconceituoso e evangélico Haworth preparou a mulher que rejeitou o seu dogma hebraico para descobrir por si mesma as verdades subjacentes. Ela aceitou-as no seu pleno significado. Foi-lhe apontado como uma culpa o facto de não mostrar em parte alguma qualquer abominação adequada pelo diabólico e vingativo Heathcliff. Ela, que o revela, lembra-se da ascendência duvidosa daquele bebé abandonado no porto, "lascar ou cigano"; ela lembra-se da infância ismaelita, demasiado amada e odiada, do pequeno intruso cuja mão estava contra a mão de todos os homens. Lembrando-se disto, ela submete-se tão pacientemente à sua alma morena e instintos selvagens como à sua pele morena e ao "disparate que ninguém podia compreender". De cardos não se colhem uvas.
Não adianta, parece ela dizer, esperar que os filhos de pais malignos cresçam, por sua própria vontade e sem assistência, retos e nobres. A própria qualidade da sua vontade é tão herdada quanto os seus olhos e cabelo. Heathcliff não é um demónio ou um duende; é a criança condenada e sem treino de umas férias de marinheiro meio selvagem, violento e traiçoeiro. E até que ponto devemos considerar o pecador responsável por uma natureza que é, ela própria, a punição do crime de algum antepassado? Mesmo para esses deve haver repouso. Nenhuma possibilidade na mente justa e reverente de Emily Brontë de que o Deus, em quem ela acreditava ser a própria fonte e alma da vida, pudesse condenar ao fogo eterno as vítimas de tendências mórbidas não escolhidas por elas mesmas. Nenhum purgatório e nenhuma chama eterna são necessários para purificar os pecados de Heathcliff; a sua sepultura na encosta crescerá tão verde quanto qualquer outro pedaço de relva, as ovelhas da charneca acharão a relva tão doce, a urze e as campânulas crescerão da mesma cor nela como sobre a sepultura de um bebé. Pois a vida, o pecado e a punição terminam com a morte para o homem que morre; ele transfere então o seu fardo para outros ombros, e nenhuma visão perturba o seu repouso.
"Perguntei-me como alguém poderia imaginar sonos inquietos para aqueles que dormem nessa terra quieta." Assim termina a última página de 'O Monte dos Vendavais'.
Tanto quanto às teorias da vida e do mal que o choque das circunstâncias e do caráter extraiu de Emily Brontë. Aconteceu, como sabemos, que ela teve ocasião de testar estas teorias; e não fosse por isso, nunca teria escrito 'O Monte dos Vendavais'. Não que a história, a conceção, tivesse falhado. Afinal, não há nada mais terrível na história violenta daquela quinta nas terras altas do que muitas mansões em Midlands, densas de olmos, que muitas casas de campo selvagens do País de Gales ou da Cornualha poderiam revelar. Histórias socialmente mais dolorosas do que a mera violência bruta dos Earnshaw; de loucura e traição, histórias de raparigas atraídas involuntariamente para um casamento lunático para que a propriedade pudesse ter um herdeiro; lendas de violência terrível, de crianças rejeitadas, esposas desonradas, mal horrível e persistente. Quem, nos lugares secretos da sua memória, não guarda tais mexericos assombrosos? E Emily, familiarizada com todas as histórias selvagens de Haworth de há um século atrás, e amamentada com horrores irlandeses medonhos, contos de 1798, contos de opressão e miséria, Emily, com todo este saber sinistro na ponta dos dedos, teria menos dificuldade em combinar e trabalhar os motivos separados num todo consistente, que ela não conhecia as pessoas reais cujas histórias ela sabia de cor. Nenhuma memória de maneirismos individuais, domínio ou preferência por um tipo individual, capturou e desarranjou as suas teorias, sendo a sua conceção mais completa devido à sua ignorância. Isto a sua forte razão e o seu poder criativo permitiram-lhe efetuar. Mas isto não é tudo.
Este é o enredo; mas fazer uma personagem falar, agir, delirar, amar, viver, morrer, ao longo de toda uma vida de eventos, mesmo que os leitores se sintam convencidos de que ele deve ter agido, deve ter vivido e morrido, isto exige pelo menos tanta experiência de natureza um tanto semelhante que possa servir de base para a imaginação, uma reserva de certeza e tranquilidade à qual recorrer em tempos de perplexidade e dúvida. Branwell, que serviu a Anne de forma bastante lamentável para o retrato de Henry Huntingdon, serviu a sua irmã Emily, não propriamente como um modelo, uma coisa a copiar, mas como um mapa de proporções pelo qual medir, e ao qual recorrer, para a correta investidura, a ideia inspirada. O Sr. Wemyss Reid (cujo grande conhecimento da história das Brontë e ainda maior bondade em admitir-me às suas vantagens tanto quanto possível, não posso agradecer suficientemente) — este crítico capaz percebe uma semelhança *bona fide* entre o caráter de Heathcliff e o caráter de Branwell Brontë tal como ele apareceu à sua irmã Emily. Tanto, tendo em mente o verso sobre a lebre, admito que não consigo ver. Branwell parece-me mais próximo do filho miserável de Heathcliff do que de Heathcliff. Mas que, ao descrever o amor ultrajante e frustrado de Heathcliff por Catharine, Emily recorreu à sua experiência do sofrimento do seu irmão, este extrato de uma conferência inédita do Sr. Reid revelará suficientemente[27]:--
"Foi no convívio forçado com este homem perdido e degradado que Emily recebeu, tenho a certeza, muitas das impressões que foram posteriormente transmitidas para as páginas do seu livro. Não foi dito vezes sem conta por críticos de todos os tipos que 'O Monte dos Vendavais' parece o sonho de um comedor de ópio? E aqui descobrimos que durante todo o tempo da escrita do livro um comedor de ópio habitual e assumido estava ao lado de Emily. Disse que talvez a parte mais impressionante de 'O Monte dos Vendavais' fosse a que trata das relações de Heathcliff e Catharine depois de ela se ter tornado esposa de outro. Páginas inteiras da história estão preenchidas com os delírios e fúrias do vilão contra o homem cuja vida se interpõe entre ele e a mulher que ele ama. Delírios semelhantes podem ser encontrados em todas as cartas de Branwell Brontë escritas neste período da sua carreira; e podemos ter a certeza de que delírios semelhantes estavam sempre nos seus lábios enquanto, temperamental e mais do que meio louco, ele vagueava pelos quartos da casa paroquial em Haworth. Aliás, encontrei algumas coincidências verbais impressionantes entre a própria linguagem de Branwell e passagens em 'O Monte dos Vendavais'. Numa das suas próprias cartas há estas palavras em referência ao objeto da sua paixão: 'A minha própria vida sem ela será o inferno. O que pode o chamado amor do seu marido miserável e doentio ser para ela comparado com o meu?' Agora, voltem a 'O Monte dos Vendavais' e lerão estas palavras: 'Duas palavras compreenderiam o meu futuro — morte e inferno; a existência depois de a perder seria o inferno. Contudo, fui um tolo ao imaginar por um momento que ela valorizava o afeto de Edgar Linton mais do que o meu. Se ele amasse com todos os poderes do seu ser insignificante, ele não poderia amar em oitenta anos tanto quanto eu poderia num dia.'"
Tanta parte em 'O Monte dos Vendavais' Branwell certamente teve. Ele foi uma página do livro na qual a sua irmã estudou; serviu, como para o temperamento de um artista todas as coisas inconscientemente servem, para o bloco bruto de granito a partir do qual a obra é talhada, e, mesmo enquanto suportava com dificuldade os seus vícios, Emily aprendeu indubitavelmente com eles aqueles segredos mais sombrios da humanidade necessários para o seu encantamento trágico. Serviram-na, aqueles temidos e apaixonados surtos do seu irmão, tal como as charnecas que ela amava, a fantasia que ela cortejava, a serviram. Estranha varinha de condão do génio, que conjura ouro da terra mais lodosa da vida comum; faculdade estranha e terrível que armazena os seus proventos e, de forma quase mecânica, tira o seu próprio lucro das nossas experiências mais ligeiras ou mais miseráveis, notando o gesto com que a mãe ouve falar da ruína do seu filho, captando a sombra fraca e variável que a cortina branca agitada pelo vento envia sobre o rosto morto pelo qual vigiamos, tirando a sua vida de mil mortes, humilhações, perdas, com uma mão nas nossas alegrias mais agudas e tristezas mais amargas; esta faculdade era de Emily Brontë, e tirou o seu lucro da vergonha do seu irmão.
Aqui terminou a participação de Branwell na produção de 'O Monte dos Vendavais'. Mas não é bom ignorar a sua pretensão à sua autoria total; pois no silêncio desprezível daqueles que sabem a sua falsidade, tais calúnias vivem e prosperam como insetos impuros debaixo de pedras caídas. A vã jactância de um sonhador sem princípios, meio louco com ópio, meio bêbado com gim, significando nada mais do que o desejo de ser admirado a qualquer custo, recebeu demasiado destaque por parte daqueles amantes do sensacionalismo que preferem qualquer mentira surpreendente a uma verdade antiga. As suas fileiras foram aumentadas pelo número daqueles que, ignorantes das verdadeiras circunstâncias da vida de Emily, acharam impossível que uma rapariga inexperiente pudesse retratar tanta violência e tal paixão mórbida. Pelo contrário, dadas estas circunstâncias, ninguém senão uma rapariga pessoalmente inexperiente poderia ter tratado o assunto com a pureza absoluta e assexuada que encontramos em 'O Monte dos Vendavais'. Quão infetado, banal e ignominioso teria Branwell, confiando nas suas próprias recordações, tornado a paixão frustrada de um aventureiro violento por uma mulher cujo marido doentio ambos desprezam! Aquela pureza como de aço polido, tão fria e mais dura do que o gelo, aquela liberdade ao lidar com o amor e o ódio, tão audaz quanto o amor de uma criança pela chama brilhante do fogo, só poderia pertencer a alguém cuja intensidade de génio era rivalizada pela estreiteza da sua experiência — uma experiência limitada não apenas pelas circunstâncias, mas por uma natureza impermeável a qualquer sentimento mais impetuoso do que o amor natural pelo lar e pelo seu próprio povo, começando antes da lembrança e tão inconsciente como a respiração.
O crítico, tendo os poemas de Emily e os poucos versos e cartas restantes de Branwell, não pode duvidar da incapacidade daquele filho pródigo, desanimado e loquaz, de produzir uma obra de arte tão sustentada, apaixonada e remota. Pois em nenhum aspeto o estilo conciso, impetuoso e imaginativo de Emily se assemelha aos maneirismos fracos, desconexos, ora vulgares, ora bonitos, de Branwell. Há, de facto, escassa evidência de que a escritora dos poemas de Emily pudesse produzir 'O Monte dos Vendavais'; mas há, em todo o caso, a impossibilidade de que o seu trabalho pudesse ser desprovido de fogo, concentração e fantasia selvagem. Tão grande impossibilidade como a de que a vulgaridade e o espalhafato não sobressaíssem as suas cabeças feias aqui e ali debaixo das melhores frases de Branwell. E uma vez que não há uma única efusão vulgar, banal ou à la Micawber em todo o 'O Monte dos Vendavais'; e uma vez que a paixão de Heathcliff nunca é tratada na forma desprezível e supostamente mundana em que Branwell descreve as suas próprias sensações, e uma vez que na altura em que 'O Monte dos Vendavais' foi escrito ele estava manifestamente, e por sua própria confissão, demasiado prostrado fisicamente para qualquer esforço literário, podemos concluir que Branwell não escreveu o livro.
Do outro lado temos não apenas a evidência literária das qualidades semelhantes em 'O Monte dos Vendavais' e nos poemas de Ellis Bell, mas a garantia expressa e reiterada de Charlotte Brontë, que nunca sequer sonhou, ao que parece, que se pudesse supor que o seu irmão escrevera o livro; o testemunho dos editores que fizeram o seu acordo com Ellis Bell; da criada Martha que viu a sua patroa a escrevê-lo; e — o mais convincente de tudo para aqueles que apreciaram o caráter de Emily Brontë — a impossibilidade de que um espírito tão íntegro e tão descuidado com a fama pudesse cometer uma fraude miserável para a obter.
De facto, tão sem base é este rumor desprezível que atacá-lo parece absurdo, apenas por vezes é sensato arriscar um absurdo. Insetos insignificantes, deixados demasiado tempo ilesos, podem revelar-se inimigos perigosos, danificando irremediavelmente a vinha fértil na qual se fixaram na segurança da sua pequenez.
Aos três fatores favoráveis da obra-prima de Emily, que já mencionamos — a vizinhança do seu lar, o caráter da sua disposição, a qualidade da sua experiência —, deve acrescentar-se um quarto, inferior em grau, e contudo não absolutamente sem importância. É o seu conhecimento da literatura alemã, e especialmente dos contos de Hoffmann. No tempo de Emily Brontë, o Romantismo e a Alemanha tinham um significado único; é verdade que em Londres e na prosa a influência alemã estava a extinguir-se, mas na distante Haworth, e nos escritos de poetas como os que Emily lia, em Scott, em Southey, e sobretudo em Coleridge, com cujos poemas os seus têm uma afinidade tão distinta, ela ainda era predominante. Da influência materialista da Itália, do ateu Shelley, de Byron com a sua audácia e realismo, do sensual Keats, ela teria pouca experiência na sua remota reitoria. E, se os tivesse conhecido, provavelmente não teriam causado qualquer impressão numa natureza apenas suscetível a influências afins. Thackeray, o herói da sua irmã, poderia nunca ter vivido, a julgar pelo vestígio dele que encontramos nos escritos de Emily; nunca há qualquer alusão na sua obra ao período mais movimentado da sua vida, aquela visão dos campos mais viçosos e dos olmos mais altos da Inglaterra central; aquele vislumbre da apressada e vasta Londres; aquela noite no rio, o sol a deslizar por detrás dos mastros, duplamente grande através do nevoeiro e do fumo no qual as casas, as pontes, os navios são todos espectrais e ténues. Nenhum sinal disto, nem do mar, nem da Bélgica, com a sua pitoresca vida estrangeira; nem ainda daquele estilo e método franceses tão cuidadosamente incutidos nela pelo Monsieur Heger, e que moldaram tão decididamente a arte da sua irmã mais velha. Mas, no meio das suas ocupações em Haworth, vislumbramo-la a ler o seu livro alemão à noite, sentada sobre o tapete da lareira com o braço à volta do pescoço de Keeper; lançando-lhe um olhar na cozinha, onde faz pão, com o volume da sua eleição apoiado diante de si; e, pelo estilo do romance anotado no rascunho, quase simultaneamente com a sua leitura, sabemos que, para ela, o estudo do alemão não era — como o francês e a música — a mera aquisição necessária de uma governanta, mas uma influência que entrou na sua mente e ajudou a moldar a forma dos seus pensamentos.
Tanto prefácio é necessário para explicar, não o génio de Emily Brontë, mas as condições desse génio — não vale a pena dizer mais. O objetivo da minha escrita teria sido falhado se as circunstâncias da sua carreira não estivessem presentes na mente do meu leitor. É demasiado tarde, neste ponto, para fazer mais do que enumerá-las e apontar brevemente o seu significado. Tal crítica, perante a obra viva, é demasiado semelhante a olhar, num campo verde e belo, para um mapa, a partir do qual se pode, na verdade, verificar as estradas que conduzem a ele e para fora dele, e o tamanho do lugar em relação aos distritos circundantes, mas que não pode dar nenhuma semelhança reconhecível da cena que se estende à nossa volta, com a sua vida fresca esquecida e a sua beleza desconsiderada. Portanto, ponhamos fim à teoria e voltemos ao livro no qual a fama da nossa heroína se sustenta, de frente para a eternidade. Pode ser que, ao desenredar a sua história e ao notar a maneira como os seus factos de caráter e circunstância impressionaram a sua mente, possamos, por um momento, ser admitidos a uma visão mais profunda e clara do seu funcionamento do que poderíamos obter pelo estudo mais completo de evidências externas, a crítica mais sincera e solidária.
NOTAS DE RODAPÉ:
[Nota de rodapé 26: 'Memoir'. Charlotte Brontë.]
[Nota de rodapé 27: 'Emily Brontë'. T. Wemyss Reid.]
CAPÍTULO XV.
'O MONTE DOS VENDAVAIS': A HISTÓRIA.
No cume de Haworth Hill, para além da rua, ergue-se uma casa de pedra cinzenta, que é mostrada como o original de 'O Monte dos Vendavais'. Alguns freixos escassos e fustigados pelo vento crescem à frente, as charnecas elevam-se nas traseiras, estendendo-se por milhas. É uma casa com algumas pretensões, outrora a reitoria de Grimshaw, aquele poderoso pregador metodista que, chicote na mão, costumava visitar o "Black Bull" na manhã de domingo e fustigar os foliões até à capela para ouvirem o seu sermão. Um tanto decadente das suas antigas pretensões, é agora uma quinta, com uma sala comum de soalho de pedra e forrada a carvalho, muito semelhante à descrita em 'O Monte dos Vendavais'. Sobre a porta há, além disso, um trabalho de escultura: H. E. 1659, uma semelhança suficientemente próxima de "Hareton Earnshaw, 1500" — mas a "selva de grifos a desfazer-se e rapazinhos desavergonhados" não se encontra em parte alguma. Tampouco notamos "a inclinação excessiva de alguns abetos atrofiados no fim da casa e uma fila de espinheiros descarnados, todos esticando os seus membros para um lado como se pedissem esmola ao sol" e, a meu ver, esta bela e antiga quinta de Sowdens está demasiado perto das fábricas de Haworth para representar a casa isolada e esquecida por Deus da imaginação de Emily. Tendo visto o lugar, como é dever, regressa-se mais impressionado do que nunca com o facto de que, enquanto cada indivíduo e cada local nos romances de Charlotte podem ser claramente identificados, a imaginação de Emily e o seu poder de tirar conclusões são os únicos responsáveis pelo caráter das suas criações. Isto não quer dizer que ela não tivesse dados em que se basear. Se não tivesse visto Sowdens, e muitas outras casas semelhantes, ela nunca teria inventado 'O Monte dos Vendavais'; a história e a paixão de Branwell incidiram na sua fantasia para imaginar a história e a paixão um tanto semelhantes de Heathcliff. Mas, no processo do seu trabalho, a natureza das suas criações dominou completamente os factos e memórias que a tinham levado a começar. Estes foram apenas o punhado de pó que ela tomou para fazer o seu homem; e as qualidades e defeitos da sua obra-prima são ambos largamente explicados quando nos lembramos de que a sua criação de personagens foi totalmente imodificada por qualquer tentativa de retratismo.
Portanto, em 'O Monte dos Vendavais', é com uma história, um quadro de fantasia, que temos de lidar; em desenho e proporção não antinatural, mas certamente não pintado segundo a natureza. Para citar os belos comentários da sua irmã —
"'O Monte dos Vendavais' foi talhado numa oficina selvagem, com ferramentas simples, a partir de materiais caseiros. O escultor encontrou um bloco de granito numa charneca solitária; olhando para ele, viu como da rocha poderia ser extraída uma cabeça, selvagem, sombria, sinistra; uma forma moldada com pelo menos um elemento de grandeza — o poder. Ele trabalhou com um cinzel rude, e a partir de nenhum modelo senão a visão das suas meditações. Com tempo e trabalho, a rocha tomou forma humana; e lá está ela colossal, escura e ameaçadora, meio estátua, meio rocha; no primeiro sentido, terrível e semelhante a um duende; no segundo, quase bela, pois a sua coloração é de um cinzento suave, e o musgo da charneca veste-a; e a urze, com os seus sinos em flor e fragrância balsâmica, cresce fielmente junto ao pé do gigante."
Do cinzel rude encontramos abundantes vestígios nos primeiros capítulos do livro. O manejo da narrativa é singularmente desajeitado, introduzido por um Sr. Lockwood — um estranho ao Norte, um misantropo imaginário, que alugou uma quinta na charneca para se afastar do mundo — e depois continuado para ele pela sua governanta para entreter os longos ócios de uma doença de inverno. Mas, passando por cima desta falta de jeito inicial na conceção, encontramos um estilo à altura da matéria e ressentimo-nos um pouco da comparação eloquente de Charlotte; pois há toques, finos e delicados, que apenas uma mão exercitada pode ousar dar, e há sentimento no livro, não apenas "terrível e semelhante a um duende", mas paciente e constante, alegre e terno, consumista e apaixonado. Descobrimos, superando o início inexperiente, que o estilo da obra é nobre e consumado, e que — longe de ser uma fantasia casual e meio talhada, uma cabeça sobreposta a um tronco de pedra — o seu plano é pensado com exatidão científica, sem linha esbatida, sem pista esquecida, a obra de um temperamento intenso e poético cuja visão é demasiado vívida para ser incongruente.
Os primeiros quatro capítulos de 'O Monte dos Vendavais' são meramente introdutórios. Relatam a visita do Sr. Lockwood ao local, a sua surpresa com a rudeza do lugar em contraste com o ar estrangeiro e o aspeto de bem-nascido que distinguiam o Sr. Heathcliff e a sua bela nora. Notou também o profundo mau humor e a aspereza de todos na casa. Surpreendido por uma tempestade de neve, foi, contudo, forçado a dormir lá e foi conduzido pela governanta a um antigo quarto, há muito não usado, onde (uma vez que a princípio não conseguia dormir) se divertiu a folhear alguns livros bolorentos empilhados num canto do parapeito da janela. Eles e o parapeito estavam todos rabiscados com escrita, Catharine Earnshaw, por vezes variando para Catharine Heathcliff, e outras para Catharine Linton. Nada mais do que estes três nomes estava escrito no parapeito, mas os livros estavam cobertos em cada folha de guarda e margem com um comentário a caneta e tinta, uma espécie de diário, como se provou, rabiscado com uma letra infantil. O Sr. Lockwood passou a primeira parte da noite a decifrar este registo desbotado; uma série de contratempos e deficiências infantis datados de há um quarto de século. Evidentemente, esta Catharine Earnshaw devia ser uma das parentes de Heathcliff, pois ele figurava na narrativa como o seu companheiro de travessuras, e o bode expiatório favorito da ira do seu irmão mais velho. Passado algum tempo, o Sr. Lockwood adormeceu, para ser perturbado por sonhos atormentadores, num dos quais imaginou que esta Catharine Earnshaw infantil, ou melhor, o seu espírito, estava a bater e a arranhar o vidro da janela fustigado pelos abetos, implorando para ser deixada entrar. Dominado pelo horror intenso do pesadelo, ele gritou alto durante o sono. Acordando subitamente, descobriu para sua confusão que o seu grito tinha sido ouvido, pois Heathcliff apareceu, extremamente zangado por alguém ter sido autorizado a dormir no quarto de painéis de carvalho.
"Se o pequeno demónio tivesse entrado pela janela, provavelmente ter-me-ia estrangulado", retorqui... "Catharine Linton ou Earnshaw, ou seja lá como se chamava — deve ter sido uma trocada, pequena alma malvada! Disse-me que andava a vaguear pela terra há vinte anos; um castigo justo pelas suas transgressões mortais, não tenho dúvidas."
"Mal estas palavras foram proferidas, recordei-me da associação do nome de Heathcliff com o de Catharine nos livros... Corei da minha inconsideração — mas, sem mostrar maior consciência da ofensa, apressei-me a acrescentar: 'A verdade é, senhor, que passei a primeira parte da noite a...'. Aqui detive-me novamente — ia dizer 'percorrer aqueles volumes antigos', então teria revelado o meu conhecimento do seu conteúdo escrito, bem como do impresso; por isso continuei: 'a soletrar o nome riscado naquele parapeito da janela: uma ocupação monótona calculada para me fazer adormecer, como contar, ou...'. 'O que quer dizer com tal modo de falar comigo!', trovejou Heathcliff com selvagem veemência. 'Como... como se atreve, sob o meu teto? Deus! ele é louco para falar assim!' E bateu na testa com fúria.
"Não sabia se devia ressentir-me desta linguagem ou continuar a minha explicação; mas ele parecia tão poderosamente afetado que senti pena e prossegui com os meus sonhos... Heathcliff recuou gradualmente para o abrigo da cama, enquanto eu falava; sentando-se finalmente quase escondido atrás dela. Adivinhei, contudo, pela sua respiração irregular e interrompida, que ele lutava para vencer um excesso de emoção violenta. Não querendo mostrar-lhe que tinha ouvido o conflito, continuei a minha toilette de forma um tanto ruidosa... e solilóquio sobre a duração da noite. 'Ainda não são três horas! Poderia ter jurado que eram seis. O tempo estagna aqui: devemos ter-nos retirado para descansar às oito!'"
"'Sempre às nove no inverno, e levantar às quatro', disse o meu anfitrião, suprimindo um gemido; e, como imaginei, pelo movimento da sombra do seu braço, enxugando uma lágrima dos seus olhos. 'Sr. Lockwood', acrescentou ele, 'pode ir para o meu quarto: só vai estar a estorvar, vindo cá abaixo tão cedo... Leve a vela e vá para onde quiser. Juntar-me-ei a si diretamente. Mantenha-se fora do pátio, contudo, os cães estão soltos; e a casa — Juno monta guarda lá, e... não, só pode passear pelos degraus e passagens. Mas, vá-se embora! Virei em dois minutos.'"
"Obedeci, na medida em que saí do quarto; quando, ignorante de para onde levavam os corredores estreitos, fiquei parado, e fui testemunha, involuntariamente, de um ato de superstição por parte do meu senhorio que desmentia estranhamente o seu aparente bom senso. Ele subiu para a cama e abriu a treliça, irrompendo, enquanto a puxava, num incontrolável acesso de lágrimas. 'Entra! entra!', soluçou ele, 'Cathy, entra! Oh, a querida do meu coração! ouve-me desta vez, Catharine, finalmente!' O espectro mostrou o capricho habitual de um espectro: não deu sinal de ser; mas a neve e o vento giravam selvaticamente lá dentro, chegando mesmo ao meu posto e apagando a luz."
"Havia tal angústia no jorro de mágoa que acompanhava este delírio, que a minha compaixão me fez ignorar a sua loucura, e afastei-me, meio irritado por ter ouvido sequer, e vexado por ter relatado o meu pesadelo ridículo, uma vez que produziu aquela agonia; embora o porquê estivesse além da minha compreensão."
O Sr. Lockwood não obteve qualquer pista para o mistério em 'O Monte dos Vendavais'; e mais tarde regressou a Thrushcross Grange, para adoecer com uma febre prolongada. Durante a sua recuperação, ouviu a história do seu senhorio da sua governanta, que tinha sido anteriormente uma ocupante de 'O Monte dos Vendavais', e depois disso, durante muitos anos, a principal criada em Thrushcross Grange, onde a jovem Sra. Heathcliff costumava viver quando ainda era Catharine Linton.
"Sabe alguma coisa da história do Sr. Heathcliff?", disse o Sr. Lockwood à sua governanta, Nelly Dean.
"É a de um cuco, senhor", respondeu ela.
É neste ponto que a história de 'O Monte dos Vendavais' começa, essa história violenta e amarga da "pequena coisa escura abrigada por um homem bom para sua ruína", trazida através do limiar, como Christabel carregou Geraldine, por piedade da fraqueza que, tendo crescido forte, esmagará a mão que a ajudou; trazida através do limiar, como os espíritos malignos são trazidos, impotentes para entrar por si próprios, e ainda assim nenhum demónio maligno, apenas uma alma humana perdida e enegrecida pela tirania, injustiça e ruína congénita. A história de 'O Monte dos Vendavais' é a história de Heathcliff. Começa com a viagem repentina do velho proprietário, o Sr. Earnshaw, para Liverpool numa manhã de verão, no início da colheita. Ele tinha pedido a cada uma das crianças para escolher um presente, "apenas que seja pequeno, pois caminharei até lá e voltarei, sessenta milhas para cada lado": e o filho Hindley, um rapaz orgulhoso e impetuoso de catorze anos, tinha escolhido um violino; Cathy, de seis anos, um chicote, pois podia montar qualquer cavalo no estábulo; e a Nelly Dean, a sua humilde companheira de jogos e encarregada de recados, fora prometida uma mão-cheia de maçãs e peras. Era a terceira noite desde a partida do Sr. Earnshaw, e as crianças, sonolentas e cansadas, tinham implorado à mãe para as deixar ficar acordadas um pouco mais — ainda um pouco mais — para darem as boas-vindas ao pai e verem os seus novos presentes. Finalmente — por volta das onze horas — o Sr. Earnshaw voltou, rindo e gemendo com a sua fadiga; e abrindo o seu sobretudo, que trazia embrulhado nos braços, gritou:
"'Vejam aqui, mulher! Nunca fui tão batido com nada na minha vida: mas têm de o tomar como um presente de Deus; embora seja quase tão escuro como se viesse do diabo.'
"Aglomerámo-nos à volta, e por cima da cabeça da Srta. Cathy tive um vislumbre de uma criança suja, esfarrapada e de cabelos negros; grande o suficiente para andar e falar; na verdade, o seu rosto parecia mais velho que o de Catharine; contudo, quando foi posta de pé, apenas olhou em volta e repetiu vezes sem conta um balbucio que ninguém conseguia entender. Fiquei assustada, e a Sra. Earnshaw estava pronta a atirá-lo porta fora: ela indignou-se, perguntando como ele podia ter o desplante de trazer aquele pirralho cigano para casa quando tinham os seus próprios filhos para alimentar e cuidar? O que tencionava fazer com ele, e se estaria louco? O patrão tentou explicar o assunto; mas estava realmente meio morto de fadiga, e tudo o que consegui entender, por entre os seus ralhos, foi uma história de ele o ter visto esfomeado e sem teto, e praticamente mudo, nas ruas de Liverpool, onde o recolheu e perguntou pelo dono. Nem uma alma sabia a quem pertencia, disse ele; e sendo o seu dinheiro e tempo ambos limitados, pensou que seria melhor levá-lo para casa de uma vez, do que incorrer em despesas vãs lá; porque estava determinado a não o deixar como o encontrou."
Assim, a criança entrou em 'O Monte dos Vendavais', uma causa de dissensão desde o início. A Sra. Earnshaw resmungou até se acalmar; as crianças foram para a cama a chorar, pois o violino tinha sido partido e o chicote perdido por se carregar o pequeno estranho durante tantas milhas. Mas o Sr. Earnshaw estava determinado a que o seu protegido fosse respeitado; deu um estalo na atrevida pequena Cathy por fazer caretas ao recém-chegado, e expulsou a Nelly Dean da casa por o ter posto a dormir nas escadas porque as crianças não o queriam na sua cama. E quando ela se aventurou a regressar alguns dias depois, encontrou a criança adotada pela família, e chamada pelo nome de um filho que tinha morrido na infância — Heathcliff.
Contudo, ele não tinha uma posição invejável. Cathy, na verdade, era muito ligada a ele, e o patrão tinha-se afeiçoado a ele estranhamente, acreditando em cada palavra que dizia, "nesse aspeto ele dizia preciosamente pouco, e geralmente a verdade", mas a Sra. Earnshaw detestava o pequeno intruso e nunca intervinha em seu favor quando Hindley, que o odiava, espancava e batia na criança taciturna e paciente, que nunca se queixava, mas suportava todas as suas nódoas negras em silêncio. Esta resistência deixava o velho Earnshaw furioso quando descobria as perseguições a que este mero bebé era sujeito; a criança descobriu rapidamente que era um instrumento de vingança muito eficiente.
"Lembro-me de o Sr. Earnshaw ter comprado uma vez um par de potros na feira da paróquia e dado um a cada um dos rapazes. Heathcliff escolheu o mais bonito, mas logo ficou coxo e, quando ele o descobriu, disse a Hindley: 'Tens de trocar de cavalos comigo, não gosto do meu; e se não o fizeres, direi ao teu pai as três surras que me deste esta semana, e mostrar-lhe-ei o meu braço que está negro até ao ombro.' Hindley deitou a língua de fora e deu-lhe um estalo nas orelhas. 'É melhor fazê-lo de uma vez', insistiu ele, escapando para o alpendre (estavam no estábulo). 'Terás de o fazer; e se eu falar destas pancadas, recebê-las-ás de volta com juros.' 'Fora, cão!', gritou Hindley, ameaçando-o com um peso de ferro, usado para pesar batatas e feno. 'Atira-o', respondeu ele, ficando parado, 'e depois direi como te gabaste de que me expulsarias de casa assim que ele morresse, e veremos se ele não te expulsa imediatamente.' Hindley atirou-o, atingindo-o no peito, e ele caiu, mas levantou-se imediatamente, sem fôlego e pálido; e, se eu não o tivesse impedido, ele teria ido exatamente assim ter com o patrão e obtido total vingança ao deixar que a sua condição pleiteasse por ele, insinuando quem a tinha causado. 'Leva o meu potro, cigano, então', disse o jovem Earnshaw. 'E rezo para que ele te parta o pescoço; leva-o e sê maldito, seu intruso miserável! e engana o meu pai com tudo o que ele tem: mas depois mostra-lhe o que és, demónio de Satanás. E toma isto; espero que ele te dê um coice na cabeça!'
"Heathcliff tinha ido soltar o animal e mudá-lo para a sua própria baia; ele passava por trás dele quando Hindley terminou o seu discurso dando-lhe um pontapé para debaixo das patas, e, sem parar para verificar se as suas esperanças tinham sido cumpridas, fugiu o mais depressa que pôde. Fiquei surpreendida ao ver com que frieza a criança se levantou e prosseguiu com a sua intenção; trocando selas e tudo, e depois sentando-se num fardo de feno para superar a indisposição que o golpe violento causou, antes de entrar na casa. Persuadi-o facilmente a deixar-me pôr a culpa das suas nódoas negras no cavalo: ele pouco se importava com a história que se contasse, contanto que tivesse o que queria. Ele queixava-se tão raramente, na verdade, de coisas como estas que realmente pensei que ele não fosse vingativo; fui completamente enganada, como ouvirão."
Assim, a divisão cresceu. Esta criança maligna e que não se queixava, de pele estrangeira e alma oriental, só podia gerar discórdia naquele lar de Yorkshire. Ele não conseguia compreender o que era honroso por instinto para uma mente inglesa. Era rápido a tirar partido, paciente, astuto, nutrindo a sua vingança em silêncio como um escravo vingativo, até que, por fim, chegasse o seu momento de retribuição; suficientemente veraz e corajoso para se ter tornado nobre noutra atmosfera, mas com uma inclinação pronta para a vingança dissimulada e sombria. Insensível, ao que parecia, à gratidão. Orgulhoso com o orgulho irracional de um oriental; cruel e violentamente apaixonado. Havia apenas uma mancha suave e terna neste coração sombrio e taciturno; era um amor extremamente grande e tolerante pela doce, atrevida e travessa Catharine.
Mas esta afeição apenas serviu para aumentar o mal que ele causava. Ele, que afastara o filho do pai, o marido da esposa, separou o irmão da irmã tão completamente; pois Hindley odiava a criança de pele morena que era a companheira favorita de Cathy. Quando a Sra. Earnshaw morreu, dois anos após o advento de Heathcliff, Hindley tinha aprendido a considerar o seu pai como um opressor em vez de um amigo, e Heathcliff como um usurpador intolerável. Assim, desde o início, ele gerou sentimentos hostis na casa.
Com o passar do tempo, o Sr. Earnshaw começou a definhar. A sua força abandonou-o subitamente e tornou-se meio infantil, irritável e extremamente ciumento da sua autoridade. Considerava qualquer desfeita a Heathcliff como uma desfeita ao seu próprio critério; de modo que, na presença do senhor, a criança era respeitada e cortejada por respeito à fraqueza daquele mestre, enquanto, pelas suas costas, as antigas mágoas, o antigo ódio, mostravam-se não extintos. E assim a criança cresceu amarga e desconfiada. As coisas melhoraram um pouco por algum tempo, quando o indomável Hindley foi enviado para a universidade; contudo, ainda havia perturbação e inquietação, pois o Sr. Earnshaw não amava a sua filha Catharine, e o seu coração estava ainda mais amargurado pelas queixas e pelo descontentamento do velho Joseph, o criado; o mais cansativo "fariseu hipócrita que alguma vez vasculhou uma Bíblia para tomar as promessas para si e atirar as maldições aos seus vizinhos." Mas Catharine, embora menosprezada por causa de Heathcliff, e quase sempre em apuros por conta dele, era demasiado afeiçoada a ele para ter ciúmes. "O maior castigo que podíamos inventar para ela era mantê-la separada de Heathcliff... Certamente ela tinha maneiras que eu nunca vi uma criança adotar antes; e ela levava todos nós ao limite da nossa paciência cinquenta vezes e mais vezes ao dia; desde a hora em que ela descia as escadas até à hora em que ia para a cama, não tínhamos um minuto de segurança de que ela não estivesse a fazer das suas. O seu espírito estava sempre no nível máximo, a sua língua sempre a mexer — cantando, rindo e atormentando todos os que não faziam o mesmo. Era uma criatura selvagem e perversa; mas tinha o olho mais bonito, o sorriso mais doce e o pé mais leve da paróquia. E, afinal, acredito que ela não queria fazer mal; pois, quando uma vez ela o fazia chorar a sério, raramente acontecia que ela não fizesse companhia e o obrigasse a ficar quieto para que a pudesse consolar. Nas brincadeiras, gostava imenso de agir como a pequena dona, usando as mãos livremente e comandando os seus companheiros."
De repente, esta pequena fada bonita e travessa ficou órfã; o Sr. Earnshaw morreu tranquilamente, sentado na sua cadeira junto à lareira numa noite de outubro. O Sr. Hindley, agora um jovem de vinte anos, voltou para casa para o funeral, para grande espanto da criadagem, trazendo uma esposa consigo.
Uma rapariga apressada, esguia e de olhos brilhantes, com uma cor mutável e febril, histérica e cheia de fantasias, volúvel como os ventos, ora caprichosa e cheia de elogios e risos, ora rabugenta e languida. De resto, o verdadeiro ídolo do coração do seu marido. Uma palavra dela, uma frase passageira de aversão por Heathcliff, era suficiente para reavivar todo o ódio anterior do jovem Earnshaw pelo rapaz. Heathcliff foi expulso da sua sociedade, já não era autorizado a partilhar as lições de Cathy, degradado à posição de um criado comum de quinta. No início, Heathcliff não se importava. Cathy ensinava-lhe o que aprendia e brincava ou trabalhava com ele nos campos. Cathy andava à solta com ele e participava em todas as suas travessuras; ambos prometiam tornar-se verdadeiros pequenos selvagens, enquanto Hindley Earnshaw beijava e acariciava a sua jovem esposa, totalmente alheio ao destino deles.
Uma aventura mudou subitamente o curso das suas vidas. Numa noite de domingo, Cathy e Heathcliff correram até Thrushcross Grange para espreitar pelas janelas e ver como os pequenos Linton passavam os seus domingos. Olharam para dentro e viram Isabella numa ponta da, para eles, esplêndida sala de estar, e Edgar na outra, ambos em prantos, discutindo de forma rabugenta. Tão eufóricos ficaram os dois pequenos selvagens de Wuthering Heights com esta prova da inferioridade dos seus vizinhos, que irromperam em gargalhadas. Os pequenos Linton ficaram aterrorizados e, para os assustar ainda mais, Cathy e Heathcliff fizeram uma variedade de ruídos assustadores; conseguiram aterrorizar não só as crianças, mas também os seus pais tolos, que imaginaram que os gritos vinham de um bando de ladrões decididos a roubar a casa. Soltaram os cães, nessa crença, e o buldogue agarrou o pequeno tornozelo nu de Cathy, pois ela tinha perdido os sapatos no pântano. Enquanto Heathcliff tentava estrangular o animal, o criado aproximou-se e, tomando as duas crianças como prisioneiras, conduziu-as ao salão iluminado. Ali, para humilhação e surpresa dos Linton, o pequeno vagabundo coxo foi descoberto como sendo a Srta. Earnshaw, e o seu companheiro de desordem, "aquela estranha aquisição que o meu falecido vizinho fez na sua viagem a Liverpool — um pequeno lascar, ou um náufrago americano ou espanhol."
Cathy ficou cinco semanas em Thrushcross Grange, altura em que o seu tornozelo estava completamente curado e as suas maneiras muito melhoradas. A jovem Sra. Earnshaw tinha tentado o seu melhor, durante esta visita, para se esforçar através de uma mistura judiciosa de roupas finas e lisonja para elevar o nível da auto-estima de Cathy. Ela voltou para casa, então, como uma jovem senhora bonita e bem vestida, para encontrar Heathcliff na mesma medida deteriorado; o simples criado da quinta, cujas roupas estavam sujas com três meses de serviço na lama e no pó, com cabelo desalinhado e rosto e mãos imundas.
"'Heathcliff, podes vir para a frente', gritou o Sr. Hindley, desfrutando do seu embaraço e satisfeito por ver que tipo de jovem malandro repelente ele seria obrigado a apresentar. 'Podes vir e dar as boas-vindas à Srta. Catharine, como os outros criados.' Cathy, vislumbrando o seu amigo no seu esconderijo, voou para o abraçar, deu-lhe sete ou oito beijos na face num segundo, e depois parou, e, recuando, soltou uma gargalhada, exclamando: 'Ora, que aspeto tão negro e zangado tens! E que... que engraçado e sombrio! Mas isso é porque estou habituada ao Edgar e à Isabella Linton.'
"'Bem, Heathcliff, esqueceste-te de mim? Aperta-me a mão, Heathcliff', disse o Sr. Earnshaw, condescendentemente, 'de vez em quando, isso é permitido.'
"'Não o farei', respondeu o rapaz, encontrando a sua língua finalmente. 'Não vou ficar aqui para ser motivo de riso. Não vou suportar isso.'"
A partir deste momento, a amizade de Catharine com Heathcliff foi marcada por ciúmes intermitentes da parte dele e nojo intermitente da parte dela; e por esta reviravolta maligna, muito mais do que por qualquer brutalidade mais grosseira, Heathcliff ansiava por vingança contra Hindley Earnshaw. Entretanto, Edgar Linton, muito apaixonado pela bela Catharine, ia de tempos a tempos visitar Wuthering Heights. Teria ido muito mais vezes, mas tinha pavor da reputação de Hindley Earnshaw e evitava encontrá-lo.
Pois este fino jovem cavalheiro de Oxford, este orgulhoso jovem marido, estava a afundar-se em excessos piores do que qualquer um dos seus selvagens antepassados Earnshaw. Um desgosto desafiador tinha-o levado ao desespero. No verão seguinte à visita de Catharine a Thrushcross Grange, o seu único filho e herdeiro tinha nascido. Uma ocasião de grandes regozijos, subitamente frustrada pela descoberta de que a sua esposa, o seu ídolo, estava a definhar rapidamente com tuberculose. Hindley recusou-se a acreditar nisso, e a sua esposa manteve o seu espírito volátil até ao fim; mas uma noite, enquanto se apoiava no ombro dele, um ataque de tosse apanhou-a — um muito ligeiro. Ela colocou as duas mãos à volta do pescoço dele, o seu rosto mudou e ela estava morta.
Hindley tornou-se desesperado e entregou-se a companheiros selvagens, a excessos de dissipação e tirania. "O seu tratamento para com Heathcliff era suficiente para tornar um santo num demónio." Heathcliff suportou-o com paciência sombria, como tinha suportado os golpes e pontapés da sua infância, transformando-os numa alavanca para extorquir vantagens; as dores e carências do seu corpo eram redimidas por uma alegria feroz no coração, pois nesta degradação de Hindley Earnshaw ele reconhecia o instrumento da sua própria vingança.
O tempo passou, tornando cada vez mais nítida a diferença entre este criado cigano e a sua bela jovem senhora; o tempo passou, deixando os dois ainda bons amigos, mas deixando também no coração de Heathcliff um rancor apaixonado contra o homem que, propositadamente, o tinha tornado indigno da mão de Catharine, e contra o outro homem em quem ela seria entregue.
Pois Edgar Linton estava apaixonado pela bela, travessa e jovem beleza de Wuthering Heights. O seu temperamento violento não o assustava, embora o seu próprio caráter fosse singularmente doce, plácido e fraco; a sua amizade comprometedora com um boçal como o jovem Heathcliff era apenas um incómodo trivial facilmente desculpável. E quando o seu próprio pai e mãe morreram de uma febre contraída ao cuidar dela, ele não a amou menos pela tristeza que ela lhe trouxe. Uma febre que ela tinha contraído voluntariamente em desespero e um súbito enjoo da vida. Uma noite, a bonita Cathy veio à cozinha dizer a Nelly Dean que se tinha comprometido a casar com Edgar Linton. Heathcliff, sem ser visto, estava sentado do outro lado do banco, num assento junto à parede, completamente escondido daqueles que estavam junto à lareira.
Cathy estava muito eufórica, mas não estava nada feliz. Edgar era rico, bonito, jovem, gentil, apaixonadamente apaixonado por ela; ainda assim, ela sentia-se miserável. Nelly Dean, que estava a cuidar do bebé Hareton junto ao fogo, finalmente perdeu a paciência com o seu descontentamento caprichoso.
"'O teu irmão ficará satisfeito'", disse ela; "'o velho senhor e a senhora não se oporão, penso eu; escaparás de um lar desordenado e desconfortável para um rico e respeitável; e tu amas o Edgar, e o Edgar ama-te. Tudo parece suave e fácil; onde está o obstáculo?'
"'Aqui! e aqui!' respondeu Catharine, batendo com uma mão na testa e a outra no peito. 'Em qualquer lugar onde a alma viva. Na minha alma e no meu coração estou convencida de que estou errada.'
"'Isso é muito estranho. Não consigo entender.'
"'É o meu segredo. Mas se não zombares de mim, eu explico-o. Não o consigo fazer claramente; mas vou dar-te uma sensação de como me sinto.'
"'Ela sentou-se ao meu lado novamente; o seu semblante tornou-se mais triste e grave, e as suas mãos entrelaçadas tremiam.
"'Nelly, tu nunca tens sonhos estranhos?' disse ela, subitamente, após alguns minutos de reflexão.
"'Sim, de vez em quando', respondi eu.
"'E eu também. Tive na minha vida sonhos que ficaram comigo para sempre e mudaram as minhas ideias; passaram por mim como vinho através da água e alteraram a cor da minha mente. E este é um deles: vou contá-lo, mas tem cuidado para não sorrir de nenhuma parte dele.'
"'Oh, não, Srta. Catharine', gritei eu. 'Já somos suficientemente sombrios sem conjurar fantasmas e visões para nos confundir....'
"Ela ficou irritada, mas não prosseguiu. Aparentemente abordando outro assunto, ela recomeçou pouco tempo depois.
"'Se eu estivesse no céu, Nelly, seria extremamente miserável.'
"'Porque não és digna de lá ir', respondi eu; 'todos os pecadores seriam miseráveis no céu.'
"'Mas não é isso. Sonhei uma vez que estava lá.'
"'Digo-te, não vou ouvir os teus sonhos, Srta. Catharine. Vou para a cama', interrompi novamente.
"Ela riu-se e segurou-me, pois fiz um movimento para deixar a minha cadeira.
"'Isto não é nada', gritou ela; 'só ia dizer que o céu não parecia ser um lar; e parti o meu coração a chorar para voltar à terra; e os anjos ficaram tão zangados que me atiraram para o meio da charneca no topo de Wuthering Heights, onde acordei a soluçar de alegria. Isso servirá para explicar o meu segredo tão bem quanto o outro. Não tenho mais razões para casar com Edgar Linton do que tenho para estar no céu; e, se o homem perverso ali dentro não tivesse deixado Heathcliff tão baixo, eu não teria pensado nisso. Degradar-me-ia casar com Heathcliff agora, por isso ele nunca saberá como o amo; e isso, não porque ele seja bonito, Nelly, mas porque ele é mais eu do que eu mesma. Do que quer que as nossas almas sejam feitas, a dele e a minha são iguais; e a de Linton é tão diferente quanto um raio de luar do relâmpago, ou a geada do fogo.'
"Antes de este discurso terminar, tornei-me consciente da presença de Heathcliff. Tendo notado um leve movimento, virei a cabeça e vi-o levantar-se do banco e sair silenciosamente. Ele tinha ouvido até ouvir Catharine dizer que a degradaria casar com ele, e depois não ficou para ouvir mais nada. A minha companheira, sentada no chão, foi impedida pelo encosto do banco de notar a sua presença ou partida; mas eu sobressaltei-me e mandei-a calar-se.
"'Porquê?' perguntou ela, olhando nervosamente em redor.
"'O Joseph está aqui', respondi eu, captando oportunamente o rolar das rodas da sua carroça pela estrada, 'e o Heathcliff virá com ele.... Criatura infeliz, assim que te tornares Sra. Linton ele perde amigo, amor e tudo. Consideraste como suportarás a separação, e como ele suportará ser completamente abandonado no mundo? Porque, Srta. Catharine....'
"'Ele completamente abandonado! nós separados!' exclamou ela, com um tom de indignação. 'Quem nos vai separar, por favor! Eles terão o destino de Milo. Não enquanto eu viver, Ellen; por nenhuma criatura mortal. Cada Linton à face da terra poderia derreter-se em nada, antes que eu pudesse consentir em abandonar Heathcliff.... As minhas grandes misérias neste mundo foram as misérias de Heathcliff, e eu observei e senti cada uma desde o início. O meu grande pensamento ao viver é ele próprio. Se tudo o resto perecesse, e ele permanecesse, eu continuaria a ser; e se tudo o resto permanecesse e ele fosse aniquilado, o universo tornar-se-ia um estranho poderoso: eu não pareceria parte dele. O meu amor por Linton é como a folhagem nos bosques: o tempo mudá-lo-á, estou bem consciente disso, tal como o inverno muda as árvores. O meu amor por Heathcliff assemelha-se às rochas eternas por baixo; uma fonte de pouco prazer visível, mas necessário. Nelly, eu sou Heathcliff. Ele está sempre, sempre na minha mente: não como um prazer, mais do que eu sou sempre um prazer para mim mesma, mas como o meu próprio ser. Por isso não fales mais da nossa separação; é impraticável; e----'
"Ela fez uma pausa e escondeu o rosto nas dobras do meu vestido; mas eu afastei-o à força. Eu estava sem paciência com a sua loucura."
Pobre Cathy! bela, altiva e caprichosa; quem deveria guiá-la e aconselhá-la? o seu irmão embriagado e bêbado? a serva que não a amava e era impaciente com as suas mudanças de direção? Não. E Heathcliff, que, brutalizado e rude como era, pelo menos a amava e a compreendia? Heathcliff, que tinha saído da casa, a sua rejeição a arder nos seus ouvidos, para não entrar nela até estar apto a exigir tanto amor quanto vingança. Ele não voltou naquela noite, embora o trovão troasse e a chuva caísse sobre Wuthering Heights; embora Cathy, sem xale ao vento e molhada, estivesse a chamá-lo através das tempestades violentas que abafavam e frustravam os seus gritos.
A noite toda ela não quis deixar a lareira, mas deitou-se no banco a soluçar e a gemer, toda encharcada como estava, com as mãos no rosto e o rosto voltado para a parede. Um presságio estranho para o seu casamento, estes primeiros sonhos do seu amor noivo — não sonhos, na verdade, mas delírio; pois na manhã seguinte ela estava a arder e a tossir em febre, perto da porta da morte, ao que parecia.
Mas ela venceu, e os pais de Edgar levaram-na para casa para cuidar dela. Como sabemos, eles contraíram a infeção e morreram com poucos dias de diferença um do outro. Nem foi este o único estrago que a febre causou. Catharine, sempre apressada e inconstante no temperamento, ficou a partir daí sujeita a intervalos raros a fúrias violentas e furiosas, que ameaçavam a sua vida e razão pela sua extremidade. O médico disse que ela não devia ser contrariada; ela devia ter a sua própria vontade, e não era nada menos do que homicídio aos seus olhos que alguém presumisse levantar-se e contradizê-la. Mas o temperamento tenso, os modos mimados e autoritários, os caprichos atrevidos da sua noiva, não eram máculas aos olhos de Edgar Linton. "Ele estava apaixonado e acreditava ser o homem mais feliz do mundo no dia em que a levou à Capela de Gimmerton, três anos após a morte do seu pai."
Apesar de tantos presságios sombrios, o casamento foi feliz no início. Catharine era mimada e satisfeita por todos, com Edgar como um adorador perpétuo; a sua irmã Isabella, bonita e de natureza fraca, como uma companheira admiradora; e, para o espectador necessário da sua felicidade, Nelly Dean, que tinha sido induzida a deixar o seu protegido em Wuthering Heights.
Subitamente, Heathcliff regressou, não o velho Heathcliff, mas um inimigo muito mais perigoso, um homem alto, atlético, bem formado, inteligente e severo. "Uma ferocidade semi-civilizada espreitava ainda nas sobrancelhas deprimidas e olhos, cheios de fogo negro, mas estava submissa; e a sua maneira era até digna, embora demasiado severa para ser graciosa." Um rival formidável para o juvenil Edgar Linton, com a sua petulância de filho único, timidez constitucional e saúde frágil. Cathy, embora estivesse realmente ligada ao seu marido, causava-lhe uma dor cruel pelo seu deleite indisfarçado e infantil com o regresso de Heathcliff; ele tinha o pressentimento de que o mal viria da velha amizade assim reavivada, e teria proibido voluntariamente Heathcliff de entrar em casa; mas Edgar, tão ansioso para que nenhum desgosto fosse dado à sua esposa, com uma razão dupla então para guardar ternamente a sua saúde, não podia infligir uma tristeza séria a ela com apenas um ciúme sem base como desculpa. Assim, Heathcliff tornou-se íntimo em Thrushcross Grange, a segunda casa à qual foi bem-vindo, o segundo lar que pretendia arruinar. Nesta altura, ele estava alojado em Wuthering Heights. No seu regresso, ele tinha tido a intenção inicial, disse a Catharine, "apenas de ter um vislumbre do teu rosto, um olhar de surpresa, talvez, e prazer fingido; depois acertar as minhas contas com Hindley; e então evitar a lei cometendo a execução em mim mesmo."
As boas-vindas de Catharine mudaram este plano; o seu irmão estava a salvo da violência de Heathcliff; mas não do seu ódio. As contas estavam a ser acertadas de uma forma diferente. Hindley — que estava ansioso por obter dinheiro para o seu jogo e que tinha bebido o seu juízo — estava mais do que feliz em aceitar Heathcliff como hóspede, companheiro de copos e jogador de cartas, tudo ao mesmo tempo. E Heathcliff contentava-se em esperar e tirar a sua vingança gole a gole, encorajando o seu antigo opressor na bebida e no jogo, observando-o perder acre após acre das suas terras, sabendo que, mais cedo ou mais tarde, Earnshaw perderia tudo, e ele, Heathcliff, seria o mestre de Wuthering Heights, com o filho de Hindley como seu criado. A vingança é doce. Entretanto, Wuthering Heights era um alojamento conveniente, a uma distância a pé de Grange.
Mas logo as suas visitas foram cortadas. Isabella Linton — uma rapariga encantadora de dezoito anos com um rosto espevitado e uma doçura fina de disposição que poderia facilmente tornar-se azeda — Isabella Linton apaixonou-se por Heathcliff. Para lhe fazer justiça, ele nunca tinha sonhado em casar com ela, até um dia em que Catharine, num acesso de paixão, revelou o segredo da pobre rapariga. Heathcliff fingiu não acreditar nela, mas Isabel era a herdeira do seu irmão, e casar com ela, herdar o dinheiro de Edgar e maltratar a sua irmã, seria, de facto, uma vingança justa contra o marido de Catharine.
No início, foi meramente como uma ideia artisticamente agradável, um castelo no ar, para ser sonhado e não construído, que este plano se apresentou a Heathcliff. Mas um dia, tendo sido descoberto num cortejo experimental a Isabel, Edgar Linton, contente por encontrar um pretexto, pô-lo fora de portas. Então, num paroxismo de ódio, vingança nunca satisfeita e paixão frustrada, Heathcliff golpeou com a arma envenenada que tinha à mão. Persuadiu Isabel a fugir com ele — tarefa nada difícil — e fugiram juntos numa noite para se casarem.
Isabella — pobre, fraca, romântica e vivaz Isabel — não foi notada a princípio; pois um problema terrível tinha caído sobre a Grange. Catharine, num paroxismo de fúria pela expulsão de Heathcliff, discutiu violentamente com Edgar e trancou-se no seu próprio quarto. Durante três dias e noites permaneceu ali, sem comer; Edgar, isolado no seu escritório, esperando a cada momento que ela descesse e pedisse o seu perdão; Nelly Dean, que era a única a saber da sua greve de fome determinada, resolveu não dizer nada a respeito, e vencer, de uma vez por todas, o espírito altivo e apaixonado que possuía a sua bela e jovem patroa.
Assim passaram três dias. Catharine continuava a recusar toda a comida, e a implacável Ellen ainda resolvia deixá-la morrer de fome, se ela quisesse, sem uma admoestação. No terceiro dia, Catharine destrancou a porta e pediu comida; e agora Ellen Dean estava demasiado assustada para exultar. A sua patroa estava consumida, abatida, selvagem, como se por meses de doença; a serva, demasiado presunçosa, lembrou-se do aviso do médico e temeu a ira do seu senhor, quando este descobrisse o verdadeiro estado de Catharine.
Nesta obstinada insensibilidade da criada repousa a crise de 'Wuthering Heights'; se Ellen Dean, logo ao princípio, tivesse tentado consolar a violenta e infantil Catharine, se tivesse dado a conhecer a Edgar a verdadeira fraqueza por baixo do seu orgulho, Catharine não teria tido nenhuma doença fatal nem deixado uma criança órfã de mãe; e se a melancólica Isabel, em vez de ser deixada a chorar sozinha pelo parque e pelo jardim, tivesse sido conduzida ao quarto da irmã e lhe tivessem mostrado uma doença real para cuidar, uma miséria real para remendar, ela não teria partido com Heathcliff, nem se teria casado com o sofrimento, devido a um amor fantasioso nascido do ócio. É característico do génio de Emily Bronte que ela escolha um meio tão simples e caseiro para a produção de resultados tão terríveis.
Um ataque que ela tivera sozinha e sem assistência durante aqueles três dias de fome isolada tinha perturbado o juízo de Catharine. A lenta progressão do seu delírio é descrita com um patos magistral que nem Webster teria tornado mais forte, nem Fletcher mais encantador e comovente:
"Um minuto antes, ela estava violenta; agora, apoiada num braço e sem notar a minha recusa em obedecer-lhe, parecia encontrar uma diversão infantil em arrancar as penas das aberturas que acabara de fazer nas almofadas e dispô-las no lençol de acordo com as suas diferentes espécies: a sua mente tinha divagado para outras associações.
"'Aquela é de um peru', murmurava para si mesma, 'e esta é de um pato selvagem, e esta é de um pombo. Ah, põem penas de pombo nas almofadas — não admira que eu não conseguisse morrer! Deixa-me ter o cuidado de a atirar para o chão quando me deitar. E aqui está a de um lagópode; e esta — conhecê-la-ia entre mil — é de uma abibe. Pássaro bonito; a voar sobre as nossas cabeças no meio da charneca. Queria chegar ao seu ninho, pois as nuvens tinham tocado as colinas e ela sentia que a chuva vinha. Esta pena foi apanhada na charneca, o pássaro não foi abatido: vimos o seu ninho no inverno, cheio de pequenos esqueletos. Heathcliff montou uma armadilha sobre ele e os mais velhos não se atrevem a vir. Fiz com que ele prometesse que nunca mais dispararia contra uma abibe depois disso, e ele não disparou. Sim, aqui estão mais! Ele disparou contra as minhas abibes, Nelly? São vermelhas, alguma delas? Deixa-me ver.'
"'Acaba com esse trabalho de bebé!' interrompi, puxando a almofada e virando os buracos para o colchão, pois ela estava a remover o conteúdo aos punhados. 'Deita-te e fecha os olhos: estás a delirar. Que confusão! A penugem está a voar por todo o lado como neve.'
"Fui aqui e ali recolhendo-a.
"'Vejo em ti, Nelly', continuou ela, sonhadora, 'uma mulher idosa: tens cabelos grisalhos e ombros curvados. Esta cama é a gruta das fadas sob Peniston Crag, e tu estás a apanhar pedras de raio para ferir as nossas novilhas; fingindo enquanto estou perto que são apenas novelos de lã. É a isso que chegarás daqui a cinquenta anos: sei que não és assim agora. Não estou a delirar; estás enganada, ou então acreditar-me-ia que eras realmente essa bruxa murcha, e pensaria que estava sob Peniston Crag; e estou consciente de que é noite, e há duas velas na mesa a fazer o armário preto brilhar como azeviche.'
"'O armário preto? Onde está isso?' perguntei. 'Estás a falar a dormir.'
"'Está contra a parede como sempre está', respondeu ela. 'Parece estranho. Vejo uma cara nele!'
"'Não há armário nenhum no quarto e nunca houve', disse eu, retomando o meu lugar e prendendo a cortina para que pudesse observá-la.
"'Não vês aquela cara?' indagou ela, olhando fixamente para o espelho.
"E, dissesse o que dissesse, fui incapaz de a fazer compreender que era a sua própria; por isso levantei-me e cobri-o com um xale.
"'Ainda está atrás dali!' continuou, ansiosamente, 'e mexeu-se. Quem é? Espero que não saia quando tu fores embora. Oh, Nelly! O quarto está assombrado! Tenho medo de ficar sozinha.'
"Peguei na sua mão com a minha e pedi-lhe que se acalmasse, pois uma sucessão de arrepios convulsionava o seu corpo, e ela continuava a esforçar o olhar em direção ao vidro.
"'Não há ninguém aqui!' insisti. 'Eras tu própria, Sra. Linton: tu sabias disso há pouco.'
"'Eu própria!' arquejou ela, 'e o relógio está a bater as doze. É verdade, então! Isso é terrível.'
"Os seus dedos agarraram os lençóis e puxaram-nos sobre os olhos."
Esta cena foi o início de uma longa e terrível febre cerebral, da qual, graças ao cuidado dedicado e incessante do seu marido, Catharine recuperou a vida, mas mal o seu juízo. Este ficou por um fio; um toque poderia fixá-lo do lado da saúde ou da loucura. Só no início desta febre é que a fuga de Isabella foi descoberta. O seu irmão estava demasiado preocupado com a doença da sua mulher para se sentir tão desolado como Heathcliff esperava. Não foi violento contra a sua irmã, nem sequer zangado; apenas, com a persistência suave e constante da sua natureza, recusou manter qualquer comunicação com a mulher de Heathcliff. Mas quando, no início da recuperação de Catharine, Ellen Dean recebeu uma carta de Isabella, declarando a extrema miséria da sua vida em Wuthering Heights, onde Heathcliff era agora senhor, Edgar Linton concedeu de boa vontade à criada permissão para ir ver a sua irmã.
Ao chegar a Wuthering Heights, ela descobriu que aquela herdade, outrora abundante, estava gravemente arruinada e deteriorada por anos de dissipação sem poupança; e Isabella Linton, já metamorfoseada numa desleixada pálida e apática, de espírito quebrantado e tez desbotada. Como um meio agradável de entreter a sua esposa e a sua antiga criada, Heathcliff discursou sobre o seu amor por Catharine e sobre a sua convicção de que ela não podia realmente importar-se com Edgar Linton.
"'Catharine tem um coração tão profundo quanto o meu: o mar poderia ser tão facilmente contido naquele bebedouro para cavalos, como toda a sua afeição monopolizada por ele. Tola! Ele é quase um grau menos querido para ela do que o seu cão ou o seu cavalo. Não está nele a capacidade de ser amado como eu. Como pode ela amar nele o que ele não tem?'"
Nelly Dean, sem ser impedida pela visão da miséria de Isabella, ou pela memória dos males que o seu patrão já sofrera por parte deste estimável vizinho, foi finalmente persuadida a levar uma carta dele para a frágil e moribunda Catharine, marcando um encontro. Pois Heathcliff insistia que não tinha desejo de causar distúrbios, ou de exasperar o Sr. Linton, mas apenas de ver a sua antiga companheira de brincadeiras novamente, para saber pelos seus próprios lábios como ela estava, e se em algo a poderia servir.
A carta foi levada e entregue; o encontro aconteceu num domingo, quando toda a criadagem, exceto Ellen Dean, estava na igreja. Catharine, pálida, apática, mas mais bela do que nunca na sua confusão mental e fraqueza corporal; Heathcliff, violento no desespero, vendo a morte na face dela, alternadamente censurando-a ferozmente por lhe causar tanto sofrimento, e acariciando ternamente o rosto alterado e moribundo. Nunca houve cena de amor tão estranha. Não é uma cena para citar, não se destaca pelas suas passagens eloquentes ou pela beleza de frases casuais, mas pela sua paixão sustentada, desesperada, pura, terrível. Deve ser lida na sua sequência e na sua totalidade. Nem consigo imaginar qualquer despedida mais terrível, mais penetrante na sua angústia do que esta. Romeu e Julieta despedem-se; mas conheceram-se apenas durante uma semana. Não há cena que Heathcliff possa contemplar na qual não tenha brincado com Catharine: e, agora que ela está a morrer, ele não pode velar com ela. Troilo e Créssida despedem-se; mas Créssida é falsa e Troilo ainda tem o seu país. Que país tem Heathcliff, o proscrito, sem nome, o aventureiro? António e a sua Duquesa; mas eles pertenceram um ao outro e foram felizes; estes dois estão eternamente separados. A sua paixão é apenas intensificada pela sua absoluta liberdade de desejo; mesmo o perverso e desesperado Heathcliff não tem um amor ignóbil por Catharine; tudo o que pede é que ela viva, e que ele a possa ver; que ela possa ser feliz, mesmo que seja com Linton. "Eu nunca o teria banido da companhia dela, enquanto ela desejasse a dele", afirma Heathcliff, e agora ela está louca de dor e a morrer. A consciência das suas naturezas tensas e frustradas, além disso, torna-nos mais pesarosos pelo facto de terem de se separar. Se tivesse sobrevivido, Romeu teria sido feliz com Rosalinda, afinal; provavelmente Julieta ter-se-ia casado com Páris. Mas onde irá Heathcliff amar novamente, o pervertido, moroso e brutalizado Heathcliff, cuja única ternura humana foi o seu amor pela criatura caprichosa, viva e bela, agora atordoada, agora miserável, agora a morrer nos seus braços? A própria lembrança da sua violência e crueldade torna mais terrível o espetáculo deste homem, sentado com o seu amor moribundo, em silêncio; os seus rostos escondidos um contra o outro, e lavados pelas lágrimas um do outro.
Finalmente separaram-se: Catharine inconsciente, semimorta. Nessa noite, a sua criança pequena, de sete meses, nasceu; nessa noite, a mãe morreu, inefavelmente mudada da criatura brilhante e imperiosa que entrara naquela casa como um reino, há menos de um ano. Ao seu lado, na câmara escurecida, o seu marido jazia, exausto de angústia. Lá fora, batendo com a cabeça contra as árvores num frenesim de Berserker com o destino, Heathcliff enfurecia-se, inconsolável.
"'Os seus sentidos nunca retornaram: ela não reconheceu ninguém desde o momento em que a deixou', disse eu. 'Ela jaz com um doce sorriso no rosto, e as suas últimas ideias divagaram de volta aos dias agradáveis do início. A sua vida encerrou-se num sonho suave — que ela acorde com a mesma bondade no outro mundo!'
"'Que ela acorde em tormento!' gritou ele, com uma veemência assustadora, batendo com o pé e gemendo num paroxismo de paixão incontrolável. 'Porquê, ela é uma mentirosa até ao fim! Onde está ela? Não ali — não no céu — não pereceu — onde? Oh! disseste que não te importavas nada com os meus sofrimentos. E eu rezo uma oração. Repito-a até que a minha língua endureça. Catharine Earnshaw, que tu não descanses enquanto eu estiver vivo. Disseste que eu te matei — assombra-me então! Os assassinados assombram os seus assassinos, acredito. Sei que fantasmas vaguearam na terra. Esteja comigo sempre — tome qualquer forma — leve-me à loucura! apenas não me deixe neste abismo onde não consigo encontrar-te! Oh, Deus, é inefável! Não consigo viver sem a minha vida. Não consigo viver sem a minha alma.'
"Ele bateu com a cabeça contra o tronco nodoso; e, levantando os olhos, uivou, não como um homem, mas como uma besta selvagem sendo provocada até à morte com facas e lanças. Observei várias manchas de sangue na casca da árvore, e a sua mão e testa estavam ambas manchadas; provavelmente a cena que presenciei foi a repetição de outras encenadas durante a noite. Quase não despertou a minha compaixão, deixou-me horrorizada."
A partir deste momento, uma loucura lenta e insidiosa trabalhou em Heathcliff. Quando estava no seu auge, ele não era feroz, mas estranhamente silencioso, quase sem respirar; contido, como uma pessoa que prende a respiração para ouvir algum som que ainda não foi ouvido, como um homem que esforça os olhos para ver o ponto no horizonte que surgirá no momento seguinte, no instante seguinte, e crescerá até se tornar o navio que traz o seu tesouro para casa. "Quando eu me sentava na casa com Hareton, parecia que ao sair a encontraria; quando caminhava pelas charnecas, encontrá-la-ia a chegar. Quando saía de casa, apressava-me a regressar; ela devia estar em algum lugar em Heights, eu tinha a certeza; e quando dormia no seu quarto — fui expulso de lá. Não conseguia deitar-me lá; pois no momento em que fechava os olhos, ela estava ou fora da janela, ou a deslizar os painéis, ou a entrar no quarto, ou até a descansar a sua querida cabeça na mesma almofada, como fazia quando criança; e eu tinha de abrir as pálpebras para ver. E assim abria-as e fechava-as cem vezes por noite para ser sempre desapontado. Era uma forma estranha de matar, não por polegadas, mas por frações de fios de cabelo, para me enganar com o espectro de uma esperança durante dezoito anos." Esta mania de expectativa, esticando os nervos até ao seu limite máximo, relaxava às vezes; e então Heathcliff era perigoso. Quando cheio com o pensamento de Catharine, o mundo era-lhe indiferente; mas quando esta memória possessiva diminuía um pouco que fosse, ele lembrava-se de que o mundo era o seu inimigo, tinha-o enganado em relação a Catharine. Então a avareza, a ambição, a vingança, entravam na sua alma, e o seu último estado era pior que o primeiro. Cruel, com a crueldade insana, a mania de sangue de um Ezzelin, ele nunca foi; as suas crueldades tinham um propósito, os sofrimentos das vítimas eram um detalhe, não um fim. No entanto, algo do caráter daquele déspota, refinado para torturar a mente e não a carne, casto, cruel, avarento de poder, algo daquela morbidez meridional no crime, distingue Heathcliff dos vilões das tragédias inglesas modernas. Colocado no Renascimento italiano, com Cyril Tourneur como cronista, Heathcliff não teria despertado a explosão de indignação incrédula que saudou a sua aparição num romance do século XIX.
Pouco depois do nascimento da jovem Catharine, Isabella Heathcliff escapou do seu marido para o Sul de Inglaterra. Ele não fez qualquer tentativa de a seguir, e na sua nova casa ela deu à luz um filho, Linton — o fruto da timidez e do ódio, do medo e da repulsa — "desde o início ela referiu que ele era uma criatura doentia e rabugenta." Entretanto, a pequena Catharine cresceu como a própria luz da sua casa, uma criatura requintada com a natureza suave e constante do seu pai, inspirada por uma centelha do fogo da sua mãe e iluminada por um lampejo do seu capricho errático. Ela tinha os belos olhos escuros dos Earnshaws e a pele clara dos Lintons, traços regulares e cabelos amarelos encaracolados. "Essa capacidade de ligações intensas lembrava-me a sua mãe. Ainda assim, ela não se parecia com ela; a sua raiva nunca era furiosa; o seu amor nunca era feroz; era profundo e terno." Cathy era, na verdade, uma criatura encantadora, embora de natureza menos apaixonada e estranha que Catharine Earnshaw, não feita para ser amada de forma tão selvagem nem tão profundamente desconfiada.
Edgar, tornado um completo eremita, dedicou-se à sua filha, que passava uma vida tão feliz e isolada como uma princesa num conto de fadas, raramente aventurando-se fora dos limites do parque e nunca sozinha. Edgar nunca tinha esquecido a sua tristeza pela morte da sua jovem esposa; ele amava a sua memória com constante firmeza. Se — e penso que podemos — se admitirmos que todo o autor tem alguma qualidade especial com a qual, em maior ou menor grau, dotou todos os seus filhos — se concedermos que as pessoas de Shakespeare são todas meditativas, até a vivaz Rosalinda e o palhaço Dogberry — se permitirmos que todos os nossos conhecidos em Dickens são um pouco autoconscientes, em George Eliot conscienciosos a tal ponto que até Tito Melema sente remorso por uma conduta que, dado o seu período e o seu caráter, lhe teria dado mais naturalmente satisfação — então devemos admitir que a marca especial de Emily Bronte é a constância. Constância apaixonada e insana em Heathcliff; perversa, mas intensa na Catharine mais velha; firme e santa em Edgar Linton; até a dura e limitada Ellen Dean; até Joseph, o fariseu hipócrita, são constantes até à morte. O selvagem Hindley Earnshaw bebe até à morte por pesar ao perder a sua esposa tuberculosa; Hareton ama até ao fim o homem que usurpou o seu lugar, o degradou, o alimentou com golpes e exações: e é a constância na ausência que amarga e adoece a jovem Catharine. Até Isabella Heathcliff, fraca como é, não é volúvel. Até Linton Heathcliff, que, de todas as personagens da ficção, pode partilhar com Barnes Newcome a má eminência de ser supremamente indigno de amor, até ele ama a sua mãe e Catharine, e, à sua maneira egoísta, ama-as até ao fim.
Os anos passaram, nada aconteceu, exceto que Hindley Earnshaw morreu, e Heathcliff — a quem cada jarda tinha sido hipotecada, tomou posse do lugar; Hareton, que deveria ter sido o primeiro cavalheiro na vizinhança, "sendo reduzido a um estado de total dependência do inimigo inveterado do seu pai, vive como um criado na sua própria casa, privado das vantagens de um salário, totalmente incapaz de se corrigir devido à sua falta de amigos, e à sua ignorância de que foi injustiçado."
Os anos sem eventos passaram até que Catharine tivesse treze anos, quando a Sra. Heathcliff morreu, e Edgar foi ao Sul de Inglaterra buscar o seu filho. A pequena Cathy, durante a ausência do seu pai, tornou-se impaciente com o seu confinamento ao parque; não havia ninguém para a escoltar pelas charnecas, então um dia ela saltou a cerca, perdeu-se e foi finalmente abrigada em Wuthering Heights, lugar de que e de todos os seus habitantes ela tinha sido mantida em total ignorância. Ela prometeu manter a visita em segredo do seu pai, para que ele não despedisse Ellen Dean. Ficou muito indignada ao ser informada de que o rude Hareton era seu primo; e quando naquela noite Linton — delicado, bonito, rabugento Linton — chegou, ela preferiu infinitamente o seu parentesco.
Na manhã seguinte, ela descobriu que Linton tinha ido embora, pois o seu pai tinha mandado chamá-lo para Wuthering Heights; Edgar Linton, contudo, não disse à sua filha que o seu primo estava tão perto, ele não permitiria por nada deste mundo que ela cruzasse o limiar daquela casa terrível. Mas um dia, Cathy e Ellen Dean encontraram Heathcliff nas charnecas, e ele meio persuadiu, meio forçou-as a vir a casa e ver o seu filho, tornado uma criatura mais desprezível, choramingona e doentia, meio violenta, meio aterrorizada. O pequeno e bondoso coração de Cathy não viu os defeitos, ela apenas viu que o seu primo estava doente, infeliz, a precisar dela; ela foi facilmente atraída, num inverno, quando o seu pai e Ellen Dean estavam ambos doentes, para um noivado secreto com este primo, o único rapaz, exceto o rude Hareton, que ela tinha visto até então.
Todas as noites, quando o seu dia de cuidar estava terminado, ela cavalgava até Wuthering Heights para mimar e acariciar Linton. Heathcliff fez tudo o que podia para favorecer o plano. Ele sabia que o seu filho estava a morrer, apesar de todos os cuidados tomados para preservar o herdeiro de Wuthering Heights e Thrushcross Grange. É verdade que Cathy tinha um direito rival; casá-la com Linton seria assegurar o título, conseguir uma esposa para o seu filho moribundo para preservar a linhagem de herança, e certamente partir o coração de Edgar Linton. O amor de Heathcliff pela vingança e o amor pelo poder combinaram-se para tornar o plano algo pelo qual lutar e desejar.
Ele ficou desesperado à medida que o rapaz se tornava cada vez mais fraco; era demasiado provável que ele morresse antes do seu tio moribundo e, se Edgar Linton sobrevivesse, Thrushcross Grange estaria perdida para Heathcliff. Como último recurso, obrigou o filho a escrever a Edgar Linton a implorar por uma entrevista em terreno neutro. Edgar, ignorante do verdadeiro caráter de Linton Heathcliff e não vendo motivo para que Cathy não se casasse com o seu primo se ambos se amassem, permitiu que Ellen Dean levasse a sua pequena senhora, agora com dezassete anos, para as charnecas onde Linton Heathcliff deveria encontrá-los. Cathy relutava em deixar o pai, mesmo que por uma hora, ele estava tão doente; mas disseram-lhe que Linton estava a morrer, por isso armou-se de coragem para ir mais uma vez às charnecas: encontraram Linton num estado estranho, aterrorizado, exausto, abatido, fazendo um amor espasmódico a Cathy como se fosse uma lição que fora espancado para aprender. Ela desejou regressar, mas o rapaz declarou-se, e parecia, demasiado doente para voltar sozinho. Acompanharam-no até casa, em Heights, e Heathcliff persuadiu-os a entrar, dizendo que iria buscar um médico para o seu filho doente. Mas, assim que entraram na casa, ele mostrou as suas cartas. As portas foram trancadas; os criados e Hareton estavam fora. Nem lágrimas nem súplicas o fariam deixar partir as suas vítimas até que Catharine fosse esposa de Linton e, assim, disse-lhe ele, até que o seu pai tivesse morrido na solidão. Mas, cinco dias depois, Catharine Linton, agora Catharine Heathcliff, conseguiu escapar a tempo de consolar as horas de agonia do seu pai com uma falsa crença na sua felicidade; uma mentira nobre, pois Edgar Linton morreu contente, beijando a face da filha, ignorante da miséria que a esperava.
No dia seguinte, Heathcliff veio a Grange para recapturar a sua presa, mas agora Catharine não se importava; morto o pai, ela recebeu todas as afrontas e picadas do destino com uma apatia duradoura; era apenas a ela que eles feriam. Poucos dias depois, Linton morreu durante a noite, sozinho com a sua noiva. Após um ano de miséria absoluta e solidão, a sorte de Catharine foi um pouco aliviada pelo facto de o Sr. Heathcliff preferir Ellen Dean para o posto vago de governanta em Wuthering Heights.
Pois a presença absorvente de Catharine Earnshaw tinha quase isolado Heathcliff da inimizade com o mundo; ele raramente era violento agora. Tornou-se ainda mais avesso à sociedade, sentando-se sozinho, comendo pouco, caminhando frequentemente durante toda a noite. O seu rosto mudou, e o olhar de ódio ensimesmado deu lugar a uma expressão ainda mais alarmante — um aspeto de alegria excitada, selvagem e antinatural. Não se queixava de nenhuma doença, contudo estava muito pálido, exangue, "e os seus dentes visíveis de vez em quando num tipo de sorriso; o seu corpo a tremer, não como alguém treme com frio ou fraqueza, mas como vibra uma corda esticada — uma forte vibração, mais do que um tremor". Por fim, a sua absorção misteriosa, a tensão da sua expectativa, tornou-se tão intensa que ele não conseguia comer. Animado pela fome, sentava-se para a refeição, depois saltava subitamente, como se visse algo, lançava um olhar à porta ou à janela e saía. Cansado e pálido, não conseguia dormir; mas deixava a cama apressadamente e saía para caminhar pelo jardim até ao romper do dia. "'Não é culpa minha', respondia ele, 'que eu não possa comer ou descansar. Garanto-vos que não é por qualquer plano deliberado. Farei ambas as coisas assim que me for possível. Mas poderiam pedir a um homem que se debate na água para descansar a um braço de distância da margem. Tenho de lá chegar primeiro e depois descansarei. Quanto a arrepender-me das minhas injustiças, não cometi nenhuma injustiça e não me arrependo de nada. Estou demasiado feliz, e contudo não estou suficientemente feliz. A felicidade da minha alma mata o meu corpo, mas não se satisfaz a si mesma.'"
Entretanto, os esquemas de uma vida, os propósitos profundamente traçados da sua vingança, desmoronavam-se sem serem notados à sua volta, como um castelo de cartas. O seu filho estava morto. Hareton Earnshaw, o verdadeiro herdeiro de Wuthering Heights, e Catharine, a verdadeira herdeira de Thrushcross Grange, tinham-se apaixonado um pelo outro. Um final inesperado e pouco provável; contudo, o mais natural. Pois Catharine era mimada, culta, bela, orgulhosa — mas muito afetuosa e de coração terno: e Hareton rude, grosseiro, ignorante, feroz; mas verdadeiro como o aço, leal, e com um coração muito amoroso e fiel, constante até para com o homem que, deliberadamente, o brutalizara e o mantivera na servidão. "'Hareton gosta de mim diabolicamente!' ria Heathcliff. 'Vocês hão de admitir que superei Hindley nesse aspeto. Se o vilão morto pudesse erguer-se da sepultura para me insultar pelos erros cometidos contra a sua descendência, eu teria a diversão de ver essa mesma descendência lutar contra ele, indignada por ele se atrever a atacar o único amigo que tem no mundo.'"
"'Ele nunca será capaz de emergir do seu abismo de grosseria e ignorância'", exclamou Heathcliff em exultação; mas o amor pode fazer tanto quanto o ódio. O próprio Heathcliff, um boçal tão grande aos vinte anos, conseguiu livrar-se da sua rusticidade para se vingar dos seus inimigos; o amor de Catharine Linton inspirou Hareton a um esforço igualmente grande. Esta estranha e rude história de amor, tão asperamente doce como bagas silvestres, tão seca e rígida na sua beleza como ramos de urze púrpura, é o interesse mais puramente humano, o único interesse terno de Wuthering Heights. É o anticlímax necessário e legítimo para o triunfo de Heathcliff, a reafirmação final da preeminência do bem. "O bem conquistado e o mal conquistador" é muitas vezes lamentavelmente verdadeiro; mas não é uma lei eterna, apenas um acidente demasiado frequente. Ao perceber isto, Emily Brontë mostra a desilusão final de Heathcliff, que, sem família nem amigos, foi no fim compelido a ver a propriedade que tão cruelmente acumulou descender para os seus inimigos hereditários. E ele foi derrotado, não tanto pelos assuntos amorosos de Cathy e Hareton, mas por esta reação súbita à violência, este afrouxamento das cordas do coração, que o deixou sem forças e anémico, uma presa de uma monomania crescente. Ele tinha passado a vida a esmagar as bagas para a sua vingança, a misturar aquela bebida sombria e enlouquecedora; e quando o momento final chegou, quando a levou aos lábios, o desejo tinha-o abandonado, ele não tinha gosto por ela.
"Não cometi injustiças", dizia Heathcliff; e embora a sua vida tenha sido animada pelo ódio, pela vingança e pela paixão, reflitamos sobre quem foram as suas vítimas. Não o velho Squire que o acolheu primeiro; pois o velho nunca viveu para conhecer a baixeza do seu protegido, e apenas derivou conforto da sua presença. Catharine Earnshaw sofreu, não pelo caráter do seu amante, mas porque casou com um homem de quem apenas gostava, de olhos abertos para o facto de que, ao fazê-lo, estava a prejudicar o homem que amava. "Tu mereces isto", disse Heathcliff, quando ela estava a morrer. "Tu mataste-te a ti mesma. Porque a miséria e a degradação e a morte, e nada do que Deus ou Satanás pudessem infligir, nos teriam separado: tu, por tua própria vontade, fizeste-o." Não a moralidade de Mayfair, mas uma cujas lições, bastante severas e sombrias, devem ser sempre dolorosamente patentes para tais espíritos errantes e apaixonados. A terceira vítima de Heathcliff, então, ou melhor, a primeira, foi Hindley Earnshaw. Mas se Hindley não tivesse já sido um jogador e um bêbado, um homem violento e sem alma, Heathcliff não poderia ter ganho nenhum poder sobre ele. Hindley acolheu Heathcliff, como Fausto acolheu o Diabo, porque ele podia satisfazer os seus desejos malignos; porque, na sua presença, não havia necessidade de recordar a vergonha, nem os elevados propósitos, nem a bondade abandonada; e quando o fim chegar, e ele perder a sua alma, que se lembre de que houve dois nesse negócio.
Isabella Linton foi a sofredora mais digna de pena. Vítima mal lhe podemos chamar, ela que não necessitou de engano, mas cortejou o seu próprio destino. E, afinal, um casamento desejado principalmente para humilhar uma cunhada e mostrar que a noiva era uma pessoa de importância, não foi intoleravelmente recompensado por três meses de miséria miserável; depois de tanto, é-lhe permitido escapar. De Edgar Linton, como vimos, os golpes de Heathcliff caíram ao lado, inofensivos, como os golpes do carrasco sobre um mártir lendário. Ele nunca soube quão secundário era o lugar que ocupava no coração da sua esposa, ele nunca soube da miséria da sua única filha — miséria que em breve se transformaria em alegria. Viveu e morreu, paciente, feliz, confiante, não visitado pela violência e fúria que tinham o seu centro tão perto do seu lar.
A jovem Catharine e Hareton sofreram apenas um mal temporário; a miséria que suportaram juntos ensinou-os a amar; a vara do tirano tinha florescido em rosas. E ele, solitário e paralisado de coração, consumindo a sua alma numa amarga solidão, viu os seus planos de vingança todos frustrados, tanta elaboração tão simplesmente contrariada; foi ele quem sofreu.
Ele sofria agora: e Catharine Earnshaw, que o ajudou à ruína com a sua deserção, e Hindley, que o perverteu pela opressão precoce, eles sofreram pelas suas mãos. Mas não os sem pecado, os constantes, os nobres; a miséria, no fim, afasta as suas névoas baças perante a luz de tais espíritos claros: [Grego: ta drasanti pathein].
"'É uma conclusão pobre, não é?' disse Heathcliff, 'uma terminação absurda para os meus esforços violentos. Consigo alavancas e picaretas para demolir as duas casas, e treino-me para ser capaz de trabalhar como Hércules, e quando tudo está pronto e ao meu alcance, descubro que a vontade de levantar uma telha de qualquer um dos telhados desapareceu.'"
* * * * *
"Há cinco minutos, Hareton parecia ser uma personificação da minha juventude, não um ser humano: senti por ele uma tal variedade de formas que teria sido impossível abordá-lo racionalmente. Em primeiro lugar, a sua semelhança surpreendente com Catharine ligava-o temivelmente a ela. Aquilo, contudo, que poderiam supor ser o mais potente para prender a minha imaginação é, na realidade, o menos: pois o que não está ligado a ela para mim? E o que não a recorda? Não posso olhar para o chão sem que as suas feições se desenhem nas lajes! Em cada nuvem, em cada árvore — enchendo o ar à noite e captada em vislumbres em cada objeto durante o dia — estou rodeado pela sua imagem. As faces mais comuns de homens e mulheres — os meus próprios traços — troçam de mim com uma semelhança. O mundo inteiro é uma coleção terrível de memorandos de que ela existiu, e que eu a perdi! Bem, o aspeto de Hareton era o fantasma do meu amor imortal; dos meus esforços selvagens para manter o meu direito; a minha degradação, o meu orgulho, a minha felicidade e a minha angústia —
"Mas é loucura repetir-te estes pensamentos: apenas para que saibas por que, com uma relutância em estar sempre sozinho, a sua companhia não é um benefício; é antes um agravamento do tormento constante que sofro; e contribui em parte para me tornar indiferente à forma como ele e a prima se dão. Já não lhes consigo dedicar qualquer atenção."
A doce e atrevida Catharine e o tímido e apaixonado Hareton davam-se muito bem um com o outro. Não me recordo de cena mais tocante e realista do que aquele primeiro namoro deles, numa tarde chuvosa, na cozinha onde Nelly Dean passa a ferro o linho. Hareton, amuado e infeliz, sentado ao pé da lareira, ferido por um tiro, mas ainda mais pelas múltiplas rejeições da bonita Cathy. Ela, com toda a sua impertinência, lânguida no tempo baço e húmido, tentando acalmá-lo com as mais doces graças avançadas. É estranho que, ao falar de 'Wuthering Heights', este belo episódio seja tão universalmente esquecido, e apenas a violência e a paixão de passagens mais terríveis associadas ao nome de Emily Brontë. Contudo, do forte sai o doce; e o melhor mel vem das secas flores de urze.
Entretanto, Heathcliff deixava-os continuar, assustando-os mais pelo seu estranho estado de abstração do que pela sua habitual ferocidade.
Ele já não lhes conseguia dedicar qualquer atenção. Durante quatro dias não conseguiu comer nem descansar, até que as suas faces ficaram encovadas e os seus olhos injetados de sangue, como uma pessoa que morre de fome e fica cega pela falta de sono.
Finalmente, numa manhã cedo, quando a chuva entrava pela treliça batida de Heathcliff, Nelly Dean, como uma boa dona de casa, entrou para a fechar. O senhor deve estar de pé ou fora, disse ela. Mas ao empurrar os painéis da cama fechada, encontrou-o lá, deitado de costas, os seus olhos abertos aguçados e ferozes; bastante imóvel, embora o seu rosto e garganta estivessem lavados pela chuva; bastante imóvel, com um olhar assustador e vívido de exultação sob as sobrancelhas, com lábios entreabertos e dentes brancos afiados que faziam uma careta — bastante imóvel e inofensivo agora; morto e rígido.
Morto, antes que qualquer vingança o tivesse alcançado para além dos lentos sofrimentos retributivos do seu próprio peito; morto, morto por demasiada esperança e uma alegria antinatural. Nunca antes um vilão teve um fim tão estranho; nunca antes um sofredor teve um tormento tão prolongado e sinistro, "iludido pelo espectro de uma esperança durante dezoito anos".
Nenhum castigo público ou autoritário. Hareton chorou apaixonadamente pelo seu tirano perdido, soluçando com amargura sincera e beijando o rosto sarcástico e selvagem que todos os outros evitavam contemplar. E a memória de Heathcliff foi sagrada, tendo no jovem que arruinou um defensor muito valente. Nem mesmo Catharine poderia alguma vez lamentar as suas maldades ao marido.
Nenhuma imprecação neste mundo ou no próximo; uma grande quietude envolve-o. A sua violência não foi forte suficiente para alcançar aquela paz final e manchar a sua completude. A [sua] sepultura fica ao lado da de Catharine, e perto da de Edgar Linton; sobre todas elas brota o mirtilo selvagem, e o musgo da turfa e a urze. Elas não se importam com a paixão, a doçura caprichosa, a bondade constante que jazem por baixo. É tudo um para elas e para as cotovias que cantam no alto.
"Demorei-me à volta das sepulturas sob aquele céu benigno; observei as traças a esvoaçar entre a urze e as campânulas, escutei o vento suave a respirar através da relva; e interroguei-me como poderia alguém imaginar sonos inquietos para os que dormem naquela terra quieta."
Assim termina a história de Wuthering Heights.
O mundo concorda agora em aceitar essa história como um grande e trágico estudo de paixão e tristeza, um retrato selvagem de tempestade e charneca, de bondade ultrajada e ingratidão. O mundo que coroou 'Rei Lear' com a imortalidade guarda uma coroa menor para 'Wuthering Heights'. Mas em 1848, os sons de triunfo que aclamaram o sucesso de 'Jane Eyre' não tiveram eco para a obra de Ellis Bell. Esse génio estranho, ensimesmado e pressagioso, intenso e estreito, foi ignorado, menosprezado. Um autor, de facto, numa crítica, Sydney Dobell, no Palladium, falou nobre e claramente sobre a energia e o génio deste livro; mas quando esse clarim de fama finalmente soou, Emily não ouviu. Dois anos antes tinham-na deposto no túmulo.
Nenhum elogio para Ellis Bell. É estranho pensar que, das duas irmãs de Charlotte, foi Anne quem teve o único curto gole de fama estimulante. Quando 'O Inquilino de Wildfell Hall' estava em provas, o editor de Ellis e Acton vendeu-o a uma firma americana como a última e melhor produção do autor de 'Jane Eyre' e 'Wuthering Heights'. Estranho que até um editor pudesse cometer tal erro, mesmo para o seu próprio interesse. No entanto, este erro causou confusão suficiente em Cornhill para tornar necessário que a famosa Charlotte, acompanhada por Anne, na sua qualidade de génio secundário e confundível, fosse à cidade explicar a sua existência separada. Não havia necessidade de incomodar a autora de 'Wuthering Heights', aquela obra bruta de uma mão aprendiz, sobre cuja reprodução nenhum editor discutiu; tais honras problemáticas não eram para ela.
"Contudo", diz Charlotte, "não devo ser entendida como fazendo destas coisas motivo de censura ou queixa; não ouso fazê-lo; o respeito pela memória da minha irmã proíbe-mo. Por ela, qualquer manifestação queixosa teria sido considerada uma fraqueza indigna e ofensiva."
Quando, de facto, o murmúrio da queixa passou por aqueles lábios pálidos e inspirados? O fracasso não lhe pode ter chegado com nenhum choque de surpresa aterrada. Todos os seus planos tinham falhado; o sucesso de Branwell, a escola, os seus poemas: a sua vontade forte não os levou ao sucesso.
Mas, embora não pudesse trazer sucesso, podia apoiá-la contra o desespero. Quando esta última, mais querida e mais forte obra sua foi pesada nas balanças do mundo e considerada insuficiente, ela não suspirou, não se resignou nem pensou que a batalha tinha terminado; ela teria lutado novamente.
Mas a batalha tinha terminado, terminada antes que a vitória fosse declarada. Sem mais fracassos, sem mais esforços para aquele espírito valente. Foi em julho que Charlotte e Anne regressaram de Londres, em julho quando a urze está em botão; quase nenhum ramo seco restava em dezembro para colocar no leito de morte de Emily.
CAPÍTULO XVI.
'SHIRLEY.'
Enquanto 'Wuthering Heights' ainda estava nas mãos dos críticos, a irmã mais afortunada de Emily Brontë estava ocupada com outro romance. Este livro nunca alcançou o sucesso constante da sua obra-prima, 'Villette', nem encontrou o furor que saudou o primeiro aparecimento de 'Jane Eyre'. É, de facto, inferior a qualquer uma das obras; um estudo muito calmo da vida em Yorkshire, quase mesquinho no seu interesse por disputas eclesiásticas, quase absurdo na inadequação feminina dos seus heróis. E, contudo, 'Shirley' tem uma graça e beleza próprias. Isto deriva do encanto das suas heroínas — Caroline Helstone, um retrato adorável em caráter da amiga mais querida de Charlotte, e a própria Shirley, um retrato imaginário de Emily Brontë.
Emily Brontë, mas sob condições muito diferentes. Já não pobre, já não contrariada, já não familiarizada com a miséria e ameaçada por uma morte prematura; não assim, mas como uma irmã amorosa gostaria de a ter visto, bela, triunfante, a criança mimada da sorte feliz. Contudo, nestas circunstâncias alteradas, Shirley mantém a sua semelhança com a irmã trabalhadora de Charlotte; o disfarce, que talvez confunda aqueles que, como a Sra. Gaskell, "não têm uma impressão agradável de Emily Brontë", é facilmente penetrado por aqueles que a amam. Sob os adornos patéticos tão amorosamente concedidos, sob os esplendores emprestados de mil libras por ano, um rosto adorável, uma mansão ancestral, reconhecemos a nossa heroína resistente e obstinada, e sorrimos um pouco tristemente perante a ineficiência desta mascarada de grandeza, tão indiferente e desnecessária para ela. Reconhecemos a irmã de Charlotte; mas não a autora de 'Wuthering Heights'. Ao longo destes anos discernimos que a brilhante herdeira é uma pessoa de importância infinitamente inferior à da filha do vigário, mal vestida e sobrecarregada de trabalho. Shirley imperial, não há necessidade de agitares o teu cetro majestoso, já nos curvámos perante ele há muito tempo, sem sermos cegados; e todos os seus esplendores ilusivos não são tão potentes como aquela pena de ganso gasta que costumavas manejar na cozinha movimentada da reitoria do teu pai.
Contudo, sem esse retrato admirável, teríamos pouca garantia para a nossa conceção do caráter de Emily Brontë. A sua obra é singularmente impessoal. Conclui-se dela que ela amava as charnecas, que desde a juventude o fardo de uma fantasia trágica pesava sobre ela; que tinha visto o rosto da tristeza de perto, encontrando aquele olhar de Medusa com uma fortaleza rígida e desafiante. Tanto aprendemos; mas isto é muito pouco — uma verdade unilateral e, portanto, quase não é uma verdade de todo.
O retrato de Charlotte dá-nos outra visão, e felizmente ainda restam alguns vivos dos não numerosos amigos de Emily Brontë. Cada traço, cada reminiscência pinta em linhas mais escuras e claras a impressão de caráter que 'Shirley' nos deixa. Shirley é, de facto, a Emily exterior, a Emily que podia ser encontrada e conhecida há trinta e cinco anos, apenas um pouco polida, com as arestas um pouco suavizadas, pelo cuidado ansioso de uma irmã. A Emily mais nobre, que sofre profundamente, que medita, que tem pena, que cria, só pode ser encontrada numa palavra aqui e ali, numa memória ocasional, numa resposta feliz, recolhida das páginas da sua obra, e na lembrança amorosa dos seus amigos; mas estes restos são tão diretos, invulgares, pessoais e característicos, este esboço é de um tipo tão decidido, que nos afeta mais distintamente do que muitos retratos pontilhados e envernizados.
No entanto, para saber como Emily Brontë se apresentava, se movia, se sentava e falava, ainda recorremos a "Shirley". Uma multidão de memórias corroborantes surge ao virar das páginas. Quem, senão Emily, era sempre acompanhada por um "cão bastante grande, forte e de aspeto feroz, muito feio, sendo de uma raça entre mastim e buldogue"? É-nos tão familiar como o leão de Una; não precisamos que nos digam, Currer Bell, que ela se sentava sempre no tapete da lareira, à noite, com a mão sobre a cabeça dele, a ler um livro; lembramo-nos bem de quão necessário era conquistá-lo como aliado para ganhar o afeto dela. Não nos informou uma amiga querida que ela obteve o coração de Emily pela primeira vez ao encontrar, sem medo ou recuo aparente, os enormes saltos de boas-vindas demonstrativas de Keeper?
Certamente que "Capitã Keeldar", com os seus ares de cavalheiro, o seu desdém pronto, o seu amor pela independência, traz de volta com vívido brilho a memória da nossa velha conhecida, "a Major". Reconhecemos aquela magreza pálida, mascarando uma força elástica que parece impenetrável à fadiga — e suspiramos, recordando uma passagem nas cartas de Anne, que regista como, quando o reumatismo, as tosses e a gripe transformavam a Vigararia de Haworth num hospital durante as visitas do temido vento de leste, apenas Emily observava e se perguntava por que motivo alguém haveria de estar doente — "ela considera-o um vento muito pouco interessante; não afeta o seu sistema nervoso". Conhecemo-la, também, pela sua bondade para com os seus inferiores. Cem pequenas histórias povoam as nossas mentes. Iguarias inesquecíveis feitas pelas suas próprias mãos para o amigo do seu criado, visitas ainda lembradas da priminha de Martha à cozinha, onde a Srta. Emily trazia a sua própria cadeira para a rapariga doente; anedotas sobre o seu levantar cedo durante muitos anos para fazer o trabalho mais árduo, porque o primeiro criado era demasiado velho e o segundo demasiado novo para se levantar tão cedo; e ela, Emily, era tão forte. Cem pequenos sacrifícios, mais caros à lembrança do que a bolsa aberta de Shirley, despertam nos nossos corações e lembram-nos que, afinal, Emily era a heroína mais nobre e adorável das duas.
Quão característico, também, o toque que a torna desdenhosa de tudo o que é dominante, dogmático, declaradamente masculino nos homens do seu conhecimento; e a própria gentileza para com o poético Philip Nunnely, o alegre e juvenil Sr. Sweeting, o sentimental Louis, o primo coxo e devoto que a ama de uma forma patética e canina. Essa coragem, também, era dela. Não apenas a carne de Shirley, mas a de Emily, sentiu as presas dilacerantes do cão raivoso a quem ela oferecera caridosamente comida e água; não apenas a carne de Shirley, mas a sua, recuou perante a ponta escarlate e brilhante do ferro italiano com que ela cauterizou prontamente a ferida, indo rapidamente para a lavandaria e operando-se a si mesma sem dizer uma palavra a ninguém.
Emily, também, sozinha e desarmada, puniu o seu grande buldogue pelas suas indiscrições domésticas, desafiando um aviso expresso para não bater ao bruto, com receio de que o seu temperamento incerto o levasse a saltar à garganta de quem o atingisse. E foi ela quem tratou as nódoas negras dele. Esta proeza e ternura de Shirley é uma velha história para nós.
E o amor de Shirley pelo vestuário pitoresco e esplêndido não deixa de ter um eco nas nossas memórias. Foi Emily quem, fazendo compras em Bradford com Charlotte e a sua amiga, escolheu um tecido branco com um padrão de trovões e relâmpagos lilás, para horror mal dissimulado das suas companheiras mais sóbrias. E ela ficava bem nele; uma criatura alta e ágil, com uma graça meio régia, meio indomável nos seus movimentos súbitos e flexíveis, usando com negligência pitoresca as suas amplas saias salpicadas de púrpura; o rosto claro e pálido; o seu cabelo castanho muito escuro e abundante preso atrás com um pente espanhol; os seus grandes olhos cinzentos-avelã, ora cheios de um humor indolente e indulgente, ora cintilantes com significados ocultos, ora avivados em chama por um lampejo de indignação, "um raio vermelho a perfurar o orvalho".
Ela também tinha o gosto de Shirley pela gestão de negócios. Lembramo-nos do desassossego de Charlotte quando Emily insistiu em investir os legados da Srta. Branwell em ações da York and Midland Railway. "Ela geriu, de uma forma extremamente elegante e capaz, por mim, quando eu estava em Bruxelas e impedida pela distância de cuidar dos nossos interesses; portanto, deixá-la-ei continuar a gerir e assumirei as consequências. Desinteressada e enérgica ela certamente é; e, se não for tão tratável ou aberta à convicção como eu desejaria, devo lembrar-me de que a perfeição não é o lote da humanidade e, desde que possamos encarar aqueles a quem amamos, e a quem estamos estreitamente ligados, com uma estima profunda e nunca abalada, é pouco que eles nos aborreçam ocasionalmente com o que nos parecem noções obstinadas e irracionais."[28]
Assim fala a bondosa irmã mais velha, a autora de "Shirley". Mas há alguns que nunca amarão nem o tipo nem o retrato. Sydney Dobell disse uma meia-verdade amarga quando, ignorante da verdadeira identidade de Shirley, declarou: "Só temos de imaginar Shirley Keeldar pobre para imaginá-la repulsiva." O orgulho silenciado, a generosidade frustrada, o poder não declarado, a paixão contida de tal natureza não são qualidades que tocam o mundo quando as encontra numa mulher obscura e simples. Mesmo agora, muitos não amarão uma heroína tão independente da sua estima. Irão ressentir-se da franqueza imperiosa, do desdém em agradar, da força inflexível, da ausência de ternuras triviais e submissas, pelas quais ela compensa com tamanha compaixão humana e generosa. "Na natureza de Emily", diz a sua irmã, "os extremos de vigor e simplicidade pareciam encontrar-se. Sob uma cultura não sofisticada, um gosto artificial e um exterior sem pretensões, jazia um poder e um fogo que poderiam ter informado o cérebro e acendido as veias de um herói; mas ela não tinha sabedoria mundana — os seus poderes eram inadaptados aos negócios práticos da vida — ela falharia ao defender os seus direitos mais manifestos, ao consultar a sua vantagem legítima. Um intérprete deveria ter estado sempre entre ela e o mundo. A sua vontade não era muito flexível e geralmente opunha-se ao seu interesse. O seu temperamento era magnânimo, mas quente e súbito; o seu espírito, totalmente inabalável."[29]
Assim fala a inspirada intérprete de Emily, cujo génio não tornou a sua irmã popular. "Shirley" não é um favorito do público moderno. Emily Brontë nasceu fora do seu tempo. Atena, liderando as ninfas na sua perseguição desenfreada pelas esporas rochosas do Olimpo, e parando em plena carreira para levantar nos seus braços os pequenos, tenros como o orvalho, ou as crias acidentalmente feridas da montanha, tê-la-ia escolhido como sua companheira de caça. Ou Brunhilda, a forte Valquíria, temendo o amor dos homens, cujo deleite é a batalha e os cumes selvagens das colinas, perdendo a sua imortalidade para proteger os indefesos e os fracos; ela teria reconhecido o parentesco desta irmã mais nova. Mas nós, modernos, não nos importamos com estas. As nossas heroínas são Julieta, Desdémona e Imogen, os nossos exemplos Dorothea Brooke e Laura Pendennis, mulheres cujo encanto é uma certa fragrância de afeto. "Shirley" é demasiado independente para o nosso gosto; e, quanto ao resto, estamos todos apaixonados por Caroline Helstone.
Desinteressada, obstinada, nobre Emily Brontë, nesta altura, enquanto a tua irmã mágica tecia para ti, com palavras douradas, uma teia de destino tão afortunada quanto os sonhos, as verdadeiras Nornas teciam uma mortalha mais pálida. Nunca havias de ver as coisas mais brilhantes da vida. O amor fraternal, a solidão livre, a criação não elogiada, haviam de permanecer as tuas alegrias mais pungentes. Nenhum toque de amor, nenhuma sugestão de fama, nenhuma hora de descanso, jazem para ti sobre os joelhos do Destino. Nem rosa nem louro serão lançados sobre a tua forma em caixão. Entretanto, a tua irmã escreve e sonha para Shirley. Terrível diferença entre as ideias e a verdade; maravilhosa magia do irreal para retirar o seu ferrão das feridas verdadeiras que suportamos!
Nem rosa nem louro depositaremos reverentemente em memória sobre o túmulo onde dormes; mas a flor que sempre foi tua, a urze selvagem e seca. Tu, que eras, nas palavras da tua irmã, "mourisca, selvagem e nodosa como uma raiz de urze", cresceste para a tua própria perfeição no baldio onde nenhum louro farfalha as suas folhas polidas, onde nenhuma rosa doce e frágil alguma vez se abriu no coração de junho. A tempestade e a escuridão do inverno, a terra virgem, os ventos cortantes de março, tê-las-iam morto completamente; mas tudo isto serviu para tornar a urze leve e forte, para tingir os seus sinos com um púrpura mais avermelhado, para encher as suas células com um mel de doçura mais pungente. O vento frio e a terra selvagem fazem a urze; ela não cresceria nos prados abrigados. E tu, se tivesses conhecido o destino que o amor teria escolhido, tu também não terias prosperado na tua plena floração. Uma outra matrona feliz e próspera do norte estaria morta. Mas agora tu vives, cantando ainda a liberdade, a alma imortal da coragem e da solidão, outra voz no vento, outra glória nos cumes das montanhas, Emily Brontë, a autora de "O Monte dos Vendavais".
NOTAS DE RODAPÉ:
[Nota de rodapé 28: Sra. Gaskell.]
[Nota de rodapé 29: 'Aviso Biográfico'. C. Brontë.]
CAPÍTULO XVII.
O FIM DE BRANWELL.
O outono do ano de 1848 foi tempestuoso e selvagem, com mudanças súbitas e frequentes de temperatura e um vento frio e penetrante. Aquelas lufadas geladas, rodopiando em torno da pequena vigararia cinzenta no seu topo de colina exposto, trouxeram consigo a doença. Anne e Charlotte definharam e enfraqueceram; Branwell, também, estava doente. A sua constituição parecia despedaçada por excessos que ele não tinha a resolução de abandonar. Muitas vezes dormia a maior parte do dia; ou, pelo menos, sentava-se a cochilar hora após hora numa letargia de fraqueza; mas, com a noite, esta apatia transformava-se em violência e sofrimento. "O papá e, por vezes, todos nós temos noites tristes com ele", escreve Charlotte nos últimos dias de julho.
No entanto, tão bem conhecia o pequeno agregado familiar as causas desta reversão, que nenhum perigo imediato foi suspeitado. Ele estava fraco, certamente, e o seu apetite falhava; mas os consumidores de ópio não são fortes nem famintos. Nem o próprio Branwell, nem os seus familiares, nem qualquer médico consultado no seu caso pensou que fosse de perigo imediato; parecia que esta vida lúgubre poderia continuar para sempre, marcando as suas horas por um perpétuo balanço e ressalto de excesso e sofrimento.
Durante este outono melancólico, o Sr. Grundy estava hospedado em Skipton, uma cidade a cerca de dezassete milhas de Haworth. Consciente do seu velho amigo, convidou Branwell para ser seu hóspede; mas o jovem moribundo estava demasiado fraco para fazer até aquela pequena viagem, embora ansiasse pela emoção da mudança. O Sr. Grundy ficou tão comovido com o tom miserável da carta de Branwell que viajou até Haworth para ver por si mesmo o que afligia o seu velho companheiro. Ficou muito chocado com a mudança. Pálido, abatido, trémulo, totalmente arruinado; não havia esperança para Branwell agora; ele tinha voltado a consumir ópio.
Tudo pela emoção, por uma variação ao seu sofrimento incessante. Fraco como estava, e mal conseguindo deixar a cama, ansiava piedosamente por uma nomeação de qualquer tipo, qualquer razão para deixar Haworth, para se livrar dos seus velhos pensamentos, qualquer posto em qualquer lugar, pelo amor de Deus, desde que fosse longe dos seus cochichos. Não teve de esperar muito.
Mais tarde, naquele frio e lúgubre setembro, o Sr. Grundy visitou novamente Haworth. Enviou à Vigararia por Branwell e ordenou o jantar e um fogo para o receber; a sala parecia acolhedora e quente. Enquanto o Sr. Grundy se sentava à espera do seu convidado, o Vigário foi introduzido. Ele, também, estava estranhamente alterado; muito da sua velha rigidez de maneiras tinha desaparecido; e foi com genuíno afeto que falou de Branwell, e quase com desespero que tocou nas suas crescentes misérias. Quando a mensagem do Sr. Grundy chegou, o pobre sofredor, perturbado, estava deitado doente na cama, aparentemente demasiado fraco para se mover; mas a inquietação febril que marcou os seus últimos anos era demasiado forte para resistir à possibilidade de emoção. Ele tinha insistido em vir, disse o seu pai, e estaria pronto imediatamente. Então, o triste cavalheiro idoso e quase cego despediu-se do anfitrião do filho e deixou a estalagem.
"Presentemente a porta abriu-se cautelosamente e surgiu uma cabeça. Era uma massa de cabelo ruivo, despenteado e cortado grosseiramente, flutuando selvagemente em torno de uma testa grande e descarnada; as faces amarelas e ocas, a boca caída, os lábios finos e brancos não a tremer, mas a sacudir, os olhos fundos, outrora pequenos, agora a brilhar com a luz da loucura — tudo contava a triste história demasiado bem. Apressei-me para junto do meu amigo, saudei-o da minha maneira mais alegre, como sabia que ele mais gostava, puxei-o rapidamente para dentro da sala e forcei-o a beber um copo de conhaque quente. Sob a sua influência e a daquelas redondezas brilhantes e alegres, ele parecia assustado — assustado consigo próprio. Olhou para mim por um momento e murmurou algo sobre deixar uma cama quente para sair na noite fria. Mais um copo de conhaque, e o calor que regressava trouxe-o gradualmente de volta a algo semelhante ao Brontë de outros tempos. Chegou mesmo a comer um pouco de jantar, uma coisa que ele disse que não fazia há muito; assim, a nossa última entrevista foi agradável, embora grave. Nunca conheci o seu intelecto mais claro. Descreveu-se como esperando ansiosamente pela morte — de facto, ansiando por ela, e feliz, nestes seus momentos de lucidez, por pensar que ela estava tão próxima. Declarou mais uma vez que essa morte seria devida à história que eu conhecia, e a nada mais.
"Quando finalmente fui forçado a partir, ele tirou calmamente da manga do casaco uma faca de trinchar, colocou-a sobre a mesa e, segurando-me pelas duas mãos, disse que, tendo perdido toda a esperança de voltar a ver-me, imaginou quando a minha mensagem chegou que era um chamamento de Satanás. Vestindo-se, pegou na faca que tinha escondido durante muito tempo e veio à estalagem, com a plena determinação de correr para dentro da sala e esfaquear o ocupante. No estado de excitação da sua mente, ele não me reconheceu quando abriu a porta, mas a minha voz e as minhas maneiras conquistaram-no e 'trouxeram-no de volta a si mesmo', como ele expressou. Deixei-o de pé, de cabeça descoberta na estrada, com a forma curvada e lágrimas a cair."[30]
Ele foi para casa e, poucos dias depois, morreu. Aquele pequeno intervalo de tempo foi mais feliz e calmo do que qualquer outro que conhecera durante anos; os seus maus hábitos, os seus sentimentos endurecidos caíram, como uma máscara, da alma já tocada pela quietude final. Ele estava singularmente alterado e suavizado, gentil e amoroso para com o pai e as irmãs que tinham suportado tanto às suas custas. Era como se tivesse acordado do delírio feroz de uma febre; fraco embora estivesse e despedaçado, podiam novamente reconhecer nele o seu Branwell dos velhos tempos, a esperança e a promessa de todos os seus sonhos de juventude. Nem eles nem ele sonhavam que o fim estava tão próximo; ele tinha falado frequentemente da morte, mas agora que estava na sombra das suas asas, estava inconsciente daquela presença subjugadora. E é agradável pensar que o doce comportamento dos seus últimos dias não se devia ao mero medo cobarde da morte; mas antes a um regresso da alma ao seu verdadeiro eu, um desprendimento natural de toda a febre e erro estranhos, antes que o sofrimento da sua vida terminasse. Meia hora antes de morrer, Branwell estava inconsciente do perigo; ele tinha estado na aldeia dois dias antes e esteve confinado à cama apenas um único dia. A manhã seguinte era um domingo, vinte e quatro de setembro. Branwell acordou para ele perfeitamente consciente e, através da santa quietude daquela manhã precoce, deitou-se, perturbado nem pelo medo nem pelo sofrimento, enquanto os sinos da igreja vizinha, a torre vizinha cuja antiguidade fabulosa lhe tinha fornecido muitas brincadeiras de rapaz, chamavam os aldeões ao culto. Eles todos o conheciam; todos, ao passarem pela casa, olhavam para cima e perguntavam-se se o "Patrick do Vigário" estava melhor ou pior. Mas os da Vigararia não estavam na igreja: vigiavam no quarto silencioso e pacífico de Branwell.
De repente, uma mudança terrível passou-se sobre o rosto tranquilo; não havia como enganar o súbito chamamento que abalava o coração. E agora Charlotte caiu; sempre nervosa e altamente sensível, o mero medo do que poderia vir a acontecer deixou-a prostrada. Levaram-na embora e, durante uma semana, manteve-se na cama, doente e com febre. Mas Branwell, o convocado, o sofredor real, enfrentou a morte com uma face diferente. Insistiu em levantar-se; se tinha sucumbido aos horrores da vida, desafiaria os horrores da extinção; morreria como ele pensava que ninguém tinha morrido antes: de pé. Assim, como algum antigo herói celta, quando a última agonia começou, levantou-se; em silêncio e cheios de temor, o velho pai, a orante Anne, a amorosa Emily, observavam. Ele levantou-se e morreu ereto após vinte minutos de luta.
Encontraram os seus bolsos cheios com as cartas da mulher que ele tinha amado tão apaixonadamente.
Ele estava morto, este Branwell que tinha espremido os corações da sua família dia após dia, que bebia as suas lágrimas como vinho. Ele estava morto e, agora, choravam-no com uma dor aguda e amarga. "Todos os seus vícios eram e são nada agora; lembramo-nos apenas das suas dores", escreve Charlotte. Enterraram-no no mesmo jazigo que fora aberto vinte e três anos antes para receber os cadáveres infantis e definhados de Elizabeth e Maria. O domingo chegou, recordando minuto a minuto o escoar da sua vida, e Emily Brontë, pálida e vestida de preto, mal pode ter ouvido o sermão do funeral do seu irmão por olhar para a pedra que escondia tantas memórias, tanta compaixão inútil. Ela levou a morte do irmão muito a peito, tornando-se magra e pálida e não dizendo nada. Tinha feito um esforço para ir à igreja naquele domingo e, enquanto se sentava ali, quieta e com os olhos encovados, talvez sentisse que era bom ter olhado para o seu local de descanso, para a sepultura onde tanto do seu coração estava enterrado. Pois, após o seu funeral, ela nunca recuperou; uma constipação e uma tosse, apanhadas então, ganharam um domínio terrível sobre ela, e ela nunca mais saiu de casa depois daquele domingo memorável.
Mas, olhando para os seus olhos quietos e sem queixas, não se teria adivinhado tanto.
"Emily e Anne estão bastante bem", diz Charlotte, a nove de outubro, "embora Anne seja sempre delicada e Emily tenha uma constipação e tosse de momento."
NOTAS DE RODAPÉ:
[Nota de rodapé 30: 'Imagens do Passado.']
CAPÍTULO XVIII.
A MORTE DE EMILY.
Já a 29 de outubro deste melancólico ano de 1848, a tosse e a constipação de Emily tinham feito progressos tais que alarmaram a sua cuidadosa irmã mais velha. Antes da morte de Branwell, ela tinha sido, em toda a aparência, o único membro forte de uma família delicada. Ao lado da frágil Anne (já, se o soubessem, avançada em tuberculose), do destroçado Branwell, de Charlotte, sempre nervosa e doente, esta Emily alta e musculada tinha parecido uma torre de força. Trabalhando cedo e tarde, raramente cansada e nunca se queixando, encontrando o seu melhor relaxamento em longas e agrestes caminhadas pelas charnecas, parecia improvável que lhes causasse qualquer ansiedade pungente. Mas as sementes da tísica jaziam profundamente sob esta bela aparência de vida e força; o choque de tristeza que ela experimentou com a morte do seu irmão desenvolveu-as com uma rapidez alarmante.
O cansaço da ausência tinha sempre provado ser demasiado para a força de Emily. Longe de casa, vimos como ela definhou e adoeceu. O exílio tornou-a magra e pálida, ameaçou as próprias fontes da vida. E agora ela devia suportar uma ausência inevitável e sem fim, um exílio do qual não poderia haver retorno. A tensão era demasiado forte, o arranco demasiado agudo: Emily não podia suportar e viver. Numa perda como a sua, privada de um sofredor indefeso, o luto daqueles que ficam é amargurado e avivado cem vezes por dia quando chegam os minutos vazios para os quais os deveres habituais faltam, quando o lazer indesejado paira em torno da alma cansada como uma vestimenta sem forma e embaraçosa. Foi Emily quem se dedicou principalmente a Branwell. Ele, estando morto, o motivo da sua vida parecia ter desaparecido.
Se ela tivesse sido mais forte, se tivesse sido mais cuidadosa consigo mesma no início da sua doença, sem dúvida teria recuperado, e nunca saberemos a diferença na nossa literatura que uma pequena precaução poderia ter feito. Mas Emily estava habituada a considerar-se resistente; estava tão acostumada a servir os outros que deitar-se e ser servida lhe teria parecido ignominioso e absurdo. Tanto a sua independência como o seu altruísmo tornavam-na muito cautelosa em dar trabalho. É, aliás, extremamente provável que ela nunca tenha percebido a extensão da sua própria doença; a tuberculose raramente é uma enfermidade que desespera; atacando o corpo, deixa o espírito livre, o espírito que não pode perceber um perigo pelo qual não é ferido. Um pouco mais tarde, quando chegou a vez de Anne sofrer, ela está a escolher o seu chapéu de primavera quatro dias antes da sua morte. Quem de nós não se lembra de alguma dessas histórias patéticas da confiança vã e angustiante daqueles que já vão longe na tísica, que carregam nos seus rostos as marcas da morte para todos os olhos, exceto os seus, lerem?
Para aqueles que observam, não há agonia pior do que assistir ao comportamento corajoso destes outros, inconscientes da cova súbita aos seus pés. Charlotte e Anne observavam e tremiam. No dia 29 de outubro, Charlotte, ainda delicada devido à febre biliosa que a prostrara no dia da morte de Branwell, escreve estas palavras já cheias de presságio:
"Sinto-me muito mais inquieta com a minha irmã do que comigo mesma neste momento. A constipação e a tosse da Emily são muito obstinadas. Receio que ela tenha dores no peito, e às vezes noto uma falta de ar quando ela se move um pouco depressa. Ela parece muito magra e pálida. A sua natureza reservada causa-me uma grande inquietação de espírito. É inútil interrogá-la; não se obtém resposta. É ainda mais inútil recomendar remédios; nunca são adotados."[31]
Era, de facto, uma inflamação aguda dos pulmões que esta infeliz sofredora tentava subjugar pela força da coragem. Para pessoas de vontade forte, é difícil perceber que a sua doença não está sob o seu controlo. Estar doente, para elas, é um ato de aquiescência; consentiram nas exigências do seu corpo fraco. Quando a necessidade exige o sacrifício, parece-lhes tão fácil negar a si mesmas o descanso, a indulgência. Elas impõem a sua vontade contra a sua fraqueza e pretendem vencer. Elas não desistem.
Emily não queria desistir. Sentia-se duplamente necessária à casa nesta hora de provação. Charlotte ainda estava muito fraca e doente. Anne, a sua querida irmãzinha, era invulgarmente delicada e frágil. Até o seu pai não tinha escapado inteiramente. Que ela, Emily, de quem sempre se dependera pela força, coragem e resistência, se mostrasse indigna da confiança quando era mais dolorosamente necessária; que ela, tão inclinada a assumir todos os deveres sobre si, tão necessária para a gestão diária da casa, abandonasse o seu encargo neste momento de provação, lançasse fora as suas armas no momento da batalha e desse aos seus companheiros de sofrimento o fardo extra da sua fraqueza; tal coisa era-lhe impossível.
Assim, a vã luta continuou. Ela não renunciaria a nenhum dos seus deveres, e não foi senão nas últimas semanas da sua vida que ela consentiu sequer que a criada se levantasse antes dela de manhã e fizesse o trabalho cedo. Ela não suportava ouvir falar de remédios; declarando que não estava doente, que logo estaria bem, na patética autoilusão da fraqueza cheia de brio. E Charlotte e Anne, por cuja causa ela fazia este sacrifício, sofriam terrivelmente com isso. De boa vontade, com gratidão, teriam assumido todos os seus deveres; ansiavam por se levantar e agir. Mas, vendo o quão fraca ela estava, não ousavam contrariá-la; tinham de ficar sentadas e suportar vê-la trabalhar para o conforto delas com mãos trémulas e frias como a morte.
"Dia após dia", diz Charlotte, "dia após dia, quando via com que rosto ela enfrentava o sofrimento, olhava para ela com um espanto de angústia e amor. Não vi nada parecido; mas, na verdade, nunca vi o seu paralelo em nada. Mais forte que um homem, mais simples que uma criança, a sua natureza estava só. O ponto terrível era que, embora cheia de piedade pelos outros, para consigo mesma não tinha compaixão; o espírito era inexorável para com a carne; da mão trémula, dos membros enfraquecidos, dos olhos a desvanecer-se, o mesmo serviço era exigido como aquele que prestavam em saúde. Ficar de lado e testemunhar isto, e não ousar protestar, era uma dor que nenhuma palavra pode expressar."
O tempo passou. Ansiosa por tentar que influência algum amigo, não pertencente ao seu próprio agregado, pudesse exercer sobre esta irmã obstinada, Charlotte pensou em convidar a Srta. Nussey para Haworth. Emily sempre se alegrara em recebê-la. Mas quando chegou a altura, descobriu-se que a menor perturbação da rotina diária apenas tornaria o fardo da Emily mais pesado. E esse plano, também, foi abandonado.
Passara mais um mês. Emily, mais pálida e mais magra, mas nada menos resoluta, cumpria os seus deveres com a precisão habitual e insistia na sua perfeita saúde com uma fortaleza desafiadora. No dia 23 de novembro, Charlotte escreve novamente:
"Disse-te que a Emily estava doente na minha última carta. Ela ainda não melhorou. Ela está muito doente. Acredito que se a visses, a tua impressão seria que não há esperança. Um aspeto mais oco, definhado e pálido não contemplei. A tosse profunda e apertada continua; a respiração após o menor esforço é um arquejo rápido; e estes sintomas são acompanhados por dores no peito e no lado. O seu pulso, a única vez que permitiu que fosse sentido, foi verificado como batendo 115 por minuto. Neste estado, ela recusa resolutamente ver um médico; não dará nenhuma explicação dos seus sentimentos; mal permitirá que os seus sentimentos sejam mencionados."
"Nenhum médico envenenador" deveria aproximar-se dela, declarou Emily com a irritabilidade da sua doença. Era um insulto à sua vontade, aos seus esforços resolutos. Ela não estava, não queria estar, doente, e, portanto, não poderia precisar de cura. Talvez sentisse, no fundo do seu coração, a convicção de que a sua queixa era mortal; que um atraso na sentença era tudo o que o cuidado e a perícia poderiam dar; pois ela vira Maria e Elizabeth definharem e morrerem, e apenas recentemente os médicos não tinham salvado o seu irmão.
Mas Charlotte, naturalmente, não sentia o mesmo. Sem que Emily soubesse, escreveu a um grande médico de Londres, redigindo uma declaração do caso e dos sintomas tão minuciosa e cuidadosa quanto podia dar. Mas ou este diagnóstico por suposição era demasiado imperfeito, ou o médico viu que não havia esperança; pois a sua opinião foi expressa de forma demasiado obscura para ser de alguma utilidade. Ele enviou um frasco de remédio, mas Emily não o quis tomar.
Dezembro chegou, e ainda as irmãs, maravilhadas e ansiosas, não sabiam o que pensar. Por esta altura, o Sr. Bronte também tinha percebido o perigo do estado de Emily, e estava muito ansioso. Contudo, ela ainda negava estar doente de algo mais grave do que uma fraqueza passageira; e a dor no seu lado e peito parecia diminuir. Às vezes, o pequeno agregado familiar era tentado a levá-la a sério, e acreditar que logo, com a primavera, ela recuperaria; e então, ao ouvir a sua tosse, ao escutar a respiração ofegante com que ela subia a curta escada, ao olhar para a extrema emaciação da sua forma, as mãos definhadas, os olhos encovados, os seus corações falhavam subitamente. A vida era uma contradição diária de esperança e medo.
Os dias aproximavam-se do Natal; já era meados de dezembro, e ainda Emily estava pela casa, capaz de se servir a si mesma, de costurar para os outros, de tomar uma parte ativa nos deveres do dia. Ela alimentava sempre os cães pessoalmente. Numa segunda-feira à noite, deve ter sido por volta do dia 14 de dezembro, ela levantou-se como de costume para dar a ceia às criaturas. Levantou-se, caminhando lentamente, segurando nas suas mãos finas um avental cheio de restos de carne e pão. Mas quando chegou à passagem de lajes, o frio apanhou-a; ela cambaleou no pavimento irregular e caiu contra a parede. As suas irmãs, que a seguiam tristemente, sem serem vistas, avançaram muito alarmadas e imploraram-lhe que desistisse; mas, sorrindo palidamente, ela continuou e deu a Floss e a Keeper a sua última ceia das suas mãos.
Na manhã seguinte, ela estava pior. Antes de ela acordar, as suas irmãs que vigiavam ouviram o gemido baixo e inconsciente que fala de sofrimento continuado mesmo durante o sono; e temeram pelo que o ano que se aproximava poderia reservar. Da proximidade do fim, elas nem sonhavam. Charlotte tinha andado pelos pântanos, procurando em cada vale e reentrância um ramo de urze, por mais pálido e seco que fosse, para levar à sua irmã amante dos pântanos. Mas Emily olhou para a flor pousada na sua almofada com olhos indiferentes. Ela já estava separada e alienada da vida.
No entanto, ela persistiu em levantar-se, vestir-se sozinha e fazer tudo por si mesma. Um fogo tinha sido aceso no quarto, e Emily sentou-se na lareira para pentear o cabelo. Ela estava mais magra do que nunca agora — a rapariga alta, de juntas largas e "esguia" — o seu cabelo na sua abundante escuridão era tudo nela que não estava marcado pelo dedo da morte. Ela sentou-se na lareira a pentear o seu longo cabelo castanho. Mas logo o pente escorregou da sua mão fraca para as brasas. Ela, a intrépida e ativa Emily, observou-o arder e fumegar, demasiado fraca para o levantar, enquanto o odor nauseabundo e odioso de osso queimado subia ao seu rosto. Finalmente, a criada entrou: "Martha", disse ela, "o meu pente está ali; estava demasiado fraca para me baixar e apanhá-lo."
Eu vi esse pente velho e partido, com uma grande parte queimada; e achei-o, confesso, mais patético do que os ossos das onze mil virgens em Colónia, ou a Santa Face de Lucca escurecida pelo tempo. Triste confissão casual da fraqueza humana; lúgubre contraparte daquela alma sem correntes que até ao fim manteve a sua fortaleza e rebelião. A carne é fraca. Desde que vi essa relíquia, o verso vigoroso do último poema de Emily Bronte pareceu-me muito mais heroico, muito mais comovente; lembrando-me em que vestes constritoras e prisioneiras aquele espírito livre estava confinado.
A carne era fraca, mas Emily não lhe concederia nenhuma indulgência. Ela terminou de se vestir e veio muito lentamente, com a cabeça tonta e passos trémulos, escada abaixo para a pequena sala nua onde Anne estava a trabalhar e Charlotte a escrever uma carta. Emily pegou em algum trabalho e tentou costurar. A sua respiração presa, o seu rosto contraído e alterado eram presságios do fim. Mas ainda uma pequena esperança tremeluzia naqueles corações fraternos. "Ela torna-se diariamente mais fraca", escreveu Charlotte, naquela memorável manhã de terça-feira; não vendo certamente nenhum presságio de que este — este! — haveria de ser o último dos dias e das horas da sua fraqueza.
A manhã avançou para o meio-dia, e Emily piorou. Ela já não conseguia falar, mas — arquejando num sussurro rouco — ela disse: "Se quiserem mandar chamar um médico, vejo-o agora!" Ai, era demasiado tarde. A falta de ar e a dor lancinante aumentaram; até Emily já não as podia esconder. Por volta das duas horas, as suas irmãs imploraram-lhe, em agonia, que a deixassem deitar. "Não, não", gritou ela; atormentada com a agitação febril que antecede a última e mais calma paz. Ela tentou levantar-se, apoiando-se com uma mão no sofá. E assim o cordão da vida rompeu-se. Ela estava morta.
Tinha vinte e nove anos.
Enterraram-na, poucos dias depois, sob o pavimento da igreja; sob a laje de pedra onde a sua mãe jazia, e Maria, Elizabeth e Branwell.
Ela que tanto lamentara o seu irmão tinha verdadeiramente encontrado-o de novo, e dormiria bem ao seu lado.
[φίλη μετ' αὐτοῦ κείσομαι, φίλου μέτα.]
E embora nenhum vento farfalhe sobre a sepultura em que nenhuma urze perfumada brota, nem nenhum mirtilo ostente os seus ramos de folhas mais verdes e frutos púrpuras, ela não sentirá a falta deles agora; ela que se perguntava como alguém poderia imaginar sonos inquietos para aqueles que dormem na terra quieta.
Seguiram-na até à sepultura — o seu velho pai, Charlotte, a moribunda Anne; e quando saíram pelas portas, juntou-se-lhes outro enlutado, Keeper, o cão de Emily. Ele caminhou à frente de todos, primeiro na fila dos enlutados; e talvez nenhuma outra criatura tivesse conhecido a mulher morta tão bem. Quando a puseram a dormir no escuro e abafado jazigo sob a igreja, e quando atravessaram o sombrio cemitério e entraram novamente na casa vazia, Keeper foi direto à porta do quarto onde a sua dona costumava dormir, e deitou-se atravessado no limiar. Ali uivou lastimosamente durante muitos dias; não sabendo que nenhum lamento a poderia despertar mais. Sobre a pequena sala por baixo, uma grande calma tinha-se instalado. "Porque haveríamos de estar de outra forma senão calmas", diz Charlotte, escrevendo à sua amiga no dia 21 de dezembro. "A angústia de a ver sofrer acabou; o espetáculo das dores da morte passou; o dia do funeral ficou para trás. Sentimos que ela está em paz. Não há necessidade agora de tremer pela geada forte e pelo vento cortante. Emily não os sente."
A morte tinha passado, de facto, e o dia do funeral estava terminado; contudo, um dever permanecia para os enlutados de coração partido, não menos pungente do que a visão do rosto mudado da morta, não menos esmagador do que o baque das pedras e torrões sobre o caixão de um ente querido. Elas pegaram na grande secretária castanha na qual ela costumava guardar os seus papéis, e separaram e puseram em ordem tudo o que nela encontraram. Quão apelativa a visão daquela escrita apressada e casual de uma mão agora rígida na morte! Quão preciosas cada uma daquelas páginas cuja semelhante nunca mais seria feita até à queda da terra no fim dos tempos! Quão próximo, quão totalmente cortado, o Passado!
Não encontraram nenhum romance, meio acabado ou começado, na velha secretária castanha que ela costumava apoiar nos joelhos, sentada sob os espinheiros. Mas descobriram um poema, escrito no fim da vida de Emily, profundo, sincero, como convém às últimas palavras que se tem tempo de dizer. É a mais perfeita e expressiva das suas obras: o monumento mais adequado ao seu espírito heroico.
Assim correm as últimas linhas que ela alguma vez traçou:
"Não é covarde a minha alma, Nem treme na esfera do mundo, agitada pela tormenta; Vejo as glórias do céu brilharem, E a fé brilha igual, armando-me contra o medo.
"Ó Deus, dentro do meu peito, Divindade todo-poderosa, sempre presente! Vida, que em mim descansa, Como eu — vida imortal — tenho poder em Ti.
"Vãos são os milhares de credos Que movem os corações dos homens: inefavelmente vãos; Sem valor como ervas daninhas secas, Ou a mais ociosa espuma no meio do mar sem limites,
"Para despertar dúvida em quem Se mantém tão firme na tua infinitude; Tão seguramente ancorado Na rocha inabalável da imortalidade.
"Com amor que tudo abraça O Teu espírito anima os anos eternos, Permeia e paira acima, Muda, sustenta, dissolve, cria e ergue.
"Embora a terra e o homem se fossem, E os sóis e os universos deixassem de existir, E Tu ficasses sozinho, Toda a existência existiria em Ti.
"Não há lugar para a Morte, Nem um átomo que o seu poder pudesse tornar vazio; Tu — Tu és o Ser, o Sopro, E o que Tu és nunca poderá ser destruído."
RODAPÉS:
[Nota de rodapé 31: Sra. Gaskell.]
FIM!
"Ela morreu num tempo de promessa."
Assim escreve Charlotte, no primeiro arrebatamento do seu luto. "Ela morreu num tempo de promessa"; tendo feito muito, na verdade, tendo feito o suficiente para levar os seus poderes a uma perfeição madura. E o fruto dessa perfeição é-nos negado. Ela morreu, entre o terminar do trabalho e a recompensa do louvor. Antes que o menor indício da imortalidade que lhe foi conferida pudesse alcançá-la na sua obscura e distante casa. Sem um único sucesso em toda a sua vida, com a sua escola nunca mantida, os seus versos nunca lidos, o seu romance nunca elogiado, o seu irmão morto na ruína. Todas as suas ambições tinham fraquejado e morrido com o flagelo. Mas ela ainda era jovem, pronta para viver, ansiosa por tentar de novo.
"Ela morreu num tempo de promessa. Vimo-la ser retirada da vida no seu apogeu."
Verdadeiramente um apogeu de tristeza, a hora central e sombria da tempestade, escura com o luto que passou e a negrura do luto que se aproxima. Com Branwell morto, com a sua irmã mais querida a morrer, Emily morreu. Se ela tivesse vivido, que proveito poderia ter tirado da sua vida? Para nós, na verdade, teria sido bom; mas para ela? A fama na solidão é um alimento amargo; e Anne morrerá em maio; e Charlotte seis anos depois; e Emily nunca poderia fazer novos amigos. Muito melhor para ela, aquele espírito amoroso e fiel, morrer enquanto a sua vida ainda lhe era querida, enquanto ainda havia esperança no mundo, do que definhar mais alguns anos, na solidão e fraqueza, para deixar na fama e miséria uma vida desiludida.
"Ela morreu num tempo de promessa. Vimo-la ser retirada da vida no seu apogeu. Mas é a vontade de Deus, e o lugar para onde ela foi é melhor do que aquele que deixou."
Verdadeiramente melhor, deixar a sua alma falar no mundo para sempre, para que o vento seja mais forte pelo seu sopro, e a urze mais púrpura pelo seu coração; muito melhor ser perdida no processo de vida que tudo abarca e tudo transmuta, do que viver em dor apertada e individual. Assim, pelo menos, certa ou errada, pensava esta mulher que amava a terra tão bem. Ela não tinha medo de morrer. O pensamento da morte não a enchia de perplexidades; mas de uma calma assegurada e feliz. Ela considerava mais glorioso do que a fama, e mais doce do que o amor, dar a sua alma a Deus e o seu corpo à terra. E quem de nós censurará a crença que tornou contente uma vida muito dolorosa?
"O que mais me irrita é esta prisão despedaçada, afinal. Estou cansada de estar aqui encerrada. Estou ansiosa por escapar para aquele mundo glorioso, e estar sempre lá; não vendo-o debilmente através de lágrimas, e ansiando por ele através das paredes de um coração dorido; mas realmente com ele e nele. Pensas que és melhor e mais afortunada do que eu, com saúde e força plenas; tens pena de mim — muito em breve isso será alterado. Eu terei pena de ti. Estarei incomparavelmente acima e para além de todos vós."[32]
Ah, sim; incomparavelmente acima e para além. Não apenas por causa da visão aguçada com que ela revelou o mundo glorioso no qual a sua memória é vento mais fresco e sol mais brilhante, não apenas por isso; mas porque a lembrança do seu ser vivo é um preceito altíssimo e nobre. Nunca antes mãos foram tão inspiradas tanto para a lida diária como para a escrita dourada destinada a nunca desaparecer. Nunca coração algum foi mais honrado e forte, nem algum mais piedoso perante a fraqueza vergonhosa. Raramente, na verdade, algum homem, e ainda mais raramente alguma mulher, possuiu o inestimável dom do génio e nunca o fez servir de desculpa para uma fraqueza, uma violência, uma falha, que noutros mortais condenamos. Nenhum ato seu requer tal desculpa. Portanto, estando morta, ela persuade-nos a honrar; e não apenas as suas obras, mas a memória da sua vida levantar-se-á e louvá-la-á, ela que viveu sem louvor tão bem.
RODAPÉS:
[Nota de rodapé 32: 'O Monte dos Vendavais.']
O FIM.
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IMPRESSO POR W. H. ALLEN AND CO., 13 WATERLOO PLACE. S.W.
II.— Vestuário e Equipamento.
III.— Conselhos sobre Viagens por Terra e por Água.
IV.— Dieta e Conselhos sobre Economia Doméstica.
V.— Sobre a Manutenção da Saúde.
VI.— Gestão e Criação de Filhos.
As sugestões oferecidas baseiam-se na experiência prática, e o livro foi escrito em linguagem não técnica, com o intuito de torná-lo simultaneamente inteligível e útil para aqueles a quem se destina.
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SÉRIE DE MULHERES EMINENTES.
Editada por John H. Ingram.
VOLUMES JÁ PUBLICADOS:—
GEORGE ELIOT. Por Mathilde Blind.
EMILY BRONTE. Por A. Mary F. Robinson.
GEORGE SAND. Por Bertha Thomas.
MARY LAMB. Por Anne Gilchrist.
MARIA EDGEWORTH. Por Helen Zimmern.
MARGARET FULLER. Por Julia Ward Howe.
ELIZABETH FRY. Por Sra. E. R. Pitman.
CONDESA DE ALBANY. Por Vernon Lee.
HARRIET MARTINEAU. Por Sra. Fenwick Miller.
VOLUMES EM PREPARAÇÃO:—
Susannah Wesley. Por Sra. E. Clarke.
Mary Wollstonecraft. Por Elizabeth Robins Pennell.
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Madame de Stael. Por Bella Duffy.
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Vittoria Colonna. Por Srta. A. Kennard.
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Série de Mulheres Eminentes.
OPINIÕES DA IMPRENSA.
GEORGE ELIOT. Por Mathilde Blind.
"O livro da Srta. Blind é um estudo excelente e cuidadoso de um grande génio." — Vanity Fair.
"Nenhuma página desta interessante monografia deve ser saltada." — Graphic.
"Nada é mais necessário nos dias de hoje do que breves tratados sobre grandes escritores como estes. A Srta. Blind não poupou esforços para fazer uma narrativa coerente e atraente, e conseguiu apresentar-nos uma biografia completa; entremeando o seu relato com críticas incisivas." — British Quarterly Review.
EMILY BRONTE. Por A. Mary F. Robinson.
"A Srta. Robinson torna a parte biográfica do seu livro de extremo interesse, enquanto a sua crítica à autora é justa, perspicaz e brilhante." — Truth.
"No volume que temos perante nós, temos uma biografia crítica da autora de 'O Monte dos Vendavais', apresentando à mente uma conceção clara e definida do génio mais verdadeiro e puro que este país produziu. O que a Sra. Gaskell fez por Charlotte Bronte, a Srta. Robinson fez, com igual graça e simpatia, pela sua irmã mais nova." — Manchester Courier.
"Emily Bronte é apresentada de forma carinhosa e fiel tanto como mulher como escritora, e o volume é um daqueles pelos quais todos os amantes da literatura agradecerão à Srta. Robinson e ao Editor que a persuadiu a realizar a tarefa." — Derby Mercury.
GEORGE SAND. Por Bertha Thomas.
"O livro da Srta. Thomas é bem escrito e razoavelmente completo; ela é bem intencionada, sempre justa, e o seu livro merece uma recomendação decidida como introdução ao seu tema." — Athenaeum.
"Neste volume despretensioso, os leitores em geral encontrarão tudo o que precisam de saber sobre a vida e os escritos de George Sand. A Srta. Thomas cumpriu uma tarefa bastante difícil com grande destreza." — St. James' Gazette.
"Uma vida de George Sand escrita cuidadosamente e com conhecimento adequado deve, e sem dúvida será, de interesse para muitos leitores, e este pequeno livro mostra tanto cuidado como conhecimento." — Vanity Fair.
Londres: W. H. ALLEN & CO., 13 Waterloo Place. S.W.
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Série de Mulheres Eminentes.
OPINIÕES DA IMPRENSA.
MARY LAMB. Por Anne Gilchrist.
"A 'Mary Lamb' da Sra. Gilchrist é um esboço meticuloso e culto, escrito com conhecimento e sentimento." — Pall Mall Gazette.
"Para a sua tarefa de registar esta vida, a Sra. Gilchrist trouxe evidentemente uma vasta leitura e um conhecimento preciso. Deve ser felicitada pela clareza e interesse da sua narrativa, pelo sucesso com que colocou perante nós uma das figuras mais gentis e patéticas da literatura inglesa." — Academy.
"Um volume absolutamente delicioso, carinhosamente simpático no seu retrato, e carregado com muito material novo e interessante." — Harpers' Magazine.
"A todas as pessoas que apreciam uma narrativa de vida privada, e a todos os que desejam uma maior intimidade do que até agora gozaram com Elia e Bridget, recomendamos cordialmente a 'Mary Lamb' da Sra. Gilchrist." — Vanity Fair.
MARIA EDGEWORTH. Por Helen Zimmern.
"Um resumo muito agradável da vida e obras da nossa talentosa compatriota." — Freeman's Journal.
"Uma biografia interessante." — Echo.
"A Srta. Zimmern é a primeira a contar a história como um todo para os leitores ingleses, e a forma como descreve o lar irlandês, a parceria literária entre o pai excêntrico e a filha obediente, a visita a França e o encontro da Srta. Edgeworth com certas celebridades francesas, incluindo a Madame de Genlis, é plena de vivacidade." — Pall Mall Gazette.
MARGARET FULLER. Por Julia Ward Howe.
"Uma peça de biografia muito fresca e envolvente, e uma digna adição à série cuidadosamente selecionada e bem editada do Sr. Ingram." — Freeman's Journal.
"Bem digna de associação com as suas populares predecessoras, e entre os novos livros que deveriam ser lidos." — Derby Mercury.
Londres: W. H. ALLEN & CO. 13 Waterloo Place. S.W.
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Série de Mulheres Eminentes.
OPINIÕES DA IMPRENSA.
ELIZABETH FRY. Por Sra. E. R. Pitman.
"De todas as filantropas inglesas, nenhuma exibe uma natureza mais nobre ou é mais digna de um registo permanente do que a Sra. Fry. Por esta razão, saudamos o esboço dela feito pela Sra. Pitman, publicado na Série de Mulheres Eminentes." — Times.
"Uma excelente ideia da vida e obra nobres da Sra. Fry pode ser obtida através da obra simples, mas impressionante, da Sra. Pitman." — Contemporary Review.
"Um dos melhores e mais interessantes da série." — Literary World.
"Este é um bom livro, digno de um lugar na interessante Série de Mulheres Eminentes." — Spectator.
"Excelente na organização e proporcionado com critério." — Academy.
CONDESA DE ALBANY. Por Vernon Lee.
"A talentosa autora realizou o seu trabalho con amore, e não deixou pedra sobre pedra no seu esforço para mostrar ao mundo o aspeto humano da esposa do jovem Pretendente e do seu amante, o poeta Alfieri." — Lady's Pictorial.
"Cada página do livro testemunha a capacidade e determinação da autora em compreender o seu tema, e fazer com que os leitores o compreendam." — Athenaeum.
"Há um poder vívido na compreensão de Vernon Lee da vida e sociedade florentinas, e muita beleza e brilho de cor nas suas descrições." — Saturday Review.
"Esta biografia romântica é tão emocionante quanto qualquer obra de imaginação, e o estilo incisivo e gráfico da sua autora torna-a singularmente atraente." — Morning Post.
HARRIET MARTINEAU. Por Sra. Fenwick Miller.
"Um relato fiel e simpático desta mulher notável." — Scotsman.
"Como descrição fiel de uma mulher reflexiva e de mente aberta sobre a vida privada e a brilhante carreira literária de outra mulher, este esboço crítico é admirável." — Whitehall Review.
"Não é de forma alguma uma compilação, mas um memorial que é um modelo daquela concisão que não é incompatível com um retrato distinto ou com um interesse fresco e vivo na narrativa." — Daily News.
"A Sra. Miller realizou bem o seu difícil trabalho, e o seu volume é um dos mais capazes e interessantes da série capaz e interessante a que pertence." — Derby Mercury.
Londres: W. H. ALLEN & CO., 13 Waterloo Place. S.W.